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Solano Trindade nasceu em Recife (PE), em 24 de julho de 1908. Uma
das figuras mais expressivas e admiráveis da poesia negra no Brasil. Filho de
Manuel Abílio Trindade, sapateiro e cômico de profissão, e de dona
Emerenciana de Jesus, quituteira e operária. Desde muito cedo acompanhava o
pai em suas danças de pastoril e bumba-meu-boi, e isto despertou no menino
um forte interesse pelo folclore, o teatro e a cultura popular. Fez o curso
propedêutico da Academia de Comércio de Recife, foi operário e funcionário
público federal, no início de sua carreira (Serviço Nacional de Recrutamento).
Publicou Poemas de uma vida simples, 1944, Seis tempos de poesia, 1958, e
Cantares de um povo, 1963, entre outros. Solano Trindade morreu no Rio de
Janeiro em 1974, aos 66 anos.
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GRAVATA COLORIDA
(Solano Trindade)
―Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…‖
SOU NEGRO
(Solano Trindade)
Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs
Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu
Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso
Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou
Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação
NEGRA BONITA
(Solano Trindade)
Negra bonita de vestido azul e branco
Sentada num banco de segunda de trem
Negra bonita o que é que você tem?
Com a cara tão triste não sorri pra
ninguém?
Negra bonita
É seu amor que não veio
Quem sabe se ainda vem
Quem sabe perdeu o trem
Negra bonita não fique triste não
Se seu amor não vier
Quem sabe se outro vem
Quando se perde um amor
Logo se encontra cem
Você uma negra bonita
Logo encontra outro bem.
Quem sabe se eu sirvo
Para ser o seu amor
Salvo se você não gosta
De gente da sua cor
Mas se gosta eu sou o tal
Que não perde pra ninguém
Sou o tipo ideal
Pra quem ficou sem o bem...
POEMA DO HOMEM
(Solano Trindade)
Desci à praia
Para ver o homem do mar,
E vi que o homem
É maior que o mar
Subi ao monte
Pra ver o homem da terra,
E vi que o homem
É maior que a terra
Olhei para cima
Para ver o homem do céu,
3
A MENSAGEM DO POETA
(Solano Trindade)
O poeta é um mensageiro da vida
Ele canta a terra
Ele canta o céu
Ele canta o mar
Ele canta o homem,
E no homem
Está a maior mensagem da vida...
A mensagem do poeta
Fala do corpo da mulher,
Dos seus seios
Da sua boca
Das suas mãos,
Porque na mulher
Está a vida do poeta
Porque a mensagem do poeta
Vem do ventre da mulher.
ADVERTÊNCIA
(Solano Trindade)
Há poetas que só fazem versos de amor
Há poetas herméticos e concretistas
enquanto se fabricam
bombas atômicas e de hidrogênio
enquanto se preparam
exércitos para guerra
enquanto a fome estiola os povos...
Depois
eles farão versos de pavor e de remorso
e não escaparão ao castigo
porque a guerra e a fome
também os atingirão
e os poetas cairão no esquecimento...
NAVIO NEGREIRO
(Solano Trindade)
Lá vem o navio negreiro,
Lá vem ele sobre o mar
Lá vem o navio negreiro
Vamos minha gente olhar...
Lá vem o navio negreiro,
Por água brasiliana
Lá vem o navio negreiro,
Trazendo carga humana...
Lá vem o navio negreiro,
Cheio de melancolia,
Lá vem o navio negreiro,
Cheinho de poesia...
Lá vem o navio negreiro
Com carga de resistência
Lá vem o navio negreiro
Cheinho de inteligência...
NEGROS
(Solano Trindade)
Negros que escravizam
e vendem negros na África
não são meus irmãos
negros senhores na América
a serviço do capital
não são meus irmãos
negros opressores
em qualquer parte do mundo
não são meus irmãos
Só os negros oprimidos
escravizados
em luta por liberdade
são meus irmãos
Para estes tenho um poema
grande como o Nilo.
4
Lino de Pinto Guedes, nascido
em Socorro em 1897 ou 1906,
dependendo da fonte, e falecido
em São Paulo em 1951. Descendia
dos ex-escravos José Pinto Guedes
e de Benedita Eugenia Guedes.
Estudou em Campinas, diplomou-
se pela Escola Normal António
Álvares, dessa cidade. Na capital
Foi jornalista, chegando a chefe de
revisão no "Diário de São Paulo".
Faleceu em São Paulo (Capital), a
4 de março de 1951.
Lino Guedes, é considerado um ícone no cenário do discurso em favor
da causa negra na primeira metade do século XX. Filho de ex-escravos, fez
parte de uma geração que ainda sentia fortemente a inadaptação do
afrodescendente à realidade pós-escravidão, prejudicado pelas barreiras que
a sociedade impunha aos novos cidadãos, as quais dificultavam que o negro se
inserisse no mercado de trabalho. Foi um dos negros que conseguiu respeito
perante a sociedade em plena atuação da ideologia do branqueamento que
sustentava a aparência política estratégica de democracia civil e racial.
5
DURO COM DURO...
(Lino Guedes)
Coisa que nunca se viu
Um preto de outro gostar;
Por isso eu não me admiro,
De você me abandonar
Por aquela deslambida,
Que vive o rosto a pintar.
Pinta sim reboca mesmo:
Mas vocês por uma branca
Dão tudo, tudo, até a vida.
Seja boa ou seja tranca.
Só pelo gosto de ouvir:
- É casado c‘uma branca
- Não faz mal, da minha vida
Sorverei todo o seu travo.
Lamentando esse teu fraco
Meu único amor, meu bravo
Que deixa de ser senhor
Para viver como escravo!
NOVO RUMO!
(Lino Guedes)
"Negro preto cor da noite",
nunca te esqueças do açoite
Que cruciou tua raça.
Em nome dela somente
Faze com que nossa gente
um dia gente se faça!
Negro preto, negro preto,
sê tu um homem direito
como um cordel posto a prumo!
É só do teu proceder
Que, por certo, há de nascer
a estrela do novo rumo!
NOVO RUMO!
(Lino Guedes)
―Negro preto cor da noite‖,
nunca te esqueças do açoite
Que cruciou tua raça.
Em nome dela somente
Faze com que nossa gente
um dia gente se faça!
Negro preto, negro preto,
sê tu um homem direito
como um corcel posto a prumo!
É só do teu proceder
Que, por certo, há de nascer
a estrela do novo rumo!
DITINHA
(Lino Guedes)
Penso que talvez ignores,
Singela e meiga Ditinha,
Que desta localidade
És a mais bela pretinha:
Se não fosse profanar-te,
Chamar-te-ia… francesinha!
Então, quando vais à reza
Com teu vestido de cassa,
Não há mesmo quem não fale,
Orgulho da minha raça:
– Olha que preta bonita
E que andar cheio de graça!…
Se às vezes sorrio, a esmo,
Não me tomes por caduco.
Com teu vulto nos meus olhos,
Ando como aquele turco
Que, doloroso destino,
Ao te ver, ficou maluco…
Ah! Se souberas, Ditinha,
Que por sob essa aparente
Frieza, (quem tal diria!…)
Eu peço constantemente,
A Deus que um dia nos ponha
Numa casinha sem gente…
6
Joaquim Maria Machado de Assis
nasceu em Morro do Livramento, no Rio de
Janeiro, em 21 de janeiro de 1839. Filho de
um operário mestiço de negro e português,
Francisco José de Assis e da açoriana, Maria
Leopoldina Machado de Assis.
Sua instrução veio por conta própria, devido
ao interesse que tinha em todos os tipos de
leitura. Graças a seu talento e a uma enorme
força de vontade, superou todas essas
dificuldades e tornou-se em um dos maiores
escritores brasileiros de todos os tempos.
Em 1897, Machado fundou a Academia
Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro
presidente, pelo que a instituição também
conhecida como casa de Machado de Assis.
Ocupou a Cadeira N.º 23, de cujo patrono,
José de Alencar, foi amigo e admirador.
A trajetória de Machado de Assis é alvo de interesse dos apreciadores da literatura e
de vários pesquisadores. A sua obra conta com um leque temático e estilístico bastante
variado, dificultando bastante o enquadramento de seu legado em um único gênero. O
impacto da sua obra chegou a figurá-lo entre os principais nomes da literatura
internacional.
Casou-se com Carolina em 1869 (o casal não teve filhos). Morreu de câncer no Rio de
Janeiro, no dia 29 de setembro de 1908. Foi enterrado no cemitério de São João Batista, na
mesma cidade onde nasceu e viveu toda sua vida.
7
CÍRCULO VICIOSO
(Machado de Assis )
Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
―Quem me dera que eu fosse aquela loira
estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna
vela!
―Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
―Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e
bela
―Mas a lua, fitando o sol com azedume:
―Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume‖!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta luz e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples
vagalume?‖…
LIVROS E FLORES
(Machado de Assis )
Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?
Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?
A UMA SENHORA QUE ME
PEDIU VERSOS
(Machado de Assis )
Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.
Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.
Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.
Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.
NO ALTO
(Machado de Assis )
O poeta chegara ao alto da montanha,
E quando ia a descer a vertente do oeste,
Viu uma cousa estranha,
Uma figura má.
Então, volvendo o olhar ao subtil, ao
celeste,
Ao gracioso Ariel, que de baixo o
acompanha,
Num tom medroso e agreste
Pergunta o que será.
Como se perde no ar um som festivo e
doce,
Ou bem como se fosse
Um pensamento vão,
Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.
Para descer a encosta
O outro lhe deu a mão.
8
Maria Firmina dos Reis (escritora e professora) nasceu na ilha de São Luís do
Maranhão, em 11 de outubro de 1825. Filha de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos
Reis. Aos 22 anos foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução
Primária e, por isso, foi a primeira professora concursada do estado. Seu romance Úrsula
(1859) foi o primeiro romance abolicionista brasileiro e, além disso, o primeiro escrito por
uma mulher negra no Brasil. No auge da campanha abolicionista, publicou A Escrava
(1887), o que reforçou a sua postura antiescravista. Publicou ainda o romance Gupeva
(1861); poemas em Parnaso maranhense (1861) e Cantos à beira-mar (1871). Além disso,
publicou poemas em alguns jornais e fez algumas composições musicais. Quando se
aposentou, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita.
Faleceu em 11 de novembro de 1917, em Guimarães, município do estado do Maranhão.
Teve uma vida dedicada a ler e escrever, descortinando, assim, novos horizontes para as
mulheres negras brasileiras.
9
AH! NÃO POSSO
(Maria Firmina dos Reis)
Se uma frase se pudesse
Do meu peito destacar;
Uma frase misteriosa
Como o gemido do mar,
Em noite erma, e saudosa,
De meigo, e doce luar.
Ah! se pudesse!... mas muda
Sou, por lei, que me impõe Deus!
Essa frase maga encerra,
Resume os afetos meus;
Exprime o gozo dos anjos,
Extremos puros dos céus.
Entretanto, ela é meu sonho,
Meu ideal inda é ela;
Menos a vida eu amara
Embora fosse ela bela.
Como rubro diamante,
Sob finíssima tela.
