O legado de Roma: Tluminando a idade das trevas, 400- 1000
56 P. Heather & J.Matthews, The Goths in the Fourth Century (Liverpool, 1991),pp.
102-110; 124-185.
57 Minhas vis6es sao compadvcis com, entre outros, G. Halsall, in: J.F. Drinkwater
& H. Elton (ed.), Fifthcentury Gaul (Cambridge, 1992), pp. 196-207; B. Effros,
Merovingian Mortuary Archaeology and the Making of the Middle Ages (Berkeley,
2003), pp. 100-110.
58 L. Hedeager, Iron-Age Societies (Oxford, 1992),pp. 45-51.
59 C.R. Whittaker,.Frontiers of the Roman Empire (Baltimore, 1994). Contra a antiga
ideia de que o exercito imperial tardio era mais "barbarizado" do que antes: H. Elton,
Warfare in Roman Europe, AD 350-425 (Oxford, 1996), pp.134-154.
60
Ammianus, Res Gestae, 15.5;para Firmo, cf. Ammianus, Res Gestae, 29.5.39.
61
Ammianus, Res Gestae, 31.2; para a entrada g6tica, 31passim - cf. P.J.Heather,
Goths and Romans 332-489 (Oxford, 1991),pp. 122ff; e H. Wolfram, History of
the Goths (Berkeley, 1988),pp. 117ff.
96
2
CULTURA E CREN<;A NO MUNDO
CRIST.AO ROMANO
1
No final da decada de 460, como Sidonio Apolinario rclatou a um
amigo, os bispos de Lyon e Autun tinham a rarefa de escolher e consagrar
o novo bispo de Chalon-sur-Saone. Havia tres candidatos, anonimos: ~m
reivindicava o cargo porque sua fam.iliaera antiga, outro porque tinha for-
necido apoio acidade, alimentando pessoas, e o ultimo prometia terras da
Igrejapara os apoiadores. Os bispos, por sua vez,escolheram o santo clerigo
Joao, que lentamente havia subido na hierarquia da Igreja local, confun-
dindo, assim, as facy6es do lugar. 0 proprio Sidonio ainda nao era o bispo
de Clermont; quando assumiu o cargo, uma de suas primeiras carefas foi
realizar uma eleiy:i.osemelhante em Bourges, em 470. Aqui, embora hou-
vesse, novamente, numerosos candidatos, muitos dos cidadaos queriam
Simplicio, um notavel local provenience de uma familia senarorial. Sidonio,
inicialmente cauteloso na escolha, comeyou a simpacizar com Simplkio, e
conservou o discurso que proferira diante dos cidad:i.ossobre tal mareria,
o qual dizia (resumidamence), parafraseando:
Se eu escolher um monge, v6s direis que ele e muito alheio a este mundo; se
eu escolher um clerigo, muitos vao pensar que eu deveria escolher apenas com
97
O legado de Roma: Iluminando a idade <lastrevas, 4 00-10 0 0
base na ancianidade [como, de faro, havia acontecido em Chalon]; se eu esco-
1her um funcionario leigo, v6s dircis que eu escolhi alguem como eu. Porem,
eu tenho que fazer uma escolha; muitos de v6s podem ser episcopales,dignos
de ser bispo, mas nem todos dentre v6s podem se-lo. Logo, eu escolho Simpli-
cio, um leigo, mas cuja familia erepleca camo de bispos quanto de prefeirns
- assirn como a sua esposa - e que tern defendido os interesses da cidade pe-
rante os chefes romanos e "barbaros".
Portanto, Sidonio, de fato, escolheu, nessa segunda elei<;ao,al-
guem como ele, um aristocraca local, secular e casado. 2
0 ofkio de bis-
po, na Galia, estava tornando-se um cornponente-padrao no progresso
da carreira secular dos nocaveis da cidade, assim como o sacerd6cio pa-
gao tinha sido antes; a hierarquia tradicional do mundo romano tinha
efetivamente absorvido as novas estrucuras de poder do cristianismo.
Conrndo, nao foi universalmente assim; o pr6prio apoio emusiastico
de Sidonio para a elei<;iode Joao de Chalan, a despeito dos nocaveis lo-
cais, mostra que, por vezes, continuava sendo possivel ucilizar cricerios
diferentes dos de riqueza e nascimento para a entrada na hierarquia da
Igreja. 0 cristianismo foi substancialmeme absorvido pelos valores tra-
dicionais romanos, mas nunca de maneira plena.
Um exemplo um pouco rnais combativo da mesma questao e Si-
nesio de Cirene, que foi recomendado corno bispo da vizinha Ptolemais,
em 411, a Teofilo, patriarca de Alexandria. Sinesio era oucro notavel se-
cular local, coma Sidonio e Simplicio; ele representava a Cirenaica em
Constantinopla, buscando, com exito, redu(j'.6esfiscais para a provincia,
e ao mesmo tempo organizando a defesa local contra os berberes; ele era
o cipo de homem util que tambem seria muito valioso como bispo, e foi
ativo nesse papel nos aproximadamente dois anos antes de sua morte,
como virnos no capitulo 1.Sinesio, no entanto, foi tambem um cornpe-
tente filosofo neoplaconico, ceve o merito de escrever numerosas obras,
tao imbuido na tradi(j'.aofilos6fica classica que as pessoas perguntam-se
se de era mesmo um cristao (embora certamente o fosse), e nao foi ape-
nas creinado pela renomada macematica e neoplatonica paga Hipatia de
Alexandria, mas tambem por um amigo pr6xirno a ela, como suas car-
tas mosrram. 3
Teofilo, por sua vez, era um radical que cinha destruido
o templo pagao rnais famoso de Alexandria, o Sarapaion, em 391; uma
rurba do seu sucessor, Cirilo , linchara Hipatia, de faro, em 415.Sinesio,
98
r Cultura e cren~a no mundo cristao romano
entrecamo, escreveu uma extraordinaria carra aberta antes de sua ordena-
<;fo,afirmando seusvalores filosoficos e morais. Ele nao renunciaria asua
mulher; eles continuariam a dormir juncos, aespera de filhos. "Quanto
aRessurreii;:ao, um objeto de cren(j'.a
comum, eu a considero um concei-
cosagrado e misterioso, sobre o qual nao concordo em absoluro com as
opinioes da maioria". 0 mundo tampouco estava proximo de acabar. A
filosofia permaneceria como sua voca(j'.aoprivada, caso ele fosse consa-
grado bispo, fossem quais fossem as mentiras que dissesse em publico,
e Teofilo devia saber disso. Aqui nao estarnos no mundo por vezes in-
celecrual e provincial da Galia, mas no agressivo cora(j'.aodo violento e
intransigente debate religioso. De qualquer forma, Teofila consagrou
Sinesio. Em Alexandria, o status locale o apoio comavarn canto quanto
na Galia Central, caso eles fossem poderosos o basrante.
0 Imperio Romano nao era, em absoluco, totalmente cristao, em
400. Havia ainda aristocraras pagaos, em Roma, embora calvez ja nao
exisrissem, em 450; em Constantinopla, havia alguns ainda um seculo
rnais carde. Existiam professores pagaos em Arenas eAlexandria ate o se-
culo VI (Justiniano fechou a escola de Atenas, em 529), e algumas cidades
menores, principalmente Baalbek e Hara, na Siria, provavelmente tinham
maioria paga. As regioes rurais - ou seja, a maioriada popula(j'.a.O
- eram,
em grande parte, pagas por codos os !ados, exceto na Siria, na Palestina,
no Egito e na Africa, e encontravam-se muiros pagaos nessas provincias
tambem. 4 Eles continuaram a existir por algum tempo; temos urn relato
de Joio de Efeso sobre seu ativo crabalho missionirio na Anatolia, em
meados do seculo VI. Tambem havia substanciais cornunidades judaicas ,
na Galileia e na Samaria, na Palestina, na Siria e no vale do Eufrates, na
Anatolia Ocidental, no nordesre da Hispania , em Alexandria, Roma e,
em grupos menores, na maioria das cidades do Imperio; 5
essas cidades
eram policicamente marginais, porem, nesse periodo, menos sujeiras a
perseguii;:ao oficial do que posreriormente .6
Mas todos os imperadores ,
exceto Juliano por tres anos, tinham sido cristaos, desde 324 (Constan-
tino converteu-se em 312, porern nio governou a toralidade do Imperio
por rnais de uma decada). De forma constante , arraves do seculo IV, o
paganisrno tinha-se separado da vida publica e, em 391-392, Teod6sio I
havia proibido os principais pilares de grande pane do paganismo cradi-
cional, o sacrificio publico e o culto privado de imagens. Essa legisla(j'.ao
99
I ,
0 legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400- 1 ooo
coercitiva foi refon;:ada, no seculo V,eJustiniano acrescentou os ultimos
retoques, proibindo os cultos pagaos e impondo o batismo sob pena de
confisco e, as vezes, de execU<;:ao.
Tal como aconrece com as leis sobre
heresia cristii (ver abaixo), isso nunca foi mais do que parcialmenre efi-
caz - festivais pagaos conrinuaram a ser praticados mesmo em grandes
cemros cristaos, como Edessa, no final do seculo V - mas a exclusao do
paganismo do mundo romano oficial estava agora concluida. 7
0 vocabulario, o imaginario e as praticas publicas cristas eram,
porranto, politicamenre dominances no Imperio em 400, um dominio que
apenas aumentaria depois; e, nas cidades, focos de praticamenre rndas as
atividades politicas, os eristaos eram, na maior parte, numericamente do-
minances tambem. Mas devemo-nos pergumar que tipo de cristianismo
era esse, que conteudo efetivo detinha, quanro absorveu dos valores tradi-
cionais romanos (e,inclusive, das pr:iricas religiosas),quanco os modificou,
quais eram suas pr6prias fissuras (ja que havia muitas). A primeira parte
deste capitulo tratara dessas quest6es, essencialmente daquelas relarivas
as crern;:ase praricas religiosas; a segunda parte esrendera o quadro de for-
ma mais ampla e considerad. outros rituais na esferapublica, assim como
valores mais arraigados, incluindo inferencias sabre OS papeis de genera.
0 cristianismo, em 400, estava definido de forma simples, em
certo nivel, como a religiao do Novo Testamento; se alguem acreditava
na Trindade divina do Pai, do Filho e do Espirito Santo, e admitia que
Jesus Cristo, crucificado por volta de 33 d.C., era o Filho de Deus, e que
nao exisriam outros deuses, logo, era cristao. Essas crern;:asgeralmente
iam acompanhadas de uma exalta<;:ao
da pobreza - ja que o born crisrao
deve dar rudo aos pobres - e do pressuposto de que este mundo e apenas
um breve campo de prova antes das alegrias eternas do ceu ou das torru-
ras erernas do inferno, o gue significava que o prazer era arriscado e que
o ascetismo - as vezes, a automonifica<;:ao- era cada vez mais vista como
virtuoso. Mas nunca se deu um caso em que a maioria dos cristaos rivesse
levado a segunda dessas senten<;:as
cao a serio quanto a primeira; e isso e
um problema para nos. Quando consideramos a questao de saber com que
tipo de cristianismo escamoslidando, sejanesseperiodo ou posteriormenre,
somos levados, imediacameme, ao problema das fontes materiais. A vas-
ta quanridade de escritos cristaos ap6s 350, aproximadamenre, supera de
forma substancial a quantidade de trabalho das dices seculares romanas
100
f Cultura e cren,;:ano rnundo cristiio romano
cardias(apesar de isso sobreviver,de forma bastanre generosa, do seculo IV
ao VI), mas foi quase inteiramente obra de homens muito mais rigorosos
do que seus vizinhos. 0 grau de rigor variou do relativo pragmacismo de
um Agoscinho, passando por denuncias mais incransigenres de um Jero-
nimo ou um Salviano, ao extrema purismo, separado da possibilidade de
uma emulas:ao normal, implicira nas narrativas hagiograficas de santos
asceticos, como Antao ou Simeao Esrilira. Todos eles, entreranto, eram
alramenre criticos do mundo descontraido, mas ainda assim crisrao, que
havia ao seu redor; e o objetivo de todos esses escritores era reformar, por
meio da critica, mais do que descrever com precisao. Porcanto, nem sempre
efacildizer seas pessoas faziam ascoisaspdas quais eram criticadas, muito
menos afirmar quao comuns eram tais a<;:6es
ou, ainda menos, que senrido
essasa<;:6es
cinham para as pessoas que as realizavam. Entre a conforcavel
assimila<;:ao
das hierarquias e dos valores tradkionais no cristianismo, por
parce de uma ariscocracia de espiriro secular, como aquela de Sidonia, e o
rigor de uma minoria de aucores mais comprometidos - que nem sempre
era uma minoria popular ou influence -, havia um oceano de diferentes
tipos de praticas religiosas realizadas por todos os outros, cujo significado
deve adivinhar-se atraves dos relacos de observadores hostis.
Consideremos as festividades. 0 calendario anual da religiao gre-
co-romana rradicional escavarepleto de grandes festividades religiosas as
quais os criscaos, naturalmente, seopunham. Uma celebra<;:ao
importaRte
era a do Primeiro de Janeiro, um festival de tres dias que marcava a passa-
gem do ano.8
Os sacrificios cradicionais associados a ele haviam sido bani-
dos; porem reria isso tornado a fesrividade religiosamente neucra para os
cristaos, apenas acentuando o prazer e a solidariedade civica?Parece claro
que aspessoas, geralmente, pensavam assim; mas uma corrente de escrito-
rescristaos, incluindo os autores de serm6es que scpregavam em publico,
opos-se violenramenre a essa celebras:ao, nao apenas porque a via como
uma concorrencia para o Natal (em si mesmo, ironicamenre, o subscituto
direto de um festival pagao, o Solsticio de Inverno), mas tambem porque
acreditava que elaestava irremediavelmente contaminada pelo paganismo.
0 Primeiro deJaneiro sobreviveu, enquanto festividade, are o seculo VIII
e mesmo ap6s; todavia, nao sabemos se ele foipercebido pelas pessoas co-
muns como algo cristao, secular ou pagao, nem quando isso ceriaaconte-
cido nem com qua! intensidade. Os bispos lidavam com essas festividades
101
0 legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000
principalmence organizando suas pr6prias, isto e, criando um calendario
religioso cristao, com foco no Natal, em seguida na Quaresma, depois na
Pascoa e em Pentecostes, sobrecudo de dezembro a maio, estendendo-se
pelo resto do ano com as celebra<;6esdos santos locais. Esse ciclo de festas,
de fato, acabou por prevalecer sobre o calendario pagao: o tempo cristao
substituiu o tempo pagao. A forte enfase no domingo 9
· como o dia obri-
gar6rio de descanso, que, para o seculo VI, reforpva-se por milagres (de
acordo com Gregorio de Tours (m. 594), os trabalhadores agdcolas que
laborassem aos domingos ficariam aleijados, e as crian<;asfruto de rela<;6es
sexuais dominicais nasceriam aleijadas), tambem marcou, definitivamen-
te, a cristianiza<;ao do tempo. Mas as pessoas ainda mantiveram as "mas"
atirudes; elas encaravam os novos dias festivos cristaos da mesma forma
como viam os dias festivos pagaos, ou seja, como oportunidades para em-
briagarem-se ou divercirem-se, como Agostinho reclamava de uma festa
local em mem6ria de um marcir. 10
Essa forma de compreender o calenda-
rio cristao, atraves da frui<j:fopublica, em vez de (como Agostinho propos)
cantar salmos 11aigreja, era vista corno pagi pela maioria de nossas fontes,
mas, sem duvida, plenamente cristi aos olhos das pessoas que assim agiam;
e essa visao dupla iria permanecer por muito tempo.
Quase amesma coisa pode ser dita sobre a cristianiza<;io do espa<;o
geografico_Cultos pagaos tinham-se espalhado pela paisagem do lmperio
Romano; uma fonte sagrada aqui, um templo no topo da colina ali, cada
um, talvez, com sua pr6pria divindade; de fato, coda a paisagem compor-
tava porenciais elememos sagrados_ Na medida em que esses elemenros
foram lentamente proibidos ou destruidos, e novos sitios de culto cristao
foram construidos, de preferencia, em torno de tumulos de rnartires OU
santos rurais, havia um risco de que tais sitios dessem apenas uma aparen-
cia religiosa nova a antigas tradi<;:6es,corno acomeceu 110grande local de
culto rural de Saint-Julien, em Brioude, na Galia Central, localizado, sem
sombra de duvidas, no cumulo de um martir, mas tarnbem 110local anti-
gamente famoso porter sido um imporcante santuario de Marte e Mercu-
rio; a transi<;:aoparece ter acontecido em meados do seculo VY Afinal de
comas, aspessoas tambem seembriagavam sobre os tumulos dos martires;
ninguem sabe o que elas realmente estavam celebrando, o marrir ou o local
de culto uadicional. Talvez houvesse momentos em que os rituais, inclusive
as festividades, fossem inverridos tao significativamente que os peregrinos
102
Cultura e cren~a no mun do cristao romano
que chegassern ao mesrno sitio cukual percebessern que algo importance
cinha mudado, tal como prerendeu o papa Gregorio I, em 601, ao propor
aos missionirios da lnglacerra anglo-saxonica que assumissem o controle
de templos pagaos, mas for<;assemos devotos visitanres a comer os animais
que des tinham trazido para o sacrificio ritual. Mas calvez nio; a topogra-
6a cristi poderia ser suspeitosamente semelhance a paga.
12
Mas , nesse caso, a mudan(j'.aera passive!, apesar de tudo. Para co-
me<;ar,enquanto, aos olhos pagaos, coda paisagem podia ser luminosa, aos
olhos cristaos, apenas os locais de culto espedficos eram pontos de luz em
um espa<;:o,
de outro modo, secular. Estes eram sempre, ou logo se torna-
ram, asigrejas, ja que eram muito visiveis-Poucas igrejas foram diretamen-
te construidas sobre remplos ou dentro deles, e essas poucas eram quase
sempre urbanas. Nas cidades, de fato, as topografias cristas eram, no geral,
bem diferentes daquelas dos pagaos. A tradicional religiao publica tinha se
centrado nos predios cerimoniais ao redor do forum no cemro da cidade,
enquanto as igrejas de culro cristao 6cavam, muitas vezes, nos limites da ci-
dade, ou fora, nas areas de cemiterio. Como resultado, a atividade religiosa
urbana se tornou muito mais descemralizada, e as cidades, inclusive, tor-
naram-se espacialmente fragmencadas em algumas panes do lmperio (em
particular, na Gilia), com nucleos de pequenos assentarnentos em torno de
igrejas espalhadas e, em alguns casos, com o tradicional ccntro da cidade
deixado em ruinas. As vezes, isso acontecia porque os centros das cidades
pareciam demasiado pagaos, ou muito seculares; em Roma, apesar de ter-se
tornado a principal capital do cristianismo, nenhuma igreja foi construida
na ampla area do forum ate 526.13
lsso tambem estava vinculado a algumas
verdadeira s mudan<;:asnas ideias sobre o sagrado, e sobre o que causava a
conramina<;:io espirimaL A tradicional religiao greco-romana considerava
as pessoas falecidas muito perigosas e poluentes; nenhum adulto podia ser
enterrado denrro das muralhas da cidade ou em areas habitadas, e os cemi-
terios estavam codos alem da margem dos assentamentos. No entanto, os
marcires e outros santos erarn visros pelos cristaos como pessoas diferemes:
nao eram fomes de polui<;ao, mas, bem ao contrario, pessoas que deviam
ser veneradas (em alguns casos, inclusive, como se nao tivessem morrido).
Desde epocas tao remocas quanto o seculo IV, as reliquias dos santos co-
me<;:arama ser associadas as grandes igrejas; progressivamente, essasigrejas
6cavam dentro dos limites da cidade_ 0 poder positivo associado aqueles
103
o Jegado de Roma: lluminando a ida<le das trevas, 400-1000
corpos significou que as pessoas cada vez mais desejavam ser encerradas
junco a des. Os primeiros enterros de pessoas nao santas dentro das cida-
des dacam do fim do seculo Ve comes:odo VI, na maior parte do Imperio;
primeiro foram os bispos e ariscocratas locais, depois os cidadaos comuns. 14
No seculo VII, os cemicerios urbanos eram cada vez mais frequentes. Os
monos conrinuaram percurbando, pela sua qualidade de seres "liminais",
por vezes poderosos - como ainda sii.o-, porem o medo visceral de seu
poder contaminance desapareceu.
0 mundo invisivd cambem mudou. Para a maioria dos pagaos, o
ar escavareplero de poderosos seresespiricuais, daimones em grego, que as
vezes eram beneficos, as vezes nii.o,por vezes controlaveis por magia, mas
acima de tudo bastame neutros para a rac;:a
humana. Para varios cristii.os-
induindo os aucoresdas nossas fonces,cercamence, mas tambem aspessoas
comum que aparccem nas hagiografias -, esse mundo invis{velpassou a
ser visto como daramenre dividido em dois, anjos bons e demonios maus
(apalavra daimones ainda era ucilizada);15
o criscianismo herdou esse dua-
lismo do judaismo que, por sua vez, pode cersido inAuenciado por crens:as
paraldas no zoroastrismo. Alem disso, comes:amos a ouvir mais sobre de-
monios, que passaram a intervir com mais frequ~ncia na vida diaria. A cris-
tianizas:ao, portanto, desenvolveu a sensas:aode que esse mundo invisivd
estava mais repleto de perigo do que previamente cinha sido (isso afetou a
vida ap6s a morte, ja que o inferno cristii.opodia conter muitos rnais peca-
dores do que o Tartaro pagao ou a Geena judaica). Os demonios, aos olhos
cristii.os,causavam doens:as, ma sorte e todo tipo de estragos; a possessii.o
demoniaca era comumemc vista como a causa de disturbios mentais. Os
demonios viviam, emre oucros lugares, em santuirios e idolos pagaos, em
areas nao culrivadas, corno os desertos, e tambem em cumulos (calcrens:a
era, em parce, uma herans:a de crens:ascradicionais sobre a concaminas:ao
dos monos). Eles podiam ser derrotados por exorcismo clerical, e muitos
crisraos asceticos ganharam uma consideravel repucas:aocomo cas:a-demo-
nios. Teodoro de Sykeon (m. 613) era um exemplo parcicularmence acivo:
realizava exorcismos atraves da Anatolia Central, enquanto OS demonios
perturbavam a harmonia das vilas ou possuiam os fracos e enfcrmos, em
alguns casos, como resultado do lans:amento de um feitis:o,em outros, por-
que os imprudences tinham perturbado os cumulos, calvez em busca de
tesouros.16
0 cristianismo inovou, em cermos religiosos,ao dar mais espac;o
104
f Cu.ltura e cren~a no mundo cristao romano
as inrervens:oes dos seres humanos em assuntos sobrenacurais, cendo eles
autoridade eclesiastica ou sendo parcicularmente sancos.Apesar de muitos
homens e mulheres afirmarem que apenas canalizavam o poder celestial
de Deus e dos samos, des eram cracados, por muitos cristii.osmenos ex-
cepcionais, como se tais poderes espiricuais fossem toralmente deles, um
produto do seu pr6prio carisma.
Frequentemence, rem sido sugerido que as religi6es paga e crista
operaram em diferences niveis: o paganismo prestaria mais atens:ao ao
ritual publico (como o sacrificio), enquanco o cristianismo daria mais
atens:ao a crens:a. Isso seria um exagero se colocado muico cruamence, ja
que as duas comunidades religiosas operavam em ambos os niveis; toda-
via, ao mcsrno tempo, ha um elemenro de verdade nisso. 0 cristianismo
cambem estava preocupado com o esrabelecimento de limites espirituais
_ encre o sagrado e o secular, ou encre bons e maus demonios - quc eram
mais matizados (ou confusos) para a maioria dos pagaos; e ele tambem
estava, inicialmence, menos comprometido com a arividade publica e
coletiva (embora isso fosse rnudar rapidamente). Aqui existem alguns
paralelos com o desafio que a Reforma Protestante lans:ou ao cristianis-
mo cat6lico, no seculo XVI (paralelos que os protestantes procuraram,
de forma basrante conscience, enfatizar). Eles aparecem tambem nose-
culo XIX na cdcica "modernista" do mundo publico do ancien regime,
como foicaracterizado por Michel Foucault. 17
Ou seja, ha uma tensao
encre promover o ritual colecivo, que traz solidariedade social e moral, e
tratar de mudar a mence das pessoas; essa censao existe ha muito tempo
na hisc6ria humana e, em algumas sociedades, um extremo procura se
sobressair ao outro por um certo periodo. No contexro romano tardio,
provavelmente seria rnelhor afirmar que existia tensao nao apenas entre
pagaos e cristaos, mas, inclusive, dentro do pr6prio cristianismo, uma
vez que as atitudes cristas para com o publico mudaram rapidamente, e
o encusiasmo religioso, visivel nas festas e peregrinas:6es e ate mesmo no
ato de acudir aigreja, nii.oera absolucamente equiparavd agras:adivina
ou adisciplina mental (ou a ambas) as quais os rigoristas acreditavam
ser necessirias para atingir a salva<;aoindividual. Isso foialgo de que os
escritores cristaos que cram bispos estavam muiro consciences, e, por isso,
era necessirio abarcar os dois ambitos. Precisamente essa tensao eo que,
em grande parte, corna interessantes os nossos aurores.
105
O legado de Roma: Tluminando a idade das trevas, 400-1000
Mudar as menres das pessoas era, porem, mais difkil e, no ni-
vel da moral e dos valores diarios, o cristianismo mudou muico menos.
Por exernplo, para alem da critica rigorista ocasional, como no caso de
Gregorio de Nissa (rn. c. 395),nao ha nenhurn sinal de que a falta deli-
berdade legal fosse considerada errada pela maioria dos cristaos, apesar
do explfcito igualitarismo cristao; 18
de qualquer maneira, libertar escra-
vos (manumissao), como um ato piedoso em vista da morte, comum na
Antiguidade Tardia e na Alta Idade Media, tinha impecaveis antece-
dentes pagaos. A oposic;ao as hierarquias sociais por questao de riqueza
ou o repudio a tortura judicial s6 se desenvolveram, em alguma medida,
por movimentos hereticos. Cada um dos escricores cristaos denunciou
o mau comportamento sexual (alguns contra toda a atividade sexual),
considerando a virgindade superior ao casamento, como fez Jeronimo
(m. 419), mas nao e claro que isso teve algum efeito sobre ac;6es coti-
dianas.19 No entanto, os cristaos tambem 6zeram campanha contra o
div6rcio; ao menos no Oc idenre, isso se tornou cada vez rnais dificil na
lei e evenrualmence impossivel, rnais tarde, durante a Alta Idade Media;
as pd.ticas que diziam respeito alegislac;ao erarn mais faceis de mudar,
donde a abolic;ao dos jogos em anfiteatros. 20
No nivel dos pressupostos
familiares, em contrapartida, incluindo os papeis de genero, nao mudou
muira coisa, como veremos mais adiante neste capitulo, como tampouco
mudaram os valores dvicos da vida publica romana. Uma exce1rao
impor-
tance foi a caridade para com os pobres, que tinha sido um dos pilares da
atividade da comunidade crista desde seus primeiros anos, quando era
uma minoria perseguida. A caridade continuou a ser uma grande respon-
sabilidade para os hons cristaos, mais do que havia sido para os pagaos,
e tinha tambem um papel fundamental para as igrejas (e para os bispos
que dirigiam as principais igrejas em cada cidade), na medida em que es-
tas cresciarn em termos de riqueza, e a caridade lhes proporcionava uma
justificativa para isso, ja que os evangelhos cristaos davam tanta enfase
apobreza. Esse acento na caridade viria a ser herdado pelo isla rambem.
Tais mudanc;as nas praticas de culto e na cultura religiosa foram
acompanhadas por outras tres importances inova1r6estrazidas pelo cristia-
nismo ao mundo romano: a Igreja como uma instituic;ao; a importancia
politica da crenc;acorreta; e novos espa1rossociais para rigoristas religiosos
e ascetas. Vejamos cada uma dessas inovac;oes.
106
Cultura e cren~a no mundo cristao romano
A religiao paga nao dependia de uma estrutura institucional muito
elaborada, e os cultos de cada cidade eram todos organizados localmente;
0
judaisrno rabinico rambem era muito descentralizado (osjudeus tiveram
um unico patriarca ate por volta de 425,mas nao esta daro seseus poderes
eram muiro amplos).21 0 cristianisrno, no entanto, teve urna hierarquia
complexa, coincidindo, em parte, corn a do estado. Em 400, havia quatro
patriarcas: em Roma, em Constantinopla (desde 381),em Antioquia e em
Alexandria (um quinto patriarca, para Jerusalem, foi adicionado em 451),
que supervisionavam os bispos de cada cidade. 0 patriarca de Roma ja era
chamado pelo titulo honori6co depapa, mas foisomente ap6s o seculoVIII
que cal designac;aose tornou restrita ao papa de Roma. Os bispos logo se
organizaram em dois niveis: os bispos rnetropolitanos (chamados depois
de arcebispos) ficavam em um nivel interrnediario, pois supervisionavam e
consagravam os bispos de cada provincia secular. Demro da diocese de cada
bispo, que normalmente correspondia ao territ6rio secular da sua cidade, os
bispos tinham autoridade sobre os clerigos de oucras igrejas publicas (em-
bora igrejas e mosteiros fundados de forma particular fossern rnuitas vezes
am6nomos, uma situa<;aoque produziu disputas interrninaveis e rivalidade
durance o milenio seguinte). A Igreja, nos seculos IV e V, se tornou uma
estrutura elaborada, com cercade cem mil derigos de diferentes tipos, mais
pessoas do que a administrac;ao civil, e sua riqueza crescia, de forrna conti-
uua, corno resultado de doa1r6espiedosas. Ernbora a insdtuic;ao nao fos-se
parte do estado, a sua riqueza e a coesao institucional que abarcava todo
o Irnperio tornavarn-na uma parceira inevitivel de imperadores e prefei-
tos, bern como urna autoridade informal forte e influence nas cidades; por
volta do ano 500, a Igreja catedral era, rnuitas vezes, a rnaior proprietaria
de cerraslocal (e, portanto, a patrona) e, ao contrario do caso das riquezas
familiares privadas, a sua estabilidade pod ia ser garantida - os bispos nao
eram autorizados a alienar os hens da institui1rao. Foi a riqueza eclesiastica
e o status local que levaram o episcopado a se tornar parte das estruturas de
carreira da elite, na Galia, durante o seculo V;22
esseprocesso ocorreu mais
tarde na Italia e em algurnas das provincias oriemais, mas, ao redor do ano
550,eleera normal em rodos oslugares.Mesrno no contexto eclesiastico,os
bispos seidentificavarn, geralmente, com asua diocese, em primeiro lugar,e
com as institui1r6eseclesiasticasrnais amplas, apenas secundariamente. No
entanto, mesmo assim, estavam ligados ahierarquia rnais arnpla da Igreja:
107
O legado de Roma: Huminando a idade das trevas, 400• 1ooo
podiam ser nomeados ou exonerados pdos metropolitanos e pelos cond-
lios episcopais que, progressivamente, se cornaram mais frequentes, ora no
nivel imperial (os condlios "ecumenicos"), ora no regional, na Hispania,
na Galia ou na Africa. 0 faco de essa estrutura inscirucional nao depender
do Irnperio e, acima de rudo, ser financiada separadamente significou que
ela pode sobreviver afragmenca~ao policica do scculo V, ea Igreja foi, de
fato,a institui~ao romana que prosseguiu com menos mudan~as durante a
Alta Idade Media; os dos entre as regioes se tornaram mais fracos, porem
o resto permaneceu incacto. 0 problerna da rela~ao entre a Igreja, como
institui~ao, e o poder politico secular existe desde que surgiram governos
cristaos, e, rnuitas vezes, isso causou con.Aitosconsideraveis, como ocorreu
no seculo V e ocorreria novarnenre durance a Reforma do seculo XI, ou
nos estados p6s-iluministas dos seculos XIXe XX.
A pratica polftica paga valorizava a conformidade religiosa,porem
as varia~oes nas cren~as religiosas nio redundavam em profundas divis6es.
Nesse sentido, o cristianismo era muito diferente. Desde o inicio de sua
hist6ria, seus adeptos discutiram sobre teologia e acusaram-se mucuamente
de cren~adesviante, "heresia",e, no seculo IV,isso se cornou um assunco de
estado. 0 que pode cer surpreendido rnuito Constantino, quando de sua
conversao ao cristianismo, foi o conflito interno na religiao que ele havia
escolhido, hem como a importancia para seus rnembros de veneer sern fazer
nenhuma concessao. Constantino levou a serio a missao de alcan~ar a uni-
dade do cristianismo, mas nao foi bem-sucedido (o que deve re-lo surpreen-
dido tambem). Para seus sucessores, a unidade em torno de uma visa.auni-
ca e correta cornou-se cada vez mais importance, inclusive para o bem-esrar
do Imperio enguanro coletividade; no final do seculo IV, o desvio religioso
era, dessaforma, poliricamence perigoso e precisavaser extirpado por lei.As
leiscontra ospagaos foram, primeiramente, aperfei~oadas contra os cristaos
herecicos,isto e, aqueles que ficavam no !ado perdedor nas grandes batalhas
te6ricas, e elas erarn sempre urilizadas, de forma muito mais sistematica,
contra a heresia. Portanto, a heresia era cada vez mais perigosa e comum no
Imperio tardio. Ela rambem foi considerada um problema aolongo dos secu-
los seguinres (parcicularmence no Ocidence do seculo XIII), porem apenas
a Reforma iguala a incensidade das disputas religiosas do pedodo 300-600.
A primeira dispuca que Constantino enfrencou foi aquela encre
donatistas e cecilianistas, na Africa, que discutia se os bispos que tinham
108
Cultura c cren,a no mundo cristao romano
comprometido a sua fe durance as recemes persegui~oes ao cristianismo
podiam continuar a consagrar oucros bispos depois disso. Essa era uma
questao caracteristica da Igreja pre-constantiniana, mas aquela querela
africana era, de longe, o mais serio exemplo. Os donatistas sustemavam que
0 bispo Ceciliano de Cartago, o metropolitano local, fora consagrado por
um bispo ap6stata e, porramo, nao podia ser bispo nem consagrar outros;
Constantino os condenou, em 313, mas eles nao cederam. Tecnicamence,
rratava-se de um cisma, nao de uma heresia, pois nao dizia respeico a dife-
rern;asde fe; no entanto, imediatamence isso se cornou uma disputa estru-
curalmente seria, uma vez que os donacistas nao aceitaram o bispo africano
consagrado por Ceciliano, e, por isso, criaram uma hierarquia rival; por
vo!ta de 335, havia 270 bispos donatiscas. Esse cisma permaneceu restrito a
Africa, porem se arrastou por um seculo, com violencia de ambos OS lados
e cambem com uma feroz polemica escrita (Agostinho redigiu parte dela),
ate que uma persegui~ao siscematica aos donatistas, ap6s um debate formal
em Cartago, em 411 (cf capiculo 3), os enfraqueceu substancialmeme.
O donacismo foi a unica divisao interna que percurbou seriamen-
te o Ocidente romano tardio. Esse faro era um problema para a lgreja la-
tina mais do que para a grega: a pureza pessoal dos homens que consagra-
vam oucros homens e que presidiam a eucaristia, a cerimonia central do
culco cristao. 23
A pr6xima heresia ocidental, o "pelagianismo", declarado
heretico pelo imperador Hon6rio, em 418, e (com bastante reticem:ia)
pelo patriarca ocidenta l, o papa Z6simo de Roma, no mesmo ano, como
resu!tado da pressio exercida por Agostinho e Alipio, foi tambem relacio-
nada a questoes de pureza pessoal. Pelagio argumencava que um cristao
convicco podia evitar o pecado atraves do livre-arbitrio dado por Deus, o
que Agostinho considerava impossivel. No entanto, os pelagianos nunca
foram mais do que uma minoria, e o mais duradouro efeito dessa divisao
foi o desenvolvirnento, por Agostinho, de sua teoria da predestina~ao a
salva~ao por meio da gra~a de Deus, que permaneceu concroversa (e ma!
compreendida, parcicularmence na Galia e na Italia), mas nao resultou
em posteriores declara~oes de heresia. 24
Pode ser relevance, aqui, notar
que a questao da pureza dos clerigos permaneceu importance no Oci-
dente. Ali, mas nao no Oriente, todo o clero suposramente devia evitar a
atividade sexual, de acordo com condlios tao amigos quamo o ano 400
(no Oriente, isso s6 foi aplicado para os bispos e, mesmo assim, depois de
109
0 legado de Roma: lluminando a idade das trevas, 400-100 0
451).Com isso nao se quer dizer que o clero ocidental sempre obedeceu
a essa teoria, pois, em varias regi6es ocidemais, houve derigos Iegalmente
casados ate o final do seculo XI; no entanto, o prindpio de que 05 sacer-
dotes deveriam ter um carater sagrado diferente de suas congregac;:6esfoi
estabdecido desde cedo.i
5
No Oriente, a questao que mais causou divisao foi bem ourra: a
natureza de Cristo.
26
Constantino tambem achou que havia dissensao
entre o parr_iarcaAl~x~n~re de ~lexandria e seu presbitero Ario a respei-
to de se o Ftlho era 1dem1eoou 1gual em substancia ao Pai, na Trindade;
Alexandre susrentava que sim mas Ario dizia que nao C ·
_ _ , . onstantrno, que
nao cons1deravaque o assunto fosse particularmente importance, convo-
cou um condlio de bispos, em Niceia, no ano 325,0 Primeiro Concilio
Ecumenico, que, notoriameme (foi o unico Concilio Ecumenico a alcan-
c;:a-lo),
co~seguiu que ambos os lados concordassem em uma formulac;:ao,
o cred~ mceno, essencialmente apoiando Alexandre. Alguns seguidores
e~trem1stas de Alexandre, comudo, principalmente seu sucessor, Atana-
s10_(m.373),negaram-se a manter comunhao com Ario, apesar de deter
ace1tadoo credo niceno, e a disputa recomec;:ou.
Outras vers6es de fe crista
~a~s pr6ximas do que Atanasio chamava de "arianos" eram populares em
vanas ~artes do Oriente, sobretudo em Constantinopla, incluindo, entre
des, os1mperadores Constancio II e Valence;nao era absolucameme obvio
para todos que os membros da Trindade eram iguais. Atanasio era cambem
pessoalmeme_impopular,por seu estilo violenco, e tinha um extenso apoio
apenas no Oc1deme. Porem, uma nova gerac;:ao
de apoiadores do credo ni-
ceno ganhou _forc;:a
na decada de 370,particularmeme grac;:as
a Basilio, bis-
po de Cesare1a, na Anatolia (m. 379),e aos seus associados. Com a morte
de Valence,em Adrianopolis, em 378,Teod6sio I, um aliado ocidental d
B 'l· d e
asi 10,tornou-se impera or do Orieme, e o seu Concilio Ecumenico, em
~onstantinopla, no ano 381,finalmente declarou que o credo niceno era a
fe ortodoxa. :aradoxalmente (mas nao o unico caso entre as heresias), foi
essa declarac;:aoque, pela primeira vez, cristalizou O pr6prio "arianismo"
enquamo um sistema religioso elaborado de fato. Consequentemente, de
perdeu o patrocinio imperial e portanco dai em diame, um apoio mais
amplo iapesar de_
que, na capital oriental, isso nio aconteceu are avigorosa
pregac;:ao
do patnarcaJoao Crisostomo, em 398-404)s6 foi evidente entre
os godos e, por extensio, os outros grupos "barbaros" 110
norte.27
110
Cultura e crenOano mundo cristiio romano
A vit6ria do credo niceno signi:ficavaque Cristo, apesar de huma-
no e passivel de sofrimento, era visto completamente como divino tam-
bem; no entanto, como eram combinadas a humanidade ea divindade?
Esse era O maior nucleo dos debates do seculo V, que con:figuravam, por
varios aspectos, disputas de poder entre Alexandria e Antioquia, tendo
Constantinopla, geralmeme, do lado de Antioquia. 0 patriarca Cirilo
de Alexandria (412-444)argumentava que os elementos humano e divi-
no, na natureza de Crisco, nao podiam ser separados; antioquenos, como
Nest6rio, patriarca de Constantinopla (428-431),via-os como distintos.
0 perigo na postura de Cirilo, a que chamamos de "monofisita", era que
Cristo perderia completamente a sua humanidade; o perigo na postura de
Nest6rio era que Cristo se tornaria duas pessoas. Nenhum desses riscos
tinha sido percebido ainda, mas os oponentes de cada lado acreditavam
que sim. O Terceiro Concilio Ecumenico, em Efeso, em 431,p~lco de ~1:1a
nocavele cfnica manobra por parte de Cirilo, condenou e depos Nestono.
Efeso tambem legitimou o culto da Virgem Maria como Iheotokos,"mae
de Deus", uma formulac;:aoa que Nest6rio, em particular, se opos, mas
que dominou a maioria das igrejas cristas naquele momenco; os grandes
condlios como um todo nao discutiram apenas a cristologia. Mas a ten-
tativa alexandrina de ir atras de todos os antioquenos, um por um (noto-
riamente, Teodoreto, bispo de Cirro, que foi, brevemenre, destituido em
449), repercutiu ndes, principalmente pela oposic;:aoocidenral, centrada
nas a<;6ese nos escritos do papa Lea.a I (440-461),e tambem porq_ueos
alexandrinos afastaram a imperatriz Pulqueria, sua apoiadora em Efeso.
Um quarto condlio, em Calcedonia, em 451.rejeitou a posic;:ao
"mono:fi-
sita" alexandrina (aomesmo tempo que manteve a rejeic;:ao
de Nest6rio), e
impos a norma de que Cristo existiu "em duas naturezas", divina e huma-
na, porem em uma s6 pessoa.
Isso estabeleceu uma ortodoxia que, a partir de entio, dominou o
Ocidente e O centro bizantino. Mas nao pos :fimas disputas, pois o mono-
:fisismotinha O apoio popular de que careciam as interpretac;:6esanterior-
mente derrotadas, em particular na maior parte do Egito, cada vez mais
na Siria e na Palestina, e tambem na Armenia. Os imperadores que por
vezes simpatizavam pessoalmente com o monofisismo (como aconteceu
com Anastacio e tambem com a imperatriz Teodora, a poderosa esposa de
Justiniano) viram a divisao calcedoniana-mono:fisira como uma questao
111
O legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400- 1000
politica e nao reol6gica, e tentaram varias vezes promover posis:oesinte r-
mediarias entre as duas: oHenotikon, de Zenao, em 482, o quinco condlio
deJustiniano, celebrado em Constancinop la, em 553, o pronunciamenco
"monotelista" de Heraclio - a Ekthesis - em 638. Esses nao funcionaram
porque havia cada vez menos terreno comum entre os dois lados (mesmo
que as quest6es em jogo se cornassem cada vez mais arcanas); no final do
seculo VI, de faro, as provincias monofisiras estavam estabelecendo uma
hierarquia episcopal paralela para enfrentar os calcedonianos. Os impe-
radores viram-se anat:ematizados por ambos os lados, e tambem enfren-
taram um cisma com o Ocideme, que era intransigememente calcedonia-
no (quando os papas de Roma foram intimidados a aceitar o conci.lio de
Constantinopla, em 554, des tambem enfrentaram a oposis:aode grande
pane do Ocidente, o chamado cisma "dos Ti:es Capfrulos", o que levou
150 anos para terminar). 28
0 arianismo cominuou sendo o crisrianismo
dos grupos "barbaros", particularmente dos godos, dos vindalos e, even-
tualmente, dos lombardos, ate o seculo VII. 0 "nestorianismo" continuou
tambem - em formas mais extremas do que Nest6rio jamais propuse-
ra -, mas principalmente fora do Imperio, na Persia, e tao ao leste quamo
a China. Mas foi o monofisismo que dividiu os cristaos romanos de forma
mais radical e cornpleta, e a divisao nunca foi curada.
Eimpossivel caracterizar esses conflitos com precisao em poucas
palavras, visto que a teologia em questao e incrivelmente intrincada, de-
pendendo de definis:oes apuradas e de desenvolvimentos filos6fico-pla-
t6nicos de conceitos que requereriam rnuitas paginas para ser exposros
em ingles (alern disso, era um debate que s6 fazia pleno sentido na lingua
grega, inclusive naquela epoca; Lea.a I foi o ultimo latino-falante que
realmente o compreendeu e contribuiu para ele). Essas caracterizas:oes
tao detalhadas nio cabem aqui. Mase importante ressaltar que elas erarn
realrnente significativas. Para os observadores pagaos, esses debates eram
ridiculos, ate mesmo insanos, assim como acompanhados de comporta-
mentos surpreendenternence negativos; mas, para os cristios, encre 300 e
550, ter uma definis:aoexata e universalmente aceita sabre Deus tornou-se
cada vez mais importante, uma vez que o poder politico dos bispos nio
deixava de crescer. Erelevante que tivessem mais importancia no Oriente,
onde o debate tecnico-filos6fico estava mais ancorado na vida intdectual
'
mas com as conquistas "barbaras", as quest6es cristol6gicas, da mesma
112
Cultura e crern;:
a no mundo cristao rom ano
forma, chegaram ao Ocide nce, e os debates entre os arianos e os cat61icos
tambem foram intensos; de qualquer forma, a problema tica agostiniana,
que dominava a teologia no Ocidente, centrada na predestinas:ao e na
gras:adivina, nao era menos complexa, embora evitasse o debare cristo-
l6gico. Eclam que e impossivel dizer quamas pessoas cornpreenderam
corretamente as quest6es que escavam em jogo em Calced6nia, por exem-
plo: talvez apenas algumas cencenas (embora nao devessernos subestimar
a sofisticas:ao ceol6gica dos cidadios das grandes cidades) que estavam
expostas aos serm6es de alguns grandes pensadores. Conrudo, o proble-
ma da verdadeira divindade de um deus humano - que inclusive tinha
morrido, na Crucifixao - era uma questao que teria senrido ao menos no
mundo romano tardio, onde o culto dos impe radores coma deuses ainda
era lembrado (inclusive, ate era praticado por alguns) e o ser divino nio
escava,no seculo V, tao discante da humanidade como ele (ou eles)estaria
em alguma s vers6es do cristianismo .
Essas divis6es tambem sio importances porquc mobilizaram um
grande numero de pessoas. 0 cristianismo do seculo Vera uma religiao
de massas, chegando cada vez mais ao campesinato. Seus parricipante s
eram muito leais a seus bispos ea outros lideres religiosos locais, e em seu
apoio era possivel rnobilizar uma cidade contra outra ou uma provincia
contra outra. A luta das facs:6espolicicas podia ser expressa tambem em
termos religiosos, e oslideres seculares locais viam-se envolvidos em dispu-
tas eclesiasticas durance toda a sua vida politica. Nas cidades, as multid6es
chegavam a atracar-se em luta corporal; em Alexandria, onde os cumultos
tinham uma longa tradis:ao, Cirilo era bem conhecido pelo jeito como as
manipulava. 29 Os donatistas tinham um bras:oarmada, os cir~umceLliones,
camponeses asceticosou trabalhadores sazonais. Os monges rurais tambem
foram usados como tropas de choque, geralmente no !ado monofisita;Je-
rusalern era um lugar perigoso por causa do nurnero de mosteiros em seu
enrorno, que poderiam ser rapidamente mobilizados, coma quando Juve-
nal, patriarca deJerusalem, 30 foi expulso por manges, em 452, por um ano,
porque tinha aceitado o condlio de Calced6nia; foi necessario o exercito
pararestabelece-lo no posco. Os monges nio eram normalmente educados,
mas certamente eram fervorosos. A aspereza de seu protagonisrno politico
quebrava as regras de decoro da elite rornana cardia e perturbava os obser-
vadores mais polidos, como acontece cambem com alguns historiadores
113
O legado de Roma: J1uminando a idade das trevas , 400-1000
modernos. Esses manges parecem demasiado fundamentalistas e faniti-
cos, e eles eram mesmo; mas representavam, ao menos, um sinal de que o
cristianismo havia penetrado no campo eque suasdivis6es envolviam mais
pessoas do que elites reduzidas.
Isso nos leva a uma ultima inovac;aocrista: o desenvolvimento de
novas esferas de comporramenco social. Em geral, o cristianismo compro-
metido envolvia um estilo de vida pessoalmente piedoso, o que, na verda-
de, importava mais do que as disputas teol6gicas para a maioria de seus
adeptos; mas os rigoristas podiam e iam, realmente, muito alem da mera
piedade. No cristianismo, desde cedo a autoprivac;ao de alimento ou con-
forco, 0
autodesprezo e a evasao da sociedade hurnana foram considerados,
por algumas pessoas, como maneiras pelas quais os sereshumanos podiam
aproximar-se de Deus. Essasformas de ascetismo foram popularizadas pela
extremamente influence Vida de Antao, de Acanasio, escrita por ocasiao
da morte de Antao, o eremita do deserto egipcio, em 357, e traduzida do
grego para o latim quase de imediato. 31
"O deserto", um local fisico para
Antao, rornou-se uma imagem para coda a ascese, e homens e mulheres
podiam criar seus pr6prios desertos locais ao se isolarem em lugares afas-
cados, ou permanecendo no alto de colunas, muitas vezes por decadas,
como fizeram muicos estilicas desde Simao, o Velho (m. 459) - inacessiveis
(exceto por escada), mas, de codo modo, claramente visiveis,o que resul-
tava na aquisic;aode interesse publico. Um estilita influence, Daniel (m.
493), tinha sua coluna ao lado de um dos principais portos do B6sforo, ao
leste de Constantinopla - ele, cercamente, estava no centro das atenc;oes
(alguem ate perguncou-lhe como ele defecava: de forma muito seca, como
uma ovelha, de respondeu); mas Simao cambem [inha sua coluna no meio
das ricas colinas de produc;ao de oliveiras do norte da Sfria, e multid6es o
observavam tocar, repecidamente, os dedos dos pes com a cabec;a,contan-
do 1.244 desses movimentos em uma ocasiao, como Teodoreto de Cirro
narrou. 32 Obispo Teodoreto escreveu um relato sistematico das fac;anhas
ascecicas - notaveis e, com frequencia, segundo pensava, absurdas - que
os santos sirios praticavam, e enfatizava o quanta des eram respeimsos
para com ele. Os ascetas asvezes causavam ressentimento na hierarquia da
lgreja comum, ja que seus poderes espirirnais (conselhos precisos, orac;6es
particularmente eficazes e de vez em quando milagres) eram o resulcado
de seus pr6prios esforc;os,em vez de serem concedidos pelos bispos. Con-
114
Cultura e cren,a no mundo cristao romano
rudo, a maioria contava com apoio e patrodnio episcopal, e alguns deles
(como Teodoro de Sykeon) tornaram-se bispos.
A influencia dessesascetasquebrou codasas regras sociaisromanas:
poucos eram ariscocratas, poucos eram educados, mas as pessoas procura-
vam seu conselho persistentemente. Conservamos as respostas que Bar-
sanufio eJoao, dois eremitas idosos que viviam nos arredores de Gaza no
inicio do seculo VI, deram para 850 perguntas, de todos os tipos, formula-
das por leigos,clerigos emanges (podemos entende-las coma o equivalente
desse seculo amoderna coluna de consultas e conselhos de DearAbby*).
Se eu quiser dar cereais e vinho aos pobres, devo lhes dar produtos da melhor
qualidade? (Nao, voce nao precisa.) Uma vez que nao devemos matar, devo
mentir para permitir que um assassino escape apena de morte? (Talvez, desde
que voce tenha a tendencia a mentir em outras circunstancias.) Posso comprar
no mercado de pagios? (Pode.) Posso comer com um pagao? (Nao pode.) E
quando ele euma pessoa importance? (Ainda assim, nao, mas ofere<ra-lheuma
desculpa educada.) Eu realmente tenho que dar o meu manto para cada men-
digo, e seguir nu? (Nao tern.)
E, talvez, a consulta mais fraca de todas: eu naoconsigo me decidir,
o que devo fazer? (aissoseguiu-se uma resposta provavelmente exasperada:
ore a Deus, ou, entao, consulce-nos novamente.) Eclaro, em tudo isso,que
seconfiava no conhecimento dos ascetas; educados ou nao, tinham aces;o
averdade espiricual.33
Os santos homens e mulheres do ascetismo cristao tern, na acua-
lidade, um nicho estabelecido na historiografia moderna, e e importance
nao se deixar seduzir por Teodorem e outros que nos levam a pensar que
estavam em toda parte; como Peter Brown escreveurecentemente, elesocu-
pavam "pouco do espac;opublico da sociedade romano-tardia", mesrno no
Oriente, e, no Ocidente, nunca foram tao comuns. 34
Mas elescriaram um
estilo de automortificac;ao que os potenciais santos buscariam sistematica-
mente copiar no futuro, coma camisas de pelos, cintos apertados ate ferir
a carne, correnres e coisas do genera. Seus atos menos extremos podiam
ser copiados por todo o mundo, coma as piedosas mulheres aristocraticas
* Trata-se de uma coluna publicada em diversosjornais norte-americanos com opinioes
e conselhos de narureza v:l.ria,fundada em 1956, por Pauline Phillips. (N. da T.)
