O Luto

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O Luto

  1. 1. A VIVÊNCIA DO LUTO NA VIDA ADULTA Morte de um Filho Ana Sofia Costa 21001430 Anabela Pereira 20094184 Gina Santos 20090046 Universidade Lusófona Unidade Curricular: Psicologia Clínica Mestre: Fátima Gameiro 1
  2. 2. Menino da Sua MãeNo plaino abandonado Caiu-lhe da algibeiraQue a morna brisa aquece, A cigarreira breve.De balas trespassado- Dera-lhe a mãe. Está inteiraDuas, de lado a lado-, E boa a cigarreira.Jaz morto, e arrefece. Ele é que já não serve. De outra algibeira, aladaRaia-lhe a farda o sangue. Ponta a roçar o solo,De braços estendidos, A brancura embainhadaAlvo, louro, exangue, De um lenço… deu-lho a criadaFita com olhar langue Velha que o trouxe ao colo.E cego os céus perdidos. Lá longe, em casa, há a prece:Tão jovem! Que jovem era! “Que volte cedo, e bem!”(agora que idade tem?) (Malhas que o Império tece!)Filho único, a mãe lhe dera Jaz morto e apodreceUm nome e o mantivera: O menino da sua mãe.«O menino de sua mãe.» Fernando Pessoa 2
  3. 3. P’ra falar de luto e morteDispensa-se a IntroduçãoTraduzem rutura e corteQue levam à desrazãoO pensamento da morte é para muitos uma obsessão. A morteestá presente como pano de fundo das nossas angústias surdase no entanto, mesmo pensando nela frequentemente nãosabemos o que representa.Na realidade vida e morte são irmãs, são ambas uma realidadede uma única e mesma face. É o que nos mostra a mitologia dahumanidade, onde a deusa da vida é a irmã da rainha dosinfernos na mitologia da Babilónia.A razão principal pela qual o homem se vira para as religiões éprecisamente a angústia da morte. 3
  4. 4. O Luto é preto ou é brancoA cor não está em questãoNão há cor que enxuge o prantoQue inunda o coração A separação definitiva de um ente querido é uma prova avassaladora. As diversas etapas apresentadas pelo luto são reações normais cuja duração varia consoante a vivência do indivíduo e não são obrigatoriamente patológicas. As fases do luto são incontornáveis. Cada um passa por elas de uma forma mais ou menos rápida. O luto pode durar um a dois anos, mas por vezes anos a fio. Tudo depende da vinculação, da história e da capacidade que cada um tem para reagir. 4
  5. 5. O Luto não é NormalNão é justo nem é lógicoÉ um sofrimento brutalMesmo sem ser patológico Os sintomas de um luto normal caracterizam-se por sentimentos de raiva, tristeza, culpa, autorrecriminação, ansiedade, solidão, fadiga, desamparo e choque. Ao nível fisiológico, poderá sentir-se aperto no peito, nó na garganta, vazio no estomago, falta de ar, fraqueza muscular, falta de energia e despersonalização. Mentalmente poderá surgir descrença, confusão, preocupação, sensação da presença da pessoa que morreu podendo mesmo surgir alucinações visuais ou auditivas. No comportamento podem-se verificar distúrbios do sono e do apetite, esquecimento, isolamento, sonhos, suspiros, hiperatividade, choro, visita a lugares especiais, bem como o transporte de um objeto que fomente a criação de memórias. 5
  6. 6. O inicio do luto é o choqueQue nos leva à negaçãoA tristeza e raiva dão o moteP’ro equilíbrio e reorganização Segundo Antunes & Patrocínio (2007), no decurso de luto podem existir as seguintes fases: Fase 1. Choque: caracteriza-se por uma fase muito curta.Anuncia a rutura conduzindo a uma constatação. Aparentemente apessoa fica sem emoção, manifestando sentimentos deincapacidade em conviver com a situação e até mesmo de não sercapaz de lhe sobreviver. Fase 2. Negação: não-aceitação da veracidade da informação,para tal são utilizados inúmeros argumentos e contestações. Arejeição dá lugar a uma discussão intrínseca ou/e extrínseca. Apesarde breve esta fase é de extrema importância, uma vez que algumaspessoas se fecham num estado de recusa que serve como refúgio,nomeadamente preservando intacto o quarto do falecido oucontinuando a colocar o seu prato na mesa. 6
