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                       Waina Ferreira Miranda
                Email: wainamiranda@hotmail.com
        Blog: www.aconselhamentoseculo21.blogspot.com
WAINA FERREIRA MIRANDA




PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS:
    A importância da relação de ajuda na superação da dor da perda.




                                 Monografia     apresentada    como
                                 requisito para aprovação final no
                                 Curso de Pós Graduação em
                                 Aconselhamento da Faculdade
                                 Teológica Batista de São Paulo

                                 Orientador: Profª Drª Fátima Cristina
                                 Costa Fontes.




                            São Paulo

                               2010
DEDICO ESTE TRABALHO



Primeiramente a ti JESUS CRISTO, meu grande e absoluto amor.

           Só tem uma coisa que somente eu e Tu podemos acessar: meus pensamentos. Por
           isso, amo aqueles nossos momentos que eu fico pensando e suspirando, suspirando
           de tanta paixão por Ti, adorando-o com meu coração dilatado. De fato, há delícias
           em tua presença. Fico emocionada quando penso que Tu permitistes todas minhas
           dores para me tornar mais apta ainda para seus propósitos em minha vida. Amo-
           te tanto Emannuel. Não sei mais viver sem Ti.



Como um TRIBUTO a memória de meu querido pai, Maurício da Silva Miranda,

           que me educou no caminho da justiça e da hombridade e, serviu-me de referencial
           para que eu pudesse crer que Deus é um Pai cuidadoso e provedor como ele meu
           pai o era comigo, a tal ponto que hoje, se só me fosse possível definir Deus com
           apenas duas palavras eu diria: Cuidadoso e Provedor.



À minha PERDA maior, a morte de meu pai que aconteceu em 01 de Junho de 2005.

           Perda essa que resultou em uma completa resignificação de minha vida e que me
           inspirou a realizar este trabalho me fazendo percorrer por meio de leituras e
           reflexões todo o caminho dos que sofrem a perda de uma pessoa amada na busca de
           compreender a si e a outros no processo desestabilizar do Luto. Tenho profundo
           respeito por esta fase de minha vida.



À toda minha FAMÍLIA e, em especial, à minha querida mãe, exemplo de conselheira,

           que apesar de sua simplicidade e pouca instrução sempre trouxe aos filhos
           conselhos sábios e pertinentes e ao meu irmão que sofreu as consequências do Luto
           em sua saúde física (coração), mas que pôde encontrar na fé em Cristo forças para
           sair da depressão.
AGRADEÇO DE CORAÇÃO:

Ao Deus da Bíblia que me vocacionou, capacitou e me qualificou para toda boa obra,
inclusive para esta monografia e que me conduziu ao curso de Aconselhamento no
tempo certo. Se não fôra o Senhor, o que seria de mim?

De forma muito especial, às pessoas que estiveram direta e indiretamente envolvidas
na perda de meu pai.

   -   À minha prima Bernadete, companheira constante no cuidado com meu pai
       durante o tempo que ele esteve no hospital e a primeira pessoa a chorar
       comigo quando recebemos a notícia de sua morte. Obrigada Dete, nunca vou
       esquecer o que você fez por meu pai e por mim nesse período.

   -   O apoio e acolhimento dos meus “tutores de resiliência”, ou melhor dizendo,
       meus cuidadores durante o processo inicial do meu Luto: Pr. Tiago, (”a quem
       honra honra”) e Matheus e Giselle, um estimadíssimo casal de amigos que
       torna a ausência de minha família mais tolerável. Obrigada Matheus e Giselle
       por vocês fazerem parte da minha vida e confiarem em mim.

   -   Ao Pr. Davi Klawa por suas palavras via telefone que nunca vou esquecer:
       “você sabe que você tem toda uma igreja em sua retaguarda”.

   -   E agradeço também à todos meus amigos que estiveram irmanados comigo
       nesta fase de Luto seja através de um telefonema, email, torpedos ou presença
       de amor.

À Simone, uma amiga mais chegada do que uma irmã, e a Ester duas respostas de Deus
para o meu grito de socorro: “Deus eu preciso de ajuda”! À primeira, por suprir-me e a
segunda por acompanhar-me com suporte terapêutico durante todo o tempo de
realização deste trabalho.

Aos meus “amigos de fé meus irmãos camaradas” do Ministério Jovem da 1ª Igreja
Batista da Lapa, à irmã Raquel e irmã Izabel, que se uniram a mim expressando afeto
e cuidado ao participarem deste trabalho com suas indispensáveis Intercessões.

Às minhas parceiras de oração do Grupo de Intercessão Missionária da 1ª Ig. Batista
da Lapa Flávia, Sara e Renata, que seguraram a “corda” durante a ausência de minha
liderança para que eu pudesse fazer este trabalho.

À minha amada igreja, 1ª Igreja Batista da Lapa, que representada por sua diretoria
patrocinou este curso, tornando possível a realização dessa importante etapa em
minha vida, e eu espero ter honrado com este trabalho as palavras que ouvi do Pr.
Orlando quando me comunicou a decisão da diretoria: “nós achamos que você merece”.
Ao Pr. João Marcos Morilha, meu pastor e amigo, que há 18 anos tem sido um
facilitador/abençoador para o desenvolvimento de meus dons ministeriais. Amo
você pastor com um amor parental. Obrigada por me amar como eu sou.

À Profª Drª Fátima Fontes, pela dedicada e amorosa orientação, por compartilhar
comigo seus livros e ainda por suas aulas cheias de entusiasmo, criatividade,
inteligência e competência.

À todos meus professores e, em especial, à Profª Drª Patrícia Pazinato que através de
suas aulas didáticas de metodologia científica estimulou em mim um espírito
investigativo que me levou a acreditar em meu potencial científico e ao desejo de
continuar nessa caminhada ingressando em um tempo de produção intelectual e
literária.

Aos meus colegas de curso pelos meses de companheirismo e pelos momentos
agradáveis em aula e nas confraternizações.

À Rosângela e à Rosalice por me ajudarem nas correções gramaticais e à Isabela pela
tradução do Resumo para o inglês.



...a todos, o meu mais sincero agradecimento.
Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai
   das misericórdias e o Deus de toda a consolação; que nos
      consola em toda a nossa tribulação, para que também
 possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação,
  com a consolação com que nós mesmos somos consolados
                                                  por Deus.

                                               2Coríntios 1:4
PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS:

            A importância da relação de ajuda na superação da dor da perda.



RESUMO



Este trabalho, cujo tema é o aconselhamento como fonte de ajuda a adultos
enlutados por perda de pessoas significativas, é um estudo exploratório sobre as
vivências do Luto e suas repercussões no adulto enlutado por morte de pessoa
significativa para ele, descrevendo o vasto leque de emoções, experiências e
mudanças psicológicas e fisiológicas que ocorrem como resultado da perda. A
autora relaciona a experiência de lidar com o pesar por Morte a partir de três temas
principais: Morte, O processo de Luto e o Aconselhamento do Luto. Tal estudo se
justifica por se fazer necessário que no campo do aconselhamento se amplie os
estudos na direção do cuidado com os enlutados. O estudo propõe investigar a
importância e possíveis benefícios do aconselhamento como um instrumento que
ajudará o adulto enlutado a lidar com a morte e demonstrar as práticas de
intervenção de aconselhamento para o adulto enlutado. O método de estudo
adotado é a pesquisa bibliográfica e o referencial teórico é Collin Murray
Parkes(1998). Os resultados deste estudo têm implicações nas áreas de
aconselhamento, saúde mental, acompanhamento e socorrismo em catástrofes,
desastres, emergências e outros. Podendo ser útil ainda às pessoas que, ao lidarem
com suas perdas desejam ampliar sua reflexão sobre seus significados.


Palavras chaves: Morte. Luto. Perdas. Enlutamento. Grupo de apoio ao Luto.
Conselheiro. Aconselhamento Pastoral.
GRIEF COUNSELING FOR ADULTS:
               The importance of the support in coping with the pain of loss.



ABSTRACT



This work aims to study counseling as a source of help and support to adults in grief
at the loss of a beloved person. It is a research about the experience of Grief and its
consequences in the life of an adult mourning the death of a significant one,
describing a wide range of emotions, experiences, and psychological and
physiological changes that occurred as a result of the loss. The author relates the
experience of coping with the sorrow by Death from three main points: Death, The
Process of Grief and Grief Counseling. This study regards as necessary the care with
bereaved people in the field of counseling. It investigates the importance and benefits
of counseling as an instrument to help bereaved adult to cope with death and also
shows practices of counseling intervention in the bereaved life. The results of this
research have impacts on the fields of counseling, mental health care, hospice
services and life saving in catastrophes, disasters, emergencies and others.




Keywords: Death. Grief. Losses. Mourning. Grief Support Group. Counselor. Pastoral
Counseling.
SUMÁRIO




INTRODUÇÃO............................................................................................................11

1. BREVES REFLEXÕES SOBRE A MORTE E SEUS DESDOBRAMENTOS......15


2. O PROCESSO DE LUTO......................................................................................20


    2.1. Conceito de Luto.............................................................................................21

    2.2. Reações normais de Luto...............................................................................21


    2.3. Fases do Luto..................................................................................................24

    2.4. Variações do Luto: patológico e traumático....................................................26


    2.5. Luto e Saúde Integral: emocional e física.......................................................33

3. PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS............37


    3.1. A ajuda que o conselheiro pode prestar aos enlutados..................................39


    3.2. Processos terapêuticos e procedimentos de ajuda........................................42


    3.3. Os benefícios de grupos de ajuda e apoio aos enlutados..............................46


CONSIDERAÇOES FINAIS........................................................................................49

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...........................................................................54
INTRODUÇÃO
                                                                   Amor e Luto estão entrelaçados
                                                                                         Parkes.


         O livro bíblico de Eclesiastes diz: "para tudo há o seu tempo. Há tempo para
nascer e tempo para morrer”.1 Embora o morrer faça parte do cotidiano dos seres
vivos, falar sobre Tanatologia2 ainda é tema evitado, reprimido ou considerado
deprimente, haja vista a reação de uma pessoa quando se comentou com ela sobre
o tema desse trabalho: “você está fazendo terapia? Deveria, porque este assunto é
mórbido!”. Nunca foi fácil falar ou escrever sobre assuntos que envolvam perdas,
dor, sofrimentos e, uma gama de sentimentos outros, muitas vezes dilacerantes,
como é o caso da Morte e o que se segue a ela, o Luto.
         O presente trabalho é um estudo exploratório a respeito do tema: O
aconselhamento como fonte de ajuda a adultos enlutados por perda de pessoas
significativas. Buscar-se-á responder a seguinte questão: Qual a importância e
possíveis benefícios do Aconselhamento para os adultos enlutados?
         Pode-se experimentar sentimentos semelhantes ao Luto diante de outras
perdas como: desemprego, separações, perda de posição socioeconômica, retirada
de um órgão, mudanças forçadas, dentre outras. Para objetivar nosso estudo
limitamo-nos à perda por morte de pessoa importante para o enlutado.
         O entusiasmo e a motivação inicial que despertou o interesse pelo estudo do
tema foi o Luto paterno vivenciado pela própria autora. Esta experiência pessoal
estimulou seu espírito investigativo levando-a a desenvolver esse trabalho como
requisito final para conclusão do curso de Aconselhamento.
         Esta pesquisa se justifica, pelo fato da morte de alguém amado se configurar
como a causa de uma devastadora dor na vida de um indivíduo (COLLINS, 2004).
Mediante a morte de alguém querido, alguns se descrevem como tendo sofrido uma
“colisão”, levando algumas delas a se desestruturarem emocionalmente, fato esse
evidenciado pelo sofrimento emocional e físico.
1
 A BÍBLIA. Livro de Eclesiastes capítulo 3, versículo 2. Trad. João Ferreira de Almeida. Versão
Revista e Atualizada no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
2
  Tanatologia: “área de estudos sobre a morte que inclui tanto um corpo de conhecimento específico
quanto os cuidados de pacientes no fim da vida, os processos de luto antes e depois da morte, e
temas como suicídio, comportamentos autodestrutivos, eutanásia e suicídio assistido”. (KOVÁCS,
2003, p.148)
Justifica-se tal estudo ainda pela relevância acadêmica do tema. De acordo
com alguns estudiosos da Tanatologia no Brasil, como área de pesquisa e
intervenção há ainda muito que ser explorado nessa área e faz-se necessário que
no campo do aconselhamento se amplie os estudos na direção do cuidado com os
enlutados. O estudo será importante também para o exercício profissional dos
Conselheiros em suas comunidades de pertença, podendo servir de base para a
criação de trabalhos de suporte e assistência aos enlutados.
       Tal estudo tem como objetivo geral explorar o processo de Luto, seus efeitos
e o aconselhamento do Luto. E seus objetivos específicos são: 1) Investigar a
importância e possíveis benefícios do aconselhamento como um instrumento que
ajudará o adulto enlutado a lidar com a morte; 2) Demonstrar as práticas de
intervenção de aconselhamento para o adulto enlutado.
       Como aproximação ao tema, primeiramente, apresenta-se algumas
considerações sobre a Morte e o Processo de Luto.
       No capítulo I, são feitas breves reflexões sobre a morte e seus
desdobramentos. O objetivo desse primeiro capítulo não é o aprofundamento teórico
da questão da morte, mas enfocar a maneira pela qual o homem lida com este
fenômeno humano universal e inevitável: seus medos, suas angústias, suas
defesas, suas atitudes diante da morte.
       No capítulo II a pesquisa centra-se exclusivamente no Processo de Luto
vivenciado por adultos que sofreram perda por morte, deixando de fora do mesmo o
Luto noutras faixas etárias específicas, como é o caso das crianças e adolescentes,
uma vez que eles têm características próprias na forma de sentir a perda e de
viverem o Luto, sendo necessários determinados cuidados específicos. A
abordagem desta pesquisa não envolve morte e Luto por suicídio, pois a questão é
complexa e poderia nos levar além dos objetivos desse trabalho, e também não trata
das diferentes formas de expressão de Luto em culturas distintas. Mas abrange as
variáveis que afetam o curso do Luto desencadeando em Luto Patológico ou
traumático e as questões de saúde emocional e física decorrentes do estresse
causado pela perda.      Este capítulo objetiva perceber os efeitos cognitivos,
psicológicos, comportamentais e físicos que entram em ação quando o homem se
encontra diante da morte de uma pessoa especial.
No capítulo III são abordadas as Práticas de aconselhamento para adultos
enlutados considerando a ajuda e o papel do conselheiro diante de pessoas em
situação de Luto, a demonstração das práticas terapêuticas e procedimentos de
ajuda por meio do aconselhamento e, por último, os benefícios de grupos de apoio
aos enlutados. Nesse trabalho trataremos do aconselhamento dentro de uma
perspectiva pastoral circunscrita, principalmente, ao universo das comunidades de
fé3 de natureza cristã.

         A autora adotou como método de estudo a pesquisa bibliográfica que
consiste de livros, artigos online, monografias, teses, revistas e outros. O referencial
teórico que norteia este estudo é o autor clássico Collin Murray Parkes (1998),
psiquiatra, tanatólogo, que mediante suas pesquisas com viúvos e viúvas contribuiu
significativamente para a temática do Luto vivenciada por adultos, especificidade de
nosso trabalho. Vale ressaltar também as importantes contribuições de outros
autores pesquisados como: Kubler-Ross (1998), Bowlby (1998), Worden (1998),
dentre outros.

         Na bibliografia que versa sobre a dor da perda que sucede a morte de uma
pessoa amada, os adjetivos, habitualmente, para descrevê-la são: esmagadora,
avassaladora, assustadora, dolorosa, dilacerante, profunda, visceral, intensa. A
magnitude da reação e a desmesura desse acometimento na vida de uma pessoa
constituem-se em um desafio difícil e delicado, porém gratificante para o
conselheiro, que irmanado como parceiro dessa travessia, pode oferecer uma
presença de amor, escuta empática e ser instrumento de ajuda que capacitará as
pessoas a lidarem com este sofrimento que vulnerabiliza, desorganiza e muitas
vezes paralisa a vida do sobrevivente.
         Todas as perdas envolvem o rompimento de laços afetivos e há que se
considerar que as implicações dessa experiência não estão limitadas ao psiquismo,
mas a uma experiência humana com raízes em diversas áreas do conhecimento,
inclusive a Teologia.
         Ainda que nós, os cristãos, sejamos consolados pela certeza da
ressurreição, não somos poupados do vazio e aflição de sermos obrigados a nos
separar de alguém que amamos. No entanto, este trabalho mostra que manter a fé e

3
 Entendemos por comunidade de fé cristã a união daqueles que acreditam em Jesus Cristo como Salvador e
Senhor, acreditam na Bíblia como palavra de Deus e anunciam a mensagem de Cristo a outros.
uma atitude positiva diante dos infortúnios que a vida nos apresenta, contribui para
superar as adversidades e restabelecer a esperança de viver.
1. BREVES REFLEXÕES SOBRE A MORTE E SEUS DESDOBRAMENTOS

                                              Que homem há, que viva e não veja a morte?
                                            Ou que livre a sua alma das garras do sepulcro?
                                                                              Salmos 89:48


      “Para morrer basta estar vivo”, diz a sabedoria popular, mostrando-nos a
vulnerabilidade da vida. Mesmo sendo um fato inevitável para todo ser vivente, falar
de morte é considerado assunto “non” grato, mórbido, assombroso, que nos causa
repulsa. A morte se configura como intrusa, uma invasora que põe fim a existência
dos seres vivos sem pedir permissão e, embora o avanço tecnológico possa retardá-
la, não há como evitá-la, pois cedo ou tarde ela nos “pregará uma peça” e se fará
presente em nossas vidas ou nos levará aqueles que nos são tão preciosos. E
quando ela ceifa a vida de quem amamos, a sensação de dor é tão absurda que
temos a impressão de que vivemos um pesadelo. Nesta hora tudo o que ansiamos é
acordar desse sonho ruim. A tarefa mais difícil é constatar que esse sonho é real e
que é impossível escapar dele.

      O abalo da morte é tão grande que se torna difícil o homem tratá-la com
naturalidade encarando-a como sendo mais uma etapa do ciclo da vida, há uma
recusa em se acreditar que é mortal e se age como se a morte não existisse.
Observa-se que esta inaptidão em aceitar a morte faz com que seja criado muito
tabu e negação em torno dela. Para Kubler-Ross (1998) desde os tempos remotos o
homem teve aversão à morte e possivelmente continuará a rechaçá-la. Em seu
inconsciente o homem não compreende que a morte seja possível quando se trata
dele mesmo, sendo inconcebível imaginar de fato o fim de sua existência na terra e,
se a vida tiver um fim, a morte vai sempre estar ligada a uma ação má, a um
acontecimento apavorante e não a uma causa natural ou idade avançada.
(KUBLER-ROSS, 1998).

      Entre os seres vivos, somente o homem tem consciência de sua própria
morte. De acordo com Walsh e McGoldrick (1998) o medo da morte é o que nos
provoca maior terror. O medo de morrer é natural e instintivo, atinge a todos, não
importando crenças, idade, gênero, nível sócio-econômico. Talvez porque a morte
seja um evento associado a sofrimento e dor é que ela nos causa tanto medo. O
pensador e escritor cristão C.S.Lewis (2007) esboça muito bem esse fato quando se
refere ao Luto pela morte de sua esposa:

                        Ninguém me disse que o Luto se parecia tanto com o medo. Não estou com
                        medo, mas a sensação é a mesma; A mesma agitação no estômago, a
                        mesma inquietação, o bocejo, a boca seca. (LEWIS, 2007, p.29).
       A morte provoca uma sensação de impotência muito grande, pois temos de
enfrentá-la como uma condição irreversível, que não podemos controlar ou mudar.
Convivemos com situações de morte diariamente ainda que vivamos em uma
sociedade que a nega o tempo todo. A morte do outro nos remete à nossa finitude e,
de certa forma, está nos preparando para este grande momento. Uma correta
perspectiva da morte nos auxilia a uma maior autenticidade e consciência. Morte e
vida estão amalgamadas durante todo o nosso ciclo de vida. Fugir da morte é fugir
da vida. (LEO, 2005; KOVÁCS, 2005).

       Kubler-Ross (1998) declara que entre os mais importantes motivos para fugir
do enfrentamento da morte está o fato de que hoje morrer tornou-se um evento
solitário, desumano e impessoal porque o paciente é levado ao confinamento
hospitalar, rodeado por aparelhagens e profissionais ávidos por prolongar-lhe a vida,
não se preocupando tanto em dar-lhe um tratamento mais humano, como por
exemplo, segurar a mão do paciente, sorrir-lhe e prestar atenção a uma pergunta.

       O Artigo 41 do Código de Ética Médica brasileiro4, determina que é vedado ao
médico “abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de seu
representante legal”, ou seja, eles são impedidos de respeitar a vontade do paciente
no que diz respeito à decisão de desejar ou não prolongar sua vida, quando não há
mais nada que a medicina possa fazer.

       A revista Veja5, em sua matéria “A ética na vida e na morte”, diz que “os
questionamentos acerca dos limites entre uma vida insuportável pela doença e uma
morte digna surgem em grande parte das conquistas espetaculares da medicina
ocorridas, sobretudo, nas últimas duas décadas”.

       Rubem Alves (2003), em seu artigo “Sobre a morte e o Morrer”, ilustra esse
dilema angustiante do paciente diante da morte:
4
 CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA BRASILEIRO. Artigo 41. Disponível em
<http://www.portalmedico.org.br/novocodigo/integra_5.asp> Acesso em: 15. Mai. 2010
5
 LOPES, Adriana D. A ética na vida e na morte. Veja. São Paulo, edição 2162, nº 17, p. 100-106,
abr./2010.
[...] a morte e a vida não são contrárias, são irmãs [...] tenho
                       muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de
                       dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu
                       corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer,
                       porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão,
                       ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas
                       comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem
                       seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela
                       acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos
                       hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões
                       de beleza. (ALVES, 2000, p.3)
         A sociedade ocidental não encara bem a morte e nega seu impacto ao
remover os moribundos do aconchego de seus lares e comunidades. (WALSH;
MCGOLDRICK, 1998). Kubler-Ross (1998, p.11) nos lembra que “já vão longe os
dias em que era permitido a um homem morrer em paz e dignamente em seu próprio
lar”.

         Antigamente havia tempo para as despedidas, todos participavam e
vivenciavam a perda iminente com intensidade, inclusive as crianças. Os mortos
eram velados em casa, e os próprios familiares cuidavam da preparação do corpo e
enterro, mas hoje os agentes funerários cuidam de tudo, fazendo a todos
expectadores e não participantes. Desde o século vinte até os dias de hoje o que se
observa é um desejo de que a morte não seja lembrada. Símbolos como o vestir-se
de preto, são quase inexistentes hoje em dia. Velório, despedida, sepultamento,
orações, silêncio, rituais necessários para uma melhor percepção da morte, estão
cada vez mais discretos e rápidos. O enfrentamento da morte e a vivência do
processo de Luto são diretamente atingidos por esta atitude de discrição. (TINOCO,
2003).

