O Segredo dos Girassóis
     O diário de Anna Goldin


           Adriana Matheus
O Segredo Dos Girassóis
                                     O Dário de Anna Goldin




    Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico,
mecânico, inclusive através de processos xerográficos, sem permissão expressa da autora. (Lei nº 5.988 14/12/73).


                                                  Adriana Matheus
                                               amatheus07@hotmail.com
                                                      2ª Edição
                                                         2012




    CIP. Brasil. Catalogação na Publicação.
    M427s - Matheus, Adriana, 1970.
    O Segredo dos Girassóis / Adriana Matheus - Juiz de Fora - MG. 410 p. : il.
    ISBN: 978-85-7878-028-9
    Ficção brasileira. 2. Romance espírita I.Título.


   Projeto Gráfico e Impressão: Clube de Autores e Agbook
   Edição de capa: Ruy Alhadas
                      www.alhadasdesign.com
   Diagramação: Adriana Matheus
   Revisão ortográfica: Texto Legal
                        http://textolegal.weebly.com




                                                                                                                    2
Segredo dos Girassóis
                                        O Diário de Anna Goldin

                                            Adriana Matheus
                            Pelo Espírito do Padre Ângelo Wallejo Moralles




    “O amor é infinito e solene e quando é verdadeiro atravessa as barreiras do impossível,
    para que sempre possamos estar juntos.”

    (Padre Ângelo Wallejo Moralles).




                                       Agradecimentos Especiais
     Ao senhor Wanderley Luiz de Oliveira, presidente da Associação de Cultura Luso-Brasileira/ JF
- MG, por todo o incentivo dado a esta obra.
     Ao Senhor Roberto Dilly, diretor do Museu do Crédito Real/JF - MG, que tão generosamente
cedeu o salão para o lançamento desta obra.
     À Drª. Maria Auxiliadora Assis, que é uma das maiores colaboradoras desta obra e, também,
patrocinadora.
     Às amigas Átria Maria Alves e Dulcinéia de Assis Teixeira, cujo apoio e participação foram
indispensáveis para que esta obra fosse publicada.
     A Stéphanie Lyanie e à equipe da Texto Legal. Sem essa equipe fantástica e incrível, esta obra
não estaria tão lindamente corrigida.


     Ofereço esta obra à Academia de Letras da Manchester Mineira/Juiz de Fora - MG, por tanto
homenagear os pequenos e grandes autores de nossa cidade – valorizando, assim, a nossa cultura
literária.




                                            Adriana Matheus
                                                À autora




                                                                                                      3
NOTA DA AUTORA

     Nesta incrível história de ficção, a autora convida o leitor a viajar através do tempo astral em
uma fantástica aventura, cheia de suspense, bom humor e sedução. Sua principal personagem, Anna
Goldin, vai mostrar ao leitor que, mesmo no meio dos horrores da Inquisição, ela ainda conseguiu
sonhar e ser determinada em seus ideais de liberdade e igualdade, conseguindo manter, também, a
dignidade, e honrando o valor de uma verdadeira amizade.
     Mas o que poderiam ter em comum três pessoas tão diferentes?
     Uma bruxa, um monge e um jovem conde, unidos pelo destino nessa fantástica trama de ódio,
amor e intrigas. É isso que o leitor terá que desvendar. E, por isso, Anna Goldin está convidando-os
a participar desta incrível história! Sejam bem-vindos!
     Como percebi que teria que escrever esta obra?
     Na verdade, depois de um acidente, sonhei com toda essa incrível história durante uma semana,
consecutivamente. Cheguei a comentar com algumas pessoas, que me disseram não passar de meros
sonhos. Confesso que procurei respostas em muitos lugares. Mas esqueci de um lugar muito simples
e particular: dentro de mim. Pois é lá que está a resposta para todas as perguntas frequentes em
nossas vidas. Muitas vezes, somos teimosos e medrosos demais para ouvir aquela voz que está
sempre nos mostrando o caminho. Temos medo do que parece ser imaginário ou sobrenatural, mas
não temos medo de correr o risco de conhecer um desconhecido real da internet. Os espíritos não
podem nos fazer mal algum. Influenciam-nos somente se abrirmos caminho para isso. O poder está
todo em nossa mente, na nossa caixinha de segredos, no nosso computador portátil e inigualável - o
cérebro.
     Como descobri que era médium?
     Na verdade, como todas as pessoas, sempre fui. Só não aceitava aquela voz dentro de mim.
     Como tomei conhecimento da existência do Padre Ângelo Wallejo Moralles?
     Oito meses depois do acidente e já bem melhor, um belo dia eu estava sentada na frente da
creche onde costumava deixar meus filhos. O mais novo deles estava em adaptação. Por esse
motivo, tinha que ficar até mais tarde presente neste local. Sentei-me em um banquinho, do lado de
fora. Como não havia nada para fazer, peguei um bloco de notas e um lápis que sempre trazia
comigo. Comecei a rabiscar para ver se conseguia desenhar o rosto que frequentemente aparecia-
me em sonhos. Mas, para minha surpresa, comecei a perder os sentidos, como uma tonteira
irregular. De repente, minha mão começou a escrever sozinha. A princípio, tremi - confesso. Mas,
depois, fui dando asas àquele fenômeno. Quando parei para ler, eram quase duas páginas de
mensagens. Detalhe importante: aquela letra não era minha. Fiquei tão fascinada com aquilo que
comentei erroneamente com várias pessoas, que saíram achando-me uma doidivanas. Hoje, muitas
destas pessoas já receberam mensagens de seus entes falecidos, psicografadas por mim. Graças a
Deus, aprendi a lidar com meu dom com a sabedoria do silêncio. Ganhei credibilidade e respeito.
Descobri minha missão. Sempre que tenho tempo, dedico à caridade espiritual. Mas ainda sou
aprendiz.
     Quem foi e quem é Anna Shaara para mim?
     Anna foi uma grande mulher que não se rendeu às normas e às vontades dos homens. Na
verdade, Anna Shaara sou eu, é você que está lendo esta obra por mera curiosidade. A Anna são
todas as mulheres que lutaram, que lutam e sempre lutarão por um sonho de igualdade; mas - acima
de tudo - que têm um dom e o usam para o bem. Ela é aquela mulher que faz de tudo para ver seu
homem, seu amor feliz. É a mulher sábia que, ao invés de brigar, cala-se e espera o momento certo
de falar e agir.
     A Anna é a voz dentro de cada uma de nós. Ela é o momento, a oportunidade que temos de nos
redimir dos erros e das falhas do passado.
     Quando Anna Shaara voltou em minha vida?




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Foi através de uma viagem astral (também chamada de auto-hipnose), onde mostrou toda a sua
sabedoria. Tive certeza de que estava na hora de contar ao mundo minhas experiências com os
espíritos. Espero que esta obra seja de grande valia para todos vocês que, mesmo por curiosidade,
começaram a lê-la. Mais uma vez, deixo minha eterna gratidão.




     “Se o homem trabalha em prol da caridade, ele deve tentar entender a verdade, mesmo que a
mesma não seja mostrada pelos olhos do aparelho. Se ele trabalha em prol de si mesmo, continuará
confuso e no escuro constante de seus pensamentos atordoados. Felizes aqueles cuja compreensão
de reconhecer os seus próprios erros torna-os sábios. E essa virtude faz com que eles ajudem o seu
próximo em caridade e abstinência, sem interrogações ou especulações. Pois o maior dom divino
está em ouvir e servir com humildade e perseverança”.
     Muita paz e muita luz.
     (Padre Ângelo Wallejo Moralles - 1795 a 1838).




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Sumário




Capitulo I - O diário de Anna.........................................................................................9
Capitulo II - A iniciação................................................................................................35
Capitulo III - O Livro das Sombras.............................................................................73
Capitulo IV - O Segredo de Elizabeth........................................................................144
Capitulo V - A Despedida............................................................................................196
CapituloVI - O Mosteiro..............................................................................................224
Capitulo VII - O Segredo dos Girassóis......................................................................252




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Pelo espírito do padre:
                                       Ângelo Wallejo Moralles



                                              Prólogo


       Estou com vinte e seis anos e vejo que minha vida acabou-se. Vivi nesta curta jornada terrena
tudo o que uma pessoa com seus sessenta anos viveu ao longo de sua existência. Mas é claro que, em
questão de sofrimentos, fui uma expert. Envelheci muito em três anos aqui, enclausurada neste
calabouço frio e escuro, onde fico relembrando os fatos e as situações vividas desde a minha mais
tenra infância. Outro dia, pude ver meu reflexo em uma poça d’água que se acumulou no chão,
causada pelas diversas goteiras que caem do teto. Quase não me reconheci. A maioria dos meus
dentes caiu. Estou tão maltrapilha e suja! Eles quase conseguiram sujar, também, minha alma. Mas
consegui separá-la do meu corpo, para que não fosse maculada pela perversidade humana.

     Sinto tanto frio; estou tão cansada e enfraquecida! As dores, antes insuportáveis, agora já
parecem mais brandas. Já quase não sinto mais a minha perna. A corrente presa à minha coxa
esquerda já tinha parado a circulação, e a sensibilidade já não era mais a mesma. Estou presa a este
objeto há um ano ou mais. Não me lembro exatamente de quanto tempo estou aqui. A princípio, para
evitar a loucura e a perda de memória, fiz tracinhos nas paredes. Mas, com o tempo, fui me
esquecendo até de me levantar para comer o pão e a água que me trazem.
     Temo não conseguir colocar neste diário tudo o que me ocorreu durante toda a minha existência.
Tenho a esperança de um dia alguém me achar ou se lembrar de mim. Caso isso não venha a ocorrer,
sei que minha amiga Juanita encontrará um meio deste diário chegar até às mãos de Maria. Quero
que meus irmãos de alma saibam o que passei por amar e por não negar minhas origens. Os horrores
e as injustiças que aconteceram em minha vida, envolvendo seres considerados acima do bem e do
mal, deixo aqui registrados. Não aumentei e nem inventei absolutamente nada.
     Algumas pessoas que se diziam com o poder de direcionar o destino de outras, só pelo simples
fato de terem nas mãos um documento chamado Bula Papal, tornaram a minha vida e a de outras
mulheres a mais miserável possível. Pessoas que se julgavam Deus ou mensageiros Dele. Seres
humanos como eu, mas que pareciam viver em um mundo mental paralelo ao nosso. Parecia que, ao
olharem uma mulher, viam nela outra forma de vida aparente. Suas formas de manipular a população
eram tão convictas que causavam cegueira e histeria em massa – e, logo, uma espécie de aliança cega
entre a população e os inquisidores. Na verdade, a voz do povo não era a voz de Deus, mas sim a voz
do inquisidor.

     Minha história é muito complexa . Se algum dia esse diário for encontrado e lido por outras
pessoas, elas poderão ficar atordoadas e confusas com os relatos registrados aqui. Mas que fique bem
claro que este é o meu diário. O diário da minha vida terrena, onde conto a minha trajetória como
mortal, mulher, bruxa e como um ser humano esquecido pelo mundo contraditório. Nesta história de
vida passada, faço aqui duas regressões e mostro o lado obscuro real da Inquisição. Conto como o
preconceito contra as mulheres era superior ao sentimento maior: o amor verdadeiro. A religiosidade
era usada para encobrir o lado negro dos sacerdotes. O dinheiro comprava e vendia tudo, até a alma
humana. Os sacerdotes e seus monarcas seguidores fanáticos tinham uma única vontade: manter as
mulheres submissas e a população humilde e sem cultura sob os seus pés. Mas, na verdade, os
monarcas também eram marionetes destes discípulos do diabo. Pessoas que se mascaravam com uma
bondade hipócrita, para não mostrarem a verdadeira face escondida debaixo de peles de cordeiros.
O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

    Espero, em nome de Deus, que a humanidade um dia possa evoluir para o seu próprio bem. E
que estas almas, ao encarnarem, também possam redimir-se destes pecados que cometeram contra a
humanidade. Vivi em um tempo muito desequilibrado e hostil, em que mesmo os que tinham certo
estudo viviam na ignorância e no flagelo espiritual. As pessoas não tinham o direito de ir e vir. As
palavras, nem em pensamentos poderiam permanecer. Se eu pudesse, aconselharia todos a refletirem
sobre seus atos e as consequências que podem advir deles. Amem como se hoje fosse a primeira vez.
Esqueçam o passado, deixem as mágoas e quem os magoou para trás. Porque a única coisa que
realmente importa é o amor e o perdão.

    Espero, minha querida Maria, que encontre este diário e que esta história da qual fez parte seja
contada para todos os nossos irmãos e irmãs, de geração em geração. Tenho certeza de que não
passei por todas estas coisas em vão. Aprendi muito com a senhora. Sua sabedoria, bondade e
benevolência foram minha fonte de inspiração para eu estar aqui, hoje, lutando em registrar estas
palavras.

    Lembra-se, Maria, de quando mais atrás me ensinou a agradecer a Deus por todos os segundos
de nossas vidas, mesmo que eles fossem os últimos? Agradeço, sim, a Ele, mas nunca me esqueço da
senhora. Minhas orações são para você, bem como meu amor e gratidão, minha amiga, minha mãe.
Sim, pois a senhora foi a única mãe que conheci.
     Embora minha vida tenha sido tão curta, pude refletir e compreender que nunca devemos parar
de lutar pelo que sonhamos e acreditamos. Sempre lutei e nunca temi ou me arrependo de ter
chegado às últimas consequências. Nunca desisti do meu único e verdadeiro amor, embora ele tenha
me traído e me abandonado. Nunca desejei mal a ele, mesmo sabendo que pode estar nos braços de
outra mulher. Não odeio nem mesmo meus algozes, pois fazem parte da construção da minha
história. Aceitei o dom da mediunidade graças à senhora, Maria, pois aprendi a ser responsável e
mais humana. Sei que são curtos os meus dias aqui, minha cara amiga. Mas morro com dignidade e
orgulho em saber que me assumo como sou: uma bruxa.
     A senhora ensinou-me que a responsabilidade de um médium dobra quando ele ensina alguma
coisa a outra pessoa. Espero estar sendo coerente com as palavras aqui. Pois, assim como fui sua
discípula, terei discípulos que ouvirão minha história e far-me-ão de exemplo. Sei desta
responsabilidade e não quero ser uma lenda e nem um exemplo, pois também falhei. Apenas quero
contar como tudo aconteceu comigo. Achei que, por amor, poderia superar os sofrimentos que me
seriam impostos. Mas, agora, tenho certeza de que não sabia o quanto o ser humano pode ser cruel
em arquitetar uma forma de torturar o outro. A maldade do ser humano é infinita e sem igual.
    Seguindo com a minha história...




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus



           I - O Diário de Anna



    A
             madrugada estava cinza, como o meu coração... Senti o vento frio entrar pela janela,
             beijando meu rosto suavemente, como se fosse um cumprimento casual e afetuoso.
             Estávamos perto do término do outono. As folhas das árvores caíam como plumas ao
     chão! E meus sonhos também.
     Sentia-me muito só. Algo em meu coração estava tentando falar, num silêncio descompassado.
Naquela época, eu via beleza em tudo ao meu redor. Mesmo nas horas de tristeza, conseguia ver
coisas boas. Mas alguma coisa parecia estar errada.
     Minhas noites sem dormir eram agonizantes. Eu tinha um choro preso na garganta e, às vezes,
sentia raiva de nada aparente. Não sabia explicar o que era e, depois de andar quase a noite toda pelo
quarto, fui à janela observar a rua e senti o vento úmido, que bateu em meu rosto, ainda molhado
pelas lágrimas. Os poucos transeuntes que se atreviam a andar pelas ruas pareciam estar congelados
e enroscavam-se em seus casacos de lã, como caracóis em uma conchinha. Um redemoinho juntava
as folhas caídas ao chão, fazendo-as bailar sobre a calçada, como em uma brincadeira de ciranda.
     À medida que a neblina subia, mostrava ao longe o espetáculo e a beleza escondida por trás
daquela cortina acinzentada, criada pelo crepúsculo misterioso da floresta negra. Sentia-me uma
privilegiada por morar no fim daquela ruazinha de pedras calcárias, muito polida pelo tempo. Eu
tinha não só a magia das montanhas ao longe, mas o cenário mais perfeito de todo o mundo!
     O lugar onde morávamos, para mim, não tinha preço. Podia ser o mais simples e o mais isolado,
mas, com certeza, era o melhor lugar deste mundo, simplesmente por ser o nosso habitat.
     O cenário era mesmo incrível! Eu jamais me cansaria de admirá-lo. Da janela do meu quarto,
podia ver, desde a esquina, a outra extremidade da rua sem saída. Havia uma pequena trilha de terra,
que dava para um misterioso bosque Mal Assombrado, como diziam os viajantes que por ali
passavam - também citado nas cantigas das escravas como Floresta negra, ou ainda chamado de
Bosque dos Mortos pelos supersticiosos do vilarejo.
        Muitas lendas foram criadas em torno desse bosque. Na verdade, não sei se poderiam chamar
essas histórias de lendas, pois em certo ponto do bosque não havia nenhum tipo de vegetação ou vida
aparente. Sua terra era seca, e isso se ocasionou depois que os moradores mais antigos queimaram
uma jovem amarrada a uma árvore, petrificada, acusando-a de bruxaria. Eu nunca havia tido a
coragem de ir até lá por medo do que ouvia, mas ficava observando seu estranho silêncio da minha
janela nas noites de solidão. Nunca vi ou ouvi uma ave gorjear por lá.
     Ouvira dizer que nenhum ser vivente ou em seu juízo perfeito atrever-se-ia a colocar seus pés
naquele local obscuro e sinistro. Eu, nas muitas vezes em que perdia o sono durante a noite, jurava
ter ouvido gemidos e clamores vindos daquele bosque. Sombras pareciam sair do bosque, ou era
apenas a minha mente que as imaginava? Sempre preferi acreditar que fosse a minha imaginação, e
nunca mencionei isso nem mesmo para minha amada Maria.
     À frente de minha casa, logo na esquina, antes de subir a pequena trilha, ficava a mansão dos
Sorancos Del Castilho, gente sisuda, aparentemente orgulhosa e pouco amistosa. Eles eram judeus
convertidos ao cristianismo. Só os víamos nas missas aos domingos e, mesmo assim, sentavam-se
longe de todos. Eram pessoas que pouco se viam transitar pelas ruas. A senhora Del Castilho e suas
filhas vestiam-se mais discretas do que o normal, sempre com roupas austeras e escuras.
     Não eram nada sociáveis. Não iam a festas, não convidavam e sempre era possível vê-los
observando as pessoas de soslaio. Eram reservados e isolados. Eu mesma tive a impressão de ter
visto um ou outro me observando pelas costas. Mas, quando me virava, tentando achar o que estava
me incomodando, não via nada. Eles pareciam fantasmas: apareciam onde menos esperávamos, e
sumiam da mesma forma. Gentinha realmente estranha...




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     Diziam que eles eram muito ricos, e que seus dízimos superavam as expectativas paroquiais. O
Senhor Del Castilho parecia um lorde, com suas botinas e suas abotoaduras de brilhante. Em questão
de status, essa família, por certo, era a mais rica do condado. O restante da vizinhança morava a
muitos metros à frente. Por isso, sentia-me muito tranquila em relação à paz e ao sossego.
     Por parte de meus pais, meus avós foram os pioneiros daquele vilarejo. Eles fizeram muitas
benfeitorias, como o belo caminho feito de cerejeiras, que foram exclusivamente trazidas da
Inglaterra para enfeitar as laterais daquela larga ruazinha - o que dava, além de graça e beleza, certo
mistério ao trajeto. Era incrível o enorme tapete de flores que se estendia para passarmos no outono.
O vilarejo ainda era pequeno e mais parecia um labirinto, porque todas as ruas se cruzavam. Todos
se conheciam, mas poucos eram amigos, e os mais jovens de certos recursos financeiros eram
enviados à Europa para estudarem e, na maioria das vezes, não retornavam à casa paterna. A vida no
campo não lhes convinha mais. Mas, por certo, Salamanca cresceria muito com os tempos que
viriam.
        Se chegasse qualquer estranho ao vilarejo, em questão de pouco tempo todos os moradores
ficavam sabendo da novidade. Era engraçada a maneira como os habitantes daquele pequeno vilarejo
comportavam-se. Tão primitivos!
     Naquele tempo, eu já não era vista com muito bons olhos. Mas era por motivos corriqueiros e
questionáveis, pois as pessoas achavam-me esnobe. Mas eu não o era. Pelo contrário, era uma jovem
medrosa e muito tímida, esquivava-me das pessoas por não saber como me comportar no meio delas.
E também tinha o fato de que a minha madrasta nunca me deixara participar das reuniões do nosso
conselho. Muitas das jovens de minha idade não podiam opinar, mas sempre estavam presentes a tal
evento, pois era uma maneira de se socializar e, claro, de arrumar um pretendente. Quando raramente
eu podia sair, era sempre na companhia da minha ama Alicia ou de minha amada Maria, governanta
da casa. Assim seguiram-se meus dias, sem nenhuma emoção ou aventura - o que era um tédio, pois
meu espírito gritava por aventuras e coisas diversas, que nunca pude realizar na minha curta
existência.
        Lembro-me, ainda, de minha casa: era bem grande. Mas não era uma casa acolhedora, porque
faltava paz e harmonia. Fiz uma rápida e breve descrição dos detalhes. Na verdade, o que eu mais
gostava não estava lá dentro. Nunca fui muito detalhista. Algumas coisas deixei passar em vão, não
por falta de percepção, mas porque esta realmente não era a casa dos meus sonhos. Quando somos
crianças, tudo é bom, tudo são flores. Encontramos divertimento até no meio das lágrimas, e luz no
meio das trevas. Fazemos refúgio no silêncio, e nossos corações não guardam rancor.
     Vivi até metade de meus dezenove anos a triste e turbulenta história que me trouxe a este terrível
lugar. E no meio do ódio, da inveja e da ambição, consegui criar para mim um mundo imaginário.
No meio de coisas velhas e usadas, vivia minha vida de fantasias.
        Cresci amargurada, medrosa, tímida e isolada do mundo. Sem dúvida, minhas roupas eram
caras. Não porque zelavam por mim, mas porque eu não podia aparecer maltrapilha perante as
pessoas da sociedade. E também isso mostraria a real situação financeira da minha família: apesar da
ostentação, a falta de recursos financeiros era escondida a todo custo.
     A maioria dos vestidos nunca usei, mas minha madrasta fazia questão de gastar mesmo assim.
Por não ter nenhum amigo com quem pudesse falar, eu ficava a maior parte do tempo no sótão, na
cozinha ou com os criados. Aprendi a fazer muitas coisas domésticas apenas observando, pois os
escravos e criados não me deixavam tocar em nada: tinham medo de uma represália. Eu era a
sinhazinha, um enfeite de porcelana e sem nenhuma utilidade. Eu não gostaria que tivesse sido
assim, mas as circunstâncias e a própria época em que vivi ajudaram muito para isso.
     Enfrentei o mundo por amor. Enfrentei os homens e a Igreja para mostrar que também nós,
mulheres, temos o direito à igualdade, a ir e vir. E que somos livres em expressão de religião,
vontade e igualdade. Enfrentei o ódio nos olhos, no coração e nas atitudes de muitas mulheres por
quem lutei. Mas eu as entendia. Na verdade, bem no íntimo, todas aquelas mulheres gostariam de




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

estar no meu lugar - não na dor, é claro, mas em coragem e determinação! Coragem de nunca se
negar e de falar o que pensava. E determinação de lutar pelos ideais e também por um lugar ao sol,
entre homens preconceituosos e ditadores.
      Não me arrependo do que fiz, mas do que nunca pude fazer. Minhas irmãs de almas sofreram
muito mais do que eu, no cativeiro de uma masmorra fria e sombria. Pois viveram a vida toda sob o
jugo dos homens, que muitas vezes eram seus amados. Embora a maioria delas tivesse escravos, elas
eram escravas do silêncio e da submissão. Ser uma bruxa não foi e jamais será fácil. Eu vivia em um
mundo de falsidades, onde o luxo e o dinheiro encobriam qualquer falha humana.
      Minha casa era muito grande, com muitas passagens secretas. Algumas descobri a duras penas,
para me esconder de minha madrasta. Os corredores eram enormes e, ao sairmos do meu quarto,
passávamos pelos aposentos do casal e por mais oito outros, ainda vazios, que às vezes eram usados
pelos hóspedes. Seguindo pelo corredor largo, com uma passadeira cor de carne e desenhos
geométricos, chegávamos ao antigo quarto de minha mãe, cuja porta nunca era aberta. Os motivos
eram desconhecidos e alheios para mim, até então.
      Eu sempre sentia certo arrepio naquele corredor, pois era de pouca iluminação e dava-me a
impressão de ter uma pessoa atrás de mim. Aliás, toda a casa me dava certo arrepio. Por fim,
chegava a uma escadaria, que era meio em caracol, toda de mármore branco, com corrimão de
madeira muito encerada. Eu adorava escorregar no corrimão quando não tinha ninguém por perto. À
direita, ao final do corredor, era o sótão onde guardavam quinquilharias - meus tesouros. Na verdade,
toda a memória da minha família estava lá em cima.
      As escadinhas eram estreitas e de madeira; o sótão mais parecia uma velha torre onde me
refugiava da bruxa má. Meu esconderijo antissurras, pois, quando minha madrasta se desentendia
com meu pai, era em mim que descontava seu ódio. Como se eu tivesse alguma coisa a ver com
desentendimentos entre eles... Os dois pareciam cão e gato, não conseguiam ficar perto um do outro
por meros segundos sem se engalfinhar. Minha madrasta era muito exigente e só queria saber de
gastar.
      Eu tinha mania de ficar no topo da escadaria, encostada no beiral, olhando o andar de baixo e
escutando as conversas e discussões de meu pai. Chegava a ficar tonta, pois os ladrilhos do hall de
entrada davam a impressão de vermos um enorme tabuleiro de xadrez, já que o piso era quadrangular
em tons de preto e branco. À esquerda, seguia-se para o escritório de meu pai, que era quase como
uma passagem secreta, por ficar embaixo da escada. No fim da escada, à direita, existia um grande
salão de bailes, onde tínhamos a mais bela varanda, toda em mármore branco.
      No salão, existiam enormes pilares, dando certo ar de templo romano. Por ser tudo muito
branco, quando criança eu pensava ser o céu. Sentia-me uma fada e rodopiava, abrindo os braços. À
esquerda, ainda no final da escadaria, seguia-se para a cozinha, por um enorme corredor de tábua
corrida. Minúsculos quadros familiares foram pendurados em suas laterais. Eu o chamava de
corredor dos espíritos.
      Ao chegarmos à enorme cozinha, tínhamos um gigantesco fogão de lenha, onde Tereza criava as
mais deliciosas receitas junto à escrava Joana, sua auxiliar. Havia uma grande e pesada mesa de
carvalho, no centro. Panelas de bronze, muito areadas, foram penduradas por toda parte. Eu ficava
ali, em pé, ao lado das cozinheiras, observando aquela fantástica e misteriosa forma de alquimia. Era
o meu segundo local preferido.
      O simples mexer de Joana com a colher de pau nos grandes caldeirões fascinava-me. A magia
simples da mistura dos temperos me fascinava! Nascia em mim o desejo de ter o meu próprio
caldeirão. Por várias vezes, brincando de cozinhar, juntei algumas ervas e coloquei-as dentro de uma
caneca de água quente, dando à pequena escrava Inaynmin, filha de Joana, aquele chá com a minha
mistura de ervas. Dizia a ela que os anjos lhe dariam bons sonhos. O estranho é que a menina dizia
dormir muito bem toda vez que tomava meus chás.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     A cozinha também era, para mim, um refúgio onde me escondia da minha madrasta. Pois ela me
perseguia por toda a casa, não importando onde eu estivesse. Mas na cozinha ela não entrava, porque
achava indigno do seu status de senhora.
     O sótão já estava ficando vulnerável, e a história que Maria contava sobre lá ser mal assombrado
já não estava surtindo muito efeito - o que passou as ser perigoso para mim, pois minha madrasta já
não cria mais nos tais fantasmas. Então, tive de me refugiar nos corredores, dentro das paredes entre
um quadro e outro, como um animalzinho assustado. Algumas dessas passagens davam nos fundos
da cozinha, onde eu aparecia inesperadamente no meio das cozinheiras que, na maioria das vezes,
levavam um grande susto. Tereza colocou-me a alcunha de pequena sombra, pois às vezes, quando
ela olhava para trás, lá estava eu como num passe de mágica.
     Tínhamos, ao lado de fora, um enorme pátio com uma fonte d’água e um poço. Da escada dos
fundos da cozinha, que dava para esse pátio, podíamos ver várias montanhas ao fundo. Sem sombras
de dúvida, não existia nada mais lindo do que a visão daquelas montanhas! O cenário era tão incrível
e mágico!
     A impressão que eu tinha, ao ver o sol despontando no horizonte, era que ele as fazia mudar de
cor, para um verde quase azulado. Sentia-me especial por estar fazendo parte da obra de um Grande
Mestre. Nenhum pincel pintaria nada tão perfeito! Eu não gostava da minha casa, mas amava o lugar
onde vivia.
     Essas lembranças de infância vieram à tona saudosamente. E especialmente naquele dia - vinte e
um de julho de 1819 - acordei muito cedo: exatamente às duas da madrugada. O galo mal tinha
cantado e lá estava eu de pé. Tudo o que eu tinha aprendido até aquele momento foi com os livros.
Em minha solidão, eu lia muito - o que me foi de grande valia em meu aprendizado. Muitos desses
livros foram encontrados no sótão, junto aos pertences de minha falecida mãe. Andei de um lado
para o outro do quarto, como uma galinha que havia perdido seus pintinhos. Algo me estava
incomodando em demasia. Minhas mãos suavam e meus sentidos estavam aguçados. Por causa dos
sonhos confusos e pesadelos - que eram constantes - eu via sombras nas paredes e vultos ao meu
lado, constantemente. Parecia haver pessoas perto de mim, vozes falavam ao meu ouvido
diariamente. Por não ter nenhum conhecimento, sentia medo. Não sabia o que eram e o que queriam
comigo. Eu tampava os ouvidos com as mãos, na tentativa de não as escutar. Outras vezes, eu
respondia e conversava com elas. Às vezes eu as remedava, e tais gestos faziam minha madrasta
pensar que eu era insubordinada.
     Apanhei muito por causa das vozes. E elas pareciam ficar cada vez mais irritadas com a
proximidade da minha madrasta. Erroneamente, eu achava que eram fantasmas. Mas o pior de tudo
isso é que eu não podia contar a ninguém, porque as pessoas considerar-me-iam insana. Ou me
entregariam nas mãos de um exorcista - o que anteciparia o meu destino.
     Especialmente naquela madrugada, elas estavam muito mais agitadas do que de costume. Antes,
elas eram assustadoras e davam a impressão de estarem muito aflitas. Ora cantavam em línguas
estranhas, ora falavam todas juntas. Isso me confundia.
     Deixei aquelas aflitas lembranças para trás um pouco e voltei à janela. Fiquei horas observando
a montanha e sua neblina misteriosa Queria esquecer aquelas almas que desesperadamente me
chamavam. Senti-me um pouco egoísta, mas precisava me distanciar antes que elas voltassem a
querer falar comigo. Pois cada vez que eu pensava nelas, parecia estar atraindo-as para junto de mim.
Além de toda aquela confusão com as vozes, havia também os maus presságios, que estavam
acarretando o meu espírito e, como nuvens, confundiam também os meus sentidos. Eu achava que
era devido à ausência de meu pai, e também pela falta de noticias dele. Mas era uma mistura de
saudade, solidão e devaneios, em uma mente jovem e atordoada por uma mediunidade ainda não
trabalhada.
     Algo estava para acontecer. Algo que mudaria a minha vida para sempre. Lembrei-me de Maria,
que dizia que eu havia nascido com dons especiais. E que, ao completar meus vinte e um anos, as




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

coisas ficariam melhores. Bom, eu faria vinte no ano seguinte e tinha a esperança de que as coisas
pudessem melhorar a partir dali. E que meus dons, ao aflorarem, trouxessem-me um pouco mais de
paz. Na verdade, não sabia se eu poderia chamar aquelas tormentas de dons. Só sabia que elas eram
espirituais. O meu medo de vê-los era tão grande que, de alguma forma, trazia-os para bem perto de
mim. Às vezes pensava serem coisas da minha mente. Mas, com o decorrer do tempo, meus sentidos
foram aguçando ainda mais; passei a ter estranhas visões de fatos que ainda não tinham acontecido.
Na maioria, eram sonhos que mais pareciam pesadelos. Tudo era uma incógnita para mim. Maria
chamava essas coisas de premonições. Eu via a vida das pessoas e, se alguém mentisse, sabia que
estava mentindo. Não sabia o porquê de estar acontecendo comigo. Eu era totalmente leiga nos
assuntos da magia. E isso era algo agonizante, pois me deixava irrequieta e depressiva. Mas o certo é
que minha vidinha monótona, sem graça e atordoada estava para mudar da água para o vinho. E isso
aconteceu muito rápido.
     Quando meu corpo se arrepiava e me dava calafrios, era a forma de os meus sentidos de bruxa
me avisarem que algo ruim estava para acontecer. Mas, por não ter noção, a depressão passou a
tomar conta de mim. Chorava por qualquer coisa e sem motivos aparentes. Algo estava errado
comigo. E ninguém sabia como agir: eu precisava de ajuda, mas o socorro não vinha! Muitas vezes
ansiava por ver o mensageiro, que nunca chegava dando notícias de meu pai. Era mais uma fuga para
escapar da depressão. Estava ficando louca. Meus pensamentos mudavam de direção, como o vento
de lugar.
     Onde estaria o mensageiro? Precisava vê-lo. Na verdade, ele só passaria às sete e trinta, seu
horário normal. De quinze em quinze dias, sempre nos trazia uma carta de meu pai, mas eu já não
estava aguentando de tanta ansiedade. Fazia um mês sem notícias; meu coração estava apertado.
     Não havia conhecido minha mãe. Meu pai, no entanto, era tudo o que eu tinha naquele
momento. Minha madrasta era perversa e fingia ter um falso afeto por mim. Nunca me pegara ao
colo ou fizera um afago em meus cabelos quando eu ainda era criança. Pelo contrário, humilhava-me
com palavras hostis e sempre me batia por qualquer motivo. Suas ameaças de me colocar em um
convento eram constantes. Era impressionante a falsidade e o fingimento daquela mulher. Na frente
de meu pai, sempre me tratava com sorrisinhos forçados e uma delicadeza inexistente. Aliás, tudo
nela era demasiadamente falso.
     Lembro-me de certa vez, depois de ter apanhado muito e ter ficado com o corpo coberto por
hematomas, ter sido trancada dentro do guardarroupa um dia inteiro. Gritei, quase desfaleci, mas ela
não deixou ninguém me tirar de lá. Fiquei em estado catatônico. Maria, naquele dia, ficou do lado de
fora da porta, cantando para mim, tentando mostrar que eu não estava sozinha. Jamais me atrevi a
contar para meu pai, pois Maria dizia que ele não podia ter aborrecimentos, devido à saúde instável.
Ele estava com sérios problemas de coração e bebia muito.
     A crueldade de minha madrasta não estava só na forma como ela me tratava. Também era cruel
com os criados e escravos. Ela deixou um escravo, de nome Sandoval, sem comer por dias. E o
mesmo já havia feito comigo. Só que, por ser criança, adoeci e fiquei de cama. Maria convenceu meu
pai a chamar o doutor, e ambos quiseram saber por que eu estava tão debilitada. Minha madrasta
entrou no meio da conversa, dizendo-lhes que eu estava muito angustiada devido às constantes
ausências de meu pai, e que eu havia perdido o apetite de tanta tristeza. Ela sempre encontrava um
meio de se livrar de sua culpa. Ela tinha certo requinte de crueldade e fazia meu pai sentir-se
péssimo. Ele, naquele dia, bebeu até cair em um canto da casa. Eu e Maria o achamos e o colocamos
para dormir em um sofá. Maria não tinha medo dela, mas sabia que, se contasse, ela se vingaria em
mim.
     Eu estava completamente indefesa e nas mãos daquela famigerada. Sua beleza e falsidade
seduziram meu pobre pai, que estava carente e solitário, com uma pequena menina recém-nascida
nos braços. Não que Maria não estivesse dando conta do recado. Mas as cobranças entre os amigos e
o preconceito da sociedade, por ele ser um viúvo ainda jovem, pesaram-lhe muito. É claro que sua




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                                         Adriana Matheus

posição socioeconômica e o título de nobreza dela também colaboraram para aquela união de
conveniências.
     Não sei o que fizeram de errado, mas ele se viu obrigado a se casar às pressas com a jovem
condessa Marli Del Prat, filha do duque e também viúvo George Von Del Prat. Meu pai foi um rico
comerciante, mas estava passando por muitas dificuldades financeiras, causadas pelos gastos de sua
jovem esposa. Isso tudo pesava em seu bolso e em seu coração. Ele era uma pessoa de pouco se
abrir, o que poderia estar causando os seus supostos problemas de saúde. Alguns de nossos criados
estavam conosco há anos - como Maria, que havia sido praticamente criada em nossa residência.
Seria muito injusto colocá-la na rua de uma hora para outra. Maria, que abdicou de toda a sua vida
para cuidar de mim, por amor e fidelidade a uma promessa feita à minha mãe em seu leito de morte...
Passávamos por uma enorme crise financeira, enquanto a condessa gastava horrores em bailes,
roupas e joias, desperdiçando o pouco que ainda tínhamos.
     Por ser muito jovem quando se casou com meu pai, passou a disputar comigo sua atenção. Era
de uma beleza muito rara em meu país. Era filha de alemães e holandeses. E sua união com meu pai,
que também era um fidalgo, embora falido, fora de grande valia política. Com essa união, seus
parentes teriam livre acesso de trânsito dentro da Espanha, entre outros benefícios políticos.
     Minha madrasta era uma mulher esbelta, com formas muito bem definidas e fartas. Cabelos
muito negros e olhos azuis; sua voz tinha um tom suave e aveludado. Deixava os fidalgos, por assim
dizer, abobalhados. Sua pele era rosada como o pêssego, seus lábios eram finos e havia uma pequena
pinta sobre eles. Vestia-se sempre com as melhores roupas, embora exagerasse no brilho.
     E as joias, então? Eram sempre as mais caras! Não poupara o seu dote, esbanjando até as
economias que meu pai fez no decorrer dos anos. Por isso, chegamos quase à beira da miséria.
     Com os gastos irregulares da condessa, meu pai passou, então, a fazer longas viagens, na
tentativa de fazer novos investimentos para salvar as finanças. A Europa era promissora e, por isso,
ele ficava por meses fora de casa.
     Porém, minha madrasta não dava trégua com os gastos e continuava a esbanjar as poucas
economias que nos restavam. Às vezes, ela parecia fazer aquelas coisas na tentativa desesperada de
obter a atenção do meu pai – pois, devido à sua rara permanência em casa, estava deixando de lado
as obrigações como esposo.
     Mas, na minha cabeça, era por maldade mesmo que a senhora esposa de meu pai fazia todas
aquelas coisas terríveis! Cheguei a flagrar meu pai soluçando pelos cantos da casa. Mas, a qualquer
proximidade e tentativa de ajudá-lo, ele se esquivava e saía à francesa.
     Por dias trancava-se em seu escritório. Ele aparentemente não tinha muita alternativa, pois, se
colocasse os pés para fora de seu refúgio, sua esposa o seguia tagarelando, exigindo e reclamando
coisas corriqueiras e sem muita importância. Eram visíveis, vergonhosas e humilhantes as discussões
dos dois perante a criadagem, que ficava debochando às escondidas. E quando ele não aguentava
mais, a agressão passava da verbal para a física. Minha madrasta tinha seus defeitos, por certo, mas
eu não suportava ver meu pai espancando-a. Vi aquela mulher muitas vezes ter que ficar sem poder
colocar o rosto para fora de seus aposentos por causa dos visíveis hematomas. A desculpa usada era
que ela estava indisposta ou com uma constipação muito forte.
     Os amigos de meu pai, por assim dizer, só o procuravam para farras e bebedeiras. Ele era um
fraco e não sabia dar um rumo à sua vida. Estávamos vivendo em uma guerra fria e silenciosa. Um
jogo de interesses e mágoas, em que a mais prejudicada era eu. Com tanta repressão, também aprendi
a abaixar a cabeça para tudo o que eles dissessem. Cheguei a pensar em suicídio, mas era covarde
demais para isso. E por não conseguir me imaginar longe de meu pai e de Maria, sempre me calei,
escondendo comigo suas tramoias. Os anos foram passando e a condessa não tomava jeito mesmo;
passou a viver de armações para arrancar dinheiro de meu pai e outros fidalgos, que frequentavam
minha casa na ausência de meu pai. Nunca tive voz ativa, meu pai só fazia presença e a pobre Maria
não passava de um capacho, como o resto da criadagem. A autoridade-mor da casa era mesmo de sua




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majestade Marli Del Prat. Entre outras coisas, ela queria tudo só para si. Inclusive, o meu lugar como
herdeira única.
     Seu comportamento era detestável e nauseante, pois às vezes, para chamar atenção, ela se
comportava como uma menininha, fazendo trejeitos e mesuras irritantes. Mas era só meu pai virar as
costas que sua personalidade aflorava, dando lugar à verdadeira pessoa escondida atrás daquela
aparência frágil e ingênua que a condessa criara como personagem, para engambelar a todos do sexo
masculino.
     Mediante tudo isso, eu sabia que era improvável meu pai acreditar em mim. Eles não se
suportavam, mas tinham que manter as aparências e cumprir seus deveres perante a sociedade. Se eu
não morasse naquela casa e se todos os dias não estivesse presenciando tanta falsidade e falta de
caráter, certamente também não acreditaria! Pois aquela doce e jovem senhora e aquele tão elegante
cavalheiro eram, na verdade, duas pessoas repletas de artimanhas.
     Quando meu pai viajava - além das festas constantes, que iam até altas horas -, a condessa
também se embriagava pelos cantos, enquanto eu era obrigada a ficar trancada em meu quarto, para
não ver o que realmente acontecia. Suas risadas altas e histéricas no corredor incomodavam-me e,
por várias vezes, tive que tampar meus ouvidos, colocando chumaços de algodão para não ouvir as
atrocidades que saíam ecoando pelo corredor. Como desejava ter tido outra vida...! Não podia ver,
mas sabia que ela estava com outros homens. Não seria difícil flagrá-la nas proximidades do nosso
jardim com os lordes e os fidalgos, frequentadores de suas constantes festas noturnas. E se alguém a
visse, ela se justificava, dizendo que fazia aquilo para o bem de todos e das finanças.
     Se não tivesse vindo de uma família de nobres, eu a consideraria uma cortesã, devido à sua
conduta leviana e vulgar. Minha vida naquela casa foi triste, sem sentido. Estava a me transformar
em uma pessoa revoltada. Minha luta era comigo mesma, eu não poderia me transformar naquela
pessoa vazia e sem vida que eles queriam que eu fosse. Maria ensinou-me que, quando alguém deixa
morrer os sonhos, a vida acaba. Ela dizia que só não sonhava quem não tinha a capacidade para
realizar. Eu tinha sonhos... e eram muitos. Só não sabia onde eles estavam naquele momento.
        Nunca frequentei escola, mas estudei em casa. Tive aulas de língua estrangeira, piano e
literatura. Minha professora, a Senhorita Ludmila Lavenier, era minha única companhia, depois de
Maria. Tinha mais ou menos trinta anos, embora aparentasse ser mais jovem. Era de origem
holandesa e herdou o sobrenome de seu avô paterno, que era francês. E por ter sido criada e educada
na França, seu sotaque era encantador. Por muitas vezes desejei que ela tivesse conhecido meu pai
antes de minha madrasta. Ela era culta, simpática e divertida. Sua cultura era consequência de suas
muitas viagens pela Europa. Sempre muito elegante, discreta e muito ponderada ao se dirigir às
pessoas. Tinha um tom de voz paciente e educado. Era admirável ver uma mulher muito além do
século XVIII, conhecedora de várias culturas e mestre em disciplina familiar.
     Comentavam as más línguas que ela tinha vários amantes, e que era uma mulher com ideias
muito opostas. Alguns chegavam a dizer que ela não era nada feminina em seu jeito de pensar. Mas
eram apenas boatos maliciosos. Ela mesma me contou que amou apenas uma pessoa em toda a sua
vida e que, por proibição dos pais dele, não puderam se casar, por causa de sua inferioridade
financeira. Por isso, ela resolveu seguir em frente como educadora particular de finas senhoritas.
     Suas histórias eram incríveis! Contou-me que certa vez almoçou com o próprio rei, sentou-se à
mesa real como sua convidada de honra. Não era o tipo de pessoa que desse ouvido a comentários e
mexericos dos outros. Era livre e independente, como eu gostaria de ter sido. Também me cotou
sobre as damas da corte para quem já tinha ensinado suas aulas de piano, e sobre os romances
secretos no palácio real. Ríamos muito. Senhorita D'Lú - era como gostava de ser chamada - foi
altamente recomendada pela Senhora Carllota Gonzalez, uma governanta amiga de Maria, que
trabalhava na mansão do Marquez de Miqueias. Foi uma pena quando meu pai teve de dispensar seus
serviços por causa dos ciúmes da condessa e, é claro, por causa da nossa situação financeira, que não
ia nada bem. O resto, aprendi por conta própria.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     Assustei-me quando Maria entrou em meu quarto sem bater, com a bandeja de café. Maria era
uma mulher gentil, educadíssima e extremamente respeitável. Podia-se dizer qualquer coisa sobre
Maria, menos duvidar de sua conduta, inabalável. Era uma mulher de estatura baixa, rechonchuda
como um empanado de frango. Fazia questão de manter seus cabelos negros presos em um coque
perfeito. Tinha os olhos grandes e negros, lábios largos e era muito severa com os seus subalternos.
Usava luto constantemente em sinal de respeito à memória de minha mãe. E ficou muito aborrecida
quando papai casou-se novamente, embora nunca se atrevesse a dizer.
     Nunca se exaltava e constantemente usava de ironia em suas conversas. Acho que herdei sua
maneira de ser. Ela nunca conseguiu dizer-me não. Mas, às vezes, colocava-me de castigo, o que era
pior do que levar chineladas. E ali, naquele momento, observando-a de costas, percebi que seu peso,
embora não condizente com sua estatura, dava-lhe certo charme, porque mantinha uma postura
elegante e ereta. Deveria ter sido muito bela quando ainda jovem. Por certo, foi desejada entre os
homens. A pobre mulher não se casou, não tinha filhos, passou a vida toda se dedicando a mim e a
meu pai.
     Era filha de espanhóis ciganos. Tinha o estranho costume de prever o futuro através das cartas
do tarô. Por várias vezes, às escondidas, abriu o baralho para mim, sempre usando um ritual. Certa
vez, quando abriu o tarô para mim, depois de muito fitá-lo, começou a chorar. Fiquei sem saber o
porquê daquele pranto incessante. Minhas tentativas de interrogação foram em vão, e de nada
adiantava tentar consolá-la, pois seu pranto era incessante. Maria abraçou-me e disse:
     _ Tem um triste futuro, minha filha! Precisa comer alguma coisa.
     Abriu as janelas e afastou as cortinas de organza e seda cor-de-rosa. Ajeitou a bandeja com o
desjejum na mesinha de lanches, que era de cristal e cobre decorado, trazida da Inglaterra por minha
mãe. Em seguida, saiu enxugando as lágrimas e dizendo, entre dentes, que os afazeres a esperavam,
deixando-me com as respostas ao vento mais uma vez. Sempre tão atenciosa e dedicada, mas muito
meticulosa e misteriosa quando se tratava das cartas. Detalhei a mesinha novamente naquele
momento nostálgico de minha vida e lembrei-me de meu pai, que certa vez contou-me que minha
mãe ficava horas escrevendo suas receitas e seus poemas ali. Ele dizia que ela era cheia de mistérios.
Interrompi novamente meus pensamentos, pois a copeira entrou, trazendo uma ânfora com água
morna e colocando-na na bacia de porcelana chinesa.
     _ Não vai comer menina? - perguntou a copeira.

     _ Daqui a pouco, estou meio sem fome agora.
     Ela saiu, fazendo-me ameaças de que, se eu não comesse tudo, chamaria o doutor. Só de pensar,
senti arrepios! Ele era um velhote horrível, com cara de louco. Fumava um charuto fedorento, o seu
cheiro pessoal dava-me náuseas. Sua barriga salientava-se por cima daquela roupa encardida, que já
não via água há séculos. Sem contar que metade de seu rosto ocultava-se em algum lugar entre a
barba e o tenebroso bigode. Se olhássemos muito, víamos uma saliva escorrendo no canto externo
dos lábios. Eu ficava doente só em pensar que o teria perto de mim, colocando-me aquelas mãos
amareladas pelo tabaco. Nunca o vi lavar as mãos para me examinar. Toda vez que ele ia me visitar
quando criança - para exames rotineiros ou qualquer outra coisa -, se eu estivesse doente, ficava pior.
E se eu não estivesse, aí ficava mesmo. Arregalei os olhos de pavor! Sentei-me na cama, coloquei a
bandeja no colo e comi tudo o que havia no desjejum, pois, com certeza, ela cumpriria sua promessa.
Ela, sorrindo, parecia ter lido meus pensamentos. Aliás, sempre fazia isso. Dei uma espreguiçadela
gostosa no ar e empurrei a bandeja vazia. Voltei para a janela, fiquei por horas observando o
jardineiro Joseph, enquanto ele cuidava das rosas com dedicação e minúcia. Vi Maria levando para
ele café e sequilhos. Ele sempre estava próximo dela e pareciam tão felizes! Maria sorriu e saiu em
seguida, toda faceira.




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O segredo dos girassóis
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      Não demorou muito e logo estava de volta para buscar a bandeja. Tinha nos lábios um sorriso
que não era habitual. Definitivamente, Joseph a fazia muito bem. Deu um suspiro profundo antes de
me fazer um convite para passar sua folga com ela:
      _ Senhorita Anna, gostaria de passar o fim de semana comigo na casa da minha irmã que mora
no interior?
      Perguntei se tinha avisado à senhora minha madrasta, o que confirmou entusiasmadíssima com a
cabeça. Pediu que me apresasse e saiu toda satisfeita porta afora.
      Fazia muito tempo que eu não a via daquele jeito. Maria sempre tivera permissão para ir visitar
seus parentes no interior e, por certo, não era essa a causa de sua súbita alegria. Daria tudo para saber
o que Joseph tinha-lhe falado. Tomei um banho caprichado, com os sais que ela fizera para mim.
Escolhi um dos meus mais lindos vestidos. Mas este era adorável, em tom areia, todo rendado e com
muitos babados. Seu decote deixava meus ombros à mostra. Olhei-me no espelho e senti-me bem
ousada, mas mantive a discrição quanto aos exageros. Gostava de ficar admirando-me ao espelho e
ali, olhando o retrato de minha mãe, comecei a fazer comparações entre nós duas. Naquele momento,
percebi o quanto me parecia com ela.
      Meus olhos eram cor de mel, puxando para verde. Meus cabelos tinham cachos largos e eram de
um tom castanho quase dourado. Minha pele, morena clara, era perfeita e sem nenhuma mácula.
Meus lábios eram grossos. Definitivamente, eu a mistura perfeita das raças. Minha mãe era inglesa,
de pele muito clara e olhos muito azuis. Seus cabelos eram de um tom castanho-claro, quase louro.
Fitando-a naquela fotografia, achei-a parecida com um anjo. Eu havia herdado dela não só a beleza,
mas também a elegância e o tom polido na fala. Minha cintura era extremamente fina e eu só usava o
espartilho por mero capricho. Esse tipo de arrogância e vaidade foi uma coisa das quais me arrependi
de ter tido.
      Embora ela tivesse morrido quando nasci, esses eram os comentários a seu respeito. Na
aparência, achava-me igual à minha mãe, e sentia muito orgulho disso! Meu pai não ficou atrás. Ele
era um espanhol muito alto, olhos cor de mel, pele bronzeada e cabelos claros e lisos, ombros largos
e fortes. Lembro-me de vê-lo, quando eu era criança, depois de chegar de suas caçadas, montado em
seu cavalo baio. Ele se parecia com um personagem de contos de fadas. Ficava louca, esperando que
ele me colocasse em sua garupa e me levasse para cavalgar em seu colo. A sensação de proteção e
liberdade era um misto formidável. Que pena não podermos voltar atrás no passado, no exato
momento em que fomos mais felizes... Neste momento, mediante tanto sofrimento, é que percebo
como eu tinha uma vida fútil e, por certo, poderia ter feito mais pelo meu semelhante.
      Às vezes ele tentava ser durão com os empregados, mas seu coração era bom e acabava voltando
atrás. E quando sorria... era perfeito! Seu olhar era penetrante e sedutor. Aposto que mamãe, ao vê-
lo, apaixonou-se imediatamente. Esse era o tipo de amor que eu queria para mim: eterno e
verdadeiro. Eu tinha certeza de que ele ainda a amava, pois sempre trazia consigo, dentro do relógio
de bolso, um retrato dela. Mesmo casado com minha madrasta, ele ainda, às escondidas, ficava
fitando com ternura aquele retrato.
      Ao se casar com a condessa, meu pai tornou-se carrancudo e grosseiro, afastando-se de mim dia
após dia. Passei a me sentir culpada por minha mãe ter falecido durante o parto. E minha madrasta,
ao perceber meus temores infundáveis, passou a agredir-me, chamando-me de pequena maldição.
Dizia ser eu a culpada pela morte da minha mãe e pelo fato de ela nunca ter engravidado. Mas, um
dia, meu pai a ouviu e interveio por mim. Disse-lhe que nunca mais queria vê-la fazer-me tais
acusações levianas. A condessa engoliu seu ódio por mim naquele dia, e subiu para seus aposentos,
fingindo estar se sentindo mal. Não me lembro de ter visto meu pai procurar por ela e pedir-lhe
desculpas, como sempre estava acostumado a fazer. Essa foi a única vez, desde que me entendia por
gente, que vi meu pai manifestar-se a meu favor.
      Usei uma fita negra de veludo ao redor do meu pescoço, com um camafeu de marfim de minha
mãe. Agora só faltava a sombrinha cor de palha, com delicadas rosinhas azuis e outras com cor de




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

damasco. Seu cabo era todo talhado à mão, e havia sido meu avô quem o fizera para mim. Agora sim
estava pronta para meu passeio naquele final de semana, que seria praticamente um dos últimos com
Maria.
         Havia meses que eu não saía de casa. Por isso, não poupei esforços e caprichei naquela
manhã. Levei uma maleta com tudo que julguei ser necessário. Não me esqueci de colocar alguns
mimos para presentear os donos da casa onde passaríamos o final de semana. Levei comigo minhas
economias. Achei que seria o momento exato de gastá-las.
         Maria entrou no quarto, de repente, e fitou-me de cima abaixo. Ironizou, ao perguntar onde
seria o baile. Senti-me encabulada e corei de imediato. Ela ainda continuou a brincar, dizendo que,
daquela forma, eu iria arrumar pretendentes com muita facilidade. Sorri meio sem graça e falei que,
se fosse somente para desfilar ao lado de um homem triste e carrancudo como meu pai, só para
mostrar à sociedade que eu era capaz de arrumar marido, preferiria acabar solteirona e comendo
bolachas com chá.
      _ Minha nossa! Pensei que eu iria poder descansar um dia! Mas, pelo que vejo, vou ter que
cuidar de uma solteirona carrancuda - disse Maria, dando uma sonora gargalhada.
      _ Ah, Maria! Jamais me apaixonarei! Somente se o amor for verdadeiro e duradouro. Mas sei
que isso será impossível de acontecer, pois a nossa sociedade só visa o materialismo. E, levando em
conta a situação financeira atual de minha família, isso será praticamente impossível, pois meu dote
não é considerado tão valioso como o de algumas jovens do condado! Também temos que levar em
conta outro fato não menos importante.
      _ E qual seria? - perguntou Maria, curiosíssima.
      _ O fato de que a senhora minha madrasta pode ter furtado meu mísero dote antes mesmo de eu
ter tido a chance de usá-lo.
      Dessa vez, nos duas caímos em risos. Mas ela ainda prosseguiu, tentando corrigir o meu
pensamento de depreciação para comigo mesma:
      _ Não quero que diga sandices, criança tola. Por certo, um jovem mancebo irá se apaixonar por
ti do jeito que é. Não podemos julgar todas as pessoas somente por conhecermos uma. Afinal, os
dedos das mãos não têm o mesmo tamanho.
      _ Hummm... E quem seria essa pessoa tão escrupulosa e tão pouco materialista, que vê uma
moça pelo que ela é, e não pelo dote que ela possui? E quanto aos dedos das mãos, Maria, eu já os
observei. Não são iguais, por certo, mas têm o mesmo tamanho, só estão posicionados de forma
diferente. Basta observá-los e verá que estou correta. Ah, Maria, nós fazemos parte de uma grande
peça teatral, na qual só mudam os personagens! E o cenário? Às vezes! Mas a história é sempre a
mesma. Principalmente para nós, mulheres, que somos nada mais nada menos do que meras
marionetes nas mãos dos nossos senhores. Não existe casamento sem conveniência, Maria. Valemos
o dote que possuímos, ou seja, o dote que levamos como bagagem. Ouso dizer que a própria
condessa foi uma dessas vítimas.
      _ Agora sei que a senhorita já não está mais em seu juízo perfeito! A senhora Del Prat? Uma
vítima? Nunca!
      _ Maria, acha que ela também não foi obrigada por seu pai a casar com um homem viúvo, que
ainda trazia de bagagem uma filha nos braços? Pense bem, não deve ter sido fácil para ela, ter que se
casar só porque já estava com vinte e oito anos. Temos nossas diferenças, isso é certo. Mas não
posso culpá-la por ser como é. Ela é mais uma vítima de nossa sociedade. Já pensou o que é ter que
ver seus sonhos sufocados? E se ver aprisionada a uma vida infrutífera e sem volta? Não é a senhora
mesma quem disse que, quando os sonhos morrem, morremos com eles? Por isso ela desconta toda a
sua ira em mim. E ainda deve, por certo, sentir-se completamente frustrada por não poder ter tido
filhos. Até agora, com quarenta e oito anos, isso deve ser horrível! Imagine só como a sociedade em
que ela vive cobra dela o tempo inteiro. Todos nós temos problemas. Os delas são ainda piores que
os meus. Acredite!




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ A senhorita está completamente certa. Mas isso não quer dizer que ela deva sair por aí,
pisando nas pessoas menos favorecidas.
     _ Concordo com a senhora! Mas não somos ninguém para julgá-la. Ela foi criada com tudo do
bom e do melhor, nunca soube o que é sequer trocar a própria roupa. Ela foi mimada em demasia.
Tornou-se prepotente, ou quer que a vejamos assim. Já a flagrei muitas vezes, depois de suas festas,
fitando o horizonte, visando sabe-se lá Deus o quê! Ela, de fato, não ama meu pai, mas ainda prefere
ficar com ele a voltar para sua casa na Alemanha. Imagine o que diriam de uma mulher, com o título
de nobreza que ela possui, se alguém soubesse que ela saiu da casa de seu marido? Não a veriam
com respeito. E o que ainda é pior, não se casaria novamente, principalmente por não poder dar
futuros herdeiros. Tenho certeza de que a severidade do conde, seu pai, e ainda as cobranças da
sociedade repressora são piores do que os apertos e a solidão que tem passado aqui. Ou a senhora
acha que uma pessoa como ela não é solitária?
     _ Por certo tem razão, minha querida e doce Anna, mas não consigo entender como consegue
achar qualidades em pessoas como essa senhora.
     _ Não é questão apenas de ver qualidades nela; é questão de entendê-la, como mulher e como
ser humano. E ela só é maldosa porque é revoltada. Prefiro ver as pessoas por outro ângulo. Caso
assim não fizesse, odiaria mais gente do que a quantidade de cabelos que tenho em minha cabeça.
Não me importo com o que ela faz comigo. Vai ver ela está certa, nunca encontrarei um bom homem
para mim.
     _ Pois lhe digo que isso acontecerá em breve, e rezo para que Deus lhe perdoe pelo passo que
terá que dar. Sinto não poder interferir em seu destino, minha filha. Pois, caso pudesse, garanto-lhe
que ele seria muito mais ameno do que o previsto. E agora pare com suas ideias mirabolantes e
inocentes a respeito do ser humano. Para mim, pessoas más escolhem ser como são.
     E saiu, olhando os dedos das mãos.
     _ Por que, Maria? - gritei. Viu isso em suas cartas de tarô?
     Estiquei meu pescoço, tentando achar sua face. Quando ela se virou abruptamente para mim,
notei profunda tristeza em seu olhar.
     _ Por que nunca me responde a essa pergunta tão simples? - indaguei insistente.
     _ Talvez porque esta resposta seja simples demais, e só possa ser respondida pela senhorita!
Lembre-se: todas as respostas estão dentro da gente. Agora chega de conversa e siga-me, pois vamos
acabar nos atrasando.
        Segui-a, em silêncio e cheia de controvérsias mentais. Se todas as respostas estavam dentro
de nós, por que sempre errávamos em nossos julgamentos?
     Ao descermos a escadaria, Maria foi até a cozinha para dar as ordenanças finais à criadagem.
Fiquei entre os dois últimos degraus, observando tudo à minha volta. A mobília, embora fosse muito
cara e exuberante, era de extremo exagero e de um mau gosto imperdoável. Observei tudo a meu
redor e fechei os olhos para me lembrar até dos mínimos detalhes. Estranhas a sensação de perda e a
saudade antecipada que tomaram conta de mim naquele momento. Era como se eu não fosse mais
ver aquilo tudo de novo. Senti medo e tristeza.
     Minha madrasta observava-me do alto da escada. Ela era como uma sombra constante em minha
vida. Às vezes, tinha a impressão de tê-la em frente a mim enquanto dormia. Não resistindo, ela disse
algo para me ofender.
     _ Desse jeito voltará casada, com um plebeu. Aliás, é bem o seu tipo. Nunca se parecerá comigo,
não conseguirá um bom partido e jamais terá um homem a seus pés. Acha mesmo que pode copiar-
me? Criança tola! Não tente, não sou sua mãe, nunca quis ser. Não vê que sou a mulher do seu pai, e
que ele já a esqueceu há muito tempo? O seu reinado acabou, minha querida - se é que um dia
existiu!
     A condessa disse essas coisas enquanto descia a escada, cambaleando. Dessa vez, excedeu-se
em sua soberba, arrogância e presunção. E a maneira com a qual falava a respeito de meu pai ferveu




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                                          Adriana Matheus

meu sangue. Mas Deus me deu forças para não perder a paciência. Levei em consideração que ela
não estava sóbria naquele momento. Na verdade, senti pena dela. O cheiro da bebida era tão forte
que me tonteou, devido à pouca distância que ela fez questão de manter para me assustar - o que
conseguiu. Em seus olhos, percebi um ódio aterrorizante.
        Fiquei tão nervosa e indignada – e, ao mesmo tempo, assustada -, pois não sabia o porquê de
ela realmente me odiar tanto. Eu sabia que eu poderia ter respondido à altura. Mas não o fiz.
Desvencilhei-me dela o mais rápido possível, e saí porta afora, às pressas. Pude, ainda, ouvir seus
gritos histéricos e rompantes pelo lado de fora.
     _ Vê se arruma um plebeu, velho, gordo e fedido por lá e suma com ele para bem longe das
minhas vistas. Assim, vai poupar-me o trabalho de ter que eu mesma despachá-la para o inferno!
     Ergui minha a cabeça e fui até o jardim, onde estava nosso jardineiro Joseph. Aproximei-me
dele e abaixei-me para cumprimentá-lo melhor. Eu estava tremendo tanto que ele, parecendo ter
percebido, mas também não querendo deixar transparecer para que eu não ficasse ainda mais
constrangida, cortou um botão de rosas com um gesto de delicadeza, dando-me em seguida. Por fim,
disse, ainda de cabeça baixa:
        _ Uma rosa para uma linda flor! Sabe, senhorita, a patroa ladra mas não morde. No fundo, ela
sente tanto medo da senhorita quanto a senhorita dela.
     Sorri em agradecimento e aproximei-me, inclinando-me e segurando sua cabeça com as mãos
para lhe dar um beijo na testa. Na verdade, eu compreendia o que ele estava tentando me dizer.
Imagine só: minha madrasta com medo de mim! Embora parecesse hilário, era a mais pura verdade.
Só que, naquele momento, eu só conseguia ver o medo que eu sentia dela.
     Joseph era um velhinho simpático e muito agradável. Quando eu era criança, sempre me contava
histórias e contos folclóricos sobre o povo cigano, e era fantástico ouvi-lo. Levantei-me para olhar ao
redor e admirar o esplendor do magnífico jardim. Eram tantas flores! Rosas de todas as cores e
tamanhos, margaridas, gerânios, florzinhas do campo, violetas, dálias, cravos, jasmins, orquídeas,
papoulas, plantas ornamentais... Tudo aquilo tinha cheiro de amor e fazia-me muito bem. Toda
aquela beleza misturava-se ao perfume da hortelã, da alfazema e do alecrim.
     A condessa tentou fazer com que meu pai acabasse com o jardim por várias vezes. Mas ele
sempre ficou em cima do muro e nunca deu uma resposta positiva a ela. Aliás, seria novidade se ele
fosse negativo a alguma coisa relacionada a ela. Para essa questão, ele apenas disse que iria pensar.
Minha madrasta continuou insistindo com esse assunto por muito tempo. Mas, depois de nunca ouvir
um sim conclusivo, acabou desistindo por certo tempo.
     Quando se casou, trouxe consigo toda uma decoração pavorosa, inclusive as estatuetas
monstruosas e sem nexo que passaram a decorar o belo jardim da minha família. O pior é que ela as
fixou no centro, próximo à janela do meu quarto. Lembro-me de quando eu era pequena: ao
escurecer, sempre que olhava pela janela, tapava os olhos com as mãozinhas, pois me davam muito
medo. Elas eram como pessoas decepadas e, na minha mente frutífera e infantil, mexiam-se e
pareciam estar caminhado em minha direção. Eu corria para debaixo das cobertas, deixando de fora
somente o pequenino nariz para respirar. Eu suava e tremia tanto que, quando Maria vinha dar-me
boa noite, tinha que trocar minhas roupinhas molhadas. Ela sempre me acalentava com suas cantigas
de ninar, na tentativa de me acalentar até que eu dormisse.
        O cavalariço Sr. Lorenzo aproximou-se de mim por trás, assustando-me.
     _ Calma, senhorita Anna! Só vim saber se está tudo bem, pois ouvi quando a Senhora Del Prat
estava a gritar com a senhorita exasperadamente. Ela fez algum mal à senhorita?
     _ Não, Sr. Lorenzo, ela apenas ladrou um pouco além da conta. Foi só, juro!
        Ele pareceu não crer; então reforcei, olhando em seus olhos.
     _ Sim. Está tudo bem. Deve ser a astenia causada pela ausência de meu pai, ou o excesso de
licor de jenipapo.
     _ Ah, por certo a Senhora deve estar precisando de uns calmantes em dosagem maior.




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     _ Oh, não diga isso! Não se pode misturar calmantes a licores.
     Começamos a dar gargalhadas. Lorenzo conseguiu descontrair-me, afinal. Maria veio em
seguida e disse:
     _ Imagine só, esses criados jovens não fazem nada direito!
     _ Maria, Maria! Não estaria sendo a senhora exigente demais com os pobres coitados? Não está
tentando tirar o lugar da senhora Del Prat, está?
     Maria fez-me um ar de desaprovação pelo meu comentário esdrúxulo. Lorenzo já havia
colocado nossas bagagens na carruagem. Abriu-nos a porta para entrarmos. Seguimos, então, nosso
caminho em direção ao enorme portão verde musgo, com pontas em formato de lança e pintadas em
dourado. O enorme brasão da família Del Prat estava logo à frente. A passarela toda, de pedras
grandes e polidas pelo passar dos anos, dava à entrada um ar de realeza. Pude ver a estufa onde
Joseph cultivava as mudas; era logo na lateral do jardim. Quatro bancos foram colocados no decorrer
do caminho, dois de cada lado.
     Um escravo veio abrir o portão. E, pela primeira vez, senti-me em liberdade, longe daqueles
muros de medo e tristeza. Suspirei aliviada. Mas era estranho, pois a sensação de que nunca mais
veria tudo aquilo novamente não me largava.
     Minha sombra olhava-nos às escondidas, por trás das cortinas da grande janela de vidro da sala
de estar. Parecia uma ave de rapina. O que será que se passava naquela cabeça louca e cheia de
luxúria? Sacudi minha cabeça, rindo comigo mesma. Maria pareceu ler os meus pensamentos - aliás,
ela era a minha sombra mental e era constrangedor, às vezes, ter os pensamentos invadidos. Como
que em um impulso, Maria disse:
     _ Pare de criar caraminholas nessa cabecinha, menina!
     Dei de ombros, virando o rosto para o outro lado, mas percebi que ela também sorria. Maria era
uma mulher muito perspicaz e, por isso, achei melhor centralizar meus pensamentos na paisagem ao
meu redor.
     As ruazinhas eram estreitas e encantadoras, com suas belas e elegantes casas, todas decoradas
com jardins repletos de flores, pois era a moda trazida da Europa. As árvores frondosas, que
cercavam de um lado a outro as calçadas, pareciam ter sido colocadas ali naquele momento, só para
passarmos numa passarela harmoniosa.
     Muitas pessoas afoitas já transitavam para lá e para cá. Senhoritas pareciam ocupadíssimas em
desfilar seus modelitos muito comportados e elegantes, num flerte compulsivo para atrair a atenção
dos cavaleiros, que desfilavam na outra calçada. Afinal, ficar solteira poderia se tornar uma coisa
escandalosa e dispendiosa para os pais. Estes juntavam dinheiro durante toda a vida para que suas
filhas não se casassem sem um dote adequado.
     Moçoilas em época de se casar só frequentam bailes em companhia de suas aias ou de seus pais.
Jamais sozinhas, por medo dos mexericos. Sendo que a irmã mais velha é quem deveria se casar
primeiro, e a irmã mais nova, caso houvesse uma, tinha que ficar cuidando da mãe. Se o namoro
firmasse, deveria durar um ano na sala da moça, que tinha que estar acompanhada de seus pais e
outras pessoas. Então, o próximo passo seria o noivado, que deveria durar apenas o tempo de o
enxoval ficar pronto - isso queria dizer na semana seguinte, pois a maioria das mães fazia o enxoval
das filhas assim que as meninas nasciam. Claro que as jovens enamoradas também tinham que
bordar grande parte do enxoval, logo que estivessem em fase casadoura. As meninas já estavam
prontas para o casamento a partir dos doze anos, caso fossem nobres, e a partir dos quatorze a
dezoito anos, caso não tivessem título de nobreza. Isso significava que eu estava passando do tempo
de arrumar um marido.
     Todos procuravam um bom partido para suas filhas. Não se importavam com os sentimentos
delas. Na esperança de um futuro seguro, o amor era o de menor valor. Isso não era o que eu queria
para mim. Sempre me esquivei de senhores mais velhos.




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O segredo dos girassóis
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     Certa vez, em um jantar de que fui obrigada a participar em minha casa, meu pai apresentou-me
a um fidalgo com o triplo de minha idade, sendo que eu tinha dezesseis anos nessa época. O velhote
rodeou-me a noite toda e não consegui desvencilhar-me dele. O cheiro da bebida misturou-se ao
cheiro da roupa velha, que devia ter estado guardada desde o século XV. Isso era nauseante! Suas
mãos eram oferecidas demais. O único jeito foi dizer que estava me sentindo muito mal. Com
certeza, era mais uma que a condessa havia aprontado para se livrar de mim, pois pude vê-la com seu
olhar de deboche às escondidas. Mas, graças a Deus, a falsa dor de cabeça que forjei salvou-me mais
uma vez. E, nesse dia, apertei os olhos ao passar na direção da condessa, constatando a minha vitória
- o que causou uma torcida em seu leque de estimação.
         Voltei a observar a paisagem de Salamanca, enquanto Lorenzo contornava a praça central.
Então, pude ver a linda fonte de águas no meio da praça. Depois de algumas horas, chegamos ao
nosso primeiro destino. Paramos à frente de uma enorme mansão cor-de-rosa. Era a mansão e o
ateliê de madame Hortência Vigald.
     Ela era uma senhora rechonchuda, de olhos grandes e amendoados. Seus seios eram fartos e
salientavam-se por cima de suas vestes, repletas de rendas e outras mesuras. Para completar o visual
exótico, ela ainda usava uma peruca loura cheia de cachinhos. Isso a fazia parecer uma boneca de
trapo mal feita e assustadora de se ver à noite, sentada em uma cadeira no escuro.
     Ao ver-me, sempre me abraçava fortemente e melava-me com seus beijos babentos. Como era
difícil ser uma jovem educada e de boa índole, meu Deus! Tinha vontade de sair correndo. Às vezes,
tinha a impressão de que ela poderia me morder com aqueles dentes enormes e escurecidos pelo
tempo. Mas também poderia correr o risco de ser engolida por aqueles lábios extremamente grandes
e lambuzados de açúcar, pela quantidade diária de doces degustados. Ao chegarmos, ela estava de pé
à soleira da porta, comendo uma brevidade. Ao ver-nos, correu em nossa direção, dizendo:
     _ Oh, querida, como está linda! E cada vez mais parecida com Elizabeth! Veio ver alguns
modelitos para si, meu bem?
     _ Não - salvou-me Maria. Viemos buscar a encomenda da Senhora Del Prat. Estávamos partindo
de viagem e, como não teremos tempo de buscá-la na volta, levaremos desde já a encomenda
conosco.
     _ Oh, entrem! Pedirei a Gülia que lhes busque a encomenda. Sentemos, por favor! Aceitam uma
xícara de chá com biscoitos? Façam-me companhia, queridas, nunca recebo visitas para o chá!
         Até parece, pensei comigo. Todas as clientes que por ali aparecessem por certo seriam motivo
para madame Hortência tomar chá com biscoito - o que explicava sua forma rechonchuda.
     _ Não, senhora! Estamos com muita pressa e, além do mais, já fizemos nosso desjejum matinal.
     _ Oh, ficarei um tanto ofendida! Sabe como gosto da menina, embora quase não a tenha visto
ultimamente.
         Por fim, aceitamos uma xícara chá para que ela não tivesse uma síncope.
     _ Então, querida, como está seu pai? Já retornou de viagem?
     _ Não, ainda não. E já fez um mês hoje. Confesso que estou bastante preocupada com a ausência
de notícias por parte dele. Isso anda me tirando o sono.
     _ Não diga! Mas com certeza não aconteceu nada de grave com Sir Juan. Nisso eu aposto! Sabes
como são os homens... Fique despreocupada, querida! Noticia ruim corre rápido. Ele é mesmo um
homem lindo! - suspirou ela. Um verdadeiro colírio para os meus olhinhos cansados! Se não fosse
casado... e se eu tivesse um pouquinho menos de idade, candidatar-me-ia como sua madrasta! Uma
madrasta boazinha, é claro! - fez esse comentário sorvendo, em seguida, um gole de chá.
     Por certo, ela teria que ter muito menos idade mesmo. Ela usava termos antigos, como se ainda
estivesse no século XV, e forçava um falso francês. Na verdade, seus vestidos eram cópias exatas de
luxo da moda francesa. Suas costureiras, sim, eram as verdadeiras artistas, pois madame Hortência
nunca sequer colocou suas mãos em uma agulha para coser.
     Eu e Maria nos entreolhamos, contendo uma sonora gargalhada.




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O segredo dos girassóis
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     _ Ah, mas aposto que existe algum jovem mancebo para consolar essa ausência!
     Olhei novamente para Maria, em busca de socorro. E suspirei quando pude ver que Gülia
entrava, trazendo um enorme pacote nas mãos, que foi direto para as mãos do lacaio. Este o entregou
para Lorenzo, que nos aguardava pacientemente do lado de fora. Todo aquele movimento foi um
alívio, pois me salvou de ter que responder às tolas interrogações de madame Hortência. Embora eu
não tivesse uma vida social ativa, Madame Hortência fazia-me parecer que eu levava uma vida
agitada e pública, pois eu sempre tinha a obrigação de ter algo para contar a ela.
     Maria, percebendo meu constrangimento, apressou-a, dizendo que realmente precisávamos ir.
Ufa, graças a Deus!, pensei comigo.
     _ Porque não escolhe um dos modelitos? – insistiu, ainda, na saída.
     _ Tenho tantos que acabaria tendo que dividir meu pouco espaço com eles!
     _ Entendo... Mas realmente sei que não precisa do brilho das lantejoulas e paetês para ser feliz.
Tem o seu próprio brilho, e isso é nato.
     Disse isso num tom engraçado e baixo. Rimos todas ao mesmo tempo, pois nos lembramos de
que, certa vez, a senhora Del Prat encomendou um vestido tão espalhafatoso e reluzente que mal
dava para ver suas caríssimas joias penduradas ao pescoço. Foi uma noite difícil aquela, pois minha
madrasta chamou mais atenção do que a noiva ou a própria rainha.
     A noiva era uma pupila de muita estima de Sua Majestade. Por isso, esta fez questão de estar
presente entre os convivas. A condessa só foi convidada por causa de seu titulo de nobreza, mas
tinha que aparecer a todo custo. A rainha, ao vê-la, disfarçava e educadamente esquivava-se a cada
proximidade da Deusa do sol. Naquele dia, minha madrasta superou-se em seus exageros. Doía a
vista de todos ao olhar para aquela figura brilhante. Meu pai e eu ficamos em um canto distante dela,
é claro. Percebi seu constrangimento mediante tantos sussurros zombeteiros.
     Já dentro da carruagem, não sabíamos se ríamos das lembranças reluzentes da condessa ou se
nos deliciávamos dos fuxicos de Madame Hortência.
     O dia estava lindo e o sol resolveu dar o ar de sua graça naquela fria manhã de outono. Ao
pegarmos a estrada, contemplávamos a paisagem magnífica. Eu estava encantada com tantas
novidades que vinham surgindo à beira do caminho. Conversamos muito sobre coisas banais do dia-
a-dia. Não tocamos em assuntos que não nos eram convenientes ao espírito.
     Durante todo o trajeto, cantarolamos canções ciganas e ríamos por qualquer coisa. Maria fez de
tudo para que eu me desligasse dos problemas corriqueiros e domésticos. Depois de uma rápida
parada para nos refrescar à beira de uma velha mina d’água, comemos o delicioso lanche que Maria
havia trazido em uma cesta. E seguimos a nossa longa jornada pela empoeirada estrada do norte da
Espanha. Afinal, pela altura do sol, já devia ser meio dia. Dentro da carruagem, adormeci
profundamente, encostada aos ombros de Maria. Só despertei quando a carruagem passou por uma
pedra saliente. Maria bateu no teto e gritou para que o cocheiro tomasse mais cuidado. Depois
daquele susto, perguntei se já havíamos chegado.
     _ Quase! - respondeu-me Maria - Continue a dormir! – prosseguiu, com um tom na voz que
mais parecia um bocejo.
     Não conseguia dormir mais e comecei a olhar as folhas das árvores caídas ao chão, formando
uma espécie de tapete celestial. Casinhas de colonos ao longe, muitos gados a pastar. O cheiro do
mato e o silêncio ensurdecedor fizeram-me adormecer novamente. Uma voz ao longe parecia
chamar-me Anna, Anna! Sinto sua falta... Encontre-me, por favor!
     Meus olhos foram ficando cada vez mais pesados e, por fim, caí no abismo dos sonhos. Sonhei
que estava em um mosteiro, todo feito em pedras calcárias de cor escura. O lugar mais parecia uma
ruína. Havia um enorme jardim, totalmente abandonado, onde só os girassóis sobreviviam. Muitos
monges trabalhavam nas plantações, tentando salvar o pouco que lhes restava da seca, que era
eminente. Outros cuidavam dos animais magros e doentes. Alguns, ainda, varriam incessantemente o
patíbulo, cuja terra havia invadido todo o mosteiro. Aquilo me pareceu mais um ato de loucura




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

coletiva. Ao longe, ouvi um coro com música gregoriana - misturada às orações, pareciam lamentos
e suplícios.
     No patíbulo do mosteiro, logo na entrada, havia um monge, que me olhava de um jeito hostil,
quase humilhante. Parecia ser uma espécie de abade. Ele era sério, atarracado, baixo e corcunda. Sua
pele era avermelhada, manchada e descamada por causa do mau tempo. O que o diferenciava dos
demais monges era apenas uma enorme cruz na frente de suas vestes, encardidas e rasgadas.
Algumas freiras circulavam de um lado para o outro, como que hipnotizadas. Vi-me descer de uma
carruagem, e seguraram meus finos braços, empurrando-me aos safanões para dentro do mosteiro.
Tentei fugir, mas as mãos que me seguravam eram fortes e severas. Eu olhava para trás, tentando
pedir socorro à Maria. Ela nada parecia poder fazer. As lágrimas desciam incessantes dos olhos de
minha amada amiga, que ficava cada vez mais para trás.
     Tentei fugir inutilmente. Gritei por socorro e deixei o pranto rolar. Chamei por Maria, até que a
vi cair por terra, como que sem forças. Meu corpo tremia. O desespero tomou conta de mim, por
saber que estava ficando longe de meus familiares. Tentei agarrar-me onde dava. Todos ao redor
olhavam-me e viravam seus rostos, numa repulsa sem explicação.
     Uma jovem freira ainda tentou desgrudar-me daqueles braços e mãos, mas outras a puxaram e só
ouvi dizerem-me para ter fé. Outra freira, bem mais velha, veio receber-nos à porta do convento. Era
uma senhora carrancuda e com ares de perversidade. Provavelmente, a madre superiora.
     Sua expressão de algoz conseguiu gelar minha alma. Mandou-me calar a boca aos berros,
advertindo-me que ali não era lugar para toda aquela histeria. Por fim, levaram-me para dentro,
forçosamente. Virei para trás, dando uma última olhada para meu pai, que ficou na entrada,
conversando com a suposta madre.
     Deixaram-me só, em um corredor onde havia um enorme banco, uma mesa, uma cadeira e um
armário antigo, onde pareciam guardar arquivos e documentos. A sala era escura e não tinha sequer
um vaso de plantas.
     De repente, ouvi um barulho e a porta se abriu. Estremeci como vara de bambu ao vento. Mas,
ao contrário de quem pensei que fosse, entrou um monge de hábito marrom e cabeça baixa e
encapuzada. Aproximou-se de mim lentamente, ajoelhou-se e fitou-me os olhos. Seus olhos eram cor
de mel, sua pele, muito branca, e seu rosto angelical escondia-se por trás de uma fina e rala barba
ruiva.
     Aqueles olhos meigos passaram-me segurança e calor. Abaixou o capuz, esticando para mim
suas brancas mãos. Seus dedos eram logos e finos; sua pele tinha uma maciez que arrepiou todo o
meu corpo. Sua proximidade era tamanha que pude ver as pequenas sardas por baixo dos pelos
ruivos de seus braços. Embora a barba estivesse por fazer, ela lhe dava um ar de intelecto. Seus
traços eram finos e ele mais parecia um lorde.
     E, por certo, era de origem inglesa ou holandesa. Fiquei gelada e catatônica, e cheguei a pensar
ser um dos loucos que havia visto ao chegar. Mas ele me passou tanta paz e tranquilidade ao pegar
novamente em minhas mãos, trêmulas e geladas, que novamente acalmei. Então, disse simplesmente:
     _ Estou à sua espera há tanto tempo, Anna. Perdoe-me por tê-la deixado! Nunca mais nos
separaremos, prometo!
     De repente, num piscar de olhos, estávamos sem mais nem menos em um despenhadeiro, onde
se via todo o mar da Espanha, lindo e de um azul inigualável! A areia, muito branca, completava
aquela paisagem. O vento soprava forte, como se estivesse me dizendo algo que eu não consegui
decifrar naquele momento. Podia sentir o cheiro da maresia nas minhas narinas. Fiquei muito
agoniada com aquela sensação. Meus cabelos estavam soltos e voavam com as minhas vestes, toda
em algodão fino e transparente. Ele segurou minhas mãos, e comecei a me sentir segura e feliz
novamente, como nunca havia sentido antes em toda a minha vida.
     O vento era forte demais e frio. A estranha sensação voltou. Comecei a tentar desesperamente
soltar minhas mãos das dele. O cheiro da maresia foi se transformando em cheiro de medo. Por fim,




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

o monge soltou minhas mãos e senti seus dedos desprendendo-se dos meus. Caminhou em direção ao
despenhadeiro.
      Meu coração disparava ao ver a agonia em seus olhos. O brilho daquele olhar feliz transformou-
se em súplicas. O musgo viçoso daquele olhar agora era nada mais do que escuridão. De repente, a
escuridão tomou conta de tudo ao meu redor e vozes tenebrosas cercaram-me. Ele me deu um sorriso
triste, com os lábios fechados. Virou-se de costas, caindo no despenhadeiro, gritando o meu nome
num apelo desesperado.
      Seu corpo caiu nos rochedos e o mar revolto ficou batendo nele, já sem vida. Gritei como louca
e percebi que eu não estava mais ali, que era só mais um sonho.
      Vozes chamavam-me, misturando-se ao barulho das ondas. Tudo começou a virar fumaça e
acordei suada e chorando muito, com Maria ao meu lado, chamando-me:
      _ O que houve, filha? - perguntou Maria, passando as mãos no meu rosto, tentando enxugar as
lágrimas que ainda desciam como fonte de tristeza. Entre soluços, disse-lhe:
      _ Sonhei com o monge novamente, Maria, aquele dos meus sonhos de criança! Já fazia tanto
tempo que não sonhava mais com ele! O engraçado é que sempre sei que estou sonhando, sei que a
qualquer momento irei acordar. Às vezes chego a ouvir meus suspiros dormindo, e até vejo meu
corpo em seu estado de repouso. Por que isso está acontecendo comigo de novo, Maria? Ele se
matou? Pois o vi caindo no mar! Não consigo entender o que realmente houve com ele. Tentei salvá-
lo, mas já era tarde demais, juro! Ele se foi muito rápido. Quem é ele, Maria? Por que esses sonhos
incessantes?
      Maria aproximou minha cabeça do peito, na tentativa de me acalentar, pois eu já não conseguia
falar. Apenas soluçava.
      _ Calma, querida, vamos resolver tudo isso hoje. Minha irmã Helena saberá ajudá-la. Não existe
pessoa melhor neste mundo que entenda mais sobre este assunto do que ela.
      Olhei-a, espantada.
      _ Pensei que fosse a senhora a entender desses assuntos?
      _ Não. Abandonei o meu povo e agora não faço nada mais além de por cartas e fazer meus chás.
Agora enxugue essas lágrimas. Chegamos ao nosso destino. Devemos nos preparar para descer com
discrição. Afinal, não queremos que ninguém veja seus olhos inchados. Ou vai querer que pensem
coisas de uma mocinha tão fina?
         Embora soubesse que Maria só estava ironizando, não me incomodava nem um pouco com o
que os outros pensariam de mim. Só queria uma explicação plausível para tudo o que estava
acontecendo comigo. Queria que aqueles sonhos parassem logo e que eu pudesse dormir
tranquilamente alguma vez na vida.
      Eram seis horas da tarde quando paramos em frente a uma casa grande, toda feita de pedras
escuras, com portinholas duplas e largas de madeira, pintadas com tinta azul envelhecida e
desgastadas pelo tempo. Abriam-se de cima para baixo. Suas janelas eram estreitas e muito altas,
dando a impressão de ser uma igreja. Alguns cipós teimavam em subir por toda a parede do lado de
fora, dando a ela um ar de casa medieval. Observei várias mulheres colocando suas roupas - muito
alvas - nos grandes varais que estavam na lateral. Outras trabalhavam em fiares e, ainda, teciam
tapeçarias. Crianças corriam e gritavam como loucas, brincando umas com as outras, sujando-se de
terra e de barro, sem ninguém para lhes privar a liberdade.
      Todos estavam tão ocupados em seus afazeres que não deram a menor importância para a nossa
chegada. Avistei um celeiro a uns cem metros, onde deveriam guardar seus cavalos e outros animais
de grande porte.
      Um pouco mais ao longe, via-se um moinho d’água - com sua enorme pá girando sem parar – e,
do outro lado, havia uma mata fechada, que parecia guardar todos os segredos daquele povo
misterioso.




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     Animais domésticos circulavam por toda parte. Árvores frondosas e gigantescas cercavam toda a
casa. A mata, constituída por cedros, pinheiros, oliveiras e árvores frutíferas, formava uma cerca
viva. Por isso, não dava para vê-la ao longe ou mesmo da parte mais próxima da estrada. A própria
floresta era o muro que guardava toda aquela beleza e simplicidade.
     Senti no ar uma grande manifestação de bondade e respeito em todos à minha volta, embora não
tivessem manifestado seu interesse por nós. A energia era tão viva que quase podíamos tocá-la.
     As flores do campo cercavam toda a casa. Um beiral de pedras, feito pelos moradores da
floresta, cercava um canteiro com ervas para chá, muito bem cuidado. O lugar era mesmo mágico,
pois uma enorme paz tomou conta de mim assim que pisei lá. A terra era fértil e viam-se seus frutos.
E muitos gatos circulavam por todo o lugar. Fomos recebidas por uma senhora grisalha e uma jovem
muito bonita, aparentando ter a mesma idade que eu. A senhora era a irmã de Maria, e a moçoila era
sua sobrinha. Vieram correndo, pois fazia muito tempo que não se viam. Abraçaram-se com um
calor fraternal.
     _ Seja muito bem vinda à nossa humilde floresta!- disse Dona Helena, olhando em minha
direção.
     A mocinha apresentou-se, esticando a mão e dizendo:
     _ Meu nome é Bernadete e aquela, como já sabe, é Helena, minha tia. Sou filha de Dolores e
Guiñllo, mas tia Helena me criou, pois ambos faleceram em um trágico acidente. Não falemos sobre
coisas ruins! Venha, entre! Não fique aí em pé, parada. Entre, conheça a casa e minhas outras irmãs.
- disse Bernadete, percebendo que eu havia ficado para trás.
     Ao entrar, apresentou-me à outra senhora com olhar gentil, que estava sovando a massa para os
pães na cozinha. Em seguida, apresentou-me às suas outras duas irmãs: Loylla, a mais jovem, e
Emanuelle, a mais velha.
     _ Fique calma! Estou achando-a um tanto tensa. Deixe que meu noivo Magald cuide de suas
malas. Aqui ninguém mexe em nada.
     _ Imagine, não pensei nisso! É que estou tendo problemas para dormir. E estou com um pouco
de dor de cabeça.
     _ Então venha se refrescar e tomar um chá de camomila com hortelã.
     Bernadete levou-me para seu quarto, onde me refresquei e também troquei de roupas. Coloquei
um vestido simples, de algodão azul, que ela me emprestou, pois meus vestidos não eram adequados
para o campo. Trocamos presentes. Dei-lhe uma caixinha de música de cristal e bronze, onde um
casal de bailarinos dançava ao som de uma valsa vienense.
     _ Era de minha mãe - disse a ela, estendendo as mãos.
     _ É lindíssima! Mas não sei se posso aceitá-la.
     _ Ficarei muito ofendida se não aceitar. Tenho certeza de que ficará perfeita na mesinha de
cabeceira do seu novo quarto! E ela tem um segredo, veja. - mostrei-lhe uma abertura falsa no fundo.
Poderá guardar suas economias aqui dentro sem que seu marido perceba.
     Ela corou e disse:
     _ Se é assim... Abraçou-me e depois seguiu em direção ao criado mudo, de onde tirou um livro,
cujas páginas eram de papiro e a capa era de couro, todo trabalhado à mão, com desenhos em relevo.
Disse que tinha sido seu avô que lhe havia dado. Foi uma troca que ele fizera com um cigano amigo
dele. Ela ainda disse que suas páginas eram mágicas, e como não levava o menor jeito para escrever,
gostaria que eu ficasse com ele.
     _ Na verdade, meu avô contava essas histórias para eu adormecer. O que eu quero é me casar
com Magald o quanto antes, ter muitos filhos, e ser feliz enquanto vivermos.
        Sabia que Bernadete e seu noivo estavam passando por muitas dificuldades, pois Maria
comentou comigo enquanto vínhamos pela estrada. Então, tentei ajudá-los, dando-lhes minhas
economias. O obséquio não era muito, mas sei que daria para ajudar na festa de casamento.
Bernadete agradeceu-me tanto que me deixou encabulada. Sua vida não era nada fácil, mas, mesmo




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assim, não poupara esforços para me agradar. Emanuelle, a irmã mais velha de Bernadete, veio nos
chamar para o jantar. Apressamo-nos em ir ao encontro de Maria e Helena. A mesa era toda de
madeira bruta, e dois enormes bancos a cercavam. Muitas guloseimas nos esperavam. Durante o
jantar, Dona Helena olhava demais para mim. Por fim, falou:
     _ Fiquei sabendo do problema que a senhorita tem passado.
     Olhei para Maria com desaprovação, mas ela continuou.
     _ Não culpe Maria, ela fez o que era certo. Tem um dom lindo, menina!
     _ Tenho o quê? - olhei para Maria, tentando receber uma resposta plausível.
     _ Maria me contou de seus sonhos sequenciais e sobre tudo o que tem passado com sua
madrasta. Mas também me falou de sua benevolência e humanidade para com seu próximo. Iremos
ajudá-la, sei bem o que deve estar passando.
        Bernadete deu-me um cutucão com o pé por debaixo da mesa e sorriu, abaixando a cabeça em
sinal à nossa cumplicidade no seu quarto.
     _ E o que devo fazer? Quem é esse homem com quem tenho sonhado tão frequentemente?
     _ Calma, menina! Uma pergunta por vez. Primeiro, tem que aflorar e doutrinar seu dom, Depois,
precisa fazer a viagem.
     _ Fazer o quê? Teremos que viajar novamente, Maria?
     As duas entreolharam-se e riram de mim. Senti-me uma tola e resolvi apenas esperar os
resultados e as respostas. Por fim, Helena falou:
     _ Não, criança. A viagem não é como pensa! Nem mesmo sabemos se irá conseguir. Primeiro,
farei uma pergunta muito simples. Tem certeza de que quer conhecer esse homem? É isso o que
realmente quer? Pois não terá volta. E pode não voltar bem da viagem... O que é ainda pior: pode não
querer retornar ao seu corpo físico; ficará desacordada e correrá risco de vida.
     _ Sim. É o que mais quero na vida. Não tenho dúvida se isso for me dar as respostas de que
preciso.
     As duas entreolharam-se por instantes, concordando entre si.
     _ Ótimo, então não temos muito tempo a perder, por causa da curta estadia da senhorita aqui.
Amanhã bem cedo começaremos com os preparativos - disse Dona Helena.
        _ Como assim? A senhora o conhece? Ele mora por aqui? Quem é ele? Por favor, eu suplico,
digam-me quem ele é! - foi inevitável, embora eu tivesse prometido a mim mesma calar a boca!
     _ Acalme-se, senhorita Anna! Uma pergunta por vez. Precisa saber que, embora não tenha a
mínima ideia do que está acontecendo, essas repostas só poderão ser dadas pelo seu coração. Com
certeza estão todas aí dentro. Todas as dúvidas, todas as ansiedades, só a senhorita tem a resposta. E,
com paciência, na hora certa saberá responder, podendo até nos esclarecer também. Por certo, ele
deve ter sido alguém muito importante para a senhorita. Tem alguma coisa que ainda está pendente;
esse espírito ainda continua interligado à senhorita. Pode ser que ele esteja encarnado ou não.
     _ Então isso significa que ele está morto?
     _ Não, de forma alguma. Estou tentando lhe dizer que essa pessoa fez parte do seu passado, de
outra vida. Mas também pode estar encarnado nesta vida. Resta saber se a senhorita terá estrutura
para encontrá-lo. Ele pode ter vindo de diversas formas, pode muito bem ser um parente muito
próximo. Quando falamos em espíritos, necessariamente ele não precisa estar desencarnado. A
senhorita também é um espírito. Porém, está encarnada. Sei que é muito difícil, no início, tentar
aprender sobre as coisas que lhe foram ocultadas a vida toda. Principalmente tendo a senhorita vindo
de uma família tão tradicional e rígida quanto a esses assuntos. Mas acredite: mesmo para nós, que
nascemos e seguimos a tradição a fio, ficamos confusas no início. É muita informação e, no seu caso,
muito pouco tempo também. Tenha calma, é só o que pediremos. Confie em nós e nas forças da
natureza. Tentaremos fazer o que for melhor para ajudá-la. Largue a ansiedade de lado, pois ela é sua
inimiga. Apague essas interrogações da sua cabeça. Aprenda a rezar - não as rezas tradicionais, mas




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as que o seu coração lhe ensina. Confie em si e em Deus que tudo lhe será respondido ao seu devido
tempo.
     Fiquei calada o restante do jantar, observando-as conversar por entre lábios. Não estava com
medo, mas muito curiosa.
     Eu e Bernadete sentamos perto da lareira, na sala, pois a noite estava fria. Maria e Helena
passaram o resto da noite cochichando. Não consegui ouvir uma só palavra do que Bernadete estava
me falando, pois fiquei o tempo todo de orelhas em pé, tentando ouvir o que as duas irmãs estavam
falando, e se era sobre mim.
     Às oito e meia, eu e Bernadete fomos nos deitar, pois, por algum motivo, tínhamos que acordar
cedo. No quarto, conversamos muito. Contou-me como conheceu Magald. Era adorável ouvi-la, pois
fazia o amor parecer uma coisa muito simples.
     _ Quando eu encontrar alguém, desejo que esse amor seja para sempre, por toda a eternidade.
     Ela disse, exasperada:
     _ Não diga isso nunca! - foi como se eu tivesse dito algo muito abominável.
     _ Por quê? – perguntei, curiosa.
     _ Porque o amor é livre. Não podemos prender um espírito encarnado ou desencarnado. Esse
tipo de jura ou atitude inconsequente e egoísta pode perseguir o espírito por toda a sua vida, e até por
várias outras encarnações. Anna, o espírito jurado pode passar a vida procurando um amor e nunca
encontrá-lo. E o que fez a jura pode nunca mais conseguir ter sossego. Até que, por si, comece a
aceitar a ajuda dos irmãos desencarnados espíritos de luz. Mas isso pode levar muito tempo, Anna,
até séculos! Quando meu espírito desencarnar, quero que Magald seja muito feliz, que encontre uma
boa mulher que o ajude em sua jornada terrena. O amor é liberdade, Anna... o amor é liberdade! Se
conseguir fazer a viagem, voltará com novos pensamentos. Agora durma, pois teremos um dia bem
agitado amanhã.
     _ Então, pretende esquecer Magald?
     Virou-se brava para mim.
     _ Nunca nos esqueceremos, pois nos encontraremos em outras encarnações, e nossas lembranças
sempre nos acompanharão, pois temos a obrigação de nos lembrar de nosso passado. Só que, na
maioria das vezes, somos tão egoístas e estamos tão preocupados com nossas vidas terrenas que não
ouvimos os irmãos desencarnados nos falarem e nos darem bons conselhos. Caímos, então, nas
garras dos afins e, antes que me pergunte quem são os afins, eles são espíritos sem luz. Podemos ser
orientados por espírito bons ou maus - depende muito da nossa sintonia espiritual. É a lei do
universo. Viemos a esta vida para aprender e praticar o bem comum. Não é fácil, mas cada um deve
aprender ou, pelo menos, tentar fazê-lo.
     _ Como podemos ajudar?
     _ Dando bons conselhos, livrando uma pessoa de se prejudicar. Não é importante a quantidade
de vezes que praticamos o bem, mas a qualidade com que praticamos. Ou seja, devemos sempre
saber a forma como nos dirigir à pessoa em questão, para não ofendermos ou invadirmos o espaço
físico e mental dessa pessoa. É muito importante deixar as pessoas à vontade e, principalmente, não
devemos convencê-las de tomar o caminho que muitas vezes só é melhor para nós – mas, sim, elas
devem seguir o caminho que lhes for indicado por Deus. Essa é a diferença entra uma bruxa e uma
feiticeira. Nós estudamos o universo e aprendemos a usar sua força em prol da humanidade,
enquanto as feiticeiras usam essas mesmas forças de maneira mercenária e leviana para prejudicar
inocentes. Vivemos em um mundo muito atrasado e cruel, mas estamos aqui como aprendizes
temporários. Devemos aproveitar nossa estadia para crescermos espiritualmente. Lógico que tudo
isso deve ser feito com ponderação e muito cuidado para não interferir no destino de outra pessoa.
Pois, caso contrário, podemos virar de cabeça para baixo a vida de um consulente inocente. Tudo
isso é muito bonito, mas muito perigoso. Pense nisso! O poder está em nossas mãos, e cabe a nós




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sabermos como usá-lo. E existe outra coisa muito importante que a senhorita precisa saber antes de
fazer a viagem.
     _ Então me diga, estou muito interessada sobre os assuntos relacionados à magia. Sempre ouvi
histórias sobre as bruxas. Ficava tão fascinada!
     Ela deu um sorriso por perceber que eu era leiga e inocente no assunto da magia.
     _ Anna... A magia não tem nada a ver com as historinhas que você ouviu quando era criança, e
muito menos encontrará coisas sérias sobre as bruxas em livros como esses. Existem livros que não
valem sua capa. Cada bruxa tem sua história pessoal; a magia é uma história pessoal. Preste bem
atenção: a bruxaria não é um culto, porque culto é um grupo de pessoas que segue um líder. Uma
bruxa não tem um líder. E deve saber que as bruxas estão sempre sozinhas e solitárias,
principalmente por causa do preconceito. Uma bruxa só se relaciona com pessoas pertencentes à
ordem, pelo mesmo motivo que citei antes. Deve saber que muitos homens se fazem de
compreensivos e, quando conseguem o que realmente querem, entregam-nos à inquisição. Então,
cuidado com as paixões levianas. Bruxas não cultuam o diabo. Buscamos reviver as crenças de um
período que remonta aos primórdios da humanidade, um período muito anterior ao Cristianismo. O
diabo é, na verdade, uma criação do Cristianismo e não tem absolutamente nada a ver com nossas
crenças. Obviamente, atribuíram as práticas das bruxas ao diabo porque é conveniente, visto que as
religiões cristãs recriminam qualquer ato não-cristão como um ato do diabo. Há cultos ao diabo por
todas as partes do mundo, mas eles nada têm a ver com a bruxaria, tratando-se apenas de pessoas que
praticam uma inversão do cristianismo. Cada um tem as suas crenças, mas, felizmente, esta não é a
nossa. Celebramos os deuses antigos na natureza. E lutamos para que isso seja um direito nosso.
     _ Os deuses antigos não são demônios?
     Respirando fundo, ela prosseguiu:
     _ Deixe-me continuar, por favor? Alguns cristãos fundamentalistas afirmam que qualquer
pessoa que não pratique a forma de cristianismo deles é um satanista por definição, e incluem sob
essa denominação os judeus e os sodomitas. As bruxas e os bruxos apenas celebram a natureza, só
isso. Nós, bruxas, não assassinamos pessoas ou animais, embora haja diversos atos maléficos de
pessoas que pratiquem esses rituais. Na verdade, são doentes mentais e deveriam ser punidos pelos
mesmos rigores das leis que nos acusam. Acredito que algumas feiticeiras, por dinheiro, realmente
pratiquem esse tipo de abominação para provarem o quanto são poderosas. Anna, ninguém tem o
direito de tirar uma vida. O tão chamado diabo não tem esse poder. Por certo, quando um ato de
feitiçaria como esse é praticado, alguém usou as próprias mãos para fazê-lo. Ou por envenenamento
ou por prática corporal. Logicamente, quem pratica essa arte, por assim dizer, são pessoas muito
inteligentes e maldosas, pois sempre deixam vestígios no local de seus crimes para nos acusarem.
Nunca faça de sua religião uma arma contra alguém. Somos responsáveis pelos poderes que nos são
incumbidos. E devemos saber que eles também se voltam contra nós quando não praticamos
corretamente.
     Afofando o travesseiro, Bernadete continuou:
     _ Ame nossos Deuses e celebre os ciclos da Lua e a Roda do Ano como você puder. Ninguém é
dono de seus pensamentos, nem de sua alma. Você é livre! Somos livres! Mas tome cuidado em
quem        confiar:    o     ser     humano      é      inconstante    e     infinitamente   cruel.
A viagem que fará é, na verdade, um culto aos antepassados - no caso, aos seus. Reuniremos muitos
irmãos, entre homens e mulheres, em uma grande celebração. Seu espírito será levado ao seu local de
origem. Invocaremos as forças da natureza e enviaremos seu espírito ao seu passado, com a ajuda do
elemento fogo, que caminhará nas asas do vento.
     Puxou as cobertas e, num bocejo, prosseguiu a explicação:
     _ Antepassado, em genealogia, é o nome que normalmente se atribui a um ascendente já morto,
ou que se localiza a várias gerações anteriores na representação gráfica da árvore genealógica. Na
Bruxaria, os antepassados representam gente do nosso sangue, que resultaram no que somos hoje.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

Por isso, as bruxas e bruxos realizam muitos rituais em honra aos seus antepassados, pois eles
trabalharam para o mundo chegar onde está. Todo o conhecimento que é passado para nós está
conosco graças a eles. Sempre respeitamos o que não podemos tocar. O mundo invisível está sempre
presente no nosso dia-a-dia. Além desse espaço físico, que estamos vendo, tem muitas coisas vivas à
nossa volta. Por isso, não excomungamos quando ouvimos ou vemos alguma coisa que não está sob
o nosso conhecimento. Pelo contrário, oramos e pedimos sabedoria e auxílio aos nossos irmãos
desencarnados, que já estão na luz.
        Apagou as velas do castiçal, deixando apenas uma para iluminar o ambiente, e terminarmos a
nossa conversa.
     O mais importante de tudo isso é que as bruxas não são anticristãs, nem querem acabar com o
cristianismo. Bruxas, acima de tudo, respeitam as demais religiões, assim como exigem o mesmo
respeito pela religiosidade deles. É claro que há muitas mágoas, guardadas por tudo o que foi feito e
ainda é feito na história da humanidade. Mas não nos prendemos a isso, e sim a atos do presente.
Queremos simplesmente viver e praticar a nossa religião em paz. As bruxas têm crenças que
remontam aos primórdios da humanidade, muito anteriores ao cristianismo. O cristianismo tentou
suprimir crenças, mas nós não queremos fazer o mesmo. Anna, na verdade, nada sei ainda, mas
espero ter esclarecido suas dúvidas com o pouco que me ensinaram.
     _ Sim, querida Bernadete! Nem mesmo Maria teria tido tanta sabedoria para me falar dessa
tradição, que é tão linda! Prometo honrar meus compromissos como bruxa. Estou muito grata pela
sua paciência comigo.
     _ Agora podemos dormir?
     _ Sim, é claro!
     Aquelas palavras, de alguma maneira, faziam todo sentido para mim. Era como se eu já as
tivesse ouvido em algum lugar. Elas pareciam estar no meu inconsciente. Muitas vezes, senti uma
presença misericordiosa perto de mim quando era criança. Outra me fazia sentir mal, quando a
condessa estava se aproximando. Ouvia, de vez em quando, passos em minha escada, à noite,
seguindo em direção ao quarto de mamãe. E quantas vezes eu tive a certeza de ter dormido sem me
cobrir e, ao acordar, estava coberta! Isso sempre acontecia quando meu pai estava viajando e, por
certo, não era Maria, pois ela negava sempre que a interrogava.
     Nunca consegui explicar a sombra por trás de mim no espelho, aos dez anos. Gritei tanto! Mas
Maria disse que, por certo, era um anjo que esteve por ali para me proteger. Talvez fosse minha mãe,
pois parei de sonhar com ela de vez. Conformei-me com as respostas, virei para o canto e adormeci
profundamente.
     Naquela noite, voltei a sonhar que estava com o monge, só que dessa vez estávamos em outra
época. Ele me beijou e suas mãos eram muitos impacientes e percorriam meu corpo. Seus olhos
estavam fixos em meu rosto. Depois, apareceram várias mulheres, desconhecidas ainda para mim.
Pegaram-me apressadamente pelas mãos e me levaram a outro lugar. Era uma vila - não consegui
definir, pois tudo era como o relâmpago. De repente, encontrei-me numa floresta, onde muitas
mulheres corriam e gritavam como loucas, de um lado para o outro. Em uma fração de segundos,
meu corpo já estava queimando e, no meio da fumaça, vi o monge tentando tirar-me
desesperadamente, sem êxito. Os demais presentes seguravam-no pelos braços. Senti meu o corpo
sendo desfalecido pelas chamas. Meus sonhos, minhas esperanças, meu amor...
     Aquelas chamas estavam devorando tudo o que eu ainda não tinha vivido. Eu nada podia fazer, e
ninguém movia um músculo para evitar aquela dor insuportável. Senti meu espírito deixar a matéria.
Acordei agitada e chorando muito. Cheguei a urinar na cama, de tão real que havia sido o pesadelo.
Dona Helena estava sentada ao meu lado e me acalentou. Então, contei-lhe tudo o que havia
sonhado, nos mínimos detalhes. Ela ouviu cada palavra, sem pestanejar.
     _ Por que o amor dói, Dona Helena? Como posso amar alguém que nem conheço, e que me
pareceu ser tão covarde a ponto de me deixar morrer cruelmente?




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

      Abaixei a cabeça e me senti envergonhada pelo meu estado lastimável. Dona Helena pareceu
perceber e me disse:
     _ Não se sinta mal. Às vezes, vivemos nos sonhos uma realidade que não podemos explicar - e
foi isso o que aconteceu com a senhorita.
     _ Mas estou suja!
     _ Dizem que isso acontece quando a dor ou o medo são muito intensos. Seu sonho foi tão real
que a senhorita viveu uma experiência intrassensorial, o que acabou em uma reação espontânea. É a
lei das causas e efeitos. Na verdade, teremos que correr com a sua viagem. A senhorita está viajando
sem sequer entrar no círculo - é por isso que está tão confusa.
     E depois de muito analisar-me, perguntou-me:
     _ A senhorita o ama mesmo, não é?
     _ Se o que estou sentindo é considerado amor, sim, eu o amo. Antes eu tinha receio de dizer isso
a alguém, por receio de que me achassem louca. Mas aqui, com vocês neste lugar mágico, posso ser
eu mesma. Nessa floresta, nesta casa! Vocês fazem as coisas ficarem tão simples e fáceis que não
sinto mais vergonha! A cada sonho, tenho a certeza de que irei encontrá-lo. Mas, ao mesmo tempo,
tenho medo.
     Ela continuou fitando-me os olhos, como se estivesse lendo minha alma.
     Passei a mão pelo rosto para enxugar uma lágrima, que estava prestes a cair. Dei um pequeno
sorriso, ainda meio sem graça, para tentar disfarçar a tristeza no meu peito, pois Dona Helena parecia
estar esperando outra resposta de minha parte, ou qualquer coisa que descrevesse detalhadamente
meus sentimentos. Sempre tive certeza, mas expressar sobre o que sentia, abertamente, ainda me era
sufocante e constrangedor.
     Depois de muito me fitar, ela disse:
     _ Levante-se, está na hora das preparações. Tem tanto a fazer e tão pouco tempo.
     _ Jura? Que horas são?
     _ Duas da manhã, e o galo já fez sua primeira chamada. Teremos que entrar no bosque, e está
bastante frio. Prepare-se para se lavar e continuar molhada, pois o orvalho por aqui é muito intenso.
Enquanto a senhorita dormia, eu e as outras trabalhávamos para deixar tudo prontinho para vossa
majestade.
     Riu largamente.
     _Sinto estar causando tanto transtorno...
     _ Não é transtorno algum! Tudo isso é em prol de uma alma atordoada. Tentaremos fazer o que
estiver ao nosso alcance. Anna, só quero que seja feliz, encontrando seu caminho onde for e com
quem quer que seja. Está com medo?
     _ Não, só assustada e curiosa. É tudo novo para mim. Imagine, nunca fui a lugar nenhum e agora
estou aqui, preparando-me para fazer uma viagem mágica. Acho que sou uma mulher de sorte por ter
Maria como amiga. Senão, como poderiam saber de minha existência?
        _ É, Maria sempre foi assim mesmo. Praticar o bem comum é também a sua missão, senhorita
Anna. Assim como Maria ajuda-a agora, um dia deverá retribuir-lhe o favor. Sabia que quando
Maria ainda era muito pequena, um dia, do nada, ela se virou para todos e disse que sua missão seria
cuidar de uma irmã, cujo destino era só de penitências e sofrimentos? Aquelas premunições
deixaram todos atordoados, por causa da pouca idade de Maria que, na época, só estava com seis
anos.
     _ É mesmo?
     _ Sim. Ela sempre teve dom de prever o futuro através das cartas. Nossa mãe, se estivesse viva,
teria muito orgulho dela. Já eu nasci com o dom de conhecer as ervas. Faço chás, cataplasmas e curo
as enfermidades. Mas não consigo ler as cartas ou ver o futuro em qualquer outro lugar. O seu dom,
por certo, é muito especial. Deve ter sido uma bruxa muito poderosa no passado. Quando voltar de




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

sua viagem, não deve contar a ninguém seu nome ancestral. É um segredo solene, praticamente uma
regra. Se cair em mãos erradas, a senhorita poderá prejudicar-se.
        _ Como assim?
     _ Fica mais fácil fazer um sortilégio para prejudicá-la. É como se entregasse sua alma às mãos
dos inimigos. O segredo do seu universo passará para suas mãos. Então, não revele para ninguém seu
nome de batismo espiritual. Lembre-se de uma regrinha básica: dê a todos os seus ouvidos, e a
poucos suas palavras. Se Deus quisesse que falássemos mais do que ouvíssemos, não nos teria dado
uma só boca e dois ouvidos! Tudo o que falamos vira energia, desde a hora em que levantamos até a
hora em que dormimos. Conseguir calar a mente para que ela não vire pensamento desnecessário não
é um dom ou uma virtude: é um privilégio, levando em consideração que a mente nunca se cala.
     Olhou para o meu estado lastimável e continuou:
     _ Não se preocupe, não contarei para ninguém sobre o seu incidente. Prometo! Levante-se, já é
hora. E você faz muitas perguntas!
     Levantei, meio preguiçosa e encabulada. Nunca havia acontecido nada assim comigo, nem
mesmo quando eu era criança. Dona Helena saiu e voltou com um caldeirão com água para eu me
banhar. Depois de tudo pronto, disse-me:
     _ Faça uma oração, para que seu espírito entre em sintonia com todo o universo. Lembre-se de
sempre agradecer por tudo o que o Pai Maior fez por você, desde o nascimento até agora. Estar viva
é a maior dádiva que Deus nos deu. Lembre-se também que não vivemos sozinhos, mesmo quando
achamos que sim. Compartilhamos este mundo não só com os irmãos encarnados, mas também com
os desencarnados. Por isso, devemos estar sempre com bons pensamentos, para que os espíritos de
luz venham nos orientar. Nem sempre isso é fácil. Por isso, aconselho que feche seus olhos e
imagine um pequeno triângulo mental. Faça desse triângulo um ponto de fixação, e não deixe
nenhum pensamento infrutífero penetrar-lhe a mente. Você terá que aprender a esvaziar o
pensamento depois das palavras mal ditas, ele é o nosso pior inimigo. Logo verás que os
pensamentos mudam, pois inconstante é o pensamento. Eles mudam de direção tão rápido quanto o
vento. Por isso, chamamos o vento de alma do mundo ou anima mund - pois ele compartilha nossas
ideias e nossos segredos mais íntimos, entrando e saindo de dentro do nosso corpo. Ele é um dos
elementos mais respeitados da natureza. Deus sabe os nossos segredos por causa do vento, que leva e
traz de volta nossas vidas em detalhes. Ele é como um mensageiro. Respiramos o mesmo ar que
nossas antepassadas respiravam. O mesmo ar que entra em nossas narinas já entrou em várias outras.
E a cada sequência ele se renova, levando e trazendo sabedoria e experiência. Mas, assim como Deus
ouve nossos pensamentos, o diabo também o faz. Pois ele escuta o pensamento que sai de nossas
bocas. Ele faz parte dos detalhes que sempre ignoramos. Ele é o detalhe. Por isso, devemos calar o
pensamento, para que não se transforme em palavras que poderão nos prejudicar. Basta um
pensamento nosso para estragar três coisas boas em nossas vidas, porque nem tudo o que dizemos é
ouvido por pessoas de boa índole. A inveja é uma má energia, criada pela súbita alegria do próximo.
Por isso a necessidade de nos calarmos. Nem tudo o que é bom para nós pode ser divulgado, por
causa desse sentimento tão baixo que existe nas pessoas, que não conseguem ser felizes. O ser
humano, de tanto pensar e fazer o mal, criou o diabo. Deus lhe deu o nome de Lúcifer. Não devemos
temê-lo, mais evitá-lo. Então, esvazie seu pensamento, para revigorar todas as suas forças ainda
mais. Ficamos assim por horas, meditando com os olhos físicos fechados, mas com os olhos do
espírito bem abertos.
     Naquela espécie de transe consciente, vi formas, símbolos e coisas extremamente pessoais.
Depois de alguns minutos, duas outras moças entraram, despertando-nos, e Dona Helena me disse:
     _ Agora que já fez suas orações e limpou seu corpo físico e mental, precisará de banho de
purificação espiritual. Preparei-lhe algo muito especial: deverá permanecer inerte por algumas horas,
até que a água esfrie por completo. Não quero perguntas, por favor, sei exatamente o que pensa.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

Embora já tenha tomado banho, hoje será o dia dos banhos, acredite! Agora retire suas roupas
novamente, levante-se dessa cadeira.
     Fiquei meio zonza com tanta coisa acontecendo. Era muita informação de uma só vez. Dona
Helena, vendo a minha inércia, disse:
     _ Levante-se, menina, e pare de fazer corpo mole. Estamos preparando-lhe para um ritual
sagrado, não deve demonstrar tanto desinteresse.
     Ela estendeu as mãos e ajudou-me a levantar. Retirei minhas roupas e entrei na banheira, cuja
água estava deliciosa. Dona Helena e as duas moças jogavam em cima de mim pétalas de girassóis e
óleos perfumados. Algumas ervas especiais também foram salpicadas por cima de mim. Depois de
todo esse ritual, ela falou:
     _ Hoje não será um dia comum: terá uma dieta adequada e outros banhos de purificação como
esse. Purificará seu espírito com orações, e deverá esvaziar a mente consciente. Não poderá pensar
muito em coisas mundanas ou futilidades. E, como sei que isso é impossível em sua idade, preparei-
lhe um chá especial, que também terá que tomar - e sem caretas! Após cada refeição, tome um copo
deste chá. Irá dormir a maior parte do tempo. Não se preocupe com isso - no seu caso, isso não é
mal, pois sei o quanto tem andado esgotada, devido aos sonhos atordoados. Não deverá falar com
mais ninguém além de mim. Não tente puxar conversa com as moças que entrarão no quarto, elas
estão em estado de purificação e não falarão com você. Converse com seu coração, isso lhe fará bem.
Faça-lhe perguntas. Aposto que ele estará cheio de repostas.
     Que bom!, pensei comigo. Voltei à minha vidinha cotidiana e tediosa de antes. E ainda tinha que
falar com o meu coração - logo com ele, que vivia tão atormentado, coitado...! Precisava mais de
repostas do que eu, mas, mesmo a contragosto, fiz tudo o que me foi determinado.
     Depois de ter ficado de molho por quase uma hora, saí da banheira. Dona Helena saiu em
seguida, e eu fui para a janela. Pude ver todas aquelas mulheres, correndo de um lugar para outro.
Pareciam muito determinadas em terminar seus afazeres. Confesso que estava muito curiosa para
fazer aquela viagem.
     Horas depois, Dona Helena retornou ao meu quarto e trouxe-me o desjejum. Então, rompendo o
silêncio - que já estava me deixando louca -, disse:
     _ Não iremos levá-la à floresta agora pela manhã, como havíamos planejado. A pessoa
responsável por abrir o ritual está um pouco distante daqui, fazendo um parto. Então, sairemos daqui
ao entardecer. Para mim, foi um presente dos deuses, pois assim nos dará mais tempo de preparar o
ritual do fogo. Por favor, senhorita Anna, não se esqueça de tomar seu chá.
     Falou essas palavras e saiu, deixando-me novamente. Depois que fiz meu desjejum e tomei meu
chá, cujo gosto era de água suja, fui para cama, na tentativa de ler um pequeno livro que achei
perdido em cima de um caixote de madeira. Mas foi em vão, pois, ao sentar-me à beira da cama,
comecei a cochilar e acabei por cair em sono profundo, como já era de se esperar. Dormi tanto que
nem sonhei! Aquela mistura amarga de ervas, cultivadas secretamente pelas colonas, deixava-me
tonta cada vez que eu tentava colocar os pés no chão. Dona Helena deve ter me falado, em algum
momento que não conseguia lembrar, sobre os efeitos do chá. Estes eram entorpecentes e nauseantes.
Diziam que seu poder era curativo, depurativo e que abria todos os chácras espirituais do nosso
corpo, de maneira que tirava tudo de ruim que existia dentro de nós. Novamente, fui deitar-me, pois
minhas pernas bambeavam.
     Acordei às onze e refresquei-me para o almoço. O sol estava quente e o quarto ficava monótono,
não tinha nada o que fazer. Uma moça, com o rosto coberto por um fino véu, trouxe-me o almoço.
Mais tarde fiquei sabendo que seu rosto estava coberto para evitar que eu a interrogasse.
     Voltei à janela e vi uma multidão indo na direção da clareira, que dava para o outro lado do
pequeno ribeirão. Acabei por contar pétalas de flores e adormeci, sentada em uma cadeira e
debruçada no beiral da janela. Quando acordei, às duas da tarde, outro banho de purificação
esperava-me; repeti o ritual como pela manhã. Após o banho, retornei à janela. E, novamente, perdi-




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

me em pensamentos, que teimavam em me passar perguntas e dúvidas. Lutei contra mim mesma,
como me foi determinado, e voltei meus olhos para as colonas, mudando, assim, o rumo que estavam
tomando. Notei que a pequena clareira reunia uma grande multidão. As mulheres não estavam
sozinhas: havia homens também, e muitos idosos, e todos estavam entrando mata adentro, deixando-
me sozinha. Por instantes, essa foi a impressão que tive.
     Comecei a ficar com medo, pois a solidão sempre me apavorava. Foi quando escutei uma voz a
sussurrar ao meu ouvido. Cheguei a pensar que poderia ser o vento e arrepiei-me. Poderia estar
ficando louca. De repente, senti atrás de mim uma presença muito forte. Era como se fosse um anjo,
pois me transmitiu muita paz e calma, e sua voz, macia e nítida, voltou a sussurrar em meu ouvido,
dizendo baixinho:
     _ Acalme-se, Anna...
     Era a voz de uma mulher. Olhei rapidamente para trás para ver quem era, mas não tinha
ninguém, somente eu e o resto da mobília. Não tive medo, mas fiquei sem conseguir dar explicações
ao fato acontecido. Mudei meus pensamentos rapidamente, para não ficar paranóica. Os pensamentos
são realmente como o vento, voam rapidamente. E, como em um passe de mágica, distraí-me. Parei,
então, para olhar o horizonte, observando a natureza. E, novamente, a calmaria instalou-se dentro de
mim.
     Vi aves que nunca sonhara ver na cidade. Senti o cheiro da terra fresca, do mato molhado e das
flores. Poderia identificá-las só pelo cheiro. O vento soprava em meus cabelos, parecendo beijá-los.
Senti a força da natureza, de maneira mágica. Era como se o Criador tentasse me mostrar como era
perfeita sua obra. O amor estava em toda parte, o lugar era mesmo incrível! As coisas falavam de
maneira silenciosa. Uma paz indescritível e sublime tomou conta de todo o meu ser. E quis voar
como um pássaro, pois minha alma estava totalmente livre!
     Três toques à porta despertaram-me de meu sonho acordada. Era Dona Helena novamente;
entrou com mais duas moças, trazendo outro banho e roupas, muito brancas e transparentes, para que
eu vestisse. Colocaram velas por todo o quarto. Despiram-me e, dessa vez, Dona Helena fez questão
de me banhar. Embora não dirigissem a palavra a mim, cantarolavam baixinho em uma língua
estranha. Defumaram todo o ambiente e todo o meu corpo, num ritual estranhíssimo. Dona Helena
dizia palavras na mesma língua em que cantavam as moças. Depois de apenas banharem-me de pé,
puseram em mim as vestes brancas e transparentes, sem enxugar meu o corpo, que se arrepiou com o
vento frio que entrou pelo quarto. Em minha cabeça, colocaram uma pequena tiara de flores do
campo, e Dona Helena agradeceu aos deuses e fez-me ajoelhar em sinal de humildade, para
consagrar minha cabeça com um óleo sagrado. Pôs-me de pé novamente e deu-me mais um pouco
daquele chá horrível, que já estava me deixando cada vez mais tonta. Por fim, depois de terem
terminado o ritual de consagração e agradecimento, abriram a porta do quarto. De onde...


    “O saber só depende da quantidade de experiências vivenciadas e adquiridas pelo espírito
encarnado ou desencarnado. E, vivendo um dia de cada vez, conseguiremos alcançar todos os
nossos objetivos. A calma e a paciência nos fazem cada dia mais capazes de chegarmos a um estado
de paz interior. Devemos trabalhar muito para isso - muita paz e muita luz.” (Padre Ángelo Wallejo
Moralles).




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

    Capitulo II - A Iniciação



    S
           ete mulheres vestidas de azul entraram silenciosamente pelo recinto. Uma delas pegou
           minhas mãos, levando-me para o centro do quarto. Todas me respingaram óleos
           aromáticos. Fui despida novamente de minhas vestes e colocaram-me um fino véu sobre o
corpo. Não entendi nada daquele estranho ritual e preferi não comentar.
     Depois de rezarem muito, conduziram-me até a saída. Quando, por fim, chegamos do lado de
fora da casa, doze donzelas vestidas de céu esperavam por nós. De início, fiquei envergonhada por
elas estarem despidas e tentei esconder também minhas vergonhas, porque meu traje era muito
transparente e deixava à mostra todo o meu corpo. Quase cambaleei, ainda entorpecida pelo chá
mágico que Dona Helena havia me dado durante as sessões de purificação espiritual e mental.
Vagarosamente, meu raciocínio foi começando a fluir, e tudo aquilo começou a parecer tão normal!
Mudei imediatamente meus pensamentos e concentrei-me no pequeno triângulo imaginário que
Dona Helena havia me ensinado para o caso de pensamentos tolos invadirem minha mente.
     Saímos numa espécie de procissão silenciosa, só de mulheres. Tirando as doze donzelas que
estavam vestidas de céu, todas as outras vestiam camisolas de algodão branco. Somente eu usava o
fino véu sobre o corpo nu. Mas, por uma estranha lógica insana, eu não me importava com aquela
situação que, tempos atrás, poderia parecer despudorada.
     Fui levada ao extremo da floresta, onde havia uma aglomeração de pessoas no meio do enorme
campanado. Logo se juntaram a nós. Caminhamos por mais meia hora a pé e descalças. Depois de
muito caminhar, conseguiu-se avistar uma graciosa casinha de pedras polidas. Ela estava
parcialmente tomada por trepadeiras, tornando sua existência quase invisível a olhos nus. Seu
telhado era avermelhado. A porta principal era estreita, em tom marrom. Suas janelinhas pareciam
com as de uma capelinha. Vasinhos com ervas cercavam suas laterais. Parecia ter sido criada pelos
contos de fadas que liam para mim quando eu era criança.
     Quase não se podia ver o sol, pois as gigantescas árvores que cresciam ao seu redor tampavam a
incrível visão. As árvores que cercavam o bosque e a casinha pareciam falar conosco, como se nos
saudassem. Meu corpo e meus sentidos respondiam àquilo tudo de maneira inexplicável. O
misticismo tomou conta de todo aquele lugar. Os pássaros cantavam alto, dando ecos que
confundiam meus ouvidos. Ora imitavam gritos humanos, ora pareciam clamores. Talvez estivesse
entorpecida e sonolenta, devido ao efeito causado pelo chá - ou ainda estava meio confusa, absorta
com tanta magia. Juntamo-nos aos que ali também esperavam por nós. Em instantes, aquele pequeno
grupo tornou-se uma centena de pessoas, mas já não eram pessoas comuns: seus rostos, à luz da
clareira que se formava em torno do campanado, davam a impressão de eles serem anjos ou seres
místicos. Eu não sabia identificá-los, porque minha cabeça começou a rodar novamente.
     As mulheres do campanado que se juntaram ao nosso grupo trajavam-se com cores muito
exuberantes, como as ciganas. Fitas trançadas e coloridas, enlaçadas em volta da cintura. Dançavam
e rodopiavam, deixando-me cada vez mais tonta. Flores diversas enfeitavam seus cabelos soltos.
Usavam enormes argolas douradas nas orelhas e muitas pulseiras. Tocavam pandeiros e castanholas,
rodopiando como borboletas. Aquele frenesi deu-me a sensação de haver luzes saindo de seus
corpos. As crianças estavam presentes - porém, só participavam as mais velhas. Ao nos
aproximarmos mais da pequena casinha, veio-nos receber uma senhora de idade muito avançada,
aparentando uns oitenta anos ou mais. Ao aproximar-se de mim, senti-me fraca e cairia, se não fosse
por Loylla e as outras jovens a me ampararem. A anciã mais parecia uma bruxa, de tão enrugada.
Seus olhinhos já estavam sem brilho, devido à idade muito avançada, mas eram piedosos e cheios de
carinho. Seu nome era Andélia. Todos diziam que ela tinha poderes extraordinários e era, realmente,
a bruxa mais poderosa e antiga do condado. Ao passar, todos baixaram a cabeça, em respeito e
reverência à anciã.




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

     Ao se aproximar de mim, observou-me minuciosamente de cima abaixo, como se eu fosse uma
escrava que está prestes a ser adquirida em leilão. Senti-me muito constrangida por ser observada
daquela forma, pois a anciã até em minhas pupilas olhou. Por fim, falou:
     _ Pelo que vejo, trouxeram a menina! Levem-na para dentro e coloquem-na em meus aposentos,
pois parece não estar bem.
     Disse isso com um sorrisinho matreiro nos lábios. Duas moças carregaram-me, cada uma
apoiando meus braços em seus ombros. Já nos aposentos da anciã, colocaram-me sobre uma caminha
feita de carvalho e colchão de palha. Os lençóis eram extremamente brancos! A mobília não era
muito farta: havia apenas uma mesinha com uma bacia e uma ânfora para o asseio, uma cadeira e um
armário com oratório, onde tinha muitas imagens de santos da Igreja Católica. Surpreendi-me, pois
fiquei imaginando o que uma bruxa fazia com tantas imagens de santos. Cheguei à conclusão de que
meu conceito sobre as bruxas não passava de ilusão. Eu as tinha como personagens de contos de
fadas. Imaginava-as de uma maneira totalmente contrária do que elas eram na realidade. Seus deuses
pagãos não eram tão diferentes dos que conheci no meu dia-a-dia. Alguns até pareciam com os
santos da Santa Madre Igreja.
     Ao me deixarem sozinha naquele aposento, tremia tanto que meus órgãos internos pareciam
balançar. Estava completamente gelada, embora não estivesse fazendo o menor frio. Tentei voltar os
meus pensamentos para o ritual do qual eu faria parte. Mas isso, naquele momento de aflição, foi
quase impossível, pois minha cabeça começou a doer insuportavelmente. Foi aí que, como em um
passe de mágicas, deparei-me com a anciã bem à minha frente. Foi como se ela tivesse sentido meu
momento de agonia. Dona Andélia aproximou-se mais de mim e tocou-me suavemente na face, com
seus dedos longos e unhas muito pontiagudas, que mais pareciam garras. Por fim, exclamou:
     _ Acalme-se, minha criança! Não há motivos para tanto nervosismo. Diga-me: o que está
sentindo?
     Era inexplicável saber como ela poderia ter adivinhado meus pensamentos.
     _ Sinto minha visão turva e, às vezes, dá vontade de vomitar. Sem contar que minha cabeça dói
demais.
      Ela riu, e prosseguiu a falar:
     _ É normal, sua mediunidade está muito aflorada. Sem contar que suas perguntas e os seus
pensamentos são muitos - típico de jovenzinhas de sua idade. Ah, querida... Em sua idade eu era tão
ansiosa que minha mãe, às vezes, tinha que me dar um chá para dormir! Caso contrário, eu
especulava mais do que o normal. A ansiedade é a inimiga do tempo. Tenha calma: para tudo nesta
Terra tem o tempo exato. Correr só atrapalha os sentidos, sem contar que faz muito mal ao corpo
físico.
     Dizendo isso, Dona Andélia tocou em minha testa e, pedindo para eu fechar os olhos, fez em
seguida uma oração naquela estranha língua em que Dona Helena também já havia feito.
Imediatamente, não senti mais ansiedade e nem mais nenhum tipo de dor física ou tremores pelo
corpo.
     Dona Andélia, ao terminar com as orações, pediu-me para abrir os olhos e prosseguiu, dizendo:
     _ Pude perceber sua energia brilhando de longe, enquanto vinha caminhado pela clareira. A
senhorita tem um brilho tão forte que quase cegou minha visão. Tenho certeza de que essa viagem
lhe fará muito bem. Trará em seu retorno uma grande experiência de vidas passadas.
     _ Dona Andélia, tenho tantas perguntas! Por exemplo, o que é realmente essa viagem? Como
poderei fazer uma viagem se não vou a lugar algum além deste campanado? E por que minha cabeça
doía tanto e, quando a senhora a tocou, a dor desapareceu?
     Novamente ela sorriu, mas me respondeu seriamente, como que não queria mais saber de
especulações daquele tipo de novo.
     _ É o efeito do chá. Ele desperta a natureza humana, colocando para fora tudo o que existe
dentro de nós, de bom ou de mau. Se tivermos boas energias, ele as faz fluírem com mais força. Se




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

tivermos energias negativas, ele faz uma limpeza nos chácras. Não se preocupe, que tudo isso
passará. E, no seu caso, como a senhorita está com a mediunidade muito aflorada, o chá causou-lhe
essas visões e tonteiras.
     Depois daquelas explicações, Dona Andélia pediu-me que repousasse em sua cama. Quando eu
já estava deitada, ela ajeitou minha cabeça em um travesseiro feito com paina e deu-me um beijo no
rosto, fazendo-me sentir segura. Pensei que Dona Andélia ficaria ali comigo um pouco. Porém,
assim que ela passou o dedo polegar sobre a minha testa, tecendo uma espécie de sinal mágico, não
consegui ver mais nada.
     Já era noite quando despertei. Fui à janela e perdi-me em pensamentos novamente. Fiquei por
horas olhando os homens da vila trabalhando; pareciam estar montando uma fogueira. Não entendia
muito bem, talvez fosse parte do ritual. Eles usavam, além de vestes brancas, um capuz que cobria
todo o rosto, deixando à mostra somente os olhos. Todos estavam rezando, e aquela oração foi
ficando mais forte. Havia umas cem pessoas ou mais em volta da fogueira, já armada. Não vi Maria
ou Bernadete, devido à pouca luz e à escuridão da noite.
     Sentei-me, então, na beirada da cama para olhar a Lua, que estava alta no céu e clareava todo o
quarto escuro. Acabei adormecendo novamente. Era alta noite quando me acordaram de supetão.
Levaram-me para fora, ainda meio adormecida. Observei que, no meio do enorme pátio de terra,
estava a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, pois haviam construído uma capela para a santa.
Todas aquelas mulheres dançavam, rodopiavam em volta de mim sem parar, girando no ar uma
espécie de varinha, fazendo movimentos circulares e irregulares. Loylla, a irmã mais velha de
Bernadete, dançou sozinha. Depois, todas as outras, muito perfumadas, a seguiram, balançando suas
saias muito rodadas. Algumas me molhavam com galhos cheios de um líquido com alfazema,
jasmim e canela. Outras me traziam flores. Outras, ainda, me davam o chá mágico. Por fim, tiraram
minhas vestes. Fiquei, então, no meio de toda aquela gente vestida de céu.
     No princípio, senti-me envergonhada por causa dos homens à minha volta. Tentei cobrir meu
corpo nu com as mãos. Mas eles não pareciam estar olhando para mim, porque também estavam em
completo transe.
     Ao me aproximar, percebi que a fogueira era, na verdade, um enorme pentagrama feito por toras
de madeiras - o que explicava o motivo pelo qual os homens passaram a tarde toda cerrando árvores.
     Fui guiada ao centro do pentagrama, onde fiquei imóvel, sem saber o que fazer. Havia muitos
símbolos antigos desenhados em suas pontas. No meio, tinha também um círculo feito no chão,
como se alguém o tivesse milimetricamente desenhado. Foi nesse círculo que algumas daquelas
pessoas se posicionaram, enquanto as outras ficavam de fora, de olhos fechados e em estado de
transe. De repente, uma estranha luz brilhante circulou em volta daquele círculo mágico, que se
formou pelas pessoas que estavam de mãos dadas. Um homem encapuzado com uma grande tocha
nas mãos ateou fogo nas toras, que formavam as pontas do pentagrama. As chamas, num instante,
assumiram o seu lugar. Assustei-me por um segundo, dando um pulo, mas percebi que as chamas
não conseguiriam me tocar. A fumaça era intensa e, por pouco, não sufoquei. Uma jovem vestida de
céu veio até mim e passou um bálsamo em minhas narinas, para evitar que eu me sufocasse.
     Vi, ainda, quando algumas jovens atearam ervas dentro da fogueira - o que aumentou mais ainda
aquela intensa fumaça. Todos gritavam palavras em línguas estranhas, ao mesmo tempo. Uma mão
apareceu no meio da fumaça e deu-me algo para beber: parecia uma espécie de vinho misturado ao
chá mágico. A voz que acompanhava a mão dizia que era para não deixar a minha garganta ressecar.
Mas, logo que tomei aquele líquido, fiquei completamente entorpecida e senti meu corpo caindo em
uma imensa escuridão. Não conseguia mais abrir meus olhos, mas meus ouvidos estavam atentos a
tudo. A voz da anciã tornou-se nítida e perceptível. Ouvia sua oração, que dizia:
     _ Estamos aqui, presentes neste local sagrado, para prestarmos auxílio espiritual a esta irmã
atormentada pelo espírito da sua antepassada. Devemos todas dar as mãos e, como em uma ciranda,




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O segredo dos girassóis
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girar em torno da fogueira. Depois soltem calmamente as suas mãos e acompanhem-me, dizendo as
seguintes palavras:
     _ Que a mãe terra, que nos dá permissão para fincarmos nossas tendas sobre seu ventre, nos dê
sua força em espírito hoje. Que a mesma mãe, que nos fornece seu alimento para matar nossa fome,
nos dê alimento para nosso o espírito. Que o fogo, que por anos foi nosso inimigo temeroso, hoje
possa ser nossa espada, para combatermos os inimigos de nossa alma. Que o vento, que nos traz o
cheiro e a mensagem de nossos companheiros quando os perdemos na dor da batalha, venha hoje
ser o portador de boas novas, levando nossa irmã a seu lugar de origem. Que a água, que mata
nossa sede, seja hoje a purificadora de nossos pecados. Que a Virgem Maria Imaculada, que nos
deu a maior benção do mundo - que foi seu filho humanizado -, venha hoje nos ajudar em nossas
dificuldades, amparando-nos e protegendo-nos de todo o mal que fizeram contra nossas
antepassadas. Que a Virgem hoje nos auxilie em nossas buscas ao interior de nossas almas. Que
nosso Pai celestial venha em nosso socorro. Muito obrigada, meu Deus, por esse dia maravilhoso e
produtivo. Muito obrigada pelas nossas dificuldades, pois aprendemos com elas. Muito obrigada
por todos os obstáculos que aparecem em nossos caminhos, pois aprendemos a crescer com eles.
Muito obrigada por nossos inimigos, visíveis e invisíveis, pois aprendemos com eles a termos
mansidão e paciência. Mas os ajude, Senhor, a enxergarem Sua luz, para que possamos viver todos
em paz. Muito obrigada pelos anjos e arcanjos que nos fazem companhia, dando-nos orientação
para o caminho que devemos seguir com segurança. Muito obrigada aos espíritos de luz,
encarnados e desencarnados, que nos orientam, nos amparam e nos guiam em nossa jornada
terrena.
     Em seguida, foi rezado o Pai Nosso:
     _ Pai Nosso, que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome. Venha a nós o vosso Reino. Seja
feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai
as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair
em tentação, mas livrai-nos do mal.
     Dona Andélia prosseguiu com o ritual, só que, dessa vez, usou outro tipo de oração:
     _ Pelo poder da terra (palmas viradas para baixo). Pela força do fogo (palmas viradas para
frente). Pela alma dos ventos (palmas em movimentos circulatórios em direção a si). Pela pureza das
águas (palmas juntas e para cima, como se estivesse tomando banho de cachoeiras). Que o portal se
abra e nossa irmã possa seguir seu caminho em paz. Que nossas ancestrais a guiem com segurança
e tragam-na, calma e serena, de volta para nós.
     Naquele momento, eu já não sentia mais o calor da fogueira, nem a fumaça que me sufocava.
Não ouvia mais as vozes cantando ao meu redor, nem sentia vergonha por meu corpo estar nu. Fiquei
completamente catatônica e não mais consegui me mexer. Senti o meu corpo levitar.
     De repente, eu estava em outro lugar, no meio de uma floresta fechada, onde ouvi nitidamente
um enorme alvoroço de mulheres gritando. Meus olhos foram abrindo lentamente e as pude ver
correndo de um lado a outro. Coloquei-me de pé, ainda meio tonta, tentando entender onde eu
estava. A floresta pareceu-me a mesma, mas onde estavam todos que estavam em volta de mim no
ritual? Onde estava Maria e Bernadete? Eu queria fugir, mas não tinha como e nem para onde. As
pessoas que estavam ali eram completamente diferentes das que estavam comigo no campanado.
Seus trajes eram bem medievais. Fiquei inerte mediante tamanha calamidade que observei.
     O pânico era tamanho que pude sentir o choro invisível da mãe terra. Mulheres eram chutadas,
criancinhas eram pisoteadas. Crianças inocentes eram decapitadas brutalmente pelos soldados. Pelos
cabelos e pelos pés, as mulheres eram lançadas em carroças com cela, espremidas e trancadas como
animais. Algumas foram amarradas pelas pernas e arrastadas por toda a floresta. Jovens eram
defloradas na frente de seus pais. Bebês que nem andavam eram lançados pelas perninhas aos cães
ferozes e famintos, já treinados e acostumados com a carnificina humana.
     Um verdadeiro holocausto foi criado em meio à paz e à harmonia.




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                                         Adriana Matheus

     Indaguei uma jovem que passou por mim, desesperada, querendo saber dela o que estava
havendo. Ela simplesmente respondeu-me entre soluços, parecendo não querer parar:
     _ Tudo por causa da ignorância e do preconceito das pessoas que não nos entendem, senhorita.
Somos tratadas como animais por não termos o direito de escolher o que fazer do nosso destino.
     Uma senhora, que parecia ser a mãe da jovem, veio aflita em nossa direção, e puxou-a pelo
braço, dizendo-me:
     _ Fuja para se salvar, ou esses cães imundos vão trucidá-la.
     Não as vi mais daquele momento adiante. Elas sumiram em meio à multidão, aterrorizada. Eu
não podia acreditar no que estava acontecendo mediante meus olhos. Aquelas pessoas estavam sendo
massacradas somente por pertencerem a outra religião, por pensarem diferente e quererem ser livres.
Meus olhos encheram-se de lágrimas. Caí por terra de joelhos, sem forças para rezar ou pronunciar
qualquer palavra. Chorei desesperadamente. Se Deus existia, naquele momento tinha certamente se
esquecido de que nós, mulheres, também éramos Sua criação.
     Olhei para frente e vi, saindo de uma casa branca medieval, uma mulher alta, com cabelos
longos e cacheados e vestes de camponesa. Ela era uma mulher com um porte de nobreza, e seu
olhar era firme. Levantou o rosto e encheu o peito de ar. Parecia estar tentando criar coragem para
enfrentar aquela situação. Pude perceber que ela era uma líder, e que todos os soldados estavam
procurando por ela. Outras mulheres tentaram protegê-la, mas ela não queria proteção: simplesmente
saiu andando em direção ao chefe da guarda. Seu ar de imponência fazia com que alguns dos
soldados se afastassem enquanto ela passava. Foi quando ouvi um soldado dizer, em tom de
desprezo:
     _ Eis que se rende a bruxa-mor, capitão!
     Quando a mulher líder aproximou-se do capitão da guarda, pude notar sua semelhança comigo.
Então entendi que estava fazendo a viagem. Aquela mulher era a minha ancestral, e aquele não era o
meu mundo: era o mundo astral, onde eu iria descobrir quem eu havia sido e o que me fazia sofrer
tanto.
     Resolvi ficar quieta e observar tudo o que estava acontecendo à minha volta. Eu sabia que, por
mais duro que fosse, não poderia interferir no meu passado.
     A mulher olhou tudo e todos a seu redor. Fixou os olhos no capitão e, mesmo mediante todo
aquele sofrimento, em momento algum ela parecia se intimidar. Por fim, ela disse, em tom supremo:
     _ Sim, sou eu. Agora não maltrate mais o meu povo com os seus soldados ignorantes e
carniceiros. Leve-me e deixe essa pobre gente em paz, pois eles nada lhes fizeram de mal. O seu
problema é comigo, capitão.
     Um jovem guarda, querendo mostrar serviço, retrucou:
     _ A bruxa-chefe está pedindo um castigo, capitão Edward. Devemos acorrentá-la junto às
outras?        Com um olhar de ironia, o chefe da guarda respondeu:
     _ Não, quero interrogá-la primeiro.
     Os olhos do capitão pareciam estar grudados naquela mulher. Por fim, ele falou, em tom de
impaciência:
     _ Então nos encontramos de novo, senhorita Shaara, ou devo dizer feiticeira Shaara!?
     _ Sim, senhor. - respondeu-lhe, sem tirar os olhos dos dele.
     _ Ora, ora... Estou vendo que nem o medo fez-lhe perder a arrogância.
     _ E quem disse ao senhor capitão que estou com medo? Pode fazer medo em seus subalternos,
mas nunca em mim. Nem eu e nenhuma de minhas irmãs fizemos nada demais para que o senhor nos
ponha medo. O senhor não é Deus! Portanto, não vejo porque temê-lo, capitão! Além do mais, sua
aparência cansada é digna de pena, pois vejo no senhor um homem confuso, em um estado débil de
cólera. E quem é o senhor para falar de arrogância ou de qualquer outro defeito que exista nas
pessoas? Tem um coração tão arrogante que não admite que esteja apaixonado e errado. Arrogante,
vingativo, sanguinário e infeliz. É assim que vejo o senhor: uma pessoa sem chão, perdida, entre uma




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falsa razão e o próprio coração. Olhe pra dentro de si, senhor Edward! Veja-se! Vai chorar, em
breve. Estou a pagar pelos ciúmes de sua mãe, pela ignorância e pela mentira de tantos que se
escondem por trás das máscaras de uma sociedade hipócrita e com ideias distorcidas sobre o caráter
e a moralidade das pessoas. Os senhores falam o nome sagrado de Deus, mas são pessoas que nada
sabem sobre Ele. Os senhores fazem justiça à maneira que lhes convém, e pregam verdades ditadas
por uma ordem já em decadência. Traduzem a palavra do Cristo para educarem seus adeptos, seus
filhos e seus parentes. São como ovelhas no pasto, sendo tocadas de um lado para outro, por um
pastor tão sem rumo quanto. E, assim, envoltos na própria ignorância, seguem todos de mãos dadas.
Que triste, capitão... Encobrem seus próprios pecados e crimes, tentando achar defeito nos menos
favorecidos, como eu e minhas irmãs. Ou acham mesmo que as mulheres de sua sociedade são todas
santas?
     Shaara baixou a cabeça e sorriu, parecendo decepcionada, continuando aquele diálogo, que mais
parecia uma afronta.
     _ Se suas senhoras fossem santas, não estariam vivas, e sim em um plano muito superior a este.
Bando de hipócritas, desumanos, falsos profetas, monstros! Todos estes homens aqui, incluindo o
senhor, são piores do que animais. Acusam-nos de possessão, mas o demônio está dentro da sua
alma. Tenho pena do senhor, capitão Edward, com toda a força do meu ser. Pois sei que as irmãs que
o senhor e seus homens mataram estão em paz agora. Mas e o senhor? Não terá um dia de sua vida
em que não se lembrará desse massacre. Sabe por que, capitão? Lembranças ruins perseguem-nos
durante os nossos sonhos à noite. Elas são chamadas de consciência inconsciente, e mesmo o mais
ignorante dos seres viventes tem consciência. E é isso que me deixa feliz: sei que o senhor nunca terá
paz enquanto viver.
     O capitão, com um olhar furioso, ergueu a mão para esbofetear Shaara no rosto. Mas Shaara não
se fez de rogada e disse:
     _ Vá em frente, senhor Edward. Não pode me ferir mais do que já me feriu. Não seria a primeira
vez a usar violência contra mim. Ah, capitão... O senhor tem razão. Eu quase ia me esquecendo:
quem bate esquece, mas quem apanha tem que conviver com as cicatrizes. E as minhas estão tão
profundas que o senhor não as consegue ver, não é, capitão?
     O capitão segurou o rosto de Shaara e, olhando-a fixamente nos olhos, disse:
     _ Se eu fosse a senhorita, ficaria bem boazinha. Afinal, sou o homem que tem nas mãos o seu
destino. Posso queimar todas essas bruxas aqui mesmo, nesta floresta, sem a menor piedade, e alegar
que estavam praticando rituais de magia negra e que, ao nos verem chegar, os demônios ferozes que
as possuíam tentaram nos atacar, sem nenhuma explicação. Isso, logicamente, foi o que me fez tomar
tamanha atitude contra as pobres mulheres, que estavam, embora inconscientes, possuídas por
espíritos malignos. Portanto, se não quer que eu mate o restante dessas desgraçadas queimadas vivas,
cale-se e fique com essa maldita boca fechada o restante do tempo que lhe resta. E sabe o que mais?
Faço isso deixando-lhe como única testemunha. Mas, logicamente, não terá língua para contar tais
fatos a ninguém quando for interrogada em tribunal - o que me será bastante útil em minha própria
defesa, quando eu for interrogado sobre os fatos acontecidos nesta floresta, sem nenhuma testemunha
que lhe possa ser útil, é claro. Pense bem, então, antes de tomar alguma atitude insensata. Não que
sua língua possa lhe valer muito, mas as pessoas, durante seu julgamento, ao perceber que a
senhorita não pode falar, dirão que o demônio lhe impede a fala. Isso, para os leigos - como a
senhorita mesmo diz - é incontestável.
     O capitão deu uma gargalhada sarcástica e seu olhar gelou até a minha espinha, mas Shaara
manteve-se em posição de defesa. Ela sabia que o capitão cumpriria o que estava prometendo, mas
prosseguiu mesmo assim:
     _ Faça o que o senhor tem que fazer, capitão. Que se cumpra o meu destino. Seja a mão de
Deus, mas seja breve, não me deixe sentir dor!




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O segredo dos girassóis
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     Shaara não estava falando apenas da dor física, mas também da dor da alma. O mundo dela
estava todo nas mãos daquele carrasco, do algoz, do homem que um dia foi o mais importante da sua
vida. O capitão Edward era a única pessoa que jamais poderia tê-la traído. Shaara estava só, sem
perspectivas, e sabia o quanto aquele homem poder-lhe-ia fazer mal. Um homem com um sentimento
de mágoa, fúria ou ciúmes pode se tornar perigoso, principalmente se estiver se sentindo rejeitado ou
traído.
     Minha ancestral somente abaixou a cabeça e deixou que seu destino se cumprisse. Embora ela
não demonstrasse medo, pude ver nos seus olhos que, até certo momento, tinha esperança de que o
capitão, seu amor, voltasse atrás. Mas, na verdade, Shaara já sabia qual seria seu destino e sabia que
isso seria impossível de acontecer. É impressionante o quanto a Inquisição era cruel e mentirosa,
principalmente quando se tratava de nós, mulheres. Os inquisidores praticavam as mais cruéis formas
de torturas. E se uma mulher fosse alvo da Inquisição, logo era enclausurada. Pior seria se caísse nas
mãos de algum padre ou sacerdote, pois esses santos homens certamente a violariam e dariam um
jeito para que a pobre mulher não contasse nada a ninguém, cortando-lhe a língua e praticando os
mais cruéis tipos de torturas.
     Muitas das vítimas eram deixadas nuas, em praças públicas ou em algum lugar deserto, a mercê
do destino. Isso ocorria depois de terem sido torturadas publicamente, ou violadas privadamente.
Todas nós, mulheres, sentíamos um medo especial da Inquisição. Se alguma de nós fosse acusada de
bruxaria, ficaria logo eminente que sofreríamos uma tortura muito especial por parte do clero,
sedento por sexo e sangue. Qualquer mulher era culpada de algum crime, mesmo que nunca tivesse
cometido crime algum. Nós, mulheres, éramos a porta aberta para espíritos impuros. Qualquer
mulher com um comportamento que desagradasse a sociedade masculina sofria perseguição como
prováveis bruxas.
     Havia vários tipos de torturas antes de a vítima morrer. A morte por afogamento era uma das
formas mais cruéis. Amarravam-se as mãos e colocavam uma pedra presa aos pés das vítimas. Em
seguida, lançavam-na dentro d’ água. Se a vítima não afundasse, era inocente. Se afundasse, era uma
bruxa - o que significava que ninguém era inocentado...
     Se uma mulher fosse meramente lançada de um precipício, podia chamar a si mesma de
afortunada por ter uma morte relativamente rápida e com pouca dor. Na maioria das vezes, éramos
obrigadas a dizer que estávamos possuídas por espíritos demoníacos, com a falsa promessa de termos
uma pena mais branda ou uma absolvição. O espírito demoníaco de obsessão era, nada mais nada
menos, que um desvio sexual da luxúria encoberta pelos sacerdotes. Houve certo tempo que ecoou
por toda a Europa a epidemia chamada O Malleus Maleficarium. Isso ocorreu em cinco de dezembro
de 1484, quando o papa Inocêncio III emitiu a bula papal. Estabeleceu-se esse documento como
padrão segundo o qual a Inquisição deveria ser conduzida, como ditadora das leis da Igreja Católica.
O celibato clerical já estava em vigor havia 361 anos. Foi tempo suficiente para tornar os sacerdotes
verdadeiros desviados sexuais. Essa obsessão sexual tomou tamanha proporção que as mulheres
viviam com medo de que um dia, a partir do nada, alguém as acusasse de serem bruxas, visto que
qualquer acusação seria equivalente à culpa.
     As mulheres podiam esperar qualquer coisa vinda de um homem que as desejasse. Por isso, a
maioria vestia-se de forma austera e sem nenhuma vaidade aparente, pois qualquer indício de
vaidade poderia levá-la a ser acusada de sedução demoníaca ou algo assim. Geralmente, não
conhecíamos nossos acusadores, que poderiam ser homens, mulheres e até mesmo crianças. Isso
dependeria de quem as acusasse de algum crime, pois os manipuladores usavam pessoas inocentes e
desprovidas de recursos financeiros.
     Do processo de acusação ao julgamento, seguindo até a execução, podia ser rápido ou não. Isso
dependeria muito da pessoa que estivesse sendo acusada. Mas uma coisa era certa: não existiam
formalidades ou direito a defesa. A única alternativa do réu era confessar e retratar-se, renunciando a
sua fé, seus bens, seus familiares, e aceitando o domínio e a autoridade da Igreja em ascensão. Os




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direitos de liberdade e de livre escolha nunca foram associados a tais leis. Os acusados eram feitos
prisioneiros e mantidos constantemente sob torturas. Muitos eram inibidos de dormir, e isso
acontecia segundo revezava-se o horário de seus carrascos. Todos eram obrigados a confessar uma
condição herética. As mulheres, que eram a maioria, comumente eram vítimas de violação. A
execução era realizada geralmente em praças públicas, sob os olhos de todos os moradores, que
faziam de tal barbárie uma festividade bizarra. Punir publicamente era uma forma de coagir e
intimidar a população. A vítima podia ser enforcada, decapitada ou, na maioria das vezes, queimada
viva. Entre as torturas, as mais usadas eram: o tronco, a roda de despedaçamento, o berço de Judas,
a dama de ferro, o garfo, as garras de gato, a pêra, a máscara da vergonha, a cadeira das bruxas, o
pêndulo e o esmaga joelho - entre tantos outros instrumentos que, além de monstruosos, eram
criativos, dependendo do carrasco a executar a sentença. Os métodos de execução também eram
bastantes variáveis, sendo os mais usados a guilhotina, o serrote, a espada, a forquilha do herege, o
garrote, a gaiola suspensa, a submersão, a empalação, a cremação e o fura-bruxas, que nada mais
era que uma faca falsa para enganar a população leiga.
     O fura-bruxas era a forma mais repulsiva e fraudulenta, pois tal faca de exame nunca perfurava
coisa alguma. O que acontecia, na realidade, era que os carrascos cortavam a língua das vítimas e
usavam o fura-bruxas ou athame falso para espetá-las perante a população leiga. Como a vítima não
podia falar, pois estava sem a língua, eles diziam a todos, em alto tom: Viram-na? Está possuída
pelo demônio! E, mediante tal espanto por parte da população, os acusadores aproveitavam-se para
condenar a pobre vítima, mutilada.
     O nascimento de uma criança também era motivo para que a Igreja interviesse, enviando um de
seus sacerdotes para examinar o rebento. Se na pobre e inocente criança houvesse algum tipo de sinal
ou anomalia, imediatamente ela seria retirada de dentro da casa de seus pais e levada para dentro de
um convento ou mosteiro, onde passaria o resto de sua infeliz vida sendo observada e até torturada
por seus superiores.
     Procuravam, também, marcas do Diabo no corpo das mulheres consideradas hereges, pois,
segundo a Igreja, o diabo deixava sua marca em algum lugar no corpo de uma bruxa. A mais óbvia
era o mamilo supranumerário. Certamente, os sacerdotes celibatários e castos estariam muito
interessados em examinar tais mulheres e, com isso, uma depravada compulsão por torturas e sexo
violento surgiu com a chegada das normas morais da Santa Madre Igreja. Por parte dos sacerdotes
celibatários e castos, essa praga emocional atingiu sexualmente indivíduos não funcionais, incapazes
de sentir prazer na prática natural do sexo e, com isso, começaram a aliviar sua sexualidade
reprimida, cortando, dilacerando e queimando as causadoras de toda aquela volúpia reprimida - ou
seja, nós, as mulheres.
     Uma esposa não podia sentir prazer com o seu esposo, nem beijá-lo. Ela somente lhe serviria
para a reprodução. Caso ela descumprisse tais preceitos - como, por exemplo, beijar o esposo -, ele
poderia arrancar seus lábios, para que não se tornasse uma depravada do demônio. Essa regra só se
aplicava às mulheres, pois seus maridos podiam procurar outras em prostíbulos, para satisfazer seus
desejos carnais incompletos. O homem era o senhor - a mulher, um enfeite de estimação que nada
mais servia para ele, além de ser a sua procriadora e zelosa dona de casa.
     Com a Santa Inquisição, foi fácil para satanás invadir a Igreja Católica, pois ela já tinha se
movido para a prática da feitiçaria desde o ano trezentos e vinte e um, quando o imperador
Constantino afirmou seu comando sobre a Santa Madre Igreja. Foi quando, finalmente, esse período
da Inquisição começou a se separar da verdadeira videira de Jesus Cristo. Isso aconteceu há mais de
oitocentos anos. Portanto, a madeira estava muito seca e suscetível ao fogo do Inferno. Foi assim
que Satanás se aproveitou e soprou, usando a Inquisição como seu maior instrumento.
     Enquanto milhares de pensamentos invadiam minha mente, dei-me conta que Shaara estava
sendo levada para um vilarejo, onde seria posta sob cárcere privado até seu julgamento. Olhei para




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

aquelas mulheres em desespero e meu coração apertou-se dentro do peito. Eu sabia que nada podia
fazer por elas, mas me senti uma covarde e impotente por apenas ser uma sombra.
      Procurei por Shaara, que estava de mãos atadas, cabisbaixa e encostada em um canto, perto de
um carvalho. Ela não dizia mais nada, estava imóvel. Parecia estar querendo apagar da mente todo
aquele holocausto. Seu semblante era de dor e agonia. As pálpebras de Shaara estavam baixas,
inertes. Ela praticamente já estava morta, somente seu corpo ainda estava de pé - talvez por uma
questão de ela mesma não poder se desligar da vida material.
     Os soldados levaram-na para perto do capitão, amarrando-lhe as mãos à sela do cavalo do chefe
da guarda. O senhor Edward ocupava três postos de muita responsabilidade e conveniência: o de
chefe da guarda, o de capitão, e o posto mais alto, o de inquisidor. Logicamente, tais funções não lhe
foram impostas por ele ser simplesmente tão merecedor ou competente. Ele era também outra vítima
da Inquisição, que se aproveitou do seu ódio por Shaara para fazer dele um caçador de bruxas. Dessa
forma, sabiam que poderiam confiar nele cegamente, pois varreria também, da face da Terra, os
inimigos de Sua Majestade e da Santa Madre Igreja.
     Acompanhei aquele cortejo fúnebre de longe, para que Shaara não percebesse minha presença
espiritual - ou poderia ser ainda mais catastrófico para ela. No mundo transitório onde me
encontrava, nada poderia me acontecer, ou seja, nenhum mal físico. Mas de nem uma forma eu
poderia interferir no mundo de Shaara. Era como se eu estivesse em um espelho às avessas: eu podia
falar com eles e interrogá-los, mas não podia tocá-los ou ser tocada. Apenas o meu perispírito estava
lá - o meu corpo, não, pois ele estava no século XVIII, em que se encontrava minha querida Maria e
as outras irmãs, que pacientemente aguardavam meu retorno daquele transe astral. Era como se fosse
uma janela imaginária, mas, ao mesmo tempo, real.
     Não soube descrever com palavras exatamente o que era aquilo tudo que estava acontecendo.
Mas o certo é que eu estava lá. Presenciei aquelas coisas todas sem sair do lugar onde me
encontrava. Fiz a viagem e sabia, naquele momento, que era algo muito especial e individual, pois
cada pessoa que fizesse a viagem teria a sua forma pessoal de descrevê-la.
     Vi quando o capitão Edward olhou com ódio para Shaara, que estava presa à sua sela. Mas
também vi o olhar de tristeza de Shaara, por parecer não reconhecer aquele homem. A engolida seca
de minha ancestral demonstrou que estava sem força e fôlego para prosseguir todo aquele trajeto a pé
e descalça.
     Depois de mais de três horas caminhando em trilhas áridas e pedregosas, Shaara, por fim, falou
em um tom de voz, quase um sussurro:
     _ Dê-me água, pelo amor de Deus! Eu suplico: tenha misericórdia, apenas me dê água!
     O capitão olhou-a com desprezo e respondeu:
     _ Agora está se lembrando de Deus, bruxa maldita? Por que eu deveria ter misericórdia de uma
discípula de satã? A senhorita e suas comparsas deveriam ter pensado na misericórdia Dele antes de
terem se juntado a satã. Agora é tarde demais. Seus destinos estão em minhas mãos, e logo verei o
fim de toda a sua raça amaldiçoada. Eu mesmo selarei seus destinos em nome de Deus e de todos os
Santos dos céus. Faço isso sem nenhuma piedade, pois sei que todas são um caso perdido para a
Santa Madre Igreja, levando em conta que o diabo já tomou conta de seus corpos e almas.
     Ao dizer tais palavras amargas, o capitão Edward olhou para Shaara de tal forma que a desnudou
apenas com o olhar. Eu poderia estar enganada, mas, a meu ver, ainda existia paixão por parte do
capitão Edward em relação à Shaara. Talvez fosse uma paixão doentia e corrompida pelo ódio e pela
vingança - mas, mesmo assim, ainda existia um sentimento dentro daquele homem. E isso poderia
ser muito mais prejudicial à minha ancestral.
     Shaara, percebendo o olhar de lobo selvagem do capitão, tentou modificar o rumo que poderia
tomar aquela conversa. Tirando forças de dentro de si, respondeu, ainda num sussurro:




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Ninguém é dono do destino de ninguém, capitão, nem mesmo do próprio - embora essa fosse a
sua vontade, não é mesmo, senhor Edward? Sempre quis controlar-me a qualquer preço, nunca
pensou que eu poderia fazer o que o senhor quisesse?
     Shaara deu um sorriso triste, abaixando e sacudindo a cabeça negativamente. Depois olhou para
ele, como que suplicando por socorro, e prosseguiu:
     _ Bastava que me pedisse! O senhor nunca soube o que é o amor de verdade e, pelo que vejo,
nunca vai saber. Julgou-me pelos pecados dos nossos pais. Eu era inocente, senhor Edward. Mas,
infelizmente, não quis perceber isso: o seu ódio era tanto que o senhor não me deu sequer o direito a
defesa. Eu não sabia de nada. Para mim, foi uma surpresa descobrir o envolvimento de nossos pais
no passado. Mas de que adianta? O senhor está senil pela sede de vingança que ainda lhe persegue.
Por Deus, Edward! Como eu poderia saber de tais coisas? Meus pais esconderam de mim toda aquela
história, eu juro por...
     Shaara parecia querer dizer mais alguma coisa, mas deu outro rumo àquelas palavras, que
preferiram não sair de sua boca. Isso, para mim, foi uma incógnita. Mas fiquei quieta, observando
minha ancestral desviar o assunto:
     _ O mais importante para o senhor sempre foi ver a sua vingança concretizada. Já se vingou de
meu pai, tirando-lhe a vida. Já me fez pagar pelo pecado que ele cometeu no passado, conseguindo
banir-me para o exílio, a viver longe da civilização. O que mais quer agora, senhor Edward? O que
mais ainda falta? Por favor, senhor Edward, suplico em nome de Deus, a quem diz tanto amar! Pare
agora, enquanto ainda lhe resta um pouco de civilidade. O senhor não sabe o que está fazendo, e vai
se arrepender amargamente. Acredite: sempre lhe fui fiel, mesmo no exílio.
     O capitão olhava para Shaara com ódio mortal e não parecia ouvir o que dizia. Mas Shaara
parecia decidida a fazê-lo voltar atrás por algum motivo, ainda oculto para mim. Então, ela
continuou, enfraquecida e quase sem fôlego:
     _ Vejo dentro de sua alma. Vejo uma grande infelicidade bem lá no fundo. Mas sei que ainda há
alguma coisa de bom aí dentro do senhor, capitão. Basta deixá-la vir à tona.
     O capitão, em um inesperado ímpeto de insanidade e ódio, esbofeteou Shaara, finalmente. Em
suas faces alvas escorreu a dor. O capitão rangia todo o seu ódio por entre dentes, em um êxtase de
vitória. Com a força da mão do capitão, Shaara escorregou e ficou pendurada à sela do cavalo
daquele homem cruel, que ainda a arrastou por alguns metros. Até que parou, finalmente, e disse:
     _ Isso é para que não fale mais o nome do meu Deus em vão, sua bruxa! E que também lhe sirva
de lição, para que aprenda a nunca mais mentir para mim com suas infâmias. Acha mesmo que eu
acreditaria em uma só palavra do que estava dizendo? Fui treinado para lidar com bruxas e
demônios; sei muito bem quando uma bruxa está tentando me seduzir, usando de encantamentos para
me desvencilhar do meu objetivo. Sou um servo do Divino Deus Criador de todas as coisas. Não tem
poder sobre mim, Satanás!
     Entre lágrimas, Shaara levantou-se do chão, secando com as mãos atadas o sangue que escorria
das têmporas. Disse, entre soluços:
     _ Em seus olhos, vi um sentimento perfeito e puro. Mas era a máscara do seu ódio. Vocês,
cristãos, acham que as bruxas sabem de tudo, não é? Mas também nos enganamos, como pode ver. O
amor confunde-nos, assim como me confundiu. Sou mesmo uma tola: ainda teimo em acreditar na
essência humana. Tento olhar no fundo da alma do ser humano, mas me esqueço que não adianta
tentar. Pois quando alguém se perde na ignorância, na incompreensão e no ódio, está morto de alma.
Para falar a verdade, nem mesmo sei se é humano. O ódio cegou-o, Edward. Ainda não percebeu
isso?
     O semblante do capitão Edward transfigurou-se. Era como se outra pessoa estivesse ali, junto a
ele. Senti medo daquele rosto. Percebi que Shaara também viu o mesmo que eu estava vendo. Meu
coração parecia dizer que ele queria estrangulá-la. Ele estava completamente tomado por um espírito
de revolta e vingança e, ainda aos gritos, ordenou:




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ Cala essa sua boca imunda, bruxa maldita! Guardas, levem essa mulher infeliz da minha
frente, antes que eu perca a minha cabeça!
     O jovem soldado correu ao encontro do capitão Edward, indagando-lhe:
     _ Devo trancá-la com as outras, senhor capitão?
     _ Não, quero que a algeme do lado de fora da carroça. Ela vai a pé até o vilarejo. Isso lhe servirá
de penitência, fazendo-a se lembrar de quem é que está no poder aqui.
     O guarda empurrou Shaara abruptamente, como um animal. Amarrou-a pelos pulsos na parte
traseira da carroça, onde estavam as outras mulheres. Shaara estava com as vestes rasgadas, e os pés
e joelhos esfolados. O sangue descia na sua face, misturando-se com as lágrimas e os soluços. Isso
pareceu incomodar o capitão Edward, pois ordenou que o soldado a amordaçasse. O soldado não só
obedeceu à ordem do seu superior, como também bateu na cabeça de Shaara com um pedaço de
madeira.
     A situação da minha ancestral não era nada agradável. A cada metro percorrido, seus pés
sagravam mais, pois se cortavam com as pedras e os galhos espinhentos que existiam à beira do
caminho. Shaara sufocava seus gemidos através da mordaça, que cortava seus lábios.
     O capitão Edward olhava para trás, uma vez ou outra, para se certificar de que Shaara estava
sofrendo o suficiente com o tratamento imposto por ele. Naquele momento, as irmãs de Shaara não
olhavam sequer para sua mestra. Pareciam repudiá-la e acusavam-na por tudo o que lhes ocorreu na
floresta. Shaara estava só, à mercê daquele destino infeliz.
     Vi naquela mulher uma grande guerreira e, com o passar dos meus anos, aquela foi uma lição
que segui a fio. Pois, mesmo naquele momento de flagelo, percebi que Shaara se preocupava com
suas irmãs. A dor daquelas mulheres parecia ser mais importante do que a sua própria dor. Aquelas
famílias estavam sofrendo com a morte de seus entes queridos. As cordas e os gravetos que cortavam
o corpo de Shaara não eram nem a metade do que a dor na alma daquelas mulheres.
     Causava-me angústia não poder fazer absolutamente nada. Por várias vezes, contive as lágrimas
que estavam prestes a cair. Não podia fraquejar; senão, minhas visões seriam interrompidas. Tentei
manter meu coração em oração, buscando auxílio Divino e emanando energia positiva a todas elas.
     Depois da morte do pai de Shaara, ela se integrou ao grupo de auxílio de Mercedes, sua tia por
parte de mãe. Mercedes era uma mulher de muitos princípios, e decidiu nunca se casar ou ter filhos
para se dedicar somente aos pobres e necessitados. Mercedes foi considerada a maior bruxa daquele
condado e, com o seu falecimento, Shaara passou a ser sua sucessora. Mas, naquele momento de dor
e revolta, aquelas mulheres na carroça não conseguiam discernir o certo do errado e passaram, então,
a vê-la como uma inimiga. O que elas não sabiam é que Shaara jamais as abandonaria ou as trairia
por qualquer motivo que fosse. Shaara nunca recusou ou abandonou alguém que a procurasse
pedindo abrigo ou caridade - mesmo sabendo que, a qualquer momento, poderia um daqueles
necessitados ser um espião e vir a traí-la. E foi exatamente isso o que ocorreu: um senhor a quem
Shaara havia dado abrigo e comida, curando-lhe também uma enfermidade, era um espião da
Inquisição. O homem era um velho soldado, enviado disfarçadamente para descobrir o esconderijo
de Shaara.
     Shaara nunca praticou bruxarias. Apenas curava os doentes com a ajuda das ervas, como lhe
havia ensinando sua tia Mercedes. Durante anos, as duas exerceram esse trabalho árduo, mas
gratificante. Em três anos, aquele pequeno grupo havia se tornado quase uma pequena vila. E a
fama de Mercedes e Shaara espalhou-se à revelia por todo o condado. Isso incomodou os aldeões, o
rei e, principalmente, a Igreja, que julgava estar perdendo muitos fiéis.
     Elas nunca precisavam ir à cidade e quase nada as faltava, pois de tudo a mãe terra produzia.
Também contaram com a ajuda de alguns comerciantes, que lhes vendiam sal e açúcar às escondidas.
Os feitos das duas bruxas cresciam a cada dia. Com isso, os boatos e mexericos maldosos foram
surgindo em torno de ambas, que passaram a ser perseguidas pela Inquisição, confundidas com as
feiticeiras de Salém.




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                                         Adriana Matheus

     Elas criam no mesmo Deus que eles, sangravam com feridas e morreriam como qualquer um.
Mas não eram vistas como parte da sociedade: eram vistas como a escória. A única coisa diferente
entre aquelas mulheres e os demais era a forma simples e bela como levavam a vida. Não tinham
culpa por terem nascido com um dom especial de ver e sentir coisas que não eram perceptíveis a
olhos nus. Mas a ignorância, o autoritarismo e o preconceito faziam com que se parecessem
monstros, diante de uma população que, além de cega, era também fácil de ser corrompida.
     A política dominava, mas a corte foi totalmente dominada e induzida pela Igreja em ascensão,
que fazia os monarcas assinarem por todos os crimes e barbáries ditados por essa emissora de satã.
     Todos estavam completamente cegos ou em completo transe hipnótico, criado pelas falsas
histórias dos inquisidores, das velhas beatas e adeptos das grandes leis ditadas pela Santa Madre
Igreja. Na verdade, ninguém sabia quem emitia tais leis, mas elas chegavam à população em uma
fração de segundos. Parecia que a maldade tinha asas, pernas, olhos e ouvidos. Qualquer mexerico
era motivo para sermos perseguidas pelo povo fanático. Bastaria algum aldeão dizer ter visto fumaça
na floresta para que a população, em massa, acreditasse ser alguém sendo vítima de algum sacrifício
de magia negra. Se um lobo matasse uma criança, com certeza foi devorada por nós, as megeras.
     Quando alguém quiser identificar uma bruxa, basta associá-la à natureza e tudo o que dela vier.
     Se for necessário, fazemos os nossos rituais, mas optamos, na maioria das vezes, por nunca fazê-
los - a não ser em caso de extrema necessidade. Nunca tomamos bebidas alcoólicas. De forma
alguma usamos sacrifícios animal ou humano, como contam as lendas. Nunca fomos adoradoras do
diabo: criaram esse mito em torno de nós como pretexto para poder acusar-nos de crimes que nunca
sequer pensamos em cometer. Deus nos deu um dom e cada uma de nós o exercíamos em prol da
humanidade. O dom da visão, o dom de falarmos com os espíritos, o dom da cura pelo toque das
mãos ou pelas ervas, o dom de ver as coisas através das cartas e das xícaras de chás, entre tantos
outros dons. Sempre usamos esses objetos como instrumentos da magia - mas isso não é uma regra,
pois cada um de nós tinha o seu método pessoal de prever o futuro de um consulente.
     Deus era o nosso único mentor espiritual, mas também críamos em deuses e deusas,
considerados deuses pagãos. Eram deuses cornudos e deusas aladas. Talvez por terem formas meio
pitorescas - e até mesmo bizarras -, causavam repulsa e abominação aos leigos, que nada entendiam
de nossa escolha religiosa. Nossos deuses tinham chifres porque eram metade homem e metade
animal. Eram protetores das matas e da natureza. Mas isso nada tinha a ver com a magia negra,
praticada às escondidas nos calabouços dos grandes palácios. Quem praticava tais abominações eram
as feiticeiras, que, para se manterem vivas, aliavam-se aos monarcas, secretamente. Era como uma
troca de favores bizarros: alguns monarcas conseguiam seus benefícios e, em troca, mantinham-nas
vivas - enquanto lhes fosse conveniente, é claro.
     Interrompi meus pensamentos, pois os soldados pararam depois de quase seis horas de trajeto.
Uma carroça havia quebrado o eixo e demorou quase uma hora para que fosse consertada. Depois,
seguiram viagem. A noite já havia chegado e a Lua era a única forma de luz. Os soldados e o capitão
não pareciam querer parar para descansar ou dormir, pois queriam chegar o mais rápido possível à
cidade. Shaara caiu por várias vezes no meio do caminho, mas o soldado que escoltava a traseira da
carroça dava-lhe chicotadas, para que ela se levantasse imediatamente. Ela estava parecendo um
farrapo humano.
     O dia estava amanhecendo quando, por fim, chegaram ao vilarejo. O capitão Edward, ao descer
do cavalo, fitou Shaara demoradamente. Eu poderia jurar que havia piedade naquele olhar, mas seria
desejar demais de um soldado com cargo de inquisidor.
     De repente, senti que Shaara iria desmaiar. Deu-me certo pânico e desespero por nada poder
fazer. Vi um homem gordo com uma peruca amarelada. Parecia ser um lord. Ele veio ao encontro do
capitão Edward e perguntou:
     _ Senhor, esses são os prisioneiros?




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     _ Sim, senhor, estas são as bruxas capturadas. E elas estão sob minha escolta, até segunda
ordem.
     _ E por que esta mulher está caída ao chão, capitão? - quis saber o homem, percebendo que
Shaara não estava consciente.
     _ Deve ter desmaiado, senhor. Ao passarmos pela Igreja, ela começou a passar mal. Bem sabe
Vossa Excelência que o demônio não aguenta o poder do Senhor Nosso Deus.
     _ Sim, senhor capitão. Sei bem como essas bruxas valem-se dos poderes de satã. Mas quero
saber em detalhes o que houve com esta mulher, pois amanhã o bispo virá aqui pessoalmente para
interrogá-la. Creio que o senhor já deva ter o relatório pronto em mãos, capitão - ou melhor dizer
senhor inquisidor?
     Capitão Edward deu um sorrisinho matreiro, como quem entendeu o que quis dizer o lord Del
Soares. Em seguida, fez-lhe um cumprimento com a cabeça e seguiu em direção à prisão, onde
ficariam Shaara e as outras trinta e cinco prisioneiras.
     Muitas horas depois, Shaara acordou, jogada ao chão de uma masmorra, assustada e meio sem
noção ainda de onde se encontrava. Suspirou aliviada por perceber que ainda estava viva. O lugar era
muito escuro e sujo, e cheirava a morte.
     Ela apertou os olhos, contou até dez e, lentamente, abriu-os de novo. Com aquele estranho ritual,
Shaara pôde enxergar melhor no escuro. Então, percebeu que estava em uma masmorra cheia de
ratos e com uma espécie de mina d’água, que escorria e molhava todo o ambiente. Shaara entendeu
que estava abandonada à mercê do destino que lhe impuseram. Sabia que, se não a julgassem logo,
morreria de qualquer forma e ainda seria devorada pelos ratos.
     Não conseguindo conter o choro, caiu em pratos desconsolados. Shaara urrou de ódio naquele
momento, tentando demonstrar toda a sua decepção e o seu desespero por se sentir impotente. Um
guarda, ao ouvir seus gritos, foi até a cela dela e jogou um pedaço de pão duro e água por debaixo da
porta, dizendo:
     _ Coma e beba, sua cadela imunda, pois, se está urrando, deve ser de fome!
      Ao se retirar, empurrou uma vela acesa, também por debaixo da porta da cela. Shaara arrastou-
se, tentando alcançar a vela. Então, viu-se acorrentada à parede. Com a vela, iluminou o recinto e
pôde pegar o pedaço de pão e a água, pois precisava manter-se forte. Depois de comer, deitou-se
encolhida a um canto menos molhado e tentou adormecer. Mas foi em vão, pois os ratos passeavam
de um lado a outro, tentando se aproximar dela.
     Então Shaara começou a orar, pedindo forças e paciência aos seus mentores espirituais. Em suas
orações, disse:
     _ Senhor, eu nunca fiz mal a ninguém. Nunca matei, mas perdi minha liberdade. Deus! - pôs-se
de joelhos e prosseguiu:
     _ Peço: não me abandone, oh mestre, nesta hora de sofrimento. Não me deixe pecar, rogando
pragas em meus algozes. Dê-me mansidão e sabedoria, para que eu possa aprender a aceitar o meu
destino com dignidade.
     Shaara fechou os olhos e colocou-se em transe. Começou a fazer a viagem naquele momento.
Aproveitei o seu momento de silêncio e fui naquela viagem, junto à minha ancestral. Sentei-me ao
lado dela e fechei meus olhos. Pedi aos mentores espirituais presentes que me permitissem ver o que
Shaara veria. Então, mais uma vez, como em um passe de mágica, eu estava em outro lugar.
     Estava dentro das lembranças da minha ancestral. Isso era fantástico e quase impossível de
acontecer. Ninguém nunca havia indo tão longe. Poderia considerar-me uma pessoa de muita sorte.
     Shaara estava em um tempo de dez anos antes de aquela tragédia acontecer. Seu coração estava,
com suas lembranças, no capitão Edward. Ela estava feliz e parecia ser uma jovem muito bem
humorada. Era tão cheia de planos, o coração tão puro! E o olhar dos dois parecia ter cristais quando
estavam juntos.




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O segredo dos girassóis
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      Eu não conseguia, até aquele momento, entender por que duas pessoas, que pareciam ter se
amando tanto, de uma hora para outra, passaram a se desprezar daquela forma. Eu estava translúcida
naquela viagem: nem mesmo como um fantasma Shaara poderia ver-me. Então, pude estar bem junto
a ela. Eu me sentia meio morta, mas estava adorando entender mais sobre minha ancestral. Sabia que
aquilo seria muito útil para mim no futuro. Shaara seguiu mais à frente em sua viagem. Ela era muito
poderosa e de muita experiência, pois, em fração de segundos, levou-nos mais à frente, ainda em seu
passado. Fiquei admirada por perceber que poderíamos estar em tantos lugares ao mesmo tempo,
dentro do mundo astral. É incrível o que a mente consciente pode fazer quando temos domínio sobre
ela. E Shaara tinha esse domínio totalmente.
     Quando ela abriu os olhos, estava deitada em uma cama rodeada de mulheres que não eram suas
irmãs da floresta. Pareceu um pouco assustada, tentando entender o que estava acontecendo. Eu
estava ao seu lado o tempo todo, de pé à cabeceira de sua cama, mas ela sequer desconfiava da
minha presença. E o motivo pelo qual Shaara ficou atordoada foi a maneira muito rápida com que
havia se transportado de uma época a outra. Isso poderia ter resultados catastróficos, e era uma coisa
que eu não arriscaria, mesmo porque eu era só uma aprendiz.
      Acompanhei os olhos de Shaara, que parecia estar matando a saudade de seu lar. Ela olhou
minuciosamente cada cantinho daquele quarto, que parecia ter sido decorado para uma princesa. Era
um quarto grande, com uma decoração contemporânea lindíssima, muitas cortinas, uma cama muito
grande e mobílias muito polidas. Isso sem contar o cheiro bom de comida, que estava vindo de
algum lugar daquela casa. Foi quando uma jovem magra e simpática entrou no quarto de Shaara,
com uma bandeja contendo chá, biscoitos de nata, torradas, suco, bolinhos e frutas. Tanta fartura que
me senti satisfeita somente de olhar para tantas guloseimas! Shaara já estava reconhecendo o
ambiente. Deu uma larga espreguiçada sobre a cama e, em seguida, perguntou:
     _ Onde estou? - parecendo apenas querer se certificar que estava a alguns passos atrás, em seu
passado feliz.
     _ A senhorita está bem? - perguntou uma das senhoras, que parecia ser de confiança da família.
Está em seus aposentos, em sua casa. – respondeu, parecendo preocupada, mas mantendo um tom de
simpatia. Onde mais poderia estar a menina? Trouxemo-la para seu quarto, depois daquele súbito
desmaio que a senhorita teve logo após o jantar de ontem. Agora, por favor, arrume-se! Seu pai está
à sua espera.
     Shaara levantou-se às pressas. Parecia querer recuperar o tempo perdido ao lado do pai.
Arrumou-se tão rapidamente que mal se preocupou com a vaidade. O que ela mais queria, naquele
momento, era estar com o seu velho pai e poder dizer-lhe o quanto o amava. Pois, quando Shaara se
exilou na floresta com sua tia Mercedes, para se esconder da Inquisição e do capitão Edward, não
pôde se despedir de seu pai, que havia sido condenado à forca por traição contra a corte.
     Shaara sentiu-se uma traidora por nada ter podido fazer a respeito. Tentou fugir várias vezes
para poder ajudar o pai, mas, devido à frágil condição em que ela se encontrava, Mercedes e as
outras irmãs não a deixaram sair. Shaara, desde então, mantinha em sua cabeça que seu pai não a
perdoou por isso. Portanto, aquela viagem para Shaara era de extrema importância. Para ela, era
como fosse um resgate: mesmo que ela não pudesse mudar em nada o seu destino, era uma forma de
rever e ficar um tempo a mais com o pai.
     Shaara atravessou vários corredores daquele enorme casarão. Não consegui ver muita coisa e
nem detalhar nada, pois ela estava com pressa e tudo parecia espelhos às avessas. Era como se
fossem flashes em minha mente. Quando Shaara estava parada ou calma, eu via claramente as coisas
ao meu redor. Mas se Shaara corresse, era como se o tempo acelerasse. Então, embaçava tudo ao
redor, deixando-me impotente em relação aos detalhes. Ao chegar a um grande saguão, de mobília
refinada e muito rica, pude ver um senhor de costas olhando pela janela, enquanto fumava cachimbo.
Ele estava de costas e usava um roupão. Parecia ter acordado havia poucas horas.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Shaara estava com tantas saudades que nem se preocupou com a etiqueta: correu e abraçou o pai
pelas costas.
     _ Que saudades, pai! – disse-lhe entre lágrimas.
     O homem virou-se lentamente, segurou Shaara pelos braços e perguntou:
     _ Querida, está se sentido bem?
     O homem, meio confuso por toda aquela estranha situação, passou as mãos no rosto de Shaara,
tentando acalmá-la e, enxugando suas lágrimas, prosseguiu:
     _ Sou seu velho pai e sempre estive aqui!
      Ela pareceu perceber aquele erro e tentou acalmar-se, dando-lhe um sorriso confuso.
     Senti minhas pernas tremerem quando fitei o rosto daquele homem. O pai de Shaara era também
o meu pai. Eu não conseguia entender como isso seria possível. Uma parte de mim quis sair correndo
e encontrar Dona Helena, para esclarecer tudo aquilo. Outra parte queria ficar, para ver onde meu pai
se encaixava naquela louca história. Eu queria abraçá-lo também, pois estava morrendo de saudades.
Mas sabia que, embora a semelhança fosse gritante, seria impossível, pois meu pai não fumava
tabaco de espécie alguma. Senti-me completamente confusa: queria respostas, queria tocá-lo a
qualquer custo. Confesso que foi uma das partes mais difíceis da viagem.
     Respirei fundo, tentando acalmar a minha ansiedade. Foi quando percebi que algo estava errado
com a minha ancestral: ela estava ficando pálida e, de repente, desmaiou. Só não caiu ao chão porque
seu pai a amparou pelos braços. Que confusão... Eu não sabia, afinal, pai de quem ele era naquele
momento. Imediatamente, as empregadas foram chamadas e uma ordem foi dada para que o médico
da família fosse localizado.
     Algumas horas depois, Shaara voltou a si. Parecia meio atordoada, e logo perguntou, por se ver
deitada em um divã:
     _ O que houve comigo?
     _ A senhorita teve outro desmaio. Tem se alimentado bem, querida? - perguntou o médico.
     _ Foi só um desmaio, doutor! Por certo deve ser o calor. - disse o pai de Shaara, interrompendo
aquela conversa.
     _ Deixe que ela me responda, senhor Gonzáles. Preciso certificar-me dos sintomas para poder
dar o diagnóstico. Há quanto tempo a senhorita tem tido esses sintomas?
     _ Há algumas semanas - respondeu Shaara, ainda confusa e preocupada.
     _ E isso ocorre antes ou depois das refeições?
     _ Varia, doutor. Sinto muitas tonteiras e enjoos.
     _ Entendo!
     _ O que há com a minha filha, doutor Sanches? Ela está muito doente? - indagou o pai de
Shaara, pondo uma das mãos no ombro do médico.
     Dr. Sanches levantou-se calmamente. Tirou os óculos e levou o pai de Shaara a um canto onde,
em particular, deu-lhe o diagnóstico.
     _ Sua filha esta grávida, senhor Gonzáles. E os lapsos de memória que ela vem tendo são
provavelmente porque está muito preocupada em como contar-lhe o fato. Isso acontece muito
quando as pessoas estão cansadas ou passando por problemas. O senhor deve ter uma conversa mais
franca com a senhorita Shaara. Mas tenha cuidado, pois a situação é delicada.
     O pai de Shaara ficou pálido. Tansfigurou-se, parecia ter perdido o rumo de onde estava. Era
uma situação muito constrangedora e delicada para ele. O médico não deu nem mais uma palavra
com o pai de Shaara. Apenas pediu às criadas e à senhora que deixassem os dois a sós. O pai passou
as duas mãos sobre as faces pálidas, tentando recompor o ânimo. Por fim, perguntou:
     _ Quanto tempo mais achava que poderia me esconder tal fato? Esperava tudo de qualquer um,
menos uma traição vinda da minha própria filha.
     Shaara arregalou os olhos, parecendo realmente não entender o que estava acontecendo.
     _ Como assim? Não estou entendendo o que o senhor está tentando dizer, pai!




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

    _ Não me faça perder a cortesia e esbofeteá-la, menina! Há quanto tempo perdeu-se com aquele
crápula? Deus do céu, o que vão dizer? Devem casar-se de imediato. Não quero que fique mal
perante a sociedade. A Igreja pode excomungá-la e bani-la para longe de mim. O que faço? - o
homem parecia desnorteado; mal podia manter-se de pé.
    Shaara levantou-se e foi na direção do pai. Tentou abraçá-lo, mas ele se afastou. Então, ela
abaixou a cabeça e disse:
    _ Perdoe-me, pai, eu amava muito Edward. Sei que traí o senhor, não lhe contando a verdade.
Mas senti medo da sua reação. Não quis magoá-lo, juro! Eu o amo muito, pai, não sabe o quanto...
Não pode imaginar tudo o que passei para estar aqui com o senhor. - Shaara referia-se à viagem.

     _ Deveria ter confiado em mim, Shaara. Quero que me conte exatamente como e onde aconteceu
o fato, para que eu saiba qual providência tomar. - tomou Shaara pela mão e a fez sentar em uma
cadeira. Puxou um banquinho para perto dela e disse:
     _ Estou esperando. Comece.
     Shaara respirou profundamente, ergueu a cabeça e começou a contar:
     _ No dia em que o senhor foi chamado para visitar mamãe em seu leito de morte, Edward tinha
vindo aqui para me fazer o pedido de casamento. Eu não sabia se ficava feliz por ter sido pedida em
casamento por ele, ou se me desesperava com a situação de mamãe.
     Shaara começou a contar em detalhes aquela história de amor e ódio.
     _ Foi exatamente da forma como vou narrar. Não vou mentir em uma só vírgula.
     _ Espero que não!
     Shaara finalmente prosseguiu:
     _ Fomos ao jardim caminhar e Edward, naquele dia, estava perfeito!
     _ Poupe-me de certos detalhes, por favor! - retrucou o senhor Gonzáles, enfurecido.
     _ Estávamos no jardim e ele disse simplesmente quero me casar. Sei que seu pai não dará
permissão até que complete dezoito anos, mas não estou aguentando mais. Fui promovido por
ordens do próprio bispo. O que ganharei será suficiente para sustentá-la. Fuja comigo esta noite, eu
imploro. Então, quando voltarmos, seu pai não poderá nos impedir de ficarmos juntos, pois
estaremos casados. Foi quando Madalena interrompeu-nos, dizendo que o senhor solicitava minha
presença de imediato.
     _ Esse canalha, juro... - Gonzáles interrompeu Shaara, apertando o pulso. Ela pediu ao pai que a
deixasse prosseguir com a conversa:
     _ Deixei Edward sozinho no jardim, sem lhe responder ao pedido ou me despedir, pois fiquei
preocupada com o senhor.
     _ Filha... - ele caiu aos prantos, pois se lembrou do fato ocorrido.
     _ Sim, pai. E depois que o senhor me deu a notícia de que mamãe estava morrendo, Edward
entrou e ainda lhe trouxe água para beber. Enquanto o senhor se arrumava para ir ao encontro de
mamãe, Edward afirmou o desejo de se casar comigo. Então, disse: Sei que posso parecer um pouco
frio e precipitado, mas não abro mão de você, meu amor. Vá com seu pai, mas volte para mim.
Assim que as notícias forem melhores, escreva-me. Despedimo-nos e nada havia acontecido entre
nós antes daquele dia.
     Shaara e o pai ficaram horas recordando a mãe de Shaara. Os dois estavam nostálgicos e
chorosos. A mãe havia sido uma bruxa. Foi uma mulher muito amada por todos da sociedade por sua
bondade. Por amor a Gonzáles, nunca praticou a bruxaria - com a condição de, às escondidas, poder
sempre estar perto de seus instrumentos de magia. Por anos, durante a súbita doença, Efigênia
Gonzáles foi mantida em um bangalô, afastada da população por causa da lepra, que já estava em
estado avançado. Shaara, então, deu prosseguimento àquela conversa, perguntando ao pai:
     _ O senhor lembra-se de quando mamãe pediu para falar comigo a sós?
     _ Sim, lembro-me. - disse Gonzáles, passando a mão sobre os olhos, envoltos pelas lágrimas.




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     _ Sim, pai, foi naquele momento que ela me contou que era uma bruxa. Mamãe pediu-me para
pegar alguns objetos que estavam em cima de uma mesinha. Então, depois de desembrulhar,
mostrou-me algo que guardara por anos. Entregou-me uma varinha, um athame, um livro de receitas,
um cálice de prata e um caldeirão. Depois, explicou-me como eu usaria cada um daqueles objetos,
pai. Confesso que fiquei muito assustada e incrédula também. Mas ela, parecendo perceber essas
coisas em mim, contou-me a seguinte história:
     _ Quando conheci seu pai, eu tinha dezesseis anos. Era uma camponesa e morava em uma
humilde casinha no meio da floresta. A carruagem em que seu pai estava perdeu o eixo, e ele e seus
criados quase sofreram um sério acidente. Seu pai precisou consertar uma roda da carruagem antes
que a noite caísse e os lobos viessem, famintos e furiosos. Os lacaios de seu pai mal sabiam guiar os
cavalos. Eram totalmente despreparados para uma situação de emergência. E foi aí que, naquele
momento, por uma artimanha do destino, seu avô, que passava por ali, vendo a dificuldade de seu
pai, resolveu oferecer-lhe ajuda. Devido à alta hora, seu avô também ofereceu-lhes pousada. Seu
pai foi levado para a nossa humilde cabana, mas foi muito bem recebido por minha mãe, que logo
tratou de matar um ganso para o jantar. A casa era pequena, mas todos se acomodaram bem.
Quando os meus olhos e os de seu pai cruzaram-se, percebemos que não conseguiríamos ficar um
sem o outro. Minha mãe observou-nos atentamente. Seu pai permaneceu em minha casa mais tempo
do que o previsto. Quando ele partiu, deixou a certeza de que iria voltar, pois me deu o anel com seu
brasão. Meu pai não acreditou muito, mas minha mãe viu em seu tarô que ele voltaria para se casar
comigo.
     _ Seu tarô, como assim? – perguntei à mamãe. Sim, sou uma bruxa, uma cigana ou como queira
chamar-me. O mais intrigante foi ver a pequena marca que ela me mostrou: era um sinal, uma flor,
pai. A flor de lótus, a marca das condenadas. Mas mamãe era surpreendente. Antes mesmo que eu a
perguntasse, explicou-se:
     _ Consegui fugir de um inquisidor pouco antes de conhecer seu pai. Esse homem cruel
perseguiu-me muito tempo. Quis me possuir como mulher antes mesmo que eu tivesse dezesseis
anos. Estive escondida no meio da floresta, na casa de minha irmã Mercedes, que é uma feiticeira
muito temida. Depois de muito me esconder, recebemos a notícia que esse homem perverso veio a
falecer, devido a uma doença desconhecida. Quando seu pai voltou para mim, contei-lhe tudo a meu
respeito. Ele simplesmente aceitou-me como sou, pois seu amor foi muito maior do que o
preconceito da sociedade que nos cerca. Prometi que nunca praticaria meus feitiços, mas nunca
prometi que não os usaria às escondidas. Seu pai fez olhos de mercador quanto a isso. Prometemos
nunca mentir um para o outro, e achamos melhor não contarmos tal assunto à família dele.
     Casamos e fomos felizes. Logo de princípio, confesso que não foi fácil, pois sua bisavó era uma
condessa de muitos modos e etiquetas. Tive que aprender boas maneiras e foi-me incumbida uma
educadora familiar, que me ensinou etiqueta em casa. Logo a sociedade aceitou-me, pois eu era
muito aplicada e dediquei-me ao máximo. Seu pai, durante toda a sua vida até agora, nunca me
traiu, mas deixou alguns amores para trás. Certa jovem de nome Escarlate Mennellet, uma francesa
muito ambiciosa, que não se conformou por seu pai ter-me escolhido. Fez de nossas vidas um
inferno enquanto ela viveu. Ela e a mãe procuraram uma velha feiticeira, que também se tornou
inimiga de nossas famílias. Essa jovem, minha filha, perseguiu-me durante toda a sua existência.
Ela seguia a mim e a seu pai quando saíamos, fazendo escândalos. Várias vezes jurou matar-me.
     Essas três mulheres fizeram um sortilégio com o intuito de trazer seu pai de volta. Só que elas se
esqueceram de que um sortilégio só funciona se a outra parte tiver algum sentimento pela primeira.
Seu pai não amava a senhorita Mennellet. Com o passar do tempo, essa jovem teve vários outros
amantes. Deitava-se com homens, na esperança de conseguir status e poder, para se aproximar de
nós através da sociedade. Só que, minha querida filha, senhorita Mennellet engravidou. Foi aí que
ela planejou uma artimanha, na tentativa de comprometer o seu pai. Eu ainda não tinha
engravidado. Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo comigo. E um herdeiro era muito




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importante para seu pai. Tentamos várias vezes, e a única vez em que engravidei de um menino, ele
nasceu morto - o que deixou seu pai muito frustrado. Mas ele nunca deixou de me amar por isso.
Sempre foi muito compreensivo: para ele, não importava se viesse um menino ou uma menina.
     Como eu estava dizendo, a senhorita Mennellet planejou contra seu pai: aproveitou tal gravidez
e, como ainda estava no início, convidou seu pai para ir até a casa dela, dizendo que seria a última
vez que o procuraria. Seu pai contou-me e eu disse que ele deveria ir para ver o que ela queria. Ele,
muito relutante, aceitou o convite da senhorita Mennellet. Ao chegar ao bangalô dela, toda uma teia
já estava tecida, esperando por ele. Ela o convidou para um drinque e o embebedou com uma
poção, preparada por uma feiticeira. Seu pai adormeceu. Ela, então, o levou para a sua cama.
Quando seu pai acordou, estava nu e ela estava sorrindo ao lado dele. Seu pai vestiu-se correndo e
saiu daquele quarto.
     Em casa, Gonzáles contou-me tudo. Chorei muito por achar que meu esposo havia me traído - o
que era pior, eu era a única culpada por isso. O tempo passou. Mennellet procurou seu pai, dizendo
que estava grávida dele. Ele entrou em desespero, mas, como homem honrado, ajudou aquela
senhorita, dando-lhe tudo o que ela precisou para ter seu filho. Eu, a cada dia, me sentia frustrada
por não poder dar a seu pai um filho legítimo. Com o tempo, seu pai resolveu ouvir a minha mãe,
que dizia que sua irmã Mercedes poderia nos ajudar. Fomos até ela e, assim como minha mãe havia
dito, ela nos ajudou. Ela também previu que a senhorita Mennellet não estava grávida de seu pai, e
que o verdadeiro pai da criança frequentava sua casa e ainda a explorava, tirando toda a ajuda de
custo que seu pai lhe enviava.        Seu pai colocou um investigador e pegou-a em flagrante. O
menino, nunca soube o nome, mas já tinha feito quatro anos quando engravidei. Mas não pense que
Mennellet aprendeu a lição: aquela jovem enlouqueceu e procurou novamente a feiticeira. Fez um
sortilégio contra mim, lançando-me essa maldição. Ela jurou que, assim que a minha criança
nascesse, eu cairia de cama sob uma peste que nada no mundo desfaria.
     Com o passar do tempo, seu pai e eu ficamos cada vez mais unidos. Então, você nasceu.
Ficamos tão felizes que pensamos que nada ou ninguém poderia nos separar ou nos prejudicar. De
repente, caí de cama, com febre alta. Manchas horríveis apareceram em todo o meu corpo. O
médico da família foi chamado e, em alguns dias, o diagnóstico foi dado: era lepra. Tentaram de
tudo, mas não descobriram a cura.
     Minha mãe procurou a velha feiticeira para tentar dar-lhe mais dinheiro. Assim, talvez pudesse
inverter o feitiço. Só que a feiticeira havia morrido subitamente e, com ela, a esperança de uma
cura. Por sete anos, seus avós cuidaram de mim aqui, neste lugar escondido e isolado, até
falecerem. Alguns empregados corajosos e fiéis têm cuidado de mim nos últimos anos.
     _ Segurei sua mão pálida e magra, pai. Perguntei se eu era uma bruxa também.
     _ Sim, e da mais alta linhagem, querida. Tudo o que precisa saber está dentro desse livro que
lhe dei. Todos os meus segredos estou-lhe entregando. Guarde-o... E, se algo acontecer-lhe um dia,
enterre-o. O diário tem tudo o que precisa saber sobre mim e tudo que nunca pude compartilhar
com você durante toda a minha vida. É a minha história, ou o que restou dela. A colher de pau é
uma herança de família. Há muitos anos tem passado de geração em geração. Agora ela é sua. Essa
é a sua varinha. Nunca a perca, pois tudo e todo o feitiço que vier a fazer deve ser mexido somente
com essa colher de pau. Nunca faça o mal a ninguém, filha. Nunca revide um feitiço, nunca deixe
que as pessoas matem sua essência. Não faça sortilégios para segurar um homem, nem use seus
poderes para o mal dos outros. Lembre-se da lei do retorno e de que o destino de ninguém é
brinquedo. Lembre-se também de que, se rezamos a Deus pedindo o mal de alguém, estamos
fazendo um feitiço. Deus nunca nos nega nada que pedimos em oração. Porém, se um dia lhe
fizerem um sortilégio, e o mal que lhe laçarem não achar maldade em você, Deus lhe protegerá,
dando permissão para que o mal se volte contra quem lhe enviou. Quando fazemos mal para uma
pessoa inocente, Ele permite que o mal se volte contra nós da mesma maneira. Todo o mal que




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O segredo dos girassóis
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desejamos ao próximo, desejamos contra nós mesmos. Não devemos estar em débito com Deus. Ele
rege o universo, e é a força do universo que rege os nossos destinos.
     O mesmo se sucederá a alguém com o anjo da guarda forte: quando o mal que fazemos a essa
pessoa chegar até ela, encontrará uma espécie de barreira protetora. Então, virá atrás de quem o
mandou, com a sua cobrança cega. O mal é mercenário e carrasco. Inclusive contra quem o pratica.
Por isso, pense muito antes de ajudar alguém com sortilégios. Investigue para saber se a pessoa está
falando a verdade e, principalmente, se é merecedora. Caso contrário, o mal vem como uma fera
cega em cima de você. No livro que lhe dei, encontrará o segredo das ervas que curam. Como usar
sua clarividência, como usar as cartas, como usar a bola de cristal, ou mesmo como fazer a viagem.
A viagem é essencial para conseguir entender a si mesma.
     _ Perguntei-lhe o que era a viagem.
     _ É uma espécie de sono profundo, onde se consegue viajar no tempo, encontrar respostas no
passado para coisas que podem lhe parecer absurdas e sem sentido no presente.
     _ Pai, como eu gostaria de ter estado ao lado de minha mãe e aprendido tudo sobre aquela
cultura misteriosa... Queria ter participado de todas as coisas que foram importantes para ela. Meu
coração doeu tanto, pai, por ter que vê-la partir... Senti muito mais do que piedade: o sentimento era
uma mistura de nostalgia, perda e amor. Naquele momento, tudo isso estava ali na minha frente, indo
embora. Ela estava morrendo. E não pude fazer nada, porque isso também estava nas mãos de Deus,
e Ele regia o destino de nós duas naquele momento. Era como se fôssemos um brinquedo e
estivéssemos sendo manipuladas. O livre arbítrio não funciona realmente, pois, caso funcionasse,
tenho certeza de que minha mãe teria escolhido ficar conosco para sempre.
     Shaara parecia sincera em relação àquela observação. Suas lágrimas escorreram de suas faces
como um mar procurando abrigo por entre as rochas. O pai de Shaara entendeu que a filha
estava havia muito guardando aquela dor e disse:
     _ Não lamente, não fomos culpados pela morte de sua mãe. Fomos vítimas também.
     Os dois abraçaram-se fraternalmente e Shaara contou-lhe sobre Edward:
     _ Depois que voltamos do velório de mamãe, Edward procurou-me no cemitério. Ele estava
lindo, em um casaco de veludo preto, calça bege e botas. Todos os nossos criados estavam presentes,
por isso nos afastamos. Edward puxou-me para um canto, debaixo de uma árvore, e beijou-me
ardentemente. Tentei empurrá-lo, mas ficou difícil, pois ele estava frenético e muito sensual. Edward
estava muito mudado, não consegui controlar seus impulsos. Queria tentar entendê-lo. Foi então que,
num sussurro, ele disse: quero vê-la. Tentei adiar aquela suposta fuga, respondendo claro, assim que
tudo isso passar, iremos nos encontrar para conversarmos. Mas Edward não queria aceitar e
respondeu-me: Não, de jeito nenhum! Acho que não me entendeu, quero encontrá-la hoje à noite.
Disse-lhe que minha mãe havia acabado de falecer, que ele estava perdendo a noção do certo e do
errado. O senhor jamais permitiria que nos encontrássemos aquela noite. Estávamos de luto. Seu pai
não precisa saber – respondeu-me Edward. Quero que me encontre na taberna, perto do vilarejo.
Direi ao taberneiro que estarei esperando minha noiva, e ele não fará interrogações quando lá
chegar. Por favor, preciso tê-la, a sós. Não acontecerá nada demais, prometo-lhe. Para que se sinta
mais segura, casaremos no dia seguinte. Assim, seu pai não poderá nos impedir de ficar juntos.
Quero contá-la como fui promovido. Não me negue isso! Seus olhos eram suplicantes, e sua voz
deixou-me totalmente tonta e sem razão. Embora eu soubesse o risco de estarmos sozinhos, confesso
que também o queria. Mesmo sabendo da imprudência do momento, eu disse sim... Foi quando o
senhor chegou e flagrou Edward beijando-me. Pai, o senhor ofendeu-me e esbofeteou-me. Fiquei
magoada por não ter sequer me deixado explicar. Eu quis me vingar. Perdoe-me! Fui uma tola.
     Shaara baixou a cabeça, envergonhada e triste. Mas seu pai compreendeu que ela havia agido
por impulso e que ele também poderia ter agido diferente em relação àquela situação tão delicada.
Depois de muito pensar, ele disse:




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O segredo dos girassóis
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     _ Parece que o senhor Edward sabe bem como funcionam as coisas na Inglaterra. Mas aqui, na
Espanha, com certeza ele terá que aprender a duras penas. Creio que precisarei conversar em breve
com ele.
     _ Pai, por favor, ainda não terminei. Preciso que o senhor saiba o que houve comigo, antes que
faça uma tolice e ponha em risco a sua vida.
     Shaara estava tentando mudar o triste destino de seu pai. Meu Deus, fiquei muito assustada
porque meus sentidos de bruxa avisavam-me o quanto ela poderia estar enganada. Ela nunca poderia
ter tomado aquela atitude, mesmo que estivesse tentando salvar uma vida. Nunca podemos interferir
no destino de alguém, e muito menos usar a viagem para tal propósito. Shaara, em seu momento de
dor, tentou mudar o passado, mas se esqueceu de uma coisa: isso era impossível. Senti muita pena de
Shaara, pois entendia sua dor. Fiquei quieta, ouvindo-a prosseguir com aquela conversa insana de
uma pessoa desesperada. Shaara contou o seguinte a seu pai:
     _ Naquela noite, uma escrava ajudou-me. Ela não teve culpa, pai, praticamente a obriguei a me
ajudar. Chamei-a e pedi que me trouxesse um vestido de camponesa e um capuz vermelho, para que
não fosse reconhecida por ninguém na cidade. Disse que eu e Edward iríamos fugir aquela noite,
que ela não poderia contar a ninguém, muito menos ao senhor. Caso contrário, eu mandaria puni-la
por isso. Ela ainda disse, com olhos arregalados:
     _ Credo em cruz, Sinhá! Não sou de fazer mexericos, não. Só acho que a senhorita está muito
enganada em relação a esse capitão. Afinal, sua mãe nem esfriou ainda. Luto é coisa sagrada!
     _ Ela não estava errada, pai. Mas, mesmo assim, passei por cima de tudo e disse-lhe: Acredite,
Joaquina, minha mãe iria aprovar isso. Eu o amo muito e essa decisão já está para ser tomada há
muito tempo. Meu pai só fez antecipar os fatos. Ela benzeu-se, num ar de desaprovação. Eu estava
cega de ódio do senhor naquele momento, pai. Não ouviria nem mesmo mamãe. Joaquina ainda
tentou argumentar:
     _ O pai da Sinhá é um homem bom. Se fez o que fez é porque está com a cabeça quente e o
coração amargurado. Ele amava muito sua mãe, e a dor da perda fundiu os miolos dele. Acho que a
menina deveria pensar mais um pouco antes de tomar qualquer decisão.
     _ Meu pai nunca poderia ter me batido, Joaquina – eu lhe disse. Se ele sofre, tem que saber que
sofro também. Ela era minha mãe. Fui privada de vê-la a minha vida toda. Nunca pude ter os seus
carinhos. Quando eu chorava por ter caído, não tinha ninguém para me pôr no colo ou afagar meus
cabelos. Ele nunca teve tempo nem para me contar histórias de dormir. E agora está se sentindo no
direito de espancar-me? Vou mostrar-lhe em quem ele bate.
     _ Está bem, sinhá. Tomara que o patrão não me castigue por causa de sua cabeça dura. É mió a
Sinhá andar depressa, que o cocheiro já está aguardando onde foi combinado. É... água morro
abaixo, fogo morro acima: muié moça, quando quer desembestar, ninguém segura.
     _ Joaquina disse isso entre dentes, quando me viu saindo porta afora. Na saída, dei uma olhada
em tudo e ainda respondi a velha escrava, desaforadamente: Ouvi isso, sua insolente! Não sei onde
eu estava com a cabeça, pois nunca tratei nenhum de nossos escravos daquela maneira. Muito menos
Joaquina, que praticamente me criou. Ninguém me viu saindo. Fui muito cautelosa. Dei ao cocheiro
o endereço e seguimos para o vilarejo. Ao chegarmos à taberna, o cocheiro perguntou-me se eu tinha
certeza de que era ali. Respondi-lhe meio assustada e curiosa pela pergunta: Sim. Algum problema?
     _ Senhorita, desculpe-me pela intromissão, mas aqui não é lugar para alguém de finos modos...
Quer que eu entre com a senhorita? – ofereceu-se o cocheiro.
     _ Não será preciso, meu noivo está me esperando. Obrigada! Escutei quando ele falou noivo,
hein? Sei... Perguntei enfurecida se ele havia dito alguma coisa, no que me disse Não, senhorita. Só
pensei alto. O cocheiro virou o rosto e parecia antipatizado comigo, mas me disse para aguardá-lo
ali, que não se demorava. Entrou na taberna sozinho. Parecia querer se certificar se havia alguém
esperando por mim lá dentro. Quando de lá ele voltou, disse-me para entrar pela porta dos fundos,
para não chamar muita atenção dos homens que estavam lá dentro. Desci da carruagem e entrei na




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

taberna pelos fundos, como sugeriu o cocheiro. Procurei pelo taberneiro. Ele me olhou atônito, como
se me reconhecesse, mas nenhuma palavra disse. Colocou o copo, que estava enxugando com um
paninho encardido, em cima do balcão, pegou uma lanterna e guiou-me em direção à porta dos
fundos, novamente. Da portinhola, mostrou-me um celeiro. Olhou-me de cima abaixo, parecendo
não acreditar que eu iria ter coragem de ir até lá. Mas o olhei desafiadoramente e não lhe dirigi mais
a palavra. Segui, tentando mostrar-me corajosa. A noite estava fria e senti minhas pernas tremerem.
Vacilei e quase caí. Somente a luz da Lua me guiou. Abri a enorme porta do celeiro e vi não vi
ninguém. Vários lampiões estavam acesos e, no meio, tinha uma mesa com vinho, taças, queijo,
frutas, e pães. Logo à frente, encontrei um colchão feito com feno. Alguns cobertores estavam
dobrados ao lado. Sorri sozinha, pois sabia que Edward havia preparado tudo nos mínimos detalhes.
Edward, você está aí?, chamei mais alto e ninguém respondeu. Comecei a ficar assustada e, de
repente, ele chegou por trás de mim, abraçando-me e beijando-me. Virei para olhar para ele e fui
beijada na boca, com paixão. Depois, empurrou-me pelos os ombros e fitou-me toda.
     _ Não quero mais ouvir tais detalhes. - disse o pai de Shaara, com o semblante que era pura
decepção.
     Mas Shaara pediu para que terminasse aquela conversa:
     _ Por favor, pai, preciso de resposta e, para isso, o senhor terá que ouvir toda a minha versão
dessa história.
     Então, Shaara prosseguiu:
     _ Edward olhou-me de um jeito que nunca havia me olhado antes e disse-me que eu estava
linda, que me amava loucamente, que não conseguia pensar em sua vida sem mim. Seus olhos eram
ternos, mas também cheios de luxúria. Fitei-o de cima abaixo, enquanto foi buscar-me uma taça de
vinho. Estava com uma camisa branca muito fina, aberta, que deixava o peito másculo e peludo à
mostra. As mangas, longas, estavam dobradas até o antebraço. Calça de couro, com um cinto largo, e
botas, lembrando os famosos corsários. Seus cabelos estavam soltos, e sua barba muito bem feita.
Ele usou sândalo naquela noite. Aquele cheiro despertou em mim um lado adormecido até então.
Como eu disse, pai, também tive minha porção de culpa.
     E Shaara prosseguiu com aquela história, que me surpreendia a cada segundo:
     _ Edward trouxe-me uma taça e brindamos a nossa felicidade antes de bebermos. Sentamos no
colchão improvisado, comemos queijo com fruta e pães, e contamos histórias antigas. Ríamos como
loucos por qualquer coisa. Edward fitou-me, de repente, e beijou-me novamente com ternura. Seus
beijos foram ficando mais frenéticos e ardentes. Suas mãos começaram a abrir caminhos
desconhecidos no meu corpo. Já entorpecida pelo vinho e pela luxúria, deixei-me render. As mãos de
Edward foram ágeis demais e, em instantes, conseguiu abrir meu corpete. Percebi que estava
completamente indefesa e em suas mãos. Pude perceber sua experiência com as mulheres, e senti um
ciúme infindável. Como num passe de mágicas, ele tirou o restante de minhas roupas. Queria falar-
lhe algo, mas seus beijos e suas mãos ficaram cada vez mais insistentes e impacientes. Meu corpo
tremeu ao sentir sua boca escorregando em meus seios, jovens e inexperientes. Sua mão desceu e
alcançou meu local mais secreto. Senti tontura e um devaneio sem fim. Sua boca percorreu todo o
meu corpo, até levar-me a um frenesi angustiante. Quando percebeu que eu estava totalmente
indefesa, fez-me implorar para ser possuída. Como um louco, beijou-me na boca novamente e levou-
me a lugares jamais sonhados por qualquer ser humano. Naquela noite, vi que o meu frágil corpo de
mulher foi levado a um paraíso nunca sonhado pelos anjos. Quando acordei, fiquei olhando-o
dormir. Como era lindo ver seu corpo masculino e nu completamente vulnerável ao meu lado! Nada
se comparava à felicidade que estava sentindo ao lado de Edward. Eu estava plena da certeza do
nosso amor. Mas, de repente, senti uma pontada no peito, como se algo estivesse errado. Sabia que
deveria contar a Edward sobre o meu atual segredo. Comecei a chorar, abafadamente. E se ele não
me aceitasse como eu era? - pensei comigo. Talvez fosse bobagem e eu estivesse sofrendo por
antecipação. Comecei a beijá-lo nos lábios, tentando afastar aquele temor da minha mente. Ele




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

acordou e perguntou-me, tentando ser natural e fazer-me sentir à vontade: Bom dia, meu amor!
Como passou a sua primeira noite como uma refugiada? Tentei não deixar transparecer que eu havia
chorado, pois não queria que Edward se aborrecesse comigo. Então, continuei aquela brincadeira,
tentando também ser irônica: Bom dia, minha vida, tirando a hora em que senhor me deixou dormir,
pode-se dizer que eu tive uma excelente noite. Ele respondeu Eu?! A senhorita é que não me deu
sossego. Parecia possuída por uma fera selvagem. Rimos os dois ao mesmo tempo. E o senhor quer
sossegar? - rocei minhas pernas entre as dele. Ele olhou para debaixo das cobertas e falou, com voz
rouca: Hum! Não, de jeito nenhum. Fizemos amor novamente. Desculpe por lhe contar tão
vulgarmente, pai, todos os detalhes de meu envolvimento com Edward. Mas eu precisava que o
senhor soubesse que eu não sou santa e que também permiti que as coisas fossem longe demais.
Mais tarde levantamos e tomamos o nosso desjejum. Ele tirou, para mim, leite de uma vaca que
estava naquele celeiro. Tudo estava perfeito, até mesmo o pão dormido. Edward contou-me sobre
seus planos de se casar comigo. Falamos da quantidade de filhos que teríamos. Ríamos com coisas
banais e, se o mundo acabasse, não teria naquele momento a menor importância para nós, pois
éramos a própria felicidade encarnada. Eu havia esquecido completamente dos meus temores, até
que fiz a pergunta que não conseguia se calar dentro de mim: Edward, posso perguntar-lhe uma
coisa? Ele, ainda deitado ao meu lado, enrolando na boca um pedaço de feno, disse Sim meu amor,
pode me fazer quantas perguntas você queira, enquanto fitava o teto, parecendo não se interessar
muito por aquele assunto. Por fim, virou-se para mim e perguntou, percebendo que eu me mantinha
calada: Então, meu amor, o que quer saber de mim que ainda não saiba? Disse-lhe que precisava
saber se ele me amava verdadeiramente. Na verdade, queria testar o amor de Edward, queria saber se
ele me amava tanto quanto o senhor amava minha mãe. Edward, naquele momento, pareceu-me tão
seguro do nosso amor... Fui uma tola e estraguei tudo. Achei que nada importaria ou estragaria
aquele sentimento. Edward virou-se e segurou meus ombros. Fitando-me, disse: Nunca duvide disso,
vou me casar contigo. Nada nesse mundo poderá intervir nos meus sentimentos por você. Mas por
que tem essa dúvida a meu respeito? Então, aproveitando aquele momento de felicidade, abusei da
minha sorte e perguntei: Se eu for diferente de todas as outras mulheres que conheceu, vai me amar
mesmo assim? E se eu fosse uma bruxa, amar-me-ia do mesmo jeito? Edward soltou uma
gargalhada sonora. Mas, depois, fitou-me seriamente, pois pareceu perceber em mim tristeza e
sinceridade. A fisionomia de Edward mudou. Afastou-se de mim, parecendo querer que eu dissesse
que era uma brincadeira. Mas me mantive séria e firme. Meus olhos não desgrudavam dos dele.
Então, levantou-se, passou as mãos nos cabelos e perguntou: Está falando sério, não é? Pai, Edward
mudou por completo. Correu a vestir suas roupas e mal olhava para o meu rosto. Ficou enfurecido.
Nunca imaginei vê-lo daquela forma. Agitava-se de um lado para o outro, como se estivesse
procurando uma solução ou algo para fazer, que lhe livrasse daquele peso. Por fim, jogou em cima
de mim as minhas roupas e pediu que eu me vestisse. Quando eu já havia me vestido, Edward - que
não parava de me observar um só segundo – perguntou, por fim: Não brincaria com uma coisa séria
dessa, não é? Sua voz estava trêmula e confusa. Claro que não, por que eu faria isso? Acabou de
dizer-me que nada poderá intervir entre nós, Edward! Juntos seremos invencíveis, fortes. Mas,
separados, não seremos ninguém – eu lhe disse. Fui muito ingênua, pai. Achei que o amor pudesse
vencer qualquer barreira. Também tinha um conceito diferente e fantasioso do que é ser uma bruxa
de verdade. Eu achava que eu tinha poderes mágicos, que podia usá-los para fazer qualquer coisa.
     Pela primeira vez durante aquela viagem, vi minha ancestral chorar como uma criança precisada
de colo. Comecei a entender por que ela queria tanto mudar o destino de seu pai: não por ela, mas
para tentar ajeitar as coisas e não ver seu pai ser torturado até a morte por causa de um deslize dela.
Na vida, temos que ter muita certeza do que estamos por fazer, pois, no futuro, as consequências
podem ser drásticas devido a erros que nunca poderão ser consertados.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Observei Shaara chorando com as mãos no rosto e percebi que seu pai, embora a amasse, estava
indignado e decepcionado com tudo que ouvira da boca da própria filha. Confesso que não teria
coragem de ousar tanto em relação às minhas intimidades com meu pai.
     Minha ancestral cometeu três pecados graves: a ira, pois se vingou de seu pai sem ao menos
tentá-lo compreender; a luxúria, pois, embora amasse Edward, deitou-se com ele somente por
vingança; e o mais grave: invadiu o passado e tentou ser mais que Deus, tentando mudar o destino de
outra pessoa. Com isso, o universo irou-se contra ela da maneira mais cruel possível. Continuei em
silêncio e a deixei terminar aquela história, que já estava me assustando, pois temi por mim naquele
momento. Temi por perceber que eu é quem iria ter que resgatar aqueles erros de Shaara. Ela
continuou a história:
     _ Edward olhou-me nos olhos como se fosse um mostro e disse: Shaara, lembra-se de que lhe
disse que fui promovido a um cargo de extrema confiança? Respondi-lhe Sim, amor, eu me lembro,
mas não vejo em que isso poderia intervir entre nós e o nosso amor. Ele anunciou: Recebi ordens
vindas do vaticano de ficar no lugar do novo chefe da guarda, sou o novo capitão da guarda real.
Fui à sua direção para abraçá-lo, pois queria que ele soubesse o quanto eu estava feliz por ele. Mas
ele me empurrou para longe de si e prosseguiu: Não é só isso. Também recebi outro cargo de muita
confiança por ter sido sempre devotado à Santa Madre Igreja. Que bom, eu agora era a noiva de um
homem de poder - tentei ironizar. Fui até ele, tentando abraçá-lo. Edward afastou-se de mim
abruptamente e, naquele momento, não me pareceu mais tão seguro do nosso amor. Em um tom de
voz áspero, falou: Shaara, nem de brincadeira fale uma coisa dessas. Pois eu teria que mandar
prender você e seu pai, e todos os seus bens teriam que ser confiscados. Seus criados teriam que ser
torturados e mortos por ordem da Inquisição. Eu disse que não o estava entendendo. O que teria
minha família, meus bens e meus criados a ver com o seu novo cargo? Sou o novo inquisidor. Até
que o vaticano envie um inquisidor substituto para este condado, serei o responsável por manter a
lei e a ordem nesta região, ele me respondeu. Senti como se tivesse perdido o chão, pai. Nunca
imaginei passar por uma situação como aquela: eu havia me entregado ao meu algoz. É realmente
incrível o quanto as coisas mudam da noite para o dia. Meu sonho de amor tornou-se um pesadelo.
Eu estava sem saber o que fazer. Fiquei ali em pé, na frente de Edward. Hoje percebo o quanto errei.
Vejo que nada somos quando tentamos ser arrogantes e passar por cima de Deus, tentando antecipar
o nosso destino. Depois de algum tempo calados, apenas perguntei: O que um inquisidor iria querer
aqui em San Marino? O que há de tão especial em um pequeno condado como o nosso? Creio que a
Inquisição tem coisas muito mais importantes para investigar. Ele me explicou que havia boatos de
que bruxas fugitivas de Salém estavam escondidas no grande bosque e que, em nome do demônio,
estavam praticando feitiços e abominações. O último inquisidor havia morrido e diziam ter sido obra
de um feitiço poderoso, praticado pela bruxa Mercedes. Essa lhes estava dando muito trabalho para
ser capturada, pois se escondia no meio da mata virgem. O último feitor que tentara ajudá-los
desapareceu misteriosamente. Então, eu lhe disse: Porque as pessoas são diferentes não quer dizer
que estão possuídas pelo demônio. Já ouvi falar dessa tal Mercedes, dizem que veio de Salém, no
Norte da Inglaterra. Para mim, tudo nunca passou de mexericos e sandices de pessoas ignorantes.
Eu mesma sempre gostei de ler livros místicos. Confesso já ter consultado uma cigana. Edward
parou e fitou-me como se não mais me reconhecesse: Está realmente falando sério? Sabe que eu
posso levar isso como uma confissão. Não quero mais ouvi-la. Cale-se, é melhor irmos embora.
Pensei que o seu amor por mim fosse muito mais importante do que essas lendas criadas por pessoas
supersticiosas e fanáticas! Confessei-lhe que minha mãe contara-me, em seu leito de morte, que era
uma bruxa, e que também vi em suas costas a flor de lótus, o sinal das renegadas. Esse sinal tinha
sido marcado pelo inquisidor do qual ele acabara de me falar. Esse homem, Edward, não era um
homem íntegro. Ele colocou esse sinal em minha mãe depois de torturá-la por horas, tentando
obrigá-la a fazer tudo o que ele quisesse. Como ela não se entregou a ele, foi marcada como um
animal. Minha mãe só tinha doze anos, era apenas uma menina e nada sabia de feitiçaria. A família




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O segredo dos girassóis
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de minha mãe segue uma tradição muito antiga, mas nunca fizeram mal a ninguém nesta vida. Ele
quis saber como eu sabia disso, se não convivia com minha mãe, se só estive com ela por algumas
horas durante toda a sua vida. Ele quis saber como eu poderia ter tanta certeza de que ela nunca
praticara feitiçaria. Minha mãe era uma mulher honesta, Edward, de muito boa índole. Nunca fez
mal a ninguém. Quem a conheceu contou-me como ela era. Sabe, Edward, posso não ser experiente,
mas sei muito bem ver nos olhos de uma pessoa quando ela está sendo honesta comigo. E acredite:
vi isso nos olhos da minha mãe. Espero que tudo o que acabei de lhe contar não mude nada entre
nós, Edward; eu o amo demais. Ele insinuou que fiz amor com ele, mas com quantos mais? Disse
que eu não passava de uma mulher mimada, que só quis se vingar do próprio pai por mera pirraça.
Acha mesmo que eu confiaria em uma pessoa que, além de trair a confiança paterna, deita-se assim,
facilmente, com qualquer homem que lhe convide? Acha mesmo que vou acreditar em uma filha de
bruxa?Foi o que ele disse. Acusei-lhe de louco. Disse-lhe que ele havia sido o único homem que tive
em toda a minha vida. E que sempre seria único. Aquilo não faz o menor sentido, eu nunca havia
sido praticante de feitiçaria. Só soube do segredo de minha mãe no seu leito de morte. Disse-lhe que
não levaria em consideração tais palavras rudes, pois sabia que ele estava sendo guiado por uma
revolta insana. Sei como as malditas bruxas agem: enfeitiçam os homens para que não as vejam
como são, demônios de saias – ele concluiu. Perguntei-lhe por que odiava tanto o meu povo. Seu
povo? Então agora confessa também que é uma bruxa? Pois que seja. Sabia que essa raça maldita
destruiu minha mãe? – disse-me, segurando o meu rosto com uma das mãos. Prosseguiu, enfurecido:
     _ Quando minha mãe era jovem, uma maldita bruxa enfeitiçou o noivo dela. Minha avó fez de
tudo para mostrar a verdade ao meu pai, mas o pobre homem estava tão cego e enfeitiçado que se
mudou da França, largando minha mãe grávida ao vento. Mas é claro que a senhorita bonequinha
de luxo não sabe o que são essas coisas, não é verdade? Não consegue imaginar o que é estar
grávida aos dezoito anos e ser abandonada à própria sorte, não é? Minha mãe não perdeu o bebê,
como praguejou a maldita bruxa, porque minha avó fez uma promessa de que eu serviria ao Senhor
de alguma maneira. Minha mãe foi uma mulher sofrida e viveu às escondidas, porque ficou mal
afamada perante o povo. Depois de certo tempo, minha mãe conheceu o coronel Sebastian. Embora
o coronel fosse bem mais velho que minha mãe, ele cuidou de nós enquanto viveu. Ele deixou para
minha mãe um pequeno obséquio, que ela guardou para me ajudar nos estudos, mais tarde. O
coronel era um homem de muitos conhecimentos, embora não tivesse muitas posses. Foi graças a ele
que estudei no melhor colégio militar da Europa. E foi com muito esforço que me tornei, mais tarde,
o capitão da guarda real na Inglaterra, até ser transferido para cá. E, por fim, caí aqui em San
Marino. Nesse pequeno vilarejo, cheio de contos e lendas sobre as bruxas fugitivas de Salém. No
início, não dei ouvidos, pois pensei serem apenas histórias contadas pelos aldeões. Mas, com o
passar dos meses, pude observar que coisas estranhas estavam acontecendo com frequência. Como,
por exemplo, mulheres que se esfriavam no leito conjugal; pessoas que desapareciam no meio da
floresta, sem deixar rastro. O leite do gado de alguns fazendeiros começou a talhar, e isso acontecia
a cada Lua cheia. As crianças de Salamanca estavam nascendo com deformidades, ou morriam na
hora do parto. Algumas mulheres não conseguiam gerar um filho homem, como é o desejo de todo
patriarca. Foi então que a Igreja resolveu investigar minuciosamente, em sigilo, todos esses fatos
ocorridos. Depois de uma detalhada investigação, foi descoberto que tais fatos eram verídicos.
Vários suspeitos estão sendo mantidos sob investigação, e alguns são interrogados constantemente
para que confessem seus crimes. No corpo de algumas mulheres, já foi achada a marca do demônio.
Um especialista em desvendar fatos como esse está aqui, em sigilo, investigando os hereges. Houve,
também, alguns suicídios misteriosos e sem causa aparente. Até mulheres com três mamilos foram
encontradas e estão sendo interrogadas diariamente em masmorras. Ainda não conseguimos
encontrar a feiticeira Mercedes, mas é só uma questão de tempo. Escravos fugiram e jamais foram
encontrados. Soubemos que uma velha senhora presenciou um ritual no meio da mata enquanto
juntava lenha. Ela teve sorte de não ter sido capturada pelas feiticeiras. Tudo isso que acabei de lhe




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

contar é prova de que o demônio tem usado as mulheres de San Marino. A Inquisição não perdoa,
Shaara.
     _ E o que isso tudo tem a ver com nós dois? – perguntei-lhe, pai. As pessoas têm problemas
todos os dias. Algumas não conseguem superar as suas dificuldades e acham que o suicídio é a
solução. Essas pessoas são doentes, carentes e solitárias, Edward. Escravos fogem e vão para os
quilombos, porque já estão fartos de serem torturados por seus senhores. Eles fazem isso na ânsia
de acharem a liberdade. Todos já ouvimos boatos que há quilombos por toda a Europa. Quanto ao
leite que azeda, é devido ao calor e a falta de cuidados. Pessoas com deformidades nascem todos os
dias, Edward. Isso não quer dizer que sejam marcadas pelo diabo só porque são defeituosas. E se as
mulheres estão esfriando com seus maridos, creio que eles deveriam começar a tratá-las melhor.
Somos mulheres, Edward, não somos seus animais de estimação. E se os bebês estão morrendo na
hora do parto, talvez algumas mulheres devessem parar de usar espartilho durante a gravidez. Não
estou dizendo que são todas, mas sabemos que algumas senhoras não tiram nunca os espartilhos.
Isso pode ser o preço da vaidade. E de que marcas estranhas está falando, afinal? De pintas ou
manchas? Ora, Edward, francamente... Pensei que fosse um homem mais inteligente. Não entendo
como isso tudo está relacionado com a nossa vida. A vida que nós planejamos durante esses dois
longos anos juntos. E quanto às bruxas, Edward, elas são pessoas normais como nós. Nada têm a
ver com os contos e fábulas que circulam em torno delas. Acho que deveria mudar esses conceitos
antigos e preconceituosos sobre as pessoas. Só porque algumas são diferentes de nós, não quer dizer
que sejam seguidoras do diabo. Se cada um - não apenas nesta cidade, mas neste mundo em geral -
deixasse de querer obrigar as pessoas a serem iguais a elas, o mundo seria muito melhor. Viver,
Edward, é aprender a conviver com as diferenças - sejam quais forem.
     _ Shaara, quando a minha mãe faleceu, ela me fez prometer que acharia a bruxa que enfeitiçou
o meu pai. Aquela mulher destruiu a vida da minha mãe, e a minha também. Ela destruiu os sonhos
da minha mãe de ser mãe de novo. Minha mãe faleceu durante o parto, junto ao meu irmão, de uma
doença misteriosa e sem explicação. Eu tinha apenas seis anos, Shaara, e vi minha mãe gemendo de
dor, suplicando pela morte. Ela me fez jurar, em seu leito de morte, que a vingaria, procurando e
matando a bruxa que fez aquilo com ela. Não sou homem de quebrar uma promessa.
     _ Isso é uma tolice, Edward! Creio que nem deva saber o nome dessa suposta bruxa!
     _ Pai, no fundo eu não queria ouvi-lo mencionar o nome de minha mãe. Pois, depois que me
contou que estava perseguindo a tia Mercedes, eu me recusava a acreditar que alguém pudesse
mentir sobre minha mãe daquele jeito. Mas deixei que ele continuasse.
     E Shaara prosseguiu, contando ao seu pai o diálogo que teve com Edward, como se o estivesse
revivendo. Seu pai apenas a ouviu, sem interferir:
     _ Sim, eu sei, Shaara. - disse Edward, com os olhos fixos nos meus. Seu nome é Elizabeth
Méquiz. Essa foi a mulher que enfeitiçou meu pai e amaldiçoou minha mãe, para que ela morresse
como morreu.
     _ Fiquei ouvindo-o sem mais conseguir falar. Pasmei-me ao ouvi-lo pronunciar o nome de
mamãe, daquele jeito tão cruel e fraudulento. Por fim, depois de engolir a seco aquelas palavras,
perguntei:
     _ Sua mãe é Escarlate Mennellet?
     _ Sim, esse é o nome da minha mãe. Como sabe o nome dela? Não me lembro de ter
mencionado seu nome para ninguém, pois tenho evitado lembrar-me de minha mãe. Ainda dói na
minha frente a forma com a qual ela morreu. Onde ouviu mencionar o nome dela?
     _ Edward ficou curioso e trêmulo. Então, falei:
     _ Estive por horas no quarto de minha mãe antes que ela partisse, como já mencionei. Foi ela
quem me contou sobre a sua mãe.
     _ Edward empalideceu e encostou-se em um monte de feno. Tapou a boca com as mãos. Ele
parecia não querer acreditar, mas prossegui:




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O segredo dos girassóis
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     _ Sim, Edward, sou a filha de Elizabeth Méquiz, a bruxa que mencionou em sua suposta versão,
ainda há pouco. Esse era o nome de solteira de minha falecida mãe. Agora que me contou a sua
parte da história, espero que ouça também a minha.
     _ Antes que Edward tivesse uma reação inversa a que estava tendo, prossegui com a conversa,
pois percebi que ele estava sem voz. Aquele era o momento de saber alguns fatos e tentá-los
encaixar. Então, perguntei-lhe:
     _ Como exatamente sua mãe faleceu, Edward? Diga-me sem mentir para mim.
     _ Nunca minto. O que te contei é o que aconteceu.
     _ Edward estava meio tonto, mas prosseguiu:
      _ Os doutores não conseguiram identificar a doença dela. Eu só sei que seu corpo encheu-se de
tumores horríveis. Seu sofrimento foi inigualável, ela não merecia aquilo. Como lhe contei, minha
mãe morreu com o meu irmão, durante o parto. Por causa de uma bruxa maldita, perdi minha
família. Fui criado por minha avó e pelo coronel Sebastian. Não tem ideia do que é ser criado por
um homem que não é o seu pai, e que vive o tempo inteiro ditando regras militares. Eu vivia mais
interno em um colégio do que dentro da casa materna. Tenho gratidão ao coronel Sebastian, mas
confesso que ele era cruel comigo. Fui um rapaz solitário e não tive amigos. Meu único objetivo era
vingar minha mãe.
     _ Ouvindo aquelas palavras amarguradas de Edward, eu disse, muito entristecida: Meu Deus, é a
lei do retorno. Minha mãe estava certa. Ele desconhecia a lei e tive de contar a minha história:
     _ Minha mãe me contou que, antes de se casar com o meu pai, ele tinha se envolvido com várias
outras mulheres. Entre elas, uma jovem ambiciosa dançarina, cujo nome era Escarlate Mennellet.
Sinto muito por tudo que tenha vindo passar.
     _ Percebi o desgosto de Edward, e o desespero dele por pensar que éramos irmãos. Mas, antes
que ele abrisse a boca, prossegui:
     _ Meu pai terminou com a sua mãe assim que conheceu a minha mãe. Sinto muito, Edward, mas
a sua mãe mentiu muitos fatos. Sua mãe perturbou a vida de meu pai e de minha mãe enquanto ela
viveu. E foi a sua mãe quem jogou um feitiço na minha. Logo depois que eu nasci, minha mãe caiu
de cama com lepra, Edward. Minha mãe passou vinte anos em cima de uma cama, isolada do mundo
por causa da maldita doença. Ela nunca pôde pegar-me no colo, nunca pôde ver-me dando os
primeiros passos. Sinto muito, mas sua mãe mentiu, pois foi ela e sua avó quem recorreram a um
terrível sortilégio para matar minha mãe. A lepra de minha mãe, Edward, era um feitiço feito por
uma bruxa que morreu misteriosamente, logo após fazer o sortilégio. Foi sua família a causadora do
sofrimento da minha. Eu podia odiá-lo por isso e muito mais, mas o meu amor por você faz-me ver
que não somos culpados pelos erros de nossos pais. Estamos tendo uma chance de mudar todo esse
mal com o amor que sentimos um pelo outro; a chance de viver feliz e corrigir tudo o que nossos
pais fizeram de errado.
     _ Mas Edward estava cego e não ouviu uma só palavra do que eu disse. E prosseguiu:
     _ Do que está falando? Você quer tentar confundir-me com sua bruxaria maldita. Jurei que
destruiria toda a sua raça desgraçada. Não vou voltar atrás. Meu Deus, você sabia quem eu era e
nem se importou de sermos irmãos?
     _ Edward, não somos irmãos. Sua falecida mãe havia se envolvido com outro homem antes de
tramar contra o meu pai.
     _ Contei-lhe exatamente o que mamãe me havia dito. De repente, vi cair de joelhos aquele
homem que parecia ser de ferro. Ele chorou incessantemente, pai, e gritava como se sentisse ódio e
dor ao mesmo tempo. O desespero de Edward era tamanho que eu não soube como ajudá-lo. Percebi
que ele estava guardando aquela mágoa dentro dele há muito tempo, e que precisava pôr para fora de
alguma maneira. Tentei tocá-lo, mas ele me empurrou abruptamente. Fiquei sem saber como agir.
Por fim, ele disse, entre dentes:
     _ Por que, Shaara? Por que você me enganou? Como pôde fazer isso comigo?




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

     _ Seus olhos eram tristeza e dor. Tentei dizer-lhe, novamente, que não tinha culpa e que só
soube dos segredos de minha mãe em seu leito de morte. Mas todas as minhas tentativas foram
inúteis. Ele parecia estar com nojo de mim. Era como se eu tivesse contraído uma doença. Então, ele
me expulsou da frente dele. Foi o momento mais difícil da minha vida:
     _ Vá embora da minha frente! Preciso pensar no que farei com você. Quero ficar sozinho.
     _ Amor, sou a mesma pessoa... Podemos lutar juntos e não contar nada. Ninguém saberá. Foi
assim com o meu pai: ele aceitou minha mãe, e o amor dos dois superou tudo - até mesmo a doença
dela. Se quiser, nem mesmo leio o livro que minha mãe me deixou. Posso renegar tudo por você,
Edward. Nada me importa, só o nosso amor. Eu o amo! Faça o que quiser, mas não me tire de sua
vida, pelo amor de Deus. Não me deixe. Eu não saberia viver sem você, não mais.
     _ Eu a desprezo, sua bruxa mentirosa. Sei que nunca deixará de ser uma bruxa.
     _ Nisso ele estava certo. Eu nunca deixaria de ser eu mesma. Mudamos com o passar dos anos,
adquirindo experiência, sabedoria e rugas com a idade. Mas nossa essência nunca muda. Ele estava
exaltado e cada vez mais rude com as palavras, e continuou a me ofender:
     _ Como você quer que eu ame a filha da mulher que matou a minha mãe? E seu pai, um maldito
canalha sem coração. Nada que me contou vai mudar o desprezo que sinto por sua família. Verdade
ou mentira, agora os odeio mais ainda. Desprezo você e toda a sua raça. Sei muito bem que está
tentando me iludir, para salvar seu pai e a você mesma. Saiba, Shaara, que estou preparado para
enfrentar seus feitiços. Arrede-se de mim, satanás! Esconjuro-a em nome de Deus!
     _ Edward, acabamos de fazer amor! Não quero ouvir isso. Sei que está fora de si, que ficou
enfurecido e louco pelo ódio que o consome. Não são sinceras essas palavras. Sei que irá pensar
com calma e cair em si.
     _ Tem razão: deitei-me com uma mulher, mas fui iludido. Pois, na verdade, eu estava me
deitando com o próprio diabo disfarçado. Você usou o seu próprio corpo para tentar me enfeitiça. -
olhou-me de cima abaixo, com desprezo. Edward estava transtornado, parecia outra pessoa. Nunca o
havia visto daquela forma antes. Ele continuava falando como um louco. Eu só queria fugir para bem
longe:
     _ Usou-me! Fui um tolo e ainda acreditei em sua castidade.
     _ Ele começou a revirar os lençóis e disse:
     _ Não era mais virgem! Não há sangue nos lençóis. Sua bruxa maldita! Queria que eu me
casasse com você para amaldiçoar a minha vida. Você já era usada, sua imunda! Acha mesmo que
me casaria com uma mulher já usada?
     _ Esbofeteei-o; ele me revidou. Coloquei a mão no rosto e o olhei-o nos olhos: eram puro ódio.
Nada mais pude fazer em relação a Edward. Senti o sangue jorrar em minhas narinas e disse:
     _ Juro por tudo que há de mais sagrado nesta vida, Edward: um dia hei de vê-lo chorar
lágrimas de sangue, como as que escorrem de minha face agora. Está cometendo uma injustiça e, o
que é pior, não quer ver que sua mãe é que é a culpada por isso tudo. Aquela maldita, mesmo depois
de morta ainda consegue perturbar a vida da minha família! Mas hei de vê-lo ajoelhado e
arrependido. Há alguns minutos, dizia que me amava, que eu era a mulher da sua vida. Agora me
trata como qualquer mundana. Não o conheço mais, Edward, não sei quem é. Imaginei uma pessoa
completamente diferente, mas eu deveria saber que de um maldito inglês não poderia vir boa coisa.
Principalmente quando esse inglês traz consigo o nome Mennellet.
     _ Limpe a sua maldita boca quando mencionar o nome da minha família. Se a senhorita tivesse
tido uma mãe, ela lhe teria ensinado que não deveria acreditar em tudo que ouve, principalmente de
um homem quando quer conseguir o que eu consegui. Por Deus, mulher, achou mesmo que eu iria
me casar com você? Deito-me todos os dias com mulheres do seu tipo. Ora, Shaara, sabe que nunca
foi a santinha que se dizia ser. Você foi ágil demais para uma primeira noite com um homem. Tê-la
em meus braços foi como ter uma simples meretriz.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

      _ As lágrimas começaram a escorrer e saí correndo como louca, para não deixá-lo perceber
minha fraqueza. Eram oito da manhã e o cocheiro estava me esperando, no mesmo lugar de antes.
Estava sem ar e tonta. Subi na carruagem, sem olhar para trás. Queria esquecer que Edward existia.
O cocheiro veio à janela da carruagem e perguntou-me se estava tudo bem. Pedi-lhe que me levasse
a uma pensão. Não podia voltar para casa do meu pai, não poderia lhe causar tamanho desgosto.
Mas, com o passar do tempo, comecei a me sentir mal e a dona da pensão, contra a minha vontade,
chamou o senhor. Voltei para casa a contragosto, o senhor sabe. Deixei-o pensar que estava doente
até ontem, quando desmaiei novamente e o doutor contou-lhe a verdade. Agora o senhor sabe toda a
verdade, pai. Não quero que tome nenhuma atitude drástica. Não quero que se vingue de Edward.
Ele também é uma vítima dos erros do seu passado.
      _ Sim. Eu deveria ter eliminado essa maldita família quando tive a oportunidade. Nada do que
você me disse muda o ódio que sinto por esse homem e a mãe dele. Penso que ele se fez de vítima
para você. No fundo, ele já sabia que era a filha de Elizabeth. O tempo inteiro ele fez tudo pensando
em vingança. Esse mau caráter seduziu-a de caso pensado. Não posso deixar isso da forma como
está. Tenho que tomar uma atitude em relação a isso tudo.
      _ Pai, por favor, contei-lhe tudo exatamente como aconteceu para que o senhor tivesse uma
noção de que a nossa família também teve culpa de tudo o que houve com Edward.
      _ Shaara, em que tivemos culpa? Só porque cometi o erro de me envolver com aquela mulher
em minha juventude, agora tenho que pagar o preço pelo resto da minha vida? Olhe só para você
agora: está grávida daquele bastardo! Acha mesmo que posso deixar tal situação no esquecimento? E
onde fica a minha postura de homem? Sinto muito, Shaara, não posso atender ao seu pedido dessa
vez. Prometo lavar sua honra com sangue - e isso é indiscutível.
      _ Pai, pelo amor de Deus, não faça isso! Edward é um homem poderoso. Vai trucidá-lo.
      Shaara tentou modificar o seu destino e salvar a vida de seu pai, contando-lhe tudo na tentativa
de que, se ele soubesse a verdade, perceberia que ela foi a culpada por tudo o que Edward lhe fizera.
Só que Shaara se esqueceu de uma coisa: não se pode mudar o destino.
      Fiquei ali, em pé, percebendo o desespero de Shaara. Seu pai saiu daquele aposento, deixando-a
sozinha e chorando desesperada. Parecia que todo o peso do mundo havia caído sobre ela. A dor
tinha-a transformado em um verdadeiro flagelo humano. Os erros de Shaara foram muitos e, naquele
momento, todo o universo estava de costas para ela. Compreendi que Shaara foi a única responsável
por toda a sua desgraça.
      Os valores que nos são impostos por nossos pais deveriam ser encarados como uma aula básica,
e não como um martírio constante. Mas só percebemos isso quando os problemas surgem para nos
pesar o pensamento.
      Shaara desceu e tentou uma última conversa com o pai, que estava apeando o cavalo.
      _ Pai, por favor, eu lhe imploro: não faça essa loucura! O senhor não tem ideia do que vai lhe
acontecer.
       O pai de Shaara fitou-a nos olhos e disse:
      _ Soube desde o instante em que ouvi no vilarejo, pela primeira vez, que ele era o procurador do
rei, e que ficaria no lugar de inquisidor até que Mercedes fosse capturada. Desse dia então, soube que
os dois jamais poderiam ficar juntos, porque nem todo mundo a entenderia, Shaara. Desde que você
nasceu, sabíamos que seria diferente, por causa da origem de sua mãe. Sonhava uma vida de
felicidades para você ao lado de um bom homem, mas o capitão Edward apareceu nem sei de onde, e
foi impossível evitar que ficassem juntos. Sua mãe e eu conversávamos sobre seu futuro. Ela sempre
dizia que não cabia a mim mudá-lo, pois já estava traçado no dia em que foi concebida em seu
ventre. Então, está feito. Parece que sua mãe estava certa mais uma vez.
      _ Pai, por que não me contou antes?
      _ Você nunca me deu tempo. Depois, fugiu na calada da noite, sem explicações. Só Deus sabe o
quanto eu sofri, procurando-a por todos os lugares.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Pai, perdoe-me!? Fiquei furiosa por ter me batido. Queria me vingar. Estava confusa, e
Edward parecia me amar tanto... Naquela hora, pareceu que era o certo a se fazer. Pensei que nos
casaríamos e que, quando voltássemos, o senhor nada poderia fazer para nos separar. Fui uma tola e
insensata!
     _ Não, filha, eu não deveria ter perdido a cabeça com você. Eu estava furioso comigo mesmo,
pois não pude salvar sua mãe e estava perdendo-a para um homem estranho. Eu deveria ter me
controlado e conversando com você. Por isso, tenho que consertar esse erro à minha maneira agora.
     _ Pai, pela última vez, escute o que estou lhe dizendo: Edward está louco. Prometeu se vingar de
mim e do Senhor.
     _ Não se preocupe, Shaara, esse canalha não lhe tocará enquanto eu estiver vivo. Ele vai pagar
por tudo que lhe fez. Eu já deveria ter extinguido essa raça maldita há tempos.
     Shaara percebeu que não importava o quanto ela argumentasse: não adiantaria, seu pai estava
decidido a vingar a sua honra a duras penas. Ele montou em seu cavalo e saiu em disparada,
deixando Shaara desesperada e aos gritos.
     Ela voltou para dentro da casa e subiu para seu quarto. Parecia não querer ver ninguém naquele
momento de aflição. Ela agora sabia que era a culpada pela morte de seu pai, e não tinha mais como
voltar atrás. Abriu o quarto e trancou-se. Em seguida, aproximou-se da cama, deixou o corpo cair
pesado. Esticada na cama, com os braços abertos, sentiu algo e levantou-se para ver o que era: o
livro das bruxas. Shaara, então, começou a folhear aquele livro e caiu em si. Percebeu o enorme erro
que havia cometido. Ela havia ido contra todos os princípios da magia, quando tentou interferir no
destino de outra pessoa e no seu próprio. Com isso, ela gerou um grande conflito com o universo.
Isso lhe causaria uma catástrofe maior do que a que ela já haveria de passar.
     Naquela hora, o vento entrou pelo quarto de Shaara e ela soube que algo de errado havia
acontecido. Os olhos de Shaara percorreram o quarto, em busca de alguma resposta invisível. Foi à
janela e respirou, de olhos fechados. O cheiro que o vento trazia era de morte. Ela pôs as mãos nos
olhos e chorou profundamente. Era como se ela quisesse que sua alma pedisse perdão ao universo.
     A criada de Shaara que se chamava Gina estava na varanda e olhava o horizonte, como se
estivesse muito preocupada. Mesmo quem não tivesse uma mediunidade formada sabia que algo
estava errado, pois o tempo estava demonstrando suas alterações.
     As horas tornaram-se um suplício, e os minutos pareciam não passar. Shaara já estava na
varanda havia horas, esperando pelo retorno de seu pai, até que ao longe conseguimos avistar um
homem. Ele estava arriado sobre o cavalo e parecia muito ferido. Gina, a governanta, deu um grito
de pavor. Ambas correram para socorrer o pobre homem. As indagações começaram:
     _ Quem é o senhor, onde está meu pai?
     _ Corra, Gina, vá chamar Tobias, o nosso capataz. Peça para chamar o doutor Tostes.
     _ Sim, senhorita.
     Quando o médico chegou, horas depois, examinou o homem minuciosamente e disse:
     _ Sinto muito, minha filha. Este homem não tem muito tempo mais de vida. Parece que algum
instrumento agudo perfurou-lhe o pulmão. É um verdadeiro milagre que ele tenha conseguido chegar
até aqui.
     Shaara olhou fundo nos olhos do homem, segurou o rosto dele com as mãos e falou:
     _ Preste muita atenção, caríssimo senhor: tem que me dizer onde está o meu pai. O que o senhor
veio fazer aqui?
     O homem mal conseguia abrir os olhos, mas parecia ter a necessidade de contar o paradeiro do
pai de Shaara. Ele levantou a cabeça lentamente e apenas pronunciou as seguintes palavras:
     _ O senhor Gonzáles está preso para prestar depoimentos. O capitão Edward enviou-lhe o
seguinte recado: que a senhora se entregue, ou o senhor Gonzáles irá sofrer as consequências em seu
lugar.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

    Shaara perdeu a cor e só não caiu porque foi amparada pelo capataz. Era difícil de acreditar que
Edward havia chegado a tanto. Em seguida, o homem entregou nas mãos de Shaara uma carta, onde
estava escrito:

     San Marino, 20 de agosto de 1814 - Espanha.
     Shaara, minha filha, ao ler este bilhete estarei em perigo, mas confio em você e sei que irá
tomar as providências para me tirar desta prisão em que me encontro. Vá até o meu quarto e veja
debaixo de minha cama. Lá irá encontrar uma tábua solta, onde guardo uma pequena quantia em
dinheiro. Pegue este dinheiro e arrume homens de confiança. O resto deixarei em suas mãos. Envie
uma carta à sua tia Mercedes. Para isso, deve ir até a casa do sapateiro e apenas dizer-lhe que
preciso de ajuda. Não se preocupe, filha. Ele saberá como proceder.
     Arrume os suprimentos e pague os criados. Se alguns quiserem ir com você, será melhor. Mas
os avise do que se trata, para que por si possam tomar suas próprias decisões. Não tenho a menor
intenção de deixar nada para esses porcos covardes. Que fiquem com minhas terras e todo o resto.
Não me importo, quero apenas que você fique bem.
     Confio em você. Sei que não irá me decepcionar.
     Juan Gonzáles.

