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Comunidades
Amor se paga com amor...



“O Pai criador e doador de todo bem atrai a si as criaturas humanas
por um amor de predileção e em ordem a uma missão especial. A
pessoa chamada entrega-se por amor de Deus, que a quer
exclusivamente ao seu serviço, e consagra-se totalmente a ele e a
seu desígnio de salvação.

Está aqui o sentido da vocação à vida consagrada: uma iniciativa total
do Pai, que requer daqueles que escolhe uma resposta de dedicação
plena e exclusiva. A experiência deste amor gratuito de Deus é tão
íntima e forte que a pessoa sente que deve responder com dedicação
incondicional da sua vida, consagrando tudo, presente e futuro nas
suas mãos. Por isso mesmo, como ensina S. Tomás, pode-se
compreender a identidade da pessoa consagrada a partir da
totalidade da sua oferta, comparável a um autêntico holocausto.

A nossa alma, dizem os Santos Padres, é uma imagem viva da
Santíssima Trindade, uma espécie de retrato em miniatura, pois que o
próprio Espírito Santo vem imprimir em nós como um sinete sobre
cera branda, e assim nela deixa a sua divina semelhança. Daqui
concluem que a alma em estado de graça é duma beleza
arrebatadora, pois que o artista, que nela pinta esta imagem, é
infinitamente perfeito, visto ser o próprio Deus”.

(Dos escritos do Pe. Amedeo Cencine)
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O governo dentro da Vida Consagrada



Os superiores gerais são os superiores maiores e seu poder se
estende sobre todas as províncias, casas e membros do instituto.
Eles são designados mediante eleição canônica de acordo com as
constituições e em geral seu cargo é temporário. Quem preside a
eleição é o bispo da sede principal. Após a eleição a presidência
passa ao superior geral eleito. Tanto os requisitos para ser eleito
quanto o tempo de duração do cargo devem ser regulamentados
pelas constituições.

Os superiores provinciais e equiparados (governam parte do instituto
comparada a uma província) são superiores maiores cujo poder se
restringe sobre uma província. O cargo é temporário e poderá ser
imputado por nomeação, quando se tratar de eleição será necessária
aprovação do superior geral. Os superiores locais são os que
possuem poder somente sobre os que pertencem a uma determinada
casa do instituto. Também podem ser nomeados, ou eleitos desde
que sejam aprovados pelo superior maior.

Os superiores dos mosteiros ou das casas sui iuris são considerados
superiores maiores e podem ser vitalícios. A eleição dos superiores
dos mosteiros sui iuris tratados no c. 615, é presidida pelo bispo
diocesano. Os superiores nomeados por tempo determinado não
devem permanecer por tempo muito longo na função de governo sem
interrupção e durante o cargo podem ser transferidos para outro
ofício.

Os superiores devem governar pessoalmente com espírito de serviço.
Isso é requerido pelo próprio exercício da função em seu múnus
pastoral de ensinar, santificar e governar. Os superiores exercem a
função de ensinar e de uma verdadeira direção espiritual no que toca
à interpretação do carisma do instituto. Eles exercem a função de
santificação pela condução dos membros e da comunidade a um
exercício cada vez mais perfeito da caridade, formando uma
comunidade sempre mais fraterna em Cristo, na qual se busque e
ame a Deus antes de tudo. Isso se dá ao nutrir a comunidade e cada
membro com a Palavra de Deus, levando-os a vivenciar a Sagrada
Liturgia, tornando-se exemplo de vida e de cultivo das virtudes para
eles. Aos superiores cabe a função de governo da comunidade,
ordenando-lhe a vida, repartindo no grupo as funções, coordenando
as atividades apostólicas dos membros e da comunidade, mantendo
vivas as relações com a autoridade eclesiástica, e fazendo tudo isso
em clima respeitoso, fraternal e solidário. Um governo espiritual só é
possível e eficaz quando entre superiores e súditos constroem-se
laços espirituais edificados na verdadeira liberdade e na confiança; é
por essa via que os súditos devem se sentir livres e confiantes para
manifestar abertura de espírito.

O Código salvaguarda o âmbito da consciência dos súditos de forma
que não sejam constrangidos a manifestar sua própria consciência,
tutela-os no que diz respeito também ao sacramento da penitência e
à direção de consciência, pois a competência do superior se restringe
aos atos externos, à ordem e à disciplina. É proibido aos superiores
ouvir as confissões dos próprios súditos, a não ser que estes o
peçam expressamente, justamente para evitar a confusão entre o
foro interno sacramental e o foro externo e assim proteger a
liberdade do superior em seus atos de governo.

É através da visita canônica que os superiores maiores e seus súditos
têm a relação interpessoal espiritual. Ninguém deve operar para
impedir essa visita ou trabalhar de alguma forma para que ela não
alcance o seu objetivo. Ao bispo diocesano é assegurado o direito e o
dever dessa visita aos mosteiros sui iuris, de que trata o c. 615 e cada
casa do instituto de direito diocesano estabelecida em seu território,
neste último caso sem prejuízo ou substituição da visita a que estão
obrigados os superiores do instituto. Nos casos expressamente
previstos pelo direito, o bispo diocesano pode também visitar as
casas e os membros de direito pontifício.

O Código não admite um governo ordinário colegial em nenhum nível.
O superior deve ser pessoalmente responsável, por aquilo que decide
e ordena, diante de Deus, de seus superiores maiores e de seus
súditos. Contudo, pode e deve contar com os organismos de
participação ou de consulta (assembléias, consultas, conselhos). Para
os membros de um instituto, a participação nesses organismos não é
apenas um direito, mas também um dever. Esses organismos têm as
funções regulamentadas de modo geral pelo direito universal, mas de
maneira específica pelo direito próprio e deve por eles orientar a sua
ação. Todo superior deve contar com o órgão chamado conselho (c.
627), pois as constituições estabelecem os casos em que o parecer
ou o consentimento do conselho são obrigatórios para se proceder
validamente. O direito próprio pode determinar a obrigatoriedade de o
conselho emitir consentimento onde o direito universal apenas exige o
parecer; mas o inverso não é lícito. Quando o conselho deve dar seu
consentimento, o superior não vota, a fim de não caracterizar voto
deliberativo e configurar um governo ordinário colegial.
Quando o estabelecido é que o conselho emita o parecer, o superior
deve convocá-lo sob pena de ver o seu ato nulo caso não o faça.
Contudo, o superior não está obrigado a decidir segundo o parecer
do conselho, embora seja aconselhável considerá-lo. É aconselhável
que decisões referentes a pessoas contem apenas com o parecer do
conselho e não com o consentimento, garantindo ao superior uma
maior liberdade para agir com base no conhecimento adquirido em
virtude de seu cargo. Quando a exigência é o consentimento, o
conselho deve ser convocado e o consentimento deve ser obtido por
maioria absoluta. Há um único caso previsto em que se admite
decisão colegial (c. 699), é quando se forma uma espécie de tribunal
que emite voto secreto. Em outras situações para decisões conjuntas
têm se a denominação votos em conjunto (votos do superior mais os votos
de outros – conselheiros ou outros indivíduos).

Entre os órgãos de governo se encontra o capítulo geral como órgão
supremo de governo colegial, pois representa todo o instituto e
desempenha as funções de tutelar o patrimônio do instituto, promover
a renovação do instituto segundo o carisma próprio, eleger o
moderador supremo, tratar dos assuntos de maior importância,
emanar normas para todo o instituto. O capítulo geral pode ser de
diversos tipos: ordinário, extraordinário, de negócios, eletivo. São as
constituições que determinam a sua composição, mas sempre a zelar
para que seja representativo do todo do instituto. Elas também
determinam o âmbito do seu poder, pois este não é ilimitado. A
celebração do capítulo deve ser regulamentada segundo direito
próprio. Apenas os membros plenamente incorporados ao instituto
possuem voto deliberativo.

O capítulo provincial é o órgão colegial que representa toda a
província, e o direito próprio é que estabelece a sua natureza,
autoridade, composição, modo de proceder, o tempo da celebração
do capítulo ou de assembléias semelhantes. Ela absorve o capítulo
vice-provincial e o capítulo regional que não realizam um capítulo
próprio mas se fazem representar no provincial através de delegados.
Em geral desempenha uma tríplice função: eletiva (eleger o superior
provincial e os delegados ao capítulo geral); deliberativa (sobre os
postulados a serem enviados ao capítulo geral); informativa (órgão
privilegiado de consulta para o superior geral quanto ao estado das
casas e da província).

O capítulo local é mais uma expressão da vida fraterna da
comunidade do que um órgão de com poder de decisão, tem caráter
consultivo, e quando existe é também regulado por direito próprio. O
Código reconhece a autonomia de vida e de governo dos institutos
em conexão com o poder público de governo na Igreja, enquanto
exercido em sociedades públicas, e identifica a origem e natureza do
poder dos superiores e dos capítulos: ele emana do Espírito Santo em
conexão com a hierarquia que erigiu canonicamente o instituto e
autenticamente aprovou sua missão específica e é conferido, em
última análise, pelo próprio direito universal e das constituições
através dos superiores que remontam ao Romano Pontífice sendo
assim poder que receberam de Deus mediante o ministério da Igreja.
A amplitude da autonomia e do poder de um instituto depende de seu
carisma particular e da sua posição na Igreja. Aqui mencionamos os
institutos religiosos laicais, institutos clericais de direito diocesano,
institutos seculares, institutos religiosos clericais de direito pontifício,
institutos mistos, institutos religiosos de irmãos, institutos isentos.
Com o fim de uma maior colaboração com a Igreja e com as
conferências episcopais, os superiores maiores desses institutos
podem se reunir em Conferências ou Conselhos desde que as
mesmas tenham estatuto próprio aprovado pela Santa Sé que os
erige como pessoa jurídica, e sob cuja direção permanece.

