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Araçatuba, domingo, 28 de agosto de 2011
C4                                                                  >>Vida




         Adeus a Bruno Zago
         ogo na chegada ao portão,
                                                                                                                                                                              Valdivo Pereira/Folha da Região - 30/01/2008
                                                                                                                                                                                                                             um estudioso de violino, pesquisa-

L        quem olha pelo vão da gra-
         de já sente o clima de arte
no ar. Os moldes de instrumentos
                                                                                                                                                                                                                             va modelos, a história da música
                                                                                                                                                                                                                             e da fabricação de instrumentos e
                                                                                                                                                                                                                             começou a confeccionar. Com o
musicais pendurados na parede da                                                                                                                                                                                             tempo, foi se aperfeiçoando", afir-
varanda denunciam: ali mora um                                                                                                                                        PERDA Bruno Zago                                       ma, destacando que Zago era fasci-
artista. O alpendre, transformado                                                                                                                                    em sua oficina, em foto                                 nado pelo instrumento.
em oficina, hoje está vazio, triste,                                                                                                                                    tirada em janeiro de                                       Normanha, que hoje mora
de luto. Seu personagem principal                                                                                                                                     2008; no detalhe, os mol-                              em Água Clara (MS), fez questão
foi para outras paragens após ser ví-                                                                                                                                   des de instrumentos                                  de dar adeus ao amigo querido.
tima de uma pneumonia que o le-                                                                                                                                      pendurados na varanda da                                Os dois tocaram juntos na Camera-
vou desta vida aos 88 anos, na se-                                                                                                                                     casa onde ele morava                                  ta de Violinos de Araçatuba. "Ele
mana passada. Ele é Bruno Zago,                                                                                                                                                                                              era sempre alegre, gostava de colo-
tabapuanense de nascimento (ele é                                                                                                                                                                                            car apelido nos outros", relembra.
de Tabapuã, região de Catanduva)                                                                                                                                                                                                   O médico Satoru Okida,
e araçatubense de coração.                                                                                                                                                                                                   também violinista, possui um
      Um violinista apaixonado pe-                                                                                                                                                                                           violino feito por Zago. O instru-
la música que, de tanto observar,                                                                                                                                                                                            mento foi criado para estudo,
estudar, fuçar e pesquisar, de tan-                                                                                                                                                                                          por isso tem o som baixo para
to mexer no violino, consertar                                                                                                                                                                                               não incomodar ninguém e é cha-
aqui, colar ali, restaurar acolá, tor-                                                                                                                                                                                       mado de violino surdo. "É uma
nou-se um mestre na arte da fabri-                                                                                                                                                                                           verdadeira obra de arte esta pe-
cação de instrumentos de cordas.                                                                                                                                                                                             ça", define Marcelo Zago.
Em francês, um luthier. Em portu-                                                                                                                                                                                                  O engenheiro e violinista
guês, um alaudeiro (em referência                                                                                                                                                                                            Sérgio Abujamra conta que Zago
ao alaúde, instrumento de cordas                                                                                                                                                                                             cuidou de seus violinos durante
de origem árabe).                                                                                                                                                                                                            20 anos. "Ele amava sua profis-
      Zago veio ao mundo no dia                                                                                                                                                                                              são e era o exemplo de bonda-
20 de maio de 1923, em uma famí-                                                                                                                                                                                             de", afirma o amigo, que conhe-
lia de imigrantes italianos. Os pais,                                                                                                                                                                                        ceu o músico e luthier em apre-
Luiz Zago e Clementina Bertoni Za-                                                                                                                                                                                           sentações musicais.
