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| 24 Maio 2013
Nasceu em Cantanhede, na Rua
AntónioJosédeAlmeida,a2deFeve-
reirode1925.Écomnotórioorgulho
que fala das suas raízes na Gândara,
da sua família, dos exemplos que foi
bebendo de pais e avós. “O meu pai
era um gandarês da Camarneira e a
minha mãe nasceu no Brasil. Chegou
a Cantanhede no dia 5 de Outubro de
1910, com um ano de idade, nos bra-
çosdeminhaavó.Omeuavôtinhaido
para o Brasil com 17 anos, num gru-
poqueiatrabalharparaa‘estradade
ferro’ [caminho-de-ferro], e foi lá que
encontrou a minha avó”, recorda. A
família estabeleceu-se em Cantanhe-
de, uma vila que, ao tempo, oferecia
já algumas comodidades e qualidade
devida:“SempreviCantanhedecomo
uma vila desenvolvida, sobretudo no
aspecto comercial. Os armazéns de
merceariaseramoseupontoforte,om-
breando com os de Coimbra, Figueira
da Foz e Aveiro. Cantanhede foi sem-
pre um centro comercial apreciável”,
garante.
Completou a instrução primária
em Cantanhede, ingressando, de-
pois, no incontornável Colégio In-
fante de Sagres.“Guardo muito boas
memórias desse tempo. Era sobretudo
mariola e era conhecido entre os cole-
gas por algumas brincadeiras”. Mas
nem por isso prejudicou o seu per-
curso escolar, que acabaria por levá-
-lo até Coimbra, ao Liceu D. João
III, a fim de completar os estudos
liceais. “Foi aí que adoeci, que veio à
tona a doença… a tuberculose”. No
dia em que deveria ter feito o exame
jáestavadecamae,poucotempode-
pois,acabou por ter que dar entrada
num sanatório na Serra do Caramu-
lo,local onde passou dois anos – um
período difícil e que muito o mar-
cou. Começava, então, a “campa-
nha do Caramulo”, como foi por si
apelidada no seu livro “Jubilação”.
“Começou, então, a minha cruz. Vi
morrer muitos da minha idade, mais
novos e mais velhos também. Ainda
assim, nunca me convenci que mor-
ria, e por uma vez acertei”, diz.
Ainda em “Jubilação”, Carlos
Miguéis escreve sobre a doença e
a passagem pelo sanatório: “Para
além de ter ‘posto à prova’ – e refor-
çado – aquilo em que eu já acredita-
va, foi uma experiência que marcou,
indelevelmente, o resto da minha
vida. A fé e a esperança nunca me
abandonaram”. Regressou do Ca-
ramulo “com vida e saúde”, cheio de
uma fé renovada, mais forte, e con-
victo de que o mais importante “é
ser fiel a si mesmo”. Foi lá, também,
que escolheu a sua futura profissão.
Decidiu que haveria de ser médico,
e cumpriu.
A amizade do mestre
Cursou Medicina na Universi-
dade de Coimbra,ainda que olhasse
para os estudos “com um olhar um
pouco distante. Não era o que mais
me preocupava na altura… ain-
da pensava muito na tuberculose.
Depois, pouco a pouco, vai-se esque-
cendo”. Fez o curso com alguma fa-
cilidade e, concluída a licenciatura,
era hora de escolher a especialidade:
“Em conversa com o Doutor Carlos
Gonçalves, tisiologista, foi-me sugeri-
da a especialidade de ‘ouvidos, nariz
e garganta’. Depois, em Lisboa, en-
quanto frequentava um curso de Me-
GentedeOuro
Carlos Alberto dos Santos Miguéis nasceu em Cantanhede,
corria o ano de 1925. Foi lá que viveu até completar 17 anos, momento em que
rumou a Coimbra a fim de prosseguir os estudos. É então que acontece algo
que o mudaria para sempre, ajudando a definir o homem em que se tornou e a
forma como decidiu encarar a vida: acometido pela tuberculose, vive dois anos
em “exílio” forçado num sanatório na Serra do Caramulo. Regressa de uma via-
gem que para muitos teve apenas “bilhete de ida” com uma certeza – a de que
havia de ser médico. Otorrinolaringologista e professor catedrático da Faculda-
de de Medicina da Universidade de Coimbra durante décadas, jubilou-se em
1995. Hoje, tem nos livros e na família as suas principais ocupações.
BI
Homem simples, muito
ligado à terra, franco e de
boa-fé. É assim que Carlos
Miguéis se define num
dos livros que escreveu.