Canon 708: “Os Superiores maiores podem utilmente associar-se em conferências ou
conselhos, a fim de que, unindo as forças, trabalhem para mais plenamente conseguirem a
finalidade de cada instituto, ressalvando sempre sua autonomia, índole e espírito próprio,
para tratarem de questões comuns e estabelecerem a conveniente coordenação e cooperação
com as conferências dos Bispos e também com cada Bispo em particular.

Verinha




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Tipologia da Vida Consagrada

A primeira forma de consagração na Igreja foi a das virgens e dos
ascetas, por meio da continência, da renúncia aos bens, da oração e
da penitência. O monaquismo como modo de vida através da
separação do mundo da pobreza, da continência, da mortificação e
da penitência e da contemplação das coisas divinas, surge no século
III no Oriente e no século IV no Ocidente e apresenta duas formas: a
primeira eremítica ou anacoreta (total solidão) e depois cenobítica
(vida comum sob o regime de uma regra).

Na sua origem, a vida monástica era mais laical e cada mosteiro era
plenamente independente, a partir do século IX começam a reunir-se
em congregações. Surge também nesse século os cônegos que
levavam vida comum sob a regra de S. Crodegango e no século XI
então, os cônegos regulares com a vida comum e a profissão de
pobreza ligados as igrejas catedrais colegiadas.

As ordens mendicantes surgem a partir do século XIII na luta contra
as seitas heréticas e a decadência dos costumes da Igreja, tendo
como pioneiros os Dominicanos ou Pregadores, que influenciam, sob
o ponto de vista institucional, os Franciscanos e os Carmelitas. Essas
ordens têm como características específicas: a vida fraterna, a
observância rigorosa da pobreza em comum, a união entre as antigas
observâncias monásticas e a vida apostólica, a combinação entre
sistema de governo pessoal e capitular em vários níveis. É a partir
desse tempo que surge a praxe de emitir três votos: pobreza,
obediência e castidade.

No século XVI, surgem então, em reação à Reforma protestante, os
clérigos regulares, que unem o ministério sacerdotal à profissão
religiosa, abandonando a observância monástica e assumindo uma
forma de governo centralizada e dinâmica. A partir de então, todos os
institutos aprovados na Igreja com voto solene, passam a ser
chamados de “ordens”. Surge, no mesmo período, as sociedades de
clérigos e leigos, homens e mulheres, que não emitiam votos, ou
faziam votos não reconhecidos pela Igreja e foram, depois, chamados
de congregações.

Desde o inicio a vida monástica foi tanto masculina como feminina. As
ordens mendicantes, por exemplo, tiveram uma segunda ordem
feminina com uma regra própria. Assim, a 2 de fevereiro de 1947 Pio
XII, com a Constituição Apostólica Provida Mater, aprovou os institutos
seculares como nova forma de vida consagrada.

Verinha




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Obedecer - sinal de maturidade e crescimento!




Cânon 601: “O Conselho evangélico da obediência, assumido com espírito de fé e amor no
seguimento de Cristo obediente até à morte, obriga à submissão da vontade aos legítimos
Superiores, que fazem as vezes de Deus quando ordenam de acordo com as próprias
constituições”.

O cânon 601, seguindo a Perfectae Caritatis n. 14, coloca a obediência
numa perspectiva teologal e cristológica: a obediência é evangélica
se se baseia sobre as duas virtudes teologais da fé e da caridade e
constitui um seguimento de Jesus, uma assimilação a ele que se fez
obediente até a morte e à morte de cruz (cf. Fl 2,8; VC 22; 23). Nessa
perspectiva cristológica aparece a estreita ligação da obediência com
a caridade celibatária e virginal e com a pobreza, manifestações
históricas, na vida de Jesus, da eterna relação entre o Pai e o Filho no
Espírito. Este cânon especifica que a obediência evangélica obriga a
submeter a vontade aos superiores legítimos, como representantes
de Deus, quando mandam segundo as constituições.É uma resposta
ao individualismo que destrói a comunhão entre os homens. No
entanto, há a obrigação de obedecer somente quando os legítimos
superiores mandam de acordo com as constituições. Em caso
contrário, o súdito tem a obrigação de desobedecer.

Em tal obediência aos superiores encontram-se três elementos: a
autoridade que o superior recebe é de Deus e, portanto, não dos
membros do instituto, mesmo se fosse eleito por eles, nem do próprio
voto de obediência que fazem os súditos (cf. c. 618); o exercício
legítimo da autoridade (cf. c. 596; 617); o voto feito a Deus, com o
qual os súditos reforçam sua submissão ao superior, submissão a
qual, todavia, são obrigados, independentemente dos votos, pelo fato
mesmo de que participam do carisma coletivo do instituto em virtude
da incorporação nele (cf. c. 654).

Também no que se refere à obediência, o código estabelece um
mínimo canônico, ultrapassado o qual não se pode mais permanecer
na vida consagrada (cf. cc. 590; 671; 678; 682; 696; 738; 739; 746).
Salvas essas disposições gerais do Código, o direito próprio dever
dar uma disciplina particular, de acordo com a natureza e as
finalidades do instituto (cf. cc. 598; 662; 712; 732).




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“ Bem aventurados os pobres de espirito”
Cânon 600: “O Conselho evangélico da pobreza, à imitação de Cristo, que sendo rico se fez
pobre por nós, além de uma vida pobre na realidade e no espírito, a ser vivida
laboriosamente na sobriedade e alheia às riquezas terrenas, implica a dependência e a
limitação no uso e na disposição dos bens, de acordo com o direito próprio de cada
instituto”.

O cânon 600, tendo como fonte a Perfectae Caritatis, n. 13a, coloca o
preceito evangélico da pobreza na perspectiva da imitação de Cristo,
que de rico que era se fez pobre por nós(cf. 2Cor 8,9; Fl 2, 6-11). Essa
imitação de Cristo, que leva à participação da pobreza de Cristo,
fonte da riqueza da redenção(cf. VC 90) é expressão do dom total de
si mesmas que as três pessoas divinas reciprocamente se fazem(cf.
VC 21; 22;). Não se trata de uma pobreza de tipo sociológico,
somente como falta de bens materiais, mas da pobreza evangélica,
isto é, escolhida livremente pelo Reino dos céus, que, conforme
indicado no cânon 601, comporta uma vida pobre de fato e de espírito
que deve ser levada em operosa sobriedade, que não se renda às
riquezas terrenas.

A pobreza espiritual, como reconhecimento de Deus doador de todo
bem, é a base da pobreza material. A pobreza de fato, citada no
cânon 600, comporta, por isso, a sujeição à lei do trabalho, comum a
todos os homens e a sobriedade no uso dos bens materiais estranha
qualquer cessão diante das riquezas terrenas. Isso se concretiza
numa real limitação no uso e na disposição dos bens e, portanto,
numa dependência dos superiores, segundo o direito próprio de cada
instituto. O religioso que violar repentinamente o voto, ou outro vínculo
sagrado, de pobreza pode ser demitido de acordo com a norma
contida no cânon 696, § 1, segundo o procedimento estabelecido nos
cc. 697-700, com os efeitos estabelecidos pelos cânones 701 e 702.
Os institutos seculares se regulam de acordo com o que é definido
nas constituições(cf. c. 729). As sociedades de vida apostólica
citadas no c. 731, § 2 seguem, com as devidas adaptações, os
cânones que se referem aos institutos de vida religiosa. (cf. c. 746)
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Castidade no celibato

Cânon 599: “O Conselho evangélico da castidade, assumido por causa do Reino dos
céus e que é sinal do mundo futuro e fonte de maior fecundidade num coração indiviso,
implica a obrigação da continência perfeita no celibato”.




O cânon 599 fala da obrigação da perfeita continência no celibato,
mas como conteúdo do conselho evangélico da castidade assumido
pelo Reino dos Céus. Põe assim, a obrigação do controle da vontade,
na esfera da sexualidade. Trata-se, pois, de uma obrigação
sustentada pela graça. ( cf. PC 12 a) A castidade perfeita e perpétua
no celibato ou na virgindade é a integração, por obra da graça, da
sexualidade num amor oblativo vivido na vida celibatária, escolhida
pelo Reino dos céus. O conselho evangélico da castidade celibatária
deve tender a sua plena realização na virgindade do coração, da qual
a virgindade física é sinal e tutela. Se falta, por qualquer razão, a
virgindade física, a castidade celibatária, no dinamismo do amor, deve
igualmente tender a sua perfeição na divindade do coração,
consecução daquela pureza de coração, que no aniquilamento total
de si, chega à união plena com Deus. É o que se depreende do
Decreto Perfectae Caritatis, n. 12c:

“A virgindade física vivida na virgindade do coração indica a doação de si mesmo a Deus
desde o nascimento. O conselho evangélico da castidade celibatária é, pois, sinal de vida
futura e é fonte de uma mais rica fecundidade no coração indiviso. Só a virtude teologal da
caridade é fonte de uma mais rica fecundidade no coração indiviso no hoje, mas na
projeção da realização futura da qual a própria vida consagrada torna-se, assim, mais
sinal(cf. VC 16, 33). Como conseqüência, os candidatos não devem ser admitidos à
profissão , senão depois que tenha sido por eles alcançada uma suficiente maturidade
psicológica e afetiva. Visto que a observância da castidade perfeita atinge intimamente
inclinações mais profundas da natureza humana, os candidatos não se abeirem nem sejam
admitidos à profissão da castidade, senão depois duma provação verdadeiramente suficiente
e com a devida maturidade psicológica e afetiva. Sejam não só instruídos sobre os perigos
que ameaçam a castidade, mas formem-se de tal maneira que abracem o celibato
consagrado a Deus também como um bem de toda a pessoa.”

