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O ENSINO DA LEITURA NUMA PERSPECTIVA
INTERDISCIPLINAR: UMA PROPOSTA DE
APLICAÇÃO.1
THE TEACHING OF READING IN AN INTERDISCIPLINAR
PERSPECTIVE: AN APPLYING PROPOSAL
Ângela Maria Lorenzoni Sauthier2
Ana Lúcia Cheloti Prochnow3
RESUMO
No presente trabalho, tem-se como proposta a realização de um pro-
jeto interdisciplinar de leitura, partindo da análise de um texto jornalístico,
uma reportagem, retirada de um jornal local. Objetiva-se integrar diferen-
tes áreas do conhecimento, com o intuito de levar o educando, público-
alvo deste trabalho, a processar uma leitura mais completa de um texto,
uma vez que, no ato de ler, todas elas contribuem, e por isso são necessá-
rias, para se construir o significado do texto. Nesse sentido, integraram-se
as disciplinas de Português, Matemática, História, Ciências e Educação
Artística, com a intenção de desenvolver os seus conteúdos previstos para
o quarto ciclo do Ensino Fundamental, partindo de um mesmo instrumen-
to de leitura. Para isso, contou-se com a colaboração dos professores da
Escola Básica Estadual Dr. Paulo Lauda. Com esta iniciativa, para a qual
se buscou apoio teórico em Kleiman & Morais(1999), Martins (1986),
Trevisan (1992), Silva (19), foi possível demonstrar que um mesmo texto
pode ser explorado nas diferentes disciplinas, proporcionando um traba-
lho inovador e atendendo às atuais perspectivas educacionais.
Palavras-chave: leitura, interdisciplinaridade, práticas sociais.
ABSTRACT
In this work, the proposal is the making of a interdisciplinary rea-
ding project, up from the analysis of a journalistic text, news report taken
from a local newspaper. It aims to integrate different areas of knowledge,
with the goal of taking the student, the subject of this work, to achieve a
1
Trabalho final de graduação - UNIFRA.
2
Acadêmica do Curso de letras - UNIFRA.
3
Orientadora - UNIFRA.
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
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more complete reading of a text, since they all contribute for the reading
act, and are, therefore, necessary in the construction of meaning of the
text. In this sense, there is the integration of the Portuguese, Math, History,
Science and Arts subjects, with the intention of developing their curricula
due to the fourth grade of Elementary School, starting from a single rea-
ding text. For that, it was important the participation of Dr. Paulo Lauda
State Elementary School teachers. Through this initiative, for which the
theoretical support of Kleiman (1999), Martins (1986), Trevisan (1992),
Silva (19) was used, it was possible to show that a single text can be ex-
plored in different school subjects, allowing an innovating work attentive
to the current educational perspectives.
Keywords: reading, interdisciplinarity, social practices.
INTRODUÇÃO
Este trabalho surgiu em decorrência das minhas inquietações como
professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental há mais de dez
anos. Durante esse tempo, tenho percebido a dificuldade que os alunos têm
em ler e entender um texto e também o desinteresse que eles demonstram
em relação à leitura. É muito comum não terem consciência da importân-
cia da leitura, uma vez que ainda não puderam sentir os seus benefícios
como meio de obter conhecimento, cultura e, também, prazer.
Baseada nessas constatações, fui levada a procurar as razões de tais difi-
culdades e, ao mesmo tempo, buscar soluções para elas. Lajolo (1982) entende
que um dos motivos da defasagem de leitura apresentada pelos alunos decorre
das práticas docentes durante a sua escolarização, em que não se priorizou o
ensino e a promoção da leitura. Quando realizada sem nenhuma relação com
a realidade sociocultural do aluno, a leitura é vista apenas como mais um tipo
de atividade escolar da aula de Português. Segundo a autora, quando são traba-
lhados textos, geralmente, esses se baseiam em fragmentos que servem como
objeto de estudo do conteúdo gramatical e não fazem sentido para o aluno, que
é levado a responder a questões cujas respostas estão previstas na leitura do
professor ou do autor do livro didático.
Sabendo que, por meio da leitura, o homem assume aos poucos o
controle de sua aquisição do saber e de sua formação e, dessa forma, par-
ticipa da sociedade em termos de compreensão e transformação de mundo
(SILVA,19), tornam-se urgentes medidas que venham não só ajudar os
alunos na compreensão de suas leituras como também despertar o seu
gosto por essa prática.
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
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Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs (BRASIL,
2000), o tratamento disciplinar dado aos currículos das nossas escolas, en-
tendido como lógico e formal, distancia-se das possibilidades de aprendi-
zagem da grande maioria dos alunos, uma vez que não são suficientes para
alcançar o fim de educar para a cidadania. O tratamento desses conteúdos
deve integrar conhecimentos de diferentes disciplinas que contribuam
para a compreensão e intervenção na realidade em que vivem os alunos.
Apoiada nos PCNs, procurei realizar um trabalho de leitura integra-
do que envolve as demais disciplinas, pois acredito que não cabe somente
ao professor de Português abraçar essa causa, visto que, em última análi-
se, os demais professores também têm o compromisso de formar alunos
leitores.
O trabalho tem como propósito, diante desse contexto, fornecer
aos alunos mais subsídios para compreender e obter um significado mais
completo do texto, por meio da interdisciplinaridade. Está apoiado numa
proposta de desenvolvimento de projetos interdisciplinares centrados na
leitura, criado por Kleiman & Moraes (1999).
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A CONCEPÇÃO INTERACIONISTA DE LEITURA
No mundo atual, a leitura, entendida como compreensão e interpre-
tação dos diversos gêneros de textos, é um instrumento indispensável para
se poder transitar com independência numa sociedade letrada.
Para Menezes et al. (2002), ler é dialogar com o texto no sentido
mais amplo, uma atividade que exige, basicamente, as habilidades de fa-
zer perguntas a um texto, de buscar respostas e saber onde encontrá-las.
Ao refletir sobre as funções da leitura, Silva (19) lembra que, por
produzir conhecimento, a leitura será um instrumento de combate à alie-
nação, se o leitor realizá-la de forma reflexiva e crítica, contextualizando-
a, fazendo relações com outras leituras e confrontando idéias. O autor
afirma que
a leitura caracteriza-se como um dos pro-
cessos que possibilita a participação do homem
na vida em sociedade, em termos de compre-
ensão do presente e passado e em termos de
possibilidades de transformação sócio-cultural
futura. (p.20)
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
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Freire (1981) diz que lemos primeiro o mundo, depois a palavra e
que a leitura da palavra implica a continuidade da leitura do mundo. De-
fende que ler não é, simplesmente, decodificar a palavra ou a linguagem
escrita e aponta para um conceito mais abrangente: a leitura do mundo.
Se ler implica ler o mundo, mesmo antes e até depois de se ter aces-
so ao código escrito, pressupõe-se que toda a experiência de vida do leitor
esteja envolvida.
Nessa mesma perspectiva, Kleiman (1995) define a atividade de
leitura como uma interação à distância entre leitor e autor via texto. Para
a autora, a leitura é um ato social, entre dois sujeitos, obedecendo a obje-
tivos e necessidades socialmente determinados. Ela salienta que o leitor
constrói e não apenas recebe um significado global para o texto; ele pro-
cura pistas formais, formula e reformula hipóteses, aceita e rejeita conclu-
sões. Por sua vez, o autor busca, essencialmente, a aprovação do leitor,
apresentando, para isso, os melhores argumentos, evidências convincen-
tes, organizando o texto de tal forma que atinja seus objetivos.
Segundo Trevisan (1992), a interação leitor-texto, que se estabelece
no momento da leitura, vai depender de uma série de elementos centrados
no leitor, como o seu conhecimento de mundo, suas crenças, opiniões e
interesses, seus conhecimentos a respeito dos diferentes tipos de textos e
dos recursos lingüísticos utilizados. A autora entende que a compreensão
de um texto se caracteriza pela utilização do conhecimento prévio, isto
é, o leitor utiliza na leitura o que ele já sabe, ou seja, o conhecimento ad-
quirido ao longo de sua vida. Portanto, diversos níveis de conhecimentos
interagem entre si: o lingüístico, o textual e o conhecimento de mundo.
O conhecimento lingüístico é aquele implícito que faz com que
falemos português como nativos. Abrange desde o conhecimento sobre
como pronunciar palavras em português, passando pelo conhecimento do
vocabulário, das regras gramaticais e do uso da língua.
Trevisan (1992) e Kleiman (1995) compartilham da idéia de que, ao
considerar o conhecimento da língua, é preciso levar em conta também o
papel do contexto lingüístico em que as marcas lingüísticas estão inseri-
das, pois este interfere na apreensão do sentido veiculado pelo texto.
Com relação ao conhecimento textual, entendido como o conjunto
de noções e conceitos sobre diversos tipos de textos e formas de discursos,
Kleiman (1995) salienta que, quanto maior o conhecimento textual do lei-
tor, quanto mais ele for exposto a diferentes estruturas textuais, mais fácil
será sua compreensão. A autora lembra da importância de o leitor saber re-
conhecer a estrutura do texto, pois esta oferece indicadores essenciais que
permitem antecipar a informação que contém e facilita a interpretação.
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
189
Isso se justifica pelas muitas expectativas que os vários textos despertam
no leitor.
Quanto ao conhecimento de mundo ou enciclopédico, isto é, expe-
riências acumuladas que os indivíduos adquirem durante a existência e
armazenam na memória, Kleiman (1995) lembra que este pode ser adqui-
rido tanto formal quanto informalmente. Com base nas idéias freireanas,
salienta também que, para haver uma compreensão na leitura, a parte re-
levante de conhecimento de mundo deve estar ativada, num nível ciente e
não perdida na memória.
