Editorial
Ao poeta Elias José,
É com saudades que nós, do Dimensão na Escola,
lembramos e dedicamos esta edição ao escritor e
professor Elias José. Há pouco mais de dois meses
trocamos e-mails sobre um texto que ele iria fazer para
o nosso jornal. “Como se toca se dança. Escreverei em
prosa ou em verso – teórica ou literalmente, como você
preferir” foi o que ele me escreveu, com a gentileza de
sempre.
No entanto, antes que o tão esperado texto pudesse
chegar ao jornal, veio a notícia da despedida do escritor.
Mas, como disse seu filho Érico, “as suas obras ficaram
como mensagem de valorização da leitura, da literatura,
dos livros e da poesia”. E isso jamais passará!
Nesta edição reproduzimos um pequeno trecho do
livro Literatura Infantil: ler, contar e encantar criança, em
que Elias José fala da importância da história contada e
lida de maneira mágica.
E por falar em encanto e poesia, nesta oitava
edição do jornal, o maestro e compositor Tom Jobim
também comparece. Tom se inspirava na natureza para
criar muitas de suas belas canções. O projeto Tom da
Mata, do Instituto Antônio Carlos Jobim, foi criado para
despertar nos alunos a responsabilidade individual em
relação às questões ambientais e mobilizar escolas e
comunidades. Leia e aproveite as dicas de atividades do
projeto para serem realizadas na escola.
Não deixe de ler também a entrevista que traz à
tona um tema muito importante: a implementação da
Lei Federal 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de
História e cultura africana e afro-brasileira nas escolas de
ensino básico. A professora da Faculdade de Educação
da UFMG Nilma Lino Gomes fala da importância de
os professores se indagarem sobre qual tem sido a
sua postura diante da questão racial na escola e na
sociedade.
Boa leitura!
Renata Fabreti
A falta que faz
Uma professora
muito maluquinha
Sementinha na beira do rio
Museu AfroBrasil é dez!
Circuito de leitura
Sons da vida
Expediente/Espaço do professor
E MAIS
Os próprios alunos
avaliam seu crescimento
Isso que é bagagem
Gustave Doré
Ano II - n.8 - setembro/outubro 2008 - ISSN 1981-7037
Entrevista: Nilma Lino Gomes
Foto de Priscila Borges
“N
a sociedade e na escola brasileira – da
Educação Básica ao Ensino S uperior – os
docentes conseg uem, muitas ve zes, f icar
indig nados diante do racismo, porém, cont inuam
imóveis. Essa é uma das maneiras por meio das
quais o mito da democracia racial opera em nossa
sociedade”, diz a professora da Faculdade de Edu-
cação da UFMG e coordenadora-geral do Prog rama
Ações Af ir mat ivas na UFMG, Nilma Lino Gomes.
Nesta ent re vista, ela fala da importância da Lei
Federal que tor na obrigatório o ensino de História
e cultura af ricana e af ro -brasileira na Educação
Básica
Entrevista
Nilma Lino Gomes
CONTINUA >
Qual a importância da Lei
Federal 10.639/03?
A lei é importante em vários aspec-
tos. O primeiro ponto é que se trata
de uma alteração da LDB (Lei de Dire-
trizes e Bases da Educação Nacional),
que inclui artigos ligados à obrigato-
riedade do ensino de História e cul-
tura africana e afro-brasileira. Dessa
forma, a Lei 10.639/03, que acaba de
ser alterada para 11.645/08 (devido
à inclusão da temática indígena), é
uma lei nacional e por isso deve ser
cumprida em todas as escolas públi-
cas e privadas da Educação Básica
do País. O segundo ponto é que essa
Lei é uma medida de ação afirma-
tiva. Ela é fruto da ação histórica do
Movimento Negro e sua pressão em
relação ao Estado. Antes mesmo de
a Lei existir, várias ações nesse sen-
tido já eram realizadas em diferentes
partes do País, porém, como iniciati-
vas isoladas do Movimento Negro ou
de intelectuais interessados no tema.
A Lei 10.639/03 é o reconhecimento
do direito à diferença.
A Lei tem conseguido abrir o
debate sobre a questão racial na
educação?
Aos poucos, os educadores e as edu-
cadoras vão compreendendo que
discutir a questão africana e afro-
brasileira de maneira crítica, séria e
pedagógica é um dever de todo e
qualquer educador e não somente
uma pauta de luta do Movimento Ne-
gro. Ou seja, a questão racial atinge
a todos nós, independentemente do
nosso pertencimento étnico-racial. E
se desejamos construir uma escola e
umasociedademaisdemocráticaste-
mosquenosposicionarnalutacontra
o racismo e contribuir para a supera-
ção de estereótipos e preconceitos
raciais. É uma questão de cidadania,
mas não de uma cidadania abstrata.
Eu diria que é uma cidadania multi-
cultural. Algo que no Brasil ainda tem
sido muito pouco discutido.
E como tem sido a experiên-
cia na formação inicial e con-
tinuada de professores?
Achoquenaformaçãocontinuadate-
mos mais experiências interessantes.
Lamentavelmente, na formação ini-
cial, nos cursos de Pedagogia e Licen-
ciatura e também nos Bacharelados,
encontramos inúmeras resistências à
inclusão da discussão sobre a África
(de maneira crítica) e a questão afro-
brasileira. De modo geral, tais dis-
cussões ainda ficam restritas às dis-
ciplinas optativas, ministradas pelos
docentes interessados no tema. A
África e a questão racial brasileira
continuam invisíveis na grande maio-
ria das grades curriculares dos cursos
de graduação e pós-graduação, so-
bretudo na área da educação. Se so-
marmos a isso a questão de gênero e
geracional, teremos um quadro ainda
mais grave.
Por que as escolas de Edu-
cação Básica têm dificuldades
para aplicar a Lei?
Os motivos são vários. Eu poderia
destacar alguns. Acho que as esco-
las, assim como a sociedade, vivem
sob a égide do mito da democracia
racial. Essa crença de que vivemos
relações raciais harmoniosas, de que
a miscigenação brasileira resolveu
os problemas raciais no Brasil é algo
Cultura Negra na escola
2
terrível! Ela desvia o nosso olhar das
sérias conseqüências do racismo na
nossa vida e embota o entendimen-
to das pessoas. O currículo, os livros
didáticos e a própria política educa-
cional expressam de várias formas
esse mito e ele ajuda a construir re-
sistências ao debate, à discussão e à
implementação de práticas pedagógi-
cas voltadas para a diversidade étnico-
racial. O que sabemos sobre a África? E
sobre o negro brasileiro, suas histórias,
suas lutas e conquistas? É forte ainda
a presença de imagens estereotipadas
e opiniões coladas no senso comum.
As pessoas lêem pouco sobre o tema
e repetem várias distorções do as-
sunto realizadas pela mídia brasileira.
Há também o desconhecimento do
tema, o que acarreta dificuldades na
implementação da Lei. Por isso, o in-
vestimento na formação inicial e con-
tinuada de professores é importante.
Mas a diversidade cultural e
étnico-racialbrasileiraaindanão
se tornou um dos eixos orienta-
dores das políticas, das práticas
e dos currículos, não é?
A Lei 10.639/03 é um passo impor-
tante nesse sentido, mas para que ela
realmente desencadeie uma políti-
ca educacional efetiva há um longo
caminho a percorrer. E para que o re-
sultado desse percurso seja positivo
é necessário que se criem condições
concretas para tal. Penso que deveria
haver maior preocupação pública e
institucional do MEC, das secretarias
estaduais e municipais de educação
de todo o país em relação à superação
de práticas preconceituosas, visões
negativas do negro e de outros gru-
pos étnico-raciais. E deveria haver
maior inserção de uma discussão que
privilegie a visão positiva e afirmativa
sobre a história e cultura afro-brasilei-
ra e africana. Para isso precisamos de
financiamento, formação inicial e con-
tinuada, material didático-pedagó-
gico, pesquisas e monitoramento das
ações. É preciso também criar espaços
de formação em serviço, no interior da
escola, para que os docentes discutam
coletivamente e pensem ações, pro-
jetos e estratégias pedagógicas con-
juntas. O trabalho com a diversidade
cultural e étnico-racial não se faz no
isolamento.
Na sua avaliação, estão sendo
produzidos materiais que con-
tribuem para o ensino da cultura
negra e da história da África?
