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Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.3, n.2, abr./junh.2002
Estrumeiras de solo-cimento
* Eng. Agr., Escritório Central, EMATER/RS.
** Eng. Agr., Escritório Regional de Santa Rosa, EMATER/RS.
*** Tec. Agr., Escritório Municipal de São Paulo das Missões,
EMATER/RS.
Alternativa
Tecnológica
* Bartels, Henrique A. S.
** Kappel, Paulo Sérgio
*** Thume, Valmir
Estrumeiras de concreto, de tijolos ou de
lona plástica são algumas das alternativas que
já foram colocadas em prática para fazer o
armazenamento dos dejetos de suínos. O alto
custo da construção das esterqueiras, porém,
sempre foi um empecilho ou uma justificati-
va para o produtor de suínos não aproveitar os
dejetos de forma integral e evitar a poluição
ambiental. O valor econômico dos dejetos nem
sempre justifica os investimentos. Estas res-
trições são maiores ainda quando os dejetos
são manejados na forma líquida.
As estrumeiras de solo-cimento têm sido
uma alternativa para o armazenamento de
dejetos líquidos de suínos na Região Noroes-
te do Rio Grande do Sul, desde 1993. Produto-
res de municípios daquela região construí-
ram um número significativo deste tipo de
depósito, conforme está apresentado na ta-
bela a seguir.
Este tipo de estrumeira se adapta ao uso
de esterco líquido, especialmente quando a
pocilga fica no alto e o esterco pode ser cana-
lizado por declividade para áreas de culturas
ou de pastagens nativas.
O valor do investimento e o retorno do
empreendimento, aliados à preocupação da
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Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.3, n.2, abr./junh.2002
preservação do meio ambiente, têm feito
com que muitos agricultores familiares op-
tem por esta prática.
O custo dos materiais (tijolos, areia,
brita, cimento) e o custo da mão-de-obra
especializada para a construção da estru-
meira triplicam o valor do investimento no
modelo tradicional quando comparados com
o custo do modelo de solo-cimento. A cons-
trução de solo-cimento reduz o custo de
aquisição e de transporte da areia, dos tijo-
los e da brita.
O revestimento das paredes das estru-
meiras é feito para evitar as infiltrações que
possam contaminar as fontes d'água. Esta
preocupação tem aumentado nos últimos
anos em virtude da maior concentração da
produção de suínos, uma vez que as cria-
ções são cada vez maiores.
Esta estrumeira é diferente das que são
citadas na literatura, para as quais recomen-
do uso de superfícies planas e de fôrmas para
conter a massa (Associação...19--). A constru-
ção é muito simples, pois não há necessida-
de de utilizar fôrmas de madeira para conter
a massa. A massa, uma mistura de água,
areia, cimento e solo do próprio local, é ajei-
tada no fundo e nos lados do buraco escavado,
utilizando-se ferramentas simples como pá,
enxada e colher de pedreiro. Os lados e o fun-
do do buraco destinado à estrumeira não pre-
cisam ser planos perfeitos. O revestimento
das laterais e do fundo com solo-cimento pode
ser feito em superfícies côncavas ou conve-
xas, obedecendo algumas particularidades do
terreno, como a presença de rochas. O for-
mato das estrumeiras pode variar de circu-
lar a quase retangular. Esta possibilidade de
trabalhar com superfícies arredondadas eco-
nomiza material e facilita o trabalho de cons-
trução.
O solo arenoso, que tem uma parte mai-
or de areia e outra menor de argila, é o
mais adequado. O solo argiloso requer mai-
or quantidade de cimento e é mais difícil
de misturar e compactar. O solo adequado
não deve conter pedaços de galhos, folhas,
raízes ou qualquer outro tipo de material
orgânico que possa prejudicar a qualidade
final do solo-cimento. Solos com muito
material orgânico devem ser descartados
para a produção de solo-cimento, pois sua
limpeza é muito difícil (Associação... 19--).
