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PALEOANTROPOLOGIA PARA
INICIANTES
UM CURSO ILUSTRADO SOBRE A EVOLUÇÃO BIOLÓGICA HUMANA
Por Euder Monteiro
(revisão e edição por Fernando Bilharinho)
Ardi (Ardipithecus ramidus) e Lucy (Australopithecus afarensis), duas damas do passado. Fonte: Revista Veja
PALEOANTROPOLOGIA PARA INICIANTES:
Um curso ilustrado sobre a evolução biológica humana
ÍNDICE:
Introdução
Capítulo1: O surgimento do Homo sapiens
Capítulo 2: Homo neanderthalensis
Capítulo 3: Homo sapiens X Homo neanderthalensis: hibridismo
Capítulo 4: Homo floresiensis
Capítulo 5: Homo erectus
Capítulo 6: Gigantopithecus, os maiores primatas de todos os tempos
Capítulo 7: Homo ergaster
Capítulo 8: Homo rudolfensis e Homo habilis
Capítulo 9: O mundo há 2 milhões de anos
Capítulo 10: Outras Espécies do Gênero Homo
Capítulo 11: O Polegar Opositor
Capítulo 12: Importantes Marcos Pré-Históricos
Capítulo 13: O gênero Australopithecus
Capítulo 14: Berço da Humanidade
Capítulo 15: Australopithecus afarensis: um velho conhecido
Capítulo 16: Australopithecus afarensis: outro velho conhecido
Capítulo 17: Australopithecus gahri: quase Homo?
Capítulo 18: Australopithecus sediba: uma descoberta recente
Capítulo 19: Australopithecus anamensis: o mais antigo
Capítulo 20: Curiosidades sobre os Australopithecus
Capítulo 21: Paranthropus: um gênero paralelo aos humanos
Capítulo 22: O início da expansão cerebral
Capítulo 23: Homossexualidade
Capítulo 24: Os grandes antropóides antigos
Capítulo 25: Bipedalismo
Capítulo 26: Parto de um chimpanzé (descrição) em relação ao parto humano
Capítulo 27: Kenyanthropus platyops: um bípede misterioso
Capítulo 28: Por que você não tem rabo?
Capítulo 29: Teorias heterodoxas
APÊNDICES:
1. Lista de espécies humanas e pré-humanas
2. Classificações completas de alguns primatas
3. Algumas observações sobre a classificação dos primatas
4. Sugestões de leitura
5. Sugestões de Livros
6. Para conversar com o autor
Introdução:
A Paleoantropologia estuda, em suma, a evolução das espécies pré-humanas e das
espécies do gênero Homo, incluindo nossa própria espécie: Homo sapiens. A
Paleoantropopologia (“Paleo”, do grego, significa antigo, indicando que se trata do
estudo da Antropologia antiga, ou pré-histórica) é uma junção de ramos científicos
importante: a Paleontologia e a Antropologia. A Paleoantropologia realiza estudos
antropológicos de todas as características físicas, modos de vida, interações sociais
e outros aspectos dos pré-humanos e dos humanos, além das relações de
parentesco entre as espécies.
A Paleontologia é bastante utilizada pelos Paleoantropólogos, como, por exemplo,
quando fósseis de animais pré-históricos auxiliam ou complementam os outros
métodos de datação dos sítios arqueológicos, tendo em vista que é possível saber
em que época determinados paleoanimais viveram.
Fonte das imagens: http://humanorigins.si.edu
A Paleoantropologia também pode valer-se de ciências afins, como a Genética, a
Arqueologia, a Geologia, e muitas outras. Quando são encontrados fósseis
acompanhados de animais pré-históricos e/ou ferramentas e/ou vestígios de
fogueira, por exemplo, é possível fazer uma análise muito mais completa do sítio
arqueológico quando os conhecimentos de todas essas ciências em conjunto forem
utilizados.
Os vestígios de ferramentas são fundamentais e, naturalmente, é possível saber de
que material as mesmas foram feitas. A Geologia informa qual o grau de dureza de
determinado material, se mais maleável como o marfim ou o mármore, ou mais
rígido como o minério de ferro. A Geologia é capaz de fornecer detalhes espantosos
sobre as pedras e rochas, como a idade delas (o que também ajuda na datação dos
fósseis).
Recentemente, a Genética promoveu uma significativa colaboração aos estudos
paleoantropológicos, tendo em vista que foi possível extrair amostras de DNA de
alguns fósseis mais recentes.
No entanto, a principal fonte de conhecimentos da Paleoantropologia são os ossos
fossilizados de humanos e pré-humanos, que, sozinhos, fornecem uma fonte
gigantesca de informações, principalmente a partir dos anos 1990, quando algumas
características não-métricas dos ossos começaram a receber tratamento estatístico
mais elaborado.
Neste curso, serão estudadas cada uma das espécies do nosso gênero (Homo) e
dos gêneros ancestrais, o paleoambiente onde viviam e os caminhos evolutivos
totalmente aleatórios e casuais (mas obedecendo as leis da Evolução) pelos quais
passaram.
Capítulo 1: O surgimento do Homo sapiens
A maioria dos paleoantropólogos acredita que o Homo sapiens surgiu na África (na
parte oriental ou no sul do continente) entre 150.000 e 200.000 anos atrás.
O fóssil mais antigo de Homo sapiens foi apelidado de "Herto", tem entre 150.000 e
160.000 anos de idade, e ainda exibe algumas características arcaicas, como
ligeiras protuberâncias supra-oculares. Essa protuberâncias são um tipo de viseira
óssea sobre os olhos que aparece em todos os hominídeos, exceto nos Homo
sapiens tardios. Sua função, segundo o paleoantropólogo Richard Klein, no livro "O
Despertar da Cultura", seria impedir que a face se partisse em duas com as forças
causadas pelos músculos das mandíbulas durante a mastigação. Nossa testa alta e
escarpada faria as vezes dessa protuberância, distribuindo e absorvendo tais forças.
Aliás, alguns povos atuais, como os aborígines australianos, os pigmeus asiáticos e
alguns povos africanos ainda exibem muitos traços anatômicos primitivos. Os
aborígines ainda possuem resquícios dessa protuberância supra-orbital, além de
alguns outros povos e pessoas isoladas.
Ao longo deste curso, falaremos mais sobre esses aspectos anatômicos.
Apesar de ter surgido há aproximadamente 200 mil anos, apenas há 50.000 anos o
Homo sapiens começou a imprimir aperfeiçoamentos constantes à sua tecnologia,
sendo também nessa época o início do pensamento abstrato e simbólico, conforme
explicou Klein em seu livro “O Despertar da Cultura”.
Alguns autores, inclusive Klein, consideram que houve uma mutação genética que
teria aumentado o número de sinapses cerebrais dos sapiens há 50.000 anos, tendo
em vista que não houve nenhuma alteração física ou morfológica nesse período.
Outros autores defendem que a capacidade de pensamento abstrato surgiu com o
Homo sapiens há quase 200.000 anos, mas apenas há 50.000 anos encontrou
condições de desenvolvimento. Atualmente, há cada vez mais evidências
arqueológicas indicando essa última possibilidade e mais, são encontradas
evidências cada vez mais antigas do pensamento abstrato/simbólico.
Pessoalmente, acredito que o potencial para o pensamento simbólico surgiu com a
nossa espécie e desenvolveu-se mais tarde, quando as condições climáticas na
Terra se mostraram mais favoráveis. Robert Foley, da Universidade de Cambridge, e
autor de vários livros (entre eles: "Os Humanos Antes da Humanidade") também
pensa assim. Ou seja, a partir de 50.000 anos, ou antes, o clima na África (berço da
cultura simbólica) teria permitido um significativo aumento populacional (conforme se
verá adiante), impulsionando também o desenvolvimento cognitivo humano.
Quando surgiu, nossa espécie dividia o planeta com o Homo neanderthalensis, com
o Homo floresiensis, com o Homo erectus e com uma espécie ainda não
identificada, cujo único fóssil é conhecido como "Mulher X". Ao longo do curso,
vamos falar mais sobre essas espécies.
Como vimos, na literatura paleoantropológica há duas hipóteses principais para o
relativamente repentino surgimento da cultura simbólica há 50.000 anos (lembrando
que apenas há 30.000 anos a revolução espalhou-se pelo mundo), a saber:
1ª. O Homo sapiens, quando surgiu, com seu cérebro reconfigurado em relação às
outras espécies Homo, já era capaz de pensamentos simbólicos e de imprimir
constante e acelerado aperfeiçoamento à sua indústria. No entanto, essa
capacidade permaneceu inerte até que o clima da Terra permitiu um aumento
populacional razoável e condições menos duras de sobrevivência;
2ª. Há 50.000, na África, houve uma mutação genética em uma das tribos humanas
que, ao longo dos muitos milênios seguintes, espalhou-se por todas as populações.
Essa mutação conferiu um aumento significativo na quantidade de sinapses ou uma
reconfiguração nos neurônios, permitindo o desenvolvimento de atividades que até
então nenhuma espécie havia alcançado, principalmente o pensamento por meio de
símbolos.
Apesar de a revolução cultural ter ocorrido há tanto tempo, apenas há 6.000 anos
(mais ou menos) proto-civilizações surgiram no planeta, em três pontos separados
do globo (Egito, Mesopotâmia e China). Com elas vieram a agricultura, as cidades,
as profissões, etc. Antes disso, vivíamos como nômades, caçando animas e
coletando frutas, sem muita expressão cultural, em comunidades pequenas e
espalhadas. Alguns autores chegam a afirmar que umas 2.000 pessoas constituíam
toda a espécie humana, e a maioria acredita que éramos, no máximo, 30.000 ou
50.000 indivíduos, divididos em aldeias de mais ou menos 200 habitantes cada.
Veja a gravura abaixo, onde se pode perceber com facilidade a evolução da
população humana ao longo dos últimos 200.000 anos:
Fonte: Revista Veja (edição 2.059, 07/05/2008)
Em seu livro “O Despertar da Cultura” (páginas 195 a 197), Craig Stanford, descreve
da seguinte maneira o grande despertar humano:
"Deixando de lado rótulos e datas precisas, o aspecto
básico é que as populações da Idade da Pedra Posterior e
do Paleolítico Superior [após o despertar] são as primeiras
a que podemos atribuir a capacidade plenamente
moderna de produzir cultura, ou talvez, com maior
precisão, a aptidão completamente moderna de inovar.
Foi com certeza essa capacidade que permitiu que os
povos da Idade da Pedra Posterior e do Paleolítico
Superior se dispersassem à custa dos seus
contemporâneos mais primitivos, começando entre 50.000
e 40.000 anos atrás. As inovações incluíram casas
construídas solidamente, roupas costuradas, fogueiras
mais eficientes e uma nova tecnologia de caça que
permitiu aos Cro-Magnons do Paleolítico Superior
deslocar seus predecessores, ajudando-os também a
colonizar as partes mais continentais e inóspitas da
Eurásia, onde ninguém havia vivido antes."
Não há dúvidas de que o despertar não fez surgir apenas pinturas rupestres, mas
revolucionou o modo de vida dos humanos.
1.1. Teorias sobre o surgimento do Homo sapiens
Existem duas teorias básicas sobre o surgimento do Homo sapiens, que, de forma
resumida, podem ser explicadas assim:
a. Teoria do Berço Africano, também conhecida como "Out of Africa" (África para
fora) ou Arca de Noé;
b. Teoria Multirregional, também conhecida por "Candelabro".
A primeira teoria, mais aceita atualmente, dispõe que os primeiros Homo sapiens
surgiram na África, provavelmente na África Oriental (ou no sul do continente) e, de
lá, se espalharam pelo Oriente Médio, Ásia, Oceania, Europa e Américas (nessa
ordem). Além de muitos fósseis darem a entender que essa teoria está correta,
agora a Genética também a corrobora. Estudos genéticos apontam claramente a
África como origem de todos os humanos atuais.
Primeiro os fósseis: na África, foram encontrados diversos fósseis que indicam
claramente a tendência evolutiva em direção ao Homo sapiens. O Homo erectus
africano, conhecido como Homo ergaster (homem trabalhador, em latim) possui uma
morfologia muito mais parecida com a nossa do que o Homo erectus da Ásia. Aliás,
muitos paleoantropólogos, como G. J. Sawyer e Victor Deak, autores de "The Last
Human – A Guide to Twenty-Two Species of Extinct Human" (um dos livros mais
atuais sobre o tema, ainda sem edição em português) e também Richard Klein,
defendem a existência de 2 espécies de Homo erectus asiáticos, a encontrada na
China e a outra da Indonésia. Realmente há diferenças pequenas entre as duas
morfologias, principalmente no formato da parte superior do crânio.
Os fósseis mostram que o Homo ergaster é o mais provável ancestral humano,
anterior ao Homo heidelbergensis. Além disso, formas claramente ancestrais, como
o Homo heidelbergensis (homem de Heidelberg, uma cidade alemã) e o Homo
sapiens idaltu (idaltu significa mais antigo, em uma língua africana da região de Afar,
também conhecido como “Herto”, descobertos por Tim White em 2003), são
encontrados na Europa e África, respectivamente. Tais fósseis demonstram que o
Homo sapiens desenvolveu-se paralelamente ao Homo neanderthalensis e
distinguiu-se das outras espécies enquanto estava em seu berço africano.
A Genética também confirma a origem africana, baseada em análises do DNA
mitocondrial e no próprio DNA nuclear. Sobre esse aspecto, para maiores
informações, sugiro o livro "Genes, Povos e Línguas" de Cavalli-Sforza, um grande
especialista no assunto.
Em relação à teoria multirregional: seus defensores acreditam que o Homo sapiens
surgiu concomitantemente na África e na Ásia (e talvez em outras regiões como a
Oceania e Europa). Argumentam, dentre outras coisas, que um surgimento isolado
na África dependeria de uma ampla substituição posterior de espécies. Ou seja, o
Homo sapiens teria que substituir, inteiramente, os Neandertais na Europa e o Homo
erectus na Ásia e na Oceania, o que seria difícil de ocorrer. Para isso, deveria haver
uma constante troca de genes entre as populações para manter todas elas unidas
em uma mesma espécie.
Essa teoria, hoje em dia, está sofrendo severos ataques, principalmente oriundos da
Genética. É que todas as diferenças étnicas são causadas por mutações genéticas
recentes na história evolutiva, indicando que as mesmas ocorreram muito tempo
depois do surgimento da espécie.
Há cada vez mais indícios de que o Homo sapiens hibridizou-se (em pequena
escala) com populações nativas de outras espécies humanas (como o Homo
neanderthalensis) em diversas partes do mundo. Mas isso não é suficiente para
fortalecer a hipótese multirregional.
1.2. Questões interessantes sobre o gênero humano:
1.2.1. Alguma outra espécie de humanos conseguiu desenvolver a cultura
abstrata/simbólica?
O único humano, além dos Homo sapiens, de que se tem alguma evidência de uma
mudança cultural foi o Homem de Neandertal. Esse humano experimentou, por 270
mil anos, a cultura Mousteriense e, só então, vivenciou as culturas
Chatelperronense, Aurignaciana, e Gravettiana, possivelmente através de contatos
com o Homo sapiens. Atualmente, há evidências de que os Homo neanderthalensis
tardios conseguiram, sem a ajuda dos Homo sapiens, aperfeiçoar sua tecnologia de
fabricação de ferramentas (Livro “O Colar do Neandertal” – ver referências no final).
1.2.2. Por que o Homo sapiens demorou tanto para desenvolver sua civilização?
Na Era do Gelo havia caça abundante. Bastava que as populações acompanhassem
as manadas em movimento para ter comida fácil. Depois, a megafauna
desapareceu, junto com as contínuas e vastas estepes eurasianas e americanas.
Tornou-se necessário permanecer próximo a vales de rios ou à beira do mar,
tentando aprender a produzir alimento, que deixou de ser fácil de obter. E fazer isso
só era possível se os humanos se agrupassem em sociedades maiores, divididas
por categorias ou classes, dedicando-se, cada uma, a funções especializadas.
1.2.3. Até quando o Homo sapiens conviveu com os outros humanos?
Até mais ou menos 16 mil anos atrás, na Ilha de Flores (atual Indonésia), ainda
havia Homo floresiensis. Até hoje, há lendas nativas sobre a existência de seres
conhecidos como “Ebu Gogo”, na ilha. Houve também uma convivência com os
Neandertais, principalmente na Europa e no Oriente Médio até uns 30.000 anos
atrás. Além disso, há evidências de convivência com os Homo erectus, na Ásia, até
uns 45.000 anos atrás. Adiante, estudaremos mais sobre tais espécies.
1.2.4. É verdade que o povo basco pode ser descendente direto dos Cro-Magnon?
Essa informação pode ser encontrada no livro "Genes, Povos de Línguas" de Luigi
Luca Cavalli-Sforza. É mesmo possível que os atuais bascos, que hoje habitam o
norte da Espanha e o sul da França, possam ser descentes dos primeiros Homo
sapiens que habitaram a Europa, conhecidos como Cro-Magnons. Sforza baseou-se
em evidências genéticas e protéicas, e também na língua falada por eles. É um
estudo muito interessante.
1.2.5. Por que alguns fósseis humanos antigos são chamados de Cro-Magnon?
Os primeiros Homo sapiens já se dividiam em etnias. Além dos Cro-Magnons, temos
os Grimaldi (de características negróides), os Chancelade (parecidos com os Cro-
Magnons, porém mais baixos) e muitas outras. Além disso, alguns autores
subdividem nossa espécie em subespécies: Homo sapiens pressapiens, Homo
sapiens fossilis (divididos em Cro-Magnons e outras etnias já citadas), Homo
sapiens idaltu, etc.
1.2.6. Quanto maior o cérebro, mais inteligente é a espécie?
O volume cerebral não é, por si só, um bom indicador de inteligência. Se não fosse
assim, as baleias, com cérebros de 30kg seriam imbatíveis no xadrez. Nem mesmo
o tamanho relativo do cérebro é um indicador confiável, porque os ratos, por exem-
plo, têm um cérebro maior do que o nosso, em termos relativos (em relação ao ta-
manho do corpo). Tampouco podemos considerar o índice de encefalização como
um indicador confiável. Esse índice mede o tamanho esperado do cérebro em rela-
ção ao corpo, mas não leva em consideração aspectos da arquitetura cerebral. Vale
a configuração do encéfalo: o número de neurônios, o número de sinapses e a forma
como estão distribuídos nas diversas regiões encefálicas. O autor Robert Foley, em
seu livro "Os Humanos Antes da Humanidade", páginas 202 e seguintes, discorre à
exaustão sobre isso.
A comparação de cérebros é algo muito complexo, mesmo se compararmos
indivíduos de uma mesma espécie. Pessoas com cérebros pequenos, como Santos
Dumont, podem ser gênios com intelecto muito poderoso e outras, com grandes
cérebros, podem ser medianamente inteligentes. A inteligência pode assumir muitas
manifestações (inteligência emocional, esportiva, matemática, etc.), o que complica
ainda mais as comparações.
O que é necessário ficar claro é que a inteligência não está diretamente relacionada
ao tamanho do cérebro. Fatores como a arquitetura cerebral são importantes. Por
exemplo: os Neandertais tinham um cérebro maior do que o nosso, mas o córtex
frontal deles era menos desenvolvido. O cérebro deles era voltado para trás e não
para cima, como o nosso. Outro exemplo: os Australopithecus tinham um cérebro
um pouco maior do que o de um chimpanzé atual, no entanto, esse último tem um
corpo mais volumoso, o que dá a entender que o índice de encefalização
australopitecíneo era bem maior.
Mamíferos, em geral, têm cérebros maiores e mais desenvolvidos. No entanto,
dentre os mamíferos, os primatas são imbatíveis quanto ao número de neurônios por
massa encefálica. Comparando, por exemplo, uma capivara e um macaco de
tamanho semelhante, pode-se identificar, claramente, um volume encefálico
aproximado entre essas espécies, porém uma enorme diferença no número de
neurônios.
Fonte: http://www.suzanaherculanohouzel.com/herculano-houzel-et-al-2007-pn
Isso se deve, em parte, à longa história de vida em grupo dos primatas, o que gera
interações complexas entre os indivíduos. Outras explicações aceitas são
relacionadas à busca por comida, a necessidade de fugir de muitos predadores, etc.
1.2.7. Quais as principais forças evolutivas? O que leva ao surgimento de novas
espécies ou a extinção de espécies antigas?
Vejam o que nos informa o livro “Genes, Povos e Línguas” (página 65):
"Desde os primórdios da genética moderna, quatro forças
evolutivas foram identificadas: a mutação, que produz
novos tipos genéticos; a seleção natural, o mecanismo
que seleciona automaticamente os tipos mutados mais
bem adaptados a determinado ambiente; a deriva
genética, que consiste na oscilação aleatória das
freqüências gênicas em populações; e a migração, às
vezes chamada de fluxo gênico. A deriva genética é a
mais abstrata delas, embora nada mais seja do que a
oscilação aleatória da freqüência gênica ao longo de
várias gerações."
Fatores como mudanças climáticas, que alteram o ambiente ao qual a espécie está
adaptada, também são importantes motores evolutivos. Outros fatores como as
mudanças nas placas tectônicas (que alteram o tamanho e a configuração dos
continentes), ciclos climáticos do planeta, interações entre espécies diferentes, e
outros, também contribuem significativamente na evolução e extinção das espécies.
O livro “Human Evolution: An Illustrated Introduction” discute à exaustão todos os
motores da evolução e da extinção. Na verdade, pequenas variações topográficas
que podem isolar membros de uma espécie podem levar ao surgimento de uma
nova espécie (especiação).
1.3. Outras Informações Importantes sobre o Surgimento do Homo sapiens
As informações abaixo foram retiradas e compiladas do livro "The Last Human", pelo
Dr. Fernando Bilharinho:
“1. O nome Homo sapiens apareceu pela primeira vez na
décima edição de Systemae Naturae de Carl Linnaeus
publicada em 1758;
2. Não existe consenso sobre o que é um Homo sapiens
moderno. Os mais antigos fósseis indubitavelmente
creditados como Homo sapiens moderno datam de 94 mil
AP (Antes do Presente) e foram encontrados em Israel.
Há muitos fósseis que apresentam pequenas variações
que devem ser consideradas aceitas dentro de uma
espécie. Mesmo entre Homo sapiens atuais, há
diferenças importantes: os !Kung San (o ponto de
exclamação no início do nome indica que o leitor deve
estalar a língua nos dentes) da Namíbia, por exemplo,
não possuem um queixo considerado moderno. Assim,
ampliando o espectro, podemos chegar a Homo sapiens
modernos já há 260 mil anos na África do Sul e 270 mil
anos no Quênia.
3. A tendência atual é considerar o Homo sapiens como
descendente do Homo heidelbergensis. Como o
heidelbergensis é muito mais parecido com o
neanderthalensis do que conosco, é provável que o Homo
sapiens primitivo, ou outro nome que venha a receber,
tenha surgido a partir dessa espécie há 600 mil anos."
Acrescento a seguinte informação: o autor Craig Stanford, autor do livro "O
Despertar da Cultura", também argumenta, na página 181 do livro supracitado, que
até mesmo os aborígines australianos têm supercílios relativamente salientes o que,
a rigor, é um detalhe não moderno de suas anatomias. Concluindo, o autor afirma
que a modernidade anatômica do Homo sapiens ainda é uma questão polêmica
dentro da Paleoantropologia. É possível reduzi-la a tal ponto que teríamos que
excluir alguns povos atuais (!), ou ampliá-la a tal ponto que poderíamos até incluir os
Neandertais nessa classificação (!).
Cor da pele do Homo sapiens (distribuição geográfica original)
1.4. Ilustrações para estudo:
Percebam nas figuras, especialmente, os seguintes detalhes anatômicos:
a. Protuberância supra-ocular;
b. Presença ou ausência do queixo (neanderthalensis não tinham queixo);
c. Formato do crânio (testa baixa e recuada dos neandertais; e alta e escarpada nos
sapiens).
Homo sapiens idaltu (Photo © 2001 David L. Brill Brill Atlanta)
Capítulo 2: Homo neanderthalensis
Há apenas 30.000 anos, Neandertais ainda perambulavam pela Europa. Seu último
refúgio foi a Península Ibérica, mas, no auge, o povo neandertal ocupou quase toda
a Europa, grande parte do Oriente Médio (principalmente nas imediações de Israel)
e também grande parte do restante da Ásia.
Os fósseis dessa espécie são encontrados desde o século XIX, e, hoje, são milhares
já catalogados, alguns em excelente estado de conservação, sendo possível,
inclusive, estudar seu genoma, que já foi quase inteiramente mapeado. Os primeiros
fósseis foram encontrados no vale do rio Neander, na Alemanha, daí a origem do
nome. Em alemão, Neanderthal escrevia-se com "th", hoje, após reformas, escreve-
se "Neandertal", com o "h" abolido. No entanto, o nome da espécie latinizado
mantém o "th", sendo que as duas formas são aceitas hoje em dia para se referir
coloquialmente à espécie.