No que se refere à castidade, o Código estabelece um mínimo
canônico, pelo que se ultrapassa isso não se pode mais permanecer
na vida consagrada (cf. cc. 694, 695, 1395). Salvas as disposições
gerais do Código, o direito próprio deve dar uma disciplina particular,
segundo a natureza e as finalidades do instituto. (cf. cc. 598; 692;
712; 732)




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A Vida Consagrada e os conselhos Evangélicos



A vida terrena de Jesus foi uma expressão da radicalidade com que
viveu os princípios e todos os preceitos da nova Lei instaurada por ele
mesmo. Jesus amou até o fim, foi a fundo, no sentido que em sua
morte chegou até a mais total radicalização de sua virgindade,
precisamente pela totalidade e exclusividade do amor para com o Pai
e para com todos os homens; de sua pobreza, pois privou-se de todo
apoio humano e experimentou o sentido do abandono humano; da
obediência, por ter comprido tudo segundo o desígnio do Pai,
superando qualquer tentação ou desejo de realização humana.

Para todos os batizados, conforme as diversas condições de vida há
uma exigência legal de pobreza, mas não até o ponto de desfazer-se
de todo bem terreno; de castidade, mas não até a renúncia do
matrimônio; de obediência, mas não até o ponto de privar-se da
própria vontade em relação àqueles que representam a Deus. Na vida
consagrada, os preceitos e os valores evangélicos válidos para todos
devem ser vividos, na inserção mais profunda do mistério da cruz do
Senhor e de sua ressurreição, como um seguimento de Jesus mais
de perto e mais radical. A vida consagrada é, no plano pessoal, uma
antecipação da perfeição escatológica e, no plano eclesial, um sinal
dessa perfeição, mesmo consciente de que a consagração do cristão
será plenamente concretizada somente na ressurreição final.

No decreto Perfectae Caritatis, n. 26, isso é bem latente:

“Dado que hoje as preocupações apostólicas se fazem sentir sempre com maior urgência e
o empenhamento nas coisas deste mundo corre o risco de ser cada vez mais absorvente,
torna-se particularmente oportuno chamar a atenção para a natureza escatológica da vida
consagrada.”




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A Vida Consagrada em geral




1. A consagração pela profissão dos conselhos evangélicos

Sob o aspecto teológico, a consagração de Cristo é o referencial, o
modelo, o parâmetro para a compreensão da consagração pela
profissão dos conselhos evangélicos. Entretanto, sob a base de uma
especial vocação e em virtude de um peculiar dom do Espírito, a
pessoa participa dessa consagração por um título novo e especial. A
vida consagrada em si não é de natureza clerical nem laical.

Essa consagração, por parte de Deus, que toca as raízes do ser,
acontece sob um dúplice aspecto: pelo carisma próprio e pela graça
concedida para cumprir a própria vocação e exercer corretamente o
carisma recebido. É Deus, que atraindo a pessoa para si, a consagra
a ele, para que ela, pelo dom total, consagre-se a ele assumindo
como norma de vida estável a profissão dos conselhos evangélicos
(cf. cc. 573; 710; 731).

Cânon 573: § 1. “A vida consagrada pela profissão dos conselhos
evangélicos é uma forma estável de viver, pela qual os fiéis, seguindo
mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, consagram-se
totalmente a Deus sumamente amado, para assim, dedicados por
título novo e especial a sua honra, à construção da Igreja e à salvação
do mundo, alcançarem a perfeição da caridade no serviço do Reino
de Deus e, transformados em sinal preclaro na Igreja, preanunciarem
a glória celeste”.

Essa vida fundamenta-se na comunhão filial com Deus e fraterna com
Cristo de maneira a atuar e expressar uma densidade e uma
totalidade que lhe é própria. Tal consagração se baseia na
globalidade do Evangelho e da vida de Jesus. Não se trata de uma
simples imitação de Jesus, mas sim de assumir um “ser”, do qual
procede um “fazer”, para aproximar-se cada vez mais do ser e do
fazer de Jesus(cf. VC 16-20, 72).




   Cristo e os Conselhos Evangélicos
   Comunidades Novas e RCC
   10-02-2004
                                                                            A-   A+


Os conselhos evangélicos têm sua origem divina, mais exatamente, cristológica, pois estão
fundamentados      nas       palavras     e       exemplos       do        Senhor.

Tem sua origem divina na doutrina e nos exemplos de Jesus, isto quer dizer, que se fundam em
sua vida, em toda sua vida. A vida e a doutrina de Jesus estão na base de toda forma de vida
cristã,    e   de     maneira      especial,    na    base    da     vida     consagrada.

Quando se fala na vida de Jesus, não se refere aos seus aspectos, mas às suas dimensões.

Como               foi                 a        vida              de              Jesus?

Jesus é o Homem inteiramente livre e inteiramente para os outros. Ele viveu inteiramente para o
Pai e para os irmãos. Sua vida consiste em desviver-se. Não se pertence a si mesmo. É, existe e
vive para Deus e para os homens. E a virgindade- pobreza-obediência, foram a expressão objetiva
desta plena e definitiva autodoação. Por isso a vida de Jesus não foi simples existência, mas uma
proexistência. Seu existir foi proexistir, existir em favor dos outros, dando tudo e a si mesmo. Então
os conselhos evangélicos não podem ser entendidos como aspectos, mas como dimensões
constitutivas               da                  vida              de              Jesus.

Para nós, também os conselhos evangélicos não são aspectos, mas dimensões constitutivas de
nossa vida. Porque o consagrado " imita mais estreitamente e re-apresenta perenemente na igreja
o gênero de vida que o Filho de Deus assumiu quando veio a este mundo para cumprir a vontade
do    Pai,    e     que     propôs     aos    discípulos    que     o    seguiam".(Concílio)

Afirmar a origem divina-cristológica dos conselhos evangélicos é afirmar a sua existência, mas
também sua inviólavel perdurabilidade na igreja, já que se trata de "bem irrenunciável, sobre o qual
a igreja não tem poder de vida ou morte. A Igreja o recebe como se recebe um dom, e o guarda
com fidelidade, porque eles não são de origem eclesiástica, mas cristológica. Os conselhos
evangélicos expressam, a doação total e irrevogável de Cristo à Igreja, e a doação total da igreja a
Cristo.(nós        não          podemos             extinguir         os        mesmos).

A hierarquia da igreja tem a missão de interpretá-las, regular sua prática e também de organizar
formas                   estáveis                  de                    vivê-los.

Por causa da origem cristológica, o consagrado vive não simplesmente a castidade, mas a
castidade de Cristo; não é a pobreza, mas a pobreza de Cristo, tampouco é a obediência, mas a
obediência de Cristo. Existem outras formas de pobreza, castidade e obediência, mas nenhuma
delas nos interessa, somente a que Cristo viveu. (não é aos nossos moldes).

Se nós nos desviarmos, ou nos descuidarmos da origem e dimensão cristológicas dos conselhos
evangélicos, nós os tornaremos ininteligíveis, esvaziados de sentido, perdendo sua maior riqueza
teológica. Nós não podemos desvinculá-los da pessoa de Cristo, de sua vida e doutrina. Deste
modo e por essa razão, os conselhos evangélicos se converteram em simples meios ascéticos,
em vez de ser atitudes e dimensões essencialmente evangélicas e cristológicas.

Portanto, para compreendermos verdadeiramente os conselhos evangélicos é necessário voltar
decididamente à pessoa de Jesus virgem-pobre-obediente com sua vida e sua doutrina, com o
chamado ao seu seguimento e com seu mistério de Kénosis; em relação com a Igreja, com sua
vida, com sua santidade, com sua dimensão carismática e escatológica e com sua missão
evangelizadora; em relação com o Reino de Deus, com sua valiosidade absoluta, com suas
exigências supremas e com seu estabelecimento neste mundo, como inauguração da vida celeste
(       Jesus      foi     casto-obediente       e      pobre       para       isto).

Sentido                        em                         Jesus                             Cristo

A virgindade, a pobreza e obediência, constituem as três dimensões mais profundas do viver
humano de Cristo. Não foram alguma coisa de secundário ou marginal em sua existência, mas algo
constitutivo  de   seu   modo    histórico  de   ser   e   de   viver  para    os    outros.

O   que    significaram       na   vida-missão      de    Jesus     esses      três    conselhos            evangélicos?

Amor total demonstrado - isso significa que os conselhos eram para Jesus um meio, uma forma
dele demonstrar o seu amor, provar o seu amor total a Deus e aos homens. Uma prova autêntica
profunda de amor. Como provar o meu amor a ti, como tu irás reconhecer que o meu amor é
sincero e é tão sincero que vou ser pobre-obediente-casto. E não como meios para conseguir o
amor perfeito, mas como expressão desse amor perfeito. Não para tornar possível o amor, mais
para tornar visível o amor. Para demonstrar o máximo amor ao Pai e aos irmãos.

Cristo teria amado com o mesmo amor total ao Pai e aos homens, se tivesse vivido de outra
maneira, sem o mínimo perigo para sua liberdade ou para deixar-se levar para o egoísmo. Porém
não nos teria feito ver com a mesma claridade e evidência esse amor e essa liberdade. Fazer ver
com argumentos, dar provas convincentes. A virgindade-pobreza-obediência de Jesus foram grito
essencial      de        amor    e      testemunho       irrefutável    de      liberdade.