Sim, aos poucos esses materiais vêm
sendo produzidos tanto por parte do
público quanto do privado. Digo isso
porque, além do Ministério da Edu-
cação e de ações de secretarias mu-
nicipais e estaduais, a iniciativa pri-
vada começa a investir também. Mas
ainda é muito pouco, se comparado
com a necessidade e com a demanda.
E nem todo material é de boa quali-
dade. É preciso avaliar com calma e
criticidade.
Há experiências bem-suce-
didas nas escolas de Educação
Básica?
Não temos ainda um mapeamento
sistemático dessas ações. Pela minha
experiência, vejo que os trabalhos
bem-sucedidos dizem respeito mais
aos processos de formação continu-
ada. Eles acabam sendo experiências
individuais de docentes ou coletivos
de educadores interessados no tema,
ou articulações entre algumas secre-
tarias de educação, a universidade, a
gestão da escola e professores e pro-
fessoras. Há projetos de trabalho que
articulam ações com alunos, comuni-
dade e movimentos sociais, mas são
pouco conhecidos. Por isso, agora é o
momento de começarmos a pesquisar
mais e avaliar as ações pedagógicas
em sala de aula, os projetos pedagó-
gicos interdisciplinares que vêm sen-
do desenvolvidos e o impacto desse
processo na formação dos alunos.
Embora a Lei seja recente, já é hora de
começarmos a pensar nesse aspecto.
Que sugestões você daria aos
professores?
Acho que os docentes deveriam en-
tender o caráter da Lei 10.639/03 e
aproveitar esse momento político e
pedagógico que vivemos para se inda-
garem sobre qual tem sido a sua pos-
tura diante da questão racial na escola
e na sociedade. A discussão crítica e
pedagógica da questão racial e africa-
na na escola é um direito. E, enquanto
tal, deve ser garantida. Já é hora de os
educadores superarem o discurso de
que o negro é discriminado somente
porque é pobre e de que as políticas
universais atingem igualmente ne-
gros e brancos. É preciso conhecer
as pesquisas que nos ajudam a com-
preender melhor essa situação. Se não
tivermos ações afirmativas sérias no
Brasil, as desigualdades raciais e o ra-
cismo se arrastarão ainda por muitos
anos. Outra sugestão é conhecer mais
aslutas,osavanços,aresistêncianegra
no Brasil. É importante também co-
nhecer a História da África sob o pris-
ma dos africanos e não somente dos
colonizadores ou neocolonizadores.
Há muita riqueza, sabedoria, beleza
a descobrir. Não temos somente uma
história de pobreza, racismo, coloni-
zação e desigualdades quando fala-
mos sobre o negro brasileiro e sobre a
África. É preciso equilibrar a discussão
com a denúncia do racismo (esse pon-
to nunca deverá sair da nossa pauta!)
e as vitórias e conquistas. O povo afri-
cano e os negros brasileiros devem
ser tratados, na educação, na sua di-
mensão histórica, política, cultural e
social. O conteúdo da Lei e suas dire-
trizes curriculares nacionais devem
ser entendidos como constituintes da
nossa formação pedagógica e escolar,
e não como uma questão à parte. A
história do negro brasileiro faz parte
da história do Brasil, e a história da
África faz parte da história do mundo.
Não podemos mais passar pela edu-
cação básica e pela universidade sem
compreender essas questões.
Entrevista
Nilma Lino GomesCONTINUAÇÃO:
3
Museu AfroBrasil é dez!
N
o Museu AfroBrasil, que fica
no Portão 10 do Parque do
Ibirapuera, em São Paulo, há
muito o que se ver e aprender. Há
um acervo interessante que mostra a
importância da matriz negro-africana
na constituição da história e cultura
brasileiras. As exposições são criativas,
como Formas e Pulos: o Saci no
imaginário e Benin está vivo ainda lá –
ancestralidade e contemporaneidade.
O museu tem a missão educativa de
desconstruir e transformar o imaginário
sobre a população negra, baseado na ótica
da inferioridade. A equipe de profissionais
do Núcleo de Educação promove oficinas,
cursos, encontros, seminários e materiais
destinados a educadores, crianças e
jovens.
Visite o site: www.museuafrobrasil.com.br
Navegue
Gravura de Frederico Guilherme Briggs. Rio de Janeiro, RJ, 1832-1836.
CulturaNegra
4
Alfabeto negro
Autora: Rosa M. Carvalho Rocha
Editora: Mazza Edições
Ano: 2001
Número de páginas: 56
Ana e Ana
Autora: Célia Cristina Godoy
Ilustrações: Fê
Editora: DCL Difusão Cultura
Ano: 2003
Número de páginas: 24
Aquilo que a mãe não quer
Autora: Geni Guimarães
Editora: Mazza Edições
Ano: 2004
Número de páginas: 32
Coleção Bichos da África
(4 volumes)
Autor: Rogério A. Barbosa
Ilustrações: Ciça Fittipaldi
Editora: Melhoramentos
Ano: 2008
Número de páginas: 16
Contando a história do samba
Autores: Marcos Cardoso,
Elzelina Dóris e Edinéia Ferreira
Editora: Mazza Edições
Ano: 2008
Número de páginas: 80
Dito, o negrinho da flauta
Autor: Pedro Bloch
Editora: Moderna
Ano: 2004
Número de páginas: 64
Felicidade não tem cor
Autor: Júlio Emílio Braz
Editora: Moderna
Ano: 1994
Número de páginas: 64
Histórias da Preta
Autora: Heloísa Pires Lima
Ilustrações: Laurabeatriz
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1998
Número de páginas: 64
Luana – a menina que viu
o Brasil neném
Autores: Aroldo Macedo e
Oswaldo Faustino
Editora: FTD
Ano: 2000
Número de páginas: 48
O Congado para Crianças
(Coleção OLERÊ)
Autor: Edimilson A. Pereira
Ilustrações: Rubem Filho
Editora: Mazza Edições
Ano: 2006
Número de páginas: 20
O filho do vento
Autor: Rogério Andrade Barbosa
Ilustrações: Graça Lima
Editora: DCL
Ano: 2001
Número de páginas: 40
O presente de Ossanha
Autor: Joel Rufino dos Santos
Ilustrações: Mauricio Veneza
Editora: Global
Ano: 2000
Número de páginas: 16
Os comedores de palavras
Autores: Edimilson A. Pereira e
Rosa Margarida Rocha
Ilustrações: Rubem Filho
Editora: Mazza Edições
Ano: 2003
Número de páginas: 32
Pretinho, meu boneco querido
Autora: Maria Cristina Furtado
Ilustrações: Carlos Brito
Editora: Editora do Brasil
Ano: 1991
Número de páginas: 56
Tanto, Tanto
Autora: Trish Cooke
Ilustrações: Helen Oxenbury
Editora: Ática
Ano: 1997
Número de páginas: 48
CONTINUA >
O ensino de História e cultura africana e afro-brasileira é o tema da vez
do circuito de leitura. Confira os livros de literatura infantil e de formação
de professores que podem auxiliar a discussão do tema em sala de aula.
5
LITERATURA INFANTO-JUVENIL
Circuito de Leitura Cultura Negra
Desenho aquarelado atribuído a Maria Callcott, Bahia, c. 1810.
LIVROS PARA PROFESSORES
Alfabeto Negro – Manual
Autora: Rosa M. Carvalho Rocha
Editora: Mazza Edições
Ano: 2000
Número de páginas: 20
A África que incomoda: sobre a
problematização do legado africano
no quotidiano brasileiro
Autor: Carlos Moore
Editora: Nandyala
Ano: 2008
Número de páginas: 217
A cor ausente
Autora: Wilma Baía Coelho
Editora: Mazza Edições
Ano: 2006
Número de páginas: 280
A mulher negra que vi de perto
Autora: Nilma Lino Gomes
Editora: Mazza Edições
Ano: 2003
Número de páginas: 128
Igualdade das relações étnico-raciais na
escola: possibilidades e desafios para a im-
plementação da Lei 10.639/03
Autoras: Ana Lucia S. de Souza e
Camila Croso (Orgs.)