115
O Jegado de Roma: Jluminando a idade das trevas, 400-1000
romanas, Paula e Melania, cuja escolha de caminhar pela Roma do seculo
IV em trapos, sujas e makheirosas foi elogiada pot Jeronimo em termos
perturbadoramente exuberantes. 35
E essesatos foram regularizados e gene-
ralizados pelo monasticismo. lsso nao significa que a maioria dos manges
imitasse um compleco extremismo ascetico, porem o desenvolvimento de
grnpos de celibararios, vivendo separados (no "deserto"), foi influenciado
por Antao e deitou raizes, em grande escala, primeiro no Egico; de faro, os
pr6prios ascetas, eventualmente, percebiam que havia surgido uma comu-
nidade moniscica ao redor deles, ou encao procuravam eles mesmos por
uma. A ascesedos manges consistia principalmence na obediencia absoluca
as regras de um abade, em uma rotina cocidiana estabelecida, e tais regras
foram sendo colocadas por escrito desde cedo:por ou para Pacomio, no Egi-
to, e por Basilio, na Anatolia, no seculo IV,por Shenouce, no Egico,eJoao
Cassiano, na Galia, no seculo V,por Bento de Nursia (amoderna Norcia),
na Italia do seculo VI. 36
No Ocidente, a regra benedicina cornou-se, even-
cualmente, o padrao supremo; no Oriente, era a de Basilio.A regra benedi-
tina, mais humana do que muitas outras, e tao marcante por sua insistencia
no tratamemo igualirario de monges de status social diferente, assim como
por sua ascese moderada (apenas vegetais, exceco quando doente; apenas
roupas leves, exceto no inverno): o igualitarismo era tao dificil no mundo
hierarquico da Anciguidade Tardia como foi a autopriva<;:ao.
37 Por outra
parte, nem todos os mosteiros eram igualicarios, em absoluto; muicos se
assemelhavam as confortiveis casas de retiro para homens e mulheres da
aristocracia. Mas a imagem de igualdade (ou de sujei<;:ao)
era intrinseca a
regula<;:ao
monastica e, nesse sencido, mesmo que nao existisse em nenhu-
ma oucra parte da Roma tardia, a igualdade era teoricameme possivel ali;
acemesmo tinha sido criado um espa<;:o
social para isso.
Um resulcado simples desses processes e que os escricorescristaos
nos dizem mais sobre amaioria dos camponeses do que os escritores pagaos
jamais tinham feito. Os camponeses podiam se rornar santos, se fossem
muiro excepcionais; tambem testemunharam os noraveis aros de homens e
mulheres rurais, que viviam longe das elites urbanas, de modo que asvidas
dos santos nos dao indicios da sociedade de aldeia que era quase inteira-
mente ausence na literatura anterior. Afinal de comas, os pobres podiarn
ir para o ceu tao facilmente quanto os ricos (na reoria crista, ainda mais
facilrnente), e ate mesmo os bispos mais aristocraticos e esnobes - como
116
Cultura e cren~a no mundo cristao romano
Gregorio de Tours, na Galia do seculo VI, por exernplo - regularmente
pregavarn para eles e, as vezes, tambern OS ouviarn. Nas ultimas decadas,
os historiadores abandonaram sua cautela anterior sobre as historias de
milagres; e corn razao, dado que elas nos dizern rnuico rnais sobre a socie-
dade nao aristocratica e os valores culturais e religiosos do que podemos
obter em outras fontes. Nao sao uma janela direca asociedade campesina,
nenhum rexto e assim, e raramente foram escritas por campesinos (embora
um ou dois cenham sido, comoA Vidade Teodoro
deSykeon).Maso faro
e que tais cexrns sao o melhor guia que temos e, por mais estudados que
hajarn sido, ainda tern rnais a nos comar.
Se os ascetas ocuparam uma pequena por<;:ao
do espa~o publico
romano, isso se deve, em pane, ao faro de que esse espa<;:o
era enorme.
Mesmo quando nos afastamos de urn foco especificamence religioso,
devernos reconhecer que os romanos viviam uma grande pane de suas
vidas poliricas no ambito publico. Nas cidades, o ano estava repleto de
prociss6es publicas; de faro, o pr6prio planejamenro urbano era afetado
por isso, pois as ruas largas e retas das cidades romanas (no Orience, alem
disso, guarnecidas com colunatas) eram especificarnence construidas as-
sim, e se mancinham livres de obstru<;:6es,
de modo apermitir as procissoes
(quando , ap6s a conquista arabe, as procissoes cessaram no Oriente, as
ruas se encheram rapidamente: vejaabaixo, capitulo 9).38
0 poder politico
estruturava-se em rorno das vers6es mais formais de tais cortejos, corfio,
por exemplo, os rituais para a chegada de um imperador a uma cidade
(adventus), que, mais tarde, foram emulados pelas enrradas cerimoniais,
mais elaboradas, do Renascimenro. Um caso famoso - a chegada de Cons-
tancio II em Roma, em 357, descrita em decalhes por Amiano - moscra
o imperador em um carro enfeicado por joias, com um vasro sequito mi-
litar; Constancio nao virou a cabe<;:a,
nem os olhos, nem as maos - nem
sequer cuspiu - durance coda a procissao ate o f6rum. 39
Tratava-se de um
desfile triunfal (imerecido, segundo Amiano, que detestava Constancio),
que tinha urna longa tradi~ao por tras e um longo fucuro pela frente, ao
menos no Oriente, pois nas principais ruas com sencido oeste-lesce, de
Constantinopla, viram-se desfiles regulares desse tipo ate o final dope-
rfodo coberto por este livro e alem: o Livro de Cerimonias, do seculo X,
compilado a pedido do pr6prio imperador da epoca, Constantino VII
(913-959), descreve-os em grande detalhe, fase por fase (cf capitulo 12),
117
O legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000
e esta longe de ser a unica fonte. Porem, OS principais momentos politicos
e religiosos de todos os tipos foram marcados por prociss6es nas cidades.
Aqui, o cristianismo simplesmence se apropriou da pratica, e os bispos
desenvolverarn procissoes formais entre as igrejas urbanas como parte da
exibii;aode seu poder local; essescortejos muitas vezes assumiam aspectos
penitenciais ou protetivos, tornando-se comum que os bispos rodeassem
as muralhas da cidade com relfquias ou simbolos religiosos para protege-la
quando siriada, como aconteceu durance o cerco a Clermont, por volta de
525, ou no cerco a Constantinopla, em 626 (de acordo com nossas fontes
hagiograficas, eles foram sempre bem-sucedidos). 40 As peregrinai;6es as
rumbas dos Santos locais, comumeme orquestradas pelos bispos - como
fez Gregorio de Tours para o cumulo de Sao Martinho -, rinham alga da
mesma formalidade publica, pelo menos nas principais fescasdo santo. 41
A esfera publica nao se limitava as prociss6es. Constancio, apos
sua chegada em 357, organizou jogos; assim rambem o fez o oscrogodo
Teoderico, em sua visita formal a Roma, em 500.420 Circa Maximo, o
maior estadio de corridas de carros de Roma, encontrava-se logo abaixo
do palacio imperial, no monte Palatino, de onde o governante podia con-
templa-lo; tambem em Constantinopla, o hipodromo escava ao lado do
palacio, com uma entrada posterior direta ao camaroce imperial. Esse era
o local (particularmente em Constantinopla, ja que os imperadores real-
mente viviam la) para um dialogo estruturado entre o imperador e o povo.
Geralmente, eram os imperadores que controlavam esses enconcros, mas
permitiam algum tipo de resposca popular que ficava a cargo dos Hderes
das principais "faci;6es" do circa, os Verdes e os Azuis (as cores das equi-
pes), seja arraves do dialogo verbal ou por meio de tumulros_ Em certas
ocasi6es, as coisas saiam de controle, coma ocorreu com os disturbios de
Nika, que rnfrentaram as faci;6es de Constantinopla, em 532, durante os
quais grande pane da cidade foi saqueada eJustiniano quase foi derruba-
do; mas os tumultos de circa, nas principais cidades, tenderam a ser mais
uma valvula de segurani;a, uma advercencia de descontentamento, que os
imperadores ocasionalmeme levavam em considerai;ao; assim mesmo, e
talvez mais normalmente, eram apenas um fator de divertimento.
Na tomada de decis6es politicas, o publico cambem tinha um
peso enorme. Havia discuss6es publicas (parcicularmente sabre religiao
ou filosofia), realizavam-se discursos no forum, e uma mulcidao dirigiu-se
118
Cultura e cren~a no mundo cristiio romano
para ouvir Sidonia quando este escolheu o bispo de Bourges. A comuni-
dade politica significava a elite, claro, e nao havia nada nem remotamente
democratico nos procedimentos politicos romanos; mas seus resultados
eram comunicados verbalmem:e em publica, muiras vezes com bastante
rapidez, ao menos nas cidades. As leis imperiais tambem eram proclama-
das; quando Anastacio aboliu o impopular imposto sabre comerciames
e artesaos, em 498, o decreto foi lido em voz alta em Edessa - um impor-
tance entreposto comercial, mas muito distante de Constantinopla - no
. - , 43
mesmo ano e ocas1onou uma comemorai;ao espontanea.
O imperador tinha uma relai;ao ambfgua com o mundo publico.
O Imperio Romano tardio foi um periodo no qual o cerimonial imperial
rornou-se cada vez mais elaborado, em parte para distanciar o imperador
de outras pessoas, "presas dentro dos limites do palacio", segundo uma ex-
pressao de Sidonio.44
No palacio, a etiqueta tambem era muico daborada.
Comer com o imperador - uma grande honra - era um ato cuidadosa-
mente controlado, e Sidonia relata uma dessas refeii;6es com Majoriano,
em 461, em Ades, na qual o imperador conversou por turnos com cada
um dos sete convidados, que se esperava que brilhassem em suas respos-
cas,e eram aplaudidos caso o fizessem (um aspecto dos persas que parecia
muito estranho aos olhos romanos era que seus rituais religiosos os proi-
biam de falar nas refeii;oes).45 Mas essa fonnalidade se equilibrava com a
presuni;ao de que o imperador era acessivel.A pratica de peticionar ao ifh-
perador, por auxilio ou contra uma injustip, era antiga no mundo roma-
no, e nao se enfraqueceu de forma alguma no Imperio tardio; de faro, as
leis dos c6digos imperiais sao muitas vezes respostas explkitas a perii;6es.
Os peticionarios raramente se encontravam com o imperador em pessoa,
e, obviamente, quern realmenre lidava com os seus pedidos (ou entao os
ignorava) era a burocracia, mas o prindpio da resposca direta era preser-
vado.46Em 475,Daniel, o Estilita, deixou momentaneamente sua coluna
para procestar contra o apoio de Basilisco, imperador usurpador, ao mo-
nofisismo, dirigindo-lhe cartas criticas, e, finalmente, conseguiu que este
se rerratasse publicamente na propria catedral de Constantinopla; na sua
hagiografia, a imagem do dialogo deve ter sido plausfvel, mesmo que os
deralhes tenham sido inventados. 47
E esse tipo de imagem funcionava. A
autoridade imperial continuou sendo popular e garantida. Os enviados ro-
manos a carte de Atila, em 449,ofenderam muito os hunos quando disse-
119
L
0 legado de Roma: Jlumi.nando a idade das trevas, 400-1000
ram que, embora Acila fosse um homem, Teod6sio II era um deus; essa era
uma afirmas:ao evidence aos olhos romanos, embora essesenviados fossem,
sem duvida, em sua grande maioria cristaos. 48
Os deuses tinham desapare-
cido, mas o statusimperial mantivera-se inalterado - divinuspermanecera
um termo tecnico que significava "imperial". A posis:ao do imperador era
canto mais central pelo fato de que o lmperio Romano era considerado,
por defini<;ao,sempre vitorioso, uma crern;:aque sobreviveu, inclusive, aos
desastres do seculo V, De fato, a cristianizas:ao refors:ou isso: SeO Imperio
cafsse, muitos acreditavam que o mundo acabaria. Nao se pode negar que
os romanos eram confiantes.
Os rornanos tra<;aramuma clara linha enrre o publico e o privado.
A poHtica, em sentido formal, ocorria fora da habita<;ao privada, que era
considerada, em parte, separada da atividade publica.49 Os palacios senato-
riais podiam ser frequentados por quase qualquer um, e la eram negociadas
muitas quesr6es politicas, mas continham espai;:os
cuidadosamente calibra-
dos, comunais e mais personalizados, para a recepi;:aode diences e potenciais
dientes; e, exceto no caso de crimes extremos, o comporrarnento dos mem-
bros da familia dentro das paredes de uma casa era de responsabilidade do
paterfamilias,o chefe masculino da casa, e escavafora da competencia do
direito publico. A casa era a unidade basica, chamada de domus,em latim,
quando se enfatizava sua localizai;:aoflsica, efamilia, quando se referia as
pessoas. Estava centrada numa familia nuclear composca por marido, es-
posa, filhos; outros parentes eram, normalmente, mais distantes, pane de
aliani;:aspoliticas mais do que pane da estrutura familiar, embora os pais,
sevivas, ainda tivessem umagrande influencia. Os escravostambem faziam
pane dafamilia, porem coma empregados dornesticos nao livres, e eram
onipresentes em qualquer familia que dispusesse das minimas condi<;6es
para te-los.Afamilia era muito hierarquica; esperava-sedopaterfamiliasque
batessc, rotineiramente, nos escravos e nas crians:as. 0 relato de Agostinho
acercade seu violento pai, Patricio, em suas autobiogrificas Conjissoes
- uma
importante fonte -, mostra que ele considerava comum que os maridos
tambem agredissern as esposas, embora golpear a mulher pares:a ter sido
considerado normal apenas no Ocidence latino - no leste grego erajulgado
com maior hostilidade; nas pecii;:6esegipcias de div6rcio que sobreviveram,
raramente se faz mens:ao aviolencia.50 Na lei, a autoridade dos paterfami-
liasnao se estendia realmente as
esposas, que ainda estavam sujeitas a seus
120
Cullum e crenya no mundo cristiio romano
pr6prios pais (enquanto estivessem vivas), mas e claro que, na pd.cica, os
maridos governavam. Agostinho, mais uma vez, retrata sua mae, Monica
(que nao tinha escrupulos em cemar dominar seu filho),repreendendo suas
vizinhas, em Tagaste, por reclamarem de seus maridos, dizendo que seus
contratos de casamento "asobrigavam a servir aos maridos",51
e isso nao era
simples ret6rica: os concratos egipcios de matrimonio obrigavam sistema-
cicameme os maridos a proteger, e as esposas a servir. Agostinho criticou
cercaEcdicia por sercelibataria, vestir roupas de viuva e dar sua propriedade
aos pobres enquanco seu marido era vivo e sem a permissao dele: essa falca
de submissao anulava a virtude que ela buscava alcani;:ar.0 estado podia
parar diante dos muros da casa, mas os valores romanos, nao; e, em ambos
os casos, a hierarquia era cncendida coma evidence. A esse respeito, nem o
cristianismo fez mudans:a significativa alguma.
Nao seria difkil argumentar que avida familiar do periodo roma-
no-cardio era tensa e scm amor. Os casamentos eram quase sempre arranja-
dos pelos pais com a intens:ao, afinal das comas, de salvaguardar e ampliar a
propriedade; os maridos costumavam ser dez anos mais velhos do que suas
esposas. Os escravos domesticos podiam minar a estabilidade da famflia
de seus amos mediante fofocas maliciosas, e, em geral, pensava-se (talvez
com razao) que scriam profundamente hostis aos seus senhores: no Que-
rolus,umacomediado seculo V,um escravo diz: "£de conhecimento geral
que todos os amos sao maus''.52
Nas narrativas tacdo-romanas, as crians:-as
cosmmam aparecer ressentidas e rejeitando as restrii;:6espaternas (parti-
cularmente, naqueles relatos nos quais pais e maridos fori;:avamas jovens
de espirito virginal ao casamenco e, em seguida, a ter filhos). Agosrinho,
cercamente, nao gostava de seu pai, e, apesar de reverenciar sua mae, teve
que recorrer ao engano para escapar dela quando deixou Cartago para ir
a Roma, quando tinha 28 anos.53
Mesmo assim, na Roma tardia, como
em ourros lugares, as familias fdizes dao aos autores rnenos mocivos para
escrever. Pode ser que o amor idilico e a conc6rdia, comemorados pelos
aristocratas romanos pagaos Ptetextato (m. 384) e Paulina em poernas que,
supostamente, escreviam um para o outro, e que foram gravados numa es-
tela ap6s a morte de Pretextato, nao sejam cocalmence estereotipados ou
atfpicos: "Eu sou feliz porque sou cua, fui cua, e logo - ap6s a morte - serei
tua".54
Os "las:osamigaveis e decorosos" do casamento eram normalmente
desiguais, mas nao necessariamente davam errado par causa disso.
121
O legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000
Legalmente, as mulheres estavam sujeicasaos pais, e, efetivamen-
te, a seus maridos.55
No encanco,elas tinham plenos direitos de heran'ra sa-
bre a propriedade paterna e materna, do mesmo modo que seus irmaos, e,
no casamenco, controlavam legalmente suas pr6prias propriedades. Espe-
rava-se que os maridos atuassem em name das esposas em assuntos pt.'1bli-
cos,coma casosjuddicos, mas asmulheres contavam com todos os direitos
legais para agir par coma pr6pria, caso quisessem. Ate o final do seculo
IV, as viuvas nao podiam ser guardias legais de crian'ras, e seuspoderes es-
cavam circunscricos; mas, na pratica, muicas vezes o faziam (certamente,
ap6s a morte de Patricio, em 372, Monica controlava o dinheiro do quase
adulco Agostinho). 56
As mulheres nao eram consideradas parte da esfera
publica e nao podiam ocupar cargos. Mas hi pelo menos um exemplo de
uma governadora de cidade, Patricia, em Antaiopolis, no Egito, em 553;57
e Hipitia de Alexandria, como a principal inceleccual da cidade, tinha
um papel formal nos rituais publicos, recebendo visitas cerimoniais de
funcionirios. 58
De faro, imperatrizes poderosas eram comuns no final do
Imperio (particularmente no Oriente, nos seculos Ve VI; cf. capitulo 3),
e nao esd. claro se esse poder era recebido com ressentimento, apesar da
ret6rica dos opositores politicos e de alguns extremiscas cristaos. Nope-
dodo romano tardio, o lar era universalmente considerado coma a esfera
das mulheres: elas dirigiam a economia domestica. Mas as mulheres nao
estavam impedidas de ser agentes economicos. Evidencias egipcias mos-
cram viuvas comprando e vendendo propriedades sem consemimenco ou
incerven'rao masculina (as mulheres foram proprietirias de 17 a 25% da
terra do Egito, no seculo IV, o que nao era uma quantia trivial), e tambem
alugando propriedade, emprestando dinheiro e atuando coma artesas in-
dependemes e donas de lojas.59 Das mulheres (excecodas prostitutas e das
dan'rarinas) esperava-se que se vestissem modestamence, mas elas nao per-
maneciam veladas no dia a dia; podiam exibir ou reivindicar status social
com roupas caras, e nao parecem ter sofrido isolamento. 0 duplo padrao
de comportamento sexual era normal e sancionado pela lei (os homens,
geralmente, tinham concubinas, mas esperava-se que as noivas fossem vir-
gens e o adulterio feminino era considerado indefensavel); a imperacriz
Teodora pode cersido atriz, o que significava que escavaautomacicamente
em uma categoria legal semelhance aprostitui'rao - embora os relacossen-
sacionalistas de suas acividades, feitos por Procopio, sejam flagrantemente
122
Cultura e cren~a no rnundo cristao romano
re(oricos -, sem que isso haja restringido sua autoridade posterior. 60
As
mulheres eram consideradas fracas e ignorantes, mas, mesmo excluindo
Hipicia, ha muicas evidencias de alfabetiza'rao e dedica'rao literaria femi-
nina, parcicularmence, mas nao apenas, entre a aristocracia.
Como avaliamos essa rede de contradi'roes? Com as evidencias a
nossa disposi'rao, nao e possivel dizer o que era cipico na pritica em cada
caso,sea restri'rao ou a auconomia feminina. Sem duvida, como em muicas
sociedades, poderiamos esperar autonomia para algumas mulheres bem-
-sucedidas, que, no entanto, estariam mais exposcas a um maior escrudnio
do que os homens, assim como acerca condena'rao moral, especialmente se
seus maridos estivessem vivas; a maioria era, talvez, mais sujeita e passiva,
voluntariamente (coma Monica) ou nao. Esse quadro geral pode muico
hem ser valido para todos os nfveis da hierarquia social, pois o material
egfpcio, ocasionalmente, se estende aos camponeses e artesaos. E o espa'ro
que o criscianismo dava aascese permiciu que um pequeno, mas visivel,
numero de mulheres escapasse complecamente das pressoes familiares,
enquanto mancivessem o celibato e um comportamento disciplinado,
de preferencia entre quatro paredes e em grupos. 61
No entanto, a mera
quamidade desses direicos e limita'roes, comradit6rios entre si, era maior
do que ern muicas sociedades: o Ocidente da Alta Idade Media irnpos,
frequentemente, rescri'roeslegais e sociais mnito mais intransigences sobre
o agir feminino, corno veremos no capitulo 7. Demro das concradi'roes,
havia espa'ro para que as mulheres da Roma (ardia construissem suas
pr6prias imagens sociais, se quisessem e tivessem sorte. 62
Mas o faziam
em um mundo repleto de um imaginirio marcado pelo genera, que era
negativo em rela'rao as mulheres ,propagado pelo mundo publico secular
assim coma pela Igreja, com a masculinidade e as vircudes masculinas
vistas como a norma (virtus significa canto "masculinidade" quanta "vir-
tude") e a feminilidade associada com a fraqueza e ate mesmo o perigo,
em particular entre os ascetas masculinos, para quern a sexualidade fe-
minina representava, compreensivelmence, uma das maiores amea'ras.
63
Os homens tambem enfrencavam sinais contraditorios no mun-
do em que viviam. A sociedade romano-tardia era muito hierarquica e a
mobilidade social, em muitos casos, limitada pela lei, como vimos, embora
fosse tambem bastante comum; a mistura de hipoteticas desigualdades,
similares as cascas,ea presen'ra de "homens novos" sempre criam tensoes.
123
O Jegado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000
Os homens rornanos erarn rnuito propensos a se ofenderem guando arri-
vistas e forasteiros nao curnpriam corn a etiquera; eles se irritavarn rnuito
facilmente e, nesses casos, podiam se tornar violencos.64 Fausto, bispo de
Riez (m. c. 490), observou amargamence, em um serrnao, que se um ho-
rnem poderoso nos causa dano ou abusa furiosamence de nos, sofremos
em silencio a fim de evitar maiores danos, porem, se uma pessoa inferior
abusa de n6s, ficamos foriosos e buscamos vingan4ra.65
A violencia da praci-
ca policica ejudiciaria romano-tardia significava que rais amea4raspodiarn
serperigosas. Mas as elites instruidas rambem eram educadas segundo um
comporramenco formal, decoroso e cortes; isso fazia parre da educa4rao
da dice, de faro, e incluia nunca perder o temperamento e se esfor<rar
para
convencer - ou humilhar - pela habilidade ret6rica e nao pela arnea(j'.a.
Como alguem podia fazer as duas coisas? Nao podia, e claro. Os homens
instruidos do pedodo romano tardio ficavarnhorrorizados corn os manges
justiceiros, com a turba de Alexandria, ou corn os homens poderosos com
uma forma4raomilitar, coma Valentiniano I, par sua falcade autoconcrole
e sua violencia.GG
Em pequena escala, Sidonia ficou encantado quando, em
seujantar com Majoriano, seu inimigo Peonio ficou visivelmente aborreci-
do com uma ligeira gafe diante do imperador, urna viola4raocondenat6ria
da etiqueta; a decorosa porem divercida risada do imperador foi suficiente
para Sidonia, que se referia a ela coma "vingan4ra".Maso decoro era ainda
mais importance porque os hornens cram reconhecidos como passionais.
E a c6lera tambem podia ser usada politicamente, rompendo as barreiras
do decoro, para fazer valer um ponto de vista, para mostrar que a pessoa
devia ser levada a serio, ranco mais efecivamente por causa da formalidade
do comportamenco politico "normal". No Ocidente p6s-romano, a poli-
tica se tornou menos formalizada, mas a fori;:apolitica da ira continuou a
ser uma arma poderosa para reis e pdncipes.
Este capitulo e o anterior apresentam urn mundo rardo-romano
estavel; isso nao quer dizer imud.vel (essefoi, sobretudo, um periodo de
notavel inova4raoreligiosa),nem, naturalmence, livre de conB.itos,mas, mes-
mo assim, de forma alguma estava condenado adissolu4rao.No capitulo
seguinte, veremos como o poder politico romano sedesfez no Ocidente do
seculo V, apesar dessa estabilidade interna. Mas tambem vale a pena per-
guntar, nesre ponto, o que, dencre os padr6es politicos, sociais e culturais
descritos ate agora, sobreviveria para formar aherarn;:aromana nos seculos
124
Cultura e cren~a no muudo cristao romano
futuros. Isso e rnais facil de responder pelo que se disse no presence capitu-
lo: a maioria dos padr6es descritos aqui sobreviveu. As estrurnras da Igreja
foram as instancias que menos mu4ararn quando o Ocidente romano se
despeda'.ou, e somente se tornaram politicamente rnarginais no sudeste e
no sul do Mediterraneo, com as conquistas mu<rulrnanasdo seculo VII. A
imporcancia da fe correta sobreviveu em Bizancio e em partes do Ocidente,
como veremos em cap.irnlosposteriores. 0 compromisso religioso ascetico
e as crfricas religiosas da sociedade secular nunca perderam sua for<ranos
seculos vindouros, e os veremos reaparecer constancemente. Esses foram
um legado especificamence cristao-romano para os tempos futuros. Por sua
vez, as institui<r6espublicas do Imperio Romano sobreviveram como um
modelo politico fundamental canto para Bizancio guamo para o califado
irabe, ainda baseado em urn siscernacontinua de impastos sobre a cerra.
No em:anco,cada vezmais, a tributa(j'.aosedegradou no Ocidente p6s-roma-
no e as institui4r6espoliticas se simplificararn radicalmente. Mesmo assim,
o guadro politico e inscicucional do lmperio Romano era tao complexo
que essas novas vers6es mais simples ainda podiam fornecer um sistema
governamental bisico, de esciloromano, para os reinos "romano-germani-
cos",em particular para os francos na Galia, os visigodos na Hispania e os
lombardos na Italia, os principais sistemas politicos dos dois seculos ap6s
550.E isso foi acompanhado de um senso de poder publico assim com:..o
de um espa'.opublico para a pratica politica, que eram, em grande parce,
uma heran4rade Roma. Essa polftica publica durou, no Ocidente, ate de-
pois de findado o periodo carolingio, no minimo ate o seculo X, e muitas
vezes ate mais tarde; sua desagrega4rao,onde ocorreu (patticularmente na
Francia), foi importante. Esse momenta certamenre marcara o fim deste
livro, pois, ao menos no Ocidente, representa o fim da Alta Idade Media.
Muitas coisas,de faro, mudaram ao principiar a Alea Idade Media.
As cominuidades religiosase culturais nao podem ocultar aimportancia da
ruptura das estruturas estatais; aeconomia de troca tambem setornou muito
mais localizada no Orience e no Ocideme, assim como menos tecnicamente
complexa pelo menos no Ocidente. A sociedade aristocratica militarizou-se
mais, e uma educa4rao
literaria secular perdeu muito de sua importancia, par-
ticularmente no Ocideme. Como resultado, nossasfontes escritas saornuito
mais religiosas,tanto no Oriente quanta no Ocidente. A identidade arisco-
cratica tambem mudou em coda pane, com as transforma'.6es politicas do
125
O legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-rnoo
Ocideme, no seculo V, e do Orieme , no seculo VII; a riqueza aristocd.tica
conjuma se contraiu na maioria dos lugares, ea elite senatorial de Roma, ex-
tremamenre rica, desapareceu. Nao se deve exagerar essa contrac;ao, pois os
aristocratas com ancestrais romanos continuaram a ser os principais acores,
mas, dadas as mudanc;as culturais que acabamos de referir, sua antecedencia
romana se rorna muiro mais dificil de ver. Os camponeses cambem se to.
c-
naram mais auconomos, na medida em que diminuiu a propriedade aristo-
cratica global e se reduziu o poder estatal no Ocidente; em contrapartida,
pode-se dizer que aumentaram as restric;oes impostas as mulheres. E, acima
de tudo, cada regiao do lmperio Romano ceve,doravante, um desenvolvimen-
to politico, social, economico e cultural separado. Antes de 550, o Oriente
e o Ocidente sao tracados juncos, neste livro, mas depois disso des devem
ser discutidos separadamente; e as hist6rias das terras francas, da Hispania,
da Italia, da Britania, do Bizancio e do mundo arabe receberao uma analise
individual, assim como as das terras nao romanas do none. Acima de todo
o resto, essa localizac;ao e essa simplificac;ao geral caracterizam a Alta Idade
Media. No entanto, como base de todos os sistemas politicos que veremos no
restante deste livro, com excec;aodo sistema do extrema none, estava o peso
do passado romano que, por mais fragmemado que se encontrasse, criou os
elementos constitutivos para a pratica politica, social e cultural de codas as
socicdades p6s-romanas nos seculos vindouros.
Notas
Enquanto incrodm;:6es,quase todos os livros cicadas no capkulo 1 sao igua!mente
importances. P. Garnsey & C. Humfress, TheEvolution of the Late Antique World
(Cambridge, 2001), pp. 132-215; e P. Brown, Power and Persuasion in Late Anti-
quity (Madison, 1992); sao releiruras originais dos dados. Sabre o cristianismo, A.
Cameron, Christianity and the Rhetoric ofEmpire (Berkeley, 1991); P.Brown, The
RiseoJWestern Christendom, 2. ed. (Oxford, 1997); eR. Markus, TheEnd ofAncient
Christianity (Cambridge, 1990); sao poncos de referencia fundame.ntais.
Sidonius, Letters, ed. etrad. W. B.Anderson, Poemsand Letters (Cambridge, Mass.,
1962-1965),4.25 (Chalan), 7.5, 8, 9 (Bourges); cf.J.Harries, Sidonius Apollinaris
and the Fall ofRome (Oxford , 1994), pp. 179-186. Para concextualizac;ao,ebasico
R. Van Dam, Leadership and Community in Late Antique Gaul (Berkeley, 1985).
Para a complexidade das func;6ese da autoridade dos bispos, cf.sobrerudo C. Rapp,
Holy Bishopsin Late Antiquity (Berkeley,2005).
126
Cultura e cren,a no mundo cristao romano
· C pondance ed e trad A- Garzya & D. Roques (Paris, 2000) nn.
Synes10s, orres , · · , ..
( b ) lo. 15 16· 46· 81· 124· 154 (a Hipatia); para Teofila e Cmlo,
105 carta a crta ; , - , , ' '
C H Alexandria in Late Antiquity (Baltimore, 1997), pp. 159-169; 295-316;
. aas, d B E . (P .
I f D Roques Synesiosde Oyreneet la Cyrenai'que u as- mpire ans,
no gera, c • • ,
2000), pp. 301-316. . . _
"Pagio" euma palavra insatisfat6ria. A religiao gre~o-romana crad1c1onal nao
, enhuma palavra para denominar seus prat1cantes; contudo, pagan us,
possu1a n . " _ . -
· · J nte si·gni·ficava"rustico" i·aeucilizado para des1gnar nao cnstao
que ongma me ' ( en
(ou judeu)" no come<;odo seculo III, e se tornou comum no final do IV e.g. 1
,
8 370) "Helena" eoutra palavra tardo-romana que ve10 a ser
16.2.1 , para o ano • ' "
utilizada para designar "pagao". Alguns autores modernos preferem o termo po-
liteista", mas nem rodos os "pagaos" eram polireistas.
Sabre O paganismo tardio, cf. G. W. Bowersock,Hellenism in~ate Andquity (Cam-
bridge, 1990); F.R. Trombley, Hellenic Religion and Chmtzamzatwn c.370-529:
2 vols. (Leiden, 1993-1994); G. Fowden, CAH, vol. 13,PP· 53~-560; _Garnsey_
&
Humfress, Evoltttion of the Late Antique World, PP·152-160;Joao do Efeso,Eale-
siasticalHistory, ed. e trad. E. W Brooks (Louvain, 1935-1936), 2.44; 3.36.
S b · d f s T Katz (ed) The Cambridue History ofJudaism, vol.4 (Cam-
o re osJU eus, c . . . · , o
bridge, 2006), pp. 67-82; 404 -456; 492-518. _
b 1· CTh 16 10 10 12(391-392) er 1.11.10(Justiniano). Para Edessa,Joao
So re as e1s, , , • • - ' :J'
do Efeso,EcclesiasticalHistory, 3.27-8.
Para as celebrac;6esdo Pri meiro de Janeiro: Markus, End ofAncient Christianity,
PP·103-106, e, em geral, para fesrivais, pp. 97-135.
Greg6rio de Tours, "The Miracles of the Bishop Sr.1:artin", trad. em R. Van Dam,
Saints and their Miracles in Late Antique Gaul (Prmceton, 1993), PP· 199-303,
e.g.2.24; 3.29; 4.45. -
10 Augustine, Letters, trad. W. Parsons & R. B. Eno, 6 vols. (Washington, 1951-
1989), carta 29.
11 Van Dam, Saints and their Miracles, pp. 41-48. Sabre a bebida em cima da tumba
d , c· Augusci"ne Letters 22· Augustine, Confessions,trad. H. Chadwick
os mar ues: , ' ' './' , • l
(Oxford, 1991),6.2.2. Gregorio Magno: Bede, HE, 1.30. Para uma anali;e ger~
do espa<;:o
religioso e seus conrextos no Meditcrraneo, cf. P.Harden & N. urce ,
The Corrupting Sea (Oxford, 2000), pp. 403-460.
12 N. Gauthier, "La Topographie chretienne entre ideologie et pragmacisme", in: G.
P. Brogiolo & B. Ward-Perkins (ed.), TheIdea and Ideal of the Town between Late
Antiquity and theEarly Middle Ages (Leiden, 1999), pp. 195-209.
13 R. Kraurheimer, Rome: Profile ofa City, 312-1308 (Princeton, 1980), pp. 71; 75.
14 Para uma analise dos enrerros inrramuros e scus desenvolvimentos na Italia, cf.N.
Christie From Constantine to Charlemagne (Aldershot, 2006), PP·252-259. Para
os santo; falecidos, cf. P.Brown, The Cult of the Saints (Chicago, 1981).
1s Cf. B.Caseau, in: G. Bowersock et al. (ed.), Late Antiquity (Cambridge, Mass.,
1999), pp. 406-407.
127
O legado de Roma: Iluminando a idade <lastrevas, 400-1000
16 Vie de Theodorede Sykt!on, ed. e trad. A. J.Fcsrugiere (Bruxelas, 1970), cc. 37; 43;
91-94; 103; 114-116; 162 etc.
17 M. Foucault.Discipline and Punish (London, 1977). Para os modelos de cristianismo
cotidiano, cf.esp. P. Brown, CAH, vol. 13,pp. 632-664.
18
Garnsey & Humfress,Evo!ution ofthe Late Antique World, pp. 207-210.
'9 SelectLetters ofStJerome, ed. e trad. F.A. Wright (Cambridge, Mass., 1963);a carta
22 eum bom exemplo.
20
A. Arjava, Women and Law in Late Antiquity (Oxford, 1996), pp. 177-192; G.
Clark, Women in Late .Antiquity {Oxford, 1993), pp. 21-27; A. Giardina, CAH,
vol. 14, pp. 392-398.
21
D. Goodblatt, in: Katz, Cambridge History o_/}udaism,vol. 4, pp. 416-423.
12
Rapp, Ho{v Bishops,pp. 172-207.
23
W. H. C. Frend, 1heDonatist Church (Oxford, 1952),p. 167,para os bispos; P.Brown,
Religion and Society in theAge of Saint Augustine (London, 1972), pp. 237-331.
24
Brown, Religionand Society,pp. 183-226; B.R. Rees,Pelagius, 2. ed. (London, 1998).
2
' R. Gryson, Les Origines du celibat ecclesiastique du premier au septieme siecle
(Gembloux, 1970).
ir, Para os debates criscol6gicos oriemais: H. Chadwick, C.AH, vol. 13, pp. 561-600,
e P.Allen, CAH, vol. 14,pp. 811-834, ofrrecem narracivas uteis. A hiscoriografia e
enorme; achei parcicularmente utcis as nitidas e incisivas introdu~6es teologicas de
F.M. Young, From Nicaea to Chalcedon (London, 1983). Para o "arianismo", cf o
mais receme crabalho, D. M. Gwynn, Ihe Eusebians (Oxford, 2007).
27
J. H. W. G. Liebeschuetz, Barbarians and Bishops (Oxford, 1990), pp. 157-189.
28
D. D. Bundy, "Jacob Baradaeus",LeMuseon, 91 (1978), pp. 45-86; L. Van Rompay,
in: M. Maas (ed.), The Cambridge Companion to the Age ofJustinian (Cambridge,
2005), pp. 239-266.
29
Haas, Alexandria, pp. 258-330; Frend, Donatist Church, pp. 172-177.Mas ha um
debate grande sobre quem exatamentc eram os circumcel!iones:cf. B. D. Shaw, in:
A.H. Merrills (ed.), Vandals, Romans and Berbers (Aldershot, 2004), pp. 227-258;
T. E. Gregory, VoxPopuli (Columbus, Ohio, 1979).
30
Sohre o patriarca Juvenal, Evagrios, TheEcclesiastical History ofEvagrius Scho-
lasticus, trad. M. Whitby (Liverpool, 2000), 2.5; Cirilo de Cit6polis, "Life of
Euchymios", Lives ofthe Monks ofPalestine, trad. R. M. Price (Kalamazoo, Mich.,
1991), pp. 1-83, cc. 27-30.
'
1
P.Brown, Societyand the Holy inLate Antiquity (London, 1982),pp. I03-152, aruali-
zado em CAH, vol. 14,pp .780-810; a recencee muico subscanciosabibliografia sobre
ascecase sancosresume-sea duas conferencias, publicadas comoJ. Howard-Johnston
& P. Hayward (ed.), Ihe Cult ofSaints in Late Antiquity and theEarly Middle Ages
(Oxford, 1999), cjournal ofEarly Christian Studies, 6 (1998), pp. 343-671.
32
Lift ofDaniel the Stylite, crad. E. Dawes & N. H. Baynes, 1hreeByzantine Saints
(London, 1948),pp. 7-71,c. 62; Teodoreco de Cirro, A History oftheMonks ofSyria,
128
Cultura e cren~a no mundo cristiio romano
rrad. R. M. Price (Kalamazoo, Mich., 1985),26.22. Para Teodoreco, cf.T. Urbainc-
zyk. Iheodoret ofCyrrhus (Ann Arbor, 2002), esp. pp. 115-147.
l3 Barsanouphios & John, Correspondance, ed. e trad. F. Neyr et al., 3 vols. (Paris,
1997-2002), nn. 636; 671; 777; 775; 776; 669; 841.
J4 P. Brown, C.AH, vol. 14,p. 806.
35 Jerome, Letters, 45.
36 Sohre monascicismo, cf. em geral D. J. Chitty, The Desert a City (Oxford, 1966);
P.Rousseau, Ascetics, Authority and the Church in the Age ofJerome and Cassian
(Oxford, 1978); C. Leyser,Authority and.Asceticismfrom Augustine to Gregorythe
Great (Oxford, 2000).
37 1heRuleofSt Benedict, ed. e crad.J. McCann (London, 1952). Deve-se consulta-la.
3~ H. Kennedy, "From polis comadina", Past and Present, 106 (1985), pp. 3-27.
39 Ammianus Marcellinus, Res Gestae,ed. e trad.J. C. Rolfe, 3vols. (Cambridge, Mass.,
1935-1939), 16.10.4-13; S. G. MacCormack, Art and Ceremony in Late Antiquity
(Berkeley, 1981), pp. 33-61; M. McCormick, Eternal Victory (Cambridge, 1986),
pp. 189-230 para Constantino VII e outros relatos pom:riorcs.
40 Gregorio de Tours,Lifa ofthe Fathers, crad. £.James (Liverpool, 1985),4.2; sabre o
sitio de Conscancinopla, cf. capitulo 10.
41 Van Dam, Saints and their Miracles, pp. 116-149.
42 A. Cameron, CircusFactions (Oxford, 1976), pp. 225-296.
/' 3 The Chronicle of Pseudo-Joshuathe Stylite, trad. F.R. Trombley &J. W. Watt (Li-
verpool, 2000), c. 31.
44
Sidonius, Letters, 2.13.4 (cica<;ao),
1.ll (Majoriano).
45 Ammianus, Res Gestae, 23.6.80.
46 J. Harries, Law and Empire in Late Antiquity (Cambridge, 1999), pp. 82-84;
184-187.
47 Lift ofDaniel the Stylite, cc. 70-84.
48 Priskos, fragmenco 11.2, ed. e trad. em R. C. Blackley, TheFragmentary Ciassicizing
Historians of the Later Roman Empire, vol. 2 (Liverpool, 1983),pp. 247-249; 257.
4~ S.Ellis, Roman Housing(London, 2000), esp. pp. 166-183; B. Polci, in: L. Lavan
& W. Bowden (ed.), Theory and Practice in Late Antique Archaeology (Leiden,
2003), pp. 79-89; K. Cooper, "Closely Watched Households", Past and Present,
197 (2007), pp. 3-33.
50 Augustine, Confessions,9.9;Letters, 262 (aEcdicia); cf. esp. B. Shaw,"The Family in
LaceAnriquity", Past and Present, 115(1987), pp. 3-51. Cf. rambem G. Nathan, Ihe
Family in-Late Antiquity (London, 2000). Sabre as acitudes oriemais em rcla<;aoa
violencia familiar, cf L. Dossey,"Wife-beating in Late Antiquity", Past and Present,
199 (2008), pp. 3-40.
'
1
J.Beaucamp,Le Statutde lafemmeaByzance (4'-?siecle), 2 vols. (Paris, 1990-1992),
vol. 2, pp. 139-158; 127-129.
129
O legado de Roma: lluminando a idade das trevas, 400-1000
52 Augustine, Confessions, 9.9; Quero/us, ed. e trad. C. Jacquemard-le Saos (Paris,
1994), C. 67.
53 Augustine, Confessions, 2.3; 5.8.
54 Corpus fnscriptionum Latinarum, 6.1 (Berlin , 1876), n. 1779, com trad. parcial e
comentario em K. Cooper, The Virgin and the Bride (Cambridge, Mass., 1996),
pp. 97-103.
55 Arjava, Women and Law; Beaucamp, Le Statut, vol. 1.
56 Augustine, Confessions,3.4.
57 GreekPapyri in the British Museum, ed. F.G. Kenyon & H. l. Bell, 5 vols. (London ,
1893-1917), vol. 5, n. 1660.
58 M. Dzielska, Hypatia ofAlexandria (Cambridge, Mass., 1995).
59 Beaucamp,Le Statut, vol. 2, pp. 227-247; R.Bagnall.Egypt in Late Antiquity (Prin-
ceton, 1993), pp. 92-99; 130-133.
60
Beaucamp, Le Statut, vol. 1,pp. 206-208; V Neri, I marginali nell'Occidente tar-
doantico (Bari, 1998), pp. 233-250. Sobre Teodora, nosso problema eque a unica
fame arespeito da sua carreira coma atriz eProcopio [Prokopios},SecretHistory, ed.
e trad. H.B. Dewing (Cambridge, Mass., 1935), c. 9, que euma denuncia retorica e
independente: cf. L. Brnbaker, "Sex, Lies and Textuality", in: L. Brubaker &J.M.
H. Smith (ed.), Gender in the EarlyMedieval World (Cambridge, 2004), pp. 83-101.
Sena arnscado assumir que isso, inclusive, tinha algnm fnndo de verdade.
61
E. A. Clark, AsceticPiety and Women's Faith (Lewisron, NY, 1986), esp.pp. 175-208.
62
J.M. H. Smirh, "Did Women have a Transformarion of the Roman World?", Gender
andHist0ty, 12.3 (2000), pp. 22-41.
63
Clark, Women, pp. 56-62; 119-126.
64
Brown, Power and Persuasion, pp. 35-61.
65
R.Mathisen, Roman Aristocrats in Barbarian Gaul (Anstin, Tex., 1993), pp. 50-51.
66
Ammianus, Res Gestae,30.8; Sidonia: Letters, 1.11, esp. 11.12.
130
3
CRISE E CONTINUIDADE, 400-550 1
Em 25 de fevereiro de 484, Hunerico, rei dos vandalos e dos alanos,
egovernante das antigas provincias roman as do no rte de Africa, emitiu um
decreto contra a heresia "homousiana" (diriamos aqui cat6lica) da popula-
<rioromana de seu reino. Os vandalos eram cristaos arianos, e, portanto,
consideravam as cren<rasda maioriaromanaincorrecas o suficiente a ponto
de precisarem ser expurgadas. Hunerico, por consequencia, adaptou a lei
do imperador Hon6rio , de 412, contra os donatistas de Africa - que tinha
sido uma grande arma cat6lica nos dias de Agoscinho - ea empregou con-
tra os pr6prios cat6licos. Hunerico foi explicito quanto a isso:
Ebem sabido que devolver maus conselhos aqueles que os aconselharam e um
atributo de majestade triunfante efor<;aregia... Enecessirio, emuito justo, virar
contra eles o que esti concido nessas leis que foram promulgadas pelos impera-
dores de diversas epocas que, com elas, tinham sido induzidos ao erro.
2
A conduta de Hunerico nesse decreto e na perseguiiy:aoque dele
se originou (a qual parece terse aquietado ap6s suamorte, em dezembro
131
O legado de Roma: Jluminando a idadc das trevas, 400-1000
do mesmo ano) era de um consistente deboche: voces fizeram isso por
coma pr6pria; portanco, eapenas justo que isso seja feito contra voces
agora. Com efeito, coda sua prepara-;:ao para isso era um eco delibera-
do da decada de 410. Hon6rio, em 410, havia convocado uma conlatio,
um debate formal, entre bispos donatistas e cat6licos, que ocorreu em
Carcago, em junho de 411; grande parte de suas atas sobreviveu, e elas
apresentam uma impressionante mistura de jogos de poder cerimoniais,
argumenta-;:6es e injurias, seguidos por um julgamento contra os dona-
cistas, e, entao, pela repressao, um ano depois. Os donaciscas deviam sa-
ber que, provavelmente, algo estava sendo armado contra eles, e quando,
em maio de 483, Hunerico chamou os bispos cat6licos para um debate
similar, em Carcago, em fevereiro do ano seguinte, estes certamente sa-
biam o que escavapor vir. Os donatistas, em 41 l, e os cat6licos, em 484,
cencaram evitar a discussao apresentando um manifesto, mas Hunerico,
se acreditarmos no relato de seu fervoroso rival, Victor de Vita, ja tinha
preparado seu decreto, encurtando assim o debate. Se isso for verdade,
foi o unico desvio de Hunerico em sua reencenas:ao do drama honoriano.
Hunerico gostava de ser um imperador romano no modo de perseguir,
ato por ato, e os cat6licos sabiam bem o que ele estava fazendo.
Os vandalos de Africa representam um paradoxo que e resumido
por essa explicas:ao.3
0 uso moderno de seu nome mosrra a ma reputas:ao
que des ja.tinham, manifestada, principalmente, no polemico relato de
Victor sobre sua crueldade e sua opressao. A maior parte dos relatos con-
cemporaneos sobre os vandalos era realmente negativa, do testemunho
ocular de Possidio sobre a chegada violenta dessesgrupos aAfrica, em 429,
as criticas do historiador romano-oriental Procopio ao seu estilo de vida
luxurioso, no momenro da reconquista romana de 533-534. Sob o coman-
do de seu mais bem-sucedido rei, Genserico (428-477), pai de Hunerico
- que os levou da Espanha para a Numidia, e, depois, em 439, a Cartago
e ao cencro cerealista africano -, seus navios (ex-navios graneleiros, sem
duvida) pilharam a Sicilia, conquistaram a Sarden ha e saquearam Roma
em 455. Hunerico nao foi o unico rei a perseguir os cac6licos. Trasamun-
do (496--523) fez o mesmo por volta de 510. No encanco, ao concrario do
que sepode imaginar, hi evidencias que mostram que os vandalos acredi-
cavamser muito romanos. Todos aqueles dos quais cemosnoticia falavam
latim. Hunerico casou-se com a sobrinha-neta de Hon6rio, e tinha pas-
132
Crise e conlinuidadc
sado um tempo na Italia. A administra-;:ao vandala parece ter sido quase
idencica aadminiscra-;:ao roman a da provincia de Africa e composca por
africanos (no maximo, des devem cer adotado o c6digo de vestimencas
vandalo); a moeda era uma adapca-;:aocriativa de modelos romanos; os reis
aplicavam os tributos corno os romanos tinham feito e, por consequencia,
as elites vandalas acumulavam grandes fortunas, que gascavam amanei-
ra romana, em luxuosas residencias urbanas e igrejas, como nos contam
canto as fonces escritas quamo as arqueologicas. A arqueologia, de fato,
indica poucas mudan-;:asna maior parte dos aspeccos da cultura material
africana em codo o seculo vandalo. E, e claro, sua persegui(j:a.O
religiosa
era inteiramence romana. Outros povos conquistadores germanicos eram
tambem arianos, notadamente os godos, como vimos, mas eles viam sua
religiao, na maior parte, como uma demarcas:ao de suapr6pria idemidade
vis-a-visa seus novos sudicos romanos, que podiam continuar cat6licos.
Apenas os vandalos assumiram que sua versao do cristianismo deveria
ser a universal e que as outras deveriam ser extirpadas, como os pr6prios
romanos fizeram: dai entao o tom negativo dos relacoscontemporaneos,
que sio todos escricos por cat6licos.
Assim, e possivel ver os vandalos como uma versa.ados pr6prios
romanos. Na verdade, eles poderiam ser viscoscomo um exercito renega-
do que tomou o poder em uma provincia romana ca administrou de uma
maneira romana; embora os vandalos nunca tenham sido cropas federa-
das imperiais, eles se assemelhavam bascante a elas, e qualquer um teria
di6culdades para idemificar algum elemento nas suas praticas policicas
ou sociais que tivesse raizes nao romanas. Mas estadamos enganados caso
pensa.ssemos que nada mudou quando Genserico encrou rnarchando em
Carcago. Houve duas grandes diferens:as. Em primeiro lugar, os vandalos
governaram a Africa como uma aristocracia fundiaria milicar, que conci-
nuava a ver-secomo etnicamente distinta. Exercitos romanos que comaram
o poder antes do seculo V comencavam-se em criar seupr6prio imperador
e retornar aos quarceis com ricos presences; mas os vandalos tornaram-se
uma elite politica, substituindo e expropriando a aristocracia senatorial,
em grande pane ausente (e, tambem, alguns proprietirios romanos que
viviam no norte de Africa, embora a maioria destes tenha sobrevivido).
