REGRESSO À CIDADE
Já não era
A canção do mar
E a água fria
Que até arrepia.
Já não era
O gosto de inventar
Sereias encantadas
E tempo de risadas.
Já não era
O banho de sol
Cabeças unidas
Histórias divertidas.
Era agora
Tempo de voltar.
Tempo de esquecer
O canto das sereias
As marés cheias
As grandes amizades
A doçura das tardes.
Era agora
Tempo de voltar.
Tempo de ser o robot
Bem manipulado
Que executa o recado
Que for ordenado.
Era agora
tempo de voltar.
Tempo da cidade poluída
Tempo de entrar na corrida
Do povo apressado
Que de tão cansado
Já nem dá por nada
Tornou-se indiferente
Deixou de ser gente.
Maria Cândida Mendonça,
in A Cor Que Se Tem
Shirley
O PESCADOR VELHO
Pescador vindo do largo
com o teu cabelo de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face
a tua face marcada
peço sal de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar
- nesta água não tem peixe -
pescador dá-me um só peixe
nem garopa nem xaréu
só um peixinho de prata
- nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
prò lado do Zanzibar. Glória de Sant´Anna,
in Moçambique
Shirley
MARIA NA PRAIA
Eu sei uma história
De vento e de mar,
Com areias brandas
Ondas a cantar.
Cavalos marinhos,
Conchas nacaradas
Tesouros, segredos,
Algas perfumadas.
Eu sei uma história
Sem tempo, nem margens,
Com ondas abertas
A muitas viagens.
Eu sei uma história
De vento e de mar.
Se queres ser feliz
Aprende a sonhar!
Maria Rosa Colaço,
in Versos diversos para
meninos travessos
Shirley
OCEANO
É nele que alguns rios têm a foz,
Para si correndo sem parar;
O caminho é só um, bem
desenhado,
E não tem nada que enganar.
O oceano é o mar que todo o ano
Nos dá peixe e rotas para
navegar,
Podendo ser Índico ou Pacífico,
Ou Mediterrâneo de memória
milenar.
E se a ele não voltarmos sem
demora,
Até as ninfas sentirão a nossa
falta,
Que o nosso destino é no mar
que está escrito,
Golfinho que de onda em onda
salta,
Fazendo alegres piruetas para a
malta.
José Jorge Letria,
in O Alfabeto da Natureza
Shirley
OS MEUS CINCO SENTIDOS
Meus olhos já vêem o verde do mar
e afagam as ondas onde quero ir nadar.
Minhas mãos tocam pedras macias, redondas,
que eu atiro depois para o meio das ondas.
Meus ouvidos escutam o marulho das águas
que ecoa num búzio trazido pelas vagas.
Minha língua já prova a água salgada
e a seguir quer um doce para ficar sossegada.
Traz-me a brisa ao nariz um cheirinho a maresia
e eu já corro para o mar onde mora a alegria.
João Pedro Mésseder, in Era uma vez outra vez
Shirley
O FAROL
Altaneiro sobre a falésia,
O esguio farol,
Sempre a olhar o mar,
Umas vezes alteroso,
E outras liso como um lençol,
Subiu por dentro
A sua escada de caracol
E teve a ideia louca
De ser mais brilhante que o Sol.
José Jorge Letria,
in Ideias luminosas
Monica Carretero
ÁGUA
A água é o princípio,
É a fonte e é a sede,
E também pode ser o peixe
Que salta, aflito, numa rede.
Sem ela o que seria a nossa vida,
Tronco seco tombado num canto?
Bebê-la é renascer gota a gota
E continuar vivo por encanto.
E se por ela os homens se guerreiam,
É por valer como um tesouro
Que, sendo líquido, fresco e veloz,
Vale tanto ou mais que o ouro.
E se um dia a água nos faltar?
Que triste será o mundo
Com tantas mágoas para apagar.
José Jorge Letria,
in O Alfabeto da Natureza
Mihay Bodo
BARCA BELA
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador!
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!
Almeida Garrett
O POBRE MARINHEIRO
Era uma vez um marinheiro
Com as calças rotas no traseiro.
