Saber/poder e aceitaçãodo outro
Prof. João Gabriel (joaog@ufmg.br)
Estudioso de Gilles Deleuze e filosofia francesa, mestre em
Filosofia pela UFMG
Charles Louis Lucien Muller, Philippe Pinel (1745-1826)
releasing lunatics from their chains at the Bicetre asylum
in Paris in XVII, 1840-50
2.
Michel Foucault (1926-1984)
Foucaultfoi um intelectual francês responsável por
uma das obras mais influentes do século XX. Dedicou-
se a temas como o poder, a subjetividade e a
epistemologia das ciências humanas. Após a morte do
filósofo Jean Hyppolite, Foucault assumiu a cadeira de
História dos Sistema de Pensamento no Collège de
France onde lecionou de 1971 até a sua morte. A sua
obra reformulou o vocabulário crítico de diversas
correntes de pensamento. Autores eminentes como
Judith Butler e Slavoj Zizek não deixam de tê-lo como
referência, assim como alguns de seus
contemporâneos, como é o caso de Gilles Deleuze.
Mesmo tendo alimentado aspirações das lutas
minoritárias (como a anti-psiquiatria), por seu
posicionamento fortemente crítico e pela complexidade
de seu pensamento, a obra de Foucault permanece
resistente aos reducionismos.
3.
Heidegger, Nietzsche e
Estruturalismo
Acrítica da razão na história da civilização ocidental
levada a cabo, em especial, por Nietzsche e Heidegger
são algumas das influências mais significativas no
pensamento de Foucault. Foi preciso recusar a noção
de um sujeito substancial ou a concepção metafísica da
verdade para iniciar uma pesquisa baseada, sobretudo,
na história. Para além da filosofia, o ambiente
intelectual francês da década de 60 era marcado pelo
estruturalismo. Autores como Claude Lévi-Strauss,
Jacques Lacan e Louis Althusser identificavam-se com
uma metodologia nas ciências humanas (psicanálise,
antropologia e marxismo) segundo a qual o objeto de
suas pesquisas (o inconsciente, o parentesco e a
economia) organizava-se estruturalmente tal qual a
linguagem.
4.
Arte e Política
Pelasua capacidade de explorar os limites da
linguagem, Foucault frequentemente escreveu sobre
artistas “malditos” como George Bataille, Sade, Antonin
Artaud ou Raymond Roussel. Outra afinidade extra-
acadêmica digna de destaque foi o seu ativismo
político concentrado em torno do GIP (Groupe
d'Information sur les Prisons). Além disso, o seu nome
é associado aos distúrbios de “maio de 68” na França.
5.
Arqueologia do Saber
Emsuas primeiras obras, Foucault estava fortemente
preocupado em investigar o solo sobre o qual emergem
determinadas formações discursivas como, por
exemplo, as ciências humanas. Qual as condições de
possibilidade da emergência das ciências humanas?
Isso é feito também em relação à psiquiatria e à clínica.
Tratou-se, portanto, de uma investigação histórica
acerca do surgimento de determinados saberes e das
partilhas sobre a qual eles operam. Nesse sentido, a
“arqueologia do saber” é uma ruptura com concepções
essencialista de termos como a razão ou o homem.
6.
Genealogia do Poder
Algumasdas principais obras de Foucault dizem
respeito às sociedades disciplinares, ou seja,
sociedades compostas por instituições nas quais o
poder se exerce mediante o confinamento dos corpos
no espaço. Do ponto de vista da filosofia política,
Foucault desloca a reflexão acerca do poder,
tradicionalmente voltada para o Estado, para os
mecanismos dispostos em instituições como a prisão.
O caso exemplar de mecanismo descrito por Foucault é
o panóptico. Trata-se, assim, de descrever o modo de
funcionamento dos aparatos de poder. Segundo essa
concepção, o poder não é uma substância (algo que
alguém possui) nem é concentrado em um ponto. Está
disseminado pela vida cotidiana. Além disso, exerce-se
diretamente sobre os corpos. No entanto, do ponto de
vista de Foucault, o poder não é repressivo, na
verdade, ele é inteiramente positivo na medida em que
é através dele que se dá a emergência de
subjetividades (condutas, comportamentos, modos de
vida, etc).
Histoire de laFolie
A História da Loucura na Idade Clássica de
Michel Foucault, livro publicado há
exatamente meio século, inicia um novo
modo de abordagem sobre a loucura. Se por
um lado o autor desnaturaliza a loucura
tomando-a como uma construção histórica e
social, ele a relaciona com a razão
mostrando como há uma afinidade no
movimento de instauração de ambas na
civilização ocidental. Trata-se de mostrar
como, para determinar-se, foi necessário à
Razão estabelecer o seu Outro, a Desrazão.