Em segundo lugar, os vandalos dividiram a infraestrutura mediterranea
do lmperio tardio; des tomaram o concrole da maior provfncia exporta-
133
0 legado de Roma: fluminando a idade das trevas, 400-1000
dora de graos e azeite do Ocideme, principal fornecedora de alimentos
da cidade de Roma. A comida costumava ser, em grande parte, fornecida
gratuitamente, grac;:asaos impastos; no emanco, os vandalos eram auto-
nomos e mamiveram a produc;:aoafricana para si - embora estivessem
preparados para vende-la. A espinha dorsal de impostos Cartago-Roma
chegava ao fim. A populac;:ao da cidade de Roma comec;:oua diminuir
vertiginosamente depois da metade do seculo V; no seculo seguinte ela
provavdmente caiu mais de 80%.4
E um grande rombo apareceu no cui-
dadosamente balanceado sistema focal do Imperio Ocidental; os roma-
nos enfrencaram uma crise fiscal, justamente quando mais precisavam
gastar com as tropas. Nao ter previsto gue Genserico comaria Cartago,
apesar de ~n-1tracado firmado em 435, e indiscutivelmente 0 principal
erro escrateg1codo governo imperial no seculo V: foi O momento em gue
o desmembramento politico do lmperio Ocidental, pela primeira vez, se
cornou uma s~riapossibilidade. Dai os tardios mas intensos esfon;:ospara
recapcurar a Africa em 441, 460 e, especialmente, a grande mobilizac;:ao
de 468, que falharam desastrosamence, apesar de a forc;:a
militar vandala
nao ser, ate onde se pode observar, inusitadamente grande. No final, a re-
conquista em 533-534foi facil; mas o Imperio Ocidental, nesse momenta
ja deixara de exiscir.Nao obstante o faco de serem muico romanizados 0
;
vandalos foram agentes de grandes mudanc;:as. '
Essa ea caracteristica-chave dos acontecimentos do seculo v,pelo
menos no Imperio Ocidental. Repetidas vezes OSexercitos "barbaros"
ocuparam provincias romanas, as quais eles administravam de manei-
ras romanas; nada mudou, mas tudo mudou. No ano 400, os Imperios
Roma~~s, Ocid~~tal e Or~ental, eram gemeos, governados por irmaos
(Honono e Arcad10, os dots filhos de Teod6sio I, que governaram em:re
395 e 423 e 395 e 408, respectivamente), com pouca diferenc;:aestrutural
entre des e, coma vimos no capitulo I, nenhuma fraqueza interna funda-
mental. Em 500, o Oriente quase nao tinha sido alterado (na verdade, de
estava passando por um boomeconomico), mas o Ocidente se enconcrava
d_i~id,i~o
em meia duzia de grandes sec;:6es:
a Africa vandala, a Espanha
vmgotrca e o sudoesre da Galia, a Burgundia (sudeste da Galia), 0
nor-
te franc~ da Galia, a Italia ostrog6tica (induindo a regiao dos Alpes) e
uma sene de unidades autonornas menores na Britania e em 0utras zonas
rnais rnarginais em outros cantos. Os rnaiores sistemas politicos ociden-
134
Crise e continuidade
tais eram codos regidos por uma cradic;:aorornana, embora fossem mais
rnilitarizados, suas estrucuras fiscais estivessem mais fracas, tivessem me-
nos incer-relac;:6es
economicas, e suas economias internas se revelassem,
muitas vezes, rnais simples. Uma grande mudanc;:ahavia ocorrido sern que
ninguem, em particular, a planejasse. 0 prop6siro d~ste capitulo e_
inves-
cigarcomo essamudanc;:aocorreu - mas nao de maneira recrospecnva: Os
acontecirnentos do seculo V nao eram inevitaveis, e nao foram perceb1dos
como ral pelas pessoas que os vivenciaram. Nesse periodo, ninguem ~ia
ue O
lmperio do Ocidence estava "caindo": o primeiro autor a espec1fi-
~amente datar seu fim (em 476) foi um cronista residence em Constanti-
nopla, Marcelino comes,que escreveu por volta de 518.5
Varnos olhar para
esses evemos em quatro divis6es cronologicas: ate 425, ate 455, ate 500 e
ate 550,de modo a centar fixar quais foram as principais rnudanc;:as,mas
cambem as permanencias, em cada um <lessesescagios. Depois, entao, li-
daremos com a questao do significado dessas mudanc;:as.
6
Honoria e Arcadio nao tiveram nenhum tipo de procagonisrno
olitico, nem carnpouco seus sucessores no cargo imperial, e somence por
p 1 . -
volta da decada de 470 governantes eficazes vo caram a ocupar pos1c;:oes
politicas supremas. Queros governavam atraves deles. No Oc~d-ente,oh~-
rnernforce,no inkio do seculo V,era Estilicio, comandante m1htar (mag/S-
termilitum praesentalis)dos exerciros ocidentais desde 394: um poderoso
negociador, como eleprecisava ser. Durante o tempo de sua influencia, de
enfremou Alarico, rei dos godos (cercade 391-410),que tentava estabelecer
um local permanente para seu povo. Os grupos godos emr~ram n~ l~~erio
pela primeira vez em 376 (como vimos no capitulo l); apos sua v1tona em
Adrian6polis, em 378, eles forarn deixados em paz, na decada_de 380, na
Iliria e na Tricia, os Ba.leasmodernos. Alarico foi o primeiro chefe godo
a servir, com seus pr6prios seguidores, em urn exerciro rornano, sob o co-
rnando de Teodosio, em 394. Porem, esse acordo militar deixou de existir
por volta de 396, e os godos de Alarico (referimo-nos ades corno visigodos
para evitar confusao com ourros grupos g6ticos, embora eles nao se cha-
massem assim) passaram duas decadas tentando reconquiscar, pela forc;:a,
uma posic;:ao
de reconhecirnento no lmperio- Eles atacaram a G_recia,em
seguida se moveram para o norce, e adencraram a Italia Setenrnonal, em
401. Escilicao os derrotou e empurrou-os de volta aIliria, em 402, mas eles
recornararn em 408. Nesse momenta, eles nao eram os unicos "barbaros"
135
O legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000
dentro do lmperio; outros grupos, provavelmeme persuadidos a [entar a
sorte do outro lado da fronteira, devido ao crescimemo do poder dos hunos,
emraram duranre a mesma decada. Em 405, um exercito composto por
maioria g6tica, liderado por Radagaiso, arravessou os Alpes pelo norce, na
direc;aoda Icalia; Estilicio os derrotou e os destruiu nos arredores de Flo-
renc;a,em 406. Para tudo isso, Estilicio precisava de um exercito maior do
que aquele que a Italia possuia - especialmente porque elemesmo tambem
pretendia fazer da Iliria pane do lmperio Ocidemal, e nio do Oriental-,
por issodeslocou tropas da fronteira do Reno a fim de suprir essanecessida-
de. Essa decisao foi provavelmente um erro, pois seguiram-se um a invasio
de tribos da Europa Central, liderada pelos vandalos, que atravessaram o
Reno na vespera do ano-novo de 406; uma irruViaO na Galia Ocidental e
depois (409)na Espanha, que nio encontrou quase nenhuma resistencia;
e tambem, em 407,outra invasio da Galia, dessa vez par um usurpador,
Constantino Ill (406-411),no comando do exercito da Britania romana.
Diante dessas mulriplas crises, corne'rararn a correr boatos e tramas contra
Estilicao e, ap6s um motim, de foi executado em 408.
Estilicio foi derrubado por problem as que nao erarn inreiramence
de sua pr6pria responsabilidade; o governo ocidenral, logo ap6s sua morce,
corneteu muitos erros. Estilicao tinha origem meio vandala, e era consi-
derado por alguns corno demasiadamente favoravel aos "barbaros"; aque-
les que estavam em seu exerciro italiano forarn massacrados ou passararn
para o lado de Alarico. Este era dominance na Italia, em 408-410,mas os
romanos nio faziam acordos de paz com de de forma perduravel, apesar
de eleter sitiado Roma por tres vezes. No final, de saqueou Roma em 410,
em um evento que chocou o mundo romano da mesma forma que o 11de
Setembro de 2001 chocou os Estados Unidos, um grandee perturbador
golpe simb6lico em sua autoconfianc;a; mas isso nao ceveoutras repercus-
soes e foi apenas um passo na longa jornada dos visigodos rumo ao seu
assencamemo. Os godos tencaram ir em direc;ao ao sul, para a Africa, no
entanro acabaram indo para o norce e ademraram a Galia, sob seu novo
chefe Ataulfo (410-415);la eles encontraram uma confusio ainda maior
e ajudaram a aumema-la, pois, em 411,havia quatro imperadores rivais,
a maioria deles protegidos por diferentes grupos "barbaros". Lentameme,
os exercitos romanos legitirnistas reagruparam-se sob urn novo magister
militum, Constancio (411
-421),que derrotou os usurpadores um a um
136
Crise e continuidade
e for'rou os grupos "barbaros" a chegarem a um acordo. Os visigodos de
Ataulfo eram, assim como os exercitos romanos, dependences dos graos
do Mediterraneo, e OS romanos OS bloquearam ate sua rendi<raoem 414-
-417;eles acabaram lutando a servi'ro dos rornanos contra os vandalos na
Espanha - que foram parcialmente destruidos em 417-418- ate que, em
418,finalmente se estabeleceram nos arredores de Toulouse. Constancio
casou-se com Gala Pladdia, a irma de Hon6rio que anteriormente tinha
sido casada com Acaulfo, e tomou-se coimperador, pouco antes de sua
morce em 421.As rivalidades militares continuaram, mas a crise se acal-
mou. Porvolta de 425,ap6s uma sucessao disputada, Valentiniano Ill, so-
brinho de Hon6rio e filho de Constancio e Pladdia, tornou-se imperador
do Ocideme (425-455),tendo sua mae como regente.
0 Oriente enfrentou menos traumas durance esseperiodo. Os Bal-
dis eram um distrito militar, que sempre foi aparte mais invadida do lmpe-
rio Oriental; tambem sofreram ataques hunos na regiao, canto antes quanta
depois da safda dos godos. Mas Constantinopla, na borda dos Ba.leas,era
bem defendida, ea riqueza do Oriente seencontrava no Levante eno Egito,
bem distante da fronteira norte. Acima de tudo, a Persiasassauida, tradicio-
nal inimiga dos romanos no Oriente, esteveem paz com o lmperio por qua-
se coda o seculo V,provavelmente par enfremar seus pr6prios problemas
em outros lugares, o que garantiu ao lmperio do Oriente uma grande segu-
rarn;aescrategica.As politicas orientais eram com frequencia rnmultuadas,
asvezesviolentamente, como no caso da histeria "amibarbaros", na capital,
que, em 400,destruiu o magister militum Gainas e,logos ap6s, tambem seu
rival Fravita, uma antecipa<raodo destino de Estilicio no final da decada.
Mas, por essaepoca, a maioria dos chefes politicos do Oriente era compos-
ta de civis e nao soldados, que governavam em nome de Arcadia e de seu
igualmente inativo filho Teod6sio II (408-450);e, realmeme, nesseperfodo
as imperatr izes eram particularmente proeminentes em Constantinopla,
como Eud6xia, a esposa de Arcadia, em 400-404, e Pulqueria, a irma de
Teod6sio, nas decadas de 410-420.Cada uma delas, entre outros atos, der-
rubou ambiciosos e inflexfveispatriarcas de Constantinopla, Joa.a Crisos-
tomo, em 404, e Nest6rio, em 431, respectivamente .7
Issapor si s6 mostra
que o lmperio Oriental escavadesenvolvendo um estilo politico diferente
daquele do Ocidente: o patriarca de Constantinopla, apenas estabelecido
em 381,ja era um protagonista nas policicasseculares de uma maneira que o
137
I
I
I!
O legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000
papa, em Roma, nao seria ainda capaz por mais um seculo. 0 fato de que o
Imperio Ocidental era governado apartir de Ravena, e nao de Roma, signi-
ficavaque aspoliticas citadinas de Roma tinham setornado menos centrais
para ele; a importancia dos condlios eclesiasticos e dos debates doutrinais,
como um nucleo de unidade e dissensao, tambem era maior no Oriente,
dando aos bispos, em geral, mais voz politica do que teriam no Ocidente
nessemomento. A rda<;:ao
Igreja-estado tambem permaneceria muito mais
intima no Oriente no futuro, exceto, muito tempo depois, durante o perio-
do carolingio, no Ocidente, como veremos no capitulo 16.
Em 425,o Oriente encontrava-se esd.vele tinha comepdo alonga
recuperac;aoeconomica que iria cominuar ate o final do seculo VI e o inkio
do VII. No entanto, o Ocidente cambem tinha alcan<;:ado,
ap6s decadas de
turbulencia, uma consideravel estabilidade. A maioria das fronteiras ainda
era guardada por tropas romanas . Havia grupos "barbaros" assentados no
Imperio, e verdade, separados da hierarquia militar romana: os visigodos,
entre Bordeaux e Toulouse, e os remanescentes da confedera<;:ao
vandala,
no oeste da Espanha, os suevos no none e os vandalos asdingos no sul;
mas todos estes haviam sido derrotados, epelo menos osvisigodos estavam
em uma alian<;:a
formal de federa<;:ao
com Roma. 8
Apen as nas provincias
setentrionais do oeste, ao norte do rio Loire, a situa<;:ao
ainda era insd.vel.
A fronteira mais ao norte da Galia foi cada vez mais povoada por francos,
vindos da outra margem do Reno; no noroeste havia revoltas camponesas
intermitentes, de grupos chamados bagaudae, que come<;:aram
aconfusao
nos anos 410 e continuaram ate 440, presumidameme uma rea<;:ao
exaspe-
rada contra a caxac;aocontinua em tempos de fracasso militar; 9
e aBritania
havia sido abandonada pela administra<;:aoromana ap6s 410. Emretanto,
essas areas eram ainda mais marginais para o Ocidente do que os Ba.leas
para o Oriente. Or6sio, um apologista cristao que escrevia na Espanha,
em 417,ja podia usar o cliche de que "os barbaros, relegando suas espa-
das, voltaram-se para seus arados e agora valorizavam os romanos como
companheiros e amigos", e isso nao pareceria uma visao falsa durance a
decada seguince.w Nesse mesmo perfodo, entre 413 e 425 para ser exato,
Agostinho escreveu sua monumental obraA Cidade de Deus, inicialmente
como rea~ao ao saque de Roma; nao era nem um tratado criunfance sabre
a vit6ria crisca romana (como era o texto de Or6sio), nem uma polemica
sobre os perigos enfrencados por Roma devido aos seus malfeitos. Agos-
138
Crise e continuidade
tinho foi, de fato,cuidadoso em nao acribuir demasiada importancia ou
longevidade ao grande experimento imperial romano, pois a cidade celes-
tial e separada das formas polfticas terrenas. Apesar disso, seu livro ain-
da pressup6e uma consideravel confian<;:ano futuro imperial. 0 pr6prio
mundo poderia acabar, e claro, e Agostinho acreditava que isso ocorreria
em breve, mas nao ha indica<;:6es
aqui de que qualquer pessoa esperasse ou
cemesseo fim do Imperio.
As coisas mudaram na gera<;:ao
seguinte, por volta de 455.No
Oriente, a politica ficou calma, exceto pelos regulares ataques hunos nos
Ba.leas.Esse periodo foi marcado pela ambiciosa compilac;ao das leis em
vigor no Imperio, que se chamou Codigo Teodosiano,finalizada em 438;11
essas eram leis orientais e ocidentais (muitas delas parecem ter sido cole-
tadas na Africa), mas foram compiladas em Constantinopla e receberam
o nome do imperador do Oriente. Tal periodo tambem foi marcado por
dois condlios eclesiasticos decisivos: ode Efeso, em 431,e ode Calcedo-
nia, em 451,como vimos no capitulo 2, embora suas defini<;:6es
tenham
sido alcan<;:adasacusta de alienar grandes setores da comunidade crista,
do Levante e do Egito, que se viram estigmatizados como hereges mono-
fisitas. Pulqueria foi uma aniculadora de destaque nos bastidores de cada
um desse concilios. Ela ceveum papel relacivamente pequeno na carte, en-
ereambos os concilios, especialmente nos anos 440, mas, com a morte de
Teod6sio II, lanc;ouseu sucessor,Marciano (450-457),ao se casar com ele,
e foi novamente influence ate sua morte em 453.0 condlio de Calcedo-
nia, em particular, foi um momenta decisivo, mas o fato de que a politica
do Oriente dependia dessas grandes reuni6es eclesiasticas mais do que da
guerra fala por si mesmo.
0 Ocidente conheceu mais problemas. Os chefesmilitares lutararn
em name do jovem Valentiniano, porem Aecio, que tinha sua base na Ga-
lia, sobrep6s-se a eles,em 433.Aecio governou o Ocidence como magister
militum ate 454,mas seus interesses permaneciam na Galia.
12
A responsa-
bilidade por deixar os vandalos tomarem Cartago e essencialmente dele;
Aecio reagiu, mas de maneira ineficiente e demasiadamente atrasada. Sua
principal preocupa<;:ioeram os visigodos, a quern ele, ao menos tempora-
riamente, pacificara em 439.Oucros grupos "birbaros" na Galia tambem
foram persuadidos a aceitar a hegemonia milicar romana, incluindo os
alanos e os burgundios, que foram assencados pelo pr6prio Aecio no vale
139
O legado de Roma: lluminando a idade das trevas, 400- 1ooo
do Baixo Loire e no Alto R6dano, respeccivamence, em 442-443. A Galia
permaneceu escavelsob a hegemonia romana, como resultado da atern;:ao
de Aecio, apesar de ser inegavel que mais grupos auconomos se estabelece-
ram por la ap6s sua morre do que antes. Do mesmo modo, a Italia, cora-
i;:aodo Ocidente, era na verdade menos ameai;:adapor invas6es do que nos
primeiros anos do seculo. Mas a Africa tinha sido perdida, como rambem
a Espanha logo que os vandalos a deixaram, em 429, passando principal-
mente para o controle suevo, nos anos 440; no encanro, a Espanha, como
vimos, era bem menos essencial para a infraesrrurura imperial. Ena decada
de 440 que temos nossas primeiras indicai;:6es,na legislai;:aoocidental, de
que a tributai;:ao-padrao era insuficiente para pagar as tropas imperiais, o
que prenunciava os aumenros de imposcos.13
Os bagaudaereapareceram ,
no norte da Galia, e depois tambem no noroesre da Espanha, que era a
parte da Peninsula Iberica ainda sob controle romano. Por volta de 440,
Salviano de Marselha escreveu um longo e intlamado senna.a chamado
Sobreogovernode Deus, que auibuia os fracassos dos romanos contra os
(obviamente inferiores)"barbaros" aosseuspr6prios pecados: notadamente
a injusta e excessivataxai;:ao,o enrretenimenco publico e a permissividade
sexual.14
Esse e o ripo de coisa que os pregadores cristaos extremistas sem-
pre disseram (eainda dizem), e seus detalhes nao podem ser levados muito
a serio; nao podemos concluir, por exemplo, que as provincias ocidenrais
realmente escavamsendo descruidas pela alcauibuca~ao, e seria melhor ver
a obra de Salviano como uma prova da continua eficacia do sistema fiscal.
Porem, e sem duvida verdade que a visa.aque Salviano cinha do Ocidente
agora incluia os "barbaros" como agentes politicos estiveis, alrernativas
ao dorninio romano, e o mesmo se aplicava aos bagaudae(embora estes
ultimos fossem, na realidade, menos estaveis, e desaparecessem de nossas
fontes por volcade 450; Aecio e seus aliados barbaros os derrotaram). Sal-
viano pensava que os romanos muitas vezes escolhiam ser governados por
"barbaros" a firn de escapar das injusti~as do estado romano. lsso prova-
velmente nao era comum nos anos 440, mas ja era possivel imaginar uma
coisa dessas;no Oriente, o historiador Prisco, ao discutir acercados hunos,
nessa rnesma epoca, escreveu algo parecido.
Aecio, em suas campanhas contra os visigodos e oucros povos,
depend ia bastante do apoio militar dos hunos. 15 Estes ultimas haviam,
o rnais tardar na decada de 420, em sua maioria, se assentado fora do
140
Crise e continuidade
Imperio, no meio da planicie do Dam'tbio, onde hoje e a Hungria, um
ponto estrategico para atacar canto os Ba.leasquamo o Ocidente . Mas
eles nao representavam um perigo em larga escala ate que Atila (por vol-
cade 435-453) e seu irmao Bleda unificaram-nos e refon;:aram sua hege-
monia milicar sobre outros grupos "barbaros", notavelmenre os gepidas
e aquela sei;:aodos godos a que chamamos de ostrogodos, pot volta de
440. A decada de 440 foi marcada pot serios ataques hunos em codas as
direi;:6es,culminando nas grandes invasoes da Galia, em 451,e da Icalia,
em 452. Entretanto, OS hunos foram derrotados na Galia (Aecio usou OS
visigodos contra eles, do mesmo rnodo que anteriormente usara os hunos
contra os godos) e recuaram da Italia, pot raz6es pouco claras; em 453,
Arila morreu inesperadarnente, e, em 454-455, confliros encre seus filhos
e os povos sujeitados a eles ocasionararn o rapido desmanrelamento da
hegemonia huna. Os hunos eram aterrorizantes por ser urn povo desco-
nhecido, mas, na qualidade de amea~a militar direta aos romanos, nao
passavam de um fogo de palha. 0 mesrno pode ser dico da construi;:ao,
pot Acila, de um foco politico alternarivo as capitais do lmperio, o que
parecia impressionante na epoca, mas nao durou muiro mais que 15anos.
Pode igualmente ser argurnentado que os hunos ajudaram os romanos
nao apenas ao lutarem ao lado de Aecio, mas tambem corno uma fori;:a
de estabilidade (o que resultou em menos movimentos populacionais)
para alem da fronteira. Mas isso rambem nao durou para alem de 454.
0 Irnperio Hnno entrou em colapso, mas Aecio ja estava morro,
assassinado pelo pr6prio Valentiniano III, em 454, que morreu um ano
depois como consequencia direta disso. Aecio seria posteriorrnente visto
como (citando aqui Marcelino comes)"aprincipal salva~aodo Imperio Oci-
denral", em grande pane porque era seu ultimo comandanre a transmitir
uma impressao de energia militar durance urn longo periodo de tempo. Seus
erros, principalmente na Africa, poderiam ser considerados igualmente fa-
tais. Mas a decada de 450 ainda conheceu um certo nivel de escabilidade
no Ocidente. Ele agora continha meia duzia de governos "barbaros", com
os quais qualquer chefe romano teria de lidar, embora ainda mancendo
uma posii;:aode for~a: todos esses governos operavam segundo as regras
rornanas e se preocupavam bascante com o Imperio a fim de intluenciar
sua escolha como governances. lsso foi demonstrado na crise que sucedeu
a morce de Valeminiano, quando Genserico saqueou Roma; Teodorico II
141
olegado de Roma: lluminando a idade das trevas, 400-1000
dos visigodos (453.466) persuadiu o eparcaAvito- um senador daAuver-
nia, no cenrro da Galia, e um dos ex-generais de Aecio, que no momenta
estava em uma missao diplomatica para ele - a reivindicar o cargo impe-
rial, em 455. Avita nao era nenhum fancoche, mas isso nao fez diferern;:a.
16
Ele nao durou muito, mas ainda haveria espa<;:o
para que um governante
energico, no Ocidente, mancivesse ao menos a hegemonia de Aecio, e ace
talvez recuperasse aquela de Constancio, sepudesse obter apoio logfstico
oriental (algumas vezes dispon(vel), e se tivesse muita sorte.
Mas a sorce imperial nao durou muito. As duas decadas seguin-
tes, que adencraram a gera<;:ao
seguinte, sao o pedodo no qual o Ocidente
finalmente se quebrou em peda<;:os.'7
Avita, claramence um gaules candi-
daro ao Imperio, foi derrotado pelo exercico italiano sob o comando de
Majoriano e Ridmero, e esteprimeiro setornou imperador (457-461).Ma-
joriano teve o trabalho de obter tanto o reconhecimento oriental quanta
o suporte dos aliados gauleses de Avito; cambem emitiu uma legisla<;:ao
que mostra suas aspira<;:6esreformiscas. Mas, se ele foi energico, certa-
mente nao foi sortudo, pois Ridmero, seu magister militium, organizou
um golpe e mandou mata-lo. Ridmero, cntao, governou ace sua morte,
em 472, par meio de uma sucessao de imperadores ptaticamence todos
fantoches, apesar de Antemio (467-472), uma figura milicar do Oriente,
cer demonscrado uma cerca presen<;:ae auconomia, ate Ridmero se de-
sentender com de. Foi Antemio quern organizou, junta com o general
oriental Basilisco (cunhado do imperador Leao I do Oriente), o grande
ataque contra os vandalos, em 468, o que nao foi apenas um fracasso, mas
um fracasso especialmente caro. Depois disso, Ridmero concentrou-se
na Italia, a qual ele defendeu eficientemente, e deixou o resto do lmperio,
em grande parce, por sua pr6pria coma, embora mancivesse liga<;:6es
com
o sudeste da Galia atraves de seu genro, o principe burgundio Gundobal-
do, que, durance um curto pedodo de tempo, sucedeu a Ridmero coma
o homem forte do lmperio, antes de deixar a Italia para se tornar rei dos
burgundios (474-516). Edificil conhecer Ricimero por meio das fonces,
que sao hostis e vagas, mas nao hi indkios de que ele tivesse interesses
politicos e ambi<;:6es
que seestendessem para alem da Icalia; dee um sinal
claro de que os horizontes imperiais estavam encolhendo. Depois de mais
dais golpes de curta dura<;:ao,Odoacro, efetivamente o pr6ximo militar
supremo na Italia (476-493), nao sepreocupou em nomear nenhum .impe-
142
• Crise e continuidade
rador para o Ocidente, mas, em vez disso, fez o Senado romano criar uma
peti<;:ao,
dirigida a Zenia, o imperador do Oriente, em que afirmava que
apenas um imperador era necessario naquele momenta; Odoacro entao
governou altilia em nome de Zena.a, coma patricius (patricio), um dtulo
urilizado tanto por Aecio quanto por Ridmero, apesar de que, dencro da
Italia, Odoacro se autointitulava rex, rei.18
0 anode 476 ea data tradicional para o fim do Imperio do Oci-
dente, com a derrubada, na Italia, do ultimo imperador, Romulo Augus-
rulo, embora seja possfvel considerar o anode 480, pois Julio Nepos, o
predecessor de Romulo, governou a Dalmacia ate entao. 19 Mas a Italia e,
na verdade, a regiao do Imperio Ocidencal que viveu menos alterai;:6esnos
anos 470, ji que Odoacro governava ao modo de Ricimero, afrente de um
exercito regular. A Italia nao experimentou nenhuma invasao OU conquista
ate 489-493, com a chegada de Teodorico Amalo e seusostrogodos, porem
Teodorico (489-526) governou da maneira mais romana possfvel.0 fim do
lmperio foi experirnentado de maneira mais direta na Galia. 0 rei visigo-
do Eurico (466-484) foi o primeiro grande governante de um siscemade
governo "barbaro" na Galia - e o segundo no Imperio ap6s Genserico - a
ceruma pritica poHtica totalmente autonoma, sem influencia de nenhum
residua de lealdade romana. 20
Entre 471 e 476, ele expandiu seu poder em
dim;:ao ao leste, ao R6dano (ealem, na Proven<;:a),
ao norce, no sentido do
Loire, e ao sul, rumo aEspanha. Os godos ja haviam lucado na Espanha
desde o final da decada de 450 (inicialmente em name do imperador Avi-
ta), mas Eurico comandou, entao, uma verdadeira conquista, que nao esti
bem documentada, masque parece ter tornado todo o territ6rio (com ex-
ce~aode um enclave suevo no noroeste) quando de sua morte . De longe a
mais bem documentada das conquistas de Eurico, apesar de nao ser a mais
importante, foi a de Auvernia, em 471-475, porque o bispo de sua cidade
central, Clermont, era o senador romano Sidonia Apolinario.21 Sidonia,
que era genro de Avito, e que tin ha sido imporcante funcionario leigopara
ambos, Majoriano e Ancemio, acabou sua carreira policica sitiado em sua
cidade natal, e n6s podemos ver todas as mudan<;:as
polfticas dos anos de
450 a470 atravesde seusolhos. Defensor de uma alian<;:a
com os visigodos,
nos anos 450, pelo final dos 460 Sidonia tinha-se tornado cada vez mais
ciente dos perigos envolvidos, e hostil aos oficiais romanos que ainda lida-
vam com des; em seguida, na decada de 470, podemos ve-lo desesperado
143
r
0 legado de Roma: lluminando a idade das trevas, 400-1 ooo
por qualquer ajuda adicional para Clermont, e desdenhoso dos enviados
icalianos que sacrificaram aAuvernia para manter a Provenp sob controle
romano. Por volca de 480, como de rdata, "agora que os amigos graus de
hierarquia ofi.ciaisforam varridos ... o 1mico simbolo de nobreza passara
a ser o conhecimento das letras"; a hierarquia oficial tinha desaparecido,
apenas a culcura tradicional romana sobrevivera.
Como epitafio do Imperio Ocidental, isso, de certa forma, diz
pouca coisa. Esta longe de ser claro que Sidonia entendia que Roma tives-
se chegado definitivamente ao fim, e sua afirmas:ao de que as hierarquias
tradicionais haviam desaparecido e certamente exagerada. Mas muita coisa
estava mudando na Galia devido a tudo isso.22
As conquistas de Eurico
foram rapidamente alcans:adaspdos burgundios, sob o comando de Gun-
dobaldo, no vale do R6dano, tendo a Provens:a como campo de batalha
enrre esses dois povos e os ostrogodos, nas decadas subsequences a 490.
No none, ainda havia exercitos que reivindicavam a autoridade de Roma,
sob a lideranp de Egidio, ao redor de Soissons, de Arbogasto, proximo
de Trier, e de Riocamo - general bretao - no Loire; mas Egidio nao reco-
nhecera nenhum imperador desde Majoriano, e essesexercitos podem ser
considerados unidades politicas independences, provavdmente fazendo
uso de menos tradis:oes romanas do que os godos e os burgundios. Os reis
francos, no norte, aliaram-se e competiram com des, e o mais bem-suce-
dido desses, Clovis de Tournai (481-511),come(j:OU
a conquistar canto os
reinos francos rivais quanto as terras dos generais romanos.
0 none da Galia fora, por muito tempo, aparte mais militarizada
da regiao, onde o exercito estruturava os padroes de posse de terra, o con-
vivio social e o comercio durante o seculo V.23
Nessa regiao, por exemplo,
a cultura das villae chegara ao fim, por volta de 450, como tambem na
Britania, em rapido processo de desromaniza'rao, porem nao foi assim no
resto do Ocidente, onde as ricas residencias rurais continuaram a existir
ate meados do seculo VI; isso marca o fim precoce de um dos dassicos in-
dicadores da cultura das elites civis.Sidonio, que conhecia todos os grandes
ariscocratas civisda Galia, quase nunca escreviapara as pessoas ao none do
Loire (um deles foi Arbogasto de Trier, a quern ele elogia pda manuten(j:fo
das tradiCj'.6es
culturais romanas - Sidonio claramente pensava que isso era
diflcil no none). 0 rcsto do que sabemos sobre o norte aponta para proce-
dimentos politicos bastame circunscanciais, como acontece com asviagens
144
Crise e continuidade
de Sama Genoveva a fim de cncontrar alimentos para Paris, provavelmente
na decada de 470, ou com os bispos que lidavam direramente com Clovis,
nos anos 480. 0 sul da Galia estava mnito mais bem organizado: os reis
visigodos e burgundios legislavam, taxavam, distribuiam graos na regiao,
empregavam oficiais civis romanos e criavam exercitos imegrados de "bir-
baros" e romanos, que incluiam generais romanos. Mas, em todos os luga-
res da Galia, as ultimas duas decadas do seculo V foram definitivamente
pos-imperiais, no sentido de que meia duzia de governantes se enfremou
sem nenhuma media(j:fo,nenhuma hegemonia distance baseada em Roma/
Ravena na qual sc espelhar. A Galia ea parre mais hem documentada do
Ocidente, no final do seculo V, por isso podemos ver mais claramenre o
que acontecia ali, mesmo que ela tenha sido, indiscutivelmente, a regiao
onde a mudanp foi maior: maior do que na Italia, certameme, mas ainda
maior do que na Africa, onde a administra(j:fo vandala, popular ou nao, era
solida e relativamente cradicional. Todas essas regioes eram, no entanto,
pos-romanas tambem; a unidade ea idemidade imperial eram, pelo ano
500, propriedade exdusiva do Oriente.
Epreciso tambem reconhecer, ao discutir esses reinos pos-roma-
nos, que a cransferencia do governo romano era muitas vezes hem menos
organizada, ou rapida, do que as narrativas de conquista sugerem. Eugfpio,
na Vida de Severino, nos da uma amostra disso. Severino (m. 482) era um
homem santo, no Noricum (acual Austria), durance os anos 470, nuina
epoca em que a fronteira do Danubio esrava em desintegras:ao, porem o
principal grupo "barbaro" das proximidades, os rugios, mantivera-se firme
do outro lado do rio e se restringia a saquear e tomar tributos - e tambem
a comercializar com os romanos. 24
Severino ganhou o respeito do rci Fele-
teu, e foi um intermediario entre romanos e rugios em multiplas ocasioes.
A vida no Noricum era claramente miseravel, assim como fria (aimagecica
do inverno e constantemence enfatizada por Eugi'pio,que era um contem-
poraneo mais jovem de Severino, mas se mudara para a Italia, e escrevia 30
anos depois, ainda mais ao sul, em Napoles). Tratava-se de uma provincia
na qual os romanos concentravam-se em cidades e forcifica~6es, e varios
"barbaros" percorriam o campo. 0 exercito romano ainda existia, mas nao
havia nenhuma lideranya policica, pelo menos na visao de Eugipio, com
exce(j'.J.O
do papel mediador de Severino. Essa espcciede "terra de ninguem"
pode ter caracterizado inclusive outras regioes: partes do norte da Galia,
145
o legado de Roma: lluminando a idadc das trevas, 400-1000
panes da Espanha central e a maioria da Britania. 0 colapso social nessas
regi6esteria sido muito maior do que em qualquer area de conquista rapida,
nao imporca o qua.a violenta tenha sido. Mas a maior parte do Ocidente
estava, apesar de rudo, sob o concrole de sisternas de governo mais estaveis
(e mais romanos), sejam eles g6cico, burgundio ou vandalo.
O Oriente, no final do seculo V, era um lugar menos cranquilo
do que na epoca de Teod6sio e Pulqueria. Para come<;:ar,
ele tinha agora
governantes que eram muito mais rnilitarizados: Aspar, magister militum
em 4S7-471,homem force de seu protegido, o imperador Leao I (4S7-
-474),ate que este o mandou matar, bem como a seu sucessor Zena.a, que
se cornou imperador por direito pr6prio (474-491).Em segundo lugar,
Zenao tinha constames problemas com rivais. A principal base militar
oriental rinha permanecido nos Ba.leas,mas essa regiao militar rornara-
-se mais instavel ap6s o fim do poder huno, e grupos "barbaros", em sua
maioria godos, estavam come<;:ando
a adentrar o Imperio novarnente: dois
de seus chefes, Teodorico Estrabao e Teodorico Arnalo, cada um deles
com experiencia militar rornana, tenraram, sob os governos de Leao e
Zena.a, ganhar poder em Constantinopla e assencar seus respectivos po-
vos em uma pane favorecida dos Ba.leas.0 pr6prio Zena.a era originario
da Isauria, uma rernota regiao moncanhosa - localizada no que hoje e o
sudesre da Turquia - e tradicional fonte de soldados (e tambem de ban-
didos), o que poderia ser vista como uma extensao de sua competi<;:ao
com OS Ba.leas;Zenao tinha rivais na Isauria tambem; dessa forma, as
tens6es com o exercito aumencaram quaudo ele ascendeu ao trono. Com
efeito, por um ano (47S-476)ele esteve afastado de seu cargo, expulso
pelo general Basilisco, e mesrno depois disso ainda enfrentou diversas re-
volcas. Foi apenas no final dos anos 480, pouco antes de sua morre, que
ele conseguiu liquidar seus rivais e persuadir o principal chefe guerreiro
que sobrevivera, Teodorico Amalo, a sair com seu exercito godo e ocu-
par a Icalia, em 489. Esses problemas significaram que Zena.a nao teria
esperan<;:as
de intervir no Ocidente pessoalmeme, ainda que os dedos do
Oriente naotivessem sido queimados pelo dispendioso fracasso da guerra
vandala, em 468.25
Uma significativa estabilidade foi, todavia, restaurada
por Anastacio I (491-S18),
um velho mas apto burocraca de carreira, que
viveu por mais de 88 auos e teve tempo canto para reprimir as revoltas
isaurianas quanco para tirar as finan<;:as
imperiais do negativo. 0 faro de
146
Crise e continuidade
que Anastacio pode fazer isso, e sem ao menos uma base militar, deve
indicar que o sistema politico oriental era essencialmente s6lido.
Estamos agora no ano S00,e o Oriente, apesar de alguns problemas
durance a epoca de Zenao, ainda se maminha escavel.0 Ocidente tinha
mudado bascante, coma vimos, mas ainda havia elementos de estabilidade
tambem. Teodorico governava a Italia desde Ravena, a capital romano-
-ocidental, com uma tradicional administra<;:aoromana, uma mistura de
Iideressenatoriais da cidade de Roma e burocratas de carreira; eleera (assim
como Odoacro tambem tinha sido) respeitoso com o Senado romano, e fez
uma visita cerimonial a cidade em S00,com comparecimentos formais a
Igreja de Sao Pedro, aopredio do Senado e ao palacio imperial do Palacino,
onde presidiu jogos, coma qualquer imperador. Todo o modus operandi de
Teodorico era, em grande parte, imperial, e muitos comentadores o viram
como um restaurador das tradi<;:6es
imperiais. 26
Essa certamence era a vi-
sa.ado senador Cassiodoro (que viveu em torno de 485-S80),um de seus
administradores, ap6s 507,e que escreveu urna extensa cole<;:fo
de cartas
ofi.ciaispara Teodorico e sens sucessores imediacos, as quais de chamou de
Variae; Cassiodoro deliberadamence descreveu Teodorico como um de-
fensor dos valores romanos, mas era facil para de afirmar isso. 0 sistema
fiscal e administrativo cinha mudado pouco; os mesmos proprietarios de
cerra tradicionais dominavam a polltica, ao lado de uma nova (mas par-
cialmente romauizada) elite militar goda ou ostrogoda.
Teodorico olhava para alem da Italia tambem. Ele governara a
Dalmacia e a fronceira do Danubio, e estava bem ciente de suas conex6es
culcurais com o segundo poder romano-germanico no Ocidente, o reino
visig6cico de Alarico II (484-S07),no sul da Galia e na Espanha. Or6sio
havia afirmado que o visigodo Ataulfo dissera, em 414,que chegara a con-
siderar a hip6tese de substituir Romania por Gothia, mas achara melhor
nao fazer isso, porque os godos eram muito barbaricos e nao conseguiam
obedecer as leis.27
Se essahist6ria everdadeira (o que e pouco provavel), ela
foi desmentida aceo final do seculo. Teodorico, na Italia, Enrico e Alarico,
na Galia, todos legislaram para seus suditos, godos e romanos. Os godos
eram figuras militares, e verdade, diferentemente do estrato senatorial
(ou da maior parte dele), e eram crisraos arianos, e nao cat6licos, mas, em
omros aspeccos, estavam adquirindo os valores romanos rapidamente.
Nissa elesforam seguidos pelos vandalos e burgundios, que erarn, ambos,
147
O legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000
bastance influenciados pelos grandes reinos godos ao redor do ano 500.
De certa forma, a Gothia realmente tinha substituido a Romania, mas o
fizera, em grande parce, imitando os romanos. Com efeito, no Mediter-
raneo Ocidental, e em todo o Ocidente ao sul do Loire e dos Alpes, uma
culcura politica comum sobreviveu.
Mas o mundo estava mudando. 0 fim da unidade poli'.ticanao
foi apenas uma modificac;:aotrivial; toda a estrutura policica cevede ser
alterada como consequencia. As classes governantes das provincias ainda
eram (em sua maioria) romanas, mas estavam em rapida transformac;:ao.
0 Oriencc tambem estava se distanciando do Ocidente. Tornara-se, por
exemplo, muito mais grego em sua cultura oficial. Leao I fora o primeiro
imperador alegislarem grego; menos de um seculo depois,Justiniano (527-
-565)talvez cenha sido o ultimo imperador oriental a falar latim como sua
primeira lingua. Mas e acima de cudo no Ocidente que encomramos uma
crescenccprovincializac;:ao,no final do seculo V, o que e,ao mesmo tempo,
uma consequencia e uma causa do colapso do governo central. Agostinho
considerava ainda o lmperio em seu conjunto; Salviano levavaem coma as
imagens morais do Irnperio, porem apenas as do Ocidencc (embora de s6
conhecesse a Galia). Sidonia, no entanto, era definitivamente um gaules.
Por cssa epoca, as elicesgaulesas rararnente viajavam para a Italia; mesmo
que Sid6nio tenha sido o prefeito de Roma, em 468, ele foi o primdro gau-
lesa ocupar essecargo desde pelo menos 414,e tambem foi o ultimo. Seus
colegas eram ainda mais claramenre preocupados com policicas gaulesas,
como seu amigo Arvando, prefeito do pret6rio da Galia, em 464-468,
e seu inimigo Seronato, um adminiscrador na Galia Central, durance e
apos 469; ambos apostaram nas ambic;:6es
policicas de Eurico e foram de-
mitidos por isso;28
Victorio e Vicente, generais romanos de Eurico, foram
presumivelmente variances mais bem-sucedidas do mesmo tipo: provin-
ciais que viam a ascensao na cone visig6tica como mais relevance do que
a tradicional hierarquia de carreira centrada na distance Ravena. Essasfo-
ram mudanc;:aspoliticas que fizeram muito sencido para os agenres locais,
mas tornaram-se facaispara o que rescavado lmperio. 0 pr6prio Sid6nio
abandonou a hierarquia imperial quando se tornou bispo, em 469-470, e
a crescenre cendencia dos aristocratas da Gilia a buscar uma carreira no
episcopado (cf capitulo 2)expressa essapreferencia pelo local de maneira
bem dara. Na pr6xirna gera<rao,os horizontes estreitaram-se novamente: ·
148
Crise e continuidade
Rudcio de Limoges (rn. 510)e Avito de Viena (m. 518),bispos nos reinos
visigodo e burgundio, respectivarnente, deixaram colec;:oes
de cartas, es-
criras em sua maioria para destinatarios dentro de sens respectivos reinos
(com agrande excec;:ao
do filho de Sidonia Apolinario, em Clermont, com
quern ambos estavam relacionados).
Essaprovincializac;:aotampouco se restringiu aGalia. Hidacio de
Chaves (m. c.470)escreveu uma cr6nica que trata quase que exclusivamen-
ceda Espanha, especialmente do noroeste, onde se enconcrava.29
Victor de
Vita, na Africa de Hunerico, via os vandalos na perspectiva dos afticani; o
Imperio Romano nunca aparece em seu texto, e mesmo os romani s6 sao
referidos quando ele esca sendo bascante generico. Uma cultura politica
comum pode cer sobrevivido, porem, em cada antiga regiao ou provincia
romana; sens pontos de referencia foram se tornando cada vez mais locais
e seus direcionamentos logo iriam comec;:ara divergir. A tranquila unida-
de - que levara o biblistaJer6nimo, no final do seculo IV, da Dalmacia a
Trier, em seguida aAncioquia, Conscancinopla, Roma e finalmente aPa-
lestina, de onde escrevera carcas asua devota clientela espalhada por todo
o Mediterraneo, durance 30anos - havia acabado. Volcarei a essa questao
em termos mais gerais logo adiante nesce capfrulo.30
0 momento culrninance do Mediterraneo Ocidencal godo ocor-
reu por volta do ano 500. Ele foi destruido por dois homens: Clovis, o rei
dos francos, e o irnperador do Oriente, Justiniano; falarernos de ambos
separadamente. Clovis, durance seu reinado, reunificou o norte da Galia,
incluindo alguns territorios nao rornanos; em 507,atacou os visigodos,
derrocando e macando Alarico II, na Batalha de Vouille, e, vircualmente,
expulsou-os da Galia (elesmantiveram apenas o Languedoc, na costa do
Mediterraneo). Os burgt'.mdiosresisciram por um tempo, porem, em 520,
OS filhos de Clovis OS atacaram tambem e conquistaram seu.reino na deca-
da de 534.Teodorico reagiu ocupando a Espanha visig6tica, governando
em nome de Amalarico (511-531),
filho de Alarico, mas o sistema politico
hispanico entrou em crise por duas gerac;:6es.
Ediflcil ver que a extensao
hispanica de Teodorico fosse algo mais do que um reforc;:o
temporirio, na
costa do Medicerraneo, contra a ameap franca; ja em 511.a hegemonia dos
godos, no Ocidente, havia, em grande pane, desaparecido, com exce<j:fo
da
Italia. A dinastia merovingia de Clovis dominaria a politica p6s-romana,
no Ocidente, pelos dois seculos seguintes. Veremos sua historia no pro-
149
I
I
I
0 legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1 ooo
ximo capftulo. Por agora, basta enfatizar uma importance consequencia
geopolitica do sucesso de Clovis: o none da Galia, antes uma fronreira
milicar, bastante marginal no mundo romano (excecopor volta do seculo
IV,quando Trier foi a capital ocidental), tornou-se um cerrit6rio central,
nucleo de grandes riquezas fundiarias epoder politico. Inicialmeme, foi um
cenrro que afecavaapenas a Galia, mas ao longo dos seculos subsequemes
acabou atingindo toda a Europa Ocidental.
Justiniano, o segundo sucessor de Anastacio, herdou o abundan-
ceexcedence on;:amentario deixado por seu anrecessor e dedicou a maior
parte de seus 40 anos de reinado a uma renovaao imperial. Ha um salto
em sua ascensao, em 527, que nao fora visivel para nenhum imperador
desde Juliano_ Como vimos no capitulo I, a parcir de 528, ele revisou, em
um ano, o c6digo de leis de Teod6sio II e, em 533, codificou os escritos
dos juristas romanos no Digesto,o qual permanece ainda hoje como tex-
to maxima do Direico Romano. Alem disso, por uma serie de novas leis
(Novelas),escrutinou e revisou a administraa.o imperial, nos anos 530,
e tambem tornou mais duras as leis sabre desvios sexuais e heresia, ace
mesmo a heresia judaica, provocando revoltas samaritanas e a severa re-
pressao, no norte da Palestina, em 529 e 555.Justiniano nao era nenhum
liberal, e, no Oriente, desde entao, cresceram o descontentamento e a in-
colerancia contra diferenas religiosas; ele era, codavia, um inovador, e as
queixas dos tradicionalistas, durante seu reinado, a respeito de inculcos
radicais presenres em sua administraao, indicam que as mudanas orga-
nizacionais riveram algum efeito. Justiniano era tambem um construtor,
sempre uma importance faceta politica na cradiao romana. 31 Ele nao e o
t'.miconeste capirulo; Zenao, Anastacio e, talvez, ate o osrrogodo Teodo-
rico foram particularmente arivos nessa area; mas a escaladas constru6es
de Justiniano superava, e muico, a de todos eles, como no caso das gran-
des igrejas que ele construiu em Constantinopla (como a Hagia Sofia; cf
capitulo 9), Efeso eJerusalem. Essas campanhas de construao sao bem
documentadas na obra panegirica de Procopio SobreosEdificios;
32 como
resultado, os arque6logos se tornaram propicios a datar quase todo gran-
de edificio romano tardio do Orience como sendo do segundo quarrel do
seculo VI, e uma nova dataao cuidadosa rem sido necessaria para desco-
brir ourros patrocinadores antes e depois dele. Ainda assim, o dinheiro e
o compromisso escavam la para fazer muica coisa.
150
Crise e continuidade
Dada a autoconfianp desses acos,nao e surpreendence que Justi-
niano tambem se interessasse pela guerra. Ele enfrentou asGuerras Persas,
0 primeiro conflico serio em mais de um seculo, em 527-532 e 540-545, e,
inrermitencemenre, ate 562. A Persia sempre foi arnaior barreira do lmpe-
rio Oriental (os Ba.leascambem foram atacados durante seu reinado, mas
isso nao era nenhuma novidade, e, assim, era menos crucial). A guerra safa
cara por coma dos recursos gascose pelas despesas da reconstruao p6s-
-guerra; muitos imperadores prefeririam restringir sua atenao na defesa
contra os persas. Mas Justiniano usou do periodo de paz, no Oriente, em
532-540, para atacar o Ocidente tarnbem. Seu general Belisario capturou
a Africa vandala rapidamenre, em 533-534, e avanOUdirero para a Italia
ostrogotica; por volta de 540, ele a havia conquiscado por inteiro. Os ulti-
mos anos de Teodorico apresentaram, cambem, tens6es com figuras cradi-
cionaliscas,e o filosofo ariscocrata Boccio, entre oucros, foi execmado por
manter comunica6es craioeiras com o Oriente, em 526; lucas internas
entre os herdeiros de Teodorico, em 526-536, levaram alguns membros
da elite aristocratica a ficar mais distances do regime ostrogotico, muitos
dos quais acabaram em Constantinopla. Porem, se a conquisca da Africa
foi um grande sucesso, a da Italia nao o foi. A maior parte dos italianos
nao godos era, no melhor dos casos, neurra em relaao aos exercitos de
Justiniano, e os godos reagruparam-se, apos 540, sob a liderana de T6cila
(541-552),quando a recomada da Guerra Persa forou as tropas romana:; a
se distanciarem da peninsula. A decada de 540 viu uma Italia devastada,
enquanco exercirosromanos e godos se alrernavam em conquiscar e recon-
quiscar areas da peninsula; quando a guerra, em grande parte, cessou, em
554, a Italia, agora rornana novamente, tinha um sistema fiscalem ruinas,
uma economia fragmentada e uma ariscocracia muico dispersa. Isso nao
foibem gerenciado na epoca. Entretanto,Justiniano tinha, de um jeito ou
de oucro, reinserido o Medicerraneo Central no Imperio, e quando seus
exercicoscambem ocuparam pane da cosra hispanica, em 552, quase todo
o Mediterraneo voltou a ser um Iago romano.
Justiniano foi, e continua sendo, uma figura controversa. Ele era
odiado por muicos, noradamente por aqueles dos quais discordava e aos
quais perseguia por razoes religiosas, e que se foram rornando mais nu-
merosos amedida que seu reinado avanava. Isso se seguiu asua crescente
hostilidade contra os monofisitas, especialmente ap6s a morce de sua in-
151
0 legado de Roma: Iluminando a idade <lastrevas, 400-1 ooo
flueme esposa Teodora (ela mesma uma monofisita), em 548, e, depois ,
asua igualmente controversa tentativa de dar um passo doutrinario em
direc;ao ao monofisismo, no Quinto Concilio Ecumenico de Constan-
cinopla, em 553, o que alienou grande parte do Ocideme. De menor se-
riedade (mas demasiadamente influence nos estudiosos modernos) foi a
obra antipanegirica Historia secreta, de Procopio, que retrata Justiniano
e Teodora como genios malevolos, em termos altamente coloridos e se-
xualizados em queJustiniano aparece caracterizado coma um demonio .33
Hoje em dia, Justiniano e, acima de tudo , acusado de arruinar financei-
ramente o Imperio, grac;as as suas guerras fora de epoca no Ocidente;
o Imperio Oriental, apos sua morte, em 565, e comumente visto como
enfraquecido, tanro militar quanta economicamente, uma situac;ao que
iria resultar nos desastres politicos dos anos pos-610. Veremos a crise do
seculo VII no capfrulo 10, mas ela nio me parece ter muito aver com
Justiniano. As guerras ocidentais nao foram anacr6nicas, pois o Impe-
rio Romano ainda era tun conceito importance, ate mesmo no Ocidente,
nem foram particularmente caras; a Africa foi reconquistada por uma
ninharia, e permaneceu romana por mais de um seculo, ea guerra na Id.-
lia teria sido uma confusao bem rnenor, caso Justiniano tivesse investido
mais, e nao menos, dinheiro nela. Seus sucessores, notavelmente Tiberio
II (578-582) e Mauricio (582-602), mamiveram afastados os persas, sens
principais oponences, tao eficiei'icemente quanta Justiniano tinha feico.34
Eles tambem mantiveram longe os avaros, novos detentores da hegemonia
"barbara" 110 media Danubio, OS quais, apartir dos anos 560, tornaram-
-se os mais recences invasores dos Ba.leas,em sua maioria de lingua eslava
(mas tambem turquica e germanica), sendo a maior ameac;amilitar para a
area desde os hunos. Eles abandonaram a maior parte da Italia a um novo
povo, os lombardos, mas, dado o escado em que a Id.lia se enconcrava, isso
nao foi necessariamence um fracasso estrategico. Outrossim, o dinhei-
ro escava suficientemente abundance, nos anos 570, a ponto de Tiberio
(embora nao Mauricio) ser mencionado como um gastador extravagan-
ce. 0 reinado deJustiniano nao aparenta ter sido uma guinada negativa
para o Imperio. Mas a controversia sabre de impoe respeito: Justiniano
imprimiu sua marca em uma gerac;ao,ao redor de todo o Mediterraneo,
e, diferentemente da maioria dos governances, os eventos de seu reinado
parecem ter sido resultado de suas pr6prias escolhas. Seu protagonism~
152
Crise e continuidade
desmente a visao de que o desmembr amento do Ocidente no seculo V,
por si so, marca o fracasso do projeto imperial romano.