     Shaara olhou para o homem que estava em seus braços e ele havia falecido. Sem saber o que
fazer, minha ancestral entregou o corpo para que o capataz tomasse as providências cabíveis. Em
seguida, Shaara levantou-se e foi ao quarto de seu pai, onde achou o dinheiro guardado no exato
lugar mencionado. Procurou pelas joias da família e pelas suas. Guardou esse pequeno tesouro em
um pequeno baú. Shaara foi até o armário de seu pai e vestiu umas roupas dele. Em seguida, desceu
as escadas e pediu que chamassem todos os criados, onde lhes passou todo o fato ocorrido, como lhe
havia pedido seu pai.
     Pediu ao capataz que juntasse alguns escravos e fosse com ela até a cidade. Enviou um bilhete
através de um dos escravos para sua tia Mercedes. Feitas todas essas coisas, seguiu com o capataz
para a cidade.
     Shaara tentou invadir, durante a noite, a prisão onde se encontrava seu pai, mas, não
conseguindo, prometeu que voltaria no dia seguinte com mais reforços.
     Ao chegar à sua casa, a Lua já estava alta no céu. Shaara estava exausta, mas se surpreendeu
com a visita inesperada que havia recebido. Com um sorriso que mais parecia de alívio, disse:
     _ Tia Mercedes!
     Shaara abraçou aquela mulher como se quisesse proteção. Ambas conversaram muito durante
toda a noite. Não poderiam dormir, tinham muitas providências a serem tomadas. O dia estava
raiando quando o capataz veio avisar que tudo já estava pronto para a viagem. Ele prosseguiu,
dizendo:
     _ Senhorita, quero falar em nome de todos os criados e escravos de sua fazenda.
     _ Bom, homem, diga! - disse Shaara, parecendo surpresa e curiosa.
     _ Por tudo que sua família foi para nós, não queremos ficar, queremos partir com a senhorita.
     _ Não sei se posso deixar que venha, meu querido Jorge. O risco é muito grande e ainda temos
que salvar meu pai da prisão. Isso pode ser muito perigoso. O inquisidor poderá acusá-los também de
traição por complô junto a mim.
     _ Se ficarmos, senhorita, seremos todos trucidados. A Inquisição não vai nos ouvir. Seremos
culpados e correremos risco de morte. Preferimos correr o risco de fugir e poder lutar por nossas
vidas.
     _ Sendo assim, agradeço-lhes. Sejam bem vindos! Agora temos que nos preparar para irmos
resgatar meu pai.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ De jeito nenhum! Não permitirei que parta em uma missão perigosa dessas, no estado em que
se encontra. - disse Mercedes, preocupada com a gravidez de Shaara.
     _ Senhorita, não gosto de me intrometer em assuntos de família, mas sua tia está certa. Se algo
der errado e uma bala atingir a senhorita, pode colocar não só as nossas vidas em risco, mas também
a vida da pequena criança que está por vir. Creio que seu pai não concordaria com isso. Acho que
devemos todos nos colocar em segurança e, depois sim, voltaremos para fazer o resgate de seu pai.
Pense um pouco, senhorita Shaara. Creio que o inquisidor não fará nada com o seu pai. Afinal, ele
deu um prazo e espera que a senhorita se entregue de livre e espontânea vontade. Isso nos dará tempo
de agir.
     Muito a contragosto, Shaara concordou em fugir com a tia, os criados e escravos. Foi assim que
Shaara nunca mais viu ou teve notícias do pai. Mercedes e os demais não deixaram Shaara sair da
floresta. Com isso, Dom Gonzáles morreu sob tortura, acreditando que a filha o havia traído. Shaara,
naquela viagem, tentou mudar este fato, mas sua atitude conseguiu piorar a situação do pai.
     Shaara, então, resolveu voltar daquela viagem. Ao despertar, chorou como louca ao se ver em
um calabouço sujo e molhado.
      A porta da sela abriu-se, mas Shaara estava tão triste que parecia não ouvir nada à sua volta. Ela
sequer levantou a cabeça quando um homem, encapuzado e acompanhado por dois soldados,
aproximou-se dela. Por fim, ele, percebendo que Shaara não o havia notado, disse:
     _ Gostando das acomodações? Responda-me, bruxa maldita!
     Depois de ter recebido um chute nas costelas, Shaara levantou a cabeça para olhar o seu algoz e
falou:
     _ O que foi que eu lhe fiz para me tratar deste jeito? Já não me humilhou o bastante, capitão?
Quer que eu confesse? Creio que isso não seja necessário, pois já sabe que sou uma bruxa e não
tenho a menor intenção de negar minhas origens.
     O capitão puxou Shaara, fazendo com que ela ficasse de pé abruptamente. Ela deu um gemido
de dor, pois seu corpo estava todo machucado. O capitão Edward puxou Shaara para junto de si e
tocou-a intimamente. Ela tentou recusar, mas o capitão era muito mais forte. Ele parecia um animal
enfurecido e, depois de dispensar seus soldados, disse:
     _ Eu sei do que e como gosta de ser tocada, sua imunda.
     O capitão estava com a mão no pescoço de Shaara, impossibilitando-a de reagir. Depois de
rasgar-lhe as vestes, violentou-a da maneira mais repulsiva já imaginada. Depois, jogou-a como um
monte de trapos velhos para o lado, e chorou como uma criança desorientada. Shaara ficou em um
canto, tremendo e apavorada, sem saber o que fazer. Por fim, o capitão falou:
     _ Quando foi decretado o pedido da sua prisão, fiquei desesperado em saber que poderia perdê-
la para sempre. Então, corri como um louco para tentar resgatá-la antes que os meus soldados a
levassem. Mas chegando à sua casa, percebi que já havia fugido. Fiquei louco e enfurecido. Pensei
que havia fugido com outro homem. Procurei-a por todos os cantos desta terra, mas foi em vão. Eu
mesmo disse a seu pai que a filha o tinha abandonado e o traído, na esperança que ele a entregasse.
Então, depois de muito torturá-lo, seu pai suicidou-se dentro da prisão. Sim, Shaara, seu pai morreu
acreditando que era uma traidora. Eu queria que ele odiasse a filha por traição e que sentisse na pele
o que é ser abandonado por alguém que se ama. Seu pai confirmou-me a sua história em relação à
minha mãe. Eu estava louco pelo ódio e pela vingança, Shaara.
     Eu não conseguia sentir pena do capitão. Ele era um covarde, mas percebi que Shaara estava
comovida, porque sentia arrependimento naquele homem. Ela estava muito fraca, mas prosseguiu
com aquela conversa, dizendo:
     _ Edward, nunca o traí, nunca. Você foi um covarde em punir meu pai daquela forma. Não sabe
o que fez! As pessoas cometem erros na vida, e o meu maior erro foi ter fugido e não ter lhe contado
toda a verdade.




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O segredo dos girassóis
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     O capitão Edward parou e ficou olhando Shaara, parecendo não entender o que ela estava
tentando dizer. Era como se uma espécie de transe tivesse tomado conta daquele rosto enfurecido.
     _ De qual verdade está falando?
     _ Do nosso filho, Güillian. Ele está na cela junto a uma das mulheres.
      De carrasco e inquisidor, tornou-se vítima de si mesmo. Depois, caiu em desespero, chorando
sem cessar. Num tom de desabafo, ele disse:
     _ O que foi que eu fiz com a gente? Perdoe-me, Shaara... Agi como um insano e agora nada
posso fazer para reverter essa história.
     _ Eu já o perdoei, Edward, nada mais me deve. Só lhe peço que salve nosso filho! Como lhe
disse certa vez, a nossa consciência é nosso próprio algoz. Somos os únicos responsáveis por nossos
atos. Ninguém nos obriga a fazer nada.
     _ Machuquei-a, Shaara, e isso não tem perdão.
     _ Machucou-se a si mesmo, Edward. Quando me violentou agora há pouco, era com você que
estava fazendo aquilo. Todo o mal que fazemos contra nosso próximo fazemos contra nós mesmos.
Prova disso é só olhar para você e ver como está se sentido péssimo.
     _ Perdoe-me, suplico!
     O capitão pôs-se de joelhos na frente de Shaara. Mas ela lhe respondeu, friamente:
     _ O perdão pertence somente a Deus. Minha palavra só serviria de consolo, nada mais. Terá que
dormir todos os dias com isso em sua consciência. Mas sabe o que foi pior nisso tudo, Edward? É
que você fez tudo sabendo que estava errado. Quem sabe se algum dia, quando meu aparelho
reencarnar em algum lugar próximo a você, terá a oportunidade de me rever para que, juntos,
possamos resgatar esse sentimento de maneira mais verdadeira e humana. Até lá, espero de você
apenas uma coisa: salve o nosso filho.
     _ Acredita mesmo que haja outras vidas, não é?
     _ Sim, é claro que sim. Vivi esse tempo todo por causa da minha esperança de que um dia
iremos ter a chance de resgatar essa história. Não podemos, Edward, acreditar que exista apenas uma
vida e nenhuma chance de corrigirmos nossos erros. Se eu não acreditasse em reencarnação, eu o
odiaria por tudo que já me fez sofrer nesta vida.
     _ Se isso for verdade, então prometo que lhe encontrarei onde quer que seja. Nunca mais amarei
outra mulher. Será sempre minha e serei seu. Mesmo que demore séculos, nunca a deixarei até que,
um dia, seja permitido que estejamos juntos.
     _ Meu Deus, Edward, não faça isso. Não nos castigue de tal maneira. Temos que seguir em
frente. Não nos amaldiçoe, ou nenhum de nós poderá ser feliz. Liberte nosso espírito agora mesmo
dessa promessa; imploro-lhe, Edward. O universo e os deuses são muito rígidos quanto a tais
promessas. Não pode prender nossos espíritos nessa jura inconsequente. Como sempre, está
precipitando as coisas, seguindo o seu emocional.
     _ Não quer que nos encontremos para sermos felizes? Achei que ainda me amasse!
     _ Sim, quero, mas não com uma jura. Está impedindo a si mesmo de ser feliz. Não poderemos
sempre nos encontrar, não é assim que funciona. Você pode ficar ate séculos procurando-me e
tornar-se um espírito obcecado por tal ideia. Não quero que fique a vagar sem luz.
     _ Não me importo. Se assim for, farei isso até que eu possa reparar o meu erro com você e poder
viver o nosso amor em paz.
     _ Desfaça agora essa promessa e essa jura, Edward, ou nunca poderemos realmente ser felizes.
Não vê o absurdo que está fazendo, prendendo meu espírito ao seu por toda a eternidade? Nunca
seremos realmente livres. Pode acontecer de ficar no vale dos esquecidos, sem que ninguém se
lembre de você. Ou poderá vagar sobre a Terra, perturbando por centenas de anos, atrás do meu
espírito e impedindo-me de ser livre em escolhas. Isso me trará frustrações. Serei uma infeliz por não
saber o motivo de não ser amada. Temos que seguir o nosso destino, Edward. O nosso tempo nesta
vida já passou.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

      _ Nunca farei isso. Só de pensar que poderei não vê-la de novo enlouqueço. Não dividirei você
com mais ninguém. Fui um louco em fazer tudo que fiz. Pensei que, se a acusasse, poderia achá-la e
tê-la de novo só para mim, mas as coisas saíram do meu controle. Não vou arriscar perdê-la para
sempre. Se essa for a única maneira, juro por toda a eternidade procurá-la e nunca a deixarei até que
estejamos juntos novamente.
      _ Não sabe as consequências de suas palavras. Elas são piores do que qualquer um dos erros
cometidos pela sua ignorância ou pela falta de esclarecimento no assunto em questão.
      Nada do que Shaara fizesse ou falasse faria o capitão Edward voltar atrás. Qualquer argumento
foi em vão. Por meses, capitão Edward visitou Shaara no cativeiro. Ele também tentou revogar a
sentença, mas seus apelos não foram ouvidos e nem suficientes para apaziguar o que ele próprio fez.
Ele havia ido longe demais e os mexericos cresceram como bola de neve. Nem mesmo uma
contraordem do Papa mudaria o destino de Shaara naquele momento.
      Engraçado como a maioria das pessoas só conseguem enxergar seus erros quando eles não têm
mais solução... Nos últimos meses, o capitão Edward cuidou de Shaara, tentando aliviar a sua culpa
por sua amada estar passando por todos aqueles sofrimentos. Durante os interrogatórios, ele também
não a deixava sozinha, pois sabia que Shaara seria massacrada pelo carrasco e pelo interrogador.
Houve horas em que o capitão já não falava coisa com coisa, ele parecia estar certo de que Shaara
não seria condenada, mas isso era só mais uma fantasia em sua mente. O capitão estava realmente
ficando louco.
      Foram feitas inúmeras perguntas a Shaara e às outras prisioneiras. Algumas negaram tudo, para
morrerem e serem perdoadas de seus pecados. Pude observar nos rostos daquelas mulheres uma
tristeza maior do que a dor de serem torturadas. Elas estavam perdendo a essência - isso, para uma
bruxa, é a própria morte. Havia horas em que as pobres mulheres colocavam-se em uma espécie de
transe e pareciam estar em outra dimensão. Era como se a vida já tivesse esvaído de seus corpos e só
aguardavam serem enterradas, pois já estavam praticamente mortas. Perder a identidade é perder a
verdadeira essência da alma para uma bruxa, e ter que mentir sobre a sua origem é como entregar ao
fogo toda a história de suas ancestrais.
      Para algumas, o perdão foi concedido depois de jurarem nunca mais serem praticantes da magia.
Mas elas não tinham a liberdade de saírem à rua sem uma escolta. Houve muitos suicídios por causa
desse tipo de sentença, pois uma bruxa jamais pode viver sem a sua liberdade.
      Uma das mulheres do grupo, mesmo depois de ter perdido seu marido e filhos para a Inquisição,
negou o próprio nome de batismo. Casou-se com um homem de posses com o triplo de sua idade,
apenas para não morrer sob tortura. Mas o preço que ela pagou foi muito mais alto do que própria
morte, pois o homem a ofendia e a esbofeteava diariamente, obrigando-a a comer as próprias fezes
para provar que ela não era mais uma de nós.
      As torturas e as humilhações para quem não morria pela Inquisição eram as mais abomináveis e
cruéis possíveis. A morte era só um consolo. Era como se o castigo pudesse purificar a alma
daquelas mulheres. Algumas se tornaram concubinas e eram mantidas sob cárcere privado. Outras
foram obrigadas a trabalhar em tabernas, prostituindo-se com os piores elementos já vistos. As mais
jovens foram vendidas para as beatas e faziam os mesmos serviços que os escravos. Ainda eram
obrigadas a manter relações sexuais com seus senhores às escondidas de suas esposas. Quando
descobertas, eram torturadas até a morte e acusadas de sedução e luxúria através da magia. Algumas
perderam parte dos membros, como dedos dos pés e das mãos, como a prova de que a parte
endemoniada fora arrancada para sempre.
      Shaara estava com os dias contados. Por isso, entregou a sua alma a Deus. Passava horas a orar e
todo dia pedia auxílio aos espíritos de luz, para que a guiassem para perto do esclarecimento quando
o seu espírito tivesse que deixar o aparelho transitório.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Shaara nunca negou suas origens e, vendo aquela tão devotada fé, o capitão Edward passou a
crer no espiritismo, mas não abriu mão da jura de me encontrar e não me deixaria ficar com mais
ninguém em outra encarnação.
      A preocupação de Shaara com o capitão Edward era porque ela sabia que ele não a deixaria em
paz e sofreria com a sua morte mais do que o esperado. O capitão não conseguia perceber que só
Deus era o dono do destino e que ele, fazendo tal jura, poderia ficar preso entre dois mundos, caso
não a desfizesse antes que Shaara fosse morta.
     Lembrei-me das palavras de Cristo quando disse Pai, perdoa-lhes porque não sabem o fazem...
     O inquisidor, a pedido do bispo, foi deposto de seu cargo de origem, pois foi considerado
incapaz de julgar e dar a sentença de Shaara. O novo inquisidor, nomeado para ocupar o lugar do
capitão Edward, chamava-se Cerenzo de La Pena. Um homem gordo e muito alto, cuja presença
lembrava a própria morte e seu olhar fulminava-nos vivos. O senhor Randolf de La Concita,
nomeado como carrasco, tinha mais crimes do que o próprio diabo tinha almas.
     Um vigário também foi mandado para a prisão por suspeita de manter contato com bruxas. O
pobre homem era um senhor de quase oitenta anos. No mínimo, já não tinha mais nenhum serviço a
prestar à ordem do vaticano. Durante seu interrogatório, ele disse que não precisava do perdão da
Santa Madre Igreja, pois não havia cometido crime algum.
     Naquele mesmo ano, pouco antes de Shaara morrer, cento e cinquenta pessoas, entre homens,
mulheres e crianças, foram condenadas à morte por tortura. Durante o julgamento de Shaara, ela
também disse que não tinha nada por que pedir perdão, e que não havia cometido nenhum crime para
que fosse condenada à fogueira - o que causou alvoroço dentro do tribunal do júri. Indignado, o juiz
disse:
     _ Como pode uma bruxa achar que não tem que se redimir dos seus crimes?
     _ Padre, curei os doentes com lepra e outras doenças que os seus doutores não se atreviam a
examinar, porque achavam que as suas mãos eram limpas demais para tocá-los. Existiam pessoas
entre nós que sua sociedade excluiu, simplesmente por serem pobres mal cheirosos e maltrapilhos.
Pessoas como os judeus, que vieram de outro país, procurando fugir de gente como o senhor, que se
diz homem de Deus, mas cuja piedade afastou do próprio coração.
     _ Cale-se, sua insolente! Com que mérito curou os tais doentes? Usou, por certo, os poderes que
o demônio lhe ofereceu para cegar esses pobres coitados. Ande, bruxa infeliz! Confesse logo para
que eu vá atender a quem realmente merece.
     _ Não precisa mais perder o seu tão valoroso tempo comigo, excelência. Tem razão de chamá-
los de pobres coitados, pois são mesmo. Afinal, foram banidos do meio da sua sociedade. E quanto a
confessar, só confesso a Deus. Mas se quer que eu diga quem sou, digo sem o menor problema: sou
uma bruxa e morrerei afirmando isso, mas nunca serei hipócrita de me fantasiar com uma batina para
me posar de santa diante dos meus fiéis.
     _ Blasfêmia! Seu Deus é Satã. Levem essa maldita filha do diabo daqui! Que queime em uma
fogueira em praça pública, para que todos saibam que ela mesma aceitou o demônio como o seu
único Deus.
     No dia vinte e nove de abril do ano de 1725, às seis horas da tarde, Shaara foi declarada bruxa
pela Inquisição e a sua sentença foi a fogueira. Sem poder questionar o menor argumento para a
defesa, Shaara baixou a cabeça e manteve-se em silêncio.
     No meio da grande praça, as pessoas gritavam como loucas. Algumas atiravam objetos
pontiagudos, como pedras. Outras pronunciavam palavras de baixo calão.
     Shaara olhou tudo ao redor e percebeu que era muito grande o número de pessoas que assistiria à
sua morte. A maioria delas era praticamente a mesma que a conhecia desde criança.
     Um homem que estava entre o júri sussurrou ao ouvido de Shaara, pedindo que ela gritasse por
clemência, para que pelo menos a sua alma se salvasse. Ela, porém, nada disse ou murmurou.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Shaara, em seu momento de dor, sentiu piedade dos que estavam à sua volta e, em pensamento,
pediu perdão por eles.
     O inquisidor leu toda a sentença e acusou Shaara de traição, conspiração, bruxaria e de práticas
demoníacas. Um homem encapuzado levou-a pelos cabelos para um tronco, no meio da fogueira.
     Os direitos de Shaara foram citados em voz alta, como se ela tivesse direito a alguma coisa de
verdade... Os direitos citados foram:
     _Tem o direito de dizer uma última palavra antes de ser executada. Diga rápido, antes que eu
resolva antecipar seu destino em alguns minutos.
     _ Quero falar com o capitão Edward. Chamem-no para mim, por favor!
     O inquisidor e o carrasco entreolharam-se, mas concordaram em chamar o ex-capitão e ex-
inquisidor. Enquanto isso, Shaara pronunciou:
     _ Se sou culpada por tantos crimes, por que não conseguiram achar em mim culpa suficiente
para me condenarem? Precisaram da ajuda de um inquisidor para dar minha sentença? Por que
precisaram tirar proveito dos mexericos de senhoras mal amadas para me acusarem de algo leviano e
fictício? Por que Sir Edward foi afastado do cargo de inquisidor? Será que foi por que ele próprio
percebeu que estava cometendo um grave erro?
     _ Ele estava enfeitiçado, sua bruxa suja - gritou uma voz no meio da multidão.
     _ É, sou mesmo uma bruxa, e estou muito suja porque me negaram todos os direitos de um ser
humano. Até o direito de tomar um banho para morrer com dignidade, sabe, Sir Williams? - disse
Shaara para aquela voz.
     Shaara prosseguiu seu discurso:
     _ Quando o senhor contraiu certa doença, por viver andando em bordéis, foram as minhas ervas
que o salvaram da morte. Não lhe cobrei uma única prata sequer. Assim como o senhor Williams,
muitos de vocês foram à floresta em busca de sortilégios e curas. Muitas vezes me neguei a fazer
seus sortilégios, porque jamais uso minha sabedoria para separar pessoas ou matar alguém. Só quis
viver em paz. Todos aqui presentes, principalmente as mulheres, não são vistas com bons olhos, pois
não podem expor livremente suas emoções. Todas as mulheres aqui vivem de cabeça baixa e são
humilhadas pelos homens desta maldita sociedade. Acolhi, sim, malfeitores, mulheres espancadas e
até prostitutas. Por que eu não faria isso? Curei as feridas de todos os doentes que me procuraram,
até mesmo dos leprosos. Fiz um trabalho de humanidade e caridade e amei o próximo, como Jesus.
Lembram-se? Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei. E vocês, o que estão fazendo consigo
mesmos? Assassinam pessoas inocentes todos os dias só por elas não serem como vocês querem.
Seus amigos, vizinhos e parentes estão sendo exterminados de maneira brutal e desumana. Haverá
um dia em que não terá mais ninguém para que apresentem em praça pública esse espetáculo de
horror.
     _ Blasfêmia! - gritaram do meio da multidão, de novo.
     _ É, pode ser uma blasfêmia mesmo. Afinal, é mais fácil achar que seja uma blasfêmia do que
aceitarem que estão errados. Mas e a senhora, Dona Esmeralda, que deixou seu único neto ser
amarrado a quatro cavalos e ser partido ao meio só porque ele gostava de poesias? Ser uma pessoa
gentil o torna afeminado?
     _ Ele era afeminado e estava sob o efeito do poder maligno do demônio. Fiz isso para libertar a
alma dele. – respondeu Dona Esmeralda.
     _ Meu Deus, ele só tinha quatorze anos! Era uma criança que gostava de ler romances e contos
de fadas. Quem vai fazer agora o serviço da sua casa, já que está em idade avançada? Sei que não é
uma mulher de posses e não pode ter o luxo de comprar um escravo para ajudá-la. Será que também
os demais aqui não lhe queimarão viva? Afinal, em que uma senhora com idade avançada pode
ajudar a sociedade?
     A velha senhora baixou a cabeça com tristeza e retirou-se do meio da praça. Shaara prosseguiu:




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                                          Adriana Matheus

      _ Se um filho nasce defeituoso, é mais fácil afogá-lo do que amá-lo? Quem são os demônios
aqui? Onde está o mal? Eu digo: está nos corações amargos e revoltados de pessoas covardes, que
preferem se esconder por trás de histórias e mexericos para encobrir o próprio erro. Não seria hora de
sanar toda essa loucura e começar a amar a seu próximo, sem tentar achar seus defeitos ou
qualidades em demasia? Quando amamos alguém, devemos amá-lo como é. Se tentarmos mudar as
pessoas, quando discutirmos com elas, estaremos discutindo com o reflexo que criamos de nós
mesmos. Somos responsáveis por tudo aquilo que praticamos ou criamos. Brigamos ou condenamos
o próximo porque é mais fácil do que olhar para dentro de nós mesmos e achar nossas próprias
falhas. Deveríamos olhar o mundo de uma maneira mais inocente, como as crianças. Mas estamos
transformando, cedo demais, meninas em mulheres, querendo que elas se casem com homens mais
velhos e cheios de posses, para garantirem o nosso próprio futuro e nossa velhice. Queremos que
nossos filhos se tornem doutores ou soldados, e estamos esquecendo que estamos separando nossa
família de maneira discreta e sutil. Entre vocês, morrerão sozinhos por causa desse egoísmo e
ganância. Lógico, todos nós temos que seguir o nosso caminho um dia. Mas devemos também ter o
direito à escolha. Seus Natais solitários poderiam ser repletos de alegria, se houver mais
concordância e união. Suas vidas poderiam ser muito melhores se cumprimentassem seus vizinhos
sem os desdenhar. Se ao invés de tomarmos conta da vida alheia, fizéssemos um bolo, estaríamos
muito bem de vida. Todos nós viemos nesta vida para aprender e temos por obrigação deixar
algumas coisas para que alguém também aprenda conosco. As pessoas não são lixo, ou coisas velhas
que jogamos fora quando não nos servem mais. Quando me queimarem, vai doer e sangrarei como
sangraria qualquer um de vocês. Talvez eu só tenha jogado pérolas aos porcos, e nem tenha feito por
todos o que eu deveria ter feito. Só sei de uma coisa: com certeza, nunca mudei minha essência.
Nunca deixei de acreditar nos meus sonhos, e sempre lutei pela igualdade de liberdade de todos. Até
dos que me condenam.
      _ Está tentando nos ludibriar! - gritaram novamente.
      _ Não estou. Muito pelo contrário, prefiro ser queimada a ter que viver no meio de uma
sociedade hipócrita e ignorante como essa. Só não esqueçam que, assim como aconteceu comigo,
pode acontecer com qualquer um que se julgue perfeito. Se o marido de uma de vocês, mulheres,
resolver trocá-la, é mais fácil que ele invente fuxicos e digam que são bruxas. Assim, enquanto
forem queimadas, eles se deleitarão com as amantes.
      Muitas pessoas saíram, principalmente mulheres.
      _ Calasse, queimem-na! - gritou o restante da multidão. O inquisidor leu rapidamente a sentença,
já lida antes. O carrasco jogou-lhe um líquido, parecia querosene, e ateou fogo.
      _ Queime rápido, bruxa! Meus cães estão esperando por seus ossos para o desjejum - gritou o
dono da taberna.
      _ A fumaça sufocava Shaara. Seus pés começaram a ser atingidos pelas chamas. A dor era
inigualável. E, do meio das chamas, Shaara viu quando o capitão Edward levantou o pequeno
Güllian no meio da multidão. Dos olhos de Shaara escorreram o mar da sua alma. E ela
simplesmente sorriu, por saber que seu filho estaria salvo. Com o filho nos braços, o capitão Edward
gritava, desesperado:
       _ Vou me encontrar com você, Shaara.
      Os gritos do capitão foram levados com Shaara, junto aos últimos pensamentos. Pude sentir
cada pedaço do corpo da minha ancestral sendo queimado. Aliás, foi muito difícil manter-me inerte
durante toda aquela viagem. A dor que Shaara sentiu era tanta que vi quando o seu espírito implorou
para ser desligado do aparelho dela. Então, parei de sentir frio e o calor que queimava Shaara ao
mesmo, e pude perceber que ela havia deixado o plano terrestre. Os gritos de Shaara ecoaram com o
vento. Toda a multidão foi, aos poucos, desfazendo-se. A vida voltaria ao normal, mas aqueles
habitantes teriam muito o que comentar durante muito tempo.




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                                         Adriana Matheus

     O capitão Edward voltou para a Inglaterra e lá viveu, levando uma vida modesta com o filho
Güllian. Como prometeu a Shaara, nunca parou de tentar encontrá-la.
     Chorei como uma criança e fui acalentada por Dona Helena, que estava ao meu lado, segurando
a minha mão. Todos os que estavam na floresta vieram me saldar. Alguns estavam apagando a
fogueira, mas acenavam para mim, com satisfação.
     Então disse, orgulhosa e em lágrimas:
     _ Shaara Méquiz era o nome de minha ancestral. Ela foi uma bruxa, considerada assim por ter
recebido um dom divino. Foi diferente de todas as outras mulheres e não deixou nenhum homem ou
ninguém roubar sua essência. Foi a mulher mais corajosa e capaz de qualquer coisa que eu já havia
conhecido. Como ser humano, abriu mão de todo o poder e fortuna para cuidar dos pobres e doentes
de seu tempo. Filha da condessa Elizabete Dornellas Méquiz e do conde Juan Gonzáles, mortos por
causa da ganância, da inveja e do ódio. Ela teve um grande amor, que foi o capitão e inquisidor
senhor Edward III, morto em batalha contra a Inquisição, onde defendeu o direito das bruxas de
serem livres. O capitão Edward III arrependeu-se dos erros que cometeu contra o seu único amor, e
passou a lutar ao lado dos rebeldes, em prol da liberdade dos escravos e de outros que considerasse
injustiçados. Shaara era uma pessoa incrivelmente forte e dedicada a causas consideradas
impossíveis. Ela foi o que eu quero ser agora. Edward III foi o ancestral do monge dos meus sonhos,
pois durante a viagem o reconheci. Agora sei porque ele me persegue nos meus sonhos. Foi por
causa da jura que ele fez no passado de me encontrar onde quer que eu esteja. De alguma maneira,
sei que iremos nos encontrar nesta vida. De alguma maneira, tenho certeza de que iremos nos
encontrar muito em breve.
     Dona Ana estava atenta a tudo que eu contava e, por fim, perguntou:
     _ Por que acha que esse homem a persegue até em seus sonhos?
     _ Porque ele fez a única coisa que não nos é permitido pela lei da natureza. Jurou-me amor
eterno, prometendo-me procurar por toda a eternidade. Disse que jamais me deixaria em paz,
enquanto não pudéssemos viver verdadeiramente nosso amor.
     Falei aquelas palavras olhando para Bernadete, pois passei a entender perfeitamente o que ela
havia me dito antes. E dei continuidade àquele assunto, dizendo:
     _ Estou selada por toda a minha vida. Tenho que o encontrar e fazê-lo entender que isso nunca
poderia ter acontecido. Só espero que ele seja uma pessoa com mais esclarecimentos, pois o capitão
Edward sofreu muito com suas lembranças tortuosas. Ele foi o único culpado por seu amor ter sido
queimada na fogueira. Após sua morte, jamais aceitou a orientação dos espíritos de sabedoria. Por
fim, desejou reencarnar-se de novo. Mas isso foi só um protesto, pois manteve a sua jura no coração.
Sei que ele anda por aí, procurando-me de alguma maneira. Por isso, nunca consegui gostar de
ninguém. Por isso eu achava que o amor verdadeiro não existia. Minha vida nunca iria ter sentido.
Sou grata a todas por compartilharem comigo todos os seus segredos, por me encaminharem ao
mundo onde descobri minha verdadeira identidade. Realmente voltei muito mais madura e confiante
em mim mesma. Sei agora que ninguém pode mais me humilhar, a não ser que eu permita. Não vou
deixar mais ninguém ser mais do que eu, pois sou parte do universo.
     Todos os que estavam à minha volta, inclusive minha amada Maria, deram um sorriso de
alegria. Dona Ana, depois de ouvir atenta e satisfeita tudo o que eu contava, prosseguiu:
     _ Meus parabéns, minha filha! Aprendeu muito em sua viagem. Agora tem que se preocupar
com seus compromissos espirituais e deve preparar para conhecer o seu amor. Saiba que não será
fácil, pois ele é um monge, e o amor de uma mulher, ainda mais com dons como o seu, nunca lhe
será permitido.
     _ Sim, eu sei. Também não será nesta vida que viveremos o nosso amor com liberdade. Mas o
mais importante é fazê-lo ver que precisa retirar a jura, para que possamos seguir nossos caminhos
em paz.




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     Fizemos uma oração para nos preparamos para a minha volta à casa do moinho. Sentia-me
renovada espiritualmente. Eu havia recebido um compromisso do universo. Eu tinha que vigiar os
meus pensamentos para que não se tornassem palavras, pois palavras mal direcionadas machucam as
pessoas.
     Muitas vezes, devemos conter nossos impulsos antes de sermos sinceros, porque as pessoas nem
sempre estão preparadas para a verdade. A sinceridade está dentro de nossos corações. Na verdade, a
sinceridade de alguns é pura maldade e só serve para machucar o próximo. O silêncio é sempre um
sinal de sabedoria e respeito. Isso foi o que aprendi com a minha viagem.
     Saímos em direção à casa do moinho. A noite estava silenciosa e, no caminho, fui aprendendo a
respeitar o silêncio da floresta: era um sinal de individualidade e oração. Engraçado saber que tudo
ao meu redor tinha o seu momento de falar... A floresta ensinou-me a lei do respeito e do silêncio; os
animais, a obediência e a liberdade. As flores ensinaram-me que o amor pode estar em todos os
lugares, na forma mais simples e bela possível. As pessoas ensinari-me-am todos os dias, com sua
inconstância e individualidade, que vale a pena lutar por uma maneira de viver melhor. Aprendi
comigo mesma que, todos os dias, tínhamos coisas para aprender. Ao chegarmos à casa do moinho,
tomei um bom banho para tirar o cheiro de fumaça e a fuligem que estavam impregnados em mim.
Maria entrou e ajudou-me a vestir. Como estávamos sozinhas, ela perguntou:
     _ E então, como está a mais nova discípula da confraternização da Lua?
     _ Estou muito bem, não poderia estar melhor. Estou apenas um pouco ansiosa para começar o
meu trabalho como aprendiz de bruxa.
     Maria acompanhou-me até a cama e, depois de me cobrir, falou:
     _Tenha calma, minha amiga. Sua viagem foi perfeita e bastante reveladora. Daqui para frente,
tudo será apenas consequência de suas novas experiências e de seus atos. Por isso, lembre-se sempre
de refletir antes de tomar qualquer decisão. Pense bem antes de falar alguma coisa sem ponderação.
Pois palavras também se transformam em atos, e alguns atos catastróficos são o resultado de atitudes
impensadas, levianas, incoerentes e revoltosas.
     Maria baixou a cabeça, em sinal de agradecimento. Com um sinal ainda misterioso para mim,
abençoou-me. No mesmo instante, senti que o sono havia chegado de imediato. Foi quase como uma
hipnose. Simplesmente não pude ver mais nada. Naquela noite, dormi como nunca havia dormido em
toda a minha vida.




     “Felizes aqueles que tiveram compreensão de reconhecer os seus próprios erros. Essa é uma
virtude que faz o ser humano grandioso. A caridade é também uma forma de bem comum, mas tudo
isso deve ser feito sem interrogações ou especulações. Pois o maior dom divino está em ouvir e
servir com humildade, sem querer saber a quem fazemos o bem.”
     (Padre Ângelo Wallejo Moralles).




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus



    Capitulo III - O Livro das Sombras



    E       spreguicei na cama, esticando bem os braços. O Sol entrava pela janela
            harmoniosamente. Percebi movimentos no quarto e levantei a cabeça para ver quem era.
            Maria estava arrumando as malas para o nosso retorno para casa. Decidi ficar mais um
pouco na cama, pois precisava pôr as minhas ideias em andamento.
     Durante aquela noite, tive sonhos que mudariam minha vida. Sonhei com todas aquelas bruxas
que estiveram presentes na minha viagem, inclusive a minha ancestral. Elas vieram em meus sonhos
para me mostrar os símbolos e a história da magia. Eu precisava contar para Maria, mas teria que ser
prudente, pois as bruxas do meu sonho não me deram permissão para que eu contasse alguns
segredos que elas me revelaram.
     O sonho que tive deu-me a sensação de ser real. Participei de uma espécie de cerimônia
religiosa, e as bruxas fizeram-me jurar que guardaria segredo de algumas coisas que me foram
reveladas. Sonho ou realidade, eu não poderia trair minhas irmãs de alma, pois me tornei parte de um
grande clã. Nunca me arrependi de ter escolhido o caminho da Lua como uma opção de vida. Ter-me
tornado uma bruxa foi uma grande honra. Eu estava pronta para assumir qualquer responsabilidade
que surgisse.
     Mas, por outro lado, tinha a certeza de que, se eu traísse as leis da ordem, pagaria um preço
muito alto. A minha maior preocupação naquele momento foi de, sem querer, trair a mim mesma.
Porque conseguimos esconder segredos das outras pessoas, por uma questão de ética, moral e
fidelidade – mas, sem querer, por causa da nossa vaidade, traímos a nós mesmos. Isso acontece
porque, atrás da nossa felicidade, sempre vem o exibicionismo de querer parecer melhor do que os
outros. O meu sangue jovem corria em minhas veias como as larvas de um vulcão pronto para
explodir. Minhas emoções estavam à solta - isso poderia ser perigoso, caso a vaidade tomasse conta
de mim.
     Sabia que, se contasse a Maria, poderia com certeza contar com a sua discrição. Mas eu havia
feito um juramento de silêncio e não poderia nunca quebrá-lo. Isso sem contar que Maria poderia
falar sobre o meu segredo com o meu pai, caso ela fosse interrogada. Pois, assim como eu, ela fez o
juramento de nunca mentir. Portanto, de jeito algum eu poderia colocar a vida da minha melhor
amiga em risco. O meu maior objetivo, então, passou a ser como proteger Maria sem que ela
soubesse e ficasse magoada comigo, por estar lhe escondendo um segredo.
     Meu tempo estava curto, pois meu destino estava pronto a se consumar. Senti-me como o mestre
Jesus, que soube exatamente quando iria ser entregue nas mãos de seus algozes. A traição é uma
ferida que chega antes que o coração pare de funcionar, e faz doer na alma por toda a eternidade.
Não sabia quem iria me trair, mas sabia que seria alguém muito próximo a mim. Porque sempre
quem nos trai são as pessoas mais próximas de nós, as que mais amamos e em quem confiamos.
Pessoas como Judas Escariotes, que traiu Jesus com um beijo. Geralmente, os traidores são pessoas
que só conseguem ver um lado da moeda, e cuja ambição é o único valor que conseguem enxergar.
O traidor é individualista: maquina sozinho e não pede ajuda para enfiar o athame do ódio no
coração do seu alvo. E é egoísta porque não vê que o seu próximo também é um indivíduo e que
merece respeito por ter suas próprias ideias.
     De repente, senti-me frágil e indefesa por ter me descoberto tão perto da morte. Esse seria o meu
preço a pagar: teria que viver no silêncio e na solidão para o resto da minha vida. Embora sempre
tivesse sido uma pessoa solitária, agora era diferente. Pois eu guardava segredos que, se
pronunciados em voz alta, colocariam em risco a vida de todos que eu amava e também de todos que
me cercavam.




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     Tinha muitas ideias a serem colocadas em prática, mas tinha que ser cautelosa, porque, além de
o tempo estar curto, poderia acabar sendo mal interpretada pelas pessoas próximas a mim. Quando
nossas ideias e opiniões tornam-se diferentes das ideias e opiniões dos demais, podemos ser
considerados loucos. O que não quer dizer que temos que seguir a regra da mesmice - afinal, a única
opinião importante é a da nossa consciência.
     Sabia que teria que trabalhar também o meu ego. Não poderia deixar a vaidade tomar conta de
mim. Mas, principalmente, teria que dominar o medo do que as pessoas poderiam dizer a meu
respeito, pois sabia que elas diriam que eu estava possuída por um espírito imundo e maligno. Na
verdade, as pessoas fazem esse tipo de coisa para tentar encobrir os seus próprios delitos, e sempre
encontram alguém para lhes servir de Cristo. Pois é muito mais fácil seguir um padrão ético e moral
para não contradizer os ditadores de regras, do que aprender a pensar por si próprio.
     Pensando em todas aquelas consequências, estava decida definitivamente a proteger Maria.
Sabia que minha melhor amiga também não seria poupada pela Inquisição e por todos aqueles que se
julgavam sem mácula. Se os adeptos da Santa Madre Igreja colocassem as mãos em Maria, por certo
a fariam confessar coisas que ela nunca havia feito, deixando para ela apenas a morte como opção de
salvação.
     Fiquei olhando-a, em silêncio, enquanto ela arrumava as malas para o nosso retorno. Ela era
mesmo muito especial, pois sempre se dedicou à minha família e cuidou de mim, sem nunca sequer
pensar em nos abandonar. Maria abdicou de toda a sua juventude e de seus sonhos. Sabia que ela era
merecedora de toda a felicidade do mundo e, por isso, senti-me na obrigação de ajudá-la de alguma
maneira. Nunca poderia pensar em deixar Maria ser prejudicada pela decisão que eu teria de tomar
em um futuro próximo.
     Ela terminou de arrumar as malas e saiu do quarto. Parecia não ter percebido que eu estava
acordada - o que me deu tempo para escrever, no meu diário, todas as coisas que eu havia aprendido
com as bruxas durante o sonho. Assim que Maria fechou a porta do quarto de Bernadete, peguei o
diário e fui folheando aquelas páginas aparentemente vazias, para que a inspiração me fluísse à
mente. Ao abri-lo, fiquei maravilhada com a luz que saiu de dentro dele e que quase me deixou cega.
     Por certo Bernadete não sabia, mas seu avô estava com razão ao dizer que o diário era mágico.
A cada página que eu ia folheando, ele me dava, por si só, as figuras e os desenhos que ajudaram
com que eu me lembrasse do meu sonho quase acordada da noite anterior. Era como se ele lesse as
imagens que estavam na minha mente. O diário era pequeno, mas suas páginas pareciam nunca
acabar. Por trás daquela aparência singela e humilde, ele respondia todas as minhas perguntas de
uma maneira sábia e simples.
     Na verdade, todos aqueles segredos que me foram revelados em sonho já estavam guardados
dentro do meu inconsciente. Apenas se afloraram quando regressei da viagem. Aprendi, com isso,
que todos temos dentro do nosso inconsciente as memórias das nossas vidas passadas. Todos temos,
por obrigação, que tentar lembrar ao menos alguns desses fatos que nos ocorreram, pois eles nos
ajudam muito no nosso presente.
     No meu sonho, as bruxas também me mostraram o maior de todos os livros já escritos pelas
mãos de um místico: o livro das bruxas, também conhecido como o livro das sombras ou livro dos
feitiços. O meu diário era mágico e, na medida em que ia me tornando mais íntima dele e merecedora
de sua confiança, ele ia me mostrando alguns dos segredos que existiam dentro do grande livro das
sombras. Tais segredos nunca haviam sido revelados a nenhuma outra bruxa antes.
     O livro das sombras havia sido escrito por um dos magos mais poderosos de todos os tempos,
cujo nome nem mesmo em meus sonhos tive autorização para pronunciar, pois era um nome tão
poderoso que poderia abrir as portas do tempo. A capa do grande livro era feita de madeira de lei, e
ossos polidos foram usados para fazer a sua fechadura. O livro era forrado por uma couraça
misteriosa, parecia couro de um dragão. Suas folhas eram feitas de papiro e já estavam muito
amareladas e sensíveis devido ao tempo. Foi de grande valia ter descoberto que esse livro - também




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um documento histórico - desapareceu misteriosamente. Com o passar dos anos, muitos de meus
ancestrais desistiram de procurá-lo, porque, em torno do seu desaparecimento, sugiram lendas de que
o grande livro era protegido por forças ocultas malignas, e seu conteúdo só poderia ser lido por
alguém muito especial e de coração muito puro.
      O livro das sombras era a coisa mais incrível que os meus olhos já poderiam ter visto. A chave
do grande livro foi feita toda de ouro maciço, cuja forma era de uma estrela de seis pontas. Esse livro
tinha oitocentas páginas de pura sabedoria e cultura milenar. Seus muitos símbolos e a sua tradução
eram quase impossíveis de serem lidos, pois era escrito em uma língua muito antiga e estranha,
chamada aramaico. Uma língua somente usada nos tempos de Jesus Cristo. Os símbolos e fórmulas
que a mim foram revelados, embora muito antigos, não me eram totalmente estranhos. Aliás, o livro,
de alguma maneira, pareceu-me muito familiar. Talvez em alguma outra de minhas encarnações ele
já tivesse sido manuseado por mim.
      Naquela manhã, especificamente, considerei-me uma pessoa especial por ter recebido das
minhas ancestrais tanta informação e tanta sabedoria, e por também ter ganhado aquele diário
maravilhoso. Só tinha a agradecer aos céus e aos deuses por terem me cedido a honra de ter
conseguido tantos amigos especiais e generosos.
      Precisava contar aquele fato novo sobre o diário a Bernadete. Não queria esconder da minha
mais nova amiga que o presente que ela havia me dado com tanto carinho tinha aqueles poderes
extraordinários. Sentir-me-ia uma traidora se escondesse esse fato dela.
      Escrevi no meu diário tudo o que achei necessário contar para as minhas gerações futuras.
Mesmo que houvesse mudanças no tempo, minhas irmãs também precisavam saber que, no meio de
tanta dor e preconceito, ajudamos de alguma maneira a escrever a história de uma nação. Queria que
elas soubessem, também, o valor de uma amizade verdadeira e que, embora não pudéssemos voltar
no tempo, sempre temos a obrigação de encontrar o nosso verdadeiro amor - mesmo que, para isso,
tenhamos que nos abdicar de uma vida feliz ao lado dessa suposta pessoa. Pois, como já citei,
ninguém pode ser obrigado a nos amar. Ressalto, ainda, que o amor pode aparecer em nossas vidas
de várias maneiras, podendo ser ele um parente próximo, um grande amigo ou até um desconhecido
que por nós tenha uma grande afinidade. Mas uma coisa é certa: temos que aprender a reconhecê-lo e
aceitá-lo da maneira com que nos for encaminhada, sem tentar forçar nada através de um sortilégio.
      O maior perigo de um sortilégio é não pensar nas consequências que pode ocasionar: talvez uma
verdadeira catástrofe futura na vida de uma pessoa que, muitas vezes, é inocente. Convenhamos: se
uma pessoa nos fez algum mal, por que temos que pagar tudo com a mesma moeda? Estamos nesta
vida para nos aperfeiçoar. Tudo na vida tem um preço. Por isso, não é necessário usar magia para
fazer uma vingança. Ao consultar uma bruxa, tenha certeza do que realmente seu coração quer. A
magia não pode e não deve ser usada para vingança, vaidade, ou um mero capricho. É por isso que
uma bruxa só deve fazer um feitiço para um consulente que realmente saiba o que quer - o que
raramente acontece, pois os seres humanos são muito indecisos e inconstantes em suas vontades e
decisões.
      O preço para quem usa a magia inadequadamente é a solidão. É aconselhável nunca fazer um
sortilégio de amor, porque, muitas das vezes, os consulentes podem simplesmente estar envolvidos
pela emoção passageira. Ou o que é pior: pelo capricho e pela arrogância de terem sido desprezados
por seus supostos companheiros. Toda pessoa que pede um sortilégio é uma pessoa incapaz de
conquistar por si só qualquer coisa ou alguém. Ou o que é ainda pior: pode estar com o seu orgulho
ferido. Pode, também, ser uma pessoa muito ansiosa - o que atrapalha o sortilégio, em todos os
sentidos. Portanto, a bruxa deve ser conhecedora de todos os poderes da magia, e também deve tentar
sondar para saber se o consulente é uma pessoa apenas movida pela vingança ou se é uma pessoa
sincera e realmente necessita ajuda.
      Qualquer sortilégio é muito perigoso, pois devemos nos lembrar de que estamos interferindo no
destino de alguém. Ressalto, ainda, que, se não houver um pouquinho de sentimento da outra parte, o




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sortilégio não funciona. Sem contar que a pessoa pode estar muito bem amparada espiritualmente -
ou seja, pode ter uma fé inabalável. Esse tipo de situação pode atrasar o sortilégio, ou o
relacionamento que o consulente já tenha com o seu suposto parceiro pode ser desmoronado.
     Na hora em que um feitiço é feito, a paciência do consulente é testada. Um sortilégio pode
demorar até anos a se realizar, mas nunca falha. Basta que o consulente saiba que o tempo dos
espíritos não é o mesmo que o nosso. Com isso, o consulente pode acabar achando que, pelo fato de
o feitiço estar demorando, ele não irá funcionar. Não devemos nunca nos esquecer que um fiel
consulente pode se virar contra a própria bruxa de quem pediu ajuda - por simplesmente achar que
ela nada fez por ele, ou simplesmente por medo de ser considerado um adorador do diabo pela
Inquisição. Portanto, todo cuidado é pouco. Tudo é um risco.
      Na verdade, toda e qualquer pessoa tem que ser esclarecida de que mexer com o destino de
alguém, além de ser perigoso, é arriscado. Pois, com isso, estamos aprisionando o anjo da guarda
dela. Não creio que aprisionar anjos seja uma boa ideia, pois os anjos são generosos e bons, mas
podem ser vingativos quando irados. Como já disse antes, toda moeda tem seus dois lados. Isso se
aplica fielmente à magia.
     Um consulente nunca deve, por si, tentar fazer um feitiço - seja ele para o bem ou para o mal.
Deve sempre pedir ajuda de uma bruxa ou de um mago, pois são pessoas preparadas para lidar com
as forças ocultas.
     As pessoas dizem algo muito peculiar da fé: que ela, aliada à coragem, pode mover montanhas.
Já eu, digo que o medo muitas vezes nos impede de cometer um terrível engano. Ser corajoso nem
sempre é o caminho. Pois, no ímpeto e na ansiedade de vencer, o consulente não percebe que a faca
afiada do inimigo o espera na retaguarda. Acredito que até mesmo os grandes heróis tiveram medo, e
isso com certeza os fez pensar em uma estratégia de vitória. Nesta vida, temos que ter a ciência de
que há tempo para tudo, inclusive o tempo de refletir sobre as nossas prováveis ações. Prejudicar
espiritualmente uma pessoa é garantir que ela, após sua morte, se torne nosso algoz. A mesma pessoa
pode nos perseguir até a nossa próxima encarnação.
     Embora não tivesse me permitido contar sobre todas as coisas que me foram ensinadas pelas
bruxas do meu sonho, espero ter conseguido passar para as minhas irmãs uma rápida ideia do que
realmente é ser uma bruxa. E que elas passem para as suas futuras gerações a grandeza e a honra de
terem nascido com um dom especial. Espero que minhas irmãs façam uso dos poderes que lhes
foram dados com muita sabedoria, e que elas sempre lutem pelo direito de liberdade de expressão e
de religião.
     Algumas das coisas que aprendi com a minha ancestral e com as bruxas, através do meu sonho,
estão nessas linhas. São coisas como os símbolos tradicionais da boa magia e os seus significados,
entre outras coisas que achei serem muito úteis para as futuras bruxas. Achei interessante começar
pelo livro das sombras, pois muitas bruxas não sabiam como usá-lo e para que realmente ele servia.
      O Livro das Sombras é um diário usado por praticantes da magia em rituais místicos. É como o
diário de bordo de um navio: indispensável, irrevogável, individual e intransferível. É o manual da
bruxa, o seu tricô, a sua essência. Só deve ser escrito pela própria mão do praticante e deve ser
escolhido com carinho e seriedade. Eu havia ganhado o meu, e estava extremamente satisfeita, pois,
na verdade, ele me escolheu.
     A flor de lótus foi muito usada na época da Inquisição como a marca das condenadas,
principalmente na França do século XV. Mas algumas bruxas dos séculos XVI ao XVIII
continuaram a usar esse símbolo desenhado em seus corpos, como uma forma de respeito pelas irmãs
que morreram queimadas na fogueira. Da flor de lótus era extraído um chá poderosíssimo que,
diziam, enlouquecia os homens. A flor de lótus também era conhecida como nelumbo nucifera,
lótus-egípcio, lótus-sagrado e lótus da Índia. É nativa do sudeste da Ásia. Muitas pessoas morreram
por causa dela, inclusive grandes homens ligados à ciência.




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     A taça é o símbolo da deusa. Representa o ventre da mulher, o princípio da vida feminina. Sua
energia está relacionada ao elemento água e à pureza. É muito usada nos rituais e sabás, como
recipiente para água ou para o vinho consagrado. É um instrumento que nunca perde o seu lugar no
circulo mágico, e é posicionada ao leste. A taça pode ser feita de vários materiais, como prata,
bronze, ouro, barro, alabastro, cristal, entre tantos outros. Porém, é recomendado que seja de prata.
Seus desenhos ou símbolos variam de bruxa para bruxa.
     A espada desempenha o corte simbólico ou psíquico, especialmente quando é usada para
desenhar o círculo mágico, isolando o espaço imaginário dentro dele. Além de traçar círculos,
exorciza o mal e as forças negativas. Também é tradicional que seu cabo tenha símbolos mágicos de
força e de luta. A espada é um sinal de reverência à Santa Joana D’Arc: é o respeito dos homens aos
mortos em batalhas travadas pela Igreja em ascensão.
     O athame é uma adaga, obrigatoriamente de cabo preto, usada em algumas linhas de bruxaria.
Ele também é utilizado para lançar o círculo mágico, para traçar emblemas mágicos no ar, para
direcionar a energia e para controlar e banir espíritos que não devem invadir nosso mundo físico. As
origens da palavra athame foram perdidas na história: alguns diziam ter vindo de a chave de
Salomão, que se refere à faca como arthana, enquanto outros afirmam que athame vem da palavra
árabe al-adhamme, ou seja, é uma faca sagrada usada na tradição mourisca. Em qualquer um dos
casos, há manuscritos datados do século XI que abordam o uso de facas em rituais da magia. O uso
de uma faca sagrada em ritos pagãos é bastante antigo. Certa vez, quando ainda era criança, lembro-
me de ter visto um desenho em um vaso grego, datado de aproximadamente 200 a.C., que mostrava
duas bruxas nuas tentando invocar os poderes da Lua para sua magia. Uma delas estava segurando
uma varinha, e a outra segurava uma pequena espada. Aquela obra magnífica ficava guardada no
sótão de minha casa, junto aos pertences de minha mãe.
     A cruz é o símbolo do cristianismo e, em toda a parte do mundo, ela representava para nós,
bruxas, os quatro elementos: a terra, o fogo, o ar e a água. Mas quando alguém usava a cruz torta,
pendurada à Soleira da porta, significava que havia uma bruxa por perto. Pura superstição, pois nós,
do grande clã, consideramos isso um sinal de igualdade entre as irmãs de consagração. Para os
leigos, é um sinal de paganismo e foi motivo para a excomunhão de muitos inocentes.
     A faca de cabo branco, por vezes chamada de bolline, é simplesmente uma faca prática de
trabalho. Ao contrário da pura e ritualística faca mágica, só a utilizamos para cortar galhos ou ervas
sagradas, escrever símbolos em velas ou na madeira. Normalmente possui cabo branco para
distinguir-se da faca mágica.
     O homem vitruviano, também chamado de cânone das proporções, é usado por algumas de nós
como um mapa. Essa ideia tão grandiosa foi criada por volta de 1490 e estava em um dos diários de
Leonardo Da Vinci. Toda a cura que praticamos é dimensionada através dos chakras e das linhas
imaginárias. Essas linhas imaginárias somente podem ser vistas pelas bruxas curandeiras. Todo o
segredo da existência humana está dentro do mapa do corpo humano, e Leonardo Da Vinci
descreveu isso em suas ilustrações. Sua referência estética e simétrica proporcionou-nos saber, com
exatidão, os pontos alfas ou chakras de um consulente doente. O homem vitruviano também foi
muito usado pelas feiticeiras para fazerem seus vodus em rituais de magia negra.
      Leonardo Da Vinci engloba o homem vitruviano em um todo, mas o que poucos sabem é que
essa forma é uma resposta para um desafio matemático. Algo como uma parábola ou uma senoide
para aquele incrível inventor, que foi, com certeza, um alquimista das ideias.
     Para nós, as bruxas, o homem vitruviano é um pentagrama humano e, na magia, o símbolo do
pentagrama é geralmente desenhado com a ponta para cima, a fim de simbolizar as aspirações
espirituais humanas. Um pentagrama voltado com duas pontas para cima é um símbolo do deus
cornífero, mas representa também a matéria sobre o espírito. Por isso, é muito usado. Muitos
supersticiosos acreditavam que representávamos com o pentagrama o lado negro da magia - o que
nem sempre é verdade. Esse tipo de pentagrama representa o próprio corpo, os quatros membros e a




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cabeça, bem como as representações primordiais dos cinco sentidos, tanto interiores como exteriores.
Além disso, representa os cinco estágios da vida do homem. O pentagrama - ou a estrela de cinco
pontas -, ao contrário do que dizem, não é um símbolo satânico. É um símbolo muito antigo e muito
usado até pelo filósofo Pitágoras, e também por seus seguidores, que o usavam para simbolizar o
respeito pela beleza da matemática do universo.
     Em muitos lugares e épocas, foi utilizado como um símbolo geométrico sagrado. O fato de
satanistas usarem o pentagrama não significa que eles são bruxos - da mesma forma como usam o
crucifixo e não são cristãos. O pentagrama é conhecido, também, como tentáculo ou cruz dos
gnomos.
     Uma estrela de cinco pontas circunscrita em um círculo representa os quatros elementos místicos
da natureza: o fogo, a água, o ar e a terra, superados pelo espírito da quintessência.
     Na antiga arte da magia, meus ancestrais geralmente usavam o pentagrama como um
instrumento de proteção ou uma ferramenta para evocar os espíritos. O pentagrama fechado existe
desde os princípios dos tempos. Ele é usado para nos proteger dos inimigos e também serve como
portal para evocar forças ocultas. Por isso, sua simbologia é múltipla e fundamentada pelo número
cinco, que exprime a união dos desiguais.
     Muitas feiticeiras usaram o pentagrama indevidamente. Por isso, dizia-se que elas conseguiam
abrir os portais do inferno com ele. Os mesopotâmios tinham o pentagrama como símbolo imperial.
Entre os hebreus, foi designado como a verdade para os cinco livros do velho testamento. Por isso, o
pentagrama foi muitas vezes chamado incorretamente de selo de Salomão. A magia tem dois lados.
Portanto, qualquer símbolo pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal. Isso dependerá
apenas de seus praticantes, pois os símbolos por si só não podem fazer nenhum mal. Logicamente,
isso é uma escolha bastante singular, pois nós é que devemos ter a real consciência de qual lado
estamos.
     Por inúmeras vezes, quando eu era criança e frequentava a igreja cristã, li sobre uma citação no
evangelho que nos ensina a não acender velas para dois senhores. O propósito dessa citação é que
isso causa desequilíbrio entre os dois mundos astrais. Esse desequilíbrio pode abrir um portal, dando
passagem a espíritos desordeiros.
     O Pentáculo é um prato de metal ou de madeira, com um pentagrama cravado dentro de um
círculo. Esse objeto é muito utilizado na consagração de diversos instrumentos ritualísticos, como as
ervas e os amuletos, sendo utilizado, também, como um ponto de concentração nos rituais.
     O hexagrama, ou selo de Salomão, é um antigo e poderoso símbolo mágico. Consiste em dois
triângulos entrelaçados, um voltado para cima e o outro para baixo. O selo de Salomão simboliza a
alma humana. É utilizado por bruxas e magos em cerimoniais de encantamentos ou conjuração de
espíritos. É um símbolo de sabedoria, de purificação e reforça os poderes psíquicos. Os judeus
também foram perseguidos por causa dele, usado na santa cabala. A estrela de cinco pontas ou
estrela de David forma outro pentagrama, dividido por duas estrelas que chamamos de invocante e
evanescente. Quando queremos invocar as energias da deusa do deus cornífero, ou das entidades dos
quadrantes para selar algum tipo de encantamento, traçamos o pentagrama chamado de invocante. Os
instrumentos usados são: o bastão, a varinha, o athame ou dedo médio, para fazer movimentos
circulares no espaço físico.
      Quando queremos banir, dispersar e exterminar qualquer tipo de energia ruim, usamos o
pentagrama evanescente. O Pentagrama evanescente é traçado de maneira contrária a do invocante -
lembrando que um pentagrama pode ser aberto ou fechado, dependendo para o quê fosse usado.
     O triângulo é um símbolo de manifestação finita na magia ocidental, sendo usado em rituais para
invocar os espíritos quando o selo ou sinal da entidade a ser invocada está no centro do triângulo. O
triângulo é equivalente ao número três, ou número mágico poderoso, que é o símbolo sagrado da
Deusa tripla virgem, mãe e anciã. O triângulo invertido simboliza o princípio masculino. Se,
mentalmente, meditarmos um triângulo e dentro dele entrarmos, conseguiremos livrar-nos dos maus




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pensamentos e de outras coisas que insistem em invadir nossa mente. O triângulo é uma forma que
temos de calar os pensamentos ruins. É a maneira mais simples que podemos usar em qualquer lugar,
sem que ninguém perceba. Também serve para fugirmos de energias negativas, que algumas pessoas
lançam através de suas palavras.
     Os espirais são dois: o espiral de evocação e o espiral de banimento. Os espirais são outra forma
de invocar ou banir energias espirituais. Podem ser usados com os mesmos propósitos dos
pentagramas invocante e evanescente. O espiral de invocação é muito utilizado para carregar
instrumentos, amuletos, talismãs, entre outros. Já o espiral de banimento é usado para o banimento
da negatividade, sugando e transmutando as más energias. Esses símbolos são da forma dos seios de
uma mulher. Na verdade, na magia, quase todas as representações geométricas são inspiradas em
nós, mulheres.
     O fogo é o elemento da mudança, da vontade e da paixão. Em certo sentido, contém todas as
formas de magia, pois é o processo de mudança. A magia do fogo pode ser assustadora: os resultados
manifestam-se de forma rápida e espetacular. O fogo não é um elemento para os fracos. Entretanto, é
o principal e, por isso, o mais usado. Este é o reino da sexualidade e da paixão. O fogo não
representa apenas o fogo sagrado do sexo, mas também a faísca da divindade, que brilha dentro de
nós e de todas as coisas vivas. Ele é, ao mesmo tempo, o mais físico e o mais espiritual dos
elementos.
     A vela, ou lume, também simboliza o elemento fogo. Porém, é o símbolo do seu pedido de
oração, pois enquanto vai se queimando, a fumaça leva o seu pedido para que ele se misture ao
elemento ar – fazendo, assim, com que os seus desejos se realizem.
     A terra representa a mãe, de onde tiramos nosso poder e nossa força. É o elemento do qual
somos mais próximos, é a nossa casa. A terra não representa necessariamente a terra física, mas
aquela parte que é estável e sólida, da qual dependemos. A terra é o reino da abundância,
prosperidade e riqueza. Ela é o mais físico dos elementos, pois todos os três se apóiam sobre ela. A
terra, para nós, é a força maior: a mãe, aquela que gera e nos permite a sobrevivência e a procriação.
Muitos diziam que a terra calou-se para que pudéssemos fazer do seu corpo a nossa morada. Mas ela
nos fala todos os dias, da forma mais maravilhosa já criada por Deus para se expressar. Fala-nos
através das suas plantas e da sua beleza. Só que nunca temos tempo para observar seus sons... O som
do mundo está sempre presente. É só fechar os olhos e desligar-se de todos os outros sons à nossa
volta para podermos escutá-lo. É um som quase mudo, mas muito presente.
     O vento ou o ar é a alma do mundo, o mensageiro, a vida, o sopro de Deus. Muito usado em
evocações para apaziguar tempestades e tufões. Podemos enviar uma mensagem para alguém através
do vento, caso a pessoa esteja em sintonia total conosco. O vento é o elemento do intelecto, é a
realidade do pensamento, é o primeiro passo para a criação. Também é o movimento, o ímpeto que
manda a visualização na direção da concretização, governando os feitiços e rituais que envolvem a
viagem, instrução, liberdade, obtenção do conhecimento, encontrar itens perdidos, descobrir
mentiras... e assim por diante. O vento também pode ser usado para ajudar no desenvolvimento das
faculdades psíquicas. O ar é masculino, seco, expansivo e ativo. É o elemento que se sobressai nos
locais de aprendizagem. O ar governa o leste, pois é a direção da maior luz: a da sabedoria e da
conscientização. Sua cor é o amarelo do Sol e do céu na aurora. O ar governa a magia dos quatro
ventos de concentração e visualização, bem como a maioria das magias adivinhatórias.
     A água é o espírito purificador, a fonte de limpeza espiritual através do corpo para a alma, pois
sempre a usamos em banhos de purificação. É o elemento da absorção e germinação. O
subconsciente é simbolizado por ela, pois está sempre em movimento, como o mar que nunca
descansa - quer seja noite ou dia.
     O caldeirão é um dos objetos mais essenciais: com ele, fazemos nossos rituais, entre tantas
outras coisas. Ele está sempre acompanhado de uma colher de pau e um livro de receitas especiais.
Esse objeto é intransferível e de uso exclusivo da pessoa que irá praticar o suposto ritual. Ninguém




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

mais deverá manuseá-lo além da própria bruxa em questão. O caldeirão é o instrumento da bruxa por
excelência. Um antigo recipiente culinário, imbuído em mistério e tradições mágicas. O caldeirão é o
recipiente no qual ocorrem as transformações mágicas. Tem um significado muito especial: é o
símbolo máximo da Deusa: é seu útero, sua essência e feminilidade manifestada, a sua fertilidade.
Está relacionado com os elementos água e fogo. Situa-se ao centro do círculo mágico e do altar. É,
também, um símbolo da reencarnação, da imortalidade e da inspiração. O caldeirão é geralmente o
ponto central dos rituais. Toda bruxa que se prezasse teria que ter um caldeirão consigo. A lenda
antiga também castigou esse elemento, pois diziam que cozinhávamos crianças nele - blasfêmia e
heresia contra o ser humano. Nunca praticávamos canibalismo ou qualquer outro tipo de feitiço em
adoração ao demônio. Muitas vezes, íamos ao bosque pegar raízes para o tingimento de nossas
roupas, mas algumas dessas raízes eram de um odor muito forte depois de cozidas. Por isso,
colocávamos nossos caldeirões no meio da mata - o que gerou muitas lendas em torno de nós.
     O gato preto é um símbolo da capacidade de meditação e recolhimento espiritual, autoconfiança,
independência, liberdade e plena harmonia com o universo. Esse animal sempre foi visto ao lado de
uma feiticeira, e os supersticiosos acreditavam que o mascote era uma bruxa disfarçada. Com isso, as
feiticeiras transitavam livremente, enquanto levávamos a fama de malvadas.
     O símbolo do gato preto era utilizado pelos médicos egípcios para anunciar a sua capacidade de
cura, onde Bastet, sua deusa, é representada como uma gata preta, e foi uma das divindades mais
veneradas no antigo Egito. Bastet é a Deusa protetora dos lares e da família. Protetora dos gatos, das
mulheres, da maternidade, da cura. Era guardiã das casas e feroz defensora dos seus filhos,
representando o amor maternal. O gato tem uma grande ligação com a Lua. Os Olhos de Bastet
podem ver através da escuridão, assim como os do gato. Alguns espíritos, entidades ou passantes -
como os chamam os espíritos mais superiores - costumam referir-se aos animais de estimação como
sacrifícios, mas não são todos. O gato, em si, independente da cor, vive em dois mudos paralelos. Ou
seja: o gato está interligado entre o mundo espiritual e o mundo real.
     A Bola de Cristal é também um instrumento das artes adivinhatórias. É muito popular entre os
videntes ciganos. A cristalomancia é também muito praticada pelas bruxas em magias, mas com um
propósito ainda maior. É por onde nos comunicamos com a grande deusa mãe. Por onde recebemos
as mensagens da deusa, que fortalece e orienta as bruxas. A Bola de Cristal reflete mensagens,
ajudando-nos a descobrir mais sobre o nosso mundo interior.
     O baralho do tarô tem o mesmo efeito da bola de cristal: também o usamos para prever o futuro.
Mas devo ressaltar que todo objeto de clarividência deve ser mantido como particular e
intransferível. O primeiro baralho conhecido foi pintado pelo artista Jacquemin Grigonnur, em 1392,
para a coroa francesa. Deste maravilhoso trabalho sobraram apenas dezessete cartas, que foram
guardadas na biblioteca nacional de Paris, com data de entrada do século XV. Com as mudanças na
Europa, surgiu uma série de baralhos, especialmente na Itália. Graças a Deus, ganhamos esse
fabuloso auxiliar da magia. Nunca devemos nos esquecer de que as cartas não mentem jamais. Mas
nem tudo pode ou deve ser revelado ao consulente, pois a pessoa, em si, muitas vezes, não está
preparada para ouvir a verdade.
     Uma bruxa sábia deve ter consciência de que tudo gera uma consequência na vida do
consulente. Muitas vezes, ao dizermos que o marido de uma consulente a está traindo, podemos estar
destruindo um lar supostamente feliz. E a felicidade varia de pessoa para pessoa: cada um tem o seu
lado de ver e aceitar as coisas. O que para nós pode parecer errado, para alguns é a coisa mais correta
desta vida. Não temos o direito de separar um casal, ou de desgraçar a vida de um consulente. Afinal,
que mulher não tem suas próprias intuições? Vendo por esse ângulo, sabemos, em nosso interior, que
uma mulher só fica na ignorância caso ela queira. Isso sempre acontece, porque a maioria das
mulheres permanece nesse tipo de situação por, muitas vezes, lhes ser conveniente, ou porque não
têm mesmo outro lugar para onde irem.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     Quando uma bruxa revela a verdade, pode até ser mal interpretada e vista como mentirosa, pois
existem muitas coisas que um consulente não quer enxergar. Deixar as coisas como elas são não é
ser conivente: é permitir que o destino do consulente cumpra-se por si só. Não temos o direito de
interferir no destino de um consulente, a não ser para ajudar e salvar a vida de alguém - mas isso é
apenas uma exceção. Deixar que as coisas aconteçam naturalmente é a melhor maneira de deixar o
consulente aprender a como lidar com seus próprios erros. É assim que a vida funciona. É a lei da
sobrevivência.
      Os cristais e as pedras servem para banhos, para meditar, orar, curar, energizar ambientes,
plantas, animais e pessoas. Devemos sempre ter um cristal só nosso. Podemos andar diariamente
com o cristal junto ao corpo, usando-o como um talismã ou, caso não quisermos que alguém o veja,
pode-se guardá-lo dentro da roupa íntima. Mas, uma vez ou outra, devemos tocá-lo para que ele se
sinta amado e lembrado. O cristal tem vida própria e sente-se carente quando se sente sozinho. Os
cristais transmitem-nos muito mais energia do que recebem de nós. Na verdade, é uma espécie de
troca, porque eles nos emitem em dobro, em triplo e, às vezes, até em décuplo as energias que lhes
damos. Por isso, precisa ser muito amado. Não escolhemos um cristal. Ele nos escolhe.
     Os cristais e as pedras são parte da natureza, sendo que eles, pela pureza, são mais poderosos e
mais iluminados que nós. Essa fonte de energia natural recebe a perfeição e a harmonia do cosmos.
Se nos conscientizarmos disso, procuraremos trabalhar mais com eles, pois seus benefícios serão
incontáveis. Para tanto, basta desenvolvermos nossa intuição, nossa sensibilidade, nossos
sentimentos e nossas virtudes. Assim, canalizaremos todo o bem e, com eles, faremos um universo
melhor.
     Uma bruxa, através dos cristais, pode tentar entrar em um estado temporal - isto é, ver o
presente, o passado e o futuro. Mas, para fazer brilhar a luz temporal, é necessário ficar em estado de
meditação com os cristais, pelo menos dez minutos ao dia. Como recurso auxiliar, podemos usar
músicas e velas. Mas, antes de usar seu cristal, não se esqueça de que ele deve ser energizado,
colocando-o em uma ânfora de prata ou louça. Leve-o para a janela em noite de Lua cheia e deixe-o
dentro d’água, com sal e ervas aromáticas, para que ele receba da mãe Lua toda a sua energia. Repita
o mesmo pela manhã, expondo o cristal à luz solar. Depois de fazer esse pequeno - mas muito
significante - ritual, seu cristal estará pronto para ser usado.
      O ankh é um antigo símbolo egípcio que nos lembra uma cruz, encimado por um laço.
Simboliza a vida, o conhecimento cósmico, o intercurso sexual e o renascimento. Também é
conhecido por vários bruxos como cruz ansata. O ankh é muito usado por várias bruxas para
encantamentos e rituais que envolvem saúde, fertilidade e divinação.
     A triluna simboliza sagrada donzela, mãe e anciã. Tem as três faces femininas e é muito
utilizada em rituais de invocação à grande deusa mãe e deidades lunares.
     O círculo - ou portal - representa o poder sagrado feminino, a mãe, a terra e o espaço. É o
símbolo universal de totalidade e união. O círculo sempre representa a deusa e é identificado pelo
elemento terra.
     A vassoura, embora muitos ignorantes a associassem a um ser vivo, cheio de poderes, isso nunca
foi verdade. Ela é, para nós, como o cajado de Moisés. Usamo-la para varrer o espaço físico antes,
durante e depois dos rituais. Nos rituais de casamento, a vassoura representa um pacto, pois ela é o
símbolo da união da deusa com o deus. Conta-nos a lenda que, se uma vassoura cair ao chão, é um
sinal de que receberemos uma visita masculina em casa. Nas noites de Lua cheia, algumas bruxas
colocavam suas vassouras do lado de fora para espantar os maus espíritos. Minhas ancestrais
sofreram muito no passado por causa desse utensílio doméstico, pois os cristãos contavam horríveis
histórias e lendas. Como, por exemplo, a de que, em noite de Lua cheia, especificamente no dia 31
de outubro de cada ano, nós, bruxas, saíamos voando em nossas vassouras, à procura do primogênito
de cada família para, assim, o devorarmos. Com esse estranho e bizarro ritual, diziam que ficaríamos
mais fortes e poderosas.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     A mente humana é incrível, pois é capaz de criar qualquer coisa. Mas nunca cria algo
construtivo e apaziguador. Por causa dessas histórias, muitas mulheres morreram em Salém e em
outros países da Europa. É muito triste pensar em quantas pessoas inocentes foram condenadas
somente por causa de lendas criadas por pessoas com a mente fértil e maldosa. Essas histórias
também eram criadas, muitas vezes, para desviar a atenção dessas mesmas pessoas.
     A viagem é uma forma de transe espiritual, onde limpamos a mente de tudo ao nosso redor e
imaginamo-nos dentro de uma grande luz. Geralmente, fazemos a viagem através do tempo para
descobrirmos, em nosso passado, quem fomos. Também é usada para que possamos adquirir
sabedoria e respeito pelas coisas às quais muitas vezes não damos valor. A viagem também é uma
forma de conhecermos o nosso eu interior.
     A princípio, por causa da falta de fé e sintonia astral, só enxergamos um grande escuro mental.
Mas, mesmo dentro desse escuro, encontramos a luz e, muitas vezes, nossas ancestrais vêm ao nosso
socorro. Se a pessoa for realmente uma bruxa, vai saber o que digo. Todas vamos, quase sempre, ao
mesmo lugar. Nessa viagem, são mostrados fatos, objetos e o grande livro das sombras, de onde
retiramos uma enorme sabedoria.
     Na viagem, é a nós revelado nosso nome ancestral, ou seja, o nome de bruxa, que nunca
deveremos falar a ninguém. Pois esse nome, em mãos erradas, faz-nos ficar vulnerável e à mercê de
qualquer pessoa - principalmente dos inimigos.
      O triskelium - triskelio ou triskele - também representa a deusa em todos os seus aspectos
tríplices: donzela, mãe e anciã. O nascer, o viver, o morrer; o corpo, a mente e a alma, os mundos
celtas, a terra, o céu e o mar. É uma espécie de estrela de três pontas, geralmente curvadas, o que
confere ao símbolo uma grandiosa fluidez de movimentos. É um dos elementos mais presentes na
bruxaria. Também representa primavera, verão, outono e inverno. Está ligado, principalmente, ao
elemento terra. Alguns magos usam o triskele desenhando-o no corpo, como uma forma de caráter
nada mais do que simbólico.
     O bastão - ou varinha - é um dos instrumentos mais importantes para as bruxas, pois funciona
como um instrumento de invocação. A deusa e o deus podem ser chamados para assistirem o ritual
por meio de palavras e de um bastão erguido. Também é, por vezes, utilizado para direcionar a
energia, para desenhar símbolos mágicos, círculos no solo, e para indicar a direção de perigo, quando
perfeitamente equilibrado na palma da mão ou no braço de uma bruxa. Também serve para mexer
um preparado em um caldeirão. O bastão representa o elemento do ar.
     Há madeiras tradicionais para a confecção de um bastão. Dentre elas, o salgueiro, o sabugueiro,
o carvalho, a macieira, o pessegueiro, a avelã e a cerejeira. As bruxas o cortam com o comprimento
da ponta de seu cotovelo até a extremidade de seu indicador. Geralmente, o galho a ser cortado para
o bastão chama a bruxa para ele. É como se ambos fossem um só ser. Nenhuma outra pessoa pode ou
deve colocar as mãos no bastão de uma bruxa.
      O Buril é um ferro usado para gravar nomes sagrados, números, símbolos em punhais, espadas
e também usado na fabricação de medalhões sagrados. Toda bruxa tem um medalhão que representa
o seu elemento.
     O Prato de Sal simboliza a terra e é usado para purificação em banhos. Sempre devemos ter um
copo com sal atrás da porta de nossas casas, para puxar a energia negativa do ambiente.
     O girassol é uma flor de cor amarela, formada por muitas pétalas, de tamanho geralmente
grande. Tem esse nome porque está sempre voltado para o Sol. O girassol simboliza a páscoa e
representa a busca da luz, que é Jesus Cristo. Assim como ele segue o astro rei, os cristãos buscam
em Cristo o caminho, a verdade e a vida. Usamos o girassol para produzir uma espécie de óleo para
bálsamos, que curam várias mazelas.
     Eu precisava citar, também, a grande mártir Joana D’Arc: essa mulher que deu a vida pela
França e por seu rei, mas que, por causa da inveja e da ambição dos membros da Santa Madre Igreja,
foi traída e injustiçada. Para mim, Joana D’Arc foi um símbolo de luta e de amor. Por isso, dedico




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

aqui, em meu diário, um cantinho a essa fabulosa mártir, que deve ser citada e lembrada por toda
bruxa, pois foi a mulher mais forte e corajosa que a História pôde contar. Alguém consegue imaginar
a força de liderança que havia nessa jovem mulher durante o período medieval da França? Nenhum
homem venceu ou vencerá essa mulher virtuosa. Essa é a minha opinião final.
     Joana D'Arc foi uma mártir francesa, heroína da Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra. Sua
participação na História foi movida pela sua fé inquebrantável. Joana D'Arc nasceu no dia seis de
janeiro no ano de 1412, na cidade de Domrémy, em uma família modesta de camponeses. Faleceu no
ano de 1431, com apenas dezenove anos de idade. Aos doze anos, começou a ouvir as vozes divinas
de Santa Catarina e de Santa Terezinha. As vozes diziam-lhe para salvar a França das mãos dos
ingleses. Durante cinco anos, manteve essas mensagens em segredo, por medo de ser castigada pelos
pais ou pelo padre local.
     Vale lembrar, aqui, que ouvir vozes estava totalmente relacionado às práticas de bruxaria da
época. É claro que não são bruxas todas as pessoas que ouvem vozes, mas Joana D’Arc ouvia vozes
que dizia ser de uma divindade. Se fosse de sua mente, ela provavelmente pensaria que estava louca,
mas não. Em todos os relatos sobre a trajetória de Joana D’Arc, há essa verdade. As vozes que ela
escutava eram de uma divindade – ou, como ela mesma dizia, dos santos.
     Em seu julgamento, Joana D’Arc admitiu ter dançado ao redor da árvore das fadas. Um de seus
amigos que honrava as fadas também foi queimado como bruxo, na mesma época. Joana D’Arc
dizia que eles eram santos. Na verdade, em minha opinião, São Miguel e Santa Catarina eram ambos
antigas divindades disfarçadas de santos cristãos. São Miguel representaria, então, o deus Sol, e
Santa Catarina representaria Cerridwen. Isso pode explicar a popularidade desses dois santos como
patronos das igrejas e capelas construídos sobre colinas, os velhos santuários das alturas. Isso é uma
opinião exclusivamente minha, que fique bem claro.
     Em 1429, ela deixou sua casa, na região de Champagne, e viajou para a corte do rei francês
Carlos VII. Lá, convenceu-o a colocar suas tropas sob seu comando e, então, partiu para libertar a
cidade de Orléans, que estava sitiada há oito meses pelos ingleses. Liderando um pequeno exército,
Joana D’Arc derrotou os invasores em apenas oito dias. Isso foi em maio de 1429. Um mês depois,
conduziu Carlos VII à cidade de Reims, onde ele foi coroado. As vitórias trazidas pelas tropas de
Joana D’Arc para Orléans, para a coroação do rei, fizeram a esperança do povo renascer. Embora
todos quisessem a liberdade a qualquer custo, o preconceito contra Joana D’Arc ainda era muito
grande - afinal, era uma mulher e, para eles, isso era o bastante.
      A corte, na verdade, era influenciada pela Santa Madre Igreja, que não podia aceitar uma
mulher liderando um exército de homens e que, ainda, conseguisse ótimas vitórias estrategistas. É
importante que eu ressalte que, na época, as mulheres já eram bastante recriminadas, sujas e
pecadoras, de acordo com os eclesiásticos. Portanto, sempre vistas como inferiores aos homens.
     Joana D’Arc escandalizou muitos padres pelo fato de se vestir com roupas masculinas e usar o
cabelo quase raspado. Esses homens puros de coração julgaram a maneira de se vestir de Joana
D’Arc como uma heresia - apesar de ter sido apenas a forma que ela encontrou para afastar o
preconceito da Igreja. Mas não posso deixar de lembrar que, em algumas tradições pagãs, as
sacerdotisas, por vezes, vestiam-se de homem para representarem o deus. Então, visto por esse lado,
os padres julgavam-na.
     Joana D’Arc usava um curioso emblema, adotado por ela mesma para ser o seu estandarte
pessoal. O emblema era uma espada vertical com a ponta circundada por uma coroa, com uma flor-
de-lis de cada lado - figura idêntica ao da espada do símbolo místico, utilizado por ocultistas do tarô.
      Joana D'Arc, afinal, era ou não uma bruxa? Por mim, consigo pensar na possibilidade de Joana
D’Arc ter sido uma bruxa de verdade. Mas é claro que o conceito de bruxa em 1420 não é o mesmo
conceito de bruxa em 1822. Pois Joana D’Arc, embora tenha liderado um exército de homens, na
verdade, foi apenas manipulada e usada pela Igreja o quanto sua ajuda lhes foi conveniente, até o dia
em que acharam que ela não lhes seria mais útil.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Não posso me esquecer dos muitos mitos envolvendo a grande deusa caçadora Diana, que
demonstrou uma enorme força de vontade e coragem. Em suas trajetórias de vida, Joana D'Arc é
bastante semelhante. Podemos ver na história da deusa Diana os muitos traços da deusa caçadora.
     Na primavera de 1430, Joana D’Arc retoma a milícia e tenta libertar a cidade de Compiégne,
que havia sido dominada pelos borgonheses, aliados dos ingleses. Depois de mais uma vitória, Joana
D’Arc foi traída, capturada, e entregue aos ingleses, pelas mesmas pessoas que ela sempre ajudou.
Isso foi no dia vinte e três de maio do mesmo ano. O interesse desses fatos, no entanto, não era
simplesmente matá-la ou torturá-la: eles queriam ridicularizá-la na frente do seu próprio povo.
Agiram dessa forma porque a influência de Joana D’Arc entre os camponeses era muito grande e,
com isso, a Igreja estava com medo de perder seus adeptos, assim como a coroa tinha medo de
perder a confiança real de seus súditos. Creio que ambos julgavam que Joana D’Arc, por ter
conseguido tanta confiança do povo, poderia um dia vir a exigir a coroa para si. Isso preocupou o rei
e a Igreja, pois não poderiam jamais pensar na hipótese de serem governados por uma mulher.
     Alguns tinham o conceito de que as bruxas tinham grande influência sobre o povo, pois, para
eles, elas eram as parteiras da região, ou as curandeiras conhecedoras de ervas - o que não era
verdade. Mas, mesmo assim, a Igreja achava que o povo ficava dependente delas não pela caridade
que elas prestavam, mas pelo suposto feitiço que elas lançavam sobre eles. Mais uma vez, era uma
inverdade, pois o que acontecia é que muitas pessoas, por serem muito pobres, achavam nessas tais
supostas bruxas a única solução para curarem suas moléstias. Mas Joana D’Arc foi mais que uma
parteira ou curandeira: ela foi uma simples camponesa que quase dominou um reino, por falar com
espíritos e derrotar os inimigos da coroa. Para a Igreja, Joana D’Arc quase estava tirando sua
liderança. Foi por isso que a condenaram por bruxaria e heresia.
     Joana D’Arc foi submetida a um tribunal católico em Rouen, sendo condenada à morte após
meses de julgamento, na mesma cidade. No dia trinta de maio de 1431, foi queimada viva. Suas
cinzas foram jogadas no rio Sena. A revisão de seu processo começou a partir de 1456, e a Igreja em
ascensão - por certo para reparar seus erros, e até por uma questão política – canonizá-la-ia
futuramente.
     Joana D’Arc era mesmo uma bruxa? Pergunto-me sempre isso. Não tenho dados detalhados
sobre a vida dela a ponto de dizer se ela era uma bruxa ou não. Mas, através dos fatos que tenho,
posso chegar bem perto do conceito de bruxaria. Então, para mim Joana D’Arc foi a maior bruxa e
símbolo feminino guerreiro de todos os tempos.
     Quem para a Igreja Mãe é verdadeiramente digno? Em minha opinião, é muito injusto santificar
uns por conveniência e condenar outros só porque não concordam em ser como os demais. Mas eu
era apenas uma minoria, e era muito pouco provável que alguém me ouvisse.
     Bom, fico feliz por ter contado a história da mulher que, para mim, foi mais que uma simples
mártir. Para mim, Joana D’Arc foi a minha heroína.
     Antes de terminar a parte sobre o livro das sombras, quero esclarecer algumas dúvidas que sei
que fará muita diferença para as minhas gerações futuras. Como, por exemplo, a diferença entre as
bruxas e os magos. Sei que é sempre uma pergunta muito básica, mas que causa muita dúvida. Faz
muita diferença obter uma resposta clara, pois eu mesma a tive. E, vendo por esse prisma, explico
aqui: o mago é quem pratica magia, a bruxa é quem pratica bruxaria. Pode parecer simples e óbvia
essa diferença, não é mesmo? Mas não é bem assim.
     A magia tem diversos ramos de estudo, e a bruxaria é apenas um deles. A bruxaria é uma forma
específica de magia que utiliza elementos da natureza. A bruxa pode ser uma maga e não ser bruxa.
Pode trabalhar com a magia sem estar ligada à bruxaria. O foco do mago é a própria magia: ele lida
com ela o tempo todo. Estuda correspondências, astronomia, tabelas, transfigurações, hermetismo,
espíritos, cabala, cálculos diversos, necromancia e tudo o que estiver relacionado à magia. Uma
bruxa não necessariamente lida somente com seus objetos de prática no dia-a-dia, como o modo de
cultivo e preparo de ervas, rituais para a Lua e o Sol... coisas desse tipo.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Não que um seja melhor ou pior que o outro, mas a evolução de um não foca a maneira de
trabalho do outro. E isso os torna diferentes. Não que as bruxas não sejam racionais, obviamente.
Mas é que os magos calculam milimetricamente cada ação, cada ritual, e cada trabalho que vão fazer.
Eles usam os símbolos dentro de cálculo, como uma coisa cerimonial.
     A bruxa é infinitamente mais simples: colhe as ervas e, no momento seguinte, já está sujando as
mãos para preparar o unguento. Toda bruxa pratica magia, mas é a magia natural, simples. A
tradição, por exemplo, tem muito tanto da bruxaria quanto da magia cerimonial. E usamos os objetos
como o athame, a espada, o cálice, o caldeirão e a vassoura, que são indispensáveis. Não dispomos
desses objetos – que, para nós, são indispensáveis -, mas também não fazemos da magia uma coisa
tão complicada. Muito pelo contrário: trabalhamos com a magia usando dela a força da natureza. É
como se fosse uma união, fazendo, assim, com que as forças ocultas se tornem nossas aliadas.
     Uma bruxa, em caso de necessidade, pega qualquer tipo de faca que estiver ao seu alcance - essa
é uma das grandes diferenças da magia. Um mago é como um astrônomo: ele é aquela imagem
tradicional do homem sentado, rodeado por milhares de livros. O mago é um eterno pesquisador e
alquimista.
     É bastante comum existir uma tradição familiar de bruxas e de magos? Nem tanto. Magos
formam ordens e toda bruxa é pagã. Os magos não necessariamente - aliás, muito raramente - são de
origem cristã. Claro que existem controvérsias. E também existem bruxas que, como eu, tiveram
formação cristã.
     Isso ocorreu em diversas partes da Europa. A História e a tradição convencional religiosa
fizeram com que isso acontecesse. E foi por causa da liberdade de expressão religiosa que nós,
bruxas, sempre lutamos contra aqueles que se diziam os donos da verdade e do destino das pessoas.
Não é justo que todos tenhamos que seguir uma mesma religião, somente porque isso se tornou uma
imposição e não uma vontade. Não estou, de forma alguma, querendo que o cristão se converta ao
paganismo. Muito pelo contrário, respeito-os e somente quero que me aceitem como sou e pelo que
sou - assim como os aceito da mesma forma.
     Outra diferença - ainda citando a cultura - entre os magos e as bruxas é a origem de suas
práticas. Os magos possuem práticas centradas nas antigas tradições persas, egípcias e babilônicas.
As bruxas, porém, têm suas crenças enraizadas nas culturas europeia, celta e italiana.
     O fato é que estamos na Terra há muitos séculos. Somos o espinho atravessado na garganta dos
inquisidores, dos preconceituosos e dos ignorantes. Querendo ou não, muitos vão ter que nos engolir,
pois somos filhas do mesmo e único Deus. Logicamente, isso tem sido uma luta desigual e
silenciosa, na qual muitas de nós foram sacrificadas como ovelhas. Mas essas pessoas, por viverem
na ignorância, não sabem que a morte, para nós, é apenas um começo - embora o caminho que nos
levasse até a ela fosse bem árduo e doloroso, pois passávamos por várias sessões de torturas antes de
morrermos. O que, para esses ignorantes, era como uma forma de penitência e salvação para nossas
almas pecadoras.
     Todos os seres humanos têm dentro de si uma bruxa ou um mago. O difícil é alguém querer
admitir isso. Em todo lugar deste planeta sempre haverá uma bruxa ou um mago. Isso pode parecer
uma loucura, mas quem entre vós não sois loucos? Quem entre vocês, ao ver que o filho está
doente, não recorrerá a uma velha receita caseira para tentar salvá-lo? Quem entre vocês que, ao
cozinhar, já não quis dar certo sabor diferente à comida? A culinária é a forma mais simples e a
mais fantástica de praticarmos alquimia, através da mistura das ervas e dos temperos. Misturar
temperos e ervas é o que de melhor fazem as bruxas e os magos.
     Quem nunca amou e depois adoeceu? Quem nunca sentiu uma enorme vontade de voar nas asas
do vento? Quem nunca sonhou? São perguntas simples e aparentemente tolas, mas que não
conseguimos responder por medo de ouvir a resposta que está dentro de nossos corações. Tudo que
quis, em toda a minha vida, foi ser livre e poder exercer o meu dom em paz. Tudo o que quis foi
amar livremente, sonhar livremente, beijar livremente. Tudo o que quis foi ter podido ser uma




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O segredo dos girassóis
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mulher com o direito de ir e vir. Mas essa liberdade foi-me tirada, porque nunca quis aceitar ser o
que eu não era. Será que todas essas pessoas que me condenaram a uma vida de cárcere nunca
participaram de algum tipo de sabhat ou outro ritual da magia?
     Esse é outro ponto crucial da magia: não importa qual o momento em que uma pessoa tenha
participado de um sabhat ou qualquer ritual, ela deve saber que ficará presa à magia para todo o
sempre. Pois a magia é como se fosse um cordão umbilical: só se separa um ser do outro após
cortado.
     Toda bruxa ama a natureza, as árvores e os animais. Cuidamos deles como se fossem nossos
irmãos e auxiliares. Isso é uma coisa que nos difere dos seres humanos comuns. Enquanto cuidamos
das coisas que Deus nos deu, o restante da humanidade as destrói impensadamente. Somos
extremamente livres - por isso, não gostamos de prisões. O contato com a mãe terra e seus
elementos é a fonte da nossa vida. Aprisionar uma bruxa é morte certa para ela. É como o amor
verdadeiro: se o deixarmos livre, o prendemos; mas se o prendermos, ele se sente sufocado e se vai.
     Consegui descobrir e saciar minha fome de saber através das literaturas proibidas. Confesso
que esse tipo de literatura era-me muito excitante. Foi através dela que me diferenciei das demais
pessoas. Através desses escritores, considerados obscenos e de caráter duvidoso, descobri meu
universo. Por isso, quando fui apresentada à magia, eu já estava bastante familiarizada a ela. Na
verdade, sempre fui uma solitária, devido à forma com que me criaram. Mas, mesmo assim, eu
ainda era diferente, pois, naquela época, ainda podia contar à Maria tudo o que se passava comigo.
No entanto, depois de fazer parte do círculo mágico, não podia mais, nem em meus sonhos, colocar
Maria nos meus planos, pois isso seria muito arriscado e a colocaria em risco de vida.
     Eu realmente gostaria de ter sido igual às moças da minha idade. Assim, teria sido amada pelo
meu pai. Mas a vida é cheia de caminhos e, como cada caminho tem uma escolha, preferi ter feito a
minha. Na verdade, isso não poderia ter sido diferente, pois as moças da minha idade eram vazias e
sem objetivos concretos. Já os rapazes não tinham assuntos para mim, inclusive porque achavam
que nós, mulheres, só servíamos para procriar. Algumas mulheres talvez aceitassem esse tipo de
situação vergonhosa, mas nunca poderia me sujeitar a viver ao lado de alguém sem amá-lo.
     Não me engrandeço por ser diferente, jamais fiz isso. Mas confesso que olhava aquela gente de
uma maneira perplexa e diferente. Não fazia isso por arrogância ou por preconceito. Na verdade,
queria tentar entendê-los melhor, pois não conseguia imaginar como conseguiam viver de uma
maneira tão igual e sem sentido pra mim.
     Antes de conhecer os caminhos da magia, eu era uma jovem muito tímida e oprimida pelas
vontades da minha madrasta. Pensava que minha vida nunca teria outra opção além de ter que
seguir, um dia, o que ela sempre me impunha: ou seja, casar-me com um homem mais velho e ser
completamente infeliz e autômota. Mas, no meu íntimo, tinha comigo que não era correto uma
mulher ser escrava de seu marido. Achava que ambos tinham que ser cúmplices, em todos os
sentidos. Era assim que eu via uma união de amor: como um todo. Não me arrependo de ter
escolhido meu caminho, embora pense que minha tentativa de ter encontrado o meu único amor foi
em vão.
     Houve tempos em que passei quase um mês trancada em meus aposentos. Não saía nem para
beber água, somente para poder terminar de ler certo livro, cujo autor me fascinava com a maneira
com que descrevia a forma de ver as pessoas. Esse autor foi muito temido pela Igreja e a corte
francesa, pois descrevia a imoralidade e o sadismo dos monarcas e dos padres. Ele traduzia
perfeitamente a maneira cruel e sádica com que os castos virtuosos padres viam as mulheres em
geral. Resumindo: para mim, ele foi mais um herói da literatura e da liberdade de expressão. Como
eu disse, a literatura considerada devassa, obscena e perigosa excitava-me, porque nela descobri
verdadeiramente a maneira livre de as pessoas escreverem o que realmente viam e sentiam.
     O caminhar de uma bruxa exige muito estudo, muita leitura e disciplina. Quanto mais uma
bruxa lê, mais se aprimora em seus conhecimentos ocultos. Isso requer tempo, paciência e




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O segredo dos girassóis
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obstinação da aprendiz. Embora eu tivesse sido uma rebelde, encaixava-me nas outras duas
regrinhas básicas da bruxaria: leitura e estudo.
      As pessoas da minha época - ou de qualquer outra, creio - não suportavam que alguém fosse
mais inteligente e literário do que elas. O conhecimento e a cultura sempre será a principal forma de
discórdia entre os homens e mulheres - principalmente quando a leitura tornar a mulher mais
competitiva e capaz, e menos escrava dos caprichos masculinos.
      Gostaria, sinceramente, que minha ancestral tivesse lido esses pensamentos. Ela com certeza
iria se orgulhar de mim, assim como me orgulhei dela.
      Não deixei herdeiros como Shaara. Não que não quisesse, mas porque os que se diziam ter
autoridade sobre mim privaram-me do dom de ser mãe e de também viver um grande amor ao lado
da pessoa que escolhi.
      Meus algozes, em todas minhas duas encarnações, foram as pessoas que mais amei. Pessoas
que determinaram que meu tempo terreno se extinguisse por conta delas. Deus presenteou-me a
vida, mas não pude honrar esse compromisso segundo a Sua vontade, pois me tomaram esse
presente, que somente Deus poderia ter tomado de volta.
      Essa também seria a segunda vez em que perderia a minha juventude cedo, por imposição da
Inquisição e da Igreja em ascensão. Mas, dessa vez, deixei registrada a forma como meu destino foi
modificado por imposição de pessoas do meu convívio, que se julgavam com o direito de modificar
a minha maneira de ver o mundo.
      Creio que, em um futuro próximo, o homem continuará a ser sua própria derrota, o seu próprio
carrasco e o seu próprio algoz, mas nunca vai perder essa arrogância e essa presunção de ser o
senhor de todos os destinos. O homem nunca deixará de querer ser como Deus. Creio que, por isso,
o Mestre tenha se arrependido de nos ter criado. Assusta-me esse pensamento e faz-me sentir
terrivelmente impotente em saber que nunca nada disso mudará, simplesmente porque o ser humano
nunca deixará de ser competitivo, ambicioso, covarde e infinitamente cruel.
      Qual é a diferença entre bruxas, santos e inquisidores, sendo que todos somos filhos de um
mesmo Pai? Quando nos debruçamos sobre a relação entre as acusadas de feitiçaria com os
inquisidores que as conduziram em seus processos, muitas vezes deparamos com essa pergunta.
Especificamente, respondo da seguinte forma: bruxas são pessoas que lutam por uma ideia de
liberdade que não condiz com as normas da Santa Madre Igreja. Os santos foram pessoas que
lutaram por um ideal de paz. Mas, ao contrário das bruxas, baixaram a cabeça e entregaram-se como
ovelhas prontas para o abate. Devo dizer que o fato de terem seguido as normas morais da Santa
Madre Igreja de nada lhes adiantou, pois muitos dos santos também foram torturados e morreram da
mesma forma que nós, bruxas. Os inquisidores são pessoas que receberam da Santa Madre Igreja o
poder de julgar o seu semelhante. Abusaram desse poder para usufruir de benefícios próprios. Esses
homens, além de verem as coisas como eles querem, induzem seus supostos acusados a falarem o
que eles querem que seja dito em tribunal. Essa foi a minha opinião formada a respeito da grande
diferença entre os santos, as bruxas e os inquisidores. Não me importava o que a Inquisição pudesse
me fazer, nunca poderia deixar que se calasse a verdadeira voz da verdade. Como essas pessoas
poderiam se julgar superioras ou donas da verdade, sendo que elas praticavam atrocidades e
mentiam até mesmo sobre a verdadeira palavra de Deus?
      Grande parte das confissões foi obtida através de requinte de crueldade. Sim, requinte de
crueldade, pois, depois de torturarem e matarem os inocentes, esses homens virtuosos e sem
pecados voltavam para suas casas e comportavam-se como lordes. Era como se a monstruosidade
que eles praticavam nos calabouços e nas prisões não surtisse nenhum efeito sobre a sua
consciência. Eles chamavam essa atrocidade de trabalho.
      Tudo o que uma mulher fizesse era motivo para que fosse acusada de feitiçaria. A suposta
bruxa deixava de falar a sua língua, passando a falar a língua do inquisidor, através da manipulação
ou da tortura.




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     A acusação por bruxaria surgia sempre a partir de um suposto malefício. Podia ser a doença
repentina de uma pessoa ou de animais domésticos ou, em casos menos comuns, problemas
causados à plantação ou, ainda, ao próprio clima. Em Salém, as denúncias surgiram a partir da
súbita doença inexplicável de meninas, que nada mais tinham do que uma histeria coletiva.
     Em Boston, em 1688, as filhas do senhor John Goodwin, ao adoecerem, levaram a julgamento
a senhora Mary Glover. Ela era uma pessoa do convívio de todas aquelas que a acusaram
levianamente. Não importava qual fosse o argumento, o importante era sempre achar um culpado e
acusá-lo de algum tipo de crime – pois, assim, parecia que aliviava a culpa e a conciência daqueles
hipócritas.
     No vilarejo de Salém, ao norte de Boston, na colônia de Massachusetts Bay, Nova Inglaterra,
Sarah Good - uma mendiga louca -, Sarah Osborne - uma parteira - e Tituba - uma escrava indígena
de Barbados - foram acusadas, em primeiro de março do ano de 1692, de prática ilegal de feitiçaria
e de manterem contato com o demônio. Naquele mesmo dia, Tituba, possivelmente sob coerção,
confessou o crime, encorajando as autoridades a iniciar uma caça às bruxas de Salém. Uma
verdadeira histeria coletiva espalhou-se, dando margem à intolerância e ao fanatismo religioso que
se seguiu.     Tais fatos vitimaram, no início, quase vinte pessoas inocentes. Os problemas na
pequena comunidade puritana começaram no mês anterior, quando Elizabeth Parris - uma criança
de apenas nove anos - e Abigail Williams - de onze anos -, filha e sobrinha, respectivamente, do
reverendo Samuel Parris, passaram a sofrer ataques compulsivos e outras misteriosas doenças. O
médico local, como não achou nada nas meninas, concluiu que só poderiam estar sofrendo os
efeitos de uma bruxaria muito poderosa. Logicamente, elas colaboraram para que o médico
chegasse a essa conclusão. Na verdade, essas santas e inocentes crianças estavam sendo usadas por
seus pais para acusarem pessoas que provavelmente eram odiadas por eles. O reverendo Samuel
Parris, por exemplo, cobiçava as terras do senhor Giles Corey. E como o senhor Giles Corey negou-
se a dispor de suas terras, então, com a ajuda das inocentes meninas, o reverendo Samuel conseguiu
acusá-lo de prática ilegal de bruxaria. Esse pobre homem, então, foi sentenciado e executado por
esmagamento. O devaneio dessas supostas inocentes crianças prosseguiu por muito tempo ainda.
Com isso, diversas pessoas inocentes - entre homens, mulheres e até mesmo uma criança de quatro
anos - morreram por terem sido acusadas de praticar a bruxaria. Ao todo, dezenove pessoas
morreram por causa da pirraça e devaneio de treze meninas e de seus pais gananciosos. Devo
ressaltar que nenhuma dessas pessoas praticou algum tipo de bruxaria contra nenhum de seus
acusadores. Todos os fatos ocorridos foram causados por pessoas maliciosas, capazes de se valerem
da imaginação de meninas mimadas, mentirosas e dissimuladas. Esses tipos de pessoas contribuíram
para que o bom nome das bruxas e da magia fosse denegrido de maneira corriqueira e leviana.
     O fato é que a magia estava em todos os lugares, embora ninguém quisesse admitir - por medo
ou puro preconceito. Os santos e os demônios também sempre, de alguma maneira, estiveram
interligados através da leitura e da escrita. O próprio Santo Ofício mostra-nos diversos exemplos de
orações e conjuros, em que os nomes de Cristo, da Virgem Maria e de santos misturam-se, numa
mesma frase, aos de satanás, Lúcifer e outras potestades infernais.
     Afinal, há ou não diferença entre uma santa e uma bruxa? Não sei ao certo. Diziam que santos
nunca cometiam pecados e que curavam os enfermos em nome de Deus. O fato é que isso não é
toda a verdade, pois existiram apóstolos que foram corruptos e ladrões - assim como também existiu
bruxa incorruptível, que foi capaz de morrer apenas por acreditar em uma causa de liberdade e de
igualdade. Assim como os santos curam em seus supostos milagres, curandeiros e bruxos também o
fazem. Eu mesma já ouvi e vi pessoas de bem dentro da Igreja pedindo a Deus para matar a amante
do marido em oração. Algum tempo depois, soube da morte da amante. Também já vi pessoas
pedirem a outras divindades para serem curadas de suas enfermidades, e também foram curadas. Na
verdade, não é a quem pedimos, mas com que força e fé pedimos. Saber pedir é essencial, mas saber
o que pedir é primordial. Pois tanto Deus quanto o diabo irão atender ao pedido do consulente




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devotado e aflito. A diferença é que Deus sonda-nos para saber se somos merecedores de termos o
pedido realizado. Já o diabo concede quase imediatamente, pois - devemos nos lembrar disso - está
em constante disputa com o Pai Maior.
     Deixo registrado que nunca foi a minha intenção glorificar o demônio. De modo algum – que
isso fique bem claro! Só estou tentando mostrar a igualdade das forças e a grandeza da fé.
     Somos Deus e também o demônio, porque nos foi dado o livre arbítrio de poder direcionar a
nossa vida e escolher qual caminho tomar. Logicamente, se podemos escolher o caminho do bem,
por que, então, escolheremos o caminho mal? O problema é que o ser humano está sempre querendo
mais. Na maioria das vezes, é derrotado pela falta de fé e pelo excesso de vaidade que domina o seu
ser.
     Costumo dizer que o ser humano é infinitamente cruel com a boca fechada e, com ela aberta,
destrói e guerreia. Somos fruto do pecado de nosso ancestral Adão, mas não fazemos nada para nos
livrar dessa praga.
     Não somos francos, mas sim curiosos, teimosos e inconsequentes quando desafiamos as leis de
Cristo. Nossa arrogância nos destrói, só nos leva ao inferno da consequência dos nossos atos
impensados. O pior é que não sabemos aonde toda essa loucura temperamental chegará. Mas o certo
é que temos a obrigação de parar em algum momento de nossas vidas e refletir que estamos nela
para aprender e aprimorar. Foi para isso que nos foi dada a chance de reencarnar. Ou será que
vamos ficar como o vento, que sopra em qualquer lugar sem direção, sem nunca poder ter um porto
seguro para pousar? Lembre-se: o vento é o nosso mensageiro, a alma do mudo, e o seu destino é
correr os quatro cantos da Terra, sem ter o direito de parar - pois ao vento foi dada essa missão.
Quanto a nós, foi-nos incumbida a missão de cuidar da Terra e das coisas que nela existem. Por
isso, refletir e pensar sobre nossas ações e atitudes é muito importante.
     Utilizo aqui as expressões bruxas, feiticeiras e acusadas de feitiçaria, no feminino, levando em
consideração que uma parte significativa da população condenada nos processos inquisitoriais foi
formada por nós, pobres mulheres, além do fato de que o estereótipo da bruxa está muito mais
consolidado do que o do bruxo. As observações constantes, no entanto, aplicam-se igualmente aos
muitos homens acusados, julgados e condenados pela Inquisição que, na maioria das vezes, eram
camponeses pobres e escravos, sem direito sequer a uma defesa justa.
     Terminei minhas anotações e fui para a janela, agradecer ao Pai Maior pelas inspirações que
Ele me deu. Agradeci por tudo, pelos amigos maravilhosos que eu já tinha e pelos que ganhei
através do meu mais novo caminho. Em minhas orações, pedi sabedoria e discernimento aos bons
espíritos, para que guiassem meus passos através da minha mais nova jornada – que, embora
transitória, seria de grande valia para o meu aparelho. Pois ele ainda era só um aprendiz e não estava
pronto para a sua despedida, que seria em breve. Pedi luz e compreensão para que, quando
encontrasse o espírito encarnado de Edward, pudesse fazê-lo entender seu erro cometido no
passado, quando fez a jura de me encontrar, seguir-me e amar-me por toda a eternidade. Depois
disso, fiz alguns rituais de adoração ao deus Sol. Terminando minhas obrigações matinais, observei
a enorme floresta que cercava a casa de Dona Helena e pude notar que as pessoas já estavam todas
acordadas, cumprindo suas obrigações e afazeres diários.
     Como eu estava de pé, mas virada para a janela, não pude perceber que Bernadete já estava
acordada e observava-me em todos os meus movimentos e ações. Quando me voltei para o lado de
dentro, ela falou:
      _ Agora sei, senhorita Anna. Está preparada para enfrentar o que lhe for incumbido pelo
universo através da magia. Só se lembre de nunca esquecer o que aprendeu em sua viagem astral, e
de não usar os seus poderes para o mal. Deve saber que, quando usar seus poderes para fazer algum
feitiço ou para entrar em sintonia com os espíritos, ficará fraca. Mas não se assuste com isso:
procure um lugar silencioso para repousar e, se possível, durma, para que as suas forças voltem.
Quando isso ocorrer, é muito importante que, caso esteja perto de alguém, essas pessoas não




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descubram de sua fragilidade, principalmente os seus inimigos. Pois, nessa hora, ficará vulnerável e
indefesa - o que pode ser perigoso, pois qualquer pessoa poderá prejudicar-lhe, seja física ou
espiritualmente.
     Dei um largo sorriso. Confesso que fiquei um pouco encabulada por saber que Bernadete
poderia estar ali havia horas, observando-me. Depois de ouvir atentamente o que Bernadete estava
me explicando - embora já estivesse ciente de tudo o que ela estava me dizendo -, achei melhor
calar-me, pois demonstrar humildade nunca é demais.
     Quando percebi que minha jovem amiga havia feito uma pausa em suas explicações, respondi:
     _ Aprendi muito com a minha viagem. Fiquei muito satisfeita por saber que vou reconhecer o
meu amor assim que o vir.
     Bernadete baixou a cabeça e, com um ar pesaroso, respondeu-me:
     _ Sinto muito ter que ser eu a lhe dizer isso, senhorita Anna, mas não é bem assim: ele pode
demorar a reconhecê-la, e talvez nem a reconheça. Portanto, ao encontrá-lo, vá com calma, para não
confundi-lo ou assustá-lo. Sendo ele um monge, poderá achar que está possuída por um espírito
maligno - isso é muito perigoso. Além disso, ele poderá excomungá-la. Lembre-se de que o seu amor
foi, no passado, um inquisidor. Mesmo que ele não saiba disso, traz consigo, inconscientemente, as
lembranças de quem foi. Se a senhorita não tiver discernimento, poderá cair no abismo da revolta e
do desentendimento com ele. Os dois precisarão estar em uma perfeita sintonia astral, para que se
reconheçam de imediato, assim como a senhorita deseja que aconteça. Todos temos a obrigação de
nos lembrarmos de nossas vidas passadas. Mas, muitas vezes, o sofrimento ou a culpa nos fazem
querer apagar nossa memória passada. Lembre-se disso, senhorita Anna, para que não se machuque
com uma grande decepção.
     Embora soubesse que Bernadete estava correta, tive que respondê-la com um pouco de
intolerância, usando a plena certeza do meu coração:
     _ Respeito tudo o que está me dizendo, minha querida amiga. Mas tenho certeza absoluta de
que ele também sonha comigo e que está me esperando tão ansiosamente como estou por ele. Em
minhas visões, sei que ele é um homem solitário e sem ninguém, assim como eu. Sinto o sofrimento
dele, a vontade dele de estar comigo, mesmo sem saber quem sou. Talvez sua aparência física tenha
mudado, mas nossos olhos espelharão nossas almas, pois trazemos uma bagagem muito grande de
outras encarnações.
     Na verdade, não queria ouvi-la. Queria pôr minha certeza acima de tudo, porque a certeza de
amar e de ser amada era a única coisa que me importava. Mesmo que Bernadete estivesse coberta de
razão, eu sabia que, muitas vezes, as palavras, mesmo que verdadeiras, podem se tornar um veneno
para a nossa mente, pois acabam gerando dúvidas em nossos corações. Por isso, quis calar a voz
dela antes que entrasse qualquer dúvida dentro da minha mente e do meu coração. Mas Bernadete
parecia ter a necessidade de tentar me orientar e, antes mesmo que eu tentasse argumentar
novamente, ela prosseguiu:
     _ Sua certeza deixa-me, sinceramente, preocupada, senhorita Anna. Temo por uma grande
decepção. Fala como se já tivesse se comunicado com esse homem antes. É como se ele já tivesse
falado do amor dele por você.
     _ Quem garante que ele não falou? Não é fato que, em nossos sonhos, podemos sair de nossos
corpos físicos e viajar através espaço? Não é verdade que, através dos nossos sonhos, chamamos um
espírito para junto de nós? Digo-lhe, minha querida amiga, que isso já aconteceu comigo várias
vezes. Bernadete, estou presa a esse homem por causa da jura de amor que, por mais inconsequente
que pareça, ligou-nos através do tempo e do espaço. Se esse homem é o meu suposto amor, e se
realmente está vivendo nesse convento ou mosteiro com o qual vivo sonhando, com certeza é porque
meu destino está ligado ao dele. Confio no destino e, de alguma maneira, ele se incumbirá de nos
colocar juntos. Não se preocupe, minha querida amiga: estarei preparada, mesmo que ele me rejeite a




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principio, pois aprendi que a espera e a paciência nos fazem sábios e fortes. Mas uma coisa é certa:
tenho que encontrá-lo e não poderei rejeitá-lo, mesmo que seja desprezada por ele.
     _ Senhorita Anna, está tão mudada depois que voltou da viagem! Não parece a mesma pessoa
que aqui chegou, cheia de dúvidas e perguntas tolas. É como se agora outra pessoa tivesse tomado
seu corpo físico. Parece que agora a senhorita sabe todas as respostas e faz-me acreditar em tudo,
pela forma firme com que direciona suas certezas. Sabe, quando fiz minha viagem, pensei ter voltado
forte e preparada para enfrentar todas as minhas dúvidas. Pois não estava certa se o meu noivo
Magald era meu verdadeiro amor, porque eu vivia em um mundo de conflitos e angústias
desnecessárias. Se quer saber, até hoje ainda tenho algumas dúvidas sobre o nosso amor. Mas a
senhorita voltou muito forte, sábia, e tão segura! Minha tia Helena tem razão quando disse que a
senhorita é uma bruxa muito poderosa. Fomos abençoadas por termos lhe despertado esse dom. Sabe
o que mais? Tenho muita sorte por tê-la conhecido, por sermos amigas agora. Na verdade, agora sou
eu quem tem muito o que aprender com você, senhorita Anna. Se a senhorita me permitir, quero ser
sua aprendiz nos segredos da magia.
     Dei um sorriso prazeroso, mas lhe disse:
     _ Teria a maior honra em tê-la como minha aprendiz, minha cara Bernadete. Porém, seu destino
já está escolhido e creio que não poderia tê-lo feito de maneira mais sábia. Acredite: terá ao lado de
seu noivo Magald dois lindos filhos, e ambos serão muito felizes. Cada um nesta vida tem a sua
jornada já programada pelo destino. A sua não poderia ser melhor: é tranquila, feliz e sem
problemas.
     Disse isso porque toda a vida daquela jovem passou perante meus olhos, nitidamente. Naquele
momento, eu acabara de ser abençoada com o dom da visão.
     Bernadete, depois de me ouvir em silêncio, sorriu-me largamente, pois ficou feliz por ter-lhe
revelado algo que ela já sabia, mas em que não confiava – pois, como todo ser humano, ela não cria
em suas próprias intuições. Muitas vezes, temos a certeza de que nossos projetos de vida irão dar
certo, mas, por vivermos ansiosos e cheios de perguntas, acabamos por não acreditar nas respostas
do nosso coração. Todos temos a visão do nosso próprio futuro, só que não damos muita
credibilidade ao dom maravilhoso que Deus nos deu. Preferimos consultar, então, cartomantes,
quiromantes e outras pessoas que nem sempre são honestas em suas previsões. Isso só nos serve para
nos confundir sobre o que realmente pertence a nós. Todas as respostas estão dentro de nós mesmos.
Somos o nosso próprio guia - basta que acreditemos e confiemos em nossas intuições. Isso quer dizer
que podemos abrir ou fechar as portas da prosperidade, cuja chave está dentro da nossa mente que,
muitas vezes, está insana ou debilitada pelos muitos fracassos já ocorridos em nossas vidas.
     Tudo o que nos acontece, de alguma maneira, é porque o programamos mentalmente. No
entanto, ao invés de termos pensado em algo destrutivo, poderíamos ter simplesmente pensado em
algo muito grandioso e produtivo. Mas o ser humano prefere pensar negativo e se passar por coitado,
do que tentar pensar positivo e ver as coisas maravilhosas que os pensamentos felizes podem lhe
trazer.
     Cada vez que uma bruxa chora e usa seu poder, ela enfraquece, pois a lágrima tira-lhe a visão
real das coisas. Quando uma bruxa faz um feitiço, isso também ocorre, porque ela está gastando sua
energia espiritual. Então, ao invés de ficarmos danificando nossos pensamentos com coisas
supérfluas e desnecessárias que não nos levam a lugar nenhum, devemos pegar um bom livro para
ler, pois o saber é o ponto-base da capacidade de uma bruxa. Somos eternas aprendizes, inclusive de
nós mesmas. Não devemos ter um autor específico: mesmo os mais chatos e banais têm algo a nos
ensinar. Pois nossa mente tanto nos é produtiva como também autodestrutiva.
     Devemos aprender a trabalhar o silêncio mental. Esse é o mais difícil de todos os dons, pois a
mente nunca para de falar. Muitas vezes suas palavras transformam-se em ofensas ou injúrias. As
palavras que saem da nossa boca podem se transformar em uma coisa extremamente prejudicial para




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nós mesmos. Principalmente quando não confiamos em nossas intuições e saímos por aí, pedindo
ajuda a qualquer pessoa que não tem um bom caráter...
     Certa vez, Maria contou-me a história de uma jovem mulher que recebeu, em seus sonhos, a
notícia de que ganharia uma grande herança, vinda de um parente do interior. Essa mulher nunca
chegou a conhecer o suposto parente e, ainda por várias noites seguidas, continuou a ter o mesmo
sonho. Tudo o que ela deveria fazer foi-lhe confirmado, inclusive o dia e a hora em que ela receberia
a suposta herança. Então, a jovem ansiosa mulher foi invadida por um espírito de vaidade excessiva
e acabou se tornando desleal consigo mesma: contou aquela história a todos que encontrou pela
frente. Criou, então, uma energia ao seu redor de inveja e zombarias, pois muitos, por não
acreditarem nela, também a chamaram de louca.
     A mulher, por não ter confiado em sua própria intuição, correu a uma bruxa, que diziam ser
bastante eficaz em revelar inclusive os sonhos. Lá, a jovem mulher contou-lhe tudo o que estava
passando. A suposta bruxa ouviu-a em total silêncio e, mesmo depois de ter recebido uma resposta
positiva através de suas cartas, disse à sua consulente que era apenas um sonho, tornado frequente na
vida dela porque ela estava preocupada com suas muitas dívidas. A suposta bruxa, então, mandou
que a consulente voltasse para casa e esquecesse toda aquela tolice, pois só lhe faria mal. Em
seguida, despachou-a rapidamente, sem nenhuma explicação.
     Assim que a mulher saiu, a suposta bruxa, muito esperta e nada honesta, correu e arrumou suas
malas, seguindo para o interior, onde a consulente descrevera que estaria o suposto tio moribundo.
Chegando lá, a vigarista encontrou realmente o homem velho moribundo e bastante carente, pois
havia perdido contato com seus verdadeiros parentes muito tempo atrás. A espertalhona correu em
se apresentar ao pobre homem como sua sobrinha, usando os nomes dos parentes que a consulente
lhe havia narrado em sua história. Contou, também, a triste história de vida da consulente: que sua
mãe e irmã tinham morrido de tifo, e que não tinha mais nenhum outro parente próximo ou vivo no
mundo a não ser ele. O pobre homem, que já estava com a sua saúde bastante debilitada, ficou
comovido com a história da bruxa e recebeu-a em sua casa de braços abertos, acolhendo-a sem
nenhum problema ou sequer tentar fazer uma investigação. Aí, a falsa sobrinha cuidou do velho
homem e, quando ele morreu, deixou para ela toda a sua fortuna, entre empregados e muitas terras.
     Devemos aprender uma lição com este pequeno conto: nunca confiar nossos segredos a quem
não conhecemos. E, quando se tratar de uma premonição então, devemos guardá-la a sete chaves.
Não devemos nunca duvidar do dom que nos é dado, porque, com certeza, é uma dádiva divina. Só
procuramos uma bruxa, cartomante, vidente ou quiromante se não tiver outro recurso. Deve-se
sondar muito bem se a pessoa com que a consulente irá se consultar é verdadeiramente idônea. Mas,
acreditem, todos temos uma boa intuição a nosso próprio respeito. Devemos aprender a ouvir nosso
coração: ele só nos é enganoso se deixarmos nossa mente interferir sem ser convidada. Todos temos
um dos nove dons dados por Deus. Nas horas mais difíceis, ele nos servirá de leme.
     Conversei por muito tempo ainda com Bernadete e contei-lhe sobre os feitos do diário que ela
havia me dado. Afinal, ela precisava saber que seu avô não era um contador de histórias. Ela ficou
tão maravilhada quanto eu. Em seguida, disse:
     _ Fico muito feliz por ter me contado tudo isso. Mas sei que esse diário era para ser somente seu,
pois ele a escolheu. Sei disso porque, por diversas vezes, tentei escrever nele e nada aconteceu de tão
grandioso como aconteceu com você. Esse diário, na verdade, só me usou como intermediária para
chegar até as suas mãos.
     Fiquei muito emocionada por Bernadete ter-me dito aquelas palavras. Então, agradeci-lhe,
dando um afetuoso abraço. Iríamos combinar de fazer alguma coisa juntas durante a tarde, mas
bateram à porta do quarto e tive que ir atender, pois Bernadete estava ainda deitada.
     Era Maria, pedindo para que descêssemos para o desjejum e para que me preparasse para o
nosso retorno de volta a casa. Nós duas sorrimos e nos entreolhamos, pois estávamos com fome. Eu
e Bernadete apressamos em nos arrumar para o desjejum. Ela me ajudou com algumas coisas que eu




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O segredo dos girassóis
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precisava terminar de arrumar. Eu já não tinha muito a levar de volta, pois dei todos aqueles meus
vestidos que havia levado para Bernadete e suas irmãs. A alegria de seus rostos foi como um elixir
para minha alma. Estava começando a aprender que dar era bem melhor do que receber e guardar. A
vida é passageira e curta. Devemos, então, dar o melhor de nós para termos uma existência feliz -
mesmo que, como eu, a pessoa já tenha a consciência de que ela será breve.
      A despedida não foi muito feliz, pois sabia que nunca mais as veria novamente. A velha senhora,
de nome Andélia, também estava presente e deu-me duas coisas que encheram meus olhos de
lágrimas. A primeira foi a cruz torta, para me identificar com as demais do grupo, pois eu já estava
fazendo parte daquela grande família. A segunda foram muitas pétalas de rosas brancas, para eu ir
jogando pelo meio do caminho. Esse é o ritual que serve de libertação: significa que estamos
recebendo, com flores, nosso novo caminho, deixando para trás toda a tristeza e a dúvida que nos
perseguia.
      A velha Anna havia ficado para trás. A Anna mimada, covarde e medrosa. A Anna melancólica
e triste. A Anna materialista e cheia de perguntas tolas havia morrido naquela fogueira, dando lugar a
uma mulher segura, forte e sem medo do escuro. Na verdade, eu havia ressuscitado de algum lugar
que estava dentro de mim e que eu não me lembrava, até então.
      O medo e as condições impostas pela sociedade que me cercava fizeram com que, muitas vezes,
me sentisse incapaz de enfrentar as coisas mais simples e corriqueiras. Na verdade, todos somos
frutos daquilo em que acreditamos. Deixamos, muitas vezes, que as pessoas que nos cercam
direcionem e conduzam, com palavras ou atitudes, nossa vida pessoal. Isso não pode de maneira
alguma acontecer, porque somos seres individuais e temos que seguir sem nos deixarmos ser
manipulados.
        Criticar é mais fácil do que elogiar. Duvidar é mais fácil do que acreditar. Confiar em si
  própria quase nunca acontece. Ignorar é mais fácil do que ajudar. São pequenas coisas que passam
  pela nossa frente e que, às vezes, ficam despercebidas, mas que poderiam ter feito muita diferença
  na vida de outras pessoas se não fossemos tão egoístas. Se não estivéssemos tão preocupados com
  o que os outros pensam de nós, talvez pudéssemos fazer do ambiente ao nosso redor um lugar mais
  harmonioso e civilizado. Não podemos mudar o mundo todo, mas poderíamos mudar o nosso meio
  de vida, fazendo de nós mesmos pequenos exemplos em que pessoas aflitas e cheias de problemas
  possam se espelhar. Poderíamos ser uma auto-ajuda ambulante, mas fazemos o contrário:
  tornamo-nos fracos e problemáticos. Na verdade, duvidamos da nossa capacidade infinita de
  renovação. E é tão simples! Basta um sorriso e uma palavra gentil. As pessoas esperam de nós o
  que esperamos delas. Quando alguém carrancudo se aproximar, devemos lhe sorrir. Na verdade,
  ele só deve estar triste ou com algum problema pessoal ou até mesmo espiritual. Se o tratarmos
  com desprezo, intolerância e mau humor, ele, com certeza, ficará ainda mais exasperado do que já
  estava. Ouvi, certa vez, uma história que Maria me contou. Entre tantas outras histórias, essa me
  pareceu afinar-se como exemplo do que tenho dito.
        Um cavaleiro passou por uma menininha, acompanhada de sua mãe. Ele as olhou como se as
  desprezassem, mesmo sem nunca tê-las visto antes. A mãe, por sua vez, estava com tantos
  problemas em sua cabeça que o tratou de igual modo. Virou-lhe o rosto e, ainda, disse-lhe palavras
  ofensivas. Tudo teria terminado com o desprezo dessas duas pessoas. Cada qual seguiria o seu
  caminho, e ambas passariam um dia péssimo, pois aquelas pessoas haviam trocado energias
  negativas. Mas o senhor olhou, também, para a pequena criança, que lhe sorriu espontaneamente.
        Pensou, então, consigo mesmo: Uma mãe tão antipática, e uma criança tão angelical: que
  controvérsia! E, sem querer, esboçou um sorriso. Um amigo, que passava por ele naquele
  momento, parou-o e perguntou o motivo da alegria. Ele, por sua vez, contou ao amigo, que acabou
  por lhe convidar para tomarem uma xícara de chá. Os dois encontraram entre si motivos diversos
  para sorrirem. De repente, aquele senhor carrancudo estava de bem com a vida e se sentiu capaz de
  enfrentar seus problemas. Ao olhar para a porta do estabelecimento onde ele e o amigo se




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

   encontravam, percebeu que a menina e a senhora entraram, sentando-se bem ao lado deles. Aquele
   senhor, então, não perdeu tempo: levantou-se, e apresentando-se à mãe da menina, convidou-as
   para tomarem uma xícara de chá com ele e o amigo.
        Depois de se desculpar por ter parecido grosseiro, ele, durante a conversa que tiveram,
   descobriu que ambos eram viúvos e que suas tristezas estavam lhes tornando pessoas amargas. Por
   não conseguir superar a falta de sua amada esposa, e ela por estar tão preocupada com o que a
   sociedade falaria dela, acabavam por se esquivar sempre de fazer novos amigos. Assim, com
   aquele comportamento da menininha, todos acabaram tendo uma tarde muito agradável. Com
   certeza, ele encontrou uma nova companheira para lhe auxiliar em sua jornada terrena... O poder
   está em nós mesmos, não nos outros. Um gesto, que pode nos parecer simples e banal, pode ter
   uma força inenarrável.
      O caminho de volta para casa foi tranquilo e sem nenhum problema. Eu e Maria conversamos
sobre minha viagem astral e sobre o quanto estávamos nos sentindo bem espiritualmente. Fizemos
planos sobre algumas coisas que eu faria ao chegar em casa.
      Cochilei bastante no decorrer do caminho, só para variar! Mas, dessa vez, não tive sonhos
turbulentos. Aliás, não sonhava com o monge desde que retornei da viagem. Mas, para mim, o
importante é a certeza de que estava em meu coração. Estava muito feliz por ter sido iniciada como
bruxa, e não deixaria ninguém invadir o meridiano imaginário que me separava do mundo real do
meu novo mundo. Lógico, sempre ouviria a todos com atenção e educação. Mas fazer o que me
diziam, só se meu coração dissesse que sim. Caso contrário, entraria por um ouvido e sairia pelo
outro. Devemos nos lembrar de que nunca nos é demais aceitar conselhos – mas, se fossem tão bons,
colocaríamos uma tenda e os venderíamos bem caro...
      A estrada estava ainda mais bela do que quando ingressamos. Então, resolvi manter-me bem
acordada, sem cochilar: dessa vez, queria estar alerta a tudo. Maria compartilhou alguns segredos
comigo. Depois, o cansaço a fez dormir, por fim. Era muito engraçado vê-la naquele estado ébrio. De
vez em quando, ela arregalava os olhos, por causa do susto que levava quando a carruagem passava
por cima de algumas pedras. Na verdade, nós duas estávamos muito ansiosas para chegar e poder
tirar as roupas empoeiradas e os sapatos apertados. Foi quando Lorenzo avisou-nos de que
chegaríamos em casa em quatros horas. Ou seja, quando a Lua já estivesse alta no céu. Estava
contente e pronta para iniciar minha missão como a mais nova bruxa daquele condado.



     “O amor é um sentimento abstrato. Não podemos tocá-lo, não podemos vê-lo. Mas podemos dá-
lo através de várias maneiras. Quem ama não tem medo, orgulho ou dúvida. A pessoa que está
amando quer somente ter a certeza de que será feliz. O lugar não importa; com quem, não interessa.
Mas que, quando esse amor chegar, seja bem vindo... Aceitar quem nos ama. muitas vezes. pode não
nos ser conveniente, pois, infelizmente, só conseguimos ver as aparências físicas. Mas, se realmente
queremos um verdadeiro amor, basta olharmos para nosso próximo com os olhos de Deus. Aí, sim,
passaremos a enxergar a verdadeira beleza escondida por trás da aparência física. Difícil é
compreender que as rosas, no meio de tanta beleza, escondem espinhos que podem machucar o
coração do homem. E que, em alguns espinhos, encontramos a cura para nossas doenças. Encontre
o seu amor e viva com sabedoria. Só não pise nas pessoas menos favorecidas, porque elas também
tiveram seus espinhos - talvez causados por rosas, como você...”

                                    Padre Ângelo Wallejo Moralles.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus


    Capítulo II - O Livro das Sombras

     Quando a carruagem finalmente parou frente à minha casa, respirei profundamente, aliviada
por termos chegado. Estava mesmo ansiosa para poder colocar todos meus planos em prática. Tive
que despertar Maria, que caíra em sono profundo. Havia tantas coisas a fazer... Comecei a pensar
nas mudanças que faria em meu quarto, nos objetos que compraria para dar início ao ritual da Lua,
já que estava atrasada com o meu primeiro equinócio de outono. Eram muitas as coisas que
precisava fazer antes que se cumprisse meu destino. Como sabia que meu tempo era curto,
precisaria correr contra ele.
     De repente, dei-me conta do quanto a ansiedade estava tomando conta de minha mente. Então,
fechei brevemente meus olhos e fiz uma oração silenciosa. Respirei profundamente e contei o
máximo que pude. Soltei lentamente o ar pela boca. Então, quando abri os olhos novamente, já
estava mais calma e Lorenzo abria a porta da carruagem para nós. Com a sua ajuda, pude descer da
carruagem, apoiada em suas mãos. Olhei para o céu, lindamente estrelado, e pude certificar-me que
a Lua estava lá, como já havia previsto.
     Fique de pé, ao lado da carruagem, observando Maria acabar de descer. Foi muito engraçado
vê-la, ainda meio sonolenta, tropeçando em seus próprios pés.
     Joseph e Tereza vieram receber-nos. Maria, por sua vez, não parava de indagar à pobre mulher,
querendo saber como tudo ocorreu durante a sua ausência. Rubens, um escravo de confiança da
casa, carregou a bagagem para dentro. Enquanto Maria seguia com Tereza, Lorenzo e Joseph
levavam a carruagem e os cavalos para o estábulo. Por minha vez, fui caminhando tranquilamente
em direção à casa. Afinal, devido aos muitos afazeres de todos, parecia que eu havia sido
completamente abandonada e esquecida - o que era hilário. Porém, isso me deu tempo para pôr
minhas ideias e pensamentos em ordem.
     A grama ficou verde musgo por causa da luz do luar. As pedras brancas, postas ao caminho
para servir de passarela, davam certo ar de conto de fadas. A escadaria ficou completamente
iluminada por causa da luz da Lua. Subi lentamente cada um daqueles degraus, observando até
mesmo os pontinhos luminosos das pedras. Antes de colocar a mão na maçaneta, dei uma boa
espreguiçada, pois meu corpinho cansado só queria um bom banho e cama naquele momento, é
claro!
     Antes de entrar, ainda pensei Apesar de tudo, era bom estar de volta à casa e poder desfrutar
dos momentos em família novamente, mesmo que raros. Engraçado, mas estava com saudades até
das rabugices e arrogâncias da condessa.
     Ao entrar, nem mesmo olhei para os lados. Corri, subindo as escadas, indo direto para o meu
quarto. Desarrumei rapidamente as malas, colocando minhas roupas em cima de uma poltrona, para
que, no dia seguinte, a aia viesse pegá-las para serem lavadas.
     Depois de algumas horas, a copeira, parecendo adivinhar o meu desejo, trouxe água para meu
banho. Só que, desta vez, fiz com que ficasse admirada, pois pedi que preparasse uma poção para
colocar na água do banho. Tirei da bagagem um pequeno saquinho com ervas que havia trazido
comigo na viagem. Eram folhas secas de hortelã e cascas de maracujá. Ela, embora tivesse achado
aquela atitude muito estranha, deu de ombros, sacudiu a cabeça negativamente e saiu para fazer o
que eu havia pedido.
     Aquela mistura de erva e casca de fruta, ao ser colocada na água, faria relaxar-me e ter uma
boa noite de sono. Esse tipo de preparado também pode ser tomado como um chá. Mas, naquele
dia, preferi usá-lo como um bálsamo aromatizante para banho.
      Maria, que sempre estava atenta a tudo, trouxe-me um chá de camomila com biscoito logo que
a copeira saiu. Enquanto ela arrumava a bandeja na mesinha, pude perceber, através de seus




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                                         Adriana Matheus

movimentos, que havia algo errado no ar. Maria parecia querer dizer-me algo, mas estava sem
saber como falar.
     Percebendo aquela situação, disse-lhe:
     _ Maria, está acontecendo alguma coisa. Se a senhora tem algo a me dizer, então diga.
     Ainda de cabeça baixa, arrumando os guardanapos, mas sem olhar para mim, ela falou:
     _ Percebi que a senhorita pediu à copeira para que lhe fizesse um banho de relaxamento!
     _ Sim, Maria. Pedi sim, admito. Estou precisando ter uma boa noite de sono.
     _ Fico satisfeita que já esteja colocando em prática os seus dons, mas me preocupa que tenha
pedido logo a uma estranha e não a mim. Essa atitude sem pensar de sua parte pode colocar nós
duas em risco. Afinal, deveria saber que a copeira é fiel à senhora Del Prat.
     _ Desculpe-me, Maria, jamais a colocaria em risco. Infelizmente, agi sem pensar. Mas achei
que a senhora estava ocupada demais com os seus afazeres. Por isso pedi à nossa copeira. Sinto
muito, estou muito decepcionada comigo mesma.
     _ Senhorita Anna, conhecendo-me como a senhorita me conhece, sabe muito bem que jamais
deixaria de atender a um pedido seu. Não se preocupe, porque já dei a ela uma desculpa, dizendo
que esse banho é coisa da minha irmã que, por ser do interior, sempre tem dessas manias antigas.
Mas, da próxima vez, tenha mais cuidado.
     Baixei a cabeça numa atitude de constrangimento e nada mais disse. Maria, por sua vez,
arrumou a xícara de chá com biscoitos em cima da mesinha e saiu, parecendo ter percebido que eu
havia ficado muito sem graça. Ela estava completamente correta: eu poderia ter-nos colocado em
uma situação muito arriscada, principalmente se minha madrasta tivesse visto e ouvido o que pedi à
copeira. Sei que era apenas um banho - mas, na mente doentia da condessa, aquilo seria um feitiço.
Precisava definitivamente controlar minhas atitudes levianas e emoções, e pensar dali para frente.
Precisava definitivamente, também, tomar cuidado com a ansiedade e a vaidade.
     Quem me trouxe a água para o banho foi Inaynmin, a jovem escrava, filha de Joana. Ela,
depois de colocar na tina a água junto com o preparado que eu havia pedido, fez uma pequena
observação:
      _ Não sei o que a senhorita andou fazendo no interior junto à Maria, mas tenha muito cuidado
quando for pedir certas coisas à copeira. Não a estou criticando, senhorita, de modo algum. Afinal,
sei que todas temos certos segredos e, se são segredos, devem continuar ocultos, não acha?
     Disse tais palavras e saiu, deixando-me meio apreensiva e também muito pensativa. Afinal,
que segredo poderia ter a jovem escrava Inaynmin, sendo que Joana nunca a deixava sozinha?
Pensei, por fim, A vida é mesmo cheia de mistérios. Imagine só! Obviamente, eu teria que descobrir
que segredos a jovem escrava Inaynmin haveria de ter. E como ela sabia que eu tinha um segredo?
É, pensei comigo, a vida está repleta de surpresas...
     Dormi como um anjo a noite toda, depois do banho e do chá que Maria havia preparado para
mim. Para falar a verdade, aquela noite nem me lembro de ter vestido a camisola após ter tomado
banho, pois estava tão relaxada que, mesmo depois de ter cometido tamanho deslize, não pude ver
muita coisa, pois o sono pegou-me no colo e levou-me para o mundo dos sonhos.
     No dia seguinte, ao acordar, depois de dar um enorme bocejo, percebi um ventinho frio
entrando pelo meu quarto. Levantei para ver o que era. A janela estava completamente aberta. Virei
o rosto rapidamente e o cobri com o lençol, pois o Sol entrava intrépido pelo quarto. Não me
lembro de ter-me esquecido de fechar as janelas e as cortinas na noite anterior! Fiquei pensativa,
imaginando quem poderia tê-las aberto. Quando Maria viesse ao meu quarto, perguntar-lhe-ia sobre
isso.
     De um salto só, consegui sair da cama. Como precisava resolver muitas coisas que tinha em
mente, quis correr contra o tempo. Quanto mais cedo, melhor seria. Além do quê, não poderia dar
margens a que minha madrasta levantasse antes de mim e tentasse impedir-me de fazer as coisas
que eu precisava pôr em prática. Muita coisa mudaria com o meu retorno da casa de Dona Helena




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e, se minha madrasta desconfiasse, poderia enlouquecer de vez – ou, o que era pior, poderia tentar
algo contra minha vida, pois a condessa era imprevisível e cheia de artimanhas.
     Mas, como eu era uma boa moça, comecei a me preocupar com a frágil saúde da pobrezinha...
Então, achei melhor aos poucos ir demonstrando a minha mais nova personalidade. Assim, evitaria
que ela tivesse uma síncope. Aqueles pensamentos maldosos e irônicos precisavam sair da minha
mente. Mas era inevitável querer dar uma pequena lição na minha madrasta. Afinal, durante anos
ela foi muito má com todos naquela casa. Mas isso seria apenas uma lição e não uma vingança, pois
não era da minha índole querer vingar-me de quem quer que fosse - até mesmo de uma mulher
como a condessa.
     Enquanto eu colocava aqueles pensamentos irônicos em dia, percebi que Maria estava à porta e
disse-lhe:
     _ Entre, Maria. Sei que é a senhora que está aí fora!
     Ao entrar, ela disse, arregalando os olhos e prosseguindo com aquela conversa:
     _ Minha nossa! Isso foi para me impressionar? Saiba que já conseguiu, viu? Estou mesmo
impressionada com tamanha perspicácia. Aliás, já está usando seus poderes de adivinhação, é?
      Dei um sorriso largo e sincero e, depois, falei:
     _ Não preciso ser adivinha para saber que só poderia ser a senhora, pois sei que sempre fica
atenta a todos os movimentos desta casa. Sei que sempre presta atenção ao barulho do fechar e do
abrir de cada porta, e que sabe de qual cômodo ele veio. Concluindo pelo pulo que dei no chão ao
me levantar, sei que a senhora soube de imediato que eu já estava de pé. Afinal, quem mais vem ao
meu quarto além da senhora? Nem mesmo meu pai quando está em casa, pois sempre me pede para
descer quando precisa falar algo comigo.
      _ Chega, já conseguiu impressionar-me! Confesso que não sabia que eu era tão previsível
assim.
     Ela sorriu, tentando disfarçar que estava sem graça, pois, no mínimo, desconfiou que eu
também soubesse que ela escutava atrás das portas. Para mudar um pouco o rumo daquela conversa
que não me levaria a lugar algum, perguntei:
     _ Então, como está tudo? Está do jeito que a senhora gosta? A propósito, que horas são?
     _ Como está tudo? Nem pode imaginar a imensa confusão que esses incompetentes aprontaram
na minha cozinha. Por causa desses transloucados, fiquei até altas horas acordada, areando várias
panelas de cobre. Com isso, hoje estou morrendo de dores pelo corpo todo.
     _ Maria, Maria... Por que ficou até tarde fazendo um serviço que não era da sua ossada? Sabe
muito bem que poderia esperar até o dia amanhecer e pedir a Joana que fizesse isso.
     _ Nunca, de jeito algum! Esses incompetentes já deveriam ter deixado tudo pronto e arrumado
a meu gosto, para evitar que eu tivesse mais um aborrecimento como esse. Além do mais, não gosto
de deixar nada para depois. Gosto de ver o serviço pronto a tempo e à hora. Não quero mais discutir
sobre isso com a senhorita. Sou desse jeito, sempre fui assim. Não será agora, com a minha idade,
que vou mudar.
     Fiquei olhando-a, sem nada mais conseguir dizer. Maria era uma mulher que gostava da
perfeição. Um jarro fora do lugar era motivo para que ficasse nervosa. Então, tentei novamente
mudar o rumo daquela conversa, que já estava partindo para a área da neurose. Respirei fundo,
tentando não ficar nervosa. Então, perguntei-lhe novamente:
     _ A senhora, por favor, poderia dizer-me, sem muitas palavras, que horas são?
     _ São quase oito. Veja como o Sol está alto no céu. O tempo não para, minha filha. A vida
passa em um piscar de olhos. E se tem a intenção de irmos a algum lugar, é melhor que seja bem
rápida, antes que a condessa Del Prat levante-se e comece a me chamar como uma louca.
     Embora eu tivesse pedido para que Maria me respondesse em poucas palavras, vindo dela não
poderia esperar uma frase sem um longo discurso junto. Então, acabei de vez com aquela conversa,
pedindo-lhe para fazer uma tarefa:




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Maria, por favor, esquente a água para eu tomar banho, pois tenho muitas coisas para fazer
hoje na cidade. Tenho que ir a alguns lugares e comprar algumas coisas que me estão faltando.
     _ O que poderia estar faltando para a menina?
     _ Coisas para eu começar meu trabalho. Coisas que nunca pensei em usar, mas que agora sei
que vou precisar.
     _ Não acha que está se precipitando novamente em tomar certas decisões, minha filha? Pense
um pouco: deveria agir com um pouco mais de prudência e cautela.
     _ Em tudo o que me diz, vejo coerência e sensatez. Mas, infelizmente, minha querida Maria,
desta vez não poderei atendê-la, pois tenho mesmo que comprar essas coisas que me faltam. E isso
tem que ser bem rápido, porque o meu tempo é curto demais.
     _ Por que está me dizendo que seu tempo está curto? Está pensado em me abandonar? Já sei,
arrumou um pretende e nem me contou! Que egoísta! Logo eu, que sempre lhe fui tão fiel... Agora
estou aqui, merecedora desta desfeita.
     _ Lógico que não, Maria! Não vou deixá-la nunca. Apenas sei que tenho coisas a fazer que, se
eu não correr e colocá-las em prática, não conseguirei terminar tudo a tempo.
     _ Mas precisa ser assim, desse jeito? Parece até que a menina está com uma sangria desatada.
     _ Ora, Maria, parece que tirou o dia para me azucrinar as ideias! Vamos, ande, vá preparar
meu banho e arrume-se rápido. Além de tomar banho, também tenho que me arrumar.
     _ Está bem, a menina não precisa me tratar assim. Vou descer, tenho que pedir permissão à
condessa Del Prat para lhe acompanhar. Afinal, sou apenas uma serviçal nesta casa. Não tenho o
menor valor!
     Olhei para Maria com certo ar zombeteiro e falei-lhe:
     _ Maria, sabe muito bem que nunca lhe vi como uma serviçal! Pare de ser tão dramática, pelo
amor de Deus! E mais: de agora em diante, também dou ordens nesta casa. Se a condessa
desaprovar qualquer atitude minha, vai ter que engolir um sapo boi, pois as coisas mudaram.
     Maria arregalou os olhos e ficou na minha frente, estática. Depois saiu de mansinho, dando um
sorriso que mais parecia de satisfação - o que me deixou curiosa e fez-me perguntar-lhe:
     _ Isso quer dizer que a senhora aprovou essa atitude minha?
     _ Não sei, depois de quase eu ter sido lançada porta afora como um cão sarnento pela
senhorita, isso quer apenas dizer que estou surpresa por ver a menina assim, tão senhora de si.
     Dizendo isso, Maria saiu, deixando-me a sós. Eu a amava e isso era um fato. Mas, às vezes,
Maria ironizava muito as coisas e aquilo me tirava do sério.
     Assim que a escrava trouxe-me a água para o banho, não me demorei e arrumei-me o mais
rápido que pude. Fiz uma pequena lista de todos os ingredientes e utensílios que eu precisaria.
Maria ainda veio avisar-me que estaria pronta assim que eu estivesse, e que teve a permissão da
minha madrasta para sairmos. Isso me foi uma surpresa. Senti no ar que a condessa tentaria
aprontar alguma coisa contra mim. Então, esperei Maria sair para que pudesse fazer uma oração e
fortalecer meu espírito. Em seguida, saí do quarto e apressei-me em descer as escadas correndo.
Mas deparei-me com a condessa, que me estava esperando no último degrau, com as mãos na
cintura e ar de soberania. Logicamente, isso não me era mais uma surpresa. Respirei
profundamente e fui descendo vagarosamente as escadas, pois sabia que, se ela estava me
esperando, boa coisa não aconteceria.
     Ficamos frente a frente e, depois de muito cambalear e de ter-me feito uma cara feia - que não
consegui compreender se era de fome ou de enjoo causado pelo hálito de bebida que saía da sua
boca -, ela falou:
     _ Onde a senhorita pensa que vai? Não me lembro de ter-lhe dado permissão para que saísse.
     Dei um sorriso matreiro e fui caminhando calmamente, circulando em volta dela. Ao dar uma
volta completa entorno dela, disse-lhe assim:




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                                         Adriana Matheus

     _ Sério? Pelo que me consta, a senhora deu, sim, permissão à Maria para que ela saísse
comigo.
     _ Não me lembro de ter dado tal autorização à Maria! E muito menos me lembro de tê-la
deixado sair também!
     _ Quer dizer, então, que a senhora vai ter a coragem de chamar Maria de mentirosa assim, na
sua frente?
     Disse isso porque Maria havia acabado de entrar e estava de pé atrás dela, com os olhos
arregalados. A pobre mulher mal sabia que direção tomar. A condessa virou-se sinicamente,
olhando para Maria de cima abaixo, e disse:
     _ Se dei tal autorização, estou tirando-a agora mesmo.
     Foi saindo, querendo deixar-nos sem saber o que fazer, como ela sempre fazia. Mas só que,
daquela vez, corri para frente dela e disse:
     _ Alto lá! Não é bem assim que as coisas funcionam. A senhora não vai sair e deixar-nos aqui,
falando ao vento. Vamos terminar essa conversa agora mesmo. Acho muito interessante a senhora
não se lembrar de ter-me dado a tal autorização. Sendo assim, devo ressaltar e refrescar-lhe a
memória. Sabe por quê? Porque também não me lembro de tê-la pedido nenhuma autorização para
fazer da minha vida o que eu bem quisesse.
     Disse isso desafiadoramente, olhando-a bem nos olhos. Peguei-lhe um dos braços e falei bem
baixinho ao ouvido:
     _ Vamos combinar o seguinte: a senhora, minha madrasta, não conta ao meu papai que saí sem
suas ordens, e prometo não mencionar nada sobre suas festas escondidas nos fins de semana. Isso é
muito mais fácil do que minha querida madrasta pode pensar, sabe como? Faça de conta que não
existo e continuarei a fazer o mesmo - embora não seja da minha índole ter que mentir para o meu
próprio pai! Lembre-se de que faço isso somente pelo afeto que lhe tenho. Afinal, sempre fomos
tão amigas! Então, o que me diz, querida madrasta?
     Àquela altura, nem me lembro como foi que Maria desapareceu do meio de nós duas! Eu
estava tão interessada em terminar aquela conversa que me esqueci de tudo ao meu redor, até de
Maria. Minha madrasta, após ranger os dentes de ódio, disse-me:
     _ Odeio-a com todas as minhas forças! Pode ter certeza de que isso não vai ficar assim.
Prometo-lhe que farei da sua vida um inferno.
     Ao ouvir aquelas palavras, dei uma gargalhada que parecia não ser minha e prossegui:
     _ Engana-se, minha querida madrasta. A senhora já fez da minha vida um inferno. Agora não
fará mais. Sabe por quê? Porque aprendi com o diabo lá no inferno, onde a senhora me colocava,
que posso ser muito mais má do que pensa. Portanto, pense duas vezes antes de meter-se comigo ou
com Maria de agora adiante. E que essa conversa termine aqui e agora. Aliás, já até me esqueci!
Imagina... O que é mesmo que devo me lembrar de não contar a meu pai?
     Fitei-a nos olhos e continuei:
     _ Agora, se me der licença, estou de saída. Até já, madrasta querida. - joguei-lhe um beijinho
com a mão.
     Ela ficou boquiaberta e sem reação aparente. Encontrei-me com Maria, que estava perto da
carruagem. Ela continuava com os olhos arregalados, a cor rosada do seu rosto estava de um tom
empalidecido. Esfregava as mãos uma contra a outra. Temia por mim, mas, sendo uma criada, não
poderia se intrometer entre mim e minha madrasta. Percebendo seu desalento, dei-lhe um sorriso
largo, tentando disfarçar o nervoso em que me encontrava. Mas Maria parecia ansiosa por saber o
que havia acontecido. Então, perguntou-me:
     _ O que foi que a senhora Del Prat disse? Ela lhe fez algum mal, senhorita?
     _ Nada demais, entramos em um acordo civilizado. Não se preocupe, Maria. A condessa não
tocou em um só fio dos meus cabelos. Pelo contrário, acho que de agora em diante ela vai até me
pedir conselhos.




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                                         Adriana Matheus

     _ Hã!? Como assim? O que realmente aconteceu? Como consegue estar tão tranquila, sabendo
que a condessa lhe odeia?
     _ Fique calma, Maria. Apascente seus nervos. Acredite: não aconteceu nada. A condessa não
disse muita coisa, pois ainda está meio em estado ébrio. A senhora sabe que, quando a minha
madrasta está desse jeito, mal dá para entendê-la. Na verdade, acho que ela confundiu as coisas e
achou que não tinha lhe dado autorização para sairmos. Aliás, descobrimos coisas tão em comum
entre nós! Estou tão admirada quanto a senhora, acredite!
     _ E quais seriam essas coisas, Santo Deus!? Vejo que hoje será um longo dia...
     _ Está bem, Maria. Vou-lhe responder, mas somente para matar a sua curiosidade: descobrimos
que somos senhoras distintas, civilizadas e que falamos a mesma língua. Fiquei impressionada de
como eu e minha madrasta poderemos nos dar bem de agora em diante.
     Se Maria não estivesse encostada na carruagem, teria se espatifado ao chão, pois quase perdeu
o equilíbrio das pernas, por não ter entendido absolutamente nada. Por fim, depois de ter tomado
fôlego, disse-me, com a voz meio trêmula:
     _ É melhor seguirmos em frente, antes que meu coração pare de uma vez. Por hoje já me
bastam tantas emoções fortes.
     De repente, ao ver Maria subindo na carruagem, deu-me a sensação de que em breve teríamos
que nos despedir para sempre. Dentro da carruagem, mudei aqueles pensamentos tristes, tentando
animar Maria, que estava tremendo por minha causa. Inventei uma história engraçada e contei para
ela. Também fiz algumas caretas para que se distraísse e mudasse os pensamentos, antes que eles
virassem palavras aborrecidas. Isso funcionou, pois seguimos o resto do trajeto rindo. Contei à
Maria alguns dos dons que havia recebido. Ela se admirou por saber que eu havia adquirido o dom
da clarividência. Eu também, pois foi a primeira manifestação de Deus em mim.
     Depois de meia hora dentro da carruagem, descemos em frente a uma casa de chás. Dei à
Maria metade da lista que havia feito e fui saindo.
     _ Aonde a mocinha pensa que vai sozinha, sem a minha companhia?
     _ Procurar um ferreiro, ora!
     _ Posso saber para quê, já que a mocinha agora resolveu ser tão independe e desligada de mim?
- disse Maria, mais uma vez usando de suas ironias e, ao mesmo tempo, preocupada comigo.
     _ Não se preocupe comigo, Maria. Sei onde tem um: no final desta rua. Volto logo e encontro-
a aqui, neste mesmo lugar, em frente a esta casa de chás.
     Saí e deixei Maria, sem dar muitas explicações, antes que ela me indagasse mais alguma outra
coisa, é claro!
     Olhei para todos os cartazes que podia ver, tentando achar a ferralheria da cidade. Foi quando,
finalmente, avistei em uma esquina um enorme cartaz escrito Ferraria Campo Belo.
     Deu-me certa tonteira ao olhar aquele cartaz. Não soube explicar de imediato, mas era como se
alguém naquele local não estivesse bem de saúde e, de alguma maneira, minha energia foi toda
direcionada para lá. Cheguei a sentir meu corpo arrepiar-se. Alguém naquele lugar estava mesmo
precisando de mim. Respirei profundamente e fechei olhos, buscando forças. Em seguida, caminhei
em direção à ferralheria.
     Quando estava virando a esquina, deparei-me com uma jovem soluçando muito, encostada em
um muro. Se tivesse acontecido isso antes, teria passado despercebida por mim aquela cena. Mas,
agora, era mais que isso: era como se eu tivesse uma obrigação de captar tudo que estava ao meu
redor.
     A jovem não tinha mais que dezessete anos. Mas, de tanto que chorava, dava a impressão de
ter muito mais idade. Abaixei perto dela e perguntei-lhe:
     _ Tudo bem, senhorita? Sabe informar-me onde encontro uma ferralheria por aqui? - tentei
despistar, já que a loja estava à minha frente.




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                                         Adriana Matheus

     _ Sim... Fica logo ali, na frente da senhorita. É a ferralheria do senhor Juan Campos. Ele é
muito habilidoso, mas não é muito amistoso, devo adverti-la. - disse-me isso entre soluços,
passando as mãos sobre os olhos, tentando esconder-me que estava chorando - como se isso fosse
possível!
     _ Ah! Desculpe-me, sou mesmo uma distraída! Imagine, nem vi que estava ali na minha frente!
Olhe, não estou querendo ser inconveniente, mas posso perguntar-lhe algo?
     _ Sim, claro.
     _ A senhorita não gostaria de tomar uma xícara de chá comigo? Vejo que não está se sentindo
muito bem. Veja, querida, talvez eu não consiga resolver o seu problema, mas ao menos posso
ouvi-la. Às vezes desabafar faz bem ao espírito. E então, o que me diz?
     _ A senhorita é mesmo muito gentil, mas não tenho uma roupa apropriada para entrar em um
lugar tão refinado como aquele.
     _ Santo Deus! O que tem de errado com as suas vestes?
     A jovem baixou a cabeça, pesarosa, e disse:
     _ Se eu entrar naquele lugar usando esses trapos, certamente me colocarão para fora como um
cão sarnento. Nem todos nesta cidade veem os pobres da mesma forma que a senhorita. Algumas
pessoas acham que temos algum tipo de doença contagiosa. Não nos dão emprego porque somos
sujos. Não temos direito a um médico porque não temos dinheiro para pagar. Então, quando
percebem que não lhes temos nenhuma valia, arrumam alguma coisa para que sejamos descartados
de vez dessa sociedade egoísta e sem coração. É muito triste, senhorita, termos que viver na
miséria! Mas como poderemos ser alguém se não nos dão uma oportunidade? Como podemos ser
parte do mundo se as pessoas existentes nele não nos veem como seres humanos dignos? De que
adianta querermos lutar, se somos podados até de nossos sonhos? Essa sociedade desumana está
sempre tentando encontrar alguma coisa de que nos acusar. Como vamos cheirar bem se nem o
mínimo recurso para sobrevivência nos dão?
     Aquela jovem não estava errada. Mas seu coração parecia cheio de revolta e amargura. Sabia
que não adiantaria argumentar muito com ela. Então, disse-lhe:
     _ Está bem, então. Não vou mais insistir para que vá comigo à casa de chá. Mas posso me
convidar para tomar chá em sua casa?
     _ Oh! Senhorita, não temos chá em casa, apenas água. - disse a jovem, baixando a cabeça,
parecendo constrangida por ter que demonstrar a real situação financeira de sua família.
     _ Ótimo, estou morrendo de sede. O calor está me deixando sufocada. Aceito o seu copo
d’água.
     A jovem esboçou um sorriso meigo e levantou-se. Por fim, meio a contra gosto, acabou
convidando-me para ir até a sua casa, que não ficava muito longe dali - apenas a uns trinta metros,
creio!
     Aprendi uma coisa nessa minha curta existência: nunca ouvir um não antes de ouvir um sim.
Era óbvio que eu nunca deixaria aquela jovem ali chorando, sem nada tentar fazer por ela.
     Chegamos, por fim, em frente a uma casinha muito velha e com os alicerces à mostra. O mato
cobria toda a lateral. O portão era de madeira e estava todo quebrado - a jovem teve que levantá-lo
para passarmos. O interior da casa era muito simples e havia pouquíssima mobília. Para me sentar,
a jovem ofereceu-me um caixote. Ela foi até a cozinha e trouxe-me água em uma moringa de barro,
e serviu-me em um copo, também de barro.
     Depois de tomar calmamente aquela água, deliciosamente fresca, perguntei-lhe:
     _ A senhorita vive sozinha nesta casa?
     _ Não, vivo com a senhora minha mãe. Sabe, senhorita, minha mãe está muito doente e não
tenho como ajudá-la, porque ninguém me dá um emprego. Não sei como fazer para pagar o doutor
e comprar os remédios dela.




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                                         Adriana Matheus

     _ Eu a entendo. Talvez, se a senhorita me permitir, possa ajudá-la. Mas nem pense em dizer-
me que isso será um incômodo.
     A jovem olhou-me tão triste que, em seus olhos, pude ver o tamanho de sua dor. Por certo, não
poderia abandoná-la.
     _ O que tem a sua mãe? Preciso saber do que se trata, para poder saber em quê poderei ajudar.
     A jovem, então, contou-me tudo sobre a doença da mãe.
     _ Minha mãe sofre com dores horríveis nos rins. Isso já está acontecendo há mais de dois anos.
Procurei o doutor e ele veio até aqui examiná-la. Depois disse que o tratamento seria muito caro e
demorado. Estamos passando por muitas dificuldades, pois meu pai faleceu precocemente, há seis
anos. Ele não tinha recursos e não nos deixou nada além desta velha casa.
     _ Posso vê-la? Se não se importa, é claro!
     _ Imagina... Que falta de delicadeza a minha. Venha comigo.
     A jovem levou-me até o quarto da mãe, onde ela estava deitada em uma caminha muito
simples, quase sem cobertores para cobri-la do frio da febre. Fiquei catatônica por alguns segundos,
olhando aquela triste cena, sem saber por onde começar. Por fim, olhei-a bem dentro dos olhos e
disse:
     _ Quero que a senhorita confie em mim. Mas, antes, escute o que tenho a lhe dizer, pois não
quero que, de modo algum, pense que estou me esquivando de lhe ajudar. Agora não posso fazer
absolutamente nada pela senhorita, porque estou com os pés a as mãos atados. Tenho que sair. Vou
ao armazém comprar alguns utensílios de extrema importância para mim. Infelizmente, hoje já me
havia programado para esse tipo de tarefa. Mas prometo-lhe que voltarei assim que tiver com tudo
pronto para ajudá-la. Se a senhorita puder deixar sua mãe um pouco sozinha, gostaria imensamente
que me acompanhasse à ferralheria e, depois, fosse comigo encontrar uma grande amiga.
     A jovem olhou para a mãe que, embora muito convalescida, aprovou com a cabeça para que a
filha fosse comigo.
     Passei a mão sobre a testa daquela senhora e perguntei-lhe:
     _ Como a senhora se chama?
     _ Catariana de La Costa. Quero agradecer por tentar ajudar minha filha e eu. De agora em
diante, seremos suas servas.
     _ Não tem que me agradecer. Não as quero como servas, mas como amigas.
     Passei novamente a mão em seu rosto, tentando não deixar que as lágrimas rolassem. Depois,
silenciosamente, fiz o sinal mágico que sempre Maria me fazia para que eu adormecesse. Este sinal,
de repente, veio-me claramente, como tudo o que estava acontecendo comigo depois da viagem. A
mulher adormeceu rapidamente e, então, pudemos sair sossegadas. A jovem ficou admirada, mas
nada comentou sobre o acontecido.
     Esperei que a jovem trocasse de roupa, pois parecia muito preocupada com suas vestes. Logo
em seguida, fomos à ferralheria. Lá, encontrei um homem tossindo muito forte. A tosse era rouca.
Observei-o logo da entrada e percebi que aquela seria uma longa manhã. Mais um precisava de
mim e, com certeza, eu teria que ajudar também. Então, pigarreei para que ele se virasse e disse:
     _ Bom dia, senhor!
     _ Bom dia, senhorita! Em que posso ajudá-la? - disse o homem, tossindo e olhando-nos de
cima abaixo.
      _ Quero saber se o senhor pode me fazer uma chave?
     _ Por que a senhorita não procura um chaveiro? Não sabe ler? Sou ferreiro, não faço chaves.
     _ Sim, sei disso. Mas quero que o senhor derreta estas correntes de bronze e me faça uma
chave. - disse isso, tirando de dentro de uma bolsinha algumas correntes de bronze que eram de
minha mãe.
     Então, continuando com o assunto, falei:




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     _ Tenho certeza de que o chaveiro entende de chaves, por certo. Mas não me fará um serviço
tão perfeito quanto o senhor fará.
     _ Sim, nisso a senhorita tem razão: sou mesmo o melhor ferreiro do condado. E saiba que, por
meus serviços serem todos manuais, cobro muito caro.
     Disse isso olhando-me de cima abaixo, parecendo duvidar que eu tivesse condições de pagá-lo.
A arrogância daquele homem já estava começando a me incomodar. Mas apenas lhe disse:
     _ Faça seu preço e sei que lhe pagarei muito bem, acredite! A propósito, sei como curar a sua
tosse.
     Depois de me olhar meio incrédulo, parecendo não acreditar que eu tivesse dinheiro para pagá-
lo, o homem respondeu-me num tom de deboche:
     _ Ah... Não sabe, não. O que uma mocinha como a senhorita pode entender da minha doença?
Nem mesmo o doutor conseguiu curar essa tosse horrível. Ora, senhorita, aceito fazer o que me
pede. Agora, não me venha querer passar a carroça na frente dos bois e dizer-me que é mais
entendida do que o doutor. O que está querendo me dizer? Que a senhorita é uma curandeira?
     _ O orgulho do senhor não vai melhorar as dores das suas costas.
     _ Como sabe que sinto dores nas costas?
     _ Porque percebi que, ao tossir, faz careta e leva as mãos até as costas. Isso significa que a
tosse é intensa e já lhe afeta os pulmões. Percebi, também, que o senhor sente certa falta de ar - o
que significa que está com um grande muco preso no peito. É isso que lhe causa essa terrível dor
nas costas. E o senhor tem razão ao dizer que não entendo nada sobre as coisas que os doutores
levaram anos aprendendo nas faculdades da Europa. Mas tenho uma coisa que os doutores com
certeza não têm. Sabe o que é? Amor e caridade ao próximo. Compadeci-me de vê-lo trabalhando
assim, doente. Se lhe estou dizendo que sei como curar sua doença, ao menos o senhor poderia me
dar uma chance de poder tentar, não acha? Quanto a ser uma curandeira, saiba que não sou. Quem
me dera eu fosse, pois seria uma honra para mim ter nascido com dons tão especiais. Assim,
poderia curar muitas pessoas necessitadas e carentes. Ouça uma coisa: não precisa fazer o que vou
lhe ensinar. À noite, peça à sua esposa para preparar-lhe um unguento de água e farinha de milho.
Depois de pronto, peça-lhe que coloque o unguento quente dentro de um saco de pano e, em
seguida, coloque sobre as suas costas. Durante sete dias, na hora de se deitar, repita isso. Com
certeza vai aliviar-lhe as dores nas costas. Mas, por favor, evite tomar golpes de vento.
     Percebi que o homem, embora arrogante, estava prestando atenção em tudo o que lhe falava.
Então, continuei, passando-lhe uma receita caseira de ervas.
     _ Existe uma erva que se chama assa-peixe. É muito comum achá-la no meio do mato. Um
raizeiro que conheça bem de ervas poderá ajudá-lo. Prepare-a do seguinte modo: coloque duas
colheres de sopa das folhas picadas da erva em uma xícara de chá. Adicione água fervente e,
depois, abafe para amornar. Adoce com mel e tome duas a três vezes ao dia. Pode também
amassegar as folhas e tomar o seu sumo, mas é meio amargo. Portanto, é mais aconselhável fazer o
chá. Isso vai lhe curar essa tosse. Acredite em mim, senhor Juan.
     _ A senhorita não é uma bruxa, é? Pois não me lembro de tê-la dito o meu nome também.
     Dei um largo sorriso. Confesso que foi tentador não poder confessar-lhe que sim. Mas, mais
uma vez, precisei esconder minha condição.
     _ Não, sou apenas uma jovem curiosa. E o seu nome me foi dito por esta jovem que aqui me
trouxe. Ela conhece o senhor, não conhece?
     Ele fez uma aceno positivo com a cabeça e prossegui:
     _ Não devemos criticar as pessoas, senhor Juan. Principalmente quando está nos estendendo a
mão. Como disse, sou apenas uma jovem curiosa e gosto muito de ajudar os outros. Isso sem contar
que leio muito, senhor Juan, muito!
     Não menti para o senhor Juan. Apenas omiti algumas coisinhas, para que não saísse acusando-
me levianamente. Afinal, não estava praticando bruxaria, apenas ensinei a ele uma maneira de




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O segredo dos girassóis
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curar-se daquela doença. Mas sabia que, se eu citasse a palavra bruxaria, ele poderia colocar todos
os meus planos a perder por causa do preconceito que já havia manifestado. O senhor Juan, após
muito analisar minhas palavras, olhou-me meio receoso e disse:
     _ Farei sua chave. Pode pegá-la amanhã, às oito horas. Este é um bom horário para a senhorita?
     _ Sim, está ótimo! Amanhã estarei aqui, britanicamente no horário combinado. E tenho
absoluta certeza de que encontrarei o senhor bem melhor e mais disposto.
     _ Acha mesmo que farei uso da sua mandinga? Se pensa isso, está enganada, pois sou um
homem muito católico e não usarei de nenhum feitiço para curar-me. Não sou o tipo de pessoa que
passa por cima das leis de Deus. Isso seria uma heresia contra o meu Pai.
     A arrogância e a ignorância daquele homem estavam começando a tirar-me do sério. Mas, por
uma questão de lógica e sensatez, apenas lhe respondi:
      _ De modo algum, senhor Juan, estou passando por cima da vontade de Deus. Mas também
creio que não seja da vontade Dele que o senhor continue doente. Também não tive a menor
intenção de ofendê-lo e, se o senhor pensa dessa forma, então esqueça tudo o que esta jovem
ignorante aqui lhe ensinou. Afinal, nada sei desta vida, não é mesmo? Estando aqui, diante de um
mestre artesão, quem sou para discutir? Também não quero que o senhor pense que sou intrometida
e sem educação. E, principalmente, não quero que o senhor pense que estou lhe ensinando um
feitiço para que fique ainda mais doente. Não foi a minha intenção, senhor Juan. Só tentei ser-lhe
gentil e amigável.
      Disse aquelas palavras porque estava imensamente ofendida, porque percebi que aquele velho
turrão começou a ter pensamentos maliciosos e abomináveis em relação a mim. Com isso, aprendi
que, às vezes, não adianta tentar ajudar algumas pessoas, pois elas, além de nascerem no meio da
ignorância e do preconceito, preferem morrer a darem o braço a torcer, aceitando que estão erradas.
     Olhei para a jovem que me acompanhava e ela estava extasiada com minhas palavras. Depois
de dar uma piscadinha de olhos para ela, levantei a cabeça e disse:
     _ Até amanhã, senhor Juan. Espero, sinceramente, que neste período o senhor reflita e baixe a
sua guarda em relação a mim. Afinal, não lhe estou afrontando em nada. Passar bem.
     _ Até, senhorita. Criatura insolente! - disse o velho entre dentes, demonstrando total antipatia
por mim.
     _ Anna, esse é o meu nome. E a recíproca é verdadeira.
     Falei dessa forma, olhando para trás e fitando-o nos olhos. Com certeza ele entendeu que
também o achei um antipático. Eu e a jovem saímos da ferralheria, rindo daquele velhote sisudo e
arrogante. A jovem, ainda, acompanhou-me até a carruagem, onde Maria estava. Eu as apresentei.
Depois de já estarem familiarizadas, virei-me para a jovem e perguntei:
     _ A propósito, depois de termos passado todo esse tempo juntas, ainda não sei o seu nome.
     _ Chamo-me Samara Cortez de La Costa, às suas ordens!
     _ É um prazer, Samara, tê-la conhecido.
     Maria deu um sorriso, parecendo ter aprovado a minha mais nova amizade. Contei a ela,
fazendo uma breve retratação, tudo o que me havia acontecido desde o primeiro momento em que
chegamos à cidade juntas. Maria ficou indignada em relação à arrogância do senhor Juan, mas
também se compadeceu da história da jovem Samara e deu-lhe um pequeno obséquio, para que
pudesse comprar alguma coisa de comer para ela e a mãe. Prometi a Samara que voltaríamos para
ajudá-la no dia seguinte.
     Depois de nos despedirmos, Maria e eu fomos ao armazém comprar os outros ingredientes que
faltavam. Logicamente, comprei muitas coisas para minha nova amiga. Dessa vez, Maria não deu
nenhum palpite contrário. Parecia estar aprovando tudo que eu fazia.
     Andamos muito. Fomos a todos os fabricantes de panelas de ferro da redondeza, até que achei
a minha panela - ou melhor, o meu caldeirão. O fabricante era um senhor que vendia coisas usadas,
e disse que aquele caldeirão havia pertencido a uma famosa bruxa de Salém. De imediato, comprei-




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O segredo dos girassóis
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o sem pestanejar. Depois, fomos a um marceneiro e perguntei-lhe com qual tipo de madeira ele
trabalhava. Ele citou várias. Mas, de repente, avistei um galho de carvalho jogado em um cantinho.
Perguntei ao homem:
     _ Senhor, o que fará com este galho de carvalho?
     _ Este? - disse ele, pegando e examinando o galho de todos os ângulos.
     _ Sim. Esse mesmo.
     _ Vou jogá-lo na fogueira para servir-me de lenha.
     _ Hã? Não pode estar falando sério!
     _ Por quê? A senhorita quer este galho?
     _ Se o senhor for se desfazer dele e quiser me vender, compro.
     _ Vender um galho? Não, senhorita, dou-lho, embora não faço a menor ideia para que ele lhe
será útil.
     Fiquei muito grata ao marceneiro e, mesmo ele não querendo aceitar, paguei-lhe. Em casa,
pediria a Joseph para talhá-lo para mim.
     Comprei diversos vidros e potes. Maria, por sua vez, indagou-me porque eu havia comprado
tantos vidros, potes e garrafas. Então, respondi:
     _ Ora, Maria, as garrafas são para os xaropes. Os potes são para colocar as compotas especiais
que farei, e os vidros são para colocar as essências aromatizadas - segredinhos que aprendi com a
minha ancestral.
     _ Sério? Que pessoa mais cheia de mistérios ficou a senhorita! Agora, além de me tratar mal,
anda a fazer mistério de tudo o que faz.
     Ri muito do tom de ironia na voz de Maria e, depois, completei a curiosidade dela, dizendo:
     _ Não voltaremos amanhã à cidade para cumprir a promessa que fiz à jovem Samara.
     _ Jesus! Não me precisa dizer mais nada. Já entendi tudo, esse será um longo dia... E é melhor
eu preparar meu espírito para o que estar por vir daqui para frente. Santo Deus, menina, não tenho
mais tanta idade para lhe acompanhar nessas suas novas mudanças de hábito. Pois a senhorita,
depois que conheceu o seu novo caminho, cria tantas ideias como o vento muda de direção.
     Dei uma gargalhada sonora e Maria ficou olhando para todos os lados, para ver se havia
alguém conhecido nos olhando. Afinal, uma moça de família não podia jamais rir tão alto. Era
escandaloso demais. Qualquer demonstração de alegria em público, por mais sincera que fosse, era
motivo para excomunhão. Mas não estava, naquele momento, preocupada com o que as pessoas
poderiam falar de mim, muito menos com as regras da Santa Madre Igreja. Pois, pela primeira vez
em minha vida, estava sendo eu mesma. Havia me libertado daqueles tabus, cheios de etiquetas de
refinamento e educação. Para mim, aquilo tudo não passava de uma máscara para encobrir a
verdadeira face da devassidão daquele povo hipócrita e com falsa moral.
     Voltamos para a carruagem, que estava em frente à casa de chá, onde Lorenzo nos estava
esperando para retornarmos à casa. Esperei que o cavalariço empilhasse tudo em cima da
carruagem. Então, disse-lhe:
     _ Haverá uma pequena mudança nos planos, meus queridos! Antes de voltarmos para casa,
tenho que resolver um pequeno assunto que ainda está pendente. Não se preocupem: chegaremos à
casa ainda esta tarde.
     _ A senhorita é quem manda! - disse o cavalariço.
     _Vire na primeira esquina, antes da praça, e entre na terceira rua, antes de chegar à ferralheria.
Vou visitar uma amiga.
     Maria olhou para o céu e sacudiu a cabeça, como quem diz Eu sabia!.
     Não demorou muito e, em alguns minutos, já estávamos em frente à casinha da minha mais
nova amiga. A jovem, ao ver a carruagem parando em frente à sua casa, veio logo nos receber com
um sorriso amistoso nos lábios.
     _ Senhorita! Não acreditei que viesse. Ainda mais assim, tão rápido.




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O segredo dos girassóis
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     Assim que desci da carruagem, ela veio receber-me prazenteira, dando-me um abraço afetuoso
e, em seguida, convidando-nos para entrar. Antes de entrarmos, pedi-lhe desculpas por ter
antecipado minha visita. Disse-lhe que meu coração pediu aquela atitude.
     Já dentro da casa, deparamo-nos com Dona Catarina, a mãe de Samara, sentadinha em um
caixote. Embora a mulher estivesse ainda muito pálida, ela me pareceu mais animada do que
quando a vi pela manhã. Samara, por certo, deve ter-lhe dado algo de comer com o obséquio que
Maria lhe doara. Assim que me viu, abriu um sorriso simples no rosto e cumprimentou-nos com um
aceno de cabeça que mais parecia gratidão. Pude chegar a uma conclusão com aquela inesperada
visão à minha frente: a mãe de Samara, na verdade, não saía da cama porque estava enfraquecida.
E, por já ter certa idade, isso a debilitou. Não havia preço no mundo que pagasse aquela cena.
Percebi o quanto é importante ajudarmos os outros. Mesmo que essa ajuda seja pequena, faz
diferença.
     Pedi ao cavalariço que trouxesse as compras de mantimentos que havíamos feito no armazém.
Dei a elas, também, algumas panelas e potes de vidro que havia comprado. Eu e Maria ajeitamos a
casinha, passando a vassoura e espanando. Maria arrumou toda a cozinha e, depois, preparou-nos
uma deliciosa canja para o jantar.
     Lorenzo e o cocheiro auxiliar capinaram em volta da casa e arrumaram o portão quebrado.
Ajudei Samara a dar banho na mãe, que mal podia ficar de pé. Depois de tudo pronto, procurei por
Lorenzo e o flagrei olhando a jovem Samara de uma maneira terna. Ele parecia estar tão
hipnotizado pela jovem que nem me viu pigarreando para chamar sua atenção. Então, cutuquei-o
com o dedo indicador e disse:
     _ Será que o Don Juan poderia me dar um minuto da sua atenção?
     _ Hã? Claro que sim, senhorita Anna. Em que posso ser-lhe útil?
     _ Por favor, Lorenzo, vá até a casa do doutor e traga-o aqui. Diga que é a filha do conde Juan
Vladimir Porto Señra que o chama a esta casa. Faça isso agora, que tenho pressa e urgência.
Depois, o Don Juan pode flertar com a jovem Samara.
     Ela corou de imediato. Logicamente, eu já teria planos futuros para aqueles dois enamorados.
Lorenzo apertou o chapéu nas mãos e saiu tropeçando, parecendo muito sem graça com o meu
comentário. Samara não sabia o que fazer; então, fez um comentário, tentando desviar a minha
atenção daquela cena que havia visto de dois jovens apaixonados se olhando.
     _ Meu Deus, a senhorita é uma duquesa? Estou tão envergonhada... Santo Deus, como pude ser
tão ignorante em não perceber!?
     _ Não. Sou apenas filha de Juan Vladimir Porto Señra. Na verdade, somente minha madrasta é
condessa. Meu pai casou-se com a senhora condessa Marli Von Del Prat e, por isso, exerce também
o direito ao título. Mas nada tenho a ver com a nobreza. Minha mãe, embora não a tenha conhecido,
era filha de fidalgos, mas eram pessoas muito simples. Eles foram os pioneiros deste condado;
muitas melhorias aqui foram feitas por eles. Eles, sim, são importantes. Nada sou além de uma boa
amiga. Por favor, não faça cerimônias comigo. Senão, eu que ficarei constrangida com a senhorita.
Não estou aqui para observar sua casa ou seus modos. Estou aqui para ajudá-la.
     _ Minha Santíssima Mãe de Deus! Mesmo assim, como eu pude ser tão displicente,
oferecendo-lhe um caixote para a senhorita sentar-se!?
     Dei um sorriso e, depois de sacudir a cabeça, respondi:
     _ Se não tem outra coisa para me oferecer, então, o aceito de bom grado, fique sabendo! Além
do mais, é melhor sentarmos em caixotes do que ficarmos de pé, não acha? O mais importante para
mim agora é a cura e a saúde de sua mãe. Pois ela, sim, tenho certeza de que já lutou muito. Agora
merece, ao menos, um mínimo de conforto. Saiba, senhorita Samara, que todos estamos aqui para
ajudá-las em tudo o que pudermos. De modo algum estamos aqui para julgá-las ou prestar atenção
nos objetos que faltam em sua casa.
     _ A senhorita é uma santa! Pelas suas atitudes, provou-me que tem, sim, a nobreza da alma.




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     _ Oh! Não sou santa nem em pensamento, acredite! Só resolvi fazer o que todos deveriam:
caridade!
     Ela ficou sem saber como me agradecer, de tão feliz que estava com os presentes. Por fim,
muito sem graça e de cabeça baixa, perguntou-me:
     _ Como poderei agradecer-lhe, senhorita Anna?
     Segurei seu rosto magro com carinho, forçando-a olhar em meus olhos, e respondi:
     _ Em suas orações, lembre-se de mim, pois muito em breve serei eu quem precisará da
senhorita.
     Maria, que estava à porta, já ia me fazer uma pergunta quando fomos interrompidas pelo
cocheiro. Ele chegou junto com Lorenzo, trazendo o doutor, todo aflito. Ele já foi direto em minha
direção, perguntando:
      _ O que tem a menina e o que faz aqui? Essa gente fez-lhe algum mal?
      _ Não, doutor, estou muito bem. Não tenho absolutamente nada. Essa gente, como o senhor se
refere, são apenas pessoas pobres que precisam da sua ajuda. Como não têm condições, estou
pagando para que o senhor as atenda da melhor maneira possível.
     Fiquei muito zangada com aquele velhote fedido e cheio de preconceito. Engolindo uma
resposta malcriada, prossegui:
     _ Mandei chamá-lo, doutor, porque esta senhora precisa de cuidados. Está muito debilitada e
sei que o senhor é o único médico no condado. Mas, caso o senhor não quiser atendê-la, irei ao
condado vizinho e pedirei ao doutor de lá para vir aqui atendê-la.
     Sabendo da rivalidade entre os dois doutores, acabei pegando o ponto fraco daquele velhote
ensebado. Apertei os olhos e senti arrepio com aquele pensamento nauseante. Ele ainda continuou
com aquela conversa, parecendo não ter ouvido o que falei de início.
     _ Creio que não tenham dinheiro para serem atendidas. Preciso comer também. – disse ele,
com ar carrancudo. - Seu pai sabe que a senhorita usa o dinheiro dele com indigentes?
     Por pouco não o segurei pelo colarinho encardido do terno. Mas, respeitando a idade em que
ele já se encontrava e também a má condição auditiva, disse-lhe, por fim, quase aos gritos, para ver
se ele me escutaria:
     _ Estou pagando! A propósito, o senhor não fez um juramento junto ao conselho de medicina?
Nesse juramento, não é verdade que não poderia negar auxílio médico a ninguém? O dinheiro é
meu, são minhas economias; não preciso do dinheiro do meu pai. Além de ter o meu dote, juntei
algumas economias e agora achei uma boa maneira de gastá-las. Então, já que será remunerado,
cumpra o seu papel, se quiser receber o meu dinheiro... Sabe, doutor, nunca gostei do senhor, e o
que fará aqui eu faria muito melhor. Só que preciso do seu diagnóstico para saber o que melhor
fazer. Agora comece a trabalhar, examinando a paciente, pois sabemos que tempo é dinheiro, e o
senhor já gastou metade do meu dinheiro com conversa desnecessária até agora.
     Ele ficou muito nervoso, mas o mercenarismo falou mais alto. Levamos a mãe de Samara para
o quarto, para melhor examiná-la. Samara ficou com a mãe dentro do quarto; eu e Maria ficamos
do lado de fora, apreensivas. A consulta demorou umas duas horas e, naquele intervalo de espera,
mil e um pensamentos passaram na minha cabeça. Fiquei pensando em uma ideia para ajudar
Samara e deixar Dona Catarina amparada no pouco de vida que ainda tivesse. Obviamente, colocá-
los-ia em prática. Só precisaria organizar-me mais em algumas questões.
     Depois de muito esperar, o doutor saiu do quarto, acompanhando Samara. Depois de coçar a
cabeça cheia de casquinha, disse:
     _ A senhorita tinha razão em estar preocupada com a saúde dessa mulher. Ela está com anemia
profunda e problemas na bexiga. Eu diria que seus rins também estão quase parando de funcionar.
Isso é o que está causando aquela cor amarelada nela. Mas devo adverti-las que uma cirurgia seria
de alto risco, pois ela está muito debilitada devido à anemia.
     _ O que devemos fazer, então?




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     _ Passarei remédios para a dor e para a anemia. É só o que posso fazer por hora. Duas vezes
por semana, passarei por aqui para vê-la e acompanhá-la em seu tratamento. É muito importante a
questão da alimentação, que deve se muito rica em ferro. Ela deve comer muito fígado de boi e,
também, tomar muito suco de frutas.
     _ Não se preocupe com isso, doutor. Farei o que for necessário para que elas fiquem bem de
agora em diante. Eu mesma cuidarei da alimentação dessa senhora.
     Depois de pagá-lo e ter-lhe adiantado o dinheiro das futuras consultas, peguei a receita e pedi
que Maria fosse ao boticário para encomendar os remédios. Ela foi de imediato. Fui para a cozinha
e preparei uma poção à base de ervas medicinais. Coloquei tudo dentro de um vidro e dei à Samara,
para que desse à mãe três vezes ao dia, por um mês.
     Eram ervas simples, que podem ser encontradas até no meio do mato. Usei a tanchagem ou
Plantago major, também conhecida como transagem. Essa erva, tão popular e comum, combate as
seguintes moléstias: inflamação nos ouvidos, nos olhos, nas gingavas, na garganta, nas amígdalas,
nas faringes, no estômago e nos rins, entre tantas outras doenças.
     A outra erva que usei foi a quebra- pedra, que serve para chás caseiros, para dissolver cálculos
nos rins ou pedras, como vulgarmente falamos. Essa erva tem as seguintes propriedades:
antiespasmódica, adstringente, analgésica, antisséptica, anti-hipertensora, anti-inflamatória,
diurética e tônica.
      Não sabia bem como essa pequena erva veio parar em Salamanca, na Espanha. Mas o fato é
que ela era muito eficaz para o tratamento de todas as doenças citadas. É muito importante que eu
cite, aqui, que nunca quis ser uma doutora. As receitas que ensino são apenas auxiliares à medicina.
Elas e as dicas aqui expostas são uma orientação prática e fácil àqueles que desejam se utilizar de
plantas e ervas à disposição de todos. Nós, bruxas, vivemos de tudo o que a mãe terra nos fornece.
Se ela nos oferece a cura, então, por que não utilizá-la?
     Quando Maria voltou, trazendo o remédio preparado pelo boticário da região, entreguei nas
mãos da jovem Samara, orientando a maneira como ela daria à mãe. Tomamos a canja que Maria
havia preparado e, depois de tudo resolvido, despedimo-nos. Ao sairmos, prometi que voltaria a vê-
la. A jovem agradeceu-me tanto que cheguei a corar.
     Já na carruagem, Lorenzo olhou-me com os olhos cheios de lágrimas, dizendo as seguintes
palavras:
     _ A senhorita é um anjo, um anjo... O que faria essa pequena família se a senhorita não lhe
tivesse ajudado?
     _ Não, Lorenzo, só fiz a minha obrigação como cidadã.
     Lorenzo nem desconfiava que eu tivesse planos para ele e Samara. Maria deu-me um tapinha
nas costas, olhando-me com ar de admiração. Praticamente havia me tornado uma heroína para
aqueles dois. Mas eu não poderia deixar que me vissem daquela forma, pois não havia feito nada
demais.
     Na volta para casa, eu e Maria não falamos muito dentro da carruagem. Só queríamos
descansar depois daquele dia de trabalho árduo. Não vimos a minha madrasta quando chegamos em
casa. Segundo nos informou a copeira, ela estaria em seu quarto, com terríveis dores de cabeça –
obviamente, causadas pelo excesso de bebidas da noite anterior. Mas ela disse para a copeira que
foi por causa do desgosto que eu lhe havia causado.
     Como eu não estava mais com vontade de ouvir as intrigas da copeira, fui para o meu quarto,
deixando Maria a sós com ela. Tirei os sapatos tranquilamente, sentei-me na beira da cama e peguei
um livro para ler. Naquele dia, estava muito calma e não deixaria que nada perturbasse minha paz.
       Algumas horas depois, a copeira trouxe-me o banho. De cabeça baixa eu estava e de cabeça
baixa continuei, lendo o meu livro. Mas percebi que ela me olhava com cara feia. Acho que ela
queria que eu perguntasse como a minha madrasta estava, para que pudesse defendê-la, como




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sempre fazia. Ao perceber que não me manifestei com nenhuma emoção aparente, ela saiu,
esbarrando propositalmente o balde em todos os cantos – pensando, assim, que me incomodaria.
     Fiz meu asseio tranquilamente. Coloquei uma camisola limpa e fresca. Certifiquei-me de ter
fechado a janela. Dispensei o jantar e outras refeições, porque estava satisfeita. Depois de fazer
algumas anotações em meu diário, virei para o lado e adormeci, simplesmente.
     Naquela noite, especificamente, tive um sonho estranho. Sonhei com um lugar frio e sombrio,
onde eu era mantida em cativeiro por pessoas encapuzadas. Elas circulavam em volta de mim e
apontavam-me o dedo, como se estivessem acusando-me de alguma coisa. Porém, não consegui
ouvir o que diziam.
     Acordei de supetão, como se alguém me estivesse acordando, ou como se tivesse levado um
choque de um raio. Fiquei muito assustada. Era como se alguma coisa estivesse para acontecer
naqueles dias que viriam pela frente. Também sabia que aquele sonho fazia parte do meu futuro,
mas não conseguia entendê-lo de imediato. Sabia que as pessoas do meu sonho eram religiosas, e
isso me intrigou muito. Fiquei durante algum tempo sentada na cama, tentando decifrar aquele
sonho confuso.
     De repente, olhei para a janela e ela estava aberta, novamente. Confesso que me deu certo
receio. Quem estaria entrando em meu quarto e abrindo a janela? E com qual propósito isso estava
ocorrendo? Havia me esquecido de perguntar à Maria no dia anterior, mas nunca me esqueceria de
perguntar-lhe no dia seguinte.
     Mudei meus pensamentos de direção. Levantei-me e fui até a janela, fechá-la. Resolvi, por uma
questão de segurança própria, trancar a fechadura da porta do meu quarto também. Como percebi
que não conseguiria dormir aquela noite, peguei meu diário e comecei a anotar algumas coisas nele.
     Foi quando ouvi um barulho estranho vindo do jardim. Fiquei muito intrigada. Então, levantei-
me na ponta dos pés, para não chamar atenção, e fui até a janela. Abri bem devagarzinho e olhei de
meia greta. A condessa estava de camisola e roupão, correndo pelo jardim em direção ao portão. Vi
quando ela conversou com um homem, que não era um dos seus convivas. Embora a Lua estivesse
iluminando tudo à distância, não me deixou ver o rosto do homem. Mas, pelo modo de se vestir,
pareceu-me um fidalgo ou mesmo um monarca. Fiquei imaginando o que aquele homem estava
tramando junto à minha madrasta, àquelas horas da noite. O mais estranho foi perceber que os dois
gesticulavam e olhavam em direção à minha janela. Pensei Será que minha madrasta estaria
planejando me matar?
     Depois de ver e presenciar aqueles fatos, não consegui dormir mais aquela noite. Fiquei
apavorada, pensando que a condessa poderia estar tentando me assassinar. Aqueles pensamentos
começaram a me deixar trêmula, pois sabia perfeitamente que a esposa de meu pai era uma mulher
ardilosa e vingativa e, com certeza, estava planejando algo para se vingar pelas coisas que falei co m
ela pela manhã. Sentei-me na cama, cruzei as pernas e comecei a orar com toda a força do meu ser.
Tentei espantar aqueles pensamentos que não me deixavam dormir. Pedi a Deus que acalmasse
meu coração e que me desse forças e visão para que pudesse ver o que a condessa estava
planejando contra mim.
     Depois que orei a Deus, meu coração foi se acalmando lentamente, até que fiquei mais
relaxada. Então, voltei a escrever no meu diário. Aproveitei para falar sobre a meditação e o dom
da paciência.
     A meditação é um processo de se contatar com o ser interior e canalizar as energias puras e
vibratórias num processo de transcendência. Possui técnicas que permitem que a vida interior se
desenvolva, proporcionando o caminho para uma percepção maior da vida real. É a forma de nos
despertar para a presença do Divino na criação e no nosso mais profundo ser. A meditação
contribui de forma positiva para nosso desenvolvimento pleno e harmonioso. São Paulo definiu o
estado da meditação em sua epístola aos efésios, capítulo 4, versículo 13.




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      Meditar é orar em silêncio. É ocupar o pensamento com o vazio - ou seja, temos que esvaziar
o pensamento atual, deixando a mente sozinha. Meditar é a coisa mais difícil que o ser humano
pode imaginar. Pois o homem não consegue, por si só, estar sossegado dentro de si mesmo. Não só
as bruxas, mas todos os seres humanos deveriam meditar, ao menos uma vez na vida. Meditar é
deixar o pensamento ser absorvido para dentro de uma realidade suprema da consciência - o que é
absolutamente indescritível. O centro do nosso ser é o ponto onde Deus nos toca, levando-nos ao
despertar espiritual, produzindo várias experiências de caráter místico. Na meditação, deve-se
silenciar a mente pensante, pondo em prática o entendimento das coisas que não podem ser vistas e
que pertencem à consciência pura. Temos que ter apenas uma noção única da meditação: nela não
há consciência pensante. Falo de consciência pura quando o espírito habita a mais alta verdade, sem
qualquer mistura de pensamento imaginativo. Para chegar a esse nível, devemos calar todas as
memórias e ideias inquietas, silenciando o pensamento. Nenhum movimento na vida religiosa tem
qualquer valor, a menos que seja um movimento para o interior, em direção ao centro silencioso da
nossa existência, onde está Cristo: o nosso eu. A meditação é um encontro cósmico, não só com o
passado ou com os espíritos, mas com a nossa mente inconsciente. É o encontro da paz interior.
     Para que uma pessoa entre em contato consigo mesma, precisa saber que a primeira coisa a
fazer é treinar a respiração. Tem que ser uma respiração correta, disciplinada e induzida ao mesmo
tempo. Não pode existir nada pendente e nenhum barulho em volta dela, pois isso atrapalha o treino
mental. Uma vez dominada a respiração, a segunda coisa a fazer é corrigir a postura. Essa postura é
designada de hasanas. Depois disso, comece a desenvolver a sua concentração física e mental. Para
isso, procure respirar, mantendo a postura e olhando para frente, fixando num ponto. Seguidamente,
olhe para o ponto e para si. Fique assim, em silêncio absoluto. Espere que as ideias fluirão à mente,
mas se não as agarrar, elas, por si mesmas, passarão. Isso acontecerá até que a mente esteja
aquietada e consiga tocar a consciência pura. Como citei, meditar não é fácil e nem é para qualquer
um.
     A busca de Deus, ou contato com as divindades, é algo intrínseco ao ser humano. O maior
contato com Deus é aquele que estabelecemos através da prática da meditação. Algumas pessoas
pensam que se trata de ensinamentos genéricos, e que basta esperar o espírito em questão aparecer.
Mas no nosso sentir, há um erro nessa maneira de pensar.
     Em primeiro lugar, porque ao nosso redor há sempre espíritos querendo comunicar-se conosco,
mais comumente de baixa categoria. Em segundo lugar, porque, não chamando um espírito em
particular, abrimos um portal para qualquer espírito - até mesmo os vulgares ou malignos. Em uma
reunião ou assembleia, não dar a palavra a nenhum espírito que se manifeste é esperar por um
resultado catastrófico. Os espíritos têm uma necessidade muito grande de se comunicar com as
pessoas - isso é fato consumado. É muito imprudente, também, que nos neguemos a falar com um
espírito que procura comunicar-se conosco, levando em conta que ele pode ser um conselheiro ou
um mentor espiritual. Quando um espírito aflito tentar falar, mesmo que seja confusa a sua
manifestação e não consigamos entendê-lo, apenas ouvir é a melhor resposta. Na maioria das vezes,
esses espíritos precisam de ajuda. Devemos levar em consideração, também, o fato de que os
espíritos estão muito distantes de nós. Por isso mesmo, é difícil que manifestem a comunicação.
Caso alguém queira comunicar-se com um espírito, deve ter muita paciência, pois ele pode demorar
até dias para que consigamos escutá-lo. Geralmente, manifestam-se muitos de uma vez, pois a
necessidade de se comunicarem é muita. Isso é o que causava as muitas vozes que eu ouvia quando
criança. O apelo direto a determinado espírito é um laço direto entre nós e ele. Por isso, ao evocar
um espírito, tenha muita cautela - isso é uma regra básica e absoluta. Espíritos familiares são
habituais e também sempre aparecem, mesmo sem serem chamados.
     Fiz essas anotações porque senti a necessidade de meditar e tentar chamar o meu mentor
espiritual. Ainda não o conhecia. Mas, como precisava de ajuda para acalmar-me os nervos e
orientação para saber lidar com aquele perigo eminente, tive que chamá-lo. Podemos, sempre que




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quisermos, chamar nosso mentor espiritual. Mas isso não é para se tornar um hábito frequente, pois
estamos lidando com pessoas. Embora elas não estejam mais no plano terrestre, merecem respeito
de igual modo. Portanto, nunca faça do mentor espiritual uma marionete.
     Relaxei os músculos e fiz novamente minhas orações, de olhos fechados. Pedi a Deus que me
desse a capacidade de entender os espíritos com clareza, porque sabia que antes, para mim, eles
eram apenas vozes e eu nada entendia do que me falavam.
     Depois de meditar e limpar o meu eu, sentei-me na cama com as pernas cruzadas e perguntei,
em voz alta, mas com os olhos ainda fechados:
     _ Acaso há algum espírito familiar aqui presente que possa responder-me algumas perguntas?
     A princípio, nada ocorreu. Então, fiz essa pergunta mais duas vezes. Até que um vento forte
entrou pelo quarto, com tamanha força que tive que me manter firme. Havia naquela experiência
um fator muito importante: minha janela estava completamente fechada. Senti medo e calafrio, mas
me mantive inerte e de olhos fechados. Foi, então, que senti uma forte presença feminina perto de
mim. Um suave perfume de mulher invadiu todo o ambiente. Perguntei, então:
     _ Quem é você? Se está aqui neste recinto para fazer o bem, seja bem vinda. Mas se veio
atormentar este lar, por favor, peço sua compreensão para que se retire em nome de Deus. Se for
minha parenta, diga-me seu nome.
     O vento soprou novamente, só que dessa vez mais suave e bem próximo ao meu ouvido. E uma
voz doce e sussurrante falou-me:
     _ Não se preocupe, Anna, não lhe faria nunca nenhum mal. Sou Elizabeth, sua mãe.
     _ Mãe!
     Tive vontade de abrir os olhos e abraçá-la, mas resisti mais uma vez, pois sabia que não estava
preparada para vê-la em sua forma incorpórea. Isso sem contar que, sem querer, eu poderia afastar
seu espírito. Um espírito familiar não vem com a intenção de nos assustar, mas de nos ajudar ou
pedir-nos algo. Mas, muitas vezes, não o vemos de uma maneira muito agradável. Isso varia muito
com a forma que está nosso pensamento. E o meu, naquele momento, não estava em perfeita
harmonia com o universo espiritual - o que poderia ocasionar uma manifestação ectoplásmica
assustadora. Continuei aquela conversa, sem fazer movimentos bruscos: da mesma forma que eu
poderia me assustar, ela também poderia se assustar comigo. Alguns espíritos são cautelosos e
sensíveis. Então, por fim, disse-lhe:
     _ Mãe, como a senhora está? Tenho tantas saudades... Sinto tanto a sua falta. Tenho tantas
perguntas...
     Ela deu um sorriso, que pude perceber com a minha mente inconsciente.
     _ Estou bem, minha filha, mas ainda estou estudando muito.
     _ Como assim, estudando?
     _ O mundo espiritual é bem parecido com o mundo de vocês. Só que aqui vivemos em paz e
temos que escolher tarefas. O trabalho é constante. Tive alguns problemas quando deixei meu
aparelho. Levei algum tempo para aprender que não voltaria tão rápido. Fiquei em um hospital,
curando-me de uma espécie de loucura sintomática. Não aceitava não ter você em meus braços e
era muito apegada ao amor carnal de seu pai. Com o tempo, os auxiliares foram me mostrando
como era o funcionamento deste lado. Aceitei, por fim, viver em uma colônia onde as casas eram
parecidas com as do mundo onde vivi. Conheci muita gente e encontrei alguns parentes, mas outros
decidiram reencarnar. Comecei, então, a fazer um trabalho social com crianças vítimas de abortos.
Elas são espíritos difíceis, pois foram rejeitados por seus pais e, muitas vezes, não aceitam uma
nova família. Por anos assombram as casas onde queriam morar, e até deixam seus habitantes com
problemas mentais sérios. O caso mais grave foi de um menininho cuja mãe tentou três abortos e,
no oitavo mês, quando ele finalmente conseguiu nascer, ela o enforcou ainda vivo. Mas, mesmo
tendo tanto trabalho, sempre tive permissão para visitá-la. Quando você era criança, eu sempre
estava por perto, evitando que se machucasse ou que alguém lhe fizesse algum mal.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Interrompi minha mãe, fazendo-lhe uma pergunta que havia muito tempo me deixava
intrigada:
     _ Foi a senhora quem esteve comigo aos dez anos, quando me olhava ao espelho?
     _ Sim. Perdoe-me se a assustei, não foi minha intenção. Por isso, não apareci mais.
     _ Eu sei, mãe. Na verdade, sempre soube que era a senhora quem me cobria à noite. Só não
sabia como. A senhora é o espírito que vai me auxiliar durante minha jornada terrena?
     _ Não, só vim para poder apresentá-lo a você e matar as saudades que sentia.
     _ Quem será, então? É algum dos meus entes falecidos?
     _ Também não. Seu nome é Heixe, e ele é um espírito de muita luz e de uma sabedoria infinita.
Ele é o responsável por proteger você e o seu amor.         Também é o responsável pela colônia
onde vivo.
     _ E qual é o nome dessa colônia, mãe? - quis saber.
     _ La Paz. É um lugar maravilhoso, com tantos campos e flores... Lá é como se fosse uma
fazenda. Só que, ao invés de cultivarmos hortaliças, cultivamos pessoas. Resgatamos crianças
vítimas de abortos e crianças que são assassinadas de maneiras cruéis. Damos a elas todo o amor
que não tiveram. Ensinamos-lhes princípios morais e encaminhamo-las para uma nova encarnação.
Confesso, minha querida, que é um trabalho duro e árduo, mas compensador! Sempre que damos
amor, recebemos de volta. Como vê, essa foi a maneira que acharam para compensar a falta que
você faz para mim.
     Ficamos vinte minutos conversando. Ela me respondeu sobre uma série de perguntas
sucessivas que lhe fiz. Foi maravilhoso poder conhecê-la. Minha mãe pareceu-me um espírito
muito sereno e dedicado. Perguntei-lhe se ela é quem estava abrindo minha janela.
     _ Não, Anna. Não temos permissão para fazer esse tipo de coisa. Quando esses fatos
acontecem - o que é uma raridade -, sempre são provocados por um incumbo: espíritos sem luz,
vulgarmente denominado assim na terra de demônio. Mas não é o caso aqui.
     _ Então é uma pessoa de carne e osso que está fazendo isso?
     _ Sim, é sim.
     _ Quem é essa pessoa e por que está fazendo isso?
     _ A pessoa que está fazendo isso é a sua madrasta. Mas não tenho permissão de lhe contar mais
nada. Terá que descobrir por sua própria conta. Apenas lhe peço que tome muito cuidado.
     Aquelas palavras só serviram para me deixar mais apreensiva, pois ressaltaram minhas
suspeitas de que minha madrasta poderia estar tentando algo contra mim.
     Interrompemos a nossa conversa, pois uma grande luz apareceu, iluminando todo o recinto. A
luz era tão forte que, mesmo eu estando com os olhos fechados, pude percebê-la.
     Depois de escutar minha mãe apresentando-se, senti um leve perfume de flores no ar e, então,
Heixe apresentou-se. Sua voz era grave, mas ponderada. Então, como se fosse o vento forte, ele
falou:
     _ Abra seus olhos, Anna, não precisa ter medo de mim. Não há nada que temer. Abra os olhos
para que possamos falar com você.
     Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo. Lentamente, fui abrindo os olhos, para que a luz
que saía de Heixe não me cegasse, pois era muito reluzente.
     Na minha frente, deparei-me com um homem alto, muito louro, aparentando ter trinta e poucos
anos. Suas vestes eram de um linho muito branco e ele calçava sandálias douradas. Seus olhos eram
de um azul inigualável. Todo o recinto foi tomado pela forte luz e pelo cheiro de flores que saíam
dele. Fiquei completamente extasiada. Nunca havia visto nada tão maravilhoso antes. Heixe,
percebendo meu estado de euforia, disse:
     _ Sou seu mentor espiritual. Estou aqui para ajudar-lhe no que for preciso.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Sinto-me muito honrada por receber em minha casa alguém com tanta grandeza como você.
Espero poder ser digna de tamanha responsabilidade e confiança. Muito obrigada por ter vindo
ajudar-me.
     Conversei com Heixe a respeito de várias coisas. Tirei muitas dúvidas que tinha em relação ao
mundo espiritual. Ele foi maravilhoso comigo, tendo paciência e respondendo-me tudo, pois estava
meio confusa e perdida em relação a muitas coisas.
     Heixe contou-me, também, ter sido vítima de uma jura de amor e, durante duas de suas
reencarnações, ele assassinou seu amor porque sentia ciúmes. Custou a se libertar e a libertar sua
vítima. Até que, depois de muito sofrimento, aceitou ajuda. Após se restabelecer, estudou durante
anos a fio e, finalmente, encontrou seu amor em uma colônia. Ambos, agora, auxiliam vítimas de
sortilégios e juras.
     Sua presença transmitia-me muita paz e sabedoria. Heixe orientou-me a como seguir o meu
caminho. Estava eufórica e muito feliz por ter tão perto de mim um espírito de tão alta grandeza.
Então, fiz a pergunta principal, o pivô por tê-los evocado:
     _ Como farei para descobrir o que minha madrasta está planejando contra mim? Pois sei que é
algo diabólico. Confesso que tenho medo.
     Heixe respondeu-me, meio a contra gosto, da seguinte forma:
     _ Tem toda a razão por temê-la. Mas saiba que estaremos aqui para lhe ajudar, Anna. Não
posso dizer-lhe muita coisa, mas na hora certa você saberá como agir. Tenha certeza apenas de uma
coisa e ouça com muita atenção o que irei lhe dizer: não centre muito suas energias em apenas uma
pessoa, pois o mal, Anna, às vezes está dentro de quem mais amamos. Alguém que, para nós, é
considerado um herói. Sabe, minha querida, você passou uma vida de repressões e sofrimentos
nesta casa. Portanto, mediante a sua dor, não percebeu quem era o seu verdadeiro inimigo. Não
quero que, de forma alguma, se revolte ou se entristeça com as minhas palavras. Quero apenas que
pense e ore muito, minha querida, pois o que ainda estar por vir pode fazer-lhe querer fraquejar em
sua jornada. Saiba, Anna, que tudo o que nos acontece nesta terra é permitido pelo Pai Maior. O
que posso lhe dizer mais sobre isso é que essa pessoa que irá lhe trair traz consigo uma grande
mágoa de sua outra vida como Shaara. O espírito dessa pessoa tornou-se muito revoltado. Resgatá-
lo foi muito difícil. Achamos que uma reencarnação junto a você seria boa para ele. Mas nos
enganamos: as memórias revoltosas que ele trouxe em seu inconsciente não lhe abandonaram.
Preste bem atenção, pois logo acontecerão fatos que lhe colocarão não só em perigo, mas também
lhe causarão muita decepção. Não julgue essa pessoa, pois ele a ama muito. Inconscientemente, não
consegue perdoá-la.
     Entendi que Heixe falava sobre o meu pai. Aquela revelação deixou-me chocada. Então,
comecei a juntar os fatos e percebi que Heixe estava coberto de razão. Meu pai sempre ficava
estático, olhando o horizonte. Sua depressão fazia-o beber compulsivamente. Houve momentos em
que o flagrei olhando para mim como se me odiasse. Eu, às vezes, achava que a minha madrasta
estava certa quando dizia que ele também culpava-me pelo falecimento de minha mãe. Embora ele
mesmo tenha me defendido certa vez, agora muitas coisas faziam mais sentido.
     Fiquei conversando com Heixe e minha mãe até três da manhã, quando se despediram de mim.
Ela não tinha muita permissão para me responder, mas ele me orientou, respondendo tudo o que eu
perguntava. Prometeram sempre atender-me quando necessário fosse.
     Aprendi, com essa experiência, que os espíritos poderiam sempre nos auxiliar e nos ajudar,
mas nunca poderiam interferir em nossos destinos. E que também poderiam nos responder só o que
lhes fosse permitido. Eles respeitavam a hierarquia das ordens superiores e divinas. Têm obrigações
com seus escolhidos e respectivos trabalhos, habitam em colônias e podem estar em muitos lugares,
mas nunca ao mesmo tempo.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Sabia que deveria ter muito cuidado com zombeteiros, pois nosso espaço físico e invisível aos
olhos está povoado de espíritos de todas as classes. Aquele pensamento deixou-me um tanto
assustada e tímida: só de imaginar um espírito observando-me trocar de roupa, constrangia-me.
     _ Espero que vocês respeitem minha privacidade! Imagine só!- disse em voz alta, rindo
sozinha.
     Aprendi, também, que somos nós que atraímos os espíritos errantes e sem doutrina – ou, como
vulgarmente os chamamos, espíritos sem luz, ou rebeldes. Isso depende muito da doutrina
espiritual de cada um.
     A faculdade mediúnica não é só para isso: ela é apenas um meio de comunicação. Aprendi que
podemos atrair a antipatia ou a simpatia de um espírito. Compreendi que posso estar rodeada pelos
que têm afinidades ou não, sendo superiores ou inferiores. Os espíritos não passam de almas
desprendidas dos corpos, que levam consigo o reflexo de suas qualidades e imperfeições. A ciência
humana ainda está muito longe de aprender sobre essa magnitude. Ouso dizer que irá demorar
muitos séculos para que aceitem esse tipo de sabedoria astral. Por mais que os estudiosos e
cientistas - e até alguns astrólogos - estudassem, os seres humanos não alcançariam com facilidade
tal sabedoria. Eu, agora, estava entre dois mundos e sentia-me privilegiada. Minha missão era
ajudar os enfermos e necessitados, e esclarecer-me o quanto mais na ciência do saber.
     Minha mente estava cansada e minha cabeça parecia estar cheia de bolhas. Mas precisava
levantar-me e ir à cidade. Queria ver como estava passando Dona Catarina, e ainda precisava passar
no ferreiro e pegar minha encomenda. Depois de muito lutar contra a fadiga e de não ter
conseguido dormir, levantei-me a contra gosto e fui olhar-me ao espelho. Santo Deus!, pensei
comigo. Estava péssima: meus olhos, cobertos por enormes olheiras. Teria que arrumar uma
desculpa para contar sobre aquilo à Maria. Caso lhe falasse o que havia acontecido, ela poderia
ficar muito preocupada - principalmente sobre o fato de que meu pai seria o causador de toda a
minha desgraça.
     Arrumei-me rapidamente. Não poderia ficar um segundo parada ou o sono tomaria conta de
mim novamente. Desci para o desjejum e, no caminho, encontrei com a copeira, que subia com a
bandeja de desjejum da condessa. Cumprimentei-a casualmente. Ela, por sua vez, falou:
      _ Senhorita, já ia levar seu desjejum daqui a pouco! Perdoe-me, estou atrasada?
     _ Não, decidi levantar-me mais cedo hoje. A propósito, de hoje em diante, tomarei meu café na
cozinha com vocês. Não me olhe assim, porque não estou doente. Muito pelo contrário: estou me
sentindo muito bem. Aliás, nunca me senti tão bem em toda a minha vida.           Sabia que aquela
inesperada e súbita mudança de hábito geraria muitos comentários entre ela e a condessa, mas foi
irresistível provocá-la. Ao chegar à porta da cozinha, Tereza, Joseph, Lorenzo e o capataz Tomaz
estavam tomando café. Ao me verem, todos - inclusive Maria - se levantaram, espantados. Então,
disse-lhes:
     _ Pelo amor de Deus, sentem-se! Para que tanta reverência? Acaso aqui chegou alguém da
realeza? Fiquem despreocupados e, por favor, não façam cerimônias comigo.
     Dizendo isso, fui sentando e pegando um pedaço de pão de milho. Percebendo que
continuavam de pé, disse:
     _ Olhem, se for para eu vir aqui todos os dias e ter que vê-los em pé até que eu acabe de tomar
o meu desjejum, então prefiro ir para o meu quarto e dar-lhes o trabalho de subir as escadas para
me servirem.
     Foram se sentando um a um, entreolhando-se. Portanto, prossegui, dizendo:
     _ De hoje em diante, serei uma companhia e constantemente me verão nesta cozinha. Espero
que isso não seja um empecilho, e sim que isso possa nos unir. Afinal, sou ou não sou a pequena
sombra desta casa? - disse isso olhando para Tereza, enquanto todos soltaram um largo sorriso.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Tomei meu café calmamente, degustando os manjares que Tereza havia preparado. Tentei
deixá-los cada vez mais à vontade, contando-lhes histórias engraçadas. Tudo isso sob os olhares
atentos de Maria, é claro! Depois de ter saciado minha fome, olhei para Lorenzo e perguntei-lhe:
     _ Poderia arrumar a carruagem para mim, Lorenzo? Eu e Maria iremos novamente à cidade
hoje.
     _ Claro, senhorita Anna! Mas vai demorar um pouco, porque ainda não tratamos dos animais.
     _ Não há problema algum, não estou com pressa. Enquanto isso, irei ao jardim, dar uma
caminhada e respirar o ar puro desta linda manhã.
     _ Posso saber aonde vamos desta vez? - perguntou Maria.
     _ Claro que sim. Iremos à casa daquela jovem que visitamos ontem.
     Respondi a pergunta de Maria olhando para Lorenzo, que corou de imediato. O rapaz sorveu o
último gole do suco que estava tomando e levantou-se, dizendo:
     _ Sendo assim, é para já, senhorita. Apronto a carruagem rapidinho. - disse isso saindo às
pressas, porta afora.
     _ Será que eu disse alguma palavra mágica?
     _ Por certo que sim. - respondeu Maria.
     O resto da criadagem foi para seus postos, cumprir com suas tarefas diárias. Enquanto Maria
passava as ordenanças aos criados e escravos da casa, fui calmamente caminhar pelo jardim. O céu
estava lindo naquela manhã, as flores bailavam ao vento. Continuei, então, caminhando até o portão
de saída, para recordar-me da cena da noite anterior. Quando cheguei bem perto do portão, notei ao
chão um objeto reluzente. Aproximei-me para ver do que se tratava e percebi que era uma medalha.
Baixei e peguei-a. Na medalha, havia uma insígnia de um brasão da nobreza. Porém, eu nunca
havia visto nenhum como aquele. Parecia inglês.
     Lorenzo interrompeu-me, avisando que a carruagem já estava pronta. Pedi que avisasse Maria
que já estávamos prontos. Enquanto ela não vinha, fiquei pensando de qual família real seria aquela
insígnia.
     Quando Maria chegou, eu já havia entrado na carruagem e esperava por ela. Dentro da
carruagem, mostrei a medalha e perguntei-lhe:
     _ Maria, a senhora já havia visto esta insígnia?
     _ Confesso que não me é estranha. Mas onde foi que achou isso?
     _ Na entrada do portão de saída, do lado de dentro.
     Contei-lhe, então, o que vi na noite anterior e o que estava havendo nas outras noites em
relação à minha janela. Maria ficou muito assustada e disse:
     _ Então, agora terá que dormir com a porta do seu quarto trancada. Se quiser, até posso dormir
lá em cima com a senhorita.
     _ Obrigada, Maria, mas isso não será necessário. Basta que eu tranque a porta. Estou de olhos e
ouvidos atentos, acredite!
     Ficamos pensativas e nem percebemos que Lorenzo já havia saído de casa com a carruagem.
Mudei meus pensamentos daquele assunto que nos estava fazendo mal e perguntei à Maria:
     _ Não achou Lorenzo muito entusiasmado com a jovem Samara? Não acha que os dois
formariam um belo casal?
     _ Menina, em que está pensando?
     _ Hum... Lorenzo é um homem bem apanhado, solteiro, jovem, trabalhador... Samara é tão
solitária e está passando por tantos problemas por cuidar da mãe sozinha...Ontem percebi a maneira
como eles se olhavam. Acho que poderiam formar um belo par.
     _ A senhorita não para mesmo, não é? Agora está se passando por alcoviteira também? Santo
Deus! Acho que, quando lhe trouxeram de volta da viagem, esqueceram-se de verificar se o espírito
que trouxeram do passado era o mesmo, viu?
     _ Ora, Maria, não dizem que voltamos renovadas!?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Sim, minha filha, por certo é o que acontece. Mas a senhorita se renovou demais, nem
consigo acompanhar tantas mudanças. A cada instante parece ser uma pessoa. Confesso que isso
está me assustando, pois não sei mais com quem estou lidando.
     _ Sou a mesma pessoa, Maria. Apenas decidir olhar a vida por outro prisma. Não vou aceitar
mais que ninguém mande em mim ou que me obriguem a ser o que eu não quero ser. De agora em
diante, tomarei minhas próprias decisões. Não quero mais viver às escondidas, chorando. Quero e
exijo que as pessoas me respeitem como eu as respeito.
     _ Só quero que tome mais cuidado para que nada de mal lhe aconteça. Gosto muito da
senhorita. Concordo que deva mesmo mudar e não aceitar que lhe façam de capacho, como faziam
antes. Mas isso deve ser devagar, porque, mudando tão rápido como a senhorita está, pode causar
um choque nas pessoas que não entenderam essa sua mudança de hábitos. Sabe muito bem o que
essa nossa sociedade, regida por homens, pensa de mulheres que têm certas atitudes. A senhorita
poderá trazer danos a si mesma.
     _ Não estou fazendo nada demais. Também pouco me importo com o que as pessoas pensem
de mim. Maria, se eu continuar como eu era, meu destino cumprir-se-á do mesmo modo, certo?
     _ Certo.
      _ Então, que pelo menos eu ocupe o pouco tempo que ainda tenho nesta vida praticando a
caridade, lutando pelos meus direitos!
     _ Agora estou entendendo aonde a menina quer chegar.
     No decorrer do caminho, eu e Maria conversamos tanto que nem vimos o tempo passar.
Quando aquietamos a boca, já estávamos na frente da casa de Samara. Ela veio de imediato
receber-nos e abraçou-me ao descer da carruagem. Seus olhos grudaram em Lorenzo e Maria, ao
perceber aquilo, deu-me uma cutucada com o cotovelo. Assinalei com a cabeça, positivamente.
     Ao entrar naquela casa, percebi que a paz reinava novamente. Dona Catarina estava de pé e
havia preparado um bolo para o desjejum. Samara havia colocado um vasinho de flores em cima de
uma pequena mesa, no cantinho da casa.
     Quando Dona Catarina percebeu a minha presença na casa, veio cumprimentar-me com os
olhos cheios de lágrimas. Dei-lhe um beijo na testa. Para mim, não existia nada mais gratificante do
que ver aquela mulher de pé novamente. Enquanto conversávamos, pude notar que Lorenzo e
Samara estavam em um canto da sala, olhando-se em silêncio. Então, percebi que era a hora certa
para intervir pelos dois. Enquanto Dona Catarina levava as xícaras para a cozinha, acompanhei-a na
desculpa de ajudá-la. Foi aí que contei a ela sobre o interesse de Lorenzo por Samara. Ela disse já
ter reparado. E também disse que fazia muito gosto se eu não me importasse. Resolvemos, então,
juntas, perguntar a Samara se ela gostava de Lorenzo. Fomos respondidas com um largo sorriso da
jovem, o que confirmou as minhas suspeitas de que os dois estavam apaixonados. Foi amor à
primeira vista. Seriam muito felizes, por certo.
     Fui até a entrada e conversei seriamente com Lorenzo. No princípio, aquele assunto pegou
Lorenzo de surpresa. Mas, depois, o sorriso largo revelou-nos a verdadeira vontade dele de se unir
à Samara. A conversa foi um tanto longa, pois precisava deixar certas coisas muito claras. Depois
de lhe dizer tudo o que ele precisava ouvir, convidei-o a entrar, deixando-o, assim, a sós com
Samara e a mãe. Eu e Maria fomos para o lado de fora da casa, para que os três ficassem à vontade.
     Meia hora depois, todos saíram, felizes e prazerosos lá de dentro. Por fim, Lorenzo disse-me:
     _ A senhorita é mesmo um anjo. Logo que vi Samara, apaixonei-me de imediato. Porém, sou
muito tímido e talvez nunca tivesse tido a coragem de me aproximar e dizer sobre meus
sentimentos. Passei a noite de ontem todinha atormentado, tentando imaginar uma maneira de vê-la
novamente. Quando a senhorita disse que voltaria aqui, foi como se o céu da esperança se abrisse
para mim. Tentei-lhe falar sobre meus sentimentos hoje mesmo, na hora em que ela veio me servir
café, mas estava nervoso demais. As palavras fugiram-me, como se estivessem agarradas na minha
garganta.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Rimos todas ao mesmo tempo nesta hora, porque Lorenzo gaguejou como uma criança, de tão
nervoso que estava. Resolvido aquele problema, voltamos para casa. Mas, no caminho, passamos
na ferralheria, para apanhar minha chave.
     A carruagem parou do outro lado da rua. Então, pedi a Lorenzo que fosse buscar minha
encomenda. Não queria me deparar com aquele homem carrancudo novamente e estragar o doce
sabor daquela manhã maravilhosa. Lorenzo assim o fez. Para minha maior surpresa, o ferralheiro
debruçou-se sobre a janela da carruagem, colocando a cabeça para dentro. Parecia estar afoito.
Achei meio grosseiro da parte dele. Mas, antes que pudéssemos falar alguma coisa, ele disse:
     _ Perdoem-me, senhoritas, sinto estar invadindo a sua privacidade. Mas jamais poderia deixá-
la sair sem pedir-lhe humildemente minhas desculpas por ontem à tarde. As dores que eu sentia
deixavam-me de muito mau humor. Depois que a senhorita saiu, refleti e resolvi, por curiosidade,
tomar o chá que me receitou. Quero dizer-lhe que, de ontem para hoje, sou um novo homem. Ainda
sinto um pouco de dor, mas não é mais tão intensa como era. Vim até aqui para entregar-lhe
pessoalmente a sua encomenda e dizer que não irei lhe cobrar nada. Vai ficar como um presente em
retribuição pelo que fez por mim.
     _ Imagina, o senhor trabalhou, tem o direito a ser remunerado devidamente. Ficarei muito sem
graça se não lhe pagar pelo trabalho.
     _ Ficarei ofendido se me fizer esta desfeita.
     Olhei-o nos olhos e eram sinceras aquelas desculpas. Mediante aquela súplica, eu disse:
     _ Está bem, se o senhor se sente melhor assim, vou aceitar o presente. Mas quero que saiba que
lhe ensinei os chás porque realmente fiquei preocupada com o senhor, mesmo sem o conhecer. Se
um dia o senhor precisar de mim novamente, procure por Dona Catariana e peça à filha dela que
entre em contato comigo. Virei ajudar o senhor onde quer que esteja.
     O homem sorriu prazerosamente, todo desconcertado por perceber que Maria o olhava meio de
lado. Ela ainda estava cabreira por causa das coisas que eu havia contado dele para ela. Despediu-se
de nós e se foi.
     Às vezes, os problemas fazem-nos parecer alguém que não somos. A dor nas costas que aquele
homem sentia não lhe dava o prazer de sorrir e tornava-o cada dia mais e mais carrancudo. Se
alguém não o tivesse ajudado, chegaria um dia em que até a fé em Deus ele haveria de perder por
pensar que Deus não o estava ouvindo em suas orações. Devemos prestar muita atenção a isso,
porque Deus não só nos ouve, mas também nos envia auxiliares para nos socorrer.
     Finalmente, estávamos voltando para casa. Precisava deitar-me e dormir um pouco para
recuperar minhas energias. Maria também precisava descansar. No trajeto de volta, não falamos
muito. Praticamente fui cochilando o tempo inteiro. Quando a carruagem finalmente parou, eu mal
podia abrir os olhos, de tão cansada que estava. Desci da carruagem e pude perceber que havia
outra carruagem na lateral da casa. Maria olhou-me como quem também queria saber quem seria.
     Dei o braço à Maria e fomos caminhando até a entrada. Ela me abriu a porta e foi uma grande
surpresa! Meu pai estava de volta. Quando percebeu que eu havia chegado, virou-se para a porta e
disse:
     _ Pensei que teria que mandar a milícia atrás da senhorita. Fiquei sabendo que agora não para
mais dentro de casa.
     _ É só isso que o senhor tem a dizer-me depois de meses fora de casa? Achei que sentisse
minha falta!
     Ele me deu um largo sorriso e veio ao meu encontro, abraçar-me.
     _ Lógico que senti sua falta, mas gosto de saber que as mulheres da minha família estão em
casa quando eu retorno. Agora, pode me dizer onde estava?
     _ Fui à cidade com Maria, visitar uma amiga.
     _ Quem seria essa amiga? Não me lembro de ter amizades.
     _ Mas agora tenho. Conheci-a ontem, a caminho do ferreiro.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ A caminho do ferreiro? E o que uma senhorita poderia querer com um ferreiro?
     _ Fui pedi-lo que fizesse uma chave para aquele bauzinho que mamãe deixou para mim.
     _ Ah, sim. E por que tinha que ser um ferreiro?
     _ Porque quis que a chave fosse de bronze e fiquei com medo de o chaveiro não fazer bem
feito o serviço.
     Ele parecia desconfiado. Por certo, minha madrasta tinha colocado muitas ideias destorcidas na
cabeça dele. Por isso, contei-lhe a verdade. Depois de muito me olhar, ele disse para ir-me aprontar
para o almoço.
     _ Pai, essa noite não dormi muito bem. Prefiro jantar com o senhor, se não se importar, é claro.
     _ Bom, só pensei que estivesse sentindo minha falta. Mas, pelo que vejo, terei que sentar à
mesa sem a minha família.
     _ Ora, meu pai! Nunca fomos uma família tradicional. Não será a primeira vez que o senhor se
sentará sozinho à mesa. Eu mesma já comi sozinha várias vezes em meu quarto por falta de
participantes desta casa à mesa. Desculpe, mas hoje estou mesmo muito cansada e não farei a sua
vontade, pois estaria sendo hipócrita comigo mesma.
     Disse isso o lembrando das vezes em que ele e minha madrasta discutiam à mesa, deixando-me
sozinha. Ou das tantas vezes em que almocei e jantei sozinha em meu quarto, porque Maria dizia-
me que ambos haviam saído para algum outro evento.
     Subi as escadas, meio cambaleando de tanto sono. Abri a porta do meu quarto e olhei para a
cama, atirando-me sobre ela. Não vi mais nada: do jeito que eu estava, acabei adormecendo.
     Despertei com Maria batendo à porta. Esfreguei os olhos e, percebendo o meu estado, dei um
sorriso. Então, disse:
     _ Pode entrar, Maria. Já estou acordada.
     _ Minha nossa! Nem os sapatos a senhorita tirou para dormir?
     _ Não, adormeci do jeito que eu estava. Mas me diga: o que a faz vir aqui me chamar?
     _ Seu pai tem um convidado e pediu-me para dizer à senhorita que desça imediatamente.
Parece que é gente importante.
     _ Bom, diga ao senhor meu pai que imediatamente será impossível, porque acabei de acordar.
Depois que me lavar, se estiver pronta, desço.
     _ Senhorita Anna, sabe que não posso dizer isso ao seu pai. Afinal, ele é meu patrão.
     _ Está bem, então. Invente qualquer desculpa e diga que já estou descendo.
     Maria saiu muito desorientada, sacudindo negativamente a cabeça.
     Eu não tinha a menor intenção de contrariar meu pai - mesmo porque sabia que ele odiava ser
contrariado. Arrumei-me o mais rápido que pude. Coloquei uma saia de veludo azul marinho, com
uma blusa branca de mangas longas, toda rendada. Usei um conjunto de pérolas para dar certa
graça àquele traje. Prendi o cabelo em um coque e puxei alguns fios. Apertei as bochechas para dar
cor às minhas faces. Depois de me visualizar no espelho, dei um largo sorriso e disse a mim mesma
Há certas coisas que não mudam mesmo! Por mais que eu quisesse me libertar de toda aquela
superficialidade, eu ainda era uma mulher. E, como tal, nunca deixaria de ser vaidosa.
     Abri a porta e caminhei calmamente pelo corredor. Era fascinante saber que havia dois homens
esperando por mim. Isso me envaidecia ainda mais. Por minha vez, queria ser o centro das atenções
- pelo menos para variar. Ao chegar à sala de estar, encontrei meu pai sentado a uma poltrona em
frente à porta. A condessa estava sentada ao piano, e um jovem ruivo, de muito boa aparência, em
uma cadeira.
     Ao entrar, meu pai e o jovem levantaram-se e minha madrasta parou imediatamente de tocar o
piano. Então, começaram as apresentações:
     _ Filha, esse é conde Celso D´Louchoa, filho do gran duque Albert D´Louchoa. Ele ficará
conosco para o jantar. Conde, essa é minha filha, Anna. O meu tesouro mais precioso.
     _ Senhorita! - levantou-se o conde, fazendo-me reverências.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Ele continuou com aquela conversa que, para mim, durou uma eternidade:
     _ É um prazer conhecê-la. Seu pai falou-me muito bem da senhorita durante uma viagem que
fizemos juntos a Londres. Ele, porém, mentiu para mim sobre uma coisa.
     _ É mesmo? E em que meu pai andou mentindo para o senhor conde? - indaguei-lhe curiosa,
olhando para meu pai, pedindo socorro.
     _ Sobre sua beleza. Disse-me que a filha era bonita. Mas nunca, em toda minha vida, vi beleza
como a sua.
     Senti-me corar e vi que a condessa iria explodir de ódio e inveja. Afinal, ninguém poderia
resplandecer mais do que ela própria e, com certeza, ela não poderia flertar com o conde na
presença de meu pai.
     Maria salvou-me daquela conversa, que já estava se tornando constrangedora. Veio avisar-nos
que a mesa estava posta.
     Fomos para a sala de jantar. O conde deu-me o braço; minha madrasta acompanhou meu pai.
Sentamo-nos do mesmo lado, meu pai na cabeceira da mesa, a condessa na sua lateral direita.
Quem nos visse diria que éramos uma família tradicional e exemplar.
     O conde indagava-me o tempo todo, querendo saber tudo a meu respeito. Apenas o respondia
polidamente, sem demonstrar o menor interesse nele.
     Foi-nos servida uma deliciosa e poderosa paella como primeiro prato.
     _ Conhece a comida espanhola, senhor conde? – perguntei-lhe, tentando mudar o rumo daquela
conversa, que já estava indo para o campo da intimidade.
     _ Não. Mas se for tão saborosa como as belas as mulheres do país, fartar-me-ei.
     Corei pela audácia daquele homem. Ele conseguia deixar-me encabulada. Por fim, respondi:
     _ Espero que goste, então.
     Meu pai começou a lhe fazer perguntas sobre negócios e política - o que foi um alívio para
mim, pois me salvou não só das conversas indiscretas do conde, como também dos olhares
calientes dele.
     Como segundo prato, foi servido um cochinillo assado. Para sobremesa, uma mousse de
maracujá. Comemos praticamente em silêncio, o que me foi um alívio. Embora o conde ficasse
fitando-me constantemente, consegui manter minha postura, fingindo não perceber nada.
     Ao terminarmos o jantar, fomos para a sala de estar, onde foi-nos servida uma sangria. O
conde, por sua vez, parecia obcecado para estar perto de mim. Para tentar desvencilhar daquele
assédio, que estava se tornando constante, tornei a falar sobre a culinária espanhola.
     _ Então, senhor conde, o que o senhor achou da nossa culinária?
     Ele sorriu maliciosamente, parecendo ter percebido a minha intenção.
     _ Digamos que eu achei... caliente! Como as senhoritas daqui.
     _ Desculpe-me, senhor conde, mas não o estou entendendo. Creio que o senhor e eu não
estamos falando o mesmo idioma. Talvez o senhor esteja confundindo um pouco as coisas. É
melhor que encerremos essa conversa por hora.
     _ Ofendi a senhorita?
     _ Por enquanto, não. Mas antes que nossa conversa ultrapasse os limites da civilidade, prefiro
que encerremos com ela.
     _ Não a entendo, senhorita Anna. Se lhe disse alguma coisa ofensiva, peço-lhe minhas sinceras
desculpas. - disse o conde, sinicamente.
     Dei-lhe um sorriso e virei-me para meu pai, dizendo:
     _ Pai, não estou me sentindo muito bem, peço permissão para me retirar.
     _ Estava tão bem agora há pouco! O que foi que houve?
     _ Acho que é só uma indisposição. Peço para ir para o meu quarto.
     _ Sim, é claro. Pedirei à Maria que lhe acompanhe.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ Obrigada, pai! Senhor conde, espero que em outra ocasião nossa conversa seja mais
proveitosa do que a de hoje.
     _ Sim, por certo será, senhorita Anna. Em outra ocasião, espero poder corrigir esse mal
entendido.
     _ Creio que não houve nenhum mal entendido, senhor conde. Mas vou dizer uma coisa apenas:
uma vez perdida a minha confiança, perdida ela estará para sempre.
     Ele abaixou a cabeça, em um cumprimento casual. Dei um beijo de boa noite em meu pai e
passei por minha madrasta, que me olhava de um jeito incógnito. Havia alguma coisa no ar. Mas,
como eu estava muito irritada com o comportamento do conde, não prestei atenção aos detalhes - o
que poderia ser perigoso. Devemos nos lembrar de que Deus está presente constantemente em
nossas vidas, mas o diabo está presente nos detalhes.
     Subi as escadas e nem esperei por Maria. Quando cheguei em meu quarto, joguei-me em cima
da cama e comecei a chorar. Na verdade, não sabia se era de raiva ou de decepção. Maria chegou e,
ao ver-me naquele estado, perguntou-me, assustada e com as mãos no rosto:
     _ Santo Deus, senhorita Anna! O que houve?
     _ Estão me vendendo, Maria. Estou sendo leiloada como uma escrava ou animal premiado. E o
pior disso tudo é que o meu próprio pai é o responsável por essa monstruosidade.
     Maria entendeu do que eu estava falando e correu ao meu encontro, dando-me um abraço
fraterno. Ficamos abraçadas por alguns minutos, até que ela falou:
     _ Fuja, minha filha! Vá para bem longe daqui! Se quiser, posso enviar uma carta à minha irmã,
pedindo a ela que lhe dê abrigo. Acredite, seu pai nunca lhe encontrará.
     Olhei chorosa e comovida para Maria e disse:
     _ Não posso, Maria... Se fizer isso, meu pai irá puni-la. Ele pode não ter recursos financeiros,
mas ainda é um homem poderoso. Com isso, pode mandar trucidar aquele povo. Nunca seria
covarde a tal ponto de fugir, Maria, e de principalmente colocar a vida de outras pessoas em risco.
Vou ficar e lutar enquanto puder. Esse é o meu destino, o meu triste destino, lembra-se? A senhora
mesma viu em seu tarô.
     Maria abaixou a cabeça e nada mais disse sobre aquele assunto. Levantei, passei as mãos pelo
rosto, tentando me recompor. Olhei para todo o quarto e falei:
     _ Que se cumpra o meu destino, Maria! Mas, se eles pensam que serei leiloada, nunca isso
acontecerá comigo! Fique sabendo.
     _ E o que pretende fazer então, senhorita Anna? Pois seu pai acabou de pedir para avisá-la que
marcou um jantar formal para apresentar o conde à nossa sociedade.
     _ Eu já imaginava isso. Pois que seja dessa forma. Estou mesmo precisando me divertir um
pouco.
     _ Divertir-se? Não a entendo... Acabei de pegar a senhorita em desespero por achar que seu pai
a estava leiloando para o senhor conde. E agora fala em divertimento?
     _ Então, prepare-se para ouvir o Gran Finale dessa história.
     _ Ouh lala, e mais o que poderia me surpreender? A condessa é quem vai organizar o jantar e o
baile. O senhor conde deu-lhe carta branca para gastar o que precisasse. Depois que a senhorita
saiu, ouvi tudo o que diziam. Não que eu os ficasse escutando atrás da porta... Na verdade, foi
quase sem querer. Eu já estava entrando, mas parei para ouvi-los. O que pude entender é que a
condessa terá total liberdade financeira para organizar esse baile de boas vindas ao senhor conde.
     Sentei-me na cama e fique pensativa. Como o conde, que mal conhecia minha madrasta,
estava dando esse poder a ela? Isso me pareceu muito íntimo. Alguma coisa não estava se
encaixando. Tive a sensação de que, muito em breve, descobriria o que era. Pedi a Maria que me
fizesse um chá, pois precisava dormir bem. Na manhã seguinte, com as ideias mais claras, tentaria
resolver aquele assunto.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Maria saiu, deixando-me sozinha com meus pensamentos aflitos. Andei de um lado a outro do
quarto. Fui por várias vezes à janela, mas, naquele momento, nenhuma ideia iluminada passou-me
pela cabeça para fazer-me ter uma real noção de como a minha madrasta poderia ter conseguido tão
rapidamente a confiança do conde. Se ele fosse um de seus amantes, entenderia. Mas, pelo que me
constava, ele nunca havia estado na Espanha. Algo não estava se encaixando, mas não consegui ver
às claras o que era.
     Algum tempo depois, Maria veio trazer-me o chá e disse:
     _ Seu pai pediu-me para avisar que o conde retornará aqui amanhã para jantar novamente.
Pediu a sua presença à mesa. Senhorita Anna, sugiro que aceite com prudência e não recuse esse
convite.
     Maria abaixou a cabeça e prosseguiu:
     _ Eles estão esperando que eu leve uma resposta positiva da senhorita.
     _ Não se preocupe, Maria. Diga ao senhor meu pai e ao conde que estarei presente amanhã a
esse jantar. Fique tranquila, comportar-me-ei dignamente e não demonstrarei que sei o que está se
passando.
     Dei um beijo na testa de Maria e pedi para que ela me deixasse sozinha. Precisava meditar e
tentar dormir um pouco. Minha mente conturbada não conseguiria fluir nenhuma ideia naquela
noite. Foi uma noite muito difícil, custei a pegar no sono. Mesmo tendo trancado a porta, tive a
sensação de que alguém estava me espionando. Sentia-me impotente mediante a situação de alguém
invadindo a minha privacidade. Por fim, acabei adormecendo.
     Na manhã seguinte, despertei com Maria batendo à porta. Levantei-me meio sonolenta e abri a
porta para ela, que já me trazia o desjejum. Embora eu quisesse ter ido tomar café na cozinha, achei
melhor não tentar nada contra o gosto de meu pai naquele dia.
     Maria, ao ver-me, logo foi dizendo:
     _ Bom dia, minha filha. Pelo que vejo, teve uma péssima noite de sono! Mas logo irá recuperar
as forças, pois lhe trouxe um desjejum bem reforçado esta manhã.
     _ Obrigada, Maria. Sei que sempre poderei contar com a senhora. - disse isso analisando a
minha fisionomia ao espelho, vendo minhas olheiras.
     Maria, no entanto, prosseguiu:
     _ Infelizmente, tenho a lhe dizer que sua madrasta e seu pai saíram muito cedo hoje. Os dois
pareciam ter um compromisso inadiável.
     _ Que estranho... Ela nunca se levanta cedo! Tem alguma coisa errada acontecendo nesta casa,
Maria, e eu vou descobrir. Por favor, arrume a água para o meu banho. E separe para mim aquele
vestido branco. Irei ao jantar do conde com ele.
     _ O que a menina está aprontando? Nunca usou aquele vestido.
     _ Sim, eu sei, e essa é a hora. Quero estar elegantemente sedutora hoje, Maria.
     Maria saiu sorrindo, parecendo ter entendido o que se passava na minha cabeça. Logo que ela
saiu, comecei a imaginar como eu iria colocar em prática meu comportamento com o conde. Só
tinha um pequeno problema: nunca havia me comportado levianamente antes. Aí, comecei a
lembrar-me dos trejeitos da condessa. Achei engraçado como até mesmo quem tenta nos fazer mal
acaba nos ajudando, mesmo sem saber.
     É preciso aprender até com os inimigos e usar suas armas sempre a nosso favor. Muitas vezes,
não percebemos que nossos inimigos são nossos maiores aliados. Mas isso só acontece com tempo
e maturidade. Estamos tão voltados para o lado da vingança que esquecemos que também podemos
virar contra nosso opositor as suas próprias estratégias. Devemos pensar da seguinte forma: eles são
nossas espadas contrárias e, de alguma maneira, estão em nossas vidas para também nos ensinar.
Eu tinha muito que agradecer por perceber isso ainda no começo da minha juventude, pois muitos
demoram anos até alcançar esse estágio alto de percepção.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Sentei-me na cama para fazer minhas orações e agradeci pelo dia perfeito que teria. Então,
escutei a voz de Heixe.
     _ Anna... Escute com atenção o que tenho a lhe falar.
     Fechei os olhos para prestar atenção e não me distrair com as coisas ao meu redor. Heixe,
então, prosseguiu:
     _ Anna, tenha muito cuidado ao falar com sua madrasta hoje, pois ela tentará provocá-la ao
máximo. É a maneira que ela vê de prejudicá-la moralmente na presença de seu pai. Tenha cuidado
com o conde, Anna. Ele não é o que parece ser.
     _ Como assim? Já desconfio dele, mas o que quer dizer com essas palavras?
     _ Sei que você tem suas desconfianças, mas esse homem é ainda mais perigoso do que pensa.
É um assassino perigoso e sanguinário, e também um usurpador.
     Fiquei muito assustada com aquela revelação. Porém, Heixe não me deu tempo de pensar
muito e continuou:
     _ Você deve correr, pois o seu tempo nesta casa está passando. Vá à casa de madame
Hortência amanhã. Lá encontrará uma resposta para poder ajudar a sua amiga Maria. Pergunte a ela
sobre o paradeiro de um escravo chamado Lourival.
     Eu não conseguia entender em que madame Hortência poderia me ajudar com relação a Maria.
A voz de Heixe foi se distanciando até que não mais pude ouvi-lo. Mas aquelas palavras ficaram na
minha mente como uma espécie de enigma. Fui à janela tentar colocar a cabeça em ordem, pois a
cada minuto ela parecia ficar mais cheia de problemas. Pude observar o vento. Ele estava mudo e
um mistério pairava no ar. Estava tão nervosa e assustada que podia sentir o pulsar das minhas
veias. Meu coração estava apertado dentro do peito. Quis fugir, desaparecer, mas para onde eu iria?
     Maria bateu à porta, despertando-me daquele transe de agonia. Ela havia vindo perguntar se já
poderia pedir que me trouxessem a tina para colocar a água do meu banho. Mas, ao ver-me, logo
percebeu que havia algo de muito errado comigo.
     _ Você está bem, senhorita Anna? Precisa de alguma coisa? O que aconteceu? Seu rosto está
empalidecido.
      Tive que contar à Maria sobre a mensagem que Heixe me transmitiu. Só omiti a parte em que
ele se referia a ela. Maria abaixou a cabeça e, por fim, disse-me:
     _ Eu deveria ter-lhe contado o que via em meu tarô. Talvez eu pudesse ter evitado tantos
transtornos como esse. Não deveria tê-la levado à casa de minha irmã, também.
     _ Ora, Maria, não seja tola. Nada que falasse comigo antes teria sentido. Eu era uma jovem
mimada e alienada. Não daria importância a nada que me dissesse antes. E por que está
arrependida por ter me levado à casa de sua irmã?
     _ Porque acho que sou culpada.
     _ Culpada pelo quê?
     _ Por ter antecipado o seu destino.
     _ Maria, ninguém antecipa o destino de ninguém. E além do mais, como eu poderia me interar
do meu dom sem a sua ajuda e a de sua irmã? Descobri o meu caminho graças à senhora. Não tem
do que se arrepender.
     Maria pareceu não estar muito certa das minhas palavras. Depois de conversarmos mais alguns
instantes, ela desceu para terminar seus afazeres. Fiquei dentro da tina com água quente por quase
uma hora, pois precisava relaxar. Depois que me vesti, fui dar uma volta pelo jardim: queria tomar
o sol da manhã e receber boas energias da natureza. Joseph estava cuidando das flores como
sempre fazia, pacientemente. Acenou-me e retribuí, com um sorriso. Meu coração estava pesado!
Sentei-me em um banco, próximo ao canteiro de girassóis, e clamei a Deus:
     _ Deus todo poderoso, se puder, apascente meu coração, cuja aflição é dominante e incessante.
Mostra-me a verdade onde ela estiver, mesmo que escondida dos meus olhos e obscura para meu
espírito. Estende sobre mim a Sua mão e guie-me segundo Sua vontade. Acalme essa angústia que