O Homo neanderthalensis é a espécie humana mais bem conhecida, além da nossa,
é claro. Existe uma ampla literatura específica sobre o tema. Sugiro, para o leigo que
desejar conhecer um pouco mais sobre o assunto, a leitura do livro "O Colar do
Neandertal", escrito por Juan Luis Arsuaga, espanhol, especialista em Neandertais.
Homo neanderthalensis (Fonte: Coleção de Thomas van deer Laan – Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP)
2.1. Convivendo com Neandertais:
Com toda certeza, os primeiros sapiens a chegarem aos domínios neandertais,
principalmente no Oriente Médio e sul da Europa, mantiveram um contato profundo
com eles. Os paleoantropólogos já aceitavam a existência de troca cultural, tendo
em vista que a cultura neandertal, conhecida como Mousteriense, aparentemente
pode ter sofrido influência das primeiras culturas sapiens (principalmente a
Chatelperronense). É bom que tenhamos uma pequena noção sobre essas culturas
antigas. Vejam o resumo abaixo, retirado da Wikipedia:
"Esta cultura técnica, atribuída aos Neandertais,
designada como Mousteriense, consistia na produção de
ferramentas de pedra lascada produzidas através do
desbastamento em leque de um bloco lítico inicial (ou
núcleo), de que se formavam lascas a partir das quais se
encadeava a produção de instrumentos diversos, como
machados manuais para tarefas específicas, bifaces,
raspadeiras, furadores e lanças. Muitas dessas
ferramentas eram bastante afiadas. No Paleolítico
Superior desenvolveram uma cultura material mais
evoluída de talhe da pedra, designada de
Chatelperronense, caracterizada pelo desdobramento do
núcleo lítico em peças menores e mais manuseáveis."
(Fonte: Wikipedia.com)
A tecnologia Mousteriense produzia cerca de 20 tipos diferentes de ferramentas,
como machados de mão. A Chatelperronense produzia mais de 60 tipos de
ferramentas, com um acabamento ligeiramente superior. É possível que essa
superioridade tecnológica do Homo sapiens tenha contribuído para a extinção dos
Neandertais.
No entanto, as últimas descobertas genéticas, conduzidas pelo geneticista sueco
Svant Päabo, indicam o que muitos já esperavam: houve cruzamentos entre as
espécies sapiens e neanderthalensis, e isso ficou marcado no genoma de nossa
espécie até hoje. Porém, tais cruzamentos foram raros, como se verá adiante.
2.2. A aparência dos Neandertais:
Os Neandertais tinham um corpo muito adaptado a climas frios, por isso eram mais
largos e mais baixos, em média, do que os sapiens arcaicos, que evoluíram em
regiões quentes da África.
Fonte: Jornal Folha de São Paulo
Outras diferenças anatômicas poderiam ser facilmente notadas: ausência de queixo,
testa baixa, crânio voltado para trás, pernas arqueadas, dedos grossos e fortes,
músculos muito desenvolvidos, espaço retromolar (espaço entre o último dente
molar e a mandíbula), rosto projetado para frente, cérebro relativamente maior, que
poderia atingir 1.700 centímetros cúbicos (os sapiens têm, em média, 1.400 cm3), e
algumas outras pequenas diferenças.
A figura abaixo foi retirada do livro “O Despertar da Cultura” de Richard G. Klein e
Blake Edgar (figura 6.4). Segundo os autores, a ilustração foi desenhada por Kathryn
Cruz-Uribe a partir de modelos:
2.3. Curiosidades sobre os Neandertais:
2.3.1. Por terem evoluído em um clima muito frio, durante o Pleistoceno europeu, a
pele deles certamente era muito clara e, segundo indícios fósseis, seus cabelos,
quase sempre eram ruivos.
2.3.2. Alguns grupos étnicos atuais de Homo sapiens têm características
semelhantes aos Neandertais. Por exemplo: os inuítes (que não gostam de ser
chamados de "esquimós", termo considerado pejorativo por eles) também têm
corpos muito robustos e atarracados, porque residem há milênios em terras muito
frias. Os aborígines australianos, como já dito aqui, têm pequenas protuberâncias
supra oculares e, aliás, apesar de negros, são os povos mais distantes
geneticamente dos africanos. A cor da pele deles convergiu para negra após nova
adaptação ao ambiente da Oceania.
2.3.3. Estudando os ossos da boca, principalmente o hióide, é possível concluir que,
se os Neandertais falavam, a voz deles deveria ser extremamente anasalada,
gutural e seccionada. Alguns pesquisadores simularam a voz dos Neandertais e
disponibilizaram isso na internet: http://www.acemprol.com/viewtopic.php?
f=16&t=245.
Fonte: Jornal Folha de São Paulo
2.4. Extinção dos Neandertais:
Quase todas as hipóteses sobre a extinção dos Neandertais passam pela
competição com os sapiens, que, além de possuírem uma tecnologia superior, eram
capazes de raciocínios estratégicos sofisticados (como, por exemplo, criar táticas de
guerra).
Juan Luis Arsuaga, em seu livro "O Colar do Neandertal", desenvolveu uma teoria
muito interessante e complexa, para explicar a extinção dessa espécie. Baseado em
vários sítios fósseis em que foram encontrados grupos inteiros de indivíduos, o autor
conclui que a média de vida dos Neandertais era menor do que a dos primeiros
sapiens (por causa de seu estilo de vida baseado na caça de grandes animais, o
que era perigoso) e, além disso, o índice de natalidade da espécie era também
menor. Com isso, o crescimento da população era muito pequeno e bastou o contato
com os sapiens (que trouxeram novas doenças e novas mortes em combate) para
que esse delicado equilíbrio fosse rompido. Em um curto espaço de tempo,
provavelmente 20.000 anos, todos os Neandertais foram eliminados.
2.5. Questões interessantes sobre os Neandertais:
2.5.1. Por que a baixa estatura e a robustez são adaptações a ambientes frios? Em
que tais características ajudam?
Essas características ajudam na conservação do calor dentro do corpo. Um corpo
mais largo, mais robusto, com mais gordura, naturalmente retém mais o calor. É que,
nesse caso, o corpo se aproxima do formato de uma esfera, que é o sólido que
possui a menor área de superfície em relação ao seu volume. Um corpo magro e
esguio, como o dos africanos equatoriais, tende a reter menos calor, facilitando a
sobrevivência em ambientes quentes, tendo em vista que têm uma maior área de
pele, em relação ao volume do corpo.
2.5.2- O contato com os Neandertais deixou alguma marca na cultura sapiens?
Algum aspecto, atividade ou tecnologia foram estimulados ou desestimulados por
esse contato?
O contato, como demonstraram as últimas pesquisas, deixou marcas no genoma
dos povos não-africanos. Em termos culturais, é possível afirmar que a cultura
neandertal, conhecida como Mousteriense, muito provavelmente sofreu influência de
uma das primeiras culturas dos sapiens, conhecidas como Acheuliana ou
Chatelperronense. Após os contatos, os artefatos Mousterienses passaram a ter um
refinamento parecido com os da indústria Acheuliana. Atualmente, há pesquisadores
que criticam esse raciocínio, indicando evidências de que a cultura neandertal
desenvolveu-se sozinha.
Portanto, a maioria das evidências indicam que, se houve troca de tecnologia, foram
os sapiens que a transferiu para os Neandertais.
2.5.3. Qual foi a motivação para essas grandes migrações de sapiens rumo aos
territórios neandertais? Busca de novos recursos?
Os sapiens, segundo as últimas pesquisas, surgiram na África. Os Neandertais
surgiram no Oriente Médio ou na Europa. Para sair da África em direção a outras
paragens, era obrigatório para os sapiens atravessar os domínios dos Neandertais,
no Oriente Médio. Portanto, o contato foi inevitável.
Como os primeiros sapiens viviam da caça e da coleta, à medida que a população
crescia (e crescia muitíssimo devagar) e à medida que os recursos iam se
escasseando, a colonização de outros continentes tornou-se imperiosa. Além disso,
muitas vezes, os primeiros sapiens pareciam ampliar seus domínios por mera
curiosidade, atingindo até o sul da América do Sul e mais, se houvesse mais. Parece
que eles queriam ver o que havia atrás da próxima montanha, como afirmou o Dr.
Walter Alves Neves em seu livro “O Povo de Luzia”.
2.6. A proximidade genética entre sapiens, Neandertais e chimpanzés:
A diferença entre o DNA humano e o DNA do chimpanzé pode variar de 4% a 1%,
dependendo do trecho do DNA em comparação. Comparar DNAs é uma tarefa
muitíssimo complicada. Apesar de termos apenas uns 25.000 genes (antes
pensávamos que eram uns 100.000: grande engano!), temos bilhões de pares de
bases de nucleotídeos que não codificam genes e podem ser igualmente relevantes.
A tarefa mais complicada é sequenciá-los (deve-se sequenciar uma hélice da
molécula para sabermos com exatidão a composição da outra hélice; a hélice do
DNA tem 4 tipos de nucleotídeos que se combinam aos pares entre eles), depois
separar os que formam genes dos que não formam (essas sequências que não
forma genes, que antes se pensava que eram uma espécie de lixo genético, são
muito importantes no funcionamento dos próprios genes), depois montar os
cromossomos.
Além dos chimpanzés terem menos cromossomos (o que eu entendo como uma
diferença mais significativa do que ter 1 ou 4% dos genes diferentes, porque dificulta
severamente uma tentativa de cruzamento entre as espécies, sendo esse um dos
motivos das falhas nas controvertidas tentativas), esse "de 1% a 4%" de diferenças
está concentrado em genes importantes de formação cerebral, fala, morfologia do
punho, etc.
No caso dos Neandertais, a situação é bem diferente! O pesquisador sueco Svant
Pääbo, que sequenciou os genes dos Neandertais, comparou o genoma neandertal
com o genoma humano e com o genoma dos chimpanzés. Segundo ele, a diferença
encontrada entre os sapiens e os Neandertais é semelhante à de um homem atual e
seu próprio tataravô (apesar do tataravô estar muito mais próximo de nós do que um
Neandertal há 80.000 anos). Muitos seres humanos atuais têm Nandertais como um
de seus antepassados e isso foi encontrado baseado em rastros genéticos. "Em
vários casos, quando há uma diferença entre o genoma de um africano e o de um
não-africano, a versão das populações que não são originárias da África bate com a
dos Neandertais", diz Pääbo. "O único jeito de explicar esses dados é por
cruzamento", continua.
Note, portanto, que os genes neandertais estão concentrados na parte diferente do
genoma dos africanos em relação aos não-africanos. E qual seria essa parte
diferente: questões de imunidade, cor da pele, etc. Por que isso ocorre? Simples: o
DNA do Neandertal era muito parecido com o nosso DNA, porque nosso ancestral
comum viveu há apenas 600.000 anos.
É interessante notar também que não foram encontradas marcas neandertais no
DNA mitocondrial humano. Esse tipo de DNA (mitocondrial) é originário apenas da
mãe, sem sofrer o cruzamento com o DNA paterno, da mesma forma que todo o
cromossomo Y é recebido apenas pelos pais. Svant Pääbo decifrou o Genoma
nuclear dos Neandertais. O DNA mitocondrial deles já era conhecido.
A ausência de genes neandertais em nosso DNA mitocondrial pode indicar que os
cruzamentos entre homens neandertais e mulheres sapiens tiveram mais sucesso.
Pode ser que os cruzamentos entre homens sapiens e mulheres neandertais não
tenham gerado descendentes ou que os descendentes gerados não tenham sido
férteis. Sabe-se que, em uma invasão, os homens invasores tendem a raptar as
mulheres dos povos invadidos. Nesse caso, seria muito mais provável que os
cruzamentos interespécies tenham ocorrido entre homens sapiens e mulheres
neandertais, sem deixar descendentes. Esse fato poderia explicar o fato a
baixíssima incidência de genes neandertais nos povos não africanos, tendo em vista
que teriam que ser originários de cruzamentos entre homens neandertais e mulheres
sapiens.
O leitor poderá visualizar melhor essa situação, por meio da ilustração abaixo.
Ilustração: Paulo Mason
É necessário, no entanto, explicar outro aspecto: Uma coisa é você dizer que de 1 a
4% dos genes de pessoas não-africanas são oriundos de Neandertais. Esses genes
são oriundos de uma espécie-irmã. Os Neandertais eram tão diferentes dos
chimpanzés quanto nós. Outra coisa é afirmar que temos de 1 a 4% de diferenças
genéticas em relação aos chimpanzés.
Pensemos da seguinte forma: é preferível ter 4% dos genes oriundos de
Neandertais do que 4% de genes oriundos dos chimpanzés. E, é bom frisar, não
temos genes oriundos dos chimpanzés. Ou seja, após a separação das espécies,
não houve cruzamentos posteriores, como ocorreu entre os sapiens e os
Neandertais.
Ou seja, após a separação com os chimpanzés, há 6.000.000 anos, nossos
ancestrais e os ancestrais dos Neandertais pararam de receber genes oriundos dos
ancestrais dos chimpanzés e vice-versa. Começou então a saga diferenciadora das
espécies, atingindo até 4% do DNA humano atual, em relação ao DNA chimpanzé.
Fonte: Livro “Eu, Primata”
Ocorre que há 600.000 anos, começou outra saga diferenciadora, entre humanos e
Neandertais. No entanto, esse período de tempo é muito curto para criar grandes
diferenças genéticas, mas é suficiente para gerar genes específicos em cada
espécie. Então, há 80.000 anos, as duas espécies voltam a se encontrar e tais
genes específicos são trocados, em uma proporção de 1 a 4%.
É importante termos em mente que, quando duas espécies se divergem, elas
continuam compatíveis/intercruzantes durante algum tempo, até que as diferenças
genéticas sejam significativas, principalmente em termos cromossômicos. Hoje em
dia, por exemplo, o principal impedimento de cruzamentos férteis entre chimpanzés
e sapiens é a diferença no número de cromossomos.
Comparação de pés e mãos dos primatas, inclusive o homem, um grande macaco, segundo Prof. Dr. Walter Alves Neves.
Capítulo 3: Homo sapiens X Homo neanderthalensis: hibridismo
Muito recentemente, comprovou-se, após mapeamento do genoma do Homo
neanderthalensis, que o Homo sapiens possui de 1% a 4% de seu genoma
semelhante ao genoma neandertal. No entanto, isso só ocorre em povos não
africanos, indicando que os Homo sapiens que saíram da África e encontraram-se
com os Neandertais (que viviam no Oriente Médio e na Europa) cruzaram-se! Tais
cruzamentos, no entanto, foram relativamente raros.
Homo sapiens x Homo neanderthalensis (Por hairymuseummatt)
Vale lembrar que nosso ancestral comum com o Homo neanderthalensis, conhecido
como Homo heidelbergensis, viveu há mais ou menos 600.000 anos e, portanto, é
natural que mantivéssemos o potencial intercruzante, apesar de sermos espécies
separadas.
A título de ilustração, informo (baseado no livro "Eu, Primata", de Frans de Waal)
que os chimpanzés (Pan troglodytes) e os bonobos ou chimpanzés pigmeus (Pan
paniscus) tiveram um ancestral comum que viveu há nada menos do que 2,5
milhões de anos e ainda hoje as duas espécies são potencialmente intercruzantes.
O mesmo ocorre com as duas espécies de gorilas e as duas espécies de
orangotangos. Ou seja, primatas e muitos outros mamíferos têm essa característica,
mantém a capacidade de intercruzarem-se, mesmo após milhões de anos de
especiação.
Sobre os híbridos entre chimpanzés e bonobos, infelizmente, há poucos relatos
científicos sobre eles porque nenhum zoológico poderia promover o cruzamento
entre duas espécies sob risco de extinção. Veja o que afirma o autor Frans de Waal
no livro supracitado:
"Pouco sabemos sobre o comportamento de híbridos reais,
mas eles são biologicamente possíveis e existem de fato.
Nenhum zoológico que se preze promoveria
intencionalmente o cruzamento de dois primatas
ameaçados de extinção, mas existe um relato sobre um
pequeno circo itinerante francês que possui grandes
primatas com vozes curiosas. Pensava-se que eram
chimpanzés, só que para os ouvidos dos especialistas seus
chamados são tão agudos quanto os dos bonobos.
Acontece que o circo, sem saber, adquiriu tempos atrás um
macho bonobo, batizado de Congo. O treinador logo notou
o insaciável apetite sexual desse macho, e o explorou
recompensando os melhores desempenhos de Congo no
picadeiro com encontros com fêmeas primatas do circo,
todas chimpanzés. A prole resultante — que talvez
pudéssemos chamar de "bonanzés" ou "chimpobos" —
anda ereta com notável facilidade e causa admiração por
sua brandura e sensibilidade." (página 290).
Capítulo 4: Homo floresiensis
Em nossa árvore evolutiva, o Homo floresiensis foi a última espécie de nosso gênero
a ser extinta. Essa espécie foi descoberta recentemente na ilha de Flores, na
Indonésia (daí o seu nome). Os fósseis têm entre 12.000 e 74.000 anos de idade, ou
seja, essa espécie quase atingiu períodos históricos!
Homo floresiensis – comparação de altura (fonte: Jornal Folha de São Paulo)
O Homo floresiensis era baixo, apenas 1 metro de altura quando adultos (como uma
criança sapiens de 3 anos de idade). A título de comparação, os pigmeus africanos
atingem até 1,50m. A altura reduzida pode ser resultado de um processo de
redução, conhecido como nanismo das ilhas. Espécies maiores que um coelho
tendem a ficar menores. Espécies menores que um coelho tendem a crescer. Por
meio de fósseis, é possível comprovar a existência de elefantes pigmeus e ratos
gigantescos em Flores, que foram extintos. Os pequenos elefantes eram inclusive
caçados pelos floresiensis, conforme comprovam os fósseis encontrados.
O Homo sapiens colonizou a ilha entre 35.000 e 55.000 anos atrás e, portanto, com
certeza, conviveu com os floresiensis por milhares de anos. Ainda hoje há relatos de
seres estranhos na ilha de Flores, conhecidos como “Ebu Gogo” (o leitor poderá ler
mais sobre isso na internet: http://en.wikipedia.org/wiki/Ebu_Gogo ou, em português:
http://www.fernandosantiago.com.br/anaohom.htm ).
Homo floresiensis X Homo sapiens (Fonte: http://www.talkorigins.org/faqs/homs/flores.html)
Foram encontradas ferramentas produzidas no estilo da tecnologia de Olduvai
(pedra lascada) produzidas pelo Homo floresiensis, em estilo parecido com as
ferramentas produzidas pelo Homo erectus clássico da Indonésia.
Homo floresiensis – cérebro – comparação
O tamanho reduzido do crânio (abaixo dos 400 centímetros cúbicos), menores que
os crânios do gênero Pan, dos chimpanzés e bonobos, e outros detalhes anatômicos
só encontrados nos Australopithecus, levaram muitos paleoantropólogos à dúvida:
seriam os floresiensis realmente pertencentes ao gênero Homo? Muitos cientistas
duvidam e alguns chegam a sugerir um gênero novo para a espécie. De qualquer
forma, o Homo floresiensis parece ser uma espécie cujo ancestral comum conosco
deve remontar, certamente, há tempos muito remotos, talvez superiores há 1 milhão
de anos. Atualmente, considera-se o floresiensis uma espécie descendente das
formas antigas do Homo erectus asiático. No entanto, não se sabe ao certo a
posição do mesmo em nossa árvore genealógica. Detalhes como a anatomia dos
pés e das mãos sugerem um ligação estreita com os Australopithecus, que
extinguiram-se há nada menos do que 2,5 milhões de anos.
Homo floresiensis (crânio). Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Homo_floresiensis.jpg
Apesar disso e do tamanho reduzido do crânio, a forma e o molde interno do mesmo
(que revela as curvaturas do tecido mole cerebral) indicam claramente uma
morfologia do gênero Homo. Além disso, as ferramentas encontradas vinculadas aos
fósseis indicam um nível de inteligência comparável à do Homo erectus (cujo crânio
alcançava 1.000 centímetros cúbicos - o Homo sapiens tem uma média de 1.400
centímetros cúbicos de volume cerebral). Tudo isso fortalece a teoria de eles
também pertenciam ao gênero Homo. Espera-se para os próximos anos que o
Instituo alemão Max Planck consiga codificar o DNA do Homo floresiensis. Eles
conseguiram extrair uma amostra de um dente molar. Com esse DNA codificado,
teremos como saber a origem deles.
Mais informações em: http://afarensis99.wordpress.com/2011/01/06/ancient-dna-
from-homo-floresiensis-redux/
4.1. Efeito Ilha
A imagem abaixo ilustra perfeitamente o efeito ilha. O Homo floresiensis, até o
momento, é o único hominídeo que parece ter passado por esse efeito de redução.
No caso de criaturas maiores que um coelho, a redução ocorre para garantir a
sobrevivência com menos alimento, tendo em vista os recursos reduzidos de uma
ilha. No caso de criaturas menores, como o rato, por exemplo, o aumento de
tamanho ocorre pelo mesmo motivo. É que existe uma proporção entre a área da
pele e o volume corporal que garante uma melhor retenção do calor e da energia.
Animais muito pequenos acabam tendo um área externa de pele muito grande em
relação ao volume de todo o corpo, o que acarreta uma perda excessiva de calor.
Feito Ilha. Fonte: Revista Scientific American Brasil
Capítulo 5: Homo erectus
O Homo erectus, homem ereto, inicialmente conhecimento como Pithecanthropus
erectus, é uma das mais complexas e duradouras espécies do gênero Homo. Há
fosseis que podem ter quase 2 milhões de anos, mas a maioria dos pesquisadores
acredita que o Homo erectus surgiu há mais ou menos 1,5 milhão de anos. Seu
ancestral direto e comum com os sapiens pode ser o Homo habilis ou outra espécie
ainda não identificada.
Fonte: http://historiacolegiao.files.wordpress.com/2010/03/homo_erectus_72dpi1.jpg
Richard Klein, Arsuaga e muitos outros paleoantropólogos consideram o Homo
ergaster (uma espécie de Homo erectus africano, mais antigo) o ancestral direto do
H. erectus, sendo o H. habilis, o ancestral do H. ergaster.
O Homo erectus, depois dos Neandertais, é a espécie mais conhecida e estudada.
Na Paleoantropologia há esqueletos quase completos dessa espécie, quase tão
completos quanto os esqueletos de Neandertais e dos Australopithecus. Os fósseis
de erectus vêm sendo estudados desde o final do século XIX e milhares já foram
encontrados. Só na ilha de Java foram encontrados quase 30.000 fósseis!
Em seu auge, o Homo erectus dominou quase toda a Ásia e muitas ilhas da
Oceania.
5.1. Homo erectus – complexidade
Os autores Klein e Blake Edgar encontraram pequenas diferenças nos crânios do
Homo erectus clássico da Indonésia e do Homo erectus clássico da China. Tais
diferenças, apesar de discretas, são perceptíveis até para um leigo. A principal
diferença está na testa. No erectus da Indonésia, a testa é mais baixa e recuada, no
chinês, a testa também é recuada, mas ligeiramente mais alta. Os outros detalhes
anatômicos são muito parecidos: grande arcada supraciliar em forma de saia,
curvatura craniana baixa e comprida para trás, ausência de queixo, mandíbulas
projetadas para frente e parte posterior do crânio composta de dois planos
encontrando-se em ângulo. Portanto, é possível que os fósseis que hoje são todos
classificados como Homo erectus sejam, na verdade, fósseis de duas ou mais
espécies distintas, porém, próximas.
A figura da próxima página foi retirada do livro “O Despertar da Cultura” de Richard
G. Klein e Blake Edgar (figura 4.8). Segundo os autores a ilustração foi redesenhada
parcialmente por Kathryn Cruz-Uribe a partir de originais de Janies Cirulis, in W. W.
Howels, Mankind in the Making, Nova York, Doublebay, 1997, pag. 156 a 159.
5.2. Homo erectus - aparência e tecnologia
O corpo do Homo erectus era quase tão moderno quanto o nosso. Praticamente a
mesma altura, as mesmas proporções corporais, poucos pêlos no corpo. No entanto,
o crânio era muito diferente. Com um volume craniano que podia chegar a 1.000
centímetros cúbicos, o erectus tinha um cérebro menor do que o nosso, mas maior
do que todas as outras espécies humanas anteriores. Alguns autores, no entanto,
acreditam que o volume cerebral do erectus era proporcionalmente semelhante ao
do Homo habilis, que possuía um cérebro menor, mas um corpo também menor. O
cérebro, como em quase todas as espécies do gênero era voltado para trás, com
grandes protuberâncias supra-oculares, talvez as maiores de todo o gênero Homo.
O erectus era capaz de produzir ferramentas no estilo Acheuliano (pedra polida).
Desde seu surgimento, há evidências de um avanço sobre a tecnologia de Olduvai
(pedra lascada). No entanto, ele nunca imprimiu um ritmo de aperfeiçoamento
constante às suas ferramentas. É possível distinguir pequenos aperfeiçoamentos
entre a tecnologia acheuliana antiga (1,5 milhão de anos antes do presente - AP) e a
mais recente (600.000 anos AP), mas nada muito perceptível. A verdade é que, ao
longo de quase 1 milhão de anos, o erectus não conseguiu aperfeiçoar muito a sua
tecnologia. Parece que o cérebro do erectus foi capaz de criar as mais sofisticadas
ferramentas de pedra até então produzidas, mas não foi capaz de ir além disso.