go, vieram de Cremona, região da
Lombardia, nos primeiros anos do                                                                                                                                                                                                  ÚLTIMOS DIAS
século passado. Vieram para traba-                                                                                                                                                                                                 O mestre Zago passou os últi-
lhar como colonos em proprieda-                                                                                                                                                                                              mos dias de sua vida viajando (fi-
des rurais. Coincidência ou não,                                                                                                                                                                                             cou 10 dias em São Paulo na casa
Cremona é famosa por ser a terra         fez aulas com o maestro José Raab,       ma (Associação Livre dos Músicos        lo, e assim foi aperfeiçoando-se.      de detalhes, o que exige muita                              dos filhos) e trabalhando. Retornou
do célebre luthier italiano Antonio      no Conservatório Musical Santa Ce-       de Araçatuba) e pretendem se profis-    Começou a confeccionar violino e       concentração e persistência, pois                           da capital paulista na quinta-feira e
Giacomo Stradivari, mais conheci-        cília, e também com o professor          sionalizar no futuro.                   depois ampliou a produção para         o instrumento é inteiro feito à                             trabalhou no Cemfica (Centro Mu-
do pelo nome em latim, Antonius          Célio Novaes. Fez cursos no Conser-             Como músico, Zago integrou       viola, violoncelo e contrabaixo.       mão. O mesmo vale para o contra-                            nicipal de Formação Integral da
Stradivarius, e também por seus          vatório Imirim, em São Paulo, e          a Banda Municipal de Guararapes,              O primeiro violino saiu meio     baixo, viola e violoncelo. Um violi-                        Criança e do Adolescente) do Alvo-
violinos e instrumentos de corda.        com outros professores da capital        onde morou. Em 1968, mudou-se           torto, como ele mesmo definiu em       no custa, em média, R$ 2,5 mil,                             rada, onde dava aulas para garotos
      O pai, Luiz, era marceneiro        paulista. Em casa, estudava religiosa-   para Araçatuba, onde passou a fa-       entrevista à Folha da Região reali-    mas o preço varia de acordo com                             carentes. Ensinava a eles a arte da
e ensinou a arte ao filho, que in-       mente entre duas e três horas por        zer parte da Banda Municipal, a         zada em 2008. O filho Marcelo con-     a nobreza do som. Por isso alguns                           luthieria junto com o filho Marcelo.
gressou ainda menino no mundo            dia, sem falhar. Mesmo aos sábados,      Furiosa - tocava um instrumento         ta que o pai considerava o "número     custam muito dinheiro e outros                              O projeto, em parceria com a Prefei-
dos trabalhos artesanais e artísti-      domingos e feriados lá estava Zago       de sopro, o baixo tuba. Na capital      um" mais um objeto de decoração        não têm valor.                                              tura via Secretaria Municipal de
cos. Nesta época, apaixonou-se           com o violino e seu arco a estudar       paulista, para onde foi em seguida,     do que propriamente um instrumen-            Zago dizia que a arte do violi-                       Cultura, começou em 2010, mas
pelo violino ao ouvir alguém to-         páginas e páginas de partituras e mé-    integrou a Banda da Sorocabana.         to. "Ele não tinha todo aperfeiçoa-    no está na colocação da barra har-                          estava suspenso havia oito meses.
car o instrumento na sede da fa-         todos. No sábado (20), véspera de        Depois, retornou a Araçatuba e da-      mento, por isso o primeiro não tem     mônica, que tem como função                                 Na primeira fase, os alunos construí-
zenda onde morava com a famí-            sua internação na Santa Casa para        qui não mais saiu. Na cidade, foi       a qualidade dos demais". A peça foi    transmitir as vibrações a todo o                            ram seis violinos com a ajuda dos
lia, conta Marcelo Zago, filho de        não mais voltar, o velho músico to-      integrante da Camerata Lítero-Mu-       doada por Zago à Associação dos        corpo do violino. Fica posicionada                          professores. A retomada ocorreu es-
Bruno que segue os passos do pai         cou seu violino, apesar da dificulda-    sical, nos anos 1980.                   Músicos no ano passado.                embaixo da tampa, na posição das                            te mês, com a participação de 20
na arte da luthieria.                    de que enfrentava para respirar.                Como morava próximo à Igre-            Ao longo da vida, Zago foi       cordas. Há ainda a alma, cilindro                           alunos. Marcelo Zago diz que pre-
      Bruno Zago tinha de traba-               Esta mesma dedicação e esfor-      ja São João, gostava de ir até lá pa-   entalhador, escultor e marceneiro,     de madeira que fica dentro do cor-                          tende dar continuidade, mas depen-
lhar para ajudar no sustento da ca-      ço Bruno Zago exigia das netas Mar-      ra tocar Ave-Maria de Schubert pa-      além de luthier. Nesta última ativi-   po do violino, mais ou menos                                de do aval do município.