Com relação a isso, Trevisan (1992) destaca que, para haver a com-
preensão, é necessário um certo equilíbrio entre o conhecimento de mun-
do do autor e o do leitor. Com esses conhecimentos partilhados, o receptor
é capaz de dar sentido a informações novas por meio do processo de in-
ferência. A intertextualidade também é citada pela autora como um fator
importante para o entendimento, uma vez que se torna necessário que o
leitor tenha conhecimentos a respeito de outros textos incorporados. Ela
enfatiza que não lemos só o que está escrito, mas também, expressões
humanas. Dessa forma, a leitura ultrapassa o texto e começa antes de qual-
quer contato com ele.
Silva (19) diz que outras concepções do processo de leitura estão
sendo elaboradas e assumidas em nossa sociedade. Algumas iniciativas
vêm demonstrar a existência de muitas propostas alternativas para a for-
mação de leitores críticos, isto é, aqueles que descobrem o significado do
texto pretendido pelo autor da mensagem, mas não permanecem nesse
primeiro nível, eles reagem, questionam, problematizam. Essa criticidade
leva o leitor à construção de um outro texto: o do próprio leitor.
PEDAGOGIA DA LEITURA
É indiscutível que, no trabalho escolar, a leitura ocupe um lugar de
destaque no processo de busca e produção de conhecimento. Dessa forma,
o ato de ler se faz necessário para professores e alunos, porém é impor-
tante analisar em que condições e de que forma esse ato é conduzido no
contexto escolar.
No entendimento de Lajolo (1982), a leitura na escola, ao invés de
levar os alunos a um conhecimento profundo e crítico da realidade, muitas
vezes, serve de pretexto para o estudo de normas gramaticais. Assim, a
leitura passa a ser uma habilidade desligada do cotidiano do aluno e apre-
senta-se como uma obrigação imposta pela escola, por não estar associada
a diferentes estruturas textuais que fazem parte do seu dia- a- dia. Dessa
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
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forma, o ensino da leitura reflete a pedagogia da contradição, presente no
contexto escolar. Pretende-se que o aluno aprenda o todo em um texto
fragmentado; quer que ele seja um leitor crítico e participativo, fazendo
com que responda apenas ao que está previsto na leitura do professor ou
do autor do livro didático. Assim, o aluno lê sem entender, interpreta sem
ter lido e realiza atividades que não têm nenhuma função na sua realidade
sociocultural (KLEIMAN, 1999).
Kleiman (1999) menciona o fato de que muitos textos apresenta-
dos em algumas escolas, principalmente os inseridos nos livros didáticos,
pouco têm a ver com a realidade da sociedade. A autora sugere textos de
revistas e jornais por serem mais acessíveis tanto para o aluno como para
o professor, além de trazerem temas atuais como notícias e reportagens
de interesse de todos. Ela acredita que a ausência, em sala de aula, de
textos que circulam socialmente é uma forma de recusar a experiência
do aluno como cidadão fora do espaço escolar. Dessa forma, o ato de ler
desvincula-se do seu objeto e torna-se inexplicável, servindo apenas para
suprir o requisito indispensável para ascender novos graus de ensino e da
sociedade, objetivando a realização pessoal e econômica. Assim, pode-se
perceber, que há um esvaziamento das relações entre a leitura e o texto,
preenchido apenas com a idéia de aprender a ler para prosperar economi-
camente.
Silva (19) observa que “muitos professores ainda tomam o ato pe-
dagógico como sinônimo de leituras efetuadas, o que é restringir muito
ou distorcer completamente a dimensão e a abrangência desse ato” (p.6).
Para o autor, o ato pedagógico vai exigir muito mais do que a leitura de
determinados textos, é necessário estabelecer relações dialógicas para a
aproximação das pessoas e organizar o avanço cognitivo sobre determi-
nadas questões.
A metodologia de leitura é resultado do trabalho com o texto. A
princípio, consideram-se suas diversas estruturas, depois de adequá-las ao
contexto do leitor. Ele precisa ser desvelado e não descrito simplesmente.
Para Zilberman & Silva (19), uma pedagogia de leitura que pretenda agir
na sociedade, pela transformação do leitor, não se apóia na descrição da
estrutura de um texto, mas sim, propõe, ensina e encaminha a descoberta
da função exercida pelo mesmo no receptor.
As instituições criadas pela sociedade, como a escola e a lingua-
gem, enquanto sistemas, proporcionam o exercício individual ou coleti-
vo da leitura. O funcionamento dessas instituições é dinâmico como a
própria leitura. A competência por parte da escola é que vai determinar o
modo como ocorrem as relações entre as classes sociais. A quantidade e
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
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a qualidade dos produtos da linguagem que estão à disposição dos alunos
indicam a orientação conservadora ou democrática dos textos bem como
da sociedade que os fabrica e distribui (ZILBERMAN & SILVA,19).
Os autores acreditam que as instituições podem ser avaliadas pelos
projetos que possuem em relação à leitura. Eles lembram que reproduzir
a leitura, dar ênfase à paráfrase e fornecer interpretações prontas é uma
forma de compactuar com o sistema vigente, pois uma escola que preten-
de realizar uma mudança social deve fazer com que a leitura dos textos se
transforme num instrumento de conscientização dos leitores.
LEITURA INTERDISCIPLINAR
A lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB (BRASIL,
2000), conhecida como a nova LDB, rompeu com os paradigmas defendi-
dos pelas leis anteriores. Nelas, havia uma preocupação com a formação
do eu, com a humanização do educando, sob uma forte influência da psi-
cologia comportamental, a qual considerava a mente do aluno vazia, e em
decorrência disso, a instrução era programada.
O ensino da leitura restringia-se à decodificação num processo as-
cendente, com o significado centrado no texto. O aluno estava na con-
dição de espectador passivo, de memorizador de conteúdos. Sua função
era, então, de decodificar, decifrar e digerir o texto. A partir da nova lei, a
leitura passou a ter uma abordagem diferente, sendo o significado do texto
negociado entre o leitor e o escritor, passando aquele a ser considerado um
co-autor do texto.
Na nova LDB, está evidente a preocupação em formar o aluno para
viver em sociedade, por meios formais e informais de educar, entre eles, a
escola, a família, a associação de bairro etc. A função primordial da escola
é a de fornecer instrumentos necessários para que o aluno compreenda o
mundo em que vive e possa, progressivamente, assumir o controle do seu
saber.
Atualmente, vários problemas são encontrados no currículo esco-
lar: fragmentação, linearidade e alienação do conhecimento e o excessivo
individualismo. Kleiman (1999) reforça a idéia de que existem contradi-
ções no âmbito pedagógico:
Difunde-se um conhecimento fragmenta-
do e exige-se um indivíduo por inteiro. Procura-
se fazer com que o aluno memorize o máximo
de teoria possível, e cobra-se dele, no merca-
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
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do de trabalho, a formação prática necessária a
uma boa atuação na empresa. Deixa-se o aluno
fora do processo, alienado, e exige-se um cida-
dão crítico, participativo, inserido no contexto
(p.14).
A lei enfatiza a aprendizagem a partir do conhecimento prévio do
aluno, e este deve mobilizar menos a memória e mais o raciocínio. O
educando deve ser incentivado a reconstruir o conhecimento. Para isso,
são importantes os conceitos de interdisciplinaridade e contextualização.
O diálogo entre os conhecimentos é permanente para que o aluno aprenda,
sob perspectivas diferentes, numa abordagem interdisciplinar. Não se pode
diminuir a importância dos conteúdos, pois as áreas específicas possuem
um cabedal de conhecimento acumulado ao qual o aluno deverá também
ter acesso. A tendência atual é a de minimizar os conteúdos para que haja
um equilíbrio entre o disciplinar e o interdisciplinar. A informação passa
a ser útil quando é colocada à disposição dos alunos para eles próprios
utilizarem aquilo de que precisam. Além disso, contextualizando os con-
teúdos, permite-se estabelecer relações de reciprocidade entre o aluno e
o objeto do conhecimento. A interdisciplinaridade e a contextualização
oportunizam-lhe aprender a pensar, a relacionar os conhecimentos com o
seu cotidiano, a dar sentido ao aprendido e captar o significado do mundo
(KLEIMAN,1999).
A leitura, por sua natureza integradora de saberes e constitutiva da
construção de novos saberes, pode vir a exercer o papel da escola, pois
oferece os instrumentos necessários para que o aluno consiga compreen-
der as informações tão complexas do mundo atual.
Na perspectiva interdisciplinar, a responsabilidade do ensino da lei-
tura e da escrita deixa de ser exclusiva do professor de Português. Parte-se
da premissa de que os outros professores não são meros informadores, e
sim, formadores e também responsáveis pelo ensino da leitura, pois se
sabe que a escola é a mais importante instituição que introduz o aluno nas
práticas de uso da escrita na sociedade.
Nesse universo, a leitura pode ser objetivo e instrumento de apren-
dizagem. Como instrumento, pertence a todas as disciplinas, pois é a ati-
vidade na qual se baseia grande parte do processo de aprendizagem no
contexto escolar. Como objetivo, envolve a formação de atitudes, a valo-
rização da prática e a transmissão de valores, aquilo que é importante para
as futuras gerações.
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
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PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
SELEÇÃO DE CORPUS
O objetivo desta análise é propor um trabalho interdisciplinar de
leitura, pois estão envolvidas diferentes áreas do conhecimento, tendo
como ponto de referência uma reportagem jornalística. O texto jornalís-
tico é uma das ferramentas de que se dispõe no momento de se realizar
uma atividade de leitura. Conforme Kleiman (1999), “os múltiplos modos
de apresentação da informação no texto jornalístico informativo possi-
bilitam engajar o aluno em diversas práticas sociais de leitura, segundo
as perspectivas das diferentes disciplinas” (p.101). Essa análise, portanto,
tem como base o estudo proposto por Kleiman (1999), adaptado para uma
determinada realidade, alunos da 8a série da Escola Paulo Lauda.