  7. 7.  Fase 3. Tristeza e Raiva: início da adaptação psíquica, aconfrontação com os factos gera uma atitude de revolta, contra opróprio ou contra os outros. Nesta fase a intensidade da raiva e revoltapode ser variável consoante a maturidade efetiva da pessoa, o seupensamento alimenta-se de fortes contradições. A pessoa éconfrontada com um “sem-retorno”, situação que lhe proporcionaráemoções desagradáveis que inevitavelmente irão afetar o seuequilíbrio. Convém salientar que estes sentimentos são naturais e quea melhor forma de os superar é consciencialização da sua existência. Fase 4. Equilíbrio: a ansiedade tende a diminuir quando seadquire suporte emocional e quando se consciencializa a perda. Acompreensão da situação pode aumentar, sendo mais presumível umaadequada adaptação. A perda é aceite e são guardados os bonsmomentos, o indivíduo fica mais confiante em si e vê o futuro commais otimismo. Fase 5. Reorganização emocional: A fragilidade inicialmentedemonstrada dá lugar a um sentimento de capacidade crescente paraenfrentar a situação. Segundo os autores, esta fase varia mediante aintensidade e duração, algumas pessoas não conseguem desfazer-seda fase de negação, originando de forma obsessiva comportamentosdesajustados. Outros ainda, poderão ficar cristalizados na tristeza,deprimindo-se muito para além da morte. 7
  8. 8. Para se superar a dorA melhor medicaçãoÉ o apoio da famíliaE a sua compreensãoAs pessoas em processo de luto não o querem viver, recorrendo amedicação antidepressiva.A existir medicação, esta deverá ser prescrita para curtos períodosde tempo e dirigida para a ansiedade e insónias. A medicação antidepressiva tem consequências negativas, pois oluto tem de ocorrer de forma normal apesar do enorme sofrimentoque possa causar.O efeito da medicação só vai atrasar o processo e fazer com que apessoa não viva cada fase do luto de forma normal, suprimindo avivência das emoções mais negativas, dando a sensação que seestá a chegar à reorganização.Parando a medicação as fases não vividas desencadeiam-se deforma caótica, levando a pessoa a ter de recorrer a apoiopsicoterapêutico que a ajudará reviver assim todas as fases do lutonão vivenciadas 8
  9. 9. Se a perda de interesse e a tristezaVão para além do normalÉ Luto Patológico de certezaPedir ajuda é vital Segundo Rebelo (2006), existem várias formas de viver o luto patológico:  O luto negado através da ausência das emoções normais de tristeza e raiva, onde a pessoa nega a realidade  O luto por reações físicas, quando o enlutado vivencia o mesmo tipo de reações físicas que o falecido sentia, sendo que este comportamento é uma incorporação plena do ente querido  O luto com reações comportamentais desmedidas de angústia e choro compulsivo irreprimível. Podem surgir outros lutos patológicos, manifestados em comportamentos psicóticos, em que o enlutado assume a personagem do morto acreditando ser este, ou sente que está a morrer da mesma forma que o falecido, ou ainda afirma ouvir e ver o falecido constantemente no quotidiano. 9
  10. 10. Tipos de luto patológico (Rebelo,2006): Luto esquizoparanóide, quando existem delírios e alucinaçõesauditivas Luto depressivo, quando se prolongam, para além do normal, ossentimentos de tristeza, insónia, perda de apetite e perda deinteresse Luto obsessivo, quando ocorrem constantemente imagens,pensamentos, causando ansiedade e mal-estar Luto compulsivo, quando a pessoa se recusa a aceitar que ooutro faleceu e está constantemente a ver se este já chegou a casaou por exemplo o que lhe poderia contar assim que este chegasse Luto maníaco, quando se vivencia um humor anormal,persistente e irritável. Pode ocorrer a diminuição da necessidade dedormir e surgir o discurso apressado ou a fuga de ideias.Pode ainda verificar-se o aumento de atividades dirigidas paradeterminado objetivos como por exemplo a igreja e o envolvimentoexcessivo em atividades que possam trazer consequênciasdesagradáveis 10