Editoras: Pierópolis, Ação Educativa,
Ceafro, Ceert
Ano: 2007
Número de páginas: 96
Literaturas africanas e afro-brasileiras na
prática pedagógica
Autoras: Íris Amâncio, Nilma Lino Gomes
e Miriam Lúcia dos Santos Jorge
Editora: Autêntica
Ano: 2008
Número de páginas: 166
Negritude, cinema e educação
Organização: Edileuza Penha de Souza
Editora: Mazza Edições
Ano: 2006
Número de páginas: 182
Sem perder a raiz: corpo e cabelo
como símbolos da identidade negra
Autora: Nilma Lino Gomes
Editora: Autêntica
Ano: 2008
Número de páginas: 416
CONTINUAÇÃO:
6
Circuito de Leitura Cultura Negra
Desenho aquarelado atribuído a Maria Callcott, Bahia, c. 1810.
P
erto das 16 horas, a reportagem do Di-
mensão na Escola se esconde debaixo de
uma rara sombra na rua de paralelepípe-
dos em Arcos, cidade mineira a 210 km de Belo
Horizonte. Calor há de sobra naquela sexta-
feira, mas vale a pena esperar. É que dali a
pouco chegarão alguns agentes de leitura do
Projeto Bagagem: a leitura salta os muros da
Universidade.
A Universidade, diga-se de uma vez, é a PUC
Minas em Arcos, e o Bagagem é um projeto de
extensão, iniciado em 2003, com o objetivo de
contribuir para o desenvolvimento do municí-
pio e despertar nos estudantes postura ativa
diante da realidade em que estão inseridos.
Os agentes de leitura do Bagagem são crianças
e adolescentes que, sob orientação de moni-
tores da Universidade, se dispõem a espa-
lhar livros e histórias junto às pessoas de seu
convívio. Eles combinaram de se reunir mais
uma vez na sede da Associação Comunitária
do Bairro Novo Cruzeiro, onde vão discutir o
desempenho de cada um desde o último en-
contro.
Não demora aponta lá embaixo a turma,
e vêm animados à contraluz, nem aí para
o sol. Na mão, cada qual traz sua maleta
marrom: dez livros de bagagem. Humberto
Lima, 14 anos, é quem tem a chave da As-
sociação. Após um lance de escada, bem ao
lado da quadra onde uma turma joga bola, o
cômodo. Dentro, alguns bancos compridos
e um painel com a imagem de São Fran-
cisco de Assis.
Todos assentados, o monitor Rodrigo Gui-
marães observa: “Eles são muito indepen-
dentes”. De fato os agentes logo tomam a
iniciativa e resolvem entre si as pendências
relativas à função que exercem.
No interior de Minas, crianças e adolescentes atendidos por extensão universitária
descobrem prazer na leitura e difundem a literatura na comunidade
Isso que é bagagem
FotodeGuilhermeAmorim
Agentes de leitura do projeto Bagagem
CONTINUA >
7
Guilherme Amorim
Reportagem Leitura
Literatura em trânsito
Mas, afinal, que faz um agente de leitura?
Em resumo: lê, escreve e difunde a lite-
ratura. “Cada agente tem um grupo de
leitura, com o qual se reúne para empres-
tar livros e recolher resenhas produzidas
por essas pessoas, além de sugestões de
histórias que elas gostariam de ler”, ex-
plica Humberto. Pode ser criança, adulto,
idoso – o importante é despertar e incen-
tivar o gosto pelas letras. “Em casa tem
a minha tia”, conta Mariana Castro, 13
anos, sobre a participação de adultos em
seu grupo.
E o que leva esses meninos a perambular
pelas ruas com maletas em punho? Alguns
se tornam agentes por simpatizar com a
idéia, como Victor Valadão, também de
13 anos: “Já gostava de ler e escrever,
e achei legal o projeto”. Outros desco-
brem prazer na leitura a partir do envolvi-
mento com o Bagagem, caso de Amilton
Junior de Almeida, 12 anos, ao revelar que
não gostava, mas pouco a pouco passou a
se interessar por livros.
Se, apesar de todos os argumentos fa-
voráveis ao sucesso da proposta, ainda
restar dúvida quanto aos resultados práti-
cos, a turma trata de mostrar que sim,
funciona. Isis Fernanda, 16 anos, relata
que a professora de português notou sig-
nificativa melhora na produção de textos
depois que ela entrou no Bagagem.
Desempenho não por acaso: nos encon-
tros quinzenais, quando recebem as-
sistência dos monitores da Universidade,
os agentes trocam livros e participam de
ditados, dinâmicas e outras atividades
que são, ao mesmo tempo, educativas e
recreativas.
Expansão
No início, o Bagagem atendia a apenas um
bairro de Arcos, o Calcita, um dos mais
pobres da cidade e que abriga também um
campus da PUC. As reuniões ocorriam so-
mente nas dependências da Universidade,
e por isso não era, nem é, difícil ver a ga-
rotada à vontade em meio aos estudantes
de graduação.
Concebida no curso de Comunicação So-
cial, a idéia era desenvolver um projeto
voltado para a comunidade, mas, por ou-
tro lado, familiarizar os universitários com
os livros. “Percebi a carência de hábito de
leitura entre os estudantes”, conta a pro-
fessora Júlia Freitas, idealizadora e co-
ordenadora do Bagagem.
Para ela, um trabalho assim pode levar o
aluno a contribuir para a sociedade en-
quanto ele próprio adquire conhecimento.
Como? Por meio de resenhas que os es-
tudantes escrevem depois de ler as histó-
rias, por exemplo. Os textos são aprimora-
dos e, em seguida, colocados nas maletas
junto com as obras.
Cinco anos depois de sua criação, o pro-
jeto se estendeu para outros sete bairros
de Arcos, além de contar com um núcleo
em Japaraíba, município vizinho. Os en-
contros não mais se realizam apenas no
campus, o que, na opinião de Júlia, tem
de positivo deixar os participantes mais à
vontade.
Atualmente são em torno de cinqüenta
agentes de leitura e quatro monitores re-
munerados, além dos estudantes que se
oferecem para participar sem receber por
isso – cerca de cinco. O acervo é quase
todo formado por doações e já ultrapas-
sa mil livros. Mesmo com a boa vontade
de pessoas e instituições interessadas em
colaborar, o desafio não é dos menores.
Há, por exemplo, agentes que deixam de
participar porque arranjam trabalho, ain-
da que sequer tenham saído da infância.
“Às vezes bate um desânimo, mas vou
indo, faço minha parte”, diz Júlia, com
a persistência de quem assiste de perto
aos meninos e meninas com suas maletas
pelas ruas, convidando outras pessoas
para com eles viajar.
CONTINUAÇÃO:
8
Reportagem Leitura
“[...] O jornal, a revista e o livro contam
histórias. O rádio, a TV e a internet con-
tam histórias. As letras de música con-
tam histórias, quase sempre de amor.
Num quadro de pintura sem se perceber
uma narrativa, com pessoas, tempo e es-
paço, há uma história feita de imagens,
sem palavras. Os discos, filmes e peças
de teatro contam histórias. Os quadri-
nhos e as propagandas contam histórias.
Há belos livros, feitos só de narrativas
através de imagens.
O que nos falta, que parece estar voltan-
do nas melhores escolas, mas que ainda
está desaparecida da vida familiar, é a
história contada e lida de maneira mágica,
feita para encantar as crianças. Histórias
que não querem vender nada, como nas
narrativas da publicidade. Histórias sem
vontade de passar lições religiosas e mo-
rais, sem vontade de ensinar nada, mas
lidas ou contadas pelo simples prazer de
envolver nas tramas das narrativas. Pelo
afeto e pelas palavras e gestos, criam-se
e recriam-se mundos e seus habitantes
fantásticos. Histórias contadas pelo que
tem o homem de inventar, de ficcionar
poética e teatralmente. [...]”
A falta que faz
IlustraçãodeAndréaVilela,dolivroÉferiado,SylviaManzano,Ed.Dimensão.
Texto de Elias José em seu livro Literatura Infantil: ler, contar
e encantar crianças. Porto Alegre: Editora Mediação, 2007.
9
Palavra de professorLeitura
M
anhã de segunda-feira na comu-
nidade Fazenda Velha, zona rural
de Araçuaí, em Minas Gerais.
Participantes do projeto Sementinha,
desenvolvido pela ONG Centro Popular
de Cultura e Desenvolvimento (CPCD),
se encontram diariamente na pequena
capela do lugar. Ali, uma turma de 15
crianças na faixa de 4 a 6 anos ajuda a
professora Maristane Oliveira Carvalho a
afastar os bancos usados pelos fiéis no
domingo e colocam no lugar pequenas
cadeiras de plástico colorido, formando
uma grande roda.
