UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO – RIO DE JANEIRO

INTELIGÊNCIA EDUCACIONAL E SISTEMA DE ENSINO / IESDE - PR

  PROGRAMA DE ESPECIALIZAÇÃO DOCENTE / CURITIBA - PR

        PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO INCLUSIVA




     A PRODUÇÃO DE VÍDEO NA ESCOLA: INSTRUMENTO
    DE INCLUSÃO E APRIMORAMENTO DO SENSO CRÍTICO.




                     Gladis Xavier Maia




                 Triunfo, RS, julho de 2005.
GLADIS XAVIER MAIA

 Aluna do Curso de Pós-Graduação em Educação Inclusiva

          Turma 432200001 - Matrícula 004511




 A PRODUÇÃO DE VÍDEO NA ESCOLA: INSTRUMENTO
DE INCLUSÃO E APRIMORAMENTO DO SENSO CRÍTICO.




                         Trabalho monográfico de conclusão do
                    Curso de Pós-Graduação em Educação
                    Inclusiva (TCC), apresentado à UCB como
                    requisito parcial para a obtenção do título
                    de   especialista em Educação Inclusiva,
                    sob a orientação da professora Maria das
                    Graças de Campos.




               Triunfo, RS, julho de 2005.
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    A PRODUÇÃO DE VÍDEO NA ESCOLA: INSTRUMENTO
   DE INCLUSÃO E APRIMORAMENTO DO SENSO CRÍTICO.




                Elaborado por Gladis Xavier Maia

Aluna do curso de Pós – Graduação em Educação Inclusiva da UCB




                  Foi analisado e aprovado com
                        Grau: ........................




                ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
                                 Membro

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                                 Membro

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                       Professora Orientadora
                                Presidente


                        Triunfo, julho de 2005.
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4




      Dedico este sonho aos            meus    pais,
primeiros mestres          com os      quais pude
contar e me ensinaram a           ser uma pessoa
ética, aos demais educadores que integram
a       minha    longa carreira       de estudante
e me ensinam a sonhar, e a todos                os
meus, e aos outros alunos, razão de             ser
deste    trabalho      e     ao meu companheiro
Cli    com      quem       pretendo   tornar   ação
boa parte das idéias aqui expressas.
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   Agradeço ao Criador que tem me dado tempo
de vivenciar meus diversos tempos: de imaginar,
criar, rascunhar, revisar, copidescar, passar a
limpo e no prelo demorar, ou não, os textos todos
de minha vida,chegando harmoniosamente aos
hipertextos.
Agradeço à vida por dar-me também tempo de
estar vivendo entre videoclipes de todos os
tamanhos, gêneros e filosofias, especialmente
a da Inclusão.
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    As escolas se dedicam a ensinar os saberes científicos, visto que
sua ideologia científica lhes proíbe lidar com os sonhos coisa
romântica!. Assombra-me a incapacidade das escolas para criar
sonhos.Enquanto isso, os meios de comunicação (principalmente a
TV), que conhecem melhor os caminhos dos seres humanos, vão
seduzindo as pessoas com seus sonhos pequenos, freqüentemente
grotescos. Assombra-me a capacidade desses meios para criar
sonhos. Mas de sonhos pequenos e grotescos só podem surgir um
povo de idéias pequenas e grotescas. Se o Ministério da Educação
 for só um gerenciador dos meios escolares, será difícil ter esperança.
Pensei, então, que o ministério talvez tivesse o poder e imaginação
para integrar os meios de comunicação a um projeto nacional de
educação: semear os sonhos de beleza que se encontram no
nascedouro de um povo. Assim, realizaria a sua vocação política de
criar um povo.
            Rubens Alves, in Carta ao Min.da Educ.Paulo Renato Paim.
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                                                  SUMÁRIO


  RESUMO......................................................................................................    07
  ABSTRACT..................................................................................................      08
  INTRODUÇÃO.............................................................................................        09

1. A ESCOLA PELOS SÉCULOS SECULORUM........................................                                      16
1.1 Da informalidade oral, nos seus primórdios, à chamada educação
    regular. .................................................................................................   22
1.2 Da educação especial, ao espargir da educação inclusiva. .................                                   32
1.3 Uma escola regular de especial qualidade para todos ou a escola
    cidadã que sonhamos construir. .........................................................                     80

2. OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA, ENQUANTO DESAFIO
    CONTEMPORÂNEO À ESCOLA. ...................................................... 133
2.1 Um novo jeito de compreender, para além das disciplinas, através de
    uma percepção holística. ...................................................................        147
2.2 Aprender e ensinar, com prazer, educando para os meios de
   comunicação. ....................................................................................... 166

3. POR UMA PEDAGOGIA DA COMUNICAÇÃO, A SERVIÇO DA
   FRATERNIDADE, NUMA SOCIEDADE INCLUSIVA. ......................                                                181
3.1 Educomunicação, um paradigma em construção. ..........................                                       191
3.2 O vídeo como instrumento de inclusão, na formação de cidadãos
    éticos, críticos e participativos...............................................................             201

   CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................. .....                     218
   APÊNDICES .............................................................................................       223
   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................                          275
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                                     RESUMO


   Este trabalho tenta sensibilizar aos professores e professoras para a produção de
vídeo na escola, como ferramenta para o sucesso da Inclusão no Ensino
Fundamental e Médio, enquanto instrumento de motivação, objeto de estudo e
amplo poder de intervenção social, que precisa ser aproveitado e conhecido, para o
domínio de seus mecanismos, como linguagem e como tecnologia, para favorecer o
espírito crítico dos alunos, especialmente em relação às televisões comerciais.
    Seus três capítulos, buscam estabelecer a inter-relação da Educação/
Comunicação, sob o paradigma de um novo campo de estudos, a Educomunicação,
apresentando: uma breve história da Escola, através dos tempos; a influência dos
Meios de Comunicação de Massa na Cultura, nos costumes e sobre a forma de
aprender e apreender o mundo; e, ainda, uma pedagogia da comunicação a serviço
da cidadania.


                                 Palavras-chave

        Comunicação – Educação Inclusiva – Cidadania - Pedagogia - Vídeo
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                                     ABSTRACT


    The object of this work is to make teachers sensible to video production at school.
Video can be used as a tool for a successful inclusion in Elementary and Secondary
Education, as a motivation instrument, and an object of studies, with a wide social
intervention power. Likewise, it may be known and utilized as a language and
technology, and to facilitate the students’ criticism, specially concerning commercial
television.
    The three chapters try to establish the Education/Communication interrelation
under the paradigm of a new field of studies, the Educommunication, which presents:
a brief School history through the years; the influence of the Mass Communication
Means on Culture, habits and ways of learning and understanding the world; and a
communication a pedagogy for citizenship as well.



                                     Key words

      Communication – Inclusive Education – Citizenship – Pedagogy – Video
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                                  INTRODUÇÃO


   Esta monografia é composta por uma revisão bibliográfica sobre: os Meios de
Comunicação de Massa – focalizando mais especificamente a TV comercial – e sua
influência sobre a Cultura como um todo,      e o sujeito - em especial o sujeito
aprendente - numa inter-relação das áreas da Educação/Comunicação, através de
um novo campo de intervenção social, a Educomunicação; e o paradigma da
Inclusão.


   Esta sistematização pretende sensibilizar aos professores e professoras para a
produção de vídeo na escola, como ferramenta de motivação para o sucesso da
Inclusão no Ensino Fundamental e Médio. Busca também construir um novo olhar
para o vídeo no seio da comunidade escolar, apontando-o como objeto de estudo e
amplo poder de intervenção social, que precisa ser aproveitado e conhecido, para o
domínio de seus mecanismos, enquanto linguagem e como tecnologia, para
favorecer o espírito crítico dos alunos, especialmente em relação às televisões
comerciais.


   As mudanças pelas quais a sociedade contemporânea vem passando com
os avanços da tecnologia – especialmente em pleno contexto da implantação da
Inclusão na escola brasileira - preocupa a quantos se interessam pela eficiência do
ensino, na medida que ocasionam modificações vultosas nos campos da Educação
e da Comunicação. A primeira tornando-se obsoleta em seus métodos e enfoque e
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despreparada na qualificação de seus agentes e a segunda mostrando-se, por
vezes, perniciosa, principalmente por estar sujeita a regras do mercado que não
se coadunam com os         valores   da educação e da ética sustentados pelos
educadores.


   Parece     natural,   que   essas mudanças aproximem as duas áreas de
atuação - Educação e Comunicação -        pelas necessidades convergentes       que
suscitam e, isto já está acontecendo, através do trabalho de vários estudiosos
de ambas as áreas, em nível autodidata, com ou sem apoio público, na efetivação
de suas pesquisas e projetos envolvendo os meios de comunicação de massa,
especialmente junto ao NCE/ECA/USP Núcleo de Comunicação e Educação, da
Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, coordenado pelo
professor Dr.    Ismar de Oliveira Soares,    que   vem    trabalhando, através de
pesquisas, que visam reunir tudo que vem sendo desenvolvido nesta área, em
toda a América Latina e constituindo um novo campo de estudo, ou paradigma
nascente : a Educomunicação, a serviço do ensino.



   Ao longo dos tempos, os recursos tecnológicos como o rádio e a televisão
tiveram     muita dificuldade de serem absorvidos pelo campo da           educação,
especialmente por seu caráter lúdico e mercantil, ocasionando a resistência dos
educadores em dialogar com a tecnologia, da mesma forma que a necessidade de
reverter-se este quadro para situar a escola mais para a vanguarda do que para a
obsolescência, é coisa para poucos inovadores, para não se falar revolucionários.


   Os educadores que não atentam para esta obsolescência, parece não se darem
conta do fato de ser muito difícil resistir aos apelos da linguagem dos meios de
comunicação, com suas estratégias usadas para criar o apelo ao consumo,
embrulhadas em pura sedução e convencimento - especialmente na TV, que
conta com o reforço considerável da força da imagem em movimento. Estes
alheiam-se ao seu papel, enquanto formadores de opinião, pois exatamente por seu
caráter e pelas suas demais características, esta linguagem, precisa e deve ser
manipulada até a exaustão, enquanto objeto de estudo nas escolas.
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   São educadores que parece que não levam em conta também que o vídeo pode
enriquecer a aprendizagem e a comunicação, facilitando a exposição de um tema.
Ao contrário das aulas expositivas ele é um método que aproxima, ao possibilitar a
releitura do cotidiano, com suas linguagens múltiplas, superpostas e interligadas,
auxiliando na informação, tornando a sua mensagem essencialmente sensorial e
visual, residindo aí a sua maior força. Atuando através da música, do desenho, da
fotografia, da palavra falada e escrita, do gestual, do teatro, da       dança,   etc.,
contemplando as Inteligências Múltiplas de Gardner ou a Inteligência Multifocal de
Augusto Cury,entre outras teorias.


   Mais ainda porque na cabeça do aluno vídeo não é aula, umbilicalmente ligado
à TV ele      relaciona-o ao prazer e lazer, colaborando       para que o estudante
aprenda brincando por assim dizer, motivo pelo qual precisa ser aproveitada essa
expectativa     positiva para   atraí-lo    para     os   assuntos que interessam ao
planejamento pedagógico.


   Na opinião desta autora, a aprendizagem da “leitura” das peças publicitárias
veiculadas na TV é tão importante na formação de um telespectador crítico, quanto
o estudo e análise dos noticiários e das telenovelas, onde depois de estabelecidas
as diferenças entre ficção e realidade, podem ser discutidos os modelos de
comportamentos ali apresentados. Até porque           uma    parcela considerável da
população     os copia   e   copiados      podem     virar hábitos que forjam espaços
alienígenos à cultura local, com sua peculiar criação de modas.

   Se for levado em conta também que a produção de vídeo pode motivar todos os
alunos para o convívio escolar, com bastante intensidade – e o vídeo é muito bom
nisto - para brincarem de fazer televisão, enquanto aprendem, e, em especial
segurar aqueles alunos que, por apresentarem necessidades            educativas, com
ou sem deficiência, se evadem da escola, por não se sentirem bem lá, devido aos
inúmeros insucessos, ou por medo de falhar.

   E, se a inclusão implica em caminhar rumo à escola para todos, onde seja
celebrada a diferença e atendidas          as      NEE, através de uma pedagogia
centrada no aluno, dando oportunidades curriculares que se adaptem a sujeitos com
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diferentes interesses e    capacidades, é inegável ainda que o vídeo tem mais
facilidade para abranger um leque maior de interesses.


     Abra-se então às portas da escola para a sua majestade o vídeo. Pois a escola
inclusiva tem a responsabilidade de assegurar que o aluno deficiente seja um
membro integrante e valorizado na sala de aula ou no grupo e a produção de
vídeo pode inseri-lo de diversas formas, até mesmo como assunto, tema, matéria
de estudo -    no caso o próprio deficiente pode ser entrevistado - ou seus
familiares, na sua impossibilidade - outras pessoas acometidas da mesma ou de
outras deficiências que    são exemplos de superação ao conseguirem se inserir
satisfatoriamente na      sociedade,   suas   famílias,   a   deficiência em si, os
especialistas que tratam dela e outros quaisquer elementos a        ela    ligados. A
Escola em si é tema de trabalho, a rua, a comunidade, o mundo, a vida, aqui e em
qualquer lugar.


     O objetivo primordial desta monografia é aliar os estudos da autora, enquanto
professora de português, psicopedagoga e jornalista, com passagem pela TVE do
Rio Grande do Sul, nas funções de repórter, produtora e editora, para implementar
procedimentos voltados à apropriação dos meios e das linguagens de comunicação,
abrangendo os professores da Rede de Ensino de Triunfo que estão cursando as
duas turmas de pós-graduação de Educação Inclusiva do IESDE, com a finalidade
de    capacitá-los como educomunicadores – profissionais aptos a elaborarem as
ações comunicativas de inter-relação da Educação/Comunicação              no   espaço
educativo, seja através da coordenação e gestão do processo ou assessorando os
outros Educadores no adequado uso dos recursos de comunicação ou, ainda,
promovendo ele(a) mesmo(a) o uso,        cada vez mais intenso, da tecnologia de
produção de vídeo como um recurso tecnológico que facilita a produção cultural, o
resgate da cidadania e a inclusão da diversidade, na medida que remete o sujeito
singular para o espaço coletivo e plural da cultura e da comunicação.


     Entenda-se a produção de vídeo       no espaço educativo e na comunidade
circunscrita à Escola como recurso tecnológico: a serviço da formação de valores
solidários e democráticos para a transformação do ambiente em que vivem os
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alunos; instrumento apropriado ao desenvolvimento do currículo, seja através de
conteúdos programáticos, das mais variadas disciplinas ou através de projetos
que visem promover campanhas sociais e humanitárias, em prol da ética e da
mudança de comportamento em relação aos preconceitos de qualquer natureza;
ferramenta que contempla com maior facilidade os diferentes gostos, habilidades e
capacidades dos sujeitos , no processo de ensino-aprendizagem, já que possibilita
um trabalho   bastante diversificado, envolvendo pré-produção, produção e pós-
produção, e várias linguagens e conseqüentes formas de apreender as mensagens
produzidas a serem comunicadas e re-trabalhadas, posteriormente.


   Como já foi referido, esta monografia constitui-se, fundamentalmente, numa
revisão bibliográfica, acrescida das idéias da autora nos seus dois campos de
atuação. Os três capítulos, que a compõem, buscam estabelecer a inter-relação da
Educação/ Comunicação, à luz da Educomunicação.

                         Esta modalidade de pesquisa é muito comum na área de
                      ciências humanas e sociais tanta a Educação, como a comunicação, são
                      áreas sociais] dada à natureza do estatuto epistemológico que compõe
                      esta área. Seu        objetivo   é    buscar compreender as principais
                      contribuições teóricas existentes sobre um        determinado       tema-
                      problema, considerando-se a produção existente.
                                                                      Horn e Diez (203, p. 73).

   Para sua execução foram consultados diversos autores, conforme pode-se ver

nas referências bibliográficas, entre os quais destacam-se, na área da Inclusão:

Maria Teresa Egler Mantoan, Rosita Edler Carvalho, Susan e Willian Stainback, Piter

Mittler, Leny Magalhães Mrech, Romeu Kazumi Sassaki e Cláudia Werneck.Na área

de Comunicação o embasamento maior concentrou-se em: Pierre Babin e Marie-

France Kouloumdjian, Walter Bezerra, Edgar Morin, José Manuel Moran , Heloisa

Dupas Penteado e Ismar de Oliveira Soares.



   O primeiro capítulo, traça uma breve história da Escola, desde os seus

primórdios, até os dias de hoje, dá conta de onde andavam os deficientes durante
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este percurso, fala da Escola Especial, da Inclusão e da escola acalantada nos

sonhos e cantada em prosa por esta autora. O segundo fala de um sujeito antes e de

um sujeito depois do advento da televisão, da influência dos Meios de Comunicação

de Massa na formação deste último e suas marcas deixada na Cultura, e ainda de

uma nova maneira de compreender, de aprender e apreender a vida. E o último

explicita uma forma de trabalhar-se com o vídeo na escola, para que a comunidade e

os cidadãos que a freqüentam tornem-se mais solidários, justos, participativos e

éticos, a caminho de uma sociedade inclusiva.
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 O educador progressista não pode prescindir da pedagogia da
autonomia.Uma pedagogia fundada na ética, no respeito à dignidade e
à própria autonomia do educando. Como os demais saberes,este
demanda do educador um exercício permanente. E a convivência
amorosa com seus alunos. E na postura curiosa e aberta que assume
    rosa
e,ao mesmo tempo, provoca os a se assumirem, enquanto sujeitos
                      provoca-os
sócio-histórico culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do
      histórico-culturais
respeito à dignidade e autonomia do educando. [...] A compe
                                                        competência
técnico-científica e o rigor, de que o professor não deve abrir mão, no
        científica
desenvolvimento do seu trabalho, não são incompatíveis com a
amorosidade necessária às relações educativas.

                                            Paulo Freire (2003, p.10).
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1. A escola pelos séculos seculorum ...

   Uma onda crescente de violência e guerras que assola o mundo, taxas elevadas
de juros, desemprego, poluição, falta de assistência à saúde e tantos desastres
ecológicos, ao final do século XX - e que se estendem nos primórdios do século XXI
- são, na opinião de Fritjof Capra - autor de O Ponto de Mutação e o Tal da Física, -
prenúncios de uma crise de percepção, que reúne tudo isto e muito mais de negativo
no e para o universo.


   A descrição e a inserção do homem num mundo globalmente interligado, no
qual os fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais são todos
interdependentes necessita, para se efetivar, de uma perspectiva ecológica que a
visão mecanicista-newtoniana não oferece. Faz-se mister um paradigma que traga
no bojo uma nova visão da realidade. Uma mudança fundamental, na maneira de
pensar e na escolha de valores. Trata-se da visão holística, do grego holos:
totalidade.   Refere-se a compreensão da realidade em função de totalidades
integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas a unidades menores.

   Segundo Capra (1982), a nova visão do mundo sugerida pela física quântica não
é compatível com a       sociedade atual; não reflete o harmonioso estado de
relacionamento que se observa na natureza. Para se alcançar tal estado de
equilíbrio dinâmico, seria necessário uma estrutura social e econômica radicalmente
diferente. Uma revolução cultural, na verdadeira acepção da palavra.


    A sobrevivência de toda a civilização pode depender da realização de tal
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mudança. A vida está mudando - não mais paulatinamente, mas aceleradamente,
com o advento das novas tecnologias - e continuará a mudar num ritmo cada vez
mais estonteante. E, nesta transição, a quem cabe as maiores responsabilidades
para auxiliar a esclarecer, a compreender, a preparar para os novos tempos os
novos homens, se não a quem, a quantos, e a todos, que têm por incumbência
educar e em especial aos professores?

   Quando a vida social mudava paulatinamente a ação educativa da família e da
Escola não oferecia maiores dificuldades. Aos filhos cabiam viver como os seus pais
e a estes como os seus avós. A educação podia se constituir na transmissão de
idéias,   atitudes   e   sentimentos.   Os   valores   já   estabelecidos,   quase   que
uniformemente, iam também sendo transmitidos de geração a geração. A docilidade,
a conformidade, a passividade, por assim dizer, era a meta.


   Mudaram os tempos, mudaram os valores. Conhecimentos, técnicas, padrões de
vida social e moral, tudo em fase de revisão. Torna-se necessário emergir das
famílias - e em especial dos bancos escolares - educandos com espírito crítico e
capacidade criadora para enfrentar a instabilidade que estas mudanças geram. Um
aluno confiante em si mesmo, em suas capacidades e possibilidades como indivíduo
e como membro de uma comunidade fraterna, que abrigue e de vez e voz a todos os
seus membros.


   Tudo aponta, nos dias de hoje, para uma época de revisão dos fins e dos meios
da Educação, que precisa deixar de ter o controle autoritário nas mãos. O
autoritarismo, enquanto detentor da verdade e do conhecimento, precisa dar lugar a
outros métodos e modelos que conduzam à criação de uma autoridade interna em
cada indivíduo, bem como à consciência de grupo, para que a expansão da
democracia e da cidadania,       como sistema de vida,      possa ser considerada um
objetivo e condição necessária ao desenvolvimento individual.


    E hora de revisar, para poder suprir, a ação educativa da família, que vem
declinando do seu papel, consideravelmente. Com o afrouxamento da relação mãe-
filho, conseqüência do afastamento da mulher, pelo trabalho fora do lar, mais tarefas
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couberam à escola, que precisa, acima de tudo, formar alguém capaz de pensar e
agir por si mesmo, livremente, sem preconceitos e, através de decisões altruísticas,
preferindo o bem social à qualquer vantagem ou bem individual.

   Paulo Freire, ao longo de sua vida e obra, e, em especial em A Pedagogia do
Oprimido, sempre enfatizou que se valoriza        muito a consciência ingênua nas
escolas, em detrimento da consciência crítica. Segundo o educador, a transição de
um para o outro tipo de consciência, passa obrigatoriamente por um processo
educativo de conscientização, não havendo nada que mais impeça essa
conscientização do que uma educação que não jogue o educando às experiências
do debate e da análise dos problemas, lhe proporcionando condições de verdadeira
participação.


    Enquanto na consciência ingênua há uma busca de compromisso, na
consciência crítica há um compromisso: o homem consciente tende a se
comprometer com a própria realidade. Na consciência fanática há uma entrega
irracional. O fanatismo é próprio do homem massificado. O indivíduo que age pela
consciência ingênua revela simplismo na interpretação dos problemas, não há
aprofundamento. Há uma tendência em aceitar as formas massificadoras de
comportamento, que podem levar ao fanatismo.


    Quem possui consciência crítica indaga, investiga, força, choca, aceita e delega
responsabilidades. Sabe que é, na medida que é, e não pelo que parece. Procura
livrar-se dos preconceitos e está aberto a revisões.

   Observando-se superficialmente a escola ficamos com a impressão de que
somente os mais aptos, os mais inteligentes e estudiosos têm acesso aos níveis
superiores do ensino. Parece natural que o a aluno fracassado se culpe e convença-
se de sua própria ignorância...


    Falhando na sua tarefa pedagógica a escola passa a apontar cada vez mais uma
série de patologias nos estudantes. Mas o que é pedagógico e o que é patológico ?
Quem pode fazer este diagnóstico ? E a dimensão social onde se localiza ? Não dá
para esquecer que os alunos chegam à escola marcados por profundas
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desigualdades sócio-culturais, e, que ao tratá-Ios de forma idêntica está se
legitimando e reproduzindo estas desigualdades.

   A Psicologia afirma que se alguém não quer aprender, não o deseja, por qualquer
motivo, não há aprendizado. O problema pode residir fundamentalmente no
professor ou no seu método, mas também naquilo que é ensinado, bem como numa
combinação entre diferentes proporções de tais elementos.


   No início do século passado, Freud já colocava que um professor tem o poder de
influência sobre o aluno através de suas relações afetivas e não através de
conteúdos ministrados que o agradem ou possam interessá-Io. A motivação
subjacente de uma pessoa tem marcados efeitos, tanto sobre ela, como sobre seus
circundantes, nos dita a Sociologia.


   Existem fatores que são motivos de grandes conseqüências sociais, tais como: a
luta pela liberdade e pela sobrevivência; a busca pela segurança; o desejo de vencer
na vida e alcançar os seus ideais; a aspiração por uma vida melhor... Certas
necessidades humanas universais, como: a necessidade de afeição, a de pertencer
a um grupo social, a de ser respeitado pelos outros, são fatores de interdependência
também.

   Um grupo social - e a escola é parte integrante disto - deve prover não só as
necessidades individuais, que requerem satisfação, como também uma atividade de
grupo integrada e produtiva, na busca de homens e dias melhores, numa sociedade
inclusiva. Em casa, na Escola, na vida, precisamos perder o medo de dar e receber
sentimentos positivos.


    Freqüentemente, mesmo em relação aos filhos, ama-se para controlar, ao invés
de amar porque se gosta deles. Rogers (1983) apresenta uma metáfora muito
compreensível a este respeito, dizendo que um dos sentimentos mais gratificantes
que conhece e que oferece possibilidades de crescimento está no fato de apreciar-
se alguém como se aprecia a natureza. Para ele, assim como para Freire, as
pessoas são infinitamente bonitas, como um pôr-do-sol, que ao ser admirado não
sofre nenhuma restrição. Ninguém fica a dizer-lhe:
21




                            Diminua um pouco o tom de laranja no canto direito, ponha um
                   pouco mais de vermelho púrpura na base e use um pouco mais de rosa
                   naquela nuvem. Não faço isso. Não tento controlar um pôr-do-sol. Olho com
                   admiração a sua evolução. Gosto mais de mim quando consigo contemplar
                   assim um membro da minha família, equipe, ou meu filho, minha filha: meus
                   netos. Acredito que esta atitude tenha algo de oriental. Para mim é mais
                   gratificante.
                                                                             Rogers (1983, 14).



  Qualquer pessoa é uma ilha e só pode construir uma ponte para comunicar-se
com as outras ilhas se, primeiramente, dispor-se a ser ela mesma, e se lhe é
permitido ser ela mesma, como referenda Rogers (1961) “Descobri que é quando
posso aceitar outra pessoa, o que significa especificamente aceitar os sentimentos,
as atitudes e as crenças que a constituem como elementos integrantes reais e vitais,
que eu posso ajudá-la a tornar-se pessoa: e julgo que há nisto um grande valor.”
(p.235).

   Que bom que os professores da escola inclusiva conseguissem esse olhar de
Rogers, para verem e trabalharem com           seus alunos, numa escola de especial
qualidade para todos.
22




   Escola é o local onde as gerações se encontram, se entendem se
reconhecem como parte de um todo humano e social indivisível,
desenvolvendo juntos a técnica, a intuição a flexibilidade e a arte de
formar, entre si, parcerias indispensáveis pa o futuro da nação. Nesse
                                           para
modelo de escola as dificuldades e as limitações (reais, temporárias ou
não) de cada estudante, funcionam como estímulo para o enfrentamento
dos desafios da vida comunitária, que com certeza transcendem os limites
do ensinamento que as salas de aula, hoje, proporcionam aos alunos .
     sinamento

                                               Werneck (1999, p. 153).
23




1. 1 Da informalidade oral, nos seus primórdios, à chamada educação regular.

   Desde os primórdios da civilização, dentre as práticas humanas que mais se
destacam, está a educação, provavelmente, pela profundidade de sua influência na
existência dos homens. Por isso mesmo, a educação precisa, além de ser praticada,
ser pensada em seus sentido e significado, tanto para as pessoas, como para a
sociedade. E, no atual momento, no que diz respeito, em particular, a educação
brasileira, a hora é de se repensar o processo e re-significá-la, em plena crise,
quando não satisfaz nem a uma, nem a outra dimensão. Na troca de paradigmas,
iminente, a Escola Inclusiva pede passagem à Escola Tradicional, que reinou até
quase o final do século XX.


   Carvalho (2004), referindo-se às correntes históricas na área da Educação relata
que a Pedagogia da Exclusão tem origens remotas, condizentes com a concepção
de homem e de mundo que esteve em vigor, ao longo dos tempos.


  Na Antigüidade Primitiva a Educação era essencialmente para a satisfação das
necessidades. Espontânea, calcada na imitação e na verbalização. Era igual para
todos, todos eram alunos e todos eram educadores.


   Na Antiguidade Clássica, destacava-se o pensamento pedagógico grego, que
deixou raízes singulares, na medida que, até hoje, é destacado seu avanço para a
época. A par do avanço, a cultura grega excluía as mulheres e os pobres. A
24



Educação Integral – formação do corpo e do espírito do homem – era destinada
apenas aos homens livres, os guerreiros e escravos não tinham direito ao processo
educacional “acadêmico”. Da mesma forma a Cultura Romana, no mesmo período,
também excluía os escravos da Educação Integral.


   Na Idade Média, a bagagem greco-romana mesclou-se com as idéias cristã e a
Educação letrada destinava-se ao clero e à nobreza. Os trabalhadores aprendiam
pela tradição oral, apenas a cultura da sobrevivência. Foi nessa época, no século
XIII, que surgiu a primeira universidade. Novamente a cultura do corpo não era
importante.


   Em paralelo - nessa mesma época - segundo Casarin (1997),        os valores da
Grécia Antiga, consideravam qualquer deformidade humana como ira divina, ameaça
ao rei ou à comunidade. Diante disso, as crianças portadoras de deficiência eram
expostas, o que significava que eram abandonadas à própria sorte para morrerem. A
exposição era um ritual de purificação, que tinha como fim a expulsão dos seres
maléficos. Caso os deficientes sobrevivessem, ao período de exposição,
transformavam-se em seres benéficos, redentores para a sociedade que os banira.
Édipo e Perseu, são exemplos de exposição na Grécia.


   Com o advento do Cristianismo, os portadores de deficiência passam a ser filhos
de Deus e assistidos em suas necessidades básicas, mas não havia qualquer
preocupação com seu desenvolvimento e com a sua educação.


   No Renascimento, houve uma revalorização das idéias pedagógicas greco-
romanas, tornando a Educação mais prática e retomando a cultura do corpo. A
Educação continuava como privilégio do clero, dos nobres e agora da burguesia
emergente.


   A idade Moderna foi palco da ascensão de uma nova e poderosa classe que se
rebelava contra os modelos vigentes. O homem mais interessado pela natureza
passa a estudar: Astronomia, Matemática, Artes, Medicina, Biologia, dentre outras
áreas. A Revolução Francesa marcou o período do Iluminismo, caracterizado pelo
25



apego dos pensadores à racionalidade e às lutas em favor das liberdades
individuais, contra o absolutismo do clero e da nobreza.


   A   teoria     educacional    decorrente    desses     ideais   pode     ser   considerada
revolucionária para a época, porque afirmava os direitos do indivíduo e se apoiava
no humanismo igualitário, recomendando que o processo civilizatório deveria ser
universal; “[...] lamentavelmente, a desejada universalidade, mais uma vez não se
referia a todos indistintivamente, pois os lemas eram: às classes dirigentes,
educação para governar; à classe trabalhadora, educação para o trabalho.” Carvalho
( 2004, p. 23).


   Quanto aos portadores de deficiência, na Idade Média, prevalecia a seu respeito
uma ambivalência bem considerável. Podiam tanto ser tidos como pessoas
escolhidas para missões divinas especiais, como também seres dominados por
forças malignas, idéia dos supersticiosos. Portanto seu destino podia resultar em
proteção ou sacrifício.


                                Entretanto, a ambigüidade presente na Grécia Antiga e na Idade
                          Média, ainda pode ser observada nos dias de hoje. Pessoas envolvidas
                          com portadores de deficiência mostram atitudes de aproximação e de
                          afastamento, aceitação e rejeição. Nota-se no ambiente familiar uma
                          tentativa de proporcionar autonomia, mas com proteção e cuidado
                          excessivos, o que não favorece a experimentação e o desenvolvimento.
                          Também entre os profissionais há uma ênfase na autonomia e
                          integração, mas o que se nota é uma proliferação de serviços super-
                          especializados que podem impedir que as pessoas portadoras de
                          deficiência tenham uma vivência de ambientes ‘normais’ que facilitariam
                          um processo natural de integração.
                                                           Casarin ( in MANTOAN 1997, p. 216).




   A partir do século XIX surgem os Projetos Positivistas e os Socialistas, baseados
nos ideais Iluministas. Com o Positivismo foi atribuído à Educação e à Ciência a
capacidade de renovar os costumes e reorganizar a sociedade: “Ordem e
Progresso”! Segundo os ideais do Positivismo há a necessidade de que haja homens
26



de sensibilidade (para refletirem) e homens de ação. Teoria segregacionista       e
elitista, que prevalece ainda fortemente até nossos dias, “explicando, (sem
absolutamente justificar) a elitização da educação e a conseqüente exclusão a que
nossos aprendizes estão sujeitos, ou porque não chegam às escolas ou porque
delas saem, prematuramente, e indevidamente qualificados para o exercício da
cidadania.” Carvalho (2004, p. 24).


   Mas, do Positivismo cabe ressaltar o benefício da introdução da “crítica” no
pensamento pedagógico, bem como a influência que exerceu no movimento
escolanovista, nos anos 30, cuja essência constituiu-se no aprender fazendo numa
escola ativa, que perdura nas correntes teóricas mais recentes.


   Já o movimento pedagógico socialista originou-se – na segunda metade do
século XX – como oposição à concepção burguesa, com um viés eminentemente
político. Nascido nas camadas populares, objetivando a democratização do ensino,
desmistificou-se o otimismo da Escola Nova. Paulo Freire e Ira Shor citados por
Carvalho (2004) observaram que a escola tanto poderia servir para a construção da
cidadania como prática libertadora, como para as práticas de dominação, o que
parece mais freqüente.


   A autora, na obra citada, observa ainda que apesar das         críticas ao modelo
escolanovista, ele trouxe contribuições importantes, especialmente na questão das
metodologias de ensino, tais como as inovações que levaram o rádio, a TV, o vídeo
e o computador para a sala de aula e sua conseqüente rede de informações jamais
imaginadas antes.


   No estágio Pós-moderno a escola reproduz o status quo vigente, na medida em
que alimenta os movimentos geradores da desigualdade social. Entendendo como
Carvalho, que acredita que a educação é tanto um ato pedagógico como político, e
que o traço mais marcante, nas correntes teóricas atuais, no âmbito da educação, é
a valorização da pessoa do educando, enquanto aprendiz e ser histórico, político e
social -   isto é, como cidadão – tem-se muita esperança na mudança ocasionada
pela troca de paradigma no terreno da educação, que ora se processa.
27




     Com a responsabilidade de fazer a mediação entre o indivíduo e a sociedade, a
escola apresenta-se, nos dias atuais, como uma das mais importantes instituições,
por ter na sua práxis a responsabilidade de fazer a mediação entre o indivíduo e a
sociedade. Ao transmitir - através da cultura - modelos sociais de comportamento e
valores éticos, ela permite que a criança socialize-se,     eduque-se, humanize-se,
perceba o seu bem estar - e o do próximo também - como responsabilidade sua.


     Convém lembrar que essa instituição chamada escola nem sempre existiu e
também não foi fruto de uma descoberta, mas uma invenção social do homem!
Portanto, deve servir a ele, interessar-se por ele e ajudar na sua construção.

     Há tempos atrás, como já foi referido, o saber era transmitido de outra forma,
cabia aos mais velhos ensinarem aos mais moços o que sabiam fazer, o meio social
era o contexto educativo. Foi só na Idade Média que a educação tornou-se produto
da escola, como é hoje. Com esta finalidade, pessoas especializaram-se na tarefa
de    transmitir o saber, em espaços específicos, reservados para essa atividade
destinada às elites. O ensino serviu aos nobres e depois à burguesia e, com raras
exceções, continua, até os dias de hoje, servindo às classes estabelecidas no alto da
pirâmide social.

     Nos seus primórdios, o desempenho        principal da escola era o ensino das
atividades executadas pelos grupos dominantes da sociedade. Isso fez dela um
lugar de aprendizado: da guerra, das atividades cavalheirescas, do saber intelectual,
humanístico ou religioso.


     As revoluções do século XIX trouxeram transformações à escola,              sendo a
principal delas a tendência à universalização. O estudo deixa de ser privilégio da
aristocracia e da igreja. A escola muda para atender a demanda que a Revolução
Industrial trouxe no seu bojo, ao sofisticar o trabalho com a implantação de
máquinas, exigindo do trabalhador o aprendizado da tecnologia. A escola ganha
então importância com suas novas funções no preparo da mão-de-obra.
28



   A luta pela democratização da escola, empreendida pelas classes trabalhadoras -
até então alijadas desta instituição - foi um outro fator gerador de mudanças. A
classe trabalhadora organizada, passa a exigir o direito de ter seus filhos na escola,
o direito à cultura e ao conhecimento dominantes, não deixando à escola outra
alternativa a não ser a de abrir suas portas às classes sociais menos privilegiadas.
Estes fatores contribuíram para que ela adquirisse as características que possui
atualmente. Tornou-se uma instituição da sociedade, que trabalha a serviço desta
mesma sociedade e por ela é sustentada, com a finalidade de preparar as crianças
para viver no mundo adulto.


   Na escola a criança aprende a trabalhar, a assimilar as regras sociais, os
conhecimentos básicos, os valores morais coletivos,         enfim,     os modelos de
comportamento considerados adequados pela sociedade em cada época. A escola é
a forma moderna de operar esta transmissão.


   Na verdade a escola como instituição social estabelece um vínculo ambíguo com
a sociedade. É parte dela e por isso trabalha para ela formando os indivíduos
necessários à sua manutenção. No entanto,        é também     tarefa   desta   mesma
escola zelar pelo desenvolvimento da sociedade, para transformar o mundo e
torná-lo um novo mundo, mais humano, mais igualitário, mais harmônico, mais ético,
visando o bem comum.


   Diante deste desafio, ela não pode mais ficar presa ao passado, à tradição. E isto
abre um espaço para o surgimento de uma escola crítica e inovadora:
transformadora, que, para tanto, precisa conhecer a sociedade, os seus modelos e
valores, a ciência com as suas novas tecnologias, seus inventos que devem servir,
acima de tudo, ao homem e não apenas ao capital.


   Ao partir das diversidades culturais presentes na sociedade, a escola – a pública,
mais especialmente – precisa estar pronta para dar conta de qualquer criança ou
jovem, independente de sua condição de classe social e cultural,          etnia, raça,
religião.
29



   Não há mais como se tolerar a interpretação errônea, dada muitas vezes, nas
salas de aula – porque leva facilmente à discriminação – quando o professor trata
como deficiência do aluno as suas diferenças culturais. Esta falta de tato e preparo,
por parte do professor não é mais cabível em pleno século XXI, pois       implica na
despotencialização da criança.


   E, quanto aos realmente deficientes, a escola também precisa estar aberta para
recebê-los, para suprir suas Necessidades Educativas Especiais, NEE, pois eles
também merecem fazer parte da comunidade em que se inserem e não estarem
mais segregados em Escolas Especiais. O sonho é uma Escola Regular de Especial
Qualidade para Todos. O sonho é transformar a escola num lugar para onde se vai
feliz –ou em busca da felicidade – diariamente, para ensinar aprendendo e aprender
ensinando, num lugar para se estudar e se trabalhar contentes.


   E para isso, é necessário que a escola realize uma proposta pedagógica mais
comprometida, que dê vez e voz também às crianças das classes populares e as
com NE, que muitas vezes se entediam ou se revoltam com as tarefas que lhe são
impostas na sala de aula.


   A escola precisa estar mais atenta para trabalhar em consonância com os
conhecimentos, os    valores, as      maneiras de ser e estar no mundo que estas
crianças constroem no seu cotidiano. Elas precisam falar a mesma língua ou serem
entendidas nas suas linguagens, precisam contar a sua história no meio escolar,
para poderem acreditar na luta por uma sociedade mais igualitária, fraterna e
solidária, uma Sociedade Inclusiva.


   A escola tem que ouvir e compartilhar das múltiplas vozes que se cruzam na sala
de aula, advindas de uma cultura híbrida, constituída das interações realizadas pelos
alunos em diferentes espaços e tempos, onde eles vivem, trabalham, brincam e
estudam. Uma escuta sensível para a história das crianças que estão na escola e
ao mesmo tempo já enfrentam o trabalho, na luta pela sobrevivência, por exemplo,
pode construir um outro olhar para esta realidade que, compreendida, pode ser
trazida para a sala de aula enriquecendo o ambiente escolar.
30




   Os novos tempos exigem uma escola democrática, voltada para a formação de
sujeitos cidadãos. Uma escola competente na construção do conhecimento,
enquanto processo que se constrói e reconstrói permanentemente, fruto da ação
individual e interativa dos sujeitos com o outro. Um conhecimento socialmente útil,
que respeita as questões culturais, os saberes e as experiências das comunidades,
criando condições para a produção e         o acesso aos novos saberes, e ao
conhecimento socialmente produzido e sistematizado, contraposto à concepção de
conhecimento pronto e acabado, que pode ser guardado, transmitido e acumulado,
bancário, no dizer de Paulo Freire.


   Os tempos escolares atuais recheados de evasão e repetência gritam por uma
nova escola. Uma escola que propicie práticas coletivas de discussão, garantindo a
participação de toda a comunidade escolar. Uma escola que centralize o poder
nas definições do seu projeto escolar. Uma escola que lute pela superação de todo
tipo de opressão, discriminação, exploração. Uma escola que expanda os valores
éticos de liberdade, respeito à diferença e à pessoa humana, solidariedade e
preservação do meio ambiente.


   Do ponto de vista prático há um consenso, quase que geral, de que a escola não
pode mais fechar os olhos diante dos dramas de nossa realidade: os preconceito, os
tabus, a ignorância, o analfabetismo funcional, as guerras, a devastação ambiental,
o racismo, a intolerância, as drogas, a violência, a incidência de doenças
sexualmente transmissíveis, a gravidez precoce e muitos, muitos outros problemas-
temas ...


   A realidade das escolas de hoje deixa ao século XXI o desafio de colocar a
Pedagogia a serviço das metas educacionais, visando o equilíbrio entre o sujeito
cognoscente e o sujeito social, consciente, equilibrado e responsável. A revisão dos
projetos pedagógicos e as reformas curriculares legitimam-se pela busca de uma
nova relação entre o homem e o conhecimento, rumo à democratização do saber e
sua transformação numa bússola capaz de nortear a formação de posturas críticas e
as tomadas de decisão. Seja no plano teórico, seja na dimensão prática. A educação
31



do futuro clama pela aproximação entre o ser e o saber, pelo rompimento dos muros
que separam a escola do mundo. O desafio que hoje se coloca, ultrapassa a esfera
da simples aquisição de conhecimento para dar sentido e aplicabilidade ao que é
aprendido.


  E, para que a escola esteja cumprindo o papel que lhe é destinado, a cada
época, é necessário que ela própria se constitua em um espaço permanentemente
aberto à formação, a especialização e a atualização dos seus educadores, visando
a maior qualificação da ação pedagógica. Considerando-se isso, do ponto de vista
teórico, os educadores não podem mais          desconsiderar a contribuição de
importantes teorias que dão conta da função do ambiente social no desenvolvimento
e na aprendizagem.


  Espera-se, que todos reflitam sobre: que escola é essa que se está apresentando
às crianças que - em sua essência ativas e curiosas -   quando chegam à sala de
aula perdem a vontade aprender ?
32




            Um dia escola será só escola. Nem especial,
integradora ou inclusiva. Sociedade? Sociedade. E ponto.
Trabalho, apenas trabalho. Estamos dispensando adjetivo.
Por enquanto, não pulemos etapas. Para incluir é preciso
reconhecer. Ainda!
                                  Werneck (1999, p. 25).
33




1.2 Da educação especial, ao espargir da educação inclusiva.

   Cláudia Werneck (1999) faz uma bela analogia política sobre os preconceitos no
seio da sociedade que tanto atrapalham e dificultam a existência de um mundo
inclusivo, onde todos tenham direito de viver a sua individualidade, direito a ter vez e
voz. A jornalista diz que é muito difícil escalar o muro do preconceito e, ao descer,
pular para o outro lado, porque se aprende a subir nele desde criança. E também
porque do outro lado está: a informação, o novo, o desconhecido que chega a dar
medo e - ao mesmo tempo - parece até piegas, de tão libertador que é. Quem sobe
o tal muro pode: olhar lá de cima, comparar as paisagens, analisar as possibilidades
e até permitir-se a sonhar. Talvez, um dia, até salte para o outro lado! Mas, mesmo
quando alguém salta do muro do preconceito, pelo mesmo lado que subiu, já desce
uma pessoa diferente. Que se saiba esperar é o convite!


   O genuíno sentido do respeito vai além da generosidade, por isso é tão difícil
solicitar ou exigir que alguém tenha um comportamento respeitoso. O respeito tem
que nascer do desejo e pressupõe uma relação sistemática e de interação entre
quem respeita e é respeitado.


   A escola deveria ser um lugar do encontro de gerações para se entenderem e se
reconhecerem como parte de um todo humano e social indivisível, um lugar onde os
alunos, juntamente com os professores desenvolvessem a técnica, a intuição, a
flexibilidade e a arte de formar, entre si, parcerias indispensáveis no presente e,
34



quiçá se entendessem até o futuro. As dificuldades, as limitações reais de cada
estudante, temporárias ou não - funcionariam como estímulo para o enfrentamento
do desafio da vida comunitária que, com certeza, transcende os limites do
ensinamento que as salas de aula, ao longo dos tempos, tem proporcionado aos
alunos. "Como convencer as pessoas de que elas têm necessidade de ter
necessidade de lutar por um mundo inclusivo? Tal proposta pressupõe enfrentar a
mais solitária das revoluções: a humana." Werneck (1999, p. 226)


   As sociedades preferem ser lembradas mais por suas identidades do que por
suas diferenças. Quando a diferença é uma deficiência, isso se agrava mais. É como
se a humanidade tivesse um irrefutável padrão de qualidade. A história comprova
que pessoas muito diferentes da média - na aparência ou no modo de ser - têm sido
vistas como deslizes da natureza. Quem não lembra, por exemplo, do Carnaval do
Rio de 1997, quando a Unidos do Porto da Pedra - cujo samba-enredo, de Mauro
Quintana, tinha como tema a loucura? Na ocasião, o carnavalesco levou para o
sambódromo os usuários dos serviços psiquiátricos dos hospitais Pinel e Jurujuba,
porque ficou sabendo que o sonho de muitas pessoas consideradas loucas era sair
numa escola de samba... O carnavalesco não vacilou em tornar o desejo daquela
comunidade em realidade, encontrando uma forma prazerosa e inteligente de
romper com alguns mitos, especialmente o de que os loucos são necessariamente
perigosos. Muitos participantes da Escola confessaram que nunca haviam estado tão
perto dessas pessoas e muitos se encantaram com o samba no pé e com a
harmonia que a maioria deles demonstrou durante o desfile.


   A relação entre normalidade x anormalidade prega verdadeiras peças nos mais
incrédulos. Oliver Sacks, professor, neurologista, famoso contador de histórias e
autor de bem-sucedidos livros, entre eles Um Antropólogo em Marte, citado por
Werneck (1997, p.78 – 80), narra alguns casos interessantes que demonstram essas
(in)congruências .
       Num deles, um pintor expressionista abstrato, famoso e que sofrera um
       acidente onde perdera a visão das cores, passando a só enxergar em preto,
       branco e cinza, vivia desesperado, temendo não recuperar mais a perfeição
       da visão. Guardava a sete chaves o segredo da deficiência,até que um dia,
35



          ao voltar para casa, de carro, assiste a um pôr-do-sol, que o fez
          conscientizar-se de que estava vivendo uma experiência inédita, para outro
          ser humano. Mais tarde, quando lhe foi oferecida a possibilidade de recuperar
          a visão das cores, através de uma cirurgia, negou-se a fazê-Ia. Iniciou, em
          paralelo, uma nova fase de seu trabalho e a mídia continuou sem saber da
          verdadeira razão por que o pintor que tanto amara as cores decidiu aboli-Ias
          de suas telas.
           Sacks relata que no século XVIII, na região costeira de Massachussets, nos
          EUA, a cada bebê nascido um era deficiente auditivo, o que levou toda a
          população a aprender a língua dos sinais. Nos dias atuais, quando os
          habitantes dessa região referem-se aos seus antepassados, ninguém é
          lembrado como surdo, mas como avô, pai ou outro tipo de parentesco, como
          um intelectual ou outra característica.
           No Canadá um em cada quatro habitantes nasce com a síndrome de
          Tourette, uma alteração genética que causa distúrbios de comportamento e
          cria uma série de constrangimentos sociais. Os portadores da síndrome
          sofrem de tiques convulsivos e mímicas involuntárias freqüentes. Enquanto
          em outras comunidades, adultos, nessas condições, são internados como
          doentes mentais, Sacks diz que naquela localidade há escritores,
          matemáticos, músicos, atores, disc-jóqueis, operários, assistentes sociais,
          mecânicos e atletas tourétticos. E, pasmem, até cirurgiões. No livro citado
          descreve inclusive a rotina de um que acompanhou por diversos dias, quando
          esteve estudando o caso, o médico americano Carl Bennett.


   As deficiências, os distúrbios e as doenças limitantes, com todas as suas formas
e marcas, parecem ser tão antigas quanto a própria humanidade. Alguns exemplos
de discriminação institucionalizada divulgados pela publicação Idéias Práticas em
Apoio ao Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, do Dísability Awareness ín
Actíon , citados por Werneck (1977. pp. 184 - 187) dão conta da barbárie vivida em -
não somente naquela, mas em várias épocas - por essa população, descritas a
seguir:
          No dia 20 de maio de 1993, em San Salvador, a polícia disparou seus rifles
          sobre um grupo de cinco mil pessoas deficientes que faziam uma passeata
36



      em prol de cuidados médicos e de outros benefícios. Três pessoas foram
      mortas e outras tantas ficaram feridas. Cerca de 30 foram detidas, incluindo
      duas em cadeiras de rodas, que foram arrastadas ao longo das ruas pela
      polícia.
      Ganhou força na Alemanha Ocidental, no ano de 1989, uma campanha cruel
      de violência contra as pessoas deficientes e outros grupos minoritários.
      Instituições residenciais foram atacadas por bombas incendiárias, crianças
      foram impedidas de participar de excursões escolares, pessoas com
      deficiência auditiva foram espancadas por desordeiros só por estarem usando
      a língua de sinais.
       Na África do Sul, quase metade da população de crianças com algum tipo de
       deficiência nunca foi à Escola e 70% das pessoas vistas como deficiente:
       jamais obtiveram emprego.
       Há países na América latina nos quais as pessoas cegas são impedidas de
       votar ou de se candidatarem a eleições públicas.
Nas palavras da autora: “Como a deficiência vai se tornar uma questão social se
nem chega a ser questão humana?” Werneck(1999, p. 187).


   O tema Educação Inclusiva não é neutro, suscita sempre opiniões favoráveis e
opiniões desfavoráveis. Mrech (1999) aborda o assunto como constituindo mais um
paradigma dentre os seis da Educação Especial, a saber: o Paradigma da
Segregação; o da Desadaptação Social; o Paradigma da Prevenção ou
Psicopedagógico; o Paradigma da Integração; o da Inclusão; e o Paradigma da
Psicanálise.


   Para a autora citada, muitas das discussões atuais no Brasil, a respeito do tema,
minimizam sua importância, atribuindo-lhe um sentido mais ético e politicamente
correto, do que propriamente à importância da sua fundamentação científica e
teórico-prática. Opositores – para ela – pertencentes ao Paradigma da Segregação,
Prevenção ou Integração, que vêem a Inclusão apenas como uma moda sem
fundamentação alguma. Mas, ao contrário:

                            “A Educação Inclusiva não surgiu ao acaso. Ela é um produto
37


                       histórico de uma época e realidades educacionais contemporâneas . Uma
                       época que exige que nós abandonemos muitos dos nossos estereótipos
                       e preconceitos, na identificação do verdadeiro objeto que está sendo
                       delineado em seu bojo.”
                                                                            Mrech (1999,p.03).


  Mesmo as pessoas menos informadas a respeito sabem que um trabalho
socialmente produzido é sempre coletivo, que acontece através de muitas reuniões,
comissões, associações, movimentos, manifestações, requerimentos. Tomadas de
posição, projetos, programas e assemelhados, que transformam o que poderia ter
continuado a ser um problema privado, particular, num problema social, público.


   Os eixos básicos da Educação Inclusiva foram construídos a partir da luta pelos
direitos   humanos,     da     Pedagogia         Institucional,      do     movimento        de
desinstitucionalização manicomial e da emergência da Psicanálise.


                          Em 1964, baseada nos ensinamentos de Sigmund Freud, e Jaques
                       Lacan, Maud Mannoni [ psicanalista       francesa, que trabalhava já em
                       1949 com crianças deficientes        demonstrando o quanto tem sido
                       apreendidas de uma forma estigmatizante pela nossa cultura] publicou
                       o livro que ia fundamentar a maior parte destes novos olhares em relação
                       a crianças deficientes mentais, psicóticas, autistas, etc: A Criança
                       Atrasada e a Mãe.” [ aposto explicativo da autora deste trabalho].
                                                                            Mrech (1999,p. 05).



   A Psicologia, por sua vez, a partir do trabalho de Mannonni, passou a questionar
a aplicação direta do conceito de deficiência à criança, revelando que a criança
portadora de deficiência é muito maior que o quadro clínico onde tentam encaixá-la.


   De 1964 a 1968, o mundo inteiro foi palco, no meio universitário – e também fora
dele – do movimento em defesa dos Direitos Humanos aplicado a todos os sujeitos,
visando a garantia do seu acesso e ingresso nos processos sociais e educativos.
Esses movimentos sociais representavam a retomada prática da luta pela
Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.
38



   Conforme Mrech (1999), esses movimentos revelam o papel estratégico que a
Educação vinha ocupando - ao longo de décadas - de processos estigmatizadores.
Não teria sido por acaso que na década de 60 emergiu na França a Pedagogia
Institucional ou Pedagogia Revolucionária, cujas raízes se encontram no movimento
freinetiano e no grupo de Situacionistas Internacionais.


   A Revolução de Maio de 68 derrubou o sistema de cátedras, que elevava a figura
do professor em detrimento do alunos; enquanto os situacionistas propiciavam a
emergência de um novo conceito de Educação: o de situação, extraído de autores
como Henri Wallon e Jacques Lacan.


   O situacionismo revela a importância de não se localizar mais o sujeito
isoladamente, mas dentro de seu contexto social – a situação ou ambiência – onde o
sujeito se encontra colocado. Ficou instituído então, a dificuldade de separar-se onde
o sujeito começa e o ambiente termina.


                     Assim, não é ao acaso que o conceito nuclear em Educação Inclusiva seja o
                  ambiente menos restritivo. A evolução do sujeito depende do ambiente ou da
                  situação em que se encontra. São eles que      criam   ou não as condições
                  necessárias para o seu desenvolvimento.
                                                                         Mrech (1999, p. 06).



Fato este que a Pedagogia Institucional foi a primeira a perceber, dando importância
ao contexto educacional em que o aluno era visto e trabalhado na escola, conforme
a situação, ele poderia ou não se desenvolver.


   Segundo Mrech(1999), os movimentos de desinstitucionalização e anti-psiquiatria
ocorridos nas décadas de 60 e 70 revelaram a importância de situações saudáveis
para o bom andamento dos sujeitos, dando-lhes o direito de participar de uma forma
mais ampla e digna dos contextos sociais comuns.


   Estes são fatos históricos que comprovam que a Educação Inclusiva tem seu
incubadouro num problema social maior, um problema público relacionado com a
maneira como os deficientes tem sido tratados ao longo da civilização, quando: na
39



Pré-história, eram literalmente jogados fora, assim que eram paridos; passando pela
Idade Antiga, onde eram muitas vezes presos nos porões; indo para a Idade Média,
época em que eram exorcizados ou queimados vivos, para afastar as crenças
daquele tempo de que eram endemoniados; seguindo o seu calvário pela Idade
Moderna, quando a deficiência obtém a categoria de patologia, fazendo-se então o
uso de medicamentos para tratá-los; e, chegando, finalmente, aos dias atuais,
onde a luta continua pela sua inclusão na escola regular e na sociedade que o vem
segregando ao longo dos séculos e, hoje, já bem próximos de obterem a conquista
dos seus direitos de cidadãos respeitados.


   A exclusão dos deficientes, construída na sociedade, e especialmente na escola,
é similar às formas com que os Estados se organizam com relação à doença mental,
às maneiras com as quais dentro da sociedade civil se reage à doença mental, e
também com as formas com que dentro das famílias se interage com a doença
mental explícita, Mrech (1999).


   O que se tornou evidente no campo da Saúde, também foi se evidenciando
dentro do contexto mais amplo da Educação, tal como a história mais recente da
Educação Especial revela. As      articulações mais amplas em relação aos novos
rumos da Educação Especial – em sua vertente mais socializada – datam de 1968,
quando a UNESCO solicitou um relatório a um grupo de especialistas sobre a
situação da Educação Especial em quatro países, signatários dos modelos
educacionais mais avançados na área: a Suécia e os países nórdicos, a antiga
União das Repúblicas socialistas – atual Rússia, os Estados Unidos da América e o
Uruguai.


   Na opinião destes grupos, os objetos da Educação Especial, destinada às
crianças com deficiências mentais, sensoriais, motoras e afetivas são muito similares
aos da Educação Geral, ou seja, possibilitar ao máximo, o desenvolvimento
individual das aptidões intelectuais, escolares e sociais. Os membros do grupo
apontaram que o ideal seria estabelecer um Plano de Educação para cada criança,
desde a mais tenra idade, dotando aos programas de flexibilidade conveniente para
cada caso. (UNESCO, 1968, apud MRECH, 1999).
40




   Ainda segundo Mrech (1999), foi na década de 60 que nos países nórdicos
surgiu pela primeira vez, o Princípio da Normalização aplicado aos portadores de
deficiência, numa tentativa de lidar com as instituições de uma forma menos
estigmatizadora. Na Suécia, a partir de 1968, já era possível se encontrar crianças
deficientes sendo introduzidas no Sistema Municipal de Ensino.


   Nos Estados Unidos, naquela época, os deficientes eram deixados pelos pais nas
instituições que faziam o atendimento contínuo do deficiente, escolas residenciais e
asilos. Constatou-se que este tipo de atendimento não funcionava.


   Em 1967 o Congresso votou a Joint Commisssion on Mental Health of Children,
que criava serviços especializados para as necessidades da criança, nas áreas da
Saúde, Educação e Seguridade Social. Surge então os serviços comunitários
destinados às crianças e uma ênfase maior no papel da Educação nas áreas
cognitiva, afetiva e social dos alunos.


   No entanto, foi só em 1975 que surge nos EUA a primeira lei pública em defesa
dos deficientes. A Lei Pública – nº 94 -142 de 1975 – chamada de Ato de Educação
a Todas as Crianças Portadoras de Deficiência, que garantia os serviços de
Educação Especial; Fundos Federais para auxiliar os Estados na educação dos
deficientes; procedimentos e       requisitos de auditoria para uma administração
transparente, em todos os níveis do governo; e assegurava que as decisões e
serviços aos deficientes fossem realizados adequadamente. Através dela, toda
criança deficiente passou a ter acesso a um ensino de qualidade.


    E já em 1986 os Serviços de Educação Especial e Reabilitação do
Departamento de Educação dos EUA tornou possível que as crianças deficientes
leves e moderadas fossem inseridas nas classes regulares, junto com os alunos
comuns.


    Em 1991 surgiu o IDEA – Ato de Educação – para os Indivíduos com
deficiências, ampliando a Lei Pública 94 – 142, com a qual a criança deficiente norte-
41



americana só sai da classe regular, se a natureza da severidade do seu caso assim
o exigir.


    E em 1997 – a Lei Pública 105 - 17 passou a garantir: educação pública e
gratuita para os deficientes; que os pais devem ser notificados quando seu filho vai
ser avaliado na escola, e, não só passam a ter o direito de saber o resultado, mas
de questioná-lo. Os pais tem que consentir a respeito de todos os procedimentos
usados pela escola e podem obter uma avaliação independente que questione os
resultados da escola.


   As barreiras ao deficiente nos EUA foram sendo derrubadas, não só na escola,
mas a sociedade como um todo passou a ser menos restritiva, em temos
arquitetônicos e legais, garantindo aos deficientes e seus pais uma série de
prerrogativas para enfrentar os problemas que a deficiência ocasiona.


   Uma coisa que é preciso que se tenha conhecimento, é que o            conceito de
Educação Inclusiva não se encontra explicitado em nenhum dos documentos
principais da legislação norte-americana. Conforme explica Mrech (1999), ele está
presente apenas no espírito das leis. Mas, em contrapartida, em todas as leis há
referências explícitas ao princípio do ambiente menos restritivo, que significa que os
deficientes deverão ser educados junto com os ditos normais. O encaminhamento
para as classes especiais, a escolarização separada ou a remoção do aluno
deficiente do ensino regular só serão efetivadas se for absolutamente incompatível a
sua permanência numa modalidade de ensino.


   Se, inicialmente, a Normalização – que consiste em o deficiente desenvolver um
tipo de vida tão normal quanto possível – foi tida como um achado, dentro do
Princípio de Integração, onde o aluno deficiente tem que se adaptar aos parâmetros
da normalidade, se enquadrando aos pré-requisitos da classe, posteriormente houve
a ruptura com o Paradigma pois, se o aluno não conseguisse, tinha que ir para a
Educação Especial, onde acabava sendo considerado doente. E,                como os
deficientes eram incapazes de se adaptar aos moldes da normalidade que lhe eram
impostos socialmente, eram culpabilizados pelos seus próprios problemas.
42




   Revisado o Paradigma, passa-se á Inclusão, paradigma que não espera mais
que o deficiente se adapte aos alunos normais. O que é visado é que ele atinja o
máximo de sua potencialidade junto com os colegas normais. Com isso, fica-lhe
garantido o direito de sua atuação singular. São os normais então é que têm que
aprender a conviver com os deficientes. O Paradigma da Inclusão não vê o problema
no sujeito, mas na forma como o sujeito e a sua deficiência é concebido no
ambiente social; reconhece a especificidade do sujeito e não a sua deficiência,
vendo os rumos do processo de seu desenvolvimento centrado no contexto social.


   A quebra de barreiras para tornar o ambiente menos restritivo tem que
ultrapassar os muros da escola, a comunidade e a própria sociedade num todo
precisam ser inclusivas. Considerando todos esses aspectos, os partidários da
inclusão crêem que é necessário garantir, desde o início, ao deficiente o atendimento
junto às crianças normais, quanto mais cedo e mais perto possível de sua residência
na comunidade melhor. As pesquisas têm demonstrado que a melhoria da qualidade
de vida dos deficientes está relacionada diretamente a três aspectos básicos: a
necessidade de ter emprego, de conseguir um lugar na comunidade e de possuir
amigos.


   Segundo Mrech (2000) atrelado ao Paradigma da Inclusão houve o surgimento
de um novo tipo de Pedagogia, a chamada Pedagogia da Diversidade, Pedagogia
das Diferenças ou Pedagogia Diferencial, propondo uma leitura mais aprofundada
dos processos de aprendizagem de cada aluno. O que é visado basicamente são as
características próprias de cada sujeito e não mais o contexto de grupos ou classes
sociais.


    Da mesma forma, o conceito de NEE tem passado por uma reformulação
profunda, deixando de ter a conotação de uso como sinônimo de criança com
deficiências físicas ou mentais e passando a ser remetido ao processo próprio de
cada criança, sem ligar-se ao de um grupo ou categoria específico. Com isso
salvaguarda-se o lugar de cada criança como única no processo de ensino-
aprendizagem. Baseado nesses pressupostos, o PEI, Programa ou Plano de Ensino
43



Individual tem sido a alternativa mais escolhida pelo professor que trabalha no
Paradigma da Inclusão para avaliar os seus alunos.


   Mas, segundo Geraldo Bueno, citado por Mrech (1999), para que a inclusão
venha a dar certo nas escolas brasileiras, que apresentam altos níveis de repetência
, de evasão e baixos níveis de aprendizagem - como comprovam as estatísticas -
torna-se necessário que tanto os sistemas de Educação Especial como os de Ensino
Regular se adeqüem      à nova ordem e colaborem entre si, construindo práticas
políticas, institucionais e pedagógicas, que garantam a qualidade de ensino não só
aos alunos com NEE, mas a todos os alunos do Ensino Regular.


   Fica claro que a simples inserção de alunos com NEE, nos sistemas regulares
de ensino, sem qualquer apoio ou assistência aos sistemas regulares de ensino,
acabará fatalmente em fracasso. Querendo ou não, o movimento de inclusão no
Brasil já começou, como afirma Mrech:


                       Ele já está sendo implantado em nossas escolas através da inclusão
                     incipiente de alunos que apresentam NEE. Mas, mais ainda através da
                     crescente desativação dos serviços estaduais e municipais de Educação
                     Especial. Uma inclusão incipiente ou integrada não-planejada na rede
                     regular de ensino. Uma inclusão que não é ainda decidida e adotada, no
                     plano da consciência pelos educadores tanto do ensino comum quanto do
                     ensino especial.
                                                                             Mrech (2000, p.19).


   Além da denúncia acima, a autora alerta ainda para                  alguns cuidados que
precisam ser tomados por parte dos governos, em todos os níveis:


                           No Brasil, diferentemente     do que se acredita geralmente, nós
                       lutamos   e educamos muito mais, através        de   fatores inconscientes
                       do que conscientes. As nossas ações são muito mais não-planejadas
                       do que planejadas. O que acaba ocasionando efeitos deletérios no
                       campo     educacional. [...]   Estas   formas   de atuação inconscientes,
                       por parte dos educadores brasileiros acabam acarretando os efeitos que
                       todos nós conhecemos: a construção do fracasso escolar e da
                       estigmatização de alunos.
44


                                                                            Mrech (2000, p.19).


   Diferentemente dos EUA, onde os professores do Ensino Regular já foram
trabalhados para lidar com os alunos que pensam e agem diferentes; aqui os
professores do Ensino Regular sequer foram capacitados a lidar com o chamado
aluno normal, quanto mais com aquele que apresenta diferenças ou deficiências.
Com mais esta dívida secular, o Brasil desponta no século XXI com uma Educação
Inclusiva de fachada, embora muitos vejam o Paradigma da Inclusão como formado
por idéias românticas,fora do contexto da realidade, não se iludam, pois ela faz parte
de uma realidade sócio-econômica maior do que a mais inovadora tendência da
Educação, explica Mrech :


                            Este sistema vem se dando conta de que estigmatiza e exclui a seus
                     participantes. O paradigma da Inclusão é apenas mais uma tentativa do
                     sistema social, econômico e político de consertar, através de medidas
                     reformistas, aos seus desacertos. [...] para nós o Paradigma da Inclusão é a
                     resposta do próprio sistema à exclusão maciça dos participantes dentro do
                     modelo econômico atual.
                                                                     Mrech (2000, pp. 19 - 20)   .


   A autora explica que a sociedade atual está mudando de modelo econômico, de
um capitalismo industrial baseado em produtos palpáveis, para um capitalismo
simbólico, onde a base é a indústria cultural e o consumo é o de produtos
simbólicos, tais como aqueles produzidos pelas novas tecnologias da informação e
da comunicação. O modelo da sociedade do século XXI aponta para uma sociedade
globalizada, onde a informática e a Internet ocupam um lugar de destaque máximo.


   Não há como discordar de Mrech, quando afirma que a proposta da Inclusão não
está a acontecer apenas porque é politicamente correta e apresenta princípios
éticos. Ela traz também em seu bojo outros interesses, postulados e princípios deste
modelo social, político e econômico. A sociedade do 3º milênio está centrada sobre a
informação, que será o grande eixo articulador do futuro, “A informação é atualmente
o produto de maior consumo. Não é ao acaso que a informática e a Internet tenham
se desenvolvido muito. Elas são as fundações desta nova sociedade.” Mrech (2000,
45



p. 21)


   Se no passado o consumo era dirigido a produtos concretos, tais quais os
modelos educacionais previamente estabelecidos, hoje a sociedade do futuro
emergente exige o consumo de produtos simbólicos, imagens, signos, etc. E os
deficientes não podem mais ser alijados desse processo e desse consumo. Num
mundo em que, dos cartões magnéticos dos bancos ao uso de computadores, a
Informática e a Internet estão na vida da humanidade, como um todo, é preciso que
se perceba a mudança que está ocorrendo nos sistemas educacionais, onde o eixo
central não é o saber a partir de um modelo tradicional.


   Os professores e os alunos precisam ser preparados para aprenderem a conviver
uns com os outros, num mundo que está em constante mutação, o que provoca uma
série de transformações nos sujeitos. Um mundo onde a convivência pacífica passa
a ser cada vez mais necessária entre os sujeitos de todas as espécies. Esta
sociedade vem sendo gestada a décadas, como pode-se perceber nas palavras do
mago da Informática, Alvin Tofler, já em 1983:


                       Em vez de apenas recebermos o novo modelo mental da realidade,
                     nós agora somos impelidos a inventá-lo e continuamente a reinventá-lo. Isto
                     coloca um enorme fardo para nós. Mas           também      conduz á maior
                     individualidade, à desmassificação da personalidade, assim como            da
                     cultura. Alguns de nós rebentam sob a nova pressão ou      se   recolhem       à
                     apatia   ou   à   raiva.   Outros emergem como indivíduos bem formados,
                     crescendo continuamente, competentes, capazes de operar, por assim
                     dizer, num nível mais alto. [...] Acima de tudo isto, a desmassificação da
                     civilização, que reflete e intensifica os meios de comunicação, traz com ela
                     um enorme salto na quantidade de informação, que todos trocaremos uns
                     com os outros. E é este aumento que explica por que estamos nos
                     tornando uma “sociedade da informação”.
                                                             Alvin Tofler in Mrech (2000, p. 21).



   A Inclusão no Brasil é um caminho sem volta, quer as pessoas se apaixonem ou
não pelo seu paradigma, pois no primeiro e no segundo mundos os alunos normais e
os deficientes já estão coligando em rede mundial. Mrech (2001) ao abraçar a causa
46



da Educação Inclusiva, como possibilidade na sociedade contemporânea brasileira,
defende a manutenção da Educação Especial, pois é nela que vamos encontrar os
profissionais para fazer a passagem dos professores do Ensino Regular para a
Educação Inclusiva. Mas acha importante que os professores do Ensino Especial
revejam sua prática, que não pode mais se orientar pelo modelo da Integração , pois
não se trata mais de reeducação, nem do modelo médico de deficiência. Seria um
tempo de parceria e não mais de cada qual do seu lado, professores da Educação
Especial e da Educação Regular.


   A finalidade maior da Educação consiste em auxiliar na construção do homem,
no desabrochar de seu potencial criador, produtor e de organizador social. Ela é
poderosa no sentido de ratificar ou retificar as formas de pensar. Isto não somente
com referência aos alunos, mas também aos professores e todos os que se
envolvem com ela, como os pais, funcionários e comunidades circunscritas às
escolas.


   A Educação Inclusiva surgiu como alternativa para a educação de pessoas com
NEE e suas vidas em sociedade e representa um passo muito importante que pode
ser dado no sistema educacional de forma global, envolvendo todas as crianças e
jovens, enquanto alunos, e estendo-lhes o sentimento de pertença. Nas palavras de
Naun Kunc, Citado por Freitas e Castro (s.d., p. 03), devemos: “assegurar que todos
os estudantes comecem a aprender que o ‘pertencer’ é um direito, não um status
privilegiado que deva ser conquistado.”


   Em se tratando do atendimento de alunos com NEE em escolas da rede regular
de ensino, é necessário que se atente para a Inclusão não virar sinônimo de mero
acesso de alunos com deficiência na classe. Como alerta Mendes, citado por Prieto
(2003, p. 04): “ao mesmo tempo que o ideal de inclusão se popularize, e se torne
ponto de discussão obrigatório para todos os interessados nos direitos dos alunos
com necessidades educacionais especiais, surgem as controvérsias, menos sobre
seus princípios e mais sobre as formas de efetivá-las.”


   Ainda segundo Mendes, hoje se pode identificar duas correntes na perspectiva
47



da Educação Inclusiva com propostas divergentes sobre qual é a melhor forma de
educar crianças e jovens com necessidades educacionais especiais. De um lado
encontram-se os que defendem a proposta de inclusão advogando que a melhor
colocação seria a na classe regular, mas admitindo a possibilidade de serviços de
apoio ao atendimento na      classe comum e os recursos educacionais especiais
paralelos ao ensino regular. E de outro lado, a proposta de inclusão total que prevê a
colocação de todos os estudantes, independentemente do grau e tipo de
incapacidade, na classe comum da escola próxima à sua residência e eliminação
total do atual modelo de prestação baseado num continuum de serviços de apoio de
ensino especial.


   Para Aranha (2001) a inclusão escolar “prevê intervenções decisivas e incisivas,
em ambos os lados da equação: no processo de desenvolvimento do sujeito e no
processo de reajuste da realidade social. [Assim],[...] além de se investir no processo
de desenvolvimento do indivíduo, busca-se a criação imediata de condições que
garantam o acesso e a participação da pessoa na vida comunitária, através da
provisão de suportes físicos, psicológicos sociais e instrumentais.” (grifos desta
autora ).


   No Brasil, desde a Constituição Federal de 1988, os documentos oficiais legais e
complementares, de normatização ou de orientação à política educacional, prevêem
que, aos alunos com NEE, sejam garantidos a Educação e o atendimento
educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino. A Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996 “Embora priorizando o
atendimento integrado às classes, escolas ou serviços especializados para atender
aos alunos que deles necessitarem, em complementação ou substituição ao
atendimento educacional nas classes comuns” (LDB 9394/96, art. 58 § 1º, apud
PRIETO , 2003).


   O mais importante para a efetivação da verdadeira Inclusão no seio das escolas
da sociedade parece ser a vivência de sentimentos e atitudes de respeito ao outro
na sua diversidade enquanto cidadão. Para que esse direito se viabilize cabe à
sociedade garantir-lhes o acesso educacional diz Aranha (2001),           referindo-se
48



especificamente aos portadores de deficiências, advogando que cabe à sociedade
oferecer os serviços que os cidadãos com deficiência necessitarem (nas áreas física,
psicológica, educacional, social e profissional). Mas lhe cabe também garantir-lhes o
acesso a tudo de que dispõe, independente do tipo de deficiência e grau de
comprometimento apresentado pelo cidadão.


   Ou seja, numa Educação Inclusiva,         para que se viabilize o cumprimento do
direito de todos à Educação, algumas medidas se fazem necessárias, tais quais: as
condições requeridas por alguns alunos que demandam, em seu processo de
aprendizagem, auxílios ou serviços não comumente presentes na organização
escolar, tais quais, a oferta de materiais; a eliminação de barreiras arquitetônicas e
de mobiliário, as de comunicação e sinalização e as de currículo; a metodologia
adotada; e, o que é fundamental: a garantia de profissionais especializados, bem
como a formação continuada para o conjunto do magistério.


   A Educação para Todos deve prever o atendimento à diversidade de
necessidades e características da comunidade escolar, nas palavras de Souza e
Prieto, partindo-se da premissa que:

                           [...]o princípio norteador é a crença na possibilidade desenvolvimento
                       do ser humano, tratando-se as diferenças individuais como deve prever
                       ainda uma educação de qualidade que garanta a permanência de todo
                       aluno   na escola durante o processo de apropriação e produção do
                       conhecimento , que possibilita sua participação efetiva na sociedade,
                       fatores condicionantes do processo de escolarização que precisam ser
                       considerados quando se tem compromisso de educação para todos.
                                                   Souza e Prieto (apud PRIETO, 2003, p. 09) .


   Uma escola inclusiva, portanto, além de ser a escola aberta a todos que a
procurarem, deve constituir-se num lugar do qual todos fazem parte, em que todos
são aceitos, onde todos ajudam e são ajudados por seus colegas e por outros
membros da comunidade escolar, para que suas necessidades educacionais sejam
satisfeitas. O objetivo maior da Educação Inclusiva deve fazer com que a escola
atue, através de todos os seus escalões, para possibilitar a integração das criança
que fazem parte da comunidade.
49




   Porém, quando se fala em Escola Inclusiva no Brasil, diante dos estrondosos
níveis de evasão e de reprovação, especialmente no tangente à escola pública,
convém que se atente também para a teoria da escola como produtora do fracasso
escolar, à luz da Teoria da Reprodutividade, do sociólogo francês Pierre Bordieu.
Segundo Barros (1996), o insucesso escolar de alunos pobres não é causado por
suas características psicológicas, por sua “incapacidade para aprender”, mas pela
forma de trabalhar da escola, pela sua própria estrutura. Pela teoria reprodutivista, a
escola constituiria-se no aparelho reprodutor do Estado, que ao atender apenas aos
interesses da classe social dominante, ao valorizar somente os padrões culturais
destas classes, discriminaria os conhecimentos dos menos afortunados, Seria, por
assim dizer, uma produtora de desigualdades, reforçando a divisão de classes
sociais.


   A Escola tem desenvolvido -         conforme       Barros (1996) -        várias formas de
discriminação sutil, mas persistente, contra o aluno desprivilegiado.

                            As crianças das classes trabalhadoras têm sido muito prejudicadas
                        pela educação determinada pela sociedade de classes. A existência
                        dessa situação tem sido anunciada por alguns educadores como foi o
                        caso de Paulo Freire, que denunciava essa e outras injustiças sociais
                        com relação às oportunidades de estudar e à educação das classes
                        populares. A maioria dos professores infelizmente não se dá conta de sua
                        participação nessa injustiça. Atua sem compreender que a escola é um
                        instrumento que trata de modo desigual as classes sociais e que
                        prejudica com isso uma parte dos alunos.[...] De certo modo, ele,
                        professor, é tão vítima dessa realidade social quanto o aluno.
                                                                       Barros (1996, pp. 23 e 29).



   Psicólogos, sociólogos e estudiosos da educação que estudam o fracasso escolar
descrevem em suas pesquisas que muitas vezes observaram crianças pobres que
trabalham para ajudar no sustento do lar e que, na vida real, demonstram grande
facilidade para o cálculo, na escola acabam sendo reprovados em matemática.
Esses pesquisadores falam da grande potencialidades das crianças que são
percebidas por eles, mas que acabam sendo abafadas na escola. Eles acusam a
50



reprovação escolar como sendo um mecanismo perverso utilizado pela escola, com
a participação ativa do professor, sobretudo o das escolas públicas.


   Considerando-se o acima exposto, é tácito que nas escolas de ensino regular, às
vésperas de abrirem suas portas em definitivo para a inclusão, predominam formas
de organização do trabalho escolar que não se alinham na direção de uma escola de
qualidade para todos os alunos.


   A questão central, na concepção de Mantoan, está no como criar contextos
educacionais capazes de ensinar todos os alunos, apesar de suas diferenças, na
luta para vencer a exclusão, a competição, o egocentrismo e o individualismo, traços
tão comuns na sociedade de hoje. Para ela – bem como para a autora deste trabalho
- o papel da escola é repensar sua prática pedagógica que deve nortear-se pela
ética, pela justiça e pelos direitos humanos, tripé que sempre sustentou o ideário
educacional mas que nunca teve tanto peso e implicação como nos dias atuais.
Como ela refere:


                            [...] em sua busca de uma nova fase de humanização e de
                       socialização, que supere os pressupostos hegemônicos do liberalismo,
                       baseado na interatividade, na superação de barreiras físicas, psicológicas
                       espaciais, temporais, culturais e acessível a todos. Recriar o modelo
                       educativo. A emergência dessa nova sociedade alerta os educadores
                       sobre a contribuição da escola na formação dos que viverão em um
                       mundo diferente, que já desponta.
                                                                           Mantoan (s.d., p.04).



   Com sua fé e otimismo, a educadora convida aos professores para reverterem
uma situação que até hoje a educação não deu conta, ou seja, mudar o mundo e
torná-lo mais humano. Como fazê-lo? Deixando para trás o primado do conteúdo
curricular na escolarização, dando maior importância a interatividade entre os
alunos,entre as disciplinas curriculares, entre a escola e o seu entorno, entre as
famílias e o projeto escolar. Através de uma aprendizagem centrada, ora destacando
o racional, ora o intuitivo e o sensorial, ora o social e o afetivo dos alunos. Com o
auxílio de práticas e métodos onde predominam as co-autorias, a experimentação, a
51



cooperação entre alunos, professores, pais e comunidade.


   Mantoan (s.d) fala de uma instituição em que todas as crianças aprendam a ser
pessoas e onde o sucesso da aprendizagem esteja relacionado com a exploração
dos talentos de cada um, centrada nas possibilidades e não nas dificuldades dos
alunos.Outra exigência passa pelo rompimento das barreiras curriculares e das
fronteiras disciplinares, através da integração dos saberes, decorrentes da
interdisciplinaridade. O rumo é a policompreensão da realidade e a multiplicidade de
saberes. Que a avaliação seja uma análise do percurso de cada estudante do ponto
de vista de suas competências para resolver problemas de toda ordem.


   O desenvolvimento humano constrói-se em relação com o meio e com os outros.
As diferenças com suas singularidades conjugam-se para a construção de uma
sociedade inclusiva sem precedentes, onde todos têm direito à sua individualidade.
Cada criança aprende no seu ritmo, com estratégias diversificadas, mas em conjunto
com os seus pares. O conceito de inclusão deve ser aprendido de forma mais ampla,
porque qualquer criança, em qualquer altura da sua vida escolar e/ou extra-escolar,
pode passar por dificuldades educativas e/ou sociais e será com seus pares que
ultrapassará mais facilmente essa fase, perseguindo o seu desenvolvimento.


   Cada criança durante o seu desenvolvimento está apta               a contribuir para o
desenvolvimento das outras, porque o ser humano desenvolve-se em interação
social, especialmente através da cooperação entre pares. Até porque, como anuncia
Mantoan:


                           A escola não pode continuar anulando e marginalizando as
                       diferenças nos processos através dos quais forma e instrui os alunos e
                       muito menos desconhecer que aprender é errar, ter dúvidas, expressar,
                       dos mais variados modos, o que sabemos, representar o mundo a partir
                       de nossas   origens, valores,   sentimentos.[...] A exclusão escolar
                       manifesta-se das mais diversas e perversas maneiras, e quase sempre o
                       que entra em jogo é a competência do aluno, o qual sofre as
                       conseqüências de um jogo desigual, de cartas marcadas pelo
                       autoritarismo e poder arcaico do saber escolar, Já não é preciso ser
                       muito avançado ou mesmo radical [...] para se ensinar a compartilhar, a
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                       complementar a cooperar e a ser solidário nas escolas”.
                                                                           Mantoan (s.d.,p.02).



   A Inclusão é o modo ideal de garantir a igualdade de oportunidades e permitir que
crianças portadoras de deficiência possam relacionar-se com outras crianças e
estabelecer trocas para poderem crescer. Na imitação e no espelhamento, elas e as
outras crianças se desenvolvem. A igualdade nos relacionamentos não permite
trocas e traz estagnação ao desenvolvimento, são necessárias exemplos que as
façam superar suas dificuldades e despertar suas potencialidades. Como já foi visto,
os princípios da Inclusão vão além de inserir crianças com NEE na rede regular de
ensino, passam necessariamente por uma ampla revisão do Sistema Educacional.


   Fica claro que na escola inclusiva há a necessidade de medidas de atendimento
especializado a todos que precisam – incluindo por isso mesmo não só as crianças
portadoras de deficiência mas as excluídas por outras NEE. Faz-se mister trabalhar
com as crianças e jovens como seres únicos em suas individualidades,
reconhecendo suas diferenças e dando atendimento às suas necessidades. Como
refere Gardner (1994), em sua Teoria das Inteligências Múltiplas: os indivíduos
“Possuem diferentes tipos de mentes, e por isso aprendem, lembram, desempenham
e compreendem de modos diferentes.” (p.14)


   Assim como a proposta da Educação Inclusiva, essa teoria propõe o
reconhecimento das diferenças individuais e a adequação dos educadores às
diferentes formas de aprendizagem, desempenho e compreensão dos alunos.
Sugere abordagens variadas com finalidades de atender aos aprendentes que não
se enquadram no sistema formal de ensino, não porque não possuam
compreensões significativas, mas porque são excluídos daquele sistema.


      Existem contradições quanto à dimensão da inteligência. Enquanto alguns
estudiosos acreditam numa capacidade única e consideram o intelecto como um
todo, há os que abordam a multiplicidade das capacidades e funções do intelecto do
ponto de vista da fragmentação. Enquanto uns vêem a inteligência como privilégio
de alguns, outros a vêem como características comuns a todos os indivíduos. Ao
53



procurarem definir-lhe o conceito os estudos sobre a inteligência, com seus testes e
avaliações acabam rotulando e padronizando as pessoas.


   Mais recentemente autores como Gardner buscam mudar a visão única, imutável
e divinizada da inteligência, rompendo com os testes e a avaliação que embasam a
idéia de que ela é privilégio de alguns e não pode ser desenvolvida. A teoria de
Gardner – que estuda as Psicologias do Desenvolvimento e a Cognitiva -                       ao
defender as múltiplas capacidades, contribui com o respeito ao ser humano em sua
individualidade, na medida que democratiza a aprendizagem, estendendo-a inclusive
àqueles considerados socialmente incapacitados. Desafia a concepção clássica da
inteligência e os padrões dos testes que marginalizam e excluem alunos avaliados
como incapazes pelos padrões da Psicologia Cognitiva clássica.


   Gardner   afirma   que     todos    nascem      com     potencial    biológico     para    o
desenvolvimento de inteligências, e que a dimensão a ser alcançada será satisfatória
de acordo com os estímulos recebidos. Segundo ele, à parte o potencial inato,
intervenções e treinamento precoce persistentes podem desempenhar um papel
decisivo na determinação do nível final de desempenho do indivíduo. Se um
comportamento participativo é considerado importante por uma cultura, se recursos
consideráveis são dedicados a ele, se o próprio indivíduo está motivado a operar
nesta área e se os meios próprios para a cristalização e a aprendizagem são
colocados à disposição, quase todo indivíduo normal pode atingir uma competência
impressionante em domínio intelectual ou simbólico.


   Porém, de forma oposta, e talvez mais obviamente, até mesmo o indivíduo mais
imaturamente talentoso naufragará sem algum ambiente apoiador positivo, afirma o
autor:


                            A descoberta de perfil intelectual inerente de um indivíduo – que
                       acredita possível – não precisa servir, então, como meio de classificar o
                       indivíduo ou de consigná-lo a uma lixeira intelectual; ao contrário, tal
                       descoberta forneceria um meio para assegurar que todo indivíduo tenha
                       à sua disposição tantas opções quantas possíveis para atingir a
                       competência em quaisquer campos que ele e sua sociedade considerem
54


                        importantes.
                                                                   Gardner (1994, p. 243).



   Gardner, na obra citada, considera que uma intervenção intensiva nos primeiros
anos de vida da criança é crucial para seu desenvolvimento. Essa intervenção pode
fazer com que várias crianças atinjam um nível promissor, de grande destaque em
uma determinada habilidade e possivelmente auxiliem as que apresentem
dificuldades ou prejuízos em uma capacidade. Para ele, a visão limitada e única da
mente, pode levar ao desperdício de talentos, pelo fato de determinados indivíduos
não se encaixarem nos padrões testáveis de inteligência.


      Baseado       nesses   pressupostos,   estima-se   que   o    potencial    humano
desperdiçado nas escolas que privilegiam certas capacidades, em detrimento de
outras, seja incalculável, acarretando a não revelação de inúmeros talentos. Quem
perde com isso – além dos indivíduos envolvidos – é a comunidade, que deixa de
contar com pessoas qualificadas para ocupar papéis importantes ou produzir bens
para a sociedade.


      Para a Teoria das Inteligências Múltiplas, os indivíduos apresentam perfis
intelectuais diferentes entre si, com múltiplas capacidades em áreas do
conhecimento, combinadas entre si, que resultam numa forma particular de resolver
problemas ou criar produtos válidos numa sociedade. A escola deve voltar-se para o
aluno e avaliar seu perfil intelectual de modo que ele possa expressar capacidades e
fraquezas por diferentes meios, oferecendo-lhe oportunidades para desenvolver
capacidades de acordo com as características que apresenta.


   Gardner ainda, na mesma obra, reitera que na maioria das sociedades a escola
tem um papel fundamental na formação da inteligência, por ser valorizada
culturalmente como espaço de oportunidades de aprendizagem, no qual a
inteligência se revelará. Além da escola, os valores sociais e os conteúdos
considerados necessários à sobrevivência da cultura são determinantes na definição
da inteligência numa determinada sociedade.
55



   A Teoria das Inteligências Múltiplas rompe com o tradicionalismo na educação.
Torna-a direito de todos, defendendo a igualdade de oportunidades e respeito à
individualidade. Gardner esclarece que as várias competências devem ser
educadas, pois na vida não são usados somente conteúdo escolares: “...a vida
consiste em mais do que desenvolvimento de combinações particulares de
inteligência para propósitos educacionais específicos.” Gardner (1994, p. 278).


   O autor critica o sistema avaliativo da escola tradicional, através de testes que
medem principalmente a capacidade de raciocínio lógico-matemático e habilidades
lingüísticas. Importa-lhe observar como são desenvolvidos capacidades para
resolver problemas. A escola que Gardner propõe, e com a qual a autora deste
trabalho sonha, busca o entendimento: a capacidade de aplicar o conhecimento
adquirido na situação em que é relevante. Nesta escola, o objetivo do aluno é
combinar suas capacidades e habilidades para solucionar tarefas. No entanto, na
escola real, a compreensão genuína não é buscada ou estimulada            apenas se
contenta com o desempenho do aluno que é          avaliado como entendimento. Ele
comenta que: “Entretanto, num exame mais detalhado, fica claro que os
entendimentos só podem ser compreendidos e apreciados se forem desempenhados
por um só aluno.” Gardner (1995, p.165) .


   O autor argumenta que um sistema avaliativo,         para se     ser justo com a
inteligência,   precisa respeitar o ser humano na sua individualidade, em vez de
enquadrá-lo em um padrão pré-estabelecido. Para que se identifique o homem como
mais humano, com potenciais indescritíveis para realizações em favor dos homens
em particular e da humanidade como um todo. Para que o planeta sobreviva e a
convivência seja crescentemente tolerável, fraterna e solidária. Pensa-se que será
legítimo então, conceber-se que todo e qualquer aluno – em determinado momento
da aprendizagem – independentemente das suas potencialidades e limitações – está
sujeito a processos de exclusão e que, portanto, esta situação não está unicamente
vinculada aos alunos com deficiência.


       A melhor forma de assegurar a inclusão escolar é desenvolver um tipo de
gestão político-pedagógica que assegure uma educação de qualidade para todos,
56



entendo-se esta como a formação integral de cada aluno-pessoa sob os valores do
respeito, da confiança, da solidariedade e da cooperação recíprocos.


       No fundo, a Educação Inclusiva não é senão o mais nobre projeto educativo
que toda e qualquer comunidade educativa pode conceber e concretizar, rumo à
sociedade inclusiva. A inclusão nada mais é do que um dos direitos mais
elementares da condição humana. Do ponto de vista da ação, torna-se incontornável
a necessidade de o dia a dia da comunidade escolar ser preenchido por relações
inter-pessoais caracterizadas por exemplos espontâneos de valorização das
diferenças e de processos de entre-ajuda, que precisam se estender para além dos
muros da escola.


                       Antes de ser filosofia, a inclusão é uma forma de ser e de
estar no mundo, como afirma Jorge Serrano (s.d.):


                           Se todo e qualquer ser humano, no seu dia a dia procura,
                       fundamentalmente ser feliz, então afigura-se que a interação inclusiva,
                       até nesse contexto, pode ser um meio ímpar para que cada um se sinta
                       mais feliz: uns porque, recebendo ajuda, melhoram a sua própria
                       qualidade de vida, aumentando, por conseqüência os seus níveis de
                       percepção da felicidade; outros, porque dando ajuda, reforçam os seus
                       próprios patamares de felicidade, devido precisamente à satisfação
                       interior experimentada pelo fato de haverem contribuído para a felicidade
                       daqueles que sem a sua ajuda não seriam... tão felizes! É pois,
                       fundamentalmente disto – a oportunidade de ser feliz – que se trata ao
                       falar-se da Educação Inclusiva.
                                      Jorge Serrano ( www.proformar.org/revista/edi, p. 03).



   Fala-se muito em barreiras físicas, em dar acesso às pessoas para entrar nas
escolas, nas instituições públicas, mas também existem barreiras ligadas à atitude.
Há pessoas que são contra a Inclusão, sem saber nem porquê. Já pessoas
engajadas ao processo de Inclusão, como a professora Priscila Augusta Lima, da
Faculdade de Educação da UFMG, que vem há alguns anos trabalhando na
proposta inclusiva, no Centro de Desenvolvimento da Criança – Creche, da mesma
Universidade, onde crianças autistas, crianças surdas, entre outras, estão incluídas
57



na sala comum, acredita que o termo deficiência precisa ser modificado, porque,
muitas vezes os assim chamados são pessoas com dificuldades numa área
específica, mas são capazes de realizar trabalhos em outra área. Como ela explica
em um pronunciamento no 1º Simpósio de Educação Infantil, promovido pelo CDC –
Creche UFMG, em novembro de 2002.

                            Há exemplos disso no mundo da política, nos esportes ... Por outro
                        lado, uma pessoa que fica em casa, deprimida não sai pra nada, está
                        incapacitada, porque não consegue trabalhar e interagir socialmente.
                        Já o deficiente que sai de casa, trabalha, não está incapacitado.
                                                                              Lima( 2002, p. 03).



    A professora também declara que em sua prática observou que as crianças têm
uma rejeição muito pequena aos deficientes, isso quando as têm:

                            Às vezes, a dificuldade está nos professores e na família das
                        crianças ditas normais. Este é um problema que envolve o educador e
                        professores para lidar com alunos portadores de NE que começam a
                        freqüentar a sala de aula comum. Isso porque o professor não têm
                        informações e, às vezes, tem medo do aluno deficiente por causa do
                        esteriótipo de que todo o deficiente é agressivo. Há situações em que o
                        professor se recusa a assumir a sala. Cheguei a ouvir gente dizendo que
                        a inclusão é um absurdo.”
                                                                              Lima (2002, p. 03).



   A Educação Inclusiva focaliza mais uma vez, o direito universal à Educação,
consagrado na Constituição Brasileira e nas Cartas internacionais de Direitos
Humanos. Por que reafirma esse direito, no âmbito da teoria e da prática, se no
plano jurídico já há consenso sobre sua pertinência é uma pergunta pertinente.
Talvez exatamente porque, muitas vezes, a sua realização, embora afirmada do
ponto de vista estritamente formal, é negada na prática a determinados grupos
sociais, populações excluídas, meninos de rua, minorias étnicas, portadores de
deficiência física e mental, inclusive nas próprias instituições encarregadas de torná-
la real.


   Tornar a inclusão real, é condição sine qua non para se viver, como justifica
58



Mazzotta (s.d.), que refletindo sobre o tema estudou a etimologia da palavra. Do
latim “que empregava como sinônimas a expressão viver e estar entre os homens
(inter homines esse) e ainda, morrer e deixar de estar entre os homens (inter hominis
esse desinere), de onde concluiu que            Inclusão e Integração são           processos
essenciais à vida humana ou à vida em sociedade.


   Para o autor, é imperioso que sejam eliminados os mecanismos e procedimentos
dificultadores da integração e da inclusão de todos, na escola pública e gratuita com
a qualidade esperada pela sociedade, o que não implica, necessariamente, na
extinção sumária de serviços e auxílios especiais. Nas suas palavras:


                            É preciso que se tenha em mente, também, que em tal perspectiva,
                         as diferenças entre    as necessidades     educacionais especiais e as
                         necessidades educacionais comuns se tornem cada vez      menores até o
                         ponto em que as necessidades singulares de cada educando possam ser
                         percebidas e atendidas pela escola comum de “especial” qualidade.
                                                                           Mazzotta (s.d. p.03).



Mazzotta sugere ainda que, enquanto cidadãos de uma sociedade que se pretende
democrática, “ temos que propugnar por uma educação de qualidade para todos. E
essa busca não comporta qualquer exclusão, sob qualquer pretexto.” Ou seja, a
construção de uma educação que abranja todos os segmentos da população e cada
um dos cidadãos implica numa ação baseada no princípio de não segregação, ou ,
de inclusão de todos, quaisquer que sejam suas limitações e possibilidades
individuais e sociais.


   As mudanças de paradigmas sempre trazem no seu bojo o inconformismo, a
preguiça e o medo daqueles que estão acomodados na atual situação. Muitos têm
medo, ou se posicionam contra, sem nem saber direito do que se trata! “É novo , eu
recuso!”, parecem dizer. Se a educação brasileira contasse com um número mais
expressivo de educadores do porte de Maria Teresa Eglér Mantoan, as coisas
seriam mais fáceis. Confiante, ela acredita na ultrapassagem desse pessimismo que
ronda os professores nesse momento de transição da escola tradicional para a
inclusão:
59


                          Penso que sempre existe a possibilidade de as pessoas se
                       transformarem [...] conseguirem ultrapassar obstáculos que julgam
                       intransponíveis, sentirem-se capazes de realizar o que tanto temiam,
                       serem movidas por novas paixões.... Essa transformação move o
                       mundo, modifica-o, torna-o diferente, porque passamos a enxergá-lo e a
                       vivê-lo de um outro modo, que vai atingi-lo concretamente   e mudá-lo,
                       mesmo que aos poucos e parcialmente.
                                                                      Mantoan (2003, p. 06).


   Mantoan (2003) considera que é pelo fato da educação ser um direito natural e
indispensável, que quem tem de mudar para receber todos os alunos é a escola. Diz
não fazer acordos quando se propõe a lutar por uma escola para todos, sem
discriminações, sem ensino à parte para os mais e para os menos privilegiados,
porque a perspectiva de se formar uma nova geração dentro de um projeto
educacional inclusivo é fruto do exercício diário de cooperação e de fraternidade, do
reconhecimento e do valor das diferenças, o que não exclui a intenção com o
universo do conhecimento em suas diversas áreas.


   A autora esclarece que uma escola para todos não menospreza o conhecimento
científico, sistematizado, mas também não precisa se restringir a instruir os alunos a
dominá-los a todo o custo, mesmo que os professores tenham aprendido a ensinar
segundo a hegemonia e a primazia dos conteúdos acadêmicos, embora os
professores tenham, naturalmente, muita dificuldade de se desprenderem desse
aprendizado, que refreia os processos de re-significação do seu papel, seja qual for
o nível de ensino em que atuem.


   A educadora convida aos professores para refletirem sobre o papel social dos
professores, se seria tão elementar, reduzido a meros instrutores, que transmitiriam
um saber fechado e fragmentado, em tempos e disciplinas escolares que
aprisionam nas grades curriculares, e “ que conduzem e norteiam a capacidade de
conhecer de nossos alunos, transformando-os em seres passivos e acomodados a
aprender o que definimos como verdade?” Mantoan (2003, p. 10).


   E nesse momento de crise na educação brasileira, quando um novo paradigma
60



do conhecimento nasce, auxiliado pela velocidade das comunicações e das
informações, a “ciência” felizmente não está mais sozinha, outros saberes dão conta
de idéias diferentes, até porque a escola não pode continuar ignorando o que
acontece para fora de seus muros. Não pode desconhecer que a aprendizagem
implica também em saber se expressar dos mais variados modos, possibilitando que
cada um represente o mundo a partir de suas origens, seus valores e seus
sentimentos, deixando o primado da cientificidade para trás, aproximando-se mais
de outras formas de entendimento. Pois, como afirma Mantoan:


                          A exclusão escolar manifesta-se das mais diversas e perversas
                      maneiras, e quase sempre o que está em jogo é a ignorância do aluno
                      diante dos padrões de cientificidade [...] O ensino curricular de nossas
                      escolas, organizado em disciplinas, isola, separa os conhecimentos, em
                      vez de reconhecer suas inter-relações.[...] A lógica dessa organização é
                      marcada    por   uma   visão   determinista,   reducionista,   própria   do
                      pensamento científico moderno, que ignora o subjetivo, o afetivo o criador
                      [...] atitudes típicas das escolas tradicionais em que ainda atuamos e em
                      que fomos formados para ensinar.
                                                                  Mantoan (2003, pp. 17 – 19).




   A educadora defende a inclusão total, numa escola inclusiva que receba, desde
a Educação Infantil, todas as crianças atendendo às suas diferenças, sem
discriminá-las, sem trabalhar à parte com alguns alunos, através de um ensino que
funcione com a abolição completa dos serviços segregadores de educação especial,
como os programas de reforço escolar, as salas de aceleração, as turmas especiais,
etc. Todos juntos, como na metáfora da inclusão que o caleidoscópio expressa. Nas
palavras de Marsha Forest, uma das grandes defensoras da inclusão citada por
Mantoan:


                          O caleidoscópio precisa de todos os pedaços que o compõem.
                      Quando se retiram pedaços dele, o desenho se torna menos complexo,
                      menos rico. As crianças se desenvolvem, aprendem e evoluem melhor
                      em um ambiente rico e variado.
                                                 Marsha Forest (apud MANTOAN,2003, p. 26).
61



    O aluno da escola inclusiva – que se pauta pela igualdade de oportunidades e
numa nova ética escolar que advém de uma consciência para além do individual e
do social, circunscrito à comunidade local, mas planetária – não deve ter um
identidade pré-fixada em modelos ideais, permanentes e essenciais. A escola
inclusiva é aberta às diferentes culturas, a pluralidade de manifestações intelectuais,
sociais e afetivas – como refere o professor Boaventura de Souza Santos, citado por
Mantoan (2003, p. 34) : “ é preciso que tenhamos o direito de sermos diferentes
quando a igualdade nos descaracteriza e o direito de sermos iguais, quando a
diferença nos inferioriza.”


   Mantoan (2003) denuncia o aluno abstrato da escola tradicional, que justifica a
maneira excludente de a escola tratar as diferenças, dividindo-os em : deficientes,
carentes, comportados, inteligentes, hiperativos, agressivos, etc. Ela diz conhecer
muito bem os argumentos pelos quais a escola tradicional resiste à inclusão – eles
refletem a sua incapacidade de atuar diante da complexidade, da diversidade, da
variedade, do que é real nos seres e nos grupos humanos. Não se deve esquecer de
que “Os alunos não são virtuais, objetos categorizáveis [...] ”. ( p. 50)


   Portanto, para esta autora, além da eliminação das barreiras arquitetônicas e
atitudinais – por parte de professores e especialistas – a escola inclusiva pressupõe
o implemento de recursos de ensino e equipamentos especializados que atendam a
todas as necessidades educacionais do alunos – com ou sem deficiência – e a
prática de um ensino adequado às diferenças dos alunos em geral, oferecendo
alternativas que contemplem a diversidade, que deve ser do domínio dos futuros
professores. Para tanto, os cursos de formação de magistério necessitam sofrer
grandes modificações em seus currículos, incluindo neles o estudo           de certas
técnicas que compõem os serviços de apoio especializado, como o intérprete de
sinais, o braile, etc.


