14aurinegra #223 | 14OUT2011
sociedade
A infância de João de
Jesus foi pobre mas deu-lhe
asas para procurar uma vida
melhor. Encontrou-a no mar,
primeiro na sardinha, depois
no bacalhau, mais tarde na
Marinha Mercante. Decidiu
regressar a terra firme, à
sua Praia de Mira, onde se
dedicou à restauração e foi
alimentando um outro amor,
o artesanato. Hoje, retirado
das lides da faina e também
da hotelaria, entrega-se de
corpo e alma ao fabrico de
barcos, casas e edifícios em
madeira.
Foi uma infância triste,
difícil, marcada pela pobreza
que há muito havia assentado
arraiais na Gândara, sobretu-
do ali, à beira-mar, na Praia de
Mira dos anos cinquenta do
século passado. João de Jesus
nasceu aí mesmo, em terra
de pescadores, corria o ano
de 1949. “Foi realmente uma
infância muito pobrezinha.
Eu e a maioria dos meus cole-
gas descendíamos de famílias
muito pobres”, confessa. Cres-
ceu com recursos limitados
e sem pai, mas nem por isso
perde o sorriso quando recor-
da esses tempos. “Foi uma in-
fância muito difícil, para mim,
para o meu irmão e para as
minhas duas irmãs. Não houve
grandes momentos de alegria,
a única prenda que tive, num
dia de Natal, foi-me dada pelo
meu irmão mais velho”, acres-
centa.
Com 16 anos via a maioria
dos seus amigos a irem para a
pesca e decidiu seguir-lhes as
pegadas: “Fui com 16 para a
pesca da sardinha, para uma
traineira. Fiz quatro safras e
depois fui para o bacalhau”.
Como tantos outros, tentou
fugir à matança e à crueldade
da Guerra que pintava em tons
de sangue território africano.
Acreditava que a alternativa, a
pesca do bacalhau, era o me-
nor de dois males: “Livrava
à tropa e ainda ganhava al-
gum”. Mas as vantagens ficam
mesmo por aí. “Era uma vida
muito dura. Deve ser das lides
mais difíceis que havia na-
quela época, era o bacalhau.
Mesmo assim, para aí 80 por
cento dos jovens daqui da mi-
nha zona iam para lá”.
TORMENTA EM ALTO-MAR
Nem sequer foi preciso sair
do porto para começarem as
dificuldades de João de Jesus
na aventura da Faina Maior:
“Começou logo mal em Lis-
boa... os capitães abusavam
um pouco de nós. Eu estava de
vigia ao navio no Cais do Sodré
e o capitão, só porque eu esta-
va a passar os olhos por uma
revista de futebol, jogou-me
‘porrada’. Bati com a cabeça no
vidro da ponte e daí que nun-
ca tenha gostado de andar ao
bacalhau”, recorda. Ainda as-
sim, aguentou os anos neces-
sários para livrar à tropa e ao
Ultramar. Primeiro enquanto
moço, “fazendo de tudo um
pouco, desde lavar o refeitório
a ajudar a servir a comida, tí-
nhamos que fazer tudo o que
os outros não quisessem fazer”;
depois na categoria de redei-
ro, num outro navio, por mais
um par de anos.
Com o novo posto veio mais
respeito, e o trabalho, ainda
que árduo, foi-se suportando.
Pelos mares gélidos da Gro-
nelândia e da Terra Nova foi
“costurando” redes, passando
noites a repará-las enquanto
a restante tripulação descan-
sava: “Não podíamos abando-
nar o trabalho enquanto a rede
não estivesse novamente ope-
racional”. O frio e o cansaço
não foram, contudo, os piores
inimigos que o pescador teve
que enfrentar. A violência da
Natureza foi um dos maiores
testes a que esteve sujeito: “Es-
távamos a navegar para Por-
tugal, a 300 milhas dos Açores,
quando o tempo começou a le-
vantar e apanhámos um forte
ciclone. Navegávamos debaixo
do ciclone, com as ondas tão
alterosas que à popa, quando
o barco levantava, parte da
hélice já ficava fora da água.
Três vagas foram suficientes
para levar tudo o que estava
por cima. Ficámos sem comu-
nicação um dia e meio”.
CONHECER O MUNDO
Perante tal cenário de ca-
tástrofe, qualquer um teme o
pior. Foram momentos afliti-
vos que começaram a ganhar
contornos de esperança quan-
do um petroleiro russo con-
seguiu protegê-los da ondu-
lação. “Atravessou-se à nossa
frente como se fosse um muro.
O capitão mandou deitar o ga-
sóleo ao mar, para amainar a
rebentação da água, uma ma-
nobra que só é permitida em
situações extremas. O ciclone
levantou e lá conseguimos se-
guir viagem. Normalmente
demorávamos dois ou três dias
até à Barra de Aveiro, mas nes-
sa viagem levámos quase dez.
O barco ficou todo torcido, já
nem navegava bem”.
Uma mão cheia de idas ao
Mar do Norte depois aven-
tura-se na Marinha Mercante
Holandesa. “Foi a coisa mais
linda que eu fiz na minha vida.