Distribuição geográfica do Homo erectus (fonte: “Human Evolution – An Illustrated Introduction”)
O mapa acima foi retirado do livro "Human Evolution - An Illustrated Introduction" de
Roger Lewin, um dos maiores paleoantropólogos do mundo.
Os fósseis encontrados na África são considerados pertencentes ao Homo ergaster
e não ao Homo erectus asiático. Muitos paleoantropólogos consideram o Homo
ergaster uma subespécie de Homo erectus ou vice-versa, inclusive Lewin.
Os fósseis de Dnamisi (na atual Geórgia) estão sendo considerados como
pertencentes a uma nova espécie (Homo georgicus), tendo em vista sua grande
antiguidade (tão antigo quanto o Homo ergaster).
5.3. Homo erectus - convivência com os sapiens e extinção:
Atualmente, a comunidade paleoantropológica tende a considerar que todas as
formas de Homo erectus asiáticas foram extintas sem deixarem descendentes. Isso
ocorre porque os fósseis demonstram claramente que as características das formas
asiáticas não são encontradas em nenhuma espécie posterior, a não ser no Homo
floresiensis.
A espécie erectus desapareceu completamente há apenas 30 mil anos e,
certamente, conviveu com o Homo sapiens por milhares de anos, principalmente na
atual Indonésia.
As formas africanas, muito próximas ao erectus, mas pertencentes a outra espécie
chamada Homo ergaster, evoluíram para formas mais recentes de espécies do
gênero Homo. O Homo ergaster teria evoluído para o Homo heidelbergensis
(pronuncia-se “Raidelberguensis”), que constitui uma espécie muito parecida com o
Homo neanderthalensis. O Homo heidelbergensis, por sua vez, evolui para o Homo
neanderthalensis e para o Homo sapiens, diretamente, ou passando por espécies
intermediárias. Esse é o pensamento dominante atualmente.
5.4. O Homo erectus e o fogo:
As análises dos sítios têm demonstrado que quanto mais recuamos no tempo, os
sítios arqueológicos contêm menos vestígios de utilização do fogo. Não se sabe ao
certo quando se começou a usá-lo, mas os indícios apontam para o Homo erectus,
há, pelo menos, 500.000 anos, como o pioneiro em sua utilização. Alguns afirmam
que os indícios encontrados nos sítios dos erectus não comprovam que essa
espécie dominava o fogo inteiramente, mas apenas o utilizava de maneira
esporádica.
O Livro "Pegando Fogo" de Richard Wrangham (não confundir com o livro homônimo
de Mag Cabot, que é um romance), traz muitas informações sobre a utilização do
fogo e sobre como os cientistas analisam os sítios arqueológicos.
Basicamente, fogueiras mais elaboradas deixam vestígios inequívocos de controle
do fogo (área pequena), utilizam material combustível mais apropriado, deixam
muitos vestígios de ossos assados de animais no entorno, etc.
Segundo o Dr. Fernando Bilharinho, comentando o livro supracitado, “se, por um
lado o salto de habilis para erectus (que o autor propõe que seja devido à introdução
de alimentos cozidos na dieta) parece realmente ter sido mais importante do que o
de erectus para heidelbergensis, por outro lado, os indícios de controle do fogo mais
antigos são de 790 mil anos, exatamente quando surgiu o Homo heidelbergensis!
Aliás, a hipótese de domínio do fogo pelo heidelbergensis é defendida por outros
autores e citada por Wrangham. O autor acha impossível o Homo erectus ter se
espalhado pelo mundo sem dominar o fogo, bem com ter escapado dos predadores
e empreendido a caça.”
Também acredito que o mais provável é que o fogo tenha sido dominado pelo Homo
heidelbergensis, ou, no máximo, pelos mais recentes Homo erectus. Nesse caso, o
cozimento, que, segundo Wrangham, aumenta muito o aproveitamento energético
dos alimentos, influiu no segundo aumento do volume cerebral (de erectus para
heidelbergensis). O aumento do volume cerebral dos Australopithecus para os
habilinos e depois para o ergaster/erectus teria sido conseqüência da mera
introdução de carne crua à dieta desses pré-humanos.
5.5. Questões interessantes sobre o Homo erectus
5.5.1. Há algum traço de influência cultural de sapiens sobre erectus e vice versa?
Não. O Homo erectus não foi capaz de produzir muita coisa além de ferramentas de
pedra polida. É difícil imaginar como poderiam ter sido os encontros de Homo
sapiens e Homo erectus. Com uma tecnologia extremamente mais sofisticada,
principalmente nos encontros mais recentes, os sapiens seriam capazes de
exterminar com facilidade todos os erectus que encontrassem. Ou, se possível,
assimilando-os por meio de cruzamentos interespécies. No entanto, não acredito
que tenha sido possível uma transferência de tecnologia, tendo em vista a limitada
capacidade dos erectus.
5.5.2. Foram os sapiens que extinguiram os erectus?
A maioria dos paleoantropólogos acredita que sim. Que houve uma substituição
sistemática ao longo de milhares de anos. Segundo a teoria dominante, os sapiens
surgiram na África a partir do Homo ergaster (Homo erectus africano) e, de lá,
colonizou o mundo, substituindo as outras espécies que encontravam pelo caminho.
Outros cientistas, a minoria, acreditam em um surgimento multirregional dos sapiens.
Segundo esses últimos, os erectus asiáticos evoluíram para sapiens de forma
convergente, mantendo cruzamentos esporádicos com o Homo ergaster que evoluía
na mesma direção na África. As recentes descobertas de que os sapiens cruzaram-
se com neandertalensis deu força a essa teoria, provando que eram possíveis os
cruzamentos, pelo menos com os Neandertais.
5.5.3. O Homo erectus foi o primeiro hominídeo a andar ereto, como nós?
Não. O gênero Australopithecus (ou, talvez, o gênero Ardipithecus, mais antigo)
produziu os primeiros hominídeos bípedes. Veremos isso nos próximos capítulos. O
nome Homo erectus tem um fator histórico. No século XIX, o primeiro
paleoantropólogo de todos os tempos, o holandês Eugène Dubois encontrou os
primeiros fósseis da espécie e batizou-a de Pithecanthropus erectus.
Na época, conhecia-se apenas o Neandertal (também descoberto no século XIX).
Mais tarde, a espécie foi incluída no gênero Homo e o gênero Pithecanthropus foi
abolido. Isso ocorreu porque a espécie, nitidamente, é muito parecida com as
demais do gênero Homo. O nome da espécie (erectus) foi mantido em homenagem
ao descobridor e não porque foi a primeira a andar de forma ereta.
Os primeiros Australopithecus (existiam muitas espécies desse gênero) foram
descobertos na década de 1960 e causaram um grande estardalhaço na
comunidade paleoantropológica, porque eram, evidentemente, uma forma
intermediária entre chimpanzés e humanos (com crânios muito simiescos e corpos
muito humanos). Recentemente (2008, divulgado em 2010), descobriram uma nova
espécie australopitecínea (Australopithecus sediba) já com muitas características do
gênero Homo, que também causou espanto na comunidade. Parece trata-se de uma
espécie de "elo perdido" entre Homo e Australopithecus.
5.6. Homo erectus – subespécies
O Homo erectus pertence a uma das mais bem sucedidas e duradouras espécies do
gênero Homo (durou mais de 1 milhão de anos!). É geralmente considerada a
espécie que deu origem a um grande número de espécies descendentes e
subespécies. Pelo fato de ter sido uma espécie duradoura, há muitas variações nos
fósseis encontrados, principalmente entre as formas mais antigas e as mais
recentes. As principais subespécies sugeridas são:
Homo erectus yuanmouensis (identificada no vilarejo de Danawu no Condado de
Yuanmou, na China, em 1965 por Fang Qian - fósseis de 1,7 milhão de anos) – O
nome significa “homem ereto de Yuanmou”.
Homo erectus lantianensis (o primeiro registro fóssil do homem ereto de Lantian
ocorreu em 1963 e descrito por J.K. Woo em 1964. Os restos encontrados foram
achados no Condado de Lantian, na província de Shaanxi, no noroeste da China) –
com capacidade craniana de 780 cm3 viveu entre 530 mil a 1 milhão de anos atrás.
Homo erectus wushanensis (o fóssil do homem de Wushan foi primeiramente
descoberto em Longgupo, no vilarejo Zhenlongping, Condado de Wushan, província
de Chongqing -China- em 1985). Viveu há 2 milhões de anos.
Homo erectus pekinensis (foi descoberto durante escavações nos anos de 1923 a
1927, em um local próximo a Pequim, capital da China. O material arqueológico
encontrado foi datado entre 250.000 a 400.000 anos, no Pleistoceno. Mas, segundo
estudos recentes, descobriu-se que ele poderia ter vivido há 800.000 anos) – O
homem ereto de Pequim ou de Beijing, foi chamado inicialmente de Sinanthropus
pekinensis.
Homo erectus soloensis (Ilha de Java - Indonésia) - Homem ereto do Rio Bengawan
Solo (Java) - estudos mais rigorosos concluíram que, enquanto muitas subespécies
de H. erectus desapareceram do registro fóssil bruscamente 400.000 anos atrás, o
Homo erectus soloensis persistiu até 50.000 anos atrás na região de Java e foi
possivelmente absorvida por uma população local de H. sapiens na época de seu
declínio.
Outras subespécies:
Homo erectus palaeojavanensis;
H. e. nankinensis;
H. e. hexianensis;
H. e. mauritanicus;
H. e. palaeojavanicus;
Fonte: http://sasquatchresearch.net/hominoids.html
Capítulo 6: Gigantopithecus, os maiores primatas de todos os tempos
Gigantopithecus é um gênero de primatas gigantescos, os maiores que já existiram
na face da Terra, extintos há milhares de anos. Esse gênero é muito próximo do
gênero dos orangotangos, que vivem na Ásia, e ambos podem ter um ancestral
comum recente. Especula-se que tais primatas gigantes podem ter dado origem a
lendas como a do Pé Grande.
Gigantopithecus – representação artística
Os Gigantopithecus eram seres curiosos: podiam chegar a até 3 metros de altura (!)
e pesar até 600 Kg (a título de comparação, um gorila atual chega a 2 metros de
altura). Essas informações podem ser encontradas no livro “Human Evolution – An
Illustrated Introduction” do autor Roger Lewin (5ª edição, página 107). As fêmeas
tinham metade do tamanho do macho, o que indica que, talvez, viviam em "haréns",
como os gorilas. Possuíam braços fortes e compridos, comiam bambus e outros
vegetais e se locomoviam, provavelmente, sobre os nós dos dedos. Alguns o
consideram um bípede (!), mas a verdade é que não há muita evidência fóssil que
indique a forma de sua locomoção.
A maioria dos Gigantopithecus foi extinta pelo H. erectus há uns 300.000 anos. No
entanto, alguns sobreviveram até uns 100.000 anos atrás (G. blacki) e foram mortos
pelos H. sapiens ou pela competição com os ursos panda (que também se
alimentam de bambus).
Existiram 3 espécies do gênero Gigantopithecus: Gigantopithecus blacki,
Gigantopithecus bilaspurensis e Gigantopithecus giganteus. Todas viveram na Ásia
(Índia e China, principalmente), conforme pode-se ler na Wikipedia. São primatas
classificados como pertencentes à família Hominidae (a mesma dos humanos),
subfamília Ponginae (a mesma dos orangotangos). Portanto, não eram tão próximos
de nós como os chimpanzés ou os gorilas, que pertencem à mesma subfamília dos
humanos (Homininae), mas eram incrivelmente semelhantes fisicamente à nossa
espécie.
:
Gigantopithecus – comparações. Fonte: Wikipedia
Capítulo 7: Homo ergaster
Na década de 1990, na África, perto do desfiladeiro de Olduvai, foi descoberto um
esqueleto quase completo do famoso Homo erectus africano, reclassificado como
Homo ergaster. O H. ergaster é mais antigo do que o H. erectus e tem proporções
corporais ainda mais semelhantes ao H. Sapiens. Viveu na África do Sul e na África
Oriental.
Eram basicamente como nós. A principal diferença estava no volume craniano, que
não passava de 900 centímetros cúbicos (pouco menor do que o volume craniano
do erectus, que tinha, em média, 1.000 cm3 e muito menor que o nosso, de 1.400
cm3 em média). Entretanto, há fósseis mais antigos de ergaster com volume
craniano de apenas 508 a 582 cm3. O famoso Menino de Nariokotome (esqueleto
quase completo de ergaster, descoberto na década de 1990) tem esse volume
encefálico.
Os autores do livro "The Last Human" consideram o bipedalismo do H. ergaster
inquestionável, mas com base em características da cintura escapular acreditam que
as crianças ergaster poderiam demorar mais tempo para andar (uma criança
humana anda por volta dos 12 meses, os ergaster, talvez demorassem 16 ou mais
meses).
O Homo ergaster era capaz de produzir ferramentas de pedra polida (estilo
acheuliano), mas não tinha uma inteligência muito superior à do chimpanzé. Se
ainda vivessem, seriam considerados uma espécie estúpida (com pouca
inteligência) de humanos, mas, sem dúvida, tendo em vista suas evidentes
características físicas, seriam considerados humanos.
7.1. A convivência com o ergaster:
Os sapiens não conviveram com ergaster porque estes últimos viveram há, mais ou
menos, 1,5 milhão de anos, portanto, muito tempo antes do surgimento dos sapiens,
que ocorreu há apenas 200.000 anos.
Os pesquisadores entendem que o ergaster deu origem ao erectus e ao
heidelbergensis. O heidelbergensis deu origem ao neandertalensis e ao sapiens,
talvez passando por espécies intermediárias.
Apesar de não ter convivido conosco, o ergaster conviveu, em um mesmo habitat
(!!!), com o Homo habilis (espécie ainda mais antiga, de mais de 2 milhões de anos)
e o Homo rudolfensis (que parecia como o habilis, mas era maior). Além disso, o
Homo ergaster também conviveu com uma espécie australopitecínea recente,
chamada de Paranthropus boisei, também em um mesmo habitat.
Em suma, havia, pelo menos, três espécies humanas e uma australopitecínea
convivendo em uma mesma paisagem há 1,5 milhão de anos. A revista Scientific
American Brasil produziu uma interessantíssima matéria de 8 páginas sobre essa
fascinante convivência (edição especial nº 2 - Novo Olhar Sobre a Evolução
Humana). Recomendo.
7.2. Corpo moderno e cérebro primitivo:
O ergaster foi o primeiro Homo a ter o nariz proeminente, como o nosso. As
espécies anteriores, inclusive o Homo habilis e o Homo rudofensis tinham o nariz
parecido com o dos gorilas atuais, embutido no rosto. Os Australopithecus tinham
um nariz semelhante ao do chimpanzé (Pan troglodytes) e bonobos (Pan paniscus),
exceto o Australopithecus sediba, que já possuía um nariz relativamente projetado.
O ergaster também foi o primeiro a ter menos quantidade de pêlos pelo corpo (uma
adaptação ao clima, que ficou mais quente há 1,8 milhão de anos atrás ou uma
adaptação a longas caminhadas e a necessidade de suar para manter estável a
temperatura corporal).
Suas proporções corporais, vale repetir, eram semelhantes à nossa. Foi a primeira
espécie humana a ter o braço menor que as pernas, indicando o total abandono da
vida arbórea, passando para uma locomoção tipicamente terrestre. Para aumentar o
volume do pulmão e permitir caminhadas mais longas, o tórax teve de se expandir,
surgindo um tronco em forma de barril como o nosso (e não afunilado, como
veremos nos Australopithecus e no habilis).
Houve um estreitamento da pélvis (para facilitar as caminhadas), o que reduziu a
passagem dos bebês (do útero à luz) e, consequentemente, aumentou a
dependência do recém-nascido após o nascimento. É que os cérebros tiveram que
ficar menores antes do nascimento e começar a crescer depois, por causa do
estreitamento da pélvis.
O Homo ergaster, uma das espécies mais bem conhecidas pelos
Paleoantropólogos, visto de longe, poderia ser confundido com um ser humano
atual, indicando que nosso corpo (da maneira que é hoje) surgiu há quase 2 milhões
de anos. Nosso cérebro, da maneira que é hoje, surgiu há 200.000 anos, e nosso
comportamento, da maneira que é hoje (com capacidade simbólica e abstrata)
surgiu (ou, pelo menos, expandiu-se) há 50.000 anos.
Fonte: http://wiki.kkc.school.nz/index.php/Homo_ergaster
7.3. Sobre a perda dos pêlos:
Segundo Richard G. Kelin, a partir do Homo ergaster (após o Homo habilis), há mais
ou menos 1,8 milhão de anos, os pêlos começaram a ficar menores no gênero
Homo:
"Já que o ergaster foi feito para um clima quente e seco,
podemos especular que ele foi também a primeira espécie
humana a possuir pele nua, quase sem pêlos. Se tivesse
pêlos cobrindo o corpo, como os macacos, não poderia
suar de maneira adequada, e o suor é o meio mais
importante que os seres humanos - e o cérebro - têm para
evitar o superaquecimento do corpo." (página 86 do livro
"O Despertar da Cultura").
Robert Foley, no livro "Os Humanos Antes da Humanidade", concorda. No entanto,
como esse livro foi escrito há mais tempo, o autor não conseguiu determinar a partir
de qual espécie teria surgido:
"O atributo-chave provavelmente foi a perda de pêlo.
Estritamente falando, os humanos não são 'pelados', mas
apresentam uma pelagem extremamente miniaturizada,
cobrindo a maior parte do corpo, embora haja variações
drásticas, dependendo do sexo e de região geográfica."
(página 181 do livro supracitado).
O autor, depois dessa introdução, fala sobre as teorias históricas sobre a perda de
pêlos, dentre as quais, a famosa e totalmente descartada "fase aquática" dos
hominídeos. Depois, conclui:
"Os humanos modernos, pelo menos, trazem em sua
anatomia e em sua fisiologia as marcas de uma espécie
que evoluiu no contexto de estresse térmico extremo. É
impossível determinar com precisão quando esse
estresse ocorreu, mas como o bipedalismo se
desenvolveu muito cedo, e talvez ele próprio esteja
relacionado ao estresse térmico, pode ter acontecido que,
durante os estágios formativos da linhagem humana,
alguma coisa que os hominídeos vinham fazendo
resultava em que eles sentissem muito calor. Caminhar
através de vastas extensões em busca de alimento foi de
importância crítica, tanto para a evolução da fisiologia
térmica como da anatomia locomotora dos humanos, e é
também uma estratégia comportamental de importância
crucial." (página 182 do livro "Os Humanos Antes da
Humanidade").
Portanto, os pêlos podem ter caído quando o Homo ergaster, há 1,8 milhão de anos,
começou a vasculhar grandes extensões do planeta, segundo Klein. Ou, na teoria de
Foley, os pêlos podem ter caído pelos mesmos motivos que levaram os grandes
antropóides antigos a se tornarem bípedes (grandes caminhadas), e, se for assim, a
perda de pêlos teria acontecido nos últimos Australopithecus.
O melhor livro sobre o assunto, no entanto, é “O Macaco Nu”, de Desmond Morris,
um ilustre zoólogo inglês. Esse último autor, em várias páginas de seu livro
supracitado, comenta, exaustivamente, as várias hipóteses que tentam explicar a
perda de pêlos (fase aquática, parasitas de pele, sujeiras inevitáveis nos pêlos,
hipótese sexual, etc.). No entanto, o autor concorda com Klein e afirma que a
hipótese mais provável é o fato das grandes caminhadas efetuadas pelos primeiros
exemplares do gênero Homo, o que exigia um equipamento de resfriamento corporal
muito eficiente. Por isso, as glândulas sudoríparas fariam esse papel de forma mais
eficaz caso o corpo não estivesse coberto de pêlos.
Possíveis peles fossilizadas do Australopithecus sediba foram encontradas em
Malapa (África do Sul) em 2008. Se a descoberta se confirmar, será possível
analisar a quantidade de glândulas sudoríparas que possuíam, podendo-se, a partir
daí, estimar a quantidade de pêlos que possuíam. O A. sediba é um dos
australopitecíneos mais recentes (1,8 milhão de anos) e um dos prováveis
ancestrais do Homo erectus. Para saber mais sobre isso, recomendo a edição de
agosto de 2011 da revista National Geographic Brasil.
Capítulo 8: Homo rudolfensis e Homo habilis (“Habilinos”)
Provavelmente, o Homo rudolfensis ou o Homo habilis foram as duas primeiras
espécies do gênero Homo. Há indícios de que as duas espécies surgiram há mais
de 2 milhões de anos. Temos, portanto, um marco importante: 2 milhões de anos –
surgimento do gênero Homo.
Alguns autores chamam essas primeiras espécies do gênero Homo de “habilinos”.
Essa nomenclatura pode facilitar muito as coisas, quando nos referimos a tais
espécies de uma forma genérica.
Nessa época, há um ligeiro aumento do volume craniano. De apenas 450 a 500
centímetros cúbicos nos Australopithecus, o volume atingiu até 752 centímetros
cúbicos no rudolfensis e 687 centímetros cúbicos no habilis. Apesar do volume
cerebral do habilis ser menor, deve-se levar em consideração que seu corpo
também era menor. Portanto, pode-se concluir que ambos tiveram um grau de
inteligência semelhante. Eram capazes de produzir muitas ferramentas de pedra
lascada, no estilo de Olduvai. Foram os primeiros a construir ferramentas de pedra
nesse estilo. Os chimpanzés, apesar de serem capazes de utilizar ferramentas
prontas (como gravetos e pedras), não são capazes de modificar pedras
deliberadamente para que funcionem como ferramentas mais sofisticadas. Na
verdade, é necessário uma mão mais habilidosas das que as dos chimpanzés para
lascar pedras de maneira adequada.
As espécies australopitecíneas coexistiram com as primeiras espécies Homo por
muitos milhares de anos, talvez até por meio de milhão de anos. Essas espécies
australopitecíneas mais recentes são incluídas no gênero Paranthropus (antropóide
paralelo ao homem) e serão estudadas mais adiante.
8.1. Habilis / Rudolfensis: características físicas
Tanto o habilis quanto os rudolfensis possuíam muitas características primitivas, que
lembravam os Australopithecus: pés sem o arco característico, braços longos,
mandíbula avantajada, protuberâncias ósseas supra-oculares, muitos pêlos pelo
corpo, atingiam no máximo 1,40m de altura e 45Kg, tórax afunilado, pélvis
relativamente larga, etc.
No entanto, a maioria dos paleoantropólogos insiste em classificá-los como Homo,
tendo em vista seu maior volume cerebral, sua pélvis relativamente mais estreita em
relação aos Australopithecus e um prognatismo (projeção das mandíbulas para
frente - focinho) relativamente menor, também em relação aos Australopithecus.
Aliás, algumas etnias atuais de Homo sapiens ainda possuem um relativo
prognatismo, como resquício evolutivo.
O Australopithecus sediba, recém encontrado, talvez seja Homo também, por conter
quase tantas características desse gênero quanto o habilis ou o rudolfensis. No
entanto, seu descobridor classificou-o como Australopithecus, tendo em vista que
características importantes, como o volume craniano, eram mais semelhantes às
das espécies australopitecíneas.
A Figura acima foi retirada do livro “O Despertar da Cultura” de Richard G. Klein e
Blake Edgar, fig. 3.7. Conforme o livro, a ilustração foi desenhada segundo F.C.
Howel, em Evolution of African Mammals, Harvard University Press, Cambridge,
1978, fig. 10.9.
Homo habilis – reconstituição a partir de fósseis (Fonte: humordarwinista.blogspot.com)
Capítulo 9: O mundo há 2 milhões de anos
Nessa época (2,5 a 2,0 milhões de anos atrás), várias espécies da nossa subfamília
dividiram as paisagens africanas, como o Australopithecus africanus, o
Australopitecus garhi, o Paranthropus aethiopicus, o Homo habilis, o Homo
rudolfensis e outras espécies. Há muitos outros fósseis que não podem ser
claramente classificados. Podem pertencer a outras espécies ainda não identificadas
ou fazerem parte de alguma espécie já conhecida, mas, por variações anatômicas,
ainda não foi possível identificá-la.
Espécies que viveram há mais ou menos 2 milhões de anos (2,5 a 1,5 milhão de
anos):
Australopithecus africanus - com mais ou menos 2,5 milhões de anos (África do Sul);
Paranthropus robustus - 2,0 a 1,75 milhão de anos (África do Sul);
Australopithecus sediba - 1,8 milhão de anos (África do Sul);
Homo georgicus - 1,75 a ? milhão de anos (atual Geórgia – Ásia);
Australopithecus gahri - 2,5 a ? milhões de anos (atual Etiópia);
Paranthropus boisei - 1,7 a 1,6 milhão de anos (atuais Etiópia e Tanzânia);
Homo rudolfensis - 2,5 a 1,9 milhão de anos (atual Quênia);
Homo habilis - 1,9 a 1,6 milhão de anos (atual Tanzânia);
Paranthropus aethiopicus - 2,5 milhões de anos a ? (atual Quênia);
Homo ergaster - 1,8 a 1,5 milhão de anos (África Oriental).