Também os PCNs (BRASIL, 2000) salientam que, para estar em
consonância com as demandas da sociedade atual, é necessário que a es-
cola trate de questões que interfiram na vida dos alunos e com as quais se
vêem confrontados no seu dia-a-dia. Apontam, também, para a importân-
cia de se discutirem, na escola e na sala de aula, questões da sociedade
brasileira, como as ligadas ao meio ambiente, à política etc. (Temas Trans-
versais). A principal função do trabalho com o tema meio ambiente, por
exemplo, é contribuir para a formação de cidadãos conscientes e aptos a
decidir e a atuar na realidade socioambiental de modo comprometido com
a vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade, local e global. Somado
a isso, a proposta apresentada sugere partir de temas da atualidade que são
matérias das notícias e reportagens nas revistas semanais de informação e
nos jornais diários, porque elas retomam assuntos de interesse público.
Tendo em vista essa proposta, foi selecionada uma reportagem pu-
blicada em um jornal local (Diário de Santa Maria) datada de 17 de maio
de 2004, que faz referência à poluição do Arroio Cadena, rio que atravessa
a cidade de Santa Maria. O título da reportagem é “Qual é a real situação
de Arroio Cadena? A poluição dele tem salvação?” (ANEXO I).
ETAPAS
O primeiro passo para a realização do trabalho foi fazer contato
com todos os professores da turma 87 (8a série) correspondente ao 4o ci-
clo, da qual esta pesquisadora é professora titular de Português, para expor
os objetivos da pesquisa e saber se eles estariam dispostos a participar.
Após muitas tentativas para se conseguir marcar uma data em que todos
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pudessem estar presentes, foi possível fazer uma reunião contando com
a presença da professora orientadora e dos professores de Matemática,
História, Ciências, Português e Educação Artística.
Todos concordaram com a importância da leitura em todas as dis-
ciplinas e manifestaram sua inquietação em relação à dificuldade que os
alunos apresentam em entender o que lêem. Os professores demonstraram
bastante entusiasmo com a proposta de trabalho e se propuseram a “abra-
çar” esta causa.
Foi sugerida a eles a leitura de alguns capítulos do livro Leitura e
Interdisciplinaridade: Tecendo Redes nos projetos da Escola das autoras
Ângela Kleiman e Sílvia E. Moraes, em cuja teoria está embasada esta
proposta. Também foi disponibilizada a todos uma cópia da reportagem
escolhida e sugerido que eles estudassem a viabilidade de aproveitar o
texto para serem trabalhados os conteúdos compatíveis com a série em
questão em cada disciplina. Cada proposta de trabalho seria discutida em
conjunto numa próxima reunião.
Novos encontros aconteceram e novas idéias foram surgindo de
forma que a proposta foi sendo incrementada. Os professores passaram
a discutir o texto, dentro de cada área de conhecimento. Assim, houve a
possibilidade de se trabalhar a interdisciplinaridade abordando um mesmo
tema em um mesmo texto por meio de uma reportagem.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A reportagem selecionada foi publicada na seção Especial do jornal
Diário de Santa Maria (17/05/2004) e assinada por Alves (2004), ANEXO
- 1.
O texto destaca o nome da seção (Especial), o título da matéria
(Qual é a real situação do Arroio Cadena? A poluição dele tem salvação?)
e o subtítulo que resume a notícia (Morreu. Mas pode renascer.). Esses três
elementos aparecem em caracteres grandes. As imagens estão distribuí-
das da seguinte forma: uma foto grande ao centro do texto, mostrando a
nascente do arroio com águas limpas e duas fotos menores, logo abaixo; a
primeira mostra o esgoto sendo jogado no arroio e a outra, o arroio total-
mente poluído. Entre as fotos, aparece a seguinte legenda: Vida e Morte.
Na nascente (acima), beleza e água limpa. Abaixo e à esquerda, o esgoto
do centro invade o curso do arroio que, na sua parte final, é lixo, mau chei-
ro, leito seco e desolação (abaixo, à direita).
Assim, a mensagem verbal propriamente dita se apresenta de três
formas:
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ELEMENTOS DESTACADOS
Elementos destacados: classificação, título, subtítulo-resumo e fra-
ses em destaque
Especial
Qual é a real situação do Arroio Cadena? A poluição dele tem sal-
vação?
Morreu. Mas pode renascer.
LEGENDAS DESCREVENDO AS IMAGENS
Vida e morte. Na nascente (acima), beleza e água limpa. Abaixo e
à esquerda, o esgoto do centro invade o curso do arroio que, na sua parte
final, é lixo, mau cheiro, leito seco e desolação (abaixo, à direita).
CORPO DO TEXTO (ANEXO 1)
Os professores passaram a discutir o texto dentro nas seguintes áre-
as do conhecimento: Português, Matemática, História, Ciências e Educa-
ção Artística.
Língua Portuguesa
O ensino do Português tem como objetivo propiciar ao aluno opor-
tunidades de vivenciar a linguagem como uma prática social. Esse ensino
deve utilizar-se de textos por meio dos quais os alunos terão acesso aos di-
versos gêneros existentes. Dessa forma, a simples prática social de leitura
já atenderia às exigências curriculares desta área (KLEIMAN, 1999).
A prática de leitura da reportagem é uma atividade que também põe
o aluno em contato com diversos modelos de estruturação da informa-
ção verbal, um objetivo importante na aula de Português. Por exemplo, a
reportagem descreve, de forma chocante, um arroio totalmente poluído,
como no trecho a seguir: Nos últimos 40 anos, o leito do Cadena vem
recebendo muita sujeira. Das garrafas pet que flutuam aos montes, até
sofás que já não serviam mais e os donos não encontraram lugar melhor
para colocar. Mas há um tipo de lixo que é ainda mais grave do que este
que bóia a olhos vistos. É o esgoto. Há também trechos narrativos que
fazem referência a um projeto de revitalização do Arroio Cadena: para
a recuperação que consta no Programa de Desenvolvimento Sustentável
são pleiteados cerca de US$12 milhões financiados pelo Banco Mundial
(Bird). O projeto foi encaminhado no final do ano passado ao Ministério
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
196
do Planejamento e, depois, ao Senado, onde já foi aprovado. Agora está
passando por uma análise técnica no Ministério da Fazenda. A próxima
etapa será a aprovação por um fundo do Banco Mundial.
Também em relação ao ensino do Português, a reportagem em
questão se utiliza de outros elementos específicos da área, como a técnica
da narração, mais especificamente mostrando o discurso direto como no
exemplo: - O Cadena já está numa situação tão ruim que nem pode mais
piorar. É um arroio morto, totalmente deteriorado. - afirma o engenheiro
florestal José Sales Mariano da Rocha, doutor em manejo integrado de
Bacias Hidrográficas, livre-docente em Projetos Ambientais e professor
da UFSM; e também poderão ser trabalhados os níveis de linguagem (for-
mal/coloquial). No trecho: Morreu. Mas pode renascer e Vida e Morte,
poderão ser explorados os efeitos de sentido produzidos pelo emprego da
linguagem figurada (linguagem conotativa / denotativa e figuras de lin-
guagem).
Matemática
O texto traz dados, como no primeiro parágrafo, A frieza para falar
sobre o curso d água que corta a cidade, passando por 16 dos seus 25 bair-
ros não é exagerada, que poderiam ser trabalhados em conteúdos especí-
ficos, como a porcentagem. Os alunos calculariam o percentual de bairros
da cidade que são banhados pelo Arroio Cadena.
Além disso, na passagem para a recuperação, que consta no Pro-
grama de Desenvolvimento Sustentável, são pleiteados cerca de US$12
milhões, financiados pelo Banco Mundial (Bird); para que o aluno entenda
o que representa essa quantia em reais, poderá ser desenvolvido o conte-
údo regra de três. Em outro trecho, O projeto prevê, entre outras ações,
realocação de cerca de 1,3 mil famílias da beira do Cadena, o conteúdo
Potência de Base Zero esclareceria o que representa essa quantia (Padro-
nização Científica).
Ciências
O texto trata de um tema de interesse das Ciências, o que dispen-
saria outras relações. O segundo parágrafo do texto menciona um tipo de
lixo que bóia a olhos vistos que é o esgoto. No terceiro parágrafo, há a
informação de que Santa Maria trata apenas metade do esgoto produzido
por seus mais de 250 mil habitantes. Aqui poderiam ser estudados o sa-
neamento básico e a poluição com coliformes fecais. O texto menciona
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p.185-201, 2003.
197
que o único local poupado fica nos cerca de 200 metros logo depois da
nascente. Trata-se de um bom exemplo para a introdução ao estudo da
Física (unidades de medida). O texto propicia também o trabalho de atitu-
des preventivas, sociais e comunitárias e de procura de soluções a médio
e longo prazo para o problema em questão, como também o desenvolvi-
mento da criticidade dos alunos perante suas atitudes diárias em relação
ao meio ambiente.
História
No segundo parágrafo da reportagem, há informações sobre a tem-
poralidade da poluição do Arroio Cadena. Os alunos poderiam pesquisar
quais foram os primeiros povos que habitaram a região e qual a sua re-
lação com o arroio. Com referência ao lixo, os alunos poderiam pesqui-
sar em que momento da história aconteceu o surgimento desenfreado do
arroio. O texto ainda menciona que o fato de Santa Maria ser uma cida-
de universitária e não industrial torna a poluição do Arroio reversível. A
partir dessa afirmação, é possível trabalhar o surgimento das cidades a
partir da Revolução Industrial; descrever as vantagens e desvantagens de
a cidade possuir poucas indústrias e entender o funcionamento do Progra-
ma de Desenvolvimento Sustentável, como conciliá-lo com a crescente
industrialização do mundo.