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

insiste em me rodear como os mares em dias de tormenta. Toque no meu eterno amor com seu
eterno amor e dê-lhe a paz que ele almeja. Dê-lhe a certeza do meu amor por ele e diga-lhe que em
breve nos encontraremos. Apascente aquele coração aflito, para que o meu também encontre essa
harmonia.
     Naquele momento, meu coração abrandou-se e senti no vento um perfume masculino muito
discreto. Tive a certeza de que aquele era o cheiro do homem dos meus sonhos. Sorri e meus
pensamentos foram se tornando cada vez mais leves. Era como se Deus tivesse me ouvido e, de
alguma maneira, o monge também. Senti uma lágrima de felicidade rolar em minhas faces.
Agradeci mais uma vez ao céu por ter me ouvido.
     Voltei para o meu quarto e, lá estando, percebi que a única maneira de conseguir calar o
pensamento em certos momentos era trabalhando. Olhei tudo ao meu redor e resolvi fazer uma
limpeza em meus guardados. Tirei e encaixei tudo o que não me servia mais. Juntei muitos vestidos
que nunca usei e nunca usaria e os coloquei em caixas. Chamei por Maria e por Joana para que me
ajudassem. Quando chegaram ao meu quarto, deparando-se com tamanha confusão, Maria falou:
     _ Santo Deus, o que houve aqui!? Parece que um vento forte passou dentro deste quarto!
     Joana ficou em pé na porta, sem saber que rumo tomar. Por minha vez, percebendo que as duas
estavam espantadas, disse:
     _ Estou apenas fazendo uma limpeza nos meus guardados. Mas, com certeza, não chamei as
duas para me criticarem ou ficarem em pé, sem nada fazer.
     Estava de joelhos, guardando uns livros dentro de uma caixa, e prossegui:
     _ Peguem essas caixas aí, perto da porta, e levem tudo lá para cima, junto aos pertences de
minha mãe. São livros velhos que eu havia trazido para cá e não levei de volta. As outras duas
caixas ao lado da cama são para dar a Lorenzo. São vestidos que estou dando para Samara.
     _ E esta caixa aqui, senhorita? - perguntou Joana.
     _ Essa pode deixar debaixo da minha cama, usarei em breve.
     _ E o que há dentro dela?
     _ Coisa de meu uso pessoal. - eu estava me referindo aos objetos que comprei para o uso da
magia.
     Depois de tudo organizado, desci e fui almoçar com Maria na cozinha. Aproveitando que ainda
estávamos sozinhas, disse-lhe:
     _ Acho, Maria, que está na hora de tirar esse luto.
     _ Não me sentiria bem, senhorita Anna. Já me habituei a andar com essa cor.
     _ Mas deveria pensar com carinho no que lhe estou sugerindo. Afinal, só a senhora ainda
mantém o luto nesta casa.
     _ Sim, por certo. Mas é um hábito tão antigo que nem sei se tenho algo menos sóbrio.
      _ Tenho certeza de que encontrará algo em seus guardados. A senhora ainda é bastante jovem
para andar por aí parecendo uma viúva. Devo lembrar que o viúvo desta casa há muito tempo já
não usa luto. Pense, Maria: a cor negra, além de ser considerada uma cor fúnebre, é também uma
cor que neutraliza as outras cores. Essa cor pode ter não só neutralizado a sua vida, mas também
pode tê-la impedido de se casar.
     Maria ficou pensativa... Percebendo que havia tocado profundamente no seu eu, saí, deixando-
a refletir sobre o assunto. De certa forma, eu tinha acabado de interferir indiretamente na vida dela.
Fazendo isso, sem querer, mudamos a forma de agir e pensar de uma pessoa. Sabia que isso poderia
ser perigoso. Mas, no caso de Maria, foi preciso: queria que ela tivesse outra postura sobre si
mesma. Ela estava muito apegada a mim e, futuramente, sofreria com a minha ausência. Ela
precisava se distanciar. Precisava ser feliz, e aquela cor havia se tornado uma espécie de cela em
sua vida. Era como se ela fosse uma lagarta e estivesse precisando de uma mãozinha da natureza
para se tornar uma bela borboleta.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Novamente em meu quarto, parei para escrever em meu diário. Aproveitei para dar uma
cochilada: queria estar bem disposta para o jantar com o conde. Devo ter dormido muito, pois nem
vi que meu pai e a minha madrasta haviam chegado. Quando despertei, Maria, toda aflita, veio
avisar-me que, se não me apressasse em me arrumar, não daria tempo. O conde chegaria às oito
para jantar.
     Em questão de uma hora, eu já estava pronta e descia as escadas para encontrar com meu pai
na sala de jantar. Ele, por sua vez, estava tomando uma sangria. Ao ver-me, disse:
     _ Filha, está encantadora. Sabia que não me faria uma desfeita.
     _ E por que eu lhe faria uma desfeita, meu pai? Não estou entendendo.
     _ Pela atitude que teve ontem no jantar. Achei que estava dispensando o senhor conde, como
sempre faz com seus pretendentes.
     Dei um sorriso, pois havia acabado de descobrir que estava certa. Depois disse, por fim:
     _ Então o senhor conde é meu pretende, meu pai? Não me lembro de o senhor ou quem quer
que seja ter vindo a mim e me consultado se quero ou não me casar.
     _ Ora, Anna, já está com quase vinte anos. Daqui a pouco não haverá mais pedidos de
casamento para a senhorita. Quer ficar uma solteirona como Maria? Não estarei aqui para sustentá-
la para sempre. Diga-me, afinal, o que quer da vida, menina?
     Quando eu já estava pronta para responder, a condessa interrompeu-nos, dizendo:
     _ Boa noite, marido! Ao entrar, pude ouvir o que falava com sua filha. Creio que ela quer ser
irmã de caridade.
     _ Boa noite, condessa! Mas por que a senhora acha isso de minha filha?
     _ Porque fiquei sabendo hoje que a sua querida filhinha andou fazendo caridade.
     _ É mesmo, Anna?! E que tipo de caridade? Para quem?
     _ Essa estúpida, meu querido esposo, andou dando todos os vestidos caríssimos dela para a
criadagem. Agora, além de louca e caridosa, quer andar nua também.
     _ E por que fez isso, Anna?
     _ Se a senhora condessa deixar- me responder, poderei retratar-me.
     A megera olhou-me de cima abaixou, fazendo cara de antipatia.
     _ Meu pai, em primeiro lugar, não dei todos meus vestidos para a criadagem. Dei apenas
alguns que já não usava mais e outros que nunca usaria, pois foi escolhido pela senhora condessa -
que, por sinal, tem um péssimo gosto em se trajar. Dei, também, alguns sapatos velhos, entre outras
coisas que não me serviam mais. Fiz uma limpeza em meus guardados, já estava sem espaço para
tantas tralhas velhas e sem utilidades. Ressalto: não dei para a criadagem, dei a uma amiga.
     _ Uma indigente, pelo que me consta. - retrucou a condessa.
     _ Não sabia que ser pobre faz de uma pessoa indigente. Saiba que ela está noiva de nosso
cavalariço, Lorenzo.
     _ Nossa, que partido! Quem sabe, marido, sua filha também queira se juntar à ralé? Vai ver
está enamorada do cocheiro. Não me faltava mais nada agora, ter que conviver com esse tipo de
gentinha dentro de minha casa. Além de ter que ouvir comentários sobre criar a filha solteirona de
um homem viúvo, agora também ter que ser o alvo de comentários de que estamos tão pobres que,
agora, andamos até com concubina do cavalariço! Olhe, marido, não posso aceitar isso de forma
alguma. Não posso permitir que meu nome seja enlameado de tal forma perante a sociedade.
Sinceramente, acho uma perda de tempo querer incluir sua filha no meio da sociedade. Já lhe havia
sugerido: deveria trancá-la em um convento. Essa moça é cheia de espíritos imundos, e eles fazem
dela o que bem querem. Ela é como a mãe dela, e o senhor meu marido sempre soube disso.
     Tive que me controlar ao máximo para não estrangulá-la com minhas próprias mãos. Mas
pensei no que Heixe havia me pedido e avisado. Respirei fundo e disse:
     _ Fale o que quiser falar de mim, mas não fale mal da minha mãe, sua bruxa! A intrusa nesta
casa é a senhora. Só não vou tolerar mais insultos de sua parte, e só não abro minha boca agora para




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

contar a meu pai sobre quem é a senhora verdadeiramente, porque não quero que ele se aborreça. E
muito menos tenho a intenção de estragar o jantar dele. Pense bem, senhora condessa, se eu abrir
minha boca é a senhora quem terá que dar certas explicações por aqui. Como, por exemplo, como
a senhora conseguiu que o senhor conde lhe desse carta branca para organizar o baile de
apresentação dele, sendo que mal se conhecem?
     Meu pai interrompeu aquela discussão e falou, num tom rouco e nervoso:
     _ Pare as duas com essa discussão! Não quero que o conde chegue e pegue-as rolando pelo
chão como duas loucas. Sua madrasta está certa, Anna: não fica bem que seja vista por aí na
companhia de uma plebeia. Seja essa moça quem for, não quero saber que está andando com ela.
Não tem estirpe! Não faz parte da nossa sociedade. O que está acontecendo com você, minha filha?
Era tão sensata! Agora mal cheguei e já percebo mudanças adversas em seu comportamento. Não
me faça tomar nenhuma atitude drástica a seu respeito. Acho muito bonito que queira fazer
caridade - isso é até bom para a nossa reputação. Mas não precisa fazer parte da ralé. Realmente,
está mesmo se parecendo como sua mãe: ela não tinha medidas, estava sempre se misturando com
esse tipo de gente. Até que... - ele se calou, parecia engasgado.
     _ Até que o quê, pai? O que o senhor ia me dizer?
     _ Outra hora, Anna, falaremos sobre esse assunto. Agora não quero mais chatear-me com esse
tipo de conversa.
     Maria entrou, avisando-nos que o senhor conde havia chegado. Meu pai foi recebê-lo. Afastei-
me da minha madrasta para não ser mais provocada por ela. Aquela conversa ficaria pendente, por
certo, porque eu não deixaria que meu pai esquecesse. Tinha algo estranho em relação à história da
morte de minha mãe. Agora, era uma questão de honra descobrir. Maria, por certo, saberia
responder-me. Interrogá-la-ia na manhã seguinte, a caminho da casa de madame Hortência.
     Meu pai chegou à porta da sala de estar na companhia do conde, que me deu um sorriso
enigmático. Em seguida, veio beijar-me a mão. Em outra ocasião, eu teria puxado-a. Mas, naquele
momento, tive que fingir certo prazer. Ele levantou a cabeça e fez-me um elogio:
     _ Está linda, senhorita Anna. Não me cansarei de dizer isso.
     _ O senhor é muito gentil, conde. Confesso que está muito elegante também. Teremos uma
noite muito agradável. Espero que possamos tirar a impressão ruim causada por ambos.
     Olhou-me admirado e falou:
     _ Tenho certeza de que teremos todo o tempo do mundo para que mude a má impressão que
posso lhe ter causado. Quanto à senhorita, acredite: só me causa boas impressões.
     Olhou-me parecendo desnudar-me, o que me causou ainda mais repulsa por ele. Foi muito
difícil controlar-me a noite toda, esquivando-me das investidas do conde. Estava me sentindo
péssima por ter que manter uma personalidade que não era minha. Era repulsivo ter que fingir
daquela forma. Mas, se eu quisesse descobrir o que estava acontecendo, tinha que manter a
aparência.
     O conde mal dirigia a palavra à condessa, mas ela não parecia irritada - o que era intrigante,
pois sempre quis ser o centro de todas as atenções. Após o jantar, fui com o conde até a varanda,
onde ele me disse:
     _ Anna, creio já ter notado minha afeição pela senhorita.
     _ Sim, senhor conde. Creio que sim.
     _ Quero pedir-lhe que me dê a honra de dançar a primeira valsa comigo no baile.
     Antes que eu pudesse responder alguma coisa, ele prosseguiu:
      _ Saiba que não aceito um não como resposta. Então, o que me diz, senhorita Anna?
     _ Digo que o senhor é um homem muito persuasivo, conde. Mesmo que eu lhe disser um sim
contra meu gosto, mesmo assim ficará feliz. Então, mediante a esse tão gentil convite, aceito.
     Ele sorriu satisfatoriamente. Parecia ter ganhado mais um jogo. No restante daquela noite, o
conde ficou na sala, jogando com meu pai; a condessa retirou- se aos seus aposentos e, em seguida,




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

fiz o mesmo. Passei metade da noite imaginando o que o meu pai quis dizer em relação à minha
mãe.
     Na manhã seguinte, não deixei que Maria viesse ao meu quarto, como de costume. Acordei
muito mais cedo do que o resto da criadagem. Minha mente precisava de distração. Então, ocupei
meu corpo com algo útil. Desci, fui para a cozinha e preparei o café para todos. Enquanto aparecia
imaginação em minha cabeça, ia criando as guloseimas. Maria escutou o barulho na cozinha e
levantou-se para ver o que era. Ao perceber a minha presença, disse:
     _ Senhorita Anna, pare imediatamente o que está fazendo ou seremos todos punidos por causa
dessa sua atitude.
     _ Não posso, Maria. Preciso fazer alguma coisa para não deixar minha mente torturar-me com
tantos pensamentos.
     Maria, percebendo que eu estava fora de mim, abraçou-me, tentando fazer-me parar - eu estava
batendo uma massa de bolo compulsivamente. Então, ainda me abraçando, ela perguntou:
     _ O que está realmente acontecendo, minha criança?
     Aquelas palavras foram motivos para que eu desabasse em choro profundo. Então, entre
soluços, respondi:
     _ Como realmente a minha mãe faleceu? Precisa contar-me isso, Maria. Ontem, pouco antes do
jantar, a condessa insinuou que eu iria terminar louca como a minha mãe. Meu pai quase falou
alguma coisa. Mas, como sempre, a conversa ficou perdida no ar. Precisa dizer-me a verdade.
     _ Não sei muito, filha. O que sei é que sua mãe ficava a maior parte do tempo escrevendo
naquele diário que está lá no quarto dela. Com o passar dos tempos, seu pai começou a se distanciar
dela dia após dia. Sua mãe cobrava muito as ausências dele, e ele passou a dizer que sua mãe
estava muito doente. Quando ela engravidou da senhorita, a história complicou-se, pois seu pai não
nos permitia cuidar de Elizabeth. Somente ele e o doutor entravam no quarto. Às vezes,
escutávamos os gritos e pedidos de socorro dela, mas nunca nos foi permitido tomar alguma
providência.
     Aquela revelação foi um golpe no meu coração. Então, disse:
     _ Maria, a senhora tem que me dar a chaves do quarto de minha mãe. Não pode me negar isso.
     _ Filha, se eu fizer isso, serei punida. Ninguém entra naquele quarto há anos, a não ser para
limpá-lo. Se descobrirem que lhe dei as chaves, expulsar-me-ão desta casa.
     _ Não vai lhe acontecer absolutamente nada, Maria, eu prometo. Mas preciso entrar naquele
quarto.
     Maria, percebendo que não conseguiria convencer-me do contrário, disse:
     _ Está bem, só lhe peço que espere um dia em que os senhores não estejam em casa.
     _ Obrigada, Maria!
     Beijei-lhe as mãos e continuei:
     _ Já que a senhora está de pé, então venha: sente-se, vamos tomar o desjejum juntas.
     _ Serei a primeira a ter que experimentar sua tentativa de envenenamento?
     _ Lógico que não! Esqueceu-se de que fui criada no meio das cozinheiras e aprendi tudo?
     Por fim, Maria aprovou meus quitutes. Depois de ajudá-la a arrumar a bagunça que eu havia
feito, subi para o meu quarto, para me limpar. Estava parecendo um boneco de neve, de tanta
farinha que tinha no meu corpo. Comuniquei a ela que sairíamos, pois queria ir à casa de madame
Hortência. Ela fez uma caretinha de desaprovação, mas sabia que seria impossível segurar-me
dentro de casa.
      Esperei Maria subir para lhe avisar que meu pai já sabia que sairíamos. Não queria que a
condessa arranjasse algum contra tempo. Já no hall de entrada, encontrei meu pai, que me indagou:
     _ Posso saber por que quer ir tão cedo à casa de madame Hortência?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Ora, meu pai. Não foi o senhor quem me disse que eu deveria me comportar como uma moça
da sociedade? Então, estou indo à casa de madame Hortência para pedir-lhe que faça um vestido à
altura do baile do conde. Não quer que eu pareça com a filha de uma criada, quer?
     _ Se é assim, então vá! Quero que fique radiante.
     _ Ficarei, meu pai. Não o decepcionarei. A propósito, estou tirando o luto de Maria. Espero
que o senhor aprove. Não fica bem que ela receba aos convivas com a mesma roupa que usa há
séculos.
     _ Se acha que isso pode ajudar em alguma coisa e lhe faz feliz, então, fique à vontade.
     Saí e encontrei-me com Maria na porta da carruagem. Contei tudo o que o meu pai me
perguntou. Ela concordou que eu tivesse lhe dito o que faria na cidade. Assim, não daríamos
margem à condessa.
     Chegamos, por fim, em frente à casa cor de rosa de madame Hortência. Lorenzo foi
apressadamente ajudar-nos a descer. Em seguida, pediu-me autorização para ir ver a noiva.
Logicamente, consenti.
     O lacaio de madame Hortência veio às pressas ajudar-nos. Era um rapaz de estatura mediana,
mas muito bem encorpado, apesar da pouca idade que aparentava. Ao entramos, madame Hortência
recebeu-nos de braços abertos e perguntou:
     _ Oh! Minha querida, que prazer e surpresa tê-la aqui! Em que posso lhe servir hoje?
     _ Meu pai dará uma festa em nossa casa para apresentar o senhor conde Celso D’Louchoa à
nossa sociedade. Portanto, viemos aqui para que a senhora me faça um vestido lindo para o baile do
conde. Quero, também, que me veja alguns modelos para Maria escolher. Ela está tirando o luto.
Mas, por favor, madame: nada extravagante.
      _ Oh! Minha querida, pode deixar: vou caprichar no seu modelito. Será algo muito especial. E
quanto à senhora Maria, santo deus! Já estava mais que na hora de tirar aquele luto horrível!
     Chamou todas as suas costureiras e, de imediato, foram tiradas as medidas de Maria. Enquanto
isso, madame Hortência ia tagarelando sem parar a respeito da festa.
     _ Espero que o seu pai me convide, pois sentirei insultada caso ele não o faça. Imagine, eu,
uma costureira renomada, que fiz vestidos até para a corte francesa, ser deixada de lado em
tamanho evento! E quando será o grande baile?
     _ Daqui a duas semanas.
     _ Oh, sim! Isso é tempo suficiente para terminar os modelitos a tempo.
     Enquanto Maria escolhia os modelos a seu agrado, chamei Madame Hortência à parte e disse,
quase em seu ouvido:
     _ Madame Hortência, quero perguntar-lhe uma coisinha. Mas tem que prometer-me que
manterá em segredo.
     A mulher, que adorava um fuxico, arregalou os olhos, fazendo um sinal positivo com a cabeça.
Quase num sussurro, indagou-me:
      _ Oh, é claro! Do que se trata? Saiba que sou um túmulo: o que me contar, guardo comigo a
sete chaves.
     Percebendo que madame Hortência estava achando que se tratava de um mexerico, respondi:
     _ Na verdade, não quero lhe contar coisa alguma. Quero, sim, que a senhora me responda uma
coisa.
     _ Claro, querida. O que quiser saber, pode me perguntar. Sei de quase tudo o que acontece
nesta cidade. Não que eu seja uma mexeriqueira, mas é que muitas coisas chegam aos meus
ouvidos.
     _ Sei, e jamais pensaria que a senhora é uma mexeriqueira. Mas o que preciso saber é o
seguinte: a senhora, por acaso, tem ou teve um escravo de nome Lourival?
     _ Oh! Mas por que a senhorita estaria interessada naquele negro? Acaso tem a intenção de
comprá-lo? Não sabe como me arrependo de tê-lo comprado do vigário. Aquele insubordinado e




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

insolente só me deu despesas. Vendi-o há muito tempo para Senhor Dominique. Soube que morreu
no tronco por causa de suas insubordinações. Imagine, tentou fugir para o quilombo várias vezes e
foi pego pelo capitão do mato. Apanhou até a morte - graças a Deus, ou todos os escravos do
condado pensariam em fazer o mesmo. Ele era quase um Deus para toda aquela negrada suja.
     Ela me dava náuseas pela maneira como falava, assim, de seres humanos, criaturas perfeitas e
filhos do mesmo criador. Por certo, o pobre homem estava em desespero e cansado de ser torturado
quando resolveu fugir. Infelizmente, tinha que conviver com pessoas preconceituosas. Aquela
mulher era uma pessoa digna de pena: por ser um espírito muito atrasado, precisaria muito de
minhas orações. Por certo, em um futuro próximo, ela voltaria como escrava ou empregada de uma
pessoa de cor, que a faria pagar por seus delitos. Ela não sabia, mas ela mesma escolheria esse
destino para aprender e evoluir.
     Coloquei as mãos sobre as mãos dela e fiz uma oração silenciosa, fazendo-a esquecer tudo o
que havíamos conversado. Sei que não era correto usar de meus dons para apagar a memória de
uma pessoa. Mas, no caso de madame Hortência, foi necessário.
     Fui interrompida pelo lacaio, que veio avisá-la da chegada de mais uma cliente. Ele ficou me
olhando, meio assustado. Disse-lhe que estávamos fazendo uma oração. Madame Hortência ficou
meio aérea e perguntou-me:
     _ Do que mesmo estávamos falando, minha querida?
     _ Do vestido que a senhora irá fazer para mim. Lembre-se de que terá que ser exclusivo.
     Tinha a certeza de que, daquele dia em diante, aquela mulher passaria a olhar para as pessoas
de cor de uma nova maneira. Infelizmente, tive que usar meus poderes com um ser tão ignorante.
     Tomei fôlego antes de sairmos da pequena salinha onde estávamos. Madame Hortência saiu na
minha frente. Foi quando percebi que o jovem lacaio apalpara seu enorme glúteo. Havia muitas
intimidades entre aquela repulsiva senhora e aquele jovem empregado. Continuaram com aquela
intimidade até que os perdi de vista.
     Cheguei a uma conclusão: por certo, o jovem negro Lourival - por dignidade ou por amor à
Maria - não se sucumbira às vontades de madame Hortência. Esse foi o erro do pobre rapaz. Sabia
que eram épocas difíceis para todos e que, muitas vezes, os maridos viam-se obrigados a viajar,
deixando sozinhas em casa suas jovens e fogosas esposas. Muitas delas se entregavam por pura
satisfação à luxúria - como a condessa. Outras se mantinham falsamente discretas, de romances
com seus escravos. Outras, ainda, arranjavam um consorte - como madame Hortência. Isso, é claro,
não era constante. Também existiam senhoras realmente recatadas e sinceras em seus sentimentos e
fidelidade - o que era uma exceção, pois a maioria dessas esposas era muito mal amada.
     Eu não havia vindo neste mundo para julgar ninguém, mas aquela cena de hipocrisia fazia-me
muito mal. Essa era a sociedade que meu pai fazia questão que eu frequentasse.
     Bom, o meu maior problema foi como contar à Maria que seu único amor havia sido
assassinado. Despedimo-nos o mais rápido possível de madame Hortência, pois não queria ficar
nem mais um segundo perto daquela sujeira toda. Pedi à Maria que fôssemos à igreja local, pois
precisava falar com o padre Ignácio. Ela, por sua vez, perguntou-me:
     _ O que houve? Está com problemas de consciência pesada, logo assim, pela manhã?
     Sorri, mas não era essa a minha real vontade. A contra gosto, respondi:
     _ Preciso caminhar, respirar e rezar um pouco. Por isso, quero ir até a igreja. Quero sentir o
vento da manhã soprando em meu rosto.
     Mas Maria não era tola e logo desconfiou, perguntando:
     _ O que foi que aquela mulher lhe fez?
     _ A mim, não fez nada. O problema é o que ela faz a ela e aos outros, todos os dias. Sei que
não sou santa e não posso salvar a humanidade, mas fico triste quando vejo um espírito se denegrir
daquele jeito. E o pior é que pessoas assim vão à igreja todos os domingos. Comungam cheias de




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

pecado e sentem-se na capacidade de julgar os outros. Tive que gastar meu poder de esquecimento
com aquela criatura vulgar.
     _ Então, foi muito sério o que estava falando com ela.
     _ Sim, Maria, foi. Quando chegarmos à igreja, depois da conversa que terei com o padre
Ignácio, se a resposta for do meu agrado, prometo que lhe conto tudo. Mas agora preciso encontrar
forças em Deus Pai. Sabe bem que, quando usamos nossos poderes, ficamos fracas.
     Apoiei-me em Maria e fomos caminhando abraçadas até a igreja. Ao chegarmos lá, corri os
olhos por toda aquela imensidão, tentando encontrar o padre Ignácio. Foi em vão: só encontrei
silêncio, frio e muito luxo. Mas, de repente, ouvi barulhos de chinelos arrastando pelo chão. Às
vezes, ouvir barulhos em lugares tão vazios dá-nos certo medo. Olhei imediatamente para trás,
achando ser um fantasma. É nas horas mais banais que temos que aprender a enfrentar nossos
temores. Pois, quando enfrentamos as menores coisas, estamos treinando para enfrentar as maiores.
Abri um largo sorriso ao perceber aquela figura amiga e bem materializada. Que alívio, não estava
preparada para lidar com um incumbo - não estando tão fraca.
      A mente, em estado débil, cria formas, cores e até barulhos. Não queria e não iria, de forma
alguma, deixar minha mente ficar atrasada e cheia de absurdos. Já sabia que os desencarnados não
poderiam me fazer mal. O mal eram os meus semelhantes encarnados: estes, sim, poderiam me
prejudicar de todas as maneiras. Era incrível perceber como um lugar que pode nos trazer paz
consegue, também, causar-nos tanto pânico. Isso ocorre por causa das duas energias adversas que
se misturam. Muitos vão a lugares santos para rezar e pedir o bem, mas existem também aqueles
que entram nestes lugares com o coração cheio de egoísmo, ambição e até mesmo ódio. Existem
pessoas que pedem a Deus o mal, como já citei antes. Deus lhes concede os desejos do coração, não
importa qual ele seja. Não é a quem pedimos, mas a força com a qual pedimos.
     Algumas pessoas têm o pensamento errôneo de que os íncubos ou súcubos não entram em
locais ou solos sagrados. Pois digo que entram, sim. A maioria desses espíritos assombra igrejas e
locais considerados sagrados porque apega-se a esses lugares, ou também porque vão
acompanhando as pessoas que frequentam esses locais. Esse pensamento errôneo chega a ser quase
uma lenda. Por isso, a maioria desses locais é assombrada devido às tantas energias que se
misturam no nosso espaço invisível. No mundo espiritual, existe uma guerra onde o bem combate o
mal, onde os anjos lutam contra os demônios, onde espíritos iluminados tentam doutrinar os
espíritos impuros e rebeldes. Por isso, é necessário não só tentar entender o mundo espiritual, mas
também respeitar o invisível. Essa guerra sempre afetou a humanidade desde a época de Cristo. Por
certo, em um futuro muito próximo, essa guerra invisível será muito mais prejudicial, pois o
homem, em sua evolução científica, afastar-se-á da fé. Com isso, acontecerá a degradação da
humanidade.
     Temos que ter uma noção básica de que nem tudo é lógica, nem tudo é explicável e nem tudo é
ciência. Pois, se Deus quisesse que fôssemos sabedores de todas as coisas, o mundo e as pessoas
não precisariam de um Mestre para guiá-los.
     Maria havia me deixado sozinha dentro da igreja - o que me foi muito bom, pois consegui
recuperar minhas forças e colocar minhas ideias em dia. Despertei-me daquele quase transe porque
senti alguém me tocar com as mãos. Quando me virei para ver quem era, disse:
     _ Padre Ignácio! Que bom vê-lo. Estava mesmo precisando falar com o senhor.
     Ele, por sua vez, respondeu em tom de brincadeira:
     _ Anda se assustando na casa de Deus, querida? O que foi que houve, minha filha? O que lhe
fizeram os santos desta paróquia?
     Gostaria de ter-lhe dito que não eram os santos que me assustavam, mas sim as pessoas. Mas,
por fim, resolvi apenas responder:
     _ Preciso de respostas, padre. Somente o senhor poderá me responder.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Calma, filha. Sinto que está muito afoita. Respire um pouco e depois me explique de que tipo
de respostas está precisando.
     _ Quero, primeiro, que o senhor me responda: que paradeiro levou um escravo de nome
Lourival? O senhor o conheceu, não?
     _ Sim, por certo. Comprei-o da fazenda de seu pai. Mas, a pedido do mesmo, tive que vendê-lo
para madame Hortência. Parecia que esse homem encontrava-se com Maria, sua governanta, às
escondidas.
     _ E por que meu pai estaria tão incomodado que Maria se relacionasse com um escravo?
     _ Porque seu pai temia que Maria fugisse com ele e abandonasse a senhorita, ainda pequena.
Seu avô pegou Maria ainda menina e ela foi criada para cuidar da casa. Recebeu boa educação, mas
não poderia nunca se casar. Quando sua mãe casou-se com o seu pai, Maria era pouca coisa mais
velha que ela, e passou a ser a governanta da sua casa. Ela só saía de casa com a sua mãe. As duas
eram muito amigas. Como seu pai viajava muito, ao descobrir o envolvimento de Maria com esse
jovem escravo, logo o vendeu. Seu pai não queria perder a companhia de sua mãe. Sua mãe disse
que não se importaria que Maria fugisse para ser feliz, mas seu pai não aceitava. Trancou Maria por
dias em um sótão, até que tivesse conseguido vender o escravo. Então, a pedido de seu pai, comprei
o escravo, que chegou até a mim muito debilitado. Cuidei de suas feridas físicas. Mas, infelizmente,
não pude curar sua alma, pois estava indo demasiadamente para um precipício sem volta. O ódio no
coração daquele homem era muito grande. A mim nunca fez nada - muito pelo contrário, sempre
me tratou com respeito. Então, após alguns meses, Maria descobriu onde Lourival estava e
passaram a se encontrar às escondidas, aqui dentro desta igreja. Seu pai, ao descobrir isso, mandou
que castigassem Maria, colocando-a no tronco, para que servisse de exemplo a todos. Fui obrigado
por seu pai a vendê-lo. A primeira pessoa que o quis foi madame Hortência. Mas ela também se viu
obrigada a vendê-lo para um fazendeiro muito cruel. Dizem que Lourival fugiu e, ao ser capturado
a caminho de um quilombo, morreu com um tiro. Mas não acredito que aquele homem tenha
fugido, pois o amor dele por sua governanta era muito grande. Ele nunca deixaria Maria sozinha.
Os dois haviam feito uma espécie de juramento de nunca um deixar o outro.
     _ Meu Deus, padre, isso é muito grave! Eu tinha meu pai em alto preço, mas a cada dia
descubro uma coisa sobre ele que mais me decepciona. Não sei como pude ser tão cega!
     _ Não pense assim, filha!
     _ E o que o senhor quer que eu pense? Na minha imaginação, meu pai era um herói. Nunca o
vi fazendo nada de mais, nunca soube que ele torturasse os escravos. E agora venho saber que ele
surrou Maria! Sempre pensei que ela estivesse conosco esses anos todos porque havia feito um
juramento à minha mãe de sempre cuidar de mim. E agora o senhor está me contando que ela foi
obrigada a ficar comigo. Santo Deus, padre! Minha dívida com essa mulher é muito maior do que
eu supunha.
     _ Sinto ter sido eu a lhe contar tudo isso, senhorita Anna, pois estou vendo que é uma pessoa
de coração puro e de alma inocente. É uma pena que essa pureza será corrompida em breve.
     _ Não, padre. Isso não irá acontecer comigo. Agora quero que o senhor me responda outra
pergunta.
     _ E qual seria, minha filha?
     _ Conte-me exatamente como minha mãe morreu. Sempre me contaram que ela morreu no
parto, dando-me a luz. Mas fiquei sabendo de fatos que demonstram que isso não é a verdadeira
história.
     _ Senhorita Anna, essa é uma história muito perigosa de se envolver. Posso pagar por isso caso
seu pai descubra que lhe falei sobre esses assuntos.
     _ Por favor, padre, preciso saber. O senhor não pode me negar isso. Passei muitos anos
vivendo na ignorância. Agora, descobrir a verdade é uma questão de honra para mim. O senhor
entende?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Sim, entendo. Mas que fique bem claro que não podem saber que fui eu quem lhe contou
isso!
     _ Não se preocupe, padre. Não contarei a ninguém.
     _ Não sei muito. Mas o pouco que vou lhe contar é o que sua mãe me contava quando eu tinha
permissão de visitá-la. Pouco antes de Elizabeth ficar doente, ela me contou o seguinte...
     _ Minha mãe estava doente? Mas que tipo de doença ela tinha? Pensei que ela tivesse falecido
por uma insuficiência respiratória durante o meu parto.
     _ Por favor, minha filha, deixe-me terminar. Elizabeth, segundo o senhor seu pai, estava
sofrendo de perturbações espirituais. Foi quando o seu pai chamou-me para fazer um exorcismo.
Primeiro, tive que me certificar de que era verdade o que seu pai estava alegando.
     _ E era, padre?
     _ Não. Felizmente, Elizabeth não tinha nenhum indício de estar possuída ou perturbada por um
espírito maligno. Ela me pareceu uma mulher muito sensata e muito ingênua, assim como a
senhorita.
     _ E por que meu pai estava acusando minha mãe tão levianamente?
     _ Seu pai sempre foi um homem muito ambicioso, senhorita Anna, e também um jogador
compulsivo. Ele havia perdido em um jogo a metade da fortuna da família. Seu pai sempre viajou
muito, e sua mãe ficava sozinha durante meses dento de casa. Seu pai também passou a não desejar
mais sua mãe como mulher. Então, ela desconfiou das atitudes dele. As brigas entre os dois
começaram a deixar sua mãe muito depressiva e angustiada. Moramos em uma cidade pequena e os
boatos a respeito de seu pai cresciam. Chegou aos ouvidos de sua mãe um suposto envolvimento
dele com uma condessa muito rica.
     _ Padre, está querendo me dizer que o senhor meu pai e a condessa Del Prat já se conheciam
quando a minha mãe ainda estava viva? - sentei-me no banco da igreja para não cair, pois minhas
pernas tremiam sem parar.
     _ Não sei se a sua madrasta e a suposta condessa que comentam são a mesma pessoa. Mas o
fato é que Elizabeth narrou tudo isso em um diário. Ela queria que a senhorita, ao nascer, soubesse
toda a verdade. Ela chegou a ameaçar de acusar seu pai de adultério. Foi, então, que seu pai
começou a levantar a falsa suposição de que ela estava possuída por espíritos imundos. Quando
pude constatar esse fato e provar que era falso, seu pai, então, aliou-se ao doutor e sua mãe foi
declarada como louca. A intenção de seu pai era internar Elizabeth em um manicômio assim que a
senhorita nascesse.
     _ Então, foi por isso que ele a manteve trancada em seus aposentos?
     _ Sim, nem mesmo Maria podia entrar para vê-la. Somente ele e o doutor tinham essa
permissão. Houve um baile em sua casa e Elizabeth conseguiu, nesse dia, escapar do cárcere.
Dizem que ela se vestiu de negro e foi para o meio de todos, e flagrou seu pai junto a essa condessa
de quem tanto todos falavam.
     _ O senhor está me dizendo que o meu pai deu um baile em minha casa com a minha mãe
ainda viva para essa mulher?
     _ Foi o que me disseram, filha. Talvez Maria possa lhe esclarecer mais sobre esses fatos.
     _ E onde está o diário de minha mãe?
     _ Não sei, filha. Talvez ela o tenha escondido. Seu pai também nunca o achou.
     Fiquei pensando e, depois, respondi:
     _ Acho que eu sei onde possa estar, padre.
     _ Filha, prometa-me que terá muito cuidado.
     _ Não se preocupe, padre, eu terei. E quanto a esse conde inglês, o que o senhor sabe?
     _ Na verdade, quase nada. Até achei que estivesse morto.
     _ Como assim?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Parece que houve um assassinato e, se não estou enganado, a história é que ele e o pai
haviam morrido. Mas deve ser apenas um boato.
     _ Sim, deve ser um boato.
     Fiquei de cabeça baixa, pensando em como agiria ao ver meu pai. Percebendo meu jeito, padre
Ignácio falou:
     _ A senhorita está bem?
     _ Sim, estou. Preciso ir, Maria está me esperando lá fora. Não posso me demorar mais.
     _ Está bem. Espero que a senhorita consiga resolver seus problemas com sabedoria.
     _ Vou tentar, padre. Prometo.
     Tomei sua benção e saí para encontrar-me com Maria. Achei-a parada, estática, em pé em um
dos degraus da igreja. Deu-me tanta pena saber que aquela mulher havia sofrido tanto! Caminhei
em direção a ela e coloquei as mãos em seu ombro. Ela deu um pulo de susto. Disse-lhe:
     _ Fique calma, Maria. Não há do que temer.
     _ Estava distraída em minhas lembranças. Então, como foi a conversa com o padre?
     _ Instrutiva. E não agora, mas futuramente, falaremos sobre o que eu e o padre Ignácio
conversamos. Agora preciso, ainda, digerir o que ele me contou. Vamos para casa, antes que
comessem a ter ideias erradas sobre a nossa ausência.
     Maria parecia não estar muito bem, pois não falou muito no caminho de volta naquele dia.
Chegamos à frente da mansão Del Prat e já não senti mais aquela casa como minha. Pela primeira
vez em minha vida, soube o que queria dizer. Senti nojo de mim mesma. Sim, senti nojo de mim
mesma por pertencer àquela gente. A condessa estava nos esperando à varanda, com um sorriso que
mais parecia deboche. Pedi a Deus para dar-me forças, pois não estava com a menor disposição
para ouvir o que quer que fosse daquela boca imunda. Deus ouviu as minhas preces, porque
passamos por ela, que nada mencionou. Apenas nos olhou com cara feia e cruzou os braços. Maria
baixou a cabeça, mas fingi que não era comigo.
     Maria seguiu para seus afazeres e fui até a sala de leitura, onde encontrei meu pai bebendo. Ao
ver-me, ele sorriu, falando:
     _ Estava gastando o pouco de dinheiro que ainda me resta?
     Percebi que ele não estava sóbrio.
     _ Não, meu pai, ainda deixei o bastante para o senhor gastar tudo em jogatinas ou para que sua
amada esposa esbanje com futilidades.
     Ele veio cambaleando para o meu lado e desvencilhei-me dele. Por fim, ele disse, apontando o
dedo para o meu rosto.
     _ Você está ficando uma fedelha muito insolente, sabia? Posso agora mesmo mandar que... -
ele interrompeu a fala.
     _ Diga, meu pai! O que o senhor vai mandar que me façam? Serei trancada em meu quarto
como uma louca, ou irá me amarrar a um tronco e dar-me chicotadas para eu servir de exemplo?
     Ele cambaleou e, embora não compreendesse o que eu estava falando, sentiu aquelas palavras
como um peso na consciência. Então, afastou-se de mim e encostou-se na parede, sem saber o que
dizer. Saí da sala, deixando-o com o fantasma de suas lembranças.
     Fui para a cozinha atrás de Maria. Deparei-me com ela consolando Tereza, que estava
chorando. Quis saber o que estava acontecendo. Foi quando Maria respondeu-me:
     _ O netinho de Tereza está muito doente. Ela pediu autorização à condessa para ir até a casa da
filha, mas ela não deu.
     Pensei em uma solução para aquele problema e disse:
     _ Pode ir, Tereza. Responsabilizo-me. Depois falo com o meu pai a respeito.
     _ Mas, senhorita, a condessa poderá puni-la também. E quem fará o jantar?
     _ Joana, ora! Maria e eu tentaremos despistar a condessa. Saia pelos fundos, para que ninguém
a veja.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Ela beijou as minhas mãos em agradecimento e eu disse:
     _ Vá logo, mulher! Está perdendo o seu tempo comigo!
     Tereza saiu de costas, agradecendo. Maria perguntou-me:
     _ O que falarei à condessa, caso ela dê pela falta de Tereza?
     _ Não se preocupe. Ela está ocupadíssima com os preparativos do baile para o conde.
     Eu e Maria comemos uma prenda na cozinha. Não estava com muita fome. Acabei deixando
metade do que estava comendo de lado. Subi para meu quarto e fui meditar. Aquele havia sido um
dia bastante difícil. Quase deixei que energias inferiores me perturbassem a alma. Senti-me fraca e
incapaz por não estar conseguindo falar com Maria.
     Temos que ter muito cuidado com a tristeza. Ela nos deixa vulnerável. É por isso que uma
bruxa não pode se apaixonar: a tristeza e a paixão andam de mãos dadas e, por nos fazer chorar,
enfraquecemos e as lágrimas não nos deixam ver com clareza que caminho tomar.
     Abri a janela e olhei para o céu: a deusa Lua estava magnífica aquela noite; sua luz iluminou
tudo ao redor. Recorri a ela para recarregar minhas forças. Depois de fazer minhas orações, fui para
a cama e adormeci tranquilamente.
     Horas depois, um beijo na testa acordou-me suavemente. Abri os olhos com Maria dando-me
um bom dia.
     _ Bom dia, filha! Dormiu bem? Desculpe-me tê-la acordado assim, tão cedo, mas creio que
precisamos conversar.
     Depois de dar um bocejo, espreguicei-me na cama e disse:
     _ Bom dia, Maria, que horas são? Caiu da cama, foi?
     _ Ainda não amanheceu o dia, mas tive que vir até aqui. Preciso saber o que a senhorita tanto
falava com o padre Ignácio. Nem venha me dizer que não é nada demais, porque sei que era sobre
mim.
     Sabia que Maria sempre sentia quando alguma coisa estava errada. A minha sombra mental
precisava saber a verdade e, como percebi que não daria mais para remediar esse fato, levantei-me
da cama, fui até o meio do quarto, olhei-a nos olhos e falei:
     _ Sim, por certo está com razão: era mesmo sobre a senhora que eu e padre Ignácio falávamos.
     _ Sobre o que a senhorita conversou com aquele padre anarquista?
     _ Ele não é nenhum anarquista, Maria. Muito pelo contrário, ele é um homem muito sensato e
honesto. Não seja como essas pessoas que o julgam só porque ele não é velho e antiquado como o
padre Alencar. Por favor, Maria, não faça um julgamento precipitado antes de ouvir tudo o que
tenho a lhe dizer. Sei muito bem porque a senhora tem esse conceito dele. Mas quero que saiba que
ele não foi culpado por nada que aconteceu a Lourival. Padre Ignácio também foi obrigado a
vendê-lo para não sofrer punições.
     Maria abaixou a cabeça pesarosamente e disse:
     _ Sei, senhorita Anna. Mas também sei que, como membro da Igreja, ele poderia ter interferido
e pedido para que Lourival não fosse vendido à madame Hortência. Aquela mulher horrível
torturava Lourival todos os dias. Ele mesmo me contou que ela o queria intimamente. Mas Lourival
nunca cederia aos caprichos daquela porca gorda.
     As palavras de Maria confirmaram a minha desconfiança. Ela prosseguiu, contando-me:
     _ Éramos muito jovens e cheios de planos. Nossos corações eram puros e achávamos que
poderíamos vencer qualquer barreira. Mas não foi bem assim: o preconceito não permitiu que
ficássemos juntos. Depois que Lourival foi vendido para um fazendeiro de outra região, nunca
mais o vi e também nunca mais ouvi falar nada sobre ele. Ele deve ter encontrado outro amor. Caso
contrário, teria dado um jeito de voltar e buscar-me, levar-me para onde quer que fosse.
     Naquele momento, tive certeza de que Maria nunca soube o que acontecera com o seu amor.
Não poderia mais deixá-la naquela ignorância. Então, falei:
     _ Maria, Lourival nunca teve outro amor além da senhora, acredite.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Não se preocupe em me falar a verdade, senhorita Anna. Agora sou mais conformada com
essa história. Não é como antes, que eu ficava muito triste. Agora sou uma mulher velha e não
tenho mais nenhuma perspectiva de vida para mim.
     _ A senhora está muito enganada. Sei que ainda será muito feliz ao lado de alguém que muito
lhe quer. E quanto a Lourival, infelizmente ele morreu, Maria.
     A mulher caiu sentada sobre a minha cama, parecendo perplexa. Portanto, prossegui:
     _ Sim, Maria. É por isso que ele nunca voltou para a senhora, como lhe havia prometido.
Dizem que ele tentou escapar do tal fazendeiro e, durante a perseguição, foi baleado e morreu.
     _ Lourival nunca fugiria. Não era do feitio dele ser um covarde. - disse Maria, com plena
certeza nas palavras e no coração.
     _ É exatamente isso que o padre Ignácio também acha. Maria, acredito que tenha o dedo do
senhor meu pai nessa história. E nem queira defendê-lo, pois também já fiquei sabendo do que ele
mandou fazer com a senhora.
     Maria caiu em prantos e disse:
     _ Nunca lhe contei toda a verdade porque não queria que a senhorita crescesse com ódio em
seu coração. Desculpe-me, senhorita Anna, por esse meu momento de fraqueza.
     _ Não tem de que se envergonhar ou pedir desculpas. Sou eu quem deveria pedir-lhe
humildemente minhas desculpas, pois indiretamente fui a culpada pela senhora ter sido privada de
viver a sua história de amor.
     _ Não diga sandices, criança tola. Tudo o que fiz pela senhorita foi por amor. Se não tivesse
tido a senhorita em meus braços, ali, tão pequenina e precisada de carinho, por certo teria cometido
suicídio, pois me foi muito duro viver sem Lourival.
     Abracei Maria com carinho e deixei-a desabafar toda aquela dor em lágrimas. Depois de muito
conversarmos, pedi-lhe que voltasse para seus aposentos, pois não seria bom que a vissem sair
àquelas horas do meu quarto, ainda de roupa íntima. Por certo, achariam que estaríamos planejando
algo. Quando ela estava saindo, virou-se para mim e falou:
     _ Fiquei sabendo que, mais tarde, o patrão e a condessa sairão para darem uma volta. Estou
pensando em levá-la aos aposentos de sua mãe.
     Dei um largo sorriso de cumplicidade e disse:
     _ Perfeito! Estarei esperando pela senhora, então.
     Fiquei muito triste por Maria, mas foi melhor que ela soubesse que seu amor estava morto a
viver acreditando que ele a abandonou. Naquela madrugada, até que o dia amanhecesse, não
conseguiria mais dormir. Então, fiquei lendo meus livros e fazendo minhas anotações até que o Sol
firmasse no céu. Depois, arrumei-me calmamente e desci, encontrando meu pai já na soleira da
porta. Antes que ele saísse, falei:
     _ Pai, quero ter uma conversa franca com o senhor.
     Ele, que já estava saindo, virou-se e disse-me:
     _ Então será quando eu voltar, pois estou saindo coma sua madrasta e não quero deixá-la
esperando muito tempo na carruagem.
     _ Não, pai! Quero falar com o senhor agora. Não quero mais adiar nossa conversa. Não se
preocupe, serei breve.
     _ Então, que seja. O que há de tão importante que não possa esperar que eu chegue da cidade?
     _ Sei que o senhor está arrumando um casamento de conveniências para mim. Não acho justo
que queira me vender para saldar suas dívidas com o conde.
     _ Acho que você já está passando dos limites, Anna! Quero que me respeite, ainda sou seu pai.
Todos nesta casa temos deveres e obrigações. É justo que tenha chegado a sua hora de dar a sua
contribuição.
     _ Sei disso, pai. Só estou tentando lhe mostrar que, caso o senhor não tenha percebido, de tola
não faço nem o papel.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ Tudo bem, Anna. Vou ser-lhe mais direto, então: o conde procurava uma esposa e eu lhe
devo muito dinheiro. Isso sem contar que metade das dívidas da família ele também pagou. Sendo
assim, não vejo nada mais justo que aceitar o seu casamento com ele. Além do mais, de que está
reclamando? Será uma mulher rica e terá de tudo. E ainda receberá um título de nobreza. Tem ideia
de quantas jovens de sua idade gostariam de estar no seu lugar? E essa união será muito útil para os
negócios e para a família. Anna, o conde não é nenhum velhote. É jovem e de boa aparência, e é
muito vigoroso! Logo terão filhos e, além do mais, você acabará se acostumando com ele. Todo
casamento é baseado em negócios. Não achou que eu lhe criei até agora sem, no mínimo, tirar
proveito disso. Já me bastou sua mãe não ter me dado um herdeiro homem. Agora chega com essa
conversa. Fico satisfeito que esteja ciente dos meus negócios e, querendo ou não, você faz parte
deles. Agora saia da minha frente, que preciso passar.
     Poderia ter-me calado naquele momento e ter aceitado que o meu destino fosse ao lado daquele
crápula, mas tinha outros planos para mim. Então, mesmo vendo o meu pai saindo porta afora,
disse:
     _ Saiba que eu não vou ceder tão fácil como o senhor pensa, meu pai. Pode me casar com este
homem, mas juro que fujo no dia do casamento e o senhor não me verá nunca mais. O senhor não
vai me tratar como trata as suas vacas ou os seus escravos. Tenho sentimento e sou uma pessoa
livre! Vou lutar por meus direitos enquanto viver.
     _ Meu Deus, Anna, por que você tem que fazer as coisas parecerem tão difíceis? Você está
complicando uma coisa que é demasiadamente fácil para uma mulher. Só vou lhe dizer uma coisa,
mocinha: tente passar por cima das minhas ordens e irá descobrir quem sou realmente.
     _ Pai, estou falando de sentimentos, dos meus sentimentos. O senhor está me tratando
levianamente como se eu fosse uma mulher que trabalha em uma taberna. Nunca em minha vida
conheci um homem, e agora o senhor quer me vender? Sabe, pai, outro dia mesmo eu fiquei
pensando no quanto: estava enganada com o senhor. Pensei que o senhor era muito diferente de sua
esposa - ambiciosa e arrogante, que o senhor teima em cativar por mero capricho. Mas eu estava
enganada, não é?
     _ Você está passando dos limites, mocinha! É melhor que se cale ou não me responsabilizo
pelos meus atos.
     _ Não, pai. Estou expondo minha indignação! Não sou objeto, pai, sou sua filha! Aposto minha
vida como a senhora sua esposa está envolvida nesse leilão humano. O senhor não passa de uma
marionete nas mãos dela.
     Ele me esbofeteou com toda a força no rosto. Agarrando-me pelos ombros, jogou-me no chão.
Revivi minha vida passada. Sabia que tinha passado das medidas, mas não poderia abaixar minha
cabeça para um ato tão abominável como aquele. Não era como as outras mulheres. Não poderia
submeter-me a um homem por dinheiro ou para pagar as dívidas do meu pai.
     Depois, parecendo ainda não satisfeito, ele me levantou do chão por um dos braços e disse:
     _ Queria fazer isso de uma maneira mais amena e menos dolorosa para você. Ambos
poderíamos ter entrado em um consenso ou em um acordo vantajoso, o que poderia ter sido muito
bom para ambas as partes. Mas agora estou lhe dizendo afirmativamente: fará o que eu quiser e
quando a mandar, ou lhe enviarei pessoalmente para um convento, de onde nunca mais verá a luz
do dia, pois me encarregarei de pedir-lhes que a enclausurem. Veja se arruma um traje que condiga
com a nobreza do conde. Pois, ultimamente, tem se vestido como uma camponesa.
     Em seguida saiu, batendo tão fortemente a porta que estremeceu todo o ambiente. Pude ainda
ouvir seus berros, gritando por Lorenzo. Fiquei ali, parada no meio do hall, com os olhos fechados,
tentando esquecer aquelas tenebrosas palavras. Mas, em momento algum, chorei. Não seria fraca,
não daria o meu braço a torcer. Guerreiros não choram, dizia a voz em minha cabeça. Isso me fez
lembrar de minhas antepassadas, que nunca deixaram o medo ou o fracasso cair de seus olhos em
forma de lágrimas. Eu não seria diferente: precisava lutar e, para isso, precisava estar muito lúcida.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

Sabia que, se aceitasse me casar com o conde, tornar-me-ia uma marionete em suas mãos. Pois,
quando ele se cansasse de mim, descartar-me-ia, colocando-me de lado - como a maioria das
senhoras casadas, que sempre eram trocadas por concubinas ou cortesãs. Não queria passar o resto
da minha vida amargurada, fazendo tricô e frequentando a igreja diariamente por não ter nenhum
outro lugar para ir. Não, meu pai não faria isso comigo.
     Maria estava na cozinha e veio correndo, querendo saber o que havia acontecido comigo.
     _Você está bem, Anna? Ouvi seu pai gritando com Lorenzo, como um louco que acabara de
fugir de um manicômio em chamas.
     _ Sim, estou muito bem, Maria.
     Contei-lhe com detalhes tudo o que acontecera. Depois de me ouvir atentamente, falou:
     _ Santo Deus, ele está mesmo louco! E o que pretende fazer para escapar dessa trama? A não
ser que a senhorita resolva aceitar a vontade de seu pai e casar-se com o conde, pois não consigo
achar nenhuma solução para poder ajudá-la.
     _ Nunca, jamais serei vendida ou me casarei sem amor. Darei aos dois uma boa lição.
     _ Senhorita Anna, deve ter mais cuidado. Seu pai pode perder a cabeça e nem sei o que ele
poderá fazer.
     _ Não se preocupe, Maria. Serei bastante sutil. Mas, antes, quero que me dê as chaves do
quarto de minha mãe. Tenho o direito de conhecer o que tem em seus pertences.
     _ Tudo bem! Mas deixe que acabem de sair e tomem distância.
     _ Então está bem. Assim que saírem, suba e traga-me as chaves.
     Disse isso voltando para os meus aposentos. No meio da escada, ainda ouvi Maria dizer-me:
     _ Que Deus me ajude! Seu pai, se souber, esfola-me viva.
     Então, respondi-lhe:
     _ Ele só vai saber se a senhora contar!
     Maria saiu meio a contra gosto, pois estava muito preocupada com as consequências de meus
atos. Para falar a verdade, eu também, mas estava disposta a ir até o fim.
     Ao chegar em meu quarto, corri para a janela para observar quando meu pai partiria na
carruagem. Pude observar a condessa gesticulando muito. Ela conversava com meu pai e, por certo,
estavam falando de mim. Antes de subir na carruagem, ela olhou para cima e deu-me um sorriso
sarcástico. Cumprimentei-a com a cabeça, pois bem sabia o que queria dizer-me com aquele sorriso
matreiro e os olhos cheios de maldade.
     Maria subiu imediatamente, assim que a carruagem tomou distância.
     _ Estou com o coração nas mãos, mas estou aqui, arriscando-me a ser mandada embora. Tudo
por amor e amizade a uma aprendiz de bruxa que só me põe em confusão.
     _ Ora, Maria, pense pelo lado positivo: é só comigo que a senhora consegue ter uma vida
agitada e cheia de aventuras!
     Lembrei-me de minha infância, quando sempre fazia Maria correr horrores atrás de mim, ou a
fazia subir em cima de árvores para pegar as frutas que eu queria. Mesmo que houvesse uma bem
pertinho do chão, eu a fazia pegar a mais alta. Era muito divertido vê-la se atrapalhando toda,
subindo árvore acima. Maria, então, prosseguiu com aquela conversa:
     _ É mais: se o patrão me pega, vou ter algo muito mais empolgante do que aventuras ao seu
lado. Serei obrigada a tirar férias para o resto da minha vida.
     Não me importava o que Maria pudesse me dizer. Pegar aquela chave fez meu coração
disparar, pois seria a primeira vez que conheceria as intimidades de minha mãe. Abrimos a porta e
fomos para o final do corredor, na frente do quarto de minha mãe. Olhei para Maria, muito ansiosa.
     _ Vamos, abra logo. Não temos o dia todo para perder, ou quer que a copeira venha e nos
flagre?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Ao abrir o quarto, senti um carinho muito grande em todo o ambiente e fiquei muito feliz, pois
minha mãe estava lá dentro, esperando-me com um lindo sorriso. Senti as lágrimas rolarem e vi
quando Maria me olhou. Em seguida, falou:
      _ Sinto uma presença muito forte aqui dentro. Estou toda arrepiada. Talvez não seja uma boa
ideia ficarmos.
     Olhei para minha mãe, que estava sorrindo e olhando para Maria, com ternura.
     _ Sim, eu sei, Maria. Minha mãe está aqui e manda lhe dizer que está muito feliz por vê-la.
Não precisa ficar assustada. Na verdade, ela só está aqui para nos receber.
     Maria deu um salto para trás e perguntou onde ela estava. Respondi que ela estava bem
próxima à janela.
     _ Ufa! Então os arrepios que estou sentindo devem ser por causa do ventinho frio entrando pela
janela!
     Eu e minha mãe olhamos uma para a outra com indignação, pois não acreditávamos ter ouvido
aquele comentário tão esdrúxulo vindo de uma pessoa extremamente esclarecida sobre a
espiritualidade como Maria era. Mas, no fundo, entendemos, pois ela estava nervosa e assustada.
Afinal, ela nunca realmente havia se confrontado com um espírito. Aquela presença incorpórea
mexeu com seus nervos, fazendo-a não perceber que estava prestes a cair na obscuridade de sua
imaginação com uma manifestação de ignorância. Engraçado como as pessoas se assustam com o
que não podem ver ou tocar... Quando, na verdade, a única coisa que pode nos prejudicar está
dentro de nós mesmos: é a nossa maneira cega e preconceituosa de olhar a vida e as pessoas ao
nosso redor. Os seres incorpóreos nunca poderiam nos fazer mal, a não ser se os deixássemos
invadir nosso meridiano, ou seja, a linha imaginária que não devemos deixar os espíritos sem luz
ultrapassarem. Esses seres são usados por feiticeiras, para o malefício da magia negra, na qual os
desejos obscuros da maioria dos seres humanos são atendidos. Na verdade, os espíritos sem luz são
como escravos: apenas cumprem ordens de seus senhores e estão à espera de uma recompensa.
     Abrimos a janela para que o ar e a claridade entrassem. O quarto era repleto de pequenos
bibelôs e parecia que a tristeza estava bem longe dali. Minha mãe mostrou-me suas coisas pessoais.
Mostrou-me um lugar secreto, onde guardava o primeiro casaquinho de lã que ela mesma havia
tricotado enquanto estava grávida de mim. Até Maria espantou-se, pois havia um fundo falso em
uma gaveta de sua cômoda. Fiquei tão emocionada por poder compartilhar aquele momento único
com minha mãe! Encontrei um antigo diário e algumas coisas que me surpreenderam. Tinha uma
estranha varinha de madeira muito trabalhada, um amuleto, uma toalha bordada em fios de ouro e
um cristal azul. Guardei tudo isso em um pequeno baú de madeira e marfim. Maria disse-me que
mamãe havia ganhado de meu pai de uma viagem que fizeram à Índia.
     Ao abrir seu guarda-roupa, fiquei encantada com o que vi: logo de primeira mão, um vestido
preto, todo de renda muito fina. Olhei para minha mãe maravilhada. Pedi-lhe permissão para usá-lo
no baile de sábado. Ela respondeu-me, com um largo sorriso, que tudo aquilo me pertencia.
Admirei cada bibelô. O quarto era muito amplo e tudo era em tom bege e marfim. A cama de casal
era enorme e muito alta. O véu sobre a cama dava um ar extremamente romântico, mostrando um
pouco do temperamento harmonioso e elegante dela. Ela me disse que estava triste com papai, mas
que era para eu ter paciência com ele, pois ele estava muito atordoado por causa das imprudências
que havia cometido. Disse-me que ele corria risco de vida, pois o conde não era uma pessoa tão
amena quanto se mostrava. Pediu que eu também tomasse cuidado com minhas atitudes com ele e
que, principalmente, tentasse ser discreta quanto à minha nova escolha. Isso me fez ficar um pouco
com o pé atrás quanto ao que faria no baile de sábado. Depois de muito conversarmos e ela me
instruir sobre como eu deveria proceder em minhas atitudes, despediu-se e retirou-se, deixando-me
pesarosa e com saudades antecipadas.
     Agradeci a Maria por permitir encontrar-me com um pouco da minha história. Saí daquele
quarto e tentei deixar tudo da mesma maneira, pois não quis que ninguém desconfiasse de nada. Saí




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

com o vestido em minhas mãos, é claro! Acho que foi o presente mais lindo que eu havia ganhado.
No corredor, entreguei-o a Maria, que me esperava impaciente. Pedi-lhe que o lavasse em segredo,
pois não queria que ninguém soubesse que eu o usaria no baile do conde. Ela pegou a chave e
desceu para colocá-la no mesmo lugar, para que ninguém desconfiasse dela.
     Voltei imediatamente para meu quarto, levando comigo alguns dos pertences de minha mãe.
Depois de colocar minhas coisinhas no quarto, em um lugar seguro, fui para a cozinha, onde fiz
minhas refeições ao lado dos criados. O meu lado humano ainda estava muito triste com meu pai, e
não gostaria de ver ou falar com ele naquele dia tão fatídico.
     Depois de ajudar Joana com a louça, voltei para o meu quarto e resolvi ler o diário de minha
mãe. Pude perceber sua sensibilidade e a maneira humana como via as coisas e as pessoas. O
perdão era o seu lema. Pude perceber que meu pai não era tão puritano como demonstrava ser - em
poucas linhas, minha mãe dizia saber de suas traições, mas se manteve digna. Saltei algumas
páginas, para não me aborrecer ainda mais como ele, e descobri uma coisa que me deixou
boquiaberta. Logo depois de dez páginas, estava escrito:
     Anna, sei que neste momento você está lendo estas páginas. Espero que já tenha identificado
seu dom. É, filha, sei que não viverei o bastante para lhe contar sobre isso pessoalmente. Sou uma
bruxa. Antes de deixar meu aparelho, passar-lhe-ei neste livro todo o meu conhecimento sobre a
magia. Lógico que muitas coisas você terá que aprender por si mesma, pois a magia é uma busca
eterna do saber. Seu pai nunca soube desse segredo, que agora compartilho exclusivamente com
você. Não culpe Maria: ela prometeu-me guardar segredo. Nunca lhe revelei sobre o fundo falso
ou sobre a passagem secreta do porão, onde pratico meus rituais de magia. Nesta hora, sei como
está se sentindo e se perguntando onde fica a passagem secreta. Fica atrás do 3º lote de vinhos de
seu pai. Lá, encontrará tudo o que precisa saber sobre mim e nossa raiz. Como já deve ter ouvido,
estudei até os dezesseis anos em um colégio de freiras, na França. Lá, aprendi muitas coisas,
inclusive sobre a crueldade e a falsidade que ocorre por trás das paredes de um convento rigoroso.
Minha mãe queria que eu tivesse uma vida religiosa e que fosse preparada para ser uma boa
esposa e dona de casa. Só que sempre tive esses sonhos românticos. Também sentia que o mundo
precisava de mim de uma outra forma. Minha primeira manifestação como bruxa foi quando, no
convento, começou a surgir um boato de que várias freiras estavam ficando loucas por causa da
influência do demônio. As pobres mulheres davam crises e debatiam-se, jogando seus frágeis
corpos de um lado para o outro da parede de suas celas. Algumas cometeram suicídio. Algumas
engravidaram, e as freiras as fizeram abortar. O horror e o pânico expandiram-se por todo o
convento, e meus pais estavam vindo me buscar. Só que algo dentro de mim gritava e dizia que
aquilo tudo nem de perto tinha a ver com o demônio. Numa bela tarde, eu estava sentada na
soleira, lendo um romance, depois de uma monótona aula de literatura, quando ouvi alguém me
chamar. Levantei-me rapidamente, pois tanto os padres como as freiras eram muito rígidos quanto
à obediência. Então, de um salto, respondi “Pois não, senhora!?”. E, abaixando a cabeça,
continuei imóvel, esperando que alguém viesse me impor alguma ordem. Quando percebi que
ninguém falou nada, ergui minha cabeça e vi que não havia ninguém. Fiquei assustada e saí
correndo para o meu quarto, onde sentei na cama e fiquei tentando entender o que teria
acontecido. Cheguei a pensar que realmente poderia ser um tipo de demônio que tivesse falado
comigo, o mesmo que estaria deixando as freiras loucas. Fiquei com mais medo ainda por não
saber como diria aquilo para as freiras sem que elas achassem que estava possuída. Foi quando a
voz, mais uma vez, falou comigo: “Elizabeth, não temas, não viemos lhe fazer nenhum mal. Escute-
nos, temos que lhe prevenir: está correndo um risco muito grande aqui dentro”. Primeiro,
esconjurei e rezei incessantemente. Depois, cobri a cabeça com travesseiros, mas as vozes não
paravam. Então, em soluços e com muito medo, resolvi perguntar: “O que querem de mim? Por
que estão me atormentando? Sou filha de Deus e renego vocês, espíritos imundos”. Ouvi
responderem-me: “Também somos filhas de Deus, Elizabeth, e precisamos de sua ajuda para




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

evitarmos mais uma tragédia com as meninas”. Ao ouvir aquilo, fiquei mais calma. Pois, além de a
voz ser suave, parecia-me sensata. Perguntei “Em que posso ajudar as pobres moças? Por que os
demônios estão torturando essas pobres mulheres, por que estão possuindo-as?”. Explicaram-me
que não eram demônios, e muito menos pessoas daquele meu mundo. Indaguei-lhes sobre quem
estava fazendo aquilo. Responderam-me que o padre Moises invadia as celas das moças e as
obrigava a manter relações com ele. Contestei-os: “Isso é mentira, elas dizem que é um homem
sem rosto e encapuzado”. Eles me disseram que o padre realmente usava um capuz, e elas não o
reconheciam por estarem entorpecidas com um chá, feito com uma erva muito poderosa, que as
deixava em completo êxtase. Mas como isso era possível, se os padres não tinham acesso às celas?
Segundo as vozes, o padre convenceu a cozinheira que esse chá as fazia ficar calmas. Então, ele
conseguia entrar em suas celas. Depois do ato abominável, ele colocava na cabeça delas que foi o
demônio que as violou. As pobres meninas ficavam loucas, pois o alucinógeno as fazia delirar. Era
por isso que os exorcistas haviam dito nunca terem visto esses tipos de manifestações antes. As
vozes disseram-me que eu poderia ajudar as meninas, escrevendo uma carta anonimamente,
dizendo que, durante a estadia do padre Moises em outro convento da região, o mesmo havia
acontecido. Eu deveria entregar a carta ao leiteiro e pedir-lhe que, quando ele voltasse na manhã
seguinte, entregasse à madre. “Lembre-se de ser bastante severa e cite o nome do convento e o
nome da madre superiora do local”, advertiram-me. Assim fiz, como as vozes me ensinaram.
Naquela noite, mal consegui dormir: se tudo fosse obra de espíritos impuros, eu estaria envolvida
em atos de bruxaria e satanismo. Isso poderia me custar a vida. Depois de uma noite péssima, fui a
primeira a me levantar. Mal consegui prestar atenção nas minhas aulas sequenciais e cotidianas.
Depois de muito sofrer por antecipação, ouvi no meio do corredor um grande zumzumzum.
Corremos todas para ver o que estava acontecendo. O monsenhor havia sido chamado. Todos
estavam trancados e aos berros, na sala da madre superiora. Deus, com que agonia eu estava...
“Onde fui me meter?”, pensei, temerosa e certa de que estava encrencada. Somente às duas da
tarde, depois de muito alarido, foi que soubemos o que realmente houve. Os espíritos estavam
completamente certos: padre Moises foi levado por seus superiores e acompanhado por um
inquisidor. Supostamente, quem estava endemoniado era o padre. Em sua cela, acharam muitas
raízes alucinógenas e abortivas. Raízes a que só as feiticeiras e os magos teriam acesso.
Interrogaram as jovens freiras e várias disseram que o padre bolinava com elas, mas que o efeito
das drogas as faziam acreditar que fosse o demônio que se disfarçava de padre Moises. O
escândalo gerou a retirada de muitas moças da escola interna e o fechamento temporário do
convento. Graças a Deus, fui uma dessas moças. Continuei na França a pedido de uma tia, que
continuou com os meus estudos em casa. Durante um baile, conheci seu pai. Os espíritos
preveniram-me de sua reputação de conquistador, mas disseram que você nasceria de nossa união.
Disseram que você seria muito especial e que teria uma missão a cumprir. Mostraram-me várias
vezes o seu rostinho em sonhos. Minha união com seu pai não foi por interesse meu, pois realmente
estava apaixonada por ele. Mas você também já deve ter percebido que não fui muito feliz, porque
seu pai sempre gostou de viajar e esbanjar. Quando os espíritos avisaram-me de que minha
doença não teria cura porque se tratava de um mal de sentença, comecei, então, a preparar um
local secreto para que, quando você crescesse, tivesse o seu lugar para trabalhar. Maria ajudou-
me e sempre me orientou a como agir. Com as viagens constantes de seu pai, fiquei muito sozinha.
Então, a prática da magia foi-me um aprendizado constante. Algumas coisas estão anotadas para
que lhe sirvam de exemplos. Espero, filha, que cumpra sua missão com muito amor e designação.
Lembre-se de sempre manter a discrição sobre a magia, e de só praticá-la quando realmente
necessário e para o bem comum. Cuide de seu pai e nunca o contradiga, pois se torna violento e
pode agredi-la. Ajude Maria a encontrar seu grande amor e liberte-a, pois ela ainda tem que
seguir seu caminho. Deixo-lhe tudo o que aprendi com os espíritos, e prometo que sempre estarei
presente para protegê-la.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Cumpri tudo o que ela me pediu naquele diário, embora nem tudo tenha sido da compreensão
de todos os que me cercavam. Mas nunca fiz nada esperando que alguém me compreendesse.
Apenas quis ser livre. Esperava poder seguir o caminho que escolhi.
      Era impressionante como minha mãe poderia saber que, um dia, eu leria seu diário. O que
mais me intrigava era como ela havia conseguido esconder de meu pai que também era bruxa.
Maria, com certeza, tinha algumas respostas a me dar.
     Peguei no meu diário um pouco para fazer minhas anotações e esclarecer algumas coisas sobre
a tradição da Lua. Aproveitei para acrescentar as seguintes anotações: nós, bruxas, acreditamos na
deusa como a criadora de tudo e de todos. A deusa é a principal deidade da bruxaria. Ela é
simbolizada pela Lua e pela Terra, e recebe diferentes nomes em diversas culturas em que é
cultuada e celebrada. A deusa é eterna, imortal e exerce supremacia em nossas práticas e rituais.
     A bruxaria é uma religião polarizada. É por isso que também acreditamos no princípio criador
masculino do deus cornífero, simbolizado pelo Sol, representando a fauna, a flora e os animais. Ele
é considerado filho e consorte da deusa. Sei que isso poderá parecer uma heresia a princípio. Mas,
em nossa cultura, existem muitas coisas misteriosas por si só que são consideradas abomináveis,
irregulares e anormais aos olhos humanos. Com o passar do tempo e muito estudo, são coisas com
que se aprende a conviver, com naturalidade.
     Tudo nesta terra é uma questão de cultura e aceitação. Mas uma coisa digo: não cultuamos o
demônio, não comemos criancinhas e muito menos praticamos orgias nas quais - supõe-se - o
demônio deita-se com as bruxas.
     Não posso dizer o mesmo das feiticeiras. São pessoas à parte da magia. Não seguem regras e
fazem uso de seus poderes à revelia e mercenariamente. Mas, em nossa tradição, nunca houve
sequer nenhum evento singular a esses mencionados por inquisidores e fanáticos religiosos. Todos
os rituais mágicos sempre são executados visando efeitos benéficos, de forma que as pessoas
jamais sejam prejudicadas.
     A natureza é o templo de nossos antigos deuses. Por isso, a maioria dos nossos rituais é
realizada em meio à mata fechada. Apesar de muitas bruxas realizarem seus rituais em suas casas
ou locais fechados, por uma questão de privacidade, discrição e cautela, a natureza é sempre vista
como o local ideal para a celebração de nossos rituais. A magia é um instrumento que, quando bem
usado, torna-se um grande aliado. Mas, caso contrário, pode desencadear todo o universo à sua
volta. Como devo sempre lembrar, não podemos e nem temos o direito de interferir no destino de
ninguém.
      Relembrando uma coisa: bruxas não usam suas vassouras para voar, nem seus caldeirões para
fazer cozidos de dragão ou sopa de sapo, como diz o dito popular. Esses instrumentos são
realmente utilizados em nossos rituais e feitiços, mas não da forma fantasiosa e folclórica que
diversas vezes são mencionados em relatos e histórias supersticiosas.
     A vassoura original de uma bruxa é feita com um punhado de planta amarrado ao redor de um
cabo: os dois sexos, o côncavo e o convexo. As bruxas mais antigas usavam esse instrumento de
forma fálica para abençoar, fazendo um ritual de fertilidade. À noite, pulavam sobre vassouras nos
campos e, quanto mais alto se pulasse, maiores eram as bênçãos da fertilidade. Esse tipo de ritual
era noturno e, por isso, muitas vezes foi confundido com rituais de maldição - o que também gerou
a lenda de que a bruxa voava em vassouras. No fundo, as bruxas antigas gostavam de se parecerem
místicas e estranhas - o que foi um erro, pois os supersticiosos usaram da sua alegria e também de
sua maneira debochada para prejudicá-las com calúnias e estórias folclóricas.
     Esclarecendo, também, sobre a viagem, ressalto o seguinte: quando estamos despertos, o corpo
astral coincide com o físico. Mas, quando estamos adormecidos, ele se destaca, dando, assim,
origem à projeção astral. O corpo astral, nesse estado, mantém-se ligado ao corpo físico pelo
cordão de prata por toda a vida. Quebrando-o, a vida termina - desligando, assim, o corpo Astral do
corpo Físico. O cordão de prata é a ligação do corpo físico ao corpo astral, através da qual é




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

transmitida a energia vital para o corpo físico, durante a projeção astral, mantendo sempre os dois
corpos interligados, independentemente da distância a que se encontrem. Por mais afastados que
estejam, o cordão de prata jamais se partirá: antes funcionando como um elástico, trazendo sempre
de volta o corpo astral, por mais longe que ele se encontre. O cordão de prata também é conhecido
como cordão astral, fio de prata, cordão luminoso, cordão vital, entre tantos outros nomes.
     O plano astral é um universo paralelo ao nosso, é a quarta dimensão. Durante a projeção astral,
consegue-se fazer o que se quiser e ir onde o nosso pensamento desejar. Não existe espaço nem
tempo – mas, sim, forma e pensamento. Pensa-se num lugar e, quase de imediato, estamos lá.
Existem, no entanto, algumas limitações. Por exemplo: muitas pessoas que não são capazes de se
tornarem visíveis ao visitar um amigo ou familiar. No entanto, algumas pessoas conseguem. Há
pessoas que não veem a presença de outras na viagem astral. No entanto, conseguem sentir a
presença. Durante a viagem astral, a projeção pode ser involuntária ou voluntária. A maior parte
das projeções involuntárias acontece ou durante um sonho ou nas experiências de quase-morte.
Nesse caso de projeção, a pessoa não tem consciência do que lhe está a acontecer, observando por
vezes o seu corpo físico deitado na cama e imaginando que está desencarnada. Procura
desesperadamente mergulhar violentamente no seu corpo físico. Muitos dos sonhos de voo e de
queda estão estreitamente relacionados a essa experiência. Entretanto, outras pessoas que se
projetam involuntariamente sentem-se com uma sensação de flutuação e liberdade tão boa,
fazendo-os sentir demasiadamente bem para se questionarem sobre o que se está a passar. Ao
acordar, algumas imaginam que aquela experiência foi um sonho bom.
     Existem pessoas que praticam viagem astral voluntariamente, comandando, neste caso, a
experiência, tendo total consciência de que estão fora do corpo. Podem, assim, observar
calmamente o seu corpo, viajar e visitar com tranquilidade todos os lugares que desejem na Terra,
podendo voar e atravessar objetos físicos. Durante essas viagens, podem se encontrar e contatar
com outras pessoas em viagem astral ou com entidades desencarnadas. Podem regressar quando
desejarem, bastando, para isso, pensar no seu corpo físico para que o corpo astral fique novamente
ligado a ele. Ressalto que não é aconselhável que uma pessoa faça essa viagem sozinha. Isso seria
demasiadamente inconsequente. A viagem astral não é tão simples e pode ser perigosa, pois o
indivíduo pode não conseguir voltar por si só – ou, o que é ainda pior, pode não querer voltar.
     Resolvi, também, esclarecer sobre as formas de demônios que se manifestavam nas pessoas e
como eles as possuíam. O súcubu é um espírito do mal que toma a forma de mulher com o
propósito de ter relações sexuais com um homem. A sua versão masculina denomina-se incúbus. O
objetivo dos súcubus e incúbus é unirem-se carnalmente com um ser humano. Na realidade, sugar-
lhe a energia vital, pois essas entidades alimentam-se dela. Seus ataques ocorrem à noite. A vitíma
raramente se lembra, ou tem uma vaga memória, muito esfumaçada, como se o ataque lhe
parecesse um sonho ruim. Ao acordar com uma grande sensação de fraqueza para a qual não acha
explicação, o ser possuído pode ter ataques de fúria e violência, podendo até mesmo machucar um
ente querido. Se os ataques se tornarem sucessivos, a pessoa começa a ficar pálida, sem ânimo e
depressiva, geralmente com problemas sanguíneos ou pulmonares. Perde totalmente as forças
anímicas vitais. Vai, inexplicavelmente, perdendo até as suas forças espirituais. Energias são
rapidamente sugadas, podendo ocorrer perda total do apetite ou compulsão alimentar. O ser
atingido pode ficar totalmente desiquilibrado e, em alguns casos, pode vir a morrer. Isso explica
muitas doenças que nossos doutores não conseguiram explicar - como a loucura, por exemplo.
Ressalto, ainda, que muitas das vítimas da Inquisição não tinham nenhuma espécie de demônio em
seu corpo físico ou astral.
     Terminei minhas anotações e estava sentindo-me muito melhor. Ocupar a mente com a leitura
é a maior e a melhor higiene mental que podemos fazer. Levantei-me e arrumei a bagunça que
etava no meu quarto. Havia coisas de minha mãe espalhadas por toda a parte.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Maria subiu, avisando que meu pai e a condessa estavam de volta e que o jantar seria servido
na sala de estar, às oito em ponto.
     _ Que interessante! Então agora resolveram que somos uma família? - respondi à Maria.
     _ Parece que o casal está divinamente bem. Para falar a verdade, senhorita, nunca os vi assim,
tão harmoniosos e gentis um com o outro.
     _ Imagino, Maria. Isso porque ambos estão concordando em alguma coisa que lhes é
conveniente. Infelizmente, terá que dizer ao meu pai que não estou bem disposta.
     Maria assim o fez. Ela não estava para muitos argumentos, pois ainda estava se sentindo triste.
Fiquei à janela, observando a natureza. Quando Maria voltou ao meu quarto, já era noite e eu nem
tinha percebido que a tarde caíra. Mal comi: apenas revirei a comida, para dar a impressão de que
tinha comido. Estava me sentindo entediada e sem lugar. Deitei-me na cama, peguei um livro e
adormeci, sem ao menos tirar as roupas. Maria deve ter me cobrido durante a noite, mas não me
acordou.
     Na manhã seguimte, logo que despertei, percebi novamente a janela do meu quarto aberta.
Lenvantei e fui dar uma olhada pelo lado de fora. Se foi um sucumbo, não teria deixado marcas
normais. Mas, para o meu espanto, percebi uma coisa que até então não tinha notado. A trepadeira
que subia pela parede da minha janela estava toda arrebentada. Concluí que tinha algum estranho
no meu quarto, e esse alguém não era um espírito. Resolvi procurar em todo o quarto indícios ou
pistas que me mostrassem algo mais sobre o invasor da minha privacidade durante minhas noites de
sono. Para meu maior espanto, descobri que o diário de minha mãe havia desaparecido. Fiquei
desesperada, pois sabia que, quem quer que fosse, essa pessoa agora me teria nas mãos. Minhas
pernas tremiam tanto... Fiquei sem chão. Maria entrou depois de ter batido inúmeras vezes. Ao me
ver, perguntou, preocupada:
     _ Senhorita, o que está havendo? Estou batendo à sua porta há alguns minutos e, como a
senhorita não respondia, resolvi entrar.
     _ Desculpe-me, Maria. Realmente não a ouvi. Aconteceu uma coisa muito grave.
     _ Então diga-me, senhorita: o que mais descobriu?
     _ A senhora sabe que desconfiava que alguém estava entrando aqui. Não são apenas
desconfianças, Maria, pois alguém realmente está entrando em meu quarto, subindo pela trepadeira.
O diário de minha mãe desapareceu. Maria, deixei-o debaixo do travesseiro.
     Ela ficou pálida e tão desorientada como eu. Por fim, falou:
     _ A senhorita tem certeza? Meu Deus, sua mãe escreveu coisas naquelas páginas que podem
comprometê-la, e muito!
     _ A senhora sabia desse segredo e escondeu-me também.
     _ Por favor, senhorita Anna, entenda-me: isso não é uma coisa que a gente sai falando por aí.
A senhorita era muito imatura e tive medo de que pudesse interpretar mal a condição de sua mãe.
     _ A senhora tem razão. E agora não é hora para discutirmos sobre esse assunto.
     _ Mas a senhorita está decepcionada comigo?
     _ Não, Maria, só curiosa de como a minha mãe conseguiu esconder esse segredo durante tanto
tempo.
     _ Não foi fácil, senhorita. Mas, naquela época, como seu pai viajava muito, sua mãe tinha mais
acesso a toda a casa. Ela mandou construir um local secreto. A senhorita deve ter lido isso no
diário.
     _ Sim, mas a pessoa que está com o diário agora tembém sabe disso.
     _ Então, temos que descobrir quem é essa pessoa, senhorita, ou estaremos em maus lençóis.
Sugiro que nós duas, de agora em diante, não sejamos vistas tão juntas.
     _ Não podemos ter tal atitude, Maria. Sempre estivemos juntas e, se nos separamos agora, a
pessoa que está com o diário poderá desconfiar.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     O segredo de minha mãe havia sido descoberto e, mais do que nunca, precisava tirar Maria
daquela casa. Ela voltou para seus afazeres e fiquei ali, em meu quarto, sentindo que a qualquer
momento alguém entraria com um guarda e entregar-me-ia à Inquisição.
     Por fim, percebendo que não adiantaria fugir por muito tempo, resolvi descer e caminhar pelo
jardim. O dia não estava ensolarado, pois o tempo estava virando e estava meio nublado. Meu pai
estava na sala de estar, bebendo, e minha madrasta havia saído para resolver as coisas dos baile.
     Eu estava muito perdida e caminhei pelo jardim inteiro. Precisava encontrar o lugar secreto de
minha mãe. Decidi que seria lá que faria os meus feitiços. Tinha certeza de que nesse lugar eu
encontraria forças para lutar contra aqueles que me perseguiam em silêncio. Mas meu maior temor,
naquele momento, era descobrir quem estava com aquele bendito diário. Resolvi, então, descansar
debaixo de uma árvore. Encostei-me e deixei meu pensamento voar. Aquela árvore começou a me
passar suas boas energias e, em instantes, estava mais tranquila. Veio-me a certeza de que
descobriria quem era o mau caráter que estava invadindo a minha privacidade. Alguma coisa me
dizia que minha madrasta estava envolvida naquela trama diabólica. Por fim, fiquei ali, deitada de
olhos fechados, buscando na natureza a resposta para as minhas tormentas.




    “Sempre encontraremos uma resposta para tudo, pois o conhecimento nunca foi negado ao ser
humano. Mas devemos ter consciência de que e para que usamos tanta sabedoria adquirida. Pois
devemos nos lembrar do tratado pessoal de Deus com os homens. Atos transformam-se em
consequencias. E colhemos exatamente o que plantamos”.
    (Padre Ângelo Wallejo Moralles).




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

    Capitulo IV - O Segredo de Elizabeth



    D
             epois de ter recuperado minhas energias debaixo daquela árvore amiga, levantei-me e
             voltei para dentro de casa. Meu pai ainda estava na sala de estar, lendo um livro.
             Peguei um que me interessava e sentei-me em uma poltrona lateral. Ficamos ali, sem
dirigir a palavra um ao outro. O ambiente estava pesado e hostil, pois aquele silêncio forçado fez-
me sentir excluída. Mas, no fundo, preferi que ele não falasse comigo. Embora aquele silêncio me
incomodasse, era melhor do que ouvi-lo dizendo que eu era o pagamento para o débito dele com o
conde.
     Depois de algumas horas folheando páginas e mais páginas daquele livro, sem prestar a menor
atenção ao seu conteúdo, fomos interrompidos pelos relinchos de alguns cavalos. Era a condessa
que havia chegado. Meu pai levantou-se, foi à janela certificar-se de que era mesmo sua esposa.
Depois, saiu apressadamente para recebê-la.
      Assim que ele saiu porta afora, também corri à janela para olhar aquela cena inédita. Cheguei
a pensar que a condessa havia sofrido algum tipo de acidente por causa da maneira afoita e
apressada com que meu pai saiu do recinto onde estávamos. Mas, para meu espanto, vi uma cena
completamente inversa: a condessa, ao descer da carruagem, correu para os braços de meu pai,
dando-lhe abraços afetuosos. Os dois pareciam um casal muito apaixonado e em lua de mel. Aquela
cena seria normal se eu não os conhecesse e convivesse com eles desde menina. Os dois pareciam
não se importar com a criadagem, que os olhava atônita.
     Entraram apressadamente para seus aposentos, deixando para trás Lorenzo e o cocheiro
abarrotados de embrulhos. Maria, que estava no hall de entrada, sequer conseguiu pronunciar uma
palavra mediante aquele casal tão apaixonado. Definitivamente, havia algo de errado naquela casa.
Em outros tempos, meu pai teria tido um ataque ao ver a condessa com tantos embrulhos, pois ele
estava coberto até o pescoço com dívidas. Não só eu, mas toda a cidade de Salamandra sabia que a
condessa e meu pai não se entendiam como marido e mulher.
     Depois de presenciar aquela cena exótica quase em extinção, resolvi permanecer na sala de
estar para tentar colocar as ideias em ordem. Aquela visão amorosa do mais novo casal romântico
do país havia me deixado traumatizada.
     Ao meio dia, Maria veio me comunicar que o almoço estava pronto e seria servido para a
família - o que queria dizer que meu pai praticamente me estava obrigando a sentar-me à mesa com
ele e sua esposa adorada. Já sentada à mesa, o casal de enamorados parecia não ter notado a minha
presença. Parecia que haviam se juntado num complô silencioso contra mim. Não que eu desse a
menor importância ao desprezo dos dois, mas a súbita harmonia entre aquele casal parecia algo de
história de horror. Eu precisava prestar mais atenção aos detalhes. Era pela minha vida que eu
temia.
     Não consegui comer. Apenas remexi minha refeição em total silêncio. Depois, levantei-me e
saí em direção aos meus aposentos. Ouvi-os comentando algo sobre mim e, em seguida, riram
debochadamente. Confesso que estava com medo deles, mas não poderia demonstrar isso, pois
demonstraria que a tática que estavam usando estava surtindo efeito.
     Fiquei em meu quarto o restante da tarde, sem sair um minuto sequer. Eu e Maria, naquele dia,
quase não nos falamos, pois a condessa a ocupou com várias tarefas relacionadas ao baile do dia
seguinte. De uma coisa eu estava certa: o diário de minha mãe não estava em poder da condessa
Del Prat – ou, caso contrário, ela teria vindo ao meu quarto para me chantagear.
     Meu pai e a condessa saíram logo após o almoço. Já eram nove horas da noite e os dois não
haviam voltado. No mínimo, estavam na companhia do seu mais novo amigo, o conde. Maria,
assim que conseguiu uma folga, veio ao meu quarto para saber se eu estava bem, pois ela não havia
me visto desde o almoço. Depois de conversar comigo por alguns minutos, ela desceu e
aconselhou-me a trancar as janelas e a porta. Foi o que fiz. Maria, por certo, não poderia dormir




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

antes que o casal de enamorados voltasse. Eu, por minha vez, estava cansada de esperar por
notícias e acabei adormecendo em cima do meu diário.
     No dia seguinte, acordei disposta a não permitir que nada e nem ninguém me perturbasse a paz.
Levantei-me da cama, fiz minhas orações matinais, abri as janelas, deixando o ar da manhã entrar
no quarto. Depois, fui interrompida em meu momento de oração pelo som do toque de Maria à
porta. Abri e fui logo dizendo:
     _ Bom dia, minha querida Maria! Que lindo dia teremos hoje, não acha? É só gratidão por
termos tantas bênçãos do Pai Maior. O que faremos hoje para compensar os dias ruins que
passamos esta semana nesta casa de aflições?
     Maria parecia não ter entendido minha reação e olhou-me atônita:
     _ O que deu na senhorita? Viu um anjo durante a noite, foi? Se isso aconteceu, passe para mim
também um pouco dessa energia incandescente, pois estou precisando me sentir assim, tão bem
disposta.
     Maria disse aquilo esfregando as mãos nas minhas vestes, parecendo querer captar a suposta
energia angelical. Dei-lhe um largo sorriso, pois sabia que ela estava usando de suas ironias mais
uma vez e disse-lhe:
     _ Não é nada disso, Maria. Estou decidida a não deixar que ninguém me ponha de baixo astral.
Eu disse que iria viver para lutar por minha liberdade de expressão e igualdade. Então, que seja
com um sorriso nos lábios. Afinal, inimigo só se vence com perseverança, e não com ódio. Tudo o
que os meus inimigos querem, Maria, é ver-me triste e definhando dia após dia. Mas lhe juro que
não darei este gostinho a nenhum deles. Hoje acordei com este pensamento e, acredite, é definitivo.
     Maria olhou-me e, depois de parecer muito pensativa, disse-me:
     _ Bom, senhorita Anna, espero, então, que não seja eu a pessoa que irá lhe trazer
aborrecimentos. Pois sinto lembrá-la: é hoje o dito baile que a sua madrasta dará em homenagem ao
conde. Mas, pela sua súbita alegria, vejo que se esqueceu disso.
     _ Não... Mas estava tentando pensar em coisas mais agradáveis.
     Comecei, então, a mordiscar os lábios. Meu plano seria colocado em prática, finalmente. Por
fim, perguntei à Maria:
     _ O vestido de minha mãe está pronto?
     _ Sim, como a senhorita pediu. Mas madame Hortência enviou hoje mais cedo o que a
senhorita havia lhe encomendado.
     _ Sério? Hum... Terei que pensar em uma forma de me livrar dessa encomenda.
     _ O que a senhorita fará? Pois o vestido de sua mãe está em meu quarto, guardadinho para que
ninguém desconfie de nada.
     _ Ainda não sei, mas todos têm que pensar que irei ao baile com o vestido que encomendei.
     _ Quanto a isso, a senhorita não precisa se preocupar. Sabe que sei ser discreta.
     _ Sim, Maria, sei que posso sempre contar com sua fidelidade. Agora desça e espere que todos
saiam. Então, traga-me o vestido de minha mãe.
     Maria já estava saindo quando ouvimos barulhos vindos de fora da casa. Olhamo-nos com
espanto. Corremos as duas para a janela. Ao olharmos para baixo, vimos um grande movimento de
pessoas desconhecidas. Havia um grande alvoroço de criados, correndo de um lado a outro do
jardim. Eles traziam inúmeras peças de coração para dentro do grande salão. Minha madrasta dava
de braços e, ao ver-nos debruçadas à janela, levantou o nariz e entrou como uma abelha enfurecida.
Eu e Maria nos olhamos novamente e começamos a rir dos trejeitos de menina mimada da
condessa. Ela estava se sentindo a dona do mundo só porque organizava o baile do conde.
     Depois que Maria desceu para ajudar a condessa e cumprir o que eu lhe havia pedido, voltei
para a janela para ver onde daria aquela confusão.
     Eu estava faminta naquela manhã. Havia me esquecido de pedir à Maria para trazer-me algo de
comer. Mas, quando ela finalmente voltou, trazendo nas mãos a encomenda que eu havia feito à




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madame Hortência, trouxe consigo algo que, com certeza, nem em meus pesadelos mais temerosos
eu haveria de encomendar: a condessa Del Prat. Ela, ao ver-me, foi logo dizendo:
     _ Então, resolveu atender seu pai como uma menina boazinha?
     _ Não é o que todos esperam? Que eu me comporte como uma futura condessa e pague as
dívidas da família!?
     _ Pode enganar o tonto do seu pai, mas sei que está planejando algo. Saiba que estou de olho
na senhorita. Não a deixarei sozinha um segundo sequer. Sei que vai tentar fazer algo para se livrar
do compromisso que lhe foi imposto.
     _ E o que eu poderia fazer? Como a senhora mesmo disse, estará de olho em mim. E, para falar
a verdade, espero que fique mesmo de olho em mim, porque esta noite a senhora irá colher o bom
resultado dos frutos que plantou a vida toda, condessa.
     _ Não se atreva a estragar o baile de apresentação que estou preparando para o conde.
     _ Não se preocupe. Não farei nada que pareça escandaloso ou que venha a desonrar a sua
conduta. Também não pretendo fugir, se é o que está pensando, e muito menos desfazer o
compromisso mediante todos os convidados. Mas de uma coisa eu tenho certeza.
     _ E o que é?
     _ Estarei presente e serei a pessoa mais comentada de todo o baile. Desta vez, ninguém reluzirá
além de mim.
     A inveja relampejou nos olhos da condessa. Ela, depois de andar pelo quarto todo, olhou para o
embrulho em cima da minha cama e perguntou.
     _ Esse é o seu vestido?
     _ Sim, é. Ele é o vestido que me fará reluzir esta noite perante todos os olhares. Serei a mulher
mais cobiçada e linda do baile. E, por certo, depois que o conde me vir dentro deste vestido, pedir-
me-á em casamento imediatamente.
     A mulher olhava para o embrulho, parecendo enlouquecida. De repente, ela deu um salto,
pegou-o e saiu correndo com o pacote nas mãos. Eu, como tinha que parecer aborrecida pelo fato
ocorrido, fingi correr atrás dela, que se escondeu em seu quarto, trancando a porta. Mais uma vez,
fiquei pensando em como até mesmo os nossos inimigos são nossos aliados. Sacudi a cabeça e ri
muito, sozinha em meu quarto.
     Quando Maria subiu escondida, trazendo o verdadeiro vestido que eu usaria no baile, ela disse:
     _ A condessa esta lá embaixo e parece-me a mulher mais feliz do mundo. O que foi que a
senhorita disse a ela?
     _ Não disse nada, Maria. Foi ela quem veio ao meu quarto, tentando descobrir o que eu faria
para atrapalhar o baile do conde. Tentei dizer-lhe que não faria nada. Só insinuei que seria a mulher
mais cobiçada da noite. Acho que ela não resistiu e roubou meu vestido.
     _ O quê? Ela roubou o vestido que a senhorita mandou madame Hortência fazer?
     _ Sim, aquele mesmo. Agora imagine como ela ficará encantadora dentro daquele modelito
exclusivo que madame Hortência fez.
     Eu e Maria rimos a valer, pois sabíamos que um modelo exclusivo vindo de madame Hortência
só poderia resultar em extravagância e mau gosto - o que era mesmo o feitio da condessa.
     Maria, depois de me entregar o vestido de minha mãe, saiu do meu quarto. Coloquei-o dentro
de um baú, com muito cuidado para não o amassar. Sentei-me à frente da penteadeira e fiquei
examinando qual penteado usaria e qual joia me cairia melhor para usar com o vestido. Optei por
um rico colar com uma única pedra de rubi, ao meio, e brincos e anel com a mesma pedra.
     Horas depois, alguém bateu à porta, tirando-me daquele devaneio de vaidade. Mas o toque não
era o mesmo que Maria costumava dar. Então, respondi:
     _ Entre, por favor!
     Era a copeira e, depois de olhar por todo o quarto, parecendo querer bisbilhotar, disse:




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O segredo dos girassóis
                                           Adriana Matheus

      _ O conde está lá embaixo, no salão, e solicita a sua presença, senhorita. Mas, se preferir, digo-
lhe que a senhorita não está se sentindo muito bem.
      Ela, com certeza, estava ali para me investigar. Mas soube como lidar com ela, pois mal podia
ouvi-la.
      _ Segundo me consta, estou ótima. Então, diga ao senhor conde que estarei pronta em alguns
minutos.
      A mulher saiu cuspindo marimbondos. No mínimo, esperava uma resposta negativa da minha
parte para poder contar à condessa. Ao sair, tranquei a porta do meu quarto, para evitar um
contragosto. Encontrei com Maria no corredor.
      _ Então, como estou, Maria?
      _ Está linda, linda, como sempre, senhorita Anna. Só acho que é muito feno para pouco
cavalo.
      _ Também acho, Maria. Aliás, a senhora está sendo muito gentil ao referir-se ao senhor conde
como um cavalo. Crápula seria a palavra.
      _ Meu Deus, senhorita, não deve falar assim do seu futuro esposo. Ele é um homem tão íntegro
e... bonito e gentil. - ironizou.
      _ Oh, sim! Íntegro a ponto de pagar a dívida do meu pai cobrando um juro mínimo. Ou seja:
eu, por exemplo. Bonito como um demônio, que se esconde atrás do rosto de um anjo. E gentil, por
certo, pois espera a hora certa de dar o bote, como uma cobra.
      Maria deu um sorriso, sacudindo negativamente a cabeça, parecendo entender o que eu havia
dito. Ela me acompanhou até o salão, onde o conde e meu pai estavam. Ao me verem, levantaram-
se e cumprimentaram-me. Não deixei lhes transparecer qualquer sentimento que demonstrasse que
eu estava aborrecida e magoada. Dei-lhes um sorriso largo e estiquei a mão para meu futuro esposo,
que veio em minha direção como um cordeiro manso e tolo. Meu pai ficou boquiaberto porque,
com certeza, já estava com a cabeça cheia de caraminholas, impostas por sua estimada esposa.
Então, usando de um fingimento improvisado, ele falou:
      _ Demorou, minha filha. Pensei que não desceria a tempo de ver o conde, pois ele já estava de
saída.
      _ Oh! Com certeza o senhor conde entenderá. Ele sabe como as mulheres são. Ficamos horas
na frente de nossos espelhos. Afinal, não poderia aparecer feia como um espantalho na frente de
tão garboso senhor.
      Senti que o conde ficou envaidecido. Atendeu-me com um sorriso falso, como era de se
esperar de um hipócrita como ele. Aproximei-me de meu pai e sussurrei ao seu ouvido:
      _ O senhor não achou que eu lhe daria esse gostinho, não é?
      Meu pai engoliu seco e, por certo, se eu estivesse sozinha com ele, estaria morta mais cedo. O
conde parecia não ter percebido nada, pois, no mínimo, pensou que eu estava cumprimentando meu
pai com um gesto carinhoso.
      _ Nunca, em hipótese alguma, pareceria um espantalho. E feiúra, essa com certeza correu bem
longe da senhorita.
      _ Soube que o senhor queria falar-me. É algo sobre o baile? - desconversei de imediato, pois
não queria dar outro rumo àquela conversa.
      _ Sim. Quero falar-lhe, mas não é nada sobre o baile. É sobre nós dois.
      Seu tom de voz havia mudado e era quase um sussurro. O conde prosseguiu com aquela
conversa tediosa:
      _ Esperaria a vida toda pela senhorita. Se não se importar, gostaria de pedir a permissão de seu
pai para poder falar-lhe em particular.
      Imaginei do que se tratava, mas tinha que me fazer de rogada. Então, respondi:
      _ Creio que não sou o tipo de dama que tenha conversas particulares com um cavalheiro. Mas
o senhor é um homem de modos refinados. Creio que não haja nenhum problema.




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     Ele continuou a se sentir muito lisonjeado e mantinha aquele sorriso traiçoeiro e enigmático no
rosto. Meu pai, por sua vez, respondeu:
     _ Tenho certeza de que o conde não lhe fará nenhum mal. Não vejo porque não os deixar a sós.
     Olhei para meu pai nos olhos e disse:
     _ O senhor tem razão, meu pai. Que mal o senhor conde poderia me fazer?
     Fechei o semblante, para demonstrar minha desaprovação diante daquela situação. Por fim, dei
o braço ao conde e fomos caminhar pelo jardim. Lá, delicadamente soltei o seu braço e, voltando-
me para ele, disse:
     _ Então, senhor conde, o que de tão importante e sigiloso terá o senhor para me confidenciar?
     Ele deu um sorriso enigmático.
     _ Não vou me fazer de rogado - mesmo porque sei da sua perspicácia e inteligência aguçada.
Confesso que foi uma das qualidades que muito me atraíram na senhorita.
     _ Não faça rodeios, senhor conde. Não conseguirá me conquistar com seus elogios. Conheço
muito bem minhas qualidades.
     _ É sobre exatamente isso que estou falando. Então, creio que a senhorita já deva saber que
tenho um acordo com seu pai. Também creio que a senhorita já seja sabedora que sua dívida era
muito alta. Bom, resumindo esses fatos: se o senhor seu pai tivesse colocado todas as propriedades
que possui, mais os escravos e as joias de sua família, à venda, ainda assim não saldaria a dívida
que tinha. Como um cavalheiro que sou, após ficar sabendo que seu pai tinha duas mulheres
inocentes em casa, quis imediatamente ajudá-lo. Paguei, assim, todas as dívidas de seu pai,
senhorita Anna. E ainda lhe emprestei uma grande soma em dinheiro para que pudesse manter-se
dignamente. Não quero que a senhorita se espante: minha família é muito conhecida por termos um
coração generoso. Além do quê, não poderia sair em total prejuízo: embora agora eu seja o dono de
todas as propriedades de seu pai, necessitava uma esposa que me desse um herdeiro. Portanto,
quero que saiba de meus próprios lábios que a senhorita agora me pertence.
     Depois de ouvi-lo, indignada com tamanha audácia e falta de escrúpulo, disse:
     _ O senhor está sendo indelicado e vulgar. Mas não me surpreende: desde o primeiro momento
em que o vi, soube que estava diante de um crápula. Na verdade, não sei quem é pior: o senhor,
meu pai ou a condessa. Como o senhor mesmo acaba de mencionar, a dívida é do meu pai com o
senhor. O senhor, de forma alguma, tem o direito de me incluir no pagamento dela. Não sou tão
esperta como o senhor pressupõe. Caso contrário, já teria descoberto uma forma de escapar do
senhor.
     Ele deu uma gargalhada diabólica, falando sarcasticamente:
     _ Disse que a senhorita era inteligente, mas não disse que seria tão fácil se livrar de mim.
     _ O senhor é o demônio, tenho certeza disso. Não há nada neste mundo que me fará mudar de
opinião. Saiba, senhor conde, que serei o pior pagamento que o senhor já recebeu em sua vida.
     _ Gosto da sua audácia. Saiba que isso me excita. Gosto de mulheres com senso de humor.
Principalmente, gosto quando elas ficam arredias.
     _ O senhor é um homem doente, conde. Embora eu ainda não saiba o seu segredo, em breve
vou descobrir. Aí, com certeza isso será um motivo para o senhor desfazer seu acordo como meu
pai.
     Novamente ele sorriu, dizendo:
     _ Se eu fosse a senhorita, não me preocuparia em descobrir o segredo dos outros, e sim em
saber o que uma pessoa pode fazer tendo em mãos um segredo como o seu.
     _ Não tenho segredos, senhor conde. Minha vida é um livro aberto.
     Ele se aproximou, lentamente, e disse:
     _ E se eu disser que tenho sob meu poder certo diário que pode incriminá-la totalmente? Essas
coisas, vistas pelos olhos da Inquisição, poderão ser motivo para que a senhorita seja condenada




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como bruxa - principalmente se a pessoa que entregar o objeto for de grande influência política e
financeira.
     Tentei esbofeteá-lo, mas ele me segurou, dizendo:
     _ Não faça isso, senhorita. Não fica bem para uma jovem de bons modos violentar seu futuro
cônjuge.
     _ Como foi que o senhor conseguiu esse diário? Como foi que o senhor conseguiu invadir
meus aposentos sem que eu percebesse ou acordasse?
     _ Isso foi muito fácil. Fiquei sabendo que a senhorita sempre toma algum tipo de chá que a sua
governanta lhe prepara à noite. Então, tratei logo de fazer amizade com a sua copeira, que é uma
mulher muito persuasiva financeiramente falando. Pedi a ela, então, que misturasse às ervas do
consumo da sua casa algumas das minhas ervas, cuja função é fazer adormecer. A senhorita tomava
sem perceber a diferença. Então, mais uma vez, usei meu poder de persuasão com a sua madrasta -
que, além de bela, é extremamente carente de afeições masculinas. Com isso, consegui que ela me
desse a chave do portão de sua residência. Assim, eu subia durante a noite para ter com ela e,
depois, entrava em seu quarto para admirá-la. Em seguida, descia pela trepadeira. Confesso que foi
tentador vê-la seminua, deitada indefesa em sua cama. Sabe, senhorita, cheguei a esta cidade muito
entediado, confesso. Mas descobri que aqui, apesar de ser um pequeno condado, está sendo para
mim muito prazeroso e proveitoso também. Que mais posso querer? Tenho uma linda jovem como
minha futura esposa, e sua fogosa e exuberante madrasta como minha consorte.
     Fiquei perplexa ao ouvi-lo. Cheguei a cambalear. Meu estômago remexia-se em sinal de
desprezo. Minha cabeça rodopiava como o vento. Se eu fosse uma cobra, tê-lo-ia picado. Por fim,
disse-lhe, com a minha voz trêmula:
     _ Como o senhor consegue ser tão desprezível? Como pode querer casar-se comigo, sabendo
que o odeio mais do que tudo neste mundo?
     _ Não me importo com o seu desprezo, muito menos com o seu ódio. Afinal, terei o que me
pertence e que é meu por direito.
     _ Jamais me sucumbirei aos seus caprichos. Juro que descobrirei o seu segredo.
     _ Até lá, lembre-se de que sou o dono do seu segredo. A qualquer momento, mesmo a
contragosto, posso entregá-la à Inquisição, acusando-a de práticas ilegais de bruxaria. Pense bem,
senhorita Anna. É melhor facilitar as coisas para todos. Assim, será prazeroso para ambas as partes.
     Não respondi a mais nenhuma palavra que o conde me dizia. Naquele momento, estava me
sentindo totalmente impotente e indefesa. Segui em direção à minha casa. O conde seguiu-me, com
um semblante que era só satisfação e vitória.
     Quando finalmente entramos em casa - pois pareceu ser uma eternidade aquele curto trajeto ao
lado do conde-, chamei por Maria. Meu pai, ao ver-nos, perguntou-nos:
     _ E então, o que conversavam afinal?
     Fui a primeira a responder-lhe:
     _ Creio que nada de que o senhor já não esteja ciente, meu pai!
     O conde retrucou:
     _ Senhor Juan, creio que sua filha está um pouco encabulada. Então, serei o portador de tão
boas notícias. Eu e sua filha estamos noivos! Isso quer dizer que o baile dessa noite será não só para
a minha apresentação, mas também para anunciar o nosso noivado.
     Aquele homem repulsivo estava me deixando sem saída. Quis fugir, mas não poderia deixá-lo
perceber que estava insatisfeita. Ele precisava acreditar que me tinha nas mãos, até que eu pudesse
me livrar daquela chantagem.
     Meu pai parecia eufórico com a notícia. Mandou logo abrir um champagne. Maria, que havia
vindo atender ao meu chamado, ficou extasiada, em pé, olhando-nos, sem entender absolutamente
nada. A condessa apareceu e veio cumprimentar-nos com falsidade. Tive que aparentar felicidade.
Precisava pensar rápido. Depois do brinde, o conde despediu-se, prometendo fazer uma surpresa no




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baile daquela noite. Vindo daquele monstro, não quis nem imaginar o que seria. Por fim, vendo que
estavam todos satisfeitos, puxei Maria pelas mãos e disse-lhes:
     _ Se me derem licença, preciso descansar para estar bem disposta mais tarde. Não quero que
meu futuro marido me veja com olheiras durante a nossa festividade. Quero, também, agradecer a
minha querida madrasta por ter se empenhado tanto em organizar meu baile de noivado dessa noite.
Estou muito feliz porque, afinal, esse baile agora também é meu, não é, meu querido conde?
     _ Sim, minha amada noiva. Não só o baile, mas tudo o que dentro dele estiver.
     A condessa parecia que iria explodir de tanto ódio, mas não disse uma só palavra. Ela teria que
engolir que havia arrumado tudo aquilo para o meu noivado com aquela besta humana.
     Dei um beijo na testa de meu pai, fingindo afeto e obediência. Não poderia deixar de dar
aquele tapa de luva. A condessa, parecendo não aguentar a cena, subiu em disparada aos seus
aposentos, sem dizer uma palavra a ninguém. Um inimigo eu havia vencido com a mesma moeda.
Ainda me faltavam dois.
      Quando finalmente saí, carregando Maria pelas mãos e deixando para trás aqueles dois
leiloadores da vida humana, pude ouvir o conde falando com meu pai:
     _ Sua filha é como um potro indomado, senhor Juan.
     _ É, eu sei. Puxou o gênio da mãe.
     _ Mas não tenho pressa. Colocá-la-ei do meu jeito. Disso o senhor não tenha dúvidas.
     _ Vá com calma, meu caro amigo. Ela ainda é só uma menina.
     _ Sim, eu sei. Mas meninas se transformam em mulheres, não é mesmo?
     Os dois comemoraram com sonoras gargalhadas. Era detestável a maneira como se referiam a
mim. Maria seguiu-me, mas quase não conseguiu alcançar-me, pois acelerei os passos no corredor.
Ao chegar a meus aposentos, caí sobre a cama, deixando todo aquele horror transportar-se para o
peso em que se encontrava meu corpo. Maria, ao entrar e ver-me de bruços na cama, perguntou-me
curiosa, com ar de indignação:
     _ O que houve, senhorita Anna? Não pude ouvir o que conversavam, pois falavam muito
baixo.
     Eu estava enfurecida e, depois de ranger os dentes, virei-me para Maria:
     _ Argh! Foi o conde, Maria, que pegou o diário de minha mãe. Ele agora me tem em suas
mãos. Também era ele quem entrava em meus aposentos durante a noite. A copeira colocou ervas
entorpecentes no meio das suas ervas. Ele a pagou para que fizesse esse serviço sujo. É por isso que
eu não o via invadindo meu quarto à noite. A condessa entregou-lhe as chaves do portão de entrada.
Eles são amantes; o conde mesmo me contou isso. Depois que ele visitava a condessa em seu leito,
saía e entrava em meus aposentos, descendo, então, pela trepadeira. Sabe Deus o que aquele doente
fazia comigo enquanto eu dormia.
     _ Minha Nossa Senhora de Guadalupe! Isso é muito sério, senhorita Anna. Esse homem é
muito perigoso. Ele chega a ser diabólico. Que Deus tenha pena da senhorita. Mas uma coisa me
intriga:
     _ E o que é, Maria?
     _ Como esse peste pode ter entrado em seu quarto, se ele e seu pai chegaram juntos da
Inglaterra?
     _ Não, Maria. Esse homem sem escrúpulos disse ao meu pai que ficaria um ou dois dias na
Inglaterra para resolver negócios. Mas ele não fez isso. Sabendo que meu pai ainda faria várias
paradas no caminho para resolver os próprios negócios, ele deixou a Inglaterra no mesmo dia para
não perder tempo. Foi assim que esse demônio chegou aqui antes do meu pai. Quando meu pai
chegou aqui, o conde demorou quatro dias a aparecer na cidade.
     _ Santo Deus, minha filha! Esse homem tem pacto com o demo, pois parece fazer tudo de caso
pensado.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Sim. Agora tenho que trancar minha porta sempre. E, com todo perdão, Maria: não tomarei
mais os seus chás.
     _ Não se preocupe, senhorita. Não levarei como uma ofensa, pois também tomei do veneno do
conde.
     _ Maria, aconteça o que acontecer, quero que saiba que, mesmo que pareça ser o pior, o que
farei será melhor do que ser vendida. Nunca me darei por vencida. Não serei objeto de pagamento.
Não sou escrava e, mesmo se o fosse, tenho sentimentos e sangro como todo mundo.
     _ Senhorita Anna, saiba que sempre estarei do seu lado para o que for necessário. Mas, às
vezes, acho que deveria fazer o que lhe mandam. Será melhor e a senhorita não sofrerá tanto.
     _ É melhor ceder ao egoísmo do meu pai e perder a minha liberdade? Nunca. Por que temos
que mudar por causa das pessoas e aniquilar a nossa essência? Se eu fizer isso, será como usar
viseiras para olhar sempre na mesma direção. Suponhamos que eu aceite os cortejos do conde e
ceda às sandices de meu pai. Ele paga a dívida? Sim. Mas fará outras mais. Não poderei ser
vendida outras vezes. Ele nunca aprenderá se tudo for do jeito que ele quer. Não sou mulher de me
render a um homem sem amor.
     _ Mas se a senhorita não fizer o que lhe impõe, seu destino será cruel.
     _ Meu destino não pode ser mais cruel do que ter que passar a vida toda ao lado de um homem
vulgar, que me trocará por uma esposa mais jovem assim que enjoar de mim. Tenho muitos sonhos,
Maria, e sei que nunca os realizarei. Então, que seja o que me foi imposto por Deus, e não pela
vontade de um homem comum.
     _ Nunca conheci uma mulher tão destemida e com tanta determinação quanto a senhorita.
Lembrar-me-ei da senhorita pelo resto de minha vida. - deixou as lágrimas rolarem em suas faces,
emocionadamente.
     _ Não chore, Maria! Preciso de terra seca para pisar. Se a senhora chorar, afundar-me-ei no
barro da sua desesperança.
     _ Desculpe-me, senhorita Anna. Foi inevitável. Mas só em pensar que ficarei um dia sem a sua
companhia, já me dá um aperto no coração...
     _ Não pense assim, Maria. Sei que ainda me olha como se eu fosse uma criança. Mas cresci,
graças à senhora e a tudo que tenho aprendido com a tradição. Agora desça, por favor: prepare-me
um banho e, se possível, algo para comer, pois ainda não comi nada desde a manhã. Por favor, se
puder, prepare uma emulsão para colocar na água do meu banho. Quero estar perfeita esta noite.
Agora vou tentar dormir um pouco, pois não quero parecer cansada para a hora do baile. Não posso
dar a eles o luxo de me verem com olheiras.
     Depois que Maria saiu porta afora, fui para a janela meditar, contemplando a natureza. Vi
quando meu pai saiu de carruagem com o conde. Os dois pareciam estar alcoolizados. Em um
instante, perdi-me olhando Joseph. Vi quando Maria, carinhosamente, levou-lhe o almoço. Os dois
conversavam e sorriam, como se o mundo tivesse certo toque de magia. Então, finalmente percebi
que tinha algo muito mais importante a fazer do que me preocupar com as ninharias que
perturbavam minha mente. Soltei o coque, tirei os brincos e desci ao encontro daquele casal
perfeito. Maria, ao ver-me, afastou-se de Joseph, dizendo:
     _ Santo Deus, menina! Não disse que ia tentar dormir um pouco? Eu ainda nem tive tempo de
preparar-lhe algo para comer.
     _ Não tem nenhum problema, Maria. Só vim até aqui para repousar ao sol. Quero ficar com
uma cor rosada no rosto. Veja: trouxe até um manto para me deitar.
     _ A senhorita vai deitar-se aqui fora? Não vai querer comer nada?
     _ Pode me trazer aqui fora mesmo. Vou ficar aqui, sim, e tentar dormir debaixo daquela árvore,
pois ela me traz boas energias.
     _ Que seja, então, como a senhorita deseja. - Maria saiu.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Eu estava tranquilamente estendendo a manta no gramado quando ouvi a voz de Joseph
chamando-me:
     _ Senhorita Anna!
     _ Sim, Joseph. – disse-lhe, virando-me para atendê-lo.
     _ Consegui sementes de girassóis e, como Maria contou-me que a Senhorita gosta muito desta
planta, gostaria de saber onde quer que eu plante as sementes.
     _ Se não for muito, quero que o senhor me dê um pouco dessas sementes, pois quero levá-las
comigo. O restante pode plantar onde bem desejar.
     _ Como assim? A senhorita Anna está pensando em nos deixar? Acaso irá fazer outra viagem
com Maria?
     _ Não, Joseph querido. Em breve todas as suas perguntas serão respondidas. Por hora, apenas
faça o lhe pedi.
     _ Sim, senhorita Anna. Perdoe-me pela intromissão.
     Maria retornou, trazendo-me um pedaço de pernil e um copo de suco de melão. Enquanto eu
estava saboreando o meu quase desjejum, Maria e Joseph continuavam conversando afastadamente
de mim. Embora eles estivessem entretidos um com o outro, eu os observava atentamente. Então,
percebi que era a hora de intervir por aqueles dois que, a meu ver, eram feitos um para o outro.
     Terminando, então, de saborear minha refeição, levantei-me e caminhei em direção a eles, que
se afastaram com a minha presença. Então, disse-lhes:
     _ Sabiam que os senhores formam um belo casal?
     Maria corou e Joseph abaixou a cabeça, sem graça. Porém, prossegui:
     _ Ora, ora! Porque ficaram sem graça? O amor é isso: estar bem com quem nos damos bem.
Por que não pensam em se unir, já que ambos são sozinhos e desimpedidos? Nunca pensaram
nisso? Vou deixá-los pensando sobre o assunto.
     Disse isso percebendo que os dois não conseguiam dizer uma palavra sequer. Em seguida, saí,
voltando para minha árvore. Não demorou muito para que o cansaço me levasse a sono profundo.
     Tive um sonho muito estranho: uma grande ave pousava sobre o meu corpo nu e levava minha
alma, serenamente, para um lugar que mais parecia o paraíso. Devo ter ficado ali por muitas horas,
pois acordei com Maria sacudindo-me e pedindo para levantar-me. Senão, atrasar-me-ia para o
baile. Abri os olhos, meio atordoada, e fui logo dizendo:
     _ Hã? O que houve, Maria?
     _ Precisa acordar, senhorita. Já é tarde e tem que se banhar e se vestir para o baile.
     _ Nossa, dormi muito, não foi?
     Contei à Maria sobre meu sonho estranho. Ela o traduziu, dizendo que se tratava de uma ave de
rapina - o que queria dizer que alguém do meu convívio estava tentando me seduzir. Por fim, Maria
insistiu:
     _ Levante-se, minha filha. Seu banho já está pronto, como me pediu. Coloquei rosas
vermelhas, que é para abrir o seu caminho do amor, e jasmim com alfazema, para aromatizar a
água.
     _ Que bom! Assim me apaixono de vez pelo conde, que já está quase casado com meu pai.
     _ Hã? Não entendi, filha. O que quis dizer dessa vez?
     _ É que os dois estão tão unidos - por um elo que julgam ser eu - que só faltam confirmar a
união entre si. Fico tão emocionada que posso chorar agora mesmo. Mas creio que, se pararem para
pensar, o verdadeiro elo entre eles é a condessa.
     Maria sorriu, mas me preveniu:
     _ Não deixe que a ouçam falando assim, ou acharão que a senhorita não é uma pessoa normal.
Pois pensarão que a senhorita está falando da união entre dois homens.
     _ E tenho que ser normal? Não me importa o que digam a meu respeito. O importante é que a
senhora tenha entendido o que disse. E se meu pai e o senhor conde não querem que boatos




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

circulem em torno deles, então que parem de serem vistos juntos como um casal de namorados.
Pois hoje mesmo, mais cedo, vi-os bêbados, andando abraçados em direção à carruagem. Se algum
inquisidor os tivesse visto, por certo seriam chamados de sodomitas.
     _ Só não deixe seu pai ouvi-la falando desse jeito. Senão, ele...
     Interrompi Maria:
     _ Senão, ele pode o quê? Pode bater-me, ofender-me, ignorar-me, ou quem sabe coisa pior?
Maria, ele já fez tudo isso e mais um pouco. Só está faltando cumprir o resto da missão.
     _ Mas fico preocupada com o que pode lhe acontecer. Seu pai, se a ouvir falando dessa forma,
pode trancá-la em seus aposentos ou enviá-la para bem longe desta casa - como, por exemplo, para
um manicômio, onde a senhorita pode ser torturada constantemente por ser considerada louca.
     _ Nossa, jura? Acredite: ele jamais faria isso. Pode ser que, depois do baile, ele me desse
alguma punição. Mas antes? Isso seria sonhar alto demais. Maria, Maria... Só está assim porque sua
cabeça está confusa com as coisas que lhe falei a respeito de Joseph. Sinto muito se a fiz ver o que
já está na frente dos olhos há muito tempo e que a senhora, por estar sempre tão ocupada com os
afazeres e comigo, não se dava ao luxo de enxergar. A senhora está amando... E não tem que ter
vergonha disso. Então, pare de usar subterfúgios para ignorar o amor que está sentindo por Joseph.
Maria, a senhora está fugindo de si mesma.
     _ Não deveria ter falado comigo daquele jeito na frente de Joseph. A senhorita caçoou de mim.
O que ele irá pensar agora?
     _ Não! Jamais tive a intenção de caçoar da senhora. Maria... A senhora está amando e está
sendo amada. Só não consegue perceber isso por estar relutando consigo mesma. Acha-se velha,
gorda e, na sua cabeça, o tempo já passou, não é verdade?
     Ela confirmou positivamente com a cabeça. Prossegui:
     _ Sei que a senhora está realmente preocupada comigo. Mas, conhecendo-me como me
conhece, sabe que não vou parar de falar o que penso das pessoas ou do que quer que seja. Então,
não fique usando o pretexto de que meu pai irá me punir por causa das minhas ideias, pois sabemos
que isso será inevitável futuramente. O que é importante agora é a sua felicidade com Joseph.
     _ Imagine se uma mulher na minha idade tem o direito de amar de novo!
     _ E por que não? Não vejo nada demais em duas pessoas maduras encontrarem entre si o
verdadeiro amor. A senhora está viva e ainda tem o direito de amar muito. Vá atrás do que lhe
pertence, mulher, e seja feliz. Faça isso sem olhar para trás, sem medo ou preconceito. E
principalmente: sem pensar em mim uma única vez na sua vida. Esqueça a questão de que Joseph
irá pensar mal da senhora. Na verdade, ele só está esperando que a senhora lhe dê uma chance para
que ele a faça feliz. Segure o seu homem! E nem pense em mim. Sabe muito bem que nesta casa a
minha missão já acabou.
     Ela enxugou uma lágrima, pronta a rolar, e abraçou-me. Em seguida, respondeu-me:
     _ A senhorita às vezes fala como uma mulher muito experiente. Se eu não a conhecesse, ficaria
confusa.
     _ Como todas nós, mulheres, quando se trata de algo relacionado ao coração. As experiências
que trago são de minhas vidas passadas. E me diga só uma coisa: estou errada? A senhora tem
alguma coisa a perder? Vá viver com sua irmã, case-se e seja feliz enquanto pode. Sabe que ela lhe
está esperando. Também será bom para Joseph. Afinal, ele já está cansado de tanto trabalhar.
     _ E se ele descobrir que sou uma bruxa e repudiar-me?
     _ “E se? E se?”. Ora, Maria, deixe disso. Joseph é um homem maduro e experiente. Vai é
gostar daquela terra toda para plantar e cuidar. Agora devemos entrar, pois tenho que me preparar
para a primeira parte do meu plano.
     _ Como assim? Que plano é esse?
     _ Sinto muito, Maria, mas não posso dizer-lhe. Peço apenas que confie em mim.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Ela, então, não perguntou mais nada a respeito. Ao entrarmos, demos de cara com a
famigerada condessa, afoita com o restante dos preparativos, mas fingiu nem ter-nos visto. Virei-
me para Maria, perguntando-a se madame Hortência havia entregado também os novos vestidos.
     _ Sim, senhorita Anna. Fiquei até sem jeito de ver tanta coisa bonita.
     _ Ah! Então coloque o mais bonito esta noite e vá ter com Joseph.
     Ela saiu completamente corada, sem nada mais a dizer.
     Meu banho já estava pronto, esperando-me. Comecei, então, a despir-me serenamente. Toquei
a água com o dedão do pé e, finalmente, relaxei meu corpo naquele líquido purificador. Fechei os
olhos e ouvi quando a condessa entrou na ponta dos dedos e pegou a chave de minha porta,
trancando-me por fora. Sorri, pois já estava esperando que ela fizesse tal artimanha infantil. Ela
sabia que, se eu não comparecesse ao baile, meu pai ficaria furioso e punir-me-ia. Sabia, também,
que ele não faria escândalos e não subiria naquela noite ao meu quarto - o que lhe daria tempo de
voltar à cena do crime para colocar a chave em seu devido lugar enquanto eu dormia. Óbvia demais
e pouco esperta para mim. Terminei o meu banho, deitei-me na cama e fiquei lendo o restante do
meu livro, enrolada em um roupão de seda lilás. Maria bateu à porta.
     _ Senhorita Anna, está tudo bem?
     _ Sim, querida Maria, está. Tudo está como eu havia previsto. E você, já está pronta?
     _ Ainda não, mas já irei me aprontar.
     _ Ótimo! Joseph está lá no fundo, perto da floreira.
     _ Vou terminar meus afazeres. Tem certeza de que conseguirá sair daí?
     _ Claro! Assim que o conde chegar, farei a minha entrada triunfal.
     _ Se é assim, descerei. Veremo-nos amanhã.
     _ Obrigada, Maria, mas acho que ainda hoje nos veremos.
     Levantei-me da cama e fui arrumar meus cabelos. Fiz um lindo coque e puxei algumas mexas.
Usei um conjunto de rubis que já estava separado. O mais difícil foi o espartilho, mas consegui,
com muito custo. Fiquei na janela, observando os convidados chegarem um a um. Já eram oito
horas quando o conde resolveu dar o ar de sua graça. A condessa e meu pai estavam no hall de
entrada, recebendo os convivas mais solenes. Ela olhou para cima e sorriu, como quem estava
vingada. Entrei e, calmamente, coloquei meu vestido. Vesti as luvas pretas, também de renda, e
ouvi quando a condessa, do lado de fora da porta, chamou-me:
     _ Anna, seu pai pediu-me para vir apressar a senhorita. Mas é uma pena, não é? Porque vou
dizer a ele que não irá descer. Que está furiosa e que quase me agrediu. Agora, se me der licença,
vou para a minha festa. Que pena que você não poderá ver a cara de aborrecimento dele... Mas
tenho certeza de que verá amanhã. Durma bem, minha filha.
     Não pude ver a face dela, mas sabia que estava rindo da suposta situação que ela pensava ter
causado. Esperei que ela descesse as escadas para terminar de me vestir. Finalmente, depois de me
arrumar, vesti o vestido negro de minha mãe. Olhei-me no espelho para ver como tinha ficado:
perfeito. Era um vestido negro todo de renda, com pequenas lantejoulas, que realçavam ainda mais
a exuberância do tecido. Sua saia era muito rodada, pois tinha sete véus, um sobre o outro. A blusa
deixava os ombros à mostra. Uma pequena rosa negra de veludo salientava-se no meio do busto,
prendendo o babado de renda.
     Depois de terminar aquele ritual de vaidade, fui à mesinha de cabeceira e peguei a chave de
bronze que tinha mandado o ferreiro fazer. Abri a porta e, elegantemente, segui pelo corredor em
penumbra. Do alto da escada, pude ver muitos convidados. Minha vontade era de sair correndo para
o meu quarto, mas era tarde demais: um criado avisou que eu estava descendo. Todos olharam para
cima, boquiabertos. Meu pai e a condessa, que usava o vestido que encomendei de madame
Hortência, ao verem-me vestida de negro com os trajes de minha mãe, empalideceram
imediatamente. Pareciam ter visto um fantasma descendo as escadas. O sussurro foi geral, e muitos
disseram:




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

     _ Como ela se parece com Elizabeth!
     Mediante o estado de catatonismo em que se encontrava meu pai, o conde tomou a decisão de
conduzir-me para o meio do salão, estendendo-me a mão para que eu acabasse de descer os
degraus. Todos abriram alas para que eu e o conde passássemos em meio aos convivas. Ele, então,
fez uma pequena observação:
     _ Fui informado de que a senhorita não estava disposta. Juro que pensei que haveria de me
fazer esta desfeita.
      _ Não estou compreendendo o que o senhor quer dizer com isso. Por que, afinal, eu lhe faria
uma desfeita? Creio que temos um acordo, não é mesmo? Saiba que o senhor está me ofendendo,
pois não sou uma pessoa que volta atrás com a palavra. Agora, responda-me, meu querido conde:
quem foi a pessoa maliciosa que lhe disse que eu faria uma desfeita dessas ao meu futuro esposo?
     _ Não sei ao certo o que está acontecendo nesta casa. Mas, para mim, basta que a senhorita
esteja aqui para firmar seu compromisso comigo.
     _ Concordo plenamente com o senhor. E espero que, daqui por diante, antes que o senhor ouça
alguma maledicência a meu respeito, procure saber primeiro se ela é verdadeira.
     A valsa começou e o conde e eu demos início ao baile. Preferi valsar em silêncio. Não queria
muita proximidade com aquele homem. Ao terminar a música, meu pai veio pedir ao conde para
dançar a próxima valsa comigo. Imediatamente, ao ter-me em seus braços, ele me disse:
     _ Esse vestido era de sua mãe! O que é que está tentando fazer, sua insolente? Saiba que
amanhã será punida por tentar desafiar-me.
     _ Ora, meu pai, não estou lhe entendendo! Por que o senhor haveria de me punir, se lhe estou
obedecendo rigorosamente? O que tem demais eu usar o vestido de minha mãe? Acaso viu um
fantasma ou foi a sua consciência que lhe está pesando? Sinceramente, o senhor confunde-me. Mas
vou enterá-lo dos novos acontecimentos dentro de sua casa: estou usando este vestido velho de
minha mãe porque a sua queridíssima esposa roubou o meu e o está usando neste momento. Então,
vendo-me sem saída, decidi procurar por toda a casa algo apropriado para usar no baile e não ter
que decepcioná-lo com a minha ausência. Também quero preveni-lo de que, a partir de hoje, firmo
um compromisso com o homem que comprou todas as suas propriedades. Sendo assim, como ele
mesmo disse, como tudo o que existe dentro dessa casa, também pertenço a ele. Então, ressalto que
o senhor não tem mais o direito de punir-me, pois não lhe pertenço mais.
     O ódio nos olhos do meu pai era visível, mas ele teve que se manter dançando comigo até que
a valsa parasse. Os musicistas deram uma pausa para que todos descasassem - o que foi um alívio,
pois meu pai estava apertando os meus braços com muita força.
     Quando a música cessou, o conde veio em minha direção, dizendo:
     _ Pensei que teria que esperar por mais uma valsa até poder tê-la em meus braços novamente.
Ainda não tive a oportunidade de dizer-lhe, mas a senhorita está lindíssima neste vestido.
     _ Fico satisfeita em ver que agrado meu futuro esposo. Espero poder sempre agradá-lo.
     _ Eu também, senhorita. Confesso que hoje, pela manhã, deixou-me furioso. Mas, depois que
estava só, percebi que nunca havia conhecido alguém com tanta personalidade assim.
     _ É mesmo? E houve outras mulheres que o senhor também recebeu como pagamento?
     _ Senhorita Anna, estou tentando dizer-lhe que estou completamente apaixonado. Na verdade,
nunca senti nada assim. Não deveria rejeitar meu sentimento. Pode ser perigoso.
     _Para quem: para mim ou para o meu pai? O senhor vem me falar de amor sob imposições e
ameaças? Francamente, deveria tentar outra estratégia. Essa não funcionará comigo, conde. Aceitei
selar esta noite um compromisso com o senhor. Agora, não espere que eu leve este compromisso
adiante, e muito menos que eu lhe tenha algum afeto. Não me vendi, senhor conde, e jamais faria
isso.
     _ E o que a senhorita pretende fazer? Fugir? Creio não ser uma boa ideia. Encontrá-la-ia
facilmente.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Não sou mulher de fugir.
     Meu pai se aproximou de nós e interrompeu aquela conversa - que estava ficando perigosa -,
perguntando ironicamente:
     _ E então, estão se entendendo bem? Como está se comportando a minha filhinha, conde? Está
lhe dando muito trabalho?
     _ De modo algum, senhor Juan. Sua filha consegue ser encantadora até mesmo quando tenta
não ser.
     Um criado veio servir-nos uma taça de champagne. Isso desviou um pouco a atenção de meus
leiloeiros. O líquido efervescente desceu pela minha garganta e logo me surtiu um efeito
entorpecente. De imediato, senti-me tonta. Alguma coisa estava errada, porque minha visão
começou a ficar turva. Tentei manter-me ereta e pedi licença aos dois cavalheiros, pois precisava
tomar um pouco de ar. Fui, então, à varanda. As imagens rodopiavam como mariposas na luz.
Procurei por Maria. Precisava dela imediatamente. Até mesmo a luz do luar estava dando-me
náuseas. Olhei para baixo e a vi conversando com Joseph de mãos dadas, sentados discretamente
em um banquinho, na lateral do jardim. Embora ela estivesse plena de felicidade, precisaria
interrompê-la e pedir-lhe ajuda. Ela olhou em minha direção e fiz-lhe um sinal. Não pude perceber
se ela havia entendido o meu pedido de socorro, pois uma mão tocou-me o ombro. Logo que me
virei, a condessa foi falando, em um tom exasperado:
     _ Não sei o que fez para sair de seu quarto, mas tenha certeza de que irei descobrir. Não pense
que se livrará de mim assim tão fácil!
     Eu mal podia entender o que aquela louca estava me dizendo, pois as palavras que saíam de
sua boca pareciam destorcidas. Mas lhe respondi:
     _ Não sei do que a senhora está falando! Tão cedo e já está em estado de ébrio? Que feio! O
conde não se sentirá à vontade com essa conduta tão vulgar.
     Ela levantou a mão para me esbofetear. Foi quando o conde e a conteve, segurando sua mão. A
condessa olhou-o fulminantemente nos olhos, parecendo não ter aprovado aquela atitude de
“herói”. O cafajeste, por sua vez, disse em tom de ironia:
     _ Acalmem-se, minhas queridas! Não briguem por minha causa. Prometo dividir a atenção
com as duas. Mas não quero que fiquem enciumadas e violentas uma com a outra. Não há
necessidade para isso, senhora condessa. Sabe muito bem que não quero que toquem em minha
futura esposa.
     A condessa olhou-o de soslaio, furiosamente, e saiu como que pisando duro, deixando-nos a
sós. O conde olhou-me nos olhos e falou:
     _ A senhorita está bem? Não quero que machuquem o brinquedinho que ainda não usei.
     Não cuspi nas faces daquele homem nojento por um milésimo de segundo apenas. Mas resolvi
manter-me quieta. Então, respondi, fingidamente:
     _ Sim, estou muito bem, graças ao senhor. Senhor conde, não sei o que há comigo, mas estou
me sentindo muito tonta. Desculpe-me, nunca me senti deste jeito.
     Senti que iria cair. O conde amparou-me. Por fim, quando levantei a cabeça para agradecê-lo,
ele aproximou os lábios dos meus e disse, num tom que mais parecia um sussurro:
       _ Calma, moça! Acho que deve ter se excedido no champagne.
       _ Não me excedi em coisa alguma, conde. Não tomei mais que dois goles da bebida. Há
  alguma coisa errada.
       _ Por que não para de me chamar de senhor e passa a me chamar pelo meu nome, Albert?
  Afinal, seremos marido e mulher muito em breve.
       Tentei empurrá-lo, pois estava grudado em mim. Estava enfraquecida por causa da tonteira.
  Ele continuou a me segurar fortemente:
     _ Não seja tão arredia comigo. É melhor não fazer tanta força. E vá se acostumando com os
meus carinhos, pois não gosto de mulher puritana.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Eu já não tinha mais reação. Meus membros estavam adormecidos. Então, o conde puxou a
minha cabeça para junto de si e beijou-me. Tentei esbofeteá-lo, mas foi em vão, pois ele segurou
minhas mãos. Depois de ter forçado aquele beijo, puxou-me, cambaleando para dentro do salão. Foi
logo pedindo a atenção de todos. Disse, então, em voz alta, batendo com uma colher em uma taça:
     _ Meus queridos, hoje é um dia muito importante para mim, pois estou sendo integrado em sua
comunidade. E é com imenso prazer que estou pedindo em casamento a senhorita Anna Vladimir
Gondin, filha do senhor Juan Vladimir Del Prat.
     O alarido de espanto foi geral. O conde prosseguiu, não me deixando dizer absolutamente
nada:
     _ Senhorita Anna, presenteio-a com o anel real de minha avó. Que esta joia seja o elo entre
nossas famílias.
     Todos aplaudiam e, quando o conde colocou finalmente o anel em meu dedo, caí em um
abismo profundo. Foi como se formasse na minha frente um enorme buraco negro. Não me lembro
de mais nada, pois desmaiei.
     Horas depois, acordei em meu quarto, rodeada por várias pessoas. O doutor passava-me nas
narinas um líquido horrível para que eu despertasse. Maria estava ao meu lado e perguntou-me,
passando a mão pela minha testa:
     _ Fique calma, minha filha. Estou aqui agora. Não a deixarei de novo, prometo.
     _ Maria, o que houve? O que aconteceu comigo?
     _ Fique quietinha. Alguém colocou um entorpecente na sua bebida. - disse ela, sussurrando ao
meu ouvido.
     Fiquei quieta, esperando que Maria colocasse para fora toda aquela gente curiosa. Não vi o
conde, mas Maria depois me informou que ele havia ido embora. Quando o quarto já estava vazio,
tentei levantar-me, mas...
     _ O que fizeram comigo, Maria? Não me lembro do que aconteceu. Eu estava me sentindo tão
bem. Só consigo me lembrar do beijo que o conde forçou-me a dar-lhe, e depois do anel em meu
dedo.
     _ Meu Deus, ele fez isso? Então é como eu suspeitava. Foi o conde que colocou o entorpecente
em sua bebida. Ele queria fazer-lhe algum mal. A sua sorte foi não ter tomado todo o líquido que
estava em sua taça. Caso contrário, poderia estar acordando nos aposentos do senhor conde agora.
Mas quando a vi na varanda, percebi que havia algo de errado com a senhorita. Só sinto não ter-me
apressado em atendê-la quando me chamou.
     _ Este homem é mais perigoso do que supúnhamos. Devo precaver-me contra ele de agora em
diante.
     _ Sim. Não deve ficar mais sozinha com ele - pelo menos o quanto puder evitar.
     _ Não se preocupe, Maria. Só temos o direito de errar uma vez, e já errei duas. A primeira
quando deixei minha porta aberta, depois de já ter encontrado minhas janelas destrancadas. E a
segunda foi aceitar uma bebida na presença do conde. Deveria ter desconfiado quando ele pegou a
taça, parecendo saber qual era a minha. O que farei, Maria? Estou me sentindo completamente
vulnerável nesta casa.
     _ Não sei, minha filha. Não consigo pensar em nada para ajudá-la, a não ser em pedir-lhe mais
uma vez que fuja.
     _ Não posso fugir, Maria. Para onde eu iria?
     _ Para a casa de minha irmã, como já mencionei.
     _ Maria, a senhora está se esquecendo de que o conde tem o diário de minha mãe. No diário
dela, há o mapa de como chegar até a casa de sua irmã. Não posso colocar aquele povo em risco
por minha causa.
     Maria sentou-se na beira da minha cama, parecendo sentir-se impotente também.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ Esta noite direi ao seu pai que, devido ao seu estado, dormirei aqui com a senhorita. - disse
Maria, depois de muito pensar.
     Em seguida, saiu e trancou o meu quarto pelo lado de fora, com a minha chave extra. Logo
depois que Maria saiu, percebi uma pequena bola de luz em um canto do quarto. Curiosamente,
levantei-me para ver de perto. Ao me aproximar daquela bola de luz, ela se materializou. Afastei-
me para trás, meio assustada. Vi uma senhora trajando um fino vestido de seda verde. Depois de
muito me olhar, ela me disse:
     _ Desculpe-me por invadir seus aposentos, minha jovem. Mas estou aqui para preveni-la
quanto ao conde. Este homem não é quem todos pensam. Ele é um assassino e usurpador.
     _ Sim, meu mentor espiritual já me disse isso. E quem é a senhora, por favor?
     _ Sou a marquesa de Monte Carlo, mãe do verdadeiro conde de Monte Carlo. Este homem
assassinou o meu filho e o meu marido. Agora está usurpando o lugar deles. Tenha cuidado, minha
filha. Ele é mais perigoso do que a senhorita supõe.
     Dizendo isso, o espírito desapareceu. Fiquei parada, em pé, no meio do quarto, sem saber o que
fazer. Minhas pernas começaram a tremer de tal maneira que me vi obrigada a voltar para a cama.
Fiquei encolhida e assustada, esperando que Maria retornasse.
     Quando estamos nos sentindo coagidos, não conseguimos ver a solução para os nossos
problemas. De repente, senti as lágrimas rolarem-me nas faces. Queria ter um amigo para me
proteger. Queria colo de mãe. Sentia-me tão só! Embora estivesse preparada para enfrentar meu
destino, naquele momento a solidão tomou conta da minha alma. Parecia que meu espírito estava
envolto por uma grande escuridão. Meu coração estava cada vez mais apertado. Não tinha para
onde ir, correr, escapar, o que quer que fosse. Sem querer, blasfemei em voz alta:
     _ Se eu morresse, seria melhor para todo mundo!
     De repente, uma voz me respondeu ao ouvido:
     _ Melhor para quem, Anna? Para você? E a pobre da Maria, que lhe cuidou com tanto zelo,
abdicando-se da própria vida? Está sendo egoísta e imatura, Anna! Esse é o erro de se saber o
futuro. Muitos acham que podem antecipá-lo ou modificá-lo. Acredite: acabam terminando no
abismo sem fim da escuridão imortal. Não vai querer isso para sua vida, Anna. Não passamos pelos
problemas da vida - são os problemas que passam por nós, ensinando-nos a viver. Então, devemos
viver de maneira que esses problemas sejam exemplos de como não procedermos de maneira
excêntrica e precipitada. Não posso permitir que siga seu destino sem ao menos aprender o dom da
paciência. Você tem que entender que é uma pessoa diferente. Estou muito decepcionado com
você. Saiba que as palavras nunca são totalmente jogadas ao vento. Elas podem ser ouvidas por
espíritos impuros, que podem vir atender o seu suposto desejo. Uma atitude precipitada poderia
prejudicar todos à sua volta. Se fizer o que disse há pouco, Maria seria colocada na rua e, com isso,
voltaria para a casa da irmã. Ela nunca mais veria Joseph. Lorenzo seria despedido e, com isso,
cairia nas bebidas e não mais se casaria com Samara. Esta, por sua vez, acabaria se tornando uma
prostituta para tentar se sustentar. Tereza e seu esposo seriam despedidos também e, como estão em
idade avançada, não arrumariam mais emprego. Com isso, a pobre netinha morreria de fome.
Tereza e o marido têm uma família que depende deles. Como percebeu, tem muita gente que
depende de você, Anna. Mesmo assim, teve um pensamento tão egoísta como esse? Não posso
acreditar no que ouvi, Anna!
     Eu estava debulhada em lágrimas, mas respondi, entre soluços:
     _ Perdoe-me, Heixe! Por favor, perdoe-me, meu amigo!
     Porém, ele prosseguiu:
     _ Não sou eu quem tem que lhe perdoar. É você mesma. Precisa parar de sentir pena de si
mesma. Levante-se desta cama e vá até o pequeno templo que sua mãe construiu. Prepare uma
poção, faça o ritual da chuva. Purifique sua alma e deixe que a chuva lave as mazelas da sua alma.
Agora vá e faça o que tem que fazer. Tenha cuidado apenas para que a condessa não descubra nada.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Quando Maria voltou, contei-lhe o que havia acontecido. Ela fitou-me tristemente e respondeu:
     _ Saiba que o seu mentor espiritual está coberto de razão, senhorita Anna. Esse foi o
pensamento mais egoísta que a senhorita já teve. Como acha que me sentiria sem a senhorita? Não
pensou nos sentimentos das pessoas que a amam de verdade?
     Maria ajeitou um lugar no chão para dormir, sem dirigir-me a palavra novamente.
     Depois que ela adormeceu, ainda fiquei um bom tempo acordada, refletindo sobre aquele
assunto. Muitas pessoas confiavam em mim, e quase coloquei toda a tradição a perder por causa de
um pensamento egoísta. Às vezes, ficamos cegos com nossa revolta e agimos de maneira insana.
Achamos que não temos nada mais a perder, mas esquecemos tudo e todos que nos cercam. Fui
uma tola por pensar tão levianamente. Ainda bem que tinha amigos no espaço para me auxiliarem.
O suicida não é somente aquele que se envolve com entorpecentes ou bebidas - estes se suicidam
lentamente. O suicida também é aquele que se anula espiritualmente, matando o seu aparelho. E era
o que eu ia fazer, caso Heixe não tivesse vindo em meu auxílio. Uma bruxa ou uma pessoa que
tenha dons especiais não pode jamais ter este tipo de pensamento, pois isso faz com que vá contra
as leis da natureza de Deus. Logicamente, o mesmo serve para todas as pessoas – mas,
principalmente, para todos aqueles que seguem uma tradição espiritual.
     Fiz minhas orações e olhei para Maria, que estava deitadinha no chão somente para me
proteger. Como fui egoísta, Senhor, em dizer que sou sozinha... Depois de muito meditar sobre
minha vida, adormeci, deixando que meu corpo repousasse em sono profundo.
     Quando acordei, o dia ainda não tinha raiado. Então, levantei-me bem devagarzinho e coloquei
o roupão, cutucando Maria bem de mansinho para que não se assustasse. Então, chamei-a baixinho:
     _ Maria, Maria... Acorde, por favor...
     _ Hã? Menina, o que faz fora da cama? Está bem? O que está sentindo? Meu Deus, dormi
demais, foi isso? - levantou-se de um salto só, com os olhos que pareciam dois pires de tão
arregalados.
     _ Maria... Não faça tanto barulho... Calma, não estou sentindo nada, estou muito bem. Levante
um minuto e venha comigo. Quero que me mostre onde é o templo que minha mãe fez.
     Ela levantou meio receosa e, parecendo não crer no que eu dizia, vestiu o roupão e saímos no
meio da casa escura, carregando um lampião que mal deixava enxergar os próprios pés.
     Atravessamos todo o pátio do fundo da cozinha e chegamos ao porão, onde meu pai guardava
seus preciosos vinhos. Acendi outro lampião que estava pendurado junto à porta.
     Maria retirou uma garrafa da adega. Então, como em um passe de mágica, abriu-se uma porta
secreta. Entramos e acendi mais dois lampiões que estavam pendurados. Todo o lugar ficou logo
iluminado. Parecia uma caverna mística. Fiquei extasiada e boquiaberta com o que vi.
     _ Maria, minha mãe construiu isso antes de eu nascer? Como ela conseguiu fazer isso sem que
meu pai percebesse? Quem a ajudou?
     _ Sim, senhorita Anna. Elizabeth construiu isso tudo com a minha ajuda e de alguns irmãos da
tradição, que vinham até aqui enquanto o seu pai viajava. Este local demorou algum tempo para
ficar pronto, pois foi feito parcialmente, nos intervalos e ausências do seu pai. Elizabeth era uma
mulher muito discreta e reservada. Por isso, foi fácil esconder a tradição de seu pai.
     Depois de andar por todo o local e admirar tudo o que encontrei, disse à Maria:
     _ Venha, ajude-me a lavar esse caldeirão. Preciso fazer um preparo para o ritual da chuva. Meu
primeiro equinócio será comemorado com a chuva no fim do outono.
     _ Jura? E quando será?
     _ Na próxima quarta-feira. A chuva será à noite. Devemos nos preparar para irmos à floresta.
Temos que nos preparar para a purificação do corpo.
     _ Posso participar? Nunca fiz o ritual da purificação.
     _ É claro que sim! Então, faremos juntas a poção.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Maria lavou o caldeirão e a colher de pau. Decidi não usar o material que havia comprado:
aquele me serviria muito bem e já estava cheio de boas energias. Limpamos todo o ambiente nos
mínimos detalhes. Preparamos as ervas para o cozimento. Pegamos a imensa colher de pau e
mexemos a poção - as duas juntas, ao mesmo tempo. Durante o processo, dissemos:
     _ Que o espírito da cura se reúna a esta essência, trazendo-nos paz, harmonia e forças para
que nosso corpo físico possa conseguir seguir a sua jornada.
     Cantamos, também, naquela língua antiga. E rimos muito, passando energias positivas para a
essência. Rodopiamos e dançamos em volta do caldeirão, enquanto ele cozinhava a poção. As
chamas pareciam dançar conosco. A dança é, para nós, uma forma de libertação. Quando
dançamos, soltamos a alma e não pensamos em mais nada à nossa volta.
     Talvez tenha sido um grande erro dançarmos naquela noite. Pois ficamos tão inertes que não
percebemos a presença silenciosa e maligna da condessa, que nos vigiava sorrateiramente. Ela
havia sido acordada pela copeira, sua cúmplice, que nos denunciou. A fumaça e a penumbra do
lugar não nos deixaram perceber sua presença. Ela ouviu tudo, atentamente, sobre as poções e o
ritual da chuva.
     Eu e Maria parecíamos estar embriagadas pela essência que saía do caldeirão. As ervas eram
muito fortes, e o cheiro nos fez viajar. Acrescentei sálvia e óleo de girassol. Por fim, sentamos e
rimos muito, pois estávamos felizes e absortas. Tomamos o chá do poder e abrimos o nosso chácra
do conhecimento. O poder do chá era inigualável e, logo ao bebermos, sentimos toda a força do
universo nos cercando. Esse chá representa toda a força da mãe terra, a fonte de vida, o côncavo e o
convexo, o macho a fêmea. As duas forças uniam-se durante a ingestão desse chá. Seu poder de
cura era infinito. Mas o principal objetivo é curar a alma. Depois de muito meditarmos, disse à
Maria:
     _ Acho que passamos da hora. Precisamos apagar o fogo e tampar o caldeirão. Lembre-se de
vir aqui e cozinhar as ervas até quarta-feira.
     _ Pode deixar que ficarei atenta para não deixar passar do ponto.
     Esse ritual tinha que ser preparado com muita antecedência. A erva devia ser cozida até
desmanchar, pois o banho era por inteiro e deveríamos deixar a terra consumir tudo o que saísse do
nosso corpo. Nesse ritual, damos à terra todos os nossos problemas, e recebemos da chuva toda a
sua energia renovadora. Pois a chuva traz tudo de bom que a terra nos dá. Isso se chama círculo
rotativo. A terra recolhe a água que sai do nosso corpo doente, e a chuva leva o que não presta para
o céu, reciclando essa energia e devolvendo-a em forma de energia positiva.
     De repente, escutamos um barulho do lado de fora.
     _ O que foi isso, Maria? - perguntei assustada.
     _ Não sei, senhorita Anna. Espere aqui que irei ver o que é.
     Senti um frio na barriga. Algo estava errado e havia ativado todos os meus sentidos. Comecei a
ficar com dores de cabeça. Foi aí que percebi a presença da condessa: ela havia estado ali o tempo
todo e, com certeza, eu estava em suas mãos. A partir daquele momento, eu sabia que seria
chantageada por duas pessoas ao mesmo tempo. Maria voltou e disse-me:
     _ Não vi ninguém, senhorita Anna. Deve ter sido algum tipo de animal.
     _ Pouco provável, Maria. Com certeza, foi a condessa. Meus sentidos de bruxa mostraram-me
ser ela.
     _ A condessa? Meu Deus, ela fará chantagem com nós duas. O que faremos?
     _ Devemos ter calma, para melhor raciocinarmos sobre o que fazer.
     _ E o que faremos com essas provas? - disse Maria, apontando para tudo à nossa volta.
     _ Eu poderia dizer que estávamos procurando um vinho raro para ofertar ao meu futuro marido
e, sem querer, descobrimos esse lugar.
     _ E o que diríamos sobre o caldeirão e a poção que está ainda em cozimento?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Sim, a senhora tem razão. Não conseguirei inventar uma desculpa plausível para essa
situação eminente. O melhor a fazer é esperar para ver o que a condessa fará.
     _ Sim, mas até lá morreremos ansiosas, sem saber o que a condessa irá nos aprontar.
     Sentei ao chão e coloquei as mãos no rosto, pensando em como achar um meio de driblar a
condessa, pelo menos até o dia do ritual da chuva. Sabia que, se eu quisesse usar meus poderes,
poderia pôr um fim naquilo tudo. Mas nunca poderia usá-los em benefício próprio, pois as
consequências seriam muito piores. Quando usamos nossos poderes para controlar alguém ou para
fazer um indivíduo esquecer-se de uma situação, além de gastarmos muita energia vital, podemos
passar por coisas horríveis. Como, por exemplo, ser atormentada dia e noite por espíritos levianos.
Isso pode resultar na loucura mental do corpo físico ou no suicídio do indivíduo em questão. Por
isso, disse à Maria, que estava se borrando toda, por medo da sombra que nos espreitou a noite
toda:
     _ Não faremos absolutamente nada.
     _ Como assim, nada?
     _ É o que a senhora ouviu. Daremos tempo ao tempo e ele se incumbirá de nos responder.
     Maria não disse mais nada, mas senti que estava aflita. Arrumamos as coisas, apagamos o fogo
do caldeirão e saímos, em silêncio. Passamos tranquilamente pelo pátio e pelos corredores. Foi
assustador pensar que poderíamos ser pegas de repente. Maria deixou-me na porta de meu quarto e
desceu. Foi uma madrugada muito difícil. Cheguei a pensar que não passaria daquela noite.
Arrumei-me e, em seguida, fiz minhas orações. Não poderia descuidar do espírito. E também não
estava mais em condições de dormir. Abri a janela e vi Joseph, já se preparando para cuidar do
jardim. Então, resolvi descer e fazer-lhe companhia. Abri vagarosamente a porta e saí, meio que na
ponta dos pés. Já estava no meio do corredor quando a condessa agarrou-me pelo braço e puxou-me
para um canto, interrogando-me:
     _ Estava aprontando alguma coisa ilícita naquele porão. Pretendo descobrir o que é.
     Percebi, então, que a condessa, por causa da fumaça, não conseguiu ver o que estávamos
fazendo e também não ouviu o que dizíamos. Então, respondi-lhe, tentando inverter aquela
situação:
     _ Ah! Então a senhora não sabe? Se a senhora anda espionando as pessoas atrás das portas,
deveria saber.
     _ Infelizmente, não deu para ver por causa da penumbra. Mas saiba: estou de olho.
     Respirei aliviadamente, confirmando a minha atual suspeita de que a condessa não sabia de
nada. Tentei apressar-me para contar à Maria, aliviando-a daquele fardo desnecessário. Fui saindo,
mas a condessa, que ainda segurava meu braço, prosseguiu:
     _ Antes de sair, terá que me contar: que lugar era aquele?
     _ A senhora não sabe? É ali que queimam as ossadas dos escravos que morrem torturados.
Estou impressionada como a senhora, que vive nessa casa há tantos anos, possa estar tão alienada
deste fato tão corriqueiro. Agora, se a senhora duvidar da minha palavra, posso eu mesma levá-la
até aquele local. Ou melhor: peço a meu pai que lhe mostre o local pessoalmente.
     _ Não será preciso. Saiba que sei de tudo o que se passa dentro da minha casa. – mentiu,
querendo parecer senhora absoluta de tudo.
     Olhando-me bem nos olhos, ela prosseguiu com a conversa:
     _ E o que estava fazendo junto à Maria àquela hora da madrugada?
     _ Santo Deus, senhora condessa! Como a senhora é desinteressada e insensível! Ainda não
sabe que uma de nossas escravas perdeu um bebê por esses dias? Eu e Maria estávamos acendendo
velas e rezando para a pobre alma daquele pequeno inocente. A fumaça que a senhora viu foi
porque queimaram os ossos do pobrezinho ainda hoje. Cheire só o meu braço para a senhora ver
como estou cheirando a defunto queimado.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Disse isso estendendo e colocando meu braço nas narinas da condessa, que recuou e soltou-me,
finalmente. A tola mulher, além de apavorada, ainda disse, arrogantemente:
     _ Saia de perto de mim, com esse cheiro de escravo queimado! Não faço questão de me
envolver em assuntos de escravos. Deixo isso para seu pai. Mas não me surpreendo em saber que
uma estúpida como a senhorita se envolva nesses casos medíocres, com esse tipo de gente.
     _ Sabe, condessa, a senhora é mesmo uma pessoa muito doente. Por que não aproveita que o
médico está na casa e faz uma consulta? Mas não se esqueça de informar-lhe que sua doença é na
alma: chama-se preconceito.
     A condessa empinou o nariz e saiu, remexendo as cadeiras, até entrar em seus aposentos. Por
minha vez, saí pelo corredor afora, saltitante como uma menina. Procurei Maria na cozinha e
contei-lhe tudo. Ela se arriou sobre uma cadeira e disse:
     _ Definitivamente, a senhorita é mais cheia de artimanhas que o próprio demo!
     _ Eu!? De maneira nenhuma, Maria. A condessa que é desprovida de neurônios - o que, para
mim, é uma salvação. Acredite, Maria: ninguém nos impedirá de realizar o ritual da chuva.
     Eu já ia pegar algo para comer quando resolvi perguntar outra coisa à Maria, ainda sentada
naquela cadeira, sem conseguir dizer-me uma só palavra:
     _ Ah! Já ia me esquecendo... A senhora retornou ao crematório para acendê-lo? Lembre-se de
que nosso cozido deve ferver diariamente.
     Maria pareceu entender sobre o que eu queria dizer e riu a valer. Depois de degustar
tranquilamente meu desjejum, virei-me para Maria e falei-lhe:
     _ Iremos ter com Joseph daqui a pouco - fique a senhora sabendo!
     _ E para quê? No que a senhorita está pensando em envolver o pobre homem? – perguntou,
com medo do que eu poderia estar planejando.
     _ Nada demais. Só vamos, de uma vez por todas, resolver a sua situação que está pendente com
ele.
     Disse isso degustando uma deliciosa fatia de queijo. Maria, por sua vez, levantou-se
apressadamente da cadeira e começou a remexer nos objetos da cozinha, desconexamente. Até que,
não resistindo, perguntou-me:
     _ Posso saber qual seria a situação pendente que tenho para resolver com o senhor Joseph?
     _ Ora, Maria! Fracamente, não lhe cabe agora se fazer de rogada comigo. Sabe muito bem que
estou falando do seu afeto por ele. Não achou que eu não faria nada quanto a essa questão, não é
mesmo?
     _ Para falar a verdade, já estava suspeitando que a senhorita fosse me colocar em mais uma de
suas confusões. Mas, dessa vez, imploro-lhe: não me faça passar por tamanha vergonha. Pois, caso
contrário, irá ver essa sua amiga aqui esticadinha ao chão. E creio que não quer isso, não é
verdade?
     Ela apertava as mãos uma contra a outra, enquanto me olhava com um olhar suplicante,
esperando que eu lhe desse uma resposta a seu favor. Porém, respondi:
     _ Se for para o seu bem, pode desmaiar à vontade! Quem sabe Joseph, ao vê-la esticada ao
chão, abaixe-se para beijá-la e já lhe faça um pedido de casamento ali mesmo.
     Maria virou-se de costas para mim, benzeu-se e respondeu:
     _ Perdeu foi o juízo de vez, viu!? Imagina só se irei permitir tamanho despudor!
     _ Ora, então a amarro e pronto!
     Percebi que Maria estava rindo baixinho, pois havia gostado da ideia de ser beijada por Joseph
- embora continuasse a manter aquela postura rígida. Enquanto ela ficava sonhando com o suposto
beijo dele, comecei a matutar uma forma de tirar Maria de toda aquela enorme confusão na qual eu
estava atolada até o pescoço. Podia-se dizer que eu estava em um beco sem saída. Mas não poderia
deixar minha melhor e única amiga ir direto para o poço, sem fundo, junto comigo. Depois de
muito queimar tutano e deixar meus cabelos todos enfumaçados, cheguei a uma real conclusão,




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

finalmente: Maria deveria escrever urgentemente para sua irmã. Mas, como eu sabia que ela não
concordaria com o meu plano, teria, então, que eu mesma escrever a tal carta.
     Meu pai e a condessa saíram muito cedo e, provavelmente, não voltariam tão rápido. Maria
disse para ele que eu ainda estava dormindo - o que me deu tempo suficiente para pôr o meu plano
em prática.
     Naquela manhã, Tereza chegou um pouco mais tarde e parecia estar de mau humor. Pelo que
aparentou, não nos queria por perto. Mas ela normalmente já era assim: detestava invasores no seu
território sagrado. Porém, naquele dia, o mau humor imperou sobre ela. Eu e Maria saímos à
francesa, deixando a mulher com seus próprios demônios.
     Do lado de fora, corri os olhos, tentando achar Joseph. Por fim, avistei-o cuidando das
magnólias. Olhei para Maria, dando-lhe um sorriso maroto, e saí correndo em seguida, para chegar
perto de Joseph antes dela. Maria tentou acompanhar-me, mas fui muito mais ágil. Quanto cheguei
à frente de Joseph, estava morrendo de rir de saber que Maria estava vindo toda afoita atrás de
mim. Joseph, parecendo perceber que tinha algo no ar, olhou para mim e correu os olhos para
localizar Maria. Ele, também num tom de riso, disse:
     _ Senhoritas, onde pensam que vão desta forma aflita?
     Em seguida, o homem levantou-se para nos cumprimentar melhor e se tornar ciente do que
estava acontecendo. Depois de olhar-nos dentro dos olhos, ele falou:
     _ Em que posso ajudá-las? O que houve? Aconteceu-lhes algo?
     Então falei, sem muito dar margens a outros comentários e perguntas, antes que Maria pudesse
interromper-me:
     _ Querido Joseph, estou ciente de seus sentimentos por minha amada Maria. Quero que saiba
que é recíproco. Porém, ela é tímida demais para lhe dizer isso. Portanto, estou aqui, sendo uma
intermediária entre os dois.
     Maria não sabia onde se enfiava, de tão envergonhada que a fiz ficar. Ela me beliscava e tentou
várias vezes tampar a minha boca. Mas, uma vez que comecei a falar, ninguém conseguiria
impedir-me de terminar.
     Joseph olhava para Maria com olhos vidrados e cheios de lágrimas. O homem parecia estar
com aquele sentimento entalado no peito havia anos. Percebendo que ele não tinha coragem de
abrir a boca, prossegui:
     _ E então, senhor Joseph? O que tem a me falar a respeito do que lhe acabo de dizer?
     Ele girou o corpo de um lado para o outro, parecendo procurar algo nos bolsos de trás da velha
calça. Fiquei ali, esperando uma resposta, mas o pobre homem parecia tão preocupado em achar
sabe-se lá Deus o quê que me deixou ali, parada à sua frente, por vários minutos. Por instantes,
achei que havia cometido um grande erro, porque o homem não respondia nada e parecia ter
escondido o rosto debaixo do chapéu de palha. Olhei para Maria, que parecia estar ansiosa por uma
resposta dele. Então, resolvi arriscar tudo, antes que virássemos um fóssil humano, por causa de um
simples sim de Joseph para Maria. Imagine só minhas futuras gerações passando por ali, depois de
milhares de anos, e achando uma jovem bruxa e uma senhora petrificadas. Por certo, indagariam
entre si Nossa, o que será que transformou essas pobres mulheres em fóssil? E alguém estudioso
no caso responder-lhes-ia Foi a demora de um simples “sim” do futuro pretendente de uma delas.
Aquele pensamento fez-me rir sozinha. Portanto, tratei logo daquele assunto banal, dizendo:
     _ Joseph, por céus, homem! Está entalado com um sapo, ou os comichões são por causa de
uma urtiga?
     Fiz-lhe, então, uma simples pergunta, de maneira pausada:
     _ O senhor gosta de minha governanta, Maria Peres? Sim ou não?
     _ É que não entendi o sentido da pergunta.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Sua voz era tremida e vi o quanto aquela conversa seria demorada e difícil. Meu Deus, pensei
comigo. Ou ele era um desprovido de inteligência ou era surdo. Ou ainda pior: estava se fazendo de
sonso mesmo!
     _ Estou lhe perguntando se o senhor quer se casar com Maria, homem!
     _ Bom, confesso que já andei escrevendo alguns versinhos para ela. Mas nunca me atrevi a ir
além disso, pois ela é uma dama de muitíssimo respeito.
     Oh! Glória, meu Deus, até que enfim!, pensei. Não era muito, mas pelo menos ele havia dado
um sinal de vida. Aproveitando aquela oportunidade, Maria falou, por fim, porque parecia que
também estava engasgada e aflita por uma resposta daquele aprendiz de Romeu, confuso e tímido:
     _ Ora, homem, e desde quando versos são sinal de falta de respeito? - ela colocou as mãos na
cintura e fez uma cara de brava.
     Dirigindo-se a mim, ela disse:
     _ Pense bem, senhorita Anna: passei esse tempo todo na desesperança de encontrar minha cara
metade, sendo que ela estava o tempo todo ao meu lado. Esse homem cabeçudo fez-me perder o
melhor tempo da minha vida só porque me julgava uma mulher acima dele. Imagine só: como
posso perdoá-lo por ter ficado solteirona esses anos todos?
     Quem ficou de olhos arregalados desta vez fui eu, que fiquei admirada por ver a revolta de uma
mulher solteirona. Deus, que bom que não chegaria a tanto! Às vezes, o que o nosso destino nos
reserva é mesmo uma dádiva! Pois não me conseguia ver dando uma crise daquelas por falta de um
casamento. Céus! Depois de ter que pegar meu maxilar, que estava caído ao chão, falei a Joseph:
     _ Bom, o que posso dizer, senhor Joseph? Depois de um desabafo desses, é melhor que o
senhor tome logo a atitude de pedir-lhe a mão.
     _ Mas não pode ser assim. Tem que ser com jeito e...
     Maria não deixou que o pobre homem, prestes a ser enforcado, dissesse uma só palavra:
     _ Que jeito, homem? Acha mesmo que estamos em idade de esperar mais alguma coisa? Acha
que quero ser cortejada a essa altura da nossa história? Conhecemo-nos há mais de dez anos. Diga-
me: o que o senhor ainda não conhece da minha pessoa? Se tiver alguma dúvida em se casar
comigo, então não me merece. Mas se sente algum sentimento por mim, vá logo e se decida de uma
vez por todas. Não tenho mais a intenção de criar os netos da senhorita Anna.
     Continuei recolhida à minha insignificância e de olhos bem arregalados. Por fim, disse,
humildemente:
     _ Se o problema é a ocasião, pedirei permissão ao meu pai para que assemos um leitão com
direito a rodada de banjo.
     Joseph, no entanto, fez uma pergunta que, embora parecesse um tanto irregular, era de se
esperar mediante a reação quase histérica de Maria:
     _ Quero só perguntar uma coisa.
     _ Lógico que sim, Joseph, mas que seja breve. - respondeu Maria, parecendo estar sem a menor
paciência.
     O homem, tirando o chapéu da cabeça e torcendo-o nas mãos, levantou os olhos e, meio sem
graça, respondeu timidamente, parecendo saber qual seria a reação de Maria:
     _ Acaso a senhora não estaria esperando criança, estaria?
     _ Esperando o quê, seu cara de fuinha? O que está pensando de mim? Acha que sou sua
parenta por acaso? Imagine: esperando criança com cinquenta anos!
     Na verdade, Maria estava com cinquenta e oito anos. Mas eu é quem não a contrariaria,
principalmente naquele momento tão solene para ela. Maria já estava saindo pisando duro quando
Joseph a segurou pelo braço e disse-lhe, olhando nos olhos:
     _ Aonde pensa que vai a minha futura esposa? Não quero que a senhora me interprete mal, mas
a pergunta que acabo de fazer foi apenas para me certificar de que a senhora não havia feito nada




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

de errado. Mas peço-lhe humildemente o seu perdão, pois procedi como um tolo machista, sendo
que a conheço há tantos anos.
     Dizendo isso, Joseph puxou Maria pela cintura, dando-lhe um beijo apaixonado. Por minha
vez, afastei-me um pouco, deixando que aquele novo casal se entendesse sozinho. Estava feliz, pois
mais uma parte da minha missão estava cumprida.
     Caminhei um pouco mais adiante e fui olhar o canteiro de tulipas. Estava quase me perdendo
em meus próprios pensamentos quando Joseph chamou-me.
     _ Senhorita Anna, posso falar-lhe um instante?
     _ Sim, Joseph, mas onde está Maria?
     _ Foi para dentro da casa. Ela parece estar muito feliz, a senhorita não acha?
     _ Joseph, parece que sim. E o senhor cuide bem dela, está me ouvindo?
     _ Disso a senhorita não tenha dúvidas.
     _ Confio no senhor e sei que fará muito bem à Maria. Mas, antes que o senhor se una a ela,
quero lhe falar algo muito sério.
     _ Então diga, senhorita Anna. Afinal, queremos a senhorita como nossa madrinha.
     _ Fico muito feliz, mas antes tem que saber algo sobre Maria e eu. Pois, como fui intrometida
em uni-los, sinto-me na obrigação de lhe contar sobre certos fatos.
     _ Senhorita, vou deixá-la falar para não lhe parecer mal educado, mas já sei do que se trata.
     _ Bom, Joseph, não sei se o que está pensando é sobre a mesma coisa que lhe contarei. Maria e
eu pertencemos a uma tradição milenar. Muitas pessoas têm certa dificuldade em aceitar nosso tipo
crença.
     _ A senhorita quer me dizer que ambas são bruxas?
     _ Sim... Mas de maneira alguma fazemos o mal aos outros, como nos julgam erroneamente.
     _ Senhorita Anna, de maneira nenhuma tenho comigo o defeito de pré-julgar os outros. Sempre
respeitei todas as crenças porque trabalho com a natureza. Muitas vezes, por estar sempre em
contato com ela, já vi e ouvi coisas que nunca contei por medo de acharem que estou possuído por
um espírito maligno. Sei bem o que é guardar um segredo. Quem a senhorita acha que construiu o
esconderijo de sua mãe?
     _ Foi o senhor, Joseph? Por que nunca me contou nada?
     _ Como disse a senhorita, sou muito bom em guardar segredos. Sua mãe era uma pessoa
admirável! Confidenciou coisas que nunca contaria a ninguém. Ela estava sempre pronta a servir a
Deus e aos necessitados. Quando um empregado ou até mesmo escravo necessitava de seu auxílio,
ela enfrentava até mesmo seu pai. Nunca ouvimos um grito ou xingamento da parte dela como
ouvimos de sua madrasta. Muito pelo contrário: ela conseguia tudo com um sorriso e muita
gentileza. Por ter estado ao lado de uma pessoa tão fantástica, como poderia não aprender a
respeitar sua crença? Ao contrário do resto das outras pessoas, jamais fiz objeções ou repudiei o
que não conhecia. A experiência que adquirimos com o passar dos anos traz-nos sabedoria e
discernimento de como olhar para o que julgamos ser irreal e imaginário. Mesmo que Maria fosse
uma possuída - o que não é -, ainda assim a amaria do mesmo jeito. Aprendi que tudo tem jeito na
face da Terra. E, para a morte, cabe a Deus saber o que fazer.
     Fiquei admirada ao ouvir tais palavras saindo da boca de um homem tão simples como Joseph.
Com isso, aprendi mais uma lição: não julgar ninguém pela aparência ou simplesmente porque a
pessoa demonstra-se tímida mediante tais situações. Digo isso porque julguei muito mal Joseph
quando ele aparentou-se em cima do muro, mediante a resposta que exigi que desse à Maria.
Depois de olhá-lo admiradamente, respondi:
     _ Joseph, não sabe o quanto fico feliz por saber a sua maneira de pensar. Mas algo terrível está
para acontecer com Maria. Por isso, tenho urgência que se case com ela e vá para o norte, onde
estão os parentes dela. A menos, é claro, que o senhor tenha alguma objeção em ir morar na
floresta.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Imagina, senhorita Anna! Será um prazer poder conviver com a natureza. Além do mais,
estou mesmo precisando descansar. Só não sei se serei bem recebido pela família dela!
     _ Foi o que imaginei que o senhor pensaria. Não se preocupe, pois são pessoas fantásticas.
Com certeza, o senhor será muito bem recebido por todos. Falo assim porque tive o enorme prazer
de conhecê-los pessoalmente, quando eu e Maria passamos aquele fim de semana lá.
     _ E as senhoritas, por que estão correndo perigo?
     _ Porque o conde, com quem me obrigaram a firmar compromisso, tem em seu poder o diário
de minha mãe. Neste diário, ela conta tudo sobre a tradição, sobre a parceria dela com Maria nos
rituais, e sobre a futura herdeira - no caso, eu. Ela mencionou até mesmo os poderes que eu
herdaria dela.
     _ Minha nossa, senhora senhorita Anna! Isso é grave. Esse homem não pode, de forma alguma,
casar-se com a senhorita. Com certeza fará da sua vida e a de Maria um verdadeiro inferno. Pode
contar comigo para o que der e vier a partir de agora.
     _ Sei disso, Joseph. Por isso, hoje mesmo escreverei uma carta para a irmã de Maria. Quero
que os dois fujam daqui ainda no próximo final de semana. Agradeço-o imensamente pelo apoio
que me está dando.
     Joseph respondeu-me um pouco apreensivo em relação à suposta fuga:
     _ Não podemos fugir, senhorita Anna. Somos adultos e não fizemos nada demais. Não é
correto fugir como dois criminosos.
     _ Joseph, sabemos disso. Mas, quando o conde revelar a meu pai quem foi a minha mãe e
quem sou, por certo ele culpará Maria e a entregarão à Inquisição. Agora não é hora de ter orgulho.
É hora de pensar somente em Maria e no povo dela. Pois, no diário de minha mãe, também há um
mapa ensinando o caminho até a casa da família de Maria. O certo seria que tentássemos encontrar
o diário e tirá-lo do poder do conde.
     _ Tem razão. Devo pensar em minha amada e no bem estar de sua família. Mas como a
senhorita pretende recuperar o diário de sua mãe?
     _ Isso o senhor deixe comigo.
     Viramo-nos automaticamente, pois Maria chegou e interrogou-nos, toda desconfiada.
     _ O que estavam tramando em minhas costas?
     Rimos, pois sentimos o tom de ciúmes em sua voz. Contei-lhe, então, quase tudo que
conversávamos. Ela nos olhou matreiramente, suspeitando que não estivéssemos falando totalmente
a verdade. Porém, nada disse. Então, Joseph, percebendo aquele ciúme todo, abraçou Maria. Ela lhe
disse:
     _ Ora, deixa de assanhamento, homem! Ponha-se em seu lugar.
     Joseph riu às gargalhadas. Achou graça porque Maria mal havia se acertado com ele e já estava
enciumada daquele jeito. Depois de nos despedirmos dele, voltamos as duas para dentro de casa.
Pedi à Maria que cuidasse do cozimento das ervas, pois deveriam estar prontas para o ritual. Subi
para o meu quarto, pois precisava achar uma veste apropriada para que eu e Maria usássemos no
ritual. Infelizmente, não tinha nada apropriado. Fiquei imaginando onde encontraria algo.
     Caminhei em direção à janela para abri-la e, ao olhar para baixo, vi que a carruagem do conde
estava parando em frente à entrada da casa. Fiquei imaginando o que aquele homem poderia estar
fazendo ali se os donos da casa não estavam presentes.
     Não demorou muito e Maria subiu correndo para me avisar que o conde estava pedindo para
falar comigo imediatamente.
     _ O que esse maldito ainda quer comigo, depois de tudo o que aprontou?
     _ Não sei, senhorita. Mas, com certeza, não a deixarei sozinha com ele novamente.
     Descemos juntas e de mãos dadas. Ao entrar na sala de estar, o conde estava me esperando e
veio todo faceiro ao meu encontro, dizendo:




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ Senhorita Anna, fico feliz em vê-la de pé! E como foi que teve tão rápida melhora? O doutor
falou-me ontem que a senhorita estava muito debilitada e talvez não se recuperasse tão rápido.
     _ Vai ver foi um engano médico, ou quem sabe um milagre divino!?
     Ele se aproximou para beijar-me. Mas, graças a Deus, deu um passo para trás, porque Maria
entrou em sua frente. O conde olhou para ela, furiosamente, e disse:
     _ Vejo que a senhora zela muito bem a minha noiva.
     _ Por certo que sim, pois a criei como uma filha.
     _ E a senhora e minha noiva vão sempre juntas a todos os lugares?
     _ Sim. Essa também é uma das minhas funções nessa casa. Mas, acredite: faço isso por mero
prazer e amizade à senhorita Anna.
     _ Acredito que sim. Mas andei investigando um pouco sobre a sua história e soube que a
senhora não é muito de frequentar a igreja, assim como a mãe da senhorita Anna. Não é mesmo,
minha noiva querida? Dizem que ela era uma mulher muito misteriosa e quase nunca era vista na
cidade. O gosto de sua mãe por coisas exóticas era muito suspeito, não? – disse, dirigindo-me a
palavra.
     Por minha vez, não pude ficar calada e respondi:
     _ Aonde o senhor conde está querendo chegar? Nós duas já estamos cientes de que o senhor
sabe do nosso segredo. O que o senhor quer realmente nesta casa a essa hora?
     _ É por isso que gosto da senhorita, porque é uma mulher inteligente. Mas, já que tocou no
assunto, quero que peça à sua governanta que se retire da minha frente, pois tenho o direito de ficar
sozinho com a minha noiva.
     No entanto, ressaltei:
     _ Direito a que? De ficar com uma mulher em cuja bebida o senhor teve a coragem de mandar
que misturassem entorpecente para que assumisse um compromisso com o senhor, sem ao menos
saber o que estava fazendo?
     _ Como a senhorita é esperta! Já que agora conhece como posso ser perigoso, poderia
simplesmente fazer o que estou lhe pedindo, ou vai querer que eu pegue esta maldita mulher e a
entregue à Inquisição agora mesmo? - disse isso, passando por trás de Maria e colocando um
punhal em sua garganta.
     Gelei ao vê-la no poder daquele assassino e disse-lhe, suplicando pela vida de Maria:
     _ Por favor, senhor conde, não machuque Maria. Ela é uma boa pessoa e não fez nada para o
senhor. Diga-me o que tenho que fazer para que o senhor nada faça a ela.
     _ Agora, sim, parece que vamos chegar a um acordo. Peça à sua governanta que saia daqui e
acompanhe-me até onde estou hospedado.
     _ Está bem, senhor conde. Vou com o senhor. Mas, por favor, liberte Maria agora.
     Maria, ao se ver livre daquele homem, saiu correndo para o jardim, enquanto eu e ele seguimos
atrás. O conde estava falsamente abraçando-me, mas o punhal estava em minhas costas. Foi
quando, de repente, avistei a carruagem de meu pai, que estava chegando com a condessa e o padre
Ignácio. Nunca fiquei tão feliz por ver a condessa e meu pai e, principalmente, o padre. Logo que o
cocheiro abriu a porta da carruagem, padre Ignácio desceu e, parecendo perceber que havia alguma
coisa errada, perguntou:
     _ Interrompemos alguma coisa, senhorita Anna? Não sabem que não fica bem que uma jovem
fique a sós com seu noivo na ausência de seus familiares?
     Aproveitei aquela situação e corri para abraçar o padre, livrando-me, assim, daquele monstro.
O padre, parecendo perceber que algo estava realmente errado, falou ao meu ouvido:
     _ Acalme-se, minha filha. Seja o que for que estava acontecendo, a senhorita agora está a
salvo.
     Por fim, o padre Ignácio falou, dirigindo-se ao conde:
     _ E então, meu filho, o que tem a me dizer sobre o que citei?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ O senhor tem razão, padre. Não deveria ter vindo aqui. Mas, realmente, não sabia que o
senhor Juan e a condessa não estavam em casa. Peço desculpas a todos pelo meu mau
comportamento, mas quero que saibam que foi sem querer. – disse, olhando para o meu pai e a
condessa, aparentemente atônitos.
     Seguiram todos para dentro e fui atrás deles, acompanhada do padre Ignácio e de Maria. Padre
Ignácio, durante o trajeto, disse-me:
     _ Quero que a senhorita vá à igreja e conte-me exatamente o que está se passando nesta casa.
     _ Não está acontecendo nada, padre. - olhei para Maria, que ainda estava amedrontada devido
ao fato ocorrido.
     Padre Ignácio, então, complementou aquela pergunta:
     _ Então por que quando a abracei estava tão gelada?
     _ Deve ter sido impressão do senhor, padre. Não há nada de errado comigo.
     _ Está bem. Se não quer ir à igreja para se confessar, daremos um jeito para que me conte hoje
mesmo. Quem sabe descubro um jeito de ajudá-la?
     Fomos todos para a sala de estar. Meu pai mandou servir um chá com bolo para o padre. O
assunto foi sobre os pregões do meu casamento. Eu, sentada ao lado do padre Ignácio, ali fiquei até
que ele se retirasse. O conde, no entanto, lançava-me olhares fulminantes. Até que, por fim,
resolveu acompanhar padre Ignácio e foi embora. Porém, padre Ignácio não deu muita importância
para o conde e deixou que ele fosse embora na sua frente. Meu pai ofereceu ao padre a carruagem
para levá-lo até a cidade. Acompanhei-o até ela. Foi aí que abri meu coração ao padre Ignácio,
dizendo tudo que estava acontecendo. Ele, depois de me ouvir atentamente, disse-me:
     _ Minha filha, vou entender a sua história como uma confissão. Pois, caso contrário, estaria
pondo a sua vida em perigo. Tenha cuidado com esse homem, pois me pareceu muito perigoso.
Quanto ao diário de sua mãe, deixe comigo: darei um jeito para tirá-lo do poder do conde.
     Beijei as mãos de padre Ignácio em forma de agradecimento.
     _ Não tenho como agradecê-lo, padre! Mas como o senhor irá recuperar o diário de minha
mãe?
     _ Não se preocupe com isso, minha filha. Também tenho os meus segredos e métodos para
conseguir o que preciso. Só lhe digo uma coisa: o diário de sua mãe não voltará para suas mãos. Ele
será destruído para a segurança de todos nós.
     Dizendo isso e subindo na carruagem, o padre deu-me sua bênção e partiu.
     Já dentro de casa, tentei respirar mais tranquila. Por fim, procurei por meu pai, que estava na
sala de estar com a condessa.
     _ Pai, posso ter uma conversa em particular com o senhor?
     _ Pode dizer-me o que quiser na frente de minha esposa, pois nada tenho a esconder dela.
     _ Quero pedir permissão ao senhor para matar um leitão e fazer uma rodada de banjo esta
noite.
     _ E para que devo dar permissão para este evento? O que está querendo comemorar?
     _ Nada demais, pai. Mas, como fiquei noiva e os criados não puderam participar, quero dar a
eles a alegria de também terem uma festa.
     A condessa, ruim a valer, disse:
     _ Era só o que nos faltava, Juan! Sua filha agora, além de andar com indigentes, quer dar uma
festa para os criados.
     Ignorei o que ela dizia e prossegui:
     _ Pai, é aniversário de Maria. Queria dar-lhe esse presente. Não negue isso a ela, que sempre
lhe foi fiel.
     _ Está bem, mas que limpem tudo quando terminarem. E diga-lhes que fui eu que dei
autorização, mas que não se habituem com isso.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     A condessa fuzilou-o com os olhos e saiu em direção ao quarto. Imediatamente, corri até Maria
para contar-lhe a novidade. O resto, dali para frente, seria com ela. Depois de ter contado a ela
sobre o que padre Ignácio prometeu-me que faria, dei-lhe um beijo na testa e fui para o meu quarto.
Tranquei a porta pelo lado de dentro. Fiquei horas em pé, ali, encostada nela. Senti o suor
escorrendo frio na minha testa. Era como se eu estivesse vivendo tudo novamente. Não sabia o que
fazer para me livrar daquele homem perverso e matreiro. E o que era pior: com poderes para
condenar um ser humano pelo mais horrível crime que ele não houvesse cometido. Pela primeira
vez em minha vida, senti o cheiro da morte. Era como se todas as minhas ancestrais estivessem ali,
tentando dizer-me como era o medo e a dor que sentiram através daquele cheiro de cipreste que
estava no ar. Eu tremia tanto que dava para ouvir meus dentes batendo. Fiquei em estado
catatônico, encostada na porta do meu quarto.
     Fui interrompida em meus pensamentos por Maria, que batia levemente à porta. Virei-me para
abri-la. Por fim, depois de fitar-me, ela disse:
     _ Em primeiro lugar, quero agradecê-la por tudo que fez por mim e por Joseph. E em segundo
lugar, quero dizer-lhe que entenderemos se a senhorita não descer para a festa, pois dado tudo que
fez por nós e a situação que viveu hoje, não é justo que se exponha ainda mais.
     Não pude responder-lhe porque a condessa entrou em seguida e logo foi dizendo:
     _ Sabia que encontraria as duas feiticeiras juntas, tramando algo contra a moral e os bons
costumes.
     Gelei ao ouvi-la falar daquele jeito. Não podia ser que ela também soubesse do meu segredo e
de Maria. Por fim, respondi, fingindo apatia:
     _ Não estamos tramando absolutamente nada. Estávamos só conversando coisas que não lhe
dizem respeito. E de onde foi que a senhora tirou essa história louca de que somos feiticeiras?
     _ Ah, claro! Estavam combinando com qual traje elegante irão à festa dos plebeus, que
resolveu dar para essa gente imunda.
     Naquele momento, Maria tomou a palavra e, pela primeira vez em sua vida, enfrentou a
condessa, exigindo respeito:
     _ Senhora condessa, sempre lhe tratei com o devido respeito, embora não merecido. Mas não
vou mais permitir que trate meus amigos desta forma, sejam eles quais forem.
     _ Insolente! Ponha-se no seu lugar e só se dirija a mim quando eu lhe der permissão. Pois saiba
que, para mim, sua festinha medíocre só será realizada porque meu marido não tem noção do
ridículo. Caso contrário, ela nunca se sucederia. Ande, vá, passe da minha frente! Volte para o seu
lugar, junto aos seus e aos seus afazeres de criada.
     Dizendo isso, a condessa foi saindo porta afora. Percebi, então, que Maria não estava no seu
melhor dia e que, a qualquer momento, poderia pôr tudo a perder por causa de alguém que não
valia a pena. Segurei sua mão no exato momento em que ela agarraria os cabelos da condessa. A
condessa virou-se para trás e, parecendo não perceber nada, disse:
     _ Ainda esta aí, criatura inútil? Quer que me queixe com Juan? Posso dizer que nada faz além
de fuxicar o dia todo, e que já está velha e caquética para dar conta do serviço. Por exemplo: uma
boa governanta não deixaria seus subalternos tão relapsos. Veja todo esse pó! Esse quarto está
parecendo uma pocilga. Não que ele não seja o tipo de ambiente adequado para a minha enteada. -
olhou para mim com ar zombeteiro, tentando tirar-me do sério - o que quase conseguiu.
     _ Se inventar qualquer coisa que seja contra Maria, terei que expor suas andanças obscuras na
ausência de meu pai. Garanto-lhe que provas e testemunhas não me faltarão.
     _ Está me ameaçado, criatura dos infernos?
     _ Pode ser que sim, pode ser que não... Só irá depender da forma com que a senhora procederá.
     _ Ainda vou conseguir provas para entregá-la à Inquisição e terei o maior prazer em vê-la
morrer queimada.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ Não duvido! Pessoas como a senhora fazem qualquer coisa para calar a boca da verdade.
Mas está se esquecendo de uma coisa: adultério também é considerado um crime hediondo pela
Inquisição. O inquisidor pode vê-la como uma possuída pelo demônio - o que não é nenhuma
novidade. Por que a senhora não para de insinuar coisas sobre mim e Maria e vai logo ao que
interessa?
     _ Ainda não tenho provas, como disse, mas tenho desconfiança de que está envolvida com
bruxaria e artes do demônio.
     _ E o que a faz pensar desta forma?
     A condessa enfiou a mão no seu decote e tirou um medalhão. Ao ver aquilo, empalideci. No
dia em que fui ao quarto de minha mãe, trouxe junto com o diário alguns pertences dela. Junto
deles estava aquele medalhão que, de alguma maneira, havia parado nas mãos da condessa. Olhei
para Maria, que estava totalmente pálida também. Então, fingindo uma falsa frieza, respondi:
     _ Onde foi que a senhora achou esse medalhão e a quem ele pertence?
     _ Interessante, não é? Achei aqui em seu quarto. Então, isso quer dizer que só pode pertencer a
uma das duas. – disse, suspendendo o medalhão na mão.
     _ Então isso quer dizer que a senhora invade o meu quarto na hora em que bem entende? Saiba
que este medalhão não me pertence e que pode muito bem ter sido a senhora que o colocou aqui
para me acusar levianamente.
     _ Levianamente ou não, vou conseguir provar que a senhorita está envolvida com a arte do
demônio. Este medalhão é uma prova disso.
     A condessa, então, virou-se novamente em tom de arrogância para Maria, dizendo:
     _ Ande, criada! Não fique aí, em pé, como um dois de paus. Siga-me. Tem muito serviço a
fazer. Caso contrário, não poderá participar da sua festa de plebeus.
     Em seguida, para me perturbar mais um pouco, ela falou:
     _ Até breve, minha enteada querida. Em breve irei vê-la queimando no inferno, onde é o seu
lugar.
     _ Não se preocupe. Estarei lá esperando pela senhora, que também é vista pela Inquisição
como uma discípula do demônio.
     _ Então agora também está me acusando levianamente?
     _ Não. Só estou mostrando que, em questão de pré-julgamento, o inquisidor, a Igreja e o povo
veem-nos de maneira semelhante. Estamos caminhando para a mesma fogueira. Se tivermos sorte,
queimaremos juntas.
     Ela bufou como um touro selvagem. Eu detestava ter que agir do mesmo modo que ela, mas
era a vida da minha amiga que estava por um fio. Maria seguiu-a para não mais causar confusão.
Pude ouvir os gritos histéricos da condessa com Maria no corredor.
     Minha vida estava parecendo um pesadelo. Botei as mãos no rosto, sem saber que rumo tomar.
Precisava ter forças para mim, para Maria e para todos que me cercavam. Não aguentava mais ficar
trancada naquele quarto, sem nada para fazer. Pelo jeito, não poderia participar da festa de noivado
de Maria e Joseph, para não levantar suspeitas de que ambos ficariam comprometidos. Pois, para o
meu pai, a festa era para comemorar o aniversário dela. Fiquei andando pelo quarto, de um lado
para o outro, como uma barata tonta, sem ter o que fazer. Até que Maria voltou, trazendo Joana e
também um balde de água para eu tomar banho. Maria parecia ter adivinhado que eu precisava
relaxar e, logo após Joana sair, colocou na água da tina um líquido que, segundo ela, far-me-ia
relaxar completamente. Enquanto me despia para submergir dentro daquele líquido, ela falou:
     _ Se não fosse pela senhorita, hoje, por certo, eu teria perdido as estribeiras. Já não aguentava
mais vê-la ofendendo a senhorita e eu daquela forma.
     _ Percebi, Maria. Só que teremos que ter muita cautela de agora em diante, ou poremos tudo a
perder. Preocupo-me contigo, pois tem muito mais a perder do que eu.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

    _ Não diga uma tolice dessas. Ambas temos muito a perder. Só não sei se não farei um feitiço
para me vingar da condessa, pois ela conseguiu hoje me tirar do sério.
    _ Não diga isso, Maria. Sabe que não deve criar energias negativas em volta da senhora. Limpe
seu coração. Não desperdice o poder da magia com uma pessoa tão medíocre como a condessa,
pois não vale a pena. Lembre-se de que temos o livre arbítrio, e essa escolha é somente sua.
    _ Sei disso. Mas, se temos o livre arbítrio, por que ela não escolheu o lado bom e menos cruel?
    _ Tudo bem, então. Concedo-lhe a permissão para usar apenas um pequeno feitiço para dar à
condessa uma lição. Mas tem que me prometer que me dirá o que é.
    _ Ainda pensarei o que será, mas lhe direi, com certeza. Agora preciso descer, ou terei que
fazer um chá para a senhora. Seria tão bom se pudesse fazer um dos meus preparos especiais...
Daqueles que fazem pessoas como ela dormir para sempre!
    _ Maria! Nem brinque com isso. Poderíamos ser jogadas em óleo fervente só de ouvir-nos
dizer tal barbárie.
    Ela saiu, rindo como uma bruxa que era. Fiquei pensando, quando ela fechou a porta, no
quanto uma pessoa sozinha pode contaminar tudo de bom ao seu redor. A condessa despertou em
Maria o seu lado negro e perverso e, mesmo que ela nunca colocasse em prática, já havia sido
contaminada. Se isso acontecesse com outra pessoa de caráter fraco, com certeza ela teria criado
uma raiz maligna em seu coração.
    Adormeci profundamente dentro daquela água quentinha e relaxante. Despertei, assustada,
com uma voz rouca falando muito próxima ao meu ouvido:
    _ Que pele macia, senhorita Anna! Aposto que estava sonhando comigo.
    Dei um salto dentro d’água, tentando esconder-me daquele invasor.
    _ O que está fazendo aqui, senhor conde? Como se atreve a invadir a privacidade de meus
aposentos?
    _ Não consegui resistir quando ouvi a senhora Maria comentando com o jardineiro que a
senhorita estava no banho. Aproveitei-me da oportunidade de todos estarem entretidos com os
preparativos da festa e subi para vê-la em seu estado natural. Confesso que não poderia ter uma
visão melhor, depois de uma noite tão estafante como a de ontem e um dia tão decepcionante como
o de hoje.
    _ Saia daqui agora ou chamarei meu pai para retirá-lo pessoalmente!
    _ Senhorita Anna, seu pai tem dívidas muito altas comigo. Se vier atender seus apelos de
donzela em perigo, por certo fará olhos e ouvidos de mercador. E ainda tem um outro fator: por que
não trancou a porta de seus aposentos? Por certo estava esperando que eu subisse. Ninguém
acreditará na senhorita. Então, só lhe resta ser boazinha.
    Ele colocou a mão dentro da banheira, tocando meu corpo nu. Senti-me congelar dentro da
água quente. Meu fôlego estava se esvaindo.
    _ O senhor é um crápula e enoja-me.
    Ele segurou meu rosto com toda a força, deixando-me completamente sem nenhuma reação.
Naquele momento, a condessa entrou no meu quarto e flagrou-me no exato momento em que o
conde tocava-me intimamente. Definitivamente, aquele não foi um bom dia para mim. A condessa,
usando de suas ironias vulgares, disse:
    _ Ora, ora! Mais que cena mais fascinante e romântica. O jovem conde e a bruxa, juntos em
um lânguido caso amoroso. Imagina só se não é a mesma bruxa que anda me desafiando e me
acusando de leviandades! O que pensaria seu pobre pai se entrasse neste exato momento? Por certo,
não ouviria nenhum argumento notório.
    _ Não é o que está pensando. – eu disse, tentando afastar aquele homem, que não saía de perto
de mim.
    _ E como sabe em que estou pensando? Ah! Havia esquecido: também lê pensamentos, não é,
bruxa maldita?




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     Levantei-me da banheira, sem me preocupar com minhas condições de nudismo. O conde
olhou-me como um cão cheirando o cio. A condessa, com desprezo. Peguei a toalha e disse-lhes:
     _ Saiam os dois do meu quarto, agora! Antes que eu comece a gritar por socorro! E garanto
que será muito agradável ver os capatazes de meu pai tirando-os daqui para fora aos safanões.
     _ Se sua madrasta não nos tivesse interrompido, teríamos nos divertido muito. – disse o conde,
dando uma gargalhada que mais parecia ser um eco vindo do inferno, enquanto se retirava dos
meus aposentos.
     A condessa seguiu-o e parecia haver cumplicidade entre aqueles dois a respeito daquela
situação. Fechei a porta - com chave desta vez - e pude ouvi-los do lado de fora.
     _ Espero que tenha conseguido pelo menos fazer seu trabalho decentemente.
     _ Se a senhora não tivesse chegado tão em cima da hora e pudesse ter guardado sua
curiosidade, por certo eu teria ido até o fim.
     _ Ela não cederia assim tão fácil.
     _ Não mesmo? Não conhece os meus métodos de persuadir uma dama?
     _ Hum! Por certo não foram tão eficazes.
     Depois de um tempo, não consegui ouvi-los mais, pois se distanciaram a caminho das escadas.
Mas de uma coisa estava certa: os dois estavam juntos naquela trama. Ambos davam-me náuseas.
Arrumei-me rapidamente, sem dar importância ao luxo. Coloquei apenas um vestido de renda
branca e um xale bege para proteger-me do frio da noite. Desci as escadas, com medo de ser
recepcionada pelos dois crápulas no meio do caminho. Corri para os aposentos de Maria, que
estava se aprontando para a festa.
     _ Senhorita Anna! Não deveria estar aqui. É muito arriscado, depois de tudo que passou hoje.
     _ Arriscado é ficar sozinha no meu quarto. Não faz ideia do que tive que passar até decidir
estar aqui agora.
     Contei à Maria tudo que havia ocorrido.
     _ Então, senhorita Anna, não saia de perto de mim. Se possível, durma aqui hoje.
Definitivamente, temos que dar uma lição em sua madrasta. Ela não pode continuar do jeito que
está, pensando que pode fazer o que quiser com todas as pessoas.
     _ Olhe, Maria, até agora tenho escondido da senhora o meu plano. Mas, pelo que vejo, terá que
estar ciente dele para também poder se defender. Preste bem atenção, pois não quero que tenha
nenhuma dúvida. E quero que saiba que essa é a minha decisão final. Joseph está apoiando.
Portanto, só falta que a senhora se entere do meu plano agora.
     Expliquei todo o plano à Maria, que me ouviu atenta. O plano era o seguinte: Joseph esperaria
por Maria na saída do bosque dos mortos, enquanto eu e Maria faríamos o ritual da chuva,
normalmente. Assim que o ritual terminasse, ela sairia e se encontraria com Joseph no local
combinado. Eu, porém, ficaria no lugar onde realizaríamos o ritual da chuva. Depois de limpar
tudo, rasgaria minhas vestes, jogaria sangue de galinha em cima de mim, e fingiria um desmaio.
Assim, quando o conde, a condessa e meu pai chegassem com a milícia, pensariam que fui vítima
de um ritual de magia negra. Fingiria estar tendo convulsões até que eles me levassem em
segurança para casa. Quando lá já estivesse, daria um jeito de tomar um remédio que eu mesma
haveria de preparar para que dormisse até o dia seguinte - o que daria tempo de Joseph e Maria
escapar. Quando eu acordasse, começariam as interrogações e eu diria que não conseguia me
lembrar de absolutamente nada. Diriam que eu estava sob influência demoníaca e chamariam por
padre Ignácio. Então, eu contaria todos os fatos a ele e pediria que ele dissesse que a única solução
seria que me internassem em um convento, em São Francisco, onde eu poderia cumprir o restante
do meu destino.
     Logicamente, não diria que Maria era a culpada. Eu diria a todos que ela fugiu com Joseph
porque ambos estavam com medo e não queriam compactuar comigo naquele tipo de insanidade.
     Maria, depois de ouvir-me atentamente, falou:




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Esse seu plano é muito arriscado, senhorita Anna. E pode não funcionar da maneira como a
senhorita imagina. E quanto ao diário de sua mãe? E se padre Ignácio não conseguir recuperá-lo?
     _ Já pensei nisso também, querida Maria! Esse será o plano dois. Caso isso ocorra, direi a
todos que fiz tudo porque estava influenciada pelas palavras do livro. Minha mãe há de me perdoar
por essa mentira, mas tenho que encontrar o meu grande amor e não posso, de forma alguma,
deixar que me obriguem a casar-me com aquele assassino.
     _ Vejo que a senhorita pensou em tudo mesmo! Mesmo assim, ainda é arriscado deixá-la com
esse homem e sua madrasta. Não sei como Joseph pôde aceitar fazer o que a senhorita lhe pediu.
Ambos perderam a noção do real perigo, é? Vou procurar Joseph imediatamente e cancelar isso
tudo.
     _ De jeito nenhum! Fará tudo como o combinado e fugirá no dia do ritual da chuva - amanhã.
Confie em mim, Maria, tudo dará certo.
     _ Senhorita Anna, e se não acontecer assim como esperamos? Confio na senhorita, mas não
confio no diabo e nas pessoas que são usadas por ele.
     _ Tenha calma, minha amiga. Acontecerá exatamente do jeito que estou planejando, acredite!
Preparei um sortilégio do tempo que fará tudo acontecer como quero. Agora, deixe-me vê-la.
Hum... Está linda! Joseph é mesmo um homem de muita sorte.
     Dei-lhe um beijo e abracei-a muito forte, pois estava chegando a hora de nos despedirmos de
nossa amizade. Maria percebeu isso em meu abraço e chorou. Porém, sequei suas lágrimas com a
ponta dos meus dedos e disse-lhe:
     _ Seja forte, mulher! Escolhi esse destino. Sei que o que estou fazendo é errado, pois estou
antecipando-o e interferindo no tempo e no espaço. Mas isso é o melhor a fazer. Caso contrário, a
senhora será crucificada pela Inquisição.
     Depois de dito isso, acompanhei-a até o jardim, onde Joseph a esperava. Todos celebraram
contentes, sem saberem de nada. Às vezes, percebia no olhar de Maria certa tristeza. Mas o restante
da noite foi muito tranquila. A música durou até alta madrugada. Samara, que estava presente com
a mãe, fez-me companhia o restante da noite, porque Maria tinha que dar atenção aos seus
convidados.
     Maria seria muito feliz ao lado de Joseph. Ela iria se casar com um homem pobre, mas que
pôde escolher. Não seria uma união baseada em imposições ou chantagem. Estava muito feliz por
minha amiga. Ela, definitivamente, merecia ter um pouco de felicidade.
     Não conseguiria me ver jamais ao lado de um homem por conveniências. O simples fato de
pensar que poderia ser tocada todas as noites por alguém pelo qual não sentia absolutamente nada
me embrulhava o estômago.
     Às três da madrugada, a festa cessou e todos se retiraram para suas casas. Alguns criados ainda
ficaram ajeitando tudo, para deixarem tudo em ordem para o dia seguinte. Eu e Maria fomos para
os aposentos dela. Naquele dia, dormi no quarto de Maria para evitar novos contratempos.
Confesso que foi a melhor noite que já tive em toda a minha vida. Quando amanheceu, Maria
levantou-se e não quis me acordar. Foi cumprir seus afazeres. Seria uma semana longa para ela.
     Às nove horas, levantei-me, vesti-me e fui à cozinha para comer alguma coisa. Percebi que
todos estavam muito felizes e Tereza cantarolava. A festa havia surtido um efeito positivo no
coração dos criados. A copeira, ao ver-me, saiu de mansinho. Percebendo que ela iria fazer alguma
coisa, segui-a. Não estava enganada: encontrei-a junto à condessa, levando informações sobre mim.
Cheguei de mansinho por trás das duas e falei:
     _ O que a senhora está ganhando em dar informações sobre mim à senhora condessa e ao
conde? Sei muito bem o que a senhora fez. Sei que colocou entorpecentes na minha bebida.
     As duas não souberam o que me responder. Prossegui:
     _ É assim, condessa, que a senhora consegue informações a meu respeito? A senhora usa de
métodos baixos, subornando essa pobre infeliz. Mas diga a ela que, quando ela não tiver mais




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

nenhuma utilidade para a senhora e o conde, vão descartá-la da mesma forma como está tentando
fazer comigo. Sinto muita vergonha das senhoras, pois ambas são mulheres e estão sujeitas a
passarem pelos horrores da Inquisição. Mas, mesmo assim, julgam-se no direto de inventarem
falsas acusações para me condenarem a um destino tão cruel.
     A copeira, ao ouvir minhas palavras, caiu em choro profundo e disse-me:
     _ Desculpe-me, senhorita Anna. Mas a condessa disse que me despediria caso não fizesse tudo
o que ela me pedisse. Tenho uma filha que não se levanta da cama e depende muito de mim. A
condessa disse que pode dizer aos inquisidores que minha filha está daquele jeito porque está
possuída por espíritos imundos. Desculpe, senhorita, mas minha filha é muito importante para mim.
Nada tenho além dela. Sou viúva e não tenho outro meio de sustentá-la além desse trabalho.
     _ Nada neste mundo justifica o que a senhora está fazendo comigo, pois nada lhe fiz. Por que a
senhora não me contou isso antes? Talvez eu pudesse ajudá-la. Sinto muito, senhora Cornélia, mas
não consigo achar uma justificativa para que me tenha traído. Logo a mim, que sempre fui tão
gentil com senhora.
     Saí, deixando as duas para trás. Ainda pude ouvir quando a condessa gritou com a mulher
como uma louca. Encontrei Maria no caminho e chamei-a para ir à igreja comigo. Ela concordou de
imediato. Pedi a Lorenzo que atrelasse os cavalos à carruagem. Em seguida, fui pedir permissão ao
meu pai, que autorizou sem fazer muitas interrogações. Logicamente, disse-lhe que seria para tratar
de assuntos do meu casamento com o conde.
     Depois de tudo estar pronto e Maria já ter dado as ordenanças à criadagem, seguimos para o
portão, onde Lorenzo nos esperava. Foi aí que tive outra ideia súbita. Voltei e perguntei a Joseph se
ele poderia nos acompanhar até a igreja, pois precisava marcar a data do casamento dele com
Maria. Ele disse:
     _ Bom, acho que os patrões não vão precisar de mim agora. - aceitou.
     Chegamos à igreja em pouco tempo, pois Lorenzo resolveu correr com os cavalos. Deixei o
casal rezando enquanto procurava por padre Ignácio. Ao avistá-lo, ele veio em minha direção e
perguntou-me:
     _ Aconteceu algo, minha filha?
     _ Não, padre. Nada que o senhor já não saiba. Viemos aqui pedir um favor ao senhor, mas terá
que atender a esse pedido meu o mais rápido possível!
     Contei ao padre que Maria e Joseph haviam ficado noivos em sigilo. E pedi-lhe se poderia,
naquele momento, realizar o casamento religioso dos dois para que não vivessem em pecado. O
padre olhou-os sentados no banco da igreja e chamou-os:
     _ Então, meus filhos, estou ciente de que querem se unir. Isso é verdade?
     _ Sim, senhor padre. - disse Joseph.
     _ E o que acham se eu lhes casasse agora?
     Joseph olhou para Maria e ambos concordaram entre si. Ele respondeu:
     _ O senhor nos faria essa caridade?
     _ Tratando-se de duas pessoas maduras, cientes dos sentimentos que se sentem um pelo outro,
por que não?
     Padre Ignácio vestiu-se a caráter para aquela cerimônia. Prosseguiu com aquele ritual, que não
demorou muito. Ele os abençoou e, em seguida, disse:
     _ Estão casados agora diante de Deus e da Igreja. Nada poderá separá-los.
     O mais novo casal foi dar uma volta pela cidade, enquanto fiquei na igreja, conversando com
padre Ignácio. Ele, porém, disse:
     _ Que bom, senhorita, que ficou aqui na igreja comigo. Precisava mesmo ter uma longa
conversa com a senhorita. Andei sabendo que a Inquisição está investigando até mesmo a casa da
parteira Magdalena e da viúva Dolores, do senhor Gustave e dos irmãos Johnson também.
     _ E o que fizeram de tão grave para merecerem ser investigados pela Inquisição?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ A parteira Magdalena, dizem, usa rezas estranhas na hora de fazer seus partos. Os boatos em
torno desta mulher é que as crianças que ela trouxe ao mundo têm tido comportamentos estranhos.
A viúva Dolores está vendendo xaropes, cataplasmas e poções para unir casais. Dizem que ela e
suas filhas estão sendo usadas pelo próprio demônio para se sustentarem. O senhor Gustave, dizem,
está usando rezas diabólicas para curar as supostas enfermidades alheias. Por fim, os irmãos
Johnson, dizem, não saem dos tabernáculos. À noite, estão sempre sendo vistos rodeados por
mulheres de conduta duvidosa, sempre embriagados, rodopiando pelas ruas. Usam nomes feios
quando passam pelas senhoritas de boa família. Não estão respeitando nem mesmo as senhoras
casadas. A comunidade está preocupada com que possam estar influenciados por algum tipo de
demônio sedutor e promíscuo, que está usando a boa aparência dos rapazes para seduzir as donzelas
e as senhoras do vilarejo.
     _ E o senhor, padre Ignácio, o que realmente acha disso tudo?
     _ Prefiro ser agnóstico neste caso e deixar que a justiça civil faça sua sentença.
     _ Hã? O senhor quer dizer que prefere ficar em cima do muro como um covarde?
     _ O que posso eu, um simples padre de uma pequena paróquia, fazer? Já não são muitos os
paroquianos que me aceitam. Por eu ter vindo de outra província e ter ideias divergentes, sou
considerado por eles um padre anarquista. Por não ser um homem de idade avançada e não ter
nascido na Espanha, sabe muito bem que passo por muitas dificuldades. Se eu interferir nestas
questões da Inquisição, então, serei por certo excomungado. Senhorita Anna, sei como se sente em
relação a toda essa desigualdade. Mas o mundo, principalmente o mundo masculino, envolve
muitos preceitos e regras. Sabe que as mulheres são muito visadas e não devem sair por aí,
expondo-se de qualquer maneira. A Igreja tenta ser branda nestes casos. Mas há muita pressão
política e socioeconômica que envolve todas essas questões. O financeiro do mundo fala mais alto.
A Igreja vive de verbas e, embora tenha uma boa influência sobre a monarquia, ainda assim
recebemos ordens superiores. Infelizmente, senhorita Anna, não posso opinar nestes casos.
     _ Mas, no fundo, o senhor sabe que essas pessoas são inocentes?
     _ Até que provem o contrário, sim.
     Senti-me tão impotente como o padre Ignácio. Se não poderíamos ter uma parteira, por que
então os doutores não atendiam gratuitamente as mulheres pobres da vila? Se Deus escrevia certo
por linhas tortas, por que não deixavam a viúva Dolores e o senhor Gustave curarem da maneira
que Deus lhes tinha permitido? E quanto aos irmãos Johnson, eram jovens demais e tinham vindo
recentemente do mar. Queriam gastar seu dinheiro promiscuamente, se assim fosse. Mas a vida
alheia sempre incomodava. Pois, desta forma, era mais fácil esquecer os próprios problemas, e - é
claro - desviar a atenção alheia para outro lado.
     Mediante aquela conduta acovardada de padre Ignácio, percebi que não poderia contar mais
com a ajuda dele. Colocaria em prática, então, o plano dois. O padre, percebendo que eu estava
absorta em meus pensamentos, chamou-me:
     _ Senhorita Anna!
     _ Sim, padre Ignácio. Perdoe-me, distraí-me em meus próprios pensamentos. O que estava
mesmo falando comigo?
     _ Estou preocupado no momento é com a senhorita. Se a Inquisição virar-se para sua pessoa,
não sei o que acontecerá.
     _ Serei levada para um convento!
     _ Se isso acontecer, depois de uma acusação de bruxaria, sofrerá horrores, pois as freiras de
qualquer convento em que lhe puserem obrigá-la-ão a fazer de tudo. Suas penitências serão as
piores, pois sempre lhe acusarão de bruxaria - não importa o que diga ou faça. Quero que me diga:
é uma bruxa ou não?
     _ Se eu disser que sim, entregar-me-á ao inquisidor?
     _ Não estou aqui para julgá-la, mas ficarei atento para ajudá-la no que me for possível.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Sim, sou uma bruxa. Mas, independente do que o senhor possa pensar, não fazemos mal a
ninguém. Não cultuamos o demônio, não comemos criancinhas, não seduzimos homens casados,
não tiramos ninguém de suas famílias. Consideramos o matrimônio um laço sagrado. Nosso
compromisso é com Deus e com as forças da natureza. Não somos santas - ninguém é. Temos um
dever com a humanidade: o dever do bem comum, da caridade sem olhar a quem. Somos
diferentes, porque vocês assim o querem. Porque todo mundo nesta vida tem um quê de bruxa.
     Padre Ignácio deu um passo para trás e tampou a boca, em sinal de espanto.
     _ Santo Deus misericordioso!
     Puxou-me pelo braço, afastando-me ainda mais das pessoas ali presentes.
     _ Senhorita Anna, não diga isso a mais ninguém. Caso contrário, os resultados serão
catastróficos.
     _ Padre, isso não é uma coisa da qual me envergonhe ou pela qual tenha que me sentir mal.
Lógico que não vou sair por aí, dizendo aos quatros cantos da terra que sou uma bruxa.
     O padre tampou minha boca com sua mão em sinal desaprovação ou medo.
     _ Calma, padre. Sei o que o senhor está pensando: que pode perder a batina ou ser
excomungando por ser visto em companhia de uma bruxa. Mas não se preocupe porque, se
depender de mim, ninguém saberá da minha condição.
     _ Não, senhorita Anna. Temo por você mesma.
     _ Nunca negarei quem sou. Nunca mudarei minha maneira de ver as coisas. Nunca me
transformarão em uma pessoa comum e sem vida. Não serei como o gado, padre, nunca. Antes de
respeitar as pessoas, respeito-me. Antes de respeitar as crenças dos outros, respeito meus
princípios. Amai-vos uns aos outros como se amam a si mesmos. Jesus não disse isso?
     _ Sim, filha. Mas pode parecer blasfêmia aos olhos das outras pessoas - principalmente aos
olhos de um inquisidor. É muito jovem para pensar desta maneira e não será compreendida. Tudo
bem que não quer mudar sua maneira de pensar, mas pode fingir para não se prejudicar.
     _ E em que isso me fará ser diferente de todos? Não, o senhor não conseguiria me entender.
Prefiro morrer queimada a me anular como pessoa e como ser humano.
     Ele só fez abaixar a cabeça. Por fim, falou em um tom que mais parecia um sussurro:
     _ Então, sinto não poder fazer mais nada pela senhorita. Só queria poder ter sua coragem.
     _ Hum, talvez não possa intervir por mim. Mas, se não tiver medo de pegar uma doença ou de
ser possuído por um espírito maligno, e se quiser dar-me um abraço, não farei objeção.
     Ele sorriu e disse:
     _ Claro, minha amiga. Saiba que nem acredito nessas superstições.
     Demo-nos um gostoso abraço fraternal. Isso não era para todos. Reparando em sua tristeza,
resolvi fazer um comentário:
     _ E se eu tiver muita sorte, poderei contar com sua visita quando estiver no convento. Afinal,
sabe que só um padre tem permissão de visitar uma pessoa como eu.
     Ele me afastou de seus braços. Olhando-me fixamente nos olhos, indagou:
     _ Por que insiste em dizer que irá para um convento?
     Então, depois de um grande suspiro, contei-lhe tudo o que eu havia passado naqueles últimos
dias.
     _ É bonita a sua história, senhorita Anna. Mas por que acha que o senhor Juan lhe enviará para
o mosteiro de San Francisco?
     _ Em primeiro lugar, para não deixar que a notícia escape e corra o risco de sujar o nome de
sua amada esposa. Em segundo lugar, porque usará toda a sua influência para que eu não seja
queimada viva. Não porque me ama, mas por castigo de eu não querer me casar com o conde, e
também por crer que vou detestar ir para lá. E, em terceiro lugar, por preguiça de procurar algo
mais distante mesmo. Sem saber, ele me estará empurrando para o meu destino.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ E como pode saber que esse suposto monge não é alguém influenciado pelo próprio demônio
para fazer com que peque, desmoralizando o nome da Santa Madre Igreja?
     _ Padre... Muito me admira o senhor falando desta forma!
     _ Tem razão. Não estou aqui para julgar ninguém. Só espero que tenha razão nisso tudo, pois
não gostaria de visitá-la na Crucilândia.
     Rimos e voltamos para o meio dos convidados, antes que outros comentários maldosos
surgissem sobre mim e do pobre padre. Na verdade, eu estava muito satisfeita por ter contado a
alguém além de Maria. Foi como um desabafo.
     Encontrei Maria conversando com seu esposo. Ela era pura felicidade. Essa missão eu já havia
cumprido. Fiquei admirando aquele casal, até que eles se afastassem mais e eu os perdesse de vista.
Mas... alegria de bruxa dura pouco.
     _ Achou que escaparia de mim, querida, escondendo-se atrás da batina de um padreco?
     Não precisei virar-me para saber que era o conde. Virei-me lentamente e respondi-lhe à altura:
     _ Não está sendo um tanto pretensioso em achar que estou fugindo da sua pessoa? - olhei-o de
cima abaixo.
     _ Não pensou desta forma quando tentou me seduzir em seu quarto, ontem à noite, mostrando-
me seu lindo corpo. Formas perfeitas, devo dizer.
     _ O senhor sabe que não foi bem assim.
     _ A senhora sua madrasta estava presente e poderá confirmar minha versão. Sabe que posso
condená-la à fogueira. Posso dizer que o demônio em seu corpo tentou seduzir-me para que não lhe
entregasse.
     _ Senhor conde, em primeiro lugar: o senhor não tem provas suficientes para me acusar de
coisa alguma. Em segundo lugar: sei que não é o inquisidor. Em terceiro e último lugar: sei que
anda de fornicação com minha madrasta. Mas saiba que é preciso muito mais que ter posses, olhos
azuis e vestir calças. Sinto informá-lo de que o senhor vai ter que nascer e renascer para tentar
seduzir-me algum dia. Agora, se me der licença, vou ter com os meus.
     Ele agarrou-me novamente pelo braço, mais fui salva por Lorenzo, que chegou naquele exato
momento e foi logo dizendo:
      _ A senhorita está precisando de ajuda?
     _ Sim, Lorenzo. Este senhor aqui presente estava querendo me forçar a segui-lo.
     _ Sugiro que o senhor solte a moça agora, ou terei que fazê-lo pessoalmente. - disse Lorenzo,
fechando uma das mãos e batendo contra a outra.
     _ Está desafiando minha autoridade, lacaio?
     _ Se for preciso... Posso até ser demitido, mas não deixarei que encoste um dedo na senhorita
Anna.
     _ Vejo que a senhorita Anna tem muitos admiradores. Por hora, vou me retirar. Não me
rebaixarei em lutar com um lacaio aqui, no meio da rua. Mas saiba que vou voltar.
     _ Estarei esperando-o.
     Ele se foi, mais uma vez.
     _ A senhorita está bem?
     _ Sim, Lorenzo. Graças ao senhor.
     _ Não estarei sempre por perto, senhorita. Deve ter cuidado. Por que não conta para seu pai?
     _ Bem que o faria, mas ele está certo de que o conde é um santo e de que, firmando
compromisso entre mim e ele, salvará as finanças. Mas o conde só quer tirar proveito da situação,
desonrar-me e desfazer o compromisso em seguida.
     Lorenzo fechou os punhos e disse:
     _ Que sem-vergonha, mau caráter... Se eu o pegar, juro que o mato.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Não vale a pena, Lorenzo. Pessoas como o conde sempre conseguem o que querem. Por
certo, ainda seria condenado por causa de algo tão sem valor. Tem que pensar em Samara. Por falar
nela, por que não veio?
     _ Ela está terminando o enxoval, junto à mãe. Mas mandou lembranças.
     _ Que bom saber que a mãe dela está bem, e que tudo entre vocês continua encaminhando.
     _ Graças à senhorita! Conheci o amor da minha vida... Sabia que ela está me ajudando com os
estudos?
     _ Nossa, finalmente uma boa notícia! Sabia que Samara seria a mulher ideal para o senhor.
Posso lhe pedir uma coisa?
     _ Claro, o que quiser.
     _ Dê-me um abraço?
     Sabia que seria a última vez que o veria. Lorenzo ficou meio cabreiro, pois não entendeu
absolutamente nada.
     _ Ande, homem! Aproveite que todos não nos estão vendo, para evitar mexericos.
     Então, ele me abraçou, finalmente, mas com um medo de dar dó. Vi uma lágrima de gratidão
em seus olhos. Tirei dos bolsos um pequeno obséquio e coloquei em suas mãos.
     _ O que é isso, senhorita Anna?
     _ Não é muito, mas dá para ajudar com o casamento. Consegui vendendo o meu colar de
esmeraldas.
     _ Senhorita! Não poderei aceitar...
     _ Se não o fizer, ficarei muito ofendida. Para onde estou indo não precisarei de nada disso.
     _ E para onde a senhorita está indo?
     _ Saberá no momento certo.
     _ Agora, se puder, leve-me até Maria. Preciso falar-lhe algo muito importante.
     Ele me acompanhou em silêncio até onde estava o casal.
     Ao me aproximar de Maria, parabenizei-a pelo seu casamento e contei-lhe o ocorrido desde a
conversa com o padre Ignácio até o encontro com o conde. Embora não quisesse aborrecê-la, sabia
que Maria não me deixaria em paz até que eu lhe contasse tudo, pois aquela mulher me conhecia
apenas de olhar para mim.
     _ Senhorita Anna, não irei deixá-la sozinha hoje. Temo que o conde invada seu quarto esta
noite, pois ouvi seu pai, enquanto eu ainda estava na casa, convidando-o para passar a noite lá
como hóspede. Dormirei com a senhorita.
     _ De jeito nenhum! Casou-se e agora deve ficar com seu esposo. Imagina: no seu primeiro dia
de lua de mel, já separada de seu marido? Isso não é certo. Vá ter com ele. Sei muito bem como me
cuidar.
     Joseph interrompeu-nos:
     _ Isso é que não mesmo! Maria está certa: esperamos tanto tempo! Além do mais, um dia a
mais ou a menos não fará diferença. Não somos jovens, afoitos pela lua de mel. Nossa relação será
baseada na fidelidade, na confiança e no amor verdadeiro. E isso sei que já temos. O resto é
consequência natural. Vá, Maria! Entendo completamente sua preocupação. Não confio neste
homem. Ele tem sangue ruim. Usa artimanhas para conseguir o que quer.
     _ Obrigada, senhor meu marido. Sabia que entenderia. Criei esta jovem desde quando ainda era
um bebê, e não a deixarei logo agora, em nossos últimos dias juntas. Nada de mal lhe acontecerá
enquanto eu estiver por perto. Já está decidido: dormirei em seu quarto. Se alguém vier interrogar-
me, direi que não fica bem que uma mocinha solteira durma só debaixo do mesmo teto com o seu
futuro marido.
     Tudo ficou decidido por conta dos meus amigos, e quem seria eu para contrariá-los? Fiquei
muito feliz por saber que existia amor por mim entre aquelas pessoas maravilhosas. Nunca as
esqueceria.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Depois de termos ido à casa de chá para comermos algo, retornamos os três para casa. Estava
exausta. Tudo o que queria era tirar as roupas e os sapatos, e deitar-me para descansar. Ao
chegarmos à casa, não percebi nada demais. Tudo parecia muito tranquilo. Maria voltou para seus
afazeres e Joseph a seguiu. Subi para meus aposentos. Dentro do quarto, fui tirando toda a roupa,
sem me preocupar com a organização ou higiene pessoal, pois estava realmente cansada devido à
alta hora em que fui dormir na noite anterior. Resolvi deitar-me, pois estava exausta. Puxei
calmamente os lençóis quando ouvi os cavalos muito agitados do lado de fora da casa. Curiosa
como sempre fui, não poderia deixar de ir ver o que era. Ao chegar à janela, vi uma cena que
realmente me impressionou. Embora soubesse que era apenas uma visão, eu tinha que saber do que
se tratava. Então, fiz um pequeno ritual para saber quem era o homem que apareceu naquela visão.
Fechei os olhos e apertei as mãos uma contra a outra, deixando os dois indicadores em posição
ereta. Abri os olhos e girei as mãos, fazendo um círculo imaginário, abrindo, então, um portal.
     Descobri que o homem na minha frente era o inquisidor que me condenaria. Ele estava lá, de
pé, em frente à minha janela, segurando as rédeas dos cavalos. Parecia saber que eu apareceria à
janela. Mirei os indicadores juntos, em direção àquela figura sinistra. Fixei meus pensamentos,
canalizando toda a minha energia. Senti toda minha força saindo do meu corpo. Os raios eram de
luz e abriram um portal em volta daquela figura sinistra. O que vi foi realmente de impressionar,
pois criaturas terríveis que lhe cercavam: demônios devoradores de energia, espíritos zombeteiros e
desprovidos de inteligência. Algumas dessas criaturas montavam-lhe as costas, fazendo com que
ele tivesse uma forma arcádica. Outros falavam-lhe blasfêmias aos ouvidos. Alguns, ainda,
mordiam-lhe a panturrilha, fazendo-o ter dores abomináveis nas pernas. Eram criaturas
monstruosas e envolviam-no como sombras negras. Também havia alguns espíritos revoltados, de
pessoas que ele havia condenado injustamente.
     Maria chegou, trazendo-me um chá de hortelã, camomila e cidreira. Fiz sinal para que ela
ficasse em silêncio e não chamasse a atenção daquelas criaturas, pois poderiam se sentir ainda mais
revoltadas e virem perturbar nossos sonhos à noite. Maria fez uma oração de proteção e voltou-se
para olhar o que eu via. Em seguida, exclamou em um sussurro:
     _ Minha nossa! Quem é esta pobre alma atormentada? Como consegue sobreviver com tanto
tormento?
     Os demônios ficavam ainda mais agitados a cada movimento do inquisidor. Enquanto ele
desatrelava os cavalos, os demônios mordiam-lhe as orelhas, fazendo-o ter uma espécie de cacoete.
O coitado repuxava constantemente a cabeça de um lado para o outro. Voltou a fitar-me e,
novamente, ficamos olhando um para o outro, inquisidor e bruxa. Maria teve a boa ideia de puxar-
me para dentro. Não por medo dele, mas por chamarmos à atenção algum dos demônios que
estavam envolta dele. Encostamos à parede e Maria fechou as cortinas, lentamente. Corremos
juntas para a cama e ficamos de mãos dadas. Maria colocou o chá para mim em uma xícara de
porcelana com florzinhas azuis. Tomei de uma golada só. Ela se despiu para dormirmos. Também
tomou o seu chá de uma golada só. Naquela noite, resolvemos não dar uma só palavra uma à outra,
para evitar atrair tais energias ruins para os sonhos.
     Na manhã seguinte, ao acordar, Maria já não se encontrava comigo. Já havia descido para
preparar o desjejum e verificar o banho que tomaríamos antes de começar o ritual de purificação.
Comecei a arrumar meus pertences e guardei minhas coisas pessoais em uma tábua solta no chão.
Guardei o livro das sombras, a varinha e alguns amuletos. Arrumei todo o quarto e fiz uma oração
de despedida:
     _ Obrigada, Senhor, por ter sido meu amigo e mentor durante essa caminhada tão difícil.
Muito obrigada pelos meus algozes, cuja incompreensão e intolerância fizeram-me ver a luz, a Sua
luz, Senhor. Guarde-me dos espíritos malfeitores e zombeteiros. Mas que se faça em minha vida
somente a Sua vontade. Assim seja.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Maria estava atrás de mim, com a bandeja do desjejum. Confiou-me o seu silêncio em sinal de
respeito.
     _ Vim tomar café com minha amiga. Posso?
     _ Claro que sim, Maria. Vou adorar ter a sua companhia para o desjejum. Alguém já se
levantou?
     _ Somente Joseph e aquele diabo disfarçado de Lord. - Maria referia-se ao conde.
     _ E o que faz esse maldito, acordado a essa hora da manhã?
     _ Isso não sei. Mas é melhor prevenir. Por isso, estou aqui, para tomar o desjejum com a
senhorita.
     Enquanto servia o nosso desjejum, Maria fez-me uma pergunta que parecia não querer se calar:
     _ De quem era a visão daquele homem que vimos ontem?
     _ Era do inquisidor que me irá sentenciar.
     _ Santo Deus! Nunca vi alguém com tantos demônios de uma só vez. E o que é pior: aquele
homem da visão parece ser uma pessoa tão cega pelo ódio que não consegue perceber que eles
estão à sua volta.
     _ Maria, nem que ele quisesse poderia. Tem com ele espíritos que estão impregnados em sua
essência. Caso tentássemos tirá-los, poderíamos levá-lo à morte, pois já fazem parte um do outro.
     _ É. Mas talvez fosse melhor assim, pois ele pararia de sofrer e de fazer sofrer todos à sua
volta.
     _ Maria, sabe muito bem que qualquer coisa que leva alguém a perder a vida e que não seja por
morte natural é considerado um crime imperdoável perante a lei de Deus e dos homens.
     _ Mas podem nos condenar e nos matar por crimes que nunca pensamos em cometer?
     _ Não estamos aqui para julgar.
     _ Mas podemos ser julgadas?
     Maria estava revoltada por saber que eu seria enclausurada em um convento e nada poderia
fazer. Então, resolvi dar por encerrada aquela conversa. Inclusive para evitar conflitos mentais - o
que poderia causar um desgaste de energia desnecessário.
     Depois de tomarmos o desjejum em quase total silêncio, arrumei-me para extrair o óleo gerado
pelo cozimento das ervas, necessário para o ritual daquela noite. Saímos do quarto nas pontas dos
pés, para não acordar o resto da casa. Chegamos à cozinha. Atravessei direto para a adega, onde
abri a porta secreta e fui aos afazeres. Mas, desta vez, Maria ficou do lado de fora, para evitar
surpresas desagradáveis. Enquanto ela supostamente ficava na cozinha, adiantando os afazeres
domésticos, eu estava no porão, extraindo o óleo das ervas já cozidas. Fiz um círculo de proteção
em volta de mim. Este círculo era feito com um pentagrama no meio, cercado por dois círculos -
um pequeno e um grande - e alguns símbolos. Este símbolo é erroneamente chamado de o olho do
diabo.
     Deixei de lado todo o mundo ao meu redor. Comecei no preparo do óleo que eu usaria.
Purifiquei meu espírito com orações que surgiram em minha mente, na mesma língua na qual havia
falado no primeiro dia em que entrei ali. De repente, Maria veio correndo chamar-me:
     _ Venha depressa, senhorita Anna! Seu pai já perguntou por você duas vezes. Disse que ainda
estava dormindo, mas agora não tenho mais nenhum argumento.
     Entreguei à Maria todas as poções. Ela as guardou em sua bagagem, que já estava pronta para a
fuga daquela noite. Deixei comigo somente a que usaria no ritual. Fui para o jardim e fingi que
estava lendo um livro, debaixo da minha fiel árvore. Meu pai parecia aflito a me encontrar, pois
veio afoito ao meu encontro:
     _ Onde estava? Procurei a senhorita por toda a casa.
     _ Por certo não deve ser nada de tão importante, vindo do senhor...
     _ O conde queria despedir-se da senhorita.
     _ Não disse? Não era mesmo nada de tão importante assim.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Não creio que esteja lhe dando a atenção que ele mereça.
     _ O senhor não se preocupa mesmo comigo, não é, pai? Ou o senhor é cego ou não percebe
realmente que esse homem é mau caráter.
     _ Não é verdade. Tanto me preocupo que estou vendo nesta união uma oportunidade de vê-la
bem de vida quando eu não estiver mais por aqui. E o que quer dizer quando faz tamanha
acusação?
     _ Pai, o senhor conde está...
     A condessa interrompeu-nos no exato momento em que eu iria revelar suas proezas junto ao
seu amante. Imediatamente, ela disse, parecendo adivinhar o que eu haveria de revelar a meu pai:
     _ Juan, venha. Recebemos um convite para o baile dos Menellaus. Acho melhor que envie uma
resposta, pois não perderia esta oportunidade de poder estar presente em baile como esse.
     _ Minha filha, como percebeu, temos uma festividade a mais. Por certo deve ser o jantar de
noivado da senhorita Lucinda. Espero que tenha um bonito vestido para logo à noite. A propósito, o
que estava mesmo tentando me falar?
     Olhei para a condessa, que estava esperando minha resposta se eu iria ou não ao tal jantar.
     _ Não é nada, pai. Deixa para lá. O senhor não veria a verdade, nem que ela fosse uma raposa
vestida de ovelha. E não sei se quero ir ao jantar. Não estou me sentindo muito bem.
     _ Seu futuro noivo irá. Então, não quero mais falar sobre esse assunto. Vou entrar com a
condessa, mas estaremos lhe esperando na sala de estar. Portanto, não se demore, por favor.
     Fiquei quieta, vendo-os sair da minha frente. A condessa estava de braços dados com meu pai,
mas não podia deixar de olhar para trás e fazer uma careta zombeteira. Sacudi a cabeça de forma
negativa, achando aquela atitude muito infantil.
     Não demorei para seguir as ordens que meu pai havia me dado e voltei para dentro de casa.
Meu pai e sua esposa passaram a manhã na sala de estar. A condessa resolveu demonstrar seus dons
musicais ao piano. Toda aquela satisfação significaria duas coisas: ou meu pai estava muito
inspirado a noite passada - o que era pouco provável, pois dormira embriagado -ou ela estava
disfarçando a sua maldade, tramando contra mim junto ao seu consorte de luxo. Ou seja: o conde e
ela já sabiam o que fariam para me incriminar. Mas eu já estava preparada, pelo menos era o que eu
esperava.
     Ao ver-me, o conde veio em minha direção, com um sínico sorriso de satisfação. Beijou minha
mão e perguntou:
     _ Onde a pequena mariposa andou pousando? Não a vi a manhã toda.
     _ Estava em meu quarto, mas é claro que o senhor já sabia disso.
     _ Será mesmo?
     _ Se o senhor está insinuando alguma coisa, é melhor que fale aqui e agora.
     _ Não estou com vontade de discutir com a senhorita, pois agora estou de saída para resolver
alguns negócios pendentes. Mandei chamá-la por isso. Mas saiba que a esperarei no baile desta
noite.
     Dizendo isso, o conde virou-se para meu pai para se despedir.
     _ Por que tanta pressa, senhor conde? Fique para o almoço. Sabe que é um prazer tê-lo como
hóspede em nossa casa. – disse meu pai.
     _ Não se preocupe, senhor Juan. O senhor terá o prazer de ter-me muitas noites a fio em sua
casa como seu hóspede.
     Depois disso, ele se despediu da condessa e saiu com meu pai. Voltei, então, para o meu
quarto, sem me despedir da condessa - não queria pegar energia negativa daquela mulher. Precisava
me preparar para ter forças para a peça teatral que montaria logo à noite.
     Maria veio ao meu quarto, algumas horas depois, perguntar se eu queria que ela trouxesse o
almoço para mim. Respondi-lhe que não, só queria ficar um pouco quieta com os meus
pensamentos. Então, ela se retirou.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Depois de algumas horas lendo meu livro, acabei adormecendo profundamente e sonhei com o
meu amor verdadeiro. Ele estava tão bonito! Estava feliz e sorridente e disse-me Está muito perto
de nos encontrarmos. Tenha um pouco de paciência, meu amor. Então, quando ele ia pegar a minha
mão, alguma coisa aconteceu, pois o vi caindo em um abismo negro e acordei chorando. Passei as
mãos pelos olhos, levantei da cama e andei pelo quarto, de um lado ao outro. Era a segunda vez que
o via caindo em um precipício. Maria entrou sem bater, parecendo aflita. Foi logo dizendo,
interrompendo meus pensamentos:
     _ Se pai pediu que se aprontasse. Sairão mais cedo, porque parece que irá chover. O que a
senhorita fará para se livrar desta questão? Não poderei estar presente nesta festa, e sabemos muito
bem que o conde se fará presente.
     Depois de pensar alguns minutos, respondi-lhe:
     _ Traga-me umas toalhas bem quentes. Lembre-se de que quanto mais quente, melhor.
     _ O que fará, menina?
     _ Nada demais. Só não vou a festa alguma com aquele homem.
     Maria, mesmo sem saber o que eu faria, saiu para cumprir o que eu lhe havia pedido. Duas
horas depois, retornou com as toalhas quentes e encontrou-me toda arrumada para o baile. Colocou
as mãos na cabeça e perguntou:
     _ O que a senhorita, toda arrumada desse jeito, quer fazer com dúzias de toalhas quentes?
     Porém, não lhe respondi. Apenas pedi-lhe outra coisa:
     _ Maria, preste atenção: quero que desça e diga a meu pai que suba para vir buscar-me aqui em
cima.
     _ Mas não disse que não iria?
     _ Faça o que eu lhe estou pedindo, mulher. Não se preocupe: dará tudo certo.
     Quando meu pai chegou à porta e, correndo em minha direção, disse:
     _ Anna! Santo Deus, filha! Está bem? Seu rosto está vermelho como um tomate.
     Quando colocou as mãos em mim, sentiu o calor do meu corpo.
     _ Cristo! Deve estar com uns quarenta graus de febre. Por que não está na cama?
     _ Porque o senhor disse para não desacatar suas ordens. Prefiro ir a receber uma surra.
     _ De jeito nenhum. Ficará em casa, mocinha, e cuidará desta febre. Por certo é o resfriado que
teve e que ainda não curou totalmente.
     Chamou Maria aos berros. Até eu mesma acreditei na minha suposta doença. Quando Maria
chegou a meu quarto, olhou-me sem entender absolutamente nada. Fez-me uma cara de quem
estava desconfiada.
     _ Cuide bem de minha filha e faça com que essa febre suma de vez. Use seus chás. Por certo,
sempre funcionam.
     Depois, virou-se para mim e falou exatamente o que eu esperava ouvir:
     _ Não se preocupe, filha. Direi aos anfitriões e ao conde sobre seu estado febril.
     Beijou minha testa e constatou a temperatura alta do meu corpo. Deu mais algumas ordens à
Maria e saiu em seguida. Corri para a janela e fiquei olhando de meia greta, até eles sumirem na
outra extremidade da rua. Maria, assim que percebeu que o casal já estava bem longe, indagou:
     _ Menina, o que foi que fez? Seu pai estava totalmente desnorteado. E não adianta mentir para
mim, pois bem sei que é mais uma de suas artimanhas. Acaso usou algum tipo de feitiço para uso
próprio? Sabe muito bem que não é permitido usar sortilégios para engambelar os outros.
     Nem consegui responder, pois estava muito concentrada, tentando tirar aqueles panos
enrolados em volta do meu corpo. Ufa! E torce daqui e puxa acolá... Tirar aquele monte de toalhas
quentes era uma questão de honra e desespero, pois quase morri de tanto calor. É que eu havia
escondido as toalhas debaixo do espartilho e dentro dos saiotes. Para aparentar um rosto
avermelhado, coloquei uma das toalhas quentes nas faces. Antes de meu pai chegar, joguei-a
debaixo dos travesseiros. Maria ficou ali, olhando-me admirada, sem saber de onde vinha tanta




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O segredo dos girassóis
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toalha. Por fim, acabou rindo largamente, sem parar. Então, depois de me livrar daquela tralha
quente, disse à Maria:
     _ Confesso que já estava assando. Agora vamos rápido. Senão, não teremos tempo suficiente.
     Descemos as escadas correndo e, ao passarmos para o hall de entrada, pedi à Maria que me
buscasse um xale que eu havia esquecido em seu quarto. Quando Maria chegou, saímos
rapidamente ao encontro de Joseph. Ele já estava na lateral da casa, de prontidão, esperando-nos
com uma pequena charrete, já atrelada aos cavalos. Ao ver-nos, olhou para Maria e falou:
     _ Santo Deus, mulher! Por que está trazendo tanta tralha?
     Maria, levantando as duas maletas de couro, respondeu:
     _ Uma são os meus pertences pessoais. A outra são coisas que trago comigo e não lhe dizem
respeito, ora!
     Joseph olhou-a, respirou profundamente, mas nenhum outro comentário fez em seguida.
Colocamos, então, todas as coisas na charrete e seguimos em direção ao bosque dos mortos.
Lembrei-me, exatamente naquele momento, de uma lenda do século XIV: havia uma jovem
feiticeira que, por onde quer que passasse, secava tudo. Ela era o mal encarnado, segundo os
moradores. Então, resolveram caçá-la. Depois de julgá-la no tribunal local, decidiram dar-lhe uma
cruel sentença. Amarram-na a uma árvore até que morresse de fome, de frio e de sede. Ela foi
devorada pelos lobos. Contavam, ainda, que durante seus dias de flagelo, ela urrava como um
animal feroz. Seus gritos de horror eram ouvidos até mesmo pelos moradores da aldeia vizinha.
Outros diziam que ela amaldiçoou aquela floresta, não deixando que nenhuma planta saudável
brotasse de seu solo. Nas noites do dia trinta e um de outubro dos anos seguintes, alguns aldeões
juravam ter ouvido seus gritos de desespero ecoando pelo vento. Diziam que até o vento vindo
daquele lugar era amaldiçoado e trazia o cheiro de enxofre do inferno.
     Escolhemos aquele lugar porque o acesso era difícil. Muitos não se atreveriam a ir até ali, por
medo das lendas locais. Era um trajeto difícil e já estava começando a chover. Algumas vezes,
tivemos que descer da charrete e ajudar Joseph a desatolar as rodas do lamaçal. A charrete era frágil
e balançava muito e, o que era pior, fazia um barulho insuportável. Não tive medo da escuridão
mortal que cercava toda a floresta. Mas o lugar, confesso, congelou meu coração. Se olhássemos
para frente, não víamos absolutamente nada. E se olhássemos para trás, não conseguíamos ver
sequer o chão. Somente um homem como Joseph, experiente em trilhas, conseguiria entrar e sair
daquele lugar coberto pela escuridão e a névoa constante. A tristeza e a agonia eram contagiantes.
Tinha cheiro de morte no ar, o que fazia jus ao nome dado pelos aldeões. Era como se um espírito
desesperado por socorro estivesse por perto, implorando para ser ouvido. Por fim, resolvemos
parar. Escolhemos um local perto de uma velha árvore petrificada, chamada de árvore do
sacrifício. Joseph levou a charrete para a estrada, mais fundo, escondendo-a perto de um arbusto
seco. Olhei todo aquele ambiente sem vida e me comovi. Não sabia até que ponto aquelas lendas
eram verdadeiras, mas de uma coisa tinha certeza: algo de muito ruim tinha acontecido naquele
local. Toda a vegetação havia secado totalmente. As árvores pareciam estar mortas, e nem a grama
crescia. Não havia pio das corujas, nem uivo de lobos. Nem as crianças da noite, os morcegos,
voavam assombrando-nos com seus bateres de asas rasantes.
     Olhei para Maria, que parecia ter tido a mesma impressão que eu. Fomos para trás das árvores
e tiramos nossas roupas. Ficamos somente de camisolas. Maria ungiu todo o meu corpo com o óleo
de girassol. O mesmo fiz com o dela. Acendemos uma fogueira para nos aquecer, pois o vento
silvava e soprava fortemente. Mesmo que pressentíssemos que em breve a chuva cairia, teimamos
em acender a fogueira para nos aquecer. Assim também pensávamos conseguir enxergar melhor o
local. Mas foi uma tentativa inútil, pois só enxergávamos as coisas que estavam próximas de nós,
pois o nevoeiro era intenso e misterioso. No céu, as nuvens começaram a se formar. Logo a Lua foi
sumindo. Quando os primeiros pingos começaram a cair, já havíamos preparado todo o local.
Enquanto Maria espalhou as sementes de girassóis em volta de toda aquela árvore petrificada, eu




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O segredo dos girassóis
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fazia o círculo, usando a vassoura sagrada. Depois, desenhei o pentagrama da proteção no meio do
círculo sagrado e giramos nossas varinhas no ar, fazendo desenhos desconexos. Clamamos os sete
nomes sagrados da magia. Depois, plantamos em todo o local as mudas que eu havia pedido a
Joseph para conseguir para mim. Fizemos isso para fertilizar aquele lugar morto. Por fim,
começamos as rezas em voz alta:
     _ Senhor, que a grande Deusa possa ouvir a nossa humilde oração. Que possamos, com o
nosso amor e bondade, trazer de volta a beleza, a fertilidade e a paz para esse lugar triste e
sombrio. Que a nossa irmã desencarnada consiga sentir toda a proteção emanada deste círculo
sagrado. Que seu coração se abra para o amor e o perdão, para que seu espírito possa libertar-se
desta prisão de ódio e ressentimento. Pedimos ao espírito aprisionado de Áurea Scoth que se
manifeste, para que possamos mostrar-lhe o caminho a seguir.
     Os espíritos aprisionados por Áurea àquelas árvores foram se manifestando, dando formas aos
troncos. Seus gemidos de sofrimento eram assombrosos e torturantes a qualquer ouvido lúcido.
Mas não podíamos dar a impressão de que sentíamos medo, pois qualquer demonstração de
fraqueza poderia deixá-los muito agitados e afastar o espírito de Áurea Scoth de nós. De repente,
uma brisa cheirando a cipreste aproximou-se, mas não conseguiu entrar no círculo, cuja função era
exatamente essa. O que está fora não pode entrar, e o que está dentro não poderá ser atingido por
nenhum espírito imundo ou atormentado. Sabíamos que o cheiro de cipreste significava a presença
de um espírito atormentado. Em algumas ocasiões, esse cheiro pode significar que alguém próximo
irá morrer. Mas ali, naquele momento, significava a presença de alguém muito atormentado.
Trancamos a mente, apertamos as mãos contra o peito, fechando os olhos para que aquele espírito
atormentado não nos engabelasse ou nos assustasse com outras formas ilusórias. Geralmente, os
espíritos atormentados tentam fazer-se parecer assustadores ou tomam a aparência de anjos e fadas,
para que os deixemos em paz ou para desistirem de nos intrometer em suas vinganças ou
perseguições. Em outras ocasiões, esses espíritos podem se fingir gentis e tomarem a foram de
criaturas encantadoras, apresentando uma falsa sabedoria. Áurea, por certo, havia se tornado um
obsessor. Mas nada do que ela fizesse nos faria desistir de ajudá-la e de prosseguir com a nossa
tarefa. Demos continuidade às orações e aumentamos o fervor das palavras, dizendo:
     _ Dê-lhe, meu pai, a Sua mão para que o espírito de Áurea siga o seu destino em paz. Liberte-
a desta prisão, desse sofrimento sem igual.
     Então, eu Maria dissemos juntas, em voz alta:
     _ Siga em paz, minha irmã, sem olhar para trás. Deixe as marcas de sua dor na memória de
seus algozes. Apague a sua para começar uma nova vida junto aos irmãos de sabedoria. Siga para
a luz que brilha à sua frente. Veja quantos irmãos estão lhe esperando para recebê-la de braços
abertos.
     Falamos isso, pois as luzes dos irmãos desencarnados brilhavam à nossa frente e podíamos vê-
los esperando por Áurea, a feiticeira. Sentimos novamente o vento forte perto do círculo. Só que,
desta vez, cheirava a flores do campo. Logo se formou um pequeno redemoinho. No meio dele,
surgiu uma linda mulher de cabelos negros e ondulados e olhos azuis como a água marinha. Ela
estava vestida de céu e com muitas chagas por todo o corpo. Delas, saía mel. Em pensamento,
contou-nos como foi violada por todos os aldeões e que, depois de ser julgada injustamente e
torturada violentamente, foi acorrentada naquela árvore petrificada, onde fez um juramento: nunca
mais deixaria brotar daquele lugar uma só folha verde enquanto houvesse um descendente de seus
algozes. Mas, que ao ver tanto amor, bondade e desinteresse vindos de nós, estava pronta para
desistir de sua jura e seguir seu caminho em paz, com os irmãos espirituais. Toda aquela névoa ao
seu redor sumiu, dando lugar a uma luz muito brilhante. Depois, Áurea transformou-se em uma
pequena estrela e desapareceu na imensidão do céu.
     Então, continuamos com o ritual. Por fim, a chuva começou a cair. Eu disse, em alto tom:




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Que o fogo nos empreste sua alma, fumaça, e que ela leve todos os nossos pecados para o
céu. Que a água da chuva, nossa irmã e purificadora, nos devolva essa energia renovada de volta
para a nossa mãe terra. Que essas águas em forma de lágrimas abençoem esta terra tão sofrida.
Que essas águas sagradas possam, também, lavar nossos pecados. Que a nossa essência
purificada traga de volta todo o amor e o perdão para este solo, que durante anos sofreu
silenciosamente por um crime cometido por nossos irmãos já desencarnados. Crime esse que fez
uma de nossas irmãs ficar aprisionada nesta floresta por anos, causando dor e sofrimento não só a
todos os aldeões e ao solo, mas também a ela mesma. Peço, Senhor, perdão pelos ignorantes que
por aqui passaram. Mande, meu Pai, um espírito iluminado e de muita sabedoria para lhes tirar da
escuridão onde se encontram agora. Dê-lhes, meu Deus, uma chance de se redimirem de seus
erros e pecados! Que o vento purifique essas águas e que elas nos devolva a nossa essência, depois
de tê-la sanado dos pecados recebidos da humanidade. Pelo poder da terra, pela força do fogo,
pela alma dos ventos e pela pureza das águas, que se abra o portal e cumpra-se a minha missão.
     Um enorme raio de fogo cercou todo aquele lugar, clareando até a mais longínqua imensidão
escura que tomava conta dali. Sentimos a presença da grande Deusa e do grande Deus. Seus
poderes eram tão grandes, tão imensos, que eu e Maria tivemos de nos agarrar uma a outra. O calor
daquele fogo espiritual, misturado às forças da natureza, formava um enorme redemoinho, que
limpou toda a floresta daquela mazela de revolta, vingança e loucura. Senti que toda a floresta veio
nos agradecer por termos libertado aquele espírito sofrido, que havia tanto lhe sufocava a vontade
de viver. Rodopiamos e dançamos alegremente, recebendo a chuva com os braços abertos, lavando
todos os pecados de nossa alma. Nossos corpos estavam completamente encharcados, mas não
sentíamos frio ou incômodo por estarmos molhadas dos pés à cabeça, pois o amor dentro de nós era
imenso e indescritível e esquentava nosso corpo. Logo a chuva parou - embora tivesse sido
fortíssima, foi passageira. Olhamo-nos de cima abaixo e gargalhamos. Então, procuramos Joseph,
que estava debaixo da charrete para não se molhar. Rimos ainda mais. Ele nos olhou,
interrogativamente:
     _ Não acham melhor trocarem de roupa? Vão pegar uma febre e cairão de cama.
     Sufocamos outra gargalhada, mas abaixamos a cabeça e saímos em procura de toalhas secas.
Maria trocou-se de imediato e fiz o mesmo. Depois, sentamos na charrete e arrumamos a comida
que trouxemos para dar término àquele sabat. Estendemos uma toalha bordada com desenhos
místicos. Então, servimos o pão e o vinho de samhaim. Recuperamos as forças com uma sopa
mágica.
     Levantamo-nos e novamente varremos todo o local com a vassoura sagrada. Desta vez,
apagamos o círculo. É muito importante usar a vassoura antes e depois de cada ritual. Às vezes,
também temos que usá-la durante o ritual. Demos uma olhadela em volta e não acreditamos no que
vimos: havia pequenos brotos na velha árvore, que já não estava mais petrificada. O chão estava
repleto de graminha, ainda fina e rasteira. Uma enorme coruja pousou sobre a velha árvore. Um
gamo correu em direção ao fundo da floresta. Os lobos uivavam, cantando para a imensa Lua que
reluzia no céu. A vida finalmente estava de volta àquele lugar. Com certeza, ali seria um novo
paraíso celestial. Ficamos muito felizes e choramos de emoção. Até Joseph ficou extasiado com o
que viu. Demos as mãos, os três, e agradecemos as bênçãos concedidas naquela noite maravilhosa e
produtiva.
     De repente, ouvimos barulhos vindos do meio da floreta escura. Aquilo gelou minha alma.
Sabia bem o que era. Pela segunda vez, senti-me como Cristo quando foi entregue aos inimigos.
Então, não conseguia pensar em mais nada e disse à Maria:
     _ Corra com Joseph para longe daqui.
     _ Senhorita Anna, não posso deixá-la aqui sozinha – disse Joseph.