Coitadinho, não tinha nenhum
dinheiro!
O MARINHEIRO MARINHÊS
Era uma vez um marinheiro
Com cara de marinhês,
Talvez por isso lhe chamassem
gato-maltês.
CORONEL DE PAPEL
Era uma vez um coronel
Todo feito de papel. Sopraram,
Sopraram, lá foi ele a tropel!
O CORONEL MANUEL
Era uma vez um coronel
Chamado Manuel, chuchava no dedo
E gostava de andar de carrossel.
O CAPOTÃO
Era uma vez um capitão
Que de tanto capitanear
Às tantas capotou!
O CABO NABO
Era uma vez um cabo
Que era um verdadeiro nabo
E levou um pontapé no rabo.
O ALMIRANTE NA HORTA
Era uma vez um almirante de frota
Que de tanto comer torta
Encalhou o navio na horta.
O CAPITÃO DE MAR E GUERRA
Era uma vez um capitão
de mar e guerra
Que de tanto amar o mar e a guerra
Fez do mar a sua terra.
O MARINHEIRO E O
MEALHEIRO
Era mesmo um companheiro
Aquele velho marinheiro
Pena é ter-me deitado a mão ao
mealheiro!
Pedro Teixeira Neves,
in Histórias de patente
com tenente e outra gente
Aleksandra D. Chabros
A SEREIA
Não me ouvem a cantar?
Trago na voz a maresia
Que há nas ondas do mar
Com uma doce melodia.
Metade sou mulher
E peixe na outra metade.
Há quem me chame ilusão
E quem me chame divindade.
Conheço os deuses antigos,
Senhores das profundidades
Que dão um nome apenas
Às minhas duas metades.
Dizem os cronistas do mar
E também os navegadores
Que os atraí ao engano
Para naufrágios e pavores.
Contam até que o meu canto
Tem um feitiço dentro
Com o céu em toda a volta
E o inferno lá no centro.
Colombo no seu diário
Escreve que nos viu saltar
Sobre o lençol das ondas
Como peixes a brilhar.
Neste banco de coral
Em que o sol me bronzeia
Quem se atreve a acreditar
Que sou mesmo uma sereia?
José Jorge Letria,
in Os Animais Fantásticos
Maria Rosa Colaço,
in Versos diversos para meninos travessos
Adrienne Adams
HISTÓRIA DO SENHOR MAR
Deixa contar…
Era uma vez
O Senhor Mar
Com muita onda…
Com muita onda…
E depois?
E depois?
Ondinha vai…
Ondinha vem…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
E depois…
A menina adormeceu
Nos braços de sua Mãe…
Matilde Rosa Araújo
in O Livro da Tila
MENINO NO CAIS
No cais das gaivotas
Menino sentado
Com sonhos morando
No barco ancorado.
Elsa Beskow
Sentado, pensando,
Com sol entre os dedos,
Com estrelas nos olhos
E o vento aos segredos.
Que segreda o vento?
Que segreda o mar?
Menino sentado
No barco, a olhar?
M..ª Rosa Colaço,
in Versos diversos para
meninos travessos
BEATRIZ FOI VER O MAR
Beatriz foi ver o mar…
Sua cor azul-turquesa
Era mesmo uma beleza,
Uma visão de encantar!
Mas depois pôs-se a avistar
Uma mancha a boiar
Que logo causou tristeza…
Era uma mancha de óleo
(ou seria de petróleo?)
Que um navio derramou.
E, ao pensar nos peixinhos,
Nos búzios e nos golfinhos
Que até podiam morrer,
Beatriz quase chorou…
Teresa Maia Gonzalez,
in O Planeta está em perigo.
Abigail Halpin
NAVIO AZUL
Vinha de longe,
Tão longe,
O navio azul!
Com crianças
E com aves
O navio azul!
Sujo de sal
E de sol
O navio azul!
Trazia bandeira
branca
O navio azul.
Vinha de longe,
Tão longe,
O navio azul!
Cheio de espigas
E flores
O navio azul
Entrou no cais
Da ternura
O navio azul!