Gandarês de gema,
autêntico — tal como seu
pai —, mantém bem fortes
as raízes que o prendem
à terra onde nasceu e que
ainda hoje visita amiúde.
Com apenas 17 anos, com
toda uma vida pela frente
e a coragem para enfrentar
mil obstáculos, viu-se
subjugado pela tuberculose,
peste que tantas vidas
ceifou e que indelevelmente
o marcou. Venceu a
doença e fez-se médico
otorrinolaringologista,
especialidade em que teve
como mestre, em Bordéus,
Georges Portmann, um dos
mais proeminentes clínicos
dessa área.
Renascer
para a Medicina
Filipa do Carmo
filipadocarmo@aurinegra.pt
“Eu tinha um ‘cliente’ que era o Miguel Torga, e foi por ‘culpa’ dele que
comecei a escrever”, revela. Escritor e médico, procurou, um dia, os servi-
ços de Carlos Miguéis: “Consultei-o, operei-o e correu tudo muito bem.
Ficámos amigos, conversávamos muito”, lembra. Numa das muitas oca-
siões em que trocaram impressões e debateram pontos de vista, estava
Miguel Torga internado no IPO de Coimbra, Carlos Miguéis contou ao
amigo que estava a preparar uma palestra sobre vertigem. “’Não fale dis-
so, ninguém sabe nada sobre isso!’, disse-me ele. Expliquei-lhe que era
tema difícil mas que era possível compreender-se, quando se pesquisava
nas fontes certas”.
Depois de proferida a comunicação, Carlos Miguéis levou até Miguel Tor-
ga o seu texto: “Disse-me que finalmente tinha compreendido o assunto
e fez-me prometer que ia publicar o texto. Foi por sugestão do Miguel
Torga que publiquei o meu livro ‘Vertigem’”, partilha. O livro acabaria por
esgotar e a relação entre os dois médicos floresceu: “Ficámos amigos,
uma relação de confiança, sobretudo”.
O “cliente”,
amigo e poeta
Carlos Miguéis aos quatro anos
5
24 Maio 2013 |
dicina Sanitária, encontrei no banco do Hospi-
taldeS.Joséumcolegaotorrinolaringologista,o
Doutor Samuel Ruah, e foi ele que me fez decidir
em definitivo por essa área”.
A inexistência de Serviço de Otorrinola-
ringologia nos Hospitais da Universidade de
Coimbra–aotempohaviaapenasconsulta–fez
com que pensasse no estrangeiro como alter-
nativa. “Por essa altura havia livros da autoria
de Georges Portmann, considerado o ‘papa’ da
otorrino mundial. Era francês e estava em Bor-
déus. Apoiado pelo meu pai decidi escrever para
lá”, conta. Munido da resposta que recebera à
sua missiva e de muita determinação, rumou a
Bordéus.“EraumServiçodeponta,oServiçode
OtorrinolaringologiadaFaculdadedeMedicina
deBordéus…oServiçoPortmann.Eraformidá-
vel!”. Chegou em 1954 e acabaria por ficar seis
anos. Mais do que um mestre, que o “adoptou
como filho espiritual”, ganhou um amigo para a
vida. “Tive o privilégio de o ter como ‘padrinho’
na cerimónia solene de imposição de insígnias
doutorais, em 1967, em Coimbra. Visitava-o
pelomenostrêsvezesporanoeconsiderei-mesem-
preseudiscípulo.Aindahoje,paratodaavida”.