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O segredo dos girassóis
                                           Adriana Matheus

     _ Anna, filha, venha conosco. Joseph tem razão: ainda há tempo para a senhorita. Eu lhe
imploro: não me deixe, filha... Passamos tantas coisas juntas... Morrerei pela senhorita se for
preciso. Eles não a entenderão, Anna... Não se vá, não me abandone...
     Maria ajoelhou-se e implorou para que não a deixasse partir. Suas lágrimas comoveram-me,
mas não pude demonstrar nenhuma emoção, pois poderia colocar a vida dela e de Joseph em risco.
Olhei para ele, que também estava chorando, e pedi-lhe auxílio com os olhos. Ele enxugou as
lágrimas e veio retirar Maria de perto de mim. Quando ele a levantou do chão, dei-lhe um enorme
abraço e disse:
     _ Para que consiga seguir em paz meu caminho, precisarei que a senhora seja como sempre foi:
forte e sensata. Nunca nos esqueceremos, Maria, porque sempre estaremos juntas em pensamento.
Ninguém nunca conseguirá nos separar porque o elo que nos uniu sempre nos unirá. Somos como
essa chuva que caiu e fertilizou esta terra hoje. Somos a terra, o sol, o ar e sempre estaremos juntas,
porque somos parte do mesmo universo. A distância, para nós, não existe, porque ela é como olhar
o horizonte: cada vez que fazemos isso com os olhos do aparelho, vemos coisas ao longe. Mas
quando olhamos com os olhos da alma, vemos apenas um caminho a percorrer até alcançar o
objetivo almejado. Sempre poderá me enviar cartas pelo padre Ignácio. Agora, levante a cabeça e
siga em busca da sua felicidade.
     Dei-lhe um beijo na testa e segurei seu rosto em minhas mãos, para nunca mais me esquecer da
minha amiga e mãe. Foi o pior dia de minha vida. Engraçado como o amor nos obriga a fazer
coisas que não queremos fazer... Fiz minha única amiga chorar e não tinha como evitar. Então,
tentando tirar Maria daquele local perigoso, disse:
     _ Não os estou expulsando, mas quero que ambos corram agora para que não cheguem aqui e
os vejam.
     Joseph saiu, segurando Maria. Ao tomarem certa distância, ela tentou escapar de Joseph, que a
abraçou fortemente, tentando acalmá-la. Maria gritava meu nome e esticava os braços em minha
direção. Mais uma vez, minhas premonições se concretizaram. Fiquei olhando-os sumir em meio à
noite escura, até que, finalmente, nada mais eram além de um simples vulto. Enxuguei minhas
lágrimas, rasguei minhas vestes, arranhei meu rosto com minhas próprias unhas, joguei sangue de
galinha em meu corpo e fingi estar desmaiada ao chão. Ouvi o grito de alguém. Não me atrevi em
abrir os olhos para saber de quem se tratava. Ouvi um homem dizer algo:
     _ Vejam! Ela está caída aqui! Parece ter sofrido algum tipo de violência.
     _ Há sinais de satanismo por todos os lados. Por certo, as marcas em seu corpo foram deixadas
por algum tipo de demônio. Essa mulher está tomada por forças malignas.
     Tive muita vontade de rir, pois percebi a ignorância daquelas pessoas. No mínimo, aquele
homem era completamente louco e sua mente perturbada criava mais histórias que a imaginação de
uma criança de cinco anos. Percebi que meu pai aproximou-se, pois ouvi sua voz bem próxima a
mim. Mas o inquisidor gritou, dizendo:
     _ Não! Os demônios dela passaram para o seu corpo. Essa mulher está infestada de súkumbos.
Aquele homem que a tocar ficará atraído por essa mulher pecadora e imunda.
     _ O que são súcumbos? - perguntou o conde, curiosamente.
     _ São demônios femininos que usam o corpo das mulheres para seduzir os homens. Esse tipo
de demônio, além de destruir a vida de quem quer que seja, pode também levar o indivíduo
possuído à morte.
     Ele falava isso porque não podia ver os demônios que o cercavam. Mesmo de olhos fechados,
pude perceber mentalmente a quantidade de demônios que estavam em volta daquele homem, pois
soltavam garagalhadas tenebrosas. Rezei para que ele não me tocasse, pois aí sim, literalmente
falando, eu estaria perdida. Outra voz masculina ainda insistiu com meu pai, dizendo:
     _ Senhor, não toque nela. Não ouviu o que o inquisidor disse?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Ninguém vai me impedir de levar minha filha para a carruagem. Se quiserem discutir alguma
coisa sobre este caso, discutiremos em minha casa. Mas não a deixarei aqui, neste chão molhado e,
por certo, morrendo de frio.
     Ufa!, pensei comigo. Até que enfim alguém sensato. Pensei que ficaria ali até congelar,
esperando aquele louco endemoniado decidir se eu era ou não uma bruxa.
     _ Juan! Não espera mesmo que eu vá dentro da mesma carruagem com essa endemoniada,
espera? - disse a condessa, parecendo não querer dividir aquele pequeno espaço comigo.
     Porém, meu pai estava decidido a me levar com ele:
     _ Minha cara esposa, aonde vai e com quem vai eu não sei. O que sei é que Anna, minha filha,
irá na mesma carruagem que eu.
     _ Recuso-me a entrar na carruagem em que esta mulher está! - retrucou.
     _ Faça como quiser. Pode ir a pé ou no colo de alguns dos soldados. Ou, se preferir, pode ficar
aí mesmo onde está e, é claro, poupar-me o trabalho de devolvê-la a seu pai - que é o que eu já
deveria ter feito há muito tempo. Mas não me perturbe mais com seus chiliques histéricos. Este
momento é muito delicado para mim.
     Meu pai, então, pegou-me no colo e saiu carregando-me em meio à pequena multidão que se
formara em nossa volta.
     _ Não lhes disse? O demônio tomou conta da mente de senhor Juan. - disse o inquisidor.
Porém, meu pai pareceu não dar importância às sandices dos demais presentes e levou-me para
dentro da carruagem, cobrindo o meu corpo com cobertores e deitando-me em seu colo. Ele, então,
ordenou a Lorenzo:
     _ Lorenzo, siga para a minha casa. Minha filha e eu estamos cansados.
     _ Sim, senhor, imediatamente.
     A condessa seguiu na carruagem do seu comparsa, o conde. Os soldados e o inquisidor
seguiram-nos cavalgando. O balançar da carruagem e o aconchego do colo do meu pai fizeram-me
cochilar. Afinal, foram raras as vezes em que estivemos tão próximos daquele jeito.
     Ao chegarmos em casa, Lorenzo ajudou meu pai a tirar-me da carruagem. Papai levou-me para
meu quarto e pediu à aia que me despisse e trocasse minhas roupas. Depois, desceu e despachou
aquelas pessoas indesejadas, pedindo-lhes que voltassem no dia seguinte para retomarem o assunto
em questão. Isso me deu mais uma noite em minha casa. A condessa, naquela noite, recusou-se a
dormir no mesmo quarto que meu pai, dizendo que ele estava contaminado pelos demônios que
habitavam meu corpo. Agora, sim, ela enlouqueceria de uma vez por todas. Pois além de viver com
a cabeça cheia de caraminholas tramando contra as pessoas, ainda arrumou parceria com um
inquisidor totalmente excêntrico que, por certo, enfiou mais sandices em sua mente. Agora, a pobre
mulher, além de tramar, ainda tinha que se preocupar em esquivar-se dos supostos demônios que
habitavam meu corpinho tão puro e inocente. Era hilário imaginar a condessa de olhos arregalados,
a altas horas da madrugada, sentada na cama só com os olhos de fora, vigiando para não deixar o
coisa ruim se aproximar dela. Pobre mulher! Confesso ter dormido maravilhosamente aquela noite.
Só me preocupei com Maria que, por certo, estaria triste de verdade.
     Acordei, dei uma espreguiçada e levantei de uma só vez meu desjejum - estava em uma
bandeja do lado da cama. Tomei calmamente e fui para a janela, observar o movimento. Como eu
já esperava, havia várias carruagens e cavalos no pátio de minha casa. Como as pessoas gostavam
de um mal feito, qualquer coisinha era motivo de atração circense. Tereza entrou, trazendo água
para que me lavasse. Por certo, a criada ficou com medo de mim depois de ter ouvido os boatos
mentirosos e alucinados que saíram da boca da condessa. Tereza, então, disse-me, meio
constrangida:
     _ Queria dizer, menina, que não acredito em nada que dizem sobre a senhorita. - abraçou-me e
saiu em seguida.




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

     Fiquei feliz por saber que os verdadeiros amigos nunca duvidam de nós, e que jamais caem em
armadilhas levianas. Lavei-me e vesti-me. Coloquei-me simples e formal. Meu pai foi o primeiro a
entrar em meu quarto. Deu uma leve batidinha e, ao ver-me sentada, perguntou:
     _ Como está, Anna?
     _ Muito bem. E como eu deveria estar?
     _ Não se lembra de onde estava ontem à noite e de nada que lhe acontecera?
     _ Não. Do que o senhor está falando? - menti.
     _ Encontramo-la caída no meio da floresta dos mortos. Suas roupas estavam todas rasgadas,
seu corpo estava todo arranhado. Como pode não se lembrar do que houve?
     _ Já disse: não consigo me lembrar de absolutamente nada. O que o senhor está dizendo para
mim é grego. - sentei-me na cama e fiz uma cara de ingênua.
     Meu pai sentou-se ao meu lado e disse:
     _ Anna, quero ajudá-la. Mas, para isso, preciso que colabore comigo. Diga-me olhando em
meus olhos: foi violada por algum bandido?
     _ Não! Estou bem. Por que está me perguntando essas tolices? Não conhece meu
comportamento? Perdeu a confiança em mim, pai?
     _ Confio na senhorita, Anna, mas algumas coisas não estão se encaixando. Sabe que não sou
homem de acreditar em misticismos.
     Olhei-o no fundo dos olhos e disse:
     _ Então, terá que continuar confiando.
     _ Eles a levarão de mim, filha. Não poderei fazer nada. Se deixar que pensem que é uma
feiticeira, eles lhes condenarão e sabe Deus o que lhe farão.
     _ Não, pai. O senhor entregar-me-á, como tentou fazer vendendo-me para aquele homem
inescrupuloso, para saldar suas dívidas. O senhor só pensou em si mesmo e no santo nome de sua
ambiciosa esposa. Mas se esqueceu de que sou o único laço consanguíneo que o senhor
verdadeiramente tinha. Vá, abra a porta, antes que a derrubem por causa do peso de estarem todos
encostados nela.
     Meu pai olhou-me espantado e só fez abaixar a cabeça.
     _ Tem certeza de que está preparada para isso?
     _ Sim. Deixe que entrem meus algozes.
     Como eu havia dito, quando meu pai abriu a porta, caíram todos de uma vez uns em cima dos
outros, tropeçando como urubus. Fiquei admirada de ver senhores tão distintos, como o magistrado
da cidade e Lord Oswald, tentando equilibrar-se em cima do próprio peso para levantar-se. Todos
fingiram estar tirando a poeira das vestes. Depois, olharam-me, esperando que meu pai lhes
dissesse alguma coisa. Por fim, Lord Oswald perguntou, curiosamente, não aguentando manter-se
calado:
     _ Conseguiu arrancar dela alguma confissão?
     Meu pai, porém, respondeu-lhe:
     _ Não estava tentando fazer minha filha confessar coisa alguma. Só estava tentando encontrar
uma resposta plausível para o fato ocorrido ontem à noite. Mas, pelo jeito, ela não consegue se
lembrar de nada.
     _ Por certo o demônio afastou-se quando viu a luz. - respondeu o magistrado.
     Quando ele falou que a luz afastou o demônio, por certo não era a dele, pois ele era uma das
pessoas que estavam rodeadas de pequenas criaturas zombeteiras. Meu pai tentou, ainda, fazer-me
falar na frente de todos o que eu estava sentindo:
     _ Diga a eles, minha filha, o que está sentindo, para que percebam que você é inocente.
     _ Já lhe disse, pai: não estou sentindo absolutamente nada. Estou é achando engraçado todos
esses senhores e nobres aqui em meus aposentos, tentando achar algum defeito em mim para
esconderem seus próprios defeitos.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Blasfêmia! O demônio está zombando de nós. - disse um nobre rechonchudo, o senhor
Oswald.
     _ Devemos levá-la para uma interrogação formal, a portas fechadas. – disse, por fim, o
inquisidor, que me observava.
     O homem mais parecia um mouro por causa de sua forma arcaica. Ele era exatamente como eu
e Maria vimos em nossas visões: os demônios em seu corpo faziam sobre o seu ombro os mesmos
gestos que ele fazia ao falar, só que de maneira zombeteira. Aqueles demônios o induziam a fazer
todos os tipos de crueldades jamais imaginadas por um ser vivente temente a Deus. Aquele homem
realmente era uma pessoa que precisava de um exorcismo. Quase não consegui olhar para ele por
causa das criaturas deformes que o rodeavam, blasfemando e fazendo gestos obscenos.
     Por fim, meu pai, ao perceber que o inquisidor aproximava-se de mim para tocar-me, disse-lhe,
segurando sua mão:
     _ Ninguém tocará em nenhum fio de cabelo da minha filha.
     Um soldado da milícia tentou se aproximar de mim, mas Lorenzo e outros dois capatazes de
meu pai mostram estar armados, afastando-o de imediato. Então, imediatamente, o soldado baixou
a guarda e posicionou-se em um canto da parede. O padre Ignácio chegou, dando braçadas,
empurrando toda aquela gente curiosa e impertinente que estava aglomerada em meus aposentos.
Quando conseguiu chegar até a mim, disse:
     _ Saiam desse quarto imediatamente! Quero falar a sós com a senhorita Anna.
     _ Ficou louco, padre? Esta mulher está repleta de demônios. Já enfeitiçou o conde Alfred, dois
empregados da casa, e o próprio pai. O senhor não pode, de modo algum, ficar sozinho com essa
discípula de satã.
     _ Sim, é verdade. Quase a pedi em casamento por causa dos súcumbos que estão dentro do
corpo dela. Eu estava totalmente enfeitiçado por esta mulher a ponto de quere-me unir a esta bruxa,
que invadiu minha mente com o seu poder maligno. – disse o conde.
     Que hipócrita!, pensei comigo. Finalmente eu havia conseguido me livrar daquele
compromisso com aquele homem inescrupuloso e assassino. Sentia-me muito orgulhosa de mim
mesma, pois nunca cedi de livre e espontânea vontade às investidas daquele falso conde. A minha
vontade, naquele momento, foi de entregá-lo, dizendo tudo o que sabia sobre ele. Mas tinha que
deixar uma carta na manga para o último momento.
     Padre Ignácio interrompeu meus pensamentos quando se sentou ao meu lado, na beirada de
minha cama, e ordenou em um tom severo, olhando novamente para aquelas pessoas que teimavam
em permanecer ali:
     _ Já havia pedido que se retirassem. Por favor, saiam imediatamente. Quero falar a sós com a
senhorita Anna.
     Uma senhora muito gorda, que mais me lembrava um grande porco capado, fez o sinal da cruz
e um comentário ofensivo:
     _ Pobre vigário... A maldita feiticeira já possuiu a sua pobre alma!
     Padre Ignácio, ao ouvi-la, respondeu severamente:
     _ E possuirá a sua se não fizerem o que mando agora. Não veem que estão tirando o direito
desta jovem a confessar? Ela é ainda minha paroquiana e não lhes dou o direito de ofendê-la sem ao
menos ouvi-la antes.
     _ Blasfêmia! Bruxa não tem direito a defesa. - disse um homem sem dentes e muito magro que
estava no meio daquela gente toda.
     _ Se é assim, então ficaremos. Tornaremos essa confissão oficial. - disse o magistrado.
     _ Senhor Cortez, pelo respeito que tenho pelo senhor e pela sua posição em nossa comunidade,
este é um assunto que só diz respeito à Igreja. Creio estar suficientemente preparado para lidar com
seres de outra dimensão.
     Meu pai, então, interveio mais uma vez:




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ É melhor sairmos todos. Vamos ver se o padre consegue algum resultado favorável.
     Falou isso e foi empurrando todos para fora do recinto que, pelo jeito, já não me pertencia.
Assim que conseguimos ficar a sós, padre Ignácio falou:
     _ Filha, preste atenção no que vou dizer agora: quero que me responda com toda a sinceridade
possível.
     Antes que o padre Ignácio prosseguisse, fiz um sinal para ele, apontando o inquisidor, que
estava encostado na parede com os braços cruzados, ignorando suas ordens. Padre Ignácio ficou
furioso por ter sido desrespeitado e falou-lhe asperamente:
     _ Creio não ter sido muito claro ou o senhor deve estar sofrendo de perda de audição. Quero
falar com essa moça a sós.
     _ Não creio que ela tenha alguma coisa para falar que um inquisidor não possa estar presente
para ouvir. Quero que o senhor saiba que estou aqui representando as leis da Santa Madre Igreja.
     Padre Ignácio colocou pessoalmente para fora o homem surdo, segurando-lhe o braço e
dizendo:
     _ O senhor pode ser o representante até mesmo do rei, mas ainda mando nesta paróquia e meus
paroquianos merecem todo o meu respeito, assim como essa moça que aqui está.
     Em seguida, olhou para mim, fazendo um sinal com o dedo indicador nos lábios para que eu
ficasse em silêncio. Depois de ter colocado o homem para fora, ele esperou dois minutos e abriu a
porta de supetão, pegando aquela senhora gorducha grudada com os ouvidos nela. A mulher caiu,
esborrachando-se no chão como uma abóbora podre. Padre Ignácio, indignado, falou:
     _ Que vergonha, mulher! Escutando atrás da porta? Vá para baixo com os outros. Aqui não tem
nada que lhe diz respeito. Saiba que quero sua confissão na missa de domingo.
     A mulher, custosamente, levantou-se do chão. Mesmo com as bochechas vermelhas como
tomates de vergonha, ainda falou:
     _ Só estava tentando ouvir se os demônios no corpo desta bruxa estavam machucando o
senhor.
     _ Se fosse um exorcismo - o que não é -, a senhora realmente correria o risco de ser possuída
por um espírito maligno por causa da sua proximidade tão homogênea com a vítima em questão.
Mas agora que já se certificou de que não há demônios nenhum aqui, se a senhora não se retirar
imediatamente, eu mesmo tratarei de jogá-la escada abaixo.
     A mulher saiu, fazendo o sinal da cruz e benzendo-se, chamando o nome de tudo quanto era
santo que haveria de se lembrar. É claro, ao chegar perante os demais curiosos no andar de baixo,
ela inverteu toda a história, dizendo que ouviu os gritos que eu dava quando o padre jogava em
mim a água benta. Este tipo de pessoa é que fazia a má fama das bruxas. Pessoas sem nenhuma
ocupação, sem razão para viver e, com certeza, muito mal amadas. Pessoas que precisavam se
garantir causando a desgraça alheia, criando um motivo para que todos prestassem mais atenção em
sua figura patética e insignificante. Tanto que eu nunca a havia notado além daquele dia. Com
certeza, ela deve ter conseguido uma boa plateia para o seu teatro de mentiras e injúrias.
     _ Então, minha querida Anna, agora podemos conversar. - disse padre Ignácio, com a voz
cansada e pesarosa.
     _ Sim.
     Atirei-me em seus braços, pois estava me sentindo completamente só e desprotegida. O peso
do mundo parecia ter caído sobre as minhas costas.
     _ Santo Deus! Calma, minha filha. Preciso que me conte exatamente o houve para que
possamos, juntos, resolver esse problema.
     Contei até os pormenores dessa nova situação.
     _ O senhor também irá me condenar por isso, não é?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ De modo algum. Já conversamos sobre isso. Não vim a esse mundo para julgar quem quer
que seja. Só me garanta uma coisa apenas: algum dia a senhorita já teve contatos com o demônio,
ou qualquer ser vindo do inferno?
     _ Não, padre. Juro que não. Só não me peça para negar quem sou. Se me perguntarem se sou
uma bruxa, direi que sim.
     _ Agora, sim, consigo entender a carta que todos comentavam quando cheguei. Pensou em
tudo, não foi?
     _ Espero que sim, padre. Muita gente neste momento está dependendo de mim.
     Padre Ignácio olhou-me indignado e prosseguiu:
     _ Lançou-se na noite escura sem temor, por confiança e amor verdadeiro. E foi amor ao
próximo. Cada vez mais a admiro, por ver o quanto o seu coração é cheio de fraternidade e
compaixão. É a pessoa mais corajosa que já conheci - até mais que muitos soldados, pois foi capaz
de abrir o peito para o perigo eminente que está à sua frente. Está determinada a enfrentar um cruel
destino por amor ao seu próximo, abrindo mão da própria liberdade e, talvez, da própria vida. A
senhorita é uma verdadeira filha seguidora do Cristo. Tenho muito orgulho de você e nunca me
esquecerei desta moça corajosa e determinada que agora está aqui na minha frente.
     Ele me abraçou e, dando-me sua benção e um beijo na testa, prosseguiu:
     _ Só preciso que confie em mim. Tudo o que eu fizer ou disser jamais pense que será para o
seu mal. Por isso, mais uma vez vou lhe perguntar: a senhorita confia em mim?
     _ É claro que sim, padre. Se não confiasse, não teria lhe contado todo o meu segredo.
     _ Então, fará exatamente do jeito que combinarmos. Promete?
     _ Sim, prometo.
     _ Se a senhorita não colaborar, não poderei ajudá-la.
     Ele segurou meu rosto para ter certeza de que estava lhe ouvindo atentamente. Falou-me tudo
em um tom de voz que mais parecia um sussurro. Tudo isso para que não fôssemos ouvidos pelos
curiosos que estavam de prontidão, do lado de fora da porta novamente. O desespero daquelas
pessoas era tanto que havia hora em que ouvíamos seus tropeços e esbarrões na porta. Pareciam
cães de guarda. É engraçado como a vida alheia é muito mais interessante do que a nossa própria
vida. Então, o padre Ignácio levantou-se e abriu a porta. Como esperávamos, estava novamente
repleta de curiosos tentando escutar minuciosamente o que conversávamos. Imagine só: havia um
que levou um copo para tentar ouvir melhor. Outro tentava furar a parede. Eu era praticamente a
atração principal daquele espetáculo de injúrias. Senti-me como um animal enjaulado, sendo
exposto no meio de uma multidão furiosa e pronta para atirar-me pedras. Padre Ignácio olhou para
eles indignadamente e falou, em um tom sério:
     _ Entrem. Ela já está pronta.
     _ Ela confessou? Louvado seja o senhor padre! Nunca duvidei que o senhor fosse capaz de
fazê-la confessar. Então, diga-nos: o que ela confessou ao senhor? - disse o magistrado.
     _ Não tenho que lhes dizer nada em público. Este é um caso reservado e de ordem judicial.
Portanto, cabe às partes competentes decidirem o que devem fazer.
     Falando isso, o padre foi empurrando todos os curiosos que ali se encontravam.
     _ Vamos, saiam daqui. Só entrarão as partes interessadas no assunto.
     Então, pôde entrar o meu pai, o chefe da guarda, o magistrado, o inquisidor, o conde e o Lord
Gaspar - por estar envolvido na política local – e, finalmente, a condessa. A senhora gorducha
também tentou invadir meu quarto assim mesmo, mas o padre a bloqueou imediatamente na
entrada, empurrando-a com as mãos.
     _ Aonde a senhora pensa que vai?
     _ Ora, também sou importante neste caso! Afinal, fui testemunha de um exorcismo. Vi esta
mulher manifestar o demônio.




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                                         Adriana Matheus

     _ Senhora Eulália, se não sair daqui agora, juro que pedirei ao chefe da guarda que lhe dê voto
de prisão por desacato e desobediência às autoridades presentes.
     O chefe da guarda, na mesma hora, tomou a frente e colocou-se de prontidão, com a mão na
arma que estava em sua cintura. Padre Ignácio fechou a porta, empurrando fortemente com as mãos
a velhota sisuda e mentirosa. Ela, ainda, se fez de sonsa, mas padre Ignácio expulsou-a como um
cão sarnento. E ainda preveniu os outros curiosos que também teimavam em bisbilhotar:
     _ E que isso sirva de lição a todos os bisbilhoteiros presentes aqui! - gritou para aquelas
pessoas.
     Por fim, todos saíram, resmungando e debatendo-se como crianças fazendo pirraça. Então, a
portas fechadas, padre Ignácio começou o interrogatório.
     _ Senhorita Anna, é verdade que não se lembra de absolutamente nada do ocorrido ontem à
noite?
     _ Sim, padre, é verdade.
     _ Sabe que irá a julgamento sob pena de morte?
     _ Sim, estou ciente de tudo o que ocorrerá comigo.
     _ Então, sabe que não pode mentir. - padre Ignácio deu uma piscadinha para mim.
     Baixei a cabeça, para que não percebessem nossa cumplicidade.
     _ Sim, padre, sei.
     _ Então, responda-nos: quem estava presente com a senhorita durante aquele ritual satânico?
     _ Não houve nenhum ritual satânico. Eu estava sozinha. Não havia ninguém comigo. Os
senhores estão tentando me confundir.
     _ Está mentindo! - disse o inquisidor.
     _ Então, como consegue explicar todas aquelas marcas no solo e sinais de bruxaria espalhados
por todos os lados? - continuou o padre.
     _ Não havia ninguém. Só consigo me lembrar das formas incorpóreas que me levaram no colo
para a floresta.
     _ Oh! - exclamaram os demais presentes.
     _ Foram os demônios! - sussurrou o magistrado, fazendo sinal da cruz.
     _ Então, o que tem a dizer sobre a carta escrita pela sua governanta? - prosseguiu o padre,
pedindo silêncio a todos, que não paravam de tagarelar.
     _ Quero que todos os demais presentes prestem muita atenção. A carta é muito esclarecedora
neste caso.
     Dizendo isso, tirou a suposta carta de Maria de dentro de uma bolsinha de couro e deu início à
leitura. Seu conteúdo pareceu intrigar e interessar todos os ouvintes. A carta dizia:

     Caro senhor Juan,
     É com muito pesar que venho através desta dizer-lhe que estou deixando sua morada. Sinto ter
que estar abandonando meus afazeres e meus compromissos como sua leal serva. Sinto mais ainda
por estar rompendo o compromisso feito à sua esposa, a senhora Elizabeth Goldin. Mas é com
imenso pesar que deixo o ofício como sua governanta. Embora lhe tenha todo o respeito deste
mundo e gratidão por sua generosidade comigo, venho comunicar-lhe que não poderei mais
permanecer em sua residência. Já faz algum tempo que venho tentando poupar-lhe maiores
desgostos. Embora eu tenha tentado lutar contra os meus próprios princípios religiosos para achar
uma forma de ajudar e afastar a senhorita Anna, sua filha, das ciladas do demônio, confesso ser
impossível. Pois a senhorita Anna está totalmente possuída. Embora eu tenha feito de tudo ao meu
alcance, não posso mais continuar, pois me sinto fraca e incapacitada de lutar contra o demônio
que age em sua filha de maneira desordenada. Ela tem tido ataques de sonambulismo,
influenciados pelos demônios que a possuem durante o sono. Por várias vezes, segui-a durante a
noite até o jardim, onde ela parecia não estar ciente do que estava fazendo. Creio que isso deve ter




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                                         Adriana Matheus

vindo de um local secreto que a senhorita Anna achou sem querer, depois de ter lido o diário de
sua estimada e falecida esposa Elizabeth. Creio que ela deve ter construído o obscuro local para
culto demoníaco. Peço que o senhor, como um bom pai e sensato homem, encaminhe-a aos rigores
de um convento, onde poderá afastar-se por completo dessas criaturas horríveis que tanto a
atormentam. Vendo-me, então, de mão atadas, desfaço a promessa que fiz à senhora Elizabeth em
seu leito de morte. Sendo assim, deixo o meu cargo de governanta disponível a quem quer se
interesse. Espero, sinceramente, que o senhor compreenda minha atitude aparentemente covarde e
leviana. Embora eu o admire muito e tenha por sua filha alta estima, não quero manter contato
com o demônio ou com alguém que tenha alguma proximidade com ele.
     Sem mais,

     Maria Constança
     Sua criada.
     Fiz uma carta de meu próprio punho. Enquanto saíamos apressadamente no meio da noite,
deixei-a cair no chão, perto da escada, sem que Maria percebesse, para que algum dos empregados
a encontrasse. Ao ler, quem quer que fosse pensaria que Maria estava abandonando a casa por
medo de parecer ter estado envolvida em rituais de magia negra. Se eu tivesse deixado a suposta
carta que Maria havia escrito para meu pai diretamente, e ela fosse lida por ele, certamente teriam
perseguido tanto ela quanto Joseph. Àquelas alturas, estariam mortos. Porém, a carta foi encontrada
por Tereza, que procurou o padre Ignácio na igreja e entregou a carta a ele. Ele seguiu
imediatamente para a casa dos Menellaus, entregando-a ao meu pai, que a leu em voz alta para o
conde e para os demais presentes. Foi assim que o boato da carta se espalhou. Ao voltarem todos
para casa, não me encontraram. Deu-se início, então, a uma busca pela redondeza. Em seguida, o
conde enviou seus soldados para me procurarem e acionou o inquisidor, que estava na cidade
disfarçadamente, embora eu já o tivesse visto em minhas visões junto a Maria.
     Todas nós fazemos um juramento em que nos é expressamente proibido mentir sobre a nossa
condição de bruxa. Devemos manter fidelidade às irmãs, mesmo sob tortura. É por isso que fiz
Maria ir embora fugida. Se alguém a interrogasse, ela também diria a verdade sobre si, mas nunca
sobre mim. E isso não seria justo com a mulher que, além de ter me criado como mãe e sido a
minha única companheira até aquele momento, também perdeu sua juventude por fidelidade e
ignorância de meus avós e de meu pai.
     Padre Ignácio deu procedimento ao interrogatório:
     _ E então, senhorita Anna? Pode nos dizer o que sua governanta quis dizer ao senhor Juan,
fazendo-lhe tais acusações?
     _ Ela estava tentando me ajudar.
     _ Por quê?
     _ Porque ela dizia que o demônio pegava-me durante a noite e fazia de meu corpo o que bem
queria.
     _ Oh! - exclamaram novamente.
     _ Então, confessa ter pacto com o satã? - interveio o inquisidor.
     _ Não! Apenas disse que estou sendo usada, mas não consigo me lembrar do que faço durante
a suposta possessão. Nem sei o que fiz ontem à noite.
     Padre Ignácio socorreu-me, não deixando que ninguém falasse mais nada. Então, continuou:
     _ A que veredicto os senhores conseguem chegar?
     Por fim, o magistrado falou, ainda meio confuso:
     _ Diria que teríamos que analisar o caso, com calma, e interrogá-la em uma corte de maneira
formal.
     _ E os outros demais presentes? O que têm a dizer?
     _ Concordamos com o magistrado. - disse o chefe da guarda.




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     _ Então, marcaremos uma audiência pública para amanhã bem cedo. Assim, depois de
ouvirmos o que todos dirão, daremos o veredicto, decidindo o futuro desta mulher. - disse o
magistrado, todo entusiasmado por finalmente ter algo para fazer. Afinal, nunca houve um
julgamento naquela cidade pacata.
     _ Então, prendam a bruxa e levem-na para que aguarde sua sentença na prisão, antes que ela
faça mal a alguém ou fuja. - disse a condessa, tentando livrar-se de mim.
     _ Concordo com a condessa: esta mulher é uma feiticeira perigosa. Eu mesmo quase caí nos
seus encantos. - finalmente o crápula do conde abriu a boca.
     Lógico que ele gostaria que eu fosse para a prisão: lá seria bem mais fácil para ele subornar um
guarda e pôr aquelas mãos imundas em mim.
     _ De jeito nenhum! Ela é uma moça de família e não está acostumada a um lugar como aquele.
Como pároco desta cidade, sugiro que ela fique em sua casa, trancada em seu quarto, até amanhã.
     _ Senhor Juan tem algo contra?
     _ Lógico que não. Ela ficará aqui, sob meus cuidados.
     _ E se ela resolver tentar escapar? Ou matar alguém durante a noite? - a condessa tentou
envenenar mais uma vez (morro de medo dela...)
     _ Cale-se, mulher! Está decidido: minha filha ficará nesta casa até que decidam o que será feito
dela.
     _ Senhor Juan, a senhora sua esposa está coberta de razão. E se sua filha tentar escapar durante
a noite? Ou tentar algo contra até mesmo o senhor? - disse o inquisidor.
     _ Garanto que ela não fugirá. Dou minha palavra como cavalheiro. E quanto à preocupação se
ela vai ou não fazer mal a alguém desta casa, por que o capitão da guarda não coloca dois guardas
na porta, para garantirem a nossa segurança?
     Houve novo murmúrio de conversa e, por fim, chegaram a uma solução.
     _ Tem razão. Disponibilizarei dois de meus melhores homens para que fiquem de prontidão, do
lado de fora do quarto da senhorita Anna.
     _ Então é melhor que coloquem outros dois montando guarda do lado de fora da casa. –
sugeriu a condessa.
     Ela não parava mesmo. Era uma pena que eu não podia falar nada. Senão, com certeza teria lhe
dito umas boas verdades. E que bom que haveria guardas em minha casa para me proteger. Assim,
não seria perturbada por ela e pelo conde durante a noite.
     _ Que assim seja, então. - disse o magistrado.
     _ Senhores, se estão todos de acordo, então vão para suas casas descansar. Teremos um dia
cansativo amanhã. - disse meu pai, parecendo estar exausto.
     _ Tem mais uma coisa. Que fique bem claro que ninguém entre neste quarto ou saia. Que esta
mulher seja levada a julgamento assim que o dia raiar. - disse o inquisidor.
     _ Dou-lhes a minha palavra. - disse o padre Ignácio.
     _ E a minha de cavalheiro. - confirmou meu pai.
     Por fim, saíram todos. Cada um olhando-me com uma cara pior que a outra. Ao passarem por
mim, benziam-se, como se estivessem vendo em mim o próprio demo. Fiquei boquiaberta com a
atitude ignorante daquelas pessoas. Mas, ignorantes ou não, o importante é que me deixaram em
paz. Finalmente, pensei comigo. Padre Ignácio, ao passar por mim, benzeu-me com as mãos,
fazendo em minha testa o sinal do santíssimo e confirmando em seus olhos nosso pacto de silêncio
e cumplicidade.
     Assim que a porta fechou-se e, finalmente, o quarto esvaziou-se, caí sobre a cama e chorei a
noite toda. Sequer tive forças para fazer minhas orações. Por causa dos soluços, cheguei a engasgar
com as palavras. Senti a presença dos meus amigos espirituais. Mas, naquele momento, tudo o que
eu queria era sentir o calor e o abraço de minha amiga Maria. Senti tantas saudades... Meu coração
doía tanto que, se a dor fosse real, eu mesma a teria arrancado do peito com as minhas próprias




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

mãos. Nas horas de muita dor, temos que ter cautela para não blasfemarmos contra Deus. Pois a
fragilidade faz-nos pecar contra tudo o que é sagrado. Naquele momento, agarrei-me à fé e ao
sagrado, cuja imagem sempre ficava na beira da minha cama... Tentei desvencilhar minhas
lembranças daquele dia, mas todas as minhas tentativas foram em vão.
     Rolei boa parte da noite de um lado para o outro. O silêncio era torturante. Sempre odiei a
solidão. Por fim, acabei adormecendo com o som mudo do mundo.




     “Nunca desista de seus objetivos, nem mesmo quando alguém tentar frustrá-los. Saiba que
somos testados vinte e quatro horas. Isso é só para que os anjos tenham a certeza de que nunca
iremos desanimar no meio do caminho. Os verdadeiros obstáculos são aqueles que deixamos para
trás. E a verdadeira vitória é aquela em que aprendemos a reconhecer de imediato. Siga o seu
caminho em paz e deixe para trás os que tentarem derrubá-lo. Perdoe e deseje que vivam. A vida é
uma vingança - e a morte, um descanso. Pense nisso”.

    (Padre Ângelo Wallejo Moralles).




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus


    Capitulo V – A despedida



    A
              dormeci profundamente no início, mas a madrugada invadiu-me com sonhos
              turbulentos. Imagens desconexas iam e vinham, perturbando-me a mente e a alma.
              Horas eu acordava como se meu corpo estivesse tendo uma convulsão; horas visões
assustadoras, com rostos destorcidos e fantasmagóricos, assombravam-me. Era como se meu espírito
já soubesse o que estava para acontecer comigo. Meus instintos de bruxa estavam agitados como
átomos em movimento.
     Quando o dia amanheceu, apenas abri os olhos lentamente, porque já estava acordada há muito
tempo. O sol entrou no quarto, trazendo sua poesia matinal e, como havia me deitado com as janelas
abertas, da cama pude olhá-lo despontando no horizonte. Dei uma espreguiçada e tentei levantar-me,
mas minha cabeça doeu e tudo rodopiou à minha volta. Então, deixei meu corpo cair pesado sobre a
cama novamente.
     A noite anterior havia sido uma das piores da minha vida. A despedida de Maria e as acusações
levianas que foram levantadas em falso contra mim fizeram-me sentir como se o peso do mudo
estivesse sobre minhas costas. Lembranças tristes e saudosas misturavam-se na minha mente. Queria
deixar as lágrimas caírem para aliviar aquela tensão toda, mas não conseguia. Eram muitos os fatores
que me deixavam tensa. Inclusive a atitude de meu pai preocupava-me: embora ele não tivesse
deixado ninguém me fazer mal, havia alguma coisa de errado no ar, pois aquela súbita
espontaneidade dele em me defender demonstrava que algo não se encaixava com a real situação.
Aquela atitude estava cheirando a trama e oportunismo.
     A opressão que passei foi muita para uma noite. Precisei livrar-me daqueles pensamentos para
tentar, ao menos, fingir que existia algo de bom no coração de meu pai em relação a mim. Comecei a
pensar no quanto ele estava sendo enganado pela esposa e que, embora ele tivesse tido comigo uma
atitude egoísta, preocupava-se com a família. Tentei realmente achar uma resposta para os absurdos
por que eu estava passando. Por fim, desviei o pensamento de que meu pai era um vilão. Tentei vê-lo
como uma vítima daquela sociedade inescrupulosa. A minha maior preocupação seria com os
demais, que tentariam a todo custo fazer-me confessar uma coisa totalmente inversa do que
realmente era a tradição da serpente ou tradição da Lua, como também era conhecida. Meus sonhos
de liberdade e igualdade tornaram-se pesadelos - se é que algum dia pude realmente ter o direito de
sonhar... Incrível como vivi em poucos dias tudo o que uma pessoa levaria no decorrer de sua
existência para viver.
     Devido ao cansaço e à fadiga da noite anterior, acabei esquecendo-me de tirar as roupas. Deitei-
me em uma posição muito desfavorável, com um infernal espartilho que me estrangulou a cintura a
noite inteira - o que me causou uma terrível dor na cabeça e no corpo. Minha vontade era de ter uma
varinha mágica igual a dos contos de fadas e, com ela, abrir um vácuo no tempo – sumindo, assim,
de todo aquele problema. Mas, infelizmente, ser uma bruxa também exigia responsabilidades que
não podiam ser ignoradas. Infelizmente, ser uma bruxa era muito mais do que um conto de fadas ou
uma brincadeira folclórica. As fantasias que se criam sobre nós, bruxas, quem dera fossem verdade!
     Naquele momento, eu estava passando pela fase dos efeitos e causas. Tudo porque interferi no
meu próprio destino. Havia criticado a minha ancestral Shaara - quando ela tentou mudar o seu
futuro, invadindo o espaço e o tempo -, mas também mudei o meu, quando não aceitei as imposições
do meu pai. Quis ser livre nas minhas opiniões e vontades - o que, para a época em que vivia, não era
uma coisa normal. Deveria ter deixado que as coisas fluíssem normalmente e seguissem o seu rumo
certo. Quando comecei a ver meu futuro, deveria imediatamente ter esvaziado minha mente, como
me ensinou Dona Helena: toda ação leva a uma reação. Novamente, deparei-me com meus
ensinamentos e percebi que havia ido longe demais, passando por cima de todas as leis da tradição.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     A minha vontade de estar ao lado do homem dos meus sonhos foi tamanha que me levou a estar
onde me encontro agora, nesta cela fria, com condições subumanas. Fui uma inconsequente e
sonhadora. Por mais que sempre tenha lutado pela liberdade, deixei-me levar pela ilusão e pelos
sentimentos carnais. Definitivamente, o coração é enganoso. O que mais me entristece é pensar que
fiz tudo porque acreditei que poderia ser salva pelo meu príncipe encantado. Talvez essa seja a maior
falha humana: acreditar na palavra do próximo. Se eu tivesse me contentado em saber apenas o meu
passado, confiado que em um futuro vindouro encontrar-me-ia com o monge, talvez tivesse
aprendido a confiar na fé, não sendo tão intolerante, precipitando os efeitos e causas. Deveria ter
vivido aquela vida de imposições, onde talvez tivesse sido feliz. Poderia ter me casado com o conde.
Certamente, quando ele se cansasse de mim, trancar-me-ia no convento, onde eu cumpriria meu
destino ao lado do monge. Mas não: quis ir muito mais além e, com isso, interferi no meu destino,
antecipando o que poderia ter acontecido anos mais tarde. As dúvidas e o se sempre encontram um
lugar em nossas mentes depois que algo desagradável nos acontece - ou depois de tomarmos
decisões erradas, das quais acabamos por nos arrepender. Naquele momento, precisava arranjar
forças dentro de mim, em um lugar completamente desconhecido, antes que novamente as fraquezas
da minha mente tomassem conta do meu ser.
     Voltemos novamente à minha história, em que meu destino estava prestes a ser selado. Olhei
rapidamente pela janela, que havia deixado aberta inconsequentemente. Seria difícil encarar aquela
luz. Estava me sentindo como um ébrio depois de uma noite de bebedeiras, estirada sobre a cama,
com os braços abertos e pensando coisas que nem eu mesma conseguia distinguir.
     Era tudo ou nada. Tinha que ser de repente, em um supetão. Dei um pulo da cama, caindo
sentada em seguida - quase desmaiei por causa da terrível dor de cabeça. Foi quando notei que havia
um enorme alarido do lado de fora do meu quarto. Fiquei com os olhos arregalados com todo aquele
alvoroço. Escutei alguém discutindo em um tom de voz muito exasperado. Era a voz do meu pai, que
estava tentando entrar. Parecia que os guardas não o deixavam. Então, escutei um barulho
estrondoso. Só me dei conta do que era quando a porta do meu quarto abriu-se e o meu pai caiu
quarto adentro. Fiquei atônita por ter visto aquela cena tão inusitada.
     _ Pai! É o senhor?
     Fiquei tão feliz por vê-lo. Estava tão sozinha que, mesmo que ele me esbofeteasse, ficaria feliz
apenas por ter tido o contato daquelas mãos. Meu corpo tremia tanto que dava a impressão que eu
estava com febre alta. Meu pai levantou-se, ainda cambaleando por causa da forma com a qual havia
entrado. Correu para minha direção e abraçamo-nos com sofreguidão. Aquele momento foi único
para mim, porque foi a primeira e última vez que meu pai abraçou-me depois de adulta. Olhei-o nos
olhos, parecendo não acreditar:
     _ Pai, não sabe o quanto eu estava precisando do senhor. Estou me sentindo tão sozinha... Estou
com medo; minha alma está fria como meu corpo agora. - disse isso porque senti um frio que me
gelava por dentro.
     Ele continuou olhando para mim e disse-me:
     _ Estou aqui porque confio em Deus e sei que contará a mim toda a verdade, minha filha. Quero
que confesse que foi o demônio quem a induziu a ter aquela atitude insana. Quero, também, que diga
que foram Maria e Joseph quem estavam evocando o demônio, que lhe deram uma poção mágica
para que você adormecesse. E que foi assim que eles a levaram para o meio daquele bosque maldito.
Diga isso e poderá ter o perdão da Santa Madre Igreja. Todos entenderão, pois verão que você é uma
jovem frágil e ingênua e que estava sob o poder e as forças da magia negra. Aqueles velhos malditos
arrependeram-se, fugiram no meio da noite, sem darem satisfações. Dizendo o que lhe sugiro, eles
levarão a culpa toda, enquanto você se casará com o conde e irá para bem longe desta cidade. Pense,
minha filha. Eu mesmo ouvi falar de vários casos em que o demônio toma a forma de pessoas e até
consegue conviver no meio de uma família, sem que alguém sequer venha notá-lo. Por certo,
aceitarão essa história de que Maria evocava o demônio, e de que Joseph era um bruxo poderoso e




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

fazia uso do maldito conhecimento com as ervas para lhe pôr em transe. Vamos resolver isso. Confie
em mim e faça o que lhe estou aconselhando. Tudo dará certo, minha filha. Você vai se casar com o
conde. Com essa feliz e satisfatória decisão, resolveremos todos os problemas - inclusive os
financeiros. Em breve estaremos todos novamente frequentando a alta roda da sociedade europeia. E
quanto às vias de fato, não se preocupe, pois todos logo esquecerão. Essa história acabará como mais
um mexerico infundável. Por certo, Maria e Joseph serão capturados e, mais cedo ou mais tarde,
serão mortos, levando consigo esse segredo. Eu mesmo darei um jeito de impedi-los de dizer alguma
coisa. Esses traidores malditos pagarão por fugirem de mim assim, como dois ratos, na calada da
noite. Verão o quanto custa terem brincado com alguém da nossa estirpe. Aquela velha sempre foi
uma insolente. Nunca gostei dela. Aquele velhote não passava de um inútil. Só o tolerava aqui por
pena. Acharam que eu fosse mesmo acreditar naquela maldita carta que me escreveram? Ambos vão
me pagar por terem caluniado a minha família. Basta, minha filha, que aceite e faça o que estou lhe
sugerindo.
      Mal pude acreditar nas palavras que saíam da boca do meu pai naquele momento. Como ele
conseguia superar as minhas expectativas em relação a ele ser um cafajeste e mau caráter? Depois de
ter ficado boquiaberta com tamanha decisão vinda da parte dele, respondi:
      _ Hã!? O senhor deixa-me sem chão, meu pai. Quer dizer que não veio aqui para me ver? Para
saber como estou? Meu Deus! Definitivamente, o senhor conseguiu se superar. Juro que achei que
estava realmente preocupado comigo. Achei que poderíamos ter uma chance de resgatar o nosso
passado, meu pai, o nosso tempo perdido. Não estou acreditando no que estou ouvindo. Como pude
ser tão ingênua em relação ao senhor e a todos? O senhor só está preocupado com as suas dívidas e
com o que as pessoas poderão falar, caso saibam que estamos na falência. Nada do que estou
sentindo importa realmente para o senhor. Acha mesmo que fui capaz de fazer as coisas horríveis das
quais essas pessoas estão levianamente me acusando? Pai, nunca fiz pacto com o diabo ou com
qualquer outro ser do inferno. Desde quando o senhor passou a acreditar nessas sandices folclóricas?
Não me lembro de tê-lo visto dando importância a mexericos. O senhor conhece-me desde criança,
pai. Sabe muito bem que nunca me envolvi em sacrifícios de espécie alguma. Sabe muito bem que
não sou adepta a comer carne de espécie alguma. E como o senhor pode ser tão cruel com Maria e
Joseph, caluniando-os e acusando-os de coisas tão bárbaras? Pai, Maria ajudou o senhor a cuidar de
mim. Ela sempre lhe foi fiel! E Joseph!? O pobre homem dedicou os melhores dias de sua vida
cuidando do nosso jardim, entre outras coisas que o senhor lhe pedia e que ele nunca negou fazer.
Acho mesmo que nunca teve uma companheira. Viveu nesta casa por amor ao senhor e por mamãe.
Meus Deus, pai, foram as ervas de Joseph e Maria que curaram a moléstia da sua esposa e tantas
outras moléstias que surgiram nesta casa! A ambição está lhe cegando a visão da verdade. Sinto
muito, pai, mas nunca poderei inventar tais coisas contra Maria e Joseph. Não posso mentir quanto a
isso. Nunca os prejudicarei. Prefiro a morte a ter que inventar tais atrocidades contra duas pessoas
inocentes, se tudo o que eles fizeram nesta vida foi cuidar de mim. Portanto, não me peça para
mentir, meu pai.
      _ Então, você é inocente? Graças a Deus! Sabia que todas as sandices que essas pessoas estão
dizendo sobre ser uma bruxa, entre outras coisas, não passavam de calúnias. Conversarei com o
conde. Sei que ele irá relevar tudo isso. Afinal, um homem tão bom, fino e...
      _ E rico? Não é mesmo, pai? O senhor não vai falar coisa alguma com aquele déspota
usurpador. Será que o senhor não percebe que o conde nunca teve a intenção de se casar comigo?
Toda essa história leviana de que os colonos, a justiça local, o inquisidor, e o senhor participaram só
serviu de desculpas para que ele colocasse em ação o que, na verdade, já estava planejando. Não
percebe que a senhora sua esposa está de comum acordo com o conde? Eles fugirão assim que toda
essa história se apaziguar! Na verdade, pai, sou apenas uma atração, um esteio para que todos -
inclusive o senhor - se escondam atrás de mim. Assim, enquanto todos estiverem voltados para mim,
não prestarão atenção nos reais fatos que estão acontecendo. Esqueça o conde, pai. Se vendermos




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

alguns bens, junto com os dotes que já possuo, por certo o senhor poderá quitar suas dívidas com ele.
A condessa também tem muitas joias que poderão ser leiloadas. Poderemos nos apertar por uns
tempos. Mas, com o esforço e a colaboração de todos, sairemos desta situação. Pai, raciocine,
suplico! Não há nenhuma vergonha em ser pobre, ou em estar falido financeiramente. Vergonha é
não ter dignidade e coragem de levantar a cabeça e seguir em frente. Juntos, pai, como uma família
que nunca fomos, venceremos tudo. O senhor vai ver! Quanto a ser ou não verdade o que dizem a
meu respeito, fica a cargo da sua consciência. A única coisa que lhe peço é que me aceite como sou.
Ponha a mão na consciência e não acuse Maria e Joseph levianamente. Pense, meu pai, em tudo o
que acabo de lhe dizer. Seja sensato, pelo amor de Deus.
     Ele ficou parado na minha frente, parecendo estar raciocinando. Por fim, resolveu responder:
     _ Acha mesmo que vou expor minha esposa e o meu bom nome ao descaso da humilhação,
sendo que tenho a solução aqui na minha frente?
     _ E qual seria essa tal solução? Vender-me como escrava branca ou acusar de bruxaria e de
crimes levianos dois inocentes somente para que a senhora sua esposa se safe dos crimes de luxúria
dela? Quer que eu me case com aquele imundo para que, com isso, o senhor quite as suas dívidas de
jogo. É isso que o senhor espera de mim, não é, meu pai? Se isso acontecesse - o que não vai -,
jamais seria feliz. Nunca mais falaria com o senhor. Nunca o perdoaria. Antes de ser sua filha, antes
de ser uma mulher que o senhor se sente no direito de leiloar, sou um ser humano. Sangro, choro,
sinto dor e tenho sentimentos. Eu penso, pai - não sou irracional. Não pode se passar por leigo
quanto a isso.
     _ Do que você está falando? Está louca! Padre Ignácio está certo: devemos mandá-la para um
convento para se curar das alucinações e devaneios em sua mente, causados pelo demônio que já está
se apoderando de você. Deve ser um demônio muito poderoso, pois está influenciando a sua
maneira de entender a realidade da vida. Onde já se viu dizer que mulher pensa? Desde quando
mulher tem algum direito? Onde foi que ouviu tais insanidades? Nasceram ignorantes e submissas
porque Deus assim quis. Não adianta tentar querer ser diferente, pois a única coisa para a qual vocês
servem é procriar. Não pode mudar os fatos ou as leis dos homens e sobre elas tentar travar uma
guerra solitária. Não pode mudar o rumo dos fatos - sempre foi assim e sempre haverá de ser. Você
deverá obedecer ao que lhe for imposto pelos homens ou pelo chefe da casa – que, afinal, sou eu.
Imagina só, uma mulher pensando!
     Ele deu um sorriso sarcástico e malicioso e prosseguiu:
     _ Quem está dormindo é você, Anna. Por certo, o demônio lhe está embutindo tais pensamentos
na cabeça. Mas assim que for exorcizada, vai recuperar sua sanidade mental. Vou usar minha
influência e meu conhecimento para que vá para um convento onde terá tratamento adequado. Por
certo, se não for demônios, deve ser loucura. De lá, poderá ser transferida para um manicômio, caso
seja necessário. Mas lembre-se, minha filha: basta que diga que entende o que lhe digo, é certo que
envio imediatamente alguém para lhe tirar de lá. Mas é importante que não se demore nessa decisão,
pois já está ficando velha e logo já não arrumará um partido tão lucrativo como o conde.
     Era inacreditável ter que ouvir aquelas abominações saindo da boca do meu pai. Mas eu
precisava responder antes que ele me fizesse calar para sempre.
     _ É! O senhor tem mesmo razão. Não sei o que falo. Por certo, estou possuída pelo demônio
mesmo! Se for assim, que o senhor e essa gente vejam-me como uma louca endemoniada, que assim
seja. Mas é muito triste saber que o senhor considera-nos, as mulheres, como um animal irracional.
Isso também quer dizer que, quando o senhor se deita com sua esposa, está se deitando com uma das
éguas do seu estábulo? Meu Deus! Estou perplexa com tanta atrocidade que sai de sua boca, meu pai.
O senhor prefere deixar-me ser trancada como uma louca endemoniada em um convento do que
ouvir a verdade, do que fazer a coisa da maneira correta. Se isso é o que o senhor acha certo, então,
cale-me. Faça como todos: sufoque a voz da verdade. Mate-me, se assim o quiserem. Mas a verdade
aparecerá mais cedo ou mais tarde. E o senhor? Ficará sozinho com sua consciência e embriaguez.




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

     Disse aquilo porque sentia o forte hálito de bebida que saía de sua boca. Depois de fitá-lo
desafiadoramente, prossegui:
     _ Vou lhe contar uma coisa sobre sua esposa, pois acho que o senhor ainda não sabe o que anda
acontecendo debaixo do seu próprio teto. Caso o senhor não tenha percebido, a senhora sua esposa é
uma desfrutável e anda o traindo. Não estou dizendo isso para magoá-lo ou para vingar-me. Mas
acredito que o senhor está sendo ingênuo em relação a essa mulher.
     Ele olhou-me fulminantemente e, por fim, respondeu ironicamente:
     _ Todos temos que fazer certos sacrifícios para manter a família, minha doce e querida filha!
Aprenda que nada nesta vida sai de graça.
     _ O senhor sabia? Como pude ser tão tola a esse ponto!? Eu o achava vítima. No entanto, o
senhor sempre foi conivente com todas as traições da condessa?
     Senti a cabeça dar uma girada, como se o mundo todo estivesse caindo sobre mim. Era
inacreditável que um homem admitisse aquele comportamento leviano de sua esposa somente para
manter as aparências e o status. Depois de me ver ficar sem atitude, ele continuou:
     _ Há coisas que uma esposa tem que fazer para manter seu casamento feliz. Existem certos
sacrifícios que são necessários para o entendimento de um casal. Em um casamento, tanto o marido
quanto a esposa têm que ser compreensivos e, muitas vezes, coniventes com certas coisas. Ora,
Anna! De onde você achava que vinham as roupas caras que você usava? E toda a comida que
comemos? Achava mesmo que eu, à beira de uma falência, poderia suprir o luxo de uma mulher tão
cheia de mimos como minha esposa? Se pensa desta forma, vejo que realmente é uma tola e
ingênua. Tinha muitas esperanças em você. Cria que, quando crescesse, dar-me-ia certo lucro. No
entanto, está se comportando como a garotinha mimada e estúpida que sempre foi. Está sendo ingrata
com a condessa. Você deveria ao menos aprender a se calar e a respeitar quem a alimentou por tantos
anos. O obséquio que sua mãe lhe deixou só poderá ser usado quando seja maior de idade ou quando
sele uma união matrimonial. Portanto, acho que já está mais que na hora de você ser mais
compreensiva e retribuir todo o sacrifício que fizemos por você. Afinal, se minha atual esposa faz
por mim tais sacrifícios, porque você, como minha filha, também não pode simplesmente cumprir
um simples pedido meu? Afinal de contas, o conde é um homem ainda jovem e cheio de vigor. E
muito rico, sim: poderá lhe dar tudo o que desejar. Não terá nunca que passar dificuldades.
     _ O senhor enoja-me. Está tentando me prostituir como faz com sua esposa. Saiba que nunca
vou ceder às suas vontades. Prefiro apodrecer no calabouço de um convento como louca
endemoniada a fazer parte deste mundo miserável em que o senhor insiste em sobreviver. Se já que
não se importa com a reputação de sua esposa, dê ela mesma de presente ao senhor conde e poupe
aos dois o trabalho de fugirem. Mas saibam que pretendo gritar aos quatro ventos o que estão
tentando fazer comigo.
     Meu pai olhou-me nos olhos como se sentisse repulsa por mim. Esbofeteou-me nas faces,
fazendo-me cair deitada sobre a cama. Levantei-me, colocando as mãos no rosto, mas nada disse.
Novamente, apenas o fitei, tentando reconhecer quem era o homem à minha frente. Depois que ele
me olhou com desprezo, prosseguiu:
     _ Então, a partir de hoje, renego-a como minha filha e excomungo-a como ser humano. Não
moverei uma palha para amenizar sua pena. Por mim, apodrecerá em uma cela escura e úmida para
aprender a respeitar e obedecer às pessoas que só quiseram o seu bem. E quanto a dizer sobre o que
acabamos de falar, não acreditariam em uma louca tendo crises de possessão. Eu mesmo farei
questão de me certificar de que sua pena será a mais dura possível.
     Ele gritou para que os guardas viessem me buscar. Naquele exato momento, lembrei-me do pai
de minha ancestral Shaara, também ancestral do meu pai e que morreu pensando que ela o tivesse
traído. Definitivamente, meu pai trouxe consigo essa revolta do passado. Ele me odiava
incondicionalmente por causa das lembranças da outra vida. Ele, então, gritou, chamando os guardas
e ordenando:




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ Guardas! Tirem essa mulher da minha frente! Levem-na para a carruagem. Já está na hora de
cumprir minha obrigação como cidadão espanhol.
     Havia o fato de que ele também estava alcoolizado, mas o ódio mortal por mim só era
justificado por causa das lembranças inconscientes que ele trazia, achando que Shaara o teria traído e
abandonado ao descaso do destino. O fato de que eu não me tornaria submissa aos seus caprichos era
somente a centelha para que aquela raiva toda aflorasse. No fundo, ele estava usando a promessa que
o conde havia feito de esquecer todas as suas dívidas quando firmasse compromisso comigo. Meu
pai estava, inconscientemente, tentando achar um motivo para que eu fosse trancada em um
calabouço e esquecida por ele, como ele achou que foi no passado.
     Por certo, todos viveriam bem. Meu pai continuaria a se fingir de cego, deixando que o conde
saboreasse os carinhos de sua jovem e desfrutável esposa para, com isso, poder viver de aparências.
Mas, quanto a mim, acabei tornando-me um estorvo, um contratempo para minha família, já que não
tinha mais a menor serventia. Ter sido esbofeteada doeu muito, mas o que mais me doeu foi o fato de
estarem me negociando como uma mercadoria.
     Aprendi a duras penas que vivemos em um mundo teatral, onde somos obrigados a fazer parte
de uma bela e feliz historinha escrita pelas mãos dos ditadores, dos opressores e dos fanáticos
religiosos. O problema era a realidade por trás dos bastidores – essa, sim, era muito triste. Pois,
quando caíam as cortinas da aparência, a feia face da mentira e da falsidade vinha à tona, dando
lugar a uma dura realidade de miséria e fome, onde os podres não podiam se misturar com a
burguesia decadente, escondida por trás dos bastidores. Eu não era daquele mundo, nem sabia como
proceder no meio de tanta injustiça e desigualdade. Deus não poderia estar deixando que aquilo
acontecesse em vão. Tinha que ter algum propósito para tanto sofrimento!
     Corrigi imediatamente meus pensamentos para não blasfemar contra o Pai. Deus não tem culpa
sobre os erros da humanidade. Tudo o que fazemos, mesmo sobre um ato impensado, é culpa única e
exclusiva de nós mesmos. Temos o livre arbítrio de fazer e falar o que bem quisermos. Por isso,
temos que ter muito cuidado nas horas de dor ou de desespero, para que não venhamos a fraquejar e
blasfemar contra quem nos deu o direto a escolha. Muitas pessoas se questionam por que razão Deus,
sendo tão zeloso e de absoluto amor, deixou que o seu único filho Jesus Cristo morresse de uma
maneira tão brutal. Algumas ainda têm a ousadia de dizer que o Pai virou-se de costas na hora da
morte de seu único filho, para não o ver sofrer. Isso não é verdade. Um Pai zeloso e amoroso nunca
viraria as costas ao seu filho amado. Jesus teve o livre arbítrio e escolheu a sua sentença. Com
certeza, na hora de sua morte, o Pai estava segurando suas mãos para que o seu filho, assim, não
sofresse mais do que ele havia escolhido. E não nos castigou mais porque o próprio Jesus o implorou
Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem... Para mim, Jesus sempre vai ser um mestre em
sabedoria, benevolência e perfeição. Quanto ao Pai maior, este é indiscutível em suas inúmeras
qualidades, pois são supremas e absolutas.
     Quando o oficial chegou, trouxe mais dois guardas com ele. Baixei minha cabeça e deixei que
me levassem amarrada pelos pulsos, como um animal selvagem. A cada volta que o oficial deu com
a corda apertando meus pulsos, senti minha liberdade indo embora. Nada mais tinha a dizer; meu
silêncio o faria por si. Por mais que qualquer pessoa passe por um momento de irracionalidade e
insanidade, ela sempre tem um momento chamado de consciência. Ninguém nesta vida se livra da
consciência. Ela é como um grito que nunca se cala dentro da gente. Mesmo que mantenhamos uma
aparência de tranquilidade, mesmo que não tenhamos a coragem de admitir o quanto somos falhos e
que cometemos injustiças, esse grito vem, mais cedo ou mais tarde, para nos mostrar o quanto somos
falhos.
      Fechei bem os olhos e apertei as mãos sobre o rosto. Queria esconder-me de toda aquela
vergonha. Acabei desabando em prantos. Meus soluços tornaram-se compulsivos. Por mais que não
queiramos fraquejar, a dor da decepção torna-se um ponto de partida para a vulnerabilidade. Afinal,
somos seres humanos e, como tais, temos sentimentos. Não tive coragem de olhar para o meu pai




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

nem que eu quisesse. Levantei a cabeça e engoli as lágrimas. Não daria o gosto da derrota nem a ele
nem àquelas pessoas. Quanto mais fracos aparecemos perante os inimigos, mais eles se sentem no
direito de nos pisarem. Temos que ter na mente as seguintes palavras: não damos asas a cobras e
nem cutelo ao carrasco, porque inimigo se vence com determinação, coragem e oração. O silêncio é
a maior arma que o ser humano tem nas mãos. A confiança em Deus e na espiritualidade amiga é a
única certeza de que venceremos todas as barreiras. A fé é uma noite negra: não sabemos se seremos
salvos, mas temos a confiança de que seremos. É como se atirar de um despenhadeiro para se livrar
de um dragão. Não saberemos se a voz que nos impulsiona é ou a não a de Deus, mas temos que
arriscar. A vida é um risco constante. Quem não arrisca, nunca vai ter a certeza se poderia ter dado
certo ou não. São as incertezas que nos fazem pensar. São os erros e os tropeços que nos fazem
crescer. Não existe este ou aquele que nunca deixou de aprender algo. Existem, sim, pessoas que
preferem dizer que não se lembram de nada que lhes aconteceu. Essas pessoas só fazem isso quando
se trata de algo que elas fizeram a alguém – porque, quando se trata de algo que foi feito a elas,
lembram-se por toda a eternidade. Nossos erros nunca são visíveis ou lembrados. Nunca seremos
capazes de admitir que fazemos coisas que prejudicam o nosso semelhante. Mas, se em algum
momento alguém nos faz qualquer coisa que não nos deixa satisfeitos, corremos em apontar o erro
dessa pessoa. Assim, ninguém vê o nosso. É fácil viver assim, não é? Desmemoriado, sem
lembranças, vagando sobre o lago do esquecimento. Ouvir o que alguém tem a nos falar é essencial -
mas aprender com os nossos próprios erros é indispensável. Isso não significa que nunca mais vamos
errar. Porque erramos todos os dias, todas as horas e não pararemos nunca. Isso porque somos burros
demais? Não. Porque somos fracos e não controlamos nossos impulsos.
     Quando começamos as descer as escadarias, mantive-me em silêncio. Ao terminar, pude ver que
os demais presentes iam abrindo alas para que os guardas passassem comigo. Aquelas pessoas que se
encontravam nos degraus olhavam-me como se sentissem por mim uma grande repulsa. Não vi a
condessa - o que foi uma surpresa. Ela não estar presente para se vangloriar da minha derrota
significava que ela estava aprontando alguma coisa. Esse pensamento gelou-me a espinha.
     Tereza, ao ver-me, caiu em prantos. Tentei passar as mãos em seu rosto quando passamos por
ela - que estava em um dos degraus-, mas o guarda puxou minhas mãos. Um dos guardas quase me
derrubou, empurrando-me pelas costas no final da escada. Só não caí porque o outro, que segurava as
cordas, puxou-me para junto dele. Um guarda ainda muito jovem que estava na porta, esperando para
abri-la, zombou de mim quando me viu escorregar:
     _ Voe, bruxa maldita!
     Parei no hall de saída e dei uma última olhada para me despedir do lugar onde passei toda a
minha vida. Foi a última vez que vi minha casa.
     O guarda novamente empurrou-me porta afora, tentando mostrar-me que não podia parar.
Cambaleei, mas não caí. Do lado de fora, fui observando o jardim e as lembranças do passado me
vieram à mente: coisas muito pessoais, como o cheiro das rosas que Joseph sempre me dava pela
manhã; e quando Maria me trazia sumo de frutas frescas embaixo do pé de cedro. Esbocei um
discreto sorriso. Olhei para tudo e disse Adeus!, antes que o guarda me jogasse carruagem adentro.
     Amarraram minhas mãos na portinhola, na parte de cima, fazendo com que meus braços
ficassem pendurados. Vai ver acharam que eu iria fugir. E se o fizesse, para onde iria? E para que
tanta violência? Será que os supostos demônios em meu corpo poderiam me possuir e me fazer sair
mordendo a todos? Certas medidas de segurança eram desumanas e desnecessárias. Mas eram usadas
para que a população ficasse acuada e respeitasse as autoridades locais.
     Comecei a bater o queixo. Sentia frio, pois saíra sem ter a menor chance de levar um xale.
Embora o sol já tivesse despontado no horizonte, a neblina ainda era muito densa e, por certo,
choveria naquele dia, pois o céu estava cinza.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Olhei mais uma vez para a casa que um dia foi o meu habitat. Vi à janela a condessa, que
observava tudo por trás das cortinas da sala. Pela distância em que se encontrava, não dava para
saber o que ela estava pensando. No mínimo, seus pensamentos eram de vitória.
     Às vezes, julgamos e interpretamos mal as pessoas. A condessa não era minha amiga, mas
mesmo assim a entendia. Ela era mais uma vítima de meu pai e daquela sociedade machista.
Entendia-a e não esperava ser entendida por isso. Sabia que ela vingava em mim todas as suas
frustrações. No fundo, era muito difícil para ela ter que ser submetida a tais coisas - logo ela, que
sempre tivera de tudo. Casou-se porque já estava com 28 anos e o pai não poderia ficar com uma
filha solteirona em casa. No fundo, o pai da condessa quis livrar-se dela como o meu. Embora a
entendesse, não significava que eram justificáveis seus atos de maldade comigo. Mas é a vida!
Tornamo-nos vítimas das frustrações das pessoas com quem convivemos. Mesmo sabendo que meu
destino não seria dos melhores, compadeci-me por vê-la ali, atrás das cortinas, pois acabaria por se
afundar nas bebidas e também passaria a gritar com as paredes, pois não teria nem a mim nem a
Maria para lhe servir de esteio. Quando o conde se cansasse do seu brinquedinho, descartá-la-ia,
deixando-a ao relento. Definitivamente, deve ter sido muito difícil para a condessa ter deixado seus
sonhos, sua vida e, provavelmente, um amor. E agora lá estava ela, vivendo ao lado de um homem
muito mais velho, que bebia dia e noite e era um compulsivo por jogos. Por não cumprir mais os
deveres como marido, fazia vistas grossas e deixava-a ter seus amantes para, com isso, lucrar
também.
     Era bizarro e inacreditável saber que os homens usavam seu poder sobre as mulheres para fazê-
las suas meretrizes particulares. Logicamente, isso acontecia debaixo dos seus próprios lençóis.
Mesmo sabendo que o adultério era considerado um crime hediondo para a Santa Madre Igreja, os
nobres não só o praticavam às escondidas, mas também prostituíam suas esposas, fazendo-as
cometer o mesmo crime. Pois, para a sociedade, o importante era manter as aparências. Também
tinha o fato de que, enquanto estivesse dando lucros favoráveis à Igreja, o povo não faria mal algum.
Mas tinham que se manter rigorosamente em dia com seus dízimos, entre outras coisas. Qualquer
deslize seria imperdoável e prejudicial à saúde deles. Logicamente, todos sabiam das depravações
dos nobres. Mas era mais sensato que permanecessem calados. Assim, a alta sociedade permanecia
intacta.
     Aqueles hipócritas depravados comiam e bebiam às custas da desgraça alheia - da escória, como
chamavam os menos favorecidos. Repudiavam a pobreza como se eles fossem vermes. Mas era o
lodo de suas atitudes que destruía a raça humana. Vivi em uma época onde a degradação não era só
dos corpos maus cheirosos. Vivi em uma época onde a insociabilidade e a hipocrisia tomavam conta
da humanidade como uma doença contagiosa. As pessoas não se misturavam umas com as outras. Os
pobres tinham um espaço na exclusão. Tinham que viver escondidos. Pessoas com deficiências eram
excomungadas ou tinham que pedir esmolas nas ruas. Os negros, estes então... Sofreram com o
preconceito dos que se diziam ter poder sobre as pessoas. Gostaria de ter podido fazer alguma coisa,
mas só fui descobrir meu real caminho quando já estava na hora de me encontrar com meu destino.
As crianças eram obrigadas a fazer duros trabalhos, enquanto as filhas das senhoras feudais sequer
podiam vestir-se sozinhas. Se um menos favorecido ou uma mulher, como no meu caso, os
desafiassem, por certo poderia considerar-se morto. Mesmo que confessassem e se arrependessem,
como lhes era imposto muitas vezes, por certo faltar-lhes-iam alguns pedaços do corpo. Aí, sim,
estariam fritos em óleo fervente, pois como sobreviveríamos em uma sociedade totalmente
preconceituosa? Ninguém lhes daria trabalho nem esmolas, e ninguém se casaria com uma ex-bruxa.
Principalmente porque nunca existirá ex-bruxa. Uma vez conhecedora da magia, não adianta tentar
se converter.
     As pessoas que eram consideradas bruxas, mesmo que fossem perdoadas pela Santa Madre
Igreja, jamais obteriam o perdão. Mesmo demonstrando arrependimento, elas acabariam
mendigando, pois o povo nunca mais as olharia com os mesmos olhos. Uma vez pagão, sempre




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

pagão. Se eu tivesse aceitado o que o meu pai havia me sugerido, teria que viver sob vigilância
constante e só sairia de casa acompanhada por um guarda e uma aia de confiança do conde. Meu pai
também poderia ser chamado a qualquer deslize meu e poderia castigar-me, se assim achasse
necessário. Uma pessoa que estava em uma situação como a minha, quando morria, era jogada em
valas ou enterrada em locais exclusivos para hereges, excomungados e pagãos. Não obtinha da Santa
Madre Igreja autorização e o direito de ser enterrada em um cemitério público ou em um local
sagrado. Na maneira de ver desses hipócritas, Deus também não perdoava os pecadores e os hereges.
Eram pessoas que pregavam a palavra do Criador sem ter o menor amor no coração. Mas, se Deus
não perdoava ninguém, então por que ele mesmo disse Sou a ressurreição e a vida. Quem crê em
mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, nunca morrerá?
      A única coisa que Jesus realmente fez foi pregar o amor e o perdão. Ele também nos ensinou
que só o Pai poderia julgar-nos e mais ninguém. Isso me pesou na alma naquele momento. Se Jesus
Cristo foi só perdão e bondade, como poderia o ser humano, cheio de corrupção, com coração
carregado de maldade, sentir-se no direito de injuriar e julgar o seu próximo? Por que ser diferente
era um crime, um pecado? Por que tinha que haver somente uma religião que pregasse sobre o Cristo
verdadeiramente? Por que tudo era heresia? Por que as missas tinham que ser celebradas em latim, se
a maioria da população mal sabia assinar o próprio nome? Aos pobres, quando lhes era permitido
assistir uma missa, tinham que ficar do lado de fora da igreja. Os negros nem da porta podiam passar.
Se a casa era de Deus, por que tanta desigualdade, preconceito e soberba? Será que o mundo mudaria
algum dia? Será que as pessoas em outra época, em outra encarnação, seriam mais evoluídas? Será
que os apóstolos também tiveram dúvidas? Pois elas me pesavam o ser. Que triste ter que fazer
parte de uma humanidade tão desigual! - pensei, por fim. Então, deixei-me levar pela paisagem...
     A caminho da cidade, fui observando tudo ao meu redor nos mínimos detalhes, numa espécie de
despedida fúnebre. Adorava a cidade de Salamanca, com suas enormes montanhas e árvores. Esta
cidade mágica enfeitiçava os olhos de quem quer que por ela passasse. Salamanca é uma província
raiana da histórica Região de Leão, na Espanha, e situa-se a nordeste de Portugal. Também é
influenciada pela bacia do rio Douro. Sua denominação, em idioma local antigo, era doiri. Essa
região chegou a sofrer influências romanas, árabes e diversas outras mais sutilmente. É uma terra de
clima ameno e topografia variada. A cidade é situada em local mais plano, mas com montanhas ao
norte e ao sul. Dona da penúltima catedral gótica construída na Espanha, como seus maiores tesouros
encontramos: a Universidade de Salamanca, a segunda universidade mais antiga da Europa, fundada
no ano 1218 por Alfonso IX de Leão; as Catedrais Nova e Velha; Plaza Mayor; Ponte Romana, e
outros, sem fim. Seu título deve-se ao fato de o arenito, utilizado em suas antigas construções,
apresentar coloração levemente dourada clara. De acordo com a luz, pode-se verificar que o título faz
juz à sua beleza. Em suas terras, são produzidos vinho e azeite, e há alguma criação de ovinos e
caprinos. Não possui temperaturas extremas de calor e frio, e recebe pouca afluência de chuvas. Já
em suas montanhas, pode-se verificar mais abundância pluvial. O mais rico de Salamanca talvez seja
sua história secular, onde se verifica acontecidos inusitados. Cristóvão Colombo mesmo chegou a
passar pela cidade. Nela tivemos a Inquisição e a migração de judeus, portugueses, árabes e tantos
outros mais que compunham seu quadro histórico. Também devido à sua localização geográfica,
sofreu influência de correntes celtas em dados momentos e ocasiões. Talvez daí venha sua
significação. Salamanca, com certeza, seria no futuro um local onde as minhas irmãs poderiam se
encontrar.
     Sonhos, belezas e histórias. Tudo isso passava na minha frente. Eram pequenos momentos dos
quais eu sentiria saudade. Residia dentro daquela cidade uma força maravilhosa e que o tempo nunca
poderia apagar. Nenhuma maldade poderá acabar com a magia de Salamanca. Isso eu sabia porque
estava em meu coração. Minha alma estaria ali para sempre. Poderiam me tirar tudo, menos os
sonhos e as lembranças dessa formosa província. Eu era realmente apaixonada por Salamanca, pelo
meu país, minha Espanha... Viajei mentalmente, percorrendo toda aquela terra maravilhosa com




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

meus pensamentos e lembranças. Só fui interrompida quando chegamos à cidade e pude ouvir o
alarido das pessoas que estavam nas ruas, naquela manhã de fim de outono. Pareciam estar sabendo
que eu ia ser levada a julgamento, pois seus olhos curiosos e amedrontados não desgrudavam da
carruagem que estava em disparada. As pessoas fizeram uma espécie de procissão nas laterais das
ruas, de um lado a outro. Multidões aglomeravam-se nas calçadas. Ouvi gritos e xingamentos, mas
não sabia decifrar nenhuma daquelas palavras que, por certo, não eram de misericórdia ou de afeto.
Impressionante como más notícias chegam rápido! Voam nas asas do vento.
      Minhas mãos e meus braços já estavam começando a doer e a ficarem dormentes. Percebi,
também, que meus punhos estavam arroxeados. O pior é que nem poderia mexê-los muito, pois a
corda estava muito arrochada e poderia cortá-los, com certeza. Minha boca estava seca e sentia medo
e fome. Que combinação sem requinte!
      Meu pai não estava dentro da carruagem comigo. Acompanhou-nos a cavalo. O guarda que me
escoltava não me pareceu muito amistoso. Olhava-me com certo pavor, escondido atrás do semblante
fechado. Resolvi permanecer calada, pois o medo nas pessoas é geralmente muito perigoso. Elas
acabam usando a violência como uma forma de defesa. Então, por sensatez, evitei até respirar muito
alto.
      O cocheiro corria tanto que parecia que iria tirar o pai da forca. Meu estômago começou a
embrulhar de tanto que sacudia a carruagem. Elevei meu espírito ao céu em orações. Em um instante,
estava longe de tudo aquilo. Fechei os olhos bem apertados, para olhar para dentro da minha alma,
tentando achar algum lugar tranquilo. Quando nos concentramos muito, chegamos a lugares
imaginários. Mas, naquele momento, só queria me concentrar naquela magnífica paisagem de
Salamanca à minha frente. Viajei mentalmente por todo aquele cenário. Senti meu corpo leve. Era
como se o meu perispírito estivesse se desprendendo naquele exato momento. Era uma forma de
socorro mental. Eu estava tentando encontrar a paz e segurança dentro de mim mesma. Realmente,
precisava desligar-me daqueles acontecimentos - ou acabaria ficando louca. Cheguei até a esboçar
um sorriso causado pelo nervosismo em que me encontrava, mas o guarda cutucou-me com a ponta
do fuzil, fazendo-me sair do meu estado de transe. No mínimo, deve ter pensado que eu estaria
maquinando algo – ou, quem sabe, naquela mente poluída, ele imaginou que eu já estivesse
incorporada por algum súcubo.
      Súcubo é um demônio com aparência feminina, que invade o sonho dos homens. Fazendo isso,
eles podem corromper totalmente a pessoa. Súcubos são demônios que se alimentam da força sexual
das pessoas. Quando estes demônios invadem o sonho de uma pessoa, eles tomam a aparência do
desejo sexual delas e os atacados têm a melhor experiência sexual de suas vidas nesses sonhos. A
energia que vem do prazer do atacado é sugada pelos súcubos. A palavra succubus vem do verbo em
latim que quer dizer deitar-se sob. Íncubos são demônios masculinos que afetam as mulheres.
Ambos sempre agem à noite, enquanto suas vítimas dormem. Para o meu entender, nada mais era do
que uma pessoa com seus desejos sexuais reprimidos. E isso acabava aflorando durante o sonho,
quando o corpo está livre de represálias. Mas, por ter a mente ignorante e ingênua, esses pobres tolos
saíam a confessar tais sonhos aos padres, que, por sua vez, condenava-os, dando-lhes várias
penitências e castigos abomináveis. E se o sonho prosseguisse - o que quase nunca acontecia,
porque, logicamente, quem seria louco de ser torturado tantas vezes? - o padre ou responsável diria
que o infeliz estarva dominado por demônios da luxúria. Nem quis pensar no que aquela mente
libertina à minha frente poderia estar pensando a meu respeito. No mínimo, achava que eu estava
tendo delírios imorais porque esbocei um sorriso. Mediante aquela cutucada, abri meus olhos
rapidamente e comecei a olhar pela janela, já que nem com os meus pensamentos eu podia ficar
sozinha.
      Ao passarmos frente à igreja de padre Ignácio, vi um cortejo fúnebre. O senhor Manoel Borges
havia falecido. Houve certo comentário que poderia ter sido por causa da peste, mas nada havia sido
comprovado. Todos pareciam não querer falar sobre o assunto, sendo que a peste era considerada




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uma doença do diabo. Próximo à praça principal, algumas moçoilas desfilavam em seus belos trajes
e, ao ver passando a carruagem em que me encontrava, viraram de costas imediatamente,
impulsionadas por suas aias. No mínimo, pensavam que eu jogaria um feitiço sobre elas ou, quem
sabe, transformá-las-ia em sapo ou coisa parecida.
     Além de ter me tornado a única atração do condado, também havia me tornado uma aberração
da natureza. Sei que, naquela manhã, não tive a oportunidade sequer de olhar-me ao espelho, mas
tinha certeza de que em minha face não haviam nascido verrugas da noite para o dia. E sabia que, em
meus cabelos, embora despenteados, não tinham cobras mostrando a língua. Mas, quando eu olhava
para os rostos amedrontados daquelas pessoas, era isso que elas passavam para mim. Senti-me um
monstro, uma aberração da natureza.
     Quando chegamos, finalmente, frente ao tribunal local, uma multidão já se reunia, aguardando a
chegada da atração principal - no caso, eu. Algumas pessoas estavam carregando foices e paus nas
mãos. Outras trouxeram cesta de legumes e ovos podres. Senti um calafrio repentino invadir todo o
meu ser ao ver toda aquela gente aglomerada em frente ao tribunal. Por instantes, achei que nem
chegaria a julgamento. Os demônios não me fariam mal. Mas, com certeza, poderia esperar tudo
daquelas pessoas. Na verdade, sabia que naquelas atitudes ameaçadoras elas estavam demonstrando
uma forma de autodefesa. Isso foi o que me assustou: o medo que elas sentiam de mim poderia surtir
reações diversas em cada uma delas. As pessoas, quando estão sendo influenciadas ou passando por
uma histeria coletiva, podem ser muito perigosas, em todos os sentidos.
     Fui despertada daquele transe de medo pela voz estridente de um homem. Estiquei o pescoço
para ver. Era a voz do chefe da guarda, gritando do lado de fora da porta tribunal. Aquele homem
espalhafatoso deixou-me ainda mais aflita com o seu abanar de braços e gritos estridentes. Ele era
um homem alto e muito magro. Parecia ter saído de uma catacumba, pois sua cor muito pálida e seus
olhos extremamente esbugalhados eram assustadores. E aquele bigodinho, então? Todo engomado
sabe-se Deus pelo quê! Arrepiei-me dos pés à cabeça ao ver aquela figura exótica e nada
convencional. Sua farda não lhe caía bem, pois ficava curta nas bainhas e justa demais nas pernas e
braços. Eu até poderia ir para a fogueira, mas não consegui deixar de observar o desleixo de quem
estava tentando achar algum defeito em mim. O homem, definitivamente, parecia-se com um
boneco fantoche, personagem de alguma cena de um teatro de horror. Engoli o riso mais uma vez e
continuei a detalhar aquele pobre infeliz que havia caído nas minhas graças. Se eu estivesse no
escuro e sem ninguém por perto e aquela figura tivesse aparecido de repente, no meio do nada, juro
que cairia dura e tísica ao chão. Santo Deus, tenha pena de minha alma, pensei comigo! Estava
sendo soberba e insana.
     A cada instante, ficava mais desesperada. Isso fazia com que a minha mente começasse a ter
devaneios de tolices. No fundo, não queria acordar para a realidade dos fatos - o que explicava certos
pensamentos ilógicos para o momento em questão. Embora eu tivesse tentando manter meus nervos
sob controle para não cair em prantos e demonstrar fraqueza, estar amarrada como um animal e
vigiada por aquele soldado na minha frente estava me deixando psicologicamente desorientada. Às
vezes, quando estamos muito assustados, não conseguimos sequer ouvir o som que sai da boca das
pessoas. Só vemos que elas mexem os lábios. Era o que estava acontecendo comigo. Eu estava
quase em choque e, por isso, minha mente tentava ser irracional. Era como se ela estivesse me
protegendo de um colapso repentino. Depois de respirar profundamente, esvaziando a minha mente,
voltei à realidade de novo. Lá estava o homem comprido a falar e gesticular. Foquei-me em seus
lábios para sair daquela surdez mental e poder ouvir o que o chefe da milícia estava dizendo. Por
fim, depois de muito esforço, consegui sair do devaneio e ouvi o que estava sendo dito:
     _ Vamos, minha gente! Deem passagem para um oficial em serviço. O show ainda não
começou. Vão se afastando da carruagem e dando-me licença, para que faça meu trabalho como se
deve.




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O segredo dos girassóis
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     Aqueles braços compridos iam abanando e afastando a multidão que, aos poucos, foi abrindo
passagem. Uma menina fez-me uma careta e a mãe logo tratou de tapar os olhos da pobre. Ela só
estava brincando, mas a mãe deve ter achado que eu a transformaria em uma boneca.
      _ A que horas vão queimar a bruxa? - perguntou uma velha senhora.
     O chefe da guarda, porém, respondeu-lhe, parecendo não estar interessado em dar muitas
respostas:
     _ Vamos deixar que os responsáveis respondam a todas essas perguntas na hora certa, minha
senhora. Primeiro, ela deverá ser interrogada. Depois disso é que saberemos quais as medidas serão
tomadas.
     Por fim, depois de muito esforço para abrir caminho por entre a multidão, o capitão da milícia
conseguiu aproximar-se da carruagem. Abriu a portinhola, olhou-me seriamente, sem nenhuma
palavra a dizer, e foi desamarrando meus pulsos. Meus braços pareciam estar mortos, devido ao
tempo que ficaram suspensos. O chefe da milícia tirou-me da carruagem aos safanões. Ele não estava
com medo de mim, mas tinha que mostrar ao povo que tinha autoridade. Fui, em seguida, amarrada
novamente. Só que, dessa vez, com os braços para trás. Comecei, a partir daquele momento, a sentir
que minha liberdade tinha sido tirada de mim para sempre. As pessoas que estavam do lado de fora
do tribunal sussurraram coisas absurdas. Outras, ainda, gritaram como se vissem em mim algum tipo
de forma deforme. O pânico de algumas delas causou uma histeria coletiva. Os poucos guardas que
existam ali mal conseguiam controlar a multidão que havia se formado na porta do tribunal. Subi a
escada empurrada e quase recebi o golpe de uma pedra que um fazendeiro lançou em mim.
     Já dentro do tribunal, fui obrigada a ficar sentada por horas em um corredor escuro, pois o
magistrado e o inquisidor ainda não haviam chegado. Fiquei observando o corredor. Metade das
paredes era de madeira e a outra metade era decorada por enormes quadros. Um imenso lustre
estava pendurado sobre a minha cabeça. Seis bancos compridos seguiam em fileiras corredor
adentro, um ao lado do outro. A porta de entrada era imensa e pesada, e a porta a sala de audiência
era dupla e muito alta. Era um lugar muito frio. Não tinha nenhuma planta ou decoração que
harmonizasse o ambiente. Tinha certo clima de tristeza no ar. Era como se as almas do purgatório
gritassem por clemência o tempo todo ali dentro. Eu estava parecendo um porco espinho, de tão
arrepiada que fiquei ao perceber que aquele lugar era um grande portal para os espíritos sem luz e em
aflição.
     Dentro da sala de audiência, reuniam-se algumas pessoas ilustres e importantes, como: o conde
Alfred; o chefe da milícia, senhor Antônio Santos; os dois maiores representantes paroquiais, padre
Ignácio Manuel, padre Alencar Sorancco; madame Hortência Rivald; a condessa Marli Von Del Prat;
meu pai, Juan Vladimir Porto Señra; senhor Álvaro Lancastro; lady Dornellas Carrucci; um
representante legal de sua majestade o rei, o Lord Marllon D’ Runchieir; o Lord. Octávio Güllians
III; o sobrinho de sua majestade a rainha, o duque Philip Gonzáles; e, por último, o senhor Emanuel
Tostes, que representaria o povo legalmente e por todos faria as perguntas, se necessário. Esse tipo
de coisa praticamente não acontecia, pois o representante do povo apenas servia para levar as
notícias do que se passava dentro da sala de audiência, já que o povo, em certos momentos, não
podia estar presente.
     Por volta de onze e meia, chegaram o magistrado Narcíseo de Freitas e o inquisidor Nicolau
Neufrien. E, para o espanto de todos, vieram acompanhados do bispo, Dom Helvécio Hernandez, e
do Prior Eurico Pastorino de La Constance. O alarido foi tamanho quando o homem desceu da
carruagem que, de dentro do corredor do tribunal, pude ouvir. E até mesmo eu, que já não esperava
mais nenhuma surpresa, fiquei completamente extasiada ao ver tal figura ilustre. Ao passar por mim,
olhou-me de soslaio, demonstrando desprezo absoluto. Seu olhar era severo e gelava até os que já
estavam mortos. Ele era um homem alto e forte. Sua presença era de imponência. Dom Helvécio
Hernandez era muito comentado por seus feitos e proezas pela forma como julgava os condenados de
feitiçaria. Diziam que as suas torturas eram implacáveis e que não havia quem não confessasse todos




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

os pecados a ele. Ele vestia uma túnica negra comprida. Em sua cabeça, havia uma mitra preta e
vermelha. Ele aparentava ter uns setenta anos de idade. Pela forma sisuda do rosto, por certo nunca
em sua vida soubera o que era um sorriso. Eu sabia que seria severo e impiedoso comigo. O homem
não era um emissário da Igreja, mas sim um emissor de Lúcifer. Quando ele estava passando perto
de mim, ventou forte e o cheiro que pairou no ar foi de enxofre. Mas o mais estranho era que todas as
portas estavam fechadas. Havia algo de malévolo nele. Pude jurar que uma sombra entrou ao seu
lado na sala de audiência. Definitivamente, aquele homem não era um ser humano.
     Até aquele momento, não pude ter certeza se a sombra era uma ilusão da minha mente cansada e
nervosa, ou se realmente a sombra entrara na sala com Dom Helvécio. Olhei para todos os lados,
mas nada vi. Até que, de repente, lá estava ela, flutuando como um lençol negro sobre a porta da sala
de audiência. Era uma criatura irreal, com rosto deforme, olhos vermelhos e um sorriso apavorante
na boca. Quase não dava para se ver nitidamente, mas os olhos foram o que mais me assustou, pois
demonstravam que era um demônio devorador de almas. Ficou pairando alguns minutos, parecendo
estar procurando uma vítima para se apossar da sua alma. Tive que me manter bem discreta para que
ele não percebesse que eu podia vê-lo. Pois, quando um demônio como aquele percebe que podemos
vê-lo, por certo se torna muito mais perigoso. Depois de alguns minutos, pensei que ele tivesse ido
embora. Mas, logo em seguida, ele estava sobre a minha cabeça e sua forma incorpórea já havia
mudado de novo. Desta vez, ele parecia ter criado asas de morcego. A figura deforme olhou-me com
ar zombeteiro e maligno. Eu, por minha vez, baixei os olhos, tentando não demonstrar nenhuma
reação. Se a morte tinha uma forma, ali estava ela, na minha frente, olhando para mim. Confesso que
fique fiquei apavorada. Percebi que, além de apavorante, era um zombeteiro, pois podia mudar de
forma. E ele, ao perceber que eu podia vê-lo, agarrou-se nas paredes com suas unhas compridas e
começou a correr pelo teto. Depois, voltou para a porta da sala de audiência e sorriu-me, mostrando
sua língua de cobra.
     Certos espíritos acompanham as pessoas quando elas têm um coração muito perverso. Tais
espíritos são vulgarmente chamados de demônios, atraídos por nossas energias - sendo elas negativas
ou positivas. Ou seja, se vibrarmos boas energias, vamos atrair bons espíritos. Mas, naquele caso
específico, o espírito já havia tomado conta daquele corpo. Ambos eram praticamente um só ser.
Dom Helvécio estava carregando sobre o corpo todo o peso das injustiças que cometera contra suas
vítimas. Aquele demônio era o seu julgador e, quando ele viesse a morrer, com certeza ele seria o seu
algoz e o faria ver as atrocidades cometidas em vida. Por certo, Dom Helvécio havia julgado muitas
pessoas levianamente. O que eu achava mais interessante era saber que esses homens de Deus faziam
parte de um clero e se diziam ter o poder de julgar e exorcizar as pessoas supostamente
endemoniadas, mas não conseguiam ver o demônio que estava possuindo o seu próprio corpo.
     Certos espíritos atormentam seus obsediados da pior forma possível. As formas mais comuns de
obsessão são: a obsessão simples, a fascinação, a auto-obsessão, o obsessor por amor e o suicida. O
ser humano é objeto e alvo do processo de obsessão constantemente. O obsediado trata-se de alguém
cujo débito é muito elevado diante da lei divina.
     No plano de evolução espiritual em que se encontra, nosso planeta é um local de expiação, no
qual se concentra um grande número de espíritos vibrando nas mais baixas frequências possíveis.
Esses espíritos vivem presos a situações emocionais de ódio, raiva, egoísmo, amor não-
correspondido, entre outras emoções. Estão de tal forma presos ao plano físico que muitos acreditam
ainda estar em seus corpos carnais. Assim, vivem próximos das pessoas com as quais um dia
conviveram, afastando-se dos planos espirituais mais elevados e atrasando sua reencarnação. Entre
esses espíritos, ainda existem aqueles que têm a consciência de que estão mortos e de que já não
habitam mais um corpo físico. Mas, como ainda estão presos às vibrações muito baixas do mundo
espiritual, realizam ações que visam a prejudicar os vivos e atrapalhar ao máximo a vida e a
evolução espiritual de suas vítimas encarnadas. Esses espíritos são os que chamamos de obsessores.
Sua sensibilidade à Luz Divina foi embrutecida pelo tempo e por sua natureza moral. Eles ficam




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

estagnados num círculo vicioso e numa obstinação tão intensa que não é raro se esquecerem de
quando e do porque de tudo ter começado. Na maioria das vezes, estão tão cansados e vivem há tanto
tempo nessa condição que não sabem mais como caminhar em direção ao esclarecimento e à Luz de
Deus - necessitando, assim, de toda ajuda que lhes possa ser fornecida.
      É fácil para nós imaginarmos o surgimento de tais obsessões pelo caminho do ódio. Afinal,
sabemos do que os homens são capazes quando tomados pela raiva descontrolada. Mas também
surgem obsessões, até mais graves, em virtude do amor. O amor gera correntes que, unidas a outros
sentimentos como egoísmo, apego, carência afetiva intensa, falta de auto-estima, podem produzir
obsessões. A revolta, a dor e a raiva podem mudar a energia do amor. Basta que exista um grande
apego alimentado por um forte egoísmo, gerado num coração que viva uma grande carência, e
teremos um espírito que sentirá uma grande dificuldade de se separar dos entes queridos. Como o
amor e o ódio estão separados por uma barreira quase imperceptível, em algumas oportunidades
imaginamos que um espírito está com ódio - quando, na verdade, ele pode estar escondendo a dor de
um amor não correspondido. Ou até mesmo pode ser uma entidade que ainda quer manter o apego
que tinha em vida, agindo de forma a manter a outra pessoa presa ao círculo de sentimentos que
demonstrava quando o espírito estava encarnado. De todas as formas de obsessão, a gerada pelo
amor é a pior de todas, pois aquele que ama sequer pode imaginar ou aceitar que, na verdade, está
atrapalhando seus entes queridos. Ele acredita estar ajudando-os, supondo que não poderiam viver
sem sua presença e auxílio. A relação entre o obsessor e suas vítimas é variada e segue por caminhos
tortuosos, mas que inevitavelmente levam à degradação física e moral do obsedado - o que, por fim,
pode levar à vitória do espírito obsessor.
      As obsessões são as ações que influenciam os vivos, estimulando reações e semeando a
discórdia e o ódio, nascido da força exercida pelos espíritos inferiores. Eles influenciam
maleficamente, como os demônios das histórias bíblicas. Assim como ocorre nessas histórias, as
formas de o obsessor atuar também são sutis e intangíveis. Só após muito tempo é que se tornam
evidentes. Nunca devemos tentar fazer um exorcismo ou desobsediar sozinhos, porque não sabemos
o grau da obsessão no qual se encontra o indivíduo. Sem contar que o espírito pode também interferir
na vida de quem tentar atrapalhá-lo. Ele pode até mesmo se irar contra a terceira pessoa. Nunca
tente fazer um acordo com um espírito. Isso nunca funciona e o obsessor pode passar a obsediar a
quem lhe faz o acordo também.
      É muito fácil saber quando uma pessoa está sofrendo de obsessão, pois se tornam visíveis as
alterações de comportamento físico, mental e emocional. Tais como: olhar fixo, esgazeado ou
fugidio, sem encarar ninguém; tiques e cacoetes nervosos; desalinho ou desleixo na aparência
pessoal; excentricidade comportamental; agitação; inquietude; intranquilidade; medo e desconfiança
injustificáveis; apatia; sonolência; mente dispersa; ideias fixas; excessos no falar; no rir; mutismo ou
tristeza; agressividade gratuita, difícil de conter; ataques que levam ao desmaio; rigidez;
inconsciência; contorções; pranto incontrolável e sem motivo; orgulho; vaidade; ambição ou
sexualidade exacerbados e exagerados. Quando a pessoa volta ao normal, após uma crise,
geralmente queixa-se do domínio sofrido e lamenta atos infelizes que praticou. Na fascinação, os
demais notam a fantasia, o fanatismo, a fixidez, o absurdo das ideias. Só a pessoa obsediada não
nota.
      Fiquei ali por horas, tentando achar uma qualificação para aquele espírito cuja forma mal se
podia ver. Aquele inquisidor não sabia, mas, se houvesse um julgamento divino, ele seria o primeiro
a morrer queimado. Pois aquele obsessor era o seu algoz espiritual e seria o primeiro a condená-lo.
      Todos estavam dentro daquele tribunal havia horas. Até os espíritos malignos ocupavam seus
lugares de destaque. Enquanto eu, reles bruxa, permanecia sentada em um banco duro, isolada de
todos, no escuro, amarrada com as mãos para trás e sendo atormentada pelo obsessor de um
monsenhor, que se sentia no direito de me julgar e condenar. O que eu havia me tornado para aquelas
pessoas, um animal? O que de tão grave eu havia cometido? Será que ter uma ideia própria e




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O segredo dos girassóis
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formada fazia de mim ou de alguém uma pessoa endemoniada? Comecei sem querer a deixar que a
revolta tomasse conta de mim. Afinal, quem sabe com tantos demônios sobre o meu corpo eu
poderia sair e engolir alguém? Com tantas criancinhas deliciosas à solta, imagina o que eu não
poderia fazer! Isso, por certo, eu não faria - é lógico. E eles nem desconfiavam que o demônio-mor
tivesse acabado de entrar e estava lá dentro, no meio deles. Sacudi a cabeça com indignação.
Ingênuos, pensei em voz alta.
     Pedi ao guarda que estava parado à minha frente, em posição de estátua, que me desse um copo
d’água, mas ele permaneceu em posição ereta. Exclamei várias vezes, implorando-o, mas o homem
nada fez. Acho que ele era mesmo uma estátua. Mas juro: não fui eu quem o transformou. Era como
se eu fosse translúcida para aquele soldado. Não fazia a menor diferença se eu morresse ou não.
Meus braços começaram a doer novamente. Toda aquela situação estava me deixando
completamente louca. Estava tendo alucinações e devaneios. Já não conseguia distinguir o certo do
errado, a verdade da mentira. Houve hora em que eu acreditava que eram verdadeiras aquelas
acusações contra mim. A falta de comunicação e o silêncio absoluto, causado pelo desprezo daquele
guarda à minha frente, já estavam realmente começando a afetar os meus nervos.
     Estava cansada e precisava dormir um pouco para descansar a mente. Fiquei me lembrando de
como era bom poder cochilar dentro de uma tina com água quente. Fui criada por Maria e, devido
aos seus costumes e à tradição, ela me ensinou a tomar banho todos os dias. Muitas vezes fazia isso
às escondidas de todos, em meus aposentos, pois não era o costume europeu. Na verdade, as pessoas
não eram apenas imundas de pensamentos, mas também seus corpos tinham um cheiro fétido. A
senhorita D’Lú contou-me, certa vez, sobre os estranhos costumes da corte europeia, onde a maioria
das pessoas casava-se no mês de junho, início do verão, porque, como tomavam o primeiro banho do
ano em maio, o cheiro delas ainda estava mais ou menos tolerável. Entretanto, como já começavam a
exalar certos odores, as noivas passaram a ter o costume de carregar buquês de flores junto ao corpo,
para disfarçar, assim, o mau cheiro. Os banhos eram tomados numa única tina, enorme, cheia de
água quente. O chefe da família, o rei ou monarca, tinha o privilégio do primeiro banho na água
limpa. Depois, sem trocar a água - reparem que lindo!-, vinham os outros homens da casa, por ordem
de idade, as mulheres, também por idade e, por fim, as crianças. Os bebês eram os últimos a tomar
banho. Portanto, quando chegava a vez deles, a água da tina já estava tão suja que era possível perder
um bebê lá dentro. Ainda bem que meu pai havia sido doutrinado por minha mãe e mantinha quatro
tinas em nossa casa. Meu pai nunca fora um homem de tomar muitos banhos, mas também não se
preocupava se tomássemos com frequência. Em compensação, sua adorada esposa só tomava banho
quando precisava ir a uma festividade. Confesso que seu odor era fétido e, misturado às caras
fragrâncias francesas, dava-me náuseas. E isso piorava no verão.
     Comecei a achar graça daqueles pensamentos tolos e sem lógica. Estava à beira de uma
condenação e ainda conseguia ver graça naquelas pessoas. Estava ficando tonta; precisava comer
alguma coisa. A falta de alimento, principalmente pela manhã, causava-me tonturas e certos
devaneios. Não podia pedir socorro naquele local, pois poderiam achar que o demônio já estava se
manifestando. Tive de me manter calma, fria e controlar os devaneios causados pela falta de algo
doce, principalmente. Por isso, Maria sempre se preocupava em me fazer comer pela manhã e
forçava-me a comer algo nos intervalos das refeições. As vertigens começavam a me causar
devaneios. Estava sentindo a visão turva. Comecei a cochilar, quando uma voz suave me chamou:
     _ Anna, precisa manter-se lúcida. Não poderemos ajudá-la se não estiver consciente. Anna,
acorde! Só poderemos ajudá-la com a sua mente em total estado de lucidez.
     Abri os olhos lentamente e vi um homem belíssimo, vestindo uma túnica muito branca de um
fino linho. Seus cabelos eram cacheados e loiros e caíam sobre os ombros largos. Seus olhos eram de
um azul inigualável. Tinha as faces rosadas e os lábios grossos. A pele mais parecia uma fina
porcelana. Sua luz deixou-me quase cega. Quando eu já estava totalmente despertada, ele abriu-me
um largo sorriso e falou-me:




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

      _ Sabe por que estou aqui, não?
      _ Sim, Heixe. Faço uma ideia.
      Ele abaixou e segurou o meu rosto com a mão, que mais parecia um pedaço de seda. Era a
primeira vez que me tocava. Foi bom sentir um pouco de carinho, pois estava totalmente indefesa e
carente. Depois de afagar meu rosto e meus cabelos, o espírito falou:
      _ Vim auxiliá-la, mas preciso que tente reagir. Sei o quanto é difícil para você estar passando
por tudo isso. Mas esse foi o caminho que escolheu. Não fraqueje agora. Ainda tem muito chão pela
frente.
      _ Eu sei, mas meu corpo dói tanto! Estou fraca e com fome. Talvez tivesse sido melhor se eu
tivesse escolhido o destino que queriam impor a mim. Talvez seja melhor eu negar tudo e dizer que
estava sob influência maligna. Estou cansada... Não quero mais lutar, por Deus. Faça-os parar, por
favor!
      _ Anna, sabe muito bem que não posso voltar o tempo. Mesmo que negue quem é, não mudará o
seu jeito de ser. Liberte-se de todos esses pensamentos e alimente-se com orações. Seu espírito está
fraco e, por isso, seu aparelho apresenta fraqueza. Só o amor do Pai Maior pode sustentá-la nesta
hora de dor. Anna, minha doce Anna... Como pode esquecer tudo o que aprendeu?
      Naquele momento, uma estranha força penetrou meu corpo e entrei em total sintonia com Heixe.
Juntos, fizemos uma oração mental. Meu espírito foi levitando, até que saí do meu aparelho e me vi
fora do chão. Uma imensa luz cercou todo o corredor escuro e frio. Uma paz tomou conta de mim.
Meu corpo já não sentia dor ou frio, muito menos fome. Suas mãos alimentaram-me e curaram-me.
Havia uma harmonia no ar e uma doce melodia que imitava os sons das harpas dos anjos. Naquele
estado, pude ver meu aparelho em repouso. Parecia ter envelhecido uns três anos naquelas últimas
horas. Olhei, também, para o guarda que vigiava o meu aparelho. Pude perceber uma áurea de
tristeza em torno dele - o que justificava aquela forma inerte e sem reação aparente. Olhei para
Heixe. Ele parecia ter percebido o que eu estava vendo. Então, emanou vibrações de entusiasmo para
aquele homem, que estava também precisando de misericórdia. Depois, Heixe pegou-me pela mão e
guiou-me por entre as paredes, seguindo até a sala de audiência. Por instantes, cheguei a pensar que
havia morrido, mas Heixe explicou-me que eu estava viva e presa pelo cordão de luz que me
segurava ao meu aparelho.
      Dentro da sala de audiência, havia um comitê formado por muitos lordes, pelo bispo, o prior,
entre outros que estavam discutindo o meu caso. O murmúrio no local era muito grande, o que me
deixou tão confusa, quase não conseguindo entender o que realmente estavam falando. Passei por
todas aquelas pessoas, mas não puderam me ver. Olhei para o bispo e lá estava a sombra negra,
pairando sobre ele. Na verdade, a maioria das pessoas que estavam naquele recinto tinha um
obsessor como companheiro. Sabia que aqueles espíritos já haviam sido seres humanos um dia. Mas,
agora, pareciam estar em decomposição, chorosos, agonizantes... Pareciam terem se levantado das
catacumbas. A maioria era obsessora. Outros, parentes que só queriam orações. E outros imploravam
para que os ouvissem. Aquilo, sim, era o purgatório. Por isso, todos eram tão desnorteados daquele
jeito. Com tantas pessoas falando em suas cabeças ao mesmo tempo, como poderiam ter ideias
próprias?
      Meu corpo levitava sobre aquelas pessoas e seus espíritos atordoados. Estava confusa. Na
verdade, ainda não havia me dado conta de minha atual condição. Esse é um estado em que o espírito
não deve permanecer por muito tempo fora de seu aparelho. Isso é muito perigoso e inconsequente,
mas confiei em meu mentor espiritual, pois ele sabia de minhas limitações.
      Pude ouvir o que o inquisidor estava falando e, com isso, sabia com exatidão qual resposta teria
que dar. Na verdade, eles estavam mais assustados do que eu, como se isso fosse possível. Eu teria
que ter muito tato ao lidar com aquelas pessoas, pois, por serem completamente leigas no assunto da
espiritualidade, poderiam colocar todos os meus planos a perder. Escolhi aquela sentença e, daquele




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O segredo dos girassóis
                                           Adriana Matheus

momento em diante, teria que ter liderança sobre minhas palavras, pois qualquer deslize poderia
condenar-me à fogueira.
     Precisava encontrar o meu monge. Sabia que ele estava me esperando. Mesmo que todo o
sofrimento que eu tenha passado tenha sido pesado demais, nunca me arrependi do que fiz, pois cada
momento que vivi ao lado do meu amor valeu a pena. Mesmo que ele tenha me traído... Aquela
necessidade dar-me-ia forças de prosseguir com a minha decisão. Podia senti-lo. Sabia da sua
infelicidade. Sabia como ele estava sozinho e sem vontade de viver. Meu sofrimento estava ligado à
solidão na qual ele se encontrava. Éramos um só ser. Estava muito perto para desistir agora. Dei
prosseguimento ao aprendizado de Heixe e deixei que ele me mostrasse o que me esperava. A
senhora gorducha que estava em minha casa, essa sim, era um grande problema: a cada discussão,
ela colocava mais lenha na fogueira. Ela só estava ali por ser filha de um falecido e rico proprietário
de muitas terras. Por ser uma dizimista aplicada e mão aberta, tinha o direito de permanecer entre os
poderosos, enquanto isso lhes fosse conveniente. Nunca havia se casado ou namorado em toda a
vida. Só se dedicou à Igreja e aos preceitos religiosos. Sua língua felina era bastante útil nestes casos
de acusações. Principalmente porque ela julgava saber da vida de todos do condado. Na verdade, ela
queria algo para comentar durante sua quinta geração. Em um povoado tão pequeno como aquele,
não se tinha muitas coisas para se contar.
     Heixe segurou minha mão e continuamos a ver o quanto as pessoas cochichavam entre si. Os
olhos da condessa pareciam mortos, visando o nada. Era como se ela estivesse em êxtase. Por trás de
tanta soberania e arrogância, pude perceber a mulher infeliz e sem vida que ela era. Seu espírito tinha
uma cor cinza e parecia muito solitário. O conde não se desgrudava de meu pai. Ambos pareciam
estar tramando o tempo todo. Algo estranho naquela amizade começava a me intrigar. Não era só um
simples interesse em me casar com aquele homem. Existia uma espécie de trama política e
financeira. Meu pai fingia não saber que a esposa era cortejada por outros homens e pelo conde - isso
era conveniente demais. Comecei a ver as coisas como realmente eram. Aproximamo-nos deles,
tentando ouvir o que diziam, mas o alarido de vozes não nos deixou entender. Por fim, Heixe achou
que já era hora de retornar para o meu aparelho. E foi bem a tempo, pois o magistrado havia pedido
para que me buscassem para o interrogatório. Como em um flash, meu espírito passou rapidamente
por todas aquelas pessoas, atravessando as paredes e jogando-se em meu aparelho inconsciente. Senti
como se um raio atravessasse meu corpo. Acordei de supetão, já com dois guardas ao meu lado,
sacudindo-me e entreolhando-se, parecendo achar que eu estava possuída.
     _ Levante-se! - disse um guarda ainda muito jovem, chutando as minhas canelas.
     Levantei-me com a ajuda do outro, que segurou meu cotovelo, dando-me certo apoio. Segui-os
corredor afora. Entramos por uma enorme porta, quase negra, talhada à mão. Ao abrirem a porta
pesada, fez-se total silêncio no recinto. Todos se viraram para trás, levantando-se. O júri já estava
formado e o magistrado estava usando uma enorme peruca cacheada. Tanto garbo e, por certo, era
careca. A peruca estava lotada de piolhos. Não conseguia parar de achar defeitos nos santos que me
acusavam de megera. Deu-me vontade de rir, porque não conseguia ver como pessoas tão imorais e
cheias de defeito conseguiam achar em alguém como eu um defeito. E o que é pior: inventavam
mentiras atrás de mentiras para satisfazerem os egos cheios de blasfêmias. Meus pensamentos eram
esdrúxulos e levianos. Mas não poderia falar. Então, pensava. Sacudi a cabeça, prometendo não
pensar mais sandices. Embora já estivesse ciente do que me aguardava, senti um frio na espinha! O
que mais me doeu foi ver meu pai ali, olhando-me tão friamente, como que desejando a minha
morte. Não me importava o que aquelas pessoas pensavam de mim, mas o que realmente me doía era
saber que alguém do meu próprio sangue rejeitava-me não por dúvida sobre o meu caráter pessoal,
mas por saber que eu era um risco à sua reputação como homem e por eu não ter baixado a cabeça às
suas ordens inescrupulosas. O conde olhou-me de cima abaixo, com um desdém e desejo
abomináveis. Os demais presentes esquivavam-se, com medo de me tocarem e virarem pedra ou algo
assim. Talvez uma pessoa contaminada pela peste não fosse tão repulsiva aos olhos deles como eu




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O segredo dos girassóis
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estava sendo naquele momento. Baixei a cabeça, pois sabia que quanto mais humilde eu fosse,
melhor para mim seria. Sentaram-me em uma cadeirinha em frente ao magistrado. O alarido de
vozes começou novamente, assim que me sentei. O povo estava muito agitado do lado de fora, mas o
magistrado e os demais queriam interrogar-me primeiro.
    _ Levante-se, por favor! A senhorita tem noção do porquê de estar aqui? – perguntou-me o
magistrado.
    _ Não, excelência!
    Houve um alarido de exclamação, como se eu estivesse mentindo. Por fim, prossegui:
    _ Não tenho certeza, excelência. Estou muito confusa quanto às acusações.
    _ Então, nega ser uma bruxa?
    _ Não, excelência.
    Houve um alarido ainda maior.
    _ Nego apenas ter cometido tais crimes contra a Igreja. Sempre frequentei as missas aos
domingos. Nunca faltei com a eucaristia e sempre comunguei. Mas não nego que sou uma bruxa.
    _ Blasfêmia! - gritou o advogado de defesa da Igreja.
    _ Protesto! Esta mulher frequentava a igreja quando ainda não estava possuída pelo demônio.
    _ Protesto aceito. A senhorita deve ser mais explícita quanto às suas palavras. Como pode não
negar que é uma bruxa, mas negar estar praticando a bruxaria?
    _ Só conheci os caminhos da magia há pouco tempo, excelência. Mas confesso que tudo o que
aprendi já estava dentro da minha alma. Lembro-me de cada símbolo. Mas nunca cometi nenhuma
das atrocidades das quais estão me acusando.
    _ Acredito neste lado de sua história. Mas o que me intriga é como foi que conheceu o caminho
que a levou a praticar coisas contra a Igreja, sendo que não tinha outra companhia além da sua
governanta, como mesmo disse - já que, logicamente, é pouco provável que sua madrasta tenha se
envolvido com tais coisas ilícitas aos olhos da Igreja e de Deus. Diga-me, senhorita Anna, é esse o
seu nome, creio, ou o demônio também usa outro nome quando a possui?
    Os demais que estavam no recinto riram, formando um coro, enquanto o advogado de acusação
olhava-me zombeteiramente por debaixo dos óculos. Ele era um homem gordo e de meia idade, com
bochechas de cachorro. Por fim, depois daquela pequena pausa para servir de deboche, respondi de
cabeça baixa, tentando demonstrar humildade:
    _ Sim, este é meu nome, excelência. E não, o demônio jamais esteve em meu corpo. Isso é um
equívoco, excelência.
    _ Então afirma que sua governanta impunha-lhe cometer tais crimes?
    _ Não, nunca disse isso! Maria era uma santa. Ela sempre me ajudou em tudo e foi a pessoa que
me criou. - fiquei nervosa.
    Estalando os dedos, ele disse:
    _ Mas tenho aqui relatos de que esta senhora – Maria, como a chamavam - vem de origem
cigana, e fazia chá para a senhorita tomar durante a noite. Isso está certo?
    _ Sim. Eu perdia o sono à noite e Maria dava-me chás, para que eu conseguisse dormir.
    _ E esses chás ou poções eram feitos do quê?
    _ Não sei. As receitas são sempre secretas. Maria trazia-as guardadas sob sete chaves.
    _ Não tenho mais perguntas, excelência. – virou-se para os demais.
    O magistrado tornou-me a interrogar:
    _ Então, essa mulher, Maria, entorpecia sua mente com suas poções? Fazendo-a ficar sobre o
poder do demônio, em estado de sonambulismo, a senhorita saía durante a noite e atacava os aldeões,
não é isso?
    _ Não, nunca houve tamanha barbárie. Quando eu tomava os chás de Maria, dormia
profundamente.




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O segredo dos girassóis
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     _ Como a senhorita pode ter certeza, se diz dormir profundamente? Mande entrar o agricultor
Antonio de La Paz.
     Trouxeram um homem magro e muito humilde diante do tribunal. O advogado levantou-se e
fez-lhe inúmeras perguntas. Esse homem fazia pequenos serviços para os fazendeiros locais. Não
poderia entender o que ele poderia ter com o meu julgamento, pois mal o conhecia e nem nunca na
vida trocara uma palavra sequer com ele.
     _ O senhor é o agricultor Antonio de La Paz?
     _ Sim, senhor. Sou eu mesmo.
     _ Conhece essa mulher aí, na sua frente?
     _ Sim, senhor. Conheço sim.
     _ De onde o senhor a conhece? Poderia dizer a todos os demais presentes? Devo lembrá-lo de
que está sob jura.
     _ Vi-a pela noite, no meio das plantações, em trajes íntimos. - ele disse isso com a voz trêmula e
a cabeça baixa, pelo medo de que alguma coisa que dissesse não fosse o que lhe haviam mandado.
     _ Não ouvi. Poderia responder um pouco mais alto dessa vez?
     _ Via-a frequentemente a perambular pelos campos, à noite, quando a Lua estava alta no céu.
Ela estava quase desnuda. Eu até sentia vergonha por ela. Tentei várias vezes pedir a ela que fosse
para casa, porque não era certo uma senhorita ficar daquele jeito no meio as hortaliças.
     _ E ela o ouvia?
     _ Não, senhor. Parecia estar em transe. Depois é que fui saber que era uma bruxa e que estava
amaldiçoando as plantações.
     Todos murmuraram... Ele prosseguiu:
     _ É verdade, sim. Logo depois, a plantação do senhor Leônidas secou por completo. Pode
perguntar vós micês para ele. - ele se agitava e apontava o indicador na direção de todos.
     _ Então, o senhor quer dizer que esta mulher foi a responsável pela colheita do fazendeiro
Leônidas não ter dado certo?
     _ Sim, senhor. Foi ela sim.
     _ Por que o senhor nunca contou tal fato às autoridades?
     _ Porque tive medo de que ela fizesse algo ruim contra minha família, senhor.
     Tive mesmo vontade de fazer algo mais naquele momento. Tive vontade de estrangular aquele
estúpido, por mentir tanto e vender-se por tão pouco. Ele é quem foi negligente em seu trabalho e
deixou que a plantação do homem morresse. Aproveitou-se daquela situação para que o fazendeiro
não o punisse por sua falta de atenção ao trabalho. O cheiro da bebida em seus lábios era
insuportável. Ele era um mau caráter e estava se fazendo de vítima.
     Meu acusador mandou chamar uma senhora de nome Samanta Castro. As mesmas perguntas de
início foram feitas à mulher. Depois, prosseguiu-se:
     _ É verdade que a senhora estava grávida de uma criança? Uma menina, por assim dizer?
     _ Sim, é verdade.
     _ O que houve com a sua criança?
     _ Morreu. Isso foi logo depois que essa mulher apareceu perto de minha casa, à noite.
     _ Como assim? Poderia explicar-se melhor?
     _ Eu já tinha ouvido o boato de que a plantação do fazendeiro Leônidas tinha sido destruída por
uma bruxa. Mas sou muito devota do sagrado coração. Então, não dei importância aos boatos. Mas,
numa noite linda de Lua, eu estava colhendo minhas roupas no varal e meu bebê, que estava com
dois meses, estava em uma cestinha bem perto de mim, para o caso de, se chorasse, eu o ouvisse.
     _ E o que houve? Conte logo, mulher. - disse o advogado, exasperado.
     _ Então, acabei de colher toda a roupa e percebi que algo errado tinha acontecido ao meu bebê.
     _ Explique-se, mulher! Pare de rodeios teatrais e vá direto ao assunto.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Fui até o cestinho e meu bebê já não estava mais lá. Havia desaparecido como que por
encanto. Gritei meu marido Jésus e fomos os dois procurá-lo.
     _ E o encontraram?
     _ Sim. - a mulher desabou em prantos e não conseguiu mais falar uma só palavra.
     O magistrado pediu para que chamassem o marido dela.
     _ Que entre o senhor Jésus, o agricultor, para que dê continuidade aos acontecimentos seguintes.
     Fez as mesmas perguntas iniciais ao homem, que mais parecia um pobre carvoeiro de tão mal
vestido e sujo que estava.
     _ Essa mulher chamada de Samanta Castro é sua esposa?
     _ Sim, senhor; é sim.
     _ O senhor e esta mulher tiveram uma criança?
     _ Sim, senhor, tivemos sim. - o homem respondia com a cabeça e com a boca.
     _ E o que houve com a criança, afinal?
     _ Está morta, senhor. - o homem baixou a cabeça, num gesto de respeito e tristeza.
     _ E o senhor, Jésus Justos, é assim que lhe chamam, certo?
     _ Sim, senhor; é sim.
     _ Então, senhor Jésus Justos, de que morreu a criança?
     _ Não sei como morreu, senhor... Mas a achamos sem a cabecinha.
     _ Meu Deus! Que horror! - exclamaram todos os demais.
     _ E como, senhor Jésus Justos, acha que aconteceu essa barbárie, essa monstruosidade?
     Apontando para mim, sem pestanejar, ele respondeu:
     _ Isso não sei dizer, senhor. Mas minha esposa, aquela noite, jura que viu essa mulher que está
sentada ali rondando lá pros nossos lados naquele dia. Até fui atrás dela com uma foice, mas não
achei a famigerada, não. Acho que usou alguma magia para evaporar-se daquele jeito.
     _ O senhor tem certeza de ser a senhorita Anna?
     _ Disso eu tenho sim, senhor. Porque somos pobres, mas nunca haveríamos de falar mentira.
Minha mulher nunca me deu motivos para eu desacreditar dela, não, senhor. E se o senhor quiser,
pode perguntar por aí que vai ver que sou uma pessoa que honra as calças que veste.
     Todos caíram na gargalhada da maneira simplória como falava o pobre homem. Ele até poderia
ser uma boa pessoa e ter uma honestidade acima do normal. Mas a esposa dele estava mentindo. Ela
deixou o bebê ao relento enquanto catava as vestes do varal e, por certo, um animal pegou o
bebezinho. Ela ficou tão aterrorizada com o que vira que criou essa fantástica história em sua mente.
Também ficou com medo da represália do marido. E é lógico que a bruxa tinha que ser eu, quem
mais? Eles supunham que tinha uma bruxa local. Mas, quando se espalharam os boatos a meu
respeito, juntaram tudo e fizeram uma história. Eram muito fáceis de manipular. Caso não fossem,
jamais estariam testemunhando. O julgamento prosseguiu:
     _ Por que não denunciaram às autoridades locais?
     _ Tivemos muito medo por causa que ela é uma bruxa. Ficamos com medo de que minha mulher
nunca mais engravidasse, caso ela jogasse uma praga.
     - Será que algum de vocês, aqui presentes, tem ainda dúvidas de que essa mulher é uma bruxa,
que cometia atos satânicos? Não me importa se estava ou não inconsciente. O fato é que essa mulher
admitiu e existem vários fatos que comprovam a veracidade das informações. Se não estiverem
satisfeitos e quiserem mais testemunhas, peço permissão para que o senhor magistrado aqui presente
– logicamente, com a permissão do senhor excelentíssimo Dom Helvécio Hernandes, inquisidor de
alto valor e escolhido por nosso querido rei Filipe – mostre, a caráter decisivo, as testemunhas
impostas a este júri.
     O inquisidor olhou para o magistrado, assinalando positivamente com a cabeça, como que dando
permissão para que as outras testemunhas de acusação entrassem. O magistrado mandou que uma
porta lateral fosse aberta. Entraram umas cem pessoas que já estavam aguardando do lado de fora.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

Logicamente, a plebe não poderia faltar, pois quem seria melhor para encenar aquele teatro de
horror? Logicamente, os ingênuos, os analfabetos e, enfim, todos aqueles que sempre foram
rejeitados, mas que representavam a força final da palavra. Pois essas pessoas julgavam pela
aparência e pelos mexericos. Eram pessoas altamente autossugestionadas e de fácil manipulação.
Cordeiros medrosos e vulneráveis, pessoas que muito tinham a perder. Como a voz do povo é a voz
de Deus, eu seria cozida viva, por assim dizer.
     Quando toda aquela gente acomodou-se, como previsto, o alarido ficou maior ainda. Então, o
magistrado deu um grito, batendo com seu malhete em cima da mesa, pedindo silêncio. A voz do
magistrado ressoou pelo recinto como o ronco de um trovão. Todos pareciam estar bastante nervosos
e apreensivos. Aquele alarido só fazia deixar todos ainda mais agitados. Sempre existem pessoas
capazes de tornarem as coisas ainda muito piores do que elas realmente são. Podia ouvir os rumores
horrorosos a meu respeito. Podia ouvir algumas pessoas chamando-me de devoradora de bebês!
Havia malícia, maldade e muito interesse político naquilo tudo.
     Eu era só uma desculpa para encobrir o que realmente estava acontecendo - ou seja, esconder o
triângulo amoroso que existia entre meu pai, o conde e a condessa. Também, enquanto todos
estivessem prestando atenção em mim, não investigariam o conde como suspeito de um assassinato.
     O inquisidor, após ler publicamente a carta enviada pelo rei, tomou cuidado para não declarar
em sua sentença absolvição alguma, ou que eu - a acusada - pudesse parecer inocente ou isenta. Sua
intenção era esclarecer bastante que tudo foi legitimamente provado contra mim. Desta forma, se eu
fosse trazida mais tarde novamente diante do tribunal do júri, indiciada por causa de qualquer outro
crime, poderia, assim, ser ordenada sem problemas, apesar de a sentença de absolvição já ter-me sido
negada. O magistrado, antes de passar a palavra final ao inquisidor, perguntou-me uma última vez -
não porque estivesse interessado em saber a real verdade, mas porque na sala havia muitas pessoas
influentes e ele não poderia parecer injusto:
     _ Tem mais alguma coisa a declarar? Saiba que a senhorita está entre amigos e parentes,
pessoas que a amam e que realmente se importam com a sua saúde e seu bem estar. Creio que agora
é a hora de dizer algo que possa ajudá-la em sua sentença. Saiba que não poderá nunca mais
comentar sobre os fatos ocorridos nesta sala. Portanto, esta é a hora.
     Levantei-me, meio cambaleando por causa das muitas horas que já estava sem me alimentar,
olhei ao redor e voltei em direção ao magistrado, fitando-o nos olhos. Ergui minha cabeça e disse:
     _ Não tenho mais nada a dizer ou declarar. Não tenho nenhum amigo, já que todos vivem o
perjúrio de um suposto purgatório. Não confio em ninguém, já que me lançam sobre a desgraça
humana. Não tenho nenhum laço familiar ou consaguinidade comprovada com alguém neste
tribunal. Sou apenas um corpo no mundo. Que se cumpra o meu destino. Quero ressaltar, apenas, que
nunca comi criançinhas, nunca me prostituí, nunca tentei induzir ninguém a nenhuma seita ou
religião, quaisquer que fossem.
     Depois de eu ter falado isso, o magistrado ainda ressaltou:
     _ Senhorita Anna Goldim Señra, ressalto mais uma vez que essa é a sua última chance de dizer
alguma coisa em sua defesa. Caso contrário, será declarada como bruxa e sentenciada a viver nos
calabouços de um convento em San Francisco.
     Portanto, olhei para o conde, que estava de olhos arregalados prestando atenção, e disse:
     _ Não será necessário que sua excelência declare-me como bruxa, porque eu mesma me declaro.
Não tenho vergonha de ser quem sou e de seguir um caminho que eu mesma escolhi. Mas sua
excelência deveria prestar mais atenção a certas pessoas neste tribunal.
     O bispo, porém, tomou a palavra, indagando-me:
     _ O que a senhorita quer dizer com isso?
     _ Quero dizer que neste tribunal tem um usurpador e assassino sentado aqui, bem em minha
frente. - disse isso apontando para o conde
     Ele, de um salto, gritou, apontando o diário da minha mãe em suas mãos:




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     _ Blasfêmia, excelência! Essa mulher tentou seduzir-me em seu próprio leito. Tenho provas aqui
comigo de que ela, além de bruxa, praticava, sim, os rituais da magia. Há também indícios de que ela
tinha o seu próprio local escondido dentro da casa de seu pai, onde ela, a governanta e o jardineiro
praticavam rituais de magia negra, cozinhando e comendo os filhos dos escravos.
     O alarido de espanto foi geral. O bispo, porém, interrogou-o:
     _ E como o senhor ficou sabendo de tais fatos?
     _ Sei disso porque a senhora condessa aqui presente também a flagrou fazendo seus feitiços em
um lugar escondido, atrás da adega de vinhos do senhor Juan. Essa mulher está tentando enfeitiçar
todos aqui, transferindo a sua culpa para nós. Mas posso provar o que eu disse. - disse isso
entregando o diário de minha mãe ao inquisidor.
     Depois de folheá-lo rapidamente, o inquisidor entregou-o ao bispo, que, depois de uma breve
análise, disse:
     _ É irrevogável a questão de que esta mulher seja uma bruxa. É também irrelevante que ela
acuse qualquer membro que esteja presente dentro deste recinto, sendo que ela está tentando
distorcer os fatos para enganar a todos nós. Essa bruxa está tentando usar seus feitiços para nos
manipular. Mediante a tais provas postas em minhas mãos, e mediante tão ilustres testemunhas que
comprovam sua culpa, declaro-a culpada. Passo o caso ao senhor magistrado.
     Sabia que não poderia ter dito nada, mas tinha que arriscar e tentar salvar-me. Depois das
palavras do bispo, não pude dizer mais nada. Fiquei ouvindo a sentença que o magistrado me impôs.
Ele se levantou e começou a sentenciar-me com as seguintes palavras:
     _ Que a mulher comumente chamada de Anna Goldim Señra seja denunciada e declarada
feiticeira, adivinha, pseudoprofeta, invocadora de maus espíritos, conspiradora, supersticiosa,
implicada na prática de magia feita a ela, teimosa quanto à fé católica, cismática quanto ao artigo
Unam Sanctam e em diversos outros artigos de nossa fé, cética e extraviada, sacrílega, idólatra,
apóstata, execrável e maligna, blasfema em relação a Deus e seus santos, escandalosa, sediciosa,
mentirosa e caluniosa.
     Dito isso, o magistrado bateu o malhete sobre a mesa, dizendo:
     _ Levem essa mulher daqui e que fique trancada na prisão até que seja levada para o local onde
será trancada e enclausurada para o resto de seus dias. Ressalto, ainda, que ela deve ser mantida sob
vigilância constante, para que não tente fugir ou usar seus poderes malignos.
     Todos que estavam no tribunal foram se retirando. Fui levada para uma sala até que o recinto
tivesse sido esvaziado. Logo depois, fui levada para a prisão. Atravessamos a praça com um cortejo
de agourentos atrás de nós. Onde passávamos, juntava-se mais e mais gente. Logo depois de
andarmos uns vinte minutos, chegamos à prisão. Era um lugar muito desleixado e sujo. Subimos os
degraus e passamos por várias salas. Por fim, começamos a descer sem parar, até chegarmos a um
lugar cheio de portas trancadas até em cima, uma de frente para a outra. Devia ter umas quinze ao
todo. Andamos uns dez metros. Minha cela era a última do corredor. Dois homens foram precisos
para abrir a porta. Havia uma cama muito suja e de palha, forrada com um tecido encardido e mal
cheiroso. Parecia que tinha manchas de sangue nele. O lugar era sombrio. O único ar que se tinha
vinha de uma fenda de trinta centímetros ou pouco mais. O orifício era revestido por grades. Mal
dava para se ver se era dia ou noite, porque o orifício na parede era pequeno demais para poder
passar a luz do sol. As paredes eram cheias de teias de aranhas. Senti um terrível cheiro de urina por
toda parte. Na verdade, havia vários excrementos humanos, mas não dava para identificá-los por
causa do tempo. O guarda empurrou-me porta adentro e disse:
     _ Seja bem vinda aos seus novos aposentos, rainha das bruxas.
     Em seguida saiu, batendo a porta e dando uma gargalhada que mais parecia ter vindo do além.
Fiquei ali, parada, olhando aquele lugar que não tinha mais que uns dez metros de largura.
     Os dias foram passando como noites. Agarrei-me em orações para tentar ficar forte. O desespero
do claustro é indescritível. A solidão é uma companhia que não desejamos a ninguém. Ela nos faz




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

ver coisas no escuro e, se não tivermos muito autocontrole, enlouquecemos. Comecei a fazer traços
na parede para não me perder de que dia era. Comecei a falar sozinha, mas os guardas sempre me
insultavam, perguntando se o diabo estava lá comigo. Eu só tinha a companhia do guarda carcerário
nas duas vezes em que ele me trazia alimento. Às vezes, o guarda da noite jogava em meu rosto a
água que serviria para eu tomar. Ele também, várias vezes, pisou no pedaço de pão duro que me era
oferecido como alimento. Várias vezes, oferecia-me urina ou escarrava dentro da minha caneca com
água. A fome era tamanha que eu comeria a mim mesma.
     Diziam que o inferno era algo abominável, mas quem passou pelas torturas da Inquisição
desejaria ir rapidamente para lá. Diziam, também, que nos finais dos tempos os vivos desejariam
estarem com seus mortos - por causa do fim, que seria duro e cruel. Para mim, ali era o fim do
mundo. Todos os meus pecados já estavam mais que pagos. Não existe inferno ou demônio. Existem,
sim, pessoas com mentes diabólicas, capazes de extrema crueldade e covardia para conseguir seus
objetivos a qualquer preço. Deixamos que a vida passe por nós e esquecemos de observar o quanto
aqueles pequenos detalhes são importantes. Só nos damos conta disso quando temos que enfrentar
uma situação muito difícil. Não damos conta quando passamos por cima dos menos favorecidos. Não
damos conta que um dia vem logo após o outro, com uma noite no meio para nos fazer lembrar.
Nunca pisei em alguém, mas pagava esse preço por causa da ambição de terceiros. Deveria ter
prestado mais atenção aos sinais. Deveria ter fugido com Maria e Joseph. O pecado é capaz de se
aliar à desgraça da maldade. Aprendi muitas coisas: uma era me manter em silêncio; a outra era
nunca brincar com a vaidade masculina, pois um homem sabe mesmo ser cruel nessas horas de
impulsividade. Eram nós, as mulheres, quem os seduziam, que tínhamos mais propensão a ser
induzidas e fascinadas pelo mal. A mulher não podia se cuidar ou ter vaidade; jamais podia sentir
prazer com seu marido - pois ele poderia chicotá-la em praça pública, acusando-a de induzi-lo às
luxúrias da carne.
     Certa manhã, acordei toda suja: estava nos meus dias de mulher. Não soube o que fazer, pois
comecei a sangrar muito. A vergonha tomara conta de meu ser. Como eu poderia dizer àqueles
guardas o que estava se passando comigo? Rasguei um pedaço de minha anágua, tentando compor-
me. Implorei ao guarda do turno da manhã para que me desse uma tina com água, para que eu
pudesse me lavar. Ele fingiu nem ouvir. Sentia-me mal e humilhada. Minhas forças estavam se
esvaindo. A cada dia que passava, ficava mais fraca. Até que Heixe apareceu e aliviou-me um pouco
daquele martírio. Ficou por horas a fio conversando comigo. De vez em quando, o guarda abria a
portinhola e gritava, mandando-me calar a boca.
     _ Cale essa boca, bruxa infeliz! Anda a falar com satã? Se me fizer entrar aí, juro que amordaço
essa boca.
     Heixe, naquele dia, despediu-se de mim com um ar pesaroso. Mas era preciso, pois o guarda
estava a ponto de me espancar.
     Todos os dias, os outros prisioneiros que ficaram sabendo que na última cela tinha uma mulher,
gritavam meu nome e insultavam-me com palavras odiosas. Alguns gritavam meu nome como se eu
fosse uma mundana. Em atitudes suspeitas, gemiam a chamar por mim. Eram homens de caráter
muito duvidoso e que já estavam na prisão por anos a fio, sem sequer ouvir a voz de uma mulher. A
minha presença, mesmo que do outro lado de uma parede e no fim de um corredor, fazia-os ficarem
como animais. Outros haviam passado por tratamentos com médicos e haviam se esquecido de tudo.
Esse tratamento, bastante suspeito, deixava-os como vegetais. Geralmente, esse tipo de tratamento
era aplicado em pessoas que cometiam algum delito contra algum Lord ou até contra a política, ou
também em casos de homens sodomitas.
     Estava rezando para que o convento enviasse o seu emissário para eu sair dali. Os gritos de
agonia vindos do calabouço estavam me deixando completamente louca e desesperada. Alguém
estava sendo torturado incessantemente todos os dias. Meu Deus! Estavam acabando com ele aos
poucos. Tinha que haver alguém para fazer parar o sofrimento daquele pobre homem. Comecei a




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

esquecer minha agonia e sofrimento. Passei a orar para que aquele ser humano tivesse um fim bem
rápido. Logo depois, escutei quando abriu a porta da cela ao lado e jogaram alguém cela adentro.
Ouvia os choros e gemidos de dor do pobre. Precisava fazer alguma coisa para acalmá-lo. Então,
comecei a cantar uma velha canção espanhola. De repente, escutei mais dois presos acompanhando-
me. Em seguida, todo o cárcere estava ali comigo, cantando aquela canção que falava de amor e
liberdade. Um guarda passou no corredor exasperando, batendo a baioneta na porta das celas.
     _ Calem-se! Ou levo todos para as masmorras.
     Fizemos um silêncio mortal e o medo tomou conta de todo aquele local macabro. Passaram-se
algumas horas. O homem que estava do outro lado da parede começou a fazer uns barulhos com uma
espécie de objeto cilíndrico. Ele perguntou:
     _ Olá! Como se chama?
     _ Anna. E como se chama?
     Seu sotaque era muito carregado.
     _ Meu nome é Ramon Bernard D’ La Mendonça. Qual crime cometeu a senhorita?
     _ Não cometi crime algum, mas estou sendo acusada de bruxaria, traição e tantas outras coisas
que até me perco. Acusam-me até de devoradora de criancinhas. Mas, se fosse carnívora, creio que
teria me autodevorado, pois ando a morrer de fome. Por isso, enclausuraram-me aqui, até que alguém
venha me buscar para levar-me ao Convento e Mosteiro de San Francisco.
     _ Oh! Compreendo. E com todo o respeito: qual a sua idade?
     _ Vinte. Fiz há poucos dias.
     _ É muito jovem. Não acredito que uma senhorita com tão pouca idade e de tão bom coração
tenha cometido tais barbáries. A senhorita deve ter irritado alguém em demasia. E a pessoa, por
certo, é de muito poder aquisitivo.
     Dizendo isso, deu uma sonora gargalhada. Em seguida, um gemido de dor.
     _ Acho que sim. - baixei a cabeça, lembrando-me do que o conde me disse quando eu saíra do
tribunal.
     _ Não quis aceitar um casamento de conveniências e fui contra as ordens de meu pai. Na
verdade, fui perdida em um dívida de jogo. - respondi a ele, com voz meio trêmula.
     _ Então foi isso? Lamento, senhorita! Seu pai é um homem desonrado. Nunca vi apostar a
própria filha nas cartas.
     _ Ele é uma pessoa doente e está consumido por esse vício maldito. Ele bebe praticamente noite
e dia, sem parar. Enterrou-se até os cabelos em dívidas com esse conde.
     _ Desculpe-me, senhorita! Não estou duvidando de sua palavra. Muito pelo contrário, estou
achando demasiadamente ingênua.
     _ E o que o senhor acha que realmente deve ser?
     _ Não sei, senhorita. Mas o senhor seu pai e o restante devem ter outros bons motivos. A
senhorita nunca desconfiou de nada?
     _ De que eu poderia desconfiar? Ou de quem? Nunca saíra de casa, a não ser acompanhada por
minha governanta. Na verdade, meus dotes foram confiscados. Também não era nenhuma soma tão
exuberante assim. Era o suficiente para me manter depois da maior idade, ou a ser entregue ao meu
futuro marido, caso eu viesse a me casar um dia. Mas não creio que eu valesse tanto a pena. Estranho
o senhor dizer tais coisas...
     _ Estranho é a senhorita estar aqui por tão pouco! Tem certeza de que não comeu nenhuma
criancinha mesmo? - dizendo isso, soltou outra de suas gargalhadas.
     Esbocei um pequeno sorriso.
     _ Ora, o senhor ofende-me desta forma! É tão simpático e como sabe acalmar uma mulher com
palavras tão gentis! - fui sarcástica.
     _ Só estava a caçoar da senhorita para passar o tempo. Perdoe-me. Quem seria o seu futuro
noivo, mal lhe pergunte?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Era para ter sido o senhor filho do duque Celso D’ Louchoa, o conde Albert D’ Louchoa.
     _ Eu deveria ter suspeitado, senhorita. Sinto-lhe dizer que esse homem não vale um doblón
sequer. – riu em alto tom.
     Antes que eu pudesse perguntar-lhe por que estava rindo, ele prosseguiu:
     _ Acha mesmo que esse peste irá deixá-la em paz?
     _ Creio que sim, pois agora estou aqui, presa, e ele esta lá fora.
     _ Presa porque tem o dedo desse peste no meio. Com certeza, ele irá atrás da senhorita, no
convento. Ele nunca a deixará em paz, acredite. Sempre terá olhos dele em toda parte. Ele é o espião
do rei, senhorita. Mercenário, trambiqueiro, entre outras coisas mais. Seu pai deve ter falado da
senhorita enquanto jogava. Como disse que ele bebe, o conde por certo trapaceou no jogo para
ganhar a aposta. Agora as coisas estão se encaixando. O que mais a senhorita sabe?
     _ Não sei mais nada; juro.
     _ Antes de vir para as masmorras, ouvi comentários de que esse conde está aqui para investigar
o convento para o qual está sendo enviada.
     _ E por quê?
     _ Suspeitam que os cavaleiros da ordem andem se escondendo por lá, à noite.
     _ Sério? E por que andam a perseguir os cavaleiros da ordem?
     _ Por que dizem que enriqueceram muito e não estão dando a parte da Santa Sé como havia sido
combinado.
     _ E o senhor, por que está aqui?
     _ Porque sou escritor e escrevo sobre a verdade encoberta por trás dessa podridão monárquica. A
burguesia fede, senhorita.
     Depois de dar uma risadinha zombeteira, ele prosseguiu:
     _ Andei publicando uns exemplares sobre os monarcas. Acho que não agradei muito.
     _ Imagino...
     _ Estou aqui, agora, às suas ordens! Um anarquista e visionário, e um amigo ateu. Mas um
amigo fiel, devo ressaltar.
     _ É um enorme prazer, Ramon.
     Os dias ao lado do meu novo amigo foram bastante agradáveis. Ramon era um homem muito
inteligente e aprendi muito com ele. Embora a maior parte do dia ele passasse sob tortura, sempre
conseguia falar alguma coisa útil. Houve dias em que, de tanto ser espancado, ficou desmaiado por
horas a fio. Ele era um homem de cinquenta e poucos anos, mas de uma força fora do comum.
Admirava-o, mesmo sem nunca tê-lo conhecido cara a cara em vida.
     Finalmente o dia chegou. As portas do meu cárcere abriram-se. Dei um pulo da cama. A
primeira pessoa que vi foi o chefe da guarda, que logo veio pôr-me algemas, seguido dos guardas e
de uma freira com uma cara nada agradável. Ela entrou, tampando o nariz com um lencinho. Olhou-
me de cima abaixo e disse ao chefe da guarda:
     _ Tirem-na logo daqui.
     Fui retirada aos socos para fora do cárcere. Mas, quando passei pela cela de Ramon, disse bem
alto para que ele ouvisse:
     _ Fique em paz, meu amigo. Que Deus lhe acompanhe sempre. Nunca o esquecerei, acredite.
     O guarda deu uma risada e falou, sarcasticamente:
     _ Por certo, vai encontrar com ele no quintos dos infernos, porque morreu ontem à noite de
hemorragia. Não resistiu às torturas da manhã anterior. - continuou rindo.
     Chorei e senti pena de Ramon. Ele havia mesmo se queixado de que lhe haviam feito um corte
profundo em seu abdômen. Mas ele sempre levava tudo na brincadeira para que eu não ficasse
preocupada com ele. Meu bom amigo agora estava descansando. Nunca mais haveria de passar por
toda aquela dor. Que seu espírito descanse em paz, pensei comigo. A maioria dos presos estava em




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

silêncio. Deveriam estar mortos também, pois não me importunavam havia dias. Os barulhos que eu
conseguia ouvir eram gemidos de dor, mas muito fracos.
     Fomos saindo daquele lugar dos infernos. Desta vez, não saímos pela porta principal. Saímos
pelos fundos, onde não haveria tumulto. A carruagem esperava-me do lado de fora. Meu Deus,
quando vi o sol de novo, foi como se um milagre tivesse acontecido! De princípio, fiquei totalmente
cega, mas depois pude ver o esplendor do dia que estava à minha frente. O ar no meu rosto...
     Fechei os olhos e lentamente fui abrindo... Vi meu amigo Ramon ao lado de Heixe. Ele estava
lindo... Todo curado de suas chagas. Usava uma túnica muito branca. Por certo, estava sendo levado
para um hospital... Acenaram-me com as mãos e desapareceram, no meio dos raios do sol. Eu agora
estava em paz, porque meu amigo estava em paz. Havia se livrado das mazelas daquela fatídica vida
terrena.
     Havia outra freira esperando-nos na carruagem. Ela era um pouco mais jovem e menos
carrancuda. Ajudou-me a subir. Fiquei sentada, de frente às duas mulheres. A mais nova olhou-me
com piedade. A mais velha ficou com seu lenço ao nariz o tempo inteiro. Sentia-me muito mal com
aquela situação. Um padre usando uma túnica marrom comprida e um chapéu enorme pegou uma
carta das mãos do chefe da guarda. Ele ficou na parte de cima da carruagem, com o cocheiro. Dois
guardas acompanharam a carruagem a cavalo. Eu estava algemada, mas as freiras não deixaram que
me prendessem os braços à porta dessa vez. A carruagem começou a andar e eu só queria olhar pela
janela.
     Passamos por quase toda a cidade. Fui me lembrando de tudo o que havia passado. A carruagem
praticamente deu a volta na província de Salamanca. Ao passarmos pela igreja de padre Ignácio, ele
fez a carruagem parar. Pediu ao padre que estava conduzindo aquela escolta para deixar que ele
falasse comigo. O padre permitiu. Ele chegou brevemente à janela da carruagem e pegou nas minhas
duas mãos, dizendo:
     _ Minha menina! Minha filha... Não fui ao seu julgamento, não me permitiram. Meu Deus, o
que fizeram a você, minha criança?
     Ele passou um pequeno bilhete para minhas mãos, que eu leria mais tarde.
     _ Tenho rezado pela sua vida, filha. Nunca desista, nunca abandone sua fé na divina senhora.
Estarei aqui, torcendo por você. - beijou minhas mãos e afastou-se.
     Não falei nada, apenas chorei. A carruagem seguiu e pegou a estrada. Fiquei com as mãos bem
juntas para que as freiras não vissem meu bilhete. A mais velha cochilava e arregalava os olhos de
acordo com o movimento da carruagem. Lembrei-me de Maria em nossa viagem.
     Ao meio dia, as freiras pararam para se refrescar e comer alguma coisa. Tiraram-me da
carruagem com elas. O sol estava alto no céu. Elas me deram um pouco d’água para eu me refrescar
também. Depois, arrumaram uma toalha no chão e colocaram a ceia. Fiquei de longe, olhando-as.
Mas a mais velha chamou-me para junto delas.
     _ Pegue pão e chá fresco. Temos frutas e queijo. Coma, vá.
     Peguei um pedaço de pão com queijo e um copo de chá. Afastei-me das duas, fui para perto da
carruagem. A mais jovem buscou-me para ficar junto a elas e sentar-me.
     _ A casa de Deus não faz restrição aos arrependidos. - disse a mais velha.
     Agradeci e beijei suas mãos.
     _ Não faça isso. Coma e fique quieta.
     Obedeci sem pestanejar. Descansamos debaixo de um salgueiro e depois seguimos viagem
novamente.
     A tarde caiu bem rapidamente. A freira mais velha caiu em sono profundo; e a mais jovem, logo
em seguida. Aproveitei para ler meu bilhete. Era de Maria. Ela dizia que ficou sabendo de tudo que
eu havia feito e que estava bem. Que as irmãs estavam em oração por mim e que daria um jeito de
me visitar quando eu estivesse no convento. Minha Maria... Coloquei o bilhete na boca e engoli. Era




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

muito perigoso se alguém pegasse. Fiquei acordada, olhando pela janela. Era alta noite quando a
freira mais jovem acordou e perguntou-me:
     _ Você não dorme, senhorita Anna?
     _ Fiquei tanto tempo em uma cela escura que só quero aproveitar cada minuto e cada detalhe da
minha liberdade temporária.
     _ Então, fique à vontade, querida. Mas descanse um pouco também.
     _ Prometo repousar assim que o sono chegar.
     Os quatro dias restantes passaram-se sem nenhuma novidade. As freiras eram pessoas
abençoadas. Observava-as sem dizer muita coisa. Elas me passavam muita seriedade e calma.
Abençoavam o dia, a tarde, a noite, os alimentos, e a tudo agradeciam e louvavam. Não eram muito
diferentes das bruxas da tradição. Às vezes, cantavam em vez de orar. Suas vozes pareciam ter saído
de uma harpa celestial. Não me desprezavam ou me interrogavam. Pelo contrário, faziam-me fazer
parte de tudo o que conversavam. Era muito bom sentir-me como gente de novo. Mas eu sabia que,
dentro do convento, não seria tudo maravilhoso como ali, naquele momento de trégua, por assim
dizer.
     Certa manhã, acordei e dei uma espreguiçadela. Foi quando avistei o mosteiro, ao longe.
Coloquei bem a minha cabeça do lado de fora, para ver melhor. Comuniquei às minhas
companheiras, que ainda estavam dormindo. Elas agradeceram a Deus, com sempre faziam a cada
ato conseguido. Dessa vez, foi pela ótima viagem que tivemos.
     Ele era majestoso. Imponente, todo feito de pedras, com duas torres a cada lateral. Era lindo! De
longe, pude ouvir um coro gregoriano que saía de uma capela ao lado. Era composto por voz
feminina e masculina. Foi a música mais linda que já tinha ouvido em toda a minha vida. Meus
sonhos misturavam-se àqueles sons como magia se mistura à realidade. Senti-me leve e feminina.
Havia um campo de girassóis. Era a coisa mais fantástica de se ver! O mosteiro ficava ao fundo,
harmonizando ainda mais aquele cenário de conto de fadas. Algumas ovelhas e cabritos pastavam ao
redor. Havia, também, porcos, galinhas e um celeiro. Todos pastoreados por monges. Todos
pareciam tão ocupados em seus afazeres. Mas, quando a carruagem foi passando, um a um ia
acenando cordialmente.
     A carruagem parou na frente do mosteiro e seis pessoas esperavam-nos do lado de fora. Uma
freira muito idosa, uma madre de meia idade, dois monges aguardavam-nos logo na entrada do
convento. Minha surpresa foi ao ver as outras duas figuras ao lado da madre superiora: a condessa e
meu pai. Desci da carruagem e minhas pernas começaram a tremer. Já tinha visto aquela cena antes.
Mas onde? Alguma coisa não iria acabar bem. Meu queixo, de repente, parecia bater como se um
frio tivesse tomado conta de mim. E não estava frio, pois o dia estava demasiadamente quente.
Aproximei-me deles e a madre superiora foi logo falando:
     _ Tragam-na para dentro, imediatamente.
     A condessa olhou-me com desdém. Meu pai fingiu não me conhecer. Nem sequer olhou em
minha direção. Os guardas quiseram algemar-me, mas a madre disse não ser necessário.
     _ Aqui não usamos força bruta, a não ser quando necessário. Ela não sairá deste lugar. Não tem
para onde ir. Ela sabe muito bem disso.
     Olhei para trás, tentando despedir-me de minhas companheiras de viagem, mas elas haviam
evaporado. Segui as demais pessoas convento adentro. Deixaram-me em um corredor comprido a
esperar. Onde já tinha vivido aquela cena? De repente, entrei em transe. Quando dei por mim, já
estava exatamente no lugar que sonhei durante minha viagem com Maria. Foi em uma fração de
segundos. Voltei no dia exato quando tive o sonho com o mosteiro. Lembrei-me do meu sonho!,
disse em voz alta, com um largo sorriso nos lábios. Ao abrir os olhos, vi-o ali, parado na minha
frente. Era como se fosse um sonho. Mal pude acreditar no que estava vendo. Fiquei quase
catatônica. Se alguém tivesse me beliscado, com certeza não sentiria. Parece que ele percebeu o meu
estado, pois falou...




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus



     “Todo pedido de perdão é um grande começo. Felizes aqueles que encontrarem a paz no bem
comum que fazem ao seu próximo. Se plantarmos espinhos, colheremos espinhos. Se plantarmos
amor, colheremos amizade. Quando magoamos alguém, seja por qual motivo for, recebemos uma
paga muito maior. Talvez não estejamos preparados para pagar tal preço. Devemos nos lembrar de
uma coisa chamada lei do retorno. Viva bem e em comunidade. Seja feliz, faça feliz a quem está ao
seu lado. Ame o próximo, mesmo que ele esteja longe de você. Reze para que os que na distância
estiverem encontrem-se em harmonia total. Pense, também, que por um orgulho ele deve estar tão
mal quanto você está agora. Reze para os seus inimigos, se é que eles existem! Muitas vezes você
criou esse inimigo e, na maioria das vezes, ele nem sequer sabe que você existe. Para que vingar-se?
Para que procurar uma ferida que você poderia já ter sanado? Siga em frente, ame ao seu próximo
como a si mesmo. Pense nisso. Muita paz e muita luz.”

    (Padre Ângelo Wallejo Moralles).




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

    Capitulo VI – O Mosteiro



    A
              madrugada invadiu-me com sonhos turbulentos. Imagens desconexas iam e vinham,
              perturbando-me a mente e a alma. Horas eu acordava como se meu corpo estivesse
              tendo uma convulsão; horas visões assustadoras, com rostos destorcidos e
fantasmagóricos, assombravam-me. Era como se meu espírito já soubesse o que estava para
acontecer comigo. Meus instintos de bruxa estavam agitados como átomos em movimento.
     Quando o dia amanheceu, apenas abri os olhos lentamente, porque já estava acordada há muito
tempo. O sol entrou no quarto, trazendo sua poesia matinal e, como havia me deitado com as janelas
abertas, da cama pude olhá-lo despontando no horizonte. Dei uma espreguiçada e tentei levantar-me,
mas minha cabeça doeu e tudo rodopiou à minha volta. Então, deixei meu corpo cair pesado sobre a
cama novamente.
     A noite anterior havia sido uma das piores da minha vida. A despedida de Maria e as acusações
levianas que foram levantadas em falso contra mim fizeram-me sentir como se o peso do mudo
estivesse sobre minhas costas. Lembranças tristes e saudosas misturavam-se na minha mente. Queria
deixar as lágrimas caírem para aliviar aquela tensão toda, mas não conseguia. Eram muitos os fatores
que me deixavam tensa. Inclusive a atitude de meu pai preocupava-me: embora ele não tivesse
deixado ninguém me fazer mal, havia alguma coisa de errado no ar, pois aquela súbita
espontaneidade dele em me defender demonstrava que algo não se encaixava com a real situação.
Aquela atitude estava cheirando a trama e oportunismo.
     A opressão que passei foi muita para uma noite. Precisei livrar-me daqueles pensamentos para
tentar, ao menos, fingir que existia algo de bom no coração de meu pai em relação a mim. Comecei a
pensar no quanto ele estava sendo enganado pela esposa e que, embora ele tivesse tido comigo uma
atitude egoísta, preocupava-se com a família. Tentei realmente achar uma resposta para os absurdos
por que eu estava passando. Por fim, desviei o pensamento de que meu pai era um vilão. Tentei vê-lo
como uma vítima daquela sociedade inescrupulosa. A minha maior preocupação seria com os
demais, que tentariam a todo custo fazer-me confessar uma coisa totalmente inversa do que
realmente era a tradição da serpente ou tradição da Lua, como também era conhecida. Meus sonhos
de liberdade e igualdade tornaram-se pesadelos - se é que algum dia pude realmente ter o direito de
sonhar... Incrível como vivi em poucos dias tudo o que uma pessoa levaria no decorrer de sua
existência para viver.
     Devido ao cansaço e à fadiga da noite anterior, acabei esquecendo-me de tirar as roupas. Deitei-
me em uma posição muito desfavorável, com um infernal espartilho que me estrangulou a cintura a
noite inteira - o que me causou uma terrível dor na cabeça e no corpo. Minha vontade era de ter uma
varinha mágica igual a dos contos de fadas e, com ela, abrir um vácuo no tempo – sumindo, assim,
de todo aquele problema. Mas, infelizmente, ser uma bruxa também exigia responsabilidades que
não podiam ser ignoradas. Infelizmente, ser uma bruxa era muito mais do que um conto de fadas ou
uma brincadeira folclórica. As fantasias que se criam sobre nós, bruxas, quem dera fossem verdade!
     Naquele momento, eu estava passando pela fase dos efeitos e causas. Tudo porque interferi no
meu próprio destino. Havia criticado a minha ancestral Shaara - quando ela tentou mudar o seu
futuro, invadindo o espaço e o tempo -, mas também mudei o meu, quando não aceitei as imposições
do meu pai. Quis ser livre nas minhas opiniões e vontades - o que, para a época em que vivia, não era
uma coisa normal. Deveria ter deixado que as coisas fluíssem normalmente e seguissem o seu rumo
certo. Quando comecei a ver meu futuro, deveria imediatamente ter esvaziado minha mente, como
me ensinou Dona Helena: toda ação leva a uma reação. Novamente, deparei-me com meus
ensinamentos e percebi que havia ido longe demais, passando por cima de todas as leis da tradição.
     A minha vontade de estar ao lado do homem dos meus sonhos foi tamanha que me levou a estar
onde me encontro agora, nesta cela fria, com condições subumanas. Fui uma inconsequente e
sonhadora. Por mais que sempre tenha lutado pela liberdade, deixei-me levar pela ilusão e pelos




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

sentimentos carnais. Definitivamente, o coração é enganoso. O que mais me entristece é pensar que
fiz tudo porque acreditei que poderia ser salva pelo meu príncipe encantado. Talvez essa seja a maior
falha humana: acreditar na palavra do próximo. Se eu tivesse me contentado em saber apenas o meu
passado, confiado que em um futuro vindouro encontrar-me-ia com o monge, talvez tivesse
aprendido a confiar na fé, não sendo tão intolerante, precipitando os efeitos e causas. Deveria ter
vivido aquela vida de imposições, onde talvez tivesse sido feliz. Poderia ter me casado com o conde.
Certamente, quando ele se cansasse de mim, trancar-me-ia no convento, onde eu cumpriria meu
destino ao lado do monge. Mas não: quis ir muito mais além e, com isso, interferi no meu destino,
antecipando o que poderia ter acontecido anos mais tarde. As dúvidas e o se sempre encontram um
lugar em nossas mentes depois que algo desagradável nos acontece - ou depois de tomarmos
decisões erradas, das quais acabamos por nos arrepender. Naquele momento, precisava arranjar
forças dentro de mim, em um lugar completamente desconhecido, antes que novamente as fraquezas
da minha mente tomassem conta do meu ser.
     Voltemos novamente à minha história, em que meu destino estava prestes a ser selado. Olhei
rapidamente pela janela, que havia deixado aberta inconsequentemente. Seria difícil encarar aquela
luz. Estava me sentindo como um ébrio depois de uma noite de bebedeiras, estirada sobre a cama,
com os braços abertos e pensando coisas que nem eu mesma conseguia distinguir.
     Era tudo ou nada. Tinha que ser de repente, em um supetão. Dei um pulo da cama, caindo
sentada em seguida - quase desmaiei por causa da terrível dor de cabeça. Foi quando notei que havia
um enorme alarido do lado de fora do meu quarto. Fiquei com os olhos arregalados com todo aquele
alvoroço. Escutei alguém discutindo em um tom de voz muito exasperado. Era a voz do meu pai, que
estava tentando entrar. Parecia que os guardas não o deixavam. Então, escutei um barulho
estrondoso. Só me dei conta do que era quando a porta do meu quarto abriu-se e o meu pai caiu
quarto adentro. Fiquei atônita por ter visto aquela cena tão inusitada.
     _ Pai! É o senhor?
     Fiquei tão feliz por vê-lo. Estava tão sozinha que, mesmo que ele me esbofeteasse, ficaria feliz
apenas por ter tido o contato daquelas mãos. Meu corpo tremia tanto que dava a impressão que eu
estava com febre alta. Meu pai levantou-se, ainda cambaleando por causa da forma com a qual havia
entrado. Correu para minha direção e abraçamo-nos com sofreguidão. Aquele momento foi único
para mim, porque foi a primeira e última vez que meu pai abraçou-me depois de adulta. Olhei-o nos
olhos, parecendo não acreditar:
     _ Pai, não sabe o quanto eu estava precisando do senhor. Estou me sentindo tão sozinha... Estou
com medo; minha alma está fria como meu corpo agora. - disse isso porque senti um frio que me
gelava por dentro.
     Ele continuou olhando para mim e disse-me:
     _ Estou aqui porque confio em Deus e sei que contará a mim toda a verdade, minha filha. Quero
que confesse que foi o demônio quem a induziu a ter aquela atitude insana. Quero, também, que diga
que foram Maria e Joseph quem estavam evocando o demônio, que lhe deram uma poção mágica
para que você adormecesse. E que foi assim que eles a levaram para o meio daquele bosque maldito.
Diga isso e poderá ter o perdão da Santa Madre Igreja. Todos entenderão, pois verão que você é uma
jovem frágil e ingênua e que estava sob o poder e as forças da magia negra. Aqueles velhos malditos
arrependeram-se, fugiram no meio da noite, sem darem satisfações. Dizendo o que lhe sugiro, eles
levarão a culpa toda, enquanto você se casará com o conde e irá para bem longe desta cidade. Pense,
minha filha. Eu mesmo ouvi falar de vários casos em que o demônio toma a forma de pessoas e até
consegue conviver no meio de uma família, sem que alguém sequer venha notá-lo. Por certo,
aceitarão essa história de que Maria evocava o demônio, e de que Joseph era um bruxo poderoso e
fazia uso do maldito conhecimento com as ervas para lhe pôr em transe. Vamos resolver isso. Confie
em mim e faça o que lhe estou aconselhando. Tudo dará certo, minha filha. Você vai se casar com o
conde. Com essa feliz e satisfatória decisão, resolveremos todos os problemas - inclusive os




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

financeiros. Em breve estaremos todos novamente frequentando a alta roda da sociedade europeia. E
quanto às vias de fato, não se preocupe, pois todos logo esquecerão. Essa história acabará como mais
um mexerico infundável. Por certo, Maria e Joseph serão capturados e, mais cedo ou mais tarde,
serão mortos, levando consigo esse segredo. Eu mesmo darei um jeito de impedi-los de dizer alguma
coisa. Esses traidores malditos pagarão por fugirem de mim assim, como dois ratos, na calada da
noite. Verão o quanto custa terem brincado com alguém da nossa estirpe. Aquela velha sempre foi
uma insolente. Nunca gostei dela. Aquele velhote não passava de um inútil. Só o tolerava aqui por
pena. Acharam que eu fosse mesmo acreditar naquela maldita carta que me escreveram? Ambos vão
me pagar por terem caluniado a minha família. Basta, minha filha, que aceite e faça o que estou lhe
sugerindo.
      Mal pude acreditar nas palavras que saíam da boca do meu pai naquele momento. Como ele
conseguia superar as minhas expectativas em relação a ele ser um cafajeste e mau caráter? Depois de
ter ficado boquiaberta com tamanha decisão vinda da parte dele, respondi:
      _ Hã!? O senhor deixa-me sem chão, meu pai. Quer dizer que não veio aqui para me ver? Para
saber como estou? Meu Deus! Definitivamente, o senhor conseguiu se superar. Juro que achei que
estava realmente preocupado comigo. Achei que poderíamos ter uma chance de resgatar o nosso
passado, meu pai, o nosso tempo perdido. Não estou acreditando no que estou ouvindo. Como pude
ser tão ingênua em relação ao senhor e a todos? O senhor só está preocupado com as suas dívidas e
com o que as pessoas poderão falar, caso saibam que estamos na falência. Nada do que estou
sentindo importa realmente para o senhor. Acha mesmo que fui capaz de fazer as coisas horríveis das
quais essas pessoas estão levianamente me acusando? Pai, nunca fiz pacto com o diabo ou com
qualquer outro ser do inferno. Desde quando o senhor passou a acreditar nessas sandices folclóricas?
Não me lembro de tê-lo visto dando importância a mexericos. O senhor conhece-me desde criança,
pai. Sabe muito bem que nunca me envolvi em sacrifícios de espécie alguma. Sabe muito bem que
não sou adepta a comer carne de espécie alguma. E como o senhor pode ser tão cruel com Maria e
Joseph, caluniando-os e acusando-os de coisas tão bárbaras? Pai, Maria ajudou o senhor a cuidar de
mim. Ela sempre lhe foi fiel! E Joseph!? O pobre homem dedicou os melhores dias de sua vida
cuidando do nosso jardim, entre outras coisas que o senhor lhe pedia e que ele nunca negou fazer.
Acho mesmo que nunca teve uma companheira. Viveu nesta casa por amor ao senhor e por mamãe.
Meus Deus, pai, foram as ervas de Joseph e Maria que curaram a moléstia da sua esposa e tantas
outras moléstias que surgiram nesta casa! A ambição está lhe cegando a visão da verdade. Sinto
muito, pai, mas nunca poderei inventar tais coisas contra Maria e Joseph. Não posso mentir quanto a
isso. Nunca os prejudicarei. Prefiro a morte a ter que inventar tais atrocidades contra duas pessoas
inocentes, se tudo o que eles fizeram nesta vida foi cuidar de mim. Portanto, não me peça para
mentir, meu pai.
      _ Então, você é inocente? Graças a Deus! Sabia que todas as sandices que essas pessoas estão
dizendo sobre ser uma bruxa, entre outras coisas, não passavam de calúnias. Conversarei com o
conde. Sei que ele irá relevar tudo isso. Afinal, um homem tão bom, fino e...
      _ E rico? Não é mesmo, pai? O senhor não vai falar coisa alguma com aquele déspota
usurpador. Será que o senhor não percebe que o conde nunca teve a intenção de se casar comigo?
Toda essa história leviana de que os colonos, a justiça local, o inquisidor, e o senhor participaram só
serviu de desculpas para que ele colocasse em ação o que, na verdade, já estava planejando. Não
percebe que a senhora sua esposa está de comum acordo com o conde? Eles fugirão assim que toda
essa história se apaziguar! Na verdade, pai, sou apenas uma atração, um esteio para que todos -
inclusive o senhor - se escondam atrás de mim. Assim, enquanto todos estiverem voltados para mim,
não prestarão atenção nos reais fatos que estão acontecendo. Esqueça o conde, pai. Se vendermos
alguns bens, junto com os dotes que já possuo, por certo o senhor poderá quitar suas dívidas com ele.
A condessa também tem muitas joias que poderão ser leiloadas. Poderemos nos apertar por uns
tempos. Mas, com o esforço e a colaboração de todos, sairemos desta situação. Pai, raciocine,




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

suplico! Não há nenhuma vergonha em ser pobre, ou em estar falido financeiramente. Vergonha é
não ter dignidade e coragem de levantar a cabeça e seguir em frente. Juntos, pai, como uma família
que nunca fomos, venceremos tudo. O senhor vai ver! Quanto a ser ou não verdade o que dizem a
meu respeito, fica a cargo da sua consciência. A única coisa que lhe peço é que me aceite como sou.
Ponha a mão na consciência e não acuse Maria e Joseph levianamente. Pense, meu pai, em tudo o
que acabo de lhe dizer. Seja sensato, pelo amor de Deus.
     Ele ficou parado na minha frente, parecendo estar raciocinando. Por fim, resolveu responder:
     _ Acha mesmo que vou expor minha esposa e o meu bom nome ao descaso da humilhação,
sendo que tenho a solução aqui na minha frente?
     _ E qual seria essa tal solução? Vender-me como escrava branca ou acusar de bruxaria e de
crimes levianos dois inocentes somente para que a senhora sua esposa se safe dos crimes de luxúria
dela? Quer que eu me case com aquele imundo para que, com isso, o senhor quite as suas dívidas de
jogo. É isso que o senhor espera de mim, não é, meu pai? Se isso acontecesse - o que não vai -,
jamais seria feliz. Nunca mais falaria com o senhor. Nunca o perdoaria. Antes de ser sua filha, antes
de ser uma mulher que o senhor se sente no direito de leiloar, sou um ser humano. Sangro, choro,
sinto dor e tenho sentimentos. Eu penso, pai - não sou irracional. Não pode se passar por leigo
quanto a isso.
     _ Do que você está falando? Está louca! Padre Ignácio está certo: devemos mandá-la para um
convento para se curar das alucinações e devaneios em sua mente, causados pelo demônio que já está
se apoderando de você. Deve ser um demônio muito poderoso, pois está influenciando a sua
maneira de entender a realidade da vida. Onde já se viu dizer que mulher pensa? Desde quando
mulher tem algum direito? Onde foi que ouviu tais insanidades? Nasceram ignorantes e submissas
porque Deus assim quis. Não adianta tentar querer ser diferente, pois a única coisa para a qual vocês
servem é procriar. Não pode mudar os fatos ou as leis dos homens e sobre elas tentar travar uma
guerra solitária. Não pode mudar o rumo dos fatos - sempre foi assim e sempre haverá de ser. Você
deverá obedecer ao que lhe for imposto pelos homens ou pelo chefe da casa – que, afinal, sou eu.
Imagina só, uma mulher pensando!
     Ele deu um sorriso sarcástico e malicioso e prosseguiu:
     _ Quem está dormindo é você, Anna. Por certo, o demônio lhe está embutindo tais pensamentos
na cabeça. Mas assim que for exorcizada, vai recuperar sua sanidade mental. Vou usar minha
influência e meu conhecimento para que vá para um convento onde terá tratamento adequado. Por
certo, se não for demônios, deve ser loucura. De lá, poderá ser transferida para um manicômio, caso
seja necessário. Mas lembre-se, minha filha: basta que diga que entende o que lhe digo, é certo que
envio imediatamente alguém para lhe tirar de lá. Mas é importante que não se demore nessa decisão,
pois já está ficando velha e logo já não arrumará um partido tão lucrativo como o conde.
     Era inacreditável ter que ouvir aquelas abominações saindo da boca do meu pai. Mas eu
precisava responder antes que ele me fizesse calar para sempre.
     _ É! O senhor tem mesmo razão. Não sei o que falo. Por certo, estou possuída pelo demônio
mesmo! Se for assim, que o senhor e essa gente vejam-me como uma louca endemoniada, que assim
seja. Mas é muito triste saber que o senhor considera-nos, as mulheres, como um animal irracional.
Isso também quer dizer que, quando o senhor se deita com sua esposa, está se deitando com uma das
éguas do seu estábulo? Meu Deus! Estou perplexa com tanta atrocidade que sai de sua boca, meu pai.
O senhor prefere deixar-me ser trancada como uma louca endemoniada em um convento do que
ouvir a verdade, do que fazer a coisa da maneira correta. Se isso é o que o senhor acha certo, então,
cale-me. Faça como todos: sufoque a voz da verdade. Mate-me, se assim o quiserem. Mas a verdade
aparecerá mais cedo ou mais tarde. E o senhor? Ficará sozinho com sua consciência e embriaguez.
     Disse aquilo porque sentia o forte hálito de bebida que saía de sua boca. Depois de fitá-lo
desafiadoramente, prossegui:




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

     _ Vou lhe contar uma coisa sobre sua esposa, pois acho que o senhor ainda não sabe o que anda
acontecendo debaixo do seu próprio teto. Caso o senhor não tenha percebido, a senhora sua esposa é
uma desfrutável e anda o traindo. Não estou dizendo isso para magoá-lo ou para vingar-me. Mas
acredito que o senhor está sendo ingênuo em relação a essa mulher.
     Ele olhou-me fulminantemente e, por fim, respondeu ironicamente:
     _ Todos temos que fazer certos sacrifícios para manter a família, minha doce e querida filha!
Aprenda que nada nesta vida sai de graça.
     _ O senhor sabia? Como pude ser tão tola a esse ponto!? Eu o achava vítima. No entanto, o
senhor sempre foi conivente com todas as traições da condessa?
     Senti a cabeça dar uma girada, como se o mundo todo estivesse caindo sobre mim. Era
inacreditável que um homem admitisse aquele comportamento leviano de sua esposa somente para
manter as aparências e o status. Depois de me ver ficar sem atitude, ele continuou:
     _ Há coisas que uma esposa tem que fazer para manter seu casamento feliz. Existem certos
sacrifícios que são necessários para o entendimento de um casal. Em um casamento, tanto o marido
quanto a esposa têm que ser compreensivos e, muitas vezes, coniventes com certas coisas. Ora,
Anna! De onde você achava que vinham as roupas caras que você usava? E toda a comida que
comemos? Achava mesmo que eu, à beira de uma falência, poderia suprir o luxo de uma mulher tão
cheia de mimos como minha esposa? Se pensa desta forma, vejo que realmente é uma tola e
ingênua. Tinha muitas esperanças em você. Cria que, quando crescesse, dar-me-ia certo lucro. No
entanto, está se comportando como a garotinha mimada e estúpida que sempre foi. Está sendo ingrata
com a condessa. Você deveria ao menos aprender a se calar e a respeitar quem a alimentou por tantos
anos. O obséquio que sua mãe lhe deixou só poderá ser usado quando seja maior de idade ou quando
sele uma união matrimonial. Portanto, acho que já está mais que na hora de você ser mais
compreensiva e retribuir todo o sacrifício que fizemos por você. Afinal, se minha atual esposa faz
por mim tais sacrifícios, porque você, como minha filha, também não pode simplesmente cumprir
um simples pedido meu? Afinal de contas, o conde é um homem ainda jovem e cheio de vigor. E
muito rico, sim: poderá lhe dar tudo o que desejar. Não terá nunca que passar dificuldades.
     _ O senhor enoja-me. Está tentando me prostituir como faz com sua esposa. Saiba que nunca
vou ceder às suas vontades. Prefiro apodrecer no calabouço de um convento como louca
endemoniada a fazer parte deste mundo miserável em que o senhor insiste em sobreviver. Se já que
não se importa com a reputação de sua esposa, dê ela mesma de presente ao senhor conde e poupe
aos dois o trabalho de fugirem. Mas saibam que pretendo gritar aos quatro ventos o que estão
tentando fazer comigo.
     Meu pai olhou-me nos olhos como se sentisse repulsa por mim. Esbofeteou-me nas faces,
fazendo-me cair deitada sobre a cama. Levantei-me, colocando as mãos no rosto, mas nada disse.
Novamente, apenas o fitei, tentando reconhecer quem era o homem à minha frente. Depois que ele
me olhou com desprezo, prosseguiu:
     _ Então, a partir de hoje, renego-a como minha filha e excomungo-a como ser humano. Não
moverei uma palha para amenizar sua pena. Por mim, apodrecerá em uma cela escura e úmida para
aprender a respeitar e obedecer às pessoas que só quiseram o seu bem. E quanto a dizer sobre o que
acabamos de falar, não acreditariam em uma louca tendo crises de possessão. Eu mesmo farei
questão de me certificar de que sua pena será a mais dura possível.
     Ele gritou para que os guardas viessem me buscar. Naquele exato momento, lembrei-me do pai
de minha ancestral Shaara, também ancestral do meu pai e que morreu pensando que ela o tivesse
traído. Definitivamente, meu pai trouxe consigo essa revolta do passado. Ele me odiava
incondicionalmente por causa das lembranças da outra vida. Ele, então, gritou, chamando os guardas
e ordenando:
     _ Guardas! Tirem essa mulher da minha frente! Levem-na para a carruagem. Já está na hora de
cumprir minha obrigação como cidadão espanhol.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     Havia o fato de que ele também estava alcoolizado, mas o ódio mortal por mim só era
justificado por causa das lembranças inconscientes que ele trazia, achando que Shaara o teria traído e
abandonado ao descaso do destino. O fato de que eu não me tornaria submissa aos seus caprichos era
somente a centelha para que aquela raiva toda aflorasse. No fundo, ele estava usando a promessa que
o conde havia feito de esquecer todas as suas dívidas quando firmasse compromisso comigo. Meu
pai estava, inconscientemente, tentando achar um motivo para que eu fosse trancada em um
calabouço e esquecida por ele, como ele achou que foi no passado.
     Por certo, todos viveriam bem. Meu pai continuaria a se fingir de cego, deixando que o conde
saboreasse os carinhos de sua jovem e desfrutável esposa para, com isso, poder viver de aparências.
Mas, quanto a mim, acabei tornando-me um estorvo, um contratempo para minha família, já que não
tinha mais a menor serventia. Ter sido esbofeteada doeu muito, mas o que mais me doeu foi o fato de
estarem me negociando como uma mercadoria.
     Aprendi a duras penas que vivemos em um mundo teatral, onde somos obrigados a fazer parte
de uma bela e feliz historinha escrita pelas mãos dos ditadores, dos opressores e dos fanáticos
religiosos. O problema era a realidade por trás dos bastidores – essa, sim, era muito triste. Pois,
quando caíam as cortinas da aparência, a feia face da mentira e da falsidade vinha à tona, dando
lugar a uma dura realidade de miséria e fome, onde os podres não podiam se misturar com a
burguesia decadente, escondida por trás dos bastidores. Eu não era daquele mundo, nem sabia como
proceder no meio de tanta injustiça e desigualdade. Deus não poderia estar deixando que aquilo
acontecesse em vão. Tinha que ter algum propósito para tanto sofrimento!
     Corrigi imediatamente meus pensamentos para não blasfemar contra o Pai. Deus não tem culpa
sobre os erros da humanidade. Tudo o que fazemos, mesmo sobre um ato impensado, é culpa única e
exclusiva de nós mesmos. Temos o livre arbítrio de fazer e falar o que bem quisermos. Por isso,
temos que ter muito cuidado nas horas de dor ou de desespero, para que não venhamos a fraquejar e
blasfemar contra quem nos deu o direto a escolha. Muitas pessoas se questionam por que razão Deus,
sendo tão zeloso e de absoluto amor, deixou que o seu único filho Jesus Cristo morresse de uma
maneira tão brutal. Algumas ainda têm a ousadia de dizer que o Pai virou-se de costas na hora da
morte de seu único filho, para não o ver sofrer. Isso não é verdade. Um Pai zeloso e amoroso nunca
viraria as costas ao seu filho amado. Jesus teve o livre arbítrio e escolheu a sua sentença. Com
certeza, na hora de sua morte, o Pai estava segurando suas mãos para que o seu filho, assim, não
sofresse mais do que ele havia escolhido. E não nos castigou mais porque o próprio Jesus o implorou
Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem... Para mim, Jesus sempre vai ser um mestre em
sabedoria, benevolência e perfeição. Quanto ao Pai maior, este é indiscutível em suas inúmeras
qualidades, pois são supremas e absolutas.
     Quando o oficial chegou, trouxe mais dois guardas com ele. Baixei minha cabeça e deixei que
me levassem amarrada pelos pulsos, como um animal selvagem. A cada volta que o oficial deu com
a corda apertando meus pulsos, senti minha liberdade indo embora. Nada mais tinha a dizer; meu
silêncio o faria por si. Por mais que qualquer pessoa passe por um momento de irracionalidade e
insanidade, ela sempre tem um momento chamado de consciência. Ninguém nesta vida se livra da
consciência. Ela é como um grito que nunca se cala dentro da gente. Mesmo que mantenhamos uma
aparência de tranquilidade, mesmo que não tenhamos a coragem de admitir o quanto somos falhos e
que cometemos injustiças, esse grito vem, mais cedo ou mais tarde, para nos mostrar o quanto somos
falhos.
      Fechei bem os olhos e apertei as mãos sobre o rosto. Queria esconder-me de toda aquela
vergonha. Acabei desabando em prantos. Meus soluços tornaram-se compulsivos. Por mais que não
queiramos fraquejar, a dor da decepção torna-se um ponto de partida para a vulnerabilidade. Afinal,
somos seres humanos e, como tais, temos sentimentos. Não tive coragem de olhar para o meu pai
nem que eu quisesse. Levantei a cabeça e engoli as lágrimas. Não daria o gosto da derrota nem a ele
nem àquelas pessoas. Quanto mais fracos aparecemos perante os inimigos, mais eles se sentem no




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

direito de nos pisarem. Temos que ter na mente as seguintes palavras: não damos asas a cobras e
nem cutelo ao carrasco, porque inimigo se vence com determinação, coragem e oração. O silêncio é
a maior arma que o ser humano tem nas mãos. A confiança em Deus e na espiritualidade amiga é a
única certeza de que venceremos todas as barreiras. A fé é uma noite negra: não sabemos se seremos
salvos, mas temos a confiança de que seremos. É como se atirar de um despenhadeiro para se livrar
de um dragão. Não saberemos se a voz que nos impulsiona é ou a não a de Deus, mas temos que
arriscar. A vida é um risco constante. Quem não arrisca, nunca vai ter a certeza se poderia ter dado
certo ou não. São as incertezas que nos fazem pensar. São os erros e os tropeços que nos fazem
crescer. Não existe este ou aquele que nunca deixou de aprender algo. Existem, sim, pessoas que
preferem dizer que não se lembram de nada que lhes aconteceu. Essas pessoas só fazem isso quando
se trata de algo que elas fizeram a alguém – porque, quando se trata de algo que foi feito a elas,
lembram-se por toda a eternidade. Nossos erros nunca são visíveis ou lembrados. Nunca seremos
capazes de admitir que fazemos coisas que prejudicam o nosso semelhante. Mas, se em algum
momento alguém nos faz qualquer coisa que não nos deixa satisfeitos, corremos em apontar o erro
dessa pessoa. Assim, ninguém vê o nosso. É fácil viver assim, não é? Desmemoriado, sem
lembranças, vagando sobre o lago do esquecimento. Ouvir o que alguém tem a nos falar é essencial -
mas aprender com os nossos próprios erros é indispensável. Isso não significa que nunca mais vamos
errar. Porque erramos todos os dias, todas as horas e não pararemos nunca. Isso porque somos burros
demais? Não. Porque somos fracos e não controlamos nossos impulsos.
     Quando começamos as descer as escadarias, mantive-me em silêncio. Ao terminar, pude ver que
os demais presentes iam abrindo alas para que os guardas passassem comigo. Aquelas pessoas que se
encontravam nos degraus olhavam-me como se sentissem por mim uma grande repulsa. Não vi a
condessa - o que foi uma surpresa. Ela não estar presente para se vangloriar da minha derrota
significava que ela estava aprontando alguma coisa. Esse pensamento gelou-me a espinha.
     Tereza, ao ver-me, caiu em prantos. Tentei passar as mãos em seu rosto quando passamos por
ela - que estava em um dos degraus-, mas o guarda puxou minhas mãos. Um dos guardas quase me
derrubou, empurrando-me pelas costas no final da escada. Só não caí porque o outro, que segurava as
cordas, puxou-me para junto dele. Um guarda ainda muito jovem que estava na porta, esperando para
abri-la, zombou de mim quando me viu escorregar:
     _ Voe, bruxa maldita!
     Parei no hall de saída e dei uma última olhada para me despedir do lugar onde passei toda a
minha vida. Foi a última vez que vi minha casa.
     O guarda novamente empurrou-me porta afora, tentando mostrar-me que não podia parar.
Cambaleei, mas não caí. Do lado de fora, fui observando o jardim e as lembranças do passado me
vieram à mente: coisas muito pessoais, como o cheiro das rosas que Joseph sempre me dava pela
manhã; e quando Maria me trazia sumo de frutas frescas embaixo do pé de cedro. Esbocei um
discreto sorriso. Olhei para tudo e disse Adeus!, antes que o guarda me jogasse carruagem adentro.
     Amarraram minhas mãos na portinhola, na parte de cima, fazendo com que meus braços
ficassem pendurados. Vai ver acharam que eu iria fugir. E se o fizesse, para onde iria? E para que
tanta violência? Será que os supostos demônios em meu corpo poderiam me possuir e me fazer sair
mordendo a todos? Certas medidas de segurança eram desumanas e desnecessárias. Mas eram usadas
para que a população ficasse acuada e respeitasse as autoridades locais.
     Comecei a bater o queixo. Sentia frio, pois saíra sem ter a menor chance de levar um xale.
Embora o sol já tivesse despontado no horizonte, a neblina ainda era muito densa e, por certo,
choveria naquele dia, pois o céu estava cinza.
     Olhei mais uma vez para a casa que um dia foi o meu habitat. Vi à janela a condessa, que
observava tudo por trás das cortinas da sala. Pela distância em que se encontrava, não dava para
saber o que ela estava pensando. No mínimo, seus pensamentos eram de vitória.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     Às vezes, julgamos e interpretamos mal as pessoas. A condessa não era minha amiga, mas
mesmo assim a entendia. Ela era mais uma vítima de meu pai e daquela sociedade machista.
Entendia-a e não esperava ser entendida por isso. Sabia que ela vingava em mim todas as suas
frustrações. No fundo, era muito difícil para ela ter que ser submetida a tais coisas - logo ela, que
sempre tivera de tudo. Casou-se porque já estava com vinte e oito anos e o pai não poderia ficar com
uma filha solteirona em casa. No fundo, o pai da condessa quis livrar-se dela como o meu. Embora a
entendesse, não significava que eram justificáveis seus atos de maldade comigo. Mas é a vida!
Tornamo-nos vítimas das frustrações das pessoas com quem convivemos. Mesmo sabendo que meu
destino não seria dos melhores, compadeci-me por vê-la ali, atrás das cortinas, pois acabaria por se
afundar nas bebidas e também passaria a gritar com as paredes, pois não teria nem a mim nem a
Maria para lhe servir de esteio. Quando o conde se cansasse do seu brinquedinho, descartá-la-ia,
deixando-a ao relento. Definitivamente, deve ter sido muito difícil para a condessa ter deixado seus
sonhos, sua vida e, provavelmente, um amor. E agora lá estava ela, vivendo ao lado de um homem
muito mais velho, que bebia dia e noite e era um compulsivo por jogos. Por não cumprir mais os
deveres como marido, fazia vistas grossas e deixava-a ter seus amantes para, com isso, lucrar
também.
     Era bizarro e inacreditável saber que os homens usavam seu poder sobre as mulheres para fazê-
las suas meretrizes particulares. Logicamente, isso acontecia debaixo dos seus próprios lençóis.
Mesmo sabendo que o adultério era considerado um crime hediondo para a Santa Madre Igreja, os
nobres não só o praticavam às escondidas, mas também prostituíam suas esposas, fazendo-as
cometer o mesmo crime. Pois, para a sociedade, o importante era manter as aparências. Também
tinha o fato de que, enquanto estivesse dando lucros favoráveis à Igreja, o povo não faria mal algum.
Mas tinham que se manter rigorosamente em dia com seus dízimos, entre outras coisas. Qualquer
deslize seria imperdoável e prejudicial à saúde deles. Logicamente, todos sabiam das depravações
dos nobres. Mas era mais sensato que permanecessem calados. Assim, a alta sociedade permanecia
intacta.
     Aqueles hipócritas depravados comiam e bebiam às custas da desgraça alheia - da escória, como
chamavam os menos favorecidos. Repudiavam a pobreza como se eles fossem vermes. Mas era o
lodo de suas atitudes que destruía a raça humana. Vivi em uma época onde a degradação não era só
dos corpos maus cheirosos. Vivi em uma época onde a insociabilidade e a hipocrisia tomavam conta
da humanidade como uma doença contagiosa. As pessoas não se misturavam umas com as outras. Os
pobres tinham um espaço na exclusão. Tinham que viver escondidos. Pessoas com deficiências eram
excomungadas ou tinham que pedir esmolas nas ruas. Os negros, estes então... Sofreram com o
preconceito dos que se diziam ter poder sobre as pessoas. Gostaria de ter podido fazer alguma coisa,
mas só fui descobrir meu real caminho quando já estava na hora de me encontrar com meu destino.
As crianças eram obrigadas a fazer duros trabalhos, enquanto as filhas das senhoras feudais sequer
podiam vestir-se sozinhas. Se um menos favorecido ou uma mulher, como no meu caso, os
desafiassem, por certo poderia considerar-se morto. Mesmo que confessassem e se arrependessem,
como lhes era imposto muitas vezes, por certo faltar-lhes-iam alguns pedaços do corpo. Aí, sim,
estariam fritos em óleo fervente, pois como sobreviveríamos em uma sociedade totalmente
preconceituosa? Ninguém lhes daria trabalho nem esmolas, e ninguém se casaria com uma ex-bruxa.
Principalmente porque nunca existirá ex-bruxa. Uma vez conhecedora da magia, não adianta tentar
se converter.
     As pessoas que eram consideradas bruxas, mesmo que fossem perdoadas pela Santa Madre
Igreja, jamais obteriam o perdão. Mesmo demonstrando arrependimento, elas acabariam
mendigando, pois o povo nunca mais as olharia com os mesmos olhos. Uma vez pagão, sempre
pagão. Se eu tivesse aceitado o que o meu pai havia me sugerido, teria que viver sob vigilância
constante e só sairia de casa acompanhada por um guarda e uma aia de confiança do conde. Meu pai
também poderia ser chamado a qualquer deslize meu e poderia castigar-me, se assim achasse




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O segredo dos girassóis
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necessário. Uma pessoa que estava em uma situação como a minha, quando morria, era jogada em
valas ou enterrada em locais exclusivos para hereges, excomungados e pagãos. Não obtinha da Santa
Madre Igreja autorização e o direito de ser enterrada em um cemitério público ou em um local
sagrado. Na maneira de ver desses hipócritas, Deus também não perdoava os pecadores e os hereges.
Eram pessoas que pregavam a palavra do Criador sem ter o menor amor no coração. Mas, se Deus
não perdoava ninguém, então por que ele mesmo disse Sou a ressurreição e a vida. Quem crê em
mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, nunca morrerá?
      A única coisa que Jesus realmente fez foi pregar o amor e o perdão. Ele também nos ensinou
que só o Pai poderia julgar-nos e mais ninguém. Isso me pesou na alma naquele momento. Se Jesus
Cristo foi só perdão e bondade, como poderia o ser humano, cheio de corrupção, com coração
carregado de maldade, sentir-se no direito de injuriar e julgar o seu próximo? Por que ser diferente
era um crime, um pecado? Por que tinha que haver somente uma religião que pregasse sobre o Cristo
verdadeiramente? Por que tudo era heresia? Por que as missas tinham que ser celebradas em latim, se
a maioria da população mal sabia assinar o próprio nome? Aos pobres, quando lhes era permitido
assistir uma missa, tinham que ficar do lado de fora da igreja. Os negros nem da porta podiam passar.
Se a casa era de Deus, por que tanta desigualdade, preconceito e soberba? Será que o mundo mudaria
algum dia? Será que as pessoas em outra época, em outra encarnação, seriam mais evoluídas? Será
que os apóstolos também tiveram dúvidas? Pois elas me pesavam o ser. Que triste ter que fazer
parte de uma humanidade tão desigual! - pensei, por fim. Então, deixei-me levar pela paisagem...
     A caminho da cidade, fui observando tudo ao meu redor nos mínimos detalhes, numa espécie de
despedida fúnebre. Adorava a cidade de Salamanca, com suas enormes montanhas e árvores. Esta
cidade mágica enfeitiçava os olhos de quem quer que por ela passasse. Salamanca é uma província
raiana da histórica Região de Leão, na Espanha, e situa-se a nordeste de Portugal. Também é
influenciada pela bacia do rio Douro. Sua denominação, em idioma local antigo, era doiri. Essa
região chegou a sofrer influências romanas, árabes e diversas outras mais sutilmente. É uma terra de
clima ameno e topografia variada. A cidade é situada em local mais plano, mas com montanhas ao
norte e ao sul. Dona da penúltima catedral gótica construída na Espanha, como seus maiores tesouros
encontramos: a Universidade de Salamanca, a segunda universidade mais antiga da Europa, fundada
no ano 1218 por Alfonso IX de Leão; as Catedrais Nova e Velha; Plaza Mayor; Ponte Romana, e
outros, sem fim. Seu título deve-se ao fato de o arenito, utilizado em suas antigas construções,
apresentar coloração levemente dourada clara. De acordo com a luz, pode-se verificar que o título faz
juz à sua beleza. Em suas terras, são produzidos vinho e azeite, e há alguma criação de ovinos e
caprinos. Não possui temperaturas extremas de calor e frio, e recebe pouca afluência de chuvas. Já
em suas montanhas, pode-se verificar mais abundância pluvial. O mais rico de Salamanca talvez seja
sua história secular, onde se verifica acontecidos inusitados. Cristóvão Colombo mesmo chegou a
passar pela cidade. Nela tivemos a Inquisição e a migração de judeus, portugueses, árabes e tantos
outros mais que compunham seu quadro histórico. Também devido à sua localização geográfica,
sofreu influência de correntes celtas em dados momentos e ocasiões. Talvez daí venha sua
significação. Salamanca, com certeza, seria no futuro um local onde as minhas irmãs poderiam se
encontrar.
     Sonhos, belezas e histórias. Tudo isso passava na minha frente. Eram pequenos momentos dos
quais eu sentiria saudade. Residia dentro daquela cidade uma força maravilhosa e que o tempo nunca
poderia apagar. Nenhuma maldade poderá acabar com a magia de Salamanca. Isso eu sabia porque
estava em meu coração. Minha alma estaria ali para sempre. Poderiam me tirar tudo, menos os
sonhos e as lembranças dessa formosa província. Eu era realmente apaixonada por Salamanca, pelo
meu país, minha Espanha... Viajei mentalmente, percorrendo toda aquela terra maravilhosa com
meus pensamentos e lembranças. Só fui interrompida quando chegamos à cidade e pude ouvir o
alarido das pessoas que estavam nas ruas, naquela manhã de fim de outono. Pareciam estar sabendo
que eu ia ser levada a julgamento, pois seus olhos curiosos e amedrontados não desgrudavam da




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O segredo dos girassóis
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carruagem que estava em disparada. As pessoas fizeram uma espécie de procissão nas laterais das
ruas, de um lado a outro. Multidões aglomeravam-se nas calçadas. Ouvi gritos e xingamentos, mas
não sabia decifrar nenhuma daquelas palavras que, por certo, não eram de misericórdia ou de afeto.
Impressionante como más notícias chegam rápido! Voam nas asas do vento.
      Minhas mãos e meus braços já estavam começando a doer e a ficarem dormentes. Percebi,
também, que meus punhos estavam arroxeados. O pior é que nem poderia mexê-los muito, pois a
corda estava muito arrochada e poderia cortá-los, com certeza. Minha boca estava seca e sentia medo
e fome. Que combinação sem requinte!
      Meu pai não estava dentro da carruagem comigo. Acompanhou-nos a cavalo. O guarda que me
escoltava não me pareceu muito amistoso. Olhava-me com certo pavor, escondido atrás do semblante
fechado. Resolvi permanecer calada, pois o medo nas pessoas é geralmente muito perigoso. Elas
acabam usando a violência como uma forma de defesa. Então, por sensatez, evitei até respirar muito
alto.
      O cocheiro corria tanto que parecia que iria tirar o pai da forca. Meu estômago começou a
embrulhar de tanto que sacudia a carruagem. Elevei meu espírito ao céu em orações. Em um instante,
estava longe de tudo aquilo. Fechei os olhos bem apertados, para olhar para dentro da minha alma,
tentando achar algum lugar tranquilo. Quando nos concentramos muito, chegamos a lugares
imaginários. Mas, naquele momento, só queria me concentrar naquela magnífica paisagem de
Salamanca à minha frente. Viajei mentalmente por todo aquele cenário. Senti meu corpo leve. Era
como se o meu perispírito estivesse se desprendendo naquele exato momento. Era uma forma de
socorro mental. Eu estava tentando encontrar a paz e segurança dentro de mim mesma. Realmente,
precisava desligar-me daqueles acontecimentos - ou acabaria ficando louca. Cheguei até a esboçar
um sorriso causado pelo nervosismo em que me encontrava, mas o guarda cutucou-me com a ponta
do fuzil, fazendo-me sair do meu estado de transe. No mínimo, deve ter pensado que eu estaria
maquinando algo – ou, quem sabe, naquela mente poluída, ele imaginou que eu já estivesse
incorporada por algum súcubo.
      Súcubo é um demônio com aparência feminina, que invade o sonho dos homens. Fazendo isso,
eles podem corromper totalmente a pessoa. Súcubos são demônios que se alimentam da força sexual
das pessoas. Quando estes demônios invadem o sonho de uma pessoa, eles tomam a aparência do
desejo sexual delas e os atacados têm a melhor experiência sexual de suas vidas nesses sonhos. A
energia que vem do prazer do atacado é sugada pelos súcubos. A palavra succubus vem do verbo em
latim que quer dizer deitar-se sob. Íncubos são demônios masculinos que afetam as mulheres.
Ambos sempre agem à noite, enquanto suas vítimas dormem. Para o meu entender, nada mais era do
que uma pessoa com seus desejos sexuais reprimidos. E isso acabava aflorando durante o sonho,
quando o corpo está livre de represálias. Mas, por ter a mente ignorante e ingênua, esses pobres tolos
saíam a confessar tais sonhos aos padres, que, por sua vez, condenava-os, dando-lhes várias
penitências e castigos abomináveis. E se o sonho prosseguisse - o que quase nunca acontecia,
porque, logicamente, quem seria louco de ser torturado tantas vezes? - o padre ou responsável diria
que o infeliz estarva dominado por demônios da luxúria. Nem quis pensar no que aquela mente
libertina à minha frente poderia estar pensando a meu respeito. No mínimo, achava que eu estava
tendo delírios imorais porque esbocei um sorriso. Mediante aquela cutucada, abri meus olhos
rapidamente e comecei a olhar pela janela, já que nem com os meus pensamentos eu podia ficar
sozinha.
      Ao passarmos frente à igreja de padre Ignácio, vi um cortejo fúnebre. O senhor Manoel Borges
havia falecido. Houve certo comentário que poderia ter sido por causa da peste, mas nada havia sido
comprovado. Todos pareciam não querer falar sobre o assunto, sendo que a peste era considerada
uma doença do diabo. Próximo à praça principal, algumas moçoilas desfilavam em seus belos trajes
e, ao ver passando a carruagem em que me encontrava, viraram de costas imediatamente,




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

impulsionadas por suas aias. No mínimo, pensavam que eu jogaria um feitiço sobre elas ou, quem
sabe, transformá-las-ia em sapo ou coisa parecida.
     Além de ter me tornado a única atração do condado, também havia me tornado uma aberração
da natureza. Sei que, naquela manhã, não tive a oportunidade sequer de olhar-me ao espelho, mas
tinha certeza de que em minha face não haviam nascido verrugas da noite para o dia. E sabia que, em
meus cabelos, embora despenteados, não tinham cobras mostrando a língua. Mas, quando eu olhava
para os rostos amedrontados daquelas pessoas, era isso que elas passavam para mim. Senti-me um
monstro, uma aberração da natureza.
     Quando chegamos, finalmente, frente ao tribunal local, uma multidão já se reunia, aguardando a
chegada da atração principal - no caso, eu. Algumas pessoas estavam carregando foices e paus nas
mãos. Outras trouxeram cesta de legumes e ovos podres. Senti um calafrio repentino invadir todo o
meu ser ao ver toda aquela gente aglomerada em frente ao tribunal. Por instantes, achei que nem
chegaria a julgamento. Os demônios não me fariam mal. Mas, com certeza, poderia esperar tudo
daquelas pessoas. Na verdade, sabia que naquelas atitudes ameaçadoras elas estavam demonstrando
uma forma de autodefesa. Isso foi o que me assustou: o medo que elas sentiam de mim poderia surtir
reações diversas em cada uma delas. As pessoas, quando estão sendo influenciadas ou passando por
uma histeria coletiva, podem ser muito perigosas, em todos os sentidos.
     Fui despertada daquele transe de medo pela voz estridente de um homem. Estiquei o pescoço
para ver. Era a voz do chefe da guarda, gritando do lado de fora da porta tribunal. Aquele homem
espalhafatoso deixou-me ainda mais aflita com o seu abanar de braços e gritos estridentes. Ele era
um homem alto e muito magro. Parecia ter saído de uma catacumba, pois sua cor muito pálida e seus
olhos extremamente esbugalhados eram assustadores. E aquele bigodinho, então? Todo engomado
sabe-se Deus pelo quê! Arrepiei-me dos pés à cabeça ao ver aquela figura exótica e nada
convencional. Sua farda não lhe caía bem, pois ficava curta nas bainhas e justa demais nas pernas e
braços. Eu até poderia ir para a fogueira, mas não consegui deixar de observar o desleixo de quem
estava tentando achar algum defeito em mim. O homem, definitivamente, parecia-se com um
boneco fantoche, personagem de alguma cena de um teatro de horror. Engoli o riso mais uma vez e
continuei a detalhar aquele pobre infeliz que havia caído nas minhas graças. Se eu estivesse no
escuro e sem ninguém por perto e aquela figura tivesse aparecido de repente, no meio do nada, juro
que cairia dura e tísica ao chão. Santo Deus, tenha pena de minha alma, pensei comigo! Estava
sendo soberba e insana.
     A cada instante, ficava mais desesperada. Isso fazia com que a minha mente começasse a ter
devaneios de tolices. No fundo, não queria acordar para a realidade dos fatos - o que explicava certos
pensamentos ilógicos para o momento em questão. Embora eu tivesse tentando manter meus nervos
sob controle para não cair em prantos e demonstrar fraqueza, estar amarrada como um animal e
vigiada por aquele soldado na minha frente estava me deixando psicologicamente desorientada. Às
vezes, quando estamos muito assustados, não conseguimos sequer ouvir o som que sai da boca das
pessoas. Só vemos que elas mexem os lábios. Era o que estava acontecendo comigo. Eu estava
quase em choque e, por isso, minha mente tentava ser irracional. Era como se ela estivesse me
protegendo de um colapso repentino. Depois de respirar profundamente, esvaziando a minha mente,
voltei à realidade de novo. Lá estava o homem comprido a falar e gesticular. Foquei-me em seus
lábios para sair daquela surdez mental e poder ouvir o que o chefe da milícia estava dizendo. Por
fim, depois de muito esforço, consegui sair do devaneio e ouvi o que estava sendo dito:
     _ Vamos, minha gente! Deem passagem para um oficial em serviço. O show ainda não
começou. Vão se afastando da carruagem e dando-me licença, para que faça meu trabalho como se
deve.
     Aqueles braços compridos iam abanando e afastando a multidão que, aos poucos, foi abrindo
passagem. Uma menina fez-me uma careta e a mãe logo tratou de tapar os olhos da pobre. Ela só
estava brincando, mas a mãe deve ter achado que eu a transformaria em uma boneca.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

      _ A que horas vão queimar a bruxa? - perguntou uma velha senhora.
     O chefe da guarda, porém, respondeu-lhe, parecendo não estar interessado em dar muitas
respostas:
     _ Vamos deixar que os responsáveis respondam a todas essas perguntas na hora certa, minha
senhora. Primeiro, ela deverá ser interrogada. Depois disso é que saberemos quais as medidas serão
tomadas.
     Por fim, depois de muito esforço para abrir caminho por entre a multidão, o capitão da milícia
conseguiu aproximar-se da carruagem. Abriu a portinhola, olhou-me seriamente, sem nenhuma
palavra a dizer, e foi desamarrando meus pulsos. Meus braços pareciam estar mortos, devido ao
tempo que ficaram suspensos. O chefe da milícia tirou-me da carruagem aos safanões. Ele não estava
com medo de mim, mas tinha que mostrar ao povo que tinha autoridade. Fui, em seguida, amarrada
novamente. Só que, dessa vez, com os braços para trás. Comecei, a partir daquele momento, a sentir
que minha liberdade tinha sido tirada de mim para sempre. As pessoas que estavam do lado de fora
do tribunal sussurraram coisas absurdas. Outras, ainda, gritaram como se vissem em mim algum tipo
de forma deforme. O pânico de algumas delas causou uma histeria coletiva. Os poucos guardas que
existam ali mal conseguiam controlar a multidão que havia se formado na porta do tribunal. Subi a
escada empurrada e quase recebi o golpe de uma pedra que um fazendeiro lançou em mim.
     Já dentro do tribunal, fui obrigada a ficar sentada por horas em um corredor escuro, pois o
magistrado e o inquisidor ainda não haviam chegado. Fiquei observando o corredor. Metade das
paredes era de madeira e a outra metade era decorada por enormes quadros. Um imenso lustre
estava pendurado sobre a minha cabeça. Seis bancos compridos seguiam em fileiras corredor
adentro, um ao lado do outro. A porta de entrada era imensa e pesada, e a porta a sala de audiência
era dupla e muito alta. Era um lugar muito frio. Não tinha nenhuma planta ou decoração que
harmonizasse o ambiente. Tinha certo clima de tristeza no ar. Era como se as almas do purgatório
gritassem por clemência o tempo todo ali dentro. Eu estava parecendo um porco espinho, de tão
arrepiada que fiquei ao perceber que aquele lugar era um grande portal para os espíritos sem luz e em
aflição.
     Dentro da sala de audiência, reuniam-se algumas pessoas ilustres e importantes, como: o conde
Alfred; o chefe da milícia, senhor Antônio Santos; os dois maiores representantes paroquiais, padre
Ignácio Manuel, padre Alencar Sorancco; madame Hortência Rivald; a condessa Marli Von Del Prat;
meu pai, Juan Vladimir Porto Señra; senhor Álvaro Lancastro; lady Dornellas Carrucci; um
representante legal de sua majestade o rei, o Lord Marllon D’ Runchieir; o Lord. Octávio Güllians
III; o sobrinho de sua majestade a rainha, o duque Philip Gonzáles; e, por último, o senhor Emanuel
Tostes, que representaria o povo legalmente e por todos faria as perguntas, se necessário. Esse tipo
de coisa praticamente não acontecia, pois o representante do povo apenas servia para levar as
notícias do que se passava dentro da sala de audiência, já que o povo, em certos momentos, não
podia estar presente.
     Por volta de onze e meia, chegaram o magistrado Narcíseo de Freitas e o inquisidor Nicolau
Neufrien. E, para o espanto de todos, vieram acompanhados do bispo, Dom Helvécio Hernandez, e
do Prior Eurico Pastorino de La Constance. O alarido foi tamanho quando o homem desceu da
carruagem que, de dentro do corredor do tribunal, pude ouvir. E até mesmo eu, que já não esperava
mais nenhuma surpresa, fiquei completamente extasiada ao ver tal figura ilustre. Ao passar por mim,
olhou-me de soslaio, demonstrando desprezo absoluto. Seu olhar era severo e gelava até os que já
estavam mortos. Ele era um homem alto e forte. Sua presença era de imponência. Dom Helvécio
Hernandez era muito comentado por seus feitos e proezas pela forma como julgava os condenados de
feitiçaria. Diziam que as suas torturas eram implacáveis e que não havia quem não confessasse todos
os pecados a ele. Ele vestia uma túnica negra comprida. Em sua cabeça, havia uma mitra preta e
vermelha. Ele aparentava ter uns setenta anos de idade. Pela forma sisuda do rosto, por certo nunca
em sua vida soubera o que era um sorriso. Eu sabia que seria severo e impiedoso comigo. O homem




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O segredo dos girassóis
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não era um emissário da Igreja, mas sim um emissor de Lúcifer. Quando ele estava passando perto
de mim, ventou forte e o cheiro que pairou no ar foi de enxofre. Mas o mais estranho era que todas as
portas estavam fechadas. Havia algo de malévolo nele. Pude jurar que uma sombra entrou ao seu
lado na sala de audiência. Definitivamente, aquele homem não era um ser humano.
     Até aquele momento, não pude ter certeza se a sombra era uma ilusão da minha mente cansada e
nervosa, ou se realmente a sombra entrara na sala com Dom Helvécio. Olhei para todos os lados,
mas nada vi. Até que, de repente, lá estava ela, flutuando como um lençol negro sobre a porta da sala
de audiência. Era uma criatura irreal, com rosto deforme, olhos vermelhos e um sorriso apavorante
na boca. Quase não dava para se ver nitidamente, mas os olhos foram o que mais me assustou, pois
demonstravam que era um demônio devorador de almas. Ficou pairando alguns minutos, parecendo
estar procurando uma vítima para se apossar da sua alma. Tive que me manter bem discreta para que
ele não percebesse que eu podia vê-lo. Pois, quando um demônio como aquele percebe que podemos
vê-lo, por certo se torna muito mais perigoso. Depois de alguns minutos, pensei que ele tivesse ido
embora. Mas, logo em seguida, ele estava sobre a minha cabeça e sua forma incorpórea já havia
mudado de novo. Desta vez, ele parecia ter criado asas de morcego. A figura deforme olhou-me com
ar zombeteiro e maligno. Eu, por minha vez, baixei os olhos, tentando não demonstrar nenhuma
reação. Se a morte tinha uma forma, ali estava ela, na minha frente, olhando para mim. Confesso que
fique fiquei apavorada. Percebi que, além de apavorante, era um zombeteiro, pois podia mudar de
forma. E ele, ao perceber que eu podia vê-lo, agarrou-se nas paredes com suas unhas compridas e
começou a correr pelo teto. Depois, voltou para a porta da sala de audiência e sorriu-me, mostrando
sua língua de cobra.
     Certos espíritos acompanham as pessoas quando elas têm um coração muito perverso. Tais
espíritos são vulgarmente chamados de demônios, atraídos por nossas energias - sendo elas negativas
ou positivas. Ou seja, se vibrarmos boas energias, vamos atrair bons espíritos. Mas, naquele caso
específico, o espírito já havia tomado conta daquele corpo. Ambos eram praticamente um só ser.
Dom Helvécio estava carregando sobre o corpo todo o peso das injustiças que cometera contra suas
vítimas. Aquele demônio era o seu julgador e, quando ele viesse a morrer, com certeza ele seria o seu
algoz e o faria ver as atrocidades cometidas em vida. Por certo, Dom Helvécio havia julgado muitas
pessoas levianamente. O que eu achava mais interessante era saber que esses homens de Deus faziam
parte de um clero e se diziam ter o poder de julgar e exorcizar as pessoas supostamente
endemoniadas, mas não conseguiam ver o demônio que estava possuindo o seu próprio corpo.
     Certos espíritos atormentam seus obsediados da pior forma possível. As formas mais comuns de
obsessão são: a obsessão simples, a fascinação, a auto-obsessão, o obsessor por amor e o suicida. O
ser humano é objeto e alvo do processo de obsessão constantemente. O obsediado trata-se de alguém
cujo débito é muito elevado diante da lei divina.
     No plano de evolução espiritual em que se encontra, nosso planeta é um local de expiação, no
qual se concentra um grande número de espíritos vibrando nas mais baixas frequências possíveis.
Esses espíritos vivem presos a situações emocionais de ódio, raiva, egoísmo, amor não-
correspondido, entre outras emoções. Estão de tal forma presos ao plano físico que muitos acreditam
ainda estar em seus corpos carnais. Assim, vivem próximos das pessoas com as quais um dia
conviveram, afastando-se dos planos espirituais mais elevados e atrasando sua reencarnação. Entre
esses espíritos, ainda existem aqueles que têm a consciência de que estão mortos e de que já não
habitam mais um corpo físico. Mas, como ainda estão presos às vibrações muito baixas do mundo
espiritual, realizam ações que visam a prejudicar os vivos e atrapalhar ao máximo a vida e a
evolução espiritual de suas vítimas encarnadas. Esses espíritos são os que chamamos de obsessores.
Sua sensibilidade à Luz Divina foi embrutecida pelo tempo e por sua natureza moral. Eles ficam
estagnados num círculo vicioso e numa obstinação tão intensa que não é raro se esquecerem de
quando e do porque de tudo ter começado. Na maioria das vezes, estão tão cansados e vivem há tanto




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tempo nessa condição que não sabem mais como caminhar em direção ao esclarecimento e à Luz de
Deus - necessitando, assim, de toda ajuda que lhes possa ser fornecida.
      É fácil para nós imaginarmos o surgimento de tais obsessões pelo caminho do ódio. Afinal,
sabemos do que os homens são capazes quando tomados pela raiva descontrolada. Mas também
surgem obsessões, até mais graves, em virtude do amor. O amor gera correntes que, unidas a outros
sentimentos como egoísmo, apego, carência afetiva intensa, falta de auto-estima, podem produzir
obsessões. A revolta, a dor e a raiva podem mudar a energia do amor. Basta que exista um grande
apego alimentado por um forte egoísmo, gerado num coração que viva uma grande carência, e
teremos um espírito que sentirá uma grande dificuldade de se separar dos entes queridos. Como o
amor e o ódio estão separados por uma barreira quase imperceptível, em algumas oportunidades
imaginamos que um espírito está com ódio - quando, na verdade, ele pode estar escondendo a dor de
um amor não correspondido. Ou até mesmo pode ser uma entidade que ainda quer manter o apego
que tinha em vida, agindo de forma a manter a outra pessoa presa ao círculo de sentimentos que
demonstrava quando o espírito estava encarnado. De todas as formas de obsessão, a gerada pelo
amor é a pior de todas, pois aquele que ama sequer pode imaginar ou aceitar que, na verdade, está
atrapalhando seus entes queridos. Ele acredita estar ajudando-os, supondo que não poderiam viver
sem sua presença e auxílio. A relação entre o obsessor e suas vítimas é variada e segue por caminhos
tortuosos, mas que inevitavelmente levam à degradação física e moral do obsedado - o que, por fim,
pode levar à vitória do espírito obsessor.
      As obsessões são as ações que influenciam os vivos, estimulando reações e semeando a
discórdia e o ódio, nascido da força exercida pelos espíritos inferiores. Eles influenciam
maleficamente, como os demônios das histórias bíblicas. Assim como ocorre nessas histórias, as
formas de o obsessor atuar também são sutis e intangíveis. Só após muito tempo é que se tornam
evidentes. Nunca devemos tentar fazer um exorcismo ou desobediar sozinhos, porque não sabemos o
grau da obsessão no qual se encontra o indivíduo. Sem contar que o espírito pode também interferir
na vida de quem tentar atrapalhá-lo. Ele pode até mesmo se irar contra a terceira pessoa. Nunca
tente fazer um acordo com um espírito. Isso nunca funciona e o obsessor pode passar a obsediar a
quem lhe faz o acordo também.
      É muito fácil saber quando uma pessoa está sofrendo de obsessão, pois se tornam visíveis as
alterações de comportamento físico, mental e emocional. Tais como: olhar fixo, esgazeado ou
fugidio, sem encarar ninguém; tiques e cacoetes nervosos; desalinho ou desleixo na aparência
pessoal; excentricidade comportamental; agitação; inquietude; intranquilidade; medo e desconfiança
injustificáveis; apatia; sonolência; mente dispersa; ideias fixas; excessos no falar; no rir; mutismo ou
tristeza; agressividade gratuita, difícil de conter; ataques que levam ao desmaio; rigidez;
inconsciência; contorções; pranto incontrolável e sem motivo; orgulho; vaidade; ambição ou
sexualidade exacerbados e exagerados. Quando a pessoa volta ao normal, após uma crise,
geralmente queixa-se do domínio sofrido e lamenta atos infelizes que praticou. Na fascinação, os
demais notam a fantasia, o fanatismo, a fixidez, o absurdo das ideias. Só a pessoa obsediada não
nota.
      Fiquei ali por horas, tentando achar uma qualificação para aquele espírito cuja forma mal se
podia ver. Aquele inquisidor não sabia, mas, se houvesse um julgamento divino, ele seria o primeiro
a morrer queimado. Pois aquele obsessor era o seu algoz espiritual e seria o primeiro a condená-lo.
      Todos estavam dentro daquele tribunal havia horas. Até os espíritos malignos ocupavam seus
lugares de destaque. Enquanto eu, reles bruxa, permanecia sentada em um banco duro, isolada de
todos, no escuro, amarrada com as mãos para trás e sendo atormentada pelo obsessor de um
monsenhor, que se sentia no direito de me julgar e condenar. O que eu havia me tornado para aquelas
pessoas, um animal? O que de tão grave eu havia cometido? Será que ter uma ideia própria e
formada fazia de mim ou de alguém uma pessoa endemoniada? Comecei sem querer a deixar que a
revolta tomasse conta de mim. Afinal, quem sabe com tantos demônios sobre o meu corpo eu




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poderia sair e engolir alguém? Com tantas criancinhas deliciosas à solta, imagina o que eu não
poderia fazer! Isso, por certo, eu não faria - é lógico. E eles nem desconfiavam que o demônio-mor
tivesse acabado de entrar e estava lá dentro, no meio deles. Sacudi a cabeça com indignação.
Ingênuos, pensei em voz alta.
     Pedi ao guarda que estava parado à minha frente, em posição de estátua, que me desse um copo
d’água, mas ele permaneceu em posição ereta. Exclamei várias vezes, implorando-o, mas o homem
nada fez. Acho que ele era mesmo uma estátua. Mas juro: não fui eu quem o transformou. Era como
se eu fosse translúcida para aquele soldado. Não fazia a menor diferença se eu morresse ou não.
Meus braços começaram a doer novamente. Toda aquela situação estava me deixando
completamente louca. Estava tendo alucinações e devaneios. Já não conseguia distinguir o certo do
errado, a verdade da mentira. Houve hora em que eu acreditava que eram verdadeiras aquelas
acusações contra mim. A falta de comunicação e o silêncio absoluto, causado pelo desprezo daquele
guarda à minha frente, já estavam realmente começando a afetar os meus nervos.
     Estava cansada e precisava dormir um pouco para descansar a mente. Fiquei me lembrando de
como era bom poder cochilar dentro de uma tina com água quente. Fui criada por Maria e, devido
aos seus costumes e à tradição, ela me ensinou a tomar banho todos os dias. Muitas vezes fazia isso
às escondidas de todos, em meus aposentos, pois não era o costume europeu. Na verdade, as pessoas
não eram apenas imundas de pensamentos, mas também seus corpos tinham um cheiro fétido. A
senhorita D’Lú contou-me, certa vez, sobre os estranhos costumes da corte europeia, onde a maioria
das pessoas casava-se no mês de junho, início do verão, porque, como tomavam o primeiro banho do
ano em maio, o cheiro delas ainda estava mais ou menos tolerável. Entretanto, como já começavam a
exalar certos odores, as noivas passaram a ter o costume de carregar buquês de flores junto ao corpo,
para disfarçar, assim, o mau cheiro. Os banhos eram tomados numa única tina, enorme, cheia de
água quente. O chefe da família, o rei ou monarca, tinha o privilégio do primeiro banho na água
limpa. Depois, sem trocar a água - reparem que lindo!-, vinham os outros homens da casa, por ordem
de idade, as mulheres, também por idade e, por fim, as crianças. Os bebês eram os últimos a tomar
banho. Portanto, quando chegava a vez deles, a água da tina já estava tão suja que era possível perder
um bebê lá dentro. Ainda bem que meu pai havia sido doutrinado por minha mãe e mantinha quatro
tinas em nossa casa. Meu pai nunca fora um homem de tomar muitos banhos, mas também não se
preocupava se tomássemos com frequência. Em compensação, sua adorada esposa só tomava banho
quando precisava ir a uma festividade. Confesso que seu odor era fétido e, misturado às caras
fragrâncias francesas, dava-me náuseas. E isso piorava no verão.
     Comecei a achar graça daqueles pensamentos tolos e sem lógica. Estava à beira de uma
condenação e ainda conseguia ver graça naquelas pessoas. Estava ficando tonta; precisava comer
alguma coisa. A falta de alimento, principalmente pela manhã, causava-me tonturas e certos
devaneios. Não podia pedir socorro naquele local, pois poderiam achar que o demônio já estava se
manifestando. Tive de me manter calma, fria e controlar os devaneios causados pela falta de algo
doce, principalmente. Por isso, Maria sempre se preocupava em me fazer comer pela manhã e
forçava-me a comer algo nos intervalos das refeições. As vertigens começavam a me causar
devaneios. Estava sentindo a visão turva. Comecei a cochilar, quando uma voz suave me chamou:
     _ Anna, precisa manter-se lúcida. Não poderemos ajudá-la se não estiver consciente. Anna,
acorde! Só poderemos ajudá-la com a sua mente em total estado de lucidez.
     Abri os olhos lentamente e vi um homem belíssimo, vestindo uma túnica muito branca de um
fino linho. Seus cabelos eram cacheados e loiros e caíam sobre os ombros largos. Seus olhos eram de
um azul inigualável. Tinha as faces rosadas e os lábios grossos. A pele mais parecia uma fina
porcelana. Sua luz deixou-me quase cega. Quando eu já estava totalmente despertada, ele abriu-me
um largo sorriso e falou-me:
     _ Sabe por que estou aqui, não?
     _ Sim, Heixe. Faço uma ideia.




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O segredo dos girassóis
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      Ele abaixou e segurou o meu rosto com a mão, que mais parecia um pedaço de seda. Era a
primeira vez que me tocava. Foi bom sentir um pouco de carinho, pois estava totalmente indefesa e
carente. Depois de afagar meu rosto e meus cabelos, o espírito falou:
      _ Vim auxiliá-la, mas preciso que tente reagir. Sei o quanto é difícil para você estar passando
por tudo isso. Mas esse foi o caminho que escolheu. Não fraqueje agora. Ainda tem muito chão pela
frente.
      _ Eu sei, mas meu corpo dói tanto! Estou fraca e com fome. Talvez tivesse sido melhor se eu
tivesse escolhido o destino que queriam impor a mim. Talvez seja melhor eu negar tudo e dizer que
estava sob influência maligna. Estou cansada... Não quero mais lutar, por Deus. Faça-os parar, por
favor!
      _ Anna, sabe muito bem que não posso voltar o tempo. Mesmo que negue quem é, não mudará o
seu jeito de ser. Liberte-se de todos esses pensamentos e alimente-se com orações. Seu espírito está
fraco e, por isso, seu aparelho apresenta fraqueza. Só o amor do Pai Maior pode sustentá-la nesta
hora de dor. Anna, minha doce Anna... Como pode esquecer tudo o que aprendeu?
      Naquele momento, uma estranha força penetrou meu corpo e entrei em total sintonia com Heixe.
Juntos, fizemos uma oração mental. Meu espírito foi levitando, até que saí do meu aparelho e me vi
fora do chão. Uma imensa luz cercou todo o corredor escuro e frio. Uma paz tomou conta de mim.
Meu corpo já não sentia dor ou frio, muito menos fome. Suas mãos alimentaram-me e curaram-me.
Havia uma harmonia no ar e uma doce melodia que imitava os sons das harpas dos anjos. Naquele
estado, pude ver meu aparelho em repouso. Parecia ter envelhecido uns três anos naquelas últimas
horas. Olhei, também, para o guarda que vigiava o meu aparelho. Pude perceber uma áurea de
tristeza em torno dele - o que justificava aquela forma inerte e sem reação aparente. Olhei para
Heixe. Ele parecia ter percebido o que eu estava vendo. Então, emanou vibrações de entusiasmo para
aquele homem, que estava também precisando de misericórdia. Depois, Heixe pegou-me pela mão e
guiou-me por entre as paredes, seguindo até a sala de audiência. Por instantes, cheguei a pensar que
havia morrido, mas Heixe explicou-me que eu estava viva e presa pelo cordão de luz que me
segurava ao meu aparelho.
      Dentro da sala de audiência, havia um comitê formado por muitos lordes, pelo bispo, o prior,
entre outros que estavam discutindo o meu caso. O murmúrio no local era muito grande, o que me
deixou tão confusa, quase não conseguindo entender o que realmente estavam falando. Passei por
todas aquelas pessoas, mas não puderam me ver. Olhei para o bispo e lá estava a sombra negra,
pairando sobre ele. Na verdade, a maioria das pessoas que estavam naquele recinto tinha um
obsessor como companheiro. Sabia que aqueles espíritos já haviam sido seres humanos um dia. Mas,
agora, pareciam estar em decomposição, chorosos, agonizantes... Pareciam terem se levantado das
catacumbas. A maioria era obsessora. Outros, parentes que só queriam orações. E outros imploravam
para que os ouvissem. Aquilo, sim, era o purgatório. Por isso, todos eram tão desnorteados daquele
jeito. Com tantas pessoas falando em suas cabeças ao mesmo tempo, como poderiam ter ideias
próprias?
      Meu corpo levitava sobre aquelas pessoas e seus espíritos atordoados. Estava confusa. Na
verdade, ainda não havia me dado conta de minha atual condição. Esse é um estado em que o espírito
não deve permanecer por muito tempo fora de seu aparelho. Isso é muito perigoso e inconsequente,
mas confiei em meu mentor espiritual, pois ele sabia de minhas limitações.
      Pude ouvir o que o inquisidor estava falando e, com isso, sabia com exatidão qual resposta teria
que dar. Na verdade, eles estavam mais assustados do que eu, como se isso fosse possível. Eu teria
que ter muito tato ao lidar com aquelas pessoas, pois, por serem completamente leigas no assunto da
espiritualidade, poderiam colocar todos os meus planos a perder. Escolhi aquela sentença e, daquele
momento em diante, teria que ter liderança sobre minhas palavras, pois qualquer deslize poderia
condenar-me à fogueira.




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O segredo dos girassóis
                                           Adriana Matheus

     Precisava encontrar o meu monge. Sabia que ele estava me esperando. Mesmo que todo o
sofrimento que eu tenha passado tenha sido pesado demais, nunca me arrependi do que fiz, pois cada
momento que vivi ao lado do meu amor valeu a pena. Mesmo que ele tenha me traído... Aquela
necessidade dar-me-ia forças de prosseguir com a minha decisão. Podia senti-lo. Sabia da sua
infelicidade. Sabia como ele estava sozinho e sem vontade de viver. Meu sofrimento estava ligado à
solidão na qual ele se encontrava. Éramos um só ser. Estava muito perto para desistir agora. Dei
prosseguimento ao aprendizado de Heixe e deixei que ele me mostrasse o que me esperava. A
senhora gorducha que estava em minha casa, essa sim, era um grande problema: a cada discussão,
ela colocava mais lenha na fogueira. Ela só estava ali por ser filha de um falecido e rico proprietário
de muitas terras. Por ser uma dizimista aplicada e mão aberta, tinha o direito de permanecer entre os
poderosos, enquanto isso lhes fosse conveniente. Nunca havia se casado ou namorado em toda a
vida. Só se dedicou à Igreja e aos preceitos religiosos. Sua língua felina era bastante útil nestes casos
de acusações. Principalmente porque ela julgava saber da vida de todos do condado. Na verdade, ela
queria algo para comentar durante sua quinta geração. Em um povoado tão pequeno como aquele,
não se tinha muitas coisas para se contar.
     Heixe segurou minha mão e continuamos a ver o quanto as pessoas cochichavam entre si. Os
olhos da condessa pareciam mortos, visando o nada. Era como se ela estivesse em êxtase. Por trás de
tanta soberania e arrogância, pude perceber a mulher infeliz e sem vida que ela era. Seu espírito tinha
uma cor cinza e parecia muito solitário. O conde não se desgrudava de meu pai. Ambos pareciam
estar tramando o tempo todo. Algo estranho naquela amizade começava a me intrigar. Não era só um
simples interesse em me casar com aquele homem. Existia uma espécie de trama política e
financeira. Meu pai fingia não saber que a esposa era cortejada por outros homens e pelo conde - isso
era conveniente demais. Comecei a ver as coisas como realmente eram. Aproximamo-nos deles,
tentando ouvir o que diziam, mas o alarido de vozes não nos deixou entender. Por fim, Heixe achou
que já era hora de retornar para o meu aparelho. E foi bem a tempo, pois o magistrado havia pedido
para que me buscassem para o interrogatório. Como em um flash, meu espírito passou rapidamente
por todas aquelas pessoas, atravessando as paredes e jogando-se em meu aparelho inconsciente. Senti
como se um raio atravessasse meu corpo. Acordei de supetão, já com dois guardas ao meu lado,
sacudindo-me e entreolhando-se, parecendo achar que eu estava possuída.
     _ Levante-se! - disse um guarda ainda muito jovem, chutando as minhas canelas.
     Levantei-me com a ajuda do outro, que segurou meu cotovelo, dando-me certo apoio. Segui-os
corredor afora. Entramos por uma enorme porta, quase negra, talhada à mão. Ao abrirem a porta
pesada, fez-se total silêncio no recinto. Todos se viraram para trás, levantando-se. O júri já estava
formado e o magistrado estava usando uma enorme peruca cacheada. Tanto garbo e, por certo, era
careca. A peruca estava lotada de piolhos. Não conseguia parar de achar defeitos nos santos que me
acusavam de megera. Deu-me vontade de rir, porque não conseguia ver como pessoas tão imorais e
cheias de defeito conseguiam achar em alguém como eu um defeito. E o que é pior: inventavam
mentiras atrás de mentiras para satisfazerem os egos cheios de blasfêmias. Meus pensamentos eram
esdrúxulos e levianos. Mas não poderia falar. Então, pensava. Sacudi a cabeça, prometendo não
pensar mais sandices. Embora já estivesse ciente do que me aguardava, senti um frio na espinha! O
que mais me doeu foi ver meu pai ali, olhando-me tão friamente, como que desejando a minha
morte. Não me importava o que aquelas pessoas pensavam de mim, mas o que realmente me doía era
saber que alguém do meu próprio sangue rejeitava-me não por dúvida sobre o meu caráter pessoal,
mas por saber que eu era um risco à sua reputação como homem e por eu não ter baixado a cabeça às
suas ordens inescrupulosas. O conde olhou-me de cima abaixo, com um desdém e desejo
abomináveis. Os demais presentes esquivavam-se, com medo de me tocarem e virarem pedra ou algo
assim. Talvez uma pessoa contaminada pela peste não fosse tão repulsiva aos olhos deles como eu
estava sendo naquele momento. Baixei a cabeça, pois sabia que quanto mais humilde eu fosse,
melhor para mim seria. Sentaram-me em uma cadeirinha em frente ao magistrado. O alarido de




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O segredo dos girassóis
                                        Adriana Matheus

vozes começou novamente, assim que me sentei. O povo estava muito agitado do lado de fora, mas o
magistrado e os demais queriam interrogar-me primeiro.
    _ Levante-se, por favor! A senhorita tem noção do porquê de estar aqui? – perguntou-me o
magistrado.
    _ Não, excelência!
    Houve um alarido de exclamação, como se eu estivesse mentindo. Por fim, prossegui:
    _ Não tenho certeza, excelência. Estou muito confusa quanto às acusações.
    _ Então, nega ser uma bruxa?
    _ Não, excelência.
    Houve um alarido ainda maior.
    _ Nego apenas ter cometido tais crimes contra a Igreja. Sempre frequentei as missas aos
domingos. Nunca faltei com a eucaristia e sempre comunguei. Mas não nego que sou uma bruxa.
    _ Blasfêmia! - gritou o advogado de defesa da Igreja.
    _ Protesto! Esta mulher frequentava a igreja quando ainda não estava possuída pelo demônio.
    _ Protesto aceito. A senhorita deve ser mais explícita quanto às suas palavras. Como pode não
negar que é uma bruxa, mas negar estar praticando a bruxaria?
    _ Só conheci os caminhos da magia há pouco tempo, excelência. Mas confesso que tudo o que
aprendi já estava dentro da minha alma. Lembro-me de cada símbolo. Mas nunca cometi nenhuma
das atrocidades das quais estão me acusando.
    _ Acredito neste lado de sua história. Mas o que me intriga é como foi que conheceu o caminho
que a levou a praticar coisas contra a Igreja, sendo que não tinha outra companhia além da sua
governanta, como mesmo disse - já que, logicamente, é pouco provável que sua madrasta tenha se
envolvido com tais coisas ilícitas aos olhos da Igreja e de Deus. Diga-me, senhorita Anna, é esse o
seu nome, creio, ou o demônio também usa outro nome quando a possui?
    Os demais que estavam no recinto riram, formando um coro, enquanto o advogado de acusação
olhava-me zombeteiramente por debaixo dos óculos. Ele era um homem gordo e de meia idade, com
bochechas de cachorro. Por fim, depois daquela pequena pausa para servir de deboche, respondi de
cabeça baixa, tentando demonstrar humildade:
    _ Sim, este é meu nome, excelência. E não, o demônio jamais esteve em meu corpo. Isso é um
equívoco, excelência.
    _ Então afirma que sua governanta impunha-lhe cometer tais crimes?
    _ Não, nunca disse isso! Maria era uma santa. Ela sempre me ajudou em tudo e foi a pessoa que
me criou. - fiquei nervosa.
    Estalando os dedos, ele disse:
    _ Mas tenho aqui relatos de que esta senhora – Maria, como a chamavam - vem de origem
cigana, e fazia chá para a senhorita tomar durante a noite. Isso está certo?
    _ Sim. Eu perdia o sono à noite e Maria dava-me chás, para que eu conseguisse dormir.
    _ E esses chás ou poções eram feitos do quê?
    _ Não sei. As receitas são sempre secretas. Maria trazia-as guardadas sob sete chaves.
    _ Não tenho mais perguntas, excelência. – virou-se para os demais.
    O magistrado tornou-me a interrogar:
    _ Então, essa mulher, Maria, entorpecia sua mente com suas poções? Fazendo-a ficar sobre o
poder do demônio, em estado de sonambulismo, a senhorita saía durante a noite e atacava os aldeões,
não é isso?
    _ Não, nunca houve tamanha barbárie. Quando eu tomava os chás de Maria, dormia
profundamente.
    _ Como a senhorita pode ter certeza, se diz dormir profundamente? Mande entrar o agricultor
Antonio de La Paz.




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

     Trouxeram um homem magro e muito humilde diante do tribunal. O advogado levantou-se e
fez-lhe inúmeras perguntas. Esse homem fazia pequenos serviços para os fazendeiros locais. Não
poderia entender o que ele poderia ter com o meu julgamento, pois mal o conhecia e nem nunca na
vida trocara uma palavra sequer com ele.
     _ O senhor é o agricultor Antonio de La Paz?
     _ Sim, senhor. Sou eu mesmo.
     _ Conhece essa mulher aí, na sua frente?
     _ Sim, senhor. Conheço sim.
     _ De onde o senhor a conhece? Poderia dizer a todos os demais presentes? Devo lembrá-lo de
que está sob jura.
     _ Vi-a pela noite, no meio das plantações, em trajes íntimos. - ele disse isso com a voz trêmula e
a cabeça baixa, pelo medo de que alguma coisa que dissesse não fosse o que lhe haviam mandado.
     _ Não ouvi. Poderia responder um pouco mais alto dessa vez?
     _ Via-a frequentemente a perambular pelos campos, à noite, quando a Lua estava alta no céu.
Ela estava quase desnuda. Eu até sentia vergonha por ela. Tentei várias vezes pedir a ela que fosse
para casa, porque não era certo uma senhorita ficar daquele jeito no meio as hortaliças.
     _ E ela o ouvia?
     _ Não, senhor. Parecia estar em transe. Depois é que fui saber que era uma bruxa e que estava
amaldiçoando as plantações.
     Todos murmuraram... Ele prosseguiu:
     _ É verdade, sim. Logo depois, a plantação do senhor Leônidas secou por completo. Pode
perguntar vós micês para ele. - ele se agitava e apontava o indicador na direção de todos.
     _ Então, o senhor quer dizer que esta mulher foi a responsável pela colheita do fazendeiro
Leônidas não ter dado certo?
     _ Sim, senhor. Foi ela sim.
     _ Por que o senhor nunca contou tal fato às autoridades?
     _ Porque tive medo de que ela fizesse algo ruim contra minha família, senhor.
     Tive mesmo vontade de fazer algo mais naquele momento. Tive vontade de estrangular aquele
estúpido, por mentir tanto e vender-se por tão pouco. Ele é quem foi negligente em seu trabalho e
deixou que a plantação do homem morresse. Aproveitou-se daquela situação para que o fazendeiro
não o punisse por sua falta de atenção ao trabalho. O cheiro da bebida em seus lábios era
insuportável. Ele era um mau caráter e estava se fazendo de vítima.
     Meu acusador mandou chamar uma senhora de nome Samanta Castro. As mesmas perguntas de
início foram feitas à mulher. Depois, prosseguiu-se:
     _ É verdade que a senhora estava grávida de uma criança? Uma menina, por assim dizer?
     _ Sim, é verdade.
     _ O que houve com a sua criança?
     _ Morreu. Isso foi logo depois que essa mulher apareceu perto de minha casa, à noite.
     _ Como assim? Poderia explicar-se melhor?
     _ Eu já tinha ouvido o boato de que a plantação do fazendeiro Leônidas tinha sido destruída por
uma bruxa. Mas sou muito devota do sagrado coração. Então, não dei importância aos boatos. Mas,
numa noite linda de Lua, eu estava colhendo minhas roupas no varal e meu bebê, que estava com
dois meses, estava em uma cestinha bem perto de mim, para o caso de, se chorasse, eu o ouvisse.
     _ E o que houve? Conte logo, mulher. - disse o advogado, exasperado.
     _ Então, acabei de colher toda a roupa e percebi que algo errado tinha acontecido ao meu bebê.
     _ Explique-se, mulher! Pare de rodeios teatrais e vá direto ao assunto.
     _ Fui até o cestinho e meu bebê já não estava mais lá. Havia desaparecido como que por
encanto. Gritei meu marido Jésus e fomos os dois procurá-lo.
     _ E o encontraram?