Se dizê-la é meu empenho,
Reprimi-la é meu dever:
Se se escapar dos meus lábios,
Oh! Deus, - fazei-me morrer!
Que eu pronunciando-a não posso
Mais sobre a terra viver.
HINO À LIBERDADE DOS
ESCRAVOS
(Maria Firmina dos Reis)
Salve Pátria do Progresso!
Salve! Salve Deus a Igualdade!
Salve! Salve o Sol que raiou hoje,
Difundindo a Liberdade!
Quebrou-se enfim a cadeia
Da nefanda Escravidão!
Aqueles que antes oprimias,
Hoje terás como irmão!
CONFISSÃO
(Maria Firmina dos Reis)
Embalde, te juro, quisera fugir-te,
Negar-te os extremos de ardente paixão:
Embalde, quisera dizer-te: - não sinto
Prender-me à existência profunda afeição.
Embalde! é loucura. Se penso um
momento,
Se juro ofendida meus ferros quebrar:
Rebelde meu peito, mais ama querer-te,
Meu peito mais ama de amor delirar.
E as longas vigílias, - e os negros
fantasmas,
Que os sonhos povoam, se intento dormir,
Se ameigam aos encantos, que tu me
despertas,
Se posso a teu lado venturas fruir.
E as dores no peito dormentes se acalmam.
E eu julgo teu riso credor de um favor:
E eu sinto minh'alma de novo exaltar-se,
Rendida aos sublimes mistérios do amor.
Não digas, é crime - que amar-te não sei,
Que fria te nego meus doces extremos...
Eu amo adorar-te melhor do que a vida,
melhor que a existência que tanto
queremos.
Deixara eu de amar-te, quisera um
momento,
Que a vida eu deixara também de gozar!
Delírio, ou loucura - sou cega em querer-te,
Sou louca... perdida, só sei te adorar.
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Elisa Lucinda dos Campos Gomes é uma poeta brasileira, jornalista, cantora e atriz
brasileira. É muito conhecida por suas atuações em novelas da Rede Globo, pelo prêmio
que recebeu pelo filme A Última Estação (2012), de Marcio Curi, e pelos seus inúmeros
espetáculos e recitais em empresas, teatros e escolas de todo o Brasil. Publicou inúmeros
livros, dentre eles A Lua que menstrua (1992); O Semelhante (1995); Eu te amo e suas
estreias (1999); A Fúria da Beleza (2006); A Poesia do encontro (2008), com Rubem
Alves; Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada (2014). Além disso, lançou CDs de poesias.
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INCOMPREENSÃO DOS
MISTÉRIOS
(Elisa Lucinda)
Saudades de minha mãe.
Sua morte faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.
MULATA EXPORTAÇÃO
(Elisa Lucinda)
―Mas que nega linda
E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!
Vem nega, vem ser minha desculpa
Vem que aqui dentro ainda te cabe
Vem ser meu álibi, minha bela conduta
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!
(Monto casa procê mas ninguém pode saber,
entendeu meu dendê?)
Minha tonteira minha história contundida
Minha memória confundida, meu futebol, entendeu
meu gelol?
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso,
seu karaoquê;
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter
que me mexer
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas,
nada mais vai doer.
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me
ama, me colore
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre
nego malê.
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra
gente sambar.‖
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: ―Seu delegado...‖
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou
pequena pena
com cela especial por ser esse branco intelectual...
Eu disse: ―Seu Juiz, não adianta! Opressão,
LATE ILUSÃO
(Elisa Lucinda)
Em noite de lua cheia
geme ao meu lado o meu cão
acabado de chegar
late ilusões ao meu ouvido
e meu sentido
diz que ele veio pra ficar
Mas a vida passa e vira
páginas da folhinha
o que era cheia e domingo
foi minguando em segundas e terças
e meu homem, minha besta
voltou novo e repetido
como se fosse ficar até sexta
três dias de ele chegando de madrugada
Três dias de ele nadando na minha água
Conversas de homem e mulher
beijo na boca
tirar a roupa
novos latidos de ilusão no meu duvido
meu homem partiu na derradeira manhã
todo agradecido
dos momentos de amor que uivou comigo
eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade
amarela
e ele na terra cantando latindo partindo
uivando pra ela.
CREDO
(Elisa Lucinda)
De tal modo é,
que eu jamais negá-lo poderia:
sou agarrada na saia da poesia!
Para dar um passeio que seja,
uma viagem de carro, avião ou trem,
à montanha, à praia, ao campo,
uma ida a um consultório
com qualquer possibilidade, ínfima que seja, de
espera,
passo logo a mão nela pra sair.
É um Quintana, uma Adélia, uma Cecília, um
Pessoa
ou qualquer outro a quem eu ame me unir.
Porque sou humano e creio no divino da palavra,
pra mim é um oráculo a poesia!
É meu tarô, meu baralho, meu tricot,
meu i ching, meu dicionário, meu cristal
clarividente, meus búzios,
meu copo d'água, meu conselho, meu colo de avô,
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Barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura!‖
Ó minha máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
que vai libertar uma negra:
Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo-oprimido
que vai aliviar seu passado.
Olha aqui meu senhor:
Eu me lembro da senzala
e tu te lembras da Casa-Grande
e vamos juntos escrever sinceramente outra
história
Digo, repito e não minto:
Vamos passar essa verdade a limpo
porque não é dançando samba
que eu te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!
Meu nojo!
Meu engodo cultural!
Minha lavagem de lata!
Porque deixar de ser racista, meu amor,
não é comer uma mulata!
a explicação ambulante para tudo o que pulsa e
arde.
A poesia é síntese filosófica, fonte de sabedoria, e
bíblia dos que,
como eu, creem na eternidade do verbo,
na ressurreição da tarde
e na vida bela.
Amém!
AS MENINAS DE RUA
(Elisa Lucinda)
Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo,
bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo,
sem cama certa,
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.
Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual menstruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de ―cadês.‖
13
João da Cruz e Sousa, também conhecido como Dante Negro ou Cisne Negro, foi o
único poeta de pura raça negra, não tinha nada de mestiço, segundo Antônio Candido
(grande estudioso da literatura brasileira e sociólogo). Era filho de escravos alforriados,
mas recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o marechal Guilherme
Xavier de Sousa – de quem adotou o nome de família, Sousa. Aprendeu línguas como
francês, latim e grego. Além disso, aprendeu Matemática e Ciências Naturais. Seus
poemas simbolistas são marcados pela musicalidade, pelo individualismo, pelo
espiritualismo e pela obsessão pela cor branca. Publicou os livros Broquéis (1893); Missal
(1893) Tropos e Fantasias (1885), com Virgílio Várzea; postumamente foram publicados
Últimos Sonetos (1905); Evocações (1898); Faróis (1900); Outras evocações (1961); O
livro Derradeiro (1961) e Dispersos (1961).
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LIVRE
(Cruz e Souza)
Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.
Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.
Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.
Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.
VELHAS TRISTEZAS
(Cruz e Souza)
Diluências de luz, velhas tristezas
das almas que morreram para a luta!
Sois as sombras amadas de belezas
hoje mais frias do que a pedra bruta.
Murmúrios incógnitos de gruta
onde o Mar canta os salmos e as rudezas
de obscuras religiões — voz impoluta
de todas as titânicas grandezas.
Passai, lembrando as sensações antigas,
paixões que foram já dóceis amigas,
na luz de eternos sóis glorificadas.
Alegrias de há tempos! E hoje e agora,
velhas tristezas que se vão embora
no poente da Saudade amortalhadas! …
IRONIA DE LÁGRIMAS
(Cruz e Souza)
Junto da morte é que floresce a vida!
Andamos rindo junto a sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
Da cova é como flor apodrecida.
A Morte lembra a estranha Margarida
Do nosso corpo, Fausto sem ventura…
Ela anda em torno a toda criatura
Numa dança macabra indefinida.
Vem revestida em suas negras sedas
E a marteladas lúgubres e tredas
Das Ilusões o eterno esquife prega.
E adeus caminhos vãos mundos risonhos!
Lá vem a loba que devora os sonhos,
Faminta, absconsa, imponderada cega!
ACROBATA DA DOR
(Cruz e Souza)
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...
Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço. . .
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
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ALMA SOLITÁRIA
(Cruz e Souza)
Ó Alma doce e triste e palpitante!
que cítaras soluçam solitárias
pelas Regiões longínquas, visionárias
do teu Sonho secreto e fascinante!
Quantas zonas de luz purificante,
quantos silêncios, quantas sombras várias
de esferas imortais, imaginárias,
falam contigo, ó Alma cativante!
que chama acende os teus faróis noturnos
e veste os teus mistérios taciturnos
dos esplendores do arco de aliança?
Por que és assim, melancolicamente,
como um arcanjo infante, adolescente,
esquecido nos vales da Esperança?!
CÁRCERE DAS ALMAS
(Cruz e Souza)
Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.
Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.
Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!
DA SENZALA...
(Cruz e Souza)
De dentro da senzala escura e lamacenta
Aonde o infeliz
De lágrimas em fel, de ódio se alimenta
Tornando meretriz
A alma que ele tinha, ovante, imaculada
Alegre e sem rancor,
Porém que foi aos poucos sendo
transformada
Aos vivos do estertor...
De dentro da senzala
Aonde o crime é rei, e a dor -- crânios abala
Em ímpeto ferino;
Não pode sair, não,
Um homem de trabalho, um senso, uma
razão...
e sim um assassino!
MADONA DA TRISTEZA
(Cruz e Souza)
Quando te escuto e te olho reverente
E sinto a tua graça triste e bela
De ave medrosa, tímida, singela,
Fico a cismar enternecidamente.
Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
Toda a delicadeza ideal revela
E de sonhos e lágrimas estrela
O meu ser comovido e penitente.
Com que mágoa te adoro e te contemplo,
Ó da Piedade soberano exemplo,
Flor divina e secreta da Beleza.
Os meus soluços enchem os espaços
Quando te aperto nos estreitos braços,
solitária madona da Tristeza!
16
Adão Ventura Ferreira Reis nasceu em Santo Antônio do Itambé, Distrito do
Serro, MG, em 1946. Advogado, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais,
autor de livros de poesia, sendo os primeiros: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de
deduzir dele o azul, (Belo Horizonte: Edições Oficina, 1970), As musculaturas do Arco do
Triunfo (Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1976). Já participou de antologias
poéticas em vários países. Teve um de seus poemas incluído na antologia Os Cem
Melhores Poemas Brasileiros do Século, organizada por Ítalo Moriconi ( Editora Objetiva
- SP).
17
ORIGEM
(Adão Ventura)
Vestir a camisa
de um poeta negro
- espetar seu coração
com uma fina
ponta de faca
- dessas antigas,
marca Curvelo,
em aço sem corte,
feito para a morte
- E acomodar
no exíguo espaço
de uma bainha
sua dor-senzala.
Papai
levava tempo
para redigir uma carta
Já mamãe Sebastiana de José Teodoro
teve a emoção de assinar seu
nome completo
já quase aos setenta anos
NEGRO FORRO
(Adão Ventura)
minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.
minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.