  11. 11. Quando um filho te agarra a mãoLiga-te de forma sentidaCom amarras do coraçãoQue prendem p’ra toda a vida A palavra vínculo, deriva do latim “vinculum” e significa união, caracterizada como sendo uma ligação duradoura A teoria da vinculação de Bowlby baseia-se numa perspetiva evolucionista, que postula que quando alguém experiencia uma perda significativa, a ansiedade desencadeia um comportamento de cariz instintivo. Esta teoria é baseada na origem e na natureza do amor, em que é estabelecido o vínculo primário na relação entre mãe e filho, cuja função principal, num contexto evolutivo, visa a sobrevivência do indivíduo e acompanha-o desde o nascimento até à morte e resulta da necessidade deste se sentir seguro e protegido Para Bowlby, o que cria os laços afetivos entre os sujeitos, é a familiaridade e a proximidade com as figuras parentais nos primeiros tempos de vida e que são de vital importância para a sua saúde mental futura 11
  12. 12. Mary Ainsworth ao definir os vínculos afetivos como seguros,inseguros e ambivalentes, coloca os laços afetivos como uma formaespecial de vinculação a uma figura, sendo que a separaçãoinexplicável tenderia a causar estresse, e a separação permanentecausaria luto.As formas de vinculação, ou o molde como os laços afetivos sãoformados e mantidos entre pais e filhos podem ser correlacionadoscom comportamentos face à perda na situação de luto. A forma comose rompe o vínculo e os sentimentos vivenciados por rompê-lo, porcerto, está relacionada ao padrão de vínculo do enlutado, assimcomo, ao padrão da relação que essas pessoas tinham antes damorte.A Teoria da Vinculação de Ainsworth e o uso dos padrões de vínculoconcederam um grande avanço ao estudo do rompimento dessemesmo vínculo e à possibilidade de nomear e relacionar sentimentose atitudes relacionados à perda 12
  13. 13. Bowlby considera o luto como um processo adaptativo tanto noshumanos como nos animais, sendo por isso um mecanismouniversal que se encontra em várias espécies.Com base nas pesquisas de Darwin e de Lorenz, Bowlby infere quea procura e o choro são comportamentos adaptativos desenvolvidospara recuperar a figura de vinculação perdida. Como estesmecanismos tiveram sucesso no reencontro com as figuras devínculo, eles perduraram como uma resposta involuntária e natural àprivação.A resposta ao sofrimento oriundo da perda tem uma base biológica eque essa mesma resposta se encontra presente nas mais diversasculturas e espécies apesar de cada indivíduo ter uma formaexclusiva e única de a manifestarO luto caracteriza-se por padrões de comportamento como odesinteresse e o atordoamento, a saudade e a busca da figuraperdida, a desorganização e o desespero e posteriormente umamaior ou menor capacidade de reorganização 13
  14. 14. Diz a psicodinâmicaQue a líbido objetalSofre uma perda tirânicaDo vínculo libidinal A teoria freudiana, do modelo psicodinâmico, explicativa do processo de luto está direcionada para os processos intrapsíquicos, associada à melancolia e ao afeto Apesar de admitir que o luto espoleta sintomas físicos e psicológicos aparentemente nocivos e doentios, insistiu no caráter saudável do mesmo. Descreveu o luto como “um processo emocional normal”, pois o luto efetuado por determinada pessoa, mede o bem-estar que ela nos proporcionava através da vinculação Definiu o luto como uma reação à perda de um ente querido ou à perda de uma abstração que ocupou o lugar desse ente querido, nomeadamente o país, a liberdade ou um ideal 14
  15. 15. Freud caracterizou o luto como um estado depressivo que nãodeve ser considerado como patologia, mas como uma etapa deinibição do Ego que, geralmente se manifesta por um sentimentodoloroso motivado pela reação à perda do objeto libidinoso, atéque em determinado momento, o Ego fique novamente livre edesinibido.Esta etapa é caracterizada pela retirada de toda a libido dasligações com o objeto amado perdido e pela eventualtransferência para outro objeto. Declara que “a perda de um filhoparece produzir uma ferida narcísica”.Esta afirmação é o reconhecimento de que o investimento libidinalno outro é o reflexo do investimento em si mesmo, através dooutro, ou seja, a ferida narcísica representa o reconhecimento deque uma parte de si, investida no outro através da libido objetal seperdeu com a perda do objeto.Uma parte de si, que representa o narcisismo dos pais morrejunto com o objeto amado 15