As piginas anceriores deram um breve sumario dos eventos de
150 anos; precisamos agora considerar o que eles significam. Irei me
concentrar mais no Ocidence, porque foi ali que as maiores mudanc;as
ocorreram , embora a estabilidade ea prosperidade do Oriente devam agir
como um lembrete permanence para nos de que o lmperio Romano nao
estava de forma alguma destinado a quebrar. Nas decadas mais recentes,
essa visa.a, ja discucida no capitulo 1, tern se tornado realmente domi-
nance entre os historiadores. Isso significa que as invasoes e ocupac;oes
das provincias ocidentais precisam estar no centro de nossas explicac;oes
para O periodo. Mas tambem nas ultimas decadas, nos temo s nos afastado
das visoes catastrofistas dos "barbaros ", resumidas nas famosas palavras
de Andre Piganiol, na conclusao de seu livro sobre o Imperio tardio, es-
crito logo ap6s a Segunda Guerra Mundial: "A civilizac;ao romana nao
pereceu de morte natural. Foi assassinada". 35
Trabalhos recentes tern, de
faro, represemado os novos grupos ctnicos em termos bem romanos , uma
visao que eu aceito plenamente e pretendo desenvolver logo mais, de for-
ma breve. Isso nao diminui o simples ponro de que o Imperio Romano
do Ocidente fora substituido por uma serie de reinos independences que
nao reivindicavam a legitimidade imperial, o que nos obriga a perguntar
por que cada um desses reinos nao reproduziria o estado romano em mi-
niatura, mantendo continuidades estruturais que poderiam, a prindpio,
ser unificadas mais tarde, por Justiniano, por exemplo. Maso faw e que
a maioria deles nao o fez. Uma coisa que a arqueologia deixa hem clara ,
como veremos, ea dramatica simplificac;ao econ6mica do Ocidence: isso
evisive! ao norte do Loire, no inicio do V seculo, e nas terr ; s do noroes-
te mediterranico durance o VI. As construc;oes cornaram-se bem menos
ambiciosas, a produc;ao artesanal ficou menos profissionalizada, as trocas
restringiram-se mais ao nivd local. 0 sistema tributario ejud iciirio , bem
coma a densidade da acividade adminiscrativa romana em geral, comec;ou
a se simplificar tambem. Essas foram mudanc;as reais que nao podem ser
desconsideradas por argumencos que mostrem, embora justificadamente,
que os "birbaros" apenas se adequaram aos nichos romanos. Essas mu-
danc;as fizeram-se acompanhar de alterac;oes nas imagens, nos valores e
no estilo cultural, que cornaram o seculo VII, no Ocidcnre, visivelmeme
153
II
I
I
0 legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000
diferente do seculo IV ou mesmo do V:ji estamos agora fora do mundo
romano cardio e entrando na Alea Idade Media. A questao que precisa-
mos confrontar agora ecoma isso foi possivel, dada a falta de anseio por
inovac;ao da maior pane dos novas grupos etnicos.
Para comec;ar, no seculo V, ha uma continuidade evidente entre
as lideranc;as do Imperio Ocidental (e tambem Oriental) e os reis "bir-
baros". Os imperadores do seculo V eram, em sua maioria, fantoches,
controlados por poderosos militares: Estilicao, Constancio, Aecio Ri-
dm:ro, Aspar, Zena.a, Gundobaldo e Orestes (pai de Romulo Aug~stu-
lo). E interessante que nenhum desses homens tentou tomar o trono por
meio da fon;a, como outros militares tinham feito regularmente no seculo
III, e apenas dois deles (Constancio e Zenia) se tornaram imperadores,
porem por meios corretos. Uma razao comumente apontada para isso e
que, como "barbaros" etnicos, eles n:io tinham direico ao cargo imperial;
mas, para alem do faro de que nem codas ei:am de ascendencia n:io ro-
mana, n:io ha nenhuma base contemporanea para esse tipo de exclus:io.
Basilisco , imperador oriental por um curto periodo, em 475-476,pode,
na verdade, ter sido tio de Odoacro, e, portanto, um esciro, isto e, um
povo submisso aos hunos de Arila; 36
Silvano, um usurpador fracassado,
em 355,era certamente franco. 0 mais provavel eque eles se abstiveram
da tomada de poder por respeito avisa.a de que a legicimidade imperial
estava aliada agenealogia, vis:io essa que pode ser estendida ate a familia
de Constantino, na mecade do seculo IV; parecia ser mais facil controlar
um imperador (ou uma serie de irnperadores, coma fez Ridmero) do que
usurpar o trono. E provavelmente era. Esses homens poderosos civeram
pedodos de autoridade maiores do que os da maioria dos imperadores
do seculo III. Um importance elemento para a legitimidade genealogi-
ca rornana tardia era o casamento, raz:io pela qual codas os poderosos
casaram-se com as descendentes de familias imperiais, com o prop6sito
de colocar seus filhos no trono; Constancio e Zenao conseguiram (Ze-
na.a tornou-se ele mesrno irnperador, mas, obviamente, apenas corno
herdeiro de seu proprio, e efernero, filho). Maso mesrno era igualmente
verdade para as farnilias reais "barbaras", a maioria das quais tinha, ou
rapidamente estabeleceu, la<;:os
de casamento com os rornanos, muitas
~ez_es,
~em duvida, com a rnesma intenc;ao. Essa rede genealogica coma
rns1gmficante a diferenc;a cultural, pelo menos nos niveis imperiais ou
154
Crise e continuidade
re ios. Di sso resulta que quase todo imperador do Oriente, por mais de
u! seculo, ap6s 450 (com a unica excec;aode Zen:io), era originario da
confluencia cultural dos Ba.leas,onde novas identidades estavam sendo
reformuladas O tempo todo, e de onde tambem saiu uma alta porcen-
d h f, "b ' b " 37
E
tagem dos poderosos do lmperio, bem coma os c e es ar aros .
havia tambern os cruzamentos em termos pessoais: tanto Gundobaldo,
0
burgundio, quanta Teodorico, o ostrogodo, tiveram carreiras dentro
e fora da carte imperial antes de se tornarem reis de antigas provincias
romanas independentes.
A importancia da endogamia, coma criteria para a sucessao,
tambem colocava uma boa dose de pressao sabre as mulheres imperiais.
38
N6s vimos que Gala Pladdia e, particularmente, Pulqueria foram mu-
lheres poderosas no comec;o do seculo V, e ambas legitimaram seus ma-
ridos imperiais. Assim fez Ariadne, filha de Lea.aI e esposa de Zena.a e
Anastacio, sucessivamente. Verina, esposa de Lea.a, era irma de Basilis-
co. Teodora, ela mesrna uma operadora politica importance, apesar da
dominancia de seu marido, Justiniano, parece ter tambem promovido
seus parentes, apesar de haver morrido muito antes de seu esposo a pon-
to de qualquer um deles ainda estar em posic;ao de lhe suceder . Sofia,
viuva de Justino II (565-578),cercamente escolheu seu sucessor, Tiberio
II, e talvez Mauricio tambem. 39
Havia aqui um espac;opara a atua<;::io
politica feminina, que fora aproveitado diversas vezes. Assim, nao e de
surpreender que AniciaJuliana (m. 527/528) - uma rica cidada_p~iva-
da de Constant inopla, mas tambem uma descendente de Valentm1ano
Ill e de toda uma serie de imperatrizes (alem de esposa de um descen-
dente de Aspar), e carregando o ticulo de patricia, em 507 - t~nha tido
influencia sobre Justiniano: sua igreja de Hagios Polyeuktos, no centro
de Constantinopla, construida por volta de 525,foi a maior da cidade
ate que Justiniano construiu Hagia Sofia, uma decada depois, provavel-
mente, em parte, como resposta. 40
Esse espac;o para o poder feminino,
por mais ambivalente que fosse (pois sempre era), foi uma caractedstica
mais oriental do que ocidental; as crises militares do Ocidente favorece-
ram urna lideranc;a militar mais masculina. As mulheres, no Ocidente,
capazes de dominar uma politica militarizada iriarn aparecer mais tarde,
com os lombardos, ap6s 590, e os francos rnerovingios, ap6s 575, mas
sua proeminencia teve razoes diferentes.
155
O legado de Roma: lluminando a idade das trevas, 400- 1000
Mas volcemosaos chefes "birbaros" e seuspovos: afinal, o que exa-
camente os definia como nao romanos, "birbaros" ou germanicos? Existe,
atualmence, um enorme debate sabre o assunto, com uma infinita varie-
dade de posis;6es, mesmo entre aqueles que aceitam que os novas grupos
etnicos buscavarn se acomodar dentro das leis romanas o maximo que po-
diam: desde a crens;ade que havia um grande nucleo de valores e cradis;oes
nao romanos, associado ao elemento de dominas;ao presente em qualquer
grupo invasor ou assentado, que poderia sobreviverpor seculos,ate a crens;a
de que os diferenciadores emicos germanicos eram apenas uma mudans;a
de nome da idemidade militar dos soldados romanos, e que nao havia nada
de cradicional neles. Quanto a essa segunda posis;ao,e preciso reconhecer
que a maioria dos novos grupos "birbaros", no Imperio do seculo V,cinha
um hist6rico de emprego no exercito romano; os soldados mais bem-suce-
didos entre eles, como os visigodos, eram efetivarnente indistingufveis de
um descacamento rnilicar romano (exercitos "birbaros" regularrnente via-
javarn com suas familias e dependences; apesar de ser teoricamente ilegal,
seria imprudence presumir que os exercicosromanos nao faziam o mesmo
na pritica). Podemos, no encanto, ver uma clara distins;ao em nossas fon-
tes entre as fors;asdo exercito regular, que, independenterneme de origem
romana ou "birbara" (como vimos no cap.itulo 1,havia, nas fronteiras, de
onde os soldados geralrnente provinharn, pouca diferens;aentre eles),erarn
parte de uma hierarquia militar e de uma estrutura-padrao de carreira,
e os seguidores do rei X ou chefe Y, que se identificavarn com seu chefe,
geralmente tinham um nome etnico distinto e eram aceitos no exercito
rornano corno um grupo diferenciado. 41
Essa ea distins;ao emrc Odoacro
e Teodorico, por exemplo, sucessivos governances da Italia. Odoacro era
o candidaco do exercico romano da Itilia, composco apenas por etnias
hernia, escira e torcilingi; o pr6prio Odoacro era rneio esciro, mas tinha
formas;ao militar romana, e nunca e chamado de chefe dos esciros, ou de
nenhurn outro grupo na Italia. Ele se cornou um rei, formalmente autono-
mo, mas reconhecia Zenao, e poderia facilmente ter sido repensado corno
parte do Imperio Romano. Teodorico, em contraste, era um rei dosgodos,
cujo povo vinha com ele desde o comes;o,nao importando quancos titulos
imperiais ele tambem tivesse. Esse povo era taomisto quanco os apoiado-
res de Odoacro; ele cenamente comportava os rugios (que rnantiveram
uma identidade atraves de casamemos endogamicos por 50 anos ap6s ~
156
Crise e cootinuidade
conquisca da Italia por Teodorico), os gepidas, os hunos e, sem duvida,
homens de ascendencia romana rambem, e, ap6s a conquista de Teodori-
co, cambem absorveria codos ou ao menos a maior parte dos seguidores de
Odoacro. Porem, ele estava ligado a um chefe e tinha um nome, "godo" -
ostrogodo em nossa terminologia. Esse nome caracterizaria o povo como
um codo, nao importando sua origem, e tambem o reinado de Teodorico.
Foram povos como esse, heterogeneos, mas - um aspecto essencial - uni-
dos por um t'.micochefe, que assumirarn as provincias ocidentais e: de fato,
as renomearam: a Galia passou a scr o Regnum Francorum, e a Africa, o
Regnum Vandalorum. Ao permanecerem afrence dessas terras por tan.co
tempo, como ocorreu com os francos e os visigodos, diferentemente dos
vandalos e ostrogodos, eles tenderam a esquecer suas origens diferentes e
"se cornaram" francos ou godos - e tambem, crucialmente, nao rornanos.
.E
esse o processo que foi charnado de "etnogenese" por Herwig
Wolfram e sua escola:42 o reconhecimento de que identidades etnicas sao
Bexiveis,maleiveis, "construs;6es situacionais"; o mesmo "barbaro", na Ita-
lia do seculo VI, podia ser rugio, ostrogodo e acemesmo romano (mas isso
someme a partir da reconquista rornano-oriencal). Tais povos teriam ad-
quirido diferentes identidades sucessivamente (ou comemporaneamente),
e essas ceriam uazido diferenres modos de comportamento e lealdades, e
ate, eventualmence, diferences mem6rias. Como Walter Pohl propos recen-
cemente, o "nucleo de tradis;6es" que fazia alguem ostrogodo ou visigodo
era, provavdmente, uma rede de crens;as contrad it6rias e mucaveis; nao
parece ter havido um conjunco estivel de tradi<;6esem cada grupo quan-
do cruzaram a fronteira para prestar urn servi<;odescondnuo no exercito
romano, ate se tornarem um assemamenco em uma provincia romana.
Em 650, codo reino "barbaro" tinha suas pr6prias tradis;oes, algurnas de-
las rernetendo-se a um passado secular, cradi<;6esessas que, sem duvida,
nessa epoca, eram elemencos centrais dos mitos fundadores de muitos de
seus habitantes; da mesma forma que os mitos fundadores nao precisam
ser verdade, tambem nao precisam ser amigos. Cada um dos reinos "ro-
mano-germanicos" tinha uma bricolagem de crens;ase identidades com
raizes muito variaveis,e essas,repico,poderiam mudar e ser reconfiguradas
em cada gera~ao para se adequar as novas necessidades. Os historiadores
tendem a dar mais atens;ao ao relaco de que o avo de Clovis era filho de
um monstro marinho, um quinotauro, do que ao relato de que os francos
157
---~ - --- - ~- - --- - .
0 legadt.ide Roma: lluminando a idade das trevas, 400-1000
cram descendemes dos troianos, o que parece ser mais "literirio", menos
"aurentico"; mas o registro mais amigo de cada uma dessas tradi<j'.6es
apa-
rece na mesma fome do seculo VII, e seria dificil dizer qual delas era mais
acreditada - ou mais amiga - do que a ourra.43
De tudo isso,conclui-se que as idemidades p6s-romanas eram uma
mismra complexa e tinharn urna variedade de origens: romana, "birba-
ra",biblica; e eram, tambem, orais e literirias. 0 que elasprecisavam fazer
era menos localizar um grupo etnico no passado, do que o distinguir de
seusvizinhos comernporaneos. Isso significa que perguntar o que era nao
romano OU "barbaro", em rela<j'.aO
aos novos grupos etnicos, e, em parte, a
perguma errada; o arianismo, por exemplo, era uma heresia bem romana,
porem, por volta de 500, para a maioria das pessoas, de havia se tornado
um indicador etnico a designar godos ou vandalos. A pr6pria lingua g6-
tica era, no ano 500, em grande parre uma tradi<j'.fo
liturgica, mais asso-
ciada com o amigo arianismo romano do que com uma "goticidade"• em
sentido etnico; muitos godos falavam apenas latim, sem que sua "gotici-
dade" fosse afetada positiva ou negacivamente. Na verdade, ao comd.rio
dos seculos XX e XXI, a lingua nao era, are onde podemos observar, um
marcador emico forte em nenhum lugar nesse periodo. Muitos francos,
em 600, por exemplo, ainda falavam franco (uma versa.ado que hoje cha-
mamos de amigo alto-alemao), mas provavelmente nem codos, e muitos
com certeza eram bilingues. Gregorio de Tours, o mais prolifico escriror
do seculo VI, na Gilia, que era um monoglota falame de lacim, nunca di
o menor indkio de que tivesse alguma dificuldade de se comunicar corn
qualquer pessoa nos reinos francos. Na verdade, nem ele nem qualquer
outra pessoa, no mundo franco, ate o seculo IX, dizem qualquer coisa a
respeito de dificuldades de comunica<j'.ao
entre falantes de latim e franco;
pode ter acontecido, mas nao era um problema para a "franquicidade". 44
Isso nao significa que os grupos "barbaros" nao trouxeram nada
de suas culmras anteriores para o Imperio. Hi roda uma nova historio-
grafia que discure a germanidade das primeiras praticas sociais medievais:
• Wickham emprega um neologismo para traduzir a ideia de uma identidade etnica
para os godos e, a seguir, os francos. Utilizamos o termo "goticidade" para craduzir
Gothic-ness, "franquicidade" para Frankishness e "germanidade", mais conhecido,
para traduzir German-ness. (N. da T.)
158
Crise e continuidade
como os grandes clas, as faidas, os sequitos pessoais, o consumo de came,
cercosconceitos de propriedade ou cerros tipos de broche ou fivela. Quase
mdo isso e falso, se vista como sinal de uma identidade inata, como se os
francos de 700 fossem os mesmos francos de 350. Algumas dessas marcas
tambem sao imprecisas: grande parte das primitivas leis de propriedade
medievais tinha antecedences romanos impeciveis, ou ao menos para-
lelos bem pr6ximos; de modo semelhame, a mecalurgia "germanica" as
vezes tern antecedences romanos, e, mesmo quando isso nao ocorre, nao
nos fornece qualquer guia para as idemidades emicas de quern as usava.
Mas seria igualmeme contraproduceme descartar tudo isso de uma vez
s6, e apresencar os novos grupos ecnicos simplesmente como variances da
pr6pria sociedade romana. Uma enfase no consumo de carnes pela aris-
tocracia, por exemplo, parece ter sido genuinamence uma inovaao dos
(encreoutros) francos; isso nao era pane da culinaria. romana, para a qual
o status era cransmitido pela complexidade e pelo cusro dos ingredientes,
mas aparece pela primeira vez em um cratado sabre dieta escrito para o rei
franco Teodorico I (511-533)por urn medico de origens gregas chamado
Ancimo, e continuou ao longo da Idade Media. 45
Uma inova<j'.ao
parricularrnente importance foi a assembleiapubli-
ca, areuniao formal dos membros masculinos adulros de uma comunidade
policica, para deliberar e decidir sabre a<j'.6es
politicas e guerra, e, cada vez
mais, para criar leise arbicrar disputas. 46
Os romanos organizavam muitas
cerim6nias publicas de larga escala, como vimos no capirulo 2, mas, nos
reinos p6s-romanos, as assembleias tinham um significado mais amplo, na
medida em que representavam o prindpio de que o rei cinha um relacio-
namento direro com todos os francos ou lombardos ou burgundios livres;
essasassembleias derivam dos valores das comunidades tribais do periodo
imperial, mas continuaram de maneira bem diferente no mundo p6s-ro-
mano. Podemos, assim, tra<j'.ar
um continua de pratica politica que liga os
francos e os lombardos, nao com Roma, neste caso, mas com os povos me-
nos romanizados ou nao romanizados do norte alto-medieval; as assem-
bleias denominadas placitum pelos francos ou lombardos, ou conventus,
pelos burgundios, tern paralelos com agemot anglo-saxa, a thing escandi-
nava ea oenachirlandesa. Essas assembleias nao eram realmente para codas
os homens livres, o tradicional kingdom-at-arms da mitologia romantica,
mas, apesar disso, podiam ser grandes enconcros, cujo poder de legitimar
159
O legado de Roma: lluminando a idade das trevas, 400- iooo
as a<j:6es
politicas ou judiciais derivava,precisamente, do facode que muitas
pessoas participavam delas. De 500 a 1000, e algumas vezes mais carde,
as politicas publicas do Ocideme eram sustentadas pela participa(j'.aodi-
reta de grande parte da sociedade livre e masculina. Isso sc somou a uma
suposi<j:iO
de que uma grande parte dos livres tinha obriga<j:6es
militares,
o que era, principa1mente, um produto de condic;:oespos-romanas, como
veremos em mais deta1hes adiante. Mas o elo encre o compromisso militar
e as politicas de assembleia deveria ja cerfeito senrido para os exercicoset-
nicos do seculo V; a generalizac;:aoda imagem da assembleia em cada reino
romano-germanico (mesmo no akamenre romanizado escado visigotico)
por si so nos permite presumi-lo.
Nao obstante essas novas caracteri.sticas, os chefes "barbaros"
adaptavam-se cada vez mais ao mundo romano, a medida que o seculo V
avanc;:ava
e que as elites romanas se adequavam as novas siruac;:oes
politi-
cas. Eimpressionante como essas elites romanas podiam criar seus novos
governances em seus escricos;quase todo novo grupo etnico no poder teve
seu apologista, que escavapreparado para descrever os reis "barbaros" em
termos ressonantemence romanos, como a famosa prosa panegirica de
Sidonio sobre o rei visigodo Teodorico II, que enfatizava a seriedade do
rei, sua acessibilidade aos embaixadores epeticionarios (eseusjogos de ta-
buleiro) e diminuia o arianismo dele.47Nunca houve um grande numero
de invasores "birbaros" em nenhuma provincia; codas as estimativas sao
conjecturais, porem os historiadores geralmence propoem ate 100 mil para
grandes grupos dominantes, como os ostrogodos ou os vandalos, e cerca
de 20 mil-25 mil para os homens adultos que compunham seus cxercitos,
em provincias cuja popula<j:aoestava na casa dos milhoes. Juntando a B.e-
xibilidade ecnica de cantos agenres desse periodo, as imagens de romani-
zac;:ao
em muicos de nossos texcos e o pequeno impacto demografico dos
invasores - 1 em 10? 1 em 20? 1 em 50? -, e facil imaginar que eles nao
civeram nenhum impacto, qualquer que fosse, nas praticas sociais de cada
provincia. No entanto, seseguirmos por essalinha muito sistematicamence,
correremos o risco de acabar com a possibilidade de mudanc;:as.E mudan-
<j'.aS,
no seculo V, certamente ocorreram.
Ora, essa mudan'ra nao se deve muito as diferenc;:asculturais. As
regioes que experimencaram situa<j:6es
pessimas de seguran<j:a,descritas
anteriormence em relac;:ao
ao Noricum, teriam visto um colapso social sig-
160
Crise e continuidade
nificativo mesmo que nenhum "barbaro" tivesse se estabelecido ali. Mas,
nas provfncias conquistadas, a maioria no Ocidente, a mudan'ra derivou
principalmente da posi<j:ao
estrutural de cada grupo "barbaro". Como ob-
servado anteriormente, os exercitos "barbaros" que tomaram essas pro-
vincias cinham objetivos diferentes daqueles dos exercitos romanos que
haviam tornado o poder para seus generais nos seculos anteriores. Eles
queriam assencar-sede volta nas terras, como seus ancestrais tinham feito
antes que a gerac;:aode movimento intermitente e conquista comec;:asse.
Seus chefes, e provavelmente uma boa parte dos godos, vandalos e francos
de status mediano, tambem pretendiam ser uma classe governance, assim
como os ricos ariscocratas romanos em cada uma das provfncias que ocu-
pavam. Para cumprir esse objetivo, em si bascante romano, eles predsa-
vam de propriedades, e, como conquistadores, escavam em uma boa posi-
c;:ao
para obce-las. Embora os detalhes exatos dos assencamencos de terra
de cada grupo "barbaro" sejam obscuros e muiro debatidos (realmente
elesdevem ter sido muico variaveis),por volta de 500, e claro que os godos
e outros aristocratas "barbaros" possuiam extensas propriedades, e esta-
vam bascante disposcos a estende-las ainda mais; por exemplo, as Variae
de Cassiodoro incluem varios episodios em que os ostrogodos abusaram
de sua autoridade politica e milicar e expropriaram as terras de oucros. A
partir do seculo V,houve uma tendencia constance a cada vez menos sus-
tenrar exercitos por meio da tributac;:aopublica e de OS apoiar atraves de
rendas derivadas da propriedade privada, o que era essencialmente pro-
duto desse desejo por terra que as elites conquistadoras demonstravam.
Em 476,de acordo com Procopio, ace mesmo o exercito romano da Italia
queria receber terras, e o conseguiu ao apoiar Odoacro. Procopio pode
muito bem cer exagerado; o estado ostrogocico, na Italia, certamente ain-
da utilizava da cributac;:aopara pagar o exercito, pelo menos em parte,
provavelmente mais do qualquer ouua encidade politica pos-romana fa-
zia no inicio do scculo VI. Em geral, no entanto, a guinada em dire<j:foa
terra era perrnanente. 48
Apos o fim da Italia ostrogotica, nao hanenhuma
outra referencia, no Ocidente, a exercitos remunerados, com exce'rao de
mantimentos para guarnii;oes, ate que OS arabes reintroduziram a prati-
ca, na Espanha, a partir da metade do seculo VIII; em outros reinos oci-
dencais, apenas os ocasionais destacamenros de mercenarios cram pagos,
ate bem depois do final do periodo tratado neste livro.49
Algumas dessas
161
O legado de Roma: lluminando a idade das trevas, 400-1000
cerras devem cer sido fiscais - isto e, propriedades publicas - e discribui-
das por reis; outras provavelmente foram parte de assentamemos rurais
ordinarios, nos quais propor~6es .fixasdos pacrimonios de propried.rios
romanos eram cedidas aos "barbaros", possivelmeme para substituir os
impastos; e outras ainda (como na Africa vandala) podem cer sido sim-
plesmeme tomadas aforp, De qualquer forma, uma mudanp em dire-
<j:foa um exercico com cerras, e, porcamo, a uma politica de terras, co-
me<j:0U
aqui; ao mesmo tempo, houve uma mudan'ra em dire'rao a uma
idemidade ernica "barbara" por pane dos donas de terra, independente-
mente de suas origens.
Os maiores reinos p6s-romanos ainda cobravam impastos nose-
culo VII. Mas, se o exercito cinha cerras, o principal gasto do orpmenco
romano nao existia mais. A cidade de Roma, uma importance despesa,
era abastecida apenas pela Italia, ap6s 439, e perdeu a popula<j:iiorapi-
damente, como vimos. As administra~6es central e local dos escados
p6s-romanos talvez tenham sido pagas por mais tempo, mas, na maio-
ria deles, a administra'rao rapidamente se cornou menor e mais barata.
Os impastos ainda enriqueciam os reis, e sua generosidade aumencava
o poder de atra<j::fo
das cortes regias. Mas isso somence por volta de 550.
Essas taxas sao sempre impopulares, e coleca-las demanda trabalho; se
nao forem essenciais, esse crabalho tende a ser negligenciado. Assim,
nao e surpreendente que existarn crescentes sinais de quc des nao eram
assiduamence coletados. Na antiga Africa vandala, ap6s 534, os recon-
quiscadores romanos tiveram de reorganizar a administra<j:ao dos tribu-
tos para coma-la eficiente de novo, para grande desgosw da popula<j:ao
local; na Galia franca dos anos 580, os registros de coleta nao estavam
mais sendo sistematicamente atualizados, e as taxas de impasto devem
ter sido de aproximadamente um ter'ro em compara<j:a.O
com as do pe-
riodo imperial. Os impastos, por assim dizer, nao cram mais a base do
estado. Para os reis, assim como para os exerciros, a posse de terras era a
maior fonce de riqueza dali cm diante.
Essa foi uma mudan~a crucial. Escados que arrecadam impastos
sao bem mais ricos do que a maioria dos estados baseados em terras, pois
os impastos sabre propriedade sao geralmeme colecados de muico mais
pessoas alem dos que pagam aluguel a um senhor pelo uso de sua rerra
publica. Provavelmente apenas os reis francos, no auge de seu poder, ist~
162
Crise e continuidade
e, entre 540 e 770, poderiam se igualar, em riqueza, aos estados do Me-
diterraneo Oriental, o Imperio Bizantino e o califado arabe, que ainda
mantinham as tradi<j:6esromanas de tributa<j:fo.Alem disso, os estados
arrecadadores rem muito mais concrole geral sabre seus territ6rios, em
parte devido aconstance presen<j:a
de fiscais e coletores de impastos, em
parte porque seus dependences (funcionarios e soldados) sao assalariados.
Os governances podem parar de pagar salarios e, por conseguinte, con-
seguem cer maior controle sabre sens funcionarios. Mas se os exercitos
dependem da posse de terras, eles se tornam mais dificeis de controlar.
Os generais podem vir a ser desleais, caso nao recebam mais terras, o que
reduz a quantidade de terras de gue o governance disp6e; e, se des forem
desleais, conseguem manter o controle de suas terras, a menos que sejam
expulsos afor<j:a,
o que e uma tarefa dificil. Os estados cuja base ea pro-
priedade de terra correm o risco de se fragmentarem, de faro, pois seus ter-
rit6rios perifericos sao difkeis de dominar totalmente epodem separar-se
por compleco. Issa nao seria comum ate pelo menos o final do seculo IX,
no Ocidence. Muitas coisas teriam de rnudar antes disso, como veremos
nos pr6ximos capitulos. Mas isso acabou ocorrendo no final, sobretudo
nas vastas terras governadas pelos francos.
A transi<j:a.O
da taxa<j:ao
para a distribuic;:aode terras, coma base do
estado, no Ocidence, foi o sinal mais claro de que os reinos p6s-roman~s
nao conseguiriam recriar o Imperio Romano em miniatura, par mais que
seus governances tivessem gostado da ideia. No geral, essesreinos tambem
nao alcan'ravam o Imperio em sua complexidade economica. A arqueolo-
gia aponta uma constance simpli.fica'raoda estrutura ecor:omica na maior
parte do Ocidente, por volta de 550.50
Nessa epoca, as ricas habita<j:6es
ur-
banas e rurais (villae)tinham sido em geral abandonadas, ou subdivididas
em casas menores; a produc;:aoartesanal era geralmente de menor escala,
e alguma vezes menos habilidosa (isso e particularrnente claro no caso da
produ<j:fode ceramicas, sempre nosso melhor indicador arqueol6gico para
aprofissionaliza~ao artesanal); os produtos eram bem menos trocados en-
ereas provincias do amigo lmperio, e dentro dessas provincias - os novas
reinos - o alcance da distribui<j:a.o
de produtos artesanais era, em geral, bem
reduzido. O ritmo dessas mudan'ras variou bastante de lugar para lugar, e
nem codas ocorreram em codas os lugares. No none da Galia, as cidades
diminuiram de camanho e as villaeforam abandonadas, em 450, mas os
163
0 legado de Roma: lhuninan<lo a idade das trevas, 400- 1ooo
padroes de produc;ao e disrribuic;ao decafram bem menos (aeconomia da
Galia Nortenha tinha, havia muito tempo, se separado dado Mediterra-
neo) e se encontravam estabilizados por volta do seculo VI. Na Espanha,
o interior viu uma simplificac;ao dos padroes de distribuic;ao e um aban-
dono parcial das villae, a partir do final do seculo V, enquanto a costa do
Mediterraneo assistiu a menos mudan~as ate depois de 550.Na Italia e na
Galia Merid ional, o mcio do VI seculo foi o peri'.odode maiores mudanc;as,
mas a pequena produc;ao artesanal especializada sobreviveu, bem como as
cidades. Na Africa, grande regiao exporcadora no Ocidente romano tar-
dio, poucas mudanc;as internas sao visiveis ate aproximadamenre o ano
500, epode-se acompanhar a sobrevivencia de importantes elemenros das
estruturas econ6micas romanas ate pelo menos 600, apesar de haver uma
queda continua nas exportac;oes africanas encontradas em outras partes
do Mediterraneo tao cedo quanto 450.
Essas diferenc;asregionais - que poderiam vir a crescer, pois nos-
sas informa~oes estao ficando mais detalhadas o tempo coda, na medida
em que as escavac;oesarqueol6gicas ciendficas se tornam mais comuns em
cada pais - sao indicadores dos diferentes impactos que as invas6es e os
dcslocamentos populacionais de 400-550 tiveram em cada pane do Im-
perio . Foram maiores do que se costwna esperar no interior da Espanha,
e menores no norce da Galia franca e na Africa vandala. Tais diferen~as
tambem moscram que as aristocracias dos novos reinos nao se equipara-
vam ariqueza de seuspred ecessores ou ancestra is,precisamente porq ue era
mais dificil possuir propriedades em terras distantes agora que o Imperio
se dividira (a super-rica elite senatorial de Roma, em particular, deixara
de existir), mas esse empobrecimenro tambem era muito variavel, e verda-
de, em tennos regionais. Venda globalmente, encretanto, essas mudan~as
mostram que os reinos p6s-romanos do Ocidente foram incapazes de arin-
gir a intensidade de circulac;ao e a escala da produc;ao do antigo Imperio
Romano. 0 Oriente era bem diferente nesse aspecto; no inicio do seculo
VI, as cidades, as industrias e a troca de produtos estavam atingindo seu
auge, e continuaram nesse nivel ate o inkio do seculo VII. Maso Imperio
sobreviveu no Orienre. Essacorrelac;-ao
e exata: a complexidade economica
dependia da unida de imperial, em ambos os lmperios, Oriental e Ociden -
tal. As implicac;oes que essas mudanc;as tiveram para as sociedades locais
no Ocidence serao discutidas no capiculo 8. ·
164
• Crise e continuidade
A existencia de elites "barbaras" em cada um desses reinos p6s-
-romanos teve um impacto na cultura das elites romanas tambem: nao
porque os recem-chegados fossem culturalmeme distinros - como acaba-
mos de ver, na maior pa rte dos casos, eles nao eram -, mas porque eram
militares. 0 estrato ariscocd.tico do Imperio Romano tinha sido civil,
em sua maioria, como vimos no capiculo 1.Isso ja nao era tao comum no
mundo de Aecio; Eparquio Avito, por exemplo, oriundo de uma grande
familia senatorial gaulesa, tinha sido um dos generais de Aecio antes de
ele se tornar imperador, e podia ser descrico em termos bem marciais por
seu genro Sid6nio.s1
Mas, nos reinos p6s-romanos, a estrutura de carrei-
ra secular tornou-se conrinuamente mais militarizada, e mais e mais os
romanos ambiciosos encontraram espac;-o
nos sequitos e exercitos regios,
lado a lado com as pr6prias elites "barbaras", em vez de se manrerem na
decadence administrac;ao civil. 0 pr6prio Sidonia nunca fez isso, mas
seu filho Apolinario lutou pelos visigodos em Vouille, e Arcadio, filho
de Apolinario, era um apoiador de Childeberto I dos francos. 0 lugar
onde os valores da ariscocracia civil sobreviveram por mais tempo foi na
pr6pria Roma, pois a hierarquia senatorial la era parcia lmente separa-
da do servic;oestatal, mas, mesmo na Italia, os senadores podiam fazer
a opc;ao militar: Cipriano, inimigo de Boccio, que teve uma carreira
parcialmente militar, criou seus filhos para serem soldados e ate mesmo
para falarem o g6cico.
Essas tendencias persistiram; todas as hierarquias aristocra-
ticas secu lares se tornaram militares. A trnica alternativa era a Igreja.
Como ja mencionamos, os aristocratas tornaram-se bispos, primeira-
mente na Galia, pela mecade do seculo V; na Italia, isso era menos co-
mum ate a Guerra G6tica, mas normalizou-se ap6s esse evento. Essa
opc;ao eclesiastica moscra a crescente riqueza da lgreja, canto que valia
a pena para uma familia da elite buscar dominar o oficio episcopal e,
assim, as terras da lgreja, em uma dada diocese. Isso tambem mostra a
crescente localizac;ao das ac;oespoliticas, pois o poder episcopal estava
concentrado, acima de cudo, dentro da diocese, com excec;aodos bispos
mais ricos e influentes; a Igreja se cornou ainda mais descencralizada no
Ocidente p6s-im perial. Ser um bispo era, algumas vezes, uma opc;ao de
aposentadoria (como no caso de Sidonio e de seu filho Apolinario, em
Clermont), mas cada vez mais se tornava uma opc;-aode carreira, com
165
0 legado de Roma: lluminando a idade das trevas, 400-1000
uma forma~ao especificamente clerical: as vezes para os filhos mais
jovens, mas, outras vezes, para familias inteiras. 52
A extensa famflia de
Gregorio de Tours, na Galia Central, no seculo VI, incluia sere bispos
em quarro gera~oes, e apenas uma figura militar, o dux Gundulfo.
0 maior resultado dessas tendencias foi que a cultura de elite
secular do lmperio Romano perdeu seu papel como indicador de status.
lsso explica por que provavelmente as villaerurais foram abandonadas:
como simbolo de conforto e de luxo, elas estavam fora de moda em urna
sociedade mais milirarizada. 0 consumo de carne foi introduzido nesse
concexto. A vestimenta das elites tambem mudou; reis e aristocratas da
Alta Idade Media vestiam-se como os generais romanos tardios, e nao
como os amigos senadores e a sua toga tradicional.5 3
Porem, acima de
tudo, deixou de ser importante saber de cor Virgilio e outros dassicos
seculares ou ser capaz de escrever poesia e prosa elaboradas, coisa que
Sidonia ainda considerava essencial: o manejo da espada, ou da Biblia,
era fonte bem mais relevante de capital cultural. Como resuhado, nos-
sas fames escritas mudam dramaticamente, cornando-se muito mais li-
gadas a temas cristaos, hagiografias, sermoes, lirnrgia (como aconteceu
tambem em Bizancio). Nao e que todas as formas de instru~ao literaria
desapareceram; mesmo no Ocidente, as aristocracias eram geralmente
capazes de ler, ate o final do seculo IX. Mas devcmos, de qualquer ma-
neira, nos manter neutros em rela~ao a caismudan~as. Como enfacizado
no capitulo 1, e muito mais importante reconhecer que uma educa~ao
complexa existia, acima de tudo, para demonstrar que as elites romanas
eram especiais, mas, como agora a identidade das elites estava mudando,
ela naoera mais necessaria.
Essas mudan~as usualmente ocorriam de maneira lenta: afinal,
150anos e um longo tempo (apenas na Italia as mudan~as foram real-
mente rapidas, sobretudo como resulrado da Guerra G6tica, nos anos
540).As pessoas geralmence nao estavam ciences delas; ajustavam-se fa-
cilmente a cada pequena mudan~a. Nao ede modo algum claro ate que
ponto a maioria dos escritores ocidentais viu o mundo romano como algo
acabado, no periodo ate 550,ou ate mesmo mais tarde. Os escrirores ra-
ramente demonsuavam alguma nostalgia do passado, e, apesar de serem
certamente capazes de reclamar sabre quao cerriveiseram os costumes de
seu presente, essa e uma caracreristica dos conservadores de cada gera~ao.
166
• Crise e continuidade
Em rodo caso, a medida que a escrita se rornava mais edesiastica, ela tam-
bem ficava mais socialmente critica, mais moralizante; mas isso era um
produto do genera, nao necessariamente uma mudan~a social, sejaperce-
bida ou real. As aristocracias tradicionais romanas, auroras da maioria de
nossas fontes, ainda estavam em vigor na maior parte do Ocidente; elas
existiam ao lado de familias mais recentes, que ascendiam na Igreja ou no
exercito, e, e claro, das novas elites "barbaras", mas esses ultimas grupos
ainda estavam copiando a cultura aristocratica romana. Ainda assim, ate
rnesmo cssa cultura estava mudando. E as arisrocracias estavam tornan-
do-se cada vez rnais localizadas, distanciando-se umas das outras. No
final- porvoltade 650,em todos os reinos p6s-romanos -, elasdeixariam
de pensar em simesmas como romanas, mas antes como francas, visig6ticas
ou lombardas. Os "romanos", nesse momenta, restringiam-se ao lmperio
Oriental, as por~oes nao lombardas da Italia (sobretudo a pr6pria Roma),
e a Aquitania - a antiga parte visig6rica da Galia, onde OS francos assen-
caram-se em menor quantidade. Nessa epoca, inclusive, os romanos eram
vistas coma coisa do passado; porem, levou todo esse tempo para que as
pessoas reconhecessem que o Imperio tinha desaparecido no Ocidente.
54
Por que o lmperio Romano desapareceu no Ocideute, mas nao
no Orieme, eum problema que tern deixado perplexos os estudiosos ao
longo de seculos, e continuara a deixa-los. Isso nao me parece refletir as
diferen~as sociais entre Oriente e Ocidente, ou a divisao do Imperio. Pso-
vavelmente, derivou, em parte, da maior exposiliao das areas centrais do
Ocidente - Italia e, especialmeme, o centro e o sul da Galia - as invasoes
de fronteira; ataques nos Ba.leas,no Oriente, raramente ultrapassavam
Constantinopla adentrando o resto do Imperio, mas ataques nas regi6es
militares ocidentais, norte da Galia e as provincias do Danubio, podiam
ir longe bem mais facilmente. Aceitar grupos invasores no Imperio Oci-
dental e escabelece-los como federados era uma resposta perfeitamente
sensata a situa~ao, desde que essas areas federadas nao se tornassem cao
indisciplinadas a ponto de os exercitos romanos terem de ser mobilizados
para enfrenta-las, ou tao grandes que arnea~assem a base fiscal do lmperio
e assim os recursos para os pr6prios exercitos regulares. Entrecanto, infe-
lizmente para o Ocidence, isso acontcceu. Os visigodos, em 418,podiam
ser um apoio para o lmperio, porem, 50 anos depois, eram inimigos dele.
Como diro anteriormente, a conquista do cemro cerealista africano pelos
167
I ,
I
O legado de Roma: Iluminando a idade das Lrevas, 400-1 ooo
vandalos, em 439, coisa que os romanos erroneamente nao previram e a
qual nao opuseram resistencia, parece-me ser o ponto crucial, o momenco
ap6s o qual esses potenciais aliados podiam transformar-se em perigos.
Os recursos do exercito diminuiram demais ap6s isso; o equilibrio do po-
der mudou. Por volta de 476, mesmo o exercito romano da Italia deve ter
corne<;adoa pensar que a posse de terras era desejavel. E, nao menos im-
ponante, as elites locais cornepram a lidar com os poderes "barbaros" e1n
vez de com o governo imperial, que era, agora, muito distance e cada vez
mais irrdevante; aprovincializa<;aoda politica rnarcou a senten<;ade morte
para o Imperio Ocidental. No Oriente, o controle imperial sabre a outra
grande fonte de graos, o vale do Nilo, no Egito, nunca foi amea<;adonesse
pedodo, e a estrutura logistica do Imperio permaneceu intocada, coma
consequencia. Quando os persas e depois os arabes retiraram do controle
romano o Egito e tambern oLevante, ap6s 618,o Oriente tambem sofreria
uma enonne erapida crise. 0 Imperio Romano Oriental (que chamaremos
de agora em diante de Imperio Bizantino) sobreviveu, mas foi por pouco,
nao sern ances cersido consideravelrnente transforrnado. 55
Notas
Anarrariv; geral mais completa sobre essepedodo ainda ea Histoire du Bas-Empire,
2 vols. (Paris, 1949-1959),de E. Stein; narrarivas analiticas arualizadas (e muiro
distintas) sobre o Ocideme agora estao em TheFall of the Roman Empire (London,
2005), de P. Heareher; e Barbarian .Nligrations and the Roman West, 376-568
(Cambridge, 2007), de G. Halsall, que da arenr;:aoaculrura material. CAH, vol.
14, lhe Cambridge Companion to the Age ofJustinian (Cambridge 2005), de M.
Maas (ed.), e TheMediterranean World in Late Antiquity AD 365-600 (London,
1993),de A. Cameron, sao incrodm;:oesdeponca, assim como TheRoman Empire
and its Germanic Peoples(Berkley, 1997), de H. Wolfram. Sobre a inregm;ao dos
"barbaros" no mundo romano, a serie "Transformation of the Roman World",
publicada pela Brill, eagora um pomo de parrida cssencial, incluindo Kingdoms of
the Empire (Leiden, 1997), de W. Pohl (ed.), e Regna and Gentes (Leiden, 2003),
de H.-W.Goetz et al. (ed.). The Fall ofRome and the End of Civilization (Oxford,
2005),de B.Ward-Perkins, r!:um poderoso golpe contra o excessivocominuismo. Os
esmdiosos discordam, muitas vezes ferozmente, sobre os assuntos discutidos nesse
capitulo, e provavdmente continuarao a discordar por algum tempo.
l Victor de Vita, History of the Vandal Persecution, trad. J.Moorhead (Liverpool,
1992),2.38-40; 3.2-14 (cita<;:oes
de 3.3.3, 7); sobre 411,Actes de la Conference de
168
Crise e continuidade
Carthage en 411, ed. S.Lance!, 3 vols. (Paris, 1972-1975);e CTh, 16.S.52,sobre 412
e o modelo de Hunerico.
C. Courtois, Les Vanda/es et l~frique (Paris, 1955),ea expansiva conferencia publi-
cada como I.:Antiquite tardive, vols. 10-11(2002-2003);Possidius,LifeofAugustine,
crad. R. J.Deferrari, Early Christian Biographies (Washingron, 1952),pp. 73-131,
cap. 28-30; Prokopios, Wars, ed. e trad. H.B. Dewing (Cambridge, Massachusetts,
1914-1928),4.6.S-9.Sobre a Africa no perfodo, cf. A.H. Merrills (ed.), Vandals
Romans and Berbers (Aldershot, 2004).
4 J.Durliat, De la ville antique ala ville byzantine (Roma, 1990), pp. 92-123.
B. Croke, "A.D. 476: The Manufacture of a Turning Point", Chiron, 13 (1983),
pp. 81-119.
6 J.R. Marrhews. Western Aristocracies and Imperial Court AD 364-425 (Oxford,
1975);H. Wolfram, History oft he Goths (Berkdey, 1988),pp. 139-175;P.J.Heath-
er, Goths and Romans 332-489 (Oxford, 1991),pp. 193-224.
Sobrc Gainas e Eud6xia, cf.]. H. W. G. Liebeschuerz, Barbarians and Bishops (Ox-
ford, 1990). Eud6xia e Pulqueria: K. G. Hoium, TheodosianEmpresses (Berkeley,
1982);L. James, Empresses and Power in Early Byzantium (Leicester, 2001), pp.
59-82. Sobre o reinado de Teod6sio II como um todo, cf F.Millar,A GreekRoman
Empire (Berkeley,2006).
8 J.Arce,Bdrbarosy romanosenHispania, 400-507 A.D. (Madrid, 2005),efundamental.
0 melhor panorama deste assumo polemico eJ.C. Sanchez Leon, Los Bagaudae
(Jaen,1996).
10 Orosins, SevenBooks ofHistory against the Pagans,trad. R.J.Deferrari (Washington,
1964),7.41;sobre Agostinho, cf. R. A. Markus, Saeculum (Cambridge, 1970),pp.
45-71; 147-153.
11
J.Matthews, in:]. Harries & I. Wood (ed.), The Theodosian Cocle(London, 1993),
pp. 19-44.
12
J.M. O'Flyn n, Generalissimosofthe Western Roman Empire (Edmonton, 1983),pp.
74-103;mais importance eJ.R. Moss, Historia, 22 (1973),pp. 711-731.
13 Novels ofValentinian, n. 15,CTh, pp. 529-530.
14
Salvian, On the Governanceof God, trad. J.F.O'Sullivan, The Writings ofSalvian, the
Presbyter (Washington, 1947),pp. 25-232;cf. Priskos, fragmento 11.2,in: Blackley,
pp. 267-273;comparar tambem Orosius, History, 7.41.7.
15
0 material basico sabre os hunos (e sobre as politicas do seculo V em geral) eP.
Heather, "The Huns and the End of the Roman Empire in Western Europe",English
Historical Review, llO (1995),pp. 4-41.
16
Sidonius Apollinaris, Poems and Letters, ed. e trad. W. B. Anderson (Cambridge,
Massachnsetts, 1962-1965),poema 7,linhas 392-602.
17
P.MacGeorge, Late Roman Warlords (Oxford, 2002).
18
J.-O.
Tjadet, Die nichtliterarischen Lateinis1henPapyri Italiens aus der Zeit445-700
(Lund, 1955-1982),n. 10-11.
169
,I
O legado de Roma: lluminando a idade das lrevas, 400- 1000
19 o ano 476 emalfalado por muitos hiscoriadores, demre os quais o classico eA.
Momigliano, "La caduca senza rum ore di un impero nel 476 D.C.", Annali della
Scuola Normale Superiore di Pisa, seric 3, 3.2 (1973), pp. 397-418.
20 Wolfram, History of the Goths, pp. 181-222.
21 J. Harries, Sidonius Apollinaris and the Fall ~(Rome (Oxford, 1994), pp. 222-238;
cita<;:ao:
Sidonius, Letters, 8.2.2.
22 J. F. Drinkwater & H. Elton (ed.), Fifth-century Gaul (Cambridge, 1992); Mac-
George, Warlords, pp. 71-164; E. James, TheFranks (Oxford, 1988), pp. 58-91.
23
P.Van Ossel & P.Ouzoulias,Journal ofRoman Archaeology,13(2000), pp.133-160;
Sidonio, Cartas, 4.17; Vita Genovefae,ed. 8. Krusch,MGH, SRM, vol. 3 (Hanover,
1896), pp. 215-238, cap. 35-38.
24
Life ofSeverinus, trans. L. Bieler (Washington, 1965).
25
Para Zenao e Anastacio, cf.A. D. Lee, CAH, vol. 14, pp. 49-62; para os Teodoricos,
Heather, Goths and Romans, pp. 240-308.
26
J. Moorhead, Theodericin lta~y (Oxford, 1992); P.Heather,EME, 4 (1995), pp. 145-
-173; sabre a visita de 500, cf.Anonymus Valesianus,ed. e crad. emAmmianus, Res
Gestae,vol. 3, pp. 548-557; as Variae,de Cassiodoro, estao parcialmente craduzidas
em S.J. B.Barnish (Liverpool, 1992), e sumarizadas como um todo em T. Hodgkin,
TheLetters of Cassiodorus (London,1886).
27
Orosius, Historia, 7.43.2-8.
28
J. Harries, in: Drinkwater & Elton, Fifth-century Gaul, pp. 298-308; PLRE, vol.
2, pp. 157-158; 995-996; l.162-1.163; 1.168; R. Mathisen, Roman Aristocrats in
Barbarian Gaul (Austin, Texas, 1993).
29
The Chronicle ofHydatius and the Consularia Constantinopolitana, ed. e trad. R.
W. Burgess (Oxford, 1993), pp. 70-122, e Victor de Vita, History of the Vandal
Persecution, 1.37 e 3.62, sio as {micas referencias aos romanos.
30
J. N. D. Kelly,Jerome (London, 1975).
31
Sobre Justiniano, talvez o rnelhor e cercamente o mais claro dos muitos panoramas
seja ode A. Cameron, CAH, vol. 14, pp. 65-85; sobre a mudan~a na atmosfera do
pedodo, Idem, Christianity and the Rhetoric ofEmpire (Berkeley, 1991),pp. 190-
-221. Sobre o mundo de Justiniano (apesar de cratar menos do lmperio em si), cf.
Maas,Age o_(Justinian.
32
Prokopios, On Buildings, ed. e trad. H. B. Dewing (Cambridge, Massachusetts,
1940). Sobre reda~oes, cf. G. Brands, Resafa VI (Mainz, 2002), pp. 224-235.
33
A. Cameron, Procopiusand the Sixth Century (Berkeley, 1985), pp. 49-83; L. Bru-
baker, "Sex, Lies and Textuality", in: L. Brubaker & J.M. H. Smith (ed.), Gender
in the Early Medieval World (Cambridge, 2004), pp. 83-101.
34
M. Whicby, TheEmperor Maurice and his Historian (Oxford, 1988), esp. pp. 3-27;
M. Whittow, Thelvlaking of Orthodox Byzantium, 600-1025 (Basingstoke, 1996),
pp. 38-68, eefecivamenre otimisca.
35
A. Piganiol,L'Empire chretien (325-395) (Paris, 1947), p. 422.
170
Crise e continuidade
36 S.Kraucschick, ''Zwei Aspekte desJahres 476",Historia, 35 (1986),pp. 344-371; 344-
-355;a liga<;:iio
com Odoacro ,que euma grande reimerprera<;:ao
do periodo, sesusrenra
apenas na posi~ao de uma i'micavirgula e um "e" em urn ce~to, e nio eclaro s~~l~ e
melhor do que a leitura rradicional (em R. C. Blackley, Thefragmentary Classmzmg
Historians of theLater Roman Empire, vol. 2 (Liverpool, 1983),pp. 372-373).
37 P. Amory, People and Identity in Ostmgothic Italy, 489-554 (Cambridge, 1997),
pp. 277-291.
JB A. Demandt, in: E. K. Chrysos & A. Schwarcz (ed.), Das Reich und die Barbaren
(Vienna, 1985), pp. 75-86.
39 James, Empressesand Power.
4o L. Brubaker, "Memories of Helena", in: L. James (ed.), Women, Men and Eunuchs
(London, 1997), pp. 52-75; PLRE, vol. 2, pp. 635-636; R. Harrison, A Templefor
Byzantium (Austin, Texas, 1989).
41 Para O debate sobre etnicidade na Italia, ver, em geral. a critica em Amory, People,
a qual eu nao segui inteiramente. Cf. PLRE, vol. 2, pp. 791-793, sobre a carreira
de Odoacro.
42 H. Wolfram & W. Pohl (ed.), Typen der Ethnogenese, 2 vols. (Vienna, 1990); P.
J. Geary, "Ethnic Identity as a Situational Construct in the Early Middle Ages",
Mitteilungen desanthropologischen Gesellschaftin Wien, 113 (1983), PP· 15-26; W.
Pohl, in: A. Gillert (ed.), On Barbarian Identity (Turnhout, 2002), pp. 221-239,
para uma bibliografia que repensa e oferece o teor da polemica sobre o assu~co;
e, mais tecentemente, Halsall, Barbarian lvligrations. T. F.X. Noble (ed.), .From
Roman Provincestolvfedieval Kingdoms (London, 2006), reedita muiros dos oucros
arcigos fundamentais.