sa, por isso o pai o proibiu de es-      cela e Nathalia, que aprenderam a        ra Nossa Senhora na porta do San-       dade, dedicou atenção exclusiva        abaixo do lado direito do cavalete,                               Na sexta-feira, antevéspera
tudar. A paixão pelo instrumento,        tocar com o avô. "Ele tinha muita        tuário, conta a filha Angélica Zago.    nos últimos 20 anos, após se apo-      que liga, mecânica e acusticamen-                           de sua internação, Zago trabalhou
no entanto, foi maior. O jeito era       paciência para ensinar, mas era mui-     Chamava a atenção das pessoas na        sentar. Produziu um total de 100       te, o tampo superior ao inferior.                           no 65º violino que estava cons-
sair escondido dos pais para to-         to exigente. As aulas eram diárias e     rua e, tímido que era, guardava o       instrumentos (trabalhava no 101º,      Depois de colocada a alma, busca-                           truindo. Mais tarde tocou um pou-
mar aulas na cidade. Da fazenda          tinham uma hora de duração, até          instrumento e voltava para casa.        um violino, que não conseguiu          se o melhor som.                                            co e foi dormir. A mesma rotina se
até Tabapuã eram sete quilôme-           nos fins de semana", conta Marcela,             A música preferida era "Rapa-    concluir), dos quais 64 são violi-           As madeiras utilizadas na                             repetiu no dia seguinte, mas pas-
tros de cavalgada para aprender a        14 anos, que começou a estudar           ziada do Brás", eternizada na voz       nos, 11 contrabaixos, 2 violas e       confecção do violino são a grevi-                           sou mal às 18h, estava com sinto-
tocar violino.                           com o avô ainda criança, aos cinco       de Carlos Galhardo. Gostava tam-        23 violoncelos. Já vendeu para         lha (de origem australiana), pinho                          mas de gripe e Marcelo decidiu le-
      Daí em diante nunca mais pa-       anos de idade. As duas netas de Za-      bém de música clássica, tango, val-     São Paulo, Tatuí (SP), Goiânia         suíço e o pau-brasil. O arco é feito                        vá-lo ao hospital devido à dificulda-
rou de estudar. Já em Araçatuba,         go hoje integram a orquestra da Al-      sa e sambinhas. Entre os cantores       (GO), Belo Horizonte (MG), Vitó-       de crina de cavalo e o verniz foi                           de respiratória que apresentava.
                                                                                  brasileiros os prediletos eram Or-      ria (ES), Austrália, Holanda e Áfri-   inventado pelo artesão à base de                                  Ao chegar ao hospital, os
                                                                                  lando Silva, Francisco Alves, Vicen-    ca. A última encomenda, de um          goma-laca e resina de jatobá. As                            médicos constataram a gravidade
                                                                                  te Celestino e Altemar Dutra, além      músico de São Paulo, ele não con-      ferramentas também eram criadas                             do quadro e o internaram na
                                                                                  do próprio Galhardo.                    seguiu terminar.                       por Zago, que as fabricava confor-                          UTI. Foi sedado e assim permane-
                                                                                                                                                                 me sua necessidade. Uma delas,                              ceu até morrer, às 6h de terça-fei-
                                                                                       REPAROS                                 VIOLINO                           para medir o tampo do violino, foi                          ra (23). O viúvo de Alzira Morei-
                                                                                        Paralelamente aos estudos e            Um violino leva, em média,        feita com metro de marceneiro e                             ra Zago deixou 10 filhos, 24 ne-
                                                                                  execuções musicais, o curioso Za-       entre 30 e 40 dias para ser confec-    trinco de porta.                                            tos e 21 bisnetos.
