UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
REITOR
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EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
COORDENADORA DO PROGRAMA EDITORIAL
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COORDENADOR GRÁFICO
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Telefone: 2105 – 6922/6923. e-mail: editora.ufs@gmail.com
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Este livro, ou parte dele, não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita da Editora.
Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, adotado no Brasil em 2009.
Fabio Zoboli
Renato Izidoro da Silva
Miguel Angel García Bordas
ORGANIZADORES
São Cristóvão, 2016
CORPO E GOVERNABILIDADE
A responsabilidade pelo conteúdo dos trabalhos
publicados é exclusivamente de seus autores.
	 Zoboli, Fabio
Z83c 		 Corpo e governabilidade / Fabio Zoboli, Renato Izidoro
da Silva, Miguel Angel García Bordas. – São Cristovão: Editora
UFS, 2016.
		 394 p. : il.
		 ISBN 978-85-7822-519-3
		 1. Corpo humano – Aspectos sociais. 2. Corpo humano
(Filosofia). I. Silva, Renato Izidoro da. II. Bordas, Miguel Angel
García. III. Título.
CDU 316.7
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
APRESENTAÇÃO
Este livro é fruto de uma construção coletiva organizada a partir do
grupo de pesquisa “Corpo e governabilidade: política, cultura e socie-
dade” da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Este Grupo, através de
seus orientadores Renato Izidoro da Silva e Fabio Zoboli, vem realizando
pesquisas junto ao Departamento de Educação Física, ao Programa de
Pós-graduação em Educação, além de estar ligado ao Núcleo Interdisci-
plinar de Cinema – em formação. O grupo também vem tecendo parce-
rias acadêmicas junto a outras Universidades Brasileiras (Universidade
Federal da Bahia – UFBA, Universidade Federal do Espírito Santo – UFES
e Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC), contando com a cola-
boração de pesquisadores internacionais.
Os estudos veiculados no grupo são organizados a partir de uma
perspectiva teórico-metodológica constituída por uma articulação entre
racionalismo, empirismo e materialismo acerca do corpo, da cognição,
da linguagem e de outros elementos mediadores das relações huma-
nas constituídas por amarras, laços ou ligas sociais. No grupo, pretende-
mos estudar de modo multidisciplinar e multirreferencial o fenômeno
da sociedade e seus modos codificados de governar e de desgovernar
politicamente os comportamentos gregários dos corpos humanos em
contextos públicos e privados da sociedade.
De modo específico, dedicamos esforços no estudo semiótico
e epistemológico dos arrolamentos entre corpo humano e cultura
humana. Investigamos as diversas e variadas forças governantes que
agem como responsáveis pelas configurações societárias – corporações,
grupos, famílias, guetos, tribos, nações – traçadas por sistemas de códi-
gos como o caso das leis, das regras, das normas e de outros limites está-
ticos e dinâmicos que se interpõem politicamente nas relações entre os
corpos humanos que por meio da cognição e dos movimentos muscula-
res constituem ambientes de vida social.
O grupo de pesquisa “corpo e governabilidade: política, cultura e
sociedade”está organizado a partir de 3 linhas de pesquisa.
A linha “corpo e educação” estuda contextos institucionais, suas cul-
turas e políticas de subjetivação e governabilidade das significações e dos
comportamentos corporais na sociedade: gênero, etnia, estigma, poder,
sexualidade, religião, mercado, aprendizagem, didática e pedagogia.
O foco da linha“corpo e comunicação”centra-se nas mídias como
ferramenta cultural e política para a governabilidade do corpo e seus
comportamentos sociais: texto, pintura, fotografia, cinema, televisão,
rádio, internet e mídias digitais.
A linha que estuda “corpo e epistemologia” está centrada na
investigação das produções científicas articuladas às dimensões cultu-
rais e políticas da governabilidade social do corpo: ética, estética, rít-
mica, ontologia e semiótica.
O livro apresenta um coletivo de textos com estudos que são trans-
versais às linhas. Textos escritos com temáticas de pesquisa que ultra-
passam suas fronteiras, mas que giram em torno de temáticas do corpo
e do governo. Desta forma, o livro foi organizado a partir de 3 partes:
corpo e subjetivação, corpo e política e corpo e metáfora.
A seção que trata do corpo e da subjetivação apresenta textos que
versam sobre dispositivos e mecanismos semióticos e políticos capa-
zes de constituir a dimensão corporal humana de um ponto de vista da
identidade e da diferença responsáveis por localizar e oferecer parâme-
tros e regras para o corpo e seus comportamentos relacionais nas tramas
sociais. Os textos dessa seção tratam das relações do corpo no que tange
aos processos de subjetivação de signos voltados às dimensões sensi-
tiva e cognitiva do pertencimento e do não pertencimento próprias da
constituição identitária.
A segunda parte, que aborda o corpo sob o viés da política, contribui
com os debates acerca da pragmática da subjetivação a partir de temas
que discutem políticas de Estado, governo, legislação, tecnologias do eu e
ascese em contextos sociais como o do esporte, saúde, práticas corporais
alternativas, uso de biotecnologias, propedêutica educacional e da mani-
pulação das artes.
A terceira e última peça do livro se concentra nas metáforas do
corpo produzidas no campo da comunicação e seus veículos. Desta
forma, foram analisados um anúncio publicitário, uma logomarca espor-
tiva e um filme como vetores metafóricos da existência corporal humana
e suas tensões com a máquina, com o mercado e com a biotecnologia.
A coletânea se apresenta com o propósito de sinalizar alguns cami-
nhos no sentido de compreender o corpo como referência material e
simbólica necessárias para se compreender processos de subjetivação
pautados em mecanismos políticos de governo encenados por jogos de
signos que engendram metáforas nas identificações sociais.
Fabio Zoboli
Renato Izidoro da Silva
Miguel Angel García Bordas
PREFÁCIO
OS DESAFIOS DO PENSAR
A tentativa de explicar o corpo atravessa diferentes temporalidades
e contextos culturais. Na busca por respostas para as distintas indaga-
ções que sobre ele se fazem, é possível identificar interpretações cujos
argumentos encontram respaldo em intervenções científicas, artísticas,
políticas, culturais, religiosas, médicas, pedagógicas e jurídicas. O corpo,
desde há muito tempo, é alvo de especulações que ora mais, ora menos
buscam encontrar a sua “verdade”, tentativa que tem promovido o apa-
recimento de infinitas teorizações, práticas e discursos.
Elemento central na construção da subjetividade contemporânea, o
corpo revela um conjunto de significados que extrapola a sua materiali-
dade biológica. Além disso, a centralidade que lhe é atribuída na repre-
sentação identitária evidencia o quanto é alvo de diferentes poderes que
operam, no detalhe, com o controle, a vigilância, o enquadrinhamento e a
fixidez. E, também, com a resistência, o descentramento e a transgressão.
Na esteira dessas questões, é possível evidenciar como alguns temas
relacionados à governabilidade do corpo e aos poderes que nele se ins-
crevem conquistaram relevância no meio acadêmico sendo facilmente
percebidos em pesquisas, publicações, fóruns de debates e congressos de
diferentes áreas do conhecimento. Da biologia à antropologia, da geogra-
fia às artes visuais, da educação física às ciências jurídicas, são tantas as
abordagens que se mostra impossível a tentativa de mapear a profícua
produção que investe no estudo corpo como objeto biopolítico.
No campo da educação e da educação física é a partir da década de
1980 que tímidas iniciativas começam a despontar, desestabilizando as
teorizações que, pautadas por conhecimento biomédicos, homogenei-
zavam interpretações às indagações que se faziam sobre o corpo, seu
significado, funcionalidade, saúde e performance.
Indiscutivelmente a teorização de Michel Foucault foi determinante
para que esse saber fosse destituído do patamar que politicamente fora
alçado. As múltiplas leituras que foram feitas de seus escritos, ainda
que nem sempre consoante o que efetivamente escreveu, permitiram a
emergência de novos olhares sobre o corpo valorizando sua simbologia,
sua produção, sua inscrição cultural e, sobretudo, sua referência capital
na construção da subjetividade e da identidade dos sujeitos.
Esse livro pode ser lido como uma produção que se dá no fluxo
desse movimento no qual se percebe a mutação de olhares e leitu-
ras sobre o corpo e seus desdobramentos. Seus textos atestam inves-
timentos teóricos, metodológicos e epistemológicos que andam na
contramão do saber biomédico que, apesar de não ser mais hegemô-
nico na produção acadêmica destas áreas do conhecimento, ainda
disputa de modo premente espaços de significação. Nesse aspecto há
que destacar não apenas a qualidade dos textos produzidos como a
criação de um grupo que reúne jovens professores, pesquisadores e
discentes. Um grupo que ousa pensar o corpo a partir de diferentes
problematizações sem deixar de analisá-lo como um substrato político
produzido historica e culturalmente.
Corpo e subjetividade, corpo e política, corpo e metáfora compõem
a espinha dorsal da obra. Constituem o seu “corpo” permitindo que a
leitura aconteça de modo não sequencial, linear ou pré-determinado.
Suas entranhas oferecem a possibilidade de ir e vir, de começar pelo fim,
de transpor fronteiras disciplinares, de mergulhar em temáticas diversas,
de incorporar análises não fixas nem óbvias. Saúde, esporte, espirituali-
dade, cinema, sexualidade, velhice, semiótica, estética, identidade, edu-
cação, subjetividade conformam um conjunto cuja matéria confluente e
dispersa, mostra-se viva, intensa e pulsante.
Finda a leitura do livro só posso agradecer aos integrantes do grupo
de estudos “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”
da Universidade Federal de Sergipe por me confiar sua apresentação.
Agradeço, de forma muito intensa, a generosidade em tornar públicas
as reflexões aqui contidas as quais declaram exercícios analíticos de
pessoas em diferentes níveis de formação. De modo claro seus auto-
res e autoras atestam que pensar é um grande desafio, sobretudo, neste
tempo no qual esse exercício parece encontrar pouca voz e vez. “Corpo
e Governabilidade”faz ver que informação não é o mesmo que conheci-
mento e que este é fundamental para que livremos o corpo e a nós mes-
mos de poderes que insistem em classificar, excluir, isolar e governar.
Boa leitura!
Porto Alegre, 2 de fevereiro de 2015
Silvana Vilodre Goellner
SUMÁRIO
PREFÁCIO	 9
Silvana Vilodre Goellner
CORPO E SUBJETIVIDADE
- Corpo, semiótica e subjetivação: perspectivas da
fenomenologia em Peirce	 19
João Filipe dos Santos, Evandro Santos de Melo Bomfim,
Renato Izidoro da Silva e Miguel Angel Garcia Bordas
- Corpo e identidade: dialogando com Zygmunt Bauman
e Michel Maffesoli	 45
Natalia Takaki e Jaison José Bassani
- Corpo, educação e epistemologia: algumas questões 	 97
Felipe Quintão de Almeida, Fabio Zoboli e Miguel Angel García Bordas
CORPO E POLÍTICA
- Lei antigay russa: demarcações e governo dos corpos
no mundial de atletismo 2013	 117
Fabio Zoboli, Elder Silva Correia, Renato Izidoro da Silva
e Tammy Rocha Costa
- Corpo, saúde e governabilidade	 147
Cristiano Mezzaroba, Fabio Zoboli e Elder Silva Correia
- Espiritualidad y gobernabilidad: el caso de la del yoga
budista como tecnología del yo	 169
Eduardo Francisco Freyre Roach
- Corpo, biotecnologias e antienvelhecimento: um estudo
com mulheres da cidade de Aracaju/SE	197
Luana Alves dos Santos, Crislene Góis Santos e Theodoro Filho
- O corpo“em-cena”: o cinema como proposta
pedagógica no ensino médio	 227
Hamilcar Silveira Dantas Junior, Fabio Zoboli,
Monara Santos Silva e Josineide de Amorim Santos
- A estética do opaco: corpos, ausências e políticas
visuais no Brasil Oitocentista 	 249
Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
CORPO E METÁFORA
- Usain Bolt e o corpo máquina: associações e metáforas no
anúncio publicitário do NISSAN GT-R	 297
Jessica Vitorino da Silva Terra Nova, Suely Oliveira dos Santos
e Eduardo Carvalho Gomes de Menezes
- A marca esportiva“Nike”, seus signos e argumentos:
um estudo de semiótica aplicada 	 331
Vinicius dos Santos Souza, Elder Silva Correia,
Tiago de Brito Ferreira Santos e Renato Izidoro da Silva
-“A pele que habito”e a biotecnologia: análise fílmica
de uma ontologia indeterminada	 357
Josineide de Amorim Santos, Fabio Zoboli,
Elder Silva Correia e Renato Izidoro da Silva
SOBRE OS AUTORES 	 389
CORPO E SUBJETIVIDADE
CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO:
PERSPECTIVAS DA
FENOMENOLOGIA EM PEIRCE
João Filipe dos Santos
Evandro Santos de Melo Bomfim
Renato Izidoro da Silva
Miguel Angel García Bordas
RESUMO: Este texto tem por objetivo desvelar como se dá o processo de
subjetivação em Peirce, para tanto nos valemos do capítulo seis do livro
“Semiótica”, de Charles Sanders Pierce, um conjunto parcial de textos
compilados e traduzidos por José Teixeira Coelho. Uma vez que, nestes
escritos encontramos os indícios que nos embasam para chegarmos
ao nosso objetivo central. Neste sentido concluímos que o processo de
subjetivação se dá através das experiências, que vem de fora para den-
tro, uma ação fenomenológica de alteridade, ou seja, um signo menos
desenvolvido que ao ser interpretado por uma mente torna-se um sig-
no mais desenvolvido. Para tanto, destacamos os princípios fenome-
nológicos do ego e não ego, afim de esclarecer como ocorre no corpo,
o processo de subjetivação a partir de signos semióticos. Ao traçarmos
tal expectativa, buscamos nas categorias da experiência – Primeiridade,
Secundidade e Terceiridade – instrumentos necessários para entender e
afirmar como se dá o processo de subjetivação, sendo estas os pilares da
teoria do pragmatismo semiótico Peirceano.
PALAVRAS CHAVES: subjetivação; semiótica; signo; corpo.
18 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
INTRODUÇÃO
A fim de compreendermos como se dá o processo de subjetivação
em Peirce, pretendemos estabelecer um diálogo com o capítulo seis do
livro “Semiótica”, de Charles Sanders Pierce, um conjunto parcial de tex-
tos compilados e traduzidos por José Teixeira Coelho. O referido capí-
tulo, intitulado “Algumas Consequências de quatro incapacidades”, está
subdividido em três partes: (a) “O Espírito do Cartesianismo”; (b) “Ação
da mente” e (c) “Signos-pensamentos”. O texto (a) traz a intenção de
mostrar as diferenças entre o pensamento cartesiano e o pensamento
semiótico. Ao falar do espírito do cartesianismo, trazemos os conceitos
de que o sujeito é quem cria suas ações a partir de uma autoridade, e ao
falarmos do pensamento semiótico, entendemos que a ação fenomeno-
lógica é quem cria as ações humanas através da alteridade. No texto (b)
encontramos a ideia de como o signo se manifesta ou é criado na mente
de cada um e o texto (c) aborda a hipótese de que não pensamos sem
signos e que a partir do pensamento já adquirido podemos nos munir
de mais signos derivados dos signos anteriores.
Para tanto, o presente texto está dividido em cinco partes. Num pri-
meiromomento,apresentamosametodologiautilizadanesteestudopara
que fosse possível chegarmos ao nosso objetivo. Em seguida, estabelece-
remos a crítica ao Cartesianismo, conforme foi estabelecida nos escritos
de Peirce, pois por meio desta embasaremos nossos argumentos, filosófi-
cos, para o processo subjetivo (do corpo) através dos signos cognoscíveis
(reais) em que os signos postos na realidade embasam os signos criados
na mente a partir da experiência fenomenológica com mundo (Pragma-
tismoSemiótico).Emterceiro,apresentaremososignoenquantoprocesso
de subjetivação (semiótica). Feito isso, de forma teórica, apresentaremos
como os processos subjetivos podem ser aplicados aos estudos semióti-
cos acerca do corpo. Por fim, teceremos nossas considerações finais.
Ao estudarmos os conceitos semióticos, esbarramos em uma cita-
ção que abarca o princípio da hipótese da subjetivação a partir dos sig-
19João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
nos, quando propomos a ideia de subjetivação a partir de fenômenos que
agem e se integram ao corpo em termos da experiência fenomenológica.
Por conseguinte, fixamos a seguinte proposição acerca do que vem a ser
um signo:“[...] um signo [...] dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa
pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao
signo assim criado [ou mais evoluído] denomino interpretante do primeiro
signo”(PEIRCE, 2005, p. 46). A nosso ver, esta afirmativa expressa o cerne da
dinâmica de subjetivação em Peirce, a partir da qual buscamos refletir todo
o processo subsequente abordado nessa passagem. Corroborando com
nossa hipótese sobre a subjetivação semiótica, destacamos a seguinte
passagem: “[...] toda associação é feita através de signos. Tudo tem suas
qualidades subjetivas ou emocionais, que são atribuídas de um modo
absoluto ou de um modo relativo, ou através de uma imputação conven-
cional a tudo aquilo que for um signo dessa coisa”(PEIRCE, 2005, p. 282).
Explorando um pouco mais o trecho supracitado, notamos que
o autor se refere ao poder subjetivo e emocional dos signos, ao passo
que o signo é arquitetado de acordo com as experiências corporais do
Interpretante, que cria outros signos na mente, sejam eles mais desen-
volvidos ou não. As qualidades subjetivas dos signos dizem respeito, de
forma direta, às categorias da experiência fenomenológica, que são a
base do processo subjetivo na semiótica de Peirce. A semiótica, portanto,
consiste em ser uma teoria da experiência e de seus resultados cogniti-
vos e emotivos no campo simbólico, cultural, epistemológico, estético,
religioso, ético e político. A partir dessa teoria, a semiótica se desdobra
pragmaticamente em metodologias de intervenção no mundo das
experiências corporais. Em outras palavras, os conhecimentos promovi-
dos pelo estudo das doutrinas ou do regime dos signos podem funda-
mentar ações capazes de estruturar artificialmente tanto experiências
antigas quanto novas experimentações: poéticas, plásticas, científicas e
filosóficas. Assim, embora a semiótica seja capaz de abordar as experiên-
cias dos sentidos mais atávicos ou naturais, sua fenomenologia também
preza pelas investigações levadas acerca da experiência cultural.
20 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
ESPÍRITO DO CARTESIANISMO COMO PONTO DE PARTIDA
PARA OS ESTUDOS SOBRE SUBJETIVAÇÃO EM PEIRCE
O ponto de partida para os estudos sobre a subjetivação semiótica
em Peirce implica o momento em que sua semiótica traz à tona os pon-
tos divergentes entre o cartesianismo e o escolasticismo, na medida em
que esse antecede aquele. Peirce estabelece uma crítica ao pensamento
cartesiano com as seguintes palavras: “[...] o cartesianismo instrui que
o início da filosofia se dá por meio da dúvida universal, ao passo que o
escolasticismo jamais discute os princípios essenciais”(2005, p. 259). Em
outro enunciado, Peirce (2005, p. 259) afirma que o Cartesianismo “[...]
ensina que a comprovação final da certeza encontra-se na consciência
individual, ao passo que o escolasticismo se baseou no testemunho dos
doutos e da igreja católica”. Segundo Santaella (2004, p.33): “O cartesia-
nismo, tal como foi criticado por Peirce, entendia que a ação da mente
era intuitiva [...]”. Ou seja, baseada na autoridade do sujeito em detri-
mento de sua alteridade para com o mundo. Ao passo que, para os esco-
lásticos, o pensamento verdadeiro era válido apenas para a autoridade
dos doutos. Devemos reconhecer que Descartes avançou no sentido de
autorizar todos a pensarem em detrimento da verdade exclusiva dos
doutos. A autoridade do pensar é distribuída entre todos.
No entanto, entendemos que, diferente do que aborda o carte-
sianismo, a ação na mente se dá através dos “resultados cognitivos do
viver”. A experiência corporal é a base para toda a significação poste-
rior, pois não há subjetivação ou ação mental sem o ato da experiência
vivida pela pessoa, enquanto existente material no mundo. Como já foi
dito anteriormente, o fenômeno que se apresenta para o corpo e nele
se intromete ou se subjetiva, constituindo todo processo posterior de
significação. Os fenômenos signos da experiência são a base de todo o
processo subjetivo de significação do mundo e do sujeito. Logo, Peirce
(2005, p.259) indica que “[...] há muitos fatos que o cartesianismo não
apenas não explica como também torna absolutamente inexplicável”.
21João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
Peirce entende como falho este pensamento cartesiano, na medida em
que o mesmo, ao não explicar determinados fatos, diz que “[...] Deus os
fez assim”(PEIRCE, 2005, p. 259).
Peirce assinala que a dúvida cartesiana é limitada, ao ponto que,
ao iniciarmos um pensamento pela dúvida completa, na filosofia, aca-
bamos por deixar de lado nossos pré-conceitos, que são nossos fun-
damentos ou solos mais atávicos responsáveis pela propedêutica da
experiência vivida. Dessa forma, esse pensamento ceticista não passa
de um “autoengano, e não dúvida real” ( PEIRCE, 2005, p.260). Principal-
mente porque Descartes não duvida de seu ato irredutível do pensar,
parando sua investigação em um proposição entendida como incon-
testável:“Eu penso...”. Doravante, foi duvidando dessa proposição básica
que Peirce perceberá que não existe um “Eu” que pensa a despeito de
sua alteridade como mundo, isto é, em detrimento de toda experiên-
cia corporal capaz de modelar boa parte do que pensamos. Todavia, a
semiótica peirceana se afasta do estruturalismo europeu na medida em
para esse o pensamento ou os signos estão em nós, enquanto que para
aquele estamos imersos no mundo dos signos, dos sinais, dos sintomas,
dos traços e, portanto, em pensamentos. O pensamento (signos) nos
envolve e, por isso, pensamos semioticamente.
Assim:
Devemos começar com todos os preconceitos que realmente
temosquandoencetamosoestudodafilosofia.Estespreconceitos
não devem ser afastados por uma máxima, pois são coisas a
respeito das quais não ocorre que possam ser questionados
(PEIRCE 2005, p.260).
Em outros termos, se estamos envolvidos por signos de pensa-
mento, estamos também imersos em preconceitos e, por isso, por meio
de preconceitos, pensamos; assim como por meio do vento o pássaro
voa, por meio da terra a minhoca se locomove. Por essa via, o kantismo
de Peirce pode ser compreendido pela metáfora do voo de uma pomba,
22 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
proposta por Kant em sua“Crítica da Razão Pura”.“Segundo ele, a pomba,
ao voar e ao sentir a resistência do ar a detê-la, poderia supor que, se
não houvesse essa resistência, se estivesse no espaço vazio, seu voo
seria mais fácil do que nas condições em que se encontra”. Contudo:“Mal
sabe a pomba que, se não houvesse a resistência do ar, ela nem sequer
poderia voar! Sem essa resistência, não teria base sobre a qual pudesse
se apoiar”(CARVALHO, 2013, p. 25). Assim são os signos de pensamento
que, por vezes, geram preconceitos responsáveis por obstacularizar o
fluxo de nossas reflexões. Ora, poderíamos pensar, como Descartes, que
o melhor é pensar o mais próximo do nada, do sujeito puro, sem precon-
ceitos. Contudo, kantianamente e, portanto, peirceanamente, sem pre-
conceitos, que são signos subjetivados por experiências anteriores, não
existiria aderência para o cogito. A cognição patinaria no vazio.
A seguir, Peirce expõe quatro questões referentes à aversão ao car-
tesianismo, retiradas de uma revista, cujo título diz:“Questões referentes
a certas faculdades reivindicadas pelo homem”. São elas:
1. Não temos poder algum de introspecção, mas sim, todo
conhecimento do mundo interno deriva-se, por raciocínio
hipotético de nosso conhecimento dos fatos externos [adquiridos
pela experiência da sensação]; 2. Não temos poder algum de
intuição, mas, sim, toda cognição é determinada logicamente
por cognições anteriores [como resultados de experiência]; 3.
Não temos poder algum de pensar sem signos [portanto, sem
um processo de subjetivação da realidade por signos ou sinais
dela]; 4. Não temos concepção alguma do absolutamente
incognoscível [pois, não se pensa fora da experiência sensitiva e
cognitiva] (PEIRCE, 2005, p.260-261).
Assim sendo, as afirmações supracitadas irão nos ajudar na busca
de entendermos como a subjetivação ocorre para Peirce. Haja vista
que, diferente do pensamento cartesiano, nossas introspecções se dão
imersas em acontecimentos externos e não de forma intuitiva – como
23João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
afirmam alguns pensadores cartesianos. Dessa forma, os signos ante-
riores formam nossas experiências e, por conseguinte, formam o conhe-
cimento de nosso mundo interno e externo. Nesse sentido, podemos
indagar sobre nosso poder de intuição, tendo em conta que os signos
anteriores formam nossas vivências e nossas relações com mundo, ou
seja, dão conta de uma fenomenologia perceptiva e retroativa que
alimentam nosso poder de aprendizagem e cognições. Assim – como
afirma Peirce na segunda questão – não temos força alguma de intuição,
mas, sim, experiências anteriores que formam e estruturam novas expe-
riências de sensação e de pensamento.
Isso nos leva à terceira questão, que dá conta do signo como prin-
cipal fator de nossos pensamentos – fator de aderência da cognição.
Nossos engramas mentais são coordenados pelos signos que ditam
nossas ações no mundo. Dessa forma, indagamos, é através dos signos
que uma mente se comunica com outra? Tendo em vista as afirmações
de Peirce, podemos responder que sim. Apenas por meio de signos
que uma mente pode perceber a outra e a ela aderir em pensamentos
intersubjetivos e coletivos. Logo, não conhecemos aquilo que não se
conhece, isto é, que não está imerso em pensamentos. Nossas concep-
ções só dão conta daquilo que apreendemos como real, tendo em conta
que o real adequa-se ao campo do subjetivo no sentido de dar sentido
ao que subjetiva enquanto signo ambulante no mundo. Por exemplo,
como poderíamos explicar a sensação do frio no polo norte para uma
pessoa que nunca lá esteve – ou seja, tratar-se-á de algo incognoscível
para essa pessoa, de modo que as palavras não são suficientes para des-
crever tal sensação; de modo que só a vivência poderia elucidar esse
fato, dando aderência ao pensamento por meio de signos de emoção.
No entanto, é importante salientar que não podemos confundir
subjetividade com subjetivação, pois subjetividade está presente tanto
no cartesianismo quanto na semiótica. O que temos que focar é que o
processo de subjetivação é algo que está presente na semiótica, e não no
cartesianismo, pois para esse o pensamento é intuitivo em detrimento
24 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
da experiência corporal. Com o intuito de provocar uma melhor com-
preensão, suscitamos que o leitor faça o seguinte exercício: proponha-se
a criar uma coisa, sendo que essa coisa não pode se assemelhar ou tra-
zer com ela alguma relação com algo já existente. Com isso poderemos
confirmar se temos a capacidade de criar e pensar sem interferência de
nossas experiências. Por conseguinte, tendo identificado o rompimento
da semiótica de Peirce com a filosofia cartesiana, vamos detalhar as cate-
gorias da experiência como fator fundamental da ação do signo sobre
a mente de alguém, para nela criar outro signo equivalente ou mais
desenvolvido. Essa ação é chamada de subjetivação semiótica, processo
ausente na teoria cartesiana.
	
DA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVAÇÃO SEGUNDO BASES
SEMIÓTICAS DA PRIMEIRIDADE, SECUNDIDADE ETERCEIRIDADE:
EXPERIÊNCIA (FENOMENOLOGIA) DO EGO E DO NÃO-EGO
Na semiótica de Peirce, segundo Ibri (1992, p. 9), toda experiên-
cia corporal humana em relação ao mundo externo dos objetos e dos
seres, que é fenomenológica, resulta em uma ou algumas ideias gerais
na mente do sujeito pensante, formando nele um ego, muito distinto
da noção intuitiva cartesiana. Desse modo, as experiências passadas
formam na mente do sujeito alguns “resultados cognitivos do viver”, e
em hipótese alguma se tratam de resultados absolutos enquanto repre-
sentações mentais fiéis ou irredutíveis da realidade como se o sistema
psíquico fosse um espelho perfeito da natureza. Tais resultados cogniti-
vos das experiências pretéritas existem na forma de signos, implicando,
portanto, representações parciais ou complementares das vivências,
conforme a operação abdutiva – sugestiva – do pensamento.