DAS BIOGRAFIAS - UM
(Adão Ventura)
Em negro
teceram-me a pele.
enormes correntes
amarram-me ao tronco
de uma Nova África.
carrego comigo
a sombra de longos muros
tentando impedir
que meus pés
cheguem ao final
dos caminhos.
mas o meu sangue
está cada vez mais forte,
tão forte quanto as imensas pedras
que os meus avós carregaram
para edificar os palácios dos reis .
ZUMBI
(Adão Ventura)
Eu-Zumbi
Rei de Palmares
tenho terreiros e tambores
e danço a dança do Sol.
Eu-Zumbi enfrento o vento
que ainda tarda
dessas cartas de alforria.
Eu-Zumbi jogo por terra
a caneta de ouro
de todas as Leis-Áureas.
Eu-Zumbi
Rei de Palmares
Tenho terreiros
e tambores
e danço a dança do Sol.
18
Éle Semog nasceu no Século XX, na cidade de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro.
Viveu a infância e a adolescência no subúrbio carioca nos bairros de Vila Valqueire e
Bangu. Nos anos de 1970 participou do Grupo Garra Suburbana, onde publicou seus
primeiros poemas mimeografados. Como militante do movimento social negro participou
de diversas organizações de combate ao racismo, lutou contra a ditadura militar e pela
promoção da democracia. Atualmente é membro do Conselho Executivo do Instituto
Palmares de Direitos Humanos e Secretário Executivo do CEAP. Seus poemas foram
musicados pelos compositores Irinéia Maria, Teo de Oliveira, Mauro Marcondes e Laércio
Lino. No campo da literatura fundou os grupos ―Negrícia Poesia e Arte de Crioulo‖ e
―Bate Boca de Poesia‖. Éle Semog não sabe exatamente quando começou a escrever
literatura, mas lembra que quando estava no quinto ano do curso primário, ganhou o
primeiro lugar da escola num concurso de redação promovido pelo Jornal O Globo.
19
DANÇANDO NEGRO
(Éle Semog)
Quando eu danço
atabaques excitados,
o meu corpo se esvaindo
em desejos de espaço,
a minha pele negra
dominando o cosmo,
envolvendo o infinito, o som
criando outros êxtases...
Não sou festa para os teus olhos
de branco diante de um show!
Quando eu danço há infusão dos elementos,
sou razão.
O meu corpo não é objeto,
sou revolução
Quando
(Éle Semog)
A primeira vez que fiquei louco
foi quando nasci.
Lá dentro era um silêncio quente, só meu.
Aqui fora foi um frio coletivo,
cada um com o seu.
A segunda vez que fiquei louco,
foi quando me disseram
que o saber de todos não era meu,
o que todos me ensinaram
não era nosso...
precisava pensar sozinho
para ter os méritos.
A terceira vez que fiquei louco,
uma delas disse,
que o amor não era bem isso,
que devia repensar o que é
a entrega, o ter e o repartir.
Na quarta vez que fiquei louco
fiquei procurando a minha alma branca
e quanto mais caminhei,
só me seguia a minha sombra,
espalhada pelo chão que se confundia
com a sombra negra dos brancos
que passavam por mim.
Na quinta vez que fiquei louco,
eles disseram que a minha tri tataravó
gostava de ser violentada
que a mãe da mãe da minha mãe
também gostava,
PONTO HISTÓRICO
(Éle Semog)
Não é que eu
Seja racista...
Mas existem certas
Coisas
Que só os NEGROS
Entendem.
Existe um tipo de amor
Que só os NEGROS
Possuem,
Existe uma marca no
Peito
Que só nos NEGROS
Se vê,
Existe um sol
Cansativo
Que só os NEGROS
Resistem.
Não é que eu
Seja racista...
Mas existe uma
História
Que só os NEGROS
Sabem contar
... Que poucos podem
Entender
SE ELA FAZ EU DESFAÇO
(Éle Semog)
A treze de maio fica decretado
Luto oficial na comunidade negra
E serão vistos com maus olhos
Aqueles que comemorarem festivamente
Esse treze inútil
E fica o lembrete:
Liberdade se toma
Não se recebe
Se toma
Dignidade se adquire
Não se concede.
20
só não disseram que se eu existo
é porque gosto de existir
por ser fruto de tantos violentados.
Agora é a sexta vez que vou ficar louco,
Vamos ver no que vai dar,
mas nem pensar em me dizer
‗pega leve mermão, deixa rolar‘.
EU E O NÃO EU
(Éle Semog)
Eu nessa minha parcimônia,
vestida com escancarada elegância,
jamais hei de ocultar tão evidentes,
a tribo, o atabaque, o axé,
o orixá, o ori, o ancestral.
Eu e a minha carapinha cheia de bochicho,
minha erva de guiné, minha aroeira,
meu samba no pé e outras literaturas.
Eu nessa parcimônia vestida com toda a vida
e seus acontecimentos,
nem só por um momento quero me perder dessa
cor.
O não eu, o outro. Tão fino, tão delicado,
chega a me deixar tonto, encabulado,
com seu vampirismo, seus diabos, suas taras...
Tão racional e exótico nas cerimônias,
esse outro, estranho outro,
faz buracos no céu da Terra,
sente prazer, se lambuza com as guerras,
pensa que respirar é um estorvo,
prende os gestos ao corpo, e berra, e berra, e berra.
Tudo por falta de melanina.
NOTÍCIAS
(Éle Semog)
Tem negros passando
Nas ruas
E samba no fundo
Do quintal
Ave livre no ar
Tem casas com portas abertas
Lençol branco no varal
Crianças empinando pipa
E moças passando a ferro
Velhas acendendo velas
E cheiro de defumador.
Tem céu estrelado todas as noites
E lavoura bem dividida
Tem escola e capoeira
Tem tantos sonhos na vida
Daquela gente primeira.
Tem negros contando histórias
Que o tempo não pode perder
Tem flores por todo lado
Portas e janelas abertas
Tem rei e tem guerreiros
Unidos na vila inteira
Tem casas com portas abertas.
Palmares veia viva
Palmares que tanto sonho
Palmares, Palmares, meu amor
De portas e janelas abertas.
ESTÓRIAS SOBRE NEGROS III
(Éle Semog)
Sois da mesma
Sorte
Que os outros.
Tendes as mesmas
Mãos calejadas
De tanto polir
A terra,
E a angústia, velha
Saudade do seio
Distante
Sim NEGRO
Sois a ferida
Incurável
Da América.
21
José Carlos Limeira, nasceu em Salvador -BA em 01 de maio de 1951. Engenheiro
Mecânico, atualmente é Assessor Técnico da Reitoria da Universidade do Estado da
Bahia. Escreve poemas, contos, crônicas e artigos publicando desde 1971. Entre seus
livros, Zumbi... dos, Lembranças, O Arco Íris Negro (parceria com Éle Semog),
Atabaques (parceria com Éle Semog). Participou de vários números dos Cadernos Negros
e das Antologias Schwarze Poesie (Ed. Diá-Alemanha), Schwarze Prosa (Ed, Diá -
Alemanha), Callaloo vol 2 (USA), Callaloo (Special Issue - 300 anos Zumbi -USA), Axé-
Antologia da Poesia Negra Brasileira Ed Global 1983, A Razão da Chama Ed. GRD,
Negro Brasileiro Negro número 25(Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e outras.
Verbete em Quem é Quem na Negritude Brasileira Ed.CNAB 1998, citado em diversas
teses e publicações como A Mão Afro-Brasileira (Significado da Contribuição Artística e
Histórica - Ed.Tenenge 1988), O Negro Escrito (Oswaldo de Camargo) entre outras.
22
SONHOS I
(José Carlos Limeira)
O rei de Portugal
Mandou ao meu povo matar
Se Palmares ainda vivesse
Em Palmares queria estar
Cumbe na Paraíba, Alagoas, Macaco e
Subupira
Mangueira, São Carlos, Portela na Avenida
São quantos?
Ontem morri em Andalaquituche, Tabocas,
Amaro, Acotirene
Hoje no Juramento, Borel, Turano,
Salgueiro
Morro subindo morro
Rolo ladeira cada dia com decidido ar de
defunto novo
Quando desce a noite, vejo em cada fundo
de prato o reflexo da luz
da vela
E sonhos pra devorar
MEMÓRIAS I
(José Carlos Limeira)
Queria ver você negro
Negro queria te ver
Se Palmares ainda vivesse
Em Palmares queria viver.
O gosto da liberdade sentido, cravado no
peito
Correr, sentir os campos ter a vida
Angola Janga
Terra de negros livres
Ali toda vida
Toda raça, raiva, vontade
África
África (tão subitamente roubada)
Sonhos (tão subitamente assassinados)
Liberdade (tão subitamente trocada pela
escravidão)
SONHOS II
(José Carlos Limeira)
Te vejo meu povo feliz
Teu sonho querendo sentir
Se Palmares ainda vivesse
Pra Palmares teria que ir
Você já pensou se Domingos Jorge Velho e
sua malta
Não houvessem tido tanta sorte?
Já pensou naquele país da serra da Barriga?
Sei que talvez não,
É difícil imaginar uma terra
Onde não fosse possível ver
Uma negra Ter que mostrar a bunda
Abrir as coxas, tirar das entranhas o pão de
cada dia
Onde não fosse possível ver
Criancinhas
De dez, oito, seis anos
Voltando às quatro da manhã
Depois de vender chicletes e o último
resquício de dignidade
Nos cruzamentos da cidade.
Notícias
Por menos que conte a história
Não te esqueço meu povo
Se Palmares não vive mais
Faremos Palmares de novo
Ontem um distinto senhor me disse:
- Filho não pense nessas coisas
(naturalmente mandei-o à merda)
23
MEMÓRIAS II
(José Carlos Limeira)
Negro correndo livre
Colhendo, plantando por lá
Se Palmares ainda vivesse
Em Palmares queria ficar.
O ódio do feitor é pegajoso, fecundo
Ele pode emprenhar até mentes mais
estéreis
Com seu pênis de chicote.
Os feitores esparramam se gozo
Nas costas dos malungos
Guinés, Ardras, Congos, Agomés, Minas,
Cafres
E o sangue jorrou com tanta força
Que em Angola, fui Nagô, irmão de Haussá
Jeje, Tapa e Senty.
O cheiro nauseante do esperma da tortura
Fez com que ficássemos juntos, usando
nosso ódio mais comum.
.
ZUMBI...DOS
(José Carlos Limeira)
Daqui de onde estou,
Ouço os primeiros ruídos.
Abafados, subterrâneos,
Como os sussurros cuidadosos,
Por meus avós também ouvidos.
Da nova gente que surge,
Com a coragem de herança,
Legadas por Zumbi,
Quase esquecida pela força,
Quase sangrada pelas alegorias,
Quase morta pelos passos na avenida.
Daqui de onde estou,
Sussurro também cauteloso,
Para despertar outros ouvidos,
E destravar outras bocas,
Para sussurrarmos todos um dia,
E fazermos um barulho,
Que será tal,
Que se transformará,
Em fala!