Há tanta gente
Esperando
O navio azul!
Trouxe com ele
O sol
O navio azul!
Soltam-se aves
E risos do navio
azul!
Sum povo todo à
espera do navio
azul.
Maria Rosa Colaço, in Versos
diversos para meninos travessos
ESTRELINHA DO MAR
Na praia deserta,
Na tardeparada,
Parece uma flor
A estrela encarnada.
Tem braços abertos
Olhos a chorar
Por que estás tão triste
Estrelinha do mar?
O céu que tu vias
Suspenso no mar,
Não cabe nos braços
Só cabe no olhar?
O céu que tu vias
Suspensodas sombras,
É um céu vazio
Anne-Marie Hugot Sem anjos nem pombas?
Estrelinha-sem-céu.
Estrelinha-sem-mar,
Com braços abertos
Na tarde, a esperar…
Maria Rosa Colaço,
in Versos diversos para meninos travessos
Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...
Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...
Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!
Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!
Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!
Miguel Torga,
in Poemas Ibéricos
Alana
ALFORRECA E FANECA
Pobre de mim, tão Faneca,
Alforreca me fascina.
Sigo atrás da sua coroa,
Dos seus terríveis cabelos
De gelatina e de prata:
Só o vê-los me atordoa,
Só o tocá-los me mata.
Violeta Figueiredo,
in Portugal
PEIXE
Podia falar dos mamíferos,
Das serras altaneiras,
Podia falar das ilhas,
Dos continentes e das florestas
Com as suas amenas clareiras.
Mas falo do peixe e do mar,
Do berço original
De que tudo o resto proveio,
Pois começámos por ser peixes
Com tanta história pelo meio.
E quando às vezes os vejo mortos
Nas margens de um qualquer rio,
Vítimas da negra poluição,
Percebo até que ponto
A Natureza está cheia de razão.
José Jorge Letria,
in O Alfabeto da Natureza
Irma Gruenholz
A ÁGUA DO MAR
Sabes a que sabe
a água do mar?
Já alguma vez a
foste provar?
Pois é: sabe a sal,
Um gosto sem
igual;
É assim salgadinha
A água marinha.
Um mundo salgado,
muito salgadinho,
É a água do mar,
Para todo o
peixinho
Viver e nadar.
M.ª Teresa Maia Gonzalez,
in O Planeta está em perigo.
Amanda Cass
LENGALENGA
Sola, sapato,
Rei, rainha,
Foi ao mar
Pescar sardinha
Para o filho
do juiz
que está preso
pelo nariz.
Sola, sapato,
Rei, rainha,
Foram ao mar,
Pescar sardinha,
Pr’a mulher do juiz,
Que está presa pelo nariz,
Com as fitas amarelas,
Que lhe cortam as goelas.
Os cavalos a correr,
As meninas a prender,
Qual será a mais bonita,
Jane Grant Tentas Que lhe toca a recolher.
COMBOIO DO ESTORIL
Todas as manhãs
Lavo os olhos no mar.
O comboio corre
Eu vou devagar
Com os meus olhos verdes
No azul do mar.
Falam as pessoas
(falam por falar…)
E eu lavando os olhos
Nas águas do mar.
Voa uma gaivota
Que me quer beijar
Volta que revolta
E volta pró mar.
E meus olhos grandes
De tanto abarcar
Vogam sobre as ondas
Tão altas do mar.
Um barco pequeno
- quase de brincar-
Parece um bebé
Aos ombros do mar.
As pessoas lêem
Coisas de pensar.
Eu leio poesia
No livro do mar.
Com meus olhos grandes
De tanto abarcar.
O sol é uma grande
Laranja a inchar.
Deixa cair gomos
De luz sobre o mar.
E um grande navio
(castelo do mar…)
Leva muita gente
De lenço a acenar.
Devem ser da China
Ou doutro lugar
(também terão olhos
De lavar no mar?)
No comboio os homens
Fumam por fumar.
(que pensarão eles
Do azul do mar?)
Só eu tenho olhos
De lavar no mar?
Só eu tenho barcos
Quase de brincar?