Nesse espaço, elas cantam canções
populares que aprenderam com pessoas
da comunidade, formada por 30 famílias
de lavradores. A cantoria atrai alguns
moradores. Adolescentes, mães com
bebês no colo e avós deixam seus afa-
zeres e sentam-se também na roda para
acompanhar as atividades do Semen-
tinha.
Uma mãe da comunidade ajuda a
improvisar uma mesa para que meninos
e meninas tomem a sopa de legumes.
Eles mergulham a concha na panela
e se servem com autonomia. Depois,
recolhem pratos e talheres e pegam as
escovas de dente, que ficam guardadas
num porta-escova criativo feito com
uma garrafa descartável.
Lobos banguelas
A atividade seguinte acontece nas mar-
gens do rio Piauí. Durante o caminho,
são relembrados os passeios feitos na
comunidade e também ao centro da
cidade, que muitas crianças até então não
conheciam. “A gente foi no aeroporto, na
praça...”, diz Milena Dias Rosa, 5 anos.
Numa pedra à beira do rio fazem uma
roda para ouvir um conto da tradição
regional. “É a história da menina que
esqueceu os brincos de ouro na pedra
do rio”, explica Maristane. Todos adoram
ouvir histórias. A professora reinventa os
contos de fadas e estimula a meninada
a criar o final. A imaginação voa, e é
assim que surgem lobos banguelas e
vovozinhas espertas nas histórias dessa
turma.
A professora conta que as crianças
descobriram as letras brincando. Um dia,
Taís Amorim de Oliveira, 5 anos, disse, na
roda, que achou a letra “T” numa caixa
de sabão em pó. Depois disso, todos
queriam encontrar a inicial do próprio
nome. Maristane teve, então, a idéia de
fazer um jogo, com letras recortadas das
embalagens. A brincadeira não parou
aí: as crianças passaram a modelar as
letras do alfabeto na argila retirada das
margens do rio.
Sementinha
na beira do rio
10
Rosangela Guerra
Jornalista
Relato de experiência Leitura
Foto de Rosangela Guerra
M
eados da década de 40, a guerra
acabando e o mundo girando nas
ondas do rádio. Enquanto isso,
numa pequena cidade do interior de
Minas, Ziraldo e seus colegas do Grupo
Escolar andavam perdidos de amores
por Uma professora muito maluquinha.
Ziraldo é o autor do texto, mas escreveu
na primeira pessoa do plural como se
estivesse contando a história junto com
os colegas de turma.
Sim, ela era maluquinha. Numa época
em que alfabetizar era seguir a cartilha,
a professora escandalizava. Criava
jogos e brincadeiras para sala de aula e
demonstrava seu amor pelo que existia
muito além da escola: música, rádio,
cinema, quadrinhos, poesias e viagens
pelo mundo.
Nenhum aluno queria saber de perder
aquelas aulas movimentadas e alegres.
Um dia, a diretora abriu a porta de
repente e disse: “Vamos parar com essa
felicidade aí?”. Os pais também andaram
reclamando: as lições de casa eram
poucas. A professora começou então a
inventar lições bem maluquinhas que
envolviam a família toda numa grande
brincadeira de aprender.
A professora inesquecível deixou de
ensinar muitos conteúdos escolares
daquele tempo. O autor fez uma
lista enorme com alguns deles: os
afluentes da margem esquerda do rio
São Francisco, o dia de nascimento
e morte do Duque de Caxias, o nome
completo do Conde D’Eu, marido da
princesa Isabel, os países independen-
tes da África e muitos outros que a vida
mostrou depois que não tinham mesmo
a menor importância.
E o que foi feito da professora maluqui-
nha? Bem, o final da história não pode ser
contado aqui para não tirar a surpresa
deste livro divertido que nos faz refletir
sobre educação de crianças e jovens.
Informações:
Uma professora
muito maluquinha
Autor: Ziraldo
Editora: Melhoramentos
Número de páginas: 120
Uma professora
muito maluquinha
11
Resenha
Rosangela Guerra
Jornalista
Leitura
12
A
seleção e organização de trabalhos
dos alunos realizados num período
determinado de tempo, estratégia
utilizada por várias escolas, é uma
forma adequada para que as crianças
visualizem seu processo particular de
aprender. Com a ajuda do professor e
refletindo sobre sua própria produção,
a criança pode perceber seus pontos
fortes, suas dificuldades, tornando-se
mais consciente de seu processo de
aprendizagem.
No cotidiano da sala de aula, é
importante que os alunos sejam
estimulados e ajudados a refletir sobre
a maneira como estão realizando cada
tarefa e como podem melhorar suas
competências num determinado tipo
de aprendizagem. A auto-avaliação
coloca o aluno na condição de olhar
criticamente não só o resultado de seu
trabalho, mas também o que aconteceu
no caminho percorrido. Um roteiro pode
ajudar a pensar sobre:
•	 As condições em que a tarefa foi
feita: quando? Onde? Em que tempo?
•	 O material utilizado: anotações,
documentos, livros.
•	 Como foi feito o trabalho: o que
se fez primeiro, o que facilitou, o que
dificultou.
Outro procedimento capaz de enriquecer
a percepção de si próprio é levar o
aluno a “ver” seu trabalho pelo olhar
do outro. As crianças de uma classe
não são iguais e essa diversidade é
fundamental para a interação e para
a melhoria do desempenho individual.
Ao final das atividades, cada uma pode
fazer apreciações sobre os trabalhos
dos colegas:
A parte que mais gostei do trabalho é...
O que não ficou claro para mim é...
Acho que o jeito como apresentou foi...
Você poderia melhorar seu trabalho se...
Os próprios alunos
avaliam seu crescimento
Avaliação
Arquivo Rosangela Guerra
Texto retirado de Raízes e Asas,
publicação do Cenpec (Centro de
Pesquisas para Educação e Cultura)
13
O
maestro e compositor Tom Jobim era
um observador atento da natureza.
Amava e defendia a Mata Atlântica,
fazia músicas inspiradas no canto dos
pássaros e dizia que a gente deve sentir
“a perna do vento”. O projeto Tom da
Mata*, do Instituto Antônio Carlos Jobim,
foi criado para despertar nos alunos a
responsabilidade individual em relação às
questões ambientais e mobilizar escolas
e comunidades. Leia abaixo algumas
atividades do projeto para serem realizadas
na escola.
Ouvir a natureza
A turma aproveita um dos passeios na
floresta, campo, plantação, rio, praia
etc. Em alguns momentos, o professor
pode sugerir que os alunos se coloquem
abertos e receptivos para ouvir os sons
da natureza. Depois de um tempo, devem
escolher um dos sons e procurar imitá-lo e/
ou interagir com ele. Se quiserem, podem
levar lápis para escrever ou desenhar. Peça
aos alunos que registrem que emoções o
som provocou.
Ouvir a própria voz
Sentados em suas carteiras, os alunos
podem falar para si mesmos e pensar no
que ouvem quando falam. Também podem
emitir sons, como o balbuciar de bebês,
sons graves, agudos, longos e curtos. Esse
exercício resgata um pouco a caminhada
da criança até a fala completa. É também
importante que as crianças gravem e
ouçam a própria voz.
Ouvir os sons do ambiente
Propor à turma que exercite essa atividade
fora da escola, individualmente. Em
silêncio, prestar atenção aos sons do
ambiente no ônibus, na sala de aula, no
recreio, em casa (de manhã, à tarde, à
noite, depois de deitar-se), na rua, numa
festa, durante um jogo. Por um minuto,
o aluno deve colocar-se nesta atitude:
postura de entrega para recebimento de
sons. Na escola, as crianças escrevem no
caderno a resposta para esta questão:
quais os sons que lhe fazem bem? Quais
os que lhe provocam tensão?
Ouvir e pesquisar músicas
Depois desses exercícios, a música deve
ser incluída nas atividades. O professor
escolhe cinco tipos de música (pode ser um
rock, um samba, uma música orquestral
etc.). A cada dia de aula, a turma escuta
uma dessas músicas e registra no caderno
as suas sensações.
O professor pode propor aos alunos que
desenvolvam um projeto de coleta e
registro de músicas que falam da natureza.