                                                                                  go fazia reparos em instrumentos.       cionado, levando em conta o pri-                                                                         O violino soou triste na tarde
                                                                                  Comprava violinos quebrados para        meiro corte da madeira até a últi-          VIOLINISTAS                                            de quarta-feira, enquanto seu corpo
                                                                                  restaurar e tornava-se cada vez         ma pincelada de verniz. A arte de-          O médico e violinista Carlos                           era velado na capela Laluce. A neta
                                                                                  mais íntimo do instrumento de ma-       pende da inspiração, diz o filho       Alberto Nor manha conta que via                             Nathalia tocou para o avô junto
                                                                                  deira. E isso era ainda na longín-      Marcelo, companheiro de oficina        Bruno Zago, a quem chamava de                               com os amigos Normanha e Antô-
                                                                                  qua década de 1940. Em 1958,            do pai por 20 anos, por isso a re-     BZ, fabricar os violinos e enco-                            nio Pereira da Silva. Foi a última
                                                                                  fez um curso de luthieria com o         gra é não correr. Tudo é milimetri-    mendou o 17º instrumento fabri-                             homenagem ao músico que virou
                                                                                  professor Rafael Leone, de São Pau-     camente calculado, com precisão        cado pelo luthier. "O BZ era era                            luthier. Adeus, Bruno Zago.



                                                                                    Educação musical?

                                                                                    N      ão dá para levar a sério a lei federal que torna obrigatório o ensino de música no ensino básico e fundamental no Brasil. A
                                                                                           legislação, em vigor a partir deste mês, não exige que o professor tenha formação musical, ou seja, qualquer um pode ministrar
                                                                                    aulas de música. Alguém acredita que os alunos aprenderão realmente desta forma? Impossível não lembrar os áureos tempos em que a
                                                                                    escola, sobretudo a pública, tratava o assunto com seriedade. Em Araçatuba, por exemplo, o IE (Instituto Educacional Manoel Bento da
                                                                                    Cruz) tinha como professor o maestro José Raab. Hoje, não é preciso nem saber ler partitura para "ensinar" música nas escolas, conforme
                                                                                    prevê a lei federal sancionada ainda pelo presidente Lula. Lamentável.



                                                                                       O Filme dos Espíritos                                                                                                                                             Divulgação




                                                                                       A      temática espírita ganha cada vez mais espaço no cinema
                                                                                              nacional. Em outubro, estreia "O Filme dos Espíritos", ba-
                                                                                       seado no "Livro dos Espíritos", de Allan Kardec. Em visita a
                                                                                       Araçatuba na semana passada, André Marouço, co-diretor do lon-
                                                                                       ga, garante que o filme vai emocionar mesmo os não-espíritas. O
                                                                                       filme tem como tema central a vida de Bruno Alves, um psiquia-
                                                                                       tra que está à beira de cometer suicídio após perder a mulher e
                                                                                       o emprego e desiste depois de ter contato com o livro espírita.