  16. 16. No adulto já é pesadoSe perder pais ou avósMas morrer um filho amadoTorna o sofrimento atroz O nascimento de um filho não se reduz à conceção, incluem- se também, as motivações conscientes e inconscientes, como o duradouro amor do casal, a continuação geracional e a transmissão dos valores familiares e culturais. Os pais creem que o filho lhes dê continuidade, vendo-o até como uma extensão sua, com comportamentos e projetos semelhantes (Sousa, 2003). A morte de um filho é considerada a pior perda que os pais podem sofrer, na medida em que é uma situação não normativa que vai contra a ordem natural do ciclo vital. Para além de se encerrar uma vida precocemente, é suposto que os filhos morram depois dos seus progenitores, pois só assim poderá existir uma continuidade biológica dos seus pais (Silva, 2009). 16
  17. 17. A morte inesperada de um filho numa etapa precoce do ciclo devida é considerada a mais difícil de ultrapassar, na medida em quedeixa uma lacuna irreparável no núcleo familiar que dificilmenteserá preenchida. Pode despedaçar o equilíbrio da família e deixaros familiares vulneráveis aumentando o risco de dissoluçãoQuando um filho morre durante a vida dos seus pais, o futurointerrompe-se. A morte de um filho acaba com o futuro, quer dofilho, quer dos pais. Quando a vida de um filho é interrompida, ospais são violentamente afetados e sentem que perderam umaparte de si. Perdem perspetivas num futuro em que projetaram osseus sonhos e planos com grande investimento em amor, cuidadoe atençãoOs pais consideram o seu apego à dor como um ato de fidelidadeao filho morto e o ceder ao passar do tempo como umadeslealdade. Alguns pais passam a recear investir afetivamentenos filhos sobrevivos pois têm receio de também os vir a perder, outêm uma reação inversa e passam a superprotegê-los motivadospelo mesmo medo de os perder, experienciando assim,sentimentos ambivalentes 17
  18. 18. A perda de um filho no HomemDevasta e é dolorosoAbala a vida a um jovemDerruba vida ao idoso O impacto da morte de um filho numa pessoa idosa causa, frequentemente, um sentimento de culpa por lhe sobreviver, exacerbado pela dificuldade emocional em encarar a eminência da sua morte. Normalmente, num idoso, ocorrem alguns distúrbios relacionados com o sono, alimentação e manifestações somáticas. É normal sentirem falta de ar, falta de energia, insónia, alucinação e estados de ansiedade. Em fases de relaxamento é normal os pensamentos mais negativos surgirem provocando assim diferentes sensações A dificuldade sentida pelo idoso em viver o processo de luto pode dever-se à incapacidade de falar sobre o que sente e sobre a sua perda. Geralmente estas pessoas poderão não assimilar tão bem a perda como as mais novas, tudo depende da vida e das perdas vivenciadas. O acompanhamento e a amizade das pessoas queridas são fundamentais, pois na vivência do luto o principal tratamento é a presença de pessoas, para que o idoso partilhe o que sente. 18
  19. 19. Ver um filho a definharSó um fio o prende à vidaE não o poder amarrarPara evitar a partidaNo caso de uma doença fatal, o processo de luto dos paisinicia-se no preciso momento em que lhes é comunicado odiagnósticoDurante o luto, os sentimentos de culpa por não terem dado areal importância aos primeiros sintomas da doença, sãorecorrentes, sentindo muitas vezes a necessidade deresponsabilizar terceiros e de se culpabilizarem a si mesmosDurante a fase do luto, muitos pais exacerbam as suascrenças pessoais sobre a morte e aumentam o sentimento dereligiosidade durante a doença e morte, passando a acreditarque irão reencontrar o filho perdido, independentemente dareligião professada. Outros há que se revoltam com a religiãoe passam a nutrir certo ressentimento em relação a Deus,quer rejeitando-o, quer postulando a evidência que Ele nãoexiste 19