         Eufemismos e expressões como, “passagem”, “partiu”, “fim”, “está dormindo”,
“passou desta para melhor”, “descansou”, “foi para o andar de cima”, “foi fazer uma
longa viagem”, ou “foi morar no céu”, como é dito às crianças, são usados para
referir-se a ausência inalterável da pessoa morta, dificultando a assimilação e
integração desta em nosso cotidiano. Quanto maior seu evitamento, maior nossa
dificuldade em enfrentá-la e reconhecer que a morte faz parte de um processo
natural da vida e que negá-la é como negar a vida, pois começamos a morrer assim
que nascemos como bem expressa a composição de Toquinho e Vinicius de Moraes
(1971):

                       Tem dias que eu fico pensando na vida
                       E sinceramente não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender:
                      A gente mal nasce, começa a morrer.
                      Depois da chegada vem sempre a partida,
                      Porque não há nada sem separação [...] (TOQUINHO;
                      VINICIUS DE MORAES, 1971)
      Nesses últimos anos proliferam cemitérios onde ao invés de jazigos
constroem-se jardins sobre os túmulos que parecem ter a intenção de esconder o
“pavor” da morte, passando-nos a falsa ilusão de que ali não existe morte, mas
apenas vida expressa através das belas plantas.

      O avanço da medicina e da tecnologia acirrou o desenfreado desejo pela
eterna juventude do homem pós-moderno, culminando na fantasia de perenidade da
vida humana e gerando, por meio do apego a tudo isso, muito mais angústia e
sofrimento pela conclusão do indiscutível fim de sua existência.

      O desejo de transcender à morte leva o homem a desafiá-la e tentar vencê-la,
haja vista as tentativas da ciência em perpetuar a vida através de experimentos de
congelamento do corpo humano após a morte, na esperança de que num futuro
qualquer se possa descobrir como fazê-lo tornar a viver. Porém, KOVÁCS (2008),
considera que a procura do homem não é pela vida eterna, mas pelo anseio de ser
eternamente jovem, para manter os prazeres, formosura e energia que esta fase
proporciona e não a experiência da velhice infindável cheia de perdas, fealdade e
aflições. É relevante aqui observarmos que somos uma sociedade orientada para a
juventude vivendo como que não crendo na extinção de nossa própria vida,
relegando o pensar na morte para os idosos. De qualquer modo, acabaremos por
admiti-la. A morte do outro nos obriga a encararmos a realidade de nossa própria
mortalidade.

      O contexto histórico cultural de uma sociedade contribui para a orientação do
homem em relação à morte. Por “orientação quanto à morte” entende-se ser a
amplitude total de pensamento, sentimento e comportamento direta ou indiretamente
relacionados com a morte. Nossas concepções atuais sobre a morte constituem
parte da herança que as gerações anteriores, as antigas culturas nos legaram.
(KASTENBAUM & AISENBERG, 1983). Os mesmos autores prosseguem expondo
que a relação entre religião e morte faz com que nossa cultura veja o morrer como
castigo ou punição. Nesse sentido, os autores expressam a doutrina cristã que
postula que a morte é fruto da desobediência do homem no jardim do Éden. Na
opinião de Kastenbaum & Aisenberg (1983, p.101) “a religião é um dos esforços
culturais altamente organizados para triunfar sobre a morte, para transcendê-la”. A
Bíblia esboça este fato, no capitulo 15, versículo 55 do livro de Coríntios em que
profere: “onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”

       Segundo os cristãos, ou seja, de acordo com sua doutrina e filosofia, há
continuação pós-morte. Cristo, através de sua crucificação e ressurreição, derrotou a
morte e prometeu que todo aquele que nele crê “não morrerá, eternamente”6.
Quando se trata da morte de um ser amado, esta visão transcendental pode até
amenizar o desconforto e ajudar a enfrentá-la, mas nem sempre diminui a dor e a
necessidade de consolo.

       A    morte     daqueles      a    quem      amamos       nos     assola,     privando-nos,
temporariamente, da alegria de viver, nos levando a um vazio, falta de sentido e
ânimo para continuar vivendo. A dor acompanha a morte e o processo de Luto se
faz necessário para a elaboração de nossa perda (KOVÁCS, 2008). No capítulo
seguinte examinaremos as vivências do Luto adulto por morte e suas repercussões,
descrevendo o vasto leque de emoções, experiências, mudanças e condições que
ocorrem como resultado da perda.




6
A BÍBLIA. Português. Livro de João, capítulo 11, versículo 26. Tradução de João Ferreira de
Almeida. Versão Revista e Atualizada no Brasil. 2ª Ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
2. O PROCESSO DE LUTO

                                          Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço
                                              nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago.
                                                                                 Salmos 6:6

                                  “Bem-aventurados os que choram porque serão consolados”
                                                                               Mateus 5:4


      Amor e Luto são duas faces da mesma moeda: não é possível sentir o
primeiro sem correr o risco de se deparar com o segundo. Possivelmente, somente
ao entender a natureza do amor e o significado dos vínculos afetivos pode se
compreender completamente o impacto de uma perda e o comportamento humano
que o acompanha. Muitos autores escreveram sobre o desenvolvimento do apego.
Bowlby (1998) está entre os que mais contribuíram para este assunto escrevendo
muitos livros e artigos sobre apegos e perdas. Sua Teoria do Apego é
fundamentalmente uma teoria da origem e natureza do amor. Esta diz respeito à
formação dos laços afetivos entre as crianças e seus progenitores ou figuras de
cuidado. Segundo a sua teoria a formação do apego nasce da necessidade que se
tem de se sentir seguro e protegido. Este sistema de apego mantém-se na vida
adulta, cooperando para a formação de atitudes do indivíduo nas relações
amorosas.

      Os padrões de apego influenciam os padrões de Luto, conclusão a que
chegou Bowlby (1998) através de seus estudos. A dimensão de sofrimento no Luto e
a reação a ele estão proporcionalmente relacionadas com a extensão de apego ao
objeto perdido, ou seja, quanto maior nosso investimento afetivo maior nossa dor à
perda e maior energia necessária para este desligamento. As dependências físicas
ou psíquicas são fatores que podem agravar o desligamento com o objeto.
(KOVÁCS, 2008). Ligamo-nos uns aos outros com um forte sentido de posse, por
isso quando a morte nos separa do objeto amado, esta é vista como perda, e não
como uma transição inerente à existência (FRANCO, 2005 Apud CATERINA, 2008).

      Luto. Este é o começo de um período muito difícil, de um tempo de dor e de
emoções confusas, de um tempo de mudanças e transformações das realidades
internas e externas.
2.1. Conceito de Luto

      A palavra Luto é definida no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa
(2009, p.1236), como: “sentimento de pesar pela morte de alguém.” Para Freud
(1916, p.245), é a “reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração
que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou ideal de
alguém, e assim por diante”. De acordo com Collins (2004, p.407), “Luto é uma
reação natural à perda de qualquer pessoa, objeto, ou oportunidade que era
importante para nós”. Parkes (2008, p.15), descreve o Luto como sendo a
“expressão dos vínculos que as pessoas estabelecem umas com as outras.” E
conforme Lazán (1989, p.12), “o Luto é a elaboração congnitiva e emocional do
impacto de um trauma sobre a pessoa”. Assim o sentimento de Luto pode ocorrer
sempre que uma parte da vida se vai ou é tirada de nós.

      Outros tipos de perdas e mudanças podem nos remeter ao Luto, como
divórcios, desemprego, migração forçada, morte de um animal de estimação,
esterilidade/infertilidade, amputação de um membro, aposentadoria, a perda da casa
ou de outro bem valioso, de uma paixão ou de uma amizade significativa. Portanto,
Luto é uma fase de pesar pelo qual passamos cada vez que perdemos algo de valor,
de importância central para nós. O Luto é uma reação à perda e perdas são comuns
em nossas vidas, entretanto Parkes (1998) adverte que o termo Luto é mais
comumente usado para designar a perda de uma pessoa em especial, uma pessoa
querida.




2.2. Reações normais de Luto.

      O Luto é um processo e não um estado estático, é uma reação normal,
transitória, que a maior parte de nós experimentará um dia, envolvendo uma
variedade de pensamentos, comportamentos e sentimentos como dor, angústia e
outros sofrimentos por uma perda significativa. É uma experiência pessoal que cada
um vive ao seu modo e leva-se tempo para recuperar, podendo durar até um espaço
de dois anos quando se trata de Luto normal.
Quem já passou por tal circunstância sabe que os sentimentos são múltiplos,
confusos e intensos. De acordo com alguns pesquisadores o processo de Luto é
composto de um conjunto de emoções expressas através de tristeza, saudade,
culpa, medo, auto-acusação, raiva, irritabilidade, ambivalência, sensação de
ansiedade e impotência, solidão, fadiga, desamparo, choque, anseio, alívio,
estarrecimento. Os estudiosos também apontam que pessoas em Luto manifestam
considerável déficit de memória, distúrbios do sono e do apetite, sonhos com o
morto que dão à pessoa enlutada a sensação de que são reais, isolamento social,
confusão mental levando a pensamentos desordenados e falta de concentração,
sensação cognitiva da presença do morto e, descrença com relação ao mundo e a
Deus. Afora as sensações fisiológicas, que também são normais e consideradas
significativas no processo de Luto, sendo as mais comuns: palpitações cardíacas,
vazio no estômago, perda do interesse sexual, aperto no peito, nó na garganta,
visão borrada, hipersensibilidade ao barulho, sensação de despersonalização (nada
parece real), falta de energia e boca seca.        Estes aspectos são características
frequentemente associadas ao Luto normal, mas devemos considerar as diferenças
individuais. (PARKES,1998 e WORDEN, 1998).

       Perdas são grandes desafios da vida, parece que para algumas pessoas o
Luto é uma experiência intensa, para outras, moderada e o início do processo de
Luto é diferente de pessoa para pessoa, para uns podendo acontecer logo após a
perda e para outros adiado para alguma experiência futura, como por exemplo,
quando se vê uma fotografia da pessoa falecida ou em datas comemorativas como
aniversários de nascimento e falecimento ou festividades como o Natal. Dificilmente
alguém fica indiferente a ela quando se trata de uma pessoa importante para si, e se
acontecer em condições especiais agrava seu impacto e potencializa ainda mais sua
desorganização psíquica. Nas pesquisas de Parkes (1998), ele não encontrou
alguém que não tivesse tido alguma reação à perda em maior ou menor grau. Ele
compara a dor da perda como a uma ferida física relatando-a da seguinte forma:

                     O luto assemelha-se a uma ferida física mais do que qualquer
                     outra doença. A perda pode ser referida como um “choque”.
                     Assim como no caso do machucado físico, o “ferimento” aos
                     poucos se cura. Ocasionalmente, porém, podem ocorrer
                     complicações, a cura é mais lenta ou um outro ferimento se
                     abre naquele que estava quase curado. Nesses casos surgem
                     as condições anormais, que podem ser ainda mais
                     complicadas com o aparecimento de outros tipos de doenças.
Muitas vezes parece que o resultado será fatal. (PARKES
                     1998, p.22).
      Quando alguém está em sofrimento acha que sua dor é a maior e pior de
todas, que a vida é dura demais com ele, pois para cada indivíduo sua aflição é
única. Cada um sabe dimensionar sua dor e seus recursos para enfrentá-la. As
viúvas enlutadas das investigações de Parkes (1998), falavam que a sensação que
tinham era como que tivessem perdido um pedaço de si mesmas. Uma viúva
descreveu seus sentimentos quando viu o corpo do marido: “é como se eu estivesse
virada do avesso, com uma horrível ferida”. Muitas vezes a comparação é feita com
amputação. As viúvas falavam que o marido foi “arrancado”, “como se metade de
mim tivesse desaparecido”. (p.124).

      O Luto com frequência dura muito mais do que os próprios enlutados
esperam e gostariam. É comum sentir-se deprimido e debilitado depois da perda, em
geral isto é temporário para muitas pessoas enlutadas. Mas a sociedade com sua
impaciência com o pesar, pressiona o enlutado para que volte à vida normal
rapidamente, contribuindo para que ele acredite que suas reações ao Luto não são
normais. Familiares e amigos cheios de boas intenções, mas sem estarem cientes
da dinâmica do processo de Luto, emitem palavras do tipo “seja forte”, “reaja”, “pare
de chorar”. Percebe-se que este fenômeno pode ser mais grave ainda nas
comunidades religiosas de pertença dos enlutados, quando, muitas vezes, são
encorajados a manter autocontrole sobre suas emoções em nome da crença em
Deus e são precocemente orientados a abandonar a experiência do trabalho de
Luto. A mensagem subliminar que é passada é a de que aqueles que reagem
demasiadamente consternados em sua dor, são considerados insuficientes e fracos
em sua fé em Deus. É muito difícil para o enlutado enfrentar essa mensagem
poderosa que o incentiva a reprimir seus sentimentos, sem levar em conta a
necessidade de sua psiquê de viver o Luto abertamente. Assim, o enlutado passa a
ter uma conduta meramente aceitável em seu “meio”, mascara sua dor, correndo o
risco de vir a ter uma disfunção emocional ou fisiológica em seu processo de Luto.

      Reafirmando essa posição, Worden (1998, p. 92) relata que “o Luto
mascarado ou reprimido geralmente assume uma das duas formas: tanto ele pode
ser mascarado por sintomas físicos, quanto por algum tipo de conduta aberrante ou
mal-adaptada.” O mesmo autor referiu que se as pessoas não vivem seu Luto de
forma direta podem apresentar queixas sintomáticas semelhantes àquelas
apresentadas pela pessoa que faleceu. Amiúde, a dor pode ser um símbolo de Luto
mascarado ou diversos tipos de distúrbios psicossomáticos podem esconder um
Luto não-resolvido subjacente. Vamos voltar a falar sobre este assunto mais a frente
quando estivermos tratando das questões de Luto e adoecimento.

      Parkes (1998) também destaca outro ponto importante: assim como é preciso
que as pessoas tenham um tempo para se enlutar, é preciso também que tenham
um tempo para pôr fim ao Luto, para parar de se afastar da vida e para recomeçar
uma nova vida.

      A perda de uma pessoa querida pode ser devastadora e a pessoa pode ser
levada a se sentir esmagada pela dor. Algumas entram em colapso quase que
imediatamente, ao passo que outras descobrem que têm tremendas reservas
interiores que as capacita a lidar até mesmo com períodos prolongados de crise
intensa. Ainda que um sujeito enlutado possa nunca se recuperar completamente da
perda, a maioria consegue retornar a uma vida produtiva e à restauração de seu
bem-estar mental e físico. (COLLINS, 2002; COLLINS, 2004).

      Parece haver um consenso quanto à necessidade de se elaborar o Luto por
um processo, bem como quanto ao seu alto valor adaptativo quando transcorre de
uma forma natural e em condições normais.

      Antes de prosseguirmos mostrando como o Processo de Luto se desenvolve
e algumas condições que desfiguram seu curso, nos utilizamos das palavras
animadoras de Parkes (1998):

                     Assim como ossos quebrados podem se tornar mais fortes do que os não
                     quebrados, a experiência de enlutamento pode fortalecer e trazer
                     maturidade àqueles que até então estiveram protegidos de desgraças. A
                     dor do Luto é tanto parte da vida quanto a alegria de viver; é, talvez, o preço
                     que pagamos pelo amor, o preço do compromisso. Ignorar esse fato ou
                     fingir que não é bem assim é cegar-se emocionalmente, de maneira a ficar
                     despreparado para as perdas que irão inevitavelmente ocorrer em nossa
                     vida, e também para ajudar os outros a enfrentar suas próprias perdas.
                     (PARKES, 1998, p. 23).




2.3. Fases do Luto

       Alguns estudiosos como Bowlby (1998) e Parkes (1998) definem quatro
fases do Processo de Luto, que não necessariamente ocorrem de forma linear e
totalmente previsível. Essas fases serão abordadas em forma de itens para uma
melhor apreensão de suas etapas:

      1) Fase do entorpecimento (choque) que normalmente dura minutos, horas
         ou uma semana que pode ser seguido de manifestações de desespero,
         raiva e outras emoções intensas. Parkes (1998) menciona que nesta etapa
         não se acredita que a perda é real, e a capacidade de agir e controlar-se é
         feita de forma automática, que denota um complexo processo mental no
         qual a pessoa afasta-se da situação como uma forma de defesa por ser
         algo além do que se pode suportar.

      2) Fase do anseio e procura, podendo durar meses e até mesmo anos, onde
         há a negação da perda e desejo que a figura perdida retorne. Os
         pensamentos são ocupados com o morto constantemente. “Anseio é uma
         resposta normal ao Luto. Quando ele diminui, pode ser um sinal de que o
         Luto está terminando.” (WORDEN, 1998, p. 39).

      3) Fase de desorganização e desespero. Inclui também incerteza, falta de
         objetivo, apatia e isolamento. A emoção característica é a depressão, e a
         pessoa tende ao isolamento evitando contato e aproximação com aqueles
         que podem solicitá-la e protegê-la de alguma maneira. “A pessoa enlutada
         encontra dificuldade em funcionar no ambiente.” (WORDEN, 1998, p. 50).

      4) Fase de reorganização (readaptação), em que se dá a aceitação e,
         movimentos são feitos em prol de dar continuidade a vida ocorrendo
         mudanças de atitudes e investimentos em outros aspectos da vida.

       O objetivo de se identificar fases do Luto não é para sugerir que toda pessoa
enlutada tenha que passar por esse processo na ordem e na forma acima citadas.
Ademais, cada pessoa experiencia-o com suas particularidades e de maneira
peculiar, podendo ocorrer variações como: em alguns momentos os sintomas são
ambíguos, ora parecendo ter superado a fase aguda do Luto, ora recaindo
novamente num momento de tristeza e angústia.

      Worden (2008, p.51), aludindo a estas fases afirma que o conceito de “tarefas
do Luto” apresenta uma compreensão do trabalho de Luto muito mais útil para o
conselheiro. Ele fala de uma abordagem onde o Luto cria tarefas que precisam ser
executadas. Em sua opinião as tarefas sugerem que há algo que o enlutado
efetivamente precisa fazer sendo o agente de mudanças em sua vida, ao contrário
das fases ou estágios, como alguns as descrevem, que dão a entender como
alguma coisa que tem que ser atravessada e que pode ser influenciada pela
intervenção externa.

      Walsh e McGoldrick (1998) concordam com o conceito de tarefas de Worden
quando dizem que há tarefas adaptativas críticas que precisam ser desempenhadas
para que as famílias não fiquem vulneráveis à disfunção. Desta forma, realizar as
quatro tarefas básicas do processo de Luto, implica: 1°) aceitar a realidade da morte;
2°) não sabotar os sentimentos evitando o sofrimento; 3°) ajustar-se a um ambiente
onde a pessoa falecida está ausente e 4°) reinvestir em outras relações e projetos
de vida. Como já foi mencionado anteriormente, a adaptação não têm uma escala
ou sequência fixa.

      As autoras acima seguem falando que o amoldamento à perda não significa
necessariamente uma aceitação completa e categórica da perda. Para a maioria dos
indivíduos e suas famílias, elaborar a perda não é garantia de alcançar uma
resolução completa. (WORTMAN; SILVER Apud WALSH; MCGOLDRICK).

      Por mais que haja tentativas em se determinar o término do processo de Luto
é difícil ser assertivo em estabelecer datas para a etapa final deste. Para alguns ele
pode durar semanas, para outros meses ou anos. A maioria das viúvas pesquisadas
por Parkes (1998) precisou de 3 ou 4 anos para alcançar a estabilidade perdida.
Bowlby (1998) e Parkes (1998) referem que o processo de Luto encerra-se quando
uma pessoa completa a fase final do Luto de restituição. E na opinião de Worden
(1998), quando as tarefas de Luto são concluídas o Luto está finalizado e, além
disso, ele realça que um sinal de que o Luto foi elaborado é quando não existe mais
dor ao pensar no falecido. Acrescenta ainda que o Luto está finalizado quando a
pessoa consegue reinvestir suas emoções na vida e no viver.




2.4. Variações do Luto: patológico e traumático

      Ainda que o Luto envolva elevada medida de sofrimentos não é considerado
doença e, supõe-se que depois de passado algum tempo a pessoa supere a perda e
volte à vida normal. Todavia, quando o processo de Luto se complica, temos o Luto
patológico que demanda cuidados médicos, psicológicos e apoio social.

       Freud (1916), fazendo analogia entre Luto e melancolia, refere que no Luto é
o mundo que se torna pobre e vazio e na melancolia 7 (depressão), que para ele era
uma forma patológica de Luto, é a pessoa que se torna pobre e vazia. Diante da
morte, o enlutado tem ciência do que perdeu, mas não o que ele perdeu nesse
alguém e, Parkes (1998) seguindo esta mesma linha, comenta que no Luto
raramente está muito claro o que foi perdido. Apesar de o Luto ser um processo
demorado e doloroso, Freud (1916) refere que este se resolverá por si só
paulatinamente, quando o enlutado encontrar objetos substitutivos para o que foi
perdido, prescindindo de intervenção externa.

       Parkes (2006) faz referência ao Luto patológico também com a seguinte
terminologia: Luto crônico, traumático, complicado, adiado ou não-elaborado. Afirma
que apesar de um Luto patológico apresentar “muitas das características
encontradas nos transtornos psiquiátricos, é somente quando ele se prolonga muito
e causa dano às funções da vida normal que pode ser considerado ´patológico´”
(PARKES, p.42). Outros autores consideram a qualidade da dor e as funções
psicológicas atingidas pela perda.

       Parkes (1998) alude que muitos dos que procuram ajuda psiquiátrica por Luto,
estão sofrendo de formas intensas e prolongadas de Luto. Suas pesquisas
realizadas com viúvas mostraram que a perda do marido é o tipo mais comum de
perda que ocasiona problemas psicológicos. Há evidências de que perdas de filhos
também podem causar distúrbios psicológicos.

       A patologia está mais relacionada com a intensidade da dor e a duração da
reação do que com a presença ou não de comportamentos específicos.
(HOROWITZ, 1980 Apud WORDEN, 1998).