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Sim. - a mulher desabou em prantos e não conseguiu mais falar uma só palavra.
     O magistrado pediu para que chamassem o marido dela.
     _ Que entre o senhor Jésus, o agricultor, para que dê continuidade aos acontecimentos seguintes.
     Fez as mesmas perguntas iniciais ao homem, que mais parecia um pobre carvoeiro de tão mal
vestido e sujo que estava.
     _ Essa mulher chamada de Samanta Castro é sua esposa?
     _ Sim, senhor; é sim.
     _ O senhor e esta mulher tiveram uma criança?
     _ Sim, senhor, tivemos sim. - o homem respondia com a cabeça e com a boca.
     _ E o que houve com a criança, afinal?
     _ Está morta, senhor. - o homem baixou a cabeça, num gesto de respeito e tristeza.
     _ E o senhor, Jésus Justos, é assim que lhe chamam, certo?
     _ Sim, senhor; é sim.
     _ Então, senhor Jésus Justos, de que morreu a criança?
     _ Não sei como morreu, senhor... Mas a achamos sem a cabecinha.
     _ Meu Deus! Que horror! - exclamaram todos os demais.
     _ E como, senhor Jésus Justos, acha que aconteceu essa barbárie, essa monstruosidade?
     Apontando para mim, sem pestanejar, ele respondeu:
     _ Isso não sei dizer, senhor. Mas minha esposa, aquela noite, jura que viu essa mulher que está
sentada ali rondando lá pros nossos lados naquele dia. Até fui atrás dela com uma foice, mas não
achei a famigerada, não. Acho que usou alguma magia para evaporar-se daquele jeito.
     _ O senhor tem certeza de ser a senhorita Anna?
     _ Disso eu tenho sim, senhor. Porque somos pobres, mas nunca haveríamos de falar mentira.
Minha mulher nunca me deu motivos para eu desacreditar dela, não, senhor. E se o senhor quiser,
pode perguntar por aí que vai ver que sou uma pessoa que honra as calças que veste.
     Todos caíram na gargalhada da maneira simplória como falava o pobre homem. Ele até poderia
ser uma boa pessoa e ter uma honestidade acima do normal. Mas a esposa dele estava mentindo. Ela
deixou o bebê ao relento enquanto catava as vestes do varal e, por certo, um animal pegou o
bebezinho. Ela ficou tão aterrorizada com o que vira que criou essa fantástica história em sua mente.
Também ficou com medo da represália do marido. E é lógico que a bruxa tinha que ser eu, quem
mais? Eles supunham que tinha uma bruxa local. Mas, quando se espalharam os boatos a meu
respeito, juntaram tudo e fizeram uma história. Eram muito fáceis de manipular. Caso não fossem,
jamais estariam testemunhando. O julgamento prosseguiu:
     _ Por que não denunciaram às autoridades locais?
     _ Tivemos muito medo por causa que ela é uma bruxa. Ficamos com medo de que minha mulher
nunca mais engravidasse, caso ela jogasse uma praga.
     - Será que algum de vocês, aqui presentes, tem ainda dúvidas de que essa mulher é uma bruxa,
que cometia atos satânicos? Não me importa se estava ou não inconsciente. O fato é que essa mulher
admitiu e existem vários fatos que comprovam a veracidade das informações. Se não estiverem
satisfeitos e quiserem mais testemunhas, peço permissão para que o senhor magistrado aqui presente
– logicamente, com a permissão do senhor excelentíssimo Dom Helvécio Hernandes, inquisidor de
alto valor e escolhido por nosso querido rei Filipe – mostre, a caráter decisivo, as testemunhas
impostas a este júri.
     O inquisidor olhou para o magistrado, assinalando positivamente com a cabeça, como que dando
permissão para que as outras testemunhas de acusação entrassem. O magistrado mandou que uma
porta lateral fosse aberta. Entraram umas cem pessoas que já estavam aguardando do lado de fora.
Logicamente, a plebe não poderia faltar, pois quem seria melhor para encenar aquele teatro de
horror? Logicamente, os ingênuos, os analfabetos e, enfim, todos aqueles que sempre foram
rejeitados, mas que representavam a força final da palavra. Pois essas pessoas julgavam pela




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

aparência e pelos mexericos. Eram pessoas altamente autossugestionadas e de fácil manipulação.
Cordeiros medrosos e vulneráveis, pessoas que muito tinham a perder. Como a voz do povo é a voz
de Deus, eu seria cozida viva, por assim dizer.
     Quando toda aquela gente acomodou-se, como previsto, o alarido ficou maior ainda. Então, o
magistrado deu um grito, batendo com seu malhete em cima da mesa, pedindo silêncio. A voz do
magistrado ressoou pelo recinto como o ronco de um trovão. Todos pareciam estar bastante nervosos
e apreensivos. Aquele alarido só fazia deixar todos ainda mais agitados. Sempre existem pessoas
capazes de tornarem as coisas ainda muito piores do que elas realmente são. Podia ouvir os rumores
horrorosos a meu respeito. Podia ouvir algumas pessoas chamando-me de devoradora de bebês!
Havia malícia, maldade e muito interesse político naquilo tudo.
     Eu era só uma desculpa para encobrir o que realmente estava acontecendo - ou seja, esconder o
triângulo amoroso que existia entre meu pai, o conde e a condessa. Também, enquanto todos
estivessem prestando atenção em mim, não investigariam o conde como suspeito de um assassinato.
     O inquisidor, após ler publicamente a carta enviada pelo rei, tomou cuidado para não declarar
em sua sentença absolvição alguma, ou que eu - a acusada - pudesse parecer inocente ou isenta. Sua
intenção era esclarecer bastante que tudo foi legitimamente provado contra mim. Desta forma, se eu
fosse trazida mais tarde novamente diante do tribunal do júri, indiciada por causa de qualquer outro
crime, poderia, assim, ser ordenada sem problemas, apesar de a sentença de absolvição já ter-me sido
negada. O magistrado, antes de passar a palavra final ao inquisidor, perguntou-me uma última vez -
não porque estivesse interessado em saber a real verdade, mas porque na sala havia muitas pessoas
influentes e ele não poderia parecer injusto:
     _ Tem mais alguma coisa a declarar? Saiba que a senhorita está entre amigos e parentes,
pessoas que a amam e que realmente se importam com a sua saúde e seu bem estar. Creio que agora
é a hora de dizer algo que possa ajudá-la em sua sentença. Saiba que não poderá nunca mais
comentar sobre os fatos ocorridos nesta sala. Portanto, esta é a hora.
     Levantei-me, meio cambaleando por causa das muitas horas que já estava sem me alimentar,
olhei ao redor e voltei em direção ao magistrado, fitando-o nos olhos. Ergui minha cabeça e disse:
     _ Não tenho mais nada a dizer ou declarar. Não tenho nenhum amigo, já que todos vivem o
perjúrio de um suposto purgatório. Não confio em ninguém, já que me lançam sobre a desgraça
humana. Não tenho nenhum laço familiar ou consaguinidade comprovada com alguém neste
tribunal. Sou apenas um corpo no mundo. Que se cumpra o meu destino. Quero ressaltar, apenas, que
nunca comi criançinhas, nunca me prostituí, nunca tentei induzir ninguém a nenhuma seita ou
religião, quaisquer que fossem.
     Depois de eu ter falado isso, o magistrado ainda ressaltou:
     _ Senhorita Anna Goldim Señra, ressalto mais uma vez que essa é a sua última chance de dizer
alguma coisa em sua defesa. Caso contrário, será declarada como bruxa e sentenciada a viver nos
calabouços de um convento em San Francisco.
     Portanto, olhei para o conde, que estava de olhos arregalados prestando atenção, e disse:
     _ Não será necessário que sua excelência declare-me como bruxa, porque eu mesma me declaro.
Não tenho vergonha de ser quem sou e de seguir um caminho que eu mesma escolhi. Mas sua
excelência deveria prestar mais atenção a certas pessoas neste tribunal.
     O bispo, porém, tomou a palavra, indagando-me:
     _ O que a senhorita quer dizer com isso?
     _ Quero dizer que neste tribunal tem um usurpador e assassino sentado aqui, bem em minha
frente. - disse isso apontando para o conde
     Ele, de um salto, gritou, apontando o diário da minha mãe em suas mãos:
     _ Blasfêmia, excelência! Essa mulher tentou seduzir-me em seu próprio leito. Tenho provas aqui
comigo de que ela, além de bruxa, praticava, sim, os rituais da magia. Há também indícios de que ela




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O segredo dos girassóis
                                          Adriana Matheus

tinha o seu próprio local escondido dentro da casa de seu pai, onde ela, a governanta e o jardineiro
praticavam rituais de magia negra, cozinhando e comendo os filhos dos escravos.
     O alarido de espanto foi geral. O bispo, porém, interrogou-o:
     _ E como o senhor ficou sabendo de tais fatos?
     _ Sei disso porque a senhora condessa aqui presente também a flagrou fazendo seus feitiços em
um lugar escondido, atrás da adega de vinhos do senhor Juan. Essa mulher está tentando enfeitiçar
todos aqui, transferindo a sua culpa para nós. Mas posso provar o que eu disse. - disse isso
entregando o diário de minha mãe ao inquisidor.
     Depois de folheá-lo rapidamente, o inquisidor entregou-o ao bispo, que, depois de uma breve
análise, disse:
     _ É irrevogável a questão de que esta mulher seja uma bruxa. É também irrelevante que ela
acuse qualquer membro que esteja presente dentro deste recinto, sendo que ela está tentando
distorcer os fatos para enganar a todos nós. Essa bruxa está tentando usar seus feitiços para nos
manipular. Mediante a tais provas postas em minhas mãos, e mediante tão ilustres testemunhas que
comprovam sua culpa, declaro-a culpada. Passo o caso ao senhor magistrado.
     Sabia que não poderia ter dito nada, mas tinha que arriscar e tentar salvar-me. Depois das
palavras do bispo, não pude dizer mais nada. Fiquei ouvindo a sentença que o magistrado me impôs.
Ele se levantou e começou a sentenciar-me com as seguintes palavras:
     _ Que a mulher comumente chamada de Anna Goldim Señra seja denunciada e declarada
feiticeira, adivinha, pseudoprofeta, invocadora de maus espíritos, conspiradora, supersticiosa,
implicada na prática de magia feita a ela, teimosa quanto à fé católica, cismática quanto ao artigo
Unam Sanctam e em diversos outros artigos de nossa fé, cética e extraviada, sacrílega, idólatra,
apóstata, execrável e maligna, blasfema em relação a Deus e seus santos, escandalosa, sediciosa,
mentirosa e caluniosa.
     Dito isso, o magistrado bateu o malhete sobre a mesa, dizendo:
     _ Levem essa mulher daqui e que fique trancada na prisão até que seja levada para o local onde
será trancada e enclausurada para o resto de seus dias. Ressalto, ainda, que ela deve ser mantida sob
vigilância constante, para que não tente fugir ou usar seus poderes malignos.
     Todos que estavam no tribunal foram se retirando. Fui levada para uma sala até que o recinto
tivesse sido esvaziado. Logo depois, fui levada para a prisão. Atravessamos a praça com um cortejo
de agourentos atrás de nós. Onde passávamos, juntava-se mais e mais gente. Logo depois de
andarmos uns vinte minutos, chegamos à prisão. Era um lugar muito desleixado e sujo. Subimos os
degraus e passamos por várias salas. Por fim, começamos a descer sem parar, até chegarmos a um
lugar cheio de portas trancadas até em cima, uma de frente para a outra. Devia ter umas quinze ao
todo. Andamos uns dez metros. Minha cela era a última do corredor. Dois homens foram precisos
para abrir a porta. Havia uma cama muito suja e de palha, forrada com um tecido encardido e mal
cheiroso. Parecia que tinha manchas de sangue nele. O lugar era sombrio. O único ar que se tinha
vinha de uma fenda de trinta centímetros ou pouco mais. O orifício era revestido por grades. Mal
dava para se ver se era dia ou noite, porque o orifício na parede era pequeno demais para poder
passar a luz do sol. As paredes eram cheias de teias de aranhas. Senti um terrível cheiro de urina por
toda parte. Na verdade, havia vários excrementos humanos, mas não dava para identificá-los por
causa do tempo. O guarda empurrou-me porta adentro e disse:
     _ Seja bem vinda aos seus novos aposentos, rainha das bruxas.
     Em seguida saiu, batendo a porta e dando uma gargalhada que mais parecia ter vindo do além.
Fiquei ali, parada, olhando aquele lugar que não tinha mais que uns dez metros de largura.
     Os dias foram passando como noites. Agarrei-me em orações para tentar ficar forte. O desespero
do claustro é indescritível. A solidão é uma companhia que não desejamos a ninguém. Ela nos faz
ver coisas no escuro e, se não tivermos muito autocontrole, enlouquecemos. Comecei a fazer traços
na parede para não me perder de que dia era. Comecei a falar sozinha, mas os guardas sempre me




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O segredo dos girassóis
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insultavam, perguntando se o diabo estava lá comigo. Eu só tinha a companhia do guarda carcerário
nas duas vezes em que ele me trazia alimento. Às vezes, o guarda da noite jogava em meu rosto a
água que serviria para eu tomar. Ele também, várias vezes, pisou no pedaço de pão duro que me era
oferecido como alimento. Várias vezes, oferecia-me urina ou escarrava dentro da minha caneca com
água. A fome era tamanha que eu comeria a mim mesma.
     Diziam que o inferno era algo abominável, mas quem passou pelas torturas da Inquisição
desejaria ir rapidamente para lá. Diziam, também, que nos finais dos tempos os vivos desejariam
estarem com seus mortos - por causa do fim, que seria duro e cruel. Para mim, ali era o fim do
mundo. Todos os meus pecados já estavam mais que pagos. Não existe inferno ou demônio. Existem,
sim, pessoas com mentes diabólicas, capazes de extrema crueldade e covardia para conseguir seus
objetivos a qualquer preço. Deixamos que a vida passe por nós e esquecemos de observar o quanto
aqueles pequenos detalhes são importantes. Só nos damos conta disso quando temos que enfrentar
uma situação muito difícil. Não damos conta quando passamos por cima dos menos favorecidos. Não
damos conta que um dia vem logo após o outro, com uma noite no meio para nos fazer lembrar.
Nunca pisei em alguém, mas pagava esse preço por causa da ambição de terceiros. Deveria ter
prestado mais atenção aos sinais. Deveria ter fugido com Maria e Joseph. O pecado é capaz de se
aliar à desgraça da maldade. Aprendi muitas coisas: uma era me manter em silêncio; a outra era
nunca brincar com a vaidade masculina, pois um homem sabe mesmo ser cruel nessas horas de
impulsividade. Eram nós, as mulheres, quem os seduziam, que tínhamos mais propensão a ser
induzidas e fascinadas pelo mal. A mulher não podia se cuidar ou ter vaidade; jamais podia sentir
prazer com seu marido - pois ele poderia chicotá-la em praça pública, acusando-a de induzi-lo às
luxúrias da carne.
     Certa manhã, acordei toda suja: estava nos meus dias de mulher. Não soube o que fazer, pois
comecei a sangrar muito. A vergonha tomara conta de meu ser. Como eu poderia dizer àqueles
guardas o que estava se passando comigo? Rasguei um pedaço de minha anágua, tentando compor-
me. Implorei ao guarda do turno da manhã para que me desse uma tina com água, para que eu
pudesse me lavar. Ele fingiu nem ouvir. Sentia-me mal e humilhada. Minhas forças estavam se
esvaindo. A cada dia que passava, ficava mais fraca. Até que Heixe apareceu e aliviou-me um pouco
daquele martírio. Ficou por horas a fio conversando comigo. De vez em quando, o guarda abria a
portinhola e gritava, mandando-me calar a boca.
     _ Cale essa boca, bruxa infeliz! Anda a falar com satã? Se me fizer entrar aí, juro que amordaço
essa boca.
     Heixe, naquele dia, despediu-se de mim com um ar pesaroso. Mas era preciso, pois o guarda
estava a ponto de me espancar.
     Todos os dias, os outros prisioneiros que ficaram sabendo que na última cela tinha uma mulher,
gritavam meu nome e insultavam-me com palavras odiosas. Alguns gritavam meu nome como se eu
fosse uma mundana. Em atitudes suspeitas, gemiam a chamar por mim. Eram homens de caráter
muito duvidoso e que já estavam na prisão por anos a fio, sem sequer ouvir a voz de uma mulher. A
minha presença, mesmo que do outro lado de uma parede e no fim de um corredor, fazia-os ficarem
como animais. Outros haviam passado por tratamentos com médicos e haviam se esquecido de tudo.
Esse tratamento, bastante suspeito, deixava-os como vegetais. Geralmente, esse tipo de tratamento
era aplicado em pessoas que cometiam algum delito contra algum Lord ou até contra a política, ou
também em casos de homens sodomitas.
     Estava rezando para que o convento enviasse o seu emissário para eu sair dali. Os gritos de
agonia vindos do calabouço estavam me deixando completamente louca e desesperada. Alguém
estava sendo torturado incessantemente todos os dias. Meu Deus! Estavam acabando com ele aos
poucos. Tinha que haver alguém para fazer parar o sofrimento daquele pobre homem. Comecei a
esquecer minha agonia e sofrimento. Passei a orar para que aquele ser humano tivesse um fim bem
rápido. Logo depois, escutei quando abriu a porta da cela ao lado e jogaram alguém cela adentro.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

Ouvia os choros e gemidos de dor do pobre. Precisava fazer alguma coisa para acalmá-lo. Então,
comecei a cantar uma velha canção espanhola. De repente, escutei mais dois presos acompanhando-
me. Em seguida, todo o cárcere estava ali comigo, cantando aquela canção que falava de amor e
liberdade. Um guarda passou no corredor exasperando, batendo a baioneta na porta das celas.
     _ Calem-se! Ou levo todos para as masmorras.
     Fizemos um silêncio mortal e o medo tomou conta de todo aquele local macabro. Passaram-se
algumas horas. O homem que estava do outro lado da parede começou a fazer uns barulhos com uma
espécie de objeto cilíndrico. Ele perguntou:
     _ Olá! Como se chama?
     _ Anna. E como se chama?
     Seu sotaque era muito carregado.
     _ Meu nome é Ramon Bernard D’ La Mendonça. Qual crime cometeu a senhorita?
     _ Não cometi crime algum, mas estou sendo acusada de bruxaria, traição e tantas outras coisas
que até me perco. Acusam-me até de devoradora de criancinhas. Mas, se fosse carnívora, creio que
teria me autodevorado, pois ando a morrer de fome. Por isso, enclausuraram-me aqui, até que alguém
venha me buscar para levar-me ao Convento e Mosteiro de San Francisco.
     _ Oh! Compreendo. E com todo o respeito: qual a sua idade?
     _ Vinte. Fiz há poucos dias.
     _ É muito jovem. Não acredito que uma senhorita com tão pouca idade e de tão bom coração
tenha cometido tais barbáries. A senhorita deve ter irritado alguém em demasia. E a pessoa, por
certo, é de muito poder aquisitivo.
     Dizendo isso, deu uma sonora gargalhada. Em seguida, um gemido de dor.
     _ Acho que sim. - baixei a cabeça, lembrando-me do que o conde me disse quando eu saíra do
tribunal.
     _ Não quis aceitar um casamento de conveniências e fui contra as ordens de meu pai. Na
verdade, fui perdida em um dívida de jogo. - respondi a ele, com voz meio trêmula.
     _ Então foi isso? Lamento, senhorita! Seu pai é um homem desonrado. Nunca vi apostar a
própria filha nas cartas.
     _ Ele é uma pessoa doente e está consumido por esse vício maldito. Ele bebe praticamente noite
e dia, sem parar. Enterrou-se até os cabelos em dívidas com esse conde.
     _ Desculpe-me, senhorita! Não estou duvidando de sua palavra. Muito pelo contrário, estou
achando demasiadamente ingênua.
     _ E o que o senhor acha que realmente deve ser?
     _ Não sei, senhorita. Mas o senhor seu pai e o restante devem ter outros bons motivos. A
senhorita nunca desconfiou de nada?
     _ De que eu poderia desconfiar? Ou de quem? Nunca saíra de casa, a não ser acompanhada por
minha governanta. Na verdade, meus dotes foram confiscados. Também não era nenhuma soma tão
exuberante assim. Era o suficiente para me manter depois da maior idade, ou a ser entregue ao meu
futuro marido, caso eu viesse a me casar um dia. Mas não creio que eu valesse tanto a pena. Estranho
o senhor dizer tais coisas...
     _ Estranho é a senhorita estar aqui por tão pouco! Tem certeza de que não comeu nenhuma
criancinha mesmo? - dizendo isso, soltou outra de suas gargalhadas.
     Esbocei um pequeno sorriso.
     _ Ora, o senhor ofende-me desta forma! É tão simpático e como sabe acalmar uma mulher com
palavras tão gentis! - fui sarcástica.
     _ Só estava a caçoar da senhorita para passar o tempo. Perdoe-me. Quem seria o seu futuro
noivo, mal lhe pergunte?
     _ Era para ter sido o senhor filho do duque Celso D’ Louchoa, o conde Albert D’ Louchoa.




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O segredo dos girassóis
                                         Adriana Matheus