  20. 20. A intervenção junto destas famílias deve focar-se primeiramentena sua adaptação e na atribuição de um significado à morte. Estaadaptação é fundamental, por forma a se conseguirem criarestratégias de coping adequadas à família. Nunca se devedescurar a comunicação, seja na fase inicial da descoberta dadoença seja durante todo o processo de luto, esta é fundamentalpara que todos se compreendam, sendo necessário expressarverbalmente as emoçõesPodem ser aplicados dois tipos de intervenção com osprogenitores, intervenção educacional ou de suporte ou umacombinação das duas.Na intervenção da educação deve-se trabalhar o controlo doestresse e as atividades, focando o coping e a resolução deproblemas, educar para o manejo da dor. Na intervenção de suporte deve-se focar como lidar com osproblemas de forma a possibilitar qualidade de vida e um maiorcontrolo quando exista sobrecarga emocional provocadas pelastarefas que competiam a cada um antes do desfecho fatal 20
  21. 21. É um sonho destroçadoP’ró descrever não há vozMorre um filho desejadoE morre muito de nósA perda de uma criança ”in útero” é vivenciada, pela mulher, deigual modo à morte de um ente querido. Esta perda é vividacom grandes dificuldades e com grande sofrimento emocional,sendo necessário efetuar-se reajustes psicológicos, familiares eindividuaisÉ inevitável que, após a morte, se deprima e que se socorra demecanismos de defesa, como o luto normal. Fará forçosamenteo luto desse filho fantasiado que perdeu, revelando a sua dor,angústia e até mesmo o seu sentimento de culpa, pois se naperda do seu objeto amado, o luto estiver ausente será motivode preocupação. Só passando por uma situação de luto amulher poderá voltar a fantasiar e voltar a investir num novoobjeto de apegoNum estudo efetuado em 1987, concluiu-se que o significadoda perda por morte fetal, está correlacionado com desejo damulher em ser mãe e com o número de filhos já existentes. Osestudos efetuados concluíram que as mulheres que cujasgravidezes cessaram por morte fetal deprimiam-se menos, 21durante o luto, se já tivessem filhos vivos
  22. 22. Quando surge um diagnóstico de mal formação ou de morte fetal, épreciso haver uma coesão na intervenção da equipa multidisciplinarpara que o luto não decorra de forma patológica, devendo criar-secondições que proporcionem um lugar calmo e seguro para que ospais tenham a possibilidade de através da escuta empáticaconseguirem projetar tudo o que sentem. Se o problema for umamalformação do feto e for necessário provocar um aborto, é precisoque estes possam exprimir tudo o que pensam e sentem de forma achegarem a uma tomada de decisãoconjunta, consciencializada, autónoma e realística a fim de evitaracusações mútuas numa fase posterior.Deve ser dedicada especial atenção à cultura, raça, religião evalores do casal, pois cada um vive de forma especial o lutoÉ preciso explicar ao casal o processo do luto e as suas fases paraentenderem o que vão passar, bem como ajudá-los a reorganizar asua vida e as suas rotinas, atribuindo-lhes novos significados. Éfundamental restabelecer autonomia e segurança parareencontrarem forças internas para assumirem o controlo eincentiva-los a participar em terapias de grupo 22
  23. 23. Haja alguém que aos pais acudaSe a vida perdeu a chamaNada melhor que a ajudaDe quem viveu igual drama Segundo Melo (2004), existem quatro tarefas essenciais na terapia individual do luto:  Aceitar a realidade da perda, assim a primeira tarefa é encarar que a pessoa morreu e que não irá voltar. Os funerais e os rituais ajudam a encarar a perda.  Trabalhar a dor da perda, dor física, emocional e trabalhar os comportamentos associados à perda.  Ajustar-se a um novo ambiente, funcionamento externo onde as rotinas mudam, ajusta-se internamente onde se dá um novo sentido ao self sem o outro e o ajustamento dos valores, crenças e reflexões sobre o mundo.  Reconciliar-se com a pessoa falecida e prosseguir com a sua vida. 23