Capítulo 10: Outras Espécies do Gênero Homo:
Terminamos aqui o estudo do gênero Homo. Como devem ter percebido, não
esgotamos o assunto. Não estudamos, em detalhes, outras espécies do gênero,
como, por exemplo:
Fonte: http://humanorigins.si.edu
10.1. Homo georgicus (espécie intermediária entre o habilis e o erectus asiático);
10.2. Homo cepranensis (espécie que viveu na atual Itália há mais ou menos 850 mil
anos);
10.3. Homo antecessor (espécie muito parecida com o Homo sapiens, porém,
ligeiramente mais antiga, que também viveu na atual Itália). Segundo o Dr. Fernando
Bilharinho, “a maioria dos fósseis do H. antecessor foi encontrada na Sierra de
Atapuerca (Espanha), mas há fósseis encontrados no norte da Argélia que também
parecem pertencer ao H. antecessor. Um terceiro grupo de fósseis encontrado em
Daka (Etiópia) provavelmente pertencem ao H. antecessor, mas há dúvidas, porque
foram encontrados há mais de 3.000km de distância dos demais. Se os fósseis da
Argélia forem realmente do H. antecessor e não do H. heidelbergensis, o nome do
H. antecessor teria que ser mudado para Homo mauritanicus (homem da
Mauritânia), nome que os fósseis da Argélia receberam em 1954. Os primeiros
fósseis da Espanha foram encontrados apenas em 1994, e o "batismo" aconteceu
em 1997. De acordo com as regras internacionais de nomenclatura o primeiro nome
recebido pela espécie deve prevalecer”;
10.4. Homo rhodesiensis (espécie que viveu nas atuais Zâmbia e Tanzânia).
Homo georgicus. Fonte: http://erroridistumpa.blogspot.com/2009/10/sunday-mixture-10042009.html
Capítulo 11: O Polegar Opositor
O polegar opositor não surgiu com o gênero Homo. Praticamente todas as espécies
primatas têm o polegar opositor, não apenas nas mãos, mas também nos pés.
Os gorilas, os chimpanzés, os bonobos, os orangotangos, os macacos do novo
mundo, todos os primatas têm polegares opositores nas mãos e nos pés.
Atualmente, apenas o homem não tem polegares opositores nos pés. Essa
adaptação (pés sem polegares opositores) surgiu, com certeza, com os
Australopithecus, tendo em vista que os Ardipithecus (gênero que antecedeu aos
Australopithecus) ainda tinham polegares opositores nos pés.
No caso específico do gênero Homo, é possível concluir que desde o Homo habilis,
o polegar opositor tornou-se mais sofisticado nas mãos, tendo em vista que essa
espécie foi uma das primeiras a construir ferramentas de pedra lascada (estilo de
Olduvai). Conforme testes em laboratório (vide livro "Eu, Primata", de Frans de
Waal) os chimpanzés não conseguem um grau de controle tão aprimorado dos
polegares. Por isso, eles não conseguem produzir ferramentas no estilo de Olduvai,
apesar de conseguirem manipular pedras, gravetos e outros objetos.
As ferramentas mais elaboradas de pedra polida (estilo acheuliano) surgiram muitos
milhares de anos depois (600.000 anos atrás), quando as espécies humanas já
possuíam um volume craniano ligeiramente maior. Portanto, pode ser que o habilis
já tivesse mãos capazes de produzir ferramentas mais elaboradas, mas não tivesse
inteligência suficiente para tanto.
As limitações anatômicas do chimpanzé podem ser explicadas também pelo fato
deles andarem sobre os nós dos dedos, como outros grandes primatas. Vale
lembrar que apenas o Homo sapiens é bípede, atualmente, dentre os primatas,
deixando as mãos totalmente especializadas para outras funções. Isso faz com que
os chimpanzés não disponham de músculos e nervos mais adequados para funções
superiores das mãos. O andar sobre os nós dos dedos (nodelismo) exige
adaptações específicas, como músculos que travam o pulso, dificultando o
manuseio de objetos.
Retrocedendo no tempo, sabe-se que o ancestral comum entre os pré-humanos e os
pré-chimpanzés remonta há mais ou menos 6 milhões de anos. Com certeza, nosso
ancestral comum com os chimpanzés não tinha mãos tão adaptadas ao trabalho
manual. Não se sabe se esse ancestral era mais parecido com os Australopithecus
ou com os chimpanzés atuais. Sabe-se apenas que, muito provavelmente, ele não
era bípede. O Ardipithecus ramidus, com 4 milhões de anos, e o Sahelanthropus
tchadensis, são as espécies mais próximas que chegamos desse ancestral comum.
Capítulo 12: Importantes marcos pré-históricos
(Fonte: Resumo do texto "Gerações" de minha autoria, disponível, na íntegra, em
www.paleoantropologia.com.br)
1 geração – 25 anos de duração – Convenção que usaremos neste texto;
4 gerações – 100 anos ou pouco mais – Tempo máximo de existência de uma
pessoa;
8 gerações – 200 anos atrás (a.a.) – Limite de tempo em que, geralmente, é possível
identificar nossos ancestrais;
40 gerações - 1.000 a.a. – Idade Média na Europa;
80 gerações – 2.000 a.a. – Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo;
240 gerações – 6.000 a.a. – Início da civilização: surgimento de cidades, agricultura,
escrita, etc.;
680 gerações – 17.000 a.a. – Extinção do Homo floresiensis: espécie humana de
apenas 1 metro de altura, que viveu na Ilha de Flores, pertencente à atual Indonésia;
1.200 gerações – 30.000 a.a. – Extinção do Homo neanderthalensis: espécie
humana, com cérebro maior do que o nosso, que conviveu com o Homo sapiens na
atual Europa e no atual Oriente Médio por vários milênios;
1.800 gerações – 45.000 a.a. – Explosão criativa do Homo sapiens: pensamento
abstrato e simbólico. Tecnologia sapiens entra em constante aperfeiçoamento;
8.000 gerações – 200.000 a.a. – Surgimento do Homo sapiens na África;
20.000 gerações – 500.000 a.a. – Época em que viveu, no Oriente Médio, o
ancestral comum entre os sapiens e os neanderthalensis, conhecido como Homo
heildelbergensis;
40.000 gerações – 1.000.000 a.a. – Surgimento de espécies do gênero Homo com
maior volume cerebral (ergaster/erectus) e início da tecnologia Acheuliana (pedra
polida);
80.000 gerações – 2.000.000 a.a. – Surgimento do gênero Homo, representado pelo
Homo habilis e outras espécies, na África (atual Somália, Quênia e Tanzânia). Início
da tecnologia de Olduvai (pedra lascada).
Capítulo 13: O gênero Australopithecus
13.1. Informações Básicas:
No período de mais ou menos 4 milhões de anos atrás até, mais ou menos, 1,5
milhão de anos atrás, existiam primatas bípedes muito interessantes: os
Australopithecus. Seus primeiros fósseis começaram a ser encontrados no início do
século XX, todos na África (África Oriental e África do Sul).
Australopithecus significa Macaco do Sul. Receberam esse nome porque seus
primeiros exemplares foram encontrados na África do Sul, em 1924, pelo Professor
de anatomia da Universidade de Witwatersrand (em Johanesburgo), Raymond Dart,
um inglês que havia chegado recentemente para ensinar anatomia na Universidade.
Na África Oriental (principalmente Tanzânia, onde fica o desfiladeiro de Olduvai),
Louis Leakey e Mary Leakey começaram as mais importantes escavações,
descobrindo centenas de fósseis, desde a década de 1930. O trabalho foi seguido
pelo filho do casal Richard Leakey e por dezenas de outros paleoantropólogos
famosos, como Donald Johanson, Tim White, Yves Coppens.
De lá para cá, milhares de fósseis novos foram sendo desenterrados. Para sorte dos
paleoantropólogos, foram desenterrados também alguns esqueletos quase
completos. Tais esqueletos deram aos cientistas uma noção muito boa do corpo,
dos hábitos e da capacidade cerebral dessas criaturas. Algumas espécies, como o
A. afarensis, têm quase todos os seus ossos (até mesmo os menores) conhecidos.
Os Australopithecus desceram das árvores, mas seu corpo ainda manteve muitas
adaptações para a vida arbórea, como os longos braços. Veja a ilustração retirada
do livro “Human Evolution”, de Roger Lewin:
Fonte: Livro “Human Evolution – An illustrated Introduction”
13.2. O corpo dos Australopithecus:
Os Australopithecus tinham um corpo que, na maioria das vezes, era pequeno, com
no máximo 1,20m. No ano de 2010, foi publicado um estudo em que se constatou a
existência de alguns espécimes maiores, com até 1,50m, mas, a grande maioria dos
achados demonstra claramente um tamanho menor.
O corpo australopitecíneo era incrivelmente semelhante ao nosso, por isso, vou
relacionar aqui apenas as principais diferenças:
13.2.1. O tórax era afunilado para cima, tendo em vista que o osso da pélvis era
ligeiramente mais largo, parecido com o dos chimpanzés atuais;
13.2.2. Os braços eram mais compridos, bem como os dedos das mãos (que
também eram mais curvos), o que indicava claramente um compleição corpórea
ainda voltada para a vida arborícola. Para que se tenha ideia do tamanho dos
braços, as mãos quase chegavam à altura dos joelhos;
13.2.3. Havia algumas diferenças na articulação do ombro em algumas espécies
mais antigas, permitindo aos braços um giro quase completo sobre a cabeça, ainda
uma adaptação à locomoção braquial, nas árvores;
13.2.4. Os ossos da pélvis e das pernas indicam claramente uma locomoção
bipedal, não apenas pela posição dos desgastes naturais, como também pelos
ângulos de encaixe das articulações e pelo formato característico das extremidades
(principalmente da tíbia);
13.2.5. A coluna vertebral demonstra clara, mas não completamente, adaptação ao
bipedalismo, como principal meio de locomoção. As espécies mais recentes
demonstram mais claramente essa adaptação ao bipedalismo;
13.2.6. Os pés já possuíam os polegares na mesma posição dos outros dedos, no
entanto, eram ligeiramente diferentes dos nossos, porque, na maioria das espécies,
não havia o arco típico do gênero Homo;
Enfim, para que se tenha uma boa noção, uma boa imagem mental dessas
espécies, tente imaginar um chimpanzé totalmente bípede e terá visualizado algo
muito parecido com um Australopitecíneo.
13.3: Australopithecus: corpo quase humano e cabeça de macaco:
Como se pode notar, o corpo dos Australopitecos (aportuguesando a forma latina do
nome) era quase humano. As diferenças quase não podiam ser notadas por um
leigo. No entanto, a cabeça era incrivelmente diferente:
13.3.1. O que mais chamou atenção dos paleoantropólogos foi a posição de um
aspecto anatômico muitíssimo interessante: a abertura do forame magno. O forame
é um orifício que fica embaixo do crânio, por onde se encaixa a coluna cervical no
crânio. A posição desse orifício era muito parecida com a posição encontrada no
gênero Homo. Isso indica claramente o bipedalismo. A cabeça ficava na mesma
posição ereta, dificultando muito uma locomoção sobre os nós dos dedos, como os
chimpanzés;
Fonte da imagem: http://frontiersofzoology.blogspot.com/2011/04/muhalululu-and-ngoogounogounmbar.html
13.3.2. O segundo aspecto que mais impressionou foi o tamanho reduzido do
cérebro. Os Australopitecos tinham cérebros realmente pequenos, menores do que
500 cm3. Em algumas espécies, encontramos cérebros menores do que os do
chimpanzé. Mesmo levando em consideração o tamanho do corpo (pequeno), o
cérebro deles, em proporção, equivaleria a menos da metade do nosso;
Fonte da imagem: http://ideonexus.com/2008/10/19/american-natural-history-museum-hall-of-human-origins
13.3.3 O tamanho das mandíbulas, em praticamente todas as espécies, era grande,
com forte prognatismo (focinho avantajado);
13.3.4. O tamanho dos dentes variava muito em função da espécie. Algumas
espécies tinham dentes pequenos semelhantes aos nossos, mas sempre com os
caninos ligeiramente mais avantajados. A exceção ficava com os Paranthropus,
gênero mais recente, também conhecidos com megadônticos, que tinha dentes
molares gigantescos (uma adaptação à alimentação herbácia);
13.4. Ainda sobre o crânio dos Australopithecus:
13.4.1 As mandíbulas tinham um formato nítido de "U", enquanto que no gênero
Homo, o formato era mais aberto, formando uma espécie de curvatura parabólica
(mais ou menos em “V” [ver figura no item 20.5]);
13.4.2 Em praticamente todas as espécies, havia protuberâncias supraoculares
bastante realçadas, mas o formato das mesmas variava conforme a espécie;
13.4.3. O esfenóide, um osso na base do cérebro, era muito mais plano do que o
nosso, permitindo que as mandíbulas ficassem bem avantajadas e reduzindo o
espaço disponível para o cérebro;
13.4.4. O nariz era bastante semelhante ao do chimpanzé atual (Pan troglodytes),
exceto o do Australopithecus sediba, já proeminente;
13.4.5. As espécies mais recentes (Paranthropus), tendo em vista seus gigantescos
molares, possuíam uma grande e característica crista sagital sobre o crânio. Essa
crista servia para prender os grandes músculos das mandíbulas. Tendo em vista a
pelagem, não ficavam à mostra quando vivos, mas, nos crânios fósseis, são
espetaculares;
13.4.6. O formato da face variava muito conforme a espécie. Temos faces
arredondadas, ovaladas, curtas, compridas, etc. Os Paranthropus tinham,
geralmente, uma face mais arredondada enquanto que os Australopitecos mais
antigos tinham uma face bastante proeminente (prognatismo). Alguns, como o gahri,
tinham um focinho bastante proeminente;
13.4.7. A testa era muito baixa e inclinada para trás. O formato do cérebro era
parecido com as primeiras espécies do gênero Homo, ou seja, voltado para trás;
13.4.8. Nenhuma espécie apresentava queixo proeminente, encontrado apenas nos
sapiens recentes.
13.5. Evolução do crânio:
Não é correto falar em "formas de transição", porque cada espécie tem sua
importância própria. Cada espécie criou seus próprios mecanismos para enfrentar a
vida e era a mais adaptada ao seu meio. A Evolução seleciona os indivíduos mais
adaptados ao meio ambiente utilizando-se de mutações aleatórias e outros
mecanismos já comentados.
No entanto, podemos visualizar, por exemplo, o crescimento cerebral desde os
Australopithecus ao sapiens de forma bem detalhada, com milhares de fósseis
intermediários.
Comparação de volumes cranianos. Fonte: http://www.mahjoob.com/en/forums/showthread.php?t=249696
Não há, nem de longe, uma espécie de pré-programação ou algo do tipo no que se
refere a esse aumento paulatino do cérebro. A Evolução seguiu um rumo
absolutamente aleatório. A tendência de aumento no volume cerebral seguiu
pressões evolutivas que podem ser identificadas e serão estudadas mais adiante,
em um capítulo a parte.
Fonte: http://www.mahjoob.com/en/forums/showthread.php?t=249696
13.6. Prognatismo:
Não vamos estudar aqui o prognatismo mandibular, que se trata de uma má
formação, geralmente, congênita. Estudaremos aqui o prognatismo como uma
característica anatômica de uma espécie. Veja que o dicionário traz duas acepções
para a palavra:
Prognatismo: [1] acentuada projeção do maxilar inferior para a frente; [2] disposição
da face na qual a linha do perfil, indo da fronte à parte mais saliente dos maxilares,
forma um ângulo agudo em relação ao plano horizontal do crânio.
A maioria dos Australopithecus possuía mandíbulas avantajadas. Algumas espécies
possuíam mandíbulas muito projetadas para frente. A boca era projetada para frente
mais ou menos como no chimpanzé atual.
O queixo é outra parte da anatomia que fica abaixo das mandíbulas. Apenas o
Homo sapiens tem o queixo mais proeminente, apesar de não ter mandíbulas
projetadas. Percebam a diferença entre ter um queixo proeminente, como na maioria
de nós, e ter as mandíbulas salientes, como na maioria dos Australopithecus.
O Australopithecus sediba foi o primeiro a apresentar um nariz proeminente, e não
mais embutido dentro do rosto:
Fonte: John Gurge
Capítulo 14: Berço da Humanidade
A África do Sul é chamada por muitos de "Berço da Humanidade". Na verdade, ela
disputa esse título com os países da África Oriental (Quênia, Tanzânia, Etiópia, etc.).
A grande maioria dos Australopithecus e das primeiras espécies do gênero Homo
são encontradas nesses locais. Recentemente, o magnífico Australopithecus sediba,
já com muitas características do gênero Homo, foi encontrado lá, perto de
Johanesburgo.
Se colocarmos todas as espécies de Australopithecus e todas as espécies Homo
uma ao lado da outra, poderemos perceber a Evolução, em cada detalhe anatômico:
1. Aumento gradual do cérebro;
2. Mudança gradual das articulações do ombro, da pélvis e dos joelhos;
3. Adaptação gradual dos pés à locomoção bípede;
4. Adaptação gradual do tórax;
5. Adaptação gradual da forma da coluna;
6. Adaptação gradual do comprimento dos braços;
7. Adaptação gradual das extremidades da tíbia.
14.1. Sequência evolutiva mais provável:
Australopithecus africanus
Australopithecus sediba
Homo habilis
Homo ergaster
Homo heidelbergensis
Homo sapiens (Cro-Magno)
Fonte das imagens: http://skullduggery.com/extinct.htm
14.2. Os Australopithecus são nossos avós!
Grande parte das espécies de Australopitecos foram extintas, outras evoluíram para
espécies mais recentes (Paranthropus), outras evoluíram para o gênero Homo.
Não há dúvidas de que os singelos Australopitecos eram nossos ancestrais. Além de
ser possível verificar a convergência evolutiva para o gênero Homo em algumas
espécies australopitecíneas, todas as espécies viveram nos mesmos ambientes em
que surgiram as primeiras espécies Homo. A escalada de mudanças morfológicas
começou nos membros inferiores (adaptações na tíbia para o andar bípede, há 4
milhões de anos), passou para a pélvis (estreitamento da pélvis, para facilitar longas
caminhadas), depois para o tórax (formato de barril, consequência da mudança na
pélvis, há 2,5 milhões de anos), depois para os braços (braços menores há 2
milhões de anos), depois para o rosto (rosto mais humano há 1,5 milhão de anos) e,
por fim, atingiu dramaticamente o cérebro (constante crescimento a partir de 2
milhões de anos, com grande salto há 600.000 anos, provavelmente com o Homo
heidelbergensis).
Capítulo 15: Australopithecus afarensis: um velho conhecido
Afarensis significa "da região de Afar", na Etiópia, onde foram encontrados. Viveram
entre 3 a 4,1 milhões de anos nas atuais Etiópia e Tanzânia. Os fósseis dessa
espécie tão conhecida são encontrados desde 1935 pela família Leakey, mas
recebeu esse nome apenas em 1978, após ajustes na classificação.
Fonte: Foto – Museu de História Natural de Nova York – EUA
Sabemos muita coisa sobre essa espécie e inclusive temos pegadas fósseis dela: as
pegadas de Laetoli, datadas da época em que o afarensis habitava aquelas
paragens. Tais pegadas sugerem que ele andava a maior parte do tempo sobre
duas patas. Temos centenas de fósseis e alguns esqueletos completos, cujo mais
famoso é conhecido pelo nome de "Lucy", em homenagem a uma canção dos
Beatles, e outro esqueleto conhecido como “O Filho de Lucy” ou Selan (que significa
esperança na língua local), um bebê Australopithecus, um pouco mais antigo. Na
verdade, temos centenas de fósseis dessa espécie, muitos ainda não catalogados.
Esses esqueletos quase completos trouxeram muitas informações adicionais sobre a
espécie, como, por exemplo, o padrão de crescimento dos filhotes, as proporções
corporais, a posição das articulações, etc. Temos um modelo interno do cérebro,
muitas informações sobre os pés, as mãos e outros ossos importantes para
determinar o bipedalismo (tíbia, bacia, vértebras, etc.). Aliás, o bipedalismo dos
Australopithecus é indiscutível e extraordinariamente evidente.
Há muitas semelhanças entre alguns fósseis de afarensis e o orangotango atual, o
que confunde os pesquisadores até hoje, mas as semelhanças com os demais
Australopithecus é avassaladora. No entanto, parece ter havido uma convergência
evolutiva com os orangotangos em alguns pontos do esqueleto, principalmente nos
braços.
Seu corpo tinha o mesmo tamanho de um bonobo atual (Pan paniscus). Era
pequeno, talvez o menor dos Australopithecus. É bom lembrar que quase todos os
Australopithecus não tinham caninos avantajados e, portanto, não tinham
mecanismos de defesa eficientes (eram pequenos, fracos, sem caninos fortes...).
Porém, pode-se presumir que eram muito espertos, porque sobreviveram em uma
região cheia de predadores e com escassez de comida e água. "As características
anatômicas do afarensis também são vistas em macacos e não são exclusivas de
bípedes. Os membros inferiores, por exemplo, são semelhantes aos dos babuínos
(macaco com hábitos terrestres), diferentes dos macacos escaladores. As
características dos dedos das mãos são semelhantes às do homem e do gorila"
(informações retiradas pelo Dr. Fernando Bilharinho do Livro "The Last Human").
No entanto, o cérebro do anamensis não ultrapassa os 550 centímetros cúbicos. Na
verdade, na média, ficava bem abaixo disso, talvez menos do que 400 cc. Vale
lembrar que o tamanho do cérebro, às vezes, não diz muita coisa sobre a
inteligência da espécie.
Capítulo 16: Australopithecus africanus: outro velho conhecido
Africanus significa africano, evidentemente. Essa espécie viveu há, mais ou menos,
2,5 milhões de anos na África do Sul. A linha evolutiva mais aceita não inclui o A.
africanus dentre nossos ancestrais diretos. A linha mais aceita atualmente é a
seguinte: anamensis > afarensis > habilis > ergaster > heidelbergensis > sapiens. O
A. afarensis é o mais provável ancestral do Homo habilis. Portanto, o africanus pode
ter sido um beco sem saída evolutivo, ou ser um ancestral do Australopithecus
sediba (que também viveu na África do Sul), ou ainda pode ser um ancestral do
habilis (apesar da longa distância entre os habitats, há indícios de espécies do
gênero Homo na África do Sul). Nesse último caso, teríamos o africanus e não o
afarensis como nosso ancestral. Também nesse último caso, poderíamos ter o
sediba como um intermediário entre o afarensis e o habilis.
Da mesma forma que o afarensis, temos muitos fósseis, centenas, dessa espécie.
Alguns pesquisadores sugerem dividi-los em duas ou mais espécies separadas,
tendo em vista sutis diferenças encontradas.
Vou postar abaixo um trecho do livro "The Last Human", gentilmente traduzido pelo
Dr. Fernando Bilharinho, sobre o Australopithecus africanus. O livro é escrito por
Esteban Sarmiento, com colaboração de G. J. Sawyer e Richard Milner. Ainda não
há edição em português. O texto está resumido e descreve o Australopithecus
africanus:
"Crânio e dentes com muitas características parecidas
com as dos homens:
(1) face relativamente plana e disposta verticalmente;
(2) mandíbula relativamente curta;
(3) musculatura do pescoço com inserção bem baixa no
crânio;
(4) forame magno posicionado mais adiante e orientado
mais para baixo do que nos macacos, indicando
bipedalismo;
(5) volume craniano parecido com o dos grandes macacos
africanos, 400cc. Peso de 25 a 30kg.
(6) O pé do A. africanus é muito mais móvel, não possui
arcos fixos como os humanos e possui um grau elevado
de divergência do hálux (dedo grande do pé, conhecido
também como primeiro pododáctilo) em relação ao pé
humano. A coluna lombar aparentemente não
apresentava a lordose lombar característica do nosso
andar bípede.
(7) Viveu há 2,5 a 3,5 milhões de anos. Há um fóssil com
possibilidade de 4,0 milhões de anos [a datação na África
do Sul é muito menos precisa do que no Grande Vale da
Fenda, conhecido como desfiladeiro de Olduvai, pela
raridade de vulcões na região]."
Fonte: Jornal Folha de São Paulo
Capítulo 17: Australopithecus gahri: Quase Homo?
Não vou descrever aqui todos as espécies de Australopithecus, porque senão
perderíamos o foco, por isso não falarei sobre o Australopithecus bahrelghazali, e
outros. No entanto, vale a pena descrevermos o Australopithecus gahri. “Gahri”
significa “surpresa” em um língua africana. Ele viveu por volta de 2,5 a 2,6 milhões
de anos de na Etiópia. O fóssil mais famoso da espécie é conhecido como "Crânio
Negro". Esse macaco bípede viveu em uma época em que começavam a surgir o
gênero Homo e o gênero Paranthropus, portanto, em uma época crucial para o
entendimento de nossa origem.
De novo, vou recorrer ao grande livro "The Last Human", traduzido pelo Dr.