E das falas virão os gritos,
Não de dor, mas de vitória,
Como são vitoriosos os sussurros,
De nossa gente agora,
Pois estão acordados,
Para dizer,
Com a força de Ganga Zumba
E a altivez de X:
Que somos!
Faremos!
24
Abelardo Rodrigues nasceu em Monte Azul Paulista (SP), em 1952, e mora na
zona leste paulistana a mais de 30 anos. Publicou Memória da Noite (Ed. do Autor, 1978).
Foi co-fundador da antologia Cadernos Negros, junto com Oswaldo de Camargo, Paulo
Colina, Cuti e Jorge Lescano. Tem participação na premiada antologia Axé – Antologia
Contemporânea da poesia negra (Org. Paulo Colina, 1982), O Negro Escrito (Oswaldo de
Camargo, 1987) e tem diversos textos publicados em revistas norte – americanas e alemãs;
é um poeta muito representativo na cena da literatura negro brasileira, e sem dúvida, figura
como escritor essencial para a literatura produzida pela coletividade negra paulistana.
25
SER NEGRO
(Abelardo Rodrigues)
Até quando, amigo?
até que o mar volte a ser o que era?
até que os corpos voltem à praia
e se amotinem em negreiras naus
desses tempos?
Há,
um alvo
onde nossas forças recapeadas de
fraquezas
brancas
possam medir e serem
torrentes
de uma dor prostrada
violentada
mas que na Primavera será
um dardo
uma lança
um raio laser.
PORQUE
(Abelardo Rodrigues)
Não é pelo soluço que se constrói
a dor
nem pelo amar que se faz
amor
Um pensar avançado não faz
vanguarda
como andorinhas não voam
para o verão
E nós temos as cargas que nas costas
da mente
navegam como deuses em brigas
Não há lendas
Não são Zumbi
Saqueemos o mês das grinalda
LEILÃO
(Abelardo Rodrigues)
Quem dá mais
por esse corpo mulato de negro
por essa dor mulata de negro
essa flor
mulata de negro
esse grito-Zumbi mulato de negro
esse latejar pelas sendas mulatas de
negro
quem dá mais?
Quem dá mais
por esse abrir-se mulato de negro
ante nova era mulata de negro
quem chora por esse abaixar da cor
mulata de negro?
E quem financia em suaves carnês
este ser-contínuo mulato de negro?
E por ventura alguém daria mais
por esse libertar-se mulato de negro?
LEILÃO
(Abelardo Rodrigues)
Quem dá mais
por esse corpo mulato de negro
por essa dor mulata de negro
essa flor
mulata de negro
esse grito-Zumbi mulato de negro
esse latejar pelas sendas mulatas de
negro
quem dá mais?
Quem dá mais
por esse abrir-se mulato de negro
ante nova era mulata de negro
quem chora por esse abaixar da cor
mulata de negro?
E quem financia em suaves carnês
este ser-contínuo mulato de negro?
E por ventura alguém daria mais
por esse libertar-se mulato de negro?
26
ESPERANÇAS
(Abelardo Rodrigues)
Respiro esta fumaça de novas ideias
com meus pés
meus dentes de desejos
minhas garras de sonhos
Quero transpassar as barreiras
alvacentas
de velhas datas
enovelar-me entre espirais
de um novo amanhecer
buscando jazidas de esperanças
em jazigos libertos
uma cunha nos contrafortes dos
homens
já saudosos de velhos tempos
A dor reumática do poeta:
ferir ossos com palavras
revolver monturos mesquinhos de
sangue
enrijecendo as juntas
vencer tormentas aquosas
no vazio da realidade
canto-angústia maior de sua mente.
Garganta
(Abelardo Rodrigues)
Hoje
é preciso que tua garganta
do existir
esteja limpa
para que jorre
teu negrume.
Uma garganta não é corpo
flácido
É sangue escorrendo
em
leilão de cais.
Sua garganta, irmão
É uma quarta-feira
de cinzas.
CHAMA
(Abelardo Rodrigues)
Inútil tão inútil quanto o teu azul
tão seco e sereno como os cabelos
carapinha de teu bisavô
que hoje não produz mais teus sonhos
inútil como a solidão do poeta
É a fisga do teu ser
A fumaça que corre os céus
não é mais do que a flor
que murcha o teu coração
e nem meu corpo te roçando ávido
consola teu grito uterino
de cansaço
Nem mesmo saber que teu filho um
dia
poder· cantar pássaros
E neste dia os teus cabelos brancos
carapinha sorrirão
mesmo sem a brisa desta chama
que nos consome agora
Batalha
(Abelardo Rodrigues)
Um exército de palavras
se faz necessário
para o nosso querer.
E que façamos guerrilhas
contra essa calmaria geral.
Há que pintarmos
um novo quadro
de momentos
que foram eternidades
em nossa pele
27
Antônio Frederico de Castro Alves foi um importante poeta brasileiro do século
XIX. Nasceu na cidade de Curralinho (Bahia) em 14 de março de 1847.
No período em que viveu (1847-1871), ainda existia a escravidão no Brasil. O jovem
baiano, simpático e gentil, apesar de possuir gosto sofisticado para roupas e de levar uma
vida relativamente confortável, foi capaz de compreender as dificuldades dos negros
escravizados.
Manifestou toda sua sensibilidade escrevendo versos de protesto contra a situação a
qual os negros eram submetidos. Este seu estilo contestador o tornou conhecido como o
―Poeta dos Escravos‖.
Aos 21 anos de idade, mostrou toda sua coragem ao recitar, durante uma comemoração
cívica, o ―Navio Negreiro‖. A contra gosto, os fazendeiros ouviram-no clamar versos que
denunciavam os maus tratos aos quais os negros eram submetidos.
Além de poesia de caráter social, este grande escritor também escreveu versos líricos-
amorosos, de acordo com o estilo de Vítor Hugo. Pode-se dizer que Castro Alves foi um
poeta de transição entre o Romantismo e o Parnasianismo. O poeta teve seu trabalho
marcado pela temática do combate à escravidão, o que lhe deu o título de Poeta dos
Escravos.
28
A DUAS FLORES
(Castro Alves)
São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo, no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!
FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE
(Castro Alves)
Eram três anjos - e uma só mulher
QUANDO A INFÂNCIA corria alegre, à toa,
Como a primeira flor que, na lagoa,
Sobre o cristal das águas se revê,
Em minha infância refletiu-se a tua...
Beijei-te as mãos suaves, pequeninas,
Tinhas um palpitar de asas divinas...
Eras - o Anjo da Fé! ...
Depois eu te revi... na fronte branca,
Radiava entre pérolas mais franca,
A altiva c'roa que a beleza trança!...
Sob os passos da diva triunfante,
Ardente, humilde, arremessei minh'alma,
Por ti sonhei — triunfador — a palma,
Ó — Anjo da Esperança!... —
Hoje é o terceiro marco dessa história.
Calcinado aos relâmpagos da glória,
Descri do amor, zombei da eternidade!...
Ai, não! - celeste e peregrina Déia,
Por ti em rosas mudam-se os martírios!
Há no teu seio a maciez dos lírios...
Anjo da Caridade!...
A CANÇÃO DO AFRICANO
(Castro Alves)
Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...
De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!
"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
"0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...
"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".
O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!
29
O “ADEUS” DE TERESA
(Castro Alves)
A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
―Adeus‖ eu disse-lhe a tremer co‘a fala
E ela, corando, murmurou-me: ―adeus.‖
Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
―Adeus‖ lhe disse conservando-a presa
E ela entre beijos murmurou-me: ―adeus!‖
Passaram tempos sec‘los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
… Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – ―Voltarei! descansa!. . . ‖
Ela, chorando mais que uma criança,
Ela em soluços murmurou-me: ―adeus!‖
Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d‘Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!
E ela arquejando murmurou-me: ―adeus!‖
A SENZALA
(Castro Alves)
Qual o veado, que buscou o aprisco,
Balindo arisco, para a cerva corre...
ou como o pombo, que os arrulos solta,
Se ao ninho volta, quando a tarde morre...,
Assim, cantando a pastoril balada,
Já na esplanada o lenhador chegou.
Para a cabana da gentil Maria
Com que alegria a suspirar marchou!
Ei-la a casinha... tão pequena e bela!
Como é singela com seus brancos muros!
Que liso teto de sapé doirado!
Que ar engraçado! que perfumes puros!
Abre a janela para o campo verde,
Que além se perde pelos cerros nus...
A testa enfeita da infantil choupana
Verde liana de festões azuis. I
É este o galho da rolinha brava,
Aonde a escrava seu viver abriga...
Canta a jandaia sobre a curva rama
E alegre chama sua dona amiga.
Aqui n'aurora, abandonando os ninhos,
Os passarinhos vêm pedir-lhe pão;
Pousam-lhe alegres nos cabelos bastos,
Nos seios castos, na pequena mão.
Eis o painel encantado,
Que eu quis pintar, mas não pude...
Lucas melhor o traçara
Na canção suave e rude...
Vede que olhar, que sorriso
S'expande no brônzeo rosto,
Vendo o lar do seu amor...
Ai! Da luz do Paraíso
Bate-lhe em cheio o fulgor.
―A única arma para melhorar o planeta é a Educação com ética. Ninguém nasce odiando
outra pessoa pela cor da pele, por sua origem, ou ainda por sua religião. Para odiar, as
pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.‖
Nelson Mandela

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Poesias afro-brasileiras

  • 1. 1 Solano Trindade nasceu em Recife (PE), em 24 de julho de 1908. Uma das figuras mais expressivas e admiráveis da poesia negra no Brasil. Filho de Manuel Abílio Trindade, sapateiro e cômico de profissão, e de dona Emerenciana de Jesus, quituteira e operária. Desde muito cedo acompanhava o pai em suas danças de pastoril e bumba-meu-boi, e isto despertou no menino um forte interesse pelo folclore, o teatro e a cultura popular. Fez o curso propedêutico da Academia de Comércio de Recife, foi operário e funcionário público federal, no início de sua carreira (Serviço Nacional de Recrutamento). Publicou Poemas de uma vida simples, 1944, Seis tempos de poesia, 1958, e Cantares de um povo, 1963, entre outros. Solano Trindade morreu no Rio de Janeiro em 1974, aos 66 anos.