  24. 24. Segundo a literatura, a terapia grupal é considerada uma dasmelhores formas de superar a perda.De acordo com Silva (2004), podem existir quatro tipos de grupos: Grupo de tempo limitado em que existe um acompanhamentode 6 a 8 semanas com um número fixo de participantes, sendo,durante este tempo, vedada a entrada de outros elementos nogrupo Grupo de apoio progressivo com encontros semanais ouquinzenais, está sempre preparado para receber outras pessoasque muitas vezes formam laços de amizade muito fortes Grupo de apoio mensal, que aposta na intervençãoeducacional, onde se colocam desafios aos seus elementos erespetivos líderes Grupos de autoajuda, criados por pessoas que já passaram porprocessos de luto e que pretendem com as suas experiênciasajudar os outros. 24
  25. 25. Os grupos de entreajuda são uma forma de proporcionar aos paisenlutados as manifestações de solidariedade que estes muitasvezes procuram. A ajuda de outros através da escuta ativa, permiteaos pais enlutados expressarem o que sentem, terminando com asolidão mental, partilhando sentimentos, dores e experiências,recebendo a ajuda necessária para prosseguirem as suas vidas “A Nossa Âncora”, fundada em 1996, é um grupo de entreajudaportuguês que tem como objetivo ajudar os pais em luto e asfamílias a regressarem a uma vida normal. Propõe-se apoiar ospais enlutados prestando-lhes apoio psicológico, sociológico,médico, psiquiátrico, religioso e jurídico, bem como administrar osrecursos necessários ao cumprimento dos seus objetivos,promover formação pessoal, disponibilizar apoio moral einformativo. Os grupos têm um número limitado de participantes, entre 5 a 12.Se os pais que chegam a esta instituição não estiverem aindapreparados para participar em terapias grupais, receberão ajudaindividual. Esta instituição assenta num conjunto de normas eregras para que tudo corra conforme o esperado 25
  26. 26. A morte de um filho destróiNem merece discussãoÉ uma realidade que dóiE nos retira a razão A morte de alguém, nomeadamente de um filho é um momento forte da vida pessoal, momento de rutura e de desordem que, como nenhum outro deixará marcas indeléveis nos afetos, nas emoções e nas vivências quotidianas As perdas significativas ou traumáticas podem nunca ser totalmente resolvidas. Para além disso, a adaptação não é equivalente a uma resolução no sentido de ultrapassar completamente e de uma vez por todas a perda. O luto e a adaptação não têm um tempo fixo ou uma sequência linear A aceitação partilhada da realidade da morte e experiência partilhada da morte, bem como a reorganização do sistema familiar e reinvestimento noutras relações e no seguimento da vida, são fases fundamentais para promover a coesão e ultrapassar com sucesso a fase do luto, na medida em que partilhar o sofrimento e receber apoio na rede de suporte da comunidade dos sobreviventes, é crucial para uma adaptação bem-sucedida 26
  27. 27. Assim o luto deverá ocorrer de forma normal no tempo, permitindode forma saudável a restruturação do enlutado. O luto não é umadoença. É preciso ter em conta se o enlutado pode ter umapersonalidade que leve ao patológico. É preciso uma avaliação dascircunstâncias em que o luto se torna patologia, é preciso uma boaintervenção por parte de um psicólogo e psiquiatraQuando se tem a capacidade de aceitar a realidade da perda, seencara a forma de ajustamento a um novo ambiente e se encontraum funcionamento externo onde as rotinas mudam, se conseguetrabalhar a dor da perda e existe uma reconciliação com a pessoafalecida, começa a ser possível ao enlutado prosseguir com a suavida de forma normal, pensando no falecido com carinho e semdor.A duração do processo varia mediante cada pessoa e sua formade encarar o luto mediante a vinculação com o falecido. O luto nãoé um processo linear e é possível sofrer uma regressão para fasesanteriores durante o processo, por vezes despoletada porsituações, imagens, entre outros 27