     _ Eu deveria ter suspeitado, senhorita. Sinto-lhe dizer que esse homem não vale um doblón
sequer. – riu em alto tom.
     Antes que eu pudesse perguntar-lhe por que estava rindo, ele prosseguiu:
     _ Acha mesmo que esse peste irá deixá-la em paz?
     _ Creio que sim, pois agora estou aqui, presa, e ele esta lá fora.
     _ Presa porque tem o dedo desse peste no meio. Com certeza, ele irá atrás da senhorita, no
convento. Ele nunca a deixará em paz, acredite. Sempre terá olhos dele em toda parte. Ele é o espião
do rei, senhorita. Mercenário, trambiqueiro, entre outras coisas mais. Seu pai deve ter falado da
senhorita enquanto jogava. Como disse que ele bebe, o conde por certo trapaceou no jogo para
ganhar a aposta. Agora as coisas estão se encaixando. O que mais a senhorita sabe?
     _ Não sei mais nada; juro.
     _ Antes de vir para as masmorras, ouvi comentários de que esse conde está aqui para investigar
o convento para o qual está sendo enviada.
     _ E por quê?
     _ Suspeitam que os cavaleiros da ordem andem se escondendo por lá, à noite.
     _ Sério? E por que andam a perseguir os cavaleiros da ordem?
     _ Por que dizem que enriqueceram muito e não estão dando a parte da Santa Sé como havia sido
combinado.
     _ E o senhor, por que está aqui?
     _ Porque sou escritor e escrevo sobre a verdade encoberta por trás dessa podridão monárquica. A
burguesia fede, senhorita.
     Depois de dar uma risadinha zombeteira, ele prosseguiu:
     _ Andei publicando uns exemplares sobre os monarcas. Acho que não agradei muito.
     _ Imagino...
     _ Estou aqui, agora, às suas ordens! Um anarquista e visionário, e um amigo ateu. Mas um
amigo fiel, devo ressaltar.
     _ É um enorme prazer, Ramon.
     Os dias ao lado do meu novo amigo foram bastante agradáveis. Ramon era um homem muito
inteligente e aprendi muito com ele. Embora a maior parte do dia ele passasse sob tortura, sempre
conseguia falar alguma coisa útil. Houve dias em que, de tanto ser espancado, ficou desmaiado por
horas a fio. Ele era um homem de cinquenta e poucos anos, mas de uma força fora do comum.
Admirava-o, mesmo sem nunca tê-lo conhecido cara a cara em vida.
     Finalmente o dia chegou. As portas do meu cárcere abriram-se. Dei um pulo da cama. A
primeira pessoa que vi foi o chefe da guarda, que logo veio pôr-me algemas, seguido dos guardas e
de uma freira com uma cara nada agradável. Ela entrou
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  • 1.
    O Segredo dosGirassóis O diário de Anna Goldin Adriana Matheus
  • 2.
    O Segredo DosGirassóis O Dário de Anna Goldin Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive através de processos xerográficos, sem permissão expressa da autora. (Lei nº 5.988 14/12/73). Adriana Matheus amatheus07@hotmail.com 2ª Edição 2012 CIP. Brasil. Catalogação na Publicação. M427s - Matheus, Adriana, 1970. O Segredo dos Girassóis / Adriana Matheus - Juiz de Fora - MG. 410 p. : il. ISBN: 978-85-7878-028-9 Ficção brasileira. 2. Romance espírita I.Título. Projeto Gráfico e Impressão: Clube de Autores e Agbook Edição de capa: Ruy Alhadas www.alhadasdesign.com Diagramação: Adriana Matheus Revisão ortográfica: Texto Legal http://textolegal.weebly.com 2
  • 3.
    Segredo dos Girassóis O Diário de Anna Goldin Adriana Matheus Pelo Espírito do Padre Ângelo Wallejo Moralles “O amor é infinito e solene e quando é verdadeiro atravessa as barreiras do impossível, para que sempre possamos estar juntos.” (Padre Ângelo Wallejo Moralles). Agradecimentos Especiais Ao senhor Wanderley Luiz de Oliveira, presidente da Associação de Cultura Luso-Brasileira/ JF - MG, por todo o incentivo dado a esta obra. Ao Senhor Roberto Dilly, diretor do Museu do Crédito Real/JF - MG, que tão generosamente cedeu o salão para o lançamento desta obra. À Drª. Maria Auxiliadora Assis, que é uma das maiores colaboradoras desta obra e, também, patrocinadora. Às amigas Átria Maria Alves e Dulcinéia de Assis Teixeira, cujo apoio e participação foram indispensáveis para que esta obra fosse publicada. A Stéphanie Lyanie e à equipe da Texto Legal. Sem essa equipe fantástica e incrível, esta obra não estaria tão lindamente corrigida. Ofereço esta obra à Academia de Letras da Manchester Mineira/Juiz de Fora - MG, por tanto homenagear os pequenos e grandes autores de nossa cidade – valorizando, assim, a nossa cultura literária. Adriana Matheus À autora 3
  • 4.
    NOTA DA AUTORA Nesta incrível história de ficção, a autora convida o leitor a viajar através do tempo astral em uma fantástica aventura, cheia de suspense, bom humor e sedução. Sua principal personagem, Anna Goldin, vai mostrar ao leitor que, mesmo no meio dos horrores da Inquisição, ela ainda conseguiu sonhar e ser determinada em seus ideais de liberdade e igualdade, conseguindo manter, também, a dignidade, e honrando o valor de uma verdadeira amizade. Mas o que poderiam ter em comum três pessoas tão diferentes? Uma bruxa, um monge e um jovem conde, unidos pelo destino nessa fantástica trama de ódio, amor e intrigas. É isso que o leitor terá que desvendar. E, por isso, Anna Goldin está convidando-os a participar desta incrível história! Sejam bem-vindos! Como percebi que teria que escrever esta obra? Na verdade, depois de um acidente, sonhei com toda essa incrível história durante uma semana, consecutivamente. Cheguei a comentar com algumas pessoas, que me disseram não passar de meros sonhos. Confesso que procurei respostas em muitos lugares. Mas esqueci de um lugar muito simples e particular: dentro de mim. Pois é lá que está a resposta para todas as perguntas frequentes em nossas vidas. Muitas vezes, somos teimosos e medrosos demais para ouvir aquela voz que está sempre nos mostrando o caminho. Temos medo do que parece ser imaginário ou sobrenatural, mas não temos medo de correr o risco de conhecer um desconhecido real da internet. Os espíritos não podem nos fazer mal algum. Influenciam-nos somente se abrirmos caminho para isso. O poder está todo em nossa mente, na nossa caixinha de segredos, no nosso computador portátil e inigualável - o cérebro. Como descobri que era médium? Na verdade, como todas as pessoas, sempre fui. Só não aceitava aquela voz dentro de mim. Como tomei conhecimento da existência do Padre Ângelo Wallejo Moralles? Oito meses depois do acidente e já bem melhor, um belo dia eu estava sentada na frente da creche onde costumava deixar meus filhos. O mais novo deles estava em adaptação. Por esse motivo, tinha que ficar até mais tarde presente neste local. Sentei-me em um banquinho, do lado de fora. Como não havia nada para fazer, peguei um bloco de notas e um lápis que sempre trazia comigo. Comecei a rabiscar para ver se conseguia desenhar o rosto que frequentemente aparecia- me em sonhos. Mas, para minha surpresa, comecei a perder os sentidos, como uma tonteira irregular. De repente, minha mão começou a escrever sozinha. A princípio, tremi - confesso. Mas, depois, fui dando asas àquele fenômeno. Quando parei para ler, eram quase duas páginas de mensagens. Detalhe importante: aquela letra não era minha. Fiquei tão fascinada com aquilo que comentei erroneamente com várias pessoas, que saíram achando-me uma doidivanas. Hoje, muitas destas pessoas já receberam mensagens de seus entes falecidos, psicografadas por mim. Graças a Deus, aprendi a lidar com meu dom com a sabedoria do silêncio. Ganhei credibilidade e respeito. Descobri minha missão. Sempre que tenho tempo, dedico à caridade espiritual. Mas ainda sou aprendiz. Quem foi e quem é Anna Shaara para mim? Anna foi uma grande mulher que não se rendeu às normas e às vontades dos homens. Na verdade, Anna Shaara sou eu, é você que está lendo esta obra por mera curiosidade. A Anna são todas as mulheres que lutaram, que lutam e sempre lutarão por um sonho de igualdade; mas - acima de tudo - que têm um dom e o usam para o bem. Ela é aquela mulher que faz de tudo para ver seu homem, seu amor feliz. É a mulher sábia que, ao invés de brigar, cala-se e espera o momento certo de falar e agir. A Anna é a voz dentro de cada uma de nós. Ela é o momento, a oportunidade que temos de nos redimir dos erros e das falhas do passado. Quando Anna Shaara voltou em minha vida? 4
  • 5.
    Foi através deuma viagem astral (também chamada de auto-hipnose), onde mostrou toda a sua sabedoria. Tive certeza de que estava na hora de contar ao mundo minhas experiências com os espíritos. Espero que esta obra seja de grande valia para todos vocês que, mesmo por curiosidade, começaram a lê-la. Mais uma vez, deixo minha eterna gratidão. “Se o homem trabalha em prol da caridade, ele deve tentar entender a verdade, mesmo que a mesma não seja mostrada pelos olhos do aparelho. Se ele trabalha em prol de si mesmo, continuará confuso e no escuro constante de seus pensamentos atordoados. Felizes aqueles cuja compreensão de reconhecer os seus próprios erros torna-os sábios. E essa virtude faz com que eles ajudem o seu próximo em caridade e abstinência, sem interrogações ou especulações. Pois o maior dom divino está em ouvir e servir com humildade e perseverança”. Muita paz e muita luz. (Padre Ângelo Wallejo Moralles - 1795 a 1838). 5
  • 6.
    Sumário Capitulo I -O diário de Anna.........................................................................................9 Capitulo II - A iniciação................................................................................................35 Capitulo III - O Livro das Sombras.............................................................................73 Capitulo IV - O Segredo de Elizabeth........................................................................144 Capitulo V - A Despedida............................................................................................196 CapituloVI - O Mosteiro..............................................................................................224 Capitulo VII - O Segredo dos Girassóis......................................................................252 6
  • 7.
    Pelo espírito dopadre: Ângelo Wallejo Moralles Prólogo Estou com vinte e seis anos e vejo que minha vida acabou-se. Vivi nesta curta jornada terrena tudo o que uma pessoa com seus sessenta anos viveu ao longo de sua existência. Mas é claro que, em questão de sofrimentos, fui uma expert. Envelheci muito em três anos aqui, enclausurada neste calabouço frio e escuro, onde fico relembrando os fatos e as situações vividas desde a minha mais tenra infância. Outro dia, pude ver meu reflexo em uma poça d’água que se acumulou no chão, causada pelas diversas goteiras que caem do teto. Quase não me reconheci. A maioria dos meus dentes caiu. Estou tão maltrapilha e suja! Eles quase conseguiram sujar, também, minha alma. Mas consegui separá-la do meu corpo, para que não fosse maculada pela perversidade humana. Sinto tanto frio; estou tão cansada e enfraquecida! As dores, antes insuportáveis, agora já parecem mais brandas. Já quase não sinto mais a minha perna. A corrente presa à minha coxa esquerda já tinha parado a circulação, e a sensibilidade já não era mais a mesma. Estou presa a este objeto há um ano ou mais. Não me lembro exatamente de quanto tempo estou aqui. A princípio, para evitar a loucura e a perda de memória, fiz tracinhos nas paredes. Mas, com o tempo, fui me esquecendo até de me levantar para comer o pão e a água que me trazem. Temo não conseguir colocar neste diário tudo o que me ocorreu durante toda a minha existência. Tenho a esperança de um dia alguém me achar ou se lembrar de mim. Caso isso não venha a ocorrer, sei que minha amiga Juanita encontrará um meio deste diário chegar até às mãos de Maria. Quero que meus irmãos de alma saibam o que passei por amar e por não negar minhas origens. Os horrores e as injustiças que aconteceram em minha vida, envolvendo seres considerados acima do bem e do mal, deixo aqui registrados. Não aumentei e nem inventei absolutamente nada. Algumas pessoas que se diziam com o poder de direcionar o destino de outras, só pelo simples fato de terem nas mãos um documento chamado Bula Papal, tornaram a minha vida e a de outras mulheres a mais miserável possível. Pessoas que se julgavam Deus ou mensageiros Dele. Seres humanos como eu, mas que pareciam viver em um mundo mental paralelo ao nosso. Parecia que, ao olharem uma mulher, viam nela outra forma de vida aparente. Suas formas de manipular a população eram tão convictas que causavam cegueira e histeria em massa – e, logo, uma espécie de aliança cega entre a população e os inquisidores. Na verdade, a voz do povo não era a voz de Deus, mas sim a voz do inquisidor. Minha história é muito complexa . Se algum dia esse diário for encontrado e lido por outras pessoas, elas poderão ficar atordoadas e confusas com os relatos registrados aqui. Mas que fique bem claro que este é o meu diário. O diário da minha vida terrena, onde conto a minha trajetória como mortal, mulher, bruxa e como um ser humano esquecido pelo mundo contraditório. Nesta história de vida passada, faço aqui duas regressões e mostro o lado obscuro real da Inquisição. Conto como o preconceito contra as mulheres era superior ao sentimento maior: o amor verdadeiro. A religiosidade era usada para encobrir o lado negro dos sacerdotes. O dinheiro comprava e vendia tudo, até a alma humana. Os sacerdotes e seus monarcas seguidores fanáticos tinham uma única vontade: manter as mulheres submissas e a população humilde e sem cultura sob os seus pés. Mas, na verdade, os monarcas também eram marionetes destes discípulos do diabo. Pessoas que se mascaravam com uma bondade hipócrita, para não mostrarem a verdadeira face escondida debaixo de peles de cordeiros.
  • 8.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Espero, em nome de Deus, que a humanidade um dia possa evoluir para o seu próprio bem. E que estas almas, ao encarnarem, também possam redimir-se destes pecados que cometeram contra a humanidade. Vivi em um tempo muito desequilibrado e hostil, em que mesmo os que tinham certo estudo viviam na ignorância e no flagelo espiritual. As pessoas não tinham o direito de ir e vir. As palavras, nem em pensamentos poderiam permanecer. Se eu pudesse, aconselharia todos a refletirem sobre seus atos e as consequências que podem advir deles. Amem como se hoje fosse a primeira vez. Esqueçam o passado, deixem as mágoas e quem os magoou para trás. Porque a única coisa que realmente importa é o amor e o perdão. Espero, minha querida Maria, que encontre este diário e que esta história da qual fez parte seja contada para todos os nossos irmãos e irmãs, de geração em geração. Tenho certeza de que não passei por todas estas coisas em vão. Aprendi muito com a senhora. Sua sabedoria, bondade e benevolência foram minha fonte de inspiração para eu estar aqui, hoje, lutando em registrar estas palavras. Lembra-se, Maria, de quando mais atrás me ensinou a agradecer a Deus por todos os segundos de nossas vidas, mesmo que eles fossem os últimos? Agradeço, sim, a Ele, mas nunca me esqueço da senhora. Minhas orações são para você, bem como meu amor e gratidão, minha amiga, minha mãe. Sim, pois a senhora foi a única mãe que conheci. Embora minha vida tenha sido tão curta, pude refletir e compreender que nunca devemos parar de lutar pelo que sonhamos e acreditamos. Sempre lutei e nunca temi ou me arrependo de ter chegado às últimas consequências. Nunca desisti do meu único e verdadeiro amor, embora ele tenha me traído e me abandonado. Nunca desejei mal a ele, mesmo sabendo que pode estar nos braços de outra mulher. Não odeio nem mesmo meus algozes, pois fazem parte da construção da minha história. Aceitei o dom da mediunidade graças à senhora, Maria, pois aprendi a ser responsável e mais humana. Sei que são curtos os meus dias aqui, minha cara amiga. Mas morro com dignidade e orgulho em saber que me assumo como sou: uma bruxa. A senhora ensinou-me que a responsabilidade de um médium dobra quando ele ensina alguma coisa a outra pessoa. Espero estar sendo coerente com as palavras aqui. Pois, assim como fui sua discípula, terei discípulos que ouvirão minha história e far-me-ão de exemplo. Sei desta responsabilidade e não quero ser uma lenda e nem um exemplo, pois também falhei. Apenas quero contar como tudo aconteceu comigo. Achei que, por amor, poderia superar os sofrimentos que me seriam impostos. Mas, agora, tenho certeza de que não sabia o quanto o ser humano pode ser cruel em arquitetar uma forma de torturar o outro. A maldade do ser humano é infinita e sem igual. Seguindo com a minha história... 8
  • 9.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus I - O Diário de Anna A madrugada estava cinza, como o meu coração... Senti o vento frio entrar pela janela, beijando meu rosto suavemente, como se fosse um cumprimento casual e afetuoso. Estávamos perto do término do outono. As folhas das árvores caíam como plumas ao chão! E meus sonhos também. Sentia-me muito só. Algo em meu coração estava tentando falar, num silêncio descompassado. Naquela época, eu via beleza em tudo ao meu redor. Mesmo nas horas de tristeza, conseguia ver coisas boas. Mas alguma coisa parecia estar errada. Minhas noites sem dormir eram agonizantes. Eu tinha um choro preso na garganta e, às vezes, sentia raiva de nada aparente. Não sabia explicar o que era e, depois de andar quase a noite toda pelo quarto, fui à janela observar a rua e senti o vento úmido, que bateu em meu rosto, ainda molhado pelas lágrimas. Os poucos transeuntes que se atreviam a andar pelas ruas pareciam estar congelados e enroscavam-se em seus casacos de lã, como caracóis em uma conchinha. Um redemoinho juntava as folhas caídas ao chão, fazendo-as bailar sobre a calçada, como em uma brincadeira de ciranda. À medida que a neblina subia, mostrava ao longe o espetáculo e a beleza escondida por trás daquela cortina acinzentada, criada pelo crepúsculo misterioso da floresta negra. Sentia-me uma privilegiada por morar no fim daquela ruazinha de pedras calcárias, muito polida pelo tempo. Eu tinha não só a magia das montanhas ao longe, mas o cenário mais perfeito de todo o mundo! O lugar onde morávamos, para mim, não tinha preço. Podia ser o mais simples e o mais isolado, mas, com certeza, era o melhor lugar deste mundo, simplesmente por ser o nosso habitat. O cenário era mesmo incrível! Eu jamais me cansaria de admirá-lo. Da janela do meu quarto, podia ver, desde a esquina, a outra extremidade da rua sem saída. Havia uma pequena trilha de terra, que dava para um misterioso bosque Mal Assombrado, como diziam os viajantes que por ali passavam - também citado nas cantigas das escravas como Floresta negra, ou ainda chamado de Bosque dos Mortos pelos supersticiosos do vilarejo. Muitas lendas foram criadas em torno desse bosque. Na verdade, não sei se poderiam chamar essas histórias de lendas, pois em certo ponto do bosque não havia nenhum tipo de vegetação ou vida aparente. Sua terra era seca, e isso se ocasionou depois que os moradores mais antigos queimaram uma jovem amarrada a uma árvore, petrificada, acusando-a de bruxaria. Eu nunca havia tido a coragem de ir até lá por medo do que ouvia, mas ficava observando seu estranho silêncio da minha janela nas noites de solidão. Nunca vi ou ouvi uma ave gorjear por lá. Ouvira dizer que nenhum ser vivente ou em seu juízo perfeito atrever-se-ia a colocar seus pés naquele local obscuro e sinistro. Eu, nas muitas vezes em que perdia o sono durante a noite, jurava ter ouvido gemidos e clamores vindos daquele bosque. Sombras pareciam sair do bosque, ou era apenas a minha mente que as imaginava? Sempre preferi acreditar que fosse a minha imaginação, e nunca mencionei isso nem mesmo para minha amada Maria. À frente de minha casa, logo na esquina, antes de subir a pequena trilha, ficava a mansão dos Sorancos Del Castilho, gente sisuda, aparentemente orgulhosa e pouco amistosa. Eles eram judeus convertidos ao cristianismo. Só os víamos nas missas aos domingos e, mesmo assim, sentavam-se longe de todos. Eram pessoas que pouco se viam transitar pelas ruas. A senhora Del Castilho e suas filhas vestiam-se mais discretas do que o normal, sempre com roupas austeras e escuras. Não eram nada sociáveis. Não iam a festas, não convidavam e sempre era possível vê-los observando as pessoas de soslaio. Eram reservados e isolados. Eu mesma tive a impressão de ter visto um ou outro me observando pelas costas. Mas, quando me virava, tentando achar o que estava me incomodando, não via nada. Eles pareciam fantasmas: apareciam onde menos esperávamos, e sumiam da mesma forma. Gentinha realmente estranha... 9
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Diziam que eles eram muito ricos, e que seus dízimos superavam as expectativas paroquiais. O Senhor Del Castilho parecia um lorde, com suas botinas e suas abotoaduras de brilhante. Em questão de status, essa família, por certo, era a mais rica do condado. O restante da vizinhança morava a muitos metros à frente. Por isso, sentia-me muito tranquila em relação à paz e ao sossego. Por parte de meus pais, meus avós foram os pioneiros daquele vilarejo. Eles fizeram muitas benfeitorias, como o belo caminho feito de cerejeiras, que foram exclusivamente trazidas da Inglaterra para enfeitar as laterais daquela larga ruazinha - o que dava, além de graça e beleza, certo mistério ao trajeto. Era incrível o enorme tapete de flores que se estendia para passarmos no outono. O vilarejo ainda era pequeno e mais parecia um labirinto, porque todas as ruas se cruzavam. Todos se conheciam, mas poucos eram amigos, e os mais jovens de certos recursos financeiros eram enviados à Europa para estudarem e, na maioria das vezes, não retornavam à casa paterna. A vida no campo não lhes convinha mais. Mas, por certo, Salamanca cresceria muito com os tempos que viriam. Se chegasse qualquer estranho ao vilarejo, em questão de pouco tempo todos os moradores ficavam sabendo da novidade. Era engraçada a maneira como os habitantes daquele pequeno vilarejo comportavam-se. Tão primitivos! Naquele tempo, eu já não era vista com muito bons olhos. Mas era por motivos corriqueiros e questionáveis, pois as pessoas achavam-me esnobe. Mas eu não o era. Pelo contrário, era uma jovem medrosa e muito tímida, esquivava-me das pessoas por não saber como me comportar no meio delas. E também tinha o fato de que a minha madrasta nunca me deixara participar das reuniões do nosso conselho. Muitas das jovens de minha idade não podiam opinar, mas sempre estavam presentes a tal evento, pois era uma maneira de se socializar e, claro, de arrumar um pretendente. Quando raramente eu podia sair, era sempre na companhia da minha ama Alicia ou de minha amada Maria, governanta da casa. Assim seguiram-se meus dias, sem nenhuma emoção ou aventura - o que era um tédio, pois meu espírito gritava por aventuras e coisas diversas, que nunca pude realizar na minha curta existência. Lembro-me, ainda, de minha casa: era bem grande. Mas não era uma casa acolhedora, porque faltava paz e harmonia. Fiz uma rápida e breve descrição dos detalhes. Na verdade, o que eu mais gostava não estava lá dentro. Nunca fui muito detalhista. Algumas coisas deixei passar em vão, não por falta de percepção, mas porque esta realmente não era a casa dos meus sonhos. Quando somos crianças, tudo é bom, tudo são flores. Encontramos divertimento até no meio das lágrimas, e luz no meio das trevas. Fazemos refúgio no silêncio, e nossos corações não guardam rancor. Vivi até metade de meus dezenove anos a triste e turbulenta história que me trouxe a este terrível lugar. E no meio do ódio, da inveja e da ambição, consegui criar para mim um mundo imaginário. No meio de coisas velhas e usadas, vivia minha vida de fantasias. Cresci amargurada, medrosa, tímida e isolada do mundo. Sem dúvida, minhas roupas eram caras. Não porque zelavam por mim, mas porque eu não podia aparecer maltrapilha perante as pessoas da sociedade. E também isso mostraria a real situação financeira da minha família: apesar da ostentação, a falta de recursos financeiros era escondida a todo custo. A maioria dos vestidos nunca usei, mas minha madrasta fazia questão de gastar mesmo assim. Por não ter nenhum amigo com quem pudesse falar, eu ficava a maior parte do tempo no sótão, na cozinha ou com os criados. Aprendi a fazer muitas coisas domésticas apenas observando, pois os escravos e criados não me deixavam tocar em nada: tinham medo de uma represália. Eu era a sinhazinha, um enfeite de porcelana e sem nenhuma utilidade. Eu não gostaria que tivesse sido assim, mas as circunstâncias e a própria época em que vivi ajudaram muito para isso. Enfrentei o mundo por amor. Enfrentei os homens e a Igreja para mostrar que também nós, mulheres, temos o direito à igualdade, a ir e vir. E que somos livres em expressão de religião, vontade e igualdade. Enfrentei o ódio nos olhos, no coração e nas atitudes de muitas mulheres por quem lutei. Mas eu as entendia. Na verdade, bem no íntimo, todas aquelas mulheres gostariam de 10
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus estar no meu lugar - não na dor, é claro, mas em coragem e determinação! Coragem de nunca se negar e de falar o que pensava. E determinação de lutar pelos ideais e também por um lugar ao sol, entre homens preconceituosos e ditadores. Não me arrependo do que fiz, mas do que nunca pude fazer. Minhas irmãs de almas sofreram muito mais do que eu, no cativeiro de uma masmorra fria e sombria. Pois viveram a vida toda sob o jugo dos homens, que muitas vezes eram seus amados. Embora a maioria delas tivesse escravos, elas eram escravas do silêncio e da submissão. Ser uma bruxa não foi e jamais será fácil. Eu vivia em um mundo de falsidades, onde o luxo e o dinheiro encobriam qualquer falha humana. Minha casa era muito grande, com muitas passagens secretas. Algumas descobri a duras penas, para me esconder de minha madrasta. Os corredores eram enormes e, ao sairmos do meu quarto, passávamos pelos aposentos do casal e por mais oito outros, ainda vazios, que às vezes eram usados pelos hóspedes. Seguindo pelo corredor largo, com uma passadeira cor de carne e desenhos geométricos, chegávamos ao antigo quarto de minha mãe, cuja porta nunca era aberta. Os motivos eram desconhecidos e alheios para mim, até então. Eu sempre sentia certo arrepio naquele corredor, pois era de pouca iluminação e dava-me a impressão de ter uma pessoa atrás de mim. Aliás, toda a casa me dava certo arrepio. Por fim, chegava a uma escadaria, que era meio em caracol, toda de mármore branco, com corrimão de madeira muito encerada. Eu adorava escorregar no corrimão quando não tinha ninguém por perto. À direita, ao final do corredor, era o sótão onde guardavam quinquilharias - meus tesouros. Na verdade, toda a memória da minha família estava lá em cima. As escadinhas eram estreitas e de madeira; o sótão mais parecia uma velha torre onde me refugiava da bruxa má. Meu esconderijo antissurras, pois, quando minha madrasta se desentendia com meu pai, era em mim que descontava seu ódio. Como se eu tivesse alguma coisa a ver com desentendimentos entre eles... Os dois pareciam cão e gato, não conseguiam ficar perto um do outro por meros segundos sem se engalfinhar. Minha madrasta era muito exigente e só queria saber de gastar. Eu tinha mania de ficar no topo da escadaria, encostada no beiral, olhando o andar de baixo e escutando as conversas e discussões de meu pai. Chegava a ficar tonta, pois os ladrilhos do hall de entrada davam a impressão de vermos um enorme tabuleiro de xadrez, já que o piso era quadrangular em tons de preto e branco. À esquerda, seguia-se para o escritório de meu pai, que era quase como uma passagem secreta, por ficar embaixo da escada. No fim da escada, à direita, existia um grande salão de bailes, onde tínhamos a mais bela varanda, toda em mármore branco. No salão, existiam enormes pilares, dando certo ar de templo romano. Por ser tudo muito branco, quando criança eu pensava ser o céu. Sentia-me uma fada e rodopiava, abrindo os braços. À esquerda, ainda no final da escadaria, seguia-se para a cozinha, por um enorme corredor de tábua corrida. Minúsculos quadros familiares foram pendurados em suas laterais. Eu o chamava de corredor dos espíritos. Ao chegarmos à enorme cozinha, tínhamos um gigantesco fogão de lenha, onde Tereza criava as mais deliciosas receitas junto à escrava Joana, sua auxiliar. Havia uma grande e pesada mesa de carvalho, no centro. Panelas de bronze, muito areadas, foram penduradas por toda parte. Eu ficava ali, em pé, ao lado das cozinheiras, observando aquela fantástica e misteriosa forma de alquimia. Era o meu segundo local preferido. O simples mexer de Joana com a colher de pau nos grandes caldeirões fascinava-me. A magia simples da mistura dos temperos me fascinava! Nascia em mim o desejo de ter o meu próprio caldeirão. Por várias vezes, brincando de cozinhar, juntei algumas ervas e coloquei-as dentro de uma caneca de água quente, dando à pequena escrava Inaynmin, filha de Joana, aquele chá com a minha mistura de ervas. Dizia a ela que os anjos lhe dariam bons sonhos. O estranho é que a menina dizia dormir muito bem toda vez que tomava meus chás. 11
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus A cozinha também era, para mim, um refúgio onde me escondia da minha madrasta. Pois ela me perseguia por toda a casa, não importando onde eu estivesse. Mas na cozinha ela não entrava, porque achava indigno do seu status de senhora. O sótão já estava ficando vulnerável, e a história que Maria contava sobre lá ser mal assombrado já não estava surtindo muito efeito - o que passou as ser perigoso para mim, pois minha madrasta já não cria mais nos tais fantasmas. Então, tive de me refugiar nos corredores, dentro das paredes entre um quadro e outro, como um animalzinho assustado. Algumas dessas passagens davam nos fundos da cozinha, onde eu aparecia inesperadamente no meio das cozinheiras que, na maioria das vezes, levavam um grande susto. Tereza colocou-me a alcunha de pequena sombra, pois às vezes, quando ela olhava para trás, lá estava eu como num passe de mágica. Tínhamos, ao lado de fora, um enorme pátio com uma fonte d’água e um poço. Da escada dos fundos da cozinha, que dava para esse pátio, podíamos ver várias montanhas ao fundo. Sem sombras de dúvida, não existia nada mais lindo do que a visão daquelas montanhas! O cenário era tão incrível e mágico! A impressão que eu tinha, ao ver o sol despontando no horizonte, era que ele as fazia mudar de cor, para um verde quase azulado. Sentia-me especial por estar fazendo parte da obra de um Grande Mestre. Nenhum pincel pintaria nada tão perfeito! Eu não gostava da minha casa, mas amava o lugar onde vivia. Essas lembranças de infância vieram à tona saudosamente. E especialmente naquele dia - vinte e um de julho de 1819 - acordei muito cedo: exatamente às duas da madrugada. O galo mal tinha cantado e lá estava eu de pé. Tudo o que eu tinha aprendido até aquele momento foi com os livros. Em minha solidão, eu lia muito - o que me foi de grande valia em meu aprendizado. Muitos desses livros foram encontrados no sótão, junto aos pertences de minha falecida mãe. Andei de um lado para o outro do quarto, como uma galinha que havia perdido seus pintinhos. Algo me estava incomodando em demasia. Minhas mãos suavam e meus sentidos estavam aguçados. Por causa dos sonhos confusos e pesadelos - que eram constantes - eu via sombras nas paredes e vultos ao meu lado, constantemente. Parecia haver pessoas perto de mim, vozes falavam ao meu ouvido diariamente. Por não ter nenhum conhecimento, sentia medo. Não sabia o que eram e o que queriam comigo. Eu tampava os ouvidos com as mãos, na tentativa de não as escutar. Outras vezes, eu respondia e conversava com elas. Às vezes eu as remedava, e tais gestos faziam minha madrasta pensar que eu era insubordinada. Apanhei muito por causa das vozes. E elas pareciam ficar cada vez mais irritadas com a proximidade da minha madrasta. Erroneamente, eu achava que eram fantasmas. Mas o pior de tudo isso é que eu não podia contar a ninguém, porque as pessoas considerar-me-iam insana. Ou me entregariam nas mãos de um exorcista - o que anteciparia o meu destino. Especialmente naquela madrugada, elas estavam muito mais agitadas do que de costume. Antes, elas eram assustadoras e davam a impressão de estarem muito aflitas. Ora cantavam em línguas estranhas, ora falavam todas juntas. Isso me confundia. Deixei aquelas aflitas lembranças para trás um pouco e voltei à janela. Fiquei horas observando a montanha e sua neblina misteriosa Queria esquecer aquelas almas que desesperadamente me chamavam. Senti-me um pouco egoísta, mas precisava me distanciar antes que elas voltassem a querer falar comigo. Pois cada vez que eu pensava nelas, parecia estar atraindo-as para junto de mim. Além de toda aquela confusão com as vozes, havia também os maus presságios, que estavam acarretando o meu espírito e, como nuvens, confundiam também os meus sentidos. Eu achava que era devido à ausência de meu pai, e também pela falta de noticias dele. Mas era uma mistura de saudade, solidão e devaneios, em uma mente jovem e atordoada por uma mediunidade ainda não trabalhada. Algo estava para acontecer. Algo que mudaria a minha vida para sempre. Lembrei-me de Maria, que dizia que eu havia nascido com dons especiais. E que, ao completar meus vinte e um anos, as 12
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus coisas ficariam melhores. Bom, eu faria vinte no ano seguinte e tinha a esperança de que as coisas pudessem melhorar a partir dali. E que meus dons, ao aflorarem, trouxessem-me um pouco mais de paz. Na verdade, não sabia se eu poderia chamar aquelas tormentas de dons. Só sabia que elas eram espirituais. O meu medo de vê-los era tão grande que, de alguma forma, trazia-os para bem perto de mim. Às vezes pensava serem coisas da minha mente. Mas, com o decorrer do tempo, meus sentidos foram aguçando ainda mais; passei a ter estranhas visões de fatos que ainda não tinham acontecido. Na maioria, eram sonhos que mais pareciam pesadelos. Tudo era uma incógnita para mim. Maria chamava essas coisas de premonições. Eu via a vida das pessoas e, se alguém mentisse, sabia que estava mentindo. Não sabia o porquê de estar acontecendo comigo. Eu era totalmente leiga nos assuntos da magia. E isso era algo agonizante, pois me deixava irrequieta e depressiva. Mas o certo é que minha vidinha monótona, sem graça e atordoada estava para mudar da água para o vinho. E isso aconteceu muito rápido. Quando meu corpo se arrepiava e me dava calafrios, era a forma de os meus sentidos de bruxa me avisarem que algo ruim estava para acontecer. Mas, por não ter noção, a depressão passou a tomar conta de mim. Chorava por qualquer coisa e sem motivos aparentes. Algo estava errado comigo. E ninguém sabia como agir: eu precisava de ajuda, mas o socorro não vinha! Muitas vezes ansiava por ver o mensageiro, que nunca chegava dando notícias de meu pai. Era mais uma fuga para escapar da depressão. Estava ficando louca. Meus pensamentos mudavam de direção, como o vento de lugar. Onde estaria o mensageiro? Precisava vê-lo. Na verdade, ele só passaria às sete e trinta, seu horário normal. De quinze em quinze dias, sempre nos trazia uma carta de meu pai, mas eu já não estava aguentando de tanta ansiedade. Fazia um mês sem notícias; meu coração estava apertado. Não havia conhecido minha mãe. Meu pai, no entanto, era tudo o que eu tinha naquele momento. Minha madrasta era perversa e fingia ter um falso afeto por mim. Nunca me pegara ao colo ou fizera um afago em meus cabelos quando eu ainda era criança. Pelo contrário, humilhava-me com palavras hostis e sempre me batia por qualquer motivo. Suas ameaças de me colocar em um convento eram constantes. Era impressionante a falsidade e o fingimento daquela mulher. Na frente de meu pai, sempre me tratava com sorrisinhos forçados e uma delicadeza inexistente. Aliás, tudo nela era demasiadamente falso. Lembro-me de certa vez, depois de ter apanhado muito e ter ficado com o corpo coberto por hematomas, ter sido trancada dentro do guardarroupa um dia inteiro. Gritei, quase desfaleci, mas ela não deixou ninguém me tirar de lá. Fiquei em estado catatônico. Maria, naquele dia, ficou do lado de fora da porta, cantando para mim, tentando mostrar que eu não estava sozinha. Jamais me atrevi a contar para meu pai, pois Maria dizia que ele não podia ter aborrecimentos, devido à saúde instável. Ele estava com sérios problemas de coração e bebia muito. A crueldade de minha madrasta não estava só na forma como ela me tratava. Também era cruel com os criados e escravos. Ela deixou um escravo, de nome Sandoval, sem comer por dias. E o mesmo já havia feito comigo. Só que, por ser criança, adoeci e fiquei de cama. Maria convenceu meu pai a chamar o doutor, e ambos quiseram saber por que eu estava tão debilitada. Minha madrasta entrou no meio da conversa, dizendo-lhes que eu estava muito angustiada devido às constantes ausências de meu pai, e que eu havia perdido o apetite de tanta tristeza. Ela sempre encontrava um meio de se livrar de sua culpa. Ela tinha certo requinte de crueldade e fazia meu pai sentir-se péssimo. Ele, naquele dia, bebeu até cair em um canto da casa. Eu e Maria o achamos e o colocamos para dormir em um sofá. Maria não tinha medo dela, mas sabia que, se contasse, ela se vingaria em mim. Eu estava completamente indefesa e nas mãos daquela famigerada. Sua beleza e falsidade seduziram meu pobre pai, que estava carente e solitário, com uma pequena menina recém-nascida nos braços. Não que Maria não estivesse dando conta do recado. Mas as cobranças entre os amigos e o preconceito da sociedade, por ele ser um viúvo ainda jovem, pesaram-lhe muito. É claro que sua 13
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus posição socioeconômica e o título de nobreza dela também colaboraram para aquela união de conveniências. Não sei o que fizeram de errado, mas ele se viu obrigado a se casar às pressas com a jovem condessa Marli Del Prat, filha do duque e também viúvo George Von Del Prat. Meu pai foi um rico comerciante, mas estava passando por muitas dificuldades financeiras, causadas pelos gastos de sua jovem esposa. Isso tudo pesava em seu bolso e em seu coração. Ele era uma pessoa de pouco se abrir, o que poderia estar causando os seus supostos problemas de saúde. Alguns de nossos criados estavam conosco há anos - como Maria, que havia sido praticamente criada em nossa residência. Seria muito injusto colocá-la na rua de uma hora para outra. Maria, que abdicou de toda a sua vida para cuidar de mim, por amor e fidelidade a uma promessa feita à minha mãe em seu leito de morte... Passávamos por uma enorme crise financeira, enquanto a condessa gastava horrores em bailes, roupas e joias, desperdiçando o pouco que ainda tínhamos. Por ser muito jovem quando se casou com meu pai, passou a disputar comigo sua atenção. Era de uma beleza muito rara em meu país. Era filha de alemães e holandeses. E sua união com meu pai, que também era um fidalgo, embora falido, fora de grande valia política. Com essa união, seus parentes teriam livre acesso de trânsito dentro da Espanha, entre outros benefícios políticos. Minha madrasta era uma mulher esbelta, com formas muito bem definidas e fartas. Cabelos muito negros e olhos azuis; sua voz tinha um tom suave e aveludado. Deixava os fidalgos, por assim dizer, abobalhados. Sua pele era rosada como o pêssego, seus lábios eram finos e havia uma pequena pinta sobre eles. Vestia-se sempre com as melhores roupas, embora exagerasse no brilho. E as joias, então? Eram sempre as mais caras! Não poupara o seu dote, esbanjando até as economias que meu pai fez no decorrer dos anos. Por isso, chegamos quase à beira da miséria. Com os gastos irregulares da condessa, meu pai passou, então, a fazer longas viagens, na tentativa de fazer novos investimentos para salvar as finanças. A Europa era promissora e, por isso, ele ficava por meses fora de casa. Porém, minha madrasta não dava trégua com os gastos e continuava a esbanjar as poucas economias que nos restavam. Às vezes, ela parecia fazer aquelas coisas na tentativa desesperada de obter a atenção do meu pai – pois, devido à sua rara permanência em casa, estava deixando de lado as obrigações como esposo. Mas, na minha cabeça, era por maldade mesmo que a senhora esposa de meu pai fazia todas aquelas coisas terríveis! Cheguei a flagrar meu pai soluçando pelos cantos da casa. Mas, a qualquer proximidade e tentativa de ajudá-lo, ele se esquivava e saía à francesa. Por dias trancava-se em seu escritório. Ele aparentemente não tinha muita alternativa, pois, se colocasse os pés para fora de seu refúgio, sua esposa o seguia tagarelando, exigindo e reclamando coisas corriqueiras e sem muita importância. Eram visíveis, vergonhosas e humilhantes as discussões dos dois perante a criadagem, que ficava debochando às escondidas. E quando ele não aguentava mais, a agressão passava da verbal para a física. Minha madrasta tinha seus defeitos, por certo, mas eu não suportava ver meu pai espancando-a. Vi aquela mulher muitas vezes ter que ficar sem poder colocar o rosto para fora de seus aposentos por causa dos visíveis hematomas. A desculpa usada era que ela estava indisposta ou com uma constipação muito forte. Os amigos de meu pai, por assim dizer, só o procuravam para farras e bebedeiras. Ele era um fraco e não sabia dar um rumo à sua vida. Estávamos vivendo em uma guerra fria e silenciosa. Um jogo de interesses e mágoas, em que a mais prejudicada era eu. Com tanta repressão, também aprendi a abaixar a cabeça para tudo o que eles dissessem. Cheguei a pensar em suicídio, mas era covarde demais para isso. E por não conseguir me imaginar longe de meu pai e de Maria, sempre me calei, escondendo comigo suas tramoias. Os anos foram passando e a condessa não tomava jeito mesmo; passou a viver de armações para arrancar dinheiro de meu pai e outros fidalgos, que frequentavam minha casa na ausência de meu pai. Nunca tive voz ativa, meu pai só fazia presença e a pobre Maria não passava de um capacho, como o resto da criadagem. A autoridade-mor da casa era mesmo de sua 14
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus majestade Marli Del Prat. Entre outras coisas, ela queria tudo só para si. Inclusive, o meu lugar como herdeira única. Seu comportamento era detestável e nauseante, pois às vezes, para chamar atenção, ela se comportava como uma menininha, fazendo trejeitos e mesuras irritantes. Mas era só meu pai virar as costas que sua personalidade aflorava, dando lugar à verdadeira pessoa escondida atrás daquela aparência frágil e ingênua que a condessa criara como personagem, para engambelar a todos do sexo masculino. Mediante tudo isso, eu sabia que era improvável meu pai acreditar em mim. Eles não se suportavam, mas tinham que manter as aparências e cumprir seus deveres perante a sociedade. Se eu não morasse naquela casa e se todos os dias não estivesse presenciando tanta falsidade e falta de caráter, certamente também não acreditaria! Pois aquela doce e jovem senhora e aquele tão elegante cavalheiro eram, na verdade, duas pessoas repletas de artimanhas. Quando meu pai viajava - além das festas constantes, que iam até altas horas -, a condessa também se embriagava pelos cantos, enquanto eu era obrigada a ficar trancada em meu quarto, para não ver o que realmente acontecia. Suas risadas altas e histéricas no corredor incomodavam-me e, por várias vezes, tive que tampar meus ouvidos, colocando chumaços de algodão para não ouvir as atrocidades que saíam ecoando pelo corredor. Como desejava ter tido outra vida...! Não podia ver, mas sabia que ela estava com outros homens. Não seria difícil flagrá-la nas proximidades do nosso jardim com os lordes e os fidalgos, frequentadores de suas constantes festas noturnas. E se alguém a visse, ela se justificava, dizendo que fazia aquilo para o bem de todos e das finanças. Se não tivesse vindo de uma família de nobres, eu a consideraria uma cortesã, devido à sua conduta leviana e vulgar. Minha vida naquela casa foi triste, sem sentido. Estava a me transformar em uma pessoa revoltada. Minha luta era comigo mesma, eu não poderia me transformar naquela pessoa vazia e sem vida que eles queriam que eu fosse. Maria ensinou-me que, quando alguém deixa morrer os sonhos, a vida acaba. Ela dizia que só não sonhava quem não tinha a capacidade para realizar. Eu tinha sonhos... e eram muitos. Só não sabia onde eles estavam naquele momento. Nunca frequentei escola, mas estudei em casa. Tive aulas de língua estrangeira, piano e literatura. Minha professora, a Senhorita Ludmila Lavenier, era minha única companhia, depois de Maria. Tinha mais ou menos trinta anos, embora aparentasse ser mais jovem. Era de origem holandesa e herdou o sobrenome de seu avô paterno, que era francês. E por ter sido criada e educada na França, seu sotaque era encantador. Por muitas vezes desejei que ela tivesse conhecido meu pai antes de minha madrasta. Ela era culta, simpática e divertida. Sua cultura era consequência de suas muitas viagens pela Europa. Sempre muito elegante, discreta e muito ponderada ao se dirigir às pessoas. Tinha um tom de voz paciente e educado. Era admirável ver uma mulher muito além do século XVIII, conhecedora de várias culturas e mestre em disciplina familiar. Comentavam as más línguas que ela tinha vários amantes, e que era uma mulher com ideias muito opostas. Alguns chegavam a dizer que ela não era nada feminina em seu jeito de pensar. Mas eram apenas boatos maliciosos. Ela mesma me contou que amou apenas uma pessoa em toda a sua vida e que, por proibição dos pais dele, não puderam se casar, por causa de sua inferioridade financeira. Por isso, ela resolveu seguir em frente como educadora particular de finas senhoritas. Suas histórias eram incríveis! Contou-me que certa vez almoçou com o próprio rei, sentou-se à mesa real como sua convidada de honra. Não era o tipo de pessoa que desse ouvido a comentários e mexericos dos outros. Era livre e independente, como eu gostaria de ter sido. Também me cotou sobre as damas da corte para quem já tinha ensinado suas aulas de piano, e sobre os romances secretos no palácio real. Ríamos muito. Senhorita D'Lú - era como gostava de ser chamada - foi altamente recomendada pela Senhora Carllota Gonzalez, uma governanta amiga de Maria, que trabalhava na mansão do Marquez de Miqueias. Foi uma pena quando meu pai teve de dispensar seus serviços por causa dos ciúmes da condessa e, é claro, por causa da nossa situação financeira, que não ia nada bem. O resto, aprendi por conta própria. 15
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Assustei-me quando Maria entrou em meu quarto sem bater, com a bandeja de café. Maria era uma mulher gentil, educadíssima e extremamente respeitável. Podia-se dizer qualquer coisa sobre Maria, menos duvidar de sua conduta, inabalável. Era uma mulher de estatura baixa, rechonchuda como um empanado de frango. Fazia questão de manter seus cabelos negros presos em um coque perfeito. Tinha os olhos grandes e negros, lábios largos e era muito severa com os seus subalternos. Usava luto constantemente em sinal de respeito à memória de minha mãe. E ficou muito aborrecida quando papai casou-se novamente, embora nunca se atrevesse a dizer. Nunca se exaltava e constantemente usava de ironia em suas conversas. Acho que herdei sua maneira de ser. Ela nunca conseguiu dizer-me não. Mas, às vezes, colocava-me de castigo, o que era pior do que levar chineladas. E ali, naquele momento, observando-a de costas, percebi que seu peso, embora não condizente com sua estatura, dava-lhe certo charme, porque mantinha uma postura elegante e ereta. Deveria ter sido muito bela quando ainda jovem. Por certo, foi desejada entre os homens. A pobre mulher não se casou, não tinha filhos, passou a vida toda se dedicando a mim e a meu pai. Era filha de espanhóis ciganos. Tinha o estranho costume de prever o futuro através das cartas do tarô. Por várias vezes, às escondidas, abriu o baralho para mim, sempre usando um ritual. Certa vez, quando abriu o tarô para mim, depois de muito fitá-lo, começou a chorar. Fiquei sem saber o porquê daquele pranto incessante. Minhas tentativas de interrogação foram em vão, e de nada adiantava tentar consolá-la, pois seu pranto era incessante. Maria abraçou-me e disse: _ Tem um triste futuro, minha filha! Precisa comer alguma coisa. Abriu as janelas e afastou as cortinas de organza e seda cor-de-rosa. Ajeitou a bandeja com o desjejum na mesinha de lanches, que era de cristal e cobre decorado, trazida da Inglaterra por minha mãe. Em seguida, saiu enxugando as lágrimas e dizendo, entre dentes, que os afazeres a esperavam, deixando-me com as respostas ao vento mais uma vez. Sempre tão atenciosa e dedicada, mas muito meticulosa e misteriosa quando se tratava das cartas. Detalhei a mesinha novamente naquele momento nostálgico de minha vida e lembrei-me de meu pai, que certa vez contou-me que minha mãe ficava horas escrevendo suas receitas e seus poemas ali. Ele dizia que ela era cheia de mistérios. Interrompi novamente meus pensamentos, pois a copeira entrou, trazendo uma ânfora com água morna e colocando-na na bacia de porcelana chinesa. _ Não vai comer menina? - perguntou a copeira. _ Daqui a pouco, estou meio sem fome agora. Ela saiu, fazendo-me ameaças de que, se eu não comesse tudo, chamaria o doutor. Só de pensar, senti arrepios! Ele era um velhote horrível, com cara de louco. Fumava um charuto fedorento, o seu cheiro pessoal dava-me náuseas. Sua barriga salientava-se por cima daquela roupa encardida, que já não via água há séculos. Sem contar que metade de seu rosto ocultava-se em algum lugar entre a barba e o tenebroso bigode. Se olhássemos muito, víamos uma saliva escorrendo no canto externo dos lábios. Eu ficava doente só em pensar que o teria perto de mim, colocando-me aquelas mãos amareladas pelo tabaco. Nunca o vi lavar as mãos para me examinar. Toda vez que ele ia me visitar quando criança - para exames rotineiros ou qualquer outra coisa -, se eu estivesse doente, ficava pior. E se eu não estivesse, aí ficava mesmo. Arregalei os olhos de pavor! Sentei-me na cama, coloquei a bandeja no colo e comi tudo o que havia no desjejum, pois, com certeza, ela cumpriria sua promessa. Ela, sorrindo, parecia ter lido meus pensamentos. Aliás, sempre fazia isso. Dei uma espreguiçadela gostosa no ar e empurrei a bandeja vazia. Voltei para a janela, fiquei por horas observando o jardineiro Joseph, enquanto ele cuidava das rosas com dedicação e minúcia. Vi Maria levando para ele café e sequilhos. Ele sempre estava próximo dela e pareciam tão felizes! Maria sorriu e saiu em seguida, toda faceira. 16
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Não demorou muito e logo estava de volta para buscar a bandeja. Tinha nos lábios um sorriso que não era habitual. Definitivamente, Joseph a fazia muito bem. Deu um suspiro profundo antes de me fazer um convite para passar sua folga com ela: _ Senhorita Anna, gostaria de passar o fim de semana comigo na casa da minha irmã que mora no interior? Perguntei se tinha avisado à senhora minha madrasta, o que confirmou entusiasmadíssima com a cabeça. Pediu que me apresasse e saiu toda satisfeita porta afora. Fazia muito tempo que eu não a via daquele jeito. Maria sempre tivera permissão para ir visitar seus parentes no interior e, por certo, não era essa a causa de sua súbita alegria. Daria tudo para saber o que Joseph tinha-lhe falado. Tomei um banho caprichado, com os sais que ela fizera para mim. Escolhi um dos meus mais lindos vestidos. Mas este era adorável, em tom areia, todo rendado e com muitos babados. Seu decote deixava meus ombros à mostra. Olhei-me no espelho e senti-me bem ousada, mas mantive a discrição quanto aos exageros. Gostava de ficar admirando-me ao espelho e ali, olhando o retrato de minha mãe, comecei a fazer comparações entre nós duas. Naquele momento, percebi o quanto me parecia com ela. Meus olhos eram cor de mel, puxando para verde. Meus cabelos tinham cachos largos e eram de um tom castanho quase dourado. Minha pele, morena clara, era perfeita e sem nenhuma mácula. Meus lábios eram grossos. Definitivamente, eu a mistura perfeita das raças. Minha mãe era inglesa, de pele muito clara e olhos muito azuis. Seus cabelos eram de um tom castanho-claro, quase louro. Fitando-a naquela fotografia, achei-a parecida com um anjo. Eu havia herdado dela não só a beleza, mas também a elegância e o tom polido na fala. Minha cintura era extremamente fina e eu só usava o espartilho por mero capricho. Esse tipo de arrogância e vaidade foi uma coisa das quais me arrependi de ter tido. Embora ela tivesse morrido quando nasci, esses eram os comentários a seu respeito. Na aparência, achava-me igual à minha mãe, e sentia muito orgulho disso! Meu pai não ficou atrás. Ele era um espanhol muito alto, olhos cor de mel, pele bronzeada e cabelos claros e lisos, ombros largos e fortes. Lembro-me de vê-lo, quando eu era criança, depois de chegar de suas caçadas, montado em seu cavalo baio. Ele se parecia com um personagem de contos de fadas. Ficava louca, esperando que ele me colocasse em sua garupa e me levasse para cavalgar em seu colo. A sensação de proteção e liberdade era um misto formidável. Que pena não podermos voltar atrás no passado, no exato momento em que fomos mais felizes... Neste momento, mediante tanto sofrimento, é que percebo como eu tinha uma vida fútil e, por certo, poderia ter feito mais pelo meu semelhante. Às vezes ele tentava ser durão com os empregados, mas seu coração era bom e acabava voltando atrás. E quando sorria... era perfeito! Seu olhar era penetrante e sedutor. Aposto que mamãe, ao vê- lo, apaixonou-se imediatamente. Esse era o tipo de amor que eu queria para mim: eterno e verdadeiro. Eu tinha certeza de que ele ainda a amava, pois sempre trazia consigo, dentro do relógio de bolso, um retrato dela. Mesmo casado com minha madrasta, ele ainda, às escondidas, ficava fitando com ternura aquele retrato. Ao se casar com a condessa, meu pai tornou-se carrancudo e grosseiro, afastando-se de mim dia após dia. Passei a me sentir culpada por minha mãe ter falecido durante o parto. E minha madrasta, ao perceber meus temores infundáveis, passou a agredir-me, chamando-me de pequena maldição. Dizia ser eu a culpada pela morte da minha mãe e pelo fato de ela nunca ter engravidado. Mas, um dia, meu pai a ouviu e interveio por mim. Disse-lhe que nunca mais queria vê-la fazer-me tais acusações levianas. A condessa engoliu seu ódio por mim naquele dia, e subiu para seus aposentos, fingindo estar se sentindo mal. Não me lembro de ter visto meu pai procurar por ela e pedir-lhe desculpas, como sempre estava acostumado a fazer. Essa foi a única vez, desde que me entendia por gente, que vi meu pai manifestar-se a meu favor. Usei uma fita negra de veludo ao redor do meu pescoço, com um camafeu de marfim de minha mãe. Agora só faltava a sombrinha cor de palha, com delicadas rosinhas azuis e outras com cor de 17
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus damasco. Seu cabo era todo talhado à mão, e havia sido meu avô quem o fizera para mim. Agora sim estava pronta para meu passeio naquele final de semana, que seria praticamente um dos últimos com Maria. Havia meses que eu não saía de casa. Por isso, não poupei esforços e caprichei naquela manhã. Levei uma maleta com tudo que julguei ser necessário. Não me esqueci de colocar alguns mimos para presentear os donos da casa onde passaríamos o final de semana. Levei comigo minhas economias. Achei que seria o momento exato de gastá-las. Maria entrou no quarto, de repente, e fitou-me de cima abaixo. Ironizou, ao perguntar onde seria o baile. Senti-me encabulada e corei de imediato. Ela ainda continuou a brincar, dizendo que, daquela forma, eu iria arrumar pretendentes com muita facilidade. Sorri meio sem graça e falei que, se fosse somente para desfilar ao lado de um homem triste e carrancudo como meu pai, só para mostrar à sociedade que eu era capaz de arrumar marido, preferiria acabar solteirona e comendo bolachas com chá. _ Minha nossa! Pensei que eu iria poder descansar um dia! Mas, pelo que vejo, vou ter que cuidar de uma solteirona carrancuda - disse Maria, dando uma sonora gargalhada. _ Ah, Maria! Jamais me apaixonarei! Somente se o amor for verdadeiro e duradouro. Mas sei que isso será impossível de acontecer, pois a nossa sociedade só visa o materialismo. E, levando em conta a situação financeira atual de minha família, isso será praticamente impossível, pois meu dote não é considerado tão valioso como o de algumas jovens do condado! Também temos que levar em conta outro fato não menos importante. _ E qual seria? - perguntou Maria, curiosíssima. _ O fato de que a senhora minha madrasta pode ter furtado meu mísero dote antes mesmo de eu ter tido a chance de usá-lo. Dessa vez, nos duas caímos em risos. Mas ela ainda prosseguiu, tentando corrigir o meu pensamento de depreciação para comigo mesma: _ Não quero que diga sandices, criança tola. Por certo, um jovem mancebo irá se apaixonar por ti do jeito que é. Não podemos julgar todas as pessoas somente por conhecermos uma. Afinal, os dedos das mãos não têm o mesmo tamanho. _ Hummm... E quem seria essa pessoa tão escrupulosa e tão pouco materialista, que vê uma moça pelo que ela é, e não pelo dote que ela possui? E quanto aos dedos das mãos, Maria, eu já os observei. Não são iguais, por certo, mas têm o mesmo tamanho, só estão posicionados de forma diferente. Basta observá-los e verá que estou correta. Ah, Maria, nós fazemos parte de uma grande peça teatral, na qual só mudam os personagens! E o cenário? Às vezes! Mas a história é sempre a mesma. Principalmente para nós, mulheres, que somos nada mais nada menos do que meras marionetes nas mãos dos nossos senhores. Não existe casamento sem conveniência, Maria. Valemos o dote que possuímos, ou seja, o dote que levamos como bagagem. Ouso dizer que a própria condessa foi uma dessas vítimas. _ Agora sei que a senhorita já não está mais em seu juízo perfeito! A senhora Del Prat? Uma vítima? Nunca! _ Maria, acha que ela também não foi obrigada por seu pai a casar com um homem viúvo, que ainda trazia de bagagem uma filha nos braços? Pense bem, não deve ter sido fácil para ela, ter que se casar só porque já estava com vinte e oito anos. Temos nossas diferenças, isso é certo. Mas não posso culpá-la por ser como é. Ela é mais uma vítima de nossa sociedade. Já pensou o que é ter que ver seus sonhos sufocados? E se ver aprisionada a uma vida infrutífera e sem volta? Não é a senhora mesma quem disse que, quando os sonhos morrem, morremos com eles? Por isso ela desconta toda a sua ira em mim. E ainda deve, por certo, sentir-se completamente frustrada por não poder ter tido filhos. Até agora, com quarenta e oito anos, isso deve ser horrível! Imagine só como a sociedade em que ela vive cobra dela o tempo inteiro. Todos nós temos problemas. Os delas são ainda piores que os meus. Acredite! 18
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ A senhorita está completamente certa. Mas isso não quer dizer que ela deva sair por aí, pisando nas pessoas menos favorecidas. _ Concordo com a senhora! Mas não somos ninguém para julgá-la. Ela foi criada com tudo do bom e do melhor, nunca soube o que é sequer trocar a própria roupa. Ela foi mimada em demasia. Tornou-se prepotente, ou quer que a vejamos assim. Já a flagrei muitas vezes, depois de suas festas, fitando o horizonte, visando sabe-se lá Deus o quê! Ela, de fato, não ama meu pai, mas ainda prefere ficar com ele a voltar para sua casa na Alemanha. Imagine o que diriam de uma mulher, com o título de nobreza que ela possui, se alguém soubesse que ela saiu da casa de seu marido? Não a veriam com respeito. E o que ainda é pior, não se casaria novamente, principalmente por não poder dar futuros herdeiros. Tenho certeza de que a severidade do conde, seu pai, e ainda as cobranças da sociedade repressora são piores do que os apertos e a solidão que tem passado aqui. Ou a senhora acha que uma pessoa como ela não é solitária? _ Por certo tem razão, minha querida e doce Anna, mas não consigo entender como consegue achar qualidades em pessoas como essa senhora. _ Não é questão apenas de ver qualidades nela; é questão de entendê-la, como mulher e como ser humano. E ela só é maldosa porque é revoltada. Prefiro ver as pessoas por outro ângulo. Caso assim não fizesse, odiaria mais gente do que a quantidade de cabelos que tenho em minha cabeça. Não me importo com o que ela faz comigo. Vai ver ela está certa, nunca encontrarei um bom homem para mim. _ Pois lhe digo que isso acontecerá em breve, e rezo para que Deus lhe perdoe pelo passo que terá que dar. Sinto não poder interferir em seu destino, minha filha. Pois, caso pudesse, garanto-lhe que ele seria muito mais ameno do que o previsto. E agora pare com suas ideias mirabolantes e inocentes a respeito do ser humano. Para mim, pessoas más escolhem ser como são. E saiu, olhando os dedos das mãos. _ Por que, Maria? - gritei. Viu isso em suas cartas de tarô? Estiquei meu pescoço, tentando achar sua face. Quando ela se virou abruptamente para mim, notei profunda tristeza em seu olhar. _ Por que nunca me responde a essa pergunta tão simples? - indaguei insistente. _ Talvez porque esta resposta seja simples demais, e só possa ser respondida pela senhorita! Lembre-se: todas as respostas estão dentro da gente. Agora chega de conversa e siga-me, pois vamos acabar nos atrasando. Segui-a, em silêncio e cheia de controvérsias mentais. Se todas as respostas estavam dentro de nós, por que sempre errávamos em nossos julgamentos? Ao descermos a escadaria, Maria foi até a cozinha para dar as ordenanças finais à criadagem. Fiquei entre os dois últimos degraus, observando tudo à minha volta. A mobília, embora fosse muito cara e exuberante, era de extremo exagero e de um mau gosto imperdoável. Observei tudo a meu redor e fechei os olhos para me lembrar até dos mínimos detalhes. Estranhas a sensação de perda e a saudade antecipada que tomaram conta de mim naquele momento. Era como se eu não fosse mais ver aquilo tudo de novo. Senti medo e tristeza. Minha madrasta observava-me do alto da escada. Ela era como uma sombra constante em minha vida. Às vezes, tinha a impressão de tê-la em frente a mim enquanto dormia. Não resistindo, ela disse algo para me ofender. _ Desse jeito voltará casada, com um plebeu. Aliás, é bem o seu tipo. Nunca se parecerá comigo, não conseguirá um bom partido e jamais terá um homem a seus pés. Acha mesmo que pode copiar- me? Criança tola! Não tente, não sou sua mãe, nunca quis ser. Não vê que sou a mulher do seu pai, e que ele já a esqueceu há muito tempo? O seu reinado acabou, minha querida - se é que um dia existiu! A condessa disse essas coisas enquanto descia a escada, cambaleando. Dessa vez, excedeu-se em sua soberba, arrogância e presunção. E a maneira com a qual falava a respeito de meu pai ferveu 19
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus meu sangue. Mas Deus me deu forças para não perder a paciência. Levei em consideração que ela não estava sóbria naquele momento. Na verdade, senti pena dela. O cheiro da bebida era tão forte que me tonteou, devido à pouca distância que ela fez questão de manter para me assustar - o que conseguiu. Em seus olhos, percebi um ódio aterrorizante. Fiquei tão nervosa e indignada – e, ao mesmo tempo, assustada -, pois não sabia o porquê de ela realmente me odiar tanto. Eu sabia que eu poderia ter respondido à altura. Mas não o fiz. Desvencilhei-me dela o mais rápido possível, e saí porta afora, às pressas. Pude, ainda, ouvir seus gritos histéricos e rompantes pelo lado de fora. _ Vê se arruma um plebeu, velho, gordo e fedido por lá e suma com ele para bem longe das minhas vistas. Assim, vai poupar-me o trabalho de ter que eu mesma despachá-la para o inferno! Ergui minha a cabeça e fui até o jardim, onde estava nosso jardineiro Joseph. Aproximei-me dele e abaixei-me para cumprimentá-lo melhor. Eu estava tremendo tanto que ele, parecendo ter percebido, mas também não querendo deixar transparecer para que eu não ficasse ainda mais constrangida, cortou um botão de rosas com um gesto de delicadeza, dando-me em seguida. Por fim, disse, ainda de cabeça baixa: _ Uma rosa para uma linda flor! Sabe, senhorita, a patroa ladra mas não morde. No fundo, ela sente tanto medo da senhorita quanto a senhorita dela. Sorri em agradecimento e aproximei-me, inclinando-me e segurando sua cabeça com as mãos para lhe dar um beijo na testa. Na verdade, eu compreendia o que ele estava tentando me dizer. Imagine só: minha madrasta com medo de mim! Embora parecesse hilário, era a mais pura verdade. Só que, naquele momento, eu só conseguia ver o medo que eu sentia dela. Joseph era um velhinho simpático e muito agradável. Quando eu era criança, sempre me contava histórias e contos folclóricos sobre o povo cigano, e era fantástico ouvi-lo. Levantei-me para olhar ao redor e admirar o esplendor do magnífico jardim. Eram tantas flores! Rosas de todas as cores e tamanhos, margaridas, gerânios, florzinhas do campo, violetas, dálias, cravos, jasmins, orquídeas, papoulas, plantas ornamentais... Tudo aquilo tinha cheiro de amor e fazia-me muito bem. Toda aquela beleza misturava-se ao perfume da hortelã, da alfazema e do alecrim. A condessa tentou fazer com que meu pai acabasse com o jardim por várias vezes. Mas ele sempre ficou em cima do muro e nunca deu uma resposta positiva a ela. Aliás, seria novidade se ele fosse negativo a alguma coisa relacionada a ela. Para essa questão, ele apenas disse que iria pensar. Minha madrasta continuou insistindo com esse assunto por muito tempo. Mas, depois de nunca ouvir um sim conclusivo, acabou desistindo por certo tempo. Quando se casou, trouxe consigo toda uma decoração pavorosa, inclusive as estatuetas monstruosas e sem nexo que passaram a decorar o belo jardim da minha família. O pior é que ela as fixou no centro, próximo à janela do meu quarto. Lembro-me de quando eu era pequena: ao escurecer, sempre que olhava pela janela, tapava os olhos com as mãozinhas, pois me davam muito medo. Elas eram como pessoas decepadas e, na minha mente frutífera e infantil, mexiam-se e pareciam estar caminhado em minha direção. Eu corria para debaixo das cobertas, deixando de fora somente o pequenino nariz para respirar. Eu suava e tremia tanto que, quando Maria vinha dar-me boa noite, tinha que trocar minhas roupinhas molhadas. Ela sempre me acalentava com suas cantigas de ninar, na tentativa de me acalentar até que eu dormisse. O cavalariço Sr. Lorenzo aproximou-se de mim por trás, assustando-me. _ Calma, senhorita Anna! Só vim saber se está tudo bem, pois ouvi quando a Senhora Del Prat estava a gritar com a senhorita exasperadamente. Ela fez algum mal à senhorita? _ Não, Sr. Lorenzo, ela apenas ladrou um pouco além da conta. Foi só, juro! Ele pareceu não crer; então reforcei, olhando em seus olhos. _ Sim. Está tudo bem. Deve ser a astenia causada pela ausência de meu pai, ou o excesso de licor de jenipapo. _ Ah, por certo a Senhora deve estar precisando de uns calmantes em dosagem maior. 20
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Oh, não diga isso! Não se pode misturar calmantes a licores. Começamos a dar gargalhadas. Lorenzo conseguiu descontrair-me, afinal. Maria veio em seguida e disse: _ Imagine só, esses criados jovens não fazem nada direito! _ Maria, Maria! Não estaria sendo a senhora exigente demais com os pobres coitados? Não está tentando tirar o lugar da senhora Del Prat, está? Maria fez-me um ar de desaprovação pelo meu comentário esdrúxulo. Lorenzo já havia colocado nossas bagagens na carruagem. Abriu-nos a porta para entrarmos. Seguimos, então, nosso caminho em direção ao enorme portão verde musgo, com pontas em formato de lança e pintadas em dourado. O enorme brasão da família Del Prat estava logo à frente. A passarela toda, de pedras grandes e polidas pelo passar dos anos, dava à entrada um ar de realeza. Pude ver a estufa onde Joseph cultivava as mudas; era logo na lateral do jardim. Quatro bancos foram colocados no decorrer do caminho, dois de cada lado. Um escravo veio abrir o portão. E, pela primeira vez, senti-me em liberdade, longe daqueles muros de medo e tristeza. Suspirei aliviada. Mas era estranho, pois a sensação de que nunca mais veria tudo aquilo novamente não me largava. Minha sombra olhava-nos às escondidas, por trás das cortinas da grande janela de vidro da sala de estar. Parecia uma ave de rapina. O que será que se passava naquela cabeça louca e cheia de luxúria? Sacudi minha cabeça, rindo comigo mesma. Maria pareceu ler os meus pensamentos - aliás, ela era a minha sombra mental e era constrangedor, às vezes, ter os pensamentos invadidos. Como que em um impulso, Maria disse: _ Pare de criar caraminholas nessa cabecinha, menina! Dei de ombros, virando o rosto para o outro lado, mas percebi que ela também sorria. Maria era uma mulher muito perspicaz e, por isso, achei melhor centralizar meus pensamentos na paisagem ao meu redor. As ruazinhas eram estreitas e encantadoras, com suas belas e elegantes casas, todas decoradas com jardins repletos de flores, pois era a moda trazida da Europa. As árvores frondosas, que cercavam de um lado a outro as calçadas, pareciam ter sido colocadas ali naquele momento, só para passarmos numa passarela harmoniosa. Muitas pessoas afoitas já transitavam para lá e para cá. Senhoritas pareciam ocupadíssimas em desfilar seus modelitos muito comportados e elegantes, num flerte compulsivo para atrair a atenção dos cavaleiros, que desfilavam na outra calçada. Afinal, ficar solteira poderia se tornar uma coisa escandalosa e dispendiosa para os pais. Estes juntavam dinheiro durante toda a vida para que suas filhas não se casassem sem um dote adequado. Moçoilas em época de se casar só frequentam bailes em companhia de suas aias ou de seus pais. Jamais sozinhas, por medo dos mexericos. Sendo que a irmã mais velha é quem deveria se casar primeiro, e a irmã mais nova, caso houvesse uma, tinha que ficar cuidando da mãe. Se o namoro firmasse, deveria durar um ano na sala da moça, que tinha que estar acompanhada de seus pais e outras pessoas. Então, o próximo passo seria o noivado, que deveria durar apenas o tempo de o enxoval ficar pronto - isso queria dizer na semana seguinte, pois a maioria das mães fazia o enxoval das filhas assim que as meninas nasciam. Claro que as jovens enamoradas também tinham que bordar grande parte do enxoval, logo que estivessem em fase casadoura. As meninas já estavam prontas para o casamento a partir dos doze anos, caso fossem nobres, e a partir dos quatorze a dezoito anos, caso não tivessem título de nobreza. Isso significava que eu estava passando do tempo de arrumar um marido. Todos procuravam um bom partido para suas filhas. Não se importavam com os sentimentos delas. Na esperança de um futuro seguro, o amor era o de menor valor. Isso não era o que eu queria para mim. Sempre me esquivei de senhores mais velhos. 21
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Certa vez, em um jantar de que fui obrigada a participar em minha casa, meu pai apresentou-me a um fidalgo com o triplo de minha idade, sendo que eu tinha dezesseis anos nessa época. O velhote rodeou-me a noite toda e não consegui desvencilhar-me dele. O cheiro da bebida misturou-se ao cheiro da roupa velha, que devia ter estado guardada desde o século XV. Isso era nauseante! Suas mãos eram oferecidas demais. O único jeito foi dizer que estava me sentindo muito mal. Com certeza, era mais uma que a condessa havia aprontado para se livrar de mim, pois pude vê-la com seu olhar de deboche às escondidas. Mas, graças a Deus, a falsa dor de cabeça que forjei salvou-me mais uma vez. E, nesse dia, apertei os olhos ao passar na direção da condessa, constatando a minha vitória - o que causou uma torcida em seu leque de estimação. Voltei a observar a paisagem de Salamanca, enquanto Lorenzo contornava a praça central. Então, pude ver a linda fonte de águas no meio da praça. Depois de algumas horas, chegamos ao nosso primeiro destino. Paramos à frente de uma enorme mansão cor-de-rosa. Era a mansão e o ateliê de madame Hortência Vigald. Ela era uma senhora rechonchuda, de olhos grandes e amendoados. Seus seios eram fartos e salientavam-se por cima de suas vestes, repletas de rendas e outras mesuras. Para completar o visual exótico, ela ainda usava uma peruca loura cheia de cachinhos. Isso a fazia parecer uma boneca de trapo mal feita e assustadora de se ver à noite, sentada em uma cadeira no escuro. Ao ver-me, sempre me abraçava fortemente e melava-me com seus beijos babentos. Como era difícil ser uma jovem educada e de boa índole, meu Deus! Tinha vontade de sair correndo. Às vezes, tinha a impressão de que ela poderia me morder com aqueles dentes enormes e escurecidos pelo tempo. Mas também poderia correr o risco de ser engolida por aqueles lábios extremamente grandes e lambuzados de açúcar, pela quantidade diária de doces degustados. Ao chegarmos, ela estava de pé à soleira da porta, comendo uma brevidade. Ao ver-nos, correu em nossa direção, dizendo: _ Oh, querida, como está linda! E cada vez mais parecida com Elizabeth! Veio ver alguns modelitos para si, meu bem? _ Não - salvou-me Maria. Viemos buscar a encomenda da Senhora Del Prat. Estávamos partindo de viagem e, como não teremos tempo de buscá-la na volta, levaremos desde já a encomenda conosco. _ Oh, entrem! Pedirei a Gülia que lhes busque a encomenda. Sentemos, por favor! Aceitam uma xícara de chá com biscoitos? Façam-me companhia, queridas, nunca recebo visitas para o chá! Até parece, pensei comigo. Todas as clientes que por ali aparecessem por certo seriam motivo para madame Hortência tomar chá com biscoito - o que explicava sua forma rechonchuda. _ Não, senhora! Estamos com muita pressa e, além do mais, já fizemos nosso desjejum matinal. _ Oh, ficarei um tanto ofendida! Sabe como gosto da menina, embora quase não a tenha visto ultimamente. Por fim, aceitamos uma xícara chá para que ela não tivesse uma síncope. _ Então, querida, como está seu pai? Já retornou de viagem? _ Não, ainda não. E já fez um mês hoje. Confesso que estou bastante preocupada com a ausência de notícias por parte dele. Isso anda me tirando o sono. _ Não diga! Mas com certeza não aconteceu nada de grave com Sir Juan. Nisso eu aposto! Sabes como são os homens... Fique despreocupada, querida! Noticia ruim corre rápido. Ele é mesmo um homem lindo! - suspirou ela. Um verdadeiro colírio para os meus olhinhos cansados! Se não fosse casado... e se eu tivesse um pouquinho menos de idade, candidatar-me-ia como sua madrasta! Uma madrasta boazinha, é claro! - fez esse comentário sorvendo, em seguida, um gole de chá. Por certo, ela teria que ter muito menos idade mesmo. Ela usava termos antigos, como se ainda estivesse no século XV, e forçava um falso francês. Na verdade, seus vestidos eram cópias exatas de luxo da moda francesa. Suas costureiras, sim, eram as verdadeiras artistas, pois madame Hortência nunca sequer colocou suas mãos em uma agulha para coser. Eu e Maria nos entreolhamos, contendo uma sonora gargalhada. 22
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Ah, mas aposto que existe algum jovem mancebo para consolar essa ausência! Olhei novamente para Maria, em busca de socorro. E suspirei quando pude ver que Gülia entrava, trazendo um enorme pacote nas mãos, que foi direto para as mãos do lacaio. Este o entregou para Lorenzo, que nos aguardava pacientemente do lado de fora. Todo aquele movimento foi um alívio, pois me salvou de ter que responder às tolas interrogações de madame Hortência. Embora eu não tivesse uma vida social ativa, Madame Hortência fazia-me parecer que eu levava uma vida agitada e pública, pois eu sempre tinha a obrigação de ter algo para contar a ela. Maria, percebendo meu constrangimento, apressou-a, dizendo que realmente precisávamos ir. Ufa, graças a Deus!, pensei comigo. _ Porque não escolhe um dos modelitos? – insistiu, ainda, na saída. _ Tenho tantos que acabaria tendo que dividir meu pouco espaço com eles! _ Entendo... Mas realmente sei que não precisa do brilho das lantejoulas e paetês para ser feliz. Tem o seu próprio brilho, e isso é nato. Disse isso num tom engraçado e baixo. Rimos todas ao mesmo tempo, pois nos lembramos de que, certa vez, a senhora Del Prat encomendou um vestido tão espalhafatoso e reluzente que mal dava para ver suas caríssimas joias penduradas ao pescoço. Foi uma noite difícil aquela, pois minha madrasta chamou mais atenção do que a noiva ou a própria rainha. A noiva era uma pupila de muita estima de Sua Majestade. Por isso, esta fez questão de estar presente entre os convivas. A condessa só foi convidada por causa de seu titulo de nobreza, mas tinha que aparecer a todo custo. A rainha, ao vê-la, disfarçava e educadamente esquivava-se a cada proximidade da Deusa do sol. Naquele dia, minha madrasta superou-se em seus exageros. Doía a vista de todos ao olhar para aquela figura brilhante. Meu pai e eu ficamos em um canto distante dela, é claro. Percebi seu constrangimento mediante tantos sussurros zombeteiros. Já dentro da carruagem, não sabíamos se ríamos das lembranças reluzentes da condessa ou se nos deliciávamos dos fuxicos de Madame Hortência. O dia estava lindo e o sol resolveu dar o ar de sua graça naquela fria manhã de outono. Ao pegarmos a estrada, contemplávamos a paisagem magnífica. Eu estava encantada com tantas novidades que vinham surgindo à beira do caminho. Conversamos muito sobre coisas banais do dia- a-dia. Não tocamos em assuntos que não nos eram convenientes ao espírito. Durante todo o trajeto, cantarolamos canções ciganas e ríamos por qualquer coisa. Maria fez de tudo para que eu me desligasse dos problemas corriqueiros e domésticos. Depois de uma rápida parada para nos refrescar à beira de uma velha mina d’água, comemos o delicioso lanche que Maria havia trazido em uma cesta. E seguimos a nossa longa jornada pela empoeirada estrada do norte da Espanha. Afinal, pela altura do sol, já devia ser meio dia. Dentro da carruagem, adormeci profundamente, encostada aos ombros de Maria. Só despertei quando a carruagem passou por uma pedra saliente. Maria bateu no teto e gritou para que o cocheiro tomasse mais cuidado. Depois daquele susto, perguntei se já havíamos chegado. _ Quase! - respondeu-me Maria - Continue a dormir! – prosseguiu, com um tom na voz que mais parecia um bocejo. Não conseguia dormir mais e comecei a olhar as folhas das árvores caídas ao chão, formando uma espécie de tapete celestial. Casinhas de colonos ao longe, muitos gados a pastar. O cheiro do mato e o silêncio ensurdecedor fizeram-me adormecer novamente. Uma voz ao longe parecia chamar-me Anna, Anna! Sinto sua falta... Encontre-me, por favor! Meus olhos foram ficando cada vez mais pesados e, por fim, caí no abismo dos sonhos. Sonhei que estava em um mosteiro, todo feito em pedras calcárias de cor escura. O lugar mais parecia uma ruína. Havia um enorme jardim, totalmente abandonado, onde só os girassóis sobreviviam. Muitos monges trabalhavam nas plantações, tentando salvar o pouco que lhes restava da seca, que era eminente. Outros cuidavam dos animais magros e doentes. Alguns, ainda, varriam incessantemente o patíbulo, cuja terra havia invadido todo o mosteiro. Aquilo me pareceu mais um ato de loucura 23
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus coletiva. Ao longe, ouvi um coro com música gregoriana - misturada às orações, pareciam lamentos e suplícios. No patíbulo do mosteiro, logo na entrada, havia um monge, que me olhava de um jeito hostil, quase humilhante. Parecia ser uma espécie de abade. Ele era sério, atarracado, baixo e corcunda. Sua pele era avermelhada, manchada e descamada por causa do mau tempo. O que o diferenciava dos demais monges era apenas uma enorme cruz na frente de suas vestes, encardidas e rasgadas. Algumas freiras circulavam de um lado para o outro, como que hipnotizadas. Vi-me descer de uma carruagem, e seguraram meus finos braços, empurrando-me aos safanões para dentro do mosteiro. Tentei fugir, mas as mãos que me seguravam eram fortes e severas. Eu olhava para trás, tentando pedir socorro à Maria. Ela nada parecia poder fazer. As lágrimas desciam incessantes dos olhos de minha amada amiga, que ficava cada vez mais para trás. Tentei fugir inutilmente. Gritei por socorro e deixei o pranto rolar. Chamei por Maria, até que a vi cair por terra, como que sem forças. Meu corpo tremia. O desespero tomou conta de mim, por saber que estava ficando longe de meus familiares. Tentei agarrar-me onde dava. Todos ao redor olhavam-me e viravam seus rostos, numa repulsa sem explicação. Uma jovem freira ainda tentou desgrudar-me daqueles braços e mãos, mas outras a puxaram e só ouvi dizerem-me para ter fé. Outra freira, bem mais velha, veio receber-nos à porta do convento. Era uma senhora carrancuda e com ares de perversidade. Provavelmente, a madre superiora. Sua expressão de algoz conseguiu gelar minha alma. Mandou-me calar a boca aos berros, advertindo-me que ali não era lugar para toda aquela histeria. Por fim, levaram-me para dentro, forçosamente. Virei para trás, dando uma última olhada para meu pai, que ficou na entrada, conversando com a suposta madre. Deixaram-me só, em um corredor onde havia um enorme banco, uma mesa, uma cadeira e um armário antigo, onde pareciam guardar arquivos e documentos. A sala era escura e não tinha sequer um vaso de plantas. De repente, ouvi um barulho e a porta se abriu. Estremeci como vara de bambu ao vento. Mas, ao contrário de quem pensei que fosse, entrou um monge de hábito marrom e cabeça baixa e encapuzada. Aproximou-se de mim lentamente, ajoelhou-se e fitou-me os olhos. Seus olhos eram cor de mel, sua pele, muito branca, e seu rosto angelical escondia-se por trás de uma fina e rala barba ruiva. Aqueles olhos meigos passaram-me segurança e calor. Abaixou o capuz, esticando para mim suas brancas mãos. Seus dedos eram logos e finos; sua pele tinha uma maciez que arrepiou todo o meu corpo. Sua proximidade era tamanha que pude ver as pequenas sardas por baixo dos pelos ruivos de seus braços. Embora a barba estivesse por fazer, ela lhe dava um ar de intelecto. Seus traços eram finos e ele mais parecia um lorde. E, por certo, era de origem inglesa ou holandesa. Fiquei gelada e catatônica, e cheguei a pensar ser um dos loucos que havia visto ao chegar. Mas ele me passou tanta paz e tranquilidade ao pegar novamente em minhas mãos, trêmulas e geladas, que novamente acalmei. Então, disse simplesmente: _ Estou à sua espera há tanto tempo, Anna. Perdoe-me por tê-la deixado! Nunca mais nos separaremos, prometo! De repente, num piscar de olhos, estávamos sem mais nem menos em um despenhadeiro, onde se via todo o mar da Espanha, lindo e de um azul inigualável! A areia, muito branca, completava aquela paisagem. O vento soprava forte, como se estivesse me dizendo algo que eu não consegui decifrar naquele momento. Podia sentir o cheiro da maresia nas minhas narinas. Fiquei muito agoniada com aquela sensação. Meus cabelos estavam soltos e voavam com as minhas vestes, toda em algodão fino e transparente. Ele segurou minhas mãos, e comecei a me sentir segura e feliz novamente, como nunca havia sentido antes em toda a minha vida. O vento era forte demais e frio. A estranha sensação voltou. Comecei a tentar desesperamente soltar minhas mãos das dele. O cheiro da maresia foi se transformando em cheiro de medo. Por fim, 24
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus o monge soltou minhas mãos e senti seus dedos desprendendo-se dos meus. Caminhou em direção ao despenhadeiro. Meu coração disparava ao ver a agonia em seus olhos. O brilho daquele olhar feliz transformou- se em súplicas. O musgo viçoso daquele olhar agora era nada mais do que escuridão. De repente, a escuridão tomou conta de tudo ao meu redor e vozes tenebrosas cercaram-me. Ele me deu um sorriso triste, com os lábios fechados. Virou-se de costas, caindo no despenhadeiro, gritando o meu nome num apelo desesperado. Seu corpo caiu nos rochedos e o mar revolto ficou batendo nele, já sem vida. Gritei como louca e percebi que eu não estava mais ali, que era só mais um sonho. Vozes chamavam-me, misturando-se ao barulho das ondas. Tudo começou a virar fumaça e acordei suada e chorando muito, com Maria ao meu lado, chamando-me: _ O que houve, filha? - perguntou Maria, passando as mãos no meu rosto, tentando enxugar as lágrimas que ainda desciam como fonte de tristeza. Entre soluços, disse-lhe: _ Sonhei com o monge novamente, Maria, aquele dos meus sonhos de criança! Já fazia tanto tempo que não sonhava mais com ele! O engraçado é que sempre sei que estou sonhando, sei que a qualquer momento irei acordar. Às vezes chego a ouvir meus suspiros dormindo, e até vejo meu corpo em seu estado de repouso. Por que isso está acontecendo comigo de novo, Maria? Ele se matou? Pois o vi caindo no mar! Não consigo entender o que realmente houve com ele. Tentei salvá- lo, mas já era tarde demais, juro! Ele se foi muito rápido. Quem é ele, Maria? Por que esses sonhos incessantes? Maria aproximou minha cabeça do peito, na tentativa de me acalentar, pois eu já não conseguia falar. Apenas soluçava. _ Calma, querida, vamos resolver tudo isso hoje. Minha irmã Helena saberá ajudá-la. Não existe pessoa melhor neste mundo que entenda mais sobre este assunto do que ela. Olhei-a, espantada. _ Pensei que fosse a senhora a entender desses assuntos? _ Não. Abandonei o meu povo e agora não faço nada mais além de por cartas e fazer meus chás. Agora enxugue essas lágrimas. Chegamos ao nosso destino. Devemos nos preparar para descer com discrição. Afinal, não queremos que ninguém veja seus olhos inchados. Ou vai querer que pensem coisas de uma mocinha tão fina? Embora soubesse que Maria só estava ironizando, não me incomodava nem um pouco com o que os outros pensariam de mim. Só queria uma explicação plausível para tudo o que estava acontecendo comigo. Queria que aqueles sonhos parassem logo e que eu pudesse dormir tranquilamente alguma vez na vida. Eram seis horas da tarde quando paramos em frente a uma casa grande, toda feita de pedras escuras, com portinholas duplas e largas de madeira, pintadas com tinta azul envelhecida e desgastadas pelo tempo. Abriam-se de cima para baixo. Suas janelas eram estreitas e muito altas, dando a impressão de ser uma igreja. Alguns cipós teimavam em subir por toda a parede do lado de fora, dando a ela um ar de casa medieval. Observei várias mulheres colocando suas roupas - muito alvas - nos grandes varais que estavam na lateral. Outras trabalhavam em fiares e, ainda, teciam tapeçarias. Crianças corriam e gritavam como loucas, brincando umas com as outras, sujando-se de terra e de barro, sem ninguém para lhes privar a liberdade. Todos estavam tão ocupados em seus afazeres que não deram a menor importância para a nossa chegada. Avistei um celeiro a uns cem metros, onde deveriam guardar seus cavalos e outros animais de grande porte. Um pouco mais ao longe, via-se um moinho d’água - com sua enorme pá girando sem parar – e, do outro lado, havia uma mata fechada, que parecia guardar todos os segredos daquele povo misterioso. 25
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Animais domésticos circulavam por toda parte. Árvores frondosas e gigantescas cercavam toda a casa. A mata, constituída por cedros, pinheiros, oliveiras e árvores frutíferas, formava uma cerca viva. Por isso, não dava para vê-la ao longe ou mesmo da parte mais próxima da estrada. A própria floresta era o muro que guardava toda aquela beleza e simplicidade. Senti no ar uma grande manifestação de bondade e respeito em todos à minha volta, embora não tivessem manifestado seu interesse por nós. A energia era tão viva que quase podíamos tocá-la. As flores do campo cercavam toda a casa. Um beiral de pedras, feito pelos moradores da floresta, cercava um canteiro com ervas para chá, muito bem cuidado. O lugar era mesmo mágico, pois uma enorme paz tomou conta de mim assim que pisei lá. A terra era fértil e viam-se seus frutos. E muitos gatos circulavam por todo o lugar. Fomos recebidas por uma senhora grisalha e uma jovem muito bonita, aparentando ter a mesma idade que eu. A senhora era a irmã de Maria, e a moçoila era sua sobrinha. Vieram correndo, pois fazia muito tempo que não se viam. Abraçaram-se com um calor fraternal. _ Seja muito bem vinda à nossa humilde floresta!- disse Dona Helena, olhando em minha direção. A mocinha apresentou-se, esticando a mão e dizendo: _ Meu nome é Bernadete e aquela, como já sabe, é Helena, minha tia. Sou filha de Dolores e Guiñllo, mas tia Helena me criou, pois ambos faleceram em um trágico acidente. Não falemos sobre coisas ruins! Venha, entre! Não fique aí em pé, parada. Entre, conheça a casa e minhas outras irmãs. - disse Bernadete, percebendo que eu havia ficado para trás. Ao entrar, apresentou-me à outra senhora com olhar gentil, que estava sovando a massa para os pães na cozinha. Em seguida, apresentou-me às suas outras duas irmãs: Loylla, a mais jovem, e Emanuelle, a mais velha. _ Fique calma! Estou achando-a um tanto tensa. Deixe que meu noivo Magald cuide de suas malas. Aqui ninguém mexe em nada. _ Imagine, não pensei nisso! É que estou tendo problemas para dormir. E estou com um pouco de dor de cabeça. _ Então venha se refrescar e tomar um chá de camomila com hortelã. Bernadete levou-me para seu quarto, onde me refresquei e também troquei de roupas. Coloquei um vestido simples, de algodão azul, que ela me emprestou, pois meus vestidos não eram adequados para o campo. Trocamos presentes. Dei-lhe uma caixinha de música de cristal e bronze, onde um casal de bailarinos dançava ao som de uma valsa vienense. _ Era de minha mãe - disse a ela, estendendo as mãos. _ É lindíssima! Mas não sei se posso aceitá-la. _ Ficarei muito ofendida se não aceitar. Tenho certeza de que ficará perfeita na mesinha de cabeceira do seu novo quarto! E ela tem um segredo, veja. - mostrei-lhe uma abertura falsa no fundo. Poderá guardar suas economias aqui dentro sem que seu marido perceba. Ela corou e disse: _ Se é assim... Abraçou-me e depois seguiu em direção ao criado mudo, de onde tirou um livro, cujas páginas eram de papiro e a capa era de couro, todo trabalhado à mão, com desenhos em relevo. Disse que tinha sido seu avô que lhe havia dado. Foi uma troca que ele fizera com um cigano amigo dele. Ela ainda disse que suas páginas eram mágicas, e como não levava o menor jeito para escrever, gostaria que eu ficasse com ele. _ Na verdade, meu avô contava essas histórias para eu adormecer. O que eu quero é me casar com Magald o quanto antes, ter muitos filhos, e ser feliz enquanto vivermos. Sabia que Bernadete e seu noivo estavam passando por muitas dificuldades, pois Maria comentou comigo enquanto vínhamos pela estrada. Então, tentei ajudá-los, dando-lhes minhas economias. O obséquio não era muito, mas sei que daria para ajudar na festa de casamento. Bernadete agradeceu-me tanto que me deixou encabulada. Sua vida não era nada fácil, mas, mesmo 26
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus assim, não poupara esforços para me agradar. Emanuelle, a irmã mais velha de Bernadete, veio nos chamar para o jantar. Apressamo-nos em ir ao encontro de Maria e Helena. A mesa era toda de madeira bruta, e dois enormes bancos a cercavam. Muitas guloseimas nos esperavam. Durante o jantar, Dona Helena olhava demais para mim. Por fim, falou: _ Fiquei sabendo do problema que a senhorita tem passado. Olhei para Maria com desaprovação, mas ela continuou. _ Não culpe Maria, ela fez o que era certo. Tem um dom lindo, menina! _ Tenho o quê? - olhei para Maria, tentando receber uma resposta plausível. _ Maria me contou de seus sonhos sequenciais e sobre tudo o que tem passado com sua madrasta. Mas também me falou de sua benevolência e humanidade para com seu próximo. Iremos ajudá-la, sei bem o que deve estar passando. Bernadete deu-me um cutucão com o pé por debaixo da mesa e sorriu, abaixando a cabeça em sinal à nossa cumplicidade no seu quarto. _ E o que devo fazer? Quem é esse homem com quem tenho sonhado tão frequentemente? _ Calma, menina! Uma pergunta por vez. Primeiro, tem que aflorar e doutrinar seu dom, Depois, precisa fazer a viagem. _ Fazer o quê? Teremos que viajar novamente, Maria? As duas entreolharam-se e riram de mim. Senti-me uma tola e resolvi apenas esperar os resultados e as respostas. Por fim, Helena falou: _ Não, criança. A viagem não é como pensa! Nem mesmo sabemos se irá conseguir. Primeiro, farei uma pergunta muito simples. Tem certeza de que quer conhecer esse homem? É isso o que realmente quer? Pois não terá volta. E pode não voltar bem da viagem... O que é ainda pior: pode não querer retornar ao seu corpo físico; ficará desacordada e correrá risco de vida. _ Sim. É o que mais quero na vida. Não tenho dúvida se isso for me dar as respostas de que preciso. As duas entreolharam-se por instantes, concordando entre si. _ Ótimo, então não temos muito tempo a perder, por causa da curta estadia da senhorita aqui. Amanhã bem cedo começaremos com os preparativos - disse Dona Helena. _ Como assim? A senhora o conhece? Ele mora por aqui? Quem é ele? Por favor, eu suplico, digam-me quem ele é! - foi inevitável, embora eu tivesse prometido a mim mesma calar a boca! _ Acalme-se, senhorita Anna! Uma pergunta por vez. Precisa saber que, embora não tenha a mínima ideia do que está acontecendo, essas repostas só poderão ser dadas pelo seu coração. Com certeza estão todas aí dentro. Todas as dúvidas, todas as ansiedades, só a senhorita tem a resposta. E, com paciência, na hora certa saberá responder, podendo até nos esclarecer também. Por certo, ele deve ter sido alguém muito importante para a senhorita. Tem alguma coisa que ainda está pendente; esse espírito ainda continua interligado à senhorita. Pode ser que ele esteja encarnado ou não. _ Então isso significa que ele está morto? _ Não, de forma alguma. Estou tentando lhe dizer que essa pessoa fez parte do seu passado, de outra vida. Mas também pode estar encarnado nesta vida. Resta saber se a senhorita terá estrutura para encontrá-lo. Ele pode ter vindo de diversas formas, pode muito bem ser um parente muito próximo. Quando falamos em espíritos, necessariamente ele não precisa estar desencarnado. A senhorita também é um espírito. Porém, está encarnada. Sei que é muito difícil, no início, tentar aprender sobre as coisas que lhe foram ocultadas a vida toda. Principalmente tendo a senhorita vindo de uma família tão tradicional e rígida quanto a esses assuntos. Mas acredite: mesmo para nós, que nascemos e seguimos a tradição a fio, ficamos confusas no início. É muita informação e, no seu caso, muito pouco tempo também. Tenha calma, é só o que pediremos. Confie em nós e nas forças da natureza. Tentaremos fazer o que for melhor para ajudá-la. Largue a ansiedade de lado, pois ela é sua inimiga. Apague essas interrogações da sua cabeça. Aprenda a rezar - não as rezas tradicionais, mas 27
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus as que o seu coração lhe ensina. Confie em si e em Deus que tudo lhe será respondido ao seu devido tempo. Fiquei calada o restante do jantar, observando-as conversar por entre lábios. Não estava com medo, mas muito curiosa. Eu e Bernadete sentamos perto da lareira, na sala, pois a noite estava fria. Maria e Helena passaram o resto da noite cochichando. Não consegui ouvir uma só palavra do que Bernadete estava me falando, pois fiquei o tempo todo de orelhas em pé, tentando ouvir o que as duas irmãs estavam falando, e se era sobre mim. Às oito e meia, eu e Bernadete fomos nos deitar, pois, por algum motivo, tínhamos que acordar cedo. No quarto, conversamos muito. Contou-me como conheceu Magald. Era adorável ouvi-la, pois fazia o amor parecer uma coisa muito simples. _ Quando eu encontrar alguém, desejo que esse amor seja para sempre, por toda a eternidade. Ela disse, exasperada: _ Não diga isso nunca! - foi como se eu tivesse dito algo muito abominável. _ Por quê? – perguntei, curiosa. _ Porque o amor é livre. Não podemos prender um espírito encarnado ou desencarnado. Esse tipo de jura ou atitude inconsequente e egoísta pode perseguir o espírito por toda a sua vida, e até por várias outras encarnações. Anna, o espírito jurado pode passar a vida procurando um amor e nunca encontrá-lo. E o que fez a jura pode nunca mais conseguir ter sossego. Até que, por si, comece a aceitar a ajuda dos irmãos desencarnados espíritos de luz. Mas isso pode levar muito tempo, Anna, até séculos! Quando meu espírito desencarnar, quero que Magald seja muito feliz, que encontre uma boa mulher que o ajude em sua jornada terrena. O amor é liberdade, Anna... o amor é liberdade! Se conseguir fazer a viagem, voltará com novos pensamentos. Agora durma, pois teremos um dia bem agitado amanhã. _ Então, pretende esquecer Magald? Virou-se brava para mim. _ Nunca nos esqueceremos, pois nos encontraremos em outras encarnações, e nossas lembranças sempre nos acompanharão, pois temos a obrigação de nos lembrar de nosso passado. Só que, na maioria das vezes, somos tão egoístas e estamos tão preocupados com nossas vidas terrenas que não ouvimos os irmãos desencarnados nos falarem e nos darem bons conselhos. Caímos, então, nas garras dos afins e, antes que me pergunte quem são os afins, eles são espíritos sem luz. Podemos ser orientados por espírito bons ou maus - depende muito da nossa sintonia espiritual. É a lei do universo. Viemos a esta vida para aprender e praticar o bem comum. Não é fácil, mas cada um deve aprender ou, pelo menos, tentar fazê-lo. _ Como podemos ajudar? _ Dando bons conselhos, livrando uma pessoa de se prejudicar. Não é importante a quantidade de vezes que praticamos o bem, mas a qualidade com que praticamos. Ou seja, devemos sempre saber a forma como nos dirigir à pessoa em questão, para não ofendermos ou invadirmos o espaço físico e mental dessa pessoa. É muito importante deixar as pessoas à vontade e, principalmente, não devemos convencê-las de tomar o caminho que muitas vezes só é melhor para nós – mas, sim, elas devem seguir o caminho que lhes for indicado por Deus. Essa é a diferença entra uma bruxa e uma feiticeira. Nós estudamos o universo e aprendemos a usar sua força em prol da humanidade, enquanto as feiticeiras usam essas mesmas forças de maneira mercenária e leviana para prejudicar inocentes. Vivemos em um mundo muito atrasado e cruel, mas estamos aqui como aprendizes temporários. Devemos aproveitar nossa estadia para crescermos espiritualmente. Lógico que tudo isso deve ser feito com ponderação e muito cuidado para não interferir no destino de outra pessoa. Pois, caso contrário, podemos virar de cabeça para baixo a vida de um consulente inocente. Tudo isso é muito bonito, mas muito perigoso. Pense nisso! O poder está em nossas mãos, e cabe a nós 28
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus sabermos como usá-lo. E existe outra coisa muito importante que a senhorita precisa saber antes de fazer a viagem. _ Então me diga, estou muito interessada sobre os assuntos relacionados à magia. Sempre ouvi histórias sobre as bruxas. Ficava tão fascinada! Ela deu um sorriso por perceber que eu era leiga e inocente no assunto da magia. _ Anna... A magia não tem nada a ver com as historinhas que você ouviu quando era criança, e muito menos encontrará coisas sérias sobre as bruxas em livros como esses. Existem livros que não valem sua capa. Cada bruxa tem sua história pessoal; a magia é uma história pessoal. Preste bem atenção: a bruxaria não é um culto, porque culto é um grupo de pessoas que segue um líder. Uma bruxa não tem um líder. E deve saber que as bruxas estão sempre sozinhas e solitárias, principalmente por causa do preconceito. Uma bruxa só se relaciona com pessoas pertencentes à ordem, pelo mesmo motivo que citei antes. Deve saber que muitos homens se fazem de compreensivos e, quando conseguem o que realmente querem, entregam-nos à inquisição. Então, cuidado com as paixões levianas. Bruxas não cultuam o diabo. Buscamos reviver as crenças de um período que remonta aos primórdios da humanidade, um período muito anterior ao Cristianismo. O diabo é, na verdade, uma criação do Cristianismo e não tem absolutamente nada a ver com nossas crenças. Obviamente, atribuíram as práticas das bruxas ao diabo porque é conveniente, visto que as religiões cristãs recriminam qualquer ato não-cristão como um ato do diabo. Há cultos ao diabo por todas as partes do mundo, mas eles nada têm a ver com a bruxaria, tratando-se apenas de pessoas que praticam uma inversão do cristianismo. Cada um tem as suas crenças, mas, felizmente, esta não é a nossa. Celebramos os deuses antigos na natureza. E lutamos para que isso seja um direito nosso. _ Os deuses antigos não são demônios? Respirando fundo, ela prosseguiu: _ Deixe-me continuar, por favor? Alguns cristãos fundamentalistas afirmam que qualquer pessoa que não pratique a forma de cristianismo deles é um satanista por definição, e incluem sob essa denominação os judeus e os sodomitas. As bruxas e os bruxos apenas celebram a natureza, só isso. Nós, bruxas, não assassinamos pessoas ou animais, embora haja diversos atos maléficos de pessoas que pratiquem esses rituais. Na verdade, são doentes mentais e deveriam ser punidos pelos mesmos rigores das leis que nos acusam. Acredito que algumas feiticeiras, por dinheiro, realmente pratiquem esse tipo de abominação para provarem o quanto são poderosas. Anna, ninguém tem o direito de tirar uma vida. O tão chamado diabo não tem esse poder. Por certo, quando um ato de feitiçaria como esse é praticado, alguém usou as próprias mãos para fazê-lo. Ou por envenenamento ou por prática corporal. Logicamente, quem pratica essa arte, por assim dizer, são pessoas muito inteligentes e maldosas, pois sempre deixam vestígios no local de seus crimes para nos acusarem. Nunca faça de sua religião uma arma contra alguém. Somos responsáveis pelos poderes que nos são incumbidos. E devemos saber que eles também se voltam contra nós quando não praticamos corretamente. Afofando o travesseiro, Bernadete continuou: _ Ame nossos Deuses e celebre os ciclos da Lua e a Roda do Ano como você puder. Ninguém é dono de seus pensamentos, nem de sua alma. Você é livre! Somos livres! Mas tome cuidado em quem confiar: o ser humano é inconstante e infinitamente cruel. A viagem que fará é, na verdade, um culto aos antepassados - no caso, aos seus. Reuniremos muitos irmãos, entre homens e mulheres, em uma grande celebração. Seu espírito será levado ao seu local de origem. Invocaremos as forças da natureza e enviaremos seu espírito ao seu passado, com a ajuda do elemento fogo, que caminhará nas asas do vento. Puxou as cobertas e, num bocejo, prosseguiu a explicação: _ Antepassado, em genealogia, é o nome que normalmente se atribui a um ascendente já morto, ou que se localiza a várias gerações anteriores na representação gráfica da árvore genealógica. Na Bruxaria, os antepassados representam gente do nosso sangue, que resultaram no que somos hoje. 29
  • 30.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Por isso, as bruxas e bruxos realizam muitos rituais em honra aos seus antepassados, pois eles trabalharam para o mundo chegar onde está. Todo o conhecimento que é passado para nós está conosco graças a eles. Sempre respeitamos o que não podemos tocar. O mundo invisível está sempre presente no nosso dia-a-dia. Além desse espaço físico, que estamos vendo, tem muitas coisas vivas à nossa volta. Por isso, não excomungamos quando ouvimos ou vemos alguma coisa que não está sob o nosso conhecimento. Pelo contrário, oramos e pedimos sabedoria e auxílio aos nossos irmãos desencarnados, que já estão na luz. Apagou as velas do castiçal, deixando apenas uma para iluminar o ambiente, e terminarmos a nossa conversa. O mais importante de tudo isso é que as bruxas não são anticristãs, nem querem acabar com o cristianismo. Bruxas, acima de tudo, respeitam as demais religiões, assim como exigem o mesmo respeito pela religiosidade deles. É claro que há muitas mágoas, guardadas por tudo o que foi feito e ainda é feito na história da humanidade. Mas não nos prendemos a isso, e sim a atos do presente. Queremos simplesmente viver e praticar a nossa religião em paz. As bruxas têm crenças que remontam aos primórdios da humanidade, muito anteriores ao cristianismo. O cristianismo tentou suprimir crenças, mas nós não queremos fazer o mesmo. Anna, na verdade, nada sei ainda, mas espero ter esclarecido suas dúvidas com o pouco que me ensinaram. _ Sim, querida Bernadete! Nem mesmo Maria teria tido tanta sabedoria para me falar dessa tradição, que é tão linda! Prometo honrar meus compromissos como bruxa. Estou muito grata pela sua paciência comigo. _ Agora podemos dormir? _ Sim, é claro! Aquelas palavras, de alguma maneira, faziam todo sentido para mim. Era como se eu já as tivesse ouvido em algum lugar. Elas pareciam estar no meu inconsciente. Muitas vezes, senti uma presença misericordiosa perto de mim quando era criança. Outra me fazia sentir mal, quando a condessa estava se aproximando. Ouvia, de vez em quando, passos em minha escada, à noite, seguindo em direção ao quarto de mamãe. E quantas vezes eu tive a certeza de ter dormido sem me cobrir e, ao acordar, estava coberta! Isso sempre acontecia quando meu pai estava viajando e, por certo, não era Maria, pois ela negava sempre que a interrogava. Nunca consegui explicar a sombra por trás de mim no espelho, aos dez anos. Gritei tanto! Mas Maria disse que, por certo, era um anjo que esteve por ali para me proteger. Talvez fosse minha mãe, pois parei de sonhar com ela de vez. Conformei-me com as respostas, virei para o canto e adormeci profundamente. Naquela noite, voltei a sonhar que estava com o monge, só que dessa vez estávamos em outra época. Ele me beijou e suas mãos eram muitos impacientes e percorriam meu corpo. Seus olhos estavam fixos em meu rosto. Depois, apareceram várias mulheres, desconhecidas ainda para mim. Pegaram-me apressadamente pelas mãos e me levaram a outro lugar. Era uma vila - não consegui definir, pois tudo era como o relâmpago. De repente, encontrei-me numa floresta, onde muitas mulheres corriam e gritavam como loucas, de um lado para o outro. Em uma fração de segundos, meu corpo já estava queimando e, no meio da fumaça, vi o monge tentando tirar-me desesperadamente, sem êxito. Os demais presentes seguravam-no pelos braços. Senti meu o corpo sendo desfalecido pelas chamas. Meus sonhos, minhas esperanças, meu amor... Aquelas chamas estavam devorando tudo o que eu ainda não tinha vivido. Eu nada podia fazer, e ninguém movia um músculo para evitar aquela dor insuportável. Senti meu espírito deixar a matéria. Acordei agitada e chorando muito. Cheguei a urinar na cama, de tão real que havia sido o pesadelo. Dona Helena estava sentada ao meu lado e me acalentou. Então, contei-lhe tudo o que havia sonhado, nos mínimos detalhes. Ela ouviu cada palavra, sem pestanejar. _ Por que o amor dói, Dona Helena? Como posso amar alguém que nem conheço, e que me pareceu ser tão covarde a ponto de me deixar morrer cruelmente? 30
  • 31.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Abaixei a cabeça e me senti envergonhada pelo meu estado lastimável. Dona Helena pareceu perceber e me disse: _ Não se sinta mal. Às vezes, vivemos nos sonhos uma realidade que não podemos explicar - e foi isso o que aconteceu com a senhorita. _ Mas estou suja! _ Dizem que isso acontece quando a dor ou o medo são muito intensos. Seu sonho foi tão real que a senhorita viveu uma experiência intrassensorial, o que acabou em uma reação espontânea. É a lei das causas e efeitos. Na verdade, teremos que correr com a sua viagem. A senhorita está viajando sem sequer entrar no círculo - é por isso que está tão confusa. E depois de muito analisar-me, perguntou-me: _ A senhorita o ama mesmo, não é? _ Se o que estou sentindo é considerado amor, sim, eu o amo. Antes eu tinha receio de dizer isso a alguém, por receio de que me achassem louca. Mas aqui, com vocês neste lugar mágico, posso ser eu mesma. Nessa floresta, nesta casa! Vocês fazem as coisas ficarem tão simples e fáceis que não sinto mais vergonha! A cada sonho, tenho a certeza de que irei encontrá-lo. Mas, ao mesmo tempo, tenho medo. Ela continuou fitando-me os olhos, como se estivesse lendo minha alma. Passei a mão pelo rosto para enxugar uma lágrima, que estava prestes a cair. Dei um pequeno sorriso, ainda meio sem graça, para tentar disfarçar a tristeza no meu peito, pois Dona Helena parecia estar esperando outra resposta de minha parte, ou qualquer coisa que descrevesse detalhadamente meus sentimentos. Sempre tive certeza, mas expressar sobre o que sentia, abertamente, ainda me era sufocante e constrangedor. Depois de muito me fitar, ela disse: _ Levante-se, está na hora das preparações. Tem tanto a fazer e tão pouco tempo. _ Jura? Que horas são? _ Duas da manhã, e o galo já fez sua primeira chamada. Teremos que entrar no bosque, e está bastante frio. Prepare-se para se lavar e continuar molhada, pois o orvalho por aqui é muito intenso. Enquanto a senhorita dormia, eu e as outras trabalhávamos para deixar tudo prontinho para vossa majestade. Riu largamente. _Sinto estar causando tanto transtorno... _ Não é transtorno algum! Tudo isso é em prol de uma alma atordoada. Tentaremos fazer o que estiver ao nosso alcance. Anna, só quero que seja feliz, encontrando seu caminho onde for e com quem quer que seja. Está com medo? _ Não, só assustada e curiosa. É tudo novo para mim. Imagine, nunca fui a lugar nenhum e agora estou aqui, preparando-me para fazer uma viagem mágica. Acho que sou uma mulher de sorte por ter Maria como amiga. Senão, como poderiam saber de minha existência? _ É, Maria sempre foi assim mesmo. Praticar o bem comum é também a sua missão, senhorita Anna. Assim como Maria ajuda-a agora, um dia deverá retribuir-lhe o favor. Sabia que quando Maria ainda era muito pequena, um dia, do nada, ela se virou para todos e disse que sua missão seria cuidar de uma irmã, cujo destino era só de penitências e sofrimentos? Aquelas premunições deixaram todos atordoados, por causa da pouca idade de Maria que, na época, só estava com seis anos. _ É mesmo? _ Sim. Ela sempre teve dom de prever o futuro através das cartas. Nossa mãe, se estivesse viva, teria muito orgulho dela. Já eu nasci com o dom de conhecer as ervas. Faço chás, cataplasmas e curo as enfermidades. Mas não consigo ler as cartas ou ver o futuro em qualquer outro lugar. O seu dom, por certo, é muito especial. Deve ter sido uma bruxa muito poderosa no passado. Quando voltar de 31
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus sua viagem, não deve contar a ninguém seu nome ancestral. É um segredo solene, praticamente uma regra. Se cair em mãos erradas, a senhorita poderá prejudicar-se. _ Como assim? _ Fica mais fácil fazer um sortilégio para prejudicá-la. É como se entregasse sua alma às mãos dos inimigos. O segredo do seu universo passará para suas mãos. Então, não revele para ninguém seu nome de batismo espiritual. Lembre-se de uma regrinha básica: dê a todos os seus ouvidos, e a poucos suas palavras. Se Deus quisesse que falássemos mais do que ouvíssemos, não nos teria dado uma só boca e dois ouvidos! Tudo o que falamos vira energia, desde a hora em que levantamos até a hora em que dormimos. Conseguir calar a mente para que ela não vire pensamento desnecessário não é um dom ou uma virtude: é um privilégio, levando em consideração que a mente nunca se cala. Olhou para o meu estado lastimável e continuou: _ Não se preocupe, não contarei para ninguém sobre o seu incidente. Prometo! Levante-se, já é hora. E você faz muitas perguntas! Levantei, meio preguiçosa e encabulada. Nunca havia acontecido nada assim comigo, nem mesmo quando eu era criança. Dona Helena saiu e voltou com um caldeirão com água para eu me banhar. Depois de tudo pronto, disse-me: _ Faça uma oração, para que seu espírito entre em sintonia com todo o universo. Lembre-se de sempre agradecer por tudo o que o Pai Maior fez por você, desde o nascimento até agora. Estar viva é a maior dádiva que Deus nos deu. Lembre-se também que não vivemos sozinhos, mesmo quando achamos que sim. Compartilhamos este mundo não só com os irmãos encarnados, mas também com os desencarnados. Por isso, devemos estar sempre com bons pensamentos, para que os espíritos de luz venham nos orientar. Nem sempre isso é fácil. Por isso, aconselho que feche seus olhos e imagine um pequeno triângulo mental. Faça desse triângulo um ponto de fixação, e não deixe nenhum pensamento infrutífero penetrar-lhe a mente. Você terá que aprender a esvaziar o pensamento depois das palavras mal ditas, ele é o nosso pior inimigo. Logo verás que os pensamentos mudam, pois inconstante é o pensamento. Eles mudam de direção tão rápido quanto o vento. Por isso, chamamos o vento de alma do mundo ou anima mund - pois ele compartilha nossas ideias e nossos segredos mais íntimos, entrando e saindo de dentro do nosso corpo. Ele é um dos elementos mais respeitados da natureza. Deus sabe os nossos segredos por causa do vento, que leva e traz de volta nossas vidas em detalhes. Ele é como um mensageiro. Respiramos o mesmo ar que nossas antepassadas respiravam. O mesmo ar que entra em nossas narinas já entrou em várias outras. E a cada sequência ele se renova, levando e trazendo sabedoria e experiência. Mas, assim como Deus ouve nossos pensamentos, o diabo também o faz. Pois ele escuta o pensamento que sai de nossas bocas. Ele faz parte dos detalhes que sempre ignoramos. Ele é o detalhe. Por isso, devemos calar o pensamento, para que não se transforme em palavras que poderão nos prejudicar. Basta um pensamento nosso para estragar três coisas boas em nossas vidas, porque nem tudo o que dizemos é ouvido por pessoas de boa índole. A inveja é uma má energia, criada pela súbita alegria do próximo. Por isso a necessidade de nos calarmos. Nem tudo o que é bom para nós pode ser divulgado, por causa desse sentimento tão baixo que existe nas pessoas, que não conseguem ser felizes. O ser humano, de tanto pensar e fazer o mal, criou o diabo. Deus lhe deu o nome de Lúcifer. Não devemos temê-lo, mais evitá-lo. Então, esvazie seu pensamento, para revigorar todas as suas forças ainda mais. Ficamos assim por horas, meditando com os olhos físicos fechados, mas com os olhos do espírito bem abertos. Naquela espécie de transe consciente, vi formas, símbolos e coisas extremamente pessoais. Depois de alguns minutos, duas outras moças entraram, despertando-nos, e Dona Helena me disse: _ Agora que já fez suas orações e limpou seu corpo físico e mental, precisará de banho de purificação espiritual. Preparei-lhe algo muito especial: deverá permanecer inerte por algumas horas, até que a água esfrie por completo. Não quero perguntas, por favor, sei exatamente o que pensa. 32
  • 33.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Embora já tenha tomado banho, hoje será o dia dos banhos, acredite! Agora retire suas roupas novamente, levante-se dessa cadeira. Fiquei meio zonza com tanta coisa acontecendo. Era muita informação de uma só vez. Dona Helena, vendo a minha inércia, disse: _ Levante-se, menina, e pare de fazer corpo mole. Estamos preparando-lhe para um ritual sagrado, não deve demonstrar tanto desinteresse. Ela estendeu as mãos e ajudou-me a levantar. Retirei minhas roupas e entrei na banheira, cuja água estava deliciosa. Dona Helena e as duas moças jogavam em cima de mim pétalas de girassóis e óleos perfumados. Algumas ervas especiais também foram salpicadas por cima de mim. Depois de todo esse ritual, ela falou: _ Hoje não será um dia comum: terá uma dieta adequada e outros banhos de purificação como esse. Purificará seu espírito com orações, e deverá esvaziar a mente consciente. Não poderá pensar muito em coisas mundanas ou futilidades. E, como sei que isso é impossível em sua idade, preparei- lhe um chá especial, que também terá que tomar - e sem caretas! Após cada refeição, tome um copo deste chá. Irá dormir a maior parte do tempo. Não se preocupe com isso - no seu caso, isso não é mal, pois sei o quanto tem andado esgotada, devido aos sonhos atordoados. Não deverá falar com mais ninguém além de mim. Não tente puxar conversa com as moças que entrarão no quarto, elas estão em estado de purificação e não falarão com você. Converse com seu coração, isso lhe fará bem. Faça-lhe perguntas. Aposto que ele estará cheio de repostas. Que bom!, pensei comigo. Voltei à minha vidinha cotidiana e tediosa de antes. E ainda tinha que falar com o meu coração - logo com ele, que vivia tão atormentado, coitado...! Precisava mais de repostas do que eu, mas, mesmo a contragosto, fiz tudo o que me foi determinado. Depois de ter ficado de molho por quase uma hora, saí da banheira. Dona Helena saiu em seguida, e eu fui para a janela. Pude ver todas aquelas mulheres, correndo de um lugar para outro. Pareciam muito determinadas em terminar seus afazeres. Confesso que estava muito curiosa para fazer aquela viagem. Horas depois, Dona Helena retornou ao meu quarto e trouxe-me o desjejum. Então, rompendo o silêncio - que já estava me deixando louca -, disse: _ Não iremos levá-la à floresta agora pela manhã, como havíamos planejado. A pessoa responsável por abrir o ritual está um pouco distante daqui, fazendo um parto. Então, sairemos daqui ao entardecer. Para mim, foi um presente dos deuses, pois assim nos dará mais tempo de preparar o ritual do fogo. Por favor, senhorita Anna, não se esqueça de tomar seu chá. Falou essas palavras e saiu, deixando-me novamente. Depois que fiz meu desjejum e tomei meu chá, cujo gosto era de água suja, fui para cama, na tentativa de ler um pequeno livro que achei perdido em cima de um caixote de madeira. Mas foi em vão, pois, ao sentar-me à beira da cama, comecei a cochilar e acabei por cair em sono profundo, como já era de se esperar. Dormi tanto que nem sonhei! Aquela mistura amarga de ervas, cultivadas secretamente pelas colonas, deixava-me tonta cada vez que eu tentava colocar os pés no chão. Dona Helena deve ter me falado, em algum momento que não conseguia lembrar, sobre os efeitos do chá. Estes eram entorpecentes e nauseantes. Diziam que seu poder era curativo, depurativo e que abria todos os chácras espirituais do nosso corpo, de maneira que tirava tudo de ruim que existia dentro de nós. Novamente, fui deitar-me, pois minhas pernas bambeavam. Acordei às onze e refresquei-me para o almoço. O sol estava quente e o quarto ficava monótono, não tinha nada o que fazer. Uma moça, com o rosto coberto por um fino véu, trouxe-me o almoço. Mais tarde fiquei sabendo que seu rosto estava coberto para evitar que eu a interrogasse. Voltei à janela e vi uma multidão indo na direção da clareira, que dava para o outro lado do pequeno ribeirão. Acabei por contar pétalas de flores e adormeci, sentada em uma cadeira e debruçada no beiral da janela. Quando acordei, às duas da tarde, outro banho de purificação esperava-me; repeti o ritual como pela manhã. Após o banho, retornei à janela. E, novamente, perdi- 33
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus me em pensamentos, que teimavam em me passar perguntas e dúvidas. Lutei contra mim mesma, como me foi determinado, e voltei meus olhos para as colonas, mudando, assim, o rumo que estavam tomando. Notei que a pequena clareira reunia uma grande multidão. As mulheres não estavam sozinhas: havia homens também, e muitos idosos, e todos estavam entrando mata adentro, deixando- me sozinha. Por instantes, essa foi a impressão que tive. Comecei a ficar com medo, pois a solidão sempre me apavorava. Foi quando escutei uma voz a sussurrar ao meu ouvido. Cheguei a pensar que poderia ser o vento e arrepiei-me. Poderia estar ficando louca. De repente, senti atrás de mim uma presença muito forte. Era como se fosse um anjo, pois me transmitiu muita paz e calma, e sua voz, macia e nítida, voltou a sussurrar em meu ouvido, dizendo baixinho: _ Acalme-se, Anna... Era a voz de uma mulher. Olhei rapidamente para trás para ver quem era, mas não tinha ninguém, somente eu e o resto da mobília. Não tive medo, mas fiquei sem conseguir dar explicações ao fato acontecido. Mudei meus pensamentos rapidamente, para não ficar paranóica. Os pensamentos são realmente como o vento, voam rapidamente. E, como em um passe de mágica, distraí-me. Parei, então, para olhar o horizonte, observando a natureza. E, novamente, a calmaria instalou-se dentro de mim. Vi aves que nunca sonhara ver na cidade. Senti o cheiro da terra fresca, do mato molhado e das flores. Poderia identificá-las só pelo cheiro. O vento soprava em meus cabelos, parecendo beijá-los. Senti a força da natureza, de maneira mágica. Era como se o Criador tentasse me mostrar como era perfeita sua obra. O amor estava em toda parte, o lugar era mesmo incrível! As coisas falavam de maneira silenciosa. Uma paz indescritível e sublime tomou conta de todo o meu ser. E quis voar como um pássaro, pois minha alma estava totalmente livre! Três toques à porta despertaram-me de meu sonho acordada. Era Dona Helena novamente; entrou com mais duas moças, trazendo outro banho e roupas, muito brancas e transparentes, para que eu vestisse. Colocaram velas por todo o quarto. Despiram-me e, dessa vez, Dona Helena fez questão de me banhar. Embora não dirigissem a palavra a mim, cantarolavam baixinho em uma língua estranha. Defumaram todo o ambiente e todo o meu corpo, num ritual estranhíssimo. Dona Helena dizia palavras na mesma língua em que cantavam as moças. Depois de apenas banharem-me de pé, puseram em mim as vestes brancas e transparentes, sem enxugar meu o corpo, que se arrepiou com o vento frio que entrou pelo quarto. Em minha cabeça, colocaram uma pequena tiara de flores do campo, e Dona Helena agradeceu aos deuses e fez-me ajoelhar em sinal de humildade, para consagrar minha cabeça com um óleo sagrado. Pôs-me de pé novamente e deu-me mais um pouco daquele chá horrível, que já estava me deixando cada vez mais tonta. Por fim, depois de terem terminado o ritual de consagração e agradecimento, abriram a porta do quarto. De onde... “O saber só depende da quantidade de experiências vivenciadas e adquiridas pelo espírito encarnado ou desencarnado. E, vivendo um dia de cada vez, conseguiremos alcançar todos os nossos objetivos. A calma e a paciência nos fazem cada dia mais capazes de chegarmos a um estado de paz interior. Devemos trabalhar muito para isso - muita paz e muita luz.” (Padre Ángelo Wallejo Moralles). 34
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Capitulo II - A Iniciação S ete mulheres vestidas de azul entraram silenciosamente pelo recinto. Uma delas pegou minhas mãos, levando-me para o centro do quarto. Todas me respingaram óleos aromáticos. Fui despida novamente de minhas vestes e colocaram-me um fino véu sobre o corpo. Não entendi nada daquele estranho ritual e preferi não comentar. Depois de rezarem muito, conduziram-me até a saída. Quando, por fim, chegamos do lado de fora da casa, doze donzelas vestidas de céu esperavam por nós. De início, fiquei envergonhada por elas estarem despidas e tentei esconder também minhas vergonhas, porque meu traje era muito transparente e deixava à mostra todo o meu corpo. Quase cambaleei, ainda entorpecida pelo chá mágico que Dona Helena havia me dado durante as sessões de purificação espiritual e mental. Vagarosamente, meu raciocínio foi começando a fluir, e tudo aquilo começou a parecer tão normal! Mudei imediatamente meus pensamentos e concentrei-me no pequeno triângulo imaginário que Dona Helena havia me ensinado para o caso de pensamentos tolos invadirem minha mente. Saímos numa espécie de procissão silenciosa, só de mulheres. Tirando as doze donzelas que estavam vestidas de céu, todas as outras vestiam camisolas de algodão branco. Somente eu usava o fino véu sobre o corpo nu. Mas, por uma estranha lógica insana, eu não me importava com aquela situação que, tempos atrás, poderia parecer despudorada. Fui levada ao extremo da floresta, onde havia uma aglomeração de pessoas no meio do enorme campanado. Logo se juntaram a nós. Caminhamos por mais meia hora a pé e descalças. Depois de muito caminhar, conseguiu-se avistar uma graciosa casinha de pedras polidas. Ela estava parcialmente tomada por trepadeiras, tornando sua existência quase invisível a olhos nus. Seu telhado era avermelhado. A porta principal era estreita, em tom marrom. Suas janelinhas pareciam com as de uma capelinha. Vasinhos com ervas cercavam suas laterais. Parecia ter sido criada pelos contos de fadas que liam para mim quando eu era criança. Quase não se podia ver o sol, pois as gigantescas árvores que cresciam ao seu redor tampavam a incrível visão. As árvores que cercavam o bosque e a casinha pareciam falar conosco, como se nos saudassem. Meu corpo e meus sentidos respondiam àquilo tudo de maneira inexplicável. O misticismo tomou conta de todo aquele lugar. Os pássaros cantavam alto, dando ecos que confundiam meus ouvidos. Ora imitavam gritos humanos, ora pareciam clamores. Talvez estivesse entorpecida e sonolenta, devido ao efeito causado pelo chá - ou ainda estava meio confusa, absorta com tanta magia. Juntamo-nos aos que ali também esperavam por nós. Em instantes, aquele pequeno grupo tornou-se uma centena de pessoas, mas já não eram pessoas comuns: seus rostos, à luz da clareira que se formava em torno do campanado, davam a impressão de eles serem anjos ou seres místicos. Eu não sabia identificá-los, porque minha cabeça começou a rodar novamente. As mulheres do campanado que se juntaram ao nosso grupo trajavam-se com cores muito exuberantes, como as ciganas. Fitas trançadas e coloridas, enlaçadas em volta da cintura. Dançavam e rodopiavam, deixando-me cada vez mais tonta. Flores diversas enfeitavam seus cabelos soltos. Usavam enormes argolas douradas nas orelhas e muitas pulseiras. Tocavam pandeiros e castanholas, rodopiando como borboletas. Aquele frenesi deu-me a sensação de haver luzes saindo de seus corpos. As crianças estavam presentes - porém, só participavam as mais velhas. Ao nos aproximarmos mais da pequena casinha, veio-nos receber uma senhora de idade muito avançada, aparentando uns oitenta anos ou mais. Ao aproximar-se de mim, senti-me fraca e cairia, se não fosse por Loylla e as outras jovens a me ampararem. A anciã mais parecia uma bruxa, de tão enrugada. Seus olhinhos já estavam sem brilho, devido à idade muito avançada, mas eram piedosos e cheios de carinho. Seu nome era Andélia. Todos diziam que ela tinha poderes extraordinários e era, realmente, a bruxa mais poderosa e antiga do condado. Ao passar, todos baixaram a cabeça, em respeito e reverência à anciã. 35
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Ao se aproximar de mim, observou-me minuciosamente de cima abaixo, como se eu fosse uma escrava que está prestes a ser adquirida em leilão. Senti-me muito constrangida por ser observada daquela forma, pois a anciã até em minhas pupilas olhou. Por fim, falou: _ Pelo que vejo, trouxeram a menina! Levem-na para dentro e coloquem-na em meus aposentos, pois parece não estar bem. Disse isso com um sorrisinho matreiro nos lábios. Duas moças carregaram-me, cada uma apoiando meus braços em seus ombros. Já nos aposentos da anciã, colocaram-me sobre uma caminha feita de carvalho e colchão de palha. Os lençóis eram extremamente brancos! A mobília não era muito farta: havia apenas uma mesinha com uma bacia e uma ânfora para o asseio, uma cadeira e um armário com oratório, onde tinha muitas imagens de santos da Igreja Católica. Surpreendi-me, pois fiquei imaginando o que uma bruxa fazia com tantas imagens de santos. Cheguei à conclusão de que meu conceito sobre as bruxas não passava de ilusão. Eu as tinha como personagens de contos de fadas. Imaginava-as de uma maneira totalmente contrária do que elas eram na realidade. Seus deuses pagãos não eram tão diferentes dos que conheci no meu dia-a-dia. Alguns até pareciam com os santos da Santa Madre Igreja. Ao me deixarem sozinha naquele aposento, tremia tanto que meus órgãos internos pareciam balançar. Estava completamente gelada, embora não estivesse fazendo o menor frio. Tentei voltar os meus pensamentos para o ritual do qual eu faria parte. Mas isso, naquele momento de aflição, foi quase impossível, pois minha cabeça começou a doer insuportavelmente. Foi aí que, como em um passe de mágicas, deparei-me com a anciã bem à minha frente. Foi como se ela tivesse sentido meu momento de agonia. Dona Andélia aproximou-se mais de mim e tocou-me suavemente na face, com seus dedos longos e unhas muito pontiagudas, que mais pareciam garras. Por fim, exclamou: _ Acalme-se, minha criança! Não há motivos para tanto nervosismo. Diga-me: o que está sentindo? Era inexplicável saber como ela poderia ter adivinhado meus pensamentos. _ Sinto minha visão turva e, às vezes, dá vontade de vomitar. Sem contar que minha cabeça dói demais. Ela riu, e prosseguiu a falar: _ É normal, sua mediunidade está muito aflorada. Sem contar que suas perguntas e os seus pensamentos são muitos - típico de jovenzinhas de sua idade. Ah, querida... Em sua idade eu era tão ansiosa que minha mãe, às vezes, tinha que me dar um chá para dormir! Caso contrário, eu especulava mais do que o normal. A ansiedade é a inimiga do tempo. Tenha calma: para tudo nesta Terra tem o tempo exato. Correr só atrapalha os sentidos, sem contar que faz muito mal ao corpo físico. Dizendo isso, Dona Andélia tocou em minha testa e, pedindo para eu fechar os olhos, fez em seguida uma oração naquela estranha língua em que Dona Helena também já havia feito. Imediatamente, não senti mais ansiedade e nem mais nenhum tipo de dor física ou tremores pelo corpo. Dona Andélia, ao terminar com as orações, pediu-me para abrir os olhos e prosseguiu, dizendo: _ Pude perceber sua energia brilhando de longe, enquanto vinha caminhado pela clareira. A senhorita tem um brilho tão forte que quase cegou minha visão. Tenho certeza de que essa viagem lhe fará muito bem. Trará em seu retorno uma grande experiência de vidas passadas. _ Dona Andélia, tenho tantas perguntas! Por exemplo, o que é realmente essa viagem? Como poderei fazer uma viagem se não vou a lugar algum além deste campanado? E por que minha cabeça doía tanto e, quando a senhora a tocou, a dor desapareceu? Novamente ela sorriu, mas me respondeu seriamente, como que não queria mais saber de especulações daquele tipo de novo. _ É o efeito do chá. Ele desperta a natureza humana, colocando para fora tudo o que existe dentro de nós, de bom ou de mau. Se tivermos boas energias, ele as faz fluírem com mais força. Se 36
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus tivermos energias negativas, ele faz uma limpeza nos chácras. Não se preocupe, que tudo isso passará. E, no seu caso, como a senhorita está com a mediunidade muito aflorada, o chá causou-lhe essas visões e tonteiras. Depois daquelas explicações, Dona Andélia pediu-me que repousasse em sua cama. Quando eu já estava deitada, ela ajeitou minha cabeça em um travesseiro feito com paina e deu-me um beijo no rosto, fazendo-me sentir segura. Pensei que Dona Andélia ficaria ali comigo um pouco. Porém, assim que ela passou o dedo polegar sobre a minha testa, tecendo uma espécie de sinal mágico, não consegui ver mais nada. Já era noite quando despertei. Fui à janela e perdi-me em pensamentos novamente. Fiquei por horas olhando os homens da vila trabalhando; pareciam estar montando uma fogueira. Não entendia muito bem, talvez fosse parte do ritual. Eles usavam, além de vestes brancas, um capuz que cobria todo o rosto, deixando à mostra somente os olhos. Todos estavam rezando, e aquela oração foi ficando mais forte. Havia umas cem pessoas ou mais em volta da fogueira, já armada. Não vi Maria ou Bernadete, devido à pouca luz e à escuridão da noite. Sentei-me, então, na beirada da cama para olhar a Lua, que estava alta no céu e clareava todo o quarto escuro. Acabei adormecendo novamente. Era alta noite quando me acordaram de supetão. Levaram-me para fora, ainda meio adormecida. Observei que, no meio do enorme pátio de terra, estava a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, pois haviam construído uma capela para a santa. Todas aquelas mulheres dançavam, rodopiavam em volta de mim sem parar, girando no ar uma espécie de varinha, fazendo movimentos circulares e irregulares. Loylla, a irmã mais velha de Bernadete, dançou sozinha. Depois, todas as outras, muito perfumadas, a seguiram, balançando suas saias muito rodadas. Algumas me molhavam com galhos cheios de um líquido com alfazema, jasmim e canela. Outras me traziam flores. Outras, ainda, me davam o chá mágico. Por fim, tiraram minhas vestes. Fiquei, então, no meio de toda aquela gente vestida de céu. No princípio, senti-me envergonhada por causa dos homens à minha volta. Tentei cobrir meu corpo nu com as mãos. Mas eles não pareciam estar olhando para mim, porque também estavam em completo transe. Ao me aproximar, percebi que a fogueira era, na verdade, um enorme pentagrama feito por toras de madeiras - o que explicava o motivo pelo qual os homens passaram a tarde toda cerrando árvores. Fui guiada ao centro do pentagrama, onde fiquei imóvel, sem saber o que fazer. Havia muitos símbolos antigos desenhados em suas pontas. No meio, tinha também um círculo feito no chão, como se alguém o tivesse milimetricamente desenhado. Foi nesse círculo que algumas daquelas pessoas se posicionaram, enquanto as outras ficavam de fora, de olhos fechados e em estado de transe. De repente, uma estranha luz brilhante circulou em volta daquele círculo mágico, que se formou pelas pessoas que estavam de mãos dadas. Um homem encapuzado com uma grande tocha nas mãos ateou fogo nas toras, que formavam as pontas do pentagrama. As chamas, num instante, assumiram o seu lugar. Assustei-me por um segundo, dando um pulo, mas percebi que as chamas não conseguiriam me tocar. A fumaça era intensa e, por pouco, não sufoquei. Uma jovem vestida de céu veio até mim e passou um bálsamo em minhas narinas, para evitar que eu me sufocasse. Vi, ainda, quando algumas jovens atearam ervas dentro da fogueira - o que aumentou mais ainda aquela intensa fumaça. Todos gritavam palavras em línguas estranhas, ao mesmo tempo. Uma mão apareceu no meio da fumaça e deu-me algo para beber: parecia uma espécie de vinho misturado ao chá mágico. A voz que acompanhava a mão dizia que era para não deixar a minha garganta ressecar. Mas, logo que tomei aquele líquido, fiquei completamente entorpecida e senti meu corpo caindo em uma imensa escuridão. Não conseguia mais abrir meus olhos, mas meus ouvidos estavam atentos a tudo. A voz da anciã tornou-se nítida e perceptível. Ouvia sua oração, que dizia: _ Estamos aqui, presentes neste local sagrado, para prestarmos auxílio espiritual a esta irmã atormentada pelo espírito da sua antepassada. Devemos todas dar as mãos e, como em uma ciranda, 37
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus girar em torno da fogueira. Depois soltem calmamente as suas mãos e acompanhem-me, dizendo as seguintes palavras: _ Que a mãe terra, que nos dá permissão para fincarmos nossas tendas sobre seu ventre, nos dê sua força em espírito hoje. Que a mesma mãe, que nos fornece seu alimento para matar nossa fome, nos dê alimento para nosso o espírito. Que o fogo, que por anos foi nosso inimigo temeroso, hoje possa ser nossa espada, para combatermos os inimigos de nossa alma. Que o vento, que nos traz o cheiro e a mensagem de nossos companheiros quando os perdemos na dor da batalha, venha hoje ser o portador de boas novas, levando nossa irmã a seu lugar de origem. Que a água, que mata nossa sede, seja hoje a purificadora de nossos pecados. Que a Virgem Maria Imaculada, que nos deu a maior benção do mundo - que foi seu filho humanizado -, venha hoje nos ajudar em nossas dificuldades, amparando-nos e protegendo-nos de todo o mal que fizeram contra nossas antepassadas. Que a Virgem hoje nos auxilie em nossas buscas ao interior de nossas almas. Que nosso Pai celestial venha em nosso socorro. Muito obrigada, meu Deus, por esse dia maravilhoso e produtivo. Muito obrigada pelas nossas dificuldades, pois aprendemos com elas. Muito obrigada por todos os obstáculos que aparecem em nossos caminhos, pois aprendemos a crescer com eles. Muito obrigada por nossos inimigos, visíveis e invisíveis, pois aprendemos com eles a termos mansidão e paciência. Mas os ajude, Senhor, a enxergarem Sua luz, para que possamos viver todos em paz. Muito obrigada pelos anjos e arcanjos que nos fazem companhia, dando-nos orientação para o caminho que devemos seguir com segurança. Muito obrigada aos espíritos de luz, encarnados e desencarnados, que nos orientam, nos amparam e nos guiam em nossa jornada terrena. Em seguida, foi rezado o Pai Nosso: _ Pai Nosso, que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome. Venha a nós o vosso Reino. Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Dona Andélia prosseguiu com o ritual, só que, dessa vez, usou outro tipo de oração: _ Pelo poder da terra (palmas viradas para baixo). Pela força do fogo (palmas viradas para frente). Pela alma dos ventos (palmas em movimentos circulatórios em direção a si). Pela pureza das águas (palmas juntas e para cima, como se estivesse tomando banho de cachoeiras). Que o portal se abra e nossa irmã possa seguir seu caminho em paz. Que nossas ancestrais a guiem com segurança e tragam-na, calma e serena, de volta para nós. Naquele momento, eu já não sentia mais o calor da fogueira, nem a fumaça que me sufocava. Não ouvia mais as vozes cantando ao meu redor, nem sentia vergonha por meu corpo estar nu. Fiquei completamente catatônica e não mais consegui me mexer. Senti o meu corpo levitar. De repente, eu estava em outro lugar, no meio de uma floresta fechada, onde ouvi nitidamente um enorme alvoroço de mulheres gritando. Meus olhos foram abrindo lentamente e as pude ver correndo de um lado a outro. Coloquei-me de pé, ainda meio tonta, tentando entender onde eu estava. A floresta pareceu-me a mesma, mas onde estavam todos que estavam em volta de mim no ritual? Onde estava Maria e Bernadete? Eu queria fugir, mas não tinha como e nem para onde. As pessoas que estavam ali eram completamente diferentes das que estavam comigo no campanado. Seus trajes eram bem medievais. Fiquei inerte mediante tamanha calamidade que observei. O pânico era tamanho que pude sentir o choro invisível da mãe terra. Mulheres eram chutadas, criancinhas eram pisoteadas. Crianças inocentes eram decapitadas brutalmente pelos soldados. Pelos cabelos e pelos pés, as mulheres eram lançadas em carroças com cela, espremidas e trancadas como animais. Algumas foram amarradas pelas pernas e arrastadas por toda a floresta. Jovens eram defloradas na frente de seus pais. Bebês que nem andavam eram lançados pelas perninhas aos cães ferozes e famintos, já treinados e acostumados com a carnificina humana. Um verdadeiro holocausto foi criado em meio à paz e à harmonia. 38
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Indaguei uma jovem que passou por mim, desesperada, querendo saber dela o que estava havendo. Ela simplesmente respondeu-me entre soluços, parecendo não querer parar: _ Tudo por causa da ignorância e do preconceito das pessoas que não nos entendem, senhorita. Somos tratadas como animais por não termos o direito de escolher o que fazer do nosso destino. Uma senhora, que parecia ser a mãe da jovem, veio aflita em nossa direção, e puxou-a pelo braço, dizendo-me: _ Fuja para se salvar, ou esses cães imundos vão trucidá-la. Não as vi mais daquele momento adiante. Elas sumiram em meio à multidão, aterrorizada. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo mediante meus olhos. Aquelas pessoas estavam sendo massacradas somente por pertencerem a outra religião, por pensarem diferente e quererem ser livres. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Caí por terra de joelhos, sem forças para rezar ou pronunciar qualquer palavra. Chorei desesperadamente. Se Deus existia, naquele momento tinha certamente se esquecido de que nós, mulheres, também éramos Sua criação. Olhei para frente e vi, saindo de uma casa branca medieval, uma mulher alta, com cabelos longos e cacheados e vestes de camponesa. Ela era uma mulher com um porte de nobreza, e seu olhar era firme. Levantou o rosto e encheu o peito de ar. Parecia estar tentando criar coragem para enfrentar aquela situação. Pude perceber que ela era uma líder, e que todos os soldados estavam procurando por ela. Outras mulheres tentaram protegê-la, mas ela não queria proteção: simplesmente saiu andando em direção ao chefe da guarda. Seu ar de imponência fazia com que alguns dos soldados se afastassem enquanto ela passava. Foi quando ouvi um soldado dizer, em tom de desprezo: _ Eis que se rende a bruxa-mor, capitão! Quando a mulher líder aproximou-se do capitão da guarda, pude notar sua semelhança comigo. Então entendi que estava fazendo a viagem. Aquela mulher era a minha ancestral, e aquele não era o meu mundo: era o mundo astral, onde eu iria descobrir quem eu havia sido e o que me fazia sofrer tanto. Resolvi ficar quieta e observar tudo o que estava acontecendo à minha volta. Eu sabia que, por mais duro que fosse, não poderia interferir no meu passado. A mulher olhou tudo e todos a seu redor. Fixou os olhos no capitão e, mesmo mediante todo aquele sofrimento, em momento algum ela parecia se intimidar. Por fim, ela disse, em tom supremo: _ Sim, sou eu. Agora não maltrate mais o meu povo com os seus soldados ignorantes e carniceiros. Leve-me e deixe essa pobre gente em paz, pois eles nada lhes fizeram de mal. O seu problema é comigo, capitão. Um jovem guarda, querendo mostrar serviço, retrucou: _ A bruxa-chefe está pedindo um castigo, capitão Edward. Devemos acorrentá-la junto às outras? Com um olhar de ironia, o chefe da guarda respondeu: _ Não, quero interrogá-la primeiro. Os olhos do capitão pareciam estar grudados naquela mulher. Por fim, ele falou, em tom de impaciência: _ Então nos encontramos de novo, senhorita Shaara, ou devo dizer feiticeira Shaara!? _ Sim, senhor. - respondeu-lhe, sem tirar os olhos dos dele. _ Ora, ora... Estou vendo que nem o medo fez-lhe perder a arrogância. _ E quem disse ao senhor capitão que estou com medo? Pode fazer medo em seus subalternos, mas nunca em mim. Nem eu e nenhuma de minhas irmãs fizemos nada demais para que o senhor nos ponha medo. O senhor não é Deus! Portanto, não vejo porque temê-lo, capitão! Além do mais, sua aparência cansada é digna de pena, pois vejo no senhor um homem confuso, em um estado débil de cólera. E quem é o senhor para falar de arrogância ou de qualquer outro defeito que exista nas pessoas? Tem um coração tão arrogante que não admite que esteja apaixonado e errado. Arrogante, vingativo, sanguinário e infeliz. É assim que vejo o senhor: uma pessoa sem chão, perdida, entre uma 39
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus falsa razão e o próprio coração. Olhe pra dentro de si, senhor Edward! Veja-se! Vai chorar, em breve. Estou a pagar pelos ciúmes de sua mãe, pela ignorância e pela mentira de tantos que se escondem por trás das máscaras de uma sociedade hipócrita e com ideias distorcidas sobre o caráter e a moralidade das pessoas. Os senhores falam o nome sagrado de Deus, mas são pessoas que nada sabem sobre Ele. Os senhores fazem justiça à maneira que lhes convém, e pregam verdades ditadas por uma ordem já em decadência. Traduzem a palavra do Cristo para educarem seus adeptos, seus filhos e seus parentes. São como ovelhas no pasto, sendo tocadas de um lado para outro, por um pastor tão sem rumo quanto. E, assim, envoltos na própria ignorância, seguem todos de mãos dadas. Que triste, capitão... Encobrem seus próprios pecados e crimes, tentando achar defeito nos menos favorecidos, como eu e minhas irmãs. Ou acham mesmo que as mulheres de sua sociedade são todas santas? Shaara baixou a cabeça e sorriu, parecendo decepcionada, continuando aquele diálogo, que mais parecia uma afronta. _ Se suas senhoras fossem santas, não estariam vivas, e sim em um plano muito superior a este. Bando de hipócritas, desumanos, falsos profetas, monstros! Todos estes homens aqui, incluindo o senhor, são piores do que animais. Acusam-nos de possessão, mas o demônio está dentro da sua alma. Tenho pena do senhor, capitão Edward, com toda a força do meu ser. Pois sei que as irmãs que o senhor e seus homens mataram estão em paz agora. Mas e o senhor? Não terá um dia de sua vida em que não se lembrará desse massacre. Sabe por que, capitão? Lembranças ruins perseguem-nos durante os nossos sonhos à noite. Elas são chamadas de consciência inconsciente, e mesmo o mais ignorante dos seres viventes tem consciência. E é isso que me deixa feliz: sei que o senhor nunca terá paz enquanto viver. O capitão, com um olhar furioso, ergueu a mão para esbofetear Shaara no rosto. Mas Shaara não se fez de rogada e disse: _ Vá em frente, senhor Edward. Não pode me ferir mais do que já me feriu. Não seria a primeira vez a usar violência contra mim. Ah, capitão... O senhor tem razão. Eu quase ia me esquecendo: quem bate esquece, mas quem apanha tem que conviver com as cicatrizes. E as minhas estão tão profundas que o senhor não as consegue ver, não é, capitão? O capitão segurou o rosto de Shaara e, olhando-a fixamente nos olhos, disse: _ Se eu fosse a senhorita, ficaria bem boazinha. Afinal, sou o homem que tem nas mãos o seu destino. Posso queimar todas essas bruxas aqui mesmo, nesta floresta, sem a menor piedade, e alegar que estavam praticando rituais de magia negra e que, ao nos verem chegar, os demônios ferozes que as possuíam tentaram nos atacar, sem nenhuma explicação. Isso, logicamente, foi o que me fez tomar tamanha atitude contra as pobres mulheres, que estavam, embora inconscientes, possuídas por espíritos malignos. Portanto, se não quer que eu mate o restante dessas desgraçadas queimadas vivas, cale-se e fique com essa maldita boca fechada o restante do tempo que lhe resta. E sabe o que mais? Faço isso deixando-lhe como única testemunha. Mas, logicamente, não terá língua para contar tais fatos a ninguém quando for interrogada em tribunal - o que me será bastante útil em minha própria defesa, quando eu for interrogado sobre os fatos acontecidos nesta floresta, sem nenhuma testemunha que lhe possa ser útil, é claro. Pense bem, então, antes de tomar alguma atitude insensata. Não que sua língua possa lhe valer muito, mas as pessoas, durante seu julgamento, ao perceber que a senhorita não pode falar, dirão que o demônio lhe impede a fala. Isso, para os leigos - como a senhorita mesmo diz - é incontestável. O capitão deu uma gargalhada sarcástica e seu olhar gelou até a minha espinha, mas Shaara manteve-se em posição de defesa. Ela sabia que o capitão cumpriria o que estava prometendo, mas prosseguiu mesmo assim: _ Faça o que o senhor tem que fazer, capitão. Que se cumpra o meu destino. Seja a mão de Deus, mas seja breve, não me deixe sentir dor! 40
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Shaara não estava falando apenas da dor física, mas também da dor da alma. O mundo dela estava todo nas mãos daquele carrasco, do algoz, do homem que um dia foi o mais importante da sua vida. O capitão Edward era a única pessoa que jamais poderia tê-la traído. Shaara estava só, sem perspectivas, e sabia o quanto aquele homem poder-lhe-ia fazer mal. Um homem com um sentimento de mágoa, fúria ou ciúmes pode se tornar perigoso, principalmente se estiver se sentindo rejeitado ou traído. Minha ancestral somente abaixou a cabeça e deixou que seu destino se cumprisse. Embora ela não demonstrasse medo, pude ver nos seus olhos que, até certo momento, tinha esperança de que o capitão, seu amor, voltasse atrás. Mas, na verdade, Shaara já sabia qual seria seu destino e sabia que isso seria impossível de acontecer. É impressionante o quanto a Inquisição era cruel e mentirosa, principalmente quando se tratava de nós, mulheres. Os inquisidores praticavam as mais cruéis formas de torturas. E se uma mulher fosse alvo da Inquisição, logo era enclausurada. Pior seria se caísse nas mãos de algum padre ou sacerdote, pois esses santos homens certamente a violariam e dariam um jeito para que a pobre mulher não contasse nada a ninguém, cortando-lhe a língua e praticando os mais cruéis tipos de torturas. Muitas das vítimas eram deixadas nuas, em praças públicas ou em algum lugar deserto, a mercê do destino. Isso ocorria depois de terem sido torturadas publicamente, ou violadas privadamente. Todas nós, mulheres, sentíamos um medo especial da Inquisição. Se alguma de nós fosse acusada de bruxaria, ficaria logo eminente que sofreríamos uma tortura muito especial por parte do clero, sedento por sexo e sangue. Qualquer mulher era culpada de algum crime, mesmo que nunca tivesse cometido crime algum. Nós, mulheres, éramos a porta aberta para espíritos impuros. Qualquer mulher com um comportamento que desagradasse a sociedade masculina sofria perseguição como prováveis bruxas. Havia vários tipos de torturas antes de a vítima morrer. A morte por afogamento era uma das formas mais cruéis. Amarravam-se as mãos e colocavam uma pedra presa aos pés das vítimas. Em seguida, lançavam-na dentro d’ água. Se a vítima não afundasse, era inocente. Se afundasse, era uma bruxa - o que significava que ninguém era inocentado... Se uma mulher fosse meramente lançada de um precipício, podia chamar a si mesma de afortunada por ter uma morte relativamente rápida e com pouca dor. Na maioria das vezes, éramos obrigadas a dizer que estávamos possuídas por espíritos demoníacos, com a falsa promessa de termos uma pena mais branda ou uma absolvição. O espírito demoníaco de obsessão era, nada mais nada menos, que um desvio sexual da luxúria encoberta pelos sacerdotes. Houve certo tempo que ecoou por toda a Europa a epidemia chamada O Malleus Maleficarium. Isso ocorreu em cinco de dezembro de 1484, quando o papa Inocêncio III emitiu a bula papal. Estabeleceu-se esse documento como padrão segundo o qual a Inquisição deveria ser conduzida, como ditadora das leis da Igreja Católica. O celibato clerical já estava em vigor havia 361 anos. Foi tempo suficiente para tornar os sacerdotes verdadeiros desviados sexuais. Essa obsessão sexual tomou tamanha proporção que as mulheres viviam com medo de que um dia, a partir do nada, alguém as acusasse de serem bruxas, visto que qualquer acusação seria equivalente à culpa. As mulheres podiam esperar qualquer coisa vinda de um homem que as desejasse. Por isso, a maioria vestia-se de forma austera e sem nenhuma vaidade aparente, pois qualquer indício de vaidade poderia levá-la a ser acusada de sedução demoníaca ou algo assim. Geralmente, não conhecíamos nossos acusadores, que poderiam ser homens, mulheres e até mesmo crianças. Isso dependeria de quem as acusasse de algum crime, pois os manipuladores usavam pessoas inocentes e desprovidas de recursos financeiros. Do processo de acusação ao julgamento, seguindo até a execução, podia ser rápido ou não. Isso dependeria muito da pessoa que estivesse sendo acusada. Mas uma coisa era certa: não existiam formalidades ou direito a defesa. A única alternativa do réu era confessar e retratar-se, renunciando a sua fé, seus bens, seus familiares, e aceitando o domínio e a autoridade da Igreja em ascensão. Os 41
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus direitos de liberdade e de livre escolha nunca foram associados a tais leis. Os acusados eram feitos prisioneiros e mantidos constantemente sob torturas. Muitos eram inibidos de dormir, e isso acontecia segundo revezava-se o horário de seus carrascos. Todos eram obrigados a confessar uma condição herética. As mulheres, que eram a maioria, comumente eram vítimas de violação. A execução era realizada geralmente em praças públicas, sob os olhos de todos os moradores, que faziam de tal barbárie uma festividade bizarra. Punir publicamente era uma forma de coagir e intimidar a população. A vítima podia ser enforcada, decapitada ou, na maioria das vezes, queimada viva. Entre as torturas, as mais usadas eram: o tronco, a roda de despedaçamento, o berço de Judas, a dama de ferro, o garfo, as garras de gato, a pêra, a máscara da vergonha, a cadeira das bruxas, o pêndulo e o esmaga joelho - entre tantos outros instrumentos que, além de monstruosos, eram criativos, dependendo do carrasco a executar a sentença. Os métodos de execução também eram bastantes variáveis, sendo os mais usados a guilhotina, o serrote, a espada, a forquilha do herege, o garrote, a gaiola suspensa, a submersão, a empalação, a cremação e o fura-bruxas, que nada mais era que uma faca falsa para enganar a população leiga. O fura-bruxas era a forma mais repulsiva e fraudulenta, pois tal faca de exame nunca perfurava coisa alguma. O que acontecia, na realidade, era que os carrascos cortavam a língua das vítimas e usavam o fura-bruxas ou athame falso para espetá-las perante a população leiga. Como a vítima não podia falar, pois estava sem a língua, eles diziam a todos, em alto tom: Viram-na? Está possuída pelo demônio! E, mediante tal espanto por parte da população, os acusadores aproveitavam-se para condenar a pobre vítima, mutilada. O nascimento de uma criança também era motivo para que a Igreja interviesse, enviando um de seus sacerdotes para examinar o rebento. Se na pobre e inocente criança houvesse algum tipo de sinal ou anomalia, imediatamente ela seria retirada de dentro da casa de seus pais e levada para dentro de um convento ou mosteiro, onde passaria o resto de sua infeliz vida sendo observada e até torturada por seus superiores. Procuravam, também, marcas do Diabo no corpo das mulheres consideradas hereges, pois, segundo a Igreja, o diabo deixava sua marca em algum lugar no corpo de uma bruxa. A mais óbvia era o mamilo supranumerário. Certamente, os sacerdotes celibatários e castos estariam muito interessados em examinar tais mulheres e, com isso, uma depravada compulsão por torturas e sexo violento surgiu com a chegada das normas morais da Santa Madre Igreja. Por parte dos sacerdotes celibatários e castos, essa praga emocional atingiu sexualmente indivíduos não funcionais, incapazes de sentir prazer na prática natural do sexo e, com isso, começaram a aliviar sua sexualidade reprimida, cortando, dilacerando e queimando as causadoras de toda aquela volúpia reprimida - ou seja, nós, as mulheres. Uma esposa não podia sentir prazer com o seu esposo, nem beijá-lo. Ela somente lhe serviria para a reprodução. Caso ela descumprisse tais preceitos - como, por exemplo, beijar o esposo -, ele poderia arrancar seus lábios, para que não se tornasse uma depravada do demônio. Essa regra só se aplicava às mulheres, pois seus maridos podiam procurar outras em prostíbulos, para satisfazer seus desejos carnais incompletos. O homem era o senhor - a mulher, um enfeite de estimação que nada mais servia para ele, além de ser a sua procriadora e zelosa dona de casa. Com a Santa Inquisição, foi fácil para satanás invadir a Igreja Católica, pois ela já tinha se movido para a prática da feitiçaria desde o ano trezentos e vinte e um, quando o imperador Constantino afirmou seu comando sobre a Santa Madre Igreja. Foi quando, finalmente, esse período da Inquisição começou a se separar da verdadeira videira de Jesus Cristo. Isso aconteceu há mais de oitocentos anos. Portanto, a madeira estava muito seca e suscetível ao fogo do Inferno. Foi assim que Satanás se aproveitou e soprou, usando a Inquisição como seu maior instrumento. Enquanto milhares de pensamentos invadiam minha mente, dei-me conta que Shaara estava sendo levada para um vilarejo, onde seria posta sob cárcere privado até seu julgamento. Olhei para 42
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus aquelas mulheres em desespero e meu coração apertou-se dentro do peito. Eu sabia que nada podia fazer por elas, mas me senti uma covarde e impotente por apenas ser uma sombra. Procurei por Shaara, que estava de mãos atadas, cabisbaixa e encostada em um canto, perto de um carvalho. Ela não dizia mais nada, estava imóvel. Parecia estar querendo apagar da mente todo aquele holocausto. Seu semblante era de dor e agonia. As pálpebras de Shaara estavam baixas, inertes. Ela praticamente já estava morta, somente seu corpo ainda estava de pé - talvez por uma questão de ela mesma não poder se desligar da vida material. Os soldados levaram-na para perto do capitão, amarrando-lhe as mãos à sela do cavalo do chefe da guarda. O senhor Edward ocupava três postos de muita responsabilidade e conveniência: o de chefe da guarda, o de capitão, e o posto mais alto, o de inquisidor. Logicamente, tais funções não lhe foram impostas por ele ser simplesmente tão merecedor ou competente. Ele era também outra vítima da Inquisição, que se aproveitou do seu ódio por Shaara para fazer dele um caçador de bruxas. Dessa forma, sabiam que poderiam confiar nele cegamente, pois varreria também, da face da Terra, os inimigos de Sua Majestade e da Santa Madre Igreja. Acompanhei aquele cortejo fúnebre de longe, para que Shaara não percebesse minha presença espiritual - ou poderia ser ainda mais catastrófico para ela. No mundo transitório onde me encontrava, nada poderia me acontecer, ou seja, nenhum mal físico. Mas de nem uma forma eu poderia interferir no mundo de Shaara. Era como se eu estivesse em um espelho às avessas: eu podia falar com eles e interrogá-los, mas não podia tocá-los ou ser tocada. Apenas o meu perispírito estava lá - o meu corpo, não, pois ele estava no século XVIII, em que se encontrava minha querida Maria e as outras irmãs, que pacientemente aguardavam meu retorno daquele transe astral. Era como se fosse uma janela imaginária, mas, ao mesmo tempo, real. Não soube descrever com palavras exatamente o que era aquilo tudo que estava acontecendo. Mas o certo é que eu estava lá. Presenciei aquelas coisas todas sem sair do lugar onde me encontrava. Fiz a viagem e sabia, naquele momento, que era algo muito especial e individual, pois cada pessoa que fizesse a viagem teria a sua forma pessoal de descrevê-la. Vi quando o capitão Edward olhou com ódio para Shaara, que estava presa à sua sela. Mas também vi o olhar de tristeza de Shaara, por parecer não reconhecer aquele homem. A engolida seca de minha ancestral demonstrou que estava sem força e fôlego para prosseguir todo aquele trajeto a pé e descalça. Depois de mais de três horas caminhando em trilhas áridas e pedregosas, Shaara, por fim, falou em um tom de voz, quase um sussurro: _ Dê-me água, pelo amor de Deus! Eu suplico: tenha misericórdia, apenas me dê água! O capitão olhou-a com desprezo e respondeu: _ Agora está se lembrando de Deus, bruxa maldita? Por que eu deveria ter misericórdia de uma discípula de satã? A senhorita e suas comparsas deveriam ter pensado na misericórdia Dele antes de terem se juntado a satã. Agora é tarde demais. Seus destinos estão em minhas mãos, e logo verei o fim de toda a sua raça amaldiçoada. Eu mesmo selarei seus destinos em nome de Deus e de todos os Santos dos céus. Faço isso sem nenhuma piedade, pois sei que todas são um caso perdido para a Santa Madre Igreja, levando em conta que o diabo já tomou conta de seus corpos e almas. Ao dizer tais palavras amargas, o capitão Edward olhou para Shaara de tal forma que a desnudou apenas com o olhar. Eu poderia estar enganada, mas, a meu ver, ainda existia paixão por parte do capitão Edward em relação à Shaara. Talvez fosse uma paixão doentia e corrompida pelo ódio e pela vingança - mas, mesmo assim, ainda existia um sentimento dentro daquele homem. E isso poderia ser muito mais prejudicial à minha ancestral. Shaara, percebendo o olhar de lobo selvagem do capitão, tentou modificar o rumo que poderia tomar aquela conversa. Tirando forças de dentro de si, respondeu, ainda num sussurro: 43
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Ninguém é dono do destino de ninguém, capitão, nem mesmo do próprio - embora essa fosse a sua vontade, não é mesmo, senhor Edward? Sempre quis controlar-me a qualquer preço, nunca pensou que eu poderia fazer o que o senhor quisesse? Shaara deu um sorriso triste, abaixando e sacudindo a cabeça negativamente. Depois olhou para ele, como que suplicando por socorro, e prosseguiu: _ Bastava que me pedisse! O senhor nunca soube o que é o amor de verdade e, pelo que vejo, nunca vai saber. Julgou-me pelos pecados dos nossos pais. Eu era inocente, senhor Edward. Mas, infelizmente, não quis perceber isso: o seu ódio era tanto que o senhor não me deu sequer o direito a defesa. Eu não sabia de nada. Para mim, foi uma surpresa descobrir o envolvimento de nossos pais no passado. Mas de que adianta? O senhor está senil pela sede de vingança que ainda lhe persegue. Por Deus, Edward! Como eu poderia saber de tais coisas? Meus pais esconderam de mim toda aquela história, eu juro por... Shaara parecia querer dizer mais alguma coisa, mas deu outro rumo àquelas palavras, que preferiram não sair de sua boca. Isso, para mim, foi uma incógnita. Mas fiquei quieta, observando minha ancestral desviar o assunto: _ O mais importante para o senhor sempre foi ver a sua vingança concretizada. Já se vingou de meu pai, tirando-lhe a vida. Já me fez pagar pelo pecado que ele cometeu no passado, conseguindo banir-me para o exílio, a viver longe da civilização. O que mais quer agora, senhor Edward? O que mais ainda falta? Por favor, senhor Edward, suplico em nome de Deus, a quem diz tanto amar! Pare agora, enquanto ainda lhe resta um pouco de civilidade. O senhor não sabe o que está fazendo, e vai se arrepender amargamente. Acredite: sempre lhe fui fiel, mesmo no exílio. O capitão olhava para Shaara com ódio mortal e não parecia ouvir o que dizia. Mas Shaara parecia decidida a fazê-lo voltar atrás por algum motivo, ainda oculto para mim. Então, ela continuou, enfraquecida e quase sem fôlego: _ Vejo dentro de sua alma. Vejo uma grande infelicidade bem lá no fundo. Mas sei que ainda há alguma coisa de bom aí dentro do senhor, capitão. Basta deixá-la vir à tona. O capitão, em um inesperado ímpeto de insanidade e ódio, esbofeteou Shaara, finalmente. Em suas faces alvas escorreu a dor. O capitão rangia todo o seu ódio por entre dentes, em um êxtase de vitória. Com a força da mão do capitão, Shaara escorregou e ficou pendurada à sela do cavalo daquele homem cruel, que ainda a arrastou por alguns metros. Até que parou, finalmente, e disse: _ Isso é para que não fale mais o nome do meu Deus em vão, sua bruxa! E que também lhe sirva de lição, para que aprenda a nunca mais mentir para mim com suas infâmias. Acha mesmo que eu acreditaria em uma só palavra do que estava dizendo? Fui treinado para lidar com bruxas e demônios; sei muito bem quando uma bruxa está tentando me seduzir, usando de encantamentos para me desvencilhar do meu objetivo. Sou um servo do Divino Deus Criador de todas as coisas. Não tem poder sobre mim, Satanás! Entre lágrimas, Shaara levantou-se do chão, secando com as mãos atadas o sangue que escorria das têmporas. Disse, entre soluços: _ Em seus olhos, vi um sentimento perfeito e puro. Mas era a máscara do seu ódio. Vocês, cristãos, acham que as bruxas sabem de tudo, não é? Mas também nos enganamos, como pode ver. O amor confunde-nos, assim como me confundiu. Sou mesmo uma tola: ainda teimo em acreditar na essência humana. Tento olhar no fundo da alma do ser humano, mas me esqueço que não adianta tentar. Pois quando alguém se perde na ignorância, na incompreensão e no ódio, está morto de alma. Para falar a verdade, nem mesmo sei se é humano. O ódio cegou-o, Edward. Ainda não percebeu isso? O semblante do capitão Edward transfigurou-se. Era como se outra pessoa estivesse ali, junto a ele. Senti medo daquele rosto. Percebi que Shaara também viu o mesmo que eu estava vendo. Meu coração parecia dizer que ele queria estrangulá-la. Ele estava completamente tomado por um espírito de revolta e vingança e, ainda aos gritos, ordenou: 44
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Cala essa sua boca imunda, bruxa maldita! Guardas, levem essa mulher infeliz da minha frente, antes que eu perca a minha cabeça! O jovem soldado correu ao encontro do capitão Edward, indagando-lhe: _ Devo trancá-la com as outras, senhor capitão? _ Não, quero que a algeme do lado de fora da carroça. Ela vai a pé até o vilarejo. Isso lhe servirá de penitência, fazendo-a se lembrar de quem é que está no poder aqui. O guarda empurrou Shaara abruptamente, como um animal. Amarrou-a pelos pulsos na parte traseira da carroça, onde estavam as outras mulheres. Shaara estava com as vestes rasgadas, e os pés e joelhos esfolados. O sangue descia na sua face, misturando-se com as lágrimas e os soluços. Isso pareceu incomodar o capitão Edward, pois ordenou que o soldado a amordaçasse. O soldado não só obedeceu à ordem do seu superior, como também bateu na cabeça de Shaara com um pedaço de madeira. A situação da minha ancestral não era nada agradável. A cada metro percorrido, seus pés sagravam mais, pois se cortavam com as pedras e os galhos espinhentos que existiam à beira do caminho. Shaara sufocava seus gemidos através da mordaça, que cortava seus lábios. O capitão Edward olhava para trás, uma vez ou outra, para se certificar de que Shaara estava sofrendo o suficiente com o tratamento imposto por ele. Naquele momento, as irmãs de Shaara não olhavam sequer para sua mestra. Pareciam repudiá-la e acusavam-na por tudo o que lhes ocorreu na floresta. Shaara estava só, à mercê daquele destino infeliz. Vi naquela mulher uma grande guerreira e, com o passar dos meus anos, aquela foi uma lição que segui a fio. Pois, mesmo naquele momento de flagelo, percebi que Shaara se preocupava com suas irmãs. A dor daquelas mulheres parecia ser mais importante do que a sua própria dor. Aquelas famílias estavam sofrendo com a morte de seus entes queridos. As cordas e os gravetos que cortavam o corpo de Shaara não eram nem a metade do que a dor na alma daquelas mulheres. Causava-me angústia não poder fazer absolutamente nada. Por várias vezes, contive as lágrimas que estavam prestes a cair. Não podia fraquejar; senão, minhas visões seriam interrompidas. Tentei manter meu coração em oração, buscando auxílio Divino e emanando energia positiva a todas elas. Depois da morte do pai de Shaara, ela se integrou ao grupo de auxílio de Mercedes, sua tia por parte de mãe. Mercedes era uma mulher de muitos princípios, e decidiu nunca se casar ou ter filhos para se dedicar somente aos pobres e necessitados. Mercedes foi considerada a maior bruxa daquele condado e, com o seu falecimento, Shaara passou a ser sua sucessora. Mas, naquele momento de dor e revolta, aquelas mulheres na carroça não conseguiam discernir o certo do errado e passaram, então, a vê-la como uma inimiga. O que elas não sabiam é que Shaara jamais as abandonaria ou as trairia por qualquer motivo que fosse. Shaara nunca recusou ou abandonou alguém que a procurasse pedindo abrigo ou caridade - mesmo sabendo que, a qualquer momento, poderia um daqueles necessitados ser um espião e vir a traí-la. E foi exatamente isso o que ocorreu: um senhor a quem Shaara havia dado abrigo e comida, curando-lhe também uma enfermidade, era um espião da Inquisição. O homem era um velho soldado, enviado disfarçadamente para descobrir o esconderijo de Shaara. Shaara nunca praticou bruxarias. Apenas curava os doentes com a ajuda das ervas, como lhe havia ensinando sua tia Mercedes. Durante anos, as duas exerceram esse trabalho árduo, mas gratificante. Em três anos, aquele pequeno grupo havia se tornado quase uma pequena vila. E a fama de Mercedes e Shaara espalhou-se à revelia por todo o condado. Isso incomodou os aldeões, o rei e, principalmente, a Igreja, que julgava estar perdendo muitos fiéis. Elas nunca precisavam ir à cidade e quase nada as faltava, pois de tudo a mãe terra produzia. Também contaram com a ajuda de alguns comerciantes, que lhes vendiam sal e açúcar às escondidas. Os feitos das duas bruxas cresciam a cada dia. Com isso, os boatos e mexericos maldosos foram surgindo em torno de ambas, que passaram a ser perseguidas pela Inquisição, confundidas com as feiticeiras de Salém. 45
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Elas criam no mesmo Deus que eles, sangravam com feridas e morreriam como qualquer um. Mas não eram vistas como parte da sociedade: eram vistas como a escória. A única coisa diferente entre aquelas mulheres e os demais era a forma simples e bela como levavam a vida. Não tinham culpa por terem nascido com um dom especial de ver e sentir coisas que não eram perceptíveis a olhos nus. Mas a ignorância, o autoritarismo e o preconceito faziam com que se parecessem monstros, diante de uma população que, além de cega, era também fácil de ser corrompida. A política dominava, mas a corte foi totalmente dominada e induzida pela Igreja em ascensão, que fazia os monarcas assinarem por todos os crimes e barbáries ditados por essa emissora de satã. Todos estavam completamente cegos ou em completo transe hipnótico, criado pelas falsas histórias dos inquisidores, das velhas beatas e adeptos das grandes leis ditadas pela Santa Madre Igreja. Na verdade, ninguém sabia quem emitia tais leis, mas elas chegavam à população em uma fração de segundos. Parecia que a maldade tinha asas, pernas, olhos e ouvidos. Qualquer mexerico era motivo para sermos perseguidas pelo povo fanático. Bastaria algum aldeão dizer ter visto fumaça na floresta para que a população, em massa, acreditasse ser alguém sendo vítima de algum sacrifício de magia negra. Se um lobo matasse uma criança, com certeza foi devorada por nós, as megeras. Quando alguém quiser identificar uma bruxa, basta associá-la à natureza e tudo o que dela vier. Se for necessário, fazemos os nossos rituais, mas optamos, na maioria das vezes, por nunca fazê- los - a não ser em caso de extrema necessidade. Nunca tomamos bebidas alcoólicas. De forma alguma usamos sacrifícios animal ou humano, como contam as lendas. Nunca fomos adoradoras do diabo: criaram esse mito em torno de nós como pretexto para poder acusar-nos de crimes que nunca sequer pensamos em cometer. Deus nos deu um dom e cada uma de nós o exercíamos em prol da humanidade. O dom da visão, o dom de falarmos com os espíritos, o dom da cura pelo toque das mãos ou pelas ervas, o dom de ver as coisas através das cartas e das xícaras de chás, entre tantos outros dons. Sempre usamos esses objetos como instrumentos da magia - mas isso não é uma regra, pois cada um de nós tinha o seu método pessoal de prever o futuro de um consulente. Deus era o nosso único mentor espiritual, mas também críamos em deuses e deusas, considerados deuses pagãos. Eram deuses cornudos e deusas aladas. Talvez por terem formas meio pitorescas - e até mesmo bizarras -, causavam repulsa e abominação aos leigos, que nada entendiam de nossa escolha religiosa. Nossos deuses tinham chifres porque eram metade homem e metade animal. Eram protetores das matas e da natureza. Mas isso nada tinha a ver com a magia negra, praticada às escondidas nos calabouços dos grandes palácios. Quem praticava tais abominações eram as feiticeiras, que, para se manterem vivas, aliavam-se aos monarcas, secretamente. Era como uma troca de favores bizarros: alguns monarcas conseguiam seus benefícios e, em troca, mantinham-nas vivas - enquanto lhes fosse conveniente, é claro. Interrompi meus pensamentos, pois os soldados pararam depois de quase seis horas de trajeto. Uma carroça havia quebrado o eixo e demorou quase uma hora para que fosse consertada. Depois, seguiram viagem. A noite já havia chegado e a Lua era a única forma de luz. Os soldados e o capitão não pareciam querer parar para descansar ou dormir, pois queriam chegar o mais rápido possível à cidade. Shaara caiu por várias vezes no meio do caminho, mas o soldado que escoltava a traseira da carroça dava-lhe chicotadas, para que ela se levantasse imediatamente. Ela estava parecendo um farrapo humano. O dia estava amanhecendo quando, por fim, chegaram ao vilarejo. O capitão Edward, ao descer do cavalo, fitou Shaara demoradamente. Eu poderia jurar que havia piedade naquele olhar, mas seria desejar demais de um soldado com cargo de inquisidor. De repente, senti que Shaara iria desmaiar. Deu-me certo pânico e desespero por nada poder fazer. Vi um homem gordo com uma peruca amarelada. Parecia ser um lord. Ele veio ao encontro do capitão Edward e perguntou: _ Senhor, esses são os prisioneiros? 46
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim, senhor, estas são as bruxas capturadas. E elas estão sob minha escolta, até segunda ordem. _ E por que esta mulher está caída ao chão, capitão? - quis saber o homem, percebendo que Shaara não estava consciente. _ Deve ter desmaiado, senhor. Ao passarmos pela Igreja, ela começou a passar mal. Bem sabe Vossa Excelência que o demônio não aguenta o poder do Senhor Nosso Deus. _ Sim, senhor capitão. Sei bem como essas bruxas valem-se dos poderes de satã. Mas quero saber em detalhes o que houve com esta mulher, pois amanhã o bispo virá aqui pessoalmente para interrogá-la. Creio que o senhor já deva ter o relatório pronto em mãos, capitão - ou melhor dizer senhor inquisidor? Capitão Edward deu um sorrisinho matreiro, como quem entendeu o que quis dizer o lord Del Soares. Em seguida, fez-lhe um cumprimento com a cabeça e seguiu em direção à prisão, onde ficariam Shaara e as outras trinta e cinco prisioneiras. Muitas horas depois, Shaara acordou, jogada ao chão de uma masmorra, assustada e meio sem noção ainda de onde se encontrava. Suspirou aliviada por perceber que ainda estava viva. O lugar era muito escuro e sujo, e cheirava a morte. Ela apertou os olhos, contou até dez e, lentamente, abriu-os de novo. Com aquele estranho ritual, Shaara pôde enxergar melhor no escuro. Então, percebeu que estava em uma masmorra cheia de ratos e com uma espécie de mina d’água, que escorria e molhava todo o ambiente. Shaara entendeu que estava abandonada à mercê do destino que lhe impuseram. Sabia que, se não a julgassem logo, morreria de qualquer forma e ainda seria devorada pelos ratos. Não conseguindo conter o choro, caiu em pratos desconsolados. Shaara urrou de ódio naquele momento, tentando demonstrar toda a sua decepção e o seu desespero por se sentir impotente. Um guarda, ao ouvir seus gritos, foi até a cela dela e jogou um pedaço de pão duro e água por debaixo da porta, dizendo: _ Coma e beba, sua cadela imunda, pois, se está urrando, deve ser de fome! Ao se retirar, empurrou uma vela acesa, também por debaixo da porta da cela. Shaara arrastou- se, tentando alcançar a vela. Então, viu-se acorrentada à parede. Com a vela, iluminou o recinto e pôde pegar o pedaço de pão e a água, pois precisava manter-se forte. Depois de comer, deitou-se encolhida a um canto menos molhado e tentou adormecer. Mas foi em vão, pois os ratos passeavam de um lado a outro, tentando se aproximar dela. Então Shaara começou a orar, pedindo forças e paciência aos seus mentores espirituais. Em suas orações, disse: _ Senhor, eu nunca fiz mal a ninguém. Nunca matei, mas perdi minha liberdade. Deus! - pôs-se de joelhos e prosseguiu: _ Peço: não me abandone, oh mestre, nesta hora de sofrimento. Não me deixe pecar, rogando pragas em meus algozes. Dê-me mansidão e sabedoria, para que eu possa aprender a aceitar o meu destino com dignidade. Shaara fechou os olhos e colocou-se em transe. Começou a fazer a viagem naquele momento. Aproveitei o seu momento de silêncio e fui naquela viagem, junto à minha ancestral. Sentei-me ao lado dela e fechei meus olhos. Pedi aos mentores espirituais presentes que me permitissem ver o que Shaara veria. Então, mais uma vez, como em um passe de mágica, eu estava em outro lugar. Estava dentro das lembranças da minha ancestral. Isso era fantástico e quase impossível de acontecer. Ninguém nunca havia indo tão longe. Poderia considerar-me uma pessoa de muita sorte. Shaara estava em um tempo de dez anos antes de aquela tragédia acontecer. Seu coração estava, com suas lembranças, no capitão Edward. Ela estava feliz e parecia ser uma jovem muito bem humorada. Era tão cheia de planos, o coração tão puro! E o olhar dos dois parecia ter cristais quando estavam juntos. 47
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Eu não conseguia, até aquele momento, entender por que duas pessoas, que pareciam ter se amando tanto, de uma hora para outra, passaram a se desprezar daquela forma. Eu estava translúcida naquela viagem: nem mesmo como um fantasma Shaara poderia ver-me. Então, pude estar bem junto a ela. Eu me sentia meio morta, mas estava adorando entender mais sobre minha ancestral. Sabia que aquilo seria muito útil para mim no futuro. Shaara seguiu mais à frente em sua viagem. Ela era muito poderosa e de muita experiência, pois, em fração de segundos, levou-nos mais à frente, ainda em seu passado. Fiquei admirada por perceber que poderíamos estar em tantos lugares ao mesmo tempo, dentro do mundo astral. É incrível o que a mente consciente pode fazer quando temos domínio sobre ela. E Shaara tinha esse domínio totalmente. Quando ela abriu os olhos, estava deitada em uma cama rodeada de mulheres que não eram suas irmãs da floresta. Pareceu um pouco assustada, tentando entender o que estava acontecendo. Eu estava ao seu lado o tempo todo, de pé à cabeceira de sua cama, mas ela sequer desconfiava da minha presença. E o motivo pelo qual Shaara ficou atordoada foi a maneira muito rápida com que havia se transportado de uma época a outra. Isso poderia ter resultados catastróficos, e era uma coisa que eu não arriscaria, mesmo porque eu era só uma aprendiz. Acompanhei os olhos de Shaara, que parecia estar matando a saudade de seu lar. Ela olhou minuciosamente cada cantinho daquele quarto, que parecia ter sido decorado para uma princesa. Era um quarto grande, com uma decoração contemporânea lindíssima, muitas cortinas, uma cama muito grande e mobílias muito polidas. Isso sem contar o cheiro bom de comida, que estava vindo de algum lugar daquela casa. Foi quando uma jovem magra e simpática entrou no quarto de Shaara, com uma bandeja contendo chá, biscoitos de nata, torradas, suco, bolinhos e frutas. Tanta fartura que me senti satisfeita somente de olhar para tantas guloseimas! Shaara já estava reconhecendo o ambiente. Deu uma larga espreguiçada sobre a cama e, em seguida, perguntou: _ Onde estou? - parecendo apenas querer se certificar que estava a alguns passos atrás, em seu passado feliz. _ A senhorita está bem? - perguntou uma das senhoras, que parecia ser de confiança da família. Está em seus aposentos, em sua casa. – respondeu, parecendo preocupada, mas mantendo um tom de simpatia. Onde mais poderia estar a menina? Trouxemo-la para seu quarto, depois daquele súbito desmaio que a senhorita teve logo após o jantar de ontem. Agora, por favor, arrume-se! Seu pai está à sua espera. Shaara levantou-se às pressas. Parecia querer recuperar o tempo perdido ao lado do pai. Arrumou-se tão rapidamente que mal se preocupou com a vaidade. O que ela mais queria, naquele momento, era estar com o seu velho pai e poder dizer-lhe o quanto o amava. Pois, quando Shaara se exilou na floresta com sua tia Mercedes, para se esconder da Inquisição e do capitão Edward, não pôde se despedir de seu pai, que havia sido condenado à forca por traição contra a corte. Shaara sentiu-se uma traidora por nada ter podido fazer a respeito. Tentou fugir várias vezes para poder ajudar o pai, mas, devido à frágil condição em que ela se encontrava, Mercedes e as outras irmãs não a deixaram sair. Shaara, desde então, mantinha em sua cabeça que seu pai não a perdoou por isso. Portanto, aquela viagem para Shaara era de extrema importância. Para ela, era como fosse um resgate: mesmo que ela não pudesse mudar em nada o seu destino, era uma forma de rever e ficar um tempo a mais com o pai. Shaara atravessou vários corredores daquele enorme casarão. Não consegui ver muita coisa e nem detalhar nada, pois ela estava com pressa e tudo parecia espelhos às avessas. Era como se fossem flashes em minha mente. Quando Shaara estava parada ou calma, eu via claramente as coisas ao meu redor. Mas se Shaara corresse, era como se o tempo acelerasse. Então, embaçava tudo ao redor, deixando-me impotente em relação aos detalhes. Ao chegar a um grande saguão, de mobília refinada e muito rica, pude ver um senhor de costas olhando pela janela, enquanto fumava cachimbo. Ele estava de costas e usava um roupão. Parecia ter acordado havia poucas horas. 48
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Shaara estava com tantas saudades que nem se preocupou com a etiqueta: correu e abraçou o pai pelas costas. _ Que saudades, pai! – disse-lhe entre lágrimas. O homem virou-se lentamente, segurou Shaara pelos braços e perguntou: _ Querida, está se sentido bem? O homem, meio confuso por toda aquela estranha situação, passou as mãos no rosto de Shaara, tentando acalmá-la e, enxugando suas lágrimas, prosseguiu: _ Sou seu velho pai e sempre estive aqui! Ela pareceu perceber aquele erro e tentou acalmar-se, dando-lhe um sorriso confuso. Senti minhas pernas tremerem quando fitei o rosto daquele homem. O pai de Shaara era também o meu pai. Eu não conseguia entender como isso seria possível. Uma parte de mim quis sair correndo e encontrar Dona Helena, para esclarecer tudo aquilo. Outra parte queria ficar, para ver onde meu pai se encaixava naquela louca história. Eu queria abraçá-lo também, pois estava morrendo de saudades. Mas sabia que, embora a semelhança fosse gritante, seria impossível, pois meu pai não fumava tabaco de espécie alguma. Senti-me completamente confusa: queria respostas, queria tocá-lo a qualquer custo. Confesso que foi uma das partes mais difíceis da viagem. Respirei fundo, tentando acalmar a minha ansiedade. Foi quando percebi que algo estava errado com a minha ancestral: ela estava ficando pálida e, de repente, desmaiou. Só não caiu ao chão porque seu pai a amparou pelos braços. Que confusão... Eu não sabia, afinal, pai de quem ele era naquele momento. Imediatamente, as empregadas foram chamadas e uma ordem foi dada para que o médico da família fosse localizado. Algumas horas depois, Shaara voltou a si. Parecia meio atordoada, e logo perguntou, por se ver deitada em um divã: _ O que houve comigo? _ A senhorita teve outro desmaio. Tem se alimentado bem, querida? - perguntou o médico. _ Foi só um desmaio, doutor! Por certo deve ser o calor. - disse o pai de Shaara, interrompendo aquela conversa. _ Deixe que ela me responda, senhor Gonzáles. Preciso certificar-me dos sintomas para poder dar o diagnóstico. Há quanto tempo a senhorita tem tido esses sintomas? _ Há algumas semanas - respondeu Shaara, ainda confusa e preocupada. _ E isso ocorre antes ou depois das refeições? _ Varia, doutor. Sinto muitas tonteiras e enjoos. _ Entendo! _ O que há com a minha filha, doutor Sanches? Ela está muito doente? - indagou o pai de Shaara, pondo uma das mãos no ombro do médico. Dr. Sanches levantou-se calmamente. Tirou os óculos e levou o pai de Shaara a um canto onde, em particular, deu-lhe o diagnóstico. _ Sua filha esta grávida, senhor Gonzáles. E os lapsos de memória que ela vem tendo são provavelmente porque está muito preocupada em como contar-lhe o fato. Isso acontece muito quando as pessoas estão cansadas ou passando por problemas. O senhor deve ter uma conversa mais franca com a senhorita Shaara. Mas tenha cuidado, pois a situação é delicada. O pai de Shaara ficou pálido. Tansfigurou-se, parecia ter perdido o rumo de onde estava. Era uma situação muito constrangedora e delicada para ele. O médico não deu nem mais uma palavra com o pai de Shaara. Apenas pediu às criadas e à senhora que deixassem os dois a sós. O pai passou as duas mãos sobre as faces pálidas, tentando recompor o ânimo. Por fim, perguntou: _ Quanto tempo mais achava que poderia me esconder tal fato? Esperava tudo de qualquer um, menos uma traição vinda da minha própria filha. Shaara arregalou os olhos, parecendo realmente não entender o que estava acontecendo. _ Como assim? Não estou entendendo o que o senhor está tentando dizer, pai! 49
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Não me faça perder a cortesia e esbofeteá-la, menina! Há quanto tempo perdeu-se com aquele crápula? Deus do céu, o que vão dizer? Devem casar-se de imediato. Não quero que fique mal perante a sociedade. A Igreja pode excomungá-la e bani-la para longe de mim. O que faço? - o homem parecia desnorteado; mal podia manter-se de pé. Shaara levantou-se e foi na direção do pai. Tentou abraçá-lo, mas ele se afastou. Então, ela abaixou a cabeça e disse: _ Perdoe-me, pai, eu amava muito Edward. Sei que traí o senhor, não lhe contando a verdade. Mas senti medo da sua reação. Não quis magoá-lo, juro! Eu o amo muito, pai, não sabe o quanto... Não pode imaginar tudo o que passei para estar aqui com o senhor. - Shaara referia-se à viagem. _ Deveria ter confiado em mim, Shaara. Quero que me conte exatamente como e onde aconteceu o fato, para que eu saiba qual providência tomar. - tomou Shaara pela mão e a fez sentar em uma cadeira. Puxou um banquinho para perto dela e disse: _ Estou esperando. Comece. Shaara respirou profundamente, ergueu a cabeça e começou a contar: _ No dia em que o senhor foi chamado para visitar mamãe em seu leito de morte, Edward tinha vindo aqui para me fazer o pedido de casamento. Eu não sabia se ficava feliz por ter sido pedida em casamento por ele, ou se me desesperava com a situação de mamãe. Shaara começou a contar em detalhes aquela história de amor e ódio. _ Foi exatamente da forma como vou narrar. Não vou mentir em uma só vírgula. _ Espero que não! Shaara finalmente prosseguiu: _ Fomos ao jardim caminhar e Edward, naquele dia, estava perfeito! _ Poupe-me de certos detalhes, por favor! - retrucou o senhor Gonzáles, enfurecido. _ Estávamos no jardim e ele disse simplesmente quero me casar. Sei que seu pai não dará permissão até que complete dezoito anos, mas não estou aguentando mais. Fui promovido por ordens do próprio bispo. O que ganharei será suficiente para sustentá-la. Fuja comigo esta noite, eu imploro. Então, quando voltarmos, seu pai não poderá nos impedir de ficarmos juntos, pois estaremos casados. Foi quando Madalena interrompeu-nos, dizendo que o senhor solicitava minha presença de imediato. _ Esse canalha, juro... - Gonzáles interrompeu Shaara, apertando o pulso. Ela pediu ao pai que a deixasse prosseguir com a conversa: _ Deixei Edward sozinho no jardim, sem lhe responder ao pedido ou me despedir, pois fiquei preocupada com o senhor. _ Filha... - ele caiu aos prantos, pois se lembrou do fato ocorrido. _ Sim, pai. E depois que o senhor me deu a notícia de que mamãe estava morrendo, Edward entrou e ainda lhe trouxe água para beber. Enquanto o senhor se arrumava para ir ao encontro de mamãe, Edward afirmou o desejo de se casar comigo. Então, disse: Sei que posso parecer um pouco frio e precipitado, mas não abro mão de você, meu amor. Vá com seu pai, mas volte para mim. Assim que as notícias forem melhores, escreva-me. Despedimo-nos e nada havia acontecido entre nós antes daquele dia. Shaara e o pai ficaram horas recordando a mãe de Shaara. Os dois estavam nostálgicos e chorosos. A mãe havia sido uma bruxa. Foi uma mulher muito amada por todos da sociedade por sua bondade. Por amor a Gonzáles, nunca praticou a bruxaria - com a condição de, às escondidas, poder sempre estar perto de seus instrumentos de magia. Por anos, durante a súbita doença, Efigênia Gonzáles foi mantida em um bangalô, afastada da população por causa da lepra, que já estava em estado avançado. Shaara, então, deu prosseguimento àquela conversa, perguntando ao pai: _ O senhor lembra-se de quando mamãe pediu para falar comigo a sós? _ Sim, lembro-me. - disse Gonzáles, passando a mão sobre os olhos, envoltos pelas lágrimas. 50
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim, pai, foi naquele momento que ela me contou que era uma bruxa. Mamãe pediu-me para pegar alguns objetos que estavam em cima de uma mesinha. Então, depois de desembrulhar, mostrou-me algo que guardara por anos. Entregou-me uma varinha, um athame, um livro de receitas, um cálice de prata e um caldeirão. Depois, explicou-me como eu usaria cada um daqueles objetos, pai. Confesso que fiquei muito assustada e incrédula também. Mas ela, parecendo perceber essas coisas em mim, contou-me a seguinte história: _ Quando conheci seu pai, eu tinha dezesseis anos. Era uma camponesa e morava em uma humilde casinha no meio da floresta. A carruagem em que seu pai estava perdeu o eixo, e ele e seus criados quase sofreram um sério acidente. Seu pai precisou consertar uma roda da carruagem antes que a noite caísse e os lobos viessem, famintos e furiosos. Os lacaios de seu pai mal sabiam guiar os cavalos. Eram totalmente despreparados para uma situação de emergência. E foi aí que, naquele momento, por uma artimanha do destino, seu avô, que passava por ali, vendo a dificuldade de seu pai, resolveu oferecer-lhe ajuda. Devido à alta hora, seu avô também ofereceu-lhes pousada. Seu pai foi levado para a nossa humilde cabana, mas foi muito bem recebido por minha mãe, que logo tratou de matar um ganso para o jantar. A casa era pequena, mas todos se acomodaram bem. Quando os meus olhos e os de seu pai cruzaram-se, percebemos que não conseguiríamos ficar um sem o outro. Minha mãe observou-nos atentamente. Seu pai permaneceu em minha casa mais tempo do que o previsto. Quando ele partiu, deixou a certeza de que iria voltar, pois me deu o anel com seu brasão. Meu pai não acreditou muito, mas minha mãe viu em seu tarô que ele voltaria para se casar comigo. _ Seu tarô, como assim? – perguntei à mamãe. Sim, sou uma bruxa, uma cigana ou como queira chamar-me. O mais intrigante foi ver a pequena marca que ela me mostrou: era um sinal, uma flor, pai. A flor de lótus, a marca das condenadas. Mas mamãe era surpreendente. Antes mesmo que eu a perguntasse, explicou-se: _ Consegui fugir de um inquisidor pouco antes de conhecer seu pai. Esse homem cruel perseguiu-me muito tempo. Quis me possuir como mulher antes mesmo que eu tivesse dezesseis anos. Estive escondida no meio da floresta, na casa de minha irmã Mercedes, que é uma feiticeira muito temida. Depois de muito me esconder, recebemos a notícia que esse homem perverso veio a falecer, devido a uma doença desconhecida. Quando seu pai voltou para mim, contei-lhe tudo a meu respeito. Ele simplesmente aceitou-me como sou, pois seu amor foi muito maior do que o preconceito da sociedade que nos cerca. Prometi que nunca praticaria meus feitiços, mas nunca prometi que não os usaria às escondidas. Seu pai fez olhos de mercador quanto a isso. Prometemos nunca mentir um para o outro, e achamos melhor não contarmos tal assunto à família dele. Casamos e fomos felizes. Logo de princípio, confesso que não foi fácil, pois sua bisavó era uma condessa de muitos modos e etiquetas. Tive que aprender boas maneiras e foi-me incumbida uma educadora familiar, que me ensinou etiqueta em casa. Logo a sociedade aceitou-me, pois eu era muito aplicada e dediquei-me ao máximo. Seu pai, durante toda a sua vida até agora, nunca me traiu, mas deixou alguns amores para trás. Certa jovem de nome Escarlate Mennellet, uma francesa muito ambiciosa, que não se conformou por seu pai ter-me escolhido. Fez de nossas vidas um inferno enquanto ela viveu. Ela e a mãe procuraram uma velha feiticeira, que também se tornou inimiga de nossas famílias. Essa jovem, minha filha, perseguiu-me durante toda a sua existência. Ela seguia a mim e a seu pai quando saíamos, fazendo escândalos. Várias vezes jurou matar-me. Essas três mulheres fizeram um sortilégio com o intuito de trazer seu pai de volta. Só que elas se esqueceram de que um sortilégio só funciona se a outra parte tiver algum sentimento pela primeira. Seu pai não amava a senhorita Mennellet. Com o passar do tempo, essa jovem teve vários outros amantes. Deitava-se com homens, na esperança de conseguir status e poder, para se aproximar de nós através da sociedade. Só que, minha querida filha, senhorita Mennellet engravidou. Foi aí que ela planejou uma artimanha, na tentativa de comprometer o seu pai. Eu ainda não tinha engravidado. Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo comigo. E um herdeiro era muito 51
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus importante para seu pai. Tentamos várias vezes, e a única vez em que engravidei de um menino, ele nasceu morto - o que deixou seu pai muito frustrado. Mas ele nunca deixou de me amar por isso. Sempre foi muito compreensivo: para ele, não importava se viesse um menino ou uma menina. Como eu estava dizendo, a senhorita Mennellet planejou contra seu pai: aproveitou tal gravidez e, como ainda estava no início, convidou seu pai para ir até a casa dela, dizendo que seria a última vez que o procuraria. Seu pai contou-me e eu disse que ele deveria ir para ver o que ela queria. Ele, muito relutante, aceitou o convite da senhorita Mennellet. Ao chegar ao bangalô dela, toda uma teia já estava tecida, esperando por ele. Ela o convidou para um drinque e o embebedou com uma poção, preparada por uma feiticeira. Seu pai adormeceu. Ela, então, o levou para a sua cama. Quando seu pai acordou, estava nu e ela estava sorrindo ao lado dele. Seu pai vestiu-se correndo e saiu daquele quarto. Em casa, Gonzáles contou-me tudo. Chorei muito por achar que meu esposo havia me traído - o que era pior, eu era a única culpada por isso. O tempo passou. Mennellet procurou seu pai, dizendo que estava grávida dele. Ele entrou em desespero, mas, como homem honrado, ajudou aquela senhorita, dando-lhe tudo o que ela precisou para ter seu filho. Eu, a cada dia, me sentia frustrada por não poder dar a seu pai um filho legítimo. Com o tempo, seu pai resolveu ouvir a minha mãe, que dizia que sua irmã Mercedes poderia nos ajudar. Fomos até ela e, assim como minha mãe havia dito, ela nos ajudou. Ela também previu que a senhorita Mennellet não estava grávida de seu pai, e que o verdadeiro pai da criança frequentava sua casa e ainda a explorava, tirando toda a ajuda de custo que seu pai lhe enviava. Seu pai colocou um investigador e pegou-a em flagrante. O menino, nunca soube o nome, mas já tinha feito quatro anos quando engravidei. Mas não pense que Mennellet aprendeu a lição: aquela jovem enlouqueceu e procurou novamente a feiticeira. Fez um sortilégio contra mim, lançando-me essa maldição. Ela jurou que, assim que a minha criança nascesse, eu cairia de cama sob uma peste que nada no mundo desfaria. Com o passar do tempo, seu pai e eu ficamos cada vez mais unidos. Então, você nasceu. Ficamos tão felizes que pensamos que nada ou ninguém poderia nos separar ou nos prejudicar. De repente, caí de cama, com febre alta. Manchas horríveis apareceram em todo o meu corpo. O médico da família foi chamado e, em alguns dias, o diagnóstico foi dado: era lepra. Tentaram de tudo, mas não descobriram a cura. Minha mãe procurou a velha feiticeira para tentar dar-lhe mais dinheiro. Assim, talvez pudesse inverter o feitiço. Só que a feiticeira havia morrido subitamente e, com ela, a esperança de uma cura. Por sete anos, seus avós cuidaram de mim aqui, neste lugar escondido e isolado, até falecerem. Alguns empregados corajosos e fiéis têm cuidado de mim nos últimos anos. _ Segurei sua mão pálida e magra, pai. Perguntei se eu era uma bruxa também. _ Sim, e da mais alta linhagem, querida. Tudo o que precisa saber está dentro desse livro que lhe dei. Todos os meus segredos estou-lhe entregando. Guarde-o... E, se algo acontecer-lhe um dia, enterre-o. O diário tem tudo o que precisa saber sobre mim e tudo que nunca pude compartilhar com você durante toda a minha vida. É a minha história, ou o que restou dela. A colher de pau é uma herança de família. Há muitos anos tem passado de geração em geração. Agora ela é sua. Essa é a sua varinha. Nunca a perca, pois tudo e todo o feitiço que vier a fazer deve ser mexido somente com essa colher de pau. Nunca faça o mal a ninguém, filha. Nunca revide um feitiço, nunca deixe que as pessoas matem sua essência. Não faça sortilégios para segurar um homem, nem use seus poderes para o mal dos outros. Lembre-se da lei do retorno e de que o destino de ninguém é brinquedo. Lembre-se também de que, se rezamos a Deus pedindo o mal de alguém, estamos fazendo um feitiço. Deus nunca nos nega nada que pedimos em oração. Porém, se um dia lhe fizerem um sortilégio, e o mal que lhe laçarem não achar maldade em você, Deus lhe protegerá, dando permissão para que o mal se volte contra quem lhe enviou. Quando fazemos mal para uma pessoa inocente, Ele permite que o mal se volte contra nós da mesma maneira. Todo o mal que 52
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus desejamos ao próximo, desejamos contra nós mesmos. Não devemos estar em débito com Deus. Ele rege o universo, e é a força do universo que rege os nossos destinos. O mesmo se sucederá a alguém com o anjo da guarda forte: quando o mal que fazemos a essa pessoa chegar até ela, encontrará uma espécie de barreira protetora. Então, virá atrás de quem o mandou, com a sua cobrança cega. O mal é mercenário e carrasco. Inclusive contra quem o pratica. Por isso, pense muito antes de ajudar alguém com sortilégios. Investigue para saber se a pessoa está falando a verdade e, principalmente, se é merecedora. Caso contrário, o mal vem como uma fera cega em cima de você. No livro que lhe dei, encontrará o segredo das ervas que curam. Como usar sua clarividência, como usar as cartas, como usar a bola de cristal, ou mesmo como fazer a viagem. A viagem é essencial para conseguir entender a si mesma. _ Perguntei-lhe o que era a viagem. _ É uma espécie de sono profundo, onde se consegue viajar no tempo, encontrar respostas no passado para coisas que podem lhe parecer absurdas e sem sentido no presente. _ Pai, como eu gostaria de ter estado ao lado de minha mãe e aprendido tudo sobre aquela cultura misteriosa... Queria ter participado de todas as coisas que foram importantes para ela. Meu coração doeu tanto, pai, por ter que vê-la partir... Senti muito mais do que piedade: o sentimento era uma mistura de nostalgia, perda e amor. Naquele momento, tudo isso estava ali na minha frente, indo embora. Ela estava morrendo. E não pude fazer nada, porque isso também estava nas mãos de Deus, e Ele regia o destino de nós duas naquele momento. Era como se fôssemos um brinquedo e estivéssemos sendo manipuladas. O livre arbítrio não funciona realmente, pois, caso funcionasse, tenho certeza de que minha mãe teria escolhido ficar conosco para sempre. Shaara parecia sincera em relação àquela observação. Suas lágrimas escorreram de suas faces como um mar procurando abrigo por entre as rochas. O pai de Shaara entendeu que a filha estava havia muito guardando aquela dor e disse: _ Não lamente, não fomos culpados pela morte de sua mãe. Fomos vítimas também. Os dois abraçaram-se fraternalmente e Shaara contou-lhe sobre Edward: _ Depois que voltamos do velório de mamãe, Edward procurou-me no cemitério. Ele estava lindo, em um casaco de veludo preto, calça bege e botas. Todos os nossos criados estavam presentes, por isso nos afastamos. Edward puxou-me para um canto, debaixo de uma árvore, e beijou-me ardentemente. Tentei empurrá-lo, mas ficou difícil, pois ele estava frenético e muito sensual. Edward estava muito mudado, não consegui controlar seus impulsos. Queria tentar entendê-lo. Foi então que, num sussurro, ele disse: quero vê-la. Tentei adiar aquela suposta fuga, respondendo claro, assim que tudo isso passar, iremos nos encontrar para conversarmos. Mas Edward não queria aceitar e respondeu-me: Não, de jeito nenhum! Acho que não me entendeu, quero encontrá-la hoje à noite. Disse-lhe que minha mãe havia acabado de falecer, que ele estava perdendo a noção do certo e do errado. O senhor jamais permitiria que nos encontrássemos aquela noite. Estávamos de luto. Seu pai não precisa saber – respondeu-me Edward. Quero que me encontre na taberna, perto do vilarejo. Direi ao taberneiro que estarei esperando minha noiva, e ele não fará interrogações quando lá chegar. Por favor, preciso tê-la, a sós. Não acontecerá nada demais, prometo-lhe. Para que se sinta mais segura, casaremos no dia seguinte. Assim, seu pai não poderá nos impedir de ficar juntos. Quero contá-la como fui promovido. Não me negue isso! Seus olhos eram suplicantes, e sua voz deixou-me totalmente tonta e sem razão. Embora eu soubesse o risco de estarmos sozinhos, confesso que também o queria. Mesmo sabendo da imprudência do momento, eu disse sim... Foi quando o senhor chegou e flagrou Edward beijando-me. Pai, o senhor ofendeu-me e esbofeteou-me. Fiquei magoada por não ter sequer me deixado explicar. Eu quis me vingar. Perdoe-me! Fui uma tola. Shaara baixou a cabeça, envergonhada e triste. Mas seu pai compreendeu que ela havia agido por impulso e que ele também poderia ter agido diferente em relação àquela situação tão delicada. Depois de muito pensar, ele disse: 53
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Parece que o senhor Edward sabe bem como funcionam as coisas na Inglaterra. Mas aqui, na Espanha, com certeza ele terá que aprender a duras penas. Creio que precisarei conversar em breve com ele. _ Pai, por favor, ainda não terminei. Preciso que o senhor saiba o que houve comigo, antes que faça uma tolice e ponha em risco a sua vida. Shaara estava tentando mudar o triste destino de seu pai. Meu Deus, fiquei muito assustada porque meus sentidos de bruxa avisavam-me o quanto ela poderia estar enganada. Ela nunca poderia ter tomado aquela atitude, mesmo que estivesse tentando salvar uma vida. Nunca podemos interferir no destino de alguém, e muito menos usar a viagem para tal propósito. Shaara, em seu momento de dor, tentou mudar o passado, mas se esqueceu de uma coisa: isso era impossível. Senti muita pena de Shaara, pois entendia sua dor. Fiquei quieta, ouvindo-a prosseguir com aquela conversa insana de uma pessoa desesperada. Shaara contou o seguinte a seu pai: _ Naquela noite, uma escrava ajudou-me. Ela não teve culpa, pai, praticamente a obriguei a me ajudar. Chamei-a e pedi que me trouxesse um vestido de camponesa e um capuz vermelho, para que não fosse reconhecida por ninguém na cidade. Disse que eu e Edward iríamos fugir aquela noite, que ela não poderia contar a ninguém, muito menos ao senhor. Caso contrário, eu mandaria puni-la por isso. Ela ainda disse, com olhos arregalados: _ Credo em cruz, Sinhá! Não sou de fazer mexericos, não. Só acho que a senhorita está muito enganada em relação a esse capitão. Afinal, sua mãe nem esfriou ainda. Luto é coisa sagrada! _ Ela não estava errada, pai. Mas, mesmo assim, passei por cima de tudo e disse-lhe: Acredite, Joaquina, minha mãe iria aprovar isso. Eu o amo muito e essa decisão já está para ser tomada há muito tempo. Meu pai só fez antecipar os fatos. Ela benzeu-se, num ar de desaprovação. Eu estava cega de ódio do senhor naquele momento, pai. Não ouviria nem mesmo mamãe. Joaquina ainda tentou argumentar: _ O pai da Sinhá é um homem bom. Se fez o que fez é porque está com a cabeça quente e o coração amargurado. Ele amava muito sua mãe, e a dor da perda fundiu os miolos dele. Acho que a menina deveria pensar mais um pouco antes de tomar qualquer decisão. _ Meu pai nunca poderia ter me batido, Joaquina – eu lhe disse. Se ele sofre, tem que saber que sofro também. Ela era minha mãe. Fui privada de vê-la a minha vida toda. Nunca pude ter os seus carinhos. Quando eu chorava por ter caído, não tinha ninguém para me pôr no colo ou afagar meus cabelos. Ele nunca teve tempo nem para me contar histórias de dormir. E agora está se sentindo no direito de espancar-me? Vou mostrar-lhe em quem ele bate. _ Está bem, sinhá. Tomara que o patrão não me castigue por causa de sua cabeça dura. É mió a Sinhá andar depressa, que o cocheiro já está aguardando onde foi combinado. É... água morro abaixo, fogo morro acima: muié moça, quando quer desembestar, ninguém segura. _ Joaquina disse isso entre dentes, quando me viu saindo porta afora. Na saída, dei uma olhada em tudo e ainda respondi a velha escrava, desaforadamente: Ouvi isso, sua insolente! Não sei onde eu estava com a cabeça, pois nunca tratei nenhum de nossos escravos daquela maneira. Muito menos Joaquina, que praticamente me criou. Ninguém me viu saindo. Fui muito cautelosa. Dei ao cocheiro o endereço e seguimos para o vilarejo. Ao chegarmos à taberna, o cocheiro perguntou-me se eu tinha certeza de que era ali. Respondi-lhe meio assustada e curiosa pela pergunta: Sim. Algum problema? _ Senhorita, desculpe-me pela intromissão, mas aqui não é lugar para alguém de finos modos... Quer que eu entre com a senhorita? – ofereceu-se o cocheiro. _ Não será preciso, meu noivo está me esperando. Obrigada! Escutei quando ele falou noivo, hein? Sei... Perguntei enfurecida se ele havia dito alguma coisa, no que me disse Não, senhorita. Só pensei alto. O cocheiro virou o rosto e parecia antipatizado comigo, mas me disse para aguardá-lo ali, que não se demorava. Entrou na taberna sozinho. Parecia querer se certificar se havia alguém esperando por mim lá dentro. Quando de lá ele voltou, disse-me para entrar pela porta dos fundos, para não chamar muita atenção dos homens que estavam lá dentro. Desci da carruagem e entrei na 54
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus taberna pelos fundos, como sugeriu o cocheiro. Procurei pelo taberneiro. Ele me olhou atônito, como se me reconhecesse, mas nenhuma palavra disse. Colocou o copo, que estava enxugando com um paninho encardido, em cima do balcão, pegou uma lanterna e guiou-me em direção à porta dos fundos, novamente. Da portinhola, mostrou-me um celeiro. Olhou-me de cima abaixo, parecendo não acreditar que eu iria ter coragem de ir até lá. Mas o olhei desafiadoramente e não lhe dirigi mais a palavra. Segui, tentando mostrar-me corajosa. A noite estava fria e senti minhas pernas tremerem. Vacilei e quase caí. Somente a luz da Lua me guiou. Abri a enorme porta do celeiro e vi não vi ninguém. Vários lampiões estavam acesos e, no meio, tinha uma mesa com vinho, taças, queijo, frutas, e pães. Logo à frente, encontrei um colchão feito com feno. Alguns cobertores estavam dobrados ao lado. Sorri sozinha, pois sabia que Edward havia preparado tudo nos mínimos detalhes. Edward, você está aí?, chamei mais alto e ninguém respondeu. Comecei a ficar assustada e, de repente, ele chegou por trás de mim, abraçando-me e beijando-me. Virei para olhar para ele e fui beijada na boca, com paixão. Depois, empurrou-me pelos os ombros e fitou-me toda. _ Não quero mais ouvir tais detalhes. - disse o pai de Shaara, com o semblante que era pura decepção. Mas Shaara pediu para que terminasse aquela conversa: _ Por favor, pai, preciso de resposta e, para isso, o senhor terá que ouvir toda a minha versão dessa história. Então, Shaara prosseguiu: _ Edward olhou-me de um jeito que nunca havia me olhado antes e disse-me que eu estava linda, que me amava loucamente, que não conseguia pensar em sua vida sem mim. Seus olhos eram ternos, mas também cheios de luxúria. Fitei-o de cima abaixo, enquanto foi buscar-me uma taça de vinho. Estava com uma camisa branca muito fina, aberta, que deixava o peito másculo e peludo à mostra. As mangas, longas, estavam dobradas até o antebraço. Calça de couro, com um cinto largo, e botas, lembrando os famosos corsários. Seus cabelos estavam soltos, e sua barba muito bem feita. Ele usou sândalo naquela noite. Aquele cheiro despertou em mim um lado adormecido até então. Como eu disse, pai, também tive minha porção de culpa. E Shaara prosseguiu com aquela história, que me surpreendia a cada segundo: _ Edward trouxe-me uma taça e brindamos a nossa felicidade antes de bebermos. Sentamos no colchão improvisado, comemos queijo com fruta e pães, e contamos histórias antigas. Ríamos como loucos por qualquer coisa. Edward fitou-me, de repente, e beijou-me novamente com ternura. Seus beijos foram ficando mais frenéticos e ardentes. Suas mãos começaram a abrir caminhos desconhecidos no meu corpo. Já entorpecida pelo vinho e pela luxúria, deixei-me render. As mãos de Edward foram ágeis demais e, em instantes, conseguiu abrir meu corpete. Percebi que estava completamente indefesa e em suas mãos. Pude perceber sua experiência com as mulheres, e senti um ciúme infindável. Como num passe de mágicas, ele tirou o restante de minhas roupas. Queria falar- lhe algo, mas seus beijos e suas mãos ficaram cada vez mais insistentes e impacientes. Meu corpo tremeu ao sentir sua boca escorregando em meus seios, jovens e inexperientes. Sua mão desceu e alcançou meu local mais secreto. Senti tontura e um devaneio sem fim. Sua boca percorreu todo o meu corpo, até levar-me a um frenesi angustiante. Quando percebeu que eu estava totalmente indefesa, fez-me implorar para ser possuída. Como um louco, beijou-me na boca novamente e levou- me a lugares jamais sonhados por qualquer ser humano. Naquela noite, vi que o meu frágil corpo de mulher foi levado a um paraíso nunca sonhado pelos anjos. Quando acordei, fiquei olhando-o dormir. Como era lindo ver seu corpo masculino e nu completamente vulnerável ao meu lado! Nada se comparava à felicidade que estava sentindo ao lado de Edward. Eu estava plena da certeza do nosso amor. Mas, de repente, senti uma pontada no peito, como se algo estivesse errado. Sabia que deveria contar a Edward sobre o meu atual segredo. Comecei a chorar, abafadamente. E se ele não me aceitasse como eu era? - pensei comigo. Talvez fosse bobagem e eu estivesse sofrendo por antecipação. Comecei a beijá-lo nos lábios, tentando afastar aquele temor da minha mente. Ele 55
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus acordou e perguntou-me, tentando ser natural e fazer-me sentir à vontade: Bom dia, meu amor! Como passou a sua primeira noite como uma refugiada? Tentei não deixar transparecer que eu havia chorado, pois não queria que Edward se aborrecesse comigo. Então, continuei aquela brincadeira, tentando também ser irônica: Bom dia, minha vida, tirando a hora em que senhor me deixou dormir, pode-se dizer que eu tive uma excelente noite. Ele respondeu Eu?! A senhorita é que não me deu sossego. Parecia possuída por uma fera selvagem. Rimos os dois ao mesmo tempo. E o senhor quer sossegar? - rocei minhas pernas entre as dele. Ele olhou para debaixo das cobertas e falou, com voz rouca: Hum! Não, de jeito nenhum. Fizemos amor novamente. Desculpe por lhe contar tão vulgarmente, pai, todos os detalhes de meu envolvimento com Edward. Mas eu precisava que o senhor soubesse que eu não sou santa e que também permiti que as coisas fossem longe demais. Mais tarde levantamos e tomamos o nosso desjejum. Ele tirou, para mim, leite de uma vaca que estava naquele celeiro. Tudo estava perfeito, até mesmo o pão dormido. Edward contou-me sobre seus planos de se casar comigo. Falamos da quantidade de filhos que teríamos. Ríamos com coisas banais e, se o mundo acabasse, não teria naquele momento a menor importância para nós, pois éramos a própria felicidade encarnada. Eu havia esquecido completamente dos meus temores, até que fiz a pergunta que não conseguia se calar dentro de mim: Edward, posso perguntar-lhe uma coisa? Ele, ainda deitado ao meu lado, enrolando na boca um pedaço de feno, disse Sim meu amor, pode me fazer quantas perguntas você queira, enquanto fitava o teto, parecendo não se interessar muito por aquele assunto. Por fim, virou-se para mim e perguntou, percebendo que eu me mantinha calada: Então, meu amor, o que quer saber de mim que ainda não saiba? Disse-lhe que precisava saber se ele me amava verdadeiramente. Na verdade, queria testar o amor de Edward, queria saber se ele me amava tanto quanto o senhor amava minha mãe. Edward, naquele momento, pareceu-me tão seguro do nosso amor... Fui uma tola e estraguei tudo. Achei que nada importaria ou estragaria aquele sentimento. Edward virou-se e segurou meus ombros. Fitando-me, disse: Nunca duvide disso, vou me casar contigo. Nada nesse mundo poderá intervir nos meus sentimentos por você. Mas por que tem essa dúvida a meu respeito? Então, aproveitando aquele momento de felicidade, abusei da minha sorte e perguntei: Se eu for diferente de todas as outras mulheres que conheceu, vai me amar mesmo assim? E se eu fosse uma bruxa, amar-me-ia do mesmo jeito? Edward soltou uma gargalhada sonora. Mas, depois, fitou-me seriamente, pois pareceu perceber em mim tristeza e sinceridade. A fisionomia de Edward mudou. Afastou-se de mim, parecendo querer que eu dissesse que era uma brincadeira. Mas me mantive séria e firme. Meus olhos não desgrudavam dos dele. Então, levantou-se, passou as mãos nos cabelos e perguntou: Está falando sério, não é? Pai, Edward mudou por completo. Correu a vestir suas roupas e mal olhava para o meu rosto. Ficou enfurecido. Nunca imaginei vê-lo daquela forma. Agitava-se de um lado para o outro, como se estivesse procurando uma solução ou algo para fazer, que lhe livrasse daquele peso. Por fim, jogou em cima de mim as minhas roupas e pediu que eu me vestisse. Quando eu já havia me vestido, Edward - que não parava de me observar um só segundo – perguntou, por fim: Não brincaria com uma coisa séria dessa, não é? Sua voz estava trêmula e confusa. Claro que não, por que eu faria isso? Acabou de dizer-me que nada poderá intervir entre nós, Edward! Juntos seremos invencíveis, fortes. Mas, separados, não seremos ninguém – eu lhe disse. Fui muito ingênua, pai. Achei que o amor pudesse vencer qualquer barreira. Também tinha um conceito diferente e fantasioso do que é ser uma bruxa de verdade. Eu achava que eu tinha poderes mágicos, que podia usá-los para fazer qualquer coisa. Pela primeira vez durante aquela viagem, vi minha ancestral chorar como uma criança precisada de colo. Comecei a entender por que ela queria tanto mudar o destino de seu pai: não por ela, mas para tentar ajeitar as coisas e não ver seu pai ser torturado até a morte por causa de um deslize dela. Na vida, temos que ter muita certeza do que estamos por fazer, pois, no futuro, as consequências podem ser drásticas devido a erros que nunca poderão ser consertados. 56
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Observei Shaara chorando com as mãos no rosto e percebi que seu pai, embora a amasse, estava indignado e decepcionado com tudo que ouvira da boca da própria filha. Confesso que não teria coragem de ousar tanto em relação às minhas intimidades com meu pai. Minha ancestral cometeu três pecados graves: a ira, pois se vingou de seu pai sem ao menos tentá-lo compreender; a luxúria, pois, embora amasse Edward, deitou-se com ele somente por vingança; e o mais grave: invadiu o passado e tentou ser mais que Deus, tentando mudar o destino de outra pessoa. Com isso, o universo irou-se contra ela da maneira mais cruel possível. Continuei em silêncio e a deixei terminar aquela história, que já estava me assustando, pois temi por mim naquele momento. Temi por perceber que eu é quem iria ter que resgatar aqueles erros de Shaara. Ela continuou a história: _ Edward olhou-me nos olhos como se fosse um mostro e disse: Shaara, lembra-se de que lhe disse que fui promovido a um cargo de extrema confiança? Respondi-lhe Sim, amor, eu me lembro, mas não vejo em que isso poderia intervir entre nós e o nosso amor. Ele anunciou: Recebi ordens vindas do vaticano de ficar no lugar do novo chefe da guarda, sou o novo capitão da guarda real. Fui à sua direção para abraçá-lo, pois queria que ele soubesse o quanto eu estava feliz por ele. Mas ele me empurrou para longe de si e prosseguiu: Não é só isso. Também recebi outro cargo de muita confiança por ter sido sempre devotado à Santa Madre Igreja. Que bom, eu agora era a noiva de um homem de poder - tentei ironizar. Fui até ele, tentando abraçá-lo. Edward afastou-se de mim abruptamente e, naquele momento, não me pareceu mais tão seguro do nosso amor. Em um tom de voz áspero, falou: Shaara, nem de brincadeira fale uma coisa dessas. Pois eu teria que mandar prender você e seu pai, e todos os seus bens teriam que ser confiscados. Seus criados teriam que ser torturados e mortos por ordem da Inquisição. Eu disse que não o estava entendendo. O que teria minha família, meus bens e meus criados a ver com o seu novo cargo? Sou o novo inquisidor. Até que o vaticano envie um inquisidor substituto para este condado, serei o responsável por manter a lei e a ordem nesta região, ele me respondeu. Senti como se tivesse perdido o chão, pai. Nunca imaginei passar por uma situação como aquela: eu havia me entregado ao meu algoz. É realmente incrível o quanto as coisas mudam da noite para o dia. Meu sonho de amor tornou-se um pesadelo. Eu estava sem saber o que fazer. Fiquei ali em pé, na frente de Edward. Hoje percebo o quanto errei. Vejo que nada somos quando tentamos ser arrogantes e passar por cima de Deus, tentando antecipar o nosso destino. Depois de algum tempo calados, apenas perguntei: O que um inquisidor iria querer aqui em San Marino? O que há de tão especial em um pequeno condado como o nosso? Creio que a Inquisição tem coisas muito mais importantes para investigar. Ele me explicou que havia boatos de que bruxas fugitivas de Salém estavam escondidas no grande bosque e que, em nome do demônio, estavam praticando feitiços e abominações. O último inquisidor havia morrido e diziam ter sido obra de um feitiço poderoso, praticado pela bruxa Mercedes. Essa lhes estava dando muito trabalho para ser capturada, pois se escondia no meio da mata virgem. O último feitor que tentara ajudá-los desapareceu misteriosamente. Então, eu lhe disse: Porque as pessoas são diferentes não quer dizer que estão possuídas pelo demônio. Já ouvi falar dessa tal Mercedes, dizem que veio de Salém, no Norte da Inglaterra. Para mim, tudo nunca passou de mexericos e sandices de pessoas ignorantes. Eu mesma sempre gostei de ler livros místicos. Confesso já ter consultado uma cigana. Edward parou e fitou-me como se não mais me reconhecesse: Está realmente falando sério? Sabe que eu posso levar isso como uma confissão. Não quero mais ouvi-la. Cale-se, é melhor irmos embora. Pensei que o seu amor por mim fosse muito mais importante do que essas lendas criadas por pessoas supersticiosas e fanáticas! Confessei-lhe que minha mãe contara-me, em seu leito de morte, que era uma bruxa, e que também vi em suas costas a flor de lótus, o sinal das renegadas. Esse sinal tinha sido marcado pelo inquisidor do qual ele acabara de me falar. Esse homem, Edward, não era um homem íntegro. Ele colocou esse sinal em minha mãe depois de torturá-la por horas, tentando obrigá-la a fazer tudo o que ele quisesse. Como ela não se entregou a ele, foi marcada como um animal. Minha mãe só tinha doze anos, era apenas uma menina e nada sabia de feitiçaria. A família 57
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus de minha mãe segue uma tradição muito antiga, mas nunca fizeram mal a ninguém nesta vida. Ele quis saber como eu sabia disso, se não convivia com minha mãe, se só estive com ela por algumas horas durante toda a sua vida. Ele quis saber como eu poderia ter tanta certeza de que ela nunca praticara feitiçaria. Minha mãe era uma mulher honesta, Edward, de muito boa índole. Nunca fez mal a ninguém. Quem a conheceu contou-me como ela era. Sabe, Edward, posso não ser experiente, mas sei muito bem ver nos olhos de uma pessoa quando ela está sendo honesta comigo. E acredite: vi isso nos olhos da minha mãe. Espero que tudo o que acabei de lhe contar não mude nada entre nós, Edward; eu o amo demais. Ele insinuou que fiz amor com ele, mas com quantos mais? Disse que eu não passava de uma mulher mimada, que só quis se vingar do próprio pai por mera pirraça. Acha mesmo que eu confiaria em uma pessoa que, além de trair a confiança paterna, deita-se assim, facilmente, com qualquer homem que lhe convide? Acha mesmo que vou acreditar em uma filha de bruxa?Foi o que ele disse. Acusei-lhe de louco. Disse-lhe que ele havia sido o único homem que tive em toda a minha vida. E que sempre seria único. Aquilo não faz o menor sentido, eu nunca havia sido praticante de feitiçaria. Só soube do segredo de minha mãe no seu leito de morte. Disse-lhe que não levaria em consideração tais palavras rudes, pois sabia que ele estava sendo guiado por uma revolta insana. Sei como as malditas bruxas agem: enfeitiçam os homens para que não as vejam como são, demônios de saias – ele concluiu. Perguntei-lhe por que odiava tanto o meu povo. Seu povo? Então agora confessa também que é uma bruxa? Pois que seja. Sabia que essa raça maldita destruiu minha mãe? – disse-me, segurando o meu rosto com uma das mãos. Prosseguiu, enfurecido: _ Quando minha mãe era jovem, uma maldita bruxa enfeitiçou o noivo dela. Minha avó fez de tudo para mostrar a verdade ao meu pai, mas o pobre homem estava tão cego e enfeitiçado que se mudou da França, largando minha mãe grávida ao vento. Mas é claro que a senhorita bonequinha de luxo não sabe o que são essas coisas, não é verdade? Não consegue imaginar o que é estar grávida aos dezoito anos e ser abandonada à própria sorte, não é? Minha mãe não perdeu o bebê, como praguejou a maldita bruxa, porque minha avó fez uma promessa de que eu serviria ao Senhor de alguma maneira. Minha mãe foi uma mulher sofrida e viveu às escondidas, porque ficou mal afamada perante o povo. Depois de certo tempo, minha mãe conheceu o coronel Sebastian. Embora o coronel fosse bem mais velho que minha mãe, ele cuidou de nós enquanto viveu. Ele deixou para minha mãe um pequeno obséquio, que ela guardou para me ajudar nos estudos, mais tarde. O coronel era um homem de muitos conhecimentos, embora não tivesse muitas posses. Foi graças a ele que estudei no melhor colégio militar da Europa. E foi com muito esforço que me tornei, mais tarde, o capitão da guarda real na Inglaterra, até ser transferido para cá. E, por fim, caí aqui em San Marino. Nesse pequeno vilarejo, cheio de contos e lendas sobre as bruxas fugitivas de Salém. No início, não dei ouvidos, pois pensei serem apenas histórias contadas pelos aldeões. Mas, com o passar dos meses, pude observar que coisas estranhas estavam acontecendo com frequência. Como, por exemplo, mulheres que se esfriavam no leito conjugal; pessoas que desapareciam no meio da floresta, sem deixar rastro. O leite do gado de alguns fazendeiros começou a talhar, e isso acontecia a cada Lua cheia. As crianças de Salamanca estavam nascendo com deformidades, ou morriam na hora do parto. Algumas mulheres não conseguiam gerar um filho homem, como é o desejo de todo patriarca. Foi então que a Igreja resolveu investigar minuciosamente, em sigilo, todos esses fatos ocorridos. Depois de uma detalhada investigação, foi descoberto que tais fatos eram verídicos. Vários suspeitos estão sendo mantidos sob investigação, e alguns são interrogados constantemente para que confessem seus crimes. No corpo de algumas mulheres, já foi achada a marca do demônio. Um especialista em desvendar fatos como esse está aqui, em sigilo, investigando os hereges. Houve, também, alguns suicídios misteriosos e sem causa aparente. Até mulheres com três mamilos foram encontradas e estão sendo interrogadas diariamente em masmorras. Ainda não conseguimos encontrar a feiticeira Mercedes, mas é só uma questão de tempo. Escravos fugiram e jamais foram encontrados. Soubemos que uma velha senhora presenciou um ritual no meio da mata enquanto juntava lenha. Ela teve sorte de não ter sido capturada pelas feiticeiras. Tudo isso que acabei de lhe 58
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus contar é prova de que o demônio tem usado as mulheres de San Marino. A Inquisição não perdoa, Shaara. _ E o que isso tudo tem a ver com nós dois? – perguntei-lhe, pai. As pessoas têm problemas todos os dias. Algumas não conseguem superar as suas dificuldades e acham que o suicídio é a solução. Essas pessoas são doentes, carentes e solitárias, Edward. Escravos fogem e vão para os quilombos, porque já estão fartos de serem torturados por seus senhores. Eles fazem isso na ânsia de acharem a liberdade. Todos já ouvimos boatos que há quilombos por toda a Europa. Quanto ao leite que azeda, é devido ao calor e a falta de cuidados. Pessoas com deformidades nascem todos os dias, Edward. Isso não quer dizer que sejam marcadas pelo diabo só porque são defeituosas. E se as mulheres estão esfriando com seus maridos, creio que eles deveriam começar a tratá-las melhor. Somos mulheres, Edward, não somos seus animais de estimação. E se os bebês estão morrendo na hora do parto, talvez algumas mulheres devessem parar de usar espartilho durante a gravidez. Não estou dizendo que são todas, mas sabemos que algumas senhoras não tiram nunca os espartilhos. Isso pode ser o preço da vaidade. E de que marcas estranhas está falando, afinal? De pintas ou manchas? Ora, Edward, francamente... Pensei que fosse um homem mais inteligente. Não entendo como isso tudo está relacionado com a nossa vida. A vida que nós planejamos durante esses dois longos anos juntos. E quanto às bruxas, Edward, elas são pessoas normais como nós. Nada têm a ver com os contos e fábulas que circulam em torno delas. Acho que deveria mudar esses conceitos antigos e preconceituosos sobre as pessoas. Só porque algumas são diferentes de nós, não quer dizer que sejam seguidoras do diabo. Se cada um - não apenas nesta cidade, mas neste mundo em geral - deixasse de querer obrigar as pessoas a serem iguais a elas, o mundo seria muito melhor. Viver, Edward, é aprender a conviver com as diferenças - sejam quais forem. _ Shaara, quando a minha mãe faleceu, ela me fez prometer que acharia a bruxa que enfeitiçou o meu pai. Aquela mulher destruiu a vida da minha mãe, e a minha também. Ela destruiu os sonhos da minha mãe de ser mãe de novo. Minha mãe faleceu durante o parto, junto ao meu irmão, de uma doença misteriosa e sem explicação. Eu tinha apenas seis anos, Shaara, e vi minha mãe gemendo de dor, suplicando pela morte. Ela me fez jurar, em seu leito de morte, que a vingaria, procurando e matando a bruxa que fez aquilo com ela. Não sou homem de quebrar uma promessa. _ Isso é uma tolice, Edward! Creio que nem deva saber o nome dessa suposta bruxa! _ Pai, no fundo eu não queria ouvi-lo mencionar o nome de minha mãe. Pois, depois que me contou que estava perseguindo a tia Mercedes, eu me recusava a acreditar que alguém pudesse mentir sobre minha mãe daquele jeito. Mas deixei que ele continuasse. E Shaara prosseguiu, contando ao seu pai o diálogo que teve com Edward, como se o estivesse revivendo. Seu pai apenas a ouviu, sem interferir: _ Sim, eu sei, Shaara. - disse Edward, com os olhos fixos nos meus. Seu nome é Elizabeth Méquiz. Essa foi a mulher que enfeitiçou meu pai e amaldiçoou minha mãe, para que ela morresse como morreu. _ Fiquei ouvindo-o sem mais conseguir falar. Pasmei-me ao ouvi-lo pronunciar o nome de mamãe, daquele jeito tão cruel e fraudulento. Por fim, depois de engolir a seco aquelas palavras, perguntei: _ Sua mãe é Escarlate Mennellet? _ Sim, esse é o nome da minha mãe. Como sabe o nome dela? Não me lembro de ter mencionado seu nome para ninguém, pois tenho evitado lembrar-me de minha mãe. Ainda dói na minha frente a forma com a qual ela morreu. Onde ouviu mencionar o nome dela? _ Edward ficou curioso e trêmulo. Então, falei: _ Estive por horas no quarto de minha mãe antes que ela partisse, como já mencionei. Foi ela quem me contou sobre a sua mãe. _ Edward empalideceu e encostou-se em um monte de feno. Tapou a boca com as mãos. Ele parecia não querer acreditar, mas prossegui: 59
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim, Edward, sou a filha de Elizabeth Méquiz, a bruxa que mencionou em sua suposta versão, ainda há pouco. Esse era o nome de solteira de minha falecida mãe. Agora que me contou a sua parte da história, espero que ouça também a minha. _ Antes que Edward tivesse uma reação inversa a que estava tendo, prossegui com a conversa, pois percebi que ele estava sem voz. Aquele era o momento de saber alguns fatos e tentá-los encaixar. Então, perguntei-lhe: _ Como exatamente sua mãe faleceu, Edward? Diga-me sem mentir para mim. _ Nunca minto. O que te contei é o que aconteceu. _ Edward estava meio tonto, mas prosseguiu: _ Os doutores não conseguiram identificar a doença dela. Eu só sei que seu corpo encheu-se de tumores horríveis. Seu sofrimento foi inigualável, ela não merecia aquilo. Como lhe contei, minha mãe morreu com o meu irmão, durante o parto. Por causa de uma bruxa maldita, perdi minha família. Fui criado por minha avó e pelo coronel Sebastian. Não tem ideia do que é ser criado por um homem que não é o seu pai, e que vive o tempo inteiro ditando regras militares. Eu vivia mais interno em um colégio do que dentro da casa materna. Tenho gratidão ao coronel Sebastian, mas confesso que ele era cruel comigo. Fui um rapaz solitário e não tive amigos. Meu único objetivo era vingar minha mãe. _ Ouvindo aquelas palavras amarguradas de Edward, eu disse, muito entristecida: Meu Deus, é a lei do retorno. Minha mãe estava certa. Ele desconhecia a lei e tive de contar a minha história: _ Minha mãe me contou que, antes de se casar com o meu pai, ele tinha se envolvido com várias outras mulheres. Entre elas, uma jovem ambiciosa dançarina, cujo nome era Escarlate Mennellet. Sinto muito por tudo que tenha vindo passar. _ Percebi o desgosto de Edward, e o desespero dele por pensar que éramos irmãos. Mas, antes que ele abrisse a boca, prossegui: _ Meu pai terminou com a sua mãe assim que conheceu a minha mãe. Sinto muito, Edward, mas a sua mãe mentiu muitos fatos. Sua mãe perturbou a vida de meu pai e de minha mãe enquanto ela viveu. E foi a sua mãe quem jogou um feitiço na minha. Logo depois que eu nasci, minha mãe caiu de cama com lepra, Edward. Minha mãe passou vinte anos em cima de uma cama, isolada do mundo por causa da maldita doença. Ela nunca pôde pegar-me no colo, nunca pôde ver-me dando os primeiros passos. Sinto muito, mas sua mãe mentiu, pois foi ela e sua avó quem recorreram a um terrível sortilégio para matar minha mãe. A lepra de minha mãe, Edward, era um feitiço feito por uma bruxa que morreu misteriosamente, logo após fazer o sortilégio. Foi sua família a causadora do sofrimento da minha. Eu podia odiá-lo por isso e muito mais, mas o meu amor por você faz-me ver que não somos culpados pelos erros de nossos pais. Estamos tendo uma chance de mudar todo esse mal com o amor que sentimos um pelo outro; a chance de viver feliz e corrigir tudo o que nossos pais fizeram de errado. _ Mas Edward estava cego e não ouviu uma só palavra do que eu disse. E prosseguiu: _ Do que está falando? Você quer tentar confundir-me com sua bruxaria maldita. Jurei que destruiria toda a sua raça desgraçada. Não vou voltar atrás. Meu Deus, você sabia quem eu era e nem se importou de sermos irmãos? _ Edward, não somos irmãos. Sua falecida mãe havia se envolvido com outro homem antes de tramar contra o meu pai. _ Contei-lhe exatamente o que mamãe me havia dito. De repente, vi cair de joelhos aquele homem que parecia ser de ferro. Ele chorou incessantemente, pai, e gritava como se sentisse ódio e dor ao mesmo tempo. O desespero de Edward era tamanho que eu não soube como ajudá-lo. Percebi que ele estava guardando aquela mágoa dentro dele há muito tempo, e que precisava pôr para fora de alguma maneira. Tentei tocá-lo, mas ele me empurrou abruptamente. Fiquei sem saber como agir. Por fim, ele disse, entre dentes: _ Por que, Shaara? Por que você me enganou? Como pôde fazer isso comigo? 60
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Seus olhos eram tristeza e dor. Tentei dizer-lhe, novamente, que não tinha culpa e que só soube dos segredos de minha mãe em seu leito de morte. Mas todas as minhas tentativas foram inúteis. Ele parecia estar com nojo de mim. Era como se eu tivesse contraído uma doença. Então, ele me expulsou da frente dele. Foi o momento mais difícil da minha vida: _ Vá embora da minha frente! Preciso pensar no que farei com você. Quero ficar sozinho. _ Amor, sou a mesma pessoa... Podemos lutar juntos e não contar nada. Ninguém saberá. Foi assim com o meu pai: ele aceitou minha mãe, e o amor dos dois superou tudo - até mesmo a doença dela. Se quiser, nem mesmo leio o livro que minha mãe me deixou. Posso renegar tudo por você, Edward. Nada me importa, só o nosso amor. Eu o amo! Faça o que quiser, mas não me tire de sua vida, pelo amor de Deus. Não me deixe. Eu não saberia viver sem você, não mais. _ Eu a desprezo, sua bruxa mentirosa. Sei que nunca deixará de ser uma bruxa. _ Nisso ele estava certo. Eu nunca deixaria de ser eu mesma. Mudamos com o passar dos anos, adquirindo experiência, sabedoria e rugas com a idade. Mas nossa essência nunca muda. Ele estava exaltado e cada vez mais rude com as palavras, e continuou a me ofender: _ Como você quer que eu ame a filha da mulher que matou a minha mãe? E seu pai, um maldito canalha sem coração. Nada que me contou vai mudar o desprezo que sinto por sua família. Verdade ou mentira, agora os odeio mais ainda. Desprezo você e toda a sua raça. Sei muito bem que está tentando me iludir, para salvar seu pai e a você mesma. Saiba, Shaara, que estou preparado para enfrentar seus feitiços. Arrede-se de mim, satanás! Esconjuro-a em nome de Deus! _ Edward, acabamos de fazer amor! Não quero ouvir isso. Sei que está fora de si, que ficou enfurecido e louco pelo ódio que o consome. Não são sinceras essas palavras. Sei que irá pensar com calma e cair em si. _ Tem razão: deitei-me com uma mulher, mas fui iludido. Pois, na verdade, eu estava me deitando com o próprio diabo disfarçado. Você usou o seu próprio corpo para tentar me enfeitiça. - olhou-me de cima abaixo, com desprezo. Edward estava transtornado, parecia outra pessoa. Nunca o havia visto daquela forma antes. Ele continuava falando como um louco. Eu só queria fugir para bem longe: _ Usou-me! Fui um tolo e ainda acreditei em sua castidade. _ Ele começou a revirar os lençóis e disse: _ Não era mais virgem! Não há sangue nos lençóis. Sua bruxa maldita! Queria que eu me casasse com você para amaldiçoar a minha vida. Você já era usada, sua imunda! Acha mesmo que me casaria com uma mulher já usada? _ Esbofeteei-o; ele me revidou. Coloquei a mão no rosto e o olhei-o nos olhos: eram puro ódio. Nada mais pude fazer em relação a Edward. Senti o sangue jorrar em minhas narinas e disse: _ Juro por tudo que há de mais sagrado nesta vida, Edward: um dia hei de vê-lo chorar lágrimas de sangue, como as que escorrem de minha face agora. Está cometendo uma injustiça e, o que é pior, não quer ver que sua mãe é que é a culpada por isso tudo. Aquela maldita, mesmo depois de morta ainda consegue perturbar a vida da minha família! Mas hei de vê-lo ajoelhado e arrependido. Há alguns minutos, dizia que me amava, que eu era a mulher da sua vida. Agora me trata como qualquer mundana. Não o conheço mais, Edward, não sei quem é. Imaginei uma pessoa completamente diferente, mas eu deveria saber que de um maldito inglês não poderia vir boa coisa. Principalmente quando esse inglês traz consigo o nome Mennellet. _ Limpe a sua maldita boca quando mencionar o nome da minha família. Se a senhorita tivesse tido uma mãe, ela lhe teria ensinado que não deveria acreditar em tudo que ouve, principalmente de um homem quando quer conseguir o que eu consegui. Por Deus, mulher, achou mesmo que eu iria me casar com você? Deito-me todos os dias com mulheres do seu tipo. Ora, Shaara, sabe que nunca foi a santinha que se dizia ser. Você foi ágil demais para uma primeira noite com um homem. Tê-la em meus braços foi como ter uma simples meretriz. 61
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ As lágrimas começaram a escorrer e saí correndo como louca, para não deixá-lo perceber minha fraqueza. Eram oito da manhã e o cocheiro estava me esperando, no mesmo lugar de antes. Estava sem ar e tonta. Subi na carruagem, sem olhar para trás. Queria esquecer que Edward existia. O cocheiro veio à janela da carruagem e perguntou-me se estava tudo bem. Pedi-lhe que me levasse a uma pensão. Não podia voltar para casa do meu pai, não poderia lhe causar tamanho desgosto. Mas, com o passar do tempo, comecei a me sentir mal e a dona da pensão, contra a minha vontade, chamou o senhor. Voltei para casa a contragosto, o senhor sabe. Deixei-o pensar que estava doente até ontem, quando desmaiei novamente e o doutor contou-lhe a verdade. Agora o senhor sabe toda a verdade, pai. Não quero que tome nenhuma atitude drástica. Não quero que se vingue de Edward. Ele também é uma vítima dos erros do seu passado. _ Sim. Eu deveria ter eliminado essa maldita família quando tive a oportunidade. Nada do que você me disse muda o ódio que sinto por esse homem e a mãe dele. Penso que ele se fez de vítima para você. No fundo, ele já sabia que era a filha de Elizabeth. O tempo inteiro ele fez tudo pensando em vingança. Esse mau caráter seduziu-a de caso pensado. Não posso deixar isso da forma como está. Tenho que tomar uma atitude em relação a isso tudo. _ Pai, por favor, contei-lhe tudo exatamente como aconteceu para que o senhor tivesse uma noção de que a nossa família também teve culpa de tudo o que houve com Edward. _ Shaara, em que tivemos culpa? Só porque cometi o erro de me envolver com aquela mulher em minha juventude, agora tenho que pagar o preço pelo resto da minha vida? Olhe só para você agora: está grávida daquele bastardo! Acha mesmo que posso deixar tal situação no esquecimento? E onde fica a minha postura de homem? Sinto muito, Shaara, não posso atender ao seu pedido dessa vez. Prometo lavar sua honra com sangue - e isso é indiscutível. _ Pai, pelo amor de Deus, não faça isso! Edward é um homem poderoso. Vai trucidá-lo. Shaara tentou modificar o seu destino e salvar a vida de seu pai, contando-lhe tudo na tentativa de que, se ele soubesse a verdade, perceberia que ela foi a culpada por tudo o que Edward lhe fizera. Só que Shaara se esqueceu de uma coisa: não se pode mudar o destino. Fiquei ali, em pé, percebendo o desespero de Shaara. Seu pai saiu daquele aposento, deixando-a sozinha e chorando desesperada. Parecia que todo o peso do mundo havia caído sobre ela. A dor tinha-a transformado em um verdadeiro flagelo humano. Os erros de Shaara foram muitos e, naquele momento, todo o universo estava de costas para ela. Compreendi que Shaara foi a única responsável por toda a sua desgraça. Os valores que nos são impostos por nossos pais deveriam ser encarados como uma aula básica, e não como um martírio constante. Mas só percebemos isso quando os problemas surgem para nos pesar o pensamento. Shaara desceu e tentou uma última conversa com o pai, que estava apeando o cavalo. _ Pai, por favor, eu lhe imploro: não faça essa loucura! O senhor não tem ideia do que vai lhe acontecer. O pai de Shaara fitou-a nos olhos e disse: _ Soube desde o instante em que ouvi no vilarejo, pela primeira vez, que ele era o procurador do rei, e que ficaria no lugar de inquisidor até que Mercedes fosse capturada. Desse dia então, soube que os dois jamais poderiam ficar juntos, porque nem todo mundo a entenderia, Shaara. Desde que você nasceu, sabíamos que seria diferente, por causa da origem de sua mãe. Sonhava uma vida de felicidades para você ao lado de um bom homem, mas o capitão Edward apareceu nem sei de onde, e foi impossível evitar que ficassem juntos. Sua mãe e eu conversávamos sobre seu futuro. Ela sempre dizia que não cabia a mim mudá-lo, pois já estava traçado no dia em que foi concebida em seu ventre. Então, está feito. Parece que sua mãe estava certa mais uma vez. _ Pai, por que não me contou antes? _ Você nunca me deu tempo. Depois, fugiu na calada da noite, sem explicações. Só Deus sabe o quanto eu sofri, procurando-a por todos os lugares. 62
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Pai, perdoe-me!? Fiquei furiosa por ter me batido. Queria me vingar. Estava confusa, e Edward parecia me amar tanto... Naquela hora, pareceu que era o certo a se fazer. Pensei que nos casaríamos e que, quando voltássemos, o senhor nada poderia fazer para nos separar. Fui uma tola e insensata! _ Não, filha, eu não deveria ter perdido a cabeça com você. Eu estava furioso comigo mesmo, pois não pude salvar sua mãe e estava perdendo-a para um homem estranho. Eu deveria ter me controlado e conversando com você. Por isso, tenho que consertar esse erro à minha maneira agora. _ Pai, pela última vez, escute o que estou lhe dizendo: Edward está louco. Prometeu se vingar de mim e do Senhor. _ Não se preocupe, Shaara, esse canalha não lhe tocará enquanto eu estiver vivo. Ele vai pagar por tudo que lhe fez. Eu já deveria ter extinguido essa raça maldita há tempos. Shaara percebeu que não importava o quanto ela argumentasse: não adiantaria, seu pai estava decidido a vingar a sua honra a duras penas. Ele montou em seu cavalo e saiu em disparada, deixando Shaara desesperada e aos gritos. Ela voltou para dentro da casa e subiu para seu quarto. Parecia não querer ver ninguém naquele momento de aflição. Ela agora sabia que era a culpada pela morte de seu pai, e não tinha mais como voltar atrás. Abriu o quarto e trancou-se. Em seguida, aproximou-se da cama, deixou o corpo cair pesado. Esticada na cama, com os braços abertos, sentiu algo e levantou-se para ver o que era: o livro das bruxas. Shaara, então, começou a folhear aquele livro e caiu em si. Percebeu o enorme erro que havia cometido. Ela havia ido contra todos os princípios da magia, quando tentou interferir no destino de outra pessoa e no seu próprio. Com isso, ela gerou um grande conflito com o universo. Isso lhe causaria uma catástrofe maior do que a que ela já haveria de passar. Naquela hora, o vento entrou pelo quarto de Shaara e ela soube que algo de errado havia acontecido. Os olhos de Shaara percorreram o quarto, em busca de alguma resposta invisível. Foi à janela e respirou, de olhos fechados. O cheiro que o vento trazia era de morte. Ela pôs as mãos nos olhos e chorou profundamente. Era como se ela quisesse que sua alma pedisse perdão ao universo. A criada de Shaara que se chamava Gina estava na varanda e olhava o horizonte, como se estivesse muito preocupada. Mesmo quem não tivesse uma mediunidade formada sabia que algo estava errado, pois o tempo estava demonstrando suas alterações. As horas tornaram-se um suplício, e os minutos pareciam não passar. Shaara já estava na varanda havia horas, esperando pelo retorno de seu pai, até que ao longe conseguimos avistar um homem. Ele estava arriado sobre o cavalo e parecia muito ferido. Gina, a governanta, deu um grito de pavor. Ambas correram para socorrer o pobre homem. As indagações começaram: _ Quem é o senhor, onde está meu pai? _ Corra, Gina, vá chamar Tobias, o nosso capataz. Peça para chamar o doutor Tostes. _ Sim, senhorita. Quando o médico chegou, horas depois, examinou o homem minuciosamente e disse: _ Sinto muito, minha filha. Este homem não tem muito tempo mais de vida. Parece que algum instrumento agudo perfurou-lhe o pulmão. É um verdadeiro milagre que ele tenha conseguido chegar até aqui. Shaara olhou fundo nos olhos do homem, segurou o rosto dele com as mãos e falou: _ Preste muita atenção, caríssimo senhor: tem que me dizer onde está o meu pai. O que o senhor veio fazer aqui? O homem mal conseguia abrir os olhos, mas parecia ter a necessidade de contar o paradeiro do pai de Shaara. Ele levantou a cabeça lentamente e apenas pronunciou as seguintes palavras: _ O senhor Gonzáles está preso para prestar depoimentos. O capitão Edward enviou-lhe o seguinte recado: que a senhora se entregue, ou o senhor Gonzáles irá sofrer as consequências em seu lugar. 63
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Shaara perdeu a cor e só não caiu porque foi amparada pelo capataz. Era difícil de acreditar que Edward havia chegado a tanto. Em seguida, o homem entregou nas mãos de Shaara uma carta, onde estava escrito: San Marino, 20 de agosto de 1814 - Espanha. Shaara, minha filha, ao ler este bilhete estarei em perigo, mas confio em você e sei que irá tomar as providências para me tirar desta prisão em que me encontro. Vá até o meu quarto e veja debaixo de minha cama. Lá irá encontrar uma tábua solta, onde guardo uma pequena quantia em dinheiro. Pegue este dinheiro e arrume homens de confiança. O resto deixarei em suas mãos. Envie uma carta à sua tia Mercedes. Para isso, deve ir até a casa do sapateiro e apenas dizer-lhe que preciso de ajuda. Não se preocupe, filha. Ele saberá como proceder. Arrume os suprimentos e pague os criados. Se alguns quiserem ir com você, será melhor. Mas os avise do que se trata, para que por si possam tomar suas próprias decisões. Não tenho a menor intenção de deixar nada para esses porcos covardes. Que fiquem com minhas terras e todo o resto. Não me importo, quero apenas que você fique bem. Confio em você. Sei que não irá me decepcionar. Juan Gonzáles. Shaara olhou para o homem que estava em seus braços e ele havia falecido. Sem saber o que fazer, minha ancestral entregou o corpo para que o capataz tomasse as providências cabíveis. Em seguida, Shaara levantou-se e foi ao quarto de seu pai, onde achou o dinheiro guardado no exato lugar mencionado. Procurou pelas joias da família e pelas suas. Guardou esse pequeno tesouro em um pequeno baú. Shaara foi até o armário de seu pai e vestiu umas roupas dele. Em seguida, desceu as escadas e pediu que chamassem todos os criados, onde lhes passou todo o fato ocorrido, como lhe havia pedido seu pai. Pediu ao capataz que juntasse alguns escravos e fosse com ela até a cidade. Enviou um bilhete através de um dos escravos para sua tia Mercedes. Feitas todas essas coisas, seguiu com o capataz para a cidade. Shaara tentou invadir, durante a noite, a prisão onde se encontrava seu pai, mas, não conseguindo, prometeu que voltaria no dia seguinte com mais reforços. Ao chegar à sua casa, a Lua já estava alta no céu. Shaara estava exausta, mas se surpreendeu com a visita inesperada que havia recebido. Com um sorriso que mais parecia de alívio, disse: _ Tia Mercedes! Shaara abraçou aquela mulher como se quisesse proteção. Ambas conversaram muito durante toda a noite. Não poderiam dormir, tinham muitas providências a serem tomadas. O dia estava raiando quando o capataz veio avisar que tudo já estava pronto para a viagem. Ele prosseguiu, dizendo: _ Senhorita, quero falar em nome de todos os criados e escravos de sua fazenda. _ Bom, homem, diga! - disse Shaara, parecendo surpresa e curiosa. _ Por tudo que sua família foi para nós, não queremos ficar, queremos partir com a senhorita. _ Não sei se posso deixar que venha, meu querido Jorge. O risco é muito grande e ainda temos que salvar meu pai da prisão. Isso pode ser muito perigoso. O inquisidor poderá acusá-los também de traição por complô junto a mim. _ Se ficarmos, senhorita, seremos todos trucidados. A Inquisição não vai nos ouvir. Seremos culpados e correremos risco de morte. Preferimos correr o risco de fugir e poder lutar por nossas vidas. _ Sendo assim, agradeço-lhes. Sejam bem vindos! Agora temos que nos preparar para irmos resgatar meu pai. 64
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ De jeito nenhum! Não permitirei que parta em uma missão perigosa dessas, no estado em que se encontra. - disse Mercedes, preocupada com a gravidez de Shaara. _ Senhorita, não gosto de me intrometer em assuntos de família, mas sua tia está certa. Se algo der errado e uma bala atingir a senhorita, pode colocar não só as nossas vidas em risco, mas também a vida da pequena criança que está por vir. Creio que seu pai não concordaria com isso. Acho que devemos todos nos colocar em segurança e, depois sim, voltaremos para fazer o resgate de seu pai. Pense um pouco, senhorita Shaara. Creio que o inquisidor não fará nada com o seu pai. Afinal, ele deu um prazo e espera que a senhorita se entregue de livre e espontânea vontade. Isso nos dará tempo de agir. Muito a contragosto, Shaara concordou em fugir com a tia, os criados e escravos. Foi assim que Shaara nunca mais viu ou teve notícias do pai. Mercedes e os demais não deixaram Shaara sair da floresta. Com isso, Dom Gonzáles morreu sob tortura, acreditando que a filha o havia traído. Shaara, naquela viagem, tentou mudar este fato, mas sua atitude conseguiu piorar a situação do pai. Shaara, então, resolveu voltar daquela viagem. Ao despertar, chorou como louca ao se ver em um calabouço sujo e molhado. A porta da sela abriu-se, mas Shaara estava tão triste que parecia não ouvir nada à sua volta. Ela sequer levantou a cabeça quando um homem, encapuzado e acompanhado por dois soldados, aproximou-se dela. Por fim, ele, percebendo que Shaara não o havia notado, disse: _ Gostando das acomodações? Responda-me, bruxa maldita! Depois de ter recebido um chute nas costelas, Shaara levantou a cabeça para olhar o seu algoz e falou: _ O que foi que eu lhe fiz para me tratar deste jeito? Já não me humilhou o bastante, capitão? Quer que eu confesse? Creio que isso não seja necessário, pois já sabe que sou uma bruxa e não tenho a menor intenção de negar minhas origens. O capitão puxou Shaara, fazendo com que ela ficasse de pé abruptamente. Ela deu um gemido de dor, pois seu corpo estava todo machucado. O capitão Edward puxou Shaara para junto de si e tocou-a intimamente. Ela tentou recusar, mas o capitão era muito mais forte. Ele parecia um animal enfurecido e, depois de dispensar seus soldados, disse: _ Eu sei do que e como gosta de ser tocada, sua imunda. O capitão estava com a mão no pescoço de Shaara, impossibilitando-a de reagir. Depois de rasgar-lhe as vestes, violentou-a da maneira mais repulsiva já imaginada. Depois, jogou-a como um monte de trapos velhos para o lado, e chorou como uma criança desorientada. Shaara ficou em um canto, tremendo e apavorada, sem saber o que fazer. Por fim, o capitão falou: _ Quando foi decretado o pedido da sua prisão, fiquei desesperado em saber que poderia perdê- la para sempre. Então, corri como um louco para tentar resgatá-la antes que os meus soldados a levassem. Mas chegando à sua casa, percebi que já havia fugido. Fiquei louco e enfurecido. Pensei que havia fugido com outro homem. Procurei-a por todos os cantos desta terra, mas foi em vão. Eu mesmo disse a seu pai que a filha o tinha abandonado e o traído, na esperança que ele a entregasse. Então, depois de muito torturá-lo, seu pai suicidou-se dentro da prisão. Sim, Shaara, seu pai morreu acreditando que era uma traidora. Eu queria que ele odiasse a filha por traição e que sentisse na pele o que é ser abandonado por alguém que se ama. Seu pai confirmou-me a sua história em relação à minha mãe. Eu estava louco pelo ódio e pela vingança, Shaara. Eu não conseguia sentir pena do capitão. Ele era um covarde, mas percebi que Shaara estava comovida, porque sentia arrependimento naquele homem. Ela estava muito fraca, mas prosseguiu com aquela conversa, dizendo: _ Edward, nunca o traí, nunca. Você foi um covarde em punir meu pai daquela forma. Não sabe o que fez! As pessoas cometem erros na vida, e o meu maior erro foi ter fugido e não ter lhe contado toda a verdade. 65
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus O capitão Edward parou e ficou olhando Shaara, parecendo não entender o que ela estava tentando dizer. Era como se uma espécie de transe tivesse tomado conta daquele rosto enfurecido. _ De qual verdade está falando? _ Do nosso filho, Güillian. Ele está na cela junto a uma das mulheres. De carrasco e inquisidor, tornou-se vítima de si mesmo. Depois, caiu em desespero, chorando sem cessar. Num tom de desabafo, ele disse: _ O que foi que eu fiz com a gente? Perdoe-me, Shaara... Agi como um insano e agora nada posso fazer para reverter essa história. _ Eu já o perdoei, Edward, nada mais me deve. Só lhe peço que salve nosso filho! Como lhe disse certa vez, a nossa consciência é nosso próprio algoz. Somos os únicos responsáveis por nossos atos. Ninguém nos obriga a fazer nada. _ Machuquei-a, Shaara, e isso não tem perdão. _ Machucou-se a si mesmo, Edward. Quando me violentou agora há pouco, era com você que estava fazendo aquilo. Todo o mal que fazemos contra nosso próximo fazemos contra nós mesmos. Prova disso é só olhar para você e ver como está se sentido péssimo. _ Perdoe-me, suplico! O capitão pôs-se de joelhos na frente de Shaara. Mas ela lhe respondeu, friamente: _ O perdão pertence somente a Deus. Minha palavra só serviria de consolo, nada mais. Terá que dormir todos os dias com isso em sua consciência. Mas sabe o que foi pior nisso tudo, Edward? É que você fez tudo sabendo que estava errado. Quem sabe se algum dia, quando meu aparelho reencarnar em algum lugar próximo a você, terá a oportunidade de me rever para que, juntos, possamos resgatar esse sentimento de maneira mais verdadeira e humana. Até lá, espero de você apenas uma coisa: salve o nosso filho. _ Acredita mesmo que haja outras vidas, não é? _ Sim, é claro que sim. Vivi esse tempo todo por causa da minha esperança de que um dia iremos ter a chance de resgatar essa história. Não podemos, Edward, acreditar que exista apenas uma vida e nenhuma chance de corrigirmos nossos erros. Se eu não acreditasse em reencarnação, eu o odiaria por tudo que já me fez sofrer nesta vida. _ Se isso for verdade, então prometo que lhe encontrarei onde quer que seja. Nunca mais amarei outra mulher. Será sempre minha e serei seu. Mesmo que demore séculos, nunca a deixarei até que, um dia, seja permitido que estejamos juntos. _ Meu Deus, Edward, não faça isso. Não nos castigue de tal maneira. Temos que seguir em frente. Não nos amaldiçoe, ou nenhum de nós poderá ser feliz. Liberte nosso espírito agora mesmo dessa promessa; imploro-lhe, Edward. O universo e os deuses são muito rígidos quanto a tais promessas. Não pode prender nossos espíritos nessa jura inconsequente. Como sempre, está precipitando as coisas, seguindo o seu emocional. _ Não quer que nos encontremos para sermos felizes? Achei que ainda me amasse! _ Sim, quero, mas não com uma jura. Está impedindo a si mesmo de ser feliz. Não poderemos sempre nos encontrar, não é assim que funciona. Você pode ficar ate séculos procurando-me e tornar-se um espírito obcecado por tal ideia. Não quero que fique a vagar sem luz. _ Não me importo. Se assim for, farei isso até que eu possa reparar o meu erro com você e poder viver o nosso amor em paz. _ Desfaça agora essa promessa e essa jura, Edward, ou nunca poderemos realmente ser felizes. Não vê o absurdo que está fazendo, prendendo meu espírito ao seu por toda a eternidade? Nunca seremos realmente livres. Pode acontecer de ficar no vale dos esquecidos, sem que ninguém se lembre de você. Ou poderá vagar sobre a Terra, perturbando por centenas de anos, atrás do meu espírito e impedindo-me de ser livre em escolhas. Isso me trará frustrações. Serei uma infeliz por não saber o motivo de não ser amada. Temos que seguir o nosso destino, Edward. O nosso tempo nesta vida já passou. 66
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Nunca farei isso. Só de pensar que poderei não vê-la de novo enlouqueço. Não dividirei você com mais ninguém. Fui um louco em fazer tudo que fiz. Pensei que, se a acusasse, poderia achá-la e tê-la de novo só para mim, mas as coisas saíram do meu controle. Não vou arriscar perdê-la para sempre. Se essa for a única maneira, juro por toda a eternidade procurá-la e nunca a deixarei até que estejamos juntos novamente. _ Não sabe as consequências de suas palavras. Elas são piores do que qualquer um dos erros cometidos pela sua ignorância ou pela falta de esclarecimento no assunto em questão. Nada do que Shaara fizesse ou falasse faria o capitão Edward voltar atrás. Qualquer argumento foi em vão. Por meses, capitão Edward visitou Shaara no cativeiro. Ele também tentou revogar a sentença, mas seus apelos não foram ouvidos e nem suficientes para apaziguar o que ele próprio fez. Ele havia ido longe demais e os mexericos cresceram como bola de neve. Nem mesmo uma contraordem do Papa mudaria o destino de Shaara naquele momento. Engraçado como a maioria das pessoas só conseguem enxergar seus erros quando eles não têm mais solução... Nos últimos meses, o capitão Edward cuidou de Shaara, tentando aliviar a sua culpa por sua amada estar passando por todos aqueles sofrimentos. Durante os interrogatórios, ele também não a deixava sozinha, pois sabia que Shaara seria massacrada pelo carrasco e pelo interrogador. Houve horas em que o capitão já não falava coisa com coisa, ele parecia estar certo de que Shaara não seria condenada, mas isso era só mais uma fantasia em sua mente. O capitão estava realmente ficando louco. Foram feitas inúmeras perguntas a Shaara e às outras prisioneiras. Algumas negaram tudo, para morrerem e serem perdoadas de seus pecados. Pude observar nos rostos daquelas mulheres uma tristeza maior do que a dor de serem torturadas. Elas estavam perdendo a essência - isso, para uma bruxa, é a própria morte. Havia horas em que as pobres mulheres colocavam-se em uma espécie de transe e pareciam estar em outra dimensão. Era como se a vida já tivesse esvaído de seus corpos e só aguardavam serem enterradas, pois já estavam praticamente mortas. Perder a identidade é perder a verdadeira essência da alma para uma bruxa, e ter que mentir sobre a sua origem é como entregar ao fogo toda a história de suas ancestrais. Para algumas, o perdão foi concedido depois de jurarem nunca mais serem praticantes da magia. Mas elas não tinham a liberdade de saírem à rua sem uma escolta. Houve muitos suicídios por causa desse tipo de sentença, pois uma bruxa jamais pode viver sem a sua liberdade. Uma das mulheres do grupo, mesmo depois de ter perdido seu marido e filhos para a Inquisição, negou o próprio nome de batismo. Casou-se com um homem de posses com o triplo de sua idade, apenas para não morrer sob tortura. Mas o preço que ela pagou foi muito mais alto do que própria morte, pois o homem a ofendia e a esbofeteava diariamente, obrigando-a a comer as próprias fezes para provar que ela não era mais uma de nós. As torturas e as humilhações para quem não morria pela Inquisição eram as mais abomináveis e cruéis possíveis. A morte era só um consolo. Era como se o castigo pudesse purificar a alma daquelas mulheres. Algumas se tornaram concubinas e eram mantidas sob cárcere privado. Outras foram obrigadas a trabalhar em tabernas, prostituindo-se com os piores elementos já vistos. As mais jovens foram vendidas para as beatas e faziam os mesmos serviços que os escravos. Ainda eram obrigadas a manter relações sexuais com seus senhores às escondidas de suas esposas. Quando descobertas, eram torturadas até a morte e acusadas de sedução e luxúria através da magia. Algumas perderam parte dos membros, como dedos dos pés e das mãos, como a prova de que a parte endemoniada fora arrancada para sempre. Shaara estava com os dias contados. Por isso, entregou a sua alma a Deus. Passava horas a orar e todo dia pedia auxílio aos espíritos de luz, para que a guiassem para perto do esclarecimento quando o seu espírito tivesse que deixar o aparelho transitório. 67
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Shaara nunca negou suas origens e, vendo aquela tão devotada fé, o capitão Edward passou a crer no espiritismo, mas não abriu mão da jura de me encontrar e não me deixaria ficar com mais ninguém em outra encarnação. A preocupação de Shaara com o capitão Edward era porque ela sabia que ele não a deixaria em paz e sofreria com a sua morte mais do que o esperado. O capitão não conseguia perceber que só Deus era o dono do destino e que ele, fazendo tal jura, poderia ficar preso entre dois mundos, caso não a desfizesse antes que Shaara fosse morta. Lembrei-me das palavras de Cristo quando disse Pai, perdoa-lhes porque não sabem o fazem... O inquisidor, a pedido do bispo, foi deposto de seu cargo de origem, pois foi considerado incapaz de julgar e dar a sentença de Shaara. O novo inquisidor, nomeado para ocupar o lugar do capitão Edward, chamava-se Cerenzo de La Pena. Um homem gordo e muito alto, cuja presença lembrava a própria morte e seu olhar fulminava-nos vivos. O senhor Randolf de La Concita, nomeado como carrasco, tinha mais crimes do que o próprio diabo tinha almas. Um vigário também foi mandado para a prisão por suspeita de manter contato com bruxas. O pobre homem era um senhor de quase oitenta anos. No mínimo, já não tinha mais nenhum serviço a prestar à ordem do vaticano. Durante seu interrogatório, ele disse que não precisava do perdão da Santa Madre Igreja, pois não havia cometido crime algum. Naquele mesmo ano, pouco antes de Shaara morrer, cento e cinquenta pessoas, entre homens, mulheres e crianças, foram condenadas à morte por tortura. Durante o julgamento de Shaara, ela também disse que não tinha nada por que pedir perdão, e que não havia cometido nenhum crime para que fosse condenada à fogueira - o que causou alvoroço dentro do tribunal do júri. Indignado, o juiz disse: _ Como pode uma bruxa achar que não tem que se redimir dos seus crimes? _ Padre, curei os doentes com lepra e outras doenças que os seus doutores não se atreviam a examinar, porque achavam que as suas mãos eram limpas demais para tocá-los. Existiam pessoas entre nós que sua sociedade excluiu, simplesmente por serem pobres mal cheirosos e maltrapilhos. Pessoas como os judeus, que vieram de outro país, procurando fugir de gente como o senhor, que se diz homem de Deus, mas cuja piedade afastou do próprio coração. _ Cale-se, sua insolente! Com que mérito curou os tais doentes? Usou, por certo, os poderes que o demônio lhe ofereceu para cegar esses pobres coitados. Ande, bruxa infeliz! Confesse logo para que eu vá atender a quem realmente merece. _ Não precisa mais perder o seu tão valoroso tempo comigo, excelência. Tem razão de chamá- los de pobres coitados, pois são mesmo. Afinal, foram banidos do meio da sua sociedade. E quanto a confessar, só confesso a Deus. Mas se quer que eu diga quem sou, digo sem o menor problema: sou uma bruxa e morrerei afirmando isso, mas nunca serei hipócrita de me fantasiar com uma batina para me posar de santa diante dos meus fiéis. _ Blasfêmia! Seu Deus é Satã. Levem essa maldita filha do diabo daqui! Que queime em uma fogueira em praça pública, para que todos saibam que ela mesma aceitou o demônio como o seu único Deus. No dia vinte e nove de abril do ano de 1725, às seis horas da tarde, Shaara foi declarada bruxa pela Inquisição e a sua sentença foi a fogueira. Sem poder questionar o menor argumento para a defesa, Shaara baixou a cabeça e manteve-se em silêncio. No meio da grande praça, as pessoas gritavam como loucas. Algumas atiravam objetos pontiagudos, como pedras. Outras pronunciavam palavras de baixo calão. Shaara olhou tudo ao redor e percebeu que era muito grande o número de pessoas que assistiria à sua morte. A maioria delas era praticamente a mesma que a conhecia desde criança. Um homem que estava entre o júri sussurrou ao ouvido de Shaara, pedindo que ela gritasse por clemência, para que pelo menos a sua alma se salvasse. Ela, porém, nada disse ou murmurou. 68
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Shaara, em seu momento de dor, sentiu piedade dos que estavam à sua volta e, em pensamento, pediu perdão por eles. O inquisidor leu toda a sentença e acusou Shaara de traição, conspiração, bruxaria e de práticas demoníacas. Um homem encapuzado levou-a pelos cabelos para um tronco, no meio da fogueira. Os direitos de Shaara foram citados em voz alta, como se ela tivesse direito a alguma coisa de verdade... Os direitos citados foram: _Tem o direito de dizer uma última palavra antes de ser executada. Diga rápido, antes que eu resolva antecipar seu destino em alguns minutos. _ Quero falar com o capitão Edward. Chamem-no para mim, por favor! O inquisidor e o carrasco entreolharam-se, mas concordaram em chamar o ex-capitão e ex- inquisidor. Enquanto isso, Shaara pronunciou: _ Se sou culpada por tantos crimes, por que não conseguiram achar em mim culpa suficiente para me condenarem? Precisaram da ajuda de um inquisidor para dar minha sentença? Por que precisaram tirar proveito dos mexericos de senhoras mal amadas para me acusarem de algo leviano e fictício? Por que Sir Edward foi afastado do cargo de inquisidor? Será que foi por que ele próprio percebeu que estava cometendo um grave erro? _ Ele estava enfeitiçado, sua bruxa suja - gritou uma voz no meio da multidão. _ É, sou mesmo uma bruxa, e estou muito suja porque me negaram todos os direitos de um ser humano. Até o direito de tomar um banho para morrer com dignidade, sabe, Sir Williams? - disse Shaara para aquela voz. Shaara prosseguiu seu discurso: _ Quando o senhor contraiu certa doença, por viver andando em bordéis, foram as minhas ervas que o salvaram da morte. Não lhe cobrei uma única prata sequer. Assim como o senhor Williams, muitos de vocês foram à floresta em busca de sortilégios e curas. Muitas vezes me neguei a fazer seus sortilégios, porque jamais uso minha sabedoria para separar pessoas ou matar alguém. Só quis viver em paz. Todos aqui presentes, principalmente as mulheres, não são vistas com bons olhos, pois não podem expor livremente suas emoções. Todas as mulheres aqui vivem de cabeça baixa e são humilhadas pelos homens desta maldita sociedade. Acolhi, sim, malfeitores, mulheres espancadas e até prostitutas. Por que eu não faria isso? Curei as feridas de todos os doentes que me procuraram, até mesmo dos leprosos. Fiz um trabalho de humanidade e caridade e amei o próximo, como Jesus. Lembram-se? Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei. E vocês, o que estão fazendo consigo mesmos? Assassinam pessoas inocentes todos os dias só por elas não serem como vocês querem. Seus amigos, vizinhos e parentes estão sendo exterminados de maneira brutal e desumana. Haverá um dia em que não terá mais ninguém para que apresentem em praça pública esse espetáculo de horror. _ Blasfêmia! - gritaram do meio da multidão, de novo. _ É, pode ser uma blasfêmia mesmo. Afinal, é mais fácil achar que seja uma blasfêmia do que aceitarem que estão errados. Mas e a senhora, Dona Esmeralda, que deixou seu único neto ser amarrado a quatro cavalos e ser partido ao meio só porque ele gostava de poesias? Ser uma pessoa gentil o torna afeminado? _ Ele era afeminado e estava sob o efeito do poder maligno do demônio. Fiz isso para libertar a alma dele. – respondeu Dona Esmeralda. _ Meu Deus, ele só tinha quatorze anos! Era uma criança que gostava de ler romances e contos de fadas. Quem vai fazer agora o serviço da sua casa, já que está em idade avançada? Sei que não é uma mulher de posses e não pode ter o luxo de comprar um escravo para ajudá-la. Será que também os demais aqui não lhe queimarão viva? Afinal, em que uma senhora com idade avançada pode ajudar a sociedade? A velha senhora baixou a cabeça com tristeza e retirou-se do meio da praça. Shaara prosseguiu: 69
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Se um filho nasce defeituoso, é mais fácil afogá-lo do que amá-lo? Quem são os demônios aqui? Onde está o mal? Eu digo: está nos corações amargos e revoltados de pessoas covardes, que preferem se esconder por trás de histórias e mexericos para encobrir o próprio erro. Não seria hora de sanar toda essa loucura e começar a amar a seu próximo, sem tentar achar seus defeitos ou qualidades em demasia? Quando amamos alguém, devemos amá-lo como é. Se tentarmos mudar as pessoas, quando discutirmos com elas, estaremos discutindo com o reflexo que criamos de nós mesmos. Somos responsáveis por tudo aquilo que praticamos ou criamos. Brigamos ou condenamos o próximo porque é mais fácil do que olhar para dentro de nós mesmos e achar nossas próprias falhas. Deveríamos olhar o mundo de uma maneira mais inocente, como as crianças. Mas estamos transformando, cedo demais, meninas em mulheres, querendo que elas se casem com homens mais velhos e cheios de posses, para garantirem o nosso próprio futuro e nossa velhice. Queremos que nossos filhos se tornem doutores ou soldados, e estamos esquecendo que estamos separando nossa família de maneira discreta e sutil. Entre vocês, morrerão sozinhos por causa desse egoísmo e ganância. Lógico, todos nós temos que seguir o nosso caminho um dia. Mas devemos também ter o direito à escolha. Seus Natais solitários poderiam ser repletos de alegria, se houver mais concordância e união. Suas vidas poderiam ser muito melhores se cumprimentassem seus vizinhos sem os desdenhar. Se ao invés de tomarmos conta da vida alheia, fizéssemos um bolo, estaríamos muito bem de vida. Todos nós viemos nesta vida para aprender e temos por obrigação deixar algumas coisas para que alguém também aprenda conosco. As pessoas não são lixo, ou coisas velhas que jogamos fora quando não nos servem mais. Quando me queimarem, vai doer e sangrarei como sangraria qualquer um de vocês. Talvez eu só tenha jogado pérolas aos porcos, e nem tenha feito por todos o que eu deveria ter feito. Só sei de uma coisa: com certeza, nunca mudei minha essência. Nunca deixei de acreditar nos meus sonhos, e sempre lutei pela igualdade de liberdade de todos. Até dos que me condenam. _ Está tentando nos ludibriar! - gritaram novamente. _ Não estou. Muito pelo contrário, prefiro ser queimada a ter que viver no meio de uma sociedade hipócrita e ignorante como essa. Só não esqueçam que, assim como aconteceu comigo, pode acontecer com qualquer um que se julgue perfeito. Se o marido de uma de vocês, mulheres, resolver trocá-la, é mais fácil que ele invente fuxicos e digam que são bruxas. Assim, enquanto forem queimadas, eles se deleitarão com as amantes. Muitas pessoas saíram, principalmente mulheres. _ Calasse, queimem-na! - gritou o restante da multidão. O inquisidor leu rapidamente a sentença, já lida antes. O carrasco jogou-lhe um líquido, parecia querosene, e ateou fogo. _ Queime rápido, bruxa! Meus cães estão esperando por seus ossos para o desjejum - gritou o dono da taberna. _ A fumaça sufocava Shaara. Seus pés começaram a ser atingidos pelas chamas. A dor era inigualável. E, do meio das chamas, Shaara viu quando o capitão Edward levantou o pequeno Güllian no meio da multidão. Dos olhos de Shaara escorreram o mar da sua alma. E ela simplesmente sorriu, por saber que seu filho estaria salvo. Com o filho nos braços, o capitão Edward gritava, desesperado: _ Vou me encontrar com você, Shaara. Os gritos do capitão foram levados com Shaara, junto aos últimos pensamentos. Pude sentir cada pedaço do corpo da minha ancestral sendo queimado. Aliás, foi muito difícil manter-me inerte durante toda aquela viagem. A dor que Shaara sentiu era tanta que vi quando o seu espírito implorou para ser desligado do aparelho dela. Então, parei de sentir frio e o calor que queimava Shaara ao mesmo, e pude perceber que ela havia deixado o plano terrestre. Os gritos de Shaara ecoaram com o vento. Toda a multidão foi, aos poucos, desfazendo-se. A vida voltaria ao normal, mas aqueles habitantes teriam muito o que comentar durante muito tempo. 70
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus O capitão Edward voltou para a Inglaterra e lá viveu, levando uma vida modesta com o filho Güllian. Como prometeu a Shaara, nunca parou de tentar encontrá-la. Chorei como uma criança e fui acalentada por Dona Helena, que estava ao meu lado, segurando a minha mão. Todos os que estavam na floresta vieram me saldar. Alguns estavam apagando a fogueira, mas acenavam para mim, com satisfação. Então disse, orgulhosa e em lágrimas: _ Shaara Méquiz era o nome de minha ancestral. Ela foi uma bruxa, considerada assim por ter recebido um dom divino. Foi diferente de todas as outras mulheres e não deixou nenhum homem ou ninguém roubar sua essência. Foi a mulher mais corajosa e capaz de qualquer coisa que eu já havia conhecido. Como ser humano, abriu mão de todo o poder e fortuna para cuidar dos pobres e doentes de seu tempo. Filha da condessa Elizabete Dornellas Méquiz e do conde Juan Gonzáles, mortos por causa da ganância, da inveja e do ódio. Ela teve um grande amor, que foi o capitão e inquisidor senhor Edward III, morto em batalha contra a Inquisição, onde defendeu o direito das bruxas de serem livres. O capitão Edward III arrependeu-se dos erros que cometeu contra o seu único amor, e passou a lutar ao lado dos rebeldes, em prol da liberdade dos escravos e de outros que considerasse injustiçados. Shaara era uma pessoa incrivelmente forte e dedicada a causas consideradas impossíveis. Ela foi o que eu quero ser agora. Edward III foi o ancestral do monge dos meus sonhos, pois durante a viagem o reconheci. Agora sei porque ele me persegue nos meus sonhos. Foi por causa da jura que ele fez no passado de me encontrar onde quer que eu esteja. De alguma maneira, sei que iremos nos encontrar nesta vida. De alguma maneira, tenho certeza de que iremos nos encontrar muito em breve. Dona Ana estava atenta a tudo que eu contava e, por fim, perguntou: _ Por que acha que esse homem a persegue até em seus sonhos? _ Porque ele fez a única coisa que não nos é permitido pela lei da natureza. Jurou-me amor eterno, prometendo-me procurar por toda a eternidade. Disse que jamais me deixaria em paz, enquanto não pudéssemos viver verdadeiramente nosso amor. Falei aquelas palavras olhando para Bernadete, pois passei a entender perfeitamente o que ela havia me dito antes. E dei continuidade àquele assunto, dizendo: _ Estou selada por toda a minha vida. Tenho que o encontrar e fazê-lo entender que isso nunca poderia ter acontecido. Só espero que ele seja uma pessoa com mais esclarecimentos, pois o capitão Edward sofreu muito com suas lembranças tortuosas. Ele foi o único culpado por seu amor ter sido queimada na fogueira. Após sua morte, jamais aceitou a orientação dos espíritos de sabedoria. Por fim, desejou reencarnar-se de novo. Mas isso foi só um protesto, pois manteve a sua jura no coração. Sei que ele anda por aí, procurando-me de alguma maneira. Por isso, nunca consegui gostar de ninguém. Por isso eu achava que o amor verdadeiro não existia. Minha vida nunca iria ter sentido. Sou grata a todas por compartilharem comigo todos os seus segredos, por me encaminharem ao mundo onde descobri minha verdadeira identidade. Realmente voltei muito mais madura e confiante em mim mesma. Sei agora que ninguém pode mais me humilhar, a não ser que eu permita. Não vou deixar mais ninguém ser mais do que eu, pois sou parte do universo. Todos os que estavam à minha volta, inclusive minha amada Maria, deram um sorriso de alegria. Dona Ana, depois de ouvir atenta e satisfeita tudo o que eu contava, prosseguiu: _ Meus parabéns, minha filha! Aprendeu muito em sua viagem. Agora tem que se preocupar com seus compromissos espirituais e deve preparar para conhecer o seu amor. Saiba que não será fácil, pois ele é um monge, e o amor de uma mulher, ainda mais com dons como o seu, nunca lhe será permitido. _ Sim, eu sei. Também não será nesta vida que viveremos o nosso amor com liberdade. Mas o mais importante é fazê-lo ver que precisa retirar a jura, para que possamos seguir nossos caminhos em paz. 71
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Fizemos uma oração para nos preparamos para a minha volta à casa do moinho. Sentia-me renovada espiritualmente. Eu havia recebido um compromisso do universo. Eu tinha que vigiar os meus pensamentos para que não se tornassem palavras, pois palavras mal direcionadas machucam as pessoas. Muitas vezes, devemos conter nossos impulsos antes de sermos sinceros, porque as pessoas nem sempre estão preparadas para a verdade. A sinceridade está dentro de nossos corações. Na verdade, a sinceridade de alguns é pura maldade e só serve para machucar o próximo. O silêncio é sempre um sinal de sabedoria e respeito. Isso foi o que aprendi com a minha viagem. Saímos em direção à casa do moinho. A noite estava silenciosa e, no caminho, fui aprendendo a respeitar o silêncio da floresta: era um sinal de individualidade e oração. Engraçado saber que tudo ao meu redor tinha o seu momento de falar... A floresta ensinou-me a lei do respeito e do silêncio; os animais, a obediência e a liberdade. As flores ensinaram-me que o amor pode estar em todos os lugares, na forma mais simples e bela possível. As pessoas ensinari-me-am todos os dias, com sua inconstância e individualidade, que vale a pena lutar por uma maneira de viver melhor. Aprendi comigo mesma que, todos os dias, tínhamos coisas para aprender. Ao chegarmos à casa do moinho, tomei um bom banho para tirar o cheiro de fumaça e a fuligem que estavam impregnados em mim. Maria entrou e ajudou-me a vestir. Como estávamos sozinhas, ela perguntou: _ E então, como está a mais nova discípula da confraternização da Lua? _ Estou muito bem, não poderia estar melhor. Estou apenas um pouco ansiosa para começar o meu trabalho como aprendiz de bruxa. Maria acompanhou-me até a cama e, depois de me cobrir, falou: _Tenha calma, minha amiga. Sua viagem foi perfeita e bastante reveladora. Daqui para frente, tudo será apenas consequência de suas novas experiências e de seus atos. Por isso, lembre-se sempre de refletir antes de tomar qualquer decisão. Pense bem antes de falar alguma coisa sem ponderação. Pois palavras também se transformam em atos, e alguns atos catastróficos são o resultado de atitudes impensadas, levianas, incoerentes e revoltosas. Maria baixou a cabeça, em sinal de agradecimento. Com um sinal ainda misterioso para mim, abençoou-me. No mesmo instante, senti que o sono havia chegado de imediato. Foi quase como uma hipnose. Simplesmente não pude ver mais nada. Naquela noite, dormi como nunca havia dormido em toda a minha vida. “Felizes aqueles que tiveram compreensão de reconhecer os seus próprios erros. Essa é uma virtude que faz o ser humano grandioso. A caridade é também uma forma de bem comum, mas tudo isso deve ser feito sem interrogações ou especulações. Pois o maior dom divino está em ouvir e servir com humildade, sem querer saber a quem fazemos o bem.” (Padre Ângelo Wallejo Moralles). 72
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Capitulo III - O Livro das Sombras E spreguicei na cama, esticando bem os braços. O Sol entrava pela janela harmoniosamente. Percebi movimentos no quarto e levantei a cabeça para ver quem era. Maria estava arrumando as malas para o nosso retorno para casa. Decidi ficar mais um pouco na cama, pois precisava pôr as minhas ideias em andamento. Durante aquela noite, tive sonhos que mudariam minha vida. Sonhei com todas aquelas bruxas que estiveram presentes na minha viagem, inclusive a minha ancestral. Elas vieram em meus sonhos para me mostrar os símbolos e a história da magia. Eu precisava contar para Maria, mas teria que ser prudente, pois as bruxas do meu sonho não me deram permissão para que eu contasse alguns segredos que elas me revelaram. O sonho que tive deu-me a sensação de ser real. Participei de uma espécie de cerimônia religiosa, e as bruxas fizeram-me jurar que guardaria segredo de algumas coisas que me foram reveladas. Sonho ou realidade, eu não poderia trair minhas irmãs de alma, pois me tornei parte de um grande clã. Nunca me arrependi de ter escolhido o caminho da Lua como uma opção de vida. Ter-me tornado uma bruxa foi uma grande honra. Eu estava pronta para assumir qualquer responsabilidade que surgisse. Mas, por outro lado, tinha a certeza de que, se eu traísse as leis da ordem, pagaria um preço muito alto. A minha maior preocupação naquele momento foi de, sem querer, trair a mim mesma. Porque conseguimos esconder segredos das outras pessoas, por uma questão de ética, moral e fidelidade – mas, sem querer, por causa da nossa vaidade, traímos a nós mesmos. Isso acontece porque, atrás da nossa felicidade, sempre vem o exibicionismo de querer parecer melhor do que os outros. O meu sangue jovem corria em minhas veias como as larvas de um vulcão pronto para explodir. Minhas emoções estavam à solta - isso poderia ser perigoso, caso a vaidade tomasse conta de mim. Sabia que, se contasse a Maria, poderia com certeza contar com a sua discrição. Mas eu havia feito um juramento de silêncio e não poderia nunca quebrá-lo. Isso sem contar que Maria poderia falar sobre o meu segredo com o meu pai, caso ela fosse interrogada. Pois, assim como eu, ela fez o juramento de nunca mentir. Portanto, de jeito algum eu poderia colocar a vida da minha melhor amiga em risco. O meu maior objetivo, então, passou a ser como proteger Maria sem que ela soubesse e ficasse magoada comigo, por estar lhe escondendo um segredo. Meu tempo estava curto, pois meu destino estava pronto a se consumar. Senti-me como o mestre Jesus, que soube exatamente quando iria ser entregue nas mãos de seus algozes. A traição é uma ferida que chega antes que o coração pare de funcionar, e faz doer na alma por toda a eternidade. Não sabia quem iria me trair, mas sabia que seria alguém muito próximo a mim. Porque sempre quem nos trai são as pessoas mais próximas de nós, as que mais amamos e em quem confiamos. Pessoas como Judas Escariotes, que traiu Jesus com um beijo. Geralmente, os traidores são pessoas que só conseguem ver um lado da moeda, e cuja ambição é o único valor que conseguem enxergar. O traidor é individualista: maquina sozinho e não pede ajuda para enfiar o athame do ódio no coração do seu alvo. E é egoísta porque não vê que o seu próximo também é um indivíduo e que merece respeito por ter suas próprias ideias. De repente, senti-me frágil e indefesa por ter me descoberto tão perto da morte. Esse seria o meu preço a pagar: teria que viver no silêncio e na solidão para o resto da minha vida. Embora sempre tivesse sido uma pessoa solitária, agora era diferente. Pois eu guardava segredos que, se pronunciados em voz alta, colocariam em risco a vida de todos que eu amava e também de todos que me cercavam. 73
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Tinha muitas ideias a serem colocadas em prática, mas tinha que ser cautelosa, porque, além de o tempo estar curto, poderia acabar sendo mal interpretada pelas pessoas próximas a mim. Quando nossas ideias e opiniões tornam-se diferentes das ideias e opiniões dos demais, podemos ser considerados loucos. O que não quer dizer que temos que seguir a regra da mesmice - afinal, a única opinião importante é a da nossa consciência. Sabia que teria que trabalhar também o meu ego. Não poderia deixar a vaidade tomar conta de mim. Mas, principalmente, teria que dominar o medo do que as pessoas poderiam dizer a meu respeito, pois sabia que elas diriam que eu estava possuída por um espírito imundo e maligno. Na verdade, as pessoas fazem esse tipo de coisa para tentar encobrir os seus próprios delitos, e sempre encontram alguém para lhes servir de Cristo. Pois é muito mais fácil seguir um padrão ético e moral para não contradizer os ditadores de regras, do que aprender a pensar por si próprio. Pensando em todas aquelas consequências, estava decida definitivamente a proteger Maria. Sabia que minha melhor amiga também não seria poupada pela Inquisição e por todos aqueles que se julgavam sem mácula. Se os adeptos da Santa Madre Igreja colocassem as mãos em Maria, por certo a fariam confessar coisas que ela nunca havia feito, deixando para ela apenas a morte como opção de salvação. Fiquei olhando-a, em silêncio, enquanto ela arrumava as malas para o nosso retorno. Ela era mesmo muito especial, pois sempre se dedicou à minha família e cuidou de mim, sem nunca sequer pensar em nos abandonar. Maria abdicou de toda a sua juventude e de seus sonhos. Sabia que ela era merecedora de toda a felicidade do mundo e, por isso, senti-me na obrigação de ajudá-la de alguma maneira. Nunca poderia pensar em deixar Maria ser prejudicada pela decisão que eu teria de tomar em um futuro próximo. Ela terminou de arrumar as malas e saiu do quarto. Parecia não ter percebido que eu estava acordada - o que me deu tempo para escrever, no meu diário, todas as coisas que eu havia aprendido com as bruxas durante o sonho. Assim que Maria fechou a porta do quarto de Bernadete, peguei o diário e fui folheando aquelas páginas aparentemente vazias, para que a inspiração me fluísse à mente. Ao abri-lo, fiquei maravilhada com a luz que saiu de dentro dele e que quase me deixou cega. Por certo Bernadete não sabia, mas seu avô estava com razão ao dizer que o diário era mágico. A cada página que eu ia folheando, ele me dava, por si só, as figuras e os desenhos que ajudaram com que eu me lembrasse do meu sonho quase acordada da noite anterior. Era como se ele lesse as imagens que estavam na minha mente. O diário era pequeno, mas suas páginas pareciam nunca acabar. Por trás daquela aparência singela e humilde, ele respondia todas as minhas perguntas de uma maneira sábia e simples. Na verdade, todos aqueles segredos que me foram revelados em sonho já estavam guardados dentro do meu inconsciente. Apenas se afloraram quando regressei da viagem. Aprendi, com isso, que todos temos dentro do nosso inconsciente as memórias das nossas vidas passadas. Todos temos, por obrigação, que tentar lembrar ao menos alguns desses fatos que nos ocorreram, pois eles nos ajudam muito no nosso presente. No meu sonho, as bruxas também me mostraram o maior de todos os livros já escritos pelas mãos de um místico: o livro das bruxas, também conhecido como o livro das sombras ou livro dos feitiços. O meu diário era mágico e, na medida em que ia me tornando mais íntima dele e merecedora de sua confiança, ele ia me mostrando alguns dos segredos que existiam dentro do grande livro das sombras. Tais segredos nunca haviam sido revelados a nenhuma outra bruxa antes. O livro das sombras havia sido escrito por um dos magos mais poderosos de todos os tempos, cujo nome nem mesmo em meus sonhos tive autorização para pronunciar, pois era um nome tão poderoso que poderia abrir as portas do tempo. A capa do grande livro era feita de madeira de lei, e ossos polidos foram usados para fazer a sua fechadura. O livro era forrado por uma couraça misteriosa, parecia couro de um dragão. Suas folhas eram feitas de papiro e já estavam muito amareladas e sensíveis devido ao tempo. Foi de grande valia ter descoberto que esse livro - também 74
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus um documento histórico - desapareceu misteriosamente. Com o passar dos anos, muitos de meus ancestrais desistiram de procurá-lo, porque, em torno do seu desaparecimento, sugiram lendas de que o grande livro era protegido por forças ocultas malignas, e seu conteúdo só poderia ser lido por alguém muito especial e de coração muito puro. O livro das sombras era a coisa mais incrível que os meus olhos já poderiam ter visto. A chave do grande livro foi feita toda de ouro maciço, cuja forma era de uma estrela de seis pontas. Esse livro tinha oitocentas páginas de pura sabedoria e cultura milenar. Seus muitos símbolos e a sua tradução eram quase impossíveis de serem lidos, pois era escrito em uma língua muito antiga e estranha, chamada aramaico. Uma língua somente usada nos tempos de Jesus Cristo. Os símbolos e fórmulas que a mim foram revelados, embora muito antigos, não me eram totalmente estranhos. Aliás, o livro, de alguma maneira, pareceu-me muito familiar. Talvez em alguma outra de minhas encarnações ele já tivesse sido manuseado por mim. Naquela manhã, especificamente, considerei-me uma pessoa especial por ter recebido das minhas ancestrais tanta informação e tanta sabedoria, e por também ter ganhado aquele diário maravilhoso. Só tinha a agradecer aos céus e aos deuses por terem me cedido a honra de ter conseguido tantos amigos especiais e generosos. Precisava contar aquele fato novo sobre o diário a Bernadete. Não queria esconder da minha mais nova amiga que o presente que ela havia me dado com tanto carinho tinha aqueles poderes extraordinários. Sentir-me-ia uma traidora se escondesse esse fato dela. Escrevi no meu diário tudo o que achei necessário contar para as minhas gerações futuras. Mesmo que houvesse mudanças no tempo, minhas irmãs também precisavam saber que, no meio de tanta dor e preconceito, ajudamos de alguma maneira a escrever a história de uma nação. Queria que elas soubessem, também, o valor de uma amizade verdadeira e que, embora não pudéssemos voltar no tempo, sempre temos a obrigação de encontrar o nosso verdadeiro amor - mesmo que, para isso, tenhamos que nos abdicar de uma vida feliz ao lado dessa suposta pessoa. Pois, como já citei, ninguém pode ser obrigado a nos amar. Ressalto, ainda, que o amor pode aparecer em nossas vidas de várias maneiras, podendo ser ele um parente próximo, um grande amigo ou até um desconhecido que por nós tenha uma grande afinidade. Mas uma coisa é certa: temos que aprender a reconhecê-lo e aceitá-lo da maneira com que nos for encaminhada, sem tentar forçar nada através de um sortilégio. O maior perigo de um sortilégio é não pensar nas consequências que pode ocasionar: talvez uma verdadeira catástrofe futura na vida de uma pessoa que, muitas vezes, é inocente. Convenhamos: se uma pessoa nos fez algum mal, por que temos que pagar tudo com a mesma moeda? Estamos nesta vida para nos aperfeiçoar. Tudo na vida tem um preço. Por isso, não é necessário usar magia para fazer uma vingança. Ao consultar uma bruxa, tenha certeza do que realmente seu coração quer. A magia não pode e não deve ser usada para vingança, vaidade, ou um mero capricho. É por isso que uma bruxa só deve fazer um feitiço para um consulente que realmente saiba o que quer - o que raramente acontece, pois os seres humanos são muito indecisos e inconstantes em suas vontades e decisões. O preço para quem usa a magia inadequadamente é a solidão. É aconselhável nunca fazer um sortilégio de amor, porque, muitas das vezes, os consulentes podem simplesmente estar envolvidos pela emoção passageira. Ou o que é pior: pelo capricho e pela arrogância de terem sido desprezados por seus supostos companheiros. Toda pessoa que pede um sortilégio é uma pessoa incapaz de conquistar por si só qualquer coisa ou alguém. Ou o que é ainda pior: pode estar com o seu orgulho ferido. Pode, também, ser uma pessoa muito ansiosa - o que atrapalha o sortilégio, em todos os sentidos. Portanto, a bruxa deve ser conhecedora de todos os poderes da magia, e também deve tentar sondar para saber se o consulente é uma pessoa apenas movida pela vingança ou se é uma pessoa sincera e realmente necessita ajuda. Qualquer sortilégio é muito perigoso, pois devemos nos lembrar de que estamos interferindo no destino de alguém. Ressalto, ainda, que, se não houver um pouquinho de sentimento da outra parte, o 75
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus sortilégio não funciona. Sem contar que a pessoa pode estar muito bem amparada espiritualmente - ou seja, pode ter uma fé inabalável. Esse tipo de situação pode atrasar o sortilégio, ou o relacionamento que o consulente já tenha com o seu suposto parceiro pode ser desmoronado. Na hora em que um feitiço é feito, a paciência do consulente é testada. Um sortilégio pode demorar até anos a se realizar, mas nunca falha. Basta que o consulente saiba que o tempo dos espíritos não é o mesmo que o nosso. Com isso, o consulente pode acabar achando que, pelo fato de o feitiço estar demorando, ele não irá funcionar. Não devemos nunca nos esquecer que um fiel consulente pode se virar contra a própria bruxa de quem pediu ajuda - por simplesmente achar que ela nada fez por ele, ou simplesmente por medo de ser considerado um adorador do diabo pela Inquisição. Portanto, todo cuidado é pouco. Tudo é um risco. Na verdade, toda e qualquer pessoa tem que ser esclarecida de que mexer com o destino de alguém, além de ser perigoso, é arriscado. Pois, com isso, estamos aprisionando o anjo da guarda dela. Não creio que aprisionar anjos seja uma boa ideia, pois os anjos são generosos e bons, mas podem ser vingativos quando irados. Como já disse antes, toda moeda tem seus dois lados. Isso se aplica fielmente à magia. Um consulente nunca deve, por si, tentar fazer um feitiço - seja ele para o bem ou para o mal. Deve sempre pedir ajuda de uma bruxa ou de um mago, pois são pessoas preparadas para lidar com as forças ocultas. As pessoas dizem algo muito peculiar da fé: que ela, aliada à coragem, pode mover montanhas. Já eu, digo que o medo muitas vezes nos impede de cometer um terrível engano. Ser corajoso nem sempre é o caminho. Pois, no ímpeto e na ansiedade de vencer, o consulente não percebe que a faca afiada do inimigo o espera na retaguarda. Acredito que até mesmo os grandes heróis tiveram medo, e isso com certeza os fez pensar em uma estratégia de vitória. Nesta vida, temos que ter a ciência de que há tempo para tudo, inclusive o tempo de refletir sobre as nossas prováveis ações. Prejudicar espiritualmente uma pessoa é garantir que ela, após sua morte, se torne nosso algoz. A mesma pessoa pode nos perseguir até a nossa próxima encarnação. Embora não tivesse me permitido contar sobre todas as coisas que me foram ensinadas pelas bruxas do meu sonho, espero ter conseguido passar para as minhas irmãs uma rápida ideia do que realmente é ser uma bruxa. E que elas passem para as suas futuras gerações a grandeza e a honra de terem nascido com um dom especial. Espero que minhas irmãs façam uso dos poderes que lhes foram dados com muita sabedoria, e que elas sempre lutem pelo direito de liberdade de expressão e de religião. Algumas das coisas que aprendi com a minha ancestral e com as bruxas, através do meu sonho, estão nessas linhas. São coisas como os símbolos tradicionais da boa magia e os seus significados, entre outras coisas que achei serem muito úteis para as futuras bruxas. Achei interessante começar pelo livro das sombras, pois muitas bruxas não sabiam como usá-lo e para que realmente ele servia. O Livro das Sombras é um diário usado por praticantes da magia em rituais místicos. É como o diário de bordo de um navio: indispensável, irrevogável, individual e intransferível. É o manual da bruxa, o seu tricô, a sua essência. Só deve ser escrito pela própria mão do praticante e deve ser escolhido com carinho e seriedade. Eu havia ganhado o meu, e estava extremamente satisfeita, pois, na verdade, ele me escolheu. A flor de lótus foi muito usada na época da Inquisição como a marca das condenadas, principalmente na França do século XV. Mas algumas bruxas dos séculos XVI ao XVIII continuaram a usar esse símbolo desenhado em seus corpos, como uma forma de respeito pelas irmãs que morreram queimadas na fogueira. Da flor de lótus era extraído um chá poderosíssimo que, diziam, enlouquecia os homens. A flor de lótus também era conhecida como nelumbo nucifera, lótus-egípcio, lótus-sagrado e lótus da Índia. É nativa do sudeste da Ásia. Muitas pessoas morreram por causa dela, inclusive grandes homens ligados à ciência. 76
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus A taça é o símbolo da deusa. Representa o ventre da mulher, o princípio da vida feminina. Sua energia está relacionada ao elemento água e à pureza. É muito usada nos rituais e sabás, como recipiente para água ou para o vinho consagrado. É um instrumento que nunca perde o seu lugar no circulo mágico, e é posicionada ao leste. A taça pode ser feita de vários materiais, como prata, bronze, ouro, barro, alabastro, cristal, entre tantos outros. Porém, é recomendado que seja de prata. Seus desenhos ou símbolos variam de bruxa para bruxa. A espada desempenha o corte simbólico ou psíquico, especialmente quando é usada para desenhar o círculo mágico, isolando o espaço imaginário dentro dele. Além de traçar círculos, exorciza o mal e as forças negativas. Também é tradicional que seu cabo tenha símbolos mágicos de força e de luta. A espada é um sinal de reverência à Santa Joana D’Arc: é o respeito dos homens aos mortos em batalhas travadas pela Igreja em ascensão. O athame é uma adaga, obrigatoriamente de cabo preto, usada em algumas linhas de bruxaria. Ele também é utilizado para lançar o círculo mágico, para traçar emblemas mágicos no ar, para direcionar a energia e para controlar e banir espíritos que não devem invadir nosso mundo físico. As origens da palavra athame foram perdidas na história: alguns diziam ter vindo de a chave de Salomão, que se refere à faca como arthana, enquanto outros afirmam que athame vem da palavra árabe al-adhamme, ou seja, é uma faca sagrada usada na tradição mourisca. Em qualquer um dos casos, há manuscritos datados do século XI que abordam o uso de facas em rituais da magia. O uso de uma faca sagrada em ritos pagãos é bastante antigo. Certa vez, quando ainda era criança, lembro- me de ter visto um desenho em um vaso grego, datado de aproximadamente 200 a.C., que mostrava duas bruxas nuas tentando invocar os poderes da Lua para sua magia. Uma delas estava segurando uma varinha, e a outra segurava uma pequena espada. Aquela obra magnífica ficava guardada no sótão de minha casa, junto aos pertences de minha mãe. A cruz é o símbolo do cristianismo e, em toda a parte do mundo, ela representava para nós, bruxas, os quatro elementos: a terra, o fogo, o ar e a água. Mas quando alguém usava a cruz torta, pendurada à Soleira da porta, significava que havia uma bruxa por perto. Pura superstição, pois nós, do grande clã, consideramos isso um sinal de igualdade entre as irmãs de consagração. Para os leigos, é um sinal de paganismo e foi motivo para a excomunhão de muitos inocentes. A faca de cabo branco, por vezes chamada de bolline, é simplesmente uma faca prática de trabalho. Ao contrário da pura e ritualística faca mágica, só a utilizamos para cortar galhos ou ervas sagradas, escrever símbolos em velas ou na madeira. Normalmente possui cabo branco para distinguir-se da faca mágica. O homem vitruviano, também chamado de cânone das proporções, é usado por algumas de nós como um mapa. Essa ideia tão grandiosa foi criada por volta de 1490 e estava em um dos diários de Leonardo Da Vinci. Toda a cura que praticamos é dimensionada através dos chakras e das linhas imaginárias. Essas linhas imaginárias somente podem ser vistas pelas bruxas curandeiras. Todo o segredo da existência humana está dentro do mapa do corpo humano, e Leonardo Da Vinci descreveu isso em suas ilustrações. Sua referência estética e simétrica proporcionou-nos saber, com exatidão, os pontos alfas ou chakras de um consulente doente. O homem vitruviano também foi muito usado pelas feiticeiras para fazerem seus vodus em rituais de magia negra. Leonardo Da Vinci engloba o homem vitruviano em um todo, mas o que poucos sabem é que essa forma é uma resposta para um desafio matemático. Algo como uma parábola ou uma senoide para aquele incrível inventor, que foi, com certeza, um alquimista das ideias. Para nós, as bruxas, o homem vitruviano é um pentagrama humano e, na magia, o símbolo do pentagrama é geralmente desenhado com a ponta para cima, a fim de simbolizar as aspirações espirituais humanas. Um pentagrama voltado com duas pontas para cima é um símbolo do deus cornífero, mas representa também a matéria sobre o espírito. Por isso, é muito usado. Muitos supersticiosos acreditavam que representávamos com o pentagrama o lado negro da magia - o que nem sempre é verdade. Esse tipo de pentagrama representa o próprio corpo, os quatros membros e a 77
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus cabeça, bem como as representações primordiais dos cinco sentidos, tanto interiores como exteriores. Além disso, representa os cinco estágios da vida do homem. O pentagrama - ou a estrela de cinco pontas -, ao contrário do que dizem, não é um símbolo satânico. É um símbolo muito antigo e muito usado até pelo filósofo Pitágoras, e também por seus seguidores, que o usavam para simbolizar o respeito pela beleza da matemática do universo. Em muitos lugares e épocas, foi utilizado como um símbolo geométrico sagrado. O fato de satanistas usarem o pentagrama não significa que eles são bruxos - da mesma forma como usam o crucifixo e não são cristãos. O pentagrama é conhecido, também, como tentáculo ou cruz dos gnomos. Uma estrela de cinco pontas circunscrita em um círculo representa os quatros elementos místicos da natureza: o fogo, a água, o ar e a terra, superados pelo espírito da quintessência. Na antiga arte da magia, meus ancestrais geralmente usavam o pentagrama como um instrumento de proteção ou uma ferramenta para evocar os espíritos. O pentagrama fechado existe desde os princípios dos tempos. Ele é usado para nos proteger dos inimigos e também serve como portal para evocar forças ocultas. Por isso, sua simbologia é múltipla e fundamentada pelo número cinco, que exprime a união dos desiguais. Muitas feiticeiras usaram o pentagrama indevidamente. Por isso, dizia-se que elas conseguiam abrir os portais do inferno com ele. Os mesopotâmios tinham o pentagrama como símbolo imperial. Entre os hebreus, foi designado como a verdade para os cinco livros do velho testamento. Por isso, o pentagrama foi muitas vezes chamado incorretamente de selo de Salomão. A magia tem dois lados. Portanto, qualquer símbolo pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal. Isso dependerá apenas de seus praticantes, pois os símbolos por si só não podem fazer nenhum mal. Logicamente, isso é uma escolha bastante singular, pois nós é que devemos ter a real consciência de qual lado estamos. Por inúmeras vezes, quando eu era criança e frequentava a igreja cristã, li sobre uma citação no evangelho que nos ensina a não acender velas para dois senhores. O propósito dessa citação é que isso causa desequilíbrio entre os dois mundos astrais. Esse desequilíbrio pode abrir um portal, dando passagem a espíritos desordeiros. O Pentáculo é um prato de metal ou de madeira, com um pentagrama cravado dentro de um círculo. Esse objeto é muito utilizado na consagração de diversos instrumentos ritualísticos, como as ervas e os amuletos, sendo utilizado, também, como um ponto de concentração nos rituais. O hexagrama, ou selo de Salomão, é um antigo e poderoso símbolo mágico. Consiste em dois triângulos entrelaçados, um voltado para cima e o outro para baixo. O selo de Salomão simboliza a alma humana. É utilizado por bruxas e magos em cerimoniais de encantamentos ou conjuração de espíritos. É um símbolo de sabedoria, de purificação e reforça os poderes psíquicos. Os judeus também foram perseguidos por causa dele, usado na santa cabala. A estrela de cinco pontas ou estrela de David forma outro pentagrama, dividido por duas estrelas que chamamos de invocante e evanescente. Quando queremos invocar as energias da deusa do deus cornífero, ou das entidades dos quadrantes para selar algum tipo de encantamento, traçamos o pentagrama chamado de invocante. Os instrumentos usados são: o bastão, a varinha, o athame ou dedo médio, para fazer movimentos circulares no espaço físico. Quando queremos banir, dispersar e exterminar qualquer tipo de energia ruim, usamos o pentagrama evanescente. O Pentagrama evanescente é traçado de maneira contrária a do invocante - lembrando que um pentagrama pode ser aberto ou fechado, dependendo para o quê fosse usado. O triângulo é um símbolo de manifestação finita na magia ocidental, sendo usado em rituais para invocar os espíritos quando o selo ou sinal da entidade a ser invocada está no centro do triângulo. O triângulo é equivalente ao número três, ou número mágico poderoso, que é o símbolo sagrado da Deusa tripla virgem, mãe e anciã. O triângulo invertido simboliza o princípio masculino. Se, mentalmente, meditarmos um triângulo e dentro dele entrarmos, conseguiremos livrar-nos dos maus 78
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus pensamentos e de outras coisas que insistem em invadir nossa mente. O triângulo é uma forma que temos de calar os pensamentos ruins. É a maneira mais simples que podemos usar em qualquer lugar, sem que ninguém perceba. Também serve para fugirmos de energias negativas, que algumas pessoas lançam através de suas palavras. Os espirais são dois: o espiral de evocação e o espiral de banimento. Os espirais são outra forma de invocar ou banir energias espirituais. Podem ser usados com os mesmos propósitos dos pentagramas invocante e evanescente. O espiral de invocação é muito utilizado para carregar instrumentos, amuletos, talismãs, entre outros. Já o espiral de banimento é usado para o banimento da negatividade, sugando e transmutando as más energias. Esses símbolos são da forma dos seios de uma mulher. Na verdade, na magia, quase todas as representações geométricas são inspiradas em nós, mulheres. O fogo é o elemento da mudança, da vontade e da paixão. Em certo sentido, contém todas as formas de magia, pois é o processo de mudança. A magia do fogo pode ser assustadora: os resultados manifestam-se de forma rápida e espetacular. O fogo não é um elemento para os fracos. Entretanto, é o principal e, por isso, o mais usado. Este é o reino da sexualidade e da paixão. O fogo não representa apenas o fogo sagrado do sexo, mas também a faísca da divindade, que brilha dentro de nós e de todas as coisas vivas. Ele é, ao mesmo tempo, o mais físico e o mais espiritual dos elementos. A vela, ou lume, também simboliza o elemento fogo. Porém, é o símbolo do seu pedido de oração, pois enquanto vai se queimando, a fumaça leva o seu pedido para que ele se misture ao elemento ar – fazendo, assim, com que os seus desejos se realizem. A terra representa a mãe, de onde tiramos nosso poder e nossa força. É o elemento do qual somos mais próximos, é a nossa casa. A terra não representa necessariamente a terra física, mas aquela parte que é estável e sólida, da qual dependemos. A terra é o reino da abundância, prosperidade e riqueza. Ela é o mais físico dos elementos, pois todos os três se apóiam sobre ela. A terra, para nós, é a força maior: a mãe, aquela que gera e nos permite a sobrevivência e a procriação. Muitos diziam que a terra calou-se para que pudéssemos fazer do seu corpo a nossa morada. Mas ela nos fala todos os dias, da forma mais maravilhosa já criada por Deus para se expressar. Fala-nos através das suas plantas e da sua beleza. Só que nunca temos tempo para observar seus sons... O som do mundo está sempre presente. É só fechar os olhos e desligar-se de todos os outros sons à nossa volta para podermos escutá-lo. É um som quase mudo, mas muito presente. O vento ou o ar é a alma do mundo, o mensageiro, a vida, o sopro de Deus. Muito usado em evocações para apaziguar tempestades e tufões. Podemos enviar uma mensagem para alguém através do vento, caso a pessoa esteja em sintonia total conosco. O vento é o elemento do intelecto, é a realidade do pensamento, é o primeiro passo para a criação. Também é o movimento, o ímpeto que manda a visualização na direção da concretização, governando os feitiços e rituais que envolvem a viagem, instrução, liberdade, obtenção do conhecimento, encontrar itens perdidos, descobrir mentiras... e assim por diante. O vento também pode ser usado para ajudar no desenvolvimento das faculdades psíquicas. O ar é masculino, seco, expansivo e ativo. É o elemento que se sobressai nos locais de aprendizagem. O ar governa o leste, pois é a direção da maior luz: a da sabedoria e da conscientização. Sua cor é o amarelo do Sol e do céu na aurora. O ar governa a magia dos quatro ventos de concentração e visualização, bem como a maioria das magias adivinhatórias. A água é o espírito purificador, a fonte de limpeza espiritual através do corpo para a alma, pois sempre a usamos em banhos de purificação. É o elemento da absorção e germinação. O subconsciente é simbolizado por ela, pois está sempre em movimento, como o mar que nunca descansa - quer seja noite ou dia. O caldeirão é um dos objetos mais essenciais: com ele, fazemos nossos rituais, entre tantas outras coisas. Ele está sempre acompanhado de uma colher de pau e um livro de receitas especiais. Esse objeto é intransferível e de uso exclusivo da pessoa que irá praticar o suposto ritual. Ninguém 79
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus mais deverá manuseá-lo além da própria bruxa em questão. O caldeirão é o instrumento da bruxa por excelência. Um antigo recipiente culinário, imbuído em mistério e tradições mágicas. O caldeirão é o recipiente no qual ocorrem as transformações mágicas. Tem um significado muito especial: é o símbolo máximo da Deusa: é seu útero, sua essência e feminilidade manifestada, a sua fertilidade. Está relacionado com os elementos água e fogo. Situa-se ao centro do círculo mágico e do altar. É, também, um símbolo da reencarnação, da imortalidade e da inspiração. O caldeirão é geralmente o ponto central dos rituais. Toda bruxa que se prezasse teria que ter um caldeirão consigo. A lenda antiga também castigou esse elemento, pois diziam que cozinhávamos crianças nele - blasfêmia e heresia contra o ser humano. Nunca praticávamos canibalismo ou qualquer outro tipo de feitiço em adoração ao demônio. Muitas vezes, íamos ao bosque pegar raízes para o tingimento de nossas roupas, mas algumas dessas raízes eram de um odor muito forte depois de cozidas. Por isso, colocávamos nossos caldeirões no meio da mata - o que gerou muitas lendas em torno de nós. O gato preto é um símbolo da capacidade de meditação e recolhimento espiritual, autoconfiança, independência, liberdade e plena harmonia com o universo. Esse animal sempre foi visto ao lado de uma feiticeira, e os supersticiosos acreditavam que o mascote era uma bruxa disfarçada. Com isso, as feiticeiras transitavam livremente, enquanto levávamos a fama de malvadas. O símbolo do gato preto era utilizado pelos médicos egípcios para anunciar a sua capacidade de cura, onde Bastet, sua deusa, é representada como uma gata preta, e foi uma das divindades mais veneradas no antigo Egito. Bastet é a Deusa protetora dos lares e da família. Protetora dos gatos, das mulheres, da maternidade, da cura. Era guardiã das casas e feroz defensora dos seus filhos, representando o amor maternal. O gato tem uma grande ligação com a Lua. Os Olhos de Bastet podem ver através da escuridão, assim como os do gato. Alguns espíritos, entidades ou passantes - como os chamam os espíritos mais superiores - costumam referir-se aos animais de estimação como sacrifícios, mas não são todos. O gato, em si, independente da cor, vive em dois mudos paralelos. Ou seja: o gato está interligado entre o mundo espiritual e o mundo real. A Bola de Cristal é também um instrumento das artes adivinhatórias. É muito popular entre os videntes ciganos. A cristalomancia é também muito praticada pelas bruxas em magias, mas com um propósito ainda maior. É por onde nos comunicamos com a grande deusa mãe. Por onde recebemos as mensagens da deusa, que fortalece e orienta as bruxas. A Bola de Cristal reflete mensagens, ajudando-nos a descobrir mais sobre o nosso mundo interior. O baralho do tarô tem o mesmo efeito da bola de cristal: também o usamos para prever o futuro. Mas devo ressaltar que todo objeto de clarividência deve ser mantido como particular e intransferível. O primeiro baralho conhecido foi pintado pelo artista Jacquemin Grigonnur, em 1392, para a coroa francesa. Deste maravilhoso trabalho sobraram apenas dezessete cartas, que foram guardadas na biblioteca nacional de Paris, com data de entrada do século XV. Com as mudanças na Europa, surgiu uma série de baralhos, especialmente na Itália. Graças a Deus, ganhamos esse fabuloso auxiliar da magia. Nunca devemos nos esquecer de que as cartas não mentem jamais. Mas nem tudo pode ou deve ser revelado ao consulente, pois a pessoa, em si, muitas vezes, não está preparada para ouvir a verdade. Uma bruxa sábia deve ter consciência de que tudo gera uma consequência na vida do consulente. Muitas vezes, ao dizermos que o marido de uma consulente a está traindo, podemos estar destruindo um lar supostamente feliz. E a felicidade varia de pessoa para pessoa: cada um tem o seu lado de ver e aceitar as coisas. O que para nós pode parecer errado, para alguns é a coisa mais correta desta vida. Não temos o direito de separar um casal, ou de desgraçar a vida de um consulente. Afinal, que mulher não tem suas próprias intuições? Vendo por esse ângulo, sabemos, em nosso interior, que uma mulher só fica na ignorância caso ela queira. Isso sempre acontece, porque a maioria das mulheres permanece nesse tipo de situação por, muitas vezes, lhes ser conveniente, ou porque não têm mesmo outro lugar para onde irem. 80
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Quando uma bruxa revela a verdade, pode até ser mal interpretada e vista como mentirosa, pois existem muitas coisas que um consulente não quer enxergar. Deixar as coisas como elas são não é ser conivente: é permitir que o destino do consulente cumpra-se por si só. Não temos o direito de interferir no destino de um consulente, a não ser para ajudar e salvar a vida de alguém - mas isso é apenas uma exceção. Deixar que as coisas aconteçam naturalmente é a melhor maneira de deixar o consulente aprender a como lidar com seus próprios erros. É assim que a vida funciona. É a lei da sobrevivência. Os cristais e as pedras servem para banhos, para meditar, orar, curar, energizar ambientes, plantas, animais e pessoas. Devemos sempre ter um cristal só nosso. Podemos andar diariamente com o cristal junto ao corpo, usando-o como um talismã ou, caso não quisermos que alguém o veja, pode-se guardá-lo dentro da roupa íntima. Mas, uma vez ou outra, devemos tocá-lo para que ele se sinta amado e lembrado. O cristal tem vida própria e sente-se carente quando se sente sozinho. Os cristais transmitem-nos muito mais energia do que recebem de nós. Na verdade, é uma espécie de troca, porque eles nos emitem em dobro, em triplo e, às vezes, até em décuplo as energias que lhes damos. Por isso, precisa ser muito amado. Não escolhemos um cristal. Ele nos escolhe. Os cristais e as pedras são parte da natureza, sendo que eles, pela pureza, são mais poderosos e mais iluminados que nós. Essa fonte de energia natural recebe a perfeição e a harmonia do cosmos. Se nos conscientizarmos disso, procuraremos trabalhar mais com eles, pois seus benefícios serão incontáveis. Para tanto, basta desenvolvermos nossa intuição, nossa sensibilidade, nossos sentimentos e nossas virtudes. Assim, canalizaremos todo o bem e, com eles, faremos um universo melhor. Uma bruxa, através dos cristais, pode tentar entrar em um estado temporal - isto é, ver o presente, o passado e o futuro. Mas, para fazer brilhar a luz temporal, é necessário ficar em estado de meditação com os cristais, pelo menos dez minutos ao dia. Como recurso auxiliar, podemos usar músicas e velas. Mas, antes de usar seu cristal, não se esqueça de que ele deve ser energizado, colocando-o em uma ânfora de prata ou louça. Leve-o para a janela em noite de Lua cheia e deixe-o dentro d’água, com sal e ervas aromáticas, para que ele receba da mãe Lua toda a sua energia. Repita o mesmo pela manhã, expondo o cristal à luz solar. Depois de fazer esse pequeno - mas muito significante - ritual, seu cristal estará pronto para ser usado. O ankh é um antigo símbolo egípcio que nos lembra uma cruz, encimado por um laço. Simboliza a vida, o conhecimento cósmico, o intercurso sexual e o renascimento. Também é conhecido por vários bruxos como cruz ansata. O ankh é muito usado por várias bruxas para encantamentos e rituais que envolvem saúde, fertilidade e divinação. A triluna simboliza sagrada donzela, mãe e anciã. Tem as três faces femininas e é muito utilizada em rituais de invocação à grande deusa mãe e deidades lunares. O círculo - ou portal - representa o poder sagrado feminino, a mãe, a terra e o espaço. É o símbolo universal de totalidade e união. O círculo sempre representa a deusa e é identificado pelo elemento terra. A vassoura, embora muitos ignorantes a associassem a um ser vivo, cheio de poderes, isso nunca foi verdade. Ela é, para nós, como o cajado de Moisés. Usamo-la para varrer o espaço físico antes, durante e depois dos rituais. Nos rituais de casamento, a vassoura representa um pacto, pois ela é o símbolo da união da deusa com o deus. Conta-nos a lenda que, se uma vassoura cair ao chão, é um sinal de que receberemos uma visita masculina em casa. Nas noites de Lua cheia, algumas bruxas colocavam suas vassouras do lado de fora para espantar os maus espíritos. Minhas ancestrais sofreram muito no passado por causa desse utensílio doméstico, pois os cristãos contavam horríveis histórias e lendas. Como, por exemplo, a de que, em noite de Lua cheia, especificamente no dia 31 de outubro de cada ano, nós, bruxas, saíamos voando em nossas vassouras, à procura do primogênito de cada família para, assim, o devorarmos. Com esse estranho e bizarro ritual, diziam que ficaríamos mais fortes e poderosas. 81
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus A mente humana é incrível, pois é capaz de criar qualquer coisa. Mas nunca cria algo construtivo e apaziguador. Por causa dessas histórias, muitas mulheres morreram em Salém e em outros países da Europa. É muito triste pensar em quantas pessoas inocentes foram condenadas somente por causa de lendas criadas por pessoas com a mente fértil e maldosa. Essas histórias também eram criadas, muitas vezes, para desviar a atenção dessas mesmas pessoas. A viagem é uma forma de transe espiritual, onde limpamos a mente de tudo ao nosso redor e imaginamo-nos dentro de uma grande luz. Geralmente, fazemos a viagem através do tempo para descobrirmos, em nosso passado, quem fomos. Também é usada para que possamos adquirir sabedoria e respeito pelas coisas às quais muitas vezes não damos valor. A viagem também é uma forma de conhecermos o nosso eu interior. A princípio, por causa da falta de fé e sintonia astral, só enxergamos um grande escuro mental. Mas, mesmo dentro desse escuro, encontramos a luz e, muitas vezes, nossas ancestrais vêm ao nosso socorro. Se a pessoa for realmente uma bruxa, vai saber o que digo. Todas vamos, quase sempre, ao mesmo lugar. Nessa viagem, são mostrados fatos, objetos e o grande livro das sombras, de onde retiramos uma enorme sabedoria. Na viagem, é a nós revelado nosso nome ancestral, ou seja, o nome de bruxa, que nunca deveremos falar a ninguém. Pois esse nome, em mãos erradas, faz-nos ficar vulnerável e à mercê de qualquer pessoa - principalmente dos inimigos. O triskelium - triskelio ou triskele - também representa a deusa em todos os seus aspectos tríplices: donzela, mãe e anciã. O nascer, o viver, o morrer; o corpo, a mente e a alma, os mundos celtas, a terra, o céu e o mar. É uma espécie de estrela de três pontas, geralmente curvadas, o que confere ao símbolo uma grandiosa fluidez de movimentos. É um dos elementos mais presentes na bruxaria. Também representa primavera, verão, outono e inverno. Está ligado, principalmente, ao elemento terra. Alguns magos usam o triskele desenhando-o no corpo, como uma forma de caráter nada mais do que simbólico. O bastão - ou varinha - é um dos instrumentos mais importantes para as bruxas, pois funciona como um instrumento de invocação. A deusa e o deus podem ser chamados para assistirem o ritual por meio de palavras e de um bastão erguido. Também é, por vezes, utilizado para direcionar a energia, para desenhar símbolos mágicos, círculos no solo, e para indicar a direção de perigo, quando perfeitamente equilibrado na palma da mão ou no braço de uma bruxa. Também serve para mexer um preparado em um caldeirão. O bastão representa o elemento do ar. Há madeiras tradicionais para a confecção de um bastão. Dentre elas, o salgueiro, o sabugueiro, o carvalho, a macieira, o pessegueiro, a avelã e a cerejeira. As bruxas o cortam com o comprimento da ponta de seu cotovelo até a extremidade de seu indicador. Geralmente, o galho a ser cortado para o bastão chama a bruxa para ele. É como se ambos fossem um só ser. Nenhuma outra pessoa pode ou deve colocar as mãos no bastão de uma bruxa. O Buril é um ferro usado para gravar nomes sagrados, números, símbolos em punhais, espadas e também usado na fabricação de medalhões sagrados. Toda bruxa tem um medalhão que representa o seu elemento. O Prato de Sal simboliza a terra e é usado para purificação em banhos. Sempre devemos ter um copo com sal atrás da porta de nossas casas, para puxar a energia negativa do ambiente. O girassol é uma flor de cor amarela, formada por muitas pétalas, de tamanho geralmente grande. Tem esse nome porque está sempre voltado para o Sol. O girassol simboliza a páscoa e representa a busca da luz, que é Jesus Cristo. Assim como ele segue o astro rei, os cristãos buscam em Cristo o caminho, a verdade e a vida. Usamos o girassol para produzir uma espécie de óleo para bálsamos, que curam várias mazelas. Eu precisava citar, também, a grande mártir Joana D’Arc: essa mulher que deu a vida pela França e por seu rei, mas que, por causa da inveja e da ambição dos membros da Santa Madre Igreja, foi traída e injustiçada. Para mim, Joana D’Arc foi um símbolo de luta e de amor. Por isso, dedico 82