E grandes navios
De gente a acenar?
E uma gaivota
Que me quer beijar?
E a Poesia dentro
Do Livro do Mar?
Eduardo Olímpio,
in O Comboio do Estoril
Dan-ah Kim
A TRUTA
Em brilhos de escama
Desce, a truta, o rio.
P’ra tão nobre dama
Só proveito e fama
Lhe escapam por um fio.
Preso ao seu lugar
Fica um pescador,
Pensando que o mar
Se há-de enamorar
do seu esplendor.
Vergílio Alberto Vieira,
in O Livro dos Desejos
O GOLFINHO ALMIRANTE
À proa do seu navio,
de almirante enfarpelado,
Oficial e Cavalheiro,
Segue o golfinho, ligeiro,
Rumo à Estrela Polar.
Só ele sabe, e não diz:
Quando vier a casar
Que noiva fará feliz?
Vergílio Alberto Vieira,
in A cor das vogais
Nikky Corker
O BÚZIO
Pus um búzio da praia
na concha do meu ouvido.
Logo ouvi o mar chamar
muito longe, num gemido.
Ó mar,
Ó mar...
Peguei num búzio das águas,
pousado ali na areia.
Ele guardava a canção
secreta duma sereia.
Ó mar,
Ó mar...
É só um búzio das ondas,
todos o julgam vazio.
Mas eu viajo lá dentro
num sonho feito navio.
Ó mar,
Ó mar...
Luísa Ducla Soares,
in Poemas da Mentira e da Verdade
Robert Ingpen
ESTRELA-DO-MAR
A maré baixou
A Estrela-do-Mar voltou.
O Menino viu-a e exclamou:
-Olá, pequena Estrela!
Eu aqui estou!
(Pegando nela pôs-se a vê-la)).
- Um, dois, três, quatro, cinco.
São os teus bracinhos.
E eu, com os meus dedinhos,
Vou colocar-te no mar.
O Menino o fez, com afinco,
E, durante horas, ficou a olhar.
Nikky Corker
A Estrela-do-Mar voltou
E na areia se depositou.
O menino, admirado, perguntou:
_ O que aconteceu, amiguinha!?
- Apresento-te a minha maninha!
O Menino pegou nas duas estrelinhas
Que fizeram cócegas nas suas mãozinhas.
A Estrela regressou à água.
E, em qualquer altura do dia,
Sempre que a maré baixava,
O Menino já a sentia.
Logo ia e olhava.
Ela vinha e sorria!
Minervina Dias,
in Crescer com versos
PEIXE NO AQUÁRIO
Que saudades do vento!
Que saudades do mar!
Que saudades do sol,
Da água a cantar.
Que tristeza a vida,
Na casa fechada,
Com búzios fingidos,
Com areia pintada.
Que raiva ser peixe
Em sala de gente:
Tudo o que é igual
Deixa-me doente.
Era melhor um anzol!
Era melhor uma rede!
Os dias sem aventura
Não matam fome nem sede.
Partam a caixa de vidro!
Tirem a postiça paisagem!
Deixem-me ao menos espaço
Para a última viagem.
Maria Rosa Colaço,
in Versos diversos para meninos travessos
Gurbuz Dogan Eksioglu
Jenna Dickes
O VAGABUNDO DO MAR
Sou barco de vela e remo
Sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
Nem hora para chegar:
É tudo conforme o vento,
Tudo conforme a maré…
Muitas vezes acontece
Largar o rumo tomado
Da praia para onde ia…
Foi o vento que virou?
Foi o mar que enraiveceu
E não há porto de abrigo?
Ou foi a minha vontade
De vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
Não tenho rota marcada
Ando ao sabor da maré.
É por isso, meus amigos,
Que a tempestade da Vida
Me apanhou no alto mar.
E agora
Queira ou não queira,
Cara alegre e braço forte:
Estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
Aos vagabundos do mar.
Manuel da Fonseca,
in Obra Poética
O mar na poesia

O mar na poesia

  • 1.