Esses signos, enquanto “resultados cognitivos do viver”, assumem
certas especificidades de acordo com a mente da pessoa que o significa,
mesmo porque essa última não deixa de se constituir por signos subjeti-
vados em sua mente e cérebro e objetivados em seu corpo. Ao conside-
25João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
rarmos o sujeito ou a pessoa, baseados em Peirce, compreendemos que
as experiências vividas, quando assumem o estatuto de“resultados cog-
nitivos [signos] do viver”, passam a ser tratadas enquanto experiências
pretéritas abstratas ou abduzidas, ou seja, extraídas, afastadas, sintetiza-
das ou analisadas em relação ao lócus do acontecimento da experiência
mesma em seu ex presente, tratando-se, portanto, de uma ex-periência:
aquilo que um dia foi e hoje não é mais, mas é outra coisa, basicamente,
um signo, que pode representar e significar o passado, o presente e o
futuro na realidade mental daquele está em pensamento.
Para Ibri (1992, p. 8), “[...] a experiência pretérita tem estatuto de
alteridade para a consciência, assumindo, assim, o papel de um não-
-ego interno”. Isso ocorre porque, na mente, ela, a experiência, apa-
rece distinta, afastada, abstraída, experimentada, desligada da pessoa
vivida existida no ato, mesmo porque ninguém permanece o mesmo
após uma experiência, pois essa tem a capacidade de transformar, jus-
tamente porque ela deixa em nós alguns “resultados cognitivos” que
passam a participar ou a se impor, enquanto frutos do passado, nas
vivências futuras no presente. Nesse momento, a experiência pretérita
deixa de ser um não-ego latente, para ser assumida enquanto ego pre-
sente em ato, personalidade, traço, marca no modo de agir da pessoa
que age atualmente.
Para Peirce, a experiência está sob o estatuto da alteridade justa-
mente porque ela surge enquanto um acontecimento objetivo que se
distingue da pessoa que a vive, pois é externo a ela, diferente se essa
mesma vivesse uma experiência como se fosse uma extensão de seu
corpo, não havendo, portanto, diferenciação. Nesse sentido, a“experiên-
cia pretérita”e os“resultados cognitivos do viver”, produzidos na mente,
são considerados, de início, um não-ego, porque eles participam da vida
de um ego já estabelecido na pessoa como na condição de outro, de
alteridade. Grosso modo, embora o não-ego esteja no interior da mente
e seja formado por signos latentes de experiências passadas, ele fun-
ciona como um pensamento outro em relação aos pensamentos já natu-
26 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
ralizados enquanto ego da pessoa. Em nossas experiências podemos
reconhecer esse processo quando somos acometidos por pensamentos
estranhos, confluentes ou contraditórios face às nossas reflexões mais
familiares e naturais.
Sendo assim, a experiência é um segundo que vem depois de um
primeiro que é a pessoa mesma ou seu ego primeiro. Na situação de
segundo, a experiência“[...] se opõe aqui e agora ao sujeito, conferindo-
-lhe uma experiência de dualidade, torna-se para o ego sua negação, ou
seja, um não-ego [isto é, um outro] [...]”(IBRI, 1992, p. 8). Assim, na pena
de Peirce: “Tornamo-nos conscientes do eu ao nos tornarmos conscien-
tes do não eu [ou seja, de um outro diferente de nós]”. De tal maneira, o
não-ego, isto é, o outro da experiência, agora já integrado – subjetivado
– à mente do sujeito como um “resultado cognitivo do viver”, não parti-
cipa de imediato das ações desse mesmo sujeito na condição de pessoa
ou ego na realidade, pois ele permanece na mente de modo latente, a
espera de uma nova aderência – um signo – em que possa se agarrar e,
assim, movimentar-se cognitivamente.
O outro permanece, durante algum tempo, agora na forma de
dúvida, distinto da pessoa que o acolhe em seu interior mental como
resultado cognitivo. O ego já estabelecido, que também é o resultado
cognitivo de experiências pretéritas, estende seu conflito exterior com
o não-ego para dentro de si a partir dos fragmentos – resultados cog-
nitivos – incorporados desde a experiência externa na condição de
outro. O curioso é compreendermos que tudo isso ocorre indepen-
dentemente do sujeito ou ego já estabelecido. Trata-se de um processo
inevitável! Assim, vemos que “[...] a experiência pretérita sobre a qual
não se tem qualquer poder modificador [...] é uma pluralidade de ocor-
rências, um aglomerado de fragmentos individuais delimitados como
recortes no espaço e no tempo” (IBRI, 1992, p. 8). O não-ego incorpo-
rado passa a agir sobre o ego já estabelecido, lhe criando dúvidas. “A
propósito do estatuto da dúvida, Peirce o afirma como uma experiência
de binaridade em que o elemento negativo exerce sua força [sobre o
27João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
ego da certeza]”(IBRI, 1992, p. 8). Ou seja:“Entre as formas que assume
a binaridade estão aquelas das dúvidas que são forçadas sobre nossas
mentes”(PEIRCE, apud IBRI, 1992, p. 8).
Sumariamente, portanto, não se pode perder de vista que tais dúvi-
das são geradas pelo não-ego ou o outro, de tal modo que esse não passa
de“resultados cognitivos do viver”, levando em conta que esse último é
gerado por uma“experiência pretérita”, o não-ego é uma espécie de voz
ou signo do passado que se coloca em conflito com o presente do ego.
Para Peirce (apud IBRI, 1992, p. 8):
[...] o passado contém apenas uma certa coleção de casos
[resultados cognitivos do viver] que ocorreram. [Assim] O passado
consiste na soma de faits accomplis [a serem completados, de tal
modo que] o passado realmente age sobre nós precisamente
como um objeto existente o faz [certamente porque uma parte
dele um dia foi externa].
Sem embargo, devido a essa ação dos “resultados cognitivos do
viver” sobre o ego, podemos considerar que aquilo que no interior da
pessoa se distingue de seu ego e com ele conflita, poderá, em algum
momento, tomar o seu lugar ou mesmo passar a integrá-lo em suas
ações dedutivas em relação a si e à realidade externa, levando em conta
o poder transformador do não-ego, mas não sem conflitos, da experiên-
cia preparada pelo ego.
Por esse fluxo, traremos aqui a relação de binaridade entre o sujeito
e o signo, em que a formação do sujeito passa por um processo de subor-
dinação dos fenômenos a ele apresentados. O homem se faz refém das
experiências vividas por ele mesmo e, portanto, refém dos pensamentos
na medida em que sua existência, enquanto Originalidade, é subme-
tida a signos que impõe novas representações, que o faz se desenvol-
ver enquanto ser armazenador e articulador abdutivo – sugestivos – de
signos da experiência. O fato de um primeiro signo poder gerar outro
signo a partir da interação com um segundo signo faz com que possa-
28 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
mos afirmar que o sujeito está sempre em processo de formação, pois o
homem enquanto signo original, primeiro, mas não anterior ao mundo
de signos que o acolhe, está sempre regrado de signos particulares que
já o integram enquanto sujeito. Esses signos, quando entram em con-
tato com signos segundos, com poder de obsistências, o tornam mais
desenvolvido e angariam novos signos particulares mediante um pro-
cesso cognitivo de abdução.
A relação entre homem e fenômeno se dá a partir das experiências
vividas pelo sujeito, que se configuram, em princípio, como o não-ego.
Essa trajetória se dá a partir dos fenômenos a ele apresentados, inde-
pendente de sua vontade, podendo se fundir em uma subjetivação que
irá depender do que ocorrerá daquele momento em diante, do que o
sujeito pode elaborar, abstrair, abduzir ou sugestionar dos resultados da
experiência e não essa em sua totalidade. O sujeito, enquanto primeiro
na ordem da Originalidade, está exposto a esse processo de subjetiva-
ção, devido ao processo de alteridade que se estabelece em uma rela-
ção de “brutalidade” dos signos que estão no passo da Obsistência para
o sujeito enquanto ser da Originalidade, ambos, provando a existência
na resistência exercida um em relação ao outro, enquanto a percepção
de um segundo – não-ego – além do ego. O vivido e seus resultados se
transformam em registros do passado. Ao ter contato com o passado,
tornando-o mais novo, devido à interferência do vivido presente sobre a
mente, somam-se novas significações e sentidos na mente dos sujeitos,
aumentando essa gama de sentidos. Ao tomar conhecimento de novos
fatos ou ter aproximações com outras pessoas, a mente do indivíduo se
torna, de algum modo, parte daquilo, ou uma extensão daquele signo
que é apresentado externamente, e isso é uma condição real da existên-
cia humana, assim ocorre a subjetivação em cada sujeito.
	 Tecendo a subjetivação a partir das ideias de Peirce (2005, p. 46),
passamos a nos deter ao fato de que um signo que ocorre em segunda
ordem como fenômeno ativo que cria na mente do sujeito outro signo
semelhante ou mais desenvolvido, nesse momento o sujeito se encontra
29João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
na posição de passivo, sendo que esse processo fenomenológico se faz
de maneira ativa através de signos obsistentes – resistência – ao sujeito.
Com isso, podemos perceber que esse processo é sempre contínuo, por-
que a partir das experiências que vão surgindo com o tempo, funda-
dos nas vivências do indivíduo, estão na condição de não-ego, porque
se originam do outro (sujeito ou objeto), em relação ao qual ocorrem
subjeções na mente do sujeito, que fazem se desenvolver e tornar esses
signos externos em signos que integram seus pensamentos, aquela
consciência que ele perceberá como ego. O fato de um signo perma-
necer na posição de Obsistência para o homem faz com que ele seja a
representação de tudo que se manifesta – que lhe apresenta resistência
– no mundo a ele apresentado, e que pode causar alguma subordinação
na mente das pessoas que são infligidas por tais ações. O signo, nesse
caso, faz-se absoluto perante ao seu significante, a mente, traçando uma
relação de alteridade com o sujeito, à espera de significações.
Emsuma,oprocessodesubjetivaçãoéformadoapartirdeduasinte-
rações indispensáveis para a mente formar novos conceitos a partir das
experiências. Esses processos são a dinâmica da geração de um signo e a
dinâmica do pensamento abdutivo segundo Peirce (2005, p.233). Para a
interação da mente com o signo, o sujeito deve ser exposto há um fenô-
meno que o apresenta um novo signo, o qual poderá estabelecer uma
condição de semelhança com o que foi a ele apresentado ou mais desen-
volvido, de acordo com o nível de impacto da realidade – seus resulta-
dos cognitivos – que ele cause para o sujeito. Tal processo se faz a partir
do pensamento abdutivo, quando a mente interpretante, que é afetada
por esse signo, mostra-se como uma criadora de novas ideias, suges-
tões que essa mente faz para esse signo e para o mundo. Isso se dá pela
necessidade de obter uma significação que represente algo apropriado
para esse sujeito, que faça uma real significação para a mente afetada.
Essa ordem fenomenológica não se manifesta de maneira representa-
tiva, através de réplicas integrais para o interpretante, ela se manifesta
de maneira única, nova, que signifique a realidade vivida pelo sujeito,
30 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
em que esses fenômenos permaneçam na forma de signos equivalentes
ou mais desenvolvidos aos que foram apresentados anteriormente, pas-
sando do não-ego para o ego, chegando à consciência do vivido.
Ao tratarmos da fenomenologia peirciana, temos que dar ênfase ao
queseriaabasedessepensamentofenomenológico,queéaexperiência.
No momento em que se fala de fenômeno, Peirce (apud IBRI, 1992, p.4)
entende“[...] o total coletivo de tudo aquilo que está de qualquer modo
presente na mente, sem qualquer consideração se isto corresponde a
qualquer coisa real ou não”. Quando falamos de faneron – fenômeno –,
como é dito por Peirce, temos que necessariamente trazer a experiência
como fator fundamental na forma de como o ser humano se constitui
a partir dos “resultados cognitivos de viver”. Esses resultados não são
representações, duplicações ou réplicas idênticas da realidade externa,
mas sim modos como o corpo e a mente apreendem particularmente
dados da experiência, os quais, na consciência, de modo sintético, pro-
duzem um fenômeno em termos ideativos. A experiência, portanto, é
principal via de subjetivação do mundo externo, contudo marcada pela
interpretação. A experiência pode trazer consigo a inteligibilidade do
homem, somente a partir do momento em que esse último já possui,
preteritamente, algum“resultado cognitivo do viver”, que ao trazer suas
vivências pretéritas alcança o estado de significação que trarão as repre-
sentações para o desenvolvimento do sujeito, dando sentido ao curso
da vida presente e futura através da experiência.
Nesse sentido, a constituição do sujeito, a partir da experiência, não
é passiva, pois os resultados pretéritos do viver conflitam dialeticamente
com as novas experiências e seus resultados cognitivos. Conforme Ibri
(1992, p.5), sobre a experiência: “[...] tal como conceituada, estatui-se
como fator corretivo do pensamento, e esta característica, reconhecida
por Peirce, é um dos pilares de toda sua Filosofia [...]”. A subjetivação,
assim, não é um ato deliberado, mas sempre dialogado, conflitado, cal-
culado de mudança, deslocamento, movimento, transformação. Con-
tando com a concepção de que os resultados pretéritos da experiência
31João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
influenciam os resultados cognitivos do presente e do futuro, a fenome-
nologia de Peirce, no sentido científico e metódico, propõe como fun-
damento três faculdades do pensamento, capazes de orientar o pensar
filosófico pautado na fenomenologia.
A primeira é a faculdade de ver o fenômeno como ele se apresenta
sem fazer interpretações ao seu respeito, ou seja, sem permitir, ainda,
que os resultados pretéritos interpretem o fenômeno enquanto resul-
tados cognitivos do viver presente; a segunda faculdade é a de detectar
todos os casos presentes em um fenômeno, isto é, de quais elementos
ou signos o fenômeno é constituído; já a terceira faculdade é dar uma
significação geral de representação aos outros dois processos de pen-
samento. Nesse terceiro momento, a mente sugere ou realiza abduções
acerca do fenômeno e sua estrutura. Podemos, também, resumir essas
faculdades em“ver, atentar para e generalizar”(IBRI,1992, p.7).
Em síntese, Peirce sugere três categorias da experiência fenomeno-
lógica, em que signos criam na mente de alguém outros signos similares
ou mais desenvolvidos. Para tanto, ele sugere, a Originalidade (Primei-
ridade), relacionada à atitude de simplesmente ver; Obsistência (Secun-
didade), que implica a faculdade da atenção dirigida aos detalhes ou
componentes estruturantes do fenômeno: suas reações no campo dos
signos; e Transuasão (Terceiridade), que consiste na capacidade de fazer
interagir dados separados na objetividade em uma ideia subjetiva geral
e representativa de uma realidade. Doravante, tendo em vista que a sub-
jetividade, ancorada na semiótica de Peirce, acontece através dos três
tipos de experiências, vamos nos deter ao fato de que qualquer forma
de subjetivação passa por uma dessas categorias da experiência, que
por sua vez se ramificam em subcategorias responsáveis pela forma de
incorporação dos signos no corpo e na mente.
Dessas subcategorias, as principais estão ao nível do Representa-
men, do objeto e do interpretante. Esse trio é chamado por Peirce de
tricotomia. Ao nível do representamen as subcategorias são os Qualis-
signo, Sinsigno e Legissigno; no Objeto têm o Ícone, Índice e Símbolo; no
32 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
Interpretante têm Rema, Dicente e Argumento, sendo cada uma dessas
categorias um modo de subjetivação da experiência na forma de“resul-
tados cognitivos do viver”.
Ao tornar claro que as categorias da experiência sugeridas por Peirce
(2005, p.27) são fundamentais para a subjetivação, devido ao processo de
ação mental que exigem, começamos a falar da Primeiridade. Essa cate-
goria tem um princípio claro na ordem dos signos, pois essa é a categoria
que aborda o princípio básico da alteridade, em que os fenômenos que
afetam o sujeito não têm nenhuma referência anterior, passando a tornar
parte do ego já existente, mas tal representação se encontra em estado
de imaturidade, devido a não existência representacional para a mente
afetada. A experiência original ou primeira – Primeiridade – funda as bases
materiais e fenomenológicas de todo fenômeno subsequentemente
resultante de novas experiências. Com isso, o signo original se encontra
como algo sem significação representativa prévia, mas, ligada ao afeto
corporal. Poderíamos chamar de algo novo para aquele sujeito, um dado
do inconsciente, independente de tudo que ele tenha vivido. Peirce (2005,
p.24) diz: “seria algo que é aquilo que é sem referência a qualquer outra
coisa dentro dele, ou fora dele, independentemente de toda força e razão”.
Quando chegamos à ordem da Secundidade, percebemos um cará-
ter evolutivo do signo, em que ele se encontra em um estado represen-
tacional, em que se faz entendido a partir de uma referência vinda de um
objeto – referente – conhecido em uma experiência pretérita.Tal processo
ocorre pelo fato do signo da obsistência estar em uma relação à frente da
Originalidade, usando essa última como fonte de progressão do signo ou
condição existencial do signo, a Obsistência torna presente referências
da mente do sujeito para dar significado para a Originalidade, ligada aos
signos de sensações ou ao afeto primitivo. Podemos falar, basicamente,
que a Secundidade depende de experiências guardadas na mente do
sujeito para que ela possa significar algo em seguida,“[...] é aquilo no que
a secundidade difere da primeiridade; ou é aquele elemento que, tomado
em conexão com a originalidade, faz de uma coisa aquilo que uma outra a
33João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
obriga a ser”(PEIRCE, 2005, p.27). Os resultados cognitivos da Secundidade
obrigam os resultados da Primeiridade significarem algo, isto é, uma outra
coisa que não sua existência original. A experiência primeira da cor pode,
em um segundo momento, de obsistência, pode ser obrigada a represen-
tar ou a aderir um objeto ideal ou real. Como é caso da cor vermelha que
poder representar o fogo que a significa e vice-versa.
Tomando emprestados os conceitos de Primeiridade e Secundidade
trazidos anteriormente, vamos tratar da Terceiridade, para a qual se faz
necessária a participação dos dois processos anteriores para chegar em
uma mediação ao nível da interpretação propriamente dita ou genuína.
Essa é a terceira categoria que está entre as outras duas e atua como
meio de significação criado a partir de um fenômeno anteriormente
experimentado. A Terceiridade está totalmente ligada ao poder de inter-
pretação, representação, mediação e ação mental. Esse processo ocorre
quando tem um ser interpretante que através do raciocínio faz relações
na mente e interpreta os signos a partir dos “resultados cognitivos de
viver”, em uma consciência sintetizadora que busca o entendimento dos
pensamentos. Esse processo de mediação/representação está à vista
de um tempo futuro, no qual a partir da mediação entre passado e pre-
sente, ou seja, Primeiridade e Secundidade, o pensamento generalizador
da Terceiridade faz uma ruptura com o tempo e dá uma nova dimensão
– sugestão ou abdução – para as coisas. Peirce (apud IBRI,1992, p.15) diz:
A terceira categoria é a idéia daquilo que é tal qual é por ser
um Terceiro ou Meio entre um Segundo e seu Primeiro. Isto é o
mesmo que dizer que ele é Representação como um elemento
do fenômeno. [Ainda:] Terceiridade nada é senão o caráter de
um objeto que incorpora a Qualidade de Estar entre (Betweeness)
ou Mediação nas suas formas mais simples e rudimentares; e
eu a uso como o nome daquele elemento do fenômeno que é
predominante onde quer que Mediação seja predominante, e
que encontra sua plenitude na Representação, [e] Terceiridade,
como eu uso o termo, é apenas sinônimos para Representação...
34 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
Com isso, as formas de Mediação/Representação são fatores
que envolvem a mudança de tempo, modificando a brutalidade da
alteridade vinda com a Primeiridade e a Secundidade para a inteligi-
bilidade dos acontecimentos, dando um novo sentido para ações
futuras (IBRI, 1992, p.15), bem como para sensações passadas. Reto-
mando a proposição inicial que define o signo nas letras de Peirce:
“[...] um signo [...] dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pes-
soa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido.
Ao signo assim criado [ou mais evoluído] denomino interpretante do
primeiro signo”. É possível compreender que esse signo mais evo-
luído, denominado interpretante, tem o poder de significar o pri-
meiro signo, aquele a que se dirigiu, a alguém, enquanto criador
de um signo equivalente. Entre o signo criador (que se dirige a...),
o signo criado e equivalente e o signo mais evoluído ou interpre-
tante, vemos uma relação de três, em que o último se volta para
o primeiro e ao segundo, interpretando-os de um novo modo, de
maneira abduzida ou sugestiva. Por isso, os signos ao nível da Ter-
ceiridade estão na classe do Símbolo, que necessitam de uma mente
interpretante para serem significados.
Resumindo as categorias da experiência, trazemos Santaella (2005,
p.7), que diz:
A primeiridade aparece em tudo que estiver relacionado com
acaso, possibilidade, qualidade, sentimento, originalidade,
liberdade, mônada. A secundidade está ligada às idéias de
dependência, determinação, dualidade, ação e reação, aqui e
agora, conflito, surpresa, dúvida. A terceiridade diz respeito à
generalidade, continuidade, crescimento, inteligência. A forma
mais simples da terceiridade, segundo Peirce, manifesta-se no
signo, visto que o signo é um primeiro (algo que se apresenta à
mente), ligando um segundo (aquilo que o signo indica, se refere
ou representa) a um terceiro (o efeito que o signo irá provocar em
um possível intérprete).
35João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
Não podemos perder de vista que:
A teoria lingüística, cujo objeto de análise é a linguagem – que
não deve ser entendida como simples sistema de sinalização,
mas como matriz do comportamento e pensamento humanos
– tem por objetivo a formulação de um modelo de descrição
desse instrumento através do qual o homem informa seus atos,
vontades, sentimentos, emoções e projetos (NETTO, 1980, p.15).
Na medida em que consideramos que a linguagem não se limita
a um sistema de sinalização por signos expostos na realidade objetiva,
pois também consiste em ser uma matriz ou fonte de comportamen-
tos humanos, sendo um deles o pensamento, podemos compreender a
semiótica como um horizonte teórico-metodológico de reflexão e ação
acerca dos processos de subjetivação de signos na mente humana a
partir das experiências que o corpo humano estabelece, imerso, com a
realidade objetiva. Em outras palavras, entendemos que os sistemas de
signos objetivos, tais como um texto, os sinais de trânsito, uma película
cinematográfica etc., todos expostos às nossas sensações e percepções,
desencadeiam na mente humana processos de registros e de articula-
ção, que por tomarem a forma de pensamento ou cognição significada
– representação por signos em vez de por coisas – no interior da mate-
rialidade corpórea – cérebro – do humano, podem ser chamados de
subjetivos.
Evocando mais uma vez a assertiva de Peirce sobre a emergência
da semiótica, os signos, inicialmente matrizes ou fontes objetivas, criam,
por subjetivação mediada pela experiência sensitiva e perceptiva, bem
como pelo ego pretérito, na mente de alguém, outros signos equivalen-
tes ou mais desenvolvidos, haja vista que este signo pode ser uma emo-
ção, um sentimento e ações interligadas ad infinit. Diante do exposto,
partindo do princípio de que os signos objetivos se tornam subjetivos
na mente de alguém mediante experiências que o corpo humano esta-
belece com realidades percebidas como objetos para além da existência
36 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
dele, estabelecemos aqui que o fundamento ou caminho da emergên-
cia de todo comportamento semiótico ou lógico – linguístico, de um
modo mais restrito – do pensamento humano é a experiência em seu
sentido fenomenológico e não puramente lógico. Adentramos agora
nas categorias que constituem a experiência fenomenológica como
ponto de partida dos processos de subjetivação ou criação de signos –
equivalente ou mais desenvolvido – na mente humana a partir de outros
signos inicialmente objetivos ou simplesmente apreensíveis – visíveis –
desde fora pelo aparelho sensório-cognitivo-motor humano.
Contudo, a experiência fenomenológica para Peirce não envolve um
processo simples, unificado, unilateral e unidimensional. Há, segundo o
filósofo e matemático, três diferentes níveis ou categorias interdepen-
dentes da experiência, chamados de Originalidade (Primeiridade, nível
básico), Obsistência (Secundidade, nível intermediário) e Transuação (Ter-
ceiridade, nível complexo). Como podemos observar pela nomenclatura
utilizada, embora tenhamos mencionado a interdependência entre os
níveis, trata-se de uma interdependência hierarquizada, na medida em
que as tricotomias dizem respeito às categorias da experiência ou tam-
bémchamadasdecategoriasdossignosnaconcepçãodePeirce.Segundo
Netto (1980, p.61),“A primeiridade recobre o nível do sensível e do quali-
tativo e abrange o ícone, o Qualissigno e o rema”, ou seja, diz respeito a
qualidades, impressões primeiras dos signos, aquilo que se apresenta em
primeira instância, seja em sua forma simples e/ou mais desenvolvidas –
sempre no plano das qualidades [Qualissigno, Ícone, Rema].
Em se tratando da Secundidade,“diz respeito ao nível da experiência,
da coisa ou do evento: é o caso do índice, do sinsigno e do discissigno”
(Idem, ibidem, p.61). Nesse sentido, a Secundidade envolve uma fenome-
nologia semiótica na medida em que há uma sensação de qualidade
(Primeiridade) que se relaciona a um objeto específico ou singular (Secun-
didade). Assim, dessa relação se estabelece a noção do fenômeno per-
cebido, haja vista que a semiótica ao nível do objeto é fenomenológica
levando em conta esses aspectos que caracterizam a Secundidade. E por
37João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
fim, a Terceiridade que, segundo Netto (ibidem, p.61),“refere-se à mente ao
pensamento, isto é à razão: cobre o campo do símbolo, do legissigno e do
argumento”, logo a Terceiridade pode ser entendida como a ação do signo
pós-relação fenomenológica, ou seja, a interpretação da mente, o terceiro
da relação semiótica, que interpreta o fato e adquire o signo mais desen-
volvido, seja como uma lei, um símbolo ou um argumento.
Em seus estudos, Netto (1980) propôs um quadro para apresenta-
ção dessas relações, ou seja, a relação do signo com suas tricotomias, o
qual apresentamos a seguir:
Quadro 1
DIVISÃO DOS SIGNOS
CATEGORIA
O Signo em
relação a si mesmo
O Signo em
relação ao objeto
O Signo em relação
ao interpretante
PRIMEIRIDADE Qualissigno Ícone Rema
SECUNDIDADE Sinsigno Índice Dicissigno
TERCEIRIDADE Legissigno Símbolo Argumento
Fonte: NETTO, 1980, p 62.
Com essa forma de agrupar os signos, acreditamos que a subjetiva-
ção ocorre em planos de Primeiridade (em nível da qualidade do sensível),
Secundidade (em nível do objeto da cognição), e Terceiridade (a qual refe-
re-se ao argumento). Para tanto, se faz necessário explicarmos as partes
que compõem cada uma das categorias da experiência. No que diz res-
peito à Primeiridade, seguindo pela sua linha horizontal, de acordo com
o quadro acima (NETTO, 1980, p. 62), identificamos as três subcategorias
desse primeiro nível da experiência: Qualissigno, Ícone, Rema.
O Qualissigno se configura como qualidade que é um signo. Não
pode agir como tal até tornar-se corpóreo, ou seja, até que haja a afe-
tação primária do corpo. Antes desse, esse signo seria a hipótese do
exterior absoluto, que nem é objetivo, porque não pode ser visto ou
sentido. Está no mundo, desligado de qualquer consciência. Quando
38 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
essa qualidade é notada por um corpo, ela ascende à condição de Qualis-
signo, pois, na medida em que ela existe para um corpo, evidencia-se sua
possibilidadedesersignoparaumamente,emboraaindasejaapenasafeto,
pois já está prestes ou necessariamente será atrelada, em um momento
seguinte, não a uma qualidade pura em si, mas sim a uma existência na
formadeobjeto,sendoumaqualidadecorporificadaemalgumacoisaobje-
tiva, como por exemplo o branco (Qualissigno) em uma camisa (Sinsigno).