Podem ser músicas folclóricas ou da MPB.
Pedir sugestões aos pais e avós sobre
músicas antigas.
Depois de realizar esse projeto, escreva
para o jornal:
jornal@editoradimensao.com.br
Sons da vida
EducaçãoAmbiental
Arquivo Rosangela Guerra
* O projeto Tom da Mata é fruto da parceria
do Instituto Antônio Carlos Jobim, Fundação
Roberto Marinho e Furnas Centrais Elétricas.
Temos recebido o jornal Dimensão na Escola no
Colégio Logosófico e gostado demais! É muito bom
podermos conhecer o trabalho que nossos queridos
professores realizam com os alunos. Ao ler o jornal,
fica claro que há muitos profissionais empenhados em
fazer educação de verdade em nosso país.
Parabéns pelo trabalho!
Marise Alencar - Coordenadora da Educação Infantil
do Colégio Logosófico/BH.
Gostei muito do jornal. A linguagem
é simples, sem ser simplista,
e o jornal tem um formato muito
interessante para a web. Parabéns.
Priscila Borges - Arcos/MG
14

Entrevista com n ilma lino

  • 1.
    Editorial Ao poeta EliasJosé, É com saudades que nós, do Dimensão na Escola, lembramos e dedicamos esta edição ao escritor e professor Elias José. Há pouco mais de dois meses trocamos e-mails sobre um texto que ele iria fazer para o nosso jornal. “Como se toca se dança. Escreverei em prosa ou em verso – teórica ou literalmente, como você preferir” foi o que ele me escreveu, com a gentileza de sempre. No entanto, antes que o tão esperado texto pudesse chegar ao jornal, veio a notícia da despedida do escritor. Mas, como disse seu filho Érico, “as suas obras ficaram como mensagem de valorização da leitura, da literatura, dos livros e da poesia”. E isso jamais passará! Nesta edição reproduzimos um pequeno trecho do livro Literatura Infantil: ler, contar e encantar criança, em que Elias José fala da importância da história contada e lida de maneira mágica. E por falar em encanto e poesia, nesta oitava edição do jornal, o maestro e compositor Tom Jobim também comparece. Tom se inspirava na natureza para criar muitas de suas belas canções. O projeto Tom da Mata, do Instituto Antônio Carlos Jobim, foi criado para despertar nos alunos a responsabilidade individual em relação às questões ambientais e mobilizar escolas e comunidades. Leia e aproveite as dicas de atividades do projeto para serem realizadas na escola. Não deixe de ler também a entrevista que traz à tona um tema muito importante: a implementação da Lei Federal 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e cultura africana e afro-brasileira nas escolas de ensino básico. A professora da Faculdade de Educação da UFMG Nilma Lino Gomes fala da importância de os professores se indagarem sobre qual tem sido a sua postura diante da questão racial na escola e na sociedade. Boa leitura! Renata Fabreti A falta que faz Uma professora muito maluquinha Sementinha na beira do rio Museu AfroBrasil é dez! Circuito de leitura Sons da vida Expediente/Espaço do professor E MAIS Os próprios alunos avaliam seu crescimento Isso que é bagagem Gustave Doré Ano II - n.8 - setembro/outubro 2008 - ISSN 1981-7037 Entrevista: Nilma Lino Gomes Foto de Priscila Borges
  • 2.
    “N a sociedade ena escola brasileira – da Educação Básica ao Ensino S uperior – os docentes conseg uem, muitas ve zes, f icar indig nados diante do racismo, porém, cont inuam imóveis. Essa é uma das maneiras por meio das quais o mito da democracia racial opera em nossa sociedade”, diz a professora da Faculdade de Edu- cação da UFMG e coordenadora-geral do Prog rama Ações Af ir mat ivas na UFMG, Nilma Lino Gomes. Nesta ent re vista, ela fala da importância da Lei Federal que tor na obrigatório o ensino de História e cultura af ricana e af ro -brasileira na Educação Básica Entrevista Nilma Lino Gomes CONTINUA > Qual a importância da Lei Federal 10.639/03? A lei é importante em vários aspec- tos. O primeiro ponto é que se trata de uma alteração da LDB (Lei de Dire- trizes e Bases da Educação Nacional), que inclui artigos ligados à obrigato- riedade do ensino de História e cul- tura africana e afro-brasileira. Dessa forma, a Lei 10.639/03, que acaba de ser alterada para 11.645/08 (devido à inclusão da temática indígena), é uma lei nacional e por isso deve ser cumprida em todas as escolas públi- cas e privadas da Educação Básica do País. O segundo ponto é que essa Lei é uma medida de ação afirma- tiva. Ela é fruto da ação histórica do Movimento Negro e sua pressão em relação ao Estado. Antes mesmo de a Lei existir, várias ações nesse sen- tido já eram realizadas em diferentes partes do País, porém, como iniciati- vas isoladas do Movimento Negro ou de intelectuais interessados no tema. A Lei 10.639/03 é o reconhecimento do direito à diferença. A Lei tem conseguido abrir o debate sobre a questão racial na educação? Aos poucos, os educadores e as edu- cadoras vão compreendendo que discutir a questão africana e afro- brasileira de maneira crítica, séria e pedagógica é um dever de todo e qualquer educador e não somente uma pauta de luta do Movimento Ne- gro. Ou seja, a questão racial atinge a todos nós, independentemente do nosso pertencimento étnico-racial. E se desejamos construir uma escola e umasociedademaisdemocráticaste- mosquenosposicionarnalutacontra o racismo e contribuir para a supera- ção de estereótipos e preconceitos raciais. É uma questão de cidadania, mas não de uma cidadania abstrata. Eu diria que é uma cidadania multi- cultural. Algo que no Brasil ainda tem sido muito pouco discutido. E como tem sido a experiên- cia na formação inicial e con- tinuada de professores? Achoquenaformaçãocontinuadate- mos mais experiências interessantes. Lamentavelmente, na formação ini- cial, nos cursos de Pedagogia e Licen- ciatura e também nos Bacharelados, encontramos inúmeras resistências à inclusão da discussão sobre a África (de maneira crítica) e a questão afro- brasileira. De modo geral, tais dis- cussões ainda ficam restritas às dis- ciplinas optativas, ministradas pelos docentes interessados no tema. A África e a questão racial brasileira continuam invisíveis na grande maio- ria das grades curriculares dos cursos de graduação e pós-graduação, so- bretudo na área da educação. Se so- marmos a isso a questão de gênero e geracional, teremos um quadro ainda mais grave. Por que as escolas de Edu- cação Básica têm dificuldades para aplicar a Lei? Os motivos são vários. Eu poderia destacar alguns. Acho que as esco- las, assim como a sociedade, vivem sob a égide do mito da democracia racial. Essa crença de que vivemos relações raciais harmoniosas, de que a miscigenação brasileira resolveu os problemas raciais no Brasil é algo Cultura Negra na escola 2
  • 3.