       A dimensão do Luto e o ajuste à perda são determinados por alguns fatores
que podem influenciar o resultado do Luto gerando uma reação disfuncional em sua
elaboração:


7
 Para a psicanálise,” tanto o termo depressão quanto a expressão estados depressivos, hoje tão
presentes em nosso cotidiano, têm sido pouco utilizados. O vocábulo melancolia, escolhido por
Freud, foi mais bem aceito e é tradicionalmente empregado.” (EDLER, 2008).
- O homem é um ser ambíguo. Um relacionamento altamente ambivalente
com hostilidade não-expressa, via de regra, impede as pessoas de terem um Luto
adequado. Na ambivalência, que são sentimentos simultâneos de amor e ódio, há
desejo pela morte do outro e quando esta ocorre, a pessoa que assim o desejou
pode apresentar quantidade excessiva de raiva e culpa e, mitiga esta culpa
permanecendo em um estado de Luto intenso e duradouro. (WORDEN, 1998).

      - Indivíduos imaturos (não importa a idade), que mantém uma relação de
apego inseguro ou que são altamente dependentes de outra pessoa, podem
evidenciar problemas no momento do Luto, predispondo-os a uma reação de Luto
patológica. Os que são dependentes em seus relacionamentos, e depois perdem a
fonte dessa dependência, são tomados de sentimentos de fragilidade, desamparo e
sofrem alteração na auto-imagem. (KASTENBAUM & AISENBERG, 1983;
WORDEN, 1998). Quando a dependência é recíproca, o enlutado também tende a
ter problemas. Neste caso, quando a perda é de alguém que se apoiava nele, este
está em posição idêntica à mãe que perde um filho, completa Parkes (1998).

      - O histórico de como perdas foi construído no passado sugere em como
serão elaboradas as perdas atuais. Pessoas que tiveram reações complicadas em
suas perdas anteriores são mais propensas às mesmas complicações no presente.
Os que têm uma história prévia de doença depressiva também correm um risco
maior de desenvolver reações disfuncionais ao Luto. Perdas parentais múltiplas e
próximas, como uma mãe que perdeu seu filho logo após ter perdido um dos pais,
podem patologizar o Luto. (WORDEN, 1998).

      - Outro determinante importante da intensidade do Luto são os aspectos da
personalidade provenientes da carga genética. Parkes (1998) admite não ter dúvida
de que há pessoas que são mais vulneráveis em sua personalidade aos elementos
estressores. Worden (1998) corrobora tal fato ao referir que os fatores de
personalidade estão relacionados com o caráter e com a forma como ele afeta a
capacidade da pessoa em suportar situações estressantes. Pessoas com dimensões
de personalidade que não toleram extremos de estresse emocional; que constroem
suas defesas em torno de evitação de sentimentos de desamparo; que o conceito
que têm de si mesmas é de que são a pessoa forte da família e que se mantêm
desempenhando esse papel em seu próprio detrimento, têm dificuldades de
vivenciar os sentimentos necessários para uma adequada resolução de uma perda.
Bolwby (1998) é coerente com esta posição ao atentar para as dimensões da
personalidade para o enfrentamento da perda. O autor destaca 5 tipos de variáveis
que assinalam para o Luto patológico: a) a identidade e o que a pessoa morta
representava em questão de papel e função na vida do enlutado; b) a idade e o sexo
do enlutado – mulheres sucumbem mais e têm maior dificuldade na readaptação; c)
as circunstâncias e os motivos causais da perda – mortes súbitas e inesperadas
tendem a um maior grau de perturbação; d) as circunstâncias sociais e psicológicas
que afetam o enlutado na época em que sofreu a perda e durante os meses ou anos
subsequentes; e) sua capacidade de estabelecer relações amorosas e de reagir a
situações estressantes.

       - O Luto na verdade é um fator psicossocial8 e é com apoio social que as
pessoas podem superar melhor seus sofrimentos. A rede social do sujeito enlutado é
um determinante que pode exercer um papel de elevada importância no
desenvolvimento de reações de Luto patológico, como é o caso de morte por
suicídio onde a perda é socialmente não comentada. Neste caso, há uma tendência
dos amigos e familiares de se calar sobre a circunstância da morte. Essas
conspirações de silêncio são danosas, pois as pessoas enlutadas, frequentemente,
necessitam falar de sua perda aos outros. Importa considerar, ainda, outros dois
fatores sociais complicadores: quando a perda é negada; ou seja, quando tanto o
enlutado quanto aqueles que o cercam agem como se a morte não tivesse
acontecido e, a ausência de uma rede adequada de apoio social. A falta de apoio
social provoca o isolamento da pessoa enlutada, porque ela se enraivece pelo
afastamento das pessoas no momento em que ela mais precisaria de ajuda. A raiva
é um dos fenômenos que pode agravar suas reações ao Luto. (WORDEN, 1998;
FREITAS, 2000).

       - E como último elemento complicador do Luto que queremos destacar, está
os fatores circunstanciais. Os estudiosos do Luto afirmam que o modo como a morte
acontece repercute substancialmente na resposta ao Luto. Entre as condições que
representam riscos especiais que podem originar complicações psicológicas
traumáticas citamos: exposição à violência de guerra, assistir atos de violência ou
mutilação, mortes por assassinato, homicídio e suicídio, mortes onde não é possível
8
 Psicossocial: campo da intervenção psicológica que visa o desenvolvimento humano completo e
equilibrado (integral) e a prevenção dos problemas de origem psicológica (que afetam as pessoas) e
sociais que afetam muitas pessoas e têm determinantes sociais. (VIDAL, 2007)
recuperar o corpo incólume, mortes súbitas, múltiplas e precoces, dentre outras.
Parkes (2006) descreve o impacto traumático das perdas múltiplas:

                       Nas áreas de desastres, mortes múltiplas têm a probabilidade de ser
                       rápidas, inesperadas, horríveis e associadas a desorganização social e
                       outras epidemias. Estas são particularmente traumáticas e complexas. Uma
                       batida de carro que mata o cônjuge e dois filhos de uma pessoa pode não
                       ser um desastre público, mas do ponto de vista do sobrevivente a
                       experiência é igual [...]. Pessoas que experienciam perdas múltiplas não só
                       sofrem os efeitos cumulativos do Luto, mas sua suposição de que o mundo
                       é um lugar seguro onde desastres não acontecem é corroída e substituída
                       por uma expectativa de futuros desastres. (PARKES, 2006, p. 260, 261).
       “Um ´trauma´ é um golpe [...]. Todos os Lutos são traumáticos, mas alguns
são mais traumáticos do que outros.” (PARKES, 2006, p.45,159).

       Discriminamos o Luto traumático enfatizando os desastres ambientais que,
embora sempre fizessem parte da história da humanidade, nos últimos tempos vêem
acontecendo cada vez mais frequentemente e com maior intensidade. Inundações e
deslizamentos como têm ocorrido no Brasil, o terremoto no Haiti neste ano,
tsunamis, tornados, ciclones, erupções vulcânicas nas mais altas escalas são
fenômenos que têm atingido várias partes do mundo, vitimizando centenas ou
milhares de pessoas e causando situação de Luto em massa muitas vezes. São
calamidades que resultam em tragédias que afetam a população local provocando
grande estrago material, físico e emocional na vida dos sobreviventes. Segundo os
pesquisadores, essas situações emergências constituem-se em um cenário
propenso para o desenvolvimento de psicopatologias9 como o Transtorno de
Estresse Pós-Traumático – que conforme Parkes (2006), é parte das reações ao
Luto traumático - em pessoas que perderam parentes ou sobreviveram a esses
desastres, diante de tamanha carga emocional e traumática.

       Em estudos citados por Parkes (2006) concluiu-se que enlutados que mais
procuraram ajuda psiquiátrica foram aqueles que sofreram um ou mais tipos de
perdas traumáticas. Quando o Luto decorre de uma situação traumática, há um
grande impacto para a identidade e a capacidade de enfrentamento.

       Perdas traumáticas ou significativas podem nunca ser totalmente resolvidas.
(WALSH; MCGOLDRICK, 1998)

9
 Psicopatologia: “pode ser definida como o conjunto de conhecimentos referentes ao adoecimento
mental do ser humano. Como campo de estudo inclui um grande número de fenômenos humanos
especiais ligados aos estados mentais e padrões comportamentais em conexão com as doenças
mentais e com a psicologia normal.” (DALGALARRONDO, 2000, p.22)
Define-se o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) 10 como sendo a
perturbação psíquica que “afeta pessoas que passaram por um evento psicológico e/
ou físico extremo, interpretado como particularmente doloroso”. (GREENBERG,
2002, p.50 ). Segundo Burns (2005), este quadro surge como uma

                        resposta tardia a e/ou protraída a um evento ou situação estressante (de
                        curta ou longa duração) de natureza excepcionalmente ameaçadora ou
                        catastrófica, que provavelmente causa angústia invasiva em quase todas as
                        pessoas (por exemplo, desastre natural ou feito pelo homem, combate,
                        acidente sério, testemunhar a morte violenta de outros ou ser vítima de
                        tortura, terrorismo, estupro ou outro crime. (BURNS, 2005, p.15)

       Burns (2005) pontua que ainda que uma personalidade pré-disposta ou
história prévia de doença neurótica vulnerabilizem o indivíduo traumatizado e
agravem o curso da síndrome, não são elementos necessários e suficientes para
explicar sua ocorrência.

       O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) se diferencia dos demais
transtornos de ansiedade e da maioria dos transtornos mentais por ser causado a
partir de um fator externo. As seqüelas de ter vivido essa tragédia se manifestam na
forma de ataques de pânico, insônia, pesadelos recorrentes, irritabilidade,
isolamento social, dificuldade de sentir determinadas emoções e dores sem
fundamento físico, dentre outros.

       Reações emocionais intensas e manifestações compatíveis com o momento
traumático vivenciado são esperadas em crises emergencias como os desastres
ambientais. Contudo, transformam-se em problemas quando não solucionados no
seu devido tempo. Um exemplo, conforme Lazán (1989, p. 15) assinala é “’quando
uma pessoa não elabora seu Luto oportuna e adequadamente e/ou reage de forma
disfuncional diante do trauma e dos sintomas iniciais”, pode-se desenvolver uma
crise reativa secundária como o Luto traumático.

       É comum tragédias ou traumas desencadearem uma tremenda crise pessoal,
e esta provocar reações psicossociais. Uma crise é a combinação de duas
realidades: um perigo e uma oportunidade. O perigo está quando a pessoa atingida
10
  “Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): consiste num tipo de recordação que é melhor
definido como revivescência, pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivescência
além de recordar as imagens o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com
todo o sofrimento que ela causou originalmente. O transtorno então é a recorrência do sofrimento
original de um trauma, que além do próprio sofrimento é desencadeante também de alterações
neurofisiológicas e mentais”. Disponível em <http://www.psicosite.com.br/tra/ans/estrespos.htm>.
Acesso em 20 Jun. 2010.
pela crise atua de maneira disfuncional diante de sua realidade e a oportunidade
está no fato de que a pessoa faz da tragédia pessoal um motivo para amadurecer e
crescer em todas as instâncias de sua vida. (LAZÁN, 1989)

       Percebe-se que a superação de circunstâncias traumáticas ou outras
adversidades depende da capacidade de resiliência11 de cada um. Pessoas são
diferentes e reagem de formas diferentes em ocorrências similares, “variando de
acordo com a estrutura psíquica e espiritual e com as experiências anteriores da
pessoa no manejo de crises” (HOCH, 2008, p.145). O paradigma da resiliência
parece    sugerir    que    nem     todos    que     experienciam      situações     traumáticas
inevitavelmente apresentam sinais de trauma.

       Para Parkes (1998):

                        As diferenças entre Estresse pós-traumático e o pesar por Luto, visto como
                        reação psicológica a um evento traumático importante, são claras [...]. O
                        Luto é, afinal, uma resposta normal para um estresse que, embora raro na
                        vida de cada um de nós, será vivido pela maioria, mais cedo ou mais tarde,
                        sem que seja considerado uma doença mental. (PARKES,1998, p.21;20)
       Nos parágrafos subseqüentes, consideraremos a acentuada relação existente
entre o Luto por morte de alguém importante e o que acontece no psiquismo de
pessoas que sofreram perdas em sua história de vida, que se ligam a reações
sintomáticas que os levam ao adoecimento físico.




11
 Resiliência “é a capacidade para desenvolver-se bem, para continuar projetando-se no futuro apesar
dos acontecimentos desestabilizadores, de condições de vida difíceis e de traumas às vezes graves.
É a capacidade humana universal de lidar e superá-la, aprender ou mesmo ser transformado com a
adversidade inevitável da vida”. (ROCCA, 2007, p.10).
2.5. Luto e Saúde Integral: emocional e física

                                              Dê palavras à sua tristeza; a dor que não fala
                                            sussurra para o coração, e pede para ele rachar.
                                                          Shakespeare Macbeth, IV, 3, 208



      Vários estudos têm averiguado a relação entre Luto e o surgimento de
doenças e morte em pessoas enlutadas.

      Há evidência que sentimentos reprimidos, como a raiva, podem ser
causadores de doenças psicossomáticas. A raiva desencadeia um fluxo de energia
pelo corpo. Porque a consideramos não autorizada a ser sentida e expressa, nós a
negamos e recalcamos, o que pode gerar adoecimento. A raiva é um elemento
comum no processo de Luto. Ganhamos muito quando identificamos a raiva e,
depois, a expressamos verbalmente e adequadamente no trabalho de elaboração da
perda. (POUJOL & POUJOL, 2006).

      Em uma pesquisa com o propósito de analisar 4.486 viúvos com 55 anos ou
mais durante os seis primeiros meses após o Luto foi descoberta uma taxa de
mortalidade superior à esperada. Em pesquisas recentes constataram-se vários
fatores associados com o acréscimo na taxa de mortalidade entre enlutados. Uma
nova descoberta explica o mecanismo fisiológico por trás da suscetibilidade dos
enlutados: uma supressão do estímulo dos linfócitos – significando uma diminuição
na eficácia do sistema imunológico – entre homens enlutados principalmente. Uma
vez que a AIDS atinge o sistema imunológico, pessoas com AIDS são mais
vulneráveis aos efeitos do Luto. (GREENBERG, 2002; PARKES, 1998).

      “Atualmente, estudos demonstram que interações entre emoções e coração
têm correspondentes bioquímicos bem definidos”. (OLIVEIRA, LUZ, 2002 Apud
RUSCHEL, 2006. p.17). Parkes (1998) e colegas, concluíram que a doença que
provocava o maior número de mortes entre viúvos era a doença cardíaca. Muitas
são as causas e origens das doenças cardiovasculares. Alguns dos múltiplos fatores
de risco são: colesterol elevado, pressão alta, fumo, hereditariedade, diabetes
mellitus, obesidade, sedentarismo e tensão psicológica ou estresse. Dentre os
aspectos estressantes relacionados com doenças coronárias, figura-se o Luto.
Observa-se que eventos como a morte de um familiar, insatisfação pessoal,
profissional e outros, sejam responsáveis por crises de angina ou infarto. A falta de
preparo psicológico para elaborar frustrações e perdas, provavelmente, influencia
também para tornar o indivíduo propenso à doença coronariana ou infarto,
principalmente se for organicamente predisposto ou se apresentar fatores de risco.
(CAMPOS, 1992; et. al Apud RUSCHEL, 2006).

      Parkes (1998, p. 34) faz menção a uma citação bíblica, que segundo ele,
provavelmente, é a origem da expressão “coração partido”. “Consertem o ´coração
partido´, disse Isaías e, a partir daí, parece ter persistido a idéia de que um Luto
grave pode danificar de alguma forma o coração.”

      Alguns autores asseveram que as crises psicossociais e doença estão
coligadas:

                     Nem sempre é a partir da doença orgânica que surgem conflitos internos e
                     crises emocionais as quais, juntamente com outros aspectos, caracterizam
                     o quadro de uma doença. Muitas vezes, são conflitos emocionais que vão
                     deteriorar a resistência interna no indivíduo, ou seja, a capacidade de
                     autodefesa frente ao adoecimento, criando condições que facilitem a
                     instalação e/ou o surgimento da doença orgânica. O adoecer tem
                     implicações no organismo e no psiquismo do indivíduo. Quando existem
                     distúrbios psíquicos, pode haver alteração no curso da doença influindo,
                     inclusive, no índice de morbidade e de mortalidade. Para o paciente
                     coronariano, os fatores internos e externos geradores de estresse
                     emocional são fatores determinantes da doença. (GIANNOTTI, 1998;
                     CÔRTE, 1998; OLIVEIRA, 1995 et. al Apud RUSCHEL, 2006. p.17-18)
      Embora sejam as mulheres que mostrem mais problemas psicológicos na
experiência de Luto, são os homens que apresentam maior incidência de morte de
ataque cardíaco após óbito do cônjuge, possivelmente, porque são os homens que
têm maior dificuldade de expressar os sentimentos e de buscar ajuda. (PARKES,
1998; WORDEN, 1998).

      A literatura não deixa dúvida de que o Luto é um dos agentes estressores que
provocam males físicos. O termo estresse foi introduzido na medicina sendo definido
como “um conjunto de reações que um organismo desenvolve ao ser submetido a
uma situação que exige esforço para adaptação”. (CAMPOS, 1992 apud RUSCHEL,
2006). Como já foi referido, a reação ao estresse, implica em abundantes mudanças
em nosso corpo e

                     essas mudanças muitas vezes levam a interpretações emocionais, o que
                     fica evidenciado pelo nosso uso de expressões como mãos geladas.
                     Ficamos com as mãos geladas quando estressados porque há uma
                     constrição de vasos sanguíneos nos braços e pernas. Quando estressados,
podemos sentir o corpo todo rígido. Claro que sim! Isso ocorre porque a
                      tensão muscular aumenta. (GREENBERG, 2002. p.28)
      D´Assumpção (2003) menciona que há diversos estudos que apontam uma
estreita relação entre o sofrimento por perdas importantes e o aparecimento do
câncer. O autor salienta que, embora essa ligação seja ainda bastante questionada,
quem lida com pessoas que passam por perdas sabe que isso é bastante comum.

      Citamos um estudo de Lindemaan (Apud GREENBERG, 2002) que objetivou
avaliar reações ao Luto, onde ele relata que 33 de 41 pacientes com úlcera
“desenvolveram a doença em relação direta com a perda de uma pessoa
importante.”(p.43).

      Embora seja difícil relacionar um evento causal e um sintoma especial que se
segue a ele, o Luto pode ser considerado como circunstância precipitadora de
doenças pré-existentes. As doenças caracterizam-se pelo desconforto e pela
alteração de função que causam. O Luto causa desconforto e altera as funções.
(PARKES, 1998).

      Muitas doenças físicas e mentais têm sido imputadas à experiência de perda.
Pouco se conhece sobre as causas das doenças mentais, exceto no caso do
estresse pós-traumático. Este se denuncia por um conjunto de sintomas que
normalmente aparece quando a pessoa sofre sérias ameaças à sua vida ou assiste
cenas aterrorizantes. Os psiquiatras passaram a entendê-lo como um diagnóstico
clínico após tê-lo considerado responsável por muitas das doenças encontradas nos
veteranos de guerra. Suas características são as lembranças apavorantes, vívidas
que dão à pessoa a impressão de estar vivendo o trauma repetidas vezes.

      Segundo Parkes (1998), só existem dois distúrbios psiquiátricos funcionais
onde a causa é conhecida, bem definida e possui curso, na maioria das vezes,
previsível: Transtorno de Estresse Pós-Traumático e Luto. O autor diz que:

                      [...] entre as muitas doenças mentais que podem ser provocadas pelo Luto,
                      as mais freqüentes tendem a envolver formas atípicas de pesar embora
                      difiram em intensidade e duração das reações mais comuns do Luto, com
                      aspectos que podem ser exagerados ou distorcidos, e não diferem quanto
                      ao tipo. Não há sintomas que sejam peculiares ao Luto patológico, ainda
                      que pareça razoável considerar expressões extremas de culpa, sintomas de
                      identificação e adiamento do início do Luto por período superior a duas
                      semanas, como sendo indicadores de que a reação à perda poderá tomar
                      um curso patológico. (PARKES, 1998, p.143).
         Parkes (1998) relata que pesquisas de colegas com pessoas com queixas de
saúde,     tais   como,   glaucoma       do    ângulo     fechado,      câncer,     distúrbios
cardiovasculasres, lúpus eritematoso disseminado, tireotoxicose, anemia perniciosa,
pneumonia, artrite reumatóide, tuberculose e colite ulcerativa; apresentavam alto
índice de perdas em suas histórias de vida. O autor segue falando que em outra
pesquisa com 72 viúvas entrevistadas após 2 anos de Luto; 43% queixavam-se que
sua saúde geral piorou após o Luto. Ele ainda cita outra pesquisa onde foi bastante
grande o número de queixas associadas ao Luto: dores de cabeça, problemas
digestivos, reumatismo e asma. O autor complementa dizendo que em suas próprias
pesquisas evidenciou-se que viúvas recém-enlutadas vão ao clínico geral num
intervalo menor do que o faziam antes do Luto. A maior freqüência ao clínico deu-se
por ansiedade, depressão, insônia e outros sintomas psicológicos, que eram
visivelmente atribuíveis ao Luto.

      Por fim, mencionamos ainda a pesquisa feita por Madison et. al (Apud
PARKES, 1998) com viúvas com idade inferior a 60 anos, que configurou traços
típicos do Luto. Alguns dos sintomas encontrados foram: depressão, pânico, insônia,
perda de apetite, peso e fadiga. Subsequentemente, Parkes (1998) e companheiros
confirmaram essas pesquisas de Madison na Escola de Medicina de Harvard.

      Parece evidente que as reações ao Luto podem repercutir na saúde de uma
forma ou de outra, apesar de não se poder afirmar dogmaticamente que este é,
isoladamente, o causador de algumas enfermidades em pessoas enlutadas.
Convém ressaltar que a maioria das pesquisas não apresenta resultados
conclusivos e é necessário que se faça mais pesquisas na tentativa de estabelecer a
cadeia de causas. O que se pode afirmar é que nas evidências cuidadosamente
coletadas em várias pesquisas realizadas por Parkes, foi possível estabelecer com
precisão a relação entre um sistema orgânico específico e o Luto, e essa correlação
ocorreu com o sistema cardiovascular. (PARKES, 1998).

      Diante do exposto neste trabalho até aqui, onde investigamos algumas
reações, sentimentos, comportamentos e sintomatizações, face ao processo de
adultos em situação de enlutamento, apresentaremos no próximo capítulo, os
elementos que deverão compor uma prática eficiente do aconselhamento para com
os aconselhandos adultos em tal situação.
3. PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS

                                     Não há nada mais importante na vida do que colaborar com Deus
                     na reconstrução de uma vida destruída. Alguns chamam isso de aconselhamento.
     Eu chamo de ministério, e tem sido sempre um trabalho de equipe que envolve três pessoas: Deus, o
                                                                          indivíduo necessitado, e eu.
                                                                                      Richard Exceley


         A morte de uma pessoa amada, como já vimos, provoca uma ampla gama de
reações que são naturais e esperadas após uma perda significativa. Observa-se que
com frequência as pessoas conseguem suportar uma situação de vida a qual
precisam adaptar-se e, salvo em períodos temporários de tensão ou crise incomuns,
têm os recursos adequados para superá-la. No entanto, algumas apresentam
dificuldades em lidar com seus sentimentos em relação à perda e, por isso não são
capazes de passar pelas tarefas de Luto por si mesmas, completando-as
satisfatoriamente. Nestes casos, o aconselhamento é recomendável para ajudá-las a
resolver seu Luto de forma mais eficaz. Parece que o aconselhamento pode ajudar
na prevenção de desenvolvimento de problemas mais sérios no processo de Luto.