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus aqui, em meu diário, um cantinho a essa fabulosa mártir, que deve ser citada e lembrada por toda bruxa, pois foi a mulher mais forte e corajosa que a História pôde contar. Alguém consegue imaginar a força de liderança que havia nessa jovem mulher durante o período medieval da França? Nenhum homem venceu ou vencerá essa mulher virtuosa. Essa é a minha opinião final. Joana D'Arc foi uma mártir francesa, heroína da Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra. Sua participação na História foi movida pela sua fé inquebrantável. Joana D'Arc nasceu no dia seis de janeiro no ano de 1412, na cidade de Domrémy, em uma família modesta de camponeses. Faleceu no ano de 1431, com apenas dezenove anos de idade. Aos doze anos, começou a ouvir as vozes divinas de Santa Catarina e de Santa Terezinha. As vozes diziam-lhe para salvar a França das mãos dos ingleses. Durante cinco anos, manteve essas mensagens em segredo, por medo de ser castigada pelos pais ou pelo padre local. Vale lembrar, aqui, que ouvir vozes estava totalmente relacionado às práticas de bruxaria da época. É claro que não são bruxas todas as pessoas que ouvem vozes, mas Joana D’Arc ouvia vozes que dizia ser de uma divindade. Se fosse de sua mente, ela provavelmente pensaria que estava louca, mas não. Em todos os relatos sobre a trajetória de Joana D’Arc, há essa verdade. As vozes que ela escutava eram de uma divindade – ou, como ela mesma dizia, dos santos. Em seu julgamento, Joana D’Arc admitiu ter dançado ao redor da árvore das fadas. Um de seus amigos que honrava as fadas também foi queimado como bruxo, na mesma época. Joana D’Arc dizia que eles eram santos. Na verdade, em minha opinião, São Miguel e Santa Catarina eram ambos antigas divindades disfarçadas de santos cristãos. São Miguel representaria, então, o deus Sol, e Santa Catarina representaria Cerridwen. Isso pode explicar a popularidade desses dois santos como patronos das igrejas e capelas construídos sobre colinas, os velhos santuários das alturas. Isso é uma opinião exclusivamente minha, que fique bem claro. Em 1429, ela deixou sua casa, na região de Champagne, e viajou para a corte do rei francês Carlos VII. Lá, convenceu-o a colocar suas tropas sob seu comando e, então, partiu para libertar a cidade de Orléans, que estava sitiada há oito meses pelos ingleses. Liderando um pequeno exército, Joana D’Arc derrotou os invasores em apenas oito dias. Isso foi em maio de 1429. Um mês depois, conduziu Carlos VII à cidade de Reims, onde ele foi coroado. As vitórias trazidas pelas tropas de Joana D’Arc para Orléans, para a coroação do rei, fizeram a esperança do povo renascer. Embora todos quisessem a liberdade a qualquer custo, o preconceito contra Joana D’Arc ainda era muito grande - afinal, era uma mulher e, para eles, isso era o bastante. A corte, na verdade, era influenciada pela Santa Madre Igreja, que não podia aceitar uma mulher liderando um exército de homens e que, ainda, conseguisse ótimas vitórias estrategistas. É importante que eu ressalte que, na época, as mulheres já eram bastante recriminadas, sujas e pecadoras, de acordo com os eclesiásticos. Portanto, sempre vistas como inferiores aos homens. Joana D’Arc escandalizou muitos padres pelo fato de se vestir com roupas masculinas e usar o cabelo quase raspado. Esses homens puros de coração julgaram a maneira de se vestir de Joana D’Arc como uma heresia - apesar de ter sido apenas a forma que ela encontrou para afastar o preconceito da Igreja. Mas não posso deixar de lembrar que, em algumas tradições pagãs, as sacerdotisas, por vezes, vestiam-se de homem para representarem o deus. Então, visto por esse lado, os padres julgavam-na. Joana D’Arc usava um curioso emblema, adotado por ela mesma para ser o seu estandarte pessoal. O emblema era uma espada vertical com a ponta circundada por uma coroa, com uma flor- de-lis de cada lado - figura idêntica ao da espada do símbolo místico, utilizado por ocultistas do tarô. Joana D'Arc, afinal, era ou não uma bruxa? Por mim, consigo pensar na possibilidade de Joana D’Arc ter sido uma bruxa de verdade. Mas é claro que o conceito de bruxa em 1420 não é o mesmo conceito de bruxa em 1822. Pois Joana D’Arc, embora tenha liderado um exército de homens, na verdade, foi apenas manipulada e usada pela Igreja o quanto sua ajuda lhes foi conveniente, até o dia em que acharam que ela não lhes seria mais útil. 83
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Não posso me esquecer dos muitos mitos envolvendo a grande deusa caçadora Diana, que demonstrou uma enorme força de vontade e coragem. Em suas trajetórias de vida, Joana D'Arc é bastante semelhante. Podemos ver na história da deusa Diana os muitos traços da deusa caçadora. Na primavera de 1430, Joana D’Arc retoma a milícia e tenta libertar a cidade de Compiégne, que havia sido dominada pelos borgonheses, aliados dos ingleses. Depois de mais uma vitória, Joana D’Arc foi traída, capturada, e entregue aos ingleses, pelas mesmas pessoas que ela sempre ajudou. Isso foi no dia vinte e três de maio do mesmo ano. O interesse desses fatos, no entanto, não era simplesmente matá-la ou torturá-la: eles queriam ridicularizá-la na frente do seu próprio povo. Agiram dessa forma porque a influência de Joana D’Arc entre os camponeses era muito grande e, com isso, a Igreja estava com medo de perder seus adeptos, assim como a coroa tinha medo de perder a confiança real de seus súditos. Creio que ambos julgavam que Joana D’Arc, por ter conseguido tanta confiança do povo, poderia um dia vir a exigir a coroa para si. Isso preocupou o rei e a Igreja, pois não poderiam jamais pensar na hipótese de serem governados por uma mulher. Alguns tinham o conceito de que as bruxas tinham grande influência sobre o povo, pois, para eles, elas eram as parteiras da região, ou as curandeiras conhecedoras de ervas - o que não era verdade. Mas, mesmo assim, a Igreja achava que o povo ficava dependente delas não pela caridade que elas prestavam, mas pelo suposto feitiço que elas lançavam sobre eles. Mais uma vez, era uma inverdade, pois o que acontecia é que muitas pessoas, por serem muito pobres, achavam nessas tais supostas bruxas a única solução para curarem suas moléstias. Mas Joana D’Arc foi mais que uma parteira ou curandeira: ela foi uma simples camponesa que quase dominou um reino, por falar com espíritos e derrotar os inimigos da coroa. Para a Igreja, Joana D’Arc quase estava tirando sua liderança. Foi por isso que a condenaram por bruxaria e heresia. Joana D’Arc foi submetida a um tribunal católico em Rouen, sendo condenada à morte após meses de julgamento, na mesma cidade. No dia trinta de maio de 1431, foi queimada viva. Suas cinzas foram jogadas no rio Sena. A revisão de seu processo começou a partir de 1456, e a Igreja em ascensão - por certo para reparar seus erros, e até por uma questão política – canonizá-la-ia futuramente. Joana D’Arc era mesmo uma bruxa? Pergunto-me sempre isso. Não tenho dados detalhados sobre a vida dela a ponto de dizer se ela era uma bruxa ou não. Mas, através dos fatos que tenho, posso chegar bem perto do conceito de bruxaria. Então, para mim Joana D’Arc foi a maior bruxa e símbolo feminino guerreiro de todos os tempos. Quem para a Igreja Mãe é verdadeiramente digno? Em minha opinião, é muito injusto santificar uns por conveniência e condenar outros só porque não concordam em ser como os demais. Mas eu era apenas uma minoria, e era muito pouco provável que alguém me ouvisse. Bom, fico feliz por ter contado a história da mulher que, para mim, foi mais que uma simples mártir. Para mim, Joana D’Arc foi a minha heroína. Antes de terminar a parte sobre o livro das sombras, quero esclarecer algumas dúvidas que sei que fará muita diferença para as minhas gerações futuras. Como, por exemplo, a diferença entre as bruxas e os magos. Sei que é sempre uma pergunta muito básica, mas que causa muita dúvida. Faz muita diferença obter uma resposta clara, pois eu mesma a tive. E, vendo por esse prisma, explico aqui: o mago é quem pratica magia, a bruxa é quem pratica bruxaria. Pode parecer simples e óbvia essa diferença, não é mesmo? Mas não é bem assim. A magia tem diversos ramos de estudo, e a bruxaria é apenas um deles. A bruxaria é uma forma específica de magia que utiliza elementos da natureza. A bruxa pode ser uma maga e não ser bruxa. Pode trabalhar com a magia sem estar ligada à bruxaria. O foco do mago é a própria magia: ele lida com ela o tempo todo. Estuda correspondências, astronomia, tabelas, transfigurações, hermetismo, espíritos, cabala, cálculos diversos, necromancia e tudo o que estiver relacionado à magia. Uma bruxa não necessariamente lida somente com seus objetos de prática no dia-a-dia, como o modo de cultivo e preparo de ervas, rituais para a Lua e o Sol... coisas desse tipo. 84
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Não que um seja melhor ou pior que o outro, mas a evolução de um não foca a maneira de trabalho do outro. E isso os torna diferentes. Não que as bruxas não sejam racionais, obviamente. Mas é que os magos calculam milimetricamente cada ação, cada ritual, e cada trabalho que vão fazer. Eles usam os símbolos dentro de cálculo, como uma coisa cerimonial. A bruxa é infinitamente mais simples: colhe as ervas e, no momento seguinte, já está sujando as mãos para preparar o unguento. Toda bruxa pratica magia, mas é a magia natural, simples. A tradição, por exemplo, tem muito tanto da bruxaria quanto da magia cerimonial. E usamos os objetos como o athame, a espada, o cálice, o caldeirão e a vassoura, que são indispensáveis. Não dispomos desses objetos – que, para nós, são indispensáveis -, mas também não fazemos da magia uma coisa tão complicada. Muito pelo contrário: trabalhamos com a magia usando dela a força da natureza. É como se fosse uma união, fazendo, assim, com que as forças ocultas se tornem nossas aliadas. Uma bruxa, em caso de necessidade, pega qualquer tipo de faca que estiver ao seu alcance - essa é uma das grandes diferenças da magia. Um mago é como um astrônomo: ele é aquela imagem tradicional do homem sentado, rodeado por milhares de livros. O mago é um eterno pesquisador e alquimista. É bastante comum existir uma tradição familiar de bruxas e de magos? Nem tanto. Magos formam ordens e toda bruxa é pagã. Os magos não necessariamente - aliás, muito raramente - são de origem cristã. Claro que existem controvérsias. E também existem bruxas que, como eu, tiveram formação cristã. Isso ocorreu em diversas partes da Europa. A História e a tradição convencional religiosa fizeram com que isso acontecesse. E foi por causa da liberdade de expressão religiosa que nós, bruxas, sempre lutamos contra aqueles que se diziam os donos da verdade e do destino das pessoas. Não é justo que todos tenhamos que seguir uma mesma religião, somente porque isso se tornou uma imposição e não uma vontade. Não estou, de forma alguma, querendo que o cristão se converta ao paganismo. Muito pelo contrário, respeito-os e somente quero que me aceitem como sou e pelo que sou - assim como os aceito da mesma forma. Outra diferença - ainda citando a cultura - entre os magos e as bruxas é a origem de suas práticas. Os magos possuem práticas centradas nas antigas tradições persas, egípcias e babilônicas. As bruxas, porém, têm suas crenças enraizadas nas culturas europeia, celta e italiana. O fato é que estamos na Terra há muitos séculos. Somos o espinho atravessado na garganta dos inquisidores, dos preconceituosos e dos ignorantes. Querendo ou não, muitos vão ter que nos engolir, pois somos filhas do mesmo e único Deus. Logicamente, isso tem sido uma luta desigual e silenciosa, na qual muitas de nós foram sacrificadas como ovelhas. Mas essas pessoas, por viverem na ignorância, não sabem que a morte, para nós, é apenas um começo - embora o caminho que nos levasse até a ela fosse bem árduo e doloroso, pois passávamos por várias sessões de torturas antes de morrermos. O que, para esses ignorantes, era como uma forma de penitência e salvação para nossas almas pecadoras. Todos os seres humanos têm dentro de si uma bruxa ou um mago. O difícil é alguém querer admitir isso. Em todo lugar deste planeta sempre haverá uma bruxa ou um mago. Isso pode parecer uma loucura, mas quem entre vós não sois loucos? Quem entre vocês, ao ver que o filho está doente, não recorrerá a uma velha receita caseira para tentar salvá-lo? Quem entre vocês que, ao cozinhar, já não quis dar certo sabor diferente à comida? A culinária é a forma mais simples e a mais fantástica de praticarmos alquimia, através da mistura das ervas e dos temperos. Misturar temperos e ervas é o que de melhor fazem as bruxas e os magos. Quem nunca amou e depois adoeceu? Quem nunca sentiu uma enorme vontade de voar nas asas do vento? Quem nunca sonhou? São perguntas simples e aparentemente tolas, mas que não conseguimos responder por medo de ouvir a resposta que está dentro de nossos corações. Tudo que quis, em toda a minha vida, foi ser livre e poder exercer o meu dom em paz. Tudo o que quis foi amar livremente, sonhar livremente, beijar livremente. Tudo o que quis foi ter podido ser uma 85
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus mulher com o direito de ir e vir. Mas essa liberdade foi-me tirada, porque nunca quis aceitar ser o que eu não era. Será que todas essas pessoas que me condenaram a uma vida de cárcere nunca participaram de algum tipo de sabhat ou outro ritual da magia? Esse é outro ponto crucial da magia: não importa qual o momento em que uma pessoa tenha participado de um sabhat ou qualquer ritual, ela deve saber que ficará presa à magia para todo o sempre. Pois a magia é como se fosse um cordão umbilical: só se separa um ser do outro após cortado. Toda bruxa ama a natureza, as árvores e os animais. Cuidamos deles como se fossem nossos irmãos e auxiliares. Isso é uma coisa que nos difere dos seres humanos comuns. Enquanto cuidamos das coisas que Deus nos deu, o restante da humanidade as destrói impensadamente. Somos extremamente livres - por isso, não gostamos de prisões. O contato com a mãe terra e seus elementos é a fonte da nossa vida. Aprisionar uma bruxa é morte certa para ela. É como o amor verdadeiro: se o deixarmos livre, o prendemos; mas se o prendermos, ele se sente sufocado e se vai. Consegui descobrir e saciar minha fome de saber através das literaturas proibidas. Confesso que esse tipo de literatura era-me muito excitante. Foi através dela que me diferenciei das demais pessoas. Através desses escritores, considerados obscenos e de caráter duvidoso, descobri meu universo. Por isso, quando fui apresentada à magia, eu já estava bastante familiarizada a ela. Na verdade, sempre fui uma solitária, devido à forma com que me criaram. Mas, mesmo assim, eu ainda era diferente, pois, naquela época, ainda podia contar à Maria tudo o que se passava comigo. No entanto, depois de fazer parte do círculo mágico, não podia mais, nem em meus sonhos, colocar Maria nos meus planos, pois isso seria muito arriscado e a colocaria em risco de vida. Eu realmente gostaria de ter sido igual às moças da minha idade. Assim, teria sido amada pelo meu pai. Mas a vida é cheia de caminhos e, como cada caminho tem uma escolha, preferi ter feito a minha. Na verdade, isso não poderia ter sido diferente, pois as moças da minha idade eram vazias e sem objetivos concretos. Já os rapazes não tinham assuntos para mim, inclusive porque achavam que nós, mulheres, só servíamos para procriar. Algumas mulheres talvez aceitassem esse tipo de situação vergonhosa, mas nunca poderia me sujeitar a viver ao lado de alguém sem amá-lo. Não me engrandeço por ser diferente, jamais fiz isso. Mas confesso que olhava aquela gente de uma maneira perplexa e diferente. Não fazia isso por arrogância ou por preconceito. Na verdade, queria tentar entendê-los melhor, pois não conseguia imaginar como conseguiam viver de uma maneira tão igual e sem sentido pra mim. Antes de conhecer os caminhos da magia, eu era uma jovem muito tímida e oprimida pelas vontades da minha madrasta. Pensava que minha vida nunca teria outra opção além de ter que seguir, um dia, o que ela sempre me impunha: ou seja, casar-me com um homem mais velho e ser completamente infeliz e autômota. Mas, no meu íntimo, tinha comigo que não era correto uma mulher ser escrava de seu marido. Achava que ambos tinham que ser cúmplices, em todos os sentidos. Era assim que eu via uma união de amor: como um todo. Não me arrependo de ter escolhido meu caminho, embora pense que minha tentativa de ter encontrado o meu único amor foi em vão. Houve tempos em que passei quase um mês trancada em meus aposentos. Não saía nem para beber água, somente para poder terminar de ler certo livro, cujo autor me fascinava com a maneira com que descrevia a forma de ver as pessoas. Esse autor foi muito temido pela Igreja e a corte francesa, pois descrevia a imoralidade e o sadismo dos monarcas e dos padres. Ele traduzia perfeitamente a maneira cruel e sádica com que os castos virtuosos padres viam as mulheres em geral. Resumindo: para mim, ele foi mais um herói da literatura e da liberdade de expressão. Como eu disse, a literatura considerada devassa, obscena e perigosa excitava-me, porque nela descobri verdadeiramente a maneira livre de as pessoas escreverem o que realmente viam e sentiam. O caminhar de uma bruxa exige muito estudo, muita leitura e disciplina. Quanto mais uma bruxa lê, mais se aprimora em seus conhecimentos ocultos. Isso requer tempo, paciência e 86
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus obstinação da aprendiz. Embora eu tivesse sido uma rebelde, encaixava-me nas outras duas regrinhas básicas da bruxaria: leitura e estudo. As pessoas da minha época - ou de qualquer outra, creio - não suportavam que alguém fosse mais inteligente e literário do que elas. O conhecimento e a cultura sempre será a principal forma de discórdia entre os homens e mulheres - principalmente quando a leitura tornar a mulher mais competitiva e capaz, e menos escrava dos caprichos masculinos. Gostaria, sinceramente, que minha ancestral tivesse lido esses pensamentos. Ela com certeza iria se orgulhar de mim, assim como me orgulhei dela. Não deixei herdeiros como Shaara. Não que não quisesse, mas porque os que se diziam ter autoridade sobre mim privaram-me do dom de ser mãe e de também viver um grande amor ao lado da pessoa que escolhi. Meus algozes, em todas minhas duas encarnações, foram as pessoas que mais amei. Pessoas que determinaram que meu tempo terreno se extinguisse por conta delas. Deus presenteou-me a vida, mas não pude honrar esse compromisso segundo a Sua vontade, pois me tomaram esse presente, que somente Deus poderia ter tomado de volta. Essa também seria a segunda vez em que perderia a minha juventude cedo, por imposição da Inquisição e da Igreja em ascensão. Mas, dessa vez, deixei registrada a forma como meu destino foi modificado por imposição de pessoas do meu convívio, que se julgavam com o direito de modificar a minha maneira de ver o mundo. Creio que, em um futuro próximo, o homem continuará a ser sua própria derrota, o seu próprio carrasco e o seu próprio algoz, mas nunca vai perder essa arrogância e essa presunção de ser o senhor de todos os destinos. O homem nunca deixará de querer ser como Deus. Creio que, por isso, o Mestre tenha se arrependido de nos ter criado. Assusta-me esse pensamento e faz-me sentir terrivelmente impotente em saber que nunca nada disso mudará, simplesmente porque o ser humano nunca deixará de ser competitivo, ambicioso, covarde e infinitamente cruel. Qual é a diferença entre bruxas, santos e inquisidores, sendo que todos somos filhos de um mesmo Pai? Quando nos debruçamos sobre a relação entre as acusadas de feitiçaria com os inquisidores que as conduziram em seus processos, muitas vezes deparamos com essa pergunta. Especificamente, respondo da seguinte forma: bruxas são pessoas que lutam por uma ideia de liberdade que não condiz com as normas da Santa Madre Igreja. Os santos foram pessoas que lutaram por um ideal de paz. Mas, ao contrário das bruxas, baixaram a cabeça e entregaram-se como ovelhas prontas para o abate. Devo dizer que o fato de terem seguido as normas morais da Santa Madre Igreja de nada lhes adiantou, pois muitos dos santos também foram torturados e morreram da mesma forma que nós, bruxas. Os inquisidores são pessoas que receberam da Santa Madre Igreja o poder de julgar o seu semelhante. Abusaram desse poder para usufruir de benefícios próprios. Esses homens, além de verem as coisas como eles querem, induzem seus supostos acusados a falarem o que eles querem que seja dito em tribunal. Essa foi a minha opinião formada a respeito da grande diferença entre os santos, as bruxas e os inquisidores. Não me importava o que a Inquisição pudesse me fazer, nunca poderia deixar que se calasse a verdadeira voz da verdade. Como essas pessoas poderiam se julgar superioras ou donas da verdade, sendo que elas praticavam atrocidades e mentiam até mesmo sobre a verdadeira palavra de Deus? Grande parte das confissões foi obtida através de requinte de crueldade. Sim, requinte de crueldade, pois, depois de torturarem e matarem os inocentes, esses homens virtuosos e sem pecados voltavam para suas casas e comportavam-se como lordes. Era como se a monstruosidade que eles praticavam nos calabouços e nas prisões não surtisse nenhum efeito sobre a sua consciência. Eles chamavam essa atrocidade de trabalho. Tudo o que uma mulher fizesse era motivo para que fosse acusada de feitiçaria. A suposta bruxa deixava de falar a sua língua, passando a falar a língua do inquisidor, através da manipulação ou da tortura. 87
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus A acusação por bruxaria surgia sempre a partir de um suposto malefício. Podia ser a doença repentina de uma pessoa ou de animais domésticos ou, em casos menos comuns, problemas causados à plantação ou, ainda, ao próprio clima. Em Salém, as denúncias surgiram a partir da súbita doença inexplicável de meninas, que nada mais tinham do que uma histeria coletiva. Em Boston, em 1688, as filhas do senhor John Goodwin, ao adoecerem, levaram a julgamento a senhora Mary Glover. Ela era uma pessoa do convívio de todas aquelas que a acusaram levianamente. Não importava qual fosse o argumento, o importante era sempre achar um culpado e acusá-lo de algum tipo de crime – pois, assim, parecia que aliviava a culpa e a conciência daqueles hipócritas. No vilarejo de Salém, ao norte de Boston, na colônia de Massachusetts Bay, Nova Inglaterra, Sarah Good - uma mendiga louca -, Sarah Osborne - uma parteira - e Tituba - uma escrava indígena de Barbados - foram acusadas, em primeiro de março do ano de 1692, de prática ilegal de feitiçaria e de manterem contato com o demônio. Naquele mesmo dia, Tituba, possivelmente sob coerção, confessou o crime, encorajando as autoridades a iniciar uma caça às bruxas de Salém. Uma verdadeira histeria coletiva espalhou-se, dando margem à intolerância e ao fanatismo religioso que se seguiu. Tais fatos vitimaram, no início, quase vinte pessoas inocentes. Os problemas na pequena comunidade puritana começaram no mês anterior, quando Elizabeth Parris - uma criança de apenas nove anos - e Abigail Williams - de onze anos -, filha e sobrinha, respectivamente, do reverendo Samuel Parris, passaram a sofrer ataques compulsivos e outras misteriosas doenças. O médico local, como não achou nada nas meninas, concluiu que só poderiam estar sofrendo os efeitos de uma bruxaria muito poderosa. Logicamente, elas colaboraram para que o médico chegasse a essa conclusão. Na verdade, essas santas e inocentes crianças estavam sendo usadas por seus pais para acusarem pessoas que provavelmente eram odiadas por eles. O reverendo Samuel Parris, por exemplo, cobiçava as terras do senhor Giles Corey. E como o senhor Giles Corey negou- se a dispor de suas terras, então, com a ajuda das inocentes meninas, o reverendo Samuel conseguiu acusá-lo de prática ilegal de bruxaria. Esse pobre homem, então, foi sentenciado e executado por esmagamento. O devaneio dessas supostas inocentes crianças prosseguiu por muito tempo ainda. Com isso, diversas pessoas inocentes - entre homens, mulheres e até mesmo uma criança de quatro anos - morreram por terem sido acusadas de praticar a bruxaria. Ao todo, dezenove pessoas morreram por causa da pirraça e devaneio de treze meninas e de seus pais gananciosos. Devo ressaltar que nenhuma dessas pessoas praticou algum tipo de bruxaria contra nenhum de seus acusadores. Todos os fatos ocorridos foram causados por pessoas maliciosas, capazes de se valerem da imaginação de meninas mimadas, mentirosas e dissimuladas. Esses tipos de pessoas contribuíram para que o bom nome das bruxas e da magia fosse denegrido de maneira corriqueira e leviana. O fato é que a magia estava em todos os lugares, embora ninguém quisesse admitir - por medo ou puro preconceito. Os santos e os demônios também sempre, de alguma maneira, estiveram interligados através da leitura e da escrita. O próprio Santo Ofício mostra-nos diversos exemplos de orações e conjuros, em que os nomes de Cristo, da Virgem Maria e de santos misturam-se, numa mesma frase, aos de satanás, Lúcifer e outras potestades infernais. Afinal, há ou não diferença entre uma santa e uma bruxa? Não sei ao certo. Diziam que santos nunca cometiam pecados e que curavam os enfermos em nome de Deus. O fato é que isso não é toda a verdade, pois existiram apóstolos que foram corruptos e ladrões - assim como também existiu bruxa incorruptível, que foi capaz de morrer apenas por acreditar em uma causa de liberdade e de igualdade. Assim como os santos curam em seus supostos milagres, curandeiros e bruxos também o fazem. Eu mesma já ouvi e vi pessoas de bem dentro da Igreja pedindo a Deus para matar a amante do marido em oração. Algum tempo depois, soube da morte da amante. Também já vi pessoas pedirem a outras divindades para serem curadas de suas enfermidades, e também foram curadas. Na verdade, não é a quem pedimos, mas com que força e fé pedimos. Saber pedir é essencial, mas saber o que pedir é primordial. Pois tanto Deus quanto o diabo irão atender ao pedido do consulente 88
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus devotado e aflito. A diferença é que Deus sonda-nos para saber se somos merecedores de termos o pedido realizado. Já o diabo concede quase imediatamente, pois - devemos nos lembrar disso - está em constante disputa com o Pai Maior. Deixo registrado que nunca foi a minha intenção glorificar o demônio. De modo algum – que isso fique bem claro! Só estou tentando mostrar a igualdade das forças e a grandeza da fé. Somos Deus e também o demônio, porque nos foi dado o livre arbítrio de poder direcionar a nossa vida e escolher qual caminho tomar. Logicamente, se podemos escolher o caminho do bem, por que, então, escolheremos o caminho mal? O problema é que o ser humano está sempre querendo mais. Na maioria das vezes, é derrotado pela falta de fé e pelo excesso de vaidade que domina o seu ser. Costumo dizer que o ser humano é infinitamente cruel com a boca fechada e, com ela aberta, destrói e guerreia. Somos fruto do pecado de nosso ancestral Adão, mas não fazemos nada para nos livrar dessa praga. Não somos francos, mas sim curiosos, teimosos e inconsequentes quando desafiamos as leis de Cristo. Nossa arrogância nos destrói, só nos leva ao inferno da consequência dos nossos atos impensados. O pior é que não sabemos aonde toda essa loucura temperamental chegará. Mas o certo é que temos a obrigação de parar em algum momento de nossas vidas e refletir que estamos nela para aprender e aprimorar. Foi para isso que nos foi dada a chance de reencarnar. Ou será que vamos ficar como o vento, que sopra em qualquer lugar sem direção, sem nunca poder ter um porto seguro para pousar? Lembre-se: o vento é o nosso mensageiro, a alma do mudo, e o seu destino é correr os quatro cantos da Terra, sem ter o direito de parar - pois ao vento foi dada essa missão. Quanto a nós, foi-nos incumbida a missão de cuidar da Terra e das coisas que nela existem. Por isso, refletir e pensar sobre nossas ações e atitudes é muito importante. Utilizo aqui as expressões bruxas, feiticeiras e acusadas de feitiçaria, no feminino, levando em consideração que uma parte significativa da população condenada nos processos inquisitoriais foi formada por nós, pobres mulheres, além do fato de que o estereótipo da bruxa está muito mais consolidado do que o do bruxo. As observações constantes, no entanto, aplicam-se igualmente aos muitos homens acusados, julgados e condenados pela Inquisição que, na maioria das vezes, eram camponeses pobres e escravos, sem direito sequer a uma defesa justa. Terminei minhas anotações e fui para a janela, agradecer ao Pai Maior pelas inspirações que Ele me deu. Agradeci por tudo, pelos amigos maravilhosos que eu já tinha e pelos que ganhei através do meu mais novo caminho. Em minhas orações, pedi sabedoria e discernimento aos bons espíritos, para que guiassem meus passos através da minha mais nova jornada – que, embora transitória, seria de grande valia para o meu aparelho. Pois ele ainda era só um aprendiz e não estava pronto para a sua despedida, que seria em breve. Pedi luz e compreensão para que, quando encontrasse o espírito encarnado de Edward, pudesse fazê-lo entender seu erro cometido no passado, quando fez a jura de me encontrar, seguir-me e amar-me por toda a eternidade. Depois disso, fiz alguns rituais de adoração ao deus Sol. Terminando minhas obrigações matinais, observei a enorme floresta que cercava a casa de Dona Helena e pude notar que as pessoas já estavam todas acordadas, cumprindo suas obrigações e afazeres diários. Como eu estava de pé, mas virada para a janela, não pude perceber que Bernadete já estava acordada e observava-me em todos os meus movimentos e ações. Quando me voltei para o lado de dentro, ela falou: _ Agora sei, senhorita Anna. Está preparada para enfrentar o que lhe for incumbido pelo universo através da magia. Só se lembre de nunca esquecer o que aprendeu em sua viagem astral, e de não usar os seus poderes para o mal. Deve saber que, quando usar seus poderes para fazer algum feitiço ou para entrar em sintonia com os espíritos, ficará fraca. Mas não se assuste com isso: procure um lugar silencioso para repousar e, se possível, durma, para que as suas forças voltem. Quando isso ocorrer, é muito importante que, caso esteja perto de alguém, essas pessoas não 89
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus descubram de sua fragilidade, principalmente os seus inimigos. Pois, nessa hora, ficará vulnerável e indefesa - o que pode ser perigoso, pois qualquer pessoa poderá prejudicar-lhe, seja física ou espiritualmente. Dei um largo sorriso. Confesso que fiquei um pouco encabulada por saber que Bernadete poderia estar ali havia horas, observando-me. Depois de ouvir atentamente o que Bernadete estava me explicando - embora já estivesse ciente de tudo o que ela estava me dizendo -, achei melhor calar-me, pois demonstrar humildade nunca é demais. Quando percebi que minha jovem amiga havia feito uma pausa em suas explicações, respondi: _ Aprendi muito com a minha viagem. Fiquei muito satisfeita por saber que vou reconhecer o meu amor assim que o vir. Bernadete baixou a cabeça e, com um ar pesaroso, respondeu-me: _ Sinto muito ter que ser eu a lhe dizer isso, senhorita Anna, mas não é bem assim: ele pode demorar a reconhecê-la, e talvez nem a reconheça. Portanto, ao encontrá-lo, vá com calma, para não confundi-lo ou assustá-lo. Sendo ele um monge, poderá achar que está possuída por um espírito maligno - isso é muito perigoso. Além disso, ele poderá excomungá-la. Lembre-se de que o seu amor foi, no passado, um inquisidor. Mesmo que ele não saiba disso, traz consigo, inconscientemente, as lembranças de quem foi. Se a senhorita não tiver discernimento, poderá cair no abismo da revolta e do desentendimento com ele. Os dois precisarão estar em uma perfeita sintonia astral, para que se reconheçam de imediato, assim como a senhorita deseja que aconteça. Todos temos a obrigação de nos lembrarmos de nossas vidas passadas. Mas, muitas vezes, o sofrimento ou a culpa nos fazem querer apagar nossa memória passada. Lembre-se disso, senhorita Anna, para que não se machuque com uma grande decepção. Embora soubesse que Bernadete estava correta, tive que respondê-la com um pouco de intolerância, usando a plena certeza do meu coração: _ Respeito tudo o que está me dizendo, minha querida amiga. Mas tenho certeza absoluta de que ele também sonha comigo e que está me esperando tão ansiosamente como estou por ele. Em minhas visões, sei que ele é um homem solitário e sem ninguém, assim como eu. Sinto o sofrimento dele, a vontade dele de estar comigo, mesmo sem saber quem sou. Talvez sua aparência física tenha mudado, mas nossos olhos espelharão nossas almas, pois trazemos uma bagagem muito grande de outras encarnações. Na verdade, não queria ouvi-la. Queria pôr minha certeza acima de tudo, porque a certeza de amar e de ser amada era a única coisa que me importava. Mesmo que Bernadete estivesse coberta de razão, eu sabia que, muitas vezes, as palavras, mesmo que verdadeiras, podem se tornar um veneno para a nossa mente, pois acabam gerando dúvidas em nossos corações. Por isso, quis calar a voz dela antes que entrasse qualquer dúvida dentro da minha mente e do meu coração. Mas Bernadete parecia ter a necessidade de tentar me orientar e, antes mesmo que eu tentasse argumentar novamente, ela prosseguiu: _ Sua certeza deixa-me, sinceramente, preocupada, senhorita Anna. Temo por uma grande decepção. Fala como se já tivesse se comunicado com esse homem antes. É como se ele já tivesse falado do amor dele por você. _ Quem garante que ele não falou? Não é fato que, em nossos sonhos, podemos sair de nossos corpos físicos e viajar através espaço? Não é verdade que, através dos nossos sonhos, chamamos um espírito para junto de nós? Digo-lhe, minha querida amiga, que isso já aconteceu comigo várias vezes. Bernadete, estou presa a esse homem por causa da jura de amor que, por mais inconsequente que pareça, ligou-nos através do tempo e do espaço. Se esse homem é o meu suposto amor, e se realmente está vivendo nesse convento ou mosteiro com o qual vivo sonhando, com certeza é porque meu destino está ligado ao dele. Confio no destino e, de alguma maneira, ele se incumbirá de nos colocar juntos. Não se preocupe, minha querida amiga: estarei preparada, mesmo que ele me rejeite a 90
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus principio, pois aprendi que a espera e a paciência nos fazem sábios e fortes. Mas uma coisa é certa: tenho que encontrá-lo e não poderei rejeitá-lo, mesmo que seja desprezada por ele. _ Senhorita Anna, está tão mudada depois que voltou da viagem! Não parece a mesma pessoa que aqui chegou, cheia de dúvidas e perguntas tolas. É como se agora outra pessoa tivesse tomado seu corpo físico. Parece que agora a senhorita sabe todas as respostas e faz-me acreditar em tudo, pela forma firme com que direciona suas certezas. Sabe, quando fiz minha viagem, pensei ter voltado forte e preparada para enfrentar todas as minhas dúvidas. Pois não estava certa se o meu noivo Magald era meu verdadeiro amor, porque eu vivia em um mundo de conflitos e angústias desnecessárias. Se quer saber, até hoje ainda tenho algumas dúvidas sobre o nosso amor. Mas a senhorita voltou muito forte, sábia, e tão segura! Minha tia Helena tem razão quando disse que a senhorita é uma bruxa muito poderosa. Fomos abençoadas por termos lhe despertado esse dom. Sabe o que mais? Tenho muita sorte por tê-la conhecido, por sermos amigas agora. Na verdade, agora sou eu quem tem muito o que aprender com você, senhorita Anna. Se a senhorita me permitir, quero ser sua aprendiz nos segredos da magia. Dei um sorriso prazeroso, mas lhe disse: _ Teria a maior honra em tê-la como minha aprendiz, minha cara Bernadete. Porém, seu destino já está escolhido e creio que não poderia tê-lo feito de maneira mais sábia. Acredite: terá ao lado de seu noivo Magald dois lindos filhos, e ambos serão muito felizes. Cada um nesta vida tem a sua jornada já programada pelo destino. A sua não poderia ser melhor: é tranquila, feliz e sem problemas. Disse isso porque toda a vida daquela jovem passou perante meus olhos, nitidamente. Naquele momento, eu acabara de ser abençoada com o dom da visão. Bernadete, depois de me ouvir em silêncio, sorriu-me largamente, pois ficou feliz por ter-lhe revelado algo que ela já sabia, mas em que não confiava – pois, como todo ser humano, ela não cria em suas próprias intuições. Muitas vezes, temos a certeza de que nossos projetos de vida irão dar certo, mas, por vivermos ansiosos e cheios de perguntas, acabamos por não acreditar nas respostas do nosso coração. Todos temos a visão do nosso próprio futuro, só que não damos muita credibilidade ao dom maravilhoso que Deus nos deu. Preferimos consultar, então, cartomantes, quiromantes e outras pessoas que nem sempre são honestas em suas previsões. Isso só nos serve para nos confundir sobre o que realmente pertence a nós. Todas as respostas estão dentro de nós mesmos. Somos o nosso próprio guia - basta que acreditemos e confiemos em nossas intuições. Isso quer dizer que podemos abrir ou fechar as portas da prosperidade, cuja chave está dentro da nossa mente que, muitas vezes, está insana ou debilitada pelos muitos fracassos já ocorridos em nossas vidas. Tudo o que nos acontece, de alguma maneira, é porque o programamos mentalmente. No entanto, ao invés de termos pensado em algo destrutivo, poderíamos ter simplesmente pensado em algo muito grandioso e produtivo. Mas o ser humano prefere pensar negativo e se passar por coitado, do que tentar pensar positivo e ver as coisas maravilhosas que os pensamentos felizes podem lhe trazer. Cada vez que uma bruxa chora e usa seu poder, ela enfraquece, pois a lágrima tira-lhe a visão real das coisas. Quando uma bruxa faz um feitiço, isso também ocorre, porque ela está gastando sua energia espiritual. Então, ao invés de ficarmos danificando nossos pensamentos com coisas supérfluas e desnecessárias que não nos levam a lugar nenhum, devemos pegar um bom livro para ler, pois o saber é o ponto-base da capacidade de uma bruxa. Somos eternas aprendizes, inclusive de nós mesmas. Não devemos ter um autor específico: mesmo os mais chatos e banais têm algo a nos ensinar. Pois nossa mente tanto nos é produtiva como também autodestrutiva. Devemos aprender a trabalhar o silêncio mental. Esse é o mais difícil de todos os dons, pois a mente nunca para de falar. Muitas vezes suas palavras transformam-se em ofensas ou injúrias. As palavras que saem da nossa boca podem se transformar em uma coisa extremamente prejudicial para 91
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus nós mesmos. Principalmente quando não confiamos em nossas intuições e saímos por aí, pedindo ajuda a qualquer pessoa que não tem um bom caráter... Certa vez, Maria contou-me a história de uma jovem mulher que recebeu, em seus sonhos, a notícia de que ganharia uma grande herança, vinda de um parente do interior. Essa mulher nunca chegou a conhecer o suposto parente e, ainda por várias noites seguidas, continuou a ter o mesmo sonho. Tudo o que ela deveria fazer foi-lhe confirmado, inclusive o dia e a hora em que ela receberia a suposta herança. Então, a jovem ansiosa mulher foi invadida por um espírito de vaidade excessiva e acabou se tornando desleal consigo mesma: contou aquela história a todos que encontrou pela frente. Criou, então, uma energia ao seu redor de inveja e zombarias, pois muitos, por não acreditarem nela, também a chamaram de louca. A mulher, por não ter confiado em sua própria intuição, correu a uma bruxa, que diziam ser bastante eficaz em revelar inclusive os sonhos. Lá, a jovem mulher contou-lhe tudo o que estava passando. A suposta bruxa ouviu-a em total silêncio e, mesmo depois de ter recebido uma resposta positiva através de suas cartas, disse à sua consulente que era apenas um sonho, tornado frequente na vida dela porque ela estava preocupada com suas muitas dívidas. A suposta bruxa, então, mandou que a consulente voltasse para casa e esquecesse toda aquela tolice, pois só lhe faria mal. Em seguida, despachou-a rapidamente, sem nenhuma explicação. Assim que a mulher saiu, a suposta bruxa, muito esperta e nada honesta, correu e arrumou suas malas, seguindo para o interior, onde a consulente descrevera que estaria o suposto tio moribundo. Chegando lá, a vigarista encontrou realmente o homem velho moribundo e bastante carente, pois havia perdido contato com seus verdadeiros parentes muito tempo atrás. A espertalhona correu em se apresentar ao pobre homem como sua sobrinha, usando os nomes dos parentes que a consulente lhe havia narrado em sua história. Contou, também, a triste história de vida da consulente: que sua mãe e irmã tinham morrido de tifo, e que não tinha mais nenhum outro parente próximo ou vivo no mundo a não ser ele. O pobre homem, que já estava com a sua saúde bastante debilitada, ficou comovido com a história da bruxa e recebeu-a em sua casa de braços abertos, acolhendo-a sem nenhum problema ou sequer tentar fazer uma investigação. Aí, a falsa sobrinha cuidou do velho homem e, quando ele morreu, deixou para ela toda a sua fortuna, entre empregados e muitas terras. Devemos aprender uma lição com este pequeno conto: nunca confiar nossos segredos a quem não conhecemos. E, quando se tratar de uma premonição então, devemos guardá-la a sete chaves. Não devemos nunca duvidar do dom que nos é dado, porque, com certeza, é uma dádiva divina. Só procuramos uma bruxa, cartomante, vidente ou quiromante se não tiver outro recurso. Deve-se sondar muito bem se a pessoa com que a consulente irá se consultar é verdadeiramente idônea. Mas, acreditem, todos temos uma boa intuição a nosso próprio respeito. Devemos aprender a ouvir nosso coração: ele só nos é enganoso se deixarmos nossa mente interferir sem ser convidada. Todos temos um dos nove dons dados por Deus. Nas horas mais difíceis, ele nos servirá de leme. Conversei por muito tempo ainda com Bernadete e contei-lhe sobre os feitos do diário que ela havia me dado. Afinal, ela precisava saber que seu avô não era um contador de histórias. Ela ficou tão maravilhada quanto eu. Em seguida, disse: _ Fico muito feliz por ter me contado tudo isso. Mas sei que esse diário era para ser somente seu, pois ele a escolheu. Sei disso porque, por diversas vezes, tentei escrever nele e nada aconteceu de tão grandioso como aconteceu com você. Esse diário, na verdade, só me usou como intermediária para chegar até as suas mãos. Fiquei muito emocionada por Bernadete ter-me dito aquelas palavras. Então, agradeci-lhe, dando um afetuoso abraço. Iríamos combinar de fazer alguma coisa juntas durante a tarde, mas bateram à porta do quarto e tive que ir atender, pois Bernadete estava ainda deitada. Era Maria, pedindo para que descêssemos para o desjejum e para que me preparasse para o nosso retorno de volta a casa. Nós duas sorrimos e nos entreolhamos, pois estávamos com fome. Eu e Bernadete apressamos em nos arrumar para o desjejum. Ela me ajudou com algumas coisas que eu 92
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus precisava terminar de arrumar. Eu já não tinha muito a levar de volta, pois dei todos aqueles meus vestidos que havia levado para Bernadete e suas irmãs. A alegria de seus rostos foi como um elixir para minha alma. Estava começando a aprender que dar era bem melhor do que receber e guardar. A vida é passageira e curta. Devemos, então, dar o melhor de nós para termos uma existência feliz - mesmo que, como eu, a pessoa já tenha a consciência de que ela será breve. A despedida não foi muito feliz, pois sabia que nunca mais as veria novamente. A velha senhora, de nome Andélia, também estava presente e deu-me duas coisas que encheram meus olhos de lágrimas. A primeira foi a cruz torta, para me identificar com as demais do grupo, pois eu já estava fazendo parte daquela grande família. A segunda foram muitas pétalas de rosas brancas, para eu ir jogando pelo meio do caminho. Esse é o ritual que serve de libertação: significa que estamos recebendo, com flores, nosso novo caminho, deixando para trás toda a tristeza e a dúvida que nos perseguia. A velha Anna havia ficado para trás. A Anna mimada, covarde e medrosa. A Anna melancólica e triste. A Anna materialista e cheia de perguntas tolas havia morrido naquela fogueira, dando lugar a uma mulher segura, forte e sem medo do escuro. Na verdade, eu havia ressuscitado de algum lugar que estava dentro de mim e que eu não me lembrava, até então. O medo e as condições impostas pela sociedade que me cercava fizeram com que, muitas vezes, me sentisse incapaz de enfrentar as coisas mais simples e corriqueiras. Na verdade, todos somos frutos daquilo em que acreditamos. Deixamos, muitas vezes, que as pessoas que nos cercam direcionem e conduzam, com palavras ou atitudes, nossa vida pessoal. Isso não pode de maneira alguma acontecer, porque somos seres individuais e temos que seguir sem nos deixarmos ser manipulados. Criticar é mais fácil do que elogiar. Duvidar é mais fácil do que acreditar. Confiar em si própria quase nunca acontece. Ignorar é mais fácil do que ajudar. São pequenas coisas que passam pela nossa frente e que, às vezes, ficam despercebidas, mas que poderiam ter feito muita diferença na vida de outras pessoas se não fossemos tão egoístas. Se não estivéssemos tão preocupados com o que os outros pensam de nós, talvez pudéssemos fazer do ambiente ao nosso redor um lugar mais harmonioso e civilizado. Não podemos mudar o mundo todo, mas poderíamos mudar o nosso meio de vida, fazendo de nós mesmos pequenos exemplos em que pessoas aflitas e cheias de problemas possam se espelhar. Poderíamos ser uma auto-ajuda ambulante, mas fazemos o contrário: tornamo-nos fracos e problemáticos. Na verdade, duvidamos da nossa capacidade infinita de renovação. E é tão simples! Basta um sorriso e uma palavra gentil. As pessoas esperam de nós o que esperamos delas. Quando alguém carrancudo se aproximar, devemos lhe sorrir. Na verdade, ele só deve estar triste ou com algum problema pessoal ou até mesmo espiritual. Se o tratarmos com desprezo, intolerância e mau humor, ele, com certeza, ficará ainda mais exasperado do que já estava. Ouvi, certa vez, uma história que Maria me contou. Entre tantas outras histórias, essa me pareceu afinar-se como exemplo do que tenho dito. Um cavaleiro passou por uma menininha, acompanhada de sua mãe. Ele as olhou como se as desprezassem, mesmo sem nunca tê-las visto antes. A mãe, por sua vez, estava com tantos problemas em sua cabeça que o tratou de igual modo. Virou-lhe o rosto e, ainda, disse-lhe palavras ofensivas. Tudo teria terminado com o desprezo dessas duas pessoas. Cada qual seguiria o seu caminho, e ambas passariam um dia péssimo, pois aquelas pessoas haviam trocado energias negativas. Mas o senhor olhou, também, para a pequena criança, que lhe sorriu espontaneamente. Pensou, então, consigo mesmo: Uma mãe tão antipática, e uma criança tão angelical: que controvérsia! E, sem querer, esboçou um sorriso. Um amigo, que passava por ele naquele momento, parou-o e perguntou o motivo da alegria. Ele, por sua vez, contou ao amigo, que acabou por lhe convidar para tomarem uma xícara de chá. Os dois encontraram entre si motivos diversos para sorrirem. De repente, aquele senhor carrancudo estava de bem com a vida e se sentiu capaz de enfrentar seus problemas. Ao olhar para a porta do estabelecimento onde ele e o amigo se 93
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus encontravam, percebeu que a menina e a senhora entraram, sentando-se bem ao lado deles. Aquele senhor, então, não perdeu tempo: levantou-se, e apresentando-se à mãe da menina, convidou-as para tomarem uma xícara de chá com ele e o amigo. Depois de se desculpar por ter parecido grosseiro, ele, durante a conversa que tiveram, descobriu que ambos eram viúvos e que suas tristezas estavam lhes tornando pessoas amargas. Por não conseguir superar a falta de sua amada esposa, e ela por estar tão preocupada com o que a sociedade falaria dela, acabavam por se esquivar sempre de fazer novos amigos. Assim, com aquele comportamento da menininha, todos acabaram tendo uma tarde muito agradável. Com certeza, ele encontrou uma nova companheira para lhe auxiliar em sua jornada terrena... O poder está em nós mesmos, não nos outros. Um gesto, que pode nos parecer simples e banal, pode ter uma força inenarrável. O caminho de volta para casa foi tranquilo e sem nenhum problema. Eu e Maria conversamos sobre minha viagem astral e sobre o quanto estávamos nos sentindo bem espiritualmente. Fizemos planos sobre algumas coisas que eu faria ao chegar em casa. Cochilei bastante no decorrer do caminho, só para variar! Mas, dessa vez, não tive sonhos turbulentos. Aliás, não sonhava com o monge desde que retornei da viagem. Mas, para mim, o importante é a certeza de que estava em meu coração. Estava muito feliz por ter sido iniciada como bruxa, e não deixaria ninguém invadir o meridiano imaginário que me separava do mundo real do meu novo mundo. Lógico, sempre ouviria a todos com atenção e educação. Mas fazer o que me diziam, só se meu coração dissesse que sim. Caso contrário, entraria por um ouvido e sairia pelo outro. Devemos nos lembrar de que nunca nos é demais aceitar conselhos – mas, se fossem tão bons, colocaríamos uma tenda e os venderíamos bem caro... A estrada estava ainda mais bela do que quando ingressamos. Então, resolvi manter-me bem acordada, sem cochilar: dessa vez, queria estar alerta a tudo. Maria compartilhou alguns segredos comigo. Depois, o cansaço a fez dormir, por fim. Era muito engraçado vê-la naquele estado ébrio. De vez em quando, ela arregalava os olhos, por causa do susto que levava quando a carruagem passava por cima de algumas pedras. Na verdade, nós duas estávamos muito ansiosas para chegar e poder tirar as roupas empoeiradas e os sapatos apertados. Foi quando Lorenzo avisou-nos de que chegaríamos em casa em quatros horas. Ou seja, quando a Lua já estivesse alta no céu. Estava contente e pronta para iniciar minha missão como a mais nova bruxa daquele condado. “O amor é um sentimento abstrato. Não podemos tocá-lo, não podemos vê-lo. Mas podemos dá- lo através de várias maneiras. Quem ama não tem medo, orgulho ou dúvida. A pessoa que está amando quer somente ter a certeza de que será feliz. O lugar não importa; com quem, não interessa. Mas que, quando esse amor chegar, seja bem vindo... Aceitar quem nos ama. muitas vezes. pode não nos ser conveniente, pois, infelizmente, só conseguimos ver as aparências físicas. Mas, se realmente queremos um verdadeiro amor, basta olharmos para nosso próximo com os olhos de Deus. Aí, sim, passaremos a enxergar a verdadeira beleza escondida por trás da aparência física. Difícil é compreender que as rosas, no meio de tanta beleza, escondem espinhos que podem machucar o coração do homem. E que, em alguns espinhos, encontramos a cura para nossas doenças. Encontre o seu amor e viva com sabedoria. Só não pise nas pessoas menos favorecidas, porque elas também tiveram seus espinhos - talvez causados por rosas, como você...” Padre Ângelo Wallejo Moralles. 94
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Capítulo II - O Livro das Sombras Quando a carruagem finalmente parou frente à minha casa, respirei profundamente, aliviada por termos chegado. Estava mesmo ansiosa para poder colocar todos meus planos em prática. Tive que despertar Maria, que caíra em sono profundo. Havia tantas coisas a fazer... Comecei a pensar nas mudanças que faria em meu quarto, nos objetos que compraria para dar início ao ritual da Lua, já que estava atrasada com o meu primeiro equinócio de outono. Eram muitas as coisas que precisava fazer antes que se cumprisse meu destino. Como sabia que meu tempo era curto, precisaria correr contra ele. De repente, dei-me conta do quanto a ansiedade estava tomando conta de minha mente. Então, fechei brevemente meus olhos e fiz uma oração silenciosa. Respirei profundamente e contei o máximo que pude. Soltei lentamente o ar pela boca. Então, quando abri os olhos novamente, já estava mais calma e Lorenzo abria a porta da carruagem para nós. Com a sua ajuda, pude descer da carruagem, apoiada em suas mãos. Olhei para o céu, lindamente estrelado, e pude certificar-me que a Lua estava lá, como já havia previsto. Fique de pé, ao lado da carruagem, observando Maria acabar de descer. Foi muito engraçado vê-la, ainda meio sonolenta, tropeçando em seus próprios pés. Joseph e Tereza vieram receber-nos. Maria, por sua vez, não parava de indagar à pobre mulher, querendo saber como tudo ocorreu durante a sua ausência. Rubens, um escravo de confiança da casa, carregou a bagagem para dentro. Enquanto Maria seguia com Tereza, Lorenzo e Joseph levavam a carruagem e os cavalos para o estábulo. Por minha vez, fui caminhando tranquilamente em direção à casa. Afinal, devido aos muitos afazeres de todos, parecia que eu havia sido completamente abandonada e esquecida - o que era hilário. Porém, isso me deu tempo para pôr minhas ideias e pensamentos em ordem. A grama ficou verde musgo por causa da luz do luar. As pedras brancas, postas ao caminho para servir de passarela, davam certo ar de conto de fadas. A escadaria ficou completamente iluminada por causa da luz da Lua. Subi lentamente cada um daqueles degraus, observando até mesmo os pontinhos luminosos das pedras. Antes de colocar a mão na maçaneta, dei uma boa espreguiçada, pois meu corpinho cansado só queria um bom banho e cama naquele momento, é claro! Antes de entrar, ainda pensei Apesar de tudo, era bom estar de volta à casa e poder desfrutar dos momentos em família novamente, mesmo que raros. Engraçado, mas estava com saudades até das rabugices e arrogâncias da condessa. Ao entrar, nem mesmo olhei para os lados. Corri, subindo as escadas, indo direto para o meu quarto. Desarrumei rapidamente as malas, colocando minhas roupas em cima de uma poltrona, para que, no dia seguinte, a aia viesse pegá-las para serem lavadas. Depois de algumas horas, a copeira, parecendo adivinhar o meu desejo, trouxe água para meu banho. Só que, desta vez, fiz com que ficasse admirada, pois pedi que preparasse uma poção para colocar na água do banho. Tirei da bagagem um pequeno saquinho com ervas que havia trazido comigo na viagem. Eram folhas secas de hortelã e cascas de maracujá. Ela, embora tivesse achado aquela atitude muito estranha, deu de ombros, sacudiu a cabeça negativamente e saiu para fazer o que eu havia pedido. Aquela mistura de erva e casca de fruta, ao ser colocada na água, faria relaxar-me e ter uma boa noite de sono. Esse tipo de preparado também pode ser tomado como um chá. Mas, naquele dia, preferi usá-lo como um bálsamo aromatizante para banho. Maria, que sempre estava atenta a tudo, trouxe-me um chá de camomila com biscoito logo que a copeira saiu. Enquanto ela arrumava a bandeja na mesinha, pude perceber, através de seus 95
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus movimentos, que havia algo errado no ar. Maria parecia querer dizer-me algo, mas estava sem saber como falar. Percebendo aquela situação, disse-lhe: _ Maria, está acontecendo alguma coisa. Se a senhora tem algo a me dizer, então diga. Ainda de cabeça baixa, arrumando os guardanapos, mas sem olhar para mim, ela falou: _ Percebi que a senhorita pediu à copeira para que lhe fizesse um banho de relaxamento! _ Sim, Maria. Pedi sim, admito. Estou precisando ter uma boa noite de sono. _ Fico satisfeita que já esteja colocando em prática os seus dons, mas me preocupa que tenha pedido logo a uma estranha e não a mim. Essa atitude sem pensar de sua parte pode colocar nós duas em risco. Afinal, deveria saber que a copeira é fiel à senhora Del Prat. _ Desculpe-me, Maria, jamais a colocaria em risco. Infelizmente, agi sem pensar. Mas achei que a senhora estava ocupada demais com os seus afazeres. Por isso pedi à nossa copeira. Sinto muito, estou muito decepcionada comigo mesma. _ Senhorita Anna, conhecendo-me como a senhorita me conhece, sabe muito bem que jamais deixaria de atender a um pedido seu. Não se preocupe, porque já dei a ela uma desculpa, dizendo que esse banho é coisa da minha irmã que, por ser do interior, sempre tem dessas manias antigas. Mas, da próxima vez, tenha mais cuidado. Baixei a cabeça numa atitude de constrangimento e nada mais disse. Maria, por sua vez, arrumou a xícara de chá com biscoitos em cima da mesinha e saiu, parecendo ter percebido que eu havia ficado muito sem graça. Ela estava completamente correta: eu poderia ter-nos colocado em uma situação muito arriscada, principalmente se minha madrasta tivesse visto e ouvido o que pedi à copeira. Sei que era apenas um banho - mas, na mente doentia da condessa, aquilo seria um feitiço. Precisava definitivamente controlar minhas atitudes levianas e emoções, e pensar dali para frente. Precisava definitivamente, também, tomar cuidado com a ansiedade e a vaidade. Quem me trouxe a água para o banho foi Inaynmin, a jovem escrava, filha de Joana. Ela, depois de colocar na tina a água junto com o preparado que eu havia pedido, fez uma pequena observação: _ Não sei o que a senhorita andou fazendo no interior junto à Maria, mas tenha muito cuidado quando for pedir certas coisas à copeira. Não a estou criticando, senhorita, de modo algum. Afinal, sei que todas temos certos segredos e, se são segredos, devem continuar ocultos, não acha? Disse tais palavras e saiu, deixando-me meio apreensiva e também muito pensativa. Afinal, que segredo poderia ter a jovem escrava Inaynmin, sendo que Joana nunca a deixava sozinha? Pensei, por fim, A vida é mesmo cheia de mistérios. Imagine só! Obviamente, eu teria que descobrir que segredos a jovem escrava Inaynmin haveria de ter. E como ela sabia que eu tinha um segredo? É, pensei comigo, a vida está repleta de surpresas... Dormi como um anjo a noite toda, depois do banho e do chá que Maria havia preparado para mim. Para falar a verdade, aquela noite nem me lembro de ter vestido a camisola após ter tomado banho, pois estava tão relaxada que, mesmo depois de ter cometido tamanho deslize, não pude ver muita coisa, pois o sono pegou-me no colo e levou-me para o mundo dos sonhos. No dia seguinte, ao acordar, depois de dar um enorme bocejo, percebi um ventinho frio entrando pelo meu quarto. Levantei para ver o que era. A janela estava completamente aberta. Virei o rosto rapidamente e o cobri com o lençol, pois o Sol entrava intrépido pelo quarto. Não me lembro de ter-me esquecido de fechar as janelas e as cortinas na noite anterior! Fiquei pensativa, imaginando quem poderia tê-las aberto. Quando Maria viesse ao meu quarto, perguntar-lhe-ia sobre isso. De um salto só, consegui sair da cama. Como precisava resolver muitas coisas que tinha em mente, quis correr contra o tempo. Quanto mais cedo, melhor seria. Além do quê, não poderia dar margens a que minha madrasta levantasse antes de mim e tentasse impedir-me de fazer as coisas que eu precisava pôr em prática. Muita coisa mudaria com o meu retorno da casa de Dona Helena 96
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus e, se minha madrasta desconfiasse, poderia enlouquecer de vez – ou, o que era pior, poderia tentar algo contra minha vida, pois a condessa era imprevisível e cheia de artimanhas. Mas, como eu era uma boa moça, comecei a me preocupar com a frágil saúde da pobrezinha... Então, achei melhor aos poucos ir demonstrando a minha mais nova personalidade. Assim, evitaria que ela tivesse uma síncope. Aqueles pensamentos maldosos e irônicos precisavam sair da minha mente. Mas era inevitável querer dar uma pequena lição na minha madrasta. Afinal, durante anos ela foi muito má com todos naquela casa. Mas isso seria apenas uma lição e não uma vingança, pois não era da minha índole querer vingar-me de quem quer que fosse - até mesmo de uma mulher como a condessa. Enquanto eu colocava aqueles pensamentos irônicos em dia, percebi que Maria estava à porta e disse-lhe: _ Entre, Maria. Sei que é a senhora que está aí fora! Ao entrar, ela disse, arregalando os olhos e prosseguindo com aquela conversa: _ Minha nossa! Isso foi para me impressionar? Saiba que já conseguiu, viu? Estou mesmo impressionada com tamanha perspicácia. Aliás, já está usando seus poderes de adivinhação, é? Dei um sorriso largo e sincero e, depois, falei: _ Não preciso ser adivinha para saber que só poderia ser a senhora, pois sei que sempre fica atenta a todos os movimentos desta casa. Sei que sempre presta atenção ao barulho do fechar e do abrir de cada porta, e que sabe de qual cômodo ele veio. Concluindo pelo pulo que dei no chão ao me levantar, sei que a senhora soube de imediato que eu já estava de pé. Afinal, quem mais vem ao meu quarto além da senhora? Nem mesmo meu pai quando está em casa, pois sempre me pede para descer quando precisa falar algo comigo. _ Chega, já conseguiu impressionar-me! Confesso que não sabia que eu era tão previsível assim. Ela sorriu, tentando disfarçar que estava sem graça, pois, no mínimo, desconfiou que eu também soubesse que ela escutava atrás das portas. Para mudar um pouco o rumo daquela conversa que não me levaria a lugar algum, perguntei: _ Então, como está tudo? Está do jeito que a senhora gosta? A propósito, que horas são? _ Como está tudo? Nem pode imaginar a imensa confusão que esses incompetentes aprontaram na minha cozinha. Por causa desses transloucados, fiquei até altas horas acordada, areando várias panelas de cobre. Com isso, hoje estou morrendo de dores pelo corpo todo. _ Maria, Maria... Por que ficou até tarde fazendo um serviço que não era da sua ossada? Sabe muito bem que poderia esperar até o dia amanhecer e pedir a Joana que fizesse isso. _ Nunca, de jeito algum! Esses incompetentes já deveriam ter deixado tudo pronto e arrumado a meu gosto, para evitar que eu tivesse mais um aborrecimento como esse. Além do mais, não gosto de deixar nada para depois. Gosto de ver o serviço pronto a tempo e à hora. Não quero mais discutir sobre isso com a senhorita. Sou desse jeito, sempre fui assim. Não será agora, com a minha idade, que vou mudar. Fiquei olhando-a, sem nada mais conseguir dizer. Maria era uma mulher que gostava da perfeição. Um jarro fora do lugar era motivo para que ficasse nervosa. Então, tentei novamente mudar o rumo daquela conversa, que já estava partindo para a área da neurose. Respirei fundo, tentando não ficar nervosa. Então, perguntei-lhe novamente: _ A senhora, por favor, poderia dizer-me, sem muitas palavras, que horas são? _ São quase oito. Veja como o Sol está alto no céu. O tempo não para, minha filha. A vida passa em um piscar de olhos. E se tem a intenção de irmos a algum lugar, é melhor que seja bem rápida, antes que a condessa Del Prat levante-se e comece a me chamar como uma louca. Embora eu tivesse pedido para que Maria me respondesse em poucas palavras, vindo dela não poderia esperar uma frase sem um longo discurso junto. Então, acabei de vez com aquela conversa, pedindo-lhe para fazer uma tarefa: 97
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Maria, por favor, esquente a água para eu tomar banho, pois tenho muitas coisas para fazer hoje na cidade. Tenho que ir a alguns lugares e comprar algumas coisas que me estão faltando. _ O que poderia estar faltando para a menina? _ Coisas para eu começar meu trabalho. Coisas que nunca pensei em usar, mas que agora sei que vou precisar. _ Não acha que está se precipitando novamente em tomar certas decisões, minha filha? Pense um pouco: deveria agir com um pouco mais de prudência e cautela. _ Em tudo o que me diz, vejo coerência e sensatez. Mas, infelizmente, minha querida Maria, desta vez não poderei atendê-la, pois tenho mesmo que comprar essas coisas que me faltam. E isso tem que ser bem rápido, porque o meu tempo é curto demais. _ Por que está me dizendo que seu tempo está curto? Está pensado em me abandonar? Já sei, arrumou um pretende e nem me contou! Que egoísta! Logo eu, que sempre lhe fui tão fiel... Agora estou aqui, merecedora desta desfeita. _ Lógico que não, Maria! Não vou deixá-la nunca. Apenas sei que tenho coisas a fazer que, se eu não correr e colocá-las em prática, não conseguirei terminar tudo a tempo. _ Mas precisa ser assim, desse jeito? Parece até que a menina está com uma sangria desatada. _ Ora, Maria, parece que tirou o dia para me azucrinar as ideias! Vamos, ande, vá preparar meu banho e arrume-se rápido. Além de tomar banho, também tenho que me arrumar. _ Está bem, a menina não precisa me tratar assim. Vou descer, tenho que pedir permissão à condessa Del Prat para lhe acompanhar. Afinal, sou apenas uma serviçal nesta casa. Não tenho o menor valor! Olhei para Maria com certo ar zombeteiro e falei-lhe: _ Maria, sabe muito bem que nunca lhe vi como uma serviçal! Pare de ser tão dramática, pelo amor de Deus! E mais: de agora em diante, também dou ordens nesta casa. Se a condessa desaprovar qualquer atitude minha, vai ter que engolir um sapo boi, pois as coisas mudaram. Maria arregalou os olhos e ficou na minha frente, estática. Depois saiu de mansinho, dando um sorriso que mais parecia de satisfação - o que me deixou curiosa e fez-me perguntar-lhe: _ Isso quer dizer que a senhora aprovou essa atitude minha? _ Não sei, depois de quase eu ter sido lançada porta afora como um cão sarnento pela senhorita, isso quer apenas dizer que estou surpresa por ver a menina assim, tão senhora de si. Dizendo isso, Maria saiu, deixando-me a sós. Eu a amava e isso era um fato. Mas, às vezes, Maria ironizava muito as coisas e aquilo me tirava do sério. Assim que a escrava trouxe-me a água para o banho, não me demorei e arrumei-me o mais rápido que pude. Fiz uma pequena lista de todos os ingredientes e utensílios que eu precisaria. Maria ainda veio avisar-me que estaria pronta assim que eu estivesse, e que teve a permissão da minha madrasta para sairmos. Isso me foi uma surpresa. Senti no ar que a condessa tentaria aprontar alguma coisa contra mim. Então, esperei Maria sair para que pudesse fazer uma oração e fortalecer meu espírito. Em seguida, saí do quarto e apressei-me em descer as escadas correndo. Mas deparei-me com a condessa, que me estava esperando no último degrau, com as mãos na cintura e ar de soberania. Logicamente, isso não me era mais uma surpresa. Respirei profundamente e fui descendo vagarosamente as escadas, pois sabia que, se ela estava me esperando, boa coisa não aconteceria. Ficamos frente a frente e, depois de muito cambalear e de ter-me feito uma cara feia - que não consegui compreender se era de fome ou de enjoo causado pelo hálito de bebida que saía da sua boca -, ela falou: _ Onde a senhorita pensa que vai? Não me lembro de ter-lhe dado permissão para que saísse. Dei um sorriso matreiro e fui caminhando calmamente, circulando em volta dela. Ao dar uma volta completa entorno dela, disse-lhe assim: 98
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sério? Pelo que me consta, a senhora deu, sim, permissão à Maria para que ela saísse comigo. _ Não me lembro de ter dado tal autorização à Maria! E muito menos me lembro de tê-la deixado sair também! _ Quer dizer, então, que a senhora vai ter a coragem de chamar Maria de mentirosa assim, na sua frente? Disse isso porque Maria havia acabado de entrar e estava de pé atrás dela, com os olhos arregalados. A pobre mulher mal sabia que direção tomar. A condessa virou-se sinicamente, olhando para Maria de cima abaixo, e disse: _ Se dei tal autorização, estou tirando-a agora mesmo. Foi saindo, querendo deixar-nos sem saber o que fazer, como ela sempre fazia. Mas só que, daquela vez, corri para frente dela e disse: _ Alto lá! Não é bem assim que as coisas funcionam. A senhora não vai sair e deixar-nos aqui, falando ao vento. Vamos terminar essa conversa agora mesmo. Acho muito interessante a senhora não se lembrar de ter-me dado a tal autorização. Sendo assim, devo ressaltar e refrescar-lhe a memória. Sabe por quê? Porque também não me lembro de tê-la pedido nenhuma autorização para fazer da minha vida o que eu bem quisesse. Disse isso desafiadoramente, olhando-a bem nos olhos. Peguei-lhe um dos braços e falei bem baixinho ao ouvido: _ Vamos combinar o seguinte: a senhora, minha madrasta, não conta ao meu papai que saí sem suas ordens, e prometo não mencionar nada sobre suas festas escondidas nos fins de semana. Isso é muito mais fácil do que minha querida madrasta pode pensar, sabe como? Faça de conta que não existo e continuarei a fazer o mesmo - embora não seja da minha índole ter que mentir para o meu próprio pai! Lembre-se de que faço isso somente pelo afeto que lhe tenho. Afinal, sempre fomos tão amigas! Então, o que me diz, querida madrasta? Àquela altura, nem me lembro como foi que Maria desapareceu do meio de nós duas! Eu estava tão interessada em terminar aquela conversa que me esqueci de tudo ao meu redor, até de Maria. Minha madrasta, após ranger os dentes de ódio, disse-me: _ Odeio-a com todas as minhas forças! Pode ter certeza de que isso não vai ficar assim. Prometo-lhe que farei da sua vida um inferno. Ao ouvir aquelas palavras, dei uma gargalhada que parecia não ser minha e prossegui: _ Engana-se, minha querida madrasta. A senhora já fez da minha vida um inferno. Agora não fará mais. Sabe por quê? Porque aprendi com o diabo lá no inferno, onde a senhora me colocava, que posso ser muito mais má do que pensa. Portanto, pense duas vezes antes de meter-se comigo ou com Maria de agora adiante. E que essa conversa termine aqui e agora. Aliás, já até me esqueci! Imagina... O que é mesmo que devo me lembrar de não contar a meu pai? Fitei-a nos olhos e continuei: _ Agora, se me der licença, estou de saída. Até já, madrasta querida. - joguei-lhe um beijinho com a mão. Ela ficou boquiaberta e sem reação aparente. Encontrei-me com Maria, que estava perto da carruagem. Ela continuava com os olhos arregalados, a cor rosada do seu rosto estava de um tom empalidecido. Esfregava as mãos uma contra a outra. Temia por mim, mas, sendo uma criada, não poderia se intrometer entre mim e minha madrasta. Percebendo seu desalento, dei-lhe um sorriso largo, tentando disfarçar o nervoso em que me encontrava. Mas Maria parecia ansiosa por saber o que havia acontecido. Então, perguntou-me: _ O que foi que a senhora Del Prat disse? Ela lhe fez algum mal, senhorita? _ Nada demais, entramos em um acordo civilizado. Não se preocupe, Maria. A condessa não tocou em um só fio dos meus cabelos. Pelo contrário, acho que de agora em diante ela vai até me pedir conselhos. 99
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Hã!? Como assim? O que realmente aconteceu? Como consegue estar tão tranquila, sabendo que a condessa lhe odeia? _ Fique calma, Maria. Apascente seus nervos. Acredite: não aconteceu nada. A condessa não disse muita coisa, pois ainda está meio em estado ébrio. A senhora sabe que, quando a minha madrasta está desse jeito, mal dá para entendê-la. Na verdade, acho que ela confundiu as coisas e achou que não tinha lhe dado autorização para sairmos. Aliás, descobrimos coisas tão em comum entre nós! Estou tão admirada quanto a senhora, acredite! _ E quais seriam essas coisas, Santo Deus!? Vejo que hoje será um longo dia... _ Está bem, Maria. Vou-lhe responder, mas somente para matar a sua curiosidade: descobrimos que somos senhoras distintas, civilizadas e que falamos a mesma língua. Fiquei impressionada de como eu e minha madrasta poderemos nos dar bem de agora em diante. Se Maria não estivesse encostada na carruagem, teria se espatifado ao chão, pois quase perdeu o equilíbrio das pernas, por não ter entendido absolutamente nada. Por fim, depois de ter tomado fôlego, disse-me, com a voz meio trêmula: _ É melhor seguirmos em frente, antes que meu coração pare de uma vez. Por hoje já me bastam tantas emoções fortes. De repente, ao ver Maria subindo na carruagem, deu-me a sensação de que em breve teríamos que nos despedir para sempre. Dentro da carruagem, mudei aqueles pensamentos tristes, tentando animar Maria, que estava tremendo por minha causa. Inventei uma história engraçada e contei para ela. Também fiz algumas caretas para que se distraísse e mudasse os pensamentos, antes que eles virassem palavras aborrecidas. Isso funcionou, pois seguimos o resto do trajeto rindo. Contei à Maria alguns dos dons que havia recebido. Ela se admirou por saber que eu havia adquirido o dom da clarividência. Eu também, pois foi a primeira manifestação de Deus em mim. Depois de meia hora dentro da carruagem, descemos em frente a uma casa de chás. Dei à Maria metade da lista que havia feito e fui saindo. _ Aonde a mocinha pensa que vai sozinha, sem a minha companhia? _ Procurar um ferreiro, ora! _ Posso saber para quê, já que a mocinha agora resolveu ser tão independe e desligada de mim? - disse Maria, mais uma vez usando de suas ironias e, ao mesmo tempo, preocupada comigo. _ Não se preocupe comigo, Maria. Sei onde tem um: no final desta rua. Volto logo e encontro- a aqui, neste mesmo lugar, em frente a esta casa de chás. Saí e deixei Maria, sem dar muitas explicações, antes que ela me indagasse mais alguma outra coisa, é claro! Olhei para todos os cartazes que podia ver, tentando achar a ferralheria da cidade. Foi quando, finalmente, avistei em uma esquina um enorme cartaz escrito Ferraria Campo Belo. Deu-me certa tonteira ao olhar aquele cartaz. Não soube explicar de imediato, mas era como se alguém naquele local não estivesse bem de saúde e, de alguma maneira, minha energia foi toda direcionada para lá. Cheguei a sentir meu corpo arrepiar-se. Alguém naquele lugar estava mesmo precisando de mim. Respirei profundamente e fechei olhos, buscando forças. Em seguida, caminhei em direção à ferralheria. Quando estava virando a esquina, deparei-me com uma jovem soluçando muito, encostada em um muro. Se tivesse acontecido isso antes, teria passado despercebida por mim aquela cena. Mas, agora, era mais que isso: era como se eu tivesse uma obrigação de captar tudo que estava ao meu redor. A jovem não tinha mais que dezessete anos. Mas, de tanto que chorava, dava a impressão de ter muito mais idade. Abaixei perto dela e perguntei-lhe: _ Tudo bem, senhorita? Sabe informar-me onde encontro uma ferralheria por aqui? - tentei despistar, já que a loja estava à minha frente. 100
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim... Fica logo ali, na frente da senhorita. É a ferralheria do senhor Juan Campos. Ele é muito habilidoso, mas não é muito amistoso, devo adverti-la. - disse-me isso entre soluços, passando as mãos sobre os olhos, tentando esconder-me que estava chorando - como se isso fosse possível! _ Ah! Desculpe-me, sou mesmo uma distraída! Imagine, nem vi que estava ali na minha frente! Olhe, não estou querendo ser inconveniente, mas posso perguntar-lhe algo? _ Sim, claro. _ A senhorita não gostaria de tomar uma xícara de chá comigo? Vejo que não está se sentindo muito bem. Veja, querida, talvez eu não consiga resolver o seu problema, mas ao menos posso ouvi-la. Às vezes desabafar faz bem ao espírito. E então, o que me diz? _ A senhorita é mesmo muito gentil, mas não tenho uma roupa apropriada para entrar em um lugar tão refinado como aquele. _ Santo Deus! O que tem de errado com as suas vestes? A jovem baixou a cabeça, pesarosa, e disse: _ Se eu entrar naquele lugar usando esses trapos, certamente me colocarão para fora como um cão sarnento. Nem todos nesta cidade veem os pobres da mesma forma que a senhorita. Algumas pessoas acham que temos algum tipo de doença contagiosa. Não nos dão emprego porque somos sujos. Não temos direito a um médico porque não temos dinheiro para pagar. Então, quando percebem que não lhes temos nenhuma valia, arrumam alguma coisa para que sejamos descartados de vez dessa sociedade egoísta e sem coração. É muito triste, senhorita, termos que viver na miséria! Mas como poderemos ser alguém se não nos dão uma oportunidade? Como podemos ser parte do mundo se as pessoas existentes nele não nos veem como seres humanos dignos? De que adianta querermos lutar, se somos podados até de nossos sonhos? Essa sociedade desumana está sempre tentando encontrar alguma coisa de que nos acusar. Como vamos cheirar bem se nem o mínimo recurso para sobrevivência nos dão? Aquela jovem não estava errada. Mas seu coração parecia cheio de revolta e amargura. Sabia que não adiantaria argumentar muito com ela. Então, disse-lhe: _ Está bem, então. Não vou mais insistir para que vá comigo à casa de chá. Mas posso me convidar para tomar chá em sua casa? _ Oh! Senhorita, não temos chá em casa, apenas água. - disse a jovem, baixando a cabeça, parecendo constrangida por ter que demonstrar a real situação financeira de sua família. _ Ótimo, estou morrendo de sede. O calor está me deixando sufocada. Aceito o seu copo d’água. A jovem esboçou um sorriso meigo e levantou-se. Por fim, meio a contra gosto, acabou convidando-me para ir até a sua casa, que não ficava muito longe dali - apenas a uns trinta metros, creio! Aprendi uma coisa nessa minha curta existência: nunca ouvir um não antes de ouvir um sim. Era óbvio que eu nunca deixaria aquela jovem ali chorando, sem nada tentar fazer por ela. Chegamos, por fim, em frente a uma casinha muito velha e com os alicerces à mostra. O mato cobria toda a lateral. O portão era de madeira e estava todo quebrado - a jovem teve que levantá-lo para passarmos. O interior da casa era muito simples e havia pouquíssima mobília. Para me sentar, a jovem ofereceu-me um caixote. Ela foi até a cozinha e trouxe-me água em uma moringa de barro, e serviu-me em um copo, também de barro. Depois de tomar calmamente aquela água, deliciosamente fresca, perguntei-lhe: _ A senhorita vive sozinha nesta casa? _ Não, vivo com a senhora minha mãe. Sabe, senhorita, minha mãe está muito doente e não tenho como ajudá-la, porque ninguém me dá um emprego. Não sei como fazer para pagar o doutor e comprar os remédios dela. 101
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Eu a entendo. Talvez, se a senhorita me permitir, possa ajudá-la. Mas nem pense em dizer- me que isso será um incômodo. A jovem olhou-me tão triste que, em seus olhos, pude ver o tamanho de sua dor. Por certo, não poderia abandoná-la. _ O que tem a sua mãe? Preciso saber do que se trata, para poder saber em quê poderei ajudar. A jovem, então, contou-me tudo sobre a doença da mãe. _ Minha mãe sofre com dores horríveis nos rins. Isso já está acontecendo há mais de dois anos. Procurei o doutor e ele veio até aqui examiná-la. Depois disse que o tratamento seria muito caro e demorado. Estamos passando por muitas dificuldades, pois meu pai faleceu precocemente, há seis anos. Ele não tinha recursos e não nos deixou nada além desta velha casa. _ Posso vê-la? Se não se importa, é claro! _ Imagina... Que falta de delicadeza a minha. Venha comigo. A jovem levou-me até o quarto da mãe, onde ela estava deitada em uma caminha muito simples, quase sem cobertores para cobri-la do frio da febre. Fiquei catatônica por alguns segundos, olhando aquela triste cena, sem saber por onde começar. Por fim, olhei-a bem dentro dos olhos e disse: _ Quero que a senhorita confie em mim. Mas, antes, escute o que tenho a lhe dizer, pois não quero que, de modo algum, pense que estou me esquivando de lhe ajudar. Agora não posso fazer absolutamente nada pela senhorita, porque estou com os pés a as mãos atados. Tenho que sair. Vou ao armazém comprar alguns utensílios de extrema importância para mim. Infelizmente, hoje já me havia programado para esse tipo de tarefa. Mas prometo-lhe que voltarei assim que tiver com tudo pronto para ajudá-la. Se a senhorita puder deixar sua mãe um pouco sozinha, gostaria imensamente que me acompanhasse à ferralheria e, depois, fosse comigo encontrar uma grande amiga. A jovem olhou para a mãe que, embora muito convalescida, aprovou com a cabeça para que a filha fosse comigo. Passei a mão sobre a testa daquela senhora e perguntei-lhe: _ Como a senhora se chama? _ Catariana de La Costa. Quero agradecer por tentar ajudar minha filha e eu. De agora em diante, seremos suas servas. _ Não tem que me agradecer. Não as quero como servas, mas como amigas. Passei novamente a mão em seu rosto, tentando não deixar que as lágrimas rolassem. Depois, silenciosamente, fiz o sinal mágico que sempre Maria me fazia para que eu adormecesse. Este sinal, de repente, veio-me claramente, como tudo o que estava acontecendo comigo depois da viagem. A mulher adormeceu rapidamente e, então, pudemos sair sossegadas. A jovem ficou admirada, mas nada comentou sobre o acontecido. Esperei que a jovem trocasse de roupa, pois parecia muito preocupada com suas vestes. Logo em seguida, fomos à ferralheria. Lá, encontrei um homem tossindo muito forte. A tosse era rouca. Observei-o logo da entrada e percebi que aquela seria uma longa manhã. Mais um precisava de mim e, com certeza, eu teria que ajudar também. Então, pigarreei para que ele se virasse e disse: _ Bom dia, senhor! _ Bom dia, senhorita! Em que posso ajudá-la? - disse o homem, tossindo e olhando-nos de cima abaixo. _ Quero saber se o senhor pode me fazer uma chave? _ Por que a senhorita não procura um chaveiro? Não sabe ler? Sou ferreiro, não faço chaves. _ Sim, sei disso. Mas quero que o senhor derreta estas correntes de bronze e me faça uma chave. - disse isso, tirando de dentro de uma bolsinha algumas correntes de bronze que eram de minha mãe. Então, continuando com o assunto, falei: 102
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Tenho certeza de que o chaveiro entende de chaves, por certo. Mas não me fará um serviço tão perfeito quanto o senhor fará. _ Sim, nisso a senhorita tem razão: sou mesmo o melhor ferreiro do condado. E saiba que, por meus serviços serem todos manuais, cobro muito caro. Disse isso olhando-me de cima abaixo, parecendo duvidar que eu tivesse condições de pagá-lo. A arrogância daquele homem já estava começando a me incomodar. Mas apenas lhe disse: _ Faça seu preço e sei que lhe pagarei muito bem, acredite! A propósito, sei como curar a sua tosse. Depois de me olhar meio incrédulo, parecendo não acreditar que eu tivesse dinheiro para pagá- lo, o homem respondeu-me num tom de deboche: _ Ah... Não sabe, não. O que uma mocinha como a senhorita pode entender da minha doença? Nem mesmo o doutor conseguiu curar essa tosse horrível. Ora, senhorita, aceito fazer o que me pede. Agora, não me venha querer passar a carroça na frente dos bois e dizer-me que é mais entendida do que o doutor. O que está querendo me dizer? Que a senhorita é uma curandeira? _ O orgulho do senhor não vai melhorar as dores das suas costas. _ Como sabe que sinto dores nas costas? _ Porque percebi que, ao tossir, faz careta e leva as mãos até as costas. Isso significa que a tosse é intensa e já lhe afeta os pulmões. Percebi, também, que o senhor sente certa falta de ar - o que significa que está com um grande muco preso no peito. É isso que lhe causa essa terrível dor nas costas. E o senhor tem razão ao dizer que não entendo nada sobre as coisas que os doutores levaram anos aprendendo nas faculdades da Europa. Mas tenho uma coisa que os doutores com certeza não têm. Sabe o que é? Amor e caridade ao próximo. Compadeci-me de vê-lo trabalhando assim, doente. Se lhe estou dizendo que sei como curar sua doença, ao menos o senhor poderia me dar uma chance de poder tentar, não acha? Quanto a ser uma curandeira, saiba que não sou. Quem me dera eu fosse, pois seria uma honra para mim ter nascido com dons tão especiais. Assim, poderia curar muitas pessoas necessitadas e carentes. Ouça uma coisa: não precisa fazer o que vou lhe ensinar. À noite, peça à sua esposa para preparar-lhe um unguento de água e farinha de milho. Depois de pronto, peça-lhe que coloque o unguento quente dentro de um saco de pano e, em seguida, coloque sobre as suas costas. Durante sete dias, na hora de se deitar, repita isso. Com certeza vai aliviar-lhe as dores nas costas. Mas, por favor, evite tomar golpes de vento. Percebi que o homem, embora arrogante, estava prestando atenção em tudo o que lhe falava. Então, continuei, passando-lhe uma receita caseira de ervas. _ Existe uma erva que se chama assa-peixe. É muito comum achá-la no meio do mato. Um raizeiro que conheça bem de ervas poderá ajudá-lo. Prepare-a do seguinte modo: coloque duas colheres de sopa das folhas picadas da erva em uma xícara de chá. Adicione água fervente e, depois, abafe para amornar. Adoce com mel e tome duas a três vezes ao dia. Pode também amassegar as folhas e tomar o seu sumo, mas é meio amargo. Portanto, é mais aconselhável fazer o chá. Isso vai lhe curar essa tosse. Acredite em mim, senhor Juan. _ A senhorita não é uma bruxa, é? Pois não me lembro de tê-la dito o meu nome também. Dei um largo sorriso. Confesso que foi tentador não poder confessar-lhe que sim. Mas, mais uma vez, precisei esconder minha condição. _ Não, sou apenas uma jovem curiosa. E o seu nome me foi dito por esta jovem que aqui me trouxe. Ela conhece o senhor, não conhece? Ele fez uma aceno positivo com a cabeça e prossegui: _ Não devemos criticar as pessoas, senhor Juan. Principalmente quando está nos estendendo a mão. Como disse, sou apenas uma jovem curiosa e gosto muito de ajudar os outros. Isso sem contar que leio muito, senhor Juan, muito! Não menti para o senhor Juan. Apenas omiti algumas coisinhas, para que não saísse acusando- me levianamente. Afinal, não estava praticando bruxaria, apenas ensinei a ele uma maneira de 103
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus curar-se daquela doença. Mas sabia que, se eu citasse a palavra bruxaria, ele poderia colocar todos os meus planos a perder por causa do preconceito que já havia manifestado. O senhor Juan, após muito analisar minhas palavras, olhou-me meio receoso e disse: _ Farei sua chave. Pode pegá-la amanhã, às oito horas. Este é um bom horário para a senhorita? _ Sim, está ótimo! Amanhã estarei aqui, britanicamente no horário combinado. E tenho absoluta certeza de que encontrarei o senhor bem melhor e mais disposto. _ Acha mesmo que farei uso da sua mandinga? Se pensa isso, está enganada, pois sou um homem muito católico e não usarei de nenhum feitiço para curar-me. Não sou o tipo de pessoa que passa por cima das leis de Deus. Isso seria uma heresia contra o meu Pai. A arrogância e a ignorância daquele homem estavam começando a tirar-me do sério. Mas, por uma questão de lógica e sensatez, apenas lhe respondi: _ De modo algum, senhor Juan, estou passando por cima da vontade de Deus. Mas também creio que não seja da vontade Dele que o senhor continue doente. Também não tive a menor intenção de ofendê-lo e, se o senhor pensa dessa forma, então esqueça tudo o que esta jovem ignorante aqui lhe ensinou. Afinal, nada sei desta vida, não é mesmo? Estando aqui, diante de um mestre artesão, quem sou para discutir? Também não quero que o senhor pense que sou intrometida e sem educação. E, principalmente, não quero que o senhor pense que estou lhe ensinando um feitiço para que fique ainda mais doente. Não foi a minha intenção, senhor Juan. Só tentei ser-lhe gentil e amigável. Disse aquelas palavras porque estava imensamente ofendida, porque percebi que aquele velho turrão começou a ter pensamentos maliciosos e abomináveis em relação a mim. Com isso, aprendi que, às vezes, não adianta tentar ajudar algumas pessoas, pois elas, além de nascerem no meio da ignorância e do preconceito, preferem morrer a darem o braço a torcer, aceitando que estão erradas. Olhei para a jovem que me acompanhava e ela estava extasiada com minhas palavras. Depois de dar uma piscadinha de olhos para ela, levantei a cabeça e disse: _ Até amanhã, senhor Juan. Espero, sinceramente, que neste período o senhor reflita e baixe a sua guarda em relação a mim. Afinal, não lhe estou afrontando em nada. Passar bem. _ Até, senhorita. Criatura insolente! - disse o velho entre dentes, demonstrando total antipatia por mim. _ Anna, esse é o meu nome. E a recíproca é verdadeira. Falei dessa forma, olhando para trás e fitando-o nos olhos. Com certeza ele entendeu que também o achei um antipático. Eu e a jovem saímos da ferralheria, rindo daquele velhote sisudo e arrogante. A jovem, ainda, acompanhou-me até a carruagem, onde Maria estava. Eu as apresentei. Depois de já estarem familiarizadas, virei-me para a jovem e perguntei: _ A propósito, depois de termos passado todo esse tempo juntas, ainda não sei o seu nome. _ Chamo-me Samara Cortez de La Costa, às suas ordens! _ É um prazer, Samara, tê-la conhecido. Maria deu um sorriso, parecendo ter aprovado a minha mais nova amizade. Contei a ela, fazendo uma breve retratação, tudo o que me havia acontecido desde o primeiro momento em que chegamos à cidade juntas. Maria ficou indignada em relação à arrogância do senhor Juan, mas também se compadeceu da história da jovem Samara e deu-lhe um pequeno obséquio, para que pudesse comprar alguma coisa de comer para ela e a mãe. Prometi a Samara que voltaríamos para ajudá-la no dia seguinte. Depois de nos despedirmos, Maria e eu fomos ao armazém comprar os outros ingredientes que faltavam. Logicamente, comprei muitas coisas para minha nova amiga. Dessa vez, Maria não deu nenhum palpite contrário. Parecia estar aprovando tudo que eu fazia. Andamos muito. Fomos a todos os fabricantes de panelas de ferro da redondeza, até que achei a minha panela - ou melhor, o meu caldeirão. O fabricante era um senhor que vendia coisas usadas, e disse que aquele caldeirão havia pertencido a uma famosa bruxa de Salém. De imediato, comprei- 104
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus o sem pestanejar. Depois, fomos a um marceneiro e perguntei-lhe com qual tipo de madeira ele trabalhava. Ele citou várias. Mas, de repente, avistei um galho de carvalho jogado em um cantinho. Perguntei ao homem: _ Senhor, o que fará com este galho de carvalho? _ Este? - disse ele, pegando e examinando o galho de todos os ângulos. _ Sim. Esse mesmo. _ Vou jogá-lo na fogueira para servir-me de lenha. _ Hã? Não pode estar falando sério! _ Por quê? A senhorita quer este galho? _ Se o senhor for se desfazer dele e quiser me vender, compro. _ Vender um galho? Não, senhorita, dou-lho, embora não faço a menor ideia para que ele lhe será útil. Fiquei muito grata ao marceneiro e, mesmo ele não querendo aceitar, paguei-lhe. Em casa, pediria a Joseph para talhá-lo para mim. Comprei diversos vidros e potes. Maria, por sua vez, indagou-me porque eu havia comprado tantos vidros, potes e garrafas. Então, respondi: _ Ora, Maria, as garrafas são para os xaropes. Os potes são para colocar as compotas especiais que farei, e os vidros são para colocar as essências aromatizadas - segredinhos que aprendi com a minha ancestral. _ Sério? Que pessoa mais cheia de mistérios ficou a senhorita! Agora, além de me tratar mal, anda a fazer mistério de tudo o que faz. Ri muito do tom de ironia na voz de Maria e, depois, completei a curiosidade dela, dizendo: _ Não voltaremos amanhã à cidade para cumprir a promessa que fiz à jovem Samara. _ Jesus! Não me precisa dizer mais nada. Já entendi tudo, esse será um longo dia... E é melhor eu preparar meu espírito para o que estar por vir daqui para frente. Santo Deus, menina, não tenho mais tanta idade para lhe acompanhar nessas suas novas mudanças de hábito. Pois a senhorita, depois que conheceu o seu novo caminho, cria tantas ideias como o vento muda de direção. Dei uma gargalhada sonora e Maria ficou olhando para todos os lados, para ver se havia alguém conhecido nos olhando. Afinal, uma moça de família não podia jamais rir tão alto. Era escandaloso demais. Qualquer demonstração de alegria em público, por mais sincera que fosse, era motivo para excomunhão. Mas não estava, naquele momento, preocupada com o que as pessoas poderiam falar de mim, muito menos com as regras da Santa Madre Igreja. Pois, pela primeira vez em minha vida, estava sendo eu mesma. Havia me libertado daqueles tabus, cheios de etiquetas de refinamento e educação. Para mim, aquilo tudo não passava de uma máscara para encobrir a verdadeira face da devassidão daquele povo hipócrita e com falsa moral. Voltamos para a carruagem, que estava em frente à casa de chá, onde Lorenzo nos estava esperando para retornarmos à casa. Esperei que o cavalariço empilhasse tudo em cima da carruagem. Então, disse-lhe: _ Haverá uma pequena mudança nos planos, meus queridos! Antes de voltarmos para casa, tenho que resolver um pequeno assunto que ainda está pendente. Não se preocupem: chegaremos à casa ainda esta tarde. _ A senhorita é quem manda! - disse o cavalariço. _Vire na primeira esquina, antes da praça, e entre na terceira rua, antes de chegar à ferralheria. Vou visitar uma amiga. Maria olhou para o céu e sacudiu a cabeça, como quem diz Eu sabia!. Não demorou muito e, em alguns minutos, já estávamos em frente à casinha da minha mais nova amiga. A jovem, ao ver a carruagem parando em frente à sua casa, veio logo nos receber com um sorriso amistoso nos lábios. _ Senhorita! Não acreditei que viesse. Ainda mais assim, tão rápido. 105
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Assim que desci da carruagem, ela veio receber-me prazenteira, dando-me um abraço afetuoso e, em seguida, convidando-nos para entrar. Antes de entrarmos, pedi-lhe desculpas por ter antecipado minha visita. Disse-lhe que meu coração pediu aquela atitude. Já dentro da casa, deparamo-nos com Dona Catarina, a mãe de Samara, sentadinha em um caixote. Embora a mulher estivesse ainda muito pálida, ela me pareceu mais animada do que quando a vi pela manhã. Samara, por certo, deve ter-lhe dado algo de comer com o obséquio que Maria lhe doara. Assim que me viu, abriu um sorriso simples no rosto e cumprimentou-nos com um aceno de cabeça que mais parecia gratidão. Pude chegar a uma conclusão com aquela inesperada visão à minha frente: a mãe de Samara, na verdade, não saía da cama porque estava enfraquecida. E, por já ter certa idade, isso a debilitou. Não havia preço no mundo que pagasse aquela cena. Percebi o quanto é importante ajudarmos os outros. Mesmo que essa ajuda seja pequena, faz diferença. Pedi ao cavalariço que trouxesse as compras de mantimentos que havíamos feito no armazém. Dei a elas, também, algumas panelas e potes de vidro que havia comprado. Eu e Maria ajeitamos a casinha, passando a vassoura e espanando. Maria arrumou toda a cozinha e, depois, preparou-nos uma deliciosa canja para o jantar. Lorenzo e o cocheiro auxiliar capinaram em volta da casa e arrumaram o portão quebrado. Ajudei Samara a dar banho na mãe, que mal podia ficar de pé. Depois de tudo pronto, procurei por Lorenzo e o flagrei olhando a jovem Samara de uma maneira terna. Ele parecia estar tão hipnotizado pela jovem que nem me viu pigarreando para chamar sua atenção. Então, cutuquei-o com o dedo indicador e disse: _ Será que o Don Juan poderia me dar um minuto da sua atenção? _ Hã? Claro que sim, senhorita Anna. Em que posso ser-lhe útil? _ Por favor, Lorenzo, vá até a casa do doutor e traga-o aqui. Diga que é a filha do conde Juan Vladimir Porto Señra que o chama a esta casa. Faça isso agora, que tenho pressa e urgência. Depois, o Don Juan pode flertar com a jovem Samara. Ela corou de imediato. Logicamente, eu já teria planos futuros para aqueles dois enamorados. Lorenzo apertou o chapéu nas mãos e saiu tropeçando, parecendo muito sem graça com o meu comentário. Samara não sabia o que fazer; então, fez um comentário, tentando desviar a minha atenção daquela cena que havia visto de dois jovens apaixonados se olhando. _ Meu Deus, a senhorita é uma duquesa? Estou tão envergonhada... Santo Deus, como pude ser tão ignorante em não perceber!? _ Não. Sou apenas filha de Juan Vladimir Porto Señra. Na verdade, somente minha madrasta é condessa. Meu pai casou-se com a senhora condessa Marli Von Del Prat e, por isso, exerce também o direito ao título. Mas nada tenho a ver com a nobreza. Minha mãe, embora não a tenha conhecido, era filha de fidalgos, mas eram pessoas muito simples. Eles foram os pioneiros deste condado; muitas melhorias aqui foram feitas por eles. Eles, sim, são importantes. Nada sou além de uma boa amiga. Por favor, não faça cerimônias comigo. Senão, eu que ficarei constrangida com a senhorita. Não estou aqui para observar sua casa ou seus modos. Estou aqui para ajudá-la. _ Minha Santíssima Mãe de Deus! Mesmo assim, como eu pude ser tão displicente, oferecendo-lhe um caixote para a senhorita sentar-se!? Dei um sorriso e, depois de sacudir a cabeça, respondi: _ Se não tem outra coisa para me oferecer, então, o aceito de bom grado, fique sabendo! Além do mais, é melhor sentarmos em caixotes do que ficarmos de pé, não acha? O mais importante para mim agora é a cura e a saúde de sua mãe. Pois ela, sim, tenho certeza de que já lutou muito. Agora merece, ao menos, um mínimo de conforto. Saiba, senhorita Samara, que todos estamos aqui para ajudá-las em tudo o que pudermos. De modo algum estamos aqui para julgá-las ou prestar atenção nos objetos que faltam em sua casa. _ A senhorita é uma santa! Pelas suas atitudes, provou-me que tem, sim, a nobreza da alma. 106
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Oh! Não sou santa nem em pensamento, acredite! Só resolvi fazer o que todos deveriam: caridade! Ela ficou sem saber como me agradecer, de tão feliz que estava com os presentes. Por fim, muito sem graça e de cabeça baixa, perguntou-me: _ Como poderei agradecer-lhe, senhorita Anna? Segurei seu rosto magro com carinho, forçando-a olhar em meus olhos, e respondi: _ Em suas orações, lembre-se de mim, pois muito em breve serei eu quem precisará da senhorita. Maria, que estava à porta, já ia me fazer uma pergunta quando fomos interrompidas pelo cocheiro. Ele chegou junto com Lorenzo, trazendo o doutor, todo aflito. Ele já foi direto em minha direção, perguntando: _ O que tem a menina e o que faz aqui? Essa gente fez-lhe algum mal? _ Não, doutor, estou muito bem. Não tenho absolutamente nada. Essa gente, como o senhor se refere, são apenas pessoas pobres que precisam da sua ajuda. Como não têm condições, estou pagando para que o senhor as atenda da melhor maneira possível. Fiquei muito zangada com aquele velhote fedido e cheio de preconceito. Engolindo uma resposta malcriada, prossegui: _ Mandei chamá-lo, doutor, porque esta senhora precisa de cuidados. Está muito debilitada e sei que o senhor é o único médico no condado. Mas, caso o senhor não quiser atendê-la, irei ao condado vizinho e pedirei ao doutor de lá para vir aqui atendê-la. Sabendo da rivalidade entre os dois doutores, acabei pegando o ponto fraco daquele velhote ensebado. Apertei os olhos e senti arrepio com aquele pensamento nauseante. Ele ainda continuou com aquela conversa, parecendo não ter ouvido o que falei de início. _ Creio que não tenham dinheiro para serem atendidas. Preciso comer também. – disse ele, com ar carrancudo. - Seu pai sabe que a senhorita usa o dinheiro dele com indigentes? Por pouco não o segurei pelo colarinho encardido do terno. Mas, respeitando a idade em que ele já se encontrava e também a má condição auditiva, disse-lhe, por fim, quase aos gritos, para ver se ele me escutaria: _ Estou pagando! A propósito, o senhor não fez um juramento junto ao conselho de medicina? Nesse juramento, não é verdade que não poderia negar auxílio médico a ninguém? O dinheiro é meu, são minhas economias; não preciso do dinheiro do meu pai. Além de ter o meu dote, juntei algumas economias e agora achei uma boa maneira de gastá-las. Então, já que será remunerado, cumpra o seu papel, se quiser receber o meu dinheiro... Sabe, doutor, nunca gostei do senhor, e o que fará aqui eu faria muito melhor. Só que preciso do seu diagnóstico para saber o que melhor fazer. Agora comece a trabalhar, examinando a paciente, pois sabemos que tempo é dinheiro, e o senhor já gastou metade do meu dinheiro com conversa desnecessária até agora. Ele ficou muito nervoso, mas o mercenarismo falou mais alto. Levamos a mãe de Samara para o quarto, para melhor examiná-la. Samara ficou com a mãe dentro do quarto; eu e Maria ficamos do lado de fora, apreensivas. A consulta demorou umas duas horas e, naquele intervalo de espera, mil e um pensamentos passaram na minha cabeça. Fiquei pensando em uma ideia para ajudar Samara e deixar Dona Catarina amparada no pouco de vida que ainda tivesse. Obviamente, colocá- los-ia em prática. Só precisaria organizar-me mais em algumas questões. Depois de muito esperar, o doutor saiu do quarto, acompanhando Samara. Depois de coçar a cabeça cheia de casquinha, disse: _ A senhorita tinha razão em estar preocupada com a saúde dessa mulher. Ela está com anemia profunda e problemas na bexiga. Eu diria que seus rins também estão quase parando de funcionar. Isso é o que está causando aquela cor amarelada nela. Mas devo adverti-las que uma cirurgia seria de alto risco, pois ela está muito debilitada devido à anemia. _ O que devemos fazer, então? 107
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Passarei remédios para a dor e para a anemia. É só o que posso fazer por hora. Duas vezes por semana, passarei por aqui para vê-la e acompanhá-la em seu tratamento. É muito importante a questão da alimentação, que deve se muito rica em ferro. Ela deve comer muito fígado de boi e, também, tomar muito suco de frutas. _ Não se preocupe com isso, doutor. Farei o que for necessário para que elas fiquem bem de agora em diante. Eu mesma cuidarei da alimentação dessa senhora. Depois de pagá-lo e ter-lhe adiantado o dinheiro das futuras consultas, peguei a receita e pedi que Maria fosse ao boticário para encomendar os remédios. Ela foi de imediato. Fui para a cozinha e preparei uma poção à base de ervas medicinais. Coloquei tudo dentro de um vidro e dei à Samara, para que desse à mãe três vezes ao dia, por um mês. Eram ervas simples, que podem ser encontradas até no meio do mato. Usei a tanchagem ou Plantago major, também conhecida como transagem. Essa erva, tão popular e comum, combate as seguintes moléstias: inflamação nos ouvidos, nos olhos, nas gingavas, na garganta, nas amígdalas, nas faringes, no estômago e nos rins, entre tantas outras doenças. A outra erva que usei foi a quebra- pedra, que serve para chás caseiros, para dissolver cálculos nos rins ou pedras, como vulgarmente falamos. Essa erva tem as seguintes propriedades: antiespasmódica, adstringente, analgésica, antisséptica, anti-hipertensora, anti-inflamatória, diurética e tônica. Não sabia bem como essa pequena erva veio parar em Salamanca, na Espanha. Mas o fato é que ela era muito eficaz para o tratamento de todas as doenças citadas. É muito importante que eu cite, aqui, que nunca quis ser uma doutora. As receitas que ensino são apenas auxiliares à medicina. Elas e as dicas aqui expostas são uma orientação prática e fácil àqueles que desejam se utilizar de plantas e ervas à disposição de todos. Nós, bruxas, vivemos de tudo o que a mãe terra nos fornece. Se ela nos oferece a cura, então, por que não utilizá-la? Quando Maria voltou, trazendo o remédio preparado pelo boticário da região, entreguei nas mãos da jovem Samara, orientando a maneira como ela daria à mãe. Tomamos a canja que Maria havia preparado e, depois de tudo resolvido, despedimo-nos. Ao sairmos, prometi que voltaria a vê- la. A jovem agradeceu-me tanto que cheguei a corar. Já na carruagem, Lorenzo olhou-me com os olhos cheios de lágrimas, dizendo as seguintes palavras: _ A senhorita é um anjo, um anjo... O que faria essa pequena família se a senhorita não lhe tivesse ajudado? _ Não, Lorenzo, só fiz a minha obrigação como cidadã. Lorenzo nem desconfiava que eu tivesse planos para ele e Samara. Maria deu-me um tapinha nas costas, olhando-me com ar de admiração. Praticamente havia me tornado uma heroína para aqueles dois. Mas eu não poderia deixar que me vissem daquela forma, pois não havia feito nada demais. Na volta para casa, eu e Maria não falamos muito dentro da carruagem. Só queríamos descansar depois daquele dia de trabalho árduo. Não vimos a minha madrasta quando chegamos em casa. Segundo nos informou a copeira, ela estaria em seu quarto, com terríveis dores de cabeça – obviamente, causadas pelo excesso de bebidas da noite anterior. Mas ela disse para a copeira que foi por causa do desgosto que eu lhe havia causado. Como eu não estava mais com vontade de ouvir as intrigas da copeira, fui para o meu quarto, deixando Maria a sós com ela. Tirei os sapatos tranquilamente, sentei-me na beira da cama e peguei um livro para ler. Naquele dia, estava muito calma e não deixaria que nada perturbasse minha paz. Algumas horas depois, a copeira trouxe-me o banho. De cabeça baixa eu estava e de cabeça baixa continuei, lendo o meu livro. Mas percebi que ela me olhava com cara feia. Acho que ela queria que eu perguntasse como a minha madrasta estava, para que pudesse defendê-la, como 108
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus sempre fazia. Ao perceber que não me manifestei com nenhuma emoção aparente, ela saiu, esbarrando propositalmente o balde em todos os cantos – pensando, assim, que me incomodaria. Fiz meu asseio tranquilamente. Coloquei uma camisola limpa e fresca. Certifiquei-me de ter fechado a janela. Dispensei o jantar e outras refeições, porque estava satisfeita. Depois de fazer algumas anotações em meu diário, virei para o lado e adormeci, simplesmente. Naquela noite, especificamente, tive um sonho estranho. Sonhei com um lugar frio e sombrio, onde eu era mantida em cativeiro por pessoas encapuzadas. Elas circulavam em volta de mim e apontavam-me o dedo, como se estivessem acusando-me de alguma coisa. Porém, não consegui ouvir o que diziam. Acordei de supetão, como se alguém me estivesse acordando, ou como se tivesse levado um choque de um raio. Fiquei muito assustada. Era como se alguma coisa estivesse para acontecer naqueles dias que viriam pela frente. Também sabia que aquele sonho fazia parte do meu futuro, mas não conseguia entendê-lo de imediato. Sabia que as pessoas do meu sonho eram religiosas, e isso me intrigou muito. Fiquei durante algum tempo sentada na cama, tentando decifrar aquele sonho confuso. De repente, olhei para a janela e ela estava aberta, novamente. Confesso que me deu certo receio. Quem estaria entrando em meu quarto e abrindo a janela? E com qual propósito isso estava ocorrendo? Havia me esquecido de perguntar à Maria no dia anterior, mas nunca me esqueceria de perguntar-lhe no dia seguinte. Mudei meus pensamentos de direção. Levantei-me e fui até a janela, fechá-la. Resolvi, por uma questão de segurança própria, trancar a fechadura da porta do meu quarto também. Como percebi que não conseguiria dormir aquela noite, peguei meu diário e comecei a anotar algumas coisas nele. Foi quando ouvi um barulho estranho vindo do jardim. Fiquei muito intrigada. Então, levantei- me na ponta dos pés, para não chamar atenção, e fui até a janela. Abri bem devagarzinho e olhei de meia greta. A condessa estava de camisola e roupão, correndo pelo jardim em direção ao portão. Vi quando ela conversou com um homem, que não era um dos seus convivas. Embora a Lua estivesse iluminando tudo à distância, não me deixou ver o rosto do homem. Mas, pelo modo de se vestir, pareceu-me um fidalgo ou mesmo um monarca. Fiquei imaginando o que aquele homem estava tramando junto à minha madrasta, àquelas horas da noite. O mais estranho foi perceber que os dois gesticulavam e olhavam em direção à minha janela. Pensei Será que minha madrasta estaria planejando me matar? Depois de ver e presenciar aqueles fatos, não consegui dormir mais aquela noite. Fiquei apavorada, pensando que a condessa poderia estar tentando me assassinar. Aqueles pensamentos começaram a me deixar trêmula, pois sabia perfeitamente que a esposa de meu pai era uma mulher ardilosa e vingativa e, com certeza, estava planejando algo para se vingar pelas coisas que falei co m ela pela manhã. Sentei-me na cama, cruzei as pernas e comecei a orar com toda a força do meu ser. Tentei espantar aqueles pensamentos que não me deixavam dormir. Pedi a Deus que acalmasse meu coração e que me desse forças e visão para que pudesse ver o que a condessa estava planejando contra mim. Depois que orei a Deus, meu coração foi se acalmando lentamente, até que fiquei mais relaxada. Então, voltei a escrever no meu diário. Aproveitei para falar sobre a meditação e o dom da paciência. A meditação é um processo de se contatar com o ser interior e canalizar as energias puras e vibratórias num processo de transcendência. Possui técnicas que permitem que a vida interior se desenvolva, proporcionando o caminho para uma percepção maior da vida real. É a forma de nos despertar para a presença do Divino na criação e no nosso mais profundo ser. A meditação contribui de forma positiva para nosso desenvolvimento pleno e harmonioso. São Paulo definiu o estado da meditação em sua epístola aos efésios, capítulo 4, versículo 13. 109
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Meditar é orar em silêncio. É ocupar o pensamento com o vazio - ou seja, temos que esvaziar o pensamento atual, deixando a mente sozinha. Meditar é a coisa mais difícil que o ser humano pode imaginar. Pois o homem não consegue, por si só, estar sossegado dentro de si mesmo. Não só as bruxas, mas todos os seres humanos deveriam meditar, ao menos uma vez na vida. Meditar é deixar o pensamento ser absorvido para dentro de uma realidade suprema da consciência - o que é absolutamente indescritível. O centro do nosso ser é o ponto onde Deus nos toca, levando-nos ao despertar espiritual, produzindo várias experiências de caráter místico. Na meditação, deve-se silenciar a mente pensante, pondo em prática o entendimento das coisas que não podem ser vistas e que pertencem à consciência pura. Temos que ter apenas uma noção única da meditação: nela não há consciência pensante. Falo de consciência pura quando o espírito habita a mais alta verdade, sem qualquer mistura de pensamento imaginativo. Para chegar a esse nível, devemos calar todas as memórias e ideias inquietas, silenciando o pensamento. Nenhum movimento na vida religiosa tem qualquer valor, a menos que seja um movimento para o interior, em direção ao centro silencioso da nossa existência, onde está Cristo: o nosso eu. A meditação é um encontro cósmico, não só com o passado ou com os espíritos, mas com a nossa mente inconsciente. É o encontro da paz interior. Para que uma pessoa entre em contato consigo mesma, precisa saber que a primeira coisa a fazer é treinar a respiração. Tem que ser uma respiração correta, disciplinada e induzida ao mesmo tempo. Não pode existir nada pendente e nenhum barulho em volta dela, pois isso atrapalha o treino mental. Uma vez dominada a respiração, a segunda coisa a fazer é corrigir a postura. Essa postura é designada de hasanas. Depois disso, comece a desenvolver a sua concentração física e mental. Para isso, procure respirar, mantendo a postura e olhando para frente, fixando num ponto. Seguidamente, olhe para o ponto e para si. Fique assim, em silêncio absoluto. Espere que as ideias fluirão à mente, mas se não as agarrar, elas, por si mesmas, passarão. Isso acontecerá até que a mente esteja aquietada e consiga tocar a consciência pura. Como citei, meditar não é fácil e nem é para qualquer um. A busca de Deus, ou contato com as divindades, é algo intrínseco ao ser humano. O maior contato com Deus é aquele que estabelecemos através da prática da meditação. Algumas pessoas pensam que se trata de ensinamentos genéricos, e que basta esperar o espírito em questão aparecer. Mas no nosso sentir, há um erro nessa maneira de pensar. Em primeiro lugar, porque ao nosso redor há sempre espíritos querendo comunicar-se conosco, mais comumente de baixa categoria. Em segundo lugar, porque, não chamando um espírito em particular, abrimos um portal para qualquer espírito - até mesmo os vulgares ou malignos. Em uma reunião ou assembleia, não dar a palavra a nenhum espírito que se manifeste é esperar por um resultado catastrófico. Os espíritos têm uma necessidade muito grande de se comunicar com as pessoas - isso é fato consumado. É muito imprudente, também, que nos neguemos a falar com um espírito que procura comunicar-se conosco, levando em conta que ele pode ser um conselheiro ou um mentor espiritual. Quando um espírito aflito tentar falar, mesmo que seja confusa a sua manifestação e não consigamos entendê-lo, apenas ouvir é a melhor resposta. Na maioria das vezes, esses espíritos precisam de ajuda. Devemos levar em consideração, também, o fato de que os espíritos estão muito distantes de nós. Por isso mesmo, é difícil que manifestem a comunicação. Caso alguém queira comunicar-se com um espírito, deve ter muita paciência, pois ele pode demorar até dias para que consigamos escutá-lo. Geralmente, manifestam-se muitos de uma vez, pois a necessidade de se comunicarem é muita. Isso é o que causava as muitas vozes que eu ouvia quando criança. O apelo direto a determinado espírito é um laço direto entre nós e ele. Por isso, ao evocar um espírito, tenha muita cautela - isso é uma regra básica e absoluta. Espíritos familiares são habituais e também sempre aparecem, mesmo sem serem chamados. Fiz essas anotações porque senti a necessidade de meditar e tentar chamar o meu mentor espiritual. Ainda não o conhecia. Mas, como precisava de ajuda para acalmar-me os nervos e orientação para saber lidar com aquele perigo eminente, tive que chamá-lo. Podemos, sempre que 110
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus quisermos, chamar nosso mentor espiritual. Mas isso não é para se tornar um hábito frequente, pois estamos lidando com pessoas. Embora elas não estejam mais no plano terrestre, merecem respeito de igual modo. Portanto, nunca faça do mentor espiritual uma marionete. Relaxei os músculos e fiz novamente minhas orações, de olhos fechados. Pedi a Deus que me desse a capacidade de entender os espíritos com clareza, porque sabia que antes, para mim, eles eram apenas vozes e eu nada entendia do que me falavam. Depois de meditar e limpar o meu eu, sentei-me na cama com as pernas cruzadas e perguntei, em voz alta, mas com os olhos ainda fechados: _ Acaso há algum espírito familiar aqui presente que possa responder-me algumas perguntas? A princípio, nada ocorreu. Então, fiz essa pergunta mais duas vezes. Até que um vento forte entrou pelo quarto, com tamanha força que tive que me manter firme. Havia naquela experiência um fator muito importante: minha janela estava completamente fechada. Senti medo e calafrio, mas me mantive inerte e de olhos fechados. Foi, então, que senti uma forte presença feminina perto de mim. Um suave perfume de mulher invadiu todo o ambiente. Perguntei, então: _ Quem é você? Se está aqui neste recinto para fazer o bem, seja bem vinda. Mas se veio atormentar este lar, por favor, peço sua compreensão para que se retire em nome de Deus. Se for minha parenta, diga-me seu nome. O vento soprou novamente, só que dessa vez mais suave e bem próximo ao meu ouvido. E uma voz doce e sussurrante falou-me: _ Não se preocupe, Anna, não lhe faria nunca nenhum mal. Sou Elizabeth, sua mãe. _ Mãe! Tive vontade de abrir os olhos e abraçá-la, mas resisti mais uma vez, pois sabia que não estava preparada para vê-la em sua forma incorpórea. Isso sem contar que, sem querer, eu poderia afastar seu espírito. Um espírito familiar não vem com a intenção de nos assustar, mas de nos ajudar ou pedir-nos algo. Mas, muitas vezes, não o vemos de uma maneira muito agradável. Isso varia muito com a forma que está nosso pensamento. E o meu, naquele momento, não estava em perfeita harmonia com o universo espiritual - o que poderia ocasionar uma manifestação ectoplásmica assustadora. Continuei aquela conversa, sem fazer movimentos bruscos: da mesma forma que eu poderia me assustar, ela também poderia se assustar comigo. Alguns espíritos são cautelosos e sensíveis. Então, por fim, disse-lhe: _ Mãe, como a senhora está? Tenho tantas saudades... Sinto tanto a sua falta. Tenho tantas perguntas... Ela deu um sorriso, que pude perceber com a minha mente inconsciente. _ Estou bem, minha filha, mas ainda estou estudando muito. _ Como assim, estudando? _ O mundo espiritual é bem parecido com o mundo de vocês. Só que aqui vivemos em paz e temos que escolher tarefas. O trabalho é constante. Tive alguns problemas quando deixei meu aparelho. Levei algum tempo para aprender que não voltaria tão rápido. Fiquei em um hospital, curando-me de uma espécie de loucura sintomática. Não aceitava não ter você em meus braços e era muito apegada ao amor carnal de seu pai. Com o tempo, os auxiliares foram me mostrando como era o funcionamento deste lado. Aceitei, por fim, viver em uma colônia onde as casas eram parecidas com as do mundo onde vivi. Conheci muita gente e encontrei alguns parentes, mas outros decidiram reencarnar. Comecei, então, a fazer um trabalho social com crianças vítimas de abortos. Elas são espíritos difíceis, pois foram rejeitados por seus pais e, muitas vezes, não aceitam uma nova família. Por anos assombram as casas onde queriam morar, e até deixam seus habitantes com problemas mentais sérios. O caso mais grave foi de um menininho cuja mãe tentou três abortos e, no oitavo mês, quando ele finalmente conseguiu nascer, ela o enforcou ainda vivo. Mas, mesmo tendo tanto trabalho, sempre tive permissão para visitá-la. Quando você era criança, eu sempre estava por perto, evitando que se machucasse ou que alguém lhe fizesse algum mal. 111
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Interrompi minha mãe, fazendo-lhe uma pergunta que havia muito tempo me deixava intrigada: _ Foi a senhora quem esteve comigo aos dez anos, quando me olhava ao espelho? _ Sim. Perdoe-me se a assustei, não foi minha intenção. Por isso, não apareci mais. _ Eu sei, mãe. Na verdade, sempre soube que era a senhora quem me cobria à noite. Só não sabia como. A senhora é o espírito que vai me auxiliar durante minha jornada terrena? _ Não, só vim para poder apresentá-lo a você e matar as saudades que sentia. _ Quem será, então? É algum dos meus entes falecidos? _ Também não. Seu nome é Heixe, e ele é um espírito de muita luz e de uma sabedoria infinita. Ele é o responsável por proteger você e o seu amor. Também é o responsável pela colônia onde vivo. _ E qual é o nome dessa colônia, mãe? - quis saber. _ La Paz. É um lugar maravilhoso, com tantos campos e flores... Lá é como se fosse uma fazenda. Só que, ao invés de cultivarmos hortaliças, cultivamos pessoas. Resgatamos crianças vítimas de abortos e crianças que são assassinadas de maneiras cruéis. Damos a elas todo o amor que não tiveram. Ensinamos-lhes princípios morais e encaminhamo-las para uma nova encarnação. Confesso, minha querida, que é um trabalho duro e árduo, mas compensador! Sempre que damos amor, recebemos de volta. Como vê, essa foi a maneira que acharam para compensar a falta que você faz para mim. Ficamos vinte minutos conversando. Ela me respondeu sobre uma série de perguntas sucessivas que lhe fiz. Foi maravilhoso poder conhecê-la. Minha mãe pareceu-me um espírito muito sereno e dedicado. Perguntei-lhe se ela é quem estava abrindo minha janela. _ Não, Anna. Não temos permissão para fazer esse tipo de coisa. Quando esses fatos acontecem - o que é uma raridade -, sempre são provocados por um incumbo: espíritos sem luz, vulgarmente denominado assim na terra de demônio. Mas não é o caso aqui. _ Então é uma pessoa de carne e osso que está fazendo isso? _ Sim, é sim. _ Quem é essa pessoa e por que está fazendo isso? _ A pessoa que está fazendo isso é a sua madrasta. Mas não tenho permissão de lhe contar mais nada. Terá que descobrir por sua própria conta. Apenas lhe peço que tome muito cuidado. Aquelas palavras só serviram para me deixar mais apreensiva, pois ressaltaram minhas suspeitas de que minha madrasta poderia estar tentando algo contra mim. Interrompemos a nossa conversa, pois uma grande luz apareceu, iluminando todo o recinto. A luz era tão forte que, mesmo eu estando com os olhos fechados, pude percebê-la. Depois de escutar minha mãe apresentando-se, senti um leve perfume de flores no ar e, então, Heixe apresentou-se. Sua voz era grave, mas ponderada. Então, como se fosse o vento forte, ele falou: _ Abra seus olhos, Anna, não precisa ter medo de mim. Não há nada que temer. Abra os olhos para que possamos falar com você. Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo. Lentamente, fui abrindo os olhos, para que a luz que saía de Heixe não me cegasse, pois era muito reluzente. Na minha frente, deparei-me com um homem alto, muito louro, aparentando ter trinta e poucos anos. Suas vestes eram de um linho muito branco e ele calçava sandálias douradas. Seus olhos eram de um azul inigualável. Todo o recinto foi tomado pela forte luz e pelo cheiro de flores que saíam dele. Fiquei completamente extasiada. Nunca havia visto nada tão maravilhoso antes. Heixe, percebendo meu estado de euforia, disse: _ Sou seu mentor espiritual. Estou aqui para ajudar-lhe no que for preciso. 112
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sinto-me muito honrada por receber em minha casa alguém com tanta grandeza como você. Espero poder ser digna de tamanha responsabilidade e confiança. Muito obrigada por ter vindo ajudar-me. Conversei com Heixe a respeito de várias coisas. Tirei muitas dúvidas que tinha em relação ao mundo espiritual. Ele foi maravilhoso comigo, tendo paciência e respondendo-me tudo, pois estava meio confusa e perdida em relação a muitas coisas. Heixe contou-me, também, ter sido vítima de uma jura de amor e, durante duas de suas reencarnações, ele assassinou seu amor porque sentia ciúmes. Custou a se libertar e a libertar sua vítima. Até que, depois de muito sofrimento, aceitou ajuda. Após se restabelecer, estudou durante anos a fio e, finalmente, encontrou seu amor em uma colônia. Ambos, agora, auxiliam vítimas de sortilégios e juras. Sua presença transmitia-me muita paz e sabedoria. Heixe orientou-me a como seguir o meu caminho. Estava eufórica e muito feliz por ter tão perto de mim um espírito de tão alta grandeza. Então, fiz a pergunta principal, o pivô por tê-los evocado: _ Como farei para descobrir o que minha madrasta está planejando contra mim? Pois sei que é algo diabólico. Confesso que tenho medo. Heixe respondeu-me, meio a contra gosto, da seguinte forma: _ Tem toda a razão por temê-la. Mas saiba que estaremos aqui para lhe ajudar, Anna. Não posso dizer-lhe muita coisa, mas na hora certa você saberá como agir. Tenha certeza apenas de uma coisa e ouça com muita atenção o que irei lhe dizer: não centre muito suas energias em apenas uma pessoa, pois o mal, Anna, às vezes está dentro de quem mais amamos. Alguém que, para nós, é considerado um herói. Sabe, minha querida, você passou uma vida de repressões e sofrimentos nesta casa. Portanto, mediante a sua dor, não percebeu quem era o seu verdadeiro inimigo. Não quero que, de forma alguma, se revolte ou se entristeça com as minhas palavras. Quero apenas que pense e ore muito, minha querida, pois o que ainda estar por vir pode fazer-lhe querer fraquejar em sua jornada. Saiba, Anna, que tudo o que nos acontece nesta terra é permitido pelo Pai Maior. O que posso lhe dizer mais sobre isso é que essa pessoa que irá lhe trair traz consigo uma grande mágoa de sua outra vida como Shaara. O espírito dessa pessoa tornou-se muito revoltado. Resgatá- lo foi muito difícil. Achamos que uma reencarnação junto a você seria boa para ele. Mas nos enganamos: as memórias revoltosas que ele trouxe em seu inconsciente não lhe abandonaram. Preste bem atenção, pois logo acontecerão fatos que lhe colocarão não só em perigo, mas também lhe causarão muita decepção. Não julgue essa pessoa, pois ele a ama muito. Inconscientemente, não consegue perdoá-la. Entendi que Heixe falava sobre o meu pai. Aquela revelação deixou-me chocada. Então, comecei a juntar os fatos e percebi que Heixe estava coberto de razão. Meu pai sempre ficava estático, olhando o horizonte. Sua depressão fazia-o beber compulsivamente. Houve momentos em que o flagrei olhando para mim como se me odiasse. Eu, às vezes, achava que a minha madrasta estava certa quando dizia que ele também culpava-me pelo falecimento de minha mãe. Embora ele mesmo tenha me defendido certa vez, agora muitas coisas faziam mais sentido. Fiquei conversando com Heixe e minha mãe até três da manhã, quando se despediram de mim. Ela não tinha muita permissão para me responder, mas ele me orientou, respondendo tudo o que eu perguntava. Prometeram sempre atender-me quando necessário fosse. Aprendi, com essa experiência, que os espíritos poderiam sempre nos auxiliar e nos ajudar, mas nunca poderiam interferir em nossos destinos. E que também poderiam nos responder só o que lhes fosse permitido. Eles respeitavam a hierarquia das ordens superiores e divinas. Têm obrigações com seus escolhidos e respectivos trabalhos, habitam em colônias e podem estar em muitos lugares, mas nunca ao mesmo tempo. 113
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Sabia que deveria ter muito cuidado com zombeteiros, pois nosso espaço físico e invisível aos olhos está povoado de espíritos de todas as classes. Aquele pensamento deixou-me um tanto assustada e tímida: só de imaginar um espírito observando-me trocar de roupa, constrangia-me. _ Espero que vocês respeitem minha privacidade! Imagine só!- disse em voz alta, rindo sozinha. Aprendi, também, que somos nós que atraímos os espíritos errantes e sem doutrina – ou, como vulgarmente os chamamos, espíritos sem luz, ou rebeldes. Isso depende muito da doutrina espiritual de cada um. A faculdade mediúnica não é só para isso: ela é apenas um meio de comunicação. Aprendi que podemos atrair a antipatia ou a simpatia de um espírito. Compreendi que posso estar rodeada pelos que têm afinidades ou não, sendo superiores ou inferiores. Os espíritos não passam de almas desprendidas dos corpos, que levam consigo o reflexo de suas qualidades e imperfeições. A ciência humana ainda está muito longe de aprender sobre essa magnitude. Ouso dizer que irá demorar muitos séculos para que aceitem esse tipo de sabedoria astral. Por mais que os estudiosos e cientistas - e até alguns astrólogos - estudassem, os seres humanos não alcançariam com facilidade tal sabedoria. Eu, agora, estava entre dois mundos e sentia-me privilegiada. Minha missão era ajudar os enfermos e necessitados, e esclarecer-me o quanto mais na ciência do saber. Minha mente estava cansada e minha cabeça parecia estar cheia de bolhas. Mas precisava levantar-me e ir à cidade. Queria ver como estava passando Dona Catarina, e ainda precisava passar no ferreiro e pegar minha encomenda. Depois de muito lutar contra a fadiga e de não ter conseguido dormir, levantei-me a contra gosto e fui olhar-me ao espelho. Santo Deus!, pensei comigo. Estava péssima: meus olhos, cobertos por enormes olheiras. Teria que arrumar uma desculpa para contar sobre aquilo à Maria. Caso lhe falasse o que havia acontecido, ela poderia ficar muito preocupada - principalmente sobre o fato de que meu pai seria o causador de toda a minha desgraça. Arrumei-me rapidamente. Não poderia ficar um segundo parada ou o sono tomaria conta de mim novamente. Desci para o desjejum e, no caminho, encontrei com a copeira, que subia com a bandeja de desjejum da condessa. Cumprimentei-a casualmente. Ela, por sua vez, falou: _ Senhorita, já ia levar seu desjejum daqui a pouco! Perdoe-me, estou atrasada? _ Não, decidi levantar-me mais cedo hoje. A propósito, de hoje em diante, tomarei meu café na cozinha com vocês. Não me olhe assim, porque não estou doente. Muito pelo contrário: estou me sentindo muito bem. Aliás, nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Sabia que aquela inesperada e súbita mudança de hábito geraria muitos comentários entre ela e a condessa, mas foi irresistível provocá-la. Ao chegar à porta da cozinha, Tereza, Joseph, Lorenzo e o capataz Tomaz estavam tomando café. Ao me verem, todos - inclusive Maria - se levantaram, espantados. Então, disse-lhes: _ Pelo amor de Deus, sentem-se! Para que tanta reverência? Acaso aqui chegou alguém da realeza? Fiquem despreocupados e, por favor, não façam cerimônias comigo. Dizendo isso, fui sentando e pegando um pedaço de pão de milho. Percebendo que continuavam de pé, disse: _ Olhem, se for para eu vir aqui todos os dias e ter que vê-los em pé até que eu acabe de tomar o meu desjejum, então prefiro ir para o meu quarto e dar-lhes o trabalho de subir as escadas para me servirem. Foram se sentando um a um, entreolhando-se. Portanto, prossegui, dizendo: _ De hoje em diante, serei uma companhia e constantemente me verão nesta cozinha. Espero que isso não seja um empecilho, e sim que isso possa nos unir. Afinal, sou ou não sou a pequena sombra desta casa? - disse isso olhando para Tereza, enquanto todos soltaram um largo sorriso. 114
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Tomei meu café calmamente, degustando os manjares que Tereza havia preparado. Tentei deixá-los cada vez mais à vontade, contando-lhes histórias engraçadas. Tudo isso sob os olhares atentos de Maria, é claro! Depois de ter saciado minha fome, olhei para Lorenzo e perguntei-lhe: _ Poderia arrumar a carruagem para mim, Lorenzo? Eu e Maria iremos novamente à cidade hoje. _ Claro, senhorita Anna! Mas vai demorar um pouco, porque ainda não tratamos dos animais. _ Não há problema algum, não estou com pressa. Enquanto isso, irei ao jardim, dar uma caminhada e respirar o ar puro desta linda manhã. _ Posso saber aonde vamos desta vez? - perguntou Maria. _ Claro que sim. Iremos à casa daquela jovem que visitamos ontem. Respondi a pergunta de Maria olhando para Lorenzo, que corou de imediato. O rapaz sorveu o último gole do suco que estava tomando e levantou-se, dizendo: _ Sendo assim, é para já, senhorita. Apronto a carruagem rapidinho. - disse isso saindo às pressas, porta afora. _ Será que eu disse alguma palavra mágica? _ Por certo que sim. - respondeu Maria. O resto da criadagem foi para seus postos, cumprir com suas tarefas diárias. Enquanto Maria passava as ordenanças aos criados e escravos da casa, fui calmamente caminhar pelo jardim. O céu estava lindo naquela manhã, as flores bailavam ao vento. Continuei, então, caminhando até o portão de saída, para recordar-me da cena da noite anterior. Quando cheguei bem perto do portão, notei ao chão um objeto reluzente. Aproximei-me para ver do que se tratava e percebi que era uma medalha. Baixei e peguei-a. Na medalha, havia uma insígnia de um brasão da nobreza. Porém, eu nunca havia visto nenhum como aquele. Parecia inglês. Lorenzo interrompeu-me, avisando que a carruagem já estava pronta. Pedi que avisasse Maria que já estávamos prontos. Enquanto ela não vinha, fiquei pensando de qual família real seria aquela insígnia. Quando Maria chegou, eu já havia entrado na carruagem e esperava por ela. Dentro da carruagem, mostrei a medalha e perguntei-lhe: _ Maria, a senhora já havia visto esta insígnia? _ Confesso que não me é estranha. Mas onde foi que achou isso? _ Na entrada do portão de saída, do lado de dentro. Contei-lhe, então, o que vi na noite anterior e o que estava havendo nas outras noites em relação à minha janela. Maria ficou muito assustada e disse: _ Então, agora terá que dormir com a porta do seu quarto trancada. Se quiser, até posso dormir lá em cima com a senhorita. _ Obrigada, Maria, mas isso não será necessário. Basta que eu tranque a porta. Estou de olhos e ouvidos atentos, acredite! Ficamos pensativas e nem percebemos que Lorenzo já havia saído de casa com a carruagem. Mudei meus pensamentos daquele assunto que nos estava fazendo mal e perguntei à Maria: _ Não achou Lorenzo muito entusiasmado com a jovem Samara? Não acha que os dois formariam um belo casal? _ Menina, em que está pensando? _ Hum... Lorenzo é um homem bem apanhado, solteiro, jovem, trabalhador... Samara é tão solitária e está passando por tantos problemas por cuidar da mãe sozinha...Ontem percebi a maneira como eles se olhavam. Acho que poderiam formar um belo par. _ A senhorita não para mesmo, não é? Agora está se passando por alcoviteira também? Santo Deus! Acho que, quando lhe trouxeram de volta da viagem, esqueceram-se de verificar se o espírito que trouxeram do passado era o mesmo, viu? _ Ora, Maria, não dizem que voltamos renovadas!? 115
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim, minha filha, por certo é o que acontece. Mas a senhorita se renovou demais, nem consigo acompanhar tantas mudanças. A cada instante parece ser uma pessoa. Confesso que isso está me assustando, pois não sei mais com quem estou lidando. _ Sou a mesma pessoa, Maria. Apenas decidir olhar a vida por outro prisma. Não vou aceitar mais que ninguém mande em mim ou que me obriguem a ser o que eu não quero ser. De agora em diante, tomarei minhas próprias decisões. Não quero mais viver às escondidas, chorando. Quero e exijo que as pessoas me respeitem como eu as respeito. _ Só quero que tome mais cuidado para que nada de mal lhe aconteça. Gosto muito da senhorita. Concordo que deva mesmo mudar e não aceitar que lhe façam de capacho, como faziam antes. Mas isso deve ser devagar, porque, mudando tão rápido como a senhorita está, pode causar um choque nas pessoas que não entenderam essa sua mudança de hábitos. Sabe muito bem o que essa nossa sociedade, regida por homens, pensa de mulheres que têm certas atitudes. A senhorita poderá trazer danos a si mesma. _ Não estou fazendo nada demais. Também pouco me importo com o que as pessoas pensem de mim. Maria, se eu continuar como eu era, meu destino cumprir-se-á do mesmo modo, certo? _ Certo. _ Então, que pelo menos eu ocupe o pouco tempo que ainda tenho nesta vida praticando a caridade, lutando pelos meus direitos! _ Agora estou entendendo aonde a menina quer chegar. No decorrer do caminho, eu e Maria conversamos tanto que nem vimos o tempo passar. Quando aquietamos a boca, já estávamos na frente da casa de Samara. Ela veio de imediato receber-nos e abraçou-me ao descer da carruagem. Seus olhos grudaram em Lorenzo e Maria, ao perceber aquilo, deu-me uma cutucada com o cotovelo. Assinalei com a cabeça, positivamente. Ao entrar naquela casa, percebi que a paz reinava novamente. Dona Catarina estava de pé e havia preparado um bolo para o desjejum. Samara havia colocado um vasinho de flores em cima de uma pequena mesa, no cantinho da casa. Quando Dona Catarina percebeu a minha presença na casa, veio cumprimentar-me com os olhos cheios de lágrimas. Dei-lhe um beijo na testa. Para mim, não existia nada mais gratificante do que ver aquela mulher de pé novamente. Enquanto conversávamos, pude notar que Lorenzo e Samara estavam em um canto da sala, olhando-se em silêncio. Então, percebi que era a hora certa para intervir pelos dois. Enquanto Dona Catarina levava as xícaras para a cozinha, acompanhei-a na desculpa de ajudá-la. Foi aí que contei a ela sobre o interesse de Lorenzo por Samara. Ela disse já ter reparado. E também disse que fazia muito gosto se eu não me importasse. Resolvemos, então, juntas, perguntar a Samara se ela gostava de Lorenzo. Fomos respondidas com um largo sorriso da jovem, o que confirmou as minhas suspeitas de que os dois estavam apaixonados. Foi amor à primeira vista. Seriam muito felizes, por certo. Fui até a entrada e conversei seriamente com Lorenzo. No princípio, aquele assunto pegou Lorenzo de surpresa. Mas, depois, o sorriso largo revelou-nos a verdadeira vontade dele de se unir à Samara. A conversa foi um tanto longa, pois precisava deixar certas coisas muito claras. Depois de lhe dizer tudo o que ele precisava ouvir, convidei-o a entrar, deixando-o, assim, a sós com Samara e a mãe. Eu e Maria fomos para o lado de fora da casa, para que os três ficassem à vontade. Meia hora depois, todos saíram, felizes e prazerosos lá de dentro. Por fim, Lorenzo disse-me: _ A senhorita é mesmo um anjo. Logo que vi Samara, apaixonei-me de imediato. Porém, sou muito tímido e talvez nunca tivesse tido a coragem de me aproximar e dizer sobre meus sentimentos. Passei a noite de ontem todinha atormentado, tentando imaginar uma maneira de vê-la novamente. Quando a senhorita disse que voltaria aqui, foi como se o céu da esperança se abrisse para mim. Tentei-lhe falar sobre meus sentimentos hoje mesmo, na hora em que ela veio me servir café, mas estava nervoso demais. As palavras fugiram-me, como se estivessem agarradas na minha garganta. 116
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Rimos todas ao mesmo tempo nesta hora, porque Lorenzo gaguejou como uma criança, de tão nervoso que estava. Resolvido aquele problema, voltamos para casa. Mas, no caminho, passamos na ferralheria, para apanhar minha chave. A carruagem parou do outro lado da rua. Então, pedi a Lorenzo que fosse buscar minha encomenda. Não queria me deparar com aquele homem carrancudo novamente e estragar o doce sabor daquela manhã maravilhosa. Lorenzo assim o fez. Para minha maior surpresa, o ferralheiro debruçou-se sobre a janela da carruagem, colocando a cabeça para dentro. Parecia estar afoito. Achei meio grosseiro da parte dele. Mas, antes que pudéssemos falar alguma coisa, ele disse: _ Perdoem-me, senhoritas, sinto estar invadindo a sua privacidade. Mas jamais poderia deixá- la sair sem pedir-lhe humildemente minhas desculpas por ontem à tarde. As dores que eu sentia deixavam-me de muito mau humor. Depois que a senhorita saiu, refleti e resolvi, por curiosidade, tomar o chá que me receitou. Quero dizer-lhe que, de ontem para hoje, sou um novo homem. Ainda sinto um pouco de dor, mas não é mais tão intensa como era. Vim até aqui para entregar-lhe pessoalmente a sua encomenda e dizer que não irei lhe cobrar nada. Vai ficar como um presente em retribuição pelo que fez por mim. _ Imagina, o senhor trabalhou, tem o direito a ser remunerado devidamente. Ficarei muito sem graça se não lhe pagar pelo trabalho. _ Ficarei ofendido se me fizer esta desfeita. Olhei-o nos olhos e eram sinceras aquelas desculpas. Mediante aquela súplica, eu disse: _ Está bem, se o senhor se sente melhor assim, vou aceitar o presente. Mas quero que saiba que lhe ensinei os chás porque realmente fiquei preocupada com o senhor, mesmo sem o conhecer. Se um dia o senhor precisar de mim novamente, procure por Dona Catariana e peça à filha dela que entre em contato comigo. Virei ajudar o senhor onde quer que esteja. O homem sorriu prazerosamente, todo desconcertado por perceber que Maria o olhava meio de lado. Ela ainda estava cabreira por causa das coisas que eu havia contado dele para ela. Despediu-se de nós e se foi. Às vezes, os problemas fazem-nos parecer alguém que não somos. A dor nas costas que aquele homem sentia não lhe dava o prazer de sorrir e tornava-o cada dia mais e mais carrancudo. Se alguém não o tivesse ajudado, chegaria um dia em que até a fé em Deus ele haveria de perder por pensar que Deus não o estava ouvindo em suas orações. Devemos prestar muita atenção a isso, porque Deus não só nos ouve, mas também nos envia auxiliares para nos socorrer. Finalmente, estávamos voltando para casa. Precisava deitar-me e dormir um pouco para recuperar minhas energias. Maria também precisava descansar. No trajeto de volta, não falamos muito. Praticamente fui cochilando o tempo inteiro. Quando a carruagem finalmente parou, eu mal podia abrir os olhos, de tão cansada que estava. Desci da carruagem e pude perceber que havia outra carruagem na lateral da casa. Maria olhou-me como quem também queria saber quem seria. Dei o braço à Maria e fomos caminhando até a entrada. Ela me abriu a porta e foi uma grande surpresa! Meu pai estava de volta. Quando percebeu que eu havia chegado, virou-se para a porta e disse: _ Pensei que teria que mandar a milícia atrás da senhorita. Fiquei sabendo que agora não para mais dentro de casa. _ É só isso que o senhor tem a dizer-me depois de meses fora de casa? Achei que sentisse minha falta! Ele me deu um largo sorriso e veio ao meu encontro, abraçar-me. _ Lógico que senti sua falta, mas gosto de saber que as mulheres da minha família estão em casa quando eu retorno. Agora, pode me dizer onde estava? _ Fui à cidade com Maria, visitar uma amiga. _ Quem seria essa amiga? Não me lembro de ter amizades. _ Mas agora tenho. Conheci-a ontem, a caminho do ferreiro. 117
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ A caminho do ferreiro? E o que uma senhorita poderia querer com um ferreiro? _ Fui pedi-lo que fizesse uma chave para aquele bauzinho que mamãe deixou para mim. _ Ah, sim. E por que tinha que ser um ferreiro? _ Porque quis que a chave fosse de bronze e fiquei com medo de o chaveiro não fazer bem feito o serviço. Ele parecia desconfiado. Por certo, minha madrasta tinha colocado muitas ideias destorcidas na cabeça dele. Por isso, contei-lhe a verdade. Depois de muito me olhar, ele disse para ir-me aprontar para o almoço. _ Pai, essa noite não dormi muito bem. Prefiro jantar com o senhor, se não se importar, é claro. _ Bom, só pensei que estivesse sentindo minha falta. Mas, pelo que vejo, terei que sentar à mesa sem a minha família. _ Ora, meu pai! Nunca fomos uma família tradicional. Não será a primeira vez que o senhor se sentará sozinho à mesa. Eu mesma já comi sozinha várias vezes em meu quarto por falta de participantes desta casa à mesa. Desculpe, mas hoje estou mesmo muito cansada e não farei a sua vontade, pois estaria sendo hipócrita comigo mesma. Disse isso o lembrando das vezes em que ele e minha madrasta discutiam à mesa, deixando-me sozinha. Ou das tantas vezes em que almocei e jantei sozinha em meu quarto, porque Maria dizia- me que ambos haviam saído para algum outro evento. Subi as escadas, meio cambaleando de tanto sono. Abri a porta do meu quarto e olhei para a cama, atirando-me sobre ela. Não vi mais nada: do jeito que eu estava, acabei adormecendo. Despertei com Maria batendo à porta. Esfreguei os olhos e, percebendo o meu estado, dei um sorriso. Então, disse: _ Pode entrar, Maria. Já estou acordada. _ Minha nossa! Nem os sapatos a senhorita tirou para dormir? _ Não, adormeci do jeito que eu estava. Mas me diga: o que a faz vir aqui me chamar? _ Seu pai tem um convidado e pediu-me para dizer à senhorita que desça imediatamente. Parece que é gente importante. _ Bom, diga ao senhor meu pai que imediatamente será impossível, porque acabei de acordar. Depois que me lavar, se estiver pronta, desço. _ Senhorita Anna, sabe que não posso dizer isso ao seu pai. Afinal, ele é meu patrão. _ Está bem, então. Invente qualquer desculpa e diga que já estou descendo. Maria saiu muito desorientada, sacudindo negativamente a cabeça. Eu não tinha a menor intenção de contrariar meu pai - mesmo porque sabia que ele odiava ser contrariado. Arrumei-me o mais rápido que pude. Coloquei uma saia de veludo azul marinho, com uma blusa branca de mangas longas, toda rendada. Usei um conjunto de pérolas para dar certa graça àquele traje. Prendi o cabelo em um coque e puxei alguns fios. Apertei as bochechas para dar cor às minhas faces. Depois de me visualizar no espelho, dei um largo sorriso e disse a mim mesma Há certas coisas que não mudam mesmo! Por mais que eu quisesse me libertar de toda aquela superficialidade, eu ainda era uma mulher. E, como tal, nunca deixaria de ser vaidosa. Abri a porta e caminhei calmamente pelo corredor. Era fascinante saber que havia dois homens esperando por mim. Isso me envaidecia ainda mais. Por minha vez, queria ser o centro das atenções - pelo menos para variar. Ao chegar à sala de estar, encontrei meu pai sentado a uma poltrona em frente à porta. A condessa estava sentada ao piano, e um jovem ruivo, de muito boa aparência, em uma cadeira. Ao entrar, meu pai e o jovem levantaram-se e minha madrasta parou imediatamente de tocar o piano. Então, começaram as apresentações: _ Filha, esse é conde Celso D´Louchoa, filho do gran duque Albert D´Louchoa. Ele ficará conosco para o jantar. Conde, essa é minha filha, Anna. O meu tesouro mais precioso. _ Senhorita! - levantou-se o conde, fazendo-me reverências. 118
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Ele continuou com aquela conversa que, para mim, durou uma eternidade: _ É um prazer conhecê-la. Seu pai falou-me muito bem da senhorita durante uma viagem que fizemos juntos a Londres. Ele, porém, mentiu para mim sobre uma coisa. _ É mesmo? E em que meu pai andou mentindo para o senhor conde? - indaguei-lhe curiosa, olhando para meu pai, pedindo socorro. _ Sobre sua beleza. Disse-me que a filha era bonita. Mas nunca, em toda minha vida, vi beleza como a sua. Senti-me corar e vi que a condessa iria explodir de ódio e inveja. Afinal, ninguém poderia resplandecer mais do que ela própria e, com certeza, ela não poderia flertar com o conde na presença de meu pai. Maria salvou-me daquela conversa, que já estava se tornando constrangedora. Veio avisar-nos que a mesa estava posta. Fomos para a sala de jantar. O conde deu-me o braço; minha madrasta acompanhou meu pai. Sentamo-nos do mesmo lado, meu pai na cabeceira da mesa, a condessa na sua lateral direita. Quem nos visse diria que éramos uma família tradicional e exemplar. O conde indagava-me o tempo todo, querendo saber tudo a meu respeito. Apenas o respondia polidamente, sem demonstrar o menor interesse nele. Foi-nos servida uma deliciosa e poderosa paella como primeiro prato. _ Conhece a comida espanhola, senhor conde? – perguntei-lhe, tentando mudar o rumo daquela conversa, que já estava indo para o campo da intimidade. _ Não. Mas se for tão saborosa como as belas as mulheres do país, fartar-me-ei. Corei pela audácia daquele homem. Ele conseguia deixar-me encabulada. Por fim, respondi: _ Espero que goste, então. Meu pai começou a lhe fazer perguntas sobre negócios e política - o que foi um alívio para mim, pois me salvou não só das conversas indiscretas do conde, como também dos olhares calientes dele. Como segundo prato, foi servido um cochinillo assado. Para sobremesa, uma mousse de maracujá. Comemos praticamente em silêncio, o que me foi um alívio. Embora o conde ficasse fitando-me constantemente, consegui manter minha postura, fingindo não perceber nada. Ao terminarmos o jantar, fomos para a sala de estar, onde foi-nos servida uma sangria. O conde, por sua vez, parecia obcecado para estar perto de mim. Para tentar desvencilhar daquele assédio, que estava se tornando constante, tornei a falar sobre a culinária espanhola. _ Então, senhor conde, o que o senhor achou da nossa culinária? Ele sorriu maliciosamente, parecendo ter percebido a minha intenção. _ Digamos que eu achei... caliente! Como as senhoritas daqui. _ Desculpe-me, senhor conde, mas não o estou entendendo. Creio que o senhor e eu não estamos falando o mesmo idioma. Talvez o senhor esteja confundindo um pouco as coisas. É melhor que encerremos essa conversa por hora. _ Ofendi a senhorita? _ Por enquanto, não. Mas antes que nossa conversa ultrapasse os limites da civilidade, prefiro que encerremos com ela. _ Não a entendo, senhorita Anna. Se lhe disse alguma coisa ofensiva, peço-lhe minhas sinceras desculpas. - disse o conde, sinicamente. Dei-lhe um sorriso e virei-me para meu pai, dizendo: _ Pai, não estou me sentindo muito bem, peço permissão para me retirar. _ Estava tão bem agora há pouco! O que foi que houve? _ Acho que é só uma indisposição. Peço para ir para o meu quarto. _ Sim, é claro. Pedirei à Maria que lhe acompanhe. 119
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Obrigada, pai! Senhor conde, espero que em outra ocasião nossa conversa seja mais proveitosa do que a de hoje. _ Sim, por certo será, senhorita Anna. Em outra ocasião, espero poder corrigir esse mal entendido. _ Creio que não houve nenhum mal entendido, senhor conde. Mas vou dizer uma coisa apenas: uma vez perdida a minha confiança, perdida ela estará para sempre. Ele abaixou a cabeça, em um cumprimento casual. Dei um beijo de boa noite em meu pai e passei por minha madrasta, que me olhava de um jeito incógnito. Havia alguma coisa no ar. Mas, como eu estava muito irritada com o comportamento do conde, não prestei atenção aos detalhes - o que poderia ser perigoso. Devemos nos lembrar de que Deus está presente constantemente em nossas vidas, mas o diabo está presente nos detalhes. Subi as escadas e nem esperei por Maria. Quando cheguei em meu quarto, joguei-me em cima da cama e comecei a chorar. Na verdade, não sabia se era de raiva ou de decepção. Maria chegou e, ao ver-me naquele estado, perguntou-me, assustada e com as mãos no rosto: _ Santo Deus, senhorita Anna! O que houve? _ Estão me vendendo, Maria. Estou sendo leiloada como uma escrava ou animal premiado. E o pior disso tudo é que o meu próprio pai é o responsável por essa monstruosidade. Maria entendeu do que eu estava falando e correu ao meu encontro, dando-me um abraço fraterno. Ficamos abraçadas por alguns minutos, até que ela falou: _ Fuja, minha filha! Vá para bem longe daqui! Se quiser, posso enviar uma carta à minha irmã, pedindo a ela que lhe dê abrigo. Acredite, seu pai nunca lhe encontrará. Olhei chorosa e comovida para Maria e disse: _ Não posso, Maria... Se fizer isso, meu pai irá puni-la. Ele pode não ter recursos financeiros, mas ainda é um homem poderoso. Com isso, pode mandar trucidar aquele povo. Nunca seria covarde a tal ponto de fugir, Maria, e de principalmente colocar a vida de outras pessoas em risco. Vou ficar e lutar enquanto puder. Esse é o meu destino, o meu triste destino, lembra-se? A senhora mesma viu em seu tarô. Maria abaixou a cabeça e nada mais disse sobre aquele assunto. Levantei, passei as mãos pelo rosto, tentando me recompor. Olhei para todo o quarto e falei: _ Que se cumpra o meu destino, Maria! Mas, se eles pensam que serei leiloada, nunca isso acontecerá comigo! Fique sabendo. _ E o que pretende fazer então, senhorita Anna? Pois seu pai acabou de pedir para avisá-la que marcou um jantar formal para apresentar o conde à nossa sociedade. _ Eu já imaginava isso. Pois que seja dessa forma. Estou mesmo precisando me divertir um pouco. _ Divertir-se? Não a entendo... Acabei de pegar a senhorita em desespero por achar que seu pai a estava leiloando para o senhor conde. E agora fala em divertimento? _ Então, prepare-se para ouvir o Gran Finale dessa história. _ Ouh lala, e mais o que poderia me surpreender? A condessa é quem vai organizar o jantar e o baile. O senhor conde deu-lhe carta branca para gastar o que precisasse. Depois que a senhorita saiu, ouvi tudo o que diziam. Não que eu os ficasse escutando atrás da porta... Na verdade, foi quase sem querer. Eu já estava entrando, mas parei para ouvi-los. O que pude entender é que a condessa terá total liberdade financeira para organizar esse baile de boas vindas ao senhor conde. Sentei-me na cama e fique pensativa. Como o conde, que mal conhecia minha madrasta, estava dando esse poder a ela? Isso me pareceu muito íntimo. Alguma coisa não estava se encaixando. Tive a sensação de que, muito em breve, descobriria o que era. Pedi a Maria que me fizesse um chá, pois precisava dormir bem. Na manhã seguinte, com as ideias mais claras, tentaria resolver aquele assunto. 120
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Maria saiu, deixando-me sozinha com meus pensamentos aflitos. Andei de um lado a outro do quarto. Fui por várias vezes à janela, mas, naquele momento, nenhuma ideia iluminada passou-me pela cabeça para fazer-me ter uma real noção de como a minha madrasta poderia ter conseguido tão rapidamente a confiança do conde. Se ele fosse um de seus amantes, entenderia. Mas, pelo que me constava, ele nunca havia estado na Espanha. Algo não estava se encaixando, mas não consegui ver às claras o que era. Algum tempo depois, Maria veio trazer-me o chá e disse: _ Seu pai pediu-me para avisar que o conde retornará aqui amanhã para jantar novamente. Pediu a sua presença à mesa. Senhorita Anna, sugiro que aceite com prudência e não recuse esse convite. Maria abaixou a cabeça e prosseguiu: _ Eles estão esperando que eu leve uma resposta positiva da senhorita. _ Não se preocupe, Maria. Diga ao senhor meu pai e ao conde que estarei presente amanhã a esse jantar. Fique tranquila, comportar-me-ei dignamente e não demonstrarei que sei o que está se passando. Dei um beijo na testa de Maria e pedi para que ela me deixasse sozinha. Precisava meditar e tentar dormir um pouco. Minha mente conturbada não conseguiria fluir nenhuma ideia naquela noite. Foi uma noite muito difícil, custei a pegar no sono. Mesmo tendo trancado a porta, tive a sensação de que alguém estava me espionando. Sentia-me impotente mediante a situação de alguém invadindo a minha privacidade. Por fim, acabei adormecendo. Na manhã seguinte, despertei com Maria batendo à porta. Levantei-me meio sonolenta e abri a porta para ela, que já me trazia o desjejum. Embora eu quisesse ter ido tomar café na cozinha, achei melhor não tentar nada contra o gosto de meu pai naquele dia. Maria, ao ver-me, logo foi dizendo: _ Bom dia, minha filha. Pelo que vejo, teve uma péssima noite de sono! Mas logo irá recuperar as forças, pois lhe trouxe um desjejum bem reforçado esta manhã. _ Obrigada, Maria. Sei que sempre poderei contar com a senhora. - disse isso analisando a minha fisionomia ao espelho, vendo minhas olheiras. Maria, no entanto, prosseguiu: _ Infelizmente, tenho a lhe dizer que sua madrasta e seu pai saíram muito cedo hoje. Os dois pareciam ter um compromisso inadiável. _ Que estranho... Ela nunca se levanta cedo! Tem alguma coisa errada acontecendo nesta casa, Maria, e eu vou descobrir. Por favor, arrume a água para o meu banho. E separe para mim aquele vestido branco. Irei ao jantar do conde com ele. _ O que a menina está aprontando? Nunca usou aquele vestido. _ Sim, eu sei, e essa é a hora. Quero estar elegantemente sedutora hoje, Maria. Maria saiu sorrindo, parecendo ter entendido o que se passava na minha cabeça. Logo que ela saiu, comecei a imaginar como eu iria colocar em prática meu comportamento com o conde. Só tinha um pequeno problema: nunca havia me comportado levianamente antes. Aí, comecei a lembrar-me dos trejeitos da condessa. Achei engraçado como até mesmo quem tenta nos fazer mal acaba nos ajudando, mesmo sem saber. É preciso aprender até com os inimigos e usar suas armas sempre a nosso favor. Muitas vezes, não percebemos que nossos inimigos são nossos maiores aliados. Mas isso só acontece com tempo e maturidade. Estamos tão voltados para o lado da vingança que esquecemos que também podemos virar contra nosso opositor as suas próprias estratégias. Devemos pensar da seguinte forma: eles são nossas espadas contrárias e, de alguma maneira, estão em nossas vidas para também nos ensinar. Eu tinha muito que agradecer por perceber isso ainda no começo da minha juventude, pois muitos demoram anos até alcançar esse estágio alto de percepção. 121
  • 122.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Sentei-me na cama para fazer minhas orações e agradeci pelo dia perfeito que teria. Então, escutei a voz de Heixe. _ Anna... Escute com atenção o que tenho a lhe falar. Fechei os olhos para prestar atenção e não me distrair com as coisas ao meu redor. Heixe, então, prosseguiu: _ Anna, tenha muito cuidado ao falar com sua madrasta hoje, pois ela tentará provocá-la ao máximo. É a maneira que ela vê de prejudicá-la moralmente na presença de seu pai. Tenha cuidado com o conde, Anna. Ele não é o que parece ser. _ Como assim? Já desconfio dele, mas o que quer dizer com essas palavras? _ Sei que você tem suas desconfianças, mas esse homem é ainda mais perigoso do que pensa. É um assassino perigoso e sanguinário, e também um usurpador. Fiquei muito assustada com aquela revelação. Porém, Heixe não me deu tempo de pensar muito e continuou: _ Você deve correr, pois o seu tempo nesta casa está passando. Vá à casa de madame Hortência amanhã. Lá encontrará uma resposta para poder ajudar a sua amiga Maria. Pergunte a ela sobre o paradeiro de um escravo chamado Lourival. Eu não conseguia entender em que madame Hortência poderia me ajudar com relação a Maria. A voz de Heixe foi se distanciando até que não mais pude ouvi-lo. Mas aquelas palavras ficaram na minha mente como uma espécie de enigma. Fui à janela tentar colocar a cabeça em ordem, pois a cada minuto ela parecia ficar mais cheia de problemas. Pude observar o vento. Ele estava mudo e um mistério pairava no ar. Estava tão nervosa e assustada que podia sentir o pulsar das minhas veias. Meu coração estava apertado dentro do peito. Quis fugir, desaparecer, mas para onde eu iria? Maria bateu à porta, despertando-me daquele transe de agonia. Ela havia vindo perguntar se já poderia pedir que me trouxessem a tina para colocar a água do meu banho. Mas, ao ver-me, logo percebeu que havia algo de muito errado comigo. _ Você está bem, senhorita Anna? Precisa de alguma coisa? O que aconteceu? Seu rosto está empalidecido. Tive que contar à Maria sobre a mensagem que Heixe me transmitiu. Só omiti a parte em que ele se referia a ela. Maria abaixou a cabeça e, por fim, disse-me: _ Eu deveria ter-lhe contado o que via em meu tarô. Talvez eu pudesse ter evitado tantos transtornos como esse. Não deveria tê-la levado à casa de minha irmã, também. _ Ora, Maria, não seja tola. Nada que falasse comigo antes teria sentido. Eu era uma jovem mimada e alienada. Não daria importância a nada que me dissesse antes. E por que está arrependida por ter me levado à casa de sua irmã? _ Porque acho que sou culpada. _ Culpada pelo quê? _ Por ter antecipado o seu destino. _ Maria, ninguém antecipa o destino de ninguém. E além do mais, como eu poderia me interar do meu dom sem a sua ajuda e a de sua irmã? Descobri o meu caminho graças à senhora. Não tem do que se arrepender. Maria pareceu não estar muito certa das minhas palavras. Depois de conversarmos mais alguns instantes, ela desceu para terminar seus afazeres. Fiquei dentro da tina com água quente por quase uma hora, pois precisava relaxar. Depois que me vesti, fui dar uma volta pelo jardim: queria tomar o sol da manhã e receber boas energias da natureza. Joseph estava cuidando das flores como sempre fazia, pacientemente. Acenou-me e retribuí, com um sorriso. Meu coração estava pesado! Sentei-me em um banco, próximo ao canteiro de girassóis, e clamei a Deus: _ Deus todo poderoso, se puder, apascente meu coração, cuja aflição é dominante e incessante. Mostra-me a verdade onde ela estiver, mesmo que escondida dos meus olhos e obscura para meu espírito. Estende sobre mim a Sua mão e guie-me segundo Sua vontade. Acalme essa angústia que 122
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus insiste em me rodear como os mares em dias de tormenta. Toque no meu eterno amor com seu eterno amor e dê-lhe a paz que ele almeja. Dê-lhe a certeza do meu amor por ele e diga-lhe que em breve nos encontraremos. Apascente aquele coração aflito, para que o meu também encontre essa harmonia. Naquele momento, meu coração abrandou-se e senti no vento um perfume masculino muito discreto. Tive a certeza de que aquele era o cheiro do homem dos meus sonhos. Sorri e meus pensamentos foram se tornando cada vez mais leves. Era como se Deus tivesse me ouvido e, de alguma maneira, o monge também. Senti uma lágrima de felicidade rolar em minhas faces. Agradeci mais uma vez ao céu por ter me ouvido. Voltei para o meu quarto e, lá estando, percebi que a única maneira de conseguir calar o pensamento em certos momentos era trabalhando. Olhei tudo ao meu redor e resolvi fazer uma limpeza em meus guardados. Tirei e encaixei tudo o que não me servia mais. Juntei muitos vestidos que nunca usei e nunca usaria e os coloquei em caixas. Chamei por Maria e por Joana para que me ajudassem. Quando chegaram ao meu quarto, deparando-se com tamanha confusão, Maria falou: _ Santo Deus, o que houve aqui!? Parece que um vento forte passou dentro deste quarto! Joana ficou em pé na porta, sem saber que rumo tomar. Por minha vez, percebendo que as duas estavam espantadas, disse: _ Estou apenas fazendo uma limpeza nos meus guardados. Mas, com certeza, não chamei as duas para me criticarem ou ficarem em pé, sem nada fazer. Estava de joelhos, guardando uns livros dentro de uma caixa, e prossegui: _ Peguem essas caixas aí, perto da porta, e levem tudo lá para cima, junto aos pertences de minha mãe. São livros velhos que eu havia trazido para cá e não levei de volta. As outras duas caixas ao lado da cama são para dar a Lorenzo. São vestidos que estou dando para Samara. _ E esta caixa aqui, senhorita? - perguntou Joana. _ Essa pode deixar debaixo da minha cama, usarei em breve. _ E o que há dentro dela? _ Coisa de meu uso pessoal. - eu estava me referindo aos objetos que comprei para o uso da magia. Depois de tudo organizado, desci e fui almoçar com Maria na cozinha. Aproveitando que ainda estávamos sozinhas, disse-lhe: _ Acho, Maria, que está na hora de tirar esse luto. _ Não me sentiria bem, senhorita Anna. Já me habituei a andar com essa cor. _ Mas deveria pensar com carinho no que lhe estou sugerindo. Afinal, só a senhora ainda mantém o luto nesta casa. _ Sim, por certo. Mas é um hábito tão antigo que nem sei se tenho algo menos sóbrio. _ Tenho certeza de que encontrará algo em seus guardados. A senhora ainda é bastante jovem para andar por aí parecendo uma viúva. Devo lembrar que o viúvo desta casa há muito tempo já não usa luto. Pense, Maria: a cor negra, além de ser considerada uma cor fúnebre, é também uma cor que neutraliza as outras cores. Essa cor pode ter não só neutralizado a sua vida, mas também pode tê-la impedido de se casar. Maria ficou pensativa... Percebendo que havia tocado profundamente no seu eu, saí, deixando- a refletir sobre o assunto. De certa forma, eu tinha acabado de interferir indiretamente na vida dela. Fazendo isso, sem querer, mudamos a forma de agir e pensar de uma pessoa. Sabia que isso poderia ser perigoso. Mas, no caso de Maria, foi preciso: queria que ela tivesse outra postura sobre si mesma. Ela estava muito apegada a mim e, futuramente, sofreria com a minha ausência. Ela precisava se distanciar. Precisava ser feliz, e aquela cor havia se tornado uma espécie de cela em sua vida. Era como se ela fosse uma lagarta e estivesse precisando de uma mãozinha da natureza para se tornar uma bela borboleta. 123
  • 124.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Novamente em meu quarto, parei para escrever em meu diário. Aproveitei para dar uma cochilada: queria estar bem disposta para o jantar com o conde. Devo ter dormido muito, pois nem vi que meu pai e a minha madrasta haviam chegado. Quando despertei, Maria, toda aflita, veio avisar-me que, se não me apressasse em me arrumar, não daria tempo. O conde chegaria às oito para jantar. Em questão de uma hora, eu já estava pronta e descia as escadas para encontrar com meu pai na sala de jantar. Ele, por sua vez, estava tomando uma sangria. Ao ver-me, disse: _ Filha, está encantadora. Sabia que não me faria uma desfeita. _ E por que eu lhe faria uma desfeita, meu pai? Não estou entendendo. _ Pela atitude que teve ontem no jantar. Achei que estava dispensando o senhor conde, como sempre faz com seus pretendentes. Dei um sorriso, pois havia acabado de descobrir que estava certa. Depois disse, por fim: _ Então o senhor conde é meu pretende, meu pai? Não me lembro de o senhor ou quem quer que seja ter vindo a mim e me consultado se quero ou não me casar. _ Ora, Anna, já está com quase vinte anos. Daqui a pouco não haverá mais pedidos de casamento para a senhorita. Quer ficar uma solteirona como Maria? Não estarei aqui para sustentá- la para sempre. Diga-me, afinal, o que quer da vida, menina? Quando eu já estava pronta para responder, a condessa interrompeu-nos, dizendo: _ Boa noite, marido! Ao entrar, pude ouvir o que falava com sua filha. Creio que ela quer ser irmã de caridade. _ Boa noite, condessa! Mas por que a senhora acha isso de minha filha? _ Porque fiquei sabendo hoje que a sua querida filhinha andou fazendo caridade. _ É mesmo, Anna?! E que tipo de caridade? Para quem? _ Essa estúpida, meu querido esposo, andou dando todos os vestidos caríssimos dela para a criadagem. Agora, além de louca e caridosa, quer andar nua também. _ E por que fez isso, Anna? _ Se a senhora condessa deixar- me responder, poderei retratar-me. A megera olhou-me de cima abaixou, fazendo cara de antipatia. _ Meu pai, em primeiro lugar, não dei todos meus vestidos para a criadagem. Dei apenas alguns que já não usava mais e outros que nunca usaria, pois foi escolhido pela senhora condessa - que, por sinal, tem um péssimo gosto em se trajar. Dei, também, alguns sapatos velhos, entre outras coisas que não me serviam mais. Fiz uma limpeza em meus guardados, já estava sem espaço para tantas tralhas velhas e sem utilidades. Ressalto: não dei para a criadagem, dei a uma amiga. _ Uma indigente, pelo que me consta. - retrucou a condessa. _ Não sabia que ser pobre faz de uma pessoa indigente. Saiba que ela está noiva de nosso cavalariço, Lorenzo. _ Nossa, que partido! Quem sabe, marido, sua filha também queira se juntar à ralé? Vai ver está enamorada do cocheiro. Não me faltava mais nada agora, ter que conviver com esse tipo de gentinha dentro de minha casa. Além de ter que ouvir comentários sobre criar a filha solteirona de um homem viúvo, agora também ter que ser o alvo de comentários de que estamos tão pobres que, agora, andamos até com concubina do cavalariço! Olhe, marido, não posso aceitar isso de forma alguma. Não posso permitir que meu nome seja enlameado de tal forma perante a sociedade. Sinceramente, acho uma perda de tempo querer incluir sua filha no meio da sociedade. Já lhe havia sugerido: deveria trancá-la em um convento. Essa moça é cheia de espíritos imundos, e eles fazem dela o que bem querem. Ela é como a mãe dela, e o senhor meu marido sempre soube disso. Tive que me controlar ao máximo para não estrangulá-la com minhas próprias mãos. Mas pensei no que Heixe havia me pedido e avisado. Respirei fundo e disse: _ Fale o que quiser falar de mim, mas não fale mal da minha mãe, sua bruxa! A intrusa nesta casa é a senhora. Só não vou tolerar mais insultos de sua parte, e só não abro minha boca agora para 124
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus contar a meu pai sobre quem é a senhora verdadeiramente, porque não quero que ele se aborreça. E muito menos tenho a intenção de estragar o jantar dele. Pense bem, senhora condessa, se eu abrir minha boca é a senhora quem terá que dar certas explicações por aqui. Como, por exemplo, como a senhora conseguiu que o senhor conde lhe desse carta branca para organizar o baile de apresentação dele, sendo que mal se conhecem? Meu pai interrompeu aquela discussão e falou, num tom rouco e nervoso: _ Pare as duas com essa discussão! Não quero que o conde chegue e pegue-as rolando pelo chão como duas loucas. Sua madrasta está certa, Anna: não fica bem que seja vista por aí na companhia de uma plebeia. Seja essa moça quem for, não quero saber que está andando com ela. Não tem estirpe! Não faz parte da nossa sociedade. O que está acontecendo com você, minha filha? Era tão sensata! Agora mal cheguei e já percebo mudanças adversas em seu comportamento. Não me faça tomar nenhuma atitude drástica a seu respeito. Acho muito bonito que queira fazer caridade - isso é até bom para a nossa reputação. Mas não precisa fazer parte da ralé. Realmente, está mesmo se parecendo como sua mãe: ela não tinha medidas, estava sempre se misturando com esse tipo de gente. Até que... - ele se calou, parecia engasgado. _ Até que o quê, pai? O que o senhor ia me dizer? _ Outra hora, Anna, falaremos sobre esse assunto. Agora não quero mais chatear-me com esse tipo de conversa. Maria entrou, avisando-nos que o senhor conde havia chegado. Meu pai foi recebê-lo. Afastei- me da minha madrasta para não ser mais provocada por ela. Aquela conversa ficaria pendente, por certo, porque eu não deixaria que meu pai esquecesse. Tinha algo estranho em relação à história da morte de minha mãe. Agora, era uma questão de honra descobrir. Maria, por certo, saberia responder-me. Interrogá-la-ia na manhã seguinte, a caminho da casa de madame Hortência. Meu pai chegou à porta da sala de estar na companhia do conde, que me deu um sorriso enigmático. Em seguida, veio beijar-me a mão. Em outra ocasião, eu teria puxado-a. Mas, naquele momento, tive que fingir certo prazer. Ele levantou a cabeça e fez-me um elogio: _ Está linda, senhorita Anna. Não me cansarei de dizer isso. _ O senhor é muito gentil, conde. Confesso que está muito elegante também. Teremos uma noite muito agradável. Espero que possamos tirar a impressão ruim causada por ambos. Olhou-me admirado e falou: _ Tenho certeza de que teremos todo o tempo do mundo para que mude a má impressão que posso lhe ter causado. Quanto à senhorita, acredite: só me causa boas impressões. Olhou-me parecendo desnudar-me, o que me causou ainda mais repulsa por ele. Foi muito difícil controlar-me a noite toda, esquivando-me das investidas do conde. Estava me sentindo péssima por ter que manter uma personalidade que não era minha. Era repulsivo ter que fingir daquela forma. Mas, se eu quisesse descobrir o que estava acontecendo, tinha que manter a aparência. O conde mal dirigia a palavra à condessa, mas ela não parecia irritada - o que era intrigante, pois sempre quis ser o centro de todas as atenções. Após o jantar, fui com o conde até a varanda, onde ele me disse: _ Anna, creio já ter notado minha afeição pela senhorita. _ Sim, senhor conde. Creio que sim. _ Quero pedir-lhe que me dê a honra de dançar a primeira valsa comigo no baile. Antes que eu pudesse responder alguma coisa, ele prosseguiu: _ Saiba que não aceito um não como resposta. Então, o que me diz, senhorita Anna? _ Digo que o senhor é um homem muito persuasivo, conde. Mesmo que eu lhe disser um sim contra meu gosto, mesmo assim ficará feliz. Então, mediante a esse tão gentil convite, aceito. Ele sorriu satisfatoriamente. Parecia ter ganhado mais um jogo. No restante daquela noite, o conde ficou na sala, jogando com meu pai; a condessa retirou- se aos seus aposentos e, em seguida, 125
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus fiz o mesmo. Passei metade da noite imaginando o que o meu pai quis dizer em relação à minha mãe. Na manhã seguinte, não deixei que Maria viesse ao meu quarto, como de costume. Acordei muito mais cedo do que o resto da criadagem. Minha mente precisava de distração. Então, ocupei meu corpo com algo útil. Desci, fui para a cozinha e preparei o café para todos. Enquanto aparecia imaginação em minha cabeça, ia criando as guloseimas. Maria escutou o barulho na cozinha e levantou-se para ver o que era. Ao perceber a minha presença, disse: _ Senhorita Anna, pare imediatamente o que está fazendo ou seremos todos punidos por causa dessa sua atitude. _ Não posso, Maria. Preciso fazer alguma coisa para não deixar minha mente torturar-me com tantos pensamentos. Maria, percebendo que eu estava fora de mim, abraçou-me, tentando fazer-me parar - eu estava batendo uma massa de bolo compulsivamente. Então, ainda me abraçando, ela perguntou: _ O que está realmente acontecendo, minha criança? Aquelas palavras foram motivos para que eu desabasse em choro profundo. Então, entre soluços, respondi: _ Como realmente a minha mãe faleceu? Precisa contar-me isso, Maria. Ontem, pouco antes do jantar, a condessa insinuou que eu iria terminar louca como a minha mãe. Meu pai quase falou alguma coisa. Mas, como sempre, a conversa ficou perdida no ar. Precisa dizer-me a verdade. _ Não sei muito, filha. O que sei é que sua mãe ficava a maior parte do tempo escrevendo naquele diário que está lá no quarto dela. Com o passar dos tempos, seu pai começou a se distanciar dela dia após dia. Sua mãe cobrava muito as ausências dele, e ele passou a dizer que sua mãe estava muito doente. Quando ela engravidou da senhorita, a história complicou-se, pois seu pai não nos permitia cuidar de Elizabeth. Somente ele e o doutor entravam no quarto. Às vezes, escutávamos os gritos e pedidos de socorro dela, mas nunca nos foi permitido tomar alguma providência. Aquela revelação foi um golpe no meu coração. Então, disse: _ Maria, a senhora tem que me dar a chaves do quarto de minha mãe. Não pode me negar isso. _ Filha, se eu fizer isso, serei punida. Ninguém entra naquele quarto há anos, a não ser para limpá-lo. Se descobrirem que lhe dei as chaves, expulsar-me-ão desta casa. _ Não vai lhe acontecer absolutamente nada, Maria, eu prometo. Mas preciso entrar naquele quarto. Maria, percebendo que não conseguiria convencer-me do contrário, disse: _ Está bem, só lhe peço que espere um dia em que os senhores não estejam em casa. _ Obrigada, Maria! Beijei-lhe as mãos e continuei: _ Já que a senhora está de pé, então venha: sente-se, vamos tomar o desjejum juntas. _ Serei a primeira a ter que experimentar sua tentativa de envenenamento? _ Lógico que não! Esqueceu-se de que fui criada no meio das cozinheiras e aprendi tudo? Por fim, Maria aprovou meus quitutes. Depois de ajudá-la a arrumar a bagunça que eu havia feito, subi para o meu quarto, para me limpar. Estava parecendo um boneco de neve, de tanta farinha que tinha no meu corpo. Comuniquei a ela que sairíamos, pois queria ir à casa de madame Hortência. Ela fez uma caretinha de desaprovação, mas sabia que seria impossível segurar-me dentro de casa. Esperei Maria subir para lhe avisar que meu pai já sabia que sairíamos. Não queria que a condessa arranjasse algum contra tempo. Já no hall de entrada, encontrei meu pai, que me indagou: _ Posso saber por que quer ir tão cedo à casa de madame Hortência? 126
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Ora, meu pai. Não foi o senhor quem me disse que eu deveria me comportar como uma moça da sociedade? Então, estou indo à casa de madame Hortência para pedir-lhe que faça um vestido à altura do baile do conde. Não quer que eu pareça com a filha de uma criada, quer? _ Se é assim, então vá! Quero que fique radiante. _ Ficarei, meu pai. Não o decepcionarei. A propósito, estou tirando o luto de Maria. Espero que o senhor aprove. Não fica bem que ela receba aos convivas com a mesma roupa que usa há séculos. _ Se acha que isso pode ajudar em alguma coisa e lhe faz feliz, então, fique à vontade. Saí e encontrei-me com Maria na porta da carruagem. Contei tudo o que o meu pai me perguntou. Ela concordou que eu tivesse lhe dito o que faria na cidade. Assim, não daríamos margem à condessa. Chegamos, por fim, em frente à casa cor de rosa de madame Hortência. Lorenzo foi apressadamente ajudar-nos a descer. Em seguida, pediu-me autorização para ir ver a noiva. Logicamente, consenti. O lacaio de madame Hortência veio às pressas ajudar-nos. Era um rapaz de estatura mediana, mas muito bem encorpado, apesar da pouca idade que aparentava. Ao entramos, madame Hortência recebeu-nos de braços abertos e perguntou: _ Oh! Minha querida, que prazer e surpresa tê-la aqui! Em que posso lhe servir hoje? _ Meu pai dará uma festa em nossa casa para apresentar o senhor conde Celso D’Louchoa à nossa sociedade. Portanto, viemos aqui para que a senhora me faça um vestido lindo para o baile do conde. Quero, também, que me veja alguns modelos para Maria escolher. Ela está tirando o luto. Mas, por favor, madame: nada extravagante. _ Oh! Minha querida, pode deixar: vou caprichar no seu modelito. Será algo muito especial. E quanto à senhora Maria, santo deus! Já estava mais que na hora de tirar aquele luto horrível! Chamou todas as suas costureiras e, de imediato, foram tiradas as medidas de Maria. Enquanto isso, madame Hortência ia tagarelando sem parar a respeito da festa. _ Espero que o seu pai me convide, pois sentirei insultada caso ele não o faça. Imagine, eu, uma costureira renomada, que fiz vestidos até para a corte francesa, ser deixada de lado em tamanho evento! E quando será o grande baile? _ Daqui a duas semanas. _ Oh, sim! Isso é tempo suficiente para terminar os modelitos a tempo. Enquanto Maria escolhia os modelos a seu agrado, chamei Madame Hortência à parte e disse, quase em seu ouvido: _ Madame Hortência, quero perguntar-lhe uma coisinha. Mas tem que prometer-me que manterá em segredo. A mulher, que adorava um fuxico, arregalou os olhos, fazendo um sinal positivo com a cabeça. Quase num sussurro, indagou-me: _ Oh, é claro! Do que se trata? Saiba que sou um túmulo: o que me contar, guardo comigo a sete chaves. Percebendo que madame Hortência estava achando que se tratava de um mexerico, respondi: _ Na verdade, não quero lhe contar coisa alguma. Quero, sim, que a senhora me responda uma coisa. _ Claro, querida. O que quiser saber, pode me perguntar. Sei de quase tudo o que acontece nesta cidade. Não que eu seja uma mexeriqueira, mas é que muitas coisas chegam aos meus ouvidos. _ Sei, e jamais pensaria que a senhora é uma mexeriqueira. Mas o que preciso saber é o seguinte: a senhora, por acaso, tem ou teve um escravo de nome Lourival? _ Oh! Mas por que a senhorita estaria interessada naquele negro? Acaso tem a intenção de comprá-lo? Não sabe como me arrependo de tê-lo comprado do vigário. Aquele insubordinado e 127
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus insolente só me deu despesas. Vendi-o há muito tempo para Senhor Dominique. Soube que morreu no tronco por causa de suas insubordinações. Imagine, tentou fugir para o quilombo várias vezes e foi pego pelo capitão do mato. Apanhou até a morte - graças a Deus, ou todos os escravos do condado pensariam em fazer o mesmo. Ele era quase um Deus para toda aquela negrada suja. Ela me dava náuseas pela maneira como falava, assim, de seres humanos, criaturas perfeitas e filhos do mesmo criador. Por certo, o pobre homem estava em desespero e cansado de ser torturado quando resolveu fugir. Infelizmente, tinha que conviver com pessoas preconceituosas. Aquela mulher era uma pessoa digna de pena: por ser um espírito muito atrasado, precisaria muito de minhas orações. Por certo, em um futuro próximo, ela voltaria como escrava ou empregada de uma pessoa de cor, que a faria pagar por seus delitos. Ela não sabia, mas ela mesma escolheria esse destino para aprender e evoluir. Coloquei as mãos sobre as mãos dela e fiz uma oração silenciosa, fazendo-a esquecer tudo o que havíamos conversado. Sei que não era correto usar de meus dons para apagar a memória de uma pessoa. Mas, no caso de madame Hortência, foi necessário. Fui interrompida pelo lacaio, que veio avisá-la da chegada de mais uma cliente. Ele ficou me olhando, meio assustado. Disse-lhe que estávamos fazendo uma oração. Madame Hortência ficou meio aérea e perguntou-me: _ Do que mesmo estávamos falando, minha querida? _ Do vestido que a senhora irá fazer para mim. Lembre-se de que terá que ser exclusivo. Tinha a certeza de que, daquele dia em diante, aquela mulher passaria a olhar para as pessoas de cor de uma nova maneira. Infelizmente, tive que usar meus poderes com um ser tão ignorante. Tomei fôlego antes de sairmos da pequena salinha onde estávamos. Madame Hortência saiu na minha frente. Foi quando percebi que o jovem lacaio apalpara seu enorme glúteo. Havia muitas intimidades entre aquela repulsiva senhora e aquele jovem empregado. Continuaram com aquela intimidade até que os perdi de vista. Cheguei a uma conclusão: por certo, o jovem negro Lourival - por dignidade ou por amor à Maria - não se sucumbira às vontades de madame Hortência. Esse foi o erro do pobre rapaz. Sabia que eram épocas difíceis para todos e que, muitas vezes, os maridos viam-se obrigados a viajar, deixando sozinhas em casa suas jovens e fogosas esposas. Muitas delas se entregavam por pura satisfação à luxúria - como a condessa. Outras se mantinham falsamente discretas, de romances com seus escravos. Outras, ainda, arranjavam um consorte - como madame Hortência. Isso, é claro, não era constante. Também existiam senhoras realmente recatadas e sinceras em seus sentimentos e fidelidade - o que era uma exceção, pois a maioria dessas esposas era muito mal amada. Eu não havia vindo neste mundo para julgar ninguém, mas aquela cena de hipocrisia fazia-me muito mal. Essa era a sociedade que meu pai fazia questão que eu frequentasse. Bom, o meu maior problema foi como contar à Maria que seu único amor havia sido assassinado. Despedimo-nos o mais rápido possível de madame Hortência, pois não queria ficar nem mais um segundo perto daquela sujeira toda. Pedi à Maria que fôssemos à igreja local, pois precisava falar com o padre Ignácio. Ela, por sua vez, perguntou-me: _ O que houve? Está com problemas de consciência pesada, logo assim, pela manhã? Sorri, mas não era essa a minha real vontade. A contra gosto, respondi: _ Preciso caminhar, respirar e rezar um pouco. Por isso, quero ir até a igreja. Quero sentir o vento da manhã soprando em meu rosto. Mas Maria não era tola e logo desconfiou, perguntando: _ O que foi que aquela mulher lhe fez? _ A mim, não fez nada. O problema é o que ela faz a ela e aos outros, todos os dias. Sei que não sou santa e não posso salvar a humanidade, mas fico triste quando vejo um espírito se denegrir daquele jeito. E o pior é que pessoas assim vão à igreja todos os domingos. Comungam cheias de 128
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus pecado e sentem-se na capacidade de julgar os outros. Tive que gastar meu poder de esquecimento com aquela criatura vulgar. _ Então, foi muito sério o que estava falando com ela. _ Sim, Maria, foi. Quando chegarmos à igreja, depois da conversa que terei com o padre Ignácio, se a resposta for do meu agrado, prometo que lhe conto tudo. Mas agora preciso encontrar forças em Deus Pai. Sabe bem que, quando usamos nossos poderes, ficamos fracas. Apoiei-me em Maria e fomos caminhando abraçadas até a igreja. Ao chegarmos lá, corri os olhos por toda aquela imensidão, tentando encontrar o padre Ignácio. Foi em vão: só encontrei silêncio, frio e muito luxo. Mas, de repente, ouvi barulhos de chinelos arrastando pelo chão. Às vezes, ouvir barulhos em lugares tão vazios dá-nos certo medo. Olhei imediatamente para trás, achando ser um fantasma. É nas horas mais banais que temos que aprender a enfrentar nossos temores. Pois, quando enfrentamos as menores coisas, estamos treinando para enfrentar as maiores. Abri um largo sorriso ao perceber aquela figura amiga e bem materializada. Que alívio, não estava preparada para lidar com um incumbo - não estando tão fraca. A mente, em estado débil, cria formas, cores e até barulhos. Não queria e não iria, de forma alguma, deixar minha mente ficar atrasada e cheia de absurdos. Já sabia que os desencarnados não poderiam me fazer mal. O mal eram os meus semelhantes encarnados: estes, sim, poderiam me prejudicar de todas as maneiras. Era incrível perceber como um lugar que pode nos trazer paz consegue, também, causar-nos tanto pânico. Isso ocorre por causa das duas energias adversas que se misturam. Muitos vão a lugares santos para rezar e pedir o bem, mas existem também aqueles que entram nestes lugares com o coração cheio de egoísmo, ambição e até mesmo ódio. Existem pessoas que pedem a Deus o mal, como já citei antes. Deus lhes concede os desejos do coração, não importa qual ele seja. Não é a quem pedimos, mas a força com a qual pedimos. Algumas pessoas têm o pensamento errôneo de que os íncubos ou súcubos não entram em locais ou solos sagrados. Pois digo que entram, sim. A maioria desses espíritos assombra igrejas e locais considerados sagrados porque apega-se a esses lugares, ou também porque vão acompanhando as pessoas que frequentam esses locais. Esse pensamento errôneo chega a ser quase uma lenda. Por isso, a maioria desses locais é assombrada devido às tantas energias que se misturam no nosso espaço invisível. No mundo espiritual, existe uma guerra onde o bem combate o mal, onde os anjos lutam contra os demônios, onde espíritos iluminados tentam doutrinar os espíritos impuros e rebeldes. Por isso, é necessário não só tentar entender o mundo espiritual, mas também respeitar o invisível. Essa guerra sempre afetou a humanidade desde a época de Cristo. Por certo, em um futuro muito próximo, essa guerra invisível será muito mais prejudicial, pois o homem, em sua evolução científica, afastar-se-á da fé. Com isso, acontecerá a degradação da humanidade. Temos que ter uma noção básica de que nem tudo é lógica, nem tudo é explicável e nem tudo é ciência. Pois, se Deus quisesse que fôssemos sabedores de todas as coisas, o mundo e as pessoas não precisariam de um Mestre para guiá-los. Maria havia me deixado sozinha dentro da igreja - o que me foi muito bom, pois consegui recuperar minhas forças e colocar minhas ideias em dia. Despertei-me daquele quase transe porque senti alguém me tocar com as mãos. Quando me virei para ver quem era, disse: _ Padre Ignácio! Que bom vê-lo. Estava mesmo precisando falar com o senhor. Ele, por sua vez, respondeu em tom de brincadeira: _ Anda se assustando na casa de Deus, querida? O que foi que houve, minha filha? O que lhe fizeram os santos desta paróquia? Gostaria de ter-lhe dito que não eram os santos que me assustavam, mas sim as pessoas. Mas, por fim, resolvi apenas responder: _ Preciso de respostas, padre. Somente o senhor poderá me responder. 129
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Calma, filha. Sinto que está muito afoita. Respire um pouco e depois me explique de que tipo de respostas está precisando. _ Quero, primeiro, que o senhor me responda: que paradeiro levou um escravo de nome Lourival? O senhor o conheceu, não? _ Sim, por certo. Comprei-o da fazenda de seu pai. Mas, a pedido do mesmo, tive que vendê-lo para madame Hortência. Parecia que esse homem encontrava-se com Maria, sua governanta, às escondidas. _ E por que meu pai estaria tão incomodado que Maria se relacionasse com um escravo? _ Porque seu pai temia que Maria fugisse com ele e abandonasse a senhorita, ainda pequena. Seu avô pegou Maria ainda menina e ela foi criada para cuidar da casa. Recebeu boa educação, mas não poderia nunca se casar. Quando sua mãe casou-se com o seu pai, Maria era pouca coisa mais velha que ela, e passou a ser a governanta da sua casa. Ela só saía de casa com a sua mãe. As duas eram muito amigas. Como seu pai viajava muito, ao descobrir o envolvimento de Maria com esse jovem escravo, logo o vendeu. Seu pai não queria perder a companhia de sua mãe. Sua mãe disse que não se importaria que Maria fugisse para ser feliz, mas seu pai não aceitava. Trancou Maria por dias em um sótão, até que tivesse conseguido vender o escravo. Então, a pedido de seu pai, comprei o escravo, que chegou até a mim muito debilitado. Cuidei de suas feridas físicas. Mas, infelizmente, não pude curar sua alma, pois estava indo demasiadamente para um precipício sem volta. O ódio no coração daquele homem era muito grande. A mim nunca fez nada - muito pelo contrário, sempre me tratou com respeito. Então, após alguns meses, Maria descobriu onde Lourival estava e passaram a se encontrar às escondidas, aqui dentro desta igreja. Seu pai, ao descobrir isso, mandou que castigassem Maria, colocando-a no tronco, para que servisse de exemplo a todos. Fui obrigado por seu pai a vendê-lo. A primeira pessoa que o quis foi madame Hortência. Mas ela também se viu obrigada a vendê-lo para um fazendeiro muito cruel. Dizem que Lourival fugiu e, ao ser capturado a caminho de um quilombo, morreu com um tiro. Mas não acredito que aquele homem tenha fugido, pois o amor dele por sua governanta era muito grande. Ele nunca deixaria Maria sozinha. Os dois haviam feito uma espécie de juramento de nunca um deixar o outro. _ Meu Deus, padre, isso é muito grave! Eu tinha meu pai em alto preço, mas a cada dia descubro uma coisa sobre ele que mais me decepciona. Não sei como pude ser tão cega! _ Não pense assim, filha! _ E o que o senhor quer que eu pense? Na minha imaginação, meu pai era um herói. Nunca o vi fazendo nada de mais, nunca soube que ele torturasse os escravos. E agora venho saber que ele surrou Maria! Sempre pensei que ela estivesse conosco esses anos todos porque havia feito um juramento à minha mãe de sempre cuidar de mim. E agora o senhor está me contando que ela foi obrigada a ficar comigo. Santo Deus, padre! Minha dívida com essa mulher é muito maior do que eu supunha. _ Sinto ter sido eu a lhe contar tudo isso, senhorita Anna, pois estou vendo que é uma pessoa de coração puro e de alma inocente. É uma pena que essa pureza será corrompida em breve. _ Não, padre. Isso não irá acontecer comigo. Agora quero que o senhor me responda outra pergunta. _ E qual seria, minha filha? _ Conte-me exatamente como minha mãe morreu. Sempre me contaram que ela morreu no parto, dando-me a luz. Mas fiquei sabendo de fatos que demonstram que isso não é a verdadeira história. _ Senhorita Anna, essa é uma história muito perigosa de se envolver. Posso pagar por isso caso seu pai descubra que lhe falei sobre esses assuntos. _ Por favor, padre, preciso saber. O senhor não pode me negar isso. Passei muitos anos vivendo na ignorância. Agora, descobrir a verdade é uma questão de honra para mim. O senhor entende? 130
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim, entendo. Mas que fique bem claro que não podem saber que fui eu quem lhe contou isso! _ Não se preocupe, padre. Não contarei a ninguém. _ Não sei muito. Mas o pouco que vou lhe contar é o que sua mãe me contava quando eu tinha permissão de visitá-la. Pouco antes de Elizabeth ficar doente, ela me contou o seguinte... _ Minha mãe estava doente? Mas que tipo de doença ela tinha? Pensei que ela tivesse falecido por uma insuficiência respiratória durante o meu parto. _ Por favor, minha filha, deixe-me terminar. Elizabeth, segundo o senhor seu pai, estava sofrendo de perturbações espirituais. Foi quando o seu pai chamou-me para fazer um exorcismo. Primeiro, tive que me certificar de que era verdade o que seu pai estava alegando. _ E era, padre? _ Não. Felizmente, Elizabeth não tinha nenhum indício de estar possuída ou perturbada por um espírito maligno. Ela me pareceu uma mulher muito sensata e muito ingênua, assim como a senhorita. _ E por que meu pai estava acusando minha mãe tão levianamente? _ Seu pai sempre foi um homem muito ambicioso, senhorita Anna, e também um jogador compulsivo. Ele havia perdido em um jogo a metade da fortuna da família. Seu pai sempre viajou muito, e sua mãe ficava sozinha durante meses dento de casa. Seu pai também passou a não desejar mais sua mãe como mulher. Então, ela desconfiou das atitudes dele. As brigas entre os dois começaram a deixar sua mãe muito depressiva e angustiada. Moramos em uma cidade pequena e os boatos a respeito de seu pai cresciam. Chegou aos ouvidos de sua mãe um suposto envolvimento dele com uma condessa muito rica. _ Padre, está querendo me dizer que o senhor meu pai e a condessa Del Prat já se conheciam quando a minha mãe ainda estava viva? - sentei-me no banco da igreja para não cair, pois minhas pernas tremiam sem parar. _ Não sei se a sua madrasta e a suposta condessa que comentam são a mesma pessoa. Mas o fato é que Elizabeth narrou tudo isso em um diário. Ela queria que a senhorita, ao nascer, soubesse toda a verdade. Ela chegou a ameaçar de acusar seu pai de adultério. Foi, então, que seu pai começou a levantar a falsa suposição de que ela estava possuída por espíritos imundos. Quando pude constatar esse fato e provar que era falso, seu pai, então, aliou-se ao doutor e sua mãe foi declarada como louca. A intenção de seu pai era internar Elizabeth em um manicômio assim que a senhorita nascesse. _ Então, foi por isso que ele a manteve trancada em seus aposentos? _ Sim, nem mesmo Maria podia entrar para vê-la. Somente ele e o doutor tinham essa permissão. Houve um baile em sua casa e Elizabeth conseguiu, nesse dia, escapar do cárcere. Dizem que ela se vestiu de negro e foi para o meio de todos, e flagrou seu pai junto a essa condessa de quem tanto todos falavam. _ O senhor está me dizendo que o meu pai deu um baile em minha casa com a minha mãe ainda viva para essa mulher? _ Foi o que me disseram, filha. Talvez Maria possa lhe esclarecer mais sobre esses fatos. _ E onde está o diário de minha mãe? _ Não sei, filha. Talvez ela o tenha escondido. Seu pai também nunca o achou. Fiquei pensando e, depois, respondi: _ Acho que eu sei onde possa estar, padre. _ Filha, prometa-me que terá muito cuidado. _ Não se preocupe, padre, eu terei. E quanto a esse conde inglês, o que o senhor sabe? _ Na verdade, quase nada. Até achei que estivesse morto. _ Como assim? 131
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Parece que houve um assassinato e, se não estou enganado, a história é que ele e o pai haviam morrido. Mas deve ser apenas um boato. _ Sim, deve ser um boato. Fiquei de cabeça baixa, pensando em como agiria ao ver meu pai. Percebendo meu jeito, padre Ignácio falou: _ A senhorita está bem? _ Sim, estou. Preciso ir, Maria está me esperando lá fora. Não posso me demorar mais. _ Está bem. Espero que a senhorita consiga resolver seus problemas com sabedoria. _ Vou tentar, padre. Prometo. Tomei sua benção e saí para encontrar-me com Maria. Achei-a parada, estática, em pé em um dos degraus da igreja. Deu-me tanta pena saber que aquela mulher havia sofrido tanto! Caminhei em direção a ela e coloquei as mãos em seu ombro. Ela deu um pulo de susto. Disse-lhe: _ Fique calma, Maria. Não há do que temer. _ Estava distraída em minhas lembranças. Então, como foi a conversa com o padre? _ Instrutiva. E não agora, mas futuramente, falaremos sobre o que eu e o padre Ignácio conversamos. Agora preciso, ainda, digerir o que ele me contou. Vamos para casa, antes que comessem a ter ideias erradas sobre a nossa ausência. Maria parecia não estar muito bem, pois não falou muito no caminho de volta naquele dia. Chegamos à frente da mansão Del Prat e já não senti mais aquela casa como minha. Pela primeira vez em minha vida, soube o que queria dizer. Senti nojo de mim mesma. Sim, senti nojo de mim mesma por pertencer àquela gente. A condessa estava nos esperando à varanda, com um sorriso que mais parecia deboche. Pedi a Deus para dar-me forças, pois não estava com a menor disposição para ouvir o que quer que fosse daquela boca imunda. Deus ouviu as minhas preces, porque passamos por ela, que nada mencionou. Apenas nos olhou com cara feia e cruzou os braços. Maria baixou a cabeça, mas fingi que não era comigo. Maria seguiu para seus afazeres e fui até a sala de leitura, onde encontrei meu pai bebendo. Ao ver-me, ele sorriu, falando: _ Estava gastando o pouco de dinheiro que ainda me resta? Percebi que ele não estava sóbrio. _ Não, meu pai, ainda deixei o bastante para o senhor gastar tudo em jogatinas ou para que sua amada esposa esbanje com futilidades. Ele veio cambaleando para o meu lado e desvencilhei-me dele. Por fim, ele disse, apontando o dedo para o meu rosto. _ Você está ficando uma fedelha muito insolente, sabia? Posso agora mesmo mandar que... - ele interrompeu a fala. _ Diga, meu pai! O que o senhor vai mandar que me façam? Serei trancada em meu quarto como uma louca, ou irá me amarrar a um tronco e dar-me chicotadas para eu servir de exemplo? Ele cambaleou e, embora não compreendesse o que eu estava falando, sentiu aquelas palavras como um peso na consciência. Então, afastou-se de mim e encostou-se na parede, sem saber o que dizer. Saí da sala, deixando-o com o fantasma de suas lembranças. Fui para a cozinha atrás de Maria. Deparei-me com ela consolando Tereza, que estava chorando. Quis saber o que estava acontecendo. Foi quando Maria respondeu-me: _ O netinho de Tereza está muito doente. Ela pediu autorização à condessa para ir até a casa da filha, mas ela não deu. Pensei em uma solução para aquele problema e disse: _ Pode ir, Tereza. Responsabilizo-me. Depois falo com o meu pai a respeito. _ Mas, senhorita, a condessa poderá puni-la também. E quem fará o jantar? _ Joana, ora! Maria e eu tentaremos despistar a condessa. Saia pelos fundos, para que ninguém a veja. 132
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Ela beijou as minhas mãos em agradecimento e eu disse: _ Vá logo, mulher! Está perdendo o seu tempo comigo! Tereza saiu de costas, agradecendo. Maria perguntou-me: _ O que falarei à condessa, caso ela dê pela falta de Tereza? _ Não se preocupe. Ela está ocupadíssima com os preparativos do baile para o conde. Eu e Maria comemos uma prenda na cozinha. Não estava com muita fome. Acabei deixando metade do que estava comendo de lado. Subi para meu quarto e fui meditar. Aquele havia sido um dia bastante difícil. Quase deixei que energias inferiores me perturbassem a alma. Senti-me fraca e incapaz por não estar conseguindo falar com Maria. Temos que ter muito cuidado com a tristeza. Ela nos deixa vulnerável. É por isso que uma bruxa não pode se apaixonar: a tristeza e a paixão andam de mãos dadas e, por nos fazer chorar, enfraquecemos e as lágrimas não nos deixam ver com clareza que caminho tomar. Abri a janela e olhei para o céu: a deusa Lua estava magnífica aquela noite; sua luz iluminou tudo ao redor. Recorri a ela para recarregar minhas forças. Depois de fazer minhas orações, fui para a cama e adormeci tranquilamente. Horas depois, um beijo na testa acordou-me suavemente. Abri os olhos com Maria dando-me um bom dia. _ Bom dia, filha! Dormiu bem? Desculpe-me tê-la acordado assim, tão cedo, mas creio que precisamos conversar. Depois de dar um bocejo, espreguicei-me na cama e disse: _ Bom dia, Maria, que horas são? Caiu da cama, foi? _ Ainda não amanheceu o dia, mas tive que vir até aqui. Preciso saber o que a senhorita tanto falava com o padre Ignácio. Nem venha me dizer que não é nada demais, porque sei que era sobre mim. Sabia que Maria sempre sentia quando alguma coisa estava errada. A minha sombra mental precisava saber a verdade e, como percebi que não daria mais para remediar esse fato, levantei-me da cama, fui até o meio do quarto, olhei-a nos olhos e falei: _ Sim, por certo está com razão: era mesmo sobre a senhora que eu e padre Ignácio falávamos. _ Sobre o que a senhorita conversou com aquele padre anarquista? _ Ele não é nenhum anarquista, Maria. Muito pelo contrário, ele é um homem muito sensato e honesto. Não seja como essas pessoas que o julgam só porque ele não é velho e antiquado como o padre Alencar. Por favor, Maria, não faça um julgamento precipitado antes de ouvir tudo o que tenho a lhe dizer. Sei muito bem porque a senhora tem esse conceito dele. Mas quero que saiba que ele não foi culpado por nada que aconteceu a Lourival. Padre Ignácio também foi obrigado a vendê-lo para não sofrer punições. Maria abaixou a cabeça pesarosamente e disse: _ Sei, senhorita Anna. Mas também sei que, como membro da Igreja, ele poderia ter interferido e pedido para que Lourival não fosse vendido à madame Hortência. Aquela mulher horrível torturava Lourival todos os dias. Ele mesmo me contou que ela o queria intimamente. Mas Lourival nunca cederia aos caprichos daquela porca gorda. As palavras de Maria confirmaram a minha desconfiança. Ela prosseguiu, contando-me: _ Éramos muito jovens e cheios de planos. Nossos corações eram puros e achávamos que poderíamos vencer qualquer barreira. Mas não foi bem assim: o preconceito não permitiu que ficássemos juntos. Depois que Lourival foi vendido para um fazendeiro de outra região, nunca mais o vi e também nunca mais ouvi falar nada sobre ele. Ele deve ter encontrado outro amor. Caso contrário, teria dado um jeito de voltar e buscar-me, levar-me para onde quer que fosse. Naquele momento, tive certeza de que Maria nunca soube o que acontecera com o seu amor. Não poderia mais deixá-la naquela ignorância. Então, falei: _ Maria, Lourival nunca teve outro amor além da senhora, acredite. 133
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Não se preocupe em me falar a verdade, senhorita Anna. Agora sou mais conformada com essa história. Não é como antes, que eu ficava muito triste. Agora sou uma mulher velha e não tenho mais nenhuma perspectiva de vida para mim. _ A senhora está muito enganada. Sei que ainda será muito feliz ao lado de alguém que muito lhe quer. E quanto a Lourival, infelizmente ele morreu, Maria. A mulher caiu sentada sobre a minha cama, parecendo perplexa. Portanto, prossegui: _ Sim, Maria. É por isso que ele nunca voltou para a senhora, como lhe havia prometido. Dizem que ele tentou escapar do tal fazendeiro e, durante a perseguição, foi baleado e morreu. _ Lourival nunca fugiria. Não era do feitio dele ser um covarde. - disse Maria, com plena certeza nas palavras e no coração. _ É exatamente isso que o padre Ignácio também acha. Maria, acredito que tenha o dedo do senhor meu pai nessa história. E nem queira defendê-lo, pois também já fiquei sabendo do que ele mandou fazer com a senhora. Maria caiu em prantos e disse: _ Nunca lhe contei toda a verdade porque não queria que a senhorita crescesse com ódio em seu coração. Desculpe-me, senhorita Anna, por esse meu momento de fraqueza. _ Não tem de que se envergonhar ou pedir desculpas. Sou eu quem deveria pedir-lhe humildemente minhas desculpas, pois indiretamente fui a culpada pela senhora ter sido privada de viver a sua história de amor. _ Não diga sandices, criança tola. Tudo o que fiz pela senhorita foi por amor. Se não tivesse tido a senhorita em meus braços, ali, tão pequenina e precisada de carinho, por certo teria cometido suicídio, pois me foi muito duro viver sem Lourival. Abracei Maria com carinho e deixei-a desabafar toda aquela dor em lágrimas. Depois de muito conversarmos, pedi-lhe que voltasse para seus aposentos, pois não seria bom que a vissem sair àquelas horas do meu quarto, ainda de roupa íntima. Por certo, achariam que estaríamos planejando algo. Quando ela estava saindo, virou-se para mim e falou: _ Fiquei sabendo que, mais tarde, o patrão e a condessa sairão para darem uma volta. Estou pensando em levá-la aos aposentos de sua mãe. Dei um largo sorriso de cumplicidade e disse: _ Perfeito! Estarei esperando pela senhora, então. Fiquei muito triste por Maria, mas foi melhor que ela soubesse que seu amor estava morto a viver acreditando que ele a abandonou. Naquela madrugada, até que o dia amanhecesse, não conseguiria mais dormir. Então, fiquei lendo meus livros e fazendo minhas anotações até que o Sol firmasse no céu. Depois, arrumei-me calmamente e desci, encontrando meu pai já na soleira da porta. Antes que ele saísse, falei: _ Pai, quero ter uma conversa franca com o senhor. Ele, que já estava saindo, virou-se e disse-me: _ Então será quando eu voltar, pois estou saindo coma sua madrasta e não quero deixá-la esperando muito tempo na carruagem. _ Não, pai! Quero falar com o senhor agora. Não quero mais adiar nossa conversa. Não se preocupe, serei breve. _ Então, que seja. O que há de tão importante que não possa esperar que eu chegue da cidade? _ Sei que o senhor está arrumando um casamento de conveniências para mim. Não acho justo que queira me vender para saldar suas dívidas com o conde. _ Acho que você já está passando dos limites, Anna! Quero que me respeite, ainda sou seu pai. Todos nesta casa temos deveres e obrigações. É justo que tenha chegado a sua hora de dar a sua contribuição. _ Sei disso, pai. Só estou tentando lhe mostrar que, caso o senhor não tenha percebido, de tola não faço nem o papel. 134
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Tudo bem, Anna. Vou ser-lhe mais direto, então: o conde procurava uma esposa e eu lhe devo muito dinheiro. Isso sem contar que metade das dívidas da família ele também pagou. Sendo assim, não vejo nada mais justo que aceitar o seu casamento com ele. Além do mais, de que está reclamando? Será uma mulher rica e terá de tudo. E ainda receberá um título de nobreza. Tem ideia de quantas jovens de sua idade gostariam de estar no seu lugar? E essa união será muito útil para os negócios e para a família. Anna, o conde não é nenhum velhote. É jovem e de boa aparência, e é muito vigoroso! Logo terão filhos e, além do mais, você acabará se acostumando com ele. Todo casamento é baseado em negócios. Não achou que eu lhe criei até agora sem, no mínimo, tirar proveito disso. Já me bastou sua mãe não ter me dado um herdeiro homem. Agora chega com essa conversa. Fico satisfeito que esteja ciente dos meus negócios e, querendo ou não, você faz parte deles. Agora saia da minha frente, que preciso passar. Poderia ter-me calado naquele momento e ter aceitado que o meu destino fosse ao lado daquele crápula, mas tinha outros planos para mim. Então, mesmo vendo o meu pai saindo porta afora, disse: _ Saiba que eu não vou ceder tão fácil como o senhor pensa, meu pai. Pode me casar com este homem, mas juro que fujo no dia do casamento e o senhor não me verá nunca mais. O senhor não vai me tratar como trata as suas vacas ou os seus escravos. Tenho sentimento e sou uma pessoa livre! Vou lutar por meus direitos enquanto viver. _ Meu Deus, Anna, por que você tem que fazer as coisas parecerem tão difíceis? Você está complicando uma coisa que é demasiadamente fácil para uma mulher. Só vou lhe dizer uma coisa, mocinha: tente passar por cima das minhas ordens e irá descobrir quem sou realmente. _ Pai, estou falando de sentimentos, dos meus sentimentos. O senhor está me tratando levianamente como se eu fosse uma mulher que trabalha em uma taberna. Nunca em minha vida conheci um homem, e agora o senhor quer me vender? Sabe, pai, outro dia mesmo eu fiquei pensando no quanto: estava enganada com o senhor. Pensei que o senhor era muito diferente de sua esposa - ambiciosa e arrogante, que o senhor teima em cativar por mero capricho. Mas eu estava enganada, não é? _ Você está passando dos limites, mocinha! É melhor que se cale ou não me responsabilizo pelos meus atos. _ Não, pai. Estou expondo minha indignação! Não sou objeto, pai, sou sua filha! Aposto minha vida como a senhora sua esposa está envolvida nesse leilão humano. O senhor não passa de uma marionete nas mãos dela. Ele me esbofeteou com toda a força no rosto. Agarrando-me pelos ombros, jogou-me no chão. Revivi minha vida passada. Sabia que tinha passado das medidas, mas não poderia abaixar minha cabeça para um ato tão abominável como aquele. Não era como as outras mulheres. Não poderia submeter-me a um homem por dinheiro ou para pagar as dívidas do meu pai. Depois, parecendo ainda não satisfeito, ele me levantou do chão por um dos braços e disse: _ Queria fazer isso de uma maneira mais amena e menos dolorosa para você. Ambos poderíamos ter entrado em um consenso ou em um acordo vantajoso, o que poderia ter sido muito bom para ambas as partes. Mas agora estou lhe dizendo afirmativamente: fará o que eu quiser e quando a mandar, ou lhe enviarei pessoalmente para um convento, de onde nunca mais verá a luz do dia, pois me encarregarei de pedir-lhes que a enclausurem. Veja se arruma um traje que condiga com a nobreza do conde. Pois, ultimamente, tem se vestido como uma camponesa. Em seguida saiu, batendo tão fortemente a porta que estremeceu todo o ambiente. Pude ainda ouvir seus berros, gritando por Lorenzo. Fiquei ali, parada no meio do hall, com os olhos fechados, tentando esquecer aquelas tenebrosas palavras. Mas, em momento algum, chorei. Não seria fraca, não daria o meu braço a torcer. Guerreiros não choram, dizia a voz em minha cabeça. Isso me fez lembrar de minhas antepassadas, que nunca deixaram o medo ou o fracasso cair de seus olhos em forma de lágrimas. Eu não seria diferente: precisava lutar e, para isso, precisava estar muito lúcida. 135
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Sabia que, se aceitasse me casar com o conde, tornar-me-ia uma marionete em suas mãos. Pois, quando ele se cansasse de mim, descartar-me-ia, colocando-me de lado - como a maioria das senhoras casadas, que sempre eram trocadas por concubinas ou cortesãs. Não queria passar o resto da minha vida amargurada, fazendo tricô e frequentando a igreja diariamente por não ter nenhum outro lugar para ir. Não, meu pai não faria isso comigo. Maria estava na cozinha e veio correndo, querendo saber o que havia acontecido comigo. _Você está bem, Anna? Ouvi seu pai gritando com Lorenzo, como um louco que acabara de fugir de um manicômio em chamas. _ Sim, estou muito bem, Maria. Contei-lhe com detalhes tudo o que acontecera. Depois de me ouvir atentamente, falou: _ Santo Deus, ele está mesmo louco! E o que pretende fazer para escapar dessa trama? A não ser que a senhorita resolva aceitar a vontade de seu pai e casar-se com o conde, pois não consigo achar nenhuma solução para poder ajudá-la. _ Nunca, jamais serei vendida ou me casarei sem amor. Darei aos dois uma boa lição. _ Senhorita Anna, deve ter mais cuidado. Seu pai pode perder a cabeça e nem sei o que ele poderá fazer. _ Não se preocupe, Maria. Serei bastante sutil. Mas, antes, quero que me dê as chaves do quarto de minha mãe. Tenho o direito de conhecer o que tem em seus pertences. _ Tudo bem! Mas deixe que acabem de sair e tomem distância. _ Então está bem. Assim que saírem, suba e traga-me as chaves. Disse isso voltando para os meus aposentos. No meio da escada, ainda ouvi Maria dizer-me: _ Que Deus me ajude! Seu pai, se souber, esfola-me viva. Então, respondi-lhe: _ Ele só vai saber se a senhora contar! Maria saiu meio a contra gosto, pois estava muito preocupada com as consequências de meus atos. Para falar a verdade, eu também, mas estava disposta a ir até o fim. Ao chegar em meu quarto, corri para a janela para observar quando meu pai partiria na carruagem. Pude observar a condessa gesticulando muito. Ela conversava com meu pai e, por certo, estavam falando de mim. Antes de subir na carruagem, ela olhou para cima e deu-me um sorriso sarcástico. Cumprimentei-a com a cabeça, pois bem sabia o que queria dizer-me com aquele sorriso matreiro e os olhos cheios de maldade. Maria subiu imediatamente, assim que a carruagem tomou distância. _ Estou com o coração nas mãos, mas estou aqui, arriscando-me a ser mandada embora. Tudo por amor e amizade a uma aprendiz de bruxa que só me põe em confusão. _ Ora, Maria, pense pelo lado positivo: é só comigo que a senhora consegue ter uma vida agitada e cheia de aventuras! Lembrei-me de minha infância, quando sempre fazia Maria correr horrores atrás de mim, ou a fazia subir em cima de árvores para pegar as frutas que eu queria. Mesmo que houvesse uma bem pertinho do chão, eu a fazia pegar a mais alta. Era muito divertido vê-la se atrapalhando toda, subindo árvore acima. Maria, então, prosseguiu com aquela conversa: _ É mais: se o patrão me pega, vou ter algo muito mais empolgante do que aventuras ao seu lado. Serei obrigada a tirar férias para o resto da minha vida. Não me importava o que Maria pudesse me dizer. Pegar aquela chave fez meu coração disparar, pois seria a primeira vez que conheceria as intimidades de minha mãe. Abrimos a porta e fomos para o final do corredor, na frente do quarto de minha mãe. Olhei para Maria, muito ansiosa. _ Vamos, abra logo. Não temos o dia todo para perder, ou quer que a copeira venha e nos flagre? 136
  • 137.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Ao abrir o quarto, senti um carinho muito grande em todo o ambiente e fiquei muito feliz, pois minha mãe estava lá dentro, esperando-me com um lindo sorriso. Senti as lágrimas rolarem e vi quando Maria me olhou. Em seguida, falou: _ Sinto uma presença muito forte aqui dentro. Estou toda arrepiada. Talvez não seja uma boa ideia ficarmos. Olhei para minha mãe, que estava sorrindo e olhando para Maria, com ternura. _ Sim, eu sei, Maria. Minha mãe está aqui e manda lhe dizer que está muito feliz por vê-la. Não precisa ficar assustada. Na verdade, ela só está aqui para nos receber. Maria deu um salto para trás e perguntou onde ela estava. Respondi que ela estava bem próxima à janela. _ Ufa! Então os arrepios que estou sentindo devem ser por causa do ventinho frio entrando pela janela! Eu e minha mãe olhamos uma para a outra com indignação, pois não acreditávamos ter ouvido aquele comentário tão esdrúxulo vindo de uma pessoa extremamente esclarecida sobre a espiritualidade como Maria era. Mas, no fundo, entendemos, pois ela estava nervosa e assustada. Afinal, ela nunca realmente havia se confrontado com um espírito. Aquela presença incorpórea mexeu com seus nervos, fazendo-a não perceber que estava prestes a cair na obscuridade de sua imaginação com uma manifestação de ignorância. Engraçado como as pessoas se assustam com o que não podem ver ou tocar... Quando, na verdade, a única coisa que pode nos prejudicar está dentro de nós mesmos: é a nossa maneira cega e preconceituosa de olhar a vida e as pessoas ao nosso redor. Os seres incorpóreos nunca poderiam nos fazer mal, a não ser se os deixássemos invadir nosso meridiano, ou seja, a linha imaginária que não devemos deixar os espíritos sem luz ultrapassarem. Esses seres são usados por feiticeiras, para o malefício da magia negra, na qual os desejos obscuros da maioria dos seres humanos são atendidos. Na verdade, os espíritos sem luz são como escravos: apenas cumprem ordens de seus senhores e estão à espera de uma recompensa. Abrimos a janela para que o ar e a claridade entrassem. O quarto era repleto de pequenos bibelôs e parecia que a tristeza estava bem longe dali. Minha mãe mostrou-me suas coisas pessoais. Mostrou-me um lugar secreto, onde guardava o primeiro casaquinho de lã que ela mesma havia tricotado enquanto estava grávida de mim. Até Maria espantou-se, pois havia um fundo falso em uma gaveta de sua cômoda. Fiquei tão emocionada por poder compartilhar aquele momento único com minha mãe! Encontrei um antigo diário e algumas coisas que me surpreenderam. Tinha uma estranha varinha de madeira muito trabalhada, um amuleto, uma toalha bordada em fios de ouro e um cristal azul. Guardei tudo isso em um pequeno baú de madeira e marfim. Maria disse-me que mamãe havia ganhado de meu pai de uma viagem que fizeram à Índia. Ao abrir seu guarda-roupa, fiquei encantada com o que vi: logo de primeira mão, um vestido preto, todo de renda muito fina. Olhei para minha mãe maravilhada. Pedi-lhe permissão para usá-lo no baile de sábado. Ela respondeu-me, com um largo sorriso, que tudo aquilo me pertencia. Admirei cada bibelô. O quarto era muito amplo e tudo era em tom bege e marfim. A cama de casal era enorme e muito alta. O véu sobre a cama dava um ar extremamente romântico, mostrando um pouco do temperamento harmonioso e elegante dela. Ela me disse que estava triste com papai, mas que era para eu ter paciência com ele, pois ele estava muito atordoado por causa das imprudências que havia cometido. Disse-me que ele corria risco de vida, pois o conde não era uma pessoa tão amena quanto se mostrava. Pediu que eu também tomasse cuidado com minhas atitudes com ele e que, principalmente, tentasse ser discreta quanto à minha nova escolha. Isso me fez ficar um pouco com o pé atrás quanto ao que faria no baile de sábado. Depois de muito conversarmos e ela me instruir sobre como eu deveria proceder em minhas atitudes, despediu-se e retirou-se, deixando-me pesarosa e com saudades antecipadas. Agradeci a Maria por permitir encontrar-me com um pouco da minha história. Saí daquele quarto e tentei deixar tudo da mesma maneira, pois não quis que ninguém desconfiasse de nada. Saí 137
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus com o vestido em minhas mãos, é claro! Acho que foi o presente mais lindo que eu havia ganhado. No corredor, entreguei-o a Maria, que me esperava impaciente. Pedi-lhe que o lavasse em segredo, pois não queria que ninguém soubesse que eu o usaria no baile do conde. Ela pegou a chave e desceu para colocá-la no mesmo lugar, para que ninguém desconfiasse dela. Voltei imediatamente para meu quarto, levando comigo alguns dos pertences de minha mãe. Depois de colocar minhas coisinhas no quarto, em um lugar seguro, fui para a cozinha, onde fiz minhas refeições ao lado dos criados. O meu lado humano ainda estava muito triste com meu pai, e não gostaria de ver ou falar com ele naquele dia tão fatídico. Depois de ajudar Joana com a louça, voltei para o meu quarto e resolvi ler o diário de minha mãe. Pude perceber sua sensibilidade e a maneira humana como via as coisas e as pessoas. O perdão era o seu lema. Pude perceber que meu pai não era tão puritano como demonstrava ser - em poucas linhas, minha mãe dizia saber de suas traições, mas se manteve digna. Saltei algumas páginas, para não me aborrecer ainda mais como ele, e descobri uma coisa que me deixou boquiaberta. Logo depois de dez páginas, estava escrito: Anna, sei que neste momento você está lendo estas páginas. Espero que já tenha identificado seu dom. É, filha, sei que não viverei o bastante para lhe contar sobre isso pessoalmente. Sou uma bruxa. Antes de deixar meu aparelho, passar-lhe-ei neste livro todo o meu conhecimento sobre a magia. Lógico que muitas coisas você terá que aprender por si mesma, pois a magia é uma busca eterna do saber. Seu pai nunca soube desse segredo, que agora compartilho exclusivamente com você. Não culpe Maria: ela prometeu-me guardar segredo. Nunca lhe revelei sobre o fundo falso ou sobre a passagem secreta do porão, onde pratico meus rituais de magia. Nesta hora, sei como está se sentindo e se perguntando onde fica a passagem secreta. Fica atrás do 3º lote de vinhos de seu pai. Lá, encontrará tudo o que precisa saber sobre mim e nossa raiz. Como já deve ter ouvido, estudei até os dezesseis anos em um colégio de freiras, na França. Lá, aprendi muitas coisas, inclusive sobre a crueldade e a falsidade que ocorre por trás das paredes de um convento rigoroso. Minha mãe queria que eu tivesse uma vida religiosa e que fosse preparada para ser uma boa esposa e dona de casa. Só que sempre tive esses sonhos românticos. Também sentia que o mundo precisava de mim de uma outra forma. Minha primeira manifestação como bruxa foi quando, no convento, começou a surgir um boato de que várias freiras estavam ficando loucas por causa da influência do demônio. As pobres mulheres davam crises e debatiam-se, jogando seus frágeis corpos de um lado para o outro da parede de suas celas. Algumas cometeram suicídio. Algumas engravidaram, e as freiras as fizeram abortar. O horror e o pânico expandiram-se por todo o convento, e meus pais estavam vindo me buscar. Só que algo dentro de mim gritava e dizia que aquilo tudo nem de perto tinha a ver com o demônio. Numa bela tarde, eu estava sentada na soleira, lendo um romance, depois de uma monótona aula de literatura, quando ouvi alguém me chamar. Levantei-me rapidamente, pois tanto os padres como as freiras eram muito rígidos quanto à obediência. Então, de um salto, respondi “Pois não, senhora!?”. E, abaixando a cabeça, continuei imóvel, esperando que alguém viesse me impor alguma ordem. Quando percebi que ninguém falou nada, ergui minha cabeça e vi que não havia ninguém. Fiquei assustada e saí correndo para o meu quarto, onde sentei na cama e fiquei tentando entender o que teria acontecido. Cheguei a pensar que realmente poderia ser um tipo de demônio que tivesse falado comigo, o mesmo que estaria deixando as freiras loucas. Fiquei com mais medo ainda por não saber como diria aquilo para as freiras sem que elas achassem que estava possuída. Foi quando a voz, mais uma vez, falou comigo: “Elizabeth, não temas, não viemos lhe fazer nenhum mal. Escute- nos, temos que lhe prevenir: está correndo um risco muito grande aqui dentro”. Primeiro, esconjurei e rezei incessantemente. Depois, cobri a cabeça com travesseiros, mas as vozes não paravam. Então, em soluços e com muito medo, resolvi perguntar: “O que querem de mim? Por que estão me atormentando? Sou filha de Deus e renego vocês, espíritos imundos”. Ouvi responderem-me: “Também somos filhas de Deus, Elizabeth, e precisamos de sua ajuda para 138
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus evitarmos mais uma tragédia com as meninas”. Ao ouvir aquilo, fiquei mais calma. Pois, além de a voz ser suave, parecia-me sensata. Perguntei “Em que posso ajudar as pobres moças? Por que os demônios estão torturando essas pobres mulheres, por que estão possuindo-as?”. Explicaram-me que não eram demônios, e muito menos pessoas daquele meu mundo. Indaguei-lhes sobre quem estava fazendo aquilo. Responderam-me que o padre Moises invadia as celas das moças e as obrigava a manter relações com ele. Contestei-os: “Isso é mentira, elas dizem que é um homem sem rosto e encapuzado”. Eles me disseram que o padre realmente usava um capuz, e elas não o reconheciam por estarem entorpecidas com um chá, feito com uma erva muito poderosa, que as deixava em completo êxtase. Mas como isso era possível, se os padres não tinham acesso às celas? Segundo as vozes, o padre convenceu a cozinheira que esse chá as fazia ficar calmas. Então, ele conseguia entrar em suas celas. Depois do ato abominável, ele colocava na cabeça delas que foi o demônio que as violou. As pobres meninas ficavam loucas, pois o alucinógeno as fazia delirar. Era por isso que os exorcistas haviam dito nunca terem visto esses tipos de manifestações antes. As vozes disseram-me que eu poderia ajudar as meninas, escrevendo uma carta anonimamente, dizendo que, durante a estadia do padre Moises em outro convento da região, o mesmo havia acontecido. Eu deveria entregar a carta ao leiteiro e pedir-lhe que, quando ele voltasse na manhã seguinte, entregasse à madre. “Lembre-se de ser bastante severa e cite o nome do convento e o nome da madre superiora do local”, advertiram-me. Assim fiz, como as vozes me ensinaram. Naquela noite, mal consegui dormir: se tudo fosse obra de espíritos impuros, eu estaria envolvida em atos de bruxaria e satanismo. Isso poderia me custar a vida. Depois de uma noite péssima, fui a primeira a me levantar. Mal consegui prestar atenção nas minhas aulas sequenciais e cotidianas. Depois de muito sofrer por antecipação, ouvi no meio do corredor um grande zumzumzum. Corremos todas para ver o que estava acontecendo. O monsenhor havia sido chamado. Todos estavam trancados e aos berros, na sala da madre superiora. Deus, com que agonia eu estava... “Onde fui me meter?”, pensei, temerosa e certa de que estava encrencada. Somente às duas da tarde, depois de muito alarido, foi que soubemos o que realmente houve. Os espíritos estavam completamente certos: padre Moises foi levado por seus superiores e acompanhado por um inquisidor. Supostamente, quem estava endemoniado era o padre. Em sua cela, acharam muitas raízes alucinógenas e abortivas. Raízes a que só as feiticeiras e os magos teriam acesso. Interrogaram as jovens freiras e várias disseram que o padre bolinava com elas, mas que o efeito das drogas as faziam acreditar que fosse o demônio que se disfarçava de padre Moises. O escândalo gerou a retirada de muitas moças da escola interna e o fechamento temporário do convento. Graças a Deus, fui uma dessas moças. Continuei na França a pedido de uma tia, que continuou com os meus estudos em casa. Durante um baile, conheci seu pai. Os espíritos preveniram-me de sua reputação de conquistador, mas disseram que você nasceria de nossa união. Disseram que você seria muito especial e que teria uma missão a cumprir. Mostraram-me várias vezes o seu rostinho em sonhos. Minha união com seu pai não foi por interesse meu, pois realmente estava apaixonada por ele. Mas você também já deve ter percebido que não fui muito feliz, porque seu pai sempre gostou de viajar e esbanjar. Quando os espíritos avisaram-me de que minha doença não teria cura porque se tratava de um mal de sentença, comecei, então, a preparar um local secreto para que, quando você crescesse, tivesse o seu lugar para trabalhar. Maria ajudou- me e sempre me orientou a como agir. Com as viagens constantes de seu pai, fiquei muito sozinha. Então, a prática da magia foi-me um aprendizado constante. Algumas coisas estão anotadas para que lhe sirvam de exemplos. Espero, filha, que cumpra sua missão com muito amor e designação. Lembre-se de sempre manter a discrição sobre a magia, e de só praticá-la quando realmente necessário e para o bem comum. Cuide de seu pai e nunca o contradiga, pois se torna violento e pode agredi-la. Ajude Maria a encontrar seu grande amor e liberte-a, pois ela ainda tem que seguir seu caminho. Deixo-lhe tudo o que aprendi com os espíritos, e prometo que sempre estarei presente para protegê-la. 139
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Cumpri tudo o que ela me pediu naquele diário, embora nem tudo tenha sido da compreensão de todos os que me cercavam. Mas nunca fiz nada esperando que alguém me compreendesse. Apenas quis ser livre. Esperava poder seguir o caminho que escolhi. Era impressionante como minha mãe poderia saber que, um dia, eu leria seu diário. O que mais me intrigava era como ela havia conseguido esconder de meu pai que também era bruxa. Maria, com certeza, tinha algumas respostas a me dar. Peguei no meu diário um pouco para fazer minhas anotações e esclarecer algumas coisas sobre a tradição da Lua. Aproveitei para acrescentar as seguintes anotações: nós, bruxas, acreditamos na deusa como a criadora de tudo e de todos. A deusa é a principal deidade da bruxaria. Ela é simbolizada pela Lua e pela Terra, e recebe diferentes nomes em diversas culturas em que é cultuada e celebrada. A deusa é eterna, imortal e exerce supremacia em nossas práticas e rituais. A bruxaria é uma religião polarizada. É por isso que também acreditamos no princípio criador masculino do deus cornífero, simbolizado pelo Sol, representando a fauna, a flora e os animais. Ele é considerado filho e consorte da deusa. Sei que isso poderá parecer uma heresia a princípio. Mas, em nossa cultura, existem muitas coisas misteriosas por si só que são consideradas abomináveis, irregulares e anormais aos olhos humanos. Com o passar do tempo e muito estudo, são coisas com que se aprende a conviver, com naturalidade. Tudo nesta terra é uma questão de cultura e aceitação. Mas uma coisa digo: não cultuamos o demônio, não comemos criancinhas e muito menos praticamos orgias nas quais - supõe-se - o demônio deita-se com as bruxas. Não posso dizer o mesmo das feiticeiras. São pessoas à parte da magia. Não seguem regras e fazem uso de seus poderes à revelia e mercenariamente. Mas, em nossa tradição, nunca houve sequer nenhum evento singular a esses mencionados por inquisidores e fanáticos religiosos. Todos os rituais mágicos sempre são executados visando efeitos benéficos, de forma que as pessoas jamais sejam prejudicadas. A natureza é o templo de nossos antigos deuses. Por isso, a maioria dos nossos rituais é realizada em meio à mata fechada. Apesar de muitas bruxas realizarem seus rituais em suas casas ou locais fechados, por uma questão de privacidade, discrição e cautela, a natureza é sempre vista como o local ideal para a celebração de nossos rituais. A magia é um instrumento que, quando bem usado, torna-se um grande aliado. Mas, caso contrário, pode desencadear todo o universo à sua volta. Como devo sempre lembrar, não podemos e nem temos o direito de interferir no destino de ninguém. Relembrando uma coisa: bruxas não usam suas vassouras para voar, nem seus caldeirões para fazer cozidos de dragão ou sopa de sapo, como diz o dito popular. Esses instrumentos são realmente utilizados em nossos rituais e feitiços, mas não da forma fantasiosa e folclórica que diversas vezes são mencionados em relatos e histórias supersticiosas. A vassoura original de uma bruxa é feita com um punhado de planta amarrado ao redor de um cabo: os dois sexos, o côncavo e o convexo. As bruxas mais antigas usavam esse instrumento de forma fálica para abençoar, fazendo um ritual de fertilidade. À noite, pulavam sobre vassouras nos campos e, quanto mais alto se pulasse, maiores eram as bênçãos da fertilidade. Esse tipo de ritual era noturno e, por isso, muitas vezes foi confundido com rituais de maldição - o que também gerou a lenda de que a bruxa voava em vassouras. No fundo, as bruxas antigas gostavam de se parecerem místicas e estranhas - o que foi um erro, pois os supersticiosos usaram da sua alegria e também de sua maneira debochada para prejudicá-las com calúnias e estórias folclóricas. Esclarecendo, também, sobre a viagem, ressalto o seguinte: quando estamos despertos, o corpo astral coincide com o físico. Mas, quando estamos adormecidos, ele se destaca, dando, assim, origem à projeção astral. O corpo astral, nesse estado, mantém-se ligado ao corpo físico pelo cordão de prata por toda a vida. Quebrando-o, a vida termina - desligando, assim, o corpo Astral do corpo Físico. O cordão de prata é a ligação do corpo físico ao corpo astral, através da qual é 140
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus transmitida a energia vital para o corpo físico, durante a projeção astral, mantendo sempre os dois corpos interligados, independentemente da distância a que se encontrem. Por mais afastados que estejam, o cordão de prata jamais se partirá: antes funcionando como um elástico, trazendo sempre de volta o corpo astral, por mais longe que ele se encontre. O cordão de prata também é conhecido como cordão astral, fio de prata, cordão luminoso, cordão vital, entre tantos outros nomes. O plano astral é um universo paralelo ao nosso, é a quarta dimensão. Durante a projeção astral, consegue-se fazer o que se quiser e ir onde o nosso pensamento desejar. Não existe espaço nem tempo – mas, sim, forma e pensamento. Pensa-se num lugar e, quase de imediato, estamos lá. Existem, no entanto, algumas limitações. Por exemplo: muitas pessoas que não são capazes de se tornarem visíveis ao visitar um amigo ou familiar. No entanto, algumas pessoas conseguem. Há pessoas que não veem a presença de outras na viagem astral. No entanto, conseguem sentir a presença. Durante a viagem astral, a projeção pode ser involuntária ou voluntária. A maior parte das projeções involuntárias acontece ou durante um sonho ou nas experiências de quase-morte. Nesse caso de projeção, a pessoa não tem consciência do que lhe está a acontecer, observando por vezes o seu corpo físico deitado na cama e imaginando que está desencarnada. Procura desesperadamente mergulhar violentamente no seu corpo físico. Muitos dos sonhos de voo e de queda estão estreitamente relacionados a essa experiência. Entretanto, outras pessoas que se projetam involuntariamente sentem-se com uma sensação de flutuação e liberdade tão boa, fazendo-os sentir demasiadamente bem para se questionarem sobre o que se está a passar. Ao acordar, algumas imaginam que aquela experiência foi um sonho bom. Existem pessoas que praticam viagem astral voluntariamente, comandando, neste caso, a experiência, tendo total consciência de que estão fora do corpo. Podem, assim, observar calmamente o seu corpo, viajar e visitar com tranquilidade todos os lugares que desejem na Terra, podendo voar e atravessar objetos físicos. Durante essas viagens, podem se encontrar e contatar com outras pessoas em viagem astral ou com entidades desencarnadas. Podem regressar quando desejarem, bastando, para isso, pensar no seu corpo físico para que o corpo astral fique novamente ligado a ele. Ressalto que não é aconselhável que uma pessoa faça essa viagem sozinha. Isso seria demasiadamente inconsequente. A viagem astral não é tão simples e pode ser perigosa, pois o indivíduo pode não conseguir voltar por si só – ou, o que é ainda pior, pode não querer voltar. Resolvi, também, esclarecer sobre as formas de demônios que se manifestavam nas pessoas e como eles as possuíam. O súcubu é um espírito do mal que toma a forma de mulher com o propósito de ter relações sexuais com um homem. A sua versão masculina denomina-se incúbus. O objetivo dos súcubus e incúbus é unirem-se carnalmente com um ser humano. Na realidade, sugar- lhe a energia vital, pois essas entidades alimentam-se dela. Seus ataques ocorrem à noite. A vitíma raramente se lembra, ou tem uma vaga memória, muito esfumaçada, como se o ataque lhe parecesse um sonho ruim. Ao acordar com uma grande sensação de fraqueza para a qual não acha explicação, o ser possuído pode ter ataques de fúria e violência, podendo até mesmo machucar um ente querido. Se os ataques se tornarem sucessivos, a pessoa começa a ficar pálida, sem ânimo e depressiva, geralmente com problemas sanguíneos ou pulmonares. Perde totalmente as forças anímicas vitais. Vai, inexplicavelmente, perdendo até as suas forças espirituais. Energias são rapidamente sugadas, podendo ocorrer perda total do apetite ou compulsão alimentar. O ser atingido pode ficar totalmente desiquilibrado e, em alguns casos, pode vir a morrer. Isso explica muitas doenças que nossos doutores não conseguiram explicar - como a loucura, por exemplo. Ressalto, ainda, que muitas das vítimas da Inquisição não tinham nenhuma espécie de demônio em seu corpo físico ou astral. Terminei minhas anotações e estava sentindo-me muito melhor. Ocupar a mente com a leitura é a maior e a melhor higiene mental que podemos fazer. Levantei-me e arrumei a bagunça que etava no meu quarto. Havia coisas de minha mãe espalhadas por toda a parte. 141
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Maria subiu, avisando que meu pai e a condessa estavam de volta e que o jantar seria servido na sala de estar, às oito em ponto. _ Que interessante! Então agora resolveram que somos uma família? - respondi à Maria. _ Parece que o casal está divinamente bem. Para falar a verdade, senhorita, nunca os vi assim, tão harmoniosos e gentis um com o outro. _ Imagino, Maria. Isso porque ambos estão concordando em alguma coisa que lhes é conveniente. Infelizmente, terá que dizer ao meu pai que não estou bem disposta. Maria assim o fez. Ela não estava para muitos argumentos, pois ainda estava se sentindo triste. Fiquei à janela, observando a natureza. Quando Maria voltou ao meu quarto, já era noite e eu nem tinha percebido que a tarde caíra. Mal comi: apenas revirei a comida, para dar a impressão de que tinha comido. Estava me sentindo entediada e sem lugar. Deitei-me na cama, peguei um livro e adormeci, sem ao menos tirar as roupas. Maria deve ter me cobrido durante a noite, mas não me acordou. Na manhã seguimte, logo que despertei, percebi novamente a janela do meu quarto aberta. Lenvantei e fui dar uma olhada pelo lado de fora. Se foi um sucumbo, não teria deixado marcas normais. Mas, para o meu espanto, percebi uma coisa que até então não tinha notado. A trepadeira que subia pela parede da minha janela estava toda arrebentada. Concluí que tinha algum estranho no meu quarto, e esse alguém não era um espírito. Resolvi procurar em todo o quarto indícios ou pistas que me mostrassem algo mais sobre o invasor da minha privacidade durante minhas noites de sono. Para meu maior espanto, descobri que o diário de minha mãe havia desaparecido. Fiquei desesperada, pois sabia que, quem quer que fosse, essa pessoa agora me teria nas mãos. Minhas pernas tremiam tanto... Fiquei sem chão. Maria entrou depois de ter batido inúmeras vezes. Ao me ver, perguntou, preocupada: _ Senhorita, o que está havendo? Estou batendo à sua porta há alguns minutos e, como a senhorita não respondia, resolvi entrar. _ Desculpe-me, Maria. Realmente não a ouvi. Aconteceu uma coisa muito grave. _ Então diga-me, senhorita: o que mais descobriu? _ A senhora sabe que desconfiava que alguém estava entrando aqui. Não são apenas desconfianças, Maria, pois alguém realmente está entrando em meu quarto, subindo pela trepadeira. O diário de minha mãe desapareceu. Maria, deixei-o debaixo do travesseiro. Ela ficou pálida e tão desorientada como eu. Por fim, falou: _ A senhorita tem certeza? Meu Deus, sua mãe escreveu coisas naquelas páginas que podem comprometê-la, e muito! _ A senhora sabia desse segredo e escondeu-me também. _ Por favor, senhorita Anna, entenda-me: isso não é uma coisa que a gente sai falando por aí. A senhorita era muito imatura e tive medo de que pudesse interpretar mal a condição de sua mãe. _ A senhora tem razão. E agora não é hora para discutirmos sobre esse assunto. _ Mas a senhorita está decepcionada comigo? _ Não, Maria, só curiosa de como a minha mãe conseguiu esconder esse segredo durante tanto tempo. _ Não foi fácil, senhorita. Mas, naquela época, como seu pai viajava muito, sua mãe tinha mais acesso a toda a casa. Ela mandou construir um local secreto. A senhorita deve ter lido isso no diário. _ Sim, mas a pessoa que está com o diário agora tembém sabe disso. _ Então, temos que descobrir quem é essa pessoa, senhorita, ou estaremos em maus lençóis. Sugiro que nós duas, de agora em diante, não sejamos vistas tão juntas. _ Não podemos ter tal atitude, Maria. Sempre estivemos juntas e, se nos separamos agora, a pessoa que está com o diário poderá desconfiar. 142
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus O segredo de minha mãe havia sido descoberto e, mais do que nunca, precisava tirar Maria daquela casa. Ela voltou para seus afazeres e fiquei ali, em meu quarto, sentindo que a qualquer momento alguém entraria com um guarda e entregar-me-ia à Inquisição. Por fim, percebendo que não adiantaria fugir por muito tempo, resolvi descer e caminhar pelo jardim. O dia não estava ensolarado, pois o tempo estava virando e estava meio nublado. Meu pai estava na sala de estar, bebendo, e minha madrasta havia saído para resolver as coisas dos baile. Eu estava muito perdida e caminhei pelo jardim inteiro. Precisava encontrar o lugar secreto de minha mãe. Decidi que seria lá que faria os meus feitiços. Tinha certeza de que nesse lugar eu encontraria forças para lutar contra aqueles que me perseguiam em silêncio. Mas meu maior temor, naquele momento, era descobrir quem estava com aquele bendito diário. Resolvi, então, descansar debaixo de uma árvore. Encostei-me e deixei meu pensamento voar. Aquela árvore começou a me passar suas boas energias e, em instantes, estava mais tranquila. Veio-me a certeza de que descobriria quem era o mau caráter que estava invadindo a minha privacidade. Alguma coisa me dizia que minha madrasta estava envolvida naquela trama diabólica. Por fim, fiquei ali, deitada de olhos fechados, buscando na natureza a resposta para as minhas tormentas. “Sempre encontraremos uma resposta para tudo, pois o conhecimento nunca foi negado ao ser humano. Mas devemos ter consciência de que e para que usamos tanta sabedoria adquirida. Pois devemos nos lembrar do tratado pessoal de Deus com os homens. Atos transformam-se em consequencias. E colhemos exatamente o que plantamos”. (Padre Ângelo Wallejo Moralles). 143
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Capitulo IV - O Segredo de Elizabeth D epois de ter recuperado minhas energias debaixo daquela árvore amiga, levantei-me e voltei para dentro de casa. Meu pai ainda estava na sala de estar, lendo um livro. Peguei um que me interessava e sentei-me em uma poltrona lateral. Ficamos ali, sem dirigir a palavra um ao outro. O ambiente estava pesado e hostil, pois aquele silêncio forçado fez- me sentir excluída. Mas, no fundo, preferi que ele não falasse comigo. Embora aquele silêncio me incomodasse, era melhor do que ouvi-lo dizendo que eu era o pagamento para o débito dele com o conde. Depois de algumas horas folheando páginas e mais páginas daquele livro, sem prestar a menor atenção ao seu conteúdo, fomos interrompidos pelos relinchos de alguns cavalos. Era a condessa que havia chegado. Meu pai levantou-se, foi à janela certificar-se de que era mesmo sua esposa. Depois, saiu apressadamente para recebê-la. Assim que ele saiu porta afora, também corri à janela para olhar aquela cena inédita. Cheguei a pensar que a condessa havia sofrido algum tipo de acidente por causa da maneira afoita e apressada com que meu pai saiu do recinto onde estávamos. Mas, para meu espanto, vi uma cena completamente inversa: a condessa, ao descer da carruagem, correu para os braços de meu pai, dando-lhe abraços afetuosos. Os dois pareciam um casal muito apaixonado e em lua de mel. Aquela cena seria normal se eu não os conhecesse e convivesse com eles desde menina. Os dois pareciam não se importar com a criadagem, que os olhava atônita. Entraram apressadamente para seus aposentos, deixando para trás Lorenzo e o cocheiro abarrotados de embrulhos. Maria, que estava no hall de entrada, sequer conseguiu pronunciar uma palavra mediante aquele casal tão apaixonado. Definitivamente, havia algo de errado naquela casa. Em outros tempos, meu pai teria tido um ataque ao ver a condessa com tantos embrulhos, pois ele estava coberto até o pescoço com dívidas. Não só eu, mas toda a cidade de Salamandra sabia que a condessa e meu pai não se entendiam como marido e mulher. Depois de presenciar aquela cena exótica quase em extinção, resolvi permanecer na sala de estar para tentar colocar as ideias em ordem. Aquela visão amorosa do mais novo casal romântico do país havia me deixado traumatizada. Ao meio dia, Maria veio me comunicar que o almoço estava pronto e seria servido para a família - o que queria dizer que meu pai praticamente me estava obrigando a sentar-me à mesa com ele e sua esposa adorada. Já sentada à mesa, o casal de enamorados parecia não ter notado a minha presença. Parecia que haviam se juntado num complô silencioso contra mim. Não que eu desse a menor importância ao desprezo dos dois, mas a súbita harmonia entre aquele casal parecia algo de história de horror. Eu precisava prestar mais atenção aos detalhes. Era pela minha vida que eu temia. Não consegui comer. Apenas remexi minha refeição em total silêncio. Depois, levantei-me e saí em direção aos meus aposentos. Ouvi-os comentando algo sobre mim e, em seguida, riram debochadamente. Confesso que estava com medo deles, mas não poderia demonstrar isso, pois demonstraria que a tática que estavam usando estava surtindo efeito. Fiquei em meu quarto o restante da tarde, sem sair um minuto sequer. Eu e Maria, naquele dia, quase não nos falamos, pois a condessa a ocupou com várias tarefas relacionadas ao baile do dia seguinte. De uma coisa eu estava certa: o diário de minha mãe não estava em poder da condessa Del Prat – ou, caso contrário, ela teria vindo ao meu quarto para me chantagear. Meu pai e a condessa saíram logo após o almoço. Já eram nove horas da noite e os dois não haviam voltado. No mínimo, estavam na companhia do seu mais novo amigo, o conde. Maria, assim que conseguiu uma folga, veio ao meu quarto para saber se eu estava bem, pois ela não havia me visto desde o almoço. Depois de conversar comigo por alguns minutos, ela desceu e aconselhou-me a trancar as janelas e a porta. Foi o que fiz. Maria, por certo, não poderia dormir 144
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus antes que o casal de enamorados voltasse. Eu, por minha vez, estava cansada de esperar por notícias e acabei adormecendo em cima do meu diário. No dia seguinte, acordei disposta a não permitir que nada e nem ninguém me perturbasse a paz. Levantei-me da cama, fiz minhas orações matinais, abri as janelas, deixando o ar da manhã entrar no quarto. Depois, fui interrompida em meu momento de oração pelo som do toque de Maria à porta. Abri e fui logo dizendo: _ Bom dia, minha querida Maria! Que lindo dia teremos hoje, não acha? É só gratidão por termos tantas bênçãos do Pai Maior. O que faremos hoje para compensar os dias ruins que passamos esta semana nesta casa de aflições? Maria parecia não ter entendido minha reação e olhou-me atônita: _ O que deu na senhorita? Viu um anjo durante a noite, foi? Se isso aconteceu, passe para mim também um pouco dessa energia incandescente, pois estou precisando me sentir assim, tão bem disposta. Maria disse aquilo esfregando as mãos nas minhas vestes, parecendo querer captar a suposta energia angelical. Dei-lhe um largo sorriso, pois sabia que ela estava usando de suas ironias mais uma vez e disse-lhe: _ Não é nada disso, Maria. Estou decidida a não deixar que ninguém me ponha de baixo astral. Eu disse que iria viver para lutar por minha liberdade de expressão e igualdade. Então, que seja com um sorriso nos lábios. Afinal, inimigo só se vence com perseverança, e não com ódio. Tudo o que os meus inimigos querem, Maria, é ver-me triste e definhando dia após dia. Mas lhe juro que não darei este gostinho a nenhum deles. Hoje acordei com este pensamento e, acredite, é definitivo. Maria olhou-me e, depois de parecer muito pensativa, disse-me: _ Bom, senhorita Anna, espero, então, que não seja eu a pessoa que irá lhe trazer aborrecimentos. Pois sinto lembrá-la: é hoje o dito baile que a sua madrasta dará em homenagem ao conde. Mas, pela sua súbita alegria, vejo que se esqueceu disso. _ Não... Mas estava tentando pensar em coisas mais agradáveis. Comecei, então, a mordiscar os lábios. Meu plano seria colocado em prática, finalmente. Por fim, perguntei à Maria: _ O vestido de minha mãe está pronto? _ Sim, como a senhorita pediu. Mas madame Hortência enviou hoje mais cedo o que a senhorita havia lhe encomendado. _ Sério? Hum... Terei que pensar em uma forma de me livrar dessa encomenda. _ O que a senhorita fará? Pois o vestido de sua mãe está em meu quarto, guardadinho para que ninguém desconfie de nada. _ Ainda não sei, mas todos têm que pensar que irei ao baile com o vestido que encomendei. _ Quanto a isso, a senhorita não precisa se preocupar. Sabe que sei ser discreta. _ Sim, Maria, sei que posso sempre contar com sua fidelidade. Agora desça e espere que todos saiam. Então, traga-me o vestido de minha mãe. Maria já estava saindo quando ouvimos barulhos vindos de fora da casa. Olhamo-nos com espanto. Corremos as duas para a janela. Ao olharmos para baixo, vimos um grande movimento de pessoas desconhecidas. Havia um grande alvoroço de criados, correndo de um lado a outro do jardim. Eles traziam inúmeras peças de coração para dentro do grande salão. Minha madrasta dava de braços e, ao ver-nos debruçadas à janela, levantou o nariz e entrou como uma abelha enfurecida. Eu e Maria nos olhamos novamente e começamos a rir dos trejeitos de menina mimada da condessa. Ela estava se sentindo a dona do mundo só porque organizava o baile do conde. Depois que Maria desceu para ajudar a condessa e cumprir o que eu lhe havia pedido, voltei para a janela para ver onde daria aquela confusão. Eu estava faminta naquela manhã. Havia me esquecido de pedir à Maria para trazer-me algo de comer. Mas, quando ela finalmente voltou, trazendo nas mãos a encomenda que eu havia feito à 145
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus madame Hortência, trouxe consigo algo que, com certeza, nem em meus pesadelos mais temerosos eu haveria de encomendar: a condessa Del Prat. Ela, ao ver-me, foi logo dizendo: _ Então, resolveu atender seu pai como uma menina boazinha? _ Não é o que todos esperam? Que eu me comporte como uma futura condessa e pague as dívidas da família!? _ Pode enganar o tonto do seu pai, mas sei que está planejando algo. Saiba que estou de olho na senhorita. Não a deixarei sozinha um segundo sequer. Sei que vai tentar fazer algo para se livrar do compromisso que lhe foi imposto. _ E o que eu poderia fazer? Como a senhora mesmo disse, estará de olho em mim. E, para falar a verdade, espero que fique mesmo de olho em mim, porque esta noite a senhora irá colher o bom resultado dos frutos que plantou a vida toda, condessa. _ Não se atreva a estragar o baile de apresentação que estou preparando para o conde. _ Não se preocupe. Não farei nada que pareça escandaloso ou que venha a desonrar a sua conduta. Também não pretendo fugir, se é o que está pensando, e muito menos desfazer o compromisso mediante todos os convidados. Mas de uma coisa eu tenho certeza. _ E o que é? _ Estarei presente e serei a pessoa mais comentada de todo o baile. Desta vez, ninguém reluzirá além de mim. A inveja relampejou nos olhos da condessa. Ela, depois de andar pelo quarto todo, olhou para o embrulho em cima da minha cama e perguntou. _ Esse é o seu vestido? _ Sim, é. Ele é o vestido que me fará reluzir esta noite perante todos os olhares. Serei a mulher mais cobiçada e linda do baile. E, por certo, depois que o conde me vir dentro deste vestido, pedir- me-á em casamento imediatamente. A mulher olhava para o embrulho, parecendo enlouquecida. De repente, ela deu um salto, pegou-o e saiu correndo com o pacote nas mãos. Eu, como tinha que parecer aborrecida pelo fato ocorrido, fingi correr atrás dela, que se escondeu em seu quarto, trancando a porta. Mais uma vez, fiquei pensando em como até mesmo os nossos inimigos são nossos aliados. Sacudi a cabeça e ri muito, sozinha em meu quarto. Quando Maria subiu escondida, trazendo o verdadeiro vestido que eu usaria no baile, ela disse: _ A condessa esta lá embaixo e parece-me a mulher mais feliz do mundo. O que foi que a senhorita disse a ela? _ Não disse nada, Maria. Foi ela quem veio ao meu quarto, tentando descobrir o que eu faria para atrapalhar o baile do conde. Tentei dizer-lhe que não faria nada. Só insinuei que seria a mulher mais cobiçada da noite. Acho que ela não resistiu e roubou meu vestido. _ O quê? Ela roubou o vestido que a senhorita mandou madame Hortência fazer? _ Sim, aquele mesmo. Agora imagine como ela ficará encantadora dentro daquele modelito exclusivo que madame Hortência fez. Eu e Maria rimos a valer, pois sabíamos que um modelo exclusivo vindo de madame Hortência só poderia resultar em extravagância e mau gosto - o que era mesmo o feitio da condessa. Maria, depois de me entregar o vestido de minha mãe, saiu do meu quarto. Coloquei-o dentro de um baú, com muito cuidado para não o amassar. Sentei-me à frente da penteadeira e fiquei examinando qual penteado usaria e qual joia me cairia melhor para usar com o vestido. Optei por um rico colar com uma única pedra de rubi, ao meio, e brincos e anel com a mesma pedra. Horas depois, alguém bateu à porta, tirando-me daquele devaneio de vaidade. Mas o toque não era o mesmo que Maria costumava dar. Então, respondi: _ Entre, por favor! Era a copeira e, depois de olhar por todo o quarto, parecendo querer bisbilhotar, disse: 146
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ O conde está lá embaixo, no salão, e solicita a sua presença, senhorita. Mas, se preferir, digo- lhe que a senhorita não está se sentindo muito bem. Ela, com certeza, estava ali para me investigar. Mas soube como lidar com ela, pois mal podia ouvi-la. _ Segundo me consta, estou ótima. Então, diga ao senhor conde que estarei pronta em alguns minutos. A mulher saiu cuspindo marimbondos. No mínimo, esperava uma resposta negativa da minha parte para poder contar à condessa. Ao sair, tranquei a porta do meu quarto, para evitar um contragosto. Encontrei com Maria no corredor. _ Então, como estou, Maria? _ Está linda, linda, como sempre, senhorita Anna. Só acho que é muito feno para pouco cavalo. _ Também acho, Maria. Aliás, a senhora está sendo muito gentil ao referir-se ao senhor conde como um cavalo. Crápula seria a palavra. _ Meu Deus, senhorita, não deve falar assim do seu futuro esposo. Ele é um homem tão íntegro e... bonito e gentil. - ironizou. _ Oh, sim! Íntegro a ponto de pagar a dívida do meu pai cobrando um juro mínimo. Ou seja: eu, por exemplo. Bonito como um demônio, que se esconde atrás do rosto de um anjo. E gentil, por certo, pois espera a hora certa de dar o bote, como uma cobra. Maria deu um sorriso, sacudindo negativamente a cabeça, parecendo entender o que eu havia dito. Ela me acompanhou até o salão, onde o conde e meu pai estavam. Ao me verem, levantaram- se e cumprimentaram-me. Não deixei lhes transparecer qualquer sentimento que demonstrasse que eu estava aborrecida e magoada. Dei-lhes um sorriso largo e estiquei a mão para meu futuro esposo, que veio em minha direção como um cordeiro manso e tolo. Meu pai ficou boquiaberto porque, com certeza, já estava com a cabeça cheia de caraminholas, impostas por sua estimada esposa. Então, usando de um fingimento improvisado, ele falou: _ Demorou, minha filha. Pensei que não desceria a tempo de ver o conde, pois ele já estava de saída. _ Oh! Com certeza o senhor conde entenderá. Ele sabe como as mulheres são. Ficamos horas na frente de nossos espelhos. Afinal, não poderia aparecer feia como um espantalho na frente de tão garboso senhor. Senti que o conde ficou envaidecido. Atendeu-me com um sorriso falso, como era de se esperar de um hipócrita como ele. Aproximei-me de meu pai e sussurrei ao seu ouvido: _ O senhor não achou que eu lhe daria esse gostinho, não é? Meu pai engoliu seco e, por certo, se eu estivesse sozinha com ele, estaria morta mais cedo. O conde parecia não ter percebido nada, pois, no mínimo, pensou que eu estava cumprimentando meu pai com um gesto carinhoso. _ Nunca, em hipótese alguma, pareceria um espantalho. E feiúra, essa com certeza correu bem longe da senhorita. _ Soube que o senhor queria falar-me. É algo sobre o baile? - desconversei de imediato, pois não queria dar outro rumo àquela conversa. _ Sim. Quero falar-lhe, mas não é nada sobre o baile. É sobre nós dois. Seu tom de voz havia mudado e era quase um sussurro. O conde prosseguiu com aquela conversa tediosa: _ Esperaria a vida toda pela senhorita. Se não se importar, gostaria de pedir a permissão de seu pai para poder falar-lhe em particular. Imaginei do que se tratava, mas tinha que me fazer de rogada. Então, respondi: _ Creio que não sou o tipo de dama que tenha conversas particulares com um cavalheiro. Mas o senhor é um homem de modos refinados. Creio que não haja nenhum problema. 147
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Ele continuou a se sentir muito lisonjeado e mantinha aquele sorriso traiçoeiro e enigmático no rosto. Meu pai, por sua vez, respondeu: _ Tenho certeza de que o conde não lhe fará nenhum mal. Não vejo porque não os deixar a sós. Olhei para meu pai nos olhos e disse: _ O senhor tem razão, meu pai. Que mal o senhor conde poderia me fazer? Fechei o semblante, para demonstrar minha desaprovação diante daquela situação. Por fim, dei o braço ao conde e fomos caminhar pelo jardim. Lá, delicadamente soltei o seu braço e, voltando- me para ele, disse: _ Então, senhor conde, o que de tão importante e sigiloso terá o senhor para me confidenciar? Ele deu um sorriso enigmático. _ Não vou me fazer de rogado - mesmo porque sei da sua perspicácia e inteligência aguçada. Confesso que foi uma das qualidades que muito me atraíram na senhorita. _ Não faça rodeios, senhor conde. Não conseguirá me conquistar com seus elogios. Conheço muito bem minhas qualidades. _ É sobre exatamente isso que estou falando. Então, creio que a senhorita já deva saber que tenho um acordo com seu pai. Também creio que a senhorita já seja sabedora que sua dívida era muito alta. Bom, resumindo esses fatos: se o senhor seu pai tivesse colocado todas as propriedades que possui, mais os escravos e as joias de sua família, à venda, ainda assim não saldaria a dívida que tinha. Como um cavalheiro que sou, após ficar sabendo que seu pai tinha duas mulheres inocentes em casa, quis imediatamente ajudá-lo. Paguei, assim, todas as dívidas de seu pai, senhorita Anna. E ainda lhe emprestei uma grande soma em dinheiro para que pudesse manter-se dignamente. Não quero que a senhorita se espante: minha família é muito conhecida por termos um coração generoso. Além do quê, não poderia sair em total prejuízo: embora agora eu seja o dono de todas as propriedades de seu pai, necessitava uma esposa que me desse um herdeiro. Portanto, quero que saiba de meus próprios lábios que a senhorita agora me pertence. Depois de ouvi-lo, indignada com tamanha audácia e falta de escrúpulo, disse: _ O senhor está sendo indelicado e vulgar. Mas não me surpreende: desde o primeiro momento em que o vi, soube que estava diante de um crápula. Na verdade, não sei quem é pior: o senhor, meu pai ou a condessa. Como o senhor mesmo acaba de mencionar, a dívida é do meu pai com o senhor. O senhor, de forma alguma, tem o direito de me incluir no pagamento dela. Não sou tão esperta como o senhor pressupõe. Caso contrário, já teria descoberto uma forma de escapar do senhor. Ele deu uma gargalhada diabólica, falando sarcasticamente: _ Disse que a senhorita era inteligente, mas não disse que seria tão fácil se livrar de mim. _ O senhor é o demônio, tenho certeza disso. Não há nada neste mundo que me fará mudar de opinião. Saiba, senhor conde, que serei o pior pagamento que o senhor já recebeu em sua vida. _ Gosto da sua audácia. Saiba que isso me excita. Gosto de mulheres com senso de humor. Principalmente, gosto quando elas ficam arredias. _ O senhor é um homem doente, conde. Embora eu ainda não saiba o seu segredo, em breve vou descobrir. Aí, com certeza isso será um motivo para o senhor desfazer seu acordo como meu pai. Novamente ele sorriu, dizendo: _ Se eu fosse a senhorita, não me preocuparia em descobrir o segredo dos outros, e sim em saber o que uma pessoa pode fazer tendo em mãos um segredo como o seu. _ Não tenho segredos, senhor conde. Minha vida é um livro aberto. Ele se aproximou, lentamente, e disse: _ E se eu disser que tenho sob meu poder certo diário que pode incriminá-la totalmente? Essas coisas, vistas pelos olhos da Inquisição, poderão ser motivo para que a senhorita seja condenada 148
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus como bruxa - principalmente se a pessoa que entregar o objeto for de grande influência política e financeira. Tentei esbofeteá-lo, mas ele me segurou, dizendo: _ Não faça isso, senhorita. Não fica bem para uma jovem de bons modos violentar seu futuro cônjuge. _ Como foi que o senhor conseguiu esse diário? Como foi que o senhor conseguiu invadir meus aposentos sem que eu percebesse ou acordasse? _ Isso foi muito fácil. Fiquei sabendo que a senhorita sempre toma algum tipo de chá que a sua governanta lhe prepara à noite. Então, tratei logo de fazer amizade com a sua copeira, que é uma mulher muito persuasiva financeiramente falando. Pedi a ela, então, que misturasse às ervas do consumo da sua casa algumas das minhas ervas, cuja função é fazer adormecer. A senhorita tomava sem perceber a diferença. Então, mais uma vez, usei meu poder de persuasão com a sua madrasta - que, além de bela, é extremamente carente de afeições masculinas. Com isso, consegui que ela me desse a chave do portão de sua residência. Assim, eu subia durante a noite para ter com ela e, depois, entrava em seu quarto para admirá-la. Em seguida, descia pela trepadeira. Confesso que foi tentador vê-la seminua, deitada indefesa em sua cama. Sabe, senhorita, cheguei a esta cidade muito entediado, confesso. Mas descobri que aqui, apesar de ser um pequeno condado, está sendo para mim muito prazeroso e proveitoso também. Que mais posso querer? Tenho uma linda jovem como minha futura esposa, e sua fogosa e exuberante madrasta como minha consorte. Fiquei perplexa ao ouvi-lo. Cheguei a cambalear. Meu estômago remexia-se em sinal de desprezo. Minha cabeça rodopiava como o vento. Se eu fosse uma cobra, tê-lo-ia picado. Por fim, disse-lhe, com a minha voz trêmula: _ Como o senhor consegue ser tão desprezível? Como pode querer casar-se comigo, sabendo que o odeio mais do que tudo neste mundo? _ Não me importo com o seu desprezo, muito menos com o seu ódio. Afinal, terei o que me pertence e que é meu por direito. _ Jamais me sucumbirei aos seus caprichos. Juro que descobrirei o seu segredo. _ Até lá, lembre-se de que sou o dono do seu segredo. A qualquer momento, mesmo a contragosto, posso entregá-la à Inquisição, acusando-a de práticas ilegais de bruxaria. Pense bem, senhorita Anna. É melhor facilitar as coisas para todos. Assim, será prazeroso para ambas as partes. Não respondi a mais nenhuma palavra que o conde me dizia. Naquele momento, estava me sentindo totalmente impotente e indefesa. Segui em direção à minha casa. O conde seguiu-me, com um semblante que era só satisfação e vitória. Quando finalmente entramos em casa - pois pareceu ser uma eternidade aquele curto trajeto ao lado do conde-, chamei por Maria. Meu pai, ao ver-nos, perguntou-nos: _ E então, o que conversavam afinal? Fui a primeira a responder-lhe: _ Creio que nada de que o senhor já não esteja ciente, meu pai! O conde retrucou: _ Senhor Juan, creio que sua filha está um pouco encabulada. Então, serei o portador de tão boas notícias. Eu e sua filha estamos noivos! Isso quer dizer que o baile dessa noite será não só para a minha apresentação, mas também para anunciar o nosso noivado. Aquele homem repulsivo estava me deixando sem saída. Quis fugir, mas não poderia deixá-lo perceber que estava insatisfeita. Ele precisava acreditar que me tinha nas mãos, até que eu pudesse me livrar daquela chantagem. Meu pai parecia eufórico com a notícia. Mandou logo abrir um champagne. Maria, que havia vindo atender ao meu chamado, ficou extasiada, em pé, olhando-nos, sem entender absolutamente nada. A condessa apareceu e veio cumprimentar-nos com falsidade. Tive que aparentar felicidade. Precisava pensar rápido. Depois do brinde, o conde despediu-se, prometendo fazer uma surpresa no 149
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus baile daquela noite. Vindo daquele monstro, não quis nem imaginar o que seria. Por fim, vendo que estavam todos satisfeitos, puxei Maria pelas mãos e disse-lhes: _ Se me derem licença, preciso descansar para estar bem disposta mais tarde. Não quero que meu futuro marido me veja com olheiras durante a nossa festividade. Quero, também, agradecer a minha querida madrasta por ter se empenhado tanto em organizar meu baile de noivado dessa noite. Estou muito feliz porque, afinal, esse baile agora também é meu, não é, meu querido conde? _ Sim, minha amada noiva. Não só o baile, mas tudo o que dentro dele estiver. A condessa parecia que iria explodir de tanto ódio, mas não disse uma só palavra. Ela teria que engolir que havia arrumado tudo aquilo para o meu noivado com aquela besta humana. Dei um beijo na testa de meu pai, fingindo afeto e obediência. Não poderia deixar de dar aquele tapa de luva. A condessa, parecendo não aguentar a cena, subiu em disparada aos seus aposentos, sem dizer uma palavra a ninguém. Um inimigo eu havia vencido com a mesma moeda. Ainda me faltavam dois. Quando finalmente saí, carregando Maria pelas mãos e deixando para trás aqueles dois leiloadores da vida humana, pude ouvir o conde falando com meu pai: _ Sua filha é como um potro indomado, senhor Juan. _ É, eu sei. Puxou o gênio da mãe. _ Mas não tenho pressa. Colocá-la-ei do meu jeito. Disso o senhor não tenha dúvidas. _ Vá com calma, meu caro amigo. Ela ainda é só uma menina. _ Sim, eu sei. Mas meninas se transformam em mulheres, não é mesmo? Os dois comemoraram com sonoras gargalhadas. Era detestável a maneira como se referiam a mim. Maria seguiu-me, mas quase não conseguiu alcançar-me, pois acelerei os passos no corredor. Ao chegar a meus aposentos, caí sobre a cama, deixando todo aquele horror transportar-se para o peso em que se encontrava meu corpo. Maria, ao entrar e ver-me de bruços na cama, perguntou-me curiosa, com ar de indignação: _ O que houve, senhorita Anna? Não pude ouvir o que conversavam, pois falavam muito baixo. Eu estava enfurecida e, depois de ranger os dentes, virei-me para Maria: _ Argh! Foi o conde, Maria, que pegou o diário de minha mãe. Ele agora me tem em suas mãos. Também era ele quem entrava em meus aposentos durante a noite. A copeira colocou ervas entorpecentes no meio das suas ervas. Ele a pagou para que fizesse esse serviço sujo. É por isso que eu não o via invadindo meu quarto à noite. A condessa entregou-lhe as chaves do portão de entrada. Eles são amantes; o conde mesmo me contou isso. Depois que ele visitava a condessa em seu leito, saía e entrava em meus aposentos, descendo, então, pela trepadeira. Sabe Deus o que aquele doente fazia comigo enquanto eu dormia. _ Minha Nossa Senhora de Guadalupe! Isso é muito sério, senhorita Anna. Esse homem é muito perigoso. Ele chega a ser diabólico. Que Deus tenha pena da senhorita. Mas uma coisa me intriga: _ E o que é, Maria? _ Como esse peste pode ter entrado em seu quarto, se ele e seu pai chegaram juntos da Inglaterra? _ Não, Maria. Esse homem sem escrúpulos disse ao meu pai que ficaria um ou dois dias na Inglaterra para resolver negócios. Mas ele não fez isso. Sabendo que meu pai ainda faria várias paradas no caminho para resolver os próprios negócios, ele deixou a Inglaterra no mesmo dia para não perder tempo. Foi assim que esse demônio chegou aqui antes do meu pai. Quando meu pai chegou aqui, o conde demorou quatro dias a aparecer na cidade. _ Santo Deus, minha filha! Esse homem tem pacto com o demo, pois parece fazer tudo de caso pensado. 150
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim. Agora tenho que trancar minha porta sempre. E, com todo perdão, Maria: não tomarei mais os seus chás. _ Não se preocupe, senhorita. Não levarei como uma ofensa, pois também tomei do veneno do conde. _ Maria, aconteça o que acontecer, quero que saiba que, mesmo que pareça ser o pior, o que farei será melhor do que ser vendida. Nunca me darei por vencida. Não serei objeto de pagamento. Não sou escrava e, mesmo se o fosse, tenho sentimentos e sangro como todo mundo. _ Senhorita Anna, saiba que sempre estarei do seu lado para o que for necessário. Mas, às vezes, acho que deveria fazer o que lhe mandam. Será melhor e a senhorita não sofrerá tanto. _ É melhor ceder ao egoísmo do meu pai e perder a minha liberdade? Nunca. Por que temos que mudar por causa das pessoas e aniquilar a nossa essência? Se eu fizer isso, será como usar viseiras para olhar sempre na mesma direção. Suponhamos que eu aceite os cortejos do conde e ceda às sandices de meu pai. Ele paga a dívida? Sim. Mas fará outras mais. Não poderei ser vendida outras vezes. Ele nunca aprenderá se tudo for do jeito que ele quer. Não sou mulher de me render a um homem sem amor. _ Mas se a senhorita não fizer o que lhe impõe, seu destino será cruel. _ Meu destino não pode ser mais cruel do que ter que passar a vida toda ao lado de um homem vulgar, que me trocará por uma esposa mais jovem assim que enjoar de mim. Tenho muitos sonhos, Maria, e sei que nunca os realizarei. Então, que seja o que me foi imposto por Deus, e não pela vontade de um homem comum. _ Nunca conheci uma mulher tão destemida e com tanta determinação quanto a senhorita. Lembrar-me-ei da senhorita pelo resto de minha vida. - deixou as lágrimas rolarem em suas faces, emocionadamente. _ Não chore, Maria! Preciso de terra seca para pisar. Se a senhora chorar, afundar-me-ei no barro da sua desesperança. _ Desculpe-me, senhorita Anna. Foi inevitável. Mas só em pensar que ficarei um dia sem a sua companhia, já me dá um aperto no coração... _ Não pense assim, Maria. Sei que ainda me olha como se eu fosse uma criança. Mas cresci, graças à senhora e a tudo que tenho aprendido com a tradição. Agora desça, por favor: prepare-me um banho e, se possível, algo para comer, pois ainda não comi nada desde a manhã. Por favor, se puder, prepare uma emulsão para colocar na água do meu banho. Quero estar perfeita esta noite. Agora vou tentar dormir um pouco, pois não quero parecer cansada para a hora do baile. Não posso dar a eles o luxo de me verem com olheiras. Depois que Maria saiu porta afora, fui para a janela meditar, contemplando a natureza. Vi quando meu pai saiu de carruagem com o conde. Os dois pareciam estar alcoolizados. Em um instante, perdi-me olhando Joseph. Vi quando Maria, carinhosamente, levou-lhe o almoço. Os dois conversavam e sorriam, como se o mundo tivesse certo toque de magia. Então, finalmente percebi que tinha algo muito mais importante a fazer do que me preocupar com as ninharias que perturbavam minha mente. Soltei o coque, tirei os brincos e desci ao encontro daquele casal perfeito. Maria, ao ver-me, afastou-se de Joseph, dizendo: _ Santo Deus, menina! Não disse que ia tentar dormir um pouco? Eu ainda nem tive tempo de preparar-lhe algo para comer. _ Não tem nenhum problema, Maria. Só vim até aqui para repousar ao sol. Quero ficar com uma cor rosada no rosto. Veja: trouxe até um manto para me deitar. _ A senhorita vai deitar-se aqui fora? Não vai querer comer nada? _ Pode me trazer aqui fora mesmo. Vou ficar aqui, sim, e tentar dormir debaixo daquela árvore, pois ela me traz boas energias. _ Que seja, então, como a senhorita deseja. - Maria saiu. 151
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Eu estava tranquilamente estendendo a manta no gramado quando ouvi a voz de Joseph chamando-me: _ Senhorita Anna! _ Sim, Joseph. – disse-lhe, virando-me para atendê-lo. _ Consegui sementes de girassóis e, como Maria contou-me que a Senhorita gosta muito desta planta, gostaria de saber onde quer que eu plante as sementes. _ Se não for muito, quero que o senhor me dê um pouco dessas sementes, pois quero levá-las comigo. O restante pode plantar onde bem desejar. _ Como assim? A senhorita Anna está pensando em nos deixar? Acaso irá fazer outra viagem com Maria? _ Não, Joseph querido. Em breve todas as suas perguntas serão respondidas. Por hora, apenas faça o lhe pedi. _ Sim, senhorita Anna. Perdoe-me pela intromissão. Maria retornou, trazendo-me um pedaço de pernil e um copo de suco de melão. Enquanto eu estava saboreando o meu quase desjejum, Maria e Joseph continuavam conversando afastadamente de mim. Embora eles estivessem entretidos um com o outro, eu os observava atentamente. Então, percebi que era a hora de intervir por aqueles dois que, a meu ver, eram feitos um para o outro. Terminando, então, de saborear minha refeição, levantei-me e caminhei em direção a eles, que se afastaram com a minha presença. Então, disse-lhes: _ Sabiam que os senhores formam um belo casal? Maria corou e Joseph abaixou a cabeça, sem graça. Porém, prossegui: _ Ora, ora! Porque ficaram sem graça? O amor é isso: estar bem com quem nos damos bem. Por que não pensam em se unir, já que ambos são sozinhos e desimpedidos? Nunca pensaram nisso? Vou deixá-los pensando sobre o assunto. Disse isso percebendo que os dois não conseguiam dizer uma palavra sequer. Em seguida, saí, voltando para minha árvore. Não demorou muito para que o cansaço me levasse a sono profundo. Tive um sonho muito estranho: uma grande ave pousava sobre o meu corpo nu e levava minha alma, serenamente, para um lugar que mais parecia o paraíso. Devo ter ficado ali por muitas horas, pois acordei com Maria sacudindo-me e pedindo para levantar-me. Senão, atrasar-me-ia para o baile. Abri os olhos, meio atordoada, e fui logo dizendo: _ Hã? O que houve, Maria? _ Precisa acordar, senhorita. Já é tarde e tem que se banhar e se vestir para o baile. _ Nossa, dormi muito, não foi? Contei à Maria sobre meu sonho estranho. Ela o traduziu, dizendo que se tratava de uma ave de rapina - o que queria dizer que alguém do meu convívio estava tentando me seduzir. Por fim, Maria insistiu: _ Levante-se, minha filha. Seu banho já está pronto, como me pediu. Coloquei rosas vermelhas, que é para abrir o seu caminho do amor, e jasmim com alfazema, para aromatizar a água. _ Que bom! Assim me apaixono de vez pelo conde, que já está quase casado com meu pai. _ Hã? Não entendi, filha. O que quis dizer dessa vez? _ É que os dois estão tão unidos - por um elo que julgam ser eu - que só faltam confirmar a união entre si. Fico tão emocionada que posso chorar agora mesmo. Mas creio que, se pararem para pensar, o verdadeiro elo entre eles é a condessa. Maria sorriu, mas me preveniu: _ Não deixe que a ouçam falando assim, ou acharão que a senhorita não é uma pessoa normal. Pois pensarão que a senhorita está falando da união entre dois homens. _ E tenho que ser normal? Não me importa o que digam a meu respeito. O importante é que a senhora tenha entendido o que disse. E se meu pai e o senhor conde não querem que boatos 152
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus circulem em torno deles, então que parem de serem vistos juntos como um casal de namorados. Pois hoje mesmo, mais cedo, vi-os bêbados, andando abraçados em direção à carruagem. Se algum inquisidor os tivesse visto, por certo seriam chamados de sodomitas. _ Só não deixe seu pai ouvi-la falando desse jeito. Senão, ele... Interrompi Maria: _ Senão, ele pode o quê? Pode bater-me, ofender-me, ignorar-me, ou quem sabe coisa pior? Maria, ele já fez tudo isso e mais um pouco. Só está faltando cumprir o resto da missão. _ Mas fico preocupada com o que pode lhe acontecer. Seu pai, se a ouvir falando dessa forma, pode trancá-la em seus aposentos ou enviá-la para bem longe desta casa - como, por exemplo, para um manicômio, onde a senhorita pode ser torturada constantemente por ser considerada louca. _ Nossa, jura? Acredite: ele jamais faria isso. Pode ser que, depois do baile, ele me desse alguma punição. Mas antes? Isso seria sonhar alto demais. Maria, Maria... Só está assim porque sua cabeça está confusa com as coisas que lhe falei a respeito de Joseph. Sinto muito se a fiz ver o que já está na frente dos olhos há muito tempo e que a senhora, por estar sempre tão ocupada com os afazeres e comigo, não se dava ao luxo de enxergar. A senhora está amando... E não tem que ter vergonha disso. Então, pare de usar subterfúgios para ignorar o amor que está sentindo por Joseph. Maria, a senhora está fugindo de si mesma. _ Não deveria ter falado comigo daquele jeito na frente de Joseph. A senhorita caçoou de mim. O que ele irá pensar agora? _ Não! Jamais tive a intenção de caçoar da senhora. Maria... A senhora está amando e está sendo amada. Só não consegue perceber isso por estar relutando consigo mesma. Acha-se velha, gorda e, na sua cabeça, o tempo já passou, não é verdade? Ela confirmou positivamente com a cabeça. Prossegui: _ Sei que a senhora está realmente preocupada comigo. Mas, conhecendo-me como me conhece, sabe que não vou parar de falar o que penso das pessoas ou do que quer que seja. Então, não fique usando o pretexto de que meu pai irá me punir por causa das minhas ideias, pois sabemos que isso será inevitável futuramente. O que é importante agora é a sua felicidade com Joseph. _ Imagine se uma mulher na minha idade tem o direito de amar de novo! _ E por que não? Não vejo nada demais em duas pessoas maduras encontrarem entre si o verdadeiro amor. A senhora está viva e ainda tem o direito de amar muito. Vá atrás do que lhe pertence, mulher, e seja feliz. Faça isso sem olhar para trás, sem medo ou preconceito. E principalmente: sem pensar em mim uma única vez na sua vida. Esqueça a questão de que Joseph irá pensar mal da senhora. Na verdade, ele só está esperando que a senhora lhe dê uma chance para que ele a faça feliz. Segure o seu homem! E nem pense em mim. Sabe muito bem que nesta casa a minha missão já acabou. Ela enxugou uma lágrima, pronta a rolar, e abraçou-me. Em seguida, respondeu-me: _ A senhorita às vezes fala como uma mulher muito experiente. Se eu não a conhecesse, ficaria confusa. _ Como todas nós, mulheres, quando se trata de algo relacionado ao coração. As experiências que trago são de minhas vidas passadas. E me diga só uma coisa: estou errada? A senhora tem alguma coisa a perder? Vá viver com sua irmã, case-se e seja feliz enquanto pode. Sabe que ela lhe está esperando. Também será bom para Joseph. Afinal, ele já está cansado de tanto trabalhar. _ E se ele descobrir que sou uma bruxa e repudiar-me? _ “E se? E se?”. Ora, Maria, deixe disso. Joseph é um homem maduro e experiente. Vai é gostar daquela terra toda para plantar e cuidar. Agora devemos entrar, pois tenho que me preparar para a primeira parte do meu plano. _ Como assim? Que plano é esse? _ Sinto muito, Maria, mas não posso dizer-lhe. Peço apenas que confie em mim. 153
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Ela, então, não perguntou mais nada a respeito. Ao entrarmos, demos de cara com a famigerada condessa, afoita com o restante dos preparativos, mas fingiu nem ter-nos visto. Virei- me para Maria, perguntando-a se madame Hortência havia entregado também os novos vestidos. _ Sim, senhorita Anna. Fiquei até sem jeito de ver tanta coisa bonita. _ Ah! Então coloque o mais bonito esta noite e vá ter com Joseph. Ela saiu completamente corada, sem nada mais a dizer. Meu banho já estava pronto, esperando-me. Comecei, então, a despir-me serenamente. Toquei a água com o dedão do pé e, finalmente, relaxei meu corpo naquele líquido purificador. Fechei os olhos e ouvi quando a condessa entrou na ponta dos dedos e pegou a chave de minha porta, trancando-me por fora. Sorri, pois já estava esperando que ela fizesse tal artimanha infantil. Ela sabia que, se eu não comparecesse ao baile, meu pai ficaria furioso e punir-me-ia. Sabia, também, que ele não faria escândalos e não subiria naquela noite ao meu quarto - o que lhe daria tempo de voltar à cena do crime para colocar a chave em seu devido lugar enquanto eu dormia. Óbvia demais e pouco esperta para mim. Terminei o meu banho, deitei-me na cama e fiquei lendo o restante do meu livro, enrolada em um roupão de seda lilás. Maria bateu à porta. _ Senhorita Anna, está tudo bem? _ Sim, querida Maria, está. Tudo está como eu havia previsto. E você, já está pronta? _ Ainda não, mas já irei me aprontar. _ Ótimo! Joseph está lá no fundo, perto da floreira. _ Vou terminar meus afazeres. Tem certeza de que conseguirá sair daí? _ Claro! Assim que o conde chegar, farei a minha entrada triunfal. _ Se é assim, descerei. Veremo-nos amanhã. _ Obrigada, Maria, mas acho que ainda hoje nos veremos. Levantei-me da cama e fui arrumar meus cabelos. Fiz um lindo coque e puxei algumas mexas. Usei um conjunto de rubis que já estava separado. O mais difícil foi o espartilho, mas consegui, com muito custo. Fiquei na janela, observando os convidados chegarem um a um. Já eram oito horas quando o conde resolveu dar o ar de sua graça. A condessa e meu pai estavam no hall de entrada, recebendo os convivas mais solenes. Ela olhou para cima e sorriu, como quem estava vingada. Entrei e, calmamente, coloquei meu vestido. Vesti as luvas pretas, também de renda, e ouvi quando a condessa, do lado de fora da porta, chamou-me: _ Anna, seu pai pediu-me para vir apressar a senhorita. Mas é uma pena, não é? Porque vou dizer a ele que não irá descer. Que está furiosa e que quase me agrediu. Agora, se me der licença, vou para a minha festa. Que pena que você não poderá ver a cara de aborrecimento dele... Mas tenho certeza de que verá amanhã. Durma bem, minha filha. Não pude ver a face dela, mas sabia que estava rindo da suposta situação que ela pensava ter causado. Esperei que ela descesse as escadas para terminar de me vestir. Finalmente, depois de me arrumar, vesti o vestido negro de minha mãe. Olhei-me no espelho para ver como tinha ficado: perfeito. Era um vestido negro todo de renda, com pequenas lantejoulas, que realçavam ainda mais a exuberância do tecido. Sua saia era muito rodada, pois tinha sete véus, um sobre o outro. A blusa deixava os ombros à mostra. Uma pequena rosa negra de veludo salientava-se no meio do busto, prendendo o babado de renda. Depois de terminar aquele ritual de vaidade, fui à mesinha de cabeceira e peguei a chave de bronze que tinha mandado o ferreiro fazer. Abri a porta e, elegantemente, segui pelo corredor em penumbra. Do alto da escada, pude ver muitos convidados. Minha vontade era de sair correndo para o meu quarto, mas era tarde demais: um criado avisou que eu estava descendo. Todos olharam para cima, boquiabertos. Meu pai e a condessa, que usava o vestido que encomendei de madame Hortência, ao verem-me vestida de negro com os trajes de minha mãe, empalideceram imediatamente. Pareciam ter visto um fantasma descendo as escadas. O sussurro foi geral, e muitos disseram: 154
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Como ela se parece com Elizabeth! Mediante o estado de catatonismo em que se encontrava meu pai, o conde tomou a decisão de conduzir-me para o meio do salão, estendendo-me a mão para que eu acabasse de descer os degraus. Todos abriram alas para que eu e o conde passássemos em meio aos convivas. Ele, então, fez uma pequena observação: _ Fui informado de que a senhorita não estava disposta. Juro que pensei que haveria de me fazer esta desfeita. _ Não estou compreendendo o que o senhor quer dizer com isso. Por que, afinal, eu lhe faria uma desfeita? Creio que temos um acordo, não é mesmo? Saiba que o senhor está me ofendendo, pois não sou uma pessoa que volta atrás com a palavra. Agora, responda-me, meu querido conde: quem foi a pessoa maliciosa que lhe disse que eu faria uma desfeita dessas ao meu futuro esposo? _ Não sei ao certo o que está acontecendo nesta casa. Mas, para mim, basta que a senhorita esteja aqui para firmar seu compromisso comigo. _ Concordo plenamente com o senhor. E espero que, daqui por diante, antes que o senhor ouça alguma maledicência a meu respeito, procure saber primeiro se ela é verdadeira. A valsa começou e o conde e eu demos início ao baile. Preferi valsar em silêncio. Não queria muita proximidade com aquele homem. Ao terminar a música, meu pai veio pedir ao conde para dançar a próxima valsa comigo. Imediatamente, ao ter-me em seus braços, ele me disse: _ Esse vestido era de sua mãe! O que é que está tentando fazer, sua insolente? Saiba que amanhã será punida por tentar desafiar-me. _ Ora, meu pai, não estou lhe entendendo! Por que o senhor haveria de me punir, se lhe estou obedecendo rigorosamente? O que tem demais eu usar o vestido de minha mãe? Acaso viu um fantasma ou foi a sua consciência que lhe está pesando? Sinceramente, o senhor confunde-me. Mas vou enterá-lo dos novos acontecimentos dentro de sua casa: estou usando este vestido velho de minha mãe porque a sua queridíssima esposa roubou o meu e o está usando neste momento. Então, vendo-me sem saída, decidi procurar por toda a casa algo apropriado para usar no baile e não ter que decepcioná-lo com a minha ausência. Também quero preveni-lo de que, a partir de hoje, firmo um compromisso com o homem que comprou todas as suas propriedades. Sendo assim, como ele mesmo disse, como tudo o que existe dentro dessa casa, também pertenço a ele. Então, ressalto que o senhor não tem mais o direito de punir-me, pois não lhe pertenço mais. O ódio nos olhos do meu pai era visível, mas ele teve que se manter dançando comigo até que a valsa parasse. Os musicistas deram uma pausa para que todos descasassem - o que foi um alívio, pois meu pai estava apertando os meus braços com muita força. Quando a música cessou, o conde veio em minha direção, dizendo: _ Pensei que teria que esperar por mais uma valsa até poder tê-la em meus braços novamente. Ainda não tive a oportunidade de dizer-lhe, mas a senhorita está lindíssima neste vestido. _ Fico satisfeita em ver que agrado meu futuro esposo. Espero poder sempre agradá-lo. _ Eu também, senhorita. Confesso que hoje, pela manhã, deixou-me furioso. Mas, depois que estava só, percebi que nunca havia conhecido alguém com tanta personalidade assim. _ É mesmo? E houve outras mulheres que o senhor também recebeu como pagamento? _ Senhorita Anna, estou tentando dizer-lhe que estou completamente apaixonado. Na verdade, nunca senti nada assim. Não deveria rejeitar meu sentimento. Pode ser perigoso. _Para quem: para mim ou para o meu pai? O senhor vem me falar de amor sob imposições e ameaças? Francamente, deveria tentar outra estratégia. Essa não funcionará comigo, conde. Aceitei selar esta noite um compromisso com o senhor. Agora, não espere que eu leve este compromisso adiante, e muito menos que eu lhe tenha algum afeto. Não me vendi, senhor conde, e jamais faria isso. _ E o que a senhorita pretende fazer? Fugir? Creio não ser uma boa ideia. Encontrá-la-ia facilmente. 155
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Não sou mulher de fugir. Meu pai se aproximou de nós e interrompeu aquela conversa - que estava ficando perigosa -, perguntando ironicamente: _ E então, estão se entendendo bem? Como está se comportando a minha filhinha, conde? Está lhe dando muito trabalho? _ De modo algum, senhor Juan. Sua filha consegue ser encantadora até mesmo quando tenta não ser. Um criado veio servir-nos uma taça de champagne. Isso desviou um pouco a atenção de meus leiloeiros. O líquido efervescente desceu pela minha garganta e logo me surtiu um efeito entorpecente. De imediato, senti-me tonta. Alguma coisa estava errada, porque minha visão começou a ficar turva. Tentei manter-me ereta e pedi licença aos dois cavalheiros, pois precisava tomar um pouco de ar. Fui, então, à varanda. As imagens rodopiavam como mariposas na luz. Procurei por Maria. Precisava dela imediatamente. Até mesmo a luz do luar estava dando-me náuseas. Olhei para baixo e a vi conversando com Joseph de mãos dadas, sentados discretamente em um banquinho, na lateral do jardim. Embora ela estivesse plena de felicidade, precisaria interrompê-la e pedir-lhe ajuda. Ela olhou em minha direção e fiz-lhe um sinal. Não pude perceber se ela havia entendido o meu pedido de socorro, pois uma mão tocou-me o ombro. Logo que me virei, a condessa foi falando, em um tom exasperado: _ Não sei o que fez para sair de seu quarto, mas tenha certeza de que irei descobrir. Não pense que se livrará de mim assim tão fácil! Eu mal podia entender o que aquela louca estava me dizendo, pois as palavras que saíam de sua boca pareciam destorcidas. Mas lhe respondi: _ Não sei do que a senhora está falando! Tão cedo e já está em estado de ébrio? Que feio! O conde não se sentirá à vontade com essa conduta tão vulgar. Ela levantou a mão para me esbofetear. Foi quando o conde e a conteve, segurando sua mão. A condessa olhou-o fulminantemente nos olhos, parecendo não ter aprovado aquela atitude de “herói”. O cafajeste, por sua vez, disse em tom de ironia: _ Acalmem-se, minhas queridas! Não briguem por minha causa. Prometo dividir a atenção com as duas. Mas não quero que fiquem enciumadas e violentas uma com a outra. Não há necessidade para isso, senhora condessa. Sabe muito bem que não quero que toquem em minha futura esposa. A condessa olhou-o de soslaio, furiosamente, e saiu como que pisando duro, deixando-nos a sós. O conde olhou-me nos olhos e falou: _ A senhorita está bem? Não quero que machuquem o brinquedinho que ainda não usei. Não cuspi nas faces daquele homem nojento por um milésimo de segundo apenas. Mas resolvi manter-me quieta. Então, respondi, fingidamente: _ Sim, estou muito bem, graças ao senhor. Senhor conde, não sei o que há comigo, mas estou me sentindo muito tonta. Desculpe-me, nunca me senti deste jeito. Senti que iria cair. O conde amparou-me. Por fim, quando levantei a cabeça para agradecê-lo, ele aproximou os lábios dos meus e disse, num tom que mais parecia um sussurro: _ Calma, moça! Acho que deve ter se excedido no champagne. _ Não me excedi em coisa alguma, conde. Não tomei mais que dois goles da bebida. Há alguma coisa errada. _ Por que não para de me chamar de senhor e passa a me chamar pelo meu nome, Albert? Afinal, seremos marido e mulher muito em breve. Tentei empurrá-lo, pois estava grudado em mim. Estava enfraquecida por causa da tonteira. Ele continuou a me segurar fortemente: _ Não seja tão arredia comigo. É melhor não fazer tanta força. E vá se acostumando com os meus carinhos, pois não gosto de mulher puritana. 156
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Eu já não tinha mais reação. Meus membros estavam adormecidos. Então, o conde puxou a minha cabeça para junto de si e beijou-me. Tentei esbofeteá-lo, mas foi em vão, pois ele segurou minhas mãos. Depois de ter forçado aquele beijo, puxou-me, cambaleando para dentro do salão. Foi logo pedindo a atenção de todos. Disse, então, em voz alta, batendo com uma colher em uma taça: _ Meus queridos, hoje é um dia muito importante para mim, pois estou sendo integrado em sua comunidade. E é com imenso prazer que estou pedindo em casamento a senhorita Anna Vladimir Gondin, filha do senhor Juan Vladimir Del Prat. O alarido de espanto foi geral. O conde prosseguiu, não me deixando dizer absolutamente nada: _ Senhorita Anna, presenteio-a com o anel real de minha avó. Que esta joia seja o elo entre nossas famílias. Todos aplaudiam e, quando o conde colocou finalmente o anel em meu dedo, caí em um abismo profundo. Foi como se formasse na minha frente um enorme buraco negro. Não me lembro de mais nada, pois desmaiei. Horas depois, acordei em meu quarto, rodeada por várias pessoas. O doutor passava-me nas narinas um líquido horrível para que eu despertasse. Maria estava ao meu lado e perguntou-me, passando a mão pela minha testa: _ Fique calma, minha filha. Estou aqui agora. Não a deixarei de novo, prometo. _ Maria, o que houve? O que aconteceu comigo? _ Fique quietinha. Alguém colocou um entorpecente na sua bebida. - disse ela, sussurrando ao meu ouvido. Fiquei quieta, esperando que Maria colocasse para fora toda aquela gente curiosa. Não vi o conde, mas Maria depois me informou que ele havia ido embora. Quando o quarto já estava vazio, tentei levantar-me, mas... _ O que fizeram comigo, Maria? Não me lembro do que aconteceu. Eu estava me sentindo tão bem. Só consigo me lembrar do beijo que o conde forçou-me a dar-lhe, e depois do anel em meu dedo. _ Meu Deus, ele fez isso? Então é como eu suspeitava. Foi o conde que colocou o entorpecente em sua bebida. Ele queria fazer-lhe algum mal. A sua sorte foi não ter tomado todo o líquido que estava em sua taça. Caso contrário, poderia estar acordando nos aposentos do senhor conde agora. Mas quando a vi na varanda, percebi que havia algo de errado com a senhorita. Só sinto não ter-me apressado em atendê-la quando me chamou. _ Este homem é mais perigoso do que supúnhamos. Devo precaver-me contra ele de agora em diante. _ Sim. Não deve ficar mais sozinha com ele - pelo menos o quanto puder evitar. _ Não se preocupe, Maria. Só temos o direito de errar uma vez, e já errei duas. A primeira quando deixei minha porta aberta, depois de já ter encontrado minhas janelas destrancadas. E a segunda foi aceitar uma bebida na presença do conde. Deveria ter desconfiado quando ele pegou a taça, parecendo saber qual era a minha. O que farei, Maria? Estou me sentindo completamente vulnerável nesta casa. _ Não sei, minha filha. Não consigo pensar em nada para ajudá-la, a não ser em pedir-lhe mais uma vez que fuja. _ Não posso fugir, Maria. Para onde eu iria? _ Para a casa de minha irmã, como já mencionei. _ Maria, a senhora está se esquecendo de que o conde tem o diário de minha mãe. No diário dela, há o mapa de como chegar até a casa de sua irmã. Não posso colocar aquele povo em risco por minha causa. Maria sentou-se na beira da minha cama, parecendo sentir-se impotente também. 157
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Esta noite direi ao seu pai que, devido ao seu estado, dormirei aqui com a senhorita. - disse Maria, depois de muito pensar. Em seguida, saiu e trancou o meu quarto pelo lado de fora, com a minha chave extra. Logo depois que Maria saiu, percebi uma pequena bola de luz em um canto do quarto. Curiosamente, levantei-me para ver de perto. Ao me aproximar daquela bola de luz, ela se materializou. Afastei- me para trás, meio assustada. Vi uma senhora trajando um fino vestido de seda verde. Depois de muito me olhar, ela me disse: _ Desculpe-me por invadir seus aposentos, minha jovem. Mas estou aqui para preveni-la quanto ao conde. Este homem não é quem todos pensam. Ele é um assassino e usurpador. _ Sim, meu mentor espiritual já me disse isso. E quem é a senhora, por favor? _ Sou a marquesa de Monte Carlo, mãe do verdadeiro conde de Monte Carlo. Este homem assassinou o meu filho e o meu marido. Agora está usurpando o lugar deles. Tenha cuidado, minha filha. Ele é mais perigoso do que a senhorita supõe. Dizendo isso, o espírito desapareceu. Fiquei parada, em pé, no meio do quarto, sem saber o que fazer. Minhas pernas começaram a tremer de tal maneira que me vi obrigada a voltar para a cama. Fiquei encolhida e assustada, esperando que Maria retornasse. Quando estamos nos sentindo coagidos, não conseguimos ver a solução para os nossos problemas. De repente, senti as lágrimas rolarem-me nas faces. Queria ter um amigo para me proteger. Queria colo de mãe. Sentia-me tão só! Embora estivesse preparada para enfrentar meu destino, naquele momento a solidão tomou conta da minha alma. Parecia que meu espírito estava envolto por uma grande escuridão. Meu coração estava cada vez mais apertado. Não tinha para onde ir, correr, escapar, o que quer que fosse. Sem querer, blasfemei em voz alta: _ Se eu morresse, seria melhor para todo mundo! De repente, uma voz me respondeu ao ouvido: _ Melhor para quem, Anna? Para você? E a pobre da Maria, que lhe cuidou com tanto zelo, abdicando-se da própria vida? Está sendo egoísta e imatura, Anna! Esse é o erro de se saber o futuro. Muitos acham que podem antecipá-lo ou modificá-lo. Acredite: acabam terminando no abismo sem fim da escuridão imortal. Não vai querer isso para sua vida, Anna. Não passamos pelos problemas da vida - são os problemas que passam por nós, ensinando-nos a viver. Então, devemos viver de maneira que esses problemas sejam exemplos de como não procedermos de maneira excêntrica e precipitada. Não posso permitir que siga seu destino sem ao menos aprender o dom da paciência. Você tem que entender que é uma pessoa diferente. Estou muito decepcionado com você. Saiba que as palavras nunca são totalmente jogadas ao vento. Elas podem ser ouvidas por espíritos impuros, que podem vir atender o seu suposto desejo. Uma atitude precipitada poderia prejudicar todos à sua volta. Se fizer o que disse há pouco, Maria seria colocada na rua e, com isso, voltaria para a casa da irmã. Ela nunca mais veria Joseph. Lorenzo seria despedido e, com isso, cairia nas bebidas e não mais se casaria com Samara. Esta, por sua vez, acabaria se tornando uma prostituta para tentar se sustentar. Tereza e seu esposo seriam despedidos também e, como estão em idade avançada, não arrumariam mais emprego. Com isso, a pobre netinha morreria de fome. Tereza e o marido têm uma família que depende deles. Como percebeu, tem muita gente que depende de você, Anna. Mesmo assim, teve um pensamento tão egoísta como esse? Não posso acreditar no que ouvi, Anna! Eu estava debulhada em lágrimas, mas respondi, entre soluços: _ Perdoe-me, Heixe! Por favor, perdoe-me, meu amigo! Porém, ele prosseguiu: _ Não sou eu quem tem que lhe perdoar. É você mesma. Precisa parar de sentir pena de si mesma. Levante-se desta cama e vá até o pequeno templo que sua mãe construiu. Prepare uma poção, faça o ritual da chuva. Purifique sua alma e deixe que a chuva lave as mazelas da sua alma. Agora vá e faça o que tem que fazer. Tenha cuidado apenas para que a condessa não descubra nada. 158
  • 159.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Quando Maria voltou, contei-lhe o que havia acontecido. Ela fitou-me tristemente e respondeu: _ Saiba que o seu mentor espiritual está coberto de razão, senhorita Anna. Esse foi o pensamento mais egoísta que a senhorita já teve. Como acha que me sentiria sem a senhorita? Não pensou nos sentimentos das pessoas que a amam de verdade? Maria ajeitou um lugar no chão para dormir, sem dirigir-me a palavra novamente. Depois que ela adormeceu, ainda fiquei um bom tempo acordada, refletindo sobre aquele assunto. Muitas pessoas confiavam em mim, e quase coloquei toda a tradição a perder por causa de um pensamento egoísta. Às vezes, ficamos cegos com nossa revolta e agimos de maneira insana. Achamos que não temos nada mais a perder, mas esquecemos tudo e todos que nos cercam. Fui uma tola por pensar tão levianamente. Ainda bem que tinha amigos no espaço para me auxiliarem. O suicida não é somente aquele que se envolve com entorpecentes ou bebidas - estes se suicidam lentamente. O suicida também é aquele que se anula espiritualmente, matando o seu aparelho. E era o que eu ia fazer, caso Heixe não tivesse vindo em meu auxílio. Uma bruxa ou uma pessoa que tenha dons especiais não pode jamais ter este tipo de pensamento, pois isso faz com que vá contra as leis da natureza de Deus. Logicamente, o mesmo serve para todas as pessoas – mas, principalmente, para todos aqueles que seguem uma tradição espiritual. Fiz minhas orações e olhei para Maria, que estava deitadinha no chão somente para me proteger. Como fui egoísta, Senhor, em dizer que sou sozinha... Depois de muito meditar sobre minha vida, adormeci, deixando que meu corpo repousasse em sono profundo. Quando acordei, o dia ainda não tinha raiado. Então, levantei-me bem devagarzinho e coloquei o roupão, cutucando Maria bem de mansinho para que não se assustasse. Então, chamei-a baixinho: _ Maria, Maria... Acorde, por favor... _ Hã? Menina, o que faz fora da cama? Está bem? O que está sentindo? Meu Deus, dormi demais, foi isso? - levantou-se de um salto só, com os olhos que pareciam dois pires de tão arregalados. _ Maria... Não faça tanto barulho... Calma, não estou sentindo nada, estou muito bem. Levante um minuto e venha comigo. Quero que me mostre onde é o templo que minha mãe fez. Ela levantou meio receosa e, parecendo não crer no que eu dizia, vestiu o roupão e saímos no meio da casa escura, carregando um lampião que mal deixava enxergar os próprios pés. Atravessamos todo o pátio do fundo da cozinha e chegamos ao porão, onde meu pai guardava seus preciosos vinhos. Acendi outro lampião que estava pendurado junto à porta. Maria retirou uma garrafa da adega. Então, como em um passe de mágica, abriu-se uma porta secreta. Entramos e acendi mais dois lampiões que estavam pendurados. Todo o lugar ficou logo iluminado. Parecia uma caverna mística. Fiquei extasiada e boquiaberta com o que vi. _ Maria, minha mãe construiu isso antes de eu nascer? Como ela conseguiu fazer isso sem que meu pai percebesse? Quem a ajudou? _ Sim, senhorita Anna. Elizabeth construiu isso tudo com a minha ajuda e de alguns irmãos da tradição, que vinham até aqui enquanto o seu pai viajava. Este local demorou algum tempo para ficar pronto, pois foi feito parcialmente, nos intervalos e ausências do seu pai. Elizabeth era uma mulher muito discreta e reservada. Por isso, foi fácil esconder a tradição de seu pai. Depois de andar por todo o local e admirar tudo o que encontrei, disse à Maria: _ Venha, ajude-me a lavar esse caldeirão. Preciso fazer um preparo para o ritual da chuva. Meu primeiro equinócio será comemorado com a chuva no fim do outono. _ Jura? E quando será? _ Na próxima quarta-feira. A chuva será à noite. Devemos nos preparar para irmos à floresta. Temos que nos preparar para a purificação do corpo. _ Posso participar? Nunca fiz o ritual da purificação. _ É claro que sim! Então, faremos juntas a poção. 159
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Maria lavou o caldeirão e a colher de pau. Decidi não usar o material que havia comprado: aquele me serviria muito bem e já estava cheio de boas energias. Limpamos todo o ambiente nos mínimos detalhes. Preparamos as ervas para o cozimento. Pegamos a imensa colher de pau e mexemos a poção - as duas juntas, ao mesmo tempo. Durante o processo, dissemos: _ Que o espírito da cura se reúna a esta essência, trazendo-nos paz, harmonia e forças para que nosso corpo físico possa conseguir seguir a sua jornada. Cantamos, também, naquela língua antiga. E rimos muito, passando energias positivas para a essência. Rodopiamos e dançamos em volta do caldeirão, enquanto ele cozinhava a poção. As chamas pareciam dançar conosco. A dança é, para nós, uma forma de libertação. Quando dançamos, soltamos a alma e não pensamos em mais nada à nossa volta. Talvez tenha sido um grande erro dançarmos naquela noite. Pois ficamos tão inertes que não percebemos a presença silenciosa e maligna da condessa, que nos vigiava sorrateiramente. Ela havia sido acordada pela copeira, sua cúmplice, que nos denunciou. A fumaça e a penumbra do lugar não nos deixaram perceber sua presença. Ela ouviu tudo, atentamente, sobre as poções e o ritual da chuva. Eu e Maria parecíamos estar embriagadas pela essência que saía do caldeirão. As ervas eram muito fortes, e o cheiro nos fez viajar. Acrescentei sálvia e óleo de girassol. Por fim, sentamos e rimos muito, pois estávamos felizes e absortas. Tomamos o chá do poder e abrimos o nosso chácra do conhecimento. O poder do chá era inigualável e, logo ao bebermos, sentimos toda a força do universo nos cercando. Esse chá representa toda a força da mãe terra, a fonte de vida, o côncavo e o convexo, o macho a fêmea. As duas forças uniam-se durante a ingestão desse chá. Seu poder de cura era infinito. Mas o principal objetivo é curar a alma. Depois de muito meditarmos, disse à Maria: _ Acho que passamos da hora. Precisamos apagar o fogo e tampar o caldeirão. Lembre-se de vir aqui e cozinhar as ervas até quarta-feira. _ Pode deixar que ficarei atenta para não deixar passar do ponto. Esse ritual tinha que ser preparado com muita antecedência. A erva devia ser cozida até desmanchar, pois o banho era por inteiro e deveríamos deixar a terra consumir tudo o que saísse do nosso corpo. Nesse ritual, damos à terra todos os nossos problemas, e recebemos da chuva toda a sua energia renovadora. Pois a chuva traz tudo de bom que a terra nos dá. Isso se chama círculo rotativo. A terra recolhe a água que sai do nosso corpo doente, e a chuva leva o que não presta para o céu, reciclando essa energia e devolvendo-a em forma de energia positiva. De repente, escutamos um barulho do lado de fora. _ O que foi isso, Maria? - perguntei assustada. _ Não sei, senhorita Anna. Espere aqui que irei ver o que é. Senti um frio na barriga. Algo estava errado e havia ativado todos os meus sentidos. Comecei a ficar com dores de cabeça. Foi aí que percebi a presença da condessa: ela havia estado ali o tempo todo e, com certeza, eu estava em suas mãos. A partir daquele momento, eu sabia que seria chantageada por duas pessoas ao mesmo tempo. Maria voltou e disse-me: _ Não vi ninguém, senhorita Anna. Deve ter sido algum tipo de animal. _ Pouco provável, Maria. Com certeza, foi a condessa. Meus sentidos de bruxa mostraram-me ser ela. _ A condessa? Meu Deus, ela fará chantagem com nós duas. O que faremos? _ Devemos ter calma, para melhor raciocinarmos sobre o que fazer. _ E o que faremos com essas provas? - disse Maria, apontando para tudo à nossa volta. _ Eu poderia dizer que estávamos procurando um vinho raro para ofertar ao meu futuro marido e, sem querer, descobrimos esse lugar. _ E o que diríamos sobre o caldeirão e a poção que está ainda em cozimento? 160
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim, a senhora tem razão. Não conseguirei inventar uma desculpa plausível para essa situação eminente. O melhor a fazer é esperar para ver o que a condessa fará. _ Sim, mas até lá morreremos ansiosas, sem saber o que a condessa irá nos aprontar. Sentei ao chão e coloquei as mãos no rosto, pensando em como achar um meio de driblar a condessa, pelo menos até o dia do ritual da chuva. Sabia que, se eu quisesse usar meus poderes, poderia pôr um fim naquilo tudo. Mas nunca poderia usá-los em benefício próprio, pois as consequências seriam muito piores. Quando usamos nossos poderes para controlar alguém ou para fazer um indivíduo esquecer-se de uma situação, além de gastarmos muita energia vital, podemos passar por coisas horríveis. Como, por exemplo, ser atormentada dia e noite por espíritos levianos. Isso pode resultar na loucura mental do corpo físico ou no suicídio do indivíduo em questão. Por isso, disse à Maria, que estava se borrando toda, por medo da sombra que nos espreitou a noite toda: _ Não faremos absolutamente nada. _ Como assim, nada? _ É o que a senhora ouviu. Daremos tempo ao tempo e ele se incumbirá de nos responder. Maria não disse mais nada, mas senti que estava aflita. Arrumamos as coisas, apagamos o fogo do caldeirão e saímos, em silêncio. Passamos tranquilamente pelo pátio e pelos corredores. Foi assustador pensar que poderíamos ser pegas de repente. Maria deixou-me na porta de meu quarto e desceu. Foi uma madrugada muito difícil. Cheguei a pensar que não passaria daquela noite. Arrumei-me e, em seguida, fiz minhas orações. Não poderia descuidar do espírito. E também não estava mais em condições de dormir. Abri a janela e vi Joseph, já se preparando para cuidar do jardim. Então, resolvi descer e fazer-lhe companhia. Abri vagarosamente a porta e saí, meio que na ponta dos pés. Já estava no meio do corredor quando a condessa agarrou-me pelo braço e puxou-me para um canto, interrogando-me: _ Estava aprontando alguma coisa ilícita naquele porão. Pretendo descobrir o que é. Percebi, então, que a condessa, por causa da fumaça, não conseguiu ver o que estávamos fazendo e também não ouviu o que dizíamos. Então, respondi-lhe, tentando inverter aquela situação: _ Ah! Então a senhora não sabe? Se a senhora anda espionando as pessoas atrás das portas, deveria saber. _ Infelizmente, não deu para ver por causa da penumbra. Mas saiba: estou de olho. Respirei aliviadamente, confirmando a minha atual suspeita de que a condessa não sabia de nada. Tentei apressar-me para contar à Maria, aliviando-a daquele fardo desnecessário. Fui saindo, mas a condessa, que ainda segurava meu braço, prosseguiu: _ Antes de sair, terá que me contar: que lugar era aquele? _ A senhora não sabe? É ali que queimam as ossadas dos escravos que morrem torturados. Estou impressionada como a senhora, que vive nessa casa há tantos anos, possa estar tão alienada deste fato tão corriqueiro. Agora, se a senhora duvidar da minha palavra, posso eu mesma levá-la até aquele local. Ou melhor: peço a meu pai que lhe mostre o local pessoalmente. _ Não será preciso. Saiba que sei de tudo o que se passa dentro da minha casa. – mentiu, querendo parecer senhora absoluta de tudo. Olhando-me bem nos olhos, ela prosseguiu com a conversa: _ E o que estava fazendo junto à Maria àquela hora da madrugada? _ Santo Deus, senhora condessa! Como a senhora é desinteressada e insensível! Ainda não sabe que uma de nossas escravas perdeu um bebê por esses dias? Eu e Maria estávamos acendendo velas e rezando para a pobre alma daquele pequeno inocente. A fumaça que a senhora viu foi porque queimaram os ossos do pobrezinho ainda hoje. Cheire só o meu braço para a senhora ver como estou cheirando a defunto queimado. 161
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Disse isso estendendo e colocando meu braço nas narinas da condessa, que recuou e soltou-me, finalmente. A tola mulher, além de apavorada, ainda disse, arrogantemente: _ Saia de perto de mim, com esse cheiro de escravo queimado! Não faço questão de me envolver em assuntos de escravos. Deixo isso para seu pai. Mas não me surpreendo em saber que uma estúpida como a senhorita se envolva nesses casos medíocres, com esse tipo de gente. _ Sabe, condessa, a senhora é mesmo uma pessoa muito doente. Por que não aproveita que o médico está na casa e faz uma consulta? Mas não se esqueça de informar-lhe que sua doença é na alma: chama-se preconceito. A condessa empinou o nariz e saiu, remexendo as cadeiras, até entrar em seus aposentos. Por minha vez, saí pelo corredor afora, saltitante como uma menina. Procurei Maria na cozinha e contei-lhe tudo. Ela se arriou sobre uma cadeira e disse: _ Definitivamente, a senhorita é mais cheia de artimanhas que o próprio demo! _ Eu!? De maneira nenhuma, Maria. A condessa que é desprovida de neurônios - o que, para mim, é uma salvação. Acredite, Maria: ninguém nos impedirá de realizar o ritual da chuva. Eu já ia pegar algo para comer quando resolvi perguntar outra coisa à Maria, ainda sentada naquela cadeira, sem conseguir dizer-me uma só palavra: _ Ah! Já ia me esquecendo... A senhora retornou ao crematório para acendê-lo? Lembre-se de que nosso cozido deve ferver diariamente. Maria pareceu entender sobre o que eu queria dizer e riu a valer. Depois de degustar tranquilamente meu desjejum, virei-me para Maria e falei-lhe: _ Iremos ter com Joseph daqui a pouco - fique a senhora sabendo! _ E para quê? No que a senhorita está pensando em envolver o pobre homem? – perguntou, com medo do que eu poderia estar planejando. _ Nada demais. Só vamos, de uma vez por todas, resolver a sua situação que está pendente com ele. Disse isso degustando uma deliciosa fatia de queijo. Maria, por sua vez, levantou-se apressadamente da cadeira e começou a remexer nos objetos da cozinha, desconexamente. Até que, não resistindo, perguntou-me: _ Posso saber qual seria a situação pendente que tenho para resolver com o senhor Joseph? _ Ora, Maria! Fracamente, não lhe cabe agora se fazer de rogada comigo. Sabe muito bem que estou falando do seu afeto por ele. Não achou que eu não faria nada quanto a essa questão, não é mesmo? _ Para falar a verdade, já estava suspeitando que a senhorita fosse me colocar em mais uma de suas confusões. Mas, dessa vez, imploro-lhe: não me faça passar por tamanha vergonha. Pois, caso contrário, irá ver essa sua amiga aqui esticadinha ao chão. E creio que não quer isso, não é verdade? Ela apertava as mãos uma contra a outra, enquanto me olhava com um olhar suplicante, esperando que eu lhe desse uma resposta a seu favor. Porém, respondi: _ Se for para o seu bem, pode desmaiar à vontade! Quem sabe Joseph, ao vê-la esticada ao chão, abaixe-se para beijá-la e já lhe faça um pedido de casamento ali mesmo. Maria virou-se de costas para mim, benzeu-se e respondeu: _ Perdeu foi o juízo de vez, viu!? Imagina só se irei permitir tamanho despudor! _ Ora, então a amarro e pronto! Percebi que Maria estava rindo baixinho, pois havia gostado da ideia de ser beijada por Joseph - embora continuasse a manter aquela postura rígida. Enquanto ela ficava sonhando com o suposto beijo dele, comecei a matutar uma forma de tirar Maria de toda aquela enorme confusão na qual eu estava atolada até o pescoço. Podia-se dizer que eu estava em um beco sem saída. Mas não poderia deixar minha melhor e única amiga ir direto para o poço, sem fundo, junto comigo. Depois de muito queimar tutano e deixar meus cabelos todos enfumaçados, cheguei a uma real conclusão, 162
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus finalmente: Maria deveria escrever urgentemente para sua irmã. Mas, como eu sabia que ela não concordaria com o meu plano, teria, então, que eu mesma escrever a tal carta. Meu pai e a condessa saíram muito cedo e, provavelmente, não voltariam tão rápido. Maria disse para ele que eu ainda estava dormindo - o que me deu tempo suficiente para pôr o meu plano em prática. Naquela manhã, Tereza chegou um pouco mais tarde e parecia estar de mau humor. Pelo que aparentou, não nos queria por perto. Mas ela normalmente já era assim: detestava invasores no seu território sagrado. Porém, naquele dia, o mau humor imperou sobre ela. Eu e Maria saímos à francesa, deixando a mulher com seus próprios demônios. Do lado de fora, corri os olhos, tentando achar Joseph. Por fim, avistei-o cuidando das magnólias. Olhei para Maria, dando-lhe um sorriso maroto, e saí correndo em seguida, para chegar perto de Joseph antes dela. Maria tentou acompanhar-me, mas fui muito mais ágil. Quanto cheguei à frente de Joseph, estava morrendo de rir de saber que Maria estava vindo toda afoita atrás de mim. Joseph, parecendo perceber que tinha algo no ar, olhou para mim e correu os olhos para localizar Maria. Ele, também num tom de riso, disse: _ Senhoritas, onde pensam que vão desta forma aflita? Em seguida, o homem levantou-se para nos cumprimentar melhor e se tornar ciente do que estava acontecendo. Depois de olhar-nos dentro dos olhos, ele falou: _ Em que posso ajudá-las? O que houve? Aconteceu-lhes algo? Então falei, sem muito dar margens a outros comentários e perguntas, antes que Maria pudesse interromper-me: _ Querido Joseph, estou ciente de seus sentimentos por minha amada Maria. Quero que saiba que é recíproco. Porém, ela é tímida demais para lhe dizer isso. Portanto, estou aqui, sendo uma intermediária entre os dois. Maria não sabia onde se enfiava, de tão envergonhada que a fiz ficar. Ela me beliscava e tentou várias vezes tampar a minha boca. Mas, uma vez que comecei a falar, ninguém conseguiria impedir-me de terminar. Joseph olhava para Maria com olhos vidrados e cheios de lágrimas. O homem parecia estar com aquele sentimento entalado no peito havia anos. Percebendo que ele não tinha coragem de abrir a boca, prossegui: _ E então, senhor Joseph? O que tem a me falar a respeito do que lhe acabo de dizer? Ele girou o corpo de um lado para o outro, parecendo procurar algo nos bolsos de trás da velha calça. Fiquei ali, esperando uma resposta, mas o pobre homem parecia tão preocupado em achar sabe-se lá Deus o quê que me deixou ali, parada à sua frente, por vários minutos. Por instantes, achei que havia cometido um grande erro, porque o homem não respondia nada e parecia ter escondido o rosto debaixo do chapéu de palha. Olhei para Maria, que parecia estar ansiosa por uma resposta dele. Então, resolvi arriscar tudo, antes que virássemos um fóssil humano, por causa de um simples sim de Joseph para Maria. Imagine só minhas futuras gerações passando por ali, depois de milhares de anos, e achando uma jovem bruxa e uma senhora petrificadas. Por certo, indagariam entre si Nossa, o que será que transformou essas pobres mulheres em fóssil? E alguém estudioso no caso responder-lhes-ia Foi a demora de um simples “sim” do futuro pretendente de uma delas. Aquele pensamento fez-me rir sozinha. Portanto, tratei logo daquele assunto banal, dizendo: _ Joseph, por céus, homem! Está entalado com um sapo, ou os comichões são por causa de uma urtiga? Fiz-lhe, então, uma simples pergunta, de maneira pausada: _ O senhor gosta de minha governanta, Maria Peres? Sim ou não? _ É que não entendi o sentido da pergunta. 163
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Sua voz era tremida e vi o quanto aquela conversa seria demorada e difícil. Meu Deus, pensei comigo. Ou ele era um desprovido de inteligência ou era surdo. Ou ainda pior: estava se fazendo de sonso mesmo! _ Estou lhe perguntando se o senhor quer se casar com Maria, homem! _ Bom, confesso que já andei escrevendo alguns versinhos para ela. Mas nunca me atrevi a ir além disso, pois ela é uma dama de muitíssimo respeito. Oh! Glória, meu Deus, até que enfim!, pensei. Não era muito, mas pelo menos ele havia dado um sinal de vida. Aproveitando aquela oportunidade, Maria falou, por fim, porque parecia que também estava engasgada e aflita por uma resposta daquele aprendiz de Romeu, confuso e tímido: _ Ora, homem, e desde quando versos são sinal de falta de respeito? - ela colocou as mãos na cintura e fez uma cara de brava. Dirigindo-se a mim, ela disse: _ Pense bem, senhorita Anna: passei esse tempo todo na desesperança de encontrar minha cara metade, sendo que ela estava o tempo todo ao meu lado. Esse homem cabeçudo fez-me perder o melhor tempo da minha vida só porque me julgava uma mulher acima dele. Imagine só: como posso perdoá-lo por ter ficado solteirona esses anos todos? Quem ficou de olhos arregalados desta vez fui eu, que fiquei admirada por ver a revolta de uma mulher solteirona. Deus, que bom que não chegaria a tanto! Às vezes, o que o nosso destino nos reserva é mesmo uma dádiva! Pois não me conseguia ver dando uma crise daquelas por falta de um casamento. Céus! Depois de ter que pegar meu maxilar, que estava caído ao chão, falei a Joseph: _ Bom, o que posso dizer, senhor Joseph? Depois de um desabafo desses, é melhor que o senhor tome logo a atitude de pedir-lhe a mão. _ Mas não pode ser assim. Tem que ser com jeito e... Maria não deixou que o pobre homem, prestes a ser enforcado, dissesse uma só palavra: _ Que jeito, homem? Acha mesmo que estamos em idade de esperar mais alguma coisa? Acha que quero ser cortejada a essa altura da nossa história? Conhecemo-nos há mais de dez anos. Diga- me: o que o senhor ainda não conhece da minha pessoa? Se tiver alguma dúvida em se casar comigo, então não me merece. Mas se sente algum sentimento por mim, vá logo e se decida de uma vez por todas. Não tenho mais a intenção de criar os netos da senhorita Anna. Continuei recolhida à minha insignificância e de olhos bem arregalados. Por fim, disse, humildemente: _ Se o problema é a ocasião, pedirei permissão ao meu pai para que assemos um leitão com direito a rodada de banjo. Joseph, no entanto, fez uma pergunta que, embora parecesse um tanto irregular, era de se esperar mediante a reação quase histérica de Maria: _ Quero só perguntar uma coisa. _ Lógico que sim, Joseph, mas que seja breve. - respondeu Maria, parecendo estar sem a menor paciência. O homem, tirando o chapéu da cabeça e torcendo-o nas mãos, levantou os olhos e, meio sem graça, respondeu timidamente, parecendo saber qual seria a reação de Maria: _ Acaso a senhora não estaria esperando criança, estaria? _ Esperando o quê, seu cara de fuinha? O que está pensando de mim? Acha que sou sua parenta por acaso? Imagine: esperando criança com cinquenta anos! Na verdade, Maria estava com cinquenta e oito anos. Mas eu é quem não a contrariaria, principalmente naquele momento tão solene para ela. Maria já estava saindo pisando duro quando Joseph a segurou pelo braço e disse-lhe, olhando nos olhos: _ Aonde pensa que vai a minha futura esposa? Não quero que a senhora me interprete mal, mas a pergunta que acabo de fazer foi apenas para me certificar de que a senhora não havia feito nada 164
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus de errado. Mas peço-lhe humildemente o seu perdão, pois procedi como um tolo machista, sendo que a conheço há tantos anos. Dizendo isso, Joseph puxou Maria pela cintura, dando-lhe um beijo apaixonado. Por minha vez, afastei-me um pouco, deixando que aquele novo casal se entendesse sozinho. Estava feliz, pois mais uma parte da minha missão estava cumprida. Caminhei um pouco mais adiante e fui olhar o canteiro de tulipas. Estava quase me perdendo em meus próprios pensamentos quando Joseph chamou-me. _ Senhorita Anna, posso falar-lhe um instante? _ Sim, Joseph, mas onde está Maria? _ Foi para dentro da casa. Ela parece estar muito feliz, a senhorita não acha? _ Joseph, parece que sim. E o senhor cuide bem dela, está me ouvindo? _ Disso a senhorita não tenha dúvidas. _ Confio no senhor e sei que fará muito bem à Maria. Mas, antes que o senhor se una a ela, quero lhe falar algo muito sério. _ Então diga, senhorita Anna. Afinal, queremos a senhorita como nossa madrinha. _ Fico muito feliz, mas antes tem que saber algo sobre Maria e eu. Pois, como fui intrometida em uni-los, sinto-me na obrigação de lhe contar sobre certos fatos. _ Senhorita, vou deixá-la falar para não lhe parecer mal educado, mas já sei do que se trata. _ Bom, Joseph, não sei se o que está pensando é sobre a mesma coisa que lhe contarei. Maria e eu pertencemos a uma tradição milenar. Muitas pessoas têm certa dificuldade em aceitar nosso tipo crença. _ A senhorita quer me dizer que ambas são bruxas? _ Sim... Mas de maneira alguma fazemos o mal aos outros, como nos julgam erroneamente. _ Senhorita Anna, de maneira nenhuma tenho comigo o defeito de pré-julgar os outros. Sempre respeitei todas as crenças porque trabalho com a natureza. Muitas vezes, por estar sempre em contato com ela, já vi e ouvi coisas que nunca contei por medo de acharem que estou possuído por um espírito maligno. Sei bem o que é guardar um segredo. Quem a senhorita acha que construiu o esconderijo de sua mãe? _ Foi o senhor, Joseph? Por que nunca me contou nada? _ Como disse a senhorita, sou muito bom em guardar segredos. Sua mãe era uma pessoa admirável! Confidenciou coisas que nunca contaria a ninguém. Ela estava sempre pronta a servir a Deus e aos necessitados. Quando um empregado ou até mesmo escravo necessitava de seu auxílio, ela enfrentava até mesmo seu pai. Nunca ouvimos um grito ou xingamento da parte dela como ouvimos de sua madrasta. Muito pelo contrário: ela conseguia tudo com um sorriso e muita gentileza. Por ter estado ao lado de uma pessoa tão fantástica, como poderia não aprender a respeitar sua crença? Ao contrário do resto das outras pessoas, jamais fiz objeções ou repudiei o que não conhecia. A experiência que adquirimos com o passar dos anos traz-nos sabedoria e discernimento de como olhar para o que julgamos ser irreal e imaginário. Mesmo que Maria fosse uma possuída - o que não é -, ainda assim a amaria do mesmo jeito. Aprendi que tudo tem jeito na face da Terra. E, para a morte, cabe a Deus saber o que fazer. Fiquei admirada ao ouvir tais palavras saindo da boca de um homem tão simples como Joseph. Com isso, aprendi mais uma lição: não julgar ninguém pela aparência ou simplesmente porque a pessoa demonstra-se tímida mediante tais situações. Digo isso porque julguei muito mal Joseph quando ele aparentou-se em cima do muro, mediante a resposta que exigi que desse à Maria. Depois de olhá-lo admiradamente, respondi: _ Joseph, não sabe o quanto fico feliz por saber a sua maneira de pensar. Mas algo terrível está para acontecer com Maria. Por isso, tenho urgência que se case com ela e vá para o norte, onde estão os parentes dela. A menos, é claro, que o senhor tenha alguma objeção em ir morar na floresta. 165
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Imagina, senhorita Anna! Será um prazer poder conviver com a natureza. Além do mais, estou mesmo precisando descansar. Só não sei se serei bem recebido pela família dela! _ Foi o que imaginei que o senhor pensaria. Não se preocupe, pois são pessoas fantásticas. Com certeza, o senhor será muito bem recebido por todos. Falo assim porque tive o enorme prazer de conhecê-los pessoalmente, quando eu e Maria passamos aquele fim de semana lá. _ E as senhoritas, por que estão correndo perigo? _ Porque o conde, com quem me obrigaram a firmar compromisso, tem em seu poder o diário de minha mãe. Neste diário, ela conta tudo sobre a tradição, sobre a parceria dela com Maria nos rituais, e sobre a futura herdeira - no caso, eu. Ela mencionou até mesmo os poderes que eu herdaria dela. _ Minha nossa, senhora senhorita Anna! Isso é grave. Esse homem não pode, de forma alguma, casar-se com a senhorita. Com certeza fará da sua vida e a de Maria um verdadeiro inferno. Pode contar comigo para o que der e vier a partir de agora. _ Sei disso, Joseph. Por isso, hoje mesmo escreverei uma carta para a irmã de Maria. Quero que os dois fujam daqui ainda no próximo final de semana. Agradeço-o imensamente pelo apoio que me está dando. Joseph respondeu-me um pouco apreensivo em relação à suposta fuga: _ Não podemos fugir, senhorita Anna. Somos adultos e não fizemos nada demais. Não é correto fugir como dois criminosos. _ Joseph, sabemos disso. Mas, quando o conde revelar a meu pai quem foi a minha mãe e quem sou, por certo ele culpará Maria e a entregarão à Inquisição. Agora não é hora de ter orgulho. É hora de pensar somente em Maria e no povo dela. Pois, no diário de minha mãe, também há um mapa ensinando o caminho até a casa da família de Maria. O certo seria que tentássemos encontrar o diário e tirá-lo do poder do conde. _ Tem razão. Devo pensar em minha amada e no bem estar de sua família. Mas como a senhorita pretende recuperar o diário de sua mãe? _ Isso o senhor deixe comigo. Viramo-nos automaticamente, pois Maria chegou e interrogou-nos, toda desconfiada. _ O que estavam tramando em minhas costas? Rimos, pois sentimos o tom de ciúmes em sua voz. Contei-lhe, então, quase tudo que conversávamos. Ela nos olhou matreiramente, suspeitando que não estivéssemos falando totalmente a verdade. Porém, nada disse. Então, Joseph, percebendo aquele ciúme todo, abraçou Maria. Ela lhe disse: _ Ora, deixa de assanhamento, homem! Ponha-se em seu lugar. Joseph riu às gargalhadas. Achou graça porque Maria mal havia se acertado com ele e já estava enciumada daquele jeito. Depois de nos despedirmos dele, voltamos as duas para dentro de casa. Pedi à Maria que cuidasse do cozimento das ervas, pois deveriam estar prontas para o ritual. Subi para o meu quarto, pois precisava achar uma veste apropriada para que eu e Maria usássemos no ritual. Infelizmente, não tinha nada apropriado. Fiquei imaginando onde encontraria algo. Caminhei em direção à janela para abri-la e, ao olhar para baixo, vi que a carruagem do conde estava parando em frente à entrada da casa. Fiquei imaginando o que aquele homem poderia estar fazendo ali se os donos da casa não estavam presentes. Não demorou muito e Maria subiu correndo para me avisar que o conde estava pedindo para falar comigo imediatamente. _ O que esse maldito ainda quer comigo, depois de tudo o que aprontou? _ Não sei, senhorita. Mas, com certeza, não a deixarei sozinha com ele novamente. Descemos juntas e de mãos dadas. Ao entrar na sala de estar, o conde estava me esperando e veio todo faceiro ao meu encontro, dizendo: 166