                                                                                       Parte da renda da bilheteria será revertida para obras assisten-
                                                                                       ciais. No elenco, Nelson Xavier, Ana Rosa, Ênio Gonçalves, Etty
                                                                                       Fraser, Sandra Corveloni, Reinaldo Rodrigues e Luciana Gime-
                                                                                       nez, que vive uma velha senhora, mulher de um pescador.                      LONGA Cena de “O Filme dos Espíritos”, baseado em livro de Allan Kardec

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  • 1. Araçatuba, domingo, 28 de agosto de 2011 C4 >>Vida Adeus a Bruno Zago ogo na chegada ao portão, Valdivo Pereira/Folha da Região - 30/01/2008 um estudioso de violino, pesquisa- L quem olha pelo vão da gra- de já sente o clima de arte no ar. Os moldes de instrumentos va modelos, a história da música e da fabricação de instrumentos e começou a confeccionar. Com o musicais pendurados na parede da tempo, foi se aperfeiçoando", afir- varanda denunciam: ali mora um PERDA Bruno Zago ma, destacando que Zago era fasci- artista. O alpendre, transformado em sua oficina, em foto nado pelo instrumento. em oficina, hoje está vazio, triste, tirada em janeiro de Normanha, que hoje mora de luto. Seu personagem principal 2008; no detalhe, os mol- em Água Clara (MS), fez questão foi para outras paragens após ser ví- des de instrumentos de dar adeus ao amigo querido. tima de uma pneumonia que o le- pendurados na varanda da Os dois tocaram juntos na Camera- vou desta vida aos 88 anos, na se- casa onde ele morava ta de Violinos de Araçatuba. "Ele mana passada. Ele é Bruno Zago, era sempre alegre, gostava de colo- tabapuanense de nascimento (ele é car apelido nos outros", relembra. de Tabapuã, região de Catanduva) O médico Satoru Okida, e araçatubense de coração. também violinista, possui um Um violinista apaixonado pe- violino feito por Zago. O instru- la música que, de tanto observar, mento foi criado para estudo, estudar, fuçar e pesquisar, de tan- por isso tem o som baixo para to mexer no violino, consertar não incomodar ninguém e é cha- aqui, colar ali, restaurar acolá, tor- mado de violino surdo. "É uma nou-se um mestre na arte da fabri- verdadeira obra de arte esta pe- cação de instrumentos de cordas. ça", define Marcelo Zago. Em francês, um luthier. Em portu- O engenheiro e violinista guês, um alaudeiro (em referência Sérgio Abujamra conta que Zago ao alaúde, instrumento de cordas cuidou de seus violinos durante de origem árabe). 20 anos. "Ele amava sua profis- Zago veio ao mundo no dia são e era o exemplo de bonda- 20 de maio de 1923, em uma famí- de", afirma o amigo, que conhe- lia de imigrantes italianos. Os pais, ceu o músico e luthier em apre- Luiz Zago e Clementina Bertoni Za- sentações musicais. go, vieram de Cremona, região da Lombardia, nos primeiros anos do ÚLTIMOS DIAS século passado. Vieram para traba- O mestre Zago passou os últi- lhar como colonos em proprieda- mos dias de sua vida viajando (fi- des rurais. Coincidência ou não, cou 10 dias em São Paulo na casa Cremona é famosa por ser a terra fez aulas com o maestro José Raab, ma (Associação Livre dos Músicos lo, e assim foi aperfeiçoando-se. de detalhes, o que exige muita dos filhos) e trabalhando. Retornou do célebre luthier italiano Antonio no Conservatório Musical Santa Ce- de Araçatuba) e pretendem se profis- Começou a confeccionar violino e concentração e persistência, pois da capital paulista na quinta-feira e Giacomo Stradivari, mais conheci- cília, e também com o professor sionalizar no futuro. depois ampliou a produção para o instrumento é inteiro feito à trabalhou no Cemfica (Centro Mu- do pelo nome em latim, Antonius Célio Novaes. Fez cursos no Conser- Como músico, Zago integrou viola, violoncelo e contrabaixo. mão. O mesmo vale para o contra- nicipal de Formação Integral da Stradivarius, e também por seus vatório Imirim, em São Paulo, e a Banda Municipal de Guararapes, O primeiro