Quanto mais encarnarmos a pobreza-obediência-castidade mais demonstramos nosso amor a
Deus e mais somos livres para amá-lo. Nada nos prende, nem nos domina. Quando tomamos
posse de algo ou de alguém é porque estamos dominados por esse algo ou alguém. Devemos
também através desses conselhos provar o nosso amor a Deus e aos homens, a nossa doação de
nós                mesmos                    sem                  reservas.

Doação total de si mesmo (como Jesus muito amava ao Pai ele doa a si mesmo).

O   amor     manifesta-se          sempre     como       dom.     Não     há     amor       se        não     há     dom.

Amor        total         -        dom         total        -       dom           de             si          mesmo.

Amar é dar-se! Jesus não se pertence e não vive para si. Por isso vive inteiramente para os outros,
para Deus e para os homens, isto é, para o Reino. Literalmente ele "desvive-se". Jesus pôs-se a
serviço dos outros - do Pai e dos irmãos - tudo o que era e o que tinha: Filiação, experiência com
Deus, doutrina, tempo, própria vida. Porque viveu inteiramente como Filho do Pai, pode viver
inteiramente        como          irmão        de         todos          os        homens.

Vivência            antecipada           do            sacrifício           da              sua              morte

Os conselhos eram para Jesus, parte integrante de sua Kénosis, do mistério de seu aniquilamento
que culminou na morte de cruz. A Kénosis que Jesus vive não era mera renúncia, nem puro
esvaziamento, mas auto-doação por amor. Cristo ofereceu-se a si mesmo e não sangue de
animais.     E      esse      sacrifício      durou      toda      a       sua       vida.

A morte é a total oferta do nosso ser a Deus: o grão de trigo precisa morrer para nascer de novo.

Através dos conselhos evangélicos vivenciamos antecipadamente a cada dia a nossa morte, o
nosso aniquilamento, que culminará em nossa morte (humildade - viver a nossa verdade).

Cristo não pode deixar de ser Deus, não pode renunciar ao seu ser divino, porém renunciou a sua
condição divina gloriosa, isto é, renunciou a manifestar de modo habitual em sua humanidade a
glória que lhe correspondia em virtude de sua divindade. Não fez valer seus direitos. Despojou-se
de sua nobreza. Sendo Senhor e Rei, apresentou-se como servo e escravo.

Inauguração               de                "modo               celeste                de                   vida"

A vida da graça nos faz viver desde esta vida a glória do céu. A vida da graça é a vida eterna.
Também foram, os conselhos evangélicos, em Cristo, antecipação de sua ressurreição gloriosa,
prefiguração da nossa e inauguração neste mundo da vida celeste. Através dos conselhos
evangélicos, Cristo tornou já presente, nesta etapa terrena do Reino os bens definitivos e as
atitudes            essenciais           do           Reino           consumado.

Pela pobreza-obediência e castidade, Cristo adiantou, aqui e agora, a condição essencial da vida
celeste, estabelecendo um tipo de relações, divinas e humanas, válidas para outra vida.

Viveremos aqui o que viveremos no céu. A vida na terra deve ser uma preparação e antecipação
da vida que vamos viver no céu. Os conselhos nos fazem viver e ser aqui na terra o que viveremos
e                    seremos                     no                     céu.

O   que     são      e   o   que   devem    significar       em   nós   os   conselhos     evangélicos?

Aquilo mesmo que eles foram em Cristo e ter a mesma significação que tiveram nele. Do contrário
seria necessário a condição evangélica da vida consagrada. Se a vida consagrada é em sua
própria essência seguimento e imitação radical de Jesus Cristo virgem-pobre-obediente.

Os conselhos evangélicos na vida consagrada são afirmação clara da primazia absoluta do Reino,
presença no mundo dos bens definitivos, prefiguração e experiência da vida eterna e da
ressurreição                                    gloriosa.

Devemos então, viver os conselhos evangélicos com o mesmo sentido que Cristo viveu, porém
para nós, homens pecadores, precisamos acrescentar uma afirmação complementar: os
conselhos evangélicos devem se tornar meios removedores de obstáculos, em mortificação das
raízes de pecado-de cobiça, de egoísmo, de soberba (as concupiscências) que existem em nós,
inclusive depois do batismo, e que um dia podem se transformar em frutos de pecado. São
pedagogia para o amor, além de ser constitutivamente amor. Porque a amar se aprende amando.
E      esta     é    uma      significação     que    em      Cristo   não      tiveram.

Para nós assume também o caráter ascético, mas não para aí, porque seria privá-las de todo o
seu sentido cristológico e, consequentemente esvaziá-los de seu conteúdo melhor. Deixariam
então, de ser realidades e atitudes evangélicas, para ser simplesmente costumes ascéticos ou
meios                  humanos                  de                purificação.

A                                                   Castidade:

Prometer viver a castidade, significa imediatamente amar ao Pai e a todos os homens com o
mesmo amor total, divino e humano de Cristo, que cria uma fraternidade universal com um tipo de
relaçao interpessoal que continuará sendo válidas na outra vida, a fim de transcender toda
mediação        fundada       nos        sentidos       (prazer       pelo        prazer).

A castidade vem de encontro a concupiscência do prazer, vem dar ao prazer o seu verdadeiro
significado.

Celibatário (virgindade consagrada) - vive essa dimensão acrescida da renúncia ao matrimônio e
ao exercício da sexualidade como conseqüência lógica desse amor imediato, total para viver
inteiramente para o Reino. Evitando toda polarização e toda imediação no amor.

A      castidade             esponsal      da          Igreja      na        vida        consagrada

A igreja por si é realmente virgem como Cristo, porque é esposa de Cristo: "Desposei-vos a um
único Esposo para vos apresentar a Cristo como virgem pura. (2 Cor. 11,2s)

Quando Jesus comunica seu Espírito à Igreja, comunica-lhe a sua virgindade. Virgindade cristã não
significa, então, renúncia ao matrimônio, mas acolhida total do Espírito de Cristo; a renúncia ao
matrimônio pode ser um modo significativo de manifestar esta acolhida do Espírito.

Santo Agostinho diz: "Criou a Igreja virgem e por isso é virgem. Na carne há somente virgens
consagradas; na fé todos devem ser virgens, homens e mulheres... Virgem é, pois, a Igreja: é
virgem,                          seja                         virgem!"

Portanto, precisamos cada vez mais entregar nossos sentidos a Deus: o nosso olhar, o nosso
gosto, o nosso cheiro, o nosso ouvir, o nosso falar, o nosso tocar, o nosso sentir.

A         pobreza:           O      Pai         é        a        nossa        única        riqueza

A pobreza de Cristo foi, em face ao Pai, confiança absoluta, que ele expressou numa renúncia
explícita a todo outro apoio, para afirmar decididamente que se apoiava somente nele, e proclamar
a    relatividade    de   todo     o    criado    diante  do   valor   absoluto   do    Reino.

Em face aos homens foi disponibilidade de tudo o que era e de tudo o que tinha. Em face a si
mesmo, a pobreza foi parte integrante de seu ministério de aniquilamento. Em face dos bens
desse               mundo                 liberdade                soberana.

Prometer viver na pobreza (fraternidade, unidade), pobreza quer dizer, empenhar-se em confiar
infinitamente em Deus, apoiando-se unicamente nele, viver decididamente, para os outros,
compartilhando tudo o que se é e tudo o que se tem com os irmãos, não pertencer-se para
pertencer a todos, e manter diante de todas as coisas plena liberdade e independência ativa. É
portanto, um meio de se vencer a concupiscência do possuir, que atinge uma dimensão muito
maior        do      que       somente        ajuntar      tesouros       na      terra.

A      Obediência:        O       desafio       da       liberdade       na       obediência

A obediência em Cristo foi submissão filial plena e amorosa ao querer do Pai. Foi estado e atitude
de perfeita docilidade, ativa e responsável à vontade do Pai. Foi saber-se centro do plano salvífico
de   Deus,     aceitá-lo    incondicionalmente    com    todas     as   suas    consequências.

Fazer voto de obediência significa comprometer-se diante de Deus e diante dos irmãos a viver em
atitude de total docilidade à vontade amorosa do Pai e a acolhê-la filialmente como critério único
de vida, sejam quais forem as mediações humanas ou sinais que manifestam essa vontade.

Se estivermos atentos a vontade de Deus não esperaremos que as nossas autoridades a revele
para nós e nem resistiremos aos absurdos ou mesmo aquilo que para nós é muito difícil. Nós
mesmos exporemos a vontade de Deus para elas e as ajudaremos a descobrir conosco o que
Deus tem para nós. Contribuiremos positivamente no caminho de Deus para as nossas vidas.

Para vivermos a obediência não podemos assumir uma atitude passiva ou muito menos uma
atitude de nos esconder da vontade de Deus e nos colocarmos indispostos, resistentes, a ela, mas
uma atitude de descoberta, uma disposição interior, uma determinação de descoberta para vivê-
la. Como nós não queremos vivê-la nem queremos descobrí-la. O conhecimento da vontade de
Deus nos leva a responsabilidade e não temos como nos abster de cumprí-la.