Conheci muito mundo, muitos
portos”. Marcaram-no parti-
cularmente dois destinos: um
pela miséria e pobreza extre-
mas, a Etiópia; outro pela be-
leza e pelo legado histórico e
cultural, a Grécia. “Carregáva-
mos laranja em Israel, muito
boa, e figo seco na Turquia. Fo-
ram dez anos maravilhosos”.
Dez anos que deixou para trás
assim que teve oportunidade
de voltar a terra e de por lá
começar um negócio na área
da restauração: “Pensei que
vinha para aqui e ia ajudar a
crescer a minha terra. Tenho
muito orgulho na minha Praia
de Mira e no meu Concelho e
por cá estive mais de 20 anos
na área da restauração”.
Deixou a faina e o mar mas
recorda com saudade os anos
dedicados ao imenso azul,
sobretudo na Marinha. Hoje,
aos 61 anos, dedica-se a uma
paixão que lhe nasceu em me-
nino: o artesanato [ver caixa].
Quanto ao mar, sustento de
outros tempos, continua a ter
papel de destaque na vida de
João de Jesus: “Quando estou
triste ou com a sensação de
que me falta algo, vou ali aci-
ma e fico a olhar o mar. É um
sentimento único”. Fala com
emoção e assim descobrimos,
mesmo no final, que é ao mar
que pertence o seu coração.
Heróis do Mar (XI)*
Portos de saudade
* Este texto é o décimo primeiro de
uma série que o AuriNegra está a
dedicar aos pescadores de bacalhau
FILIPA DO CARMO
filipadocarmo@aurinegra.com
A sonhar com a Expofacic
“O artesanato já vem de pequenininho. Tinha vício de fazer uns
barquinhos, primeiro em barro, depois em cortiça. Eram as nossas
brincadeiras, víamos as companhas a trabalhar e tentávamos recriar
isso”, revela. A realidade à escala, primeiro em jeito de brinquedo,
mais tarde feita peça de artesanato tem acompanhado a vida de
João de Jesus desde os tempos em que os seus barquinhos na-
vegavam nas ondas do areal da Praia de Mira. Hoje, o barro e a
cortiça deram lugar à madeira, e as barcas, traineiras, bacalhoeiros,
moliceiros e embarcações da Arte Xávega são mostrados e vendi-
dos nalgumas Feiras. “Tapas e Papas”, em Cantanhede, e a Mostra
Gastronómica da Gândara são as de maior dimensão, mas o artesão
sonha com mais: “É uma meta que eu gostava de atingir, ir à Expo-
facic e mostrar lá as minhas coisitas”. Esperamos que o gandarês
consiga levar este barco a bom porto.
“Começou
logo mal em
Lisboa...
os capitães
abusavam um
pouco de nós”

herois_do_mar

  • 1.
    14aurinegra #223 |14OUT2011 sociedade A infância de João de Jesus foi pobre mas deu-lhe asas para procurar uma vida melhor. Encontrou-a no mar, primeiro na sardinha, depois no bacalhau, mais tarde na Marinha Mercante. Decidiu regressar a terra firme, à sua Praia de Mira, onde se dedicou à restauração e foi alimentando um outro amor, o artesanato. Hoje, retirado das lides da faina e também da hotelaria, entrega-se de corpo e alma ao fabrico de barcos, casas e edifícios em madeira. Foi uma infância triste, difícil, marcada pela pobreza que há muito havia assentado arraiais na Gândara, sobretu- do ali, à beira-mar, na Praia de Mira dos anos cinquenta do século passado. João de Jesus nasceu aí mesmo, em terra de pescadores, corria o ano de 1949. “Foi realmente uma infância muito pobrezinha. Eu e a maioria dos meus cole- gas descendíamos de famílias muito pobres”, confessa. Cres- ceu com recursos limitados e sem pai, mas nem por isso perde o sorriso quando recor- da esses tempos. “Foi uma in- fância muito difícil, para mim, para o meu irmão e para as minhas duas irmãs. Não houve grandes momentos de alegria, a única prenda que tive, num dia de Natal, foi-me dada pelo meu irmão mais velho”, acres- centa. Com 16 anos via a maioria dos seus amigos a irem para a pesca e decidiu seguir-lhes as pegadas: “Fui com 16 para a pesca da sardinha, para uma traineira. Fiz quatro safras e depois fui para o bacalhau”. Como tantos outros, tentou fugir à matança e à crueldade da Guerra que pintava em tons de sangue território africano. Acreditava que a alternativa, a pesca do bacalhau, era o me- nor de dois males: “Livrava à tropa e ainda ganhava al- gum”. Mas as vantagens ficam mesmo por aí. “Era uma vida muito dura. Deve ser das lides mais difíceis que havia na- quela época, era o bacalhau. Mesmo assim, para aí 80 por cento dos jovens daqui da mi- nha zona iam para lá”. TORMENTA EM ALTO-MAR Nem sequer foi preciso sair do porto para começarem as dificuldades de João de Jesus na aventura da Faina Maior: “Começou logo mal em Lis- boa... os capitães abusavam um pouco de nós. Eu estava de vigia ao navio no Cais do Sodré