    terrível! Ela desviao nosso olhar das sérias conseqüências do racismo na nossa vida e embota o entendimen- to das pessoas. O currículo, os livros didáticos e a própria política educa- cional expressam de várias formas esse mito e ele ajuda a construir re- sistências ao debate, à discussão e à implementação de práticas pedagógi- cas voltadas para a diversidade étnico- racial. O que sabemos sobre a África? E sobre o negro brasileiro, suas histórias, suas lutas e conquistas? É forte ainda a presença de imagens estereotipadas e opiniões coladas no senso comum. As pessoas lêem pouco sobre o tema e repetem várias distorções do as- sunto realizadas pela mídia brasileira. Há também o desconhecimento do tema, o que acarreta dificuldades na implementação da Lei. Por isso, o in- vestimento na formação inicial e con- tinuada de professores é importante. Mas a diversidade cultural e étnico-racialbrasileiraaindanão se tornou um dos eixos orienta- dores das políticas, das práticas e dos currículos, não é? A Lei 10.639/03 é um passo impor- tante nesse sentido, mas para que ela realmente desencadeie uma políti- ca educacional efetiva há um longo caminho a percorrer. E para que o re- sultado desse percurso seja positivo é necessário que se criem condições concretas para tal. Penso que deveria haver maior preocupação pública e institucional do MEC, das secretarias estaduais e municipais de educação de todo o país em relação à superação de práticas preconceituosas, visões negativas do negro e de outros gru- pos étnico-raciais. E deveria haver maior inserção de uma discussão que privilegie a visão positiva e afirmativa sobre a história e cultura afro-brasilei- ra e africana. Para isso precisamos de financiamento, formação inicial e con- tinuada, material didático-pedagó- gico, pesquisas e monitoramento das ações. É preciso também criar espaços de formação em serviço, no interior da escola, para que os docentes discutam coletivamente e pensem ações, pro- jetos e estratégias pedagógicas con- juntas. O trabalho com a diversidade cultural e étnico-racial não se faz no isolamento. Na sua avaliação, estão sendo produzidos materiais que con- tribuem para o ensino da cultura negra e da história da África? Sim, aos poucos esses materiais vêm sendo produzidos tanto por parte do público quanto do privado. Digo isso porque, além do Ministério da Edu- cação e de ações de secretarias mu- nicipais e estaduais, a iniciativa pri- vada começa a investir também. Mas ainda é muito pouco, se comparado com a necessidade e com a demanda. E nem todo material é de boa quali- dade. É preciso avaliar com calma e criticidade. Há experiências bem-suce- didas nas escolas de Educação Básica? Não temos ainda um mapeamento sistemático dessas ações. Pela minha experiência, vejo que os trabalhos bem-sucedidos dizem respeito mais aos processos de formação continu- ada. Eles acabam sendo experiências individuais de docentes ou coletivos de educadores interessados no tema, ou articulações entre algumas secre- tarias de educação, a universidade, a gestão da escola e professores e pro- fessoras. Há projetos de trabalho que articulam ações com alunos, comuni- dade e movimentos sociais, mas são pouco conhecidos. Por isso, agora é o momento de começarmos a pesquisar mais e avaliar as ações pedagógicas em sala de aula, os projetos pedagó- gicos interdisciplinares que vêm sen- do desenvolvidos e o impacto desse processo na formação dos alunos. Embora a Lei seja recente, já é hora de começarmos a pensar nesse aspecto. Que sugestões você daria aos professores? Acho que os docentes deveriam en- tender o caráter da Lei 10.639/03 e aproveitar esse momento político e pedagógico que vivemos para se inda- garem sobre qual tem sido a sua pos- tura diante da questão racial na escola e na sociedade. A discussão crítica e pedagógica da questão racial e africa- na na escola é um direito. E, enquanto tal, deve ser garantida. Já é hora de os educadores superarem o discurso de que o negro é discriminado somente porque é pobre e de que as políticas universais atingem igualmente ne- gros e brancos. É preciso conhecer as pesquisas que nos ajudam a com- preender melhor essa situação. Se não tivermos ações afirmativas sérias no Brasil, as desigualdades raciais e o ra- cismo se arrastarão ainda por muitos anos. Outra sugestão é conhecer mais aslutas,osavanços,aresistêncianegra no Brasil. É importante também co- nhecer a História da África sob o pris- ma dos africanos e não somente dos colonizadores ou neocolonizadores. Há muita riqueza, sabedoria, beleza a descobrir. Não temos somente uma história de pobreza, racismo, coloni- zação e desigualdades quando fala- mos sobre o negro brasileiro e sobre a África. É preciso equilibrar a discussão com a denúncia do racismo (esse pon- to nunca deverá sair da nossa pauta!) e as vitórias e conquistas. O povo afri- cano e os negros brasileiros devem ser tratados, na educação, na sua di- mensão histórica, política, cultural e social. O conteúdo da Lei e suas dire- trizes curriculares nacionais devem ser entendidos como constituintes da nossa formação pedagógica e escolar, e não como uma questão à parte. A história do negro brasileiro faz parte da história do Brasil, e a história da África faz parte da história do mundo. Não podemos mais passar pela edu- cação básica e pela universidade sem compreender essas questões. Entrevista Nilma Lino GomesCONTINUAÇÃO: 3
  • 4.
    Museu AfroBrasil édez! N o Museu AfroBrasil, que fica no Portão 10 do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, há muito o que se ver e aprender. Há um acervo interessante que mostra a importância da matriz negro-africana na constituição da história e cultura brasileiras. As exposições são criativas, como Formas e Pulos: o Saci no imaginário e Benin está vivo ainda lá – ancestralidade e contemporaneidade. O museu tem a missão educativa de desconstruir e transformar o imaginário sobre a população negra, baseado na ótica da inferioridade. A equipe de profissionais do Núcleo de Educação promove oficinas, cursos, encontros, seminários e materiais destinados a educadores, crianças e jovens. Visite o site: www.museuafrobrasil.com.br Navegue Gravura de Frederico Guilherme Briggs. Rio de Janeiro, RJ, 1832-1836. CulturaNegra 4
  • 5.
    Alfabeto negro Autora: RosaM. Carvalho Rocha Editora: Mazza Edições Ano: 2001 Número de páginas: 56 Ana e Ana Autora: Célia Cristina Godoy Ilustrações: Fê Editora: DCL Difusão Cultura Ano: 2003 Número de páginas: 24 Aquilo que a mãe não quer Autora: Geni Guimarães Editora: Mazza Edições Ano: 2004 Número de páginas: 32 Coleção Bichos da África (4 volumes) Autor: Rogério A. Barbosa Ilustrações: Ciça Fittipaldi Editora: Melhoramentos Ano: 2008 Número de páginas: 16 Contando a história do samba Autores: Marcos Cardoso, Elzelina Dóris e Edinéia Ferreira Editora: Mazza Edições Ano: 2008 Número de páginas: 80 Dito, o negrinho da flauta Autor: Pedro Bloch Editora: Moderna Ano: 2004 Número de páginas: 64 Felicidade não tem cor Autor: Júlio Emílio Braz Editora: Moderna Ano: 1994 Número de páginas: 64 Histórias da Preta Autora: Heloísa Pires Lima Ilustrações: Laurabeatriz Editora: Companhia das Letras Ano: 1998 Número de páginas: 64 Luana – a menina que viu o Brasil neném Autores: Aroldo Macedo e Oswaldo Faustino Editora: FTD Ano: 2000 Número de páginas: 48 O Congado para Crianças (Coleção OLERÊ) Autor: Edimilson A. Pereira Ilustrações: Rubem Filho Editora: Mazza Edições Ano: 2006 Número de páginas: 20 O filho do vento Autor: Rogério Andrade Barbosa Ilustrações: Graça Lima Editora: DCL Ano: 2001 Número de páginas: 40 O presente de Ossanha Autor: Joel Rufino dos Santos Ilustrações: Mauricio Veneza Editora: Global Ano: 2000 Número de páginas: 16 Os comedores de palavras Autores: Edimilson A. Pereira e Rosa Margarida Rocha Ilustrações: Rubem Filho Editora: Mazza Edições Ano: 2003 Número de páginas: 32 Pretinho, meu boneco querido Autora: Maria Cristina Furtado Ilustrações: Carlos Brito Editora: Editora do Brasil Ano: 1991 Número de páginas: 56 Tanto, Tanto Autora: Trish Cooke Ilustrações: Helen Oxenbury Editora: Ática Ano: 1997 Número de páginas: 48 CONTINUA > O ensino de História e cultura africana e afro-brasileira é o tema da vez do circuito de leitura. Confira os livros de literatura infantil e de formação de professores que podem auxiliar a discussão do tema em sala de aula. 5 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Circuito de Leitura Cultura Negra Desenho aquarelado atribuído a Maria Callcott, Bahia, c. 1810.
  • 6.
    LIVROS PARA PROFESSORES AlfabetoNegro – Manual Autora: Rosa M. Carvalho Rocha Editora: Mazza Edições Ano: 2000 Número de páginas: 20 A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro Autor: Carlos Moore Editora: Nandyala Ano: 2008 Número de páginas: 217 A cor ausente Autora: Wilma Baía Coelho Editora: Mazza Edições Ano: 2006 Número de páginas: 280 A mulher negra que vi de perto Autora: Nilma Lino Gomes Editora: Mazza Edições Ano: 2003 Número de páginas: 128 Igualdade das relações étnico-raciais na escola: possibilidades e desafios para a im- plementação da Lei 10.639/03 Autoras: Ana Lucia S. de Souza e Camila Croso (Orgs.) Editoras: Pierópolis, Ação Educativa, Ceafro, Ceert Ano: 2007 Número de páginas: 96 Literaturas africanas e afro-brasileiras na prática pedagógica Autoras: Íris Amâncio, Nilma Lino Gomes e Miriam Lúcia dos Santos Jorge Editora: Autêntica Ano: 2008 Número de páginas: 166 Negritude, cinema e educação Organização: Edileuza Penha de Souza Editora: Mazza Edições Ano: 2006 Número de páginas: 182 Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra Autora: Nilma Lino Gomes Editora: Autêntica Ano: 2008 Número de páginas: 416 CONTINUAÇÃO: 6 Circuito de Leitura Cultura Negra Desenho aquarelado atribuído a Maria Callcott, Bahia, c. 1810.