43 Fredegar, Chronica, ed. B. Krusch, MGH, SRM, vol. 2 (Han?ver, 1888),yp.
18-168, 2.4-6, 3.9: cf. A. C. Murray, in: Idem (ed.), After Romes Fall (Toronto,
1998), pp. 121-52.
44 Amory,People, pp. 102-108; 247-256, sobre godos; M. Banniard, Viva voce(Paris,
1992), pp. 253-286, sobre a Francia (apesar de ele escar mais preocupado com lacim
versus prom-romance).
-15 B. Effros, Creating Community with Food and Drink in Merovingian Gaul
(Basingstoke, 2002), pp. 61-67.
46 P. S. Barnwell & M. Mostert (ed.), Political Assemblies in the Earlier .Middle Ages
(Turnhout, 2003); sobre osplacita, cf.W. Davies & P.Fouracre (ed.), 1heSettlement
ofDisputes in Early Medieval Europe (Cambridge, 1986).
47 Sidonius, Letters, 1.2.
4s C. Wickham, Framing the Early Middle Ages (Oxford, 2005), pp. 80-93 para
um panorama sobre o debate; cf. mais recentemcnce W. Goffatt, Barbarian Tides
(Philadelphia, 2006), pp. 119-156, e M. Innes, Transactions ofthe Royal Historical
Society,serie 6, 16 (2006), pp. 39-74.
49 G. Halsall, Warfare and Society in the Barbarian West, 450-900 (London, 2003),
pp. 111-115.
171
O legado de Roma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000
so Wickham, Framing the Early Middle Ages (Oxford, 2005), pp. 720-759, 794-805;
Halsall, Barbarian Migrations, pp. 320-370.
si SobreAvito, Sidonius, Poems,7,linhas 251-294; sobre Apolinirio e Arcidio: Grego-
rio de Tours, Histories, trans. L. Thorpe como TheHistory efthe Franks (Harmond-
sworth, 1974), 2.37; 3.9; 12; 18; sobre Cipriano, Cassiodorus, Variae,8.21-2.
52 Mathisen, Roman.Aristocrats, pp. 89-104; R. Van Dam,Leadership and Community
in Late Antique Gaul (Berkeley, 1985), pp. 157-229; M. Heinzelmann, Gregoryof
Tours (Cambridge, 2001), pp. 7-28, sobre a famil ia de Gregorio.
5-' W. Pohl, "Telling the Difference~, in: W. Pohl & H. Reimitz (ed.), Strategies of
Distinction (Leiden, 1998), pp. 17-69, em pp. 40-51; M. Harlow, "Clothes Makerh
the Man", in: Brubaker & Smith, Gender, pp. 44-69.
54 J.M. H. Smith,Europe after Rome (Oxford, 2005), pp. 253-292.
55
Para as mudanc;:asem rela~ao as elites locais, cf.,por exemplo, Heather, "Huns",
pp. 37-39.
172
Parte II
0 OCIDENTE POS-ROMANO, 550-750

O_legado_de_Roma_Iluminando_a_idade_das-51-89.pdf

  • 1.
    O legado deRoma: Tluminando a idade das trevas, 400- 1000 56 P. Heather & J.Matthews, The Goths in the Fourth Century (Liverpool, 1991),pp. 102-110; 124-185. 57 Minhas vis6es sao compadvcis com, entre outros, G. Halsall, in: J.F. Drinkwater & H. Elton (ed.), Fifthcentury Gaul (Cambridge, 1992), pp. 196-207; B. Effros, Merovingian Mortuary Archaeology and the Making of the Middle Ages (Berkeley, 2003), pp. 100-110. 58 L. Hedeager, Iron-Age Societies (Oxford, 1992),pp. 45-51. 59 C.R. Whittaker,.Frontiers of the Roman Empire (Baltimore, 1994). Contra a antiga ideia de que o exercito imperial tardio era mais "barbarizado" do que antes: H. Elton, Warfare in Roman Europe, AD 350-425 (Oxford, 1996), pp.134-154. 60 Ammianus, Res Gestae, 15.5;para Firmo, cf. Ammianus, Res Gestae, 29.5.39. 61 Ammianus, Res Gestae, 31.2; para a entrada g6tica, 31passim - cf. P.J.Heather, Goths and Romans 332-489 (Oxford, 1991),pp. 122ff; e H. Wolfram, History of the Goths (Berkeley, 1988),pp. 117ff. 96 2 CULTURA E CREN<;A NO MUNDO CRIST.AO ROMANO 1 No final da decada de 460, como Sidonio Apolinario rclatou a um amigo, os bispos de Lyon e Autun tinham a rarefa de escolher e consagrar o novo bispo de Chalon-sur-Saone. Havia tres candidatos, anonimos: ~m reivindicava o cargo porque sua fam.iliaera antiga, outro porque tinha for- necido apoio acidade, alimentando pessoas, e o ultimo prometia terras da Igrejapara os apoiadores. Os bispos, por sua vez,escolheram o santo clerigo Joao, que lentamente havia subido na hierarquia da Igreja local, confun- dindo, assim, as facy6es do lugar. 0 proprio Sidonio ainda nao era o bispo de Clermont; quando assumiu o cargo, uma de suas primeiras carefas foi realizar uma eleiy:i.osemelhante em Bourges, em 470. Aqui, embora hou- vesse, novamente, numerosos candidatos, muitos dos cidadaos queriam Simplicio, um notavel local provenience de uma familia senarorial. Sidonio, inicialmente cauteloso na escolha, comeyou a simpacizar com Simplkio, e conservou o discurso que proferira diante dos cidad:i.ossobre tal mareria, o qual dizia (resumidamence), parafraseando: Se eu escolher um monge, v6s direis que ele e muito alheio a este mundo; se eu escolher um clerigo, muitos vao pensar que eu deveria escolher apenas com 97
  • 2.
    O legado deRoma: Iluminando a idade <lastrevas, 4 00-10 0 0 base na ancianidade [como, de faro, havia acontecido em Chalon]; se eu esco- 1her um funcionario leigo, v6s dircis que eu escolhi alguem como eu. Porem, eu tenho que fazer uma escolha; muitos de v6s podem ser episcopales,dignos de ser bispo, mas nem todos dentre v6s podem se-lo. Logo, eu escolho Simpli- cio, um leigo, mas cuja familia erepleca camo de bispos quanto de prefeirns - assirn como a sua esposa - e que tern defendido os interesses da cidade pe- rante os chefes romanos e "barbaros". Portanto, Sidonio, de fato, escolheu, nessa segunda elei<;ao,al- guem como ele, um aristocraca local, secular e casado. 2 0 ofkio de bis- po, na Galia, estava tornando-se um cornponente-padrao no progresso da carreira secular dos nocaveis da cidade, assim como o sacerd6cio pa- gao tinha sido antes; a hierarquia tradicional do mundo romano tinha efetivamente absorvido as novas estrucuras de poder do cristianismo. Conrndo, nao foi universalmente assim; o pr6prio apoio emusiastico de Sidonio para a elei<;iode Joao de Chalan, a despeito dos nocaveis lo- cais, mostra que, por vezes, continuava sendo possivel ucilizar cricerios diferentes dos de riqueza e nascimento para a entrada na hierarquia da Igreja. 0 cristianismo foi substancialmeme absorvido pelos valores tra- dicionais romanos, mas nunca de maneira plena. Um exemplo um pouco rnais combativo da mesma questao e Si- nesio de Cirene, que foi recomendado corno bispo da vizinha Ptolemais, em 411, a Teofilo, patriarca de Alexandria. Sinesio era oucro notavel se- cular local, coma Sidonio e Simplicio; ele representava a Cirenaica em Constantinopla, buscando, com exito, redu(j'.6esfiscais para a provincia, e ao mesmo tempo organizando a defesa local contra os berberes; ele era o cipo de homem util que tambem seria muito valioso como bispo, e foi ativo nesse papel nos aproximadamente dois anos antes de sua morte, como virnos no capitulo 1.Sinesio, no entanto, foi tambem um cornpe- tente filosofo neoplaconico, ceve o merito de escrever numerosas obras, tao imbuido na tradi(j'.aofilos6fica classica que as pessoas perguntam-se se de era mesmo um cristao (embora certamente o fosse), e nao foi ape- nas creinado pela renomada macematica e neoplatonica paga Hipatia de Alexandria, mas tambem por um amigo pr6xirno a ela, como suas car- tas mosrram. 3 Teofilo, por sua vez, era um radical que cinha destruido o templo pagao rnais famoso de Alexandria, o Sarapaion, em 391; uma rurba do seu sucessor, Cirilo , linchara Hipatia, de faro, em 415.Sinesio, 98 r Cultura e cren~a no mundo cristao romano entrecamo, escreveu uma extraordinaria carra aberta antes de sua ordena- <;fo,afirmando seusvalores filosoficos e morais. Ele nao renunciaria asua mulher; eles continuariam a dormir juncos, aespera de filhos. "Quanto aRessurreii;:ao, um objeto de cren(j'.a comum, eu a considero um concei- cosagrado e misterioso, sobre o qual nao concordo em absoluro com as opinioes da maioria". 0 mundo tampouco estava proximo de acabar. A filosofia permaneceria como sua voca(j'.aoprivada, caso ele fosse consa- grado bispo, fossem quais fossem as mentiras que dissesse em publico, e Teofilo devia saber disso. Aqui nao estarnos no mundo por vezes in- celecrual e provincial da Galia, mas no agressivo cora(j'.aodo violento e intransigente debate religioso. De qualquer forma, Teofila consagrou Sinesio. Em Alexandria, o status locale o apoio comavarn canto quanto na Galia Central, caso eles fossem poderosos o basrante. 0 Imperio Romano nao era, em absoluco, totalmente cristao, em 400. Havia ainda aristocraras pagaos, em Roma, embora calvez ja nao exisrissem, em 450; em Constantinopla, havia alguns ainda um seculo rnais carde. Existiam professores pagaos em Arenas eAlexandria ate o se- culo VI (Justiniano fechou a escola de Atenas, em 529), e algumas cidades menores, principalmente Baalbek e Hara, na Siria, provavelmente tinham maioria paga. As regioes rurais - ou seja, a maioriada popula(j'.a.O - eram, em grande parte, pagas por codos os !ados, exceto na Siria, na Palestina, no Egito e na Africa, e encontravam-se muiros pagaos nessas provincias tambem. 4 Eles continuaram a existir por algum tempo; temos urn relato de Joio de Efeso sobre seu ativo crabalho missionirio na Anatolia, em meados do seculo VI. Tambem havia substanciais cornunidades judaicas , na Galileia e na Samaria, na Palestina, na Siria e no vale do Eufrates, na Anatolia Ocidental, no nordesre da Hispania , em Alexandria, Roma e, em grupos menores, na maioria das cidades do Imperio; 5 essas cidades eram policicamente marginais, porem, nesse periodo, menos sujeiras a perseguii;:ao oficial do que posreriormente .6 Mas todos os imperadores , exceto Juliano por tres anos, tinham sido cristaos, desde 324 (Constan- tino converteu-se em 312, porern nio governou a toralidade do Imperio por rnais de uma decada). De forma constante , arraves do seculo IV, o paganisrno tinha-se separado da vida publica e, em 391-392, Teod6sio I havia proibido os principais pilares de grande pane do paganismo cradi- cional, o sacrificio publico e o culto privado de imagens. Essa legisla(j'.ao 99 I ,
  • 3.
    0 legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400- 1 ooo coercitiva foi refon;:ada, no seculo V,eJustiniano acrescentou os ultimos retoques, proibindo os cultos pagaos e impondo o batismo sob pena de confisco e, as vezes, de execU<;:ao. Tal como aconrece com as leis sobre heresia cristii (ver abaixo), isso nunca foi mais do que parcialmenre efi- caz - festivais pagaos conrinuaram a ser praticados mesmo em grandes cemros cristaos, como Edessa, no final do seculo V - mas a exclusao do paganismo do mundo romano oficial estava agora concluida. 7 0 vocabulario, o imaginario e as praticas publicas cristas eram, porranto, politicamenre dominances no Imperio em 400, um dominio que apenas aumentaria depois; e, nas cidades, focos de praticamenre rndas as atividades politicas, os eristaos eram, na maior parte, numericamente do- minances tambem. Mas devemo-nos pergumar que tipo de cristianismo era esse, que conteudo efetivo detinha, quanro absorveu dos valores tradi- cionais romanos (e,inclusive, das pr:iricas religiosas),quanco os modificou, quais eram suas pr6prias fissuras (ja que havia muitas). A primeira parte deste capitulo tratara dessas quest6es, essencialmente daquelas relarivas as crern;:ase praricas religiosas; a segunda parte esrendera o quadro de for- ma mais ampla e considerad. outros rituais na esferapublica, assim como valores mais arraigados, incluindo inferencias sabre OS papeis de genera. 0 cristianismo, em 400, estava definido de forma simples, em certo nivel, como a religiao do Novo Testamento; se alguem acreditava na Trindade divina do Pai, do Filho e do Espirito Santo, e admitia que Jesus Cristo, crucificado por volta de 33 d.C., era o Filho de Deus, e que nao exisriam outros deuses, logo, era cristao. Essas crern;:asgeralmente iam acompanhadas de uma exalta<;:ao da pobreza - ja que o born crisrao deve dar rudo aos pobres - e do pressuposto de que este mundo e apenas um breve campo de prova antes das alegrias eternas do ceu ou das torru- ras erernas do inferno, o gue significava que o prazer era arriscado e que o ascetismo - as vezes, a automonifica<;:ao- era cada vez mais vista como virtuoso. Mas nunca se deu um caso em que a maioria dos cristaos rivesse levado a segunda dessas senten<;:as cao a serio quanto a primeira; e isso e um problema para nos. Quando consideramos a questao de saber com que tipo de cristianismo escamoslidando, sejanesseperiodo ou posteriormenre, somos levados, imediacameme, ao problema das fontes materiais. A vas- ta quanridade de escritos cristaos ap6s 350, aproximadamenre, supera de forma substancial a quantidade de trabalho das dices seculares romanas 100 f Cultura e cren,;:ano rnundo cristiio romano cardias(apesar de isso sobreviver,de forma bastanre generosa, do seculo IV ao VI), mas foi quase inteiramente obra de homens muito mais rigorosos do que seus vizinhos. 0 grau de rigor variou do relativo pragmacismo de um Agoscinho, passando por denuncias mais incransigenres de um Jero- nimo ou um Salviano, ao extrema purismo, separado da possibilidade de uma emulas:ao normal, implicira nas narrativas hagiograficas de santos asceticos, como Antao ou Simeao Esrilira. Todos eles, entreranto, eram alramenre criticos do mundo descontraido, mas ainda assim crisrao, que havia ao seu redor; e o objetivo de todos esses escritores era reformar, por meio da critica, mais do que descrever com precisao. Porcanto, nem sempre efacildizer seas pessoas faziam ascoisaspdas quais eram criticadas, muito menos afirmar quao comuns eram tais a<;:6es ou, ainda menos, que senrido essasa<;:6es cinham para as pessoas que as realizavam. Entre a conforcavel assimila<;:ao das hierarquias e dos valores tradkionais no cristianismo, por parce de uma ariscocracia de espiriro secular, como aquela de Sidonia, e o rigor de uma minoria de aucores mais comprometidos - que nem sempre era uma minoria popular ou influence -, havia um oceano de diferentes tipos de praticas religiosas realizadas por todos os outros, cujo significado deve adivinhar-se atraves dos relacos de observadores hostis. Consideremos as festividades. 0 calendario anual da religiao gre- co-romana rradicional escavarepleto de grandes festividades religiosas as quais os criscaos, naturalmente, seopunham. Uma celebra<;:ao importaRte era a do Primeiro de Janeiro, um festival de tres dias que marcava a passa- gem do ano.8 Os sacrificios cradicionais associados a ele haviam sido bani- dos; porem reria isso tornado a fesrividade religiosamente neucra para os cristaos, apenas acentuando o prazer e a solidariedade civica?Parece claro que aspessoas, geralmente, pensavam assim; mas uma corrente de escrito- rescristaos, incluindo os autores de serm6es que scpregavam em publico, opos-se violenramenre a essa celebras:ao, nao apenas porque a via como uma concorrencia para o Natal (em si mesmo, ironicamenre, o subscituto direto de um festival pagao, o Solsticio de Inverno), mas tambem porque acreditava que elaestava irremediavelmente contaminada pelo paganismo. 0 Primeiro deJaneiro sobreviveu, enquanto festividade, are o seculo VIII e mesmo ap6s; todavia, nao sabemos se ele foipercebido pelas pessoas co- muns como algo cristao, secular ou pagao, nem quando isso ceriaaconte- cido nem com qua! intensidade. Os bispos lidavam com essas festividades 101
  • 4.
    0 legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000 principalmence organizando suas pr6prias, isto e, criando um calendario religioso cristao, com foco no Natal, em seguida na Quaresma, depois na Pascoa e em Pentecostes, sobrecudo de dezembro a maio, estendendo-se pelo resto do ano com as celebra<;6esdos santos locais. Esse ciclo de festas, de fato, acabou por prevalecer sobre o calendario pagao: o tempo cristao substituiu o tempo pagao. A forte enfase no domingo 9 · como o dia obri- gar6rio de descanso, que, para o seculo VI, reforpva-se por milagres (de acordo com Gregorio de Tours (m. 594), os trabalhadores agdcolas que laborassem aos domingos ficariam aleijados, e as crian<;asfruto de rela<;6es sexuais dominicais nasceriam aleijadas), tambem marcou, definitivamen- te, a cristianiza<;ao do tempo. Mas as pessoas ainda mantiveram as "mas" atirudes; elas encaravam os novos dias festivos cristaos da mesma forma como viam os dias festivos pagaos, ou seja, como oportunidades para em- briagarem-se ou divercirem-se, como Agostinho reclamava de uma festa local em mem6ria de um marcir. 10 Essa forma de compreender o calenda- rio cristao, atraves da frui<j:fopublica, em vez de (como Agostinho propos) cantar salmos 11aigreja, era vista corno pagi pela maioria de nossas fontes, mas, sem duvida, plenamente cristi aos olhos das pessoas que assim agiam; e essa visao dupla iria permanecer por muito tempo. Quase amesma coisa pode ser dita sobre a cristianiza<;io do espa<;o geografico_Cultos pagaos tinham-se espalhado pela paisagem do lmperio Romano; uma fonte sagrada aqui, um templo no topo da colina ali, cada um, talvez, com sua pr6pria divindade; de fato, coda a paisagem compor- tava porenciais elememos sagrados_ Na medida em que esses elemenros foram lentamente proibidos ou destruidos, e novos sitios de culto cristao foram construidos, de preferencia, em torno de tumulos de rnartires OU santos rurais, havia um risco de que tais sitios dessem apenas uma aparen- cia religiosa nova a antigas tradi<;:6es,corno acomeceu 110grande local de culto rural de Saint-Julien, em Brioude, na Galia Central, localizado, sem sombra de duvidas, no cumulo de um martir, mas tarnbem 110local anti- gamente famoso porter sido um imporcante santuario de Marte e Mercu- rio; a transi<;:aoparece ter acontecido em meados do seculo VY Afinal de comas, aspessoas tambem seembriagavam sobre os tumulos dos martires; ninguem sabe o que elas realmente estavam celebrando, o marrir ou o local de culto uadicional. Talvez houvesse momentos em que os rituais, inclusive as festividades, fossem inverridos tao significativamente que os peregrinos 102 Cultura e cren~a no mun do cristao romano que chegassern ao mesrno sitio cukual percebessern que algo importance cinha mudado, tal como prerendeu o papa Gregorio I, em 601, ao propor aos missionirios da lnglacerra anglo-saxonica que assumissem o controle de templos pagaos, mas for<;assemos devotos visitanres a comer os animais que des tinham trazido para o sacrificio ritual. Mas calvez nio; a topogra- 6a cristi poderia ser suspeitosamente semelhance a paga. 12 Mas , nesse caso, a mudan(j'.aera passive!, apesar de tudo. Para co- me<;ar,enquanto, aos olhos pagaos, coda paisagem podia ser luminosa, aos olhos cristaos, apenas os locais de culto espedficos eram pontos de luz em um espa<;:o, de outro modo, secular. Estes eram sempre, ou logo se torna- ram, asigrejas, ja que eram muito visiveis-Poucas igrejas foram diretamen- te construidas sobre remplos ou dentro deles, e essas poucas eram quase sempre urbanas. Nas cidades, de fato, as topografias cristas eram, no geral, bem diferentes daquelas dos pagaos. A tradicional religiao publica tinha se centrado nos predios cerimoniais ao redor do forum no cemro da cidade, enquanto as igrejas de culro cristao 6cavam, muitas vezes, nos limites da ci- dade, ou fora, nas areas de cemiterio. Como resultado, a atividade religiosa urbana se tornou muito mais descemralizada, e as cidades, inclusive, tor- naram-se espacialmente fragmencadas em algumas panes do lmperio (em particular, na Gilia), com nucleos de pequenos assentarnentos em torno de igrejas espalhadas e, em alguns casos, com o tradicional ccntro da cidade deixado em ruinas. As vezes, isso acontecia porque os centros das cidades pareciam demasiado pagaos, ou muito seculares; em Roma, apesar de ter-se tornado a principal capital do cristianismo, nenhuma igreja foi construida na ampla area do forum ate 526.13 lsso tambem estava vinculado a algumas verdadeira s mudan<;:asnas ideias sobre o sagrado, e sobre o que causava a conramina<;:io espirimaL A tradicional religiao greco-romana considerava as pessoas falecidas muito perigosas e poluentes; nenhum adulto podia ser enterrado denrro das muralhas da cidade ou em areas habitadas, e os cemi- terios estavam codos alem da margem dos assentamentos. No entanto, os marcires e outros santos erarn visros pelos cristaos como pessoas diferemes: nao eram fomes de polui<;ao, mas, bem ao contrario, pessoas que deviam ser veneradas (em alguns casos, inclusive, como se nao tivessem morrido). Desde epocas tao remocas quanto o seculo IV, as reliquias dos santos co- me<;:arama ser associadas as grandes igrejas; progressivamente, essasigrejas 6cavam dentro dos limites da cidade_ 0 poder positivo associado aqueles 103
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    o Jegado deRoma: lluminando a ida<le das trevas, 400-1000 corpos significou que as pessoas cada vez mais desejavam ser encerradas junco a des. Os primeiros enterros de pessoas nao santas dentro das cida- des dacam do fim do seculo Ve comes:odo VI, na maior parte do Imperio; primeiro foram os bispos e ariscocratas locais, depois os cidadaos comuns. 14 No seculo VII, os cemicerios urbanos eram cada vez mais frequentes. Os monos conrinuaram percurbando, pela sua qualidade de seres "liminais", por vezes poderosos - como ainda sii.o-, porem o medo visceral de seu poder contaminance desapareceu. 0 mundo invisivd cambem mudou. Para a maioria dos pagaos, o ar escavareplero de poderosos seresespiricuais, daimones em grego, que as vezes eram beneficos, as vezes nii.o,por vezes controlaveis por magia, mas acima de tudo bastame neutros para a rac;:a humana. Para varios cristii.os- induindo os aucoresdas nossas fonces,cercamence, mas tambem aspessoas comum que aparccem nas hagiografias -, esse mundo invis{velpassou a ser visto como daramenre dividido em dois, anjos bons e demonios maus (apalavra daimones ainda era ucilizada);15 o criscianismo herdou esse dua- lismo do judaismo que, por sua vez, pode cersido inAuenciado por crens:as paraldas no zoroastrismo. Alem disso, comes:amos a ouvir mais sobre de- monios, que passaram a intervir com mais frequ~ncia na vida diaria. A cris- tianizas:ao, portanto, desenvolveu a sensas:aode que esse mundo invisivd estava mais repleto de perigo do que previamente cinha sido (isso afetou a vida ap6s a morte, ja que o inferno cristii.opodia conter muitos rnais peca- dores do que o Tartaro pagao ou a Geena judaica). Os demonios, aos olhos cristii.os,causavam doens:as, ma sorte e todo tipo de estragos; a possessii.o demoniaca era comumemc vista como a causa de disturbios mentais. Os demonios viviam, emre oucros lugares, em santuirios e idolos pagaos, em areas nao culrivadas, corno os desertos, e tambem em cumulos (calcrens:a era, em parce, uma herans:a de crens:ascradicionais sobre a concaminas:ao dos monos). Eles podiam ser derrotados por exorcismo clerical, e muitos crisraos asceticos ganharam uma consideravel repucas:aocomo cas:a-demo- nios. Teodoro de Sykeon (m. 613) era um exemplo parcicularmence acivo: realizava exorcismos atraves da Anatolia Central, enquanto OS demonios perturbavam a harmonia das vilas ou possuiam os fracos e enfcrmos, em alguns casos, como resultado do lans:amento de um feitis:o,em outros, por- que os imprudences tinham perturbado os cumulos, calvez em busca de tesouros.16 0 cristianismo inovou, em cermos religiosos,ao dar mais espac;o 104 f Cu.ltura e cren~a no mundo cristao romano as inrervens:oes dos seres humanos em assuntos sobrenacurais, cendo eles autoridade eclesiastica ou sendo parcicularmente sancos.Apesar de muitos homens e mulheres afirmarem que apenas canalizavam o poder celestial de Deus e dos samos, des eram cracados, por muitos cristii.osmenos ex- cepcionais, como se tais poderes espiricuais fossem toralmente deles, um produto do seu pr6prio carisma. Frequentemence, rem sido sugerido que as religi6es paga e crista operaram em diferences niveis: o paganismo prestaria mais atens:ao ao ritual publico (como o sacrificio), enquanco o cristianismo daria mais atens:ao a crens:a. Isso seria um exagero se colocado muico cruamence, ja que as duas comunidades religiosas operavam em ambos os niveis; toda- via, ao mcsrno tempo, ha um elemenro de verdade nisso. 0 cristianismo cambem estava preocupado com o esrabelecimento de limites espirituais _ encre o sagrado e o secular, ou encre bons e maus demonios - quc eram mais matizados (ou confusos) para a maioria dos pagaos; e ele tambem estava, inicialmence, menos comprometido com a arividade publica e coletiva (embora isso fosse rnudar rapidamente). Aqui existem alguns paralelos com o desafio que a Reforma Protestante lans:ou ao cristianis- mo cat6lico, no seculo XVI (paralelos que os protestantes procuraram, de forma basrante conscience, enfatizar). Eles aparecem tambem nose- culo XIX na cdcica "modernista" do mundo publico do ancien regime, como foicaracterizado por Michel Foucault. 17 Ou seja, ha uma tensao encre promover o ritual colecivo, que traz solidariedade social e moral, e tratar de mudar a mence das pessoas; essa censao existe ha muito tempo na hisc6ria humana e, em algumas sociedades, um extremo procura se sobressair ao outro por um certo periodo. No contexro romano tardio, provavelmente seria rnelhor afirmar que existia tensao nao apenas entre pagaos e cristaos, mas, inclusive, dentro do pr6prio cristianismo, uma vez que as atitudes cristas para com o publico mudaram rapidamente, e o encusiasmo religioso, visivel nas festas e peregrinas:6es e ate mesmo no ato de acudir aigreja, nii.oera absolucamente equiparavd agras:adivina ou adisciplina mental (ou a ambas) as quais os rigoristas acreditavam ser necessirias para atingir a salva<;aoindividual. Isso foialgo de que os escritores cristaos que cram bispos estavam muiro consciences, e, por isso, era necessirio abarcar os dois ambitos. Precisamente essa tensao eo que, em grande parte, corna interessantes os nossos aurores. 105
  • 6.
    O legado deRoma: Tluminando a idade das trevas, 400-1000 Mudar as menres das pessoas era, porem, mais difkil e, no ni- vel da moral e dos valores diarios, o cristianismo mudou muico menos. Por exernplo, para alem da critica rigorista ocasional, como no caso de Gregorio de Nissa (rn. c. 395),nao ha nenhurn sinal de que a falta deli- berdade legal fosse considerada errada pela maioria dos cristaos, apesar do explfcito igualitarismo cristao; 18 de qualquer maneira, libertar escra- vos (manumissao), como um ato piedoso em vista da morte, comum na Antiguidade Tardia e na Alta Idade Media, tinha impecaveis antece- dentes pagaos. A oposic;ao as hierarquias sociais por questao de riqueza ou o repudio a tortura judicial s6 se desenvolveram, em alguma medida, por movimentos hereticos. Cada um dos escricores cristaos denunciou o mau comportamento sexual (alguns contra toda a atividade sexual), considerando a virgindade superior ao casamento, como fez Jeronimo (m. 419), mas nao e claro que isso teve algum efeito sobre ac;6es coti- dianas.19 No entanto, os cristaos tambem 6zeram campanha contra o div6rcio; ao menos no Oc idenre, isso se tornou cada vez rnais dificil na lei e evenrualmence impossivel, rnais tarde, durante a Alta Idade Media; as pd.ticas que diziam respeito alegislac;ao erarn mais faceis de mudar, donde a abolic;ao dos jogos em anfiteatros. 20 No nivel dos pressupostos familiares, em contrapartida, incluindo os papeis de genero, nao mudou muira coisa, como veremos mais adiante neste capitulo, como tampouco mudaram os valores dvicos da vida publica romana. Uma exce1rao impor- tance foi a caridade para com os pobres, que tinha sido um dos pilares da atividade da comunidade crista desde seus primeiros anos, quando era uma minoria perseguida. A caridade continuou a ser uma grande respon- sabilidade para os hons cristaos, mais do que havia sido para os pagaos, e tinha tambem um papel fundamental para as igrejas (e para os bispos que dirigiam as principais igrejas em cada cidade), na medida em que es- tas cresciarn em termos de riqueza, e a caridade lhes proporcionava uma justificativa para isso, ja que os evangelhos cristaos davam tanta enfase apobreza. Esse acento na caridade viria a ser herdado pelo isla rambem. Tais mudanc;as nas praticas de culto e na cultura religiosa foram acompanhadas por outras tres importances inova1r6estrazidas pelo cristia- nismo ao mundo romano: a Igreja como uma instituic;ao; a importancia politica da crenc;acorreta; e novos espa1rossociais para rigoristas religiosos e ascetas. Vejamos cada uma dessas inovac;oes. 106 Cultura e cren~a no mundo cristao romano A religiao paga nao dependia de uma estrutura institucional muito elaborada, e os cultos de cada cidade eram todos organizados localmente; 0 judaisrno rabinico rambem era muito descentralizado (osjudeus tiveram um unico patriarca ate por volta de 425,mas nao esta daro seseus poderes eram muiro amplos).21 0 cristianisrno, no entanto, teve urna hierarquia complexa, coincidindo, em parte, corn a do estado. Em 400, havia quatro patriarcas: em Roma, em Constantinopla (desde 381),em Antioquia e em Alexandria (um quinto patriarca, para Jerusalem, foi adicionado em 451), que supervisionavam os bispos de cada cidade. 0 patriarca de Roma ja era chamado pelo titulo honori6co depapa, mas foisomente ap6s o seculoVIII que cal designac;aose tornou restrita ao papa de Roma. Os bispos logo se organizaram em dois niveis: os bispos rnetropolitanos (chamados depois de arcebispos) ficavam em um nivel interrnediario, pois supervisionavam e consagravam os bispos de cada provincia secular. Demro da diocese de cada bispo, que normalmente correspondia ao territ6rio secular da sua cidade, os bispos tinham autoridade sobre os clerigos de oucras igrejas publicas (em- bora igrejas e mosteiros fundados de forma particular fossern rnuitas vezes am6nomos, uma situa<;aoque produziu disputas interrninaveis e rivalidade durance o milenio seguinte). A Igreja, nos seculos IV e V, se tornou uma estrutura elaborada, com cercade cem mil derigos de diferentes tipos, mais pessoas do que a administrac;ao civil, e sua riqueza crescia, de forrna conti- uua, corno resultado de doa1r6espiedosas. Ernbora a insdtuic;ao nao fos-se parte do estado, a sua riqueza e a coesao institucional que abarcava todo o Irnperio tornavarn-na uma parceira inevitivel de imperadores e prefei- tos, bern como urna autoridade informal forte e influence nas cidades; por volta do ano 500, a Igreja catedral era, rnuitas vezes, a rnaior proprietaria de cerraslocal (e, portanto, a patrona) e, ao contrario do caso das riquezas familiares privadas, a sua estabilidade pod ia ser garantida - os bispos nao eram autorizados a alienar os hens da institui1rao. Foi a riqueza eclesiastica e o status local que levaram o episcopado a se tornar parte das estruturas de carreira da elite, na Galia, durante o seculo V;22 esseprocesso ocorreu mais tarde na Italia e em algurnas das provincias oriemais, mas, ao redor do ano 550,eleera normal em rodos oslugares.Mesrno no contexto eclesiastico,os bispos seidentificavarn, geralmente, com asua diocese, em primeiro lugar,e com as institui1r6eseclesiasticasrnais amplas, apenas secundariamente. No entanto, mesmo assim, estavam ligados ahierarquia rnais arnpla da Igreja: 107
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    O legado deRoma: Huminando a idade das trevas, 400• 1ooo podiam ser nomeados ou exonerados pdos metropolitanos e pelos cond- lios episcopais que, progressivamente, se cornaram mais frequentes, ora no nivel imperial (os condlios "ecumenicos"), ora no regional, na Hispania, na Galia ou na Africa. 0 faco de essa estrutura inscirucional nao depender do Irnperio e, acima de rudo, ser financiada separadamente significou que ela pode sobreviver afragmenca~ao policica do scculo V, ea Igreja foi, de fato,a institui~ao romana que prosseguiu com menos mudan~as durante a Alta Idade Media; os dos entre as regioes se tornaram mais fracos, porem o resto permaneceu incacto. 0 problerna da rela~ao entre a Igreja, como institui~ao, e o poder politico secular existe desde que surgiram governos cristaos, e, rnuitas vezes, isso causou con.Aitosconsideraveis, como ocorreu no seculo V e ocorreria novarnenre durance a Reforma do seculo XI, ou nos estados p6s-iluministas dos seculos XIXe XX. A pratica polftica paga valorizava a conformidade religiosa,porem as varia~oes nas cren~as religiosas nio redundavam em profundas divis6es. Nesse sentido, o cristianismo era muito diferente. Desde o inicio de sua hist6ria, seus adeptos discutiram sobre teologia e acusaram-se mucuamente de cren~adesviante, "heresia",e, no seculo IV,isso se cornou um assunco de estado. 0 que pode cer surpreendido rnuito Constantino, quando de sua conversao ao cristianismo, foi o conflito interno na religiao que ele havia escolhido, hem como a importancia para seus rnembros de veneer sern fazer nenhuma concessao. Constantino levou a serio a missao de alcan~ar a uni- dade do cristianismo, mas nao foi bem-sucedido (o que deve re-lo surpreen- dido tambem). Para seus sucessores, a unidade em torno de uma visa.auni- ca e correta cornou-se cada vez mais importance, inclusive para o bem-esrar do Imperio enguanro coletividade; no final do seculo IV, o desvio religioso era, dessaforma, poliricamence perigoso e precisavaser extirpado por lei.As leiscontra ospagaos foram, primeiramente, aperfei~oadas contra os cristaos herecicos,isto e, aqueles que ficavam no !ado perdedor nas grandes batalhas te6ricas, e elas erarn sempre urilizadas, de forma muito mais sistematica, contra a heresia. Portanto, a heresia era cada vez mais perigosa e comum no Imperio tardio. Ela rambem foi considerada um problema aolongo dos secu- los seguinres (parcicularmence no Ocidence do seculo XIII), porem apenas a Reforma iguala a incensidade das disputas religiosas do pedodo 300-600. A primeira dispuca que Constantino enfrencou foi aquela encre donatistas e cecilianistas, na Africa, que discutia se os bispos que tinham 108 Cultura c cren,a no mundo cristao romano comprometido a sua fe durance as recemes persegui~oes ao cristianismo podiam continuar a consagrar oucros bispos depois disso. Essa era uma questao caracteristica da Igreja pre-constantiniana, mas aquela querela africana era, de longe, o mais serio exemplo. Os donatistas sustemavam que 0 bispo Ceciliano de Cartago, o metropolitano local, fora consagrado por um bispo ap6stata e, porramo, nao podia ser bispo nem consagrar outros; Constantino os condenou, em 313, mas eles nao cederam. Tecnicamence, rratava-se de um cisma, nao de uma heresia, pois nao dizia respeico a dife- rern;asde fe; no entanto, imediatamence isso se cornou uma disputa estru- curalmente seria, uma vez que os donacistas nao aceitaram o bispo africano consagrado por Ceciliano, e, por isso, criaram uma hierarquia rival; por vo!ta de 335, havia 270 bispos donatiscas. Esse cisma permaneceu restrito a Africa, porem se arrastou por um seculo, com violencia de ambos OS lados e cambem com uma feroz polemica escrita (Agostinho redigiu parte dela), ate que uma persegui~ao siscematica aos donatistas, ap6s um debate formal em Cartago, em 411 (cf capiculo 3), os enfraqueceu substancialmeme. O donacismo foi a unica divisao interna que percurbou seriamen- te o Ocidente romano tardio. Esse faro era um problema para a lgreja la- tina mais do que para a grega: a pureza pessoal dos homens que consagra- vam oucros homens e que presidiam a eucaristia, a cerimonia central do culco cristao. 23 A pr6xima heresia ocidental, o "pelagianismo", declarado heretico pelo imperador Hon6rio, em 418, e (com bastante reticem:ia) pelo patriarca ocidenta l, o papa Z6simo de Roma, no mesmo ano, como resu!tado da pressio exercida por Agostinho e Alipio, foi tambem relacio- nada a questoes de pureza pessoal. Pelagio argumencava que um cristao convicco podia evitar o pecado atraves do livre-arbitrio dado por Deus, o que Agostinho considerava impossivel. No entanto, os pelagianos nunca foram mais do que uma minoria, e o mais duradouro efeito dessa divisao foi o desenvolvirnento, por Agostinho, de sua teoria da predestina~ao a salva~ao por meio da gra~a de Deus, que permaneceu concroversa (e ma! compreendida, parcicularmence na Galia e na Italia), mas nao resultou em posteriores declara~oes de heresia. 24 Pode ser relevance, aqui, notar que a questao da pureza dos clerigos permaneceu importance no Oci- dente. Ali, mas nao no Oriente, todo o clero suposramente devia evitar a atividade sexual, de acordo com condlios tao amigos quamo o ano 400 (no Oriente, isso s6 foi aplicado para os bispos e, mesmo assim, depois de 109
  • 8.
    0 legado deRoma: lluminando a idade das trevas, 400-100 0 451).Com isso nao se quer dizer que o clero ocidental sempre obedeceu a essa teoria, pois, em varias regi6es ocidemais, houve derigos Iegalmente casados ate o final do seculo XI; no entanto, o prindpio de que 05 sacer- dotes deveriam ter um carater sagrado diferente de suas congregac;:6esfoi estabdecido desde cedo.i 5 No Oriente, a questao que mais causou divisao foi bem ourra: a natureza de Cristo. 26 Constantino tambem achou que havia dissensao entre o parr_iarcaAl~x~n~re de ~lexandria e seu presbitero Ario a respei- to de se o Ftlho era 1dem1eoou 1gual em substancia ao Pai, na Trindade; Alexandre susrentava que sim mas Ario dizia que nao C · _ _ , . onstantrno, que nao cons1deravaque o assunto fosse particularmente importance, convo- cou um condlio de bispos, em Niceia, no ano 325,0 Primeiro Concilio Ecumenico, que, notoriameme (foi o unico Concilio Ecumenico a alcan- c;:a-lo), co~seguiu que ambos os lados concordassem em uma formulac;:ao, o cred~ mceno, essencialmente apoiando Alexandre. Alguns seguidores e~trem1stas de Alexandre, comudo, principalmente seu sucessor, Atana- s10_(m.373),negaram-se a manter comunhao com Ario, apesar de deter ace1tadoo credo niceno, e a disputa recomec;:ou. Outras vers6es de fe crista ~a~s pr6ximas do que Atanasio chamava de "arianos" eram populares em vanas ~artes do Oriente, sobretudo em Constantinopla, incluindo, entre des, os1mperadores Constancio II e Valence;nao era absolucameme obvio para todos que os membros da Trindade eram iguais. Atanasio era cambem pessoalmeme_impopular,por seu estilo violenco, e tinha um extenso apoio apenas no Oc1deme. Porem, uma nova gerac;:ao de apoiadores do credo ni- ceno ganhou _forc;:a na decada de 370,particularmeme grac;:as a Basilio, bis- po de Cesare1a, na Anatolia (m. 379),e aos seus associados. Com a morte de Valence,em Adrianopolis, em 378,Teod6sio I, um aliado ocidental d B 'l· d e asi 10,tornou-se impera or do Orieme, e o seu Concilio Ecumenico, em ~onstantinopla, no ano 381,finalmente declarou que o credo niceno era a fe ortodoxa. :aradoxalmente (mas nao o unico caso entre as heresias), foi essa declarac;:aoque, pela primeira vez, cristalizou O pr6prio "arianismo" enquamo um sistema religioso elaborado de fato. Consequentemente, de perdeu o patrocinio imperial e portanco dai em diame, um apoio mais amplo iapesar de_ que, na capital oriental, isso nio aconteceu are avigorosa pregac;:ao do patnarcaJoao Crisostomo, em 398-404)s6 foi evidente entre os godos e, por extensio, os outros grupos "barbaros" 110 norte.27 110 Cultura e crenOano mundo cristiio romano A vit6ria do credo niceno signi:ficavaque Cristo, apesar de huma- no e passivel de sofrimento, era visto completamente como divino tam- bem; no entanto, como eram combinadas a humanidade ea divindade? Esse era O maior nucleo dos debates do seculo V, que con:figuravam, por varios aspectos, disputas de poder entre Alexandria e Antioquia, tendo Constantinopla, geralmeme, do lado de Antioquia. 0 patriarca Cirilo de Alexandria (412-444)argumentava que os elementos humano e divi- no, na natureza de Crisco, nao podiam ser separados; antioquenos, como Nest6rio, patriarca de Constantinopla (428-431),via-os como distintos. 0 perigo na postura de Cirilo, a que chamamos de "monofisita", era que Cristo perderia completamente a sua humanidade; o perigo na postura de Nest6rio era que Cristo se tornaria duas pessoas. Nenhum desses riscos tinha sido percebido ainda, mas os oponentes de cada lado acreditavam que sim. O Terceiro Concilio Ecumenico, em Efeso, em 431,p~lco de ~1:1a nocavele cfnica manobra por parte de Cirilo, condenou e depos Nestono. Efeso tambem legitimou o culto da Virgem Maria como Iheotokos,"mae de Deus", uma formulac;:aoa que Nest6rio, em particular, se opos, mas que dominou a maioria das igrejas cristas naquele momenco; os grandes condlios como um todo nao discutiram apenas a cristologia. Mas a ten- tativa alexandrina de ir atras de todos os antioquenos, um por um (noto- riamente, Teodoreto, bispo de Cirro, que foi, brevemenre, destituido em 449), repercutiu ndes, principalmente pela oposic;:aoocidenral, centrada nas a<;6ese nos escritos do papa Lea.a I (440-461),e tambem porq_ueos alexandrinos afastaram a imperatriz Pulqueria, sua apoiadora em Efeso. Um quarto condlio, em Calcedonia, em 451.rejeitou a posic;:ao "mono:fi- sita" alexandrina (aomesmo tempo que manteve a rejeic;:ao de Nest6rio), e impos a norma de que Cristo existiu "em duas naturezas", divina e huma- na, porem em uma s6 pessoa. Isso estabeleceu uma ortodoxia que, a partir de entio, dominou o Ocidente e O centro bizantino. Mas nao pos :fimas disputas, pois o mono- :fisismotinha O apoio popular de que careciam as interpretac;:6esanterior- mente derrotadas, em particular na maior parte do Egito, cada vez mais na Siria e na Palestina, e tambem na Armenia. Os imperadores que por vezes simpatizavam pessoalmente com o monofisismo (como aconteceu com Anastacio e tambem com a imperatriz Teodora, a poderosa esposa de Justiniano) viram a divisao calcedoniana-mono:fisira como uma questao 111
  • 9.
    O legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400- 1000 politica e nao reol6gica, e tentaram varias vezes promover posis:oesinte r- mediarias entre as duas: oHenotikon, de Zenao, em 482, o quinco condlio deJustiniano, celebrado em Constancinop la, em 553, o pronunciamenco "monotelista" de Heraclio - a Ekthesis - em 638. Esses nao funcionaram porque havia cada vez menos terreno comum entre os dois lados (mesmo que as quest6es em jogo se cornassem cada vez mais arcanas); no final do seculo VI, de faro, as provincias monofisiras estavam estabelecendo uma hierarquia episcopal paralela para enfrentar os calcedonianos. Os impe- radores viram-se anat:ematizados por ambos os lados, e tambem enfren- taram um cisma com o Ocideme, que era intransigememente calcedonia- no (quando os papas de Roma foram intimidados a aceitar o conci.lio de Constantinopla, em 554, des tambem enfrentaram a oposis:aode grande pane do Ocidente, o chamado cisma "dos Ti:es Capfrulos", o que levou 150 anos para terminar). 28 0 arianismo cominuou sendo o crisrianismo dos grupos "barbaros", particularmente dos godos, dos vindalos e, even- tualmente, dos lombardos, ate o seculo VII. 0 "nestorianismo" continuou tambem - em formas mais extremas do que Nest6rio jamais propuse- ra -, mas principalmente fora do Imperio, na Persia, e tao ao leste quamo a China. Mas foi o monofisismo que dividiu os cristaos romanos de forma mais radical e cornpleta, e a divisao nunca foi curada. Eimpossivel caracterizar esses conflitos com precisao em poucas palavras, visto que a teologia em questao e incrivelmente intrincada, de- pendendo de definis:oes apuradas e de desenvolvimentos filos6fico-pla- t6nicos de conceitos que requereriam rnuitas paginas para ser exposros em ingles (alern disso, era um debate que s6 fazia pleno sentido na lingua grega, inclusive naquela epoca; Lea.a I foi o ultimo latino-falante que realmente o compreendeu e contribuiu para ele). Essas caracterizas:oes tao detalhadas nio cabem aqui. Mase importante ressaltar que elas erarn realrnente significativas. Para os observadores pagaos, esses debates eram ridiculos, ate mesmo insanos, assim como acompanhados de comporta- mentos surpreendenternence negativos; mas, para os cristios, encre 300 e 550, ter uma definis:aoexata e universalmente aceita sabre Deus tornou-se cada vez mais importante, uma vez que o poder politico dos bispos nio deixava de crescer. Erelevante que tivessem mais importancia no Oriente, onde o debate tecnico-filos6fico estava mais ancorado na vida intdectual ' mas com as conquistas "barbaras", as quest6es cristol6gicas, da mesma 112 Cultura e crern;: a no mundo cristao rom ano forma, chegaram ao Ocide nce, e os debates entre os arianos e os cat61icos tambem foram intensos; de qualquer forma, a problema tica agostiniana, que dominava a teologia no Ocidente, centrada na predestinas:ao e na gras:adivina, nao era menos complexa, embora evitasse o debare cristo- l6gico. Eclam que e impossivel dizer quamas pessoas cornpreenderam corretamente as quest6es que escavam em jogo em Calced6nia, por exem- plo: talvez apenas algumas cencenas (embora nao devessernos subestimar a sofisticas:ao ceol6gica dos cidadios das grandes cidades) que estavam expostas aos serm6es de alguns grandes pensadores. Conrudo, o proble- ma da verdadeira divindade de um deus humano - que inclusive tinha morrido, na Crucifixao - era uma questao que teria senrido ao menos no mundo romano tardio, onde o culto dos impe radores coma deuses ainda era lembrado (inclusive, ate era praticado por alguns) e o ser divino nio escava,no seculo V, tao discante da humanidade como ele (ou eles)estaria em alguma s vers6es do cristianismo . Essas divis6es tambem sio importances porquc mobilizaram um grande numero de pessoas. 0 cristianismo do seculo Vera uma religiao de massas, chegando cada vez mais ao campesinato. Seus parricipante s eram muito leais a seus bispos ea outros lideres religiosos locais, e em seu apoio era possivel rnobilizar uma cidade contra outra ou uma provincia contra outra. A luta das facs:6espolicicas podia ser expressa tambem em termos religiosos, e oslideres seculares locais viam-se envolvidos em dispu- tas eclesiasticas durance toda a sua vida politica. Nas cidades, as multid6es chegavam a atracar-se em luta corporal; em Alexandria, onde os cumultos tinham uma longa tradis:ao, Cirilo era bem conhecido pelo jeito como as manipulava. 29 Os donatistas tinham um bras:oarmada, os cir~umceLliones, camponeses asceticosou trabalhadores sazonais. Os monges rurais tambem foram usados como tropas de choque, geralmente no !ado monofisita;Je- rusalern era um lugar perigoso por causa do nurnero de mosteiros em seu enrorno, que poderiam ser rapidamente mobilizados, coma quando Juve- nal, patriarca deJerusalem, 30 foi expulso por manges, em 452, por um ano, porque tinha aceitado o condlio de Calced6nia; foi necessario o exercito pararestabelece-lo no posco. Os monges nio eram normalmente educados, mas certamente eram fervorosos. A aspereza de seu protagonisrno politico quebrava as regras de decoro da elite rornana cardia e perturbava os obser- vadores mais polidos, como acontece cambem com alguns historiadores 113
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    O legado deRoma: J1uminando a idade das trevas , 400-1000 modernos. Esses manges parecem demasiado fundamentalistas e faniti- cos, e eles eram mesmo; mas representavam, ao menos, um sinal de que o cristianismo havia penetrado no campo eque suasdivis6es envolviam mais pessoas do que elites reduzidas. Isso nos leva a uma ultima inovac;aocrista: o desenvolvimento de novas esferas de comporramenco social. Em geral, o cristianismo compro- metido envolvia um estilo de vida pessoalmente piedoso, o que, na verda- de, importava mais do que as disputas teol6gicas para a maioria de seus adeptos; mas os rigoristas podiam e iam, realmente, muito alem da mera piedade. No cristianismo, desde cedo a autoprivac;ao de alimento ou con- forco, 0 autodesprezo e a evasao da sociedade hurnana foram considerados, por algumas pessoas, como maneiras pelas quais os sereshumanos podiam aproximar-se de Deus. Essasformas de ascetismo foram popularizadas pela extremamente influence Vida de Antao, de Acanasio, escrita por ocasiao da morte de Antao, o eremita do deserto egipcio, em 357, e traduzida do grego para o latim quase de imediato. 31 "O deserto", um local fisico para Antao, rornou-se uma imagem para coda a ascese, e homens e mulheres podiam criar seus pr6prios desertos locais ao se isolarem em lugares afas- cados, ou permanecendo no alto de colunas, muitas vezes por decadas, como fizeram muicos estilicas desde Simao, o Velho (m. 459) - inacessiveis (exceto por escada), mas, de codo modo, claramente visiveis,o que resul- tava na aquisic;aode interesse publico. Um estilita influence, Daniel (m. 493), tinha sua coluna ao lado de um dos principais portos do B6sforo, ao leste de Constantinopla - ele, cercamente, estava no centro das atenc;oes (alguem ate perguncou-lhe como ele defecava: de forma muito seca, como uma ovelha, de respondeu); mas Simao cambem [inha sua coluna no meio das ricas colinas de produc;ao de oliveiras do norte da Sfria, e multid6es o observavam tocar, repecidamente, os dedos dos pes com a cabec;a,contan- do 1.244 desses movimentos em uma ocasiao, como Teodoreto de Cirro narrou. 32 Obispo Teodoreto escreveu um relato sistematico das fac;anhas ascecicas - notaveis e, com frequencia, segundo pensava, absurdas - que os santos sirios praticavam, e enfatizava o quanta des eram respeimsos para com ele. Os ascetas asvezes causavam ressentimento na hierarquia da lgreja comum, ja que seus poderes espirirnais (conselhos precisos, orac;6es particularmente eficazes e de vez em quando milagres) eram o resulcado de seus pr6prios esforc;os,em vez de serem concedidos pelos bispos. Con- 114 Cultura e cren,a no mundo cristao romano rudo, a maioria contava com apoio e patrodnio episcopal, e alguns deles (como Teodoro de Sykeon) tornaram-se bispos. A influencia dessesascetasquebrou codasas regras sociaisromanas: poucos eram ariscocratas, poucos eram educados, mas as pessoas procura- vam seu conselho persistentemente. Conservamos as respostas que Bar- sanufio eJoao, dois eremitas idosos que viviam nos arredores de Gaza no inicio do seculo VI, deram para 850 perguntas, de todos os tipos, formula- das por leigos,clerigos emanges (podemos entende-las coma o equivalente desse seculo amoderna coluna de consultas e conselhos de DearAbby*). Se eu quiser dar cereais e vinho aos pobres, devo lhes dar produtos da melhor qualidade? (Nao, voce nao precisa.) Uma vez que nao devemos matar, devo mentir para permitir que um assassino escape apena de morte? (Talvez, desde que voce tenha a tendencia a mentir em outras circunstancias.) Posso comprar no mercado de pagios? (Pode.) Posso comer com um pagao? (Nao pode.) E quando ele euma pessoa importance? (Ainda assim, nao, mas ofere<ra-lheuma desculpa educada.) Eu realmente tenho que dar o meu manto para cada men- digo, e seguir nu? (Nao tern.) E, talvez, a consulta mais fraca de todas: eu naoconsigo me decidir, o que devo fazer? (aissoseguiu-se uma resposta provavelmente exasperada: ore a Deus, ou, entao, consulce-nos novamente.) Eclaro, em tudo isso,que seconfiava no conhecimento dos ascetas; educados ou nao, tinham aces;o averdade espiricual.33 Os santos homens e mulheres do ascetismo cristao tern, na acua- lidade, um nicho estabelecido na historiografia moderna, e e importance nao se deixar seduzir por Teodorem e outros que nos levam a pensar que estavam em toda parte; como Peter Brown escreveurecentemente, elesocu- pavam "pouco do espac;opublico da sociedade romano-tardia", mesrno no Oriente, e, no Ocidente, nunca foram tao comuns. 34 Mas elescriaram um estilo de automortificac;ao que os potenciais santos buscariam sistematica- mente copiar no futuro, coma camisas de pelos, cintos apertados ate ferir a carne, correnres e coisas do genera. Seus atos menos extremos podiam ser copiados por todo o mundo, coma as piedosas mulheres aristocraticas * Trata-se de uma coluna publicada em diversosjornais norte-americanos com opinioes e conselhos de narureza v:l.ria,fundada em 1956, por Pauline Phillips. (N. da T.) 115
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    O Jegado deRoma: Jluminando a idade das trevas, 400-1000 romanas, Paula e Melania, cuja escolha de caminhar pela Roma do seculo IV em trapos, sujas e makheirosas foi elogiada pot Jeronimo em termos perturbadoramente exuberantes. 35 E essesatos foram regularizados e gene- ralizados pelo monasticismo. lsso nao significa que a maioria dos manges imitasse um compleco extremismo ascetico, porem o desenvolvimento de grnpos de celibararios, vivendo separados (no "deserto"), foi influenciado por Antao e deitou raizes, em grande escala, primeiro no Egico; de faro, os pr6prios ascetas, eventualmente, percebiam que havia surgido uma comu- nidade moniscica ao redor deles, ou encao procuravam eles mesmos por uma. A ascesedos manges consistia principalmence na obediencia absoluca as regras de um abade, em uma rotina cocidiana estabelecida, e tais regras foram sendo colocadas por escrito desde cedo:por ou para Pacomio, no Egi- to, e por Basilio, na Anatolia, no seculo IV,por Shenouce, no Egico,eJoao Cassiano, na Galia, no seculo V,por Bento de Nursia (amoderna Norcia), na Italia do seculo VI. 36 No Ocidente, a regra benedicina cornou-se, even- cualmente, o padrao supremo; no Oriente, era a de Basilio.A regra benedi- tina, mais humana do que muitas outras, e tao marcante por sua insistencia no tratamemo igualirario de monges de status social diferente, assim como por sua ascese moderada (apenas vegetais, exceco quando doente; apenas roupas leves, exceto no inverno): o igualitarismo era tao dificil no mundo hierarquico da Anciguidade Tardia como foi a autopriva<;:ao. 37 Por outra parte, nem todos os mosteiros eram igualicarios, em absoluto; muicos se assemelhavam as confortiveis casas de retiro para homens e mulheres da aristocracia. Mas a imagem de igualdade (ou de sujei<;:ao) era intrinseca a regula<;:ao monastica e, nesse sencido, mesmo que nao existisse em nenhu- ma oucra parte da Roma tardia, a igualdade era teoricameme possivel ali; acemesmo tinha sido criado um espa<;:o social para isso. Um resulcado simples desses processes e que os escricorescristaos nos dizem mais sobre amaioria dos camponeses do que os escritores pagaos jamais tinham feito. Os camponeses podiam se rornar santos, se fossem muiro excepcionais; tambem testemunharam os noraveis aros de homens e mulheres rurais, que viviam longe das elites urbanas, de modo que asvidas dos santos nos dao indicios da sociedade de aldeia que era quase inteira- mente ausence na literatura anterior. Afinal de comas, os pobres podiarn ir para o ceu tao facilmente quanto os ricos (na reoria crista, ainda mais facilrnente), e ate mesmo os bispos mais aristocraticos e esnobes - como 116 Cultura e cren~a no mundo cristao romano Gregorio de Tours, na Galia do seculo VI, por exernplo - regularmente pregavarn para eles e, as vezes, tambern OS ouviarn. Nas ultimas decadas, os historiadores abandonaram sua cautela anterior sobre as historias de milagres; e corn razao, dado que elas nos dizern rnuico rnais sobre a socie- dade nao aristocratica e os valores culturais e religiosos do que podemos obter em outras fontes. Nao sao uma janela direca asociedade campesina, nenhum rexto e assim, e raramente foram escritas por campesinos (embora um ou dois cenham sido, comoA Vidade Teodoro deSykeon).Maso faro e que tais cexrns sao o melhor guia que temos e, por mais estudados que hajarn sido, ainda tern rnais a nos comar. Se os ascetas ocuparam uma pequena por<;:ao do espa~o publico romano, isso se deve, em pane, ao faro de que esse espa<;:o era enorme. Mesmo quando nos afastamos de urn foco especificamence religioso, devernos reconhecer que os romanos viviam uma grande pane de suas vidas poliricas no ambito publico. Nas cidades, o ano estava repleto de prociss6es publicas; de faro, o pr6prio planejamenro urbano era afetado por isso, pois as ruas largas e retas das cidades romanas (no Orience, alem disso, guarnecidas com colunatas) eram especificarnence construidas as- sim, e se mancinham livres de obstru<;:6es, de modo apermitir as procissoes (quando , ap6s a conquista arabe, as procissoes cessaram no Oriente, as ruas se encheram rapidamente: vejaabaixo, capitulo 9).38 0 poder politico estruturava-se em rorno das vers6es mais formais de tais cortejos, corfio, por exemplo, os rituais para a chegada de um imperador a uma cidade (adventus), que, mais tarde, foram emulados pelas enrradas cerimoniais, mais elaboradas, do Renascimenro. Um caso famoso - a chegada de Cons- tancio II em Roma, em 357, descrita em decalhes por Amiano - moscra o imperador em um carro enfeicado por joias, com um vasro sequito mi- litar; Constancio nao virou a cabe<;:a, nem os olhos, nem as maos - nem sequer cuspiu - durance coda a procissao ate o f6rum. 39 Tratava-se de um desfile triunfal (imerecido, segundo Amiano, que detestava Constancio), que tinha urna longa tradi~ao por tras e um longo fucuro pela frente, ao menos no Oriente, pois nas principais ruas com sencido oeste-lesce, de Constantinopla, viram-se desfiles regulares desse tipo ate o final dope- rfodo coberto por este livro e alem: o Livro de Cerimonias, do seculo X, compilado a pedido do pr6prio imperador da epoca, Constantino VII (913-959), descreve-os em grande detalhe, fase por fase (cf capitulo 12), 117
  • 12.