       Mantoan (2003) acredita que a escola inclusiva proporcionará - com os pais
dos alunos como grandes aliados - a formação de gerações mais preparadas para
viverem a vida na sua plenitude, livres, sem preconceitos, sem barreiras. Penas que
a escola inclusiva fornecerá condições para os estudantes se desenvolverem mais
62



sadiamente, contribuindo para a sua identidade sócio-cultural, na e para a cidadania,
construindo-se num espaço vivo de acolhimento e de permanência para todo e
qualquer aluno, até o nível que cada um seja capaz de atingir.


   Nos seus sonhos de Mantoan pairam – e nos da autora deste trabalho também –
a construção de    uma escola que vai contribuir para que cada aluno ponha em
prática a sua capacidade de aprender, de acordo com suas características pessoais.
Uma escola especialista que atenda a todos os alunos e não apenas alguns deles,
porque as dificuldades de alguns alunos não são apenas deles, mas resultam, em
grande parte, do modo como o ensino é ministrado e de como a aprendizagem é
concebida e avaliada.


   As tarefas fundamentais a serem empreendidas para que essa escola inclusiva
venha a existir, na sua concepção,       passa pela recriação do modelo educativo
escolar, tendo como eixo o ensino para todos. Passa pela organização pedagógica,
que deve abrir espaço para a cooperação, para o diálogo, para a solidariedade, à
criatividade e o espírito crítico, que precisam ser exercitados não só pelos alunos e
professores, mas pelos administradores e funcionários por serem habilidades
mínimas para o exercício da cidadania.


   A implantação da escola inclusiva passa ainda pela formação e aprimoramento
contínuo dos professores, que devem ser valorizados para que tenham condições e
estímulo para ensinar a turma toda sem exclusões. Passa pela garantia aos alunos e
de “ tempo e liberdade para aprender, bem como um ensino que não segrega e que
reprova a repetência.” Mantoan (2003, p. 60).


   A escola para ser inclusiva precisa urgentemente qualificar o seu ensino,
superando o sistema tradicional de ensinar, baseada no aspecto cognitivo do
desenvolvimento, avaliando os alunos apenas quantitativamente, através de
respostas-padrões, com aulas basicamente expositivas, valorizando a memorização,
o livresco, e negando o valor do erro. Nas palavras de Mantoan (2003): “... as
escolas de qualidade são espaços educativos de construção de personalidades
humanas autônomas, críticas, espaços onde criança e jovem aprendem a ser
63



pessoas.” (p. 63)


   A reorganização das escolas deve acontecer a partir da reformulação de seus
projetos políticos-pedagógicos, a serem elaborados após um criterioso diagnóstico
da demanda, para que as diretrizes gerais da escola sejam traçadas com realismo e
responsabilidade, com a colaboração e participação de todos os segmentos que a
compõem. O diagnóstico deve priorizar o levantamento dos pontos positivos e dos
fracos da comunidade escolar, para então traçar-se os objetivos, as metas e as
ações para coordenar o trabalho como um todo.


   Susan e Willian Stainback (1999) enumeram uma série, quase imensurável,de
vantagens para toda a comunidade escolar – em especial aos alunos – da
convivência numa escola inclusiva. Apontam os valores da celebração da
diversidade, que faz a todos crescerem enquanto seres humanos e cidadãos éticos.
Já no prefácio da obra, citam Robert Barth (1990) que diz que o importante sobre as
pessoas e sobre as escolas – é o que é diferente, não o que é igual:

                           As    diferenças    encerram     grandes    oportunidades   para    a
                       aprendizagem. Elas oferecem um recurso livre, abundante e renovável .
                       Eu gostaria de ver nossa compulsão para eliminar as diferenças
                       substituída por um enfoque igualmente insistente em se fazer uso dessas
                       diferenças para melhorar as escolas. (p. xi).



   Nas salas de aula da escola inclusiva todas as crianças                enriquecem-se por
terem oportunidades de aprender umas com as outras. Além de desenvolverem-se
para cuidar de seus pares, acabam conquistando atitudes, habilidades e valores
necessários para as comunidades apoiarem a inclusão de todo os cidadãos. Os
alunos aprendem a ser sensíveis, a compreender, a respeitar e a crescer – e, o
mais importante, confortavelmente, sem chiliques como muitos adultos costumam ter
- com as diferenças e as semelhanças individuais entre crianças e jovens . Serão as
crianças da escola inclusiva que arrancarão desta terra, para sempre, a erva-
daninha do preconceito, acabando com o controle de qualidade da raça humana,
que implica em beleza e juventude em plena era da globalização...
64



   Segundo Stainback e Stainback (1999) várias pesquisas tem demonstrado que os
alunos,   com e sem deficiência,     têm tido ganhos de habilidades acadêmicas e
sociais, habilidades de vida diária e de comunicação na escola inclusiva. E mesmo
aos alunos com profundos déficits cognitivos essa escola oferece oportunidades de
adquirir habilidades sociais, enquanto aos que possuem deficiências menos severas,
os estudos demonstram que quanto mais tempo passarem em ambientes inclusivos,
melhor será seu desempenho nos âmbitos educacional, social e ocupacional. Eles
aprendem como atuar e interagir com seus pares no mundo real, assim como seus
pares e os professores aprendem a interagir com eles.


   Os professores da escola inclusiva ao adquirirem novas habilidades para
trabalhar com alunos acadêmica e socialmente deficientes, terão oportunidade de
desenvolver-se profissionalmente, num clima de coleguismo, apoio e colaboração
de todos os professores, de sua e de outras escolas, pois é assim que funciona a
inclusão. O trabalho em equipe é peça chave, nessa modalidade de educação,
afirmam os autores, que consideram vantajoso para os educadores da educação
inclusiva tomarem conhecimento dos progressos na educação, conseguirem
antecipar as mudanças e participarem do planejamento da vida escolar diária. Da
mesma forma a sociedade se beneficia, como eles comentam:


                          ... a razão mais importante para o ensino inclusivo é o valor social
                      da igualdade. [...] devido ao fato de as nossas sociedades estarem numa
                      fase crítica de evolução, do âmbito industrial para o informacional e do
                      âmbito nacional para o internacional, é importante evitarmos os erros do
                      passado. Precisamos de escolas que promovam aceitação social ampla,
                      paz e cooperação.
                                                           Stainback e Stainback(1999, p. 27).


   Para os que dizem que a escola inclusiva é uma utopia pessoas que se negam
até mesmo a debater o assunto, os mesmos autores tem uma resposta:


                          ...a possibilidade de educar todos os alunos, incluindo aqueles com
                        deficiências importantes, nas escolas e nas turmas regulares [ já é
                        realidade! ]. Agora, isso está sendo feito com sucesso em um número
                        pequeno, porém crescente, de escolas na Austrália, no Canadá, na
65


                          Itália,nos Estados Unidos e em outros países.
                                                            Stainback e Stainback (1999, p. 30).


   A inclusão é um novo paradigma que ultrapassa a área educacional, que modifica
pensamentos e ações no sentido de incluir todas as pessoas em uma sociedade na
qual a diversidade passa a ser a regra e não a exceção. Um novo paradigma que,
mais do que ser assumido, precisa ser cantado em prosa e versos. Nas palavras de
John e Connie O’ Brien:


                            A arte de facilitar a adesão à inclusão envolve o trabalho criativo
                       com este estado de elevação da consciência, redirecionando a energia
                       estreitamente relacionada ao medo para a resolução de problemas que
                       promova a reconsideração dos limites, dos relacionamentos, das
                       estruturas e dos benefícios.
                                  John e Connie O’Brien, in Stainbeck e Stainback (1999, p. 48).


   Para a inclusão ter sucesso, as escolas precisam formar e se constituir em
comunidades conscientes. Uma comunidade se forma e se une em torno de valores
e ideais compartilhados,cujo vínculo deve ser mais forte e mais importante do que os
próprios alunos, os professores, os funcionários e os pais. Valores que conduzam
todo o grupo a níveis mais elevados de auto-conhecimento, de compromisso e de
desempenho, para além do alcance dos fracassos e das dificuldades enfrentadas no
dia a dia de todos. “A comunidade pode ajudar os professores e os alunos a serem
transformados de uma coleção de ‘eus’ em um ‘nós’ coletivo, proporcionando-lhes,
assim, um sentido singular de identidade, de pertencer ao grupo e à comunidade”,
conforme Sergiovanni (1994), citado por O’Brien e O’Brien, in Stainback e
Satainback (1999, p. 51).


   O’Brien e O’ Brien, in Stainback e Satainback (1999) consideram que a
construção da comunidade inclusiva vincula o ensino à educação, porque afasta a
criança - e os adultos envolvidos nela - das suas antigas rotinas confortáveis,
arrancando-os para o desafio e o prazer de extrair as ações da experiência humana
no enfrentamento da vida. “A educação acontece no contato com os outros, e as
potencialidades e as falibilidades das pessoas moldam, a extensão e a textura do
crescimento de cada um de nós.” (p.65).
66




   Os autores argumentam, no mesmo artigo, que os alunos com deficiência
importantes e seus pais podem ser impulsionadores da criatividade de uma
comunidade escolar. A busca do caminho e do enfrentamento das dificuldades que
surgem, no dia a dia, constituem a própria força para renovar o sentido dessa
comunidade, quando estiver sendo ameaçada. Para tanto, torna-se necessário a
renegociação dos limites, dos relacionamentos e das estruturas familiares, afirmam.


  Schaffner e Busswell in Stainback e Satainback (1999) ratificam a idéia da criação
de comunidades de ensino inclusivo eficazes na transformação da sociedade.
Segundo eles, o desenvolvimento de uma comunidade de ensino inclusivo, para
tornar-se acolhedora, necessita de uma cultura escolar penetrante, baseada nos
princípios de igualdade, da justiça, da imparcialidade e do respeito à dignidade de
todos os seus membros. Eles acreditam que o caminho para o surgimento de uma
sociedade humanista, onde um grupo cada vez mais diversificado se inter-relacione
visando o bem comum, passa necessariamente pela escola. Uma escola em que
suas próprias estruturas, práticas de ensino e currículos reflitam e dêem o exemplo
do cultivo de valores elevados, para ser eficaz na moldagem destes mesmos
valores. Nas suas palavras:


                           As escolas são microcosmos da sociedade; elas espelham aspectos,
                       valores, prioridades e práticas culturais tanto positivas quanto negativas
                       que existem fora de seus muros. São também áreas de treinamento em
                       que os membros mais jovens da sociedade desenvolvem atitudes,
                       interesses e habilidades que serão usados durante toda a vida. Por isso,
                       as escolas devem assumir a responsabilidade de melhorar as condições
                       sociais negativas. (p.72).


   Schaffner e Buswell concluem o artigo, defendendo que os adeptos da inclusão
devem unir-se no reconhecimento de que as escolas que implementam práticas
educacionais sólidas são boas para todos os alunos e que o fator mais importante é
ter a coragem para fazer o que é certo, apesar das barreiras e dos desafios que
surgem, como também acreditam Noddings (1995) e a autora deste trabalho:
67


                            Nossa sociedade não precisa ingressar suas crianças no mundo da
                       matemática e da ciência. Ela precisa cuidar de suas crianças – para
                       reduzir a violência, para respeitar o trabalho honesto de qualquer tipo,
                       para recompensar a excelência em qualquer plano, para garantir um
                       lugar para cada criança e cada adulto emergente no mundo econômico e
                       social, para produzir pessoas que possam cuidar de maneira competente
                       de   suas   próprias   famílias    e   contribuir   eficazmente   para   suas
                       comunidades. Em direta oposição à ênfase atual nos padrões
                       acadêmicos ... declaro que nosso principal objetivo educacional deveria
                       ser o de encorajar o desenvolvimento de pessoas competentes,
                       protetoras, amorosas e dignas de serem amadas.
                                       Noddings (1995) in Stainback e Stainback (1999, p. 84).


   Numa comunidade inclusiva as pessoas são interdependentes, seus membros
possuem funções e papéis a serem desempenhados e é isso que fortalece os laços
e a própria comunidade.Os dons e os talentos de cada um, incluindo aqueles dos
alunos tradicionalmente definidos como portadores de NEE ou comportamentos
destrutivos, são reconhecidos, encorajados e utilizados na maior extensão possível.
Além de todos terem suas responsabilidades devem apoiar aos outros. Como
referem Stainback e Stainback (1999):


                            Cada indivíduo é um membro importante e digno da comunidade e
                       contribui para ao grupo. Esse envolvimento ajuda a estimular a auto-
                       estima, o orgulho pelas realizações, o respeito mútuo e uma sensação de
                       estar entre os membros da comunidade, Uma comunidade como tal não
                       pode existir se alguns alunos estão sempre recebendo – e nunca
                       prestando apoio. (p.225)


  Quanto aos currículos da escola inclusiva, Stainback e Stainback (1999)
argumentam que embora os objetivos educacionais básicos para todos os alunos
possam continuar sendo os mesmos, os específicos da aprendizagem curricular
podem ser individualizados para se adequarem às necessidades, habilidades,
interesses e competências singulares de cada aluno. Alertam para o fato de que
objetivos separados ou diferentes para um ou vários alunos pode conduzir a seu
isolamento ou segregação dentro da classe,               criar atividades, que abranjam as
diferentes capacidades dos alunos         e que, ao mesmo tempo, mantenham um
68



contexto de grupo com os membros da turma lidando com objetivos diferentes em
momentos diferentes, pode ajudar a superar esse problema potencial.


   As dificuldades que muitos professores encontram para organizar e adaptar um
currículo de educação geral que satisfaça às necessidades de todos os alunos
podem - e devem, segundo Stainback e Stainback (1999), ser resolvidas, através
de reuniões para pensar e apresentar sugestões para o trabalho com uma
determinada criança. As reuniões devem acontecer com a equipe de professores,
pais, alunos da classe, diretores, terapeutas ocupacional e fisioterapeuta,
especialistas em comunicação, psicólogo, educadores, etc. Embora pareça estranho,
a primeira vista, que alunos participem de reuniões decisórias com profissionais, na
realidade, “o envolvimento dos alunos em sua próprias experiências de
aprendizagem e no planejamento e na implementação de aprendizagem intencionais
e significativas para seus colegas é considerado fundamental para as turmas
inclusivas.” (p.245)


     Os alunos podem, além de propor atividades, reunir, organizar e implementar
qualquer ajuda que um colega precise. Numa observação que os autores fizeram de
um Círculo de Amigos, que nos fins de semana reunia materiais e organizava
atividades curriculares de sala de aula para um colega, e também para ajudar o
professor da turma a implementar a atividade, o faziam       sem prejuízo do seus
próprios objetivos educacionais. Inclusive tais alunos deram-se conta de que ajudar
alguém na sua aprendizagem era uma valiosa experiência de aprendizagem para si
mesmos. Não viam nisso um desvio de atenção dos seus estudos e nem perda de
tempo. “ Na verdade, muitos relataram que, pela primeira vez, tiveram uma razão
real para aprender totalmente a matéria que estavam estudando na aula e,como
resultado,conseguiram notas melhores.     Um dos alunos disse: ‘eu descobri que
quando a gente ajuda outra pessoa, em geral acaba ajudando é a gente mesmo.’ ”
Stainback e Stainback (1999, p. 246).


   Romeu Sassaki (1998) traz algumas contribuições bastante significativas a
respeito de atitudes fundamentais para uma educação inclusiva. Todo educador
comprometido com a filosofia da inclusão deve, além de acreditar que todos os
69



educandos conseguem desenvolver habilidades básicas:a) interessar-se mais por
aquilo que o aluno deseja aprender do que nos rótulos que lhe atribuem;respeitar o
potencial de cada aprendiz, aceitando todos de forma igual; b)adotar uma
abordagem que propicie ajuda na solução de problemas e dificuldades; c)estimular
os educandos a direcionarem seu aprendizado de modo a aumentar sua
autoconfiança a participar mais plenamente na sociedade, a usar mais o seu poder
pessoal e a desafiar a sociedade para a mudança; d)acreditar nos educandos e em
sua capacidade de aprender; querer primeiro conhecer seus alunos, para aumentar
a sua autoconfiança; crer que as metas podem ser estabelecidas e que, para atingi-
las, pequenos passos podem ser úteis; defender o princípio de que todas as pessoas
devem ser incluídas em escolas comuns da comunidade;e) saber – e acrescente-se
exigir – que a escola precisa prover suportes (acessibilidade arquitetônica, atendente
pessoais, profissionais de ajuda, horários flexíveis (etc.), a fim de incluir todos os
alunos; f) estar preparado para indicar recursos adequados a cada necessidade dos
alunos, tais como livros, entidades, aparelhos; g)saber que a aprendizagem deve
estar baseada nas metas do aluno e que cada aluno será capaz de escolher
métodos e materiais para aprender as lições; h) ter conhecimento de que nos
programas de alfabetização:
             as histórias, as redações, os temas de estudo precisam ter relação com
             as vivências do grupo de alunos e com assuntos que eles conheçam;
             possibilitar a alfabetização assistida por computador;
             possuir material disponível no cotidiano do público;
             deve-se proceder leitura pareada, usando livros convencionais e livros
             falados;
             fazer debates após atividades extras-classes;
             elaborar coleção de histórias de vida dos próprios alunos;
             deve-se fazer uso do quadro-verde para escrever textos em grupo;
             utilizar colagem com recortes de revistas, entre outros;


     Sassaki (1998) recomenda a adoção da abordagem centrada–no-aluno , com a
finalidade de ajudar os estudantes a desenvolverem habilidades para o uso de poder
pessoal no processo de mudança na sociedade.Todos esses pressupostos
apontados pelo autor, estão muito longe da realidade das escolas e do ensino
70



brasileiro. Mas são, sem dúvidas,        muito úteis ao atual momento de reforma
educacional. Poderão sofrer adaptações para o sistema educacional brasileiro que
vem lentamente, e com muita dificuldade,       implantando a inclusão. Servem no
mínimo como fonte de pesquisa, subsídios para espelhamento, para que se planeje,
do Iapoque ao Chuí a Escola inclusiva.


   Na mesma obra, Sassaki (1998), afirma que o envolvimento das famílias nas
práticas inclusivas da escola só de efetiva realmente se: existe, entre a escola e a
família, um sistema de comunicação (caderneta,via telefone,etc.) com o qual ambas
as partes concordam; os pais participam ativamente das reuniões da equipe escolar,
para planejarem e adaptarem o currículo e compartilhar os sucessos alcançados; as
prioridades da família são utilizadas como uma base para o preenchimento do Plano
Individualizado de Educação (PIE) do seu filho, onde serão acrescentados o
conteúdo curricular; os pais recebem todas as informações ( os direitos dos pais,
práticas educativas atuais, planejamento centrado-na-pessoa, notícias da escola,
etc.); os pais recebem ou têm acesso a treinamento relevante, sendo incluídos no
treinamento com a equipe escolar; os pais recebem informações sobre os serviços
de apoio à família; existem à disposição de membros das famílias serviços de apoio
na própria escola (acompanhamento e grupos de apoio, informações sobre
deficiências, etc.); os pais são estimulados a participarem de todos os aspectos
operacionais da escola (voluntários para salas de aula, membros do Conselho da
Escola, membros dos CPMs, treinadores, etc.); existem recursos para as NE de
família (reuniões após o horário comercial, intérpretes da língua de sinais, material
traduzidos, etc.); e a escola respeita a cultura e a etnicidade das famílias e
reconhece o impacto desses aspectos sobre as práticas educativas.


   Passando-se os olhos por estas recomendações, percebe-se claramente que o
Sistema Educacional Brasileiro necessita arregimentar-se em termos materiais,
técnicos, arquitetônicos, de habilitação,   capacitação e atualização de pessoal e
serviços a serem, colocados à disposição das escolas para que a inclusão possa
acontecer realmente e não fique apenas nas leis. Enquanto isso assiste-se,
diariamente, nos MCM denúncias de que algumas escolas regulares negam-se a
matricular deficientes, mas, as matérias mostram somente as leis que deixam de ser
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cumpridas e aconselham aos pais a entrarem na justiça para exigir seus direitos, a
coisa vai muito mal... Se esses mesmos MCM fizessem reportagens imparciais e
mais consistentes, explicando o que é necessário para que uma escola seja
realmente   considerada    inclusiva    e   ajudassem   aos   professores,   diretores,
funcionários, pais e aos próprios alunos - e a sociedade como um todo - a cobrar
dos governos, em todos os seus níveis, as condições, mínimas que fossem, de
execução da prática inclusiva, a coisa andaria mais rápido, por certo. Se esses
MCM não ficassem apenas julgando, a título de denúncia, mas mostrando a triste
realidade das escolas, estas deixariam de ser bodes expiatórios ....


   Sassuki (1998) reúne ainda onze características essenciais para que uma escola
seja considerada inclusiva. São elas:


      Um senso de pertencer : demonstrado pela filosofia, pela visão da escola de
      que todas as crianças pertencem efetivamente à escola e a comunidade e
      que nela todos podem aprender juntos.
      Liderança: o diretor não fica preso no gabinete, em meio a burocracia, mas
      envolve-se ativamente com toda a escola no provimento de estratégias.
      Padrão de Excelência: os altos resultados educacionais refletem as
      necessidades individuais dos alunos.
      Colaboração e cooperação: os alunos envolvem-se em estratégias de apoio
      mútuo (ensino de iguais, sistema de companheiro, aprendizado cooperativo,
      ensino em equipe, co-ensino, equipe de assistência aluno-professor, etc.).
      Novos papéis e responsabilidades: os professores falam menos e
      assessoram mais, psicólogos atuam mais junto aos professores nas salas de
      aula, todo o pessoal da escola faz parte do processo de aprendizagem.
      Parceria com os pais: os pais são parceiros igualmente essenciais na
      educação de seus filhos.
      Acessibilidade: todos os ambientes físicos são tornados acessíveis e quando
      necessário, é oferecido tecnologia assistiva.
      Ambientes flexíveis de aprendizagem: espera-se que os alunos se
      promovam de acordo como estilo e ritmo individual de aprendizagem e não de
      uma única maneira para todos.
72



      Estratégias em pesquisas: aprendizado cooperativo, adaptação curricular,
      ensino de iguais, instrução direta, ensino recíproco, treinamento em
      habilidades sociais, instrução assistida por computador, treinamento em
      habilidades de estudar,etc.
      Novas formas de avaliação escolar: dependendo cada vez menos de testes
      padronizados, a escola usa novas formas para avaliar o progresso de cada
      aluno, rumo aos respectivos objetivos.
      Desenvolvimento profissional continuado: aos professores são oferecidos
      cursos de aperfeiçoamento contínuo,visando a melhoria de seu conhecimento
      e habilidades para melhor educar seus alunos.


   Infelizmente pobreza e mau-aproveitamento na escola são diretamente
proporcionais. A maioria das crianças que são menos capazes academicamente são
também aquelas que vivem nas áreas em desvantagens sociais e econômicas.As
escolas homogeneizadoras, que foram criadas para alguns e não para todos os
alunos incondicionalmente, ainda que se intitulem centros de excelência, estão com
seus dias contados, felizmente. Como refere Mantoan, no prefácio de Mittler (2003):


                           O que se espera da escola é que seus planos sejam definidos por
                       uma educação para a cidadania global, livre de preconceitos, a qual se
                       dispõe a reconhecer e a valorizar as diferenças, a incompletude, e
                       singularidades dos seres humanos, idéias essenciais para se entender a
                       inclusão.Esses planos requerem o desenvolvimento do espírito de
                       solidariedade,fraternidade, cooperação e coletividade, sendo contrário ao
                       que é regulado pelas escolas ditas “de excelência.”
                                                                 Mantoan in Mittler (2003, p. x).




   O que acontece nas escolas no mundo todo é reflexo de cada sociedade onde
elas funcionam. Valores, crenças,tabus, preconceitos e as prioridades da sociedade,
transpõem os portões da escola indo se instalar nos seus sistemas educacionais. E
no Brasil,onde uma cifra escandalosa de crianças está fora da escola porque nunca
a freqüentou – pelos mais torpes motivos que este trabalho vem detalhando – e que
deveria envergonhar qualquer governo em todos os seus níveis – ou porque dela se
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evadiu, por motivos que deveriam fazer corar muitos professores, a coisa não é
diferentes. Parafraseando Mittler pergunta-se: será que o mundo – e em especial o
Brasil – pode pagar o preço de não educar suas crianças? Respondendo não e
argumentando com Bennelt (1999), citado por Mittler, na obra referida, considera-se
que:


                          A primeira infância deve ser concebida não como apenas um período
                       em que as crianças necessitam individualmente de certas condições no
                       âmbito da saúde, da educação e do bem-estar, mas como um período
                       protegido que deve receber o melhor que a sociedade é capaz de
                       oferecer. Este é um período especial, em que as crianças precisam
                       experenciar felicidade e bem-estar, em que elas podem desenvolver-se
                       autonomamente, mas em relação às necessidades e aos direitos das
                       outras crianças e dos adultos; em que lhes é permitido ter suas
                       experiências educacionais, culturais e sociais no seu próprio passo, na
                       sociedade em que vivem.
                                                            Bennelt apud Mittler (2003, p.57 ).



   Ratificando a idéia da importância da boa educação para todas as crianças deste
planeta, desde a mais tenra infância, com a licença poética da poeta chilena
Gabrielle Mistral , com seus versos comoventes:


                    Nós somos culpados de muitos erros e de muitas faltas,
                    Mas nosso maior crime é abandonar as crianças,
                    Negligenciando a fonte da vida.
                    Muitas coisas de que nós precisamos podem esperar:
                    A criança não pode.
                    Exatamente agora é o tempo em que os seus ossos estão sendo formados,
                    Seu sangue está sendo feito e seus sentidos estão sendo desenvolvidos.
                    Para elas,não podemos responder “amanhã”.
                    Seu nome é Hoje.
                                                      Gabrielle Mistral, in Mittler (2003, p.40 ).



  Mittler (2003) acredita, e a autora deste trabalho concorda plenamente, que:
       Salamanca foi significativa porque esclareceu a filosofia e a prática da
       inclusão e resultou em um compromisso da maioria dos governos para
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trabalhar pela educação inclusiva.
Salamanca foi importante porque ofereceu um fórum para discussão e trocas
de idéias e de experiências sobre como o desafio estava sendo enfrentado
em várias partes do mundo.
Salamanca foi bem sucedida em lembrar aos governos que as crianças
portadoras de deficiência devem ser incluídas na agenda da educação para
todos e oferecer um fórum para discussão e trocas de idéias e de
experiências sobre como o desafio estava sendo enfrentado em várias partes
do mundo.
Salamanca teve envergadura porque cerca de 125 milhões de crianças nunca
freqüentaram a escola e 150 milhões iniciaram o processo de escolarização,
mas a abandonaram antes que pudessem ler e escrever, sendo dois terços
delas meninas. Isso considerando-se somente as crianças entre 6 e 7 anos,
na Europa e na América do Norte.
Salamanca precisava existir porque em 16 países na África, responsáveis por
mais da metade das crianças do continente africano, os índices de matrículas
nas escolas de crianças entre 6 e 11 anos caíram. Consideram-se que essa
região é responsável por um terço de crianças do mundo que estão fora da
escola e que a tendência indica que em 2015 aumentará para três quartos.
Salamanca precisava acontecer porque o maior grupo de crianças às quais
estava sendo negado o direito à educação é constituído por aquelas com
dificuldades de aprendizagem e com deficiências. São as crianças que vivem
nas ruas ou que são obrigadas a trabalhar, em condições, muitas vezes,
estarrecedoras. São crianças que são vítimas das guerras, são crianças
doentes, são crianças vítimas de abusos. Mais as que vivem em comunidades
longínquas e nômades. São crianças portadoras de deficiência ou com altas
habilidades. São crianças de outros grupos sociais em desvantagens e grupos
sociais marginalizados.
Salamanca foi esclarecedora porque a pobreza não é a única explicação para
esse infanticídio intelectual. Alguns países pobres, de fato, investem em
educação, como é o caso de       Cuba, Sri Lanka, Vietnã, China, Indonésia,
Zimbaue. O governo de Uganda está implementando uma política de que
quatro crianças em cada família terão acesso à educação fundamental
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      gratuita, ao mesmo temo em que crianças portadoras de deficiência tem
      preferência nessa modalidade. Isso fez com que as escolas de Uganda, nos
      dois últimos anos [2001 – 2002] duplicassem o número de estudantes.


   O processo de exclusão educacional começa quando as crianças não entendem
o que um professor está dizendo ou o que se espera que elas façam. E isso é
comum, mesmo quando elas estão atentas e ansiosas para aprenderem. Sempre
haverá algumas delas para quem a matéria ou a tarefa parece muito complicada, até
mesmo quando os professores a explicam de forma diferente e a tornam mais
simples. Nesse clima, não é raro que crianças que passam por tais dificuldades
decidem que a falha se encontra nelas e não na escola, no currículo ou no professor
que não está planejando as suas aulas de forma acessível a todas as crianças da
classe.


   Conforme Mittler (2003) a fórmula para romper este círculo vicioso é tentar-se
prevenir a dificuldade de aprendizagem. Antes mesmo que elas surjam, o professor
deve planejar um currículo acessível em um ensino planejado de tal forma que fique
assegurado um modo de garantir uma aprendizagem efetiva, caso contrário:


                          As crianças que se sentem educacionalmente excluídas têm maior
                      probabilidade de se sentirem socialmente isoladas. Elas podem
                      experimentar ainda não apenas a perda de confiança em si próprias
                      como estudantes, mas também como indivíduos. Isso pode ser
                      disfarçado pelo comportamento provocativo, o que, por sua vez, pode
                      ativar medidas punitivas da escola ou dos colegas - esse fato pode isolar
                       ainda mais o aluno, talvez até o ponto de ser excluído.
                                                                          Mittler (2003, p. 140).


   O autor defende um currículo escolar acessível que proporcione para todos os
alunos, sem exceção, oportunidades de participar totalmente das atividades e para
experenciar o sucesso, sendo um fundamento essencial da inclusão. Da mesma
forma cobra que todos as escolas e as comunidades tenham sistemas de apoio mais
qualificados para aqueles alunos que experimentam algum tipo de dificuldade em
qualquer momento de sua escolarização. Alerta que muitos dos obstáculos
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encontrados por estes alunos, com as ditas dificuldades de aprendizagem, muitas
vezes originadas da natureza elitista tradicional dos sistemas de ensino, que
possibilitam sucesso para alguns, enquanto exclui muitos outros.


                           Esses legados estão bastante arraigados em nossas escolas e na
                       sociedade.[...] muitas crianças não foram atingidas pelo que as escolas têm a
                       oferecer.. As aulas podem ser ministradas em um nível muito alto, as crianças
                       não podem entender o que é requerido delas e o idioma de instrução pode criar
                       obstáculos adicionais para a compreensão e para a participação. Outro obstáculo
                       principal à inclusão, assenta-se na prática de exames, na avaliação e na
                       classificação de crianças, prática esta que herdam de gerações anteriores e que
                       tem sido tradicionalmente usada para separar umas crianças de outras. Não
                       podemos esperar atingir um currículo mais inclusivo ou escolas mais inclusivas a
                       menos que também empreendamos uma revisão fundamental do sistema de
                       avaliação e seu impacto na vida das crianças e de sua família.
                                                                          Mittler (2003, pp. 158 – 159).


   Ninguém pode ser excluído de ser capacitado para a inclusão, defende Mittler
(2003) que diz que todos têm algo a aprender sobre ela. Durante a sua jornada, o
autor aposta que os professores vão construir e ampliar suas habilidades, encima
das experiências que já possuem, com a finalidade de atender as necessidades de
aprendizagem de todas as crianças. Além de criarem oportunidades para a sua
própria capacitação, eles precisam de oportunidades para refletirem sobre as
propostas de mudança que mexem com seus valores e com suas convicções e
ainda com as mudanças em sua prática profissional cotidiana.Por isso, quaisquer
dúvidas ou reservas que apresentem neste momento de implantação da inclusão,
não devem ser consideradas reacionárias ou anuladas, pois o momento é de
mudança e isso perturba as pessoas. Mas é otimista dizendo que a maioria dos
professores já possuem muito do conhecimento, habilidades e competência
requeridas para a educação inclusiva, o que lhes falta é confiança em seus atributos


  Mas mesmo assim, assegurar aos profissionais recentemente qualificados uma
compreensão básica do ensino inclusivo e de escolas inclusivas é o                             melhor
investimento que pode ser feito a longo prazo, pois sobre estes alicerces se
asseguram uma boa prática, que espera-se as novas gerações venham a ter.
77



   Quando se fala que numa escola inclusiva contar com a parceria dos pais é algo
imprescindível, não se está falando somente dos pais de crianças deficientes, mas
dos pais de toda e qualquer criança, refere o autor. As relações entre a família e a
escola precisam ser repensadas, precisa-se inventar novos modos de trazer-se os
pais e os professores para um relação de trabalho,o que não é só válido para a
causa da inclusão, mas beneficia a todas as crianças, os pais e os professores,
assegura Mittler(2003). Além de uma relação mais estreita e saudável, essa nova
maneira de se relacionar pode provocar um impacto sobre a aprendizagem das
crianças e promover a inclusão social, assim como a inclusão escolar, sobretudo dos
excluídos. Nas suas palavras:


                           Apesar de todas as belas palavras acerca do trabalho como os pais,
                        ainda há uma cortina aveludada entre o lar e a escola. Os professores e
                        os pais podem ser amigáveis, úteis, corteses mutuamente, mas há uma
                        tensão subjacente inevitável que surge a partir do desequilíbrio de poder
                        entre eles. Muitos pais sentem-se apreensivos e ansiosos quanto a irem
                        às escolas, porque carregam consigo suas próprias histórias de
                        experiências como os professores e com a escolarização.
                                                                           Mittler (2003, p. 206).



Apesar das escolas terem mudado, a maioria dos pais tem pouca experiência sobre
essas mudanças, estima o autor, que diz que a expressão “vínculos com a
comunidade” são freqüentemente pensados em termos de parcerias econômicas,
em vez de serem pensados em termos de parcerias com os pais. Além disto, alerta
que, necessariamente, a ausência dos pais nas reuniões não são sinônimo de
desinteresse pela educação de suas crianças. São juízos mal formulados a esse
respeito, já que os cursos universitários não tocam nesse assunto. A maioria dos
professores não tiveram oportunidades para freqüentar capacitações sobre as
necessidades de pais e famílias e como eles poderiam trabalhar juntos. Quantos
tiveram a oportunidade para escutar os pais que falam sobre as suas necessidades
e percepções, pergunta-se o autor. Algum curso ou disciplina referente a educação
infantil talvez tenha tocado por cima no assunto...


     Mittler(2003) cita diversos indicadores da publicação EARLY LEARNING
78



GOALS (QCA e DfEE, 1999),que parecem relevantes e úteis para tornar os pais
parceiros da Escola e dos professores, que servem para qualquer faixa etária, dos
quais seguem abaixo alguns discriminados :


         Pais e mães são os primeiros, os principais e os mais duradouros educadores de suas
         crianças. Quando pais e profissionais trabalham juntos durante a infância, os resultados
         têm um impacto positivo no desenvolvimento da criança e na sua aprendizagem. Então,
         cada etapa do desenvolvimento deve buscar uma parceria efetiva com o os pais. Uma
         parceria bem sucedida precisa de um fluxo de informação, de conhecimento e de perícia
         de duas direções. Há muitos modos de alcançar a parceria, mas as que se seguem são
         característica comuns de uma prática efetiva:
                             todos os pais devem sentir-se bem-vindos, estimados e úteis de uma
                             gama de oportunidades diferentes para colaboração entre as
                            crianças,os professores e os profissionais nas escolas;
                            o conhecimento e as especializações dos pais e de outros adultos na
                             família são usados para apoiar as oportunidades de aprendizagem
                             oferecidas pelo contexto;
                             os professores e os profissionais nas escolas usam uma variedade
                             de meios para manter os pais completamente informados sobre o
                             currículo, como panfletos, exibições, vídeos que estão disponíveis em
                             línguas usadas nos lares da família e discussão informal;
                             os pais, os   professores e os profissionais nas escolas falam e
                             registram informações sobre o progresso e as aquisições da criança,
                             por exemplo, fazendo reuniões ou elaborando um livro sobre a
                             criança;
                             as atividades de aprendizagem relevantes e as atividades de jogo,
                             como compartilhar e ler livros, são continuadas em casa. Da mesma
                             forma, experiências em casa são usadas para desenvolver a
                             aprendizagem no contexto , por exemplo, visitas e celebrações.
                             Os professores da área demonstram respeito e compreensão acerca
                             do papel do pai e da mãe na educação da sua criança;
                             A parte passada e futura desempenhada pelos pais na educação de
                             suas crianças é reconhecida e é explicitamente encorajada;
                             Os esquemas de adaptação são flexíveis e dão bastante tempo às
                             crianças para que se sintam seguras e aos profissionais da área e
                             aos pais para que discutam as circunstâncias de cada criança, os
                             interesses, as competências e as necessidades dela.
                                                                     Mittler (2003 pp. 210 – 211).
79



   Muitos professores não acreditam na parceria escola x pais, especialmente entre
os mais pobres, os com menos escolarização e os analfabetos. Pesquisas, no
entanto, comprovam que pais inseridos nestas características estão igualmente
interessados em ajudar às suas crianças, como quaisquer outras famílias. Como
afirma Mittler (2003): “eles cooperam prontamente e consistentemente, uma vez que
sejam convencidos de que a escola ou um projeto particular estão comprometidos
com o apoio às suas crianças para eles aprenderem genuinamente e por meio da
educação, escapar da pobreza para uma vida melhor.” (p. 211).


   O autor explica que uma verdadeira parceria, como em qualquer relação próxima,
implica em respeito mútuo, em vontade para aprender um como o outro, uma
finalidade comum, que no caso são as crianças. Um compartilhamento de
informações e de sentimentos, uma confiança mútua podem quebrar barreiras até
então existentes, visando o crescimento do aprendiz. Muitos pais não se sentem
bem-vindos na escola, muitas vezes sentem-se ignorados ou humilhados. Há
esperança. Nas palavras do autor:


                         Nenhuma escola é uma ilha e            nenhuma escola pode ter
                      sucesso sem desenvolver redes de parcerias com sua comunidade local,
                      com pais de alunos passados, presentes e futuros, com outras escolas e
                      outras agências. Em países em desenvolvimento e em algumas
                      comunidades rurais, a escola está no coração da comunidade. Os adultos
                      aprendem ao lado de e com as suas crianças ;os edifícios escolares
                      estão em uso contínuo; o pessoal da escola é estimado pelo seu
                      conhecimento e pela sua experiência, assim como pelo seu papel-chave
                      na ajuda das crianças da comunidade a aprender e a se desenvolver.
                                                                 Mittler (2003, pp.237 – 238).
80




      A escola ideal deveria estar intimamente ligada à cidade e não
rejeitada para fora das comunicações habituais do povo. Ligada, mas à
parte. Da mesma forma que os hipermercados estão ligados e à parte.
    Ainda é concebível que não se reserve para a escola um lugar de
                                           para
muito verde, árvores e água? O cimento segrega e é frio. As árvores e a
água hoje são as raízes indispensáveis para quem vive com o tempo
parcelado e à velocidade da eletricidade.
                 Pierre Babin e Marie-France Kouloumdjian(1989, p.150).
                                          ce
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1. 3 Uma escola regular de especial qualidade para todos ou a escola cidadã
     que sonhamos construir.


   Carvalho (2003) ao pensar a escola ideal, a escola inclusiva, refere que a
grande massa brasileira de excluídos, da escola tradicional e da própria sociedade –
tais quais os meninos e meninas de rua, as crianças e adolescentes que trabalham,
os doentes crônicos de todas as idades, os encarcerados, os analfabetos, as
populações do campo e as nômades, os pobres ou miseráveis, as prostitutas, às
vezes de tenra idade e outros que – quando são lembrados, o são através de
medidas de cunho protecionistas e não emancipatório, por representarem “risco” à
sociedade.   Medidas      essas   que    acabam     funcionando      como     mecanismos
estigmatizantes, geradores de segregação.


   Num país onde 10% dos mais ricos concentram cerca de 45% da renda nacional,
e onde 10% dos mais pobres, não chegam a concentrar 1% desta renda, segundo
dados do IBGE de 1997, citados por Carvalho (2003), os excluídos do acesso e
usufruto dos bens e serviços historicamente acumulados são numerosos. Esta
exclusão tem gerado efeitos danosos, alguns irrecuperáveis, nessa população que
deveria estar na escola. A perda da auto-estima e da identidade, por exemplo, os
sentimentos de menos-valia, que intensificam os             comportamentos de apatia
acomodação ou, ao contrário, reações violentas de revoltas são costumeiros. Como
afirma Caraggio (1996):


                           [...] a mesma sociedade que cria e mantém mecanismos de exclusão,
82


                   desenvolve políticas assistencialistas que, por seu caráter instrumental, não
                   resolvem a natureza reprodutiva dos problemas cujos efeitos pretendem
                   compensar, cristalizando-se portanto, os padrões de exclusão e de
                   segregação.
                                               Caraggio (1996, apud CARVALHO, 2003, p. 89).




   Nesse cenário desolador, são óbvios os reflexos dessas condições no sistema
educacional. A escolha do tipo de educação para os filhos – quando esses estudam,
diga-se de passagem – se pública ou privada (essa via de regra sempre melhor
organizada), tanto para os deficientes, quanto para os ditos normais, não passa de
uma balela.


   Nem todos os municípios dispõem de atendimento educacional para alunos com
deficiências e,   quando possuem, não há ofertas equitativas para todas as
manifestações de deficiência – mental, física, sensorial ou múltiplas e para condutas
típicas de síndromes psiquiátricas, neurológicas ou quadros psicológicos graves. As
sociedade civil organizada em Órgãos Não-Governamentais, ONGs, geralmente são
especializadas num tipo específico de deficiência e onde as crianças mais pobres
não encontram “vagas”. Por isso, afirmar que apenas os deficientes estão excluídos
das oportunidades de se apropriarem do saber e do saber fazer nas escolas
brasileiras, trata-se de um enorme equívoco.


   As conferências mundiais de Jontien, 1990, na Tailândia e de Salamanca, 1994,
na Espanha, são bem claras. Alertam para a propriedade que as políticas
educacionais devem conferir aos grupos mais desfavorecidos e vulnerabilizados
pelas condições de pobreza, aos analfabetos maiores de 15 anos, às populações
rurais, às minorias étnicas, religiosas e de migrantes, aos menores de 6 anos, aos
alunos com dificuldades de aprendizagem e aos portadores de deficiência. Faz-se
necessário que esse mal entendido sobre os sujeitos da inclusão – ou seja , os
excluídos de todos os gêneros e latitudes – se desvaneça. Como esclarece Carvalho
(2003):


                          Podem ser identificados duas situações de exclusão: 1) a criança
83


                      nunca esteve na escola e 2) a criança já freqüentou a escola e se evadiu.
                      No primeiro caso, a falta de acesso a, e ingresso na escola pode-se explicar
                      por: má distribuição geográfica de oferta existente; insuficiência de vagas [...]
                      Quanto à evasão, tem causas bem mais difusas, embora normalmente esteja
                      associada ao fracasso escolar. O aluno abandona a escola após repetir a
                      mesma série por vários anos e, se retorna, além da distorção idade/série
                      ,enfrenta como enorme obstáculo seu sentimento de auto-estima negativa...
                                                                            Carvalho (2003, p. 133).


   Ao discorrer sobre a complexidade do fracasso escolar brasileiro, Carvalho, na
obra citada,    diz que os alunos “preferencialmente” excluídos do sistema de
educação oriundos das camadas desfavorecidas economicamente são os                                 que
vivem em bolsões de miséria no Nordeste e na periferia dos centros urbanos, além
dos que apresentam distúrbios de aprendizagem, sendo ou não portadores de
alguma deficiência.


   Diante desta situação desastrosa em que se encontra a educação brasileira,
Carvalho (2003) sugere que se pense num sistema inclusivo progressivamente mais
justo, pressupondo a superação de inúmeras obstáculos, tais como : a extrema
pobreza da população de muitas regiões brasileiras; os baixos índices de
escolarização, decorrentes de inúmeras causas, como a má qualidade da educação
oferecida; a insatisfatória valorização do magistério, envolvendo os baixos salários,
as péssimas condições de trabalho, a formação inicial e continuada; os mecanismos
de gestão, nos níveis macro e micro; a insuficiente articulação horizontal e vertical
entre órgãos do governo e a sociedade civil; a escassez de recursos humanos,
materiais e financeiros .


   Todos os problemas apontados acima são bastante graves, mas, na área
pedagógica – que focaliza a temática principal deste trabalho e na qual pretende-se
prestar uma colaboração, em nível de formação e atualização de professores, com
relação ao incremento do uso do vídeo como ferramenta pedagógica de inclusão – o
que mais preocupa nesse momento, é a formação inicial dos professores, que
precisa ser repensada, tanto em nível de 2º Grau, como em nível superior, para que
se encontre soluções compatíveis com a urgente necessidade de melhorar as
respostas educativas das escolas brasileiras. A formação dos educadores deve ser
84



rica bastante para permitir:

                               [...] uma   aguda consciência da realidade em que irá atuar, uma
                        fundamentação teórica que permite uma ação coerente, além de uma
                        satisfatória instrumentação técnica que lhe possibilite uma ação eficaz [...]
                                                  Mazzotta (1993, apud CARVALHO, 2003, p. 163).


   As grades curriculares dos cursos de formação de magistério tem gerado muitas
polêmicas. Carvalho (2003) é da opinião que se eleve a capacidade crítica de todos
os professores – já que além de pedagógico, o ato educativo é eminentemente
político – para que percebam que a escola como instituição social está inserida em
contextos de injustiças e de desigualdades que precisam ser modificadas. Para que
estejam instrumentalizados a promoverem a educação com o sentido de formação e
não como transmissão de conhecimento apenas.


   É sabido de todos que a relação entre a habilitação acadêmica e o cotidiano das
escolas está dissociada. A carga horária dos estágios também é outro problema, é
ínfima, especialmente se comparada a outras formações, como a de psicólogo e de
jornalista, por exemplo. As universidades não incentivam a formação do professor-
pesquisador, o que seria muito valioso para a educação, como um todo. Como refere
Carvalho, na obra citada, a educação inclusiva precisa ter alta qualidade e estar
disponível a todos os cidadãos-alunos.


                           Todo professor, como professor de aprendizagem que é, deve ser
                    especialista no aluno, enquanto ser que evolui que constrói conhecimentos,
                    que tem sentimentos e desejos e que traz para a escola sua bagagem de
                    experiências de vida e de informações.
                                                                           Carvalho (2003, p. 168).


   A educação de quaisquer alunos deve ter como objetivo sua formação como
pessoas capazes de pensar e de agir, capazes de exercitar, plenamente, sua
cidadania. Isso requer do professor, além de habilidades e criatividade para
transmitir um saber crítico, uma enorme curiosidade ligada a interesses acadêmicos.
Para Carvalho (2003), isto é condição sine qua non, para que a escola inclusiva dê
certo:
85




                            [...] temos uma longa trajetória e boas razões      para   unir nossos
                     esforços, discutir nossas idéias, buscando alternativas que nos permitam[...]
                     perspectivas mais otimistas em relação às respostas educativas de nossas
                     escolas para todos. Uma escola que permita ajustar o ensino às diferenças
                     individuais e que construa uma cultura de paz. E que a moldura de paz e de
                     temperança esteja presente em todas as nossas ações!”
                                                                   Carvalho (2003, pp. 168 e 172).


   Quando se fala em escola inclusiva, os professores da escola tradicional, ainda
presos às notas, insistem muito em saber como deve se processar a avaliação
nessa nova escola. Segundo Carvalho (2003) a avaliação não deve ficar restrita ao
costumeiro ato de aprovar ou reprovar o aluno, até porque ela constitui-se num
poderoso instrumento de acompanhamento e re-planejamento das ações levadas a
efeito no atendimento pedagógico escolar. O processo deve servir para avaliar a
tudo o que ocorre na sala de aula, o funcionamento da escola e, até mesmo o
sistema educativo.


                             “A participação da família é da maior relevância, principalmente
                         quando se trata da avaliação do aluno com vistas à remoção de barreiras
                         para a sua aprendizagem ou, quando for o caso, para a indicação de
                         ajuda e apoio, na escola ou fora dela. Além do direito de participar do
                         processo decisório, a família tem muito a contribuir com esclarecimentos
                         e informações.” Carvalho (2003, p. 86).


    Carvalho (2003) diz que            embora o Brasil possua uma das leis mais
progressistas para a infância e adolescência, ainda está longe de garantir, de fato,
os direitos à educação de portadores                de deficiência. Além das barreiras
arquitetônicas e as dos meios de transportes, que não estão adaptados, há a
famigerada barreira atitudinal. E, o que é pior, entre os professores, inclusive! Há os
que temem a escola inclusiva, outros que a toleram e muitos que a rejeitam.


   Os que a temem, dizem que estão despreparados para lidar com dificuldades de
aprendizagem, principalmente de deficientes. Muito impregnados,                    ainda,    pelo
modelo médico, sugerem as ações de especialistas, supostamente os mais
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indicados, para atender alunos “com defeitos”.


   Os que     toleram, aceitam a presença do aluno, mais para cumprir ordens
superiores, provavelmente, pois deixam-no entregue à própria sorte, como refere
Carvalho, mais segregado do que se estivesse nas classes ou em uma escola
especial.


   E há os que rejeitam tais alunos em suas turmas. Dizem não terem sido
preparados em suas formações, estão desmotivados com os baixos salários que
recebem e, provavelmente, é o medo ancestral da deficiência em si, que os habita,
e lhes causa repulsa. E, quem for portador desse receio, realmente não está apto,
precisa tratar-se psicologicamente ou abandonar a profissão, afinal, Ana Freud já
dizia que os pedagogos precisariam passar por uma análise para trabalharem com
seus alunos passando pela relação de transferência própria, segundo Freud, do
processo de ensino-aprendizagem,sem problemas...


   Nas palavras de Carvalho (2003, p.77) : “O atípico incomoda, gera desconforto,
na medida em que pouco se sabe a respeito do porquê alguns são ‘mais diferentes’
do que seus pares e, em decorrência, o que fazer com eles em sala de aula? ”
Prevalecem, infelizmente, apenas os aspectos negativos - o que falta - que acabam
gerando atitudes de rejeição, que terminam por estigmatizar e excluir as crianças ou
jovens das escolas. Para Carvalho, esse tipo de barreira não são removidas através
de determinações superiores, pois dependem de reestruturações perceptivas e
afetivo-emocionais, que interferem nas predisposições de cada um, em relação a
alteridade.


   Parece claro que alguns professores nem “com banda de música” estarão
preparados para enfrentar a escola inclusiva. Parece lógico que esses devam
procurar outra profissão. Quanto aos futuros professores, acredita-se que ao
escolherem a carreira venham, se não preparados, para tal tipo de escola, afeitos à
idéia,pelos menos.


   Além do aprimoramento na formação inicial e continuada dos professores, há a
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necessidade – por parte dos governos, em todos os níveis – de criação de
numerosos espaços para o diálogo, seja através de cursos, seminários, palestras,
reuniões de educadores, grupos de estudos, nas escolas, nas universidades, etc.-
para que dúvidas, medos e a re-significação da prática pedagógica sejam
examinados e debatidos com profundidade. Como declara Carvalho (2003, p. 77):
“ parece que a apropriação de informações, as trocas de idéias, a verbalização dos
sentimentos, sem culpas, constituem ‘caminhos’ para as mudanças de atitudes.”,
espera-se, sinceramente, que sim.


   A Escola ideal, que se quer para os pequenos cidadãos que nela chegam e entre
seus muros desabrocham, deve levar em conta a diferença, propriedade inata e
característica de cada ser humano. Ela conta muito no trabalho pedagógico e, sob
sua luz, o educador pode atuar com probabilidade de maior êxito. Cada aluno é
único e como tal deve ser considerado e tratado. A partir da sua individualidade, do
seu mundo, com seus problemas e acertos, medos e avanços, sua cultura, com
criatividade, conforme Feltrin (2004, p. 17):     “dando uma de alfaiate, costurando
todas as teorias e mais a última, do aluno em pauta”, a Escola – e cada educador no
processo de ensino-aprendizagem, pode chegar a uma tentativa de solução para
cada questão a ser abordada, mais ou menos adequada


      Na opinião de Feltrin (2004), quando a sociedade lança em cima da escola e
do professor a culpa de todos os problemas sociais que o educando encontra dentro
da escola e na vida lá fora, não se dá conta de que conspiram contra o afazer diário
do processo de ensino-aprendizagem, muitos fatores. Entre eles: o sistema; a
sociedade excludente, as dificuldades econômicas - enquanto sujeito e enquanto
instituição - a falta de recursos e equipamentos didáticos, o desrespeito e a falta de
estímulo das autoridades para com a educação, em todos os níveis, os alunos
negligentes, desinteressados, arrogantes, a incompreensão de certos diretores –
alçados aos cargos , muitas vezes, apenas por uma política partidária, e não por
competência – a falta de colaboração da maioria dos pais, entre outros entraves.


                           A escola vai acumulando responsabilidades: ou é a culpada pela
                       crise familiar ou deve resolvê-la. Ou é culpada pela crise econômica ou
88


                       deve resolvê-la. Ou é culpada pela crise política ou deve solucioná-la. A
                       escola é responsável por praticamente tudo! Esse tipo de interpretação
                       desestrutura, desarma, desanima.
                                                    Gentili (1999, apud FELTRIN, 2004, p. 31).



   Verdade seja dita, sempre houve sérias dificuldades impostas aos docentes. A
dificuldade de formação acadêmica e as poucas chances que o profissional da
educação encontra em sua real necessidade de se atualizar. A incompetência dos
poderes públicos, aliada a grande diversidade cultural do país, com sua enorme
extensão territorial, somadas às dificuldades sócio-econômicas, e ao descaso e a
pouca valorização do trabalho do professor e da educação como investimento de
formação de um povo, tornam o trabalho do professor bem mais complexo. Diante
desses pressupostos, nem sempre – para não dizer quase sempre – é das mais
acolhedoras. Quando o trabalho é sério, é sempre intenso e exige a dedicação de
profissionais idealistas e sonhadores.


                           Diante dessa realidade, nossa atenção volta-se para o aluno
                       problema, com dificuldades de aprendizagem ou de relacionamento e
                       que, por isso mesmo, é rotulado como “mais diferente que os outros”,
                       incapacitado,   indisciplinado,   por   isso   mesmo,   é   tratado   com
                       desigualdade. [...] Incapaz! Diferente! E por isso, desigual e excluído,
                       real ou funcionalmente, do processo educativo!
                                                                           Feltrin (2004, p. 25).


   Na realidade, a escola assumindo a individualidade do aluno, valorizando as
diferenças ou singularidades, pode resolver, diminuir a intensidade ou, ainda, evitar
que se acentuem as dificuldades enfrentadas por alunos “comuns”, mas portadores
de NEE. Por uma série de presumidas incapacidades os alunos excluídos, não
portadores de deficiências, merecem e precisam de atenção dos professores e dos
demais profissionais da educação que compõem o quadro da escola, bem como dos
pais (seus e dos outros alunos) para auxiliarem na sua inclusão.


   Isso sem mencionar-se os que nem chegam a escola ou logo dela se evadem,
por vários motivos, tais quais as dificuldades de transporte, pouca cultura e vontade
dos pais, pela dificuldade de conseguir uma vaga próxima de casa, porque precisam
89



trabalhar para ajudar nas despesas de casa e, ainda tantos outros desalentadores
motivos ...


   Feltrin (2004) explica que, no trabalho direto com as crianças e adolescentes
carentes, oriundos de meio social desprovido das “leis” e costumes de uma
sociedade mais exigente, “civilizada”, destaca-se o “erro” presente em cada passo
que dão na escola. E, em meio a esse estado de ânimo, começam a se destacar os
mais e os menos favorecidos. As pequenas e as grandes diferenças, se não forem
convenientemente trabalhadas na escola, podem se transformar nas pequenas e
grandes desigualdades e oportunidades de êxito de aprendizagem cognitiva e social
na comunidade escolar. Surgem os primeiros obstáculos a uma convivência social
sadia.


    As escolas precisam ter serviços de atendimento – não segregativos – que
permitam aos alunos com NEE sentirem-se verdadeiramente incluídos no grupo, ao
verem resolvidas as suas dificuldades – pelo menos as escolares – e sentirem
também a alegria de poder contar com o próprio progresso e sucesso. Isso posto,
para que não aconteçam fatos semelhantes aos que serão narrados a seguir.


    Quando se pensa que vão longe os tempos de escrever mil vezes “Não devo
conversar em aula”, como castigo, ajoelhar-se em grãos de milho, as humilhações
públicas de fazer xixi nas calças porque o aluno não pode ir ao banheiro na hora da
aula, as notas baixas por pontos descontados pelo comportamento, ficar de pé,
encostado à parede, de costas para o grupo, as expulsões de aula e
encaminhamentos para a direção ou o dar a mão à palmatória, ou ao professor para
apanhar com ela, melhor dizendo ... Nem tudo foi visto ainda!


    Em pleno século XXI, num dos países mais promissores do globo terrestre, e
onde a educação é considerada de bom nível - inclusive, Inclusiva! - pasmem, nos
USA, um ato violento, vil, bárbaro, covarde – felizmente flagrado por uma câmera de
vídeo que teve suas imagens cedidas aos MCM de vários países, entre os quais o
Brasil – mostra a prisão de uma menina negra de 5 anos, por quatro policiais, saindo
da escola algemada, aos gritos,       por “mau comportamento” numa escola de
90



Educação Infantil... A reportagem explica que maus comportamentos na escola –
definidos por uma recente pesquisa norte-americana – são ações tais quais puxar os
cabelos de um coleguinha, mordidas, beliscões ... A pesquisa também acenou para
o dado que enquanto dois jovens, entre mil, são expulsos do Ensino Médio, nos
EUA, a cada ano, nas escolas de Educação Infantil são mais de duzentos a cada mil
alunos... O que estará havendo por lá? Espera-se que por aqui não se copie mais
este   modelo, como muitas coisas são de lá copiadas, inclusive em termos de
Educação... Esse fato, sem justificativa, foi veiculado em 18 de maio de 2005.


       Como esclarece Feltrin (2004):


                           Na vida social, uma pessoa pode ser levada a buscar mil subterfúgios
                    para burlar uma lei que passa longe de regular o funcionamento daquela
                    sociedade. Pois muitas leis não fazem outra coisa se não, tentar cercear os
                    indivíduos por todos os lados ou privilegiar os interesses de minorias. E o
                    adolescente costuma ter um pouco de dificuldade com as leis.[...] Os
                    detentores do poder ou os que se acham com tal autoridade sempre cobram
                    as transgressões à lei, uns com multas em dinheiro, outros com a prisão. Uns
                    com castigos “leves”, outros com a pena de morte.
                                                                    Feltrin (2004, pp. 48 – 49).




   Os adolescentes podem ser indisciplinados e até terem um certo orgulho em
transgredir as leis, o que muitas vezes pode lhes custar bem caro. Não precisa-se ir
longe – descrevendo ou destacando qualquer tipo de violência que assola o planeta
em todos os níveis,     sócio-econômico-cultural, para constatar-se a presença do
castigo na vida das crianças e jovens. As Febens             estão aí dando prova disso!
Argumento explícito em Focault:


                           Não se devia dizer que a alma é uma ilusão, ou um efeito ideológico,
                       mas afirmar que ela existe, que tem uma realidade, que é produzida
                       permanentemente, em torno, na superfície, no interior do corpo, pelo
                       funcionamento de um poder que se exerce sobre os que são punidos de
                       uma maneira geral,     sobre os que são vigiados, sobre os loucos, as
                       crianças, os escolares, os colonizados.
                                                        Foucault (apud FELTRIN, 2004, P. 52).
91




   Com o desenvolvimento do sistema educacional no século XX, quando a escola
tornou-se aberta e obrigatória para todos, a massificação do ensino trouxe no seu
bojo escolas despreparadas, que precisavam atender a uma multidão de alunos. A
escola tradicional objetivava então uma suposta igualdade de oportunidades para
todos os cidadãos, cuidando de todos os alunos como se eles fossem um só,
através de um ensino homogeneizante. Todos os alunos eram considerados iguais,
um tipo padrão: o aluno “médio”, “normal”.


   Tal ensino cresceu juntamente com um complicador: as diferenças e a
quantidade dos diferentes, que continuavam a ser ignorados. Testes de inteligência
passaram a medir as igualdades e as diferenças dos indivíduos. Os psicólogos nas
escolas e clínicas bem depressa tornaram-se fabricantes de rótulos para alunos que
apresentavam qualquer desajustamento escolar, conforme afirma David Rodrigues
(2001),citado por Feltrin(2004):


                           O certo é que, pensada para ser solução de um problema, essa
                        escola foi-se tornando parte do problema que tinha por objetivo resolver.
                        Criada para dar educação básica a todos e à qual todos deveriam ter
                        acesso, a escola tradicional desenvolveu práticas e valores que
                        progressivamente     acentuaram   as   diferenças   e   que   colocaram
                        precocemente fora da corrida da competência, largos extratos da
                        população escolar.
                                             David Rodrigues (2001,apud FELTRIN, 2004, P. 59).


   E, mesmo nos dias atuais, subsiste a idéia de que a diferença, a diversidade, não
existe. Tanto que prevalecem nas escolas – especialmente nas públicas – o fracasso
escolar, a repetência, a evasão, os problemas de indisciplina. Os famosos problemas
de aprendizagem, no dizer de Jussara Hoffman – em suas palestras – “problemas de
ensinagem”, isso sim! É necessário uma educação apropriada e de alta qualidade
para alunos com NEE ou não, numa escola inclusiva que disponha de recursos
materiais e humanos para o atendimento conveniente dos alunos que demandam
serviços.


   Infelizmente a grande preocupação de muitas escolas nos dias de hoje é preparar
92



os estudantes para a competição, ao invés de educá-los para a vida social, cultural,
econômica, política e espiritual. Ao invés de educar-se os alunos para exercerem
sua cidadania, desde os mais tenros anos de idade, para resolverem por si os
diversos desafios que enfrentam na escola onde estudam e na comunidade onde
residem, a função da escola têm-se constituído basicamente em permitir que os
melhores sobrevivam num mercado cada vez mais competitivo. É o que confirma
Feltrin (2004):


                            A escola forma o indivíduo para o mercado e a escola muda conforme
                     o mercado e a economia; muda conforme mudam as necessidades que
                     devem ser supridas no mercado. O mercado é que formula as necessidades
                     e as competências do sistema educacional.
                                                                          Feltrin (2004, p. 68).


  É necessário que se mude essa tendência de subordinar a educação ao mercado.
Mais do que uma mudança institucional, faz-se imperioso uma mudança natural.
“Não   está mudando apenas o currículo, não está mudando apenas a forma de
avaliação, não está mudando apenas a lei que regulamenta o funcionamento da
educação. Está mudando também a forma de pensar a educação [...] ” Pablo
Gentile, citado por Feltrin (2004, p. 68).


   O aluno aprende e desaprende na sociedade, que é importante na vida,
especialmente daquele que necessita de cuidados especiais. A escola é palco de mil
problemas sociais que       acabam estourando no seu interior. É importante portanto
que na escola se crie um ambiente no qual seja possível refletir sobre esses
problemas, refletir sobre a igualdade dos direitos, sobre uma moralidade solidária,
tolerante, respeitosa, baseada na justiça e na liberdade.


   O social intervém como um fator coadjuvante, secundário, na formação do sujeito.
Ele é inerente à constituição do indivíduo. Cultura e indivíduo se inter-relacionam
estreitamente,    segundo    a   visão    sócio-interacionista    de   Vygotsky.      O     seu
desenvolvimento é sempre mediado pelo outro, seja pessoa, objeto, acontecimento.
Enquanto o sujeito se apropria da cultura, esta se apropria dele, na medida que o
forma. A interação social tem muito importância no trabalho da escola: Conforme
93



Feltrin (2004):
                           Para Vgygotsky , a escola não pode esquecer-se , em seu processo
                       educativo, da educação que aconteceu e acontece na família, já que esta
                       assume importância e exerce impacto sobre a criança, embora essa
                       influência não seja única, determinante e irreversível. De fato, na escola a
                       criança vai encontrar um ambiente que lhe possibilita uma vivência social
                       diferente   daquela   da   família.   [...]   ao   conceituar    a   Zona    de
                       Desenvolvimento Proximal como ensina ou avaliação de habilidades e
                       sub-habilidades diferentes na aula, deve-se enfatizar a transferência de
                       conhecimento e, especialmente, de habilidades daqueles que sabem
                       mais para aqueles que sabem menos e vice-versa.
                                                                          Feltrin (2004, pp. 74 – 75.)


   O processo de ensino-aprendizagem precisa pois ser                      concebido como um
processo de comunicação, uma construção compartilhada, para além da
individualidade. O conhecimento precisa ser acessado via discussão, debate,
compreensão cooperativa, o que antes era sabido por uma pessoa precisa tornar-se
propriedade de duas ou de um grupo, se não por todos na turma. É importante que
se pratique o conceito de interação. A função do professor no grupo é a de
mediador, para que os alunos aprendam além dos conteúdos, as posturas sociais
consideradas corretas pela cultura. Os alunos têm o direito de conhecer e discutir as
intenções que geraram as regras e as possíveis punições. Como refere Feltrin
(2004):


                          [...] o papel mediador do professor é fundamental, como fundamental
                   é a busca de coerência entre sua conduta e a que se espera dos seus alunos.
                   Hoje, mesmo diante do imenso leque de “idéias” que o mundo e a mídia
                   oferecem, as    crianças aprendem e         vão fixando seu comportamentos
                   conforme os modelos que têm diante de si a todo o instante. O professor e a
                   professora acabam sendo um deles, tornam-se elementos propulsores do
                   desenvolvimento e da formação de comportamentos, especialmente dos que
                   precisam de uma atenção diferenciada.
                                                                                Feltrin (2004, p. 76).



   As atitudes educativas devem incluir o contexto político e social em que vivem os
alunos, na opinião de Feltrin(2004). A escola deve estar preparada para reconhecer
94



as diferentes necessidades de seu alunos e proporcionar um continuum de apoios e
serviços que respondam a essas atividades. Muitos docentes em exercício não
trabalham as competências ou atitudes que são requeridas numa perspectiva de
educação inclusiva e, por isso, a capacitação e a formação contínua revelam-se de
fundamental importância.


   A escola para caminhar rumo à verdadeira inclusão deve estar compromissada
com a mudança. Certos valores precisam ser revistos, normas, modelos de
aprendizagem, atitudes dos professores, relações inter-pessoais existentes,
expectativas, a participação dos pais e alunos, a inter-comunicação com todos os
elementos da comunidade educativa.


   Quando se fala em continuum, é necessário atentar-se para o conceito de que
cada aluno com alguma dificuldade de aprendizagem é único. Não se trata do
estabelecimento de critérios gerais de ensino para esses alunos com NEE, mas
compreender as necessidades, os sentimentos e as pontos de vista de cada um dos
alunos que estão inseridos no processo de ensino-aprendizagem. O professor deve
procurar conhecer as relações que os estudantes estabelecem nos períodos de
lazer, as atitudes que manifestam diante das colegas e as que os colegas têm em
relação a elas.


   A escola ideal tem professores que respeitam a interação de cada um com o seu
meio próprio e permitem um exercício do funcionamento cognitivo dentro de
situações reais do cotidiano, e não sobre situações clínicas artificiais ou conteúdos
dissociados da realidade deles, como assinala Araújo (1998):


                           Uma escola que propicie um ambiente cooperativo, pautado em
                       princípios de auto-regulações pessoais e coletivas, como um ambiente ‘
                       em que a pressão é reduzida o máximo possível e no qual se encontrem
                       as condições que engendram a cooperação, o respeito mútuo, as
                       atividades grupais que favorecem a reciprocidade [...] Também um lugar
                       onde seu membros têm a oportunidade constante, de fazer escolhas,
                       tomar decisões e expressar-se livremente.
                                                  Araújo (1998, apud FELTRIN, 2004, p. 108).
95




   Segundo Carvalho (2004), para que eleja-se uma escola inclusiva de qualidade,
verdadeiramente democrática, um espaço de exercício de cidadania, todos os
envolvidos com a educação devem lutar, especialmente: a)por melhores condições
de trabalho e de salário dos professores;b) por maiores investimentos na formação
dos professores; c) pela realização sistemática de avaliações do processo ensino-
aprendizagem, ao invés de estatísticas de desempenho dos sistema educacionais;
capacitação dos gestores com vistas à administração compartilhada; d) pela
constante reflexão de todos os educadores a cerca do sentido da educação num
mundo globalizado e em permanente mudança;e) pela educação na diversidade,
ampliando-se e aprimorando-se as oportunidades de aprendizagem por toda a vida;
f) por constantes relações dialógicas entre professores dentro das escolas e entre
escolas; g) para que o direito à educação seja entendida como um bem essencial
que deve ser extensivo a todos.


                           [Afinal:] A proposta da educação inclusiva traduz uma aspiração
                        antiga, se devidamente compreendida como educação de boa qualidade
                        para todos e com todos, buscando-se meios e modos de remover as
                        barreiras para a aprendizagem e para a participação dos aprendizes.
                                                                      Carvalho (2004, p. 64).



   Mantoan (2003) também aponta uma série de mudanças pelas quais a escola
tradicional deve passar para tornar-se inclusiva. Entre eles está a organização
curricular. O sentido das disciplinas acadêmicas muda na escola inclusiva. Para que
haja   integração entre as áreas do conhecimento e este atinja a concepção
transversal nas propostas não disciplinares, as disciplinas passam a ser meios e
não fins em si mesmas. “O estudo das disciplinas partirá das experiências de vida
dos alunos, seus saberes e fazeres, dos significados e das suas vivências, para
chegar à sistematização dos conhecimentos.” (p. 66)


   Para Mantoan (2003) as atuais turmas seriadas devem ceder lugar a implantação
dos ciclos de formação, solução justa e adequada, que concede mais tempo para
aprender, articulando o processo aprendido de acordo com o ritmo e as condições
de desenvolvimento dos aprendizes. Da mesma forma o trabalho individualizado
96



deve ceder lugar às experiências coletivas, aos trabalhos em grupos pequenos e
diversificados, incentivando o desenvolvimento de cooperação e a produção grupal,
bem como a valorização do trabalho de cada um na consecução das metas traçadas


   Mantoan (2003) sugere também a exploração dos talentos dos alunos, com a
finalidade de desenvolver suas predisposições naturais, ao ensinar atendendo as
suas diferenças, mas sem diferenciar o ensino para cada um, abandonando o ensino
transmissivo. A diferenciação é feita pelo próprio aluno, ao aprender, e, não pelo
professor, ao ensinar. Também a administração escolar – diretor, coordenador,
supervisor, funcionários – deve tornar-se mais pedagógica , a par do que se passa
nas salas de aula, e perder seu caráter burocrático e fiscalizador. Quanto à
avaliação, a escola deve priorizar o desenvolvimento de competências dos alunos
diante de situações-problema, ao invés de decorebas. O tempo de construção de
uma competência varia de aluno para aluno.


   O compartilhamento de idéias, sentimentos e ações entre professores, diretores e
coordenadores da escola – a ser exercitado constantemente – também é apontado
por Mantoan (2003), como condição para o aprimoramento em serviço, nas escolas
inclusivas. Nesses encontros devem ser debatidos os exemplos concretos, os
problemas reais, as situações do dia-a-dia, que desequilibram o trabalho nas salas
de aula – norte das mudanças pretendidas pela formação dos profissionais da e na
escola. Esses encontros podem resultar em grupos de estudos para discussão nas
escolas e a compreensão dos problemas educacionais à luz do conhecimento
científico e interdisciplinar, de preferência.


   Mantoan (2003) refere ainda que é aconselhável que as reuniões extrapolem o
espaço escolar e que os professores se encontrem com professores de outras
escolas, para tratar de assuntos como, por exemplo: indisciplina, sexualidade, ética,
violência, avaliação,etc.


   Ser diferente faz parte da condição humana.Pensamos, sentimos e agimos de
jeitos e intensidades diferentes, porque apreendemos          o mundo de formas
diferentes. E, em sendo assim, a escola inclusiva pressupõe não só a aceitação,
97



mas o respeito e a valorização dessas diferenças nos alunos, dos seus diferentes
saberes e não–saberes. Como tão bem refere Carvalho (2004):


                            Uma vez valorizada a diversidade quero e ajo para que meus alunos
                       tenham experiências e saberes múltiplos, não se terá mais a inquietação
                       de responder se alguém aprendeu como o outro, mas de observar e
                       acompanhar curiosamente o jeito inusitado e mágico de cada um viver,
                       de   cada    um   vir-a-ser,   no   seu   tempo,    cuidando,   acolhendo,
                       compartilhando diferentes jeitos de aprender.”
                                                                           Carvalho (2004, p. 11).



   Neste momento de muita discussão sobre o paradigma da Escola Inclusiva,há
muita confusão no ar, simplesmente muitos querem fazer crer que a idéia da
inclusão é para os alunos da Educação Especial passarem para as turmas do ensino
regular e ponto. Muitos pais de alunos “normais” se insurgem contra, alegando que
seus filhos serão prejudicados. Muitos pais de deficientes acham que os professores
da escola regular não têm dado conta nem dos alunos “normais” e, que portanto não
terão capacidade para lidar com seus filhos.


   Ambos ignoram que a inclusão representa um resgate histórico do igual direito de
todos à Educação de qualidade: os que nunca tiveram acesso às escolas, os com
altas    habilidades (superdotados), os que sem serem deficientes                   apresentam
dificuldades de aprendizagem e outras minorias excluídas                  como é o caso dos
negros, dos ciganos, índios e anões, por exemplo, e que precisam nelas ingressar,
ficar e aprender. Parecem ignorar também que é na diversidade que reside a riqueza
das trocas que a escola propicia.


   Como explica Carvalho, na heterogeneidade há a oportunidade de convívio com a
diferença que,     no mínimo,       promove laços saudáveis                e sentimentos de
solidariedade orgânica. Da mesma forma, os professores têm oportunidade de por
em prática os quatro pilares para a educação do século XXI, propostos pela
UNESCO: aprender a aprender; aprender a fazer; aprender a ser; e aprender a viver
junto.
98



   A inclusão pressupõe a melhoria da resposta educativa da escola para todos,
pois é considerável a produção do fracasso escolar, excludente por sua própria
natureza. A escola inclusiva deve melhorar para todos, indistintamente, precisa
tornar-se   oniforme,   não     uniforme,     significando     a    escola     que     busca     o
desenvolvimento onilateral de todos as potencialidades humanas, críticas e
participativas, autônomas. A escola como espaço sadio de pluralismo de idéias! Para
que a escola inclusiva venha a dar certo, a sociedade precisa também evoluir.


                              evoluir da dimensão do “eu” para a do “nós” e desta, para a de
                        “todos nós”, numa extraordinária dinâmica em espiral [...] Uma nova ética
                        se impõe, conferindo a todos igualdade de valor, igualdade de direitos –
                        particularmente os de eqüidade – e a necessidade de superação de
                        qualquer forma de discriminação por questões étnicas, de gênero, de
                        classes sociais ou de peculiaridades individuais e diferenciadas.
                                                                           Carvalho (2004, p.34).


   E, para que esse sonho vire realidade, num mundo de paz e de harmonia, a
escola precisa ser: além de ética, prazerosa, integrativa, promotora de condições
necessárias para o desenvolvimento das potencialidades de cada um e de todos.
Quem, se não a escola,        é um lugar próprio para formar gerações que elejam,
defendam e ajam de acordo com esses valores?


                            Uma escola inclusiva não “prepara”           para à vida. Ela é a
                         própria vida que flui devendo possibilitar, do ponto de vista político,
                         ético e estético, o desenvolvimento da sensibilidade e da capacidade
                         crítica e construtiva dos alunos-cidadãos que nela estão, em qualquer
                         das etapas do fluxo escolar ou das modalidades de atendimento
                         educacional oferecidas.
                                                                           Carvalho (2004, p. 35).


   A escola inclusiva é a porta e a casa apropriadas para o desenvolvimento tanto
da solidariedade mecânica, como da solidariedade orgânica. Explicando: na
concepção de Durkheim, em seus estudos sobre a natureza dos laços sociais,
citados por Carvalho (2004), a solidariedade, no primeiro caso, acontece de forma
natural ou mecânica, a proximidade entre os seres humanos, o contato leva a isso.
Já a solidariedade orgânica ocorre quando           os indivíduos têm – ou adquirem – a
99



consciência de que precisam participar para fazer a coletividade funcionar como um
todo.


                             Trata-se   portanto, de   uma consciência coletiva que, segundo
                         Durkheim, constrói-se pelos sentimentos e crenças comuns à média
                         dos membros da coletividade, levando-os a formas de cooperação global.
                                                                        Carvalho (2004, p. 49).



Sentimentos e crenças podem ser incentivados, especialmente num lugar que
trabalha com a formação do sujeito em desenvolvimento. A escola é portanto esse
solo fértil para o desabrochar e o fomento da ética da solidariedade e do bem
comum.


   Carvalho (2004) destaca que o ensinar e o aprender em escolas inclusivas
constituem-se em processos dinâmicos nos quais a aprendizagem não fica restrita
aos espaços físicos das escolas e nem os alunos se portam como atores passivos,
recebendo o que lhes é transmitido por quem ensina. Descreve uma série de
funções – das quais algumas serão apontadas nesse trabalho – que podem constar
nos projetos políticos-pedagógicos dessas escolas que devem ser norteados pelo
princípio de que todas as crianças são capazes de aprender e que pode-se
melhorar as respostas educativas que hoje lhes são oferecidas. São elas:
        estabelecer parcerias com a comunidade, sem intenção de usufruto de
        benefícios, apenas, e sim conquistar a cumplicidade de seus membros,em
        relação às finalidades educativas;
        respeitar as diferenças individuais e o multiculturalismo,entendendo que a
        diversidade é uma riqueza e que o aluno é o melhor recurso que o professor
        dispõe, em qualquer cenário de aprendizagem;
        criar vínculos mais estreitos com as famílias, levando-as a participarem dos
        processos decisórios em relação à instituição e a seus filhos;
        buscar todos os recursos humanos, materiais e financeiros, para a melhoria
        da resposta educativa da escola;
        desenvolver estudos e pesquisas que permitam re-significar as práticas
        desenvolvidas em busca de adequá-las ao mundo em que vivemos.
100



   Para que se concretize o paradigma da escola inclusiva, faz-se necessário
também que os diretores das escolas fundamentais e de ensino médio, além de
serem colocados nos seus cargos, através de eleições representativas de cada
comunidade escolar - votando pais, alunos, professores e funcionários -
administrem, num clima de gestão compartilhada, especialmente no caso das
escolas municipais, porque, via de regra, quando mudam os prefeitos -
principalmente se faziam parte da oposição - mudam os diretores e o trabalho que
vinha sendo desenvolvido, não importando se bem ou mal feito, cai por terra. E
ainda alguns professores são transferidos, mesmo contra sua vontade, deixando o
que faziam para trás, mesmo que tenham participado de todo o planejamento
daquela escola ...


   A escola cidadã de especial qualidade para todos depende de professores que:
entendam que o processo de conhecimento é tão importante quanto o seu produto
final; e que respeitem o ritmo de aprendizagem e o traçado que cada aluno elabora
a partir de seus sistemas de significação e de conhecimentos adquiridos
anteriormente,referenda Maria Teresa Egler Mantoan. A autora alerta também que
os professores precisam conhecer como os conhecimentos evoluem e como a
inteligência se manifesta na organização das estratégias. Ou seja: como os alunos
aplicam os conhecimentos que já possuem, para se adaptarem a situações novas e
desequilibradoras do pensamento e da ação. Ela explica como isso se manifesta:


                          Estas situações de equilíbrio local do pensamento estão presentes a
                       todo o instante, nas salas de aula, quando os alunos resolvem os mais
                       diversos problemas, sem a preocupação e a obrigação de encontrar a
                       resposta exigida, mas aquela que corresponde às suas condições de
                       compreensão.
                                                             Mantoan (1997, pp. 124 – 125).


   A concepção da avaliação e do planejamento da escola inclusiva é revolucionária,
na opinião de Mantoan (1997), que diz que a inclusão não tem como finalidade
prescrever a individualização do ensino para os alunos com deficiência intelectual,
mas que se diminuam e/ou eliminem os obstáculos que impedem que todos os
alunos progridam, tornando essa interação a mais equilibrada possível, pois é sabido
101



de todos que qualquer criança, em algum momento de sua aprendizagem, pode
apresentar dificuldades e que, essas dificuldades, resultam da interação entre as
características desse aluno e as exigências dos professores, dos programas e dos
instrumentos de avaliação das escolas. Até porque é inegável as diferenças de
níveis de compreensão, amplitude e profundidade do conhecimento acessíveis a
diferentes sujeitos.


   Uma situação de aprendizagem coerente com um ensino especializado em todos
os alunos, no dizer de Mantoan,            deve permitir a cada aluno estabelecer seus
próprios planos para chegar a um determinado objetivo. Aos alunos devem ser
dadas autonomia e liberdade para que empreguem seus métodos de trabalho, para
realizar uma tarefa. Um ensino que se oriente pelo que é significativo para os
aprendizes,   sejam    eles     deficientes     ou     não,     seguramente      encontrará     na
aprendizagem da escola inclusiva um espaço de transformação e de enriquecimento,
devolvendo-lhe a cidadania. Nas palavras da autora:


                              Se   os    professores   são capazes de criar situações desse tipo,
                        levando em conta por princípio, que existem diferentes modos            de
                        compreensão entre os alunos, sem a preocupação primordial de saber e
                        de definir previamente o nível que este ou aquele alcançará em um dado
                        domínio ou conteúdo acadêmico, a inclusão de deficientes mentais nas
                        turmas regulares será um fato inquestionável, perfeitamente viável e
                        possível dentro de um sistema escolar.
                                                                           Mantoan (1997, p. 125).



   Mais do que nunca é preciso instrumentalizar o professor para saber trabalhar
diversificado em sala de aula, porque a realidade não é homogênea. A
heterogeneidade nas salas de aula é condição sine qua non para a construção de
“identidades”, argumenta Maria Terezinha dos Santos, in Mantoan (1997), porque só
se constrói o “eu” na vivência de alteridade. Nas suas palavras:


                              Qualquer     aluno precisa      estar   integrado com os outros “eus”
                        diferentes para enriquecimento de sua identidade. Rasgando o verbo,
                        não é possível construir personalidades saudáveis, cidadãos efetivos em
                        salas ditas homogêneas. Estas sim são discriminadoras, porque numa
102


                       sala só de “fracos” (assim rotulados ), apenas interagem “fracos” [...] O
                       aluno que tem mais dificuldade e o que tem menos aprendem muito
                       quando interagem. [...] As crianças recebem muito bem as vivências das
                       diferenças [...] É preciso lembrar, final e enfaticamente, que a integração
                       do aluno deficiente, do aluno especial, é com certeza prioridade que
                       deve ser dada a todo ser humano, sem qualquer discriminação nem
                       rotulação. Os sistemas públicos e particulares de ensino precisam viver a
                       experiência da integração por sentir que o respeito às diferenças é o
                       único caminho para a vivência da igualdade.
                                      Maria Terezinha Santos in Mantoan (1997, pp. 132 – 133).




   A escola que transformará este planeta numa sociedade mais justa, igualitária,
harmônica, pacífica, fraterna e solidária, depende muito da fé, da dedicação, da
motivação, da auto-estima e da preparação dos seus professores, que auxiliarão na
construção deste mundo inclusivo. “O mundo pode não os aplaudir, mas o
conhecimento mais lúcido da ciência tem de reconhecer que vocês são os
profissionais mais importantes da sociedade.” (p.168), argumenta                  o psiquiatra
Augusto Cury (2003), autor de Inteligência Multifocal, indicando, que os destinos da
humanidade estão nas mãos dos professores.


   Cury (2003) alerta a sociedade de que não são só os salários e a dignidade dos
professores que precisam ser resgatados, mas também a sua saúde, pois a maioria
dos mestres brasileiros está estressada, portadores da SPA, Síndrome do
Pensamento Acelerado, que afeta também a maioria dos alunos, na sua opinião. O
psiquiatra aponta algumas pesquisas, coordenadas por ele, que revelam que: na
Espanha, 80% dos professores estão estressados, na Inglaterra, o governo está
tendo dificuldades para formar professores, especialmente para o Ensino
Fundamental e Médio, poucos querem abraçar a profissão; e no Brasil, 92% deles
apresentam três ou mais sintomas de estresse e 41 % , dez ou mais sintomas.

                            É um número altíssimo, indicando que quase a metade dos
                       professores não deveria estar em sala de aula. Mas internada numa
                       clínica antiestresse.[...] Os números gritam. Eles indicam que os
                       professores estão quase duas vezes mais estressados do que a
                       população de são Paulo, que é uma das maiores e mais estressantes
                       cidades do mundo.[...] Em são Paulo, 22, 9% da população apresenta
                       dez ou mais sintomas de estresse.
103



                                                                       Cury (2003, p.62 ).


   Destruindo a qualidade de vida do professor, estão acabando com o mercado da
inteligência, denuncia o autor, referindo-se a esse adoecimento                coletivo dos
educadores no Brasil, enquanto os governantes estão preocupados com o mercado
de petróleo, de carros, de computadores... Ao mesmo tempo, suplica                           aos
educadores que tenham paciência com seus alunos, pois eles não têm culpa da
agressividade e da alienação em sala de aula, porque também são                   vítimas da
mesma síndrome que acometeu seus mestres. Explica que por trás                   dos piores
alunos há um mundo a ser descoberto e explorado. Há uma esperança no caos e
que é preciso construir a Escola de nossos sonhos.

                          Qual é a escola dos seus sonhos? Para mim, é a escola que educa
                       os jovens   para   extraírem força da fragilidade, segurança   da     terra
                       do medo, esperança da desolação, sorriso das lágrimas e sabedoria
                       dos fracassos.
                                                                      Cury (2003, p.155 ).


   A memória – impossível de ser deletada, a menos que haja uma lesão cerebral
ou um    grave problema psíquico ou mental -           é o terreno onde é cultivada a
educação, e o registro, nos seus meandros, é automático e involuntário. Tudo o que
o sujeito, pensa e o universo de suas emoções se produz a partir da memória. Cada
idéia, pensamento, reação ansiosa, sentimento de amor ou desamor, o integrará.
“A emoção é que determina a qualidade do registro.               Quanto maior o volume
emocional, maior a chance de ser registrada”, afirma Cury (2003, p. 23). Por isso, as
pessoas lembram com muitos detalhes de tudo que foi muito - ou pouquíssimo -
prazeroso para si ; se a dor for imensa, pode-se até bloquear tudo, como fazem as
crianças que sofreram muito na infância e que nem lembram deste período.


   Em conseqüência do explanado, professores que não provocam a emoção dos
educandos, só informam, não educam! Ao estimular                 a emoção dos alunos,
desaceleram-se seus pensamentos, melhora-se a sua concentração e auxilia-se no
registro privilegiado da memória, porque o grau de sua abertura                depende da
emoção, como já foi dito. Enquanto a tranqüilidade abre, a ansiedade fecha estas
104



janelas, comprometendo o desempenho intelectual. Mesmo alunos bem preparados
podem ir mal numa prova, se estiverem ansiosos.


   As lembranças não são puras, sempre que rememora-se algo, reconstrói-se as
memórias, com maior ou menor diferença da “realidade”. O modelo escolar que
privilegia a memória bancária (Paulo Freire) não forma pensadores, mas repetidores.
As provas escolares fechadas não medem a arte de pensar, às vezes anulam o
raciocínio de alunos brilhantes.    O objetivo fundamental é dar suporte para um
raciocínio criativo, esquemático, organizacional, pois a maioria das informações se
perde no labirinto da memória e nunca mais será recordada.


   Cury (2003)     apresenta    dez Ferramentas ou Técnicas Psicopedagógicas a
serem aplicadas pelos professores nas         salas de aula, que podem auxiliar no
tratamento e cura da SPA e na construção da escola sonhada, não só por todos os
educadores de fé, mas por todos os homens de boa-vontade sobre a face da Terra.


   Antes da apresentação dessas ferramentas, torna-se oportuno descrever o que o
psiquiatra indica como constituinte da síndrome. A SPA, Síndrome do Pensamento
Acelerado é causada pelo excesso de estímulos proporcionados pelos meios de
comunicação (em especial         a TV , independente do conteúdo que esteja
transmitindo) que acabam gerando          uma compulsão por novos estímulos no
telespectador, que numa tentativa de aliviá-la - semelhante ao caso das drogas
químicas, lícitas ou não, onde o uso das doses tende a ser cada vez maior.


   Esse estado de ânimo teria ocorrido porque há um século a velocidade dos
pensamentos das crianças era bem menor do que a atual, motivo pelo qual o
modelo de educação do passado, embora não fosse ideal, funcionava. Os
portadores de SPA adquirem uma dependência por novos estímulos e por isto eles
se agitam na cadeira , têm conversas paralelas, não se concentram, mexem com os
colegas. “Estes comportamentos são tentativas de aliviar a ansiedade gerada pela
SPA. (...) Pensar é excelente, pensar muito é péssimo. Quem pensa muito rouba
energia do córtex cerebral e sente uma fadiga excessiva, mesmo sem ter feito
exercício físico. Este é um sintoma.” , explica Cury (2003, p. 60).
105




   Os demais sintomas são: déficit de concentração; irritabilidade; sofrimento por
antecipação; sono insuficiente; aversão à rotina; esquecimento; e,                às vezes,
sintomas psicossomáticos acompanham, tais como, taquicardia, gastrite,                 dor de
cabeça, dores musculares. “Por que um dos sintomas é o esquecimento? Por que o
cérebro tem mais juízo do que nós e bloqueia a memória para pensarmos menos e
gastarmos menos energia”. Cury (2003, p. 60).


   A SPA seria uma hiperatividade de origem não-genética, funcional, explica o
professor. Além da TV, com seu natural excesso de estímulos visuais, o excesso de
informações também é causa da SPA. Uma criança de 7 anos tem mais informações
do que um adulto de 60 anos, há um século atrás... Outra causa está na paranóia do
consumo e da estética que dificulta a interiorização. Isto tudo excita por demais
esses jovens que é claro não querem, melhor dizendo,                não podem,        assistir
impávidos às preleções dos mais velhos e mesmo de seus coleguinhas, se não
forem das mais animadas numa sala de aula.... A intranqüilidade da mente não o
permite.


   A SPA compromete a saúde psíquica de três formas: ruminando o passado e
desenvolvendo sentimento de culpa, produzindo preocupações sobre problemas
existenciais e sofrendo por antecipação. Como diz Cury (2003), não basta ser um
bom professor, tem que ser fascinante para transformar a sala de aula num oásis e
não numa fonte de estresse. Além de conhecer a alma humana, é preciso munir-se
de ferramentas pedagógicas eficientes para conseguir-se             prender a atenção do
aluno, pois caso contrário alunos e professores estarão fadados à falta de
comunicação necessária para que a construção do conhecimento se processe.


      Quanto às dez Ferramentas ou Técnicas Psicopedagógicas de Cury
(2003), o próprio autor as define da seguinte forma:

                            constituem o projeto escola da vida e podem gerar a educação dos
                      nossos sonhos. Podem promover o sonho do construtivismo de Piaget,
                      da arte de pensar de Vygotsky, das inteligências múltiplas de Gardner, da
                      inteligência emocional de Golemam.[...] elas não envolvem mudanças no
                      ambiente físico da escola e no material didático, mas no ambiente social
                      e psíquico dos professores, porque objetivam a educação da emoção, da
                      auto-estima, da solidariedade, da tolerância, do raciocínio esquemático,
106


                       da capacidade de gerenciar dos pensamentos nos focos de tensão, da
                       habilidade de trabalhar perdas e frustrações. Enfim, formar pensadores.
                                                                        Cury (2003, p.119).

As ferramentas são as seguintes:

      Música ambiente na sala de aula, para desacelerar o pensamento, aliviar a
      ansiedade, melhorar a concentração, desenvolver o prazer de aprender,
      educar a emoção, melhorar a qualidade do registro na memória do que está
      sendo trabalhado.
      Dispor os alunos em círculo ou em u, para desenvolver a segurança,
      promover a educação participativa, diminuir conflitos e conversas paralelas.
      O enfileiramento, que parece inofensivo, é profundamente lesivo aos alunos,
      causa   distração, obstrui a inteligência, destrói a espontaneidade e a
      segurança para expor as idéias.
       Exposição interrogada: a arte da interrogação, com o objetivo de aliviar a
      SPA, reacender a motivação, desenvolver o questionamento, enriquecer a
      interpretação de textos e enunciados, abrir as janelas da inteligência.
      Exposição dialogada: a arte da pergunta, com a finalidade de desenvolver
      a consciência crítica, promover o debate de idéias, estimular a educação
      participativa, superar a insegurança, debelar a timidez e melhorar a
      concentração.
      Ser um contador de histórias, para que o aluno desenvolva criatividade para
      educar a emoção, estimular a sabedoria, expandir a capacidade de solução
      em situações de tensão, enriquecer a socialização.
      Humanizar o conhecimento, buscando estimular a ousadia, promover a
      perspicácia, cultivar a criatividade, incentivar a sabedoria, expandir a
      capacidade crítica, formar pesadores.
      Humanizar o professor: cruzar sua história, desenvolvendo a socialização,
      estimulando a afetividade, construindo uma ponte produtiva nas relações
      sociais, estimulando a sabedoria, superando conflitos, valorizando o “ser”.
       Educar a auto-estima: elogiar antes de criticar, para educar a emoção e a
      auto-estima, vacinar contra a discriminação, promover a solidariedade,
      resolver conflitos em sala de aula, filtrar estímulos estressantes, trabalhar
      perdas e frustrações.
107




      Gerenciar os pensamentos e as emoções, tentando resgatar a liderança do
      eu, resolver a SPA, prevenir conflitos, proteger os solos da memória,
      promover a segurança, desenvolver espírito empreendedor, proteger a
      emoção nos focos de tensão.
       Participar de projetos sociais, com o objetivo de desenvolver a
      responsabilidade social, a cidadania, cultivar a solidariedade, expandir a
      capacidade de trabalhar em equipe, trabalhar os temas transversais; a
      educação para a saúde, para a paz, para os direitos humanos.



   A tarefa de educar se compara a de um artesão da personalidade, um poeta da
inteligência, um semeador de idéias, considera Cury (2003), que acha que mesmo
que a Educação esteja passando por uma crise sem precedentes na História da
humanidade, num contexto onde somos ao mesmo tempo criadores e vítimas do
sistema social que inventamos, numa sociedade onde o ter e não o ser , a estética
e não o conteúdo, o consumo e não as idéias são o mais importante, mais do que
nunca os educadores, apesar de suas dificuldades, são insubstituíveis.


   A gentileza, a solidariedade, a fraternidade, a ética, a tolerância, a inclusão, os
sentimentos altruístas, enfim, todas as áreas da sensibilidade não podem ser
ensinadas por máquinas, e sim por seres humanos,         por mais que a tecnologia
venha a se superar, considera o escritor.


   Dentre as incumbências de       um professor fascinante,     está a de educar a
emoção, estimulando o pensar antes de reagir, o não ter medo de ter medo,
incentivando o aluno a ser autor de sua história, sabendo filtrar os estímulos
estressantes e trabalhando não apenas com fatos lógicos e problemas concretos,
mas também com as contradições da vida. Se os professores agirem assim, poder-
se-á poupar lágrimas, evitar doenças psíquicas e até suicídios. Evitar-se-ia       os
psicopatas, os insensíveis, que machucam e não medem as conseqüências dos
seus atos, por que nada sentem... Os hipersensíveis, que se doam além dos limites,
mas que não possuem proteção emocional para si mesmos. Os alienados, que não
108



ferem, mas no entanto não querem nada com nada, sem metas, sem futuro, sem
sonhos, deixam-se levar pela vida....




   A escola não tem conseguido educar a emoção, referenda o autor, que alerta
que na formação dos jovens é necessário atentar para que tenham uma emoção
rica, protegida e integrada.


   Além de educar a emoção, os professores precisam ensinar os alunos a serem
pensadores e não repetidores de informação. A educação clássica, transforma a
memória num banco de dados, ocupando um espaço precioso com informações de
pouco uso, ou mesmo inúteis. Um bom professor se preocupa com as notas dos
seus alunos, já um professor fascinante se preocupa em transformá-los em
engenheiros de idéias.


   Cury (2003)    alerta   que os professores   - sempre tendo em mente a SPA,
deverão também proteger sua emoção diante dos conflitos dos alunos. A melhor
resposta nestas horas é não dar resposta alguma. É o silêncio! Recomenda que os
mestres devem respirar fundo e surpreender a classe com gestos inesperados.
Levar, com suas palavras e coração aberto, os alunos a pensarem, a mergulharem
dentro de si. Não é fácil, mas é possível! Com a emoção tensa fecha-se o território
de leitura da memória, obstrui-se a construção de cadeias de pensamento e passa-
se a agir por instinto, não com a inteligência, mas como animais.


   O educadores devem levar seus alunos a explorarem o desconhecido para não
terem medo do fracasso, mas somente medo de não tentarem. Novas experiências
propiciam crescimento intelectual e geram flexibilidade. Só não muda de idéia quem
é incapaz de produzi-las. Professores fascinantes são promotores de auto-estima,
dão atenção especial aos alunos tímidos, aos desprezados pelo grupo, pois
percebem que estes poderão ficar encarcerados em seus traumas.


      Cury (2003) aponta ainda          7 Pecados Capitais Cometidos entre os
Educadores:
109



      Corrigir publicamente um aluno é o primeiro deles, porque pode gerar um
      trauma inesquecível que controlará a vítima por toda a sua vida. A pessoa
      que erra deve ser mais valorizada do que o erro.
       O segundo pecado é expressar autoridade com agressividade.
       O terceiro é ser excessivamente crítico, o que        obstrui a infância ou
      adolescência.
      Punir quando se está com raiva e colocar limites sem dar explicações é o
      quarto pecado.
      O quinto,    é ser impaciente ou desistir de educar, não acreditando nas
      potencialidades do aluno. Os alunos insuportáveis é que testam o
      humanismo dos seus semelhantes, pois por trás de cada aluno arredio ou
      agressivo há uma criança implorando afeto.
       O sexto pecado é não cumprir a palavra dada. Perde-se a confiança e
      confiança perdida dificilmente é restaurada...
       E o sétimo, e maior pecado cometido pelos educadores, na concepção do
      psiquiatra é a destruição da esperança e dos sonhos dos alunos. Os jovens
      que perdem a esperança têm enormes dificuldades para superar seus
      conflitos, por menores que sejam.
Os que perdem seus sonhos são opacos, não tem brilho, gravitam em torno de
suas misérias emocionais e nada produzem, comenta o autor. Nas suas palavras:
“Os psiquiatras, os médicos clínicos, os professores e os pais são vendedores de
sonhos. Uma pessoa só comete suicídio quando seus sonhos se evaporam, sua
esperança se dissipa”. Sejam conscientes, pois, do que vendem nas suas salas
de aula, professores ... Cury (2003, p. 102).


   Em Nunca Desista dos Seus Sonhos, Cury ( 2004) critica a cultura das provas
existentes nas escolas do mundo inteiro, porque desrespeita a riquíssima pedagogia
do ensaio e erro, que promoveu as grandes conquistas da história. Explica que ao
ser punido pelo erro, com notas baixas, no caso da escola, o sujeito não só registra
de maneira privilegiada o fato, através do fenômeno RAM, Registro Automático da
Memória, como inicia-se ali - ou ratifica-se - o processo     de obstrução da sua
ousadia e inventividade.
110



   O autor diz que é função dos         verdadeiros líderes - como os pais e os
educadores, executivos - incentivar quem fracassa a extrair sabedoria das suas
experiências dolorosas, em vez de cultivar a culpa. Errar é uma etapa do inventar,
falhar são degraus do criar. O psiquiatra aconselha a ausência de julgamento diante
do erro. Ao contrário, é da opinião que se alguém ao errar for valorizado, encorajado,
conseguirá incorporar novas experiências e refazer caminhos. Relembra que todos
os seres humanos caíram muitas vezes até aprenderem a andar. Quem erra tem
oportunidades de sonhar com as conquistas, tem mais chance de aprender e mais
gosto pela vitória, pressuposto este que constitui um dos fundamentos da
Inteligência Multifocal, teoria que levou 20 anos estudando e formulando.


   O cientista relembra que nos alicerces das grandes descobertas existem grandes
falhas, nos alicerces das grandes falhas existem grandes sonhos de superação. Se
pais e professores não mudarem suas atitudes de recriminação frente ao erro de
seus filhos ou alunos, o medo de errar vai lhes sendo incentivado, acabando por
gerar um eu tímido e inseguro.


   Cury (2004) relembra que, se os cientistas se intimidassem e recuassem diante
de seus erros quantas descobertas não teriam deixado de ser feitas, tais como:
Flaming, por exemplo, que descobriu a penicilina graças a um fungo que contaminou
a lâmina de cultura, que ele deixara sem proteção no laboratório. Roentgen
descobriu o Raio X, pelo descuido no manuseio de uma placa fotográfica. Einstein
teve de recuperar do lixo algumas etapas das equações que o levaram à Teoria da
Relatividade. Simon Campbell errou ao não conseguir chegar a um novo
medicamento,    para desobstruir artérias em casos de angina, mas descobriu o
Viagra.


      O que diferencia os jovens que fracassam dos que têm sucesso não é a
cultura acadêmica, mas a capacidade de superação das adversidades da vida,
acredita o psiquiatra, que lamenta que o medo tenha sepultado milhões de sonhos,
em todas as épocas, pois quando os sonhos individuais          incluem os outros ou
buscam alguma maneira de contribuir para o bem da humanidade, os temores e os
dissabores da vida são suportados mais facilmente.
111




   Da mesma forma lamenta o massacre que o autoritarismo dos superiores –
sejam eles pais, professores ou chefes -     praticam contra os seus comandados
exterminando sua criatividade e inteligência. Mas, entusiasma com seu otimismo ao
lembrar aos idealistas – ou aos em vias de - que é possível destruir o sonho de um
ser humano quando ele sonha para si, mais é impossível destruir seu sonho quando
ele sonha para os outros, a não ser que lhe tirem a vida. Entusiasma e incentiva a
todos, mais especialmente aos     pais e professores,    a trabalharem os valores
humanitários com as crianças e jovens, para que      não venham a medir os seus
semelhantes pelo poder político ou financeiro que possuem, mas pela grandeza de
seus sonhos, pela paixão que possuem pela vida, pelo amor à humanidade, pelo
desejo de serem úteis aos outros, pois quem vive para si mesmo não tem raízes
internas.