Issosedánamente,podendogeraroraciocíniodequeobrancorepresenta
uma qualidade. Segundo Netto (1980, p.60): “[...] Por qualissigno enten-
de-se uma qualidade que é um signo: Ex: uma cor [vermelho]”.
Caso a mente fosse física, química ou fisiologicamente incapaz de
perceber a cor branca, essa nunca poderia ascender à qualidade de signo
– Qualissignos – pois, permaneceria incognoscível, não interessando,
portanto, ao pensamento e às suas conexões e associações semióticas.
Mas, na medida em que o branco e outras cores são perceptíveis para o
humano, todas elas apresentam o potencial de serem signos ao se asso-
ciarem ou se ligarem a algo para além delas: o corpo. Isto é, de repre-
sentarem algo que não elas mesmas para alguém que possui um corpo
afetivo e uma mente cognitiva. Neste sentido, ponderamos que quando
se está diante de Qualissigno pode-se gerar um ícone. Dessa forma, há
uma corporificação das formas e qualidades que compõem Qualissignos,
que logo passam a ser ícones. Peirce (2005, p.73) nos indica que:“o Ícone
não tem conexão dinâmica alguma com o objeto que representa: sim-
plesmente acontece que suas qualidades [Qualissignos] se assemelham
às do objeto e excitam sensações análogas na mente para a qual é uma
semelhança”. É nesse sentido que as qualidades se corporificam, tornan-
do-se ícones. Funciona tal como na natureza a orquídea se apresenta ao
zangão como se fosse uma fêmea da espécie, atraindo-o para cópula.
Ícone: “[...] é um signo que se refere ao Objeto que denota apenas
em virtude de seus próprios caracteres que ele igualmente possui quer
um tal Objeto realmente exista ou não”(PEIRCE, 2005, p.52). O Ícone car-
rega a relação de semelhança com o objeto que pretende representar
39João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
para alguém, que se dá em três níveis: a imagem (caricatura), o diagrama
(um mapa), metáfora (paralelismo com algo diverso que não a própria
imagem apresente). O Ícone subjetiva a mente ao ponto de que algo
se assemelhe ao objeto, traçando uma relação de caracteres que a ima-
gem possa possuir. Ou seja, “[...] a escultura de uma mulher, uma foto-
grafia de um carro, e mais genericamente, um diagrama, um esquema”
(NETO, 1980, p.58). O Ícone é criado na mente de alguém por meio da
ação de signos de semelhança que afetam a mente e fazem essa produ-
zir uma síntese imaginária: a imagem de um objeto. Tendo estabelecido
isso, segundo Nunes (2008, p.44): “[...] quando estamos diante de um
Ícone tende-se a gerar um Rema”, pois ao se assemelhar (Ícone), o signo
é levado ao nível das possibilidades linguísticas (Rema) que este Ícone
pode vir a produzir. O Ícone está na primeiridade porque sua relação
com o objeto se baseia na relação que os seus caracteres qualitativos
possam possuir, sendo ainda que este objeto possa só existir na mente
do interpretante na forma ideal.
Rema:“[...] é um Signo que para seu Interpretante é um Signo de Pos-
sibilidades qualitativas, ou seja, é entendido como representando esta
e aquela espécie de Objeto possível” (PEIRCE, 2005, p.53). O Rema, por
definição, envolve uma qualidade/hipótese que refletirá em seu inter-
pretante; que será subjetivado por esta qualidade/hipótese, logo “[...]
o Rema é um Signo que é entendido como representando seu objeto
apenas em seus caracteres” (PEIRCE, 2005, p. 53). A Subjetivação ocorre
por meio destes caracteres. Desse modo, o Rema que se dá ao nível da
palavra escrita constitui-se também como uma forma que representa
essa ou aquela imagem para seu interpretante. Não obstante, “[...] uma
palavra isolada, como vermelho, pode funcionar como rema (do grego
rhema, palavra)”(NETTO, 1980, p.61). Ela funciona no lugar da qualidade
do vermelho em si e dessa mesma qualidade encarnada na imagem
semelhante de um objeto.
Desta forma, o signo de Primeiridade (Qualissignos, Ícone, Rema), que
“recobre o nível do sensível e do qualitativo”(NETTO, 1980, p.61), participa
40 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
dasubjetivação,poisocorreemrelaçãoaosignoemsimesmo(qualidade),
que tem potencial para evoluir para um signo que possui a capacidade de
se assemelhar (Ícone), que por sua vez pode evoluir para um signo de pos-
sibilidades qualitativas (Rema), todos pela ação do interpretante, presente
nas três esferas do signo de primeiridade. A Primeiridade está no campo
da gramática pura, pois tem como objetivo determinar o que deve ser
verdade em relação ao Representamen para que o mesmo seja capaz de
incorporar um significado, sendo ele qualquer um.
A experiência da Secundidade pode ser dividida segundo três situa-
ções: Sinsigno; Índice e Dicente. Sinsigno, para Peirce (2005, p.52): “[...] é
uma coisa ou evento existente e real que é um signo. E só o pode ser atra-
vés de suas qualidades, de tal modo envolve um Qualissigno ou, melhor
vários qualissignos”. Deste modo, Netto (1980, p.60-61) apresenta como
exemplos“cata-vento, um diagrama de alguma coisa em particular. O sin
inicial de sinsigno indica que se trata de uma coisa ou evento singular,
no sentido de‘uma única vez’[fato único]”. Assim, inferimos que um Sin-
signo implica a subjetividade, na medida em que consiste em ser a asso-
ciação entre duas qualidades, por exemplo, a temperatura e a cor, como
no caso do vermelho associado ao calor, ambas as qualidades do fogo.
Índice: “[...] é um signo que se refere ao objeto que denota em vir-
tude de ser realmente afetado por esse objeto” (PEIRCE, 2005, p.52). O
Índice subjetiva por meio das relações indiciais que estabelece com
seu interpretante. Logo: “[...] Na medida em que o índice é afetado pelo
objeto, tem ele necessariamente alguma qualidade em comum com o
Objeto, e é com respeito a essas qualidades que ele se refere ao Objeto”
(PEIRCE, 2005, p.52). Segundo Netto (1980, p.58): “O signo indicial tem
alguma qualidade em comum com o objeto e, assim, não deixa de
ser um certo tipo de ícone especial, embora não seja isto que o torne
um signo mas, sim, o fato de ser modificado pelo objeto”. Para melhor
visualizarmos esta afirmação, pensemos “[...] Ex: fumaça é signo indicial
de fogo, um campo molhado é índice de que choveu [possivelmente],
uma seta colocada num cruzamento é índice do caminho a seguir [...]”
41João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
(NETTO, 1980, p.58). O índice não implica semelhança, mas relação de
existência, de causa e efeito material. A poça d’água é um dos efeitos da
chuva, sendo, portanto, seu rastro.
Para Nunes (2008, p.44): “[...] quando se está diante de um índice,
tende-se a gerar um dicente”. Um Índice pode vir a ser um Dicente na
medida em que relações indiciais do signo com objeto possua existên-
cia real, haja vista que o índice é aberto a possibilidades. Quando se
está diante de uma pegada humana na areia da praia, logo remetemo-
-nos (interpretante) à pessoa que possivelmente a marcou com aquela
pegada, ou seja, há uma relação existencial nos indícios que levaram o
interpretante a tal proposição lógica. Entretanto, para deixar de ser um
índice puro, para ascender à condição de Dicente, o signo, como sendo a
relação de causa e efeito, deve se transformar linguisticamente em uma
proposição lógica na mente do sujeito, de modo que esse possa afirmar
que a pegada indica a passagem de um homem, por meio de uma frase.
Dicente ou Dicissigno:“é um signo que, para seu Interpretante, é um signo
de existência real [...] Um Dicissigno necessariamente envolve, como
parte dele, um Rema para descrever o fato que é interpretado como
sendo por ele indicado”(PEIRCE, 2005, p53).
O Dicente diz respeito à existência do objeto e pode ser um índice
na medida em que há uma conexão ao Objeto de forma inseparável.
Logo o Dicente“[...] corresponde a um enunciado, envolve remas na des-
crição do fato. Um sintagma como Este vermelho está manchado pode
funcionar como dicissigno”(NETTO, 1980, p.61). Com isso, compreende-
mos que a Secundidade diz respeito à relação de dois signos distintos, ou
seja, um primeiro que se relaciona com um segundo. Em outras palavras,
é o que Peirce (CP, 1.324 in IBRI, 1992, p.9) chama também de Secundi-
dade se referindo às experiências estabelecidas na alteridade, tal como
estudamos na dinâmica entre o ego e o não-ego: “A idéia do outro, de
não, torna-se o pivô do pensamento [...] A este elemento eu dou o nome
de Segundidade”. Ibri (1992, p.9) complementa que:“A Secundidade traz,
no seu bojo, a ideia de segundo em relação a um primeiro”. Na Secun-
42 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
didade, temos a percepção do signo em relação ao objeto – que se faz
através do primeiro em relação ao segundo – feita pelo interpretante,
no entanto ainda não há lei que irá guiar esta percepção. A Secundidade
está presente no segundo ramo da ciência semiótica, o da lógica.
A Terceiridade envolve ainda mais três dimensões: Legissigno, Sím-
bolo e Argumento. Legissigno: “[...] é uma lei que é um signo” (PEIRCE,
2005, p.52). Essa lei só pode ser estabelecida pelos humanos – Interpre-
tantes. O signo que é estabelecido por convenção, obrigatoriamente é
um Legissigno. Peirce (2005, p.52) aponta que “[...] todo Legissigno sig-
nifica através de um caso de sua aplicação, que pode ser denominada
Réplica”. A réplica por sua vez é um Sinsigno, logo todo Legissigno requer
Sinsigno. Por fim, “[...] a réplica não seria significante se não fosse pela
lei que a transforma em significante” (PEIRCE, 2005, p.52). O Legissigno
“[...] não é uma coisa ou evento singular, determinada, mas uma conven-
ção ou lei estabelecida pelos homens. Ex: as palavras [...]”(NETTO, 1980,
p.61). Assim, o Legissigno é um signo que subjetiva por força de lei. Tra-
ta-se de uma ideia geral que busca aplicação no particular. O Legissigno
pode vir a ser um Símbolo, pois, como tal, é estabelecido por meio da
convenção/associação de ideias que se refere ao objeto.
Símbolo: “[...] é um signo que se refere ao objeto que denota em
virtude de uma lei, normalmente uma associação de idéias gerais que
opera no sentido de fazer com que o Símbolo seja interpretado como se
referindo àquele Objeto” (idem, ibidem, 52). Assim, o Símbolo pode não
possuir relação de semelhança com seu Objeto, pois foi estabelecido por
convenção de ideias. O Símbolo é, por definição, um tipo geral de lei,
logo, um Legissigno, ou seja, atua através de Réplica. Este “signo é mar-
cado pela arbitrariedade [...] Ex: qualquer palavra de uma língua, a cor
verde como símbolo de esperança etc.”(NETTO, 1980, p.58). A diferença
de um símbolo para um Legissigno é que aquele se apresenta por meio
de um objeto, enquanto que o segundo por meio de qualidades sensí-
veis ou emotivas. Para Nunes (2008, p. 44), quando se está“[...] diante de
um símbolo, a tendência é a geração de um argumento”, pois se tende
43João Filipe dos Santos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas
a representar seu Objeto em seu carácter de signo para isso usam-se os
argumentos para criar os argumentos.
Argumento: “[...] é um Signo que para seu Interpretante é Signo de
lei [...] é um signo que é entendido como representando seu Objeto em
seu caráter de Signo”(PEIRCE, 2005, p.53). O Argumento paira sobre as leis
que cercam o Objeto, o tornando algo compreensível a todos que com
ele entrem em contato, como as logomarcas de diversos produtos. Ao se
depararem com essas, os interpretantes acessam suas experiências ante-
riores para decifrar tal signo. Deste modo:“Um argumento é um signo de
razão, um signo de lei, correspondendo a um juízo. Um silogismo do tipo‘
A é B, B é C, portanto A é C’é um exemplo de argumento”(NETTO, 1980, p.
61).Oargumentotemcomofunçãosuperarasrelaçõespresentesesugerir
uma relação ou norma futura, ainda inexistente. Nesse sentido, ele supera
a lógica e se aproxima da retórica e da especulação. Contudo, longe de se
desdobrar por formulações absurdas, sustentado na lógica e no símbolo,
bem como em seus antecedentes, o argumento deve possuir uma dimen-
são de realidade. Ou seja, deve ser aplicável no comportamento.
O PROCESSO DE SUBJETIVAÇÃO NOS ESTUDOS ACERCA DO
CORPO: CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estudamos que existem três tricotomias, que são a Primeiridade,
a Secundidade e a Terceiridade classificadas por Peirce (2005, p.51) da
seguinte maneira: “[...] a primeira conforme o signo em si mesmo for
uma mera qualidade, um existente concreto ou uma lei geral [...]”, neste
caso o signo ocupa está próximo do Representamen. A segunda, “[...]
conforme a relação do signo para com seu objeto consistir no fato de o
signo ter algum caráter em si mesmo, ou manter alguma relação existen-
cial com seu objeto [referente] ou em sua relação com um interpretante
[...]” (PEIRCE, 2005, p.51). Temos o signo enquanto na condição Objeto.
Por fim, a terceira, “[...] conforme seu interpretante representá-lo como
um signo e possibilidade ou como um signo de fato ou como um signo
44 CORPO, SEMIÓTICA E SUBJETIVAÇÃO
de razão”(PEIRCE 2005, p.51). Nesse caso o signo ocupa o lugar do Inter-
pretante, nesta categoria temos a concretude de uma Lei – que é um
signo para seu interpretante.
Buscamos, neste estudo, de forma teórica e filosófica, elucidarmos
como se dá o processo de subjetivação dos signos semióticos na mente
e no corpo. Ou seja, como esse processo se constitui e como podemos
pensar em uma leitura analítica e sintética desses signos (subjetivos) aos
estudos do corpo – pensando na constituição dos signos de sensitivos,
lógicos e argumentativos. Realizamos um percurso metodológico que
embasou nossas considerações sobre esse processo de subjetivação.
Concluímos, assim, que por meio das categorias da experiência – esta-
belecidas na semiótica – que os processos de subjetivação ocorrem,
tendo em vista o fenômeno enquanto percebido pelo corpo de modo a
afetar cognitivamente a mente e que tornam estes signos argumentos
para uma dada mente que interpreta (através de leis que são signos).
REFERÊNCIAS
CARVALHO, M. Teoria e experiência. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes,
2013. (Filosofias: prazer do pensar)
IBRI, I. A. Kósmos Noêtós: a arquitetura metafísica da Charles S. Peirce. – São
Paulo: Pespectiva: Hólon, 1992. – (Coleção estudos; v.130)
NETTO, J. T. C. Semiótica, informação e comunicação. – São Paulo. Perspectiva
1980.
NUNES, K. M. Uma análise da construção mítica no livro de fotografias Laróyé, de
Mario Cravo Neto. Salvador: EDUFBA, 2008.
PEIRCE, C. S. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2005.
SANTELLA, L. O método anticartesiano de C. S. Peirce. São Paulo: Editora UNESP,
2004.
CORPO E IDENTIDADE:
DIALOGANDO COM ZYGMUNT
BAUMAN E MICHEL MAFFESOLI1*
Natalia Takaki
Jaison José Bassani
RESUMO: Muito tem se falado sobre os processos de construção das identida-
des, sobre sua crise na modernidade, sobre as dificuldades, levadas ao paroxis-
mo nos dias de hoje, de construirmos um “sentimento de pertencimento”, sobre-
tudo por conta da velocidade das transformações e da efemeridade de nossos
“projetos” de vida, do papel das novas ferramentas de comunicação neste pro-
cesso. Nesse contexto, o lugar ocupado pelo corpo e suas expressões em nos-
sas construções identitárias foi profundamente afetado por esse novo modo,
vertiginoso, de se relacionar com as coisas do mundo. No presente trabalho,
tomamos parte nesse intrincado debate em torno do conceito de identidade, e
propomos um diálogo com Zygmunt Bauman e Michel Maffesoli, autores con-
temporâneos que, entre outros, tem se ocupado teórica e politicamente dessa
questão, buscando pensar o lugar social do corpo nos processos de construção
identitária.
PALAVRAS-CHAVE: Identidade; corpo; Zygmunt Bauman; Michel Maffesoli.
*
	 O presente texto é parte da dissertação intitulada Corpo, cultura e juventude nikkei: processos
de construção identitária, defendida no Programa de Pós-graduação em Educação da Univer-
sidade Federal do Paraná em 2012. Agradecemos a CAPES e ao CNPq pelos recursos finan-
ceiros (bolsa e apoio a projeto de pesquisa) que tornam possível essa pesquisa.
46 CORPO E IDENTIDADE
INTRODUÇÃO
Os processos de construção identitária têm atraído, no campo acadê-
mico, cada vez mais a atenção e preocupação de pesquisadores das mais
diversas áreas do conhecimento, e se tornaram alvo de disputas políticas
inflamadasemdiversossetoresdavidanocontemporâneo.Conformeargu-
menta Bauman (2005), o problema da identidade parece ter se tornado,
especialmente nas últimas décadas, um prisma através do qual outras tan-
tas dimensões de nossas vidas são localizadas, agarradas e analisadas.
Vivemos mesmo uma verdadeira“explosão discursiva”(HALL, 2005)
em torno desse conceito, já que muito tem se falado sobre os processos
de construção das identidades, sobre sua crise na modernidade, sobre
as dificuldades, levadas ao paroxismo nos dias de hoje, de construirmos
um “sentimento de pertencimento”, sobretudo por conta da velocidade
das transformações e da efemeridade de nossos “projetos” de vida, do
papel das novas ferramentas de comunicação neste processo, como a
televisão, a internet, as redes sociais virtuais, entre outros.
O contemporâneo tem promovido uma incessante profusão de
novos hábitos físicos e mentais, que, se por um lado, nos trouxeram certo
grau de estranheza e insegurança, por outro, permitiram que enxergás-
semos novos horizontes. Como era de se supor, o lugar destinado ao
corpo e suas expressões em nossas construções identitárias foi profun-
damente afetado por esse novo modo, vertiginoso, de se relacionar com
as coisas do mundo. Certamente, o “mundo é a moldura simbólica e
material na qual nos movemos e da qual extraímos os elementos usados
para formar hábitos físicos e mentais”(COSTA, 2005, p. 162), mas os ele-
mentos que adquirimos dele não são sempre os mesmos: eles mudam
de tempos em tempos, com implicações diretas sobre nossas culturas,
nossas práticas, nossos ideais de eu, construindo assim novos conceitos,
concepções e novos modos de vida.
Como nos diz Sant’Anna (2001), o corpo é uma evidência que nos
acompanha desde mesmo antes de nascermos até a nossa morte, expe-
47Natalia Takaki; Jaison José Bassani
riência irrenunciável de nossa história individual e coletiva. Para além de
sua dimensão biológica, que nos lembra aquilo que há de natureza em
nós (VAZ, 2000), o corpo é também território da cultura. Nesse sentido,
o “corpo é um dos locais envolvidos no estabelecimento das fronteiras
que definem quem nós somos, servindo de fundamento para a identi-
dade”(WOODWARD, 2008, p. 15).
No presente trabalho, tomamos parte nesse intrincado debate em
torno do conceito de identidade, e propomos um diálogo com Zygmunt
Bauman e Michel Maffesoli, autores contemporâneos que, entre outros,
tem se ocupado teórica e politicamente dessa questão, buscando pen-
sar o lugar social do corpo nos processos de construção identitária.
Nesse sentido, e tomando o livro Identidade de Bauman (2005) como
uma espécie “roteiro epistemológico” do problema da identidade na
modernidade, buscaremos, nas próximas páginas, apresentar certo iti-
nerário conceitual de ambos os autores que nos permitem refletir sobre
a relação entre corpo e identidade.
O “NASCIMENTO” DAS IDENTIDADES: COMPREENDENDO A(S)
MODERNIDADE(S)
Dia após dia, desde o nosso nascimento, travamos uma batalha
intensa para descobrirmos quem nós realmente somos. Mesmo gas-
tando um tempo considerável de nossas vidas arquitetando planos para
termos alguma certeza e segurança sobre nossas figuras, essa tarefa
parece nunca ter fim, de forma que vivemos em constante construção
e desconstrução.
A questão da construção das identidades nos causa tanto descon-
forto, nos deixa agitados e inquietos porque é algo que diz respeito a
todos nós, independentemente de sabermos ao certo qual identidade
nos pertence: coletivas, individuais, nacionais, étnicas e raciais, sexual,
“virtuais”, se várias ou nenhuma. Não há dúvidas de que a identidade é
um conceito altamente contestado, um território de batalhas que nunca
48 CORPO E IDENTIDADE
esteve em paz com todas as partes. “A identidade é uma luta simultânea
contraadissoluçãoeafragmentação;umaintençãodedevorareaomesmo
tempo uma recusa resoluta a ser devorado...”(BAUMAN, 2005, p. 84).
Certamente essa inquietação não é exclusividade do nosso tempo,
mas definir nossas identidades tem se tornado uma empreitada cada
vez mais desafiadora, sobretudo se considerarmos que as bases sobre
as quais as identidades, individuais e coletivas, se assentavam até bem
pouco tempo atrás, conforme nos ensina o sociólogo Zygmunt Bauman,
perderam sua solidez no mundo globalizante.
Em seu livro Identidade, fruto de uma entrevista concedida a Bene-
dettoVecchi, Bauman (2005) trata de questões que envolvem o problema
da construção das identidades no mundo moderno: a gênese das identi-
dades nacionais, o papel do Estado nessa construção, o papel das comu-
nidades, identidades individuais e coletivas, a fluidez versus a solidificação
das identidades, o surgimento das subclasses, o uso das novas tecnologias
de comunicação, entre outros elementos que cercam o tema.
A fluidez da modernidade acabou adentrando o território das
identidades, pois, afinal de contas, não é tarefa fácil tapar todas as
arestas e impedir que o líquido se infiltre, especialmente quando
possui tanta força. Logo na introdução do livro, Vecchi nos diz que
Bauman vê a globalização como “uma grande transformação que afe-
tou as estruturas estatais, as condições de trabalho, as relações entre
os Estados, a subjetividade coletiva, a produção cultural, a vida quoti-
diana e as relações entre o eu e o outro.”(BAUMAN, 2005, p. 11). Assim,
“erram”aqueles que ainda tentam se sustentar nos pilares sólidos e fir-
mes que uma vez existiram, não sendo mais possível negar a facilidade
com que as coisas surgem e em seguida se dissolvem, aparecem e eva-
poram. Possuir identidades fluídas, que mudam a todo o momento,
pode não ser de todo maléfico. No entanto, é preciso compreender
como, por que e quais as consequências dessas constantes mudanças,
que estão diretamente atreladas à modernidade líquida, utilizando a
nomenclatura criada por Bauman, que estabelece diferenças notáveis
49Natalia Takaki; Jaison José Bassani
em relação ao que ele chama de modernidade sólida. Solidez e liquidez
são metáforas usadas por ele para dar conta das mudanças que pau-
latinamente ocorreram durante a transição do século XX para o XXI
(ALMEIDA; GOMES; BRACHT, 2009).
A modernidade sólida foi marcada pela ordem, pela rigidez, pela
durabilidade, estabilidade, estratégias de longo prazo, enfim, por ele-
mentos que pudessem dar aos indivíduos e a comunidade um senso de
que o futuro seria algo ao qual não se precisasse temer, pois já estaria
contido e definido no e pelo presente. Um elemento se destacou nessa
busca e produção de solidez: o trabalho.
Por meio do trabalho os sujeitos se tornavam cidadãos dignos,
reproduzindo seus ideais e modos de vida. Estar empregado significava
ter uma vida correta, ética, além disso, forneceria ao trabalhador uma
estabilidade“proporcionada pelas instituições sociais, que indicavam as
condutas a serem seguidas e que permitiam a manutenção de rotinas,
ao mesmo tempo em que decretava a divisão entre o certo e errado, nor-
mal e patológico”. (ALMEIDA; GOMES; BRACHT, 2009, p. 34). Se por meio
do trabalho a honra do cidadão era estabelecida, portanto, nada mais
razoáveldoquepossuirumtrabalhofixo,umempregoregular,elutarpara
que essa relação fosse longa e duradoura. A modernidade sólida estava
situada em um tempo extremante importante para o desenvolvimento
capitalista, no qual trabalhador e patrão estavam intimamente ligados: o
primeiro, por necessitar do trabalho para sua sobrevivência, e o segundo,
por precisar de uma força capaz de produzir e lhe trazer lucro.
Com os indivíduos ocupados trabalhando, a sociedade se mantinha
equilibrada e ordeira, visando um futuro formidável e bastante produtivo:
Quaisquer que tenham sido as virtudes que fizeram o trabalho
ser elevado ao posto de principal valor dos tempos modernos,
sua maravilhosa, quase mágica, capacidade de dar forma ao
informe e duração ao transitório certamente esta entre elas.
Graças a essa capacidade, foi atribuído ao trabalho um papel
principal, mesmo decisivo na moderna ambição de submeter,
50 CORPO E IDENTIDADE
encilhar e colonizar o futuro, a fim de substituir o caos pela
ordem e a contingência pela previsível (e portanto controlável)
seqüência dos eventos. Ao trabalho foram atribuídas muitas
virtudes e efeitos benéficos, como por exemplo, o aumento
da riqueza e a eliminação da miséria; mas subjacente a todos
os méritos atribuídos estava sua suposta contribuição para
o estabelecimento da ordem, para o ato histórico de colocar
a espécie humana no comando de seu próprio destino
(BAUMAN, 2001, p. 157).
Nessa passagem que acabamos de ler a respeito do trabalho,
Bauman nos mostra elementos que são característicos da moderni-
dade sólida, como a certeza no/do futuro, o controle sobre adversi-
dades e a consequentemente segurança, e, principalmente, a ordem.
O trabalho trouxe a ordem como tarefa na modernidade sólida: tra-
balhar era algo que estava atrelado à natureza humana; errático era
ser um desempregado, sem vínculos que os ligassem e os prendes-
sem a um lugar. A labuta diária fazia com que os indivíduos criassem
uma rotina, padrões comportamentais a serem seguidos no intuito
de manter o emprego, portanto, seu comportamento era previsível
e fácil de ser controlado, um ambiente relativamente seguro para se
fixar uma identidade.
A ordem trouxe consigo a necessidade de disciplinar aqueles que
viviam sob seu comando, e o medo do incerto, do desconhecido, do
outro, desenvolveu uma incontrolável obsessão por classificações. Clas-
sificar significava dizer que alguns seriam selecionados e outros seriam
deixados de fora; incluídos seriam aqueles que se encaixam nos padrões
ditados pela ordem e excluídos aqueles que não eram bem vindos por
gerarem desconforto, por não se adequarem às classificações. A ordem
era uma luta travada contra a ambivalência, contra o caos, a imprevisibi-
lidade, o outro, a incerteza, a confusão, a dúvida, o diferente, o ambíguo,
o desconhecido. Numa palavra: contra tudo aquilo que não se podia
controlar (BAUMAN, 1999).
51Natalia Takaki; Jaison José Bassani
Para que nada escapasse do controle, a ordem deixava de ser o
elemento final da ação, passando a ser sua origem, transformando o
resultado final em um produto do disciplinamento. Esse, por sua vez, era
alcançado pela vigilância constante, pela visão superior do disciplinador
estabelecida nas torres panópticas modernas. As torres panópticas pos-
suíam um elemento arquitetônico que possibilitava observar com um
ângulo de 360º o recinto em que era construído; do alto, o observador pos-
suíaavantagemdeumavisãoampla,semobstruções.Essaferramentafacili-
tou e aumentou a vigilância e o controle daqueles a serem disciplinados:
[...] escolas, quartéis, hospitais, clínicas psiquiátricas, albergues,
instalações industriais e prisões. Todas essas instituições eram
fábricas de ordem. E, como todas as fábricas, eram locais de
atividade propositada, calculada para resultar num produto
concebido com antecedência – no caso, no restabelecimento
da certeza, eliminando a aleatoriedade, tornando a conduta dos
internos regular e previsível novamente. (BAUMAN, 2011, p. 146).