         Hurding (1995, p. 36) visualiza o aconselhamento dentro de uma perspectiva
ampla quando o define como sendo: “uma atividade com o objetivo de ajudar aos
outros em todo e qualquer aspecto da vida, dentro de um relacionamento de ajuda.”
E Collins (1992, p. 12) entende que um dos objetivos do aconselhamento é: [...]
“prover encorajamento e orientação para aqueles que tenham perdido alguém
querido ou esteja sofrendo uma decepção [...].”

         Schipani (2004) em suas pesquisas e trabalhos na área do cuidado pastoral
explora a natureza da teologia prática do aconselhamento pastoral 12. Para este autor
a igreja cristã precisa resgatar o papel essencial do aconselhamento pastoral na vida
das comunidades de fé.

         O referido autor enfatiza a singularidade da função dos pastores como sábios
cuidadores do Reino de Deus e recomenda que pastores e outros cuidadores

12
   O aconselhamento pastoral costuma ser visto como uma dimensão especializada do cuidado
pastoral que se utiliza de variados métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as pessoas a lidar com
seus problemas e crises conduzindo-as ao crescimento de forma holística. Clinebell (2007). Sua
singularidade consiste: pastores treinados são capacitados a integrar insights dos métodos
psicoterapêuticos, “por um lado, com os recursos das tradições judaico-cristãs e os recursos de
comunidades de fé, por outro”. Clinebell (apud SCHIPANI, 2004, p. 15).
aconselhem aqueles que passam pelo Luto. “Na verdade são chamados a fazer tal
aconselhamento não como profissionais da saúde mental no sentido psiquiátrico 13,
mas como ministros do evangelho e representantes dignos do Cristo cura d´almas.”
(SCHIPANI, 2004, p. 73).

       O mesmo autor defende que o aconselhamento pastoral deve ser
considerado a partir de uma perspectiva teológica como ministério da igreja para ser
um sacramento14 vivo do reino e da sabedoria de Deus.

       Nessa linha de raciocínio Collins (2004) profere que a igreja tem a seu cargo
o cuidado pastoral uma vez que as escrituras pronunciam que os cristãos devem
carregar as cargas uns dos outros: “o aconselhamento pastoral pode e deveria ser
um ministério exercido por cristãos sensíveis e zelosos, tenham eles sido, ou não,
ordenados ao pastorado.”(p.15).

       Clinebell (2007) fazendo eco com Collins (2004), expressa esse mesmo
argumento ao ver a Igreja como uma comunidade terapêutica: “membros da igreja
de um modo geral e a equipe poimênica15 leiga em particular deveriam estar
orientados para atuar como extensão sucedânea da família para aqueles que
carecem de um sistema de apoio, oferecendo-lhes quaisquer ajuda prática e apoio
emocional que necessitem.” (CLINEBELL, 2007, p. 217).




13
   Schipani (2004) não aprova o modelo médico/psiquiátrico que trata o aconselhamento pastoral
como um ramo da indústria psicoterápica ou das profissões da saúde mental. Sua concepção de
aconselhamento pastoral consiste em integrar perspectivas e contribuições psicológicas e teológicas
no sentido de aprender uma com a outra aumentando ao máximo o potencial de complementaridade
entre cada disciplina, mas mantendo a integridade distinta de cada uma.
14
  “Uso aqui o termo sacramento intencionalmente com o sentido triplo de sinal, símbolo e instrumento
da graça [...] a igreja é chamada a ser um frutífero instrumento da graça, meio e agente da sabedoria
alternativa de Deus no mundo e em benefício do mundo” (SCHIPANI, 2004, p. 78).
15
  “Poimênica deriva da palavra grega poimen (pastor) e que também é uma disciplina da teologia
prática, voltada principalmente para o aconselhamento pastoral.” “Pode incluir as atividades da igreja
dirigidas para manter e restaurar a saúde e integralidade de indivíduos e comunidades no contexto
dos propósitos redentores de Deus para toda a criação.” (Schipani, 2004, p.7,15 – notas explicativas).
3.1. A ajuda que o conselheiro pode prestar aos enlutados

                           Existem muitas evidencias de que os seres humanos, de todas as idades,
                             serão mais felizes e mais capazes de desenvolver seus talentos quando
                               estiverem seguros de que, por trás deles, existe uma pessoa ou mais
                                         pessoas que virão em sua ajuda caso surjam dificuldades.
                                                                                       John Bowlby



       Várias são as fontes de ajuda que uma pessoa que passa pelo Luto pode
receber. Parkes (1998) realça que nossa primeira fonte de apoio é nossa família,
depois os amigos, médicos e os religiosos. Parkes (1998) também destaca que
estas duas últimas classes de pessoas têm recebido pouco treinamento para
prestarem apoio às pessoas que estão morrendo, e aos enlutados.

       É essencial que o Conselheiro ou a pessoa que se propõe a acompanhar
enlutados compreenda o impacto que perdas significativas provocam nos indivíduos
enlutados, em seu sistema familiar e em suas outras interações. Sabendo avaliar
adequadamente o impacto o conselheiro poderá ser um instrumento útil para
identificar as medidas de intervenção que serão propostas. Alguns enlutados
carecerão de maior atenção e apoio social de suas comunidades de pertença.
Espera-se da figura de cuidado que ela seja capaz de distinguir formas sadias das
formas doentias de expressão do Luto e faça o encaminhamento para pessoas
especializadas no assunto, quando for o caso. (HOCH, 2008).

       O conhecimento dos fatores determinantes do Luto pode ajudar o Conselheiro
a   identificar   as   pessoas    enlutadas     as    quais    seria    apropriado      oferecer
aconselhamento ou outras formas de ajuda para o período do Luto. (PARKES,
1998). Nota-se que nesse processo de reconhecer as pessoas que tendem a reagir
mal ao enlutamento, é importante o papel do pastor como conselheiro para que as
pessoas recebam a ajuda que necessitam. Percebe-se que é vital que o agente de
pastoral saiba ajudar as famílias enlutadas de sua congregação a elaborar as tarefas
de Luto. Clinebell (2007) nos testemunha o quanto foi prejudicial seu pastor não ter
sabido ajudar sua família elaborar a perda de sua irmã mais nova:

                       A morte de minha irmã mais nova, Rute, em seu primeiro aniversário,
                       quando eu tinha quatro anos e meio, lançou uma sombra profunda sobre a
                       nossa família. Todos nós pagamos um preço alto por não saber como
                       experimentar a cura do nosso pesar. Mais de trinta anos de vivacidade
                       reduzida, de acossamento crônico e de depressão periódica em minha vida,
foi o que veio após a morte de Rute, até que minha ferida de pesar,
                     infectada, porém oculta, veio a ser lancetada em minha terapia, de modo
                     que pudesse sarar. Se nosso pastor tivesse sabido ajudar nossa família a
                     expressar e resolver nossos devastadores sentimentos de perda e culpa,
                     todos nós poderíamos ter sido poupados de anos de sofrimento
                     desnecessário e de integralidade diminuída. (CLINEBELL, 2007, p.212)
      Um conselheiro pode prestar ajuda de diversas formas:
      - Colocar-se a disposição após o sepultamento para dar apoio e atenção é
uma atitude esperada de um conselheiro pastoral. Parkes (1998) considera de
grande valia uma visita residencial de um cuidador na hora certa, sendo
recomendável não fazer a visita antes das primeiras 24 horas, porque os enlutados
estão naquele estado de dormência característico sem condições de avaliar seu
estado de confusão. Para Clinebell (2007, p. 216) “é crucial que o apoio assistencial
à família continue durante as semanas e meses após o funeral. Muitas pessoas não
se dão conta de que os enlutados continuam precisando de apoio especial durante o
longo processo de assimilação da perda.”

      - O conselheiro pastoral deve estar preparado para mostrar sua aceitação às
manifestações de raiva contra Deus que são naturais nesta hora. Tentar abafar as
emoções dos enlutados com dogmas e sermões exuberantes não ajudará em nada.
Por outro lado, quem busca ajuda de um conselheiro pastoral espera encontrar uma
resposta religiosa para seus problemas. O indicado é que os conselheiros pastorais
ofereçam as respostas para as quais estejam qualificados sem menosprezar a
importância delas. (PARKES, 1998).

      - Providenciando ajuda prática. Após o funeral é necessário que a família
enlutada receba ajuda nas questões práticas, como: fazer comida, serviços
domésticos, cuidar dos papéis, etc. O conselheiro ou outro agente de poimênica
podem ser útil ao assumirem muitos dos papéis, tarefas e responsabilidades
costumeiros do enlutado, deixando-o livre para vivenciar seu Luto. Parkes (1998)
considera que demonstrações de afetividade nesta hora são menos importantes do
que mostrar-se presente e prestar apoio prático: “A verdadeira ajuda consiste em
permitir que o enlutado fique disponível para elaborar sua perda.” (PARKES, 1998,
p. 205).

      - O conselheiro pode ser útil para orientar a pessoa enlutada a postergar por
alguns meses decisões importantes, como: venda de um bem ou mudanças de casa
ou emprego. (COLLINS, 2004).
- Compete ao conselheiro ajudar a pessoa enlutada a entender a realidade da
perda para que consiga aceitar o fato. Também faz parte de sua função estimular a
manifestação de suas emoções, acolher, aceitar que, provisoriamente, é o substituto
da pessoa amada. Para tal, deve estar apto a dar conforto e ajudar o enlutado a
resgatar as esperanças, a fim de ajudá-lo a resolver os conflitos de separação do
ente querido e facilitar a tarefa de elaboração do Luto. (FREITAS, 2000). O
conselheiro que gastar seu tempo permitindo ao enlutado “falar sobre seus
sentimentos e temores estará dando uma nova dimensão ao aconselhamento e
maior profundidade à sua relação com essa pessoa”. (PARKES, 1998, p. 222).

      - O sistema de apoio dos enlutados tende a diminuir quando seus amigos se
afastam por não saberem o que fazer e temerem piorar as coisas. (PARKES, 1998).
Esta é uma boa oportunidade para o conselheiro mostrar-se solidário oferecendo
apoio e encorajamento.

      - O agente de poimênica deve tomar cuidado para que a pessoa em Luto não
seja estimulada a uma dependência doentia, escondendo-se da realidade e negando
o que lhe aconteceu. Um dos alvos a ser estabelecido pelo conselheiro para ajudar o
aconselhando a resolver sua perda é mostrar-lhe como ativar recursos disponíveis
tanto internos quanto externos para que consiga lidar de forma saudável com a crise
da perda e suas ramificações nos níveis pessoais e familiar. (CLINEBELL, 2007).

      Com o tempo, devido a atenção e apoio da família, dos amigos e de sua
comunidade de fé, a pessoa conseguirá completar o processo de Luto e voltar a sua
vida normal.




3.2. Processos terapêuticos e procedimentos de ajuda

                                    “O amor é incomparavelmente o maior agente terapêutico”
                                                                           Gordon Allport


      O autor dessa epígrafe, segundo Collins (2004, p.21), sugeriu que o
conselheiro secular não pode prover o amor que, muitas vezes, o aconselhando
necessita.     O amor é “algo que a psiquiatria profissional não pode criar por si
mesma, nem focalizar, nem liberar”. Collins (2004) acresce que o autor da epígrafe
questiona: seria plausível o cristianismo oferecer uma abordagem fundamentada na
base do amor e, portanto poder auxiliar onde o aconselhamento não-cristão falha?
Collins (2004) dá a entender que para algumas pessoas o amor não é suficiente,
demandam mais ajuda, tornando significante considerar outras influências
terapêuticas. “O ajudador cristão eficiente mostra amor. Isto é básico, fundamental.
Mas ele ou ela também busca desenvolver qualificações terapêuticas e tenta tornar-
se perito no conhecimento das técnicas fundamentais de aconselhamento.”
(COLLINS, 2004, p. 21)

       É indispensável que aqueles que se propõem a oferecer uma relação de
ajuda saibam amparar eficazmente pessoas em situação de crise. Elencamos
alguns procedimentos de ajuda terapêutica (processos de aconselhamento) como
propostas para que os agentes de poimênica possam prestar ajuda aos enlutados
(LAZÁN, 1989):

       1) Oferecendo uma escuta empática:

       A pessoa enlutada precisa sentir-se ouvida e compreendida. Pode-se chamar
de escuta empática quando nos colocamos na “pele do outro”, para perceber o
mundo como a pessoa que sofreu a perda o percebe. Escutar empaticamente
significa estar com ela em sua dor, captar as palavras, os gestos, o tom de voz, a
postura, o rosto, etc. É servir de espelho para que seus pensamentos e sentimentos
possam ser refletidos. Não é recomendável dizer à pessoa que está de Luto que a
entendemos, se não mostrarmos isso pela nossa forma de ouvi-la.

       Observa-se que em momentos de dor o que mais desejamos é uma presença
de amor e acolhimento de nosso sofrimento. Os estudiosos do Luto sugerem que a
perda e a dor, primeiramente, sejam reconhecidas e só depois seja feita alguma
tentativa em prol de suavizá-la. Portanto, a escuta empática exige de nós que
seguremos o nosso desejo de: ordenar; dar conselhos; dirigir; dar soluções; impor;
julgar; mandar; criticar; admoestar; culpar; advertir; rotular; ameaçar; dar sermão;
interpretar; moralizar; psicoanalisar; espiritualizar; etc. (LAZÁN, 1989).

       2) Facilitando a catarse:

       A escuta empática favorece a catarse que é a exposição dos sentimentos
reprimidos. Os condicionamentos sócio-culturais tendem a prejudicar a expressão
dos sentimentos, tornando possível àqueles que o refreiam a desenvolverem uma
crise secundária pós-Luto. (LAZÁN, 1989).

                        Não tenha medo de falar com a pessoa afetada acerca de suas emoções:
                        se elas forem elaboradas e resolvidas, não haverá problemas. Se isso não
                        foi feito, a pessoa já se encontra com vários meses de atraso no processo
                        de elaboração do Luto, e a melhor terapia possível nesse momento é
                        justamente começar a falar sobre essas perdas. (LAZÁN, 1989, p. 26).
       Incentive-a a falar, “falar é o melhor remédio”. (BURNS, 2005, p.36). Falar
ajuda a aceitar a realidade da perda. Falar tende a evitar sintomatizações. “Quando
a boca cala o corpo fala (surgem os sintomas) e quando a boca fala o corpo sara”
(informação verbal)16.

       3) Ajudando na ampliação perceptual:

       Uma técnica terapêutica de intervenção importante é facilitar a percepção do
indivíduo enlutado de que seus sintomas e reações iniciais são normais e naturais.
Tranquilizar a pessoa esclarecendo que ela é normal tendo reações normais. “Uma
das melhores formas de ajudar uma pessoa que sofreu perdas é ensinar-lhe o que
foi dito até aqui: o processo normal, natural e necessário do luto.” (LAZÁN, 1989, p.
27).

       4) Enfrentamento da questão do suicídio17:

       A possibilidade de suicídio é comum em situação de grandes perdas, como
acontecem nas tragédias de grandes proporções. É preciso abordar a questão de
forma aberta e honesta quando se percebe a fixação da idéia. O cuidador não deve
recear fazer perguntas diretas ao enlutado a respeito de qualquer tentativa de
suicídio, como por exemplo, perguntar-lhe: “você tem se sentido tão mal que chegou
a pensar em se matar?”. Pessoas que correm esse risco devem ser encaminhadas a
um psiquiatra. (PARKES, 1998).

       Entre os fatores de risco que tendem ao suicídio estão: insônia crônica; ter
visões ou ouvir vozes que lhe dão ordens; sofrer perdas múltiplas dos únicos entes
queridos, várias ameaças de suicídio, história prévia de tentativa de suicídio pessoal
ou de familiares, alcoolismo ou abuso de drogas, etc. Merece atenção também
16
 Frase citada pela Profª Fátima Fontes em sala de aula no curso de pós-graduação em
Aconselhamento, Faculdade Teológica Batista de São Paulo, ano 2009-2010.
17
  Nota da autora: a questão do suicídio não está dentro do foco que demos ao nosso trabalho, mas
achamos importante pontuarmos essas poucas instruções de aconselhamento caso seja
diagnosticado um potencial suicida no enlutado.
atitudes suspeitas, tais como: deixar organizados seus futuros assuntos pessoais,
aparentar estar se preparando para uma longa viagem ou uma repentina serenidade
inexplicada etc. (LAZÁN, 1989).

         5) Encaminhamento oportuno:

         O Conselheiro deve estar alinhado com o tratamento em rede. Principalmente
no caso de trauma psicossocial não pode haver uma intervenção sem a rede social.
Quando a severidade do evento é grande é preciso a ajuda de profissional
adequado como: assistente social, psicólogo ou psiquiatra. “Isto não significa loucura
ou fragilidade, mas indica simplesmente que a reação ao evento foi tão forte que a
pessoa não pode controlar-se sozinha e pode contar com a ajuda para isso.“
(BURNS, 2005, p.35).

         O conselheiro ou outro ajudador deve ter acesso às informações necessárias
para que possa fazer esses encaminhamentos de forma adequada e corretamente.
Os enlutados que merecem atenção especial são aqueles “totalmente incapazes de
expressar qualquer forma de Luto; manifestações histéricas ou por demais
demoradas de Luto; isolamento total e prolongado do enlutado (indício de
depressão); tentativas de suicídio; abandono do trabalho e do contato com amigos.”
(LAZÁN, 1989, HOCH, 2008, p.71).

         6) Ter e comunicar fé:

         A fé é um excelente agente terapêutico: a fé em Deus, no futuro e na
capacidade da pessoa enlutada de superar suas dificuldades e avançar para novos
investimentos. (LAZÁN, 1989).

         O agente de pastoral ou outra pessoa que, em nome da comunidade cristã,
trabalha com enlutados têm na fé cristã, na Bíblia e na oração uma fonte inestimável
de recursos para auxiliar pessoas enlutadas. Assuntos como “sofrimento”,
“lágrimas”, “pranto”, “lamentação” etc, são corriqueiros nas páginas da Bíblia. Cabe
ao cuidador saber valer dos textos bíblicos para transmitir o conforto que eles
proporcionam, de forma eficaz e imbuída do espírito que lhes são devidos. (HOCH,
2008).

         7) Ajudas adicionais:
No Brasil há organizações que lidam com as questões de perda, que prestam
ajuda e oferecem treinamento para aqueles que desejam trabalhar com pessoas em
situação de Luto:

      Rede SOS Global – tem como missão enviar ajuda integral na forma de
socorro médico, técnico, alimentar, psicológico e espiritual, no prazo mais curto
possível, a partir da Igreja brasileira, para os locais onde acontecem catástrofes de
desastres naturais e, ou humanos (guerra), em qualquer parte do mundo, com
grande   número     de    vítimas    necessitando      de    ajuda    emergencial.      Site:
http://www.sosglobal.org.br/

      Eirene do Brasil – É uma associação internacional, de raízes Latino-
americanas, sem fins lucrativos, de profissionais cristãos que trabalham em favor do
desenvolvimento, fortalecimento e defesa da saúde integral da família no Brasil, na
América Latina e no mundo. Site: http://www.eirene.com.br/quemsomos.html

      Instituto Quatro estações – um grupo de profissionais de Psicologia que
criou uma proposta de atuação em serviços para perdas e Luto, a partir da
experiência junto a pessoas que passam ou passaram por situações de luto em sua
vida pessoal ou profissional. Site: http://www.4estacoes.com/quemsomos.asp

      LELU– laboratório de estudos e intervenções sobre o Luto da PUC-SP. Site:
http://www4.pucsp.br/clinica/servicos/lelu.htm

      SOTAMIG       –    Sociedade    de   Tanatologia       de    Minas     Gerais.    Site:
http://www.sotamig.com.br/




3.3. Os benefícios de grupos de apoio aos enlutados

                                                        Não havendo sábia direção, cai o povo;
                                                 Mas na multidão de conselheiros há segurança.
                                                                              Provérbios 11:14



      O aconselhamento em grupo também é recomendado para os casos de Luto.
A troca de vivências nos grupos justifica sua importância. Dentre os casos que se
beneficiam de aconselhamento em grupo, pode-se mencionar: situações de
emergências (psicossocial), crise do Luto, depressões reativas, desajustes
emocionais, etc.

      O aconselhamento do Luto em grupo é eficaz para poder oferecer o apoio
emocional que a pessoa enlutada está buscando. “Os conselheiros podem
encaminhar ou coordenar estes grupos de apoio e estimular seu uso.” (WORDEN,
(1998, p. 68).

      Algumas pessoas enlutadas têm dificuldades para aceitar a sugestão para
participarem de um grupo de aconselhamento para o Luto. Mas algumas delas
podem encontrar bastante benefício nesta experiência quando os primeiros impactos
do Luto tiverem passado. (PARKES, 1998).

      O objetivo principal de um grupo de apoio é ajudar aqueles que apesar da
perda escolheram sobreviver. “E é possível distinguir quem fez essa opção pelo
simples fato de a pessoa procurar algum tipo de ajuda, em suas perdas. Quem
busca ajuda está aberto para recebê-la.” (D´ASSUMPÇÃO, 2003, p. 15)

      Conforme D´Assumpção (2003), as funções básicas de um grupo de
aconselhamento de Luto se orientam por alguns princípios:

      - um grupo de apoio mútuo deve fornecer a quem está de Luto orientação
adequada e prática sobre o processo evolutivo do Luto, mediante palestras, debates,
exercícios objetivos. Prover orientação também sobre outras formas de ajuda
adequada: espiritual, psicológica, médica e legal. É indispensável que os
organizadores estejam munidos das informações que lhes permitam dar as
respostas apropriadas, aproveitando todas as oportunidades para ajudar os que
necessitam dessa complementação de apoio.

      - o apoio em grupo é um bom meio para conhecer pessoas com a mesma
vivência, colaborando, até mesmo, para que os enlutados não se isolem
socialmente. Nele criam-se oportunidades para compartilhar o pesar sem receios,
onde os participantes podem constatar que não são os únicos que sofrem e que
podem existir dores maiores do que as deles.