      Cury (2004) enaltece o valor dos sonhos, o valor do livre pensar e o valor dos
pensadores apaixonados pela existência, afirma     que nossa espécie está doente.
Acometida de: SPA, pessimismo, estresse, individualismo, competição predatória,
falta de amor, falta de fraternidade, falta de sabedoria, superficialidade, racismo,
preconceitos... Defende que as idéias devem servir à vida e não a vida às idéias,
pois os piores inimigos de uma idéia são aqueles que a defendem radicalmente, até
porque – como todos sabem - os grandes pensadores que a humanidade já viu
nascer foram exímios questionadores que usavam a arte da dúvida e da crítica para
ampliar o mundo das idéias e dos ideais.


   Infelizmente, num mundo tão rápido e ansioso, a educação tem desprezado a
ferramenta da dúvida e da crítica, que são a agulha e a linha que tecem a
inteligência. Vale a quantidade de informação, não a qualidade. Noventa por cento
das informações são inúteis, nunca serão utilizadas e sequer recordadas. Nada é tão
perigoso para aprisionar a inteligência do que aceitar passivamente as informações,
referenda Cury (2004).



      Como preconiza Edgar Morin (2003 ),        quem dera a educação moderna
ensinasse menos matemática, física, química, biologia e mais a arte de pensar... O
112



mundo seria menos engessado, no dizer de Cury, e os alunos cultivariam uma das
nobilíssimas características da inteligência: pensar, pensar bem! Cury chama a
atenção dos professores sobre a importância de gerarem a consciência crítica em
seus alunos ,com um exemplo bem ilustrativo. Um professor de História que ensinar
sobre escravidão, terrorismo, nazismo ou guerras, fornecendo apenas informações,
sem teatralizar suas aulas e fazer com que os alunos se coloquem no lugar dos que
sofreram, estaria sendo lesivo aos seus alunos ao ministrar esse tipo de aula, pois
no seu entender sua atitude estaria apenas levando os alunos à insensibilidade
diante das atrocidades humanas.


   Cury (2004) convoca seus leitores a sonharem com uma humanidade fraterna,
solidária, inclusiva, gentil e unida, porque os homens sempre foram mais iguais do
que imaginam nos bastidores de suas mentes, onde se encontram os sonhos, que,
por serem verdadeiros projetos de vida, resgatam o prazer de viver e o sentido de
vida, que representam a felicidade essencial que todos procuram.


   E por falar em sonho, a escola com que Rubens Alves - poeta, pedagogo,
teólogo, escritor e psicanalista, que   vive ocupado a diagnosticar as doenças da
Pedagogia - sempre sonhou, sem imaginar que pudesse existir, existe, conforme
contam seis crônicas suas, de puro encantamento, dedicadas a sua existência,
reunidas em Alves (2003).


   A escola dos seus sonhos - e da autora deste trabalho, certamente - chama-se
Escola Básica da Ponte nº 1, e foi construída em Vilas das Aves, Portugal. São
cerca de 120 pessoas entre alunos, funcionários e professores que se conhecem
pelo nome, como numa grande família. Além de constituir-se num ambiente amigável
e solidário de aprendizagem, a Escola da Ponte é profundamente democrática e
auto-regulada. Lá está a prova de que em se plantando tudo dá, ao constatar-se a
formação íntegra e ética instaurada na personalidade dos seus alunos, pela
educação ali proferida, num convívio solidário e cidadão.


   As normas e regras que regem a escola da Ponte e orientam as relações sociais
na comunidade estudantil não são impostas, representam o coletivo, foram criadas e
113



partilhadas entre todos os segmentos, inclusive - e especialmente - entre as
crianças, seus mestres, funcionários e familiares.


   Imagine uma escola onde, desde a mais tenra idade, as crianças habituam-se a
pedir a palavra para falar e a ouvir os outros em silêncio e com atenção. Disciplina,
concentração, alegria e eficiência são a tônica da casa. A Escola da Ponte não é
como as brasileiras, com uma professora e sua turma ou uma turma e seus
professores. Um único espaço é partilhado por todos, sem separação, sem
campainhas anunciando a troca de disciplinas e de professores. Pequenos e
grandes são companheiros numa mesma aventura! Todos se ajudam, partilham de
um mesmo mundo! Não há competição, há cooperação!


   Os professores são professores de todos os alunos e todos os alunos são alunos
de todos os professores. Os que se sentem mais aptos em determinados temas
auxiliam os que se sentem menos aptos, sem intimidação, puro companheirismo.
Anúncios nos quadros de aviso disponibilizam alunos para ensinar e alunos
dispostos   a   aprender   determinados    assuntos.   Um    legítimo   mercado   do
conhecimento...


   Pode-se encher a boca dizendo que esta é uma escola inclusiva. Tão logo são
matriculados, numa etapa      chamada de iniciação, os alunos agrupam-se por
empatia, o que conta é o afeto. Posteriormente os grupos se formam em torno de
interesses por um tema a ser pesquisado. Reunidos com um professor,
estabelecem um programa de trabalho de 15 dias, quando são orientados sobre o
que e onde devem pesquisar. Utilizam muita Internet. Ao final do período reúnem –
se de novo para avaliar o que aprenderam. Se o que aprenderam foi adequado o
grupo dissolve-se e outro é formado para estudar outro assunto.


   Nas salas imensas, professores, espalhados por entre os alunos, fazem seu
atendimento, quando necessário. Nelas as crianças tem direito de ouvir música para
ajudá-las a trabalharem em silêncio. Em cada grupo há um aluno especial. Se a
professora não puder acompanhar diretamente o trabalho de uma das crianças, logo
um colega atento se disponibiliza para a ajudar.
114




   Os alunos tem o direito de ir aos computadores, sempre que quiserem. Um deles
serve para o registro de duas sessões: “Acho Bom” e “Acho Mau”. “Quando nos
sentimos tristes escrevemos no Acho Mau, quando nos sentimos contentes com
algo escrevemos no Acho Bom”, diz uma aluna. Há um “Tribunal” criado pelas
crianças e que deve ser enfrentado por aqueles que desrespeitam as regras de
convivência. A primeira pena é: passar, durante três dias, refletindo            sobre os atos
infracionários que cometeu.


   Diariamente a “Mesa da           Assembléia da Escola” reúne-se para discutir os
problemas apresentados pelos alunos aos seus representantes, assuntos que serão
debatidos pelo grupo todo, posteriormente, nas sextas-feiras, durante Assembléia
Geral. Há ainda a “Caixinha de Segredos”, onde são depositados pelos alunos
“recados-segredos”, geralmente         problemas que os estão afligindo e pedidos de
ajuda. A produção escrita é valorizada com o “Livro da Quinzena”, que relaciona os
projetos que estão sendo desenvolvidos naquele período em toda a escola. Os
alunos fazem comentários, poesias, relatos, etc. E muito mais de utopia parida você
poderá encontrar visitando a Escola da Ponte, em Portugal, anunciadas pelo escritor,
em Alves (2003 ).


   Num depoimento dado sobre a Escola da Ponte, por vários elementos daquela
comunidade     escolar,    pais,   professores,      alunos,    encontra-se     essa     pérola,
descrevendo-a, a pedido de Rubens Alves, como a escola que sonhava encontrar
para seus filhos :
                             ...que compreenda como os saberes são gerados e nascem. Uma
                          escola em que o saber vá nascendo das perguntas que o corpo faz. Uma
                          escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser
                          cumprido (inutilmente), mas o corpo da criança que vive, admira,
                          encanta-se, espanta-se, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra,
                          machuca-se, brinca. Uma escola que seja iluminada pelo brilho dos
                          inícios.
                                                        Mãe e professora, in Alves (2003, p. 73).


   Como a autora deste trabalho situa-se entre as pessoas que não acreditam em
coincidências e percebe todas as coisas como perfeitamente encaixadas no
universo, que conspira a favor de quem assim vê e vive a vida, dentro de uma
ordem exemplar, embora pareça por vezes caótico, aqui vai uma reflexão sobre dois
115



textos que lhe caíram às mãos e que servem como uma luva para a temática aqui
desenvolvida.


   Um deles, publicitário, publicado em página inteira, em 14 de fevereiro de 2005,
no Correio do Povo, assinado pelo Ministério Público do Trabalho, em caracteres
maiores anunciava: “Você contrataria para trabalhar como gráfico no seu jornal um
jovem negro de 16 anos, órfão, gago, epilético, com saúde frágil e baixa
escolaridade?” Pergunta respondida, diante da possibilidade de uma negação: “Que
pena, você acabou de dispensar o Machado de Assis.”


   Quando a propaganda começa a valer-se de chamadas deste gênero é porque -
felizmente - está-se     prestes, enquanto leitores e cidadãos,      a defender uma
sociedade inclusiva. No mesmo anúncio, em caixa baixa, o texto descrevia que em
1856 o diretor da Imprensa Nacional, no Rio de Janeiro, não teve preconceito e
contratou para auxiliar de tipógrafo, o rapaz que viria a se tornar o maior escritor do
país. Exaltava a responsabilidade social das empresas em promover oportunidades
iguais a respeito da dignidade. Independente da condição sócio-econômica, idade,
ascendência, nacionalidade, estado civil, orientação sexual e condições de saúde,
que não podem ser motivo de discriminação no ambiente de trabalho, para além da
obrigatoriedade legal.


   É preciso que se estenda estes pressupostos para as Escolas da mesma forma
pois, para que assim seja no mercado de trabalho, verdadeiramente e não só na
propaganda, torna-se necessário e imperioso que antes as comunidades escolares
trabalhem também assim: numa escola regular de especial qualidade, aberta            a
todos os segmentos sociais.


   O outro texto, “Eu, Leonardo”, é de Rubens Alves, em a Alegria de Ensinar, e fala
de um belíssimo vídeo sobre Da Vinci, um dos maiores gênios que a história          da
humanidade viu nascer, produção da IBM. Arquiteto, planejou uma cidade ideal,com
casas construídas segundo os princípios da beleza, banhadas de luz. Imaginava
máquinas que a tecnologia da época não conseguia produzir. Estudou o vôo dos
pássaros para que os homens construíssem máquinas de voar. Sonhou com navios
116



que navegassem como peixes, debaixo das águas. Estudava a água, consagrada
por ele como princípio vital do universo. Estudava os fósseis e concluiu que há
milhões de anos os cumes das montanhas haviam estado submersos nas águas.
Arquiteto, músico, poeta, engenheiro, geólogo o pintor viveu na Itália, de 1452 a
1519.
        O psicanalista Rubens Alves pensando nas discrepâncias sociais de cada
época imaginou o que seria a vida de Da Vinci nos dias de hoje... Em plena era da
tecnologia e da qualidade total, a IBM lhe daria um emprego? Um homem com
tantos interesses e habilidades concomitantes, por certo despertaria suspeitas já na
apresentação do seu currículo... Mas, e se ele conseguisse o tal emprego e num dia
qualquer seu chefe lhe pedisse um relatório sobre um projeto de pesquisa e Da Vinci
lhe respondesse que não poderia naquele momento fazê-lo, pois estava preocupado
com um outro projeto estético, um quadro que pensava em pintar?


                          “É. [ pondera o autor] Acho que Leonardo Da Vinci não teria vida
                       longa nem como funcionário da IBM, nem como professor de uma de
                       nossas    universidades.[...]   Gastar   tempo   pensando   em   música,
                       jardinagem, política, ecologia, é uma doença a ser evitada a todo
                       custo,em benefício do controle de qualidade do pensamento.[...] é cortar
                       as asas da imaginação a fim de que ele marche ao ritmo dos tambores
                       institucionais.”
                                                   Rubens Alves in A Alegria de Ensinar.


   A genialidade não se espraia de maneira generosa sobre a humanidade, mas
muitos gênios foram sufocados, incompreendidos em sua estada pela terra... E, a
Escola tem sido uma das primeiras instituições a contribuir para isto, muitas vezes.
Estendendo-lhes os primeiros grilhões, como tão bem referenda Ruth Rocha neste
trecho de Quando a Escola é de Vidro.


                            Eu ia para a escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo,
                       logo, eu tinha que me meter no vidro. É, no vidro! Cada menino ou
                       menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um,
                       não! O vidro dependia da classe em que a gente estudava. Se você
                       estava no 1º ano, ganhava um vidro de um tamanho. Se você fosse do 2º
                       ano,seu vidro era um pouquinho maior. E assim, os vidros iam crescendo
117


                       à medida que você ia passando de ano. Se não passasse de ano, era um
                       horror. Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado. Coubesse ou
                       não coubesse. Aliás, nunca ninguém se preocupou em saber se a gente
                       cabia nos vidros. E para falar a verdade, ninguém cabia direito. Uns eram
                       muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam
                       afundados no vidro, nem assim era confortável. A gente não escutava
                       direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que
                       a gente falava, e a gente nem podia respirar direito ... A gente só podia
                       respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física. Mas aí a
                       gente já estava desesperado de tanto ficar preso e começava a correr, a
                       gritar, a bater uns nos outros”.
                                                                            Ruth Rocha (2003).


   Não é bem assim que a maioria das escolas faz com as diversas e singulares
crianças que chegam para ser seus alunos, não respeitando as suas características
diferentes, as suas visões de mundo, as suas percepções? Não lhes são cortadas
as asas? É hora de mudar! Escolas não são exércitos, muito menos fábricas! Chega
de tanta reprovação e evasão! É hora de acolher a todas,                 escancarando seus
portões e fazendo da escola um lugar para se estar e ser feliz, enquanto se aprende
a aprender com os alunos para toda a vida. Até porque chega de tanta reprovação e
evasão e porque para aprender a pensar é preciso primeiro aprender a dançar,
assim falava Zaratustra.


                           Quem dança com as idéias descobre que pensar é alegria. [...] pular
                       de pico em pico.Não ter medo da queda. Foi assim que se construiu a
                       ciência. [...] O conhecimento nada mais é que a aventura pelo mar
                       desconhecido, em busca da terra sonhada. Mas sonhar é coisa que não
                       se ensina. Brota das profundezas do corpo, como a água brota das
                       profundezas da terra.
                                                                       Rubens Alves(2000).


    A escola regular de especial qualidade para todos, acalentada nos sonhos desta
autora não é a escola cantada em prosa pelo grande poeta Mário Quintana, in
Poesias:


                           De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o azul convida os
                       meninos, as nuvens desenrolam-se, lentas, como quem vai inventando
                       preguiçosamente uma história sem fim... Sem fim é a aula, e nada
                       acontece, nada... Bocejos e moscas. Se ao menos um avião entrasse por
118


                        uma janela e saísse pela outra.
                                                                                        Mário Quintana (1962).


   A escola cidadã, está mais para aquela cantada em versos pelo grande educador
Paulo Freire, citado em Currículo Estruturados: implantação de programas
pedagógicos, IESDE Brasil S.A., à página 7:


                        Escola é ...
                        O lugar onde se faz amigos,
                        Não se trata só de prédios, salas, quadros, programas,
                        Horários, conceitos ...
                        Escola é, sobretudo, gente,
                        Gente que trabalha, que estuda,
                        Que se alegra, se conhece, se estima.
                        .............................................................
                        “Nada de ilhas cercadas de gente por todos os lados.”
                        Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir
                        Que não tem amizade a ninguém,
                        Nada de ser como o tijolo que forma a parede,
                        Indiferente, frio, só.
                        Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
                        É também criar laços de amizade, é criar ambiente de camaradagem,
                        É conviver, é se “amarrar nela”!
                                                                                             Paulo Freire.




   Esta escola deve estar atenta ao investimento afetivo nas relações que se
estabelecem dentro dela, relações que ajudam a construir – na e para a cidadania –
aprendizes capazes de inventar, criar, renovar e descobrir fórmulas de promover a
própria vida, apropriando-se dela com as próprias mãos, que precisam receber e
distribuir muito carinho.


    Seria impossível entender o desenvolvimento da inteligência sem um
desenvolvimento integrado e convergente dos próprios interesses e amores por
aquilo que a criança olha, toca e alimenta a sua curiosidade. A criança deseja e
necessita ser amada, aceita, acolhida e ouvida para que possa despertar para a sua
119



curiosidade e desejo para o aprendizado.


   A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade, defende Paulo Freire . O
professor não pode é permitir que a sua afetividade interfira no cumprimento ético do
seu dever. Não pode, por exemplo, condicionar a avaliação do trabalho escolar de
um aluno ao maior ou menor bem querer que tenha por ele. Não pode nem ser
“adocicado”,   nem   “arestoso”      e   “amargo”,    nas     suas    vivências      escolares.
Aprendizagem e afetividade caminham juntas, lado-a-lado e auxiliam na autonomia
do aluno, Conforme Édina Castro de Oliveira, no prefácio de Freire (2003) falando
da obra, a escola cidadã pressupõe:

                           Uma pedagogia fundada na ética, no respeito à dignidade e à própria
                       autonomia do educando. Como os demais saberes, este demanda do
                       educador um exercício permanente. E a convivência amorosa com seus
                       alunos e na postura curiosa e aberta que assume, ao mesmo tempo,
                       provoca-os a se assumirem enquanto sujeitos sócio-históricos-culturais
                       do ato de conhecer, é que ele pode falar do respeito à dignidade e
                       autonomia do educando. [...] A competência técnica científica e o rigor de
                       que o professor não deve abrir mão no desenvolvimento do seu trabalho,
                       não são incompatíveis com a amorosidade necessárias às relações
                       educativas.
                                                                Oliveira in Freire (2003, p. 10).



   A educação da escola especializada em todos os alunos deve ser semelhante a
apregoada por Freire (2003), onde formar é muito mais do que puramente “treinar” o
educando no desempenho de destrezas. Quem faz a educação, educadores e
educandos, não pode escapar à rigorosidade ética. Da ética que condena o cinismo
do discurso neo-liberal e dos discursos políticos eivados de                 prometismo, da
exploração do trabalho humano, do puritanismo, do preconceito e discriminação de
raça, de gênero e de classe.


   “O preparo científico do professor ou professora deve coincidir com sua retidão
ética. [...] É que me acho absolutamente convencido da natureza ética da prática
educativa, enquanto prática especificamente humana.”, assinala Freire 2003 ( pp. 16
– 17), o pequeno grande mestre, que acrescenta que os educadores não podem se
120



assumir como sujeitos da procura, da decisão, da ruptura, da opção, como sujeitos
históricos, transformadores, a não ser assumindo-se como sujeitos éticos. Freire fala
da ética enquanto marca da natureza humana, algo absolutamente indispensável á
convivência sadia e amorosa dos seres humanos.


   Ensinar é muito mais do que transferir conhecimento, é criar as possibilidades
para que o aprendiz venha a produzir ou construí-lo, para Freire (2003), para quem,
quem ensina aprende ao ensinar e, quem aprende ensina ao aprender. Ensinar
inexiste sem aprender e vice-versa, pois aprender se dilui na experiência fundante
de aprender, explica.


                            Quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar-
                        aprender participamos de uma experiência total, diretiva, política,
                        ideológica, pedagógica, estética e ética, enquanto a boniteza deve achar-
                        se de mãos dadas com a decência e com a seriedade.
                                                                            Freire (2003, p. 25).



   A escola cidadã é aquela que ensina com rigorosidade metódica, na visão de
Freire. O educador reforça a capacidade crítica do educando, sua curiosidade e sua
insubmissão. E para que isso venha a acontecer a escola não pode prescindir de
educadores criadores, instigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e
persistentes. Porque: nas condições da verdadeira aprendizagem, os educandos vão
se transformando em reais sujeitos do saber ensinado, ao lado do educador,
igualmente sujeito do processo.


   Os   educadores      especialistas    em    todos     os    alunos    devem      pesquisar,
constantemente, o que ainda não conhecem e comunicar ou anunciar a novidade.
Devem respeitar os saberes com que os educandos, especialmente os das classes
menos favorecidas, cultural e economicamente, trazem ao chegar a escola e sugerir
e discutir com os alunos a razão de ser de algum desses saberes em relação com o
ensino dos conteúdos. Estabelecer uma “intimidade” entre os saberes curriculares
fundamentais aos aluno e a experiência social que eles trazem como indivíduos.
Devem discutir as implicações políticas e ideológicas do descaso das autoridades
pela áreas pobres da cidade. Isso é ética!
121



   Ensinar exige estética e ética, decência e boniteza de mãos dadas, no dizer de
Paulo Freire:


                              Transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é
                         amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício
                         educativo: o seu caráter formador. Se se respeita a natureza do ser
                         humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio á formação
                         moral do educando, educar é substantivamente formar.
                                                                           Freire (2003, p. 33).


      Ensinar pra Freire (2003) exige:a corporeificação das palavras pelo exemplo;
correr riscos ao aceitar o novo, não que tudo o que foi aprendido tenha que ser
jogado fora, pois o velho que preserva sua validade ou encarna uma tradição através
dos tempos continua novo; rejeição a qualquer forma de discriminação, que ofenda a
substantividade do ser humano e negue a democracia; reflexão crítica sobre a
prática, pois é pensando criticamente sobre a prática de hoje ou de ontem que se
pode melhorar a de amanhã. Como ele mesmo lamenta:


                              É uma pena que o caráter socializante da escola, o que há de
                         informal na experiência que se vive nele, de formação ou deformação,
                         seja negligenciado. Fala-se quase que exclusivamente do ensino dos
                         conteúdos, ensino lamentavelmente quase sempre entendido como
                         transferência de saber. [...] Se estivesse claro para nós que foi
                         aprendendo que percebemos ser possível ensinar, teríamos entendido
                         com facilidade a importância das experiências informais nas ruas, nas
                         praças, no trabalho, nas salas de aula das escolas, nas práticas de
                         recreios, em que variados gestos de alunos, de pessoal administrativo,
                         de pessoal docente se cruzam cheios de significação. Há uma natureza
                         testemunhal nos espaços lamentavelmente relegados das escolas.
                                                                        Freire(2003, p 43 -44).


   Freire sempre acreditou que nenhuma formação docente pode fazer-se alheada
do reconhecimento do valor das emoções, da sensibilidade, da afetividade, da
intuição e do exercício da criticidade,       que implica da passagem da curiosidade
ingênua à       curiosidade   epistemológica, do       conhecimento bancário para o
conhecimento crítico. Constituir-se num professor crítico é tornar-se um aventureiro
122



responsável”, na expressão do mestre, que diz que as coisas até podem piorar
quando se está predisposto à aceitação do diferente, do novo, mas diz saber
também que é possível intervir para melhorá-las. A passagem do homem pelo
mundo não é predeterminada, a vida é feita de possibilidades, e não de
determinismos. Quando a presença humana no mundo não se faz no isolamento,
isenta da influência das forças sociais, culturais e históricas há esperança. “ ‘Não sou
esperançoso’, disse certa vez, por pura teimosia, mas por exigência ontológica.”
Freire (2003, p. 54).


   O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não
um favor que pode-se conceder uns aos outros. O professor que costuma
desrespeitar a curiosidade dos seus alunos, ou seu gosto estético, a sua inquietude,
a sua linguagem ou que ironiza pelos seus traços culturais, transgride os princípios
éticos da existência humana. Tanto quanto o professor que faz calar uma rebeldia
legítima de um aluno ou aquele que foge do cumprimento do seu dever de ensinar,
de estar respeitosamente presente à experiência educativa.Qualquer discriminação é
imoral!


   Ensinar exige, além de segurança, competência profissional e generosidade,
comprometimento, liberdade e autoridade, a arte da escuta, o reconhecimento que a
educação é ideológica, disponibilidade para o diálogo, querer bem aos educandos e
compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo, defende Freire
(2003).


   Quanto mais liberdade e solidariedade, entre professor e aluno nesse espaço,
mais possibilidades há de cidadania. O professor precisa abandonar a postura de
portador da verdade a ser transmitida aos discípulos. Quem não consegue escutar
seus alunos, não aprende a falar com eles. Fala para eles, fala deles, mas não com
eles. É papel do professor escutá-los, nas suas dúvidas, nos seus receios, na sua
incompetência provisória. Como anuncia Freire:


                           O melhor caminho para guardar viva e desperta a minha capacidade
                        de pensar certo, de ver com acuidade, de ouvir com respeito, por isso de
123


                       forma exigente, é me deixar exposto às diferenças, é recusar posições
                       dogmáticas, em que me admita como proprietário da verdade. [...]
                       disponibilidade à vida e aos seus contratempos.[...] ao riso manso da
                       inocência, à cara carrancuda da desaprovação, aos braços que se abrem
                       para acolher ou ao corpo que se fecha na recusa.[...] E quanto mais me
                       dou á experiência de lidar sem medo, sem preconceito, com as
                       diferenças, tanto melhor me conheço e construo meu perfil.
                                                                             Freire (2003, p 134).


   Quanto mais rigoroso o professor se tornar na sua busca e no seu exercício
profissional, tanto mais alegre e esperançoso se sentirá. Por isso é falso pressupor
que alegria e docência sejam incompatíveis, inconciliáveis. A alegria não é inimiga
da rigorosidade, proclama Freire (2003), que acredita que há algo como o que
costumam chamar de vocação que deve enlaçar tantos professores de bem na sua
profissão tão mal vista e paga pelos governos deste país. Mesmo numa situação tão
desestimulante, muitos continuam a suar a camiseta, honrando a categoria. E
encerra a obra comentada com mais uma lição, desta vez de pura humildade:


                           Como prática estritamente humana jamais pude estender a educação
                       como uma experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as
                       emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos por um
                       espécie de ditadura reacionalista.[...] jamais compreendi a prática
                       educativa como uma experiência a que faltasse o rigor em que se gera a
                       necessária disciplina intelectual.[...]Estou convencido, porém, de que [...]
                       o   exercício   da    curiosidade    epistemológica     não    me        fazem
                       necessariamente      um   ser   mal-amado,   arrogante,    cheio    de    mim
                       mesmo.[...] Não nego a competência, por outro lado, de certos
                       arrogantes, mas lamento neles a ausência de simplicidade, que, não
                       diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor.
                                                                     Freire (2003, pp. 145 – 146).



   A escola de especial qualidade merece um projeto político-pedagógico sonhado e
construído com muito amor e rigor, como fala Freire, por todos os membros da
comunidade escolar. Mas, quando têm-se a escola brasileira com uma trajetória ao
longo dos tempos marcada pela centralização das decisões, cabendo aos
professores cumprir as determinações que recebem “de cima”, parece utopia falar-se
124



na construção de um projeto-político-pedagógico onde todos participem: professores,
dirigentes, especialistas, pais e alunos,como refere Carvalho (2004):

                           O projeto político-pedagógico pode ser considerado a “carteira de
                       identidade” da escola, evidenciando os valores que cultua,bem como o
                       percurso que pretende seguir em busca de atingir a intencionalidade
                       educativa.
                                                              Carvalho (2004, pp. 156 e 157).




   Tal proposta, ou seja, o seu texto, deverá estar sempre em processo de
aprimoramento, segundo a autora, pois se trata de um tecido que nunca se
arremata, porque a vida é movimento e exige adaptações permanentes a serem
elaborados num clima de gestão compartilhada. Tanto as discussões como as ações
deliberativas devem ter:


                           O direito e a igualdade de oportunidades respeitadas, a diversidade
                       humana e a multiplicidade de interesses e necessidades de cada um [...]
                       Espera-se que prevaleça o propósito de oferecer a todos a igualdade de
                       oportunidades educacionais, o que não significa, necessariamente, que
                       as oportunidades sejam as mesmas e idênticas, para todos.
                                                                     Carvalho ( 2004, p. 157).




   A busca da cidadania plena de todos os alunos não deixa de ser um ato político,
do qual todos são co-partícepes na escola. A educação é um processo para o qual
devem convergir inúmeras variáveis, inclusive a motivação de cada participante e a
crença de cada um faz a diferença para que a mudança ocorra, aponta Carvalho
(2004). Baseada no Index para a Inclusão – texto produzido pelo Centro de Estudos
para a Educação Inclusiva em conjunto como o Centro de Estudos sobre as
Necessidades Especiais, da Universidade de Canterbury, da Inglaterra, em 2000 –
sugere que no projeto político-pedagógico, em questão devem constar três
dimensões, a saber:
      a dimensão cultural – referindo-se aos aspectos filosóficos que devem nortear
      os objetivos a serem atingidos;
125



      a dimensão política – evolvendo a organização interna da escola, os
      processos de comunicação e participação (vertical e horizontal), os vínculos
      com a comunidade e com os pais, particularmente; e ainda,
      a dimensão prática, aí incluídas a prática pedagógica em sala de aula, bem
      como os mecanismos de ajuda e apoio aos alunos, professores e pais que
      deles necessitem.
Como muito bem refere a autora: “Precisamos colocar os pingos nos ‘is’ e entender
que a inclusão envolve a reestruturação das culturas, políticas e práticas de nossas
escolas que, como sistemas abertos precisam rever suas ações, até então,
predominantemente elitistas e excludentes.” Carvalho (2004, pp. 157 – 158).


   É hora de revolucionar tudo no contexto escolar, onde se torna urgente que o
acerto seja a regra, onde se consiga exterminar com a pedagogia do fracasso
escolar, onde os problemas de ensinagem precisam deixar de ser rotulados de
problemas de aprendizagem.


   É sabido que não são poucos os educandos que tem suas NE interpretadas como
especiais - ou muito diferentes da “média” - por parte de professores mal preparados
pelo sistema de ensino. Isto contrapõe-se a idéia de que enquanto cidadão de uma
sociedade que se pretenda democrática, a luta por uma educação de qualidade para
todos não comporta qualquer exclusão, sob qualquer pretexto. Portanto, é preciso
que, para além dos ideais proclamados e das garantias legais, procure-se conhecer,
o mais profunda e brevemente possível, as condições reais da educação brasileira,
que vem deixando muito a desejar.


   Mazzotta (s.d.) reivindica que ao educador não cabe o papel de mero executor de
currículos e programas predeterminados, mas sim de alguém que tem condições de
escolher atividades, conteúdos, experiências que sejam mais adequadas para o
desenvolvimento das capacidades fundamentais dos seus alunos, levando em conta
as suas necessidades e desenvolvimento cognitivo em que se encontra. Nas suas
palavras:


                          O sistema de ensino deve definir diretrizes para uma organização
126


                        abrangente (autonomia financeira, administrativa e didática) de modo a
                        incluir o atendimento de alunos portadores de deficiência nos serviços
                        especiais;   orientar   as   escolas   sobre   procedimentos   didáticos   e
                        administrativos para favorecer a integração de alunos portadores de
                        deficiência nas classes comuns; reconhecer a validade dos serviços e
                        auxílios de educação especial como recursos que apóiam e suplementam
                        a educação escolar regular. Mazzotta (s.d. p. 04)


   O autor refere também que a medida que for se concretizando a idéia do currículo
especial para cada escola, direção para a qual o pensamento educacional vem
apontando, as diferenças entre educação especial e educação comum vão diminuir e
“conseqüentemente, o ‘currículo especial’ se converta em um dos elementos de uma
ação sócio-educacional global, que assegure, na medida necessária, o interesse por
cada membro da comunidade, seja qual for sua condição e o tipo de necessidade.”
Mazzotta (s.d., p.05)


   E segue explicando que, além de um currículo suficientemente amplo para
atender às necessidades dos alunos e da sociedade, incluindo as adaptações
necessárias, a organização administrativa, didática e disciplinar deve ter a maior
amplitude possível a fim de conter uma maior diversidade das condições de
atendimento aos alunos; as instalações da escola devem ser favoráveis à
diversidade; os professores comuns e especializados devem ter condições dignas de
trabalho, bem como precisam estar preparados e receber orientação e apoio; o
critério de agrupamento dos alunos precisa ser revisto e também os critérios de
avaliação e promoção dos alunos; a garantia de infra-estrutura e de recursos
materiais necessários deve estar presentes; envolver os pais e a comunidade no
trabalho escolar é condição sine qua nom para a inclusão; identificar e corrigir
atitudes de desvalorização e/ou discriminação de alunos e professores por quaisquer
razões; entender que a escola é parte da sociedade e como ela se constitui em
espaço de choques de interesses; da mesma forma que o avanço da participação de
um grupo implica, necessariamente, na reavaliação do outro; valorizar a integração
do professor especial no corpo docente da escola, como elemento essencial ao
processo de inclusão; desenvolver ações práticas para responsabilizar aos membros
da comunidade escolar.
127




   Já foi dito que o estudo e a prática da ética não pode ficar fora dos portões da
escola, mas, como adverte Morin (2000), a ética não pode ser ensinada por meio de
lições de moral. Deve formar-se nas mentes dos estudantes, com base na
consciência de que o ser humano além de ser indivíduo, faz parte da sociedade e da
espécie, o que implica em que o verdadeiro desenvolvimento humano deve
compreender o desenvolvimento        conjunto   das autonomias individuais,      das
participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana.


   Em Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (op.cit.) – texto
solicitado a Morin pela UNESCO, e que de certa forma constitui-se numa obra
coletiva, pois sua versão inicial foi submetida à crítica de         personalidades
universitárias de todo o mundo, o autor apresenta sete tópicos: As Cegueiras do
Conhecimento, que implica em “armar cada mente no combate vital rumo à lucidez”
( p. 14), ou seja, é necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das
características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus
processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que
conduzem o homem ao erro ou à ilusão.


  Outro saber, que leva o título: Os Princípios do Conhecimento Pertinente, aborda
o desenvolvimento da aptidão natural do espírito humano para situar todas as
informações em um contexto e num conjunto. É preciso ensinar os métodos que
permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes
e o todo em um mundo complexo.


   Ensinar a identidade Terrena, terceiro saber, passa pelo ensino da história da era
planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicação entre todos os
continentes no século XVI, de forma a mostrar como todas as partes do mundo se
tornaram solidárias, sem contudo, ocultar as opressões e a dominação. Aborda a
crise planetária, onde todos os seres humanos compartilham os mesmos destinos
com problemas comuns de vida e morte.


   Enfrentar as Incertezas, trata do ensino dos princípios de estratégias que
128



permitam o enfrentamento de imprevistos, o inesperado, a incerteza e modifiquem
seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao largo do tempo. “É
preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de
certeza.” Morin (2000, p.16) .


   Em Ensinar a compreensão, focaliza o reconhecimento de que, embora a
compreensão seja meio e fim da comunicação humana, a educação para a
compreensão está ausente do ensino convencional. A finalidade deste tema é a
necessidade educativa e em todas as idades, para que os homens saiam do estado
bárbaro da incompreensão nas relações humanas. Para tanto deve-se estudar a
incompletude a partir de suas raízes, suas modalidades e efeitos, enfocando não os
sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. Isto constituiria
uma das bases mais seguras da educação para a paz.


   A Ética do Gênero Humano, leva em conta o caráter ternário da condição
humana, que é ser simultaneamente indivíduo/sociedade/espécie, estabelece uma
relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e
concebe a Humanidade como uma comunidade planetária. “A educação deve
contribuir não somente para a tomada de consciência de nossa Terra-Pátria, mas
também permitir que esta consciência se traduza em vontade de realizar a cidadania
terrena.”(op. cit. p. 18).


   A regeneração da democracia existente faz-se necessária, segundo Morin (2000),
como forma de elevação da qualidade da espécie, da sociedade e dos indivíduos,em
suas relações humanas, de compreender e de realizar a Humanidade em si, como
legado para as futuras gerações. O autor explica que a invenção de uma democracia
planetária requer a percepção do destino humano comum entre as várias nações e
continentes, a disposição para forjar instituições globais voltadas para a educação e
a cidadania terrenas, com o concomitante desenvolvimento de uma cultura política
planetária, complementar às culturas política e societárias.


    Com os sete saberes que se inserem na idéia de uma identidade terrena onde o
destino de cada pessoa joga-se e decide-se em escala internacional, cabendo à
129



educação a missão ética de buscar e trabalhar uma solidariedade renovadora que
seja capaz de dar novo alento à luta por um desenvolvimento humano sustentável,
Morin aprofunda a visão transdisciplinar. Para ele, toda a cultura e toda a sociedade
deveria trabalhar, segundo as especificidades desses saberes que apontam numa
visão abrangente da realidade. O autor diz não entender como a educação que visa
transmitir o conhecimento, pode ser cega em relação ao conhecimento humano, ao
invés de promovê-lo para a compreensão, fragmenta-o impedindo que o todo e as
partes se comuniquem numa visão de conjunto.


   O destino planetário do gênero humano é ignorado pela educação que precisa
ao mesmo tempo trabalhar a unidade da espécie humana de forma integrada com a
idéia da diversidade. Para Morin, o princípio da unidade/diversidade deve estar
presente em todas as esferas. Para tanto, torna-se necessário educar para os
obstáculos   à   compreensão     humana,    combatendo     o   egocentrismo    e     o
sociocentrismo, que procuram colocar em posição secundária aspectos importantes
para a vida das pessoas e da sociedade.


   Por fim, os princípios de Morin para a educação do século XXI, lançam um
desafio às instituições educacionais para que instaurem novas formas de
solidariedade e responsabilidade do homem para consigo mesmo, para com os seus
semelhantes e com o planeta. Apontam para a quebra da fragmentação do
pensamento e para a necessidade de reunir o conhecimento científico, as
humanidades e as artes, a fim de estabelecer um saber transdisciplinar.


   As idéias humanistas de Morin, em especial no tangente à Educação, possuem
algo de similar e congruente com as pesquisas em torno das teorias e da Terapia
Centrada no Cliente, de Carl Rogers (1977), que mexeram com diversas áreas da
atividade humana, especialmente nos Estados Unidos, revolucionando a Educação,
através da sua filosofia de valorização do estudante, com o Ensino Centrado no
Aluno, que se apresenta como indicativo para as escolas inclusivas.


   Para Rogers(1977) o indivíduo aprende como um todo, incluindo a natureza
estímulo-resposta, a cognição e o sentimento. Uma aprendizagem holística. A
130



pessoa deve ser encorajada a seguir seu próprio desejo profundo de aprender, de
crescer, de criar, “em vez de ser planejada como o quer Skinner, creio que a
aprendizagem deveria ser muito espontânea e ocorrer quando a pessoa sente que
aquilo vai ser aprendido está relacionado com suas próprias necessidades e seu
próprio desejo de se desenvolver.” Carl Rogers in Evans (1979 , p. 45).


   O psicólogo não segrega o intelecto de outras funções, valoriza-o como um tipo
de instrumento que pode ser usado de modo efetivo na integração de experiências -
ao operar de forma livre tende a dirigir o organismo à tomada de consciência mais
congruente, com que então, forçá-Io por vias específicas pode não ser benéfico. Ele
inclusive satiriza a idéia, comparando a aprendizagem ao espinafre: "Todos nós
sabemos dos efeitos do espinafre e do ruibarbo [erva medicinal] obrigatórios sobre
as crianças. Dá-se o mesmo com a aprendizagem compulsória. Eles dizem, 'É
espinafre e pro inferno com ele. " Rogers (1961, p. 235)


   Rogers (1983) acredita que a personalidade real de cada ser humano mostra-se
através do relacionamento com os outros. Para ele os relacionamentos oferecem
ocasião para a pessoa funcionar por inteiro, para se harmonizar consigo mesmo,
com os outros e com o meio-ambiente. Em assim sendo, haveria palco melhor para
o desabrochar da personalidade real do que no seio das escolas inclusivas?


   O autor define a pessoa de funcionamento integral como aquela que possui uma
personalidade plena, em contínuo estado de fluxo. É flexível, e mutável. Vive cada
momento, vive no presente, está sempre aberta à experiência. É capaz de
reestruturar suas respostas, à medida que a experiência sugere, permite ou exige
novas possibilidades. É também uma pessoa que confia na sua intuição e possui
cada vez maior capacidade de tomar decisões.


   Rogers (1977) aplica à Educação os mesmos princípios e procedimentos da sua
terapia (1977). Ao   contrário da Escola Tradicional,      considera o ato educativo
essencialmente relacional e não individual, daí a importância de se colocar ênfase
nos intercâmbios para que o grupo, com seu professor, se transforme em uma
comunidade de aprendizagem. Na terapia Rogers desenvolveu os T-group
131



(dinâmicas de grupo) onde dez a quinze clientes interagem sob a observação de um
monitor, que intervém o mínimo possível. Sua função é a de dissolver as relações de
autoridade que surgem como decorrência da compulsão que as pessoas têm para
mandar ou obedecer. Nestes grupos o professor é apenas um facilitador do processo
de aprendizagem. Não dá preleções, mas fala e avalia, se solicitado pelos alunos, e
oferece subsídios para que o aluno execute sua formação, com livros, artigos, etc.


   Seguindo as idéias de Rogers, em 1927 surge a Escola de Summerhil, fundada
por AS. Neill, que recebeu críticas do mundo todo, mas que mesmo após a sua
morte, em 1973, continuou funcionando. Não mais que 70 alunos freqüentavam as
aulas. Os exames e a obrigatoriedade da presença do aluno às aulas eram
dispensáveis. As questões de disciplina - porque Rogers impunha que os limites da
liberdade eram os impostos pelas exigências da vida - eram resolvidas em
assembléias gerais, onde os próprios alunos decidiam as regras da comunidade.


   Preocupado com o amor, com a liberdade e com os sentimentos, Neil age mais
com o emocional do que com a racionalidade, porque acreditava que, se educarmos
as emoções, o intelecto se cuidará por si mesmo. Para ele, constranger uma criança
a estudar algo é o mesmo que um governo de forma autoritária obrigar a adoção de
uma religião.


   Na Escola de A S. Neil as aulas são dinâmicas, mas o professor intervém
somente quando solicitado e deve saber distinguir se as perguntas dos alunos são
ou não pertinentes ao grupo; em não sendo deve calar-se. A não-diretividade é a
característica do processo de aprendizagem, trata-se de um processo não
estruturante, no qual o professor não interfere diretamente no campo cognitivo e
afetivo do aluno. O professor deve dirigir o estudante às suas próprias experiências
para que ele passe a se auto-dirigir.O silêncio sistemático e prolongado do professor
é a concretização da não-diretividade. A desafiadora prática da ausência do poder
exige bastante humildade por parte do professor; pois as clássicas tarefas da
tendência tradicional passam a ser responsabilidade do grupo. Neil, dá maior
atenção para a compreensão do que para a memória.
132



  Que tal se o professor da escola inclusiva pescasse as idéias dos autores
trabalhadas nesta monografia e mais as de alguns outros que lhes fossem
simpáticos para colocar em prática nas suas comunidades ? Não faltam receitas,
nem ingredientes, é arregaçar as mangas e construir a escola que cada comunidade
desejar para os seus pequenos cidadãos.
133




   Muitas são as formas de educar e ser educado. Ligar a televisão é
uma delas. Essa foi a conclusão a que chegou um pai de cinco fi    filhos
quando ao retornar do trabalho à hora da novela das oito, da Rede
Globo, na época De Corpo e Alma, escrita por Glória Peres e deparou
                                                                deparou-
se com a seguinte imagem: na TV, homens musculosos dançavam e
faziam streap
        streap-tease naquilo que ficou conhecido como Clube de
                                       ou
Mulheres, enquanto na sala de sua casa, seu filho de apenas cinco
anos, imitava a ficção da TV, tirando a roupa e se exibindo, incentivado
pela própria família, que apenas se divertia com a cena real.
   Na ocasião, o fato que, para a maioria das pessoas, era somente
algo engraçado, fez aquele pai perceber que seu filho estava sendo
educado não apenas pelos ensinamentos da família ou da escola.
Havia um terceiro elemento interagindo naquele contexto, tão poderoso
que, no dado instante, qualquer repreensão por parte daqueles que
                instante,
deveriam ter o controle da situação – os pais – poderia parecer uma
agressão ou ainda um comportamento antiquado.

                                     Wagner Bezerra (1999. p. 113).
134




2. Os meios de comunicação de massa, enquanto desafio contemporâneo à
  escola.


   Bordenave (2001) considera a comunicação como um processo natural, arte,
tecnologia, sistema e ciência social. Pode servir de instrumento de legitimação de
estruturas sociais e de governos, mas também à força que os contesta e os
transforma. Veículo de auto-expressão e de relacionamento humano, pode ser útil à
opressão psicológica e moral. “A comunicação excita, ensina, vende, distrai,
entusiasma, destrói reputações, orienta, desoriente, faz rir, faz chorar, inspira,
narcotiza, reduz a solidão e - num paradoxo digno de sua infinita versatilidade –
produz até incomunicação.” (op.cit. p. 14).


   O autor aponta que a função prioritária da comunicação talvez seja a que com
maior freqüência é mencionada: a de ser elemento formador da personalidade. Sem
a comunicação, o homem não pode existir como pessoa humana. Ilustra o
enunciado com um caso histórico que ocorreu em 1797, quando alguns caçadores
capturaram um menino que deveria ter em torno de 12 anos, num bosque da França.
Estava nu, vivia como um selvagem. Portava-se como um animalzinho, grunhia,
mordia e arranhava quem dele se aproximasse. Em Paris, expuseram-no em uma
jaula (o selvagem de Averyon ). Posteriormente um médico     tomou a criança aos
seus cuidados e se propôs a ensinar-lhe a falar. Após vários anos ele chegou a
aprender algumas palavras e conduzir-se como um jovem civilizado. Entretanto o
135



educador teve que convencer-se de que sua inteligência não ultrapassava certos
limites mínimos.


                           A sub-normalidade da criança selvagem explica-se pelas descobertas
                        de Jean Piaget, para quem a inteligência humana   só   se desenvolve
                        quando é estimulada; porém os estímulos devem corresponder a
                        determinadas etapas de desenvolvimento da inteligência, uma das quais
                        coincide com a aparição da capacidade da linguagem se, nessa etapa
                        ninguém fala com a criança, nem sua linguagem nem sua inteligência são
                        desenvolvidas.
                                                                     Bordenave (2001, p.30).


   A comunicação, portanto, é fundamental para a formação da personalidade
normal. Bordenave comenta que George Mead, filósofo norte-americano, afirmava
que a mente e a personalidade emergem na experiência social, por meio da
comunicação. Isto que dizer      que a personalidade é um produto social, gerado
graças à interação com as demais pessoas.


  Bordenave enuncia uma série de funções para a comunicação: função expressiva;
função de construção da pessoa; função de construção de identidade; função de
divertimento ou lúdica; função de troca de bens e serviços na atividade econômica;
função de atribuição ou legitimação de status; função de            articulação política de
interesses e tomada de decisões; função de participação ou acesso ao diálogo e
cooperação; função de imposição e manutenção de normas sociais; função de
vigilância e educação; e função informativa ou de conhecimento do mundo objetivo.


   O autor esclarece que as funções de informação e de divertimento, podem ter
conseqüências disfuncionais de “narcotização”, contribuindo para a legitimação de
regimes políticos opressores, etc. A função de vigilância dos eventos pode levar a
uma função chamada pelos norte-americanos de agenda setting que consiste em os
meios de comunicação determinarem a agenda da discussão pública, ao selecionar
assuntos de maneira tendenciosa, favorável aos interesses das classes dominantes
e dos próprios meios.


                           Até pouco tempo no Brasil considerava-se a comunicação como
136


                       sinônimo de “Showmanship” ou habilidade para manejar as emoções da
                       massa. Chegou-se a exaltar como grandes comunicadores personagens
                       de televisão que adquiriram popularidade através de espetáculos de
                       participação manipulada, onde as manifestações semi-histéricas do
                       auditório são induzidas mediante simples mecanismos rítmicos de
                       “estímulo-resposta-recompensa.”
                                                                      Bordenave (2001, p.34).




   Como Bordenave, esta autora acredita que o potencial verdadeiro da
comunicação está longe de ter sido aproveitado. A comunicação pode apoiar o
surgimento de um homem novo, uma nova civilização. “Até agora a comunicação
tem sido utilizada muito mais para legitimar e manter uma ordem social caracterizada
pela exploração da maioria, pela verticalidade e o autoritarismo de relações, pela
demagogia e o apelo às emoções fáceis. (op.cit. pp. 34 -35).


   Frente a este e outros riscos da “democracia eletrônica”, apresenta-se com a
grande vantagem do acesso generalizado às informações – mas com                              o
aproveitamento inadequado para a democracia verdadeira que dependerá das
mudanças estruturais sociais, que ainda estão por vir e da leitura crítica dos meios
de comunicação.


   Como o próprio nome parece indicar os media fazem um papel de mediação
entre a realidade e as pessoas . O que os meios de comunicação social mostram
não é a realidade, mas a construção da realidade, da enorme quantidade de fatos e
situações disponíveis a seu belo prazer, combinando-os entre si, e estruturando as
mensagens e programas de ideologia, com seus estilos e intenções que lhes
atribuem os comandantes dessas redes.


                          Cria-se assim uma “ilusão referencial” segundo a qual o leitor,
                       ouvinte ou televidente, acredita que o que lê, ouve e vê na tela é a
                       realidade, quando, na verdade, não é senão uma “construção” da
                       realidade.[...] Essa capacidade de construir a realidade é uma qualidade
                       positiva dos meios como extensão do homem, pois permite ao receptor
                       alargar o seu mapa do mundo. Mas também constitui-se em um perigo
137


                        porque permite aos meios oferecer um mapa tendencioso.
                                                                 Bordenave (2001, p. 80 – 81).




  A reação contra a “comunicação dominada” tem levado os cientistas do 3º mundo
a estudar com mais atenção o papel que a comunicação pode ter na transformação
social. Vários trabalhos de Paulo Freire (Extensão ou Comunicação?) abordam a
dimensão comunicativa da educação no contexto da mudança social libertadora.


                            Estamos num momento histórico em que a sociedade civil reafirma
                        seu direito de ser o arquiteto do seu próprio destino. O estado pouco
                        acostumado à contestação e à participação, reage e apela à capacidade
                        dominadora da comunicação.[...] [Mas] a população está se organizando
                        e aprendendo a usar sua voz.
                                                                      Bordenave (2001, p.119).




   A comunicação de massa difere totalmente de outras formas de comunicação que
se processam no cotidiano social, porque inaugura uma ruptura fundamental entre
produtor e receptor. Thompson (1995) adverte que, por esse motivo, seria mais
apropriado falar em transmissão ou difusão de mensagens, em vez de comunicação
como tal.


   O autor explica que a expressão massa é por vezes enganadora quando se
presume     que   as   audiências   são    constituídas     por amontoados         inertes e
indiferenciadas. Ele ressalta que as mensagens transmitidas pelas indústrias da
mídia são recebidas por pessoas específicas, situadas em contextos sócio-históricos
específicos. Há uma dinâmica na recepção das mensagens, as quais ganham
sentidos subjetivos quando estabelecidas as relações com aspectos da vida
concreta, Uma mesma mensagem pode ser interpretada de mil formas, sabe-se.


  São quatro as características visíveis na comunicação de massa, segundo
Thompson (1995):
      A primeira, permite concebê-la como produção institucionalizada e difusão
      generalizada     de   bens    simbólicos,        através   da    transmissão      e    do
138



      armazenamento da informação/comunicação. A intenção explícita é a de
      atingir um maior número possível de receptores. Na retaguarda desta
      atividade estão presentes instituições interessadas na produção em longa
      escala e na difusão generalizada de bens simbólicos.
       A segunda, institui uma ruptura fundamental entre produção e recepção dos
      bens simbólicos.Isto significa que entre o produtor e o receptor dos bens
      simbólicos há uma mediação feita através dos meios técnicos, uma vez que
      os agentes dessa bipolaridade encontram-se fisicamente afastados. Operam-
      se mensagens de mão única, que partindo de um produto atinge um receptor
      sem que esse possa intervir, reagir, influenciar no processo.
      A terceira refere-se a extensão da acessibilidade no tempo e no espaço,
      própria de todas as formas de transmissão cultural, mas que acentua-se na
      comunicação em massa, em virtude da presença dos recursos simbólicos,
      das práticas sociais e das condições técnicas nas quais se opera a recepção.
      A quarta aponta para a circulação pública das fórmulas simbólicas.


   Conforme Morin (1977), a comunicação de massas chamada por ele de mass
media ou indústria cultural,   é mais uma modalidade mercadológica oriunda da
sociedade industrial: o vento que arrasta em direção à cultura é o vento capitalista.
Morin diz que a imprensa, o rádio, a TV e o cinema fazem parte da indústria ultra-
ligeira, em dois sentidos: pelo próprio aparelho reprodutor e pela mercadoria
produzida. O modelo que a organiza é o da indústria de maior concentração técnica
e econômica, tais como os grandes grupos de imprensa, as cadeias de rádio e TV,
as sociedades cinematográficas que concentram seu poder e aparelhamento no
domínio da comunicação em massa.


   A concentração técnico-burocrática pesa universalmente sobre a produção
cultural de massa, despersonalizando a criação, ao padronizá-la, em nome de uma
racionalidade técnica, comercial e política, desintegrando-a do poder cultural,
segundo Morin. O paradoxo presente nessa atividade tem como suporte a dupla
oposição ou mais os       pares: burocracia-invenção, padrão-individualidade. Essa
duplicidade paradoxal possibilitaria a construção de uma estrutura do imaginário
segundo arquétipos, figurinos – modelo do espírito humano que ordena os sonhos
139



que dão a essência da estrutura interna dos personagens veículos da mídia,
condicionados em temas míticos e romanescos.


   Essa terceira fase da Revolução Industrial em curso, período em que os Meios de
Comunicação assumiram ares de integração planetária, engendra um tempo de
presente contínuo, uma visão fragmentada do mundo, situado em um furacão de
vertiginosas mudanças que estão instaladas na sociedade em geral, e na juventude
em particular, através da busca do imediatismo.


                            O globo agora é uma unidade operacional básica, a aldeia global
                       (Macluhan, 1962) construindo uma forte tensão onde a desintegração dos
                       velhos padrões de relacionamento social humano, e com ele, alíás, a
                       quebra dos elos entre as gerações, forma um conjunto de indivíduos
                       egocentrados sem outra conexão entre si, em busca da própria satisfação
                       (o lucro, o prazer,ou seja lá o que for).
                                                                           Prado (s.d. p. 03).


   Por outro lado, todo mundo sabe que a maioria esmagadora dos alunos, em
todas as faixas etárias, locupleta-se com a programação televisiva, ao mesmo tempo
em que seus professores, numa proporção um pouco menor, também se delicia em
frente a telinha. Mas, nega-se essa realidade na sala de aula. Por isso mesmo,
Edgar Morin recomenda que os professores em vez de ignorarem as séries
televisivas, mostrem que,    por meio de convenções e visões estereotipadas, da
mesma forma que o romance e a tragédia, elas falam das aspirações, temores e
obsessões humanos: amores, ódios, incompreensões, mal-entendidos, encontros,
separações, felicidade, infelicidade, doença, morte, esperança, desespero, poder,
traição, ambição, engodo, dinheiro, drogas.


   Como ele mesmo diz, sobre a boa cultura artística: “ em toda grande obra de
literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um
pensamento profundo sobre a condição humana.” Morin (2003, p. 44). Para o autor,
o romance e o filme que põem á mostra às relações do ser humano com o outro,
com a sociedade e com o mundo revelam a universalidade da condição humana, ao
mergulhar na singularidade de destinos individuais, localizados no tempo e no
140



espaço.


   Por outro lado essa cultura nascida na      sociedade industrial do século XX e
incrementada pela tecnologia, num contexto privilegiado da comunicação de massa,
que tem entre seus traços definidores a democratização da informação, aponta para
uma preocupação bastante significativa, ou seja,          seus alvos, certamente
tendenciosos, como refere Bosi (1972): “A influência da comunicação de massa
deriva do que ela não diz, das suas omissões.” (p.26).


   Theodor Wiesegrund       Adorno,   citado   por Bosi   (1972)   em   seu   ensaio
Comunications defende que a expressão indústria cultural é mais adequada do que
cultura de massa, porque não se trata de um fenômeno que nasça espontaneamente
das próprias massas, como um sucedâneo do folclore, da arte genuinamente
popular. Ao contrário, as mensagens da TV e da imprensa são fabricadas mediante
certos planos como os produtos não-culturais e visam, como estes, ao consumo.
Não é a comunidade de receptores – o público concreto, a sociedade - que se
exprime através dos meios, mas a mentalidade dos detentores desses meios, os
quais induzem uma certa visão de mundo na massa os consumidores.


    Adorno polimiza contra aqueles que confundem grandes audiências e nível
qualitativo, chamando-os de os     glorificadores da indústria cultural, porque esta
atinge um numeroso público. Mas é essa mesma grande audiência que obriga aos
estudiosos a descobrir e a caracterizar melhor a natureza e a função desse
fenômeno. É hora de convocar todos os educadores a refletirem sobre ele, pois a
sociedade que se quer democrática, não deve delegar aos meios de comunicação
de massa – especialmente à TV - tais poderes de persuasão e de transmissão
cultural.


    A cultura de massa – com ênfase na TV – integra e se integra ao mesmo tempo
numa realidade policultural. Embora não sendo a única cultura nascida no século XX
é a corrente verdadeiramente maciça e nova que se estende sobremaneira neste
início do século XXI. Alguns de seus elementos se espalharam pelo mundo todo.
Cosmopolita por vocação, e planetária por extensão, ela nos coloca os problemas da
141



primeira cultura universal da história da humanidade.


   Morin (1977) compara a indústria cultural a do detergente, que produz sempre o
mesmo pó, só variando a embalagem de tempos em tempos e a automobilística, que
individualiza as séries anuais com renovações técnicas ou de forma, enquanto as
unidades são idênticas umas às outras, variando só na cor e acessórios, explica.
Para ele, outra característica desta cultura é a pulverização de sensacionalismo,
através do inesperado, do bizarro, do homicídio, do acidente, da aventura, enfim de
tudo que irrompe na vida do dia a dia, da mesma forma com o que na vida real se
assemelha ao romanesco ou a ao sonho é privilegiado pela indústria cultural. “Mais
do que isso, a informação se reveste de elementos, freqüentemente inventados ou
imaginados pelos jornalistas (amores de vedetes e de princesas).” ( p. 27) .


   No setor imaginário o realismo domina, são ações e intrigas romanescas –
especialmente nas novelas e casos especiais - que têm aparência da realidade. “A
cultura de massa é animada por esse duplo movimento do imaginário arremedando
o real e do real pegando as cores do imaginário.” Morin (1977, p. 29).


   Outro aspecto relevante a ser levado em conta é o de que a cultura de massa,
em seu setor infantil, leva   precocemente a criança ao alcance do setor adulto,
enquanto em seu setor adulto se coloca ao alcance da criança. Há uma tendência,
pode-se dizer, que torna a criança adulto antes da hora e fabrica um adulto
acriançado, para não dizer imbecilizado. “Assim, uma homogeneização da produção
se prolonga em homogeneização do consumo que tende a atenuar as barreiras entre
as idades.[...] já se pode perceber que a nova cultura se prolonga no sentido de uma
homogeneização de costumes.” Morin (1977, pp. 39 e 41).


   Essa tendência homogeneizante é,           ao mesmo tempo, uma tendência
cosmopolita, que tende a enfraquecer as diferenciações culturais nacionais, em prol
de uma cultura das grandes áreas transnacionais. A cultura individual, no seu setor
mais concentrado, mais dinâmico, já está organizada de modo internacional.


   A par de todos esses elementos, nomeados por Morin (1977), acrescente-se a
142



concepção lúdica de vida que essa cultura proporciona ao seu público,
especialmente via TV, através da impalpabilidade das sua imagens, da participação
do olho e do espírito descortinando o infinito do cosmos real e das galáxias
imagináveis, mundos à altura da mão, mas fora do alcance da mão, na multiplicidade
do real e do imaginário.Não é de se estranhar que com um entretenimento desse
gênero, olhos fixos na telinha - “... o espírito do espectador se evade e erra,
fantasma invisível, por entre as imagens.” (p. 71) – resultando no empobrecimento
das comunicações como um dos primeiros resultados, alerta Morin.Nem mesmo
pesquisas são necessárias – e existem numerosas a respeito – para perceber-se
como a televisão consegue empobrecer as comunicações, no decorrer das refeições
e durante o horário das novelas. Só há vida durante os intervalos, e ainda assim
quando a publicidade não consegue top de marketing...


   Até a política entra parcialmente no campo da cultura de massa; a batalha
eleitoral toma cada vez mais a forma de uma competição televisada, onde as
qualidades simpáticas do candidato seu rosto, seu sorriso e a beleza de sua mulher
se tornam tarefas políticas. :

                             A cultura de massas integra em si os grandes políticos, não tanto
                         exaltando suas qualidades supremas de chefe (o que é a mola impulsora
                         da propaganda política), mas revelando suas qualidades humanas de pai
                         ou de esposo, seus gostos privados, sua intimidade (por certo que um
                         Hitler um Stálin, um Franco assim como aliás um bonachão presidente da
                         República Francesa já se fizeram fotografar ou cinematografar com uma
                         meninazinha nos braços.
                                                                           Morin (1977, (p.99).


  É preciso ainda que se fale da publicidade que integra,                 sobremaneira,       a
programação televisiva e a cultura de massa. Ela diz respeito à saúde, ao conforto, à
sedução... A publicidade incita, desenvolve ou cria desejos e necessidades no seu
público, porque constitui-se num aspecto inerente desta cultura, é um dos seus
elementos, um dos seus prolongamentos práticos, explica Morin (1977), pois é dela
que advém as vultuosas quantias para a produção da programação.Tudo isso num
clima de mixórdia, que faz os produtos de limpeza, os de higiene para a pele e
outros mais virarem todos produtos de beleza e/ou sedução.
143




                             Ela coloca erotismo onde não existe, num fogão, numa geladeira e
                         aumenta a voltagem dos objetos já dotados naturalmente de carga
                         erótica. Parece que a erotização caminha lado a lado com o progresso da
                         semi-frigidez e da semi-impotência.
                                                                            Morin (1977, p. 112).



Questiona o autor se a difusão de um erotismo espraiado por todos os setores da
vida quotidiana, via cultura de massa , não diluiria o que antes estava concentrado:
“Será que a permanente a lamparina erótica tende a descarregar a tensão sexual?”
Morin (1977, p. 113) .


   Ele aponta também o que diferencia essa cultura de todas as outras: sua
exteriorização multiforme, maciça e permanente de violência que jorra sem cessar
sobre os homens pacíficos das cidades [ não tão mais pacíficos , da edição desta
sua obra, de 1977, até os dias de hoje, mesmo assim valendo ainda o comentário]
dos comics, da televisão, do cinema, dos jornais. É puro sensacionalismo: uma
mixórnia de acidentes, catástrofes, bofetadas, golpes, tumultos, batalhas, guerras,
explosões, incêndios, terremotos, erupções, enchentes, assaltos. A cultura de
massas dita modas, ao seu amplo            espectro de público,       como nenhuma outra
conseguiu até o presente momento:


                              a cultura de massas leva modelos culturais a todos os domínios -
                         relações amorosas, beleza, vestuário,sedução, erotismo, saber, viver,
                         alojamento – modelos afetivos práticos de personalidade, e estes se
                         aclimatam por serem o aspecto cultural do grande ímpeto mundializante
                         da civilização tecnicista e por parecerem anunciar uma salvação terra a
                         terra.
                                                                            Morin (1977, p 161).


 Morin aponta para ao perigo dessa influência sobre o público, pois essa nova
cultura mediática age diferentemente, de acordo com o nível cultural dos povos à
ela submetidos:


                             No 3º mundo, a indústria ultra-ligeira, a das comunicações, começa a
144


                       revolucionar   mentalidades   antes   mesmo   que   a   sociedade   seja
                       transformada. Nos países ocidentais, o alfabetismo foi difundido antes
                       da cultura audiovisual. No 3º mundo,   o processo é, com     freqüência,
                       invertido, a cultura audiovisual se propaga por imensas zonas ainda
                       analfabetas.
                                                                           Morin (1977, p 162).


   E alerta também sobre as conseqüências psicológicas, morais e éticas da cultura
de massa sobre o homem pois, diferente de outras culturas que existem ao longo do
tempo da história humana, esta não cultua, não defende, não                          prega o
engrandecimento humano, não traz no seu bojo a hominização.


                               a fraternidade humana, o amor pelo outro, a comunhão, enfim a
                          superação do egoísmo, o desabrochar da vida pessoal na vida
                          coletiva não são ainda senão mitos; a única cultura ao nível das
                          realidades atuais é a cultura de massa.
                                                                       Morin (1977, p 162).


 Morin (1977) apresenta       ainda uma concepção de que a cultura de massa
bloqueia, reciprocamente, o real e o imaginário, numa espécie de sonambulismo
permanente ou de psicose obsessiva. Assim ocorreria com todos aqueles que “...
sem condições de adaptar uma parte de seus sonhos à realidade e uma parte da
realidade a seus sonhos.” (p. 170) Ou seja, a cultura de massas se adapta aos já
adaptados e adapta os adaptáveis, integrando-se à vida social onde o grau de
desenvolvimentos econômico e social lhe fornecem e favorecem seres humanos.


 Há telespectadores que muitas vezes não conseguem distinguir a programação ao
vivo do programa gravado. Não raro, alguns dentre eles telefonam para a emissora
que está levando ao ar um programa x, para se referir a qualquer aspecto da
emissão, supondo que a transmissão seja direta e surpreendem-se com o equívoco.
Para alguns analistas, um dos grandes perigos da televisão está nesse caráter
híbrido, que favorece a (con)fusão entre informação e fabulação, ou entre registro
documental e ficção ou, ainda, entre o presente exercido e o simulado, abrindo
brechas para se vender gato por lebre.
145



   Conforme Vilém Flusser, citado por Machado (1988), a inexistência de marcas
distintivas entre as duas modalidades de programação televisual – a emitida ao vivo
e a pré-gravada - “acaba por confundir as categorias do real e do fictício e torná-las
cada vez menos ontológicas e cada vez mais coercitivas, de onde o corolário
invetável da TV como instrumento para a alienação.” (p.82) .


    Umberto Eco, também citado por Machado (1988) lembra que “...na TV moderna
temos visto surgir programas em que documentação e ficção se misturam de modo
indissolúvel, a ponto de a distinção entre notícias verdadeiras e invenções fictícias
tornar-se irrelevante.” (p. 83).


  O público, de forma geral, merece que pelo menos os programas de informação
digam a verdade, ou seja, atenham-se aos fatos, mesmo que todo mundo saiba ou
pelo menos intua que, de alguma forma, todo fato é sempre manipulado ou
interpretado na abordagem televisiva.


   Já nos programas humorísticos, novelas, filmes para TV, comédias e congêneres,
aceitam-se liberalidades de toda espécie, pois já se sabe que ele trabalha apenas
com fatos forjados pela imaginação, mesmo que - rigorosamente falando em termos
de anunciação -       não haja diferença audiovisual entre o desembarque na lua
documentado ao vivo e outro extraído de um filme de ficção, por exemplo. Certos
telespectadores, inclusive, nunca acreditaram que o homem tivesse chegado à lua,
para eles foram truques de filmagens. E há os que tomam a ficção por realidade,
como o telespectador que agride o ator que interpreta o vilão de uma novela ao
encontrá-lo na rua. Comportamentos assim são considerados alucinatórios, mas o
perigo maior está concentrado em pequenas aberrações, não nas grandiosas, como
estas aqui comentadas.


  Ninguém deve se iludir a respeito da TV - especialmente em tratando-se da
educação de crianças e jovens – enquanto canal de comunicação sócio-cultural, ela
encontra-se a serviço do sistema social em que se localiza. Sua produção baseia-se,
portanto, na doutrina social, ou na ideologia do sistema, o que implica em que ela
não seja posta em questão nunca.
146




   No Brasil, inserida numa sociedade de capitalismo dependente - terceiro-
mundista e organizada com base em princípios de liberdade de pensamento,
expressão e crença, assegurados pela Constituição - a TV vem sendo orientada pela
ética capitalista, visando antes, e, acima de tudo, o lucro, a partir do qual tudo se
justifica. Veicula, ao longo de toda a sua transmissão, valores e princípios da ética
capitalista, como o individualismo, a competição, o materialismo, virtuosamente
concretizados nas cenas do comercial,       da novela ou do jornal, como afirma
Penteado (1991).
147




    [...] o meio tecnológico moderno, em particular a
                                oderno,
invasão das mídias e o emprego de aparelhos
eletrônicos na vida quotidiana, modela progressivamente
um outro comportamento intelectual e afetivo.[...] Na
realidade, assistimos a lenta ascensão de um novo modo
de ser e de pensar. Um outro modo de ser em
sociedade. [...]
                  Babin e Koubundjian (1989, pp. 11 e 8 ).
                    bin
148




2.1 Um novo jeito de compreender, para além das disciplinas, através de uma
    percepção audiovisual holística.


   Babin e Kouloumdjian (1989) levantam a hipótese de que uma nova cultura está
nascendo – baseados em pesquisas e observações que realizaram, na década de
80. A pesquisa composta por entrevistas, encontros e experiências variadas com a
juventude e com educadores de horizontes e idades diferentes, responsáveis pela
formação permanente em empresas, docentes do ensino superior, professores de 2º
Grau e sociólogos, entre outros. Os especialistas e educadores que fizeram parte do
corpo da pesquisa são da América do Norte, África e Ásia.


   Os    pesquisadores     puderam     observar      as   rupturas   de   valores   e    de
comportamentos entre os jovens e os adultos, perceptíveis em canais como na
linguagem e modos de expressão em geral, na relação com o mundo, nas suas
percepções que consideraram radicalmente diversa da geração anterior. Chegaram
a conclusão de que os jovens não são mais contra estes ou aqueles valores em
relação aos quais tentam definir sua identidade. “Eles ‘estão em outra’, num sistema
diferente dentro do qual se inserem de modo original e que, pouco a pouco, constitui
uma verdadeira e nova cultura.” (op. cit., p. 05).


   Os jovens de hoje diferem bastante dos contestadores que os antecederam, não
são contra, nem a favor. O walkman no ouvido é uma imagem sugestiva, não da
revolta entre   gerações, mas da distância que as separa. A oposição – marca
característica do choque de gerações – metamorfoseou-se em desnorteio, o
149



combate sócio-político transformou-se em salvaguarda da ecologia, a organização
revolucionária deu lugar às ações pragmáticas, as ideologias foram trocadas pelos
discos. Não há agressividade, há apenas distância, uma certa impotência para
comunicarem-se. Não há rompimento com a família, ou pelo menos é bem mais leve
do que antes. A própria incomunicabilidade não é tão radical assim. Cada um na
sua, como eles mesmos dizem.


   Essa conclusões a que os pesquisadores – que, entre outras especialidades,
são professores – chegaram, de certa forma, não são novas para os educadores que
trabalham há um pouco mais ou um pouco menos do que 20 anos e viram esse
novo modo de apreender e perceber a vida, aqui, ali, acolá, pois jovem é sempre
jovem, e cada geração traz sempre muitos traços em comum, ainda que para lá do
além mar.


   Corroborando   com   as   características   apontadas   pela   pesquisa,   muitos
comentários desabonadores foram feitos a respeito dos jovens da década de 80,
pelos entrevistados, fossem eles professores ou pais de jovens da faixa etária em
questão, ou seja, em plena adolescência.


   Embora já se tenham passado mais de 15 anos dessa pesquisa, o assunto
ainda é atualíssimo, no concernente a esta monografia, já que ali nasciam os
comportamentos que ora se encontram enraizados e arraigados à geração
audiovisual agora batizada, registrada e assumidamente em outra, se comparada a
dos seus pais e professores, isto se estes e aqueles não forem também muito
jovens... O dado significativo, para este trabalho, é que os membros dessa
juventude estudada são da geração pós –TV.


   Do estudo pode-se tirar que, em geral, os pais se queixam que os filhos estão
sempre com o som a mil, que os filhos estudam em frente a TV ou ouvindo música,
estão sempre com seus discos, sua TV, escapando deles ... Na deles, fugindo do
diálogo!
150



   Pais e professores se queixam que os jovens tornaram-se incapazes de
acompanhar por muito tempo uma explicação, um discurso qualquer de conteúdo
intelectual. Após 15 minutos já estão em outra ...


   As principais queixas da cultura tradicional à jovem geração são: “o nível de
inteligência baixou” ; “são incapazes de se concentrar”; “colocam tudo no mesmo
pé”; “são passivos”, “há uma perda de raciocínio e do espírito crítico”, “os jovens
falam sobre tudo, mas nada sabem”; “eles vivem em outra”.


   Os autores da pesquisa tecem alguns comentários sobre as possíveis causas
para que as duas culturas se choquem. Para eles a queda da atenção
provavelmente encontra-se vinculada ao fato de muitas crianças dormirem pouco,
por ficarem vendo TV até tarde; a quantidade de informações que atinge os jovens e
as crianças, via Meios de Comunicação de Massa, MCM , os submerge e os impede
de concentrarem-se num ponto especial.


   A civilização eletrônica acelera os ritmos: a própria música é tocada com mais
rapidez do que antes. Mas, em compensação, eles se concentram nas suas
músicas, nas suas histórias em quadrinho, nos seus filmes, nos seus vídeos. Os
pesquisadores comentam que numa das experiências da pesquisa assistiram o filme
Woodstock com jovens alunos, que fascinados confessaram viver quatros horas de
paraíso e alguns acabaram vendo o filme cinco ou seis vezes.


   Já quando os autores assistiram o mesmo filme com alguns educadores, muitos
destes confessaram ter dormido durante a exibição. Tantos outros reclamaram por
que levaram quatro horas para dizer o que poderia ter sido dito em 20 minutos,na
sua concepção... Pergunta-se: quem foi passivo, quem foi mesmo que não se
concentrou?


   Se é difícil para os jovens concentrarem-se em conceitos, discursos desprovidos
de ritmos, imagens, sons, vibrações, não é o caso quando esses elementos estão
presentes. Não há como discordar dos autores, quando perguntam o que serve
muito bem como sugestão para as escolas da pós-modernidade.
151




                            E se o conhecimento pela TV fosse uma forma de entrar na vida
                         divertindo-se, passeando como numa floresta? E se esse conhecimento
                         pela televisão fosse uma familiarização, uma aquisição, caminho na
                         verdade insuficiente, mas necessário para um conhecimento e uma
                         enunciação mais profunda? Portanto, um outro modo de conhecer.
                                                           Babin e Kouloumdjian (1989, p.38 ).



   Muitas queixas sobre a dificuldade de os alunos expressarem-se na sua língua
nacional – no caso o francês – assemelham-se bastante às queixas dos professores
de português no Brasil ( a autora deste trabalho é professora de português). Dizem
os autores que a literatura inspiradora já não é Racine nem as fábulas de La
Fontaine, mas as revistas, o rádio, a TV, o cinema.


   O que há de comum nestas mídias é que define a linguagem audiovisual, que
começava a fazer sucesso na época da pesquisa, se configurando e instalando na
nova cultura. Nela fala-se mais do que se escreve, vê-se mais do que se lê e sente-
se antes de compreender. Um livro é redigido com distanciamento: um script é
composto no calor da criação. Isto é uma diferença básica.


   Na linguagem audiovisual os ruídos lançam o ouvinte dentro do lado concreto de
uma situação, a música cria um clima, a imagem, ao mesmo tempo que fixa, leva
para longe. A palavra estrutura o discurso. Uma regra é que na linguagem
audiovisual o som, a palavra e a imagem tem que vir mixados, amplificados,
multiplicados.


   A marca de uma boa mixagem é criar uma experiência global unificada. O teste
acontece junto ao telespectador.         Se ele perceber os quadros separados, a
montagem é considerada ruim. A mensagem está no todo. Ela dirige-se ao sujeito
inteiro, ele precisa ficar envolvido, tocado.


   Nesta linguagem a estética e a capacidade de empatia são fundamentais, mais
do que a reflexão. Ela apela primeiro aos sentidos, depois à inteligência. A
linguagem não pode ser rebuscada, literária, mas sim popular, dialogada, próxima.
152



“Acompanhar as mídias é viver no drama: o das notícias, dos filmes policiais, dos
jogos inacabados e das dramatizações.” É o império da anormalidade, do
sensacionalismo! Frenesi de pressa e consumo desenfreado de neurônios. No
telejornalismo, por exemplo, é puro: “Drama, isto é, ação. Uma ação que se alimenta
de acontecimentos cuja força é aumentada, ou, de simples pormenores que
conseguem se tornar chocantes e ocupar todo o campo da consciência.” (op. cit. p.
44 ).


   Quando os professores se queixam dos textos ou dos discursos orais de seus
alunos ou da falta de lógica encontrada neles, é bom que se tenha sempre em
mente, que eles nasceram e se criaram – bem perto, diga-se de passagem – das
TVs e sua linguagem audiovisual. Não há falta de lógica, há outra lógica, apenas não
é linear, como a linguagem padrão culto.


   A composição audiovisual não se desenrola como uma história regular de trás
para frente. Nem é didática. Não se desenrola como uma divisão da realidade, em
partes articuladas, com lógica aristotélica. Não é sintética, partindo de um visão de
conjunto para mostrar ou analisar,        sucessivamente,        os pormenores. Ela se
apresenta em flashes, aparentemente sem ordem, num fundo comum. Às vezes,
nem sequer há mais leis de continuidade de cores, de linhas, de assuntos. As
imagens parecem-nos lançadas ao rosto. Mas sob essa aparente desordem, pode
reinar uma rigorosa ordem subjetiva. A dramatização é conseguida indo-se do
detalhe ao global e vice-versa. Como esclarecem os pesquisadores:

                            Pensamos que, lenta e imperceptivelmente, o audiovisual – da
                       televisão aos jogos eletrônicos – impregnou a linguagem. Ouvir a jovem
                       geração falar, ler os textos que ela compõe, é receber o eco
                       deteriorado dessa linguagem audiovisual [...]
                                                           Babin e Kouloumdjian (1989, p. 45).


   Os alunos americanos e os africanos – observados na pesquisa – em suas falas
expressavam bem os prenúncios da incorporação da linguagem audiovisual, ou seja:
falavam com frases breves, expressões pesadas e sonoras, faziam elevado uso de
onomatopéias, acentuação vigorosa e ritmos irregulares, palavras e orações
153



inacabadas – inter-cortadas ou completadas com gestos e caretas, supressões de
verbos, de artigos e de pronomes.


   Percebe-se que o som das palavras tem mais importância           do que o rigor
conceitual. O vigor, até a acidez das expressões, acrescentado      ao gosto pelas
nuances, pelas imagens verbais e a mímica dos gestos de acompanhamento,
substituem os raciocínios e as construções explícitas e bem organizadas. Os autores
chamam de mixagem, o termo síntese que melhor define a fala dos jovens. É como
se eles estivessem fazendo cinema ...


   E seguem-se as queixas dos pais, dos professores e dos especialistas
entrevistados na pesquisa, similares às brasileiras. Falam da dificuldade        de
compreensão de vocabulário; do uso de linguagem oral nas redações; de frases tipo
slogan ; que a página escrita não tem consistência, nem permanência, como se fora
um programa de televisão; não consideram mais a ortografia, escrevendo como se
pronunciam as palavras; só conseguem guardar da dissertação uma palavra-chave,
uma informação; textos com abreviações estranhíssimas, repetições, barulhos com a
língua, tudo acompanhado de gestos e até de sessões de mímica inesperada, que
pontuam a frase ou suprimem as palavras que faltam.


   “A linguagem é quase sem palavras [...] é cada vez mais descritiva, emocional e
até física, por exemplo, ‘Os professores arrancam os cabelos, piram de vez’... ”,
Babin e Kouloumdjian (1989, p. 60). A linguagem enche-se de contexto e esvazia-se
de texto. É quase total a ausência de conjunção e de coordenação. As frases
significando sua totalidade com o auxílio da expressão corporal, o tom da voz, a
mímica.


   Contribuem para isso não só a TV, o cinema, mas a falta de leitura, a carência do
meio social, o não uso de dicionário, atribuem, os educadores. Os jovens de hoje em
dia são essencialmente visuais, eles lêem o que podem visualizar, e se
desinteressam por livros demasiados conceituais. Se eles não conseguirem imaginar
as idéias, não compreendem o texto. Da mesma forma, a fala é cada vez mais
sensorial e visual.
154




   A geração da televisão exprime o que vê e ouve, da maneira como vê e ouve. Há
muita dificuldade para exprimirem idéias que não tenham raiz sensorial, ressonância
emocional ou contorno visual.


   Os autores estão cobertos de razão, quando dizem que o parece ser sem pé
nem cabeça é assim,         considerando-se a organização linear do discurso. Na
realidade, na linguagem audiovisual desses jovens o que conta é a visão do todo, e
não as ligações entre as partes desse todo. As distinções e as articulações do
discurso desaparecem em benefício de uma imagem global. Há o predomínio da
visão subjetiva e global como já foi referido.


   Nesse tipo de linguagem prefere-se um bom estímulo inicial a uma boa
explicação, mas a correspondência, a prova do raciocínio vem depois. O que
comanda as conexões numa conversa, por exemplo, é a preocupação da relação
com o grupo, ou com o meio, mais do que com a lógica interna do discurso.


   A própria imagem e a experiência das relações é mais importante do que o
discurso. É essa a ordem que preside as seqüências dos telejornais. Se vai de
notícia a notícia, sem lógica aparente, e é o telespectador que liga os pedaços, se
pelo menos o conjunto lhe deu alguma experiência unificada. Todas essas
influências fazem com que os jovens sintam a necessidade de uma outra linguagem,
mais livre, mais imaginativa, mais rápida.


   Como     guardar o essencial da aquisição de Gutemberg e, ao mesmo tempo,
assumir os novos modos e valores da linguagem audiovisual? É este o desafio que a
sociedade atual , e, em particular a Educação, precisa aceitar! Se os jovens forem
abandonados      à sua linguagem -        com a força interna de desordem e de
desagregação que carrega consigo – o assassinato das línguas nacionais cultas
ocorrerá em breve, muito em breve, por este planeta à fora. Porém, recolocá-los
dentro do discurso literário tradiconal, com o padrão culto de linguagem – em
raríssimas exceções – será impossível.
155



   A proposição de Babin e Kouloumdjian (1989), ao longo da obra, e com a qual a
autora desta monografia concorda, é que se conduza uma certa exigência, às formas
de linguagem para as quais os jovens têm, ou tem demonstrado atualmente um
talento quase nato, espontâneo.


   Segundo os autores, enquanto os homens da era Gutemberg procuram fixar a
realidade através da escrita, num espaço e num tempo finitos, sem se preocuparem
com a vibração da voz que emite, valorizando só a palavra, a idéia, o conceito; o
homem da geração TV ou audiovisual, ao contrário, é menos atento ao símbolo
abstrato e à idéia do que à voz, à vida do que ao homem.


   O que caracteriza o homem audiovisual não é a vista, mas a combinação do olhar
e do ouvido, tendo a percepção auditiva um papel-chave. Enquanto na percepção
visual é a memória remota que mais age, na musical é a memória a curto prazo que
mais intervém, por isso, a única realidade visível no som é a presente, não pode se
recriar o passado, nem visualizar o futuro.


       Nas palavras de G. Berger, citado na obra que vem sendo explanada, “O que
a música nos oferece é a aguda tomada de consciência da morte dos conteúdos.”
Eis porque o impacto do som é tão forte. As pessoas reagem ao som física e
psicologicamente, antes de analisá-lo. “No som o ouvinte não está acima, está
dentro, não supervisiona, está imerso. A realidade o penetra até o fim do ser, pois o
ouvido é o sentido da intencionalidade.” (op.cit. pp. 83 - 85).


      Pela riqueza das percepções que o audiovisual oferece, pela compreensão
global e plurisensorial da sua maneira de apreender o mundo, ele pode acabar
conduzindo o espectador à falta de reflexão, pois ao assisti-lo, como indica Merleau-
Ponty, citada por Babin e Kouloumdjian (1989) é necessário:

                               ...romper com a fé originada da percepção e adotar, a respeito
                            dela, uma atitude crítica. A tarefa de uma reflexão radical consiste,
                            de maneira paradoxal, em encontrar a experiência irrefletida do
                            mundo para nela recolocar a atitude de verificação e as operações
                            reflexivas, e para       fazer aparecer a reflexão como uma
                           das possibilidades de seu ser.” (grifo da autora deste trabalho).
                                                                   Merleau-Ponty( in op.cit. p. 84).
156




É nesta atitude crítica que a escola pode – e deve – interceder, assunto esse que
será abordado intensamente no item seguinte deste trabalho.


   Uma das grandes resistências ao audiovisual provém da dificuldade dos homens
da era Gutemberg – principalmente os intelectuais – têm em admitir a validade da
imaginação ou da afetividade nos processos de conhecimento e de ensino. Na
mente dos homens que detêm o poder cultural, qualquer expressão imaginária está
ligada ao lazer, à arte, à manipulação. É difícil admitir que o imaginário e                a
afetividade possam, de alguma forma, influenciar a escola ou a organização social.


   Treinados para a distância afetiva e para desconfiança da imaginação, o homem
da era Gutemberg vê com maus olhos a civilização audiovisual eletrônica, que liga
intimamente a sensação à compreensão, a coloração imaginária ao conceito. Mas as
coisas mudaram e é preciso cuidado e disponibilidade para aceitar essa nova forma
de ver e entender o mundo.


                           Sabemos que de tanto trabalhar sempre o mesmo músculo, esse
                       músculo      se desenvolve. Assim também é com o comportamento
                       intelectual. A ginástica interna, consciente ou não, que a prática da
                       linguagem audiovisual desenvolve ao longo do tempo, determina uma
                       maneira de compreender e de aprender, na qual a afetividade e a
                       imaginação não poderiam, estar ausentes.”
                                                          Babin e Kouloumdjian (1989, p. 107).



       No audiovisual tudo parte do que poderia ser chamado de choque audiovisual,
ou seja, uma mudança de registro – som, palavra e imagem chegam brutal e
globalmente. O choque vai determinar uma sensibilidade nova, explicam os autores.
Logo após, estabelece-se um estado emocional confuso, ambíguo. Uma espécie de
pré-conhecimento, que depois determinará a compreensão, propriamente dita da
mensagem. Enquanto no discurso habitual de um livro ou de uma conferência, a
lógica é inscrita objetivamente na pontuação e nas conjunções coordenadas, nos
audiovisuais as seqüências não têm lógica dedutiva. A tonalidade afetiva do começo
– choque inicial – é que vai determinar a compreensão do telespectador. A ligação
entre o conteúdo intelectual e a afetividade é essencial à linguagem audiovisual
eletrônica.
157



   Outro tempo localizável no audiovisual é o da sua compreensão ou Elaboração
do sentido , como referem Babin e Kouloumdjian (1989). Nessa etapa, aquele que
recebeu a mensagem da confusão inicial – mesmo que não compreenda nada –
passa a elaborar ou procurar um sentido, não se trata mais somente de sentir, a
partir desse momento, a compreensão já passa a exigir lugar:



                          Aqui se devem notar dois aspectos específicos [...] na escrita do
                       audiovisual há interpenetração íntima dos elementos cognitivos e
                       afetivos. Mesmo que se trate de uma aula de economia pela televisão,
                       essa aula reveste-se de profundo caráter afetivo, dependendo da
                       personalidade do professor, do brilho dos atores, do som das vozes,
                       da focalização dos rostos, do fundo musical, dos gestos e do conjunto
                       do espetáculo.Exatamente como um bom professor na classe, dir-se-á.
                       Não, muito mais! Pois ainda uma vez é próprio do meio eletrônico
                       ampliar a presença e vibração sensorial.
                                                                               (op.cit. p. 112).


   Quando acontece a reflexão diante e sobre o que se viveu e sentiu, se está diante
do tempo do distanciamento, da conceitualização, ou seja, da passagem às idéias
gerais, da apropriação ou reconstrução na linguagem do espectador, e, enfim, surge
o julgamento crítico sobre o conteúdo, a forma, a linguagem, a técnica, os processos
utilizados, os fundamentos comerciais e econômicos postos em jogo. Momento
importantíssimo, como previnem os autores:


                          Se o audiovisual constitui uma ameaça, é porque muitos
                       espectadores nunca chegam a essa etapa. Assim,             em muitas
                       montagens,na formação, o participante só retém o que convém à sua
                       personalidade e ao seu papel. Num filme sobre técnicas de venda, um
                       vendedor vê alguns de seus defeitos e confirma algumas de suas
                       qualidades. Ele esquece pelo menos 60% das outras informações.
                                                                              (op.cit. p. 113).




   Para muitos o audiovisual mata a imaginação. O bloqueio seria ocasionado pelo
alto número de imagens que faz uso e por sua violência. Mas há quem pense o
contrário. Bachelard, citado por Babin e Koubundjian (1989 p. 115), diz que a
imagem apreendida nos livros, vigiada e criticada pelos professores é que bloqueia a
imaginação, através da imagem imposta, intelectualizada, estereotipada, como as
imagens dos audiovisuais didáticos e dos projetores de slides, utilizados nas
escolas.
158




   A livre profusão de imagens como acontece nos filmes, na TV e na publicidade
estimularia as forças imaginativas pois,     como afirma     Bachelard : “Imaginar é
ausentar-se, é lançar-se para uma vida nova.” Pelos mecanismos que desencadeia,
os audiovisuais artísticos afastam os telespectadores do pensamento científico
clássico, aumentando seu coeficiente de audácia, de fantasia e de criatividade.


   O espírito analítico, rigoroso e lógico do professor ocidental é que dificulta a sua
aceitação do meio audiovisual como promotor de conhecimento no seio da escola. A
maioria dos educadores até rechaça a TV, vendo-a apenas como sinônimo de
lazer, de diversão e de brincadeira. O fato deste meio trabalhar o conhecimento e a
informação de uma forma quase física, esculpida na realidade, incomoda aos
intelectuais, que   acabam não levando em consideração nem a adoração das
crianças pela telinha mágica.


   Pelo fato do visual e dos diálogos terem menos importância, num audiovisual,
uma música atraente, alguns efeitos sonoros, os timbres e os efeitos de voz, as
freqüentes mudanças de interlocutores são os elementos que primeiramente captam
sua atenção. Sem contar o alto nível de atividade física ou de ação.


   Outro aspecto a ser notado nessa geração TV ou audiovisual é que as crianças –
mesmo as muito pequenas - não se assustam com a técnica, enquanto muitos
adultos, a maioria talvez, especialmente os mais velhos, acham tudo complicado
demais e, não raro, socorrem-se, nas suas dificuldades, chamando logo um técnico
ou apelando para os filhos e      os amigos dos filhos, que resolvem o problema
ligeirinho, muitas vezes... As crianças não precisam nem serem alfabetizadas para
desincumbirem-se com as aparelhagens de som, TV, vídeo e até mesmo o
computador.


   A par de todo esse entregar-se de corpo e alma das crianças dos dias de hoje às
novas tecnologias da comunicação, a escola tem a empreender um papel
fundamental: o de trabalhar com o distanciamento das mensagens, com a
relativização das informações e dos choques emocionais. Se é necessário a imersão
159



para a compreensão de uma mensagem audiovisual, faz-se mister a estada num
segundo tempo, a distância para chegar a uma certa verdade do conhecimento.
Como referem os pesquisadores:


                             Um perigo espreita a jovem geração: ficar na sensação, que é a
                         primeira etapa. O papel da escola é educar para o segundo tempo, uma
                         escola que continuasse o sistema de imersão além de 30% faria apenas
                         demagogia e passaria à margem da sua função.
                                                          Babin e Koubundjian (1989, p. 155).



   Embora a escola, especialmente a particular, já tenha sido, ao longo de sua
história, forte em ensinar os mecanismos de distância reflexiva, crítica e científica, os
instrumentos de ontem e os métodos tradicionais utilizados até então estarão aptos
a resolver os problemas de hoje? Se esses instrumentos e métodos não são mais
suficientes no presente para lidar com o tipo de inteligência da jovem geração, por
que perpetuá-los, se já não servem ao objeto e ao sujeito? Para que a lógica de
Aristóteles se quisermos mandar um foguete e a análise literária se quisermos
estudar um filme? Por que a análise hipotético-dedutiva para ter recall na
publicidade?


   Para Babin e Kouloumdjian cabe à Escola trabalhar intensivamente com alguns
mecanismos e formas de distância que o audiovisual teria provocado na civilização
nascente, para que o processo de ensino-aprendizagem ocorra sem falhas. a) A
primeira distância refere-se aos olhos em relação ao objeto, pois o homem
mergulhado no universo audiovisual corre o risco de não perceber direito, seria uma
espécie de miopia intelectual, que ocupa o campo de sua consciência
momentaneamente. b) A segunda distância a ser instaurada é a do conhecimento
crítico das novas linguagens: cinema, rádio,TV, montagem audiovisual.c) E a terceira
distância é a do despertar do eu .


      Nosso sistema cultural tradicional ensinou aos homens a se estruturarem e a
se equilibrarem por uma espécie de fidelidade linear às leis, aos costumes e aos
raciocínios dedutivos. O homem sentia-se até então espontaneamente integrado ao
160



mundo de maneira histórica, instalado entre um passado e um futuro: achava-se nos
textos, entre uma palavra na frase, ligada a anterior e influindo no significado sobre
a seguinte. Como se achar na modernidade em meio aos MCM ?


   A civilização das mídias destrói tanto o estado de espírito que caracterizava os
ocidentais até há pouco, que estes perderam o controle e o objetivo, não sabem
mais como se movimentarem e até pensar diante da nova civilização. A dedução
linear e a capacidade de jogar com as idéias perderam pouco a pouco, o interesse.
Como bem diz, Flüsser, citados por Babin e Koubundjian (1989): “Os que haviam
sido programados pelas escolas e não pela televisão, que tinham de aprender a ler e
a escrever em vez de aprender a obedecer aos sinais de trânsito e aos cartazes,
nunca tomarão pé na Terra...” (p.165).


   Neil Postman, citado por Babin e Koubundjian (1989), diante da influência da
televisão sobre as crianças e jovens, atribui à escola uma função essencial de
termostato no sentido de sua atuação como regulagem para o amortecimento das
tensões e na regulagem de volta ao que é fundamental para o homem.


   Outro papel da escola, apontado por Postman,           é comprometer-se com a
memória da civilização, porque quem vive dentro das mídias perde a memória e o
sentido de importância das coisas, até porque ao jornalismo o que interessa é o
anormal, e quando o tecido da história é feito de acidentes de erupções vulcânicas,
nem sequer há mais o fio da história.


   Em resposta ao fato de dizerem que as crianças de hoje aprendem mais coisas
fora da escola do que dentro, Postman diz que até pode ser verdade, mas rebate
dizendo que será sempre na escola que se aprenderá o que fica, a gramática do
mundo e ordem das coisas.


   Entre os diversos aspectos sócio-culturais causados pelo processo de
informatização da sociedade, temos a passagem de um pensamento simbólico a um
pensamento conexionista. Conforme André Parente (2000), o percurso histórico de
uma realidade universal pré-literária, do fazer físico, em direção a uma realidade do
161



fazer simbólico, que se baseia numa educação estratificada, literária, se está a
fechar sobre si próprio e a chegar ao seu termo. Com o cinema, a televisão, as
tecnologias multimídia e a realidade virtual, o homem ingressa na era de uma
sociedade pós-simbólica.


   Por um lado, a leitura deixou de ser mestre do raciocínio ou dos sentimentos do
homem. Os novos tempos já não exigem descrições vinculadas pelos limites de
linguagem nem jogos semânticos para comunicar pontos de vista pessoais,
acontecimentos     históricos   ou     informações    técnicas.    Prevalecem       sobretudo
descrições diretas – muitas vezes virtuais – e experiências interativas com os
materiais originais, refere Parente.


                            Entramos na era do conexionismo generalizado,que nos leva a
                        pensar o mundo como uma rede de comunicação. Vivemos a era do
                        simultâneo, da justaposição do próximo e do longínquo, da topologia e de
                        interconexão generalizada,cujo paradigma é a rede de comunicação.
                                                                          Parente (2000, p. 17).




   Ontem o texto era escolar, hoje ele é a sociedade mesma. Ele tem forma
urbanística, industrial, comercial, televisiva ou hipertextual. O conexionismo
generalizado da sociedade das redes de computadores criou novas formas de
espaço e tempo, complexos, flutuantes, indefinidos, rizomático. “Dentro desta
perspectiva, o hipertexto representa o último capítulo da história da escrita e do livro,
o livro hiperativo, audiovisual e multimídia.” Parente (2000, p. 19).


   Se o pensamento de hoje pode ser qualificado de integrativo (intuitivo, não
analítico, holístico, não linear) por oposição a um pensamento auto-afirmativo
(racional, analítico, reducionista, linear),se os valores podem ser ditos integrativos (
integração,conservação,cooperação,qualidade), por oposição aos valores auto-
afirmativos (dominação, expansão, essência, competição, quantidade), tudo isto tem
relação com a rede, pois a rede é como que a condição de possibilidade do
movimento de uma espécie de interconectividade generalizada, assinala Parente.
162


                            Por um lado,     a rede produz um deslocamento no modo de
                        conhecermos as coisas. [...] é uma forma de solucionar os problemas
                        causados pela grande especialização do saberes; cada vez mais produz-
                        se em grupo, em que cada um contribui com um pouco do que sabe. [...]
                        Por outro, lado, como saber o que se faz hoje em um mundo cujas
                        grandes descobertas são anunciadas a cada minuto?Lembremos que
                        segundo Einstein, três grandes bombas haviam explodido em nosso
                        século: a bomba atômica, a bomba demográfica e a bomba da
                        informação. O dilúvio da informação é de fato um dado irreversível. Ela
                        não é trocada, mas compartilhada. E ao ser compartilhada ela se
                        reproduz exponencialmente.
                                                                           Parente (2000, p. 20).




  Esta característica exponencial é mais visível nas jovens gerações, em todos os
sentidos. Jovens estes que não mudaram apenas a forma de falar, de pensar, de
escrever, mas mudaram a forma de agir no mundo frente aos problemas estruturais
que assistem. Que assistem não, pois eles arregaçam as mangas e agem.
Diferentes das gerações anteriores, que escreviam e pronunciavam discursos
inflamados a favor do oprimidos eles vão á luta,companheiro. Shephen kanitz, em
artigo na revista Veja (2001) 12 de setembro de 2001, refere-se ao tema. Diz que
lera recentemente um artigo que acusava a nova geração de “estar com nada”,
preocupada somente com o futuro emprego e o umbigo. Os jovens não seriam mais
como as de antigamente, engajados, na luta por uma grande causa, queriam
revolucionar o mundo.


                            Trinta anos atrás, 20% de meus amigos de faculdade, pelo menos os
                        que se achavam mais inteligentes, eram de esquerda. Queriam mudar o
                        mundo, salvar o Brasil, expulsar o FMI e acabar com a pobreza.
                        Cabulavam as aulas e viviam no centro acadêmico com pôsteres de Che
                        Guevara discutindo como tomar o poder. A idéia de ajudar os outros
                        fazendo trabalho voluntário na periferia nem lhes passava pela cabeça.
                        [...] para minha surpresa, quando fiz o mestrado em Harward, a
                        totalidade de meus colegas era apolítica. Eles estavam lá para estudar,
                        adquirir conhecimento, para poder ser úteis á sociedade e talvez ficar
                        ricos. Por isso estudavam, para meu desespero, vinte horas por dia.”
                                                                            Kanitz (2001, p. 21).
163




   Aliada a essa enorme carga horária de estudo, todos, havia muito tempo,faziam
trabalho voluntário, um dos requisitos inclusive para a admissão ao mestrado,conta o
administrador. Passados trinta anos,       num encontro com a turma de mestrado
constatou que todos ficaram ricos,como pretendiam; ele era única exceção.


                          Ricos, eles agora devotavam boa parte do tempo a causas sociais e
                       doam bilhões ao terceiro setor. Muitos, já aposentados, gastam 25 horas
                       por semana em conselhos, como o da Cruz Vermelha.[...] a reunião de
                       trinta anos com meus colegas da USP foi ainda mais surpreendente. O
                       mais engajado na época, o que mais pregava a luta de classes, é hoje
                       diretor de banco. Seu colega socialista, e menos radical, é o dono do
                       banco. A maioria desculpou-se dizendo: “cansei de ajudar os outros (sic)
                       “estou ficando velho, preciso me preocupar comigo mesmo.”
                                                                         Kanitiz (2001, p. 21).




   Kanitz comenta que prefere a nova geração,que não é nem de esquerda, nem de
direita,nem agüenta mais esta discussão. Não querem mudar o mundo, querem
primeiro mudar o bairro para depois mudar seu estado e o país.


                          Querem se tornar competentes para então mudar o mundo,
                        paulatinamente, ao longo da vida. A nova geração está desencadeando
                        uma revolução de cidadania, usando cérebro e o coração para o
                        voluntariado, engajando-se no terceiro setor, cada um fazendo a sua
                        parte. Não ficou somente no discurso, partiu direto para a ação. Em
                        minha opinião, nossa nova geração está com tudo, e deveríamos ficar
                        orgulhos por não se fazer mais jovens como antigamente.
                                                                         Kanitz (2001, p. 21).




   Wernec (1999) é da mesma opinião de Kanitz, a respeito da participação da nova
geração em prol da cidadania. Define como protagonista juvenil o menino ou menina
que toma a iniciativa de promover e gestar ações que transcendam a seus
164



interesses pessoais ou familiares, sempre relacionadas à solução de um problema
concreto.


                           Eles   defendem      a    ecologia,   fazem   jornalismo   escolar,   rádio
                         comunitária, catam lixo na praia ou organizam um mutirão no
                         condomínio a favor da reciclagem de lixo. Percorrem comunidades
                         carentes – ou não – fazendo prevenção de câncer de mama, distribuem
                         camisinha, explicam como fazer sexo seguro, vão a asilos cozinhar nos
                         feriados, percorrem bares de madrugada convencendo outros jovens a
                         não dirigir alcoolizados.
                                                                          Werneck (1999 , p. 124).


   Como refere a autora, de etapa em etapa, vão percebendo e confirmando que
para garantir a sua sobrevivência como adultos precisarão tomar decisões cada vez
mais solidárias. Bem melhor, seguramente, do que esperar de braços cruzados o dia
em que a sociedade vai achar que aquele jovem cidadão está pronto para participar
da vida pública. “Exercendo seu lado protagonista o adolescente vai assumindo o
compromisso de ser autor de seu futuro. É líder de si próprio. Líder consciente e
participativo.” Werneck (1999, p. 125).


   Criativo, dinâmico, inovador e participativo, o jovem – descrito pela autora rejeita
disfarces, concessões, simulações. É o parceiro ideal no processo de construção da
sociedade inclusiva, pois a palavra-chave para entender o conceito de trabalho
voluntário é solidariedade “...solidariedade significa troca e aprendizado conjunto.
Pressupõe responsabilidade social e cooperação.” Werneck (1999, pp. 131 e 132).