Pensando nas instituições que adotaram o panóptico como ele-
mento disciplinador, nota-se que algumas delas, como as escolas, fábri-
cas e quartéis, eram instituições pelas quais todos, eventualmente,
acabavam passando. Sob essa ótica, o poder disciplinador se fazia bas-
tante eficaz, pois os indivíduos acabavam fazendo parte de várias des-
sas instituições ao longo de suas vidas, primeiramente durante os anos
escolares, em seguida, para os homens, nos quartéis, e posteriormente o
trabalho com a rotina estabelecida pelas fábricas. “Um homem incapaz
de emprego ou de alistamento era um homem essencialmente fora da
rede de controle social” (BAUMAN, 2011, p. 149). Dessa forma o poder
disciplinador se tornava bastante eficaz, alcançando suas metas de tor-
nar correto o incorrigível, de estabelecer padrões de comportamento,
controlando e educando os corpos, tornando-os dóceis e fortes.
O fato de possuir um corpo forte e produtivo, nessa perspectiva, era
sinônimo de ser um sujeito saudável, apto ao trabalho, virtuoso para as
52 CORPO E IDENTIDADE
fábricas, elevando o status daqueles que o possuíam e que eram capa-
zes de desempenhar trabalhos pesados. Seu inimigo era o corpo fraco,
franzino, doente.
A cultura moderna trouxe o corpo aos holofotes, uma vez que era
um representante das potencialidades do homem. O corpo também
estava fortemente atrelado à economia, uma vez que era o corpo do tra-
balhador que produzia. Sendo assim, o conceito de “corpo forte” gerou
um mal que assombrou a modernidade, transformando a“degeneração”
em algo a ser temido. Entenda-se degeneração como“‘perda de energia’,
moleza corporal, fraqueza e flacidez”(BAUMAN, 2011, p. 150).
No entanto, era crescente o número de pessoas consideradas“inap-
tas”, ou com corpos insuficientemente fortes, como moradores das
periferias urbanas ou bairros miseráveis, trabalhadores informais. Ao
se alastrarem e adentrarem os centros civilizados, geravam um “pânico
intelectual e legislativo, por serem lidos (e não erradamente) como
sinais de fracasso do mais decisivo dos empreendimentos modernos”
(BAUMAN, 2011, p. 150).
O esforço físico estava totalmente atrelado à pobreza, e se o físico
daqueles responsáveis por gerarem lucro não mais estava apto, então
era inevitável que um colapso ocorresse. No entanto, as instituições
que antes eram as responsáveis pelo estabelecimento da ordem
foram perdendo suas forças normativas e ordeiras. Pode-se notar essa
mudança, por exemplo, na relação, antes longa e sólida, entre as fábri-
cas e seus trabalhadores:
Atualmente, com a flexibilização, a desregulamentação e a
precarização do trabalho, o antigo casamento entre patrões
e empregados (vale dizer, entre capital e trabalho), que os
mantinham presos ao “chão da fábrica”, não passa de uma
coabitação até segunda ordem, sustentável apenas enquanto
beneficiar um dos pólos ou até nova rodada de demissões e ajustes
orçamentários. Outrora caracterizado como o principal valor dos
tempos modernos na busca da ordem como tarefa, fornecendo
53Natalia Takaki; Jaison José Bassani
o (sólido) eixo ético da sociedade em seu conjunto e também o
eixo seguro em torno do qual os indivíduos poderiam fixar suas
identidades, o trabalho teria transitado do reino da ordem, da
solidez, para o universo cambiável, errático, episódico e incerto do
jogo, da fluidez. (ALMEIDA; GOMES; BRACHT, 2009, p. 34)
O derretimento da solidez do mundo do trabalho alterou a forma,
antes engessada e monótona, da vida de seus habitantes moder-
nos; “caos e ordem”, elementos inseparáveis da modernidade, como
afirma Bauman (1999, p.12), protagonizam um duelo interminável.
Onde existe o caos, estará também a ordem para tentar classificar e
controlar o indeterminado.
Classificar fez e faz parte de uma estratégia ordeira, de buscar tornar
padrão o aleatório, arrumar o bagunçado, fincar pilares em terras firmes
para que nada saia do lugar. Assim como o caos gera a ordem, e vice-e-
-versa, a classificação gera a ambivalência. Quando as ferramentas de
classificação, por exemplo a linguagem, se tornam obsoletas, inadequa-
das, insuficientes, abre-se uma brecha para que determinado elemento
a ser classificado seja capaz de se encaixar em mais de uma categoria,
gerando incertezas, indefinições, desconforto. A ambivalência cria um
desiquilíbrio na ordem classificatória.
Sem o papel imperante do Estado, ou do olhar vigilante e controlador
das instituições públicas para assegurar um estilo de vida padronizado,
e limites comportamentais a serem rigidamente seguidos, os indivíduos
acabam sendo forçados a se responsabilizarem eles mesmos pelas suas
decisões, pelas suas escolhas. Fica a cargo de cada um decidir pelo certo
e errado, pelo amigo e inimigo, benéfico ou maléfico. A liquefação dos
antigos sólidos deixa tudo a cargo do individuo, do“faça-você-mesmo”, e
a auto-afirmação ganha forças e prioridade nas escolhas de cada um.
Os papeis são invertidos na modernidade líquida: seguir o mestre e
dar-se por satisfeito com isso é substituído por uma constante correria,
um impulso de estar sempre se movimentando para não ser deixado
para trás. Isso exige um enorme esforço para se manter em dia com as
54 CORPO E IDENTIDADE
demandas do mundo líquido moderno, onde nada se fixa, nada se man-
têm por muito tempo; onde o efêmero toma conta dos relacionamentos
e nada mais é para“sempre”. A identidade é forçada a deixar o seu acon-
chegante porto seguro do mundo sólido, para se tornar livre, diversa,
desencaixada, fluída, ambivalente, múltipla.
Na interpretação do sociólogo polonês, a ética do trabalho foi subs-
tituída pela ética do consumo, os indivíduos deixam de lado a posição de
indivíduosinternosparadaremlugaraumindivíduocoletordesensações.
A modernidade líquida nos possibilita respirar novos ares, explorar terre-
nos nunca antes visitados, serrar as amarras que nos prendiam a mesmice.
Bauman (2001) afirma que a privatização dos afazeres modernos
é um dos principais elementos que diferencia a modernidade líquida
da sólida. Outra importante característica é a mudança na concepção
de durabilidade, de fixidez, da necessidade de certezas a respeito do
futuro. Na modernidade líquida, os projetos passam a ser transitórios,
indefinidos, fluídos. Porém, nenhuma mudança é completamente livre
de ônus. Muitos aspectos da vida moderna tornaram-se problemáticos
para seus habitantes, provocando confusões, insegurança, ansiedades.
Uma delas, e a que elegemos como mote para este trabalho, é a questão
das identidades.
IDENTIDADE COMO TAREFA
Toda a virada de ano começa com resoluções para muitas pessoas.
Promessas mirabolantes, que talvez nunca venham a ser cumpridas,
metas às vezes razoáveis, até realistas, esperanças de que o ano que
esta por iniciar seja (sempre) muito melhor do que o que passou. Aban-
donamos o velho e adotamos o novo, sempre em busca de algo que
nem sabemos ao certo o que é, embora saibamos, com certeza, que o
que temos poderá ser melhor. Olhamos para frente sem saber o que vai
acontecer e, ao mesmo tempo, vivemos ao máximo o agora. Queremos
mudanças, acontecimentos, felicidades, novas experiências, viagens,
55Natalia Takaki; Jaison José Bassani
dinheiro, saúde. Estamos sempre em busca de algo, algo que nunca
chega, nunca se satisfaz.
Acreditamos que a construção de nossas identidades seja um
pouco parecida com nossos votos de Ano Novo, pois estamos sem-
pre nessa ânsia por movimento, da busca de algo novo, de construir,
de ser diferente, melhor, mais feliz, mais adequado. Deixamos no
passado o velho, para em seguida ir em busca do novo: queremos
novas sensações, novas emoções. Nossas identidades estão sempre
se renovando na liquidez da modernidade, aliás, é isso que fazemos
para que não sejamos excluídos ou deixados de lado como o velho
ano que passou. Somos impulsionados pela necessidade de conti-
nuar pensando no amanhã, para não sermos atropelados pelo tempo,
pelos outros, pela solidão.
As mudanças decorrentes da passagem da modernidade sólida
para a líquida trouxeram novos afazeres para os indivíduos. A metá-
fora do líquido é bastante adequada quando pensamos também nas
identidades. Devido ao declínio das influências exercidas pelas ins-
tituições estatais, os indivíduos acabaram ficando sem um modelo
que os moldava e que determinava como, e de que forma deveriam
seguir suas vidas. A identidade foi uma maneira encontrada para
suprir esse vazio:
Pensa-se na identidade sempre que não há certeza sobre o
lugar de pertencimento, quando não há certeza sobre como
se colocar dentre a evidente variedade de estilos e padrões
de comportamento, e sobre como se assegurar de que as
pessoas aceitem essa posição como correta e adequada de
modo que ambos os lados saibam como agir em presença
do outro. “Identidade” é um nome dado à buscada fuga dessa
incerteza. Assim “identidade”, apesar de ser claramente um
substantivo, comporta-se como verbo, ainda que um verbo
estranho: ele só aparece conjugado no futuro. (BAUMAN,
2011, p. 114; grifos do autor).
56 CORPO E IDENTIDADE
De fato, as identidades não são algo a priori, mas sim uma invenção
da modernidade, uma convenção social, um projeto a ser construído
e, portanto, repleto de escolhas a serem tomadas. A partir do final do
século XX, e conforme o projeto moderno ganha novas feições e se
materializa em nossas sociedades, a fragilidade, bem como a condi-
ção passageira das identidades, tem se mostrado cada vez mais óbvia.
Porém, a identidade nem sempre foi um problema premente: somente a
partir do momento em que o pódio no qual estava assentada entrou em
crise é que os holofotes se voltaram para ela:
Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as
sociedadesmodernasnofinaldoséculoXX.Issoestáfragmentando
as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça
e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas
localizações como indivíduos sociais. Estas transformações
estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando
a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados.
Esta perda de um “sentido de si” estável é chamada, algumas
vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo
deslocamento – descentração dos indivíduos tanto do seu lugar
no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma
“crise de identidade”para o indivíduo. (HALL, 2005, p. 9).
Nessa passagem, Hall nos dá elementos importantes a serem conside-
rados sobre a modernidade e também sobre as identidades. Gostaríamos
de chamar atenção para o surgimento das identidades nacionais que, assim
comooconceitodeEstado-nação,étambémumprodutodamodernidade.
Bauman (2005, p. 23) remete-se a Polônia, sua terra natal, para rela-
tar um fato que exemplifica bem a questão. Um censo estava sendo
realizado naquele país com o intuito de “coletar informações sobre a
auto-identificação de todos os indivíduos do Estado polonês”. Ao che-
gar aos pequenos vilarejos, aos moradores do campo, os entrevistado-
res não conseguiram extrair dos indivíduos uma definição de nação,
57Natalia Takaki; Jaison José Bassani
muito menos do significado de nacionalidade. Eles respondiam sim-
plesmente que eram dali, que eram daquele lugar. Para eles, suas
terras representavam o limite de seu país, pois nunca haviam ido a
outros lugares, não conheciam as fronteiras geográficas reais – e tam-
bém simbólicas – do país que habitavam. “Foram necessárias a lenta
desintegração e a redução do poder aglutinador das vizinhanças, com-
plementadas pela revolução dos transportes, para limpar a área, possibi-
litando o nascimento da identidade – como problema e, acima de tudo,
como tarefa.”(BAUMAN, 2005, p. 23-24).
Tarefa,poiseraprecisofazeralgoarespeito.Asidentidadesdeixaram
de ser algo natural, algo sobre o qual os indivíduos nada podiam fazer,
para se tornar um elemento que precisava e precisa ser construído,
batalhado, criado, sem poder se dar ao luxo da inércia. A identidade
somente existe como um problema, da necessidade de se encaixar em
algum padrão, em pertencer a algum grupo, tribo, comunidade, em
saber se portar diante do(s) outro(s). Não é mais possível e aceitável
conservar uma única identidade sem ser deixado para trás, sem ser con-
siderado um excluído. No entanto, apesar desse fã de pertencimento, ela
é uma construção individual, um fardo a ser carregado por cada um, pois
as certezas e verdades passam agora a ser pensadas não mais coletiva-
mente (BAUMAN, 2011).
É nesse sentido que o sentimento de certeza é abalado, pois como
saber ao certo o que é aceitável ou não, o que se espera como correto,
adequado, permitido. A sensação de insegurança e instabilidade passa a
fazer parte do cotidiano dos indivíduos no atual estado da modernidade.
Foi o Estado-nação que tomou para si o local de nascimento dos
sujeitos como fator determinante para o reconhecimento e afirmação
de sua nacionalidade. Logo, todos deveriam possuir uma nacionali-
dade, pertencer a uma nação e reconhecer-se nela. Os moradores das
regiões mais afastadas dos centros urbanos, “atrasadas”, das florestas
e das aldeias, como no episódio narrado por Bauman e anteriormente
referido, não eram ignorantes ou limitados, o problema não era esse. O
58 CORPO E IDENTIDADE
fato é que não se pode ser algo diferente sem conhecer outras realida-
des, não é possível definir quem eu sou se nunca existiu a possibilidade
de ser outra pessoa. Afinal, só almejamos algo que não temos ou que
não somos quando sabemos de sua existência. Não fazia sentido inda-
gar àqueles aldeões sobre suas identidades, uma vez que “seu mundo”
nunca havia demandado tal definição. Para eles, “identidade” não era
algo necessário, não lhes fazia falta. Não se pode possuir uma identidade
sem saber o que ela representa.
A idéia de“identidade”, e particularmente de“identidade nacional”,
não foi“naturalmente”gestada e incubada na experiência humana,
não emergiu dessa experiência como um “fato da vida” auto-evi-
dente. Essa idéia foi forçada a sair da Lebenswelt de homens e
mulheres modernos – e chegou como uma ficção. Ela se solidificou
num“fato”, num“dado”, precisamente porque tinha sido uma ficção,
e graças à brecha dolorosamente sentida que se estendeu entre
aquilo que essa idéia sugeria, insinuava ou impelia, e ao status quo
ante (o estado de coisas que precede a intervenção humana, por-
tanto inocente em relação a esta). A idéia de “identidade” nasceu da
crise do pertencimento e do esforço que esta desencadeou no sen-
tido de transpor a brecha entre o“deve”e o“é”e erguer a realidade
ao nível dos padrões estabelecidos pela idéia – recriar a realidade à
semelhança da idéia. (BAUMAN, 2005, p. 26; grifos do autor).
É relevante pensarmos no tema da identidade como uma cadeia
de acontecimentos que surge, como mencionado acima, pela crise do
pertencimento, pela falta de um sentimento de unidade dos indivíduos
que nasceram e/ou viviam na mesma comunidade, no mesmo país. No
entanto, progressivamente ela foi se sedimentando no fundamento que
sustenta o “eu” de cada indivíduo. E a partir do momento em que esse
sedimento passa a se movimentar, a se transformar, o que antes estava
seguro e firme, agora perde sua estabilidade. Por conta dessa“inexatidão
do ambiente”, os indivíduos não encontram mais as mesmas “bases” de
59Natalia Takaki; Jaison José Bassani
outrora sobre as quais assentavam seus comportamentos, produzindo,
como efeito, um sentimento de insegurança e de crise.
Como aponta Bauman (2005, p. 26), a identidade só poderia ingres-
sar no mundo da vida (Lebenswelt) como “um estímulo, um dever e
um ímpeto à ação”. Em uma palavra: como tarefa a ser realizada. Nesse
sentido, o nascente Estado moderno, no seu “casamento” com a nação,
necessitava que seus indivíduos se subordinassem incondicionalmente
a apenas um comando, garantindo, assim, a segurança, existência e a
realização do futuro da nação.
Não fosse o poder do Estado de definir, classificar, segregar,
separar e selecionar, o agregado de tradições, dialetos, leis
consuetudinárias e modos de vida locais, dificilmente seria
remodelado em algo como os requisitos de unidade e coesão da
comunidade nacional. (BAUMAN, 2005, p. 27).
Para que uma comunidade nacional coesa ocupasse o lugar de
um aglomerado de indivíduos do Estado – projeto que, como aponta
Bauman (2005, p. 27), permaneceu não apenas incompleto, mas cuja
existência foi sempre precária – demandava um esforço de vigilância
ininterrupta e o emprego, com frequência, de grandes doses de força e
violência sobre os indivíduos. Assim, como forma de coibir pensamen-
tos e práticas que fossem contrárias a ideia de uma identidade nacio-
nal, a ameaça de “exclusão”, resultante, segundo Bauman (2005, p. 27),
da “superposição do território domiciliar com a soberania indivisível do
Estado”, passa a se colocar como uma possibilidade iminente.
Ser excluído significa não fazer mais parte de determinado grupo,
significa estar avulso, não fazer mais parte do “nós”, representando a
ameaça de estar sozinho, e de não pertencer a nenhuma comunidade.
Sem essa constante ameaça e prática, acrescenta Bauman (2005, p. 28),
“o ‘pertencimento’ teria perdido o seu brilho e o seu poder de sedução,
junto com sua função integradora/disciplinadora”.
60 CORPO E IDENTIDADE
O sentimento de nacionalidade certamente não ocorreu, adverte
o autor, com a naturalidade que imaginamos: nascimento e nacionali-
dade não surgiram naturalmente atrelados um ao ou outro. Porém, é
inegável que características pessoais como filiação, nome, idade, não
eram tão merecedoras de atenção como a nacionalidade, e podemos
afirmar que essa prática criou raízes tão profundas que até os dias de
hoje ainda priorizamos a nacionalidade dos indivíduos perante outras
características. Prova disso é a reação de oficiais de imigração nos Esta-
dos Unidos – mas poderia ser em outro país –, por exemplo, ao receber
o passaporte das mãos de um mexicano, ou de um inglês. Ao cruzarmos
fronteiras somos sempre perseguidos por nossas identidades nacionais,
carregando características e sentimentos de pertença que nos movem e
que nos denunciam.
Há sete anos, quando Bauman concedeu a entrevista que resul-
tou no mencionado livro, as redes sociais, os sites de relacionamento
na internet e a tecnologia informacional ainda não tinham atingido o
grau de evolução em que se encontram hoje. O autor nos fala de como
fazemos uso das chamadas “comunidades virtuais” como “substância à
identidade pessoal”, que, segundo ele, acabam não funcionando exa-
tamente como gostaríamos nesse processo. Aliás, muitas vezes elas
tornam-se um obstáculo, dificultando ainda mais os “acordos” na cons-
trução do eu e no sentimento de pertencimento (“sentimento do nós”),
pois são muito mais frágeis do que as velhas “formas sólidas – com a
pretensão de ser ainda mais sólidas – de convívio” (BAUMAN, 2005, p.
31). Na internet, podemos nos relacionar com outras pessoas com a
mesma facilidade com que somos descartados por elas: é fácil entrar
ou ser abandonado nas “comunidades” eletronicamente mediadas.
Apoiado em Clifford Handy, Bauman adverte que as redes sociais esta-
riam criando um distanciamento ainda maior entre as pessoas, dando
a impressão de proximidade por possibilitarem contato, ou ao menos
notícias diárias dos“amigos”, quando na verdade nos privam da vontade
de estabelecer contato físico direto, de encontros pessoais, olho no olho.
61Natalia Takaki; Jaison José Bassani
As redes sociais, os sites de relacionamento, bem como os celu-
lares, smartphones, aparelhos de MP3/4, estão desenvolvendo novos
costumes, novos hábitos em nossas rotinas. Passamos mais tempo dia-
logando com a câmera do computador ou falando ao celular do que
frente a frente com outras pessoas. Além disso, os celulares tornaram-se
nossos maiores (e melhores?) “companheiros”: não saímos de casa sem
eles e tampouco desgrudamos deles mesmo dentro de nossos lares. Eles
deixaram de ser apenas meros aparelhos com os quais falamos com pes-
soas que estão distantes fisicamente. Os smartphones, por exemplo, uti-
lizam tecnologia que nos encaminha cada vez mais para o isolamento,
pois possuem funções que possibilitam o acesso à internet a qualquer
momento, aplicativos que nos mantém ocupados sem necessitarmos
de outra pessoa para compartilharmos qualquer tipo de experiência. E
mesmo quando nos encontramos pessoalmente, esses incríveis apare-
lhos não ficam fora da roda, pois nos habituamos a ficar “conectados”
que, mesmo na presença física de outras pessoas, acabamos nos afas-
tando temporariamente da conversa para checarmos nossos e-mails, ou
para verificarmos se alguém nos deixou um recado em alguma página
de relacionamento ou rede social.
Como isso estaria afetando nossas identidades? É fato, por exem-
plo, que as novas tecnologias possibilitam maior fluidez e variação, por
assim dizer, de nossas identidades. Por exemplo, é possível assumir inú-
meras identidades por meio de diferentes páginas de relacionamento,
ser “outra pessoa” em cada uma delas. Aparentemente, não há grandes
prejuízos – com exceção, claro, do sentimento de insegurança – em ser-
mos pessoas diferentes em diferentes ocasiões, até porque assumimos
papéis distintos no trabalho, em casa, na faculdade, com grupos de
amigos etc. Talvez não seja esse o problema, mas sim a superficialidade,
precariedade e volatilidade que cada identidade possui nos espaços
virtuais. Assim, quando criamos vários “eus” na internet, nenhum deles
possui consistência ou perdura o tempo suficiente para que possa ser
assumido integralmente pelo indivíduo. A consequência direta disso
62 CORPO E IDENTIDADE
parece ser uma maior exposição, sem nenhum“filtro”ou mediação sub-
jetiva, às influências “externas”. No caso específico das redes sociais vir-
tuais, talvez não sejamos nós que “surfarmos a onda” (da internet), mas
ela que nos surfa.
De acordo com Bauman (2005, p. 32), esse distanciamento vivido
e sentido por meio da rede de computadores contemporaneamente é
radicalmente distinto daquele experimentado por figuras características
da modernidade “sólida”, como os vagabundos das análises de Simmel,
os praticantes da desatenção civil de Goffman e, poderíamos acrescen-
tar, o flâneur de Baudelaire e Benjamin. Essas figuras das grandes cidades
do século XIX e início do XX (Berlin, Londres e, sobretudo, Paris) preten-
diam se colocar como espectadores dos“dramas urbanos”que ocorriam
nas ruas repletas de pessoas,
mas entravam nesse teatro sem se juntarem à companhia.
Distanciavam-sedaquiloqueviameobservavam.Masnãoerafácil
para eles distanciar-se do palco em que o drama se desenrolava:
a proximidade física podia ser facilmente confundida com a
proximidade espiritual. (BAUMAN, 2005, p. 32).
Emblemática, nesse caso, é a postura do flâneur retratada na poe-
sia de Baudelaire e interpretada por Walter Benjamin. Apoiado nesse
último e também em Rouanet (1999), Bassani (2008, p. 102-103) afirma
que o flâneur mantém com a multidão – aglomerado de pessoas que se
movimenta freneticamente pelos centros urbanos sem que se constitua
uma “comunidade”, um “nós” – uma postura ambígua: diferentemente
do passante comum, que se enfia na massa e nela se dilui, ele conserva
ainda sua individualidade colocando-se na margem, na“periferia”. O flâ-
neur despreza a massa, mas, ao mesmo tempo, é seu cúmplice, porque,
se por vezes ela se coloca como paisagem,“contemplada à distância”, em
outras ela é seu asilo, seu ninho acolhedor. Sua existência depende da
multidão de pessoas.
63Natalia Takaki; Jaison José Bassani
Além do flâneur, vale pensarmos também em outras personalida-
des que foram se construindo em decorrência das novas características
trazidas pela modernidade liquida, e que representavam uma ameaça
para a solidez, como o vagabundo, o turista e o jogador. Em seu livro
Vidas em Fragmentos, Bauman (2011) nos fala sobre cada um deles em
mais detalhes.
O errante, considerado aquele que vaga sem destino pré-determi-
nado, trazia insegurança e era malquisto por onde passava justamente
por ser seu objetivo uma incógnita. Sua liberdade era ameaçadora, pois
não respeitava barreiras e fugia ao controle do Estado. O enfraqueci-
mento da necessidade de fincar raízes fez com que o número de“errantes”
aumentasse nos tempos de liquidez, pois lugares que poderiam fornecer
condições adequadas para que eles se estabilizassem foram ficando cada
vez mais escassos; portanto, sua caminhada nunca chega ao fim.
No caso do turista, seu movimento parte de sua insatisfação com os
lugares em que já esteve e as experiências vividas proporcionadas por
cada lugar. O turista sempre está, nunca é do lugar. Seu objetivo é sempre
buscar novas experiências, novas sensações e emoções, nunca satisfeito.
Ao contrário do vagabundo, o turista se dá ao direito de não ser incomo-
dado, e não enfrenta uma realidade dura e de necessidades. Seu mundo
é estetizado, e, além disso, possui sua própria casa, ao menos em teoria,
algo que lhe proporciona certa segurança. Uma segurança de poder, e ter
para onde voltar, um lar que o espera caso canse de suas viagens.
O lar é o motivo que possibilita o turista a se aventurar, ir e vir, pois
sabe que, ao final de suas explorações em terras antes desconhecidas,
retornará a um lugar seguro e salvo, todo seu. Saber de sua existência
torna a empreitada mais prazerosa, lá é possível baixar a guarda, retirar
o escudo que o protege, e por isso sente-se bem em se fantasiar e ser o
que deseja ser enquanto esta fora.
O problema é que a aventura esta tomando o lugar da vida. O
fato de estar sempre se aventurando torna-se um estilo de vida, tor-
nando cada vez mais difícil reconhecer o que seria a vida e o que seria
64 CORPO E IDENTIDADE
a jornada. A certeza de que é possível retornar ao lar é um sentimento
futuro; se esse sentimento é transmitido ao presente, seu encanto e
fascínio se perdem, se apagam. “A possibilidade de o sonho de casa se
tornar realidade é tão assustadora quanto a possibilidade de nunca se
tornar”. (BAUMAN, 2011, p. 134).
Já o jogador gosta de viver uma vida rodeada de riscos. Em seu
mundo é preciso saber lidar com a sorte e o azar de cada jogo, seu
tempo é compartimentado em apostas, e ele preza por sua individua-
lidade, afinal de contas, seu jogo não é um jogo em equipe. Seu grande
objetivo é ganhar, portanto, não há lugar para compaixão ou coopera-
ção. Casamentos, relacionamentos duradouros, amizades, empregos,
são parte do jogo, e eles nunca se dão por inteiro, ele nunca joga“all in”,
como no Poker, para que sempre haja a possibilidade de continuar na
próxima rodada.
Em comum, essas personagens que caracterizam nosso mundo
moderno nos trazem a mensagem de que não mais estamos presos a
nada e nem a ninguém. Elas representam o movimento e a falta de com-
promisso, nos mostram como nos comportamos, mesmo que involunta-
riamente, em determinados momentos de nossas vidas.
Para Bauman (2011, p. 138),
elas [as estratégias da vida pós-moderna] estão todas em pé de
guerra contra as “marras”e consequências duradouras, e militam
contra a construção de redes duradouras de diretos e obrigações
recíprocos. Todas favorecem e promovem uma distância entre o
individuo e o outro e apresentam o outro sobretudo como objeto
de avaliação estética, não moral; como uma questão de gosto,
não de responsabilidade.
Os tempos mudaram e isso ninguém pode negar. Se valores, priori-
dades e autoridades não são mais as mesmas, a identidade também não
poderia ser. A modernidade abalou também o poder do Estado, pois não
há mais o desejo de manter sólido o sentimento de união de um povo
65Natalia Takaki; Jaison José Bassani
como nação, nos levando a crer que as identidades nacionais estariam
cada vez mais enfraquecidas, quase esquecidas. A queda das barreiras
protecionistas no mercado livra o Estado do patriotismo que uma vez
fizera questão de impor sob seus comandados. O mundo globalizado
não oferece segurança para a identidade de seus habitantes; não há
mais regras e nem posturas a serem respeitadas: “os direitos sociais são
substituídos um a um pelo dever individual do cuidado consigo mesmo
e de garantir a si mesmo vantagem sobre os demais”(BAUMAN, 2005, p.
