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Opinião.	
  O	
  Exame	
  de	
  Prática	
  Profissional	
  e	
  a	
  Medicina.	
  
	
  
O	
  estudante	
  de	
  medicina	
  tem	
  a	
  maior	
  carga	
  horária	
  de	
  ensino	
  na	
  graduação	
  entre	
  
as	
  profissões,	
  regulamentadas	
  ou	
  não.	
  
O	
   estudante	
   de	
   medicina	
   dedica,	
   praticamente,	
   seus	
   dois	
   últimos	
   anos	
   ao	
  
chamado	
  “internato”,	
  quando	
  passa	
  a	
  ter	
  contato	
  direto	
  e	
  prático	
  com	
  pacientes,	
  
em	
  hospitais	
  de	
  ensino.	
  
O	
  estudante	
  de	
  medicina	
  possui	
  dedicação	
  integral	
  aos	
  estudos.	
  
Então,	
   pergunta-­‐se:	
   qual	
   a	
   necessidade	
   de	
   se	
   aplicar	
   um	
   exame	
   de	
   prática	
  
profissional	
   ao	
   final	
   de	
   um	
   curso	
   de	
   graduação	
   com	
   características	
   tão	
  
complexas?	
  
A	
  resposta	
  é	
  simples:	
  porque	
  sim.	
  
É	
  difícil	
  não	
  cair	
  no	
  clichê	
  de	
  que	
  a	
  medicina	
  é	
  uma	
  profissão	
  a	
  serviço	
  da	
  vida	
  e	
  
da	
  saúde.	
  É	
  mais	
  difícil	
  ainda	
  não	
  cair	
  no	
  clichê	
  de	
  que	
  o	
  médico,	
  mais	
  do	
  que	
  
qualquer	
  outra	
  profissional,	
  lida	
  com	
  o	
  que	
  podemos	
  chamar	
  de	
  “bem	
  supremo”.	
  
Hoje,	
   há	
   uma	
   verdadeira	
   inversão	
   de	
   valores,	
   na	
   qual	
   o	
   ensino	
   público	
  
fundamental	
   é	
   de	
   péssima	
   qualidade,	
   enquanto	
   a	
   graduação	
   ofertada	
   por	
  
faculdades	
  públicas	
  apresenta	
  uma	
  excelência	
  em	
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  –	
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  isto	
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toda	
  as	
  áreas.	
  
Assim,	
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escolas	
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O	
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   durante	
   a	
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   básica,	
  
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   durante	
   a	
   graduação,	
   é	
   feito	
   pela	
   lógica	
   do	
   mercado	
   –	
   bons	
  
profissionais	
  permanecem,	
  maus	
  o	
  próprio	
  mercado	
  elimina.	
  
Diante	
   desta	
   regra	
   mercadológica	
   básica,	
   quem	
   seleciona	
   então	
   os	
   maus	
  
médicos?	
  Infelizmente,	
  são	
  os	
  seus	
  “erros”.	
  
Ou	
  seja,	
  a	
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  definidora	
  dos	
  médicos	
  
que	
  ficam	
  e	
  dos	
  que	
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  “circulação”.	
  
Nos	
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   um	
   instituto,	
   independente,	
  
chamado	
  de	
  “National	
  Board	
  of	
  Medical	
  Examiners	
  (NBME)”.	
  Sem	
  a	
  aprovação	
  
por	
   este	
   instituto	
   o	
   médico	
   não	
   exerce	
   a	
   medicina,	
   mas	
   não	
   por	
   que	
   ele	
   seja	
  
integralmente	
  obrigatório,	
  mas	
  em	
  razão	
  do	
  próprio	
  mercado	
  que	
  simplesmente	
  
não	
  reconhece	
  o	
  profissional	
  que	
  não	
  possui	
  tal	
  certificação.	
  
Evidentemente	
  que	
  o	
  objetivo	
  não	
  é	
  estudar	
  o	
  exercício	
  da	
  medicina	
  em	
  outros	
  
Países,	
   posto	
   que	
   cada	
   um	
   possui	
   a	
   sua	
   peculiaridade;	
   entretanto,	
   é	
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   País	
   que	
   possui	
   uma	
   medicina	
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   ponta”	
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   o	
  
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O	
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  se	
  
o	
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   está	
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   a	
   trabalhar	
   como	
  
advogado.	
  	
  
Tanto	
  que,	
  na	
  sua	
  origem,	
  o	
  Exame	
  era	
  suprido	
  pela	
  comprovação	
  de	
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do	
   chamado	
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   profissional”,	
   ou	
   seja,	
   o	
   bacharel	
   em	
   direito	
   comprovava	
  
que	
  já	
  havia	
  trabalhado	
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  área,	
  estando	
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  prova.	
  
Este	
  é	
  o	
  espírito	
  do	
  Exame	
  de	
  final	
  de	
  curso.	
  É	
  a	
  comprovação	
  da	
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  para	
  a	
  
“prática	
  profissional”.	
  