   Segundo o professor Antônio Carlos Gomes, citado por Werneck :


                           O jovem, hoje, quando se engaja, pretende mudar o mundo, mas
                         mudar o mundo á sua volta. Nossa geração costumava querer salvar o
                         proletariado, mas não arrumava a cama de manhã. Deixava a
                         empregada arrumar.[...] quando você oferece ao jovem a oportunidade
                         de ele se envolver em ações concretas dentro do cotidiano para
                         melhorar alguma coisa, ele o faz com entusiasmo.
                                                           Antônio Carlos Gomes in( op.cit. p. 127).
165



   Como ironiza a jornalista, antes que alguém ache que é engano, porque tudo o
que se lê sobre a juventude está relacionado sempre a problemas, mais
especificamente à violência. Aconselha a que se respire fundo, despoje-se dos
estereótipos e observe com atenção os jornais do país, que estão cheios de
trabalhos belísssimos desenvolvidos pela juventude atual. Pode ser que a notícia
não ganhe destaque, mas há uns quadrinhos que falam disso e a TV também às
vezes se refere, com menor incidência que deveria é óbvio. Ela é da opinião de que
pequenas atitudes podem mudar o mundo. Não importa o tamanho desse mundo.
Essa é a diferença entre a juventude do ano 2000 e aquela que agitava bandeira nas
décadas de 60 e 70. Ninguém é melhor ou pior. São contextos diversos. O momento
histórico é outro, a conjuntura sócio-política-econômico–cultural é diversa.


                            Naquela época [...] só as ações engajadas em um posicionamento
                        engajado tinha valor. O auto-patrulhamento era tanto que menina do
                        MDB, por exemplo, nem beijava na boca menino que se dizia a favor da
                        Arena... Talvez por isso, há pais de adolescentes, ainda mais se
                        militavam politicamente no passado, com dificuldades em perceber a
                        utilidade e o desdobramento das ações que mobilizam seus filhos.
                        Alguns insistem em afirmar que a juventude atual é apática,
                        desinteressada, individualista, consumista. “O jovem perdeu seu espírito
                        de contestação”, dizem. Não é verdade. Os adolescentes deste final de
                        década são apenas mais flexíveis nas suas posturas e nos seus
                        objetivos. Vivemos um outro momento histórico.
                                                                Werneck (1999, pp. 126 e 127).



E a julgar pelos dois relatos de Kanitz e Werneck a escolha destes jovens brasileiros
denota que culturalmente está-se chegando próximo aos países desenvolvidos. Que
se aplaudam estes gestos de solidariedade e que eles sejam a tônica da escola
inclusiva. Há muito por fazer, aproveite-se o        sangue novo e a mente ainda não
deturpada pelo comodismo e preconceitos dos mais velhos.
166




   [...] há, na cultura de massa, outra coisa, um aquém e um além, que a
prende ao devir profundo da humanidade, algo escondido como uma
semente [...] fundida, aglutinada sob a fixação individualista, a espera e a
busca milenar de mais bondade, mais piedade, mais amor e mais
liberdade. [...] Há no homem, que parece esconder-se como um eremita,
sob os estranhos objetos de sua propriedade, a cega aspiração à
comunicação com o outro. Há no pequeno burguês televisual, uma relação
pelo vídeo como o cosmonauta que navega pelos espaços e, por mais
tênue que seja, uma relação com a pulsação do mundo, com o Espírito do
Tempo...
                                                      Morin (1977, p. 184).
167




2.2 Aprender e ensinar,         com prazer,       educando para os meios de
    comunicação.

   Apesar das altas taxas de evasão e retenção escolar - que identifica uma possível
resistência cultural a traços oferecidos pela escola, destituídos de significado para
aqueles aos quais se destinam - muitos repetentes permanecem na escola.Penteado
(1990) atribui esta escolha ao valor da escolaridade de uma certa cultura da escola.
Baseada em Freitag (1984) a autora explica que mesmo com os deveres da vida
escolar a escola representa para a criança de baixo poder aquisitivo um espaço e
um tempo onde lhe dão o direito de ser criança, de brincar, de jogar, de contatar com
outras crianças.


   Considerando-se alguns pressupostos levantados por Penteado (1995), tais como
o efeito socializador da escola, somado à atividade lúdica, imprescindível à
construção adequada dos esquemas abstratos do pensamento lógico, da autonomia
moral, segundo Piaget, para quem o ensino de caráter altamente enciclopedista bem
como a negligência com a experimentação e ação prática põem em risco toda a
criatividade e inventividade da criança, implicam no mínimo numa reflexão sobre as
formas adequadas e produtivas de se lidar com conhecimento na escola.


   A autora considera que o texto televisivo pelo fácil acesso que a população tem a
ele, amplo, irrestrito e prazeroso o torna impossível de ser ignorado pela escola.
Explica porém que não se trata de menosprezar o trabalho com o texto escrito ou
com outros quaisquer conhecimentos sistematizados com que se lida na escola.
“Devia mesmo é ‘ativar’ o trabalho escolar hoje desenvolvido.” Sua pedagogia da
168



comunicação, procedimento a ser adotado pela escola, sugere que a programação
da TV seja trabalhada na escola : “Não como uma disciplina específica, mas como
uma conduta pedagógica ‘problematizadora’ de nossas práticas sociais, abordadas a
partir das diferentes campos do conhecimento.” (p.117)


   Cada nova tecnologia é uma nova extensão do homem, explica Clea Bosi (1978).
Cada meio que surge é uma nova possibilidade de expressão para os seres
humanos. A palavra - fonética e escrita - sacrificou o mundo de significados e a
percepção. As culturas letradas somente dominaram as seqüências lineares
concatenadas como formas de organização novas. O segredo da imprensa é a
fragmentação da experiência em unidades uniformes. As diferenças entre a
comunicação oral e a escrita são de ordem semântica, psicológica e sociológica.
Estas diferenças geram diferentes comportamentos e percepções. O olho do leitor,
na busca de um significado após o outro, faz uma codificação linear do real.


   Já as novas linguagens eletrônicas exigem uma outra codificação, simultânea,
que recupera, de uma certa forma, a percepção do homem pré-letrado. O livro
isola,a palavra falada agrupa . O livro leva ao ponto de vista e a uma atitude crítica; e
a palavra falada implica em uma participação emotiva.


   Como há uma tendência do ser humano a recordar melhor as coisas mais
profundamente     sentidas,   as   palavras    recordadas     na   tradição   oral   são
freqüentemente as mais carregadas de sensibilidade coletiva. “Para os homens da
tribo, as palavras são como a água que deve passar de mão em mão, com o maior
cuidado, para que nem uma gota se perca.” David Riesman (apud BOSI,1978,p. 37).


   A transmissão oral de contos e lendas, anterior à Renascença, aplicava-se ao
ouvido. Foi a partir de invenção da imprensa, por Gutemberg, que a matéria do
conhecimento passa a ser aplicada à visão (em exercício linear). Na era eletrônica,
nos dias de hoje, não só um ou outro sentido, audição e visão, mas um processo de
envolvimento múltiplo audiovisual definiria o relacionamento entre emissor e
receptor, na apreensão das mensagens. “O ouvido, órgão receptor por excelência na
sociedades arcaicas e primitivas, ter-se-ia embotado pela mecânica tipográfica dos
169



últimos 500 anos de história ocidental . Só muito recentemente, graças a presença
do rádio e da TV, volta-se a estimular aquele sentido.” Bosi (1978, p. 32).


   Para Bosi, depois de séculos de saturação de uma tecnologia ótico-linear, chega-
se a um espaço cultural novo, ou novamente auditivo, criado pelos canais eletrônicos
de comunicação – rádio, telefone, TV). Meios que envolvem o sujeito, integram-no
em um campo de vivências e, por paradoxal que possa parecer, lhe confere uma
percepção tão rica quanto a do homem analfabeto ou primitivo.


                           Por meio das técnicas em mosaico (assim chama McLhuan aos
                        processos de montagem simultânea de TV e dos meios que a imitam),
                        unifica-se a linguagem do homem contemporâneo que, apesar das
                        distâncias, está vivendo numa só “ Global Village”. A era eletrônica não
                        seria, portanto, uma etapa na história da mecanização e da atomização,
                        peculiares ao Homo Typographicus. Ao contrário, ela significa uma
                        ruptura com ambas e a retomada de uma convivência orgânica, tribal.
                                                                             Bosi (1978, p. 34).


   McLuhan, segundo Bosi (1978) refere-se a era tribal, de tradição oral, como um
período mais íntegro, menos fragmentado. Era que as técnicas eletrônicas estariam
começando a restaurar. Toda tecnologia obriga aos que contatam com ela a novos
equilíbrios. A eletricidade envolve o indivíduo com toda a humanidade. O
computador que traduz outras línguas anuncia o advento de uma condição
pentecostal de compreensão e unidades universais. As línguas foram superadas por
uma consciência cósmica geral.


                           O globo foi eletronicamente contraído e a consciência humana terá,
                        para McLuhan aumentando a sua responsabilidade, seu compromisso
                        com   os outros. Aparecem, pois, como corolários de tecnologia, uma
                        empatia entre os homens e uma aspiração pela totalidade. Este otimismo
                        se patenteia em “Mutações”, livro que aborda o problema do estudante
                        numa escola-planeta. O aprendizado seria uma exploração lúdica da
                        realidade, semelhante à da criança, a do artista. A aula sem paredes
                        seria ministrada pelos meios de comunicação de massa.
                                                                            Bosi (1978, p. 36).
170




   Conseguirão os remanescentes da quase extinta era de Gutemberg – os
professores, pelo menos os mais antigos – junto com os filhos do audiovisual - seus
alunos – responsabilizarem-se uns pelos outros e empática e solidariamente
aspirarem a totalidade? Espera-se que sim, construindo um mundo inclusivo, onde
todos possam ser considerados cidadãos de fato e de direito. “Para que todos sejam
um, como tu, ó pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós
para que o mundo creia que tu me enviaste.” São João, 17, v.21, Novo Testamento.


   Partindo-se do pressuposto que é função da escola instrumentalizar a sociedade,
através da formação de seus cidadãos, momentaneamente alunos,            para conviver
sadiamente com os meios de comunicação – em especial com a TV, por se constituir
num importantíssimo canal afeito às possibilidades de acesso à informação e à
Educação, acredita-se estar contribuindo não só para o desabrochar de cidadãos
críticos e colaborativos, mas também para a democracia, para o desenvolvimento
sustentado e para a melhoria de qualidade da vida da              comunidade local à
comunidade planetária.


   É função da escola demonstrar aos seus alunos que, ao trazer uma forma pronta
e acabada de propagar a realidade, a TV, especialmente a comercial, interfere na
vida das pessoas, no social e na política, formando seres mediatizados, no dizer de
Bezerra (1999), que em nota introdutória do seu Manual do Telespectador
Insatisfeito, espera que a escola com essa instrumentalização possa acabar com o
telespectador passivo, que cederia lugar a um aluno-cidadão-telespectador : “ [...]
insatisfeito com os programas oferecidos, [que] poderá se colocar diante do
desabafo de aprender a lidar crítica e ativamente com o veículo que tem invadido
corações e mentes.” (p.09)


   Apelidada de a babá eletrônica, quem passa a maior parte do dia na companhia
das crianças    brasileiras é a TV. Afirmam a Psicologia e os estudiosos da
Comunicação,    que   tal    fato   pode   ocasionar,   entre   outros   malefícios,   o
amadurecimento precoce do público infantil, devido a banalização do sexo e da
violência, salpicados de cabo a rabo em sua programação.
171




   O excesso de informações que se jorram em ondas incessantes sobre esses
pequenos telespectadores, versando sobre os mais diversos assuntos, quase os faz
naufragar e afogarem-se em dados. Ou, ainda, o que pode resultar numa absorção
imprópria – distorcida, dir-se-ia - dos fatos e da realidade. Mesmo sem entender o
vocabulário, muitas vezes – por exemplo – as informações são passadas pelas
imagens que, certamente, interferirão na construção da            personalidade     do
telespectador em pleno desenvolvimento, no seu caráter e na sua maneira de ver,
sentir e de entender o mundo à sua volta.


   Mas a babá não toma conta das crianças somente na ausência dos pais. As
famílias quando reunidas - nas horas das refeições, muitas vezes - costumam
conversar com a TV ligada. Não raramente, a primeira e a última imagem do dia,
para milhões de pessoas, são geradas pelas TVs, como afirma Bezerra (1999) que,
além de reivindicar que as programações ditas educativas devam ter maior espaço
do que o das novelas, dos shows e dos filmes, denuncia a qualidade dos programas
televisivos: “Tudo isso bem ali na nossa frente, sem que, a olhos nus, em frente a
telinha, possamos perceber que o sangue, o sexo ou o mau cheiro da violência que
exala da TV pode nos atingir de verdade.” (p.19)


   Qualquer observação mais atenta deixará explícito que os donos das emissoras –
que na verdade se dizem donos, mas não o são, são apenas concessionários de
serviços públicos, faz-se necessário que se esclareça – cidadãos que teriam a
obrigação de zelar prioritariamente pelos interesses da sociedade, não estão nem aí
com a qualidade dos serviços que prestam. O que importa são as cifras exorbitantes
que giram em torno destas programações e seus ibopes. Longe dos seus planos
estão a defesa dos Direitos Humanos, da cidadania, a preocupação com a Cultura e
a Educação. Qualidade que seria imprescindível, já que o que é apresentado como
informação e lazer, na realidade funciona como Educação e Cultura para muitos
membros da sociedade brasileira.


   Como disse Dom Eugênio Salles, arcebispo do Rio de Janeiro, citado por Bezerra
(1999) “triste o futuro de um país quando o índice de audiência é o critério único para
172



a escolha dos programas televisivos.” (p.30). Enquanto os departamentos comerciais
das TVs enriquecem, baseados apenas neste critério, empobrecem-se e deturpam-
se as mentes em formação,         com a violência verbal, com        a grosseria e a
degradação humana exposta em programas como os dos Ratinhos da vida. Se a
escola não tem como influenciar na produção dessa programação de baixo nível por
outra mais artística, mais sadia, mais educativa, ela pode trazer à baila o excremento
televisivo à análise e à crítica necessárias à formação saudável de seus alunos.
Aluno como sinônimo de telespectador crítico.

   Várias pesquisas, citadas por Bezerra (1999) sobre o público telespectador, em
diversas partes do mundo dão conta de dados bastante desagradáveis para os pais
e professores de crianças e jovens. Uma delas,          realizada na Holanda, pelo
professor Jô Gobel, da Universidade de Utrech, em 1998, envolvendo cinco mil
meninos e meninas, mesmo não sendo muito atual, apresenta dados alarmantes -
que provavelmente apontariam para índices mais desastrosos, se fossem corrigidos
para os dias atuais .


   Dentre os dados, tem-se:      44 % das crianças não conseguem diferenciar a
realidade do que vêem na TV; 50 % do universo das crianças pesquisadas passa
mais tempo vendo televisão do que fazendo qualquer outra atividade fora da Escola;
88 % das crianças considera o Exterminador,                interpretado por Arnold
Schwazenegger, no filme O Exterminador do Futuro, o seu principal herói; 5 % das
crianças, que vivem em ambientes agressivos (em guerra ou alto índice de
criminalidade), gostariam de ser como este herói; 47% da fatia que prefere conteúdo
agressivo na mídia, gostaria de se envolver em situações de risco.


   Mais dados alarmantes da mesma pesquisa: a TV é a maior fonte de informação
e entretenimento da maioria das crianças que passa uma média de 3 horas em
frente a telinha. Essas crianças acham que violência é uma coisa divertida e não se
dão conta de que ela pode machucar a si e aos outros. As que vivem em ambientes
violentos e assistem a programas violentos tendem a ser mais violentas no
comportamento do que aquelas que só são confrontadas pela violência mediante a
mídia.
173




   Os dados atestam também que a violência da mídia entra na vida das crianças
quando elas     estão     buscando orientação, e,   em não   obtendo   modelos de
comportamento no ambiente familiar; ou quando elas já aprenderam que a violência
é uma coisa normal, quanto mais a experenciam na realidade, mais procuram o
espelho na TV . Como        elas estão em busca de um referencial comportamental,
e,em não encontrando na vida real, espelham-se nos heróis que encontram na TV,
no cinema, na Internet.


   E dados – desta vez referentes à vida real – são também chocantes. Levantados
pela UNESCO e pelo Instituto Airton Senna, que revelam que num total de 1561
jovens para cada grupo de cem mil habitantes, com idade entre 15 e 24 anos,
morreram violentamente em 1996, no Rio de Janeiro. O número de mortes violentas
entre jovens na mesma faixa etária – incluindo assassinatos, acidentes de trânsito e
suicídios – é relativamente maior do que no conjunto da população.


   Nos Estados Unidos o cenário não é diferente. Números fornecidos pela
JUSTTHINK, Organização Não-Governamental norte-americana que trabalha com a
educação de jovens, indicam entre outros dados que, até os 12 anos de idade uma
criança assiste em média a oito mil assassinatos pela TV. Em 75% das cenas de
violência mostradas pela TV não há punição pelo ato violento e em 58% dos casos
de violência a vítima não sente dor.


   Ainda outros índices são espantosos. Estes fornecidos pela Children Now . São
de uma pesquisa realizada com 750 jovens americanos entre 10 e 16 anos, em
1995. Dentre os entrevistados 66% possuem três ou mais televisores em casa e
metade um aparelho        no quarto. Quase metade deles disse que os programas
transmitidos à noite levam a acreditar que a maioria das pessoas são desonestas; e
82% referiram que os programas de TV deveriam ajudar a ensinar o que é certo e o
que é errado.


   Outros índices referem que a maior parte dos jovens acredita que a TV não é um
mundo de fantasia que não os afeta. Eles acreditam que a programação da TV
174



estimula: o desrespeito aos pais, a mentir e a ter comportamentos agressivos; e dois
terços afirmam que sua geração é influenciada pelo que vê na telinha.


   Enquanto dois terços dos entrevistados disse que freqüentemente quer
experimentar as coisas que vê na televisão, 62% deles disseram que o sexo na TV e
nos cinemas os influencia a fazer sexo,     quando ainda são muito novos. Estes
últimos números, felizmente, apontam que há luz no fim do túnel, pelo menos os
jovens estão conscientes do perigo que os rodeia...


   Todos esses índices que dizem respeito a violência na vida real e sua expressão
através dos meios de comunicação parecem corroborar para a hipótese de que aos
olhos dessas crianças e jovens pesquisados a violência compensa, pois se o mundo
é mau como a mídia mostra nos filmes, nas novelas, nos           telejornais e certos
programas de auditório, a única solução – com uma certa lógica, inclusive - é ser
também agressivo...


   Se ao menos a escola cedesse espaço para a reflexão sobre a influência dos
MCM em seus alunos, interpondo-se entre a imagem falaciosa que a mídia passa às
crianças, que vêem a violência como algo divertido, compensatório, interessante,
curioso... Se a escola, a família e a sociedade, como um todo, são impotentes para
cessar a promoção sistemática da cultura da violência nesses meios, que se passe a
execrá-la na escola e se promova o valor da paz, em seu lugar.


   Em paralelo às opiniões dos telespectadores, em 1996, a Universidade da
Califórnia realizou um estudo que alertava sobre os efeitos psicológicos da violência
na TV, envolvendo a avaliação de 2.500 horas de programação e 2693 programas
americanos. Ficou comprovado, entre outros índices escandalosos, que: 73% dos
atos violentos na TV não são punidos, todos os programas violentos ensinam
didaticamente as técnicas de brutalidade aos telespectadores, 58% das vítimas nem
sequer sentem dor e      47%   parecem ser de borracha, que não sangram, nem
apresentam ferimentos.
175



   Esses números desabonadores sobre as programações televisivas – que não é
privilégio só dos programas nacionais – levam a concluir que: a TV pode transmitir
às crianças a idéia de que a violência é normal – ou o que é pior - trata-se de um
divertimento.


   Enquanto algumas crianças sentem medo, durante a transmissão de programas
violentos, outras vão tornando-se insensíveis, com relação ao sofrimento dos outros.
Sem dúvidas, a televisão contribui de forma mais acentuada para anestesiar os
telespectadores para o sofrimento real das pessoas, quando mostra a violência num
contexto de humor e exibe detalhadamente, com requintes de sadismo, os
ferimentos das pessoas.


   Isso sem falarmos de outro tipo de violência como o constrangimento de
entrevistados, que são expostos a vexames públicos em programas de auditório
como Topo tudo por Dinheiro, as famosas Pegadinhas, programa do Ratinho e Leão
Livre, alguns telejornais de caráter duvidosos , como havia o Aqui e Agora e outros
do mesmo baixo nível, que primam por encontrar anomalias, banditismos, miséria
humana – muitas vezes com cenas forjadas de adultérios e correlatos. O menor
estrago que a TV pode fazer para as crianças, com essa programação é encurtar-lhe
a infância, antecipando problemas com os quais elas só se deparariam mais tarde,
como as drogas, a prostituição, as traições.


   Diante de todo esse quadro e considerando-se ainda a hipótese central de Os
Novos Modos de Compreender de Babin e Kouloumdjian (1989), segundo a qual a
prática das mídias e das novas tecnologias engendra, pouco a pouco, uma nova
cultura, que um dia poderá inclusive tornar-se uma civilização, a Escola precisa
aparelhar-se para obter outras maneiras de estudar, de compreender e de
comunicar. É inegável que ela se constitui no terreno mais fértil para o desenrolar e o
desenvolvimento do choque das culturas.


   Até então, vivia-se ou ensinava-se, na Escola Templo do Conhecimento e da
Razão, alicerçado pela Ciência, mas em tempos de mídias sedutoras, a escola
precisa amalgamar-se com outros paradigmas que desabrocham em meio ao
176



surgimento das novas tecnologias, tais como: o da Intuição, da Comunicação, da
Holística, equilibradamente, reunindo sensibilidade e raciocínio.


   Em tempos de rapidez eletrônica deve-se treinar professores e alunos para
caminharem          de maneira intuitiva, espiritual, global e pragmática. E, para esses
tempos rombudos, que ameaçam implodir a Era Gutemberg, duas palavras-chaves
crescem em importância e poderiam presidir essa transição. São palavras
audiovisuais, no dizer desses autores: mixagem e estéreo.


   Já tarda a hora, urge         que se dê   também lugar nas escolas a documentos
audiovisuais a serem trabalhados com método, dentro de uma pedagogia clássica.
A foto, o desenho, a figura podem ilustrar um texto. A montagem, dramatizar um
problema de qualquer ordem. O vídeo pode concretizar ou sistematizar um
ensinamento, um documentário de TV pode ensinar. O importante é que os usuários
- alunos e professores – tenham em mãos a tecnologia audiovisual e que, de
preferência, a estudem, enquanto meio, fazendo também sua produção, não
utilizando-se apenas do já produzido, acabado.


   Será preciso mixar audiovisual e sistema escolar, ensinando cinema e televisão
em sala de aula. E aqui, sabe-se que, muitas e muitas vezes, os papéis tradicionais
de professor e aluno se inverterão, será a hora então de aprender e ensinar,
ensinando e aprendendo com prazer, através da educação para os meios de
comunicação. Trata-se de ensinar a ler a imagem, a decodificar uma mensagem
publicitária, analisar um programa, um filme, um telejornal a serviço da formação do
espírito crítico.


   Quanto ao funcionamento em estéreo, sugerido por Babin e Koubundjian (1989)
significa que se instaurem dois tempos, duas maneiras de ser, duas pistas no
sistema de formação nas escolas. De certa forma dando o direito ao funcionamento
dos dois hemisférios cerebrais, ou seja, seu funcionamento original. Ao lado da
razão, da lógica linear, seqüencial, da especialização, da linguagem escrita, da
análise, do raciocínio e do domínio intelectual, abrir espaço para a criatividade, ao
artístico, ao simbólico, à música, à percepção simultânea da gestalt e da intuição.
177



Métodos que certamente abrem               caminhos para   uma formação holística,
atravessada por uma Educação Inclusiva.


   Há mono ou mixagem numa pista, segundo os autores citados, quando um dos
aspectos do conhecimento        - ou da formação – sobrepõe-se a outro. Na era
gutembergiana, a razão e a análise dobram a afetividade e a imaginação sob seu
imperialismo, enquanto na nova cultura nascente, fala-se com a imagem ao invés de
falar da imagem e, em certos momentos, em especial nas dinâmicas de grupos, a
afetividade e a imaginação comandam tudo, inclusive a análise.


   Já no funcionamento em estéreo, há o respeito pelos atributos dos hemisférios
cerebrais esquerdo e direito, cada um tem sua especificidade, seu ponto de vista,
mas sem radicalismo, há um aporte para servir de trânsito entre elas. Há distinção,
portanto, mas também influência recíproca. “Funcionar em estéreo é instaurar duas
vias, dois métodos de compreensão e de expressão. Às vezes é o registro analítico,
rigoroso, seqüencial, abstrato, que domina. Outras é o registro artístico, global,
intuitivo, gustativo. E há a passagem de um ao outro, mas respeitando pontos de
vista e predominâncias.” Babin e Koubundjian (1989, p.177)


   Já vai longe o tempo - ou pelo menos deveria ir-se – em que havia grande
diferença entre o fato de aprender e o de se divertir. As escolas precisam abrir-se
para uma práxis mais alegre, mais harmoniosa, mais encantadora. As escolas
precisam constituir-se num lugar para onde se vai ao encontro do encantamento, um
lugar para ser e tornar os outros felizes. O conhecimento dentro e fora de seus
muros precisam efetuar-se pela afetividade, pelo gosto, pela imaginação, pela
criatividade, pela experiência fruidora.


   Na era das mídias é burrice deixá-la fora da portas da escola e reservar-lhe
apenas as categorias do dever e do aborrecido. O tempo não é mais de decorebas,
muito menos de aulas carrancudas... O mais premente é que os alunos compareçam
a escola e gostem de lá permanecer. Se os alunos gostarem de estar na escola já se
ganhou ingresso garantido para a aprendizagem, “O jardim da infância é um sucesso
em muitos casos: por que tudo isso acaba brutalmente quando se entra no 1º
178



Grau ? ”, perguntam Babin e Koubundjian (1989, p. 178).


   “Uma escola que não ensina como assistir à televisão é uma escola que não
educa.”, afirma o pedagogo espanhol Joan Ferres, em entrevista à revista Nova
Escola, de dezembro de 1998. Autor de várias obras sobre o tema, como: Televisão
e Educação, Televisão Subliminar e Vídeo e Educação, ele observa que a tendência
nas escolas é a de adotar atitudes unilaterais diante do fenômeno da televisão. O
autor diz que as pessoas diante do conteúdo exposto pela TV, dividem-se em
“apocalípticas” ou “integradas”, na terminologia da dicotomia maniqueísta trabalhada
por Umberto Eco. “Talvez na escola o predomínio seja das primeiras. Segundo
esses catastrofistas, a televisão provoca todo tipo de males físicos e psíquicos:
problemas de visão, passividade, consumismo, alienação, trivialidade.”(p.21)


    No extremo oposto estariam as posturas integradas, segundo as quais a
televisão deve ser considerada como uma oportunidade para a democratização do
conhecimento e da cultura, para a ampliação do sentidos, para a potencialização de
aprendizagem, explica Ferres. “A televisão representa a cultura da opulência e da
diversidade, a cultura da liberdade, das opções múltiplas”, complementa.
Concordando com Eco,ele lembra que as atividades extremistas acabam confluindo,
levando a resultados semelhantes. “A atitude mais adequada é a aceitação crítica,o
equilíbrio entre o otimismo ingênuo e o catastrofismo estéril, um equilíbrio que
assuma a ambivalência do meio, as suas possibilidades e limitações, as suas
contradições.” (p.21) Idéia compartilhada por esta autora.


   Todo mundo sabe – ou pelo menos os mais informados, e é papel da escola
informar aos pequenos – que as TVs dão destaque a fatos irrelevantes, ocupando
um espaço descomunal, alguns deles ligados a figuras do próprio canal de televisão,
como o nascimento da filha da apresentadora e congêneres... As reportagens,
mesmo as mais extensas, dão apenas uma versão entre as inúmeras versões
possíveis de uma notícia. Os interesses dos proprietários das redes de TV podem
influenciar o conteúdo do noticiário, por exemplo, favorecendo a um candidato em
época de eleições, um ponto de vista sobre um determinado assunto. O noticiário,
pode ser vítima de restrições políticas... E por aí vai.
179




   O telejornal pode dar a sensação de que é um retrato do que ocorreu de mais
importante naquele dia no país, no mundo... Pura ilusão! Os noticiários televisivos
transmitem um volume muito restrito de informações. Irrisório, se comparado a de
um jornal diário ou uma revista semanal. Mas, não dá para negar que a TV pode
levar o mundo até casa do telespectador, permitindo que ele assista , ao vivo, a
eventos históricos como guerras e viagens espaciais. Acompanhados por milhões de
telespectadores, os noticiários são capazes de mobilizar toda a sociedade em torno
de movimentos políticos, como a campanha pelas eleições diretas,a derrubada de
Collor,etc.


   O telespectador assíduo sabe que a violência permeia, com maior ou menor
intensidade, quase todos os gêneros de programas televisivos. Embora os efeitos
dessa super exposição sobre o comportamento dos telespectadores não possam ser
medidos com precisão, é impossível negar que ela contribui para deformar a
percepção da realidade.


    Pessoas que assistem diariamente à TV tendem a acreditar que a sociedade é
mais violenta do que realmente é. A televisão cria uma espécie de mundo paralelo
que muitos associam, de maneira equivocada, à realidade. “A formação de
telespectadores conscientes, capazes de ‘ler’ a televisão sob o prisma da ética e da
cidadania, torna-se em função disso uma prioridade que a escola não pode abrir
mão”, anuncia Sérgio Rizzo – em reportagem de capa da revista Nova Escola, de
dezembro de 1998 (p.22) – que acrescenta, que o desafio de ensinar os alunos a
ver televisão com esse olhar crítico implica num conhecimento mais aprofundado
desse poderoso meio de comunicação. Mais um motivo para cada escola possuir um
educomunicador que gerencie os ecossistemas comunicativos por lá.


   A mesma reportagem citada aponta opinião semelhante, do jornalista e crítico de
TV Eugênio Bucci, autor de O Peixe Morre pela Boca e Brasil em Tempos de TV:
“Saber ver criticamente a televisão é condição básica para o exercício da cidadania.”
Ele considera fundamental também que a escola abra um canal pelo qual as
crianças possam se manifestar,verbalizar, elaborar porque vêem televisão, o que
180



gostam de ver na TV, o que as atrai. “Depois disso, imagino ser possível, aos
poucos, desmontar o discurso da televisão e também da publicidade.” (p.22).
defende.


   Bucci é da opinião que a TV hoje organiza o espaço público brasileiro: “Foi ela
que, após o golpe de 64, conferiu a identificação dos brasileiros entre si,
promovendo a integração nacional no plano do imaginário.” (p.22) Essa coesão se
existir por um motivo ético é válida, mas é perigosa, pois no maior valor deste meio,
que é atingir um grande público completamente diversificado, encontra-se também a
sua maior periculosidade.


   Já imaginaram se Hitler,   ao invés do rádio, tivesse usado a televisão? As
pessoas precisam estar preparadas para lerem e entenderem as linhas e as
entrelinhas da mensagem televisiva. Bucci, como esta autora, acredita que se a
escola tomar a si o trabalho de desnudar a televisão estaria plantando a semente
para o desenvolvimento de telespectadores críticos. Este é um trabalho que acabaria
com a discussão em torno da censura na TV, pois, mais importante do que controlar
o que a TV veicula diariamente é preparar o público, sobretudo os telespectadores
mirins, “a vê-la sem se submeter e ela”. O importante é “saber usá-la para a vida,
sem ser usado por ela”. (p,22), argumenta.
181




      A imensa máquina da educação é rígida,
inflexível, fechada, burocratizada. Muitos
professores estão instalados em seus hábitos e
autonomias disciplinares. Estes, como dizia
Curien, são como os lobos que urinam para
marcar seu território e mordem os que nele
182




3 . Por uma pedagogia da comunicação, a serviço da fraternidade, numa

   sociedade inclusiva.



   Segundo Babin e Kouloumdjian (1989), os jovens têm razão de se revoltar contra
a escola porque, nos dias de hoje, muitas vezes, ela ergue-se e desenvolve-se num
mundo totalmente à parte do mundo exterior, o mundo do trabalho, o mundo dos
lazeres, o mundo dos costumes e da solidariedade. Nas suas palavras:

                         A idéia que proporíamos da escola é a de um campus onde não se
                      viesse em primeiro lugar para “aprender coisas”,o que pode ser feito em
                      casa, sozinho, com uma máquina, mas para aprender a ligação que as
                      coisas têm com a ação e a sabedoria de viver. Não uma escola-loja para
                      consumir o saber, mas uma escola-mesa. Mesa sobre a qual se coloca
                      junto o que se aprende, a fim de ligar [...] criticar e confrontar o aprendido
                      com a sociedade e a ação.
                                                                                    (op. cit. p.150).



   Da escola-mesa de Babin e Kouloumdjian – que pressupõe a introdução no
centro da escola de um objetivo prioritário, o da comunicação, mais ainda do que o
da apreensão do conhecimento - pince-se este princípio como pressuposto básico,
idéia central deste trabalho, para o estabelecimento de uma escola de especial
qualidade para todos. Nela é necessário que alunos, professores e funcionários – e
os pais, inclusive – aprendam a ouvir, a compreender e a avaliar as diferenças para
um convívio sadio, cada um com sua singularidade. O modo de ser e viver precisa
ser ético, numa época em que as fronteiras desaparecem e em que os jovens, mais
do que os adultos, abrem os ouvidos nas dimensões do radar.
183



   Os jovens estão aí esperando respeito, compreensão, esperando ser despertados
para as possibilidades de intercâmbio de outras culturas e os valores de outras
raças. A escola poderia despertar essa comunicação baseada          no a priori de
simpatia pelo homem. O mundo é uma aldeia global, como disse Marshall Mc
Luhuan. “O terceiro tempo pedagógico, gerido conjuntamente pelos educadores e
alunos, tendo por objetivo a comunicação, poderia ser um bem considerável.” (op.
cit. p.153).


  Só uma educação crítica para a comunicação humana pode responder à
multiplicação das técnicas de controle ou de manipulação dos MCM.Definitivamente,
é o futuro da democracia que está em jogo. E a escola pode intervir, é também seu
papel, na formação dos sujeitos, despertar sua percepção crítica. Como referem os
autores citados: “No sentido mais profundo, a comunicação não se aprende, ela
desperta como se desperta o gosto artístico.” (op. cit. p.155).


  As aulas, as oficinas e, principalmente os exercícios diários, podem constituir
caminhos úteis e protetores contra os delírios individuais ou coletivos. A escola
cidadã tem que educar para a reflexão, para o conhecimento das técnicas de
expressão, para o espírito crítico, para o entendimento da infra-estrutura social e
econômica planetária. Uma das urgências nesses tempos de mídias e marketings é
desenvolver a aprendizagem da liberdade de ser e de pensar. Pensar bem, com a
cabeça bem feita, no dizer de Morin (2003).


  Aquilo que não passa pela mídia eletrônica torna-se estranho ao conhecimento e à
sensibilidade do homem contemporâneo. Baseado nisso, já é tempo de virar-se o
disco dos discursos sociológicos sobre o poder maléfico da televisão e começar a
encarar a mídia eletrônica como fato da cultura - capaz de complexidade - e as
contradições dos tempos atuais. Apesar de tudo, existe vida inteligente na TV e,
mesmo com o monopólio instaurado, há brecha por onde fazer-se penetrar a
sensibilidade e a transgressão.


   Uma televisão inovadora e desinibida já começa a sair dos guetos, vielas e
favelas para desafiar a mesmice dos canais convencionais. Já existem experiências
184



concretas de TVs comunitárias apontando para a luz no fim do túnel,
democratizando a comunicação. Inscrever o vídeo no âmbito da cultura pós-moderna
implica em primeiro lugar conhecer o mais de perto possível a especificidade dos
seus recursos simbólicos.E em segundo lugar, aprender fazendo, produzindo.


   Machado (1988) já observou que “...o vídeo stricto sensu, ou seja, aquele
produzido e difundido fora do circuito televisual, pode investir no aprofundamento da
função cultural da televisão, avançando, de um lado, na experimentação das
possibilidades da linguagem eletrônica; e buscando exprimir, de outro, as
inquietações mais agudas dos homens de nosso tempo.” (p.55). Além de
experimentar outras possibilidades de utilização e domínio do meio, reverte-se a
relação de autoridade entre produtor e consumidor, pelo fato dos interesses
comerciais básicos não entraram em jogo.


   Nessa perspectiva, o autor citado estima que com a introdução do tratamento
digital da imagem em computadores “é a própria natureza, o estatuto e a substância
da imagem técnica que se transformaram radicalmente, produzindo uma revolução
tão decisiva na história na representação plástica do mundo quanto a que ocorreu no
Renascimento, com o sistematização do modelo clássico.” Machado (1988, p. 10).


   Observa-se também que a TV se inseriu de tal forma na vida cotidiana que hoje é
quase impossível pensar os eventos sem a sua presença. A televisão mudou
substancialmente a prática dos esportes. Atualmente, a própria TV participa da
organização e administração dos eventos, transformando competições em
espetáculos televisivos. Ela privilegiou o espaço profissional em detrimento do
atletismo amador e converteu os atletas em estrelas. Acontecimentos políticos,
cerimônias oficiais e até mesmo atentados terroristas são concebidos, antes de tudo,
como encenações para a mídia. Até bem pouco tempo dizia-se que a arte imita a
vida... E quanto ao 11 de setembro que repetiu uma aventura hollywdiana?


   Os eventos não acontecem mais,          via de regra,    por conta própria, eles
pressupõem a mediação da TV e são forjados em função dessa mediação, quando
185



não são produzidos diretamente pelas redes de TV ou sob sua influência direta. A
esse respeito, como enuncia Machado (1988):


                           A luta política passa hoje necessariamente por dentro da enunciação
                         televisual.   Ficar   de   fora,   criticando   aristocraticamente   os   seus
                         mecanismos de alienação, é um erro estratégico que pode resultar em
                         irresponsabilidade social. As forças políticas que não forem capazes de
                         compreender isso, ou que puseram de lado por algum moralismo
                         anacrônico, estão se condenando ao limbo.
                                                                               Machado (1988, p. 87).



 Considerando-se     o    enunciado        acima,      mais      o   fato    da    política    passar
necessariamente pela TV – enquanto, nesse meio tempo, os políticos tornam-se
experts, nas formas de se comportarem em relação a essa mídia – é necessário que
a escola tome a si o papel de formar telespectadores críticos, pois só assim a TV
não será mais um instrumento de dominação de muitos, por uns poucos.


   Fazendo-se um rápido retrospecto da história do século passado, é notável que
os mais influentes líderes de massa foram - antes de tudo - excelentes oradores e
se davam muito bem com os altos-falantes das praças públicas ou com os
microfones do rádio, assim como: Lenin, Hitler, Mussolini, Churchill, De Gaulle,
Perón e Luther King. Todos se encaixavam nessa classificação. A partir dos anos 60,
porém, com a TV ganhando cada vez maior importância como veículo de massa,
tornou-se difícil acrescentar novos nomes à lista dos líderes carismáticos de grande
apelo popular, como explica Machado (1988):


                           O dom da oratória não só perdeu a importância, como tornou-se um
                         sério obstáculo para a busca do contato com o público: a televisão
                         definitivamente não se presta a ser utilizada como tribuna para figuras de
                         comício. A melhor evidência disso é que um ator com trinta anos de
                         experiência com as câmeras veio se tornar presidente dos EUA,enquanto
                         a geração dos oradores entrava em derrocada.
                                                                                       (op.cit. p. 97).
186



   Analogamente, quem não lembra a eleição brasileira para presidente da
república, quando as pesquisas indicavam Lula como vencedor e zebrou, pois Collor
o venceu? Não poder-se-ia dizer que ali se deu melhor nos momentos cruciais que
antecederam o pleito o jornalista do que o líder dos comícios? Evidentemente que a
TV Globo colaborou também, ao editar o debate final para os telejornais dando
vantagem para Collor. E também por noticiar, em paralelo, o seqüestro de um dos
donos das Redes Pão de Açúcar por um suposto militante do PT. Mais tarde, o
assunto foi esclarecido, não havia relação alguma entre o seqüestro e o Partido dos
Trabalhadores, mas aí já era tarde, Inês era morta...


   O poder da mídia reside também em outro gênero de programa que são os
videoclipes,   que   soberanamente        vem   agradando,      há    mais    de   25    anos,
especialmente aos mais jovens. O videoclipe se impôs como uma nova forma de
expressão dentro do universo do vídeo e rapidamente ganhou espaço dentro e fora
da televisão, conquistando um amplo contingente de adeptos e provocando uma
pequena revolução no interior do vídeo e do disco. Diante desse quadro, diz
Machado(1988):


                            ...é natural que ele se tenha convertido em objeto de discussões
                        apaixonadas entre produtores, consumidores e estudiosos da cultura de
                        massa.[...] [Ou] que tenha fomentado também a criação de um muro de
                        resistência, por parte principalmente daqueles que defendem a narrativa
                        clássica, a quem os fogos de artifício dos videoclipes só fazem poluir o
                        universo das mídias visuais com um maneirismo alucinado e carente de
                        funcionalidade.
                                                                                (op.cit. p.169).


   Concorde-se ou não, a verdade é que torna-se cada vez mais difícil fingir ignorá-
los ou supor que se trata apenas de um fenômeno de moda. Talvez resida no
videoclipe a expressão mais acabada da modernidade – com seu poder de síntese
e sua conseqüente economia expressiva – embora resulte num produto que
dificilmente a inteligência tradicional entenda ou engula.
187



   O estranhamento maior está certamente relacionado com ao fato do videoclipe
poder dispensar inteiramente o suporte narrativo, coisa com a qual o seu público já
está preparado para aceitar. As imagens podem ser escolhidas sem nenhum
significado imediato, sem qualquer denotação direta, sem referência alguma, no
sentido fotográfico do termo, harmônico com o da música. Como explica Walter
Salles Jr.,citado por Machado (1988, p.171), o que está presente na maioria dos
clipes é:


                          Uma forma não-narrativa, não linear, que ganhou o título, nos EUA,
                       de “non associative imagery” e que em português poderia ser (mal)
                       traduzido por imagens dissociadas. O que importa é menos a intenção de
                       se contar uma história e mais o desejo de se passar uma overdose de
                       sensações, através de informações não-relacionadas, acompanhando
                       sons – o ritmo das imagens.
                                                         Walter Salles Jr.(apud op.cit.p 171).


   Não residiria no videoclipe - a ser assistido, a ser produzido - um campo próspero
de estudo para a escola trabalhar, além de conteúdos científicos, as singularidades
dos seus sujeitos, suas diferentes sensações, emoções, valores, etc.? Esta
produção de vídeo não poderia servir de elo entre toda a comunidade escolar,
envolvendo professores, alunos, funcionários, especialistas, pais e indo para além
dos seus muros, ao encontro da sociedade onde se insere cada escola?                      Não
caberiam campanhas a serem deflagradas na comunidade escolar – interna e
externa - através de clipes, e, em especial, com o mote do valor da fraternidade, da
equanimidade de direitos, do respeito aos semelhantes, do valor da amizade e
tantos outros sentimentos, temas e ações que resultam numa escola e numa ,
conseqüentemente, sociedade inclusiva?


   Diante do contexto criado pelas novas tecnologias da comunicação e da
informação, o discurso da educação não consegue isoladamente posicionar-se,
torna-se insuficiente. Por outro lado, diante dessas novas mediações, a educação e
a Comunicação não podem também ser pensáveis como atores independentes e
isolados deste novo ecossistema de comunicação educativa.
188



   Para Martin Barbero (1997), a simples introdução dos meios e das tecnologias na
escola, pode ser a forma mais enganosa de ocultar seus problemas de fundo, sob a
égide da modernização tecnológica. O desafio é como inserir na escola um
ecossistema comunicativo que contemple ao mesmo tempo: experiências culturais
heterogêneas, o entorno das novas tecnologias da informação e da comunicação,
além de configurar o      espaço educacional como um lugar onde o processo de
aprendizagem conserve seu encanto.


   Paulo Freire pode ser considerado um dos pioneiros na inter-relação
Comunicação/Educação no cenário latino-americano. Em Extensão ou Comunicação
(1971), focaliza os processos comunicacionais que se inserem no agir pedagógico
libertador, partindo do pressuposto de que, diferente do animal, que se restringe ao
contato, o homem não está apenas no mundo, mas com o mundo. A comunicação é
vista como um componente do processo educacional, um modus, uma relação
estratégica performática que se estabelece entre Comunicação e Educação, através
do agir. Um modo de interação que ultrapassa a ótica puramente instrumental da
tecnologia comunicativa e informativa.


   Para Freire (1971), não é possível compreender o pensamento fora de sua dupla
função: a cognoscitiva e a comunicativa. Sob essa perspectiva, a       comunicação
passa     ser vista como relação, como modo dialógico de interação do agir
educomunicativo:”ser dialógico é vivenciar o diálogo, é não invadir, é não manipular,
é não sloganizar. O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados
pelo mundo, o pronunciam, isto é, o transformam e, transformando-o, o humanizam.”
(op.cit. p. 43).


   Nesta direção o educador chileno Mário Kaplún, citado por Nádia Lauriti (s.d., p.
03) fala sobre a inter-relação Comunicação/Educação, por ele denominada
Comunicação Educativa, que tem a função de fornecer à educação métodos e
procedimentos para formar a competência comunicativa do educando. Kaplún
defende a comunicação pensada como um componente pedagógico, não como um
instrumento.       Não se trata, portanto, de educar usando o instrumento de
comunicação, mas que ele se converta no eixo vertebrador dos processos
189



educacionais: educar pela comunicação e não para a comunicação. Dentro dessa
perspectiva da comunicação educativa como objeto, os meios são ressituados a
partir de um projeto pedagógico mais amplo.


   Tanto Paulo Freire como Kaplún, vinculam os três espaços: contexto sócio-
cultural, comunicação e educação como uma relação e não como um área que deva
ter seu objeto disputado. Há fortes razões para destacar a urgência desta
aproximação,como referenda Lauriti (s.d.):


                          ...há um atraso a recuperar, considerando-se que a meta-narrativa da
                       educação ainda resiste às inovações da cultura que emerge da era da
                       informação, impondo urgente revisão dos seus paradigmas; outra razão é
                       o surgimento, na pós-modernidade, de uma forma transdisciplinar de
                       pensar explicitada tanto através de posições teóricas como de atitudes
                       diante do mundo.
                                                                                 (op.cit. p. 04).



   Uma direção operacional para este trabalho pedagógico transdisciplinar, pode ser
a sugerida por Hugo Assmann (1996): a utilização do conceito metafórico de rizoma,
emprestado de Deleuse e Guatari:


                         Diferentemente das árvores ou de suas raízes, o rizoma interliga um
                       ponto qualquer com outro ponto qualquer.[...] O rizoma não se deixa
                       reconduzir ao uno, nem ao múltiplo.[...] Ele não é feito de unidades, mas
                       de dimensões, ou antes, de direções movediças. Ele não tem começo
                       nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda.
                                                                   Hugo Assmann (1996, p.80).


A metáfora do rizoma conceitual possibilita que se dê materialidade operacional à
polifonia discursiva, para que seja possível inaugurar um discurso ressignificado e
aberto a novas posturas epistemológicas,               tanto na educação quanto na
comunicação, com um enfoque claramente transdisciplinar.


   Assmann, confrontando os ritmos escolares com os ritmos temporais da mídia,
assinala que as novas tecnologias multimeios eletrônicos e o computador são
190



valiosos auxiliares da otimização do trabalho pedagógico, portanto não devem ser
temidos, ao contrário, devem ser incorporados e trabalhados criticamente a favor das
dimensão vivencial dos tempos humanos envolvidos no processo.


   Segundo o autor, cada sociedade está lutando com um número plural de
temporalidades cronológicas e kairológicas ao dar formas organizadas às relações
sociais. A organização da sociedade pós-moderna mostra a necessidade de pensar
conjuntamente CHRÓNOS (tempo natural, do relógio) e KAIRÓS (tempo histórico,
das vivências). Assim, a experiência temporal não pode ser aprisionada pela
exatidão do relógio, porque ela não marca a temporalidade vivencial.


   Tem-se no rizoma, uma belísssima metáfora para se saudar os tempos diversos
que cada aluno precisa para elaborar, para construir o seu conhecimento, de acordo
com a forma de vivenciar o aprender e apreender o saber, a vida, o mundo. O
chrónos escolar implica, portanto, segundo Assmann, ritmos, ciclos, reinícios que
precisam ser ressignificados para que se chegue ao verdadeiro tempo pedagógico,
isto é, o tempo (KAIRÓS) que cria ambiência propícia para as experiências da
aprendizagem.


                         Tempo pedagógico [não é medido em horas, dias, anos, mas como]
                       tempo vivo [que é] avaliado por seus resultados de fruição do emergir das
                       experiências de aprendizagem [e implica convivência aberta com uma
                       pluritemporalidade simultânea], horário escolar, informação instrucional,
                       tempo de apropriação personalizada de conhecimento, tempo de leitura e
                       estudo, tempo de auto-expressão construtiva, tempo de erro, tempo de
                       conjuntura e da busca, tempo de inovação curricular criativa, tempo de
                       gestos e interações, tempo do brinquedo, do jogo, tempo para
                       desenvolver a auto-estima, tempo de dizer sim á vida, tempo de organizar
                       esperança [tempo de brincar de fazer televisão, tempo de arrumar muitos
                       amigos]. [ilação desta autora].
                                                                       Assmann(1996, p. 232).
que as bases para um Educação sólida, de qualidade, ajustada
para dar conta de formar o novo cidadão que a nova sociedade
[nomeada pela autora de inclusiva] comporta/precisa/pensa só
será possível se a Comunicação estiver sendo agendada
cotidianamente em nossas discussões.                             191
                                    Edson Gabriel Garcia(s.d.)
192




3.1 Educomunicação, um paradigma em construção.


   Um dos traços da nossa contemporaneidade é o caráter globalizante da
informação e a subseqüente mundialização da cultura, em especial no que tange ao
consumo. Inúmeras autores apontam as mídias e suas corporações como artífices
mundiais da cultura do consumo. A tecnologia é um dos níveis de expressão da
globalização e da pós-modernidade. Os avanços tecnológicos nas áreas de
comunicação e informação invadem todos os campos da vida pública e privada e
chegam até a escola. São ventos da pós-modernidade: informática, Internet,
realidade virtual, Dvd, telefone celular, chats, TV a cabo ... Informação e imagens
saturam os sentidos de todos, em especial das crianças e jovens, que mais do que
nunca constroem sua visão de mundo e de identidade com forte influência nas
mídias.


   As novas tecnologias inseridas ao sistema educacional têm sido anunciadas
como redentoras da educação, especialmente junto às Universidades, pois mesmo à
distância, possibilita uma ampla acessibilidade e democratização do conhecimento,
superando a ausência ou limitações daqueles que não podem participar de
processos presenciais de formação. No entanto, há aspectos importantes que
precisam ser considerados. Um deles é o de que a educação não é mera
transmissão de conhecimento. Como diz Paulo Freire: educar e educar-se, na
prática da liberdade, não é estender algo desde a sede do saber até a sede da
ignorância para salvar com este saber, os que habitam nesta.
193




   Tradicionalmente as escolas tê-se conservado como meros receptores de
produtos mediáticos, sejam eles planejados com o fim formativo – como TV Escola –
ou não. As imagens invadem o cotidiano das crianças e desencadeiam uma
competição desleal com a escola. “Alfabetizadas” pelas imagens das marcas
divulgadas pelas mídias as crianças são seduzidas pelos apelos do consumo. De um
lado o mundo lá fora apela ao desejo, ao olhar prazeroso, o desfrute, o consumo, o
mundo das imagens eletrônicas. Do outro, um mundo tímido, o mundo das palavras
escritas, do pensamento, da abstração, dos discursos do professor ou da professora.
Céu e inferno, prazer e trabalho, brincar ou chatear-se ...


   Seja como ferramenta pedagógica ou como objeto de estudo, a inserção de
tecnologia da informação e comunicação na educação deve fundamentar a reflexão
crítica sobre seus conteúdos, transformando informação em conhecimento,
formando receptores ativos.Mas o recorte que se faz da Educomnicação neste
trabalho quer mais, muito mais, quer através da produção de vídeos na escola,
trabalhar as capacidades cognitivas, afetivas, psicomotoras dos alunos que
aprenderão não só a analisar, mas aprender a fazer o produto das mídias. Quer um
aprender e um ensinar – aprendendo-ensinando, ensinando-aprendendo – num lugar
onde o diálogo, a argumentação, a polifonia, a participação, a ação, a colaboração, a
diversidade, o lúdico e a criatividade sejam uma constante.


   A educação precisa considerar que através das mídias os jovens entram em
contato com fatos culturais diversos, mas a recepção parece dar-se na superfície,
posto que não é feita uma leitura crítica das manifestações.Não há uma
verticalização da leitura. A mediação cognitivo-cultural do professor pode fazer com
que os signos visíveis sejam apreendidos em toda sua significação,atentando assim
para as mensagens subjacentes. Este fato está diretamente ligado à maneira como a
escola trabalha com a linguagem: se numa perspectiva instrumental ou
interacionista. Em face desta realidade, é imperiosos que a escola compreenda que
a visão do rápido processo de mudanças que vem se realizando mundialmente,torna
emergente a reconsideração sobre a apropriação dos meios de produção cultural e
de seus efeitos sobre os receptores-alunos.
194




   Comunicação e Educação andam juntas, segundo Moran (1996),que postula que
quanto mais a primeira se valer da segunda, melhor será o ambiente,e portanto,
melhor serão as práticas educativas. Para ele o educador é um comunicador que
precisa fazer uma interação, uma ponte como forma de lidar com o conhecimento,
diferente de como vem fazendo:


                          Uma pessoa que se comunique mais e fale menos, embora pareça
                       contraditório, comunica-se mais, sem preocupar-se com o conteúdo
                       programático.Ela é um comunicador porque fala com todo o corpo,
                       porque ele é uma mensagem complexa e, junto com esse conteúdo
                       programático, coloca sua experiência de vida, seu modelo de adulto,
                       realizado ou não, feliz ou não, de uma pessoa que vale a pena conhecer
                       ou não.
                                                                         Moran (1996, p. 2).


   O pesquisador e professor da Universidade de São Paulo, explica que isso é que
é importante. Não basta ser só um professor competente, numa área específica. O
professor tem que ser também um excelente comunicador de toda uma experiência
de vida que vale a pena transmitir junto com aquele conteúdo programático
específico. Essa é uma questão de fundo profundamente tecnológica, ele é um
comunicador total. Isso não se muda, não se improvisa com cursos rápidos.


   Ratificando a idéia da necessidade da comunicação como um elemento quase
nato,que se aprimora com a prática, Pinchon Riviere (1991), psicólogo social, diz que
o que o homem tem de mais primitivo e mais característico é a sua necessidade
imperiosa de comunicar-se com os outros. Ele afirma que quando o homem perde a
comunicação com o grupo, aparece um sentimento de solidão e de desamparo
insuportável. O autor vai mais longe, dizendo que o homem por isso mesmo vale-se
dos sonhos para poder se comunicar, enquanto dorme à noite, evitando, deste
modo, a sensação de estar “incomunicado”. Vale-se de personagens para satisfazer
o desejo de comunicação e viver os seus dramas durante a noite, de um modo mais
ou menos administrado por ele. Só perderia este controle, durante os pesadelos.
195



   Ninguém desconhece que os alunos da atualidade ao entrarem na escola, ainda
analfabetos, já são pós-graduados em comunicação audiovisual. As novas gerações
são formadas em TV, tão logo abrem os olhos para o mundo. Já a relação dos
professores com as tecnologias e com a mídia é de confronto e de descrédito. A
mídia, por sua vez, vê a Educação como algo de pobres e por isso não lhe abre
espaço, não investindo no setor, que não lhe dá retorno econômico.Esse preconceito
mútuo faz com que as faculdades de pedagogia desconheçam a tecnologia, por mais
que os professores sejam grandes consumidores de mídia, conforme Ismar de
Oliveira Soares, citado por Gottlieb (2002), professor da Escola de Comunicação e
Artes da USP e estudioso de um campo que se encontra em franco processo de
consolidação: a Educomunicação.


   Gottlieb descreve o novo paradigma, como um campo relacional, estruturado
como um processo mediático, transdisciplinar e interdiscursivo e que se materializa
em quatro áreas de intervenção: a        social; a educação para a comunicação; a
gestão da comunicação na educação; e a área da reflexão epistemológica. A
educomunicação define-se como o conjunto de ações inerentes ao planejamento,
implementação e avaliação de processos, programas e produtos destinados a criar e
a fortalecer ecossistemas comunicativos em espaços educativos presenciais ou
virtuais. Também tem a finalidade de implementar ações para melhorar o coeficiente
comunicativo na educação,        incluindo as relacionadas ao uso de recursos da
informação no processo de aprendizagem. “Ismar concebe a Educomunicação como
uma ação carreada de intencionalidade política e de comprometimento pessoal,
voltada a criar ecossistemas educativos abertos.” (Gottlieb, 2002, p. 8).


Numa entrevista concedida ao site do Mundo Jovem, Ismar Soares fala da prática
da Educomunicação nos tempos atuais:


                          Isto se torna fácil hoje, na medida em que os meios e as tecnologias
                        se tornaram mais acessíveis. Hoje é barato você ter um pequeno estúdio
                        de rádio, ou de vídeo, ou um laboratório de informática. E a linguagem
                        dos meios começa a ser acessível mesmo às crianças pequenas. E,
                        neste sentido, o que se tem observado é que quando as crianças e
                        professores e líderes religiosos se apoderam destas imagens, dominam
196


                       suas tecnologias, e começam a examinar a sua própria produção e ver a
                       forma como por exemplo, eles próprios foram manipuladores desses
                       veículos quando quiseram fazer uma produção e convencer alguém, isto
                       permite que esses mesmos receptores dos meios massivos se tornem
                       críticos com relação a esses meios e comecem a pensar em projetos
                       alternativos.
                                                     Soares apud Gabrielle Ponte( s.d. p.01.)



   O jornalista explica que a alternativa nos dias de hoje não vem mais do ideário de
grupos que queiram fazer algum tipo de revolução na sociedade, mas acontece a
partir da incidência destes grupos junto à população, permitindo que ela se expresse
enquanto comunicadora, havendo transferência de lideranças, de grupos que no
passado comandavam a chamada comunicação alternativa, para a própria
sociedade. Estes líderes se transformaram hoje em motivadores e mobilizadores da
sociedade, permitindo que esta sociedade se comunique. Daí nasce o conceito de
Educomunicação, que é um conceito que reúne o objetivo de construção da
cidadania mediado por um relação entre Comunicação e Educação. Esta mediação
significa que os líderes que estão propondo esta mudança se transformam em
facilitadores do acesso da tecnologia às classes populares, por exemplo. Na escola
do mesmo jeito, busca-se essa construção da cidadania em meio a aprendizagem
como um todo.


   É tácito que a escola, os MCM, a família, a convivência social e de lazer são
redes que processam suas influências sobre a formação de crianças e jovens. As
muitas horas de TV assistidas por eles, evidentemente, também acabam
influenciando na sua formação com mais intensidade do que os outros elementos,
inclusive. Essa posição de destaque da TV no dia-a-dia das crianças tem que ser
considerada como um componente social significativo pela escola, que precisa
incluí-la no seu projeto pedagógico.


   A inclusão da TV no projeto político pedagógico não deve se resumir ao uso de
vídeos como ilustração de determinados conteúdos didáticos. É importante que a TV
como Meio de Comunicação Social seja o próprio conteúdo em si. Ela precisa ser
pensada em suas implicações para a educação, porque através dela os alunos estão
197



construindo uma visão de mundo. Os educandos precisam ser capazes de
compreender como a TV           constrói a leitura do mundo que apresenta ao
telespectador. É necessário que eles entendam como ela faz a mediação entre o
homem e o meio, onde vive. Cabe ao educomunicador viabilizar esta aproximação
entre a escola e os meios de comunicação, agindo na interface da Educação e da
Comunicação.


   O educomunicador       representa uma das formas de interação entre esses
agentes sociais, tem o papel, juntamente com os outros atores do processo
educacional, de desenvolver a análise crítica das          programações das TVs,
especialmente das comerciais, promover uma estratégia de diálogo da escola com
esse meio de comunicação, para uma educação contextualizada, voltada para a
realidade da vida dos alunos. As notícias veiculadas pelos telejornais adquirem
significado muito mais através das conversas com os amigos do que pelo texto
veiculado no noticiário. E este é o gancho para que a escola, através do
educomunicador discuta, trabalhe com os alunos essas notícias. É nessa circulação
de discursos - orais e escritos – que se constrói o sentido que terá a informação para
os jovens. A escola precisa ir para além do que os meios de comunicação fazem
com os seus próprios sujeitos, “ler” criticamente o que a TV lhes oferta. Como se faz
isto? Além das discussões, uma das formas é aprender como se faz televisão, e a
produção de vídeo na escola, mesmo amadora, poderá possibilitar isto.


   A verdadeira proposta do processo de comunicação não está nas mensagens
propriamente ditas, mas nas formas de interação do receptor com elas. A forma do
processo de recepção é      que viabiliza a negociação de sentidos. Uma mesma
mensagem pode ser recebida de formas variadas, dependendo do grau de
esclarecimento do receptor. Dito isto, parece claro que a habilitação do professor
como educomunicador passa necessariamente pelo aprendizado das teorias da
comunicação e da educação, além de : estar apto a utilizar as modernas tecnologias
de comunicação, ser capaz de fazer análises críticas dos meios de comunicação
com um olhar voltado para a educação e para a influência da TV na educação.
198



   A importância da comunicação na educação também está relacionada ao fato da
dimensão pública da sociedade atual encontrar-se fortemente atrelada à ação dos
meios de comunicação. Thompson (1995, p. 285) destaca que, nos dia de hoje, “ o
conhecimento que nós temos dos fatos que acontecem além do nosso meio social
imediato, é, em grande parte, derivado de nossa recepção das formas simbólicas
mediadas pela mídia.” Como este, outros autores,         como Castro (1996, p. 03)
apontam a esfera dos meios de comunicação como o espaço mediático que confere
visibilidade aos acontecimentos sociais. Aparecer neste espaço significa, na
atualidade, aparecer na esfera pública, inserir-se no campo do que é visível e
compartilhado socialmente.


   Considerando-se essa inserção pública do sujeito que lhe confere visibilidade no
social, a escola ao brincar de fazer TV, com a produção de vídeo, poderá igualar
entre seus alunos estas condições de aparecimento na telinha.. Sem exclusão, todo
mundo pode fazer e ser notícia, basta trabalhar para tanto. Diferente da mídia oficial,
onde o excluídos só são notícia em grupos de desafortunados por uma tragédia, seja
de que natureza for, ou individualmente, enquanto força negativa, ao lado do crime
ou algo que o valha.


   A proposta é a efetivação da garantia do direito à expressão mediática. A
comunidade envolvida, no caso a escolar, é convidada a produzir e não apenas a
receber mensagens, através dos meios de comunicação. A metodologia que os
diversos projetos comunitários em curso no Brasil tem utilizado, nas TVs e rádios
comunitárias, na sensibilização e mobilização de seus próprios meios de
comunicação é a mídia processo, ou seja, o saber fazer vai sendo construído ao
longo do processo de criação do veículo , pela comunidade.


   De forma semelhante o que é feito nas comunidades, é o que se propõe na
escola, com a diferença de que nos canais comunitários, o grupo trabalha
coletivamente as questões de seu quotidiano, redimensionando o olhar sobre tais
questões, o que será também realizado na escola, mas pretende-se ir além,
trabalhando também questões de conteúdo programático oficial, assim como se
pretende estudar a tecnologia em si, formalmente, e as mensagens da mídia oficial,
199



como já foi referido anteriormente. Pretende-se algo mais próximo do trabalho
científico.


       Desse processo      de dar visibilidade ao grupo emerge - e a experiência o
comprova - a criação participativa de uma auto-imagem positiva dos envolvidos
mais diretamente e do em torno, contribuindo para a emersão de novas identidades
e de novas perspectivas de ação política individual e coletiva. São criados novas
perspectivas de atuação simbólica, nos mesmos níveis,                tecendo uma rede de
desejos, interesses, trajetórias, e experiências dos participantes.


    A cultura da comunicação escolar vai se formando pouco a pouco, de forma
incipiente, no início, pois é através da linguagem que os homens se relacionam e
criam um mundo comum, o mundo da cultura, já dizia Vygotsky. Um mundo que
espera-se seja mais justo, plural, ético, solidário, polifônico, fraterno, amoroso,
pacífico, harmônico, alegre e agradável de se participar, pelo menos dentro dos
portões da escola, o        que, certamente, em se consolidando,              transformará a
sociedade num todo, ao transpor os seus muros, pelo contágio, tal qual os micróbios
que não têm fronteira.


   Como afirma Hannah Arendt (1993), citada por Gomes e Lima (2003) faz parte de
condição humana expressar seus desejos, e interpretações em público para
construírem um mundo comum, ou seja, os indivíduos necessitam que suas ações
ganhem visibilidade no espaço público. A autora definiu a polis grega como:


                             O espaço da aparência, no sentido mais amplo da palavra, ou seja, o
                         espaço no qual eu apareço aos outros e os outros a mim, onde os
                         homens assumem uma aparência explícita ao invés de se contentar em
                         existir meramente como coisas vivas ou inanimadas.
                                                                                 (op.cit., p. 05).


Além disso, ressaltou que “sem o espaço da aparência e sem a confiança na ação e
no discurso como fórum de convivência, é impossível conhecer inequivocamente a
realidade do próprio eu, da própria identidade, ou a realidade do mundo
circundante.” (op.cit. p. 05).
200




   Um dos aspectos centrais do processo de construção de identidades individuais e
coletivas é , portanto, fazer-se visível ao outro. A aposta da produção de vídeo na
escola implica neste construir uma forma de dar visibilidade a todos os cidadãos-
alunos para que sintam-se pertencentes àquela comunidade de fato e de direito,
bem como membros efetivos de sua cidade e do mundo.


   Como refere Soares (1999): no dia a dia, enquanto professores, estamos dentro
de um trabalho de Educomunicação, que é “toda ação comunicativa no espaço
educativo, realizada como objeto de produzir e desenvolver ecossistemas
comunicativos.” (p. 09). A importância prioritária de um educomunicador no processo
educacional pode ser apreendida na reflexão de Paulo Freire sobre a mediação da
tecnologia na educação: “fazer pensar”; “pensar bem, com a cabeça bem feita”, na
expressão de Edgar Morin (2003).
201




... o círculo da docênci não deveria fechar-se,como um
                 docência                    se,como uma
cidadela sitiada, sob o bombardeio da cultura de mídia,
exterior à escola, ignorada e desdenhada pelo mundo
intelectual. O conhecimento dessa cultura é necessário não
só para compreender os processos multiformes de
industrialização e super comercialização culturais, mas
                    super-comercialização
também o quanto das aspirações e obsessões próprias a
             quanto
nosso “espírito da época” é traduzido e traído pela temática
das mídias.
                                  Edgar Morin (2003, p. 80).
202




3.2 O vídeo como instrumento de inclusão na formação de cidadãos éticos,
    críticos e participativos.

   A escola é o começo de tudo e se ela não alterar seus princípios, sua filosofia, a
sua pedagogia, a sua forma de tratar os pequenos cidadãos que crescem dentro de
seus muros, adeus sociedade inclusiva, é o que pensa Werneck (1977) e também
esta autora.   O professor do ensino básico é a principal figura da sociedade
inclusiva, diz a jornalista, em sala de aula ele é o rei, especialmente nos primeiros
anos de escolaridade, pelos quais todos os membros da sociedade planetária
merecem e devem passar, ao serem incluídos.

                             Há quem diga rei sem castelo ou senhor feudal sem terras, tantas as
                       dificuldades que enfrenta. O professor também é maestro. Agora vai
                       reger sem partituras uma orquestra aparentemente desafinada.[...] ou ele
                       percebe a mensagem dessa música e permite que seja executada
                       com vigor pela percussão, metais, caudas e demais instrumentos ou
                       essa nova harmonia não se sustentará.[...] Incluir não é favor, mas troca.
                       [...] conviver com as diferenças humanas é direito do pequeno cidadão,
                       deficiente ou não. Juntos construirão um país diferente. A escola
                       transformadora é a semente desse Brasil-do-tamanho-exato-das-nossas-
                       idéias.
                                                                   Werneck (1977, pp. 61 – 64).

   A inclusão na escola não amedronta somente aos professores do ensino regular,
mas também aos especialistas em Educação Especial. Na opinião de Werneck, os
professores temem ser levados a assumir papéis indesejados. Na realidade estão
incomodados pelo fato da educação inclusiva não admitir a repetência tradicional. E
também porque sentem dificuldade em admitir que os alunos com NEE sejam
inseridos, nas turmas de educação regular por idade cronológica – um dos principais
parâmetros da inclusão – mesmo que cognitivamente                  eles não correspondam
aquele grau de estudo. Ter 14 anos, e estar na 4ª série sem ser alfabetizado, por
exemplo.Já os especialistas em educação especial receiam que a educação
203



inclusiva venha a eliminar a sua categoria, acabando com a educação especial.
Temor desnecessário, porque a inclusão prevê um ensino especializado no aluno,
em todo e qualquer aluno, com e sem deficiência, e onde a experiência desses
professores especializados será pra lá de muito bem-vinda...


   A jornalista defende também a escola inclusiva como instrumento de conserto e
prevenção para as mazelas espalhadas no seio da sociedade pela globalização,
onde “a competitividade aumenta nas áreas em que há produção tecnológica e
intelectual e o conteúdo adquire maior importância.[Pois] A globalização aniquila a
capacidade de ação dos menos privilegiados econômica e politicamente,
desemprega e, em última instância, excluí, por promover desigualdade.” Werneck
(1997, p. 64).


   A autora vai mais além, opinando      que ao se privar as crianças normais da
convivência com seus pares deficientes tira-se de todas elas      as chances de se
exercitarem na construção de sua cidadania. As correntes interacionistas da
sociologia conferem lugar de honra às vivências decorrentes de experiências
aparentemente simples do cotidiano, nas quais residiria a legítima interação, da qual
surgem as oportunidades de aprendizado, com a negociação de significados.


   Apesar da maioria dos pais, e de muitos professores inclusive, não gostarem de
tocar em assuntos relacionados à deficiência – há até quem ache que dá azar - as
crianças não discriminam a diferença. São curiosas a respeito, da mesma forma que
o são diante do novo, de qualquer espécie. Mas, ao perguntar dificilmente ela
encontra resposta, porque os adultos em geral acham natural não terem informações
corretas sobre doenças crônicas, distúrbios neuro-psicomotores, síndromes
genéticas e situações que podem levar a algum tipo de limitação ou incapacidade,
denuncia a jornalista, que acrescenta que sem respostas e ao perceber sua dúvida
tão desvalorizada, a criança se cala. Decide nunca mais tocar no assunto, em casa
ou na escola. O que deveria ser esclarecido vira mistério, tabu, ocasionando o
preconceito. A atitude já preconceituosa do adulto termina engrossando atitudes do
gênero, como comenta a autora: “O novo em vez de gerar curiosidade, desencadeia
204



o medo, a ameaça, o riso. Acabamos de fabricar mais um cidadão-pela-metade.”
Werneck. (1997, p. 140).


   Faltou a informação correta, científica, pura, formal, simples. Com a expressão
cidadão pela metade a autora refere-se a um futuro profissional despreparado, que
violará pequenos e grandes direitos das pessoas com deficiência e talvez morra sem
perceber isso. Quando se opta por só falar do bom, do bonito e do belo, o adulto vira
um deturpador de realidade, passando a sonegar dados sobre um mundo real, onde
estão incluídas também as doenças e as deficiências. Embora as crianças a
princípio percebam estas realidades     como sendo parte do mundo delas, quando
crescem também passam a insistir em ignorar ou escondê-las.


   Só que, como alerta Werneck (1997), mesmo que não se tenha sido educado
para entender a diversidade como uma situação natural de vida, não se pode relutar
em seguir as regras que dão aos indivíduos com deficiência direitos assegurados
pela Constituição Brasileira.E, se a família não atenta para isto, a escola precisa
atentar, pois é impossível acabar com o preconceito na idade adulta, por já estar
incrustado na personalidade do sujeito. A falta de informação e formação impedem
que as crianças vejam a questão da deficiência e da doença como sua. Para
minimizar a questão do preconceito é preciso impedir que ele se instale ainda na
infância. E é aqui que o trabalho com vídeo serve como uma luva, há muitas
entrevistas, programas, reportagens, filmes,etc.,    verdadeiros e de ficção,      já
elaborados por profissionais para serem vistos e analisados na escola e muitas
outros   para serem feitos com os alunos, na própria escola, na comunidade
circunscrita à Escola e em outras, tratando deste e de outros assuntos.


   Os Parâmetros Curriculares Nacionais, PCNs, lançados em 1997 pelo MEC a
serem trabalhados no Ensino Fundamental, nas áreas de Língua Portuguesa,
Matemática, Ciência, História, Geografia, Artes e Educação, além destas disciplinas
tradicionais, contemplam a discussão de outras questões agrupadas sob o nome de
Convívio Social e Ética, onde de forma articulada com cada área, tratam dos
temas:Ética, Meio ambiente, Orientação Sexual, Saúde e Pluralidade Cultural podem
muito bem promover um amplo debate sobre as diferenças individuais. O assunto
205



deficiência naturalmente se insere, podendo ser abordado em várias áreas como a
de Ciências e História, por exemplo, na concepção de Werneck (1977). Mais um
assunto para se trabalhar com vídeo, ilustrando amplamente o tema.


                           Se a escola já falou com alguma naturalidade sobre morte, sexo,
                       AIDS,drogas, termos que eram tabus, por que não considerar com igual
                       interesse para sua comunidade falar de deficiência ou de situações
                       limitantes causadas por certas doenças? Por que a escola não vira um
                       fórum permanente? E faz parceria com grupos de ajuda mútua e
                       associações de pessoas com deficiência e de doenças crônicas para que
                       possam oferecer a seus alunos, professores e vizinhos, palestras e
                       atividades ? Oficinas, por exemplo, nas quais assuntos como epilepsia,
                       paralisia cerebral e doenças renal sejam abordadas com atualidade e
                       naturalidade?
                                                                        Werneck (1997, p. 80) .


   Werneck é da opinião que a escola deveria vestir a camiseta de uma campanha
de prevenção sistemática sobre prevenção da deficiência. A profilaxia de seqüelas
de rubéola em mulheres grávidas, poderia ser feita através da conscientização das
meninas sobre a importância da vacinação contra esta e outras doenças desde a
infância. A escola poderia estar aberta para a aprendizagem sobre artrite, diabetes,
hemofilia, paralisia cerebral, lábio leporino, gagueira, dislexia, ostomia, dislalia,
doença renal, epilepsia, paraplegia, cegueira, surdez, alergias alimentares, câncer e
outras. Para essa autora, como também para esta, que sabem que não é simples                      -
pois nada é tão simples no terreno da educação -           as informações fazem parte da
construção da cidadania.


                           Tornar a escola brasileira uma formadora de cidadãos (inteiros) é meta
                       dos Parâmetros Curriculares Nacionais [...] Os PCNs sugerem temas
                       transversais [...] [Mas] Há quem pense o contrário. Incluindo eu. A ética,
                       o convívio social, a pluralidade cultural, o meio ambiente, a educação
                       sexual, o trabalho e o consumo, estes são os temas constitutivos das
                       bases da escola. Os conteúdos programáticos é que seriam os assuntos
                       transversais.[Mais uma vez esta autora assina embaixo.].
                                                                        Werneck (1999, p. 160).
206



   A jornalista fala de cátedra sobre esse assunto. No seu currículo consta a edição
de uma coleção, com três livros, chamada Meu Amigo Down, com o objetivo de
levar não só aos lares, mas às escolas do Brasil, uma ampla discussão sobre as
diferenças individuais a partir da Síndrome de Down. A chegada de um menino com
a síndrome à escola regular é tema de um deles. “Escrevi a história a partir do relato,
às vezes triste, às vezes confiante, das cartas que me descrevem esse momento,
chegadas ao projeto Muito prazer, eu existo. Estudando os depoimentos sobre a
postura das pessoas na rua diante de uma criança de algum modo diferente, escrevi
Meu Amigo Down , na rua.” Werneck (1997, p.148). E o terceiro fala da dificuldade
dos pais ao nascimento de um bebê down.


   Claudia conta que o sucesso foi tal, que após a terceira edição da coleção,
resolveu editar também Um Amigo diferente?


                          Passei por uma experiência decisiva. Ao falar da coleção Meu Amigo
                        Down nas escolas, públicas e privadas, por todo o Brasil, eu era
                        torpedeada   pelos   alunos   com    perguntas     e   desabafos   sobre
                        ‘anormalidades’. Tornei-me a deixa para que abordassem assuntos que
                        os afligissem e os deixavam curiosos. Fiquei aflita com a aflição deles.
                        Daí nasceu Um Amigo Diferente?, lançado em 1996.
                                                                         Werneck (1977, p. 153).


   Esta última obra consumiu-lhe cinco meses de pesquisa e teve a assessoria do
consultor em reabilitação, Romeu Kazumi Sassaki . Werneck considerou “um livro
dificílimo de ser finalizado” . Para escrevê-lo teve que conhecer o trabalho de grupos
de ajuda mútua de portadores de paralisia cerebral, asma, doença renal, ostomia,
anemia, hemofilia, artrite e outros. O texto foi submetido a representantes de cada
uma dessas entidades e também a profissionais das áreas da Saúde,
Comportamento, Reabilitação e Educação de várias lugares do Brasil. Muitas outras
pessoas também foram consultadas sobre as ilustrações. E antes de ser publicado
passou por uma experiência piloto num CIEP do Rio de Janeiro, onde foi utilizado
como livro-texto, em sala de aula. O CIEP estava em plena consolidação do
processo de inclusão à época.
207


                        Durante uma semana várias turmas se dedicaram a fazer entrevistas
                      para saber quem era de algum modo diferente nas suas famílias e
                      vizinhança. Também sugeriram ilustrações para o livro, desenharam seus
                      amigos diferentes e fizeram redações. A escola filmou a dinâmica dos
                      trabalhos. Enviaram-me o filme, os desenhos, os textos, os murais, tudo.
                      Para mim são obras de arte. “
                                                                    Werneck ( 1997, p. 154).



   A TV do Rio de Janeiro, da Rede Globo, interessou-se pela experiência e
entrevistou os alunos numa reportagem de Ana Paula Araújo com pauta de Tim
Lopes. Crianças e adolescentes, quase todos moradores da favela Nova Brasília,
falaram de suas emoções e descobertas a partir das pistas do Um Amigo diferente? .


   O livro conta a história de um amigo que afirma ser diferente. A cada página o
amigo imaginário vai dando novas pistas, atiçando a imaginação dos pequenos
leitores, que vão se deparando com temas pouco abordados no dia-a-dia, doenças e
deficiências. Das diferenças simples, como ter seis dedos nas mão – e tornar-se o
campeão de fazer cócegas, da rua – até as mais complexas, como quando o
personagem levanta a camiseta “ e mostra o corpo estrelado que há dentro de si e
pergunta: ‘Quem sabe o mistério esteja dentro do meu corpo?’. Essa é a dica para o
professor falar de AIDS, de câncer, de hemofilia e por aí vai.” Werneck ( 1997, p.
153).


   Aprender sobre deficiências e doenças crônicas é aprender sobre cada ser
humano, acredita a jornalista. É conhecer-se melhor. As crianças nascem aptas a
lidar com qualquer tipo de diferença. Sendo o cotidiano, com sua diversidade mais
fantástica do que qualquer sonho ou imaginação, seria natural – na opinião de
Werneck (1999) – para as crianças crescerem reconhecendo a humanidade como
ela é, e não como os adultos acham que deveria ou gostaria que fosse. “Muito cedo,
no entanto, família e escola, em uma parceria maléfica e preocupante, começam a
corromper a meninada. Insistem em dizer que a deficiência faz parte de uma quarta
dimensão da vida. Em casa, o assunto não é abordado com naturalidade.” (p. 154).
Deve-se imaginar que se em casa é assim, na escola, local onde as gerações se
encontram para formar parcerias indispensáveis para a vida toda, às vezes, tem que
208



ser diferente, pois as crianças têm o direito de se desenvolverem exercendo sua
capacidade de reflexão, de decisão e de ação dentro de um contexto real.


   E invertendo o processo, transgredindo a norma? Você já se perguntou o que os
deficientes pensam sobre os normais ? O verso é conhecido, e o reverso ?


                         Habituamo-nos a ser referência.Por isso é tão difícil valorizar o saber
                       de alguém a quem rotulamos de deficiente mental. [...] ainda não somos
                       permeáveis a uma efetiva comunicação de mão-dupla com pessoas em
                       relação às quais nos sentimos superiores. Seremos um dia? Avançamos
                       é verdade. Estamos na fase do: “Eu já lhe ouço, nem sempre lhe escuto.”
                       Bem, estou sendo otimista. Há pessoas que ainda nem colocaram o
                       assunto em pauta.
                                                                       Werneck (1977, p.167).


O silêncio é a fala oficial dos dominados, segundo Werneck. Este trabalho traz
embutido em si – através da produção de vídeo na escola – a porta a ser aberta para
pessoas como essas referidas, que comumente não freqüentam nem as
preocupações da sua comunidade, quanto mais a mídia. Quer dar-lhes vez e voz, de
forma literal e simbólica. Cada civilização tem o seu padrão de comunicação social
aceito e institucionalizado, mas aqui é buscado o rompimento, um canal alternativo.
“A crise da comunicação é nossa, dos ‘vencedores’, de quem sempre falou e pouco
ouviu. Para superá-la, será preciso se dedicar a um exercício de auto
questionamento.”, diz Werneck (1977, p. 168).


   A autora deste trabalho segue os mesmos princípios da outra jornalista, na sua
auto-análise: “Desejamos ouvi-las?” “Estamos preparados para tanto?” “Achamos
importante atender suas reivindicações?” “Acreditamos na coerência deste
discurso?” “Que tipo de relação imaginamos ter no futuro, com essas pessoas por
tantos séculos sem expressão social?” “ O que elas tem a dizer?” “O que elas tem a
dizer sobre nós?” “Qual o preço que cada um de nós pode e deseja pagar para viver
numa sociedade inclusiva?.” Werneck (1997, pp. 168 e 169). O grande salto é
aprender a ouvi-las. Quanto mais legítimo for esse processo, mais essas pessoas
209



serão descaracterizadas como seres passivos e mais perto se estará da sociedade
inclusiva, pensam as autoras.


   Mas não são só os deficientes que deverão ter vez e voz nesse canal
comunicativo a ser aberto nas escolas inclusivas, na visão deste trabalho. A
prioridade deve ser conferida aos grupos mais desfavorecidos e vulnerabilizados
pela condição de pobreza, os analfabetos maiores de 15 anos, as populações rurais,
os menores de 6 anos, os alunos com dificuldades de aprendizagem, as minorias
étnicas e religiosas, como registra a Declaração de Cochabamba sobre políticas
educativas no início do século XXI, em uma de suas considerações, citada por
Carvalho (2004, p. 90): o uso pedagógico das tecnologias da informação e
comunicação deve ser considerado como um marco de projetos sociais e
educacionais, comprometidos com a eqüidade e com a qualidade.


   Como afirma Morin (2003) a educação pode ajudar a tornar os seres humanos
melhores se não mais felizes, e ensiná-los a assumir a parte prosaica e viverem a
parte poética de suas vidas. Para o sociólogo francês o princípio da inclusão é
fundamental e supõe para os humanos a possibilidade de comunicação entre os
sujeitos de uma mesma espécie, de uma mesma cultura, de uma mesma sociedade.


                         A compreensão permite considerar-se o outro não apenas como ego
                       alter , um outro indivíduo sujeito, mas também como alter ego, um outro
                       eu mesmo, com que me comunico, simpatizo, comungo. O princípio da
                       comunicação está, pois incluído no princípio de identidade e manifesta-se
                       no princípio de inclusão.[...] Podemos, pois, enunciar que a qualidade
                       própria a todo indivíduo sujeito não poderia ser reduzida ao egoísmo; ao
                       contrário, ela permite a comunicação e o altruísmo.
                                                                        Morin (2003, p. 123).


   Morin (2003) postula que há um conhecimento que é compreensível e está
fundado sobre a comunicação e a empatia – simpatia mesmo – intersubjetivas. Uma
pessoa só compreende as lágrimas, o sorriso, o riso, o medo, a cólera de outro, ao
ver o ego alter como alter ego, pela própria capacidade de experimentar os mesmos
sentimentos. “Se vejo uma criança em prantos, vou compreendê-la não pela
210



medição do grau de salinidade de suas lágrimas, mas por identificá-la comigo e
identificar-me com ela. A compreensão, intersubjetiva, necessita de abertura e
generosidade.” Morin (2003, p. 93).


   Como argumenta também Werneck (1997) a verdadeira comunicação só se dará
quando os seres humanos respeitarem os saberes distintos daqueles que lhes são
habituais.


                           Cada um de nós constrói no decorrer da vida, saberes    diferentes.
                         Saberes como filhos, estudantes, apaixonados,      profissionais. Pessoas
                         com deficiência mental têm um saber extra que á relação de todos esses
                         saberes com sua    condição peculiar. [...] como é viver com paralisia
                         cerebral? Doença renal? Tornar-se tetraplégico?
                                                                         Werneck (1997, p. 176).



O homem celebra com facilidade o saber de alguém que admira. Difícil é aceitar um
saber que pareça incoerente ou que aparentemente nada vai acrescentar.
Comunicação é acordo, acordo não se impõe, nem se manipula. “Busquemos um
consenso permanente. A compreensão do mundo não é monopólio de ninguém.”
Werneck. (1997, p. 176).


   Uma       sociedade   democrática    é    sempre     polifônica.      São    muitas    vozes,
representando os interesses e anseios dos seus diferentes segmentos e classes.
São diferentes gêneros, etnias e religiões. Diferentes desejos, sonhos e
necessidades. Construir caminhos de escuta das diferentes vozes e de seus
diferentes códigos e linguagens; construir caminhos de participação e de decisões
que privilegiam o bem comum e não apenas os interesses específicos ou individuais
é o grande desafio da sociedade da primeira década e de todo o século XXI,
certamente. Comece-se pela escola!


   A instituição escolar tem o papel principal nessa história. Cabe a ela apropriar-se
dele, não para decidir por, mas decidir junto e, mais ainda, educar ética, moral e
esteticamente. Uma sociedade autônoma é feita de cidadãos que são sujeitos de
seus caminhos, que fazem escolhas conscientes de suas opções. Uma sociedade
211



inclusiva é a que permite que todas as diferenças sejam explicitadas em busca de
um consenso. Uma sociedade democrática, autônoma e inclusiva é aquela onde
todos têm o direito a voto, a vez, a representação e a participação na gestão das
suas diferentes instituições e, mais ainda, é aquela que almeja a felicidade de cada
um e de todos.


   O desenvolvimento dos meios de comunicação de massa nos anos 60
revolucionou o mundo e também a educação. Se até então existia a primazia do
estudo dos meios sobre os processos de ensino-aprendizagem, essa revolução
eletrônica acrescentou a essa discussão uma revisão profunda dos conceitos de
comunicação usados até então. A implementação da informação nos anos 70
consolidou sua utilização na educação. A partir do aparecimento dos computadores
pessoais, aumentaram as possibilidades do chamado ensino individualizado, diante
de uma primeira geração de programas baseados em modelos de aprendizagem
associacionista que recuperaram os conceitos de ensino programado e das
máquinas de ensinar.


   O constante e acelerado desenvolvimento das novas tecnologias da informação e
da comunicação, a partir dos anos 80, trouxe novas opções de equipamentos
projetados para armazenar, processar e transmitir as informações, de modo cada
vez mais rápido e a custos cada vez mais reduzidos, ampliando infinitamente suas
possibilidades de utilização. No entanto, a melhoria automática do sistema
educacional pela inclusão dos meios não se comprova efetivamente, mesmo diante
de tantas novidades tecnológicas. Ou porque essas novas tecnologias não
chegaram até as escolas – especialmente às públicas – ou porque os meios por si
só não podem, nem devem, se constituir como o único campo de atuação e pesquisa
da tecnologia educacional. É necessário em consideração à política de elaboração e
difusão desses recursos, examinar suas finalidades éticas, a natureza dos mesmos e
as possibilidades de seu uso na educação, e aí sim lutar-se para que eles sejam
tornados instrumentos do dia-a-dia escolar.


   Segundo Moran (1994) o vídeo pode aproximar o conteúdo didático dos alunos,
considerando-se que sua normativa seja significativa para eles. Ele é apenas um
212



recurso, mas um recurso muito especial. Ele parte do visível, do que toca vários
sentidos. Seus diálogos, em geral, expressam a fala coloquial, enquanto o narrador
faz a síntese dentro da norma culta, orientando a significação do conjunto. As
músicas e os efeitos sonoros evocam lembranças e criam expectativas, antecipando
reações e informações. Ele faz a combinação da intuição com o a lógica, da emoção
com a razão. Ele é sensorial, visual, linguagem falada, musical e escrita. Através
dele o telespectador é atingido por todos os sentidos, em outros tempos e espaço.


   As mensagens audiovisuais exigem pouco esforço e envolvimento do receptor,
porque suas narrativas usam uma linguagem concreta, plástica, de cenas curtas,
com ritmo acelerado, multiplicando os pontos de vista, os cenários, os personagens
e o som, mexendo constantemente com a imaginação e delegando à afetividade o
papel de mediação entre o sujeito e o mundo. São essas características que marcam
substancialmente a diferença entre o audiovisual e a linguagem escrita, a
organização e a análise lógica.


   O vídeo ainda, refere Moran (1994) aproxima a sala de aula do cotidiano, das
linguagens de aprendizagem e de comunicação da sociedade urbana e introduz
novas questões no processo educacional. E melhor, vídeo significa para os alunos
descanso e não “aula”, já está lançada de antemão a expectativa prazerosa.


                         Vídeo significa também uma forma de contar multilingüistica, de
                       superposição      de   códigos   e   significados,   predominantemente
                       audiovisuais, mais próxima da sensibilidade e prática do homem urbano e
                       ainda distante da linguagem educacional, mais apoiada no discurso
                       verbal-escrito.
                                                                        Moran (1994, p. 17).


   O vídeo explora basicamente o ver, o visualizar. A música e os efeitos sonoros
servem como evocação às lembranças e de criação de expectativa, antecipando
reações e informações. Parte do concreto, do próximo, do visível, do imediato. Os
closes aproximam os outros, o som estéreo envolve. Enquanto a linguagem
audiovisual desenvolve múltiplas atitudes perceptivas, solicita constantemente a
imaginação e reinventa a afetividade num papel de mediação primordial no mundo, a
213



linguagem escrita desenvolve mais o rigor, a organização, a abstração e análise
lógica.


                             Pelo vídeo sentimos, experenciamos o outro, o mundo, nós
                       mesmos.[...] as linguagens da TV e do vídeo respondem à sensibilidade
                       dos    jovens   e   de   grande   maioria   da   população   adulta.   São
                       dinâmicos,dirigem-se antes à afetividade do que à razão. O jovem lê o
                       que pode viabilizar, precisa ver para compreender, toda sua fala é
                       sensorial – mais visual de que racional e abstrata. Lê, vendo.
                                                                        Moran (1994, pp. 21-22).




   Moran (1994) propõe várias formas da utilização de vídeo na escola, com
objetivos diferentes. Segundo ele, um bom vídeo é interessantíssimo para introduzir
um assunto, para despertar a curiosidade, despertando a motivação para novos
temas, facilitando o desejo de pesquisa para aprofundar o assunto do vídeo e da
matéria.


Como conteúdo de ensino -       no conteúdo do vídeo mostra determinado assunto,
de forma direta ou indireta. Na forma direta, informando sobre um tema específico,
orientando a sua interpretação; e na indireta, quando mostra um tema, permitindo
abordagens múltiplas, interdisciplinarmente.


Vídeo como ilustração – pode ajudar a mostrar o que é falado em aula, a compor
cenários desconhecidos dos alunos. A vida pode se aproximar da escola, através do
vídeo. Tempos e espaços longínquos podem tornar-se próprios e ao alcance dos
olhos.


Vídeo como simulação – trata-se de uma ilustração mais sofisticada,                     tornando
simples um processo mais complexo. Um vídeo pode mostrar o crescimento
acelerado de uma planta, de uma árvore – da semente até a maturidade – em
poucos segundos, por exemplo. Pode simular experiências perigosas para serem
desenvolvidas em laboratório ou que exigiriam muito tempo e recursos.
214



O vídeo como processo de avaliação dos alunos, do professor, do processo, através
das gravações de variados momentos e edição posterior.


Vídeo espelho - ideal para acompanhar o comportamento de cada um do ponto de
vista participativo, para incentivar os mais retraídos e pedir aos que falam muito para
darem mais espaço aos colegas. Para a análise de grupo e dos papéis de cada um.
“Vejo-me na tela para poder compreender-me, para descobrir meu corpo, meus
gestos, meus cacoetes.[...] O vídeo–espelho é de grande utilidade para o professor
se ver, examinar sua comunicação como os alunos, suas qualidades e defeitos.”
Moran (1994, p.22).


   Vídeo como suporte/Integração – como suporte da TV e do cinema. Gravar, em
vídeo, programas importantes da TV para uso em aula. Trabalhar com fitas (filmes)
comprados ou alugados: documentários e outros para iniciar os alunos na linguagem
audiovisual. E também a integração com outras mídias como PC, o CD-Rom,
videogames ou Internet.


   Quanto à forma de ver o vídeo, Moran (1994) sugere que deve-se informar
somente os aspectos gerais do vídeo (autor, duração, prêmios). Não deve se
interpretar nem pré-julgar antes da exibição, para que cada um possa fazer a sua
leitura. Durante a exibição, anotar as cenas importantes. Se necessário pode-se
interromper para algum rápido comentário, utilizando o “pause” ou “still”, sem
demorar, porque danifica a fita. Observar as reações do grupo, depois da exibição,
rever as cenas mais importantes ou difíceis e se for complexo, exibi-lo uma segunda
vez, chamando a atenção para determinadas cenas, para a trilha musical, diálogos e
cenas. Passar quadro a quadro as imagens mais significativas. Observar o som, a
música, os efeitos, as frases mais importantes.


   Moran, na obra citada, apresenta também sugestões para a análise do vídeo em
sala de aula. Denomina as várias leituras passíveis de serem feitas de: leitura em
conjunto; leitura globalizante; leitura concentrada; e leitura funcional. Na leitura em
conjunto, professor exibe as cenas mais importantes e a comenta junto com os
alunos, a partir do que eles destacarem ou perguntarem. Trata-se de uma conversa
215



sobre o vídeo, levantando os seus aspectos positivos e os negativos; as idéias
principais que passam; e o que eles mudariam no vídeo trabalhado.


   A leitura concentrada envolve a escolha, depois da exibição, de uma ou mais
cenas marcantes que devem ser revistas uma ou mais vezes. As questões podem
ser colocadas oralmente ou por escrito e trabalhar com: o que mais chamou a
atenção (imagem/som/palavra); o que dizem as cenas (significados); conseqüências,
aplicações (para o aluno, para o grupo).


   No caso da leitura funcional – antes da exibição do vídeo, alguma funções ou
tarefas devem ser escolhidas por um mais alunos, tais como: o contador de cenas
(descrição sumária); anotador das palavra-chave; anotador das imagens mais
significativas; caracterização dos personagens; música e efeitos; mudanças
acontecidos no vídeo (do começo até o final). Acabada a exibição, os alunos relatam
e escrevem no quadro as respostas. O professor completa com os alunos, as
informações, relaciona os dados, questiona as soluções apresentadas.


   A análise de linguagem pode ser feita com o auxílio do roteiro apresentado por
Moran (1994):que história é contada (reconstrução); como é contada essa história; o
que chamou a atenção visualmente; o que descartaria nos diálogos e na música; que
idéias passa claramente o programa (o que diz claramente esta história); o que
contam e representam as personagens; o modelo de sociedade apresentado;
ideologia do programa; mensagens não questionadas (pressupostos ou hipóteses
aceitas de antemão, sem discussão; valores afirmados e negados pelo programa
(como são apresentados a justiça, o trabalho, o amor, o mundo); como cada
participantes julga esses valores (concordância e discordâncias nos sistemas de
valores envolvidos). A partir de onde cada um julga a história.


   O vídeo como produto pode servir como documentação, registro de eventos, de
aulas, de estudos do meio, de experiências, de entrevistas, depoimentos. O
professor deve poder documentar o que mais importante para o seu trabalho, ter o
seu próprio material de vídeo assim como tem o seus livros, as suas apostilas para
preparar as aulas. O professor precisa perder o medo e o respeito ao vídeo assim
216



como ele interfere num texto escrito, modificando-o, acrescentando novos dados,
novas interpretações, contextos mais próximos do aluno. Pode querer intervir
acrescentando uma trilha sonora, editando o material de forma compacta ou
introduzindo significados recomenda Moran .


                        As crianças adoram fazer vídeo e a escola precisa incentivar o máximo
                      possível a produção de pesquisa em vídeo pelos alunos. A produção em
                      vídeo tem uma dimensão moderna, lúdica, moderna como um meio
                      contemporâneo, novo e que integra linguagem lúdica pela miniaturização
                      da câmera, que permite brincar com a realidade, levá-la junto para
                      qualquer lugar, filmar é uma das experiências mais envolventes, tanto
                      para as crianças como para os adultos.
                                                                         Moran (1993, p. 07).


   O autor explica que os alunos podem ser incentivados a produzir dentro de uma
determinada matéria, ou dentro de um trabalho interdisciplinar. E também produzir
programas informativos, feitos por eles mesmos e colocá-los em lugares visíveis
dentro da escola e em horários onde muitas crianças possam assisti-los. Moran
chama a essa modalidade de trabalho de Vídeo como expressão. É um trabalho que
envolve: a pesquisa em jornal, revista, entrevista com pessoas da escola ou da
comunidade, elaboração de roteiro, gravação, edição, sonorização, exibição em
classe ou circuito interno. Comentários positivos e negativos, a diferença entre a
intenção e o resultado. No caso do vídeo espelho a câmara registra pessoas ou
grupos e depois se observa o resultado com comentários de cada um sobre seu
desempenho e sobre o dos outros. O professor olha o seu desempenho, comenta e
ouve o comentário dos outros.


   Outras dinâmicas interessantes, apresentadas por Moran (1993), envolvem: a)
completar o vídeo – exibe-se um vídeo até um determinado ponto, os alunos
desenvolvem, em grupo, um final próprio e justificam o porquê da escolha; exibe-se
o final do vídeo; comparam-se os finais propostos e o professor manifesta a sua
opinião.b) modificar o vídeo – os alunos procuram vídeos e outros materiais
audiovisuais sobre um determinado assunto, modificam, adaptam, editam, narram,
sonorizam diferentemente, criam um novo material adaptado à sua realidade, à sua
217



sensibilidade. C) dramatizar situações importantes do vídeo assistido – e discuti-las
comparativamente. Usar a representação, o teatro, como meio de expressão do que
o vídeo mostrou, adaptando-o à realidade dos alunos.


   Um dos campos mais interessante de utilização do vídeo para compreender a
televisão na sala de aula, segundo Moran (2000) é o da análise da informação, para
ajudar professores e alunos a perceberem melhor as possibilidades e limites da TV
e do jornal como meio informativo. O professor pode propor inicialmente algumas
questões gerais sobre a informação para serem discutidas em pequenos grupos e
depois no plenário: como eu me informo; que telejornal prefiro e por quê; o que não
gosto deste telejornal e gostaria de mudar; que semelhança e diferenças percebo
nas vários telejornais; que análise faço dos principais jornais impressos. Pode
também fazer uma análise específica de um programa informativo da TV, por
exemplo, do Jornal Nacional e de dois jornais impressos do dia seguinte.


   Podem ser analisadas no telejornal as notícias que chamam mais a atenção e o
porquê; quais são as mais importantes e por que; o que considerou positivo e o que
discorda desta edição. No jornal impresso podem ser vistas as notícias mais
importantes (1ª página) e o enfoque dado; quais as notícias que coincidem com o
telejornal coincidência na interpretação; quais as notícias que o telejornal não
divulgou; qual é a opinião do jornal nesse dia (editoriais, matérias de 2ª e 3ª páginas
sem assinatura). Convém analisar a notícia mais importante com a calma, exibindo-a
de novo observando a estrutura, as técnicas utilizadas, as palavras-chave, a
interpretação. Sempre confrontando a informação da TV e do jornal impresso,
observando as omissões importantes, recomenda Moran (2000).


   A informação pode ser trabalhada também a partir de produção. Cada grupo
elabora um noticiário de cinco minutos, a partir dos jornais, na ordem que achar mais
conveniente. Gravam como se fosse ao vivo. Discutem-se no plenário as
coincidências e as diferenças de cada grau na seleção e tratamento do mesmo
material informativo inicial. Os alunos também podem fazer telejornais com notícias
das aulas e da vida deles. Depois o professor discute com os alunos como foi o
processo de seleção das notícias e de produção do telejornal.
218




                            CONSIDERAÇÕES FINAIS



   A Escola como instituição geralmente confirma e assegura a estrutura social,
tornando-se difícil de se processar nela uma mudança profunda, sem alterar o
contexto social num todo. Mas antes dessa mudança global, algo já pode se efetivar
neste sentido: o modo de agir dos professores, que podem ajudar aos alunos a
verem a realidade com lucidez e espírito crítico. O uso do vídeo na Escola pode vir a
ser uma ferramenta que possibilite o alargamento desta visão da e na comunidade
escolar da Escola Inclusiva em vias de constituição.


   Os professores podem e devem ajudar aos seus alunos a descobrirem as causas
da pobreza, do desemprego, do analfabetismo, da criminalidade, da violência, do
uso de drogas, da corrupção, da propaganda enganosa, etc. , auxiliando-os a se
defenderem do uso danoso dos meios de comunicação- de massa.


    Ao ocupar o tempo das crianças e jovens, antes de tudo, a mídia exerce sobre
eles um poder de consumo no imediato, da programação televisiva e de mediato,
no consumo dos produtos que anuncia. Cabe à Escola a construção de mediações
substanciais, no que se refere a uma leitura crítica dessas expressões, tanto na
esfera perceptual, como na        ideológica. Se por um lado, na família não é
consolidada uma crítica da mídia – pelo contrário, ela é alimentada pelos próprios
padrões de consumo que se volatizam desde a comida, a roupa, acessórios, carros,
219



livros, CDs, games – na escola há também a ausência da criticidade necessária à
formação de telespectadores conscientes.