  • 2. 2 GRAVATA COLORIDA (Solano Trindade) ―Quando eu tiver bastante pão para meus filhos para minha amada pros meus amigos e pros meus vizinhos quando eu tiver livros para ler então eu comprarei uma gravata colorida larga bonita e darei um laço perfeito e ficarei mostrando a minha gravata colorida a todos os que gostam de gente engravatada…‖ SOU NEGRO (Solano Trindade) Sou negro meus avós foram queimados pelo sol da África minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gongôs e agogôs Contaram-me que meus avós vieram de Loanda como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor de engenho novo e fundaram o primeiro Maracatu Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi Era valente como quê Na capoeira ou na faca escreveu não leu o pau comeu Não foi um pai João humilde e manso Mesmo vovó não foi de brincadeira Na guerra dos Malês ela se destacou Na minh'alma ficou o samba o batuque o bamboleio e o desejo de libertação NEGRA BONITA (Solano Trindade) Negra bonita de vestido azul e branco Sentada num banco de segunda de trem Negra bonita o que é que você tem? Com a cara tão triste não sorri pra ninguém? Negra bonita É seu amor que não veio Quem sabe se ainda vem Quem sabe perdeu o trem Negra bonita não fique triste não Se seu amor não vier Quem sabe se outro vem Quando se perde um amor Logo se encontra cem Você uma negra bonita Logo encontra outro bem. Quem sabe se eu sirvo Para ser o seu amor Salvo se você não gosta De gente da sua cor Mas se gosta eu sou o tal Que não perde pra ninguém Sou o tipo ideal Pra quem ficou sem o bem... POEMA DO HOMEM (Solano Trindade) Desci à praia Para ver o homem do mar, E vi que o homem É maior que o mar Subi ao monte Pra ver o homem da terra, E vi que o homem É maior que a terra Olhei para cima Para ver o homem do céu,
  • 3. 3 A MENSAGEM DO POETA (Solano Trindade) O poeta é um mensageiro da vida Ele canta a terra Ele canta o céu Ele canta o mar Ele canta o homem, E no homem Está a maior mensagem da vida... A mensagem do poeta Fala do corpo da mulher, Dos seus seios Da sua boca Das suas mãos, Porque na mulher Está a vida do poeta Porque a mensagem do poeta Vem do ventre da mulher. ADVERTÊNCIA (Solano Trindade) Há poetas que só fazem versos de amor Há poetas herméticos e concretistas enquanto se fabricam bombas atômicas e de hidrogênio enquanto se preparam exércitos para guerra enquanto a fome estiola os povos... Depois eles farão versos de pavor e de remorso e não escaparão ao castigo porque a guerra e a fome também os atingirão e os poetas cairão no esquecimento... NAVIO NEGREIRO (Solano Trindade) Lá vem o navio negreiro, Lá vem ele sobre o mar Lá vem o navio negreiro Vamos minha gente olhar... Lá vem o navio negreiro, Por água brasiliana Lá vem o navio negreiro, Trazendo carga humana... Lá vem o navio negreiro, Cheio de melancolia, Lá vem o navio negreiro, Cheinho de poesia... Lá vem o navio negreiro Com carga de resistência Lá vem o navio negreiro Cheinho de inteligência... NEGROS (Solano Trindade) Negros que escravizam e vendem negros na África não são meus irmãos negros senhores na América a serviço do capital não são meus irmãos negros opressores em qualquer parte do mundo não são meus irmãos Só os negros oprimidos escravizados em luta por liberdade são meus irmãos Para estes tenho um poema grande como o Nilo.
  • 4. 4 Lino de Pinto Guedes, nascido em Socorro em 1897 ou 1906, dependendo da fonte, e falecido em São Paulo em 1951. Descendia dos ex-escravos José Pinto Guedes e de Benedita Eugenia Guedes. Estudou em Campinas, diplomou- se pela Escola Normal António Álvares, dessa cidade. Na capital Foi jornalista, chegando a chefe de revisão no "Diário de São Paulo". Faleceu em São Paulo (Capital), a 4 de março de 1951. Lino Guedes, é considerado um ícone no cenário do discurso em favor da causa negra na primeira metade do século XX. Filho de ex-escravos, fez parte de uma geração que ainda sentia fortemente a inadaptação do afrodescendente à realidade pós-escravidão, prejudicado pelas barreiras que a sociedade impunha aos novos cidadãos, as quais dificultavam que o negro se inserisse no mercado de trabalho. Foi um dos negros que conseguiu respeito perante a sociedade em plena atuação da ideologia do branqueamento que sustentava a aparência política estratégica de democracia civil e racial.
  • 5. 5 DURO COM DURO... (Lino Guedes) Coisa que nunca se viu Um preto de outro gostar; Por isso eu não me admiro, De você me abandonar Por aquela deslambida, Que vive o rosto a pintar. Pinta sim reboca mesmo: Mas vocês por uma branca Dão tudo, tudo, até a vida. Seja boa ou seja tranca. Só pelo gosto de ouvir: - É casado c‘uma branca - Não faz mal, da minha vida Sorverei todo o seu travo. Lamentando esse teu fraco Meu único amor, meu bravo Que deixa de ser senhor Para viver como escravo! NOVO RUMO! (Lino Guedes) "Negro preto cor da noite", nunca te esqueças do açoite Que cruciou tua raça. Em nome dela somente Faze com que nossa gente um dia gente se faça! Negro preto, negro preto, sê tu um homem direito como um cordel posto a prumo! É só do teu proceder Que, por certo, há de nascer a estrela do novo rumo! NOVO RUMO! (Lino Guedes) ―Negro preto cor da noite‖, nunca te esqueças do açoite Que cruciou tua raça. Em nome dela somente Faze com que nossa gente um dia gente se faça! Negro preto, negro preto, sê tu um homem direito como um corcel posto a prumo! É só do teu proceder Que, por certo, há de nascer a estrela do novo rumo! DITINHA (Lino Guedes) Penso que talvez ignores, Singela e meiga Ditinha, Que desta localidade És a mais bela pretinha: Se não fosse profanar-te, Chamar-te-ia… francesinha! Então, quando vais à reza Com teu vestido de cassa, Não há mesmo quem não fale, Orgulho da minha raça: – Olha que preta bonita E que andar cheio de graça!… Se às vezes sorrio, a esmo, Não me tomes por caduco. Com teu vulto nos meus olhos, Ando como aquele turco Que, doloroso destino, Ao te ver, ficou maluco… Ah! Se souberas, Ditinha, Que por sob essa aparente Frieza, (quem tal diria!…) Eu peço constantemente, A Deus que um dia nos ponha Numa casinha sem gente…
  • 6. 6 Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, em 21 de janeiro de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis e da açoriana, Maria Leopoldina Machado de Assis. Sua instrução veio por conta própria, devido ao interesse que tinha em todos os tipos de leitura. Graças a seu talento e a uma enorme força de vontade, superou todas essas dificuldades e tornou-se em um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Em 1897, Machado fundou a Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente, pelo que a instituição também conhecida como casa de Machado de Assis. Ocupou a Cadeira N.º 23, de cujo patrono, José de Alencar, foi amigo e admirador. A trajetória de Machado de Assis é alvo de interesse dos apreciadores da literatura e de vários pesquisadores. A sua obra conta com um leque temático e estilístico bastante variado, dificultando bastante o enquadramento de seu legado em um único gênero. O impacto da sua obra chegou a figurá-lo entre os principais nomes da literatura internacional. Casou-se com Carolina em 1869 (o casal não teve filhos). Morreu de câncer no Rio de Janeiro, no dia 29 de setembro de 1908. Foi enterrado no cemitério de São João Batista, na mesma cidade onde nasceu e viveu toda sua vida.
  • 7. 7 CÍRCULO VICIOSO (Machado de Assis ) Bailando no ar, gemia inquieto vagalume: ―Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela Que arde no eterno azul, como uma eterna vela! ―Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme: ―Pudesse eu copiar-te o transparente lume, Que, da grega coluna à gótica janela, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela ―Mas a lua, fitando o sol com azedume: ―Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela Claridade imortal, que toda a luz resume‖! Mas o sol, inclinando a rútila capela: Pesa-me esta brilhante auréola de nume… Enfara-me esta luz e desmedida umbela… Por que não nasci eu um simples vagalume?‖… LIVROS E FLORES (Machado de Assis ) Teus olhos são meus livros. Que livro há aí melhor, Em que melhor se leia A página do amor? Flores me são teus lábios. Onde há mais bela flor, Em que melhor se beba O bálsamo do amor? A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS (Machado de Assis ) Pensa em ti mesma, acharás Melhor poesia, Viveza, graça, alegria, Doçura e paz. Se já dei flores um dia, Quando rapaz, As que ora dou têm assaz Melancolia. Uma só das horas tuas Valem um mês Das almas já ressequidas. Os sóis e as luas Creio bem que Deus os fez Para outras vidas. NO ALTO (Machado de Assis ) O poeta chegara ao alto da montanha, E quando ia a descer a vertente do oeste, Viu uma cousa estranha, Uma figura má. Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste, Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha, Num tom medroso e agreste Pergunta o que será. Como se perde no ar um som festivo e doce, Ou bem como se fosse Um pensamento vão, Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta. Para descer a encosta O outro lhe deu a mão.
  • 8. 8 Maria Firmina dos Reis (escritora e professora) nasceu na ilha de São Luís do Maranhão, em 11 de outubro de 1825. Filha de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Aos 22 anos foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária e, por isso, foi a primeira professora concursada do estado. Seu romance Úrsula (1859) foi o primeiro romance abolicionista brasileiro e, além disso, o primeiro escrito por uma mulher negra no Brasil. No auge da campanha abolicionista, publicou A Escrava (1887), o que reforçou a sua postura antiescravista. Publicou ainda o romance Gupeva (1861); poemas em Parnaso maranhense (1861) e Cantos à beira-mar (1871). Além disso, publicou poemas em alguns jornais e fez algumas composições musicais. Quando se aposentou, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Faleceu em 11 de novembro de 1917, em Guimarães, município do estado do Maranhão. Teve uma vida dedicada a ler e escrever, descortinando, assim, novos horizontes para as mulheres negras brasileiras.
  • 9. 9 AH! NÃO POSSO (Maria Firmina dos Reis) Se uma frase se pudesse Do meu peito destacar; Uma frase misteriosa Como o gemido do mar, Em noite erma, e saudosa, De meigo, e doce luar. Ah! se pudesse!... mas muda Sou, por lei, que me impõe Deus! Essa frase maga encerra, Resume os afetos meus; Exprime o gozo dos anjos, Extremos puros dos céus. Entretanto, ela é meu sonho, Meu ideal inda é ela; Menos a vida eu amara Embora fosse ela bela. Como rubro diamante, Sob finíssima tela. Se dizê-la é meu empenho, Reprimi-la é meu dever: Se se escapar dos meus lábios, Oh! Deus, - fazei-me morrer! Que eu pronunciando-a não posso Mais sobre a terra viver. HINO À LIBERDADE DOS ESCRAVOS (Maria Firmina dos Reis) Salve Pátria do Progresso! Salve! Salve Deus a Igualdade! Salve! Salve o Sol que raiou hoje, Difundindo a Liberdade! Quebrou-se enfim a cadeia Da nefanda Escravidão! Aqueles que antes oprimias, Hoje terás como irmão! CONFISSÃO (Maria Firmina dos Reis) Embalde, te juro, quisera fugir-te, Negar-te os extremos de ardente paixão: Embalde, quisera dizer-te: - não sinto Prender-me à existência profunda afeição. Embalde! é loucura. Se penso um momento, Se juro ofendida meus ferros quebrar: Rebelde meu peito, mais ama querer-te, Meu peito mais ama de amor delirar. E as longas vigílias, - e os negros fantasmas, Que os sonhos povoam, se intento dormir, Se ameigam aos encantos, que tu me despertas, Se posso a teu lado venturas fruir. E as dores no peito dormentes se acalmam. E eu julgo teu riso credor de um favor: E eu sinto minh'alma de novo exaltar-se, Rendida aos sublimes mistérios do amor. Não digas, é crime - que amar-te não sei, Que fria te nego meus doces extremos... Eu amo adorar-te melhor do que a vida, melhor que a existência que tanto queremos. Deixara eu de amar-te, quisera um momento, Que a vida eu deixara também de gozar! Delírio, ou loucura - sou cega em querer-te, Sou louca... perdida, só sei te adorar.