      - Quem está de Luto deve descobrir meios e caminhos para sua recuperação.
Um grupo de suporte ao Luto deve ser um lugar adequado para se trocar ideias,
sentimentos e emoções. Um lugar ideal para que se possa debater os prós e os
contra de algumas mudanças que podem ocorrer num momento de sofrimento.
Sobre a organização dos grupos de aconselhamento para o Luto, D
´Assumpção (2003) nos apresenta dois modelos de curto prazo, que segundo sua
experiência tem alcançado excelentes resultados. O primeiro modelo é realizado em
seis sessões de duas horas cada uma, uma ou duas vezes por semana. E o
segundo, com duração de um dia. Este autor considera o primeiro modelo mais
eficaz por causa do maior tempo para o trabalho individual, mas afirma que o
segundo modelo também consegue ótimos resultados.

      Assim como no aconselhamento individual, o aconselhamento em grupo deve
ser focal, limitado à melhora dos sintomas específicos e dirigidos para o propósito de
auxiliar os enlutados a descobrir os seus caminhos. A proposta não é tratar de
problemas paralelos, os quais poderão exigir diferentes técnicas e abordagens. Por
isso, como já ressaltamos, é importante se ter profissionais de referência para os
encaminhamentos necessários. (D´ASSUMPÇÃO, 2003).

      Há que se tomar cuidado para que o grupo de ajuda mútua não seja
dominado pelos membros mais perturbados. Precisa ser conduzido por um líder
bem-treinado para que não se torne antiterapêutico. (PARKES, 1998).

      Os seguintes requisitos para quem deseja trabalhar como coordenador de um
grupo de apoio ao Luto são indispensáveis: ter uma boa experiência em conduzir
grupos; ter conhecimento sólido sobre Tanatologia e já ter elaborado bem suas
próprias perdas. (D´ASSUMPÇÃO, 2003).

      Os grupos de aconselhamento do Luto oportunizam a formação de novos
relacionamentos que podem continuar depois que o grupo termina. Destacando-se
como um dos maiores benefícios dos grupos de apoio este é um dos passos
importantes no processo de cura como um todo que podemos facilitar por meio de
nossos esforços de aconselhamento. (WORDEN, 1998).
PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS: A importância da relação de ajuda para a superação da dor da perda.
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PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS: A importância da relação de ajuda para a superação da dor da perda.