    O legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000 e esta longe de ser a unica fonte. Porem, OS principais momentos politicos e religiosos de todos os tipos foram marcados por prociss6es nas cidades. Aqui, o cristianismo simplesmence se apropriou da pratica, e os bispos desenvolverarn procissoes formais entre as igrejas urbanas como parte da exibii;aode seu poder local; essescortejos muitas vezes assumiam aspectos penitenciais ou protetivos, tornando-se comum que os bispos rodeassem as muralhas da cidade com relfquias ou simbolos religiosos para protege-la quando siriada, como aconteceu durance o cerco a Clermont, por volta de 525, ou no cerco a Constantinopla, em 626 (de acordo com nossas fontes hagiograficas, eles foram sempre bem-sucedidos). 40 As peregrinai;6es as rumbas dos Santos locais, comumeme orquestradas pelos bispos - como fez Gregorio de Tours para o cumulo de Sao Martinho -, rinham alga da mesma formalidade publica, pelo menos nas principais fescasdo santo. 41 A esfera publica nao se limitava as prociss6es. Constancio, apos sua chegada em 357, organizou jogos; assim rambem o fez o oscrogodo Teoderico, em sua visita formal a Roma, em 500.420 Circa Maximo, o maior estadio de corridas de carros de Roma, encontrava-se logo abaixo do palacio imperial, no monte Palatino, de onde o governante podia con- templa-lo; tambem em Constantinopla, o hipodromo escava ao lado do palacio, com uma entrada posterior direta ao camaroce imperial. Esse era o local (particularmente em Constantinopla, ja que os imperadores real- mente viviam la) para um dialogo estruturado entre o imperador e o povo. Geralmente, eram os imperadores que controlavam esses enconcros, mas permitiam algum tipo de resposca popular que ficava a cargo dos Hderes das principais "faci;6es" do circa, os Verdes e os Azuis (as cores das equi- pes), seja arraves do dialogo verbal ou por meio de tumulros_ Em certas ocasi6es, as coisas saiam de controle, coma ocorreu com os disturbios de Nika, que rnfrentaram as faci;6es de Constantinopla, em 532, durante os quais grande pane da cidade foi saqueada eJustiniano quase foi derruba- do; mas os tumultos de circa, nas principais cidades, tenderam a ser mais uma valvula de segurani;a, uma advercencia de descontentamento, que os imperadores ocasionalmeme levavam em considerai;ao; assim mesmo, e talvez mais normalmente, eram apenas um fator de divertimento. Na tomada de decis6es politicas, o publico cambem tinha um peso enorme. Havia discuss6es publicas (parcicularmente sabre religiao ou filosofia), realizavam-se discursos no forum, e uma mulcidao dirigiu-se 118 Cultura e cren~a no mundo cristiio romano para ouvir Sidonia quando este escolheu o bispo de Bourges. A comuni- dade politica significava a elite, claro, e nao havia nada nem remotamente democratico nos procedimentos politicos romanos; mas seus resultados eram comunicados verbalmem:e em publica, muiras vezes com bastante rapidez, ao menos nas cidades. As leis imperiais tambem eram proclama- das; quando Anastacio aboliu o impopular imposto sabre comerciames e artesaos, em 498, o decreto foi lido em voz alta em Edessa - um impor- tance entreposto comercial, mas muito distante de Constantinopla - no . - , 43 mesmo ano e ocas1onou uma comemorai;ao espontanea. O imperador tinha uma relai;ao ambfgua com o mundo publico. O Imperio Romano tardio foi um periodo no qual o cerimonial imperial rornou-se cada vez mais elaborado, em parte para distanciar o imperador de outras pessoas, "presas dentro dos limites do palacio", segundo uma ex- pressao de Sidonio.44 No palacio, a etiqueta tambem era muico daborada. Comer com o imperador - uma grande honra - era um ato cuidadosa- mente controlado, e Sidonia relata uma dessas refeii;6es com Majoriano, em 461, em Ades, na qual o imperador conversou por turnos com cada um dos sete convidados, que se esperava que brilhassem em suas respos- cas,e eram aplaudidos caso o fizessem (um aspecto dos persas que parecia muito estranho aos olhos romanos era que seus rituais religiosos os proi- biam de falar nas refeii;oes).45 Mas essa fonnalidade se equilibrava com a presuni;ao de que o imperador era acessivel.A pratica de peticionar ao ifh- perador, por auxilio ou contra uma injustip, era antiga no mundo roma- no, e nao se enfraqueceu de forma alguma no Imperio tardio; de faro, as leis dos c6digos imperiais sao muitas vezes respostas explkitas a perii;6es. Os peticionarios raramente se encontravam com o imperador em pessoa, e, obviamente, quern realmenre lidava com os seus pedidos (ou entao os ignorava) era a burocracia, mas o prindpio da resposca direta era preser- vado.46Em 475,Daniel, o Estilita, deixou momentaneamente sua coluna para procestar contra o apoio de Basilisco, imperador usurpador, ao mo- nofisismo, dirigindo-lhe cartas criticas, e, finalmente, conseguiu que este se rerratasse publicamente na propria catedral de Constantinopla; na sua hagiografia, a imagem do dialogo deve ter sido plausfvel, mesmo que os deralhes tenham sido inventados. 47 E esse tipo de imagem funcionava. A autoridade imperial continuou sendo popular e garantida. Os enviados ro- manos a carte de Atila, em 449,ofenderam muito os hunos quando disse- 119
  • 13.
    L 0 legado deRoma: Jlumi.nando a idade das trevas, 400-1000 ram que, embora Acila fosse um homem, Teod6sio II era um deus; essa era uma afirmas:ao evidence aos olhos romanos, embora essesenviados fossem, sem duvida, em sua grande maioria cristaos. 48 Os deuses tinham desapare- cido, mas o statusimperial mantivera-se inalterado - divinuspermanecera um termo tecnico que significava "imperial". A posis:ao do imperador era canto mais central pelo fato de que o lmperio Romano era considerado, por defini<;ao,sempre vitorioso, uma crern;:aque sobreviveu, inclusive, aos desastres do seculo V, De fato, a cristianizas:ao refors:ou isso: SeO Imperio cafsse, muitos acreditavam que o mundo acabaria. Nao se pode negar que os romanos eram confiantes. Os rornanos tra<;aramuma clara linha enrre o publico e o privado. A poHtica, em sentido formal, ocorria fora da habita<;ao privada, que era considerada, em parte, separada da atividade publica.49 Os palacios senato- riais podiam ser frequentados por quase qualquer um, e la eram negociadas muitas quesr6es politicas, mas continham espai;:os cuidadosamente calibra- dos, comunais e mais personalizados, para a recepi;:aode diences e potenciais dientes; e, exceto no caso de crimes extremos, o comporrarnento dos mem- bros da familia dentro das paredes de uma casa era de responsabilidade do paterfamilias,o chefe masculino da casa, e escavafora da competencia do direito publico. A casa era a unidade basica, chamada de domus,em latim, quando se enfatizava sua localizai;:aoflsica, efamilia, quando se referia as pessoas. Estava centrada numa familia nuclear composca por marido, es- posa, filhos; outros parentes eram, normalmente, mais distantes, pane de aliani;:aspoliticas mais do que pane da estrutura familiar, embora os pais, sevivas, ainda tivessem umagrande influencia. Os escravostambem faziam pane dafamilia, porem coma empregados dornesticos nao livres, e eram onipresentes em qualquer familia que dispusesse das minimas condi<;6es para te-los.Afamilia era muito hierarquica; esperava-sedopaterfamiliasque batessc, rotineiramente, nos escravos e nas crians:as. 0 relato de Agostinho acercade seu violento pai, Patricio, em suas autobiogrificas Conjissoes - uma importante fonte -, mostra que ele considerava comum que os maridos tambem agredissern as esposas, embora golpear a mulher pares:a ter sido considerado normal apenas no Ocidence latino - no leste grego erajulgado com maior hostilidade; nas pecii;:6esegipcias de div6rcio que sobreviveram, raramente se faz mens:ao aviolencia.50 Na lei, a autoridade dos paterfami- liasnao se estendia realmente as esposas, que ainda estavam sujeitas a seus 120 Cullum e crenya no mundo cristiio romano pr6prios pais (enquanto estivessem vivas), mas e claro que, na pd.cica, os maridos governavam. Agostinho, mais uma vez, retrata sua mae, Monica (que nao tinha escrupulos em cemar dominar seu filho),repreendendo suas vizinhas, em Tagaste, por reclamarem de seus maridos, dizendo que seus contratos de casamento "asobrigavam a servir aos maridos",51 e isso nao era simples ret6rica: os concratos egipcios de matrimonio obrigavam sistema- cicameme os maridos a proteger, e as esposas a servir. Agostinho criticou cercaEcdicia por sercelibataria, vestir roupas de viuva e dar sua propriedade aos pobres enquanco seu marido era vivo e sem a permissao dele: essa falca de submissao anulava a virtude que ela buscava alcani;:ar.0 estado podia parar diante dos muros da casa, mas os valores romanos, nao; e, em ambos os casos, a hierarquia era cncendida coma evidence. A esse respeito, nem o cristianismo fez mudans:a significativa alguma. Nao seria difkil argumentar que avida familiar do periodo roma- no-cardio era tensa e scm amor. Os casamentos eram quase sempre arranja- dos pelos pais com a intens:ao, afinal das comas, de salvaguardar e ampliar a propriedade; os maridos costumavam ser dez anos mais velhos do que suas esposas. Os escravos domesticos podiam minar a estabilidade da famflia de seus amos mediante fofocas maliciosas, e, em geral, pensava-se (talvez com razao) que scriam profundamente hostis aos seus senhores: no Que- rolus,umacomediado seculo V,um escravo diz: "£de conhecimento geral que todos os amos sao maus''.52 Nas narrativas tacdo-romanas, as crians:-as cosmmam aparecer ressentidas e rejeitando as restrii;:6espaternas (parti- cularmente, naqueles relatos nos quais pais e maridos fori;:avamas jovens de espirito virginal ao casamenco e, em seguida, a ter filhos). Agosrinho, cercamente, nao gostava de seu pai, e, apesar de reverenciar sua mae, teve que recorrer ao engano para escapar dela quando deixou Cartago para ir a Roma, quando tinha 28 anos.53 Mesmo assim, na Roma tardia, como em ourros lugares, as familias fdizes dao aos autores rnenos mocivos para escrever. Pode ser que o amor idilico e a conc6rdia, comemorados pelos aristocratas romanos pagaos Ptetextato (m. 384) e Paulina em poernas que, supostamente, escreviam um para o outro, e que foram gravados numa es- tela ap6s a morte de Pretextato, nao sejam cocalmence estereotipados ou atfpicos: "Eu sou feliz porque sou cua, fui cua, e logo - ap6s a morte - serei tua".54 Os "las:osamigaveis e decorosos" do casamento eram normalmente desiguais, mas nao necessariamente davam errado par causa disso. 121
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    O legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000 Legalmente, as mulheres estavam sujeicasaos pais, e, efetivamen- te, a seus maridos.55 No encanco,elas tinham plenos direitos de heran'ra sa- bre a propriedade paterna e materna, do mesmo modo que seus irmaos, e, no casamenco, controlavam legalmente suas pr6prias propriedades. Espe- rava-se que os maridos atuassem em name das esposas em assuntos pt.'1bli- cos,coma casosjuddicos, mas asmulheres contavam com todos os direitos legais para agir par coma pr6pria, caso quisessem. Ate o final do seculo IV, as viuvas nao podiam ser guardias legais de crian'ras, e seuspoderes es- cavam circunscricos; mas, na pratica, muicas vezes o faziam (certamente, ap6s a morte de Patricio, em 372, Monica controlava o dinheiro do quase adulco Agostinho). 56 As mulheres nao eram consideradas parte da esfera publica e nao podiam ocupar cargos. Mas hi pelo menos um exemplo de uma governadora de cidade, Patricia, em Antaiopolis, no Egito, em 553;57 e Hipitia de Alexandria, como a principal inceleccual da cidade, tinha um papel formal nos rituais publicos, recebendo visitas cerimoniais de funcionirios. 58 De faro, imperatrizes poderosas eram comuns no final do Imperio (particularmente no Oriente, nos seculos Ve VI; cf. capitulo 3), e nao esd. claro se esse poder era recebido com ressentimento, apesar da ret6rica dos opositores politicos e de alguns extremiscas cristaos. Nope- dodo romano tardio, o lar era universalmente considerado coma a esfera das mulheres: elas dirigiam a economia domestica. Mas as mulheres nao estavam impedidas de ser agentes economicos. Evidencias egipcias mos- cram viuvas comprando e vendendo propriedades sem consemimenco ou incerven'rao masculina (as mulheres foram proprietirias de 17 a 25% da terra do Egito, no seculo IV, o que nao era uma quantia trivial), e tambem alugando propriedade, emprestando dinheiro e atuando coma artesas in- dependemes e donas de lojas.59 Das mulheres (excecodas prostitutas e das dan'rarinas) esperava-se que se vestissem modestamence, mas elas nao per- maneciam veladas no dia a dia; podiam exibir ou reivindicar status social com roupas caras, e nao parecem ter sofrido isolamento. 0 duplo padrao de comportamento sexual era normal e sancionado pela lei (os homens, geralmente, tinham concubinas, mas esperava-se que as noivas fossem vir- gens e o adulterio feminino era considerado indefensavel); a imperacriz Teodora pode cersido atriz, o que significava que escavaautomacicamente em uma categoria legal semelhance aprostitui'rao - embora os relacossen- sacionalistas de suas acividades, feitos por Procopio, sejam flagrantemente 122 Cultura e cren~a no rnundo cristao romano re(oricos -, sem que isso haja restringido sua autoridade posterior. 60 As mulheres eram consideradas fracas e ignorantes, mas, mesmo excluindo Hipicia, ha muicas evidencias de alfabetiza'rao e dedica'rao literaria femi- nina, parcicularmence, mas nao apenas, entre a aristocracia. Como avaliamos essa rede de contradi'roes? Com as evidencias a nossa disposi'rao, nao e possivel dizer o que era cipico na pritica em cada caso,sea restri'rao ou a auconomia feminina. Sem duvida, como em muicas sociedades, poderiamos esperar autonomia para algumas mulheres bem- -sucedidas, que, no entanto, estariam mais exposcas a um maior escrudnio do que os homens, assim como acerca condena'rao moral, especialmente se seus maridos estivessem vivas; a maioria era, talvez, mais sujeita e passiva, voluntariamente (coma Monica) ou nao. Esse quadro geral pode muico hem ser valido para todos os nfveis da hierarquia social, pois o material egfpcio, ocasionalmente, se estende aos camponeses e artesaos. E o espa'ro que o criscianismo dava aascese permiciu que um pequeno, mas visivel, numero de mulheres escapasse complecamente das pressoes familiares, enquanto mancivessem o celibato e um comportamento disciplinado, de preferencia entre quatro paredes e em grupos. 61 No entanto, a mera quamidade desses direicos e limita'roes, comradit6rios entre si, era maior do que ern muicas sociedades: o Ocidente da Alta Idade Media irnpos, frequentemente, rescri'roeslegais e sociais mnito mais intransigences sobre o agir feminino, corno veremos no capitulo 7. Demro das concradi'roes, havia espa'ro para que as mulheres da Roma (ardia construissem suas pr6prias imagens sociais, se quisessem e tivessem sorte. 62 Mas o faziam em um mundo repleto de um imaginirio marcado pelo genera, que era negativo em rela'rao as mulheres ,propagado pelo mundo publico secular assim coma pela Igreja, com a masculinidade e as vircudes masculinas vistas como a norma (virtus significa canto "masculinidade" quanta "vir- tude") e a feminilidade associada com a fraqueza e ate mesmo o perigo, em particular entre os ascetas masculinos, para quern a sexualidade fe- minina representava, compreensivelmence, uma das maiores amea'ras. 63 Os homens tambem enfrencavam sinais contraditorios no mun- do em que viviam. A sociedade romano-tardia era muito hierarquica e a mobilidade social, em muitos casos, limitada pela lei, como vimos, embora fosse tambem bastante comum; a mistura de hipoteticas desigualdades, similares as cascas,ea presen'ra de "homens novos" sempre criam tensoes. 123
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    O Jegado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000 Os homens rornanos erarn rnuito propensos a se ofenderem guando arri- vistas e forasteiros nao curnpriam corn a etiquera; eles se irritavarn rnuito facilmente e, nesses casos, podiam se tornar violencos.64 Fausto, bispo de Riez (m. c. 490), observou amargamence, em um serrnao, que se um ho- rnem poderoso nos causa dano ou abusa furiosamence de nos, sofremos em silencio a fim de evitar maiores danos, porem, se uma pessoa inferior abusa de n6s, ficamos foriosos e buscamos vingan4ra.65 A violencia da praci- ca policica ejudiciaria romano-tardia significava que rais amea4raspodiarn serperigosas. Mas as elites instruidas rambem eram educadas segundo um comporramenco formal, decoroso e cortes; isso fazia parre da educa4rao da dice, de faro, e incluia nunca perder o temperamento e se esfor<rar para convencer - ou humilhar - pela habilidade ret6rica e nao pela arnea(j'.a. Como alguem podia fazer as duas coisas? Nao podia, e claro. Os homens instruidos do pedodo romano tardio ficavarnhorrorizados corn os manges justiceiros, com a turba de Alexandria, ou corn os homens poderosos com uma forma4raomilitar, coma Valentiniano I, par sua falcade autoconcrole e sua violencia.GG Em pequena escala, Sidonia ficou encantado quando, em seujantar com Majoriano, seu inimigo Peonio ficou visivelmente aborreci- do com uma ligeira gafe diante do imperador, urna viola4raocondenat6ria da etiqueta; a decorosa porem divercida risada do imperador foi suficiente para Sidonia, que se referia a ela coma "vingan4ra".Maso decoro era ainda mais importance porque os hornens cram reconhecidos como passionais. E a c6lera tambem podia ser usada politicamente, rompendo as barreiras do decoro, para fazer valer um ponto de vista, para mostrar que a pessoa devia ser levada a serio, ranco mais efecivamente por causa da formalidade do comportamenco politico "normal". No Ocidente p6s-romano, a poli- tica se tornou menos formalizada, mas a fori;:apolitica da ira continuou a ser uma arma poderosa para reis e pdncipes. Este capitulo e o anterior apresentam urn mundo rardo-romano estavel; isso nao quer dizer imud.vel (essefoi, sobretudo, um periodo de notavel inova4raoreligiosa),nem, naturalmence, livre de conB.itos,mas, mes- mo assim, de forma alguma estava condenado adissolu4rao.No capitulo seguinte, veremos como o poder politico romano sedesfez no Ocidente do seculo V, apesar dessa estabilidade interna. Mas tambem vale a pena per- guntar, nesre ponto, o que, dencre os padr6es politicos, sociais e culturais descritos ate agora, sobreviveria para formar aherarn;:aromana nos seculos 124 Cultura e cren~a no muudo cristao romano futuros. Isso e rnais facil de responder pelo que se disse no presence capitu- lo: a maioria dos padr6es descritos aqui sobreviveu. As estrurnras da Igreja foram as instancias que menos mu4ararn quando o Ocidente romano se despeda'.ou, e somente se tornaram politicamente rnarginais no sudeste e no sul do Mediterraneo, com as conquistas mu<rulrnanasdo seculo VII. A imporcancia da fe correta sobreviveu em Bizancio e em partes do Ocidente, como veremos em cap.irnlosposteriores. 0 compromisso religioso ascetico e as crfricas religiosas da sociedade secular nunca perderam sua for<ranos seculos vindouros, e os veremos reaparecer constancemente. Esses foram um legado especificamence cristao-romano para os tempos futuros. Por sua vez, as institui<r6espublicas do Imperio Romano sobreviveram como um modelo politico fundamental canto para Bizancio guamo para o califado irabe, ainda baseado em urn siscernacontinua de impastos sobre a cerra. No em:anco,cada vezmais, a tributa(j'.aosedegradou no Ocidente p6s-roma- no e as institui4r6espoliticas se simplificararn radicalmente. Mesmo assim, o guadro politico e inscicucional do lmperio Romano era tao complexo que essas novas vers6es mais simples ainda podiam fornecer um sistema governamental bisico, de esciloromano, para os reinos "romano-germani- cos",em particular para os francos na Galia, os visigodos na Hispania e os lombardos na Italia, os principais sistemas politicos dos dois seculos ap6s 550.E isso foi acompanhado de um senso de poder publico assim com:..o de um espa'.opublico para a pratica politica, que eram, em grande parce, uma heran4rade Roma. Essa polftica publica durou, no Ocidente, ate de- pois de findado o periodo carolingio, no minimo ate o seculo X, e muitas vezes ate mais tarde; sua desagrega4rao,onde ocorreu (patticularmente na Francia), foi importante. Esse momenta certamenre marcara o fim deste livro, pois, ao menos no Ocidente, representa o fim da Alta Idade Media. Muitas coisas,de faro, mudaram ao principiar a Alea Idade Media. As cominuidades religiosase culturais nao podem ocultar aimportancia da ruptura das estruturas estatais; aeconomia de troca tambem setornou muito mais localizada no Orience e no Ocideme, assim como menos tecnicamente complexa pelo menos no Ocidente. A sociedade aristocratica militarizou-se mais, e uma educa4rao literaria secular perdeu muito de sua importancia, par- ticularmente no Ocideme. Como resultado, nossasfontes escritas saornuito mais religiosas,tanto no Oriente quanta no Ocidente. A identidade arisco- cratica tambem mudou em coda pane, com as transforma'.6es politicas do 125
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    O legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-rnoo Ocideme, no seculo V, e do Orieme , no seculo VII; a riqueza aristocd.tica conjuma se contraiu na maioria dos lugares, ea elite senatorial de Roma, ex- tremamenre rica, desapareceu. Nao se deve exagerar essa contrac;ao, pois os aristocratas com ancestrais romanos continuaram a ser os principais acores, mas, dadas as mudanc;as culturais que acabamos de referir, sua antecedencia romana se rorna muiro mais dificil de ver. Os camponeses cambem se to. c- naram mais auconomos, na medida em que diminuiu a propriedade aristo- cratica global e se reduziu o poder estatal no Ocidente; em contrapartida, pode-se dizer que aumentaram as restric;oes impostas as mulheres. E, acima de tudo, cada regiao do lmperio Romano ceve,doravante, um desenvolvimen- to politico, social, economico e cultural separado. Antes de 550, o Oriente e o Ocidente sao tracados juncos, neste livro, mas depois disso des devem ser discutidos separadamente; e as hist6rias das terras francas, da Hispania, da Italia, da Britania, do Bizancio e do mundo arabe receberao uma analise individual, assim como as das terras nao romanas do none. Acima de todo o resto, essa localizac;ao e essa simplificac;ao geral caracterizam a Alta Idade Media. No entanto, como base de todos os sistemas politicos que veremos no restante deste livro, com excec;aodo sistema do extrema none, estava o peso do passado romano que, por mais fragmemado que se encontrasse, criou os elementos constitutivos para a pratica politica, social e cultural de codas as socicdades p6s-romanas nos seculos vindouros. Notas Enquanto incrodm;:6es,quase todos os livros cicadas no capkulo 1 sao igua!mente importances. P. Garnsey & C. Humfress, TheEvolution of the Late Antique World (Cambridge, 2001), pp. 132-215; e P. Brown, Power and Persuasion in Late Anti- quity (Madison, 1992); sao releiruras originais dos dados. Sabre o cristianismo, A. Cameron, Christianity and the Rhetoric ofEmpire (Berkeley, 1991); P.Brown, The RiseoJWestern Christendom, 2. ed. (Oxford, 1997); eR. Markus, TheEnd ofAncient Christianity (Cambridge, 1990); sao poncos de referencia fundame.ntais. Sidonius, Letters, ed. etrad. W. B.Anderson, Poemsand Letters (Cambridge, Mass., 1962-1965),4.25 (Chalan), 7.5, 8, 9 (Bourges); cf.J.Harries, Sidonius Apollinaris and the Fall ofRome (Oxford , 1994), pp. 179-186. Para concextualizac;ao,ebasico R. Van Dam, Leadership and Community in Late Antique Gaul (Berkeley, 1985). Para a complexidade das func;6ese da autoridade dos bispos, cf.sobrerudo C. Rapp, Holy Bishopsin Late Antiquity (Berkeley,2005). 126 Cultura e cren,a no mundo cristao romano · C pondance ed e trad A- Garzya & D. Roques (Paris, 2000) nn. Synes10s, orres , · · , .. ( b ) lo. 15 16· 46· 81· 124· 154 (a Hipatia); para Teofila e Cmlo, 105 carta a crta ; , - , , ' ' C H Alexandria in Late Antiquity (Baltimore, 1997), pp. 159-169; 295-316; . aas, d B E . (P . I f D Roques Synesiosde Oyreneet la Cyrenai'que u as- mpire ans, no gera, c • • , 2000), pp. 301-316. . . _ "Pagio" euma palavra insatisfat6ria. A religiao gre~o-romana crad1c1onal nao , enhuma palavra para denominar seus prat1cantes; contudo, pagan us, possu1a n . " _ . - · · J nte si·gni·ficava"rustico" i·aeucilizado para des1gnar nao cnstao que ongma me ' ( en (ou judeu)" no come<;odo seculo III, e se tornou comum no final do IV e.g. 1 , 8 370) "Helena" eoutra palavra tardo-romana que ve10 a ser 16.2.1 , para o ano • ' " utilizada para designar "pagao". Alguns autores modernos preferem o termo po- liteista", mas nem rodos os "pagaos" eram polireistas. Sabre O paganismo tardio, cf. G. W. Bowersock,Hellenism in~ate Andquity (Cam- bridge, 1990); F.R. Trombley, Hellenic Religion and Chmtzamzatwn c.370-529: 2 vols. (Leiden, 1993-1994); G. Fowden, CAH, vol. 13,PP· 53~-560; _Garnsey_ & Humfress, Evoltttion of the Late Antique World, PP·152-160;Joao do Efeso,Eale- siasticalHistory, ed. e trad. E. W Brooks (Louvain, 1935-1936), 2.44; 3.36. S b · d f s T Katz (ed) The Cambridue History ofJudaism, vol.4 (Cam- o re osJU eus, c . . . · , o bridge, 2006), pp. 67-82; 404 -456; 492-518. _ b 1· CTh 16 10 10 12(391-392) er 1.11.10(Justiniano). Para Edessa,Joao So re as e1s, , , • • - ' :J' do Efeso,EcclesiasticalHistory, 3.27-8. Para as celebrac;6esdo Pri meiro de Janeiro: Markus, End ofAncient Christianity, PP·103-106, e, em geral, para fesrivais, pp. 97-135. Greg6rio de Tours, "The Miracles of the Bishop Sr.1:artin", trad. em R. Van Dam, Saints and their Miracles in Late Antique Gaul (Prmceton, 1993), PP· 199-303, e.g.2.24; 3.29; 4.45. - 10 Augustine, Letters, trad. W. Parsons & R. B. Eno, 6 vols. (Washington, 1951- 1989), carta 29. 11 Van Dam, Saints and their Miracles, pp. 41-48. Sabre a bebida em cima da tumba d , c· Augusci"ne Letters 22· Augustine, Confessions,trad. H. Chadwick os mar ues: , ' ' './' , • l (Oxford, 1991),6.2.2. Gregorio Magno: Bede, HE, 1.30. Para uma anali;e ger~ do espa<;:o religioso e seus conrextos no Meditcrraneo, cf. P.Harden & N. urce , The Corrupting Sea (Oxford, 2000), pp. 403-460. 12 N. Gauthier, "La Topographie chretienne entre ideologie et pragmacisme", in: G. P. Brogiolo & B. Ward-Perkins (ed.), TheIdea and Ideal of the Town between Late Antiquity and theEarly Middle Ages (Leiden, 1999), pp. 195-209. 13 R. Kraurheimer, Rome: Profile ofa City, 312-1308 (Princeton, 1980), pp. 71; 75. 14 Para uma analise dos enrerros inrramuros e scus desenvolvimentos na Italia, cf.N. Christie From Constantine to Charlemagne (Aldershot, 2006), PP·252-259. Para os santo; falecidos, cf. P.Brown, The Cult of the Saints (Chicago, 1981). 1s Cf. B.Caseau, in: G. Bowersock et al. (ed.), Late Antiquity (Cambridge, Mass., 1999), pp. 406-407. 127
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    O legado deRoma: Iluminando a idade <lastrevas, 400-1000 16 Vie de Theodorede Sykt!on, ed. e trad. A. J.Fcsrugiere (Bruxelas, 1970), cc. 37; 43; 91-94; 103; 114-116; 162 etc. 17 M. Foucault.Discipline and Punish (London, 1977). Para os modelos de cristianismo cotidiano, cf.esp. P. Brown, CAH, vol. 13,pp. 632-664. 18 Garnsey & Humfress,Evo!ution ofthe Late Antique World, pp. 207-210. '9 SelectLetters ofStJerome, ed. e trad. F.A. Wright (Cambridge, Mass., 1963);a carta 22 eum bom exemplo. 20 A. Arjava, Women and Law in Late Antiquity (Oxford, 1996), pp. 177-192; G. Clark, Women in Late .Antiquity {Oxford, 1993), pp. 21-27; A. Giardina, CAH, vol. 14, pp. 392-398. 21 D. Goodblatt, in: Katz, Cambridge History o_/}udaism,vol. 4, pp. 416-423. 12 Rapp, Ho{v Bishops,pp. 172-207. 23 W. H. C. Frend, 1heDonatist Church (Oxford, 1952),p. 167,para os bispos; P.Brown, Religion and Society in theAge of Saint Augustine (London, 1972), pp. 237-331. 24 Brown, Religionand Society,pp. 183-226; B.R. Rees,Pelagius, 2. ed. (London, 1998). 2 ' R. Gryson, Les Origines du celibat ecclesiastique du premier au septieme siecle (Gembloux, 1970). ir, Para os debates criscol6gicos oriemais: H. Chadwick, C.AH, vol. 13, pp. 561-600, e P.Allen, CAH, vol. 14,pp. 811-834, ofrrecem narracivas uteis. A hiscoriografia e enorme; achei parcicularmente utcis as nitidas e incisivas introdu~6es teologicas de F.M. Young, From Nicaea to Chalcedon (London, 1983). Para o "arianismo", cf o mais receme crabalho, D. M. Gwynn, Ihe Eusebians (Oxford, 2007). 27 J. H. W. G. Liebeschuetz, Barbarians and Bishops (Oxford, 1990), pp. 157-189. 28 D. D. Bundy, "Jacob Baradaeus",LeMuseon, 91 (1978), pp. 45-86; L. Van Rompay, in: M. Maas (ed.), The Cambridge Companion to the Age ofJustinian (Cambridge, 2005), pp. 239-266. 29 Haas, Alexandria, pp. 258-330; Frend, Donatist Church, pp. 172-177.Mas ha um debate grande sobre quem exatamentc eram os circumcel!iones:cf. B. D. Shaw, in: A.H. Merrills (ed.), Vandals, Romans and Berbers (Aldershot, 2004), pp. 227-258; T. E. Gregory, VoxPopuli (Columbus, Ohio, 1979). 30 Sohre o patriarca Juvenal, Evagrios, TheEcclesiastical History ofEvagrius Scho- lasticus, trad. M. Whitby (Liverpool, 2000), 2.5; Cirilo de Cit6polis, "Life of Euchymios", Lives ofthe Monks ofPalestine, trad. R. M. Price (Kalamazoo, Mich., 1991), pp. 1-83, cc. 27-30. ' 1 P.Brown, Societyand the Holy inLate Antiquity (London, 1982),pp. I03-152, aruali- zado em CAH, vol. 14,pp .780-810; a recencee muico subscanciosabibliografia sobre ascecase sancosresume-sea duas conferencias, publicadas comoJ. Howard-Johnston & P. Hayward (ed.), Ihe Cult ofSaints in Late Antiquity and theEarly Middle Ages (Oxford, 1999), cjournal ofEarly Christian Studies, 6 (1998), pp. 343-671. 32 Lift ofDaniel the Stylite, crad. E. Dawes & N. H. Baynes, 1hreeByzantine Saints (London, 1948),pp. 7-71,c. 62; Teodoreco de Cirro, A History oftheMonks ofSyria, 128 Cultura e cren~a no mundo cristiio romano rrad. R. M. Price (Kalamazoo, Mich., 1985),26.22. Para Teodoreco, cf.T. Urbainc- zyk. Iheodoret ofCyrrhus (Ann Arbor, 2002), esp. pp. 115-147. l3 Barsanouphios & John, Correspondance, ed. e trad. F. Neyr et al., 3 vols. (Paris, 1997-2002), nn. 636; 671; 777; 775; 776; 669; 841. J4 P. Brown, C.AH, vol. 14,p. 806. 35 Jerome, Letters, 45. 36 Sohre monascicismo, cf. em geral D. J. Chitty, The Desert a City (Oxford, 1966); P.Rousseau, Ascetics, Authority and the Church in the Age ofJerome and Cassian (Oxford, 1978); C. Leyser,Authority and.Asceticismfrom Augustine to Gregorythe Great (Oxford, 2000). 37 1heRuleofSt Benedict, ed. e crad.J. McCann (London, 1952). Deve-se consulta-la. 3~ H. Kennedy, "From polis comadina", Past and Present, 106 (1985), pp. 3-27. 39 Ammianus Marcellinus, Res Gestae,ed. e trad.J. C. Rolfe, 3vols. (Cambridge, Mass., 1935-1939), 16.10.4-13; S. G. MacCormack, Art and Ceremony in Late Antiquity (Berkeley, 1981), pp. 33-61; M. McCormick, Eternal Victory (Cambridge, 1986), pp. 189-230 para Constantino VII e outros relatos pom:riorcs. 40 Gregorio de Tours,Lifa ofthe Fathers, crad. £.James (Liverpool, 1985),4.2; sabre o sitio de Conscancinopla, cf. capitulo 10. 41 Van Dam, Saints and their Miracles, pp. 116-149. 42 A. Cameron, CircusFactions (Oxford, 1976), pp. 225-296. /' 3 The Chronicle of Pseudo-Joshuathe Stylite, trad. F.R. Trombley &J. W. Watt (Li- verpool, 2000), c. 31. 44 Sidonius, Letters, 2.13.4 (cica<;ao), 1.ll (Majoriano). 45 Ammianus, Res Gestae, 23.6.80. 46 J. Harries, Law and Empire in Late Antiquity (Cambridge, 1999), pp. 82-84; 184-187. 47 Lift ofDaniel the Stylite, cc. 70-84. 48 Priskos, fragmenco 11.2, ed. e trad. em R. C. Blackley, TheFragmentary Ciassicizing Historians of the Later Roman Empire, vol. 2 (Liverpool, 1983),pp. 247-249; 257. 4~ S.Ellis, Roman Housing(London, 2000), esp. pp. 166-183; B. Polci, in: L. Lavan & W. Bowden (ed.), Theory and Practice in Late Antique Archaeology (Leiden, 2003), pp. 79-89; K. Cooper, "Closely Watched Households", Past and Present, 197 (2007), pp. 3-33. 50 Augustine, Confessions,9.9;Letters, 262 (aEcdicia); cf. esp. B. Shaw,"The Family in LaceAnriquity", Past and Present, 115(1987), pp. 3-51. Cf. rambem G. Nathan, Ihe Family in-Late Antiquity (London, 2000). Sabre as acitudes oriemais em rcla<;aoa violencia familiar, cf L. Dossey,"Wife-beating in Late Antiquity", Past and Present, 199 (2008), pp. 3-40. ' 1 J.Beaucamp,Le Statutde lafemmeaByzance (4'-?siecle), 2 vols. (Paris, 1990-1992), vol. 2, pp. 139-158; 127-129. 129
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    O legado deRoma: lluminando a idade das trevas, 400-1000 52 Augustine, Confessions, 9.9; Quero/us, ed. e trad. C. Jacquemard-le Saos (Paris, 1994), C. 67. 53 Augustine, Confessions, 2.3; 5.8. 54 Corpus fnscriptionum Latinarum, 6.1 (Berlin , 1876), n. 1779, com trad. parcial e comentario em K. Cooper, The Virgin and the Bride (Cambridge, Mass., 1996), pp. 97-103. 55 Arjava, Women and Law; Beaucamp, Le Statut, vol. 1. 56 Augustine, Confessions,3.4. 57 GreekPapyri in the British Museum, ed. F.G. Kenyon & H. l. Bell, 5 vols. (London , 1893-1917), vol. 5, n. 1660. 58 M. Dzielska, Hypatia ofAlexandria (Cambridge, Mass., 1995). 59 Beaucamp,Le Statut, vol. 2, pp. 227-247; R.Bagnall.Egypt in Late Antiquity (Prin- ceton, 1993), pp. 92-99; 130-133. 60 Beaucamp, Le Statut, vol. 1,pp. 206-208; V Neri, I marginali nell'Occidente tar- doantico (Bari, 1998), pp. 233-250. Sobre Teodora, nosso problema eque a unica fame arespeito da sua carreira coma atriz eProcopio [Prokopios},SecretHistory, ed. e trad. H.B. Dewing (Cambridge, Mass., 1935), c. 9, que euma denuncia retorica e independente: cf. L. Brnbaker, "Sex, Lies and Textuality", in: L. Brubaker &J.M. H. Smith (ed.), Gender in the EarlyMedieval World (Cambridge, 2004), pp. 83-101. Sena arnscado assumir que isso, inclusive, tinha algnm fnndo de verdade. 61 E. A. Clark, AsceticPiety and Women's Faith (Lewisron, NY, 1986), esp.pp. 175-208. 62 J.M. H. Smirh, "Did Women have a Transformarion of the Roman World?", Gender andHist0ty, 12.3 (2000), pp. 22-41. 63 Clark, Women, pp. 56-62; 119-126. 64 Brown, Power and Persuasion, pp. 35-61. 65 R.Mathisen, Roman Aristocrats in Barbarian Gaul (Anstin, Tex., 1993), pp. 50-51. 66 Ammianus, Res Gestae,30.8; Sidonia: Letters, 1.11, esp. 11.12. 130 3 CRISE E CONTINUIDADE, 400-550 1 Em 25 de fevereiro de 484, Hunerico, rei dos vandalos e dos alanos, egovernante das antigas provincias roman as do no rte de Africa, emitiu um decreto contra a heresia "homousiana" (diriamos aqui cat6lica) da popula- <rioromana de seu reino. Os vandalos eram cristaos arianos, e, portanto, consideravam as cren<rasda maioriaromanaincorrecas o suficiente a ponto de precisarem ser expurgadas. Hunerico, por consequencia, adaptou a lei do imperador Hon6rio , de 412, contra os donatistas de Africa - que tinha sido uma grande arma cat6lica nos dias de Agoscinho - ea empregou con- tra os pr6prios cat6licos. Hunerico foi explicito quanto a isso: Ebem sabido que devolver maus conselhos aqueles que os aconselharam e um atributo de majestade triunfante efor<;aregia... Enecessirio, emuito justo, virar contra eles o que esti concido nessas leis que foram promulgadas pelos impera- dores de diversas epocas que, com elas, tinham sido induzidos ao erro. 2 A conduta de Hunerico nesse decreto e na perseguiiy:aoque dele se originou (a qual parece terse aquietado ap6s suamorte, em dezembro 131
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    O legado deRoma: Jluminando a idadc das trevas, 400-1000 do mesmo ano) era de um consistente deboche: voces fizeram isso por coma pr6pria; portanco, eapenas justo que isso seja feito contra voces agora. Com efeito, coda sua prepara-;:ao para isso era um eco delibera- do da decada de 410. Hon6rio, em 410, havia convocado uma conlatio, um debate formal, entre bispos donatistas e cat6licos, que ocorreu em Carcago, em junho de 411; grande parte de suas atas sobreviveu, e elas apresentam uma impressionante mistura de jogos de poder cerimoniais, argumenta-;:6es e injurias, seguidos por um julgamento contra os dona- cistas, e, entao, pela repressao, um ano depois. Os donaciscas deviam sa- ber que, provavelmente, algo estava sendo armado contra eles, e quando, em maio de 483, Hunerico chamou os bispos cat6licos para um debate similar, em Carcago, em fevereiro do ano seguinte, estes certamente sa- biam o que escavapor vir. Os donatistas, em 41 l, e os cat6licos, em 484, cencaram evitar a discussao apresentando um manifesto, mas Hunerico, se acreditarmos no relato de seu fervoroso rival, Victor de Vita, ja tinha preparado seu decreto, encurtando assim o debate. Se isso for verdade, foi o unico desvio de Hunerico em sua reencenas:ao do drama honoriano. Hunerico gostava de ser um imperador romano no modo de perseguir, ato por ato, e os cat6licos sabiam bem o que ele estava fazendo. Os vandalos de Africa representam um paradoxo que e resumido por essa explicas:ao.3 0 uso moderno de seu nome mosrra a ma reputas:ao que des ja.tinham, manifestada, principalmente, no polemico relato de Victor sobre sua crueldade e sua opressao. A maior parte dos relatos con- cemporaneos sobre os vandalos era realmente negativa, do testemunho ocular de Possidio sobre a chegada violenta dessesgrupos aAfrica, em 429, as criticas do historiador romano-oriental Procopio ao seu estilo de vida luxurioso, no momenro da reconquista romana de 533-534. Sob o coman- do de seu mais bem-sucedido rei, Genserico (428-477), pai de Hunerico - que os levou da Espanha para a Numidia, e, depois, em 439, a Cartago e ao cencro cerealista africano -, seus navios (ex-navios graneleiros, sem duvida) pilharam a Sicilia, conquistaram a Sarden ha e saquearam Roma em 455. Hunerico nao foi o unico rei a perseguir os cac6licos. Trasamun- do (496--523) fez o mesmo por volta de 510. No encanco, ao concrario do que sepode imaginar, hi evidencias que mostram que os vandalos acredi- cavamser muito romanos. Todos aqueles dos quais cemosnoticia falavam latim. Hunerico casou-se com a sobrinha-neta de Hon6rio, e tinha pas- 132 Crise e conlinuidadc sado um tempo na Italia. A administra-;:ao vandala parece ter sido quase idencica aadminiscra-;:ao roman a da provincia de Africa e composca por africanos (no maximo, des devem cer adotado o c6digo de vestimencas vandalo); a moeda era uma adapca-;:aocriativa de modelos romanos; os reis aplicavam os tributos corno os romanos tinham feito e, por consequencia, as elites vandalas acumulavam grandes fortunas, que gascavam amanei- ra romana, em luxuosas residencias urbanas e igrejas, como nos contam canto as fonces escritas quamo as arqueologicas. A arqueologia, de fato, indica poucas mudan-;:asna maior parte dos aspeccos da cultura material africana em codo o seculo vandalo. E, e claro, sua persegui(j:a.O religiosa era inteiramence romana. Outros povos conquistadores germanicos eram tambem arianos, notadamente os godos, como vimos, mas eles viam sua religiao, na maior parte, como uma demarcas:ao de suapr6pria idemidade vis-a-visa seus novos sudicos romanos, que podiam continuar cat6licos. Apenas os vandalos assumiram que sua versao do cristianismo deveria ser a universal e que as outras deveriam ser extirpadas, como os pr6prios romanos fizeram: dai entao o tom negativo dos relacoscontemporaneos, que sio todos escricos por cat6licos. Assim, e possivel ver os vandalos como uma versa.ados pr6prios romanos. Na verdade, eles poderiam ser viscoscomo um exercito renega- do que tomou o poder em uma provincia romana ca administrou de uma maneira romana; embora os vandalos nunca tenham sido cropas federa- das imperiais, eles se assemelhavam bascante a elas, e qualquer um teria di6culdades para idemificar algum elemento nas suas praticas policicas ou sociais que tivesse raizes nao romanas. Mas estadamos enganados caso pensa.ssemos que nada mudou quando Genserico encrou rnarchando em Carcago. Houve duas grandes diferens:as. Em primeiro lugar, os vandalos governaram a Africa como uma aristocracia fundiaria milicar, que conci- nuava a ver-secomo etnicamente distinta. Exercitos romanos que comaram o poder antes do seculo V comencavam-se em criar seupr6prio imperador e retornar aos quarceis com ricos presences; mas os vandalos tornaram-se uma elite politica, substituindo e expropriando a aristocracia senatorial, em grande pane ausente (e, tambem, alguns proprietirios romanos que viviam no norte de Africa, embora a maioria destes tenha sobrevivido). Em segundo lugar, os vandalos dividiram a infraestrutura mediterranea do lmperio tardio; des tomaram o concrole da maior provfncia exporta- 133
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    0 legado deRoma: fluminando a idade das trevas, 400-1000 dora de graos e azeite do Ocideme, principal fornecedora de alimentos da cidade de Roma. A comida costumava ser, em grande parte, fornecida gratuitamente, grac;:asaos impastos; no emanco, os vandalos eram auto- nomos e mamiveram a produc;:aoafricana para si - embora estivessem preparados para vende-la. A espinha dorsal de impostos Cartago-Roma chegava ao fim. A populac;:ao da cidade de Roma comec;:oua diminuir vertiginosamente depois da metade do seculo V; no seculo seguinte ela provavdmente caiu mais de 80%.4 E um grande rombo apareceu no cui- dadosamente balanceado sistema focal do Imperio Ocidental; os roma- nos enfrencaram uma crise fiscal, justamente quando mais precisavam gastar com as tropas. Nao ter previsto gue Genserico comaria Cartago, apesar de ~n-1tracado firmado em 435, e indiscutivelmente 0 principal erro escrateg1codo governo imperial no seculo V: foi O momento em gue o desmembramento politico do lmperio Ocidental, pela primeira vez, se cornou uma s~riapossibilidade. Dai os tardios mas intensos esfon;:ospara recapcurar a Africa em 441, 460 e, especialmente, a grande mobilizac;:ao de 468, que falharam desastrosamence, apesar de a forc;:a militar vandala nao ser, ate onde se pode observar, inusitadamente grande. No final, a re- conquista em 533-534foi facil; mas o Imperio Ocidental, nesse momenta ja deixara de exiscir.Nao obstante o faco de serem muico romanizados 0 ; vandalos foram agentes de grandes mudanc;:as. ' Essa ea caracteristica-chave dos acontecimentos do seculo v,pelo menos no Imperio Ocidental. Repetidas vezes OSexercitos "barbaros" ocuparam provincias romanas, as quais eles administravam de manei- ras romanas; nada mudou, mas tudo mudou. No ano 400, os Imperios Roma~~s, Ocid~~tal e Or~ental, eram gemeos, governados por irmaos (Honono e Arcad10, os dots filhos de Teod6sio I, que governaram em:re 395 e 423 e 395 e 408, respectivamente), com pouca diferenc;:aestrutural entre des e, coma vimos no capitulo I, nenhuma fraqueza interna funda- mental. Em 500, o Oriente quase nao tinha sido alterado (na verdade, de estava passando por um boomeconomico), mas o Ocidente se enconcrava d_i~id,i~o em meia duzia de grandes sec;:6es: a Africa vandala, a Espanha vmgotrca e o sudoesre da Galia, a Burgundia (sudeste da Galia), 0 nor- te franc~ da Galia, a Italia ostrog6tica (induindo a regiao dos Alpes) e uma sene de unidades autonornas menores na Britania e em 0utras zonas rnais rnarginais em outros cantos. Os rnaiores sistemas politicos ociden- 134 Crise e continuidade tais eram codos regidos por uma cradic;:aorornana, embora fossem mais rnilitarizados, suas estrucuras fiscais estivessem mais fracas, tivessem me- nos incer-relac;:6es economicas, e suas economias internas se revelassem, muitas vezes, rnais simples. Uma grande mudanc;:ahavia ocorrido sern que ninguem, em particular, a planejasse. 0 prop6siro d~ste capitulo e_ inves- cigarcomo essamudanc;:aocorreu - mas nao de maneira recrospecnva: Os acontecirnentos do seculo V nao eram inevitaveis, e nao foram perceb1dos como ral pelas pessoas que os vivenciaram. Nesse periodo, ninguem ~ia ue O lmperio do Ocidence estava "caindo": o primeiro autor a espec1fi- ~amente datar seu fim (em 476) foi um cronista residence em Constanti- nopla, Marcelino comes,que escreveu por volta de 518.5 Varnos olhar para esses evemos em quatro divis6es cronologicas: ate 425, ate 455, ate 500 e ate 550,de modo a centar fixar quais foram as principais rnudanc;:as,mas cambem as permanencias, em cada um <lessesescagios. Depois, entao, li- daremos com a questao do significado dessas mudanc;:as. 6 Honoria e Arcadio nao tiveram nenhum tipo de procagonisrno olitico, nem carnpouco seus sucessores no cargo imperial, e somence por p 1 . - volta da decada de 470 governantes eficazes vo caram a ocupar pos1c;:oes politicas supremas. Queros governavam atraves deles. No Oc~d-ente,oh~- rnernforce,no inkio do seculo V,era Estilicio, comandante m1htar (mag/S- termilitum praesentalis)dos exerciros ocidentais desde 394: um poderoso negociador, como eleprecisava ser. Durante o tempo de sua influencia, de enfremou Alarico, rei dos godos (cercade 391-410),que tentava estabelecer um local permanente para seu povo. Os grupos godos emr~ram n~ l~~erio pela primeira vez em 376 (como vimos no capitulo l); apos sua v1tona em Adrian6polis, em 378, eles forarn deixados em paz, na decada_de 380, na Iliria e na Tricia, os Ba.leasmodernos. Alarico foi o primeiro chefe godo a servir, com seus pr6prios seguidores, em urn exerciro rornano, sob o co- rnando de Teodosio, em 394. Porem, esse acordo militar deixou de existir por volta de 396, e os godos de Alarico (referimo-nos ades corno visigodos para evitar confusao com ourros grupos g6ticos, embora eles nao se cha- massem assim) passaram duas decadas tentando reconquiscar, pela forc;:a, uma posic;:ao de reconhecirnento no lmperio- Eles atacaram a G_recia,em seguida se moveram para o norce, e adencraram a Italia Setenrnonal, em 401. Escilicao os derrotou e empurrou-os de volta aIliria, em 402, mas eles recornararn em 408. Nesse momenta, eles nao eram os unicos "barbaros" 135
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    O legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000 dentro do lmperio; outros grupos, provavelmeme persuadidos a [entar a sorte do outro lado da fronteira, devido ao crescimemo do poder dos hunos, emraram duranre a mesma decada. Em 405, um exercito composto por maioria g6tica, liderado por Radagaiso, arravessou os Alpes pelo norce, na direc;aoda Icalia; Estilicio os derrotou e os destruiu nos arredores de Flo- renc;a,em 406. Para tudo isso, Estilicio precisava de um exercito maior do que aquele que a Italia possuia - especialmente porque elemesmo tambem pretendia fazer da Iliria pane do lmperio Ocidemal, e nio do Oriental-, por issodeslocou tropas da fronteira do Reno a fim de suprir essanecessida- de. Essa decisao foi provavelmente um erro, pois seguiram-se um a invasio de tribos da Europa Central, liderada pelos vandalos, que atravessaram o Reno na vespera do ano-novo de 406; uma irruViaO na Galia Ocidental e depois (409)na Espanha, que nio encontrou quase nenhuma resistencia; e tambem, em 407,outra invasio da Galia, dessa vez par um usurpador, Constantino Ill (406-411),no comando do exercito da Britania romana. Diante dessas mulriplas crises, corne'rararn a correr boatos e tramas contra Estilicao e, ap6s um motim, de foi executado em 408. Estilicio foi derrubado por problem as que nao erarn inreiramence de sua pr6pria responsabilidade; o governo ocidenral, logo ap6s sua morce, corneteu muitos erros. Estilicao tinha origem meio vandala, e era consi- derado por alguns corno demasiadamente favoravel aos "barbaros"; aque- les que estavam em seu exerciro italiano forarn massacrados ou passararn para o lado de Alarico. Este era dominance na Italia, em 408-410,mas os romanos nio faziam acordos de paz com de de forma perduravel, apesar de eleter sitiado Roma por tres vezes. No final, de saqueou Roma em 410, em um evento que chocou o mundo romano da mesma forma que o 11de Setembro de 2001 chocou os Estados Unidos, um grandee perturbador golpe simb6lico em sua autoconfianc;a; mas isso nao ceveoutras repercus- soes e foi apenas um passo na longa jornada dos visigodos rumo ao seu assencamemo. Os godos tencaram ir em direc;ao ao sul, para a Africa, no entanro acabaram indo para o norce e ademraram a Galia, sob seu novo chefe Ataulfo (410-415);la eles encontraram uma confusio ainda maior e ajudaram a aumema-la, pois, em 411,havia quatro imperadores rivais, a maioria deles protegidos por diferentes grupos "barbaros". Lentameme, os exercitos romanos legitirnistas reagruparam-se sob urn novo magister militum, Constancio (411 -421),que derrotou os usurpadores um a um 136 Crise e continuidade e for'rou os grupos "barbaros" a chegarem a um acordo. Os visigodos de Ataulfo eram, assim como os exercitos romanos, dependences dos graos do Mediterraneo, e OS romanos OS bloquearam ate sua rendi<raoem 414- -417;eles acabaram lutando a servi'ro dos rornanos contra os vandalos na Espanha - que foram parcialmente destruidos em 417-418- ate que, em 418,finalmente se estabeleceram nos arredores de Toulouse. Constancio casou-se com Gala Pladdia, a irma de Hon6rio que anteriormente tinha sido casada com Acaulfo, e tomou-se coimperador, pouco antes de sua morce em 421.As rivalidades militares continuaram, mas a crise se acal- mou. Porvolta de 425,ap6s uma sucessao disputada, Valentiniano Ill, so- brinho de Hon6rio e filho de Constancio e Pladdia, tornou-se imperador do Ocideme (425-455),tendo sua mae como regente. 0 Oriente enfrentou menos traumas durance esseperiodo. Os Bal- dis eram um distrito militar, que sempre foi aparte mais invadida do lmpe- rio Oriental; tambem sofreram ataques hunos na regiao, canto antes quanta depois da safda dos godos. Mas Constantinopla, na borda dos Ba.leas,era bem defendida, ea riqueza do Oriente seencontrava no Levante eno Egito, bem distante da fronteira norte. Acima de tudo, a Persiasassauida, tradicio- nal inimiga dos romanos no Oriente, esteveem paz com o lmperio por qua- se coda o seculo V,provavelmente par enfremar seus pr6prios problemas em outros lugares, o que garantiu ao lmperio do Oriente uma grande segu- rarn;aescrategica.As politicas orientais eram com frequencia rnmultuadas, asvezesviolentamente, como no caso da histeria "amibarbaros", na capital, que, em 400,destruiu o magister militum Gainas e,logos ap6s, tambem seu rival Fravita, uma antecipa<raodo destino de Estilicio no final da decada. Mas, por essaepoca, a maioria dos chefes politicos do Oriente era compos- ta de civis e nao soldados, que governavam em nome de Arcadia e de seu igualmente inativo filho Teod6sio II (408-450);e, realmeme, nesseperfodo as imperatr izes eram particularmente proeminentes em Constantinopla, como Eud6xia, a esposa de Arcadia, em 400-404, e Pulqueria, a irma de Teod6sio, nas decadas de 410-420.Cada uma delas, entre outros atos, der- rubou ambiciosos e inflexfveispatriarcas de Constantinopla, Joa.a Crisos- tomo, em 404, e Nest6rio, em 431, respectivamente .7 Issapor si s6 mostra que o lmperio Oriental escavadesenvolvendo um estilo politico diferente daquele do Ocidente: o patriarca de Constantinopla, apenas estabelecido em 381,ja era um protagonista nas policicasseculares de uma maneira que o 137 I I I!