  • 7.
    P erto das 16horas, a reportagem do Di- mensão na Escola se esconde debaixo de uma rara sombra na rua de paralelepípe- dos em Arcos, cidade mineira a 210 km de Belo Horizonte. Calor há de sobra naquela sexta- feira, mas vale a pena esperar. É que dali a pouco chegarão alguns agentes de leitura do Projeto Bagagem: a leitura salta os muros da Universidade. A Universidade, diga-se de uma vez, é a PUC Minas em Arcos, e o Bagagem é um projeto de extensão, iniciado em 2003, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento do municí- pio e despertar nos estudantes postura ativa diante da realidade em que estão inseridos. Os agentes de leitura do Bagagem são crianças e adolescentes que, sob orientação de moni- tores da Universidade, se dispõem a espa- lhar livros e histórias junto às pessoas de seu convívio. Eles combinaram de se reunir mais uma vez na sede da Associação Comunitária do Bairro Novo Cruzeiro, onde vão discutir o desempenho de cada um desde o último en- contro. Não demora aponta lá embaixo a turma, e vêm animados à contraluz, nem aí para o sol. Na mão, cada qual traz sua maleta marrom: dez livros de bagagem. Humberto Lima, 14 anos, é quem tem a chave da As- sociação. Após um lance de escada, bem ao lado da quadra onde uma turma joga bola, o cômodo. Dentro, alguns bancos compridos e um painel com a imagem de São Fran- cisco de Assis. Todos assentados, o monitor Rodrigo Gui- marães observa: “Eles são muito indepen- dentes”. De fato os agentes logo tomam a iniciativa e resolvem entre si as pendências relativas à função que exercem. No interior de Minas, crianças e adolescentes atendidos por extensão universitária descobrem prazer na leitura e difundem a literatura na comunidade Isso que é bagagem FotodeGuilhermeAmorim Agentes de leitura do projeto Bagagem CONTINUA > 7 Guilherme Amorim Reportagem Leitura
  • 8.
    Literatura em trânsito Mas,afinal, que faz um agente de leitura? Em resumo: lê, escreve e difunde a lite- ratura. “Cada agente tem um grupo de leitura, com o qual se reúne para empres- tar livros e recolher resenhas produzidas por essas pessoas, além de sugestões de histórias que elas gostariam de ler”, ex- plica Humberto. Pode ser criança, adulto, idoso – o importante é despertar e incen- tivar o gosto pelas letras. “Em casa tem a minha tia”, conta Mariana Castro, 13 anos, sobre a participação de adultos em seu grupo. E o que leva esses meninos a perambular pelas ruas com maletas em punho? Alguns se tornam agentes por simpatizar com a idéia, como Victor Valadão, também de 13 anos: “Já gostava de ler e escrever, e achei legal o projeto”. Outros desco- brem prazer na leitura a partir do envolvi- mento com o Bagagem, caso de Amilton Junior de Almeida, 12 anos, ao revelar que não gostava, mas pouco a pouco passou a se interessar por livros. Se, apesar de todos os argumentos fa- voráveis ao sucesso da proposta, ainda restar dúvida quanto aos resultados práti- cos, a turma trata de mostrar que sim, funciona. Isis Fernanda, 16 anos, relata que a professora de português notou sig- nificativa melhora na produção de textos depois que ela entrou no Bagagem. Desempenho não por acaso: nos encon- tros quinzenais, quando recebem as- sistência dos monitores da Universidade, os agentes trocam livros e participam de ditados, dinâmicas e outras atividades que são, ao mesmo tempo, educativas e recreativas. Expansão No início, o Bagagem atendia a apenas um bairro de Arcos, o Calcita, um dos mais pobres da cidade e que abriga também um campus da PUC. As reuniões ocorriam so- mente nas dependências da Universidade, e por isso não era, nem é, difícil ver a ga- rotada à vontade em meio aos estudantes de graduação. Concebida no curso de Comunicação So- cial, a idéia era desenvolver um projeto voltado para a comunidade, mas, por ou- tro lado, familiarizar os universitários com os livros. “Percebi a carência de hábito de leitura entre os estudantes”, conta a pro- fessora Júlia Freitas, idealizadora e co- ordenadora do Bagagem. Para ela, um trabalho assim pode levar o aluno a contribuir para a sociedade en- quanto ele próprio adquire conhecimento. Como? Por meio de resenhas que os es- tudantes escrevem depois de ler as histó- rias, por exemplo. Os textos são aprimora- dos e, em seguida, colocados nas maletas junto com as obras. Cinco anos depois de sua criação, o pro- jeto se estendeu para outros sete bairros de Arcos, além de contar com um núcleo em Japaraíba, município vizinho. Os en- contros não mais se realizam apenas no campus, o que, na opinião de Júlia, tem de positivo deixar os participantes mais à vontade. Atualmente são em torno de cinqüenta agentes de leitura e quatro monitores re- munerados, além dos estudantes que se oferecem para participar sem receber por isso – cerca de cinco. O acervo é quase todo formado por doações e já ultrapas- sa mil livros. Mesmo com a boa vontade de pessoas e instituições interessadas em colaborar, o desafio não é dos menores. Há, por exemplo, agentes que deixam de participar porque arranjam trabalho, ain- da que sequer tenham saído da infância. “Às vezes bate um desânimo, mas vou indo, faço minha parte”, diz Júlia, com a persistência de quem assiste de perto aos meninos e meninas com suas maletas pelas ruas, convidando outras pessoas para com eles viajar. CONTINUAÇÃO: 8 Reportagem Leitura
  • 9.
    “[...] O jornal,a revista e o livro contam histórias. O rádio, a TV e a internet con- tam histórias. As letras de música con- tam histórias, quase sempre de amor. Num quadro de pintura sem se perceber uma narrativa, com pessoas, tempo e es- paço, há uma história feita de imagens, sem palavras. Os discos, filmes e peças de teatro contam histórias. Os quadri- nhos e as propagandas contam histórias. Há belos livros, feitos só de narrativas através de imagens. O que nos falta, que parece estar voltan- do nas melhores escolas, mas que ainda está desaparecida da vida familiar, é a história contada e lida de maneira mágica, feita para encantar as crianças. Histórias que não querem vender nada, como nas narrativas da publicidade. Histórias sem vontade de passar lições religiosas e mo- rais, sem vontade de ensinar nada, mas lidas ou contadas pelo simples prazer de envolver nas tramas das narrativas. Pelo afeto e pelas palavras e gestos, criam-se e recriam-se mundos e seus habitantes fantásticos. Histórias contadas pelo que tem o homem de inventar, de ficcionar poética e teatralmente. [...]” A falta que faz IlustraçãodeAndréaVilela,dolivroÉferiado,SylviaManzano,Ed.Dimensão. Texto de Elias José em seu livro Literatura Infantil: ler, contar e encantar crianças. Porto Alegre: Editora Mediação, 2007. 9 Palavra de professorLeitura
  • 10.