e o capitão, só porque eu esta- va a passar os olhos por uma revista de futebol, jogou-me ‘porrada’. Bati com a cabeça no vidro da ponte e daí que nun- ca tenha gostado de andar ao bacalhau”, recorda. Ainda as- sim, aguentou os anos neces- sários para livrar à tropa e ao Ultramar. Primeiro enquanto moço, “fazendo de tudo um pouco, desde lavar o refeitório a ajudar a servir a comida, tí- nhamos que fazer tudo o que os outros não quisessem fazer”; depois na categoria de redei- ro, num outro navio, por mais um par de anos. Com o novo posto veio mais respeito, e o trabalho, ainda que árduo, foi-se suportando. Pelos mares gélidos da Gro- nelândia e da Terra Nova foi “costurando” redes, passando noites a repará-las enquanto a restante tripulação descan- sava: “Não podíamos abando- nar o trabalho enquanto a rede não estivesse novamente ope- racional”. O frio e o cansaço não foram, contudo, os piores inimigos que o pescador teve que enfrentar. A violência da Natureza foi um dos maiores testes a que esteve sujeito: “Es- távamos a navegar para Por- tugal, a 300 milhas dos Açores, quando o tempo começou a le- vantar e apanhámos um forte ciclone. Navegávamos debaixo do ciclone, com as ondas tão alterosas que à popa, quando o barco levantava, parte da hélice já ficava fora da água. Três vagas foram suficientes para levar tudo o que estava por cima. Ficámos sem comu- nicação um dia e meio”. CONHECER O MUNDO Perante tal cenário de ca- tástrofe, qualquer um teme o pior. Foram momentos afliti- vos que começaram a ganhar contornos de esperança quan- do um petroleiro russo con- seguiu protegê-los da ondu- lação. “Atravessou-se à nossa frente como se fosse um muro. O capitão mandou deitar o ga- sóleo ao mar, para amainar a rebentação da água, uma ma- nobra que só é permitida em situações extremas. O ciclone levantou e lá conseguimos se- guir viagem. Normalmente demorávamos dois ou três dias até à Barra de Aveiro, mas nes- sa viagem levámos quase dez. O barco ficou todo torcido, já nem navegava bem”. Uma mão cheia de idas ao Mar do Norte depois aven- tura-se na Marinha Mercante Holandesa. “Foi a coisa mais linda que eu fiz na minha vida. Conheci muito mundo, muitos portos”. Marcaram-no parti- cularmente dois destinos: um pela miséria e pobreza extre- mas, a Etiópia; outro pela be- leza e pelo legado histórico e cultural, a Grécia. “Carregáva- mos laranja em Israel, muito boa, e figo seco na Turquia. Fo- ram dez anos maravilhosos”. Dez anos que deixou para trás assim que teve oportunidade de voltar a terra e de por lá começar um negócio na área da restauração: “Pensei que vinha para aqui e ia ajudar a crescer a minha terra. Tenho muito orgulho na minha Praia de Mira e no meu Concelho e por cá estive mais de 20 anos na área da restauração”. Deixou a faina e o mar mas recorda com saudade os anos dedicados ao imenso azul, sobretudo na Marinha. Hoje, aos 61 anos, dedica-se a uma paixão que lhe nasceu em me- nino: o artesanato [ver caixa]. Quanto ao mar, sustento de outros tempos, continua a ter papel de destaque na vida de João de Jesus: “Quando estou triste ou com a sensação de que me falta algo, vou ali aci- ma e fico a olhar o mar. É um sentimento único”. Fala com emoção e assim descobrimos, mesmo no final, que é ao mar que pertence o seu coração. Heróis do Mar (XI)* Portos de saudade * Este texto é o décimo primeiro de uma série que o AuriNegra está a dedicar aos pescadores de bacalhau FILIPA DO CARMO filipadocarmo@aurinegra.com A sonhar com a Expofacic “O artesanato já vem de pequenininho. Tinha vício de fazer uns barquinhos, primeiro em barro, depois em cortiça. Eram as nossas brincadeiras, víamos as companhas a trabalhar e tentávamos recriar isso”, revela. A realidade à escala, primeiro em jeito de brinquedo, mais tarde feita peça de artesanato tem acompanhado a vida de João de Jesus desde os tempos em que os seus barquinhos na- vegavam nas ondas do areal da Praia de Mira. Hoje, o barro e a cortiça deram lugar à madeira, e as barcas, traineiras, bacalhoeiros, moliceiros e embarcações da Arte Xávega são mostrados e vendi- dos nalgumas Feiras. “Tapas e Papas”, em Cantanhede, e a Mostra Gastronómica da Gândara são as de maior dimensão, mas o artesão sonha com mais: “É uma meta que eu gostava de atingir, ir à Expo- facic e mostrar lá as minhas coisitas”. Esperamos que o gandarês consiga levar este barco a bom porto. “Começou logo mal em Lisboa... os capitães abusavam um pouco de nós”