    REGRESSO À CIDADE Jánão era A canção do mar E a água fria Que até arrepia. Já não era O gosto de inventar Sereias encantadas E tempo de risadas. Já não era O banho de sol Cabeças unidas Histórias divertidas. Era agora Tempo de voltar. Tempo de esquecer O canto das sereias As marés cheias As grandes amizades A doçura das tardes. Era agora Tempo de voltar. Tempo de ser o robot Bem manipulado Que executa o recado Que for ordenado. Era agora tempo de voltar. Tempo da cidade poluída Tempo de entrar na corrida Do povo apressado Que de tão cansado Já nem dá por nada Tornou-se indiferente Deixou de ser gente. Maria Cândida Mendonça, in A Cor Que Se Tem Shirley
  • 2.
    O PESCADOR VELHO Pescadorvindo do largo com o teu cabelo de algas diz-me o que trazes no barco donde levantas a face a tua face marcada peço sal de horas choradas dá-me o teu peixe pescado bem lá no fundo do mar - nesta água não tem peixe - pescador dá-me um só peixe nem garopa nem xaréu só um peixinho de prata - nesta água não tem peixe foi tudo procurar deus prò lado do Zanzibar. Glória de Sant´Anna, in Moçambique Shirley
  • 3.
    MARIA NA PRAIA Eusei uma história De vento e de mar, Com areias brandas Ondas a cantar. Cavalos marinhos, Conchas nacaradas Tesouros, segredos, Algas perfumadas. Eu sei uma história Sem tempo, nem margens, Com ondas abertas A muitas viagens. Eu sei uma história De vento e de mar. Se queres ser feliz Aprende a sonhar! Maria Rosa Colaço, in Versos diversos para meninos travessos Shirley
  • 4.
    OCEANO É nele quealguns rios têm a foz, Para si correndo sem parar; O caminho é só um, bem desenhado, E não tem nada que enganar. O oceano é o mar que todo o ano Nos dá peixe e rotas para navegar, Podendo ser Índico ou Pacífico, Ou Mediterrâneo de memória milenar. E se a ele não voltarmos sem demora, Até as ninfas sentirão a nossa falta, Que o nosso destino é no mar que está escrito, Golfinho que de onda em onda salta, Fazendo alegres piruetas para a malta. José Jorge Letria, in O Alfabeto da Natureza Shirley
  • 5.
    OS MEUS CINCOSENTIDOS Meus olhos já vêem o verde do mar e afagam as ondas onde quero ir nadar. Minhas mãos tocam pedras macias, redondas, que eu atiro depois para o meio das ondas. Meus ouvidos escutam o marulho das águas que ecoa num búzio trazido pelas vagas. Minha língua já prova a água salgada e a seguir quer um doce para ficar sossegada. Traz-me a brisa ao nariz um cheirinho a maresia e eu já corro para o mar onde mora a alegria. João Pedro Mésseder, in Era uma vez outra vez Shirley
  • 6.
    O FAROL Altaneiro sobrea falésia, O esguio farol, Sempre a olhar o mar, Umas vezes alteroso, E outras liso como um lençol, Subiu por dentro A sua escada de caracol E teve a ideia louca De ser mais brilhante que o Sol. José Jorge Letria, in Ideias luminosas Monica Carretero
  • 7.
    ÁGUA A água éo princípio, É a fonte e é a sede, E também pode ser o peixe Que salta, aflito, numa rede. Sem ela o que seria a nossa vida, Tronco seco tombado num canto? Bebê-la é renascer gota a gota E continuar vivo por encanto. E se por ela os homens se guerreiam, É por valer como um tesouro Que, sendo líquido, fresco e veloz, Vale tanto ou mais que o ouro. E se um dia a água nos faltar? Que triste será o mundo Com tantas mágoas para apagar. José Jorge Letria, in O Alfabeto da Natureza Mihay Bodo
  • 8.
    BARCA BELA Pescador dabarca bela, Onde vais pescar com ela, Que é tão bela, Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela, Ó pescador! Deita o lanço com cautela, Que a sereia canta bela... Mas cautela, Ó pescador! Não se enrede a rede nela, Que perdido é remo e vela Só de vê-la, Ó pescador! Pescador da barca bela, Inda é tempo, foge dela, Foge dela, Ó pescador! Almeida Garrett
  • 9.