     É urgente que a escola brasileira repense a forma de realizar seu trabalho
específico, que é um trabalho de conteúdo, de uma forma agradável e prazerosa,
onde o lúdico, o jogo, a dramatização e a produção de vídeo, entre outras fórmulas,
mais leves e sedutoras, tenham lugar assegurado na sua práxis. Neste sentido,
também, o texto televisivo não pode ficar fora da escola, porque, entre outros
motivos, tem amplo acesso irrestrito e prazeroso.


     À Escola deve propiciar oportunidades para que os seus pequenos cidadãos se
tornem livres dos preconceitos, dos temores, da crítica gratuita, da ignorância, do
egoísmo, da timidez, do mau hábito de aceitar a miséria e a opressão como algo
inevitável. Deve ajudá-los a aprenderem a se organizar e a descobrir a capacidade
que têm, caso se unam e se organizem, cultivando valores tais como: o respeito, a
cooperação, a solidariedade, a partilha, a       polidez, a amizade; a       justiça,     a
igualdade, a liberdade, a responsabilidade, enfim: a ética.


     Quando a escola brasileira conseguir traduzir o conceito de ética e de bem
público nas experiências do seu dia-a-dia, abrindo seus portões para todos os alunos
e tratando-os com respeito e inteligência, para que lá permaneçam até concluírem
seus estudos, estará apta a atender seus pequenos-cidadãos-alunos, na amplitude
de    suas   dimensões   humanas.     Deixará   de   ser      segregadora,   competitiva,
marginalizadora e excludente.


     Os alunos chegam a Escola marcados pelas desigualdades sócio-culturais
profundas. Os mais "fracos" geralmente não são bem recebidos. As diferenças
causam constrangimento. Dentro de um princípio democrático, o papel da Escola
seria o de assegurar a oportunidade para todos, as mesmas condições de
aprendizagem, respeitadas as diferenças. Ao invés de tratar destas desigualdades -
que poderiam se constituir em riqueza de experiências e diversidade cultural - a
escola legitima essas desigualdades e as reproduz, tratando de maneira idêntica a
220



todos, como se eles falassem das mesmas coisas, na mesma linguagem, como se
tivessem a mesma percepção de mundo.


   A Escola também precisa se modernizar para acompanhar os avanços
tecnológicos que auxiliarão na sedução do aluno. Precisa se atualizar para encantá-
Io, para prendê-Io entre suas paredes. O mundo precisa chegar até a sala de aula. O
processo educativo não deve se constituir apenas num consumo de técnicas e
competências especializadas, mas deve conduzir à formação de homens autônomos
e polivalentes, capazes de se inserirem em comunidades dinâmicas, conflituais,
mutantes, democráticas.


   Nos dias de hoje, se a escola insistir em manter-se alheada às mídias, poderá ser
considerada marginal à sua época. Segundo a sociologia da comunicação, as idéias
que emanam das mídias não atingem o público de maneira direta, passando primeiro
pelos líderes de opinião e só num segundo tempo agindo sobre os grupos aos quais
esses líderes estão ligados. Portanto, queira-se ou não, é por seu intermédio que as
mensagens são aceitas, interpretadas, rejeitadas, ou não. O professor não poderá
voltar ao papel destacado que ocupava até 50 anos atrás, quando junto com o
prefeito e o vigário eram as referências culturais das pequenas cidades?    Como?
Ao tomarem a si a responsabilidade, o lugar de líderes de opinião ao trabalhar
criticamente a mídia na escola!


   Os cursos de Pedagogia, pelo menos no Rio Grande do Sul, estão longe de
formar os futuros educadores      em ler,   decupar, analisar pedagogicamente as
mensagens mediáticas. E esta falta de discernimento crítico do discurso televisivo
tem permitido que a mídia repouse tranqüila no seu poder de manipulação e
persuasão, auxiliada pela qualidade técnica e belas imagens - com a exceção de
um ou outro espernear, vez ou outra, por parte de associações indignadas com o
nível de suas transmissões.


   O Sistema Educacional Brasileiro precisa se reformular para formar alunos - e
especialmente futuros professores - que consigam preparar o aluno para o exercício
da cidadania. Professores que consigam tornar o aluno um ser: desejante, livre,
221



criativo, crítico e atuante, além de detentor do conhecimento. Político, consciente,
humano, na acepção de Freire e livre na de Rogers, centrado, o mais parecido
possível com o que gostaria de ser.


  A educação não deve ser bancária, no dizer de Freire, muito menos imposta, o
aluno precisa ter liberdade para aprender, como sonhou Rogers. O aluno precisa
antes de tudo ser aceito na comunidade escolar e receber estímulos para a criação.
O debate, a análise, a crítica construtiva devem de ser matérias constantes, para
que o aluno chegue a auto-conscientizar e tenha consciência dos problemas que o
cercam e das soluções para os mesmos, para que se sinta aceito, inicialmente na
comunidade escolar e possa achar seu lugar no mundo e dele participar ativa e
construtivamente, hoje e futuramente.


   A construção da sociedade inclusiva passa, necessariamente, por uma série de
desafios e, certamente, pelos portões da escola. É preciso que se insira o tema da
inclusão de pessoas com deficiência na cidadania - de fato e de direito - visto que
até então tem sido considerado como um problema de ordem familiar. Precisa
ampliar-se para além da família, passando pela comunidade e atingindo um universo
maior, o da dívida para com estes cidadãos invisíveis. Dívida que se constitui na
diferença entre o que a sociedade lhes oferece e o que deveria oferecer, no âmbito
da Saúde, do Trabalho, da Educação, da Comunicação, da Cultura, do Esporte, da
Arquitetura, da Engenharia, etc.


   A escola brasileira precisa estar aberta a todas as diversidades enquanto bem
público, priorizando a formação de parcerias éticas entre as crianças e os
adolescentes, num contexto que reproduza a humanidade como ela é, e não como
os paladinos da sociedade exclusiva a tem mantido.


   A inclusão não é uma forma generosa de resolver o problema da segregação dos
estudantes com deficiência, que estão na escola especial, ela é a saída para a crise
do ensino brasileiro - medida pelos seus altos índices de reprovação e de evasão
escolar - porque traz no seu bojo, a idéia de uma escola de qualidade para todos os
alunos, que precisam ser, indistintamente, atendidos em suas singularidades, nas
222



suas diversas maneiras de construir o conhecimento e suas peculiaridades sócio-
culturais.


   As dificuldades e as limitações dos alunos, deficientes ou não, devem funcionar
na escola inclusiva, como estímulo para o enfrentamento dos desafios da vida em
comunidade, que transcende os conteúdos programáticos, que as salas aula mal
conseguem proporcionar aos alunos.


   A escola inclusiva tem que levar em conta que precisa vencer barreiras sócio-
culturais - que o aluno percebe muito bem e que, a escola, muitas vezes, ratifica,
fazendo-o emudecer diante da turma ou do professor, por intimidar-se – trabalhando
com uma prática social cultural que seja comum a ambos, escola e aluno.


    A Educomunicação, nascida da inter-relação Comunicação e Educação -
enfocada neste trabalho como uma ferramenta de Inclusão - não deve criar uma
nova disciplina na escola, mas inaugurar um discurso transverso, constituído por
transdisciplinariedade. Sua interdiscursividade - diálogo com outros discursos - é a
garantia da sua sobrevivência e da construção da sua especificidade, nesse
processo.


   O interdiscurso da Educomunicação - por natureza multivocal – tem              seu
elemento estruturante na polifonia, que gera no território comum um fluxo ininterrupto
de significados que podem ser constantemente re-significados e organizados em
rizomas conceituais, tendo a alteridade como dimensão constitutiva desse palco de
vozes que podem polemizar entre si, dialogar ou complementarem-se.


   A Educomunicação não tem objeto portanto, mas objetivos. Sobreviverá em um
discurso-ação que destrói paredes e as substitui por pontes que visam estabelecer
relações significativas entre as duas áreas que a formam. A configuração dos
rizomas educomunicativos diminuirá o risco do imperialismo da educação ou da
comunicação, que implica sempre no isolamento e na construção de paredes.
223




APÊNDICE A – UMA ESCOLA PARA TODOS APRENDEREM A APRENDER
                             &
            RECEITA PARA UMA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
224
225




APÊNDICE B – EDUCAÇÃO INCLUSIVA:DEMOCRACIA, UTOPIA OU CASTIGO ?
226
227




APÊNDICE C – CUIDADO COM A MÍDIA, ESTA PROFESSORA “ESPERTA”
228
229




APÊNDICE D - A TELINHA MÁGICA E A EDUCAÇÃO I
230
231




APÊNDICE E - A TELINHA MÁGICA E A EDUCAÇÃO II
232
233




APÊNDICE F – INTERNET, LIBERDADE DE EXPRESSÃO E ÉTICA
234
235




APÊNDICE G – SE EU NÃO FOR POR MIM, QUEM SERÁ ?
    SE EU FOR SÓ POR MIM, QUEM SEREI EU ?
236
237




APÊNDICE H - COMO, EM PLENO SÉCULO XXI, DEIXAR DE
   DAR VISIBILIDADE ÀS DIFERENÇAS NA ESCOLA?
238
239




APÊNDICE I – ERA UMA VEZ ...
240
241




APÊNDICE J – “ ESTE EFICIENTE FÍSICO É UM DEFICIENTE FÍSICO ”
242
243




APÊNDICE K – EM TEMPOS DE INCLUSÃO VAMOS FAZER UMA PAUSA
     PARA APRENDER COM OS ÍNDIOS E SEUS CURUMINS ?
244
245




APÊNDICE Y - O DESAFIO É: APRENDER A VIVER
       NUMA APRENDIZAGEM CIDADÃ
246
247




APÊNDICE L – NÃO UMA ESCOLA ESPECIAL, MAS UMA ESCOLA
     REGULAR DE ESPECIAL QUALIDADE PARA TODOS
248
249




APÊNDICE M – ATÉ OS 12 ANOS UMA CRIANÇA ASSISTE EM MÉDIA
       A OITO MIL ASSASSINATOS PELA TELINHA DA TV
250
251




                     APÊNDICE N –
A TV NOSSA DE CADA DIA; MAU CARATISMO E CHARLATANICE,
SERÁ QUE É ISTO QUE QUEREMOS PARA NOSSAS CRIANÇAS ?
252
253




APÊNDICE O: EDUCAÇÃO INCLUSIVA: COM OS PINGOS NOS “IS”
254
255




APÊNDICE P – E AFINAL, QUE PAÍS É O NOSSO ?
256
257




APÊNDICE Q – ESCOLA VIVA, UM ESPAÇO DE CRIAÇÃO E INCLUSÃO
258
259




APÊNDICE R – MAPs , CÍRCULOS DE AMIGOS E PATH AJUDANDO
 NA CONSTRUÇÃO DE COMUNIDADES AMOROSAS – 1ª PARTE
260
261




APÊNDICE S – MAPs , CÍRCULOS DE AMIGOS E PATH AJUDANDO
 NA CONSTRUÇÃO DE COMUNIDADES AMOROSAS – 2ª PARTE
262
263




APÊNDICE T - O SÉCULO XXI PRECISA DE ALUNOS MAIS COLABORATIVOS
264
265




APÊNDICE U – A AMIZADE COMO GERADORA DE COMPETÊNCIA SOCIAL
266
267




APÊNDICE V – JORNALISTA TRIUNFENSE DÁ PALESTRA SOBRE INCLUSÃO
               AOS PROFESSORES DE FARROUPILHA
268
269




APÊNDICE W– O PAPEL DOS PAIS NO AFASTAMENTO DO PESSIMISMO QUE
          CERCA SEU FILHO DEFICIENTE NA COMUNIDADE
270
271




APÊNDICE X – EDUCAÇÃO INCLUSIVA EM DEBATE EM FARROUPILHA, COM
          A PARTICIPAÇÃO DE PALESTRANTE TRIUNFENSE.
272
273




APÊNDICE Z - DEIXAI IR À ESCOLA OS PEQUENINOS, POIS DELES É O
                        REINO DO AMANHÃ
274
275




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_________ . Sociedade inclusiva: quem cabe no seu todos? Rio de Janeiro: WVA,
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Tcc posgraduação