35). Somos responsáveis por nossa própria identidade, estamos incum-
bidos da tarefa de autoconstrução, autodefinição, pois não há mais uma
instituição para nos apoiarmos, não há mais uma referência única para
seguirmos ou copiarmos. Estamos livres para sermos o que quisermos,
para fazer as opções que julgarmos mais convenientes e adequadas.
Insegurança e fragilidade são palavras constantes no contemporâ-
neo. Insegurança por não saber ao certo se o esforço que colocamos
em determinado investimento (financeiro e, sobretudo, subjetivo) trará
resultados ou recompensas. Afinal, em um mundo que está constante-
mente em movimento, o que se investe hoje pode não ser válido ama-
nhã. Carreira, relacionamentos, amizades, moda estão em constante
transformação. “Visualizar-se” no futuro, mesmo que próximo, em qual-
quer aspecto que seja, já não é mais tão fácil, pois, em meio a tantas
oportunidades e mudanças, se apegar a uma única previsão, a um único
“projeto”, passa a ser muito arriscado.
Por conta disso, acabamos construindo novos tipos de comunidade,
que Bauman (2005, p. 37) batizou de “comunidades guarda-roupa”, por
representar a atitude dos sujeitos perante eventos de sucesso momen-
tâneos, quando penduram seus problemas em cabides e os deixam
guardados e esquecidos até que o evento acabe, e, então, voltam ao
guarda-roupa para apanhar seus pertences e se dirigem à saída. Esses
eventos momentâneos estão em todo lugar: na capa das revistas de
fofocas e de notícias, na internet, nos programas de variedades da TV,
escândalos na vida das celebridades, reality shows, jogos de futebol, fil-
66 CORPO E IDENTIDADE
mes, crimes que ganham proporções nacionais, guerras, novos lança-
mentos da moda, até mesmo acontecimentos mundiais e de extrema
importância são esquecidos com imensa facilidade:
As comunidades guarda-roupa são reunidas enquanto dura o
espetáculo e prontamente desfeitas quando os espectadores
apanham os seus casacos nos cabides. Suas vantagens em
relação à “coisa genuína” são precisamente a curta duração de
seu ciclo de vida e a precariedade do compromisso necessário
para ingressar nelas e (embora por breve tempo) aproveitá-las.
Mas elas diferem da sonhada comunidade calorosa e solidária
da mesma forma que as cópias em massa vendidas nas lojas
de departamentos diferem dos originais produzidos pela alta-
costura... (BAUMAN, 2005, p. 37)
Nesse contexto, não há necessidade de aproximação, de envolvi-
mento com os outros, até porque esse outro está muito longe da rea-
lidade daqueles que tentam copiá-la ou que querem criticá-la, nos
tornando cada vez mais individualistas e sozinhos. Aparência e superfi-
cialidadetomamcontadocenáriodoespetáculo,oquenãocontribuiem
nada para aplacar a falta de segurança e no desafio de se afirmar como
sujeito portador de uma identidade (minimamente?) coerente. A liber-
dade e a falta de limites que antes provocavam excitação, agora se tor-
naram um fardo para todos os habitantes do mundo líquido-moderno:
Emnossomundode“individualização”emexcesso,asidentidades
são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e
não há como dizer quando um se transforma no outro. Na maior
parte do tempo, essas duas modalidade líquido-modernas de
identidade coabitam, mesmo que localizadas em diferentes
níveis de consciência. Num ambiente de vida líquido-moderno,
as identidades talvez sejam as encarnações mais comuns, mas
aguçadas, mais profundamente sentidas e perturbadoras da
ambivalência. (BAUMAN, 2005, p. 38; grifo do autor).
67Natalia Takaki; Jaison José Bassani
Outra categoria que jogou papel importante na definição das iden-
tidades no passado, a de classe social, também perde, no mundo líqui-
do-moderno, seu primado. A classe proletária, por exemplo, que por
tanto tempo tem lutado unida em prol de seus interesses, na atual fase
da modernidade perde essa característica tão marcante, uma vez que
a luta não é mais da classe e sim de cada um para se salvar no próximo
corte no quadro de funcionários; cada um buscando ser notado, valori-
zado pelo patrão para que seja lembrado de sua relevância no trabalho.
Isso tudo em decorrência de novas características que tomaram conta
das relações de trabalho em nossa sociedade, como por exemplo,
desregulamentação, terceirização internacionalizada, “subsidia-
riedade”, desengajamento administrativo, defasagem das “fábri-
cas fordistas”, uma nova “flexibilidade” dos padrões de emprego
e rotinas de trabalho, e de um desmantelamento gradual mas
implacável dos instrumentos de proteção e autodefesa dos tra-
balhadores [...]. (BAUMAN, 2005, p. 40).
Uma vez tão sólidas e agora tão inseguras, as relação de trabalho
acabam proporcionando o surgimento de sujeitos hesitantes não ape-
nas em relação às esperanças de uma mudança social radical, senão que
também em relação a investimentos de longa duração. A consequência
é a preferência por viver baseando-se em pequenos projetos, deixando
de lado a necessidade de uma identidade coletiva de classe, pois não há
mais interesses em comum que liguem os sujeitos a um ideal de uma
“boa sociedade” futura. Na modernidade líquida, cada um está por sua
conta e risco. Afinal de contas, o objetivo é absorver o máximo possível
enquanto dure o projeto, e em seguida“pular”para outro, sempre consi-
derando apenas o agora e não o amanhã (BAUMAN, 2005, p. 41).
Dessa forma,
novas bandeiras foram costuradas e erguidas, novos manifestos
elaborados,novoscartazesconcebidoseimpressos.Comoaclasse
68 CORPO E IDENTIDADE
não mais oferecia um seguro para reivindicações discrepantes e
difusas, o descontentamento social dissolveu-se num número
indefinido de ressentimentos de grupos ou categorias, cada qual
procurando a sua própria ancora social. Gênero, raça e heranças
coloniais comuns parecerem ser os mais seguros e promissores.
(BAUMAN, 2005, p. 42)
O resultado dessa fragmentação em massa foi o surgimento de
novos interesses, novas lutas, novos conflitos, agora entre os subgrupos
ou categorias, e, se antes já era difícil reunir-se em uma única metasub-
jetividade, agora essa tarefa torna-se praticamente impossível. Ao con-
trário do que possa se imaginar, adverte-nos Bauman (2005, p. 42-43),
essa fragmentação não melhorou em nada a discrepância em relação
à distribuição de renda, e a diferença em relação a ricos e pobres con-
tinuou a existir. Se, por um lado, a proliferação de bandeiras e campos
de batalhas chamou a atenção para aspectos negligenciados na luta de
classe, deslocando o foco dos aspectos econômicos sobre os quais se
assentava a construção de um“mundo melhor”, para a questão do reco-
nhecimento, respeito e destruição de estigmas de grupos e categorias,
por outro, provocou o silenciamento da discussão sobre a questão finan-
ceira que, segundo Bauman (2005, p. 43-44), está na origem de parte da
desigualdade e miséria humana.
Com a formação de subgrupos e também de categorias, a identi-
ficação passou a ser algo muito relevante na constituição dos sujeitos,
inclusive, como fator de estratificação e diferenciação social. Segundo
Bauman (2005, p. 44), há dois pólos nesse processo: em um extremo
se encontram “aqueles que constituem e desarticulam as suas iden-
tidades mais ou menos à própria vontade”, e, no outro, “se abarrotam
aqueles que tiveram negado o acesso à escolha da identidade, que não
têm direito de manifestar as suas preferências e que no final se vêem
oprimidos por identidades aplicadas e impostas por outros”. Para aque-
les que conseguem transitar entre identidades, podendo esconder-se
atrás de uma quando lhe interessa e assumir outra quando lhe con-
69Natalia Takaki; Jaison José Bassani
vêm, essa flexibilidade possibilita que esse indivíduo se adapte mais
facilmente a qualquer ambiente e situação. No entanto, o fardo pesa
sobre aqueles que não têm esse privilégio, uma vez que são identifica-
dos e não possuem uma identidade constituída por eles mesmos, e da
qual, inclusive, se ressentem, e passam a ser classificados, apontados,
excluídos, estereotipados, estigmatizados. Para estes não há espaço e
muito menos possibilidade para abandonar ou se livrar dessa identi-
dade imposta, e estão sempre expostos aos olhares e aos dedos dos
outros, que os identificam como bem entendem. O outro aqui se mos-
tra como o vilão do oprimido. Max Frisch, citado por Bauman (2005. p.
45), define a “identidade como a rejeição daquilo que os outros dese-
jam que você seja”.
Em uma posição ainda mais complicada estão aqueles que se
encontram naquilo que Bauman chama de “subclasse”: a estes não há
possibilidade nenhuma de identidade. Os sujeitos que se encontram,
aliás, que são enxotados para a subclasse, ficam à margem da sociedade,
privados dos seus direitos, de serem reconhecidos e respeitados como
sujeitos de bem:
Se você foi destinado à subclasse (porque abandonou a escola, é
mãe solteira vivendo de previdência social, viciado ou ex-viciado
em drogas, sem-teto, mendigo ou membro de outras categorias
arbitrariamente excluídas da lista oficial dos que são considerados
adequados e admissíveis), qualquer outra identidade que você
possa ambicionar ou lutar para obter lhe é negada a priori. O sig-
nificado da “identidade da subclasse” é ausência de identidade, a
abolição ou negação da individualidade, do “rosto” – esse objeto
do dever ético e da preocupação moral.Você é excluído do espaço
social em que as identidades são buscadas, escolhidas, construí-
das, avaliadas, confirmadas ou refutadas. (BAUMAN, 2005, p. 46).
Um dos resultados perversos da globalização em nossa sociedade
é o acumulo do “lixo humano”, expressão que Baunam utiliza para refe-
70 CORPO E IDENTIDADE
rir-se aos excluídos, uma vez que é cada vez maior o número que indiví-
duos que não se encaixam nos parâmetros do grupo dos“perfeitos”, dos
“normais”. A partir do momento que as identidades sociais deixaram de
ser definidas e determinadas pelas classes, para dar lugar à ramificação
dos subgrupos e categorias, os explorados deram lugar aos excluídos,
sem deixar de lado a miséria e as desigualdades sociais, que não dimi-
nuíram, muito pelo contrário, somente aumentaram ainda mais a fosso
entre os bons e os humilhados. (BAUMAN, 2005, p. 47).
Aos excluídos não há muitas possibilidades em aberto, ficando
assim vulneráveis a qualquer oferta que possa oferecer um mínimo de
esperança de deixarem essa condição de escória social. Para aqueles que
têm sua identidade negada, ou aqueles que são identificados ao invés
de optarem por sua própria identidade, as opções que lhes são ofereci-
das para se integrarem novamente na sociedade são mínimas.
Diferentemente do passado, não basta mais ser nato em determi-
nado Estado ou nação para ser considerado parte dela. Além do mais,
ser dependente dos meios públicos como a previdência, os serviços de
saúde, educação, por exemplo, caracteriza pobreza, incapacidade de se
auto-sustentar. A identidade, de qualquer tipo, para muitos é um sonho,
um objetivo distante, difícil de ser alcançado.
Pensemos mais cuidadosamente sobre as identidades pessoais,
que são comparadas por Bauman (2005) a montagem de quebra-ca-
beças, com o intuito de nos mostrar como essa construção é contínua,
imprevisível e incerta. As biografias, ao contrário dos quebra-cabeças,
não possuem uma imagem final a qual se deve buscar imitar, não são
fixas, não possuem peças exatas que se encaixam facilmente umas nas
outras. Aliás, as peças que compõem as biografias nem sempre estão
todas à disposição para serem usadas. O quebra-cabeça das identidades
pessoais não pode ser devolvido à loja em caso de defeito; sua inexati-
dão gera várias possibilidades de montagem e demanda do montador
maior esforço e imaginação. O resultado final da montagem de todas as
peças é meramente impossível, e, além do mais, o objetivo não é neces-
71Natalia Takaki; Jaison José Bassani
sariamente o resultado final, mas sim o processo, os meios que serão
utilizados para se tentar alcançar o fim.
O vislumbre do que se espera dessa construção é o que motiva e o
que nos guia durante a construção de nossas biografias. No entanto, é
preciso desvirtuar nossas atenções da ânsia de se chegar ao fim e voltar-
mos nossas atenções para o processo em si. Dessa maneira, estaríamos
construindo nossas identidades com aquilo que temos, fazendo uso das
peças disponíveis, ao invés de nos iludirmos com a possibilidade de algo
que não pode ser alcançado.
O fato é que, como o próprio autor atesta, a comparação entre a
construção das identidades pessoais ao quebra-cabeça é apenas par-
cialmente verdadeira, pois a construção de ambos é dada de maneira
diferente. Se, por um lado, o quebra-cabeça possui desde o início um
desenho que deve ser copiado, por outro, as identidades apenas utili-
zam “uma série de peças já obtidas ou que pareçam valer a pela ter, e
então se tenta descobrir como é possível agrupá-las e reagrupá-las para
montar imagens (quantas?) agradáveis. Você esta experimentando com o
que tem.”(BAUMAN, 2005. p. 55; grifos do autor). Além disso, as identida-
des pessoais são representadas por sua inexatidão, flexibilidade, plurali-
dade, enquanto que o quebra-cabeça é fixo, previsível.
Podemosdizerqueasoluçãodeumquebra-cabeçaseguealógica
da racionalidade instrumental (selecionar os meios adequados
a um determinado fim). A construção da identidade, por outro
lado, é guiada pela lógica da racionalidade do objetivo (descobrir
o quão atraentes são os objetivos que podem ser atingidos com
os meios que se possui). (BAUMAN, 2005, p. 55).
No passado essa relação era diferente. Antes da modernidade, as
identidades pessoais eram dadas pelo nascimento, portanto, sem mui-
tas escolhas a serem feitas por parte dos indivíduos. Entretanto, a par-
tir do momento que as identidades passaram a ser relacionadas com a
classe social, deixaram de ser tão óbvias e imutáveis, convertendo-se
72 CORPO E IDENTIDADE
em tarefas que os indivíduos necessitavam desempenhar por meio de
suas biografias. Os burgueses, por exemplo, eram identificados não por
terem nascidos na burguesia, mas sim pelo papel social que represen-
tavam de acordo com seu modo de vida. Ser burguês requeria viver,
pela vida inteira, como burguês, caso contrário sua identidade deixaria
de ser reconhecida como tal. Apesar de as identidades pessoais serem
sentidas como uma “jornada”, por assim dizer, ainda permanecia uma
grande certeza sobre a forma com que cada indivíduo deveria viver para
ser reconhecido como pertencente a uma determinada classe. “Acima
de tudo, essa forma parecia moldada de uma vez por todas. Podia-se
seguir a trajetória passo a passo, adquirindo as sucessivas insígnias de
classe em sua ordem adequada,‘natural’”(BAUMAN, 2005, p. 56). A preo-
cupação de que as características definidoras do modo de vida de uma
classe fossem deslocadas, se perdessem ou virassem em direção contrá-
ria antes de completado o percurso, algo muito comum no contemporâ-
neo, estava completamente ausente nesse momento histórico.
Sem os determinismos das eras pré-modernas, ficamos livres para
podermos optar, escolher, eleger, selecionar as características que
mais nos apetecem, sem termos de nos preocupar com uma verdade
intransigente. Apoiado em Alain Peyrefitte, Bauman destaca que essa
nova liberdade, representada pela auto-identificação, fez emergir uma
grande confiança, igualmente nova e sem precedentes, em nós mesmos
bem como nos outros, nas outras pessoas com as quais decidimos com-
partilhar essa liberdade, e que recebeu o nome, segundo Bauman (2005,
p. 56), de“sociedade”. Confiança na sabedoria coletiva, na confiabilidade
de suas instruções e na durabilidade de suas instituições.
Porém, tanta confiança demandou também certa coragem para
tamanha exposição, e, na prática, não foi bem essa a realidade. As bases
que poderiam sustentar e manter essa confiança foram logo se tor-
nando cada vez mais fluídas, instáveis e em constante transformação,
incapazes de fornecer uma sólida estrutura apropriada para amparar as
mudanças que estavam ocorrendo no processo das construções identi-
73Natalia Takaki; Jaison José Bassani
tárias. Tudo se torna fluído e momentâneo, em especial as estruturas e
as instituições. Nossos heróis não prevalecem por muito tempo no topo
da lista de figuras admiráveis, nem mesmo os galãs do cinema e da TV,
que vão e vem. Descobertas científicas, desastres naturais, novos presi-
dentes, tragédias nacionais e internacionais, ataques terroristas, últimas
tendências dos desfiles em Paris, lugares badalados, autores populares,
músicas, nada disso sobrevive por muito tempo. O surgimento ou acon-
tecimento dos fatos possuem uma data de validade que expira assim
que surge outra novidade.
Aqui valeria perguntar se toda essa liquidez, todas essas mudanças
contínuas e constantes valem a pena. Estar sempre em movimento é a
resposta para a felicidade? Como podemos “aproveitar” toda essa liber-
dade – que, como vimos, também não é para todos –, se não sabemos
ao certo para onde estamos caminhando? A resposta a essas perguntas,
que talvez nem sejam legítimas, estão longe de serem dadas. Porém,
uma coisa parece certa: não acompanhar esse movimento, essa fluidez,
é mau sinal; estar fixo e imutável pode nos conduzir à mencionada sub-
classe. O advento da modernidade líquida enfraqueceu os valores, as
instituições, e as estruturas da tradição, modificando a maneira como
estávamos acostumados a interpretá-las. Se antes o problema a ser
enfrentado era a rigidez e a inflexibilidade à qual éramos submetidos,
agora ele é completamente o inverso.
Podemos afirmar que o desafio contemporâneo seria o de fazer com
que as identidades não se esvaziem, não se tornem supérfluas diante de
tanta inexatidão advindas da falta de referências, dos momentâneos e
frágeis laços que criamos em nossos relacionamentos, e não o fato de
serem múltiplas e fluídas. As identidades não podem mais ser vinculadas
ao que não possui vínculo, como a permanência em determinadas
terras e fronteiras, a sexualidade, os laços de parentesco, o trabalho, as
gerações (BAUMAN, 2011).
74 CORPO E IDENTIDADE
COMUNIDADE E IDENTIDADE
A tentativa de reavivar as identidades nacionais retoma a discus-
são sobre o que seria seu fator determinante: o local de nascimento ou
ideais em comum? Para Bauman (2005, p. 68), isso seria uma tentativa
de fuga, uma maneira de negar o que já não pode mais ser negado, e, de
certa forma, um retrocesso:
Para pessoas inseguras, desorientadas, confusas e assustadas
pela instabilidade e transitoriedade do mundo que habitam, a
“comunidade” parece uma alternativa tentadora. É um sonho
agradável, uma visão de paraíso: de tranqüilidade, segurança
física e paz espiritual. Para pessoas que lutam numa estreita rede
de limitações, preceitos e condenações, pelejando pela liberdade
de escolha e auto-afirmação, a mesmíssima comunidade que
exige lealdade absoluta e que guarda estritamente as suas
entradas e saídas é, pelo contrário, um pesadelo: uma visão de
inferno ou da prisão.
O rumo que o mundo moderno tomou nos desestimulou a inves-
tir em projetos de longa duração. Ao não estabelecermos vínculos com
nada e com ninguém, e inseguros em investir em compromissos que
possam nos acorrentar, nos prender, não sabemos ao certo que tipo de
relacionamento gostaríamos de estabelecer, e se de fato gostaríamos de
estabelecer algum. Somos, assim, guiados por um sentimento, que, ao
mesmo tempo em que deseja ser amado e acolhido, é hesitante demais
para aceitar qualquer tipo de amarras.
Em contrapartida à toda essa inexatidão, à falta de definições, as
comunidades aparecem como um coringa na manga dos jogadores,
uma ferramenta que pode ser usada para dar certa segurança aos indi-
víduos, um sentimento de pertença que pode colocá-los de volta nos
trilhos e guiá-los a partir de interesses em comuns, capazes, mesmo que
momentaneamente, de aplacar o sentimento de incerteza.
75Natalia Takaki; Jaison José Bassani
Tanto nas comunidades antigas como nas comunidades moder-
nas o entendimento compartilhado pelos membros que a constituem
passa a ser a cola que os une, construindo um “circulo aconchegante”.
No entanto, para se alcançar esse estágio comum de entendimento é
preciso que todos o compartilhem de maneira natural e tácita. O vetor
que os une deve ser horizontal e não vertical, caso contrário, voltaríamos
a nos acorrentar à pilares sólidos e inflexíveis anteriormente derruba-
dos. Para Bauman (2003), só pode existir uma comunidade quando há
sinergia na execução dos acordos. Esses são naturais, nunca artificiais, e
o laço real de uma comunidade quebra-se quando “seus membros” são
forçados a apreciar, admirar, ou calar-se perante a necessidade desses
acordos produzidos artificialmente.
Uma comunidade se constitui diante da distinção entre nós e eles,
entre aqueles que estão dentro e os que estão fora da comunidade.
Autossuficiente e isolando-se das relações externas, a intenção da comu-
nidade não é expandir, mas manter-se pequena. Quando esses três atri-
butos se encontram em harmonia, não há necessidade de reflexão sobre
os acordos produzidos e mantidos; não há razões para se criticar o que
esta em voga e nem a vontade de experimentar novas sensações dispo-
níveis apenas do lado de fora. Sendo assim, a unidade da comunidade
depende da homogeneidade, da mesmidade (BAUMAN, 2003).
Porém, contemporaneamente, fica cada vez mais difícil manter
as barreiras, as fronteiras que cercam as comunidades. Elas estão for-
temente ameaçadas pela rapidez dos meios de comunicação, pelos
adventos tecnológicos, que nos proporcionam a circulação e trocas
de notícias a uma velocidade cada vez maior, além dos meios de
transporte mais eficientes que nos possibilitam maior agilidade de ir
e vir: “a fronteira entre o ‘dentro’ e o ‘fora’ não pode mais ser estabele-
cida e muito menos mantida” (BAUMAN, 2003, p. 19). Dessa forma, a
mesmidade se esvai quando essa diversidade adentra seu território,
transformando o que é de fora sempre mais relevante e atrativo do
que está dentro.
76 CORPO E IDENTIDADE
Assim, a unidade da comunidade é alcançada somente por meios
artificiais. E se a coesão interna, como vimos, é alcançada dessa forma,
ou seja, artificialmente, o vínculo que mantém a comunidade será frá-
gil, necessitando vigilância constante. A comunidade resultante será um
campo de batalha, que coloca seus membros em disputas constantes,
sempre vislumbrando a tão desejada segurança. O problema é que“uma
vez ‘desfeita’, uma comunidade, ao contrário da fênix com sua capaci-
dade mágica de renascer das cinzas, não pode ser recomposta” (BAU-
MAN, 2003, p. 20), partindo dai uma insegurança continua que assombra
seus membros.
Em resposta a essa constante sensação de incerteza, as apostas são
feitas nas identidades, que acaba traindo sua origem de substituta da
comunidade para atuar como uma promessa: a de ressuscitar a comuni-
dade perdida. Assim como a comunidade, a identidade trás a promessa
de segurança e durabilidade:
nenhuma das duas [identidade e comunidade] está à disposição
em nosso mundo rapidamente privatizado e individualizado,
que se globaliza velozmente, e por isso cada uma delas pode
ser livremente imaginada, sem medo do teste da pratica, como
abrigo de segurança e confiança e, por essa razão, desejada com
ardor. O paradoxo, contudo, é que para oferecer um mínimo
de segurança e assim desempenhar uma espécie de papel
tranquilizanteeconsolador,aidentidadedetrairsuaorigem;deve
negar ser“apenas um substituto”– ela precisa invocar o fantasma
da mesmíssima comunidade a que deve substituir. A identidade
brota entre os túmulos das comunidades, mas floresce graças à
promessa da ressurreição dos mortos. (BAUMAN, 2003, p. 20).
A identidade, lembremos, é um elemento do advento da
modernidade, portanto, sua característica excludente e classificatória
não deixou de existir. A identidade tão almejada constrói barreiras
que separam os diferentes, os desencaixados. Há nesse campo de
77Natalia Takaki; Jaison José Bassani
batalha uma luta constante entre liberdade e segurança, até agora sem
perspectiva de vencedores.
Enquanto buscamos nos libertar das amarras que nos prendem
a modelos pouco flexíveis de conduta, para que possamos “respirar ar
puro”, “correr pelos campos” sem preocupações, sem ter que se ater a
uma regra ou lei, queremos, ao mesmo tempo, que essa experiência seja
uma experiência sem riscos, sem medos, sem receios de que algo dê
errado. Um equilíbrio entre segurança e liberdade seria o modelo da feli-
cidade ideal. Uma liberdade que nos possibilitasse sermos o que quisés-
semos, agindo da maneira que bem entendêssemos, assumindo papéis,
identidades que não precisassem de vigilância constante, e que não nos
tornassem indivíduos indesejáveis por sermos apenas o que gostaría-
mos de ser. Para Bauman (2003, p. 26),“liberdade é a capacidade de fazer
com que as coisas sejam realizadas do modo como queremos, sem que
ninguém seja capaz de resistir ao resultado, e muito menos desfazê-lo”.
“A guerra contra a comunidade foi declarada em nome da liberta-
ção dos indivíduos da inércia da massa” (BAUMAN, 2003. p. 30). A ideia
era acabar com uma comunidade de hábitos fortes e fixos, para que seus
membros pudessem se adaptar aos novos modelos, e assim a comuni-
dade sucumbiu aos interesses político-econômicos.
A Revolução Industrial possui grande relevância para a compreen-
são desse processo, afirma Bauman (2003), pois ela colocou um limite
entre o trabalho antes artesanal (natural, comunitário) e o trabalho nas
fábricas. Para que houvesse uma adaptação aos novos modos de produ-
ção, a comunidade precisou deixar de existir, e, junto com ela, também
a inércia das massas.
O lar não era mais o local privilegiado de trabalho; a partir daquele
momento, esses dois lugares deveriam ser separados:
Para o empresário, a separação entre negocio e lar foi uma
verdadeira emancipação. [...] os homens e mulheres deveriam
primeiro ser separados da teia de laços comunitários que tolhia
78 CORPO E IDENTIDADE
seus movimentos, para que pudessem ser mais tarde redispostos
como equipes de fábrica. (BAUMAN, 2003, p. 33).
Esse novo ritmo de vida preza valores diferentes, associados ao tra-
balho e aos frutos que ele trás aos merecedores. É preciso fazer-se mere-
cedor das suas conquistas, ou seja, a riqueza torna-se sinônimo de êxito,
enquanto o seu oposto, a pobreza, torna-se um sinal de preguiça, de
descaso com a própria vida.
A elite é aquela que detém bens, tanto financeiros quanto culturais,
que são seletivos e gostam de se distanciar da massa: “o estilo de vida
‘cosmopolita’ dos novos atores em secessão não foi feito para imitação
das massas, e os‘cosmopolitas’não são apóstolos de um modelo novo e
melhor de vida, nem são a vanguarda de um exército em marcha.”(BAU-
MAN, 2003, p. 54). Eles não estão preocupados em pertencer, em buscar
uma comunidade para tomar parte, nem querem proteção ou segu-
rança; na verdade, eles se bastam a si mesmos. Já que supostamente
cada um fez por merecer o que possui, não estão interessados em saber
se a grande maioria, a massa, pode ou não pode usufruir das mesmas
experiências e mordomias que eles.
Outra mudança que acompanhou essa transição diz respeito ao
conceito de autoridade, que antes repousava sobre a família, a reli-
gião, os mestres, e agora se volta para figuras mais efêmeras, não tão
fixas, ou melhor, nada fixas, como eram as anteriores. As autoridades
que ditam as normas agora são as celebridades, a moda, a beleza.
Movemos-nos em direção a uma comunidade estética, que preza a
beleza e o visual.