Artes
O texto mostra três fotos atuais do Arroio Cadena em momentos
diferentes: a primeira, a nascente com águas límpidas; a segunda, o esgoto
tomando conta do arroio e a última, o arroio totalmente poluído. Os alunos
poderiam fazer uma pesquisa de fotos antigas e atuais do arroio. Após,
fariam um desenho representando sua situação atual. Depois de fazer uma
releitura das fotos antigas e atuais dos locais fotografados, os alunos fa-
riam um desenho de como eles imaginariam que estivesse o arroio hoje,
sem poluição.
CONCLUSÃO
Aescola precisa formar indivíduos críticos, letrados e capazes de seguir
aprendendo pelo resto de suas vidas. Para isso, é necessário desfazer as fron-
teiras rígidas existentes entre as disciplinas, que fragmentam o saber do aluno,
impedindo-o de construir seu conhecimento por seus próprios meios.
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
198
Acredito que a leitura interdisciplinar é uma forma de romper com
a fragmentação das disciplinas e de proporcionar ao aluno uma visão do
todo através da interação de vários saberes.
A realização deste trabalho de leitura interdisciplinar teve resulta-
dos positivos pelo comprometimento dos professores participantes com a
proposta apresentada a eles. Apesar das precárias condições de execução,
propuseram-se a colaborar para repensar sua prática, pois são profissionais
receptivos a novas possibilidades de trabalho. A referida proposta não foi
executada. Limitou-se a indicar uma forma de trabalho integrado entre as
disciplinas, porém a intenção é de colocá-la em prática no próximo ano
letivo, na série para a qual foi pensada.
Reafirmo assim que a leitura é uma atividade que merece ter lugar
destacado na prática escolar, portanto, deve ser ensinada por todos os pro-
fessores, em todas as matéria. Por tratar-se de um trabalho coletivo, de
equipe, os professores precisam ter humildade e disponibilidade de troca
para que os conteúdos de suas disciplinas possam ser integrados com os
das demais. A escola, por sua vez, precisa dar condições para que esse tipo
de atividade seja realizado, possibilitando o acesso a textos que circulam
socialmente, como revistas semanais de informação e jornais diários, e
também disponibilizar tempo para que os professores possam se reunir e
discutir o trabalho proposto.
Não tenho dúvida de que trabalhar com leitura interdisciplinar re-
quer planejamento e troca de informações, e, certamente, todos serão be-
neficiados. Os alunos serão capazes de compreender o texto de forma in-
tegral, de relacionar seus saberes e de aprender a trabalhar em equipe. Os
professores serão incentivados a ampliar os seus conhecimentos em outras
áreas e a melhorar o relacionamento entre os colegas. A escola estará en-
gajada nas propostas dos PCNs que sugerem contrapor a fragmentação e
a linearidade do currículo à interdisciplinaridade e neutralizar o excessivo
individualismo quando se propõem trabalhos coletivos. Assim, estaremos
formando cidadãos melhores, preparados para participar da sociedade em
que estão inseridos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, Lauro. Qual é a real situação do Arroio Cadena? A polui-
ção dele tem salvação? Diário de Santa Maria, Santa Maria, 17 maio
2004.
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
199
BRASIL. Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ministério
da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curricu-
lares Nacionais. Língua Portuguesa. 2.ed. Brasília, DF: 2000 (Lei 9394,
de 20 de dezembro de 1996).
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que
se completam. São Paulo: Cortez, 1981.
KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura.
Campinas. São Paulo: Pontes, 1995.
KLEIMAN, Ângela; MORAES, Silvia E. Leitura e interdiscipli-
naridade: tecendo redes nos projetos da escola. Campinas: Mercado de
Letras, 1999.
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alternativas do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. p.51-62.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense,
1986.
MENEZES, Gilda; TOSHIMITSU, Thais; MARCONDES, Beatriz.
Como usar outras linguagens na sala de aula. São Paulo: Contexto,
2002.
SILVA, Ezequiel Theodoro da. Elementos de pedagogia da leitu-
ra. São Paulo: Martins Fontes, 19.
TREVISAN, Eunice Maria Castegnaro. Leitura: coerência e co-
nhecimento prévio: uma exemplificação com o frame carnaval. Santa Ma-
ria: UFSM, 1992.
ZILBERMAN, Regina; SILVA, Ezequiel Theodoro da. Pedagogia
da leitura: movimento e história. In: ZILBERMAN, Regina; SILVA, Eze-
quiel Theodoro da. et. al. (orgs). Leitura: perspectivas interdisciplinares.
São Paulo: Ática, 19. p.111-115.
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
200
taperinha é um exemplo com seus 14 andares e cerca
de200moradores,despejanocadenatodooesgotoque
produz.
Essa realidade torna a situação crítica.
Um levantamento da Universidade Federal de Santa
Maria (UFSM) e do Ibama, feito no final da década de
90, encontrou colifórmios fecais e bactérias nocivas a
saude em praticamente todos os pontos analisados ao
longodos 30Kmdeextensãodoarroio.
O único local poupado fica aos cerca
de 200 metros logo depois da nascente, no bairro
perpétuo Socorro. No restante da última análise pra cá,
oprobllemasópiorou.
- O Cadena já está numa situação tão
ruim que nem pode mais piorar. É um arroio morto,
totalmente deteriorado - informa o engenheiro florestal
José Sales Mariano da Rocha, doutor em manejo
integrado das Bactérias Hidrográficas, livre-docente
emProjetosAmbientais eprofessordaUFSM.
QUAL É A REAL SITUAÇÃO DO ARROIO CADENA?
A POLUIÇÃO DELE TEM SALVAÇÃO?
Um arroio morto.
É assim, sem pompa nem
circunstância que pode ser definida
a situação do Cadena. A frieza para falar sobre o
curso d’água que corta a cidade passando por 16
dos seus 25 bairros não é exagerada.
Nos últimos 40 anos, o leito do Cadena
vem recebendo muita sujeira. Das garrafas pet que
flutuam aos montes até sofás que já não serviam
mais e os donos não encontraram lugar “melhor”
para colocar. Mas há ainda um tipo de lixo que é
ainda mais grave que este que bóia a olhos vistos.
É o esgoto.
Santa Maria trata apenas metade
do esgoto produzido por seus mais de 250 mil
habitantes. O resto vai para o Cadena ou para
algum de seus afluentes, o esgoto toma o seu rumo
natural e desemboca no Cadena.
Nas vilas da cidade que são margeadas
peloCadenacomoRenascença,LídiaeOliveira,nãoé
precisoesforçoparaveraagressão.Oscasebresàbeira
do arroio tem ligação direta do seu esgoto para a água.
Masnãosãoapenasasvilasribeirinhasasresponsáveis
portantapoluição.Aocontráriodoquesepodepensar,
elas sãopoluidoras emmenorvolume.
A maior parte do esgoto que chega ao
cadena vem da área central da cidade. O edifício
Vida e morte. Na nascente (acima),
beleza e água limpa. Abaixo à esquerda,
o esgoto invade o curso do arroio que na
sua parte final, é lixo, mau cheiro, leito
seco e desolação (abaixo, à direita)
Morreu. Mas pode renascer.
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
201
Sem indústria, há menos poluição
Mesmo que a poluição perpasse rodo o curso do Cadena, existe esperança para o arroio. A
condição de Cidade Universitária e sem vocação para indústria, no aspecto ambiental, torna reversível
o drama do Cadena. Durante os 40 anos em que o arroio vem sendo utilizado com mais intensidade
como depósito de lixo e esgoto da cidade, ele teve a sorte de não receber resíduos industrializados.
Este é um dos fatores que dá aos ambientalistas a certeza de poder recuperar todo o leito.
- É possível ressucitar o Cadena. Com a execução de um projeto completo, aplicado de
maneira correta, ele pode voltar a ser um arroio limpo, com vida, dentro da cidade. - assegura Rocha.
A informação é um alento. Mas, apesar de ser possível, a recuperação não será real se
não contar com o comprometimento dos administradores públicos e de todos os cidadãos santa-
marienses.
ecuperar o Cadena é uma boa intenção que esbarra em cifras monstruosas. A prefeitura
tem um programa em andamento para revitalização do arroio, mas anda na fase incial,
que é também uma das mais difíceis, a busca de dinheiro.
ParaarecuperaçãoqueconstanoProgramadeDesenvolvimentoSustentávelsãopreiteados
cerca de US$ 12 milhões, financiados pelo Banco Mundial (Bird). O projeto fo encaminhado no final
doo ano passado ao minitério do planejamento e depois ao Senado, onde foi aprovado. Agora está
passando por uma análise técnica no Ministério da Fazenda. A próxima etapa será a aprovação por
um fundo do Banco Mundial.
É nesse projeto que a prefeitura apsta suas fichas. A verba, se for conquistada, será usada
conforme o engenheiro florestal e assessor da Secretaria Municipal de Gestão Ambiental, Luiz
Geraldo Cero, para um trabalho completo.
O projeto prevê entre suas ações, a realocação de mais de 13 mil famílias da beira do
Cadena, tratamento de 100% do esgoto da cidade, construção de um parque ecológico na margem do
arroio e limpeza do leito com sistema de contenção e remoção do lixo.
Nada se conseguirá sem educação ambiental.
Outra ação prevista é de conscientização. A meta, nesse ponto do projeto é contar com
a ajuda das escolas para que eduquem as crianças e para que repassem o conhecimento às suas
famílias.