  • 1.
    UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO– RIO DE JANEIRO INTELIGÊNCIA EDUCACIONAL E SISTEMA DE ENSINO / IESDE - PR PROGRAMA DE ESPECIALIZAÇÃO DOCENTE / CURITIBA - PR PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO INCLUSIVA A PRODUÇÃO DE VÍDEO NA ESCOLA: INSTRUMENTO DE INCLUSÃO E APRIMORAMENTO DO SENSO CRÍTICO. Gladis Xavier Maia Triunfo, RS, julho de 2005.
  • 2.
    GLADIS XAVIER MAIA Aluna do Curso de Pós-Graduação em Educação Inclusiva Turma 432200001 - Matrícula 004511 A PRODUÇÃO DE VÍDEO NA ESCOLA: INSTRUMENTO DE INCLUSÃO E APRIMORAMENTO DO SENSO CRÍTICO. Trabalho monográfico de conclusão do Curso de Pós-Graduação em Educação Inclusiva (TCC), apresentado à UCB como requisito parcial para a obtenção do título de especialista em Educação Inclusiva, sob a orientação da professora Maria das Graças de Campos. Triunfo, RS, julho de 2005.
  • 3.
    2 A PRODUÇÃO DE VÍDEO NA ESCOLA: INSTRUMENTO DE INCLUSÃO E APRIMORAMENTO DO SENSO CRÍTICO. Elaborado por Gladis Xavier Maia Aluna do curso de Pós – Graduação em Educação Inclusiva da UCB Foi analisado e aprovado com Grau: ........................ ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨ Membro ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨ Membro ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨ Professora Orientadora Presidente Triunfo, julho de 2005.
  • 4.
  • 5.
    4 Dedico este sonho aos meus pais, primeiros mestres com os quais pude contar e me ensinaram a ser uma pessoa ética, aos demais educadores que integram a minha longa carreira de estudante e me ensinam a sonhar, e a todos os meus, e aos outros alunos, razão de ser deste trabalho e ao meu companheiro Cli com quem pretendo tornar ação boa parte das idéias aqui expressas.
  • 6.
    5 Agradeço ao Criador que tem me dado tempo de vivenciar meus diversos tempos: de imaginar, criar, rascunhar, revisar, copidescar, passar a limpo e no prelo demorar, ou não, os textos todos de minha vida,chegando harmoniosamente aos hipertextos. Agradeço à vida por dar-me também tempo de estar vivendo entre videoclipes de todos os tamanhos, gêneros e filosofias, especialmente a da Inclusão.
  • 7.
    6 As escolas se dedicam a ensinar os saberes científicos, visto que sua ideologia científica lhes proíbe lidar com os sonhos coisa romântica!. Assombra-me a incapacidade das escolas para criar sonhos.Enquanto isso, os meios de comunicação (principalmente a TV), que conhecem melhor os caminhos dos seres humanos, vão seduzindo as pessoas com seus sonhos pequenos, freqüentemente grotescos. Assombra-me a capacidade desses meios para criar sonhos. Mas de sonhos pequenos e grotescos só podem surgir um povo de idéias pequenas e grotescas. Se o Ministério da Educação for só um gerenciador dos meios escolares, será difícil ter esperança. Pensei, então, que o ministério talvez tivesse o poder e imaginação para integrar os meios de comunicação a um projeto nacional de educação: semear os sonhos de beleza que se encontram no nascedouro de um povo. Assim, realizaria a sua vocação política de criar um povo. Rubens Alves, in Carta ao Min.da Educ.Paulo Renato Paim.
  • 8.
    7 SUMÁRIO RESUMO...................................................................................................... 07 ABSTRACT.................................................................................................. 08 INTRODUÇÃO............................................................................................. 09 1. A ESCOLA PELOS SÉCULOS SECULORUM........................................ 16 1.1 Da informalidade oral, nos seus primórdios, à chamada educação regular. ................................................................................................. 22 1.2 Da educação especial, ao espargir da educação inclusiva. ................. 32 1.3 Uma escola regular de especial qualidade para todos ou a escola cidadã que sonhamos construir. ......................................................... 80 2. OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA, ENQUANTO DESAFIO CONTEMPORÂNEO À ESCOLA. ...................................................... 133 2.1 Um novo jeito de compreender, para além das disciplinas, através de uma percepção holística. ................................................................... 147 2.2 Aprender e ensinar, com prazer, educando para os meios de comunicação. ....................................................................................... 166 3. POR UMA PEDAGOGIA DA COMUNICAÇÃO, A SERVIÇO DA FRATERNIDADE, NUMA SOCIEDADE INCLUSIVA. ...................... 181 3.1 Educomunicação, um paradigma em construção. .......................... 191 3.2 O vídeo como instrumento de inclusão, na formação de cidadãos éticos, críticos e participativos............................................................... 201 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................. ..... 218 APÊNDICES ............................................................................................. 223 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................... 275
  • 9.
    8 RESUMO Este trabalho tenta sensibilizar aos professores e professoras para a produção de vídeo na escola, como ferramenta para o sucesso da Inclusão no Ensino Fundamental e Médio, enquanto instrumento de motivação, objeto de estudo e amplo poder de intervenção social, que precisa ser aproveitado e conhecido, para o domínio de seus mecanismos, como linguagem e como tecnologia, para favorecer o espírito crítico dos alunos, especialmente em relação às televisões comerciais. Seus três capítulos, buscam estabelecer a inter-relação da Educação/ Comunicação, sob o paradigma de um novo campo de estudos, a Educomunicação, apresentando: uma breve história da Escola, através dos tempos; a influência dos Meios de Comunicação de Massa na Cultura, nos costumes e sobre a forma de aprender e apreender o mundo; e, ainda, uma pedagogia da comunicação a serviço da cidadania. Palavras-chave Comunicação – Educação Inclusiva – Cidadania - Pedagogia - Vídeo
  • 10.
    9 ABSTRACT The object of this work is to make teachers sensible to video production at school. Video can be used as a tool for a successful inclusion in Elementary and Secondary Education, as a motivation instrument, and an object of studies, with a wide social intervention power. Likewise, it may be known and utilized as a language and technology, and to facilitate the students’ criticism, specially concerning commercial television. The three chapters try to establish the Education/Communication interrelation under the paradigm of a new field of studies, the Educommunication, which presents: a brief School history through the years; the influence of the Mass Communication Means on Culture, habits and ways of learning and understanding the world; and a communication a pedagogy for citizenship as well. Key words Communication – Inclusive Education – Citizenship – Pedagogy – Video
  • 11.
    10 INTRODUÇÃO Esta monografia é composta por uma revisão bibliográfica sobre: os Meios de Comunicação de Massa – focalizando mais especificamente a TV comercial – e sua influência sobre a Cultura como um todo, e o sujeito - em especial o sujeito aprendente - numa inter-relação das áreas da Educação/Comunicação, através de um novo campo de intervenção social, a Educomunicação; e o paradigma da Inclusão. Esta sistematização pretende sensibilizar aos professores e professoras para a produção de vídeo na escola, como ferramenta de motivação para o sucesso da Inclusão no Ensino Fundamental e Médio. Busca também construir um novo olhar para o vídeo no seio da comunidade escolar, apontando-o como objeto de estudo e amplo poder de intervenção social, que precisa ser aproveitado e conhecido, para o domínio de seus mecanismos, enquanto linguagem e como tecnologia, para favorecer o espírito crítico dos alunos, especialmente em relação às televisões comerciais. As mudanças pelas quais a sociedade contemporânea vem passando com os avanços da tecnologia – especialmente em pleno contexto da implantação da Inclusão na escola brasileira - preocupa a quantos se interessam pela eficiência do ensino, na medida que ocasionam modificações vultosas nos campos da Educação e da Comunicação. A primeira tornando-se obsoleta em seus métodos e enfoque e
  • 12.
    11 despreparada na qualificaçãode seus agentes e a segunda mostrando-se, por vezes, perniciosa, principalmente por estar sujeita a regras do mercado que não se coadunam com os valores da educação e da ética sustentados pelos educadores. Parece natural, que essas mudanças aproximem as duas áreas de atuação - Educação e Comunicação - pelas necessidades convergentes que suscitam e, isto já está acontecendo, através do trabalho de vários estudiosos de ambas as áreas, em nível autodidata, com ou sem apoio público, na efetivação de suas pesquisas e projetos envolvendo os meios de comunicação de massa, especialmente junto ao NCE/ECA/USP Núcleo de Comunicação e Educação, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, coordenado pelo professor Dr. Ismar de Oliveira Soares, que vem trabalhando, através de pesquisas, que visam reunir tudo que vem sendo desenvolvido nesta área, em toda a América Latina e constituindo um novo campo de estudo, ou paradigma nascente : a Educomunicação, a serviço do ensino. Ao longo dos tempos, os recursos tecnológicos como o rádio e a televisão tiveram muita dificuldade de serem absorvidos pelo campo da educação, especialmente por seu caráter lúdico e mercantil, ocasionando a resistência dos educadores em dialogar com a tecnologia, da mesma forma que a necessidade de reverter-se este quadro para situar a escola mais para a vanguarda do que para a obsolescência, é coisa para poucos inovadores, para não se falar revolucionários. Os educadores que não atentam para esta obsolescência, parece não se darem conta do fato de ser muito difícil resistir aos apelos da linguagem dos meios de comunicação, com suas estratégias usadas para criar o apelo ao consumo, embrulhadas em pura sedução e convencimento - especialmente na TV, que conta com o reforço considerável da força da imagem em movimento. Estes alheiam-se ao seu papel, enquanto formadores de opinião, pois exatamente por seu caráter e pelas suas demais características, esta linguagem, precisa e deve ser manipulada até a exaustão, enquanto objeto de estudo nas escolas.
  • 13.
    12 São educadores que parece que não levam em conta também que o vídeo pode enriquecer a aprendizagem e a comunicação, facilitando a exposição de um tema. Ao contrário das aulas expositivas ele é um método que aproxima, ao possibilitar a releitura do cotidiano, com suas linguagens múltiplas, superpostas e interligadas, auxiliando na informação, tornando a sua mensagem essencialmente sensorial e visual, residindo aí a sua maior força. Atuando através da música, do desenho, da fotografia, da palavra falada e escrita, do gestual, do teatro, da dança, etc., contemplando as Inteligências Múltiplas de Gardner ou a Inteligência Multifocal de Augusto Cury,entre outras teorias. Mais ainda porque na cabeça do aluno vídeo não é aula, umbilicalmente ligado à TV ele relaciona-o ao prazer e lazer, colaborando para que o estudante aprenda brincando por assim dizer, motivo pelo qual precisa ser aproveitada essa expectativa positiva para atraí-lo para os assuntos que interessam ao planejamento pedagógico. Na opinião desta autora, a aprendizagem da “leitura” das peças publicitárias veiculadas na TV é tão importante na formação de um telespectador crítico, quanto o estudo e análise dos noticiários e das telenovelas, onde depois de estabelecidas as diferenças entre ficção e realidade, podem ser discutidos os modelos de comportamentos ali apresentados. Até porque uma parcela considerável da população os copia e copiados podem virar hábitos que forjam espaços alienígenos à cultura local, com sua peculiar criação de modas. Se for levado em conta também que a produção de vídeo pode motivar todos os alunos para o convívio escolar, com bastante intensidade – e o vídeo é muito bom nisto - para brincarem de fazer televisão, enquanto aprendem, e, em especial segurar aqueles alunos que, por apresentarem necessidades educativas, com ou sem deficiência, se evadem da escola, por não se sentirem bem lá, devido aos inúmeros insucessos, ou por medo de falhar. E, se a inclusão implica em caminhar rumo à escola para todos, onde seja celebrada a diferença e atendidas as NEE, através de uma pedagogia centrada no aluno, dando oportunidades curriculares que se adaptem a sujeitos com
  • 14.
    13 diferentes interesses e capacidades, é inegável ainda que o vídeo tem mais facilidade para abranger um leque maior de interesses. Abra-se então às portas da escola para a sua majestade o vídeo. Pois a escola inclusiva tem a responsabilidade de assegurar que o aluno deficiente seja um membro integrante e valorizado na sala de aula ou no grupo e a produção de vídeo pode inseri-lo de diversas formas, até mesmo como assunto, tema, matéria de estudo - no caso o próprio deficiente pode ser entrevistado - ou seus familiares, na sua impossibilidade - outras pessoas acometidas da mesma ou de outras deficiências que são exemplos de superação ao conseguirem se inserir satisfatoriamente na sociedade, suas famílias, a deficiência em si, os especialistas que tratam dela e outros quaisquer elementos a ela ligados. A Escola em si é tema de trabalho, a rua, a comunidade, o mundo, a vida, aqui e em qualquer lugar. O objetivo primordial desta monografia é aliar os estudos da autora, enquanto professora de português, psicopedagoga e jornalista, com passagem pela TVE do Rio Grande do Sul, nas funções de repórter, produtora e editora, para implementar procedimentos voltados à apropriação dos meios e das linguagens de comunicação, abrangendo os professores da Rede de Ensino de Triunfo que estão cursando as duas turmas de pós-graduação de Educação Inclusiva do IESDE, com a finalidade de capacitá-los como educomunicadores – profissionais aptos a elaborarem as ações comunicativas de inter-relação da Educação/Comunicação no espaço educativo, seja através da coordenação e gestão do processo ou assessorando os outros Educadores no adequado uso dos recursos de comunicação ou, ainda, promovendo ele(a) mesmo(a) o uso, cada vez mais intenso, da tecnologia de produção de vídeo como um recurso tecnológico que facilita a produção cultural, o resgate da cidadania e a inclusão da diversidade, na medida que remete o sujeito singular para o espaço coletivo e plural da cultura e da comunicação. Entenda-se a produção de vídeo no espaço educativo e na comunidade circunscrita à Escola como recurso tecnológico: a serviço da formação de valores solidários e democráticos para a transformação do ambiente em que vivem os
  • 15.
    14 alunos; instrumento apropriadoao desenvolvimento do currículo, seja através de conteúdos programáticos, das mais variadas disciplinas ou através de projetos que visem promover campanhas sociais e humanitárias, em prol da ética e da mudança de comportamento em relação aos preconceitos de qualquer natureza; ferramenta que contempla com maior facilidade os diferentes gostos, habilidades e capacidades dos sujeitos , no processo de ensino-aprendizagem, já que possibilita um trabalho bastante diversificado, envolvendo pré-produção, produção e pós- produção, e várias linguagens e conseqüentes formas de apreender as mensagens produzidas a serem comunicadas e re-trabalhadas, posteriormente. Como já foi referido, esta monografia constitui-se, fundamentalmente, numa revisão bibliográfica, acrescida das idéias da autora nos seus dois campos de atuação. Os três capítulos, que a compõem, buscam estabelecer a inter-relação da Educação/ Comunicação, à luz da Educomunicação. Esta modalidade de pesquisa é muito comum na área de ciências humanas e sociais tanta a Educação, como a comunicação, são áreas sociais] dada à natureza do estatuto epistemológico que compõe esta área. Seu objetivo é buscar compreender as principais contribuições teóricas existentes sobre um determinado tema- problema, considerando-se a produção existente. Horn e Diez (203, p. 73). Para sua execução foram consultados diversos autores, conforme pode-se ver nas referências bibliográficas, entre os quais destacam-se, na área da Inclusão: Maria Teresa Egler Mantoan, Rosita Edler Carvalho, Susan e Willian Stainback, Piter Mittler, Leny Magalhães Mrech, Romeu Kazumi Sassaki e Cláudia Werneck.Na área de Comunicação o embasamento maior concentrou-se em: Pierre Babin e Marie- France Kouloumdjian, Walter Bezerra, Edgar Morin, José Manuel Moran , Heloisa Dupas Penteado e Ismar de Oliveira Soares. O primeiro capítulo, traça uma breve história da Escola, desde os seus primórdios, até os dias de hoje, dá conta de onde andavam os deficientes durante
  • 16.
    15 este percurso, falada Escola Especial, da Inclusão e da escola acalantada nos sonhos e cantada em prosa por esta autora. O segundo fala de um sujeito antes e de um sujeito depois do advento da televisão, da influência dos Meios de Comunicação de Massa na formação deste último e suas marcas deixada na Cultura, e ainda de uma nova maneira de compreender, de aprender e apreender a vida. E o último explicita uma forma de trabalhar-se com o vídeo na escola, para que a comunidade e os cidadãos que a freqüentam tornem-se mais solidários, justos, participativos e éticos, a caminho de uma sociedade inclusiva.
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    16 O educadorprogressista não pode prescindir da pedagogia da autonomia.Uma pedagogia fundada na ética, no respeito à dignidade e à própria autonomia do educando. Como os demais saberes,este demanda do educador um exercício permanente. E a convivência amorosa com seus alunos. E na postura curiosa e aberta que assume rosa e,ao mesmo tempo, provoca os a se assumirem, enquanto sujeitos provoca-os sócio-histórico culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do histórico-culturais respeito à dignidade e autonomia do educando. [...] A compe competência técnico-científica e o rigor, de que o professor não deve abrir mão, no científica desenvolvimento do seu trabalho, não são incompatíveis com a amorosidade necessária às relações educativas. Paulo Freire (2003, p.10).
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    17 1. A escolapelos séculos seculorum ... Uma onda crescente de violência e guerras que assola o mundo, taxas elevadas de juros, desemprego, poluição, falta de assistência à saúde e tantos desastres ecológicos, ao final do século XX - e que se estendem nos primórdios do século XXI - são, na opinião de Fritjof Capra - autor de O Ponto de Mutação e o Tal da Física, - prenúncios de uma crise de percepção, que reúne tudo isto e muito mais de negativo no e para o universo. A descrição e a inserção do homem num mundo globalmente interligado, no qual os fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais são todos interdependentes necessita, para se efetivar, de uma perspectiva ecológica que a visão mecanicista-newtoniana não oferece. Faz-se mister um paradigma que traga no bojo uma nova visão da realidade. Uma mudança fundamental, na maneira de pensar e na escolha de valores. Trata-se da visão holística, do grego holos: totalidade. Refere-se a compreensão da realidade em função de totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas a unidades menores. Segundo Capra (1982), a nova visão do mundo sugerida pela física quântica não é compatível com a sociedade atual; não reflete o harmonioso estado de relacionamento que se observa na natureza. Para se alcançar tal estado de equilíbrio dinâmico, seria necessário uma estrutura social e econômica radicalmente diferente. Uma revolução cultural, na verdadeira acepção da palavra. A sobrevivência de toda a civilização pode depender da realização de tal
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    18 mudança. A vidaestá mudando - não mais paulatinamente, mas aceleradamente, com o advento das novas tecnologias - e continuará a mudar num ritmo cada vez mais estonteante. E, nesta transição, a quem cabe as maiores responsabilidades para auxiliar a esclarecer, a compreender, a preparar para os novos tempos os novos homens, se não a quem, a quantos, e a todos, que têm por incumbência educar e em especial aos professores? Quando a vida social mudava paulatinamente a ação educativa da família e da Escola não oferecia maiores dificuldades. Aos filhos cabiam viver como os seus pais e a estes como os seus avós. A educação podia se constituir na transmissão de idéias, atitudes e sentimentos. Os valores já estabelecidos, quase que uniformemente, iam também sendo transmitidos de geração a geração. A docilidade, a conformidade, a passividade, por assim dizer, era a meta. Mudaram os tempos, mudaram os valores. Conhecimentos, técnicas, padrões de vida social e moral, tudo em fase de revisão. Torna-se necessário emergir das famílias - e em especial dos bancos escolares - educandos com espírito crítico e capacidade criadora para enfrentar a instabilidade que estas mudanças geram. Um aluno confiante em si mesmo, em suas capacidades e possibilidades como indivíduo e como membro de uma comunidade fraterna, que abrigue e de vez e voz a todos os seus membros. Tudo aponta, nos dias de hoje, para uma época de revisão dos fins e dos meios da Educação, que precisa deixar de ter o controle autoritário nas mãos. O autoritarismo, enquanto detentor da verdade e do conhecimento, precisa dar lugar a outros métodos e modelos que conduzam à criação de uma autoridade interna em cada indivíduo, bem como à consciência de grupo, para que a expansão da democracia e da cidadania, como sistema de vida, possa ser considerada um objetivo e condição necessária ao desenvolvimento individual. E hora de revisar, para poder suprir, a ação educativa da família, que vem declinando do seu papel, consideravelmente. Com o afrouxamento da relação mãe- filho, conseqüência do afastamento da mulher, pelo trabalho fora do lar, mais tarefas
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    19 couberam à escola,que precisa, acima de tudo, formar alguém capaz de pensar e agir por si mesmo, livremente, sem preconceitos e, através de decisões altruísticas, preferindo o bem social à qualquer vantagem ou bem individual. Paulo Freire, ao longo de sua vida e obra, e, em especial em A Pedagogia do Oprimido, sempre enfatizou que se valoriza muito a consciência ingênua nas escolas, em detrimento da consciência crítica. Segundo o educador, a transição de um para o outro tipo de consciência, passa obrigatoriamente por um processo educativo de conscientização, não havendo nada que mais impeça essa conscientização do que uma educação que não jogue o educando às experiências do debate e da análise dos problemas, lhe proporcionando condições de verdadeira participação. Enquanto na consciência ingênua há uma busca de compromisso, na consciência crítica há um compromisso: o homem consciente tende a se comprometer com a própria realidade. Na consciência fanática há uma entrega irracional. O fanatismo é próprio do homem massificado. O indivíduo que age pela consciência ingênua revela simplismo na interpretação dos problemas, não há aprofundamento. Há uma tendência em aceitar as formas massificadoras de comportamento, que podem levar ao fanatismo. Quem possui consciência crítica indaga, investiga, força, choca, aceita e delega responsabilidades. Sabe que é, na medida que é, e não pelo que parece. Procura livrar-se dos preconceitos e está aberto a revisões. Observando-se superficialmente a escola ficamos com a impressão de que somente os mais aptos, os mais inteligentes e estudiosos têm acesso aos níveis superiores do ensino. Parece natural que o a aluno fracassado se culpe e convença- se de sua própria ignorância... Falhando na sua tarefa pedagógica a escola passa a apontar cada vez mais uma série de patologias nos estudantes. Mas o que é pedagógico e o que é patológico ? Quem pode fazer este diagnóstico ? E a dimensão social onde se localiza ? Não dá para esquecer que os alunos chegam à escola marcados por profundas
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    20 desigualdades sócio-culturais, e,que ao tratá-Ios de forma idêntica está se legitimando e reproduzindo estas desigualdades. A Psicologia afirma que se alguém não quer aprender, não o deseja, por qualquer motivo, não há aprendizado. O problema pode residir fundamentalmente no professor ou no seu método, mas também naquilo que é ensinado, bem como numa combinação entre diferentes proporções de tais elementos. No início do século passado, Freud já colocava que um professor tem o poder de influência sobre o aluno através de suas relações afetivas e não através de conteúdos ministrados que o agradem ou possam interessá-Io. A motivação subjacente de uma pessoa tem marcados efeitos, tanto sobre ela, como sobre seus circundantes, nos dita a Sociologia. Existem fatores que são motivos de grandes conseqüências sociais, tais como: a luta pela liberdade e pela sobrevivência; a busca pela segurança; o desejo de vencer na vida e alcançar os seus ideais; a aspiração por uma vida melhor... Certas necessidades humanas universais, como: a necessidade de afeição, a de pertencer a um grupo social, a de ser respeitado pelos outros, são fatores de interdependência também. Um grupo social - e a escola é parte integrante disto - deve prover não só as necessidades individuais, que requerem satisfação, como também uma atividade de grupo integrada e produtiva, na busca de homens e dias melhores, numa sociedade inclusiva. Em casa, na Escola, na vida, precisamos perder o medo de dar e receber sentimentos positivos. Freqüentemente, mesmo em relação aos filhos, ama-se para controlar, ao invés de amar porque se gosta deles. Rogers (1983) apresenta uma metáfora muito compreensível a este respeito, dizendo que um dos sentimentos mais gratificantes que conhece e que oferece possibilidades de crescimento está no fato de apreciar- se alguém como se aprecia a natureza. Para ele, assim como para Freire, as pessoas são infinitamente bonitas, como um pôr-do-sol, que ao ser admirado não sofre nenhuma restrição. Ninguém fica a dizer-lhe:
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    21 Diminua um pouco o tom de laranja no canto direito, ponha um pouco mais de vermelho púrpura na base e use um pouco mais de rosa naquela nuvem. Não faço isso. Não tento controlar um pôr-do-sol. Olho com admiração a sua evolução. Gosto mais de mim quando consigo contemplar assim um membro da minha família, equipe, ou meu filho, minha filha: meus netos. Acredito que esta atitude tenha algo de oriental. Para mim é mais gratificante. Rogers (1983, 14). Qualquer pessoa é uma ilha e só pode construir uma ponte para comunicar-se com as outras ilhas se, primeiramente, dispor-se a ser ela mesma, e se lhe é permitido ser ela mesma, como referenda Rogers (1961) “Descobri que é quando posso aceitar outra pessoa, o que significa especificamente aceitar os sentimentos, as atitudes e as crenças que a constituem como elementos integrantes reais e vitais, que eu posso ajudá-la a tornar-se pessoa: e julgo que há nisto um grande valor.” (p.235). Que bom que os professores da escola inclusiva conseguissem esse olhar de Rogers, para verem e trabalharem com seus alunos, numa escola de especial qualidade para todos.
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    22 Escola é o local onde as gerações se encontram, se entendem se reconhecem como parte de um todo humano e social indivisível, desenvolvendo juntos a técnica, a intuição a flexibilidade e a arte de formar, entre si, parcerias indispensáveis pa o futuro da nação. Nesse para modelo de escola as dificuldades e as limitações (reais, temporárias ou não) de cada estudante, funcionam como estímulo para o enfrentamento dos desafios da vida comunitária, que com certeza transcendem os limites do ensinamento que as salas de aula, hoje, proporcionam aos alunos . sinamento Werneck (1999, p. 153).
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    23 1. 1 Dainformalidade oral, nos seus primórdios, à chamada educação regular. Desde os primórdios da civilização, dentre as práticas humanas que mais se destacam, está a educação, provavelmente, pela profundidade de sua influência na existência dos homens. Por isso mesmo, a educação precisa, além de ser praticada, ser pensada em seus sentido e significado, tanto para as pessoas, como para a sociedade. E, no atual momento, no que diz respeito, em particular, a educação brasileira, a hora é de se repensar o processo e re-significá-la, em plena crise, quando não satisfaz nem a uma, nem a outra dimensão. Na troca de paradigmas, iminente, a Escola Inclusiva pede passagem à Escola Tradicional, que reinou até quase o final do século XX. Carvalho (2004), referindo-se às correntes históricas na área da Educação relata que a Pedagogia da Exclusão tem origens remotas, condizentes com a concepção de homem e de mundo que esteve em vigor, ao longo dos tempos. Na Antigüidade Primitiva a Educação era essencialmente para a satisfação das necessidades. Espontânea, calcada na imitação e na verbalização. Era igual para todos, todos eram alunos e todos eram educadores. Na Antiguidade Clássica, destacava-se o pensamento pedagógico grego, que deixou raízes singulares, na medida que, até hoje, é destacado seu avanço para a época. A par do avanço, a cultura grega excluía as mulheres e os pobres. A
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    24 Educação Integral –formação do corpo e do espírito do homem – era destinada apenas aos homens livres, os guerreiros e escravos não tinham direito ao processo educacional “acadêmico”. Da mesma forma a Cultura Romana, no mesmo período, também excluía os escravos da Educação Integral. Na Idade Média, a bagagem greco-romana mesclou-se com as idéias cristã e a Educação letrada destinava-se ao clero e à nobreza. Os trabalhadores aprendiam pela tradição oral, apenas a cultura da sobrevivência. Foi nessa época, no século XIII, que surgiu a primeira universidade. Novamente a cultura do corpo não era importante. Em paralelo - nessa mesma época - segundo Casarin (1997), os valores da Grécia Antiga, consideravam qualquer deformidade humana como ira divina, ameaça ao rei ou à comunidade. Diante disso, as crianças portadoras de deficiência eram expostas, o que significava que eram abandonadas à própria sorte para morrerem. A exposição era um ritual de purificação, que tinha como fim a expulsão dos seres maléficos. Caso os deficientes sobrevivessem, ao período de exposição, transformavam-se em seres benéficos, redentores para a sociedade que os banira. Édipo e Perseu, são exemplos de exposição na Grécia. Com o advento do Cristianismo, os portadores de deficiência passam a ser filhos de Deus e assistidos em suas necessidades básicas, mas não havia qualquer preocupação com seu desenvolvimento e com a sua educação. No Renascimento, houve uma revalorização das idéias pedagógicas greco- romanas, tornando a Educação mais prática e retomando a cultura do corpo. A Educação continuava como privilégio do clero, dos nobres e agora da burguesia emergente. A idade Moderna foi palco da ascensão de uma nova e poderosa classe que se rebelava contra os modelos vigentes. O homem mais interessado pela natureza passa a estudar: Astronomia, Matemática, Artes, Medicina, Biologia, dentre outras áreas. A Revolução Francesa marcou o período do Iluminismo, caracterizado pelo
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    25 apego dos pensadoresà racionalidade e às lutas em favor das liberdades individuais, contra o absolutismo do clero e da nobreza. A teoria educacional decorrente desses ideais pode ser considerada revolucionária para a época, porque afirmava os direitos do indivíduo e se apoiava no humanismo igualitário, recomendando que o processo civilizatório deveria ser universal; “[...] lamentavelmente, a desejada universalidade, mais uma vez não se referia a todos indistintivamente, pois os lemas eram: às classes dirigentes, educação para governar; à classe trabalhadora, educação para o trabalho.” Carvalho ( 2004, p. 23). Quanto aos portadores de deficiência, na Idade Média, prevalecia a seu respeito uma ambivalência bem considerável. Podiam tanto ser tidos como pessoas escolhidas para missões divinas especiais, como também seres dominados por forças malignas, idéia dos supersticiosos. Portanto seu destino podia resultar em proteção ou sacrifício. Entretanto, a ambigüidade presente na Grécia Antiga e na Idade Média, ainda pode ser observada nos dias de hoje. Pessoas envolvidas com portadores de deficiência mostram atitudes de aproximação e de afastamento, aceitação e rejeição. Nota-se no ambiente familiar uma tentativa de proporcionar autonomia, mas com proteção e cuidado excessivos, o que não favorece a experimentação e o desenvolvimento. Também entre os profissionais há uma ênfase na autonomia e integração, mas o que se nota é uma proliferação de serviços super- especializados que podem impedir que as pessoas portadoras de deficiência tenham uma vivência de ambientes ‘normais’ que facilitariam um processo natural de integração. Casarin ( in MANTOAN 1997, p. 216). A partir do século XIX surgem os Projetos Positivistas e os Socialistas, baseados nos ideais Iluministas. Com o Positivismo foi atribuído à Educação e à Ciência a capacidade de renovar os costumes e reorganizar a sociedade: “Ordem e Progresso”! Segundo os ideais do Positivismo há a necessidade de que haja homens
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    26 de sensibilidade (pararefletirem) e homens de ação. Teoria segregacionista e elitista, que prevalece ainda fortemente até nossos dias, “explicando, (sem absolutamente justificar) a elitização da educação e a conseqüente exclusão a que nossos aprendizes estão sujeitos, ou porque não chegam às escolas ou porque delas saem, prematuramente, e indevidamente qualificados para o exercício da cidadania.” Carvalho (2004, p. 24). Mas, do Positivismo cabe ressaltar o benefício da introdução da “crítica” no pensamento pedagógico, bem como a influência que exerceu no movimento escolanovista, nos anos 30, cuja essência constituiu-se no aprender fazendo numa escola ativa, que perdura nas correntes teóricas mais recentes. Já o movimento pedagógico socialista originou-se – na segunda metade do século XX – como oposição à concepção burguesa, com um viés eminentemente político. Nascido nas camadas populares, objetivando a democratização do ensino, desmistificou-se o otimismo da Escola Nova. Paulo Freire e Ira Shor citados por Carvalho (2004) observaram que a escola tanto poderia servir para a construção da cidadania como prática libertadora, como para as práticas de dominação, o que parece mais freqüente. A autora, na obra citada, observa ainda que apesar das críticas ao modelo escolanovista, ele trouxe contribuições importantes, especialmente na questão das metodologias de ensino, tais como as inovações que levaram o rádio, a TV, o vídeo e o computador para a sala de aula e sua conseqüente rede de informações jamais imaginadas antes. No estágio Pós-moderno a escola reproduz o status quo vigente, na medida em que alimenta os movimentos geradores da desigualdade social. Entendendo como Carvalho, que acredita que a educação é tanto um ato pedagógico como político, e que o traço mais marcante, nas correntes teóricas atuais, no âmbito da educação, é a valorização da pessoa do educando, enquanto aprendiz e ser histórico, político e social - isto é, como cidadão – tem-se muita esperança na mudança ocasionada pela troca de paradigma no terreno da educação, que ora se processa.
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    27 Com a responsabilidade de fazer a mediação entre o indivíduo e a sociedade, a escola apresenta-se, nos dias atuais, como uma das mais importantes instituições, por ter na sua práxis a responsabilidade de fazer a mediação entre o indivíduo e a sociedade. Ao transmitir - através da cultura - modelos sociais de comportamento e valores éticos, ela permite que a criança socialize-se, eduque-se, humanize-se, perceba o seu bem estar - e o do próximo também - como responsabilidade sua. Convém lembrar que essa instituição chamada escola nem sempre existiu e também não foi fruto de uma descoberta, mas uma invenção social do homem! Portanto, deve servir a ele, interessar-se por ele e ajudar na sua construção. Há tempos atrás, como já foi referido, o saber era transmitido de outra forma, cabia aos mais velhos ensinarem aos mais moços o que sabiam fazer, o meio social era o contexto educativo. Foi só na Idade Média que a educação tornou-se produto da escola, como é hoje. Com esta finalidade, pessoas especializaram-se na tarefa de transmitir o saber, em espaços específicos, reservados para essa atividade destinada às elites. O ensino serviu aos nobres e depois à burguesia e, com raras exceções, continua, até os dias de hoje, servindo às classes estabelecidas no alto da pirâmide social. Nos seus primórdios, o desempenho principal da escola era o ensino das atividades executadas pelos grupos dominantes da sociedade. Isso fez dela um lugar de aprendizado: da guerra, das atividades cavalheirescas, do saber intelectual, humanístico ou religioso. As revoluções do século XIX trouxeram transformações à escola, sendo a principal delas a tendência à universalização. O estudo deixa de ser privilégio da aristocracia e da igreja. A escola muda para atender a demanda que a Revolução Industrial trouxe no seu bojo, ao sofisticar o trabalho com a implantação de máquinas, exigindo do trabalhador o aprendizado da tecnologia. A escola ganha então importância com suas novas funções no preparo da mão-de-obra.
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    28 A luta pela democratização da escola, empreendida pelas classes trabalhadoras - até então alijadas desta instituição - foi um outro fator gerador de mudanças. A classe trabalhadora organizada, passa a exigir o direito de ter seus filhos na escola, o direito à cultura e ao conhecimento dominantes, não deixando à escola outra alternativa a não ser a de abrir suas portas às classes sociais menos privilegiadas. Estes fatores contribuíram para que ela adquirisse as características que possui atualmente. Tornou-se uma instituição da sociedade, que trabalha a serviço desta mesma sociedade e por ela é sustentada, com a finalidade de preparar as crianças para viver no mundo adulto. Na escola a criança aprende a trabalhar, a assimilar as regras sociais, os conhecimentos básicos, os valores morais coletivos, enfim, os modelos de comportamento considerados adequados pela sociedade em cada época. A escola é a forma moderna de operar esta transmissão. Na verdade a escola como instituição social estabelece um vínculo ambíguo com a sociedade. É parte dela e por isso trabalha para ela formando os indivíduos necessários à sua manutenção. No entanto, é também tarefa desta mesma escola zelar pelo desenvolvimento da sociedade, para transformar o mundo e torná-lo um novo mundo, mais humano, mais igualitário, mais harmônico, mais ético, visando o bem comum. Diante deste desafio, ela não pode mais ficar presa ao passado, à tradição. E isto abre um espaço para o surgimento de uma escola crítica e inovadora: transformadora, que, para tanto, precisa conhecer a sociedade, os seus modelos e valores, a ciência com as suas novas tecnologias, seus inventos que devem servir, acima de tudo, ao homem e não apenas ao capital. Ao partir das diversidades culturais presentes na sociedade, a escola – a pública, mais especialmente – precisa estar pronta para dar conta de qualquer criança ou jovem, independente de sua condição de classe social e cultural, etnia, raça, religião.
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    29 Não há mais como se tolerar a interpretação errônea, dada muitas vezes, nas salas de aula – porque leva facilmente à discriminação – quando o professor trata como deficiência do aluno as suas diferenças culturais. Esta falta de tato e preparo, por parte do professor não é mais cabível em pleno século XXI, pois implica na despotencialização da criança. E, quanto aos realmente deficientes, a escola também precisa estar aberta para recebê-los, para suprir suas Necessidades Educativas Especiais, NEE, pois eles também merecem fazer parte da comunidade em que se inserem e não estarem mais segregados em Escolas Especiais. O sonho é uma Escola Regular de Especial Qualidade para Todos. O sonho é transformar a escola num lugar para onde se vai feliz –ou em busca da felicidade – diariamente, para ensinar aprendendo e aprender ensinando, num lugar para se estudar e se trabalhar contentes. E para isso, é necessário que a escola realize uma proposta pedagógica mais comprometida, que dê vez e voz também às crianças das classes populares e as com NE, que muitas vezes se entediam ou se revoltam com as tarefas que lhe são impostas na sala de aula. A escola precisa estar mais atenta para trabalhar em consonância com os conhecimentos, os valores, as maneiras de ser e estar no mundo que estas crianças constroem no seu cotidiano. Elas precisam falar a mesma língua ou serem entendidas nas suas linguagens, precisam contar a sua história no meio escolar, para poderem acreditar na luta por uma sociedade mais igualitária, fraterna e solidária, uma Sociedade Inclusiva. A escola tem que ouvir e compartilhar das múltiplas vozes que se cruzam na sala de aula, advindas de uma cultura híbrida, constituída das interações realizadas pelos alunos em diferentes espaços e tempos, onde eles vivem, trabalham, brincam e estudam. Uma escuta sensível para a história das crianças que estão na escola e ao mesmo tempo já enfrentam o trabalho, na luta pela sobrevivência, por exemplo, pode construir um outro olhar para esta realidade que, compreendida, pode ser trazida para a sala de aula enriquecendo o ambiente escolar.
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    30 Os novos tempos exigem uma escola democrática, voltada para a formação de sujeitos cidadãos. Uma escola competente na construção do conhecimento, enquanto processo que se constrói e reconstrói permanentemente, fruto da ação individual e interativa dos sujeitos com o outro. Um conhecimento socialmente útil, que respeita as questões culturais, os saberes e as experiências das comunidades, criando condições para a produção e o acesso aos novos saberes, e ao conhecimento socialmente produzido e sistematizado, contraposto à concepção de conhecimento pronto e acabado, que pode ser guardado, transmitido e acumulado, bancário, no dizer de Paulo Freire. Os tempos escolares atuais recheados de evasão e repetência gritam por uma nova escola. Uma escola que propicie práticas coletivas de discussão, garantindo a participação de toda a comunidade escolar. Uma escola que centralize o poder nas definições do seu projeto escolar. Uma escola que lute pela superação de todo tipo de opressão, discriminação, exploração. Uma escola que expanda os valores éticos de liberdade, respeito à diferença e à pessoa humana, solidariedade e preservação do meio ambiente. Do ponto de vista prático há um consenso, quase que geral, de que a escola não pode mais fechar os olhos diante dos dramas de nossa realidade: os preconceito, os tabus, a ignorância, o analfabetismo funcional, as guerras, a devastação ambiental, o racismo, a intolerância, as drogas, a violência, a incidência de doenças sexualmente transmissíveis, a gravidez precoce e muitos, muitos outros problemas- temas ... A realidade das escolas de hoje deixa ao século XXI o desafio de colocar a Pedagogia a serviço das metas educacionais, visando o equilíbrio entre o sujeito cognoscente e o sujeito social, consciente, equilibrado e responsável. A revisão dos projetos pedagógicos e as reformas curriculares legitimam-se pela busca de uma nova relação entre o homem e o conhecimento, rumo à democratização do saber e sua transformação numa bússola capaz de nortear a formação de posturas críticas e as tomadas de decisão. Seja no plano teórico, seja na dimensão prática. A educação
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    31 do futuro clamapela aproximação entre o ser e o saber, pelo rompimento dos muros que separam a escola do mundo. O desafio que hoje se coloca, ultrapassa a esfera da simples aquisição de conhecimento para dar sentido e aplicabilidade ao que é aprendido. E, para que a escola esteja cumprindo o papel que lhe é destinado, a cada época, é necessário que ela própria se constitua em um espaço permanentemente aberto à formação, a especialização e a atualização dos seus educadores, visando a maior qualificação da ação pedagógica. Considerando-se isso, do ponto de vista teórico, os educadores não podem mais desconsiderar a contribuição de importantes teorias que dão conta da função do ambiente social no desenvolvimento e na aprendizagem. Espera-se, que todos reflitam sobre: que escola é essa que se está apresentando às crianças que - em sua essência ativas e curiosas - quando chegam à sala de aula perdem a vontade aprender ?
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    32 Um dia escola será só escola. Nem especial, integradora ou inclusiva. Sociedade? Sociedade. E ponto. Trabalho, apenas trabalho. Estamos dispensando adjetivo. Por enquanto, não pulemos etapas. Para incluir é preciso reconhecer. Ainda! Werneck (1999, p. 25).
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    33 1.2 Da educaçãoespecial, ao espargir da educação inclusiva. Cláudia Werneck (1999) faz uma bela analogia política sobre os preconceitos no seio da sociedade que tanto atrapalham e dificultam a existência de um mundo inclusivo, onde todos tenham direito de viver a sua individualidade, direito a ter vez e voz. A jornalista diz que é muito difícil escalar o muro do preconceito e, ao descer, pular para o outro lado, porque se aprende a subir nele desde criança. E também porque do outro lado está: a informação, o novo, o desconhecido que chega a dar medo e - ao mesmo tempo - parece até piegas, de tão libertador que é. Quem sobe o tal muro pode: olhar lá de cima, comparar as paisagens, analisar as possibilidades e até permitir-se a sonhar. Talvez, um dia, até salte para o outro lado! Mas, mesmo quando alguém salta do muro do preconceito, pelo mesmo lado que subiu, já desce uma pessoa diferente. Que se saiba esperar é o convite! O genuíno sentido do respeito vai além da generosidade, por isso é tão difícil solicitar ou exigir que alguém tenha um comportamento respeitoso. O respeito tem que nascer do desejo e pressupõe uma relação sistemática e de interação entre quem respeita e é respeitado. A escola deveria ser um lugar do encontro de gerações para se entenderem e se reconhecerem como parte de um todo humano e social indivisível, um lugar onde os alunos, juntamente com os professores desenvolvessem a técnica, a intuição, a flexibilidade e a arte de formar, entre si, parcerias indispensáveis no presente e,
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    34 quiçá se entendessematé o futuro. As dificuldades, as limitações reais de cada estudante, temporárias ou não - funcionariam como estímulo para o enfrentamento do desafio da vida comunitária que, com certeza, transcende os limites do ensinamento que as salas de aula, ao longo dos tempos, tem proporcionado aos alunos. "Como convencer as pessoas de que elas têm necessidade de ter necessidade de lutar por um mundo inclusivo? Tal proposta pressupõe enfrentar a mais solitária das revoluções: a humana." Werneck (1999, p. 226) As sociedades preferem ser lembradas mais por suas identidades do que por suas diferenças. Quando a diferença é uma deficiência, isso se agrava mais. É como se a humanidade tivesse um irrefutável padrão de qualidade. A história comprova que pessoas muito diferentes da média - na aparência ou no modo de ser - têm sido vistas como deslizes da natureza. Quem não lembra, por exemplo, do Carnaval do Rio de 1997, quando a Unidos do Porto da Pedra - cujo samba-enredo, de Mauro Quintana, tinha como tema a loucura? Na ocasião, o carnavalesco levou para o sambódromo os usuários dos serviços psiquiátricos dos hospitais Pinel e Jurujuba, porque ficou sabendo que o sonho de muitas pessoas consideradas loucas era sair numa escola de samba... O carnavalesco não vacilou em tornar o desejo daquela comunidade em realidade, encontrando uma forma prazerosa e inteligente de romper com alguns mitos, especialmente o de que os loucos são necessariamente perigosos. Muitos participantes da Escola confessaram que nunca haviam estado tão perto dessas pessoas e muitos se encantaram com o samba no pé e com a harmonia que a maioria deles demonstrou durante o desfile. A relação entre normalidade x anormalidade prega verdadeiras peças nos mais incrédulos. Oliver Sacks, professor, neurologista, famoso contador de histórias e autor de bem-sucedidos livros, entre eles Um Antropólogo em Marte, citado por Werneck (1997, p.78 – 80), narra alguns casos interessantes que demonstram essas (in)congruências . Num deles, um pintor expressionista abstrato, famoso e que sofrera um acidente onde perdera a visão das cores, passando a só enxergar em preto, branco e cinza, vivia desesperado, temendo não recuperar mais a perfeição da visão. Guardava a sete chaves o segredo da deficiência,até que um dia,
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    35 ao voltar para casa, de carro, assiste a um pôr-do-sol, que o fez conscientizar-se de que estava vivendo uma experiência inédita, para outro ser humano. Mais tarde, quando lhe foi oferecida a possibilidade de recuperar a visão das cores, através de uma cirurgia, negou-se a fazê-Ia. Iniciou, em paralelo, uma nova fase de seu trabalho e a mídia continuou sem saber da verdadeira razão por que o pintor que tanto amara as cores decidiu aboli-Ias de suas telas. Sacks relata que no século XVIII, na região costeira de Massachussets, nos EUA, a cada bebê nascido um era deficiente auditivo, o que levou toda a população a aprender a língua dos sinais. Nos dias atuais, quando os habitantes dessa região referem-se aos seus antepassados, ninguém é lembrado como surdo, mas como avô, pai ou outro tipo de parentesco, como um intelectual ou outra característica. No Canadá um em cada quatro habitantes nasce com a síndrome de Tourette, uma alteração genética que causa distúrbios de comportamento e cria uma série de constrangimentos sociais. Os portadores da síndrome sofrem de tiques convulsivos e mímicas involuntárias freqüentes. Enquanto em outras comunidades, adultos, nessas condições, são internados como doentes mentais, Sacks diz que naquela localidade há escritores, matemáticos, músicos, atores, disc-jóqueis, operários, assistentes sociais, mecânicos e atletas tourétticos. E, pasmem, até cirurgiões. No livro citado descreve inclusive a rotina de um que acompanhou por diversos dias, quando esteve estudando o caso, o médico americano Carl Bennett. As deficiências, os distúrbios e as doenças limitantes, com todas as suas formas e marcas, parecem ser tão antigas quanto a própria humanidade. Alguns exemplos de discriminação institucionalizada divulgados pela publicação Idéias Práticas em Apoio ao Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, do Dísability Awareness ín Actíon , citados por Werneck (1977. pp. 184 - 187) dão conta da barbárie vivida em - não somente naquela, mas em várias épocas - por essa população, descritas a seguir: No dia 20 de maio de 1993, em San Salvador, a polícia disparou seus rifles sobre um grupo de cinco mil pessoas deficientes que faziam uma passeata
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    36 em prol de cuidados médicos e de outros benefícios. Três pessoas foram mortas e outras tantas ficaram feridas. Cerca de 30 foram detidas, incluindo duas em cadeiras de rodas, que foram arrastadas ao longo das ruas pela polícia. Ganhou força na Alemanha Ocidental, no ano de 1989, uma campanha cruel de violência contra as pessoas deficientes e outros grupos minoritários. Instituições residenciais foram atacadas por bombas incendiárias, crianças foram impedidas de participar de excursões escolares, pessoas com deficiência auditiva foram espancadas por desordeiros só por estarem usando a língua de sinais. Na África do Sul, quase metade da população de crianças com algum tipo de deficiência nunca foi à Escola e 70% das pessoas vistas como deficiente: jamais obtiveram emprego. Há países na América latina nos quais as pessoas cegas são impedidas de votar ou de se candidatarem a eleições públicas. Nas palavras da autora: “Como a deficiência vai se tornar uma questão social se nem chega a ser questão humana?” Werneck(1999, p. 187). O tema Educação Inclusiva não é neutro, suscita sempre opiniões favoráveis e opiniões desfavoráveis. Mrech (1999) aborda o assunto como constituindo mais um paradigma dentre os seis da Educação Especial, a saber: o Paradigma da Segregação; o da Desadaptação Social; o Paradigma da Prevenção ou Psicopedagógico; o Paradigma da Integração; o da Inclusão; e o Paradigma da Psicanálise. Para a autora citada, muitas das discussões atuais no Brasil, a respeito do tema, minimizam sua importância, atribuindo-lhe um sentido mais ético e politicamente correto, do que propriamente à importância da sua fundamentação científica e teórico-prática. Opositores – para ela – pertencentes ao Paradigma da Segregação, Prevenção ou Integração, que vêem a Inclusão apenas como uma moda sem fundamentação alguma. Mas, ao contrário: “A Educação Inclusiva não surgiu ao acaso. Ela é um produto
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    37 histórico de uma época e realidades educacionais contemporâneas . Uma época que exige que nós abandonemos muitos dos nossos estereótipos e preconceitos, na identificação do verdadeiro objeto que está sendo delineado em seu bojo.” Mrech (1999,p.03). Mesmo as pessoas menos informadas a respeito sabem que um trabalho socialmente produzido é sempre coletivo, que acontece através de muitas reuniões, comissões, associações, movimentos, manifestações, requerimentos. Tomadas de posição, projetos, programas e assemelhados, que transformam o que poderia ter continuado a ser um problema privado, particular, num problema social, público. Os eixos básicos da Educação Inclusiva foram construídos a partir da luta pelos direitos humanos, da Pedagogia Institucional, do movimento de desinstitucionalização manicomial e da emergência da Psicanálise. Em 1964, baseada nos ensinamentos de Sigmund Freud, e Jaques Lacan, Maud Mannoni [ psicanalista francesa, que trabalhava já em 1949 com crianças deficientes demonstrando o quanto tem sido apreendidas de uma forma estigmatizante pela nossa cultura] publicou o livro que ia fundamentar a maior parte destes novos olhares em relação a crianças deficientes mentais, psicóticas, autistas, etc: A Criança Atrasada e a Mãe.” [ aposto explicativo da autora deste trabalho]. Mrech (1999,p. 05). A Psicologia, por sua vez, a partir do trabalho de Mannonni, passou a questionar a aplicação direta do conceito de deficiência à criança, revelando que a criança portadora de deficiência é muito maior que o quadro clínico onde tentam encaixá-la. De 1964 a 1968, o mundo inteiro foi palco, no meio universitário – e também fora dele – do movimento em defesa dos Direitos Humanos aplicado a todos os sujeitos, visando a garantia do seu acesso e ingresso nos processos sociais e educativos. Esses movimentos sociais representavam a retomada prática da luta pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.
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    38 Conforme Mrech (1999), esses movimentos revelam o papel estratégico que a Educação vinha ocupando - ao longo de décadas - de processos estigmatizadores. Não teria sido por acaso que na década de 60 emergiu na França a Pedagogia Institucional ou Pedagogia Revolucionária, cujas raízes se encontram no movimento freinetiano e no grupo de Situacionistas Internacionais. A Revolução de Maio de 68 derrubou o sistema de cátedras, que elevava a figura do professor em detrimento do alunos; enquanto os situacionistas propiciavam a emergência de um novo conceito de Educação: o de situação, extraído de autores como Henri Wallon e Jacques Lacan. O situacionismo revela a importância de não se localizar mais o sujeito isoladamente, mas dentro de seu contexto social – a situação ou ambiência – onde o sujeito se encontra colocado. Ficou instituído então, a dificuldade de separar-se onde o sujeito começa e o ambiente termina. Assim, não é ao acaso que o conceito nuclear em Educação Inclusiva seja o ambiente menos restritivo. A evolução do sujeito depende do ambiente ou da situação em que se encontra. São eles que criam ou não as condições necessárias para o seu desenvolvimento. Mrech (1999, p. 06). Fato este que a Pedagogia Institucional foi a primeira a perceber, dando importância ao contexto educacional em que o aluno era visto e trabalhado na escola, conforme a situação, ele poderia ou não se desenvolver. Segundo Mrech(1999), os movimentos de desinstitucionalização e anti-psiquiatria ocorridos nas décadas de 60 e 70 revelaram a importância de situações saudáveis para o bom andamento dos sujeitos, dando-lhes o direito de participar de uma forma mais ampla e digna dos contextos sociais comuns. Estes são fatos históricos que comprovam que a Educação Inclusiva tem seu incubadouro num problema social maior, um problema público relacionado com a maneira como os deficientes tem sido tratados ao longo da civilização, quando: na
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    39 Pré-história, eram literalmentejogados fora, assim que eram paridos; passando pela Idade Antiga, onde eram muitas vezes presos nos porões; indo para a Idade Média, época em que eram exorcizados ou queimados vivos, para afastar as crenças daquele tempo de que eram endemoniados; seguindo o seu calvário pela Idade Moderna, quando a deficiência obtém a categoria de patologia, fazendo-se então o uso de medicamentos para tratá-los; e, chegando, finalmente, aos dias atuais, onde a luta continua pela sua inclusão na escola regular e na sociedade que o vem segregando ao longo dos séculos e, hoje, já bem próximos de obterem a conquista dos seus direitos de cidadãos respeitados. A exclusão dos deficientes, construída na sociedade, e especialmente na escola, é similar às formas com que os Estados se organizam com relação à doença mental, às maneiras com as quais dentro da sociedade civil se reage à doença mental, e também com as formas com que dentro das famílias se interage com a doença mental explícita, Mrech (1999). O que se tornou evidente no campo da Saúde, também foi se evidenciando dentro do contexto mais amplo da Educação, tal como a história mais recente da Educação Especial revela. As articulações mais amplas em relação aos novos rumos da Educação Especial – em sua vertente mais socializada – datam de 1968, quando a UNESCO solicitou um relatório a um grupo de especialistas sobre a situação da Educação Especial em quatro países, signatários dos modelos educacionais mais avançados na área: a Suécia e os países nórdicos, a antiga União das Repúblicas socialistas – atual Rússia, os Estados Unidos da América e o Uruguai. Na opinião destes grupos, os objetos da Educação Especial, destinada às crianças com deficiências mentais, sensoriais, motoras e afetivas são muito similares aos da Educação Geral, ou seja, possibilitar ao máximo, o desenvolvimento individual das aptidões intelectuais, escolares e sociais. Os membros do grupo apontaram que o ideal seria estabelecer um Plano de Educação para cada criança, desde a mais tenra idade, dotando aos programas de flexibilidade conveniente para cada caso. (UNESCO, 1968, apud MRECH, 1999).
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    40 Ainda segundo Mrech (1999), foi na década de 60 que nos países nórdicos surgiu pela primeira vez, o Princípio da Normalização aplicado aos portadores de deficiência, numa tentativa de lidar com as instituições de uma forma menos estigmatizadora. Na Suécia, a partir de 1968, já era possível se encontrar crianças deficientes sendo introduzidas no Sistema Municipal de Ensino. Nos Estados Unidos, naquela época, os deficientes eram deixados pelos pais nas instituições que faziam o atendimento contínuo do deficiente, escolas residenciais e asilos. Constatou-se que este tipo de atendimento não funcionava. Em 1967 o Congresso votou a Joint Commisssion on Mental Health of Children, que criava serviços especializados para as necessidades da criança, nas áreas da Saúde, Educação e Seguridade Social. Surge então os serviços comunitários destinados às crianças e uma ênfase maior no papel da Educação nas áreas cognitiva, afetiva e social dos alunos. No entanto, foi só em 1975 que surge nos EUA a primeira lei pública em defesa dos deficientes. A Lei Pública – nº 94 -142 de 1975 – chamada de Ato de Educação a Todas as Crianças Portadoras de Deficiência, que garantia os serviços de Educação Especial; Fundos Federais para auxiliar os Estados na educação dos deficientes; procedimentos e requisitos de auditoria para uma administração transparente, em todos os níveis do governo; e assegurava que as decisões e serviços aos deficientes fossem realizados adequadamente. Através dela, toda criança deficiente passou a ter acesso a um ensino de qualidade. E já em 1986 os Serviços de Educação Especial e Reabilitação do Departamento de Educação dos EUA tornou possível que as crianças deficientes leves e moderadas fossem inseridas nas classes regulares, junto com os alunos comuns. Em 1991 surgiu o IDEA – Ato de Educação – para os Indivíduos com deficiências, ampliando a Lei Pública 94 – 142, com a qual a criança deficiente norte-
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    41 americana só saida classe regular, se a natureza da severidade do seu caso assim o exigir. E em 1997 – a Lei Pública 105 - 17 passou a garantir: educação pública e gratuita para os deficientes; que os pais devem ser notificados quando seu filho vai ser avaliado na escola, e, não só passam a ter o direito de saber o resultado, mas de questioná-lo. Os pais tem que consentir a respeito de todos os procedimentos usados pela escola e podem obter uma avaliação independente que questione os resultados da escola. As barreiras ao deficiente nos EUA foram sendo derrubadas, não só na escola, mas a sociedade como um todo passou a ser menos restritiva, em temos arquitetônicos e legais, garantindo aos deficientes e seus pais uma série de prerrogativas para enfrentar os problemas que a deficiência ocasiona. Uma coisa que é preciso que se tenha conhecimento, é que o conceito de Educação Inclusiva não se encontra explicitado em nenhum dos documentos principais da legislação norte-americana. Conforme explica Mrech (1999), ele está presente apenas no espírito das leis. Mas, em contrapartida, em todas as leis há referências explícitas ao princípio do ambiente menos restritivo, que significa que os deficientes deverão ser educados junto com os ditos normais. O encaminhamento para as classes especiais, a escolarização separada ou a remoção do aluno deficiente do ensino regular só serão efetivadas se for absolutamente incompatível a sua permanência numa modalidade de ensino. Se, inicialmente, a Normalização – que consiste em o deficiente desenvolver um tipo de vida tão normal quanto possível – foi tida como um achado, dentro do Princípio de Integração, onde o aluno deficiente tem que se adaptar aos parâmetros da normalidade, se enquadrando aos pré-requisitos da classe, posteriormente houve a ruptura com o Paradigma pois, se o aluno não conseguisse, tinha que ir para a Educação Especial, onde acabava sendo considerado doente. E, como os deficientes eram incapazes de se adaptar aos moldes da normalidade que lhe eram impostos socialmente, eram culpabilizados pelos seus próprios problemas.
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    42 Revisado o Paradigma, passa-se á Inclusão, paradigma que não espera mais que o deficiente se adapte aos alunos normais. O que é visado é que ele atinja o máximo de sua potencialidade junto com os colegas normais. Com isso, fica-lhe garantido o direito de sua atuação singular. São os normais então é que têm que aprender a conviver com os deficientes. O Paradigma da Inclusão não vê o problema no sujeito, mas na forma como o sujeito e a sua deficiência é concebido no ambiente social; reconhece a especificidade do sujeito e não a sua deficiência, vendo os rumos do processo de seu desenvolvimento centrado no contexto social. A quebra de barreiras para tornar o ambiente menos restritivo tem que ultrapassar os muros da escola, a comunidade e a própria sociedade num todo precisam ser inclusivas. Considerando todos esses aspectos, os partidários da inclusão crêem que é necessário garantir, desde o início, ao deficiente o atendimento junto às crianças normais, quanto mais cedo e mais perto possível de sua residência na comunidade melhor. As pesquisas têm demonstrado que a melhoria da qualidade de vida dos deficientes está relacionada diretamente a três aspectos básicos: a necessidade de ter emprego, de conseguir um lugar na comunidade e de possuir amigos. Segundo Mrech (2000) atrelado ao Paradigma da Inclusão houve o surgimento de um novo tipo de Pedagogia, a chamada Pedagogia da Diversidade, Pedagogia das Diferenças ou Pedagogia Diferencial, propondo uma leitura mais aprofundada dos processos de aprendizagem de cada aluno. O que é visado basicamente são as características próprias de cada sujeito e não mais o contexto de grupos ou classes sociais. Da mesma forma, o conceito de NEE tem passado por uma reformulação profunda, deixando de ter a conotação de uso como sinônimo de criança com deficiências físicas ou mentais e passando a ser remetido ao processo próprio de cada criança, sem ligar-se ao de um grupo ou categoria específico. Com isso salvaguarda-se o lugar de cada criança como única no processo de ensino- aprendizagem. Baseado nesses pressupostos, o PEI, Programa ou Plano de Ensino
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    43 Individual tem sidoa alternativa mais escolhida pelo professor que trabalha no Paradigma da Inclusão para avaliar os seus alunos. Mas, segundo Geraldo Bueno, citado por Mrech (1999), para que a inclusão venha a dar certo nas escolas brasileiras, que apresentam altos níveis de repetência , de evasão e baixos níveis de aprendizagem - como comprovam as estatísticas - torna-se necessário que tanto os sistemas de Educação Especial como os de Ensino Regular se adeqüem à nova ordem e colaborem entre si, construindo práticas políticas, institucionais e pedagógicas, que garantam a qualidade de ensino não só aos alunos com NEE, mas a todos os alunos do Ensino Regular. Fica claro que a simples inserção de alunos com NEE, nos sistemas regulares de ensino, sem qualquer apoio ou assistência aos sistemas regulares de ensino, acabará fatalmente em fracasso. Querendo ou não, o movimento de inclusão no Brasil já começou, como afirma Mrech: Ele já está sendo implantado em nossas escolas através da inclusão incipiente de alunos que apresentam NEE. Mas, mais ainda através da crescente desativação dos serviços estaduais e municipais de Educação Especial. Uma inclusão incipiente ou integrada não-planejada na rede regular de ensino. Uma inclusão que não é ainda decidida e adotada, no plano da consciência pelos educadores tanto do ensino comum quanto do ensino especial. Mrech (2000, p.19). Além da denúncia acima, a autora alerta ainda para alguns cuidados que precisam ser tomados por parte dos governos, em todos os níveis: No Brasil, diferentemente do que se acredita geralmente, nós lutamos e educamos muito mais, através de fatores inconscientes do que conscientes. As nossas ações são muito mais não-planejadas do que planejadas. O que acaba ocasionando efeitos deletérios no campo educacional. [...] Estas formas de atuação inconscientes, por parte dos educadores brasileiros acabam acarretando os efeitos que todos nós conhecemos: a construção do fracasso escolar e da estigmatização de alunos.
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    44 Mrech (2000, p.19). Diferentemente dos EUA, onde os professores do Ensino Regular já foram trabalhados para lidar com os alunos que pensam e agem diferentes; aqui os professores do Ensino Regular sequer foram capacitados a lidar com o chamado aluno normal, quanto mais com aquele que apresenta diferenças ou deficiências. Com mais esta dívida secular, o Brasil desponta no século XXI com uma Educação Inclusiva de fachada, embora muitos vejam o Paradigma da Inclusão como formado por idéias românticas,fora do contexto da realidade, não se iludam, pois ela faz parte de uma realidade sócio-econômica maior do que a mais inovadora tendência da Educação, explica Mrech : Este sistema vem se dando conta de que estigmatiza e exclui a seus participantes. O paradigma da Inclusão é apenas mais uma tentativa do sistema social, econômico e político de consertar, através de medidas reformistas, aos seus desacertos. [...] para nós o Paradigma da Inclusão é a resposta do próprio sistema à exclusão maciça dos participantes dentro do modelo econômico atual. Mrech (2000, pp. 19 - 20) . A autora explica que a sociedade atual está mudando de modelo econômico, de um capitalismo industrial baseado em produtos palpáveis, para um capitalismo simbólico, onde a base é a indústria cultural e o consumo é o de produtos simbólicos, tais como aqueles produzidos pelas novas tecnologias da informação e da comunicação. O modelo da sociedade do século XXI aponta para uma sociedade globalizada, onde a informática e a Internet ocupam um lugar de destaque máximo. Não há como discordar de Mrech, quando afirma que a proposta da Inclusão não está a acontecer apenas porque é politicamente correta e apresenta princípios éticos. Ela traz também em seu bojo outros interesses, postulados e princípios deste modelo social, político e econômico. A sociedade do 3º milênio está centrada sobre a informação, que será o grande eixo articulador do futuro, “A informação é atualmente o produto de maior consumo. Não é ao acaso que a informática e a Internet tenham se desenvolvido muito. Elas são as fundações desta nova sociedade.” Mrech (2000,
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    45 p. 21) Se no passado o consumo era dirigido a produtos concretos, tais quais os modelos educacionais previamente estabelecidos, hoje a sociedade do futuro emergente exige o consumo de produtos simbólicos, imagens, signos, etc. E os deficientes não podem mais ser alijados desse processo e desse consumo. Num mundo em que, dos cartões magnéticos dos bancos ao uso de computadores, a Informática e a Internet estão na vida da humanidade, como um todo, é preciso que se perceba a mudança que está ocorrendo nos sistemas educacionais, onde o eixo central não é o saber a partir de um modelo tradicional. Os professores e os alunos precisam ser preparados para aprenderem a conviver uns com os outros, num mundo que está em constante mutação, o que provoca uma série de transformações nos sujeitos. Um mundo onde a convivência pacífica passa a ser cada vez mais necessária entre os sujeitos de todas as espécies. Esta sociedade vem sendo gestada a décadas, como pode-se perceber nas palavras do mago da Informática, Alvin Tofler, já em 1983: Em vez de apenas recebermos o novo modelo mental da realidade, nós agora somos impelidos a inventá-lo e continuamente a reinventá-lo. Isto coloca um enorme fardo para nós. Mas também conduz á maior individualidade, à desmassificação da personalidade, assim como da cultura. Alguns de nós rebentam sob a nova pressão ou se recolhem à apatia ou à raiva. Outros emergem como indivíduos bem formados, crescendo continuamente, competentes, capazes de operar, por assim dizer, num nível mais alto. [...] Acima de tudo isto, a desmassificação da civilização, que reflete e intensifica os meios de comunicação, traz com ela um enorme salto na quantidade de informação, que todos trocaremos uns com os outros. E é este aumento que explica por que estamos nos tornando uma “sociedade da informação”. Alvin Tofler in Mrech (2000, p. 21). A Inclusão no Brasil é um caminho sem volta, quer as pessoas se apaixonem ou não pelo seu paradigma, pois no primeiro e no segundo mundos os alunos normais e os deficientes já estão coligando em rede mundial. Mrech (2001) ao abraçar a causa
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    46 da Educação Inclusiva,como possibilidade na sociedade contemporânea brasileira, defende a manutenção da Educação Especial, pois é nela que vamos encontrar os profissionais para fazer a passagem dos professores do Ensino Regular para a Educação Inclusiva. Mas acha importante que os professores do Ensino Especial revejam sua prática, que não pode mais se orientar pelo modelo da Integração , pois não se trata mais de reeducação, nem do modelo médico de deficiência. Seria um tempo de parceria e não mais de cada qual do seu lado, professores da Educação Especial e da Educação Regular. A finalidade maior da Educação consiste em auxiliar na construção do homem, no desabrochar de seu potencial criador, produtor e de organizador social. Ela é poderosa no sentido de ratificar ou retificar as formas de pensar. Isto não somente com referência aos alunos, mas também aos professores e todos os que se envolvem com ela, como os pais, funcionários e comunidades circunscritas às escolas. A Educação Inclusiva surgiu como alternativa para a educação de pessoas com NEE e suas vidas em sociedade e representa um passo muito importante que pode ser dado no sistema educacional de forma global, envolvendo todas as crianças e jovens, enquanto alunos, e estendo-lhes o sentimento de pertença. Nas palavras de Naun Kunc, Citado por Freitas e Castro (s.d., p. 03), devemos: “assegurar que todos os estudantes comecem a aprender que o ‘pertencer’ é um direito, não um status privilegiado que deva ser conquistado.” Em se tratando do atendimento de alunos com NEE em escolas da rede regular de ensino, é necessário que se atente para a Inclusão não virar sinônimo de mero acesso de alunos com deficiência na classe. Como alerta Mendes, citado por Prieto (2003, p. 04): “ao mesmo tempo que o ideal de inclusão se popularize, e se torne ponto de discussão obrigatório para todos os interessados nos direitos dos alunos com necessidades educacionais especiais, surgem as controvérsias, menos sobre seus princípios e mais sobre as formas de efetivá-las.” Ainda segundo Mendes, hoje se pode identificar duas correntes na perspectiva
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    47 da Educação Inclusivacom propostas divergentes sobre qual é a melhor forma de educar crianças e jovens com necessidades educacionais especiais. De um lado encontram-se os que defendem a proposta de inclusão advogando que a melhor colocação seria a na classe regular, mas admitindo a possibilidade de serviços de apoio ao atendimento na classe comum e os recursos educacionais especiais paralelos ao ensino regular. E de outro lado, a proposta de inclusão total que prevê a colocação de todos os estudantes, independentemente do grau e tipo de incapacidade, na classe comum da escola próxima à sua residência e eliminação total do atual modelo de prestação baseado num continuum de serviços de apoio de ensino especial. Para Aranha (2001) a inclusão escolar “prevê intervenções decisivas e incisivas, em ambos os lados da equação: no processo de desenvolvimento do sujeito e no processo de reajuste da realidade social. [Assim],[...] além de se investir no processo de desenvolvimento do indivíduo, busca-se a criação imediata de condições que garantam o acesso e a participação da pessoa na vida comunitária, através da provisão de suportes físicos, psicológicos sociais e instrumentais.” (grifos desta autora ). No Brasil, desde a Constituição Federal de 1988, os documentos oficiais legais e complementares, de normatização ou de orientação à política educacional, prevêem que, aos alunos com NEE, sejam garantidos a Educação e o atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996 “Embora priorizando o atendimento integrado às classes, escolas ou serviços especializados para atender aos alunos que deles necessitarem, em complementação ou substituição ao atendimento educacional nas classes comuns” (LDB 9394/96, art. 58 § 1º, apud PRIETO , 2003). O mais importante para a efetivação da verdadeira Inclusão no seio das escolas da sociedade parece ser a vivência de sentimentos e atitudes de respeito ao outro na sua diversidade enquanto cidadão. Para que esse direito se viabilize cabe à sociedade garantir-lhes o acesso educacional diz Aranha (2001), referindo-se
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    48 especificamente aos portadoresde deficiências, advogando que cabe à sociedade oferecer os serviços que os cidadãos com deficiência necessitarem (nas áreas física, psicológica, educacional, social e profissional). Mas lhe cabe também garantir-lhes o acesso a tudo de que dispõe, independente do tipo de deficiência e grau de comprometimento apresentado pelo cidadão. Ou seja, numa Educação Inclusiva, para que se viabilize o cumprimento do direito de todos à Educação, algumas medidas se fazem necessárias, tais quais: as condições requeridas por alguns alunos que demandam, em seu processo de aprendizagem, auxílios ou serviços não comumente presentes na organização escolar, tais quais, a oferta de materiais; a eliminação de barreiras arquitetônicas e de mobiliário, as de comunicação e sinalização e as de currículo; a metodologia adotada; e, o que é fundamental: a garantia de profissionais especializados, bem como a formação continuada para o conjunto do magistério. A Educação para Todos deve prever o atendimento à diversidade de necessidades e características da comunidade escolar, nas palavras de Souza e Prieto, partindo-se da premissa que: [...]o princípio norteador é a crença na possibilidade desenvolvimento do ser humano, tratando-se as diferenças individuais como deve prever ainda uma educação de qualidade que garanta a permanência de todo aluno na escola durante o processo de apropriação e produção do conhecimento , que possibilita sua participação efetiva na sociedade, fatores condicionantes do processo de escolarização que precisam ser considerados quando se tem compromisso de educação para todos. Souza e Prieto (apud PRIETO, 2003, p. 09) . Uma escola inclusiva, portanto, além de ser a escola aberta a todos que a procurarem, deve constituir-se num lugar do qual todos fazem parte, em que todos são aceitos, onde todos ajudam e são ajudados por seus colegas e por outros membros da comunidade escolar, para que suas necessidades educacionais sejam satisfeitas. O objetivo maior da Educação Inclusiva deve fazer com que a escola atue, através de todos os seus escalões, para possibilitar a integração das criança que fazem parte da comunidade.
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    49 Porém, quando se fala em Escola Inclusiva no Brasil, diante dos estrondosos níveis de evasão e de reprovação, especialmente no tangente à escola pública, convém que se atente também para a teoria da escola como produtora do fracasso escolar, à luz da Teoria da Reprodutividade, do sociólogo francês Pierre Bordieu. Segundo Barros (1996), o insucesso escolar de alunos pobres não é causado por suas características psicológicas, por sua “incapacidade para aprender”, mas pela forma de trabalhar da escola, pela sua própria estrutura. Pela teoria reprodutivista, a escola constituiria-se no aparelho reprodutor do Estado, que ao atender apenas aos interesses da classe social dominante, ao valorizar somente os padrões culturais destas classes, discriminaria os conhecimentos dos menos afortunados, Seria, por assim dizer, uma produtora de desigualdades, reforçando a divisão de classes sociais. A Escola tem desenvolvido - conforme Barros (1996) - várias formas de discriminação sutil, mas persistente, contra o aluno desprivilegiado. As crianças das classes trabalhadoras têm sido muito prejudicadas pela educação determinada pela sociedade de classes. A existência dessa situação tem sido anunciada por alguns educadores como foi o caso de Paulo Freire, que denunciava essa e outras injustiças sociais com relação às oportunidades de estudar e à educação das classes populares. A maioria dos professores infelizmente não se dá conta de sua participação nessa injustiça. Atua sem compreender que a escola é um instrumento que trata de modo desigual as classes sociais e que prejudica com isso uma parte dos alunos.[...] De certo modo, ele, professor, é tão vítima dessa realidade social quanto o aluno. Barros (1996, pp. 23 e 29). Psicólogos, sociólogos e estudiosos da educação que estudam o fracasso escolar descrevem em suas pesquisas que muitas vezes observaram crianças pobres que trabalham para ajudar no sustento do lar e que, na vida real, demonstram grande facilidade para o cálculo, na escola acabam sendo reprovados em matemática. Esses pesquisadores falam da grande potencialidades das crianças que são percebidas por eles, mas que acabam sendo abafadas na escola. Eles acusam a
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    50 reprovação escolar comosendo um mecanismo perverso utilizado pela escola, com a participação ativa do professor, sobretudo o das escolas públicas. Considerando-se o acima exposto, é tácito que nas escolas de ensino regular, às vésperas de abrirem suas portas em definitivo para a inclusão, predominam formas de organização do trabalho escolar que não se alinham na direção de uma escola de qualidade para todos os alunos. A questão central, na concepção de Mantoan, está no como criar contextos educacionais capazes de ensinar todos os alunos, apesar de suas diferenças, na luta para vencer a exclusão, a competição, o egocentrismo e o individualismo, traços tão comuns na sociedade de hoje. Para ela – bem como para a autora deste trabalho - o papel da escola é repensar sua prática pedagógica que deve nortear-se pela ética, pela justiça e pelos direitos humanos, tripé que sempre sustentou o ideário educacional mas que nunca teve tanto peso e implicação como nos dias atuais. Como ela refere: [...] em sua busca de uma nova fase de humanização e de socialização, que supere os pressupostos hegemônicos do liberalismo, baseado na interatividade, na superação de barreiras físicas, psicológicas espaciais, temporais, culturais e acessível a todos. Recriar o modelo educativo. A emergência dessa nova sociedade alerta os educadores sobre a contribuição da escola na formação dos que viverão em um mundo diferente, que já desponta. Mantoan (s.d., p.04). Com sua fé e otimismo, a educadora convida aos professores para reverterem uma situação que até hoje a educação não deu conta, ou seja, mudar o mundo e torná-lo mais humano. Como fazê-lo? Deixando para trás o primado do conteúdo curricular na escolarização, dando maior importância a interatividade entre os alunos,entre as disciplinas curriculares, entre a escola e o seu entorno, entre as famílias e o projeto escolar. Através de uma aprendizagem centrada, ora destacando o racional, ora o intuitivo e o sensorial, ora o social e o afetivo dos alunos. Com o auxílio de práticas e métodos onde predominam as co-autorias, a experimentação, a
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    51 cooperação entre alunos,professores, pais e comunidade. Mantoan (s.d) fala de uma instituição em que todas as crianças aprendam a ser pessoas e onde o sucesso da aprendizagem esteja relacionado com a exploração dos talentos de cada um, centrada nas possibilidades e não nas dificuldades dos alunos.Outra exigência passa pelo rompimento das barreiras curriculares e das fronteiras disciplinares, através da integração dos saberes, decorrentes da interdisciplinaridade. O rumo é a policompreensão da realidade e a multiplicidade de saberes. Que a avaliação seja uma análise do percurso de cada estudante do ponto de vista de suas competências para resolver problemas de toda ordem. O desenvolvimento humano constrói-se em relação com o meio e com os outros. As diferenças com suas singularidades conjugam-se para a construção de uma sociedade inclusiva sem precedentes, onde todos têm direito à sua individualidade. Cada criança aprende no seu ritmo, com estratégias diversificadas, mas em conjunto com os seus pares. O conceito de inclusão deve ser aprendido de forma mais ampla, porque qualquer criança, em qualquer altura da sua vida escolar e/ou extra-escolar, pode passar por dificuldades educativas e/ou sociais e será com seus pares que ultrapassará mais facilmente essa fase, perseguindo o seu desenvolvimento. Cada criança durante o seu desenvolvimento está apta a contribuir para o desenvolvimento das outras, porque o ser humano desenvolve-se em interação social, especialmente através da cooperação entre pares. Até porque, como anuncia Mantoan: A escola não pode continuar anulando e marginalizando as diferenças nos processos através dos quais forma e instrui os alunos e muito menos desconhecer que aprender é errar, ter dúvidas, expressar, dos mais variados modos, o que sabemos, representar o mundo a partir de nossas origens, valores, sentimentos.[...] A exclusão escolar manifesta-se das mais diversas e perversas maneiras, e quase sempre o que entra em jogo é a competência do aluno, o qual sofre as conseqüências de um jogo desigual, de cartas marcadas pelo autoritarismo e poder arcaico do saber escolar, Já não é preciso ser muito avançado ou mesmo radical [...] para se ensinar a compartilhar, a
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    52 complementar a cooperar e a ser solidário nas escolas”. Mantoan (s.d.,p.02). A Inclusão é o modo ideal de garantir a igualdade de oportunidades e permitir que crianças portadoras de deficiência possam relacionar-se com outras crianças e estabelecer trocas para poderem crescer. Na imitação e no espelhamento, elas e as outras crianças se desenvolvem. A igualdade nos relacionamentos não permite trocas e traz estagnação ao desenvolvimento, são necessárias exemplos que as façam superar suas dificuldades e despertar suas potencialidades. Como já foi visto, os princípios da Inclusão vão além de inserir crianças com NEE na rede regular de ensino, passam necessariamente por uma ampla revisão do Sistema Educacional. Fica claro que na escola inclusiva há a necessidade de medidas de atendimento especializado a todos que precisam – incluindo por isso mesmo não só as crianças portadoras de deficiência mas as excluídas por outras NEE. Faz-se mister trabalhar com as crianças e jovens como seres únicos em suas individualidades, reconhecendo suas diferenças e dando atendimento às suas necessidades. Como refere Gardner (1994), em sua Teoria das Inteligências Múltiplas: os indivíduos “Possuem diferentes tipos de mentes, e por isso aprendem, lembram, desempenham e compreendem de modos diferentes.” (p.14) Assim como a proposta da Educação Inclusiva, essa teoria propõe o reconhecimento das diferenças individuais e a adequação dos educadores às diferentes formas de aprendizagem, desempenho e compreensão dos alunos. Sugere abordagens variadas com finalidades de atender aos aprendentes que não se enquadram no sistema formal de ensino, não porque não possuam compreensões significativas, mas porque são excluídos daquele sistema. Existem contradições quanto à dimensão da inteligência. Enquanto alguns estudiosos acreditam numa capacidade única e consideram o intelecto como um todo, há os que abordam a multiplicidade das capacidades e funções do intelecto do ponto de vista da fragmentação. Enquanto uns vêem a inteligência como privilégio de alguns, outros a vêem como características comuns a todos os indivíduos. Ao
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    53 procurarem definir-lhe oconceito os estudos sobre a inteligência, com seus testes e avaliações acabam rotulando e padronizando as pessoas. Mais recentemente autores como Gardner buscam mudar a visão única, imutável e divinizada da inteligência, rompendo com os testes e a avaliação que embasam a idéia de que ela é privilégio de alguns e não pode ser desenvolvida. A teoria de Gardner – que estuda as Psicologias do Desenvolvimento e a Cognitiva - ao defender as múltiplas capacidades, contribui com o respeito ao ser humano em sua individualidade, na medida que democratiza a aprendizagem, estendendo-a inclusive àqueles considerados socialmente incapacitados. Desafia a concepção clássica da inteligência e os padrões dos testes que marginalizam e excluem alunos avaliados como incapazes pelos padrões da Psicologia Cognitiva clássica. Gardner afirma que todos nascem com potencial biológico para o desenvolvimento de inteligências, e que a dimensão a ser alcançada será satisfatória de acordo com os estímulos recebidos. Segundo ele, à parte o potencial inato, intervenções e treinamento precoce persistentes podem desempenhar um papel decisivo na determinação do nível final de desempenho do indivíduo. Se um comportamento participativo é considerado importante por uma cultura, se recursos consideráveis são dedicados a ele, se o próprio indivíduo está motivado a operar nesta área e se os meios próprios para a cristalização e a aprendizagem são colocados à disposição, quase todo indivíduo normal pode atingir uma competência impressionante em domínio intelectual ou simbólico. Porém, de forma oposta, e talvez mais obviamente, até mesmo o indivíduo mais imaturamente talentoso naufragará sem algum ambiente apoiador positivo, afirma o autor: A descoberta de perfil intelectual inerente de um indivíduo – que acredita possível – não precisa servir, então, como meio de classificar o indivíduo ou de consigná-lo a uma lixeira intelectual; ao contrário, tal descoberta forneceria um meio para assegurar que todo indivíduo tenha à sua disposição tantas opções quantas possíveis para atingir a competência em quaisquer campos que ele e sua sociedade considerem
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    54 importantes. Gardner (1994, p. 243). Gardner, na obra citada, considera que uma intervenção intensiva nos primeiros anos de vida da criança é crucial para seu desenvolvimento. Essa intervenção pode fazer com que várias crianças atinjam um nível promissor, de grande destaque em uma determinada habilidade e possivelmente auxiliem as que apresentem dificuldades ou prejuízos em uma capacidade. Para ele, a visão limitada e única da mente, pode levar ao desperdício de talentos, pelo fato de determinados indivíduos não se encaixarem nos padrões testáveis de inteligência. Baseado nesses pressupostos, estima-se que o potencial humano desperdiçado nas escolas que privilegiam certas capacidades, em detrimento de outras, seja incalculável, acarretando a não revelação de inúmeros talentos. Quem perde com isso – além dos indivíduos envolvidos – é a comunidade, que deixa de contar com pessoas qualificadas para ocupar papéis importantes ou produzir bens para a sociedade. Para a Teoria das Inteligências Múltiplas, os indivíduos apresentam perfis intelectuais diferentes entre si, com múltiplas capacidades em áreas do conhecimento, combinadas entre si, que resultam numa forma particular de resolver problemas ou criar produtos válidos numa sociedade. A escola deve voltar-se para o aluno e avaliar seu perfil intelectual de modo que ele possa expressar capacidades e fraquezas por diferentes meios, oferecendo-lhe oportunidades para desenvolver capacidades de acordo com as características que apresenta. Gardner ainda, na mesma obra, reitera que na maioria das sociedades a escola tem um papel fundamental na formação da inteligência, por ser valorizada culturalmente como espaço de oportunidades de aprendizagem, no qual a inteligência se revelará. Além da escola, os valores sociais e os conteúdos considerados necessários à sobrevivência da cultura são determinantes na definição da inteligência numa determinada sociedade.
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    55 A Teoria das Inteligências Múltiplas rompe com o tradicionalismo na educação. Torna-a direito de todos, defendendo a igualdade de oportunidades e respeito à individualidade. Gardner esclarece que as várias competências devem ser educadas, pois na vida não são usados somente conteúdo escolares: “...a vida consiste em mais do que desenvolvimento de combinações particulares de inteligência para propósitos educacionais específicos.” Gardner (1994, p. 278). O autor critica o sistema avaliativo da escola tradicional, através de testes que medem principalmente a capacidade de raciocínio lógico-matemático e habilidades lingüísticas. Importa-lhe observar como são desenvolvidos capacidades para resolver problemas. A escola que Gardner propõe, e com a qual a autora deste trabalho sonha, busca o entendimento: a capacidade de aplicar o conhecimento adquirido na situação em que é relevante. Nesta escola, o objetivo do aluno é combinar suas capacidades e habilidades para solucionar tarefas. No entanto, na escola real, a compreensão genuína não é buscada ou estimulada apenas se contenta com o desempenho do aluno que é avaliado como entendimento. Ele comenta que: “Entretanto, num exame mais detalhado, fica claro que os entendimentos só podem ser compreendidos e apreciados se forem desempenhados por um só aluno.” Gardner (1995, p.165) . O autor argumenta que um sistema avaliativo, para se ser justo com a inteligência, precisa respeitar o ser humano na sua individualidade, em vez de enquadrá-lo em um padrão pré-estabelecido. Para que se identifique o homem como mais humano, com potenciais indescritíveis para realizações em favor dos homens em particular e da humanidade como um todo. Para que o planeta sobreviva e a convivência seja crescentemente tolerável, fraterna e solidária. Pensa-se que será legítimo então, conceber-se que todo e qualquer aluno – em determinado momento da aprendizagem – independentemente das suas potencialidades e limitações – está sujeito a processos de exclusão e que, portanto, esta situação não está unicamente vinculada aos alunos com deficiência. A melhor forma de assegurar a inclusão escolar é desenvolver um tipo de gestão político-pedagógica que assegure uma educação de qualidade para todos,
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    56 entendo-se esta comoa formação integral de cada aluno-pessoa sob os valores do respeito, da confiança, da solidariedade e da cooperação recíprocos. No fundo, a Educação Inclusiva não é senão o mais nobre projeto educativo que toda e qualquer comunidade educativa pode conceber e concretizar, rumo à sociedade inclusiva. A inclusão nada mais é do que um dos direitos mais elementares da condição humana. Do ponto de vista da ação, torna-se incontornável a necessidade de o dia a dia da comunidade escolar ser preenchido por relações inter-pessoais caracterizadas por exemplos espontâneos de valorização das diferenças e de processos de entre-ajuda, que precisam se estender para além dos muros da escola. Antes de ser filosofia, a inclusão é uma forma de ser e de estar no mundo, como afirma Jorge Serrano (s.d.): Se todo e qualquer ser humano, no seu dia a dia procura, fundamentalmente ser feliz, então afigura-se que a interação inclusiva, até nesse contexto, pode ser um meio ímpar para que cada um se sinta mais feliz: uns porque, recebendo ajuda, melhoram a sua própria qualidade de vida, aumentando, por conseqüência os seus níveis de percepção da felicidade; outros, porque dando ajuda, reforçam os seus próprios patamares de felicidade, devido precisamente à satisfação interior experimentada pelo fato de haverem contribuído para a felicidade daqueles que sem a sua ajuda não seriam... tão felizes! É pois, fundamentalmente disto – a oportunidade de ser feliz – que se trata ao falar-se da Educação Inclusiva. Jorge Serrano ( www.proformar.org/revista/edi, p. 03). Fala-se muito em barreiras físicas, em dar acesso às pessoas para entrar nas escolas, nas instituições públicas, mas também existem barreiras ligadas à atitude. Há pessoas que são contra a Inclusão, sem saber nem porquê. Já pessoas engajadas ao processo de Inclusão, como a professora Priscila Augusta Lima, da Faculdade de Educação da UFMG, que vem há alguns anos trabalhando na proposta inclusiva, no Centro de Desenvolvimento da Criança – Creche, da mesma Universidade, onde crianças autistas, crianças surdas, entre outras, estão incluídas
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    57 na sala comum,acredita que o termo deficiência precisa ser modificado, porque, muitas vezes os assim chamados são pessoas com dificuldades numa área específica, mas são capazes de realizar trabalhos em outra área. Como ela explica em um pronunciamento no 1º Simpósio de Educação Infantil, promovido pelo CDC – Creche UFMG, em novembro de 2002. Há exemplos disso no mundo da política, nos esportes ... Por outro lado, uma pessoa que fica em casa, deprimida não sai pra nada, está incapacitada, porque não consegue trabalhar e interagir socialmente. Já o deficiente que sai de casa, trabalha, não está incapacitado. Lima( 2002, p. 03). A professora também declara que em sua prática observou que as crianças têm uma rejeição muito pequena aos deficientes, isso quando as têm: Às vezes, a dificuldade está nos professores e na família das crianças ditas normais. Este é um problema que envolve o educador e professores para lidar com alunos portadores de NE que começam a freqüentar a sala de aula comum. Isso porque o professor não têm informações e, às vezes, tem medo do aluno deficiente por causa do esteriótipo de que todo o deficiente é agressivo. Há situações em que o professor se recusa a assumir a sala. Cheguei a ouvir gente dizendo que a inclusão é um absurdo.” Lima (2002, p. 03). A Educação Inclusiva focaliza mais uma vez, o direito universal à Educação, consagrado na Constituição Brasileira e nas Cartas internacionais de Direitos Humanos. Por que reafirma esse direito, no âmbito da teoria e da prática, se no plano jurídico já há consenso sobre sua pertinência é uma pergunta pertinente. Talvez exatamente porque, muitas vezes, a sua realização, embora afirmada do ponto de vista estritamente formal, é negada na prática a determinados grupos sociais, populações excluídas, meninos de rua, minorias étnicas, portadores de deficiência física e mental, inclusive nas próprias instituições encarregadas de torná- la real. Tornar a inclusão real, é condição sine qua non para se viver, como justifica
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    58 Mazzotta (s.d.), querefletindo sobre o tema estudou a etimologia da palavra. Do latim “que empregava como sinônimas a expressão viver e estar entre os homens (inter homines esse) e ainda, morrer e deixar de estar entre os homens (inter hominis esse desinere), de onde concluiu que Inclusão e Integração são processos essenciais à vida humana ou à vida em sociedade. Para o autor, é imperioso que sejam eliminados os mecanismos e procedimentos dificultadores da integração e da inclusão de todos, na escola pública e gratuita com a qualidade esperada pela sociedade, o que não implica, necessariamente, na extinção sumária de serviços e auxílios especiais. Nas suas palavras: É preciso que se tenha em mente, também, que em tal perspectiva, as diferenças entre as necessidades educacionais especiais e as necessidades educacionais comuns se tornem cada vez menores até o ponto em que as necessidades singulares de cada educando possam ser percebidas e atendidas pela escola comum de “especial” qualidade. Mazzotta (s.d. p.03). Mazzotta sugere ainda que, enquanto cidadãos de uma sociedade que se pretende democrática, “ temos que propugnar por uma educação de qualidade para todos. E essa busca não comporta qualquer exclusão, sob qualquer pretexto.” Ou seja, a construção de uma educação que abranja todos os segmentos da população e cada um dos cidadãos implica numa ação baseada no princípio de não segregação, ou , de inclusão de todos, quaisquer que sejam suas limitações e possibilidades individuais e sociais. As mudanças de paradigmas sempre trazem no seu bojo o inconformismo, a preguiça e o medo daqueles que estão acomodados na atual situação. Muitos têm medo, ou se posicionam contra, sem nem saber direito do que se trata! “É novo , eu recuso!”, parecem dizer. Se a educação brasileira contasse com um número mais expressivo de educadores do porte de Maria Teresa Eglér Mantoan, as coisas seriam mais fáceis. Confiante, ela acredita na ultrapassagem desse pessimismo que ronda os professores nesse momento de transição da escola tradicional para a inclusão:
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    59 Penso que sempre existe a possibilidade de as pessoas se transformarem [...] conseguirem ultrapassar obstáculos que julgam intransponíveis, sentirem-se capazes de realizar o que tanto temiam, serem movidas por novas paixões.... Essa transformação move o mundo, modifica-o, torna-o diferente, porque passamos a enxergá-lo e a vivê-lo de um outro modo, que vai atingi-lo concretamente e mudá-lo, mesmo que aos poucos e parcialmente. Mantoan (2003, p. 06). Mantoan (2003) considera que é pelo fato da educação ser um direito natural e indispensável, que quem tem de mudar para receber todos os alunos é a escola. Diz não fazer acordos quando se propõe a lutar por uma escola para todos, sem discriminações, sem ensino à parte para os mais e para os menos privilegiados, porque a perspectiva de se formar uma nova geração dentro de um projeto educacional inclusivo é fruto do exercício diário de cooperação e de fraternidade, do reconhecimento e do valor das diferenças, o que não exclui a intenção com o universo do conhecimento em suas diversas áreas. A autora esclarece que uma escola para todos não menospreza o conhecimento científico, sistematizado, mas também não precisa se restringir a instruir os alunos a dominá-los a todo o custo, mesmo que os professores tenham aprendido a ensinar segundo a hegemonia e a primazia dos conteúdos acadêmicos, embora os professores tenham, naturalmente, muita dificuldade de se desprenderem desse aprendizado, que refreia os processos de re-significação do seu papel, seja qual for o nível de ensino em que atuem. A educadora convida aos professores para refletirem sobre o papel social dos professores, se seria tão elementar, reduzido a meros instrutores, que transmitiriam um saber fechado e fragmentado, em tempos e disciplinas escolares que aprisionam nas grades curriculares, e “ que conduzem e norteiam a capacidade de conhecer de nossos alunos, transformando-os em seres passivos e acomodados a aprender o que definimos como verdade?” Mantoan (2003, p. 10). E nesse momento de crise na educação brasileira, quando um novo paradigma
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    60 do conhecimento nasce,auxiliado pela velocidade das comunicações e das informações, a “ciência” felizmente não está mais sozinha, outros saberes dão conta de idéias diferentes, até porque a escola não pode continuar ignorando o que acontece para fora de seus muros. Não pode desconhecer que a aprendizagem implica também em saber se expressar dos mais variados modos, possibilitando que cada um represente o mundo a partir de suas origens, seus valores e seus sentimentos, deixando o primado da cientificidade para trás, aproximando-se mais de outras formas de entendimento. Pois, como afirma Mantoan: A exclusão escolar manifesta-se das mais diversas e perversas maneiras, e quase sempre o que está em jogo é a ignorância do aluno diante dos padrões de cientificidade [...] O ensino curricular de nossas escolas, organizado em disciplinas, isola, separa os conhecimentos, em vez de reconhecer suas inter-relações.[...] A lógica dessa organização é marcada por uma visão determinista, reducionista, própria do pensamento científico moderno, que ignora o subjetivo, o afetivo o criador [...] atitudes típicas das escolas tradicionais em que ainda atuamos e em que fomos formados para ensinar. Mantoan (2003, pp. 17 – 19). A educadora defende a inclusão total, numa escola inclusiva que receba, desde a Educação Infantil, todas as crianças atendendo às suas diferenças, sem discriminá-las, sem trabalhar à parte com alguns alunos, através de um ensino que funcione com a abolição completa dos serviços segregadores de educação especial, como os programas de reforço escolar, as salas de aceleração, as turmas especiais, etc. Todos juntos, como na metáfora da inclusão que o caleidoscópio expressa. Nas palavras de Marsha Forest, uma das grandes defensoras da inclusão citada por Mantoan: O caleidoscópio precisa de todos os pedaços que o compõem. Quando se retiram pedaços dele, o desenho se torna menos complexo, menos rico. As crianças se desenvolvem, aprendem e evoluem melhor em um ambiente rico e variado. Marsha Forest (apud MANTOAN,2003, p. 26).
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    61 O aluno da escola inclusiva – que se pauta pela igualdade de oportunidades e numa nova ética escolar que advém de uma consciência para além do individual e do social, circunscrito à comunidade local, mas planetária – não deve ter um identidade pré-fixada em modelos ideais, permanentes e essenciais. A escola inclusiva é aberta às diferentes culturas, a pluralidade de manifestações intelectuais, sociais e afetivas – como refere o professor Boaventura de Souza Santos, citado por Mantoan (2003, p. 34) : “ é preciso que tenhamos o direito de sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza e o direito de sermos iguais, quando a diferença nos inferioriza.” Mantoan (2003) denuncia o aluno abstrato da escola tradicional, que justifica a maneira excludente de a escola tratar as diferenças, dividindo-os em : deficientes, carentes, comportados, inteligentes, hiperativos, agressivos, etc. Ela diz conhecer muito bem os argumentos pelos quais a escola tradicional resiste à inclusão – eles refletem a sua incapacidade de atuar diante da complexidade, da diversidade, da variedade, do que é real nos seres e nos grupos humanos. Não se deve esquecer de que “Os alunos não são virtuais, objetos categorizáveis [...] ”. ( p. 50) Portanto, para esta autora, além da eliminação das barreiras arquitetônicas e atitudinais – por parte de professores e especialistas – a escola inclusiva pressupõe o implemento de recursos de ensino e equipamentos especializados que atendam a todas as necessidades educacionais do alunos – com ou sem deficiência – e a prática de um ensino adequado às diferenças dos alunos em geral, oferecendo alternativas que contemplem a diversidade, que deve ser do domínio dos futuros professores. Para tanto, os cursos de formação de magistério necessitam sofrer grandes modificações em seus currículos, incluindo neles o estudo de certas técnicas que compõem os serviços de apoio especializado, como o intérprete de sinais, o braile, etc. Mantoan (2003) acredita que a escola inclusiva proporcionará - com os pais dos alunos como grandes aliados - a formação de gerações mais preparadas para viverem a vida na sua plenitude, livres, sem preconceitos, sem barreiras. Penas que a escola inclusiva fornecerá condições para os estudantes se desenvolverem mais
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    62 sadiamente, contribuindo paraa sua identidade sócio-cultural, na e para a cidadania, construindo-se num espaço vivo de acolhimento e de permanência para todo e qualquer aluno, até o nível que cada um seja capaz de atingir. Nos seus sonhos de Mantoan pairam – e nos da autora deste trabalho também – a construção de uma escola que vai contribuir para que cada aluno ponha em prática a sua capacidade de aprender, de acordo com suas características pessoais. Uma escola especialista que atenda a todos os alunos e não apenas alguns deles, porque as dificuldades de alguns alunos não são apenas deles, mas resultam, em grande parte, do modo como o ensino é ministrado e de como a aprendizagem é concebida e avaliada. As tarefas fundamentais a serem empreendidas para que essa escola inclusiva venha a existir, na sua concepção, passa pela recriação do modelo educativo escolar, tendo como eixo o ensino para todos. Passa pela organização pedagógica, que deve abrir espaço para a cooperação, para o diálogo, para a solidariedade, à criatividade e o espírito crítico, que precisam ser exercitados não só pelos alunos e professores, mas pelos administradores e funcionários por serem habilidades mínimas para o exercício da cidadania. A implantação da escola inclusiva passa ainda pela formação e aprimoramento contínuo dos professores, que devem ser valorizados para que tenham condições e estímulo para ensinar a turma toda sem exclusões. Passa pela garantia aos alunos e de “ tempo e liberdade para aprender, bem como um ensino que não segrega e que reprova a repetência.” Mantoan (2003, p. 60). A escola para ser inclusiva precisa urgentemente qualificar o seu ensino, superando o sistema tradicional de ensinar, baseada no aspecto cognitivo do desenvolvimento, avaliando os alunos apenas quantitativamente, através de respostas-padrões, com aulas basicamente expositivas, valorizando a memorização, o livresco, e negando o valor do erro. Nas palavras de Mantoan (2003): “... as escolas de qualidade são espaços educativos de construção de personalidades humanas autônomas, críticas, espaços onde criança e jovem aprendem a ser
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    63 pessoas.” (p. 63) A reorganização das escolas deve acontecer a partir da reformulação de seus projetos políticos-pedagógicos, a serem elaborados após um criterioso diagnóstico da demanda, para que as diretrizes gerais da escola sejam traçadas com realismo e responsabilidade, com a colaboração e participação de todos os segmentos que a compõem. O diagnóstico deve priorizar o levantamento dos pontos positivos e dos fracos da comunidade escolar, para então traçar-se os objetivos, as metas e as ações para coordenar o trabalho como um todo. Susan e Willian Stainback (1999) enumeram uma série, quase imensurável,de vantagens para toda a comunidade escolar – em especial aos alunos – da convivência numa escola inclusiva. Apontam os valores da celebração da diversidade, que faz a todos crescerem enquanto seres humanos e cidadãos éticos. Já no prefácio da obra, citam Robert Barth (1990) que diz que o importante sobre as pessoas e sobre as escolas – é o que é diferente, não o que é igual: As diferenças encerram grandes oportunidades para a aprendizagem. Elas oferecem um recurso livre, abundante e renovável . Eu gostaria de ver nossa compulsão para eliminar as diferenças substituída por um enfoque igualmente insistente em se fazer uso dessas diferenças para melhorar as escolas. (p. xi). Nas salas de aula da escola inclusiva todas as crianças enriquecem-se por terem oportunidades de aprender umas com as outras. Além de desenvolverem-se para cuidar de seus pares, acabam conquistando atitudes, habilidades e valores necessários para as comunidades apoiarem a inclusão de todo os cidadãos. Os alunos aprendem a ser sensíveis, a compreender, a respeitar e a crescer – e, o mais importante, confortavelmente, sem chiliques como muitos adultos costumam ter - com as diferenças e as semelhanças individuais entre crianças e jovens . Serão as crianças da escola inclusiva que arrancarão desta terra, para sempre, a erva- daninha do preconceito, acabando com o controle de qualidade da raça humana, que implica em beleza e juventude em plena era da globalização...
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    64 Segundo Stainback e Stainback (1999) várias pesquisas tem demonstrado que os alunos, com e sem deficiência, têm tido ganhos de habilidades acadêmicas e sociais, habilidades de vida diária e de comunicação na escola inclusiva. E mesmo aos alunos com profundos déficits cognitivos essa escola oferece oportunidades de adquirir habilidades sociais, enquanto aos que possuem deficiências menos severas, os estudos demonstram que quanto mais tempo passarem em ambientes inclusivos, melhor será seu desempenho nos âmbitos educacional, social e ocupacional. Eles aprendem como atuar e interagir com seus pares no mundo real, assim como seus pares e os professores aprendem a interagir com eles. Os professores da escola inclusiva ao adquirirem novas habilidades para trabalhar com alunos acadêmica e socialmente deficientes, terão oportunidade de desenvolver-se profissionalmente, num clima de coleguismo, apoio e colaboração de todos os professores, de sua e de outras escolas, pois é assim que funciona a inclusão. O trabalho em equipe é peça chave, nessa modalidade de educação, afirmam os autores, que consideram vantajoso para os educadores da educação inclusiva tomarem conhecimento dos progressos na educação, conseguirem antecipar as mudanças e participarem do planejamento da vida escolar diária. Da mesma forma a sociedade se beneficia, como eles comentam: ... a razão mais importante para o ensino inclusivo é o valor social da igualdade. [...] devido ao fato de as nossas sociedades estarem numa fase crítica de evolução, do âmbito industrial para o informacional e do âmbito nacional para o internacional, é importante evitarmos os erros do passado. Precisamos de escolas que promovam aceitação social ampla, paz e cooperação. Stainback e Stainback(1999, p. 27). Para os que dizem que a escola inclusiva é uma utopia pessoas que se negam até mesmo a debater o assunto, os mesmos autores tem uma resposta: ...a possibilidade de educar todos os alunos, incluindo aqueles com deficiências importantes, nas escolas e nas turmas regulares [ já é realidade! ]. Agora, isso está sendo feito com sucesso em um número pequeno, porém crescente, de escolas na Austrália, no Canadá, na
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    65 Itália,nos Estados Unidos e em outros países. Stainback e Stainback (1999, p. 30). A inclusão é um novo paradigma que ultrapassa a área educacional, que modifica pensamentos e ações no sentido de incluir todas as pessoas em uma sociedade na qual a diversidade passa a ser a regra e não a exceção. Um novo paradigma que, mais do que ser assumido, precisa ser cantado em prosa e versos. Nas palavras de John e Connie O’ Brien: A arte de facilitar a adesão à inclusão envolve o trabalho criativo com este estado de elevação da consciência, redirecionando a energia estreitamente relacionada ao medo para a resolução de problemas que promova a reconsideração dos limites, dos relacionamentos, das estruturas e dos benefícios. John e Connie O’Brien, in Stainbeck e Stainback (1999, p. 48). Para a inclusão ter sucesso, as escolas precisam formar e se constituir em comunidades conscientes. Uma comunidade se forma e se une em torno de valores e ideais compartilhados,cujo vínculo deve ser mais forte e mais importante do que os próprios alunos, os professores, os funcionários e os pais. Valores que conduzam todo o grupo a níveis mais elevados de auto-conhecimento, de compromisso e de desempenho, para além do alcance dos fracassos e das dificuldades enfrentadas no dia a dia de todos. “A comunidade pode ajudar os professores e os alunos a serem transformados de uma coleção de ‘eus’ em um ‘nós’ coletivo, proporcionando-lhes, assim, um sentido singular de identidade, de pertencer ao grupo e à comunidade”, conforme Sergiovanni (1994), citado por O’Brien e O’Brien, in Stainback e Satainback (1999, p. 51). O’Brien e O’ Brien, in Stainback e Satainback (1999) consideram que a construção da comunidade inclusiva vincula o ensino à educação, porque afasta a criança - e os adultos envolvidos nela - das suas antigas rotinas confortáveis, arrancando-os para o desafio e o prazer de extrair as ações da experiência humana no enfrentamento da vida. “A educação acontece no contato com os outros, e as potencialidades e as falibilidades das pessoas moldam, a extensão e a textura do crescimento de cada um de nós.” (p.65).
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    66 Os autores argumentam, no mesmo artigo, que os alunos com deficiência importantes e seus pais podem ser impulsionadores da criatividade de uma comunidade escolar. A busca do caminho e do enfrentamento das dificuldades que surgem, no dia a dia, constituem a própria força para renovar o sentido dessa comunidade, quando estiver sendo ameaçada. Para tanto, torna-se necessário a renegociação dos limites, dos relacionamentos e das estruturas familiares, afirmam. Schaffner e Busswell in Stainback e Satainback (1999) ratificam a idéia da criação de comunidades de ensino inclusivo eficazes na transformação da sociedade. Segundo eles, o desenvolvimento de uma comunidade de ensino inclusivo, para tornar-se acolhedora, necessita de uma cultura escolar penetrante, baseada nos princípios de igualdade, da justiça, da imparcialidade e do respeito à dignidade de todos os seus membros. Eles acreditam que o caminho para o surgimento de uma sociedade humanista, onde um grupo cada vez mais diversificado se inter-relacione visando o bem comum, passa necessariamente pela escola. Uma escola em que suas próprias estruturas, práticas de ensino e currículos reflitam e dêem o exemplo do cultivo de valores elevados, para ser eficaz na moldagem destes mesmos valores. Nas suas palavras: As escolas são microcosmos da sociedade; elas espelham aspectos, valores, prioridades e práticas culturais tanto positivas quanto negativas que existem fora de seus muros. São também áreas de treinamento em que os membros mais jovens da sociedade desenvolvem atitudes, interesses e habilidades que serão usados durante toda a vida. Por isso, as escolas devem assumir a responsabilidade de melhorar as condições sociais negativas. (p.72). Schaffner e Buswell concluem o artigo, defendendo que os adeptos da inclusão devem unir-se no reconhecimento de que as escolas que implementam práticas educacionais sólidas são boas para todos os alunos e que o fator mais importante é ter a coragem para fazer o que é certo, apesar das barreiras e dos desafios que surgem, como também acreditam Noddings (1995) e a autora deste trabalho:
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    67 Nossa sociedade não precisa ingressar suas crianças no mundo da matemática e da ciência. Ela precisa cuidar de suas crianças – para reduzir a violência, para respeitar o trabalho honesto de qualquer tipo, para recompensar a excelência em qualquer plano, para garantir um lugar para cada criança e cada adulto emergente no mundo econômico e social, para produzir pessoas que possam cuidar de maneira competente de suas próprias famílias e contribuir eficazmente para suas comunidades. Em direta oposição à ênfase atual nos padrões acadêmicos ... declaro que nosso principal objetivo educacional deveria ser o de encorajar o desenvolvimento de pessoas competentes, protetoras, amorosas e dignas de serem amadas. Noddings (1995) in Stainback e Stainback (1999, p. 84). Numa comunidade inclusiva as pessoas são interdependentes, seus membros possuem funções e papéis a serem desempenhados e é isso que fortalece os laços e a própria comunidade.Os dons e os talentos de cada um, incluindo aqueles dos alunos tradicionalmente definidos como portadores de NEE ou comportamentos destrutivos, são reconhecidos, encorajados e utilizados na maior extensão possível. Além de todos terem suas responsabilidades devem apoiar aos outros. Como referem Stainback e Stainback (1999): Cada indivíduo é um membro importante e digno da comunidade e contribui para ao grupo. Esse envolvimento ajuda a estimular a auto- estima, o orgulho pelas realizações, o respeito mútuo e uma sensação de estar entre os membros da comunidade, Uma comunidade como tal não pode existir se alguns alunos estão sempre recebendo – e nunca prestando apoio. (p.225) Quanto aos currículos da escola inclusiva, Stainback e Stainback (1999) argumentam que embora os objetivos educacionais básicos para todos os alunos possam continuar sendo os mesmos, os específicos da aprendizagem curricular podem ser individualizados para se adequarem às necessidades, habilidades, interesses e competências singulares de cada aluno. Alertam para o fato de que objetivos separados ou diferentes para um ou vários alunos pode conduzir a seu isolamento ou segregação dentro da classe, criar atividades, que abranjam as diferentes capacidades dos alunos e que, ao mesmo tempo, mantenham um
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    68 contexto de grupocom os membros da turma lidando com objetivos diferentes em momentos diferentes, pode ajudar a superar esse problema potencial. As dificuldades que muitos professores encontram para organizar e adaptar um currículo de educação geral que satisfaça às necessidades de todos os alunos podem - e devem, segundo Stainback e Stainback (1999), ser resolvidas, através de reuniões para pensar e apresentar sugestões para o trabalho com uma determinada criança. As reuniões devem acontecer com a equipe de professores, pais, alunos da classe, diretores, terapeutas ocupacional e fisioterapeuta, especialistas em comunicação, psicólogo, educadores, etc. Embora pareça estranho, a primeira vista, que alunos participem de reuniões decisórias com profissionais, na realidade, “o envolvimento dos alunos em sua próprias experiências de aprendizagem e no planejamento e na implementação de aprendizagem intencionais e significativas para seus colegas é considerado fundamental para as turmas inclusivas.” (p.245) Os alunos podem, além de propor atividades, reunir, organizar e implementar qualquer ajuda que um colega precise. Numa observação que os autores fizeram de um Círculo de Amigos, que nos fins de semana reunia materiais e organizava atividades curriculares de sala de aula para um colega, e também para ajudar o professor da turma a implementar a atividade, o faziam sem prejuízo do seus próprios objetivos educacionais. Inclusive tais alunos deram-se conta de que ajudar alguém na sua aprendizagem era uma valiosa experiência de aprendizagem para si mesmos. Não viam nisso um desvio de atenção dos seus estudos e nem perda de tempo. “ Na verdade, muitos relataram que, pela primeira vez, tiveram uma razão real para aprender totalmente a matéria que estavam estudando na aula e,como resultado,conseguiram notas melhores. Um dos alunos disse: ‘eu descobri que quando a gente ajuda outra pessoa, em geral acaba ajudando é a gente mesmo.’ ” Stainback e Stainback (1999, p. 246). Romeu Sassaki (1998) traz algumas contribuições bastante significativas a respeito de atitudes fundamentais para uma educação inclusiva. Todo educador comprometido com a filosofia da inclusão deve, além de acreditar que todos os
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    69 educandos conseguem desenvolverhabilidades básicas:a) interessar-se mais por aquilo que o aluno deseja aprender do que nos rótulos que lhe atribuem;respeitar o potencial de cada aprendiz, aceitando todos de forma igual; b)adotar uma abordagem que propicie ajuda na solução de problemas e dificuldades; c)estimular os educandos a direcionarem seu aprendizado de modo a aumentar sua autoconfiança a participar mais plenamente na sociedade, a usar mais o seu poder pessoal e a desafiar a sociedade para a mudança; d)acreditar nos educandos e em sua capacidade de aprender; querer primeiro conhecer seus alunos, para aumentar a sua autoconfiança; crer que as metas podem ser estabelecidas e que, para atingi- las, pequenos passos podem ser úteis; defender o princípio de que todas as pessoas devem ser incluídas em escolas comuns da comunidade;e) saber – e acrescente-se exigir – que a escola precisa prover suportes (acessibilidade arquitetônica, atendente pessoais, profissionais de ajuda, horários flexíveis (etc.), a fim de incluir todos os alunos; f) estar preparado para indicar recursos adequados a cada necessidade dos alunos, tais como livros, entidades, aparelhos; g)saber que a aprendizagem deve estar baseada nas metas do aluno e que cada aluno será capaz de escolher métodos e materiais para aprender as lições; h) ter conhecimento de que nos programas de alfabetização: as histórias, as redações, os temas de estudo precisam ter relação com as vivências do grupo de alunos e com assuntos que eles conheçam; possibilitar a alfabetização assistida por computador; possuir material disponível no cotidiano do público; deve-se proceder leitura pareada, usando livros convencionais e livros falados; fazer debates após atividades extras-classes; elaborar coleção de histórias de vida dos próprios alunos; deve-se fazer uso do quadro-verde para escrever textos em grupo; utilizar colagem com recortes de revistas, entre outros; Sassaki (1998) recomenda a adoção da abordagem centrada–no-aluno , com a finalidade de ajudar os estudantes a desenvolverem habilidades para o uso de poder pessoal no processo de mudança na sociedade.Todos esses pressupostos apontados pelo autor, estão muito longe da realidade das escolas e do ensino
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    70 brasileiro. Mas são,sem dúvidas, muito úteis ao atual momento de reforma educacional. Poderão sofrer adaptações para o sistema educacional brasileiro que vem lentamente, e com muita dificuldade, implantando a inclusão. Servem no mínimo como fonte de pesquisa, subsídios para espelhamento, para que se planeje, do Iapoque ao Chuí a Escola inclusiva. Na mesma obra, Sassaki (1998), afirma que o envolvimento das famílias nas práticas inclusivas da escola só de efetiva realmente se: existe, entre a escola e a família, um sistema de comunicação (caderneta,via telefone,etc.) com o qual ambas as partes concordam; os pais participam ativamente das reuniões da equipe escolar, para planejarem e adaptarem o currículo e compartilhar os sucessos alcançados; as prioridades da família são utilizadas como uma base para o preenchimento do Plano Individualizado de Educação (PIE) do seu filho, onde serão acrescentados o conteúdo curricular; os pais recebem todas as informações ( os direitos dos pais, práticas educativas atuais, planejamento centrado-na-pessoa, notícias da escola, etc.); os pais recebem ou têm acesso a treinamento relevante, sendo incluídos no treinamento com a equipe escolar; os pais recebem informações sobre os serviços de apoio à família; existem à disposição de membros das famílias serviços de apoio na própria escola (acompanhamento e grupos de apoio, informações sobre deficiências, etc.); os pais são estimulados a participarem de todos os aspectos operacionais da escola (voluntários para salas de aula, membros do Conselho da Escola, membros dos CPMs, treinadores, etc.); existem recursos para as NE de família (reuniões após o horário comercial, intérpretes da língua de sinais, material traduzidos, etc.); e a escola respeita a cultura e a etnicidade das famílias e reconhece o impacto desses aspectos sobre as práticas educativas. Passando-se os olhos por estas recomendações, percebe-se claramente que o Sistema Educacional Brasileiro necessita arregimentar-se em termos materiais, técnicos, arquitetônicos, de habilitação, capacitação e atualização de pessoal e serviços a serem, colocados à disposição das escolas para que a inclusão possa acontecer realmente e não fique apenas nas leis. Enquanto isso assiste-se, diariamente, nos MCM denúncias de que algumas escolas regulares negam-se a matricular deficientes, mas, as matérias mostram somente as leis que deixam de ser
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    71 cumpridas e aconselhamaos pais a entrarem na justiça para exigir seus direitos, a coisa vai muito mal... Se esses mesmos MCM fizessem reportagens imparciais e mais consistentes, explicando o que é necessário para que uma escola seja realmente considerada inclusiva e ajudassem aos professores, diretores, funcionários, pais e aos próprios alunos - e a sociedade como um todo - a cobrar dos governos, em todos os seus níveis, as condições, mínimas que fossem, de execução da prática inclusiva, a coisa andaria mais rápido, por certo. Se esses MCM não ficassem apenas julgando, a título de denúncia, mas mostrando a triste realidade das escolas, estas deixariam de ser bodes expiatórios .... Sassuki (1998) reúne ainda onze características essenciais para que uma escola seja considerada inclusiva. São elas: Um senso de pertencer : demonstrado pela filosofia, pela visão da escola de que todas as crianças pertencem efetivamente à escola e a comunidade e que nela todos podem aprender juntos. Liderança: o diretor não fica preso no gabinete, em meio a burocracia, mas envolve-se ativamente com toda a escola no provimento de estratégias. Padrão de Excelência: os altos resultados educacionais refletem as necessidades individuais dos alunos. Colaboração e cooperação: os alunos envolvem-se em estratégias de apoio mútuo (ensino de iguais, sistema de companheiro, aprendizado cooperativo, ensino em equipe, co-ensino, equipe de assistência aluno-professor, etc.). Novos papéis e responsabilidades: os professores falam menos e assessoram mais, psicólogos atuam mais junto aos professores nas salas de aula, todo o pessoal da escola faz parte do processo de aprendizagem. Parceria com os pais: os pais são parceiros igualmente essenciais na educação de seus filhos. Acessibilidade: todos os ambientes físicos são tornados acessíveis e quando necessário, é oferecido tecnologia assistiva. Ambientes flexíveis de aprendizagem: espera-se que os alunos se promovam de acordo como estilo e ritmo individual de aprendizagem e não de uma única maneira para todos.
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    72 Estratégias em pesquisas: aprendizado cooperativo, adaptação curricular, ensino de iguais, instrução direta, ensino recíproco, treinamento em habilidades sociais, instrução assistida por computador, treinamento em habilidades de estudar,etc. Novas formas de avaliação escolar: dependendo cada vez menos de testes padronizados, a escola usa novas formas para avaliar o progresso de cada aluno, rumo aos respectivos objetivos. Desenvolvimento profissional continuado: aos professores são oferecidos cursos de aperfeiçoamento contínuo,visando a melhoria de seu conhecimento e habilidades para melhor educar seus alunos. Infelizmente pobreza e mau-aproveitamento na escola são diretamente proporcionais. A maioria das crianças que são menos capazes academicamente são também aquelas que vivem nas áreas em desvantagens sociais e econômicas.As escolas homogeneizadoras, que foram criadas para alguns e não para todos os alunos incondicionalmente, ainda que se intitulem centros de excelência, estão com seus dias contados, felizmente. Como refere Mantoan, no prefácio de Mittler (2003): O que se espera da escola é que seus planos sejam definidos por uma educação para a cidadania global, livre de preconceitos, a qual se dispõe a reconhecer e a valorizar as diferenças, a incompletude, e singularidades dos seres humanos, idéias essenciais para se entender a inclusão.Esses planos requerem o desenvolvimento do espírito de solidariedade,fraternidade, cooperação e coletividade, sendo contrário ao que é regulado pelas escolas ditas “de excelência.” Mantoan in Mittler (2003, p. x). O que acontece nas escolas no mundo todo é reflexo de cada sociedade onde elas funcionam. Valores, crenças,tabus, preconceitos e as prioridades da sociedade, transpõem os portões da escola indo se instalar nos seus sistemas educacionais. E no Brasil,onde uma cifra escandalosa de crianças está fora da escola porque nunca a freqüentou – pelos mais torpes motivos que este trabalho vem detalhando – e que deveria envergonhar qualquer governo em todos os seus níveis – ou porque dela se
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    73 evadiu, por motivosque deveriam fazer corar muitos professores, a coisa não é diferentes. Parafraseando Mittler pergunta-se: será que o mundo – e em especial o Brasil – pode pagar o preço de não educar suas crianças? Respondendo não e argumentando com Bennelt (1999), citado por Mittler, na obra referida, considera-se que: A primeira infância deve ser concebida não como apenas um período em que as crianças necessitam individualmente de certas condições no âmbito da saúde, da educação e do bem-estar, mas como um período protegido que deve receber o melhor que a sociedade é capaz de oferecer. Este é um período especial, em que as crianças precisam experenciar felicidade e bem-estar, em que elas podem desenvolver-se autonomamente, mas em relação às necessidades e aos direitos das outras crianças e dos adultos; em que lhes é permitido ter suas experiências educacionais, culturais e sociais no seu próprio passo, na sociedade em que vivem. Bennelt apud Mittler (2003, p.57 ). Ratificando a idéia da importância da boa educação para todas as crianças deste planeta, desde a mais tenra infância, com a licença poética da poeta chilena Gabrielle Mistral , com seus versos comoventes: Nós somos culpados de muitos erros e de muitas faltas, Mas nosso maior crime é abandonar as crianças, Negligenciando a fonte da vida. Muitas coisas de que nós precisamos podem esperar: A criança não pode. Exatamente agora é o tempo em que os seus ossos estão sendo formados, Seu sangue está sendo feito e seus sentidos estão sendo desenvolvidos. Para elas,não podemos responder “amanhã”. Seu nome é Hoje. Gabrielle Mistral, in Mittler (2003, p.40 ). Mittler (2003) acredita, e a autora deste trabalho concorda plenamente, que: Salamanca foi significativa porque esclareceu a filosofia e a prática da inclusão e resultou em um compromisso da maioria dos governos para
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    74 trabalhar pela educaçãoinclusiva. Salamanca foi importante porque ofereceu um fórum para discussão e trocas de idéias e de experiências sobre como o desafio estava sendo enfrentado em várias partes do mundo. Salamanca foi bem sucedida em lembrar aos governos que as crianças portadoras de deficiência devem ser incluídas na agenda da educação para todos e oferecer um fórum para discussão e trocas de idéias e de experiências sobre como o desafio estava sendo enfrentado em várias partes do mundo. Salamanca teve envergadura porque cerca de 125 milhões de crianças nunca freqüentaram a escola e 150 milhões iniciaram o processo de escolarização, mas a abandonaram antes que pudessem ler e escrever, sendo dois terços delas meninas. Isso considerando-se somente as crianças entre 6 e 7 anos, na Europa e na América do Norte. Salamanca precisava existir porque em 16 países na África, responsáveis por mais da metade das crianças do continente africano, os índices de matrículas nas escolas de crianças entre 6 e 11 anos caíram. Consideram-se que essa região é responsável por um terço de crianças do mundo que estão fora da escola e que a tendência indica que em 2015 aumentará para três quartos. Salamanca precisava acontecer porque o maior grupo de crianças às quais estava sendo negado o direito à educação é constituído por aquelas com dificuldades de aprendizagem e com deficiências. São as crianças que vivem nas ruas ou que são obrigadas a trabalhar, em condições, muitas vezes, estarrecedoras. São crianças que são vítimas das guerras, são crianças doentes, são crianças vítimas de abusos. Mais as que vivem em comunidades longínquas e nômades. São crianças portadoras de deficiência ou com altas habilidades. São crianças de outros grupos sociais em desvantagens e grupos sociais marginalizados. Salamanca foi esclarecedora porque a pobreza não é a única explicação para esse infanticídio intelectual. Alguns países pobres, de fato, investem em educação, como é o caso de Cuba, Sri Lanka, Vietnã, China, Indonésia, Zimbaue. O governo de Uganda está implementando uma política de que quatro crianças em cada família terão acesso à educação fundamental
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    75 gratuita, ao mesmo temo em que crianças portadoras de deficiência tem preferência nessa modalidade. Isso fez com que as escolas de Uganda, nos dois últimos anos [2001 – 2002] duplicassem o número de estudantes. O processo de exclusão educacional começa quando as crianças não entendem o que um professor está dizendo ou o que se espera que elas façam. E isso é comum, mesmo quando elas estão atentas e ansiosas para aprenderem. Sempre haverá algumas delas para quem a matéria ou a tarefa parece muito complicada, até mesmo quando os professores a explicam de forma diferente e a tornam mais simples. Nesse clima, não é raro que crianças que passam por tais dificuldades decidem que a falha se encontra nelas e não na escola, no currículo ou no professor que não está planejando as suas aulas de forma acessível a todas as crianças da classe. Conforme Mittler (2003) a fórmula para romper este círculo vicioso é tentar-se prevenir a dificuldade de aprendizagem. Antes mesmo que elas surjam, o professor deve planejar um currículo acessível em um ensino planejado de tal forma que fique assegurado um modo de garantir uma aprendizagem efetiva, caso contrário: As crianças que se sentem educacionalmente excluídas têm maior probabilidade de se sentirem socialmente isoladas. Elas podem experimentar ainda não apenas a perda de confiança em si próprias como estudantes, mas também como indivíduos. Isso pode ser disfarçado pelo comportamento provocativo, o que, por sua vez, pode ativar medidas punitivas da escola ou dos colegas - esse fato pode isolar ainda mais o aluno, talvez até o ponto de ser excluído. Mittler (2003, p. 140). O autor defende um currículo escolar acessível que proporcione para todos os alunos, sem exceção, oportunidades de participar totalmente das atividades e para experenciar o sucesso, sendo um fundamento essencial da inclusão. Da mesma forma cobra que todos as escolas e as comunidades tenham sistemas de apoio mais qualificados para aqueles alunos que experimentam algum tipo de dificuldade em qualquer momento de sua escolarização. Alerta que muitos dos obstáculos
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    76 encontrados por estesalunos, com as ditas dificuldades de aprendizagem, muitas vezes originadas da natureza elitista tradicional dos sistemas de ensino, que possibilitam sucesso para alguns, enquanto exclui muitos outros. Esses legados estão bastante arraigados em nossas escolas e na sociedade.[...] muitas crianças não foram atingidas pelo que as escolas têm a oferecer.. As aulas podem ser ministradas em um nível muito alto, as crianças não podem entender o que é requerido delas e o idioma de instrução pode criar obstáculos adicionais para a compreensão e para a participação. Outro obstáculo principal à inclusão, assenta-se na prática de exames, na avaliação e na classificação de crianças, prática esta que herdam de gerações anteriores e que tem sido tradicionalmente usada para separar umas crianças de outras. Não podemos esperar atingir um currículo mais inclusivo ou escolas mais inclusivas a menos que também empreendamos uma revisão fundamental do sistema de avaliação e seu impacto na vida das crianças e de sua família. Mittler (2003, pp. 158 – 159). Ninguém pode ser excluído de ser capacitado para a inclusão, defende Mittler (2003) que diz que todos têm algo a aprender sobre ela. Durante a sua jornada, o autor aposta que os professores vão construir e ampliar suas habilidades, encima das experiências que já possuem, com a finalidade de atender as necessidades de aprendizagem de todas as crianças. Além de criarem oportunidades para a sua própria capacitação, eles precisam de oportunidades para refletirem sobre as propostas de mudança que mexem com seus valores e com suas convicções e ainda com as mudanças em sua prática profissional cotidiana.Por isso, quaisquer dúvidas ou reservas que apresentem neste momento de implantação da inclusão, não devem ser consideradas reacionárias ou anuladas, pois o momento é de mudança e isso perturba as pessoas. Mas é otimista dizendo que a maioria dos professores já possuem muito do conhecimento, habilidades e competência requeridas para a educação inclusiva, o que lhes falta é confiança em seus atributos Mas mesmo assim, assegurar aos profissionais recentemente qualificados uma compreensão básica do ensino inclusivo e de escolas inclusivas é o melhor investimento que pode ser feito a longo prazo, pois sobre estes alicerces se asseguram uma boa prática, que espera-se as novas gerações venham a ter.
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    77 Quando se fala que numa escola inclusiva contar com a parceria dos pais é algo imprescindível, não se está falando somente dos pais de crianças deficientes, mas dos pais de toda e qualquer criança, refere o autor. As relações entre a família e a escola precisam ser repensadas, precisa-se inventar novos modos de trazer-se os pais e os professores para um relação de trabalho,o que não é só válido para a causa da inclusão, mas beneficia a todas as crianças, os pais e os professores, assegura Mittler(2003). Além de uma relação mais estreita e saudável, essa nova maneira de se relacionar pode provocar um impacto sobre a aprendizagem das crianças e promover a inclusão social, assim como a inclusão escolar, sobretudo dos excluídos. Nas suas palavras: Apesar de todas as belas palavras acerca do trabalho como os pais, ainda há uma cortina aveludada entre o lar e a escola. Os professores e os pais podem ser amigáveis, úteis, corteses mutuamente, mas há uma tensão subjacente inevitável que surge a partir do desequilíbrio de poder entre eles. Muitos pais sentem-se apreensivos e ansiosos quanto a irem às escolas, porque carregam consigo suas próprias histórias de experiências como os professores e com a escolarização. Mittler (2003, p. 206). Apesar das escolas terem mudado, a maioria dos pais tem pouca experiência sobre essas mudanças, estima o autor, que diz que a expressão “vínculos com a comunidade” são freqüentemente pensados em termos de parcerias econômicas, em vez de serem pensados em termos de parcerias com os pais. Além disto, alerta que, necessariamente, a ausência dos pais nas reuniões não são sinônimo de desinteresse pela educação de suas crianças. São juízos mal formulados a esse respeito, já que os cursos universitários não tocam nesse assunto. A maioria dos professores não tiveram oportunidades para freqüentar capacitações sobre as necessidades de pais e famílias e como eles poderiam trabalhar juntos. Quantos tiveram a oportunidade para escutar os pais que falam sobre as suas necessidades e percepções, pergunta-se o autor. Algum curso ou disciplina referente a educação infantil talvez tenha tocado por cima no assunto... Mittler(2003) cita diversos indicadores da publicação EARLY LEARNING
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    78 GOALS (QCA eDfEE, 1999),que parecem relevantes e úteis para tornar os pais parceiros da Escola e dos professores, que servem para qualquer faixa etária, dos quais seguem abaixo alguns discriminados : Pais e mães são os primeiros, os principais e os mais duradouros educadores de suas crianças. Quando pais e profissionais trabalham juntos durante a infância, os resultados têm um impacto positivo no desenvolvimento da criança e na sua aprendizagem. Então, cada etapa do desenvolvimento deve buscar uma parceria efetiva com o os pais. Uma parceria bem sucedida precisa de um fluxo de informação, de conhecimento e de perícia de duas direções. Há muitos modos de alcançar a parceria, mas as que se seguem são característica comuns de uma prática efetiva: todos os pais devem sentir-se bem-vindos, estimados e úteis de uma gama de oportunidades diferentes para colaboração entre as crianças,os professores e os profissionais nas escolas; o conhecimento e as especializações dos pais e de outros adultos na família são usados para apoiar as oportunidades de aprendizagem oferecidas pelo contexto; os professores e os profissionais nas escolas usam uma variedade de meios para manter os pais completamente informados sobre o currículo, como panfletos, exibições, vídeos que estão disponíveis em línguas usadas nos lares da família e discussão informal; os pais, os professores e os profissionais nas escolas falam e registram informações sobre o progresso e as aquisições da criança, por exemplo, fazendo reuniões ou elaborando um livro sobre a criança; as atividades de aprendizagem relevantes e as atividades de jogo, como compartilhar e ler livros, são continuadas em casa. Da mesma forma, experiências em casa são usadas para desenvolver a aprendizagem no contexto , por exemplo, visitas e celebrações. Os professores da área demonstram respeito e compreensão acerca do papel do pai e da mãe na educação da sua criança; A parte passada e futura desempenhada pelos pais na educação de suas crianças é reconhecida e é explicitamente encorajada; Os esquemas de adaptação são flexíveis e dão bastante tempo às crianças para que se sintam seguras e aos profissionais da área e aos pais para que discutam as circunstâncias de cada criança, os interesses, as competências e as necessidades dela. Mittler (2003 pp. 210 – 211).