Os           grandes           desafios           da           vida           consagrada

A missão profética da vida consagrada vê-se provocada por três desafios principais, lançados à
própria Igreja e esses desafios tocam diretamente os conselhos evangélicos de castidade,
pobreza e obediência, estimulando a Igreja, e de modo particular as pessoas consagradas, a pôr
em evidência e testemunhar o seu significado antropológico profundo. Na verdade, a opção por
esses conselhos, longe de constituir um empobrecimento de valores autenticamente humanas,
revela-se antes como uma transfiguração dos mesmos. Os conselhos evangélicos não devem ser
considerados como uma negação dos valores inerentes à sexualidade, ao legítimo desejo de
usufruir de bens materiais, e de decidir autonomamente sobre si próprio. Essas inclinações,
enquanto fundadas na natureza, são boas em si mesmas, mas a criatura humana, enfraquecida
como está pelo pecado original, corre o risco da as exercitar de modo transgressivo. A profissão
de castidade, pobreza e obediência, torna-se uma admoestação a que não se subestimem as
feridas causadas pelo pecado original, e, embora afirmando o valor dos bens criados, relativiza-os
pelo simples fato de apontar Deus como o bem absoluto.

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Iv Formação Para Novas Comunidades

  • 1. I Formação Para Novas Comunidades Amor se paga com amor... “O Pai criador e doador de todo bem atrai a si as criaturas humanas por um amor de predileção e em ordem a uma missão especial. A pessoa chamada entrega-se por amor de Deus, que a quer exclusivamente ao seu serviço, e consagra-se totalmente a ele e a seu desígnio de salvação. Está aqui o sentido da vocação à vida consagrada: uma iniciativa total do Pai, que requer daqueles que escolhe uma resposta de dedicação plena e exclusiva. A experiência deste amor gratuito de Deus é tão íntima e forte que a pessoa sente que deve responder com dedicação incondicional da sua vida, consagrando tudo, presente e futuro nas suas mãos. Por isso mesmo, como ensina S. Tomás, pode-se compreender a identidade da pessoa consagrada a partir da totalidade da sua oferta, comparável a um autêntico holocausto. A nossa alma, dizem os Santos Padres, é uma imagem viva da Santíssima Trindade, uma espécie de retrato em miniatura, pois que o próprio Espírito Santo vem imprimir em nós como um sinete sobre cera branda, e assim nela deixa a sua divina semelhança. Daqui concluem que a alma em estado de graça é duma beleza arrebatadora, pois que o artista, que nela pinta esta imagem, é infinitamente perfeito, visto ser o próprio Deus”. (Dos escritos do Pe. Amedeo Cencine)
  • 2. I Formação Para Novas Comunidades O governo dentro da Vida Consagrada Os superiores gerais são os superiores maiores e seu poder se estende sobre todas as províncias, casas e membros do instituto. Eles são designados mediante eleição canônica de acordo com as constituições e em geral seu cargo é temporário. Quem preside a eleição é o bispo da sede principal. Após a eleição a presidência passa ao superior geral eleito. Tanto os requisitos para ser eleito quanto o tempo de duração do cargo devem ser regulamentados pelas constituições. Os superiores provinciais e equiparados (governam parte do instituto comparada a uma província) são superiores maiores cujo poder se restringe sobre uma província. O cargo é temporário e poderá ser imputado por nomeação, quando se tratar de eleição será necessária aprovação do superior geral. Os superiores locais são os que possuem poder somente sobre os que pertencem a uma determinada casa do instituto. Também podem ser nomeados, ou eleitos desde que sejam aprovados pelo superior maior. Os superiores dos mosteiros ou das casas sui iuris são considerados superiores maiores e podem ser vitalícios. A eleição dos superiores dos mosteiros sui iuris tratados no c. 615, é presidida pelo bispo diocesano. Os superiores nomeados por tempo determinado não devem permanecer por tempo muito longo na função de governo sem interrupção e durante o cargo podem ser transferidos para outro ofício. Os superiores devem governar pessoalmente com espírito de serviço. Isso é requerido pelo próprio exercício da função em seu múnus pastoral de ensinar, santificar e governar. Os superiores exercem a função de ensinar e de uma verdadeira direção espiritual no que toca à interpretação do carisma do instituto. Eles exercem a função de santificação pela condução dos membros e da comunidade a um exercício cada vez mais perfeito da caridade, formando uma comunidade sempre mais fraterna em Cristo, na qual se busque e ame a Deus antes de tudo. Isso se dá ao nutrir a comunidade e cada membro com a Palavra de Deus, levando-os a vivenciar a Sagrada
  • 3. Liturgia, tornando-se exemplo de vida e de cultivo das virtudes para eles. Aos superiores cabe a função de governo da comunidade, ordenando-lhe a vida, repartindo no grupo as funções, coordenando as atividades apostólicas dos membros e da comunidade, mantendo vivas as relações com a autoridade eclesiástica, e fazendo tudo isso em clima respeitoso, fraternal e solidário. Um governo espiritual só é possível e eficaz quando entre superiores e súditos constroem-se laços espirituais edificados na verdadeira liberdade e na confiança; é por essa via que os súditos devem se sentir livres e confiantes para manifestar abertura de espírito. O Código salvaguarda o âmbito da consciência dos súditos de forma que não sejam constrangidos a manifestar sua própria consciência, tutela-os no que diz respeito também ao sacramento da penitência e à direção de consciência, pois a competência do superior se restringe aos atos externos, à ordem e à disciplina. É proibido aos superiores ouvir as confissões dos próprios súditos, a não ser que estes o peçam expressamente, justamente para evitar a confusão entre o foro interno sacramental e o foro externo e assim proteger a liberdade do superior em seus atos de governo. É através da visita canônica que os superiores maiores e seus súditos têm a relação interpessoal espiritual. Ninguém deve operar para impedir essa visita ou trabalhar de alguma forma para que ela não alcance o seu objetivo. Ao bispo diocesano é assegurado o direito e o dever dessa visita aos mosteiros sui iuris, de que trata o c. 615 e cada casa do instituto de direito diocesano estabelecida em seu território, neste último caso sem prejuízo ou substituição da visita a que estão obrigados os superiores do instituto. Nos casos expressamente previstos pelo direito, o bispo diocesano pode também visitar as casas e os membros de direito pontifício. O Código não admite um governo ordinário colegial em nenhum nível. O superior deve ser pessoalmente responsável, por aquilo que decide e ordena, diante de Deus, de seus superiores maiores e de seus súditos. Contudo, pode e deve contar com os organismos de participação ou de consulta (assembléias, consultas, conselhos). Para os membros de um instituto, a participação nesses organismos não é apenas um direito, mas também um dever. Esses organismos têm as funções regulamentadas de modo geral pelo direito universal, mas de maneira específica pelo direito próprio e deve por eles orientar a sua ação. Todo superior deve contar com o órgão chamado conselho (c. 627), pois as constituições estabelecem os casos em que o parecer ou o consentimento do conselho são obrigatórios para se proceder validamente. O direito próprio pode determinar a obrigatoriedade de o conselho emitir consentimento onde o direito universal apenas exige o parecer; mas o inverso não é lícito. Quando o conselho deve dar seu consentimento, o superior não vota, a fim de não caracterizar voto deliberativo e configurar um governo ordinário colegial.
  • 4. Quando o estabelecido é que o conselho emita o parecer, o superior deve convocá-lo sob pena de ver o seu ato nulo caso não o faça. Contudo, o superior não está obrigado a decidir segundo o parecer do conselho, embora seja aconselhável considerá-lo. É aconselhável que decisões referentes a pessoas contem apenas com o parecer do conselho e não com o consentimento, garantindo ao superior uma maior liberdade para agir com base no conhecimento adquirido em virtude de seu cargo. Quando a exigência é o consentimento, o conselho deve ser convocado e o consentimento deve ser obtido por maioria absoluta. Há um único caso previsto em que se admite decisão colegial (c. 699), é quando se forma uma espécie de tribunal que emite voto secreto. Em outras situações para decisões conjuntas têm se a denominação votos em conjunto (votos do superior mais os votos de outros – conselheiros ou outros indivíduos). Entre os órgãos de governo se encontra o capítulo geral como órgão supremo de governo colegial, pois representa todo o instituto e desempenha as funções de tutelar o patrimônio do instituto, promover a renovação do instituto segundo o carisma próprio, eleger o moderador supremo, tratar dos assuntos de maior importância, emanar normas para todo o instituto. O capítulo geral pode ser de diversos tipos: ordinário, extraordinário, de negócios, eletivo. São as constituições que determinam a sua composição, mas sempre a zelar para que seja representativo do todo do instituto. Elas também determinam o âmbito do seu poder, pois este não é ilimitado. A celebração do capítulo deve ser regulamentada segundo direito próprio. Apenas os membros plenamente incorporados ao instituto possuem voto deliberativo. O capítulo provincial é o órgão colegial que representa toda a província, e o direito próprio é que estabelece a sua natureza, autoridade, composição, modo de proceder, o tempo da celebração do capítulo ou de assembléias semelhantes. Ela absorve o capítulo vice-provincial e o capítulo regional que não realizam um capítulo próprio mas se fazem representar no provincial através de delegados. Em geral desempenha uma tríplice função: eletiva (eleger o superior provincial e os delegados ao capítulo geral); deliberativa (sobre os postulados a serem enviados ao capítulo geral); informativa (órgão privilegiado de consulta para o superior geral quanto ao estado das casas e da província). O capítulo local é mais uma expressão da vida fraterna da comunidade do que um órgão de com poder de decisão, tem caráter consultivo, e quando existe é também regulado por direito próprio. O Código reconhece a autonomia de vida e de governo dos institutos em conexão com o poder público de governo na Igreja, enquanto exercido em sociedades públicas, e identifica a origem e natureza do poder dos superiores e dos capítulos: ele emana do Espírito Santo em conexão com a hierarquia que erigiu canonicamente o instituto e autenticamente aprovou sua missão específica e é conferido, em última análise, pelo próprio direito universal e das constituições