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Senhorita Anna, fico feliz em vê-la de pé! E como foi que teve tão rápida melhora? O doutor falou-me ontem que a senhorita estava muito debilitada e talvez não se recuperasse tão rápido. _ Vai ver foi um engano médico, ou quem sabe um milagre divino!? Ele se aproximou para beijar-me. Mas, graças a Deus, deu um passo para trás, porque Maria entrou em sua frente. O conde olhou para ela, furiosamente, e disse: _ Vejo que a senhora zela muito bem a minha noiva. _ Por certo que sim, pois a criei como uma filha. _ E a senhora e minha noiva vão sempre juntas a todos os lugares? _ Sim. Essa também é uma das minhas funções nessa casa. Mas, acredite: faço isso por mero prazer e amizade à senhorita Anna. _ Acredito que sim. Mas andei investigando um pouco sobre a sua história e soube que a senhora não é muito de frequentar a igreja, assim como a mãe da senhorita Anna. Não é mesmo, minha noiva querida? Dizem que ela era uma mulher muito misteriosa e quase nunca era vista na cidade. O gosto de sua mãe por coisas exóticas era muito suspeito, não? – disse, dirigindo-me a palavra. Por minha vez, não pude ficar calada e respondi: _ Aonde o senhor conde está querendo chegar? Nós duas já estamos cientes de que o senhor sabe do nosso segredo. O que o senhor quer realmente nesta casa a essa hora? _ É por isso que gosto da senhorita, porque é uma mulher inteligente. Mas, já que tocou no assunto, quero que peça à sua governanta que se retire da minha frente, pois tenho o direito de ficar sozinho com a minha noiva. No entanto, ressaltei: _ Direito a que? De ficar com uma mulher em cuja bebida o senhor teve a coragem de mandar que misturassem entorpecente para que assumisse um compromisso com o senhor, sem ao menos saber o que estava fazendo? _ Como a senhorita é esperta! Já que agora conhece como posso ser perigoso, poderia simplesmente fazer o que estou lhe pedindo, ou vai querer que eu pegue esta maldita mulher e a entregue à Inquisição agora mesmo? - disse isso, passando por trás de Maria e colocando um punhal em sua garganta. Gelei ao vê-la no poder daquele assassino e disse-lhe, suplicando pela vida de Maria: _ Por favor, senhor conde, não machuque Maria. Ela é uma boa pessoa e não fez nada para o senhor. Diga-me o que tenho que fazer para que o senhor nada faça a ela. _ Agora, sim, parece que vamos chegar a um acordo. Peça à sua governanta que saia daqui e acompanhe-me até onde estou hospedado. _ Está bem, senhor conde. Vou com o senhor. Mas, por favor, liberte Maria agora. Maria, ao se ver livre daquele homem, saiu correndo para o jardim, enquanto eu e ele seguimos atrás. O conde estava falsamente abraçando-me, mas o punhal estava em minhas costas. Foi quando, de repente, avistei a carruagem de meu pai, que estava chegando com a condessa e o padre Ignácio. Nunca fiquei tão feliz por ver a condessa e meu pai e, principalmente, o padre. Logo que o cocheiro abriu a porta da carruagem, padre Ignácio desceu e, parecendo perceber que havia alguma coisa errada, perguntou: _ Interrompemos alguma coisa, senhorita Anna? Não sabem que não fica bem que uma jovem fique a sós com seu noivo na ausência de seus familiares? Aproveitei aquela situação e corri para abraçar o padre, livrando-me, assim, daquele monstro. O padre, parecendo perceber que algo estava realmente errado, falou ao meu ouvido: _ Acalme-se, minha filha. Seja o que for que estava acontecendo, a senhorita agora está a salvo. Por fim, o padre Ignácio falou, dirigindo-se ao conde: _ E então, meu filho, o que tem a me dizer sobre o que citei? 167
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ O senhor tem razão, padre. Não deveria ter vindo aqui. Mas, realmente, não sabia que o senhor Juan e a condessa não estavam em casa. Peço desculpas a todos pelo meu mau comportamento, mas quero que saibam que foi sem querer. – disse, olhando para o meu pai e a condessa, aparentemente atônitos. Seguiram todos para dentro e fui atrás deles, acompanhada do padre Ignácio e de Maria. Padre Ignácio, durante o trajeto, disse-me: _ Quero que a senhorita vá à igreja e conte-me exatamente o que está se passando nesta casa. _ Não está acontecendo nada, padre. - olhei para Maria, que ainda estava amedrontada devido ao fato ocorrido. Padre Ignácio, então, complementou aquela pergunta: _ Então por que quando a abracei estava tão gelada? _ Deve ter sido impressão do senhor, padre. Não há nada de errado comigo. _ Está bem. Se não quer ir à igreja para se confessar, daremos um jeito para que me conte hoje mesmo. Quem sabe descubro um jeito de ajudá-la? Fomos todos para a sala de estar. Meu pai mandou servir um chá com bolo para o padre. O assunto foi sobre os pregões do meu casamento. Eu, sentada ao lado do padre Ignácio, ali fiquei até que ele se retirasse. O conde, no entanto, lançava-me olhares fulminantes. Até que, por fim, resolveu acompanhar padre Ignácio e foi embora. Porém, padre Ignácio não deu muita importância para o conde e deixou que ele fosse embora na sua frente. Meu pai ofereceu ao padre a carruagem para levá-lo até a cidade. Acompanhei-o até ela. Foi aí que abri meu coração ao padre Ignácio, dizendo tudo que estava acontecendo. Ele, depois de me ouvir atentamente, disse-me: _ Minha filha, vou entender a sua história como uma confissão. Pois, caso contrário, estaria pondo a sua vida em perigo. Tenha cuidado com esse homem, pois me pareceu muito perigoso. Quanto ao diário de sua mãe, deixe comigo: darei um jeito para tirá-lo do poder do conde. Beijei as mãos de padre Ignácio em forma de agradecimento. _ Não tenho como agradecê-lo, padre! Mas como o senhor irá recuperar o diário de minha mãe? _ Não se preocupe com isso, minha filha. Também tenho os meus segredos e métodos para conseguir o que preciso. Só lhe digo uma coisa: o diário de sua mãe não voltará para suas mãos. Ele será destruído para a segurança de todos nós. Dizendo isso e subindo na carruagem, o padre deu-me sua bênção e partiu. Já dentro de casa, tentei respirar mais tranquila. Por fim, procurei por meu pai, que estava na sala de estar com a condessa. _ Pai, posso ter uma conversa em particular com o senhor? _ Pode dizer-me o que quiser na frente de minha esposa, pois nada tenho a esconder dela. _ Quero pedir permissão ao senhor para matar um leitão e fazer uma rodada de banjo esta noite. _ E para que devo dar permissão para este evento? O que está querendo comemorar? _ Nada demais, pai. Mas, como fiquei noiva e os criados não puderam participar, quero dar a eles a alegria de também terem uma festa. A condessa, ruim a valer, disse: _ Era só o que nos faltava, Juan! Sua filha agora, além de andar com indigentes, quer dar uma festa para os criados. Ignorei o que ela dizia e prossegui: _ Pai, é aniversário de Maria. Queria dar-lhe esse presente. Não negue isso a ela, que sempre lhe foi fiel. _ Está bem, mas que limpem tudo quando terminarem. E diga-lhes que fui eu que dei autorização, mas que não se habituem com isso. 168
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus A condessa fuzilou-o com os olhos e saiu em direção ao quarto. Imediatamente, corri até Maria para contar-lhe a novidade. O resto, dali para frente, seria com ela. Depois de ter contado a ela sobre o que padre Ignácio prometeu-me que faria, dei-lhe um beijo na testa e fui para o meu quarto. Tranquei a porta pelo lado de dentro. Fiquei horas em pé, ali, encostada nela. Senti o suor escorrendo frio na minha testa. Era como se eu estivesse vivendo tudo novamente. Não sabia o que fazer para me livrar daquele homem perverso e matreiro. E o que era pior: com poderes para condenar um ser humano pelo mais horrível crime que ele não houvesse cometido. Pela primeira vez em minha vida, senti o cheiro da morte. Era como se todas as minhas ancestrais estivessem ali, tentando dizer-me como era o medo e a dor que sentiram através daquele cheiro de cipreste que estava no ar. Eu tremia tanto que dava para ouvir meus dentes batendo. Fiquei em estado catatônico, encostada na porta do meu quarto. Fui interrompida em meus pensamentos por Maria, que batia levemente à porta. Virei-me para abri-la. Por fim, depois de fitar-me, ela disse: _ Em primeiro lugar, quero agradecê-la por tudo que fez por mim e por Joseph. E em segundo lugar, quero dizer-lhe que entenderemos se a senhorita não descer para a festa, pois dado tudo que fez por nós e a situação que viveu hoje, não é justo que se exponha ainda mais. Não pude responder-lhe porque a condessa entrou em seguida e logo foi dizendo: _ Sabia que encontraria as duas feiticeiras juntas, tramando algo contra a moral e os bons costumes. Gelei ao ouvi-la falar daquele jeito. Não podia ser que ela também soubesse do meu segredo e de Maria. Por fim, respondi, fingindo apatia: _ Não estamos tramando absolutamente nada. Estávamos só conversando coisas que não lhe dizem respeito. E de onde foi que a senhora tirou essa história louca de que somos feiticeiras? _ Ah, claro! Estavam combinando com qual traje elegante irão à festa dos plebeus, que resolveu dar para essa gente imunda. Naquele momento, Maria tomou a palavra e, pela primeira vez em sua vida, enfrentou a condessa, exigindo respeito: _ Senhora condessa, sempre lhe tratei com o devido respeito, embora não merecido. Mas não vou mais permitir que trate meus amigos desta forma, sejam eles quais forem. _ Insolente! Ponha-se no seu lugar e só se dirija a mim quando eu lhe der permissão. Pois saiba que, para mim, sua festinha medíocre só será realizada porque meu marido não tem noção do ridículo. Caso contrário, ela nunca se sucederia. Ande, vá, passe da minha frente! Volte para o seu lugar, junto aos seus e aos seus afazeres de criada. Dizendo isso, a condessa foi saindo porta afora. Percebi, então, que Maria não estava no seu melhor dia e que, a qualquer momento, poderia pôr tudo a perder por causa de alguém que não valia a pena. Segurei sua mão no exato momento em que ela agarraria os cabelos da condessa. A condessa virou-se para trás e, parecendo não perceber nada, disse: _ Ainda esta aí, criatura inútil? Quer que me queixe com Juan? Posso dizer que nada faz além de fuxicar o dia todo, e que já está velha e caquética para dar conta do serviço. Por exemplo: uma boa governanta não deixaria seus subalternos tão relapsos. Veja todo esse pó! Esse quarto está parecendo uma pocilga. Não que ele não seja o tipo de ambiente adequado para a minha enteada. - olhou para mim com ar zombeteiro, tentando tirar-me do sério - o que quase conseguiu. _ Se inventar qualquer coisa que seja contra Maria, terei que expor suas andanças obscuras na ausência de meu pai. Garanto-lhe que provas e testemunhas não me faltarão. _ Está me ameaçado, criatura dos infernos? _ Pode ser que sim, pode ser que não... Só irá depender da forma com que a senhora procederá. _ Ainda vou conseguir provas para entregá-la à Inquisição e terei o maior prazer em vê-la morrer queimada. 169
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Não duvido! Pessoas como a senhora fazem qualquer coisa para calar a boca da verdade. Mas está se esquecendo de uma coisa: adultério também é considerado um crime hediondo pela Inquisição. O inquisidor pode vê-la como uma possuída pelo demônio - o que não é nenhuma novidade. Por que a senhora não para de insinuar coisas sobre mim e Maria e vai logo ao que interessa? _ Ainda não tenho provas, como disse, mas tenho desconfiança de que está envolvida com bruxaria e artes do demônio. _ E o que a faz pensar desta forma? A condessa enfiou a mão no seu decote e tirou um medalhão. Ao ver aquilo, empalideci. No dia em que fui ao quarto de minha mãe, trouxe junto com o diário alguns pertences dela. Junto deles estava aquele medalhão que, de alguma maneira, havia parado nas mãos da condessa. Olhei para Maria, que estava totalmente pálida também. Então, fingindo uma falsa frieza, respondi: _ Onde foi que a senhora achou esse medalhão e a quem ele pertence? _ Interessante, não é? Achei aqui em seu quarto. Então, isso quer dizer que só pode pertencer a uma das duas. – disse, suspendendo o medalhão na mão. _ Então isso quer dizer que a senhora invade o meu quarto na hora em que bem entende? Saiba que este medalhão não me pertence e que pode muito bem ter sido a senhora que o colocou aqui para me acusar levianamente. _ Levianamente ou não, vou conseguir provar que a senhorita está envolvida com a arte do demônio. Este medalhão é uma prova disso. A condessa, então, virou-se novamente em tom de arrogância para Maria, dizendo: _ Ande, criada! Não fique aí, em pé, como um dois de paus. Siga-me. Tem muito serviço a fazer. Caso contrário, não poderá participar da sua festa de plebeus. Em seguida, para me perturbar mais um pouco, ela falou: _ Até breve, minha enteada querida. Em breve irei vê-la queimando no inferno, onde é o seu lugar. _ Não se preocupe. Estarei lá esperando pela senhora, que também é vista pela Inquisição como uma discípula do demônio. _ Então agora também está me acusando levianamente? _ Não. Só estou mostrando que, em questão de pré-julgamento, o inquisidor, a Igreja e o povo veem-nos de maneira semelhante. Estamos caminhando para a mesma fogueira. Se tivermos sorte, queimaremos juntas. Ela bufou como um touro selvagem. Eu detestava ter que agir do mesmo modo que ela, mas era a vida da minha amiga que estava por um fio. Maria seguiu-a para não mais causar confusão. Pude ouvir os gritos histéricos da condessa com Maria no corredor. Minha vida estava parecendo um pesadelo. Botei as mãos no rosto, sem saber que rumo tomar. Precisava ter forças para mim, para Maria e para todos que me cercavam. Não aguentava mais ficar trancada naquele quarto, sem nada para fazer. Pelo jeito, não poderia participar da festa de noivado de Maria e Joseph, para não levantar suspeitas de que ambos ficariam comprometidos. Pois, para o meu pai, a festa era para comemorar o aniversário dela. Fiquei andando pelo quarto, de um lado para o outro, como uma barata tonta, sem ter o que fazer. Até que Maria voltou, trazendo Joana e também um balde de água para eu tomar banho. Maria parecia ter adivinhado que eu precisava relaxar e, logo após Joana sair, colocou na água da tina um líquido que, segundo ela, far-me-ia relaxar completamente. Enquanto me despia para submergir dentro daquele líquido, ela falou: _ Se não fosse pela senhorita, hoje, por certo, eu teria perdido as estribeiras. Já não aguentava mais vê-la ofendendo a senhorita e eu daquela forma. _ Percebi, Maria. Só que teremos que ter muita cautela de agora em diante, ou poremos tudo a perder. Preocupo-me contigo, pois tem muito mais a perder do que eu. 170
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Não diga uma tolice dessas. Ambas temos muito a perder. Só não sei se não farei um feitiço para me vingar da condessa, pois ela conseguiu hoje me tirar do sério. _ Não diga isso, Maria. Sabe que não deve criar energias negativas em volta da senhora. Limpe seu coração. Não desperdice o poder da magia com uma pessoa tão medíocre como a condessa, pois não vale a pena. Lembre-se de que temos o livre arbítrio, e essa escolha é somente sua. _ Sei disso. Mas, se temos o livre arbítrio, por que ela não escolheu o lado bom e menos cruel? _ Tudo bem, então. Concedo-lhe a permissão para usar apenas um pequeno feitiço para dar à condessa uma lição. Mas tem que me prometer que me dirá o que é. _ Ainda pensarei o que será, mas lhe direi, com certeza. Agora preciso descer, ou terei que fazer um chá para a senhora. Seria tão bom se pudesse fazer um dos meus preparos especiais... Daqueles que fazem pessoas como ela dormir para sempre! _ Maria! Nem brinque com isso. Poderíamos ser jogadas em óleo fervente só de ouvir-nos dizer tal barbárie. Ela saiu, rindo como uma bruxa que era. Fiquei pensando, quando ela fechou a porta, no quanto uma pessoa sozinha pode contaminar tudo de bom ao seu redor. A condessa despertou em Maria o seu lado negro e perverso e, mesmo que ela nunca colocasse em prática, já havia sido contaminada. Se isso acontecesse com outra pessoa de caráter fraco, com certeza ela teria criado uma raiz maligna em seu coração. Adormeci profundamente dentro daquela água quentinha e relaxante. Despertei, assustada, com uma voz rouca falando muito próxima ao meu ouvido: _ Que pele macia, senhorita Anna! Aposto que estava sonhando comigo. Dei um salto dentro d’água, tentando esconder-me daquele invasor. _ O que está fazendo aqui, senhor conde? Como se atreve a invadir a privacidade de meus aposentos? _ Não consegui resistir quando ouvi a senhora Maria comentando com o jardineiro que a senhorita estava no banho. Aproveitei-me da oportunidade de todos estarem entretidos com os preparativos da festa e subi para vê-la em seu estado natural. Confesso que não poderia ter uma visão melhor, depois de uma noite tão estafante como a de ontem e um dia tão decepcionante como o de hoje. _ Saia daqui agora ou chamarei meu pai para retirá-lo pessoalmente! _ Senhorita Anna, seu pai tem dívidas muito altas comigo. Se vier atender seus apelos de donzela em perigo, por certo fará olhos e ouvidos de mercador. E ainda tem um outro fator: por que não trancou a porta de seus aposentos? Por certo estava esperando que eu subisse. Ninguém acreditará na senhorita. Então, só lhe resta ser boazinha. Ele colocou a mão dentro da banheira, tocando meu corpo nu. Senti-me congelar dentro da água quente. Meu fôlego estava se esvaindo. _ O senhor é um crápula e enoja-me. Ele segurou meu rosto com toda a força, deixando-me completamente sem nenhuma reação. Naquele momento, a condessa entrou no meu quarto e flagrou-me no exato momento em que o conde tocava-me intimamente. Definitivamente, aquele não foi um bom dia para mim. A condessa, usando de suas ironias vulgares, disse: _ Ora, ora! Mais que cena mais fascinante e romântica. O jovem conde e a bruxa, juntos em um lânguido caso amoroso. Imagina só se não é a mesma bruxa que anda me desafiando e me acusando de leviandades! O que pensaria seu pobre pai se entrasse neste exato momento? Por certo, não ouviria nenhum argumento notório. _ Não é o que está pensando. – eu disse, tentando afastar aquele homem, que não saía de perto de mim. _ E como sabe em que estou pensando? Ah! Havia esquecido: também lê pensamentos, não é, bruxa maldita? 171
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Levantei-me da banheira, sem me preocupar com minhas condições de nudismo. O conde olhou-me como um cão cheirando o cio. A condessa, com desprezo. Peguei a toalha e disse-lhes: _ Saiam os dois do meu quarto, agora! Antes que eu comece a gritar por socorro! E garanto que será muito agradável ver os capatazes de meu pai tirando-os daqui para fora aos safanões. _ Se sua madrasta não nos tivesse interrompido, teríamos nos divertido muito. – disse o conde, dando uma gargalhada que mais parecia ser um eco vindo do inferno, enquanto se retirava dos meus aposentos. A condessa seguiu-o e parecia haver cumplicidade entre aqueles dois a respeito daquela situação. Fechei a porta - com chave desta vez - e pude ouvi-los do lado de fora. _ Espero que tenha conseguido pelo menos fazer seu trabalho decentemente. _ Se a senhora não tivesse chegado tão em cima da hora e pudesse ter guardado sua curiosidade, por certo eu teria ido até o fim. _ Ela não cederia assim tão fácil. _ Não mesmo? Não conhece os meus métodos de persuadir uma dama? _ Hum! Por certo não foram tão eficazes. Depois de um tempo, não consegui ouvi-los mais, pois se distanciaram a caminho das escadas. Mas de uma coisa estava certa: os dois estavam juntos naquela trama. Ambos davam-me náuseas. Arrumei-me rapidamente, sem dar importância ao luxo. Coloquei apenas um vestido de renda branca e um xale bege para proteger-me do frio da noite. Desci as escadas, com medo de ser recepcionada pelos dois crápulas no meio do caminho. Corri para os aposentos de Maria, que estava se aprontando para a festa. _ Senhorita Anna! Não deveria estar aqui. É muito arriscado, depois de tudo que passou hoje. _ Arriscado é ficar sozinha no meu quarto. Não faz ideia do que tive que passar até decidir estar aqui agora. Contei à Maria tudo que havia ocorrido. _ Então, senhorita Anna, não saia de perto de mim. Se possível, durma aqui hoje. Definitivamente, temos que dar uma lição em sua madrasta. Ela não pode continuar do jeito que está, pensando que pode fazer o que quiser com todas as pessoas. _ Olhe, Maria, até agora tenho escondido da senhora o meu plano. Mas, pelo que vejo, terá que estar ciente dele para também poder se defender. Preste bem atenção, pois não quero que tenha nenhuma dúvida. E quero que saiba que essa é a minha decisão final. Joseph está apoiando. Portanto, só falta que a senhora se entere do meu plano agora. Expliquei todo o plano à Maria, que me ouviu atenta. O plano era o seguinte: Joseph esperaria por Maria na saída do bosque dos mortos, enquanto eu e Maria faríamos o ritual da chuva, normalmente. Assim que o ritual terminasse, ela sairia e se encontraria com Joseph no local combinado. Eu, porém, ficaria no lugar onde realizaríamos o ritual da chuva. Depois de limpar tudo, rasgaria minhas vestes, jogaria sangue de galinha em cima de mim, e fingiria um desmaio. Assim, quando o conde, a condessa e meu pai chegassem com a milícia, pensariam que fui vítima de um ritual de magia negra. Fingiria estar tendo convulsões até que eles me levassem em segurança para casa. Quando lá já estivesse, daria um jeito de tomar um remédio que eu mesma haveria de preparar para que dormisse até o dia seguinte - o que daria tempo de Joseph e Maria escapar. Quando eu acordasse, começariam as interrogações e eu diria que não conseguia me lembrar de absolutamente nada. Diriam que eu estava sob influência demoníaca e chamariam por padre Ignácio. Então, eu contaria todos os fatos a ele e pediria que ele dissesse que a única solução seria que me internassem em um convento, em São Francisco, onde eu poderia cumprir o restante do meu destino. Logicamente, não diria que Maria era a culpada. Eu diria a todos que ela fugiu com Joseph porque ambos estavam com medo e não queriam compactuar comigo naquele tipo de insanidade. Maria, depois de ouvir-me atentamente, falou: 172
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Esse seu plano é muito arriscado, senhorita Anna. E pode não funcionar da maneira como a senhorita imagina. E quanto ao diário de sua mãe? E se padre Ignácio não conseguir recuperá-lo? _ Já pensei nisso também, querida Maria! Esse será o plano dois. Caso isso ocorra, direi a todos que fiz tudo porque estava influenciada pelas palavras do livro. Minha mãe há de me perdoar por essa mentira, mas tenho que encontrar o meu grande amor e não posso, de forma alguma, deixar que me obriguem a casar-me com aquele assassino. _ Vejo que a senhorita pensou em tudo mesmo! Mesmo assim, ainda é arriscado deixá-la com esse homem e sua madrasta. Não sei como Joseph pôde aceitar fazer o que a senhorita lhe pediu. Ambos perderam a noção do real perigo, é? Vou procurar Joseph imediatamente e cancelar isso tudo. _ De jeito nenhum! Fará tudo como o combinado e fugirá no dia do ritual da chuva - amanhã. Confie em mim, Maria, tudo dará certo. _ Senhorita Anna, e se não acontecer assim como esperamos? Confio na senhorita, mas não confio no diabo e nas pessoas que são usadas por ele. _ Tenha calma, minha amiga. Acontecerá exatamente do jeito que estou planejando, acredite! Preparei um sortilégio do tempo que fará tudo acontecer como quero. Agora, deixe-me vê-la. Hum... Está linda! Joseph é mesmo um homem de muita sorte. Dei-lhe um beijo e abracei-a muito forte, pois estava chegando a hora de nos despedirmos de nossa amizade. Maria percebeu isso em meu abraço e chorou. Porém, sequei suas lágrimas com a ponta dos meus dedos e disse-lhe: _ Seja forte, mulher! Escolhi esse destino. Sei que o que estou fazendo é errado, pois estou antecipando-o e interferindo no tempo e no espaço. Mas isso é o melhor a fazer. Caso contrário, a senhora será crucificada pela Inquisição. Depois de dito isso, acompanhei-a até o jardim, onde Joseph a esperava. Todos celebraram contentes, sem saberem de nada. Às vezes, percebia no olhar de Maria certa tristeza. Mas o restante da noite foi muito tranquila. A música durou até alta madrugada. Samara, que estava presente com a mãe, fez-me companhia o restante da noite, porque Maria tinha que dar atenção aos seus convidados. Maria seria muito feliz ao lado de Joseph. Ela iria se casar com um homem pobre, mas que pôde escolher. Não seria uma união baseada em imposições ou chantagem. Estava muito feliz por minha amiga. Ela, definitivamente, merecia ter um pouco de felicidade. Não conseguiria me ver jamais ao lado de um homem por conveniências. O simples fato de pensar que poderia ser tocada todas as noites por alguém pelo qual não sentia absolutamente nada me embrulhava o estômago. Às três da madrugada, a festa cessou e todos se retiraram para suas casas. Alguns criados ainda ficaram ajeitando tudo, para deixarem tudo em ordem para o dia seguinte. Eu e Maria fomos para os aposentos dela. Naquele dia, dormi no quarto de Maria para evitar novos contratempos. Confesso que foi a melhor noite que já tive em toda a minha vida. Quando amanheceu, Maria levantou-se e não quis me acordar. Foi cumprir seus afazeres. Seria uma semana longa para ela. Às nove horas, levantei-me, vesti-me e fui à cozinha para comer alguma coisa. Percebi que todos estavam muito felizes e Tereza cantarolava. A festa havia surtido um efeito positivo no coração dos criados. A copeira, ao ver-me, saiu de mansinho. Percebendo que ela iria fazer alguma coisa, segui-a. Não estava enganada: encontrei-a junto à condessa, levando informações sobre mim. Cheguei de mansinho por trás das duas e falei: _ O que a senhora está ganhando em dar informações sobre mim à senhora condessa e ao conde? Sei muito bem o que a senhora fez. Sei que colocou entorpecentes na minha bebida. As duas não souberam o que me responder. Prossegui: _ É assim, condessa, que a senhora consegue informações a meu respeito? A senhora usa de métodos baixos, subornando essa pobre infeliz. Mas diga a ela que, quando ela não tiver mais 173
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus nenhuma utilidade para a senhora e o conde, vão descartá-la da mesma forma como está tentando fazer comigo. Sinto muita vergonha das senhoras, pois ambas são mulheres e estão sujeitas a passarem pelos horrores da Inquisição. Mas, mesmo assim, julgam-se no direto de inventarem falsas acusações para me condenarem a um destino tão cruel. A copeira, ao ouvir minhas palavras, caiu em choro profundo e disse-me: _ Desculpe-me, senhorita Anna. Mas a condessa disse que me despediria caso não fizesse tudo o que ela me pedisse. Tenho uma filha que não se levanta da cama e depende muito de mim. A condessa disse que pode dizer aos inquisidores que minha filha está daquele jeito porque está possuída por espíritos imundos. Desculpe, senhorita, mas minha filha é muito importante para mim. Nada tenho além dela. Sou viúva e não tenho outro meio de sustentá-la além desse trabalho. _ Nada neste mundo justifica o que a senhora está fazendo comigo, pois nada lhe fiz. Por que a senhora não me contou isso antes? Talvez eu pudesse ajudá-la. Sinto muito, senhora Cornélia, mas não consigo achar uma justificativa para que me tenha traído. Logo a mim, que sempre fui tão gentil com senhora. Saí, deixando as duas para trás. Ainda pude ouvir quando a condessa gritou com a mulher como uma louca. Encontrei Maria no caminho e chamei-a para ir à igreja comigo. Ela concordou de imediato. Pedi a Lorenzo que atrelasse os cavalos à carruagem. Em seguida, fui pedir permissão ao meu pai, que autorizou sem fazer muitas interrogações. Logicamente, disse-lhe que seria para tratar de assuntos do meu casamento com o conde. Depois de tudo estar pronto e Maria já ter dado as ordenanças à criadagem, seguimos para o portão, onde Lorenzo nos esperava. Foi aí que tive outra ideia súbita. Voltei e perguntei a Joseph se ele poderia nos acompanhar até a igreja, pois precisava marcar a data do casamento dele com Maria. Ele disse: _ Bom, acho que os patrões não vão precisar de mim agora. - aceitou. Chegamos à igreja em pouco tempo, pois Lorenzo resolveu correr com os cavalos. Deixei o casal rezando enquanto procurava por padre Ignácio. Ao avistá-lo, ele veio em minha direção e perguntou-me: _ Aconteceu algo, minha filha? _ Não, padre. Nada que o senhor já não saiba. Viemos aqui pedir um favor ao senhor, mas terá que atender a esse pedido meu o mais rápido possível! Contei ao padre que Maria e Joseph haviam ficado noivos em sigilo. E pedi-lhe se poderia, naquele momento, realizar o casamento religioso dos dois para que não vivessem em pecado. O padre olhou-os sentados no banco da igreja e chamou-os: _ Então, meus filhos, estou ciente de que querem se unir. Isso é verdade? _ Sim, senhor padre. - disse Joseph. _ E o que acham se eu lhes casasse agora? Joseph olhou para Maria e ambos concordaram entre si. Ele respondeu: _ O senhor nos faria essa caridade? _ Tratando-se de duas pessoas maduras, cientes dos sentimentos que se sentem um pelo outro, por que não? Padre Ignácio vestiu-se a caráter para aquela cerimônia. Prosseguiu com aquele ritual, que não demorou muito. Ele os abençoou e, em seguida, disse: _ Estão casados agora diante de Deus e da Igreja. Nada poderá separá-los. O mais novo casal foi dar uma volta pela cidade, enquanto fiquei na igreja, conversando com padre Ignácio. Ele, porém, disse: _ Que bom, senhorita, que ficou aqui na igreja comigo. Precisava mesmo ter uma longa conversa com a senhorita. Andei sabendo que a Inquisição está investigando até mesmo a casa da parteira Magdalena e da viúva Dolores, do senhor Gustave e dos irmãos Johnson também. _ E o que fizeram de tão grave para merecerem ser investigados pela Inquisição? 174
  • 175.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ A parteira Magdalena, dizem, usa rezas estranhas na hora de fazer seus partos. Os boatos em torno desta mulher é que as crianças que ela trouxe ao mundo têm tido comportamentos estranhos. A viúva Dolores está vendendo xaropes, cataplasmas e poções para unir casais. Dizem que ela e suas filhas estão sendo usadas pelo próprio demônio para se sustentarem. O senhor Gustave, dizem, está usando rezas diabólicas para curar as supostas enfermidades alheias. Por fim, os irmãos Johnson, dizem, não saem dos tabernáculos. À noite, estão sempre sendo vistos rodeados por mulheres de conduta duvidosa, sempre embriagados, rodopiando pelas ruas. Usam nomes feios quando passam pelas senhoritas de boa família. Não estão respeitando nem mesmo as senhoras casadas. A comunidade está preocupada com que possam estar influenciados por algum tipo de demônio sedutor e promíscuo, que está usando a boa aparência dos rapazes para seduzir as donzelas e as senhoras do vilarejo. _ E o senhor, padre Ignácio, o que realmente acha disso tudo? _ Prefiro ser agnóstico neste caso e deixar que a justiça civil faça sua sentença. _ Hã? O senhor quer dizer que prefere ficar em cima do muro como um covarde? _ O que posso eu, um simples padre de uma pequena paróquia, fazer? Já não são muitos os paroquianos que me aceitam. Por eu ter vindo de outra província e ter ideias divergentes, sou considerado por eles um padre anarquista. Por não ser um homem de idade avançada e não ter nascido na Espanha, sabe muito bem que passo por muitas dificuldades. Se eu interferir nestas questões da Inquisição, então, serei por certo excomungado. Senhorita Anna, sei como se sente em relação a toda essa desigualdade. Mas o mundo, principalmente o mundo masculino, envolve muitos preceitos e regras. Sabe que as mulheres são muito visadas e não devem sair por aí, expondo-se de qualquer maneira. A Igreja tenta ser branda nestes casos. Mas há muita pressão política e socioeconômica que envolve todas essas questões. O financeiro do mundo fala mais alto. A Igreja vive de verbas e, embora tenha uma boa influência sobre a monarquia, ainda assim recebemos ordens superiores. Infelizmente, senhorita Anna, não posso opinar nestes casos. _ Mas, no fundo, o senhor sabe que essas pessoas são inocentes? _ Até que provem o contrário, sim. Senti-me tão impotente como o padre Ignácio. Se não poderíamos ter uma parteira, por que então os doutores não atendiam gratuitamente as mulheres pobres da vila? Se Deus escrevia certo por linhas tortas, por que não deixavam a viúva Dolores e o senhor Gustave curarem da maneira que Deus lhes tinha permitido? E quanto aos irmãos Johnson, eram jovens demais e tinham vindo recentemente do mar. Queriam gastar seu dinheiro promiscuamente, se assim fosse. Mas a vida alheia sempre incomodava. Pois, desta forma, era mais fácil esquecer os próprios problemas, e - é claro - desviar a atenção alheia para outro lado. Mediante aquela conduta acovardada de padre Ignácio, percebi que não poderia contar mais com a ajuda dele. Colocaria em prática, então, o plano dois. O padre, percebendo que eu estava absorta em meus pensamentos, chamou-me: _ Senhorita Anna! _ Sim, padre Ignácio. Perdoe-me, distraí-me em meus próprios pensamentos. O que estava mesmo falando comigo? _ Estou preocupado no momento é com a senhorita. Se a Inquisição virar-se para sua pessoa, não sei o que acontecerá. _ Serei levada para um convento! _ Se isso acontecer, depois de uma acusação de bruxaria, sofrerá horrores, pois as freiras de qualquer convento em que lhe puserem obrigá-la-ão a fazer de tudo. Suas penitências serão as piores, pois sempre lhe acusarão de bruxaria - não importa o que diga ou faça. Quero que me diga: é uma bruxa ou não? _ Se eu disser que sim, entregar-me-á ao inquisidor? _ Não estou aqui para julgá-la, mas ficarei atento para ajudá-la no que me for possível. 175
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim, sou uma bruxa. Mas, independente do que o senhor possa pensar, não fazemos mal a ninguém. Não cultuamos o demônio, não comemos criancinhas, não seduzimos homens casados, não tiramos ninguém de suas famílias. Consideramos o matrimônio um laço sagrado. Nosso compromisso é com Deus e com as forças da natureza. Não somos santas - ninguém é. Temos um dever com a humanidade: o dever do bem comum, da caridade sem olhar a quem. Somos diferentes, porque vocês assim o querem. Porque todo mundo nesta vida tem um quê de bruxa. Padre Ignácio deu um passo para trás e tampou a boca, em sinal de espanto. _ Santo Deus misericordioso! Puxou-me pelo braço, afastando-me ainda mais das pessoas ali presentes. _ Senhorita Anna, não diga isso a mais ninguém. Caso contrário, os resultados serão catastróficos. _ Padre, isso não é uma coisa da qual me envergonhe ou pela qual tenha que me sentir mal. Lógico que não vou sair por aí, dizendo aos quatros cantos da terra que sou uma bruxa. O padre tampou minha boca com sua mão em sinal desaprovação ou medo. _ Calma, padre. Sei o que o senhor está pensando: que pode perder a batina ou ser excomungando por ser visto em companhia de uma bruxa. Mas não se preocupe porque, se depender de mim, ninguém saberá da minha condição. _ Não, senhorita Anna. Temo por você mesma. _ Nunca negarei quem sou. Nunca mudarei minha maneira de ver as coisas. Nunca me transformarão em uma pessoa comum e sem vida. Não serei como o gado, padre, nunca. Antes de respeitar as pessoas, respeito-me. Antes de respeitar as crenças dos outros, respeito meus princípios. Amai-vos uns aos outros como se amam a si mesmos. Jesus não disse isso? _ Sim, filha. Mas pode parecer blasfêmia aos olhos das outras pessoas - principalmente aos olhos de um inquisidor. É muito jovem para pensar desta maneira e não será compreendida. Tudo bem que não quer mudar sua maneira de pensar, mas pode fingir para não se prejudicar. _ E em que isso me fará ser diferente de todos? Não, o senhor não conseguiria me entender. Prefiro morrer queimada a me anular como pessoa e como ser humano. Ele só fez abaixar a cabeça. Por fim, falou em um tom que mais parecia um sussurro: _ Então, sinto não poder fazer mais nada pela senhorita. Só queria poder ter sua coragem. _ Hum, talvez não possa intervir por mim. Mas, se não tiver medo de pegar uma doença ou de ser possuído por um espírito maligno, e se quiser dar-me um abraço, não farei objeção. Ele sorriu e disse: _ Claro, minha amiga. Saiba que nem acredito nessas superstições. Demo-nos um gostoso abraço fraternal. Isso não era para todos. Reparando em sua tristeza, resolvi fazer um comentário: _ E se eu tiver muita sorte, poderei contar com sua visita quando estiver no convento. Afinal, sabe que só um padre tem permissão de visitar uma pessoa como eu. Ele me afastou de seus braços. Olhando-me fixamente nos olhos, indagou: _ Por que insiste em dizer que irá para um convento? Então, depois de um grande suspiro, contei-lhe tudo o que eu havia passado naqueles últimos dias. _ É bonita a sua história, senhorita Anna. Mas por que acha que o senhor Juan lhe enviará para o mosteiro de San Francisco? _ Em primeiro lugar, para não deixar que a notícia escape e corra o risco de sujar o nome de sua amada esposa. Em segundo lugar, porque usará toda a sua influência para que eu não seja queimada viva. Não porque me ama, mas por castigo de eu não querer me casar com o conde, e também por crer que vou detestar ir para lá. E, em terceiro lugar, por preguiça de procurar algo mais distante mesmo. Sem saber, ele me estará empurrando para o meu destino. 176
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ E como pode saber que esse suposto monge não é alguém influenciado pelo próprio demônio para fazer com que peque, desmoralizando o nome da Santa Madre Igreja? _ Padre... Muito me admira o senhor falando desta forma! _ Tem razão. Não estou aqui para julgar ninguém. Só espero que tenha razão nisso tudo, pois não gostaria de visitá-la na Crucilândia. Rimos e voltamos para o meio dos convidados, antes que outros comentários maldosos surgissem sobre mim e do pobre padre. Na verdade, eu estava muito satisfeita por ter contado a alguém além de Maria. Foi como um desabafo. Encontrei Maria conversando com seu esposo. Ela era pura felicidade. Essa missão eu já havia cumprido. Fiquei admirando aquele casal, até que eles se afastassem mais e eu os perdesse de vista. Mas... alegria de bruxa dura pouco. _ Achou que escaparia de mim, querida, escondendo-se atrás da batina de um padreco? Não precisei virar-me para saber que era o conde. Virei-me lentamente e respondi-lhe à altura: _ Não está sendo um tanto pretensioso em achar que estou fugindo da sua pessoa? - olhei-o de cima abaixo. _ Não pensou desta forma quando tentou me seduzir em seu quarto, ontem à noite, mostrando- me seu lindo corpo. Formas perfeitas, devo dizer. _ O senhor sabe que não foi bem assim. _ A senhora sua madrasta estava presente e poderá confirmar minha versão. Sabe que posso condená-la à fogueira. Posso dizer que o demônio em seu corpo tentou seduzir-me para que não lhe entregasse. _ Senhor conde, em primeiro lugar: o senhor não tem provas suficientes para me acusar de coisa alguma. Em segundo lugar: sei que não é o inquisidor. Em terceiro e último lugar: sei que anda de fornicação com minha madrasta. Mas saiba que é preciso muito mais que ter posses, olhos azuis e vestir calças. Sinto informá-lo de que o senhor vai ter que nascer e renascer para tentar seduzir-me algum dia. Agora, se me der licença, vou ter com os meus. Ele agarrou-me novamente pelo braço, mais fui salva por Lorenzo, que chegou naquele exato momento e foi logo dizendo: _ A senhorita está precisando de ajuda? _ Sim, Lorenzo. Este senhor aqui presente estava querendo me forçar a segui-lo. _ Sugiro que o senhor solte a moça agora, ou terei que fazê-lo pessoalmente. - disse Lorenzo, fechando uma das mãos e batendo contra a outra. _ Está desafiando minha autoridade, lacaio? _ Se for preciso... Posso até ser demitido, mas não deixarei que encoste um dedo na senhorita Anna. _ Vejo que a senhorita Anna tem muitos admiradores. Por hora, vou me retirar. Não me rebaixarei em lutar com um lacaio aqui, no meio da rua. Mas saiba que vou voltar. _ Estarei esperando-o. Ele se foi, mais uma vez. _ A senhorita está bem? _ Sim, Lorenzo. Graças ao senhor. _ Não estarei sempre por perto, senhorita. Deve ter cuidado. Por que não conta para seu pai? _ Bem que o faria, mas ele está certo de que o conde é um santo e de que, firmando compromisso entre mim e ele, salvará as finanças. Mas o conde só quer tirar proveito da situação, desonrar-me e desfazer o compromisso em seguida. Lorenzo fechou os punhos e disse: _ Que sem-vergonha, mau caráter... Se eu o pegar, juro que o mato. 177
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Não vale a pena, Lorenzo. Pessoas como o conde sempre conseguem o que querem. Por certo, ainda seria condenado por causa de algo tão sem valor. Tem que pensar em Samara. Por falar nela, por que não veio? _ Ela está terminando o enxoval, junto à mãe. Mas mandou lembranças. _ Que bom saber que a mãe dela está bem, e que tudo entre vocês continua encaminhando. _ Graças à senhorita! Conheci o amor da minha vida... Sabia que ela está me ajudando com os estudos? _ Nossa, finalmente uma boa notícia! Sabia que Samara seria a mulher ideal para o senhor. Posso lhe pedir uma coisa? _ Claro, o que quiser. _ Dê-me um abraço? Sabia que seria a última vez que o veria. Lorenzo ficou meio cabreiro, pois não entendeu absolutamente nada. _ Ande, homem! Aproveite que todos não nos estão vendo, para evitar mexericos. Então, ele me abraçou, finalmente, mas com um medo de dar dó. Vi uma lágrima de gratidão em seus olhos. Tirei dos bolsos um pequeno obséquio e coloquei em suas mãos. _ O que é isso, senhorita Anna? _ Não é muito, mas dá para ajudar com o casamento. Consegui vendendo o meu colar de esmeraldas. _ Senhorita! Não poderei aceitar... _ Se não o fizer, ficarei muito ofendida. Para onde estou indo não precisarei de nada disso. _ E para onde a senhorita está indo? _ Saberá no momento certo. _ Agora, se puder, leve-me até Maria. Preciso falar-lhe algo muito importante. Ele me acompanhou em silêncio até onde estava o casal. Ao me aproximar de Maria, parabenizei-a pelo seu casamento e contei-lhe o ocorrido desde a conversa com o padre Ignácio até o encontro com o conde. Embora não quisesse aborrecê-la, sabia que Maria não me deixaria em paz até que eu lhe contasse tudo, pois aquela mulher me conhecia apenas de olhar para mim. _ Senhorita Anna, não irei deixá-la sozinha hoje. Temo que o conde invada seu quarto esta noite, pois ouvi seu pai, enquanto eu ainda estava na casa, convidando-o para passar a noite lá como hóspede. Dormirei com a senhorita. _ De jeito nenhum! Casou-se e agora deve ficar com seu esposo. Imagina: no seu primeiro dia de lua de mel, já separada de seu marido? Isso não é certo. Vá ter com ele. Sei muito bem como me cuidar. Joseph interrompeu-nos: _ Isso é que não mesmo! Maria está certa: esperamos tanto tempo! Além do mais, um dia a mais ou a menos não fará diferença. Não somos jovens, afoitos pela lua de mel. Nossa relação será baseada na fidelidade, na confiança e no amor verdadeiro. E isso sei que já temos. O resto é consequência natural. Vá, Maria! Entendo completamente sua preocupação. Não confio neste homem. Ele tem sangue ruim. Usa artimanhas para conseguir o que quer. _ Obrigada, senhor meu marido. Sabia que entenderia. Criei esta jovem desde quando ainda era um bebê, e não a deixarei logo agora, em nossos últimos dias juntas. Nada de mal lhe acontecerá enquanto eu estiver por perto. Já está decidido: dormirei em seu quarto. Se alguém vier interrogar- me, direi que não fica bem que uma mocinha solteira durma só debaixo do mesmo teto com o seu futuro marido. Tudo ficou decidido por conta dos meus amigos, e quem seria eu para contrariá-los? Fiquei muito feliz por saber que existia amor por mim entre aquelas pessoas maravilhosas. Nunca as esqueceria. 178
  • 179.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Depois de termos ido à casa de chá para comermos algo, retornamos os três para casa. Estava exausta. Tudo o que queria era tirar as roupas e os sapatos, e deitar-me para descansar. Ao chegarmos à casa, não percebi nada demais. Tudo parecia muito tranquilo. Maria voltou para seus afazeres e Joseph a seguiu. Subi para meus aposentos. Dentro do quarto, fui tirando toda a roupa, sem me preocupar com a organização ou higiene pessoal, pois estava realmente cansada devido à alta hora em que fui dormir na noite anterior. Resolvi deitar-me, pois estava exausta. Puxei calmamente os lençóis quando ouvi os cavalos muito agitados do lado de fora da casa. Curiosa como sempre fui, não poderia deixar de ir ver o que era. Ao chegar à janela, vi uma cena que realmente me impressionou. Embora soubesse que era apenas uma visão, eu tinha que saber do que se tratava. Então, fiz um pequeno ritual para saber quem era o homem que apareceu naquela visão. Fechei os olhos e apertei as mãos uma contra a outra, deixando os dois indicadores em posição ereta. Abri os olhos e girei as mãos, fazendo um círculo imaginário, abrindo, então, um portal. Descobri que o homem na minha frente era o inquisidor que me condenaria. Ele estava lá, de pé, em frente à minha janela, segurando as rédeas dos cavalos. Parecia saber que eu apareceria à janela. Mirei os indicadores juntos, em direção àquela figura sinistra. Fixei meus pensamentos, canalizando toda a minha energia. Senti toda minha força saindo do meu corpo. Os raios eram de luz e abriram um portal em volta daquela figura sinistra. O que vi foi realmente de impressionar, pois criaturas terríveis que lhe cercavam: demônios devoradores de energia, espíritos zombeteiros e desprovidos de inteligência. Algumas dessas criaturas montavam-lhe as costas, fazendo com que ele tivesse uma forma arcádica. Outros falavam-lhe blasfêmias aos ouvidos. Alguns, ainda, mordiam-lhe a panturrilha, fazendo-o ter dores abomináveis nas pernas. Eram criaturas monstruosas e envolviam-no como sombras negras. Também havia alguns espíritos revoltados, de pessoas que ele havia condenado injustamente. Maria chegou, trazendo-me um chá de hortelã, camomila e cidreira. Fiz sinal para que ela ficasse em silêncio e não chamasse a atenção daquelas criaturas, pois poderiam se sentir ainda mais revoltadas e virem perturbar nossos sonhos à noite. Maria fez uma oração de proteção e voltou-se para olhar o que eu via. Em seguida, exclamou em um sussurro: _ Minha nossa! Quem é esta pobre alma atormentada? Como consegue sobreviver com tanto tormento? Os demônios ficavam ainda mais agitados a cada movimento do inquisidor. Enquanto ele desatrelava os cavalos, os demônios mordiam-lhe as orelhas, fazendo-o ter uma espécie de cacoete. O coitado repuxava constantemente a cabeça de um lado para o outro. Voltou a fitar-me e, novamente, ficamos olhando um para o outro, inquisidor e bruxa. Maria teve a boa ideia de puxar- me para dentro. Não por medo dele, mas por chamarmos à atenção algum dos demônios que estavam envolta dele. Encostamos à parede e Maria fechou as cortinas, lentamente. Corremos juntas para a cama e ficamos de mãos dadas. Maria colocou o chá para mim em uma xícara de porcelana com florzinhas azuis. Tomei de uma golada só. Ela se despiu para dormirmos. Também tomou o seu chá de uma golada só. Naquela noite, resolvemos não dar uma só palavra uma à outra, para evitar atrair tais energias ruins para os sonhos. Na manhã seguinte, ao acordar, Maria já não se encontrava comigo. Já havia descido para preparar o desjejum e verificar o banho que tomaríamos antes de começar o ritual de purificação. Comecei a arrumar meus pertences e guardei minhas coisas pessoais em uma tábua solta no chão. Guardei o livro das sombras, a varinha e alguns amuletos. Arrumei todo o quarto e fiz uma oração de despedida: _ Obrigada, Senhor, por ter sido meu amigo e mentor durante essa caminhada tão difícil. Muito obrigada pelos meus algozes, cuja incompreensão e intolerância fizeram-me ver a luz, a Sua luz, Senhor. Guarde-me dos espíritos malfeitores e zombeteiros. Mas que se faça em minha vida somente a Sua vontade. Assim seja. 179
  • 180.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Maria estava atrás de mim, com a bandeja do desjejum. Confiou-me o seu silêncio em sinal de respeito. _ Vim tomar café com minha amiga. Posso? _ Claro que sim, Maria. Vou adorar ter a sua companhia para o desjejum. Alguém já se levantou? _ Somente Joseph e aquele diabo disfarçado de Lord. - Maria referia-se ao conde. _ E o que faz esse maldito, acordado a essa hora da manhã? _ Isso não sei. Mas é melhor prevenir. Por isso, estou aqui, para tomar o desjejum com a senhorita. Enquanto servia o nosso desjejum, Maria fez-me uma pergunta que parecia não querer se calar: _ De quem era a visão daquele homem que vimos ontem? _ Era do inquisidor que me irá sentenciar. _ Santo Deus! Nunca vi alguém com tantos demônios de uma só vez. E o que é pior: aquele homem da visão parece ser uma pessoa tão cega pelo ódio que não consegue perceber que eles estão à sua volta. _ Maria, nem que ele quisesse poderia. Tem com ele espíritos que estão impregnados em sua essência. Caso tentássemos tirá-los, poderíamos levá-lo à morte, pois já fazem parte um do outro. _ É. Mas talvez fosse melhor assim, pois ele pararia de sofrer e de fazer sofrer todos à sua volta. _ Maria, sabe muito bem que qualquer coisa que leva alguém a perder a vida e que não seja por morte natural é considerado um crime imperdoável perante a lei de Deus e dos homens. _ Mas podem nos condenar e nos matar por crimes que nunca pensamos em cometer? _ Não estamos aqui para julgar. _ Mas podemos ser julgadas? Maria estava revoltada por saber que eu seria enclausurada em um convento e nada poderia fazer. Então, resolvi dar por encerrada aquela conversa. Inclusive para evitar conflitos mentais - o que poderia causar um desgaste de energia desnecessário. Depois de tomarmos o desjejum em quase total silêncio, arrumei-me para extrair o óleo gerado pelo cozimento das ervas, necessário para o ritual daquela noite. Saímos do quarto nas pontas dos pés, para não acordar o resto da casa. Chegamos à cozinha. Atravessei direto para a adega, onde abri a porta secreta e fui aos afazeres. Mas, desta vez, Maria ficou do lado de fora, para evitar surpresas desagradáveis. Enquanto ela supostamente ficava na cozinha, adiantando os afazeres domésticos, eu estava no porão, extraindo o óleo das ervas já cozidas. Fiz um círculo de proteção em volta de mim. Este círculo era feito com um pentagrama no meio, cercado por dois círculos - um pequeno e um grande - e alguns símbolos. Este símbolo é erroneamente chamado de o olho do diabo. Deixei de lado todo o mundo ao meu redor. Comecei no preparo do óleo que eu usaria. Purifiquei meu espírito com orações que surgiram em minha mente, na mesma língua na qual havia falado no primeiro dia em que entrei ali. De repente, Maria veio correndo chamar-me: _ Venha depressa, senhorita Anna! Seu pai já perguntou por você duas vezes. Disse que ainda estava dormindo, mas agora não tenho mais nenhum argumento. Entreguei à Maria todas as poções. Ela as guardou em sua bagagem, que já estava pronta para a fuga daquela noite. Deixei comigo somente a que usaria no ritual. Fui para o jardim e fingi que estava lendo um livro, debaixo da minha fiel árvore. Meu pai parecia aflito a me encontrar, pois veio afoito ao meu encontro: _ Onde estava? Procurei a senhorita por toda a casa. _ Por certo não deve ser nada de tão importante, vindo do senhor... _ O conde queria despedir-se da senhorita. _ Não disse? Não era mesmo nada de tão importante assim. 180
  • 181.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Não creio que esteja lhe dando a atenção que ele mereça. _ O senhor não se preocupa mesmo comigo, não é, pai? Ou o senhor é cego ou não percebe realmente que esse homem é mau caráter. _ Não é verdade. Tanto me preocupo que estou vendo nesta união uma oportunidade de vê-la bem de vida quando eu não estiver mais por aqui. E o que quer dizer quando faz tamanha acusação? _ Pai, o senhor conde está... A condessa interrompeu-nos no exato momento em que eu iria revelar suas proezas junto ao seu amante. Imediatamente, ela disse, parecendo adivinhar o que eu haveria de revelar a meu pai: _ Juan, venha. Recebemos um convite para o baile dos Menellaus. Acho melhor que envie uma resposta, pois não perderia esta oportunidade de poder estar presente em baile como esse. _ Minha filha, como percebeu, temos uma festividade a mais. Por certo deve ser o jantar de noivado da senhorita Lucinda. Espero que tenha um bonito vestido para logo à noite. A propósito, o que estava mesmo tentando me falar? Olhei para a condessa, que estava esperando minha resposta se eu iria ou não ao tal jantar. _ Não é nada, pai. Deixa para lá. O senhor não veria a verdade, nem que ela fosse uma raposa vestida de ovelha. E não sei se quero ir ao jantar. Não estou me sentindo muito bem. _ Seu futuro noivo irá. Então, não quero mais falar sobre esse assunto. Vou entrar com a condessa, mas estaremos lhe esperando na sala de estar. Portanto, não se demore, por favor. Fiquei quieta, vendo-os sair da minha frente. A condessa estava de braços dados com meu pai, mas não podia deixar de olhar para trás e fazer uma careta zombeteira. Sacudi a cabeça de forma negativa, achando aquela atitude muito infantil. Não demorei para seguir as ordens que meu pai havia me dado e voltei para dentro de casa. Meu pai e sua esposa passaram a manhã na sala de estar. A condessa resolveu demonstrar seus dons musicais ao piano. Toda aquela satisfação significaria duas coisas: ou meu pai estava muito inspirado a noite passada - o que era pouco provável, pois dormira embriagado -ou ela estava disfarçando a sua maldade, tramando contra mim junto ao seu consorte de luxo. Ou seja: o conde e ela já sabiam o que fariam para me incriminar. Mas eu já estava preparada, pelo menos era o que eu esperava. Ao ver-me, o conde veio em minha direção, com um sínico sorriso de satisfação. Beijou minha mão e perguntou: _ Onde a pequena mariposa andou pousando? Não a vi a manhã toda. _ Estava em meu quarto, mas é claro que o senhor já sabia disso. _ Será mesmo? _ Se o senhor está insinuando alguma coisa, é melhor que fale aqui e agora. _ Não estou com vontade de discutir com a senhorita, pois agora estou de saída para resolver alguns negócios pendentes. Mandei chamá-la por isso. Mas saiba que a esperarei no baile desta noite. Dizendo isso, o conde virou-se para meu pai para se despedir. _ Por que tanta pressa, senhor conde? Fique para o almoço. Sabe que é um prazer tê-lo como hóspede em nossa casa. – disse meu pai. _ Não se preocupe, senhor Juan. O senhor terá o prazer de ter-me muitas noites a fio em sua casa como seu hóspede. Depois disso, ele se despediu da condessa e saiu com meu pai. Voltei, então, para o meu quarto, sem me despedir da condessa - não queria pegar energia negativa daquela mulher. Precisava me preparar para ter forças para a peça teatral que montaria logo à noite. Maria veio ao meu quarto, algumas horas depois, perguntar se eu queria que ela trouxesse o almoço para mim. Respondi-lhe que não, só queria ficar um pouco quieta com os meus pensamentos. Então, ela se retirou. 181
  • 182.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Depois de algumas horas lendo meu livro, acabei adormecendo profundamente e sonhei com o meu amor verdadeiro. Ele estava tão bonito! Estava feliz e sorridente e disse-me Está muito perto de nos encontrarmos. Tenha um pouco de paciência, meu amor. Então, quando ele ia pegar a minha mão, alguma coisa aconteceu, pois o vi caindo em um abismo negro e acordei chorando. Passei as mãos pelos olhos, levantei da cama e andei pelo quarto, de um lado ao outro. Era a segunda vez que o via caindo em um precipício. Maria entrou sem bater, parecendo aflita. Foi logo dizendo, interrompendo meus pensamentos: _ Se pai pediu que se aprontasse. Sairão mais cedo, porque parece que irá chover. O que a senhorita fará para se livrar desta questão? Não poderei estar presente nesta festa, e sabemos muito bem que o conde se fará presente. Depois de pensar alguns minutos, respondi-lhe: _ Traga-me umas toalhas bem quentes. Lembre-se de que quanto mais quente, melhor. _ O que fará, menina? _ Nada demais. Só não vou a festa alguma com aquele homem. Maria, mesmo sem saber o que eu faria, saiu para cumprir o que eu lhe havia pedido. Duas horas depois, retornou com as toalhas quentes e encontrou-me toda arrumada para o baile. Colocou as mãos na cabeça e perguntou: _ O que a senhorita, toda arrumada desse jeito, quer fazer com dúzias de toalhas quentes? Porém, não lhe respondi. Apenas pedi-lhe outra coisa: _ Maria, preste atenção: quero que desça e diga a meu pai que suba para vir buscar-me aqui em cima. _ Mas não disse que não iria? _ Faça o que eu lhe estou pedindo, mulher. Não se preocupe: dará tudo certo. Quando meu pai chegou à porta e, correndo em minha direção, disse: _ Anna! Santo Deus, filha! Está bem? Seu rosto está vermelho como um tomate. Quando colocou as mãos em mim, sentiu o calor do meu corpo. _ Cristo! Deve estar com uns quarenta graus de febre. Por que não está na cama? _ Porque o senhor disse para não desacatar suas ordens. Prefiro ir a receber uma surra. _ De jeito nenhum. Ficará em casa, mocinha, e cuidará desta febre. Por certo é o resfriado que teve e que ainda não curou totalmente. Chamou Maria aos berros. Até eu mesma acreditei na minha suposta doença. Quando Maria chegou a meu quarto, olhou-me sem entender absolutamente nada. Fez-me uma cara de quem estava desconfiada. _ Cuide bem de minha filha e faça com que essa febre suma de vez. Use seus chás. Por certo, sempre funcionam. Depois, virou-se para mim e falou exatamente o que eu esperava ouvir: _ Não se preocupe, filha. Direi aos anfitriões e ao conde sobre seu estado febril. Beijou minha testa e constatou a temperatura alta do meu corpo. Deu mais algumas ordens à Maria e saiu em seguida. Corri para a janela e fiquei olhando de meia greta, até eles sumirem na outra extremidade da rua. Maria, assim que percebeu que o casal já estava bem longe, indagou: _ Menina, o que foi que fez? Seu pai estava totalmente desnorteado. E não adianta mentir para mim, pois bem sei que é mais uma de suas artimanhas. Acaso usou algum tipo de feitiço para uso próprio? Sabe muito bem que não é permitido usar sortilégios para engambelar os outros. Nem consegui responder, pois estava muito concentrada, tentando tirar aqueles panos enrolados em volta do meu corpo. Ufa! E torce daqui e puxa acolá... Tirar aquele monte de toalhas quentes era uma questão de honra e desespero, pois quase morri de tanto calor. É que eu havia escondido as toalhas debaixo do espartilho e dentro dos saiotes. Para aparentar um rosto avermelhado, coloquei uma das toalhas quentes nas faces. Antes de meu pai chegar, joguei-a debaixo dos travesseiros. Maria ficou ali, olhando-me admirada, sem saber de onde vinha tanta 182
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus toalha. Por fim, acabou rindo largamente, sem parar. Então, depois de me livrar daquela tralha quente, disse à Maria: _ Confesso que já estava assando. Agora vamos rápido. Senão, não teremos tempo suficiente. Descemos as escadas correndo e, ao passarmos para o hall de entrada, pedi à Maria que me buscasse um xale que eu havia esquecido em seu quarto. Quando Maria chegou, saímos rapidamente ao encontro de Joseph. Ele já estava na lateral da casa, de prontidão, esperando-nos com uma pequena charrete, já atrelada aos cavalos. Ao ver-nos, olhou para Maria e falou: _ Santo Deus, mulher! Por que está trazendo tanta tralha? Maria, levantando as duas maletas de couro, respondeu: _ Uma são os meus pertences pessoais. A outra são coisas que trago comigo e não lhe dizem respeito, ora! Joseph olhou-a, respirou profundamente, mas nenhum outro comentário fez em seguida. Colocamos, então, todas as coisas na charrete e seguimos em direção ao bosque dos mortos. Lembrei-me, exatamente naquele momento, de uma lenda do século XIV: havia uma jovem feiticeira que, por onde quer que passasse, secava tudo. Ela era o mal encarnado, segundo os moradores. Então, resolveram caçá-la. Depois de julgá-la no tribunal local, decidiram dar-lhe uma cruel sentença. Amarram-na a uma árvore até que morresse de fome, de frio e de sede. Ela foi devorada pelos lobos. Contavam, ainda, que durante seus dias de flagelo, ela urrava como um animal feroz. Seus gritos de horror eram ouvidos até mesmo pelos moradores da aldeia vizinha. Outros diziam que ela amaldiçoou aquela floresta, não deixando que nenhuma planta saudável brotasse de seu solo. Nas noites do dia trinta e um de outubro dos anos seguintes, alguns aldeões juravam ter ouvido seus gritos de desespero ecoando pelo vento. Diziam que até o vento vindo daquele lugar era amaldiçoado e trazia o cheiro de enxofre do inferno. Escolhemos aquele lugar porque o acesso era difícil. Muitos não se atreveriam a ir até ali, por medo das lendas locais. Era um trajeto difícil e já estava começando a chover. Algumas vezes, tivemos que descer da charrete e ajudar Joseph a desatolar as rodas do lamaçal. A charrete era frágil e balançava muito e, o que era pior, fazia um barulho insuportável. Não tive medo da escuridão mortal que cercava toda a floresta. Mas o lugar, confesso, congelou meu coração. Se olhássemos para frente, não víamos absolutamente nada. E se olhássemos para trás, não conseguíamos ver sequer o chão. Somente um homem como Joseph, experiente em trilhas, conseguiria entrar e sair daquele lugar coberto pela escuridão e a névoa constante. A tristeza e a agonia eram contagiantes. Tinha cheiro de morte no ar, o que fazia jus ao nome dado pelos aldeões. Era como se um espírito desesperado por socorro estivesse por perto, implorando para ser ouvido. Por fim, resolvemos parar. Escolhemos um local perto de uma velha árvore petrificada, chamada de árvore do sacrifício. Joseph levou a charrete para a estrada, mais fundo, escondendo-a perto de um arbusto seco. Olhei todo aquele ambiente sem vida e me comovi. Não sabia até que ponto aquelas lendas eram verdadeiras, mas de uma coisa tinha certeza: algo de muito ruim tinha acontecido naquele local. Toda a vegetação havia secado totalmente. As árvores pareciam estar mortas, e nem a grama crescia. Não havia pio das corujas, nem uivo de lobos. Nem as crianças da noite, os morcegos, voavam assombrando-nos com seus bateres de asas rasantes. Olhei para Maria, que parecia ter tido a mesma impressão que eu. Fomos para trás das árvores e tiramos nossas roupas. Ficamos somente de camisolas. Maria ungiu todo o meu corpo com o óleo de girassol. O mesmo fiz com o dela. Acendemos uma fogueira para nos aquecer, pois o vento silvava e soprava fortemente. Mesmo que pressentíssemos que em breve a chuva cairia, teimamos em acender a fogueira para nos aquecer. Assim também pensávamos conseguir enxergar melhor o local. Mas foi uma tentativa inútil, pois só enxergávamos as coisas que estavam próximas de nós, pois o nevoeiro era intenso e misterioso. No céu, as nuvens começaram a se formar. Logo a Lua foi sumindo. Quando os primeiros pingos começaram a cair, já havíamos preparado todo o local. Enquanto Maria espalhou as sementes de girassóis em volta de toda aquela árvore petrificada, eu 183
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus fazia o círculo, usando a vassoura sagrada. Depois, desenhei o pentagrama da proteção no meio do círculo sagrado e giramos nossas varinhas no ar, fazendo desenhos desconexos. Clamamos os sete nomes sagrados da magia. Depois, plantamos em todo o local as mudas que eu havia pedido a Joseph para conseguir para mim. Fizemos isso para fertilizar aquele lugar morto. Por fim, começamos as rezas em voz alta: _ Senhor, que a grande Deusa possa ouvir a nossa humilde oração. Que possamos, com o nosso amor e bondade, trazer de volta a beleza, a fertilidade e a paz para esse lugar triste e sombrio. Que a nossa irmã desencarnada consiga sentir toda a proteção emanada deste círculo sagrado. Que seu coração se abra para o amor e o perdão, para que seu espírito possa libertar-se desta prisão de ódio e ressentimento. Pedimos ao espírito aprisionado de Áurea Scoth que se manifeste, para que possamos mostrar-lhe o caminho a seguir. Os espíritos aprisionados por Áurea àquelas árvores foram se manifestando, dando formas aos troncos. Seus gemidos de sofrimento eram assombrosos e torturantes a qualquer ouvido lúcido. Mas não podíamos dar a impressão de que sentíamos medo, pois qualquer demonstração de fraqueza poderia deixá-los muito agitados e afastar o espírito de Áurea Scoth de nós. De repente, uma brisa cheirando a cipreste aproximou-se, mas não conseguiu entrar no círculo, cuja função era exatamente essa. O que está fora não pode entrar, e o que está dentro não poderá ser atingido por nenhum espírito imundo ou atormentado. Sabíamos que o cheiro de cipreste significava a presença de um espírito atormentado. Em algumas ocasiões, esse cheiro pode significar que alguém próximo irá morrer. Mas ali, naquele momento, significava a presença de alguém muito atormentado. Trancamos a mente, apertamos as mãos contra o peito, fechando os olhos para que aquele espírito atormentado não nos engabelasse ou nos assustasse com outras formas ilusórias. Geralmente, os espíritos atormentados tentam fazer-se parecer assustadores ou tomam a aparência de anjos e fadas, para que os deixemos em paz ou para desistirem de nos intrometer em suas vinganças ou perseguições. Em outras ocasiões, esses espíritos podem se fingir gentis e tomarem a foram de criaturas encantadoras, apresentando uma falsa sabedoria. Áurea, por certo, havia se tornado um obsessor. Mas nada do que ela fizesse nos faria desistir de ajudá-la e de prosseguir com a nossa tarefa. Demos continuidade às orações e aumentamos o fervor das palavras, dizendo: _ Dê-lhe, meu pai, a Sua mão para que o espírito de Áurea siga o seu destino em paz. Liberte- a desta prisão, desse sofrimento sem igual. Então, eu Maria dissemos juntas, em voz alta: _ Siga em paz, minha irmã, sem olhar para trás. Deixe as marcas de sua dor na memória de seus algozes. Apague a sua para começar uma nova vida junto aos irmãos de sabedoria. Siga para a luz que brilha à sua frente. Veja quantos irmãos estão lhe esperando para recebê-la de braços abertos. Falamos isso, pois as luzes dos irmãos desencarnados brilhavam à nossa frente e podíamos vê- los esperando por Áurea, a feiticeira. Sentimos novamente o vento forte perto do círculo. Só que, desta vez, cheirava a flores do campo. Logo se formou um pequeno redemoinho. No meio dele, surgiu uma linda mulher de cabelos negros e ondulados e olhos azuis como a água marinha. Ela estava vestida de céu e com muitas chagas por todo o corpo. Delas, saía mel. Em pensamento, contou-nos como foi violada por todos os aldeões e que, depois de ser julgada injustamente e torturada violentamente, foi acorrentada naquela árvore petrificada, onde fez um juramento: nunca mais deixaria brotar daquele lugar uma só folha verde enquanto houvesse um descendente de seus algozes. Mas, que ao ver tanto amor, bondade e desinteresse vindos de nós, estava pronta para desistir de sua jura e seguir seu caminho em paz, com os irmãos espirituais. Toda aquela névoa ao seu redor sumiu, dando lugar a uma luz muito brilhante. Depois, Áurea transformou-se em uma pequena estrela e desapareceu na imensidão do céu. Então, continuamos com o ritual. Por fim, a chuva começou a cair. Eu disse, em alto tom: 184
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Que o fogo nos empreste sua alma, fumaça, e que ela leve todos os nossos pecados para o céu. Que a água da chuva, nossa irmã e purificadora, nos devolva essa energia renovada de volta para a nossa mãe terra. Que essas águas em forma de lágrimas abençoem esta terra tão sofrida. Que essas águas sagradas possam, também, lavar nossos pecados. Que a nossa essência purificada traga de volta todo o amor e o perdão para este solo, que durante anos sofreu silenciosamente por um crime cometido por nossos irmãos já desencarnados. Crime esse que fez uma de nossas irmãs ficar aprisionada nesta floresta por anos, causando dor e sofrimento não só a todos os aldeões e ao solo, mas também a ela mesma. Peço, Senhor, perdão pelos ignorantes que por aqui passaram. Mande, meu Pai, um espírito iluminado e de muita sabedoria para lhes tirar da escuridão onde se encontram agora. Dê-lhes, meu Deus, uma chance de se redimirem de seus erros e pecados! Que o vento purifique essas águas e que elas nos devolva a nossa essência, depois de tê-la sanado dos pecados recebidos da humanidade. Pelo poder da terra, pela força do fogo, pela alma dos ventos e pela pureza das águas, que se abra o portal e cumpra-se a minha missão. Um enorme raio de fogo cercou todo aquele lugar, clareando até a mais longínqua imensidão escura que tomava conta dali. Sentimos a presença da grande Deusa e do grande Deus. Seus poderes eram tão grandes, tão imensos, que eu e Maria tivemos de nos agarrar uma a outra. O calor daquele fogo espiritual, misturado às forças da natureza, formava um enorme redemoinho, que limpou toda a floresta daquela mazela de revolta, vingança e loucura. Senti que toda a floresta veio nos agradecer por termos libertado aquele espírito sofrido, que havia tanto lhe sufocava a vontade de viver. Rodopiamos e dançamos alegremente, recebendo a chuva com os braços abertos, lavando todos os pecados de nossa alma. Nossos corpos estavam completamente encharcados, mas não sentíamos frio ou incômodo por estarmos molhadas dos pés à cabeça, pois o amor dentro de nós era imenso e indescritível e esquentava nosso corpo. Logo a chuva parou - embora tivesse sido fortíssima, foi passageira. Olhamo-nos de cima abaixo e gargalhamos. Então, procuramos Joseph, que estava debaixo da charrete para não se molhar. Rimos ainda mais. Ele nos olhou, interrogativamente: _ Não acham melhor trocarem de roupa? Vão pegar uma febre e cairão de cama. Sufocamos outra gargalhada, mas abaixamos a cabeça e saímos em procura de toalhas secas. Maria trocou-se de imediato e fiz o mesmo. Depois, sentamos na charrete e arrumamos a comida que trouxemos para dar término àquele sabat. Estendemos uma toalha bordada com desenhos místicos. Então, servimos o pão e o vinho de samhaim. Recuperamos as forças com uma sopa mágica. Levantamo-nos e novamente varremos todo o local com a vassoura sagrada. Desta vez, apagamos o círculo. É muito importante usar a vassoura antes e depois de cada ritual. Às vezes, também temos que usá-la durante o ritual. Demos uma olhadela em volta e não acreditamos no que vimos: havia pequenos brotos na velha árvore, que já não estava mais petrificada. O chão estava repleto de graminha, ainda fina e rasteira. Uma enorme coruja pousou sobre a velha árvore. Um gamo correu em direção ao fundo da floresta. Os lobos uivavam, cantando para a imensa Lua que reluzia no céu. A vida finalmente estava de volta àquele lugar. Com certeza, ali seria um novo paraíso celestial. Ficamos muito felizes e choramos de emoção. Até Joseph ficou extasiado com o que viu. Demos as mãos, os três, e agradecemos as bênçãos concedidas naquela noite maravilhosa e produtiva. De repente, ouvimos barulhos vindos do meio da floreta escura. Aquilo gelou minha alma. Sabia bem o que era. Pela segunda vez, senti-me como Cristo quando foi entregue aos inimigos. Então, não conseguia pensar em mais nada e disse à Maria: _ Corra com Joseph para longe daqui. _ Senhorita Anna, não posso deixá-la aqui sozinha – disse Joseph. 185
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Anna, filha, venha conosco. Joseph tem razão: ainda há tempo para a senhorita. Eu lhe imploro: não me deixe, filha... Passamos tantas coisas juntas... Morrerei pela senhorita se for preciso. Eles não a entenderão, Anna... Não se vá, não me abandone... Maria ajoelhou-se e implorou para que não a deixasse partir. Suas lágrimas comoveram-me, mas não pude demonstrar nenhuma emoção, pois poderia colocar a vida dela e de Joseph em risco. Olhei para ele, que também estava chorando, e pedi-lhe auxílio com os olhos. Ele enxugou as lágrimas e veio retirar Maria de perto de mim. Quando ele a levantou do chão, dei-lhe um enorme abraço e disse: _ Para que consiga seguir em paz meu caminho, precisarei que a senhora seja como sempre foi: forte e sensata. Nunca nos esqueceremos, Maria, porque sempre estaremos juntas em pensamento. Ninguém nunca conseguirá nos separar porque o elo que nos uniu sempre nos unirá. Somos como essa chuva que caiu e fertilizou esta terra hoje. Somos a terra, o sol, o ar e sempre estaremos juntas, porque somos parte do mesmo universo. A distância, para nós, não existe, porque ela é como olhar o horizonte: cada vez que fazemos isso com os olhos do aparelho, vemos coisas ao longe. Mas quando olhamos com os olhos da alma, vemos apenas um caminho a percorrer até alcançar o objetivo almejado. Sempre poderá me enviar cartas pelo padre Ignácio. Agora, levante a cabeça e siga em busca da sua felicidade. Dei-lhe um beijo na testa e segurei seu rosto em minhas mãos, para nunca mais me esquecer da minha amiga e mãe. Foi o pior dia de minha vida. Engraçado como o amor nos obriga a fazer coisas que não queremos fazer... Fiz minha única amiga chorar e não tinha como evitar. Então, tentando tirar Maria daquele local perigoso, disse: _ Não os estou expulsando, mas quero que ambos corram agora para que não cheguem aqui e os vejam. Joseph saiu, segurando Maria. Ao tomarem certa distância, ela tentou escapar de Joseph, que a abraçou fortemente, tentando acalmá-la. Maria gritava meu nome e esticava os braços em minha direção. Mais uma vez, minhas premonições se concretizaram. Fiquei olhando-os sumir em meio à noite escura, até que, finalmente, nada mais eram além de um simples vulto. Enxuguei minhas lágrimas, rasguei minhas vestes, arranhei meu rosto com minhas próprias unhas, joguei sangue de galinha em meu corpo e fingi estar desmaiada ao chão. Ouvi o grito de alguém. Não me atrevi em abrir os olhos para saber de quem se tratava. Ouvi um homem dizer algo: _ Vejam! Ela está caída aqui! Parece ter sofrido algum tipo de violência. _ Há sinais de satanismo por todos os lados. Por certo, as marcas em seu corpo foram deixadas por algum tipo de demônio. Essa mulher está tomada por forças malignas. Tive muita vontade de rir, pois percebi a ignorância daquelas pessoas. No mínimo, aquele homem era completamente louco e sua mente perturbada criava mais histórias que a imaginação de uma criança de cinco anos. Percebi que meu pai aproximou-se, pois ouvi sua voz bem próxima a mim. Mas o inquisidor gritou, dizendo: _ Não! Os demônios dela passaram para o seu corpo. Essa mulher está infestada de súkumbos. Aquele homem que a tocar ficará atraído por essa mulher pecadora e imunda. _ O que são súcumbos? - perguntou o conde, curiosamente. _ São demônios femininos que usam o corpo das mulheres para seduzir os homens. Esse tipo de demônio, além de destruir a vida de quem quer que seja, pode também levar o indivíduo possuído à morte. Ele falava isso porque não podia ver os demônios que o cercavam. Mesmo de olhos fechados, pude perceber mentalmente a quantidade de demônios que estavam em volta daquele homem, pois soltavam garagalhadas tenebrosas. Rezei para que ele não me tocasse, pois aí sim, literalmente falando, eu estaria perdida. Outra voz masculina ainda insistiu com meu pai, dizendo: _ Senhor, não toque nela. Não ouviu o que o inquisidor disse? 186
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Ninguém vai me impedir de levar minha filha para a carruagem. Se quiserem discutir alguma coisa sobre este caso, discutiremos em minha casa. Mas não a deixarei aqui, neste chão molhado e, por certo, morrendo de frio. Ufa!, pensei comigo. Até que enfim alguém sensato. Pensei que ficaria ali até congelar, esperando aquele louco endemoniado decidir se eu era ou não uma bruxa. _ Juan! Não espera mesmo que eu vá dentro da mesma carruagem com essa endemoniada, espera? - disse a condessa, parecendo não querer dividir aquele pequeno espaço comigo. Porém, meu pai estava decidido a me levar com ele: _ Minha cara esposa, aonde vai e com quem vai eu não sei. O que sei é que Anna, minha filha, irá na mesma carruagem que eu. _ Recuso-me a entrar na carruagem em que esta mulher está! - retrucou. _ Faça como quiser. Pode ir a pé ou no colo de alguns dos soldados. Ou, se preferir, pode ficar aí mesmo onde está e, é claro, poupar-me o trabalho de devolvê-la a seu pai - que é o que eu já deveria ter feito há muito tempo. Mas não me perturbe mais com seus chiliques histéricos. Este momento é muito delicado para mim. Meu pai, então, pegou-me no colo e saiu carregando-me em meio à pequena multidão que se formara em nossa volta. _ Não lhes disse? O demônio tomou conta da mente de senhor Juan. - disse o inquisidor. Porém, meu pai pareceu não dar importância às sandices dos demais presentes e levou-me para dentro da carruagem, cobrindo o meu corpo com cobertores e deitando-me em seu colo. Ele, então, ordenou a Lorenzo: _ Lorenzo, siga para a minha casa. Minha filha e eu estamos cansados. _ Sim, senhor, imediatamente. A condessa seguiu na carruagem do seu comparsa, o conde. Os soldados e o inquisidor seguiram-nos cavalgando. O balançar da carruagem e o aconchego do colo do meu pai fizeram-me cochilar. Afinal, foram raras as vezes em que estivemos tão próximos daquele jeito. Ao chegarmos em casa, Lorenzo ajudou meu pai a tirar-me da carruagem. Papai levou-me para meu quarto e pediu à aia que me despisse e trocasse minhas roupas. Depois, desceu e despachou aquelas pessoas indesejadas, pedindo-lhes que voltassem no dia seguinte para retomarem o assunto em questão. Isso me deu mais uma noite em minha casa. A condessa, naquela noite, recusou-se a dormir no mesmo quarto que meu pai, dizendo que ele estava contaminado pelos demônios que habitavam meu corpo. Agora, sim, ela enlouqueceria de uma vez por todas. Pois além de viver com a cabeça cheia de caraminholas tramando contra as pessoas, ainda arrumou parceria com um inquisidor totalmente excêntrico que, por certo, enfiou mais sandices em sua mente. Agora, a pobre mulher, além de tramar, ainda tinha que se preocupar em esquivar-se dos supostos demônios que habitavam meu corpinho tão puro e inocente. Era hilário imaginar a condessa de olhos arregalados, a altas horas da madrugada, sentada na cama só com os olhos de fora, vigiando para não deixar o coisa ruim se aproximar dela. Pobre mulher! Confesso ter dormido maravilhosamente aquela noite. Só me preocupei com Maria que, por certo, estaria triste de verdade. Acordei, dei uma espreguiçada e levantei de uma só vez meu desjejum - estava em uma bandeja do lado da cama. Tomei calmamente e fui para a janela, observar o movimento. Como eu já esperava, havia várias carruagens e cavalos no pátio de minha casa. Como as pessoas gostavam de um mal feito, qualquer coisinha era motivo de atração circense. Tereza entrou, trazendo água para que me lavasse. Por certo, a criada ficou com medo de mim depois de ter ouvido os boatos mentirosos e alucinados que saíram da boca da condessa. Tereza, então, disse-me, meio constrangida: _ Queria dizer, menina, que não acredito em nada que dizem sobre a senhorita. - abraçou-me e saiu em seguida. 187
  • 188.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Fiquei feliz por saber que os verdadeiros amigos nunca duvidam de nós, e que jamais caem em armadilhas levianas. Lavei-me e vesti-me. Coloquei-me simples e formal. Meu pai foi o primeiro a entrar em meu quarto. Deu uma leve batidinha e, ao ver-me sentada, perguntou: _ Como está, Anna? _ Muito bem. E como eu deveria estar? _ Não se lembra de onde estava ontem à noite e de nada que lhe acontecera? _ Não. Do que o senhor está falando? - menti. _ Encontramo-la caída no meio da floresta dos mortos. Suas roupas estavam todas rasgadas, seu corpo estava todo arranhado. Como pode não se lembrar do que houve? _ Já disse: não consigo me lembrar de absolutamente nada. O que o senhor está dizendo para mim é grego. - sentei-me na cama e fiz uma cara de ingênua. Meu pai sentou-se ao meu lado e disse: _ Anna, quero ajudá-la. Mas, para isso, preciso que colabore comigo. Diga-me olhando em meus olhos: foi violada por algum bandido? _ Não! Estou bem. Por que está me perguntando essas tolices? Não conhece meu comportamento? Perdeu a confiança em mim, pai? _ Confio na senhorita, Anna, mas algumas coisas não estão se encaixando. Sabe que não sou homem de acreditar em misticismos. Olhei-o no fundo dos olhos e disse: _ Então, terá que continuar confiando. _ Eles a levarão de mim, filha. Não poderei fazer nada. Se deixar que pensem que é uma feiticeira, eles lhes condenarão e sabe Deus o que lhe farão. _ Não, pai. O senhor entregar-me-á, como tentou fazer vendendo-me para aquele homem inescrupuloso, para saldar suas dívidas. O senhor só pensou em si mesmo e no santo nome de sua ambiciosa esposa. Mas se esqueceu de que sou o único laço consanguíneo que o senhor verdadeiramente tinha. Vá, abra a porta, antes que a derrubem por causa do peso de estarem todos encostados nela. Meu pai olhou-me espantado e só fez abaixar a cabeça. _ Tem certeza de que está preparada para isso? _ Sim. Deixe que entrem meus algozes. Como eu havia dito, quando meu pai abriu a porta, caíram todos de uma vez uns em cima dos outros, tropeçando como urubus. Fiquei admirada de ver senhores tão distintos, como o magistrado da cidade e Lord Oswald, tentando equilibrar-se em cima do próprio peso para levantar-se. Todos fingiram estar tirando a poeira das vestes. Depois, olharam-me, esperando que meu pai lhes dissesse alguma coisa. Por fim, Lord Oswald perguntou, curiosamente, não aguentando manter-se calado: _ Conseguiu arrancar dela alguma confissão? Meu pai, porém, respondeu-lhe: _ Não estava tentando fazer minha filha confessar coisa alguma. Só estava tentando encontrar uma resposta plausível para o fato ocorrido ontem à noite. Mas, pelo jeito, ela não consegue se lembrar de nada. _ Por certo o demônio afastou-se quando viu a luz. - respondeu o magistrado. Quando ele falou que a luz afastou o demônio, por certo não era a dele, pois ele era uma das pessoas que estavam rodeadas de pequenas criaturas zombeteiras. Meu pai tentou, ainda, fazer-me falar na frente de todos o que eu estava sentindo: _ Diga a eles, minha filha, o que está sentindo, para que percebam que você é inocente. _ Já lhe disse, pai: não estou sentindo absolutamente nada. Estou é achando engraçado todos esses senhores e nobres aqui em meus aposentos, tentando achar algum defeito em mim para esconderem seus próprios defeitos. 188
  • 189.
    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Blasfêmia! O demônio está zombando de nós. - disse um nobre rechonchudo, o senhor Oswald. _ Devemos levá-la para uma interrogação formal, a portas fechadas. – disse, por fim, o inquisidor, que me observava. O homem mais parecia um mouro por causa de sua forma arcaica. Ele era exatamente como eu e Maria vimos em nossas visões: os demônios em seu corpo faziam sobre o seu ombro os mesmos gestos que ele fazia ao falar, só que de maneira zombeteira. Aqueles demônios o induziam a fazer todos os tipos de crueldades jamais imaginadas por um ser vivente temente a Deus. Aquele homem realmente era uma pessoa que precisava de um exorcismo. Quase não consegui olhar para ele por causa das criaturas deformes que o rodeavam, blasfemando e fazendo gestos obscenos. Por fim, meu pai, ao perceber que o inquisidor aproximava-se de mim para tocar-me, disse-lhe, segurando sua mão: _ Ninguém tocará em nenhum fio de cabelo da minha filha. Um soldado da milícia tentou se aproximar de mim, mas Lorenzo e outros dois capatazes de meu pai mostram estar armados, afastando-o de imediato. Então, imediatamente, o soldado baixou a guarda e posicionou-se em um canto da parede. O padre Ignácio chegou, dando braçadas, empurrando toda aquela gente curiosa e impertinente que estava aglomerada em meus aposentos. Quando conseguiu chegar até a mim, disse: _ Saiam desse quarto imediatamente! Quero falar a sós com a senhorita Anna. _ Ficou louco, padre? Esta mulher está repleta de demônios. Já enfeitiçou o conde Alfred, dois empregados da casa, e o próprio pai. O senhor não pode, de modo algum, ficar sozinho com essa discípula de satã. _ Sim, é verdade. Quase a pedi em casamento por causa dos súcumbos que estão dentro do corpo dela. Eu estava totalmente enfeitiçado por esta mulher a ponto de quere-me unir a esta bruxa, que invadiu minha mente com o seu poder maligno. – disse o conde. Que hipócrita!, pensei comigo. Finalmente eu havia conseguido me livrar daquele compromisso com aquele homem inescrupuloso e assassino. Sentia-me muito orgulhosa de mim mesma, pois nunca cedi de livre e espontânea vontade às investidas daquele falso conde. A minha vontade, naquele momento, foi de entregá-lo, dizendo tudo o que sabia sobre ele. Mas tinha que deixar uma carta na manga para o último momento. Padre Ignácio interrompeu meus pensamentos quando se sentou ao meu lado, na beirada de minha cama, e ordenou em um tom severo, olhando novamente para aquelas pessoas que teimavam em permanecer ali: _ Já havia pedido que se retirassem. Por favor, saiam imediatamente. Quero falar a sós com a senhorita Anna. Uma senhora muito gorda, que mais me lembrava um grande porco capado, fez o sinal da cruz e um comentário ofensivo: _ Pobre vigário... A maldita feiticeira já possuiu a sua pobre alma! Padre Ignácio, ao ouvi-la, respondeu severamente: _ E possuirá a sua se não fizerem o que mando agora. Não veem que estão tirando o direito desta jovem a confessar? Ela é ainda minha paroquiana e não lhes dou o direito de ofendê-la sem ao menos ouvi-la antes. _ Blasfêmia! Bruxa não tem direito a defesa. - disse um homem sem dentes e muito magro que estava no meio daquela gente toda. _ Se é assim, então ficaremos. Tornaremos essa confissão oficial. - disse o magistrado. _ Senhor Cortez, pelo respeito que tenho pelo senhor e pela sua posição em nossa comunidade, este é um assunto que só diz respeito à Igreja. Creio estar suficientemente preparado para lidar com seres de outra dimensão. Meu pai, então, interveio mais uma vez: 189
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ É melhor sairmos todos. Vamos ver se o padre consegue algum resultado favorável. Falou isso e foi empurrando todos para fora do recinto que, pelo jeito, já não me pertencia. Assim que conseguimos ficar a sós, padre Ignácio falou: _ Filha, preste atenção no que vou dizer agora: quero que me responda com toda a sinceridade possível. Antes que o padre Ignácio prosseguisse, fiz um sinal para ele, apontando o inquisidor, que estava encostado na parede com os braços cruzados, ignorando suas ordens. Padre Ignácio ficou furioso por ter sido desrespeitado e falou-lhe asperamente: _ Creio não ter sido muito claro ou o senhor deve estar sofrendo de perda de audição. Quero falar com essa moça a sós. _ Não creio que ela tenha alguma coisa para falar que um inquisidor não possa estar presente para ouvir. Quero que o senhor saiba que estou aqui representando as leis da Santa Madre Igreja. Padre Ignácio colocou pessoalmente para fora o homem surdo, segurando-lhe o braço e dizendo: _ O senhor pode ser o representante até mesmo do rei, mas ainda mando nesta paróquia e meus paroquianos merecem todo o meu respeito, assim como essa moça que aqui está. Em seguida, olhou para mim, fazendo um sinal com o dedo indicador nos lábios para que eu ficasse em silêncio. Depois de ter colocado o homem para fora, ele esperou dois minutos e abriu a porta de supetão, pegando aquela senhora gorducha grudada com os ouvidos nela. A mulher caiu, esborrachando-se no chão como uma abóbora podre. Padre Ignácio, indignado, falou: _ Que vergonha, mulher! Escutando atrás da porta? Vá para baixo com os outros. Aqui não tem nada que lhe diz respeito. Saiba que quero sua confissão na missa de domingo. A mulher, custosamente, levantou-se do chão. Mesmo com as bochechas vermelhas como tomates de vergonha, ainda falou: _ Só estava tentando ouvir se os demônios no corpo desta bruxa estavam machucando o senhor. _ Se fosse um exorcismo - o que não é -, a senhora realmente correria o risco de ser possuída por um espírito maligno por causa da sua proximidade tão homogênea com a vítima em questão. Mas agora que já se certificou de que não há demônios nenhum aqui, se a senhora não se retirar imediatamente, eu mesmo tratarei de jogá-la escada abaixo. A mulher saiu, fazendo o sinal da cruz e benzendo-se, chamando o nome de tudo quanto era santo que haveria de se lembrar. É claro, ao chegar perante os demais curiosos no andar de baixo, ela inverteu toda a história, dizendo que ouviu os gritos que eu dava quando o padre jogava em mim a água benta. Este tipo de pessoa é que fazia a má fama das bruxas. Pessoas sem nenhuma ocupação, sem razão para viver e, com certeza, muito mal amadas. Pessoas que precisavam se garantir causando a desgraça alheia, criando um motivo para que todos prestassem mais atenção em sua figura patética e insignificante. Tanto que eu nunca a havia notado além daquele dia. Com certeza, ela deve ter conseguido uma boa plateia para o seu teatro de mentiras e injúrias. _ Então, minha querida Anna, agora podemos conversar. - disse padre Ignácio, com a voz cansada e pesarosa. _ Sim. Atirei-me em seus braços, pois estava me sentindo completamente só e desprotegida. O peso do mundo parecia ter caído sobre as minhas costas. _ Santo Deus! Calma, minha filha. Preciso que me conte exatamente o houve para que possamos, juntos, resolver esse problema. Contei até os pormenores dessa nova situação. _ O senhor também irá me condenar por isso, não é? 190
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ De modo algum. Já conversamos sobre isso. Não vim a esse mundo para julgar quem quer que seja. Só me garanta uma coisa apenas: algum dia a senhorita já teve contatos com o demônio, ou qualquer ser vindo do inferno? _ Não, padre. Juro que não. Só não me peça para negar quem sou. Se me perguntarem se sou uma bruxa, direi que sim. _ Agora, sim, consigo entender a carta que todos comentavam quando cheguei. Pensou em tudo, não foi? _ Espero que sim, padre. Muita gente neste momento está dependendo de mim. Padre Ignácio olhou-me indignado e prosseguiu: _ Lançou-se na noite escura sem temor, por confiança e amor verdadeiro. E foi amor ao próximo. Cada vez mais a admiro, por ver o quanto o seu coração é cheio de fraternidade e compaixão. É a pessoa mais corajosa que já conheci - até mais que muitos soldados, pois foi capaz de abrir o peito para o perigo eminente que está à sua frente. Está determinada a enfrentar um cruel destino por amor ao seu próximo, abrindo mão da própria liberdade e, talvez, da própria vida. A senhorita é uma verdadeira filha seguidora do Cristo. Tenho muito orgulho de você e nunca me esquecerei desta moça corajosa e determinada que agora está aqui na minha frente. Ele me abraçou e, dando-me sua benção e um beijo na testa, prosseguiu: _ Só preciso que confie em mim. Tudo o que eu fizer ou disser jamais pense que será para o seu mal. Por isso, mais uma vez vou lhe perguntar: a senhorita confia em mim? _ É claro que sim, padre. Se não confiasse, não teria lhe contado todo o meu segredo. _ Então, fará exatamente do jeito que combinarmos. Promete? _ Sim, prometo. _ Se a senhorita não colaborar, não poderei ajudá-la. Ele segurou meu rosto para ter certeza de que estava lhe ouvindo atentamente. Falou-me tudo em um tom de voz que mais parecia um sussurro. Tudo isso para que não fôssemos ouvidos pelos curiosos que estavam de prontidão, do lado de fora da porta novamente. O desespero daquelas pessoas era tanto que havia hora em que ouvíamos seus tropeços e esbarrões na porta. Pareciam cães de guarda. É engraçado como a vida alheia é muito mais interessante do que a nossa própria vida. Então, o padre Ignácio levantou-se e abriu a porta. Como esperávamos, estava novamente repleta de curiosos tentando escutar minuciosamente o que conversávamos. Imagine só: havia um que levou um copo para tentar ouvir melhor. Outro tentava furar a parede. Eu era praticamente a atração principal daquele espetáculo de injúrias. Senti-me como um animal enjaulado, sendo exposto no meio de uma multidão furiosa e pronta para atirar-me pedras. Padre Ignácio olhou para eles indignadamente e falou, em um tom sério: _ Entrem. Ela já está pronta. _ Ela confessou? Louvado seja o senhor padre! Nunca duvidei que o senhor fosse capaz de fazê-la confessar. Então, diga-nos: o que ela confessou ao senhor? - disse o magistrado. _ Não tenho que lhes dizer nada em público. Este é um caso reservado e de ordem judicial. Portanto, cabe às partes competentes decidirem o que devem fazer. Falando isso, o padre foi empurrando todos os curiosos que ali se encontravam. _ Vamos, saiam daqui. Só entrarão as partes interessadas no assunto. Então, pôde entrar o meu pai, o chefe da guarda, o magistrado, o inquisidor, o conde e o Lord Gaspar - por estar envolvido na política local – e, finalmente, a condessa. A senhora gorducha também tentou invadir meu quarto assim mesmo, mas o padre a bloqueou imediatamente na entrada, empurrando-a com as mãos. _ Aonde a senhora pensa que vai? _ Ora, também sou importante neste caso! Afinal, fui testemunha de um exorcismo. Vi esta mulher manifestar o demônio. 191
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Senhora Eulália, se não sair daqui agora, juro que pedirei ao chefe da guarda que lhe dê voto de prisão por desacato e desobediência às autoridades presentes. O chefe da guarda, na mesma hora, tomou a frente e colocou-se de prontidão, com a mão na arma que estava em sua cintura. Padre Ignácio fechou a porta, empurrando fortemente com as mãos a velhota sisuda e mentirosa. Ela, ainda, se fez de sonsa, mas padre Ignácio expulsou-a como um cão sarnento. E ainda preveniu os outros curiosos que também teimavam em bisbilhotar: _ E que isso sirva de lição a todos os bisbilhoteiros presentes aqui! - gritou para aquelas pessoas. Por fim, todos saíram, resmungando e debatendo-se como crianças fazendo pirraça. Então, a portas fechadas, padre Ignácio começou o interrogatório. _ Senhorita Anna, é verdade que não se lembra de absolutamente nada do ocorrido ontem à noite? _ Sim, padre, é verdade. _ Sabe que irá a julgamento sob pena de morte? _ Sim, estou ciente de tudo o que ocorrerá comigo. _ Então, sabe que não pode mentir. - padre Ignácio deu uma piscadinha para mim. Baixei a cabeça, para que não percebessem nossa cumplicidade. _ Sim, padre, sei. _ Então, responda-nos: quem estava presente com a senhorita durante aquele ritual satânico? _ Não houve nenhum ritual satânico. Eu estava sozinha. Não havia ninguém comigo. Os senhores estão tentando me confundir. _ Está mentindo! - disse o inquisidor. _ Então, como consegue explicar todas aquelas marcas no solo e sinais de bruxaria espalhados por todos os lados? - continuou o padre. _ Não havia ninguém. Só consigo me lembrar das formas incorpóreas que me levaram no colo para a floresta. _ Oh! - exclamaram os demais presentes. _ Foram os demônios! - sussurrou o magistrado, fazendo sinal da cruz. _ Então, o que tem a dizer sobre a carta escrita pela sua governanta? - prosseguiu o padre, pedindo silêncio a todos, que não paravam de tagarelar. _ Quero que todos os demais presentes prestem muita atenção. A carta é muito esclarecedora neste caso. Dizendo isso, tirou a suposta carta de Maria de dentro de uma bolsinha de couro e deu início à leitura. Seu conteúdo pareceu intrigar e interessar todos os ouvintes. A carta dizia: Caro senhor Juan, É com muito pesar que venho através desta dizer-lhe que estou deixando sua morada. Sinto ter que estar abandonando meus afazeres e meus compromissos como sua leal serva. Sinto mais ainda por estar rompendo o compromisso feito à sua esposa, a senhora Elizabeth Goldin. Mas é com imenso pesar que deixo o ofício como sua governanta. Embora lhe tenha todo o respeito deste mundo e gratidão por sua generosidade comigo, venho comunicar-lhe que não poderei mais permanecer em sua residência. Já faz algum tempo que venho tentando poupar-lhe maiores desgostos. Embora eu tenha tentado lutar contra os meus próprios princípios religiosos para achar uma forma de ajudar e afastar a senhorita Anna, sua filha, das ciladas do demônio, confesso ser impossível. Pois a senhorita Anna está totalmente possuída. Embora eu tenha feito de tudo ao meu alcance, não posso mais continuar, pois me sinto fraca e incapacitada de lutar contra o demônio que age em sua filha de maneira desordenada. Ela tem tido ataques de sonambulismo, influenciados pelos demônios que a possuem durante o sono. Por várias vezes, segui-a durante a noite até o jardim, onde ela parecia não estar ciente do que estava fazendo. Creio que isso deve ter 192
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus vindo de um local secreto que a senhorita Anna achou sem querer, depois de ter lido o diário de sua estimada e falecida esposa Elizabeth. Creio que ela deve ter construído o obscuro local para culto demoníaco. Peço que o senhor, como um bom pai e sensato homem, encaminhe-a aos rigores de um convento, onde poderá afastar-se por completo dessas criaturas horríveis que tanto a atormentam. Vendo-me, então, de mão atadas, desfaço a promessa que fiz à senhora Elizabeth em seu leito de morte. Sendo assim, deixo o meu cargo de governanta disponível a quem quer se interesse. Espero, sinceramente, que o senhor compreenda minha atitude aparentemente covarde e leviana. Embora eu o admire muito e tenha por sua filha alta estima, não quero manter contato com o demônio ou com alguém que tenha alguma proximidade com ele. Sem mais, Maria Constança Sua criada. Fiz uma carta de meu próprio punho. Enquanto saíamos apressadamente no meio da noite, deixei-a cair no chão, perto da escada, sem que Maria percebesse, para que algum dos empregados a encontrasse. Ao ler, quem quer que fosse pensaria que Maria estava abandonando a casa por medo de parecer ter estado envolvida em rituais de magia negra. Se eu tivesse deixado a suposta carta que Maria havia escrito para meu pai diretamente, e ela fosse lida por ele, certamente teriam perseguido tanto ela quanto Joseph. Àquelas alturas, estariam mortos. Porém, a carta foi encontrada por Tereza, que procurou o padre Ignácio na igreja e entregou a carta a ele. Ele seguiu imediatamente para a casa dos Menellaus, entregando-a ao meu pai, que a leu em voz alta para o conde e para os demais presentes. Foi assim que o boato da carta se espalhou. Ao voltarem todos para casa, não me encontraram. Deu-se início, então, a uma busca pela redondeza. Em seguida, o conde enviou seus soldados para me procurarem e acionou o inquisidor, que estava na cidade disfarçadamente, embora eu já o tivesse visto em minhas visões junto a Maria. Todas nós fazemos um juramento em que nos é expressamente proibido mentir sobre a nossa condição de bruxa. Devemos manter fidelidade às irmãs, mesmo sob tortura. É por isso que fiz Maria ir embora fugida. Se alguém a interrogasse, ela também diria a verdade sobre si, mas nunca sobre mim. E isso não seria justo com a mulher que, além de ter me criado como mãe e sido a minha única companheira até aquele momento, também perdeu sua juventude por fidelidade e ignorância de meus avós e de meu pai. Padre Ignácio deu procedimento ao interrogatório: _ E então, senhorita Anna? Pode nos dizer o que sua governanta quis dizer ao senhor Juan, fazendo-lhe tais acusações? _ Ela estava tentando me ajudar. _ Por quê? _ Porque ela dizia que o demônio pegava-me durante a noite e fazia de meu corpo o que bem queria. _ Oh! - exclamaram novamente. _ Então, confessa ter pacto com o satã? - interveio o inquisidor. _ Não! Apenas disse que estou sendo usada, mas não consigo me lembrar do que faço durante a suposta possessão. Nem sei o que fiz ontem à noite. Padre Ignácio socorreu-me, não deixando que ninguém falasse mais nada. Então, continuou: _ A que veredicto os senhores conseguem chegar? Por fim, o magistrado falou, ainda meio confuso: _ Diria que teríamos que analisar o caso, com calma, e interrogá-la em uma corte de maneira formal. _ E os outros demais presentes? O que têm a dizer? _ Concordamos com o magistrado. - disse o chefe da guarda. 193
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Então, marcaremos uma audiência pública para amanhã bem cedo. Assim, depois de ouvirmos o que todos dirão, daremos o veredicto, decidindo o futuro desta mulher. - disse o magistrado, todo entusiasmado por finalmente ter algo para fazer. Afinal, nunca houve um julgamento naquela cidade pacata. _ Então, prendam a bruxa e levem-na para que aguarde sua sentença na prisão, antes que ela faça mal a alguém ou fuja. - disse a condessa, tentando livrar-se de mim. _ Concordo com a condessa: esta mulher é uma feiticeira perigosa. Eu mesmo quase caí nos seus encantos. - finalmente o crápula do conde abriu a boca. Lógico que ele gostaria que eu fosse para a prisão: lá seria bem mais fácil para ele subornar um guarda e pôr aquelas mãos imundas em mim. _ De jeito nenhum! Ela é uma moça de família e não está acostumada a um lugar como aquele. Como pároco desta cidade, sugiro que ela fique em sua casa, trancada em seu quarto, até amanhã. _ Senhor Juan tem algo contra? _ Lógico que não. Ela ficará aqui, sob meus cuidados. _ E se ela resolver tentar escapar? Ou matar alguém durante a noite? - a condessa tentou envenenar mais uma vez (morro de medo dela...) _ Cale-se, mulher! Está decidido: minha filha ficará nesta casa até que decidam o que será feito dela. _ Senhor Juan, a senhora sua esposa está coberta de razão. E se sua filha tentar escapar durante a noite? Ou tentar algo contra até mesmo o senhor? - disse o inquisidor. _ Garanto que ela não fugirá. Dou minha palavra como cavalheiro. E quanto à preocupação se ela vai ou não fazer mal a alguém desta casa, por que o capitão da guarda não coloca dois guardas na porta, para garantirem a nossa segurança? Houve novo murmúrio de conversa e, por fim, chegaram a uma solução. _ Tem razão. Disponibilizarei dois de meus melhores homens para que fiquem de prontidão, do lado de fora do quarto da senhorita Anna. _ Então é melhor que coloquem outros dois montando guarda do lado de fora da casa. – sugeriu a condessa. Ela não parava mesmo. Era uma pena que eu não podia falar nada. Senão, com certeza teria lhe dito umas boas verdades. E que bom que haveria guardas em minha casa para me proteger. Assim, não seria perturbada por ela e pelo conde durante a noite. _ Que assim seja, então. - disse o magistrado. _ Senhores, se estão todos de acordo, então vão para suas casas descansar. Teremos um dia cansativo amanhã. - disse meu pai, parecendo estar exausto. _ Tem mais uma coisa. Que fique bem claro que ninguém entre neste quarto ou saia. Que esta mulher seja levada a julgamento assim que o dia raiar. - disse o inquisidor. _ Dou-lhes a minha palavra. - disse o padre Ignácio. _ E a minha de cavalheiro. - confirmou meu pai. Por fim, saíram todos. Cada um olhando-me com uma cara pior que a outra. Ao passarem por mim, benziam-se, como se estivessem vendo em mim o próprio demo. Fiquei boquiaberta com a atitude ignorante daquelas pessoas. Mas, ignorantes ou não, o importante é que me deixaram em paz. Finalmente, pensei comigo. Padre Ignácio, ao passar por mim, benzeu-me com as mãos, fazendo em minha testa o sinal do santíssimo e confirmando em seus olhos nosso pacto de silêncio e cumplicidade. Assim que a porta fechou-se e, finalmente, o quarto esvaziou-se, caí sobre a cama e chorei a noite toda. Sequer tive forças para fazer minhas orações. Por causa dos soluços, cheguei a engasgar com as palavras. Senti a presença dos meus amigos espirituais. Mas, naquele momento, tudo o que eu queria era sentir o calor e o abraço de minha amiga Maria. Senti tantas saudades... Meu coração doía tanto que, se a dor fosse real, eu mesma a teria arrancado do peito com as minhas próprias 194
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus mãos. Nas horas de muita dor, temos que ter cautela para não blasfemarmos contra Deus. Pois a fragilidade faz-nos pecar contra tudo o que é sagrado. Naquele momento, agarrei-me à fé e ao sagrado, cuja imagem sempre ficava na beira da minha cama... Tentei desvencilhar minhas lembranças daquele dia, mas todas as minhas tentativas foram em vão. Rolei boa parte da noite de um lado para o outro. O silêncio era torturante. Sempre odiei a solidão. Por fim, acabei adormecendo com o som mudo do mundo. “Nunca desista de seus objetivos, nem mesmo quando alguém tentar frustrá-los. Saiba que somos testados vinte e quatro horas. Isso é só para que os anjos tenham a certeza de que nunca iremos desanimar no meio do caminho. Os verdadeiros obstáculos são aqueles que deixamos para trás. E a verdadeira vitória é aquela em que aprendemos a reconhecer de imediato. Siga o seu caminho em paz e deixe para trás os que tentarem derrubá-lo. Perdoe e deseje que vivam. A vida é uma vingança - e a morte, um descanso. Pense nisso”. (Padre Ângelo Wallejo Moralles). 195
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Capitulo V – A despedida A dormeci profundamente no início, mas a madrugada invadiu-me com sonhos turbulentos. Imagens desconexas iam e vinham, perturbando-me a mente e a alma. Horas eu acordava como se meu corpo estivesse tendo uma convulsão; horas visões assustadoras, com rostos destorcidos e fantasmagóricos, assombravam-me. Era como se meu espírito já soubesse o que estava para acontecer comigo. Meus instintos de bruxa estavam agitados como átomos em movimento. Quando o dia amanheceu, apenas abri os olhos lentamente, porque já estava acordada há muito tempo. O sol entrou no quarto, trazendo sua poesia matinal e, como havia me deitado com as janelas abertas, da cama pude olhá-lo despontando no horizonte. Dei uma espreguiçada e tentei levantar-me, mas minha cabeça doeu e tudo rodopiou à minha volta. Então, deixei meu corpo cair pesado sobre a cama novamente. A noite anterior havia sido uma das piores da minha vida. A despedida de Maria e as acusações levianas que foram levantadas em falso contra mim fizeram-me sentir como se o peso do mudo estivesse sobre minhas costas. Lembranças tristes e saudosas misturavam-se na minha mente. Queria deixar as lágrimas caírem para aliviar aquela tensão toda, mas não conseguia. Eram muitos os fatores que me deixavam tensa. Inclusive a atitude de meu pai preocupava-me: embora ele não tivesse deixado ninguém me fazer mal, havia alguma coisa de errado no ar, pois aquela súbita espontaneidade dele em me defender demonstrava que algo não se encaixava com a real situação. Aquela atitude estava cheirando a trama e oportunismo. A opressão que passei foi muita para uma noite. Precisei livrar-me daqueles pensamentos para tentar, ao menos, fingir que existia algo de bom no coração de meu pai em relação a mim. Comecei a pensar no quanto ele estava sendo enganado pela esposa e que, embora ele tivesse tido comigo uma atitude egoísta, preocupava-se com a família. Tentei realmente achar uma resposta para os absurdos por que eu estava passando. Por fim, desviei o pensamento de que meu pai era um vilão. Tentei vê-lo como uma vítima daquela sociedade inescrupulosa. A minha maior preocupação seria com os demais, que tentariam a todo custo fazer-me confessar uma coisa totalmente inversa do que realmente era a tradição da serpente ou tradição da Lua, como também era conhecida. Meus sonhos de liberdade e igualdade tornaram-se pesadelos - se é que algum dia pude realmente ter o direito de sonhar... Incrível como vivi em poucos dias tudo o que uma pessoa levaria no decorrer de sua existência para viver. Devido ao cansaço e à fadiga da noite anterior, acabei esquecendo-me de tirar as roupas. Deitei- me em uma posição muito desfavorável, com um infernal espartilho que me estrangulou a cintura a noite inteira - o que me causou uma terrível dor na cabeça e no corpo. Minha vontade era de ter uma varinha mágica igual a dos contos de fadas e, com ela, abrir um vácuo no tempo – sumindo, assim, de todo aquele problema. Mas, infelizmente, ser uma bruxa também exigia responsabilidades que não podiam ser ignoradas. Infelizmente, ser uma bruxa era muito mais do que um conto de fadas ou uma brincadeira folclórica. As fantasias que se criam sobre nós, bruxas, quem dera fossem verdade! Naquele momento, eu estava passando pela fase dos efeitos e causas. Tudo porque interferi no meu próprio destino. Havia criticado a minha ancestral Shaara - quando ela tentou mudar o seu futuro, invadindo o espaço e o tempo -, mas também mudei o meu, quando não aceitei as imposições do meu pai. Quis ser livre nas minhas opiniões e vontades - o que, para a época em que vivia, não era uma coisa normal. Deveria ter deixado que as coisas fluíssem normalmente e seguissem o seu rumo certo. Quando comecei a ver meu futuro, deveria imediatamente ter esvaziado minha mente, como me ensinou Dona Helena: toda ação leva a uma reação. Novamente, deparei-me com meus ensinamentos e percebi que havia ido longe demais, passando por cima de todas as leis da tradição. 196
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus A minha vontade de estar ao lado do homem dos meus sonhos foi tamanha que me levou a estar onde me encontro agora, nesta cela fria, com condições subumanas. Fui uma inconsequente e sonhadora. Por mais que sempre tenha lutado pela liberdade, deixei-me levar pela ilusão e pelos sentimentos carnais. Definitivamente, o coração é enganoso. O que mais me entristece é pensar que fiz tudo porque acreditei que poderia ser salva pelo meu príncipe encantado. Talvez essa seja a maior falha humana: acreditar na palavra do próximo. Se eu tivesse me contentado em saber apenas o meu passado, confiado que em um futuro vindouro encontrar-me-ia com o monge, talvez tivesse aprendido a confiar na fé, não sendo tão intolerante, precipitando os efeitos e causas. Deveria ter vivido aquela vida de imposições, onde talvez tivesse sido feliz. Poderia ter me casado com o conde. Certamente, quando ele se cansasse de mim, trancar-me-ia no convento, onde eu cumpriria meu destino ao lado do monge. Mas não: quis ir muito mais além e, com isso, interferi no meu destino, antecipando o que poderia ter acontecido anos mais tarde. As dúvidas e o se sempre encontram um lugar em nossas mentes depois que algo desagradável nos acontece - ou depois de tomarmos decisões erradas, das quais acabamos por nos arrepender. Naquele momento, precisava arranjar forças dentro de mim, em um lugar completamente desconhecido, antes que novamente as fraquezas da minha mente tomassem conta do meu ser. Voltemos novamente à minha história, em que meu destino estava prestes a ser selado. Olhei rapidamente pela janela, que havia deixado aberta inconsequentemente. Seria difícil encarar aquela luz. Estava me sentindo como um ébrio depois de uma noite de bebedeiras, estirada sobre a cama, com os braços abertos e pensando coisas que nem eu mesma conseguia distinguir. Era tudo ou nada. Tinha que ser de repente, em um supetão. Dei um pulo da cama, caindo sentada em seguida - quase desmaiei por causa da terrível dor de cabeça. Foi quando notei que havia um enorme alarido do lado de fora do meu quarto. Fiquei com os olhos arregalados com todo aquele alvoroço. Escutei alguém discutindo em um tom de voz muito exasperado. Era a voz do meu pai, que estava tentando entrar. Parecia que os guardas não o deixavam. Então, escutei um barulho estrondoso. Só me dei conta do que era quando a porta do meu quarto abriu-se e o meu pai caiu quarto adentro. Fiquei atônita por ter visto aquela cena tão inusitada. _ Pai! É o senhor? Fiquei tão feliz por vê-lo. Estava tão sozinha que, mesmo que ele me esbofeteasse, ficaria feliz apenas por ter tido o contato daquelas mãos. Meu corpo tremia tanto que dava a impressão que eu estava com febre alta. Meu pai levantou-se, ainda cambaleando por causa da forma com a qual havia entrado. Correu para minha direção e abraçamo-nos com sofreguidão. Aquele momento foi único para mim, porque foi a primeira e última vez que meu pai abraçou-me depois de adulta. Olhei-o nos olhos, parecendo não acreditar: _ Pai, não sabe o quanto eu estava precisando do senhor. Estou me sentindo tão sozinha... Estou com medo; minha alma está fria como meu corpo agora. - disse isso porque senti um frio que me gelava por dentro. Ele continuou olhando para mim e disse-me: _ Estou aqui porque confio em Deus e sei que contará a mim toda a verdade, minha filha. Quero que confesse que foi o demônio quem a induziu a ter aquela atitude insana. Quero, também, que diga que foram Maria e Joseph quem estavam evocando o demônio, que lhe deram uma poção mágica para que você adormecesse. E que foi assim que eles a levaram para o meio daquele bosque maldito. Diga isso e poderá ter o perdão da Santa Madre Igreja. Todos entenderão, pois verão que você é uma jovem frágil e ingênua e que estava sob o poder e as forças da magia negra. Aqueles velhos malditos arrependeram-se, fugiram no meio da noite, sem darem satisfações. Dizendo o que lhe sugiro, eles levarão a culpa toda, enquanto você se casará com o conde e irá para bem longe desta cidade. Pense, minha filha. Eu mesmo ouvi falar de vários casos em que o demônio toma a forma de pessoas e até consegue conviver no meio de uma família, sem que alguém sequer venha notá-lo. Por certo, aceitarão essa história de que Maria evocava o demônio, e de que Joseph era um bruxo poderoso e 197
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus fazia uso do maldito conhecimento com as ervas para lhe pôr em transe. Vamos resolver isso. Confie em mim e faça o que lhe estou aconselhando. Tudo dará certo, minha filha. Você vai se casar com o conde. Com essa feliz e satisfatória decisão, resolveremos todos os problemas - inclusive os financeiros. Em breve estaremos todos novamente frequentando a alta roda da sociedade europeia. E quanto às vias de fato, não se preocupe, pois todos logo esquecerão. Essa história acabará como mais um mexerico infundável. Por certo, Maria e Joseph serão capturados e, mais cedo ou mais tarde, serão mortos, levando consigo esse segredo. Eu mesmo darei um jeito de impedi-los de dizer alguma coisa. Esses traidores malditos pagarão por fugirem de mim assim, como dois ratos, na calada da noite. Verão o quanto custa terem brincado com alguém da nossa estirpe. Aquela velha sempre foi uma insolente. Nunca gostei dela. Aquele velhote não passava de um inútil. Só o tolerava aqui por pena. Acharam que eu fosse mesmo acreditar naquela maldita carta que me escreveram? Ambos vão me pagar por terem caluniado a minha família. Basta, minha filha, que aceite e faça o que estou lhe sugerindo. Mal pude acreditar nas palavras que saíam da boca do meu pai naquele momento. Como ele conseguia superar as minhas expectativas em relação a ele ser um cafajeste e mau caráter? Depois de ter ficado boquiaberta com tamanha decisão vinda da parte dele, respondi: _ Hã!? O senhor deixa-me sem chão, meu pai. Quer dizer que não veio aqui para me ver? Para saber como estou? Meu Deus! Definitivamente, o senhor conseguiu se superar. Juro que achei que estava realmente preocupado comigo. Achei que poderíamos ter uma chance de resgatar o nosso passado, meu pai, o nosso tempo perdido. Não estou acreditando no que estou ouvindo. Como pude ser tão ingênua em relação ao senhor e a todos? O senhor só está preocupado com as suas dívidas e com o que as pessoas poderão falar, caso saibam que estamos na falência. Nada do que estou sentindo importa realmente para o senhor. Acha mesmo que fui capaz de fazer as coisas horríveis das quais essas pessoas estão levianamente me acusando? Pai, nunca fiz pacto com o diabo ou com qualquer outro ser do inferno. Desde quando o senhor passou a acreditar nessas sandices folclóricas? Não me lembro de tê-lo visto dando importância a mexericos. O senhor conhece-me desde criança, pai. Sabe muito bem que nunca me envolvi em sacrifícios de espécie alguma. Sabe muito bem que não sou adepta a comer carne de espécie alguma. E como o senhor pode ser tão cruel com Maria e Joseph, caluniando-os e acusando-os de coisas tão bárbaras? Pai, Maria ajudou o senhor a cuidar de mim. Ela sempre lhe foi fiel! E Joseph!? O pobre homem dedicou os melhores dias de sua vida cuidando do nosso jardim, entre outras coisas que o senhor lhe pedia e que ele nunca negou fazer. Acho mesmo que nunca teve uma companheira. Viveu nesta casa por amor ao senhor e por mamãe. Meus Deus, pai, foram as ervas de Joseph e Maria que curaram a moléstia da sua esposa e tantas outras moléstias que surgiram nesta casa! A ambição está lhe cegando a visão da verdade. Sinto muito, pai, mas nunca poderei inventar tais coisas contra Maria e Joseph. Não posso mentir quanto a isso. Nunca os prejudicarei. Prefiro a morte a ter que inventar tais atrocidades contra duas pessoas inocentes, se tudo o que eles fizeram nesta vida foi cuidar de mim. Portanto, não me peça para mentir, meu pai. _ Então, você é inocente? Graças a Deus! Sabia que todas as sandices que essas pessoas estão dizendo sobre ser uma bruxa, entre outras coisas, não passavam de calúnias. Conversarei com o conde. Sei que ele irá relevar tudo isso. Afinal, um homem tão bom, fino e... _ E rico? Não é mesmo, pai? O senhor não vai falar coisa alguma com aquele déspota usurpador. Será que o senhor não percebe que o conde nunca teve a intenção de se casar comigo? Toda essa história leviana de que os colonos, a justiça local, o inquisidor, e o senhor participaram só serviu de desculpas para que ele colocasse em ação o que, na verdade, já estava planejando. Não percebe que a senhora sua esposa está de comum acordo com o conde? Eles fugirão assim que toda essa história se apaziguar! Na verdade, pai, sou apenas uma atração, um esteio para que todos - inclusive o senhor - se escondam atrás de mim. Assim, enquanto todos estiverem voltados para mim, não prestarão atenção nos reais fatos que estão acontecendo. Esqueça o conde, pai. Se vendermos 198
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus alguns bens, junto com os dotes que já possuo, por certo o senhor poderá quitar suas dívidas com ele. A condessa também tem muitas joias que poderão ser leiloadas. Poderemos nos apertar por uns tempos. Mas, com o esforço e a colaboração de todos, sairemos desta situação. Pai, raciocine, suplico! Não há nenhuma vergonha em ser pobre, ou em estar falido financeiramente. Vergonha é não ter dignidade e coragem de levantar a cabeça e seguir em frente. Juntos, pai, como uma família que nunca fomos, venceremos tudo. O senhor vai ver! Quanto a ser ou não verdade o que dizem a meu respeito, fica a cargo da sua consciência. A única coisa que lhe peço é que me aceite como sou. Ponha a mão na consciência e não acuse Maria e Joseph levianamente. Pense, meu pai, em tudo o que acabo de lhe dizer. Seja sensato, pelo amor de Deus. Ele ficou parado na minha frente, parecendo estar raciocinando. Por fim, resolveu responder: _ Acha mesmo que vou expor minha esposa e o meu bom nome ao descaso da humilhação, sendo que tenho a solução aqui na minha frente? _ E qual seria essa tal solução? Vender-me como escrava branca ou acusar de bruxaria e de crimes levianos dois inocentes somente para que a senhora sua esposa se safe dos crimes de luxúria dela? Quer que eu me case com aquele imundo para que, com isso, o senhor quite as suas dívidas de jogo. É isso que o senhor espera de mim, não é, meu pai? Se isso acontecesse - o que não vai -, jamais seria feliz. Nunca mais falaria com o senhor. Nunca o perdoaria. Antes de ser sua filha, antes de ser uma mulher que o senhor se sente no direito de leiloar, sou um ser humano. Sangro, choro, sinto dor e tenho sentimentos. Eu penso, pai - não sou irracional. Não pode se passar por leigo quanto a isso. _ Do que você está falando? Está louca! Padre Ignácio está certo: devemos mandá-la para um convento para se curar das alucinações e devaneios em sua mente, causados pelo demônio que já está se apoderando de você. Deve ser um demônio muito poderoso, pois está influenciando a sua maneira de entender a realidade da vida. Onde já se viu dizer que mulher pensa? Desde quando mulher tem algum direito? Onde foi que ouviu tais insanidades? Nasceram ignorantes e submissas porque Deus assim quis. Não adianta tentar querer ser diferente, pois a única coisa para a qual vocês servem é procriar. Não pode mudar os fatos ou as leis dos homens e sobre elas tentar travar uma guerra solitária. Não pode mudar o rumo dos fatos - sempre foi assim e sempre haverá de ser. Você deverá obedecer ao que lhe for imposto pelos homens ou pelo chefe da casa – que, afinal, sou eu. Imagina só, uma mulher pensando! Ele deu um sorriso sarcástico e malicioso e prosseguiu: _ Quem está dormindo é você, Anna. Por certo, o demônio lhe está embutindo tais pensamentos na cabeça. Mas assim que for exorcizada, vai recuperar sua sanidade mental. Vou usar minha influência e meu conhecimento para que vá para um convento onde terá tratamento adequado. Por certo, se não for demônios, deve ser loucura. De lá, poderá ser transferida para um manicômio, caso seja necessário. Mas lembre-se, minha filha: basta que diga que entende o que lhe digo, é certo que envio imediatamente alguém para lhe tirar de lá. Mas é importante que não se demore nessa decisão, pois já está ficando velha e logo já não arrumará um partido tão lucrativo como o conde. Era inacreditável ter que ouvir aquelas abominações saindo da boca do meu pai. Mas eu precisava responder antes que ele me fizesse calar para sempre. _ É! O senhor tem mesmo razão. Não sei o que falo. Por certo, estou possuída pelo demônio mesmo! Se for assim, que o senhor e essa gente vejam-me como uma louca endemoniada, que assim seja. Mas é muito triste saber que o senhor considera-nos, as mulheres, como um animal irracional. Isso também quer dizer que, quando o senhor se deita com sua esposa, está se deitando com uma das éguas do seu estábulo? Meu Deus! Estou perplexa com tanta atrocidade que sai de sua boca, meu pai. O senhor prefere deixar-me ser trancada como uma louca endemoniada em um convento do que ouvir a verdade, do que fazer a coisa da maneira correta. Se isso é o que o senhor acha certo, então, cale-me. Faça como todos: sufoque a voz da verdade. Mate-me, se assim o quiserem. Mas a verdade aparecerá mais cedo ou mais tarde. E o senhor? Ficará sozinho com sua consciência e embriaguez. 199
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Disse aquilo porque sentia o forte hálito de bebida que saía de sua boca. Depois de fitá-lo desafiadoramente, prossegui: _ Vou lhe contar uma coisa sobre sua esposa, pois acho que o senhor ainda não sabe o que anda acontecendo debaixo do seu próprio teto. Caso o senhor não tenha percebido, a senhora sua esposa é uma desfrutável e anda o traindo. Não estou dizendo isso para magoá-lo ou para vingar-me. Mas acredito que o senhor está sendo ingênuo em relação a essa mulher. Ele olhou-me fulminantemente e, por fim, respondeu ironicamente: _ Todos temos que fazer certos sacrifícios para manter a família, minha doce e querida filha! Aprenda que nada nesta vida sai de graça. _ O senhor sabia? Como pude ser tão tola a esse ponto!? Eu o achava vítima. No entanto, o senhor sempre foi conivente com todas as traições da condessa? Senti a cabeça dar uma girada, como se o mundo todo estivesse caindo sobre mim. Era inacreditável que um homem admitisse aquele comportamento leviano de sua esposa somente para manter as aparências e o status. Depois de me ver ficar sem atitude, ele continuou: _ Há coisas que uma esposa tem que fazer para manter seu casamento feliz. Existem certos sacrifícios que são necessários para o entendimento de um casal. Em um casamento, tanto o marido quanto a esposa têm que ser compreensivos e, muitas vezes, coniventes com certas coisas. Ora, Anna! De onde você achava que vinham as roupas caras que você usava? E toda a comida que comemos? Achava mesmo que eu, à beira de uma falência, poderia suprir o luxo de uma mulher tão cheia de mimos como minha esposa? Se pensa desta forma, vejo que realmente é uma tola e ingênua. Tinha muitas esperanças em você. Cria que, quando crescesse, dar-me-ia certo lucro. No entanto, está se comportando como a garotinha mimada e estúpida que sempre foi. Está sendo ingrata com a condessa. Você deveria ao menos aprender a se calar e a respeitar quem a alimentou por tantos anos. O obséquio que sua mãe lhe deixou só poderá ser usado quando seja maior de idade ou quando sele uma união matrimonial. Portanto, acho que já está mais que na hora de você ser mais compreensiva e retribuir todo o sacrifício que fizemos por você. Afinal, se minha atual esposa faz por mim tais sacrifícios, porque você, como minha filha, também não pode simplesmente cumprir um simples pedido meu? Afinal de contas, o conde é um homem ainda jovem e cheio de vigor. E muito rico, sim: poderá lhe dar tudo o que desejar. Não terá nunca que passar dificuldades. _ O senhor enoja-me. Está tentando me prostituir como faz com sua esposa. Saiba que nunca vou ceder às suas vontades. Prefiro apodrecer no calabouço de um convento como louca endemoniada a fazer parte deste mundo miserável em que o senhor insiste em sobreviver. Se já que não se importa com a reputação de sua esposa, dê ela mesma de presente ao senhor conde e poupe aos dois o trabalho de fugirem. Mas saibam que pretendo gritar aos quatro ventos o que estão tentando fazer comigo. Meu pai olhou-me nos olhos como se sentisse repulsa por mim. Esbofeteou-me nas faces, fazendo-me cair deitada sobre a cama. Levantei-me, colocando as mãos no rosto, mas nada disse. Novamente, apenas o fitei, tentando reconhecer quem era o homem à minha frente. Depois que ele me olhou com desprezo, prosseguiu: _ Então, a partir de hoje, renego-a como minha filha e excomungo-a como ser humano. Não moverei uma palha para amenizar sua pena. Por mim, apodrecerá em uma cela escura e úmida para aprender a respeitar e obedecer às pessoas que só quiseram o seu bem. E quanto a dizer sobre o que acabamos de falar, não acreditariam em uma louca tendo crises de possessão. Eu mesmo farei questão de me certificar de que sua pena será a mais dura possível. Ele gritou para que os guardas viessem me buscar. Naquele exato momento, lembrei-me do pai de minha ancestral Shaara, também ancestral do meu pai e que morreu pensando que ela o tivesse traído. Definitivamente, meu pai trouxe consigo essa revolta do passado. Ele me odiava incondicionalmente por causa das lembranças da outra vida. Ele, então, gritou, chamando os guardas e ordenando: 200
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Guardas! Tirem essa mulher da minha frente! Levem-na para a carruagem. Já está na hora de cumprir minha obrigação como cidadão espanhol. Havia o fato de que ele também estava alcoolizado, mas o ódio mortal por mim só era justificado por causa das lembranças inconscientes que ele trazia, achando que Shaara o teria traído e abandonado ao descaso do destino. O fato de que eu não me tornaria submissa aos seus caprichos era somente a centelha para que aquela raiva toda aflorasse. No fundo, ele estava usando a promessa que o conde havia feito de esquecer todas as suas dívidas quando firmasse compromisso comigo. Meu pai estava, inconscientemente, tentando achar um motivo para que eu fosse trancada em um calabouço e esquecida por ele, como ele achou que foi no passado. Por certo, todos viveriam bem. Meu pai continuaria a se fingir de cego, deixando que o conde saboreasse os carinhos de sua jovem e desfrutável esposa para, com isso, poder viver de aparências. Mas, quanto a mim, acabei tornando-me um estorvo, um contratempo para minha família, já que não tinha mais a menor serventia. Ter sido esbofeteada doeu muito, mas o que mais me doeu foi o fato de estarem me negociando como uma mercadoria. Aprendi a duras penas que vivemos em um mundo teatral, onde somos obrigados a fazer parte de uma bela e feliz historinha escrita pelas mãos dos ditadores, dos opressores e dos fanáticos religiosos. O problema era a realidade por trás dos bastidores – essa, sim, era muito triste. Pois, quando caíam as cortinas da aparência, a feia face da mentira e da falsidade vinha à tona, dando lugar a uma dura realidade de miséria e fome, onde os podres não podiam se misturar com a burguesia decadente, escondida por trás dos bastidores. Eu não era daquele mundo, nem sabia como proceder no meio de tanta injustiça e desigualdade. Deus não poderia estar deixando que aquilo acontecesse em vão. Tinha que ter algum propósito para tanto sofrimento! Corrigi imediatamente meus pensamentos para não blasfemar contra o Pai. Deus não tem culpa sobre os erros da humanidade. Tudo o que fazemos, mesmo sobre um ato impensado, é culpa única e exclusiva de nós mesmos. Temos o livre arbítrio de fazer e falar o que bem quisermos. Por isso, temos que ter muito cuidado nas horas de dor ou de desespero, para que não venhamos a fraquejar e blasfemar contra quem nos deu o direto a escolha. Muitas pessoas se questionam por que razão Deus, sendo tão zeloso e de absoluto amor, deixou que o seu único filho Jesus Cristo morresse de uma maneira tão brutal. Algumas ainda têm a ousadia de dizer que o Pai virou-se de costas na hora da morte de seu único filho, para não o ver sofrer. Isso não é verdade. Um Pai zeloso e amoroso nunca viraria as costas ao seu filho amado. Jesus teve o livre arbítrio e escolheu a sua sentença. Com certeza, na hora de sua morte, o Pai estava segurando suas mãos para que o seu filho, assim, não sofresse mais do que ele havia escolhido. E não nos castigou mais porque o próprio Jesus o implorou Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem... Para mim, Jesus sempre vai ser um mestre em sabedoria, benevolência e perfeição. Quanto ao Pai maior, este é indiscutível em suas inúmeras qualidades, pois são supremas e absolutas. Quando o oficial chegou, trouxe mais dois guardas com ele. Baixei minha cabeça e deixei que me levassem amarrada pelos pulsos, como um animal selvagem. A cada volta que o oficial deu com a corda apertando meus pulsos, senti minha liberdade indo embora. Nada mais tinha a dizer; meu silêncio o faria por si. Por mais que qualquer pessoa passe por um momento de irracionalidade e insanidade, ela sempre tem um momento chamado de consciência. Ninguém nesta vida se livra da consciência. Ela é como um grito que nunca se cala dentro da gente. Mesmo que mantenhamos uma aparência de tranquilidade, mesmo que não tenhamos a coragem de admitir o quanto somos falhos e que cometemos injustiças, esse grito vem, mais cedo ou mais tarde, para nos mostrar o quanto somos falhos. Fechei bem os olhos e apertei as mãos sobre o rosto. Queria esconder-me de toda aquela vergonha. Acabei desabando em prantos. Meus soluços tornaram-se compulsivos. Por mais que não queiramos fraquejar, a dor da decepção torna-se um ponto de partida para a vulnerabilidade. Afinal, somos seres humanos e, como tais, temos sentimentos. Não tive coragem de olhar para o meu pai 201
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus nem que eu quisesse. Levantei a cabeça e engoli as lágrimas. Não daria o gosto da derrota nem a ele nem àquelas pessoas. Quanto mais fracos aparecemos perante os inimigos, mais eles se sentem no direito de nos pisarem. Temos que ter na mente as seguintes palavras: não damos asas a cobras e nem cutelo ao carrasco, porque inimigo se vence com determinação, coragem e oração. O silêncio é a maior arma que o ser humano tem nas mãos. A confiança em Deus e na espiritualidade amiga é a única certeza de que venceremos todas as barreiras. A fé é uma noite negra: não sabemos se seremos salvos, mas temos a confiança de que seremos. É como se atirar de um despenhadeiro para se livrar de um dragão. Não saberemos se a voz que nos impulsiona é ou a não a de Deus, mas temos que arriscar. A vida é um risco constante. Quem não arrisca, nunca vai ter a certeza se poderia ter dado certo ou não. São as incertezas que nos fazem pensar. São os erros e os tropeços que nos fazem crescer. Não existe este ou aquele que nunca deixou de aprender algo. Existem, sim, pessoas que preferem dizer que não se lembram de nada que lhes aconteceu. Essas pessoas só fazem isso quando se trata de algo que elas fizeram a alguém – porque, quando se trata de algo que foi feito a elas, lembram-se por toda a eternidade. Nossos erros nunca são visíveis ou lembrados. Nunca seremos capazes de admitir que fazemos coisas que prejudicam o nosso semelhante. Mas, se em algum momento alguém nos faz qualquer coisa que não nos deixa satisfeitos, corremos em apontar o erro dessa pessoa. Assim, ninguém vê o nosso. É fácil viver assim, não é? Desmemoriado, sem lembranças, vagando sobre o lago do esquecimento. Ouvir o que alguém tem a nos falar é essencial - mas aprender com os nossos próprios erros é indispensável. Isso não significa que nunca mais vamos errar. Porque erramos todos os dias, todas as horas e não pararemos nunca. Isso porque somos burros demais? Não. Porque somos fracos e não controlamos nossos impulsos. Quando começamos as descer as escadarias, mantive-me em silêncio. Ao terminar, pude ver que os demais presentes iam abrindo alas para que os guardas passassem comigo. Aquelas pessoas que se encontravam nos degraus olhavam-me como se sentissem por mim uma grande repulsa. Não vi a condessa - o que foi uma surpresa. Ela não estar presente para se vangloriar da minha derrota significava que ela estava aprontando alguma coisa. Esse pensamento gelou-me a espinha. Tereza, ao ver-me, caiu em prantos. Tentei passar as mãos em seu rosto quando passamos por ela - que estava em um dos degraus-, mas o guarda puxou minhas mãos. Um dos guardas quase me derrubou, empurrando-me pelas costas no final da escada. Só não caí porque o outro, que segurava as cordas, puxou-me para junto dele. Um guarda ainda muito jovem que estava na porta, esperando para abri-la, zombou de mim quando me viu escorregar: _ Voe, bruxa maldita! Parei no hall de saída e dei uma última olhada para me despedir do lugar onde passei toda a minha vida. Foi a última vez que vi minha casa. O guarda novamente empurrou-me porta afora, tentando mostrar-me que não podia parar. Cambaleei, mas não caí. Do lado de fora, fui observando o jardim e as lembranças do passado me vieram à mente: coisas muito pessoais, como o cheiro das rosas que Joseph sempre me dava pela manhã; e quando Maria me trazia sumo de frutas frescas embaixo do pé de cedro. Esbocei um discreto sorriso. Olhei para tudo e disse Adeus!, antes que o guarda me jogasse carruagem adentro. Amarraram minhas mãos na portinhola, na parte de cima, fazendo com que meus braços ficassem pendurados. Vai ver acharam que eu iria fugir. E se o fizesse, para onde iria? E para que tanta violência? Será que os supostos demônios em meu corpo poderiam me possuir e me fazer sair mordendo a todos? Certas medidas de segurança eram desumanas e desnecessárias. Mas eram usadas para que a população ficasse acuada e respeitasse as autoridades locais. Comecei a bater o queixo. Sentia frio, pois saíra sem ter a menor chance de levar um xale. Embora o sol já tivesse despontado no horizonte, a neblina ainda era muito densa e, por certo, choveria naquele dia, pois o céu estava cinza. 202
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Olhei mais uma vez para a casa que um dia foi o meu habitat. Vi à janela a condessa, que observava tudo por trás das cortinas da sala. Pela distância em que se encontrava, não dava para saber o que ela estava pensando. No mínimo, seus pensamentos eram de vitória. Às vezes, julgamos e interpretamos mal as pessoas. A condessa não era minha amiga, mas mesmo assim a entendia. Ela era mais uma vítima de meu pai e daquela sociedade machista. Entendia-a e não esperava ser entendida por isso. Sabia que ela vingava em mim todas as suas frustrações. No fundo, era muito difícil para ela ter que ser submetida a tais coisas - logo ela, que sempre tivera de tudo. Casou-se porque já estava com 28 anos e o pai não poderia ficar com uma filha solteirona em casa. No fundo, o pai da condessa quis livrar-se dela como o meu. Embora a entendesse, não significava que eram justificáveis seus atos de maldade comigo. Mas é a vida! Tornamo-nos vítimas das frustrações das pessoas com quem convivemos. Mesmo sabendo que meu destino não seria dos melhores, compadeci-me por vê-la ali, atrás das cortinas, pois acabaria por se afundar nas bebidas e também passaria a gritar com as paredes, pois não teria nem a mim nem a Maria para lhe servir de esteio. Quando o conde se cansasse do seu brinquedinho, descartá-la-ia, deixando-a ao relento. Definitivamente, deve ter sido muito difícil para a condessa ter deixado seus sonhos, sua vida e, provavelmente, um amor. E agora lá estava ela, vivendo ao lado de um homem muito mais velho, que bebia dia e noite e era um compulsivo por jogos. Por não cumprir mais os deveres como marido, fazia vistas grossas e deixava-a ter seus amantes para, com isso, lucrar também. Era bizarro e inacreditável saber que os homens usavam seu poder sobre as mulheres para fazê- las suas meretrizes particulares. Logicamente, isso acontecia debaixo dos seus próprios lençóis. Mesmo sabendo que o adultério era considerado um crime hediondo para a Santa Madre Igreja, os nobres não só o praticavam às escondidas, mas também prostituíam suas esposas, fazendo-as cometer o mesmo crime. Pois, para a sociedade, o importante era manter as aparências. Também tinha o fato de que, enquanto estivesse dando lucros favoráveis à Igreja, o povo não faria mal algum. Mas tinham que se manter rigorosamente em dia com seus dízimos, entre outras coisas. Qualquer deslize seria imperdoável e prejudicial à saúde deles. Logicamente, todos sabiam das depravações dos nobres. Mas era mais sensato que permanecessem calados. Assim, a alta sociedade permanecia intacta. Aqueles hipócritas depravados comiam e bebiam às custas da desgraça alheia - da escória, como chamavam os menos favorecidos. Repudiavam a pobreza como se eles fossem vermes. Mas era o lodo de suas atitudes que destruía a raça humana. Vivi em uma época onde a degradação não era só dos corpos maus cheirosos. Vivi em uma época onde a insociabilidade e a hipocrisia tomavam conta da humanidade como uma doença contagiosa. As pessoas não se misturavam umas com as outras. Os pobres tinham um espaço na exclusão. Tinham que viver escondidos. Pessoas com deficiências eram excomungadas ou tinham que pedir esmolas nas ruas. Os negros, estes então... Sofreram com o preconceito dos que se diziam ter poder sobre as pessoas. Gostaria de ter podido fazer alguma coisa, mas só fui descobrir meu real caminho quando já estava na hora de me encontrar com meu destino. As crianças eram obrigadas a fazer duros trabalhos, enquanto as filhas das senhoras feudais sequer podiam vestir-se sozinhas. Se um menos favorecido ou uma mulher, como no meu caso, os desafiassem, por certo poderia considerar-se morto. Mesmo que confessassem e se arrependessem, como lhes era imposto muitas vezes, por certo faltar-lhes-iam alguns pedaços do corpo. Aí, sim, estariam fritos em óleo fervente, pois como sobreviveríamos em uma sociedade totalmente preconceituosa? Ninguém lhes daria trabalho nem esmolas, e ninguém se casaria com uma ex-bruxa. Principalmente porque nunca existirá ex-bruxa. Uma vez conhecedora da magia, não adianta tentar se converter. As pessoas que eram consideradas bruxas, mesmo que fossem perdoadas pela Santa Madre Igreja, jamais obteriam o perdão. Mesmo demonstrando arrependimento, elas acabariam mendigando, pois o povo nunca mais as olharia com os mesmos olhos. Uma vez pagão, sempre 203
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus pagão. Se eu tivesse aceitado o que o meu pai havia me sugerido, teria que viver sob vigilância constante e só sairia de casa acompanhada por um guarda e uma aia de confiança do conde. Meu pai também poderia ser chamado a qualquer deslize meu e poderia castigar-me, se assim achasse necessário. Uma pessoa que estava em uma situação como a minha, quando morria, era jogada em valas ou enterrada em locais exclusivos para hereges, excomungados e pagãos. Não obtinha da Santa Madre Igreja autorização e o direito de ser enterrada em um cemitério público ou em um local sagrado. Na maneira de ver desses hipócritas, Deus também não perdoava os pecadores e os hereges. Eram pessoas que pregavam a palavra do Criador sem ter o menor amor no coração. Mas, se Deus não perdoava ninguém, então por que ele mesmo disse Sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, nunca morrerá? A única coisa que Jesus realmente fez foi pregar o amor e o perdão. Ele também nos ensinou que só o Pai poderia julgar-nos e mais ninguém. Isso me pesou na alma naquele momento. Se Jesus Cristo foi só perdão e bondade, como poderia o ser humano, cheio de corrupção, com coração carregado de maldade, sentir-se no direito de injuriar e julgar o seu próximo? Por que ser diferente era um crime, um pecado? Por que tinha que haver somente uma religião que pregasse sobre o Cristo verdadeiramente? Por que tudo era heresia? Por que as missas tinham que ser celebradas em latim, se a maioria da população mal sabia assinar o próprio nome? Aos pobres, quando lhes era permitido assistir uma missa, tinham que ficar do lado de fora da igreja. Os negros nem da porta podiam passar. Se a casa era de Deus, por que tanta desigualdade, preconceito e soberba? Será que o mundo mudaria algum dia? Será que as pessoas em outra época, em outra encarnação, seriam mais evoluídas? Será que os apóstolos também tiveram dúvidas? Pois elas me pesavam o ser. Que triste ter que fazer parte de uma humanidade tão desigual! - pensei, por fim. Então, deixei-me levar pela paisagem... A caminho da cidade, fui observando tudo ao meu redor nos mínimos detalhes, numa espécie de despedida fúnebre. Adorava a cidade de Salamanca, com suas enormes montanhas e árvores. Esta cidade mágica enfeitiçava os olhos de quem quer que por ela passasse. Salamanca é uma província raiana da histórica Região de Leão, na Espanha, e situa-se a nordeste de Portugal. Também é influenciada pela bacia do rio Douro. Sua denominação, em idioma local antigo, era doiri. Essa região chegou a sofrer influências romanas, árabes e diversas outras mais sutilmente. É uma terra de clima ameno e topografia variada. A cidade é situada em local mais plano, mas com montanhas ao norte e ao sul. Dona da penúltima catedral gótica construída na Espanha, como seus maiores tesouros encontramos: a Universidade de Salamanca, a segunda universidade mais antiga da Europa, fundada no ano 1218 por Alfonso IX de Leão; as Catedrais Nova e Velha; Plaza Mayor; Ponte Romana, e outros, sem fim. Seu título deve-se ao fato de o arenito, utilizado em suas antigas construções, apresentar coloração levemente dourada clara. De acordo com a luz, pode-se verificar que o título faz juz à sua beleza. Em suas terras, são produzidos vinho e azeite, e há alguma criação de ovinos e caprinos. Não possui temperaturas extremas de calor e frio, e recebe pouca afluência de chuvas. Já em suas montanhas, pode-se verificar mais abundância pluvial. O mais rico de Salamanca talvez seja sua história secular, onde se verifica acontecidos inusitados. Cristóvão Colombo mesmo chegou a passar pela cidade. Nela tivemos a Inquisição e a migração de judeus, portugueses, árabes e tantos outros mais que compunham seu quadro histórico. Também devido à sua localização geográfica, sofreu influência de correntes celtas em dados momentos e ocasiões. Talvez daí venha sua significação. Salamanca, com certeza, seria no futuro um local onde as minhas irmãs poderiam se encontrar. Sonhos, belezas e histórias. Tudo isso passava na minha frente. Eram pequenos momentos dos quais eu sentiria saudade. Residia dentro daquela cidade uma força maravilhosa e que o tempo nunca poderia apagar. Nenhuma maldade poderá acabar com a magia de Salamanca. Isso eu sabia porque estava em meu coração. Minha alma estaria ali para sempre. Poderiam me tirar tudo, menos os sonhos e as lembranças dessa formosa província. Eu era realmente apaixonada por Salamanca, pelo meu país, minha Espanha... Viajei mentalmente, percorrendo toda aquela terra maravilhosa com 204
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus meus pensamentos e lembranças. Só fui interrompida quando chegamos à cidade e pude ouvir o alarido das pessoas que estavam nas ruas, naquela manhã de fim de outono. Pareciam estar sabendo que eu ia ser levada a julgamento, pois seus olhos curiosos e amedrontados não desgrudavam da carruagem que estava em disparada. As pessoas fizeram uma espécie de procissão nas laterais das ruas, de um lado a outro. Multidões aglomeravam-se nas calçadas. Ouvi gritos e xingamentos, mas não sabia decifrar nenhuma daquelas palavras que, por certo, não eram de misericórdia ou de afeto. Impressionante como más notícias chegam rápido! Voam nas asas do vento. Minhas mãos e meus braços já estavam começando a doer e a ficarem dormentes. Percebi, também, que meus punhos estavam arroxeados. O pior é que nem poderia mexê-los muito, pois a corda estava muito arrochada e poderia cortá-los, com certeza. Minha boca estava seca e sentia medo e fome. Que combinação sem requinte! Meu pai não estava dentro da carruagem comigo. Acompanhou-nos a cavalo. O guarda que me escoltava não me pareceu muito amistoso. Olhava-me com certo pavor, escondido atrás do semblante fechado. Resolvi permanecer calada, pois o medo nas pessoas é geralmente muito perigoso. Elas acabam usando a violência como uma forma de defesa. Então, por sensatez, evitei até respirar muito alto. O cocheiro corria tanto que parecia que iria tirar o pai da forca. Meu estômago começou a embrulhar de tanto que sacudia a carruagem. Elevei meu espírito ao céu em orações. Em um instante, estava longe de tudo aquilo. Fechei os olhos bem apertados, para olhar para dentro da minha alma, tentando achar algum lugar tranquilo. Quando nos concentramos muito, chegamos a lugares imaginários. Mas, naquele momento, só queria me concentrar naquela magnífica paisagem de Salamanca à minha frente. Viajei mentalmente por todo aquele cenário. Senti meu corpo leve. Era como se o meu perispírito estivesse se desprendendo naquele exato momento. Era uma forma de socorro mental. Eu estava tentando encontrar a paz e segurança dentro de mim mesma. Realmente, precisava desligar-me daqueles acontecimentos - ou acabaria ficando louca. Cheguei até a esboçar um sorriso causado pelo nervosismo em que me encontrava, mas o guarda cutucou-me com a ponta do fuzil, fazendo-me sair do meu estado de transe. No mínimo, deve ter pensado que eu estaria maquinando algo – ou, quem sabe, naquela mente poluída, ele imaginou que eu já estivesse incorporada por algum súcubo. Súcubo é um demônio com aparência feminina, que invade o sonho dos homens. Fazendo isso, eles podem corromper totalmente a pessoa. Súcubos são demônios que se alimentam da força sexual das pessoas. Quando estes demônios invadem o sonho de uma pessoa, eles tomam a aparência do desejo sexual delas e os atacados têm a melhor experiência sexual de suas vidas nesses sonhos. A energia que vem do prazer do atacado é sugada pelos súcubos. A palavra succubus vem do verbo em latim que quer dizer deitar-se sob. Íncubos são demônios masculinos que afetam as mulheres. Ambos sempre agem à noite, enquanto suas vítimas dormem. Para o meu entender, nada mais era do que uma pessoa com seus desejos sexuais reprimidos. E isso acabava aflorando durante o sonho, quando o corpo está livre de represálias. Mas, por ter a mente ignorante e ingênua, esses pobres tolos saíam a confessar tais sonhos aos padres, que, por sua vez, condenava-os, dando-lhes várias penitências e castigos abomináveis. E se o sonho prosseguisse - o que quase nunca acontecia, porque, logicamente, quem seria louco de ser torturado tantas vezes? - o padre ou responsável diria que o infeliz estarva dominado por demônios da luxúria. Nem quis pensar no que aquela mente libertina à minha frente poderia estar pensando a meu respeito. No mínimo, achava que eu estava tendo delírios imorais porque esbocei um sorriso. Mediante aquela cutucada, abri meus olhos rapidamente e comecei a olhar pela janela, já que nem com os meus pensamentos eu podia ficar sozinha. Ao passarmos frente à igreja de padre Ignácio, vi um cortejo fúnebre. O senhor Manoel Borges havia falecido. Houve certo comentário que poderia ter sido por causa da peste, mas nada havia sido comprovado. Todos pareciam não querer falar sobre o assunto, sendo que a peste era considerada 205
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus uma doença do diabo. Próximo à praça principal, algumas moçoilas desfilavam em seus belos trajes e, ao ver passando a carruagem em que me encontrava, viraram de costas imediatamente, impulsionadas por suas aias. No mínimo, pensavam que eu jogaria um feitiço sobre elas ou, quem sabe, transformá-las-ia em sapo ou coisa parecida. Além de ter me tornado a única atração do condado, também havia me tornado uma aberração da natureza. Sei que, naquela manhã, não tive a oportunidade sequer de olhar-me ao espelho, mas tinha certeza de que em minha face não haviam nascido verrugas da noite para o dia. E sabia que, em meus cabelos, embora despenteados, não tinham cobras mostrando a língua. Mas, quando eu olhava para os rostos amedrontados daquelas pessoas, era isso que elas passavam para mim. Senti-me um monstro, uma aberração da natureza. Quando chegamos, finalmente, frente ao tribunal local, uma multidão já se reunia, aguardando a chegada da atração principal - no caso, eu. Algumas pessoas estavam carregando foices e paus nas mãos. Outras trouxeram cesta de legumes e ovos podres. Senti um calafrio repentino invadir todo o meu ser ao ver toda aquela gente aglomerada em frente ao tribunal. Por instantes, achei que nem chegaria a julgamento. Os demônios não me fariam mal. Mas, com certeza, poderia esperar tudo daquelas pessoas. Na verdade, sabia que naquelas atitudes ameaçadoras elas estavam demonstrando uma forma de autodefesa. Isso foi o que me assustou: o medo que elas sentiam de mim poderia surtir reações diversas em cada uma delas. As pessoas, quando estão sendo influenciadas ou passando por uma histeria coletiva, podem ser muito perigosas, em todos os sentidos. Fui despertada daquele transe de medo pela voz estridente de um homem. Estiquei o pescoço para ver. Era a voz do chefe da guarda, gritando do lado de fora da porta tribunal. Aquele homem espalhafatoso deixou-me ainda mais aflita com o seu abanar de braços e gritos estridentes. Ele era um homem alto e muito magro. Parecia ter saído de uma catacumba, pois sua cor muito pálida e seus olhos extremamente esbugalhados eram assustadores. E aquele bigodinho, então? Todo engomado sabe-se Deus pelo quê! Arrepiei-me dos pés à cabeça ao ver aquela figura exótica e nada convencional. Sua farda não lhe caía bem, pois ficava curta nas bainhas e justa demais nas pernas e braços. Eu até poderia ir para a fogueira, mas não consegui deixar de observar o desleixo de quem estava tentando achar algum defeito em mim. O homem, definitivamente, parecia-se com um boneco fantoche, personagem de alguma cena de um teatro de horror. Engoli o riso mais uma vez e continuei a detalhar aquele pobre infeliz que havia caído nas minhas graças. Se eu estivesse no escuro e sem ninguém por perto e aquela figura tivesse aparecido de repente, no meio do nada, juro que cairia dura e tísica ao chão. Santo Deus, tenha pena de minha alma, pensei comigo! Estava sendo soberba e insana. A cada instante, ficava mais desesperada. Isso fazia com que a minha mente começasse a ter devaneios de tolices. No fundo, não queria acordar para a realidade dos fatos - o que explicava certos pensamentos ilógicos para o momento em questão. Embora eu tivesse tentando manter meus nervos sob controle para não cair em prantos e demonstrar fraqueza, estar amarrada como um animal e vigiada por aquele soldado na minha frente estava me deixando psicologicamente desorientada. Às vezes, quando estamos muito assustados, não conseguimos sequer ouvir o som que sai da boca das pessoas. Só vemos que elas mexem os lábios. Era o que estava acontecendo comigo. Eu estava quase em choque e, por isso, minha mente tentava ser irracional. Era como se ela estivesse me protegendo de um colapso repentino. Depois de respirar profundamente, esvaziando a minha mente, voltei à realidade de novo. Lá estava o homem comprido a falar e gesticular. Foquei-me em seus lábios para sair daquela surdez mental e poder ouvir o que o chefe da milícia estava dizendo. Por fim, depois de muito esforço, consegui sair do devaneio e ouvi o que estava sendo dito: _ Vamos, minha gente! Deem passagem para um oficial em serviço. O show ainda não começou. Vão se afastando da carruagem e dando-me licença, para que faça meu trabalho como se deve. 206
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Aqueles braços compridos iam abanando e afastando a multidão que, aos poucos, foi abrindo passagem. Uma menina fez-me uma careta e a mãe logo tratou de tapar os olhos da pobre. Ela só estava brincando, mas a mãe deve ter achado que eu a transformaria em uma boneca. _ A que horas vão queimar a bruxa? - perguntou uma velha senhora. O chefe da guarda, porém, respondeu-lhe, parecendo não estar interessado em dar muitas respostas: _ Vamos deixar que os responsáveis respondam a todas essas perguntas na hora certa, minha senhora. Primeiro, ela deverá ser interrogada. Depois disso é que saberemos quais as medidas serão tomadas. Por fim, depois de muito esforço para abrir caminho por entre a multidão, o capitão da milícia conseguiu aproximar-se da carruagem. Abriu a portinhola, olhou-me seriamente, sem nenhuma palavra a dizer, e foi desamarrando meus pulsos. Meus braços pareciam estar mortos, devido ao tempo que ficaram suspensos. O chefe da milícia tirou-me da carruagem aos safanões. Ele não estava com medo de mim, mas tinha que mostrar ao povo que tinha autoridade. Fui, em seguida, amarrada novamente. Só que, dessa vez, com os braços para trás. Comecei, a partir daquele momento, a sentir que minha liberdade tinha sido tirada de mim para sempre. As pessoas que estavam do lado de fora do tribunal sussurraram coisas absurdas. Outras, ainda, gritaram como se vissem em mim algum tipo de forma deforme. O pânico de algumas delas causou uma histeria coletiva. Os poucos guardas que existam ali mal conseguiam controlar a multidão que havia se formado na porta do tribunal. Subi a escada empurrada e quase recebi o golpe de uma pedra que um fazendeiro lançou em mim. Já dentro do tribunal, fui obrigada a ficar sentada por horas em um corredor escuro, pois o magistrado e o inquisidor ainda não haviam chegado. Fiquei observando o corredor. Metade das paredes era de madeira e a outra metade era decorada por enormes quadros. Um imenso lustre estava pendurado sobre a minha cabeça. Seis bancos compridos seguiam em fileiras corredor adentro, um ao lado do outro. A porta de entrada era imensa e pesada, e a porta a sala de audiência era dupla e muito alta. Era um lugar muito frio. Não tinha nenhuma planta ou decoração que harmonizasse o ambiente. Tinha certo clima de tristeza no ar. Era como se as almas do purgatório gritassem por clemência o tempo todo ali dentro. Eu estava parecendo um porco espinho, de tão arrepiada que fiquei ao perceber que aquele lugar era um grande portal para os espíritos sem luz e em aflição. Dentro da sala de audiência, reuniam-se algumas pessoas ilustres e importantes, como: o conde Alfred; o chefe da milícia, senhor Antônio Santos; os dois maiores representantes paroquiais, padre Ignácio Manuel, padre Alencar Sorancco; madame Hortência Rivald; a condessa Marli Von Del Prat; meu pai, Juan Vladimir Porto Señra; senhor Álvaro Lancastro; lady Dornellas Carrucci; um representante legal de sua majestade o rei, o Lord Marllon D’ Runchieir; o Lord. Octávio Güllians III; o sobrinho de sua majestade a rainha, o duque Philip Gonzáles; e, por último, o senhor Emanuel Tostes, que representaria o povo legalmente e por todos faria as perguntas, se necessário. Esse tipo de coisa praticamente não acontecia, pois o representante do povo apenas servia para levar as notícias do que se passava dentro da sala de audiência, já que o povo, em certos momentos, não podia estar presente. Por volta de onze e meia, chegaram o magistrado Narcíseo de Freitas e o inquisidor Nicolau Neufrien. E, para o espanto de todos, vieram acompanhados do bispo, Dom Helvécio Hernandez, e do Prior Eurico Pastorino de La Constance. O alarido foi tamanho quando o homem desceu da carruagem que, de dentro do corredor do tribunal, pude ouvir. E até mesmo eu, que já não esperava mais nenhuma surpresa, fiquei completamente extasiada ao ver tal figura ilustre. Ao passar por mim, olhou-me de soslaio, demonstrando desprezo absoluto. Seu olhar era severo e gelava até os que já estavam mortos. Ele era um homem alto e forte. Sua presença era de imponência. Dom Helvécio Hernandez era muito comentado por seus feitos e proezas pela forma como julgava os condenados de feitiçaria. Diziam que as suas torturas eram implacáveis e que não havia quem não confessasse todos 207
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus os pecados a ele. Ele vestia uma túnica negra comprida. Em sua cabeça, havia uma mitra preta e vermelha. Ele aparentava ter uns setenta anos de idade. Pela forma sisuda do rosto, por certo nunca em sua vida soubera o que era um sorriso. Eu sabia que seria severo e impiedoso comigo. O homem não era um emissário da Igreja, mas sim um emissor de Lúcifer. Quando ele estava passando perto de mim, ventou forte e o cheiro que pairou no ar foi de enxofre. Mas o mais estranho era que todas as portas estavam fechadas. Havia algo de malévolo nele. Pude jurar que uma sombra entrou ao seu lado na sala de audiência. Definitivamente, aquele homem não era um ser humano. Até aquele momento, não pude ter certeza se a sombra era uma ilusão da minha mente cansada e nervosa, ou se realmente a sombra entrara na sala com Dom Helvécio. Olhei para todos os lados, mas nada vi. Até que, de repente, lá estava ela, flutuando como um lençol negro sobre a porta da sala de audiência. Era uma criatura irreal, com rosto deforme, olhos vermelhos e um sorriso apavorante na boca. Quase não dava para se ver nitidamente, mas os olhos foram o que mais me assustou, pois demonstravam que era um demônio devorador de almas. Ficou pairando alguns minutos, parecendo estar procurando uma vítima para se apossar da sua alma. Tive que me manter bem discreta para que ele não percebesse que eu podia vê-lo. Pois, quando um demônio como aquele percebe que podemos vê-lo, por certo se torna muito mais perigoso. Depois de alguns minutos, pensei que ele tivesse ido embora. Mas, logo em seguida, ele estava sobre a minha cabeça e sua forma incorpórea já havia mudado de novo. Desta vez, ele parecia ter criado asas de morcego. A figura deforme olhou-me com ar zombeteiro e maligno. Eu, por minha vez, baixei os olhos, tentando não demonstrar nenhuma reação. Se a morte tinha uma forma, ali estava ela, na minha frente, olhando para mim. Confesso que fique fiquei apavorada. Percebi que, além de apavorante, era um zombeteiro, pois podia mudar de forma. E ele, ao perceber que eu podia vê-lo, agarrou-se nas paredes com suas unhas compridas e começou a correr pelo teto. Depois, voltou para a porta da sala de audiência e sorriu-me, mostrando sua língua de cobra. Certos espíritos acompanham as pessoas quando elas têm um coração muito perverso. Tais espíritos são vulgarmente chamados de demônios, atraídos por nossas energias - sendo elas negativas ou positivas. Ou seja, se vibrarmos boas energias, vamos atrair bons espíritos. Mas, naquele caso específico, o espírito já havia tomado conta daquele corpo. Ambos eram praticamente um só ser. Dom Helvécio estava carregando sobre o corpo todo o peso das injustiças que cometera contra suas vítimas. Aquele demônio era o seu julgador e, quando ele viesse a morrer, com certeza ele seria o seu algoz e o faria ver as atrocidades cometidas em vida. Por certo, Dom Helvécio havia julgado muitas pessoas levianamente. O que eu achava mais interessante era saber que esses homens de Deus faziam parte de um clero e se diziam ter o poder de julgar e exorcizar as pessoas supostamente endemoniadas, mas não conseguiam ver o demônio que estava possuindo o seu próprio corpo. Certos espíritos atormentam seus obsediados da pior forma possível. As formas mais comuns de obsessão são: a obsessão simples, a fascinação, a auto-obsessão, o obsessor por amor e o suicida. O ser humano é objeto e alvo do processo de obsessão constantemente. O obsediado trata-se de alguém cujo débito é muito elevado diante da lei divina. No plano de evolução espiritual em que se encontra, nosso planeta é um local de expiação, no qual se concentra um grande número de espíritos vibrando nas mais baixas frequências possíveis. Esses espíritos vivem presos a situações emocionais de ódio, raiva, egoísmo, amor não- correspondido, entre outras emoções. Estão de tal forma presos ao plano físico que muitos acreditam ainda estar em seus corpos carnais. Assim, vivem próximos das pessoas com as quais um dia conviveram, afastando-se dos planos espirituais mais elevados e atrasando sua reencarnação. Entre esses espíritos, ainda existem aqueles que têm a consciência de que estão mortos e de que já não habitam mais um corpo físico. Mas, como ainda estão presos às vibrações muito baixas do mundo espiritual, realizam ações que visam a prejudicar os vivos e atrapalhar ao máximo a vida e a evolução espiritual de suas vítimas encarnadas. Esses espíritos são os que chamamos de obsessores. Sua sensibilidade à Luz Divina foi embrutecida pelo tempo e por sua natureza moral. Eles ficam 208
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus estagnados num círculo vicioso e numa obstinação tão intensa que não é raro se esquecerem de quando e do porque de tudo ter começado. Na maioria das vezes, estão tão cansados e vivem há tanto tempo nessa condição que não sabem mais como caminhar em direção ao esclarecimento e à Luz de Deus - necessitando, assim, de toda ajuda que lhes possa ser fornecida. É fácil para nós imaginarmos o surgimento de tais obsessões pelo caminho do ódio. Afinal, sabemos do que os homens são capazes quando tomados pela raiva descontrolada. Mas também surgem obsessões, até mais graves, em virtude do amor. O amor gera correntes que, unidas a outros sentimentos como egoísmo, apego, carência afetiva intensa, falta de auto-estima, podem produzir obsessões. A revolta, a dor e a raiva podem mudar a energia do amor. Basta que exista um grande apego alimentado por um forte egoísmo, gerado num coração que viva uma grande carência, e teremos um espírito que sentirá uma grande dificuldade de se separar dos entes queridos. Como o amor e o ódio estão separados por uma barreira quase imperceptível, em algumas oportunidades imaginamos que um espírito está com ódio - quando, na verdade, ele pode estar escondendo a dor de um amor não correspondido. Ou até mesmo pode ser uma entidade que ainda quer manter o apego que tinha em vida, agindo de forma a manter a outra pessoa presa ao círculo de sentimentos que demonstrava quando o espírito estava encarnado. De todas as formas de obsessão, a gerada pelo amor é a pior de todas, pois aquele que ama sequer pode imaginar ou aceitar que, na verdade, está atrapalhando seus entes queridos. Ele acredita estar ajudando-os, supondo que não poderiam viver sem sua presença e auxílio. A relação entre o obsessor e suas vítimas é variada e segue por caminhos tortuosos, mas que inevitavelmente levam à degradação física e moral do obsedado - o que, por fim, pode levar à vitória do espírito obsessor. As obsessões são as ações que influenciam os vivos, estimulando reações e semeando a discórdia e o ódio, nascido da força exercida pelos espíritos inferiores. Eles influenciam maleficamente, como os demônios das histórias bíblicas. Assim como ocorre nessas histórias, as formas de o obsessor atuar também são sutis e intangíveis. Só após muito tempo é que se tornam evidentes. Nunca devemos tentar fazer um exorcismo ou desobsediar sozinhos, porque não sabemos o grau da obsessão no qual se encontra o indivíduo. Sem contar que o espírito pode também interferir na vida de quem tentar atrapalhá-lo. Ele pode até mesmo se irar contra a terceira pessoa. Nunca tente fazer um acordo com um espírito. Isso nunca funciona e o obsessor pode passar a obsediar a quem lhe faz o acordo também. É muito fácil saber quando uma pessoa está sofrendo de obsessão, pois se tornam visíveis as alterações de comportamento físico, mental e emocional. Tais como: olhar fixo, esgazeado ou fugidio, sem encarar ninguém; tiques e cacoetes nervosos; desalinho ou desleixo na aparência pessoal; excentricidade comportamental; agitação; inquietude; intranquilidade; medo e desconfiança injustificáveis; apatia; sonolência; mente dispersa; ideias fixas; excessos no falar; no rir; mutismo ou tristeza; agressividade gratuita, difícil de conter; ataques que levam ao desmaio; rigidez; inconsciência; contorções; pranto incontrolável e sem motivo; orgulho; vaidade; ambição ou sexualidade exacerbados e exagerados. Quando a pessoa volta ao normal, após uma crise, geralmente queixa-se do domínio sofrido e lamenta atos infelizes que praticou. Na fascinação, os demais notam a fantasia, o fanatismo, a fixidez, o absurdo das ideias. Só a pessoa obsediada não nota. Fiquei ali por horas, tentando achar uma qualificação para aquele espírito cuja forma mal se podia ver. Aquele inquisidor não sabia, mas, se houvesse um julgamento divino, ele seria o primeiro a morrer queimado. Pois aquele obsessor era o seu algoz espiritual e seria o primeiro a condená-lo. Todos estavam dentro daquele tribunal havia horas. Até os espíritos malignos ocupavam seus lugares de destaque. Enquanto eu, reles bruxa, permanecia sentada em um banco duro, isolada de todos, no escuro, amarrada com as mãos para trás e sendo atormentada pelo obsessor de um monsenhor, que se sentia no direito de me julgar e condenar. O que eu havia me tornado para aquelas pessoas, um animal? O que de tão grave eu havia cometido? Será que ter uma ideia própria e 209
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus formada fazia de mim ou de alguém uma pessoa endemoniada? Comecei sem querer a deixar que a revolta tomasse conta de mim. Afinal, quem sabe com tantos demônios sobre o meu corpo eu poderia sair e engolir alguém? Com tantas criancinhas deliciosas à solta, imagina o que eu não poderia fazer! Isso, por certo, eu não faria - é lógico. E eles nem desconfiavam que o demônio-mor tivesse acabado de entrar e estava lá dentro, no meio deles. Sacudi a cabeça com indignação. Ingênuos, pensei em voz alta. Pedi ao guarda que estava parado à minha frente, em posição de estátua, que me desse um copo d’água, mas ele permaneceu em posição ereta. Exclamei várias vezes, implorando-o, mas o homem nada fez. Acho que ele era mesmo uma estátua. Mas juro: não fui eu quem o transformou. Era como se eu fosse translúcida para aquele soldado. Não fazia a menor diferença se eu morresse ou não. Meus braços começaram a doer novamente. Toda aquela situação estava me deixando completamente louca. Estava tendo alucinações e devaneios. Já não conseguia distinguir o certo do errado, a verdade da mentira. Houve hora em que eu acreditava que eram verdadeiras aquelas acusações contra mim. A falta de comunicação e o silêncio absoluto, causado pelo desprezo daquele guarda à minha frente, já estavam realmente começando a afetar os meus nervos. Estava cansada e precisava dormir um pouco para descansar a mente. Fiquei me lembrando de como era bom poder cochilar dentro de uma tina com água quente. Fui criada por Maria e, devido aos seus costumes e à tradição, ela me ensinou a tomar banho todos os dias. Muitas vezes fazia isso às escondidas de todos, em meus aposentos, pois não era o costume europeu. Na verdade, as pessoas não eram apenas imundas de pensamentos, mas também seus corpos tinham um cheiro fétido. A senhorita D’Lú contou-me, certa vez, sobre os estranhos costumes da corte europeia, onde a maioria das pessoas casava-se no mês de junho, início do verão, porque, como tomavam o primeiro banho do ano em maio, o cheiro delas ainda estava mais ou menos tolerável. Entretanto, como já começavam a exalar certos odores, as noivas passaram a ter o costume de carregar buquês de flores junto ao corpo, para disfarçar, assim, o mau cheiro. Os banhos eram tomados numa única tina, enorme, cheia de água quente. O chefe da família, o rei ou monarca, tinha o privilégio do primeiro banho na água limpa. Depois, sem trocar a água - reparem que lindo!-, vinham os outros homens da casa, por ordem de idade, as mulheres, também por idade e, por fim, as crianças. Os bebês eram os últimos a tomar banho. Portanto, quando chegava a vez deles, a água da tina já estava tão suja que era possível perder um bebê lá dentro. Ainda bem que meu pai havia sido doutrinado por minha mãe e mantinha quatro tinas em nossa casa. Meu pai nunca fora um homem de tomar muitos banhos, mas também não se preocupava se tomássemos com frequência. Em compensação, sua adorada esposa só tomava banho quando precisava ir a uma festividade. Confesso que seu odor era fétido e, misturado às caras fragrâncias francesas, dava-me náuseas. E isso piorava no verão. Comecei a achar graça daqueles pensamentos tolos e sem lógica. Estava à beira de uma condenação e ainda conseguia ver graça naquelas pessoas. Estava ficando tonta; precisava comer alguma coisa. A falta de alimento, principalmente pela manhã, causava-me tonturas e certos devaneios. Não podia pedir socorro naquele local, pois poderiam achar que o demônio já estava se manifestando. Tive de me manter calma, fria e controlar os devaneios causados pela falta de algo doce, principalmente. Por isso, Maria sempre se preocupava em me fazer comer pela manhã e forçava-me a comer algo nos intervalos das refeições. As vertigens começavam a me causar devaneios. Estava sentindo a visão turva. Comecei a cochilar, quando uma voz suave me chamou: _ Anna, precisa manter-se lúcida. Não poderemos ajudá-la se não estiver consciente. Anna, acorde! Só poderemos ajudá-la com a sua mente em total estado de lucidez. Abri os olhos lentamente e vi um homem belíssimo, vestindo uma túnica muito branca de um fino linho. Seus cabelos eram cacheados e loiros e caíam sobre os ombros largos. Seus olhos eram de um azul inigualável. Tinha as faces rosadas e os lábios grossos. A pele mais parecia uma fina porcelana. Sua luz deixou-me quase cega. Quando eu já estava totalmente despertada, ele abriu-me um largo sorriso e falou-me: 210
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sabe por que estou aqui, não? _ Sim, Heixe. Faço uma ideia. Ele abaixou e segurou o meu rosto com a mão, que mais parecia um pedaço de seda. Era a primeira vez que me tocava. Foi bom sentir um pouco de carinho, pois estava totalmente indefesa e carente. Depois de afagar meu rosto e meus cabelos, o espírito falou: _ Vim auxiliá-la, mas preciso que tente reagir. Sei o quanto é difícil para você estar passando por tudo isso. Mas esse foi o caminho que escolheu. Não fraqueje agora. Ainda tem muito chão pela frente. _ Eu sei, mas meu corpo dói tanto! Estou fraca e com fome. Talvez tivesse sido melhor se eu tivesse escolhido o destino que queriam impor a mim. Talvez seja melhor eu negar tudo e dizer que estava sob influência maligna. Estou cansada... Não quero mais lutar, por Deus. Faça-os parar, por favor! _ Anna, sabe muito bem que não posso voltar o tempo. Mesmo que negue quem é, não mudará o seu jeito de ser. Liberte-se de todos esses pensamentos e alimente-se com orações. Seu espírito está fraco e, por isso, seu aparelho apresenta fraqueza. Só o amor do Pai Maior pode sustentá-la nesta hora de dor. Anna, minha doce Anna... Como pode esquecer tudo o que aprendeu? Naquele momento, uma estranha força penetrou meu corpo e entrei em total sintonia com Heixe. Juntos, fizemos uma oração mental. Meu espírito foi levitando, até que saí do meu aparelho e me vi fora do chão. Uma imensa luz cercou todo o corredor escuro e frio. Uma paz tomou conta de mim. Meu corpo já não sentia dor ou frio, muito menos fome. Suas mãos alimentaram-me e curaram-me. Havia uma harmonia no ar e uma doce melodia que imitava os sons das harpas dos anjos. Naquele estado, pude ver meu aparelho em repouso. Parecia ter envelhecido uns três anos naquelas últimas horas. Olhei, também, para o guarda que vigiava o meu aparelho. Pude perceber uma áurea de tristeza em torno dele - o que justificava aquela forma inerte e sem reação aparente. Olhei para Heixe. Ele parecia ter percebido o que eu estava vendo. Então, emanou vibrações de entusiasmo para aquele homem, que estava também precisando de misericórdia. Depois, Heixe pegou-me pela mão e guiou-me por entre as paredes, seguindo até a sala de audiência. Por instantes, cheguei a pensar que havia morrido, mas Heixe explicou-me que eu estava viva e presa pelo cordão de luz que me segurava ao meu aparelho. Dentro da sala de audiência, havia um comitê formado por muitos lordes, pelo bispo, o prior, entre outros que estavam discutindo o meu caso. O murmúrio no local era muito grande, o que me deixou tão confusa, quase não conseguindo entender o que realmente estavam falando. Passei por todas aquelas pessoas, mas não puderam me ver. Olhei para o bispo e lá estava a sombra negra, pairando sobre ele. Na verdade, a maioria das pessoas que estavam naquele recinto tinha um obsessor como companheiro. Sabia que aqueles espíritos já haviam sido seres humanos um dia. Mas, agora, pareciam estar em decomposição, chorosos, agonizantes... Pareciam terem se levantado das catacumbas. A maioria era obsessora. Outros, parentes que só queriam orações. E outros imploravam para que os ouvissem. Aquilo, sim, era o purgatório. Por isso, todos eram tão desnorteados daquele jeito. Com tantas pessoas falando em suas cabeças ao mesmo tempo, como poderiam ter ideias próprias? Meu corpo levitava sobre aquelas pessoas e seus espíritos atordoados. Estava confusa. Na verdade, ainda não havia me dado conta de minha atual condição. Esse é um estado em que o espírito não deve permanecer por muito tempo fora de seu aparelho. Isso é muito perigoso e inconsequente, mas confiei em meu mentor espiritual, pois ele sabia de minhas limitações. Pude ouvir o que o inquisidor estava falando e, com isso, sabia com exatidão qual resposta teria que dar. Na verdade, eles estavam mais assustados do que eu, como se isso fosse possível. Eu teria que ter muito tato ao lidar com aquelas pessoas, pois, por serem completamente leigas no assunto da espiritualidade, poderiam colocar todos os meus planos a perder. Escolhi aquela sentença e, daquele 211
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus momento em diante, teria que ter liderança sobre minhas palavras, pois qualquer deslize poderia condenar-me à fogueira. Precisava encontrar o meu monge. Sabia que ele estava me esperando. Mesmo que todo o sofrimento que eu tenha passado tenha sido pesado demais, nunca me arrependi do que fiz, pois cada momento que vivi ao lado do meu amor valeu a pena. Mesmo que ele tenha me traído... Aquela necessidade dar-me-ia forças de prosseguir com a minha decisão. Podia senti-lo. Sabia da sua infelicidade. Sabia como ele estava sozinho e sem vontade de viver. Meu sofrimento estava ligado à solidão na qual ele se encontrava. Éramos um só ser. Estava muito perto para desistir agora. Dei prosseguimento ao aprendizado de Heixe e deixei que ele me mostrasse o que me esperava. A senhora gorducha que estava em minha casa, essa sim, era um grande problema: a cada discussão, ela colocava mais lenha na fogueira. Ela só estava ali por ser filha de um falecido e rico proprietário de muitas terras. Por ser uma dizimista aplicada e mão aberta, tinha o direito de permanecer entre os poderosos, enquanto isso lhes fosse conveniente. Nunca havia se casado ou namorado em toda a vida. Só se dedicou à Igreja e aos preceitos religiosos. Sua língua felina era bastante útil nestes casos de acusações. Principalmente porque ela julgava saber da vida de todos do condado. Na verdade, ela queria algo para comentar durante sua quinta geração. Em um povoado tão pequeno como aquele, não se tinha muitas coisas para se contar. Heixe segurou minha mão e continuamos a ver o quanto as pessoas cochichavam entre si. Os olhos da condessa pareciam mortos, visando o nada. Era como se ela estivesse em êxtase. Por trás de tanta soberania e arrogância, pude perceber a mulher infeliz e sem vida que ela era. Seu espírito tinha uma cor cinza e parecia muito solitário. O conde não se desgrudava de meu pai. Ambos pareciam estar tramando o tempo todo. Algo estranho naquela amizade começava a me intrigar. Não era só um simples interesse em me casar com aquele homem. Existia uma espécie de trama política e financeira. Meu pai fingia não saber que a esposa era cortejada por outros homens e pelo conde - isso era conveniente demais. Comecei a ver as coisas como realmente eram. Aproximamo-nos deles, tentando ouvir o que diziam, mas o alarido de vozes não nos deixou entender. Por fim, Heixe achou que já era hora de retornar para o meu aparelho. E foi bem a tempo, pois o magistrado havia pedido para que me buscassem para o interrogatório. Como em um flash, meu espírito passou rapidamente por todas aquelas pessoas, atravessando as paredes e jogando-se em meu aparelho inconsciente. Senti como se um raio atravessasse meu corpo. Acordei de supetão, já com dois guardas ao meu lado, sacudindo-me e entreolhando-se, parecendo achar que eu estava possuída. _ Levante-se! - disse um guarda ainda muito jovem, chutando as minhas canelas. Levantei-me com a ajuda do outro, que segurou meu cotovelo, dando-me certo apoio. Segui-os corredor afora. Entramos por uma enorme porta, quase negra, talhada à mão. Ao abrirem a porta pesada, fez-se total silêncio no recinto. Todos se viraram para trás, levantando-se. O júri já estava formado e o magistrado estava usando uma enorme peruca cacheada. Tanto garbo e, por certo, era careca. A peruca estava lotada de piolhos. Não conseguia parar de achar defeitos nos santos que me acusavam de megera. Deu-me vontade de rir, porque não conseguia ver como pessoas tão imorais e cheias de defeito conseguiam achar em alguém como eu um defeito. E o que é pior: inventavam mentiras atrás de mentiras para satisfazerem os egos cheios de blasfêmias. Meus pensamentos eram esdrúxulos e levianos. Mas não poderia falar. Então, pensava. Sacudi a cabeça, prometendo não pensar mais sandices. Embora já estivesse ciente do que me aguardava, senti um frio na espinha! O que mais me doeu foi ver meu pai ali, olhando-me tão friamente, como que desejando a minha morte. Não me importava o que aquelas pessoas pensavam de mim, mas o que realmente me doía era saber que alguém do meu próprio sangue rejeitava-me não por dúvida sobre o meu caráter pessoal, mas por saber que eu era um risco à sua reputação como homem e por eu não ter baixado a cabeça às suas ordens inescrupulosas. O conde olhou-me de cima abaixo, com um desdém e desejo abomináveis. Os demais presentes esquivavam-se, com medo de me tocarem e virarem pedra ou algo assim. Talvez uma pessoa contaminada pela peste não fosse tão repulsiva aos olhos deles como eu 212
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus estava sendo naquele momento. Baixei a cabeça, pois sabia que quanto mais humilde eu fosse, melhor para mim seria. Sentaram-me em uma cadeirinha em frente ao magistrado. O alarido de vozes começou novamente, assim que me sentei. O povo estava muito agitado do lado de fora, mas o magistrado e os demais queriam interrogar-me primeiro. _ Levante-se, por favor! A senhorita tem noção do porquê de estar aqui? – perguntou-me o magistrado. _ Não, excelência! Houve um alarido de exclamação, como se eu estivesse mentindo. Por fim, prossegui: _ Não tenho certeza, excelência. Estou muito confusa quanto às acusações. _ Então, nega ser uma bruxa? _ Não, excelência. Houve um alarido ainda maior. _ Nego apenas ter cometido tais crimes contra a Igreja. Sempre frequentei as missas aos domingos. Nunca faltei com a eucaristia e sempre comunguei. Mas não nego que sou uma bruxa. _ Blasfêmia! - gritou o advogado de defesa da Igreja. _ Protesto! Esta mulher frequentava a igreja quando ainda não estava possuída pelo demônio. _ Protesto aceito. A senhorita deve ser mais explícita quanto às suas palavras. Como pode não negar que é uma bruxa, mas negar estar praticando a bruxaria? _ Só conheci os caminhos da magia há pouco tempo, excelência. Mas confesso que tudo o que aprendi já estava dentro da minha alma. Lembro-me de cada símbolo. Mas nunca cometi nenhuma das atrocidades das quais estão me acusando. _ Acredito neste lado de sua história. Mas o que me intriga é como foi que conheceu o caminho que a levou a praticar coisas contra a Igreja, sendo que não tinha outra companhia além da sua governanta, como mesmo disse - já que, logicamente, é pouco provável que sua madrasta tenha se envolvido com tais coisas ilícitas aos olhos da Igreja e de Deus. Diga-me, senhorita Anna, é esse o seu nome, creio, ou o demônio também usa outro nome quando a possui? Os demais que estavam no recinto riram, formando um coro, enquanto o advogado de acusação olhava-me zombeteiramente por debaixo dos óculos. Ele era um homem gordo e de meia idade, com bochechas de cachorro. Por fim, depois daquela pequena pausa para servir de deboche, respondi de cabeça baixa, tentando demonstrar humildade: _ Sim, este é meu nome, excelência. E não, o demônio jamais esteve em meu corpo. Isso é um equívoco, excelência. _ Então afirma que sua governanta impunha-lhe cometer tais crimes? _ Não, nunca disse isso! Maria era uma santa. Ela sempre me ajudou em tudo e foi a pessoa que me criou. - fiquei nervosa. Estalando os dedos, ele disse: _ Mas tenho aqui relatos de que esta senhora – Maria, como a chamavam - vem de origem cigana, e fazia chá para a senhorita tomar durante a noite. Isso está certo? _ Sim. Eu perdia o sono à noite e Maria dava-me chás, para que eu conseguisse dormir. _ E esses chás ou poções eram feitos do quê? _ Não sei. As receitas são sempre secretas. Maria trazia-as guardadas sob sete chaves. _ Não tenho mais perguntas, excelência. – virou-se para os demais. O magistrado tornou-me a interrogar: _ Então, essa mulher, Maria, entorpecia sua mente com suas poções? Fazendo-a ficar sobre o poder do demônio, em estado de sonambulismo, a senhorita saía durante a noite e atacava os aldeões, não é isso? _ Não, nunca houve tamanha barbárie. Quando eu tomava os chás de Maria, dormia profundamente. 213
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Como a senhorita pode ter certeza, se diz dormir profundamente? Mande entrar o agricultor Antonio de La Paz. Trouxeram um homem magro e muito humilde diante do tribunal. O advogado levantou-se e fez-lhe inúmeras perguntas. Esse homem fazia pequenos serviços para os fazendeiros locais. Não poderia entender o que ele poderia ter com o meu julgamento, pois mal o conhecia e nem nunca na vida trocara uma palavra sequer com ele. _ O senhor é o agricultor Antonio de La Paz? _ Sim, senhor. Sou eu mesmo. _ Conhece essa mulher aí, na sua frente? _ Sim, senhor. Conheço sim. _ De onde o senhor a conhece? Poderia dizer a todos os demais presentes? Devo lembrá-lo de que está sob jura. _ Vi-a pela noite, no meio das plantações, em trajes íntimos. - ele disse isso com a voz trêmula e a cabeça baixa, pelo medo de que alguma coisa que dissesse não fosse o que lhe haviam mandado. _ Não ouvi. Poderia responder um pouco mais alto dessa vez? _ Via-a frequentemente a perambular pelos campos, à noite, quando a Lua estava alta no céu. Ela estava quase desnuda. Eu até sentia vergonha por ela. Tentei várias vezes pedir a ela que fosse para casa, porque não era certo uma senhorita ficar daquele jeito no meio as hortaliças. _ E ela o ouvia? _ Não, senhor. Parecia estar em transe. Depois é que fui saber que era uma bruxa e que estava amaldiçoando as plantações. Todos murmuraram... Ele prosseguiu: _ É verdade, sim. Logo depois, a plantação do senhor Leônidas secou por completo. Pode perguntar vós micês para ele. - ele se agitava e apontava o indicador na direção de todos. _ Então, o senhor quer dizer que esta mulher foi a responsável pela colheita do fazendeiro Leônidas não ter dado certo? _ Sim, senhor. Foi ela sim. _ Por que o senhor nunca contou tal fato às autoridades? _ Porque tive medo de que ela fizesse algo ruim contra minha família, senhor. Tive mesmo vontade de fazer algo mais naquele momento. Tive vontade de estrangular aquele estúpido, por mentir tanto e vender-se por tão pouco. Ele é quem foi negligente em seu trabalho e deixou que a plantação do homem morresse. Aproveitou-se daquela situação para que o fazendeiro não o punisse por sua falta de atenção ao trabalho. O cheiro da bebida em seus lábios era insuportável. Ele era um mau caráter e estava se fazendo de vítima. Meu acusador mandou chamar uma senhora de nome Samanta Castro. As mesmas perguntas de início foram feitas à mulher. Depois, prosseguiu-se: _ É verdade que a senhora estava grávida de uma criança? Uma menina, por assim dizer? _ Sim, é verdade. _ O que houve com a sua criança? _ Morreu. Isso foi logo depois que essa mulher apareceu perto de minha casa, à noite. _ Como assim? Poderia explicar-se melhor? _ Eu já tinha ouvido o boato de que a plantação do fazendeiro Leônidas tinha sido destruída por uma bruxa. Mas sou muito devota do sagrado coração. Então, não dei importância aos boatos. Mas, numa noite linda de Lua, eu estava colhendo minhas roupas no varal e meu bebê, que estava com dois meses, estava em uma cestinha bem perto de mim, para o caso de, se chorasse, eu o ouvisse. _ E o que houve? Conte logo, mulher. - disse o advogado, exasperado. _ Então, acabei de colher toda a roupa e percebi que algo errado tinha acontecido ao meu bebê. _ Explique-se, mulher! Pare de rodeios teatrais e vá direto ao assunto. 214
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Fui até o cestinho e meu bebê já não estava mais lá. Havia desaparecido como que por encanto. Gritei meu marido Jésus e fomos os dois procurá-lo. _ E o encontraram? _ Sim. - a mulher desabou em prantos e não conseguiu mais falar uma só palavra. O magistrado pediu para que chamassem o marido dela. _ Que entre o senhor Jésus, o agricultor, para que dê continuidade aos acontecimentos seguintes. Fez as mesmas perguntas iniciais ao homem, que mais parecia um pobre carvoeiro de tão mal vestido e sujo que estava. _ Essa mulher chamada de Samanta Castro é sua esposa? _ Sim, senhor; é sim. _ O senhor e esta mulher tiveram uma criança? _ Sim, senhor, tivemos sim. - o homem respondia com a cabeça e com a boca. _ E o que houve com a criança, afinal? _ Está morta, senhor. - o homem baixou a cabeça, num gesto de respeito e tristeza. _ E o senhor, Jésus Justos, é assim que lhe chamam, certo? _ Sim, senhor; é sim. _ Então, senhor Jésus Justos, de que morreu a criança? _ Não sei como morreu, senhor... Mas a achamos sem a cabecinha. _ Meu Deus! Que horror! - exclamaram todos os demais. _ E como, senhor Jésus Justos, acha que aconteceu essa barbárie, essa monstruosidade? Apontando para mim, sem pestanejar, ele respondeu: _ Isso não sei dizer, senhor. Mas minha esposa, aquela noite, jura que viu essa mulher que está sentada ali rondando lá pros nossos lados naquele dia. Até fui atrás dela com uma foice, mas não achei a famigerada, não. Acho que usou alguma magia para evaporar-se daquele jeito. _ O senhor tem certeza de ser a senhorita Anna? _ Disso eu tenho sim, senhor. Porque somos pobres, mas nunca haveríamos de falar mentira. Minha mulher nunca me deu motivos para eu desacreditar dela, não, senhor. E se o senhor quiser, pode perguntar por aí que vai ver que sou uma pessoa que honra as calças que veste. Todos caíram na gargalhada da maneira simplória como falava o pobre homem. Ele até poderia ser uma boa pessoa e ter uma honestidade acima do normal. Mas a esposa dele estava mentindo. Ela deixou o bebê ao relento enquanto catava as vestes do varal e, por certo, um animal pegou o bebezinho. Ela ficou tão aterrorizada com o que vira que criou essa fantástica história em sua mente. Também ficou com medo da represália do marido. E é lógico que a bruxa tinha que ser eu, quem mais? Eles supunham que tinha uma bruxa local. Mas, quando se espalharam os boatos a meu respeito, juntaram tudo e fizeram uma história. Eram muito fáceis de manipular. Caso não fossem, jamais estariam testemunhando. O julgamento prosseguiu: _ Por que não denunciaram às autoridades locais? _ Tivemos muito medo por causa que ela é uma bruxa. Ficamos com medo de que minha mulher nunca mais engravidasse, caso ela jogasse uma praga. - Será que algum de vocês, aqui presentes, tem ainda dúvidas de que essa mulher é uma bruxa, que cometia atos satânicos? Não me importa se estava ou não inconsciente. O fato é que essa mulher admitiu e existem vários fatos que comprovam a veracidade das informações. Se não estiverem satisfeitos e quiserem mais testemunhas, peço permissão para que o senhor magistrado aqui presente – logicamente, com a permissão do senhor excelentíssimo Dom Helvécio Hernandes, inquisidor de alto valor e escolhido por nosso querido rei Filipe – mostre, a caráter decisivo, as testemunhas impostas a este júri. O inquisidor olhou para o magistrado, assinalando positivamente com a cabeça, como que dando permissão para que as outras testemunhas de acusação entrassem. O magistrado mandou que uma porta lateral fosse aberta. Entraram umas cem pessoas que já estavam aguardando do lado de fora. 215
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Logicamente, a plebe não poderia faltar, pois quem seria melhor para encenar aquele teatro de horror? Logicamente, os ingênuos, os analfabetos e, enfim, todos aqueles que sempre foram rejeitados, mas que representavam a força final da palavra. Pois essas pessoas julgavam pela aparência e pelos mexericos. Eram pessoas altamente autossugestionadas e de fácil manipulação. Cordeiros medrosos e vulneráveis, pessoas que muito tinham a perder. Como a voz do povo é a voz de Deus, eu seria cozida viva, por assim dizer. Quando toda aquela gente acomodou-se, como previsto, o alarido ficou maior ainda. Então, o magistrado deu um grito, batendo com seu malhete em cima da mesa, pedindo silêncio. A voz do magistrado ressoou pelo recinto como o ronco de um trovão. Todos pareciam estar bastante nervosos e apreensivos. Aquele alarido só fazia deixar todos ainda mais agitados. Sempre existem pessoas capazes de tornarem as coisas ainda muito piores do que elas realmente são. Podia ouvir os rumores horrorosos a meu respeito. Podia ouvir algumas pessoas chamando-me de devoradora de bebês! Havia malícia, maldade e muito interesse político naquilo tudo. Eu era só uma desculpa para encobrir o que realmente estava acontecendo - ou seja, esconder o triângulo amoroso que existia entre meu pai, o conde e a condessa. Também, enquanto todos estivessem prestando atenção em mim, não investigariam o conde como suspeito de um assassinato. O inquisidor, após ler publicamente a carta enviada pelo rei, tomou cuidado para não declarar em sua sentença absolvição alguma, ou que eu - a acusada - pudesse parecer inocente ou isenta. Sua intenção era esclarecer bastante que tudo foi legitimamente provado contra mim. Desta forma, se eu fosse trazida mais tarde novamente diante do tribunal do júri, indiciada por causa de qualquer outro crime, poderia, assim, ser ordenada sem problemas, apesar de a sentença de absolvição já ter-me sido negada. O magistrado, antes de passar a palavra final ao inquisidor, perguntou-me uma última vez - não porque estivesse interessado em saber a real verdade, mas porque na sala havia muitas pessoas influentes e ele não poderia parecer injusto: _ Tem mais alguma coisa a declarar? Saiba que a senhorita está entre amigos e parentes, pessoas que a amam e que realmente se importam com a sua saúde e seu bem estar. Creio que agora é a hora de dizer algo que possa ajudá-la em sua sentença. Saiba que não poderá nunca mais comentar sobre os fatos ocorridos nesta sala. Portanto, esta é a hora. Levantei-me, meio cambaleando por causa das muitas horas que já estava sem me alimentar, olhei ao redor e voltei em direção ao magistrado, fitando-o nos olhos. Ergui minha cabeça e disse: _ Não tenho mais nada a dizer ou declarar. Não tenho nenhum amigo, já que todos vivem o perjúrio de um suposto purgatório. Não confio em ninguém, já que me lançam sobre a desgraça humana. Não tenho nenhum laço familiar ou consaguinidade comprovada com alguém neste tribunal. Sou apenas um corpo no mundo. Que se cumpra o meu destino. Quero ressaltar, apenas, que nunca comi criançinhas, nunca me prostituí, nunca tentei induzir ninguém a nenhuma seita ou religião, quaisquer que fossem. Depois de eu ter falado isso, o magistrado ainda ressaltou: _ Senhorita Anna Goldim Señra, ressalto mais uma vez que essa é a sua última chance de dizer alguma coisa em sua defesa. Caso contrário, será declarada como bruxa e sentenciada a viver nos calabouços de um convento em San Francisco. Portanto, olhei para o conde, que estava de olhos arregalados prestando atenção, e disse: _ Não será necessário que sua excelência declare-me como bruxa, porque eu mesma me declaro. Não tenho vergonha de ser quem sou e de seguir um caminho que eu mesma escolhi. Mas sua excelência deveria prestar mais atenção a certas pessoas neste tribunal. O bispo, porém, tomou a palavra, indagando-me: _ O que a senhorita quer dizer com isso? _ Quero dizer que neste tribunal tem um usurpador e assassino sentado aqui, bem em minha frente. - disse isso apontando para o conde Ele, de um salto, gritou, apontando o diário da minha mãe em suas mãos: 216
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Blasfêmia, excelência! Essa mulher tentou seduzir-me em seu próprio leito. Tenho provas aqui comigo de que ela, além de bruxa, praticava, sim, os rituais da magia. Há também indícios de que ela tinha o seu próprio local escondido dentro da casa de seu pai, onde ela, a governanta e o jardineiro praticavam rituais de magia negra, cozinhando e comendo os filhos dos escravos. O alarido de espanto foi geral. O bispo, porém, interrogou-o: _ E como o senhor ficou sabendo de tais fatos? _ Sei disso porque a senhora condessa aqui presente também a flagrou fazendo seus feitiços em um lugar escondido, atrás da adega de vinhos do senhor Juan. Essa mulher está tentando enfeitiçar todos aqui, transferindo a sua culpa para nós. Mas posso provar o que eu disse. - disse isso entregando o diário de minha mãe ao inquisidor. Depois de folheá-lo rapidamente, o inquisidor entregou-o ao bispo, que, depois de uma breve análise, disse: _ É irrevogável a questão de que esta mulher seja uma bruxa. É também irrelevante que ela acuse qualquer membro que esteja presente dentro deste recinto, sendo que ela está tentando distorcer os fatos para enganar a todos nós. Essa bruxa está tentando usar seus feitiços para nos manipular. Mediante a tais provas postas em minhas mãos, e mediante tão ilustres testemunhas que comprovam sua culpa, declaro-a culpada. Passo o caso ao senhor magistrado. Sabia que não poderia ter dito nada, mas tinha que arriscar e tentar salvar-me. Depois das palavras do bispo, não pude dizer mais nada. Fiquei ouvindo a sentença que o magistrado me impôs. Ele se levantou e começou a sentenciar-me com as seguintes palavras: _ Que a mulher comumente chamada de Anna Goldim Señra seja denunciada e declarada feiticeira, adivinha, pseudoprofeta, invocadora de maus espíritos, conspiradora, supersticiosa, implicada na prática de magia feita a ela, teimosa quanto à fé católica, cismática quanto ao artigo Unam Sanctam e em diversos outros artigos de nossa fé, cética e extraviada, sacrílega, idólatra, apóstata, execrável e maligna, blasfema em relação a Deus e seus santos, escandalosa, sediciosa, mentirosa e caluniosa. Dito isso, o magistrado bateu o malhete sobre a mesa, dizendo: _ Levem essa mulher daqui e que fique trancada na prisão até que seja levada para o local onde será trancada e enclausurada para o resto de seus dias. Ressalto, ainda, que ela deve ser mantida sob vigilância constante, para que não tente fugir ou usar seus poderes malignos. Todos que estavam no tribunal foram se retirando. Fui levada para uma sala até que o recinto tivesse sido esvaziado. Logo depois, fui levada para a prisão. Atravessamos a praça com um cortejo de agourentos atrás de nós. Onde passávamos, juntava-se mais e mais gente. Logo depois de andarmos uns vinte minutos, chegamos à prisão. Era um lugar muito desleixado e sujo. Subimos os degraus e passamos por várias salas. Por fim, começamos a descer sem parar, até chegarmos a um lugar cheio de portas trancadas até em cima, uma de frente para a outra. Devia ter umas quinze ao todo. Andamos uns dez metros. Minha cela era a última do corredor. Dois homens foram precisos para abrir a porta. Havia uma cama muito suja e de palha, forrada com um tecido encardido e mal cheiroso. Parecia que tinha manchas de sangue nele. O lugar era sombrio. O único ar que se tinha vinha de uma fenda de trinta centímetros ou pouco mais. O orifício era revestido por grades. Mal dava para se ver se era dia ou noite, porque o orifício na parede era pequeno demais para poder passar a luz do sol. As paredes eram cheias de teias de aranhas. Senti um terrível cheiro de urina por toda parte. Na verdade, havia vários excrementos humanos, mas não dava para identificá-los por causa do tempo. O guarda empurrou-me porta adentro e disse: _ Seja bem vinda aos seus novos aposentos, rainha das bruxas. Em seguida saiu, batendo a porta e dando uma gargalhada que mais parecia ter vindo do além. Fiquei ali, parada, olhando aquele lugar que não tinha mais que uns dez metros de largura. Os dias foram passando como noites. Agarrei-me em orações para tentar ficar forte. O desespero do claustro é indescritível. A solidão é uma companhia que não desejamos a ninguém. Ela nos faz 217
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus ver coisas no escuro e, se não tivermos muito autocontrole, enlouquecemos. Comecei a fazer traços na parede para não me perder de que dia era. Comecei a falar sozinha, mas os guardas sempre me insultavam, perguntando se o diabo estava lá comigo. Eu só tinha a companhia do guarda carcerário nas duas vezes em que ele me trazia alimento. Às vezes, o guarda da noite jogava em meu rosto a água que serviria para eu tomar. Ele também, várias vezes, pisou no pedaço de pão duro que me era oferecido como alimento. Várias vezes, oferecia-me urina ou escarrava dentro da minha caneca com água. A fome era tamanha que eu comeria a mim mesma. Diziam que o inferno era algo abominável, mas quem passou pelas torturas da Inquisição desejaria ir rapidamente para lá. Diziam, também, que nos finais dos tempos os vivos desejariam estarem com seus mortos - por causa do fim, que seria duro e cruel. Para mim, ali era o fim do mundo. Todos os meus pecados já estavam mais que pagos. Não existe inferno ou demônio. Existem, sim, pessoas com mentes diabólicas, capazes de extrema crueldade e covardia para conseguir seus objetivos a qualquer preço. Deixamos que a vida passe por nós e esquecemos de observar o quanto aqueles pequenos detalhes são importantes. Só nos damos conta disso quando temos que enfrentar uma situação muito difícil. Não damos conta quando passamos por cima dos menos favorecidos. Não damos conta que um dia vem logo após o outro, com uma noite no meio para nos fazer lembrar. Nunca pisei em alguém, mas pagava esse preço por causa da ambição de terceiros. Deveria ter prestado mais atenção aos sinais. Deveria ter fugido com Maria e Joseph. O pecado é capaz de se aliar à desgraça da maldade. Aprendi muitas coisas: uma era me manter em silêncio; a outra era nunca brincar com a vaidade masculina, pois um homem sabe mesmo ser cruel nessas horas de impulsividade. Eram nós, as mulheres, quem os seduziam, que tínhamos mais propensão a ser induzidas e fascinadas pelo mal. A mulher não podia se cuidar ou ter vaidade; jamais podia sentir prazer com seu marido - pois ele poderia chicotá-la em praça pública, acusando-a de induzi-lo às luxúrias da carne. Certa manhã, acordei toda suja: estava nos meus dias de mulher. Não soube o que fazer, pois comecei a sangrar muito. A vergonha tomara conta de meu ser. Como eu poderia dizer àqueles guardas o que estava se passando comigo? Rasguei um pedaço de minha anágua, tentando compor- me. Implorei ao guarda do turno da manhã para que me desse uma tina com água, para que eu pudesse me lavar. Ele fingiu nem ouvir. Sentia-me mal e humilhada. Minhas forças estavam se esvaindo. A cada dia que passava, ficava mais fraca. Até que Heixe apareceu e aliviou-me um pouco daquele martírio. Ficou por horas a fio conversando comigo. De vez em quando, o guarda abria a portinhola e gritava, mandando-me calar a boca. _ Cale essa boca, bruxa infeliz! Anda a falar com satã? Se me fizer entrar aí, juro que amordaço essa boca. Heixe, naquele dia, despediu-se de mim com um ar pesaroso. Mas era preciso, pois o guarda estava a ponto de me espancar. Todos os dias, os outros prisioneiros que ficaram sabendo que na última cela tinha uma mulher, gritavam meu nome e insultavam-me com palavras odiosas. Alguns gritavam meu nome como se eu fosse uma mundana. Em atitudes suspeitas, gemiam a chamar por mim. Eram homens de caráter muito duvidoso e que já estavam na prisão por anos a fio, sem sequer ouvir a voz de uma mulher. A minha presença, mesmo que do outro lado de uma parede e no fim de um corredor, fazia-os ficarem como animais. Outros haviam passado por tratamentos com médicos e haviam se esquecido de tudo. Esse tratamento, bastante suspeito, deixava-os como vegetais. Geralmente, esse tipo de tratamento era aplicado em pessoas que cometiam algum delito contra algum Lord ou até contra a política, ou também em casos de homens sodomitas. Estava rezando para que o convento enviasse o seu emissário para eu sair dali. Os gritos de agonia vindos do calabouço estavam me deixando completamente louca e desesperada. Alguém estava sendo torturado incessantemente todos os dias. Meu Deus! Estavam acabando com ele aos poucos. Tinha que haver alguém para fazer parar o sofrimento daquele pobre homem. Comecei a 218
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus esquecer minha agonia e sofrimento. Passei a orar para que aquele ser humano tivesse um fim bem rápido. Logo depois, escutei quando abriu a porta da cela ao lado e jogaram alguém cela adentro. Ouvia os choros e gemidos de dor do pobre. Precisava fazer alguma coisa para acalmá-lo. Então, comecei a cantar uma velha canção espanhola. De repente, escutei mais dois presos acompanhando- me. Em seguida, todo o cárcere estava ali comigo, cantando aquela canção que falava de amor e liberdade. Um guarda passou no corredor exasperando, batendo a baioneta na porta das celas. _ Calem-se! Ou levo todos para as masmorras. Fizemos um silêncio mortal e o medo tomou conta de todo aquele local macabro. Passaram-se algumas horas. O homem que estava do outro lado da parede começou a fazer uns barulhos com uma espécie de objeto cilíndrico. Ele perguntou: _ Olá! Como se chama? _ Anna. E como se chama? Seu sotaque era muito carregado. _ Meu nome é Ramon Bernard D’ La Mendonça. Qual crime cometeu a senhorita? _ Não cometi crime algum, mas estou sendo acusada de bruxaria, traição e tantas outras coisas que até me perco. Acusam-me até de devoradora de criancinhas. Mas, se fosse carnívora, creio que teria me autodevorado, pois ando a morrer de fome. Por isso, enclausuraram-me aqui, até que alguém venha me buscar para levar-me ao Convento e Mosteiro de San Francisco. _ Oh! Compreendo. E com todo o respeito: qual a sua idade? _ Vinte. Fiz há poucos dias. _ É muito jovem. Não acredito que uma senhorita com tão pouca idade e de tão bom coração tenha cometido tais barbáries. A senhorita deve ter irritado alguém em demasia. E a pessoa, por certo, é de muito poder aquisitivo. Dizendo isso, deu uma sonora gargalhada. Em seguida, um gemido de dor. _ Acho que sim. - baixei a cabeça, lembrando-me do que o conde me disse quando eu saíra do tribunal. _ Não quis aceitar um casamento de conveniências e fui contra as ordens de meu pai. Na verdade, fui perdida em um dívida de jogo. - respondi a ele, com voz meio trêmula. _ Então foi isso? Lamento, senhorita! Seu pai é um homem desonrado. Nunca vi apostar a própria filha nas cartas. _ Ele é uma pessoa doente e está consumido por esse vício maldito. Ele bebe praticamente noite e dia, sem parar. Enterrou-se até os cabelos em dívidas com esse conde. _ Desculpe-me, senhorita! Não estou duvidando de sua palavra. Muito pelo contrário, estou achando demasiadamente ingênua. _ E o que o senhor acha que realmente deve ser? _ Não sei, senhorita. Mas o senhor seu pai e o restante devem ter outros bons motivos. A senhorita nunca desconfiou de nada? _ De que eu poderia desconfiar? Ou de quem? Nunca saíra de casa, a não ser acompanhada por minha governanta. Na verdade, meus dotes foram confiscados. Também não era nenhuma soma tão exuberante assim. Era o suficiente para me manter depois da maior idade, ou a ser entregue ao meu futuro marido, caso eu viesse a me casar um dia. Mas não creio que eu valesse tanto a pena. Estranho o senhor dizer tais coisas... _ Estranho é a senhorita estar aqui por tão pouco! Tem certeza de que não comeu nenhuma criancinha mesmo? - dizendo isso, soltou outra de suas gargalhadas. Esbocei um pequeno sorriso. _ Ora, o senhor ofende-me desta forma! É tão simpático e como sabe acalmar uma mulher com palavras tão gentis! - fui sarcástica. _ Só estava a caçoar da senhorita para passar o tempo. Perdoe-me. Quem seria o seu futuro noivo, mal lhe pergunte? 219
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Era para ter sido o senhor filho do duque Celso D’ Louchoa, o conde Albert D’ Louchoa. _ Eu deveria ter suspeitado, senhorita. Sinto-lhe dizer que esse homem não vale um doblón sequer. – riu em alto tom. Antes que eu pudesse perguntar-lhe por que estava rindo, ele prosseguiu: _ Acha mesmo que esse peste irá deixá-la em paz? _ Creio que sim, pois agora estou aqui, presa, e ele esta lá fora. _ Presa porque tem o dedo desse peste no meio. Com certeza, ele irá atrás da senhorita, no convento. Ele nunca a deixará em paz, acredite. Sempre terá olhos dele em toda parte. Ele é o espião do rei, senhorita. Mercenário, trambiqueiro, entre outras coisas mais. Seu pai deve ter falado da senhorita enquanto jogava. Como disse que ele bebe, o conde por certo trapaceou no jogo para ganhar a aposta. Agora as coisas estão se encaixando. O que mais a senhorita sabe? _ Não sei mais nada; juro. _ Antes de vir para as masmorras, ouvi comentários de que esse conde está aqui para investigar o convento para o qual está sendo enviada. _ E por quê? _ Suspeitam que os cavaleiros da ordem andem se escondendo por lá, à noite. _ Sério? E por que andam a perseguir os cavaleiros da ordem? _ Por que dizem que enriqueceram muito e não estão dando a parte da Santa Sé como havia sido combinado. _ E o senhor, por que está aqui? _ Porque sou escritor e escrevo sobre a verdade encoberta por trás dessa podridão monárquica. A burguesia fede, senhorita. Depois de dar uma risadinha zombeteira, ele prosseguiu: _ Andei publicando uns exemplares sobre os monarcas. Acho que não agradei muito. _ Imagino... _ Estou aqui, agora, às suas ordens! Um anarquista e visionário, e um amigo ateu. Mas um amigo fiel, devo ressaltar. _ É um enorme prazer, Ramon. Os dias ao lado do meu novo amigo foram bastante agradáveis. Ramon era um homem muito inteligente e aprendi muito com ele. Embora a maior parte do dia ele passasse sob tortura, sempre conseguia falar alguma coisa útil. Houve dias em que, de tanto ser espancado, ficou desmaiado por horas a fio. Ele era um homem de cinquenta e poucos anos, mas de uma força fora do comum. Admirava-o, mesmo sem nunca tê-lo conhecido cara a cara em vida. Finalmente o dia chegou. As portas do meu cárcere abriram-se. Dei um pulo da cama. A primeira pessoa que vi foi o chefe da guarda, que logo veio pôr-me algemas, seguido dos guardas e de uma freira com uma cara nada agradável. Ela entrou, tampando o nariz com um lencinho. Olhou- me de cima abaixo e disse ao chefe da guarda: _ Tirem-na logo daqui. Fui retirada aos socos para fora do cárcere. Mas, quando passei pela cela de Ramon, disse bem alto para que ele ouvisse: _ Fique em paz, meu amigo. Que Deus lhe acompanhe sempre. Nunca o esquecerei, acredite. O guarda deu uma risada e falou, sarcasticamente: _ Por certo, vai encontrar com ele no quintos dos infernos, porque morreu ontem à noite de hemorragia. Não resistiu às torturas da manhã anterior. - continuou rindo. Chorei e senti pena de Ramon. Ele havia mesmo se queixado de que lhe haviam feito um corte profundo em seu abdômen. Mas ele sempre levava tudo na brincadeira para que eu não ficasse preocupada com ele. Meu bom amigo agora estava descansando. Nunca mais haveria de passar por toda aquela dor. Que seu espírito descanse em paz, pensei comigo. A maioria dos presos estava em 220
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus silêncio. Deveriam estar mortos também, pois não me importunavam havia dias. Os barulhos que eu conseguia ouvir eram gemidos de dor, mas muito fracos. Fomos saindo daquele lugar dos infernos. Desta vez, não saímos pela porta principal. Saímos pelos fundos, onde não haveria tumulto. A carruagem esperava-me do lado de fora. Meu Deus, quando vi o sol de novo, foi como se um milagre tivesse acontecido! De princípio, fiquei totalmente cega, mas depois pude ver o esplendor do dia que estava à minha frente. O ar no meu rosto... Fechei os olhos e lentamente fui abrindo... Vi meu amigo Ramon ao lado de Heixe. Ele estava lindo... Todo curado de suas chagas. Usava uma túnica muito branca. Por certo, estava sendo levado para um hospital... Acenaram-me com as mãos e desapareceram, no meio dos raios do sol. Eu agora estava em paz, porque meu amigo estava em paz. Havia se livrado das mazelas daquela fatídica vida terrena. Havia outra freira esperando-nos na carruagem. Ela era um pouco mais jovem e menos carrancuda. Ajudou-me a subir. Fiquei sentada, de frente às duas mulheres. A mais nova olhou-me com piedade. A mais velha ficou com seu lenço ao nariz o tempo inteiro. Sentia-me muito mal com aquela situação. Um padre usando uma túnica marrom comprida e um chapéu enorme pegou uma carta das mãos do chefe da guarda. Ele ficou na parte de cima da carruagem, com o cocheiro. Dois guardas acompanharam a carruagem a cavalo. Eu estava algemada, mas as freiras não deixaram que me prendessem os braços à porta dessa vez. A carruagem começou a andar e eu só queria olhar pela janela. Passamos por quase toda a cidade. Fui me lembrando de tudo o que havia passado. A carruagem praticamente deu a volta na província de Salamanca. Ao passarmos pela igreja de padre Ignácio, ele fez a carruagem parar. Pediu ao padre que estava conduzindo aquela escolta para deixar que ele falasse comigo. O padre permitiu. Ele chegou brevemente à janela da carruagem e pegou nas minhas duas mãos, dizendo: _ Minha menina! Minha filha... Não fui ao seu julgamento, não me permitiram. Meu Deus, o que fizeram a você, minha criança? Ele passou um pequeno bilhete para minhas mãos, que eu leria mais tarde. _ Tenho rezado pela sua vida, filha. Nunca desista, nunca abandone sua fé na divina senhora. Estarei aqui, torcendo por você. - beijou minhas mãos e afastou-se. Não falei nada, apenas chorei. A carruagem seguiu e pegou a estrada. Fiquei com as mãos bem juntas para que as freiras não vissem meu bilhete. A mais velha cochilava e arregalava os olhos de acordo com o movimento da carruagem. Lembrei-me de Maria em nossa viagem. Ao meio dia, as freiras pararam para se refrescar e comer alguma coisa. Tiraram-me da carruagem com elas. O sol estava alto no céu. Elas me deram um pouco d’água para eu me refrescar também. Depois, arrumaram uma toalha no chão e colocaram a ceia. Fiquei de longe, olhando-as. Mas a mais velha chamou-me para junto delas. _ Pegue pão e chá fresco. Temos frutas e queijo. Coma, vá. Peguei um pedaço de pão com queijo e um copo de chá. Afastei-me das duas, fui para perto da carruagem. A mais jovem buscou-me para ficar junto a elas e sentar-me. _ A casa de Deus não faz restrição aos arrependidos. - disse a mais velha. Agradeci e beijei suas mãos. _ Não faça isso. Coma e fique quieta. Obedeci sem pestanejar. Descansamos debaixo de um salgueiro e depois seguimos viagem novamente. A tarde caiu bem rapidamente. A freira mais velha caiu em sono profundo; e a mais jovem, logo em seguida. Aproveitei para ler meu bilhete. Era de Maria. Ela dizia que ficou sabendo de tudo que eu havia feito e que estava bem. Que as irmãs estavam em oração por mim e que daria um jeito de me visitar quando eu estivesse no convento. Minha Maria... Coloquei o bilhete na boca e engoli. Era 221
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus muito perigoso se alguém pegasse. Fiquei acordada, olhando pela janela. Era alta noite quando a freira mais jovem acordou e perguntou-me: _ Você não dorme, senhorita Anna? _ Fiquei tanto tempo em uma cela escura que só quero aproveitar cada minuto e cada detalhe da minha liberdade temporária. _ Então, fique à vontade, querida. Mas descanse um pouco também. _ Prometo repousar assim que o sono chegar. Os quatro dias restantes passaram-se sem nenhuma novidade. As freiras eram pessoas abençoadas. Observava-as sem dizer muita coisa. Elas me passavam muita seriedade e calma. Abençoavam o dia, a tarde, a noite, os alimentos, e a tudo agradeciam e louvavam. Não eram muito diferentes das bruxas da tradição. Às vezes, cantavam em vez de orar. Suas vozes pareciam ter saído de uma harpa celestial. Não me desprezavam ou me interrogavam. Pelo contrário, faziam-me fazer parte de tudo o que conversavam. Era muito bom sentir-me como gente de novo. Mas eu sabia que, dentro do convento, não seria tudo maravilhoso como ali, naquele momento de trégua, por assim dizer. Certa manhã, acordei e dei uma espreguiçadela. Foi quando avistei o mosteiro, ao longe. Coloquei bem a minha cabeça do lado de fora, para ver melhor. Comuniquei às minhas companheiras, que ainda estavam dormindo. Elas agradeceram a Deus, com sempre faziam a cada ato conseguido. Dessa vez, foi pela ótima viagem que tivemos. Ele era majestoso. Imponente, todo feito de pedras, com duas torres a cada lateral. Era lindo! De longe, pude ouvir um coro gregoriano que saía de uma capela ao lado. Era composto por voz feminina e masculina. Foi a música mais linda que já tinha ouvido em toda a minha vida. Meus sonhos misturavam-se àqueles sons como magia se mistura à realidade. Senti-me leve e feminina. Havia um campo de girassóis. Era a coisa mais fantástica de se ver! O mosteiro ficava ao fundo, harmonizando ainda mais aquele cenário de conto de fadas. Algumas ovelhas e cabritos pastavam ao redor. Havia, também, porcos, galinhas e um celeiro. Todos pastoreados por monges. Todos pareciam tão ocupados em seus afazeres. Mas, quando a carruagem foi passando, um a um ia acenando cordialmente. A carruagem parou na frente do mosteiro e seis pessoas esperavam-nos do lado de fora. Uma freira muito idosa, uma madre de meia idade, dois monges aguardavam-nos logo na entrada do convento. Minha surpresa foi ao ver as outras duas figuras ao lado da madre superiora: a condessa e meu pai. Desci da carruagem e minhas pernas começaram a tremer. Já tinha visto aquela cena antes. Mas onde? Alguma coisa não iria acabar bem. Meu queixo, de repente, parecia bater como se um frio tivesse tomado conta de mim. E não estava frio, pois o dia estava demasiadamente quente. Aproximei-me deles e a madre superiora foi logo falando: _ Tragam-na para dentro, imediatamente. A condessa olhou-me com desdém. Meu pai fingiu não me conhecer. Nem sequer olhou em minha direção. Os guardas quiseram algemar-me, mas a madre disse não ser necessário. _ Aqui não usamos força bruta, a não ser quando necessário. Ela não sairá deste lugar. Não tem para onde ir. Ela sabe muito bem disso. Olhei para trás, tentando despedir-me de minhas companheiras de viagem, mas elas haviam evaporado. Segui as demais pessoas convento adentro. Deixaram-me em um corredor comprido a esperar. Onde já tinha vivido aquela cena? De repente, entrei em transe. Quando dei por mim, já estava exatamente no lugar que sonhei durante minha viagem com Maria. Foi em uma fração de segundos. Voltei no dia exato quando tive o sonho com o mosteiro. Lembrei-me do meu sonho!, disse em voz alta, com um largo sorriso nos lábios. Ao abrir os olhos, vi-o ali, parado na minha frente. Era como se fosse um sonho. Mal pude acreditar no que estava vendo. Fiquei quase catatônica. Se alguém tivesse me beliscado, com certeza não sentiria. Parece que ele percebeu o meu estado, pois falou... 222
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus “Todo pedido de perdão é um grande começo. Felizes aqueles que encontrarem a paz no bem comum que fazem ao seu próximo. Se plantarmos espinhos, colheremos espinhos. Se plantarmos amor, colheremos amizade. Quando magoamos alguém, seja por qual motivo for, recebemos uma paga muito maior. Talvez não estejamos preparados para pagar tal preço. Devemos nos lembrar de uma coisa chamada lei do retorno. Viva bem e em comunidade. Seja feliz, faça feliz a quem está ao seu lado. Ame o próximo, mesmo que ele esteja longe de você. Reze para que os que na distância estiverem encontrem-se em harmonia total. Pense, também, que por um orgulho ele deve estar tão mal quanto você está agora. Reze para os seus inimigos, se é que eles existem! Muitas vezes você criou esse inimigo e, na maioria das vezes, ele nem sequer sabe que você existe. Para que vingar-se? Para que procurar uma ferida que você poderia já ter sanado? Siga em frente, ame ao seu próximo como a si mesmo. Pense nisso. Muita paz e muita luz.” (Padre Ângelo Wallejo Moralles). 223
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Capitulo VI – O Mosteiro A madrugada invadiu-me com sonhos turbulentos. Imagens desconexas iam e vinham, perturbando-me a mente e a alma. Horas eu acordava como se meu corpo estivesse tendo uma convulsão; horas visões assustadoras, com rostos destorcidos e fantasmagóricos, assombravam-me. Era como se meu espírito já soubesse o que estava para acontecer comigo. Meus instintos de bruxa estavam agitados como átomos em movimento. Quando o dia amanheceu, apenas abri os olhos lentamente, porque já estava acordada há muito tempo. O sol entrou no quarto, trazendo sua poesia matinal e, como havia me deitado com as janelas abertas, da cama pude olhá-lo despontando no horizonte. Dei uma espreguiçada e tentei levantar-me, mas minha cabeça doeu e tudo rodopiou à minha volta. Então, deixei meu corpo cair pesado sobre a cama novamente. A noite anterior havia sido uma das piores da minha vida. A despedida de Maria e as acusações levianas que foram levantadas em falso contra mim fizeram-me sentir como se o peso do mudo estivesse sobre minhas costas. Lembranças tristes e saudosas misturavam-se na minha mente. Queria deixar as lágrimas caírem para aliviar aquela tensão toda, mas não conseguia. Eram muitos os fatores que me deixavam tensa. Inclusive a atitude de meu pai preocupava-me: embora ele não tivesse deixado ninguém me fazer mal, havia alguma coisa de errado no ar, pois aquela súbita espontaneidade dele em me defender demonstrava que algo não se encaixava com a real situação. Aquela atitude estava cheirando a trama e oportunismo. A opressão que passei foi muita para uma noite. Precisei livrar-me daqueles pensamentos para tentar, ao menos, fingir que existia algo de bom no coração de meu pai em relação a mim. Comecei a pensar no quanto ele estava sendo enganado pela esposa e que, embora ele tivesse tido comigo uma atitude egoísta, preocupava-se com a família. Tentei realmente achar uma resposta para os absurdos por que eu estava passando. Por fim, desviei o pensamento de que meu pai era um vilão. Tentei vê-lo como uma vítima daquela sociedade inescrupulosa. A minha maior preocupação seria com os demais, que tentariam a todo custo fazer-me confessar uma coisa totalmente inversa do que realmente era a tradição da serpente ou tradição da Lua, como também era conhecida. Meus sonhos de liberdade e igualdade tornaram-se pesadelos - se é que algum dia pude realmente ter o direito de sonhar... Incrível como vivi em poucos dias tudo o que uma pessoa levaria no decorrer de sua existência para viver. Devido ao cansaço e à fadiga da noite anterior, acabei esquecendo-me de tirar as roupas. Deitei- me em uma posição muito desfavorável, com um infernal espartilho que me estrangulou a cintura a noite inteira - o que me causou uma terrível dor na cabeça e no corpo. Minha vontade era de ter uma varinha mágica igual a dos contos de fadas e, com ela, abrir um vácuo no tempo – sumindo, assim, de todo aquele problema. Mas, infelizmente, ser uma bruxa também exigia responsabilidades que não podiam ser ignoradas. Infelizmente, ser uma bruxa era muito mais do que um conto de fadas ou uma brincadeira folclórica. As fantasias que se criam sobre nós, bruxas, quem dera fossem verdade! Naquele momento, eu estava passando pela fase dos efeitos e causas. Tudo porque interferi no meu próprio destino. Havia criticado a minha ancestral Shaara - quando ela tentou mudar o seu futuro, invadindo o espaço e o tempo -, mas também mudei o meu, quando não aceitei as imposições do meu pai. Quis ser livre nas minhas opiniões e vontades - o que, para a época em que vivia, não era uma coisa normal. Deveria ter deixado que as coisas fluíssem normalmente e seguissem o seu rumo certo. Quando comecei a ver meu futuro, deveria imediatamente ter esvaziado minha mente, como me ensinou Dona Helena: toda ação leva a uma reação. Novamente, deparei-me com meus ensinamentos e percebi que havia ido longe demais, passando por cima de todas as leis da tradição. A minha vontade de estar ao lado do homem dos meus sonhos foi tamanha que me levou a estar onde me encontro agora, nesta cela fria, com condições subumanas. Fui uma inconsequente e sonhadora. Por mais que sempre tenha lutado pela liberdade, deixei-me levar pela ilusão e pelos 224
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus sentimentos carnais. Definitivamente, o coração é enganoso. O que mais me entristece é pensar que fiz tudo porque acreditei que poderia ser salva pelo meu príncipe encantado. Talvez essa seja a maior falha humana: acreditar na palavra do próximo. Se eu tivesse me contentado em saber apenas o meu passado, confiado que em um futuro vindouro encontrar-me-ia com o monge, talvez tivesse aprendido a confiar na fé, não sendo tão intolerante, precipitando os efeitos e causas. Deveria ter vivido aquela vida de imposições, onde talvez tivesse sido feliz. Poderia ter me casado com o conde. Certamente, quando ele se cansasse de mim, trancar-me-ia no convento, onde eu cumpriria meu destino ao lado do monge. Mas não: quis ir muito mais além e, com isso, interferi no meu destino, antecipando o que poderia ter acontecido anos mais tarde. As dúvidas e o se sempre encontram um lugar em nossas mentes depois que algo desagradável nos acontece - ou depois de tomarmos decisões erradas, das quais acabamos por nos arrepender. Naquele momento, precisava arranjar forças dentro de mim, em um lugar completamente desconhecido, antes que novamente as fraquezas da minha mente tomassem conta do meu ser. Voltemos novamente à minha história, em que meu destino estava prestes a ser selado. Olhei rapidamente pela janela, que havia deixado aberta inconsequentemente. Seria difícil encarar aquela luz. Estava me sentindo como um ébrio depois de uma noite de bebedeiras, estirada sobre a cama, com os braços abertos e pensando coisas que nem eu mesma conseguia distinguir. Era tudo ou nada. Tinha que ser de repente, em um supetão. Dei um pulo da cama, caindo sentada em seguida - quase desmaiei por causa da terrível dor de cabeça. Foi quando notei que havia um enorme alarido do lado de fora do meu quarto. Fiquei com os olhos arregalados com todo aquele alvoroço. Escutei alguém discutindo em um tom de voz muito exasperado. Era a voz do meu pai, que estava tentando entrar. Parecia que os guardas não o deixavam. Então, escutei um barulho estrondoso. Só me dei conta do que era quando a porta do meu quarto abriu-se e o meu pai caiu quarto adentro. Fiquei atônita por ter visto aquela cena tão inusitada. _ Pai! É o senhor? Fiquei tão feliz por vê-lo. Estava tão sozinha que, mesmo que ele me esbofeteasse, ficaria feliz apenas por ter tido o contato daquelas mãos. Meu corpo tremia tanto que dava a impressão que eu estava com febre alta. Meu pai levantou-se, ainda cambaleando por causa da forma com a qual havia entrado. Correu para minha direção e abraçamo-nos com sofreguidão. Aquele momento foi único para mim, porque foi a primeira e última vez que meu pai abraçou-me depois de adulta. Olhei-o nos olhos, parecendo não acreditar: _ Pai, não sabe o quanto eu estava precisando do senhor. Estou me sentindo tão sozinha... Estou com medo; minha alma está fria como meu corpo agora. - disse isso porque senti um frio que me gelava por dentro. Ele continuou olhando para mim e disse-me: _ Estou aqui porque confio em Deus e sei que contará a mim toda a verdade, minha filha. Quero que confesse que foi o demônio quem a induziu a ter aquela atitude insana. Quero, também, que diga que foram Maria e Joseph quem estavam evocando o demônio, que lhe deram uma poção mágica para que você adormecesse. E que foi assim que eles a levaram para o meio daquele bosque maldito. Diga isso e poderá ter o perdão da Santa Madre Igreja. Todos entenderão, pois verão que você é uma jovem frágil e ingênua e que estava sob o poder e as forças da magia negra. Aqueles velhos malditos arrependeram-se, fugiram no meio da noite, sem darem satisfações. Dizendo o que lhe sugiro, eles levarão a culpa toda, enquanto você se casará com o conde e irá para bem longe desta cidade. Pense, minha filha. Eu mesmo ouvi falar de vários casos em que o demônio toma a forma de pessoas e até consegue conviver no meio de uma família, sem que alguém sequer venha notá-lo. Por certo, aceitarão essa história de que Maria evocava o demônio, e de que Joseph era um bruxo poderoso e fazia uso do maldito conhecimento com as ervas para lhe pôr em transe. Vamos resolver isso. Confie em mim e faça o que lhe estou aconselhando. Tudo dará certo, minha filha. Você vai se casar com o conde. Com essa feliz e satisfatória decisão, resolveremos todos os problemas - inclusive os 225
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus financeiros. Em breve estaremos todos novamente frequentando a alta roda da sociedade europeia. E quanto às vias de fato, não se preocupe, pois todos logo esquecerão. Essa história acabará como mais um mexerico infundável. Por certo, Maria e Joseph serão capturados e, mais cedo ou mais tarde, serão mortos, levando consigo esse segredo. Eu mesmo darei um jeito de impedi-los de dizer alguma coisa. Esses traidores malditos pagarão por fugirem de mim assim, como dois ratos, na calada da noite. Verão o quanto custa terem brincado com alguém da nossa estirpe. Aquela velha sempre foi uma insolente. Nunca gostei dela. Aquele velhote não passava de um inútil. Só o tolerava aqui por pena. Acharam que eu fosse mesmo acreditar naquela maldita carta que me escreveram? Ambos vão me pagar por terem caluniado a minha família. Basta, minha filha, que aceite e faça o que estou lhe sugerindo. Mal pude acreditar nas palavras que saíam da boca do meu pai naquele momento. Como ele conseguia superar as minhas expectativas em relação a ele ser um cafajeste e mau caráter? Depois de ter ficado boquiaberta com tamanha decisão vinda da parte dele, respondi: _ Hã!? O senhor deixa-me sem chão, meu pai. Quer dizer que não veio aqui para me ver? Para saber como estou? Meu Deus! Definitivamente, o senhor conseguiu se superar. Juro que achei que estava realmente preocupado comigo. Achei que poderíamos ter uma chance de resgatar o nosso passado, meu pai, o nosso tempo perdido. Não estou acreditando no que estou ouvindo. Como pude ser tão ingênua em relação ao senhor e a todos? O senhor só está preocupado com as suas dívidas e com o que as pessoas poderão falar, caso saibam que estamos na falência. Nada do que estou sentindo importa realmente para o senhor. Acha mesmo que fui capaz de fazer as coisas horríveis das quais essas pessoas estão levianamente me acusando? Pai, nunca fiz pacto com o diabo ou com qualquer outro ser do inferno. Desde quando o senhor passou a acreditar nessas sandices folclóricas? Não me lembro de tê-lo visto dando importância a mexericos. O senhor conhece-me desde criança, pai. Sabe muito bem que nunca me envolvi em sacrifícios de espécie alguma. Sabe muito bem que não sou adepta a comer carne de espécie alguma. E como o senhor pode ser tão cruel com Maria e Joseph, caluniando-os e acusando-os de coisas tão bárbaras? Pai, Maria ajudou o senhor a cuidar de mim. Ela sempre lhe foi fiel! E Joseph!? O pobre homem dedicou os melhores dias de sua vida cuidando do nosso jardim, entre outras coisas que o senhor lhe pedia e que ele nunca negou fazer. Acho mesmo que nunca teve uma companheira. Viveu nesta casa por amor ao senhor e por mamãe. Meus Deus, pai, foram as ervas de Joseph e Maria que curaram a moléstia da sua esposa e tantas outras moléstias que surgiram nesta casa! A ambição está lhe cegando a visão da verdade. Sinto muito, pai, mas nunca poderei inventar tais coisas contra Maria e Joseph. Não posso mentir quanto a isso. Nunca os prejudicarei. Prefiro a morte a ter que inventar tais atrocidades contra duas pessoas inocentes, se tudo o que eles fizeram nesta vida foi cuidar de mim. Portanto, não me peça para mentir, meu pai. _ Então, você é inocente? Graças a Deus! Sabia que todas as sandices que essas pessoas estão dizendo sobre ser uma bruxa, entre outras coisas, não passavam de calúnias. Conversarei com o conde. Sei que ele irá relevar tudo isso. Afinal, um homem tão bom, fino e... _ E rico? Não é mesmo, pai? O senhor não vai falar coisa alguma com aquele déspota usurpador. Será que o senhor não percebe que o conde nunca teve a intenção de se casar comigo? Toda essa história leviana de que os colonos, a justiça local, o inquisidor, e o senhor participaram só serviu de desculpas para que ele colocasse em ação o que, na verdade, já estava planejando. Não percebe que a senhora sua esposa está de comum acordo com o conde? Eles fugirão assim que toda essa história se apaziguar! Na verdade, pai, sou apenas uma atração, um esteio para que todos - inclusive o senhor - se escondam atrás de mim. Assim, enquanto todos estiverem voltados para mim, não prestarão atenção nos reais fatos que estão acontecendo. Esqueça o conde, pai. Se vendermos alguns bens, junto com os dotes que já possuo, por certo o senhor poderá quitar suas dívidas com ele. A condessa também tem muitas joias que poderão ser leiloadas. Poderemos nos apertar por uns tempos. Mas, com o esforço e a colaboração de todos, sairemos desta situação. Pai, raciocine, 226
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus suplico! Não há nenhuma vergonha em ser pobre, ou em estar falido financeiramente. Vergonha é não ter dignidade e coragem de levantar a cabeça e seguir em frente. Juntos, pai, como uma família que nunca fomos, venceremos tudo. O senhor vai ver! Quanto a ser ou não verdade o que dizem a meu respeito, fica a cargo da sua consciência. A única coisa que lhe peço é que me aceite como sou. Ponha a mão na consciência e não acuse Maria e Joseph levianamente. Pense, meu pai, em tudo o que acabo de lhe dizer. Seja sensato, pelo amor de Deus. Ele ficou parado na minha frente, parecendo estar raciocinando. Por fim, resolveu responder: _ Acha mesmo que vou expor minha esposa e o meu bom nome ao descaso da humilhação, sendo que tenho a solução aqui na minha frente? _ E qual seria essa tal solução? Vender-me como escrava branca ou acusar de bruxaria e de crimes levianos dois inocentes somente para que a senhora sua esposa se safe dos crimes de luxúria dela? Quer que eu me case com aquele imundo para que, com isso, o senhor quite as suas dívidas de jogo. É isso que o senhor espera de mim, não é, meu pai? Se isso acontecesse - o que não vai -, jamais seria feliz. Nunca mais falaria com o senhor. Nunca o perdoaria. Antes de ser sua filha, antes de ser uma mulher que o senhor se sente no direito de leiloar, sou um ser humano. Sangro, choro, sinto dor e tenho sentimentos. Eu penso, pai - não sou irracional. Não pode se passar por leigo quanto a isso. _ Do que você está falando? Está louca! Padre Ignácio está certo: devemos mandá-la para um convento para se curar das alucinações e devaneios em sua mente, causados pelo demônio que já está se apoderando de você. Deve ser um demônio muito poderoso, pois está influenciando a sua maneira de entender a realidade da vida. Onde já se viu dizer que mulher pensa? Desde quando mulher tem algum direito? Onde foi que ouviu tais insanidades? Nasceram ignorantes e submissas porque Deus assim quis. Não adianta tentar querer ser diferente, pois a única coisa para a qual vocês servem é procriar. Não pode mudar os fatos ou as leis dos homens e sobre elas tentar travar uma guerra solitária. Não pode mudar o rumo dos fatos - sempre foi assim e sempre haverá de ser. Você deverá obedecer ao que lhe for imposto pelos homens ou pelo chefe da casa – que, afinal, sou eu. Imagina só, uma mulher pensando! Ele deu um sorriso sarcástico e malicioso e prosseguiu: _ Quem está dormindo é você, Anna. Por certo, o demônio lhe está embutindo tais pensamentos na cabeça. Mas assim que for exorcizada, vai recuperar sua sanidade mental. Vou usar minha influência e meu conhecimento para que vá para um convento onde terá tratamento adequado. Por certo, se não for demônios, deve ser loucura. De lá, poderá ser transferida para um manicômio, caso seja necessário. Mas lembre-se, minha filha: basta que diga que entende o que lhe digo, é certo que envio imediatamente alguém para lhe tirar de lá. Mas é importante que não se demore nessa decisão, pois já está ficando velha e logo já não arrumará um partido tão lucrativo como o conde. Era inacreditável ter que ouvir aquelas abominações saindo da boca do meu pai. Mas eu precisava responder antes que ele me fizesse calar para sempre. _ É! O senhor tem mesmo razão. Não sei o que falo. Por certo, estou possuída pelo demônio mesmo! Se for assim, que o senhor e essa gente vejam-me como uma louca endemoniada, que assim seja. Mas é muito triste saber que o senhor considera-nos, as mulheres, como um animal irracional. Isso também quer dizer que, quando o senhor se deita com sua esposa, está se deitando com uma das éguas do seu estábulo? Meu Deus! Estou perplexa com tanta atrocidade que sai de sua boca, meu pai. O senhor prefere deixar-me ser trancada como uma louca endemoniada em um convento do que ouvir a verdade, do que fazer a coisa da maneira correta. Se isso é o que o senhor acha certo, então, cale-me. Faça como todos: sufoque a voz da verdade. Mate-me, se assim o quiserem. Mas a verdade aparecerá mais cedo ou mais tarde. E o senhor? Ficará sozinho com sua consciência e embriaguez. Disse aquilo porque sentia o forte hálito de bebida que saía de sua boca. Depois de fitá-lo desafiadoramente, prossegui: 227
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Vou lhe contar uma coisa sobre sua esposa, pois acho que o senhor ainda não sabe o que anda acontecendo debaixo do seu próprio teto. Caso o senhor não tenha percebido, a senhora sua esposa é uma desfrutável e anda o traindo. Não estou dizendo isso para magoá-lo ou para vingar-me. Mas acredito que o senhor está sendo ingênuo em relação a essa mulher. Ele olhou-me fulminantemente e, por fim, respondeu ironicamente: _ Todos temos que fazer certos sacrifícios para manter a família, minha doce e querida filha! Aprenda que nada nesta vida sai de graça. _ O senhor sabia? Como pude ser tão tola a esse ponto!? Eu o achava vítima. No entanto, o senhor sempre foi conivente com todas as traições da condessa? Senti a cabeça dar uma girada, como se o mundo todo estivesse caindo sobre mim. Era inacreditável que um homem admitisse aquele comportamento leviano de sua esposa somente para manter as aparências e o status. Depois de me ver ficar sem atitude, ele continuou: _ Há coisas que uma esposa tem que fazer para manter seu casamento feliz. Existem certos sacrifícios que são necessários para o entendimento de um casal. Em um casamento, tanto o marido quanto a esposa têm que ser compreensivos e, muitas vezes, coniventes com certas coisas. Ora, Anna! De onde você achava que vinham as roupas caras que você usava? E toda a comida que comemos? Achava mesmo que eu, à beira de uma falência, poderia suprir o luxo de uma mulher tão cheia de mimos como minha esposa? Se pensa desta forma, vejo que realmente é uma tola e ingênua. Tinha muitas esperanças em você. Cria que, quando crescesse, dar-me-ia certo lucro. No entanto, está se comportando como a garotinha mimada e estúpida que sempre foi. Está sendo ingrata com a condessa. Você deveria ao menos aprender a se calar e a respeitar quem a alimentou por tantos anos. O obséquio que sua mãe lhe deixou só poderá ser usado quando seja maior de idade ou quando sele uma união matrimonial. Portanto, acho que já está mais que na hora de você ser mais compreensiva e retribuir todo o sacrifício que fizemos por você. Afinal, se minha atual esposa faz por mim tais sacrifícios, porque você, como minha filha, também não pode simplesmente cumprir um simples pedido meu? Afinal de contas, o conde é um homem ainda jovem e cheio de vigor. E muito rico, sim: poderá lhe dar tudo o que desejar. Não terá nunca que passar dificuldades. _ O senhor enoja-me. Está tentando me prostituir como faz com sua esposa. Saiba que nunca vou ceder às suas vontades. Prefiro apodrecer no calabouço de um convento como louca endemoniada a fazer parte deste mundo miserável em que o senhor insiste em sobreviver. Se já que não se importa com a reputação de sua esposa, dê ela mesma de presente ao senhor conde e poupe aos dois o trabalho de fugirem. Mas saibam que pretendo gritar aos quatro ventos o que estão tentando fazer comigo. Meu pai olhou-me nos olhos como se sentisse repulsa por mim. Esbofeteou-me nas faces, fazendo-me cair deitada sobre a cama. Levantei-me, colocando as mãos no rosto, mas nada disse. Novamente, apenas o fitei, tentando reconhecer quem era o homem à minha frente. Depois que ele me olhou com desprezo, prosseguiu: _ Então, a partir de hoje, renego-a como minha filha e excomungo-a como ser humano. Não moverei uma palha para amenizar sua pena. Por mim, apodrecerá em uma cela escura e úmida para aprender a respeitar e obedecer às pessoas que só quiseram o seu bem. E quanto a dizer sobre o que acabamos de falar, não acreditariam em uma louca tendo crises de possessão. Eu mesmo farei questão de me certificar de que sua pena será a mais dura possível. Ele gritou para que os guardas viessem me buscar. Naquele exato momento, lembrei-me do pai de minha ancestral Shaara, também ancestral do meu pai e que morreu pensando que ela o tivesse traído. Definitivamente, meu pai trouxe consigo essa revolta do passado. Ele me odiava incondicionalmente por causa das lembranças da outra vida. Ele, então, gritou, chamando os guardas e ordenando: _ Guardas! Tirem essa mulher da minha frente! Levem-na para a carruagem. Já está na hora de cumprir minha obrigação como cidadão espanhol. 228
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Havia o fato de que ele também estava alcoolizado, mas o ódio mortal por mim só era justificado por causa das lembranças inconscientes que ele trazia, achando que Shaara o teria traído e abandonado ao descaso do destino. O fato de que eu não me tornaria submissa aos seus caprichos era somente a centelha para que aquela raiva toda aflorasse. No fundo, ele estava usando a promessa que o conde havia feito de esquecer todas as suas dívidas quando firmasse compromisso comigo. Meu pai estava, inconscientemente, tentando achar um motivo para que eu fosse trancada em um calabouço e esquecida por ele, como ele achou que foi no passado. Por certo, todos viveriam bem. Meu pai continuaria a se fingir de cego, deixando que o conde saboreasse os carinhos de sua jovem e desfrutável esposa para, com isso, poder viver de aparências. Mas, quanto a mim, acabei tornando-me um estorvo, um contratempo para minha família, já que não tinha mais a menor serventia. Ter sido esbofeteada doeu muito, mas o que mais me doeu foi o fato de estarem me negociando como uma mercadoria. Aprendi a duras penas que vivemos em um mundo teatral, onde somos obrigados a fazer parte de uma bela e feliz historinha escrita pelas mãos dos ditadores, dos opressores e dos fanáticos religiosos. O problema era a realidade por trás dos bastidores – essa, sim, era muito triste. Pois, quando caíam as cortinas da aparência, a feia face da mentira e da falsidade vinha à tona, dando lugar a uma dura realidade de miséria e fome, onde os podres não podiam se misturar com a burguesia decadente, escondida por trás dos bastidores. Eu não era daquele mundo, nem sabia como proceder no meio de tanta injustiça e desigualdade. Deus não poderia estar deixando que aquilo acontecesse em vão. Tinha que ter algum propósito para tanto sofrimento! Corrigi imediatamente meus pensamentos para não blasfemar contra o Pai. Deus não tem culpa sobre os erros da humanidade. Tudo o que fazemos, mesmo sobre um ato impensado, é culpa única e exclusiva de nós mesmos. Temos o livre arbítrio de fazer e falar o que bem quisermos. Por isso, temos que ter muito cuidado nas horas de dor ou de desespero, para que não venhamos a fraquejar e blasfemar contra quem nos deu o direto a escolha. Muitas pessoas se questionam por que razão Deus, sendo tão zeloso e de absoluto amor, deixou que o seu único filho Jesus Cristo morresse de uma maneira tão brutal. Algumas ainda têm a ousadia de dizer que o Pai virou-se de costas na hora da morte de seu único filho, para não o ver sofrer. Isso não é verdade. Um Pai zeloso e amoroso nunca viraria as costas ao seu filho amado. Jesus teve o livre arbítrio e escolheu a sua sentença. Com certeza, na hora de sua morte, o Pai estava segurando suas mãos para que o seu filho, assim, não sofresse mais do que ele havia escolhido. E não nos castigou mais porque o próprio Jesus o implorou Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem... Para mim, Jesus sempre vai ser um mestre em sabedoria, benevolência e perfeição. Quanto ao Pai maior, este é indiscutível em suas inúmeras qualidades, pois são supremas e absolutas. Quando o oficial chegou, trouxe mais dois guardas com ele. Baixei minha cabeça e deixei que me levassem amarrada pelos pulsos, como um animal selvagem. A cada volta que o oficial deu com a corda apertando meus pulsos, senti minha liberdade indo embora. Nada mais tinha a dizer; meu silêncio o faria por si. Por mais que qualquer pessoa passe por um momento de irracionalidade e insanidade, ela sempre tem um momento chamado de consciência. Ninguém nesta vida se livra da consciência. Ela é como um grito que nunca se cala dentro da gente. Mesmo que mantenhamos uma aparência de tranquilidade, mesmo que não tenhamos a coragem de admitir o quanto somos falhos e que cometemos injustiças, esse grito vem, mais cedo ou mais tarde, para nos mostrar o quanto somos falhos. Fechei bem os olhos e apertei as mãos sobre o rosto. Queria esconder-me de toda aquela vergonha. Acabei desabando em prantos. Meus soluços tornaram-se compulsivos. Por mais que não queiramos fraquejar, a dor da decepção torna-se um ponto de partida para a vulnerabilidade. Afinal, somos seres humanos e, como tais, temos sentimentos. Não tive coragem de olhar para o meu pai nem que eu quisesse. Levantei a cabeça e engoli as lágrimas. Não daria o gosto da derrota nem a ele nem àquelas pessoas. Quanto mais fracos aparecemos perante os inimigos, mais eles se sentem no 229
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus direito de nos pisarem. Temos que ter na mente as seguintes palavras: não damos asas a cobras e nem cutelo ao carrasco, porque inimigo se vence com determinação, coragem e oração. O silêncio é a maior arma que o ser humano tem nas mãos. A confiança em Deus e na espiritualidade amiga é a única certeza de que venceremos todas as barreiras. A fé é uma noite negra: não sabemos se seremos salvos, mas temos a confiança de que seremos. É como se atirar de um despenhadeiro para se livrar de um dragão. Não saberemos se a voz que nos impulsiona é ou a não a de Deus, mas temos que arriscar. A vida é um risco constante. Quem não arrisca, nunca vai ter a certeza se poderia ter dado certo ou não. São as incertezas que nos fazem pensar. São os erros e os tropeços que nos fazem crescer. Não existe este ou aquele que nunca deixou de aprender algo. Existem, sim, pessoas que preferem dizer que não se lembram de nada que lhes aconteceu. Essas pessoas só fazem isso quando se trata de algo que elas fizeram a alguém – porque, quando se trata de algo que foi feito a elas, lembram-se por toda a eternidade. Nossos erros nunca são visíveis ou lembrados. Nunca seremos capazes de admitir que fazemos coisas que prejudicam o nosso semelhante. Mas, se em algum momento alguém nos faz qualquer coisa que não nos deixa satisfeitos, corremos em apontar o erro dessa pessoa. Assim, ninguém vê o nosso. É fácil viver assim, não é? Desmemoriado, sem lembranças, vagando sobre o lago do esquecimento. Ouvir o que alguém tem a nos falar é essencial - mas aprender com os nossos próprios erros é indispensável. Isso não significa que nunca mais vamos errar. Porque erramos todos os dias, todas as horas e não pararemos nunca. Isso porque somos burros demais? Não. Porque somos fracos e não controlamos nossos impulsos. Quando começamos as descer as escadarias, mantive-me em silêncio. Ao terminar, pude ver que os demais presentes iam abrindo alas para que os guardas passassem comigo. Aquelas pessoas que se encontravam nos degraus olhavam-me como se sentissem por mim uma grande repulsa. Não vi a condessa - o que foi uma surpresa. Ela não estar presente para se vangloriar da minha derrota significava que ela estava aprontando alguma coisa. Esse pensamento gelou-me a espinha. Tereza, ao ver-me, caiu em prantos. Tentei passar as mãos em seu rosto quando passamos por ela - que estava em um dos degraus-, mas o guarda puxou minhas mãos. Um dos guardas quase me derrubou, empurrando-me pelas costas no final da escada. Só não caí porque o outro, que segurava as cordas, puxou-me para junto dele. Um guarda ainda muito jovem que estava na porta, esperando para abri-la, zombou de mim quando me viu escorregar: _ Voe, bruxa maldita! Parei no hall de saída e dei uma última olhada para me despedir do lugar onde passei toda a minha vida. Foi a última vez que vi minha casa. O guarda novamente empurrou-me porta afora, tentando mostrar-me que não podia parar. Cambaleei, mas não caí. Do lado de fora, fui observando o jardim e as lembranças do passado me vieram à mente: coisas muito pessoais, como o cheiro das rosas que Joseph sempre me dava pela manhã; e quando Maria me trazia sumo de frutas frescas embaixo do pé de cedro. Esbocei um discreto sorriso. Olhei para tudo e disse Adeus!, antes que o guarda me jogasse carruagem adentro. Amarraram minhas mãos na portinhola, na parte de cima, fazendo com que meus braços ficassem pendurados. Vai ver acharam que eu iria fugir. E se o fizesse, para onde iria? E para que tanta violência? Será que os supostos demônios em meu corpo poderiam me possuir e me fazer sair mordendo a todos? Certas medidas de segurança eram desumanas e desnecessárias. Mas eram usadas para que a população ficasse acuada e respeitasse as autoridades locais. Comecei a bater o queixo. Sentia frio, pois saíra sem ter a menor chance de levar um xale. Embora o sol já tivesse despontado no horizonte, a neblina ainda era muito densa e, por certo, choveria naquele dia, pois o céu estava cinza. Olhei mais uma vez para a casa que um dia foi o meu habitat. Vi à janela a condessa, que observava tudo por trás das cortinas da sala. Pela distância em que se encontrava, não dava para saber o que ela estava pensando. No mínimo, seus pensamentos eram de vitória. 230
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Às vezes, julgamos e interpretamos mal as pessoas. A condessa não era minha amiga, mas mesmo assim a entendia. Ela era mais uma vítima de meu pai e daquela sociedade machista. Entendia-a e não esperava ser entendida por isso. Sabia que ela vingava em mim todas as suas frustrações. No fundo, era muito difícil para ela ter que ser submetida a tais coisas - logo ela, que sempre tivera de tudo. Casou-se porque já estava com vinte e oito anos e o pai não poderia ficar com uma filha solteirona em casa. No fundo, o pai da condessa quis livrar-se dela como o meu. Embora a entendesse, não significava que eram justificáveis seus atos de maldade comigo. Mas é a vida! Tornamo-nos vítimas das frustrações das pessoas com quem convivemos. Mesmo sabendo que meu destino não seria dos melhores, compadeci-me por vê-la ali, atrás das cortinas, pois acabaria por se afundar nas bebidas e também passaria a gritar com as paredes, pois não teria nem a mim nem a Maria para lhe servir de esteio. Quando o conde se cansasse do seu brinquedinho, descartá-la-ia, deixando-a ao relento. Definitivamente, deve ter sido muito difícil para a condessa ter deixado seus sonhos, sua vida e, provavelmente, um amor. E agora lá estava ela, vivendo ao lado de um homem muito mais velho, que bebia dia e noite e era um compulsivo por jogos. Por não cumprir mais os deveres como marido, fazia vistas grossas e deixava-a ter seus amantes para, com isso, lucrar também. Era bizarro e inacreditável saber que os homens usavam seu poder sobre as mulheres para fazê- las suas meretrizes particulares. Logicamente, isso acontecia debaixo dos seus próprios lençóis. Mesmo sabendo que o adultério era considerado um crime hediondo para a Santa Madre Igreja, os nobres não só o praticavam às escondidas, mas também prostituíam suas esposas, fazendo-as cometer o mesmo crime. Pois, para a sociedade, o importante era manter as aparências. Também tinha o fato de que, enquanto estivesse dando lucros favoráveis à Igreja, o povo não faria mal algum. Mas tinham que se manter rigorosamente em dia com seus dízimos, entre outras coisas. Qualquer deslize seria imperdoável e prejudicial à saúde deles. Logicamente, todos sabiam das depravações dos nobres. Mas era mais sensato que permanecessem calados. Assim, a alta sociedade permanecia intacta. Aqueles hipócritas depravados comiam e bebiam às custas da desgraça alheia - da escória, como chamavam os menos favorecidos. Repudiavam a pobreza como se eles fossem vermes. Mas era o lodo de suas atitudes que destruía a raça humana. Vivi em uma época onde a degradação não era só dos corpos maus cheirosos. Vivi em uma época onde a insociabilidade e a hipocrisia tomavam conta da humanidade como uma doença contagiosa. As pessoas não se misturavam umas com as outras. Os pobres tinham um espaço na exclusão. Tinham que viver escondidos. Pessoas com deficiências eram excomungadas ou tinham que pedir esmolas nas ruas. Os negros, estes então... Sofreram com o preconceito dos que se diziam ter poder sobre as pessoas. Gostaria de ter podido fazer alguma coisa, mas só fui descobrir meu real caminho quando já estava na hora de me encontrar com meu destino. As crianças eram obrigadas a fazer duros trabalhos, enquanto as filhas das senhoras feudais sequer podiam vestir-se sozinhas. Se um menos favorecido ou uma mulher, como no meu caso, os desafiassem, por certo poderia considerar-se morto. Mesmo que confessassem e se arrependessem, como lhes era imposto muitas vezes, por certo faltar-lhes-iam alguns pedaços do corpo. Aí, sim, estariam fritos em óleo fervente, pois como sobreviveríamos em uma sociedade totalmente preconceituosa? Ninguém lhes daria trabalho nem esmolas, e ninguém se casaria com uma ex-bruxa. Principalmente porque nunca existirá ex-bruxa. Uma vez conhecedora da magia, não adianta tentar se converter. As pessoas que eram consideradas bruxas, mesmo que fossem perdoadas pela Santa Madre Igreja, jamais obteriam o perdão. Mesmo demonstrando arrependimento, elas acabariam mendigando, pois o povo nunca mais as olharia com os mesmos olhos. Uma vez pagão, sempre pagão. Se eu tivesse aceitado o que o meu pai havia me sugerido, teria que viver sob vigilância constante e só sairia de casa acompanhada por um guarda e uma aia de confiança do conde. Meu pai também poderia ser chamado a qualquer deslize meu e poderia castigar-me, se assim achasse 231
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus necessário. Uma pessoa que estava em uma situação como a minha, quando morria, era jogada em valas ou enterrada em locais exclusivos para hereges, excomungados e pagãos. Não obtinha da Santa Madre Igreja autorização e o direito de ser enterrada em um cemitério público ou em um local sagrado. Na maneira de ver desses hipócritas, Deus também não perdoava os pecadores e os hereges. Eram pessoas que pregavam a palavra do Criador sem ter o menor amor no coração. Mas, se Deus não perdoava ninguém, então por que ele mesmo disse Sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, nunca morrerá? A única coisa que Jesus realmente fez foi pregar o amor e o perdão. Ele também nos ensinou que só o Pai poderia julgar-nos e mais ninguém. Isso me pesou na alma naquele momento. Se Jesus Cristo foi só perdão e bondade, como poderia o ser humano, cheio de corrupção, com coração carregado de maldade, sentir-se no direito de injuriar e julgar o seu próximo? Por que ser diferente era um crime, um pecado? Por que tinha que haver somente uma religião que pregasse sobre o Cristo verdadeiramente? Por que tudo era heresia? Por que as missas tinham que ser celebradas em latim, se a maioria da população mal sabia assinar o próprio nome? Aos pobres, quando lhes era permitido assistir uma missa, tinham que ficar do lado de fora da igreja. Os negros nem da porta podiam passar. Se a casa era de Deus, por que tanta desigualdade, preconceito e soberba? Será que o mundo mudaria algum dia? Será que as pessoas em outra época, em outra encarnação, seriam mais evoluídas? Será que os apóstolos também tiveram dúvidas? Pois elas me pesavam o ser. Que triste ter que fazer parte de uma humanidade tão desigual! - pensei, por fim. Então, deixei-me levar pela paisagem... A caminho da cidade, fui observando tudo ao meu redor nos mínimos detalhes, numa espécie de despedida fúnebre. Adorava a cidade de Salamanca, com suas enormes montanhas e árvores. Esta cidade mágica enfeitiçava os olhos de quem quer que por ela passasse. Salamanca é uma província raiana da histórica Região de Leão, na Espanha, e situa-se a nordeste de Portugal. Também é influenciada pela bacia do rio Douro. Sua denominação, em idioma local antigo, era doiri. Essa região chegou a sofrer influências romanas, árabes e diversas outras mais sutilmente. É uma terra de clima ameno e topografia variada. A cidade é situada em local mais plano, mas com montanhas ao norte e ao sul. Dona da penúltima catedral gótica construída na Espanha, como seus maiores tesouros encontramos: a Universidade de Salamanca, a segunda universidade mais antiga da Europa, fundada no ano 1218 por Alfonso IX de Leão; as Catedrais Nova e Velha; Plaza Mayor; Ponte Romana, e outros, sem fim. Seu título deve-se ao fato de o arenito, utilizado em suas antigas construções, apresentar coloração levemente dourada clara. De acordo com a luz, pode-se verificar que o título faz juz à sua beleza. Em suas terras, são produzidos vinho e azeite, e há alguma criação de ovinos e caprinos. Não possui temperaturas extremas de calor e frio, e recebe pouca afluência de chuvas. Já em suas montanhas, pode-se verificar mais abundância pluvial. O mais rico de Salamanca talvez seja sua história secular, onde se verifica acontecidos inusitados. Cristóvão Colombo mesmo chegou a passar pela cidade. Nela tivemos a Inquisição e a migração de judeus, portugueses, árabes e tantos outros mais que compunham seu quadro histórico. Também devido à sua localização geográfica, sofreu influência de correntes celtas em dados momentos e ocasiões. Talvez daí venha sua significação. Salamanca, com certeza, seria no futuro um local onde as minhas irmãs poderiam se encontrar. Sonhos, belezas e histórias. Tudo isso passava na minha frente. Eram pequenos momentos dos quais eu sentiria saudade. Residia dentro daquela cidade uma força maravilhosa e que o tempo nunca poderia apagar. Nenhuma maldade poderá acabar com a magia de Salamanca. Isso eu sabia porque estava em meu coração. Minha alma estaria ali para sempre. Poderiam me tirar tudo, menos os sonhos e as lembranças dessa formosa província. Eu era realmente apaixonada por Salamanca, pelo meu país, minha Espanha... Viajei mentalmente, percorrendo toda aquela terra maravilhosa com meus pensamentos e lembranças. Só fui interrompida quando chegamos à cidade e pude ouvir o alarido das pessoas que estavam nas ruas, naquela manhã de fim de outono. Pareciam estar sabendo que eu ia ser levada a julgamento, pois seus olhos curiosos e amedrontados não desgrudavam da 232
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus carruagem que estava em disparada. As pessoas fizeram uma espécie de procissão nas laterais das ruas, de um lado a outro. Multidões aglomeravam-se nas calçadas. Ouvi gritos e xingamentos, mas não sabia decifrar nenhuma daquelas palavras que, por certo, não eram de misericórdia ou de afeto. Impressionante como más notícias chegam rápido! Voam nas asas do vento. Minhas mãos e meus braços já estavam começando a doer e a ficarem dormentes. Percebi, também, que meus punhos estavam arroxeados. O pior é que nem poderia mexê-los muito, pois a corda estava muito arrochada e poderia cortá-los, com certeza. Minha boca estava seca e sentia medo e fome. Que combinação sem requinte! Meu pai não estava dentro da carruagem comigo. Acompanhou-nos a cavalo. O guarda que me escoltava não me pareceu muito amistoso. Olhava-me com certo pavor, escondido atrás do semblante fechado. Resolvi permanecer calada, pois o medo nas pessoas é geralmente muito perigoso. Elas acabam usando a violência como uma forma de defesa. Então, por sensatez, evitei até respirar muito alto. O cocheiro corria tanto que parecia que iria tirar o pai da forca. Meu estômago começou a embrulhar de tanto que sacudia a carruagem. Elevei meu espírito ao céu em orações. Em um instante, estava longe de tudo aquilo. Fechei os olhos bem apertados, para olhar para dentro da minha alma, tentando achar algum lugar tranquilo. Quando nos concentramos muito, chegamos a lugares imaginários. Mas, naquele momento, só queria me concentrar naquela magnífica paisagem de Salamanca à minha frente. Viajei mentalmente por todo aquele cenário. Senti meu corpo leve. Era como se o meu perispírito estivesse se desprendendo naquele exato momento. Era uma forma de socorro mental. Eu estava tentando encontrar a paz e segurança dentro de mim mesma. Realmente, precisava desligar-me daqueles acontecimentos - ou acabaria ficando louca. Cheguei até a esboçar um sorriso causado pelo nervosismo em que me encontrava, mas o guarda cutucou-me com a ponta do fuzil, fazendo-me sair do meu estado de transe. No mínimo, deve ter pensado que eu estaria maquinando algo – ou, quem sabe, naquela mente poluída, ele imaginou que eu já estivesse incorporada por algum súcubo. Súcubo é um demônio com aparência feminina, que invade o sonho dos homens. Fazendo isso, eles podem corromper totalmente a pessoa. Súcubos são demônios que se alimentam da força sexual das pessoas. Quando estes demônios invadem o sonho de uma pessoa, eles tomam a aparência do desejo sexual delas e os atacados têm a melhor experiência sexual de suas vidas nesses sonhos. A energia que vem do prazer do atacado é sugada pelos súcubos. A palavra succubus vem do verbo em latim que quer dizer deitar-se sob. Íncubos são demônios masculinos que afetam as mulheres. Ambos sempre agem à noite, enquanto suas vítimas dormem. Para o meu entender, nada mais era do que uma pessoa com seus desejos sexuais reprimidos. E isso acabava aflorando durante o sonho, quando o corpo está livre de represálias. Mas, por ter a mente ignorante e ingênua, esses pobres tolos saíam a confessar tais sonhos aos padres, que, por sua vez, condenava-os, dando-lhes várias penitências e castigos abomináveis. E se o sonho prosseguisse - o que quase nunca acontecia, porque, logicamente, quem seria louco de ser torturado tantas vezes? - o padre ou responsável diria que o infeliz estarva dominado por demônios da luxúria. Nem quis pensar no que aquela mente libertina à minha frente poderia estar pensando a meu respeito. No mínimo, achava que eu estava tendo delírios imorais porque esbocei um sorriso. Mediante aquela cutucada, abri meus olhos rapidamente e comecei a olhar pela janela, já que nem com os meus pensamentos eu podia ficar sozinha. Ao passarmos frente à igreja de padre Ignácio, vi um cortejo fúnebre. O senhor Manoel Borges havia falecido. Houve certo comentário que poderia ter sido por causa da peste, mas nada havia sido comprovado. Todos pareciam não querer falar sobre o assunto, sendo que a peste era considerada uma doença do diabo. Próximo à praça principal, algumas moçoilas desfilavam em seus belos trajes e, ao ver passando a carruagem em que me encontrava, viraram de costas imediatamente, 233
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus impulsionadas por suas aias. No mínimo, pensavam que eu jogaria um feitiço sobre elas ou, quem sabe, transformá-las-ia em sapo ou coisa parecida. Além de ter me tornado a única atração do condado, também havia me tornado uma aberração da natureza. Sei que, naquela manhã, não tive a oportunidade sequer de olhar-me ao espelho, mas tinha certeza de que em minha face não haviam nascido verrugas da noite para o dia. E sabia que, em meus cabelos, embora despenteados, não tinham cobras mostrando a língua. Mas, quando eu olhava para os rostos amedrontados daquelas pessoas, era isso que elas passavam para mim. Senti-me um monstro, uma aberração da natureza. Quando chegamos, finalmente, frente ao tribunal local, uma multidão já se reunia, aguardando a chegada da atração principal - no caso, eu. Algumas pessoas estavam carregando foices e paus nas mãos. Outras trouxeram cesta de legumes e ovos podres. Senti um calafrio repentino invadir todo o meu ser ao ver toda aquela gente aglomerada em frente ao tribunal. Por instantes, achei que nem chegaria a julgamento. Os demônios não me fariam mal. Mas, com certeza, poderia esperar tudo daquelas pessoas. Na verdade, sabia que naquelas atitudes ameaçadoras elas estavam demonstrando uma forma de autodefesa. Isso foi o que me assustou: o medo que elas sentiam de mim poderia surtir reações diversas em cada uma delas. As pessoas, quando estão sendo influenciadas ou passando por uma histeria coletiva, podem ser muito perigosas, em todos os sentidos. Fui despertada daquele transe de medo pela voz estridente de um homem. Estiquei o pescoço para ver. Era a voz do chefe da guarda, gritando do lado de fora da porta tribunal. Aquele homem espalhafatoso deixou-me ainda mais aflita com o seu abanar de braços e gritos estridentes. Ele era um homem alto e muito magro. Parecia ter saído de uma catacumba, pois sua cor muito pálida e seus olhos extremamente esbugalhados eram assustadores. E aquele bigodinho, então? Todo engomado sabe-se Deus pelo quê! Arrepiei-me dos pés à cabeça ao ver aquela figura exótica e nada convencional. Sua farda não lhe caía bem, pois ficava curta nas bainhas e justa demais nas pernas e braços. Eu até poderia ir para a fogueira, mas não consegui deixar de observar o desleixo de quem estava tentando achar algum defeito em mim. O homem, definitivamente, parecia-se com um boneco fantoche, personagem de alguma cena de um teatro de horror. Engoli o riso mais uma vez e continuei a detalhar aquele pobre infeliz que havia caído nas minhas graças. Se eu estivesse no escuro e sem ninguém por perto e aquela figura tivesse aparecido de repente, no meio do nada, juro que cairia dura e tísica ao chão. Santo Deus, tenha pena de minha alma, pensei comigo! Estava sendo soberba e insana. A cada instante, ficava mais desesperada. Isso fazia com que a minha mente começasse a ter devaneios de tolices. No fundo, não queria acordar para a realidade dos fatos - o que explicava certos pensamentos ilógicos para o momento em questão. Embora eu tivesse tentando manter meus nervos sob controle para não cair em prantos e demonstrar fraqueza, estar amarrada como um animal e vigiada por aquele soldado na minha frente estava me deixando psicologicamente desorientada. Às vezes, quando estamos muito assustados, não conseguimos sequer ouvir o som que sai da boca das pessoas. Só vemos que elas mexem os lábios. Era o que estava acontecendo comigo. Eu estava quase em choque e, por isso, minha mente tentava ser irracional. Era como se ela estivesse me protegendo de um colapso repentino. Depois de respirar profundamente, esvaziando a minha mente, voltei à realidade de novo. Lá estava o homem comprido a falar e gesticular. Foquei-me em seus lábios para sair daquela surdez mental e poder ouvir o que o chefe da milícia estava dizendo. Por fim, depois de muito esforço, consegui sair do devaneio e ouvi o que estava sendo dito: _ Vamos, minha gente! Deem passagem para um oficial em serviço. O show ainda não começou. Vão se afastando da carruagem e dando-me licença, para que faça meu trabalho como se deve. Aqueles braços compridos iam abanando e afastando a multidão que, aos poucos, foi abrindo passagem. Uma menina fez-me uma careta e a mãe logo tratou de tapar os olhos da pobre. Ela só estava brincando, mas a mãe deve ter achado que eu a transformaria em uma boneca. 234
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ A que horas vão queimar a bruxa? - perguntou uma velha senhora. O chefe da guarda, porém, respondeu-lhe, parecendo não estar interessado em dar muitas respostas: _ Vamos deixar que os responsáveis respondam a todas essas perguntas na hora certa, minha senhora. Primeiro, ela deverá ser interrogada. Depois disso é que saberemos quais as medidas serão tomadas. Por fim, depois de muito esforço para abrir caminho por entre a multidão, o capitão da milícia conseguiu aproximar-se da carruagem. Abriu a portinhola, olhou-me seriamente, sem nenhuma palavra a dizer, e foi desamarrando meus pulsos. Meus braços pareciam estar mortos, devido ao tempo que ficaram suspensos. O chefe da milícia tirou-me da carruagem aos safanões. Ele não estava com medo de mim, mas tinha que mostrar ao povo que tinha autoridade. Fui, em seguida, amarrada novamente. Só que, dessa vez, com os braços para trás. Comecei, a partir daquele momento, a sentir que minha liberdade tinha sido tirada de mim para sempre. As pessoas que estavam do lado de fora do tribunal sussurraram coisas absurdas. Outras, ainda, gritaram como se vissem em mim algum tipo de forma deforme. O pânico de algumas delas causou uma histeria coletiva. Os poucos guardas que existam ali mal conseguiam controlar a multidão que havia se formado na porta do tribunal. Subi a escada empurrada e quase recebi o golpe de uma pedra que um fazendeiro lançou em mim. Já dentro do tribunal, fui obrigada a ficar sentada por horas em um corredor escuro, pois o magistrado e o inquisidor ainda não haviam chegado. Fiquei observando o corredor. Metade das paredes era de madeira e a outra metade era decorada por enormes quadros. Um imenso lustre estava pendurado sobre a minha cabeça. Seis bancos compridos seguiam em fileiras corredor adentro, um ao lado do outro. A porta de entrada era imensa e pesada, e a porta a sala de audiência era dupla e muito alta. Era um lugar muito frio. Não tinha nenhuma planta ou decoração que harmonizasse o ambiente. Tinha certo clima de tristeza no ar. Era como se as almas do purgatório gritassem por clemência o tempo todo ali dentro. Eu estava parecendo um porco espinho, de tão arrepiada que fiquei ao perceber que aquele lugar era um grande portal para os espíritos sem luz e em aflição. Dentro da sala de audiência, reuniam-se algumas pessoas ilustres e importantes, como: o conde Alfred; o chefe da milícia, senhor Antônio Santos; os dois maiores representantes paroquiais, padre Ignácio Manuel, padre Alencar Sorancco; madame Hortência Rivald; a condessa Marli Von Del Prat; meu pai, Juan Vladimir Porto Señra; senhor Álvaro Lancastro; lady Dornellas Carrucci; um representante legal de sua majestade o rei, o Lord Marllon D’ Runchieir; o Lord. Octávio Güllians III; o sobrinho de sua majestade a rainha, o duque Philip Gonzáles; e, por último, o senhor Emanuel Tostes, que representaria o povo legalmente e por todos faria as perguntas, se necessário. Esse tipo de coisa praticamente não acontecia, pois o representante do povo apenas servia para levar as notícias do que se passava dentro da sala de audiência, já que o povo, em certos momentos, não podia estar presente. Por volta de onze e meia, chegaram o magistrado Narcíseo de Freitas e o inquisidor Nicolau Neufrien. E, para o espanto de todos, vieram acompanhados do bispo, Dom Helvécio Hernandez, e do Prior Eurico Pastorino de La Constance. O alarido foi tamanho quando o homem desceu da carruagem que, de dentro do corredor do tribunal, pude ouvir. E até mesmo eu, que já não esperava mais nenhuma surpresa, fiquei completamente extasiada ao ver tal figura ilustre. Ao passar por mim, olhou-me de soslaio, demonstrando desprezo absoluto. Seu olhar era severo e gelava até os que já estavam mortos. Ele era um homem alto e forte. Sua presença era de imponência. Dom Helvécio Hernandez era muito comentado por seus feitos e proezas pela forma como julgava os condenados de feitiçaria. Diziam que as suas torturas eram implacáveis e que não havia quem não confessasse todos os pecados a ele. Ele vestia uma túnica negra comprida. Em sua cabeça, havia uma mitra preta e vermelha. Ele aparentava ter uns setenta anos de idade. Pela forma sisuda do rosto, por certo nunca em sua vida soubera o que era um sorriso. Eu sabia que seria severo e impiedoso comigo. O homem 235
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus não era um emissário da Igreja, mas sim um emissor de Lúcifer. Quando ele estava passando perto de mim, ventou forte e o cheiro que pairou no ar foi de enxofre. Mas o mais estranho era que todas as portas estavam fechadas. Havia algo de malévolo nele. Pude jurar que uma sombra entrou ao seu lado na sala de audiência. Definitivamente, aquele homem não era um ser humano. Até aquele momento, não pude ter certeza se a sombra era uma ilusão da minha mente cansada e nervosa, ou se realmente a sombra entrara na sala com Dom Helvécio. Olhei para todos os lados, mas nada vi. Até que, de repente, lá estava ela, flutuando como um lençol negro sobre a porta da sala de audiência. Era uma criatura irreal, com rosto deforme, olhos vermelhos e um sorriso apavorante na boca. Quase não dava para se ver nitidamente, mas os olhos foram o que mais me assustou, pois demonstravam que era um demônio devorador de almas. Ficou pairando alguns minutos, parecendo estar procurando uma vítima para se apossar da sua alma. Tive que me manter bem discreta para que ele não percebesse que eu podia vê-lo. Pois, quando um demônio como aquele percebe que podemos vê-lo, por certo se torna muito mais perigoso. Depois de alguns minutos, pensei que ele tivesse ido embora. Mas, logo em seguida, ele estava sobre a minha cabeça e sua forma incorpórea já havia mudado de novo. Desta vez, ele parecia ter criado asas de morcego. A figura deforme olhou-me com ar zombeteiro e maligno. Eu, por minha vez, baixei os olhos, tentando não demonstrar nenhuma reação. Se a morte tinha uma forma, ali estava ela, na minha frente, olhando para mim. Confesso que fique fiquei apavorada. Percebi que, além de apavorante, era um zombeteiro, pois podia mudar de forma. E ele, ao perceber que eu podia vê-lo, agarrou-se nas paredes com suas unhas compridas e começou a correr pelo teto. Depois, voltou para a porta da sala de audiência e sorriu-me, mostrando sua língua de cobra. Certos espíritos acompanham as pessoas quando elas têm um coração muito perverso. Tais espíritos são vulgarmente chamados de demônios, atraídos por nossas energias - sendo elas negativas ou positivas. Ou seja, se vibrarmos boas energias, vamos atrair bons espíritos. Mas, naquele caso específico, o espírito já havia tomado conta daquele corpo. Ambos eram praticamente um só ser. Dom Helvécio estava carregando sobre o corpo todo o peso das injustiças que cometera contra suas vítimas. Aquele demônio era o seu julgador e, quando ele viesse a morrer, com certeza ele seria o seu algoz e o faria ver as atrocidades cometidas em vida. Por certo, Dom Helvécio havia julgado muitas pessoas levianamente. O que eu achava mais interessante era saber que esses homens de Deus faziam parte de um clero e se diziam ter o poder de julgar e exorcizar as pessoas supostamente endemoniadas, mas não conseguiam ver o demônio que estava possuindo o seu próprio corpo. Certos espíritos atormentam seus obsediados da pior forma possível. As formas mais comuns de obsessão são: a obsessão simples, a fascinação, a auto-obsessão, o obsessor por amor e o suicida. O ser humano é objeto e alvo do processo de obsessão constantemente. O obsediado trata-se de alguém cujo débito é muito elevado diante da lei divina. No plano de evolução espiritual em que se encontra, nosso planeta é um local de expiação, no qual se concentra um grande número de espíritos vibrando nas mais baixas frequências possíveis. Esses espíritos vivem presos a situações emocionais de ódio, raiva, egoísmo, amor não- correspondido, entre outras emoções. Estão de tal forma presos ao plano físico que muitos acreditam ainda estar em seus corpos carnais. Assim, vivem próximos das pessoas com as quais um dia conviveram, afastando-se dos planos espirituais mais elevados e atrasando sua reencarnação. Entre esses espíritos, ainda existem aqueles que têm a consciência de que estão mortos e de que já não habitam mais um corpo físico. Mas, como ainda estão presos às vibrações muito baixas do mundo espiritual, realizam ações que visam a prejudicar os vivos e atrapalhar ao máximo a vida e a evolução espiritual de suas vítimas encarnadas. Esses espíritos são os que chamamos de obsessores. Sua sensibilidade à Luz Divina foi embrutecida pelo tempo e por sua natureza moral. Eles ficam estagnados num círculo vicioso e numa obstinação tão intensa que não é raro se esquecerem de quando e do porque de tudo ter começado. Na maioria das vezes, estão tão cansados e vivem há tanto 236
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus tempo nessa condição que não sabem mais como caminhar em direção ao esclarecimento e à Luz de Deus - necessitando, assim, de toda ajuda que lhes possa ser fornecida. É fácil para nós imaginarmos o surgimento de tais obsessões pelo caminho do ódio. Afinal, sabemos do que os homens são capazes quando tomados pela raiva descontrolada. Mas também surgem obsessões, até mais graves, em virtude do amor. O amor gera correntes que, unidas a outros sentimentos como egoísmo, apego, carência afetiva intensa, falta de auto-estima, podem produzir obsessões. A revolta, a dor e a raiva podem mudar a energia do amor. Basta que exista um grande apego alimentado por um forte egoísmo, gerado num coração que viva uma grande carência, e teremos um espírito que sentirá uma grande dificuldade de se separar dos entes queridos. Como o amor e o ódio estão separados por uma barreira quase imperceptível, em algumas oportunidades imaginamos que um espírito está com ódio - quando, na verdade, ele pode estar escondendo a dor de um amor não correspondido. Ou até mesmo pode ser uma entidade que ainda quer manter o apego que tinha em vida, agindo de forma a manter a outra pessoa presa ao círculo de sentimentos que demonstrava quando o espírito estava encarnado. De todas as formas de obsessão, a gerada pelo amor é a pior de todas, pois aquele que ama sequer pode imaginar ou aceitar que, na verdade, está atrapalhando seus entes queridos. Ele acredita estar ajudando-os, supondo que não poderiam viver sem sua presença e auxílio. A relação entre o obsessor e suas vítimas é variada e segue por caminhos tortuosos, mas que inevitavelmente levam à degradação física e moral do obsedado - o que, por fim, pode levar à vitória do espírito obsessor. As obsessões são as ações que influenciam os vivos, estimulando reações e semeando a discórdia e o ódio, nascido da força exercida pelos espíritos inferiores. Eles influenciam maleficamente, como os demônios das histórias bíblicas. Assim como ocorre nessas histórias, as formas de o obsessor atuar também são sutis e intangíveis. Só após muito tempo é que se tornam evidentes. Nunca devemos tentar fazer um exorcismo ou desobediar sozinhos, porque não sabemos o grau da obsessão no qual se encontra o indivíduo. Sem contar que o espírito pode também interferir na vida de quem tentar atrapalhá-lo. Ele pode até mesmo se irar contra a terceira pessoa. Nunca tente fazer um acordo com um espírito. Isso nunca funciona e o obsessor pode passar a obsediar a quem lhe faz o acordo também. É muito fácil saber quando uma pessoa está sofrendo de obsessão, pois se tornam visíveis as alterações de comportamento físico, mental e emocional. Tais como: olhar fixo, esgazeado ou fugidio, sem encarar ninguém; tiques e cacoetes nervosos; desalinho ou desleixo na aparência pessoal; excentricidade comportamental; agitação; inquietude; intranquilidade; medo e desconfiança injustificáveis; apatia; sonolência; mente dispersa; ideias fixas; excessos no falar; no rir; mutismo ou tristeza; agressividade gratuita, difícil de conter; ataques que levam ao desmaio; rigidez; inconsciência; contorções; pranto incontrolável e sem motivo; orgulho; vaidade; ambição ou sexualidade exacerbados e exagerados. Quando a pessoa volta ao normal, após uma crise, geralmente queixa-se do domínio sofrido e lamenta atos infelizes que praticou. Na fascinação, os demais notam a fantasia, o fanatismo, a fixidez, o absurdo das ideias. Só a pessoa obsediada não nota. Fiquei ali por horas, tentando achar uma qualificação para aquele espírito cuja forma mal se podia ver. Aquele inquisidor não sabia, mas, se houvesse um julgamento divino, ele seria o primeiro a morrer queimado. Pois aquele obsessor era o seu algoz espiritual e seria o primeiro a condená-lo. Todos estavam dentro daquele tribunal havia horas. Até os espíritos malignos ocupavam seus lugares de destaque. Enquanto eu, reles bruxa, permanecia sentada em um banco duro, isolada de todos, no escuro, amarrada com as mãos para trás e sendo atormentada pelo obsessor de um monsenhor, que se sentia no direito de me julgar e condenar. O que eu havia me tornado para aquelas pessoas, um animal? O que de tão grave eu havia cometido? Será que ter uma ideia própria e formada fazia de mim ou de alguém uma pessoa endemoniada? Comecei sem querer a deixar que a revolta tomasse conta de mim. Afinal, quem sabe com tantos demônios sobre o meu corpo eu 237
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus poderia sair e engolir alguém? Com tantas criancinhas deliciosas à solta, imagina o que eu não poderia fazer! Isso, por certo, eu não faria - é lógico. E eles nem desconfiavam que o demônio-mor tivesse acabado de entrar e estava lá dentro, no meio deles. Sacudi a cabeça com indignação. Ingênuos, pensei em voz alta. Pedi ao guarda que estava parado à minha frente, em posição de estátua, que me desse um copo d’água, mas ele permaneceu em posição ereta. Exclamei várias vezes, implorando-o, mas o homem nada fez. Acho que ele era mesmo uma estátua. Mas juro: não fui eu quem o transformou. Era como se eu fosse translúcida para aquele soldado. Não fazia a menor diferença se eu morresse ou não. Meus braços começaram a doer novamente. Toda aquela situação estava me deixando completamente louca. Estava tendo alucinações e devaneios. Já não conseguia distinguir o certo do errado, a verdade da mentira. Houve hora em que eu acreditava que eram verdadeiras aquelas acusações contra mim. A falta de comunicação e o silêncio absoluto, causado pelo desprezo daquele guarda à minha frente, já estavam realmente começando a afetar os meus nervos. Estava cansada e precisava dormir um pouco para descansar a mente. Fiquei me lembrando de como era bom poder cochilar dentro de uma tina com água quente. Fui criada por Maria e, devido aos seus costumes e à tradição, ela me ensinou a tomar banho todos os dias. Muitas vezes fazia isso às escondidas de todos, em meus aposentos, pois não era o costume europeu. Na verdade, as pessoas não eram apenas imundas de pensamentos, mas também seus corpos tinham um cheiro fétido. A senhorita D’Lú contou-me, certa vez, sobre os estranhos costumes da corte europeia, onde a maioria das pessoas casava-se no mês de junho, início do verão, porque, como tomavam o primeiro banho do ano em maio, o cheiro delas ainda estava mais ou menos tolerável. Entretanto, como já começavam a exalar certos odores, as noivas passaram a ter o costume de carregar buquês de flores junto ao corpo, para disfarçar, assim, o mau cheiro. Os banhos eram tomados numa única tina, enorme, cheia de água quente. O chefe da família, o rei ou monarca, tinha o privilégio do primeiro banho na água limpa. Depois, sem trocar a água - reparem que lindo!-, vinham os outros homens da casa, por ordem de idade, as mulheres, também por idade e, por fim, as crianças. Os bebês eram os últimos a tomar banho. Portanto, quando chegava a vez deles, a água da tina já estava tão suja que era possível perder um bebê lá dentro. Ainda bem que meu pai havia sido doutrinado por minha mãe e mantinha quatro tinas em nossa casa. Meu pai nunca fora um homem de tomar muitos banhos, mas também não se preocupava se tomássemos com frequência. Em compensação, sua adorada esposa só tomava banho quando precisava ir a uma festividade. Confesso que seu odor era fétido e, misturado às caras fragrâncias francesas, dava-me náuseas. E isso piorava no verão. Comecei a achar graça daqueles pensamentos tolos e sem lógica. Estava à beira de uma condenação e ainda conseguia ver graça naquelas pessoas. Estava ficando tonta; precisava comer alguma coisa. A falta de alimento, principalmente pela manhã, causava-me tonturas e certos devaneios. Não podia pedir socorro naquele local, pois poderiam achar que o demônio já estava se manifestando. Tive de me manter calma, fria e controlar os devaneios causados pela falta de algo doce, principalmente. Por isso, Maria sempre se preocupava em me fazer comer pela manhã e forçava-me a comer algo nos intervalos das refeições. As vertigens começavam a me causar devaneios. Estava sentindo a visão turva. Comecei a cochilar, quando uma voz suave me chamou: _ Anna, precisa manter-se lúcida. Não poderemos ajudá-la se não estiver consciente. Anna, acorde! Só poderemos ajudá-la com a sua mente em total estado de lucidez. Abri os olhos lentamente e vi um homem belíssimo, vestindo uma túnica muito branca de um fino linho. Seus cabelos eram cacheados e loiros e caíam sobre os ombros largos. Seus olhos eram de um azul inigualável. Tinha as faces rosadas e os lábios grossos. A pele mais parecia uma fina porcelana. Sua luz deixou-me quase cega. Quando eu já estava totalmente despertada, ele abriu-me um largo sorriso e falou-me: _ Sabe por que estou aqui, não? _ Sim, Heixe. Faço uma ideia. 238
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Ele abaixou e segurou o meu rosto com a mão, que mais parecia um pedaço de seda. Era a primeira vez que me tocava. Foi bom sentir um pouco de carinho, pois estava totalmente indefesa e carente. Depois de afagar meu rosto e meus cabelos, o espírito falou: _ Vim auxiliá-la, mas preciso que tente reagir. Sei o quanto é difícil para você estar passando por tudo isso. Mas esse foi o caminho que escolheu. Não fraqueje agora. Ainda tem muito chão pela frente. _ Eu sei, mas meu corpo dói tanto! Estou fraca e com fome. Talvez tivesse sido melhor se eu tivesse escolhido o destino que queriam impor a mim. Talvez seja melhor eu negar tudo e dizer que estava sob influência maligna. Estou cansada... Não quero mais lutar, por Deus. Faça-os parar, por favor! _ Anna, sabe muito bem que não posso voltar o tempo. Mesmo que negue quem é, não mudará o seu jeito de ser. Liberte-se de todos esses pensamentos e alimente-se com orações. Seu espírito está fraco e, por isso, seu aparelho apresenta fraqueza. Só o amor do Pai Maior pode sustentá-la nesta hora de dor. Anna, minha doce Anna... Como pode esquecer tudo o que aprendeu? Naquele momento, uma estranha força penetrou meu corpo e entrei em total sintonia com Heixe. Juntos, fizemos uma oração mental. Meu espírito foi levitando, até que saí do meu aparelho e me vi fora do chão. Uma imensa luz cercou todo o corredor escuro e frio. Uma paz tomou conta de mim. Meu corpo já não sentia dor ou frio, muito menos fome. Suas mãos alimentaram-me e curaram-me. Havia uma harmonia no ar e uma doce melodia que imitava os sons das harpas dos anjos. Naquele estado, pude ver meu aparelho em repouso. Parecia ter envelhecido uns três anos naquelas últimas horas. Olhei, também, para o guarda que vigiava o meu aparelho. Pude perceber uma áurea de tristeza em torno dele - o que justificava aquela forma inerte e sem reação aparente. Olhei para Heixe. Ele parecia ter percebido o que eu estava vendo. Então, emanou vibrações de entusiasmo para aquele homem, que estava também precisando de misericórdia. Depois, Heixe pegou-me pela mão e guiou-me por entre as paredes, seguindo até a sala de audiência. Por instantes, cheguei a pensar que havia morrido, mas Heixe explicou-me que eu estava viva e presa pelo cordão de luz que me segurava ao meu aparelho. Dentro da sala de audiência, havia um comitê formado por muitos lordes, pelo bispo, o prior, entre outros que estavam discutindo o meu caso. O murmúrio no local era muito grande, o que me deixou tão confusa, quase não conseguindo entender o que realmente estavam falando. Passei por todas aquelas pessoas, mas não puderam me ver. Olhei para o bispo e lá estava a sombra negra, pairando sobre ele. Na verdade, a maioria das pessoas que estavam naquele recinto tinha um obsessor como companheiro. Sabia que aqueles espíritos já haviam sido seres humanos um dia. Mas, agora, pareciam estar em decomposição, chorosos, agonizantes... Pareciam terem se levantado das catacumbas. A maioria era obsessora. Outros, parentes que só queriam orações. E outros imploravam para que os ouvissem. Aquilo, sim, era o purgatório. Por isso, todos eram tão desnorteados daquele jeito. Com tantas pessoas falando em suas cabeças ao mesmo tempo, como poderiam ter ideias próprias? Meu corpo levitava sobre aquelas pessoas e seus espíritos atordoados. Estava confusa. Na verdade, ainda não havia me dado conta de minha atual condição. Esse é um estado em que o espírito não deve permanecer por muito tempo fora de seu aparelho. Isso é muito perigoso e inconsequente, mas confiei em meu mentor espiritual, pois ele sabia de minhas limitações. Pude ouvir o que o inquisidor estava falando e, com isso, sabia com exatidão qual resposta teria que dar. Na verdade, eles estavam mais assustados do que eu, como se isso fosse possível. Eu teria que ter muito tato ao lidar com aquelas pessoas, pois, por serem completamente leigas no assunto da espiritualidade, poderiam colocar todos os meus planos a perder. Escolhi aquela sentença e, daquele momento em diante, teria que ter liderança sobre minhas palavras, pois qualquer deslize poderia condenar-me à fogueira. 239
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Precisava encontrar o meu monge. Sabia que ele estava me esperando. Mesmo que todo o sofrimento que eu tenha passado tenha sido pesado demais, nunca me arrependi do que fiz, pois cada momento que vivi ao lado do meu amor valeu a pena. Mesmo que ele tenha me traído... Aquela necessidade dar-me-ia forças de prosseguir com a minha decisão. Podia senti-lo. Sabia da sua infelicidade. Sabia como ele estava sozinho e sem vontade de viver. Meu sofrimento estava ligado à solidão na qual ele se encontrava. Éramos um só ser. Estava muito perto para desistir agora. Dei prosseguimento ao aprendizado de Heixe e deixei que ele me mostrasse o que me esperava. A senhora gorducha que estava em minha casa, essa sim, era um grande problema: a cada discussão, ela colocava mais lenha na fogueira. Ela só estava ali por ser filha de um falecido e rico proprietário de muitas terras. Por ser uma dizimista aplicada e mão aberta, tinha o direito de permanecer entre os poderosos, enquanto isso lhes fosse conveniente. Nunca havia se casado ou namorado em toda a vida. Só se dedicou à Igreja e aos preceitos religiosos. Sua língua felina era bastante útil nestes casos de acusações. Principalmente porque ela julgava saber da vida de todos do condado. Na verdade, ela queria algo para comentar durante sua quinta geração. Em um povoado tão pequeno como aquele, não se tinha muitas coisas para se contar. Heixe segurou minha mão e continuamos a ver o quanto as pessoas cochichavam entre si. Os olhos da condessa pareciam mortos, visando o nada. Era como se ela estivesse em êxtase. Por trás de tanta soberania e arrogância, pude perceber a mulher infeliz e sem vida que ela era. Seu espírito tinha uma cor cinza e parecia muito solitário. O conde não se desgrudava de meu pai. Ambos pareciam estar tramando o tempo todo. Algo estranho naquela amizade começava a me intrigar. Não era só um simples interesse em me casar com aquele homem. Existia uma espécie de trama política e financeira. Meu pai fingia não saber que a esposa era cortejada por outros homens e pelo conde - isso era conveniente demais. Comecei a ver as coisas como realmente eram. Aproximamo-nos deles, tentando ouvir o que diziam, mas o alarido de vozes não nos deixou entender. Por fim, Heixe achou que já era hora de retornar para o meu aparelho. E foi bem a tempo, pois o magistrado havia pedido para que me buscassem para o interrogatório. Como em um flash, meu espírito passou rapidamente por todas aquelas pessoas, atravessando as paredes e jogando-se em meu aparelho inconsciente. Senti como se um raio atravessasse meu corpo. Acordei de supetão, já com dois guardas ao meu lado, sacudindo-me e entreolhando-se, parecendo achar que eu estava possuída. _ Levante-se! - disse um guarda ainda muito jovem, chutando as minhas canelas. Levantei-me com a ajuda do outro, que segurou meu cotovelo, dando-me certo apoio. Segui-os corredor afora. Entramos por uma enorme porta, quase negra, talhada à mão. Ao abrirem a porta pesada, fez-se total silêncio no recinto. Todos se viraram para trás, levantando-se. O júri já estava formado e o magistrado estava usando uma enorme peruca cacheada. Tanto garbo e, por certo, era careca. A peruca estava lotada de piolhos. Não conseguia parar de achar defeitos nos santos que me acusavam de megera. Deu-me vontade de rir, porque não conseguia ver como pessoas tão imorais e cheias de defeito conseguiam achar em alguém como eu um defeito. E o que é pior: inventavam mentiras atrás de mentiras para satisfazerem os egos cheios de blasfêmias. Meus pensamentos eram esdrúxulos e levianos. Mas não poderia falar. Então, pensava. Sacudi a cabeça, prometendo não pensar mais sandices. Embora já estivesse ciente do que me aguardava, senti um frio na espinha! O que mais me doeu foi ver meu pai ali, olhando-me tão friamente, como que desejando a minha morte. Não me importava o que aquelas pessoas pensavam de mim, mas o que realmente me doía era saber que alguém do meu próprio sangue rejeitava-me não por dúvida sobre o meu caráter pessoal, mas por saber que eu era um risco à sua reputação como homem e por eu não ter baixado a cabeça às suas ordens inescrupulosas. O conde olhou-me de cima abaixo, com um desdém e desejo abomináveis. Os demais presentes esquivavam-se, com medo de me tocarem e virarem pedra ou algo assim. Talvez uma pessoa contaminada pela peste não fosse tão repulsiva aos olhos deles como eu estava sendo naquele momento. Baixei a cabeça, pois sabia que quanto mais humilde eu fosse, melhor para mim seria. Sentaram-me em uma cadeirinha em frente ao magistrado. O alarido de 240
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus vozes começou novamente, assim que me sentei. O povo estava muito agitado do lado de fora, mas o magistrado e os demais queriam interrogar-me primeiro. _ Levante-se, por favor! A senhorita tem noção do porquê de estar aqui? – perguntou-me o magistrado. _ Não, excelência! Houve um alarido de exclamação, como se eu estivesse mentindo. Por fim, prossegui: _ Não tenho certeza, excelência. Estou muito confusa quanto às acusações. _ Então, nega ser uma bruxa? _ Não, excelência. Houve um alarido ainda maior. _ Nego apenas ter cometido tais crimes contra a Igreja. Sempre frequentei as missas aos domingos. Nunca faltei com a eucaristia e sempre comunguei. Mas não nego que sou uma bruxa. _ Blasfêmia! - gritou o advogado de defesa da Igreja. _ Protesto! Esta mulher frequentava a igreja quando ainda não estava possuída pelo demônio. _ Protesto aceito. A senhorita deve ser mais explícita quanto às suas palavras. Como pode não negar que é uma bruxa, mas negar estar praticando a bruxaria? _ Só conheci os caminhos da magia há pouco tempo, excelência. Mas confesso que tudo o que aprendi já estava dentro da minha alma. Lembro-me de cada símbolo. Mas nunca cometi nenhuma das atrocidades das quais estão me acusando. _ Acredito neste lado de sua história. Mas o que me intriga é como foi que conheceu o caminho que a levou a praticar coisas contra a Igreja, sendo que não tinha outra companhia além da sua governanta, como mesmo disse - já que, logicamente, é pouco provável que sua madrasta tenha se envolvido com tais coisas ilícitas aos olhos da Igreja e de Deus. Diga-me, senhorita Anna, é esse o seu nome, creio, ou o demônio também usa outro nome quando a possui? Os demais que estavam no recinto riram, formando um coro, enquanto o advogado de acusação olhava-me zombeteiramente por debaixo dos óculos. Ele era um homem gordo e de meia idade, com bochechas de cachorro. Por fim, depois daquela pequena pausa para servir de deboche, respondi de cabeça baixa, tentando demonstrar humildade: _ Sim, este é meu nome, excelência. E não, o demônio jamais esteve em meu corpo. Isso é um equívoco, excelência. _ Então afirma que sua governanta impunha-lhe cometer tais crimes? _ Não, nunca disse isso! Maria era uma santa. Ela sempre me ajudou em tudo e foi a pessoa que me criou. - fiquei nervosa. Estalando os dedos, ele disse: _ Mas tenho aqui relatos de que esta senhora – Maria, como a chamavam - vem de origem cigana, e fazia chá para a senhorita tomar durante a noite. Isso está certo? _ Sim. Eu perdia o sono à noite e Maria dava-me chás, para que eu conseguisse dormir. _ E esses chás ou poções eram feitos do quê? _ Não sei. As receitas são sempre secretas. Maria trazia-as guardadas sob sete chaves. _ Não tenho mais perguntas, excelência. – virou-se para os demais. O magistrado tornou-me a interrogar: _ Então, essa mulher, Maria, entorpecia sua mente com suas poções? Fazendo-a ficar sobre o poder do demônio, em estado de sonambulismo, a senhorita saía durante a noite e atacava os aldeões, não é isso? _ Não, nunca houve tamanha barbárie. Quando eu tomava os chás de Maria, dormia profundamente. _ Como a senhorita pode ter certeza, se diz dormir profundamente? Mande entrar o agricultor Antonio de La Paz. 241
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Trouxeram um homem magro e muito humilde diante do tribunal. O advogado levantou-se e fez-lhe inúmeras perguntas. Esse homem fazia pequenos serviços para os fazendeiros locais. Não poderia entender o que ele poderia ter com o meu julgamento, pois mal o conhecia e nem nunca na vida trocara uma palavra sequer com ele. _ O senhor é o agricultor Antonio de La Paz? _ Sim, senhor. Sou eu mesmo. _ Conhece essa mulher aí, na sua frente? _ Sim, senhor. Conheço sim. _ De onde o senhor a conhece? Poderia dizer a todos os demais presentes? Devo lembrá-lo de que está sob jura. _ Vi-a pela noite, no meio das plantações, em trajes íntimos. - ele disse isso com a voz trêmula e a cabeça baixa, pelo medo de que alguma coisa que dissesse não fosse o que lhe haviam mandado. _ Não ouvi. Poderia responder um pouco mais alto dessa vez? _ Via-a frequentemente a perambular pelos campos, à noite, quando a Lua estava alta no céu. Ela estava quase desnuda. Eu até sentia vergonha por ela. Tentei várias vezes pedir a ela que fosse para casa, porque não era certo uma senhorita ficar daquele jeito no meio as hortaliças. _ E ela o ouvia? _ Não, senhor. Parecia estar em transe. Depois é que fui saber que era uma bruxa e que estava amaldiçoando as plantações. Todos murmuraram... Ele prosseguiu: _ É verdade, sim. Logo depois, a plantação do senhor Leônidas secou por completo. Pode perguntar vós micês para ele. - ele se agitava e apontava o indicador na direção de todos. _ Então, o senhor quer dizer que esta mulher foi a responsável pela colheita do fazendeiro Leônidas não ter dado certo? _ Sim, senhor. Foi ela sim. _ Por que o senhor nunca contou tal fato às autoridades? _ Porque tive medo de que ela fizesse algo ruim contra minha família, senhor. Tive mesmo vontade de fazer algo mais naquele momento. Tive vontade de estrangular aquele estúpido, por mentir tanto e vender-se por tão pouco. Ele é quem foi negligente em seu trabalho e deixou que a plantação do homem morresse. Aproveitou-se daquela situação para que o fazendeiro não o punisse por sua falta de atenção ao trabalho. O cheiro da bebida em seus lábios era insuportável. Ele era um mau caráter e estava se fazendo de vítima. Meu acusador mandou chamar uma senhora de nome Samanta Castro. As mesmas perguntas de início foram feitas à mulher. Depois, prosseguiu-se: _ É verdade que a senhora estava grávida de uma criança? Uma menina, por assim dizer? _ Sim, é verdade. _ O que houve com a sua criança? _ Morreu. Isso foi logo depois que essa mulher apareceu perto de minha casa, à noite. _ Como assim? Poderia explicar-se melhor? _ Eu já tinha ouvido o boato de que a plantação do fazendeiro Leônidas tinha sido destruída por uma bruxa. Mas sou muito devota do sagrado coração. Então, não dei importância aos boatos. Mas, numa noite linda de Lua, eu estava colhendo minhas roupas no varal e meu bebê, que estava com dois meses, estava em uma cestinha bem perto de mim, para o caso de, se chorasse, eu o ouvisse. _ E o que houve? Conte logo, mulher. - disse o advogado, exasperado. _ Então, acabei de colher toda a roupa e percebi que algo errado tinha acontecido ao meu bebê. _ Explique-se, mulher! Pare de rodeios teatrais e vá direto ao assunto. _ Fui até o cestinho e meu bebê já não estava mais lá. Havia desaparecido como que por encanto. Gritei meu marido Jésus e fomos os dois procurá-lo. _ E o encontraram? 242
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Sim. - a mulher desabou em prantos e não conseguiu mais falar uma só palavra. O magistrado pediu para que chamassem o marido dela. _ Que entre o senhor Jésus, o agricultor, para que dê continuidade aos acontecimentos seguintes. Fez as mesmas perguntas iniciais ao homem, que mais parecia um pobre carvoeiro de tão mal vestido e sujo que estava. _ Essa mulher chamada de Samanta Castro é sua esposa? _ Sim, senhor; é sim. _ O senhor e esta mulher tiveram uma criança? _ Sim, senhor, tivemos sim. - o homem respondia com a cabeça e com a boca. _ E o que houve com a criança, afinal? _ Está morta, senhor. - o homem baixou a cabeça, num gesto de respeito e tristeza. _ E o senhor, Jésus Justos, é assim que lhe chamam, certo? _ Sim, senhor; é sim. _ Então, senhor Jésus Justos, de que morreu a criança? _ Não sei como morreu, senhor... Mas a achamos sem a cabecinha. _ Meu Deus! Que horror! - exclamaram todos os demais. _ E como, senhor Jésus Justos, acha que aconteceu essa barbárie, essa monstruosidade? Apontando para mim, sem pestanejar, ele respondeu: _ Isso não sei dizer, senhor. Mas minha esposa, aquela noite, jura que viu essa mulher que está sentada ali rondando lá pros nossos lados naquele dia. Até fui atrás dela com uma foice, mas não achei a famigerada, não. Acho que usou alguma magia para evaporar-se daquele jeito. _ O senhor tem certeza de ser a senhorita Anna? _ Disso eu tenho sim, senhor. Porque somos pobres, mas nunca haveríamos de falar mentira. Minha mulher nunca me deu motivos para eu desacreditar dela, não, senhor. E se o senhor quiser, pode perguntar por aí que vai ver que sou uma pessoa que honra as calças que veste. Todos caíram na gargalhada da maneira simplória como falava o pobre homem. Ele até poderia ser uma boa pessoa e ter uma honestidade acima do normal. Mas a esposa dele estava mentindo. Ela deixou o bebê ao relento enquanto catava as vestes do varal e, por certo, um animal pegou o bebezinho. Ela ficou tão aterrorizada com o que vira que criou essa fantástica história em sua mente. Também ficou com medo da represália do marido. E é lógico que a bruxa tinha que ser eu, quem mais? Eles supunham que tinha uma bruxa local. Mas, quando se espalharam os boatos a meu respeito, juntaram tudo e fizeram uma história. Eram muito fáceis de manipular. Caso não fossem, jamais estariam testemunhando. O julgamento prosseguiu: _ Por que não denunciaram às autoridades locais? _ Tivemos muito medo por causa que ela é uma bruxa. Ficamos com medo de que minha mulher nunca mais engravidasse, caso ela jogasse uma praga. - Será que algum de vocês, aqui presentes, tem ainda dúvidas de que essa mulher é uma bruxa, que cometia atos satânicos? Não me importa se estava ou não inconsciente. O fato é que essa mulher admitiu e existem vários fatos que comprovam a veracidade das informações. Se não estiverem satisfeitos e quiserem mais testemunhas, peço permissão para que o senhor magistrado aqui presente – logicamente, com a permissão do senhor excelentíssimo Dom Helvécio Hernandes, inquisidor de alto valor e escolhido por nosso querido rei Filipe – mostre, a caráter decisivo, as testemunhas impostas a este júri. O inquisidor olhou para o magistrado, assinalando positivamente com a cabeça, como que dando permissão para que as outras testemunhas de acusação entrassem. O magistrado mandou que uma porta lateral fosse aberta. Entraram umas cem pessoas que já estavam aguardando do lado de fora. Logicamente, a plebe não poderia faltar, pois quem seria melhor para encenar aquele teatro de horror? Logicamente, os ingênuos, os analfabetos e, enfim, todos aqueles que sempre foram rejeitados, mas que representavam a força final da palavra. Pois essas pessoas julgavam pela 243
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus aparência e pelos mexericos. Eram pessoas altamente autossugestionadas e de fácil manipulação. Cordeiros medrosos e vulneráveis, pessoas que muito tinham a perder. Como a voz do povo é a voz de Deus, eu seria cozida viva, por assim dizer. Quando toda aquela gente acomodou-se, como previsto, o alarido ficou maior ainda. Então, o magistrado deu um grito, batendo com seu malhete em cima da mesa, pedindo silêncio. A voz do magistrado ressoou pelo recinto como o ronco de um trovão. Todos pareciam estar bastante nervosos e apreensivos. Aquele alarido só fazia deixar todos ainda mais agitados. Sempre existem pessoas capazes de tornarem as coisas ainda muito piores do que elas realmente são. Podia ouvir os rumores horrorosos a meu respeito. Podia ouvir algumas pessoas chamando-me de devoradora de bebês! Havia malícia, maldade e muito interesse político naquilo tudo. Eu era só uma desculpa para encobrir o que realmente estava acontecendo - ou seja, esconder o triângulo amoroso que existia entre meu pai, o conde e a condessa. Também, enquanto todos estivessem prestando atenção em mim, não investigariam o conde como suspeito de um assassinato. O inquisidor, após ler publicamente a carta enviada pelo rei, tomou cuidado para não declarar em sua sentença absolvição alguma, ou que eu - a acusada - pudesse parecer inocente ou isenta. Sua intenção era esclarecer bastante que tudo foi legitimamente provado contra mim. Desta forma, se eu fosse trazida mais tarde novamente diante do tribunal do júri, indiciada por causa de qualquer outro crime, poderia, assim, ser ordenada sem problemas, apesar de a sentença de absolvição já ter-me sido negada. O magistrado, antes de passar a palavra final ao inquisidor, perguntou-me uma última vez - não porque estivesse interessado em saber a real verdade, mas porque na sala havia muitas pessoas influentes e ele não poderia parecer injusto: _ Tem mais alguma coisa a declarar? Saiba que a senhorita está entre amigos e parentes, pessoas que a amam e que realmente se importam com a sua saúde e seu bem estar. Creio que agora é a hora de dizer algo que possa ajudá-la em sua sentença. Saiba que não poderá nunca mais comentar sobre os fatos ocorridos nesta sala. Portanto, esta é a hora. Levantei-me, meio cambaleando por causa das muitas horas que já estava sem me alimentar, olhei ao redor e voltei em direção ao magistrado, fitando-o nos olhos. Ergui minha cabeça e disse: _ Não tenho mais nada a dizer ou declarar. Não tenho nenhum amigo, já que todos vivem o perjúrio de um suposto purgatório. Não confio em ninguém, já que me lançam sobre a desgraça humana. Não tenho nenhum laço familiar ou consaguinidade comprovada com alguém neste tribunal. Sou apenas um corpo no mundo. Que se cumpra o meu destino. Quero ressaltar, apenas, que nunca comi criançinhas, nunca me prostituí, nunca tentei induzir ninguém a nenhuma seita ou religião, quaisquer que fossem. Depois de eu ter falado isso, o magistrado ainda ressaltou: _ Senhorita Anna Goldim Señra, ressalto mais uma vez que essa é a sua última chance de dizer alguma coisa em sua defesa. Caso contrário, será declarada como bruxa e sentenciada a viver nos calabouços de um convento em San Francisco. Portanto, olhei para o conde, que estava de olhos arregalados prestando atenção, e disse: _ Não será necessário que sua excelência declare-me como bruxa, porque eu mesma me declaro. Não tenho vergonha de ser quem sou e de seguir um caminho que eu mesma escolhi. Mas sua excelência deveria prestar mais atenção a certas pessoas neste tribunal. O bispo, porém, tomou a palavra, indagando-me: _ O que a senhorita quer dizer com isso? _ Quero dizer que neste tribunal tem um usurpador e assassino sentado aqui, bem em minha frente. - disse isso apontando para o conde Ele, de um salto, gritou, apontando o diário da minha mãe em suas mãos: _ Blasfêmia, excelência! Essa mulher tentou seduzir-me em seu próprio leito. Tenho provas aqui comigo de que ela, além de bruxa, praticava, sim, os rituais da magia. Há também indícios de que ela 244
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus tinha o seu próprio local escondido dentro da casa de seu pai, onde ela, a governanta e o jardineiro praticavam rituais de magia negra, cozinhando e comendo os filhos dos escravos. O alarido de espanto foi geral. O bispo, porém, interrogou-o: _ E como o senhor ficou sabendo de tais fatos? _ Sei disso porque a senhora condessa aqui presente também a flagrou fazendo seus feitiços em um lugar escondido, atrás da adega de vinhos do senhor Juan. Essa mulher está tentando enfeitiçar todos aqui, transferindo a sua culpa para nós. Mas posso provar o que eu disse. - disse isso entregando o diário de minha mãe ao inquisidor. Depois de folheá-lo rapidamente, o inquisidor entregou-o ao bispo, que, depois de uma breve análise, disse: _ É irrevogável a questão de que esta mulher seja uma bruxa. É também irrelevante que ela acuse qualquer membro que esteja presente dentro deste recinto, sendo que ela está tentando distorcer os fatos para enganar a todos nós. Essa bruxa está tentando usar seus feitiços para nos manipular. Mediante a tais provas postas em minhas mãos, e mediante tão ilustres testemunhas que comprovam sua culpa, declaro-a culpada. Passo o caso ao senhor magistrado. Sabia que não poderia ter dito nada, mas tinha que arriscar e tentar salvar-me. Depois das palavras do bispo, não pude dizer mais nada. Fiquei ouvindo a sentença que o magistrado me impôs. Ele se levantou e começou a sentenciar-me com as seguintes palavras: _ Que a mulher comumente chamada de Anna Goldim Señra seja denunciada e declarada feiticeira, adivinha, pseudoprofeta, invocadora de maus espíritos, conspiradora, supersticiosa, implicada na prática de magia feita a ela, teimosa quanto à fé católica, cismática quanto ao artigo Unam Sanctam e em diversos outros artigos de nossa fé, cética e extraviada, sacrílega, idólatra, apóstata, execrável e maligna, blasfema em relação a Deus e seus santos, escandalosa, sediciosa, mentirosa e caluniosa. Dito isso, o magistrado bateu o malhete sobre a mesa, dizendo: _ Levem essa mulher daqui e que fique trancada na prisão até que seja levada para o local onde será trancada e enclausurada para o resto de seus dias. Ressalto, ainda, que ela deve ser mantida sob vigilância constante, para que não tente fugir ou usar seus poderes malignos. Todos que estavam no tribunal foram se retirando. Fui levada para uma sala até que o recinto tivesse sido esvaziado. Logo depois, fui levada para a prisão. Atravessamos a praça com um cortejo de agourentos atrás de nós. Onde passávamos, juntava-se mais e mais gente. Logo depois de andarmos uns vinte minutos, chegamos à prisão. Era um lugar muito desleixado e sujo. Subimos os degraus e passamos por várias salas. Por fim, começamos a descer sem parar, até chegarmos a um lugar cheio de portas trancadas até em cima, uma de frente para a outra. Devia ter umas quinze ao todo. Andamos uns dez metros. Minha cela era a última do corredor. Dois homens foram precisos para abrir a porta. Havia uma cama muito suja e de palha, forrada com um tecido encardido e mal cheiroso. Parecia que tinha manchas de sangue nele. O lugar era sombrio. O único ar que se tinha vinha de uma fenda de trinta centímetros ou pouco mais. O orifício era revestido por grades. Mal dava para se ver se era dia ou noite, porque o orifício na parede era pequeno demais para poder passar a luz do sol. As paredes eram cheias de teias de aranhas. Senti um terrível cheiro de urina por toda parte. Na verdade, havia vários excrementos humanos, mas não dava para identificá-los por causa do tempo. O guarda empurrou-me porta adentro e disse: _ Seja bem vinda aos seus novos aposentos, rainha das bruxas. Em seguida saiu, batendo a porta e dando uma gargalhada que mais parecia ter vindo do além. Fiquei ali, parada, olhando aquele lugar que não tinha mais que uns dez metros de largura. Os dias foram passando como noites. Agarrei-me em orações para tentar ficar forte. O desespero do claustro é indescritível. A solidão é uma companhia que não desejamos a ninguém. Ela nos faz ver coisas no escuro e, se não tivermos muito autocontrole, enlouquecemos. Comecei a fazer traços na parede para não me perder de que dia era. Comecei a falar sozinha, mas os guardas sempre me 245
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus insultavam, perguntando se o diabo estava lá comigo. Eu só tinha a companhia do guarda carcerário nas duas vezes em que ele me trazia alimento. Às vezes, o guarda da noite jogava em meu rosto a água que serviria para eu tomar. Ele também, várias vezes, pisou no pedaço de pão duro que me era oferecido como alimento. Várias vezes, oferecia-me urina ou escarrava dentro da minha caneca com água. A fome era tamanha que eu comeria a mim mesma. Diziam que o inferno era algo abominável, mas quem passou pelas torturas da Inquisição desejaria ir rapidamente para lá. Diziam, também, que nos finais dos tempos os vivos desejariam estarem com seus mortos - por causa do fim, que seria duro e cruel. Para mim, ali era o fim do mundo. Todos os meus pecados já estavam mais que pagos. Não existe inferno ou demônio. Existem, sim, pessoas com mentes diabólicas, capazes de extrema crueldade e covardia para conseguir seus objetivos a qualquer preço. Deixamos que a vida passe por nós e esquecemos de observar o quanto aqueles pequenos detalhes são importantes. Só nos damos conta disso quando temos que enfrentar uma situação muito difícil. Não damos conta quando passamos por cima dos menos favorecidos. Não damos conta que um dia vem logo após o outro, com uma noite no meio para nos fazer lembrar. Nunca pisei em alguém, mas pagava esse preço por causa da ambição de terceiros. Deveria ter prestado mais atenção aos sinais. Deveria ter fugido com Maria e Joseph. O pecado é capaz de se aliar à desgraça da maldade. Aprendi muitas coisas: uma era me manter em silêncio; a outra era nunca brincar com a vaidade masculina, pois um homem sabe mesmo ser cruel nessas horas de impulsividade. Eram nós, as mulheres, quem os seduziam, que tínhamos mais propensão a ser induzidas e fascinadas pelo mal. A mulher não podia se cuidar ou ter vaidade; jamais podia sentir prazer com seu marido - pois ele poderia chicotá-la em praça pública, acusando-a de induzi-lo às luxúrias da carne. Certa manhã, acordei toda suja: estava nos meus dias de mulher. Não soube o que fazer, pois comecei a sangrar muito. A vergonha tomara conta de meu ser. Como eu poderia dizer àqueles guardas o que estava se passando comigo? Rasguei um pedaço de minha anágua, tentando compor- me. Implorei ao guarda do turno da manhã para que me desse uma tina com água, para que eu pudesse me lavar. Ele fingiu nem ouvir. Sentia-me mal e humilhada. Minhas forças estavam se esvaindo. A cada dia que passava, ficava mais fraca. Até que Heixe apareceu e aliviou-me um pouco daquele martírio. Ficou por horas a fio conversando comigo. De vez em quando, o guarda abria a portinhola e gritava, mandando-me calar a boca. _ Cale essa boca, bruxa infeliz! Anda a falar com satã? Se me fizer entrar aí, juro que amordaço essa boca. Heixe, naquele dia, despediu-se de mim com um ar pesaroso. Mas era preciso, pois o guarda estava a ponto de me espancar. Todos os dias, os outros prisioneiros que ficaram sabendo que na última cela tinha uma mulher, gritavam meu nome e insultavam-me com palavras odiosas. Alguns gritavam meu nome como se eu fosse uma mundana. Em atitudes suspeitas, gemiam a chamar por mim. Eram homens de caráter muito duvidoso e que já estavam na prisão por anos a fio, sem sequer ouvir a voz de uma mulher. A minha presença, mesmo que do outro lado de uma parede e no fim de um corredor, fazia-os ficarem como animais. Outros haviam passado por tratamentos com médicos e haviam se esquecido de tudo. Esse tratamento, bastante suspeito, deixava-os como vegetais. Geralmente, esse tipo de tratamento era aplicado em pessoas que cometiam algum delito contra algum Lord ou até contra a política, ou também em casos de homens sodomitas. Estava rezando para que o convento enviasse o seu emissário para eu sair dali. Os gritos de agonia vindos do calabouço estavam me deixando completamente louca e desesperada. Alguém estava sendo torturado incessantemente todos os dias. Meu Deus! Estavam acabando com ele aos poucos. Tinha que haver alguém para fazer parar o sofrimento daquele pobre homem. Comecei a esquecer minha agonia e sofrimento. Passei a orar para que aquele ser humano tivesse um fim bem rápido. Logo depois, escutei quando abriu a porta da cela ao lado e jogaram alguém cela adentro. 246
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus Ouvia os choros e gemidos de dor do pobre. Precisava fazer alguma coisa para acalmá-lo. Então, comecei a cantar uma velha canção espanhola. De repente, escutei mais dois presos acompanhando- me. Em seguida, todo o cárcere estava ali comigo, cantando aquela canção que falava de amor e liberdade. Um guarda passou no corredor exasperando, batendo a baioneta na porta das celas. _ Calem-se! Ou levo todos para as masmorras. Fizemos um silêncio mortal e o medo tomou conta de todo aquele local macabro. Passaram-se algumas horas. O homem que estava do outro lado da parede começou a fazer uns barulhos com uma espécie de objeto cilíndrico. Ele perguntou: _ Olá! Como se chama? _ Anna. E como se chama? Seu sotaque era muito carregado. _ Meu nome é Ramon Bernard D’ La Mendonça. Qual crime cometeu a senhorita? _ Não cometi crime algum, mas estou sendo acusada de bruxaria, traição e tantas outras coisas que até me perco. Acusam-me até de devoradora de criancinhas. Mas, se fosse carnívora, creio que teria me autodevorado, pois ando a morrer de fome. Por isso, enclausuraram-me aqui, até que alguém venha me buscar para levar-me ao Convento e Mosteiro de San Francisco. _ Oh! Compreendo. E com todo o respeito: qual a sua idade? _ Vinte. Fiz há poucos dias. _ É muito jovem. Não acredito que uma senhorita com tão pouca idade e de tão bom coração tenha cometido tais barbáries. A senhorita deve ter irritado alguém em demasia. E a pessoa, por certo, é de muito poder aquisitivo. Dizendo isso, deu uma sonora gargalhada. Em seguida, um gemido de dor. _ Acho que sim. - baixei a cabeça, lembrando-me do que o conde me disse quando eu saíra do tribunal. _ Não quis aceitar um casamento de conveniências e fui contra as ordens de meu pai. Na verdade, fui perdida em um dívida de jogo. - respondi a ele, com voz meio trêmula. _ Então foi isso? Lamento, senhorita! Seu pai é um homem desonrado. Nunca vi apostar a própria filha nas cartas. _ Ele é uma pessoa doente e está consumido por esse vício maldito. Ele bebe praticamente noite e dia, sem parar. Enterrou-se até os cabelos em dívidas com esse conde. _ Desculpe-me, senhorita! Não estou duvidando de sua palavra. Muito pelo contrário, estou achando demasiadamente ingênua. _ E o que o senhor acha que realmente deve ser? _ Não sei, senhorita. Mas o senhor seu pai e o restante devem ter outros bons motivos. A senhorita nunca desconfiou de nada? _ De que eu poderia desconfiar? Ou de quem? Nunca saíra de casa, a não ser acompanhada por minha governanta. Na verdade, meus dotes foram confiscados. Também não era nenhuma soma tão exuberante assim. Era o suficiente para me manter depois da maior idade, ou a ser entregue ao meu futuro marido, caso eu viesse a me casar um dia. Mas não creio que eu valesse tanto a pena. Estranho o senhor dizer tais coisas... _ Estranho é a senhorita estar aqui por tão pouco! Tem certeza de que não comeu nenhuma criancinha mesmo? - dizendo isso, soltou outra de suas gargalhadas. Esbocei um pequeno sorriso. _ Ora, o senhor ofende-me desta forma! É tão simpático e como sabe acalmar uma mulher com palavras tão gentis! - fui sarcástica. _ Só estava a caçoar da senhorita para passar o tempo. Perdoe-me. Quem seria o seu futuro noivo, mal lhe pergunte? _ Era para ter sido o senhor filho do duque Celso D’ Louchoa, o conde Albert D’ Louchoa. 247
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    O segredo dosgirassóis Adriana Matheus _ Eu deveria ter suspeitado, senhorita. Sinto-lhe dizer que esse homem não vale um doblón sequer. – riu em alto tom. Antes que eu pudesse perguntar-lhe por que estava rindo, ele prosseguiu: _ Acha mesmo que esse peste irá deixá-la em paz? _ Creio que sim, pois agora estou aqui, presa, e ele esta lá fora. _ Presa porque tem o dedo desse peste no meio. Com certeza, ele irá atrás da senhorita, no convento. Ele nunca a deixará em paz, acredite. Sempre terá olhos dele em toda parte. Ele é o espião do rei, senhorita. Mercenário, trambiqueiro, entre outras coisas mais. Seu pai deve ter falado da senhorita enquanto jogava. Como disse que ele bebe, o conde por certo trapaceou no jogo para ganhar a aposta. Agora as coisas estão se encaixando. O que mais a senhorita sabe? _ Não sei mais nada; juro. _ Antes de vir para as masmorras, ouvi comentários de que esse conde está aqui para investigar o convento para o qual está sendo enviada. _ E por quê? _ Suspeitam que os cavaleiros da ordem andem se escondendo por lá, à noite. _ Sério? E por que andam a perseguir os cavaleiros da ordem? _ Por que dizem que enriqueceram muito e não estão dando a parte da Santa Sé como havia sido combinado. _ E o senhor, por que está aqui? _ Porque sou escritor e escrevo sobre a verdade encoberta por trás dessa podridão monárquica. A burguesia fede, senhorita. Depois de dar uma risadinha zombeteira, ele prosseguiu: _ Andei publicando uns exemplares sobre os monarcas. Acho que não agradei muito. _ Imagino... _ Estou aqui, agora, às suas ordens! Um anarquista e visionário, e um amigo ateu. Mas um amigo fiel, devo ressaltar. _ É um enorme prazer, Ramon. Os dias ao lado do meu novo amigo foram bastante agradáveis. Ramon era um homem muito inteligente e aprendi muito com ele. Embora a maior parte do dia ele passasse sob tortura, sempre conseguia falar alguma coisa útil. Houve dias em que, de tanto ser espancado, ficou desmaiado por horas a fio. Ele era um homem de cinquenta e poucos anos, mas de uma força fora do comum. Admirava-o, mesmo sem nunca tê-lo conhecido cara a cara em vida. Finalmente o dia chegou. As portas do meu cárcere abriram-se. Dei um pulo da cama. A primeira pessoa que vi foi o chefe da guarda, que logo veio pôr-me algemas, seguido dos guardas e de uma freira com uma cara nada agradável. Ela entrou