Era chegado o tempo de regressar a Portu-
gal e a Coimbra. Abraçou, então, novos desa-
fios: a tese de doutoramento e,posteriormente,
a docência na Faculdade de Medicina da Uni-
versidade de Coimbra. Foi director de Serviço
de Otorrinolaringologia e presidente da Direc-
ção da Sociedade Portuguesa de Otorrinola-
ringologia (1981-1985), tendo leccionado na
Universidade durante quase três décadas. Ju-
bilou-se em 1995, mantendo a actividade clí-
nica durante alguns anos no seu consultório
de sempre, na Avenida Sá da Bandeira. Leitor
ávido,foi-se dedicando,também,à escrita [ver
caixa]. É pai de sete filhos, quatro dos quais
são médicos otorrinos: “Tiveram pouca ima-
ginação”, brinca. “Não deve haver no mundo
outro caso assim. Não posso dizer que não tive
nada que ver com isso, mas foram eles que esco-
lheram”. Despretensioso e humilde, demons-
tra,aos 88 anos,uma admirável capacidade de
sorrir, um sentido de humor ágil e apurado.
Homem simples, muito ligado à terra (e à sua
terra,Cantanhede),franco e de boa-fé,como o
próprio se caracteriza, venceu a adversidade e
agarrou-se à vida – não como o náufrago que
se debate para não se afogar, mas com a sere-
nidade e tranquilidade de quem tem na fé e na
esperança a sua salvação.
GentedeOuro
Começou, então, a minha cruz. Vi morrer
muitos da minha idade, mais novos e mais
velhos também. Ainda assim, nunca me
convenci que morria, e por uma vez acertei”
“
PUB
Pedro Castelo-Branco, investigador no Hospital “Sick Children” de Toronto,
publicou recentemente na prestigiada revista de oncologia clínica “The Lancet
Oncology” um estudo onde descreve um novo biomarcador de cancro. Este tra-
balho envolveu um grupo de 350 pacientes com tumores cerebrais, oriundos de
múltiplos centros de Investigação Oncológica da Europa e América do Norte.
Pedro Castelo-Branco e seus colegas descrevem que uma determinada área do
genehTERTcontraialteraçõesepigenéticassomenteemtumoresmalignos.Este
biomarcador tem fortes implicações clínicas, tais como o diagnóstico do grau do
tumor separando pacientes de baixo e alto risco, o que permitirá desenhar tera-
pias ajustadas a cada indivíduo. “Por um lado, os pacientes de alto risco poderão
ter terapias mais agressivas, enquanto os de baixo risco poderão ver as suas tera-
pias diminuídas, reduzindo assim efeitos secundários” – confirma o investigador
natural de Covões, Cantanhede.
Estes estudos foram realizados maioritariamente em tumores pediátricos, mas os
autores acreditam ser generalizáveis a tumores de adultos. Já em andamento
está um consórcio internacional que envolve Instituições alemãs, austríacas, ca-
nadianas e portuguesas, e que pretende avaliar o potencial deste biomarcador
no cancro da próstata. Pedro Castelo-Branco licenciou-se em Biologia pela Uni-
versidade de Aveiro e iniciou investigação em França, em 1997. Doutorado pela
UniversidadedeOxford,emInglaterra,estádesde2008emToronto(Canadá),no
departamento de Oncologia do Hospital Pediátrico “Sick Children”.
Decorreu no passado fim-de-semana, nas Piscinas Municipais Rui Abreu (Coim-
bra), a edição de 2013 do Torneio Nadador Completo, competição organizada
pela Associação de Natação de Coimbra e replicada em todas as associações
regionais do País. Este torneio consistiu na realização de cinco provas de 100 m
(nas diversas disciplinas) e uma de 200 estilos, com posterior soma das marcas
obtidas nas referidas provas para elaboração de uma classificação individual. Es-
tiveram em competição 184 nadadores em representação de 13 Clubes, tendo
a Associação de Solidariedade Social Sociedade Columbófila Cantanhedense
marcado presença com 18 atletas. Os destaques individuais deste torneio vão
para os atletas Gabriel Gomes (Infantil A) e Mariana Guerra (Júnior e Absoluto),
que no final da competição venceram o torneio nos seus escalões.
Houve, ainda, outros nadadores da Sociedade Columbófila a atingir lugares de
pódio. No sector feminino, Sara Alves em 2.º lugar (Inf B) e Ana Reis em 3.º (Inf A);
no sector masculino, José Neto obteve o 3.º lugar (Inf A); Diogo Marques e Lean-
droMotaforam2.ºe3.ºrespectivamente(JuvB)eEduardoCarvalheiro3.º(JuvA).