Assim, decepciona-se quem espera desse
livro apenas uma série de figuras de
patologias mentais ordenadas
cronologicamente. Na verdade, a experiência
da loucura aparece ao lado do discurso
científico sobre a louco. Nesse sentido, é
uma história da loucura, mas também da
psiquiatria. Quais foram as condições de
possibilidade do surgimento de um discurso
sobre a loucura? Sobre qual “solo”
epistêmico foi possível identificar o louco?
9.
Arqueologia de Representações
Apergunta da obra de Immanuel Kant é a
seguinte: como é possível o conhecimento?
Quais são as condições de emergência do
conhecimento? As condições, chamada por
Kant de o a priori do conhecimento, são
aqueles conceitos “mínimos” sem os quais
nós não formamos o conhecimento. Foucault
faz um procedimento análogo, porém sob a
inspiração de Nietzsche. Ao invés de
investigar as condição universais, Foucault
investiga a partir de quais condições
históricas é possível a emergência de
determinados saberes e práticas discursivas.
Por isso, ele afirma sobre o seu projeto da
História da Loucura: “eu creio ter
permanecido em uma análise das
representações. Parece-me que tentei
estudar sobretudo a imagem que se fazia da
loucura no século XVII e XVIII, o temor que
ela suscitava, o saber que se formava, seja
tradicionalmente, seja mediante os modelos
botânicos, naturalistas, médicos, etc” (Le
pouvoir psychiatrique).
10.
Recorte Geo-Histórico: aIdade
Clássica
O período chamado por Foucault de “idade
clássica” se estende do fim da Idade Média
até o início do século XIX. Para a história da
loucura, o período é particularmente
importante porque abrange a chamada
“grande internação” em 1656 até o
surgimento da psiquiatria propriamente dita
com Philippe Pinel no início do XIX. O seu
objeto de análise é privilegiadamente a
França, porém há ao longo de todo o livro
comentários acerca da Inglaterra, Alemanha
e outros lugares da Europa, provando o
quanto a percepção da loucura não estava
reduzida a França, mas é um movimento
próprio à civilização ocidental. Alguns
processos históricos significativos tem
consequências para a Idade Clássica, em
especial, o Renascimento, a Reforma
Protestante, a Contra-Reforma e a
Revolução Francesa.
11.
Experiência Trágica
da Loucura
Duranteo Renascimento, a loucura parece a
Foucault ter ainda voz dentro da cultura seja
nos desdobramentos da arte gótica ou na
dinâmica das festas. Por exemplo, nos
quadros de Bosch, ela é uma potência capaz
de animar as representações. Em outras
culturas ou outros momentos da história
ocidental, a loucura ocupara um lugar
análogo. Foucault cita insistentemente a
experiência trágica da loucura, ou seja,
quando a Desrazão é capaz de escapar dos
limites aos quais ela foi circunscrita. Retirada
de seu silêncio por autores como Nietzsche,
Artaud e Nerval. Reveladora de uma verdade
mística ou condição necessária a uma
percepção crítica da realidade, o
silenciamento nem sempre foi o traço
distinguível dos loucos.
12.
O “Grande Internamento”e a criação do
Hôpital Général de Paris
Em 1656, criou-se em Paris o “Hospital
Geral” composto por cinco casas de
internação. No entanto, apesar do nome, não
era exatamente um “hospital”. Sob uma
direção laica, o Hospital foi criado durante o
Antigo Regime com o objetivo de resolver o
problema da medicância e de todo um
contingente marginal da sociedade, como
protitutas e vagabundos. A ideia era confiná-
los dando-lhes condições de sobrevivência e
adequando-os a uma “ética do trabalho”.
Portanto, havia uma motivação econômica,
mas também moral na internação.
Evidentemente, a ética do trabalho faz eco
aos valores protestantes (alguns deles
assimilados na Contra-Reforma) e aos
valores burgueses ligados à sociedade
industrial em ascensão.
13.
O “Grande Internamento”e a criação do
Hôpital Général de Paris
Os internados eram 1% da população de Paris, ou seja, 6 000 pessoas das
600 000. Era um grupo indistinto de vagabundos cujos motivos de
internação remetiam a um exercício semijurídico e não a um exercício
médico. Tratava-se de disciplinar pessoas consideradas desviantes. O
psicanalista Joel Birman afirma que Foucault pegou a psiquiatria de “calças
curtas” justamente porque, com sua História, Foucault mostra motivações
muito pouco científicas nos primórdios da internação dos loucos.
14.
O “Grande Internamento”:Religião
A internação estava ligada a um movimento de laicização da assistência,
agora, tratada como problema público e não simplesmente de obrigação
religiosa. Nesse sentido, ainda que a igreja tenha participado para o
Grande Internamento (por exemplo, com a transformação de conventos em
hospitais), Foucault observa o quanto ele estava marcado por uma
reformulação da noção de caridade após a Reforma. A “ética do trabalho”
aponta-nos para a presença de valores burgueses e protestantes.