Fernando Bilharinho, para descrever o gahri:
“(1) O volume encefálico foi estimado em 450 centímetros
cúbicos;
(2) Os ossos da cintura escapular apresentam mais
características humanas do que os do Australopithecus
afarensis;
(3) O dedo maior do pé (hálux) sugere que o A. garhi se
locomovia predominantemente no solo, mas persiste a
dúvida quanto ao tempo em que andava sobre duas ou
quatro patas, porque, a princípio, todos os grandes
macacos andam ocasionalmente sobre duas patas;
(4) Apesar da longa distância entre os sítios, o garhi se
parece muito com o africanus da África do Sul, sugerindo
algum grau de parentesco;
(5) Ferramentas: Não foram encontradas ferramentas
associadas ao A. garhi. Entretanto, ossos de antílopes
com marcas de cortes e quebrados para retirada de
tutano foram encontrados no mesmo depósito dos fósseis
do garhi. É provável então que, ao invés do Homo habilis,
o A. gahri tenha sido o primeiro a fabricar ferramentas no
estilo de Olduvai;
(6) Animais e habitat: Os animais encontrados sugerem
habitat aberto com grama e arbustos e longas estações
secas. Florestas estreitas e clareiras gramadas devem ter
existido próximas a lagos e cursos de riachos.”
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Paleoantropologia para iniciantes

  • 1. PALEOANTROPOLOGIA PARA INICIANTES UM CURSO ILUSTRADO SOBRE A EVOLUÇÃO BIOLÓGICA HUMANA Por Euder Monteiro (revisão e edição por Fernando Bilharinho) Ardi (Ardipithecus ramidus) e Lucy (Australopithecus afarensis), duas damas do passado. Fonte: Revista Veja
  • 2. PALEOANTROPOLOGIA PARA INICIANTES: Um curso ilustrado sobre a evolução biológica humana ÍNDICE: Introdução Capítulo1: O surgimento do Homo sapiens Capítulo 2: Homo neanderthalensis Capítulo 3: Homo sapiens X Homo neanderthalensis: hibridismo Capítulo 4: Homo floresiensis Capítulo 5: Homo erectus Capítulo 6: Gigantopithecus, os maiores primatas de todos os tempos Capítulo 7: Homo ergaster Capítulo 8: Homo rudolfensis e Homo habilis Capítulo 9: O mundo há 2 milhões de anos Capítulo 10: Outras Espécies do Gênero Homo Capítulo 11: O Polegar Opositor Capítulo 12: Importantes Marcos Pré-Históricos Capítulo 13: O gênero Australopithecus Capítulo 14: Berço da Humanidade Capítulo 15: Australopithecus afarensis: um velho conhecido Capítulo 16: Australopithecus afarensis: outro velho conhecido Capítulo 17: Australopithecus gahri: quase Homo? Capítulo 18: Australopithecus sediba: uma descoberta recente Capítulo 19: Australopithecus anamensis: o mais antigo Capítulo 20: Curiosidades sobre os Australopithecus Capítulo 21: Paranthropus: um gênero paralelo aos humanos
  • 3. Capítulo 22: O início da expansão cerebral Capítulo 23: Homossexualidade Capítulo 24: Os grandes antropóides antigos Capítulo 25: Bipedalismo Capítulo 26: Parto de um chimpanzé (descrição) em relação ao parto humano Capítulo 27: Kenyanthropus platyops: um bípede misterioso Capítulo 28: Por que você não tem rabo? Capítulo 29: Teorias heterodoxas APÊNDICES: 1. Lista de espécies humanas e pré-humanas 2. Classificações completas de alguns primatas 3. Algumas observações sobre a classificação dos primatas 4. Sugestões de leitura 5. Sugestões de Livros 6. Para conversar com o autor
  • 4. Introdução: A Paleoantropologia estuda, em suma, a evolução das espécies pré-humanas e das espécies do gênero Homo, incluindo nossa própria espécie: Homo sapiens. A Paleoantropopologia (“Paleo”, do grego, significa antigo, indicando que se trata do estudo da Antropologia antiga, ou pré-histórica) é uma junção de ramos científicos importante: a Paleontologia e a Antropologia. A Paleoantropologia realiza estudos antropológicos de todas as características físicas, modos de vida, interações sociais e outros aspectos dos pré-humanos e dos humanos, além das relações de parentesco entre as espécies. A Paleontologia é bastante utilizada pelos Paleoantropólogos, como, por exemplo, quando fósseis de animais pré-históricos auxiliam ou complementam os outros métodos de datação dos sítios arqueológicos, tendo em vista que é possível saber em que época determinados paleoanimais viveram. Fonte das imagens: http://humanorigins.si.edu A Paleoantropologia também pode valer-se de ciências afins, como a Genética, a Arqueologia, a Geologia, e muitas outras. Quando são encontrados fósseis acompanhados de animais pré-históricos e/ou ferramentas e/ou vestígios de fogueira, por exemplo, é possível fazer uma análise muito mais completa do sítio arqueológico quando os conhecimentos de todas essas ciências em conjunto forem utilizados. Os vestígios de ferramentas são fundamentais e, naturalmente, é possível saber de que material as mesmas foram feitas. A Geologia informa qual o grau de dureza de determinado material, se mais maleável como o marfim ou o mármore, ou mais rígido como o minério de ferro. A Geologia é capaz de fornecer detalhes espantosos sobre as pedras e rochas, como a idade delas (o que também ajuda na datação dos fósseis).
  • 5. Recentemente, a Genética promoveu uma significativa colaboração aos estudos paleoantropológicos, tendo em vista que foi possível extrair amostras de DNA de alguns fósseis mais recentes. No entanto, a principal fonte de conhecimentos da Paleoantropologia são os ossos fossilizados de humanos e pré-humanos, que, sozinhos, fornecem uma fonte gigantesca de informações, principalmente a partir dos anos 1990, quando algumas características não-métricas dos ossos começaram a receber tratamento estatístico mais elaborado. Neste curso, serão estudadas cada uma das espécies do nosso gênero (Homo) e dos gêneros ancestrais, o paleoambiente onde viviam e os caminhos evolutivos totalmente aleatórios e casuais (mas obedecendo as leis da Evolução) pelos quais passaram.
  • 6. Capítulo 1: O surgimento do Homo sapiens A maioria dos paleoantropólogos acredita que o Homo sapiens surgiu na África (na parte oriental ou no sul do continente) entre 150.000 e 200.000 anos atrás. O fóssil mais antigo de Homo sapiens foi apelidado de "Herto", tem entre 150.000 e 160.000 anos de idade, e ainda exibe algumas características arcaicas, como ligeiras protuberâncias supra-oculares. Essa protuberâncias são um tipo de viseira óssea sobre os olhos que aparece em todos os hominídeos, exceto nos Homo sapiens tardios. Sua função, segundo o paleoantropólogo Richard Klein, no livro "O Despertar da Cultura", seria impedir que a face se partisse em duas com as forças causadas pelos músculos das mandíbulas durante a mastigação. Nossa testa alta e escarpada faria as vezes dessa protuberância, distribuindo e absorvendo tais forças. Aliás, alguns povos atuais, como os aborígines australianos, os pigmeus asiáticos e alguns povos africanos ainda exibem muitos traços anatômicos primitivos. Os aborígines ainda possuem resquícios dessa protuberância supra-orbital, além de alguns outros povos e pessoas isoladas. Ao longo deste curso, falaremos mais sobre esses aspectos anatômicos. Apesar de ter surgido há aproximadamente 200 mil anos, apenas há 50.000 anos o Homo sapiens começou a imprimir aperfeiçoamentos constantes à sua tecnologia, sendo também nessa época o início do pensamento abstrato e simbólico, conforme explicou Klein em seu livro “O Despertar da Cultura”. Alguns autores, inclusive Klein, consideram que houve uma mutação genética que teria aumentado o número de sinapses cerebrais dos sapiens há 50.000 anos, tendo em vista que não houve nenhuma alteração física ou morfológica nesse período. Outros autores defendem que a capacidade de pensamento abstrato surgiu com o Homo sapiens há quase 200.000 anos, mas apenas há 50.000 anos encontrou condições de desenvolvimento. Atualmente, há cada vez mais evidências arqueológicas indicando essa última possibilidade e mais, são encontradas evidências cada vez mais antigas do pensamento abstrato/simbólico. Pessoalmente, acredito que o potencial para o pensamento simbólico surgiu com a nossa espécie e desenvolveu-se mais tarde, quando as condições climáticas na Terra se mostraram mais favoráveis. Robert Foley, da Universidade de Cambridge, e autor de vários livros (entre eles: "Os Humanos Antes da Humanidade") também pensa assim. Ou seja, a partir de 50.000 anos, ou antes, o clima na África (berço da cultura simbólica) teria permitido um significativo aumento populacional (conforme se verá adiante), impulsionando também o desenvolvimento cognitivo humano. Quando surgiu, nossa espécie dividia o planeta com o Homo neanderthalensis, com o Homo floresiensis, com o Homo erectus e com uma espécie ainda não identificada, cujo único fóssil é conhecido como "Mulher X". Ao longo do curso, vamos falar mais sobre essas espécies. Como vimos, na literatura paleoantropológica há duas hipóteses principais para o relativamente repentino surgimento da cultura simbólica há 50.000 anos (lembrando que apenas há 30.000 anos a revolução espalhou-se pelo mundo), a saber:
  • 7. 1ª. O Homo sapiens, quando surgiu, com seu cérebro reconfigurado em relação às outras espécies Homo, já era capaz de pensamentos simbólicos e de imprimir constante e acelerado aperfeiçoamento à sua indústria. No entanto, essa capacidade permaneceu inerte até que o clima da Terra permitiu um aumento populacional razoável e condições menos duras de sobrevivência; 2ª. Há 50.000, na África, houve uma mutação genética em uma das tribos humanas que, ao longo dos muitos milênios seguintes, espalhou-se por todas as populações. Essa mutação conferiu um aumento significativo na quantidade de sinapses ou uma reconfiguração nos neurônios, permitindo o desenvolvimento de atividades que até então nenhuma espécie havia alcançado, principalmente o pensamento por meio de símbolos. Apesar de a revolução cultural ter ocorrido há tanto tempo, apenas há 6.000 anos (mais ou menos) proto-civilizações surgiram no planeta, em três pontos separados do globo (Egito, Mesopotâmia e China). Com elas vieram a agricultura, as cidades, as profissões, etc. Antes disso, vivíamos como nômades, caçando animas e coletando frutas, sem muita expressão cultural, em comunidades pequenas e espalhadas. Alguns autores chegam a afirmar que umas 2.000 pessoas constituíam toda a espécie humana, e a maioria acredita que éramos, no máximo, 30.000 ou 50.000 indivíduos, divididos em aldeias de mais ou menos 200 habitantes cada. Veja a gravura abaixo, onde se pode perceber com facilidade a evolução da população humana ao longo dos últimos 200.000 anos: Fonte: Revista Veja (edição 2.059, 07/05/2008)
  • 8. Em seu livro “O Despertar da Cultura” (páginas 195 a 197), Craig Stanford, descreve da seguinte maneira o grande despertar humano: "Deixando de lado rótulos e datas precisas, o aspecto básico é que as populações da Idade da Pedra Posterior e do Paleolítico Superior [após o despertar] são as primeiras a que podemos atribuir a capacidade plenamente moderna de produzir cultura, ou talvez, com maior precisão, a aptidão completamente moderna de inovar. Foi com certeza essa capacidade que permitiu que os povos da Idade da Pedra Posterior e do Paleolítico Superior se dispersassem à custa dos seus contemporâneos mais primitivos, começando entre 50.000 e 40.000 anos atrás. As inovações incluíram casas construídas solidamente, roupas costuradas, fogueiras mais eficientes e uma nova tecnologia de caça que permitiu aos Cro-Magnons do Paleolítico Superior deslocar seus predecessores, ajudando-os também a colonizar as partes mais continentais e inóspitas da Eurásia, onde ninguém havia vivido antes." Não há dúvidas de que o despertar não fez surgir apenas pinturas rupestres, mas revolucionou o modo de vida dos humanos. 1.1. Teorias sobre o surgimento do Homo sapiens Existem duas teorias básicas sobre o surgimento do Homo sapiens, que, de forma resumida, podem ser explicadas assim: a. Teoria do Berço Africano, também conhecida como "Out of Africa" (África para fora) ou Arca de Noé; b. Teoria Multirregional, também conhecida por "Candelabro". A primeira teoria, mais aceita atualmente, dispõe que os primeiros Homo sapiens surgiram na África, provavelmente na África Oriental (ou no sul do continente) e, de lá, se espalharam pelo Oriente Médio, Ásia, Oceania, Europa e Américas (nessa ordem). Além de muitos fósseis darem a entender que essa teoria está correta, agora a Genética também a corrobora. Estudos genéticos apontam claramente a África como origem de todos os humanos atuais. Primeiro os fósseis: na África, foram encontrados diversos fósseis que indicam claramente a tendência evolutiva em direção ao Homo sapiens. O Homo erectus africano, conhecido como Homo ergaster (homem trabalhador, em latim) possui uma morfologia muito mais parecida com a nossa do que o Homo erectus da Ásia. Aliás, muitos paleoantropólogos, como G. J. Sawyer e Victor Deak, autores de "The Last Human – A Guide to Twenty-Two Species of Extinct Human" (um dos livros mais atuais sobre o tema, ainda sem edição em português) e também Richard Klein, defendem a existência de 2 espécies de Homo erectus asiáticos, a encontrada na
  • 9. China e a outra da Indonésia. Realmente há diferenças pequenas entre as duas morfologias, principalmente no formato da parte superior do crânio. Os fósseis mostram que o Homo ergaster é o mais provável ancestral humano, anterior ao Homo heidelbergensis. Além disso, formas claramente ancestrais, como o Homo heidelbergensis (homem de Heidelberg, uma cidade alemã) e o Homo sapiens idaltu (idaltu significa mais antigo, em uma língua africana da região de Afar, também conhecido como “Herto”, descobertos por Tim White em 2003), são encontrados na Europa e África, respectivamente. Tais fósseis demonstram que o Homo sapiens desenvolveu-se paralelamente ao Homo neanderthalensis e distinguiu-se das outras espécies enquanto estava em seu berço africano. A Genética também confirma a origem africana, baseada em análises do DNA mitocondrial e no próprio DNA nuclear. Sobre esse aspecto, para maiores informações, sugiro o livro "Genes, Povos e Línguas" de Cavalli-Sforza, um grande especialista no assunto. Em relação à teoria multirregional: seus defensores acreditam que o Homo sapiens surgiu concomitantemente na África e na Ásia (e talvez em outras regiões como a Oceania e Europa). Argumentam, dentre outras coisas, que um surgimento isolado na África dependeria de uma ampla substituição posterior de espécies. Ou seja, o Homo sapiens teria que substituir, inteiramente, os Neandertais na Europa e o Homo erectus na Ásia e na Oceania, o que seria difícil de ocorrer. Para isso, deveria haver uma constante troca de genes entre as populações para manter todas elas unidas em uma mesma espécie. Essa teoria, hoje em dia, está sofrendo severos ataques, principalmente oriundos da Genética. É que todas as diferenças étnicas são causadas por mutações genéticas recentes na história evolutiva, indicando que as mesmas ocorreram muito tempo depois do surgimento da espécie. Há cada vez mais indícios de que o Homo sapiens hibridizou-se (em pequena escala) com populações nativas de outras espécies humanas (como o Homo neanderthalensis) em diversas partes do mundo. Mas isso não é suficiente para fortalecer a hipótese multirregional. 1.2. Questões interessantes sobre o gênero humano: 1.2.1. Alguma outra espécie de humanos conseguiu desenvolver a cultura abstrata/simbólica? O único humano, além dos Homo sapiens, de que se tem alguma evidência de uma mudança cultural foi o Homem de Neandertal. Esse humano experimentou, por 270 mil anos, a cultura Mousteriense e, só então, vivenciou as culturas Chatelperronense, Aurignaciana, e Gravettiana, possivelmente através de contatos com o Homo sapiens. Atualmente, há evidências de que os Homo neanderthalensis tardios conseguiram, sem a ajuda dos Homo sapiens, aperfeiçoar sua tecnologia de fabricação de ferramentas (Livro “O Colar do Neandertal” – ver referências no final). 1.2.2. Por que o Homo sapiens demorou tanto para desenvolver sua civilização?
  • 10. Na Era do Gelo havia caça abundante. Bastava que as populações acompanhassem as manadas em movimento para ter comida fácil. Depois, a megafauna desapareceu, junto com as contínuas e vastas estepes eurasianas e americanas. Tornou-se necessário permanecer próximo a vales de rios ou à beira do mar, tentando aprender a produzir alimento, que deixou de ser fácil de obter. E fazer isso só era possível se os humanos se agrupassem em sociedades maiores, divididas por categorias ou classes, dedicando-se, cada uma, a funções especializadas. 1.2.3. Até quando o Homo sapiens conviveu com os outros humanos? Até mais ou menos 16 mil anos atrás, na Ilha de Flores (atual Indonésia), ainda havia Homo floresiensis. Até hoje, há lendas nativas sobre a existência de seres conhecidos como “Ebu Gogo”, na ilha. Houve também uma convivência com os Neandertais, principalmente na Europa e no Oriente Médio até uns 30.000 anos atrás. Além disso, há evidências de convivência com os Homo erectus, na Ásia, até uns 45.000 anos atrás. Adiante, estudaremos mais sobre tais espécies. 1.2.4. É verdade que o povo basco pode ser descendente direto dos Cro-Magnon? Essa informação pode ser encontrada no livro "Genes, Povos de Línguas" de Luigi Luca Cavalli-Sforza. É mesmo possível que os atuais bascos, que hoje habitam o norte da Espanha e o sul da França, possam ser descentes dos primeiros Homo sapiens que habitaram a Europa, conhecidos como Cro-Magnons. Sforza baseou-se em evidências genéticas e protéicas, e também na língua falada por eles. É um estudo muito interessante. 1.2.5. Por que alguns fósseis humanos antigos são chamados de Cro-Magnon? Os primeiros Homo sapiens já se dividiam em etnias. Além dos Cro-Magnons, temos os Grimaldi (de características negróides), os Chancelade (parecidos com os Cro- Magnons, porém mais baixos) e muitas outras. Além disso, alguns autores subdividem nossa espécie em subespécies: Homo sapiens pressapiens, Homo sapiens fossilis (divididos em Cro-Magnons e outras etnias já citadas), Homo sapiens idaltu, etc. 1.2.6. Quanto maior o cérebro, mais inteligente é a espécie? O volume cerebral não é, por si só, um bom indicador de inteligência. Se não fosse assim, as baleias, com cérebros de 30kg seriam imbatíveis no xadrez. Nem mesmo o tamanho relativo do cérebro é um indicador confiável, porque os ratos, por exem- plo, têm um cérebro maior do que o nosso, em termos relativos (em relação ao ta- manho do corpo). Tampouco podemos considerar o índice de encefalização como um indicador confiável. Esse índice mede o tamanho esperado do cérebro em rela- ção ao corpo, mas não leva em consideração aspectos da arquitetura cerebral. Vale a configuração do encéfalo: o número de neurônios, o número de sinapses e a forma como estão distribuídos nas diversas regiões encefálicas. O autor Robert Foley, em seu livro "Os Humanos Antes da Humanidade", páginas 202 e seguintes, discorre à exaustão sobre isso.