Pedro Castelo-Branco
descobre biomarcador
de cancro
Mariana Guerra e Gabriel Gomes
em destaque no “Nadador Completo”

perfil_carlos_migueis

  • 1.
    4 | 24 Maio2013 Nasceu em Cantanhede, na Rua AntónioJosédeAlmeida,a2deFeve- reirode1925.Écomnotórioorgulho que fala das suas raízes na Gândara, da sua família, dos exemplos que foi bebendo de pais e avós. “O meu pai era um gandarês da Camarneira e a minha mãe nasceu no Brasil. Chegou a Cantanhede no dia 5 de Outubro de 1910, com um ano de idade, nos bra- çosdeminhaavó.Omeuavôtinhaido para o Brasil com 17 anos, num gru- poqueiatrabalharparaa‘estradade ferro’ [caminho-de-ferro], e foi lá que encontrou a minha avó”, recorda. A família estabeleceu-se em Cantanhe- de, uma vila que, ao tempo, oferecia já algumas comodidades e qualidade devida:“SempreviCantanhedecomo uma vila desenvolvida, sobretudo no aspecto comercial. Os armazéns de merceariaseramoseupontoforte,om- breando com os de Coimbra, Figueira da Foz e Aveiro. Cantanhede foi sem- pre um centro comercial apreciável”, garante. Completou a instrução primária em Cantanhede, ingressando, de- pois, no incontornável Colégio In- fante de Sagres.“Guardo muito boas memórias desse tempo. Era sobretudo mariola e era conhecido entre os cole- gas por algumas brincadeiras”. Mas nem por isso prejudicou o seu per- curso escolar, que acabaria por levá- -lo até Coimbra, ao Liceu D. João III, a fim de completar os estudos liceais. “Foi aí que adoeci, que veio à tona a doença… a tuberculose”. No dia em que deveria ter feito o exame jáestavadecamae,poucotempode- pois,acabou por ter que dar entrada num sanatório na Serra do Caramu- lo,local onde passou dois anos – um período difícil e que muito o mar- cou. Começava, então, a “campa- nha do Caramulo”, como foi por si apelidada no seu livro “Jubilação”. “Começou, então, a minha cruz. Vi morrer muitos da minha idade, mais novos e mais velhos também. Ainda assim, nunca me convenci que mor- ria, e por uma vez acertei”, diz. Ainda em “Jubilação”, Carlos Miguéis escreve sobre a doença e a passagem pelo sanatório: “Para além de ter ‘posto à prova’ – e refor- çado – aquilo em que eu já acredita- va, foi uma experiência que marcou, indelevelmente, o resto da minha vida. A fé e a esperança nunca me abandonaram”. Regressou do Ca- ramulo “com vida e saúde”, cheio de uma fé renovada, mais forte, e con- victo de que o mais importante “é ser fiel a si mesmo”. Foi lá, também, que escolheu a sua futura profissão. Decidiu que haveria de ser médico, e cumpriu. A amizade do mestre Cursou Medicina na Universi- dade de Coimbra,ainda que olhasse para os estudos “com um olhar um pouco distante. Não era o que mais me preocupava na altura… ain- da pensava muito na tuberculose. Depois, pouco a pouco, vai-se esque- cendo”. Fez o curso com alguma fa- cilidade e, concluída a licenciatura, era hora de escolher a especialidade: “Em conversa com o Doutor Carlos Gonçalves, tisiologista, foi-me sugeri- da a especialidade de ‘ouvidos, nariz e garganta’. Depois, em Lisboa, en- quanto frequentava um curso de Me- GentedeOuro Carlos Alberto dos Santos Miguéis nasceu em Cantanhede, corria o ano de 1925. Foi lá que viveu até completar 17 anos, momento em que rumou a Coimbra a fim de prosseguir os estudos. É então que acontece algo que o mudaria para sempre, ajudando a definir o homem em que se tornou e a forma como decidiu encarar a vida: acometido pela tuberculose, vive dois anos em “exílio” forçado num sanatório na Serra do Caramulo. Regressa de uma via- gem que para muitos teve apenas “bilhete de ida” com uma certeza – a de que havia de ser médico. Otorrinolaringologista e professor catedrático da Faculda- de