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    79 Muitos professores não acreditam na parceria escola x pais, especialmente entre os mais pobres, os com menos escolarização e os analfabetos. Pesquisas, no entanto, comprovam que pais inseridos nestas características estão igualmente interessados em ajudar às suas crianças, como quaisquer outras famílias. Como afirma Mittler (2003): “eles cooperam prontamente e consistentemente, uma vez que sejam convencidos de que a escola ou um projeto particular estão comprometidos com o apoio às suas crianças para eles aprenderem genuinamente e por meio da educação, escapar da pobreza para uma vida melhor.” (p. 211). O autor explica que uma verdadeira parceria, como em qualquer relação próxima, implica em respeito mútuo, em vontade para aprender um como o outro, uma finalidade comum, que no caso são as crianças. Um compartilhamento de informações e de sentimentos, uma confiança mútua podem quebrar barreiras até então existentes, visando o crescimento do aprendiz. Muitos pais não se sentem bem-vindos na escola, muitas vezes sentem-se ignorados ou humilhados. Há esperança. Nas palavras do autor: Nenhuma escola é uma ilha e nenhuma escola pode ter sucesso sem desenvolver redes de parcerias com sua comunidade local, com pais de alunos passados, presentes e futuros, com outras escolas e outras agências. Em países em desenvolvimento e em algumas comunidades rurais, a escola está no coração da comunidade. Os adultos aprendem ao lado de e com as suas crianças ;os edifícios escolares estão em uso contínuo; o pessoal da escola é estimado pelo seu conhecimento e pela sua experiência, assim como pelo seu papel-chave na ajuda das crianças da comunidade a aprender e a se desenvolver. Mittler (2003, pp.237 – 238).
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    80 A escola ideal deveria estar intimamente ligada à cidade e não rejeitada para fora das comunicações habituais do povo. Ligada, mas à parte. Da mesma forma que os hipermercados estão ligados e à parte. Ainda é concebível que não se reserve para a escola um lugar de para muito verde, árvores e água? O cimento segrega e é frio. As árvores e a água hoje são as raízes indispensáveis para quem vive com o tempo parcelado e à velocidade da eletricidade. Pierre Babin e Marie-France Kouloumdjian(1989, p.150). ce
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    81 1. 3 Umaescola regular de especial qualidade para todos ou a escola cidadã que sonhamos construir. Carvalho (2003) ao pensar a escola ideal, a escola inclusiva, refere que a grande massa brasileira de excluídos, da escola tradicional e da própria sociedade – tais quais os meninos e meninas de rua, as crianças e adolescentes que trabalham, os doentes crônicos de todas as idades, os encarcerados, os analfabetos, as populações do campo e as nômades, os pobres ou miseráveis, as prostitutas, às vezes de tenra idade e outros que – quando são lembrados, o são através de medidas de cunho protecionistas e não emancipatório, por representarem “risco” à sociedade. Medidas essas que acabam funcionando como mecanismos estigmatizantes, geradores de segregação. Num país onde 10% dos mais ricos concentram cerca de 45% da renda nacional, e onde 10% dos mais pobres, não chegam a concentrar 1% desta renda, segundo dados do IBGE de 1997, citados por Carvalho (2003), os excluídos do acesso e usufruto dos bens e serviços historicamente acumulados são numerosos. Esta exclusão tem gerado efeitos danosos, alguns irrecuperáveis, nessa população que deveria estar na escola. A perda da auto-estima e da identidade, por exemplo, os sentimentos de menos-valia, que intensificam os comportamentos de apatia acomodação ou, ao contrário, reações violentas de revoltas são costumeiros. Como afirma Caraggio (1996): [...] a mesma sociedade que cria e mantém mecanismos de exclusão,
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    82 desenvolve políticas assistencialistas que, por seu caráter instrumental, não resolvem a natureza reprodutiva dos problemas cujos efeitos pretendem compensar, cristalizando-se portanto, os padrões de exclusão e de segregação. Caraggio (1996, apud CARVALHO, 2003, p. 89). Nesse cenário desolador, são óbvios os reflexos dessas condições no sistema educacional. A escolha do tipo de educação para os filhos – quando esses estudam, diga-se de passagem – se pública ou privada (essa via de regra sempre melhor organizada), tanto para os deficientes, quanto para os ditos normais, não passa de uma balela. Nem todos os municípios dispõem de atendimento educacional para alunos com deficiências e, quando possuem, não há ofertas equitativas para todas as manifestações de deficiência – mental, física, sensorial ou múltiplas e para condutas típicas de síndromes psiquiátricas, neurológicas ou quadros psicológicos graves. As sociedade civil organizada em Órgãos Não-Governamentais, ONGs, geralmente são especializadas num tipo específico de deficiência e onde as crianças mais pobres não encontram “vagas”. Por isso, afirmar que apenas os deficientes estão excluídos das oportunidades de se apropriarem do saber e do saber fazer nas escolas brasileiras, trata-se de um enorme equívoco. As conferências mundiais de Jontien, 1990, na Tailândia e de Salamanca, 1994, na Espanha, são bem claras. Alertam para a propriedade que as políticas educacionais devem conferir aos grupos mais desfavorecidos e vulnerabilizados pelas condições de pobreza, aos analfabetos maiores de 15 anos, às populações rurais, às minorias étnicas, religiosas e de migrantes, aos menores de 6 anos, aos alunos com dificuldades de aprendizagem e aos portadores de deficiência. Faz-se necessário que esse mal entendido sobre os sujeitos da inclusão – ou seja , os excluídos de todos os gêneros e latitudes – se desvaneça. Como esclarece Carvalho (2003): Podem ser identificados duas situações de exclusão: 1) a criança
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    83 nunca esteve na escola e 2) a criança já freqüentou a escola e se evadiu. No primeiro caso, a falta de acesso a, e ingresso na escola pode-se explicar por: má distribuição geográfica de oferta existente; insuficiência de vagas [...] Quanto à evasão, tem causas bem mais difusas, embora normalmente esteja associada ao fracasso escolar. O aluno abandona a escola após repetir a mesma série por vários anos e, se retorna, além da distorção idade/série ,enfrenta como enorme obstáculo seu sentimento de auto-estima negativa... Carvalho (2003, p. 133). Ao discorrer sobre a complexidade do fracasso escolar brasileiro, Carvalho, na obra citada, diz que os alunos “preferencialmente” excluídos do sistema de educação oriundos das camadas desfavorecidas economicamente são os que vivem em bolsões de miséria no Nordeste e na periferia dos centros urbanos, além dos que apresentam distúrbios de aprendizagem, sendo ou não portadores de alguma deficiência. Diante desta situação desastrosa em que se encontra a educação brasileira, Carvalho (2003) sugere que se pense num sistema inclusivo progressivamente mais justo, pressupondo a superação de inúmeras obstáculos, tais como : a extrema pobreza da população de muitas regiões brasileiras; os baixos índices de escolarização, decorrentes de inúmeras causas, como a má qualidade da educação oferecida; a insatisfatória valorização do magistério, envolvendo os baixos salários, as péssimas condições de trabalho, a formação inicial e continuada; os mecanismos de gestão, nos níveis macro e micro; a insuficiente articulação horizontal e vertical entre órgãos do governo e a sociedade civil; a escassez de recursos humanos, materiais e financeiros . Todos os problemas apontados acima são bastante graves, mas, na área pedagógica – que focaliza a temática principal deste trabalho e na qual pretende-se prestar uma colaboração, em nível de formação e atualização de professores, com relação ao incremento do uso do vídeo como ferramenta pedagógica de inclusão – o que mais preocupa nesse momento, é a formação inicial dos professores, que precisa ser repensada, tanto em nível de 2º Grau, como em nível superior, para que se encontre soluções compatíveis com a urgente necessidade de melhorar as respostas educativas das escolas brasileiras. A formação dos educadores deve ser
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    84 rica bastante parapermitir: [...] uma aguda consciência da realidade em que irá atuar, uma fundamentação teórica que permite uma ação coerente, além de uma satisfatória instrumentação técnica que lhe possibilite uma ação eficaz [...] Mazzotta (1993, apud CARVALHO, 2003, p. 163). As grades curriculares dos cursos de formação de magistério tem gerado muitas polêmicas. Carvalho (2003) é da opinião que se eleve a capacidade crítica de todos os professores – já que além de pedagógico, o ato educativo é eminentemente político – para que percebam que a escola como instituição social está inserida em contextos de injustiças e de desigualdades que precisam ser modificadas. Para que estejam instrumentalizados a promoverem a educação com o sentido de formação e não como transmissão de conhecimento apenas. É sabido de todos que a relação entre a habilitação acadêmica e o cotidiano das escolas está dissociada. A carga horária dos estágios também é outro problema, é ínfima, especialmente se comparada a outras formações, como a de psicólogo e de jornalista, por exemplo. As universidades não incentivam a formação do professor- pesquisador, o que seria muito valioso para a educação, como um todo. Como refere Carvalho, na obra citada, a educação inclusiva precisa ter alta qualidade e estar disponível a todos os cidadãos-alunos. Todo professor, como professor de aprendizagem que é, deve ser especialista no aluno, enquanto ser que evolui que constrói conhecimentos, que tem sentimentos e desejos e que traz para a escola sua bagagem de experiências de vida e de informações. Carvalho (2003, p. 168). A educação de quaisquer alunos deve ter como objetivo sua formação como pessoas capazes de pensar e de agir, capazes de exercitar, plenamente, sua cidadania. Isso requer do professor, além de habilidades e criatividade para transmitir um saber crítico, uma enorme curiosidade ligada a interesses acadêmicos. Para Carvalho (2003), isto é condição sine qua non, para que a escola inclusiva dê certo:
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    85 [...] temos uma longa trajetória e boas razões para unir nossos esforços, discutir nossas idéias, buscando alternativas que nos permitam[...] perspectivas mais otimistas em relação às respostas educativas de nossas escolas para todos. Uma escola que permita ajustar o ensino às diferenças individuais e que construa uma cultura de paz. E que a moldura de paz e de temperança esteja presente em todas as nossas ações!” Carvalho (2003, pp. 168 e 172). Quando se fala em escola inclusiva, os professores da escola tradicional, ainda presos às notas, insistem muito em saber como deve se processar a avaliação nessa nova escola. Segundo Carvalho (2003) a avaliação não deve ficar restrita ao costumeiro ato de aprovar ou reprovar o aluno, até porque ela constitui-se num poderoso instrumento de acompanhamento e re-planejamento das ações levadas a efeito no atendimento pedagógico escolar. O processo deve servir para avaliar a tudo o que ocorre na sala de aula, o funcionamento da escola e, até mesmo o sistema educativo. “A participação da família é da maior relevância, principalmente quando se trata da avaliação do aluno com vistas à remoção de barreiras para a sua aprendizagem ou, quando for o caso, para a indicação de ajuda e apoio, na escola ou fora dela. Além do direito de participar do processo decisório, a família tem muito a contribuir com esclarecimentos e informações.” Carvalho (2003, p. 86). Carvalho (2003) diz que embora o Brasil possua uma das leis mais progressistas para a infância e adolescência, ainda está longe de garantir, de fato, os direitos à educação de portadores de deficiência. Além das barreiras arquitetônicas e as dos meios de transportes, que não estão adaptados, há a famigerada barreira atitudinal. E, o que é pior, entre os professores, inclusive! Há os que temem a escola inclusiva, outros que a toleram e muitos que a rejeitam. Os que a temem, dizem que estão despreparados para lidar com dificuldades de aprendizagem, principalmente de deficientes. Muito impregnados, ainda, pelo modelo médico, sugerem as ações de especialistas, supostamente os mais
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    86 indicados, para atenderalunos “com defeitos”. Os que toleram, aceitam a presença do aluno, mais para cumprir ordens superiores, provavelmente, pois deixam-no entregue à própria sorte, como refere Carvalho, mais segregado do que se estivesse nas classes ou em uma escola especial. E há os que rejeitam tais alunos em suas turmas. Dizem não terem sido preparados em suas formações, estão desmotivados com os baixos salários que recebem e, provavelmente, é o medo ancestral da deficiência em si, que os habita, e lhes causa repulsa. E, quem for portador desse receio, realmente não está apto, precisa tratar-se psicologicamente ou abandonar a profissão, afinal, Ana Freud já dizia que os pedagogos precisariam passar por uma análise para trabalharem com seus alunos passando pela relação de transferência própria, segundo Freud, do processo de ensino-aprendizagem,sem problemas... Nas palavras de Carvalho (2003, p.77) : “O atípico incomoda, gera desconforto, na medida em que pouco se sabe a respeito do porquê alguns são ‘mais diferentes’ do que seus pares e, em decorrência, o que fazer com eles em sala de aula? ” Prevalecem, infelizmente, apenas os aspectos negativos - o que falta - que acabam gerando atitudes de rejeição, que terminam por estigmatizar e excluir as crianças ou jovens das escolas. Para Carvalho, esse tipo de barreira não são removidas através de determinações superiores, pois dependem de reestruturações perceptivas e afetivo-emocionais, que interferem nas predisposições de cada um, em relação a alteridade. Parece claro que alguns professores nem “com banda de música” estarão preparados para enfrentar a escola inclusiva. Parece lógico que esses devam procurar outra profissão. Quanto aos futuros professores, acredita-se que ao escolherem a carreira venham, se não preparados, para tal tipo de escola, afeitos à idéia,pelos menos. Além do aprimoramento na formação inicial e continuada dos professores, há a
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    87 necessidade – porparte dos governos, em todos os níveis – de criação de numerosos espaços para o diálogo, seja através de cursos, seminários, palestras, reuniões de educadores, grupos de estudos, nas escolas, nas universidades, etc.- para que dúvidas, medos e a re-significação da prática pedagógica sejam examinados e debatidos com profundidade. Como declara Carvalho (2003, p. 77): “ parece que a apropriação de informações, as trocas de idéias, a verbalização dos sentimentos, sem culpas, constituem ‘caminhos’ para as mudanças de atitudes.”, espera-se, sinceramente, que sim. A Escola ideal, que se quer para os pequenos cidadãos que nela chegam e entre seus muros desabrocham, deve levar em conta a diferença, propriedade inata e característica de cada ser humano. Ela conta muito no trabalho pedagógico e, sob sua luz, o educador pode atuar com probabilidade de maior êxito. Cada aluno é único e como tal deve ser considerado e tratado. A partir da sua individualidade, do seu mundo, com seus problemas e acertos, medos e avanços, sua cultura, com criatividade, conforme Feltrin (2004, p. 17): “dando uma de alfaiate, costurando todas as teorias e mais a última, do aluno em pauta”, a Escola – e cada educador no processo de ensino-aprendizagem, pode chegar a uma tentativa de solução para cada questão a ser abordada, mais ou menos adequada Na opinião de Feltrin (2004), quando a sociedade lança em cima da escola e do professor a culpa de todos os problemas sociais que o educando encontra dentro da escola e na vida lá fora, não se dá conta de que conspiram contra o afazer diário do processo de ensino-aprendizagem, muitos fatores. Entre eles: o sistema; a sociedade excludente, as dificuldades econômicas - enquanto sujeito e enquanto instituição - a falta de recursos e equipamentos didáticos, o desrespeito e a falta de estímulo das autoridades para com a educação, em todos os níveis, os alunos negligentes, desinteressados, arrogantes, a incompreensão de certos diretores – alçados aos cargos , muitas vezes, apenas por uma política partidária, e não por competência – a falta de colaboração da maioria dos pais, entre outros entraves. A escola vai acumulando responsabilidades: ou é a culpada pela crise familiar ou deve resolvê-la. Ou é culpada pela crise econômica ou
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    88 deve resolvê-la. Ou é culpada pela crise política ou deve solucioná-la. A escola é responsável por praticamente tudo! Esse tipo de interpretação desestrutura, desarma, desanima. Gentili (1999, apud FELTRIN, 2004, p. 31). Verdade seja dita, sempre houve sérias dificuldades impostas aos docentes. A dificuldade de formação acadêmica e as poucas chances que o profissional da educação encontra em sua real necessidade de se atualizar. A incompetência dos poderes públicos, aliada a grande diversidade cultural do país, com sua enorme extensão territorial, somadas às dificuldades sócio-econômicas, e ao descaso e a pouca valorização do trabalho do professor e da educação como investimento de formação de um povo, tornam o trabalho do professor bem mais complexo. Diante desses pressupostos, nem sempre – para não dizer quase sempre – é das mais acolhedoras. Quando o trabalho é sério, é sempre intenso e exige a dedicação de profissionais idealistas e sonhadores. Diante dessa realidade, nossa atenção volta-se para o aluno problema, com dificuldades de aprendizagem ou de relacionamento e que, por isso mesmo, é rotulado como “mais diferente que os outros”, incapacitado, indisciplinado, por isso mesmo, é tratado com desigualdade. [...] Incapaz! Diferente! E por isso, desigual e excluído, real ou funcionalmente, do processo educativo! Feltrin (2004, p. 25). Na realidade, a escola assumindo a individualidade do aluno, valorizando as diferenças ou singularidades, pode resolver, diminuir a intensidade ou, ainda, evitar que se acentuem as dificuldades enfrentadas por alunos “comuns”, mas portadores de NEE. Por uma série de presumidas incapacidades os alunos excluídos, não portadores de deficiências, merecem e precisam de atenção dos professores e dos demais profissionais da educação que compõem o quadro da escola, bem como dos pais (seus e dos outros alunos) para auxiliarem na sua inclusão. Isso sem mencionar-se os que nem chegam a escola ou logo dela se evadem, por vários motivos, tais quais as dificuldades de transporte, pouca cultura e vontade dos pais, pela dificuldade de conseguir uma vaga próxima de casa, porque precisam
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    89 trabalhar para ajudarnas despesas de casa e, ainda tantos outros desalentadores motivos ... Feltrin (2004) explica que, no trabalho direto com as crianças e adolescentes carentes, oriundos de meio social desprovido das “leis” e costumes de uma sociedade mais exigente, “civilizada”, destaca-se o “erro” presente em cada passo que dão na escola. E, em meio a esse estado de ânimo, começam a se destacar os mais e os menos favorecidos. As pequenas e as grandes diferenças, se não forem convenientemente trabalhadas na escola, podem se transformar nas pequenas e grandes desigualdades e oportunidades de êxito de aprendizagem cognitiva e social na comunidade escolar. Surgem os primeiros obstáculos a uma convivência social sadia. As escolas precisam ter serviços de atendimento – não segregativos – que permitam aos alunos com NEE sentirem-se verdadeiramente incluídos no grupo, ao verem resolvidas as suas dificuldades – pelo menos as escolares – e sentirem também a alegria de poder contar com o próprio progresso e sucesso. Isso posto, para que não aconteçam fatos semelhantes aos que serão narrados a seguir. Quando se pensa que vão longe os tempos de escrever mil vezes “Não devo conversar em aula”, como castigo, ajoelhar-se em grãos de milho, as humilhações públicas de fazer xixi nas calças porque o aluno não pode ir ao banheiro na hora da aula, as notas baixas por pontos descontados pelo comportamento, ficar de pé, encostado à parede, de costas para o grupo, as expulsões de aula e encaminhamentos para a direção ou o dar a mão à palmatória, ou ao professor para apanhar com ela, melhor dizendo ... Nem tudo foi visto ainda! Em pleno século XXI, num dos países mais promissores do globo terrestre, e onde a educação é considerada de bom nível - inclusive, Inclusiva! - pasmem, nos USA, um ato violento, vil, bárbaro, covarde – felizmente flagrado por uma câmera de vídeo que teve suas imagens cedidas aos MCM de vários países, entre os quais o Brasil – mostra a prisão de uma menina negra de 5 anos, por quatro policiais, saindo da escola algemada, aos gritos, por “mau comportamento” numa escola de
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    90 Educação Infantil... Areportagem explica que maus comportamentos na escola – definidos por uma recente pesquisa norte-americana – são ações tais quais puxar os cabelos de um coleguinha, mordidas, beliscões ... A pesquisa também acenou para o dado que enquanto dois jovens, entre mil, são expulsos do Ensino Médio, nos EUA, a cada ano, nas escolas de Educação Infantil são mais de duzentos a cada mil alunos... O que estará havendo por lá? Espera-se que por aqui não se copie mais este modelo, como muitas coisas são de lá copiadas, inclusive em termos de Educação... Esse fato, sem justificativa, foi veiculado em 18 de maio de 2005. Como esclarece Feltrin (2004): Na vida social, uma pessoa pode ser levada a buscar mil subterfúgios para burlar uma lei que passa longe de regular o funcionamento daquela sociedade. Pois muitas leis não fazem outra coisa se não, tentar cercear os indivíduos por todos os lados ou privilegiar os interesses de minorias. E o adolescente costuma ter um pouco de dificuldade com as leis.[...] Os detentores do poder ou os que se acham com tal autoridade sempre cobram as transgressões à lei, uns com multas em dinheiro, outros com a prisão. Uns com castigos “leves”, outros com a pena de morte. Feltrin (2004, pp. 48 – 49). Os adolescentes podem ser indisciplinados e até terem um certo orgulho em transgredir as leis, o que muitas vezes pode lhes custar bem caro. Não precisa-se ir longe – descrevendo ou destacando qualquer tipo de violência que assola o planeta em todos os níveis, sócio-econômico-cultural, para constatar-se a presença do castigo na vida das crianças e jovens. As Febens estão aí dando prova disso! Argumento explícito em Focault: Não se devia dizer que a alma é uma ilusão, ou um efeito ideológico, mas afirmar que ela existe, que tem uma realidade, que é produzida permanentemente, em torno, na superfície, no interior do corpo, pelo funcionamento de um poder que se exerce sobre os que são punidos de uma maneira geral, sobre os que são vigiados, sobre os loucos, as crianças, os escolares, os colonizados. Foucault (apud FELTRIN, 2004, P. 52).
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    91 Com o desenvolvimento do sistema educacional no século XX, quando a escola tornou-se aberta e obrigatória para todos, a massificação do ensino trouxe no seu bojo escolas despreparadas, que precisavam atender a uma multidão de alunos. A escola tradicional objetivava então uma suposta igualdade de oportunidades para todos os cidadãos, cuidando de todos os alunos como se eles fossem um só, através de um ensino homogeneizante. Todos os alunos eram considerados iguais, um tipo padrão: o aluno “médio”, “normal”. Tal ensino cresceu juntamente com um complicador: as diferenças e a quantidade dos diferentes, que continuavam a ser ignorados. Testes de inteligência passaram a medir as igualdades e as diferenças dos indivíduos. Os psicólogos nas escolas e clínicas bem depressa tornaram-se fabricantes de rótulos para alunos que apresentavam qualquer desajustamento escolar, conforme afirma David Rodrigues (2001),citado por Feltrin(2004): O certo é que, pensada para ser solução de um problema, essa escola foi-se tornando parte do problema que tinha por objetivo resolver. Criada para dar educação básica a todos e à qual todos deveriam ter acesso, a escola tradicional desenvolveu práticas e valores que progressivamente acentuaram as diferenças e que colocaram precocemente fora da corrida da competência, largos extratos da população escolar. David Rodrigues (2001,apud FELTRIN, 2004, P. 59). E, mesmo nos dias atuais, subsiste a idéia de que a diferença, a diversidade, não existe. Tanto que prevalecem nas escolas – especialmente nas públicas – o fracasso escolar, a repetência, a evasão, os problemas de indisciplina. Os famosos problemas de aprendizagem, no dizer de Jussara Hoffman – em suas palestras – “problemas de ensinagem”, isso sim! É necessário uma educação apropriada e de alta qualidade para alunos com NEE ou não, numa escola inclusiva que disponha de recursos materiais e humanos para o atendimento conveniente dos alunos que demandam serviços. Infelizmente a grande preocupação de muitas escolas nos dias de hoje é preparar
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    92 os estudantes paraa competição, ao invés de educá-los para a vida social, cultural, econômica, política e espiritual. Ao invés de educar-se os alunos para exercerem sua cidadania, desde os mais tenros anos de idade, para resolverem por si os diversos desafios que enfrentam na escola onde estudam e na comunidade onde residem, a função da escola têm-se constituído basicamente em permitir que os melhores sobrevivam num mercado cada vez mais competitivo. É o que confirma Feltrin (2004): A escola forma o indivíduo para o mercado e a escola muda conforme o mercado e a economia; muda conforme mudam as necessidades que devem ser supridas no mercado. O mercado é que formula as necessidades e as competências do sistema educacional. Feltrin (2004, p. 68). É necessário que se mude essa tendência de subordinar a educação ao mercado. Mais do que uma mudança institucional, faz-se imperioso uma mudança natural. “Não está mudando apenas o currículo, não está mudando apenas a forma de avaliação, não está mudando apenas a lei que regulamenta o funcionamento da educação. Está mudando também a forma de pensar a educação [...] ” Pablo Gentile, citado por Feltrin (2004, p. 68). O aluno aprende e desaprende na sociedade, que é importante na vida, especialmente daquele que necessita de cuidados especiais. A escola é palco de mil problemas sociais que acabam estourando no seu interior. É importante portanto que na escola se crie um ambiente no qual seja possível refletir sobre esses problemas, refletir sobre a igualdade dos direitos, sobre uma moralidade solidária, tolerante, respeitosa, baseada na justiça e na liberdade. O social intervém como um fator coadjuvante, secundário, na formação do sujeito. Ele é inerente à constituição do indivíduo. Cultura e indivíduo se inter-relacionam estreitamente, segundo a visão sócio-interacionista de Vygotsky. O seu desenvolvimento é sempre mediado pelo outro, seja pessoa, objeto, acontecimento. Enquanto o sujeito se apropria da cultura, esta se apropria dele, na medida que o forma. A interação social tem muito importância no trabalho da escola: Conforme
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    93 Feltrin (2004): Para Vgygotsky , a escola não pode esquecer-se , em seu processo educativo, da educação que aconteceu e acontece na família, já que esta assume importância e exerce impacto sobre a criança, embora essa influência não seja única, determinante e irreversível. De fato, na escola a criança vai encontrar um ambiente que lhe possibilita uma vivência social diferente daquela da família. [...] ao conceituar a Zona de Desenvolvimento Proximal como ensina ou avaliação de habilidades e sub-habilidades diferentes na aula, deve-se enfatizar a transferência de conhecimento e, especialmente, de habilidades daqueles que sabem mais para aqueles que sabem menos e vice-versa. Feltrin (2004, pp. 74 – 75.) O processo de ensino-aprendizagem precisa pois ser concebido como um processo de comunicação, uma construção compartilhada, para além da individualidade. O conhecimento precisa ser acessado via discussão, debate, compreensão cooperativa, o que antes era sabido por uma pessoa precisa tornar-se propriedade de duas ou de um grupo, se não por todos na turma. É importante que se pratique o conceito de interação. A função do professor no grupo é a de mediador, para que os alunos aprendam além dos conteúdos, as posturas sociais consideradas corretas pela cultura. Os alunos têm o direito de conhecer e discutir as intenções que geraram as regras e as possíveis punições. Como refere Feltrin (2004): [...] o papel mediador do professor é fundamental, como fundamental é a busca de coerência entre sua conduta e a que se espera dos seus alunos. Hoje, mesmo diante do imenso leque de “idéias” que o mundo e a mídia oferecem, as crianças aprendem e vão fixando seu comportamentos conforme os modelos que têm diante de si a todo o instante. O professor e a professora acabam sendo um deles, tornam-se elementos propulsores do desenvolvimento e da formação de comportamentos, especialmente dos que precisam de uma atenção diferenciada. Feltrin (2004, p. 76). As atitudes educativas devem incluir o contexto político e social em que vivem os alunos, na opinião de Feltrin(2004). A escola deve estar preparada para reconhecer
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    94 as diferentes necessidadesde seu alunos e proporcionar um continuum de apoios e serviços que respondam a essas atividades. Muitos docentes em exercício não trabalham as competências ou atitudes que são requeridas numa perspectiva de educação inclusiva e, por isso, a capacitação e a formação contínua revelam-se de fundamental importância. A escola para caminhar rumo à verdadeira inclusão deve estar compromissada com a mudança. Certos valores precisam ser revistos, normas, modelos de aprendizagem, atitudes dos professores, relações inter-pessoais existentes, expectativas, a participação dos pais e alunos, a inter-comunicação com todos os elementos da comunidade educativa. Quando se fala em continuum, é necessário atentar-se para o conceito de que cada aluno com alguma dificuldade de aprendizagem é único. Não se trata do estabelecimento de critérios gerais de ensino para esses alunos com NEE, mas compreender as necessidades, os sentimentos e as pontos de vista de cada um dos alunos que estão inseridos no processo de ensino-aprendizagem. O professor deve procurar conhecer as relações que os estudantes estabelecem nos períodos de lazer, as atitudes que manifestam diante das colegas e as que os colegas têm em relação a elas. A escola ideal tem professores que respeitam a interação de cada um com o seu meio próprio e permitem um exercício do funcionamento cognitivo dentro de situações reais do cotidiano, e não sobre situações clínicas artificiais ou conteúdos dissociados da realidade deles, como assinala Araújo (1998): Uma escola que propicie um ambiente cooperativo, pautado em princípios de auto-regulações pessoais e coletivas, como um ambiente ‘ em que a pressão é reduzida o máximo possível e no qual se encontrem as condições que engendram a cooperação, o respeito mútuo, as atividades grupais que favorecem a reciprocidade [...] Também um lugar onde seu membros têm a oportunidade constante, de fazer escolhas, tomar decisões e expressar-se livremente. Araújo (1998, apud FELTRIN, 2004, p. 108).
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    95 Segundo Carvalho (2004), para que eleja-se uma escola inclusiva de qualidade, verdadeiramente democrática, um espaço de exercício de cidadania, todos os envolvidos com a educação devem lutar, especialmente: a)por melhores condições de trabalho e de salário dos professores;b) por maiores investimentos na formação dos professores; c) pela realização sistemática de avaliações do processo ensino- aprendizagem, ao invés de estatísticas de desempenho dos sistema educacionais; capacitação dos gestores com vistas à administração compartilhada; d) pela constante reflexão de todos os educadores a cerca do sentido da educação num mundo globalizado e em permanente mudança;e) pela educação na diversidade, ampliando-se e aprimorando-se as oportunidades de aprendizagem por toda a vida; f) por constantes relações dialógicas entre professores dentro das escolas e entre escolas; g) para que o direito à educação seja entendida como um bem essencial que deve ser extensivo a todos. [Afinal:] A proposta da educação inclusiva traduz uma aspiração antiga, se devidamente compreendida como educação de boa qualidade para todos e com todos, buscando-se meios e modos de remover as barreiras para a aprendizagem e para a participação dos aprendizes. Carvalho (2004, p. 64). Mantoan (2003) também aponta uma série de mudanças pelas quais a escola tradicional deve passar para tornar-se inclusiva. Entre eles está a organização curricular. O sentido das disciplinas acadêmicas muda na escola inclusiva. Para que haja integração entre as áreas do conhecimento e este atinja a concepção transversal nas propostas não disciplinares, as disciplinas passam a ser meios e não fins em si mesmas. “O estudo das disciplinas partirá das experiências de vida dos alunos, seus saberes e fazeres, dos significados e das suas vivências, para chegar à sistematização dos conhecimentos.” (p. 66) Para Mantoan (2003) as atuais turmas seriadas devem ceder lugar a implantação dos ciclos de formação, solução justa e adequada, que concede mais tempo para aprender, articulando o processo aprendido de acordo com o ritmo e as condições de desenvolvimento dos aprendizes. Da mesma forma o trabalho individualizado
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    96 deve ceder lugaràs experiências coletivas, aos trabalhos em grupos pequenos e diversificados, incentivando o desenvolvimento de cooperação e a produção grupal, bem como a valorização do trabalho de cada um na consecução das metas traçadas Mantoan (2003) sugere também a exploração dos talentos dos alunos, com a finalidade de desenvolver suas predisposições naturais, ao ensinar atendendo as suas diferenças, mas sem diferenciar o ensino para cada um, abandonando o ensino transmissivo. A diferenciação é feita pelo próprio aluno, ao aprender, e, não pelo professor, ao ensinar. Também a administração escolar – diretor, coordenador, supervisor, funcionários – deve tornar-se mais pedagógica , a par do que se passa nas salas de aula, e perder seu caráter burocrático e fiscalizador. Quanto à avaliação, a escola deve priorizar o desenvolvimento de competências dos alunos diante de situações-problema, ao invés de decorebas. O tempo de construção de uma competência varia de aluno para aluno. O compartilhamento de idéias, sentimentos e ações entre professores, diretores e coordenadores da escola – a ser exercitado constantemente – também é apontado por Mantoan (2003), como condição para o aprimoramento em serviço, nas escolas inclusivas. Nesses encontros devem ser debatidos os exemplos concretos, os problemas reais, as situações do dia-a-dia, que desequilibram o trabalho nas salas de aula – norte das mudanças pretendidas pela formação dos profissionais da e na escola. Esses encontros podem resultar em grupos de estudos para discussão nas escolas e a compreensão dos problemas educacionais à luz do conhecimento científico e interdisciplinar, de preferência. Mantoan (2003) refere ainda que é aconselhável que as reuniões extrapolem o espaço escolar e que os professores se encontrem com professores de outras escolas, para tratar de assuntos como, por exemplo: indisciplina, sexualidade, ética, violência, avaliação,etc. Ser diferente faz parte da condição humana.Pensamos, sentimos e agimos de jeitos e intensidades diferentes, porque apreendemos o mundo de formas diferentes. E, em sendo assim, a escola inclusiva pressupõe não só a aceitação,
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    97 mas o respeitoe a valorização dessas diferenças nos alunos, dos seus diferentes saberes e não–saberes. Como tão bem refere Carvalho (2004): Uma vez valorizada a diversidade quero e ajo para que meus alunos tenham experiências e saberes múltiplos, não se terá mais a inquietação de responder se alguém aprendeu como o outro, mas de observar e acompanhar curiosamente o jeito inusitado e mágico de cada um viver, de cada um vir-a-ser, no seu tempo, cuidando, acolhendo, compartilhando diferentes jeitos de aprender.” Carvalho (2004, p. 11). Neste momento de muita discussão sobre o paradigma da Escola Inclusiva,há muita confusão no ar, simplesmente muitos querem fazer crer que a idéia da inclusão é para os alunos da Educação Especial passarem para as turmas do ensino regular e ponto. Muitos pais de alunos “normais” se insurgem contra, alegando que seus filhos serão prejudicados. Muitos pais de deficientes acham que os professores da escola regular não têm dado conta nem dos alunos “normais” e, que portanto não terão capacidade para lidar com seus filhos. Ambos ignoram que a inclusão representa um resgate histórico do igual direito de todos à Educação de qualidade: os que nunca tiveram acesso às escolas, os com altas habilidades (superdotados), os que sem serem deficientes apresentam dificuldades de aprendizagem e outras minorias excluídas como é o caso dos negros, dos ciganos, índios e anões, por exemplo, e que precisam nelas ingressar, ficar e aprender. Parecem ignorar também que é na diversidade que reside a riqueza das trocas que a escola propicia. Como explica Carvalho, na heterogeneidade há a oportunidade de convívio com a diferença que, no mínimo, promove laços saudáveis e sentimentos de solidariedade orgânica. Da mesma forma, os professores têm oportunidade de por em prática os quatro pilares para a educação do século XXI, propostos pela UNESCO: aprender a aprender; aprender a fazer; aprender a ser; e aprender a viver junto.
  • 99.
    98 A inclusão pressupõe a melhoria da resposta educativa da escola para todos, pois é considerável a produção do fracasso escolar, excludente por sua própria natureza. A escola inclusiva deve melhorar para todos, indistintamente, precisa tornar-se oniforme, não uniforme, significando a escola que busca o desenvolvimento onilateral de todos as potencialidades humanas, críticas e participativas, autônomas. A escola como espaço sadio de pluralismo de idéias! Para que a escola inclusiva venha a dar certo, a sociedade precisa também evoluir. evoluir da dimensão do “eu” para a do “nós” e desta, para a de “todos nós”, numa extraordinária dinâmica em espiral [...] Uma nova ética se impõe, conferindo a todos igualdade de valor, igualdade de direitos – particularmente os de eqüidade – e a necessidade de superação de qualquer forma de discriminação por questões étnicas, de gênero, de classes sociais ou de peculiaridades individuais e diferenciadas. Carvalho (2004, p.34). E, para que esse sonho vire realidade, num mundo de paz e de harmonia, a escola precisa ser: além de ética, prazerosa, integrativa, promotora de condições necessárias para o desenvolvimento das potencialidades de cada um e de todos. Quem, se não a escola, é um lugar próprio para formar gerações que elejam, defendam e ajam de acordo com esses valores? Uma escola inclusiva não “prepara” para à vida. Ela é a própria vida que flui devendo possibilitar, do ponto de vista político, ético e estético, o desenvolvimento da sensibilidade e da capacidade crítica e construtiva dos alunos-cidadãos que nela estão, em qualquer das etapas do fluxo escolar ou das modalidades de atendimento educacional oferecidas. Carvalho (2004, p. 35). A escola inclusiva é a porta e a casa apropriadas para o desenvolvimento tanto da solidariedade mecânica, como da solidariedade orgânica. Explicando: na concepção de Durkheim, em seus estudos sobre a natureza dos laços sociais, citados por Carvalho (2004), a solidariedade, no primeiro caso, acontece de forma natural ou mecânica, a proximidade entre os seres humanos, o contato leva a isso. Já a solidariedade orgânica ocorre quando os indivíduos têm – ou adquirem – a
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    99 consciência de queprecisam participar para fazer a coletividade funcionar como um todo. Trata-se portanto, de uma consciência coletiva que, segundo Durkheim, constrói-se pelos sentimentos e crenças comuns à média dos membros da coletividade, levando-os a formas de cooperação global. Carvalho (2004, p. 49). Sentimentos e crenças podem ser incentivados, especialmente num lugar que trabalha com a formação do sujeito em desenvolvimento. A escola é portanto esse solo fértil para o desabrochar e o fomento da ética da solidariedade e do bem comum. Carvalho (2004) destaca que o ensinar e o aprender em escolas inclusivas constituem-se em processos dinâmicos nos quais a aprendizagem não fica restrita aos espaços físicos das escolas e nem os alunos se portam como atores passivos, recebendo o que lhes é transmitido por quem ensina. Descreve uma série de funções – das quais algumas serão apontadas nesse trabalho – que podem constar nos projetos políticos-pedagógicos dessas escolas que devem ser norteados pelo princípio de que todas as crianças são capazes de aprender e que pode-se melhorar as respostas educativas que hoje lhes são oferecidas. São elas: estabelecer parcerias com a comunidade, sem intenção de usufruto de benefícios, apenas, e sim conquistar a cumplicidade de seus membros,em relação às finalidades educativas; respeitar as diferenças individuais e o multiculturalismo,entendendo que a diversidade é uma riqueza e que o aluno é o melhor recurso que o professor dispõe, em qualquer cenário de aprendizagem; criar vínculos mais estreitos com as famílias, levando-as a participarem dos processos decisórios em relação à instituição e a seus filhos; buscar todos os recursos humanos, materiais e financeiros, para a melhoria da resposta educativa da escola; desenvolver estudos e pesquisas que permitam re-significar as práticas desenvolvidas em busca de adequá-las ao mundo em que vivemos.
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    100 Para que se concretize o paradigma da escola inclusiva, faz-se necessário também que os diretores das escolas fundamentais e de ensino médio, além de serem colocados nos seus cargos, através de eleições representativas de cada comunidade escolar - votando pais, alunos, professores e funcionários - administrem, num clima de gestão compartilhada, especialmente no caso das escolas municipais, porque, via de regra, quando mudam os prefeitos - principalmente se faziam parte da oposição - mudam os diretores e o trabalho que vinha sendo desenvolvido, não importando se bem ou mal feito, cai por terra. E ainda alguns professores são transferidos, mesmo contra sua vontade, deixando o que faziam para trás, mesmo que tenham participado de todo o planejamento daquela escola ... A escola cidadã de especial qualidade para todos depende de professores que: entendam que o processo de conhecimento é tão importante quanto o seu produto final; e que respeitem o ritmo de aprendizagem e o traçado que cada aluno elabora a partir de seus sistemas de significação e de conhecimentos adquiridos anteriormente,referenda Maria Teresa Egler Mantoan. A autora alerta também que os professores precisam conhecer como os conhecimentos evoluem e como a inteligência se manifesta na organização das estratégias. Ou seja: como os alunos aplicam os conhecimentos que já possuem, para se adaptarem a situações novas e desequilibradoras do pensamento e da ação. Ela explica como isso se manifesta: Estas situações de equilíbrio local do pensamento estão presentes a todo o instante, nas salas de aula, quando os alunos resolvem os mais diversos problemas, sem a preocupação e a obrigação de encontrar a resposta exigida, mas aquela que corresponde às suas condições de compreensão. Mantoan (1997, pp. 124 – 125). A concepção da avaliação e do planejamento da escola inclusiva é revolucionária, na opinião de Mantoan (1997), que diz que a inclusão não tem como finalidade prescrever a individualização do ensino para os alunos com deficiência intelectual, mas que se diminuam e/ou eliminem os obstáculos que impedem que todos os alunos progridam, tornando essa interação a mais equilibrada possível, pois é sabido
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    101 de todos quequalquer criança, em algum momento de sua aprendizagem, pode apresentar dificuldades e que, essas dificuldades, resultam da interação entre as características desse aluno e as exigências dos professores, dos programas e dos instrumentos de avaliação das escolas. Até porque é inegável as diferenças de níveis de compreensão, amplitude e profundidade do conhecimento acessíveis a diferentes sujeitos. Uma situação de aprendizagem coerente com um ensino especializado em todos os alunos, no dizer de Mantoan, deve permitir a cada aluno estabelecer seus próprios planos para chegar a um determinado objetivo. Aos alunos devem ser dadas autonomia e liberdade para que empreguem seus métodos de trabalho, para realizar uma tarefa. Um ensino que se oriente pelo que é significativo para os aprendizes, sejam eles deficientes ou não, seguramente encontrará na aprendizagem da escola inclusiva um espaço de transformação e de enriquecimento, devolvendo-lhe a cidadania. Nas palavras da autora: Se os professores são capazes de criar situações desse tipo, levando em conta por princípio, que existem diferentes modos de compreensão entre os alunos, sem a preocupação primordial de saber e de definir previamente o nível que este ou aquele alcançará em um dado domínio ou conteúdo acadêmico, a inclusão de deficientes mentais nas turmas regulares será um fato inquestionável, perfeitamente viável e possível dentro de um sistema escolar. Mantoan (1997, p. 125). Mais do que nunca é preciso instrumentalizar o professor para saber trabalhar diversificado em sala de aula, porque a realidade não é homogênea. A heterogeneidade nas salas de aula é condição sine qua non para a construção de “identidades”, argumenta Maria Terezinha dos Santos, in Mantoan (1997), porque só se constrói o “eu” na vivência de alteridade. Nas suas palavras: Qualquer aluno precisa estar integrado com os outros “eus” diferentes para enriquecimento de sua identidade. Rasgando o verbo, não é possível construir personalidades saudáveis, cidadãos efetivos em salas ditas homogêneas. Estas sim são discriminadoras, porque numa
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    102 sala só de “fracos” (assim rotulados ), apenas interagem “fracos” [...] O aluno que tem mais dificuldade e o que tem menos aprendem muito quando interagem. [...] As crianças recebem muito bem as vivências das diferenças [...] É preciso lembrar, final e enfaticamente, que a integração do aluno deficiente, do aluno especial, é com certeza prioridade que deve ser dada a todo ser humano, sem qualquer discriminação nem rotulação. Os sistemas públicos e particulares de ensino precisam viver a experiência da integração por sentir que o respeito às diferenças é o único caminho para a vivência da igualdade. Maria Terezinha Santos in Mantoan (1997, pp. 132 – 133). A escola que transformará este planeta numa sociedade mais justa, igualitária, harmônica, pacífica, fraterna e solidária, depende muito da fé, da dedicação, da motivação, da auto-estima e da preparação dos seus professores, que auxiliarão na construção deste mundo inclusivo. “O mundo pode não os aplaudir, mas o conhecimento mais lúcido da ciência tem de reconhecer que vocês são os profissionais mais importantes da sociedade.” (p.168), argumenta o psiquiatra Augusto Cury (2003), autor de Inteligência Multifocal, indicando, que os destinos da humanidade estão nas mãos dos professores. Cury (2003) alerta a sociedade de que não são só os salários e a dignidade dos professores que precisam ser resgatados, mas também a sua saúde, pois a maioria dos mestres brasileiros está estressada, portadores da SPA, Síndrome do Pensamento Acelerado, que afeta também a maioria dos alunos, na sua opinião. O psiquiatra aponta algumas pesquisas, coordenadas por ele, que revelam que: na Espanha, 80% dos professores estão estressados, na Inglaterra, o governo está tendo dificuldades para formar professores, especialmente para o Ensino Fundamental e Médio, poucos querem abraçar a profissão; e no Brasil, 92% deles apresentam três ou mais sintomas de estresse e 41 % , dez ou mais sintomas. É um número altíssimo, indicando que quase a metade dos professores não deveria estar em sala de aula. Mas internada numa clínica antiestresse.[...] Os números gritam. Eles indicam que os professores estão quase duas vezes mais estressados do que a população de são Paulo, que é uma das maiores e mais estressantes cidades do mundo.[...] Em são Paulo, 22, 9% da população apresenta dez ou mais sintomas de estresse.
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    103 Cury (2003, p.62 ). Destruindo a qualidade de vida do professor, estão acabando com o mercado da inteligência, denuncia o autor, referindo-se a esse adoecimento coletivo dos educadores no Brasil, enquanto os governantes estão preocupados com o mercado de petróleo, de carros, de computadores... Ao mesmo tempo, suplica aos educadores que tenham paciência com seus alunos, pois eles não têm culpa da agressividade e da alienação em sala de aula, porque também são vítimas da mesma síndrome que acometeu seus mestres. Explica que por trás dos piores alunos há um mundo a ser descoberto e explorado. Há uma esperança no caos e que é preciso construir a Escola de nossos sonhos. Qual é a escola dos seus sonhos? Para mim, é a escola que educa os jovens para extraírem força da fragilidade, segurança da terra do medo, esperança da desolação, sorriso das lágrimas e sabedoria dos fracassos. Cury (2003, p.155 ). A memória – impossível de ser deletada, a menos que haja uma lesão cerebral ou um grave problema psíquico ou mental - é o terreno onde é cultivada a educação, e o registro, nos seus meandros, é automático e involuntário. Tudo o que o sujeito, pensa e o universo de suas emoções se produz a partir da memória. Cada idéia, pensamento, reação ansiosa, sentimento de amor ou desamor, o integrará. “A emoção é que determina a qualidade do registro. Quanto maior o volume emocional, maior a chance de ser registrada”, afirma Cury (2003, p. 23). Por isso, as pessoas lembram com muitos detalhes de tudo que foi muito - ou pouquíssimo - prazeroso para si ; se a dor for imensa, pode-se até bloquear tudo, como fazem as crianças que sofreram muito na infância e que nem lembram deste período. Em conseqüência do explanado, professores que não provocam a emoção dos educandos, só informam, não educam! Ao estimular a emoção dos alunos, desaceleram-se seus pensamentos, melhora-se a sua concentração e auxilia-se no registro privilegiado da memória, porque o grau de sua abertura depende da emoção, como já foi dito. Enquanto a tranqüilidade abre, a ansiedade fecha estas
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    104 janelas, comprometendo odesempenho intelectual. Mesmo alunos bem preparados podem ir mal numa prova, se estiverem ansiosos. As lembranças não são puras, sempre que rememora-se algo, reconstrói-se as memórias, com maior ou menor diferença da “realidade”. O modelo escolar que privilegia a memória bancária (Paulo Freire) não forma pensadores, mas repetidores. As provas escolares fechadas não medem a arte de pensar, às vezes anulam o raciocínio de alunos brilhantes. O objetivo fundamental é dar suporte para um raciocínio criativo, esquemático, organizacional, pois a maioria das informações se perde no labirinto da memória e nunca mais será recordada. Cury (2003) apresenta dez Ferramentas ou Técnicas Psicopedagógicas a serem aplicadas pelos professores nas salas de aula, que podem auxiliar no tratamento e cura da SPA e na construção da escola sonhada, não só por todos os educadores de fé, mas por todos os homens de boa-vontade sobre a face da Terra. Antes da apresentação dessas ferramentas, torna-se oportuno descrever o que o psiquiatra indica como constituinte da síndrome. A SPA, Síndrome do Pensamento Acelerado é causada pelo excesso de estímulos proporcionados pelos meios de comunicação (em especial a TV , independente do conteúdo que esteja transmitindo) que acabam gerando uma compulsão por novos estímulos no telespectador, que numa tentativa de aliviá-la - semelhante ao caso das drogas químicas, lícitas ou não, onde o uso das doses tende a ser cada vez maior. Esse estado de ânimo teria ocorrido porque há um século a velocidade dos pensamentos das crianças era bem menor do que a atual, motivo pelo qual o modelo de educação do passado, embora não fosse ideal, funcionava. Os portadores de SPA adquirem uma dependência por novos estímulos e por isto eles se agitam na cadeira , têm conversas paralelas, não se concentram, mexem com os colegas. “Estes comportamentos são tentativas de aliviar a ansiedade gerada pela SPA. (...) Pensar é excelente, pensar muito é péssimo. Quem pensa muito rouba energia do córtex cerebral e sente uma fadiga excessiva, mesmo sem ter feito exercício físico. Este é um sintoma.” , explica Cury (2003, p. 60).
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    105 Os demais sintomas são: déficit de concentração; irritabilidade; sofrimento por antecipação; sono insuficiente; aversão à rotina; esquecimento; e, às vezes, sintomas psicossomáticos acompanham, tais como, taquicardia, gastrite, dor de cabeça, dores musculares. “Por que um dos sintomas é o esquecimento? Por que o cérebro tem mais juízo do que nós e bloqueia a memória para pensarmos menos e gastarmos menos energia”. Cury (2003, p. 60). A SPA seria uma hiperatividade de origem não-genética, funcional, explica o professor. Além da TV, com seu natural excesso de estímulos visuais, o excesso de informações também é causa da SPA. Uma criança de 7 anos tem mais informações do que um adulto de 60 anos, há um século atrás... Outra causa está na paranóia do consumo e da estética que dificulta a interiorização. Isto tudo excita por demais esses jovens que é claro não querem, melhor dizendo, não podem, assistir impávidos às preleções dos mais velhos e mesmo de seus coleguinhas, se não forem das mais animadas numa sala de aula.... A intranqüilidade da mente não o permite. A SPA compromete a saúde psíquica de três formas: ruminando o passado e desenvolvendo sentimento de culpa, produzindo preocupações sobre problemas existenciais e sofrendo por antecipação. Como diz Cury (2003), não basta ser um bom professor, tem que ser fascinante para transformar a sala de aula num oásis e não numa fonte de estresse. Além de conhecer a alma humana, é preciso munir-se de ferramentas pedagógicas eficientes para conseguir-se prender a atenção do aluno, pois caso contrário alunos e professores estarão fadados à falta de comunicação necessária para que a construção do conhecimento se processe. Quanto às dez Ferramentas ou Técnicas Psicopedagógicas de Cury (2003), o próprio autor as define da seguinte forma: constituem o projeto escola da vida e podem gerar a educação dos nossos sonhos. Podem promover o sonho do construtivismo de Piaget, da arte de pensar de Vygotsky, das inteligências múltiplas de Gardner, da inteligência emocional de Golemam.[...] elas não envolvem mudanças no ambiente físico da escola e no material didático, mas no ambiente social e psíquico dos professores, porque objetivam a educação da emoção, da auto-estima, da solidariedade, da tolerância, do raciocínio esquemático,
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    106 da capacidade de gerenciar dos pensamentos nos focos de tensão, da habilidade de trabalhar perdas e frustrações. Enfim, formar pensadores. Cury (2003, p.119). As ferramentas são as seguintes: Música ambiente na sala de aula, para desacelerar o pensamento, aliviar a ansiedade, melhorar a concentração, desenvolver o prazer de aprender, educar a emoção, melhorar a qualidade do registro na memória do que está sendo trabalhado. Dispor os alunos em círculo ou em u, para desenvolver a segurança, promover a educação participativa, diminuir conflitos e conversas paralelas. O enfileiramento, que parece inofensivo, é profundamente lesivo aos alunos, causa distração, obstrui a inteligência, destrói a espontaneidade e a segurança para expor as idéias. Exposição interrogada: a arte da interrogação, com o objetivo de aliviar a SPA, reacender a motivação, desenvolver o questionamento, enriquecer a interpretação de textos e enunciados, abrir as janelas da inteligência. Exposição dialogada: a arte da pergunta, com a finalidade de desenvolver a consciência crítica, promover o debate de idéias, estimular a educação participativa, superar a insegurança, debelar a timidez e melhorar a concentração. Ser um contador de histórias, para que o aluno desenvolva criatividade para educar a emoção, estimular a sabedoria, expandir a capacidade de solução em situações de tensão, enriquecer a socialização. Humanizar o conhecimento, buscando estimular a ousadia, promover a perspicácia, cultivar a criatividade, incentivar a sabedoria, expandir a capacidade crítica, formar pesadores. Humanizar o professor: cruzar sua história, desenvolvendo a socialização, estimulando a afetividade, construindo uma ponte produtiva nas relações sociais, estimulando a sabedoria, superando conflitos, valorizando o “ser”. Educar a auto-estima: elogiar antes de criticar, para educar a emoção e a auto-estima, vacinar contra a discriminação, promover a solidariedade, resolver conflitos em sala de aula, filtrar estímulos estressantes, trabalhar perdas e frustrações.
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    107 Gerenciar os pensamentos e as emoções, tentando resgatar a liderança do eu, resolver a SPA, prevenir conflitos, proteger os solos da memória, promover a segurança, desenvolver espírito empreendedor, proteger a emoção nos focos de tensão. Participar de projetos sociais, com o objetivo de desenvolver a responsabilidade social, a cidadania, cultivar a solidariedade, expandir a capacidade de trabalhar em equipe, trabalhar os temas transversais; a educação para a saúde, para a paz, para os direitos humanos. A tarefa de educar se compara a de um artesão da personalidade, um poeta da inteligência, um semeador de idéias, considera Cury (2003), que acha que mesmo que a Educação esteja passando por uma crise sem precedentes na História da humanidade, num contexto onde somos ao mesmo tempo criadores e vítimas do sistema social que inventamos, numa sociedade onde o ter e não o ser , a estética e não o conteúdo, o consumo e não as idéias são o mais importante, mais do que nunca os educadores, apesar de suas dificuldades, são insubstituíveis. A gentileza, a solidariedade, a fraternidade, a ética, a tolerância, a inclusão, os sentimentos altruístas, enfim, todas as áreas da sensibilidade não podem ser ensinadas por máquinas, e sim por seres humanos, por mais que a tecnologia venha a se superar, considera o escritor. Dentre as incumbências de um professor fascinante, está a de educar a emoção, estimulando o pensar antes de reagir, o não ter medo de ter medo, incentivando o aluno a ser autor de sua história, sabendo filtrar os estímulos estressantes e trabalhando não apenas com fatos lógicos e problemas concretos, mas também com as contradições da vida. Se os professores agirem assim, poder- se-á poupar lágrimas, evitar doenças psíquicas e até suicídios. Evitar-se-ia os psicopatas, os insensíveis, que machucam e não medem as conseqüências dos seus atos, por que nada sentem... Os hipersensíveis, que se doam além dos limites, mas que não possuem proteção emocional para si mesmos. Os alienados, que não
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    108 ferem, mas noentanto não querem nada com nada, sem metas, sem futuro, sem sonhos, deixam-se levar pela vida.... A escola não tem conseguido educar a emoção, referenda o autor, que alerta que na formação dos jovens é necessário atentar para que tenham uma emoção rica, protegida e integrada. Além de educar a emoção, os professores precisam ensinar os alunos a serem pensadores e não repetidores de informação. A educação clássica, transforma a memória num banco de dados, ocupando um espaço precioso com informações de pouco uso, ou mesmo inúteis. Um bom professor se preocupa com as notas dos seus alunos, já um professor fascinante se preocupa em transformá-los em engenheiros de idéias. Cury (2003) alerta que os professores - sempre tendo em mente a SPA, deverão também proteger sua emoção diante dos conflitos dos alunos. A melhor resposta nestas horas é não dar resposta alguma. É o silêncio! Recomenda que os mestres devem respirar fundo e surpreender a classe com gestos inesperados. Levar, com suas palavras e coração aberto, os alunos a pensarem, a mergulharem dentro de si. Não é fácil, mas é possível! Com a emoção tensa fecha-se o território de leitura da memória, obstrui-se a construção de cadeias de pensamento e passa- se a agir por instinto, não com a inteligência, mas como animais. O educadores devem levar seus alunos a explorarem o desconhecido para não terem medo do fracasso, mas somente medo de não tentarem. Novas experiências propiciam crescimento intelectual e geram flexibilidade. Só não muda de idéia quem é incapaz de produzi-las. Professores fascinantes são promotores de auto-estima, dão atenção especial aos alunos tímidos, aos desprezados pelo grupo, pois percebem que estes poderão ficar encarcerados em seus traumas. Cury (2003) aponta ainda 7 Pecados Capitais Cometidos entre os Educadores:
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    109 Corrigir publicamente um aluno é o primeiro deles, porque pode gerar um trauma inesquecível que controlará a vítima por toda a sua vida. A pessoa que erra deve ser mais valorizada do que o erro. O segundo pecado é expressar autoridade com agressividade. O terceiro é ser excessivamente crítico, o que obstrui a infância ou adolescência. Punir quando se está com raiva e colocar limites sem dar explicações é o quarto pecado. O quinto, é ser impaciente ou desistir de educar, não acreditando nas potencialidades do aluno. Os alunos insuportáveis é que testam o humanismo dos seus semelhantes, pois por trás de cada aluno arredio ou agressivo há uma criança implorando afeto. O sexto pecado é não cumprir a palavra dada. Perde-se a confiança e confiança perdida dificilmente é restaurada... E o sétimo, e maior pecado cometido pelos educadores, na concepção do psiquiatra é a destruição da esperança e dos sonhos dos alunos. Os jovens que perdem a esperança têm enormes dificuldades para superar seus conflitos, por menores que sejam. Os que perdem seus sonhos são opacos, não tem brilho, gravitam em torno de suas misérias emocionais e nada produzem, comenta o autor. Nas suas palavras: “Os psiquiatras, os médicos clínicos, os professores e os pais são vendedores de sonhos. Uma pessoa só comete suicídio quando seus sonhos se evaporam, sua esperança se dissipa”. Sejam conscientes, pois, do que vendem nas suas salas de aula, professores ... Cury (2003, p. 102). Em Nunca Desista dos Seus Sonhos, Cury ( 2004) critica a cultura das provas existentes nas escolas do mundo inteiro, porque desrespeita a riquíssima pedagogia do ensaio e erro, que promoveu as grandes conquistas da história. Explica que ao ser punido pelo erro, com notas baixas, no caso da escola, o sujeito não só registra de maneira privilegiada o fato, através do fenômeno RAM, Registro Automático da Memória, como inicia-se ali - ou ratifica-se - o processo de obstrução da sua ousadia e inventividade.
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    110 O autor diz que é função dos verdadeiros líderes - como os pais e os educadores, executivos - incentivar quem fracassa a extrair sabedoria das suas experiências dolorosas, em vez de cultivar a culpa. Errar é uma etapa do inventar, falhar são degraus do criar. O psiquiatra aconselha a ausência de julgamento diante do erro. Ao contrário, é da opinião que se alguém ao errar for valorizado, encorajado, conseguirá incorporar novas experiências e refazer caminhos. Relembra que todos os seres humanos caíram muitas vezes até aprenderem a andar. Quem erra tem oportunidades de sonhar com as conquistas, tem mais chance de aprender e mais gosto pela vitória, pressuposto este que constitui um dos fundamentos da Inteligência Multifocal, teoria que levou 20 anos estudando e formulando. O cientista relembra que nos alicerces das grandes descobertas existem grandes falhas, nos alicerces das grandes falhas existem grandes sonhos de superação. Se pais e professores não mudarem suas atitudes de recriminação frente ao erro de seus filhos ou alunos, o medo de errar vai lhes sendo incentivado, acabando por gerar um eu tímido e inseguro. Cury (2004) relembra que, se os cientistas se intimidassem e recuassem diante de seus erros quantas descobertas não teriam deixado de ser feitas, tais como: Flaming, por exemplo, que descobriu a penicilina graças a um fungo que contaminou a lâmina de cultura, que ele deixara sem proteção no laboratório. Roentgen descobriu o Raio X, pelo descuido no manuseio de uma placa fotográfica. Einstein teve de recuperar do lixo algumas etapas das equações que o levaram à Teoria da Relatividade. Simon Campbell errou ao não conseguir chegar a um novo medicamento, para desobstruir artérias em casos de angina, mas descobriu o Viagra. O que diferencia os jovens que fracassam dos que têm sucesso não é a cultura acadêmica, mas a capacidade de superação das adversidades da vida, acredita o psiquiatra, que lamenta que o medo tenha sepultado milhões de sonhos, em todas as épocas, pois quando os sonhos individuais incluem os outros ou buscam alguma maneira de contribuir para o bem da humanidade, os temores e os dissabores da vida são suportados mais facilmente.
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    111 Da mesma forma lamenta o massacre que o autoritarismo dos superiores – sejam eles pais, professores ou chefes - praticam contra os seus comandados exterminando sua criatividade e inteligência. Mas, entusiasma com seu otimismo ao lembrar aos idealistas – ou aos em vias de - que é possível destruir o sonho de um ser humano quando ele sonha para si, mais é impossível destruir seu sonho quando ele sonha para os outros, a não ser que lhe tirem a vida. Entusiasma e incentiva a todos, mais especialmente aos pais e professores, a trabalharem os valores humanitários com as crianças e jovens, para que não venham a medir os seus semelhantes pelo poder político ou financeiro que possuem, mas pela grandeza de seus sonhos, pela paixão que possuem pela vida, pelo amor à humanidade, pelo desejo de serem úteis aos outros, pois quem vive para si mesmo não tem raízes internas. Cury (2004) enaltece o valor dos sonhos, o valor do livre pensar e o valor dos pensadores apaixonados pela existência, afirma que nossa espécie está doente. Acometida de: SPA, pessimismo, estresse, individualismo, competição predatória, falta de amor, falta de fraternidade, falta de sabedoria, superficialidade, racismo, preconceitos... Defende que as idéias devem servir à vida e não a vida às idéias, pois os piores inimigos de uma idéia são aqueles que a defendem radicalmente, até porque – como todos sabem - os grandes pensadores que a humanidade já viu nascer foram exímios questionadores que usavam a arte da dúvida e da crítica para ampliar o mundo das idéias e dos ideais. Infelizmente, num mundo tão rápido e ansioso, a educação tem desprezado a ferramenta da dúvida e da crítica, que são a agulha e a linha que tecem a inteligência. Vale a quantidade de informação, não a qualidade. Noventa por cento das informações são inúteis, nunca serão utilizadas e sequer recordadas. Nada é tão perigoso para aprisionar a inteligência do que aceitar passivamente as informações, referenda Cury (2004). Como preconiza Edgar Morin (2003 ), quem dera a educação moderna ensinasse menos matemática, física, química, biologia e mais a arte de pensar... O
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    112 mundo seria menosengessado, no dizer de Cury, e os alunos cultivariam uma das nobilíssimas características da inteligência: pensar, pensar bem! Cury chama a atenção dos professores sobre a importância de gerarem a consciência crítica em seus alunos ,com um exemplo bem ilustrativo. Um professor de História que ensinar sobre escravidão, terrorismo, nazismo ou guerras, fornecendo apenas informações, sem teatralizar suas aulas e fazer com que os alunos se coloquem no lugar dos que sofreram, estaria sendo lesivo aos seus alunos ao ministrar esse tipo de aula, pois no seu entender sua atitude estaria apenas levando os alunos à insensibilidade diante das atrocidades humanas. Cury (2004) convoca seus leitores a sonharem com uma humanidade fraterna, solidária, inclusiva, gentil e unida, porque os homens sempre foram mais iguais do que imaginam nos bastidores de suas mentes, onde se encontram os sonhos, que, por serem verdadeiros projetos de vida, resgatam o prazer de viver e o sentido de vida, que representam a felicidade essencial que todos procuram. E por falar em sonho, a escola com que Rubens Alves - poeta, pedagogo, teólogo, escritor e psicanalista, que vive ocupado a diagnosticar as doenças da Pedagogia - sempre sonhou, sem imaginar que pudesse existir, existe, conforme contam seis crônicas suas, de puro encantamento, dedicadas a sua existência, reunidas em Alves (2003). A escola dos seus sonhos - e da autora deste trabalho, certamente - chama-se Escola Básica da Ponte nº 1, e foi construída em Vilas das Aves, Portugal. São cerca de 120 pessoas entre alunos, funcionários e professores que se conhecem pelo nome, como numa grande família. Além de constituir-se num ambiente amigável e solidário de aprendizagem, a Escola da Ponte é profundamente democrática e auto-regulada. Lá está a prova de que em se plantando tudo dá, ao constatar-se a formação íntegra e ética instaurada na personalidade dos seus alunos, pela educação ali proferida, num convívio solidário e cidadão. As normas e regras que regem a escola da Ponte e orientam as relações sociais na comunidade estudantil não são impostas, representam o coletivo, foram criadas e
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    113 partilhadas entre todosos segmentos, inclusive - e especialmente - entre as crianças, seus mestres, funcionários e familiares. Imagine uma escola onde, desde a mais tenra idade, as crianças habituam-se a pedir a palavra para falar e a ouvir os outros em silêncio e com atenção. Disciplina, concentração, alegria e eficiência são a tônica da casa. A Escola da Ponte não é como as brasileiras, com uma professora e sua turma ou uma turma e seus professores. Um único espaço é partilhado por todos, sem separação, sem campainhas anunciando a troca de disciplinas e de professores. Pequenos e grandes são companheiros numa mesma aventura! Todos se ajudam, partilham de um mesmo mundo! Não há competição, há cooperação! Os professores são professores de todos os alunos e todos os alunos são alunos de todos os professores. Os que se sentem mais aptos em determinados temas auxiliam os que se sentem menos aptos, sem intimidação, puro companheirismo. Anúncios nos quadros de aviso disponibilizam alunos para ensinar e alunos dispostos a aprender determinados assuntos. Um legítimo mercado do conhecimento... Pode-se encher a boca dizendo que esta é uma escola inclusiva. Tão logo são matriculados, numa etapa chamada de iniciação, os alunos agrupam-se por empatia, o que conta é o afeto. Posteriormente os grupos se formam em torno de interesses por um tema a ser pesquisado. Reunidos com um professor, estabelecem um programa de trabalho de 15 dias, quando são orientados sobre o que e onde devem pesquisar. Utilizam muita Internet. Ao final do período reúnem – se de novo para avaliar o que aprenderam. Se o que aprenderam foi adequado o grupo dissolve-se e outro é formado para estudar outro assunto. Nas salas imensas, professores, espalhados por entre os alunos, fazem seu atendimento, quando necessário. Nelas as crianças tem direito de ouvir música para ajudá-las a trabalharem em silêncio. Em cada grupo há um aluno especial. Se a professora não puder acompanhar diretamente o trabalho de uma das crianças, logo um colega atento se disponibiliza para a ajudar.
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    114 Os alunos tem o direito de ir aos computadores, sempre que quiserem. Um deles serve para o registro de duas sessões: “Acho Bom” e “Acho Mau”. “Quando nos sentimos tristes escrevemos no Acho Mau, quando nos sentimos contentes com algo escrevemos no Acho Bom”, diz uma aluna. Há um “Tribunal” criado pelas crianças e que deve ser enfrentado por aqueles que desrespeitam as regras de convivência. A primeira pena é: passar, durante três dias, refletindo sobre os atos infracionários que cometeu. Diariamente a “Mesa da Assembléia da Escola” reúne-se para discutir os problemas apresentados pelos alunos aos seus representantes, assuntos que serão debatidos pelo grupo todo, posteriormente, nas sextas-feiras, durante Assembléia Geral. Há ainda a “Caixinha de Segredos”, onde são depositados pelos alunos “recados-segredos”, geralmente problemas que os estão afligindo e pedidos de ajuda. A produção escrita é valorizada com o “Livro da Quinzena”, que relaciona os projetos que estão sendo desenvolvidos naquele período em toda a escola. Os alunos fazem comentários, poesias, relatos, etc. E muito mais de utopia parida você poderá encontrar visitando a Escola da Ponte, em Portugal, anunciadas pelo escritor, em Alves (2003 ). Num depoimento dado sobre a Escola da Ponte, por vários elementos daquela comunidade escolar, pais, professores, alunos, encontra-se essa pérola, descrevendo-a, a pedido de Rubens Alves, como a escola que sonhava encontrar para seus filhos : ...que compreenda como os saberes são gerados e nascem. Uma escola em que o saber vá nascendo das perguntas que o corpo faz. Uma escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser cumprido (inutilmente), mas o corpo da criança que vive, admira, encanta-se, espanta-se, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, machuca-se, brinca. Uma escola que seja iluminada pelo brilho dos inícios. Mãe e professora, in Alves (2003, p. 73). Como a autora deste trabalho situa-se entre as pessoas que não acreditam em coincidências e percebe todas as coisas como perfeitamente encaixadas no universo, que conspira a favor de quem assim vê e vive a vida, dentro de uma ordem exemplar, embora pareça por vezes caótico, aqui vai uma reflexão sobre dois
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    115 textos que lhecaíram às mãos e que servem como uma luva para a temática aqui desenvolvida. Um deles, publicitário, publicado em página inteira, em 14 de fevereiro de 2005, no Correio do Povo, assinado pelo Ministério Público do Trabalho, em caracteres maiores anunciava: “Você contrataria para trabalhar como gráfico no seu jornal um jovem negro de 16 anos, órfão, gago, epilético, com saúde frágil e baixa escolaridade?” Pergunta respondida, diante da possibilidade de uma negação: “Que pena, você acabou de dispensar o Machado de Assis.” Quando a propaganda começa a valer-se de chamadas deste gênero é porque - felizmente - está-se prestes, enquanto leitores e cidadãos, a defender uma sociedade inclusiva. No mesmo anúncio, em caixa baixa, o texto descrevia que em 1856 o diretor da Imprensa Nacional, no Rio de Janeiro, não teve preconceito e contratou para auxiliar de tipógrafo, o rapaz que viria a se tornar o maior escritor do país. Exaltava a responsabilidade social das empresas em promover oportunidades iguais a respeito da dignidade. Independente da condição sócio-econômica, idade, ascendência, nacionalidade, estado civil, orientação sexual e condições de saúde, que não podem ser motivo de discriminação no ambiente de trabalho, para além da obrigatoriedade legal. É preciso que se estenda estes pressupostos para as Escolas da mesma forma pois, para que assim seja no mercado de trabalho, verdadeiramente e não só na propaganda, torna-se necessário e imperioso que antes as comunidades escolares trabalhem também assim: numa escola regular de especial qualidade, aberta a todos os segmentos sociais. O outro texto, “Eu, Leonardo”, é de Rubens Alves, em a Alegria de Ensinar, e fala de um belíssimo vídeo sobre Da Vinci, um dos maiores gênios que a história da humanidade viu nascer, produção da IBM. Arquiteto, planejou uma cidade ideal,com casas construídas segundo os princípios da beleza, banhadas de luz. Imaginava máquinas que a tecnologia da época não conseguia produzir. Estudou o vôo dos pássaros para que os homens construíssem máquinas de voar. Sonhou com navios
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    116 que navegassem comopeixes, debaixo das águas. Estudava a água, consagrada por ele como princípio vital do universo. Estudava os fósseis e concluiu que há milhões de anos os cumes das montanhas haviam estado submersos nas águas. Arquiteto, músico, poeta, engenheiro, geólogo o pintor viveu na Itália, de 1452 a 1519. O psicanalista Rubens Alves pensando nas discrepâncias sociais de cada época imaginou o que seria a vida de Da Vinci nos dias de hoje... Em plena era da tecnologia e da qualidade total, a IBM lhe daria um emprego? Um homem com tantos interesses e habilidades concomitantes, por certo despertaria suspeitas já na apresentação do seu currículo... Mas, e se ele conseguisse o tal emprego e num dia qualquer seu chefe lhe pedisse um relatório sobre um projeto de pesquisa e Da Vinci lhe respondesse que não poderia naquele momento fazê-lo, pois estava preocupado com um outro projeto estético, um quadro que pensava em pintar? “É. [ pondera o autor] Acho que Leonardo Da Vinci não teria vida longa nem como funcionário da IBM, nem como professor de uma de nossas universidades.[...] Gastar tempo pensando em música, jardinagem, política, ecologia, é uma doença a ser evitada a todo custo,em benefício do controle de qualidade do pensamento.[...] é cortar as asas da imaginação a fim de que ele marche ao ritmo dos tambores institucionais.” Rubens Alves in A Alegria de Ensinar. A genialidade não se espraia de maneira generosa sobre a humanidade, mas muitos gênios foram sufocados, incompreendidos em sua estada pela terra... E, a Escola tem sido uma das primeiras instituições a contribuir para isto, muitas vezes. Estendendo-lhes os primeiros grilhões, como tão bem referenda Ruth Rocha neste trecho de Quando a Escola é de Vidro. Eu ia para a escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro. É, no vidro! Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não! O vidro dependia da classe em que a gente estudava. Se você estava no 1º ano, ganhava um vidro de um tamanho. Se você fosse do 2º ano,seu vidro era um pouquinho maior. E assim, os vidros iam crescendo
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    117 à medida que você ia passando de ano. Se não passasse de ano, era um horror. Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado. Coubesse ou não coubesse. Aliás, nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros. E para falar a verdade, ninguém cabia direito. Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável. A gente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava, e a gente nem podia respirar direito ... A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física. Mas aí a gente já estava desesperado de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros”. Ruth Rocha (2003). Não é bem assim que a maioria das escolas faz com as diversas e singulares crianças que chegam para ser seus alunos, não respeitando as suas características diferentes, as suas visões de mundo, as suas percepções? Não lhes são cortadas as asas? É hora de mudar! Escolas não são exércitos, muito menos fábricas! Chega de tanta reprovação e evasão! É hora de acolher a todas, escancarando seus portões e fazendo da escola um lugar para se estar e ser feliz, enquanto se aprende a aprender com os alunos para toda a vida. Até porque chega de tanta reprovação e evasão e porque para aprender a pensar é preciso primeiro aprender a dançar, assim falava Zaratustra. Quem dança com as idéias descobre que pensar é alegria. [...] pular de pico em pico.Não ter medo da queda. Foi assim que se construiu a ciência. [...] O conhecimento nada mais é que a aventura pelo mar desconhecido, em busca da terra sonhada. Mas sonhar é coisa que não se ensina. Brota das profundezas do corpo, como a água brota das profundezas da terra. Rubens Alves(2000). A escola regular de especial qualidade para todos, acalentada nos sonhos desta autora não é a escola cantada em prosa pelo grande poeta Mário Quintana, in Poesias: De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o azul convida os meninos, as nuvens desenrolam-se, lentas, como quem vai inventando preguiçosamente uma história sem fim... Sem fim é a aula, e nada acontece, nada... Bocejos e moscas. Se ao menos um avião entrasse por
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    118 uma janela e saísse pela outra. Mário Quintana (1962). A escola cidadã, está mais para aquela cantada em versos pelo grande educador Paulo Freire, citado em Currículo Estruturados: implantação de programas pedagógicos, IESDE Brasil S.A., à página 7: Escola é ... O lugar onde se faz amigos, Não se trata só de prédios, salas, quadros, programas, Horários, conceitos ... Escola é, sobretudo, gente, Gente que trabalha, que estuda, Que se alegra, se conhece, se estima. ............................................................. “Nada de ilhas cercadas de gente por todos os lados.” Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir Que não tem amizade a ninguém, Nada de ser como o tijolo que forma a parede, Indiferente, frio, só. Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar, É também criar laços de amizade, é criar ambiente de camaradagem, É conviver, é se “amarrar nela”! Paulo Freire. Esta escola deve estar atenta ao investimento afetivo nas relações que se estabelecem dentro dela, relações que ajudam a construir – na e para a cidadania – aprendizes capazes de inventar, criar, renovar e descobrir fórmulas de promover a própria vida, apropriando-se dela com as próprias mãos, que precisam receber e distribuir muito carinho. Seria impossível entender o desenvolvimento da inteligência sem um desenvolvimento integrado e convergente dos próprios interesses e amores por aquilo que a criança olha, toca e alimenta a sua curiosidade. A criança deseja e necessita ser amada, aceita, acolhida e ouvida para que possa despertar para a sua
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    119 curiosidade e desejopara o aprendizado. A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade, defende Paulo Freire . O professor não pode é permitir que a sua afetividade interfira no cumprimento ético do seu dever. Não pode, por exemplo, condicionar a avaliação do trabalho escolar de um aluno ao maior ou menor bem querer que tenha por ele. Não pode nem ser “adocicado”, nem “arestoso” e “amargo”, nas suas vivências escolares. Aprendizagem e afetividade caminham juntas, lado-a-lado e auxiliam na autonomia do aluno, Conforme Édina Castro de Oliveira, no prefácio de Freire (2003) falando da obra, a escola cidadã pressupõe: Uma pedagogia fundada na ética, no respeito à dignidade e à própria autonomia do educando. Como os demais saberes, este demanda do educador um exercício permanente. E a convivência amorosa com seus alunos e na postura curiosa e aberta que assume, ao mesmo tempo, provoca-os a se assumirem enquanto sujeitos sócio-históricos-culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do respeito à dignidade e autonomia do educando. [...] A competência técnica científica e o rigor de que o professor não deve abrir mão no desenvolvimento do seu trabalho, não são incompatíveis com a amorosidade necessárias às relações educativas. Oliveira in Freire (2003, p. 10). A educação da escola especializada em todos os alunos deve ser semelhante a apregoada por Freire (2003), onde formar é muito mais do que puramente “treinar” o educando no desempenho de destrezas. Quem faz a educação, educadores e educandos, não pode escapar à rigorosidade ética. Da ética que condena o cinismo do discurso neo-liberal e dos discursos políticos eivados de prometismo, da exploração do trabalho humano, do puritanismo, do preconceito e discriminação de raça, de gênero e de classe. “O preparo científico do professor ou professora deve coincidir com sua retidão ética. [...] É que me acho absolutamente convencido da natureza ética da prática educativa, enquanto prática especificamente humana.”, assinala Freire 2003 ( pp. 16 – 17), o pequeno grande mestre, que acrescenta que os educadores não podem se
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    120 assumir como sujeitosda procura, da decisão, da ruptura, da opção, como sujeitos históricos, transformadores, a não ser assumindo-se como sujeitos éticos. Freire fala da ética enquanto marca da natureza humana, algo absolutamente indispensável á convivência sadia e amorosa dos seres humanos. Ensinar é muito mais do que transferir conhecimento, é criar as possibilidades para que o aprendiz venha a produzir ou construí-lo, para Freire (2003), para quem, quem ensina aprende ao ensinar e, quem aprende ensina ao aprender. Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa, pois aprender se dilui na experiência fundante de aprender, explica. Quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar- aprender participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, pedagógica, estética e ética, enquanto a boniteza deve achar- se de mãos dadas com a decência e com a seriedade. Freire (2003, p. 25). A escola cidadã é aquela que ensina com rigorosidade metódica, na visão de Freire. O educador reforça a capacidade crítica do educando, sua curiosidade e sua insubmissão. E para que isso venha a acontecer a escola não pode prescindir de educadores criadores, instigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e persistentes. Porque: nas condições da verdadeira aprendizagem, os educandos vão se transformando em reais sujeitos do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo. Os educadores especialistas em todos os alunos devem pesquisar, constantemente, o que ainda não conhecem e comunicar ou anunciar a novidade. Devem respeitar os saberes com que os educandos, especialmente os das classes menos favorecidas, cultural e economicamente, trazem ao chegar a escola e sugerir e discutir com os alunos a razão de ser de algum desses saberes em relação com o ensino dos conteúdos. Estabelecer uma “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos aluno e a experiência social que eles trazem como indivíduos. Devem discutir as implicações políticas e ideológicas do descaso das autoridades pela áreas pobres da cidade. Isso é ética!
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    121 Ensinar exige estética e ética, decência e boniteza de mãos dadas, no dizer de Paulo Freire: Transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. Se se respeita a natureza do ser humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio á formação moral do educando, educar é substantivamente formar. Freire (2003, p. 33). Ensinar pra Freire (2003) exige:a corporeificação das palavras pelo exemplo; correr riscos ao aceitar o novo, não que tudo o que foi aprendido tenha que ser jogado fora, pois o velho que preserva sua validade ou encarna uma tradição através dos tempos continua novo; rejeição a qualquer forma de discriminação, que ofenda a substantividade do ser humano e negue a democracia; reflexão crítica sobre a prática, pois é pensando criticamente sobre a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a de amanhã. Como ele mesmo lamenta: É uma pena que o caráter socializante da escola, o que há de informal na experiência que se vive nele, de formação ou deformação, seja negligenciado. Fala-se quase que exclusivamente do ensino dos conteúdos, ensino lamentavelmente quase sempre entendido como transferência de saber. [...] Se estivesse claro para nós que foi aprendendo que percebemos ser possível ensinar, teríamos entendido com facilidade a importância das experiências informais nas ruas, nas praças, no trabalho, nas salas de aula das escolas, nas práticas de recreios, em que variados gestos de alunos, de pessoal administrativo, de pessoal docente se cruzam cheios de significação. Há uma natureza testemunhal nos espaços lamentavelmente relegados das escolas. Freire(2003, p 43 -44). Freire sempre acreditou que nenhuma formação docente pode fazer-se alheada do reconhecimento do valor das emoções, da sensibilidade, da afetividade, da intuição e do exercício da criticidade, que implica da passagem da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica, do conhecimento bancário para o conhecimento crítico. Constituir-se num professor crítico é tornar-se um aventureiro
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    122 responsável”, na expressãodo mestre, que diz que as coisas até podem piorar quando se está predisposto à aceitação do diferente, do novo, mas diz saber também que é possível intervir para melhorá-las. A passagem do homem pelo mundo não é predeterminada, a vida é feita de possibilidades, e não de determinismos. Quando a presença humana no mundo não se faz no isolamento, isenta da influência das forças sociais, culturais e históricas há esperança. “ ‘Não sou esperançoso’, disse certa vez, por pura teimosia, mas por exigência ontológica.” Freire (2003, p. 54). O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que pode-se conceder uns aos outros. O professor que costuma desrespeitar a curiosidade dos seus alunos, ou seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem ou que ironiza pelos seus traços culturais, transgride os princípios éticos da existência humana. Tanto quanto o professor que faz calar uma rebeldia legítima de um aluno ou aquele que foge do cumprimento do seu dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência educativa.Qualquer discriminação é imoral! Ensinar exige, além de segurança, competência profissional e generosidade, comprometimento, liberdade e autoridade, a arte da escuta, o reconhecimento que a educação é ideológica, disponibilidade para o diálogo, querer bem aos educandos e compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo, defende Freire (2003). Quanto mais liberdade e solidariedade, entre professor e aluno nesse espaço, mais possibilidades há de cidadania. O professor precisa abandonar a postura de portador da verdade a ser transmitida aos discípulos. Quem não consegue escutar seus alunos, não aprende a falar com eles. Fala para eles, fala deles, mas não com eles. É papel do professor escutá-los, nas suas dúvidas, nos seus receios, na sua incompetência provisória. Como anuncia Freire: O melhor caminho para guardar viva e desperta a minha capacidade de pensar certo, de ver com acuidade, de ouvir com respeito, por isso de
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    123 forma exigente, é me deixar exposto às diferenças, é recusar posições dogmáticas, em que me admita como proprietário da verdade. [...] disponibilidade à vida e aos seus contratempos.[...] ao riso manso da inocência, à cara carrancuda da desaprovação, aos braços que se abrem para acolher ou ao corpo que se fecha na recusa.[...] E quanto mais me dou á experiência de lidar sem medo, sem preconceito, com as diferenças, tanto melhor me conheço e construo meu perfil. Freire (2003, p 134). Quanto mais rigoroso o professor se tornar na sua busca e no seu exercício profissional, tanto mais alegre e esperançoso se sentirá. Por isso é falso pressupor que alegria e docência sejam incompatíveis, inconciliáveis. A alegria não é inimiga da rigorosidade, proclama Freire (2003), que acredita que há algo como o que costumam chamar de vocação que deve enlaçar tantos professores de bem na sua profissão tão mal vista e paga pelos governos deste país. Mesmo numa situação tão desestimulante, muitos continuam a suar a camiseta, honrando a categoria. E encerra a obra comentada com mais uma lição, desta vez de pura humildade: Como prática estritamente humana jamais pude estender a educação como uma experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos por um espécie de ditadura reacionalista.[...] jamais compreendi a prática educativa como uma experiência a que faltasse o rigor em que se gera a necessária disciplina intelectual.[...]Estou convencido, porém, de que [...] o exercício da curiosidade epistemológica não me fazem necessariamente um ser mal-amado, arrogante, cheio de mim mesmo.[...] Não nego a competência, por outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausência de simplicidade, que, não diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor. Freire (2003, pp. 145 – 146). A escola de especial qualidade merece um projeto político-pedagógico sonhado e construído com muito amor e rigor, como fala Freire, por todos os membros da comunidade escolar. Mas, quando têm-se a escola brasileira com uma trajetória ao longo dos tempos marcada pela centralização das decisões, cabendo aos professores cumprir as determinações que recebem “de cima”, parece utopia falar-se
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    124 na construção deum projeto-político-pedagógico onde todos participem: professores, dirigentes, especialistas, pais e alunos,como refere Carvalho (2004): O projeto político-pedagógico pode ser considerado a “carteira de identidade” da escola, evidenciando os valores que cultua,bem como o percurso que pretende seguir em busca de atingir a intencionalidade educativa. Carvalho (2004, pp. 156 e 157). Tal proposta, ou seja, o seu texto, deverá estar sempre em processo de aprimoramento, segundo a autora, pois se trata de um tecido que nunca se arremata, porque a vida é movimento e exige adaptações permanentes a serem elaborados num clima de gestão compartilhada. Tanto as discussões como as ações deliberativas devem ter: O direito e a igualdade de oportunidades respeitadas, a diversidade humana e a multiplicidade de interesses e necessidades de cada um [...] Espera-se que prevaleça o propósito de oferecer a todos a igualdade de oportunidades educacionais, o que não significa, necessariamente, que as oportunidades sejam as mesmas e idênticas, para todos. Carvalho ( 2004, p. 157). A busca da cidadania plena de todos os alunos não deixa de ser um ato político, do qual todos são co-partícepes na escola. A educação é um processo para o qual devem convergir inúmeras variáveis, inclusive a motivação de cada participante e a crença de cada um faz a diferença para que a mudança ocorra, aponta Carvalho (2004). Baseada no Index para a Inclusão – texto produzido pelo Centro de Estudos para a Educação Inclusiva em conjunto como o Centro de Estudos sobre as Necessidades Especiais, da Universidade de Canterbury, da Inglaterra, em 2000 – sugere que no projeto político-pedagógico, em questão devem constar três dimensões, a saber: a dimensão cultural – referindo-se aos aspectos filosóficos que devem nortear os objetivos a serem atingidos;
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    125 a dimensão política – evolvendo a organização interna da escola, os processos de comunicação e participação (vertical e horizontal), os vínculos com a comunidade e com os pais, particularmente; e ainda, a dimensão prática, aí incluídas a prática pedagógica em sala de aula, bem como os mecanismos de ajuda e apoio aos alunos, professores e pais que deles necessitem. Como muito bem refere a autora: “Precisamos colocar os pingos nos ‘is’ e entender que a inclusão envolve a reestruturação das culturas, políticas e práticas de nossas escolas que, como sistemas abertos precisam rever suas ações, até então, predominantemente elitistas e excludentes.” Carvalho (2004, pp. 157 – 158). É hora de revolucionar tudo no contexto escolar, onde se torna urgente que o acerto seja a regra, onde se consiga exterminar com a pedagogia do fracasso escolar, onde os problemas de ensinagem precisam deixar de ser rotulados de problemas de aprendizagem. É sabido que não são poucos os educandos que tem suas NE interpretadas como especiais - ou muito diferentes da “média” - por parte de professores mal preparados pelo sistema de ensino. Isto contrapõe-se a idéia de que enquanto cidadão de uma sociedade que se pretenda democrática, a luta por uma educação de qualidade para todos não comporta qualquer exclusão, sob qualquer pretexto. Portanto, é preciso que, para além dos ideais proclamados e das garantias legais, procure-se conhecer, o mais profunda e brevemente possível, as condições reais da educação brasileira, que vem deixando muito a desejar. Mazzotta (s.d.) reivindica que ao educador não cabe o papel de mero executor de currículos e programas predeterminados, mas sim de alguém que tem condições de escolher atividades, conteúdos, experiências que sejam mais adequadas para o desenvolvimento das capacidades fundamentais dos seus alunos, levando em conta as suas necessidades e desenvolvimento cognitivo em que se encontra. Nas suas palavras: O sistema de ensino deve definir diretrizes para uma organização
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    126 abrangente (autonomia financeira, administrativa e didática) de modo a incluir o atendimento de alunos portadores de deficiência nos serviços especiais; orientar as escolas sobre procedimentos didáticos e administrativos para favorecer a integração de alunos portadores de deficiência nas classes comuns; reconhecer a validade dos serviços e auxílios de educação especial como recursos que apóiam e suplementam a educação escolar regular. Mazzotta (s.d. p. 04) O autor refere também que a medida que for se concretizando a idéia do currículo especial para cada escola, direção para a qual o pensamento educacional vem apontando, as diferenças entre educação especial e educação comum vão diminuir e “conseqüentemente, o ‘currículo especial’ se converta em um dos elementos de uma ação sócio-educacional global, que assegure, na medida necessária, o interesse por cada membro da comunidade, seja qual for sua condição e o tipo de necessidade.” Mazzotta (s.d., p.05) E segue explicando que, além de um currículo suficientemente amplo para atender às necessidades dos alunos e da sociedade, incluindo as adaptações necessárias, a organização administrativa, didática e disciplinar deve ter a maior amplitude possível a fim de conter uma maior diversidade das condições de atendimento aos alunos; as instalações da escola devem ser favoráveis à diversidade; os professores comuns e especializados devem ter condições dignas de trabalho, bem como precisam estar preparados e receber orientação e apoio; o critério de agrupamento dos alunos precisa ser revisto e também os critérios de avaliação e promoção dos alunos; a garantia de infra-estrutura e de recursos materiais necessários deve estar presentes; envolver os pais e a comunidade no trabalho escolar é condição sine qua nom para a inclusão; identificar e corrigir atitudes de desvalorização e/ou discriminação de alunos e professores por quaisquer razões; entender que a escola é parte da sociedade e como ela se constitui em espaço de choques de interesses; da mesma forma que o avanço da participação de um grupo implica, necessariamente, na reavaliação do outro; valorizar a integração do professor especial no corpo docente da escola, como elemento essencial ao processo de inclusão; desenvolver ações práticas para responsabilizar aos membros da comunidade escolar.
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    127 Já foi dito que o estudo e a prática da ética não pode ficar fora dos portões da escola, mas, como adverte Morin (2000), a ética não pode ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes dos estudantes, com base na consciência de que o ser humano além de ser indivíduo, faz parte da sociedade e da espécie, o que implica em que o verdadeiro desenvolvimento humano deve compreender o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana. Em Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (op.cit.) – texto solicitado a Morin pela UNESCO, e que de certa forma constitui-se numa obra coletiva, pois sua versão inicial foi submetida à crítica de personalidades universitárias de todo o mundo, o autor apresenta sete tópicos: As Cegueiras do Conhecimento, que implica em “armar cada mente no combate vital rumo à lucidez” ( p. 14), ou seja, é necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que conduzem o homem ao erro ou à ilusão. Outro saber, que leva o título: Os Princípios do Conhecimento Pertinente, aborda o desenvolvimento da aptidão natural do espírito humano para situar todas as informações em um contexto e num conjunto. É preciso ensinar os métodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo. Ensinar a identidade Terrena, terceiro saber, passa pelo ensino da história da era planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicação entre todos os continentes no século XVI, de forma a mostrar como todas as partes do mundo se tornaram solidárias, sem contudo, ocultar as opressões e a dominação. Aborda a crise planetária, onde todos os seres humanos compartilham os mesmos destinos com problemas comuns de vida e morte. Enfrentar as Incertezas, trata do ensino dos princípios de estratégias que
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    128 permitam o enfrentamentode imprevistos, o inesperado, a incerteza e modifiquem seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao largo do tempo. “É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certeza.” Morin (2000, p.16) . Em Ensinar a compreensão, focaliza o reconhecimento de que, embora a compreensão seja meio e fim da comunicação humana, a educação para a compreensão está ausente do ensino convencional. A finalidade deste tema é a necessidade educativa e em todas as idades, para que os homens saiam do estado bárbaro da incompreensão nas relações humanas. Para tanto deve-se estudar a incompletude a partir de suas raízes, suas modalidades e efeitos, enfocando não os sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. Isto constituiria uma das bases mais seguras da educação para a paz. A Ética do Gênero Humano, leva em conta o caráter ternário da condição humana, que é ser simultaneamente indivíduo/sociedade/espécie, estabelece uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e concebe a Humanidade como uma comunidade planetária. “A educação deve contribuir não somente para a tomada de consciência de nossa Terra-Pátria, mas também permitir que esta consciência se traduza em vontade de realizar a cidadania terrena.”(op. cit. p. 18). A regeneração da democracia existente faz-se necessária, segundo Morin (2000), como forma de elevação da qualidade da espécie, da sociedade e dos indivíduos,em suas relações humanas, de compreender e de realizar a Humanidade em si, como legado para as futuras gerações. O autor explica que a invenção de uma democracia planetária requer a percepção do destino humano comum entre as várias nações e continentes, a disposição para forjar instituições globais voltadas para a educação e a cidadania terrenas, com o concomitante desenvolvimento de uma cultura política planetária, complementar às culturas política e societárias. Com os sete saberes que se inserem na idéia de uma identidade terrena onde o destino de cada pessoa joga-se e decide-se em escala internacional, cabendo à
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    129 educação a missãoética de buscar e trabalhar uma solidariedade renovadora que seja capaz de dar novo alento à luta por um desenvolvimento humano sustentável, Morin aprofunda a visão transdisciplinar. Para ele, toda a cultura e toda a sociedade deveria trabalhar, segundo as especificidades desses saberes que apontam numa visão abrangente da realidade. O autor diz não entender como a educação que visa transmitir o conhecimento, pode ser cega em relação ao conhecimento humano, ao invés de promovê-lo para a compreensão, fragmenta-o impedindo que o todo e as partes se comuniquem numa visão de conjunto. O destino planetário do gênero humano é ignorado pela educação que precisa ao mesmo tempo trabalhar a unidade da espécie humana de forma integrada com a idéia da diversidade. Para Morin, o princípio da unidade/diversidade deve estar presente em todas as esferas. Para tanto, torna-se necessário educar para os obstáculos à compreensão humana, combatendo o egocentrismo e o sociocentrismo, que procuram colocar em posição secundária aspectos importantes para a vida das pessoas e da sociedade. Por fim, os princípios de Morin para a educação do século XXI, lançam um desafio às instituições educacionais para que instaurem novas formas de solidariedade e responsabilidade do homem para consigo mesmo, para com os seus semelhantes e com o planeta. Apontam para a quebra da fragmentação do pensamento e para a necessidade de reunir o conhecimento científico, as humanidades e as artes, a fim de estabelecer um saber transdisciplinar. As idéias humanistas de Morin, em especial no tangente à Educação, possuem algo de similar e congruente com as pesquisas em torno das teorias e da Terapia Centrada no Cliente, de Carl Rogers (1977), que mexeram com diversas áreas da atividade humana, especialmente nos Estados Unidos, revolucionando a Educação, através da sua filosofia de valorização do estudante, com o Ensino Centrado no Aluno, que se apresenta como indicativo para as escolas inclusivas. Para Rogers(1977) o indivíduo aprende como um todo, incluindo a natureza estímulo-resposta, a cognição e o sentimento. Uma aprendizagem holística. A
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    130 pessoa deve serencorajada a seguir seu próprio desejo profundo de aprender, de crescer, de criar, “em vez de ser planejada como o quer Skinner, creio que a aprendizagem deveria ser muito espontânea e ocorrer quando a pessoa sente que aquilo vai ser aprendido está relacionado com suas próprias necessidades e seu próprio desejo de se desenvolver.” Carl Rogers in Evans (1979 , p. 45). O psicólogo não segrega o intelecto de outras funções, valoriza-o como um tipo de instrumento que pode ser usado de modo efetivo na integração de experiências - ao operar de forma livre tende a dirigir o organismo à tomada de consciência mais congruente, com que então, forçá-Io por vias específicas pode não ser benéfico. Ele inclusive satiriza a idéia, comparando a aprendizagem ao espinafre: "Todos nós sabemos dos efeitos do espinafre e do ruibarbo [erva medicinal] obrigatórios sobre as crianças. Dá-se o mesmo com a aprendizagem compulsória. Eles dizem, 'É espinafre e pro inferno com ele. " Rogers (1961, p. 235) Rogers (1983) acredita que a personalidade real de cada ser humano mostra-se através do relacionamento com os outros. Para ele os relacionamentos oferecem ocasião para a pessoa funcionar por inteiro, para se harmonizar consigo mesmo, com os outros e com o meio-ambiente. Em assim sendo, haveria palco melhor para o desabrochar da personalidade real do que no seio das escolas inclusivas? O autor define a pessoa de funcionamento integral como aquela que possui uma personalidade plena, em contínuo estado de fluxo. É flexível, e mutável. Vive cada momento, vive no presente, está sempre aberta à experiência. É capaz de reestruturar suas respostas, à medida que a experiência sugere, permite ou exige novas possibilidades. É também uma pessoa que confia na sua intuição e possui cada vez maior capacidade de tomar decisões. Rogers (1977) aplica à Educação os mesmos princípios e procedimentos da sua terapia (1977). Ao contrário da Escola Tradicional, considera o ato educativo essencialmente relacional e não individual, daí a importância de se colocar ênfase nos intercâmbios para que o grupo, com seu professor, se transforme em uma comunidade de aprendizagem. Na terapia Rogers desenvolveu os T-group
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    131 (dinâmicas de grupo)onde dez a quinze clientes interagem sob a observação de um monitor, que intervém o mínimo possível. Sua função é a de dissolver as relações de autoridade que surgem como decorrência da compulsão que as pessoas têm para mandar ou obedecer. Nestes grupos o professor é apenas um facilitador do processo de aprendizagem. Não dá preleções, mas fala e avalia, se solicitado pelos alunos, e oferece subsídios para que o aluno execute sua formação, com livros, artigos, etc. Seguindo as idéias de Rogers, em 1927 surge a Escola de Summerhil, fundada por AS. Neill, que recebeu críticas do mundo todo, mas que mesmo após a sua morte, em 1973, continuou funcionando. Não mais que 70 alunos freqüentavam as aulas. Os exames e a obrigatoriedade da presença do aluno às aulas eram dispensáveis. As questões de disciplina - porque Rogers impunha que os limites da liberdade eram os impostos pelas exigências da vida - eram resolvidas em assembléias gerais, onde os próprios alunos decidiam as regras da comunidade. Preocupado com o amor, com a liberdade e com os sentimentos, Neil age mais com o emocional do que com a racionalidade, porque acreditava que, se educarmos as emoções, o intelecto se cuidará por si mesmo. Para ele, constranger uma criança a estudar algo é o mesmo que um governo de forma autoritária obrigar a adoção de uma religião. Na Escola de A S. Neil as aulas são dinâmicas, mas o professor intervém somente quando solicitado e deve saber distinguir se as perguntas dos alunos são ou não pertinentes ao grupo; em não sendo deve calar-se. A não-diretividade é a característica do processo de aprendizagem, trata-se de um processo não estruturante, no qual o professor não interfere diretamente no campo cognitivo e afetivo do aluno. O professor deve dirigir o estudante às suas próprias experiências para que ele passe a se auto-dirigir.O silêncio sistemático e prolongado do professor é a concretização da não-diretividade. A desafiadora prática da ausência do poder exige bastante humildade por parte do professor; pois as clássicas tarefas da tendência tradicional passam a ser responsabilidade do grupo. Neil, dá maior atenção para a compreensão do que para a memória.
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    132 Quetal se o professor da escola inclusiva pescasse as idéias dos autores trabalhadas nesta monografia e mais as de alguns outros que lhes fossem simpáticos para colocar em prática nas suas comunidades ? Não faltam receitas, nem ingredientes, é arregaçar as mangas e construir a escola que cada comunidade desejar para os seus pequenos cidadãos.
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    133 Muitas são as formas de educar e ser educado. Ligar a televisão é uma delas. Essa foi a conclusão a que chegou um pai de cinco fi filhos quando ao retornar do trabalho à hora da novela das oito, da Rede Globo, na época De Corpo e Alma, escrita por Glória Peres e deparou deparou- se com a seguinte imagem: na TV, homens musculosos dançavam e faziam streap streap-tease naquilo que ficou conhecido como Clube de ou Mulheres, enquanto na sala de sua casa, seu filho de apenas cinco anos, imitava a ficção da TV, tirando a roupa e se exibindo, incentivado pela própria família, que apenas se divertia com a cena real. Na ocasião, o fato que, para a maioria das pessoas, era somente algo engraçado, fez aquele pai perceber que seu filho estava sendo educado não apenas pelos ensinamentos da família ou da escola. Havia um terceiro elemento interagindo naquele contexto, tão poderoso que, no dado instante, qualquer repreensão por parte daqueles que instante, deveriam ter o controle da situação – os pais – poderia parecer uma agressão ou ainda um comportamento antiquado. Wagner Bezerra (1999. p. 113).
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    134 2. Os meiosde comunicação de massa, enquanto desafio contemporâneo à escola. Bordenave (2001) considera a comunicação como um processo natural, arte, tecnologia, sistema e ciência social. Pode servir de instrumento de legitimação de estruturas sociais e de governos, mas também à força que os contesta e os transforma. Veículo de auto-expressão e de relacionamento humano, pode ser útil à opressão psicológica e moral. “A comunicação excita, ensina, vende, distrai, entusiasma, destrói reputações, orienta, desoriente, faz rir, faz chorar, inspira, narcotiza, reduz a solidão e - num paradoxo digno de sua infinita versatilidade – produz até incomunicação.” (op.cit. p. 14). O autor aponta que a função prioritária da comunicação talvez seja a que com maior freqüência é mencionada: a de ser elemento formador da personalidade. Sem a comunicação, o homem não pode existir como pessoa humana. Ilustra o enunciado com um caso histórico que ocorreu em 1797, quando alguns caçadores capturaram um menino que deveria ter em torno de 12 anos, num bosque da França. Estava nu, vivia como um selvagem. Portava-se como um animalzinho, grunhia, mordia e arranhava quem dele se aproximasse. Em Paris, expuseram-no em uma jaula (o selvagem de Averyon ). Posteriormente um médico tomou a criança aos seus cuidados e se propôs a ensinar-lhe a falar. Após vários anos ele chegou a aprender algumas palavras e conduzir-se como um jovem civilizado. Entretanto o
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    135 educador teve queconvencer-se de que sua inteligência não ultrapassava certos limites mínimos. A sub-normalidade da criança selvagem explica-se pelas descobertas de Jean Piaget, para quem a inteligência humana só se desenvolve quando é estimulada; porém os estímulos devem corresponder a determinadas etapas de desenvolvimento da inteligência, uma das quais coincide com a aparição da capacidade da linguagem se, nessa etapa ninguém fala com a criança, nem sua linguagem nem sua inteligência são desenvolvidas. Bordenave (2001, p.30). A comunicação, portanto, é fundamental para a formação da personalidade normal. Bordenave comenta que George Mead, filósofo norte-americano, afirmava que a mente e a personalidade emergem na experiência social, por meio da comunicação. Isto que dizer que a personalidade é um produto social, gerado graças à interação com as demais pessoas. Bordenave enuncia uma série de funções para a comunicação: função expressiva; função de construção da pessoa; função de construção de identidade; função de divertimento ou lúdica; função de troca de bens e serviços na atividade econômica; função de atribuição ou legitimação de status; função de articulação política de interesses e tomada de decisões; função de participação ou acesso ao diálogo e cooperação; função de imposição e manutenção de normas sociais; função de vigilância e educação; e função informativa ou de conhecimento do mundo objetivo. O autor esclarece que as funções de informação e de divertimento, podem ter conseqüências disfuncionais de “narcotização”, contribuindo para a legitimação de regimes políticos opressores, etc. A função de vigilância dos eventos pode levar a uma função chamada pelos norte-americanos de agenda setting que consiste em os meios de comunicação determinarem a agenda da discussão pública, ao selecionar assuntos de maneira tendenciosa, favorável aos interesses das classes dominantes e dos próprios meios. Até pouco tempo no Brasil considerava-se a comunicação como
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    136 sinônimo de “Showmanship” ou habilidade para manejar as emoções da massa. Chegou-se a exaltar como grandes comunicadores personagens de televisão que adquiriram popularidade através de espetáculos de participação manipulada, onde as manifestações semi-histéricas do auditório são induzidas mediante simples mecanismos rítmicos de “estímulo-resposta-recompensa.” Bordenave (2001, p.34). Como Bordenave, esta autora acredita que o potencial verdadeiro da comunicação está longe de ter sido aproveitado. A comunicação pode apoiar o surgimento de um homem novo, uma nova civilização. “Até agora a comunicação tem sido utilizada muito mais para legitimar e manter uma ordem social caracterizada pela exploração da maioria, pela verticalidade e o autoritarismo de relações, pela demagogia e o apelo às emoções fáceis. (op.cit. pp. 34 -35). Frente a este e outros riscos da “democracia eletrônica”, apresenta-se com a grande vantagem do acesso generalizado às informações – mas com o aproveitamento inadequado para a democracia verdadeira que dependerá das mudanças estruturais sociais, que ainda estão por vir e da leitura crítica dos meios de comunicação. Como o próprio nome parece indicar os media fazem um papel de mediação entre a realidade e as pessoas . O que os meios de comunicação social mostram não é a realidade, mas a construção da realidade, da enorme quantidade de fatos e situações disponíveis a seu belo prazer, combinando-os entre si, e estruturando as mensagens e programas de ideologia, com seus estilos e intenções que lhes atribuem os comandantes dessas redes. Cria-se assim uma “ilusão referencial” segundo a qual o leitor, ouvinte ou televidente, acredita que o que lê, ouve e vê na tela é a realidade, quando, na verdade, não é senão uma “construção” da realidade.[...] Essa capacidade de construir a realidade é uma qualidade positiva dos meios como extensão do homem, pois permite ao receptor alargar o seu mapa do mundo. Mas também constitui-se em um perigo
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    137 porque permite aos meios oferecer um mapa tendencioso. Bordenave (2001, p. 80 – 81). A reação contra a “comunicação dominada” tem levado os cientistas do 3º mundo a estudar com mais atenção o papel que a comunicação pode ter na transformação social. Vários trabalhos de Paulo Freire (Extensão ou Comunicação?) abordam a dimensão comunicativa da educação no contexto da mudança social libertadora. Estamos num momento histórico em que a sociedade civil reafirma seu direito de ser o arquiteto do seu próprio destino. O estado pouco acostumado à contestação e à participação, reage e apela à capacidade dominadora da comunicação.[...] [Mas] a população está se organizando e aprendendo a usar sua voz. Bordenave (2001, p.119). A comunicação de massa difere totalmente de outras formas de comunicação que se processam no cotidiano social, porque inaugura uma ruptura fundamental entre produtor e receptor. Thompson (1995) adverte que, por esse motivo, seria mais apropriado falar em transmissão ou difusão de mensagens, em vez de comunicação como tal. O autor explica que a expressão massa é por vezes enganadora quando se presume que as audiências são constituídas por amontoados inertes e indiferenciadas. Ele ressalta que as mensagens transmitidas pelas indústrias da mídia são recebidas por pessoas específicas, situadas em contextos sócio-históricos específicos. Há uma dinâmica na recepção das mensagens, as quais ganham sentidos subjetivos quando estabelecidas as relações com aspectos da vida concreta, Uma mesma mensagem pode ser interpretada de mil formas, sabe-se. São quatro as características visíveis na comunicação de massa, segundo Thompson (1995): A primeira, permite concebê-la como produção institucionalizada e difusão generalizada de bens simbólicos, através da transmissão e do
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    138 armazenamento da informação/comunicação. A intenção explícita é a de atingir um maior número possível de receptores. Na retaguarda desta atividade estão presentes instituições interessadas na produção em longa escala e na difusão generalizada de bens simbólicos. A segunda, institui uma ruptura fundamental entre produção e recepção dos bens simbólicos.Isto significa que entre o produtor e o receptor dos bens simbólicos há uma mediação feita através dos meios técnicos, uma vez que os agentes dessa bipolaridade encontram-se fisicamente afastados. Operam- se mensagens de mão única, que partindo de um produto atinge um receptor sem que esse possa intervir, reagir, influenciar no processo. A terceira refere-se a extensão da acessibilidade no tempo e no espaço, própria de todas as formas de transmissão cultural, mas que acentua-se na comunicação em massa, em virtude da presença dos recursos simbólicos, das práticas sociais e das condições técnicas nas quais se opera a recepção. A quarta aponta para a circulação pública das fórmulas simbólicas. Conforme Morin (1977), a comunicação de massas chamada por ele de mass media ou indústria cultural, é mais uma modalidade mercadológica oriunda da sociedade industrial: o vento que arrasta em direção à cultura é o vento capitalista. Morin diz que a imprensa, o rádio, a TV e o cinema fazem parte da indústria ultra- ligeira, em dois sentidos: pelo próprio aparelho reprodutor e pela mercadoria produzida. O modelo que a organiza é o da indústria de maior concentração técnica e econômica, tais como os grandes grupos de imprensa, as cadeias de rádio e TV, as sociedades cinematográficas que concentram seu poder e aparelhamento no domínio da comunicação em massa. A concentração técnico-burocrática pesa universalmente sobre a produção cultural de massa, despersonalizando a criação, ao padronizá-la, em nome de uma racionalidade técnica, comercial e política, desintegrando-a do poder cultural, segundo Morin. O paradoxo presente nessa atividade tem como suporte a dupla oposição ou mais os pares: burocracia-invenção, padrão-individualidade. Essa duplicidade paradoxal possibilitaria a construção de uma estrutura do imaginário segundo arquétipos, figurinos – modelo do espírito humano que ordena os sonhos
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    139 que dão aessência da estrutura interna dos personagens veículos da mídia, condicionados em temas míticos e romanescos. Essa terceira fase da Revolução Industrial em curso, período em que os Meios de Comunicação assumiram ares de integração planetária, engendra um tempo de presente contínuo, uma visão fragmentada do mundo, situado em um furacão de vertiginosas mudanças que estão instaladas na sociedade em geral, e na juventude em particular, através da busca do imediatismo. O globo agora é uma unidade operacional básica, a aldeia global (Macluhan, 1962) construindo uma forte tensão onde a desintegração dos velhos padrões de relacionamento social humano, e com ele, alíás, a quebra dos elos entre as gerações, forma um conjunto de indivíduos egocentrados sem outra conexão entre si, em busca da própria satisfação (o lucro, o prazer,ou seja lá o que for). Prado (s.d. p. 03). Por outro lado, todo mundo sabe que a maioria esmagadora dos alunos, em todas as faixas etárias, locupleta-se com a programação televisiva, ao mesmo tempo em que seus professores, numa proporção um pouco menor, também se delicia em frente a telinha. Mas, nega-se essa realidade na sala de aula. Por isso mesmo, Edgar Morin recomenda que os professores em vez de ignorarem as séries televisivas, mostrem que, por meio de convenções e visões estereotipadas, da mesma forma que o romance e a tragédia, elas falam das aspirações, temores e obsessões humanos: amores, ódios, incompreensões, mal-entendidos, encontros, separações, felicidade, infelicidade, doença, morte, esperança, desespero, poder, traição, ambição, engodo, dinheiro, drogas. Como ele mesmo diz, sobre a boa cultura artística: “ em toda grande obra de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana.” Morin (2003, p. 44). Para o autor, o romance e o filme que põem á mostra às relações do ser humano com o outro, com a sociedade e com o mundo revelam a universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais, localizados no tempo e no
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    140 espaço. Por outro lado essa cultura nascida na sociedade industrial do século XX e incrementada pela tecnologia, num contexto privilegiado da comunicação de massa, que tem entre seus traços definidores a democratização da informação, aponta para uma preocupação bastante significativa, ou seja, seus alvos, certamente tendenciosos, como refere Bosi (1972): “A influência da comunicação de massa deriva do que ela não diz, das suas omissões.” (p.26). Theodor Wiesegrund Adorno, citado por Bosi (1972) em seu ensaio Comunications defende que a expressão indústria cultural é mais adequada do que cultura de massa, porque não se trata de um fenômeno que nasça espontaneamente das próprias massas, como um sucedâneo do folclore, da arte genuinamente popular. Ao contrário, as mensagens da TV e da imprensa são fabricadas mediante certos planos como os produtos não-culturais e visam, como estes, ao consumo. Não é a comunidade de receptores – o público concreto, a sociedade - que se exprime através dos meios, mas a mentalidade dos detentores desses meios, os quais induzem uma certa visão de mundo na massa os consumidores. Adorno polimiza contra aqueles que confundem grandes audiências e nível qualitativo, chamando-os de os glorificadores da indústria cultural, porque esta atinge um numeroso público. Mas é essa mesma grande audiência que obriga aos estudiosos a descobrir e a caracterizar melhor a natureza e a função desse fenômeno. É hora de convocar todos os educadores a refletirem sobre ele, pois a sociedade que se quer democrática, não deve delegar aos meios de comunicação de massa – especialmente à TV - tais poderes de persuasão e de transmissão cultural. A cultura de massa – com ênfase na TV – integra e se integra ao mesmo tempo numa realidade policultural. Embora não sendo a única cultura nascida no século XX é a corrente verdadeiramente maciça e nova que se estende sobremaneira neste início do século XXI. Alguns de seus elementos se espalharam pelo mundo todo. Cosmopolita por vocação, e planetária por extensão, ela nos coloca os problemas da
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    141 primeira cultura universalda história da humanidade. Morin (1977) compara a indústria cultural a do detergente, que produz sempre o mesmo pó, só variando a embalagem de tempos em tempos e a automobilística, que individualiza as séries anuais com renovações técnicas ou de forma, enquanto as unidades são idênticas umas às outras, variando só na cor e acessórios, explica. Para ele, outra característica desta cultura é a pulverização de sensacionalismo, através do inesperado, do bizarro, do homicídio, do acidente, da aventura, enfim de tudo que irrompe na vida do dia a dia, da mesma forma com o que na vida real se assemelha ao romanesco ou a ao sonho é privilegiado pela indústria cultural. “Mais do que isso, a informação se reveste de elementos, freqüentemente inventados ou imaginados pelos jornalistas (amores de vedetes e de princesas).” ( p. 27) . No setor imaginário o realismo domina, são ações e intrigas romanescas – especialmente nas novelas e casos especiais - que têm aparência da realidade. “A cultura de massa é animada por esse duplo movimento do imaginário arremedando o real e do real pegando as cores do imaginário.” Morin (1977, p. 29). Outro aspecto relevante a ser levado em conta é o de que a cultura de massa, em seu setor infantil, leva precocemente a criança ao alcance do setor adulto, enquanto em seu setor adulto se coloca ao alcance da criança. Há uma tendência, pode-se dizer, que torna a criança adulto antes da hora e fabrica um adulto acriançado, para não dizer imbecilizado. “Assim, uma homogeneização da produção se prolonga em homogeneização do consumo que tende a atenuar as barreiras entre as idades.[...] já se pode perceber que a nova cultura se prolonga no sentido de uma homogeneização de costumes.” Morin (1977, pp. 39 e 41). Essa tendência homogeneizante é, ao mesmo tempo, uma tendência cosmopolita, que tende a enfraquecer as diferenciações culturais nacionais, em prol de uma cultura das grandes áreas transnacionais. A cultura individual, no seu setor mais concentrado, mais dinâmico, já está organizada de modo internacional. A par de todos esses elementos, nomeados por Morin (1977), acrescente-se a
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    142 concepção lúdica devida que essa cultura proporciona ao seu público, especialmente via TV, através da impalpabilidade das sua imagens, da participação do olho e do espírito descortinando o infinito do cosmos real e das galáxias imagináveis, mundos à altura da mão, mas fora do alcance da mão, na multiplicidade do real e do imaginário.Não é de se estranhar que com um entretenimento desse gênero, olhos fixos na telinha - “... o espírito do espectador se evade e erra, fantasma invisível, por entre as imagens.” (p. 71) – resultando no empobrecimento das comunicações como um dos primeiros resultados, alerta Morin.Nem mesmo pesquisas são necessárias – e existem numerosas a respeito – para perceber-se como a televisão consegue empobrecer as comunicações, no decorrer das refeições e durante o horário das novelas. Só há vida durante os intervalos, e ainda assim quando a publicidade não consegue top de marketing... Até a política entra parcialmente no campo da cultura de massa; a batalha eleitoral toma cada vez mais a forma de uma competição televisada, onde as qualidades simpáticas do candidato seu rosto, seu sorriso e a beleza de sua mulher se tornam tarefas políticas. : A cultura de massas integra em si os grandes políticos, não tanto exaltando suas qualidades supremas de chefe (o que é a mola impulsora da propaganda política), mas revelando suas qualidades humanas de pai ou de esposo, seus gostos privados, sua intimidade (por certo que um Hitler um Stálin, um Franco assim como aliás um bonachão presidente da República Francesa já se fizeram fotografar ou cinematografar com uma meninazinha nos braços. Morin (1977, (p.99). É preciso ainda que se fale da publicidade que integra, sobremaneira, a programação televisiva e a cultura de massa. Ela diz respeito à saúde, ao conforto, à sedução... A publicidade incita, desenvolve ou cria desejos e necessidades no seu público, porque constitui-se num aspecto inerente desta cultura, é um dos seus elementos, um dos seus prolongamentos práticos, explica Morin (1977), pois é dela que advém as vultuosas quantias para a produção da programação.Tudo isso num clima de mixórdia, que faz os produtos de limpeza, os de higiene para a pele e outros mais virarem todos produtos de beleza e/ou sedução.
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    143 Ela coloca erotismo onde não existe, num fogão, numa geladeira e aumenta a voltagem dos objetos já dotados naturalmente de carga erótica. Parece que a erotização caminha lado a lado com o progresso da semi-frigidez e da semi-impotência. Morin (1977, p. 112). Questiona o autor se a difusão de um erotismo espraiado por todos os setores da vida quotidiana, via cultura de massa , não diluiria o que antes estava concentrado: “Será que a permanente a lamparina erótica tende a descarregar a tensão sexual?” Morin (1977, p. 113) . Ele aponta também o que diferencia essa cultura de todas as outras: sua exteriorização multiforme, maciça e permanente de violência que jorra sem cessar sobre os homens pacíficos das cidades [ não tão mais pacíficos , da edição desta sua obra, de 1977, até os dias de hoje, mesmo assim valendo ainda o comentário] dos comics, da televisão, do cinema, dos jornais. É puro sensacionalismo: uma mixórnia de acidentes, catástrofes, bofetadas, golpes, tumultos, batalhas, guerras, explosões, incêndios, terremotos, erupções, enchentes, assaltos. A cultura de massas dita modas, ao seu amplo espectro de público, como nenhuma outra conseguiu até o presente momento: a cultura de massas leva modelos culturais a todos os domínios - relações amorosas, beleza, vestuário,sedução, erotismo, saber, viver, alojamento – modelos afetivos práticos de personalidade, e estes se aclimatam por serem o aspecto cultural do grande ímpeto mundializante da civilização tecnicista e por parecerem anunciar uma salvação terra a terra. Morin (1977, p 161). Morin aponta para ao perigo dessa influência sobre o público, pois essa nova cultura mediática age diferentemente, de acordo com o nível cultural dos povos à ela submetidos: No 3º mundo, a indústria ultra-ligeira, a das comunicações, começa a
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    144 revolucionar mentalidades antes mesmo que a sociedade seja transformada. Nos países ocidentais, o alfabetismo foi difundido antes da cultura audiovisual. No 3º mundo, o processo é, com freqüência, invertido, a cultura audiovisual se propaga por imensas zonas ainda analfabetas. Morin (1977, p 162). E alerta também sobre as conseqüências psicológicas, morais e éticas da cultura de massa sobre o homem pois, diferente de outras culturas que existem ao longo do tempo da história humana, esta não cultua, não defende, não prega o engrandecimento humano, não traz no seu bojo a hominização. a fraternidade humana, o amor pelo outro, a comunhão, enfim a superação do egoísmo, o desabrochar da vida pessoal na vida coletiva não são ainda senão mitos; a única cultura ao nível das realidades atuais é a cultura de massa. Morin (1977, p 162). Morin (1977) apresenta ainda uma concepção de que a cultura de massa bloqueia, reciprocamente, o real e o imaginário, numa espécie de sonambulismo permanente ou de psicose obsessiva. Assim ocorreria com todos aqueles que “... sem condições de adaptar uma parte de seus sonhos à realidade e uma parte da realidade a seus sonhos.” (p. 170) Ou seja, a cultura de massas se adapta aos já adaptados e adapta os adaptáveis, integrando-se à vida social onde o grau de desenvolvimentos econômico e social lhe fornecem e favorecem seres humanos. Há telespectadores que muitas vezes não conseguem distinguir a programação ao vivo do programa gravado. Não raro, alguns dentre eles telefonam para a emissora que está levando ao ar um programa x, para se referir a qualquer aspecto da emissão, supondo que a transmissão seja direta e surpreendem-se com o equívoco. Para alguns analistas, um dos grandes perigos da televisão está nesse caráter híbrido, que favorece a (con)fusão entre informação e fabulação, ou entre registro documental e ficção ou, ainda, entre o presente exercido e o simulado, abrindo brechas para se vender gato por lebre.
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    145 Conforme Vilém Flusser, citado por Machado (1988), a inexistência de marcas distintivas entre as duas modalidades de programação televisual – a emitida ao vivo e a pré-gravada - “acaba por confundir as categorias do real e do fictício e torná-las cada vez menos ontológicas e cada vez mais coercitivas, de onde o corolário invetável da TV como instrumento para a alienação.” (p.82) . Umberto Eco, também citado por Machado (1988) lembra que “...na TV moderna temos visto surgir programas em que documentação e ficção se misturam de modo indissolúvel, a ponto de a distinção entre notícias verdadeiras e invenções fictícias tornar-se irrelevante.” (p. 83). O público, de forma geral, merece que pelo menos os programas de informação digam a verdade, ou seja, atenham-se aos fatos, mesmo que todo mundo saiba ou pelo menos intua que, de alguma forma, todo fato é sempre manipulado ou interpretado na abordagem televisiva. Já nos programas humorísticos, novelas, filmes para TV, comédias e congêneres, aceitam-se liberalidades de toda espécie, pois já se sabe que ele trabalha apenas com fatos forjados pela imaginação, mesmo que - rigorosamente falando em termos de anunciação - não haja diferença audiovisual entre o desembarque na lua documentado ao vivo e outro extraído de um filme de ficção, por exemplo. Certos telespectadores, inclusive, nunca acreditaram que o homem tivesse chegado à lua, para eles foram truques de filmagens. E há os que tomam a ficção por realidade, como o telespectador que agride o ator que interpreta o vilão de uma novela ao encontrá-lo na rua. Comportamentos assim são considerados alucinatórios, mas o perigo maior está concentrado em pequenas aberrações, não nas grandiosas, como estas aqui comentadas. Ninguém deve se iludir a respeito da TV - especialmente em tratando-se da educação de crianças e jovens – enquanto canal de comunicação sócio-cultural, ela encontra-se a serviço do sistema social em que se localiza. Sua produção baseia-se, portanto, na doutrina social, ou na ideologia do sistema, o que implica em que ela não seja posta em questão nunca.
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    146 No Brasil, inserida numa sociedade de capitalismo dependente - terceiro- mundista e organizada com base em princípios de liberdade de pensamento, expressão e crença, assegurados pela Constituição - a TV vem sendo orientada pela ética capitalista, visando antes, e, acima de tudo, o lucro, a partir do qual tudo se justifica. Veicula, ao longo de toda a sua transmissão, valores e princípios da ética capitalista, como o individualismo, a competição, o materialismo, virtuosamente concretizados nas cenas do comercial, da novela ou do jornal, como afirma Penteado (1991).
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    147 [...] o meio tecnológico moderno, em particular a oderno, invasão das mídias e o emprego de aparelhos eletrônicos na vida quotidiana, modela progressivamente um outro comportamento intelectual e afetivo.[...] Na realidade, assistimos a lenta ascensão de um novo modo de ser e de pensar. Um outro modo de ser em sociedade. [...] Babin e Koubundjian (1989, pp. 11 e 8 ). bin
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    148 2.1 Um novojeito de compreender, para além das disciplinas, através de uma percepção audiovisual holística. Babin e Kouloumdjian (1989) levantam a hipótese de que uma nova cultura está nascendo – baseados em pesquisas e observações que realizaram, na década de 80. A pesquisa composta por entrevistas, encontros e experiências variadas com a juventude e com educadores de horizontes e idades diferentes, responsáveis pela formação permanente em empresas, docentes do ensino superior, professores de 2º Grau e sociólogos, entre outros. Os especialistas e educadores que fizeram parte do corpo da pesquisa são da América do Norte, África e Ásia. Os pesquisadores puderam observar as rupturas de valores e de comportamentos entre os jovens e os adultos, perceptíveis em canais como na linguagem e modos de expressão em geral, na relação com o mundo, nas suas percepções que consideraram radicalmente diversa da geração anterior. Chegaram a conclusão de que os jovens não são mais contra estes ou aqueles valores em relação aos quais tentam definir sua identidade. “Eles ‘estão em outra’, num sistema diferente dentro do qual se inserem de modo original e que, pouco a pouco, constitui uma verdadeira e nova cultura.” (op. cit., p. 05). Os jovens de hoje diferem bastante dos contestadores que os antecederam, não são contra, nem a favor. O walkman no ouvido é uma imagem sugestiva, não da revolta entre gerações, mas da distância que as separa. A oposição – marca característica do choque de gerações – metamorfoseou-se em desnorteio, o
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    149 combate sócio-político transformou-seem salvaguarda da ecologia, a organização revolucionária deu lugar às ações pragmáticas, as ideologias foram trocadas pelos discos. Não há agressividade, há apenas distância, uma certa impotência para comunicarem-se. Não há rompimento com a família, ou pelo menos é bem mais leve do que antes. A própria incomunicabilidade não é tão radical assim. Cada um na sua, como eles mesmos dizem. Essa conclusões a que os pesquisadores – que, entre outras especialidades, são professores – chegaram, de certa forma, não são novas para os educadores que trabalham há um pouco mais ou um pouco menos do que 20 anos e viram esse novo modo de apreender e perceber a vida, aqui, ali, acolá, pois jovem é sempre jovem, e cada geração traz sempre muitos traços em comum, ainda que para lá do além mar. Corroborando com as características apontadas pela pesquisa, muitos comentários desabonadores foram feitos a respeito dos jovens da década de 80, pelos entrevistados, fossem eles professores ou pais de jovens da faixa etária em questão, ou seja, em plena adolescência. Embora já se tenham passado mais de 15 anos dessa pesquisa, o assunto ainda é atualíssimo, no concernente a esta monografia, já que ali nasciam os comportamentos que ora se encontram enraizados e arraigados à geração audiovisual agora batizada, registrada e assumidamente em outra, se comparada a dos seus pais e professores, isto se estes e aqueles não forem também muito jovens... O dado significativo, para este trabalho, é que os membros dessa juventude estudada são da geração pós –TV. Do estudo pode-se tirar que, em geral, os pais se queixam que os filhos estão sempre com o som a mil, que os filhos estudam em frente a TV ou ouvindo música, estão sempre com seus discos, sua TV, escapando deles ... Na deles, fugindo do diálogo!
  • 151.
    150 Pais e professores se queixam que os jovens tornaram-se incapazes de acompanhar por muito tempo uma explicação, um discurso qualquer de conteúdo intelectual. Após 15 minutos já estão em outra ... As principais queixas da cultura tradicional à jovem geração são: “o nível de inteligência baixou” ; “são incapazes de se concentrar”; “colocam tudo no mesmo pé”; “são passivos”, “há uma perda de raciocínio e do espírito crítico”, “os jovens falam sobre tudo, mas nada sabem”; “eles vivem em outra”. Os autores da pesquisa tecem alguns comentários sobre as possíveis causas para que as duas culturas se choquem. Para eles a queda da atenção provavelmente encontra-se vinculada ao fato de muitas crianças dormirem pouco, por ficarem vendo TV até tarde; a quantidade de informações que atinge os jovens e as crianças, via Meios de Comunicação de Massa, MCM , os submerge e os impede de concentrarem-se num ponto especial. A civilização eletrônica acelera os ritmos: a própria música é tocada com mais rapidez do que antes. Mas, em compensação, eles se concentram nas suas músicas, nas suas histórias em quadrinho, nos seus filmes, nos seus vídeos. Os pesquisadores comentam que numa das experiências da pesquisa assistiram o filme Woodstock com jovens alunos, que fascinados confessaram viver quatros horas de paraíso e alguns acabaram vendo o filme cinco ou seis vezes. Já quando os autores assistiram o mesmo filme com alguns educadores, muitos destes confessaram ter dormido durante a exibição. Tantos outros reclamaram por que levaram quatro horas para dizer o que poderia ter sido dito em 20 minutos,na sua concepção... Pergunta-se: quem foi passivo, quem foi mesmo que não se concentrou? Se é difícil para os jovens concentrarem-se em conceitos, discursos desprovidos de ritmos, imagens, sons, vibrações, não é o caso quando esses elementos estão presentes. Não há como discordar dos autores, quando perguntam o que serve muito bem como sugestão para as escolas da pós-modernidade.
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    151 E se o conhecimento pela TV fosse uma forma de entrar na vida divertindo-se, passeando como numa floresta? E se esse conhecimento pela televisão fosse uma familiarização, uma aquisição, caminho na verdade insuficiente, mas necessário para um conhecimento e uma enunciação mais profunda? Portanto, um outro modo de conhecer. Babin e Kouloumdjian (1989, p.38 ). Muitas queixas sobre a dificuldade de os alunos expressarem-se na sua língua nacional – no caso o francês – assemelham-se bastante às queixas dos professores de português no Brasil ( a autora deste trabalho é professora de português). Dizem os autores que a literatura inspiradora já não é Racine nem as fábulas de La Fontaine, mas as revistas, o rádio, a TV, o cinema. O que há de comum nestas mídias é que define a linguagem audiovisual, que começava a fazer sucesso na época da pesquisa, se configurando e instalando na nova cultura. Nela fala-se mais do que se escreve, vê-se mais do que se lê e sente- se antes de compreender. Um livro é redigido com distanciamento: um script é composto no calor da criação. Isto é uma diferença básica. Na linguagem audiovisual os ruídos lançam o ouvinte dentro do lado concreto de uma situação, a música cria um clima, a imagem, ao mesmo tempo que fixa, leva para longe. A palavra estrutura o discurso. Uma regra é que na linguagem audiovisual o som, a palavra e a imagem tem que vir mixados, amplificados, multiplicados. A marca de uma boa mixagem é criar uma experiência global unificada. O teste acontece junto ao telespectador. Se ele perceber os quadros separados, a montagem é considerada ruim. A mensagem está no todo. Ela dirige-se ao sujeito inteiro, ele precisa ficar envolvido, tocado. Nesta linguagem a estética e a capacidade de empatia são fundamentais, mais do que a reflexão. Ela apela primeiro aos sentidos, depois à inteligência. A linguagem não pode ser rebuscada, literária, mas sim popular, dialogada, próxima.