  • 5. através dos superiores que remontam ao Romano Pontífice sendo assim poder que receberam de Deus mediante o ministério da Igreja. A amplitude da autonomia e do poder de um instituto depende de seu carisma particular e da sua posição na Igreja. Aqui mencionamos os institutos religiosos laicais, institutos clericais de direito diocesano, institutos seculares, institutos religiosos clericais de direito pontifício, institutos mistos, institutos religiosos de irmãos, institutos isentos. Com o fim de uma maior colaboração com a Igreja e com as conferências episcopais, os superiores maiores desses institutos podem se reunir em Conferências ou Conselhos desde que as mesmas tenham estatuto próprio aprovado pela Santa Sé que os erige como pessoa jurídica, e sob cuja direção permanece. Canon 708: “Os Superiores maiores podem utilmente associar-se em conferências ou conselhos, a fim de que, unindo as forças, trabalhem para mais plenamente conseguirem a finalidade de cada instituto, ressalvando sempre sua autonomia, índole e espírito próprio, para tratarem de questões comuns e estabelecerem a conveniente coordenação e cooperação com as conferências dos Bispos e também com cada Bispo em particular. Verinha I Formação Para Novas Comunidades Tipologia da Vida Consagrada A primeira forma de consagração na Igreja foi a das virgens e dos ascetas, por meio da continência, da renúncia aos bens, da oração e da penitência. O monaquismo como modo de vida através da separação do mundo da pobreza, da continência, da mortificação e da penitência e da contemplação das coisas divinas, surge no século III no Oriente e no século IV no Ocidente e apresenta duas formas: a primeira eremítica ou anacoreta (total solidão) e depois cenobítica (vida comum sob o regime de uma regra). Na sua origem, a vida monástica era mais laical e cada mosteiro era plenamente independente, a partir do século IX começam a reunir-se em congregações. Surge também nesse século os cônegos que levavam vida comum sob a regra de S. Crodegango e no século XI
  • 6. então, os cônegos regulares com a vida comum e a profissão de pobreza ligados as igrejas catedrais colegiadas. As ordens mendicantes surgem a partir do século XIII na luta contra as seitas heréticas e a decadência dos costumes da Igreja, tendo como pioneiros os Dominicanos ou Pregadores, que influenciam, sob o ponto de vista institucional, os Franciscanos e os Carmelitas. Essas ordens têm como características específicas: a vida fraterna, a observância rigorosa da pobreza em comum, a união entre as antigas observâncias monásticas e a vida apostólica, a combinação entre sistema de governo pessoal e capitular em vários níveis. É a partir desse tempo que surge a praxe de emitir três votos: pobreza, obediência e castidade. No século XVI, surgem então, em reação à Reforma protestante, os clérigos regulares, que unem o ministério sacerdotal à profissão religiosa, abandonando a observância monástica e assumindo uma forma de governo centralizada e dinâmica. A partir de então, todos os institutos aprovados na Igreja com voto solene, passam a ser chamados de “ordens”. Surge, no mesmo período, as sociedades de clérigos e leigos, homens e mulheres, que não emitiam votos, ou faziam votos não reconhecidos pela Igreja e foram, depois, chamados de congregações. Desde o inicio a vida monástica foi tanto masculina como feminina. As ordens mendicantes, por exemplo, tiveram uma segunda ordem feminina com uma regra própria. Assim, a 2 de fevereiro de 1947 Pio XII, com a Constituição Apostólica Provida Mater, aprovou os institutos seculares como nova forma de vida consagrada. Verinha I Formação Para Novas Comunidades Obedecer - sinal de maturidade e crescimento! Cânon 601: “O Conselho evangélico da obediência, assumido com espírito de fé e amor no seguimento de Cristo obediente até à morte, obriga à submissão da vontade aos legítimos
  • 7. Superiores, que fazem as vezes de Deus quando ordenam de acordo com as próprias constituições”. O cânon 601, seguindo a Perfectae Caritatis n. 14, coloca a obediência numa perspectiva teologal e cristológica: a obediência é evangélica se se baseia sobre as duas virtudes teologais da fé e da caridade e constitui um seguimento de Jesus, uma assimilação a ele que se fez obediente até a morte e à morte de cruz (cf. Fl 2,8; VC 22; 23). Nessa perspectiva cristológica aparece a estreita ligação da obediência com a caridade celibatária e virginal e com a pobreza, manifestações históricas, na vida de Jesus, da eterna relação entre o Pai e o Filho no Espírito. Este cânon especifica que a obediência evangélica obriga a submeter a vontade aos superiores legítimos, como representantes de Deus, quando mandam segundo as constituições.É uma resposta ao individualismo que destrói a comunhão entre os homens. No entanto, há a obrigação de obedecer somente quando os legítimos superiores mandam de acordo com as constituições. Em caso contrário, o súdito tem a obrigação de desobedecer. Em tal obediência aos superiores encontram-se três elementos: a autoridade que o superior recebe é de Deus e, portanto, não dos membros do instituto, mesmo se fosse eleito por eles, nem do próprio voto de obediência que fazem os súditos (cf. c. 618); o exercício legítimo da autoridade (cf. c. 596; 617); o voto feito a Deus, com o qual os súditos reforçam sua submissão ao superior, submissão a qual, todavia, são obrigados, independentemente dos votos, pelo fato mesmo de que participam do carisma coletivo do instituto em virtude da incorporação nele (cf. c. 654). Também no que se refere à obediência, o código estabelece um mínimo canônico, ultrapassado o qual não se pode mais permanecer na vida consagrada (cf. cc. 590; 671; 678; 682; 696; 738; 739; 746). Salvas essas disposições gerais do Código, o direito próprio dever dar uma disciplina particular, de acordo com a natureza e as finalidades do instituto (cf. cc. 598; 662; 712; 732). I Formação Para Novas Comunidades “ Bem aventurados os pobres de espirito”
  • 8. Cânon 600: “O Conselho evangélico da pobreza, à imitação de Cristo, que sendo rico se fez pobre por nós, além de uma vida pobre na realidade e no espírito, a ser vivida laboriosamente na sobriedade e alheia às riquezas terrenas, implica a dependência e a limitação no uso e na disposição dos bens, de acordo com o direito próprio de cada instituto”. O cânon 600, tendo como fonte a Perfectae Caritatis, n. 13a, coloca o preceito evangélico da pobreza na perspectiva da imitação de Cristo, que de rico que era se fez pobre por nós(cf. 2Cor 8,9; Fl 2, 6-11). Essa imitação de Cristo, que leva à participação da pobreza de Cristo, fonte da riqueza da redenção(cf. VC 90) é expressão do dom total de si mesmas que as três pessoas divinas reciprocamente se fazem(cf. VC 21; 22;). Não se trata de uma pobreza de tipo sociológico, somente como falta de bens materiais, mas da pobreza evangélica, isto é, escolhida livremente pelo Reino dos céus, que, conforme indicado no cânon 601, comporta uma vida pobre de fato e de espírito que deve ser levada em operosa sobriedade, que não se renda às riquezas terrenas. A pobreza espiritual, como reconhecimento de Deus doador de todo bem, é a base da pobreza material. A pobreza de fato, citada no cânon 600, comporta, por isso, a sujeição à lei do trabalho, comum a todos os homens e a sobriedade no uso dos bens materiais estranha qualquer cessão diante das riquezas terrenas. Isso se concretiza numa real limitação no uso e na disposição dos bens e, portanto, numa dependência dos superiores, segundo o direito próprio de cada instituto. O religioso que violar repentinamente o voto, ou outro vínculo sagrado, de pobreza pode ser demitido de acordo com a norma contida no cânon 696, § 1, segundo o procedimento estabelecido nos cc. 697-700, com os efeitos estabelecidos pelos cânones 701 e 702. Os institutos seculares se regulam de acordo com o que é definido nas constituições(cf. c. 729). As sociedades de vida apostólica citadas no c. 731, § 2 seguem, com as devidas adaptações, os cânones que se referem aos institutos de vida religiosa. (cf. c. 746)
  • 9. I Formação Para Novas Comunidades Castidade no celibato Cânon 599: “O Conselho evangélico da castidade, assumido por causa do Reino dos céus e que é sinal do mundo futuro e fonte de maior fecundidade num coração indiviso, implica a obrigação da continência perfeita no celibato”. O cânon 599 fala da obrigação da perfeita continência no celibato, mas como conteúdo do conselho evangélico da castidade assumido pelo Reino dos Céus. Põe assim, a obrigação do controle da vontade, na esfera da sexualidade. Trata-se, pois, de uma obrigação sustentada pela graça. ( cf. PC 12 a) A castidade perfeita e perpétua no celibato ou na virgindade é a integração, por obra da graça, da sexualidade num amor oblativo vivido na vida celibatária, escolhida pelo Reino dos céus. O conselho evangélico da castidade celibatária deve tender a sua plena realização na virgindade do coração, da qual a virgindade física é sinal e tutela. Se falta, por qualquer razão, a virgindade física, a castidade celibatária, no dinamismo do amor, deve igualmente tender a sua perfeição na divindade do coração, consecução daquela pureza de coração, que no aniquilamento total de si, chega à união plena com Deus. É o que se depreende do Decreto Perfectae Caritatis, n. 12c: “A virgindade física vivida na virgindade do coração indica a doação de si mesmo a Deus desde o nascimento. O conselho evangélico da castidade celibatária é, pois, sinal de vida futura e é fonte de uma mais rica fecundidade no coração indiviso. Só a virtude teologal da caridade é fonte de uma mais rica fecundidade no coração indiviso no hoje, mas na projeção da realização futura da qual a própria vida consagrada torna-se, assim, mais