de Medicina da Universidade de Coimbra durante décadas, jubilou-se em 1995. Hoje, tem nos livros e na família as suas principais ocupações. BI Homem simples, muito ligado à terra, franco e de boa-fé. É assim que Carlos Miguéis se define num dos livros que escreveu. Gandarês de gema, autêntico — tal como seu pai —, mantém bem fortes as raízes que o prendem à terra onde nasceu e que ainda hoje visita amiúde. Com apenas 17 anos, com toda uma vida pela frente e a coragem para enfrentar mil obstáculos, viu-se subjugado pela tuberculose, peste que tantas vidas ceifou e que indelevelmente o marcou. Venceu a doença e fez-se médico otorrinolaringologista, especialidade em que teve como mestre, em Bordéus, Georges Portmann, um dos mais proeminentes clínicos dessa área. Renascer para a Medicina Filipa do Carmo filipadocarmo@aurinegra.pt “Eu tinha um ‘cliente’ que era o Miguel Torga, e foi por ‘culpa’ dele que comecei a escrever”, revela. Escritor e médico, procurou, um dia, os servi- ços de Carlos Miguéis: “Consultei-o, operei-o e correu tudo muito bem. Ficámos amigos, conversávamos muito”, lembra. Numa das muitas oca- siões em que trocaram impressões e debateram pontos de vista, estava Miguel Torga internado no IPO de Coimbra, Carlos Miguéis contou ao amigo que estava a preparar uma palestra sobre vertigem. “’Não fale dis- so, ninguém sabe nada sobre isso!’, disse-me ele. Expliquei-lhe que era tema difícil mas que era possível compreender-se, quando se pesquisava nas fontes certas”. Depois de proferida a comunicação, Carlos Miguéis levou até Miguel Tor- ga o seu texto: “Disse-me que finalmente tinha compreendido o assunto e fez-me prometer que ia publicar o texto. Foi por sugestão do Miguel Torga que publiquei o meu livro ‘Vertigem’”, partilha. O livro acabaria por esgotar e a relação entre os dois médicos floresceu: “Ficámos amigos, uma relação de confiança, sobretudo”. O “cliente”, amigo e poeta Carlos Miguéis aos quatro anos
  • 2.
    5 24 Maio 2013| dicina Sanitária, encontrei no banco do Hospi- taldeS.Joséumcolegaotorrinolaringologista,o Doutor Samuel Ruah, e foi ele que me fez decidir em definitivo por essa área”. A inexistência de Serviço de Otorrinola- ringologia nos Hospitais da Universidade de Coimbra–aotempohaviaapenasconsulta–fez com que pensasse no estrangeiro como alter- nativa. “Por essa altura havia livros da autoria de Georges Portmann, considerado o ‘papa’ da otorrino mundial. Era francês e estava em Bor- déus. Apoiado pelo meu pai decidi escrever para lá”, conta. Munido da resposta que recebera à sua missiva e de muita determinação, rumou a Bordéus.“EraumServiçodeponta,oServiçode OtorrinolaringologiadaFaculdadedeMedicina deBordéus…oServiçoPortmann.Eraformidá- vel!”. Chegou em 1954 e acabaria por ficar seis anos. Mais do que um mestre, que o “adoptou como filho espiritual”, ganhou um amigo para a vida. “Tive o privilégio de o ter como ‘padrinho’ na cerimónia solene de imposição de insígnias doutorais, em 1967, em Coimbra. Visitava-o pelomenostrêsvezesporanoeconsiderei-mesem- preseudiscípulo.Aindahoje,paratodaavida”. Era chegado o tempo de regressar a Portu- gal e a Coimbra. Abraçou, então, novos desa- fios: a tese de doutoramento e,posteriormente, a docência na Faculdade de Medicina da Uni- versidade de Coimbra. Foi director de Serviço de Otorrinolaringologia e presidente da Direc- ção da Sociedade Portuguesa de Otorrinola- ringologia (1981-1985), tendo leccionado na Universidade durante quase três décadas. Ju- bilou-se em 1995, mantendo a actividade clí- nica durante alguns anos no seu consultório de sempre, na Avenida Sá da Bandeira. Leitor ávido,foi-se dedicando,também,à escrita [ver caixa]. É pai de sete filhos, quatro dos quais são médicos otorrinos: “Tiveram pouca ima- ginação”, brinca. “Não deve haver no mundo outro caso assim. Não posso dizer que não tive nada que ver com isso, mas foram eles que esco- lheram”. Despretensioso e humilde, demons- tra,aos 88 anos,uma admirável capacidade de sorrir, um sentido de humor ágil e apurado. Homem simples, muito ligado à terra (e à sua terra,Cantanhede),franco e de boa-fé,como o próprio se caracteriza, venceu a adversidade e agarrou-se à vida – não como o náufrago que se debate para não se afogar, mas com a sere- nidade e tranquilidade de quem tem na fé e na esperança a sua salvação. GentedeOuro Começou, então, a minha cruz. Vi morrer muitos da minha idade, mais novos e mais velhos também. Ainda assim, nunca me convenci que morria, e por uma vez acertei” “ PUB Pedro Castelo-Branco, investigador no Hospital “Sick Children” de Toronto, publicou recentemente na prestigiada revista de oncologia clínica “The Lancet Oncology” um estudo onde descreve um novo biomarcador de cancro. Este tra- balho envolveu um grupo de 350 pacientes com tumores cerebrais, oriundos de múltiplos centros de Investigação Oncológica da Europa e América do Norte. Pedro Castelo-Branco e seus colegas descrevem que uma determinada área do genehTERTcontraialteraçõesepigenéticassomenteemtumoresmalignos.Este biomarcador tem fortes implicações clínicas, tais como o diagnóstico do grau do tumor separando pacientes de baixo e alto risco, o que permitirá desenhar tera- pias ajustadas a cada indivíduo. “Por um lado, os pacientes de alto risco poderão ter terapias mais agressivas, enquanto os de baixo risco poderão ver as suas tera- pias diminuídas, reduzindo assim efeitos secundários” – confirma o investigador natural de Covões, Cantanhede. Estes estudos foram realizados maioritariamente em tumores pediátricos, mas os autores acreditam ser generalizáveis a tumores de adultos. Já em andamento está um consórcio internacional que envolve Instituições alemãs, austríacas, ca- nadianas e portuguesas, e que pretende avaliar o potencial deste biomarcador no cancro da próstata. Pedro Castelo-Branco licenciou-se em Biologia pela Uni- versidade de Aveiro e iniciou investigação em França, em 1997. Doutorado pela UniversidadedeOxford,emInglaterra,estádesde2008emToronto(Canadá),no departamento de Oncologia do Hospital Pediátrico “Sick Children”. Decorreu no passado fim-de-semana, nas Piscinas Municipais Rui Abreu (Coim- bra), a edição de 2013 do Torneio Nadador Completo, competição organizada pela Associação de Natação de Coimbra e replicada em todas as associações regionais do País. Este torneio consistiu na realização de cinco provas de 100 m (nas diversas disciplinas) e uma de 200 estilos, com posterior soma das marcas obtidas nas referidas provas para elaboração de uma classificação individual. Es- tiveram em competição 184 nadadores em representação de 13 Clubes, tendo a Associação de Solidariedade Social Sociedade Columbófila Cantanhedense marcado presença com 18 atletas. Os destaques individuais deste torneio vão para os atletas Gabriel Gomes (Infantil A) e Mariana Guerra (Júnior e Absoluto), que no final da competição venceram o torneio nos seus escalões. Houve, ainda, outros nadadores da Sociedade Columbófila a atingir lugares de pódio. No sector feminino, Sara Alves em 2.º lugar (Inf B) e Ana Reis em 3.º (Inf A); no sector masculino, José Neto obteve o 3.º lugar (Inf A); Diogo Marques e Lean- droMotaforam2.ºe3.ºrespectivamente(JuvB)eEduardoCarvalheiro3.º(JuvA). Pedro Castelo-Branco descobre biomarcador de cancro Mariana Guerra e Gabriel Gomes em destaque no “Nadador Completo”