La duchesse Marguerite d'York pratiquant les sept
oeuvres de miséricorde. Miniature de Dreux Jean,
extraite d'un manuscrit bruxellois de 1468-1477.
Bruxelles, Bibl. Royale. Ms 9296, f°1.
Reproduit dans Walter Prevenier et Wim Blockmans,
Les Pays-Bas Bourguignons, Fonds Mercator, 1985
15.
O “Grande Internamento”:
Política
“Noseu funcionamento, ou no seu propósito, o
Hospital Geral não se parece com nenhuma
ideia médica. É uma instânica de ordem
monárquica e burguesa que se organzia na
França nesta mesma época. Está diretamente
ligado ao poder real que o colocou sob a
autoridade única do governo civil” (HF, p.61).
Politicamente, o “Grande Internamento” iniciou-
se no período do absolutismo e
desempenhava uma função policialesca.
Hyacinthe Rigaud, Portrait of Louis XIV, 1701
16.
O nascimento dohospital psiquiátrico
“(...) o internamento não foi de nenhuma
maneira uma prática médica, o rito de exclusão
ao qual ele procede não se abre sobre um
espaço de conhecimento positivo e foi preciso
à França esperar a grande circular de 1785
para que uma ordem médica penetrasse no
internamento, e um decreto da Assembléia
para que se coloque a questão de saber se
cada internado é louco ou não. Inversamente,
até Haslam e Pinel, não haverá praticamente
experiência médica nascida do asilo ou no
asilo; o saber da loucura tomará lugar em um
corpus de conhecimentos médicos no qual ele
figura como um capítulo dentre outros, sem
que nada indique o modo de existência
particular do louco no mundo, nem o sentido
de sua exclusão” (HF, p.189).
Tony Robert-Fleury, 1876
17.
Phillippe Pinel (1745-1826)
O“ato libertador” de Phillippe Pinel, está ligado
ao reconhecimento da loucura como “doença
mental”. Os loucos foram, portanto, retirados
do abismo indiferenciado de uma massa de
excluídos sociais e passaram a ser o objeto de
uma prática médica específica com as suas
classificações e os seus tratamentos. Segundo
Foucault, Pinel faz parte da tradição crítica, ou
seja, daqueles que não vêem na loucura uma
potencialidade de qualquer tipo, mas uma
ausência de potencialidades, sendo portanto
objeto de tratamento e cuidados.
18.
Representações da Loucurana
Idade Clássica
Consciência Crítica da Loucura
Consciência Prática da Loucura
Consciência Enunciativa da Loucura
Consciência Analítica da Loucura
19.
Instauração da Loucura
“Oque estaria em pauta, portanto, seria a
descontinuidade entre o tempo da livre
circulação da loucura no espaço social – e
onde esta era enunciada como fonte de
verdade – e o tempo posterior no qual a
loucura não teria mais qualquer referência ao
sujeito e à verdade, caracterizando-se como
ausência de obra.
Foi no intervalo entre esses dois
marcos que a razão teria sido constituída.
Enunciou-se assim a grande ousadia teórica
de Foucault, que articulou intimamente a
constituição da filosofia moderna e a
configuração do registro da desrazão, na
medida em que aquela, com o cogito de
Descartes, forjou a razão e seu correlato, qual
seja, o discurso da ciência” (Joel Birman,
“Guerras Psi”).
1. “Não hácivilização sem loucura”
As Meditações Metafísicas de René
Descartes podem ser tomadas como
metáfora do processo ocorrido na cultura
européia, ou seja, a certificação ou a partilha
do espaço da razão a partir da negação do
Outro, tomado como Desrazão. Tese
importante de Foucault: a razão não se
instaurou sem estabelecer o seus limites com
o seu Outro.
22.
2. Questionamento daObjetividade
Científica
A objetividade científica da psiquitria depende de uma série de
pressupostos não necessariamente científicos, ao contrário, de ordem
moral ou política. O esforço de Foucault é mostrar como os
desenvolvimentos da psiquiatria foram devedores de uma série de
representações e práticas cuja origem não é científica.
23.
3. Afinidade entreSaber e Poder
É necessário para a emergência do saber
sobre a loucura mecanismos de poder
exercidos sobre o seu objeto de estudo, o
louco. Não haveria psiquitria sem o
confinamento e as práticas de domesticação
do louco.
24.
"Van Gogh buscouseu espaço durante toda
sua vida, com energia e determinação
excepcionais. E não se suicidou em um
ataque de loucura, pela angústia de não
chegar a encontrá-lo, ao contrário, acabara
de encontrar-se, de descobrir que era quem
realmente era, quando a consciência geral da
sociedade, para castiga-lo por haver se
apartado dela, o suicidou” (ARTAUD, A. Van
Gogh, Suicidado pela Sociedade).