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    152 “Acompanhar as mídiasé viver no drama: o das notícias, dos filmes policiais, dos jogos inacabados e das dramatizações.” É o império da anormalidade, do sensacionalismo! Frenesi de pressa e consumo desenfreado de neurônios. No telejornalismo, por exemplo, é puro: “Drama, isto é, ação. Uma ação que se alimenta de acontecimentos cuja força é aumentada, ou, de simples pormenores que conseguem se tornar chocantes e ocupar todo o campo da consciência.” (op. cit. p. 44 ). Quando os professores se queixam dos textos ou dos discursos orais de seus alunos ou da falta de lógica encontrada neles, é bom que se tenha sempre em mente, que eles nasceram e se criaram – bem perto, diga-se de passagem – das TVs e sua linguagem audiovisual. Não há falta de lógica, há outra lógica, apenas não é linear, como a linguagem padrão culto. A composição audiovisual não se desenrola como uma história regular de trás para frente. Nem é didática. Não se desenrola como uma divisão da realidade, em partes articuladas, com lógica aristotélica. Não é sintética, partindo de um visão de conjunto para mostrar ou analisar, sucessivamente, os pormenores. Ela se apresenta em flashes, aparentemente sem ordem, num fundo comum. Às vezes, nem sequer há mais leis de continuidade de cores, de linhas, de assuntos. As imagens parecem-nos lançadas ao rosto. Mas sob essa aparente desordem, pode reinar uma rigorosa ordem subjetiva. A dramatização é conseguida indo-se do detalhe ao global e vice-versa. Como esclarecem os pesquisadores: Pensamos que, lenta e imperceptivelmente, o audiovisual – da televisão aos jogos eletrônicos – impregnou a linguagem. Ouvir a jovem geração falar, ler os textos que ela compõe, é receber o eco deteriorado dessa linguagem audiovisual [...] Babin e Kouloumdjian (1989, p. 45). Os alunos americanos e os africanos – observados na pesquisa – em suas falas expressavam bem os prenúncios da incorporação da linguagem audiovisual, ou seja: falavam com frases breves, expressões pesadas e sonoras, faziam elevado uso de onomatopéias, acentuação vigorosa e ritmos irregulares, palavras e orações
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    153 inacabadas – inter-cortadasou completadas com gestos e caretas, supressões de verbos, de artigos e de pronomes. Percebe-se que o som das palavras tem mais importância do que o rigor conceitual. O vigor, até a acidez das expressões, acrescentado ao gosto pelas nuances, pelas imagens verbais e a mímica dos gestos de acompanhamento, substituem os raciocínios e as construções explícitas e bem organizadas. Os autores chamam de mixagem, o termo síntese que melhor define a fala dos jovens. É como se eles estivessem fazendo cinema ... E seguem-se as queixas dos pais, dos professores e dos especialistas entrevistados na pesquisa, similares às brasileiras. Falam da dificuldade de compreensão de vocabulário; do uso de linguagem oral nas redações; de frases tipo slogan ; que a página escrita não tem consistência, nem permanência, como se fora um programa de televisão; não consideram mais a ortografia, escrevendo como se pronunciam as palavras; só conseguem guardar da dissertação uma palavra-chave, uma informação; textos com abreviações estranhíssimas, repetições, barulhos com a língua, tudo acompanhado de gestos e até de sessões de mímica inesperada, que pontuam a frase ou suprimem as palavras que faltam. “A linguagem é quase sem palavras [...] é cada vez mais descritiva, emocional e até física, por exemplo, ‘Os professores arrancam os cabelos, piram de vez’... ”, Babin e Kouloumdjian (1989, p. 60). A linguagem enche-se de contexto e esvazia-se de texto. É quase total a ausência de conjunção e de coordenação. As frases significando sua totalidade com o auxílio da expressão corporal, o tom da voz, a mímica. Contribuem para isso não só a TV, o cinema, mas a falta de leitura, a carência do meio social, o não uso de dicionário, atribuem, os educadores. Os jovens de hoje em dia são essencialmente visuais, eles lêem o que podem visualizar, e se desinteressam por livros demasiados conceituais. Se eles não conseguirem imaginar as idéias, não compreendem o texto. Da mesma forma, a fala é cada vez mais sensorial e visual.
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    154 A geração da televisão exprime o que vê e ouve, da maneira como vê e ouve. Há muita dificuldade para exprimirem idéias que não tenham raiz sensorial, ressonância emocional ou contorno visual. Os autores estão cobertos de razão, quando dizem que o parece ser sem pé nem cabeça é assim, considerando-se a organização linear do discurso. Na realidade, na linguagem audiovisual desses jovens o que conta é a visão do todo, e não as ligações entre as partes desse todo. As distinções e as articulações do discurso desaparecem em benefício de uma imagem global. Há o predomínio da visão subjetiva e global como já foi referido. Nesse tipo de linguagem prefere-se um bom estímulo inicial a uma boa explicação, mas a correspondência, a prova do raciocínio vem depois. O que comanda as conexões numa conversa, por exemplo, é a preocupação da relação com o grupo, ou com o meio, mais do que com a lógica interna do discurso. A própria imagem e a experiência das relações é mais importante do que o discurso. É essa a ordem que preside as seqüências dos telejornais. Se vai de notícia a notícia, sem lógica aparente, e é o telespectador que liga os pedaços, se pelo menos o conjunto lhe deu alguma experiência unificada. Todas essas influências fazem com que os jovens sintam a necessidade de uma outra linguagem, mais livre, mais imaginativa, mais rápida. Como guardar o essencial da aquisição de Gutemberg e, ao mesmo tempo, assumir os novos modos e valores da linguagem audiovisual? É este o desafio que a sociedade atual , e, em particular a Educação, precisa aceitar! Se os jovens forem abandonados à sua linguagem - com a força interna de desordem e de desagregação que carrega consigo – o assassinato das línguas nacionais cultas ocorrerá em breve, muito em breve, por este planeta à fora. Porém, recolocá-los dentro do discurso literário tradiconal, com o padrão culto de linguagem – em raríssimas exceções – será impossível.
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    155 A proposição de Babin e Kouloumdjian (1989), ao longo da obra, e com a qual a autora desta monografia concorda, é que se conduza uma certa exigência, às formas de linguagem para as quais os jovens têm, ou tem demonstrado atualmente um talento quase nato, espontâneo. Segundo os autores, enquanto os homens da era Gutemberg procuram fixar a realidade através da escrita, num espaço e num tempo finitos, sem se preocuparem com a vibração da voz que emite, valorizando só a palavra, a idéia, o conceito; o homem da geração TV ou audiovisual, ao contrário, é menos atento ao símbolo abstrato e à idéia do que à voz, à vida do que ao homem. O que caracteriza o homem audiovisual não é a vista, mas a combinação do olhar e do ouvido, tendo a percepção auditiva um papel-chave. Enquanto na percepção visual é a memória remota que mais age, na musical é a memória a curto prazo que mais intervém, por isso, a única realidade visível no som é a presente, não pode se recriar o passado, nem visualizar o futuro. Nas palavras de G. Berger, citado na obra que vem sendo explanada, “O que a música nos oferece é a aguda tomada de consciência da morte dos conteúdos.” Eis porque o impacto do som é tão forte. As pessoas reagem ao som física e psicologicamente, antes de analisá-lo. “No som o ouvinte não está acima, está dentro, não supervisiona, está imerso. A realidade o penetra até o fim do ser, pois o ouvido é o sentido da intencionalidade.” (op.cit. pp. 83 - 85). Pela riqueza das percepções que o audiovisual oferece, pela compreensão global e plurisensorial da sua maneira de apreender o mundo, ele pode acabar conduzindo o espectador à falta de reflexão, pois ao assisti-lo, como indica Merleau- Ponty, citada por Babin e Kouloumdjian (1989) é necessário: ...romper com a fé originada da percepção e adotar, a respeito dela, uma atitude crítica. A tarefa de uma reflexão radical consiste, de maneira paradoxal, em encontrar a experiência irrefletida do mundo para nela recolocar a atitude de verificação e as operações reflexivas, e para fazer aparecer a reflexão como uma das possibilidades de seu ser.” (grifo da autora deste trabalho). Merleau-Ponty( in op.cit. p. 84).
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    156 É nesta atitudecrítica que a escola pode – e deve – interceder, assunto esse que será abordado intensamente no item seguinte deste trabalho. Uma das grandes resistências ao audiovisual provém da dificuldade dos homens da era Gutemberg – principalmente os intelectuais – têm em admitir a validade da imaginação ou da afetividade nos processos de conhecimento e de ensino. Na mente dos homens que detêm o poder cultural, qualquer expressão imaginária está ligada ao lazer, à arte, à manipulação. É difícil admitir que o imaginário e a afetividade possam, de alguma forma, influenciar a escola ou a organização social. Treinados para a distância afetiva e para desconfiança da imaginação, o homem da era Gutemberg vê com maus olhos a civilização audiovisual eletrônica, que liga intimamente a sensação à compreensão, a coloração imaginária ao conceito. Mas as coisas mudaram e é preciso cuidado e disponibilidade para aceitar essa nova forma de ver e entender o mundo. Sabemos que de tanto trabalhar sempre o mesmo músculo, esse músculo se desenvolve. Assim também é com o comportamento intelectual. A ginástica interna, consciente ou não, que a prática da linguagem audiovisual desenvolve ao longo do tempo, determina uma maneira de compreender e de aprender, na qual a afetividade e a imaginação não poderiam, estar ausentes.” Babin e Kouloumdjian (1989, p. 107). No audiovisual tudo parte do que poderia ser chamado de choque audiovisual, ou seja, uma mudança de registro – som, palavra e imagem chegam brutal e globalmente. O choque vai determinar uma sensibilidade nova, explicam os autores. Logo após, estabelece-se um estado emocional confuso, ambíguo. Uma espécie de pré-conhecimento, que depois determinará a compreensão, propriamente dita da mensagem. Enquanto no discurso habitual de um livro ou de uma conferência, a lógica é inscrita objetivamente na pontuação e nas conjunções coordenadas, nos audiovisuais as seqüências não têm lógica dedutiva. A tonalidade afetiva do começo – choque inicial – é que vai determinar a compreensão do telespectador. A ligação entre o conteúdo intelectual e a afetividade é essencial à linguagem audiovisual eletrônica.
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    157 Outro tempo localizável no audiovisual é o da sua compreensão ou Elaboração do sentido , como referem Babin e Kouloumdjian (1989). Nessa etapa, aquele que recebeu a mensagem da confusão inicial – mesmo que não compreenda nada – passa a elaborar ou procurar um sentido, não se trata mais somente de sentir, a partir desse momento, a compreensão já passa a exigir lugar: Aqui se devem notar dois aspectos específicos [...] na escrita do audiovisual há interpenetração íntima dos elementos cognitivos e afetivos. Mesmo que se trate de uma aula de economia pela televisão, essa aula reveste-se de profundo caráter afetivo, dependendo da personalidade do professor, do brilho dos atores, do som das vozes, da focalização dos rostos, do fundo musical, dos gestos e do conjunto do espetáculo.Exatamente como um bom professor na classe, dir-se-á. Não, muito mais! Pois ainda uma vez é próprio do meio eletrônico ampliar a presença e vibração sensorial. (op.cit. p. 112). Quando acontece a reflexão diante e sobre o que se viveu e sentiu, se está diante do tempo do distanciamento, da conceitualização, ou seja, da passagem às idéias gerais, da apropriação ou reconstrução na linguagem do espectador, e, enfim, surge o julgamento crítico sobre o conteúdo, a forma, a linguagem, a técnica, os processos utilizados, os fundamentos comerciais e econômicos postos em jogo. Momento importantíssimo, como previnem os autores: Se o audiovisual constitui uma ameaça, é porque muitos espectadores nunca chegam a essa etapa. Assim, em muitas montagens,na formação, o participante só retém o que convém à sua personalidade e ao seu papel. Num filme sobre técnicas de venda, um vendedor vê alguns de seus defeitos e confirma algumas de suas qualidades. Ele esquece pelo menos 60% das outras informações. (op.cit. p. 113). Para muitos o audiovisual mata a imaginação. O bloqueio seria ocasionado pelo alto número de imagens que faz uso e por sua violência. Mas há quem pense o contrário. Bachelard, citado por Babin e Koubundjian (1989 p. 115), diz que a imagem apreendida nos livros, vigiada e criticada pelos professores é que bloqueia a imaginação, através da imagem imposta, intelectualizada, estereotipada, como as imagens dos audiovisuais didáticos e dos projetores de slides, utilizados nas escolas.
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    158 A livre profusão de imagens como acontece nos filmes, na TV e na publicidade estimularia as forças imaginativas pois, como afirma Bachelard : “Imaginar é ausentar-se, é lançar-se para uma vida nova.” Pelos mecanismos que desencadeia, os audiovisuais artísticos afastam os telespectadores do pensamento científico clássico, aumentando seu coeficiente de audácia, de fantasia e de criatividade. O espírito analítico, rigoroso e lógico do professor ocidental é que dificulta a sua aceitação do meio audiovisual como promotor de conhecimento no seio da escola. A maioria dos educadores até rechaça a TV, vendo-a apenas como sinônimo de lazer, de diversão e de brincadeira. O fato deste meio trabalhar o conhecimento e a informação de uma forma quase física, esculpida na realidade, incomoda aos intelectuais, que acabam não levando em consideração nem a adoração das crianças pela telinha mágica. Pelo fato do visual e dos diálogos terem menos importância, num audiovisual, uma música atraente, alguns efeitos sonoros, os timbres e os efeitos de voz, as freqüentes mudanças de interlocutores são os elementos que primeiramente captam sua atenção. Sem contar o alto nível de atividade física ou de ação. Outro aspecto a ser notado nessa geração TV ou audiovisual é que as crianças – mesmo as muito pequenas - não se assustam com a técnica, enquanto muitos adultos, a maioria talvez, especialmente os mais velhos, acham tudo complicado demais e, não raro, socorrem-se, nas suas dificuldades, chamando logo um técnico ou apelando para os filhos e os amigos dos filhos, que resolvem o problema ligeirinho, muitas vezes... As crianças não precisam nem serem alfabetizadas para desincumbirem-se com as aparelhagens de som, TV, vídeo e até mesmo o computador. A par de todo esse entregar-se de corpo e alma das crianças dos dias de hoje às novas tecnologias da comunicação, a escola tem a empreender um papel fundamental: o de trabalhar com o distanciamento das mensagens, com a relativização das informações e dos choques emocionais. Se é necessário a imersão
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    159 para a compreensãode uma mensagem audiovisual, faz-se mister a estada num segundo tempo, a distância para chegar a uma certa verdade do conhecimento. Como referem os pesquisadores: Um perigo espreita a jovem geração: ficar na sensação, que é a primeira etapa. O papel da escola é educar para o segundo tempo, uma escola que continuasse o sistema de imersão além de 30% faria apenas demagogia e passaria à margem da sua função. Babin e Koubundjian (1989, p. 155). Embora a escola, especialmente a particular, já tenha sido, ao longo de sua história, forte em ensinar os mecanismos de distância reflexiva, crítica e científica, os instrumentos de ontem e os métodos tradicionais utilizados até então estarão aptos a resolver os problemas de hoje? Se esses instrumentos e métodos não são mais suficientes no presente para lidar com o tipo de inteligência da jovem geração, por que perpetuá-los, se já não servem ao objeto e ao sujeito? Para que a lógica de Aristóteles se quisermos mandar um foguete e a análise literária se quisermos estudar um filme? Por que a análise hipotético-dedutiva para ter recall na publicidade? Para Babin e Kouloumdjian cabe à Escola trabalhar intensivamente com alguns mecanismos e formas de distância que o audiovisual teria provocado na civilização nascente, para que o processo de ensino-aprendizagem ocorra sem falhas. a) A primeira distância refere-se aos olhos em relação ao objeto, pois o homem mergulhado no universo audiovisual corre o risco de não perceber direito, seria uma espécie de miopia intelectual, que ocupa o campo de sua consciência momentaneamente. b) A segunda distância a ser instaurada é a do conhecimento crítico das novas linguagens: cinema, rádio,TV, montagem audiovisual.c) E a terceira distância é a do despertar do eu . Nosso sistema cultural tradicional ensinou aos homens a se estruturarem e a se equilibrarem por uma espécie de fidelidade linear às leis, aos costumes e aos raciocínios dedutivos. O homem sentia-se até então espontaneamente integrado ao
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    160 mundo de maneirahistórica, instalado entre um passado e um futuro: achava-se nos textos, entre uma palavra na frase, ligada a anterior e influindo no significado sobre a seguinte. Como se achar na modernidade em meio aos MCM ? A civilização das mídias destrói tanto o estado de espírito que caracterizava os ocidentais até há pouco, que estes perderam o controle e o objetivo, não sabem mais como se movimentarem e até pensar diante da nova civilização. A dedução linear e a capacidade de jogar com as idéias perderam pouco a pouco, o interesse. Como bem diz, Flüsser, citados por Babin e Koubundjian (1989): “Os que haviam sido programados pelas escolas e não pela televisão, que tinham de aprender a ler e a escrever em vez de aprender a obedecer aos sinais de trânsito e aos cartazes, nunca tomarão pé na Terra...” (p.165). Neil Postman, citado por Babin e Koubundjian (1989), diante da influência da televisão sobre as crianças e jovens, atribui à escola uma função essencial de termostato no sentido de sua atuação como regulagem para o amortecimento das tensões e na regulagem de volta ao que é fundamental para o homem. Outro papel da escola, apontado por Postman, é comprometer-se com a memória da civilização, porque quem vive dentro das mídias perde a memória e o sentido de importância das coisas, até porque ao jornalismo o que interessa é o anormal, e quando o tecido da história é feito de acidentes de erupções vulcânicas, nem sequer há mais o fio da história. Em resposta ao fato de dizerem que as crianças de hoje aprendem mais coisas fora da escola do que dentro, Postman diz que até pode ser verdade, mas rebate dizendo que será sempre na escola que se aprenderá o que fica, a gramática do mundo e ordem das coisas. Entre os diversos aspectos sócio-culturais causados pelo processo de informatização da sociedade, temos a passagem de um pensamento simbólico a um pensamento conexionista. Conforme André Parente (2000), o percurso histórico de uma realidade universal pré-literária, do fazer físico, em direção a uma realidade do
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    161 fazer simbólico, quese baseia numa educação estratificada, literária, se está a fechar sobre si próprio e a chegar ao seu termo. Com o cinema, a televisão, as tecnologias multimídia e a realidade virtual, o homem ingressa na era de uma sociedade pós-simbólica. Por um lado, a leitura deixou de ser mestre do raciocínio ou dos sentimentos do homem. Os novos tempos já não exigem descrições vinculadas pelos limites de linguagem nem jogos semânticos para comunicar pontos de vista pessoais, acontecimentos históricos ou informações técnicas. Prevalecem sobretudo descrições diretas – muitas vezes virtuais – e experiências interativas com os materiais originais, refere Parente. Entramos na era do conexionismo generalizado,que nos leva a pensar o mundo como uma rede de comunicação. Vivemos a era do simultâneo, da justaposição do próximo e do longínquo, da topologia e de interconexão generalizada,cujo paradigma é a rede de comunicação. Parente (2000, p. 17). Ontem o texto era escolar, hoje ele é a sociedade mesma. Ele tem forma urbanística, industrial, comercial, televisiva ou hipertextual. O conexionismo generalizado da sociedade das redes de computadores criou novas formas de espaço e tempo, complexos, flutuantes, indefinidos, rizomático. “Dentro desta perspectiva, o hipertexto representa o último capítulo da história da escrita e do livro, o livro hiperativo, audiovisual e multimídia.” Parente (2000, p. 19). Se o pensamento de hoje pode ser qualificado de integrativo (intuitivo, não analítico, holístico, não linear) por oposição a um pensamento auto-afirmativo (racional, analítico, reducionista, linear),se os valores podem ser ditos integrativos ( integração,conservação,cooperação,qualidade), por oposição aos valores auto- afirmativos (dominação, expansão, essência, competição, quantidade), tudo isto tem relação com a rede, pois a rede é como que a condição de possibilidade do movimento de uma espécie de interconectividade generalizada, assinala Parente.
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    162 Por um lado, a rede produz um deslocamento no modo de conhecermos as coisas. [...] é uma forma de solucionar os problemas causados pela grande especialização do saberes; cada vez mais produz- se em grupo, em que cada um contribui com um pouco do que sabe. [...] Por outro, lado, como saber o que se faz hoje em um mundo cujas grandes descobertas são anunciadas a cada minuto?Lembremos que segundo Einstein, três grandes bombas haviam explodido em nosso século: a bomba atômica, a bomba demográfica e a bomba da informação. O dilúvio da informação é de fato um dado irreversível. Ela não é trocada, mas compartilhada. E ao ser compartilhada ela se reproduz exponencialmente. Parente (2000, p. 20). Esta característica exponencial é mais visível nas jovens gerações, em todos os sentidos. Jovens estes que não mudaram apenas a forma de falar, de pensar, de escrever, mas mudaram a forma de agir no mundo frente aos problemas estruturais que assistem. Que assistem não, pois eles arregaçam as mangas e agem. Diferentes das gerações anteriores, que escreviam e pronunciavam discursos inflamados a favor do oprimidos eles vão á luta,companheiro. Shephen kanitz, em artigo na revista Veja (2001) 12 de setembro de 2001, refere-se ao tema. Diz que lera recentemente um artigo que acusava a nova geração de “estar com nada”, preocupada somente com o futuro emprego e o umbigo. Os jovens não seriam mais como as de antigamente, engajados, na luta por uma grande causa, queriam revolucionar o mundo. Trinta anos atrás, 20% de meus amigos de faculdade, pelo menos os que se achavam mais inteligentes, eram de esquerda. Queriam mudar o mundo, salvar o Brasil, expulsar o FMI e acabar com a pobreza. Cabulavam as aulas e viviam no centro acadêmico com pôsteres de Che Guevara discutindo como tomar o poder. A idéia de ajudar os outros fazendo trabalho voluntário na periferia nem lhes passava pela cabeça. [...] para minha surpresa, quando fiz o mestrado em Harward, a totalidade de meus colegas era apolítica. Eles estavam lá para estudar, adquirir conhecimento, para poder ser úteis á sociedade e talvez ficar ricos. Por isso estudavam, para meu desespero, vinte horas por dia.” Kanitz (2001, p. 21).
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    163 Aliada a essa enorme carga horária de estudo, todos, havia muito tempo,faziam trabalho voluntário, um dos requisitos inclusive para a admissão ao mestrado,conta o administrador. Passados trinta anos, num encontro com a turma de mestrado constatou que todos ficaram ricos,como pretendiam; ele era única exceção. Ricos, eles agora devotavam boa parte do tempo a causas sociais e doam bilhões ao terceiro setor. Muitos, já aposentados, gastam 25 horas por semana em conselhos, como o da Cruz Vermelha.[...] a reunião de trinta anos com meus colegas da USP foi ainda mais surpreendente. O mais engajado na época, o que mais pregava a luta de classes, é hoje diretor de banco. Seu colega socialista, e menos radical, é o dono do banco. A maioria desculpou-se dizendo: “cansei de ajudar os outros (sic) “estou ficando velho, preciso me preocupar comigo mesmo.” Kanitiz (2001, p. 21). Kanitz comenta que prefere a nova geração,que não é nem de esquerda, nem de direita,nem agüenta mais esta discussão. Não querem mudar o mundo, querem primeiro mudar o bairro para depois mudar seu estado e o país. Querem se tornar competentes para então mudar o mundo, paulatinamente, ao longo da vida. A nova geração está desencadeando uma revolução de cidadania, usando cérebro e o coração para o voluntariado, engajando-se no terceiro setor, cada um fazendo a sua parte. Não ficou somente no discurso, partiu direto para a ação. Em minha opinião, nossa nova geração está com tudo, e deveríamos ficar orgulhos por não se fazer mais jovens como antigamente. Kanitz (2001, p. 21). Wernec (1999) é da mesma opinião de Kanitz, a respeito da participação da nova geração em prol da cidadania. Define como protagonista juvenil o menino ou menina que toma a iniciativa de promover e gestar ações que transcendam a seus
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    164 interesses pessoais oufamiliares, sempre relacionadas à solução de um problema concreto. Eles defendem a ecologia, fazem jornalismo escolar, rádio comunitária, catam lixo na praia ou organizam um mutirão no condomínio a favor da reciclagem de lixo. Percorrem comunidades carentes – ou não – fazendo prevenção de câncer de mama, distribuem camisinha, explicam como fazer sexo seguro, vão a asilos cozinhar nos feriados, percorrem bares de madrugada convencendo outros jovens a não dirigir alcoolizados. Werneck (1999 , p. 124). Como refere a autora, de etapa em etapa, vão percebendo e confirmando que para garantir a sua sobrevivência como adultos precisarão tomar decisões cada vez mais solidárias. Bem melhor, seguramente, do que esperar de braços cruzados o dia em que a sociedade vai achar que aquele jovem cidadão está pronto para participar da vida pública. “Exercendo seu lado protagonista o adolescente vai assumindo o compromisso de ser autor de seu futuro. É líder de si próprio. Líder consciente e participativo.” Werneck (1999, p. 125). Criativo, dinâmico, inovador e participativo, o jovem – descrito pela autora rejeita disfarces, concessões, simulações. É o parceiro ideal no processo de construção da sociedade inclusiva, pois a palavra-chave para entender o conceito de trabalho voluntário é solidariedade “...solidariedade significa troca e aprendizado conjunto. Pressupõe responsabilidade social e cooperação.” Werneck (1999, pp. 131 e 132). Segundo o professor Antônio Carlos Gomes, citado por Werneck : O jovem, hoje, quando se engaja, pretende mudar o mundo, mas mudar o mundo á sua volta. Nossa geração costumava querer salvar o proletariado, mas não arrumava a cama de manhã. Deixava a empregada arrumar.[...] quando você oferece ao jovem a oportunidade de ele se envolver em ações concretas dentro do cotidiano para melhorar alguma coisa, ele o faz com entusiasmo. Antônio Carlos Gomes in( op.cit. p. 127).
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    165 Como ironiza a jornalista, antes que alguém ache que é engano, porque tudo o que se lê sobre a juventude está relacionado sempre a problemas, mais especificamente à violência. Aconselha a que se respire fundo, despoje-se dos estereótipos e observe com atenção os jornais do país, que estão cheios de trabalhos belísssimos desenvolvidos pela juventude atual. Pode ser que a notícia não ganhe destaque, mas há uns quadrinhos que falam disso e a TV também às vezes se refere, com menor incidência que deveria é óbvio. Ela é da opinião de que pequenas atitudes podem mudar o mundo. Não importa o tamanho desse mundo. Essa é a diferença entre a juventude do ano 2000 e aquela que agitava bandeira nas décadas de 60 e 70. Ninguém é melhor ou pior. São contextos diversos. O momento histórico é outro, a conjuntura sócio-política-econômico–cultural é diversa. Naquela época [...] só as ações engajadas em um posicionamento engajado tinha valor. O auto-patrulhamento era tanto que menina do MDB, por exemplo, nem beijava na boca menino que se dizia a favor da Arena... Talvez por isso, há pais de adolescentes, ainda mais se militavam politicamente no passado, com dificuldades em perceber a utilidade e o desdobramento das ações que mobilizam seus filhos. Alguns insistem em afirmar que a juventude atual é apática, desinteressada, individualista, consumista. “O jovem perdeu seu espírito de contestação”, dizem. Não é verdade. Os adolescentes deste final de década são apenas mais flexíveis nas suas posturas e nos seus objetivos. Vivemos um outro momento histórico. Werneck (1999, pp. 126 e 127). E a julgar pelos dois relatos de Kanitz e Werneck a escolha destes jovens brasileiros denota que culturalmente está-se chegando próximo aos países desenvolvidos. Que se aplaudam estes gestos de solidariedade e que eles sejam a tônica da escola inclusiva. Há muito por fazer, aproveite-se o sangue novo e a mente ainda não deturpada pelo comodismo e preconceitos dos mais velhos.
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    166 [...] há, na cultura de massa, outra coisa, um aquém e um além, que a prende ao devir profundo da humanidade, algo escondido como uma semente [...] fundida, aglutinada sob a fixação individualista, a espera e a busca milenar de mais bondade, mais piedade, mais amor e mais liberdade. [...] Há no homem, que parece esconder-se como um eremita, sob os estranhos objetos de sua propriedade, a cega aspiração à comunicação com o outro. Há no pequeno burguês televisual, uma relação pelo vídeo como o cosmonauta que navega pelos espaços e, por mais tênue que seja, uma relação com a pulsação do mundo, com o Espírito do Tempo... Morin (1977, p. 184).
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    167 2.2 Aprender eensinar, com prazer, educando para os meios de comunicação. Apesar das altas taxas de evasão e retenção escolar - que identifica uma possível resistência cultural a traços oferecidos pela escola, destituídos de significado para aqueles aos quais se destinam - muitos repetentes permanecem na escola.Penteado (1990) atribui esta escolha ao valor da escolaridade de uma certa cultura da escola. Baseada em Freitag (1984) a autora explica que mesmo com os deveres da vida escolar a escola representa para a criança de baixo poder aquisitivo um espaço e um tempo onde lhe dão o direito de ser criança, de brincar, de jogar, de contatar com outras crianças. Considerando-se alguns pressupostos levantados por Penteado (1995), tais como o efeito socializador da escola, somado à atividade lúdica, imprescindível à construção adequada dos esquemas abstratos do pensamento lógico, da autonomia moral, segundo Piaget, para quem o ensino de caráter altamente enciclopedista bem como a negligência com a experimentação e ação prática põem em risco toda a criatividade e inventividade da criança, implicam no mínimo numa reflexão sobre as formas adequadas e produtivas de se lidar com conhecimento na escola. A autora considera que o texto televisivo pelo fácil acesso que a população tem a ele, amplo, irrestrito e prazeroso o torna impossível de ser ignorado pela escola. Explica porém que não se trata de menosprezar o trabalho com o texto escrito ou com outros quaisquer conhecimentos sistematizados com que se lida na escola. “Devia mesmo é ‘ativar’ o trabalho escolar hoje desenvolvido.” Sua pedagogia da
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    168 comunicação, procedimento aser adotado pela escola, sugere que a programação da TV seja trabalhada na escola : “Não como uma disciplina específica, mas como uma conduta pedagógica ‘problematizadora’ de nossas práticas sociais, abordadas a partir das diferentes campos do conhecimento.” (p.117) Cada nova tecnologia é uma nova extensão do homem, explica Clea Bosi (1978). Cada meio que surge é uma nova possibilidade de expressão para os seres humanos. A palavra - fonética e escrita - sacrificou o mundo de significados e a percepção. As culturas letradas somente dominaram as seqüências lineares concatenadas como formas de organização novas. O segredo da imprensa é a fragmentação da experiência em unidades uniformes. As diferenças entre a comunicação oral e a escrita são de ordem semântica, psicológica e sociológica. Estas diferenças geram diferentes comportamentos e percepções. O olho do leitor, na busca de um significado após o outro, faz uma codificação linear do real. Já as novas linguagens eletrônicas exigem uma outra codificação, simultânea, que recupera, de uma certa forma, a percepção do homem pré-letrado. O livro isola,a palavra falada agrupa . O livro leva ao ponto de vista e a uma atitude crítica; e a palavra falada implica em uma participação emotiva. Como há uma tendência do ser humano a recordar melhor as coisas mais profundamente sentidas, as palavras recordadas na tradição oral são freqüentemente as mais carregadas de sensibilidade coletiva. “Para os homens da tribo, as palavras são como a água que deve passar de mão em mão, com o maior cuidado, para que nem uma gota se perca.” David Riesman (apud BOSI,1978,p. 37). A transmissão oral de contos e lendas, anterior à Renascença, aplicava-se ao ouvido. Foi a partir de invenção da imprensa, por Gutemberg, que a matéria do conhecimento passa a ser aplicada à visão (em exercício linear). Na era eletrônica, nos dias de hoje, não só um ou outro sentido, audição e visão, mas um processo de envolvimento múltiplo audiovisual definiria o relacionamento entre emissor e receptor, na apreensão das mensagens. “O ouvido, órgão receptor por excelência na sociedades arcaicas e primitivas, ter-se-ia embotado pela mecânica tipográfica dos
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    169 últimos 500 anosde história ocidental . Só muito recentemente, graças a presença do rádio e da TV, volta-se a estimular aquele sentido.” Bosi (1978, p. 32). Para Bosi, depois de séculos de saturação de uma tecnologia ótico-linear, chega- se a um espaço cultural novo, ou novamente auditivo, criado pelos canais eletrônicos de comunicação – rádio, telefone, TV). Meios que envolvem o sujeito, integram-no em um campo de vivências e, por paradoxal que possa parecer, lhe confere uma percepção tão rica quanto a do homem analfabeto ou primitivo. Por meio das técnicas em mosaico (assim chama McLhuan aos processos de montagem simultânea de TV e dos meios que a imitam), unifica-se a linguagem do homem contemporâneo que, apesar das distâncias, está vivendo numa só “ Global Village”. A era eletrônica não seria, portanto, uma etapa na história da mecanização e da atomização, peculiares ao Homo Typographicus. Ao contrário, ela significa uma ruptura com ambas e a retomada de uma convivência orgânica, tribal. Bosi (1978, p. 34). McLuhan, segundo Bosi (1978) refere-se a era tribal, de tradição oral, como um período mais íntegro, menos fragmentado. Era que as técnicas eletrônicas estariam começando a restaurar. Toda tecnologia obriga aos que contatam com ela a novos equilíbrios. A eletricidade envolve o indivíduo com toda a humanidade. O computador que traduz outras línguas anuncia o advento de uma condição pentecostal de compreensão e unidades universais. As línguas foram superadas por uma consciência cósmica geral. O globo foi eletronicamente contraído e a consciência humana terá, para McLuhan aumentando a sua responsabilidade, seu compromisso com os outros. Aparecem, pois, como corolários de tecnologia, uma empatia entre os homens e uma aspiração pela totalidade. Este otimismo se patenteia em “Mutações”, livro que aborda o problema do estudante numa escola-planeta. O aprendizado seria uma exploração lúdica da realidade, semelhante à da criança, a do artista. A aula sem paredes seria ministrada pelos meios de comunicação de massa. Bosi (1978, p. 36).
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    170 Conseguirão os remanescentes da quase extinta era de Gutemberg – os professores, pelo menos os mais antigos – junto com os filhos do audiovisual - seus alunos – responsabilizarem-se uns pelos outros e empática e solidariamente aspirarem a totalidade? Espera-se que sim, construindo um mundo inclusivo, onde todos possam ser considerados cidadãos de fato e de direito. “Para que todos sejam um, como tu, ó pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós para que o mundo creia que tu me enviaste.” São João, 17, v.21, Novo Testamento. Partindo-se do pressuposto que é função da escola instrumentalizar a sociedade, através da formação de seus cidadãos, momentaneamente alunos, para conviver sadiamente com os meios de comunicação – em especial com a TV, por se constituir num importantíssimo canal afeito às possibilidades de acesso à informação e à Educação, acredita-se estar contribuindo não só para o desabrochar de cidadãos críticos e colaborativos, mas também para a democracia, para o desenvolvimento sustentado e para a melhoria de qualidade da vida da comunidade local à comunidade planetária. É função da escola demonstrar aos seus alunos que, ao trazer uma forma pronta e acabada de propagar a realidade, a TV, especialmente a comercial, interfere na vida das pessoas, no social e na política, formando seres mediatizados, no dizer de Bezerra (1999), que em nota introdutória do seu Manual do Telespectador Insatisfeito, espera que a escola com essa instrumentalização possa acabar com o telespectador passivo, que cederia lugar a um aluno-cidadão-telespectador : “ [...] insatisfeito com os programas oferecidos, [que] poderá se colocar diante do desabafo de aprender a lidar crítica e ativamente com o veículo que tem invadido corações e mentes.” (p.09) Apelidada de a babá eletrônica, quem passa a maior parte do dia na companhia das crianças brasileiras é a TV. Afirmam a Psicologia e os estudiosos da Comunicação, que tal fato pode ocasionar, entre outros malefícios, o amadurecimento precoce do público infantil, devido a banalização do sexo e da violência, salpicados de cabo a rabo em sua programação.
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    171 O excesso de informações que se jorram em ondas incessantes sobre esses pequenos telespectadores, versando sobre os mais diversos assuntos, quase os faz naufragar e afogarem-se em dados. Ou, ainda, o que pode resultar numa absorção imprópria – distorcida, dir-se-ia - dos fatos e da realidade. Mesmo sem entender o vocabulário, muitas vezes – por exemplo – as informações são passadas pelas imagens que, certamente, interferirão na construção da personalidade do telespectador em pleno desenvolvimento, no seu caráter e na sua maneira de ver, sentir e de entender o mundo à sua volta. Mas a babá não toma conta das crianças somente na ausência dos pais. As famílias quando reunidas - nas horas das refeições, muitas vezes - costumam conversar com a TV ligada. Não raramente, a primeira e a última imagem do dia, para milhões de pessoas, são geradas pelas TVs, como afirma Bezerra (1999) que, além de reivindicar que as programações ditas educativas devam ter maior espaço do que o das novelas, dos shows e dos filmes, denuncia a qualidade dos programas televisivos: “Tudo isso bem ali na nossa frente, sem que, a olhos nus, em frente a telinha, possamos perceber que o sangue, o sexo ou o mau cheiro da violência que exala da TV pode nos atingir de verdade.” (p.19) Qualquer observação mais atenta deixará explícito que os donos das emissoras – que na verdade se dizem donos, mas não o são, são apenas concessionários de serviços públicos, faz-se necessário que se esclareça – cidadãos que teriam a obrigação de zelar prioritariamente pelos interesses da sociedade, não estão nem aí com a qualidade dos serviços que prestam. O que importa são as cifras exorbitantes que giram em torno destas programações e seus ibopes. Longe dos seus planos estão a defesa dos Direitos Humanos, da cidadania, a preocupação com a Cultura e a Educação. Qualidade que seria imprescindível, já que o que é apresentado como informação e lazer, na realidade funciona como Educação e Cultura para muitos membros da sociedade brasileira. Como disse Dom Eugênio Salles, arcebispo do Rio de Janeiro, citado por Bezerra (1999) “triste o futuro de um país quando o índice de audiência é o critério único para
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    172 a escolha dosprogramas televisivos.” (p.30). Enquanto os departamentos comerciais das TVs enriquecem, baseados apenas neste critério, empobrecem-se e deturpam- se as mentes em formação, com a violência verbal, com a grosseria e a degradação humana exposta em programas como os dos Ratinhos da vida. Se a escola não tem como influenciar na produção dessa programação de baixo nível por outra mais artística, mais sadia, mais educativa, ela pode trazer à baila o excremento televisivo à análise e à crítica necessárias à formação saudável de seus alunos. Aluno como sinônimo de telespectador crítico. Várias pesquisas, citadas por Bezerra (1999) sobre o público telespectador, em diversas partes do mundo dão conta de dados bastante desagradáveis para os pais e professores de crianças e jovens. Uma delas, realizada na Holanda, pelo professor Jô Gobel, da Universidade de Utrech, em 1998, envolvendo cinco mil meninos e meninas, mesmo não sendo muito atual, apresenta dados alarmantes - que provavelmente apontariam para índices mais desastrosos, se fossem corrigidos para os dias atuais . Dentre os dados, tem-se: 44 % das crianças não conseguem diferenciar a realidade do que vêem na TV; 50 % do universo das crianças pesquisadas passa mais tempo vendo televisão do que fazendo qualquer outra atividade fora da Escola; 88 % das crianças considera o Exterminador, interpretado por Arnold Schwazenegger, no filme O Exterminador do Futuro, o seu principal herói; 5 % das crianças, que vivem em ambientes agressivos (em guerra ou alto índice de criminalidade), gostariam de ser como este herói; 47% da fatia que prefere conteúdo agressivo na mídia, gostaria de se envolver em situações de risco. Mais dados alarmantes da mesma pesquisa: a TV é a maior fonte de informação e entretenimento da maioria das crianças que passa uma média de 3 horas em frente a telinha. Essas crianças acham que violência é uma coisa divertida e não se dão conta de que ela pode machucar a si e aos outros. As que vivem em ambientes violentos e assistem a programas violentos tendem a ser mais violentas no comportamento do que aquelas que só são confrontadas pela violência mediante a mídia.
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    173 Os dados atestam também que a violência da mídia entra na vida das crianças quando elas estão buscando orientação, e, em não obtendo modelos de comportamento no ambiente familiar; ou quando elas já aprenderam que a violência é uma coisa normal, quanto mais a experenciam na realidade, mais procuram o espelho na TV . Como elas estão em busca de um referencial comportamental, e,em não encontrando na vida real, espelham-se nos heróis que encontram na TV, no cinema, na Internet. E dados – desta vez referentes à vida real – são também chocantes. Levantados pela UNESCO e pelo Instituto Airton Senna, que revelam que num total de 1561 jovens para cada grupo de cem mil habitantes, com idade entre 15 e 24 anos, morreram violentamente em 1996, no Rio de Janeiro. O número de mortes violentas entre jovens na mesma faixa etária – incluindo assassinatos, acidentes de trânsito e suicídios – é relativamente maior do que no conjunto da população. Nos Estados Unidos o cenário não é diferente. Números fornecidos pela JUSTTHINK, Organização Não-Governamental norte-americana que trabalha com a educação de jovens, indicam entre outros dados que, até os 12 anos de idade uma criança assiste em média a oito mil assassinatos pela TV. Em 75% das cenas de violência mostradas pela TV não há punição pelo ato violento e em 58% dos casos de violência a vítima não sente dor. Ainda outros índices são espantosos. Estes fornecidos pela Children Now . São de uma pesquisa realizada com 750 jovens americanos entre 10 e 16 anos, em 1995. Dentre os entrevistados 66% possuem três ou mais televisores em casa e metade um aparelho no quarto. Quase metade deles disse que os programas transmitidos à noite levam a acreditar que a maioria das pessoas são desonestas; e 82% referiram que os programas de TV deveriam ajudar a ensinar o que é certo e o que é errado. Outros índices referem que a maior parte dos jovens acredita que a TV não é um mundo de fantasia que não os afeta. Eles acreditam que a programação da TV
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    174 estimula: o desrespeitoaos pais, a mentir e a ter comportamentos agressivos; e dois terços afirmam que sua geração é influenciada pelo que vê na telinha. Enquanto dois terços dos entrevistados disse que freqüentemente quer experimentar as coisas que vê na televisão, 62% deles disseram que o sexo na TV e nos cinemas os influencia a fazer sexo, quando ainda são muito novos. Estes últimos números, felizmente, apontam que há luz no fim do túnel, pelo menos os jovens estão conscientes do perigo que os rodeia... Todos esses índices que dizem respeito a violência na vida real e sua expressão através dos meios de comunicação parecem corroborar para a hipótese de que aos olhos dessas crianças e jovens pesquisados a violência compensa, pois se o mundo é mau como a mídia mostra nos filmes, nas novelas, nos telejornais e certos programas de auditório, a única solução – com uma certa lógica, inclusive - é ser também agressivo... Se ao menos a escola cedesse espaço para a reflexão sobre a influência dos MCM em seus alunos, interpondo-se entre a imagem falaciosa que a mídia passa às crianças, que vêem a violência como algo divertido, compensatório, interessante, curioso... Se a escola, a família e a sociedade, como um todo, são impotentes para cessar a promoção sistemática da cultura da violência nesses meios, que se passe a execrá-la na escola e se promova o valor da paz, em seu lugar. Em paralelo às opiniões dos telespectadores, em 1996, a Universidade da Califórnia realizou um estudo que alertava sobre os efeitos psicológicos da violência na TV, envolvendo a avaliação de 2.500 horas de programação e 2693 programas americanos. Ficou comprovado, entre outros índices escandalosos, que: 73% dos atos violentos na TV não são punidos, todos os programas violentos ensinam didaticamente as técnicas de brutalidade aos telespectadores, 58% das vítimas nem sequer sentem dor e 47% parecem ser de borracha, que não sangram, nem apresentam ferimentos.
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    175 Esses números desabonadores sobre as programações televisivas – que não é privilégio só dos programas nacionais – levam a concluir que: a TV pode transmitir às crianças a idéia de que a violência é normal – ou o que é pior - trata-se de um divertimento. Enquanto algumas crianças sentem medo, durante a transmissão de programas violentos, outras vão tornando-se insensíveis, com relação ao sofrimento dos outros. Sem dúvidas, a televisão contribui de forma mais acentuada para anestesiar os telespectadores para o sofrimento real das pessoas, quando mostra a violência num contexto de humor e exibe detalhadamente, com requintes de sadismo, os ferimentos das pessoas. Isso sem falarmos de outro tipo de violência como o constrangimento de entrevistados, que são expostos a vexames públicos em programas de auditório como Topo tudo por Dinheiro, as famosas Pegadinhas, programa do Ratinho e Leão Livre, alguns telejornais de caráter duvidosos , como havia o Aqui e Agora e outros do mesmo baixo nível, que primam por encontrar anomalias, banditismos, miséria humana – muitas vezes com cenas forjadas de adultérios e correlatos. O menor estrago que a TV pode fazer para as crianças, com essa programação é encurtar-lhe a infância, antecipando problemas com os quais elas só se deparariam mais tarde, como as drogas, a prostituição, as traições. Diante de todo esse quadro e considerando-se ainda a hipótese central de Os Novos Modos de Compreender de Babin e Kouloumdjian (1989), segundo a qual a prática das mídias e das novas tecnologias engendra, pouco a pouco, uma nova cultura, que um dia poderá inclusive tornar-se uma civilização, a Escola precisa aparelhar-se para obter outras maneiras de estudar, de compreender e de comunicar. É inegável que ela se constitui no terreno mais fértil para o desenrolar e o desenvolvimento do choque das culturas. Até então, vivia-se ou ensinava-se, na Escola Templo do Conhecimento e da Razão, alicerçado pela Ciência, mas em tempos de mídias sedutoras, a escola precisa amalgamar-se com outros paradigmas que desabrocham em meio ao
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    176 surgimento das novastecnologias, tais como: o da Intuição, da Comunicação, da Holística, equilibradamente, reunindo sensibilidade e raciocínio. Em tempos de rapidez eletrônica deve-se treinar professores e alunos para caminharem de maneira intuitiva, espiritual, global e pragmática. E, para esses tempos rombudos, que ameaçam implodir a Era Gutemberg, duas palavras-chaves crescem em importância e poderiam presidir essa transição. São palavras audiovisuais, no dizer desses autores: mixagem e estéreo. Já tarda a hora, urge que se dê também lugar nas escolas a documentos audiovisuais a serem trabalhados com método, dentro de uma pedagogia clássica. A foto, o desenho, a figura podem ilustrar um texto. A montagem, dramatizar um problema de qualquer ordem. O vídeo pode concretizar ou sistematizar um ensinamento, um documentário de TV pode ensinar. O importante é que os usuários - alunos e professores – tenham em mãos a tecnologia audiovisual e que, de preferência, a estudem, enquanto meio, fazendo também sua produção, não utilizando-se apenas do já produzido, acabado. Será preciso mixar audiovisual e sistema escolar, ensinando cinema e televisão em sala de aula. E aqui, sabe-se que, muitas e muitas vezes, os papéis tradicionais de professor e aluno se inverterão, será a hora então de aprender e ensinar, ensinando e aprendendo com prazer, através da educação para os meios de comunicação. Trata-se de ensinar a ler a imagem, a decodificar uma mensagem publicitária, analisar um programa, um filme, um telejornal a serviço da formação do espírito crítico. Quanto ao funcionamento em estéreo, sugerido por Babin e Koubundjian (1989) significa que se instaurem dois tempos, duas maneiras de ser, duas pistas no sistema de formação nas escolas. De certa forma dando o direito ao funcionamento dos dois hemisférios cerebrais, ou seja, seu funcionamento original. Ao lado da razão, da lógica linear, seqüencial, da especialização, da linguagem escrita, da análise, do raciocínio e do domínio intelectual, abrir espaço para a criatividade, ao artístico, ao simbólico, à música, à percepção simultânea da gestalt e da intuição.
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    177 Métodos que certamenteabrem caminhos para uma formação holística, atravessada por uma Educação Inclusiva. Há mono ou mixagem numa pista, segundo os autores citados, quando um dos aspectos do conhecimento - ou da formação – sobrepõe-se a outro. Na era gutembergiana, a razão e a análise dobram a afetividade e a imaginação sob seu imperialismo, enquanto na nova cultura nascente, fala-se com a imagem ao invés de falar da imagem e, em certos momentos, em especial nas dinâmicas de grupos, a afetividade e a imaginação comandam tudo, inclusive a análise. Já no funcionamento em estéreo, há o respeito pelos atributos dos hemisférios cerebrais esquerdo e direito, cada um tem sua especificidade, seu ponto de vista, mas sem radicalismo, há um aporte para servir de trânsito entre elas. Há distinção, portanto, mas também influência recíproca. “Funcionar em estéreo é instaurar duas vias, dois métodos de compreensão e de expressão. Às vezes é o registro analítico, rigoroso, seqüencial, abstrato, que domina. Outras é o registro artístico, global, intuitivo, gustativo. E há a passagem de um ao outro, mas respeitando pontos de vista e predominâncias.” Babin e Koubundjian (1989, p.177) Já vai longe o tempo - ou pelo menos deveria ir-se – em que havia grande diferença entre o fato de aprender e o de se divertir. As escolas precisam abrir-se para uma práxis mais alegre, mais harmoniosa, mais encantadora. As escolas precisam constituir-se num lugar para onde se vai ao encontro do encantamento, um lugar para ser e tornar os outros felizes. O conhecimento dentro e fora de seus muros precisam efetuar-se pela afetividade, pelo gosto, pela imaginação, pela criatividade, pela experiência fruidora. Na era das mídias é burrice deixá-la fora da portas da escola e reservar-lhe apenas as categorias do dever e do aborrecido. O tempo não é mais de decorebas, muito menos de aulas carrancudas... O mais premente é que os alunos compareçam a escola e gostem de lá permanecer. Se os alunos gostarem de estar na escola já se ganhou ingresso garantido para a aprendizagem, “O jardim da infância é um sucesso em muitos casos: por que tudo isso acaba brutalmente quando se entra no 1º
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    178 Grau ? ”,perguntam Babin e Koubundjian (1989, p. 178). “Uma escola que não ensina como assistir à televisão é uma escola que não educa.”, afirma o pedagogo espanhol Joan Ferres, em entrevista à revista Nova Escola, de dezembro de 1998. Autor de várias obras sobre o tema, como: Televisão e Educação, Televisão Subliminar e Vídeo e Educação, ele observa que a tendência nas escolas é a de adotar atitudes unilaterais diante do fenômeno da televisão. O autor diz que as pessoas diante do conteúdo exposto pela TV, dividem-se em “apocalípticas” ou “integradas”, na terminologia da dicotomia maniqueísta trabalhada por Umberto Eco. “Talvez na escola o predomínio seja das primeiras. Segundo esses catastrofistas, a televisão provoca todo tipo de males físicos e psíquicos: problemas de visão, passividade, consumismo, alienação, trivialidade.”(p.21) No extremo oposto estariam as posturas integradas, segundo as quais a televisão deve ser considerada como uma oportunidade para a democratização do conhecimento e da cultura, para a ampliação do sentidos, para a potencialização de aprendizagem, explica Ferres. “A televisão representa a cultura da opulência e da diversidade, a cultura da liberdade, das opções múltiplas”, complementa. Concordando com Eco,ele lembra que as atividades extremistas acabam confluindo, levando a resultados semelhantes. “A atitude mais adequada é a aceitação crítica,o equilíbrio entre o otimismo ingênuo e o catastrofismo estéril, um equilíbrio que assuma a ambivalência do meio, as suas possibilidades e limitações, as suas contradições.” (p.21) Idéia compartilhada por esta autora. Todo mundo sabe – ou pelo menos os mais informados, e é papel da escola informar aos pequenos – que as TVs dão destaque a fatos irrelevantes, ocupando um espaço descomunal, alguns deles ligados a figuras do próprio canal de televisão, como o nascimento da filha da apresentadora e congêneres... As reportagens, mesmo as mais extensas, dão apenas uma versão entre as inúmeras versões possíveis de uma notícia. Os interesses dos proprietários das redes de TV podem influenciar o conteúdo do noticiário, por exemplo, favorecendo a um candidato em época de eleições, um ponto de vista sobre um determinado assunto. O noticiário, pode ser vítima de restrições políticas... E por aí vai.
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    179 O telejornal pode dar a sensação de que é um retrato do que ocorreu de mais importante naquele dia no país, no mundo... Pura ilusão! Os noticiários televisivos transmitem um volume muito restrito de informações. Irrisório, se comparado a de um jornal diário ou uma revista semanal. Mas, não dá para negar que a TV pode levar o mundo até casa do telespectador, permitindo que ele assista , ao vivo, a eventos históricos como guerras e viagens espaciais. Acompanhados por milhões de telespectadores, os noticiários são capazes de mobilizar toda a sociedade em torno de movimentos políticos, como a campanha pelas eleições diretas,a derrubada de Collor,etc. O telespectador assíduo sabe que a violência permeia, com maior ou menor intensidade, quase todos os gêneros de programas televisivos. Embora os efeitos dessa super exposição sobre o comportamento dos telespectadores não possam ser medidos com precisão, é impossível negar que ela contribui para deformar a percepção da realidade. Pessoas que assistem diariamente à TV tendem a acreditar que a sociedade é mais violenta do que realmente é. A televisão cria uma espécie de mundo paralelo que muitos associam, de maneira equivocada, à realidade. “A formação de telespectadores conscientes, capazes de ‘ler’ a televisão sob o prisma da ética e da cidadania, torna-se em função disso uma prioridade que a escola não pode abrir mão”, anuncia Sérgio Rizzo – em reportagem de capa da revista Nova Escola, de dezembro de 1998 (p.22) – que acrescenta, que o desafio de ensinar os alunos a ver televisão com esse olhar crítico implica num conhecimento mais aprofundado desse poderoso meio de comunicação. Mais um motivo para cada escola possuir um educomunicador que gerencie os ecossistemas comunicativos por lá. A mesma reportagem citada aponta opinião semelhante, do jornalista e crítico de TV Eugênio Bucci, autor de O Peixe Morre pela Boca e Brasil em Tempos de TV: “Saber ver criticamente a televisão é condição básica para o exercício da cidadania.” Ele considera fundamental também que a escola abra um canal pelo qual as crianças possam se manifestar,verbalizar, elaborar porque vêem televisão, o que
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    180 gostam de verna TV, o que as atrai. “Depois disso, imagino ser possível, aos poucos, desmontar o discurso da televisão e também da publicidade.” (p.22). defende. Bucci é da opinião que a TV hoje organiza o espaço público brasileiro: “Foi ela que, após o golpe de 64, conferiu a identificação dos brasileiros entre si, promovendo a integração nacional no plano do imaginário.” (p.22) Essa coesão se existir por um motivo ético é válida, mas é perigosa, pois no maior valor deste meio, que é atingir um grande público completamente diversificado, encontra-se também a sua maior periculosidade. Já imaginaram se Hitler, ao invés do rádio, tivesse usado a televisão? As pessoas precisam estar preparadas para lerem e entenderem as linhas e as entrelinhas da mensagem televisiva. Bucci, como esta autora, acredita que se a escola tomar a si o trabalho de desnudar a televisão estaria plantando a semente para o desenvolvimento de telespectadores críticos. Este é um trabalho que acabaria com a discussão em torno da censura na TV, pois, mais importante do que controlar o que a TV veicula diariamente é preparar o público, sobretudo os telespectadores mirins, “a vê-la sem se submeter e ela”. O importante é “saber usá-la para a vida, sem ser usado por ela”. (p,22), argumenta.
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    181 A imensa máquina da educação é rígida, inflexível, fechada, burocratizada. Muitos professores estão instalados em seus hábitos e autonomias disciplinares. Estes, como dizia Curien, são como os lobos que urinam para marcar seu território e mordem os que nele
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    182 3 . Poruma pedagogia da comunicação, a serviço da fraternidade, numa sociedade inclusiva. Segundo Babin e Kouloumdjian (1989), os jovens têm razão de se revoltar contra a escola porque, nos dias de hoje, muitas vezes, ela ergue-se e desenvolve-se num mundo totalmente à parte do mundo exterior, o mundo do trabalho, o mundo dos lazeres, o mundo dos costumes e da solidariedade. Nas suas palavras: A idéia que proporíamos da escola é a de um campus onde não se viesse em primeiro lugar para “aprender coisas”,o que pode ser feito em casa, sozinho, com uma máquina, mas para aprender a ligação que as coisas têm com a ação e a sabedoria de viver. Não uma escola-loja para consumir o saber, mas uma escola-mesa. Mesa sobre a qual se coloca junto o que se aprende, a fim de ligar [...] criticar e confrontar o aprendido com a sociedade e a ação. (op. cit. p.150). Da escola-mesa de Babin e Kouloumdjian – que pressupõe a introdução no centro da escola de um objetivo prioritário, o da comunicação, mais ainda do que o da apreensão do conhecimento - pince-se este princípio como pressuposto básico, idéia central deste trabalho, para o estabelecimento de uma escola de especial qualidade para todos. Nela é necessário que alunos, professores e funcionários – e os pais, inclusive – aprendam a ouvir, a compreender e a avaliar as diferenças para um convívio sadio, cada um com sua singularidade. O modo de ser e viver precisa ser ético, numa época em que as fronteiras desaparecem e em que os jovens, mais do que os adultos, abrem os ouvidos nas dimensões do radar.
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    183 Os jovens estão aí esperando respeito, compreensão, esperando ser despertados para as possibilidades de intercâmbio de outras culturas e os valores de outras raças. A escola poderia despertar essa comunicação baseada no a priori de simpatia pelo homem. O mundo é uma aldeia global, como disse Marshall Mc Luhuan. “O terceiro tempo pedagógico, gerido conjuntamente pelos educadores e alunos, tendo por objetivo a comunicação, poderia ser um bem considerável.” (op. cit. p.153). Só uma educação crítica para a comunicação humana pode responder à multiplicação das técnicas de controle ou de manipulação dos MCM.Definitivamente, é o futuro da democracia que está em jogo. E a escola pode intervir, é também seu papel, na formação dos sujeitos, despertar sua percepção crítica. Como referem os autores citados: “No sentido mais profundo, a comunicação não se aprende, ela desperta como se desperta o gosto artístico.” (op. cit. p.155). As aulas, as oficinas e, principalmente os exercícios diários, podem constituir caminhos úteis e protetores contra os delírios individuais ou coletivos. A escola cidadã tem que educar para a reflexão, para o conhecimento das técnicas de expressão, para o espírito crítico, para o entendimento da infra-estrutura social e econômica planetária. Uma das urgências nesses tempos de mídias e marketings é desenvolver a aprendizagem da liberdade de ser e de pensar. Pensar bem, com a cabeça bem feita, no dizer de Morin (2003). Aquilo que não passa pela mídia eletrônica torna-se estranho ao conhecimento e à sensibilidade do homem contemporâneo. Baseado nisso, já é tempo de virar-se o disco dos discursos sociológicos sobre o poder maléfico da televisão e começar a encarar a mídia eletrônica como fato da cultura - capaz de complexidade - e as contradições dos tempos atuais. Apesar de tudo, existe vida inteligente na TV e, mesmo com o monopólio instaurado, há brecha por onde fazer-se penetrar a sensibilidade e a transgressão. Uma televisão inovadora e desinibida já começa a sair dos guetos, vielas e favelas para desafiar a mesmice dos canais convencionais. Já existem experiências
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    184 concretas de TVscomunitárias apontando para a luz no fim do túnel, democratizando a comunicação. Inscrever o vídeo no âmbito da cultura pós-moderna implica em primeiro lugar conhecer o mais de perto possível a especificidade dos seus recursos simbólicos.E em segundo lugar, aprender fazendo, produzindo. Machado (1988) já observou que “...o vídeo stricto sensu, ou seja, aquele produzido e difundido fora do circuito televisual, pode investir no aprofundamento da função cultural da televisão, avançando, de um lado, na experimentação das possibilidades da linguagem eletrônica; e buscando exprimir, de outro, as inquietações mais agudas dos homens de nosso tempo.” (p.55). Além de experimentar outras possibilidades de utilização e domínio do meio, reverte-se a relação de autoridade entre produtor e consumidor, pelo fato dos interesses comerciais básicos não entraram em jogo. Nessa perspectiva, o autor citado estima que com a introdução do tratamento digital da imagem em computadores “é a própria natureza, o estatuto e a substância da imagem técnica que se transformaram radicalmente, produzindo uma revolução tão decisiva na história na representação plástica do mundo quanto a que ocorreu no Renascimento, com o sistematização do modelo clássico.” Machado (1988, p. 10). Observa-se também que a TV se inseriu de tal forma na vida cotidiana que hoje é quase impossível pensar os eventos sem a sua presença. A televisão mudou substancialmente a prática dos esportes. Atualmente, a própria TV participa da organização e administração dos eventos, transformando competições em espetáculos televisivos. Ela privilegiou o espaço profissional em detrimento do atletismo amador e converteu os atletas em estrelas. Acontecimentos políticos, cerimônias oficiais e até mesmo atentados terroristas são concebidos, antes de tudo, como encenações para a mídia. Até bem pouco tempo dizia-se que a arte imita a vida... E quanto ao 11 de setembro que repetiu uma aventura hollywdiana? Os eventos não acontecem mais, via de regra, por conta própria, eles pressupõem a mediação da TV e são forjados em função dessa mediação, quando
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    185 não são produzidosdiretamente pelas redes de TV ou sob sua influência direta. A esse respeito, como enuncia Machado (1988): A luta política passa hoje necessariamente por dentro da enunciação televisual. Ficar de fora, criticando aristocraticamente os seus mecanismos de alienação, é um erro estratégico que pode resultar em irresponsabilidade social. As forças políticas que não forem capazes de compreender isso, ou que puseram de lado por algum moralismo anacrônico, estão se condenando ao limbo. Machado (1988, p. 87). Considerando-se o enunciado acima, mais o fato da política passar necessariamente pela TV – enquanto, nesse meio tempo, os políticos tornam-se experts, nas formas de se comportarem em relação a essa mídia – é necessário que a escola tome a si o papel de formar telespectadores críticos, pois só assim a TV não será mais um instrumento de dominação de muitos, por uns poucos. Fazendo-se um rápido retrospecto da história do século passado, é notável que os mais influentes líderes de massa foram - antes de tudo - excelentes oradores e se davam muito bem com os altos-falantes das praças públicas ou com os microfones do rádio, assim como: Lenin, Hitler, Mussolini, Churchill, De Gaulle, Perón e Luther King. Todos se encaixavam nessa classificação. A partir dos anos 60, porém, com a TV ganhando cada vez maior importância como veículo de massa, tornou-se difícil acrescentar novos nomes à lista dos líderes carismáticos de grande apelo popular, como explica Machado (1988): O dom da oratória não só perdeu a importância, como tornou-se um sério obstáculo para a busca do contato com o público: a televisão definitivamente não se presta a ser utilizada como tribuna para figuras de comício. A melhor evidência disso é que um ator com trinta anos de experiência com as câmeras veio se tornar presidente dos EUA,enquanto a geração dos oradores entrava em derrocada. (op.cit. p. 97).
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    186 Analogamente, quem não lembra a eleição brasileira para presidente da república, quando as pesquisas indicavam Lula como vencedor e zebrou, pois Collor o venceu? Não poder-se-ia dizer que ali se deu melhor nos momentos cruciais que antecederam o pleito o jornalista do que o líder dos comícios? Evidentemente que a TV Globo colaborou também, ao editar o debate final para os telejornais dando vantagem para Collor. E também por noticiar, em paralelo, o seqüestro de um dos donos das Redes Pão de Açúcar por um suposto militante do PT. Mais tarde, o assunto foi esclarecido, não havia relação alguma entre o seqüestro e o Partido dos Trabalhadores, mas aí já era tarde, Inês era morta... O poder da mídia reside também em outro gênero de programa que são os videoclipes, que soberanamente vem agradando, há mais de 25 anos, especialmente aos mais jovens. O videoclipe se impôs como uma nova forma de expressão dentro do universo do vídeo e rapidamente ganhou espaço dentro e fora da televisão, conquistando um amplo contingente de adeptos e provocando uma pequena revolução no interior do vídeo e do disco. Diante desse quadro, diz Machado(1988): ...é natural que ele se tenha convertido em objeto de discussões apaixonadas entre produtores, consumidores e estudiosos da cultura de massa.[...] [Ou] que tenha fomentado também a criação de um muro de resistência, por parte principalmente daqueles que defendem a narrativa clássica, a quem os fogos de artifício dos videoclipes só fazem poluir o universo das mídias visuais com um maneirismo alucinado e carente de funcionalidade. (op.cit. p.169). Concorde-se ou não, a verdade é que torna-se cada vez mais difícil fingir ignorá- los ou supor que se trata apenas de um fenômeno de moda. Talvez resida no videoclipe a expressão mais acabada da modernidade – com seu poder de síntese e sua conseqüente economia expressiva – embora resulte num produto que dificilmente a inteligência tradicional entenda ou engula.
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    187 O estranhamento maior está certamente relacionado com ao fato do videoclipe poder dispensar inteiramente o suporte narrativo, coisa com a qual o seu público já está preparado para aceitar. As imagens podem ser escolhidas sem nenhum significado imediato, sem qualquer denotação direta, sem referência alguma, no sentido fotográfico do termo, harmônico com o da música. Como explica Walter Salles Jr.,citado por Machado (1988, p.171), o que está presente na maioria dos clipes é: Uma forma não-narrativa, não linear, que ganhou o título, nos EUA, de “non associative imagery” e que em português poderia ser (mal) traduzido por imagens dissociadas. O que importa é menos a intenção de se contar uma história e mais o desejo de se passar uma overdose de sensações, através de informações não-relacionadas, acompanhando sons – o ritmo das imagens. Walter Salles Jr.(apud op.cit.p 171). Não residiria no videoclipe - a ser assistido, a ser produzido - um campo próspero de estudo para a escola trabalhar, além de conteúdos científicos, as singularidades dos seus sujeitos, suas diferentes sensações, emoções, valores, etc.? Esta produção de vídeo não poderia servir de elo entre toda a comunidade escolar, envolvendo professores, alunos, funcionários, especialistas, pais e indo para além dos seus muros, ao encontro da sociedade onde se insere cada escola? Não caberiam campanhas a serem deflagradas na comunidade escolar – interna e externa - através de clipes, e, em especial, com o mote do valor da fraternidade, da equanimidade de direitos, do respeito aos semelhantes, do valor da amizade e tantos outros sentimentos, temas e ações que resultam numa escola e numa , conseqüentemente, sociedade inclusiva? Diante do contexto criado pelas novas tecnologias da comunicação e da informação, o discurso da educação não consegue isoladamente posicionar-se, torna-se insuficiente. Por outro lado, diante dessas novas mediações, a educação e a Comunicação não podem também ser pensáveis como atores independentes e isolados deste novo ecossistema de comunicação educativa.
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    188 Para Martin Barbero (1997), a simples introdução dos meios e das tecnologias na escola, pode ser a forma mais enganosa de ocultar seus problemas de fundo, sob a égide da modernização tecnológica. O desafio é como inserir na escola um ecossistema comunicativo que contemple ao mesmo tempo: experiências culturais heterogêneas, o entorno das novas tecnologias da informação e da comunicação, além de configurar o espaço educacional como um lugar onde o processo de aprendizagem conserve seu encanto. Paulo Freire pode ser considerado um dos pioneiros na inter-relação Comunicação/Educação no cenário latino-americano. Em Extensão ou Comunicação (1971), focaliza os processos comunicacionais que se inserem no agir pedagógico libertador, partindo do pressuposto de que, diferente do animal, que se restringe ao contato, o homem não está apenas no mundo, mas com o mundo. A comunicação é vista como um componente do processo educacional, um modus, uma relação estratégica performática que se estabelece entre Comunicação e Educação, através do agir. Um modo de interação que ultrapassa a ótica puramente instrumental da tecnologia comunicativa e informativa. Para Freire (1971), não é possível compreender o pensamento fora de sua dupla função: a cognoscitiva e a comunicativa. Sob essa perspectiva, a comunicação passa ser vista como relação, como modo dialógico de interação do agir educomunicativo:”ser dialógico é vivenciar o diálogo, é não invadir, é não manipular, é não sloganizar. O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o pronunciam, isto é, o transformam e, transformando-o, o humanizam.” (op.cit. p. 43). Nesta direção o educador chileno Mário Kaplún, citado por Nádia Lauriti (s.d., p. 03) fala sobre a inter-relação Comunicação/Educação, por ele denominada Comunicação Educativa, que tem a função de fornecer à educação métodos e procedimentos para formar a competência comunicativa do educando. Kaplún defende a comunicação pensada como um componente pedagógico, não como um instrumento. Não se trata, portanto, de educar usando o instrumento de comunicação, mas que ele se converta no eixo vertebrador dos processos
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    189 educacionais: educar pelacomunicação e não para a comunicação. Dentro dessa perspectiva da comunicação educativa como objeto, os meios são ressituados a partir de um projeto pedagógico mais amplo. Tanto Paulo Freire como Kaplún, vinculam os três espaços: contexto sócio- cultural, comunicação e educação como uma relação e não como um área que deva ter seu objeto disputado. Há fortes razões para destacar a urgência desta aproximação,como referenda Lauriti (s.d.): ...há um atraso a recuperar, considerando-se que a meta-narrativa da educação ainda resiste às inovações da cultura que emerge da era da informação, impondo urgente revisão dos seus paradigmas; outra razão é o surgimento, na pós-modernidade, de uma forma transdisciplinar de pensar explicitada tanto através de posições teóricas como de atitudes diante do mundo. (op.cit. p. 04). Uma direção operacional para este trabalho pedagógico transdisciplinar, pode ser a sugerida por Hugo Assmann (1996): a utilização do conceito metafórico de rizoma, emprestado de Deleuse e Guatari: Diferentemente das árvores ou de suas raízes, o rizoma interliga um ponto qualquer com outro ponto qualquer.[...] O rizoma não se deixa reconduzir ao uno, nem ao múltiplo.[...] Ele não é feito de unidades, mas de dimensões, ou antes, de direções movediças. Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda. Hugo Assmann (1996, p.80). A metáfora do rizoma conceitual possibilita que se dê materialidade operacional à polifonia discursiva, para que seja possível inaugurar um discurso ressignificado e aberto a novas posturas epistemológicas, tanto na educação quanto na comunicação, com um enfoque claramente transdisciplinar. Assmann, confrontando os ritmos escolares com os ritmos temporais da mídia, assinala que as novas tecnologias multimeios eletrônicos e o computador são
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    190 valiosos auxiliares daotimização do trabalho pedagógico, portanto não devem ser temidos, ao contrário, devem ser incorporados e trabalhados criticamente a favor das dimensão vivencial dos tempos humanos envolvidos no processo. Segundo o autor, cada sociedade está lutando com um número plural de temporalidades cronológicas e kairológicas ao dar formas organizadas às relações sociais. A organização da sociedade pós-moderna mostra a necessidade de pensar conjuntamente CHRÓNOS (tempo natural, do relógio) e KAIRÓS (tempo histórico, das vivências). Assim, a experiência temporal não pode ser aprisionada pela exatidão do relógio, porque ela não marca a temporalidade vivencial. Tem-se no rizoma, uma belísssima metáfora para se saudar os tempos diversos que cada aluno precisa para elaborar, para construir o seu conhecimento, de acordo com a forma de vivenciar o aprender e apreender o saber, a vida, o mundo. O chrónos escolar implica, portanto, segundo Assmann, ritmos, ciclos, reinícios que precisam ser ressignificados para que se chegue ao verdadeiro tempo pedagógico, isto é, o tempo (KAIRÓS) que cria ambiência propícia para as experiências da aprendizagem. Tempo pedagógico [não é medido em horas, dias, anos, mas como] tempo vivo [que é] avaliado por seus resultados de fruição do emergir das experiências de aprendizagem [e implica convivência aberta com uma pluritemporalidade simultânea], horário escolar, informação instrucional, tempo de apropriação personalizada de conhecimento, tempo de leitura e estudo, tempo de auto-expressão construtiva, tempo de erro, tempo de conjuntura e da busca, tempo de inovação curricular criativa, tempo de gestos e interações, tempo do brinquedo, do jogo, tempo para desenvolver a auto-estima, tempo de dizer sim á vida, tempo de organizar esperança [tempo de brincar de fazer televisão, tempo de arrumar muitos amigos]. [ilação desta autora]. Assmann(1996, p. 232).
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    que as basespara um Educação sólida, de qualidade, ajustada para dar conta de formar o novo cidadão que a nova sociedade [nomeada pela autora de inclusiva] comporta/precisa/pensa só será possível se a Comunicação estiver sendo agendada cotidianamente em nossas discussões. 191 Edson Gabriel Garcia(s.d.)
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    192 3.1 Educomunicação, umparadigma em construção. Um dos traços da nossa contemporaneidade é o caráter globalizante da informação e a subseqüente mundialização da cultura, em especial no que tange ao consumo. Inúmeras autores apontam as mídias e suas corporações como artífices mundiais da cultura do consumo. A tecnologia é um dos níveis de expressão da globalização e da pós-modernidade. Os avanços tecnológicos nas áreas de comunicação e informação invadem todos os campos da vida pública e privada e chegam até a escola. São ventos da pós-modernidade: informática, Internet, realidade virtual, Dvd, telefone celular, chats, TV a cabo ... Informação e imagens saturam os sentidos de todos, em especial das crianças e jovens, que mais do que nunca constroem sua visão de mundo e de identidade com forte influência nas mídias. As novas tecnologias inseridas ao sistema educacional têm sido anunciadas como redentoras da educação, especialmente junto às Universidades, pois mesmo à distância, possibilita uma ampla acessibilidade e democratização do conhecimento, superando a ausência ou limitações daqueles que não podem participar de processos presenciais de formação. No entanto, há aspectos importantes que precisam ser considerados. Um deles é o de que a educação não é mera transmissão de conhecimento. Como diz Paulo Freire: educar e educar-se, na prática da liberdade, não é estender algo desde a sede do saber até a sede da ignorância para salvar com este saber, os que habitam nesta.
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    193 Tradicionalmente as escolas tê-se conservado como meros receptores de produtos mediáticos, sejam eles planejados com o fim formativo – como TV Escola – ou não. As imagens invadem o cotidiano das crianças e desencadeiam uma competição desleal com a escola. “Alfabetizadas” pelas imagens das marcas divulgadas pelas mídias as crianças são seduzidas pelos apelos do consumo. De um lado o mundo lá fora apela ao desejo, ao olhar prazeroso, o desfrute, o consumo, o mundo das imagens eletrônicas. Do outro, um mundo tímido, o mundo das palavras escritas, do pensamento, da abstração, dos discursos do professor ou da professora. Céu e inferno, prazer e trabalho, brincar ou chatear-se ... Seja como ferramenta pedagógica ou como objeto de estudo, a inserção de tecnologia da informação e comunicação na educação deve fundamentar a reflexão crítica sobre seus conteúdos, transformando informação em conhecimento, formando receptores ativos.Mas o recorte que se faz da Educomnicação neste trabalho quer mais, muito mais, quer através da produção de vídeos na escola, trabalhar as capacidades cognitivas, afetivas, psicomotoras dos alunos que aprenderão não só a analisar, mas aprender a fazer o produto das mídias. Quer um aprender e um ensinar – aprendendo-ensinando, ensinando-aprendendo – num lugar onde o diálogo, a argumentação, a polifonia, a participação, a ação, a colaboração, a diversidade, o lúdico e a criatividade sejam uma constante. A educação precisa considerar que através das mídias os jovens entram em contato com fatos culturais diversos, mas a recepção parece dar-se na superfície, posto que não é feita uma leitura crítica das manifestações.Não há uma verticalização da leitura. A mediação cognitivo-cultural do professor pode fazer com que os signos visíveis sejam apreendidos em toda sua significação,atentando assim para as mensagens subjacentes. Este fato está diretamente ligado à maneira como a escola trabalha com a linguagem: se numa perspectiva instrumental ou interacionista. Em face desta realidade, é imperiosos que a escola compreenda que a visão do rápido processo de mudanças que vem se realizando mundialmente,torna emergente a reconsideração sobre a apropriação dos meios de produção cultural e de seus efeitos sobre os receptores-alunos.
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    194 Comunicação e Educação andam juntas, segundo Moran (1996),que postula que quanto mais a primeira se valer da segunda, melhor será o ambiente,e portanto, melhor serão as práticas educativas. Para ele o educador é um comunicador que precisa fazer uma interação, uma ponte como forma de lidar com o conhecimento, diferente de como vem fazendo: Uma pessoa que se comunique mais e fale menos, embora pareça contraditório, comunica-se mais, sem preocupar-se com o conteúdo programático.Ela é um comunicador porque fala com todo o corpo, porque ele é uma mensagem complexa e, junto com esse conteúdo programático, coloca sua experiência de vida, seu modelo de adulto, realizado ou não, feliz ou não, de uma pessoa que vale a pena conhecer ou não. Moran (1996, p. 2). O pesquisador e professor da Universidade de São Paulo, explica que isso é que é importante. Não basta ser só um professor competente, numa área específica. O professor tem que ser também um excelente comunicador de toda uma experiência de vida que vale a pena transmitir junto com aquele conteúdo programático específico. Essa é uma questão de fundo profundamente tecnológica, ele é um comunicador total. Isso não se muda, não se improvisa com cursos rápidos. Ratificando a idéia da necessidade da comunicação como um elemento quase nato,que se aprimora com a prática, Pinchon Riviere (1991), psicólogo social, diz que o que o homem tem de mais primitivo e mais característico é a sua necessidade imperiosa de comunicar-se com os outros. Ele afirma que quando o homem perde a comunicação com o grupo, aparece um sentimento de solidão e de desamparo insuportável. O autor vai mais longe, dizendo que o homem por isso mesmo vale-se dos sonhos para poder se comunicar, enquanto dorme à noite, evitando, deste modo, a sensação de estar “incomunicado”. Vale-se de personagens para satisfazer o desejo de comunicação e viver os seus dramas durante a noite, de um modo mais ou menos administrado por ele. Só perderia este controle, durante os pesadelos.
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    195 Ninguém desconhece que os alunos da atualidade ao entrarem na escola, ainda analfabetos, já são pós-graduados em comunicação audiovisual. As novas gerações são formadas em TV, tão logo abrem os olhos para o mundo. Já a relação dos professores com as tecnologias e com a mídia é de confronto e de descrédito. A mídia, por sua vez, vê a Educação como algo de pobres e por isso não lhe abre espaço, não investindo no setor, que não lhe dá retorno econômico.Esse preconceito mútuo faz com que as faculdades de pedagogia desconheçam a tecnologia, por mais que os professores sejam grandes consumidores de mídia, conforme Ismar de Oliveira Soares, citado por Gottlieb (2002), professor da Escola de Comunicação e Artes da USP e estudioso de um campo que se encontra em franco processo de consolidação: a Educomunicação. Gottlieb descreve o novo paradigma, como um campo relacional, estruturado como um processo mediático, transdisciplinar e interdiscursivo e que se materializa em quatro áreas de intervenção: a social; a educação para a comunicação; a gestão da comunicação na educação; e a área da reflexão epistemológica. A educomunicação define-se como o conjunto de ações inerentes ao planejamento, implementação e avaliação de processos, programas e produtos destinados a criar e a fortalecer ecossistemas comunicativos em espaços educativos presenciais ou virtuais. Também tem a finalidade de implementar ações para melhorar o coeficiente comunicativo na educação, incluindo as relacionadas ao uso de recursos da informação no processo de aprendizagem. “Ismar concebe a Educomunicação como uma ação carreada de intencionalidade política e de comprometimento pessoal, voltada a criar ecossistemas educativos abertos.” (Gottlieb, 2002, p. 8). Numa entrevista concedida ao site do Mundo Jovem, Ismar Soares fala da prática da Educomunicação nos tempos atuais: Isto se torna fácil hoje, na medida em que os meios e as tecnologias se tornaram mais acessíveis. Hoje é barato você ter um pequeno estúdio de rádio, ou de vídeo, ou um laboratório de informática. E a linguagem dos meios começa a ser acessível mesmo às crianças pequenas. E, neste sentido, o que se tem observado é que quando as crianças e professores e líderes religiosos se apoderam destas imagens, dominam
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    196 suas tecnologias, e começam a examinar a sua própria produção e ver a forma como por exemplo, eles próprios foram manipuladores desses veículos quando quiseram fazer uma produção e convencer alguém, isto permite que esses mesmos receptores dos meios massivos se tornem críticos com relação a esses meios e comecem a pensar em projetos alternativos. Soares apud Gabrielle Ponte( s.d. p.01.) O jornalista explica que a alternativa nos dias de hoje não vem mais do ideário de grupos que queiram fazer algum tipo de revolução na sociedade, mas acontece a partir da incidência destes grupos junto à população, permitindo que ela se expresse enquanto comunicadora, havendo transferência de lideranças, de grupos que no passado comandavam a chamada comunicação alternativa, para a própria sociedade. Estes líderes se transformaram hoje em motivadores e mobilizadores da sociedade, permitindo que esta sociedade se comunique. Daí nasce o conceito de Educomunicação, que é um conceito que reúne o objetivo de construção da cidadania mediado por um relação entre Comunicação e Educação. Esta mediação significa que os líderes que estão propondo esta mudança se transformam em facilitadores do acesso da tecnologia às classes populares, por exemplo. Na escola do mesmo jeito, busca-se essa construção da cidadania em meio a aprendizagem como um todo. É tácito que a escola, os MCM, a família, a convivência social e de lazer são redes que processam suas influências sobre a formação de crianças e jovens. As muitas horas de TV assistidas por eles, evidentemente, também acabam influenciando na sua formação com mais intensidade do que os outros elementos, inclusive. Essa posição de destaque da TV no dia-a-dia das crianças tem que ser considerada como um componente social significativo pela escola, que precisa incluí-la no seu projeto pedagógico. A inclusão da TV no projeto político pedagógico não deve se resumir ao uso de vídeos como ilustração de determinados conteúdos didáticos. É importante que a TV como Meio de Comunicação Social seja o próprio conteúdo em si. Ela precisa ser pensada em suas implicações para a educação, porque através dela os alunos estão
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    197 construindo uma visãode mundo. Os educandos precisam ser capazes de compreender como a TV constrói a leitura do mundo que apresenta ao telespectador. É necessário que eles entendam como ela faz a mediação entre o homem e o meio, onde vive. Cabe ao educomunicador viabilizar esta aproximação entre a escola e os meios de comunicação, agindo na interface da Educação e da Comunicação. O educomunicador representa uma das formas de interação entre esses agentes sociais, tem o papel, juntamente com os outros atores do processo educacional, de desenvolver a análise crítica das programações das TVs, especialmente das comerciais, promover uma estratégia de diálogo da escola com esse meio de comunicação, para uma educação contextualizada, voltada para a realidade da vida dos alunos. As notícias veiculadas pelos telejornais adquirem significado muito mais através das conversas com os amigos do que pelo texto veiculado no noticiário. E este é o gancho para que a escola, através do educomunicador discuta, trabalhe com os alunos essas notícias. É nessa circulação de discursos - orais e escritos – que se constrói o sentido que terá a informação para os jovens. A escola precisa ir para além do que os meios de comunicação fazem com os seus próprios sujeitos, “ler” criticamente o que a TV lhes oferta. Como se faz isto? Além das discussões, uma das formas é aprender como se faz televisão, e a produção de vídeo na escola, mesmo amadora, poderá possibilitar isto. A verdadeira proposta do processo de comunicação não está nas mensagens propriamente ditas, mas nas formas de interação do receptor com elas. A forma do processo de recepção é que viabiliza a negociação de sentidos. Uma mesma mensagem pode ser recebida de formas variadas, dependendo do grau de esclarecimento do receptor. Dito isto, parece claro que a habilitação do professor como educomunicador passa necessariamente pelo aprendizado das teorias da comunicação e da educação, além de : estar apto a utilizar as modernas tecnologias de comunicação, ser capaz de fazer análises críticas dos meios de comunicação com um olhar voltado para a educação e para a influência da TV na educação.
  • 199.
    198 A importância da comunicação na educação também está relacionada ao fato da dimensão pública da sociedade atual encontrar-se fortemente atrelada à ação dos meios de comunicação. Thompson (1995, p. 285) destaca que, nos dia de hoje, “ o conhecimento que nós temos dos fatos que acontecem além do nosso meio social imediato, é, em grande parte, derivado de nossa recepção das formas simbólicas mediadas pela mídia.” Como este, outros autores, como Castro (1996, p. 03) apontam a esfera dos meios de comunicação como o espaço mediático que confere visibilidade aos acontecimentos sociais. Aparecer neste espaço significa, na atualidade, aparecer na esfera pública, inserir-se no campo do que é visível e compartilhado socialmente. Considerando-se essa inserção pública do sujeito que lhe confere visibilidade no social, a escola ao brincar de fazer TV, com a produção de vídeo, poderá igualar entre seus alunos estas condições de aparecimento na telinha.. Sem exclusão, todo mundo pode fazer e ser notícia, basta trabalhar para tanto. Diferente da mídia oficial, onde o excluídos só são notícia em grupos de desafortunados por uma tragédia, seja de que natureza for, ou individualmente, enquanto força negativa, ao lado do crime ou algo que o valha. A proposta é a efetivação da garantia do direito à expressão mediática. A comunidade envolvida, no caso a escolar, é convidada a produzir e não apenas a receber mensagens, através dos meios de comunicação. A metodologia que os diversos projetos comunitários em curso no Brasil tem utilizado, nas TVs e rádios comunitárias, na sensibilização e mobilização de seus próprios meios de comunicação é a mídia processo, ou seja, o saber fazer vai sendo construído ao longo do processo de criação do veículo , pela comunidade. De forma semelhante o que é feito nas comunidades, é o que se propõe na escola, com a diferença de que nos canais comunitários, o grupo trabalha coletivamente as questões de seu quotidiano, redimensionando o olhar sobre tais questões, o que será também realizado na escola, mas pretende-se ir além, trabalhando também questões de conteúdo programático oficial, assim como se pretende estudar a tecnologia em si, formalmente, e as mensagens da mídia oficial,
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    199 como já foireferido anteriormente. Pretende-se algo mais próximo do trabalho científico. Desse processo de dar visibilidade ao grupo emerge - e a experiência o comprova - a criação participativa de uma auto-imagem positiva dos envolvidos mais diretamente e do em torno, contribuindo para a emersão de novas identidades e de novas perspectivas de ação política individual e coletiva. São criados novas perspectivas de atuação simbólica, nos mesmos níveis, tecendo uma rede de desejos, interesses, trajetórias, e experiências dos participantes. A cultura da comunicação escolar vai se formando pouco a pouco, de forma incipiente, no início, pois é através da linguagem que os homens se relacionam e criam um mundo comum, o mundo da cultura, já dizia Vygotsky. Um mundo que espera-se seja mais justo, plural, ético, solidário, polifônico, fraterno, amoroso, pacífico, harmônico, alegre e agradável de se participar, pelo menos dentro dos portões da escola, o que, certamente, em se consolidando, transformará a sociedade num todo, ao transpor os seus muros, pelo contágio, tal qual os micróbios que não têm fronteira. Como afirma Hannah Arendt (1993), citada por Gomes e Lima (2003) faz parte de condição humana expressar seus desejos, e interpretações em público para construírem um mundo comum, ou seja, os indivíduos necessitam que suas ações ganhem visibilidade no espaço público. A autora definiu a polis grega como: O espaço da aparência, no sentido mais amplo da palavra, ou seja, o espaço no qual eu apareço aos outros e os outros a mim, onde os homens assumem uma aparência explícita ao invés de se contentar em existir meramente como coisas vivas ou inanimadas. (op.cit., p. 05). Além disso, ressaltou que “sem o espaço da aparência e sem a confiança na ação e no discurso como fórum de convivência, é impossível conhecer inequivocamente a realidade do próprio eu, da própria identidade, ou a realidade do mundo circundante.” (op.cit. p. 05).
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    200 Um dos aspectos centrais do processo de construção de identidades individuais e coletivas é , portanto, fazer-se visível ao outro. A aposta da produção de vídeo na escola implica neste construir uma forma de dar visibilidade a todos os cidadãos- alunos para que sintam-se pertencentes àquela comunidade de fato e de direito, bem como membros efetivos de sua cidade e do mundo. Como refere Soares (1999): no dia a dia, enquanto professores, estamos dentro de um trabalho de Educomunicação, que é “toda ação comunicativa no espaço educativo, realizada como objeto de produzir e desenvolver ecossistemas comunicativos.” (p. 09). A importância prioritária de um educomunicador no processo educacional pode ser apreendida na reflexão de Paulo Freire sobre a mediação da tecnologia na educação: “fazer pensar”; “pensar bem, com a cabeça bem feita”, na expressão de Edgar Morin (2003).
  • 202.
    201 ... o círculoda docênci não deveria fechar-se,como um docência se,como uma cidadela sitiada, sob o bombardeio da cultura de mídia, exterior à escola, ignorada e desdenhada pelo mundo intelectual. O conhecimento dessa cultura é necessário não só para compreender os processos multiformes de industrialização e super comercialização culturais, mas super-comercialização também o quanto das aspirações e obsessões próprias a quanto nosso “espírito da época” é traduzido e traído pela temática das mídias. Edgar Morin (2003, p. 80).
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    202 3.2 O vídeocomo instrumento de inclusão na formação de cidadãos éticos, críticos e participativos. A escola é o começo de tudo e se ela não alterar seus princípios, sua filosofia, a sua pedagogia, a sua forma de tratar os pequenos cidadãos que crescem dentro de seus muros, adeus sociedade inclusiva, é o que pensa Werneck (1977) e também esta autora. O professor do ensino básico é a principal figura da sociedade inclusiva, diz a jornalista, em sala de aula ele é o rei, especialmente nos primeiros anos de escolaridade, pelos quais todos os membros da sociedade planetária merecem e devem passar, ao serem incluídos. Há quem diga rei sem castelo ou senhor feudal sem terras, tantas as dificuldades que enfrenta. O professor também é maestro. Agora vai reger sem partituras uma orquestra aparentemente desafinada.[...] ou ele percebe a mensagem dessa música e permite que seja executada com vigor pela percussão, metais, caudas e demais instrumentos ou essa nova harmonia não se sustentará.[...] Incluir não é favor, mas troca. [...] conviver com as diferenças humanas é direito do pequeno cidadão, deficiente ou não. Juntos construirão um país diferente. A escola transformadora é a semente desse Brasil-do-tamanho-exato-das-nossas- idéias. Werneck (1977, pp. 61 – 64). A inclusão na escola não amedronta somente aos professores do ensino regular, mas também aos especialistas em Educação Especial. Na opinião de Werneck, os professores temem ser levados a assumir papéis indesejados. Na realidade estão incomodados pelo fato da educação inclusiva não admitir a repetência tradicional. E também porque sentem dificuldade em admitir que os alunos com NEE sejam inseridos, nas turmas de educação regular por idade cronológica – um dos principais parâmetros da inclusão – mesmo que cognitivamente eles não correspondam aquele grau de estudo. Ter 14 anos, e estar na 4ª série sem ser alfabetizado, por exemplo.Já os especialistas em educação especial receiam que a educação
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    203 inclusiva venha aeliminar a sua categoria, acabando com a educação especial. Temor desnecessário, porque a inclusão prevê um ensino especializado no aluno, em todo e qualquer aluno, com e sem deficiência, e onde a experiência desses professores especializados será pra lá de muito bem-vinda... A jornalista defende também a escola inclusiva como instrumento de conserto e prevenção para as mazelas espalhadas no seio da sociedade pela globalização, onde “a competitividade aumenta nas áreas em que há produção tecnológica e intelectual e o conteúdo adquire maior importância.[Pois] A globalização aniquila a capacidade de ação dos menos privilegiados econômica e politicamente, desemprega e, em última instância, excluí, por promover desigualdade.” Werneck (1997, p. 64). A autora vai mais além, opinando que ao se privar as crianças normais da convivência com seus pares deficientes tira-se de todas elas as chances de se exercitarem na construção de sua cidadania. As correntes interacionistas da sociologia conferem lugar de honra às vivências decorrentes de experiências aparentemente simples do cotidiano, nas quais residiria a legítima interação, da qual surgem as oportunidades de aprendizado, com a negociação de significados. Apesar da maioria dos pais, e de muitos professores inclusive, não gostarem de tocar em assuntos relacionados à deficiência – há até quem ache que dá azar - as crianças não discriminam a diferença. São curiosas a respeito, da mesma forma que o são diante do novo, de qualquer espécie. Mas, ao perguntar dificilmente ela encontra resposta, porque os adultos em geral acham natural não terem informações corretas sobre doenças crônicas, distúrbios neuro-psicomotores, síndromes genéticas e situações que podem levar a algum tipo de limitação ou incapacidade, denuncia a jornalista, que acrescenta que sem respostas e ao perceber sua dúvida tão desvalorizada, a criança se cala. Decide nunca mais tocar no assunto, em casa ou na escola. O que deveria ser esclarecido vira mistério, tabu, ocasionando o preconceito. A atitude já preconceituosa do adulto termina engrossando atitudes do gênero, como comenta a autora: “O novo em vez de gerar curiosidade, desencadeia
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    204 o medo, aameaça, o riso. Acabamos de fabricar mais um cidadão-pela-metade.” Werneck. (1997, p. 140). Faltou a informação correta, científica, pura, formal, simples. Com a expressão cidadão pela metade a autora refere-se a um futuro profissional despreparado, que violará pequenos e grandes direitos das pessoas com deficiência e talvez morra sem perceber isso. Quando se opta por só falar do bom, do bonito e do belo, o adulto vira um deturpador de realidade, passando a sonegar dados sobre um mundo real, onde estão incluídas também as doenças e as deficiências. Embora as crianças a princípio percebam estas realidades como sendo parte do mundo delas, quando crescem também passam a insistir em ignorar ou escondê-las. Só que, como alerta Werneck (1997), mesmo que não se tenha sido educado para entender a diversidade como uma situação natural de vida, não se pode relutar em seguir as regras que dão aos indivíduos com deficiência direitos assegurados pela Constituição Brasileira.E, se a família não atenta para isto, a escola precisa atentar, pois é impossível acabar com o preconceito na idade adulta, por já estar incrustado na personalidade do sujeito. A falta de informação e formação impedem que as crianças vejam a questão da deficiência e da doença como sua. Para minimizar a questão do preconceito é preciso impedir que ele se instale ainda na infância. E é aqui que o trabalho com vídeo serve como uma luva, há muitas entrevistas, programas, reportagens, filmes,etc., verdadeiros e de ficção, já elaborados por profissionais para serem vistos e analisados na escola e muitas outros para serem feitos com os alunos, na própria escola, na comunidade circunscrita à Escola e em outras, tratando deste e de outros assuntos. Os Parâmetros Curriculares Nacionais, PCNs, lançados em 1997 pelo MEC a serem trabalhados no Ensino Fundamental, nas áreas de Língua Portuguesa, Matemática, Ciência, História, Geografia, Artes e Educação, além destas disciplinas tradicionais, contemplam a discussão de outras questões agrupadas sob o nome de Convívio Social e Ética, onde de forma articulada com cada área, tratam dos temas:Ética, Meio ambiente, Orientação Sexual, Saúde e Pluralidade Cultural podem muito bem promover um amplo debate sobre as diferenças individuais. O assunto
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    205 deficiência naturalmente seinsere, podendo ser abordado em várias áreas como a de Ciências e História, por exemplo, na concepção de Werneck (1977). Mais um assunto para se trabalhar com vídeo, ilustrando amplamente o tema. Se a escola já falou com alguma naturalidade sobre morte, sexo, AIDS,drogas, termos que eram tabus, por que não considerar com igual interesse para sua comunidade falar de deficiência ou de situações limitantes causadas por certas doenças? Por que a escola não vira um fórum permanente? E faz parceria com grupos de ajuda mútua e associações de pessoas com deficiência e de doenças crônicas para que possam oferecer a seus alunos, professores e vizinhos, palestras e atividades ? Oficinas, por exemplo, nas quais assuntos como epilepsia, paralisia cerebral e doenças renal sejam abordadas com atualidade e naturalidade? Werneck (1997, p. 80) . Werneck é da opinião que a escola deveria vestir a camiseta de uma campanha de prevenção sistemática sobre prevenção da deficiência. A profilaxia de seqüelas de rubéola em mulheres grávidas, poderia ser feita através da conscientização das meninas sobre a importância da vacinação contra esta e outras doenças desde a infância. A escola poderia estar aberta para a aprendizagem sobre artrite, diabetes, hemofilia, paralisia cerebral, lábio leporino, gagueira, dislexia, ostomia, dislalia, doença renal, epilepsia, paraplegia, cegueira, surdez, alergias alimentares, câncer e outras. Para essa autora, como também para esta, que sabem que não é simples - pois nada é tão simples no terreno da educação - as informações fazem parte da construção da cidadania. Tornar a escola brasileira uma formadora de cidadãos (inteiros) é meta dos Parâmetros Curriculares Nacionais [...] Os PCNs sugerem temas transversais [...] [Mas] Há quem pense o contrário. Incluindo eu. A ética, o convívio social, a pluralidade cultural, o meio ambiente, a educação sexual, o trabalho e o consumo, estes são os temas constitutivos das bases da escola. Os conteúdos programáticos é que seriam os assuntos transversais.[Mais uma vez esta autora assina embaixo.]. Werneck (1999, p. 160).
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    206 A jornalista fala de cátedra sobre esse assunto. No seu currículo consta a edição de uma coleção, com três livros, chamada Meu Amigo Down, com o objetivo de levar não só aos lares, mas às escolas do Brasil, uma ampla discussão sobre as diferenças individuais a partir da Síndrome de Down. A chegada de um menino com a síndrome à escola regular é tema de um deles. “Escrevi a história a partir do relato, às vezes triste, às vezes confiante, das cartas que me descrevem esse momento, chegadas ao projeto Muito prazer, eu existo. Estudando os depoimentos sobre a postura das pessoas na rua diante de uma criança de algum modo diferente, escrevi Meu Amigo Down , na rua.” Werneck (1997, p.148). E o terceiro fala da dificuldade dos pais ao nascimento de um bebê down. Claudia conta que o sucesso foi tal, que após a terceira edição da coleção, resolveu editar também Um Amigo diferente? Passei por uma experiência decisiva. Ao falar da coleção Meu Amigo Down nas escolas, públicas e privadas, por todo o Brasil, eu era torpedeada pelos alunos com perguntas e desabafos sobre ‘anormalidades’. Tornei-me a deixa para que abordassem assuntos que os afligissem e os deixavam curiosos. Fiquei aflita com a aflição deles. Daí nasceu Um Amigo Diferente?, lançado em 1996. Werneck (1977, p. 153). Esta última obra consumiu-lhe cinco meses de pesquisa e teve a assessoria do consultor em reabilitação, Romeu Kazumi Sassaki . Werneck considerou “um livro dificílimo de ser finalizado” . Para escrevê-lo teve que conhecer o trabalho de grupos de ajuda mútua de portadores de paralisia cerebral, asma, doença renal, ostomia, anemia, hemofilia, artrite e outros. O texto foi submetido a representantes de cada uma dessas entidades e também a profissionais das áreas da Saúde, Comportamento, Reabilitação e Educação de várias lugares do Brasil. Muitas outras pessoas também foram consultadas sobre as ilustrações. E antes de ser publicado passou por uma experiência piloto num CIEP do Rio de Janeiro, onde foi utilizado como livro-texto, em sala de aula. O CIEP estava em plena consolidação do processo de inclusão à época.
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    207 Durante uma semana várias turmas se dedicaram a fazer entrevistas para saber quem era de algum modo diferente nas suas famílias e vizinhança. Também sugeriram ilustrações para o livro, desenharam seus amigos diferentes e fizeram redações. A escola filmou a dinâmica dos trabalhos. Enviaram-me o filme, os desenhos, os textos, os murais, tudo. Para mim são obras de arte. “ Werneck ( 1997, p. 154). A TV do Rio de Janeiro, da Rede Globo, interessou-se pela experiência e entrevistou os alunos numa reportagem de Ana Paula Araújo com pauta de Tim Lopes. Crianças e adolescentes, quase todos moradores da favela Nova Brasília, falaram de suas emoções e descobertas a partir das pistas do Um Amigo diferente? . O livro conta a história de um amigo que afirma ser diferente. A cada página o amigo imaginário vai dando novas pistas, atiçando a imaginação dos pequenos leitores, que vão se deparando com temas pouco abordados no dia-a-dia, doenças e deficiências. Das diferenças simples, como ter seis dedos nas mão – e tornar-se o campeão de fazer cócegas, da rua – até as mais complexas, como quando o personagem levanta a camiseta “ e mostra o corpo estrelado que há dentro de si e pergunta: ‘Quem sabe o mistério esteja dentro do meu corpo?’. Essa é a dica para o professor falar de AIDS, de câncer, de hemofilia e por aí vai.” Werneck ( 1997, p. 153). Aprender sobre deficiências e doenças crônicas é aprender sobre cada ser humano, acredita a jornalista. É conhecer-se melhor. As crianças nascem aptas a lidar com qualquer tipo de diferença. Sendo o cotidiano, com sua diversidade mais fantástica do que qualquer sonho ou imaginação, seria natural – na opinião de Werneck (1999) – para as crianças crescerem reconhecendo a humanidade como ela é, e não como os adultos acham que deveria ou gostaria que fosse. “Muito cedo, no entanto, família e escola, em uma parceria maléfica e preocupante, começam a corromper a meninada. Insistem em dizer que a deficiência faz parte de uma quarta dimensão da vida. Em casa, o assunto não é abordado com naturalidade.” (p. 154). Deve-se imaginar que se em casa é assim, na escola, local onde as gerações se encontram para formar parcerias indispensáveis para a vida toda, às vezes, tem que
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    208 ser diferente, poisas crianças têm o direito de se desenvolverem exercendo sua capacidade de reflexão, de decisão e de ação dentro de um contexto real. E invertendo o processo, transgredindo a norma? Você já se perguntou o que os deficientes pensam sobre os normais ? O verso é conhecido, e o reverso ? Habituamo-nos a ser referência.Por isso é tão difícil valorizar o saber de alguém a quem rotulamos de deficiente mental. [...] ainda não somos permeáveis a uma efetiva comunicação de mão-dupla com pessoas em relação às quais nos sentimos superiores. Seremos um dia? Avançamos é verdade. Estamos na fase do: “Eu já lhe ouço, nem sempre lhe escuto.” Bem, estou sendo otimista. Há pessoas que ainda nem colocaram o assunto em pauta. Werneck (1977, p.167). O silêncio é a fala oficial dos dominados, segundo Werneck. Este trabalho traz embutido em si – através da produção de vídeo na escola – a porta a ser aberta para pessoas como essas referidas, que comumente não freqüentam nem as preocupações da sua comunidade, quanto mais a mídia. Quer dar-lhes vez e voz, de forma literal e simbólica. Cada civilização tem o seu padrão de comunicação social aceito e institucionalizado, mas aqui é buscado o rompimento, um canal alternativo. “A crise da comunicação é nossa, dos ‘vencedores’, de quem sempre falou e pouco ouviu. Para superá-la, será preciso se dedicar a um exercício de auto questionamento.”, diz Werneck (1977, p. 168). A autora deste trabalho segue os mesmos princípios da outra jornalista, na sua auto-análise: “Desejamos ouvi-las?” “Estamos preparados para tanto?” “Achamos importante atender suas reivindicações?” “Acreditamos na coerência deste discurso?” “Que tipo de relação imaginamos ter no futuro, com essas pessoas por tantos séculos sem expressão social?” “ O que elas tem a dizer?” “O que elas tem a dizer sobre nós?” “Qual o preço que cada um de nós pode e deseja pagar para viver numa sociedade inclusiva?.” Werneck (1997, pp. 168 e 169). O grande salto é aprender a ouvi-las. Quanto mais legítimo for esse processo, mais essas pessoas
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    209 serão descaracterizadas comoseres passivos e mais perto se estará da sociedade inclusiva, pensam as autoras. Mas não são só os deficientes que deverão ter vez e voz nesse canal comunicativo a ser aberto nas escolas inclusivas, na visão deste trabalho. A prioridade deve ser conferida aos grupos mais desfavorecidos e vulnerabilizados pela condição de pobreza, os analfabetos maiores de 15 anos, as populações rurais, os menores de 6 anos, os alunos com dificuldades de aprendizagem, as minorias étnicas e religiosas, como registra a Declaração de Cochabamba sobre políticas educativas no início do século XXI, em uma de suas considerações, citada por Carvalho (2004, p. 90): o uso pedagógico das tecnologias da informação e comunicação deve ser considerado como um marco de projetos sociais e educacionais, comprometidos com a eqüidade e com a qualidade. Como afirma Morin (2003) a educação pode ajudar a tornar os seres humanos melhores se não mais felizes, e ensiná-los a assumir a parte prosaica e viverem a parte poética de suas vidas. Para o sociólogo francês o princípio da inclusão é fundamental e supõe para os humanos a possibilidade de comunicação entre os sujeitos de uma mesma espécie, de uma mesma cultura, de uma mesma sociedade. A compreensão permite considerar-se o outro não apenas como ego alter , um outro indivíduo sujeito, mas também como alter ego, um outro eu mesmo, com que me comunico, simpatizo, comungo. O princípio da comunicação está, pois incluído no princípio de identidade e manifesta-se no princípio de inclusão.[...] Podemos, pois, enunciar que a qualidade própria a todo indivíduo sujeito não poderia ser reduzida ao egoísmo; ao contrário, ela permite a comunicação e o altruísmo. Morin (2003, p. 123). Morin (2003) postula que há um conhecimento que é compreensível e está fundado sobre a comunicação e a empatia – simpatia mesmo – intersubjetivas. Uma pessoa só compreende as lágrimas, o sorriso, o riso, o medo, a cólera de outro, ao ver o ego alter como alter ego, pela própria capacidade de experimentar os mesmos sentimentos. “Se vejo uma criança em prantos, vou compreendê-la não pela
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    210 medição do graude salinidade de suas lágrimas, mas por identificá-la comigo e identificar-me com ela. A compreensão, intersubjetiva, necessita de abertura e generosidade.” Morin (2003, p. 93). Como argumenta também Werneck (1997) a verdadeira comunicação só se dará quando os seres humanos respeitarem os saberes distintos daqueles que lhes são habituais. Cada um de nós constrói no decorrer da vida, saberes diferentes. Saberes como filhos, estudantes, apaixonados, profissionais. Pessoas com deficiência mental têm um saber extra que á relação de todos esses saberes com sua condição peculiar. [...] como é viver com paralisia cerebral? Doença renal? Tornar-se tetraplégico? Werneck (1997, p. 176). O homem celebra com facilidade o saber de alguém que admira. Difícil é aceitar um saber que pareça incoerente ou que aparentemente nada vai acrescentar. Comunicação é acordo, acordo não se impõe, nem se manipula. “Busquemos um consenso permanente. A compreensão do mundo não é monopólio de ninguém.” Werneck. (1997, p. 176). Uma sociedade democrática é sempre polifônica. São muitas vozes, representando os interesses e anseios dos seus diferentes segmentos e classes. São diferentes gêneros, etnias e religiões. Diferentes desejos, sonhos e necessidades. Construir caminhos de escuta das diferentes vozes e de seus diferentes códigos e linguagens; construir caminhos de participação e de decisões que privilegiam o bem comum e não apenas os interesses específicos ou individuais é o grande desafio da sociedade da primeira década e de todo o século XXI, certamente. Comece-se pela escola! A instituição escolar tem o papel principal nessa história. Cabe a ela apropriar-se dele, não para decidir por, mas decidir junto e, mais ainda, educar ética, moral e esteticamente. Uma sociedade autônoma é feita de cidadãos que são sujeitos de seus caminhos, que fazem escolhas conscientes de suas opções. Uma sociedade
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    211 inclusiva é aque permite que todas as diferenças sejam explicitadas em busca de um consenso. Uma sociedade democrática, autônoma e inclusiva é aquela onde todos têm o direito a voto, a vez, a representação e a participação na gestão das suas diferentes instituições e, mais ainda, é aquela que almeja a felicidade de cada um e de todos. O desenvolvimento dos meios de comunicação de massa nos anos 60 revolucionou o mundo e também a educação. Se até então existia a primazia do estudo dos meios sobre os processos de ensino-aprendizagem, essa revolução eletrônica acrescentou a essa discussão uma revisão profunda dos conceitos de comunicação usados até então. A implementação da informação nos anos 70 consolidou sua utilização na educação. A partir do aparecimento dos computadores pessoais, aumentaram as possibilidades do chamado ensino individualizado, diante de uma primeira geração de programas baseados em modelos de aprendizagem associacionista que recuperaram os conceitos de ensino programado e das máquinas de ensinar. O constante e acelerado desenvolvimento das novas tecnologias da informação e da comunicação, a partir dos anos 80, trouxe novas opções de equipamentos projetados para armazenar, processar e transmitir as informações, de modo cada vez mais rápido e a custos cada vez mais reduzidos, ampliando infinitamente suas possibilidades de utilização. No entanto, a melhoria automática do sistema educacional pela inclusão dos meios não se comprova efetivamente, mesmo diante de tantas novidades tecnológicas. Ou porque essas novas tecnologias não chegaram até as escolas – especialmente às públicas – ou porque os meios por si só não podem, nem devem, se constituir como o único campo de atuação e pesquisa da tecnologia educacional. É necessário em consideração à política de elaboração e difusão desses recursos, examinar suas finalidades éticas, a natureza dos mesmos e as possibilidades de seu uso na educação, e aí sim lutar-se para que eles sejam tornados instrumentos do dia-a-dia escolar. Segundo Moran (1994) o vídeo pode aproximar o conteúdo didático dos alunos, considerando-se que sua normativa seja significativa para eles. Ele é apenas um
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    212 recurso, mas umrecurso muito especial. Ele parte do visível, do que toca vários sentidos. Seus diálogos, em geral, expressam a fala coloquial, enquanto o narrador faz a síntese dentro da norma culta, orientando a significação do conjunto. As músicas e os efeitos sonoros evocam lembranças e criam expectativas, antecipando reações e informações. Ele faz a combinação da intuição com o a lógica, da emoção com a razão. Ele é sensorial, visual, linguagem falada, musical e escrita. Através dele o telespectador é atingido por todos os sentidos, em outros tempos e espaço. As mensagens audiovisuais exigem pouco esforço e envolvimento do receptor, porque suas narrativas usam uma linguagem concreta, plástica, de cenas curtas, com ritmo acelerado, multiplicando os pontos de vista, os cenários, os personagens e o som, mexendo constantemente com a imaginação e delegando à afetividade o papel de mediação entre o sujeito e o mundo. São essas características que marcam substancialmente a diferença entre o audiovisual e a linguagem escrita, a organização e a análise lógica. O vídeo ainda, refere Moran (1994) aproxima a sala de aula do cotidiano, das linguagens de aprendizagem e de comunicação da sociedade urbana e introduz novas questões no processo educacional. E melhor, vídeo significa para os alunos descanso e não “aula”, já está lançada de antemão a expectativa prazerosa. Vídeo significa também uma forma de contar multilingüistica, de superposição de códigos e significados, predominantemente audiovisuais, mais próxima da sensibilidade e prática do homem urbano e ainda distante da linguagem educacional, mais apoiada no discurso verbal-escrito. Moran (1994, p. 17). O vídeo explora basicamente o ver, o visualizar. A música e os efeitos sonoros servem como evocação às lembranças e de criação de expectativa, antecipando reações e informações. Parte do concreto, do próximo, do visível, do imediato. Os closes aproximam os outros, o som estéreo envolve. Enquanto a linguagem audiovisual desenvolve múltiplas atitudes perceptivas, solicita constantemente a imaginação e reinventa a afetividade num papel de mediação primordial no mundo, a
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    213 linguagem escrita desenvolvemais o rigor, a organização, a abstração e análise lógica. Pelo vídeo sentimos, experenciamos o outro, o mundo, nós mesmos.[...] as linguagens da TV e do vídeo respondem à sensibilidade dos jovens e de grande maioria da população adulta. São dinâmicos,dirigem-se antes à afetividade do que à razão. O jovem lê o que pode viabilizar, precisa ver para compreender, toda sua fala é sensorial – mais visual de que racional e abstrata. Lê, vendo. Moran (1994, pp. 21-22). Moran (1994) propõe várias formas da utilização de vídeo na escola, com objetivos diferentes. Segundo ele, um bom vídeo é interessantíssimo para introduzir um assunto, para despertar a curiosidade, despertando a motivação para novos temas, facilitando o desejo de pesquisa para aprofundar o assunto do vídeo e da matéria. Como conteúdo de ensino - no conteúdo do vídeo mostra determinado assunto, de forma direta ou indireta. Na forma direta, informando sobre um tema específico, orientando a sua interpretação; e na indireta, quando mostra um tema, permitindo abordagens múltiplas, interdisciplinarmente. Vídeo como ilustração – pode ajudar a mostrar o que é falado em aula, a compor cenários desconhecidos dos alunos. A vida pode se aproximar da escola, através do vídeo. Tempos e espaços longínquos podem tornar-se próprios e ao alcance dos olhos. Vídeo como simulação – trata-se de uma ilustração mais sofisticada, tornando simples um processo mais complexo. Um vídeo pode mostrar o crescimento acelerado de uma planta, de uma árvore – da semente até a maturidade – em poucos segundos, por exemplo. Pode simular experiências perigosas para serem desenvolvidas em laboratório ou que exigiriam muito tempo e recursos.
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    214 O vídeo comoprocesso de avaliação dos alunos, do professor, do processo, através das gravações de variados momentos e edição posterior. Vídeo espelho - ideal para acompanhar o comportamento de cada um do ponto de vista participativo, para incentivar os mais retraídos e pedir aos que falam muito para darem mais espaço aos colegas. Para a análise de grupo e dos papéis de cada um. “Vejo-me na tela para poder compreender-me, para descobrir meu corpo, meus gestos, meus cacoetes.[...] O vídeo–espelho é de grande utilidade para o professor se ver, examinar sua comunicação como os alunos, suas qualidades e defeitos.” Moran (1994, p.22). Vídeo como suporte/Integração – como suporte da TV e do cinema. Gravar, em vídeo, programas importantes da TV para uso em aula. Trabalhar com fitas (filmes) comprados ou alugados: documentários e outros para iniciar os alunos na linguagem audiovisual. E também a integração com outras mídias como PC, o CD-Rom, videogames ou Internet. Quanto à forma de ver o vídeo, Moran (1994) sugere que deve-se informar somente os aspectos gerais do vídeo (autor, duração, prêmios). Não deve se interpretar nem pré-julgar antes da exibição, para que cada um possa fazer a sua leitura. Durante a exibição, anotar as cenas importantes. Se necessário pode-se interromper para algum rápido comentário, utilizando o “pause” ou “still”, sem demorar, porque danifica a fita. Observar as reações do grupo, depois da exibição, rever as cenas mais importantes ou difíceis e se for complexo, exibi-lo uma segunda vez, chamando a atenção para determinadas cenas, para a trilha musical, diálogos e cenas. Passar quadro a quadro as imagens mais significativas. Observar o som, a música, os efeitos, as frases mais importantes. Moran, na obra citada, apresenta também sugestões para a análise do vídeo em sala de aula. Denomina as várias leituras passíveis de serem feitas de: leitura em conjunto; leitura globalizante; leitura concentrada; e leitura funcional. Na leitura em conjunto, professor exibe as cenas mais importantes e a comenta junto com os alunos, a partir do que eles destacarem ou perguntarem. Trata-se de uma conversa
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    215 sobre o vídeo,levantando os seus aspectos positivos e os negativos; as idéias principais que passam; e o que eles mudariam no vídeo trabalhado. A leitura concentrada envolve a escolha, depois da exibição, de uma ou mais cenas marcantes que devem ser revistas uma ou mais vezes. As questões podem ser colocadas oralmente ou por escrito e trabalhar com: o que mais chamou a atenção (imagem/som/palavra); o que dizem as cenas (significados); conseqüências, aplicações (para o aluno, para o grupo). No caso da leitura funcional – antes da exibição do vídeo, alguma funções ou tarefas devem ser escolhidas por um mais alunos, tais como: o contador de cenas (descrição sumária); anotador das palavra-chave; anotador das imagens mais significativas; caracterização dos personagens; música e efeitos; mudanças acontecidos no vídeo (do começo até o final). Acabada a exibição, os alunos relatam e escrevem no quadro as respostas. O professor completa com os alunos, as informações, relaciona os dados, questiona as soluções apresentadas. A análise de linguagem pode ser feita com o auxílio do roteiro apresentado por Moran (1994):que história é contada (reconstrução); como é contada essa história; o que chamou a atenção visualmente; o que descartaria nos diálogos e na música; que idéias passa claramente o programa (o que diz claramente esta história); o que contam e representam as personagens; o modelo de sociedade apresentado; ideologia do programa; mensagens não questionadas (pressupostos ou hipóteses aceitas de antemão, sem discussão; valores afirmados e negados pelo programa (como são apresentados a justiça, o trabalho, o amor, o mundo); como cada participantes julga esses valores (concordância e discordâncias nos sistemas de valores envolvidos). A partir de onde cada um julga a história. O vídeo como produto pode servir como documentação, registro de eventos, de aulas, de estudos do meio, de experiências, de entrevistas, depoimentos. O professor deve poder documentar o que mais importante para o seu trabalho, ter o seu próprio material de vídeo assim como tem o seus livros, as suas apostilas para preparar as aulas. O professor precisa perder o medo e o respeito ao vídeo assim
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    216 como ele interferenum texto escrito, modificando-o, acrescentando novos dados, novas interpretações, contextos mais próximos do aluno. Pode querer intervir acrescentando uma trilha sonora, editando o material de forma compacta ou introduzindo significados recomenda Moran . As crianças adoram fazer vídeo e a escola precisa incentivar o máximo possível a produção de pesquisa em vídeo pelos alunos. A produção em vídeo tem uma dimensão moderna, lúdica, moderna como um meio contemporâneo, novo e que integra linguagem lúdica pela miniaturização da câmera, que permite brincar com a realidade, levá-la junto para qualquer lugar, filmar é uma das experiências mais envolventes, tanto para as crianças como para os adultos. Moran (1993, p. 07). O autor explica que os alunos podem ser incentivados a produzir dentro de uma determinada matéria, ou dentro de um trabalho interdisciplinar. E também produzir programas informativos, feitos por eles mesmos e colocá-los em lugares visíveis dentro da escola e em horários onde muitas crianças possam assisti-los. Moran chama a essa modalidade de trabalho de Vídeo como expressão. É um trabalho que envolve: a pesquisa em jornal, revista, entrevista com pessoas da escola ou da comunidade, elaboração de roteiro, gravação, edição, sonorização, exibição em classe ou circuito interno. Comentários positivos e negativos, a diferença entre a intenção e o resultado. No caso do vídeo espelho a câmara registra pessoas ou grupos e depois se observa o resultado com comentários de cada um sobre seu desempenho e sobre o dos outros. O professor olha o seu desempenho, comenta e ouve o comentário dos outros. Outras dinâmicas interessantes, apresentadas por Moran (1993), envolvem: a) completar o vídeo – exibe-se um vídeo até um determinado ponto, os alunos desenvolvem, em grupo, um final próprio e justificam o porquê da escolha; exibe-se o final do vídeo; comparam-se os finais propostos e o professor manifesta a sua opinião.b) modificar o vídeo – os alunos procuram vídeos e outros materiais audiovisuais sobre um determinado assunto, modificam, adaptam, editam, narram, sonorizam diferentemente, criam um novo material adaptado à sua realidade, à sua
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    217 sensibilidade. C) dramatizarsituações importantes do vídeo assistido – e discuti-las comparativamente. Usar a representação, o teatro, como meio de expressão do que o vídeo mostrou, adaptando-o à realidade dos alunos. Um dos campos mais interessante de utilização do vídeo para compreender a televisão na sala de aula, segundo Moran (2000) é o da análise da informação, para ajudar professores e alunos a perceberem melhor as possibilidades e limites da TV e do jornal como meio informativo. O professor pode propor inicialmente algumas questões gerais sobre a informação para serem discutidas em pequenos grupos e depois no plenário: como eu me informo; que telejornal prefiro e por quê; o que não gosto deste telejornal e gostaria de mudar; que semelhança e diferenças percebo nas vários telejornais; que análise faço dos principais jornais impressos. Pode também fazer uma análise específica de um programa informativo da TV, por exemplo, do Jornal Nacional e de dois jornais impressos do dia seguinte. Podem ser analisadas no telejornal as notícias que chamam mais a atenção e o porquê; quais são as mais importantes e por que; o que considerou positivo e o que discorda desta edição. No jornal impresso podem ser vistas as notícias mais importantes (1ª página) e o enfoque dado; quais as notícias que coincidem com o telejornal coincidência na interpretação; quais as notícias que o telejornal não divulgou; qual é a opinião do jornal nesse dia (editoriais, matérias de 2ª e 3ª páginas sem assinatura). Convém analisar a notícia mais importante com a calma, exibindo-a de novo observando a estrutura, as técnicas utilizadas, as palavras-chave, a interpretação. Sempre confrontando a informação da TV e do jornal impresso, observando as omissões importantes, recomenda Moran (2000). A informação pode ser trabalhada também a partir de produção. Cada grupo elabora um noticiário de cinco minutos, a partir dos jornais, na ordem que achar mais conveniente. Gravam como se fosse ao vivo. Discutem-se no plenário as coincidências e as diferenças de cada grau na seleção e tratamento do mesmo material informativo inicial. Os alunos também podem fazer telejornais com notícias das aulas e da vida deles. Depois o professor discute com os alunos como foi o processo de seleção das notícias e de produção do telejornal.
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    218 CONSIDERAÇÕES FINAIS A Escola como instituição geralmente confirma e assegura a estrutura social, tornando-se difícil de se processar nela uma mudança profunda, sem alterar o contexto social num todo. Mas antes dessa mudança global, algo já pode se efetivar neste sentido: o modo de agir dos professores, que podem ajudar aos alunos a verem a realidade com lucidez e espírito crítico. O uso do vídeo na Escola pode vir a ser uma ferramenta que possibilite o alargamento desta visão da e na comunidade escolar da Escola Inclusiva em vias de constituição. Os professores podem e devem ajudar aos seus alunos a descobrirem as causas da pobreza, do desemprego, do analfabetismo, da criminalidade, da violência, do uso de drogas, da corrupção, da propaganda enganosa, etc. , auxiliando-os a se defenderem do uso danoso dos meios de comunicação- de massa. Ao ocupar o tempo das crianças e jovens, antes de tudo, a mídia exerce sobre eles um poder de consumo no imediato, da programação televisiva e de mediato, no consumo dos produtos que anuncia. Cabe à Escola a construção de mediações substanciais, no que se refere a uma leitura crítica dessas expressões, tanto na esfera perceptual, como na ideológica. Se por um lado, na família não é consolidada uma crítica da mídia – pelo contrário, ela é alimentada pelos próprios padrões de consumo que se volatizam desde a comida, a roupa, acessórios, carros,
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    219 livros, CDs, games– na escola há também a ausência da criticidade necessária à formação de telespectadores conscientes. É urgente que a escola brasileira repense a forma de realizar seu trabalho específico, que é um trabalho de conteúdo, de uma forma agradável e prazerosa, onde o lúdico, o jogo, a dramatização e a produção de vídeo, entre outras fórmulas, mais leves e sedutoras, tenham lugar assegurado na sua práxis. Neste sentido, também, o texto televisivo não pode ficar fora da escola, porque, entre outros motivos, tem amplo acesso irrestrito e prazeroso. À Escola deve propiciar oportunidades para que os seus pequenos cidadãos se tornem livres dos preconceitos, dos temores, da crítica gratuita, da ignorância, do egoísmo, da timidez, do mau hábito de aceitar a miséria e a opressão como algo inevitável. Deve ajudá-los a aprenderem a se organizar e a descobrir a capacidade que têm, caso se unam e se organizem, cultivando valores tais como: o respeito, a cooperação, a solidariedade, a partilha, a polidez, a amizade; a justiça, a igualdade, a liberdade, a responsabilidade, enfim: a ética. Quando a escola brasileira conseguir traduzir o conceito de ética e de bem público nas experiências do seu dia-a-dia, abrindo seus portões para todos os alunos e tratando-os com respeito e inteligência, para que lá permaneçam até concluírem seus estudos, estará apta a atender seus pequenos-cidadãos-alunos, na amplitude de suas dimensões humanas. Deixará de ser segregadora, competitiva, marginalizadora e excludente. Os alunos chegam a Escola marcados pelas desigualdades sócio-culturais profundas. Os mais "fracos" geralmente não são bem recebidos. As diferenças causam constrangimento. Dentro de um princípio democrático, o papel da Escola seria o de assegurar a oportunidade para todos, as mesmas condições de aprendizagem, respeitadas as diferenças. Ao invés de tratar destas desigualdades - que poderiam se constituir em riqueza de experiências e diversidade cultural - a escola legitima essas desigualdades e as reproduz, tratando de maneira idêntica a
  • 221.
    220 todos, como seeles falassem das mesmas coisas, na mesma linguagem, como se tivessem a mesma percepção de mundo. A Escola também precisa se modernizar para acompanhar os avanços tecnológicos que auxiliarão na sedução do aluno. Precisa se atualizar para encantá- Io, para prendê-Io entre suas paredes. O mundo precisa chegar até a sala de aula. O processo educativo não deve se constituir apenas num consumo de técnicas e competências especializadas, mas deve conduzir à formação de homens autônomos e polivalentes, capazes de se inserirem em comunidades dinâmicas, conflituais, mutantes, democráticas. Nos dias de hoje, se a escola insistir em manter-se alheada às mídias, poderá ser considerada marginal à sua época. Segundo a sociologia da comunicação, as idéias que emanam das mídias não atingem o público de maneira direta, passando primeiro pelos líderes de opinião e só num segundo tempo agindo sobre os grupos aos quais esses líderes estão ligados. Portanto, queira-se ou não, é por seu intermédio que as mensagens são aceitas, interpretadas, rejeitadas, ou não. O professor não poderá voltar ao papel destacado que ocupava até 50 anos atrás, quando junto com o prefeito e o vigário eram as referências culturais das pequenas cidades? Como? Ao tomarem a si a responsabilidade, o lugar de líderes de opinião ao trabalhar criticamente a mídia na escola! Os cursos de Pedagogia, pelo menos no Rio Grande do Sul, estão longe de formar os futuros educadores em ler, decupar, analisar pedagogicamente as mensagens mediáticas. E esta falta de discernimento crítico do discurso televisivo tem permitido que a mídia repouse tranqüila no seu poder de manipulação e persuasão, auxiliada pela qualidade técnica e belas imagens - com a exceção de um ou outro espernear, vez ou outra, por parte de associações indignadas com o nível de suas transmissões. O Sistema Educacional Brasileiro precisa se reformular para formar alunos - e especialmente futuros professores - que consigam preparar o aluno para o exercício da cidadania. Professores que consigam tornar o aluno um ser: desejante, livre,
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    221 criativo, crítico eatuante, além de detentor do conhecimento. Político, consciente, humano, na acepção de Freire e livre na de Rogers, centrado, o mais parecido possível com o que gostaria de ser. A educação não deve ser bancária, no dizer de Freire, muito menos imposta, o aluno precisa ter liberdade para aprender, como sonhou Rogers. O aluno precisa antes de tudo ser aceito na comunidade escolar e receber estímulos para a criação. O debate, a análise, a crítica construtiva devem de ser matérias constantes, para que o aluno chegue a auto-conscientizar e tenha consciência dos problemas que o cercam e das soluções para os mesmos, para que se sinta aceito, inicialmente na comunidade escolar e possa achar seu lugar no mundo e dele participar ativa e construtivamente, hoje e futuramente. A construção da sociedade inclusiva passa, necessariamente, por uma série de desafios e, certamente, pelos portões da escola. É preciso que se insira o tema da inclusão de pessoas com deficiência na cidadania - de fato e de direito - visto que até então tem sido considerado como um problema de ordem familiar. Precisa ampliar-se para além da família, passando pela comunidade e atingindo um universo maior, o da dívida para com estes cidadãos invisíveis. Dívida que se constitui na diferença entre o que a sociedade lhes oferece e o que deveria oferecer, no âmbito da Saúde, do Trabalho, da Educação, da Comunicação, da Cultura, do Esporte, da Arquitetura, da Engenharia, etc. A escola brasileira precisa estar aberta a todas as diversidades enquanto bem público, priorizando a formação de parcerias éticas entre as crianças e os adolescentes, num contexto que reproduza a humanidade como ela é, e não como os paladinos da sociedade exclusiva a tem mantido. A inclusão não é uma forma generosa de resolver o problema da segregação dos estudantes com deficiência, que estão na escola especial, ela é a saída para a crise do ensino brasileiro - medida pelos seus altos índices de reprovação e de evasão escolar - porque traz no seu bojo, a idéia de uma escola de qualidade para todos os alunos, que precisam ser, indistintamente, atendidos em suas singularidades, nas
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    222 suas diversas maneirasde construir o conhecimento e suas peculiaridades sócio- culturais. As dificuldades e as limitações dos alunos, deficientes ou não, devem funcionar na escola inclusiva, como estímulo para o enfrentamento dos desafios da vida em comunidade, que transcende os conteúdos programáticos, que as salas aula mal conseguem proporcionar aos alunos. A escola inclusiva tem que levar em conta que precisa vencer barreiras sócio- culturais - que o aluno percebe muito bem e que, a escola, muitas vezes, ratifica, fazendo-o emudecer diante da turma ou do professor, por intimidar-se – trabalhando com uma prática social cultural que seja comum a ambos, escola e aluno. A Educomunicação, nascida da inter-relação Comunicação e Educação - enfocada neste trabalho como uma ferramenta de Inclusão - não deve criar uma nova disciplina na escola, mas inaugurar um discurso transverso, constituído por transdisciplinariedade. Sua interdiscursividade - diálogo com outros discursos - é a garantia da sua sobrevivência e da construção da sua especificidade, nesse processo. O interdiscurso da Educomunicação - por natureza multivocal – tem seu elemento estruturante na polifonia, que gera no território comum um fluxo ininterrupto de significados que podem ser constantemente re-significados e organizados em rizomas conceituais, tendo a alteridade como dimensão constitutiva desse palco de vozes que podem polemizar entre si, dialogar ou complementarem-se. A Educomunicação não tem objeto portanto, mas objetivos. Sobreviverá em um discurso-ação que destrói paredes e as substitui por pontes que visam estabelecer relações significativas entre as duas áreas que a formam. A configuração dos rizomas educomunicativos diminuirá o risco do imperialismo da educação ou da comunicação, que implica sempre no isolamento e na construção de paredes.
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    223 APÊNDICE A –UMA ESCOLA PARA TODOS APRENDEREM A APRENDER & RECEITA PARA UMA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
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  • 226.
    225 APÊNDICE B –EDUCAÇÃO INCLUSIVA:DEMOCRACIA, UTOPIA OU CASTIGO ?
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    227 APÊNDICE C –CUIDADO COM A MÍDIA, ESTA PROFESSORA “ESPERTA”
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  • 230.
    229 APÊNDICE D -A TELINHA MÁGICA E A EDUCAÇÃO I
  • 231.
  • 232.
    231 APÊNDICE E -A TELINHA MÁGICA E A EDUCAÇÃO II
  • 233.
  • 234.
    233 APÊNDICE F –INTERNET, LIBERDADE DE EXPRESSÃO E ÉTICA
  • 235.
  • 236.
    235 APÊNDICE G –SE EU NÃO FOR POR MIM, QUEM SERÁ ? SE EU FOR SÓ POR MIM, QUEM SEREI EU ?
  • 237.
  • 238.
    237 APÊNDICE H -COMO, EM PLENO SÉCULO XXI, DEIXAR DE DAR VISIBILIDADE ÀS DIFERENÇAS NA ESCOLA?
  • 239.
  • 240.
    239 APÊNDICE I –ERA UMA VEZ ...
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  • 242.
    241 APÊNDICE J –“ ESTE EFICIENTE FÍSICO É UM DEFICIENTE FÍSICO ”
  • 243.
  • 244.
    243 APÊNDICE K –EM TEMPOS DE INCLUSÃO VAMOS FAZER UMA PAUSA PARA APRENDER COM OS ÍNDIOS E SEUS CURUMINS ?
  • 245.
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    245 APÊNDICE Y -O DESAFIO É: APRENDER A VIVER NUMA APRENDIZAGEM CIDADÃ
  • 247.
  • 248.
    247 APÊNDICE L –NÃO UMA ESCOLA ESPECIAL, MAS UMA ESCOLA REGULAR DE ESPECIAL QUALIDADE PARA TODOS
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    249 APÊNDICE M –ATÉ OS 12 ANOS UMA CRIANÇA ASSISTE EM MÉDIA A OITO MIL ASSASSINATOS PELA TELINHA DA TV
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  • 252.
    251 APÊNDICE N – A TV NOSSA DE CADA DIA; MAU CARATISMO E CHARLATANICE, SERÁ QUE É ISTO QUE QUEREMOS PARA NOSSAS CRIANÇAS ?
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    253 APÊNDICE O: EDUCAÇÃOINCLUSIVA: COM OS PINGOS NOS “IS”
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    255 APÊNDICE P –E AFINAL, QUE PAÍS É O NOSSO ?
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    257 APÊNDICE Q –ESCOLA VIVA, UM ESPAÇO DE CRIAÇÃO E INCLUSÃO
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    259 APÊNDICE R –MAPs , CÍRCULOS DE AMIGOS E PATH AJUDANDO NA CONSTRUÇÃO DE COMUNIDADES AMOROSAS – 1ª PARTE
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  • 262.
    261 APÊNDICE S –MAPs , CÍRCULOS DE AMIGOS E PATH AJUDANDO NA CONSTRUÇÃO DE COMUNIDADES AMOROSAS – 2ª PARTE
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  • 264.
    263 APÊNDICE T -O SÉCULO XXI PRECISA DE ALUNOS MAIS COLABORATIVOS
  • 265.
  • 266.
    265 APÊNDICE U –A AMIZADE COMO GERADORA DE COMPETÊNCIA SOCIAL
  • 267.
  • 268.
    267 APÊNDICE V –JORNALISTA TRIUNFENSE DÁ PALESTRA SOBRE INCLUSÃO AOS PROFESSORES DE FARROUPILHA
  • 269.
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    269 APÊNDICE W– OPAPEL DOS PAIS NO AFASTAMENTO DO PESSIMISMO QUE CERCA SEU FILHO DEFICIENTE NA COMUNIDADE
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  • 272.
    271 APÊNDICE X –EDUCAÇÃO INCLUSIVA EM DEBATE EM FARROUPILHA, COM A PARTICIPAÇÃO DE PALESTRANTE TRIUNFENSE.
  • 273.
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    273 APÊNDICE Z -DEIXAI IR À ESCOLA OS PEQUENINOS, POIS DELES É O REINO DO AMANHÃ
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