As identidades e as comunidades compartilham de muitas seme-
lhanças, como a eterna construção e desconstrução, sempre em busca
de novas estratégias capazes de transmitir certa paz e proteção. Seu pro-
cesso, o“meio”ao qual nos referimos anteriormente, é sempre mais rele-
vante que o produto final, até porque esse é tão temido quanto a própria
incerteza do momento. Nas palavras de Bauman (2003, p. 62):
79Natalia Takaki; Jaison José Bassani
a construção da identidade é um processo sem fim para
sempre incompleto, e assim deve permanecer para cumprir sua
promessa (ou, mais precisamente, para manter a credibilidade da
promessa). Na politica-vida que envolve a luta pela identidade,
a autocriação e a auto-afirmação são cacifes, e a liberdade de
escolha é ao mesmo tempo a principal arma e o premio mais
desejado. A vitória final de uma só tacada removeria os cacifes,
inutilizaria a arma e cancelaria a recompensa. Para evitar que isso
aconteça, a identidade deve continuar flexível e sempre passível
de experimentação e mudança; deve ser o tipo de identidade“até
nova ordem”. A facilidade de desfazer-se de uma identidade no
momentoqueeladeixadesersatisfatória,oudeixadeseratraente
pela competição com outras identidades mais sedutoras, é muito
mais importante do que o “realismo” da identidade buscada ou
momentaneamente apropriada.
Uma comunidade estética está em congruência com a flexibilidade
e a maleabilidade que as identidades dispõem aos seus adeptos. Ela evi-
dencia a beleza e tudo que ela tem de mais efêmera. Assim, na busca
incessante em se fazer incluído, em possuir uma identidade que não seja
excludente, os indivíduos modernos acabam abraçando essa causa. Suas
identidades passam a se basear na moda, nos ideais de beleza e saúde,
nos eventos mais badalados, e seus heróis estão nas capas das revistas,
nos programas de televisão, na telona dos cinemas, nos outdoors.
Mesmo sem nos darmos conta, a adoração aos astros e às celebri-
dades acaba criando a sensação de uma “falsa comunidade”, pois seus
adoradores acabam construindo seu referencial baseando-se neles, par-
tilhando dos mesmos gostos e admirando as mesmas coisas. Sempre em
busca de terras firmes em que possam sentir-se seguros, nem que seja
até a próxima sessão de desfiles de moda. Na falta de referências, as cele-
bridades surgem como uma agradável ferramenta que pode, nem que
seja por um período curto de tempo, oferecer aos“perdidos”, aos“desen-
caixados”, uma oportunidade de sentirem-se participantes. Lembrando
80 CORPO E IDENTIDADE
que essa busca é sempre uma busca bastante individual, em que cada
um é o responsável por construir e desconstruir sua própria identidade
na intenção de manter-se em sintonia com as celebridades e a moda.
A comunidade estética pode também ser chamada de comunidade
“cabide”, já referida, pois uma característica marcante é a capacidade
que esse tipo de comunidade oferece de poder se livrar das aflições,
das preocupações, pendurando-as, deixando-as dentro do armário,
enquanto se aventuram em novas experiências, novas identidades, para
em seguida vesti-las novamente. Isso desenvolve nos indivíduos partici-
pantes das“comunidades cabides”laços muito frágeis, superficiais, tran-
sitórios e temporários.
Outra estratégia encontrada para suprir a necessidade de encon-
trar um porto seguro é o consumo, o qual “requer que a satisfação pre-
cise ser, deva ser, seja de qualquer forma instantânea, enquanto o valor
exclusivo, a única ‘utilidade’, dos objetos é a sua capacidade de propor-
cionar satisfação” (BAUMAN, 2005, p. 70). Terminado o poder de satisfa-
ção do objeto (ou do relacionamento), não nos sobra alternativa senão
nos livrarmos daquilo que já não possui mais utilidade, não importando
se esse objeto é inanimado – uma roupa, um brinquedo, um móvel – ou
um ser vivo (humano ou animal). O intuito é sempre o mesmo: termi-
nado o prazer, termina também a relação.
O consumo de objetos e relacionamentos é uma constante opor-
tunidade para nos criarmos e recriamos, sem que isso, paradoxalmente,
nos torne vazios, sem que nos tornemos “sujeitos sem subjetividade”.
Seria isso possível?
TRIBOS E IDENTIDADE
Sobre os temas das comunidades e das identidades, é importante
considerar também as contribuições de Michel Maffesoli, que, em cer-
tos aspectos, possuem convergência com as análises de Bauman, mas
também diferenças significativas. De maneira geral, podemos dizer que
81Natalia Takaki; Jaison José Bassani
Maffesoli possui um discurso positivado e certamente menos crítico, no
sentido da verificação dos limites da interpretação, em relação às comu-
nidades e às identidades no contemporâneo do que Bauman. Para o
autor francês, assim como para Bauman, apesar de possuírem caracte-
rísticas diferentes das antigas, as comunidades atuais não deixaram de
existir. Por conta disso, não viveríamos um clima de absoluta individua-
lização. Ao mesmo tempo, parece apontar elementos marcadamente
correspondentes às análises de Bauman sobre as características e causas
dessa mudança. Vejamos.
Maffesoli (1998, p. 103) nos diz que o conceito de socialidade marca
o espírito do nosso tempo, constituído pelas “agências informáticas,
as redes sexuais, as diversas solidariedades, os encontros esportivos e
musicais”. Essas agências, por sua vez, tomam o lugar que antes era ocu-
pado pela religião e seu corpo eclesial, entidade sólida, rígida, inflexível.
Além disso, outros elementos, como “Deus (e a teologia), o Espirito (e a
filosofia), o individuo (e a economia), cedem lugar ao reagrupamento.
O homem não é mais considerado isoladamente”, e a auto-suficiência é
substituída pela retroação (MAFFESOLI,1998, p. 104).
Esse viver junto, reagrupado, em socialidade e solidarismo, oferece
elementos que funcionariam como um pano de fundo para as identida-
des. Nesse quadro, o das identidades, o autor faz uso do termo estético,
entendendo-o como “a faculdade comum de sentir, de experimentar”
(MAFFESOLI,1998, p. 105).
Em suas análises, Maffesoli deixa de lado o sujeito-ator (individual)
para dar lugar aos objetos-grupo, que se multiplicam infinitamente e
que são mais abrangentes e pedem por um coletivo. Eventos esportivos,
multidões turísticas, seguidores de estilos musicais, fazem parte de uma
agenda do neotribalismo, constituído de características fluídas, superfi-
ciais, bem como dos objetos-grupo, o que nos levaria a reforçar a ideia
que esses agrupamentos, cada vez mais comuns em nosso tempo, cami-
nham para um enfraquecimento do individualismo. Para o autor, ao con-
trário do que imaginamos, nossas ideias e opiniões nunca são expedidas
82 CORPO E IDENTIDADE
a partir de nós mesmos, de maneira individual; estamos sendo influen-
ciados o tempo todo pelo grupo ao qual pertencemos, em uma relação
reciproca de trocas e influências.
De maneira quase animal sentimos uma força que transcende as
trajetóriasindividuais,ouantes,quefazcomqueestasseinscrevam
num grande balé cujas figuras, por mais estocásticas que sejam, no
fim das contas, nem por isso deixam de formar uma constelação
cujosdiversoselementosseajustamsobformadesistemasemque
a vontade ou a consciência tenham nisso a menor importância. É
este o arabesco da socialidade. (MAFFESOLI, 1998, p. 107).
Além disso, o autor também elege diferenças entre social e socia-
lidade. No primeiro caso, ou seja, no social, os indivíduos fazem parte
de um sistema, são apenas peças constituintes objetivando um grupo
estável. Já a socialidade pressupõe indivíduos mais atuantes, não ape-
nas constituintes, mas construtores das realidades que habitam, dos
diversos papéis que desempenham de acordo com seus gostos e dese-
jos. Essa diferenciação permite entender que os indivíduos não são tão
vítimas de seus destinos, mas responsáveis por eles. Podemos perceber
aqui uma divergência em relação à Bauman, pois, para o autor polonês,
os indivíduos estariam vivendo dentro de uma mecânica de sociali-
dade e não de sociedade. A função da socialidade seria, para Maffesoli
(1998), de anunciar a vinda de novidades, uma espécie de restauração
do antigo, transformação do velho em algo novo, junto a um sentimento
não de presente, mas de futuro.
Ao tratar dessa comparação, sociedade/socialidade, Maffesoli
aponta um elemento de muita relevância para nossa discussão, qual
seja, a aparência. Para ele, a aparência funcionaria como um vetor de
agregação, pois seria sobre a superfície das coisas, das pessoas, com suas
escolhas das vestimentas, dos estilos, por exemplo, que os agrupamen-
tos se estabeleceriam. É como se aqueles que compartilhassem de algo
em comum, como gosto musical, estilos de vida, moda etc., o fizessem a
83Natalia Takaki; Jaison José Bassani
partir de suas aparências. Partindo desse elemento, tão superficial e ao
mesmo tempo tão significativo, os indivíduos se uniriam, se agrupariam,
compartilhando interesses em comum e acordos estipulados.
Em sua obra O tempo das tribos, Maffesoli (1998) dá um tom posi-
tivo em relação à vida social, que seria vivida e determinada em grupo e
não individualmente, de forma solitária. Isso porque, para o autor, além
das aparências que podem ser um fator agregador, podemos conside-
rar outras características que os indivíduos de um mesmo grupo com-
partilham, como por exemplo, “comunidade de idéias, preocupações
impessoais, estabilidade da estrutura que supera as particularidades
dos indivíduos”. (MAFFESOLI, 1998, p. 112). Podemos ainda apontar a
comunicação verbal e não verbal para corroborar com o argumento. A
primeira se refere ao uso das línguas, idiomas; a segunda, não verbal, e
não menos importante, diz respeito às imagens, à música, às constru-
ções arquitetônicas, às formas, aos corpos.
Tempo houve em que se realçava tudo que era possível distinguir
num dado conjunto, tudo que se podia separar e particularizar.
Agora, cada vez mais, nos damos conta de que mais vale
considerar a sincronia ou a sinergia das forças que agem na vida
social. Isso posto, redescobrimos que o individuo não pode existir
isolado, mas que ele esta ligado, pela cultura, pela comunicação,
pelo lazer, e pela moda, a uma comunidade, que pode não ter
as mesmas qualidades daqueles da idade média, mas que nem
por isso deixa de ser uma comunidade. Esta é que precisa ser
destacada. (MAFFESOLI, 1998, p. 114).
Portanto, “estar junto”, fazer parte de um grupo, de uma tribo, de
uma comunidade, não diz respeito apenas a não ficar sozinho; é mais do
que isso, esse“estar junto”significa algo maior: a constituição de uma cul-
tura, o fortalecimento de um grupo, uma sociedade e sua história, afinal
de contas, pergunta-se o autor, o que seria de nós se desde sempre fosse-
mos apenas um, cada qual vivendo ao redor de seu próprio umbigo.
84 CORPO E IDENTIDADE
Outra importante contribuição do autor para a discussão é a defini-
ção do termo “rede”. Para o Maffesoli (1998), o fato de instituições con-
seguirem se agrupar, mesmo que de maneira inorganizada, de maneira
independente, ou seja, sem a participação do Estado, estaria criando
uma ordem anarquista, que permite o surgimento de“redes”. Essas redes
dariam aos indivíduos um esqueleto, um mapa, algo em que pudessem
se sustentar: “a lógica da rede. Quer dizer, algo que dá precedência do
calor afetivo, ou que, pelo menos, demonstra que este tem um lugar
privilegiado na estruturação ou no objetivo social”. (MAFFESOLI, 1998,
p. 122). Maffesoli também ressalta que os indivíduos estariam aptos a
fazer suas próprias escolhas quanto ao que lhes agrada ou não, ou ao
que gostariam de tomar parte ou não, e que ele chamou de“socialidade
eletiva”(MAFFESOLI, 1998, p. 121).
Considerando a lógica da rede, a imagem que obtemos é a de
vários grupos, cada um com seus próprios interesses e manifestações
em comum, agindo de acordo com seus ideais, crenças e, no entanto,
separados entre si. Cada grupo, atuando de maneira auto-suficiente,
acaba esquecendo-se do sentido de sociedade; consequentemente essa
compartimentalização gera muitos e diferentes estilos de vida. O fato é
que as perspectivas de um futuro promissor se esvaíram com o passar
do tempo, e o presente acabou tomando o seu lugar. Sobre esse aspecto
o autor faz um importante comentário a respeito das características das
modernidades que influenciaram na vida em sociedade, principalmente
considerando os estilos de vida das grandes cidades:
A Modernidade, ao mesmo tempo em que multiplicou a
possibilidade das relações sociais, esvaziou-as, em parte, de
todo conteúdo real. Esta foi, em particular, uma característica
das metrópoles modernas, e sabemos que esse processo não
contribuiupoucoparaasolidãogregáriasobreaqualtantosetem
falado. A Pós-modernidade tende a favorecer, nas megalópoles
contemporâneas, ao mesmo tempo o recolhimento no próprio
grupo e um aprofundamento das relações no interior desses
85Natalia Takaki; Jaison José Bassani
grupos. Fica entendido que esse aprofundamento não é sinônimo
de unanimismo, e tanto é assim que o conflito desempenha aí o
seu papel. (MAFFESOLI, 1998, p. 126).
O corpo, por exemplo, é uma forma de exibicionismo, de ostenta-
ção, na medida em que, por meio das aparências, podemos transmitir
uma imagem segura de nós mesmos. Por outro lado, quando olhamos
bem de perto, microscopicamente, poderíamos dizer, temos uma iden-
tidade fragilizada e insegura. Para o autor, são as “máscaras” que utiliza-
mos para não sermos reconhecidos: um corpo super tatuado, cabelos
espetados, coloridos, visuais que chamam atenção pela transgressão de
regras, que fogem do normal como é caso, por exemplo, dos cosplay,1
dos punks, dos góticos, entre outros.
A lógica da socialidade está assentada sobre a não obrigatoriedade,
a não imposição, bem como da partilha de ideias, interesses, hábitos,
objetivos. Seus membros se relacionam compartilhando os mesmos
rituais e “signos de reconhecimento específicos, que não têm outro fim
senão o de fortalecer o pequeno grupo contra o grande grupo.”(MAFFE-
SOLLI, 1998, p. 131).
O paradigma tribal, diz o autor, traria a responsabilidade da autono-
mia,nãomaisemsentidoindividual,eosgrupospassamasercompreen-
síveis apenas em seu interior, como um conjunto, não separadamente.
O tribalismo deve ser considerado, segundo o autor, pensando nas mas-
sas, nas redes que elas estabelecem, lutando contra a individualização
e segregação. No entanto, é importante lembrar que os nichos, apesar
de protetores e acolhedores, podem ao mesmo tempo ser excludentes,
1
	 De acordo com o site Cosplay Brasil, o termo surge da contração das palavras de origem
inglesa costume, que quer dizer fantasia, e das palavras play – brincar – e roleplay – interpre-
tar. A prática do cosplay“é um hobby que consiste em fantasiar-se de personagens oriundos,
em geral, de quadrinhos, games e desenhos animados japoneses.” Além dos quadrinhos,
outras mídias também influenciam na caracterização das vestimentas, como filmes, livros,
séries de TV etc. Disponível em: <http://www.cosplaybr.com.br/site/index.php/O-Que-e-
-Cosplay.html>. Acesso em: 14 mar. 2012.
86 CORPO E IDENTIDADE
geradores de racismo e ostracismo. Seria preciso, novamente, encontrar
um equilíbrio, um ponto de estabilidade, mas isso, com certeza, já seria
uma promessa difícil de ser cumprida. O desafio é conseguir unir as dife-
renças, fazer com que elas consigam coexistir sem que se transformem
em campo de batalha.
Enquanto Maffesoli nos fala que, no contemporâneo e seus tempos
de mudança, não há necessidade e nem possibilidade de cruzá-los sozi-
nhos, individualmente, e vê os grupos e tribos como sendo um elemento
agregador que, por mais que pareçam fechados, possuem membros que
compartilham dos mesmos princípios, costumes e crenças, Bauman, por
sua vez, vê na modernidade líquida um período de maior isolamento,
do “cada um por si”, pois, na medida em que somos obrigados a fazer
por merecer, a nos proteger da forma que for possível para não sermos
engolidos pelo outro, somos, cada um individualmente, responsáveis
por nossas condutas, escolhas e identidades.
Porém, nesse movimento de transformação, de agrupamento para
um e de individualização para outro, as mudanças e incertezas, a flexibi-
lidade, a liquidez, a espontaneidade, a insegurança, as múltiplas opções
e escolhas são características comuns. E é justamente por isso que, para
ambos os autores, os indivíduos buscam encontrar maneiras, sejam elas
quais forem, de forma privatizada ou em tribos, para se sentirem acolhi-
dos, seguros, despreocupados com a imprevisibilidade do futuro. Todos
estão em busca de uma vida menos onerosa, mais feliz, capaz de satisfa-
zer os desejos individuais.
Não sabemos bem ao certo qual o momento ideal de parar – se é
que isso é possível –, ou qual o momento exato para mudar, para seguir
rumo a uma “nova” identidade. Novas formas de identificação e “comu-
nidades” surgem a todo o momento e muitas ainda estão por vir, pois
inúmeros recursos (materiais e simbólicos) estão a nossa disposição e
encontramos/encontraremos diversas maneiras de usá-los para esse
fim. Não há dúvidas que a mídia, as tecnologias e seus desdobramen-
tos sociais influenciaram de maneira nunca antes testemunhada nesse
87Natalia Takaki; Jaison José Bassani
campo. Agora, cabe a nós tentarmos compreender quais são suas con-
sequências e quais possibilidades de nos relacionarmos com elas, pois
certamente não há como negá-las.
Pensar sobre a identidade é dialogar com a diversidade, com possi-
bilidades infinitas e desdobramentos surpreendentes. Se já não é mais
recomendado que nos fixemos a determinadas características por longo
período de tempo, é preciso também encontrar maneiras de se evitar
que haja um esvaziamento da subjetividade.
CORPO E IDENTIDADE
Em tempos de curta durabilidade, em que tudo possui data de
validade, sobram poucas coisas nas quais valha a pena investir: produ-
tos, moda, relacionamentos, estilos de vida, entre tantos outros, estão
fadados a caírem no esquecimento depois de um tempo. Considerar
situações futuras ou passadas também parece pouco producente, pois
o importante é o momento, o agora. No entanto, talvez uma das únicas
coisas que não pode ser descartada, apesar do aparente desejo, é nosso
corpo. Apesar de também ele poder ser alvo dos mais diferentes modis-
mos, permanece, em sua materialidade, como experiência irrenunciável
de nossa história individual e coletiva.
Investir no corpo talvez seja uma das únicas coisas que faz real sen-
tido no mundo líquido-moderno: como não podemos dele nos livrar,
como já diziam Hokheimer e Adorno (1985) nos anos de 1940, nós o glo-
rificamos, o exaltamos, fazendo com que renda o máximo de sua capaci-
dade. Por essa razão, talvez seja possível compreender o que motiva os
indivíduos a investirem tanto tempo, dinheiro e esforço na tentativa de
prolongar a vitalidade do corpo. Muitas horas de academia por semana,
sacrifícios na alimentação com dietas rigorosíssimas, cirurgias plásticas,
clínicas de estética, revistas e mais revistas que tratam de questões vol-
tadas à saúde, salões de beleza, uso de cosméticos, são apenas alguns
exemplos de atividades diárias e rotineiras que realizamos para manter-
88 CORPO E IDENTIDADE
mos nosso corpo em compasso com presente; um corpo atual e repagi-
nado, que esteja acompanhando a velocidade das renovações. Possuir
um corpo mal cuidado, não belo, que apresente ou porte pouca saúde,
representa um anacronismo quase intolerável no contemporâneo. Tal-
vez por isso ele se constitua no principal âmbito da investidura subjetiva.
A questão das identidades nos causa tanto desconforto, nos deixa
tão agitados e inquietos porque é algo que diz respeito a todos nós,
independentemente de sabermos ao certo qual identidade nos per-
tence: coletivas, individuais, nacionais, étnicas e raciais, sexual, se várias
ou nenhuma. Não há dúvidas de que a identidade é um conceito alta-
mente contestado, um território de batalhas que nunca esteve em paz
com todas as partes. “A identidade é uma luta simultânea contra a dis-
solução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo
uma recusa resoluta a ser devorado...”(BAUMAN, 2005, p. 84).
Nessa disputa é preciso estar sempre atento para não se deixar
dominar, para que os interesses pessoais, ou de um grupo ou tribo, sejam
mantidos e respeitados também por aqueles que não compartilham dos
mesmos ideais, para que as características locais não sejam engolidas
pelas globais, ao mesmo tempo em que não se pode, e não se consegue,
isolar-se completamente dos elementos exteriores à realidade local. É
uma luta incessante pela liberdade, para que se possa transitar entre
identidades sem se perder, expressar-se sem medo, fazer as próprias
escolhas. Além disso, almejamos segurança: de pertencer a algum lugar,
para poder ter terra firme, algo em que se possa confiar, que possa ser
um refúgio, um abrigo, caso algo dê errado nessa aventura.
Infelizmente as identidades não estão sempre“disponíveis”para todos
a todo o momento. Na realidade, a identidade cataloga, classifica, aponta,
seleciona, separa o que lhe interessa. E, como toda seleção, envolve tam-
bém exclusão: “as batalhas de identidade não podem realizar a sua tarefa
de identificação sem dividir tanto quanto, ou mais do que, unir. Suas inten-
ções includentes se misturam com (ou melhor, são complementadas por)
suas intenções de segregar, isentar e excluir.”(BAUMAN, 2005, p. 85).
89Natalia Takaki; Jaison José Bassani
É um processo que não possui data ou previsão para terminar.
Necessitamos das identidades para nos afirmarmos como sujeitos, para
representarmos nossos gostos, para que possamos, ao mesmo tempo,
ser reconhecidos e reconhecer os demais. Em um mundo no qual a visão
se tornou um elemento preponderante, as identidades se tornaram uma
oportunidadedecolocarnopalconossopróprio“show”,nos“apresentado”
(transformando-nos e adaptando-nos) conforme a“platéia”.
O corpo, induzido pelo movimento de liquefação da modernidade,
também passou por modificações significativas. Talvez não tanto como
organismo, pois permanece estruturalmente o mesmo, mas o entendi-
mento que temos dele e de suas possibilidades e virtualidades.
Na modernidade sólida o corpo deveria ser produtor de trabalho, de
riquezas, como no caso do operário, ou, como o corpo de um soldado,
sempre a postos, deveria ser vigoroso, capaz de responder com força
sempre que preciso. A saúde, item essencial nessa representação, deve-
ria ser mantida para que este corpo pudesse desempenhar seu papel.
Nesse sentido, a doença deveria ser combatida veementemente, pois
seu portador corria o risco de ser um desviante, porque inútil. Na medida
em que corpo vigoroso travava uma batalha contra a incapacidade, a
nutrição torna-se instrumento precioso para a manutenção desse corpo
robusto. O alimento era a fonte geradora de energia que capacitava o
soldado e o trabalhador, devendo ser consumido na quantidade neces-
sária, sem excessos. O que transpusesse essa quantia necessária era con-
siderado luxo ou imoral (BAUMAN, 2011).
Em contraposição a esse corpo robusto – e rígido –, a moderni-
dade líquida valoriza um corpo que preza pelas experiências, enquanto
receptor de sensações, instrumento de prazer, que consequentemente
nos conduzirá à boa forma. O vilão desse corpo é a apatia, o desânimo, a
preguiça, a inércia, assim como as doenças, que agora são enfermidades
do consumo, como a depressão. Esse corpo busca incessantemente por
prazeres: sexuais, gastronômicos e/ou advindos da prática de exercícios
físicos. Aqui o foco não é o desempenho físico propriamente, e sim as
90 CORPO E IDENTIDADE
sensações que essa prática causa no corpo, medidas por meio de sua
performance. O modelo de corpo belo e perfeito começa a dar seus pri-
meiros passos quando a medicina entre no jogo e estipula padrões de
normalidade e anormalidade (BAUMAN, 2011).
Os desviantes da modernidade líquida são outros e a guerra é tra-
vada contra os gordos, os fumantes, os sedentários, os idosos, pois todos
representam corpos fracos, disformes, portadores de anormalidades,
que se distanciam do ideal da boa forma, de saúde.
Em nome da normalidade, da conquista pelo corpo perfeito, do
prazer, da experiência de novas sensações, topamos qualquer esforço e
sacrifício. O problema é que não alcançamos esse ideal nunca. É como
a água que se esvai por entre os dedos: é possível tocá-la, mas nunca
retê-la. Sempre buscamos e de alguma forma alcançamos aquele que
achamos ser o modelo ideal, surge mais uma experiência, mais uma
novidade, mais um produto, mais uma dieta, mais um treinamento,
mais um tipo de intervenção, que devemos usar, provar, sentir, prati-
car. O corpo belo, sinônimo de corpo jovem, normal, não é compatível
com o envelhecimento que bate a nossa porta todos os dias, nos lem-
brando que essa dimensão da vida não é opcional. Por isso, deve ser
combatido veementemente e de forma individual, ou seja, de maneira
privatizada. É responsabilidade de cada um cuidar de si mesmo e tra-
balhar de tal maneira que seu corpo se encaixe nos padrões, para que
não seja apontado como desviante. O medo de ser diferente e de ser
deixado à margem é o que move essa engrenagem. Sendo assim, é
preciso estar atento, protegido, vigilante consigo mesmo para evitar os
excessos, os desvios:
Proponho que esse produto da“privatização”do corpo e das agên-
cias de produção social do corpo é a“cena primordial”da ambivalên-
cia pós-moderna. Ela empresta à cultura pós-moderna sua energia
desconhecida, uma compulsão interior por estar em movimento. É
também uma causa fundamental, talvez a principal, de sua embu-
tida tendência ao envelhecimento instantâneo, a inquietação neu-
91Natalia Takaki; Jaison José Bassani
rótica,“rizomática”, aleatória, caótica, confusa, compulsiva da cultura
pós-moderna com sua asfixiante cessão de modas e manias, desejos
efêmeros, esperanças passageiras e medos horrendos, devorados
por temores ainda mais horrorosos. (BAUMAN, 2011, p. 162).
Como citado anteriormente, Maffesoli (1998) acredita que a aparên-
cia é elemento agregador de modo que o corpo também se transforma
em linguagem. A imagem que esse corpo transmite é capaz de expres-
sar inúmeros significados, voluntários ou não, que acabam por classifi-
car, elegendo certos indivíduos a determinados grupos, selecionando
os estranhos, agregando para si seus semelhantes. O corpo e as iden-
tidades caminham juntos quando pensamos nas funções que acabam
desempenhando em nosso tempo.
Quando falamos de aparência é preciso considerar também suas
variações, como a moda, a arte, o cinema e o teatro, a televisão. Devemos
pensar nesses âmbitos como um conjunto que representa não somente
o externo, a casca, mas também seus significados e sentidos que per-
passam a imagem. Estamos, assim, falando sobre suas formas, ou seja,
da totalidade de cada um dos elementos que compõe uma sociedade.
Pensar na forma, diz Maffesoli (1996), nos faz adentrar as camadas mais
superficiais, consideradas, até então, menos importantes, fúteis, para
tentar compreender a mecânica do corpo social, descrevendo seus ritos,
seus estilos de vida, suas interações tribais.
Assim, pode-se imaginar que cada fragmento é em si significante e
contém o mundo na sua totalidade. É esta a lição essencial da forma.
É isto que faz da frívola aparência um elemento de escolha para
compreender um conjunto social. Pois suas diversas modulações,
por aglomeração, por sedimentação, vão, num certo momento,
determinar o ambiente da época. (MAFFESOLI, 1996, p. 141).
Essas ditas futilidades, quando encaradas de tal forma que não se
encontrem no fim da fila de uma hierarquia de poderes, de nível de
92 CORPO E IDENTIDADE
importância; quando as formas, as imagens passam a ser relevantes,
então, é possível compreendê-las e entender como elas ainda se conser-
vam, como se mantém ativas e produtivas a cada dia que passa. A moda,
por exemplo, é uma manifestação das mais ricas, se atentarmos para seu
apelo visual, que apesar de ser apontada por muitos como supérflua, tolice,
exageros de vaidade, faz-se presente, e muito presente, diga-se de passa-
gem, em todas as épocas, nos mais diversos e longínquos lugares do pla-
neta.Dessamaneira,aodaratençãoàsformas,àsimagens,àsaparências,ao
fator estético de cada manifestação, o corpo passa a ser um convite atra-
tivo para se pensar as culturas e os estilos de vida que as representariam.