    O POBRE MARINHEIRO Erauma vez um marinheiro Com as calças rotas no traseiro. Coitadinho, não tinha nenhum dinheiro! O MARINHEIRO MARINHÊS Era uma vez um marinheiro Com cara de marinhês, Talvez por isso lhe chamassem gato-maltês. CORONEL DE PAPEL Era uma vez um coronel Todo feito de papel. Sopraram, Sopraram, lá foi ele a tropel! O CORONEL MANUEL Era uma vez um coronel Chamado Manuel, chuchava no dedo E gostava de andar de carrossel. O CAPOTÃO Era uma vez um capitão Que de tanto capitanear Às tantas capotou! O CABO NABO Era uma vez um cabo Que era um verdadeiro nabo E levou um pontapé no rabo. O ALMIRANTE NA HORTA Era uma vez um almirante de frota Que de tanto comer torta Encalhou o navio na horta. O CAPITÃO DE MAR E GUERRA Era uma vez um capitão de mar e guerra Que de tanto amar o mar e a guerra Fez do mar a sua terra. O MARINHEIRO E O MEALHEIRO Era mesmo um companheiro Aquele velho marinheiro Pena é ter-me deitado a mão ao mealheiro! Pedro Teixeira Neves, in Histórias de patente com tenente e outra gente Aleksandra D. Chabros
  • 10.
    A SEREIA Não meouvem a cantar? Trago na voz a maresia Que há nas ondas do mar Com uma doce melodia. Metade sou mulher E peixe na outra metade. Há quem me chame ilusão E quem me chame divindade. Conheço os deuses antigos, Senhores das profundidades Que dão um nome apenas Às minhas duas metades. Dizem os cronistas do mar E também os navegadores Que os atraí ao engano Para naufrágios e pavores. Contam até que o meu canto Tem um feitiço dentro Com o céu em toda a volta E o inferno lá no centro. Colombo no seu diário Escreve que nos viu saltar Sobre o lençol das ondas Como peixes a brilhar. Neste banco de coral Em que o sol me bronzeia Quem se atreve a acreditar Que sou mesmo uma sereia? José Jorge Letria, in Os Animais Fantásticos
  • 11.
    Maria Rosa Colaço, inVersos diversos para meninos travessos Adrienne Adams HISTÓRIA DO SENHOR MAR Deixa contar… Era uma vez O Senhor Mar Com muita onda… Com muita onda… E depois? E depois? Ondinha vai… Ondinha vem… Ondinha vai… Ondinha vem… E depois… A menina adormeceu Nos braços de sua Mãe… Matilde Rosa Araújo in O Livro da Tila
  • 12.
    MENINO NO CAIS Nocais das gaivotas Menino sentado Com sonhos morando No barco ancorado. Elsa Beskow Sentado, pensando, Com sol entre os dedos, Com estrelas nos olhos E o vento aos segredos. Que segreda o vento? Que segreda o mar? Menino sentado No barco, a olhar? M..ª Rosa Colaço, in Versos diversos para meninos travessos BEATRIZ FOI VER O MAR Beatriz foi ver o mar… Sua cor azul-turquesa Era mesmo uma beleza, Uma visão de encantar! Mas depois pôs-se a avistar Uma mancha a boiar Que logo causou tristeza… Era uma mancha de óleo (ou seria de petróleo?) Que um navio derramou. E, ao pensar nos peixinhos, Nos búzios e nos golfinhos Que até podiam morrer, Beatriz quase chorou… Teresa Maia Gonzalez, in O Planeta está em perigo. Abigail Halpin
  • 13.
    NAVIO AZUL Vinha delonge, Tão longe, O navio azul! Com crianças E com aves O navio azul! Sujo de sal E de sol O navio azul! Trazia bandeira branca O navio azul. Vinha de longe, Tão longe, O navio azul! Cheio de espigas E flores O navio azul Entrou no cais Da ternura O navio azul! Há tanta gente Esperando O navio azul! Trouxe com ele O sol O navio azul! Soltam-se aves E risos do navio azul! Sum povo todo à espera do navio azul. Maria Rosa Colaço, in Versos diversos para meninos travessos
  • 14.