Materiais para a construção da estrumeira
de solo-cimento
Para cada 2 m2 de revestimento são ne-
cessários os seguintes materiais:
1 lata de cimento;
1,5 lata de areia;
6,5 latas de terra vermelha;
2 litros de hidroasfalto (piche frio).
Cada lata corresponde a um volume de 18
litros.
Escavação da estrumeira
O formato poderá ser oval, quadrado ou
retangular. As laterais são escavadas com
uma inclinação de, aproximadamente, 45
graus. A profundidade poderá ser de até 2
Alternativa
Tecnológica
MunicípiosdoRioGrandedoSul Estrumeirasno
Volumemédiom3
Volumetotal1
m3
CampinasdasMissões 30 25 750
SãoPaulodasMissões 27 50 1.350
RoqueGonzales 30 30 900
VistaGaúcha 85 25 2.125
Total 172 — 4.315
1.Capacidadeestática
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Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.3, n.2, abr./junh.2002
Alternativa
Tecnológica
metros. Em caso de aterramento, o solo pre-
cisa ser bem compactado antes de proceder-
se ao revestimento das laterais.
Mão-de-obra
A mão-de-obra não precisa ser especializa-
da e normalmente é composta de no mínimo
6 trabalhadores, formando duas equipes.
Uma prepara a massa e a outra aplica o solo-
cimento, tanto no fundo como nas laterais.
Isso permite que o serviço seja concluído no
mesmo dia.
Preparo da massa
As quantidades de materiais são medidas
com vasilhas ou latas, de modo a manter a
uniformidade da mistura.
Inicialmente, 1 lata de cimento e 1,5
lata de areia média são colocadas em uma
caixa e bem misturadas. Em seguida, na
própria caixa ou sobre o solo, aos poucos,
são adicionadas as 6,5 latas de terra ver-
melha. O passo seguinte é misturar bem a
areia, o cimento e terra vermelha. Aos pou-
cos, a seguir, a água é adicionada, evitan-
do o excesso. Até esse momento a mistura
é feita com a enxada, e depois disso atra-
vés do pisoteio. A massa está no ponto
quando começa a se soltar da bota duran-
te o pisoteio.
O uso de betoneira é inviável, pois a mas-
sa se fixa nas paredes e não possibilita a
mistura.
Aplicação da massa de solo-cimento
Ao iniciar o revestimento, é importante
que as paredes estejam bem umedecidas
para evitar rachaduras.
O trabalho inicia por uma das paredes
e, em seguida, as demais paredes são
revestidas, deixando-se um espaço numa
das extremidades para a saída dos traba-
lhadores. O fundo é coberto com solo-ci-
mento por último.
Com auxilio de pás, a massa é colocada em
tiras de 70 centímetros a 1 m de largura, de
cima para baixo, com uma espessura de 10
centímetros. A massa deve ser compactada de
tal forma que não fique espaço entre a quan-
tidade de uma pá e de outra para evitar ra-
chaduras. Com auxilio de uma colher de pe-
dreiro, uma brocha de pintura e um balde com
água, as paredes são alisadas. À medida que a
construção evolui, as paredes são cobertas
com uma lona para evitar a secagem rápida.
Após a conclusão da aplicação do solo-cimen-
to, as paredes são umedecidas, no mínimo 5
vezes ao dia, por um período de 20 dias para
evitar rachaduras.
Borda da estrumeira
O solo-cimento também é utilizado na cons-
trução da borda com a seguinte mistura: 1
lata de cimento, 3 latas de areia e 1 lata de
terra vermelha. O muro deverá ter no míni-
mo quatro fileiras de tijolos maciços, acima
do nível do solo, para evitar a entrada da água
da chuva.
Uso do hidroasfalto frio
Vinte dias após o revestimento, todas as
paredes e fundo da estrumeira são bem var-
ridas e duas demãos de hidroasfalto são
aplicadas sobre a superfície seca. O
hidroasfalto cobre pequenas fissuras e faz
com que a estrumeira fique totalmente im-
permeabilizada.
Cercamento da estrumeira
As estrumeiras precisam ser cercadas
para evitar acidentes com crianças, adultos
e animais.