Maffesoli (1996, p. 145) chama isso de formismo, e acrescenta qua-
tro elementos essenciais nessa construção da valorização da forma: “a
prevalência do sensível, a importância do ambiente ou do espaço, a pro-
cura do estilo e a valorização do sentimento tribal”. Juntos esses elemen-
tos nos apontam, consequentemente, que “cada cultura é definida pela
acentuação que vai dar às suas relações sociais, em seu ‘exterior’ ou em
seu‘interior’”(MAFFESOLI, 1996, p. 145).
É nesse jogo de apreciar o que está fora para se compreender o que
esta dentro, de valorizar o produto da embalagem antes de atestar sua
qualidade,deconsiderarqueacascapodesimprotegerumlindointerior,
que o corpo ganha espaço e torna-se um representante por excelência
do formismo. Afinal de contas, o homem se faz existir por meio de seu
corpo; fazemo-nos presentes pelo espaço que nossos corpos ocupam; o
espírito nada tem de material sem um corpo, de forma que é imprescin-
dível a posse de um corpo para“comprovar”nossa existência.
No entanto, quais seriam os limites e consequências desse corpo
espetáculo, desse corpo que fica à mostra, sendo o fio condutor de nos-
sas experiências, de nossas relações? Como poderemos depositar todas
nossas fichas tranquilamente em algo que se esvai com o tempo, do
qual não podemos renovar e nem trocar por um modelo mais novo? Até
que ponto vale a pena investir nesse corpo, tão arcaico, defasado, que
fica doente, que se machuca, que pode se deformar?
93Natalia Takaki; Jaison José Bassani
Se o corpo é ferramenta de existência, então as identidades tam-
bém passam a ser dependentes dele. Migra para o corpo o fator pre-
ponderante na definição das identidades. Se o“significado conta menos
que o signo”(MAFFESOLI, 1996, p. 155), então é preciso dar atenção para
as aparências. Se a identidade representa o lugar no qual os indivíduos
almejavam repousar, é preciso que seus corpos e as imagens produzidas
por eles sejam capazes de cumprir com seu papel. As aparências e o que
fazemos delas funcionam perfeitamente nessa empreitada identitária,
afinal de contas,“para ser, a vida deve parecer”(MAFFESOLI, 1996, p. 157).
E é nesse parecer que acabamos criando outros mecanismos de
comunicação diferentes do que o oral, o falado, mas com a mesma,
ou talvez maior, eficácia. Ao tratar do corpo que se pavoneia, Maffesoli
(1996) fala sobre o significado das vestes das mulheres de mercadores
de Osaka, no Japão, que, para ostentar a riqueza e fartura de seu esposo,
usavam quimonos feitos com os mais finos tecidos. Uma roupa que
representava muito mais do que apenas o estar vestido, e que simboli-
zava o status social e a situação econômica de sua família.
De certa forma, o oriente e o ocidente não se diferenciaram muito
nesse ponto: o corpo e os adornos que pode carregar comunicam signi-
ficados. Nas palavras do autor:
[...] isso significa reconhecer os atestados de nobreza do “frí-
volo”: moda, “design”, estilismo, etc., como participando do
terreno no qual vai crescer o imaginário social. Assim, o corpo
que se pavoneia, referindo-se a alguns exemplos sócio-antropo-
lógicos que dei, é causa e efeito de toda socialidade dinâmica.
É também, como se compreenderá facilmente, a manifesta-
ção privilegiada da estética, no sentido preciso que dou a esse
termo: o de experimentar junto emoções, participar do mesmo
ambiente, comungar dos mesmos valores, perder-se, enfim,
numa teatralidade geral, permitindo, assim, a todos esses ele-
mentos que fazem a superfície das coisas e das pessoas, fazer
sentido. (MAFFESOLI, 1996, p. 163).
94 CORPO E IDENTIDADE
É muito provável que a ânsia em copiar, em tentar ficar ao máximo
parecido com as celebridades e estrelas da mídia, nem que seja apenas
por instantes, tenha sua origem, em parte, no fato de nossas identida-
des terem se corporificado, em termos nos tornado imagens de nós
mesmo, diminuindo ou mesmo erradicando a diferença entre ser e pare-
cer (SANT’ANNA, 1995). Copiar, imitar o que é socialmente aceito trás
um sentimento, mesmo que efêmero e frágil, de pertencimento e até
mesmo de segurança.
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CORPO, EDUCAÇÃO E EPISTEMOLOGIA:
ALGUMAS QUESTÕES
Filipe Quintão de Almeida
Fabio Zoboli
Miguel Angel García Bordas
RESUMO: O artigo é um recorte de uma pesquisa teórica que investiga as rela-
ções entre corpo, epistemologia e educação. Parte da premissa de que o corpo
tem, nos últimos anos, se apresentado como objeto de estudo na educação.
Discorre sobre algumas problemáticas epistemológicas que interessam à refle-
xão sobre o corpo. São elas: os binarismos corpo/mente e natureza/cultura e o
debate a respeito do “homem pós-orgânico”. Conclui ao apontar desafios para
a educação.
PALAVRAS-CHAVE: Corpo; Epistemologia; Educação.
98 CORPO, EDUCAÇÃO E EPISTEMOLOGIA
INTRODUÇÃO
A relação entre corpo e educação não ocupou, pelo menos até
meados da década de 1990, o cerne das preocupações pedagógicas –
inclusive daquelas perspectivas consideradas críticas, como apontam
Soares (1999) e Silva (2000a). Não sem motivo, portanto, que periódicos
educacionais importantes –“Caderno Cedes”(1999),“Educar em Revista”
(2000), “Educação e Realidade” (2001), “Perspectiva” (2003, 2004) e “Pro-
-posições” (2004), Revista da Faculdade de Educação da UFBA – FACED
(2011) e “Atos de pesquisa em Educação” (2012) – publicaram números
temáticos ou dossiês cuja questão central enfocasse a relação, a partir de
distintos vieses, entre corpo e educação.
O corpo é central não só na esfera da Educação, mas no contexto das
mais variadas ciências e campos epistemológicos, pois o existir humano
se dá através do corpo – o corpo é o meio pelo qual nos utilizamos para
experimentar o mundo, para existir no mundo. O ser humano é presença
no tempo e no espaço como corpo/ desde o corpo/ através do corpo/
sendo corpo. Somente existimos pelo e com o corpo, pelo e com o corpo
o humano estabelece suas relações consigo mesmo, com o outro e com
o mundo/natureza. “O corpo é o primeiro e o mais natural instrumento
do homem”(LE BRETON, 2009, p. 39).
Em sua espacialidade própria, descontínua, o corpo disponibiliza
desde componentes físico-químicos à signos que definem a
condição humana e as possibilidades de comunicação, que
tem conformado o interesse de diversas disciplinas científicas,
filosofias e modelos de educação. (NÓBREGA, 2006 p. 65)
Desta forma entendemos o corpo neste escrito a partir de sua
extensão representacional no campo do cultural, ou seja, o corpo é
aqui apresentado como vetor semântico pelo qual a evidência da rela-
ção com o mundo é construída. Para Bártolo (2007), onde se encontra
um corpo dever-se-á encontrar também uma rede de relações instru-
99Filipe Quintão de Almeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas
mentais, uma série em funcionamento, de operadores epistêmicos,
uma lógica de produção de sentidos, de um determinado sentido legiti-
mador da rede de relações, do funcionamento dos operadores, do pró-
prio procedimento das lógicas produtivas. O corpo enquanto objeto de
pesquisa sob o viés da filosofia e das ciências é algo a ser significado,
neste sentido Le Breton (2009 p.24) afirma que “qualquer questiona-
mento sobre corpo requer antes a construção de seu objeto, a eluci-
dação daquilo que subentende”. E continua “O ‘corpo’ é uma linha de
pesquisa e não uma realidade em si”(LE BRETON, p.33, 2009).
Quando estudamos e escrevemos sobre o corpo e suas questões
epistemológicas, na perspectiva de pensar desafios para a educação,
logo somos tomados por uma dificuldade, pois várias questões nos
parecem escapar pela complexidade e abstração que suscitam. Por isso,
já nos justificamos, baseados em Silva (2006, p. 91), que
O reconhecimento de que o todo não é apreensível, de que
a totalidade não é cognoscível, de que algo escapa ao ser
humano, poderia se tornar um indicativo importante para a
existência humana, assim como para uma problematização
epistemológica da corporeidade, inclusive porque esta possui
aspectos não conceituáveis, o que impediria a plenitude de
uma concepção científica.
Considerando este alerta, este artigo tem a intenção de discorrer
sobre algumas questões epistemológicas relacionadas ao corpo. São
elas: os binarismos corpo/mente e natureza/cultura e o debate a res-
peito do advento de uma nova figura antropológica: o “homem pós-or-
gânico”. Na sequência, como conclusão, apresentamos desafios dessas
problematizações para a educação.
100 CORPO, EDUCAÇÃO E EPISTEMOLOGIA
OS BINARISMOS CORPO/MENTE E NATUREZA/CULTURA
Uma análise na contextualização histórico-filosófica do homem nos
faz perceber que este foi compreendido sob duas esferas: a mental e a
corporal, como se fossem substâncias distintas. A visão cindida de ser
humano em corpo/mente não implica, somente, duas realidades com
status ontológicos e epistemológicos construídos de modo indepen-
dente; ela pressupõe, também, a predominância da mente em relação
ao corpo e a subordinação deste a ela. Compreendemos, além disso, que
a cisão humana corpo/mente é uma idealização materializada historica-
mente por meio de jogos de saber/poder, veiculada a partir de regimes
de verdade, símbolos culturais e imaginários sociais que se encarnaram
na história e nos sujeitos – subjetivando e objetivando-os – sustentando
um determinado sistema de produção econômica.
Esses dualismos remetem a todo um contexto semiótico/linguístico
que dificulta concebermos de outro modo a relação mente/corpo, pois
estamos subjetivados por uma cultura sob a qual se organizam aspectos
de significação, de semântica, de linguagem que limitam nosso entendi-
mento dessa questão. Searle (1997, p. 25) nos ajuda a compreender tal
quadro ao mencionar que:
Junto com a tradição cartesiana, herdamos um vocabulário, e,
como vocabulário, um determinado conjunto de categorias,
dentro das quais estamos historicamente condicionados a
raciocinar sobre esses problemas. (...) O vocabulário inclui uma
série de oposições aparentes: ‘físico’ versus ‘mental’, ‘corpo’ versus
‘mente’,‘materialismo’versus‘mentalismo’,‘matéria’versus‘espírito’.
A cisão corpo/mente é culturalmente próxima de outras“epistemes”
binárias clássicas, como sujeito/objeto, matéria/espírito, masculino/
feminino, biológico/social, vida/morte, presença/ausência, interiori-
dade/exterioridade, homem/mundo. Desses, o dualismo natureza/cul-
tura é exemplar para compreendermos o status que tem sido reservado
101Filipe Quintão de Almeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas
ao corpo na modernidade. No que tange a este dualismo e os desafios
epistemológicos que ele suscita para a produção do conhecimento em
Educação, Silva (2006) menciona que:
Tratar da temática do corpo a partir de uma perspectiva
epistemológica, implica em nos confrontarmos com sua
complexidade, considerando que o corpo se mostra situado
na interconexão entre a cultura e a natureza, entre o biológico
e o social, segundo algumas dualidades modernas, sendo
integralmente de ambos os domínios. (SILVA, 2006, p. 75).
Ainda neste sentido, na interpretação de Vaz (2003, p. 124),
Pensarsobreocorpoexigequeseconsidereaseparaçãoancestral
entre cultura e natureza, entre uma dimensão corporal e outra
que não seja. Essa separação outra vez, só pode ser não real, na
medida em que se trata de um mesmo sujeito que não pode ser
cindido, a não ser prototipicamente. A separação é, também, no
entanto, real, já que é fundadora de nossa civilização, que a supõe.
Mais que isso, ela é expressão de uma experiência que se atualiza,
que é de dor e sofrimento, porque a cisão é violenta: trata-se da
redução do corpo a objeto a ser conhecido e dominado.
A história do corpo, na modernidade, foi primordialmente marcada
pela tentativa de culturalizá-lo a partir da compreensão de que ele fazia
parte da natureza. Como natureza, o corpo era o “outro” que precisava e
podia ser controlado para que a razão pudesse realizar seus feitos. Essa
perspectiva originou inúmeras tecnologias corporais cuja característica
genérica, com o advento da ordem industrial, foi a manipulação cor-
poral de caráter disciplinar-repressivo com vistas ao desenvolvimento
do corpo produtivo. Nesse tipo de paisagem cognitiva, como observou
Najmanovich (2001), o sujeito não pertencia ao quadro por ele mesmo
pintado, uma vez que sua materialidade corpórea era prescindível na
vida do sujeito desencarnado ou desencantado.
102 CORPO, EDUCAÇÃO E EPISTEMOLOGIA
Embora muitos autores tenham denunciado esse processo de des-
somatização da alma ou espiritualização do corpo, entendemos que a
célebre descrição oferecida por Adorno e Horkheimer (1985), no excurso
I da Dialética do Esclarecimento, é ímpar para caracterizá-lo. Conforme a
arquiconhecida argumentação dos autores nesse livro, mediante o uso
de sua razão, Ulisses, o protótipo do sujeito moderno, constrói sua sub-
jetividade a partir do domínio da natureza externa à sua consciência.
Mas não só isso: a forja da identidade de Ulisses como sujeito está asso-
ciada ao sacrifício de parte de si mesmo, daquilo que é mais vivo, pelo
mecanismo da renúncia à satisfação imediata e ilimitada das pulsões.
Ao abdicar da dimensão sensível para assegurar sua sobrevivência e de
seus subordinados, a saga vivida por Ulisses traz indícios de que o sensí-
vel (ou a dimensão corporal) é impertinente para o desenvolvimento do
sujeito cognoscente (esclarecido). A viagem de Ulisses retrata a domi-
nação de nossa natureza interna, mediante o sacrifício e a subjugação
do corpo a uma racionalidade subjetivista e instrumental que conferiu
àquela dimensão um status secundário, transformando, assim, nossa
noção de sujeito histórico em uma categoria essencialmente mentalista.
Na obra daqueles dois autores, o imemorável processo de dominação da
natureza (externa e interna) se apresenta sem disfarces na dominação
totalitária, momento em que um poder sobre a vida transforma-se no
paradigma político do cotidiano.
No rastro deixado por essa concepção de sujeito desencarnado tem
havido, como destaca Doel (2001), lamentação, alegria, nostalgia, res-
tituição, ressurreição, substituição e corporificação. Essa corporificação
tem transformado o status do corpo, o que constitui, conforme Eagleton
(1993), uma das mudanças mais importantes do pensamento radical
presente. Ainda para Eagleton (1993), essa transformação originou-se,
em parte, de uma hostilidade pós--estruturalista e/ou pós-modernista
à consciência, atribuindo ao corpo uma dignidade filosófica bem dis-
tinta daquela radicalizada pelo cartesianismo. Nas palavras do filósofo
Deleuze, um dos nomes responsáveis por essa virada em direção ao
103Filipe Quintão de Almeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas
corpo, agora“[...] o corpo não é mais o obstáculo que separa o pensamento
de si próprio, aquilo que tem que ser superado para se chegar ao pensa-
mento. É, ao contrário, aquilo no qual o pensamento mergulha, a fim de
chegar ao impensado, isto é, à vida”(DELEUZE, apud DOEL, 2001, p. 82).
Admite-se, agora, que nem a consciência nem o corpo constituem
duas substâncias ou elementos opostos, que se definiriam por atribu-
tos distintos. Nessa nova paisagem cognitiva, eles se apresentam como
pares correlacionados, existindo uma tessitura comum que os atravessa,
o que torna necessária a inversão do ponto de vista cartesiano de um
corpo caracterizado por situar-se no espaço e uma consciência incor-
poral. Como argumenta o filósofo Gil (2003), não há consciência sem
consciência do corpo, sem que os movimentos corporais intervenham
nos movimentos da consciência. Consciência do corpo significa uma
espécie de avesso da intencionalidade: nela não se teria consciência do
corpo como se tem de um objeto percepcionado, mas, sim, a impregna-
ção da consciência pelo corpo:“[...] uma instância de recepção de forças
do mundo graças ao corpo; e, assim, uma instância de devir as formas,
as intensidades e o sentido do mundo”(GIL, 2003, p. 15). Ainda segundo
Gil (2004, p. 121), essa impregnação da consciência pelo corpo é por ele
definida como corpo de consciência, quer dizer,
[...] a consciência tornada corpo, ou seja, que os movimentos
da consciência, uma vez impregnada esta pelos movimentos
do corpo, adquirem a mesma plasticidade, fluência e o mesmo
conhecimento imediato de si (não-reflexivo) que o corpo possui
de si próprio.
Além das filosofias de Deleuze e Gil, vem da própria biologia, com
Maturana e Varela, uma justificativa bastante plausível para recuperar
a dignidade ontológica do corpo, já que esses biólogos nos oferecem
a explicitação de um sistema cognitivo próprio ao corpo, contido nele
e que produz seu próprio saber. É interessante perceber que, com eles,
desmistifica-se a ideia de que só os estudos baseados na cultura reco-
104 CORPO, EDUCAÇÃO E EPISTEMOLOGIA
nhecem a historicidade do corpo, pois não há um corpo-objeto que é
universal e a-histórico, transcendente ao meio, pois “[...] as mudanças
estruturais que ocorrem são contingentes com as interações com o meio.
E vice-versa: o meio muda de maneira contingente com as interações
com o organismo, e aquilo que o observador irá se referir vai depender
de onde esteja seu olhar” (MATURANA, 2001, p. 82). Nessas condições,
fica mais fácil compreender a sentença de Najmanovich (2001), segundo
a qual o sujeito encarnado paga com sua incompletude a capacidade de
conhecer, pois só podemos conhecer o que somos capazes de perceber
e processar com nosso próprio corpo.
Outro caminho possível é o reconhecimento da própria lingua-
gem do corpo como possibilidade de conhecimento, como nos aponta
Merleau-Ponty. Este filósofo, central nas discussões em torno do corpo,
sinaliza uma epistemologia que acontece nos processos corporais, que
está aquém da cultura e de toda tematização, sem o qual continuare-
mos separando a teoria da prática, o vivido do pensado, o movimento
do pensamento. Com a fenomenologia de Merleau-
-Ponty, deveríamos nos ocupar mais dos efeitos do corpo sobre o
meio cultural: sobre as coisas e os outros, pois a via fenomenológica nos
lembra que o sentido equivale também à existência, no que refere aos
vividos intuitivos pré-reflexivos que escapam à significação conceitual.
Nem mesmo a interpretação do corpo na linguagem retira dele seu
fundo de natureza, pois o nosso corpo, como ser dotado de movimento
em direção ao mundo, é condição de possibilidade, inteiramente nova,
original e poderosa até no próprio mundo da cultura. Isso é possível,
pois, em Merleau-Ponty, a unidade do corpo é sempre implícita e con-
fusa: “[...] está enraizado na natureza no próprio momento em que se
transforma pela cultura, nunca fechado em si mesmo e nunca ultrapas-
sado”(MERLEAU-PONTY, 1999, p. 269).
A (des)construção dos saberes fundados na visão de ser humano
pautado na cisão corpo/mente ou no binário natureza/cultura pressu-
põe a sua ressignificação. Criar novas metáforas para se sentir, agir e
105Filipe Quintão de Almeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas
pensar o corpo, mudar as estruturas de significação nos modos de con-
cebê-lo é também parte de um processo de mudar suas relações. Cabe
a reinvenção e a produção de novos sentidos ao corpo na medida em
que esses possam servir de metáforas para reduzirmos os fossos criados
pelos dualismos/binários. Esse é um desafio epistemológico para quem
estuda corpo no âmbito da educação.
“O HOMEM PÓS-ORGÂNICO” E A ATUALIDADE DA “FORMA
CORPO”
O corpo se transformou sob as condições que as ciências/tecnolo-
gias lhe oportunizam para transcender sua natureza. Assim, a técnica/
tecnologia constantemente está buscando dominar e ultrapassar as
fronteiras do corpo humano, tornando-o “[...] escaneado, purificado,
gerado, remanejado, renaturado, artificializado, recodificado geneti-
camente, decomposto e reconstruído [...]” (LE BRETON, 2003, p. 26). De
tal modo, cada vez mais a biotecnologia está visando penetrar/invadir/
metamorfosear a organicidade do corpo, não mais normalizando suas
funções, mas sim ampliando, transpondo, potencializando, transcen-
dendo essas funções. Ou seja, pela técnica busca-se sanar a precarie-
dade do corpo enquanto natureza.
Neste início de segundo milênio uma das características mais
notáveis no que tange a condição humana como corpo é o promíscuo
acoplamento do ser humano com a máquina – tecnologia. “Do lado do
organismo: seres humanos que se tornam, em variados graus,‘artificiais’.
Do lado da máquina: seres artificiais que não apenas simulam caracterís-
ticas dos humanos, mas que se apresentam melhorados relativamente a
esses últimos”(TADEU, 2009, p.11):
Ao mesmo tempo em que presenciamos essa “virada corporal”
(ORTEGA, 2008), é preciso lembrar que esta “forma corpo” (LIMA, 2004)
passa, atualmente, por um processo de transformação acelerada, capaz
de desencadear duas atitudes, que, na verdade, são os dois lados de uma
106 CORPO, EDUCAÇÃO E EPISTEMOLOGIA
mesma moeda: salvar o que resta do humano ou descartar a humanidade
em favor de uma nova via de evolução biológica (SANT’ANNA, 2002). Nes-
sas circunstâncias, o que dizer dos“novos mundos”criados para se sentir/
pensar/agir o corpo criados pelas virtualizações da realidade por meio das
tecnologias da informática? E das tecnologias médicas, capazes de fazer
mutações/reconstruçõesdepartesdocorpopormeiodesimplespróteses
de silicone ou de complexas próteses robóticas que colocam em xeque as
fronteiras do humano? E a engenharia genética, que cada vez mais tem a
capacidade de modificar nossa herança e produzir seres em laboratórios
com uma precisão cada vez mais eficaz? Em síntese, como sustentar a ori-
ginalidade do corpo ou de uma ontologia do humano?
Não podemos negar que estas novas tecnologias ligadas ao corpo
estão causando polêmicas no que tange às fronteiras do humano, con-
fundindo inclusive sua ontologia, afinal, o que caracteriza a máquina
nos faz pensar aquilo que caracteriza o homem. Essa realidade vem
fomentando estudos epistemológicos que giram em torno do corpo e
sua ontologia. Afirmamos isso sustentados em Contreras (2011, p. 139),
quando menciona que a hibridação do corpo “corresponde a toda una
ontología e una epistemología, que hunde sus raíces en los câmbios en
la representación de los objetos de la natureza y de la tecnologia – los
seres vivos y las máquinas”.
Ainda sob este viés, segundo a interpretação de Santaella (2008, p. 31),
Amisturacrescenteentreovivoeonão-vivo,onaturaleoartificial,
permitida pelas tecnologias, atinge hoje um tal limiar de ruptura
que faz explodir a própria ontologia do vivo. [...] Eis, portanto,
a considerável ruptura filosófica e cultural que enfrentamos.
Quando o corpo e todos os seres vivos tornam-se informações
codificadas, o que permite a manipulação e replicação da própria
vida, é a transformação ontológica do humano que está em jogo.
A citação acima nos remete a pensar que o aparecimento do
“homem pós-orgânico” (SIBILIA, 2002) desconstrói, de maneira ainda
107Filipe Quintão de Almeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas
mais radical, o lugar do sujeito encarnado nas filosofias que se ocupam
do corpo com vistas a recuperar sua dignidade. Com a radicalização
da virada cibernética, estudiosos de campos muito diversos, como a
engenharia genética, a medicina biomolecular, a genômica, a robó-
tica, a inteligência artificial, as biotecnologias, defendem o fim da “era
do corpo” e celebram com júbilo a chegada do tempo pós-orgânico,
pós-evolucionista e pós-humano. Esse movimento, que tem reper-
cussões no campo das Ciências Sociais e na Filosofia, irá provocar, por
sua vez, novamente uma ruptura no status do corpo: de sua “(re)des-
coberta”passamos aos corpos pós-humanos, pós-orgânicos, compostos
de órgãos e células sem corpos (SANT’ANNA, 2002), já que devidamente
informatizados e digitalizados.
Estaríamos transitando de um imaginário político e estético fun-
dado na pele rasgada pelo metal – no corpo de próteses baseado em
uma ontologia do ciborgue (HARAWAY, 2000) – para uma lógica política
e estética que concebe a totalidade da própria natureza (não só corpó-
rea) como um espaço de transitividade virtualmente perfeita: a recom-
binação genética promovida pela biologia molecular aponta em uma
direção que, se não contradiz politicamente a noção de inteireza plástica
dos corpos, não depende tecnicamente desse artifício para transformar
o mundo orgânico. Em última instância, é a possibilidade de se reprodu-
zir a própria vida independentemente da materialidade corpórea.
Em função disso, aquela antiga imagem do corpo como máquina,
bem como a recente dignidade ontológica a ele atribuída, vai aos poucos
sendo abalada por um regime discursivo que passa a concebê-lo como
umdispositivoinformático,dandoorigemassimaumanovamudançade
paradigma: não mais regime mecânico-eletrônico, nem mais um regime
corporal-sensível, mas, sim, o paradigma molecular-digital; portanto, do
corpo-máquina e do corpo-sujeito ao corpo-informação (SIBILIA, 2002;
LIMA, 2004). Segundo este novo paradigma tecnológico, a própria mate-
rialidade do real se torna virtual e o mundo natural e orgânico passa
a ser percebido como atualização específica e não-excludente de uma
108 CORPO, EDUCAÇÃO E EPISTEMOLOGIA
matriz de possibilidades informacionais. O mundo natural já não é mais
“coisa em si”, esfera pré-fenomenológica, alteridade que a cultura alter-
nativamente concebeu como domínio ou refúgio (FERREIRA, 2002).
“Al transformar la naturaleza, el hombre no solo produce cosas, sino
que también produce de cierta forma sus propios sentidos, les da nue-
vas propiedades, produce sus sentidos como sentidos humanos” (CON-
TRERAS, 2011, p. 131). A síntese corpo e tecnologia vem caracterizar o
corpo biotecnológico, onde a tecnologia não se limita a estar a nossa
volta, ela literalmente nos“in-corpo-ra”.
Éinteressantenotar,entretanto,queoapagamentodacorporeidade
produzido pelo discurso do fim da humanidade remonta, nuanças à
parte, ao discurso do sujeito cartesiano da modernidade. Portanto,
retira do corpo qualquer dignidade ontológica adquirida nos últimos
anos, considerando nossa corporeidade uma mera contingência no
caminho que, inexoravelmente, nos levaria à pós-evolução, ao corpo
informacional. O pós-humanismo cibernético, embora desconstrua aquele
sujeito cartesiano de várias maneiras, divide, com seus predecessores, uma
ênfase na cognição em detrimento da corporeidade. Em ambos os casos,
como vimos com o relato fornecido por Adorno e Horkheimer no iní-
cio deste texto, a materialidade e a organicidade do corpo são rejeitadas
como algo a ser superado, exacerbando o lado imaterial do dualismo car-
tesiano, potencializando a mente e descartando o corpo como mero obstá-
culo demasiadamente material. A rigor, a vida estrutura-se a partir de uma
lógica independente deste lugar de poder específico que é o corpo. Por
isso, alguns observadores deste fenômeno aludem a certo neocartesianismo
high-tech, no qual a velha oposição binária corpo/alma corresponderia ao
par hardware/software, com a balança pendendo para o polo do (imaterial)
software (SIBILIA, 2002).
No imaginário pós-humanista, mesmo a sensorialidade pode ser
vista como um atributo da mente incorporal. Não é tanto o corpo que
sente, mas, sim, a consciência. Os órgãos dos sentidos não precisariam
mais estar presentes para mediar nossas percepções e sensações do
109Filipe Quintão de Almeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas
mundo exterior, dada sua possível substituição por próteses computa-
dorizadas. O corpo seria, assim, a última mídia a ser descartada. Nessa
concepção, o corpo não é mais uma fronteira de identidade, mas apenas
um vestígio a ser deixado no espaço da virtualidade.