    ESTRELINHA DO MAR Napraia deserta, Na tardeparada, Parece uma flor A estrela encarnada. Tem braços abertos Olhos a chorar Por que estás tão triste Estrelinha do mar? O céu que tu vias Suspenso no mar, Não cabe nos braços Só cabe no olhar? O céu que tu vias Suspensodas sombras, É um céu vazio Anne-Marie Hugot Sem anjos nem pombas? Estrelinha-sem-céu. Estrelinha-sem-mar, Com braços abertos Na tarde, a esperar… Maria Rosa Colaço, in Versos diversos para meninos travessos Mar! Tinhas um nome que ninguém temia: Eras um campo macio de lavrar Ou qualquer sugestão que apetecia... Mar! Tinhas um choro de quem sofre tanto Que não pode calar-se, nem gritar, Nem aumentar nem sufocar o pranto... Mar! Fomos então a ti cheios de amor! E o fingido lameiro, a soluçar, Afogava o arado e o lavrador! Mar! Enganosa sereia rouca e triste! Foste tu quem nos veio namorar, E foste tu depois que nos traíste! Mar! E quando terá fim o sofrimento! E quando deixará de nos tentar O teu encantamento! Miguel Torga, in Poemas Ibéricos Alana
  • 15.
    ALFORRECA E FANECA Pobrede mim, tão Faneca, Alforreca me fascina. Sigo atrás da sua coroa, Dos seus terríveis cabelos De gelatina e de prata: Só o vê-los me atordoa, Só o tocá-los me mata. Violeta Figueiredo, in Portugal PEIXE Podia falar dos mamíferos, Das serras altaneiras, Podia falar das ilhas, Dos continentes e das florestas Com as suas amenas clareiras. Mas falo do peixe e do mar, Do berço original De que tudo o resto proveio, Pois começámos por ser peixes Com tanta história pelo meio. E quando às vezes os vejo mortos Nas margens de um qualquer rio, Vítimas da negra poluição, Percebo até que ponto A Natureza está cheia de razão. José Jorge Letria, in O Alfabeto da Natureza Irma Gruenholz
  • 16.
    A ÁGUA DOMAR Sabes a que sabe a água do mar? Já alguma vez a foste provar? Pois é: sabe a sal, Um gosto sem igual; É assim salgadinha A água marinha. Um mundo salgado, muito salgadinho, É a água do mar, Para todo o peixinho Viver e nadar. M.ª Teresa Maia Gonzalez, in O Planeta está em perigo. Amanda Cass LENGALENGA Sola, sapato, Rei, rainha, Foi ao mar Pescar sardinha Para o filho do juiz que está preso pelo nariz. Sola, sapato, Rei, rainha, Foram ao mar, Pescar sardinha, Pr’a mulher do juiz, Que está presa pelo nariz, Com as fitas amarelas, Que lhe cortam as goelas. Os cavalos a correr, As meninas a prender, Qual será a mais bonita, Jane Grant Tentas Que lhe toca a recolher.
  • 17.
    COMBOIO DO ESTORIL Todasas manhãs Lavo os olhos no mar. O comboio corre Eu vou devagar Com os meus olhos verdes No azul do mar. Falam as pessoas (falam por falar…) E eu lavando os olhos Nas águas do mar. Voa uma gaivota Que me quer beijar Volta que revolta E volta pró mar. E meus olhos grandes De tanto abarcar Vogam sobre as ondas Tão altas do mar. Um barco pequeno - quase de brincar- Parece um bebé Aos ombros do mar. As pessoas lêem Coisas de pensar. Eu leio poesia No livro do mar. Com meus olhos grandes De tanto abarcar. O sol é uma grande Laranja a inchar. Deixa cair gomos De luz sobre o mar. E um grande navio (castelo do mar…) Leva muita gente De lenço a acenar. Devem ser da China Ou doutro lugar (também terão olhos De lavar no mar?) No comboio os homens Fumam por fumar. (que pensarão eles Do azul do mar?) Só eu tenho olhos De lavar no mar? Só eu tenho barcos Quase de brincar? E grandes navios De gente a acenar? E uma gaivota Que me quer beijar? E a Poesia dentro Do Livro do Mar? Eduardo Olímpio, in O Comboio do Estoril
  • 18.