  • 10. 10 Elisa Lucinda dos Campos Gomes é uma poeta brasileira, jornalista, cantora e atriz brasileira. É muito conhecida por suas atuações em novelas da Rede Globo, pelo prêmio que recebeu pelo filme A Última Estação (2012), de Marcio Curi, e pelos seus inúmeros espetáculos e recitais em empresas, teatros e escolas de todo o Brasil. Publicou inúmeros livros, dentre eles A Lua que menstrua (1992); O Semelhante (1995); Eu te amo e suas estreias (1999); A Fúria da Beleza (2006); A Poesia do encontro (2008), com Rubem Alves; Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada (2014). Além disso, lançou CDs de poesias.
  • 11. 11 INCOMPREENSÃO DOS MISTÉRIOS (Elisa Lucinda) Saudades de minha mãe. Sua morte faz um ano e um fato Essa coisa fez eu brigar pela primeira vez com a natureza das coisas: que desperdício, que descuido que burrice de Deus! Não de ela perder a vida mas a vida de perdê-la. Olho pra ela e seu retrato. Nesse dia, Deus deu uma saidinha e o vice era fraco. MULATA EXPORTAÇÃO (Elisa Lucinda) ―Mas que nega linda E de olho verde ainda Olho de veneno e açúcar! Vem nega, vem ser minha desculpa Vem que aqui dentro ainda te cabe Vem ser meu álibi, minha bela conduta Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar! (Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?) Minha tonteira minha história contundida Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol? Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê; Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer. Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê. Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.‖ Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor. Já preso esse ex-feitor, eu disse: ―Seu delegado...‖ E o delegado piscou. Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena com cela especial por ser esse branco intelectual... Eu disse: ―Seu Juiz, não adianta! Opressão, LATE ILUSÃO (Elisa Lucinda) Em noite de lua cheia geme ao meu lado o meu cão acabado de chegar late ilusões ao meu ouvido e meu sentido diz que ele veio pra ficar Mas a vida passa e vira páginas da folhinha o que era cheia e domingo foi minguando em segundas e terças e meu homem, minha besta voltou novo e repetido como se fosse ficar até sexta três dias de ele chegando de madrugada Três dias de ele nadando na minha água Conversas de homem e mulher beijo na boca tirar a roupa novos latidos de ilusão no meu duvido meu homem partiu na derradeira manhã todo agradecido dos momentos de amor que uivou comigo eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade amarela e ele na terra cantando latindo partindo uivando pra ela. CREDO (Elisa Lucinda) De tal modo é, que eu jamais negá-lo poderia: sou agarrada na saia da poesia! Para dar um passeio que seja, uma viagem de carro, avião ou trem, à montanha, à praia, ao campo, uma ida a um consultório com qualquer possibilidade, ínfima que seja, de espera, passo logo a mão nela pra sair. É um Quintana, uma Adélia, uma Cecília, um Pessoa ou qualquer outro a quem eu ame me unir. Porque sou humano e creio no divino da palavra, pra mim é um oráculo a poesia! É meu tarô, meu baralho, meu tricot, meu i ching, meu dicionário, meu cristal clarividente, meus búzios, meu copo d'água, meu conselho, meu colo de avô,
  • 12. 12 Barbaridade, Genocídio nada disso se cura trepando com uma escura!‖ Ó minha máxima lei, deixai de asneira Não vai ser um branco mal resolvido que vai libertar uma negra: Esse branco ardido está fadado porque não é com lábia de pseudo-oprimido que vai aliviar seu passado. Olha aqui meu senhor: Eu me lembro da senzala e tu te lembras da Casa-Grande e vamos juntos escrever sinceramente outra história Digo, repito e não minto: Vamos passar essa verdade a limpo porque não é dançando samba que eu te redimo ou te acredito: Vê se te afasta, não invista, não insista! Meu nojo! Meu engodo cultural! Minha lavagem de lata! Porque deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata! a explicação ambulante para tudo o que pulsa e arde. A poesia é síntese filosófica, fonte de sabedoria, e bíblia dos que, como eu, creem na eternidade do verbo, na ressurreição da tarde e na vida bela. Amém! AS MENINAS DE RUA (Elisa Lucinda) Dorme tensa a pequena sozinha como que suspensa no céu Vira mulher sem saber sem brinco, sem pulseira, sem anel sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê Sem mãe perto, sem pai certo, sem cama certa, sem coberta, vira mulher com medo, vira mulher sempre cedo. Menina de enredo triste, dedo em riste, contra o que não sabe quanto ao que ninguém lhe disse. A malandragem, a molequice se misturam aos peitinhos novos furando a roupa de garoto que lhe dão dentro da qual menstruará sempre com a mesma calcinha, sem absorvente, sem escova de dente, sem pano quente, sem O B. Tudo é nojo, medo, misturação de ―cadês.‖
  • 13. 13 João da Cruz e Sousa, também conhecido como Dante Negro ou Cisne Negro, foi o único poeta de pura raça negra, não tinha nada de mestiço, segundo Antônio Candido (grande estudioso da literatura brasileira e sociólogo). Era filho de escravos alforriados, mas recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o marechal Guilherme Xavier de Sousa – de quem adotou o nome de família, Sousa. Aprendeu línguas como francês, latim e grego. Além disso, aprendeu Matemática e Ciências Naturais. Seus poemas simbolistas são marcados pela musicalidade, pelo individualismo, pelo espiritualismo e pela obsessão pela cor branca. Publicou os livros Broquéis (1893); Missal (1893) Tropos e Fantasias (1885), com Virgílio Várzea; postumamente foram publicados Últimos Sonetos (1905); Evocações (1898); Faróis (1900); Outras evocações (1961); O livro Derradeiro (1961) e Dispersos (1961).
  • 14. 14 LIVRE (Cruz e Souza) Livre! Ser livre da matéria escrava, arrancar os grilhões que nos flagelam e livre penetrar nos Dons que selam a alma e lhe emprestam toda a etérea lava. Livre da humana, da terrestre bava dos corações daninhos que regelam, quando os nossos sentidos se rebelam contra a Infâmia bifronte que deprava. Livre! bem livre para andar mais puro, mais junto à Natureza e mais seguro do seu Amor, de todas as justiças. Livre! para sentir a Natureza, para gozar, na universal Grandeza, Fecundas e arcangélicas preguiças. VELHAS TRISTEZAS (Cruz e Souza) Diluências de luz, velhas tristezas das almas que morreram para a luta! Sois as sombras amadas de belezas hoje mais frias do que a pedra bruta. Murmúrios incógnitos de gruta onde o Mar canta os salmos e as rudezas de obscuras religiões — voz impoluta de todas as titânicas grandezas. Passai, lembrando as sensações antigas, paixões que foram já dóceis amigas, na luz de eternos sóis glorificadas. Alegrias de há tempos! E hoje e agora, velhas tristezas que se vão embora no poente da Saudade amortalhadas! … IRONIA DE LÁGRIMAS (Cruz e Souza) Junto da morte é que floresce a vida! Andamos rindo junto a sepultura. A boca aberta, escancarada, escura Da cova é como flor apodrecida. A Morte lembra a estranha Margarida Do nosso corpo, Fausto sem ventura… Ela anda em torno a toda criatura Numa dança macabra indefinida. Vem revestida em suas negras sedas E a marteladas lúgubres e tredas Das Ilusões o eterno esquife prega. E adeus caminhos vãos mundos risonhos! Lá vem a loba que devora os sonhos, Faminta, absconsa, imponderada cega! ACROBATA DA DOR (Cruz e Souza) Gargalha, ri, num riso de tormenta, como um palhaço, que desengonçado, nervoso, ri, num riso absurdo, inflado de uma ironia e de uma dor violenta. Da gargalhada atroz, sanguinolenta, agita os guizos, e convulsionado salta, gavroche, salta clown, varado pelo estertor dessa agonia lenta ... Pedem-se bis e um bis não se despreza! Vamos! retesa os músculos, retesa nessas macabras piruetas d'aço. . . E embora caias sobre o chão, fremente, afogado em teu sangue estuoso e quente, ri! Coração, tristíssimo palhaço.
  • 15. 15 ALMA SOLITÁRIA (Cruz e Souza) Ó Alma doce e triste e palpitante! que cítaras soluçam solitárias pelas Regiões longínquas, visionárias do teu Sonho secreto e fascinante! Quantas zonas de luz purificante, quantos silêncios, quantas sombras várias de esferas imortais, imaginárias, falam contigo, ó Alma cativante! que chama acende os teus faróis noturnos e veste os teus mistérios taciturnos dos esplendores do arco de aliança? Por que és assim, melancolicamente, como um arcanjo infante, adolescente, esquecido nos vales da Esperança?! CÁRCERE DAS ALMAS (Cruz e Souza) Ah! Toda a alma num cárcere anda presa, Soluçando nas trevas, entre as grades Do calabouço olhando imensidades, Mares, estrelas, tardes, natureza. Tudo se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e, sonhando, as imortalidades Rasga no etéreo o Espaço da Pureza. Ó almas presas, mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas, Da Dor no calabouço, atroz, funéreo! Nesses silêncios solitários, graves, que chaveiro do Céu possui as chaves para abrir-vos as portas do Mistério?! DA SENZALA... (Cruz e Souza) De dentro da senzala escura e lamacenta Aonde o infeliz De lágrimas em fel, de ódio se alimenta Tornando meretriz A alma que ele tinha, ovante, imaculada Alegre e sem rancor, Porém que foi aos poucos sendo transformada Aos vivos do estertor... De dentro da senzala Aonde o crime é rei, e a dor -- crânios abala Em ímpeto ferino; Não pode sair, não, Um homem de trabalho, um senso, uma razão... e sim um assassino! MADONA DA TRISTEZA (Cruz e Souza) Quando te escuto e te olho reverente E sinto a tua graça triste e bela De ave medrosa, tímida, singela, Fico a cismar enternecidamente. Tua voz, teu olhar, teu ar dolente Toda a delicadeza ideal revela E de sonhos e lágrimas estrela O meu ser comovido e penitente. Com que mágoa te adoro e te contemplo, Ó da Piedade soberano exemplo, Flor divina e secreta da Beleza. Os meus soluços enchem os espaços Quando te aperto nos estreitos braços, solitária madona da Tristeza!
  • 16. 16 Adão Ventura Ferreira Reis nasceu em Santo Antônio do Itambé, Distrito do Serro, MG, em 1946. Advogado, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, autor de livros de poesia, sendo os primeiros: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul, (Belo Horizonte: Edições Oficina, 1970), As musculaturas do Arco do Triunfo (Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1976). Já participou de antologias poéticas em vários países. Teve um de seus poemas incluído na antologia Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, organizada por Ítalo Moriconi ( Editora Objetiva - SP).