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    O legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000 papa, em Roma, nao seria ainda capaz por mais um seculo. 0 fato de que o Imperio Ocidental era governado apartir de Ravena, e nao de Roma, signi- ficavaque aspoliticas citadinas de Roma tinham setornado menos centrais para ele; a importancia dos condlios eclesiasticos e dos debates doutrinais, como um nucleo de unidade e dissensao, tambem era maior no Oriente, dando aos bispos, em geral, mais voz politica do que teriam no Ocidente nessemomento. A rda<;:ao Igreja-estado tambem permaneceria muito mais intima no Oriente no futuro, exceto, muito tempo depois, durante o perio- do carolingio, no Ocidente, como veremos no capitulo 16. Em 425,o Oriente encontrava-se esd.vele tinha comepdo alonga recuperac;aoeconomica que iria cominuar ate o final do seculo VI e o inkio do VII. No entanto, o Ocidente cambem tinha alcan<;:ado, ap6s decadas de turbulencia, uma consideravel estabilidade. A maioria das fronteiras ainda era guardada por tropas romanas . Havia grupos "barbaros" assentados no Imperio, e verdade, separados da hierarquia militar romana: os visigodos, entre Bordeaux e Toulouse, e os remanescentes da confedera<;:ao vandala, no oeste da Espanha, os suevos no none e os vandalos asdingos no sul; mas todos estes haviam sido derrotados, epelo menos osvisigodos estavam em uma alian<;:a formal de federa<;:ao com Roma. 8 Apen as nas provincias setentrionais do oeste, ao norte do rio Loire, a situa<;:ao ainda era insd.vel. A fronteira mais ao norte da Galia foi cada vez mais povoada por francos, vindos da outra margem do Reno; no noroeste havia revoltas camponesas intermitentes, de grupos chamados bagaudae, que come<;:aram aconfusao nos anos 410 e continuaram ate 440, presumidameme uma rea<;:ao exaspe- rada contra a caxac;aocontinua em tempos de fracasso militar; 9 e aBritania havia sido abandonada pela administra<;:aoromana ap6s 410. Emretanto, essas areas eram ainda mais marginais para o Ocidente do que os Ba.leas para o Oriente. Or6sio, um apologista cristao que escrevia na Espanha, em 417,ja podia usar o cliche de que "os barbaros, relegando suas espa- das, voltaram-se para seus arados e agora valorizavam os romanos como companheiros e amigos", e isso nao pareceria uma visao falsa durance a decada seguince.w Nesse mesmo perfodo, entre 413 e 425 para ser exato, Agostinho escreveu sua monumental obraA Cidade de Deus, inicialmente como rea~ao ao saque de Roma; nao era nem um tratado criunfance sabre a vit6ria crisca romana (como era o texto de Or6sio), nem uma polemica sobre os perigos enfrencados por Roma devido aos seus malfeitos. Agos- 138 Crise e continuidade tinho foi, de fato,cuidadoso em nao acribuir demasiada importancia ou longevidade ao grande experimento imperial romano, pois a cidade celes- tial e separada das formas polfticas terrenas. Apesar disso, seu livro ain- da pressup6e uma consideravel confian<;:ano futuro imperial. 0 pr6prio mundo poderia acabar, e claro, e Agostinho acreditava que isso ocorreria em breve, mas nao ha indica<;:6es aqui de que qualquer pessoa esperasse ou cemesseo fim do Imperio. As coisas mudaram na gera<;:ao seguinte, por volta de 455.No Oriente, a politica ficou calma, exceto pelos regulares ataques hunos nos Ba.leas.Esse periodo foi marcado pela ambiciosa compilac;ao das leis em vigor no Imperio, que se chamou Codigo Teodosiano,finalizada em 438;11 essas eram leis orientais e ocidentais (muitas delas parecem ter sido cole- tadas na Africa), mas foram compiladas em Constantinopla e receberam o nome do imperador do Oriente. Tal periodo tambem foi marcado por dois condlios eclesiasticos decisivos: ode Efeso, em 431,e ode Calcedo- nia, em 451,como vimos no capitulo 2, embora suas defini<;:6es tenham sido alcan<;:adasacusta de alienar grandes setores da comunidade crista, do Levante e do Egito, que se viram estigmatizados como hereges mono- fisitas. Pulqueria foi uma aniculadora de destaque nos bastidores de cada um desse concilios. Ela ceveum papel relacivamente pequeno na carte, en- ereambos os concilios, especialmente nos anos 440, mas, com a morte de Teod6sio II, lanc;ouseu sucessor,Marciano (450-457),ao se casar com ele, e foi novamente influence ate sua morte em 453.0 condlio de Calcedo- nia, em particular, foi um momenta decisivo, mas o fato de que a politica do Oriente dependia dessas grandes reuni6es eclesiasticas mais do que da guerra fala por si mesmo. 0 Ocidente conheceu mais problemas. Os chefesmilitares lutararn em name do jovem Valentiniano, porem Aecio, que tinha sua base na Ga- lia, sobrep6s-se a eles,em 433.Aecio governou o Ocidence como magister militum ate 454,mas seus interesses permaneciam na Galia. 12 A responsa- bilidade por deixar os vandalos tomarem Cartago e essencialmente dele; Aecio reagiu, mas de maneira ineficiente e demasiadamente atrasada. Sua principal preocupa<;:ioeram os visigodos, a quern ele, ao menos tempora- riamente, pacificara em 439.Oucros grupos "birbaros" na Galia tambem foram persuadidos a aceitar a hegemonia milicar romana, incluindo os alanos e os burgundios, que foram assencados pelo pr6prio Aecio no vale 139
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    O legado deRoma: lluminando a idade das trevas, 400- 1ooo do Baixo Loire e no Alto R6dano, respeccivamence, em 442-443. A Galia permaneceu escavelsob a hegemonia romana, como resultado da atern;:ao de Aecio, apesar de ser inegavel que mais grupos auconomos se estabelece- ram por la ap6s sua morre do que antes. Do mesmo modo, a Italia, cora- i;:aodo Ocidente, era na verdade menos ameai;:adapor invas6es do que nos primeiros anos do seculo. Mas a Africa tinha sido perdida, como rambem a Espanha logo que os vandalos a deixaram, em 429, passando principal- mente para o controle suevo, nos anos 440; no encanro, a Espanha, como vimos, era bem menos essencial para a infraesrrurura imperial. Ena decada de 440 que temos nossas primeiras indicai;:6es,na legislai;:aoocidental, de que a tributai;:ao-padrao era insuficiente para pagar as tropas imperiais, o que prenunciava os aumenros de imposcos.13 Os bagaudaereapareceram , no norte da Galia, e depois tambem no noroesre da Espanha, que era a parte da Peninsula Iberica ainda sob controle romano. Por volta de 440, Salviano de Marselha escreveu um longo e intlamado senna.a chamado Sobreogovernode Deus, que auibuia os fracassos dos romanos contra os (obviamente inferiores)"barbaros" aosseuspr6prios pecados: notadamente a injusta e excessivataxai;:ao,o enrretenimenco publico e a permissividade sexual.14 Esse e o ripo de coisa que os pregadores cristaos extremistas sem- pre disseram (eainda dizem), e seus detalhes nao podem ser levados muito a serio; nao podemos concluir, por exemplo, que as provincias ocidenrais realmente escavamsendo descruidas pela alcauibuca~ao, e seria melhor ver a obra de Salviano como uma prova da continua eficacia do sistema fiscal. Porem, e sem duvida verdade que a visa.aque Salviano cinha do Ocidente agora incluia os "barbaros" como agentes politicos estiveis, alrernativas ao dorninio romano, e o mesmo se aplicava aos bagaudae(embora estes ultimos fossem, na realidade, menos estaveis, e desaparecessem de nossas fontes por volcade 450; Aecio e seus aliados barbaros os derrotaram). Sal- viano pensava que os romanos muitas vezes escolhiam ser governados por "barbaros" a firn de escapar das injusti~as do estado romano. lsso prova- velmente nao era comum nos anos 440, mas ja era possivel imaginar uma coisa dessas;no Oriente, o historiador Prisco, ao discutir acercados hunos, nessa rnesma epoca, escreveu algo parecido. Aecio, em suas campanhas contra os visigodos e oucros povos, depend ia bastante do apoio militar dos hunos. 15 Estes ultimas haviam, o rnais tardar na decada de 420, em sua maioria, se assentado fora do 140 Crise e continuidade Imperio, no meio da planicie do Dam'tbio, onde hoje e a Hungria, um ponto estrategico para atacar canto os Ba.leasquamo o Ocidente . Mas eles nao representavam um perigo em larga escala ate que Atila (por vol- cade 435-453) e seu irmao Bleda unificaram-nos e refon;:aram sua hege- monia milicar sobre outros grupos "barbaros", notavelmenre os gepidas e aquela sei;:aodos godos a que chamamos de ostrogodos, pot volta de 440. A decada de 440 foi marcada pot serios ataques hunos em codas as direi;:6es,culminando nas grandes invasoes da Galia, em 451,e da Icalia, em 452. Entretanto, OS hunos foram derrotados na Galia (Aecio usou OS visigodos contra eles, do mesmo rnodo que anteriormente usara os hunos contra os godos) e recuaram da Italia, pot raz6es pouco claras; em 453, Arila morreu inesperadarnente, e, em 454-455, confliros encre seus filhos e os povos sujeitados a eles ocasionararn o rapido desmanrelamento da hegemonia huna. Os hunos eram aterrorizantes por ser urn povo desco- nhecido, mas, na qualidade de amea~a militar direta aos romanos, nao passavam de um fogo de palha. 0 mesrno pode ser dico da construi;:ao, pot Acila, de um foco politico alternarivo as capitais do lmperio, o que parecia impressionante na epoca, mas nao durou muiro mais que 15anos. Pode igualmente ser argurnentado que os hunos ajudaram os romanos nao apenas ao lutarem ao lado de Aecio, mas tambem corno uma fori;:a de estabilidade (o que resultou em menos movimentos populacionais) para alem da fronteira. Mas isso rambem nao durou para alem de 454. 0 Irnperio Hnno entrou em colapso, mas Aecio ja estava morro, assassinado pelo pr6prio Valentiniano III, em 454, que morreu um ano depois como consequencia direta disso. Aecio seria posteriorrnente visto como (citando aqui Marcelino comes)"aprincipal salva~aodo Imperio Oci- denral", em grande pane porque era seu ultimo comandanre a transmitir uma impressao de energia militar durance urn longo periodo de tempo. Seus erros, principalmente na Africa, poderiam ser considerados igualmente fa- tais. Mas a decada de 450 ainda conheceu um certo nivel de escabilidade no Ocidente. Ele agora continha meia duzia de governos "barbaros", com os quais qualquer chefe romano teria de lidar, embora ainda mancendo uma posii;:aode for~a: todos esses governos operavam segundo as regras rornanas e se preocupavam bascante com o Imperio a fim de intluenciar sua escolha como governances. lsso foi demonstrado na crise que sucedeu a morce de Valeminiano, quando Genserico saqueou Roma; Teodorico II 141
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    olegado de Roma:lluminando a idade das trevas, 400-1000 dos visigodos (453.466) persuadiu o eparcaAvito- um senador daAuver- nia, no cenrro da Galia, e um dos ex-generais de Aecio, que no momenta estava em uma missao diplomatica para ele - a reivindicar o cargo impe- rial, em 455. Avita nao era nenhum fancoche, mas isso nao fez diferern;:a. 16 Ele nao durou muito, mas ainda haveria espa<;:o para que um governante energico, no Ocidente, mancivesse ao menos a hegemonia de Aecio, e ace talvez recuperasse aquela de Constancio, sepudesse obter apoio logfstico oriental (algumas vezes dispon(vel), e se tivesse muita sorte. Mas a sorce imperial nao durou muito. As duas decadas seguin- tes, que adencraram a gera<;:ao seguinte, sao o pedodo no qual o Ocidente finalmente se quebrou em peda<;:os.'7 Avita, claramence um gaules candi- daro ao Imperio, foi derrotado pelo exercico italiano sob o comando de Majoriano e Ridmero, e esteprimeiro setornou imperador (457-461).Ma- joriano teve o trabalho de obter tanto o reconhecimento oriental quanta o suporte dos aliados gauleses de Avito; cambem emitiu uma legisla<;:ao que mostra suas aspira<;:6esreformiscas. Mas, se ele foi energico, certa- mente nao foi sortudo, pois Ridmero, seu magister militium, organizou um golpe e mandou mata-lo. Ridmero, cntao, governou ace sua morte, em 472, par meio de uma sucessao de imperadores ptaticamence todos fantoches, apesar de Antemio (467-472), uma figura milicar do Oriente, cer demonscrado uma cerca presen<;:ae auconomia, ate Ridmero se de- sentender com de. Foi Antemio quern organizou, junta com o general oriental Basilisco (cunhado do imperador Leao I do Oriente), o grande ataque contra os vandalos, em 468, o que nao foi apenas um fracasso, mas um fracasso especialmente caro. Depois disso, Ridmero concentrou-se na Italia, a qual ele defendeu eficientemente, e deixou o resto do lmperio, em grande parce, por sua pr6pria coma, embora mancivesse liga<;:6es com o sudeste da Galia atraves de seu genro, o principe burgundio Gundobal- do, que, durance um curto pedodo de tempo, sucedeu a Ridmero coma o homem forte do lmperio, antes de deixar a Italia para se tornar rei dos burgundios (474-516). Edificil conhecer Ricimero por meio das fonces, que sao hostis e vagas, mas nao hi indkios de que ele tivesse interesses politicos e ambi<;:6es que seestendessem para alem da Icalia; dee um sinal claro de que os horizontes imperiais estavam encolhendo. Depois de mais dais golpes de curta dura<;:ao,Odoacro, efetivamente o pr6ximo militar supremo na Italia (476-493), nao sepreocupou em nomear nenhum .impe- 142 • Crise e continuidade rador para o Ocidente, mas, em vez disso, fez o Senado romano criar uma peti<;:ao, dirigida a Zenia, o imperador do Oriente, em que afirmava que apenas um imperador era necessario naquele momenta; Odoacro entao governou altilia em nome de Zena.a, coma patricius (patricio), um dtulo urilizado tanto por Aecio quanto por Ridmero, apesar de que, dencro da Italia, Odoacro se autointitulava rex, rei.18 0 anode 476 ea data tradicional para o fim do Imperio do Oci- dente, com a derrubada, na Italia, do ultimo imperador, Romulo Augus- rulo, embora seja possfvel considerar o anode 480, pois Julio Nepos, o predecessor de Romulo, governou a Dalmacia ate entao. 19 Mas a Italia e, na verdade, a regiao do Imperio Ocidencal que viveu menos alterai;:6esnos anos 470, ji que Odoacro governava ao modo de Ricimero, afrente de um exercito regular. A Italia nao experimentou nenhuma invasao OU conquista ate 489-493, com a chegada de Teodorico Amalo e seusostrogodos, porem Teodorico (489-526) governou da maneira mais romana possfvel.0 fim do lmperio foi experirnentado de maneira mais direta na Galia. 0 rei visigo- do Eurico (466-484) foi o primeiro grande governante de um siscemade governo "barbaro" na Galia - e o segundo no Imperio ap6s Genserico - a ceruma pritica poHtica totalmente autonoma, sem influencia de nenhum residua de lealdade romana. 20 Entre 471 e 476, ele expandiu seu poder em dim;:ao ao leste, ao R6dano (ealem, na Proven<;:a), ao norce, no sentido do Loire, e ao sul, rumo aEspanha. Os godos ja haviam lucado na Espanha desde o final da decada de 450 (inicialmente em name do imperador Avi- ta), mas Eurico comandou, entao, uma verdadeira conquista, que nao esti bem documentada, masque parece ter tornado todo o territ6rio (com ex- ce~aode um enclave suevo no noroeste) quando de sua morte . De longe a mais bem documentada das conquistas de Eurico, apesar de nao ser a mais importante, foi a de Auvernia, em 471-475, porque o bispo de sua cidade central, Clermont, era o senador romano Sidonia Apolinario.21 Sidonia, que era genro de Avito, e que tin ha sido imporcante funcionario leigopara ambos, Majoriano e Ancemio, acabou sua carreira policica sitiado em sua cidade natal, e n6s podemos ver todas as mudan<;:as polfticas dos anos de 450 a470 atravesde seusolhos. Defensor de uma alian<;:a com os visigodos, nos anos 450, pelo final dos 460 Sidonia tinha-se tornado cada vez mais ciente dos perigos envolvidos, e hostil aos oficiais romanos que ainda lida- vam com des; em seguida, na decada de 470, podemos ve-lo desesperado 143
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    r 0 legado deRoma: lluminando a idade das trevas, 400-1 ooo por qualquer ajuda adicional para Clermont, e desdenhoso dos enviados icalianos que sacrificaram aAuvernia para manter a Provenp sob controle romano. Por volca de 480, como de rdata, "agora que os amigos graus de hierarquia ofi.ciaisforam varridos ... o 1mico simbolo de nobreza passara a ser o conhecimento das letras"; a hierarquia oficial tinha desaparecido, apenas a culcura tradicional romana sobrevivera. Como epitafio do Imperio Ocidental, isso, de certa forma, diz pouca coisa. Esta longe de ser claro que Sidonia entendia que Roma tives- se chegado definitivamente ao fim, e sua afirmas:ao de que as hierarquias tradicionais haviam desaparecido e certamente exagerada. Mas muita coisa estava mudando na Galia devido a tudo isso.22 As conquistas de Eurico foram rapidamente alcans:adaspdos burgundios, sob o comando de Gun- dobaldo, no vale do R6dano, tendo a Provens:a como campo de batalha enrre esses dois povos e os ostrogodos, nas decadas subsequences a 490. No none, ainda havia exercitos que reivindicavam a autoridade de Roma, sob a lideranp de Egidio, ao redor de Soissons, de Arbogasto, proximo de Trier, e de Riocamo - general bretao - no Loire; mas Egidio nao reco- nhecera nenhum imperador desde Majoriano, e essesexercitos podem ser considerados unidades politicas independences, provavdmente fazendo uso de menos tradis:oes romanas do que os godos e os burgundios. Os reis francos, no norte, aliaram-se e competiram com des, e o mais bem-suce- dido desses, Clovis de Tournai (481-511),come(j:OU a conquistar canto os reinos francos rivais quanto as terras dos generais romanos. 0 none da Galia fora, por muito tempo, aparte mais militarizada da regiao, onde o exercito estruturava os padroes de posse de terra, o con- vivio social e o comercio durante o seculo V.23 Nessa regiao, por exemplo, a cultura das villae chegara ao fim, por volta de 450, como tambem na Britania, em rapido processo de desromaniza'rao, porem nao foi assim no resto do Ocidente, onde as ricas residencias rurais continuaram a existir ate meados do seculo VI; isso marca o fim precoce de um dos dassicos in- dicadores da cultura das elites civis.Sidonio, que conhecia todos os grandes ariscocratas civisda Galia, quase nunca escreviapara as pessoas ao none do Loire (um deles foi Arbogasto de Trier, a quern ele elogia pda manuten(j:fo das tradiCj'.6es culturais romanas - Sidonio claramente pensava que isso era diflcil no none). 0 rcsto do que sabemos sobre o norte aponta para proce- dimentos politicos bastame circunscanciais, como acontece com asviagens 144 Crise e continuidade de Sama Genoveva a fim de cncontrar alimentos para Paris, provavelmente na decada de 470, ou com os bispos que lidavam direramente com Clovis, nos anos 480. 0 sul da Galia estava mnito mais bem organizado: os reis visigodos e burgundios legislavam, taxavam, distribuiam graos na regiao, empregavam oficiais civis romanos e criavam exercitos imegrados de "bir- baros" e romanos, que incluiam generais romanos. Mas, em todos os luga- res da Galia, as ultimas duas decadas do seculo V foram definitivamente pos-imperiais, no sentido de que meia duzia de governantes se enfremou sem nenhuma media(j:fo,nenhuma hegemonia distance baseada em Roma/ Ravena na qual sc espelhar. A Galia ea parre mais hem documentada do Ocidente, no final do seculo V, por isso podemos ver mais claramenre o que acontecia ali, mesmo que ela tenha sido, indiscutivelmente, a regiao onde a mudanp foi maior: maior do que na Italia, certameme, mas ainda maior do que na Africa, onde a administra(j:fo vandala, popular ou nao, era solida e relativamente cradicional. Todas essas regioes eram, no entanto, pos-romanas tambem; a unidade ea idemidade imperial eram, pelo ano 500, propriedade exdusiva do Oriente. Epreciso tambem reconhecer, ao discutir esses reinos pos-roma- nos, que a cransferencia do governo romano era muitas vezes hem menos organizada, ou rapida, do que as narrativas de conquista sugerem. Eugfpio, na Vida de Severino, nos da uma amostra disso. Severino (m. 482) era um homem santo, no Noricum (acual Austria), durance os anos 470, nuina epoca em que a fronteira do Danubio esrava em desintegras:ao, porem o principal grupo "barbaro" das proximidades, os rugios, mantivera-se firme do outro lado do rio e se restringia a saquear e tomar tributos - e tambem a comercializar com os romanos. 24 Severino ganhou o respeito do rci Fele- teu, e foi um intermediario entre romanos e rugios em multiplas ocasioes. A vida no Noricum era claramente miseravel, assim como fria (aimagecica do inverno e constantemence enfatizada por Eugi'pio,que era um contem- poraneo mais jovem de Severino, mas se mudara para a Italia, e escrevia 30 anos depois, ainda mais ao sul, em Napoles). Tratava-se de uma provincia na qual os romanos concentravam-se em cidades e forcifica~6es, e varios "barbaros" percorriam o campo. 0 exercito romano ainda existia, mas nao havia nenhuma lideranya policica, pelo menos na visao de Eugipio, com exce(j'.J.O do papel mediador de Severino. Essa espcciede "terra de ninguem" pode ter caracterizado inclusive outras regioes: partes do norte da Galia, 145
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    o legado deRoma: lluminando a idadc das trevas, 400-1000 panes da Espanha central e a maioria da Britania. 0 colapso social nessas regi6esteria sido muito maior do que em qualquer area de conquista rapida, nao imporca o qua.a violenta tenha sido. Mas a maior parte do Ocidente estava, apesar de rudo, sob o concrole de sisternas de governo mais estaveis (e mais romanos), sejam eles g6cico, burgundio ou vandalo. O Oriente, no final do seculo V, era um lugar menos cranquilo do que na epoca de Teod6sio e Pulqueria. Para come<;:ar, ele tinha agora governantes que eram muito mais rnilitarizados: Aspar, magister militum em 4S7-471,homem force de seu protegido, o imperador Leao I (4S7- -474),ate que este o mandou matar, bem como a seu sucessor Zena.a, que se cornou imperador por direito pr6prio (474-491).Em segundo lugar, Zenao tinha constames problemas com rivais. A principal base militar oriental rinha permanecido nos Ba.leas,mas essa regiao militar rornara- -se mais instavel ap6s o fim do poder huno, e grupos "barbaros", em sua maioria godos, estavam come<;:ando a adentrar o Imperio novarnente: dois de seus chefes, Teodorico Estrabao e Teodorico Arnalo, cada um deles com experiencia militar rornana, tenraram, sob os governos de Leao e Zena.a, ganhar poder em Constantinopla e assencar seus respectivos po- vos em uma pane favorecida dos Ba.leas.0 pr6prio Zena.a era originario da Isauria, uma rernota regiao moncanhosa - localizada no que hoje e o sudesre da Turquia - e tradicional fonte de soldados (e tambem de ban- didos), o que poderia ser vista como uma extensao de sua competi<;:ao com OS Ba.leas;Zenao tinha rivais na Isauria tambem; dessa forma, as tens6es com o exercito aumencaram quaudo ele ascendeu ao trono. Com efeito, por um ano (47S-476)ele esteve afastado de seu cargo, expulso pelo general Basilisco, e mesrno depois disso ainda enfrentou diversas re- volcas. Foi apenas no final dos anos 480, pouco antes de sua morre, que ele conseguiu liquidar seus rivais e persuadir o principal chefe guerreiro que sobrevivera, Teodorico Amalo, a sair com seu exercito godo e ocu- par a Icalia, em 489. Esses problemas significaram que Zena.a nao teria esperan<;:as de intervir no Ocidente pessoalmeme, ainda que os dedos do Oriente naotivessem sido queimados pelo dispendioso fracasso da guerra vandala, em 468.25 Uma significativa estabilidade foi, todavia, restaurada por Anastacio I (491-S18), um velho mas apto burocraca de carreira, que viveu por mais de 88 auos e teve tempo canto para reprimir as revoltas isaurianas quanco para tirar as finan<;:as imperiais do negativo. 0 faro de 146 Crise e continuidade que Anastacio pode fazer isso, e sem ao menos uma base militar, deve indicar que o sistema politico oriental era essencialmente s6lido. Estamos agora no ano S00,e o Oriente, apesar de alguns problemas durance a epoca de Zenao, ainda se maminha escavel.0 Ocidente tinha mudado bascante, coma vimos, mas ainda havia elementos de estabilidade tambem. Teodorico governava a Italia desde Ravena, a capital romano- -ocidental, com uma tradicional administra<;:aoromana, uma mistura de Iideressenatoriais da cidade de Roma e burocratas de carreira; eleera (assim como Odoacro tambem tinha sido) respeitoso com o Senado romano, e fez uma visita cerimonial a cidade em S00,com comparecimentos formais a Igreja de Sao Pedro, aopredio do Senado e ao palacio imperial do Palacino, onde presidiu jogos, coma qualquer imperador. Todo o modus operandi de Teodorico era, em grande parte, imperial, e muitos comentadores o viram como um restaurador das tradi<;:6es imperiais. 26 Essa certamence era a vi- sa.ado senador Cassiodoro (que viveu em torno de 485-S80),um de seus administradores, ap6s 507,e que escreveu urna extensa cole<;:fo de cartas ofi.ciaispara Teodorico e sens sucessores imediacos, as quais de chamou de Variae; Cassiodoro deliberadamence descreveu Teodorico como um de- fensor dos valores romanos, mas era facil para de afirmar isso. 0 sistema fiscal e administrativo cinha mudado pouco; os mesmos proprietarios de cerra tradicionais dominavam a polltica, ao lado de uma nova (mas par- cialmente romauizada) elite militar goda ou ostrogoda. Teodorico olhava para alem da Italia tambem. Ele governara a Dalmacia e a fronceira do Danubio, e estava bem ciente de suas conex6es culcurais com o segundo poder romano-germanico no Ocidente, o reino visig6cico de Alarico II (484-S07),no sul da Galia e na Espanha. Or6sio havia afirmado que o visigodo Ataulfo dissera, em 414,que chegara a con- siderar a hip6tese de substituir Romania por Gothia, mas achara melhor nao fazer isso, porque os godos eram muito barbaricos e nao conseguiam obedecer as leis.27 Se essahist6ria everdadeira (o que e pouco provavel), ela foi desmentida aceo final do seculo. Teodorico, na Italia, Enrico e Alarico, na Galia, todos legislaram para seus suditos, godos e romanos. Os godos eram figuras militares, e verdade, diferentemente do estrato senatorial (ou da maior parte dele), e eram crisraos arianos, e nao cat6licos, mas, em omros aspeccos, estavam adquirindo os valores romanos rapidamente. Nissa elesforam seguidos pelos vandalos e burgundios, que erarn, ambos, 147
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    O legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000 bastance influenciados pelos grandes reinos godos ao redor do ano 500. De certa forma, a Gothia realmente tinha substituido a Romania, mas o fizera, em grande parce, imitando os romanos. Com efeito, no Mediter- raneo Ocidental, e em todo o Ocidente ao sul do Loire e dos Alpes, uma culcura politica comum sobreviveu. Mas o mundo estava mudando. 0 fim da unidade poli'.ticanao foi apenas uma modificac;:aotrivial; toda a estrutura policica cevede ser alterada como consequencia. As classes governantes das provincias ainda eram (em sua maioria) romanas, mas estavam em rapida transformac;:ao. 0 Oriencc tambem estava se distanciando do Ocidente. Tornara-se, por exemplo, muito mais grego em sua cultura oficial. Leao I fora o primeiro imperador alegislarem grego; menos de um seculo depois,Justiniano (527- -565)talvez cenha sido o ultimo imperador oriental a falar latim como sua primeira lingua. Mas e acima de cudo no Ocidente que encomramos uma crescenccprovincializac;:ao,no final do seculo V, o que e,ao mesmo tempo, uma consequencia e uma causa do colapso do governo central. Agostinho considerava ainda o lmperio em seu conjunto; Salviano levavaem coma as imagens morais do Irnperio, porem apenas as do Ocidencc (embora de s6 conhecesse a Galia). Sidonia, no entanto, era definitivamente um gaules. Por cssa epoca, as elicesgaulesas rararnente viajavam para a Italia; mesmo que Sid6nio tenha sido o prefeito de Roma, em 468, ele foi o primdro gau- lesa ocupar essecargo desde pelo menos 414,e tambem foi o ultimo. Seus colegas eram ainda mais claramenre preocupados com policicas gaulesas, como seu amigo Arvando, prefeito do pret6rio da Galia, em 464-468, e seu inimigo Seronato, um adminiscrador na Galia Central, durance e apos 469; ambos apostaram nas ambic;:6es policicas de Eurico e foram de- mitidos por isso;28 Victorio e Vicente, generais romanos de Eurico, foram presumivelmente variances mais bem-sucedidas do mesmo tipo: provin- ciais que viam a ascensao na cone visig6tica como mais relevance do que a tradicional hierarquia de carreira centrada na distance Ravena. Essasfo- ram mudanc;:aspoliticas que fizeram muito sencido para os agenres locais, mas tornaram-se facaispara o que rescavado lmperio. 0 pr6prio Sid6nio abandonou a hierarquia imperial quando se tornou bispo, em 469-470, e a crescenre cendencia dos aristocratas da Gilia a buscar uma carreira no episcopado (cf capitulo 2)expressa essapreferencia pelo local de maneira bem dara. Na pr6xirna gera<rao,os horizontes estreitaram-se novamente: · 148 Crise e continuidade Rudcio de Limoges (rn. 510)e Avito de Viena (m. 518),bispos nos reinos visigodo e burgundio, respectivarnente, deixaram colec;:oes de cartas, es- criras em sua maioria para destinatarios dentro de sens respectivos reinos (com agrande excec;:ao do filho de Sidonia Apolinario, em Clermont, com quern ambos estavam relacionados). Essaprovincializac;:aotampouco se restringiu aGalia. Hidacio de Chaves (m. c.470)escreveu uma cr6nica que trata quase que exclusivamen- ceda Espanha, especialmente do noroeste, onde se enconcrava.29 Victor de Vita, na Africa de Hunerico, via os vandalos na perspectiva dos afticani; o Imperio Romano nunca aparece em seu texto, e mesmo os romani s6 sao referidos quando ele esca sendo bascante generico. Uma cultura politica comum pode cer sobrevivido, porem, em cada antiga regiao ou provincia romana; sens pontos de referencia foram se tornando cada vez mais locais e seus direcionamentos logo iriam comec;:ara divergir. A tranquila unida- de - que levara o biblistaJer6nimo, no final do seculo IV, da Dalmacia a Trier, em seguida aAncioquia, Conscancinopla, Roma e finalmente aPa- lestina, de onde escrevera carcas asua devota clientela espalhada por todo o Mediterraneo, durance 30anos - havia acabado. Volcarei a essa questao em termos mais gerais logo adiante nesce capfrulo.30 0 momento culrninance do Mediterraneo Ocidencal godo ocor- reu por volta do ano 500. Ele foi destruido por dois homens: Clovis, o rei dos francos, e o irnperador do Oriente, Justiniano; falarernos de ambos separadamente. Clovis, durance seu reinado, reunificou o norte da Galia, incluindo alguns territorios nao rornanos; em 507,atacou os visigodos, derrocando e macando Alarico II, na Batalha de Vouille, e, vircualmente, expulsou-os da Galia (elesmantiveram apenas o Languedoc, na costa do Mediterraneo). Os burgt'.mdiosresisciram por um tempo, porem, em 520, OS filhos de Clovis OS atacaram tambem e conquistaram seu.reino na deca- da de 534.Teodorico reagiu ocupando a Espanha visig6tica, governando em nome de Amalarico (511-531), filho de Alarico, mas o sistema politico hispanico entrou em crise por duas gerac;:6es. Ediflcil ver que a extensao hispanica de Teodorico fosse algo mais do que um reforc;:o temporirio, na costa do Medicerraneo, contra a ameap franca; ja em 511.a hegemonia dos godos, no Ocidente, havia, em grande pane, desaparecido, com exce<j:fo da Italia. A dinastia merovingia de Clovis dominaria a politica p6s-romana, no Ocidente, pelos dois seculos seguintes. Veremos sua historia no pro- 149 I I I
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    0 legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1 ooo ximo capftulo. Por agora, basta enfatizar uma importance consequencia geopolitica do sucesso de Clovis: o none da Galia, antes uma fronreira milicar, bastante marginal no mundo romano (excecopor volta do seculo IV,quando Trier foi a capital ocidental), tornou-se um cerrit6rio central, nucleo de grandes riquezas fundiarias epoder politico. Inicialmeme, foi um cenrro que afecavaapenas a Galia, mas ao longo dos seculos subsequemes acabou atingindo toda a Europa Ocidental. Justiniano, o segundo sucessor de Anastacio, herdou o abundan- ceexcedence on;:amentario deixado por seu anrecessor e dedicou a maior parte de seus 40 anos de reinado a uma renovaao imperial. Ha um salto em sua ascensao, em 527, que nao fora visivel para nenhum imperador desde Juliano_ Como vimos no capitulo I, a parcir de 528, ele revisou, em um ano, o c6digo de leis de Teod6sio II e, em 533, codificou os escritos dos juristas romanos no Digesto,o qual permanece ainda hoje como tex- to maxima do Direico Romano. Alem disso, por uma serie de novas leis (Novelas),escrutinou e revisou a administraa.o imperial, nos anos 530, e tambem tornou mais duras as leis sabre desvios sexuais e heresia, ace mesmo a heresia judaica, provocando revoltas samaritanas e a severa re- pressao, no norte da Palestina, em 529 e 555.Justiniano nao era nenhum liberal, e, no Oriente, desde entao, cresceram o descontentamento e a in- colerancia contra diferenas religiosas; ele era, codavia, um inovador, e as queixas dos tradicionalistas, durante seu reinado, a respeito de inculcos radicais presenres em sua administraao, indicam que as mudanas orga- nizacionais riveram algum efeito. Justiniano era tambem um construtor, sempre uma importance faceta politica na cradiao romana. 31 Ele nao e o t'.miconeste capirulo; Zenao, Anastacio e, talvez, ate o osrrogodo Teodo- rico foram particularmente arivos nessa area; mas a escaladas constru6es de Justiniano superava, e muico, a de todos eles, como no caso das gran- des igrejas que ele construiu em Constantinopla (como a Hagia Sofia; cf capitulo 9), Efeso eJerusalem. Essas campanhas de construao sao bem documentadas na obra panegirica de Procopio SobreosEdificios; 32 como resultado, os arque6logos se tornaram propicios a datar quase todo gran- de edificio romano tardio do Orience como sendo do segundo quarrel do seculo VI, e uma nova dataao cuidadosa rem sido necessaria para desco- brir ourros patrocinadores antes e depois dele. Ainda assim, o dinheiro e o compromisso escavam la para fazer muica coisa. 150 Crise e continuidade Dada a autoconfianp desses acos,nao e surpreendence que Justi- niano tambem se interessasse pela guerra. Ele enfrentou asGuerras Persas, 0 primeiro conflico serio em mais de um seculo, em 527-532 e 540-545, e, inrermitencemenre, ate 562. A Persia sempre foi arnaior barreira do lmpe- rio Oriental (os Ba.leascambem foram atacados durante seu reinado, mas isso nao era nenhuma novidade, e, assim, era menos crucial). A guerra safa cara por coma dos recursos gascose pelas despesas da reconstruao p6s- -guerra; muitos imperadores prefeririam restringir sua atenao na defesa contra os persas. Mas Justiniano usou do periodo de paz, no Oriente, em 532-540, para atacar o Ocidente tarnbem. Seu general Belisario capturou a Africa vandala rapidamenre, em 533-534, e avanOUdirero para a Italia ostrogotica; por volta de 540, ele a havia conquiscado por inteiro. Os ulti- mos anos de Teodorico apresentaram, cambem, tens6es com figuras cradi- cionaliscas,e o filosofo ariscocrata Boccio, entre oucros, foi execmado por manter comunica6es craioeiras com o Oriente, em 526; lucas internas entre os herdeiros de Teodorico, em 526-536, levaram alguns membros da elite aristocratica a ficar mais distances do regime ostrogotico, muitos dos quais acabaram em Constantinopla. Porem, se a conquisca da Africa foi um grande sucesso, a da Italia nao o foi. A maior parte dos italianos nao godos era, no melhor dos casos, neurra em relaao aos exercitos de Justiniano, e os godos reagruparam-se, apos 540, sob a liderana de T6cila (541-552),quando a recomada da Guerra Persa forou as tropas romana:; a se distanciarem da peninsula. A decada de 540 viu uma Italia devastada, enquanco exercirosromanos e godos se alrernavam em conquiscar e recon- quiscar areas da peninsula; quando a guerra, em grande parte, cessou, em 554, a Italia, agora rornana novamente, tinha um sistema fiscalem ruinas, uma economia fragmentada e uma ariscocracia muico dispersa. Isso nao foibem gerenciado na epoca. Entretanto,Justiniano tinha, de um jeito ou de oucro, reinserido o Medicerraneo Central no Imperio, e quando seus exercicoscambem ocuparam pane da cosra hispanica, em 552, quase todo o Mediterraneo voltou a ser um Iago romano. Justiniano foi, e continua sendo, uma figura controversa. Ele era odiado por muicos, noradamente por aqueles dos quais discordava e aos quais perseguia por razoes religiosas, e que se foram rornando mais nu- merosos amedida que seu reinado avanava. Isso se seguiu asua crescente hostilidade contra os monofisitas, especialmente ap6s a morce de sua in- 151
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    0 legado deRoma: Iluminando a idade <lastrevas, 400-1 ooo flueme esposa Teodora (ela mesma uma monofisita), em 548, e, depois , asua igualmente controversa tentativa de dar um passo doutrinario em direc;ao ao monofisismo, no Quinto Concilio Ecumenico de Constan- cinopla, em 553, o que alienou grande parte do Ocideme. De menor se- riedade (mas demasiadamente influence nos estudiosos modernos) foi a obra antipanegirica Historia secreta, de Procopio, que retrata Justiniano e Teodora como genios malevolos, em termos altamente coloridos e se- xualizados em queJustiniano aparece caracterizado coma um demonio .33 Hoje em dia, Justiniano e, acima de tudo , acusado de arruinar financei- ramente o Imperio, grac;as as suas guerras fora de epoca no Ocidente; o Imperio Oriental, apos sua morte, em 565, e comumente visto como enfraquecido, tanro militar quanta economicamente, uma situac;ao que iria resultar nos desastres politicos dos anos pos-610. Veremos a crise do seculo VII no capfrulo 10, mas ela nio me parece ter muito aver com Justiniano. As guerras ocidentais nao foram anacr6nicas, pois o Impe- rio Romano ainda era tun conceito importance, ate mesmo no Ocidente, nem foram particularmente caras; a Africa foi reconquistada por uma ninharia, e permaneceu romana por mais de um seculo, ea guerra na Id.- lia teria sido uma confusao bem rnenor, caso Justiniano tivesse investido mais, e nao menos, dinheiro nela. Seus sucessores, notavelmente Tiberio II (578-582) e Mauricio (582-602), mamiveram afastados os persas, sens principais oponences, tao eficiei'icemente quanta Justiniano tinha feico.34 Eles tambem mantiveram longe os avaros, novos detentores da hegemonia "barbara" 110 media Danubio, OS quais, apartir dos anos 560, tornaram- -se os mais recences invasores dos Ba.leas,em sua maioria de lingua eslava (mas tambem turquica e germanica), sendo a maior ameac;amilitar para a area desde os hunos. Eles abandonaram a maior parte da Italia a um novo povo, os lombardos, mas, dado o escado em que a Id.lia se enconcrava, isso nao foi necessariamence um fracasso estrategico. Outrossim, o dinhei- ro escava suficientemente abundance, nos anos 570, a ponto de Tiberio (embora nao Mauricio) ser mencionado como um gastador extravagan- ce. 0 reinado deJustiniano nao aparenta ter sido uma guinada negativa para o Imperio. Mas a controversia sabre de impoe respeito: Justiniano imprimiu sua marca em uma gerac;ao,ao redor de todo o Mediterraneo, e, diferentemente da maioria dos governances, os eventos de seu reinado parecem ter sido resultado de suas pr6prias escolhas. Seu protagonism~ 152 Crise e continuidade desmente a visao de que o desmembr amento do Ocidente no seculo V, por si so, marca o fracasso do projeto imperial romano. As piginas anceriores deram um breve sumario dos eventos de 150 anos; precisamos agora considerar o que eles significam. Irei me concentrar mais no Ocidence, porque foi ali que as maiores mudanc;as ocorreram , embora a estabilidade ea prosperidade do Oriente devam agir como um lembrete permanence para nos de que o lmperio Romano nao estava de forma alguma destinado a quebrar. Nas decadas mais recentes, essa visa.a, ja discucida no capitulo 1, tern se tornado realmente domi- nance entre os historiadores. Isso significa que as invasoes e ocupac;oes das provincias ocidentais precisam estar no centro de nossas explicac;oes para O periodo. Mas tambem nas ultimas decadas, nos temo s nos afastado das visoes catastrofistas dos "barbaros ", resumidas nas famosas palavras de Andre Piganiol, na conclusao de seu livro sobre o Imperio tardio, es- crito logo ap6s a Segunda Guerra Mundial: "A civilizac;ao romana nao pereceu de morte natural. Foi assassinada". 35 Trabalhos recentes tern, de faro, represemado os novos grupos ctnicos em termos bem romanos , uma visao que eu aceito plenamente e pretendo desenvolver logo mais, de for- ma breve. Isso nao diminui o simples ponro de que o Imperio Romano do Ocidente fora substituido por uma serie de reinos independences que nao reivindicavam a legitimidade imperial, o que nos obriga a perguntar por que cada um desses reinos nao reproduziria o estado romano em mi- niatura, mantendo continuidades estruturais que poderiam, a prindpio, ser unificadas mais tarde, por Justiniano, por exemplo. Maso faw e que a maioria deles nao o fez. Uma coisa que a arqueologia deixa hem clara , como veremos, ea dramatica simplificac;ao econ6mica do Ocidence: isso evisive! ao norte do Loire, no inicio do V seculo, e nas terr ; s do noroes- te mediterranico durance o VI. As construc;oes cornaram-se bem menos ambiciosas, a produc;ao artesanal ficou menos profissionalizada, as trocas restringiram-se mais ao nivd local. 0 sistema tributario ejud iciirio , bem coma a densidade da acividade adminiscrativa romana em geral, comec;ou a se simplificar tambem. Essas foram mudanc;as reais que nao podem ser desconsideradas por argumencos que mostrem, embora justificadamente, que os "birbaros" apenas se adequaram aos nichos romanos. Essas mu- danc;as fizeram-se acompanhar de alterac;oes nas imagens, nos valores e no estilo cultural, que cornaram o seculo VII, no Ocidcnre, visivelmeme 153 II I I
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    0 legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000 diferente do seculo IV ou mesmo do V:ji estamos agora fora do mundo romano cardio e entrando na Alea Idade Media. A questao que precisa- mos confrontar agora ecoma isso foi possivel, dada a falta de anseio por inovac;ao da maior pane dos novas grupos etnicos. Para comec;ar, no seculo V, ha uma continuidade evidente entre as lideranc;as do Imperio Ocidental (e tambem Oriental) e os reis "bir- baros". Os imperadores do seculo V eram, em sua maioria, fantoches, controlados por poderosos militares: Estilicao, Constancio, Aecio Ri- dm:ro, Aspar, Zena.a, Gundobaldo e Orestes (pai de Romulo Aug~stu- lo). E interessante que nenhum desses homens tentou tomar o trono por meio da fon;a, como outros militares tinham feito regularmente no seculo III, e apenas dois deles (Constancio e Zenia) se tornaram imperadores, porem por meios corretos. Uma razao comumente apontada para isso e que, como "barbaros" etnicos, eles n:io tinham direico ao cargo imperial; mas, para alem do faro de que nem codas ei:am de ascendencia n:io ro- mana, n:io ha nenhuma base contemporanea para esse tipo de exclus:io. Basilisco , imperador oriental por um curto periodo, em 475-476,pode, na verdade, ter sido tio de Odoacro, e, portanto, um esciro, isto e, um povo submisso aos hunos de Arila; 36 Silvano, um usurpador fracassado, em 355,era certamente franco. 0 mais provavel eque eles se abstiveram da tomada de poder por respeito avisa.a de que a legicimidade imperial estava aliada agenealogia, vis:io essa que pode ser estendida ate a familia de Constantino, na mecade do seculo IV; parecia ser mais facil controlar um imperador (ou uma serie de irnperadores, coma fez Ridmero) do que usurpar o trono. E provavelmente era. Esses homens poderosos civeram pedodos de autoridade maiores do que os da maioria dos imperadores do seculo III. Um importance elemento para a legitimidade genealogi- ca rornana tardia era o casamento, raz:io pela qual codas os poderosos casaram-se com as descendentes de familias imperiais, com o prop6sito de colocar seus filhos no trono; Constancio e Zenao conseguiram (Ze- na.a tornou-se ele mesrno irnperador, mas, obviamente, apenas corno herdeiro de seu proprio, e efernero, filho). Maso mesrno era igualmente verdade para as farnilias reais "barbaras", a maioria das quais tinha, ou rapidamente estabeleceu, la<;:os de casamento com os rornanos, muitas ~ez_es, ~em duvida, com a rnesma intenc;ao. Essa rede genealogica coma rns1gmficante a diferenc;a cultural, pelo menos nos niveis imperiais ou 154 Crise e continuidade re ios. Di sso resulta que quase todo imperador do Oriente, por mais de u! seculo, ap6s 450 (com a unica excec;aode Zen:io), era originario da confluencia cultural dos Ba.leas,onde novas identidades estavam sendo reformuladas O tempo todo, e de onde tambem saiu uma alta porcen- d h f, "b ' b " 37 E tagem dos poderosos do lmperio, bem coma os c e es ar aros . havia tambern os cruzamentos em termos pessoais: tanto Gundobaldo, 0 burgundio, quanta Teodorico, o ostrogodo, tiveram carreiras dentro e fora da carte imperial antes de se tornarem reis de antigas provincias romanas independentes. A importancia da endogamia, coma criteria para a sucessao, tambem colocava uma boa dose de pressao sabre as mulheres imperiais. 38 N6s vimos que Gala Pladdia e, particularmente, Pulqueria foram mu- lheres poderosas no comec;o do seculo V, e ambas legitimaram seus ma- ridos imperiais. Assim fez Ariadne, filha de Lea.aI e esposa de Zena.a e Anastacio, sucessivamente. Verina, esposa de Lea.a, era irma de Basilis- co. Teodora, ela mesrna uma operadora politica importance, apesar da dominancia de seu marido, Justiniano, parece ter tambem promovido seus parentes, apesar de haver morrido muito antes de seu esposo a pon- to de qualquer um deles ainda estar em posic;ao de lhe suceder . Sofia, viuva de Justino II (565-578),cercamente escolheu seu sucessor, Tiberio II, e talvez Mauricio tambem. 39 Havia aqui um espac;opara a atua<;::io politica feminina, que fora aproveitado diversas vezes. Assim, nao e de surpreender que AniciaJuliana (m. 527/528) - uma rica cidada_p~iva- da de Constant inopla, mas tambem uma descendente de Valentm1ano Ill e de toda uma serie de imperatrizes (alem de esposa de um descen- dente de Aspar), e carregando o ticulo de patricia, em 507 - t~nha tido influencia sobre Justiniano: sua igreja de Hagios Polyeuktos, no centro de Constantinopla, construida por volta de 525,foi a maior da cidade ate que Justiniano construiu Hagia Sofia, uma decada depois, provavel- mente, em parte, como resposta. 40 Esse espac;o para o poder feminino, por mais ambivalente que fosse (pois sempre era), foi uma caractedstica mais oriental do que ocidental; as crises militares do Ocidente favorece- ram urna lideranc;a militar mais masculina. As mulheres, no Ocidente, capazes de dominar uma politica militarizada iriarn aparecer mais tarde, com os lombardos, ap6s 590, e os francos rnerovingios, ap6s 575, mas sua proeminencia teve razoes diferentes. 155
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    O legado deRoma: lluminando a idade das trevas, 400- 1000 Mas volcemosaos chefes "birbaros" e seuspovos: afinal, o que exa- camente os definia como nao romanos, "birbaros" ou germanicos? Existe, atualmence, um enorme debate sabre o assunto, com uma infinita varie- dade de posis;6es, mesmo entre aqueles que aceitam que os novas grupos etnicos buscavarn se acomodar dentro das leis romanas o maximo que po- diam: desde a crens;ade que havia um grande nucleo de valores e cradis;oes nao romanos, associado ao elemento de dominas;ao presente em qualquer grupo invasor ou assentado, que poderia sobreviverpor seculos,ate a crens;a de que os diferenciadores emicos germanicos eram apenas uma mudans;a de nome da idemidade militar dos soldados romanos, e que nao havia nada de cradicional neles. Quanto a essa segunda posis;ao,e preciso reconhecer que a maioria dos novos grupos "birbaros", no Imperio do seculo V,cinha um hist6rico de emprego no exercito romano; os soldados mais bem-suce- didos entre eles, como os visigodos, eram efetivarnente indistingufveis de um descacamento rnilicar romano (exercitos "birbaros" regularrnente via- javarn com suas familias e dependences; apesar de ser teoricamente ilegal, seria imprudence presumir que os exercicosromanos nao faziam o mesmo na pritica). Podemos, no encanto, ver uma clara distins;ao em nossas fon- tes entre as fors;asdo exercito regular, que, independenterneme de origem romana ou "birbara" (como vimos no cap.itulo 1,havia, nas fronteiras, de onde os soldados geralrnente provinharn, pouca diferens;aentre eles),erarn parte de uma hierarquia militar e de uma estrutura-padrao de carreira, e os seguidores do rei X ou chefe Y, que se identificavarn com seu chefe, geralmente tinham um nome etnico distinto e eram aceitos no exercito rornano corno um grupo diferenciado. 41 Essa ea distins;ao emrc Odoacro e Teodorico, por exemplo, sucessivos governances da Italia. Odoacro era o candidaco do exercico romano da Itilia, composco apenas por etnias hernia, escira e torcilingi; o pr6prio Odoacro era rneio esciro, mas tinha formas;ao militar romana, e nunca e chamado de chefe dos esciros, ou de nenhurn outro grupo na Italia. Ele se cornou um rei, formalmente autono- mo, mas reconhecia Zenao, e poderia facilmente ter sido repensado corno parte do Imperio Romano. Teodorico, em contraste, era um rei dosgodos, cujo povo vinha com ele desde o comes;o,nao importando quancos titulos imperiais ele tambem tivesse. Esse povo era taomisto quanco os apoiado- res de Odoacro; ele cenamente comportava os rugios (que rnantiveram uma identidade atraves de casamemos endogamicos por 50 anos ap6s ~ 156 Crise e cootinuidade conquisca da Italia por Teodorico), os gepidas, os hunos e, sem duvida, homens de ascendencia romana rambem, e, ap6s a conquista de Teodori- co, cambem absorveria codos ou ao menos a maior parte dos seguidores de Odoacro. Porem, ele estava ligado a um chefe e tinha um nome, "godo" - ostrogodo em nossa terminologia. Esse nome caracterizaria o povo como um codo, nao importando sua origem, e tambem o reinado de Teodorico. Foram povos como esse, heterogeneos, mas - um aspecto essencial - uni- dos por um t'.micochefe, que assumirarn as provincias ocidentais e: de fato, as renomearam: a Galia passou a scr o Regnum Francorum, e a Africa, o Regnum Vandalorum. Ao permanecerem afrence dessas terras por tan.co tempo, como ocorreu com os francos e os visigodos, diferentemente dos vandalos e ostrogodos, eles tenderam a esquecer suas origens diferentes e "se cornaram" francos ou godos - e tambem, crucialmente, nao rornanos. .E esse o processo que foi charnado de "etnogenese" por Herwig Wolfram e sua escola:42 o reconhecimento de que identidades etnicas sao Bexiveis,maleiveis, "construs;6es situacionais"; o mesmo "barbaro", na Ita- lia do seculo VI, podia ser rugio, ostrogodo e acemesmo romano (mas isso someme a partir da reconquista rornano-oriencal). Tais povos teriam ad- quirido diferentes identidades sucessivamente (ou comemporaneamente), e essas ceriam uazido diferenres modos de comportamento e lealdades, e ate, eventualmence, diferences mem6rias. Como Walter Pohl propos recen- cemente, o "nucleo de tradis;6es" que fazia alguem ostrogodo ou visigodo era, provavdmente, uma rede de crens;as contrad it6rias e mucaveis; nao parece ter havido um conjunco estivel de tradi<;6esem cada grupo quan- do cruzaram a fronteira para prestar urn servi<;odescondnuo no exercito romano, ate se tornarem um assemamenco em uma provincia romana. Em 650, codo reino "barbaro" tinha suas pr6prias tradis;oes, algurnas de- las rernetendo-se a um passado secular, cradi<;6esessas que, sem duvida, nessa epoca, eram elemencos centrais dos mitos fundadores de muitos de seus habitantes; da mesma forma que os mitos fundadores nao precisam ser verdade, tambem nao precisam ser amigos. Cada um dos reinos "ro- mano-germanicos" tinha uma bricolagem de crens;ase identidades com raizes muito variaveis,e essas,repico,poderiam mudar e ser reconfiguradas em cada gera~ao para se adequar as novas necessidades. Os historiadores tendem a dar mais atens;ao ao relaco de que o avo de Clovis era filho de um monstro marinho, um quinotauro, do que ao relato de que os francos 157 ---~ - --- - ~- - --- - .