ASSOCIACAO BRASILEIRA DE CIMENTO
PORTLAND. Guia de construções rurais:
à base de cimento. São Paulo, [19--]. v.2
Referência Bibliográfica

Estrumeira solocimento

  • 1.
    37 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre,v.3, n.2, abr./junh.2002 Estrumeiras de solo-cimento * Eng. Agr., Escritório Central, EMATER/RS. ** Eng. Agr., Escritório Regional de Santa Rosa, EMATER/RS. *** Tec. Agr., Escritório Municipal de São Paulo das Missões, EMATER/RS. Alternativa Tecnológica * Bartels, Henrique A. S. ** Kappel, Paulo Sérgio *** Thume, Valmir Estrumeiras de concreto, de tijolos ou de lona plástica são algumas das alternativas que já foram colocadas em prática para fazer o armazenamento dos dejetos de suínos. O alto custo da construção das esterqueiras, porém, sempre foi um empecilho ou uma justificati- va para o produtor de suínos não aproveitar os dejetos de forma integral e evitar a poluição ambiental. O valor econômico dos dejetos nem sempre justifica os investimentos. Estas res- trições são maiores ainda quando os dejetos são manejados na forma líquida. As estrumeiras de solo-cimento têm sido uma alternativa para o armazenamento de dejetos líquidos de suínos na Região Noroes- te do Rio Grande do Sul, desde 1993. Produto- res de municípios daquela região construí- ram um número significativo deste tipo de depósito, conforme está apresentado na ta- bela a seguir. Este tipo de estrumeira se adapta ao uso de esterco líquido, especialmente quando a pocilga fica no alto e o esterco pode ser cana- lizado por declividade para áreas de culturas ou de pastagens nativas. O valor do investimento e o retorno do empreendimento, aliados à preocupação da
  • 2.
    38 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre,v.3, n.2, abr./junh.2002 preservação do meio ambiente, têm feito com que muitos agricultores familiares op- tem por esta prática. O custo dos materiais (tijolos, areia, brita, cimento) e o custo da mão-de-obra especializada para a construção da estru- meira triplicam o valor do investimento no modelo tradicional quando comparados com o custo do modelo de solo-cimento. A cons- trução de solo-cimento reduz o custo de aquisição e de transporte da areia, dos tijo- los e da brita. O revestimento das paredes das estru- meiras é feito para evitar as infiltrações que possam contaminar as fontes d'água. Esta preocupação tem aumentado nos últimos anos em virtude da maior concentração da produção de suínos, uma vez que as cria- ções são cada vez maiores. Esta estrumeira é diferente das que são citadas na literatura, para as quais recomen- do uso de superfícies planas e de fôrmas para conter a massa (Associação...19--). A constru- ção é muito simples, pois não há necessida- de de utilizar fôrmas de madeira para conter a massa. A massa, uma mistura de água, areia, cimento e solo do próprio local, é ajei- tada no fundo e nos lados do buraco escavado, utilizando-se ferramentas simples como pá, enxada e colher de pedreiro. Os lados e o fun- do do buraco destinado à estrumeira não pre- cisam ser planos perfeitos. O revestimento das laterais e do fundo com solo-cimento pode ser feito em superfícies côncavas ou conve- xas, obedecendo algumas particularidades do terreno, como a presença de rochas. O for- mato das estrumeiras pode variar de circu- lar a quase retangular. Esta possibilidade de trabalhar com superfícies arredondadas eco- nomiza material e facilita o trabalho de cons- trução. O solo arenoso, que tem uma parte mai- or de areia e outra menor de argila, é o mais adequado. O solo argiloso requer mai- or quantidade de cimento e é mais difícil de misturar e compactar. O solo adequado não deve conter pedaços de galhos, folhas, raízes ou qualquer outro tipo de material orgânico que possa prejudicar a qualidade final do solo-cimento. Solos com muito material orgânico devem ser descartados para a produção de solo-cimento, pois sua limpeza é muito difícil (Associação... 19--). Materiais para a construção da estrumeira de solo-cimento Para cada 2 m2 de revestimento são ne- cessários os seguintes materiais: 1 lata de cimento; 1,5 lata de areia; 6,5 latas de terra vermelha; 2 litros de hidroasfalto (piche frio). Cada lata corresponde a um volume de 18 litros. Escavação da estrumeira O formato poderá ser oval, quadrado ou retangular. As laterais são escavadas com uma inclinação de, aproximadamente, 45 graus. A profundidade poderá ser de até 2 Alternativa Tecnológica MunicípiosdoRioGrandedoSul Estrumeirasno Volumemédiom3 Volumetotal1 m3 CampinasdasMissões 30 25 750 SãoPaulodasMissões 27 50 1.350 RoqueGonzales 30 30 900 VistaGaúcha 85 25 2.125 Total 172 — 4.315 1.Capacidadeestática
  • 3.