O	
   CREMESP	
   –	
   Conselho	
   Regional	
   de	
   Medicina	
   do	
   Estado	
   de	
   São	
   Paulo,	
   há	
   10	
  
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  anos	
  aplica	
  um	
  exame	
  de	
  proficiência	
  profissional,	
  que	
  não	
  é	
  reprobatório	
  
justamente	
   em	
   razão	
   da	
   ausência	
   de	
   Lei	
   formal,	
   mas	
   que	
   tem	
   por	
   objetivo	
  
primordial	
   indicar	
   não	
   apenas	
   à	
   sociedade,	
   mas	
   principalmente	
   ao	
   próprio	
  
médico,	
  recém-­‐formado,	
  quais	
  são	
  as	
  suas	
  principais	
  deficiências.	
  
O	
   cenário	
   ideal	
   seria	
   a	
   garantia	
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   de	
   Residência	
   Médica	
   a	
   todos	
   os	
  
Egressos	
   dos	
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   de	
   medicina,	
   considerando	
   que	
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   é	
   o	
   verdadeiro	
  
treinamento	
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Entretanto,	
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  da	
  
medicina	
  e	
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  formação	
  deficitária,	
  mas	
  não	
  há	
  dúvidas	
  de	
  que	
  já	
  representaria	
  
um	
  excelente	
  início.	
  
Georges	
   Ripert,	
   Jurista	
   Francês,	
   afirmava	
   que	
   “quando	
   o	
   direito	
   ignora	
   a	
  
realidade,	
  a	
  realidade	
  se	
  vinga	
  ignorando	
  o	
  direito”.	
  	
  
A	
  realidade	
  hoje	
  esta	
  posta:	
  os	
  cursos	
  de	
  medicina,	
  em	
  sua	
  maioria,	
  não	
  formam	
  
de	
  maneira	
  adequada.	
  Qual	
  a	
  seria	
  a	
  solução	
  mais	
  rápida	
  e	
  eficaz?	
  
	
  