violino saiu meio baixo, viola e violoncelo. Um violi- Criança e do Adolescente) do Alvo- violinos e instrumentos de corda. com outros professores da capital onde morou. Em 1968, mudou-se torto, como ele mesmo definiu em no custa, em média, R$ 2,5 mil, rada, onde dava aulas para garotos O pai, Luiz, era marceneiro paulista. Em casa, estudava religiosa- para Araçatuba, onde passou a fa- entrevista à Folha da Região reali- mas o preço varia de acordo com carentes. Ensinava a eles a arte da e ensinou a arte ao filho, que in- mente entre duas e três horas por zer parte da Banda Municipal, a zada em 2008. O filho Marcelo con- a nobreza do som. Por isso alguns luthieria junto com o filho Marcelo. gressou ainda menino no mundo dia, sem falhar. Mesmo aos sábados, Furiosa - tocava um instrumento ta que o pai considerava o "número custam muito dinheiro e outros O projeto, em parceria com a Prefei- dos trabalhos artesanais e artísti- domingos e feriados lá estava Zago de sopro, o baixo tuba. Na capital um" mais um objeto de decoração não têm valor. tura via Secretaria Municipal de cos. Nesta época, apaixonou-se com o violino e seu arco a estudar paulista, para onde foi em seguida, do que propriamente um instrumen- Zago dizia que a arte do violi- Cultura, começou em 2010, mas pelo violino ao ouvir alguém to- páginas e páginas de partituras e mé- integrou a Banda da Sorocabana. to. "Ele não tinha todo aperfeiçoa- no está na colocação da barra har- estava suspenso havia oito meses. car o instrumento na sede da fa- todos. No sábado (20), véspera de Depois, retornou a Araçatuba e da- mento, por isso o primeiro não tem mônica, que tem como função Na primeira fase, os alunos construí- zenda onde morava com a famí- sua internação na Santa Casa para qui não mais saiu. Na cidade, foi a qualidade dos demais". A peça foi transmitir as vibrações a todo o ram seis violinos com a ajuda dos lia, conta Marcelo Zago, filho de não mais voltar, o velho músico to- integrante da Camerata Lítero-Mu- doada por Zago à Associação dos corpo do violino. Fica posicionada professores. A retomada ocorreu es- Bruno que segue os passos do pai cou seu violino, apesar da dificulda- sical, nos anos 1980. Músicos no ano passado. embaixo da tampa, na posição das te mês, com a participação de 20 na arte da luthieria. de que enfrentava para respirar. Como morava próximo à Igre- Ao longo da vida, Zago foi cordas. Há ainda a alma, cilindro alunos. Marcelo Zago diz que pre- Bruno Zago tinha de traba- Esta mesma dedicação e esfor- ja São João, gostava de ir até lá pa- entalhador, escultor e marceneiro, de madeira que fica dentro do cor- tende dar continuidade, mas depen- lhar para ajudar no sustento da ca- ço Bruno Zago exigia das netas Mar- ra tocar Ave-Maria de Schubert pa- além de luthier. Nesta última ativi- po do violino, mais ou menos de do aval do município. sa, por isso o pai o proibiu de es- cela e Nathalia, que aprenderam a ra Nossa Senhora na porta do San- dade, dedicou atenção exclusiva abaixo do lado direito do cavalete, Na sexta-feira, antevéspera tudar. A paixão pelo instrumento, tocar com o avô. "Ele tinha muita tuário, conta a filha Angélica Zago. nos últimos 20 anos, após se apo- que liga, mecânica e acusticamen- de sua internação, Zago trabalhou no entanto, foi maior. O jeito era paciência para ensinar, mas era mui- Chamava a atenção das pessoas na sentar. Produziu um total de 100 te, o tampo superior ao inferior. no 65º violino que estava cons- sair escondido dos pais para to- to exigente. As aulas eram diárias e rua e, tímido que era, guardava o instrumentos (trabalhava no 101º, Depois de colocada a alma, busca- truindo. Mais tarde tocou um pou- mar aulas na cidade. Da fazenda tinham uma hora de duração, até instrumento e voltava para casa. um violino, que não conseguiu se o melhor som. co e foi dormir. A mesma rotina se até Tabapuã eram sete quilôme- nos fins de semana", conta Marcela, A música preferida era "Rapa- concluir), dos quais 64 são violi- As madeiras utilizadas na repetiu no dia seguinte, mas pas- tros de cavalgada para aprender a 14 anos, que começou a estudar ziada do Brás", eternizada na voz