    M anhã de segunda-feirana comu- nidade Fazenda Velha, zona rural de Araçuaí, em Minas Gerais. Participantes do projeto Sementinha, desenvolvido pela ONG Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), se encontram diariamente na pequena capela do lugar. Ali, uma turma de 15 crianças na faixa de 4 a 6 anos ajuda a professora Maristane Oliveira Carvalho a afastar os bancos usados pelos fiéis no domingo e colocam no lugar pequenas cadeiras de plástico colorido, formando uma grande roda. Nesse espaço, elas cantam canções populares que aprenderam com pessoas da comunidade, formada por 30 famílias de lavradores. A cantoria atrai alguns moradores. Adolescentes, mães com bebês no colo e avós deixam seus afa- zeres e sentam-se também na roda para acompanhar as atividades do Semen- tinha. Uma mãe da comunidade ajuda a improvisar uma mesa para que meninos e meninas tomem a sopa de legumes. Eles mergulham a concha na panela e se servem com autonomia. Depois, recolhem pratos e talheres e pegam as escovas de dente, que ficam guardadas num porta-escova criativo feito com uma garrafa descartável. Lobos banguelas A atividade seguinte acontece nas mar- gens do rio Piauí. Durante o caminho, são relembrados os passeios feitos na comunidade e também ao centro da cidade, que muitas crianças até então não conheciam. “A gente foi no aeroporto, na praça...”, diz Milena Dias Rosa, 5 anos. Numa pedra à beira do rio fazem uma roda para ouvir um conto da tradição regional. “É a história da menina que esqueceu os brincos de ouro na pedra do rio”, explica Maristane. Todos adoram ouvir histórias. A professora reinventa os contos de fadas e estimula a meninada a criar o final. A imaginação voa, e é assim que surgem lobos banguelas e vovozinhas espertas nas histórias dessa turma. A professora conta que as crianças descobriram as letras brincando. Um dia, Taís Amorim de Oliveira, 5 anos, disse, na roda, que achou a letra “T” numa caixa de sabão em pó. Depois disso, todos queriam encontrar a inicial do próprio nome. Maristane teve, então, a idéia de fazer um jogo, com letras recortadas das embalagens. A brincadeira não parou aí: as crianças passaram a modelar as letras do alfabeto na argila retirada das margens do rio. Sementinha na beira do rio 10 Rosangela Guerra Jornalista Relato de experiência Leitura Foto de Rosangela Guerra
  • 11.
    M eados da décadade 40, a guerra acabando e o mundo girando nas ondas do rádio. Enquanto isso, numa pequena cidade do interior de Minas, Ziraldo e seus colegas do Grupo Escolar andavam perdidos de amores por Uma professora muito maluquinha. Ziraldo é o autor do texto, mas escreveu na primeira pessoa do plural como se estivesse contando a história junto com os colegas de turma. Sim, ela era maluquinha. Numa época em que alfabetizar era seguir a cartilha, a professora escandalizava. Criava jogos e brincadeiras para sala de aula e demonstrava seu amor pelo que existia muito além da escola: música, rádio, cinema, quadrinhos, poesias e viagens pelo mundo. Nenhum aluno queria saber de perder aquelas aulas movimentadas e alegres. Um dia, a diretora abriu a porta de repente e disse: “Vamos parar com essa felicidade aí?”. Os pais também andaram reclamando: as lições de casa eram poucas. A professora começou então a inventar lições bem maluquinhas que envolviam a família toda numa grande brincadeira de aprender. A professora inesquecível deixou de ensinar muitos conteúdos escolares daquele tempo. O autor fez uma lista enorme com alguns deles: os afluentes da margem esquerda do rio São Francisco, o dia de nascimento e morte do Duque de Caxias, o nome completo do Conde D’Eu, marido da princesa Isabel, os países independen- tes da África e muitos outros que a vida mostrou depois que não tinham mesmo a menor importância. E o que foi feito da professora maluqui- nha? Bem, o final da história não pode ser contado aqui para não tirar a surpresa deste livro divertido que nos faz refletir sobre educação de crianças e jovens. Informações: Uma professora muito maluquinha Autor: Ziraldo Editora: Melhoramentos Número de páginas: 120 Uma professora muito maluquinha 11 Resenha Rosangela Guerra Jornalista Leitura
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    12 A seleção e organizaçãode trabalhos dos alunos realizados num período determinado de tempo, estratégia utilizada por várias escolas, é uma forma adequada para que as crianças visualizem seu processo particular de aprender. Com a ajuda do professor e refletindo sobre sua própria produção, a criança pode perceber seus pontos fortes, suas dificuldades, tornando-se mais consciente de seu processo de aprendizagem. No cotidiano da sala de aula, é importante que os alunos sejam estimulados e ajudados a refletir sobre a maneira como estão realizando cada tarefa e como podem melhorar suas competências num determinado tipo de aprendizagem. A auto-avaliação coloca o aluno na condição de olhar criticamente não só o resultado de seu trabalho, mas também o que aconteceu no caminho percorrido. Um roteiro pode ajudar a pensar sobre: • As condições em que a tarefa foi feita: quando? Onde? Em que tempo? • O material utilizado: anotações, documentos, livros. • Como foi feito o trabalho: o que se fez primeiro, o que facilitou, o que dificultou. Outro procedimento capaz de enriquecer a percepção de si próprio é levar o aluno a “ver” seu trabalho pelo olhar do outro. As crianças de uma classe não são iguais e essa diversidade é fundamental para a interação e para a melhoria do desempenho individual. Ao final das atividades, cada uma pode fazer apreciações sobre os trabalhos dos colegas: A parte que mais gostei do trabalho é... O que não ficou claro para mim é... Acho que o jeito como apresentou foi... Você poderia melhorar seu trabalho se... Os próprios alunos avaliam seu crescimento Avaliação Arquivo Rosangela Guerra Texto retirado de Raízes e Asas, publicação do Cenpec (Centro de Pesquisas para Educação e Cultura)
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    13 O maestro e compositorTom Jobim era um observador atento da natureza. Amava e defendia a Mata Atlântica, fazia músicas inspiradas no canto dos pássaros e dizia que a gente deve sentir “a perna do vento”. O projeto Tom da Mata*, do Instituto Antônio Carlos Jobim, foi criado para despertar nos alunos a responsabilidade individual em relação às questões ambientais e mobilizar escolas e comunidades. Leia abaixo algumas atividades do projeto para serem realizadas na escola. Ouvir a natureza A turma aproveita um dos passeios na floresta, campo, plantação, rio, praia etc. Em alguns momentos, o professor pode sugerir que os alunos se coloquem abertos e receptivos para ouvir os sons da natureza. Depois de um tempo, devem escolher um dos sons e procurar imitá-lo e/ ou interagir com ele. Se quiserem, podem levar lápis para escrever ou desenhar. Peça aos alunos que registrem que emoções o som provocou. Ouvir a própria voz Sentados em suas carteiras, os alunos podem falar para si mesmos e pensar no que ouvem quando falam. Também podem emitir sons, como o balbuciar de bebês, sons graves, agudos, longos e curtos. Esse exercício resgata um pouco a caminhada da criança até a fala completa. É também importante que as crianças gravem e ouçam a própria voz. Ouvir os sons do ambiente Propor à turma que exercite essa atividade fora da escola, individualmente. Em silêncio, prestar atenção aos sons do ambiente no ônibus, na sala de aula, no recreio, em casa (de manhã, à tarde, à noite, depois de deitar-se), na rua, numa festa, durante um jogo. Por um minuto, o aluno deve colocar-se nesta atitude: postura de entrega para recebimento de sons. Na escola, as crianças escrevem no caderno a resposta para esta questão: quais os sons que lhe fazem bem? Quais os que lhe provocam tensão? Ouvir e pesquisar músicas Depois desses exercícios, a música deve ser incluída nas atividades. O professor escolhe cinco tipos de música (pode ser um rock, um samba, uma música orquestral etc.). A cada dia de aula, a turma escuta uma dessas músicas e registra no caderno as suas sensações. O professor pode propor aos alunos que desenvolvam um projeto de coleta e registro de músicas que falam da natureza. Podem ser músicas folclóricas ou da MPB. Pedir sugestões aos pais e avós sobre músicas antigas. Depois de realizar esse projeto, escreva para o jornal: jornal@editoradimensao.com.br Sons da vida EducaçãoAmbiental Arquivo Rosangela Guerra * O projeto Tom da Mata é fruto da parceria do Instituto Antônio Carlos Jobim, Fundação Roberto Marinho e Furnas Centrais Elétricas.
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    Temos recebido ojornal Dimensão na Escola no Colégio Logosófico e gostado demais! É muito bom podermos conhecer o trabalho que nossos queridos professores realizam com os alunos. Ao ler o jornal, fica claro que há muitos profissionais empenhados em fazer educação de verdade em nosso país. Parabéns pelo trabalho! Marise Alencar - Coordenadora da Educação Infantil do Colégio Logosófico/BH. Gostei muito do jornal. A linguagem é simples, sem ser simplista, e o jornal tem um formato muito interessante para a web. Parabéns. Priscila Borges - Arcos/MG 14