    Dan-ah Kim A TRUTA Embrilhos de escama Desce, a truta, o rio. P’ra tão nobre dama Só proveito e fama Lhe escapam por um fio. Preso ao seu lugar Fica um pescador, Pensando que o mar Se há-de enamorar do seu esplendor. Vergílio Alberto Vieira, in O Livro dos Desejos O GOLFINHO ALMIRANTE À proa do seu navio, de almirante enfarpelado, Oficial e Cavalheiro, Segue o golfinho, ligeiro, Rumo à Estrela Polar. Só ele sabe, e não diz: Quando vier a casar Que noiva fará feliz? Vergílio Alberto Vieira, in A cor das vogais Nikky Corker O BÚZIO Pus um búzio da praia na concha do meu ouvido. Logo ouvi o mar chamar muito longe, num gemido. Ó mar, Ó mar... Peguei num búzio das águas, pousado ali na areia. Ele guardava a canção secreta duma sereia. Ó mar, Ó mar... É só um búzio das ondas, todos o julgam vazio. Mas eu viajo lá dentro num sonho feito navio. Ó mar, Ó mar... Luísa Ducla Soares, in Poemas da Mentira e da Verdade Robert Ingpen
  • 19.
    ESTRELA-DO-MAR A maré baixou AEstrela-do-Mar voltou. O Menino viu-a e exclamou: -Olá, pequena Estrela! Eu aqui estou! (Pegando nela pôs-se a vê-la)). - Um, dois, três, quatro, cinco. São os teus bracinhos. E eu, com os meus dedinhos, Vou colocar-te no mar. O Menino o fez, com afinco, E, durante horas, ficou a olhar. Nikky Corker A Estrela-do-Mar voltou E na areia se depositou. O menino, admirado, perguntou: _ O que aconteceu, amiguinha!? - Apresento-te a minha maninha! O Menino pegou nas duas estrelinhas Que fizeram cócegas nas suas mãozinhas. A Estrela regressou à água. E, em qualquer altura do dia, Sempre que a maré baixava, O Menino já a sentia. Logo ia e olhava. Ela vinha e sorria! Minervina Dias, in Crescer com versos
  • 20.
    PEIXE NO AQUÁRIO Quesaudades do vento! Que saudades do mar! Que saudades do sol, Da água a cantar. Que tristeza a vida, Na casa fechada, Com búzios fingidos, Com areia pintada. Que raiva ser peixe Em sala de gente: Tudo o que é igual Deixa-me doente. Era melhor um anzol! Era melhor uma rede! Os dias sem aventura Não matam fome nem sede. Partam a caixa de vidro! Tirem a postiça paisagem! Deixem-me ao menos espaço Para a última viagem. Maria Rosa Colaço, in Versos diversos para meninos travessos Gurbuz Dogan Eksioglu Jenna Dickes O VAGABUNDO DO MAR Sou barco de vela e remo Sou vagabundo do mar. Não tenho escala marcada Nem hora para chegar: É tudo conforme o vento, Tudo conforme a maré… Muitas vezes acontece Largar o rumo tomado Da praia para onde ia… Foi o vento que virou? Foi o mar que enraiveceu E não há porto de abrigo? Ou foi a minha vontade De vagabundo do mar? Sei lá. Fosse o que fosse Não tenho rota marcada Ando ao sabor da maré. É por isso, meus amigos, Que a tempestade da Vida Me apanhou no alto mar. E agora Queira ou não queira, Cara alegre e braço forte: Estou no meu posto a lutar! Se for ao fundo acabou-se. Estas coisas acontecem Aos vagabundos do mar. Manuel da Fonseca, in Obra Poética