  28. 28. Referencias Freitas, N. K. Luto materno e psicoterapia breve, Editora:Antunes, M. & Patrocínio, C. 2007 A malformação do bebé – Summus Editorial.Lda. São Paulo. Brasil, 2000vivências psicológicas do casal. Psicologia, Saúde & Doença, Hanusm, R., La résilience à quel prix, Paris - Maloine. 2001.2007, 8 (2), 239-252 Millan, S. C. 2005. Interventions to Facilitate Caregiving atBacqué, M.F., 1997 Mourir aujourd’hui. Les nouveaux rites the End of Life. Journal of Palliative Medicine, 8 (1), 132-funéraires. Paris – O.Jacob. 139Bacqué, M.F., Hanusm R., 2000 Le deuil, que sais-je? Paris- Melo, R. (2004) Artigo: Processo de luto, o inevitávelPUF. percurso face a inevitabilidade da morte inBerlinck Revista latino americana Psicop http://groups.ist.utl.pt/unidades/tutorado/files/Luto.pdfBOWLBY, J. Apego e perda: a natureza do vínculo. Tradução North, C.S., Smith E.M., Spitznagel E.L., Post-traumaticde Álvaro Cabral. V. São Paulo: Martins: Martins Fontes, 2002. Stress Disorder in Survivors of a Mass Shooting. AmericanCarreteiro, R. 2004 A morte e o luto quando chega a hora da Journal of Psychiatry.1994.partida. Semanário Vida Ribatejana, 2003 Oliveira, J. & Lopes, R, 2008 O processo de luto no idosoCunha, V. Artigo: A morte do outro. A revista Sociologia, pela morte de cônjuge e filho. Psicologia em Estudo,Problemas e Práticas encontra-se indexada em SciELO, Maringá, v. 13, n. 2, p. 217-221, abr./jun. 2008Revista nº 31 de 1999, pag. 103-128 PARKES, C.M. Luto: Estudos sobre a perda na vida adulta.Cyrulnik, B., Un merveilleuxMalheur. Paris – O. Jacob. 1999. São Paulo: Summus, 1998Debray, Q., Nollet, D., Les Personnalités Pathologiques. PATRÍCIA LUCAS, P. «Querer ser mãe... um longoApproche Cognitive et Thérapeutique. Masson. 1998. caminho a percorrer!». Um caso da consulta GEMF (GrupoFerreira, L. M. Luto por morte perinatal e/ou malformacao do de Estudos de Morte Fetal), Análise Psicológica (1998), 3bebe, in Analise Psicologica. - Vol. 8, nº 4 (1990), p. 399-402 (XVI): 415-421 28
  29. 29. ReferênciasPeixoto, J. E. Morreste-me. 6ª Edição. Temas e Debates. Saldinger, A., Cain A., Kalter, N., Lohnes K. AnticipatingLisboa. 2004 parental death in Families with young children.Rebelo, J. E. Contributos para o estudo do processo do American Journal of Orthopsychiatry. 1999 .luto. Universidade Fernando Pessoa, Porto, 2003 Setúbal, M.S., Barini, R., Zaccaria, R., & Silva, J. (2004).Rebelo, J. E. Importância da entreajuda no apoio a pais Reacções psicológicas diante da gravidez complicadaem luto. Análise Psicológica (2005), 4 (XXIII): 373-380 por uma malformação fetal. Programa de medicina fetal.Rebelo, J. E. Desatar o nó do luto. 2ª Edição. Casa das Departamento de tocoginecologia da faculdade deletras, 2006. ciências médicas. BrasilRodrigues, M. A., Rosa, J., Moura, M. J. e Batista, A. Freud, S. Livro: Luto e Melancolia (1917) vol XIV -(2000). Ajustamento Emocional, Estratégias de Coping e pag269-291., ANO DE EDIÇÃO: 2012, EDIÇÃO: 1ª,Percepção da Doença em Pais de Crianças com Doença Editora: Cosac Naify. São Paulo. Brasildo Foro Oncológico. Psicologia, Saúde e Doenças. 1 (1), Silva, D. R. (2009). Famílias e situações de luto. In61-68 Osório, L. C. & Valle, E. P. (org). Manual de terapiaRolim, L. 2001. Perdas e luto durante a gravidez e o familiar (pp. 376-398). Porto Alegre: Artmedpuerpério. In M. Canavarro (Ed.), Psicologia da gravidez Silva, M. D. F. Processo de luto e educação.e da Maternidade (pp. 255-296). Quarteto Editora. Universidade do Minho, Instituto de Educação eCoimbra Psicologia, Braga, 2004.Rutter M., Resilience in the face of adversity : protective Treichler, M., Psychopatologie et vie Quotidienne:factors and resistance to psychiatric disorders. British Crises et maladies du corps et de l’âme. Aethera, 2005.Journal of Psychiatry. 1985. Walsh, F., Mcgoldrich, M. Morte na Família. Sobrevivendo às perdas. Artmed – Porto Alegre. 1998. 29
  30. 30. OBRIGADA 30

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