  • 17. 17 ORIGEM (Adão Ventura) Vestir a camisa de um poeta negro - espetar seu coração com uma fina ponta de faca - dessas antigas, marca Curvelo, em aço sem corte, feito para a morte - E acomodar no exíguo espaço de uma bainha sua dor-senzala. Papai levava tempo para redigir uma carta Já mamãe Sebastiana de José Teodoro teve a emoção de assinar seu nome completo já quase aos setenta anos NEGRO FORRO (Adão Ventura) minha carta de alforria não me deu fazendas, nem dinheiro no banco, nem bigodes retorcidos. minha carta de alforria costurou meus passos aos corredores da noite de minha pele. DAS BIOGRAFIAS - UM (Adão Ventura) Em negro teceram-me a pele. enormes correntes amarram-me ao tronco de uma Nova África. carrego comigo a sombra de longos muros tentando impedir que meus pés cheguem ao final dos caminhos. mas o meu sangue está cada vez mais forte, tão forte quanto as imensas pedras que os meus avós carregaram para edificar os palácios dos reis . ZUMBI (Adão Ventura) Eu-Zumbi Rei de Palmares tenho terreiros e tambores e danço a dança do Sol. Eu-Zumbi enfrento o vento que ainda tarda dessas cartas de alforria. Eu-Zumbi jogo por terra a caneta de ouro de todas as Leis-Áureas. Eu-Zumbi Rei de Palmares Tenho terreiros e tambores e danço a dança do Sol.
  • 18. 18 Éle Semog nasceu no Século XX, na cidade de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Viveu a infância e a adolescência no subúrbio carioca nos bairros de Vila Valqueire e Bangu. Nos anos de 1970 participou do Grupo Garra Suburbana, onde publicou seus primeiros poemas mimeografados. Como militante do movimento social negro participou de diversas organizações de combate ao racismo, lutou contra a ditadura militar e pela promoção da democracia. Atualmente é membro do Conselho Executivo do Instituto Palmares de Direitos Humanos e Secretário Executivo do CEAP. Seus poemas foram musicados pelos compositores Irinéia Maria, Teo de Oliveira, Mauro Marcondes e Laércio Lino. No campo da literatura fundou os grupos ―Negrícia Poesia e Arte de Crioulo‖ e ―Bate Boca de Poesia‖. Éle Semog não sabe exatamente quando começou a escrever literatura, mas lembra que quando estava no quinto ano do curso primário, ganhou o primeiro lugar da escola num concurso de redação promovido pelo Jornal O Globo.
  • 19. 19 DANÇANDO NEGRO (Éle Semog) Quando eu danço atabaques excitados, o meu corpo se esvaindo em desejos de espaço, a minha pele negra dominando o cosmo, envolvendo o infinito, o som criando outros êxtases... Não sou festa para os teus olhos de branco diante de um show! Quando eu danço há infusão dos elementos, sou razão. O meu corpo não é objeto, sou revolução Quando (Éle Semog) A primeira vez que fiquei louco foi quando nasci. Lá dentro era um silêncio quente, só meu. Aqui fora foi um frio coletivo, cada um com o seu. A segunda vez que fiquei louco, foi quando me disseram que o saber de todos não era meu, o que todos me ensinaram não era nosso... precisava pensar sozinho para ter os méritos. A terceira vez que fiquei louco, uma delas disse, que o amor não era bem isso, que devia repensar o que é a entrega, o ter e o repartir. Na quarta vez que fiquei louco fiquei procurando a minha alma branca e quanto mais caminhei, só me seguia a minha sombra, espalhada pelo chão que se confundia com a sombra negra dos brancos que passavam por mim. Na quinta vez que fiquei louco, eles disseram que a minha tri tataravó gostava de ser violentada que a mãe da mãe da minha mãe também gostava, PONTO HISTÓRICO (Éle Semog) Não é que eu Seja racista... Mas existem certas Coisas Que só os NEGROS Entendem. Existe um tipo de amor Que só os NEGROS Possuem, Existe uma marca no Peito Que só nos NEGROS Se vê, Existe um sol Cansativo Que só os NEGROS Resistem. Não é que eu Seja racista... Mas existe uma História Que só os NEGROS Sabem contar ... Que poucos podem Entender SE ELA FAZ EU DESFAÇO (Éle Semog) A treze de maio fica decretado Luto oficial na comunidade negra E serão vistos com maus olhos Aqueles que comemorarem festivamente Esse treze inútil E fica o lembrete: Liberdade se toma Não se recebe Se toma Dignidade se adquire Não se concede.
  • 20. 20 só não disseram que se eu existo é porque gosto de existir por ser fruto de tantos violentados. Agora é a sexta vez que vou ficar louco, Vamos ver no que vai dar, mas nem pensar em me dizer ‗pega leve mermão, deixa rolar‘. EU E O NÃO EU (Éle Semog) Eu nessa minha parcimônia, vestida com escancarada elegância, jamais hei de ocultar tão evidentes, a tribo, o atabaque, o axé, o orixá, o ori, o ancestral. Eu e a minha carapinha cheia de bochicho, minha erva de guiné, minha aroeira, meu samba no pé e outras literaturas. Eu nessa parcimônia vestida com toda a vida e seus acontecimentos, nem só por um momento quero me perder dessa cor. O não eu, o outro. Tão fino, tão delicado, chega a me deixar tonto, encabulado, com seu vampirismo, seus diabos, suas taras... Tão racional e exótico nas cerimônias, esse outro, estranho outro, faz buracos no céu da Terra, sente prazer, se lambuza com as guerras, pensa que respirar é um estorvo, prende os gestos ao corpo, e berra, e berra, e berra. Tudo por falta de melanina. NOTÍCIAS (Éle Semog) Tem negros passando Nas ruas E samba no fundo Do quintal Ave livre no ar Tem casas com portas abertas Lençol branco no varal Crianças empinando pipa E moças passando a ferro Velhas acendendo velas E cheiro de defumador. Tem céu estrelado todas as noites E lavoura bem dividida Tem escola e capoeira Tem tantos sonhos na vida Daquela gente primeira. Tem negros contando histórias Que o tempo não pode perder Tem flores por todo lado Portas e janelas abertas Tem rei e tem guerreiros Unidos na vila inteira Tem casas com portas abertas. Palmares veia viva Palmares que tanto sonho Palmares, Palmares, meu amor De portas e janelas abertas. ESTÓRIAS SOBRE NEGROS III (Éle Semog) Sois da mesma Sorte Que os outros. Tendes as mesmas Mãos calejadas De tanto polir A terra, E a angústia, velha Saudade do seio Distante Sim NEGRO Sois a ferida Incurável Da América.
  • 21. 21 José Carlos Limeira, nasceu em Salvador -BA em 01 de maio de 1951. Engenheiro Mecânico, atualmente é Assessor Técnico da Reitoria da Universidade do Estado da Bahia. Escreve poemas, contos, crônicas e artigos publicando desde 1971. Entre seus livros, Zumbi... dos, Lembranças, O Arco Íris Negro (parceria com Éle Semog), Atabaques (parceria com Éle Semog). Participou de vários números dos Cadernos Negros e das Antologias Schwarze Poesie (Ed. Diá-Alemanha), Schwarze Prosa (Ed, Diá - Alemanha), Callaloo vol 2 (USA), Callaloo (Special Issue - 300 anos Zumbi -USA), Axé- Antologia da Poesia Negra Brasileira Ed Global 1983, A Razão da Chama Ed. GRD, Negro Brasileiro Negro número 25(Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e outras. Verbete em Quem é Quem na Negritude Brasileira Ed.CNAB 1998, citado em diversas teses e publicações como A Mão Afro-Brasileira (Significado da Contribuição Artística e Histórica - Ed.Tenenge 1988), O Negro Escrito (Oswaldo de Camargo) entre outras.
  • 22. 22 SONHOS I (José Carlos Limeira) O rei de Portugal Mandou ao meu povo matar Se Palmares ainda vivesse Em Palmares queria estar Cumbe na Paraíba, Alagoas, Macaco e Subupira Mangueira, São Carlos, Portela na Avenida São quantos? Ontem morri em Andalaquituche, Tabocas, Amaro, Acotirene Hoje no Juramento, Borel, Turano, Salgueiro Morro subindo morro Rolo ladeira cada dia com decidido ar de defunto novo Quando desce a noite, vejo em cada fundo de prato o reflexo da luz da vela E sonhos pra devorar MEMÓRIAS I (José Carlos Limeira) Queria ver você negro Negro queria te ver Se Palmares ainda vivesse Em Palmares queria viver. O gosto da liberdade sentido, cravado no peito Correr, sentir os campos ter a vida Angola Janga Terra de negros livres Ali toda vida Toda raça, raiva, vontade África África (tão subitamente roubada) Sonhos (tão subitamente assassinados) Liberdade (tão subitamente trocada pela escravidão) SONHOS II (José Carlos Limeira) Te vejo meu povo feliz Teu sonho querendo sentir Se Palmares ainda vivesse Pra Palmares teria que ir Você já pensou se Domingos Jorge Velho e sua malta Não houvessem tido tanta sorte? Já pensou naquele país da serra da Barriga? Sei que talvez não, É difícil imaginar uma terra Onde não fosse possível ver Uma negra Ter que mostrar a bunda Abrir as coxas, tirar das entranhas o pão de cada dia Onde não fosse possível ver Criancinhas De dez, oito, seis anos Voltando às quatro da manhã Depois de vender chicletes e o último resquício de dignidade Nos cruzamentos da cidade. Notícias Por menos que conte a história Não te esqueço meu povo Se Palmares não vive mais Faremos Palmares de novo Ontem um distinto senhor me disse: - Filho não pense nessas coisas (naturalmente mandei-o à merda)
  • 23. 23 MEMÓRIAS II (José Carlos Limeira) Negro correndo livre Colhendo, plantando por lá Se Palmares ainda vivesse Em Palmares queria ficar. O ódio do feitor é pegajoso, fecundo Ele pode emprenhar até mentes mais estéreis Com seu pênis de chicote. Os feitores esparramam se gozo Nas costas dos malungos Guinés, Ardras, Congos, Agomés, Minas, Cafres E o sangue jorrou com tanta força Que em Angola, fui Nagô, irmão de Haussá Jeje, Tapa e Senty. O cheiro nauseante do esperma da tortura Fez com que ficássemos juntos, usando nosso ódio mais comum. . ZUMBI...DOS (José Carlos Limeira) Daqui de onde estou, Ouço os primeiros ruídos. Abafados, subterrâneos, Como os sussurros cuidadosos, Por meus avós também ouvidos. Da nova gente que surge, Com a coragem de herança, Legadas por Zumbi, Quase esquecida pela força, Quase sangrada pelas alegorias, Quase morta pelos passos na avenida. Daqui de onde estou, Sussurro também cauteloso, Para despertar outros ouvidos, E destravar outras bocas, Para sussurrarmos todos um dia, E fazermos um barulho, Que será tal, Que se transformará, Em fala! E das falas virão os gritos, Não de dor, mas de vitória, Como são vitoriosos os sussurros, De nossa gente agora, Pois estão acordados, Para dizer, Com a força de Ganga Zumba E a altivez de X: Que somos! Faremos!