  • 11. A comparação de cérebros é algo muito complexo, mesmo se compararmos indivíduos de uma mesma espécie. Pessoas com cérebros pequenos, como Santos Dumont, podem ser gênios com intelecto muito poderoso e outras, com grandes cérebros, podem ser medianamente inteligentes. A inteligência pode assumir muitas manifestações (inteligência emocional, esportiva, matemática, etc.), o que complica ainda mais as comparações. O que é necessário ficar claro é que a inteligência não está diretamente relacionada ao tamanho do cérebro. Fatores como a arquitetura cerebral são importantes. Por exemplo: os Neandertais tinham um cérebro maior do que o nosso, mas o córtex frontal deles era menos desenvolvido. O cérebro deles era voltado para trás e não para cima, como o nosso. Outro exemplo: os Australopithecus tinham um cérebro um pouco maior do que o de um chimpanzé atual, no entanto, esse último tem um corpo mais volumoso, o que dá a entender que o índice de encefalização australopitecíneo era bem maior. Mamíferos, em geral, têm cérebros maiores e mais desenvolvidos. No entanto, dentre os mamíferos, os primatas são imbatíveis quanto ao número de neurônios por massa encefálica. Comparando, por exemplo, uma capivara e um macaco de tamanho semelhante, pode-se identificar, claramente, um volume encefálico aproximado entre essas espécies, porém uma enorme diferença no número de neurônios. Fonte: http://www.suzanaherculanohouzel.com/herculano-houzel-et-al-2007-pn Isso se deve, em parte, à longa história de vida em grupo dos primatas, o que gera interações complexas entre os indivíduos. Outras explicações aceitas são relacionadas à busca por comida, a necessidade de fugir de muitos predadores, etc. 1.2.7. Quais as principais forças evolutivas? O que leva ao surgimento de novas espécies ou a extinção de espécies antigas? Vejam o que nos informa o livro “Genes, Povos e Línguas” (página 65): "Desde os primórdios da genética moderna, quatro forças evolutivas foram identificadas: a mutação, que produz novos tipos genéticos; a seleção natural, o mecanismo que seleciona automaticamente os tipos mutados mais bem adaptados a determinado ambiente; a deriva genética, que consiste na oscilação aleatória das
  • 12. freqüências gênicas em populações; e a migração, às vezes chamada de fluxo gênico. A deriva genética é a mais abstrata delas, embora nada mais seja do que a oscilação aleatória da freqüência gênica ao longo de várias gerações." Fatores como mudanças climáticas, que alteram o ambiente ao qual a espécie está adaptada, também são importantes motores evolutivos. Outros fatores como as mudanças nas placas tectônicas (que alteram o tamanho e a configuração dos continentes), ciclos climáticos do planeta, interações entre espécies diferentes, e outros, também contribuem significativamente na evolução e extinção das espécies. O livro “Human Evolution: An Illustrated Introduction” discute à exaustão todos os motores da evolução e da extinção. Na verdade, pequenas variações topográficas que podem isolar membros de uma espécie podem levar ao surgimento de uma nova espécie (especiação). 1.3. Outras Informações Importantes sobre o Surgimento do Homo sapiens As informações abaixo foram retiradas e compiladas do livro "The Last Human", pelo Dr. Fernando Bilharinho: “1. O nome Homo sapiens apareceu pela primeira vez na décima edição de Systemae Naturae de Carl Linnaeus publicada em 1758; 2. Não existe consenso sobre o que é um Homo sapiens moderno. Os mais antigos fósseis indubitavelmente creditados como Homo sapiens moderno datam de 94 mil AP (Antes do Presente) e foram encontrados em Israel. Há muitos fósseis que apresentam pequenas variações que devem ser consideradas aceitas dentro de uma espécie. Mesmo entre Homo sapiens atuais, há diferenças importantes: os !Kung San (o ponto de exclamação no início do nome indica que o leitor deve estalar a língua nos dentes) da Namíbia, por exemplo, não possuem um queixo considerado moderno. Assim, ampliando o espectro, podemos chegar a Homo sapiens modernos já há 260 mil anos na África do Sul e 270 mil anos no Quênia. 3. A tendência atual é considerar o Homo sapiens como descendente do Homo heidelbergensis. Como o heidelbergensis é muito mais parecido com o neanderthalensis do que conosco, é provável que o Homo sapiens primitivo, ou outro nome que venha a receber, tenha surgido a partir dessa espécie há 600 mil anos." Acrescento a seguinte informação: o autor Craig Stanford, autor do livro "O Despertar da Cultura", também argumenta, na página 181 do livro supracitado, que até mesmo os aborígines australianos têm supercílios relativamente salientes o que,
  • 13. a rigor, é um detalhe não moderno de suas anatomias. Concluindo, o autor afirma que a modernidade anatômica do Homo sapiens ainda é uma questão polêmica dentro da Paleoantropologia. É possível reduzi-la a tal ponto que teríamos que excluir alguns povos atuais (!), ou ampliá-la a tal ponto que poderíamos até incluir os Neandertais nessa classificação (!). Cor da pele do Homo sapiens (distribuição geográfica original) 1.4. Ilustrações para estudo: Percebam nas figuras, especialmente, os seguintes detalhes anatômicos: a. Protuberância supra-ocular; b. Presença ou ausência do queixo (neanderthalensis não tinham queixo); c. Formato do crânio (testa baixa e recuada dos neandertais; e alta e escarpada nos sapiens). Homo sapiens idaltu (Photo © 2001 David L. Brill Brill Atlanta)
  • 14. Capítulo 2: Homo neanderthalensis Há apenas 30.000 anos, Neandertais ainda perambulavam pela Europa. Seu último refúgio foi a Península Ibérica, mas, no auge, o povo neandertal ocupou quase toda a Europa, grande parte do Oriente Médio (principalmente nas imediações de Israel) e também grande parte do restante da Ásia. Os fósseis dessa espécie são encontrados desde o século XIX, e, hoje, são milhares já catalogados, alguns em excelente estado de conservação, sendo possível, inclusive, estudar seu genoma, que já foi quase inteiramente mapeado. Os primeiros fósseis foram encontrados no vale do rio Neander, na Alemanha, daí a origem do nome. Em alemão, Neanderthal escrevia-se com "th", hoje, após reformas, escreve- se "Neandertal", com o "h" abolido. No entanto, o nome da espécie latinizado mantém o "th", sendo que as duas formas são aceitas hoje em dia para se referir coloquialmente à espécie. O Homo neanderthalensis é a espécie humana mais bem conhecida, além da nossa, é claro. Existe uma ampla literatura específica sobre o tema. Sugiro, para o leigo que desejar conhecer um pouco mais sobre o assunto, a leitura do livro "O Colar do Neandertal", escrito por Juan Luis Arsuaga, espanhol, especialista em Neandertais. Homo neanderthalensis (Fonte: Coleção de Thomas van deer Laan – Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP) 2.1. Convivendo com Neandertais: Com toda certeza, os primeiros sapiens a chegarem aos domínios neandertais, principalmente no Oriente Médio e sul da Europa, mantiveram um contato profundo com eles. Os paleoantropólogos já aceitavam a existência de troca cultural, tendo em vista que a cultura neandertal, conhecida como Mousteriense, aparentemente pode ter sofrido influência das primeiras culturas sapiens (principalmente a Chatelperronense). É bom que tenhamos uma pequena noção sobre essas culturas antigas. Vejam o resumo abaixo, retirado da Wikipedia: "Esta cultura técnica, atribuída aos Neandertais, designada como Mousteriense, consistia na produção de
  • 15. ferramentas de pedra lascada produzidas através do desbastamento em leque de um bloco lítico inicial (ou núcleo), de que se formavam lascas a partir das quais se encadeava a produção de instrumentos diversos, como machados manuais para tarefas específicas, bifaces, raspadeiras, furadores e lanças. Muitas dessas ferramentas eram bastante afiadas. No Paleolítico Superior desenvolveram uma cultura material mais evoluída de talhe da pedra, designada de Chatelperronense, caracterizada pelo desdobramento do núcleo lítico em peças menores e mais manuseáveis." (Fonte: Wikipedia.com) A tecnologia Mousteriense produzia cerca de 20 tipos diferentes de ferramentas, como machados de mão. A Chatelperronense produzia mais de 60 tipos de ferramentas, com um acabamento ligeiramente superior. É possível que essa superioridade tecnológica do Homo sapiens tenha contribuído para a extinção dos Neandertais. No entanto, as últimas descobertas genéticas, conduzidas pelo geneticista sueco Svant Päabo, indicam o que muitos já esperavam: houve cruzamentos entre as espécies sapiens e neanderthalensis, e isso ficou marcado no genoma de nossa espécie até hoje. Porém, tais cruzamentos foram raros, como se verá adiante. 2.2. A aparência dos Neandertais: Os Neandertais tinham um corpo muito adaptado a climas frios, por isso eram mais largos e mais baixos, em média, do que os sapiens arcaicos, que evoluíram em regiões quentes da África. Fonte: Jornal Folha de São Paulo
  • 16. Outras diferenças anatômicas poderiam ser facilmente notadas: ausência de queixo, testa baixa, crânio voltado para trás, pernas arqueadas, dedos grossos e fortes, músculos muito desenvolvidos, espaço retromolar (espaço entre o último dente molar e a mandíbula), rosto projetado para frente, cérebro relativamente maior, que poderia atingir 1.700 centímetros cúbicos (os sapiens têm, em média, 1.400 cm3), e algumas outras pequenas diferenças. A figura abaixo foi retirada do livro “O Despertar da Cultura” de Richard G. Klein e Blake Edgar (figura 6.4). Segundo os autores, a ilustração foi desenhada por Kathryn Cruz-Uribe a partir de modelos: 2.3. Curiosidades sobre os Neandertais: 2.3.1. Por terem evoluído em um clima muito frio, durante o Pleistoceno europeu, a pele deles certamente era muito clara e, segundo indícios fósseis, seus cabelos, quase sempre eram ruivos. 2.3.2. Alguns grupos étnicos atuais de Homo sapiens têm características semelhantes aos Neandertais. Por exemplo: os inuítes (que não gostam de ser chamados de "esquimós", termo considerado pejorativo por eles) também têm corpos muito robustos e atarracados, porque residem há milênios em terras muito frias. Os aborígines australianos, como já dito aqui, têm pequenas protuberâncias
  • 17. supra oculares e, aliás, apesar de negros, são os povos mais distantes geneticamente dos africanos. A cor da pele deles convergiu para negra após nova adaptação ao ambiente da Oceania. 2.3.3. Estudando os ossos da boca, principalmente o hióide, é possível concluir que, se os Neandertais falavam, a voz deles deveria ser extremamente anasalada, gutural e seccionada. Alguns pesquisadores simularam a voz dos Neandertais e disponibilizaram isso na internet: http://www.acemprol.com/viewtopic.php? f=16&t=245. Fonte: Jornal Folha de São Paulo 2.4. Extinção dos Neandertais: Quase todas as hipóteses sobre a extinção dos Neandertais passam pela competição com os sapiens, que, além de possuírem uma tecnologia superior, eram capazes de raciocínios estratégicos sofisticados (como, por exemplo, criar táticas de guerra). Juan Luis Arsuaga, em seu livro "O Colar do Neandertal", desenvolveu uma teoria muito interessante e complexa, para explicar a extinção dessa espécie. Baseado em vários sítios fósseis em que foram encontrados grupos inteiros de indivíduos, o autor conclui que a média de vida dos Neandertais era menor do que a dos primeiros sapiens (por causa de seu estilo de vida baseado na caça de grandes animais, o que era perigoso) e, além disso, o índice de natalidade da espécie era também menor. Com isso, o crescimento da população era muito pequeno e bastou o contato com os sapiens (que trouxeram novas doenças e novas mortes em combate) para que esse delicado equilíbrio fosse rompido. Em um curto espaço de tempo, provavelmente 20.000 anos, todos os Neandertais foram eliminados. 2.5. Questões interessantes sobre os Neandertais:
  • 18. 2.5.1. Por que a baixa estatura e a robustez são adaptações a ambientes frios? Em que tais características ajudam? Essas características ajudam na conservação do calor dentro do corpo. Um corpo mais largo, mais robusto, com mais gordura, naturalmente retém mais o calor. É que, nesse caso, o corpo se aproxima do formato de uma esfera, que é o sólido que possui a menor área de superfície em relação ao seu volume. Um corpo magro e esguio, como o dos africanos equatoriais, tende a reter menos calor, facilitando a sobrevivência em ambientes quentes, tendo em vista que têm uma maior área de pele, em relação ao volume do corpo. 2.5.2- O contato com os Neandertais deixou alguma marca na cultura sapiens? Algum aspecto, atividade ou tecnologia foram estimulados ou desestimulados por esse contato? O contato, como demonstraram as últimas pesquisas, deixou marcas no genoma dos povos não-africanos. Em termos culturais, é possível afirmar que a cultura neandertal, conhecida como Mousteriense, muito provavelmente sofreu influência de uma das primeiras culturas dos sapiens, conhecidas como Acheuliana ou Chatelperronense. Após os contatos, os artefatos Mousterienses passaram a ter um refinamento parecido com os da indústria Acheuliana. Atualmente, há pesquisadores que criticam esse raciocínio, indicando evidências de que a cultura neandertal desenvolveu-se sozinha. Portanto, a maioria das evidências indicam que, se houve troca de tecnologia, foram os sapiens que a transferiu para os Neandertais. 2.5.3. Qual foi a motivação para essas grandes migrações de sapiens rumo aos territórios neandertais? Busca de novos recursos? Os sapiens, segundo as últimas pesquisas, surgiram na África. Os Neandertais surgiram no Oriente Médio ou na Europa. Para sair da África em direção a outras paragens, era obrigatório para os sapiens atravessar os domínios dos Neandertais, no Oriente Médio. Portanto, o contato foi inevitável. Como os primeiros sapiens viviam da caça e da coleta, à medida que a população crescia (e crescia muitíssimo devagar) e à medida que os recursos iam se escasseando, a colonização de outros continentes tornou-se imperiosa. Além disso, muitas vezes, os primeiros sapiens pareciam ampliar seus domínios por mera curiosidade, atingindo até o sul da América do Sul e mais, se houvesse mais. Parece que eles queriam ver o que havia atrás da próxima montanha, como afirmou o Dr. Walter Alves Neves em seu livro “O Povo de Luzia”. 2.6. A proximidade genética entre sapiens, Neandertais e chimpanzés: A diferença entre o DNA humano e o DNA do chimpanzé pode variar de 4% a 1%, dependendo do trecho do DNA em comparação. Comparar DNAs é uma tarefa muitíssimo complicada. Apesar de termos apenas uns 25.000 genes (antes pensávamos que eram uns 100.000: grande engano!), temos bilhões de pares de bases de nucleotídeos que não codificam genes e podem ser igualmente relevantes.
  • 19. A tarefa mais complicada é sequenciá-los (deve-se sequenciar uma hélice da molécula para sabermos com exatidão a composição da outra hélice; a hélice do DNA tem 4 tipos de nucleotídeos que se combinam aos pares entre eles), depois separar os que formam genes dos que não formam (essas sequências que não forma genes, que antes se pensava que eram uma espécie de lixo genético, são muito importantes no funcionamento dos próprios genes), depois montar os cromossomos. Além dos chimpanzés terem menos cromossomos (o que eu entendo como uma diferença mais significativa do que ter 1 ou 4% dos genes diferentes, porque dificulta severamente uma tentativa de cruzamento entre as espécies, sendo esse um dos motivos das falhas nas controvertidas tentativas), esse "de 1% a 4%" de diferenças está concentrado em genes importantes de formação cerebral, fala, morfologia do punho, etc. No caso dos Neandertais, a situação é bem diferente! O pesquisador sueco Svant Pääbo, que sequenciou os genes dos Neandertais, comparou o genoma neandertal com o genoma humano e com o genoma dos chimpanzés. Segundo ele, a diferença encontrada entre os sapiens e os Neandertais é semelhante à de um homem atual e seu próprio tataravô (apesar do tataravô estar muito mais próximo de nós do que um Neandertal há 80.000 anos). Muitos seres humanos atuais têm Nandertais como um de seus antepassados e isso foi encontrado baseado em rastros genéticos. "Em vários casos, quando há uma diferença entre o genoma de um africano e o de um não-africano, a versão das populações que não são originárias da África bate com a dos Neandertais", diz Pääbo. "O único jeito de explicar esses dados é por cruzamento", continua. Note, portanto, que os genes neandertais estão concentrados na parte diferente do genoma dos africanos em relação aos não-africanos. E qual seria essa parte diferente: questões de imunidade, cor da pele, etc. Por que isso ocorre? Simples: o DNA do Neandertal era muito parecido com o nosso DNA, porque nosso ancestral comum viveu há apenas 600.000 anos. É interessante notar também que não foram encontradas marcas neandertais no DNA mitocondrial humano. Esse tipo de DNA (mitocondrial) é originário apenas da mãe, sem sofrer o cruzamento com o DNA paterno, da mesma forma que todo o cromossomo Y é recebido apenas pelos pais. Svant Pääbo decifrou o Genoma nuclear dos Neandertais. O DNA mitocondrial deles já era conhecido. A ausência de genes neandertais em nosso DNA mitocondrial pode indicar que os cruzamentos entre homens neandertais e mulheres sapiens tiveram mais sucesso. Pode ser que os cruzamentos entre homens sapiens e mulheres neandertais não tenham gerado descendentes ou que os descendentes gerados não tenham sido férteis. Sabe-se que, em uma invasão, os homens invasores tendem a raptar as mulheres dos povos invadidos. Nesse caso, seria muito mais provável que os cruzamentos interespécies tenham ocorrido entre homens sapiens e mulheres neandertais, sem deixar descendentes. Esse fato poderia explicar o fato a baixíssima incidência de genes neandertais nos povos não africanos, tendo em vista que teriam que ser originários de cruzamentos entre homens neandertais e mulheres sapiens.
  • 20. O leitor poderá visualizar melhor essa situação, por meio da ilustração abaixo. Ilustração: Paulo Mason É necessário, no entanto, explicar outro aspecto: Uma coisa é você dizer que de 1 a 4% dos genes de pessoas não-africanas são oriundos de Neandertais. Esses genes são oriundos de uma espécie-irmã. Os Neandertais eram tão diferentes dos chimpanzés quanto nós. Outra coisa é afirmar que temos de 1 a 4% de diferenças genéticas em relação aos chimpanzés. Pensemos da seguinte forma: é preferível ter 4% dos genes oriundos de Neandertais do que 4% de genes oriundos dos chimpanzés. E, é bom frisar, não
  • 21. temos genes oriundos dos chimpanzés. Ou seja, após a separação das espécies, não houve cruzamentos posteriores, como ocorreu entre os sapiens e os Neandertais. Ou seja, após a separação com os chimpanzés, há 6.000.000 anos, nossos ancestrais e os ancestrais dos Neandertais pararam de receber genes oriundos dos ancestrais dos chimpanzés e vice-versa. Começou então a saga diferenciadora das espécies, atingindo até 4% do DNA humano atual, em relação ao DNA chimpanzé. Fonte: Livro “Eu, Primata” Ocorre que há 600.000 anos, começou outra saga diferenciadora, entre humanos e Neandertais. No entanto, esse período de tempo é muito curto para criar grandes diferenças genéticas, mas é suficiente para gerar genes específicos em cada espécie. Então, há 80.000 anos, as duas espécies voltam a se encontrar e tais genes específicos são trocados, em uma proporção de 1 a 4%. É importante termos em mente que, quando duas espécies se divergem, elas continuam compatíveis/intercruzantes durante algum tempo, até que as diferenças genéticas sejam significativas, principalmente em termos cromossômicos. Hoje em dia, por exemplo, o principal impedimento de cruzamentos férteis entre chimpanzés e sapiens é a diferença no número de cromossomos.
  • 22. Comparação de pés e mãos dos primatas, inclusive o homem, um grande macaco, segundo Prof. Dr. Walter Alves Neves.
  • 23. Capítulo 3: Homo sapiens X Homo neanderthalensis: hibridismo Muito recentemente, comprovou-se, após mapeamento do genoma do Homo neanderthalensis, que o Homo sapiens possui de 1% a 4% de seu genoma semelhante ao genoma neandertal. No entanto, isso só ocorre em povos não africanos, indicando que os Homo sapiens que saíram da África e encontraram-se com os Neandertais (que viviam no Oriente Médio e na Europa) cruzaram-se! Tais cruzamentos, no entanto, foram relativamente raros. Homo sapiens x Homo neanderthalensis (Por hairymuseummatt) Vale lembrar que nosso ancestral comum com o Homo neanderthalensis, conhecido como Homo heidelbergensis, viveu há mais ou menos 600.000 anos e, portanto, é natural que mantivéssemos o potencial intercruzante, apesar de sermos espécies separadas. A título de ilustração, informo (baseado no livro "Eu, Primata", de Frans de Waal) que os chimpanzés (Pan troglodytes) e os bonobos ou chimpanzés pigmeus (Pan paniscus) tiveram um ancestral comum que viveu há nada menos do que 2,5 milhões de anos e ainda hoje as duas espécies são potencialmente intercruzantes. O mesmo ocorre com as duas espécies de gorilas e as duas espécies de orangotangos. Ou seja, primatas e muitos outros mamíferos têm essa característica, mantém a capacidade de intercruzarem-se, mesmo após milhões de anos de especiação. Sobre os híbridos entre chimpanzés e bonobos, infelizmente, há poucos relatos científicos sobre eles porque nenhum zoológico poderia promover o cruzamento entre duas espécies sob risco de extinção. Veja o que afirma o autor Frans de Waal no livro supracitado: "Pouco sabemos sobre o comportamento de híbridos reais, mas eles são biologicamente possíveis e existem de fato. Nenhum zoológico que se preze promoveria intencionalmente o cruzamento de dois primatas ameaçados de extinção, mas existe um relato sobre um pequeno circo itinerante francês que possui grandes primatas com vozes curiosas. Pensava-se que eram
  • 24. chimpanzés, só que para os ouvidos dos especialistas seus chamados são tão agudos quanto os dos bonobos. Acontece que o circo, sem saber, adquiriu tempos atrás um macho bonobo, batizado de Congo. O treinador logo notou o insaciável apetite sexual desse macho, e o explorou recompensando os melhores desempenhos de Congo no picadeiro com encontros com fêmeas primatas do circo, todas chimpanzés. A prole resultante — que talvez pudéssemos chamar de "bonanzés" ou "chimpobos" — anda ereta com notável facilidade e causa admiração por sua brandura e sensibilidade." (página 290).
  • 25. Capítulo 4: Homo floresiensis Em nossa árvore evolutiva, o Homo floresiensis foi a última espécie de nosso gênero a ser extinta. Essa espécie foi descoberta recentemente na ilha de Flores, na Indonésia (daí o seu nome). Os fósseis têm entre 12.000 e 74.000 anos de idade, ou seja, essa espécie quase atingiu períodos históricos! Homo floresiensis – comparação de altura (fonte: Jornal Folha de São Paulo) O Homo floresiensis era baixo, apenas 1 metro de altura quando adultos (como uma criança sapiens de 3 anos de idade). A título de comparação, os pigmeus africanos atingem até 1,50m. A altura reduzida pode ser resultado de um processo de redução, conhecido como nanismo das ilhas. Espécies maiores que um coelho tendem a ficar menores. Espécies menores que um coelho tendem a crescer. Por meio de fósseis, é possível comprovar a existência de elefantes pigmeus e ratos gigantescos em Flores, que foram extintos. Os pequenos elefantes eram inclusive caçados pelos floresiensis, conforme comprovam os fósseis encontrados. O Homo sapiens colonizou a ilha entre 35.000 e 55.000 anos atrás e, portanto, com certeza, conviveu com os floresiensis por milhares de anos. Ainda hoje há relatos de seres estranhos na ilha de Flores, conhecidos como “Ebu Gogo” (o leitor poderá ler mais sobre isso na internet: http://en.wikipedia.org/wiki/Ebu_Gogo ou, em português: http://www.fernandosantiago.com.br/anaohom.htm ).
  • 26. Homo floresiensis X Homo sapiens (Fonte: http://www.talkorigins.org/faqs/homs/flores.html) Foram encontradas ferramentas produzidas no estilo da tecnologia de Olduvai (pedra lascada) produzidas pelo Homo floresiensis, em estilo parecido com as ferramentas produzidas pelo Homo erectus clássico da Indonésia. Homo floresiensis – cérebro – comparação O tamanho reduzido do crânio (abaixo dos 400 centímetros cúbicos), menores que os crânios do gênero Pan, dos chimpanzés e bonobos, e outros detalhes anatômicos só encontrados nos Australopithecus, levaram muitos paleoantropólogos à dúvida: seriam os floresiensis realmente pertencentes ao gênero Homo? Muitos cientistas duvidam e alguns chegam a sugerir um gênero novo para a espécie. De qualquer forma, o Homo floresiensis parece ser uma espécie cujo ancestral comum conosco deve remontar, certamente, há tempos muito remotos, talvez superiores há 1 milhão de anos. Atualmente, considera-se o floresiensis uma espécie descendente das
  • 27. formas antigas do Homo erectus asiático. No entanto, não se sabe ao certo a posição do mesmo em nossa árvore genealógica. Detalhes como a anatomia dos pés e das mãos sugerem um ligação estreita com os Australopithecus, que extinguiram-se há nada menos do que 2,5 milhões de anos. Homo floresiensis (crânio). Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Homo_floresiensis.jpg Apesar disso e do tamanho reduzido do crânio, a forma e o molde interno do mesmo (que revela as curvaturas do tecido mole cerebral) indicam claramente uma morfologia do gênero Homo. Além disso, as ferramentas encontradas vinculadas aos fósseis indicam um nível de inteligência comparável à do Homo erectus (cujo crânio alcançava 1.000 centímetros cúbicos - o Homo sapiens tem uma média de 1.400 centímetros cúbicos de volume cerebral). Tudo isso fortalece a teoria de eles também pertenciam ao gênero Homo. Espera-se para os próximos anos que o Instituo alemão Max Planck consiga codificar o DNA do Homo floresiensis. Eles conseguiram extrair uma amostra de um dente molar. Com esse DNA codificado, teremos como saber a origem deles. Mais informações em: http://afarensis99.wordpress.com/2011/01/06/ancient-dna- from-homo-floresiensis-redux/ 4.1. Efeito Ilha A imagem abaixo ilustra perfeitamente o efeito ilha. O Homo floresiensis, até o momento, é o único hominídeo que parece ter passado por esse efeito de redução. No caso de criaturas maiores que um coelho, a redução ocorre para garantir a sobrevivência com menos alimento, tendo em vista os recursos reduzidos de uma ilha. No caso de criaturas menores, como o rato, por exemplo, o aumento de tamanho ocorre pelo mesmo motivo. É que existe uma proporção entre a área da
  • 28. pele e o volume corporal que garante uma melhor retenção do calor e da energia. Animais muito pequenos acabam tendo um área externa de pele muito grande em relação ao volume de todo o corpo, o que acarreta uma perda excessiva de calor. Feito Ilha. Fonte: Revista Scientific American Brasil
  • 29. Capítulo 5: Homo erectus O Homo erectus, homem ereto, inicialmente conhecimento como Pithecanthropus erectus, é uma das mais complexas e duradouras espécies do gênero Homo. Há fosseis que podem ter quase 2 milhões de anos, mas a maioria dos pesquisadores acredita que o Homo erectus surgiu há mais ou menos 1,5 milhão de anos. Seu ancestral direto e comum com os sapiens pode ser o Homo habilis ou outra espécie ainda não identificada. Fonte: http://historiacolegiao.files.wordpress.com/2010/03/homo_erectus_72dpi1.jpg Richard Klein, Arsuaga e muitos outros paleoantropólogos consideram o Homo ergaster (uma espécie de Homo erectus africano, mais antigo) o ancestral direto do H. erectus, sendo o H. habilis, o ancestral do H. ergaster. O Homo erectus, depois dos Neandertais, é a espécie mais conhecida e estudada. Na Paleoantropologia há esqueletos quase completos dessa espécie, quase tão completos quanto os esqueletos de Neandertais e dos Australopithecus. Os fósseis de erectus vêm sendo estudados desde o final do século XIX e milhares já foram encontrados. Só na ilha de Java foram encontrados quase 30.000 fósseis! Em seu auge, o Homo erectus dominou quase toda a Ásia e muitas ilhas da Oceania. 5.1. Homo erectus – complexidade
  • 30. Os autores Klein e Blake Edgar encontraram pequenas diferenças nos crânios do Homo erectus clássico da Indonésia e do Homo erectus clássico da China. Tais diferenças, apesar de discretas, são perceptíveis até para um leigo. A principal diferença está na testa. No erectus da Indonésia, a testa é mais baixa e recuada, no chinês, a testa também é recuada, mas ligeiramente mais alta. Os outros detalhes anatômicos são muito parecidos: grande arcada supraciliar em forma de saia, curvatura craniana baixa e comprida para trás, ausência de queixo, mandíbulas projetadas para frente e parte posterior do crânio composta de dois planos encontrando-se em ângulo. Portanto, é possível que os fósseis que hoje são todos classificados como Homo erectus sejam, na verdade, fósseis de duas ou mais espécies distintas, porém, próximas. A figura da próxima página foi retirada do livro “O Despertar da Cultura” de Richard G. Klein e Blake Edgar (figura 4.8). Segundo os autores a ilustração foi redesenhada parcialmente por Kathryn Cruz-Uribe a partir de originais de Janies Cirulis, in W. W. Howels, Mankind in the Making, Nova York, Doublebay, 1997, pag. 156 a 159. 5.2. Homo erectus - aparência e tecnologia
  • 31. O corpo do Homo erectus era quase tão moderno quanto o nosso. Praticamente a mesma altura, as mesmas proporções corporais, poucos pêlos no corpo. No entanto, o crânio era muito diferente. Com um volume craniano que podia chegar a 1.000 centímetros cúbicos, o erectus tinha um cérebro menor do que o nosso, mas maior do que todas as outras espécies humanas anteriores. Alguns autores, no entanto, acreditam que o volume cerebral do erectus era proporcionalmente semelhante ao do Homo habilis, que possuía um cérebro menor, mas um corpo também menor. O cérebro, como em quase todas as espécies do gênero era voltado para trás, com grandes protuberâncias supra-oculares, talvez as maiores de todo o gênero Homo. O erectus era capaz de produzir ferramentas no estilo Acheuliano (pedra polida). Desde seu surgimento, há evidências de um avanço sobre a tecnologia de Olduvai (pedra lascada). No entanto, ele nunca imprimiu um ritmo de aperfeiçoamento constante às suas ferramentas. É possível distinguir pequenos aperfeiçoamentos entre a tecnologia acheuliana antiga (1,5 milhão de anos antes do presente - AP) e a mais recente (600.000 anos AP), mas nada muito perceptível. A verdade é que, ao longo de quase 1 milhão de anos, o erectus não conseguiu aperfeiçoar muito a sua tecnologia. Parece que o cérebro do erectus foi capaz de criar as mais sofisticadas ferramentas de pedra até então produzidas, mas não foi capaz de ir além disso. Distribuição geográfica do Homo erectus (fonte: “Human Evolution – An Illustrated Introduction”) O mapa acima foi retirado do livro "Human Evolution - An Illustrated Introduction" de Roger Lewin, um dos maiores paleoantropólogos do mundo. Os fósseis encontrados na África são considerados pertencentes ao Homo ergaster e não ao Homo erectus asiático. Muitos paleoantropólogos consideram o Homo ergaster uma subespécie de Homo erectus ou vice-versa, inclusive Lewin.