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    0 legadt.ide Roma:lluminando a idade das trevas, 400-1000 cram descendemes dos troianos, o que parece ser mais "literirio", menos "aurentico"; mas o registro mais amigo de cada uma dessas tradi<j'.6es apa- rece na mesma fome do seculo VII, e seria dificil dizer qual delas era mais acreditada - ou mais amiga - do que a ourra.43 De tudo isso,conclui-se que as idemidades p6s-romanas eram uma mismra complexa e tinharn urna variedade de origens: romana, "birba- ra",biblica; e eram, tambem, orais e literirias. 0 que elasprecisavam fazer era menos localizar um grupo etnico no passado, do que o distinguir de seusvizinhos comernporaneos. Isso significa que perguntar o que era nao romano OU "barbaro", em rela<j'.aO aos novos grupos etnicos, e, em parte, a perguma errada; o arianismo, por exemplo, era uma heresia bem romana, porem, por volta de 500, para a maioria das pessoas, de havia se tornado um indicador etnico a designar godos ou vandalos. A pr6pria lingua g6- tica era, no ano 500, em grande parre uma tradi<j'.fo liturgica, mais asso- ciada com o amigo arianismo romano do que com uma "goticidade"• em sentido etnico; muitos godos falavam apenas latim, sem que sua "gotici- dade" fosse afetada positiva ou negacivamente. Na verdade, ao comd.rio dos seculos XX e XXI, a lingua nao era, are onde podemos observar, um marcador emico forte em nenhum lugar nesse periodo. Muitos francos, em 600, por exemplo, ainda falavam franco (uma versa.ado que hoje cha- mamos de amigo alto-alemao), mas provavelmente nem codos, e muitos com certeza eram bilingues. Gregorio de Tours, o mais prolifico escriror do seculo VI, na Gilia, que era um monoglota falame de lacim, nunca di o menor indkio de que tivesse alguma dificuldade de se comunicar corn qualquer pessoa nos reinos francos. Na verdade, nem ele nem qualquer outra pessoa, no mundo franco, ate o seculo IX, dizem qualquer coisa a respeito de dificuldades de comunica<j'.ao entre falantes de latim e franco; pode ter acontecido, mas nao era um problema para a "franquicidade". 44 Isso nao significa que os grupos "barbaros" nao trouxeram nada de suas culmras anteriores para o Imperio. Hi roda uma nova historio- grafia que discure a germanidade das primeiras praticas sociais medievais: • Wickham emprega um neologismo para traduzir a ideia de uma identidade etnica para os godos e, a seguir, os francos. Utilizamos o termo "goticidade" para craduzir Gothic-ness, "franquicidade" para Frankishness e "germanidade", mais conhecido, para traduzir German-ness. (N. da T.) 158 Crise e continuidade como os grandes clas, as faidas, os sequitos pessoais, o consumo de came, cercosconceitos de propriedade ou cerros tipos de broche ou fivela. Quase mdo isso e falso, se vista como sinal de uma identidade inata, como se os francos de 700 fossem os mesmos francos de 350. Algumas dessas marcas tambem sao imprecisas: grande parte das primitivas leis de propriedade medievais tinha antecedences romanos impeciveis, ou ao menos para- lelos bem pr6ximos; de modo semelhame, a mecalurgia "germanica" as vezes tern antecedences romanos, e, mesmo quando isso nao ocorre, nao nos fornece qualquer guia para as idemidades emicas de quern as usava. Mas seria igualmeme contraproduceme descartar tudo isso de uma vez s6, e apresencar os novos grupos ecnicos simplesmente como variances da pr6pria sociedade romana. Uma enfase no consumo de carnes pela aris- tocracia, por exemplo, parece ter sido genuinamence uma inovaao dos (encreoutros) francos; isso nao era pane da culinaria. romana, para a qual o status era cransmitido pela complexidade e pelo cusro dos ingredientes, mas aparece pela primeira vez em um cratado sabre dieta escrito para o rei franco Teodorico I (511-533)por urn medico de origens gregas chamado Ancimo, e continuou ao longo da Idade Media. 45 Uma inova<j'.ao parricularrnente importance foi a assembleiapubli- ca, areuniao formal dos membros masculinos adulros de uma comunidade policica, para deliberar e decidir sabre a<j'.6es politicas e guerra, e, cada vez mais, para criar leise arbicrar disputas. 46 Os romanos organizavam muitas cerim6nias publicas de larga escala, como vimos no capirulo 2, mas, nos reinos p6s-romanos, as assembleias tinham um significado mais amplo, na medida em que representavam o prindpio de que o rei cinha um relacio- namento direro com todos os francos ou lombardos ou burgundios livres; essasassembleias derivam dos valores das comunidades tribais do periodo imperial, mas continuaram de maneira bem diferente no mundo p6s-ro- mano. Podemos, assim, tra<j'.ar um continua de pratica politica que liga os francos e os lombardos, nao com Roma, neste caso, mas com os povos me- nos romanizados ou nao romanizados do norte alto-medieval; as assem- bleias denominadas placitum pelos francos ou lombardos, ou conventus, pelos burgundios, tern paralelos com agemot anglo-saxa, a thing escandi- nava ea oenachirlandesa. Essas assembleias nao eram realmente para codas os homens livres, o tradicional kingdom-at-arms da mitologia romantica, mas, apesar disso, podiam ser grandes enconcros, cujo poder de legitimar 159
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    O legado deRoma: lluminando a idade das trevas, 400- iooo as a<j:6es politicas ou judiciais derivava,precisamente, do facode que muitas pessoas participavam delas. De 500 a 1000, e algumas vezes mais carde, as politicas publicas do Ocideme eram sustentadas pela participa(j'.aodi- reta de grande parte da sociedade livre e masculina. Isso sc somou a uma suposi<j:iO de que uma grande parte dos livres tinha obriga<j:6es militares, o que era, principa1mente, um produto de condic;:oespos-romanas, como veremos em mais deta1hes adiante. Mas o elo encre o compromisso militar e as politicas de assembleia deveria ja cerfeito senrido para os exercicoset- nicos do seculo V; a generalizac;:aoda imagem da assembleia em cada reino romano-germanico (mesmo no akamenre romanizado escado visigotico) por si so nos permite presumi-lo. Nao obstante essas novas caracteri.sticas, os chefes "barbaros" adaptavam-se cada vez mais ao mundo romano, a medida que o seculo V avanc;:ava e que as elites romanas se adequavam as novas siruac;:oes politi- cas. Eimpressionante como essas elites romanas podiam criar seus novos governances em seus escricos;quase todo novo grupo etnico no poder teve seu apologista, que escavapreparado para descrever os reis "barbaros" em termos ressonantemence romanos, como a famosa prosa panegirica de Sidonio sobre o rei visigodo Teodorico II, que enfatizava a seriedade do rei, sua acessibilidade aos embaixadores epeticionarios (eseusjogos de ta- buleiro) e diminuia o arianismo dele.47Nunca houve um grande numero de invasores "birbaros" em nenhuma provincia; codas as estimativas sao conjecturais, porem os historiadores geralmence propoem ate 100 mil para grandes grupos dominantes, como os ostrogodos ou os vandalos, e cerca de 20 mil-25 mil para os homens adultos que compunham seus cxercitos, em provincias cuja popula<j:aoestava na casa dos milhoes. Juntando a B.e- xibilidade ecnica de cantos agenres desse periodo, as imagens de romani- zac;:ao em muicos de nossos texcos e o pequeno impacto demografico dos invasores - 1 em 10? 1 em 20? 1 em 50? -, e facil imaginar que eles nao civeram nenhum impacto, qualquer que fosse, nas praticas sociais de cada provincia. No entanto, seseguirmos por essalinha muito sistematicamence, correremos o risco de acabar com a possibilidade de mudanc;:as.E mudan- <j'.aS, no seculo V, certamente ocorreram. Ora, essa mudan'ra nao se deve muito as diferenc;:asculturais. As regioes que experimencaram situa<j:6es pessimas de seguran<j:a,descritas anteriormence em relac;:ao ao Noricum, teriam visto um colapso social sig- 160 Crise e continuidade nificativo mesmo que nenhum "barbaro" tivesse se estabelecido ali. Mas, nas provfncias conquistadas, a maioria no Ocidente, a mudan'ra derivou principalmente da posi<j:ao estrutural de cada grupo "barbaro". Como ob- servado anteriormente, os exercitos "barbaros" que tomaram essas pro- vincias cinham objetivos diferentes daqueles dos exercitos romanos que haviam tornado o poder para seus generais nos seculos anteriores. Eles queriam assencar-sede volta nas terras, como seus ancestrais tinham feito antes que a gerac;:aode movimento intermitente e conquista comec;:asse. Seus chefes, e provavelmente uma boa parte dos godos, vandalos e francos de status mediano, tambem pretendiam ser uma classe governance, assim como os ricos ariscocratas romanos em cada uma das provfncias que ocu- pavam. Para cumprir esse objetivo, em si bascante romano, eles predsa- vam de propriedades, e, como conquistadores, escavam em uma boa posi- c;:ao para obce-las. Embora os detalhes exatos dos assencamencos de terra de cada grupo "barbaro" sejam obscuros e muiro debatidos (realmente elesdevem ter sido muico variaveis),por volta de 500, e claro que os godos e outros aristocratas "barbaros" possuiam extensas propriedades, e esta- vam bascante disposcos a estende-las ainda mais; por exemplo, as Variae de Cassiodoro incluem varios episodios em que os ostrogodos abusaram de sua autoridade politica e milicar e expropriaram as terras de oucros. A partir do seculo V,houve uma tendencia constance a cada vez menos sus- tenrar exercitos por meio da tributac;:aopublica e de OS apoiar atraves de rendas derivadas da propriedade privada, o que era essencialmente pro- duto desse desejo por terra que as elites conquistadoras demonstravam. Em 476,de acordo com Procopio, ace mesmo o exercito romano da Italia queria receber terras, e o conseguiu ao apoiar Odoacro. Procopio pode muito bem cer exagerado; o estado ostrogocico, na Italia, certamente ain- da utilizava da cributac;:aopara pagar o exercito, pelo menos em parte, provavelmente mais do qualquer ouua encidade politica pos-romana fa- zia no inicio do scculo VI. Em geral, no entanto, a guinada em dire<j:foa terra era perrnanente. 48 Apos o fim da Italia ostrogotica, nao hanenhuma outra referencia, no Ocidente, a exercitos remunerados, com exce'rao de mantimentos para guarnii;oes, ate que OS arabes reintroduziram a prati- ca, na Espanha, a partir da metade do seculo VIII; em outros reinos oci- dencais, apenas os ocasionais destacamenros de mercenarios cram pagos, ate bem depois do final do periodo tratado neste livro.49 Algumas dessas 161
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    O legado deRoma: lluminando a idade das trevas, 400-1000 cerras devem cer sido fiscais - isto e, propriedades publicas - e discribui- das por reis; outras provavelmente foram parte de assentamemos rurais ordinarios, nos quais propor~6es .fixasdos pacrimonios de propried.rios romanos eram cedidas aos "barbaros", possivelmeme para substituir os impastos; e outras ainda (como na Africa vandala) podem cer sido sim- plesmeme tomadas aforp, De qualquer forma, uma mudanp em dire- <j:foa um exercico com cerras, e, porcamo, a uma politica de terras, co- me<j:0U aqui; ao mesmo tempo, houve uma mudan'ra em dire'rao a uma idemidade ernica "barbara" por pane dos donas de terra, independente- mente de suas origens. Os maiores reinos p6s-romanos ainda cobravam impastos nose- culo VII. Mas, se o exercito cinha cerras, o principal gasto do orpmenco romano nao existia mais. A cidade de Roma, uma importance despesa, era abastecida apenas pela Italia, ap6s 439, e perdeu a popula<j:iiorapi- damente, como vimos. As administra~6es central e local dos escados p6s-romanos talvez tenham sido pagas por mais tempo, mas, na maio- ria deles, a administra'rao rapidamente se cornou menor e mais barata. Os impastos ainda enriqueciam os reis, e sua generosidade aumencava o poder de atra<j::fo das cortes regias. Mas isso somence por volta de 550. Essas taxas sao sempre impopulares, e coleca-las demanda trabalho; se nao forem essenciais, esse crabalho tende a ser negligenciado. Assim, nao e surpreendente que existarn crescentes sinais de quc des nao eram assiduamence coletados. Na antiga Africa vandala, ap6s 534, os recon- quiscadores romanos tiveram de reorganizar a administra<j:ao dos tribu- tos para coma-la eficiente de novo, para grande desgosw da popula<j:ao local; na Galia franca dos anos 580, os registros de coleta nao estavam mais sendo sistematicamente atualizados, e as taxas de impasto devem ter sido de aproximadamente um ter'ro em compara<j:a.O com as do pe- riodo imperial. Os impastos, por assim dizer, nao cram mais a base do estado. Para os reis, assim como para os exerciros, a posse de terras era a maior fonce de riqueza dali cm diante. Essa foi uma mudan~a crucial. Escados que arrecadam impastos sao bem mais ricos do que a maioria dos estados baseados em terras, pois os impastos sabre propriedade sao geralmeme colecados de muico mais pessoas alem dos que pagam aluguel a um senhor pelo uso de sua rerra publica. Provavelmente apenas os reis francos, no auge de seu poder, ist~ 162 Crise e continuidade e, entre 540 e 770, poderiam se igualar, em riqueza, aos estados do Me- diterraneo Oriental, o Imperio Bizantino e o califado arabe, que ainda mantinham as tradi<j:6esromanas de tributa<j:fo.Alem disso, os estados arrecadadores rem muito mais concrole geral sabre seus territ6rios, em parte devido aconstance presen<j:a de fiscais e coletores de impastos, em parte porque seus dependences (funcionarios e soldados) sao assalariados. Os governances podem parar de pagar salarios e, por conseguinte, con- seguem cer maior controle sabre sens funcionarios. Mas se os exercitos dependem da posse de terras, eles se tornam mais dificeis de controlar. Os generais podem vir a ser desleais, caso nao recebam mais terras, o que reduz a quantidade de terras de gue o governance disp6e; e, se des forem desleais, conseguem manter o controle de suas terras, a menos que sejam expulsos afor<j:a, o que e uma tarefa dificil. Os estados cuja base ea pro- priedade de terra correm o risco de se fragmentarem, de faro, pois seus ter- rit6rios perifericos sao difkeis de dominar totalmente epodem separar-se por compleco. Issa nao seria comum ate pelo menos o final do seculo IX, no Ocidence. Muitas coisas teriam de rnudar antes disso, como veremos nos pr6ximos capitulos. Mas isso acabou ocorrendo no final, sobretudo nas vastas terras governadas pelos francos. A transi<j:a.O da taxa<j:ao para a distribuic;:aode terras, coma base do estado, no Ocidence, foi o sinal mais claro de que os reinos p6s-roman~s nao conseguiriam recriar o Imperio Romano em miniatura, par mais que seus governances tivessem gostado da ideia. No geral, essesreinos tambem nao alcan'ravam o Imperio em sua complexidade economica. A arqueolo- gia aponta uma constance simpli.fica'raoda estrutura ecor:omica na maior parte do Ocidente, por volta de 550.50 Nessa epoca, as ricas habita<j:6es ur- banas e rurais (villae)tinham sido em geral abandonadas, ou subdivididas em casas menores; a produc;:aoartesanal era geralmente de menor escala, e alguma vezes menos habilidosa (isso e particularrnente claro no caso da produ<j:fode ceramicas, sempre nosso melhor indicador arqueol6gico para aprofissionaliza~ao artesanal); os produtos eram bem menos trocados en- ereas provincias do amigo lmperio, e dentro dessas provincias - os novas reinos - o alcance da distribui<j:a.o de produtos artesanais era, em geral, bem reduzido. O ritmo dessas mudan'ras variou bastante de lugar para lugar, e nem codas ocorreram em codas os lugares. No none da Galia, as cidades diminuiram de camanho e as villaeforam abandonadas, em 450, mas os 163
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    0 legado deRoma: lhuninan<lo a idade das trevas, 400- 1ooo padroes de produc;ao e disrribuic;ao decafram bem menos (aeconomia da Galia Nortenha tinha, havia muito tempo, se separado dado Mediterra- neo) e se encontravam estabilizados por volta do seculo VI. Na Espanha, o interior viu uma simplificac;ao dos padroes de distribuic;ao e um aban- dono parcial das villae, a partir do final do seculo V, enquanto a costa do Mediterraneo assistiu a menos mudan~as ate depois de 550.Na Italia e na Galia Merid ional, o mcio do VI seculo foi o peri'.odode maiores mudanc;as, mas a pequena produc;ao artesanal especializada sobreviveu, bem como as cidades. Na Africa, grande regiao exporcadora no Ocidente romano tar- dio, poucas mudanc;as internas sao visiveis ate aproximadamenre o ano 500, epode-se acompanhar a sobrevivencia de importantes elemenros das estruturas econ6micas romanas ate pelo menos 600, apesar de haver uma queda continua nas exportac;oes africanas encontradas em outras partes do Mediterraneo tao cedo quanto 450. Essas diferenc;asregionais - que poderiam vir a crescer, pois nos- sas informa~oes estao ficando mais detalhadas o tempo coda, na medida em que as escavac;oesarqueol6gicas ciendficas se tornam mais comuns em cada pais - sao indicadores dos diferentes impactos que as invas6es e os dcslocamentos populacionais de 400-550 tiveram em cada pane do Im- perio . Foram maiores do que se costwna esperar no interior da Espanha, e menores no norce da Galia franca e na Africa vandala. Tais diferen~as tambem moscram que as aristocracias dos novos reinos nao se equipara- vam ariqueza de seuspred ecessores ou ancestra is,precisamente porq ue era mais dificil possuir propriedades em terras distantes agora que o Imperio se dividira (a super-rica elite senatorial de Roma, em particular, deixara de existir), mas esse empobrecimenro tambem era muito variavel, e verda- de, em tennos regionais. Venda globalmente, encretanto, essas mudan~as mostram que os reinos p6s-romanos do Ocidente foram incapazes de arin- gir a intensidade de circulac;ao e a escala da produc;ao do antigo Imperio Romano. 0 Oriente era bem diferente nesse aspecto; no inicio do seculo VI, as cidades, as industrias e a troca de produtos estavam atingindo seu auge, e continuaram nesse nivel ate o inkio do seculo VII. Maso Imperio sobreviveu no Orienre. Essacorrelac;-ao e exata: a complexidade economica dependia da unida de imperial, em ambos os lmperios, Oriental e Ociden - tal. As implicac;oes que essas mudanc;as tiveram para as sociedades locais no Ocidence serao discutidas no capiculo 8. · 164 • Crise e continuidade A existencia de elites "barbaras" em cada um desses reinos p6s- -romanos teve um impacto na cultura das elites romanas tambem: nao porque os recem-chegados fossem culturalmeme distinros - como acaba- mos de ver, na maior pa rte dos casos, eles nao eram -, mas porque eram militares. 0 estrato ariscocd.tico do Imperio Romano tinha sido civil, em sua maioria, como vimos no capiculo 1.Isso ja nao era tao comum no mundo de Aecio; Eparquio Avito, por exemplo, oriundo de uma grande familia senatorial gaulesa, tinha sido um dos generais de Aecio antes de ele se tornar imperador, e podia ser descrico em termos bem marciais por seu genro Sid6nio.s1 Mas, nos reinos p6s-romanos, a estrutura de carrei- ra secular tornou-se conrinuamente mais militarizada, e mais e mais os romanos ambiciosos encontraram espac;-o nos sequitos e exercitos regios, lado a lado com as pr6prias elites "barbaras", em vez de se manrerem na decadence administrac;ao civil. 0 pr6prio Sidonia nunca fez isso, mas seu filho Apolinario lutou pelos visigodos em Vouille, e Arcadio, filho de Apolinario, era um apoiador de Childeberto I dos francos. 0 lugar onde os valores da ariscocracia civil sobreviveram por mais tempo foi na pr6pria Roma, pois a hierarquia senatorial la era parcia lmente separa- da do servic;oestatal, mas, mesmo na Italia, os senadores podiam fazer a opc;ao militar: Cipriano, inimigo de Boccio, que teve uma carreira parcialmente militar, criou seus filhos para serem soldados e ate mesmo para falarem o g6cico. Essas tendencias persistiram; todas as hierarquias aristocra- ticas secu lares se tornaram militares. A trnica alternativa era a Igreja. Como ja mencionamos, os aristocratas tornaram-se bispos, primeira- mente na Galia, pela mecade do seculo V; na Italia, isso era menos co- mum ate a Guerra G6tica, mas normalizou-se ap6s esse evento. Essa opc;ao eclesiastica moscra a crescente riqueza da lgreja, canto que valia a pena para uma familia da elite buscar dominar o oficio episcopal e, assim, as terras da lgreja, em uma dada diocese. Isso tambem mostra a crescente localizac;ao das ac;oespoliticas, pois o poder episcopal estava concentrado, acima de cudo, dentro da diocese, com excec;aodos bispos mais ricos e influentes; a Igreja se cornou ainda mais descencralizada no Ocidente p6s-im perial. Ser um bispo era, algumas vezes, uma opc;ao de aposentadoria (como no caso de Sidonio e de seu filho Apolinario, em Clermont), mas cada vez mais se tornava uma opc;-aode carreira, com 165
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    0 legado deRoma: lluminando a idade das trevas, 400-1000 uma forma~ao especificamente clerical: as vezes para os filhos mais jovens, mas, outras vezes, para familias inteiras. 52 A extensa famflia de Gregorio de Tours, na Galia Central, no seculo VI, incluia sere bispos em quarro gera~oes, e apenas uma figura militar, o dux Gundulfo. 0 maior resultado dessas tendencias foi que a cultura de elite secular do lmperio Romano perdeu seu papel como indicador de status. lsso explica por que provavelmente as villaerurais foram abandonadas: como simbolo de conforto e de luxo, elas estavam fora de moda em urna sociedade mais milirarizada. 0 consumo de carne foi introduzido nesse concexto. A vestimenta das elites tambem mudou; reis e aristocratas da Alta Idade Media vestiam-se como os generais romanos tardios, e nao como os amigos senadores e a sua toga tradicional.5 3 Porem, acima de tudo, deixou de ser importante saber de cor Virgilio e outros dassicos seculares ou ser capaz de escrever poesia e prosa elaboradas, coisa que Sidonia ainda considerava essencial: o manejo da espada, ou da Biblia, era fonte bem mais relevante de capital cultural. Como resuhado, nos- sas fames escritas mudam dramaticamente, cornando-se muito mais li- gadas a temas cristaos, hagiografias, sermoes, lirnrgia (como aconteceu tambem em Bizancio). Nao e que todas as formas de instru~ao literaria desapareceram; mesmo no Ocidente, as aristocracias eram geralmente capazes de ler, ate o final do seculo IX. Mas devcmos, de qualquer ma- neira, nos manter neutros em rela~ao a caismudan~as. Como enfacizado no capitulo 1, e muito mais importante reconhecer que uma educa~ao complexa existia, acima de tudo, para demonstrar que as elites romanas eram especiais, mas, como agora a identidade das elites estava mudando, ela naoera mais necessaria. Essas mudan~as usualmente ocorriam de maneira lenta: afinal, 150anos e um longo tempo (apenas na Italia as mudan~as foram real- mente rapidas, sobretudo como resulrado da Guerra G6tica, nos anos 540).As pessoas geralmence nao estavam ciences delas; ajustavam-se fa- cilmente a cada pequena mudan~a. Nao ede modo algum claro ate que ponto a maioria dos escritores ocidentais viu o mundo romano como algo acabado, no periodo ate 550,ou ate mesmo mais tarde. Os escrirores ra- ramente demonsuavam alguma nostalgia do passado, e, apesar de serem certamente capazes de reclamar sabre quao cerriveiseram os costumes de seu presente, essa e uma caracreristica dos conservadores de cada gera~ao. 166 • Crise e continuidade Em rodo caso, a medida que a escrita se rornava mais edesiastica, ela tam- bem ficava mais socialmente critica, mais moralizante; mas isso era um produto do genera, nao necessariamente uma mudan~a social, sejaperce- bida ou real. As aristocracias tradicionais romanas, auroras da maioria de nossas fontes, ainda estavam em vigor na maior parte do Ocidente; elas existiam ao lado de familias mais recentes, que ascendiam na Igreja ou no exercito, e, e claro, das novas elites "barbaras", mas esses ultimas grupos ainda estavam copiando a cultura aristocratica romana. Ainda assim, ate rnesmo cssa cultura estava mudando. E as arisrocracias estavam tornan- do-se cada vez rnais localizadas, distanciando-se umas das outras. No final- porvoltade 650,em todos os reinos p6s-romanos -, elasdeixariam de pensar em simesmas como romanas, mas antes como francas, visig6ticas ou lombardas. Os "romanos", nesse momenta, restringiam-se ao lmperio Oriental, as por~oes nao lombardas da Italia (sobretudo a pr6pria Roma), e a Aquitania - a antiga parte visig6rica da Galia, onde OS francos assen- caram-se em menor quantidade. Nessa epoca, inclusive, os romanos eram vistas coma coisa do passado; porem, levou todo esse tempo para que as pessoas reconhecessem que o Imperio tinha desaparecido no Ocidente. 54 Por que o lmperio Romano desapareceu no Ocideute, mas nao no Orieme, eum problema que tern deixado perplexos os estudiosos ao longo de seculos, e continuara a deixa-los. Isso nao me parece refletir as diferen~as sociais entre Oriente e Ocidente, ou a divisao do Imperio. Pso- vavelmente, derivou, em parte, da maior exposiliao das areas centrais do Ocidente - Italia e, especialmeme, o centro e o sul da Galia - as invasoes de fronteira; ataques nos Ba.leas,no Oriente, raramente ultrapassavam Constantinopla adentrando o resto do Imperio, mas ataques nas regi6es militares ocidentais, norte da Galia e as provincias do Danubio, podiam ir longe bem mais facilmente. Aceitar grupos invasores no Imperio Oci- dental e escabelece-los como federados era uma resposta perfeitamente sensata a situa~ao, desde que essas areas federadas nao se tornassem cao indisciplinadas a ponto de os exercitos romanos terem de ser mobilizados para enfrenta-las, ou tao grandes que arnea~assem a base fiscal do lmperio e assim os recursos para os pr6prios exercitos regulares. Entrecanto, infe- lizmente para o Ocidence, isso acontcceu. Os visigodos, em 418,podiam ser um apoio para o lmperio, porem, 50 anos depois, eram inimigos dele. Como diro anteriormente, a conquista do cemro cerealista africano pelos 167 I , I
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    O legado deRoma: Iluminando a idade das Lrevas, 400-1 ooo vandalos, em 439, coisa que os romanos erroneamente nao previram e a qual nao opuseram resistencia, parece-me ser o ponto crucial, o momenco ap6s o qual esses potenciais aliados podiam transformar-se em perigos. Os recursos do exercito diminuiram demais ap6s isso; o equilibrio do po- der mudou. Por volta de 476, mesmo o exercito romano da Italia deve ter corne<;adoa pensar que a posse de terras era desejavel. E, nao menos im- ponante, as elites locais cornepram a lidar com os poderes "barbaros" e1n vez de com o governo imperial, que era, agora, muito distance e cada vez mais irrdevante; aprovincializa<;aoda politica rnarcou a senten<;ade morte para o Imperio Ocidental. No Oriente, o controle imperial sabre a outra grande fonte de graos, o vale do Nilo, no Egito, nunca foi amea<;adonesse pedodo, e a estrutura logistica do Imperio permaneceu intocada, coma consequencia. Quando os persas e depois os arabes retiraram do controle romano o Egito e tambern oLevante, ap6s 618,o Oriente tambem sofreria uma enonne erapida crise. 0 Imperio Romano Oriental (que chamaremos de agora em diante de Imperio Bizantino) sobreviveu, mas foi por pouco, nao sern ances cersido consideravelrnente transforrnado. 55 Notas Anarrariv; geral mais completa sobre essepedodo ainda ea Histoire du Bas-Empire, 2 vols. (Paris, 1949-1959),de E. Stein; narrarivas analiticas arualizadas (e muiro distintas) sobre o Ocideme agora estao em TheFall of the Roman Empire (London, 2005), de P. Heareher; e Barbarian .Nligrations and the Roman West, 376-568 (Cambridge, 2007), de G. Halsall, que da arenr;:aoaculrura material. CAH, vol. 14, lhe Cambridge Companion to the Age ofJustinian (Cambridge 2005), de M. Maas (ed.), e TheMediterranean World in Late Antiquity AD 365-600 (London, 1993),de A. Cameron, sao incrodm;:oesdeponca, assim como TheRoman Empire and its Germanic Peoples(Berkley, 1997), de H. Wolfram. Sobre a inregm;ao dos "barbaros" no mundo romano, a serie "Transformation of the Roman World", publicada pela Brill, eagora um pomo de parrida cssencial, incluindo Kingdoms of the Empire (Leiden, 1997), de W. Pohl (ed.), e Regna and Gentes (Leiden, 2003), de H.-W.Goetz et al. (ed.). The Fall ofRome and the End of Civilization (Oxford, 2005),de B.Ward-Perkins, r!:um poderoso golpe contra o excessivocominuismo. Os esmdiosos discordam, muitas vezes ferozmente, sobre os assuntos discutidos nesse capitulo, e provavdmente continuarao a discordar por algum tempo. l Victor de Vita, History of the Vandal Persecution, trad. J.Moorhead (Liverpool, 1992),2.38-40; 3.2-14 (cita<;:oes de 3.3.3, 7); sobre 411,Actes de la Conference de 168 Crise e continuidade Carthage en 411, ed. S.Lance!, 3 vols. (Paris, 1972-1975);e CTh, 16.S.52,sobre 412 e o modelo de Hunerico. C. Courtois, Les Vanda/es et l~frique (Paris, 1955),ea expansiva conferencia publi- cada como I.:Antiquite tardive, vols. 10-11(2002-2003);Possidius,LifeofAugustine, crad. R. J.Deferrari, Early Christian Biographies (Washingron, 1952),pp. 73-131, cap. 28-30; Prokopios, Wars, ed. e trad. H.B. Dewing (Cambridge, Massachusetts, 1914-1928),4.6.S-9.Sobre a Africa no perfodo, cf. A.H. Merrills (ed.), Vandals Romans and Berbers (Aldershot, 2004). 4 J.Durliat, De la ville antique ala ville byzantine (Roma, 1990), pp. 92-123. B. Croke, "A.D. 476: The Manufacture of a Turning Point", Chiron, 13 (1983), pp. 81-119. 6 J.R. Marrhews. Western Aristocracies and Imperial Court AD 364-425 (Oxford, 1975);H. Wolfram, History oft he Goths (Berkdey, 1988),pp. 139-175;P.J.Heath- er, Goths and Romans 332-489 (Oxford, 1991),pp. 193-224. Sobrc Gainas e Eud6xia, cf.]. H. W. G. Liebeschuerz, Barbarians and Bishops (Ox- ford, 1990). Eud6xia e Pulqueria: K. G. Hoium, TheodosianEmpresses (Berkeley, 1982);L. James, Empresses and Power in Early Byzantium (Leicester, 2001), pp. 59-82. Sobre o reinado de Teod6sio II como um todo, cf F.Millar,A GreekRoman Empire (Berkeley,2006). 8 J.Arce,Bdrbarosy romanosenHispania, 400-507 A.D. (Madrid, 2005),efundamental. 0 melhor panorama deste assumo polemico eJ.C. Sanchez Leon, Los Bagaudae (Jaen,1996). 10 Orosins, SevenBooks ofHistory against the Pagans,trad. R.J.Deferrari (Washington, 1964),7.41;sobre Agostinho, cf. R. A. Markus, Saeculum (Cambridge, 1970),pp. 45-71; 147-153. 11 J.Matthews, in:]. Harries & I. Wood (ed.), The Theodosian Cocle(London, 1993), pp. 19-44. 12 J.M. O'Flyn n, Generalissimosofthe Western Roman Empire (Edmonton, 1983),pp. 74-103;mais importance eJ.R. Moss, Historia, 22 (1973),pp. 711-731. 13 Novels ofValentinian, n. 15,CTh, pp. 529-530. 14 Salvian, On the Governanceof God, trad. J.F.O'Sullivan, The Writings ofSalvian, the Presbyter (Washington, 1947),pp. 25-232;cf. Priskos, fragmento 11.2,in: Blackley, pp. 267-273;comparar tambem Orosius, History, 7.41.7. 15 0 material basico sabre os hunos (e sobre as politicas do seculo V em geral) eP. Heather, "The Huns and the End of the Roman Empire in Western Europe",English Historical Review, llO (1995),pp. 4-41. 16 Sidonius Apollinaris, Poems and Letters, ed. e trad. W. B. Anderson (Cambridge, Massachnsetts, 1962-1965),poema 7,linhas 392-602. 17 P.MacGeorge, Late Roman Warlords (Oxford, 2002). 18 J.-O. Tjadet, Die nichtliterarischen Lateinis1henPapyri Italiens aus der Zeit445-700 (Lund, 1955-1982),n. 10-11. 169 ,I
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    O legado deRoma: lluminando a idade das lrevas, 400- 1000 19 o ano 476 emalfalado por muitos hiscoriadores, demre os quais o classico eA. Momigliano, "La caduca senza rum ore di un impero nel 476 D.C.", Annali della Scuola Normale Superiore di Pisa, seric 3, 3.2 (1973), pp. 397-418. 20 Wolfram, History of the Goths, pp. 181-222. 21 J. Harries, Sidonius Apollinaris and the Fall ~(Rome (Oxford, 1994), pp. 222-238; cita<;:ao: Sidonius, Letters, 8.2.2. 22 J. F. Drinkwater & H. Elton (ed.), Fifth-century Gaul (Cambridge, 1992); Mac- George, Warlords, pp. 71-164; E. James, TheFranks (Oxford, 1988), pp. 58-91. 23 P.Van Ossel & P.Ouzoulias,Journal ofRoman Archaeology,13(2000), pp.133-160; Sidonio, Cartas, 4.17; Vita Genovefae,ed. 8. Krusch,MGH, SRM, vol. 3 (Hanover, 1896), pp. 215-238, cap. 35-38. 24 Life ofSeverinus, trans. L. Bieler (Washington, 1965). 25 Para Zenao e Anastacio, cf.A. D. Lee, CAH, vol. 14, pp. 49-62; para os Teodoricos, Heather, Goths and Romans, pp. 240-308. 26 J. Moorhead, Theodericin lta~y (Oxford, 1992); P.Heather,EME, 4 (1995), pp. 145- -173; sabre a visita de 500, cf.Anonymus Valesianus,ed. e crad. emAmmianus, Res Gestae,vol. 3, pp. 548-557; as Variae,de Cassiodoro, estao parcialmente craduzidas em S.J. B.Barnish (Liverpool, 1992), e sumarizadas como um todo em T. Hodgkin, TheLetters of Cassiodorus (London,1886). 27 Orosius, Historia, 7.43.2-8. 28 J. Harries, in: Drinkwater & Elton, Fifth-century Gaul, pp. 298-308; PLRE, vol. 2, pp. 157-158; 995-996; l.162-1.163; 1.168; R. Mathisen, Roman Aristocrats in Barbarian Gaul (Austin, Texas, 1993). 29 The Chronicle ofHydatius and the Consularia Constantinopolitana, ed. e trad. R. W. Burgess (Oxford, 1993), pp. 70-122, e Victor de Vita, History of the Vandal Persecution, 1.37 e 3.62, sio as {micas referencias aos romanos. 30 J. N. D. Kelly,Jerome (London, 1975). 31 Sobre Justiniano, talvez o rnelhor e cercamente o mais claro dos muitos panoramas seja ode A. Cameron, CAH, vol. 14, pp. 65-85; sobre a mudan~a na atmosfera do pedodo, Idem, Christianity and the Rhetoric ofEmpire (Berkeley, 1991),pp. 190- -221. Sobre o mundo de Justiniano (apesar de cratar menos do lmperio em si), cf. Maas,Age o_(Justinian. 32 Prokopios, On Buildings, ed. e trad. H. B. Dewing (Cambridge, Massachusetts, 1940). Sobre reda~oes, cf. G. Brands, Resafa VI (Mainz, 2002), pp. 224-235. 33 A. Cameron, Procopiusand the Sixth Century (Berkeley, 1985), pp. 49-83; L. Bru- baker, "Sex, Lies and Textuality", in: L. Brubaker & J.M. H. Smith (ed.), Gender in the Early Medieval World (Cambridge, 2004), pp. 83-101. 34 M. Whicby, TheEmperor Maurice and his Historian (Oxford, 1988), esp. pp. 3-27; M. Whittow, Thelvlaking of Orthodox Byzantium, 600-1025 (Basingstoke, 1996), pp. 38-68, eefecivamenre otimisca. 35 A. Piganiol,L'Empire chretien (325-395) (Paris, 1947), p. 422. 170 Crise e continuidade 36 S.Kraucschick, ''Zwei Aspekte desJahres 476",Historia, 35 (1986),pp. 344-371; 344- -355;a liga<;:iio com Odoacro ,que euma grande reimerprera<;:ao do periodo, sesusrenra apenas na posi~ao de uma i'micavirgula e um "e" em urn ce~to, e nio eclaro s~~l~ e melhor do que a leitura rradicional (em R. C. Blackley, Thefragmentary Classmzmg Historians of theLater Roman Empire, vol. 2 (Liverpool, 1983),pp. 372-373). 37 P. Amory, People and Identity in Ostmgothic Italy, 489-554 (Cambridge, 1997), pp. 277-291. JB A. Demandt, in: E. K. Chrysos & A. Schwarcz (ed.), Das Reich und die Barbaren (Vienna, 1985), pp. 75-86. 39 James, Empressesand Power. 4o L. Brubaker, "Memories of Helena", in: L. James (ed.), Women, Men and Eunuchs (London, 1997), pp. 52-75; PLRE, vol. 2, pp. 635-636; R. Harrison, A Templefor Byzantium (Austin, Texas, 1989). 41 Para O debate sobre etnicidade na Italia, ver, em geral. a critica em Amory, People, a qual eu nao segui inteiramente. Cf. PLRE, vol. 2, pp. 791-793, sobre a carreira de Odoacro. 42 H. Wolfram & W. Pohl (ed.), Typen der Ethnogenese, 2 vols. (Vienna, 1990); P. J. Geary, "Ethnic Identity as a Situational Construct in the Early Middle Ages", Mitteilungen desanthropologischen Gesellschaftin Wien, 113 (1983), PP· 15-26; W. Pohl, in: A. Gillert (ed.), On Barbarian Identity (Turnhout, 2002), pp. 221-239, para uma bibliografia que repensa e oferece o teor da polemica sobre o assu~co; e, mais tecentemente, Halsall, Barbarian lvligrations. T. F.X. Noble (ed.), .From Roman Provincestolvfedieval Kingdoms (London, 2006), reedita muiros dos oucros arcigos fundamentais. 43 Fredegar, Chronica, ed. B. Krusch, MGH, SRM, vol. 2 (Han?ver, 1888),yp. 18-168, 2.4-6, 3.9: cf. A. C. Murray, in: Idem (ed.), After Romes Fall (Toronto, 1998), pp. 121-52. 44 Amory,People, pp. 102-108; 247-256, sobre godos; M. Banniard, Viva voce(Paris, 1992), pp. 253-286, sobre a Francia (apesar de ele escar mais preocupado com lacim versus prom-romance). -15 B. Effros, Creating Community with Food and Drink in Merovingian Gaul (Basingstoke, 2002), pp. 61-67. 46 P. S. Barnwell & M. Mostert (ed.), Political Assemblies in the Earlier .Middle Ages (Turnhout, 2003); sobre osplacita, cf.W. Davies & P.Fouracre (ed.), 1heSettlement ofDisputes in Early Medieval Europe (Cambridge, 1986). 47 Sidonius, Letters, 1.2. 4s C. Wickham, Framing the Early Middle Ages (Oxford, 2005), pp. 80-93 para um panorama sobre o debate; cf. mais recentemcnce W. Goffatt, Barbarian Tides (Philadelphia, 2006), pp. 119-156, e M. Innes, Transactions ofthe Royal Historical Society,serie 6, 16 (2006), pp. 39-74. 49 G. Halsall, Warfare and Society in the Barbarian West, 450-900 (London, 2003), pp. 111-115. 171
  • 39.
    O legado deRoma: Iluminando a idade das trevas, 400-1000 so Wickham, Framing the Early Middle Ages (Oxford, 2005), pp. 720-759, 794-805; Halsall, Barbarian Migrations, pp. 320-370. si SobreAvito, Sidonius, Poems,7,linhas 251-294; sobre Apolinirio e Arcidio: Grego- rio de Tours, Histories, trans. L. Thorpe como TheHistory efthe Franks (Harmond- sworth, 1974), 2.37; 3.9; 12; 18; sobre Cipriano, Cassiodorus, Variae,8.21-2. 52 Mathisen, Roman.Aristocrats, pp. 89-104; R. Van Dam,Leadership and Community in Late Antique Gaul (Berkeley, 1985), pp. 157-229; M. Heinzelmann, Gregoryof Tours (Cambridge, 2001), pp. 7-28, sobre a famil ia de Gregorio. 5-' W. Pohl, "Telling the Difference~, in: W. Pohl & H. Reimitz (ed.), Strategies of Distinction (Leiden, 1998), pp. 17-69, em pp. 40-51; M. Harlow, "Clothes Makerh the Man", in: Brubaker & Smith, Gender, pp. 44-69. 54 J.M. H. Smith,Europe after Rome (Oxford, 2005), pp. 253-292. 55 Para as mudanc;:asem rela~ao as elites locais, cf.,por exemplo, Heather, "Huns", pp. 37-39. 172 Parte II 0 OCIDENTE POS-ROMANO, 550-750