  • 1. Todos os direitos reservados: permitido citação com referência à fonte. Waina Ferreira Miranda Email: wainamiranda@hotmail.com Blog: www.aconselhamentoseculo21.blogspot.com
  • 2. WAINA FERREIRA MIRANDA PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS: A importância da relação de ajuda na superação da dor da perda. Monografia apresentada como requisito para aprovação final no Curso de Pós Graduação em Aconselhamento da Faculdade Teológica Batista de São Paulo Orientador: Profª Drª Fátima Cristina Costa Fontes. São Paulo 2010
  • 3. DEDICO ESTE TRABALHO Primeiramente a ti JESUS CRISTO, meu grande e absoluto amor. Só tem uma coisa que somente eu e Tu podemos acessar: meus pensamentos. Por isso, amo aqueles nossos momentos que eu fico pensando e suspirando, suspirando de tanta paixão por Ti, adorando-o com meu coração dilatado. De fato, há delícias em tua presença. Fico emocionada quando penso que Tu permitistes todas minhas dores para me tornar mais apta ainda para seus propósitos em minha vida. Amo- te tanto Emannuel. Não sei mais viver sem Ti. Como um TRIBUTO a memória de meu querido pai, Maurício da Silva Miranda, que me educou no caminho da justiça e da hombridade e, serviu-me de referencial para que eu pudesse crer que Deus é um Pai cuidadoso e provedor como ele meu pai o era comigo, a tal ponto que hoje, se só me fosse possível definir Deus com apenas duas palavras eu diria: Cuidadoso e Provedor. À minha PERDA maior, a morte de meu pai que aconteceu em 01 de Junho de 2005. Perda essa que resultou em uma completa resignificação de minha vida e que me inspirou a realizar este trabalho me fazendo percorrer por meio de leituras e reflexões todo o caminho dos que sofrem a perda de uma pessoa amada na busca de compreender a si e a outros no processo desestabilizar do Luto. Tenho profundo respeito por esta fase de minha vida. À toda minha FAMÍLIA e, em especial, à minha querida mãe, exemplo de conselheira, que apesar de sua simplicidade e pouca instrução sempre trouxe aos filhos conselhos sábios e pertinentes e ao meu irmão que sofreu as consequências do Luto em sua saúde física (coração), mas que pôde encontrar na fé em Cristo forças para sair da depressão.
  • 4. AGRADEÇO DE CORAÇÃO: Ao Deus da Bíblia que me vocacionou, capacitou e me qualificou para toda boa obra, inclusive para esta monografia e que me conduziu ao curso de Aconselhamento no tempo certo. Se não fôra o Senhor, o que seria de mim? De forma muito especial, às pessoas que estiveram direta e indiretamente envolvidas na perda de meu pai. - À minha prima Bernadete, companheira constante no cuidado com meu pai durante o tempo que ele esteve no hospital e a primeira pessoa a chorar comigo quando recebemos a notícia de sua morte. Obrigada Dete, nunca vou esquecer o que você fez por meu pai e por mim nesse período. - O apoio e acolhimento dos meus “tutores de resiliência”, ou melhor dizendo, meus cuidadores durante o processo inicial do meu Luto: Pr. Tiago, (”a quem honra honra”) e Matheus e Giselle, um estimadíssimo casal de amigos que torna a ausência de minha família mais tolerável. Obrigada Matheus e Giselle por vocês fazerem parte da minha vida e confiarem em mim. - Ao Pr. Davi Klawa por suas palavras via telefone que nunca vou esquecer: “você sabe que você tem toda uma igreja em sua retaguarda”. - E agradeço também à todos meus amigos que estiveram irmanados comigo nesta fase de Luto seja através de um telefonema, email, torpedos ou presença de amor. À Simone, uma amiga mais chegada do que uma irmã, e a Ester duas respostas de Deus para o meu grito de socorro: “Deus eu preciso de ajuda”! À primeira, por suprir-me e a segunda por acompanhar-me com suporte terapêutico durante todo o tempo de realização deste trabalho. Aos meus “amigos de fé meus irmãos camaradas” do Ministério Jovem da 1ª Igreja Batista da Lapa, à irmã Raquel e irmã Izabel, que se uniram a mim expressando afeto e cuidado ao participarem deste trabalho com suas indispensáveis Intercessões. Às minhas parceiras de oração do Grupo de Intercessão Missionária da 1ª Ig. Batista da Lapa Flávia, Sara e Renata, que seguraram a “corda” durante a ausência de minha liderança para que eu pudesse fazer este trabalho. À minha amada igreja, 1ª Igreja Batista da Lapa, que representada por sua diretoria patrocinou este curso, tornando possível a realização dessa importante etapa em minha vida, e eu espero ter honrado com este trabalho as palavras que ouvi do Pr. Orlando quando me comunicou a decisão da diretoria: “nós achamos que você merece”.
  • 5. Ao Pr. João Marcos Morilha, meu pastor e amigo, que há 18 anos tem sido um facilitador/abençoador para o desenvolvimento de meus dons ministeriais. Amo você pastor com um amor parental. Obrigada por me amar como eu sou. À Profª Drª Fátima Fontes, pela dedicada e amorosa orientação, por compartilhar comigo seus livros e ainda por suas aulas cheias de entusiasmo, criatividade, inteligência e competência. À todos meus professores e, em especial, à Profª Drª Patrícia Pazinato que através de suas aulas didáticas de metodologia científica estimulou em mim um espírito investigativo que me levou a acreditar em meu potencial científico e ao desejo de continuar nessa caminhada ingressando em um tempo de produção intelectual e literária. Aos meus colegas de curso pelos meses de companheirismo e pelos momentos agradáveis em aula e nas confraternizações. À Rosângela e à Rosalice por me ajudarem nas correções gramaticais e à Isabela pela tradução do Resumo para o inglês. ...a todos, o meu mais sincero agradecimento.
  • 6. Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação; que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus. 2Coríntios 1:4
  • 7. PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS: A importância da relação de ajuda na superação da dor da perda. RESUMO Este trabalho, cujo tema é o aconselhamento como fonte de ajuda a adultos enlutados por perda de pessoas significativas, é um estudo exploratório sobre as vivências do Luto e suas repercussões no adulto enlutado por morte de pessoa significativa para ele, descrevendo o vasto leque de emoções, experiências e mudanças psicológicas e fisiológicas que ocorrem como resultado da perda. A autora relaciona a experiência de lidar com o pesar por Morte a partir de três temas principais: Morte, O processo de Luto e o Aconselhamento do Luto. Tal estudo se justifica por se fazer necessário que no campo do aconselhamento se amplie os estudos na direção do cuidado com os enlutados. O estudo propõe investigar a importância e possíveis benefícios do aconselhamento como um instrumento que ajudará o adulto enlutado a lidar com a morte e demonstrar as práticas de intervenção de aconselhamento para o adulto enlutado. O método de estudo adotado é a pesquisa bibliográfica e o referencial teórico é Collin Murray Parkes(1998). Os resultados deste estudo têm implicações nas áreas de aconselhamento, saúde mental, acompanhamento e socorrismo em catástrofes, desastres, emergências e outros. Podendo ser útil ainda às pessoas que, ao lidarem com suas perdas desejam ampliar sua reflexão sobre seus significados. Palavras chaves: Morte. Luto. Perdas. Enlutamento. Grupo de apoio ao Luto. Conselheiro. Aconselhamento Pastoral.
  • 8. GRIEF COUNSELING FOR ADULTS: The importance of the support in coping with the pain of loss. ABSTRACT This work aims to study counseling as a source of help and support to adults in grief at the loss of a beloved person. It is a research about the experience of Grief and its consequences in the life of an adult mourning the death of a significant one, describing a wide range of emotions, experiences, and psychological and physiological changes that occurred as a result of the loss. The author relates the experience of coping with the sorrow by Death from three main points: Death, The Process of Grief and Grief Counseling. This study regards as necessary the care with bereaved people in the field of counseling. It investigates the importance and benefits of counseling as an instrument to help bereaved adult to cope with death and also shows practices of counseling intervention in the bereaved life. The results of this research have impacts on the fields of counseling, mental health care, hospice services and life saving in catastrophes, disasters, emergencies and others. Keywords: Death. Grief. Losses. Mourning. Grief Support Group. Counselor. Pastoral Counseling.
  • 9. SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................................................................................11 1. BREVES REFLEXÕES SOBRE A MORTE E SEUS DESDOBRAMENTOS......15 2. O PROCESSO DE LUTO......................................................................................20 2.1. Conceito de Luto.............................................................................................21 2.2. Reações normais de Luto...............................................................................21 2.3. Fases do Luto..................................................................................................24 2.4. Variações do Luto: patológico e traumático....................................................26 2.5. Luto e Saúde Integral: emocional e física.......................................................33 3. PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS............37 3.1. A ajuda que o conselheiro pode prestar aos enlutados..................................39 3.2. Processos terapêuticos e procedimentos de ajuda........................................42 3.3. Os benefícios de grupos de ajuda e apoio aos enlutados..............................46 CONSIDERAÇOES FINAIS........................................................................................49 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...........................................................................54
  • 10. INTRODUÇÃO Amor e Luto estão entrelaçados Parkes. O livro bíblico de Eclesiastes diz: "para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”.1 Embora o morrer faça parte do cotidiano dos seres vivos, falar sobre Tanatologia2 ainda é tema evitado, reprimido ou considerado deprimente, haja vista a reação de uma pessoa quando se comentou com ela sobre o tema desse trabalho: “você está fazendo terapia? Deveria, porque este assunto é mórbido!”. Nunca foi fácil falar ou escrever sobre assuntos que envolvam perdas, dor, sofrimentos e, uma gama de sentimentos outros, muitas vezes dilacerantes, como é o caso da Morte e o que se segue a ela, o Luto. O presente trabalho é um estudo exploratório a respeito do tema: O aconselhamento como fonte de ajuda a adultos enlutados por perda de pessoas significativas. Buscar-se-á responder a seguinte questão: Qual a importância e possíveis benefícios do Aconselhamento para os adultos enlutados? Pode-se experimentar sentimentos semelhantes ao Luto diante de outras perdas como: desemprego, separações, perda de posição socioeconômica, retirada de um órgão, mudanças forçadas, dentre outras. Para objetivar nosso estudo limitamo-nos à perda por morte de pessoa importante para o enlutado. O entusiasmo e a motivação inicial que despertou o interesse pelo estudo do tema foi o Luto paterno vivenciado pela própria autora. Esta experiência pessoal estimulou seu espírito investigativo levando-a a desenvolver esse trabalho como requisito final para conclusão do curso de Aconselhamento. Esta pesquisa se justifica, pelo fato da morte de alguém amado se configurar como a causa de uma devastadora dor na vida de um indivíduo (COLLINS, 2004). Mediante a morte de alguém querido, alguns se descrevem como tendo sofrido uma “colisão”, levando algumas delas a se desestruturarem emocionalmente, fato esse evidenciado pelo sofrimento emocional e físico. 1 A BÍBLIA. Livro de Eclesiastes capítulo 3, versículo 2. Trad. João Ferreira de Almeida. Versão Revista e Atualizada no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. 2 Tanatologia: “área de estudos sobre a morte que inclui tanto um corpo de conhecimento específico quanto os cuidados de pacientes no fim da vida, os processos de luto antes e depois da morte, e temas como suicídio, comportamentos autodestrutivos, eutanásia e suicídio assistido”. (KOVÁCS, 2003, p.148)
  • 11. Justifica-se tal estudo ainda pela relevância acadêmica do tema. De acordo com alguns estudiosos da Tanatologia no Brasil, como área de pesquisa e intervenção há ainda muito que ser explorado nessa área e faz-se necessário que no campo do aconselhamento se amplie os estudos na direção do cuidado com os enlutados. O estudo será importante também para o exercício profissional dos Conselheiros em suas comunidades de pertença, podendo servir de base para a criação de trabalhos de suporte e assistência aos enlutados. Tal estudo tem como objetivo geral explorar o processo de Luto, seus efeitos e o aconselhamento do Luto. E seus objetivos específicos são: 1) Investigar a importância e possíveis benefícios do aconselhamento como um instrumento que ajudará o adulto enlutado a lidar com a morte; 2) Demonstrar as práticas de intervenção de aconselhamento para o adulto enlutado. Como aproximação ao tema, primeiramente, apresenta-se algumas considerações sobre a Morte e o Processo de Luto. No capítulo I, são feitas breves reflexões sobre a morte e seus desdobramentos. O objetivo desse primeiro capítulo não é o aprofundamento teórico da questão da morte, mas enfocar a maneira pela qual o homem lida com este fenômeno humano universal e inevitável: seus medos, suas angústias, suas defesas, suas atitudes diante da morte. No capítulo II a pesquisa centra-se exclusivamente no Processo de Luto vivenciado por adultos que sofreram perda por morte, deixando de fora do mesmo o Luto noutras faixas etárias específicas, como é o caso das crianças e adolescentes, uma vez que eles têm características próprias na forma de sentir a perda e de viverem o Luto, sendo necessários determinados cuidados específicos. A abordagem desta pesquisa não envolve morte e Luto por suicídio, pois a questão é complexa e poderia nos levar além dos objetivos desse trabalho, e também não trata das diferentes formas de expressão de Luto em culturas distintas. Mas abrange as variáveis que afetam o curso do Luto desencadeando em Luto Patológico ou traumático e as questões de saúde emocional e física decorrentes do estresse causado pela perda. Este capítulo objetiva perceber os efeitos cognitivos, psicológicos, comportamentais e físicos que entram em ação quando o homem se encontra diante da morte de uma pessoa especial.
  • 12. No capítulo III são abordadas as Práticas de aconselhamento para adultos enlutados considerando a ajuda e o papel do conselheiro diante de pessoas em situação de Luto, a demonstração das práticas terapêuticas e procedimentos de ajuda por meio do aconselhamento e, por último, os benefícios de grupos de apoio aos enlutados. Nesse trabalho trataremos do aconselhamento dentro de uma perspectiva pastoral circunscrita, principalmente, ao universo das comunidades de fé3 de natureza cristã. A autora adotou como método de estudo a pesquisa bibliográfica que consiste de livros, artigos online, monografias, teses, revistas e outros. O referencial teórico que norteia este estudo é o autor clássico Collin Murray Parkes (1998), psiquiatra, tanatólogo, que mediante suas pesquisas com viúvos e viúvas contribuiu significativamente para a temática do Luto vivenciada por adultos, especificidade de nosso trabalho. Vale ressaltar também as importantes contribuições de outros autores pesquisados como: Kubler-Ross (1998), Bowlby (1998), Worden (1998), dentre outros. Na bibliografia que versa sobre a dor da perda que sucede a morte de uma pessoa amada, os adjetivos, habitualmente, para descrevê-la são: esmagadora, avassaladora, assustadora, dolorosa, dilacerante, profunda, visceral, intensa. A magnitude da reação e a desmesura desse acometimento na vida de uma pessoa constituem-se em um desafio difícil e delicado, porém gratificante para o conselheiro, que irmanado como parceiro dessa travessia, pode oferecer uma presença de amor, escuta empática e ser instrumento de ajuda que capacitará as pessoas a lidarem com este sofrimento que vulnerabiliza, desorganiza e muitas vezes paralisa a vida do sobrevivente. Todas as perdas envolvem o rompimento de laços afetivos e há que se considerar que as implicações dessa experiência não estão limitadas ao psiquismo, mas a uma experiência humana com raízes em diversas áreas do conhecimento, inclusive a Teologia. Ainda que nós, os cristãos, sejamos consolados pela certeza da ressurreição, não somos poupados do vazio e aflição de sermos obrigados a nos separar de alguém que amamos. No entanto, este trabalho mostra que manter a fé e 3 Entendemos por comunidade de fé cristã a união daqueles que acreditam em Jesus Cristo como Salvador e Senhor, acreditam na Bíblia como palavra de Deus e anunciam a mensagem de Cristo a outros.
  • 13. uma atitude positiva diante dos infortúnios que a vida nos apresenta, contribui para superar as adversidades e restabelecer a esperança de viver.
  • 14. 1. BREVES REFLEXÕES SOBRE A MORTE E SEUS DESDOBRAMENTOS Que homem há, que viva e não veja a morte? Ou que livre a sua alma das garras do sepulcro? Salmos 89:48 “Para morrer basta estar vivo”, diz a sabedoria popular, mostrando-nos a vulnerabilidade da vida. Mesmo sendo um fato inevitável para todo ser vivente, falar de morte é considerado assunto “non” grato, mórbido, assombroso, que nos causa repulsa. A morte se configura como intrusa, uma invasora que põe fim a existência dos seres vivos sem pedir permissão e, embora o avanço tecnológico possa retardá- la, não há como evitá-la, pois cedo ou tarde ela nos “pregará uma peça” e se fará presente em nossas vidas ou nos levará aqueles que nos são tão preciosos. E quando ela ceifa a vida de quem amamos, a sensação de dor é tão absurda que temos a impressão de que vivemos um pesadelo. Nesta hora tudo o que ansiamos é acordar desse sonho ruim. A tarefa mais difícil é constatar que esse sonho é real e que é impossível escapar dele. O abalo da morte é tão grande que se torna difícil o homem tratá-la com naturalidade encarando-a como sendo mais uma etapa do ciclo da vida, há uma recusa em se acreditar que é mortal e se age como se a morte não existisse. Observa-se que esta inaptidão em aceitar a morte faz com que seja criado muito tabu e negação em torno dela. Para Kubler-Ross (1998) desde os tempos remotos o homem teve aversão à morte e possivelmente continuará a rechaçá-la. Em seu inconsciente o homem não compreende que a morte seja possível quando se trata dele mesmo, sendo inconcebível imaginar de fato o fim de sua existência na terra e, se a vida tiver um fim, a morte vai sempre estar ligada a uma ação má, a um acontecimento apavorante e não a uma causa natural ou idade avançada. (KUBLER-ROSS, 1998). Entre os seres vivos, somente o homem tem consciência de sua própria morte. De acordo com Walsh e McGoldrick (1998) o medo da morte é o que nos provoca maior terror. O medo de morrer é natural e instintivo, atinge a todos, não importando crenças, idade, gênero, nível sócio-econômico. Talvez porque a morte seja um evento associado a sofrimento e dor é que ela nos causa tanto medo. O
  • 15. pensador e escritor cristão C.S.Lewis (2007) esboça muito bem esse fato quando se refere ao Luto pela morte de sua esposa: Ninguém me disse que o Luto se parecia tanto com o medo. Não estou com medo, mas a sensação é a mesma; A mesma agitação no estômago, a mesma inquietação, o bocejo, a boca seca. (LEWIS, 2007, p.29). A morte provoca uma sensação de impotência muito grande, pois temos de enfrentá-la como uma condição irreversível, que não podemos controlar ou mudar. Convivemos com situações de morte diariamente ainda que vivamos em uma sociedade que a nega o tempo todo. A morte do outro nos remete à nossa finitude e, de certa forma, está nos preparando para este grande momento. Uma correta perspectiva da morte nos auxilia a uma maior autenticidade e consciência. Morte e vida estão amalgamadas durante todo o nosso ciclo de vida. Fugir da morte é fugir da vida. (LEO, 2005; KOVÁCS, 2005). Kubler-Ross (1998) declara que entre os mais importantes motivos para fugir do enfrentamento da morte está o fato de que hoje morrer tornou-se um evento solitário, desumano e impessoal porque o paciente é levado ao confinamento hospitalar, rodeado por aparelhagens e profissionais ávidos por prolongar-lhe a vida, não se preocupando tanto em dar-lhe um tratamento mais humano, como por exemplo, segurar a mão do paciente, sorrir-lhe e prestar atenção a uma pergunta. O Artigo 41 do Código de Ética Médica brasileiro4, determina que é vedado ao médico “abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de seu representante legal”, ou seja, eles são impedidos de respeitar a vontade do paciente no que diz respeito à decisão de desejar ou não prolongar sua vida, quando não há mais nada que a medicina possa fazer. A revista Veja5, em sua matéria “A ética na vida e na morte”, diz que “os questionamentos acerca dos limites entre uma vida insuportável pela doença e uma morte digna surgem em grande parte das conquistas espetaculares da medicina ocorridas, sobretudo, nas últimas duas décadas”. Rubem Alves (2003), em seu artigo “Sobre a morte e o Morrer”, ilustra esse dilema angustiante do paciente diante da morte: 4 CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA BRASILEIRO. Artigo 41. Disponível em <http://www.portalmedico.org.br/novocodigo/integra_5.asp> Acesso em: 15. Mai. 2010 5 LOPES, Adriana D. A ética na vida e na morte. Veja. São Paulo, edição 2162, nº 17, p. 100-106, abr./2010.
  • 16. [...] a morte e a vida não são contrárias, são irmãs [...] tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza. (ALVES, 2000, p.3) A sociedade ocidental não encara bem a morte e nega seu impacto ao remover os moribundos do aconchego de seus lares e comunidades. (WALSH; MCGOLDRICK, 1998). Kubler-Ross (1998, p.11) nos lembra que “já vão longe os dias em que era permitido a um homem morrer em paz e dignamente em seu próprio lar”. Antigamente havia tempo para as despedidas, todos participavam e vivenciavam a perda iminente com intensidade, inclusive as crianças. Os mortos eram velados em casa, e os próprios familiares cuidavam da preparação do corpo e enterro, mas hoje os agentes funerários cuidam de tudo, fazendo a todos expectadores e não participantes. Desde o século vinte até os dias de hoje o que se observa é um desejo de que a morte não seja lembrada. Símbolos como o vestir-se de preto, são quase inexistentes hoje em dia. Velório, despedida, sepultamento, orações, silêncio, rituais necessários para uma melhor percepção da morte, estão cada vez mais discretos e rápidos. O enfrentamento da morte e a vivência do processo de Luto são diretamente atingidos por esta atitude de discrição. (TINOCO, 2003). Eufemismos e expressões como, “passagem”, “partiu”, “fim”, “está dormindo”, “passou desta para melhor”, “descansou”, “foi para o andar de cima”, “foi fazer uma longa viagem”, ou “foi morar no céu”, como é dito às crianças, são usados para referir-se a ausência inalterável da pessoa morta, dificultando a assimilação e integração desta em nosso cotidiano. Quanto maior seu evitamento, maior nossa dificuldade em enfrentá-la e reconhecer que a morte faz parte de um processo natural da vida e que negá-la é como negar a vida, pois começamos a morrer assim que nascemos como bem expressa a composição de Toquinho e Vinicius de Moraes (1971): Tem dias que eu fico pensando na vida E sinceramente não vejo saída.
  • 17. Como é, por exemplo, que dá pra entender: A gente mal nasce, começa a morrer. Depois da chegada vem sempre a partida, Porque não há nada sem separação [...] (TOQUINHO; VINICIUS DE MORAES, 1971) Nesses últimos anos proliferam cemitérios onde ao invés de jazigos constroem-se jardins sobre os túmulos que parecem ter a intenção de esconder o “pavor” da morte, passando-nos a falsa ilusão de que ali não existe morte, mas apenas vida expressa através das belas plantas. O avanço da medicina e da tecnologia acirrou o desenfreado desejo pela eterna juventude do homem pós-moderno, culminando na fantasia de perenidade da vida humana e gerando, por meio do apego a tudo isso, muito mais angústia e sofrimento pela conclusão do indiscutível fim de sua existência. O desejo de transcender à morte leva o homem a desafiá-la e tentar vencê-la, haja vista as tentativas da ciência em perpetuar a vida através de experimentos de congelamento do corpo humano após a morte, na esperança de que num futuro qualquer se possa descobrir como fazê-lo tornar a viver. Porém, KOVÁCS (2008), considera que a procura do homem não é pela vida eterna, mas pelo anseio de ser eternamente jovem, para manter os prazeres, formosura e energia que esta fase proporciona e não a experiência da velhice infindável cheia de perdas, fealdade e aflições. É relevante aqui observarmos que somos uma sociedade orientada para a juventude vivendo como que não crendo na extinção de nossa própria vida, relegando o pensar na morte para os idosos. De qualquer modo, acabaremos por admiti-la. A morte do outro nos obriga a encararmos a realidade de nossa própria mortalidade. O contexto histórico cultural de uma sociedade contribui para a orientação do homem em relação à morte. Por “orientação quanto à morte” entende-se ser a amplitude total de pensamento, sentimento e comportamento direta ou indiretamente relacionados com a morte. Nossas concepções atuais sobre a morte constituem parte da herança que as gerações anteriores, as antigas culturas nos legaram. (KASTENBAUM & AISENBERG, 1983). Os mesmos autores prosseguem expondo que a relação entre religião e morte faz com que nossa cultura veja o morrer como castigo ou punição. Nesse sentido, os autores expressam a doutrina cristã que postula que a morte é fruto da desobediência do homem no jardim do Éden. Na opinião de Kastenbaum & Aisenberg (1983, p.101) “a religião é um dos esforços
  • 18. culturais altamente organizados para triunfar sobre a morte, para transcendê-la”. A Bíblia esboça este fato, no capitulo 15, versículo 55 do livro de Coríntios em que profere: “onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” Segundo os cristãos, ou seja, de acordo com sua doutrina e filosofia, há continuação pós-morte. Cristo, através de sua crucificação e ressurreição, derrotou a morte e prometeu que todo aquele que nele crê “não morrerá, eternamente”6. Quando se trata da morte de um ser amado, esta visão transcendental pode até amenizar o desconforto e ajudar a enfrentá-la, mas nem sempre diminui a dor e a necessidade de consolo. A morte daqueles a quem amamos nos assola, privando-nos, temporariamente, da alegria de viver, nos levando a um vazio, falta de sentido e ânimo para continuar vivendo. A dor acompanha a morte e o processo de Luto se faz necessário para a elaboração de nossa perda (KOVÁCS, 2008). No capítulo seguinte examinaremos as vivências do Luto adulto por morte e suas repercussões, descrevendo o vasto leque de emoções, experiências, mudanças e condições que ocorrem como resultado da perda. 6 A BÍBLIA. Português. Livro de João, capítulo 11, versículo 26. Tradução de João Ferreira de Almeida. Versão Revista e Atualizada no Brasil. 2ª Ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
  • 19. 2. O PROCESSO DE LUTO Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago. Salmos 6:6 “Bem-aventurados os que choram porque serão consolados” Mateus 5:4 Amor e Luto são duas faces da mesma moeda: não é possível sentir o primeiro sem correr o risco de se deparar com o segundo. Possivelmente, somente ao entender a natureza do amor e o significado dos vínculos afetivos pode se compreender completamente o impacto de uma perda e o comportamento humano que o acompanha. Muitos autores escreveram sobre o desenvolvimento do apego. Bowlby (1998) está entre os que mais contribuíram para este assunto escrevendo muitos livros e artigos sobre apegos e perdas. Sua Teoria do Apego é fundamentalmente uma teoria da origem e natureza do amor. Esta diz respeito à formação dos laços afetivos entre as crianças e seus progenitores ou figuras de cuidado. Segundo a sua teoria a formação do apego nasce da necessidade que se tem de se sentir seguro e protegido. Este sistema de apego mantém-se na vida adulta, cooperando para a formação de atitudes do indivíduo nas relações amorosas. Os padrões de apego influenciam os padrões de Luto, conclusão a que chegou Bowlby (1998) através de seus estudos. A dimensão de sofrimento no Luto e a reação a ele estão proporcionalmente relacionadas com a extensão de apego ao objeto perdido, ou seja, quanto maior nosso investimento afetivo maior nossa dor à perda e maior energia necessária para este desligamento. As dependências físicas ou psíquicas são fatores que podem agravar o desligamento com o objeto. (KOVÁCS, 2008). Ligamo-nos uns aos outros com um forte sentido de posse, por isso quando a morte nos separa do objeto amado, esta é vista como perda, e não como uma transição inerente à existência (FRANCO, 2005 Apud CATERINA, 2008). Luto. Este é o começo de um período muito difícil, de um tempo de dor e de emoções confusas, de um tempo de mudanças e transformações das realidades internas e externas.
  • 20. 2.1. Conceito de Luto A palavra Luto é definida no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2009, p.1236), como: “sentimento de pesar pela morte de alguém.” Para Freud (1916, p.245), é a “reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou ideal de alguém, e assim por diante”. De acordo com Collins (2004, p.407), “Luto é uma reação natural à perda de qualquer pessoa, objeto, ou oportunidade que era importante para nós”. Parkes (2008, p.15), descreve o Luto como sendo a “expressão dos vínculos que as pessoas estabelecem umas com as outras.” E conforme Lazán (1989, p.12), “o Luto é a elaboração congnitiva e emocional do impacto de um trauma sobre a pessoa”. Assim o sentimento de Luto pode ocorrer sempre que uma parte da vida se vai ou é tirada de nós. Outros tipos de perdas e mudanças podem nos remeter ao Luto, como divórcios, desemprego, migração forçada, morte de um animal de estimação, esterilidade/infertilidade, amputação de um membro, aposentadoria, a perda da casa ou de outro bem valioso, de uma paixão ou de uma amizade significativa. Portanto, Luto é uma fase de pesar pelo qual passamos cada vez que perdemos algo de valor, de importância central para nós. O Luto é uma reação à perda e perdas são comuns em nossas vidas, entretanto Parkes (1998) adverte que o termo Luto é mais comumente usado para designar a perda de uma pessoa em especial, uma pessoa querida. 2.2. Reações normais de Luto. O Luto é um processo e não um estado estático, é uma reação normal, transitória, que a maior parte de nós experimentará um dia, envolvendo uma variedade de pensamentos, comportamentos e sentimentos como dor, angústia e outros sofrimentos por uma perda significativa. É uma experiência pessoal que cada um vive ao seu modo e leva-se tempo para recuperar, podendo durar até um espaço de dois anos quando se trata de Luto normal.