  • 32. Os fósseis de Dnamisi (na atual Geórgia) estão sendo considerados como pertencentes a uma nova espécie (Homo georgicus), tendo em vista sua grande antiguidade (tão antigo quanto o Homo ergaster). 5.3. Homo erectus - convivência com os sapiens e extinção: Atualmente, a comunidade paleoantropológica tende a considerar que todas as formas de Homo erectus asiáticas foram extintas sem deixarem descendentes. Isso ocorre porque os fósseis demonstram claramente que as características das formas asiáticas não são encontradas em nenhuma espécie posterior, a não ser no Homo floresiensis. A espécie erectus desapareceu completamente há apenas 30 mil anos e, certamente, conviveu com o Homo sapiens por milhares de anos, principalmente na atual Indonésia. As formas africanas, muito próximas ao erectus, mas pertencentes a outra espécie chamada Homo ergaster, evoluíram para formas mais recentes de espécies do gênero Homo. O Homo ergaster teria evoluído para o Homo heidelbergensis (pronuncia-se “Raidelberguensis”), que constitui uma espécie muito parecida com o Homo neanderthalensis. O Homo heidelbergensis, por sua vez, evolui para o Homo neanderthalensis e para o Homo sapiens, diretamente, ou passando por espécies intermediárias. Esse é o pensamento dominante atualmente. 5.4. O Homo erectus e o fogo: As análises dos sítios têm demonstrado que quanto mais recuamos no tempo, os sítios arqueológicos contêm menos vestígios de utilização do fogo. Não se sabe ao certo quando se começou a usá-lo, mas os indícios apontam para o Homo erectus, há, pelo menos, 500.000 anos, como o pioneiro em sua utilização. Alguns afirmam que os indícios encontrados nos sítios dos erectus não comprovam que essa espécie dominava o fogo inteiramente, mas apenas o utilizava de maneira esporádica. O Livro "Pegando Fogo" de Richard Wrangham (não confundir com o livro homônimo de Mag Cabot, que é um romance), traz muitas informações sobre a utilização do fogo e sobre como os cientistas analisam os sítios arqueológicos. Basicamente, fogueiras mais elaboradas deixam vestígios inequívocos de controle do fogo (área pequena), utilizam material combustível mais apropriado, deixam muitos vestígios de ossos assados de animais no entorno, etc. Segundo o Dr. Fernando Bilharinho, comentando o livro supracitado, “se, por um lado o salto de habilis para erectus (que o autor propõe que seja devido à introdução de alimentos cozidos na dieta) parece realmente ter sido mais importante do que o de erectus para heidelbergensis, por outro lado, os indícios de controle do fogo mais antigos são de 790 mil anos, exatamente quando surgiu o Homo heidelbergensis! Aliás, a hipótese de domínio do fogo pelo heidelbergensis é defendida por outros autores e citada por Wrangham. O autor acha impossível o Homo erectus ter se espalhado pelo mundo sem dominar o fogo, bem com ter escapado dos predadores e empreendido a caça.”
  • 33. Também acredito que o mais provável é que o fogo tenha sido dominado pelo Homo heidelbergensis, ou, no máximo, pelos mais recentes Homo erectus. Nesse caso, o cozimento, que, segundo Wrangham, aumenta muito o aproveitamento energético dos alimentos, influiu no segundo aumento do volume cerebral (de erectus para heidelbergensis). O aumento do volume cerebral dos Australopithecus para os habilinos e depois para o ergaster/erectus teria sido conseqüência da mera introdução de carne crua à dieta desses pré-humanos. 5.5. Questões interessantes sobre o Homo erectus 5.5.1. Há algum traço de influência cultural de sapiens sobre erectus e vice versa? Não. O Homo erectus não foi capaz de produzir muita coisa além de ferramentas de pedra polida. É difícil imaginar como poderiam ter sido os encontros de Homo sapiens e Homo erectus. Com uma tecnologia extremamente mais sofisticada, principalmente nos encontros mais recentes, os sapiens seriam capazes de exterminar com facilidade todos os erectus que encontrassem. Ou, se possível, assimilando-os por meio de cruzamentos interespécies. No entanto, não acredito que tenha sido possível uma transferência de tecnologia, tendo em vista a limitada capacidade dos erectus. 5.5.2. Foram os sapiens que extinguiram os erectus? A maioria dos paleoantropólogos acredita que sim. Que houve uma substituição sistemática ao longo de milhares de anos. Segundo a teoria dominante, os sapiens surgiram na África a partir do Homo ergaster (Homo erectus africano) e, de lá, colonizou o mundo, substituindo as outras espécies que encontravam pelo caminho. Outros cientistas, a minoria, acreditam em um surgimento multirregional dos sapiens. Segundo esses últimos, os erectus asiáticos evoluíram para sapiens de forma convergente, mantendo cruzamentos esporádicos com o Homo ergaster que evoluía na mesma direção na África. As recentes descobertas de que os sapiens cruzaram- se com neandertalensis deu força a essa teoria, provando que eram possíveis os cruzamentos, pelo menos com os Neandertais. 5.5.3. O Homo erectus foi o primeiro hominídeo a andar ereto, como nós? Não. O gênero Australopithecus (ou, talvez, o gênero Ardipithecus, mais antigo) produziu os primeiros hominídeos bípedes. Veremos isso nos próximos capítulos. O nome Homo erectus tem um fator histórico. No século XIX, o primeiro paleoantropólogo de todos os tempos, o holandês Eugène Dubois encontrou os primeiros fósseis da espécie e batizou-a de Pithecanthropus erectus. Na época, conhecia-se apenas o Neandertal (também descoberto no século XIX). Mais tarde, a espécie foi incluída no gênero Homo e o gênero Pithecanthropus foi abolido. Isso ocorreu porque a espécie, nitidamente, é muito parecida com as demais do gênero Homo. O nome da espécie (erectus) foi mantido em homenagem ao descobridor e não porque foi a primeira a andar de forma ereta. Os primeiros Australopithecus (existiam muitas espécies desse gênero) foram descobertos na década de 1960 e causaram um grande estardalhaço na
  • 34. comunidade paleoantropológica, porque eram, evidentemente, uma forma intermediária entre chimpanzés e humanos (com crânios muito simiescos e corpos muito humanos). Recentemente (2008, divulgado em 2010), descobriram uma nova espécie australopitecínea (Australopithecus sediba) já com muitas características do gênero Homo, que também causou espanto na comunidade. Parece trata-se de uma espécie de "elo perdido" entre Homo e Australopithecus. 5.6. Homo erectus – subespécies O Homo erectus pertence a uma das mais bem sucedidas e duradouras espécies do gênero Homo (durou mais de 1 milhão de anos!). É geralmente considerada a espécie que deu origem a um grande número de espécies descendentes e subespécies. Pelo fato de ter sido uma espécie duradoura, há muitas variações nos fósseis encontrados, principalmente entre as formas mais antigas e as mais recentes. As principais subespécies sugeridas são: Homo erectus yuanmouensis (identificada no vilarejo de Danawu no Condado de Yuanmou, na China, em 1965 por Fang Qian - fósseis de 1,7 milhão de anos) – O nome significa “homem ereto de Yuanmou”. Homo erectus lantianensis (o primeiro registro fóssil do homem ereto de Lantian ocorreu em 1963 e descrito por J.K. Woo em 1964. Os restos encontrados foram achados no Condado de Lantian, na província de Shaanxi, no noroeste da China) – com capacidade craniana de 780 cm3 viveu entre 530 mil a 1 milhão de anos atrás. Homo erectus wushanensis (o fóssil do homem de Wushan foi primeiramente descoberto em Longgupo, no vilarejo Zhenlongping, Condado de Wushan, província de Chongqing -China- em 1985). Viveu há 2 milhões de anos. Homo erectus pekinensis (foi descoberto durante escavações nos anos de 1923 a 1927, em um local próximo a Pequim, capital da China. O material arqueológico encontrado foi datado entre 250.000 a 400.000 anos, no Pleistoceno. Mas, segundo estudos recentes, descobriu-se que ele poderia ter vivido há 800.000 anos) – O homem ereto de Pequim ou de Beijing, foi chamado inicialmente de Sinanthropus pekinensis. Homo erectus soloensis (Ilha de Java - Indonésia) - Homem ereto do Rio Bengawan Solo (Java) - estudos mais rigorosos concluíram que, enquanto muitas subespécies de H. erectus desapareceram do registro fóssil bruscamente 400.000 anos atrás, o Homo erectus soloensis persistiu até 50.000 anos atrás na região de Java e foi possivelmente absorvida por uma população local de H. sapiens na época de seu declínio. Outras subespécies: Homo erectus palaeojavanensis; H. e. nankinensis; H. e. hexianensis; H. e. mauritanicus; H. e. palaeojavanicus;
  • 36. Capítulo 6: Gigantopithecus, os maiores primatas de todos os tempos Gigantopithecus é um gênero de primatas gigantescos, os maiores que já existiram na face da Terra, extintos há milhares de anos. Esse gênero é muito próximo do gênero dos orangotangos, que vivem na Ásia, e ambos podem ter um ancestral comum recente. Especula-se que tais primatas gigantes podem ter dado origem a lendas como a do Pé Grande. Gigantopithecus – representação artística Os Gigantopithecus eram seres curiosos: podiam chegar a até 3 metros de altura (!) e pesar até 600 Kg (a título de comparação, um gorila atual chega a 2 metros de altura). Essas informações podem ser encontradas no livro “Human Evolution – An Illustrated Introduction” do autor Roger Lewin (5ª edição, página 107). As fêmeas tinham metade do tamanho do macho, o que indica que, talvez, viviam em "haréns", como os gorilas. Possuíam braços fortes e compridos, comiam bambus e outros vegetais e se locomoviam, provavelmente, sobre os nós dos dedos. Alguns o consideram um bípede (!), mas a verdade é que não há muita evidência fóssil que indique a forma de sua locomoção. A maioria dos Gigantopithecus foi extinta pelo H. erectus há uns 300.000 anos. No entanto, alguns sobreviveram até uns 100.000 anos atrás (G. blacki) e foram mortos pelos H. sapiens ou pela competição com os ursos panda (que também se alimentam de bambus). Existiram 3 espécies do gênero Gigantopithecus: Gigantopithecus blacki, Gigantopithecus bilaspurensis e Gigantopithecus giganteus. Todas viveram na Ásia (Índia e China, principalmente), conforme pode-se ler na Wikipedia. São primatas classificados como pertencentes à família Hominidae (a mesma dos humanos), subfamília Ponginae (a mesma dos orangotangos). Portanto, não eram tão próximos de nós como os chimpanzés ou os gorilas, que pertencem à mesma subfamília dos
  • 37. humanos (Homininae), mas eram incrivelmente semelhantes fisicamente à nossa espécie. : Gigantopithecus – comparações. Fonte: Wikipedia
  • 38. Capítulo 7: Homo ergaster Na década de 1990, na África, perto do desfiladeiro de Olduvai, foi descoberto um esqueleto quase completo do famoso Homo erectus africano, reclassificado como Homo ergaster. O H. ergaster é mais antigo do que o H. erectus e tem proporções corporais ainda mais semelhantes ao H. Sapiens. Viveu na África do Sul e na África Oriental. Eram basicamente como nós. A principal diferença estava no volume craniano, que não passava de 900 centímetros cúbicos (pouco menor do que o volume craniano do erectus, que tinha, em média, 1.000 cm3 e muito menor que o nosso, de 1.400 cm3 em média). Entretanto, há fósseis mais antigos de ergaster com volume craniano de apenas 508 a 582 cm3. O famoso Menino de Nariokotome (esqueleto quase completo de ergaster, descoberto na década de 1990) tem esse volume encefálico. Os autores do livro "The Last Human" consideram o bipedalismo do H. ergaster inquestionável, mas com base em características da cintura escapular acreditam que as crianças ergaster poderiam demorar mais tempo para andar (uma criança humana anda por volta dos 12 meses, os ergaster, talvez demorassem 16 ou mais meses). O Homo ergaster era capaz de produzir ferramentas de pedra polida (estilo acheuliano), mas não tinha uma inteligência muito superior à do chimpanzé. Se ainda vivessem, seriam considerados uma espécie estúpida (com pouca inteligência) de humanos, mas, sem dúvida, tendo em vista suas evidentes características físicas, seriam considerados humanos. 7.1. A convivência com o ergaster: Os sapiens não conviveram com ergaster porque estes últimos viveram há, mais ou menos, 1,5 milhão de anos, portanto, muito tempo antes do surgimento dos sapiens, que ocorreu há apenas 200.000 anos. Os pesquisadores entendem que o ergaster deu origem ao erectus e ao heidelbergensis. O heidelbergensis deu origem ao neandertalensis e ao sapiens, talvez passando por espécies intermediárias. Apesar de não ter convivido conosco, o ergaster conviveu, em um mesmo habitat (!!!), com o Homo habilis (espécie ainda mais antiga, de mais de 2 milhões de anos) e o Homo rudolfensis (que parecia como o habilis, mas era maior). Além disso, o Homo ergaster também conviveu com uma espécie australopitecínea recente, chamada de Paranthropus boisei, também em um mesmo habitat. Em suma, havia, pelo menos, três espécies humanas e uma australopitecínea convivendo em uma mesma paisagem há 1,5 milhão de anos. A revista Scientific American Brasil produziu uma interessantíssima matéria de 8 páginas sobre essa fascinante convivência (edição especial nº 2 - Novo Olhar Sobre a Evolução Humana). Recomendo.
  • 39. 7.2. Corpo moderno e cérebro primitivo: O ergaster foi o primeiro Homo a ter o nariz proeminente, como o nosso. As espécies anteriores, inclusive o Homo habilis e o Homo rudofensis tinham o nariz parecido com o dos gorilas atuais, embutido no rosto. Os Australopithecus tinham um nariz semelhante ao do chimpanzé (Pan troglodytes) e bonobos (Pan paniscus), exceto o Australopithecus sediba, que já possuía um nariz relativamente projetado. O ergaster também foi o primeiro a ter menos quantidade de pêlos pelo corpo (uma adaptação ao clima, que ficou mais quente há 1,8 milhão de anos atrás ou uma adaptação a longas caminhadas e a necessidade de suar para manter estável a temperatura corporal). Suas proporções corporais, vale repetir, eram semelhantes à nossa. Foi a primeira espécie humana a ter o braço menor que as pernas, indicando o total abandono da vida arbórea, passando para uma locomoção tipicamente terrestre. Para aumentar o volume do pulmão e permitir caminhadas mais longas, o tórax teve de se expandir, surgindo um tronco em forma de barril como o nosso (e não afunilado, como veremos nos Australopithecus e no habilis). Houve um estreitamento da pélvis (para facilitar as caminhadas), o que reduziu a passagem dos bebês (do útero à luz) e, consequentemente, aumentou a dependência do recém-nascido após o nascimento. É que os cérebros tiveram que ficar menores antes do nascimento e começar a crescer depois, por causa do estreitamento da pélvis. O Homo ergaster, uma das espécies mais bem conhecidas pelos Paleoantropólogos, visto de longe, poderia ser confundido com um ser humano atual, indicando que nosso corpo (da maneira que é hoje) surgiu há quase 2 milhões de anos. Nosso cérebro, da maneira que é hoje, surgiu há 200.000 anos, e nosso comportamento, da maneira que é hoje (com capacidade simbólica e abstrata) surgiu (ou, pelo menos, expandiu-se) há 50.000 anos. Fonte: http://wiki.kkc.school.nz/index.php/Homo_ergaster
  • 40. 7.3. Sobre a perda dos pêlos: Segundo Richard G. Kelin, a partir do Homo ergaster (após o Homo habilis), há mais ou menos 1,8 milhão de anos, os pêlos começaram a ficar menores no gênero Homo: "Já que o ergaster foi feito para um clima quente e seco, podemos especular que ele foi também a primeira espécie humana a possuir pele nua, quase sem pêlos. Se tivesse pêlos cobrindo o corpo, como os macacos, não poderia suar de maneira adequada, e o suor é o meio mais importante que os seres humanos - e o cérebro - têm para evitar o superaquecimento do corpo." (página 86 do livro "O Despertar da Cultura"). Robert Foley, no livro "Os Humanos Antes da Humanidade", concorda. No entanto, como esse livro foi escrito há mais tempo, o autor não conseguiu determinar a partir de qual espécie teria surgido: "O atributo-chave provavelmente foi a perda de pêlo. Estritamente falando, os humanos não são 'pelados', mas apresentam uma pelagem extremamente miniaturizada, cobrindo a maior parte do corpo, embora haja variações drásticas, dependendo do sexo e de região geográfica." (página 181 do livro supracitado). O autor, depois dessa introdução, fala sobre as teorias históricas sobre a perda de pêlos, dentre as quais, a famosa e totalmente descartada "fase aquática" dos hominídeos. Depois, conclui: "Os humanos modernos, pelo menos, trazem em sua anatomia e em sua fisiologia as marcas de uma espécie que evoluiu no contexto de estresse térmico extremo. É impossível determinar com precisão quando esse estresse ocorreu, mas como o bipedalismo se desenvolveu muito cedo, e talvez ele próprio esteja relacionado ao estresse térmico, pode ter acontecido que, durante os estágios formativos da linhagem humana, alguma coisa que os hominídeos vinham fazendo resultava em que eles sentissem muito calor. Caminhar através de vastas extensões em busca de alimento foi de importância crítica, tanto para a evolução da fisiologia térmica como da anatomia locomotora dos humanos, e é também uma estratégia comportamental de importância crucial." (página 182 do livro "Os Humanos Antes da Humanidade"). Portanto, os pêlos podem ter caído quando o Homo ergaster, há 1,8 milhão de anos, começou a vasculhar grandes extensões do planeta, segundo Klein. Ou, na teoria de Foley, os pêlos podem ter caído pelos mesmos motivos que levaram os grandes
  • 41. antropóides antigos a se tornarem bípedes (grandes caminhadas), e, se for assim, a perda de pêlos teria acontecido nos últimos Australopithecus. O melhor livro sobre o assunto, no entanto, é “O Macaco Nu”, de Desmond Morris, um ilustre zoólogo inglês. Esse último autor, em várias páginas de seu livro supracitado, comenta, exaustivamente, as várias hipóteses que tentam explicar a perda de pêlos (fase aquática, parasitas de pele, sujeiras inevitáveis nos pêlos, hipótese sexual, etc.). No entanto, o autor concorda com Klein e afirma que a hipótese mais provável é o fato das grandes caminhadas efetuadas pelos primeiros exemplares do gênero Homo, o que exigia um equipamento de resfriamento corporal muito eficiente. Por isso, as glândulas sudoríparas fariam esse papel de forma mais eficaz caso o corpo não estivesse coberto de pêlos. Possíveis peles fossilizadas do Australopithecus sediba foram encontradas em Malapa (África do Sul) em 2008. Se a descoberta se confirmar, será possível analisar a quantidade de glândulas sudoríparas que possuíam, podendo-se, a partir daí, estimar a quantidade de pêlos que possuíam. O A. sediba é um dos australopitecíneos mais recentes (1,8 milhão de anos) e um dos prováveis ancestrais do Homo erectus. Para saber mais sobre isso, recomendo a edição de agosto de 2011 da revista National Geographic Brasil.
  • 42. Capítulo 8: Homo rudolfensis e Homo habilis (“Habilinos”) Provavelmente, o Homo rudolfensis ou o Homo habilis foram as duas primeiras espécies do gênero Homo. Há indícios de que as duas espécies surgiram há mais de 2 milhões de anos. Temos, portanto, um marco importante: 2 milhões de anos – surgimento do gênero Homo. Alguns autores chamam essas primeiras espécies do gênero Homo de “habilinos”. Essa nomenclatura pode facilitar muito as coisas, quando nos referimos a tais espécies de uma forma genérica. Nessa época, há um ligeiro aumento do volume craniano. De apenas 450 a 500 centímetros cúbicos nos Australopithecus, o volume atingiu até 752 centímetros cúbicos no rudolfensis e 687 centímetros cúbicos no habilis. Apesar do volume cerebral do habilis ser menor, deve-se levar em consideração que seu corpo também era menor. Portanto, pode-se concluir que ambos tiveram um grau de inteligência semelhante. Eram capazes de produzir muitas ferramentas de pedra lascada, no estilo de Olduvai. Foram os primeiros a construir ferramentas de pedra nesse estilo. Os chimpanzés, apesar de serem capazes de utilizar ferramentas prontas (como gravetos e pedras), não são capazes de modificar pedras deliberadamente para que funcionem como ferramentas mais sofisticadas. Na verdade, é necessário uma mão mais habilidosas das que as dos chimpanzés para lascar pedras de maneira adequada. As espécies australopitecíneas coexistiram com as primeiras espécies Homo por muitos milhares de anos, talvez até por meio de milhão de anos. Essas espécies australopitecíneas mais recentes são incluídas no gênero Paranthropus (antropóide paralelo ao homem) e serão estudadas mais adiante. 8.1. Habilis / Rudolfensis: características físicas Tanto o habilis quanto os rudolfensis possuíam muitas características primitivas, que lembravam os Australopithecus: pés sem o arco característico, braços longos, mandíbula avantajada, protuberâncias ósseas supra-oculares, muitos pêlos pelo corpo, atingiam no máximo 1,40m de altura e 45Kg, tórax afunilado, pélvis relativamente larga, etc. No entanto, a maioria dos paleoantropólogos insiste em classificá-los como Homo, tendo em vista seu maior volume cerebral, sua pélvis relativamente mais estreita em relação aos Australopithecus e um prognatismo (projeção das mandíbulas para frente - focinho) relativamente menor, também em relação aos Australopithecus. Aliás, algumas etnias atuais de Homo sapiens ainda possuem um relativo prognatismo, como resquício evolutivo. O Australopithecus sediba, recém encontrado, talvez seja Homo também, por conter quase tantas características desse gênero quanto o habilis ou o rudolfensis. No entanto, seu descobridor classificou-o como Australopithecus, tendo em vista que características importantes, como o volume craniano, eram mais semelhantes às das espécies australopitecíneas.
  • 43. A Figura acima foi retirada do livro “O Despertar da Cultura” de Richard G. Klein e Blake Edgar, fig. 3.7. Conforme o livro, a ilustração foi desenhada segundo F.C. Howel, em Evolution of African Mammals, Harvard University Press, Cambridge, 1978, fig. 10.9.
  • 44. Homo habilis – reconstituição a partir de fósseis (Fonte: humordarwinista.blogspot.com)
  • 45. Capítulo 9: O mundo há 2 milhões de anos Nessa época (2,5 a 2,0 milhões de anos atrás), várias espécies da nossa subfamília dividiram as paisagens africanas, como o Australopithecus africanus, o Australopitecus garhi, o Paranthropus aethiopicus, o Homo habilis, o Homo rudolfensis e outras espécies. Há muitos outros fósseis que não podem ser claramente classificados. Podem pertencer a outras espécies ainda não identificadas ou fazerem parte de alguma espécie já conhecida, mas, por variações anatômicas, ainda não foi possível identificá-la. Espécies que viveram há mais ou menos 2 milhões de anos (2,5 a 1,5 milhão de anos): Australopithecus africanus - com mais ou menos 2,5 milhões de anos (África do Sul); Paranthropus robustus - 2,0 a 1,75 milhão de anos (África do Sul); Australopithecus sediba - 1,8 milhão de anos (África do Sul); Homo georgicus - 1,75 a ? milhão de anos (atual Geórgia – Ásia); Australopithecus gahri - 2,5 a ? milhões de anos (atual Etiópia); Paranthropus boisei - 1,7 a 1,6 milhão de anos (atuais Etiópia e Tanzânia); Homo rudolfensis - 2,5 a 1,9 milhão de anos (atual Quênia); Homo habilis - 1,9 a 1,6 milhão de anos (atual Tanzânia); Paranthropus aethiopicus - 2,5 milhões de anos a ? (atual Quênia); Homo ergaster - 1,8 a 1,5 milhão de anos (África Oriental).