Caso seja aplicado, o projeto deve levas cerca de cinco anos ppara chegar à fase final e ter
seus efeitos prontos para serem conferidos.
Para Santa Maria uma das vantagens de recuperar o Cadena seria ter um arroio limpo,
atravessando boa parte da extensão urbana, ao contrário do foco de contaminação e de doença que ele
representa hoje. O Cadena sujo, com lixo boiando na superfície sera substituído por um arroio com
vida. Ele passaria, ao invés de envergonhar, a orgulhar e ajudar o santa-marienses.
(Artigo Publicado no Diário de Santa Maria, em 17/05/2004, pág. 16 - Caderno: Especial.)
Um projeto importante e bem caro.
R
Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.

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Ensino literatura

  • 1. 185 O ENSINO DA LEITURA NUMA PERSPECTIVA INTERDISCIPLINAR: UMA PROPOSTA DE APLICAÇÃO.1 THE TEACHING OF READING IN AN INTERDISCIPLINAR PERSPECTIVE: AN APPLYING PROPOSAL Ângela Maria Lorenzoni Sauthier2 Ana Lúcia Cheloti Prochnow3 RESUMO No presente trabalho, tem-se como proposta a realização de um pro- jeto interdisciplinar de leitura, partindo da análise de um texto jornalístico, uma reportagem, retirada de um jornal local. Objetiva-se integrar diferen- tes áreas do conhecimento, com o intuito de levar o educando, público- alvo deste trabalho, a processar uma leitura mais completa de um texto, uma vez que, no ato de ler, todas elas contribuem, e por isso são necessá- rias, para se construir o significado do texto. Nesse sentido, integraram-se as disciplinas de Português, Matemática, História, Ciências e Educação Artística, com a intenção de desenvolver os seus conteúdos previstos para o quarto ciclo do Ensino Fundamental, partindo de um mesmo instrumen- to de leitura. Para isso, contou-se com a colaboração dos professores da Escola Básica Estadual Dr. Paulo Lauda. Com esta iniciativa, para a qual se buscou apoio teórico em Kleiman & Morais(1999), Martins (1986), Trevisan (1992), Silva (19), foi possível demonstrar que um mesmo texto pode ser explorado nas diferentes disciplinas, proporcionando um traba- lho inovador e atendendo às atuais perspectivas educacionais. Palavras-chave: leitura, interdisciplinaridade, práticas sociais. ABSTRACT In this work, the proposal is the making of a interdisciplinary rea- ding project, up from the analysis of a journalistic text, news report taken from a local newspaper. It aims to integrate different areas of knowledge, with the goal of taking the student, the subject of this work, to achieve a 1 Trabalho final de graduação - UNIFRA. 2 Acadêmica do Curso de letras - UNIFRA. 3 Orientadora - UNIFRA. Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 2. 186 more complete reading of a text, since they all contribute for the reading act, and are, therefore, necessary in the construction of meaning of the text. In this sense, there is the integration of the Portuguese, Math, History, Science and Arts subjects, with the intention of developing their curricula due to the fourth grade of Elementary School, starting from a single rea- ding text. For that, it was important the participation of Dr. Paulo Lauda State Elementary School teachers. Through this initiative, for which the theoretical support of Kleiman (1999), Martins (1986), Trevisan (1992), Silva (19) was used, it was possible to show that a single text can be ex- plored in different school subjects, allowing an innovating work attentive to the current educational perspectives. Keywords: reading, interdisciplinarity, social practices. INTRODUÇÃO Este trabalho surgiu em decorrência das minhas inquietações como professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental há mais de dez anos. Durante esse tempo, tenho percebido a dificuldade que os alunos têm em ler e entender um texto e também o desinteresse que eles demonstram em relação à leitura. É muito comum não terem consciência da importân- cia da leitura, uma vez que ainda não puderam sentir os seus benefícios como meio de obter conhecimento, cultura e, também, prazer. Baseada nessas constatações, fui levada a procurar as razões de tais difi- culdades e, ao mesmo tempo, buscar soluções para elas. Lajolo (1982) entende que um dos motivos da defasagem de leitura apresentada pelos alunos decorre das práticas docentes durante a sua escolarização, em que não se priorizou o ensino e a promoção da leitura. Quando realizada sem nenhuma relação com a realidade sociocultural do aluno, a leitura é vista apenas como mais um tipo de atividade escolar da aula de Português. Segundo a autora, quando são traba- lhados textos, geralmente, esses se baseiam em fragmentos que servem como objeto de estudo do conteúdo gramatical e não fazem sentido para o aluno, que é levado a responder a questões cujas respostas estão previstas na leitura do professor ou do autor do livro didático. Sabendo que, por meio da leitura, o homem assume aos poucos o controle de sua aquisição do saber e de sua formação e, dessa forma, par- ticipa da sociedade em termos de compreensão e transformação de mundo (SILVA,19), tornam-se urgentes medidas que venham não só ajudar os alunos na compreensão de suas leituras como também despertar o seu gosto por essa prática. Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 3. 187 Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs (BRASIL, 2000), o tratamento disciplinar dado aos currículos das nossas escolas, en- tendido como lógico e formal, distancia-se das possibilidades de aprendi- zagem da grande maioria dos alunos, uma vez que não são suficientes para alcançar o fim de educar para a cidadania. O tratamento desses conteúdos deve integrar conhecimentos de diferentes disciplinas que contribuam para a compreensão e intervenção na realidade em que vivem os alunos. Apoiada nos PCNs, procurei realizar um trabalho de leitura integra- do que envolve as demais disciplinas, pois acredito que não cabe somente ao professor de Português abraçar essa causa, visto que, em última análi- se, os demais professores também têm o compromisso de formar alunos leitores. O trabalho tem como propósito, diante desse contexto, fornecer aos alunos mais subsídios para compreender e obter um significado mais completo do texto, por meio da interdisciplinaridade. Está apoiado numa proposta de desenvolvimento de projetos interdisciplinares centrados na leitura, criado por Kleiman & Moraes (1999). FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A CONCEPÇÃO INTERACIONISTA DE LEITURA No mundo atual, a leitura, entendida como compreensão e interpre- tação dos diversos gêneros de textos, é um instrumento indispensável para se poder transitar com independência numa sociedade letrada. Para Menezes et al. (2002), ler é dialogar com o texto no sentido mais amplo, uma atividade que exige, basicamente, as habilidades de fa- zer perguntas a um texto, de buscar respostas e saber onde encontrá-las. Ao refletir sobre as funções da leitura, Silva (19) lembra que, por produzir conhecimento, a leitura será um instrumento de combate à alie- nação, se o leitor realizá-la de forma reflexiva e crítica, contextualizando- a, fazendo relações com outras leituras e confrontando idéias. O autor afirma que a leitura caracteriza-se como um dos pro- cessos que possibilita a participação do homem na vida em sociedade, em termos de compre- ensão do presente e passado e em termos de possibilidades de transformação sócio-cultural futura. (p.20) Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 4. 188 Freire (1981) diz que lemos primeiro o mundo, depois a palavra e que a leitura da palavra implica a continuidade da leitura do mundo. De- fende que ler não é, simplesmente, decodificar a palavra ou a linguagem escrita e aponta para um conceito mais abrangente: a leitura do mundo. Se ler implica ler o mundo, mesmo antes e até depois de se ter aces- so ao código escrito, pressupõe-se que toda a experiência de vida do leitor esteja envolvida. Nessa mesma perspectiva, Kleiman (1995) define a atividade de leitura como uma interação à distância entre leitor e autor via texto. Para a autora, a leitura é um ato social, entre dois sujeitos, obedecendo a obje- tivos e necessidades socialmente determinados. Ela salienta que o leitor constrói e não apenas recebe um significado global para o texto; ele pro- cura pistas formais, formula e reformula hipóteses, aceita e rejeita conclu- sões. Por sua vez, o autor busca, essencialmente, a aprovação do leitor, apresentando, para isso, os melhores argumentos, evidências convincen- tes, organizando o texto de tal forma que atinja seus objetivos. Segundo Trevisan (1992), a interação leitor-texto, que se estabelece no momento da leitura, vai depender de uma série de elementos centrados no leitor, como o seu conhecimento de mundo, suas crenças, opiniões e interesses, seus conhecimentos a respeito dos diferentes tipos de textos e dos recursos lingüísticos utilizados. A autora entende que a compreensão de um texto se caracteriza pela utilização do conhecimento prévio, isto é, o leitor utiliza na leitura o que ele já sabe, ou seja, o conhecimento ad- quirido ao longo de sua vida. Portanto, diversos níveis de conhecimentos interagem entre si: o lingüístico, o textual e o conhecimento de mundo. O conhecimento lingüístico é aquele implícito que faz com que falemos português como nativos. Abrange desde o conhecimento sobre como pronunciar palavras em português, passando pelo conhecimento do vocabulário, das regras gramaticais e do uso da língua. Trevisan (1992) e Kleiman (1995) compartilham da idéia de que, ao considerar o conhecimento da língua, é preciso levar em conta também o papel do contexto lingüístico em que as marcas lingüísticas estão inseri- das, pois este interfere na apreensão do sentido veiculado pelo texto. Com relação ao conhecimento textual, entendido como o conjunto de noções e conceitos sobre diversos tipos de textos e formas de discursos, Kleiman (1995) salienta que, quanto maior o conhecimento textual do lei- tor, quanto mais ele for exposto a diferentes estruturas textuais, mais fácil será sua compreensão. A autora lembra da importância de o leitor saber re- conhecer a estrutura do texto, pois esta oferece indicadores essenciais que permitem antecipar a informação que contém e facilita a interpretação. Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 5. 189 Isso se justifica pelas muitas expectativas que os vários textos despertam no leitor. Quanto ao conhecimento de mundo ou enciclopédico, isto é, expe- riências acumuladas que os indivíduos adquirem durante a existência e armazenam na memória, Kleiman (1995) lembra que este pode ser adqui- rido tanto formal quanto informalmente. Com base nas idéias freireanas, salienta também que, para haver uma compreensão na leitura, a parte re- levante de conhecimento de mundo deve estar ativada, num nível ciente e não perdida na memória. Com relação a isso, Trevisan (1992) destaca que, para haver a com- preensão, é necessário um certo equilíbrio entre o conhecimento de mun- do do autor e o do leitor. Com esses conhecimentos partilhados, o receptor é capaz de dar sentido a informações novas por meio do processo de in- ferência. A intertextualidade também é citada pela autora como um fator importante para o entendimento, uma vez que se torna necessário que o leitor tenha conhecimentos a respeito de outros textos incorporados. Ela enfatiza que não lemos só o que está escrito, mas também, expressões humanas. Dessa forma, a leitura ultrapassa o texto e começa antes de qual- quer contato com ele. Silva (19) diz que outras concepções do processo de leitura estão sendo elaboradas e assumidas em nossa sociedade. Algumas iniciativas vêm demonstrar a existência de muitas propostas alternativas para a for- mação de leitores críticos, isto é, aqueles que descobrem o significado do texto pretendido pelo autor da mensagem, mas não permanecem nesse primeiro nível, eles reagem, questionam, problematizam. Essa criticidade leva o leitor à construção de um outro texto: o do próprio leitor. PEDAGOGIA DA LEITURA É indiscutível que, no trabalho escolar, a leitura ocupe um lugar de destaque no processo de busca e produção de conhecimento. Dessa forma, o ato de ler se faz necessário para professores e alunos, porém é impor- tante analisar em que condições e de que forma esse ato é conduzido no contexto escolar. No entendimento de Lajolo (1982), a leitura na escola, ao invés de levar os alunos a um conhecimento profundo e crítico da realidade, muitas vezes, serve de pretexto para o estudo de normas gramaticais. Assim, a leitura passa a ser uma habilidade desligada do cotidiano do aluno e apre- senta-se como uma obrigação imposta pela escola, por não estar associada a diferentes estruturas textuais que fazem parte do seu dia- a- dia. Dessa Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 6. 190 forma, o ensino da leitura reflete a pedagogia da contradição, presente no contexto escolar. Pretende-se que o aluno aprenda o todo em um texto fragmentado; quer que ele seja um leitor crítico e participativo, fazendo com que responda apenas ao que está previsto na leitura do professor ou do autor do livro didático. Assim, o aluno lê sem entender, interpreta sem ter lido e realiza atividades que não têm nenhuma função na sua realidade sociocultural (KLEIMAN, 1999). Kleiman (1999) menciona o fato de que muitos textos apresenta- dos em algumas escolas, principalmente os inseridos nos livros didáticos, pouco têm a ver com a realidade da sociedade. A autora sugere textos de revistas e jornais por serem mais acessíveis tanto para o aluno como para o professor, além de trazerem temas atuais como notícias e reportagens de interesse de todos. Ela acredita que a ausência, em sala de aula, de textos que circulam socialmente é uma forma de recusar a experiência do aluno como cidadão fora do espaço escolar. Dessa forma, o ato de ler desvincula-se do seu objeto e torna-se inexplicável, servindo apenas para suprir o requisito indispensável para ascender novos graus de ensino e da sociedade, objetivando a realização pessoal e econômica. Assim, pode-se perceber, que há um esvaziamento das relações entre a leitura e o texto, preenchido apenas com a idéia de aprender a ler para prosperar economi- camente. Silva (19) observa que “muitos professores ainda tomam o ato pe- dagógico como sinônimo de leituras efetuadas, o que é restringir muito ou distorcer completamente a dimensão e a abrangência desse ato” (p.6). Para o autor, o ato pedagógico vai exigir muito mais do que a leitura de determinados textos, é necessário estabelecer relações dialógicas para a aproximação das pessoas e organizar o avanço cognitivo sobre determi- nadas questões. A metodologia de leitura é resultado do trabalho com o texto. A princípio, consideram-se suas diversas estruturas, depois de adequá-las ao contexto do leitor. Ele precisa ser desvelado e não descrito simplesmente. Para Zilberman & Silva (19), uma pedagogia de leitura que pretenda agir na sociedade, pela transformação do leitor, não se apóia na descrição da estrutura de um texto, mas sim, propõe, ensina e encaminha a descoberta da função exercida pelo mesmo no receptor. As instituições criadas pela sociedade, como a escola e a lingua- gem, enquanto sistemas, proporcionam o exercício individual ou coleti- vo da leitura. O funcionamento dessas instituições é dinâmico como a própria leitura. A competência por parte da escola é que vai determinar o modo como ocorrem as relações entre as classes sociais. A quantidade e Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 7. 191 a qualidade dos produtos da linguagem que estão à disposição dos alunos indicam a orientação conservadora ou democrática dos textos bem como da sociedade que os fabrica e distribui (ZILBERMAN & SILVA,19). Os autores acreditam que as instituições podem ser avaliadas pelos projetos que possuem em relação à leitura. Eles lembram que reproduzir a leitura, dar ênfase à paráfrase e fornecer interpretações prontas é uma forma de compactuar com o sistema vigente, pois uma escola que preten- de realizar uma mudança social deve fazer com que a leitura dos textos se transforme num instrumento de conscientização dos leitores. LEITURA INTERDISCIPLINAR A lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB (BRASIL, 2000), conhecida como a nova LDB, rompeu com os paradigmas defendi- dos pelas leis anteriores. Nelas, havia uma preocupação com a formação do eu, com a humanização do educando, sob uma forte influência da psi- cologia comportamental, a qual considerava a mente do aluno vazia, e em decorrência disso, a instrução era programada. O ensino da leitura restringia-se à decodificação num processo as- cendente, com o significado centrado no texto. O aluno estava na con- dição de espectador passivo, de memorizador de conteúdos. Sua função era, então, de decodificar, decifrar e digerir o texto. A partir da nova lei, a leitura passou a ter uma abordagem diferente, sendo o significado do texto negociado entre o leitor e o escritor, passando aquele a ser considerado um co-autor do texto. Na nova LDB, está evidente a preocupação em formar o aluno para viver em sociedade, por meios formais e informais de educar, entre eles, a escola, a família, a associação de bairro etc. A função primordial da escola é a de fornecer instrumentos necessários para que o aluno compreenda o mundo em que vive e possa, progressivamente, assumir o controle do seu saber. Atualmente, vários problemas são encontrados no currículo esco- lar: fragmentação, linearidade e alienação do conhecimento e o excessivo individualismo. Kleiman (1999) reforça a idéia de que existem contradi- ções no âmbito pedagógico: Difunde-se um conhecimento fragmenta- do e exige-se um indivíduo por inteiro. Procura- se fazer com que o aluno memorize o máximo de teoria possível, e cobra-se dele, no merca- Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 8. 192 do de trabalho, a formação prática necessária a uma boa atuação na empresa. Deixa-se o aluno fora do processo, alienado, e exige-se um cida- dão crítico, participativo, inserido no contexto (p.14). A lei enfatiza a aprendizagem a partir do conhecimento prévio do aluno, e este deve mobilizar menos a memória e mais o raciocínio. O educando deve ser incentivado a reconstruir o conhecimento. Para isso, são importantes os conceitos de interdisciplinaridade e contextualização. O diálogo entre os conhecimentos é permanente para que o aluno aprenda, sob perspectivas diferentes, numa abordagem interdisciplinar. Não se pode diminuir a importância dos conteúdos, pois as áreas específicas possuem um cabedal de conhecimento acumulado ao qual o aluno deverá também ter acesso. A tendência atual é a de minimizar os conteúdos para que haja um equilíbrio entre o disciplinar e o interdisciplinar. A informação passa a ser útil quando é colocada à disposição dos alunos para eles próprios utilizarem aquilo de que precisam. Além disso, contextualizando os con- teúdos, permite-se estabelecer relações de reciprocidade entre o aluno e o objeto do conhecimento. A interdisciplinaridade e a contextualização oportunizam-lhe aprender a pensar, a relacionar os conhecimentos com o seu cotidiano, a dar sentido ao aprendido e captar o significado do mundo (KLEIMAN,1999). A leitura, por sua natureza integradora de saberes e constitutiva da construção de novos saberes, pode vir a exercer o papel da escola, pois oferece os instrumentos necessários para que o aluno consiga compreen- der as informações tão complexas do mundo atual. Na perspectiva interdisciplinar, a responsabilidade do ensino da lei- tura e da escrita deixa de ser exclusiva do professor de Português. Parte-se da premissa de que os outros professores não são meros informadores, e sim, formadores e também responsáveis pelo ensino da leitura, pois se sabe que a escola é a mais importante instituição que introduz o aluno nas práticas de uso da escrita na sociedade. Nesse universo, a leitura pode ser objetivo e instrumento de apren- dizagem. Como instrumento, pertence a todas as disciplinas, pois é a ati- vidade na qual se baseia grande parte do processo de aprendizagem no contexto escolar. Como objetivo, envolve a formação de atitudes, a valo- rização da prática e a transmissão de valores, aquilo que é importante para as futuras gerações. Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 9. 193 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS SELEÇÃO DE CORPUS O objetivo desta análise é propor um trabalho interdisciplinar de leitura, pois estão envolvidas diferentes áreas do conhecimento, tendo como ponto de referência uma reportagem jornalística. O texto jornalís- tico é uma das ferramentas de que se dispõe no momento de se realizar uma atividade de leitura. Conforme Kleiman (1999), “os múltiplos modos de apresentação da informação no texto jornalístico informativo possi- bilitam engajar o aluno em diversas práticas sociais de leitura, segundo as perspectivas das diferentes disciplinas” (p.101). Essa análise, portanto, tem como base o estudo proposto por Kleiman (1999), adaptado para uma determinada realidade, alunos da 8a série da Escola Paulo Lauda. Também os PCNs (BRASIL, 2000) salientam que, para estar em consonância com as demandas da sociedade atual, é necessário que a es- cola trate de questões que interfiram na vida dos alunos e com as quais se vêem confrontados no seu dia-a-dia. Apontam, também, para a importân- cia de se discutirem, na escola e na sala de aula, questões da sociedade brasileira, como as ligadas ao meio ambiente, à política etc. (Temas Trans- versais). A principal função do trabalho com o tema meio ambiente, por exemplo, é contribuir para a formação de cidadãos conscientes e aptos a decidir e a atuar na realidade socioambiental de modo comprometido com a vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade, local e global. Somado a isso, a proposta apresentada sugere partir de temas da atualidade que são matérias das notícias e reportagens nas revistas semanais de informação e nos jornais diários, porque elas retomam assuntos de interesse público. Tendo em vista essa proposta, foi selecionada uma reportagem pu- blicada em um jornal local (Diário de Santa Maria) datada de 17 de maio de 2004, que faz referência à poluição do Arroio Cadena, rio que atravessa a cidade de Santa Maria. O título da reportagem é “Qual é a real situação de Arroio Cadena? A poluição dele tem salvação?” (ANEXO I). ETAPAS O primeiro passo para a realização do trabalho foi fazer contato com todos os professores da turma 87 (8a série) correspondente ao 4o ci- clo, da qual esta pesquisadora é professora titular de Português, para expor os objetivos da pesquisa e saber se eles estariam dispostos a participar. Após muitas tentativas para se conseguir marcar uma data em que todos Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 10. 194 pudessem estar presentes, foi possível fazer uma reunião contando com a presença da professora orientadora e dos professores de Matemática, História, Ciências, Português e Educação Artística. Todos concordaram com a importância da leitura em todas as dis- ciplinas e manifestaram sua inquietação em relação à dificuldade que os alunos apresentam em entender o que lêem. Os professores demonstraram bastante entusiasmo com a proposta de trabalho e se propuseram a “abra- çar” esta causa. Foi sugerida a eles a leitura de alguns capítulos do livro Leitura e Interdisciplinaridade: Tecendo Redes nos projetos da Escola das autoras Ângela Kleiman e Sílvia E. Moraes, em cuja teoria está embasada esta proposta. Também foi disponibilizada a todos uma cópia da reportagem escolhida e sugerido que eles estudassem a viabilidade de aproveitar o texto para serem trabalhados os conteúdos compatíveis com a série em questão em cada disciplina. Cada proposta de trabalho seria discutida em conjunto numa próxima reunião. Novos encontros aconteceram e novas idéias foram surgindo de forma que a proposta foi sendo incrementada. Os professores passaram a discutir o texto, dentro de cada área de conhecimento. Assim, houve a possibilidade de se trabalhar a interdisciplinaridade abordando um mesmo tema em um mesmo texto por meio de uma reportagem. RESULTADOS E DISCUSSÃO A reportagem selecionada foi publicada na seção Especial do jornal Diário de Santa Maria (17/05/2004) e assinada por Alves (2004), ANEXO - 1. O texto destaca o nome da seção (Especial), o título da matéria (Qual é a real situação do Arroio Cadena? A poluição dele tem salvação?) e o subtítulo que resume a notícia (Morreu. Mas pode renascer.). Esses três elementos aparecem em caracteres grandes. As imagens estão distribuí- das da seguinte forma: uma foto grande ao centro do texto, mostrando a nascente do arroio com águas limpas e duas fotos menores, logo abaixo; a primeira mostra o esgoto sendo jogado no arroio e a outra, o arroio total- mente poluído. Entre as fotos, aparece a seguinte legenda: Vida e Morte. Na nascente (acima), beleza e água limpa. Abaixo e à esquerda, o esgoto do centro invade o curso do arroio que, na sua parte final, é lixo, mau chei- ro, leito seco e desolação (abaixo, à direita). Assim, a mensagem verbal propriamente dita se apresenta de três formas: Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 11. 195 ELEMENTOS DESTACADOS Elementos destacados: classificação, título, subtítulo-resumo e fra- ses em destaque Especial Qual é a real situação do Arroio Cadena? A poluição dele tem sal- vação? Morreu. Mas pode renascer. LEGENDAS DESCREVENDO AS IMAGENS Vida e morte. Na nascente (acima), beleza e água limpa. Abaixo e à esquerda, o esgoto do centro invade o curso do arroio que, na sua parte final, é lixo, mau cheiro, leito seco e desolação (abaixo, à direita). CORPO DO TEXTO (ANEXO 1) Os professores passaram a discutir o texto dentro nas seguintes áre- as do conhecimento: Português, Matemática, História, Ciências e Educa- ção Artística. Língua Portuguesa O ensino do Português tem como objetivo propiciar ao aluno opor- tunidades de vivenciar a linguagem como uma prática social. Esse ensino deve utilizar-se de textos por meio dos quais os alunos terão acesso aos di- versos gêneros existentes. Dessa forma, a simples prática social de leitura já atenderia às exigências curriculares desta área (KLEIMAN, 1999). A prática de leitura da reportagem é uma atividade que também põe o aluno em contato com diversos modelos de estruturação da informa- ção verbal, um objetivo importante na aula de Português. Por exemplo, a reportagem descreve, de forma chocante, um arroio totalmente poluído, como no trecho a seguir: Nos últimos 40 anos, o leito do Cadena vem recebendo muita sujeira. Das garrafas pet que flutuam aos montes, até sofás que já não serviam mais e os donos não encontraram lugar melhor para colocar. Mas há um tipo de lixo que é ainda mais grave do que este que bóia a olhos vistos. É o esgoto. Há também trechos narrativos que fazem referência a um projeto de revitalização do Arroio Cadena: para a recuperação que consta no Programa de Desenvolvimento Sustentável são pleiteados cerca de US$12 milhões financiados pelo Banco Mundial (Bird). O projeto foi encaminhado no final do ano passado ao Ministério Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 12. 196 do Planejamento e, depois, ao Senado, onde já foi aprovado. Agora está passando por uma análise técnica no Ministério da Fazenda. A próxima etapa será a aprovação por um fundo do Banco Mundial. Também em relação ao ensino do Português, a reportagem em questão se utiliza de outros elementos específicos da área, como a técnica da narração, mais especificamente mostrando o discurso direto como no exemplo: - O Cadena já está numa situação tão ruim que nem pode mais piorar. É um arroio morto, totalmente deteriorado. - afirma o engenheiro florestal José Sales Mariano da Rocha, doutor em manejo integrado de Bacias Hidrográficas, livre-docente em Projetos Ambientais e professor da UFSM; e também poderão ser trabalhados os níveis de linguagem (for- mal/coloquial). No trecho: Morreu. Mas pode renascer e Vida e Morte, poderão ser explorados os efeitos de sentido produzidos pelo emprego da linguagem figurada (linguagem conotativa / denotativa e figuras de lin- guagem). Matemática O texto traz dados, como no primeiro parágrafo, A frieza para falar sobre o curso d água que corta a cidade, passando por 16 dos seus 25 bair- ros não é exagerada, que poderiam ser trabalhados em conteúdos especí- ficos, como a porcentagem. Os alunos calculariam o percentual de bairros da cidade que são banhados pelo Arroio Cadena. Além disso, na passagem para a recuperação, que consta no Pro- grama de Desenvolvimento Sustentável, são pleiteados cerca de US$12 milhões, financiados pelo Banco Mundial (Bird); para que o aluno entenda o que representa essa quantia em reais, poderá ser desenvolvido o conte- údo regra de três. Em outro trecho, O projeto prevê, entre outras ações, realocação de cerca de 1,3 mil famílias da beira do Cadena, o conteúdo Potência de Base Zero esclareceria o que representa essa quantia (Padro- nização Científica). Ciências O texto trata de um tema de interesse das Ciências, o que dispen- saria outras relações. O segundo parágrafo do texto menciona um tipo de lixo que bóia a olhos vistos que é o esgoto. No terceiro parágrafo, há a informação de que Santa Maria trata apenas metade do esgoto produzido por seus mais de 250 mil habitantes. Aqui poderiam ser estudados o sa- neamento básico e a poluição com coliformes fecais. O texto menciona Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p.185-201, 2003.