  • 10. sinal(cf. VC 16, 33). Como conseqüência, os candidatos não devem ser admitidos à profissão , senão depois que tenha sido por eles alcançada uma suficiente maturidade psicológica e afetiva. Visto que a observância da castidade perfeita atinge intimamente inclinações mais profundas da natureza humana, os candidatos não se abeirem nem sejam admitidos à profissão da castidade, senão depois duma provação verdadeiramente suficiente e com a devida maturidade psicológica e afetiva. Sejam não só instruídos sobre os perigos que ameaçam a castidade, mas formem-se de tal maneira que abracem o celibato consagrado a Deus também como um bem de toda a pessoa.” No que se refere à castidade, o Código estabelece um mínimo canônico, pelo que se ultrapassa isso não se pode mais permanecer na vida consagrada (cf. cc. 694, 695, 1395). Salvas as disposições gerais do Código, o direito próprio deve dar uma disciplina particular, segundo a natureza e as finalidades do instituto. (cf. cc. 598; 692; 712; 732) I Formação Para Novas Comunidades A Vida Consagrada e os conselhos Evangélicos A vida terrena de Jesus foi uma expressão da radicalidade com que viveu os princípios e todos os preceitos da nova Lei instaurada por ele mesmo. Jesus amou até o fim, foi a fundo, no sentido que em sua morte chegou até a mais total radicalização de sua virgindade, precisamente pela totalidade e exclusividade do amor para com o Pai e para com todos os homens; de sua pobreza, pois privou-se de todo apoio humano e experimentou o sentido do abandono humano; da obediência, por ter comprido tudo segundo o desígnio do Pai, superando qualquer tentação ou desejo de realização humana. Para todos os batizados, conforme as diversas condições de vida há uma exigência legal de pobreza, mas não até o ponto de desfazer-se de todo bem terreno; de castidade, mas não até a renúncia do matrimônio; de obediência, mas não até o ponto de privar-se da própria vontade em relação àqueles que representam a Deus. Na vida consagrada, os preceitos e os valores evangélicos válidos para todos devem ser vividos, na inserção mais profunda do mistério da cruz do Senhor e de sua ressurreição, como um seguimento de Jesus mais
  • 11. de perto e mais radical. A vida consagrada é, no plano pessoal, uma antecipação da perfeição escatológica e, no plano eclesial, um sinal dessa perfeição, mesmo consciente de que a consagração do cristão será plenamente concretizada somente na ressurreição final. No decreto Perfectae Caritatis, n. 26, isso é bem latente: “Dado que hoje as preocupações apostólicas se fazem sentir sempre com maior urgência e o empenhamento nas coisas deste mundo corre o risco de ser cada vez mais absorvente, torna-se particularmente oportuno chamar a atenção para a natureza escatológica da vida consagrada.” I Formação Para Novas Comunidades A Vida Consagrada em geral 1. A consagração pela profissão dos conselhos evangélicos Sob o aspecto teológico, a consagração de Cristo é o referencial, o modelo, o parâmetro para a compreensão da consagração pela profissão dos conselhos evangélicos. Entretanto, sob a base de uma especial vocação e em virtude de um peculiar dom do Espírito, a pessoa participa dessa consagração por um título novo e especial. A vida consagrada em si não é de natureza clerical nem laical. Essa consagração, por parte de Deus, que toca as raízes do ser, acontece sob um dúplice aspecto: pelo carisma próprio e pela graça concedida para cumprir a própria vocação e exercer corretamente o carisma recebido. É Deus, que atraindo a pessoa para si, a consagra a ele, para que ela, pelo dom total, consagre-se a ele assumindo como norma de vida estável a profissão dos conselhos evangélicos (cf. cc. 573; 710; 731). Cânon 573: § 1. “A vida consagrada pela profissão dos conselhos evangélicos é uma forma estável de viver, pela qual os fiéis, seguindo mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, consagram-se totalmente a Deus sumamente amado, para assim, dedicados por
  • 12. título novo e especial a sua honra, à construção da Igreja e à salvação do mundo, alcançarem a perfeição da caridade no serviço do Reino de Deus e, transformados em sinal preclaro na Igreja, preanunciarem a glória celeste”. Essa vida fundamenta-se na comunhão filial com Deus e fraterna com Cristo de maneira a atuar e expressar uma densidade e uma totalidade que lhe é própria. Tal consagração se baseia na globalidade do Evangelho e da vida de Jesus. Não se trata de uma simples imitação de Jesus, mas sim de assumir um “ser”, do qual procede um “fazer”, para aproximar-se cada vez mais do ser e do fazer de Jesus(cf. VC 16-20, 72). Cristo e os Conselhos Evangélicos Comunidades Novas e RCC 10-02-2004 A- A+ Os conselhos evangélicos têm sua origem divina, mais exatamente, cristológica, pois estão fundamentados nas palavras e exemplos do Senhor. Tem sua origem divina na doutrina e nos exemplos de Jesus, isto quer dizer, que se fundam em sua vida, em toda sua vida. A vida e a doutrina de Jesus estão na base de toda forma de vida cristã, e de maneira especial, na base da vida consagrada. Quando se fala na vida de Jesus, não se refere aos seus aspectos, mas às suas dimensões. Como foi a vida de Jesus? Jesus é o Homem inteiramente livre e inteiramente para os outros. Ele viveu inteiramente para o Pai e para os irmãos. Sua vida consiste em desviver-se. Não se pertence a si mesmo. É, existe e vive para Deus e para os homens. E a virgindade- pobreza-obediência, foram a expressão objetiva desta plena e definitiva autodoação. Por isso a vida de Jesus não foi simples existência, mas uma proexistência. Seu existir foi proexistir, existir em favor dos outros, dando tudo e a si mesmo. Então os conselhos evangélicos não podem ser entendidos como aspectos, mas como dimensões constitutivas da vida de Jesus. Para nós, também os conselhos evangélicos não são aspectos, mas dimensões constitutivas de nossa vida. Porque o consagrado " imita mais estreitamente e re-apresenta perenemente na igreja o gênero de vida que o Filho de Deus assumiu quando veio a este mundo para cumprir a vontade do Pai, e que propôs aos discípulos que o seguiam".(Concílio) Afirmar a origem divina-cristológica dos conselhos evangélicos é afirmar a sua existência, mas também sua inviólavel perdurabilidade na igreja, já que se trata de "bem irrenunciável, sobre o qual a igreja não tem poder de vida ou morte. A Igreja o recebe como se recebe um dom, e o guarda com fidelidade, porque eles não são de origem eclesiástica, mas cristológica. Os conselhos evangélicos expressam, a doação total e irrevogável de Cristo à Igreja, e a doação total da igreja a Cristo.(nós não podemos extinguir os mesmos). A hierarquia da igreja tem a missão de interpretá-las, regular sua prática e também de organizar formas estáveis de vivê-los. Por causa da origem cristológica, o consagrado vive não simplesmente a castidade, mas a castidade de Cristo; não é a pobreza, mas a pobreza de Cristo, tampouco é a obediência, mas a obediência de Cristo. Existem outras formas de pobreza, castidade e obediência, mas nenhuma delas nos interessa, somente a que Cristo viveu. (não é aos nossos moldes). Se nós nos desviarmos, ou nos descuidarmos da origem e dimensão cristológicas dos conselhos evangélicos, nós os tornaremos ininteligíveis, esvaziados de sentido, perdendo sua maior riqueza
  • 13. teológica. Nós não podemos desvinculá-los da pessoa de Cristo, de sua vida e doutrina. Deste modo e por essa razão, os conselhos evangélicos se converteram em simples meios ascéticos, em vez de ser atitudes e dimensões essencialmente evangélicas e cristológicas. Portanto, para compreendermos verdadeiramente os conselhos evangélicos é necessário voltar decididamente à pessoa de Jesus virgem-pobre-obediente com sua vida e sua doutrina, com o chamado ao seu seguimento e com seu mistério de Kénosis; em relação com a Igreja, com sua vida, com sua santidade, com sua dimensão carismática e escatológica e com sua missão evangelizadora; em relação com o Reino de Deus, com sua valiosidade absoluta, com suas exigências supremas e com seu estabelecimento neste mundo, como inauguração da vida celeste ( Jesus foi casto-obediente e pobre para isto). Sentido em Jesus Cristo A virgindade, a pobreza e obediência, constituem as três dimensões mais profundas do viver humano de Cristo. Não foram alguma coisa de secundário ou marginal em sua existência, mas algo constitutivo de seu modo histórico de ser e de viver para os outros. O que significaram na vida-missão de Jesus esses três conselhos evangélicos? Amor total demonstrado - isso significa que os conselhos eram para Jesus um meio, uma forma dele demonstrar o seu amor, provar o seu amor total a Deus e aos homens. Uma prova autêntica profunda de amor. Como provar o meu amor a ti, como tu irás reconhecer que o meu amor é sincero e é tão sincero que vou ser pobre-obediente-casto. E não como meios para conseguir o amor perfeito, mas como expressão desse amor perfeito. Não para tornar possível o amor, mais para tornar visível o amor. Para demonstrar o máximo amor ao Pai e aos irmãos. Cristo teria amado com o mesmo amor