  • 46. Capítulo 10: Outras Espécies do Gênero Homo: Terminamos aqui o estudo do gênero Homo. Como devem ter percebido, não esgotamos o assunto. Não estudamos, em detalhes, outras espécies do gênero, como, por exemplo: Fonte: http://humanorigins.si.edu 10.1. Homo georgicus (espécie intermediária entre o habilis e o erectus asiático); 10.2. Homo cepranensis (espécie que viveu na atual Itália há mais ou menos 850 mil anos); 10.3. Homo antecessor (espécie muito parecida com o Homo sapiens, porém, ligeiramente mais antiga, que também viveu na atual Itália). Segundo o Dr. Fernando Bilharinho, “a maioria dos fósseis do H. antecessor foi encontrada na Sierra de Atapuerca (Espanha), mas há fósseis encontrados no norte da Argélia que também parecem pertencer ao H. antecessor. Um terceiro grupo de fósseis encontrado em Daka (Etiópia) provavelmente pertencem ao H. antecessor, mas há dúvidas, porque foram encontrados há mais de 3.000km de distância dos demais. Se os fósseis da Argélia forem realmente do H. antecessor e não do H. heidelbergensis, o nome do H. antecessor teria que ser mudado para Homo mauritanicus (homem da Mauritânia), nome que os fósseis da Argélia receberam em 1954. Os primeiros fósseis da Espanha foram encontrados apenas em 1994, e o "batismo" aconteceu em 1997. De acordo com as regras internacionais de nomenclatura o primeiro nome recebido pela espécie deve prevalecer”; 10.4. Homo rhodesiensis (espécie que viveu nas atuais Zâmbia e Tanzânia).
  • 47. Homo georgicus. Fonte: http://erroridistumpa.blogspot.com/2009/10/sunday-mixture-10042009.html
  • 48. Capítulo 11: O Polegar Opositor O polegar opositor não surgiu com o gênero Homo. Praticamente todas as espécies primatas têm o polegar opositor, não apenas nas mãos, mas também nos pés. Os gorilas, os chimpanzés, os bonobos, os orangotangos, os macacos do novo mundo, todos os primatas têm polegares opositores nas mãos e nos pés. Atualmente, apenas o homem não tem polegares opositores nos pés. Essa adaptação (pés sem polegares opositores) surgiu, com certeza, com os Australopithecus, tendo em vista que os Ardipithecus (gênero que antecedeu aos Australopithecus) ainda tinham polegares opositores nos pés. No caso específico do gênero Homo, é possível concluir que desde o Homo habilis, o polegar opositor tornou-se mais sofisticado nas mãos, tendo em vista que essa espécie foi uma das primeiras a construir ferramentas de pedra lascada (estilo de Olduvai). Conforme testes em laboratório (vide livro "Eu, Primata", de Frans de Waal) os chimpanzés não conseguem um grau de controle tão aprimorado dos polegares. Por isso, eles não conseguem produzir ferramentas no estilo de Olduvai, apesar de conseguirem manipular pedras, gravetos e outros objetos. As ferramentas mais elaboradas de pedra polida (estilo acheuliano) surgiram muitos milhares de anos depois (600.000 anos atrás), quando as espécies humanas já possuíam um volume craniano ligeiramente maior. Portanto, pode ser que o habilis já tivesse mãos capazes de produzir ferramentas mais elaboradas, mas não tivesse inteligência suficiente para tanto. As limitações anatômicas do chimpanzé podem ser explicadas também pelo fato deles andarem sobre os nós dos dedos, como outros grandes primatas. Vale lembrar que apenas o Homo sapiens é bípede, atualmente, dentre os primatas, deixando as mãos totalmente especializadas para outras funções. Isso faz com que os chimpanzés não disponham de músculos e nervos mais adequados para funções superiores das mãos. O andar sobre os nós dos dedos (nodelismo) exige adaptações específicas, como músculos que travam o pulso, dificultando o manuseio de objetos. Retrocedendo no tempo, sabe-se que o ancestral comum entre os pré-humanos e os pré-chimpanzés remonta há mais ou menos 6 milhões de anos. Com certeza, nosso ancestral comum com os chimpanzés não tinha mãos tão adaptadas ao trabalho manual. Não se sabe se esse ancestral era mais parecido com os Australopithecus ou com os chimpanzés atuais. Sabe-se apenas que, muito provavelmente, ele não era bípede. O Ardipithecus ramidus, com 4 milhões de anos, e o Sahelanthropus tchadensis, são as espécies mais próximas que chegamos desse ancestral comum.
  • 49. Capítulo 12: Importantes marcos pré-históricos (Fonte: Resumo do texto "Gerações" de minha autoria, disponível, na íntegra, em www.paleoantropologia.com.br) 1 geração – 25 anos de duração – Convenção que usaremos neste texto; 4 gerações – 100 anos ou pouco mais – Tempo máximo de existência de uma pessoa; 8 gerações – 200 anos atrás (a.a.) – Limite de tempo em que, geralmente, é possível identificar nossos ancestrais; 40 gerações - 1.000 a.a. – Idade Média na Europa; 80 gerações – 2.000 a.a. – Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo; 240 gerações – 6.000 a.a. – Início da civilização: surgimento de cidades, agricultura, escrita, etc.; 680 gerações – 17.000 a.a. – Extinção do Homo floresiensis: espécie humana de apenas 1 metro de altura, que viveu na Ilha de Flores, pertencente à atual Indonésia; 1.200 gerações – 30.000 a.a. – Extinção do Homo neanderthalensis: espécie humana, com cérebro maior do que o nosso, que conviveu com o Homo sapiens na atual Europa e no atual Oriente Médio por vários milênios; 1.800 gerações – 45.000 a.a. – Explosão criativa do Homo sapiens: pensamento abstrato e simbólico. Tecnologia sapiens entra em constante aperfeiçoamento; 8.000 gerações – 200.000 a.a. – Surgimento do Homo sapiens na África; 20.000 gerações – 500.000 a.a. – Época em que viveu, no Oriente Médio, o ancestral comum entre os sapiens e os neanderthalensis, conhecido como Homo heildelbergensis; 40.000 gerações – 1.000.000 a.a. – Surgimento de espécies do gênero Homo com maior volume cerebral (ergaster/erectus) e início da tecnologia Acheuliana (pedra polida); 80.000 gerações – 2.000.000 a.a. – Surgimento do gênero Homo, representado pelo Homo habilis e outras espécies, na África (atual Somália, Quênia e Tanzânia). Início da tecnologia de Olduvai (pedra lascada).
  • 50. Capítulo 13: O gênero Australopithecus 13.1. Informações Básicas: No período de mais ou menos 4 milhões de anos atrás até, mais ou menos, 1,5 milhão de anos atrás, existiam primatas bípedes muito interessantes: os Australopithecus. Seus primeiros fósseis começaram a ser encontrados no início do século XX, todos na África (África Oriental e África do Sul). Australopithecus significa Macaco do Sul. Receberam esse nome porque seus primeiros exemplares foram encontrados na África do Sul, em 1924, pelo Professor de anatomia da Universidade de Witwatersrand (em Johanesburgo), Raymond Dart, um inglês que havia chegado recentemente para ensinar anatomia na Universidade. Na África Oriental (principalmente Tanzânia, onde fica o desfiladeiro de Olduvai), Louis Leakey e Mary Leakey começaram as mais importantes escavações, descobrindo centenas de fósseis, desde a década de 1930. O trabalho foi seguido pelo filho do casal Richard Leakey e por dezenas de outros paleoantropólogos famosos, como Donald Johanson, Tim White, Yves Coppens. De lá para cá, milhares de fósseis novos foram sendo desenterrados. Para sorte dos paleoantropólogos, foram desenterrados também alguns esqueletos quase completos. Tais esqueletos deram aos cientistas uma noção muito boa do corpo, dos hábitos e da capacidade cerebral dessas criaturas. Algumas espécies, como o A. afarensis, têm quase todos os seus ossos (até mesmo os menores) conhecidos. Os Australopithecus desceram das árvores, mas seu corpo ainda manteve muitas adaptações para a vida arbórea, como os longos braços. Veja a ilustração retirada do livro “Human Evolution”, de Roger Lewin: Fonte: Livro “Human Evolution – An illustrated Introduction”
  • 51. 13.2. O corpo dos Australopithecus: Os Australopithecus tinham um corpo que, na maioria das vezes, era pequeno, com no máximo 1,20m. No ano de 2010, foi publicado um estudo em que se constatou a existência de alguns espécimes maiores, com até 1,50m, mas, a grande maioria dos achados demonstra claramente um tamanho menor. O corpo australopitecíneo era incrivelmente semelhante ao nosso, por isso, vou relacionar aqui apenas as principais diferenças: 13.2.1. O tórax era afunilado para cima, tendo em vista que o osso da pélvis era ligeiramente mais largo, parecido com o dos chimpanzés atuais; 13.2.2. Os braços eram mais compridos, bem como os dedos das mãos (que também eram mais curvos), o que indicava claramente um compleição corpórea ainda voltada para a vida arborícola. Para que se tenha ideia do tamanho dos braços, as mãos quase chegavam à altura dos joelhos; 13.2.3. Havia algumas diferenças na articulação do ombro em algumas espécies mais antigas, permitindo aos braços um giro quase completo sobre a cabeça, ainda uma adaptação à locomoção braquial, nas árvores; 13.2.4. Os ossos da pélvis e das pernas indicam claramente uma locomoção bipedal, não apenas pela posição dos desgastes naturais, como também pelos ângulos de encaixe das articulações e pelo formato característico das extremidades (principalmente da tíbia); 13.2.5. A coluna vertebral demonstra clara, mas não completamente, adaptação ao bipedalismo, como principal meio de locomoção. As espécies mais recentes demonstram mais claramente essa adaptação ao bipedalismo; 13.2.6. Os pés já possuíam os polegares na mesma posição dos outros dedos, no entanto, eram ligeiramente diferentes dos nossos, porque, na maioria das espécies, não havia o arco típico do gênero Homo; Enfim, para que se tenha uma boa noção, uma boa imagem mental dessas espécies, tente imaginar um chimpanzé totalmente bípede e terá visualizado algo muito parecido com um Australopitecíneo. 13.3: Australopithecus: corpo quase humano e cabeça de macaco: Como se pode notar, o corpo dos Australopitecos (aportuguesando a forma latina do nome) era quase humano. As diferenças quase não podiam ser notadas por um leigo. No entanto, a cabeça era incrivelmente diferente: 13.3.1. O que mais chamou atenção dos paleoantropólogos foi a posição de um aspecto anatômico muitíssimo interessante: a abertura do forame magno. O forame é um orifício que fica embaixo do crânio, por onde se encaixa a coluna cervical no crânio. A posição desse orifício era muito parecida com a posição encontrada no gênero Homo. Isso indica claramente o bipedalismo. A cabeça ficava na mesma
  • 52. posição ereta, dificultando muito uma locomoção sobre os nós dos dedos, como os chimpanzés; Fonte da imagem: http://frontiersofzoology.blogspot.com/2011/04/muhalululu-and-ngoogounogounmbar.html 13.3.2. O segundo aspecto que mais impressionou foi o tamanho reduzido do cérebro. Os Australopitecos tinham cérebros realmente pequenos, menores do que 500 cm3. Em algumas espécies, encontramos cérebros menores do que os do chimpanzé. Mesmo levando em consideração o tamanho do corpo (pequeno), o cérebro deles, em proporção, equivaleria a menos da metade do nosso; Fonte da imagem: http://ideonexus.com/2008/10/19/american-natural-history-museum-hall-of-human-origins 13.3.3 O tamanho das mandíbulas, em praticamente todas as espécies, era grande, com forte prognatismo (focinho avantajado); 13.3.4. O tamanho dos dentes variava muito em função da espécie. Algumas espécies tinham dentes pequenos semelhantes aos nossos, mas sempre com os caninos ligeiramente mais avantajados. A exceção ficava com os Paranthropus, gênero mais recente, também conhecidos com megadônticos, que tinha dentes molares gigantescos (uma adaptação à alimentação herbácia); 13.4. Ainda sobre o crânio dos Australopithecus:
  • 53. 13.4.1 As mandíbulas tinham um formato nítido de "U", enquanto que no gênero Homo, o formato era mais aberto, formando uma espécie de curvatura parabólica (mais ou menos em “V” [ver figura no item 20.5]); 13.4.2 Em praticamente todas as espécies, havia protuberâncias supraoculares bastante realçadas, mas o formato das mesmas variava conforme a espécie; 13.4.3. O esfenóide, um osso na base do cérebro, era muito mais plano do que o nosso, permitindo que as mandíbulas ficassem bem avantajadas e reduzindo o espaço disponível para o cérebro; 13.4.4. O nariz era bastante semelhante ao do chimpanzé atual (Pan troglodytes), exceto o do Australopithecus sediba, já proeminente; 13.4.5. As espécies mais recentes (Paranthropus), tendo em vista seus gigantescos molares, possuíam uma grande e característica crista sagital sobre o crânio. Essa crista servia para prender os grandes músculos das mandíbulas. Tendo em vista a pelagem, não ficavam à mostra quando vivos, mas, nos crânios fósseis, são espetaculares; 13.4.6. O formato da face variava muito conforme a espécie. Temos faces arredondadas, ovaladas, curtas, compridas, etc. Os Paranthropus tinham, geralmente, uma face mais arredondada enquanto que os Australopitecos mais antigos tinham uma face bastante proeminente (prognatismo). Alguns, como o gahri, tinham um focinho bastante proeminente; 13.4.7. A testa era muito baixa e inclinada para trás. O formato do cérebro era parecido com as primeiras espécies do gênero Homo, ou seja, voltado para trás; 13.4.8. Nenhuma espécie apresentava queixo proeminente, encontrado apenas nos sapiens recentes. 13.5. Evolução do crânio: Não é correto falar em "formas de transição", porque cada espécie tem sua importância própria. Cada espécie criou seus próprios mecanismos para enfrentar a vida e era a mais adaptada ao seu meio. A Evolução seleciona os indivíduos mais adaptados ao meio ambiente utilizando-se de mutações aleatórias e outros mecanismos já comentados. No entanto, podemos visualizar, por exemplo, o crescimento cerebral desde os Australopithecus ao sapiens de forma bem detalhada, com milhares de fósseis intermediários.
  • 54. Comparação de volumes cranianos. Fonte: http://www.mahjoob.com/en/forums/showthread.php?t=249696 Não há, nem de longe, uma espécie de pré-programação ou algo do tipo no que se refere a esse aumento paulatino do cérebro. A Evolução seguiu um rumo absolutamente aleatório. A tendência de aumento no volume cerebral seguiu pressões evolutivas que podem ser identificadas e serão estudadas mais adiante, em um capítulo a parte. Fonte: http://www.mahjoob.com/en/forums/showthread.php?t=249696
  • 55. 13.6. Prognatismo: Não vamos estudar aqui o prognatismo mandibular, que se trata de uma má formação, geralmente, congênita. Estudaremos aqui o prognatismo como uma característica anatômica de uma espécie. Veja que o dicionário traz duas acepções para a palavra: Prognatismo: [1] acentuada projeção do maxilar inferior para a frente; [2] disposição da face na qual a linha do perfil, indo da fronte à parte mais saliente dos maxilares, forma um ângulo agudo em relação ao plano horizontal do crânio. A maioria dos Australopithecus possuía mandíbulas avantajadas. Algumas espécies possuíam mandíbulas muito projetadas para frente. A boca era projetada para frente mais ou menos como no chimpanzé atual. O queixo é outra parte da anatomia que fica abaixo das mandíbulas. Apenas o Homo sapiens tem o queixo mais proeminente, apesar de não ter mandíbulas projetadas. Percebam a diferença entre ter um queixo proeminente, como na maioria de nós, e ter as mandíbulas salientes, como na maioria dos Australopithecus. O Australopithecus sediba foi o primeiro a apresentar um nariz proeminente, e não mais embutido dentro do rosto: Fonte: John Gurge
  • 56. Capítulo 14: Berço da Humanidade A África do Sul é chamada por muitos de "Berço da Humanidade". Na verdade, ela disputa esse título com os países da África Oriental (Quênia, Tanzânia, Etiópia, etc.). A grande maioria dos Australopithecus e das primeiras espécies do gênero Homo são encontradas nesses locais. Recentemente, o magnífico Australopithecus sediba, já com muitas características do gênero Homo, foi encontrado lá, perto de Johanesburgo. Se colocarmos todas as espécies de Australopithecus e todas as espécies Homo uma ao lado da outra, poderemos perceber a Evolução, em cada detalhe anatômico: 1. Aumento gradual do cérebro; 2. Mudança gradual das articulações do ombro, da pélvis e dos joelhos; 3. Adaptação gradual dos pés à locomoção bípede; 4. Adaptação gradual do tórax; 5. Adaptação gradual da forma da coluna; 6. Adaptação gradual do comprimento dos braços; 7. Adaptação gradual das extremidades da tíbia. 14.1. Sequência evolutiva mais provável: Australopithecus africanus Australopithecus sediba Homo habilis
  • 57. Homo ergaster Homo heidelbergensis Homo sapiens (Cro-Magno) Fonte das imagens: http://skullduggery.com/extinct.htm 14.2. Os Australopithecus são nossos avós! Grande parte das espécies de Australopitecos foram extintas, outras evoluíram para espécies mais recentes (Paranthropus), outras evoluíram para o gênero Homo. Não há dúvidas de que os singelos Australopitecos eram nossos ancestrais. Além de ser possível verificar a convergência evolutiva para o gênero Homo em algumas espécies australopitecíneas, todas as espécies viveram nos mesmos ambientes em que surgiram as primeiras espécies Homo. A escalada de mudanças morfológicas começou nos membros inferiores (adaptações na tíbia para o andar bípede, há 4 milhões de anos), passou para a pélvis (estreitamento da pélvis, para facilitar longas caminhadas), depois para o tórax (formato de barril, consequência da mudança na pélvis, há 2,5 milhões de anos), depois para os braços (braços menores há 2 milhões de anos), depois para o rosto (rosto mais humano há 1,5 milhão de anos) e, por fim, atingiu dramaticamente o cérebro (constante crescimento a partir de 2 milhões de anos, com grande salto há 600.000 anos, provavelmente com o Homo heidelbergensis).
  • 58. Capítulo 15: Australopithecus afarensis: um velho conhecido Afarensis significa "da região de Afar", na Etiópia, onde foram encontrados. Viveram entre 3 a 4,1 milhões de anos nas atuais Etiópia e Tanzânia. Os fósseis dessa espécie tão conhecida são encontrados desde 1935 pela família Leakey, mas recebeu esse nome apenas em 1978, após ajustes na classificação. Fonte: Foto – Museu de História Natural de Nova York – EUA Sabemos muita coisa sobre essa espécie e inclusive temos pegadas fósseis dela: as pegadas de Laetoli, datadas da época em que o afarensis habitava aquelas paragens. Tais pegadas sugerem que ele andava a maior parte do tempo sobre duas patas. Temos centenas de fósseis e alguns esqueletos completos, cujo mais famoso é conhecido pelo nome de "Lucy", em homenagem a uma canção dos Beatles, e outro esqueleto conhecido como “O Filho de Lucy” ou Selan (que significa esperança na língua local), um bebê Australopithecus, um pouco mais antigo. Na verdade, temos centenas de fósseis dessa espécie, muitos ainda não catalogados. Esses esqueletos quase completos trouxeram muitas informações adicionais sobre a espécie, como, por exemplo, o padrão de crescimento dos filhotes, as proporções corporais, a posição das articulações, etc. Temos um modelo interno do cérebro, muitas informações sobre os pés, as mãos e outros ossos importantes para determinar o bipedalismo (tíbia, bacia, vértebras, etc.). Aliás, o bipedalismo dos Australopithecus é indiscutível e extraordinariamente evidente. Há muitas semelhanças entre alguns fósseis de afarensis e o orangotango atual, o que confunde os pesquisadores até hoje, mas as semelhanças com os demais Australopithecus é avassaladora. No entanto, parece ter havido uma convergência evolutiva com os orangotangos em alguns pontos do esqueleto, principalmente nos braços. Seu corpo tinha o mesmo tamanho de um bonobo atual (Pan paniscus). Era pequeno, talvez o menor dos Australopithecus. É bom lembrar que quase todos os
  • 59. Australopithecus não tinham caninos avantajados e, portanto, não tinham mecanismos de defesa eficientes (eram pequenos, fracos, sem caninos fortes...). Porém, pode-se presumir que eram muito espertos, porque sobreviveram em uma região cheia de predadores e com escassez de comida e água. "As características anatômicas do afarensis também são vistas em macacos e não são exclusivas de bípedes. Os membros inferiores, por exemplo, são semelhantes aos dos babuínos (macaco com hábitos terrestres), diferentes dos macacos escaladores. As características dos dedos das mãos são semelhantes às do homem e do gorila" (informações retiradas pelo Dr. Fernando Bilharinho do Livro "The Last Human"). No entanto, o cérebro do anamensis não ultrapassa os 550 centímetros cúbicos. Na verdade, na média, ficava bem abaixo disso, talvez menos do que 400 cc. Vale lembrar que o tamanho do cérebro, às vezes, não diz muita coisa sobre a inteligência da espécie.
  • 60. Capítulo 16: Australopithecus africanus: outro velho conhecido Africanus significa africano, evidentemente. Essa espécie viveu há, mais ou menos, 2,5 milhões de anos na África do Sul. A linha evolutiva mais aceita não inclui o A. africanus dentre nossos ancestrais diretos. A linha mais aceita atualmente é a seguinte: anamensis > afarensis > habilis > ergaster > heidelbergensis > sapiens. O A. afarensis é o mais provável ancestral do Homo habilis. Portanto, o africanus pode ter sido um beco sem saída evolutivo, ou ser um ancestral do Australopithecus sediba (que também viveu na África do Sul), ou ainda pode ser um ancestral do habilis (apesar da longa distância entre os habitats, há indícios de espécies do gênero Homo na África do Sul). Nesse último caso, teríamos o africanus e não o afarensis como nosso ancestral. Também nesse último caso, poderíamos ter o sediba como um intermediário entre o afarensis e o habilis. Da mesma forma que o afarensis, temos muitos fósseis, centenas, dessa espécie. Alguns pesquisadores sugerem dividi-los em duas ou mais espécies separadas, tendo em vista sutis diferenças encontradas. Vou postar abaixo um trecho do livro "The Last Human", gentilmente traduzido pelo Dr. Fernando Bilharinho, sobre o Australopithecus africanus. O livro é escrito por Esteban Sarmiento, com colaboração de G. J. Sawyer e Richard Milner. Ainda não há edição em português. O texto está resumido e descreve o Australopithecus africanus: "Crânio e dentes com muitas características parecidas com as dos homens: (1) face relativamente plana e disposta verticalmente; (2) mandíbula relativamente curta; (3) musculatura do pescoço com inserção bem baixa no crânio; (4) forame magno posicionado mais adiante e orientado mais para baixo do que nos macacos, indicando bipedalismo; (5) volume craniano parecido com o dos grandes macacos africanos, 400cc. Peso de 25 a 30kg. (6) O pé do A. africanus é muito mais móvel, não possui arcos fixos como os humanos e possui um grau elevado de divergência do hálux (dedo grande do pé, conhecido também como primeiro pododáctilo) em relação ao pé humano. A coluna lombar aparentemente não apresentava a lordose lombar característica do nosso andar bípede. (7) Viveu há 2,5 a 3,5 milhões de anos. Há um fóssil com possibilidade de 4,0 milhões de anos [a datação na África do Sul é muito menos precisa do que no Grande Vale da Fenda, conhecido como desfiladeiro de Olduvai, pela raridade de vulcões na região]."
  • 61. Fonte: Jornal Folha de São Paulo
  • 62. Capítulo 17: Australopithecus gahri: Quase Homo? Não vou descrever aqui todos as espécies de Australopithecus, porque senão perderíamos o foco, por isso não falarei sobre o Australopithecus bahrelghazali, e outros. No entanto, vale a pena descrevermos o Australopithecus gahri. “Gahri” significa “surpresa” em um língua africana. Ele viveu por volta de 2,5 a 2,6 milhões de anos de na Etiópia. O fóssil mais famoso da espécie é conhecido como "Crânio Negro". Esse macaco bípede viveu em uma época em que começavam a surgir o gênero Homo e o gênero Paranthropus, portanto, em uma época crucial para o entendimento de nossa origem. De novo, vou recorrer ao grande livro "The Last Human", traduzido pelo Dr. Fernando Bilharinho, para descrever o gahri: “(1) O volume encefálico foi estimado em 450 centímetros cúbicos; (2) Os ossos da cintura escapular apresentam mais características humanas do que os do Australopithecus afarensis; (3) O dedo maior do pé (hálux) sugere que o A. garhi se locomovia predominantemente no solo, mas persiste a dúvida quanto ao tempo em que andava sobre duas ou quatro patas, porque, a princípio, todos os grandes macacos andam ocasionalmente sobre duas patas; (4) Apesar da longa distância entre os sítios, o garhi se parece muito com o africanus da África do Sul, sugerindo algum grau de parentesco; (5) Ferramentas: Não foram encontradas ferramentas associadas ao A. garhi. Entretanto, ossos de antílopes com marcas de cortes e quebrados para retirada de tutano foram encontrados no mesmo depósito dos fósseis do garhi. É provável então que, ao invés do Homo habilis, o A. gahri tenha sido o primeiro a fabricar ferramentas no estilo de Olduvai; (6) Animais e habitat: Os animais encontrados sugerem habitat aberto com grama e arbustos e longas estações secas. Florestas estreitas e clareiras gramadas devem ter existido próximas a lagos e cursos de riachos.”