  • 13. 197 que o único local poupado fica nos cerca de 200 metros logo depois da nascente. Trata-se de um bom exemplo para a introdução ao estudo da Física (unidades de medida). O texto propicia também o trabalho de atitu- des preventivas, sociais e comunitárias e de procura de soluções a médio e longo prazo para o problema em questão, como também o desenvolvi- mento da criticidade dos alunos perante suas atitudes diárias em relação ao meio ambiente. História No segundo parágrafo da reportagem, há informações sobre a tem- poralidade da poluição do Arroio Cadena. Os alunos poderiam pesquisar quais foram os primeiros povos que habitaram a região e qual a sua re- lação com o arroio. Com referência ao lixo, os alunos poderiam pesqui- sar em que momento da história aconteceu o surgimento desenfreado do arroio. O texto ainda menciona que o fato de Santa Maria ser uma cida- de universitária e não industrial torna a poluição do Arroio reversível. A partir dessa afirmação, é possível trabalhar o surgimento das cidades a partir da Revolução Industrial; descrever as vantagens e desvantagens de a cidade possuir poucas indústrias e entender o funcionamento do Progra- ma de Desenvolvimento Sustentável, como conciliá-lo com a crescente industrialização do mundo. Artes O texto mostra três fotos atuais do Arroio Cadena em momentos diferentes: a primeira, a nascente com águas límpidas; a segunda, o esgoto tomando conta do arroio e a última, o arroio totalmente poluído. Os alunos poderiam fazer uma pesquisa de fotos antigas e atuais do arroio. Após, fariam um desenho representando sua situação atual. Depois de fazer uma releitura das fotos antigas e atuais dos locais fotografados, os alunos fa- riam um desenho de como eles imaginariam que estivesse o arroio hoje, sem poluição. CONCLUSÃO Aescola precisa formar indivíduos críticos, letrados e capazes de seguir aprendendo pelo resto de suas vidas. Para isso, é necessário desfazer as fron- teiras rígidas existentes entre as disciplinas, que fragmentam o saber do aluno, impedindo-o de construir seu conhecimento por seus próprios meios. Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 14. 198 Acredito que a leitura interdisciplinar é uma forma de romper com a fragmentação das disciplinas e de proporcionar ao aluno uma visão do todo através da interação de vários saberes. A realização deste trabalho de leitura interdisciplinar teve resulta- dos positivos pelo comprometimento dos professores participantes com a proposta apresentada a eles. Apesar das precárias condições de execução, propuseram-se a colaborar para repensar sua prática, pois são profissionais receptivos a novas possibilidades de trabalho. A referida proposta não foi executada. Limitou-se a indicar uma forma de trabalho integrado entre as disciplinas, porém a intenção é de colocá-la em prática no próximo ano letivo, na série para a qual foi pensada. Reafirmo assim que a leitura é uma atividade que merece ter lugar destacado na prática escolar, portanto, deve ser ensinada por todos os pro- fessores, em todas as matéria. Por tratar-se de um trabalho coletivo, de equipe, os professores precisam ter humildade e disponibilidade de troca para que os conteúdos de suas disciplinas possam ser integrados com os das demais. A escola, por sua vez, precisa dar condições para que esse tipo de atividade seja realizado, possibilitando o acesso a textos que circulam socialmente, como revistas semanais de informação e jornais diários, e também disponibilizar tempo para que os professores possam se reunir e discutir o trabalho proposto. Não tenho dúvida de que trabalhar com leitura interdisciplinar re- quer planejamento e troca de informações, e, certamente, todos serão be- neficiados. Os alunos serão capazes de compreender o texto de forma in- tegral, de relacionar seus saberes e de aprender a trabalhar em equipe. Os professores serão incentivados a ampliar os seus conhecimentos em outras áreas e a melhorar o relacionamento entre os colegas. A escola estará en- gajada nas propostas dos PCNs que sugerem contrapor a fragmentação e a linearidade do currículo à interdisciplinaridade e neutralizar o excessivo individualismo quando se propõem trabalhos coletivos. Assim, estaremos formando cidadãos melhores, preparados para participar da sociedade em que estão inseridos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Lauro. Qual é a real situação do Arroio Cadena? A polui- ção dele tem salvação? Diário de Santa Maria, Santa Maria, 17 maio 2004. Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 15. 199 BRASIL. Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curricu- lares Nacionais. Língua Portuguesa. 2.ed. Brasília, DF: 2000 (Lei 9394, de 20 de dezembro de 1996). FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1981. KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas. São Paulo: Pontes, 1995. KLEIMAN, Ângela; MORAES, Silvia E. Leitura e interdiscipli- naridade: tecendo redes nos projetos da escola. Campinas: Mercado de Letras, 1999. LAJOLO, Marisa. O texto não é pretexto. In: AGUIAR, Vera Tei- xeira de; ZILBERMAN, Regina (orgs). Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. p.51-62. MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 1986. MENEZES, Gilda; TOSHIMITSU, Thais; MARCONDES, Beatriz. Como usar outras linguagens na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2002. SILVA, Ezequiel Theodoro da. Elementos de pedagogia da leitu- ra. São Paulo: Martins Fontes, 19. TREVISAN, Eunice Maria Castegnaro. Leitura: coerência e co- nhecimento prévio: uma exemplificação com o frame carnaval. Santa Ma- ria: UFSM, 1992. ZILBERMAN, Regina; SILVA, Ezequiel Theodoro da. Pedagogia da leitura: movimento e história. In: ZILBERMAN, Regina; SILVA, Eze- quiel Theodoro da. et. al. (orgs). Leitura: perspectivas interdisciplinares. São Paulo: Ática, 19. p.111-115. Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 16. 200 taperinha é um exemplo com seus 14 andares e cerca de200moradores,despejanocadenatodooesgotoque produz. Essa realidade torna a situação crítica. Um levantamento da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e do Ibama, feito no final da década de 90, encontrou colifórmios fecais e bactérias nocivas a saude em praticamente todos os pontos analisados ao longodos 30Kmdeextensãodoarroio. O único local poupado fica aos cerca de 200 metros logo depois da nascente, no bairro perpétuo Socorro. No restante da última análise pra cá, oprobllemasópiorou. - O Cadena já está numa situação tão ruim que nem pode mais piorar. É um arroio morto, totalmente deteriorado - informa o engenheiro florestal José Sales Mariano da Rocha, doutor em manejo integrado das Bactérias Hidrográficas, livre-docente emProjetosAmbientais eprofessordaUFSM. QUAL É A REAL SITUAÇÃO DO ARROIO CADENA? A POLUIÇÃO DELE TEM SALVAÇÃO? Um arroio morto. É assim, sem pompa nem circunstância que pode ser definida a situação do Cadena. A frieza para falar sobre o curso d’água que corta a cidade passando por 16 dos seus 25 bairros não é exagerada. Nos últimos 40 anos, o leito do Cadena vem recebendo muita sujeira. Das garrafas pet que flutuam aos montes até sofás que já não serviam mais e os donos não encontraram lugar “melhor” para colocar. Mas há ainda um tipo de lixo que é ainda mais grave que este que bóia a olhos vistos. É o esgoto. Santa Maria trata apenas metade do esgoto produzido por seus mais de 250 mil habitantes. O resto vai para o Cadena ou para algum de seus afluentes, o esgoto toma o seu rumo natural e desemboca no Cadena. Nas vilas da cidade que são margeadas peloCadenacomoRenascença,LídiaeOliveira,nãoé precisoesforçoparaveraagressão.Oscasebresàbeira do arroio tem ligação direta do seu esgoto para a água. Masnãosãoapenasasvilasribeirinhasasresponsáveis portantapoluição.Aocontráriodoquesepodepensar, elas sãopoluidoras emmenorvolume. A maior parte do esgoto que chega ao cadena vem da área central da cidade. O edifício Vida e morte. Na nascente (acima), beleza e água limpa. Abaixo à esquerda, o esgoto invade o curso do arroio que na sua parte final, é lixo, mau cheiro, leito seco e desolação (abaixo, à direita) Morreu. Mas pode renascer. Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.
  • 17. 201 Sem indústria, há menos poluição Mesmo que a poluição perpasse rodo o curso do Cadena, existe esperança para o arroio. A condição de Cidade Universitária e sem vocação para indústria, no aspecto ambiental, torna reversível o drama do Cadena. Durante os 40 anos em que o arroio vem sendo utilizado com mais intensidade como depósito de lixo e esgoto da cidade, ele teve a sorte de não receber resíduos industrializados. Este é um dos fatores que dá aos ambientalistas a certeza de poder recuperar todo o leito. - É possível ressucitar o Cadena. Com a execução de um projeto completo, aplicado de maneira correta, ele pode voltar a ser um arroio limpo, com vida, dentro da cidade. - assegura Rocha. A informação é um alento. Mas, apesar de ser possível, a recuperação não será real se não contar com o comprometimento dos administradores públicos e de todos os cidadãos santa- marienses. ecuperar o Cadena é uma boa intenção que esbarra em cifras monstruosas. A prefeitura tem um programa em andamento para revitalização do arroio, mas anda na fase incial, que é também uma das mais difíceis, a busca de dinheiro. ParaarecuperaçãoqueconstanoProgramadeDesenvolvimentoSustentávelsãopreiteados cerca de US$ 12 milhões, financiados pelo Banco Mundial (Bird). O projeto fo encaminhado no final doo ano passado ao minitério do planejamento e depois ao Senado, onde foi aprovado. Agora está passando por uma análise técnica no Ministério da Fazenda. A próxima etapa será a aprovação por um fundo do Banco Mundial. É nesse projeto que a prefeitura apsta suas fichas. A verba, se for conquistada, será usada conforme o engenheiro florestal e assessor da Secretaria Municipal de Gestão Ambiental, Luiz Geraldo Cero, para um trabalho completo. O projeto prevê entre suas ações, a realocação de mais de 13 mil famílias da beira do Cadena, tratamento de 100% do esgoto da cidade, construção de um parque ecológico na margem do arroio e limpeza do leito com sistema de contenção e remoção do lixo. Nada se conseguirá sem educação ambiental. Outra ação prevista é de conscientização. A meta, nesse ponto do projeto é contar com a ajuda das escolas para que eduquem as crianças e para que repassem o conhecimento às suas famílias. Caso seja aplicado, o projeto deve levas cerca de cinco anos ppara chegar à fase final e ter seus efeitos prontos para serem conferidos. Para Santa Maria uma das vantagens de recuperar o Cadena seria ter um arroio limpo, atravessando boa parte da extensão urbana, ao contrário do foco de contaminação e de doença que ele representa hoje. O Cadena sujo, com lixo boiando na superfície sera substituído por um arroio com vida. Ele passaria, ao invés de envergonhar, a orgulhar e ajudar o santa-marienses. (Artigo Publicado no Diário de Santa Maria, em 17/05/2004, pág. 16 - Caderno: Especial.) Um projeto importante e bem caro. R Disciplinarum Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 185-201, 2003.