  • 21. Quem já passou por tal circunstância sabe que os sentimentos são múltiplos, confusos e intensos. De acordo com alguns pesquisadores o processo de Luto é composto de um conjunto de emoções expressas através de tristeza, saudade, culpa, medo, auto-acusação, raiva, irritabilidade, ambivalência, sensação de ansiedade e impotência, solidão, fadiga, desamparo, choque, anseio, alívio, estarrecimento. Os estudiosos também apontam que pessoas em Luto manifestam considerável déficit de memória, distúrbios do sono e do apetite, sonhos com o morto que dão à pessoa enlutada a sensação de que são reais, isolamento social, confusão mental levando a pensamentos desordenados e falta de concentração, sensação cognitiva da presença do morto e, descrença com relação ao mundo e a Deus. Afora as sensações fisiológicas, que também são normais e consideradas significativas no processo de Luto, sendo as mais comuns: palpitações cardíacas, vazio no estômago, perda do interesse sexual, aperto no peito, nó na garganta, visão borrada, hipersensibilidade ao barulho, sensação de despersonalização (nada parece real), falta de energia e boca seca. Estes aspectos são características frequentemente associadas ao Luto normal, mas devemos considerar as diferenças individuais. (PARKES,1998 e WORDEN, 1998). Perdas são grandes desafios da vida, parece que para algumas pessoas o Luto é uma experiência intensa, para outras, moderada e o início do processo de Luto é diferente de pessoa para pessoa, para uns podendo acontecer logo após a perda e para outros adiado para alguma experiência futura, como por exemplo, quando se vê uma fotografia da pessoa falecida ou em datas comemorativas como aniversários de nascimento e falecimento ou festividades como o Natal. Dificilmente alguém fica indiferente a ela quando se trata de uma pessoa importante para si, e se acontecer em condições especiais agrava seu impacto e potencializa ainda mais sua desorganização psíquica. Nas pesquisas de Parkes (1998), ele não encontrou alguém que não tivesse tido alguma reação à perda em maior ou menor grau. Ele compara a dor da perda como a uma ferida física relatando-a da seguinte forma: O luto assemelha-se a uma ferida física mais do que qualquer outra doença. A perda pode ser referida como um “choque”. Assim como no caso do machucado físico, o “ferimento” aos poucos se cura. Ocasionalmente, porém, podem ocorrer complicações, a cura é mais lenta ou um outro ferimento se abre naquele que estava quase curado. Nesses casos surgem as condições anormais, que podem ser ainda mais complicadas com o aparecimento de outros tipos de doenças.
  • 22. Muitas vezes parece que o resultado será fatal. (PARKES 1998, p.22). Quando alguém está em sofrimento acha que sua dor é a maior e pior de todas, que a vida é dura demais com ele, pois para cada indivíduo sua aflição é única. Cada um sabe dimensionar sua dor e seus recursos para enfrentá-la. As viúvas enlutadas das investigações de Parkes (1998), falavam que a sensação que tinham era como que tivessem perdido um pedaço de si mesmas. Uma viúva descreveu seus sentimentos quando viu o corpo do marido: “é como se eu estivesse virada do avesso, com uma horrível ferida”. Muitas vezes a comparação é feita com amputação. As viúvas falavam que o marido foi “arrancado”, “como se metade de mim tivesse desaparecido”. (p.124). O Luto com frequência dura muito mais do que os próprios enlutados esperam e gostariam. É comum sentir-se deprimido e debilitado depois da perda, em geral isto é temporário para muitas pessoas enlutadas. Mas a sociedade com sua impaciência com o pesar, pressiona o enlutado para que volte à vida normal rapidamente, contribuindo para que ele acredite que suas reações ao Luto não são normais. Familiares e amigos cheios de boas intenções, mas sem estarem cientes da dinâmica do processo de Luto, emitem palavras do tipo “seja forte”, “reaja”, “pare de chorar”. Percebe-se que este fenômeno pode ser mais grave ainda nas comunidades religiosas de pertença dos enlutados, quando, muitas vezes, são encorajados a manter autocontrole sobre suas emoções em nome da crença em Deus e são precocemente orientados a abandonar a experiência do trabalho de Luto. A mensagem subliminar que é passada é a de que aqueles que reagem demasiadamente consternados em sua dor, são considerados insuficientes e fracos em sua fé em Deus. É muito difícil para o enlutado enfrentar essa mensagem poderosa que o incentiva a reprimir seus sentimentos, sem levar em conta a necessidade de sua psiquê de viver o Luto abertamente. Assim, o enlutado passa a ter uma conduta meramente aceitável em seu “meio”, mascara sua dor, correndo o risco de vir a ter uma disfunção emocional ou fisiológica em seu processo de Luto. Reafirmando essa posição, Worden (1998, p. 92) relata que “o Luto mascarado ou reprimido geralmente assume uma das duas formas: tanto ele pode ser mascarado por sintomas físicos, quanto por algum tipo de conduta aberrante ou mal-adaptada.” O mesmo autor referiu que se as pessoas não vivem seu Luto de forma direta podem apresentar queixas sintomáticas semelhantes àquelas
  • 23. apresentadas pela pessoa que faleceu. Amiúde, a dor pode ser um símbolo de Luto mascarado ou diversos tipos de distúrbios psicossomáticos podem esconder um Luto não-resolvido subjacente. Vamos voltar a falar sobre este assunto mais a frente quando estivermos tratando das questões de Luto e adoecimento. Parkes (1998) também destaca outro ponto importante: assim como é preciso que as pessoas tenham um tempo para se enlutar, é preciso também que tenham um tempo para pôr fim ao Luto, para parar de se afastar da vida e para recomeçar uma nova vida. A perda de uma pessoa querida pode ser devastadora e a pessoa pode ser levada a se sentir esmagada pela dor. Algumas entram em colapso quase que imediatamente, ao passo que outras descobrem que têm tremendas reservas interiores que as capacita a lidar até mesmo com períodos prolongados de crise intensa. Ainda que um sujeito enlutado possa nunca se recuperar completamente da perda, a maioria consegue retornar a uma vida produtiva e à restauração de seu bem-estar mental e físico. (COLLINS, 2002; COLLINS, 2004). Parece haver um consenso quanto à necessidade de se elaborar o Luto por um processo, bem como quanto ao seu alto valor adaptativo quando transcorre de uma forma natural e em condições normais. Antes de prosseguirmos mostrando como o Processo de Luto se desenvolve e algumas condições que desfiguram seu curso, nos utilizamos das palavras animadoras de Parkes (1998): Assim como ossos quebrados podem se tornar mais fortes do que os não quebrados, a experiência de enlutamento pode fortalecer e trazer maturidade àqueles que até então estiveram protegidos de desgraças. A dor do Luto é tanto parte da vida quanto a alegria de viver; é, talvez, o preço que pagamos pelo amor, o preço do compromisso. Ignorar esse fato ou fingir que não é bem assim é cegar-se emocionalmente, de maneira a ficar despreparado para as perdas que irão inevitavelmente ocorrer em nossa vida, e também para ajudar os outros a enfrentar suas próprias perdas. (PARKES, 1998, p. 23). 2.3. Fases do Luto Alguns estudiosos como Bowlby (1998) e Parkes (1998) definem quatro fases do Processo de Luto, que não necessariamente ocorrem de forma linear e
  • 24. totalmente previsível. Essas fases serão abordadas em forma de itens para uma melhor apreensão de suas etapas: 1) Fase do entorpecimento (choque) que normalmente dura minutos, horas ou uma semana que pode ser seguido de manifestações de desespero, raiva e outras emoções intensas. Parkes (1998) menciona que nesta etapa não se acredita que a perda é real, e a capacidade de agir e controlar-se é feita de forma automática, que denota um complexo processo mental no qual a pessoa afasta-se da situação como uma forma de defesa por ser algo além do que se pode suportar. 2) Fase do anseio e procura, podendo durar meses e até mesmo anos, onde há a negação da perda e desejo que a figura perdida retorne. Os pensamentos são ocupados com o morto constantemente. “Anseio é uma resposta normal ao Luto. Quando ele diminui, pode ser um sinal de que o Luto está terminando.” (WORDEN, 1998, p. 39). 3) Fase de desorganização e desespero. Inclui também incerteza, falta de objetivo, apatia e isolamento. A emoção característica é a depressão, e a pessoa tende ao isolamento evitando contato e aproximação com aqueles que podem solicitá-la e protegê-la de alguma maneira. “A pessoa enlutada encontra dificuldade em funcionar no ambiente.” (WORDEN, 1998, p. 50). 4) Fase de reorganização (readaptação), em que se dá a aceitação e, movimentos são feitos em prol de dar continuidade a vida ocorrendo mudanças de atitudes e investimentos em outros aspectos da vida. O objetivo de se identificar fases do Luto não é para sugerir que toda pessoa enlutada tenha que passar por esse processo na ordem e na forma acima citadas. Ademais, cada pessoa experiencia-o com suas particularidades e de maneira peculiar, podendo ocorrer variações como: em alguns momentos os sintomas são ambíguos, ora parecendo ter superado a fase aguda do Luto, ora recaindo novamente num momento de tristeza e angústia. Worden (2008, p.51), aludindo a estas fases afirma que o conceito de “tarefas do Luto” apresenta uma compreensão do trabalho de Luto muito mais útil para o conselheiro. Ele fala de uma abordagem onde o Luto cria tarefas que precisam ser executadas. Em sua opinião as tarefas sugerem que há algo que o enlutado
  • 25. efetivamente precisa fazer sendo o agente de mudanças em sua vida, ao contrário das fases ou estágios, como alguns as descrevem, que dão a entender como alguma coisa que tem que ser atravessada e que pode ser influenciada pela intervenção externa. Walsh e McGoldrick (1998) concordam com o conceito de tarefas de Worden quando dizem que há tarefas adaptativas críticas que precisam ser desempenhadas para que as famílias não fiquem vulneráveis à disfunção. Desta forma, realizar as quatro tarefas básicas do processo de Luto, implica: 1°) aceitar a realidade da morte; 2°) não sabotar os sentimentos evitando o sofrimento; 3°) ajustar-se a um ambiente onde a pessoa falecida está ausente e 4°) reinvestir em outras relações e projetos de vida. Como já foi mencionado anteriormente, a adaptação não têm uma escala ou sequência fixa. As autoras acima seguem falando que o amoldamento à perda não significa necessariamente uma aceitação completa e categórica da perda. Para a maioria dos indivíduos e suas famílias, elaborar a perda não é garantia de alcançar uma resolução completa. (WORTMAN; SILVER Apud WALSH; MCGOLDRICK). Por mais que haja tentativas em se determinar o término do processo de Luto é difícil ser assertivo em estabelecer datas para a etapa final deste. Para alguns ele pode durar semanas, para outros meses ou anos. A maioria das viúvas pesquisadas por Parkes (1998) precisou de 3 ou 4 anos para alcançar a estabilidade perdida. Bowlby (1998) e Parkes (1998) referem que o processo de Luto encerra-se quando uma pessoa completa a fase final do Luto de restituição. E na opinião de Worden (1998), quando as tarefas de Luto são concluídas o Luto está finalizado e, além disso, ele realça que um sinal de que o Luto foi elaborado é quando não existe mais dor ao pensar no falecido. Acrescenta ainda que o Luto está finalizado quando a pessoa consegue reinvestir suas emoções na vida e no viver. 2.4. Variações do Luto: patológico e traumático Ainda que o Luto envolva elevada medida de sofrimentos não é considerado doença e, supõe-se que depois de passado algum tempo a pessoa supere a perda e
  • 26. volte à vida normal. Todavia, quando o processo de Luto se complica, temos o Luto patológico que demanda cuidados médicos, psicológicos e apoio social. Freud (1916), fazendo analogia entre Luto e melancolia, refere que no Luto é o mundo que se torna pobre e vazio e na melancolia 7 (depressão), que para ele era uma forma patológica de Luto, é a pessoa que se torna pobre e vazia. Diante da morte, o enlutado tem ciência do que perdeu, mas não o que ele perdeu nesse alguém e, Parkes (1998) seguindo esta mesma linha, comenta que no Luto raramente está muito claro o que foi perdido. Apesar de o Luto ser um processo demorado e doloroso, Freud (1916) refere que este se resolverá por si só paulatinamente, quando o enlutado encontrar objetos substitutivos para o que foi perdido, prescindindo de intervenção externa. Parkes (2006) faz referência ao Luto patológico também com a seguinte terminologia: Luto crônico, traumático, complicado, adiado ou não-elaborado. Afirma que apesar de um Luto patológico apresentar “muitas das características encontradas nos transtornos psiquiátricos, é somente quando ele se prolonga muito e causa dano às funções da vida normal que pode ser considerado ´patológico´” (PARKES, p.42). Outros autores consideram a qualidade da dor e as funções psicológicas atingidas pela perda. Parkes (1998) alude que muitos dos que procuram ajuda psiquiátrica por Luto, estão sofrendo de formas intensas e prolongadas de Luto. Suas pesquisas realizadas com viúvas mostraram que a perda do marido é o tipo mais comum de perda que ocasiona problemas psicológicos. Há evidências de que perdas de filhos também podem causar distúrbios psicológicos. A patologia está mais relacionada com a intensidade da dor e a duração da reação do que com a presença ou não de comportamentos específicos. (HOROWITZ, 1980 Apud WORDEN, 1998). A dimensão do Luto e o ajuste à perda são determinados por alguns fatores que podem influenciar o resultado do Luto gerando uma reação disfuncional em sua elaboração: 7 Para a psicanálise,” tanto o termo depressão quanto a expressão estados depressivos, hoje tão presentes em nosso cotidiano, têm sido pouco utilizados. O vocábulo melancolia, escolhido por Freud, foi mais bem aceito e é tradicionalmente empregado.” (EDLER, 2008).
  • 27. - O homem é um ser ambíguo. Um relacionamento altamente ambivalente com hostilidade não-expressa, via de regra, impede as pessoas de terem um Luto adequado. Na ambivalência, que são sentimentos simultâneos de amor e ódio, há desejo pela morte do outro e quando esta ocorre, a pessoa que assim o desejou pode apresentar quantidade excessiva de raiva e culpa e, mitiga esta culpa permanecendo em um estado de Luto intenso e duradouro. (WORDEN, 1998). - Indivíduos imaturos (não importa a idade), que mantém uma relação de apego inseguro ou que são altamente dependentes de outra pessoa, podem evidenciar problemas no momento do Luto, predispondo-os a uma reação de Luto patológica. Os que são dependentes em seus relacionamentos, e depois perdem a fonte dessa dependência, são tomados de sentimentos de fragilidade, desamparo e sofrem alteração na auto-imagem. (KASTENBAUM & AISENBERG, 1983; WORDEN, 1998). Quando a dependência é recíproca, o enlutado também tende a ter problemas. Neste caso, quando a perda é de alguém que se apoiava nele, este está em posição idêntica à mãe que perde um filho, completa Parkes (1998). - O histórico de como perdas foi construído no passado sugere em como serão elaboradas as perdas atuais. Pessoas que tiveram reações complicadas em suas perdas anteriores são mais propensas às mesmas complicações no presente. Os que têm uma história prévia de doença depressiva também correm um risco maior de desenvolver reações disfuncionais ao Luto. Perdas parentais múltiplas e próximas, como uma mãe que perdeu seu filho logo após ter perdido um dos pais, podem patologizar o Luto. (WORDEN, 1998). - Outro determinante importante da intensidade do Luto são os aspectos da personalidade provenientes da carga genética. Parkes (1998) admite não ter dúvida de que há pessoas que são mais vulneráveis em sua personalidade aos elementos estressores. Worden (1998) corrobora tal fato ao referir que os fatores de personalidade estão relacionados com o caráter e com a forma como ele afeta a capacidade da pessoa em suportar situações estressantes. Pessoas com dimensões de personalidade que não toleram extremos de estresse emocional; que constroem suas defesas em torno de evitação de sentimentos de desamparo; que o conceito que têm de si mesmas é de que são a pessoa forte da família e que se mantêm desempenhando esse papel em seu próprio detrimento, têm dificuldades de vivenciar os sentimentos necessários para uma adequada resolução de uma perda.
  • 28. Bolwby (1998) é coerente com esta posição ao atentar para as dimensões da personalidade para o enfrentamento da perda. O autor destaca 5 tipos de variáveis que assinalam para o Luto patológico: a) a identidade e o que a pessoa morta representava em questão de papel e função na vida do enlutado; b) a idade e o sexo do enlutado – mulheres sucumbem mais e têm maior dificuldade na readaptação; c) as circunstâncias e os motivos causais da perda – mortes súbitas e inesperadas tendem a um maior grau de perturbação; d) as circunstâncias sociais e psicológicas que afetam o enlutado na época em que sofreu a perda e durante os meses ou anos subsequentes; e) sua capacidade de estabelecer relações amorosas e de reagir a situações estressantes. - O Luto na verdade é um fator psicossocial8 e é com apoio social que as pessoas podem superar melhor seus sofrimentos. A rede social do sujeito enlutado é um determinante que pode exercer um papel de elevada importância no desenvolvimento de reações de Luto patológico, como é o caso de morte por suicídio onde a perda é socialmente não comentada. Neste caso, há uma tendência dos amigos e familiares de se calar sobre a circunstância da morte. Essas conspirações de silêncio são danosas, pois as pessoas enlutadas, frequentemente, necessitam falar de sua perda aos outros. Importa considerar, ainda, outros dois fatores sociais complicadores: quando a perda é negada; ou seja, quando tanto o enlutado quanto aqueles que o cercam agem como se a morte não tivesse acontecido e, a ausência de uma rede adequada de apoio social. A falta de apoio social provoca o isolamento da pessoa enlutada, porque ela se enraivece pelo afastamento das pessoas no momento em que ela mais precisaria de ajuda. A raiva é um dos fenômenos que pode agravar suas reações ao Luto. (WORDEN, 1998; FREITAS, 2000). - E como último elemento complicador do Luto que queremos destacar, está os fatores circunstanciais. Os estudiosos do Luto afirmam que o modo como a morte acontece repercute substancialmente na resposta ao Luto. Entre as condições que representam riscos especiais que podem originar complicações psicológicas traumáticas citamos: exposição à violência de guerra, assistir atos de violência ou mutilação, mortes por assassinato, homicídio e suicídio, mortes onde não é possível 8 Psicossocial: campo da intervenção psicológica que visa o desenvolvimento humano completo e equilibrado (integral) e a prevenção dos problemas de origem psicológica (que afetam as pessoas) e sociais que afetam muitas pessoas e têm determinantes sociais. (VIDAL, 2007)
  • 29. recuperar o corpo incólume, mortes súbitas, múltiplas e precoces, dentre outras. Parkes (2006) descreve o impacto traumático das perdas múltiplas: Nas áreas de desastres, mortes múltiplas têm a probabilidade de ser rápidas, inesperadas, horríveis e associadas a desorganização social e outras epidemias. Estas são particularmente traumáticas e complexas. Uma batida de carro que mata o cônjuge e dois filhos de uma pessoa pode não ser um desastre público, mas do ponto de vista do sobrevivente a experiência é igual [...]. Pessoas que experienciam perdas múltiplas não só sofrem os efeitos cumulativos do Luto, mas sua suposição de que o mundo é um lugar seguro onde desastres não acontecem é corroída e substituída por uma expectativa de futuros desastres. (PARKES, 2006, p. 260, 261). “Um ´trauma´ é um golpe [...]. Todos os Lutos são traumáticos, mas alguns são mais traumáticos do que outros.” (PARKES, 2006, p.45,159). Discriminamos o Luto traumático enfatizando os desastres ambientais que, embora sempre fizessem parte da história da humanidade, nos últimos tempos vêem acontecendo cada vez mais frequentemente e com maior intensidade. Inundações e deslizamentos como têm ocorrido no Brasil, o terremoto no Haiti neste ano, tsunamis, tornados, ciclones, erupções vulcânicas nas mais altas escalas são fenômenos que têm atingido várias partes do mundo, vitimizando centenas ou milhares de pessoas e causando situação de Luto em massa muitas vezes. São calamidades que resultam em tragédias que afetam a população local provocando grande estrago material, físico e emocional na vida dos sobreviventes. Segundo os pesquisadores, essas situações emergências constituem-se em um cenário propenso para o desenvolvimento de psicopatologias9 como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático – que conforme Parkes (2006), é parte das reações ao Luto traumático - em pessoas que perderam parentes ou sobreviveram a esses desastres, diante de tamanha carga emocional e traumática. Em estudos citados por Parkes (2006) concluiu-se que enlutados que mais procuraram ajuda psiquiátrica foram aqueles que sofreram um ou mais tipos de perdas traumáticas. Quando o Luto decorre de uma situação traumática, há um grande impacto para a identidade e a capacidade de enfrentamento. Perdas traumáticas ou significativas podem nunca ser totalmente resolvidas. (WALSH; MCGOLDRICK, 1998) 9 Psicopatologia: “pode ser definida como o conjunto de conhecimentos referentes ao adoecimento mental do ser humano. Como campo de estudo inclui um grande número de fenômenos humanos especiais ligados aos estados mentais e padrões comportamentais em conexão com as doenças mentais e com a psicologia normal.” (DALGALARRONDO, 2000, p.22)
  • 30. Define-se o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) 10 como sendo a perturbação psíquica que “afeta pessoas que passaram por um evento psicológico e/ ou físico extremo, interpretado como particularmente doloroso”. (GREENBERG, 2002, p.50 ). Segundo Burns (2005), este quadro surge como uma resposta tardia a e/ou protraída a um evento ou situação estressante (de curta ou longa duração) de natureza excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica, que provavelmente causa angústia invasiva em quase todas as pessoas (por exemplo, desastre natural ou feito pelo homem, combate, acidente sério, testemunhar a morte violenta de outros ou ser vítima de tortura, terrorismo, estupro ou outro crime. (BURNS, 2005, p.15) Burns (2005) pontua que ainda que uma personalidade pré-disposta ou história prévia de doença neurótica vulnerabilizem o indivíduo traumatizado e agravem o curso da síndrome, não são elementos necessários e suficientes para explicar sua ocorrência. O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) se diferencia dos demais transtornos de ansiedade e da maioria dos transtornos mentais por ser causado a partir de um fator externo. As seqüelas de ter vivido essa tragédia se manifestam na forma de ataques de pânico, insônia, pesadelos recorrentes, irritabilidade, isolamento social, dificuldade de sentir determinadas emoções e dores sem fundamento físico, dentre outros. Reações emocionais intensas e manifestações compatíveis com o momento traumático vivenciado são esperadas em crises emergencias como os desastres ambientais. Contudo, transformam-se em problemas quando não solucionados no seu devido tempo. Um exemplo, conforme Lazán (1989, p. 15) assinala é “’quando uma pessoa não elabora seu Luto oportuna e adequadamente e/ou reage de forma disfuncional diante do trauma e dos sintomas iniciais”, pode-se desenvolver uma crise reativa secundária como o Luto traumático. É comum tragédias ou traumas desencadearem uma tremenda crise pessoal, e esta provocar reações psicossociais. Uma crise é a combinação de duas realidades: um perigo e uma oportunidade. O perigo está quando a pessoa atingida 10 “Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): consiste num tipo de recordação que é melhor definido como revivescência, pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivescência além de recordar as imagens o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com todo o sofrimento que ela causou originalmente. O transtorno então é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento é desencadeante também de alterações neurofisiológicas e mentais”. Disponível em <http://www.psicosite.com.br/tra/ans/estrespos.htm>. Acesso em 20 Jun. 2010.
  • 31. pela crise atua de maneira disfuncional diante de sua realidade e a oportunidade está no fato de que a pessoa faz da tragédia pessoal um motivo para amadurecer e crescer em todas as instâncias de sua vida. (LAZÁN, 1989) Percebe-se que a superação de circunstâncias traumáticas ou outras adversidades depende da capacidade de resiliência11 de cada um. Pessoas são diferentes e reagem de formas diferentes em ocorrências similares, “variando de acordo com a estrutura psíquica e espiritual e com as experiências anteriores da pessoa no manejo de crises” (HOCH, 2008, p.145). O paradigma da resiliência parece sugerir que nem todos que experienciam situações traumáticas inevitavelmente apresentam sinais de trauma. Para Parkes (1998): As diferenças entre Estresse pós-traumático e o pesar por Luto, visto como reação psicológica a um evento traumático importante, são claras [...]. O Luto é, afinal, uma resposta normal para um estresse que, embora raro na vida de cada um de nós, será vivido pela maioria, mais cedo ou mais tarde, sem que seja considerado uma doença mental. (PARKES,1998, p.21;20) Nos parágrafos subseqüentes, consideraremos a acentuada relação existente entre o Luto por morte de alguém importante e o que acontece no psiquismo de pessoas que sofreram perdas em sua história de vida, que se ligam a reações sintomáticas que os levam ao adoecimento físico. 11 Resiliência “é a capacidade para desenvolver-se bem, para continuar projetando-se no futuro apesar dos acontecimentos desestabilizadores, de condições de vida difíceis e de traumas às vezes graves. É a capacidade humana universal de lidar e superá-la, aprender ou mesmo ser transformado com a adversidade inevitável da vida”. (ROCCA, 2007, p.10).
  • 32. 2.5. Luto e Saúde Integral: emocional e física Dê palavras à sua tristeza; a dor que não fala sussurra para o coração, e pede para ele rachar. Shakespeare Macbeth, IV, 3, 208 Vários estudos têm averiguado a relação entre Luto e o surgimento de doenças e morte em pessoas enlutadas. Há evidência que sentimentos reprimidos, como a raiva, podem ser causadores de doenças psicossomáticas. A raiva desencadeia um fluxo de energia pelo corpo. Porque a consideramos não autorizada a ser sentida e expressa, nós a negamos e recalcamos, o que pode gerar adoecimento. A raiva é um elemento comum no processo de Luto. Ganhamos muito quando identificamos a raiva e, depois, a expressamos verbalmente e adequadamente no trabalho de elaboração da perda. (POUJOL & POUJOL, 2006). Em uma pesquisa com o propósito de analisar 4.486 viúvos com 55 anos ou mais durante os seis primeiros meses após o Luto foi descoberta uma taxa de mortalidade superior à esperada. Em pesquisas recentes constataram-se vários fatores associados com o acréscimo na taxa de mortalidade entre enlutados. Uma nova descoberta explica o mecanismo fisiológico por trás da suscetibilidade dos enlutados: uma supressão do estímulo dos linfócitos – significando uma diminuição na eficácia do sistema imunológico – entre homens enlutados principalmente. Uma vez que a AIDS atinge o sistema imunológico, pessoas com AIDS são mais vulneráveis aos efeitos do Luto. (GREENBERG, 2002; PARKES, 1998). “Atualmente, estudos demonstram que interações entre emoções e coração têm correspondentes bioquímicos bem definidos”. (OLIVEIRA, LUZ, 2002 Apud RUSCHEL, 2006. p.17). Parkes (1998) e colegas, concluíram que a doença que provocava o maior número de mortes entre viúvos era a doença cardíaca. Muitas são as causas e origens das doenças cardiovasculares. Alguns dos múltiplos fatores de risco são: colesterol elevado, pressão alta, fumo, hereditariedade, diabetes mellitus, obesidade, sedentarismo e tensão psicológica ou estresse. Dentre os aspectos estressantes relacionados com doenças coronárias, figura-se o Luto.