Osvaldo	
  Pires	
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  • 1. Opinião.  O  Exame  de  Prática  Profissional  e  a  Medicina.     O  estudante  de  medicina  tem  a  maior  carga  horária  de  ensino  na  graduação  entre   as  profissões,  regulamentadas  ou  não.   O   estudante   de   medicina   dedica,   praticamente,   seus   dois   últimos   anos   ao   chamado  “internato”,  quando  passa  a  ter  contato  direto  e  prático  com  pacientes,   em  hospitais  de  ensino.   O  estudante  de  medicina  possui  dedicação  integral  aos  estudos.   Então,   pergunta-­‐se:   qual   a   necessidade   de   se   aplicar   um   exame   de   prática   profissional   ao   final   de   um   curso   de   graduação   com   características   tão   complexas?   A  resposta  é  simples:  porque  sim.   É  difícil  não  cair  no  clichê  de  que  a  medicina  é  uma  profissão  a  serviço  da  vida  e   da  saúde.  É  mais  difícil  ainda  não  cair  no  clichê  de  que  o  médico,  mais  do  que   qualquer  outra  profissional,  lida  com  o  que  podemos  chamar  de  “bem  supremo”.   Hoje,   há   uma   verdadeira   inversão   de   valores,   na   qual   o   ensino   público   fundamental   é   de   péssima   qualidade,   enquanto   a   graduação   ofertada   por   faculdades  públicas  apresenta  uma  excelência  em  qualidade  –  e  isto  ocorre  em   toda  as  áreas.   Assim,   pessoas   que   foram   mal   preparadas   durante   a   formação   essencial   –   em   escolas   públicas   –   fatalmente   cairão   em   escolas   privadas,   com   altíssimas   mensalidades   e   qualidade   duvidosa   de   ensino   em   muitas   delas.   É   uma   lógica   absolutamente  perversa.   E,  na  medicina,  não  é  diferente.   O   controle   de   qualidade   então,   que   não   existe   durante   a   formação   básica,   tampouco   durante   a   graduação,   é   feito   pela   lógica   do   mercado   –   bons   profissionais  permanecem,  maus  o  próprio  mercado  elimina.   Diante   desta   regra   mercadológica   básica,   quem   seleciona   então   os   maus   médicos?  Infelizmente,  são  os  seus  “erros”.   Ou  seja,  a  saúde  da  população  passa  a  ser  a  mercancia  definidora  dos  médicos   que  ficam  e  dos  que  saem  de  “circulação”.   Nos   Estados   Unidos,   há   mais   de   100   anos,   existe   um   instituto,   independente,   chamado  de  “National  Board  of  Medical  Examiners  (NBME)”.  Sem  a  aprovação   por   este   instituto   o   médico   não   exerce   a   medicina,   mas   não   por   que   ele   seja   integralmente  obrigatório,  mas  em  razão  do  próprio  mercado  que  simplesmente   não  reconhece  o  profissional  que  não  possui  tal  certificação.   Evidentemente  que  o  objetivo  não  é  estudar  o  exercício  da  medicina  em  outros   Países,   posto   que   cada   um   possui   a   sua   peculiaridade;   entretanto,   é   fato   que   nenhum   País   que   possui   uma   medicina   considerada   “de   ponta”   entrega   o   estudante   de   medicina   para   ser   “separado”   e   “treinado”   apenas   pela   lógica   de   mercado.   O   Exame   da   Ordem   dos   Advogados   do   Brasil,   até   pouco   tempo   o   único   regulamentado  por  Lei  em  sentido  formal,  tem  por  objetivo  justamente  apurar  se   o   egresso   do   curso   de   bacharelado   em   direito   está   apto   a   trabalhar   como   advogado.     Tanto  que,  na  sua  origem,  o  Exame  era  suprido  pela  comprovação  de  realização   do   chamado   “estágio   profissional”,   ou   seja,   o   bacharel   em   direito   comprovava   que  já  havia  trabalhado  em  sua  área,  estando  dispensado  da  prova.  
  • 2. Este  é  o  espírito  do  Exame  de  final  de  curso.  É  a  comprovação  da  aptidão  para  a   “prática  profissional”.   O   CREMESP   –   Conselho   Regional   de   Medicina   do   Estado   de   São   Paulo,   há   10   (dez)  anos  aplica  um  exame  de  proficiência  profissional,  que  não  é  reprobatório   justamente   em   razão   da   ausência   de   Lei   formal,   mas   que   tem   por   objetivo   primordial   indicar   não   apenas   à   sociedade,   mas   principalmente   ao   próprio   médico,  recém-­‐formado,  quais  são  as  suas  principais  deficiências.   O   cenário   ideal   seria   a   garantia   de   vagas   de   Residência   Médica   a   todos   os   Egressos   dos   cursos   de   medicina,   considerando   que   este   é   o   verdadeiro   treinamento   em   serviço,   sob   supervisão   de   um   médico   mais   experiente   e   que   exercício  pleno  da  profissão  apenas  fosse  possível  após  esta  especialização.   Entretanto,  esta  é  uma  realidade  ainda  distante,  tanto  do  ponto  de  vista  prático   quanto  legal.   Fato  é  que  o  mercado  irá  selecionar  as  pessoas,  e  tal  regra  é  implacável.     Questiona-­‐se,  apenas,  a  justiça  deste  sistema  com  a  população  e  com  os  próprios   profissionais,  ao  serem  selecionados  através  de  seus  erros,  ao  custo  de  vidas  e  da   saúde  dos  pacientes.     Não   seria   mais   lógico   que   houvesse   uma   prova   que   os   avalizasse   a   exercer   a   profissão   de   maneira   mais   tranquila,   selecionando   previamente   os   mais   preparados  e  indicando  aos  reprovados  quais  seriam  suas  deficiências?   Mais   do   que   um   exame   de   proficiência,   a   prova   deve   ser   prática,   colocando   o   formando  em  situações  de  vida,  para  que  ele  possa  racionar  sob  pressão,  mas   sabendo  que  seu  erro  não  custará  a  saúde  de  um  paciente,  no  máximo,  uma  nota   menor  do  avaliador.   Com  todo  o  respeito  aos  argumentos  contrários,  questões  como  a  proliferação  de   cursinhos,  a  preocupação  apenas  com  a  prova  e  não  com  a  formação,  reserva  de   mercado,  são  absolutamente  secundários,  até  porque,  no  meio  jurídico,  os  tais   “cursinhos   preparatórios”   conseguem   suprir,   muitas   vezes,   grandes   falhas   da   formação   básica,   o   que,   no   final   das   contas,   é   bom   para   quem   se   forma   com   deficiências  e  para  a  própria  sociedade.   O   fato   é   que   o   atual   sistema   tem   colocado   todos   os   partícipes   desta   relação,   médicos  e  seus  pacientes,  como  vítimas  de  uma  lógica  absolutamente  perversa   educacional  e  assistencial,  e  o  discurso,  a  oratória  e  demagogia  pouco  resolvem   neste  momento.     Evidentemente  que,  isoladamente,  o  Exame  não  é  a  solução  para  os  problemas  da   medicina  e  da  formação  deficitária,  mas  não  há  dúvidas  de  que  já  representaria   um  excelente  início.   Georges   Ripert,   Jurista   Francês,   afirmava   que   “quando   o   direito   ignora   a   realidade,  a  realidade  se  vinga  ignorando  o  direito”.     A  realidade  hoje  esta  posta:  os  cursos  de  medicina,  em  sua  maioria,  não  formam   de  maneira  adequada.  Qual  a  seria  a  solução  mais  rápida  e  eficaz?     Osvaldo  Pires  G.  Simonelli   Advogado   Chefe  do  Departamento  Jurídico  do  CREMESP