nos, 11 contrabaixos, 2 violas e confecção do violino são a grevi- sou mal às 18h, estava com sinto- tocar violino. com o avô ainda criança, aos cinco de Carlos Galhardo. Gostava tam- 23 violoncelos. Já vendeu para lha (de origem australiana), pinho mas de gripe e Marcelo decidiu le- Daí em diante nunca mais pa- anos de idade. As duas netas de Za- bém de música clássica, tango, val- São Paulo, Tatuí (SP), Goiânia suíço e o pau-brasil. O arco é feito vá-lo ao hospital devido à dificulda- rou de estudar. Já em Araçatuba, go hoje integram a orquestra da Al- sa e sambinhas. Entre os cantores (GO), Belo Horizonte (MG), Vitó- de crina de cavalo e o verniz foi de respiratória que apresentava. brasileiros os prediletos eram Or- ria (ES), Austrália, Holanda e Áfri- inventado pelo artesão à base de Ao chegar ao hospital, os lando Silva, Francisco Alves, Vicen- ca. A última encomenda, de um goma-laca e resina de jatobá. As médicos constataram a gravidade te Celestino e Altemar Dutra, além músico de São Paulo, ele não con- ferramentas também eram criadas do quadro e o internaram na do próprio Galhardo. seguiu terminar. por Zago, que as fabricava confor- UTI. Foi sedado e assim permane- me sua necessidade. Uma delas, ceu até morrer, às 6h de terça-fei- REPAROS VIOLINO para medir o tampo do violino, foi ra (23). O viúvo de Alzira Morei- Paralelamente aos estudos e Um violino leva, em média, feita com metro de marceneiro e ra Zago deixou 10 filhos, 24 ne- execuções musicais, o curioso Za- entre 30 e 40 dias para ser confec- trinco de porta. tos e 21 bisnetos. go fazia reparos em instrumentos. cionado, levando em conta o pri- O violino soou triste na tarde Comprava violinos quebrados para meiro corte da madeira até a últi- VIOLINISTAS de quarta-feira, enquanto seu corpo restaurar e tornava-se cada vez ma pincelada de verniz. A arte de- O médico e violinista Carlos era velado na capela Laluce. A neta mais íntimo do instrumento de ma- pende da inspiração, diz o filho Alberto Nor manha conta que via Nathalia tocou para o avô junto deira. E isso era ainda na longín- Marcelo, companheiro de oficina Bruno Zago, a quem chamava de com os amigos Normanha e Antô- qua década de 1940. Em 1958, do pai por 20 anos, por isso a re- BZ, fabricar os violinos e enco- nio Pereira da Silva. Foi a última fez um curso de luthieria com o gra é não correr. Tudo é milimetri- mendou o 17º instrumento fabri- homenagem ao músico que virou professor Rafael Leone, de São Pau- camente calculado, com precisão cado pelo luthier. "O BZ era era luthier. Adeus, Bruno Zago. Educação musical? N ão dá para levar a sério a lei federal que torna obrigatório o ensino de música no ensino básico e fundamental no Brasil. A legislação, em vigor a partir deste mês, não exige que o professor tenha formação musical, ou seja, qualquer um pode ministrar aulas de música. Alguém acredita que os alunos aprenderão realmente desta forma? Impossível não lembrar os áureos tempos em que a escola, sobretudo a pública, tratava o assunto com seriedade. Em Araçatuba, por exemplo, o IE (Instituto Educacional Manoel Bento da Cruz) tinha como professor o maestro José Raab. Hoje, não é preciso nem saber ler partitura para "ensinar" música nas escolas, conforme prevê a lei federal sancionada ainda pelo presidente Lula. Lamentável. O Filme dos Espíritos Divulgação A temática espírita ganha cada vez mais espaço no cinema nacional. Em outubro, estreia "O Filme dos Espíritos", ba- seado no "Livro dos Espíritos", de Allan Kardec. Em visita a Araçatuba na semana passada, André Marouço, co-diretor do lon- ga, garante que o filme vai emocionar mesmo os não-espíritas. O filme tem como tema central a vida de Bruno Alves, um psiquia- tra que está à beira de cometer suicídio após perder a mulher e o emprego e desiste depois de ter contato com o livro espírita. Parte da renda da bilheteria será revertida para obras assisten- ciais. No elenco, Nelson Xavier, Ana Rosa, Ênio Gonçalves, Etty Fraser, Sandra Corveloni, Reinaldo Rodrigues e Luciana Gime- nez, que vive uma velha senhora, mulher de um pescador. LONGA Cena de “O Filme dos Espíritos”, baseado em livro de Allan Kardec