  • 33. Observa-se que eventos como a morte de um familiar, insatisfação pessoal, profissional e outros, sejam responsáveis por crises de angina ou infarto. A falta de preparo psicológico para elaborar frustrações e perdas, provavelmente, influencia também para tornar o indivíduo propenso à doença coronariana ou infarto, principalmente se for organicamente predisposto ou se apresentar fatores de risco. (CAMPOS, 1992; et. al Apud RUSCHEL, 2006). Parkes (1998, p. 34) faz menção a uma citação bíblica, que segundo ele, provavelmente, é a origem da expressão “coração partido”. “Consertem o ´coração partido´, disse Isaías e, a partir daí, parece ter persistido a idéia de que um Luto grave pode danificar de alguma forma o coração.” Alguns autores asseveram que as crises psicossociais e doença estão coligadas: Nem sempre é a partir da doença orgânica que surgem conflitos internos e crises emocionais as quais, juntamente com outros aspectos, caracterizam o quadro de uma doença. Muitas vezes, são conflitos emocionais que vão deteriorar a resistência interna no indivíduo, ou seja, a capacidade de autodefesa frente ao adoecimento, criando condições que facilitem a instalação e/ou o surgimento da doença orgânica. O adoecer tem implicações no organismo e no psiquismo do indivíduo. Quando existem distúrbios psíquicos, pode haver alteração no curso da doença influindo, inclusive, no índice de morbidade e de mortalidade. Para o paciente coronariano, os fatores internos e externos geradores de estresse emocional são fatores determinantes da doença. (GIANNOTTI, 1998; CÔRTE, 1998; OLIVEIRA, 1995 et. al Apud RUSCHEL, 2006. p.17-18) Embora sejam as mulheres que mostrem mais problemas psicológicos na experiência de Luto, são os homens que apresentam maior incidência de morte de ataque cardíaco após óbito do cônjuge, possivelmente, porque são os homens que têm maior dificuldade de expressar os sentimentos e de buscar ajuda. (PARKES, 1998; WORDEN, 1998). A literatura não deixa dúvida de que o Luto é um dos agentes estressores que provocam males físicos. O termo estresse foi introduzido na medicina sendo definido como “um conjunto de reações que um organismo desenvolve ao ser submetido a uma situação que exige esforço para adaptação”. (CAMPOS, 1992 apud RUSCHEL, 2006). Como já foi referido, a reação ao estresse, implica em abundantes mudanças em nosso corpo e essas mudanças muitas vezes levam a interpretações emocionais, o que fica evidenciado pelo nosso uso de expressões como mãos geladas. Ficamos com as mãos geladas quando estressados porque há uma constrição de vasos sanguíneos nos braços e pernas. Quando estressados,
  • 34. podemos sentir o corpo todo rígido. Claro que sim! Isso ocorre porque a tensão muscular aumenta. (GREENBERG, 2002. p.28) D´Assumpção (2003) menciona que há diversos estudos que apontam uma estreita relação entre o sofrimento por perdas importantes e o aparecimento do câncer. O autor salienta que, embora essa ligação seja ainda bastante questionada, quem lida com pessoas que passam por perdas sabe que isso é bastante comum. Citamos um estudo de Lindemaan (Apud GREENBERG, 2002) que objetivou avaliar reações ao Luto, onde ele relata que 33 de 41 pacientes com úlcera “desenvolveram a doença em relação direta com a perda de uma pessoa importante.”(p.43). Embora seja difícil relacionar um evento causal e um sintoma especial que se segue a ele, o Luto pode ser considerado como circunstância precipitadora de doenças pré-existentes. As doenças caracterizam-se pelo desconforto e pela alteração de função que causam. O Luto causa desconforto e altera as funções. (PARKES, 1998). Muitas doenças físicas e mentais têm sido imputadas à experiência de perda. Pouco se conhece sobre as causas das doenças mentais, exceto no caso do estresse pós-traumático. Este se denuncia por um conjunto de sintomas que normalmente aparece quando a pessoa sofre sérias ameaças à sua vida ou assiste cenas aterrorizantes. Os psiquiatras passaram a entendê-lo como um diagnóstico clínico após tê-lo considerado responsável por muitas das doenças encontradas nos veteranos de guerra. Suas características são as lembranças apavorantes, vívidas que dão à pessoa a impressão de estar vivendo o trauma repetidas vezes. Segundo Parkes (1998), só existem dois distúrbios psiquiátricos funcionais onde a causa é conhecida, bem definida e possui curso, na maioria das vezes, previsível: Transtorno de Estresse Pós-Traumático e Luto. O autor diz que: [...] entre as muitas doenças mentais que podem ser provocadas pelo Luto, as mais freqüentes tendem a envolver formas atípicas de pesar embora difiram em intensidade e duração das reações mais comuns do Luto, com aspectos que podem ser exagerados ou distorcidos, e não diferem quanto ao tipo. Não há sintomas que sejam peculiares ao Luto patológico, ainda que pareça razoável considerar expressões extremas de culpa, sintomas de identificação e adiamento do início do Luto por período superior a duas semanas, como sendo indicadores de que a reação à perda poderá tomar um curso patológico. (PARKES, 1998, p.143). Parkes (1998) relata que pesquisas de colegas com pessoas com queixas de saúde, tais como, glaucoma do ângulo fechado, câncer, distúrbios
  • 35. cardiovasculasres, lúpus eritematoso disseminado, tireotoxicose, anemia perniciosa, pneumonia, artrite reumatóide, tuberculose e colite ulcerativa; apresentavam alto índice de perdas em suas histórias de vida. O autor segue falando que em outra pesquisa com 72 viúvas entrevistadas após 2 anos de Luto; 43% queixavam-se que sua saúde geral piorou após o Luto. Ele ainda cita outra pesquisa onde foi bastante grande o número de queixas associadas ao Luto: dores de cabeça, problemas digestivos, reumatismo e asma. O autor complementa dizendo que em suas próprias pesquisas evidenciou-se que viúvas recém-enlutadas vão ao clínico geral num intervalo menor do que o faziam antes do Luto. A maior freqüência ao clínico deu-se por ansiedade, depressão, insônia e outros sintomas psicológicos, que eram visivelmente atribuíveis ao Luto. Por fim, mencionamos ainda a pesquisa feita por Madison et. al (Apud PARKES, 1998) com viúvas com idade inferior a 60 anos, que configurou traços típicos do Luto. Alguns dos sintomas encontrados foram: depressão, pânico, insônia, perda de apetite, peso e fadiga. Subsequentemente, Parkes (1998) e companheiros confirmaram essas pesquisas de Madison na Escola de Medicina de Harvard. Parece evidente que as reações ao Luto podem repercutir na saúde de uma forma ou de outra, apesar de não se poder afirmar dogmaticamente que este é, isoladamente, o causador de algumas enfermidades em pessoas enlutadas. Convém ressaltar que a maioria das pesquisas não apresenta resultados conclusivos e é necessário que se faça mais pesquisas na tentativa de estabelecer a cadeia de causas. O que se pode afirmar é que nas evidências cuidadosamente coletadas em várias pesquisas realizadas por Parkes, foi possível estabelecer com precisão a relação entre um sistema orgânico específico e o Luto, e essa correlação ocorreu com o sistema cardiovascular. (PARKES, 1998). Diante do exposto neste trabalho até aqui, onde investigamos algumas reações, sentimentos, comportamentos e sintomatizações, face ao processo de adultos em situação de enlutamento, apresentaremos no próximo capítulo, os elementos que deverão compor uma prática eficiente do aconselhamento para com os aconselhandos adultos em tal situação.
  • 36. 3. PRÁTICAS DE ACONSELHAMENTO PARA ADULTOS ENLUTADOS Não há nada mais importante na vida do que colaborar com Deus na reconstrução de uma vida destruída. Alguns chamam isso de aconselhamento. Eu chamo de ministério, e tem sido sempre um trabalho de equipe que envolve três pessoas: Deus, o indivíduo necessitado, e eu. Richard Exceley A morte de uma pessoa amada, como já vimos, provoca uma ampla gama de reações que são naturais e esperadas após uma perda significativa. Observa-se que com frequência as pessoas conseguem suportar uma situação de vida a qual precisam adaptar-se e, salvo em períodos temporários de tensão ou crise incomuns, têm os recursos adequados para superá-la. No entanto, algumas apresentam dificuldades em lidar com seus sentimentos em relação à perda e, por isso não são capazes de passar pelas tarefas de Luto por si mesmas, completando-as satisfatoriamente. Nestes casos, o aconselhamento é recomendável para ajudá-las a resolver seu Luto de forma mais eficaz. Parece que o aconselhamento pode ajudar na prevenção de desenvolvimento de problemas mais sérios no processo de Luto. Hurding (1995, p. 36) visualiza o aconselhamento dentro de uma perspectiva ampla quando o define como sendo: “uma atividade com o objetivo de ajudar aos outros em todo e qualquer aspecto da vida, dentro de um relacionamento de ajuda.” E Collins (1992, p. 12) entende que um dos objetivos do aconselhamento é: [...] “prover encorajamento e orientação para aqueles que tenham perdido alguém querido ou esteja sofrendo uma decepção [...].” Schipani (2004) em suas pesquisas e trabalhos na área do cuidado pastoral explora a natureza da teologia prática do aconselhamento pastoral 12. Para este autor a igreja cristã precisa resgatar o papel essencial do aconselhamento pastoral na vida das comunidades de fé. O referido autor enfatiza a singularidade da função dos pastores como sábios cuidadores do Reino de Deus e recomenda que pastores e outros cuidadores 12 O aconselhamento pastoral costuma ser visto como uma dimensão especializada do cuidado pastoral que se utiliza de variados métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as pessoas a lidar com seus problemas e crises conduzindo-as ao crescimento de forma holística. Clinebell (2007). Sua singularidade consiste: pastores treinados são capacitados a integrar insights dos métodos psicoterapêuticos, “por um lado, com os recursos das tradições judaico-cristãs e os recursos de comunidades de fé, por outro”. Clinebell (apud SCHIPANI, 2004, p. 15).
  • 37. aconselhem aqueles que passam pelo Luto. “Na verdade são chamados a fazer tal aconselhamento não como profissionais da saúde mental no sentido psiquiátrico 13, mas como ministros do evangelho e representantes dignos do Cristo cura d´almas.” (SCHIPANI, 2004, p. 73). O mesmo autor defende que o aconselhamento pastoral deve ser considerado a partir de uma perspectiva teológica como ministério da igreja para ser um sacramento14 vivo do reino e da sabedoria de Deus. Nessa linha de raciocínio Collins (2004) profere que a igreja tem a seu cargo o cuidado pastoral uma vez que as escrituras pronunciam que os cristãos devem carregar as cargas uns dos outros: “o aconselhamento pastoral pode e deveria ser um ministério exercido por cristãos sensíveis e zelosos, tenham eles sido, ou não, ordenados ao pastorado.”(p.15). Clinebell (2007) fazendo eco com Collins (2004), expressa esse mesmo argumento ao ver a Igreja como uma comunidade terapêutica: “membros da igreja de um modo geral e a equipe poimênica15 leiga em particular deveriam estar orientados para atuar como extensão sucedânea da família para aqueles que carecem de um sistema de apoio, oferecendo-lhes quaisquer ajuda prática e apoio emocional que necessitem.” (CLINEBELL, 2007, p. 217). 13 Schipani (2004) não aprova o modelo médico/psiquiátrico que trata o aconselhamento pastoral como um ramo da indústria psicoterápica ou das profissões da saúde mental. Sua concepção de aconselhamento pastoral consiste em integrar perspectivas e contribuições psicológicas e teológicas no sentido de aprender uma com a outra aumentando ao máximo o potencial de complementaridade entre cada disciplina, mas mantendo a integridade distinta de cada uma. 14 “Uso aqui o termo sacramento intencionalmente com o sentido triplo de sinal, símbolo e instrumento da graça [...] a igreja é chamada a ser um frutífero instrumento da graça, meio e agente da sabedoria alternativa de Deus no mundo e em benefício do mundo” (SCHIPANI, 2004, p. 78). 15 “Poimênica deriva da palavra grega poimen (pastor) e que também é uma disciplina da teologia prática, voltada principalmente para o aconselhamento pastoral.” “Pode incluir as atividades da igreja dirigidas para manter e restaurar a saúde e integralidade de indivíduos e comunidades no contexto dos propósitos redentores de Deus para toda a criação.” (Schipani, 2004, p.7,15 – notas explicativas).
  • 38. 3.1. A ajuda que o conselheiro pode prestar aos enlutados Existem muitas evidencias de que os seres humanos, de todas as idades, serão mais felizes e mais capazes de desenvolver seus talentos quando estiverem seguros de que, por trás deles, existe uma pessoa ou mais pessoas que virão em sua ajuda caso surjam dificuldades. John Bowlby Várias são as fontes de ajuda que uma pessoa que passa pelo Luto pode receber. Parkes (1998) realça que nossa primeira fonte de apoio é nossa família, depois os amigos, médicos e os religiosos. Parkes (1998) também destaca que estas duas últimas classes de pessoas têm recebido pouco treinamento para prestarem apoio às pessoas que estão morrendo, e aos enlutados. É essencial que o Conselheiro ou a pessoa que se propõe a acompanhar enlutados compreenda o impacto que perdas significativas provocam nos indivíduos enlutados, em seu sistema familiar e em suas outras interações. Sabendo avaliar adequadamente o impacto o conselheiro poderá ser um instrumento útil para identificar as medidas de intervenção que serão propostas. Alguns enlutados carecerão de maior atenção e apoio social de suas comunidades de pertença. Espera-se da figura de cuidado que ela seja capaz de distinguir formas sadias das formas doentias de expressão do Luto e faça o encaminhamento para pessoas especializadas no assunto, quando for o caso. (HOCH, 2008). O conhecimento dos fatores determinantes do Luto pode ajudar o Conselheiro a identificar as pessoas enlutadas as quais seria apropriado oferecer aconselhamento ou outras formas de ajuda para o período do Luto. (PARKES, 1998). Nota-se que nesse processo de reconhecer as pessoas que tendem a reagir mal ao enlutamento, é importante o papel do pastor como conselheiro para que as pessoas recebam a ajuda que necessitam. Percebe-se que é vital que o agente de pastoral saiba ajudar as famílias enlutadas de sua congregação a elaborar as tarefas de Luto. Clinebell (2007) nos testemunha o quanto foi prejudicial seu pastor não ter sabido ajudar sua família elaborar a perda de sua irmã mais nova: A morte de minha irmã mais nova, Rute, em seu primeiro aniversário, quando eu tinha quatro anos e meio, lançou uma sombra profunda sobre a nossa família. Todos nós pagamos um preço alto por não saber como experimentar a cura do nosso pesar. Mais de trinta anos de vivacidade reduzida, de acossamento crônico e de depressão periódica em minha vida,
  • 39. foi o que veio após a morte de Rute, até que minha ferida de pesar, infectada, porém oculta, veio a ser lancetada em minha terapia, de modo que pudesse sarar. Se nosso pastor tivesse sabido ajudar nossa família a expressar e resolver nossos devastadores sentimentos de perda e culpa, todos nós poderíamos ter sido poupados de anos de sofrimento desnecessário e de integralidade diminuída. (CLINEBELL, 2007, p.212) Um conselheiro pode prestar ajuda de diversas formas: - Colocar-se a disposição após o sepultamento para dar apoio e atenção é uma atitude esperada de um conselheiro pastoral. Parkes (1998) considera de grande valia uma visita residencial de um cuidador na hora certa, sendo recomendável não fazer a visita antes das primeiras 24 horas, porque os enlutados estão naquele estado de dormência característico sem condições de avaliar seu estado de confusão. Para Clinebell (2007, p. 216) “é crucial que o apoio assistencial à família continue durante as semanas e meses após o funeral. Muitas pessoas não se dão conta de que os enlutados continuam precisando de apoio especial durante o longo processo de assimilação da perda.” - O conselheiro pastoral deve estar preparado para mostrar sua aceitação às manifestações de raiva contra Deus que são naturais nesta hora. Tentar abafar as emoções dos enlutados com dogmas e sermões exuberantes não ajudará em nada. Por outro lado, quem busca ajuda de um conselheiro pastoral espera encontrar uma resposta religiosa para seus problemas. O indicado é que os conselheiros pastorais ofereçam as respostas para as quais estejam qualificados sem menosprezar a importância delas. (PARKES, 1998). - Providenciando ajuda prática. Após o funeral é necessário que a família enlutada receba ajuda nas questões práticas, como: fazer comida, serviços domésticos, cuidar dos papéis, etc. O conselheiro ou outro agente de poimênica podem ser útil ao assumirem muitos dos papéis, tarefas e responsabilidades costumeiros do enlutado, deixando-o livre para vivenciar seu Luto. Parkes (1998) considera que demonstrações de afetividade nesta hora são menos importantes do que mostrar-se presente e prestar apoio prático: “A verdadeira ajuda consiste em permitir que o enlutado fique disponível para elaborar sua perda.” (PARKES, 1998, p. 205). - O conselheiro pode ser útil para orientar a pessoa enlutada a postergar por alguns meses decisões importantes, como: venda de um bem ou mudanças de casa ou emprego. (COLLINS, 2004).
  • 40. - Compete ao conselheiro ajudar a pessoa enlutada a entender a realidade da perda para que consiga aceitar o fato. Também faz parte de sua função estimular a manifestação de suas emoções, acolher, aceitar que, provisoriamente, é o substituto da pessoa amada. Para tal, deve estar apto a dar conforto e ajudar o enlutado a resgatar as esperanças, a fim de ajudá-lo a resolver os conflitos de separação do ente querido e facilitar a tarefa de elaboração do Luto. (FREITAS, 2000). O conselheiro que gastar seu tempo permitindo ao enlutado “falar sobre seus sentimentos e temores estará dando uma nova dimensão ao aconselhamento e maior profundidade à sua relação com essa pessoa”. (PARKES, 1998, p. 222). - O sistema de apoio dos enlutados tende a diminuir quando seus amigos se afastam por não saberem o que fazer e temerem piorar as coisas. (PARKES, 1998). Esta é uma boa oportunidade para o conselheiro mostrar-se solidário oferecendo apoio e encorajamento. - O agente de poimênica deve tomar cuidado para que a pessoa em Luto não seja estimulada a uma dependência doentia, escondendo-se da realidade e negando o que lhe aconteceu. Um dos alvos a ser estabelecido pelo conselheiro para ajudar o aconselhando a resolver sua perda é mostrar-lhe como ativar recursos disponíveis tanto internos quanto externos para que consiga lidar de forma saudável com a crise da perda e suas ramificações nos níveis pessoais e familiar. (CLINEBELL, 2007). Com o tempo, devido a atenção e apoio da família, dos amigos e de sua comunidade de fé, a pessoa conseguirá completar o processo de Luto e voltar a sua vida normal. 3.2. Processos terapêuticos e procedimentos de ajuda “O amor é incomparavelmente o maior agente terapêutico” Gordon Allport O autor dessa epígrafe, segundo Collins (2004, p.21), sugeriu que o conselheiro secular não pode prover o amor que, muitas vezes, o aconselhando necessita. O amor é “algo que a psiquiatria profissional não pode criar por si mesma, nem focalizar, nem liberar”. Collins (2004) acresce que o autor da epígrafe
  • 41. questiona: seria plausível o cristianismo oferecer uma abordagem fundamentada na base do amor e, portanto poder auxiliar onde o aconselhamento não-cristão falha? Collins (2004) dá a entender que para algumas pessoas o amor não é suficiente, demandam mais ajuda, tornando significante considerar outras influências terapêuticas. “O ajudador cristão eficiente mostra amor. Isto é básico, fundamental. Mas ele ou ela também busca desenvolver qualificações terapêuticas e tenta tornar- se perito no conhecimento das técnicas fundamentais de aconselhamento.” (COLLINS, 2004, p. 21) É indispensável que aqueles que se propõem a oferecer uma relação de ajuda saibam amparar eficazmente pessoas em situação de crise. Elencamos alguns procedimentos de ajuda terapêutica (processos de aconselhamento) como propostas para que os agentes de poimênica possam prestar ajuda aos enlutados (LAZÁN, 1989): 1) Oferecendo uma escuta empática: A pessoa enlutada precisa sentir-se ouvida e compreendida. Pode-se chamar de escuta empática quando nos colocamos na “pele do outro”, para perceber o mundo como a pessoa que sofreu a perda o percebe. Escutar empaticamente significa estar com ela em sua dor, captar as palavras, os gestos, o tom de voz, a postura, o rosto, etc. É servir de espelho para que seus pensamentos e sentimentos possam ser refletidos. Não é recomendável dizer à pessoa que está de Luto que a entendemos, se não mostrarmos isso pela nossa forma de ouvi-la. Observa-se que em momentos de dor o que mais desejamos é uma presença de amor e acolhimento de nosso sofrimento. Os estudiosos do Luto sugerem que a perda e a dor, primeiramente, sejam reconhecidas e só depois seja feita alguma tentativa em prol de suavizá-la. Portanto, a escuta empática exige de nós que seguremos o nosso desejo de: ordenar; dar conselhos; dirigir; dar soluções; impor; julgar; mandar; criticar; admoestar; culpar; advertir; rotular; ameaçar; dar sermão; interpretar; moralizar; psicoanalisar; espiritualizar; etc. (LAZÁN, 1989). 2) Facilitando a catarse: A escuta empática favorece a catarse que é a exposição dos sentimentos reprimidos. Os condicionamentos sócio-culturais tendem a prejudicar a expressão
  • 42. dos sentimentos, tornando possível àqueles que o refreiam a desenvolverem uma crise secundária pós-Luto. (LAZÁN, 1989). Não tenha medo de falar com a pessoa afetada acerca de suas emoções: se elas forem elaboradas e resolvidas, não haverá problemas. Se isso não foi feito, a pessoa já se encontra com vários meses de atraso no processo de elaboração do Luto, e a melhor terapia possível nesse momento é justamente começar a falar sobre essas perdas. (LAZÁN, 1989, p. 26). Incentive-a a falar, “falar é o melhor remédio”. (BURNS, 2005, p.36). Falar ajuda a aceitar a realidade da perda. Falar tende a evitar sintomatizações. “Quando a boca cala o corpo fala (surgem os sintomas) e quando a boca fala o corpo sara” (informação verbal)16. 3) Ajudando na ampliação perceptual: Uma técnica terapêutica de intervenção importante é facilitar a percepção do indivíduo enlutado de que seus sintomas e reações iniciais são normais e naturais. Tranquilizar a pessoa esclarecendo que ela é normal tendo reações normais. “Uma das melhores formas de ajudar uma pessoa que sofreu perdas é ensinar-lhe o que foi dito até aqui: o processo normal, natural e necessário do luto.” (LAZÁN, 1989, p. 27). 4) Enfrentamento da questão do suicídio17: A possibilidade de suicídio é comum em situação de grandes perdas, como acontecem nas tragédias de grandes proporções. É preciso abordar a questão de forma aberta e honesta quando se percebe a fixação da idéia. O cuidador não deve recear fazer perguntas diretas ao enlutado a respeito de qualquer tentativa de suicídio, como por exemplo, perguntar-lhe: “você tem se sentido tão mal que chegou a pensar em se matar?”. Pessoas que correm esse risco devem ser encaminhadas a um psiquiatra. (PARKES, 1998). Entre os fatores de risco que tendem ao suicídio estão: insônia crônica; ter visões ou ouvir vozes que lhe dão ordens; sofrer perdas múltiplas dos únicos entes queridos, várias ameaças de suicídio, história prévia de tentativa de suicídio pessoal ou de familiares, alcoolismo ou abuso de drogas, etc. Merece atenção também 16 Frase citada pela Profª Fátima Fontes em sala de aula no curso de pós-graduação em Aconselhamento, Faculdade Teológica Batista de São Paulo, ano 2009-2010. 17 Nota da autora: a questão do suicídio não está dentro do foco que demos ao nosso trabalho, mas achamos importante pontuarmos essas poucas instruções de aconselhamento caso seja diagnosticado um potencial suicida no enlutado.
  • 43. atitudes suspeitas, tais como: deixar organizados seus futuros assuntos pessoais, aparentar estar se preparando para uma longa viagem ou uma repentina serenidade inexplicada etc. (LAZÁN, 1989). 5) Encaminhamento oportuno: O Conselheiro deve estar alinhado com o tratamento em rede. Principalmente no caso de trauma psicossocial não pode haver uma intervenção sem a rede social. Quando a severidade do evento é grande é preciso a ajuda de profissional adequado como: assistente social, psicólogo ou psiquiatra. “Isto não significa loucura ou fragilidade, mas indica simplesmente que a reação ao evento foi tão forte que a pessoa não pode controlar-se sozinha e pode contar com a ajuda para isso.“ (BURNS, 2005, p.35). O conselheiro ou outro ajudador deve ter acesso às informações necessárias para que possa fazer esses encaminhamentos de forma adequada e corretamente. Os enlutados que merecem atenção especial são aqueles “totalmente incapazes de expressar qualquer forma de Luto; manifestações histéricas ou por demais demoradas de Luto; isolamento total e prolongado do enlutado (indício de depressão); tentativas de suicídio; abandono do trabalho e do contato com amigos.” (LAZÁN, 1989, HOCH, 2008, p.71). 6) Ter e comunicar fé: A fé é um excelente agente terapêutico: a fé em Deus, no futuro e na capacidade da pessoa enlutada de superar suas dificuldades e avançar para novos investimentos. (LAZÁN, 1989). O agente de pastoral ou outra pessoa que, em nome da comunidade cristã, trabalha com enlutados têm na fé cristã, na Bíblia e na oração uma fonte inestimável de recursos para auxiliar pessoas enlutadas. Assuntos como “sofrimento”, “lágrimas”, “pranto”, “lamentação” etc, são corriqueiros nas páginas da Bíblia. Cabe ao cuidador saber valer dos textos bíblicos para transmitir o conforto que eles proporcionam, de forma eficaz e imbuída do espírito que lhes são devidos. (HOCH, 2008). 7) Ajudas adicionais:
  • 44. No Brasil há organizações que lidam com as questões de perda, que prestam ajuda e oferecem treinamento para aqueles que desejam trabalhar com pessoas em situação de Luto: Rede SOS Global – tem como missão enviar ajuda integral na forma de socorro médico, técnico, alimentar, psicológico e espiritual, no prazo mais curto possível, a partir da Igreja brasileira, para os locais onde acontecem catástrofes de desastres naturais e, ou humanos (guerra), em qualquer parte do mundo, com grande número de vítimas necessitando de ajuda emergencial. Site: http://www.sosglobal.org.br/ Eirene do Brasil – É uma associação internacional, de raízes Latino- americanas, sem fins lucrativos, de profissionais cristãos que trabalham em favor do desenvolvimento, fortalecimento e defesa da saúde integral da família no Brasil, na América Latina e no mundo. Site: http://www.eirene.com.br/quemsomos.html Instituto Quatro estações – um grupo de profissionais de Psicologia que criou uma proposta de atuação em serviços para perdas e Luto, a partir da experiência junto a pessoas que passam ou passaram por situações de luto em sua vida pessoal ou profissional. Site: http://www.4estacoes.com/quemsomos.asp LELU– laboratório de estudos e intervenções sobre o Luto da PUC-SP. Site: http://www4.pucsp.br/clinica/servicos/lelu.htm SOTAMIG – Sociedade de Tanatologia de Minas Gerais. Site: http://www.sotamig.com.br/ 3.3. Os benefícios de grupos de apoio aos enlutados Não havendo sábia direção, cai o povo; Mas na multidão de conselheiros há segurança. Provérbios 11:14 O aconselhamento em grupo também é recomendado para os casos de Luto. A troca de vivências nos grupos justifica sua importância. Dentre os casos que se beneficiam de aconselhamento em grupo, pode-se mencionar: situações de
  • 45. emergências (psicossocial), crise do Luto, depressões reativas, desajustes emocionais, etc. O aconselhamento do Luto em grupo é eficaz para poder oferecer o apoio emocional que a pessoa enlutada está buscando. “Os conselheiros podem encaminhar ou coordenar estes grupos de apoio e estimular seu uso.” (WORDEN, (1998, p. 68). Algumas pessoas enlutadas têm dificuldades para aceitar a sugestão para participarem de um grupo de aconselhamento para o Luto. Mas algumas delas podem encontrar bastante benefício nesta experiência quando os primeiros impactos do Luto tiverem passado. (PARKES, 1998). O objetivo principal de um grupo de apoio é ajudar aqueles que apesar da perda escolheram sobreviver. “E é possível distinguir quem fez essa opção pelo simples fato de a pessoa procurar algum tipo de ajuda, em suas perdas. Quem busca ajuda está aberto para recebê-la.” (D´ASSUMPÇÃO, 2003, p. 15) Conforme D´Assumpção (2003), as funções básicas de um grupo de aconselhamento de Luto se orientam por alguns princípios: - um grupo de apoio mútuo deve fornecer a quem está de Luto orientação adequada e prática sobre o processo evolutivo do Luto, mediante palestras, debates, exercícios objetivos. Prover orientação também sobre outras formas de ajuda adequada: espiritual, psicológica, médica e legal. É indispensável que os organizadores estejam munidos das informações que lhes permitam dar as respostas apropriadas, aproveitando todas as oportunidades para ajudar os que necessitam dessa complementação de apoio. - o apoio em grupo é um bom meio para conhecer pessoas com a mesma vivência, colaborando, até mesmo, para que os enlutados não se isolem socialmente. Nele criam-se oportunidades para compartilhar o pesar sem receios, onde os participantes podem constatar que não são os únicos que sofrem e que podem existir dores maiores do que as deles. - Quem está de Luto deve descobrir meios e caminhos para sua recuperação. Um grupo de suporte ao Luto deve ser um lugar adequado para se trocar ideias, sentimentos e emoções. Um lugar ideal para que se possa debater os prós e os contra de algumas mudanças que podem ocorrer num momento de sofrimento.
  • 46. Sobre a organização dos grupos de aconselhamento para o Luto, D ´Assumpção (2003) nos apresenta dois modelos de curto prazo, que segundo sua experiência tem alcançado excelentes resultados. O primeiro modelo é realizado em seis sessões de duas horas cada uma, uma ou duas vezes por semana. E o segundo, com duração de um dia. Este autor considera o primeiro modelo mais eficaz por causa do maior tempo para o trabalho individual, mas afirma que o segundo modelo também consegue ótimos resultados. Assim como no aconselhamento individual, o aconselhamento em grupo deve ser focal, limitado à melhora dos sintomas específicos e dirigidos para o propósito de auxiliar os enlutados a descobrir os seus caminhos. A proposta não é tratar de problemas paralelos, os quais poderão exigir diferentes técnicas e abordagens. Por isso, como já ressaltamos, é importante se ter profissionais de referência para os encaminhamentos necessários. (D´ASSUMPÇÃO, 2003). Há que se tomar cuidado para que o grupo de ajuda mútua não seja dominado pelos membros mais perturbados. Precisa ser conduzido por um líder bem-treinado para que não se torne antiterapêutico. (PARKES, 1998). Os seguintes requisitos para quem deseja trabalhar como coordenador de um grupo de apoio ao Luto são indispensáveis: ter uma boa experiência em conduzir grupos; ter conhecimento sólido sobre Tanatologia e já ter elaborado bem suas próprias perdas. (D´ASSUMPÇÃO, 2003). Os grupos de aconselhamento do Luto oportunizam a formação de novos relacionamentos que podem continuar depois que o grupo termina. Destacando-se como um dos maiores benefícios dos grupos de apoio este é um dos passos importantes no processo de cura como um todo que podemos facilitar por meio de nossos esforços de aconselhamento. (WORDEN, 1998).