    39 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre,v.3, n.2, abr./junh.2002 Alternativa Tecnológica metros. Em caso de aterramento, o solo pre- cisa ser bem compactado antes de proceder- se ao revestimento das laterais. Mão-de-obra A mão-de-obra não precisa ser especializa- da e normalmente é composta de no mínimo 6 trabalhadores, formando duas equipes. Uma prepara a massa e a outra aplica o solo- cimento, tanto no fundo como nas laterais. Isso permite que o serviço seja concluído no mesmo dia. Preparo da massa As quantidades de materiais são medidas com vasilhas ou latas, de modo a manter a uniformidade da mistura. Inicialmente, 1 lata de cimento e 1,5 lata de areia média são colocadas em uma caixa e bem misturadas. Em seguida, na própria caixa ou sobre o solo, aos poucos, são adicionadas as 6,5 latas de terra ver- melha. O passo seguinte é misturar bem a areia, o cimento e terra vermelha. Aos pou- cos, a seguir, a água é adicionada, evitan- do o excesso. Até esse momento a mistura é feita com a enxada, e depois disso atra- vés do pisoteio. A massa está no ponto quando começa a se soltar da bota duran- te o pisoteio. O uso de betoneira é inviável, pois a mas- sa se fixa nas paredes e não possibilita a mistura. Aplicação da massa de solo-cimento Ao iniciar o revestimento, é importante que as paredes estejam bem umedecidas para evitar rachaduras. O trabalho inicia por uma das paredes e, em seguida, as demais paredes são revestidas, deixando-se um espaço numa das extremidades para a saída dos traba- lhadores. O fundo é coberto com solo-ci- mento por último. Com auxilio de pás, a massa é colocada em tiras de 70 centímetros a 1 m de largura, de cima para baixo, com uma espessura de 10 centímetros. A massa deve ser compactada de tal forma que não fique espaço entre a quan- tidade de uma pá e de outra para evitar ra- chaduras. Com auxilio de uma colher de pe- dreiro, uma brocha de pintura e um balde com água, as paredes são alisadas. À medida que a construção evolui, as paredes são cobertas com uma lona para evitar a secagem rápida. Após a conclusão da aplicação do solo-cimen- to, as paredes são umedecidas, no mínimo 5 vezes ao dia, por um período de 20 dias para evitar rachaduras. Borda da estrumeira O solo-cimento também é utilizado na cons- trução da borda com a seguinte mistura: 1 lata de cimento, 3 latas de areia e 1 lata de terra vermelha. O muro deverá ter no míni- mo quatro fileiras de tijolos maciços, acima do nível do solo, para evitar a entrada da água da chuva. Uso do hidroasfalto frio Vinte dias após o revestimento, todas as paredes e fundo da estrumeira são bem var- ridas e duas demãos de hidroasfalto são aplicadas sobre a superfície seca. O hidroasfalto cobre pequenas fissuras e faz com que a estrumeira fique totalmente im- permeabilizada. Cercamento da estrumeira As estrumeiras precisam ser cercadas para evitar acidentes com crianças, adultos e animais. ASSOCIACAO BRASILEIRA DE CIMENTO PORTLAND. Guia de construções rurais: à base de cimento. São Paulo, [19--]. v.2 Referência Bibliográfica