  • 24. 24 Abelardo Rodrigues nasceu em Monte Azul Paulista (SP), em 1952, e mora na zona leste paulistana a mais de 30 anos. Publicou Memória da Noite (Ed. do Autor, 1978). Foi co-fundador da antologia Cadernos Negros, junto com Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Cuti e Jorge Lescano. Tem participação na premiada antologia Axé – Antologia Contemporânea da poesia negra (Org. Paulo Colina, 1982), O Negro Escrito (Oswaldo de Camargo, 1987) e tem diversos textos publicados em revistas norte – americanas e alemãs; é um poeta muito representativo na cena da literatura negro brasileira, e sem dúvida, figura como escritor essencial para a literatura produzida pela coletividade negra paulistana.
  • 25. 25 SER NEGRO (Abelardo Rodrigues) Até quando, amigo? até que o mar volte a ser o que era? até que os corpos voltem à praia e se amotinem em negreiras naus desses tempos? Há, um alvo onde nossas forças recapeadas de fraquezas brancas possam medir e serem torrentes de uma dor prostrada violentada mas que na Primavera será um dardo uma lança um raio laser. PORQUE (Abelardo Rodrigues) Não é pelo soluço que se constrói a dor nem pelo amar que se faz amor Um pensar avançado não faz vanguarda como andorinhas não voam para o verão E nós temos as cargas que nas costas da mente navegam como deuses em brigas Não há lendas Não são Zumbi Saqueemos o mês das grinalda LEILÃO (Abelardo Rodrigues) Quem dá mais por esse corpo mulato de negro por essa dor mulata de negro essa flor mulata de negro esse grito-Zumbi mulato de negro esse latejar pelas sendas mulatas de negro quem dá mais? Quem dá mais por esse abrir-se mulato de negro ante nova era mulata de negro quem chora por esse abaixar da cor mulata de negro? E quem financia em suaves carnês este ser-contínuo mulato de negro? E por ventura alguém daria mais por esse libertar-se mulato de negro? LEILÃO (Abelardo Rodrigues) Quem dá mais por esse corpo mulato de negro por essa dor mulata de negro essa flor mulata de negro esse grito-Zumbi mulato de negro esse latejar pelas sendas mulatas de negro quem dá mais? Quem dá mais por esse abrir-se mulato de negro ante nova era mulata de negro quem chora por esse abaixar da cor mulata de negro? E quem financia em suaves carnês este ser-contínuo mulato de negro? E por ventura alguém daria mais por esse libertar-se mulato de negro?
  • 26. 26 ESPERANÇAS (Abelardo Rodrigues) Respiro esta fumaça de novas ideias com meus pés meus dentes de desejos minhas garras de sonhos Quero transpassar as barreiras alvacentas de velhas datas enovelar-me entre espirais de um novo amanhecer buscando jazidas de esperanças em jazigos libertos uma cunha nos contrafortes dos homens já saudosos de velhos tempos A dor reumática do poeta: ferir ossos com palavras revolver monturos mesquinhos de sangue enrijecendo as juntas vencer tormentas aquosas no vazio da realidade canto-angústia maior de sua mente. Garganta (Abelardo Rodrigues) Hoje é preciso que tua garganta do existir esteja limpa para que jorre teu negrume. Uma garganta não é corpo flácido É sangue escorrendo em leilão de cais. Sua garganta, irmão É uma quarta-feira de cinzas. CHAMA (Abelardo Rodrigues) Inútil tão inútil quanto o teu azul tão seco e sereno como os cabelos carapinha de teu bisavô que hoje não produz mais teus sonhos inútil como a solidão do poeta É a fisga do teu ser A fumaça que corre os céus não é mais do que a flor que murcha o teu coração e nem meu corpo te roçando ávido consola teu grito uterino de cansaço Nem mesmo saber que teu filho um dia poder· cantar pássaros E neste dia os teus cabelos brancos carapinha sorrirão mesmo sem a brisa desta chama que nos consome agora Batalha (Abelardo Rodrigues) Um exército de palavras se faz necessário para o nosso querer. E que façamos guerrilhas contra essa calmaria geral. Há que pintarmos um novo quadro de momentos que foram eternidades em nossa pele
  • 27. 27 Antônio Frederico de Castro Alves foi um importante poeta brasileiro do século XIX. Nasceu na cidade de Curralinho (Bahia) em 14 de março de 1847. No período em que viveu (1847-1871), ainda existia a escravidão no Brasil. O jovem baiano, simpático e gentil, apesar de possuir gosto sofisticado para roupas e de levar uma vida relativamente confortável, foi capaz de compreender as dificuldades dos negros escravizados. Manifestou toda sua sensibilidade escrevendo versos de protesto contra a situação a qual os negros eram submetidos. Este seu estilo contestador o tornou conhecido como o ―Poeta dos Escravos‖. Aos 21 anos de idade, mostrou toda sua coragem ao recitar, durante uma comemoração cívica, o ―Navio Negreiro‖. A contra gosto, os fazendeiros ouviram-no clamar versos que denunciavam os maus tratos aos quais os negros eram submetidos. Além de poesia de caráter social, este grande escritor também escreveu versos líricos- amorosos, de acordo com o estilo de Vítor Hugo. Pode-se dizer que Castro Alves foi um poeta de transição entre o Romantismo e o Parnasianismo. O poeta teve seu trabalho marcado pela temática do combate à escravidão, o que lhe deu o título de Poeta dos Escravos.
  • 28. 28 A DUAS FLORES (Castro Alves) São duas flores unidas São duas rosas nascidas Talvez do mesmo arrebol, Vivendo, no mesmo galho, Da mesma gota de orvalho, Do mesmo raio de sol. Unidas, bem como as penas das duas asas pequenas De um passarinho do céu... Como um casal de rolinhas, Como a tribo de andorinhas Da tarde no frouxo véu. Unidas, bem como os prantos, Que em parelha descem tantos Das profundezas do olhar... Como o suspiro e o desgosto, Como as covinhas do rosto, Como as estrelas do mar. Unidas... Ai quem pudera Numa eterna primavera Viver, qual vive esta flor. Juntar as rosas da vida Na rama verde e florida, Na verde rama do amor! FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE (Castro Alves) Eram três anjos - e uma só mulher QUANDO A INFÂNCIA corria alegre, à toa, Como a primeira flor que, na lagoa, Sobre o cristal das águas se revê, Em minha infância refletiu-se a tua... Beijei-te as mãos suaves, pequeninas, Tinhas um palpitar de asas divinas... Eras - o Anjo da Fé! ... Depois eu te revi... na fronte branca, Radiava entre pérolas mais franca, A altiva c'roa que a beleza trança!... Sob os passos da diva triunfante, Ardente, humilde, arremessei minh'alma, Por ti sonhei — triunfador — a palma, Ó — Anjo da Esperança!... — Hoje é o terceiro marco dessa história. Calcinado aos relâmpagos da glória, Descri do amor, zombei da eternidade!... Ai, não! - celeste e peregrina Déia, Por ti em rosas mudam-se os martírios! Há no teu seio a maciez dos lírios... Anjo da Caridade!... A CANÇÃO DO AFRICANO (Castro Alves) Lá na úmida senzala, Sentado na estreita sala, Junto ao braseiro, no chão, Entoa o escravo o seu canto, E ao cantar correm-lhe em pranto Saudades do seu torrão... De um lado, uma negra escrava Os olhos no filho crava, Que tem no colo a embalar... E à meia voz lá responde Ao canto, e o filhinho esconde, Talvez pra não o escutar! "Minha terra é lá bem longe, Das bandas de onde o sol vem; Esta terra é mais bonita, Mas à outra eu quero bem! "0 sol faz lá tudo em fogo, Faz em brasa toda a areia; Ninguém sabe como é belo Ver de tarde a papa-ceia! "Aquelas terras tão grandes, Tão compridas como o mar, Com suas poucas palmeiras Dão vontade de pensar ... "Lá todos vivem felizes, Todos dançam no terreiro; A gente lá não se vende Como aqui, só por dinheiro". O escravo calou a fala, Porque na úmida sala O fogo estava a apagar; E a escrava acabou seu canto, Pra não acordar com o pranto O seu filhinho a sonhar! O escravo então foi deitar-se, Pois tinha de levantar-se Bem antes do sol nascer, E se tardasse, coitado, Teria de ser surrado, Pois bastava escravo ser. E a cativa desgraçada Deita seu filho, calada, E põe-se triste a beijá-lo, Talvez temendo que o dono Não viesse, em meio do sono, De seus braços arrancá-lo!
  • 29. 29 O “ADEUS” DE TERESA (Castro Alves) A vez primeira que eu fitei Teresa, Como as plantas que arrasta a correnteza, A valsa nos levou nos giros seus E amamos juntos E depois na sala ―Adeus‖ eu disse-lhe a tremer co‘a fala E ela, corando, murmurou-me: ―adeus.‖ Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . . E da alcova saía um cavaleiro Inda beijando uma mulher sem véus Era eu Era a pálida Teresa! ―Adeus‖ lhe disse conservando-a presa E ela entre beijos murmurou-me: ―adeus!‖ Passaram tempos sec‘los de delírio Prazeres divinais gozos do Empíreo … Mas um dia volvi aos lares meus. Partindo eu disse – ―Voltarei! descansa!. . . ‖ Ela, chorando mais que uma criança, Ela em soluços murmurou-me: ―adeus!‖ Quando voltei era o palácio em festa! E a voz d‘Ela e de um homem lá na orquestra Preenchiam de amor o azul dos céus. Entrei! Ela me olhou branca surpresa! Foi a última vez que eu vi Teresa! E ela arquejando murmurou-me: ―adeus!‖ A SENZALA (Castro Alves) Qual o veado, que buscou o aprisco, Balindo arisco, para a cerva corre... ou como o pombo, que os arrulos solta, Se ao ninho volta, quando a tarde morre..., Assim, cantando a pastoril balada, Já na esplanada o lenhador chegou. Para a cabana da gentil Maria Com que alegria a suspirar marchou! Ei-la a casinha... tão pequena e bela! Como é singela com seus brancos muros! Que liso teto de sapé doirado! Que ar engraçado! que perfumes puros! Abre a janela para o campo verde, Que além se perde pelos cerros nus... A testa enfeita da infantil choupana Verde liana de festões azuis. I É este o galho da rolinha brava, Aonde a escrava seu viver abriga... Canta a jandaia sobre a curva rama E alegre chama sua dona amiga. Aqui n'aurora, abandonando os ninhos, Os passarinhos vêm pedir-lhe pão; Pousam-lhe alegres nos cabelos bastos, Nos seios castos, na pequena mão. Eis o painel encantado, Que eu quis pintar, mas não pude... Lucas melhor o traçara Na canção suave e rude... Vede que olhar, que sorriso S'expande no brônzeo rosto, Vendo o lar do seu amor... Ai! Da luz do Paraíso Bate-lhe em cheio o fulgor. ―A única arma para melhorar o planeta é a Educação com ética. Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele, por sua origem, ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.‖ Nelson Mandela