total ao Pai e aos homens, se tivesse vivido de outra maneira, sem o mínimo perigo para sua liberdade ou para deixar-se levar para o egoísmo. Porém não nos teria feito ver com a mesma claridade e evidência esse amor e essa liberdade. Fazer ver com argumentos, dar provas convincentes. A virgindade-pobreza-obediência de Jesus foram grito essencial de amor e testemunho irrefutável de liberdade. Quanto mais encarnarmos a pobreza-obediência-castidade mais demonstramos nosso amor a Deus e mais somos livres para amá-lo. Nada nos prende, nem nos domina. Quando tomamos posse de algo ou de alguém é porque estamos dominados por esse algo ou alguém. Devemos também através desses conselhos provar o nosso amor a Deus e aos homens, a nossa doação de nós mesmos sem reservas. Doação total de si mesmo (como Jesus muito amava ao Pai ele doa a si mesmo). O amor manifesta-se sempre como dom. Não há amor se não há dom. Amor total - dom total - dom de si mesmo. Amar é dar-se! Jesus não se pertence e não vive para si. Por isso vive inteiramente para os outros, para Deus e para os homens, isto é, para o Reino. Literalmente ele "desvive-se". Jesus pôs-se a serviço dos outros - do Pai e dos irmãos - tudo o que era e o que tinha: Filiação, experiência com Deus, doutrina, tempo, própria vida. Porque viveu inteiramente como Filho do Pai, pode viver inteiramente como irmão de todos os homens. Vivência antecipada do sacrifício da sua morte Os conselhos eram para Jesus, parte integrante de sua Kénosis, do mistério de seu aniquilamento que culminou na morte de cruz. A Kénosis que Jesus vive não era mera renúncia, nem puro esvaziamento, mas auto-doação por amor. Cristo ofereceu-se a si mesmo e não sangue de animais. E esse sacrifício durou toda a sua vida. A morte é a total oferta do nosso ser a Deus: o grão de trigo precisa morrer para nascer de novo. Através dos conselhos evangélicos vivenciamos antecipadamente a cada dia a nossa morte, o nosso aniquilamento, que culminará em nossa morte (humildade - viver a nossa verdade). Cristo não pode deixar de ser Deus, não pode renunciar ao seu ser divino, porém renunciou a sua condição divina gloriosa, isto é, renunciou a manifestar de modo habitual em sua humanidade a glória que lhe correspondia em virtude de sua divindade. Não fez valer seus direitos. Despojou-se de sua nobreza. Sendo Senhor e Rei, apresentou-se como servo e escravo. Inauguração de "modo celeste de vida" A vida da graça nos faz viver desde esta vida a glória do céu. A vida da graça é a vida eterna.
  • 14. Também foram, os conselhos evangélicos, em Cristo, antecipação de sua ressurreição gloriosa, prefiguração da nossa e inauguração neste mundo da vida celeste. Através dos conselhos evangélicos, Cristo tornou já presente, nesta etapa terrena do Reino os bens definitivos e as atitudes essenciais do Reino consumado. Pela pobreza-obediência e castidade, Cristo adiantou, aqui e agora, a condição essencial da vida celeste, estabelecendo um tipo de relações, divinas e humanas, válidas para outra vida. Viveremos aqui o que viveremos no céu. A vida na terra deve ser uma preparação e antecipação da vida que vamos viver no céu. Os conselhos nos fazem viver e ser aqui na terra o que viveremos e seremos no céu. O que são e o que devem significar em nós os conselhos evangélicos? Aquilo mesmo que eles foram em Cristo e ter a mesma significação que tiveram nele. Do contrário seria necessário a condição evangélica da vida consagrada. Se a vida consagrada é em sua própria essência seguimento e imitação radical de Jesus Cristo virgem-pobre-obediente. Os conselhos evangélicos na vida consagrada são afirmação clara da primazia absoluta do Reino, presença no mundo dos bens definitivos, prefiguração e experiência da vida eterna e da ressurreição gloriosa. Devemos então, viver os conselhos evangélicos com o mesmo sentido que Cristo viveu, porém para nós, homens pecadores, precisamos acrescentar uma afirmação complementar: os conselhos evangélicos devem se tornar meios removedores de obstáculos, em mortificação das raízes de pecado-de cobiça, de egoísmo, de soberba (as concupiscências) que existem em nós, inclusive depois do batismo, e que um dia podem se transformar em frutos de pecado. São pedagogia para o amor, além de ser constitutivamente amor. Porque a amar se aprende amando. E esta é uma significação que em Cristo não tiveram. Para nós assume também o caráter ascético, mas não para aí, porque seria privá-las de todo o seu sentido cristológico e, consequentemente esvaziá-los de seu conteúdo melhor. Deixariam então, de ser realidades e atitudes evangélicas, para ser simplesmente costumes ascéticos ou meios humanos de purificação. A Castidade: Prometer viver a castidade, significa imediatamente amar ao Pai e a todos os homens com o mesmo amor total, divino e humano de Cristo, que cria uma fraternidade universal com um tipo de relaçao interpessoal que continuará sendo válidas na outra vida, a fim de transcender toda mediação fundada nos sentidos (prazer pelo prazer). A castidade vem de encontro a concupiscência do prazer, vem dar ao prazer o seu verdadeiro significado. Celibatário (virgindade consagrada) - vive essa dimensão acrescida da renúncia ao matrimônio e ao exercício da sexualidade como conseqüência lógica desse amor imediato, total para viver inteiramente para o Reino. Evitando toda polarização e toda imediação no amor. A castidade esponsal da Igreja na vida consagrada A igreja por si é realmente virgem como Cristo, porque é esposa de Cristo: "Desposei-vos a um único Esposo para vos apresentar a Cristo como virgem pura. (2 Cor. 11,2s) Quando Jesus comunica seu Espírito à Igreja, comunica-lhe a sua virgindade. Virgindade cristã não significa, então, renúncia ao matrimônio, mas acolhida total do Espírito de Cristo; a renúncia ao matrimônio pode ser um modo significativo de manifestar esta acolhida do Espírito. Santo Agostinho diz: "Criou a Igreja virgem e por isso é virgem. Na carne há somente virgens consagradas; na fé todos devem ser virgens, homens e mulheres... Virgem é, pois, a Igreja: é virgem, seja virgem!" Portanto, precisamos cada vez mais entregar nossos sentidos a Deus: o nosso olhar, o nosso gosto, o nosso cheiro, o nosso ouvir, o nosso falar, o nosso tocar, o nosso sentir. A pobreza: O Pai é a nossa única riqueza A pobreza de Cristo foi, em face ao Pai, confiança absoluta, que ele expressou numa renúncia explícita a todo outro apoio, para afirmar decididamente que se apoiava somente nele, e proclamar a relatividade de todo o criado diante do valor absoluto do Reino. Em face aos homens foi disponibilidade de tudo o que era e de tudo o que tinha. Em face a si
  • 15. mesmo, a pobreza foi parte integrante de seu ministério de aniquilamento. Em face dos bens desse mundo liberdade soberana. Prometer viver na pobreza (fraternidade, unidade), pobreza quer dizer, empenhar-se em confiar infinitamente em Deus, apoiando-se unicamente nele, viver decididamente, para os outros, compartilhando tudo o que se é e tudo o que se tem com os irmãos, não pertencer-se para pertencer a todos, e manter diante de todas as coisas plena liberdade e independência ativa. É portanto, um meio de se vencer a concupiscência do possuir, que atinge uma dimensão muito maior do que somente ajuntar tesouros na terra. A Obediência: O desafio da liberdade na obediência A obediência em Cristo foi submissão filial plena e amorosa ao querer do Pai. Foi estado e atitude de perfeita docilidade, ativa e responsável à vontade do Pai. Foi saber-se centro do plano salvífico de Deus, aceitá-lo incondicionalmente com todas as suas consequências. Fazer voto de obediência significa comprometer-se diante de Deus e diante dos irmãos a viver em atitude de total docilidade à vontade amorosa do Pai e a acolhê-la filialmente como critério único de vida, sejam quais forem as mediações humanas ou sinais que manifestam essa vontade. Se estivermos atentos a vontade de Deus não esperaremos que as nossas autoridades a revele para nós e nem resistiremos aos absurdos ou mesmo aquilo que para nós é muito difícil. Nós mesmos exporemos a vontade de Deus para elas e as ajudaremos a descobrir conosco o que Deus tem para nós. Contribuiremos positivamente no caminho de Deus para as nossas vidas. Para vivermos a obediência não podemos assumir uma atitude passiva ou muito menos uma atitude de nos esconder da vontade de Deus e nos colocarmos indispostos, resistentes, a ela, mas uma atitude de descoberta, uma disposição interior, uma determinação de descoberta para vivê- la. Como nós não queremos vivê-la nem queremos descobrí-la. O conhecimento da vontade de Deus nos leva a responsabilidade e não temos como nos abster de cumprí-la. Os grandes desafios da vida consagrada A missão profética da vida consagrada vê-se provocada por três desafios principais, lançados à própria Igreja e esses desafios tocam diretamente os conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência, estimulando a Igreja, e de modo particular as pessoas consagradas, a pôr em evidência e testemunhar o seu significado antropológico profundo. Na verdade, a opção por esses conselhos, longe de constituir um empobrecimento de valores autenticamente humanas, revela-se antes como uma transfiguração dos mesmos. Os conselhos evangélicos não devem ser considerados como uma negação dos valores inerentes à sexualidade, ao legítimo desejo de usufruir de bens materiais, e de decidir autonomamente sobre si próprio. Essas inclinações, enquanto fundadas na natureza, são boas em si mesmas, mas a criatura humana, enfraquecida como está pelo pecado original, corre o risco da as exercitar de modo transgressivo. A profissão de castidade, pobreza e obediência, torna-se uma admoestação a que não se subestimem as feridas causadas pelo pecado original, e, embora afirmando o valor dos bens criados, relativiza-os pelo simples fato de apontar Deus como o bem absoluto.