Isso significa que, concomitantemente àquela preocupação e valo-
rização excessiva com o corpo e sua elevação a sujeito epistêmico, o
eclipsamento da fronteira entre cultura e natureza, entre natural e arti-
ficial, nos leva a pensar em uma possível obsolescência do corpo e de
sua“natureza”, sendo o resultado desse amor-ódio pelo corpo (ADORNO;
HORKHEIMER, 1985) um anacronismo indigno, um vestígio arqueo-
lógico ainda ligado ao homem, levado a desaparecer. A porosidade e
indeterminação das fronteiras entre tecnologia, natureza e humanidade
defendem alguns autores, não se sustentam diante do processo de digi-
talização da vida, desfazendo, assim, a nostalgia pelo humano, seu corpo
e sua originalidade. Afinal de contas, como interroga Silva (2000b), quem
precisa mais de sujeito ou de uma ontologia do humano?
CORPO E EPISTEMOLOGIA: DESAFIOS PARA A EDUCAÇÃO
A problematização epistemológica do corpo, como apresentada
nos tópicos anteriores, apresenta importantes desafios às até então
mentalistas práticas e teorias pedagógicas. Por exemplo, como continuar
negando a dimensão não discursiva na tarefa da autonomia humana?
Como refutar a teia tecida entre a consciência e o corpo nos processos
educacionais? Como relegar a dimensão corporal a um segundo plano
na constituição de nossas subjetividades? Como não admitir, dada a cen-
tralidade assumida pelo corpo na cultura contemporânea, sua impor-
tância na constituição de nossas identidades? Essas questões colocam
como tarefa (re)pensar a estrutura na qual estava assentada a figura do
sujeito educacional moderno, incorporando à sua subjetividade/iden-
tidade a natureza corpórea de todo o conhecimento e aprendizagem.
Como afirma Assmann (1998, p. 47),
110 CORPO, EDUCAÇÃO E EPISTEMOLOGIA
[...] todo conhecimento se instaura como um aprender mediado
por movimentos internos e externos da corporeidade viva.
Toda aprendizagem tem uma inscrição corporal. Não existe
mentalização sem corporalização. Por isso, o corpo aprendente é
a referência fundante de toda aprendizagem.
Nesse ponto, a valorização do caráter estético do conhecimento é
recrudescida para fazer frente à sua dimensão cognitiva. Não podemos
mais, conforme Bracht (1999), considerar a criticidade como um fenô-
meno exclusivo da cognição, mas que ela, também, englobe a dimensão
estética ou emotiva, ampliando, assim, o conceito de razão; é difícil con-
tinuar operando com um conceito de linguagem que silencie o poten-
cial para signo da corporeidade, sua expressividade; não podemos nos
esquecer da teia tecida entre a consciência e o corpo nos processos
educativos ou, mesmo, da importância dos afetos e da sensibilidade na
definição do comportamento social e político dos indivíduos. Isso não
significa, sempre é bom lembrar, de subsumir a dimensão discursiva à
da sensibilidade, mas, sim, de não pretender torná-la absoluta (BRACHT,
1999). Nessas condições, a estruturação estética da educação, um modo
de conhecer pela sensibilidade, poderia ampliar de forma significativa
a consciência ética, liberando novas formas de sensibilidade que temos
deixado de lado ou que foram eclipsadas pelas fronteiras majoritaria-
mente racionais do projeto iluminista, como pontua Hermann (2002).
A expectativa é a de que, no enfrentamento desses desafios, con-
sigamos materializar, na educação, os avanços filosóficos relativos ao
novo status ontológico e epistemológico do corpo. Enquanto isso (não)
vai acontecendo, os autores que apostam na reinvenção da relação entre
corpo e educação precisariam ficar atentos ao desenvolvimento de uma
paisagem cognitiva que borra de tal maneira a distinção entre a cultura
e a natureza ou entre o corpo e a cultura que põe em questão a “virada
corporal”nas últimas décadas (ORTEGA, 2008).
Considerando essa nova paisagem, outras questões se apresen-
tariam à educação. Por um lado, como sustentar a pretensão de uma
111Filipe Quintão de Almeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas
educação para ou por meio da sensibilidade em um momento em que
a nossa corporeidade “primeira” vê-se negada como mera contingência
(pós)evolucionista? O que significaria uma educação sensível em corpos
digitalizados e/ou informatizados? Com sustentar, na esteira de Ass-
mann (1998), que o corpo é referência fundante de toda aprendizagem?
Ou, então, que o corpo é a instância fundamental e básica para articular
os conceitos centrais de uma teoria pedagógica? Qual o sentido de uma
educação estética no espectro de uma produção discursiva que consi-
dera o corpo como o limite a ser ultrapassado, não mais o nosso limite?
Por outro lado, se os conteúdos da subjetividade dependem cada vez
de uma infinidade de sistemas maquínicos, porque não aceitar o desafio
de criar novas formas de agenciamento a partir de uma subjetividade
de um novo gênero, chamada de pós-orgânica? Ou, então, a elaboração
de uma experiência estética onde o crepúsculo da fronteira homem-
-máquina ou corpo-informação origine outras formas de sensibilidade,
outra ordem de afetos ou uma nova subjetividade desejante? Nesses
esforços não estariam colocadas as possibilidades de novas formas de
subjetivação na educação?
Não se trata, portanto, de olhar para a nova paisagem em tela e
lamentar a desconstrução do humanismo nela pressuposta, mas, sim,
se indagar, no interior das fronteiras, pelas novas possibilidades que se
abrem. Isso pressupõe a abertura ao risco, à possibilidade de se reinven-
tar, potencializando a vida. É só o processo que determina o ponto de
chegada. É somente ele, para citar o Pelbart (2003), que permitiria dife-
renciar as potencialidades da transversalidade e da hibridação de uma
indiferenciação a serviço de manipulações irresponsáveis, obedecendo
aos ditames da axiomática capitalística.“Potências da vida que precisam
de corpos-sem-órgãos para se experimentarem, por um lado, poder
sobre a vida que precisa de um corpo pós-orgânico para anexá-lo à axio-
mática capitalística”(PELBART, 2003, p. 47).
Para a educação, portanto, a problematização dos clássicos dua-
lismos (e o novo “lugar” que o corpo ocupa diante da razão/mente/
112 CORPO, EDUCAÇÃO E EPISTEMOLOGIA
linguagem), mas, também, a celeuma instaurada em torno da existên-
cia dessa nova figura antropológica, o “homem pós-orgânico”, é pleno
de consequências, apresentando, a essa área, desafios até então não
considerados em sua agenda, seja em sua perspectiva crítica ou não.
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Submetido em : 02/09/2014
Parecer em: 25/09/2014
CORPO E POLÍTICA
A LEI ANTI-GAY RUSSA:
DEMARCAÇÕES E GOVERNO
DOS CORPOS NO MUNDIAL
DE ATLETISMO 2013
Fabio Zoboli
Elder Silva Correia
Renato Izidoro da Silva
Tammy Rocha Costa
RESUMO: Artigo que objetiva investigar as demarcações e governo dos corpos
no que tange as questões de gênero ocorridas no Mundial de Atletismo de Mos-
cou no ano de 2013 frente as polêmicas da lei anti-gay russa. A escolha de tal
evento se deve ao fato do mesmo polemizar questões que rondam os estudos
do corpo na modernidade referentes às questões de gênero e aos preconcei-
tos sofridos por homossexuais. Tratou-se um estudo de abordagem qualitativa
feita a partir de uma pesquisa descritivo-exploratória. Os dados empíricos uti-
lizados para conjecturar os objetivos do texto foram retirados das publicações
feitasnoportaldeinternet“globo.com”.Nossaanáliseseatevea12reportagens
e foi feita por meio de três grandes temas: “manifestações/protestos”, “polêmica
Isinbayeva” e “agendamentos”. Como resultado, observamos que a lei anti-gay
da Rússia está pautada numa estratégia de demarcação e governo de corpos e
as manifestações de atletas foram no sentido de clamar contra seu apagamen-
to singular frenteaumapolíticaqueexigeumsujeito“universal”.
PALAVRAS-CHAVE: Mundial atletismo Rússia 2014; Lei anti-gay; esporte; ho-
mossexualidade.
118 A LEI ANTI-GAY RUSSA
INTRODUÇÃO
O campeonato mundial de atletismo1
de 2013 ocorrido na cidade de
Moscou – capital da Rússia – entre os dias 10 e 18 de agosto no Estádio
Lujniki repercutiu no cenário esportivo mundial por tencionar questões
relativas à homossexualidade no esporte. O evento não foi marcado só
pelo pouco público e pela não superação de nenhum recorde nas provas
da modalidade em disputa, mas também por repressões e proibições no
que tange às questões ligadas a “relações sexuais não tradicionais” ou
heteronormativas. Isso aconteceu pois meses antes do evento – junho
de 2013 – foi declarada, pelo presidente Vladmir Putin, a lei anti-gay, na
Rússia, aprovada na Duma (câmera baixa do Parlamento russo), em uma
votação unânime de 436 votos a 0 (zero).
A lei anti-gay proíbe propagandas e divulgações sobre a homosse-
xualidade para menores de 18 anos de idade. De acordo com o Artigo
6.21 do Código de Violações Legais Administrativas da Federação Russa,
é permitido ao governo multar pessoas acusadas de espalhar “propa-
ganda de relações sexuais não tradicionais entre menores”. A multa
pode variar os valores entre 4 mil a 1 milhão de rublos (R$ 120 a 130 mil),
como também podendo prender aquele que fizer ou apoiar qualquer
tipo de adesão às manifestações homossexuais.
Essa lei contra a apologia à homossexualidade, instaurada na Rús-
sia, traz um“ar”de intolerância, preconceito e até mesmo de crime, pois,
a partir desta decretação, os gays estão sendo perseguidos, humilhados,
demitidos e torturados não só pelo governo, mas também pela maio-
ria da sociedade russa. Em contraponto, a Rússia, em sua constituição,
1
	 O mundial de atletismo é uma competição organizada pela IAAF (International Association
of Athletics Federations). Ela foi idealizada em Porto Rico, no ano de 1976, porém o primeiro
campeonato mundial foi realizado somente no ano de 1983 em Helsinque, na Finlândia.Vale
destacar que, inicialmente, o Mundial de atletismo era disputado em um período de quatro
em quatro anos, porém, desde 1991 essa duração diminuiu e permanece até hoje a cada dois
anos, período este posterior e anterior aos Jogos Olímpicos.
119Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
discursa em defesa da igualdade e pela livre expressão. Eis o paradoxo:
como um país pode apoiar e falar em direitos humanos a partir da pro-
mulgação de uma lei contra a homossexualidade?
O mundial de atletismo ocorrido no país, em meio à efervescência
da decretação da lei, fez gerar algumas manifestações por parte dos
atletas que protestaram frente ao preceito. Os episódios que geraram
maior repercussão contra a regra foram dois: o caso das suecas Moa Hjel-
mer e Emma Green-Tregaro, que pintaram suas unhas com as cores do
arco-íris em apoio aos gays; e as atletas russas Kseniya Ryzhova e Tat-
yana Firova, que durante a cerimônia de entrega de medalhas do reveza-
mento 4x400, beijaram-se nos lábios, quando se encontravam no pódio
para o recebimento público das premiações.
Diante do ocorrido, algumas manifestações de apoio à lei surgi-
ram por parte de alguns atletas. Em meio à contestação, destacou-se a
declaração da recordista mundial de salto com vara e principal atleta
russa, Yelena Isinbayeva2
, que manifestando-se a favor da lei disse: “os
homens devem ficar ao lado de mulheres, como também, as mulheres
dos homens, essa formação é histórica, e tudo deve continuar dessa
maneira, como uma nação‘normal’”.
As repercussões frente à lei anti-gay ultrapassaram o âmbito do
campeonato mundial de atletismo de 2013 e acabaram por repercutir
no agendamento de outros dois megaeventos que serão realizados na
Rússia: os Jogos Olímpicos de inverno de 2014, em Sochi, e a copa do
mundo de futebol, no ano de 2018.
Apresentados sinteticamente alguns episódios ocorridos na com-
petição, mencionamos que a escolha de tal evento para mediar as inter-
locuções midiáticas que faremos neste texto deve-se ao fato do mesmo
2
	 Yelena Gadzhievna Isinbayeva (03/06/1982) é uma atleta Russa que compete no atletismo
na modalidade de salto com vara. Isinbayeva é bicampeã olímpica e atual recordista mundial
com a marca de 5,06 metros, obtida em 28 de agosto de 2009 em Zurique. A atleta é a única
do mundo a ultrapassar os 5 metros na prova de salto com vara e já bateu o recorde mundial
por 16 vezes.
120 A LEI ANTI-GAY RUSSA
polemizar questões atualmente intrínsecas aos estudos do corpo na
modernidade, principalmente no que diz respeito às questões de gênero
e dos preconceitos sofridos por homossexuais, já que esses expressam
comportamentos sexuais, sociais, culturais e políticos diferentes ou
estranhos aos heterossexuais. Por se tratar de um evento esportivo em
nível mundial, a questão do esporte e da homossexualidade também
são centrais na pesquisa na medida em que são temas globalmente
comuns à maioria dos povos e nações.
Nesse sentido, o presente texto pretende investigar e analisar as
demarcações e governo dos corpos no que tange as questões de gênero
a partir de dados empíricos publicados na mídia – aqui circunscrita à
esfera digital – por meio do portal de internet“globo.com”. A escolha do
portal “globo.com” como fonte de dados empíricos se deve ao fato de
que o Mundial de Atletismo 2013 teve a cobertura do canal por assina-
tura da“sportv”, canal esse filiado a Rede Globo que como portal digital
a “globo.com”. Justificamos também a escolha da “gobo.com” pela sua
representatividade hegemônica sustentada por uma grande empresa
de comunicação.
No portal “globo.com” identificamos 12 reportagens que tratavam
especificamente da polêmica da“lei anti-gay”e sua repercussão no Mun-
dial de Atletismo em Moscou. Tais dados foram coletados no período
entre 31 de julho a 28 de Agosto de 2013, ou seja, 10 dias antes do
evento (31 de julho a 9 de agosto), durante o evento (10 a 18 de Agosto
de 2013) e 10 dias após o evento (19 a 29 de agosto), resultando em um
total de 28 dias de coletas de dados.
O presente estudo se caracteriza metodologicamente como uma
abordagem qualitativa, na medida em que articula os“achados”da pes-
quisa com um determinado universo de sentidos e significados (signi-
ficações) (MINAYO, 2010) próprios da vida cultural humana. Trata-se de
uma pesquisa descritivo-exploratória (TRIVIÑOS, 2010), pois traz fatos
da realidade sem a preocupação de abordá-los no sentido de“busca ou
fechamento de uma verdade”, mas sim de descrever as características,
121Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
destacando determinados pontos referentes ao que foi veiculado sobre
a“lei anti-gay”no Mundial de Atletismo 2013.
Nesse sentido, nossa análise das 12 reportagens referentes à polê-
mica a respeito da “lei anti-gay” promulgada durante o Mundial de
Atletismo de 2013, foi feita por meio de três grandes temas. O primeiro
chamamos de “manifestações/protestos”, que diz respeito às reporta-
gens que informaram sobre manifestações e protestos feitos por atle-
tas que participaram do Mundial, bem como atletas não participantes,
que se manifestaram a favor ou contra (protestaram) à lei “anti-gay” e
seus desdobramentos no Mundial. O segundo tema intitulado de “polê-
mica Isinbayeva”, que trata das reportagens que trouxeram as declara-
ções da atleta russa do salto com vara, bem como as repercussões das
declarações de Isinbayeva sobre a lei na Rússia e consequentemente no
Mundial de Atletismo. O terceiro e último tema, denominada de “agen-
damentos”, diz respeito às reportagens que, mesmo sendo sobre o
Mundial de Atletismo 2013, faziam referência a eventos futuros ao Mun-
dial de Atletismo, como as Olimpíadas de Inverno 2014 (que ocorreram
também na Rússia na cidade de Sochi) e a Copa do Mundo de Futebol
(que acontecerá também na Rússia em 2018).
Para a construção destes três eixos temáticos foram lidas as 12
reportagens e por meio do recorte de episódios ocorridos no mundial
foram perspectivadas associações/agregações de ocorrências que nos
possibilitaram visualizar indicadores para uma análise e interpretação
de dados. A análise ou tratamento dos dados foi feita de forma ensaís-
tica, onde os dados foram inferidos a fim de decodificarmos as temáticas
abordadas nas reportagens.
Sendo assim, o texto foi organizado em dois momentos: a primeira
parte foi reservada para uma discussão do corpo enquanto vetor de
demarcação e governo; na sessão subsequente dissertamos e analisa-
mos os dados a partir dos temas elencados para pesquisa.
122 A LEI ANTI-GAY RUSSA
CORPO E GÊNERO: DEMARCAÇÕES E GOVERNO
Nosso corpo vai além de seus limites enquanto estrutura biológica
e “natural”. Somos e temos um corpo principalmente quando nos apro-
priamos de linguagens, na medida em que esse corresponde antes de
tudo a vetores semânticos e sintáticos de diferentes construções e for-
mas de existência: formas de ser corpo. Neste sentido, pensar o corpo,
requer pensar na rotação de signos (linguagens) que atravessam o
mesmo, bem como entender que ele não é algo em si, mas sim uma
construção. A cada nova construção de corpo, se cria uma nova forma
de entendimento do mesmo e uma nova maneira de sê-lo e de com ele
se relacionar individual e socialmente. Quando há uma alteração na con-
cepção de corpo, há uma alteração intensa em tudo aquilo que é “cor-
porado”enquanto comportamento social e todas as instâncias corporais
existentes na sociedade (BÁRTOLO, 2007).
O corpo é um território de “demarcações”, tanto no âmbito das
capacidades fenotípicas de identificação por meio de traços físicos ou
características observáveis, bem como pelo fato do corpo ser um territó-
rio demarcado por signos (linguagens) que dão a ele uma capacidade de
representação. O corpo é território de“demarcações”no instante em que
ele ao mesmo tempo pode ser considerado sede de signos por ser atra-
vessado por esses, assim como pode ser signo na medida em que pode
representar algo e, assim, na expressão, atravessar outros corpos. Com
isso, as significações podem não apenas se inscrever no corpo, mas tam-
bém o próprio corpo pode gerar significações e se inscrever em outros
corpos, sejam eles biológicos ou puramente físicos. O corpo pode tanto
ser “demarcado”, como também pode “demarcar”, sendo, portanto, um
território de“demarcações”.
É por essa dupla capacidade de “demarcar” e de ser “demarcado”
que compreendemos o corpo como entidade passível de governar e
de ser governado. Essa dupla capacidade se dá por meio de mecanis-
mos que são internos e externos a ele, num dado contexto cultural
123Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
permeado por uma rede de signos/linguagens que vão embotando
sentido e “legitimação” aos dispositivos que o governam, gerando
assim as formas de comportamentos.
Historicamente, o corpo, sob o signo da genitália – estruturação bio-
lógica ou fenotípica – foi vetor de uma demarcação e governo. Sob o viés
estruturalista, o fato de possuir tal ou qual genitália evidenciou o corpo
enquanto um território de “demarcação” de gênero de duas formas: seja
no ato da descoberta do sexo do bebê, quando o mesmo é enquadrado
enquanto masculino ou feminino; seja a partir desta identificação passar
a inscrever no corpo comportamentos condizentes ao ser homem ou ao
ser mulher em uma dada sociedade. Entendemos isso na medida em que,
para o estruturalismo, não basta só possuirmos uma genitália feminina ou
masculina para nos tornarmos mulheres ou homens, também precisamos
nos apropriar dos signos que indicam, subjetiva e objetivamente, com-
portamentos socialmente próprios para cada um dos sexos.
O pênis e a vagina seriam signos distintivos, de diferenças físicas,
responsáveis por agrupar a pessoa no interior de um gênero biológico. A
partir dessa classificação distintiva, a sociedade passa a se relacionar com
um ou com outro de modos, também, diferentes. Dessa forma, o pênis
e a vagina indicam, cada qual, como os outros na sociedade deverão se
relacionar com aquele que é portador de um signo ou de outro. Con-
sequentemente, o sujeito que recebe dado tratamento social, porque
tem um pênis ou uma vagina, deverá devolver à sociedade comporta-
mentos que sigam o mesmo padrão, conforme os signos que informam
sobre uma ação ou relação ser permitida ou proibida. As categorias de
gênero, dispositivo de demarcação e governo de corpos nada mais são
do que uma gama de discursos e práticas, uma gama de técnicas e sis-
temas de julgamentos – de cunho moral e ético – mediados a partir de
agenciamentos históricos de subjetivação na medida em que, além de
ter um pênis ou uma vagina, o sujeito deverá internalizar os conteúdos e
as formas de relacionamentos existentes na sociedade, entre os sujeitos,
conforme suas diferenças e semelhanças.
124 A LEI ANTI-GAY RUSSA
Sobaóticapós-estruturalista,nãohádivisãonaturalnemsocialdesexo
e de gênero capaz de determinar e fixar o significado de um signo de dife-
rençatalcomoosãoopêniseavagina.Ambososdadosanatômicospodem
desencadear significações diversas. Podemos refletir que não há qualquer
ligação entre o aparelho psíquico e as genitálias que determine que essas
possuamrelaçãocomacópula,comohomem,comamulher,comapassivi-
dade, com a atividade.Tudo isso está no campo do pensamento na medida
em que está no campo da criação e da descoberta mediante interação sem
programação. Lembrando que não estamos adentrando em problemáticas
sociais e políticas que geram o hermafroditismo e a transexualidade. Para
Butler(1998p.25),“talvezosexosempretenhasidogênero,detalformaque
a distinção entre sexo e gênero revela-se absolutamente nenhuma”. Sendo
assim, para a autora, pensar sexo como algo natural e gênero como algo
cultural perde o sentido na medida em que:
Não há reflexividade ontologicamente inata para o sujeito que
é então colocado dentro de um contexto cultural; é como se
esse contexto já estivesse aí como o processo desarticulado da
produção desse sujeito, escondido pelo enquadramento que
situaria um sujeito ready-made numa teia externa de relações
culturais (BUTLER, 2003 p.21).
Para Butler (1998), o gênero seria um fenômeno inconsciente e con-
textual, que não denotaria um ser substantivo – aquele que é idêntico
– “mas um ponto relativo de convergência entre conjuntos específicos
de relações, cultural e historicamente convergentes”. No entanto, pen-
sar essa convergência inconsciente e histórica não seria negar dimen-
são biológica do corpo, pois, como já mencionava Canguilhem (2005),
a sociedade regulariza o organismo, e a normatividade social se funde
com a normatividade social. Essa é uma característica – norma – do ser
enquanto vida.
O corpo enquanto vetor de gênero é um agenciamento em cons-
tante construção e o sujeito se constrói enquanto gênero através de um
125Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
acoplamento de fluxos assimétricos. Em suma, o sujeito é o contexto
em que ele é produzido. Esse sujeito e esse contexto, na menção de
Deleuze e Guattari (1996), são máquinas que se retroalimentam:“O que
há por toda a parte são máquinas e sem qualquer metáfora: máquinas
de máquinas, com suas ligações e conexões. Uma máquina-órgão está
ligada a uma máquina-origem: uma emite o fluxo que a outra corta”
(DELEUZE & GUATTARI, 1966, p.7). Neste sentido, “nenhum sujeito é seu
próprio ponto de partida; e a fantasia de que o seja só pode desconhecer
suas relações constitutivas refundindo-se com o domínio de uma exter-
nalidade contrabalançadora”(BUTLER, 2003 p.18).
É importante se pensar que, quando tratamos de gênero, nos
remetemos à questão da identidade. Surge então o questionamento:
como colocar, então, a questão da identidade no que tange às ques-
tões de gênero?
O corpo enquanto objeto de estudo é, então, um corpo cuja
identidade é um agenciamento da linguagem que estuda. Nesta
perspectiva este agenciamento é identitário mas, com rigor,
ele apenas é, parcialmente, identitário. De facto, a identidade
permanece sempre fugidia em relação ao nosso ponto de
vista (seja ele “natural” ou “técnico”). Aquilo que identificamos
quando estudamos o corpo não é tanto uma identidade (e ainda
menos a identidade) mas uma intensificação (ou enunciação)
da identidade. De facto se a identidade não se deixa nunca fixar
ela deixa-se enunciar. O que distingue uma enunciação de cariz
identitário de uma outra é o tipo de intensificação que se agencia
pela linguagem (BÁRTOLO, 2007 p. 178-179).
Isso nos leva a pensar que qualquer que seja uma evidência de iden-
tidade, resulta por si só já uma definição de identidade. Quando identifi-
camos o corpo humano (no caso de nosso estudo sob o viés do gênero),
usamos uma definição identitária operativa que é resultado de certo
agenciamento da linguagem e, assim, não pode ser transportado, no
126 A LEI ANTI-GAY RUSSA
que tange o ponto de vista de sua validade, para um plano vamos assim
dizer ontológico (BÁRTOLO, 2007) ou natural, como algo em si. Isso quer
dizer que quando há a descrição do que é ser homem ou mulher esta-
mos evidenciando determinados paradoxos, baseando-se em um certo
agenciamento linguístico (discursos) do corpo, ou seja, do corpo como
território de“demarcações”de gênero e assim, como signo, é agenciado
ao ser objetivado.
O corpo é o emblema daquilo que eu sou, e o que eu sou é um
construto da comunidade. (...) O corpo é um texto aberto para a
leitura de quem o vê. O escritor é a comunidade. Portanto, meu
corpo não é meu, mas um texto coletivo. (...) será sempre cheio
de sinais, símbolos e marcas. O corpo é um vestígio dos valores
civilizatórios do grupo que nele escreve e nele se reconhece
(OLIVEIRA, 2007, p.124).
Abordar o corpo sob o viés do discurso e da linguagem não significa
negar sua materialidade. Neste sentido, Butler (1998, p. 26) menciona que:
O corpo postulado como prévio ao signo é sempre postulado ou
significado como prévio. Essa significação funciona mediante a
produção de um efeito de seu próprio procedimento, o corpo que
ela todavia e simultaneamente afirma descobrir como aquilo que
precede a significação. Se o corpo significado como prévio a sig-
nificação é um efeito de significação, então o estatuto mimético
ou representativo da linguagem, que afirma que o signo segue os
corpos como seus espelhos necessários, não é de forma alguma
mimético; ao contrário, é produtivo, constitutivo, pode-se até
dizer performativo, visto que esse ato de significação produz o
corpo que então afirma encontrar antes de qualquer significação.
Nesse sentido, podemos pensar também, como cita Louro (2010),
que as identidades de gênero articulam-se em variadas combinações e
são construídas por redes de poder, bem como são constituídas delas.
127Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
Com isso, destaca o autor, não existe identidade fora das relações de
poder, elas reforçam o poder na mesma medida em que sofrem sua
ação. Sendo assim, tais identidades de gênero fazem parte dos jogos
políticos e se fazem no meio das relações políticas.
O que é necessário então para se pensar o gênero é ampliar a ideia
das análises que se limitam a entender tal questão por meio dos papéis
do feminino e masculino, e ampliar esse olhar para uma compreensão
que considere que as instituições sociais, doutrinas, normas, leis, política,
são instâncias constituídas por representações de feminino e masculino,
assim como pensar em tais instâncias que desempenham também um
papel importante para a produção, manutenção e ressignificação de tais
representações de gênero (MEYER, 2010) que podemos ver “demarca-
das”nos corpos“femininos”e“masculinos”.
DIALOGANDO COM OS DADOS
Como apresentado, nossa análise de dados será pautada em 12
reportagens referentes à polêmica a respeito da “lei anti-gay” no Mun-
dial de Atletismo de 2013, encontradas no período de 29 de julho a 28
de agosto de 2013 no portal“globo.com”. A partir da análise das reporta-
gens elencamos três grandes temas para análise. O primeiro chamamos
de “manifestações/protestos”; o segundo tema foi intitulado “polê-
mica Isinbayeva”; e o terceiro e último tema foi denominado “agenda-
mentos”. O critério para alocação dos temas foi o título das reportagens,
pois no corpo das mesmas os temas se entrecruzam, ou seja, várias
reportagens tratam de dois ou mesmo dos três temas.
Passamos agora a analisar os dados a partir das temáticas elencadas.
O tema que trata das questões das manifestações/protestos ocor-
ridas no mundial de atletismo 2013 fica manifesta em 5 títulos das 12
reportagens. No entanto, a temática aparece em 8 das 12 reportagens.
No dia 03/08/2013, o “globo.com” publicou a matéria na qual
informa que:
128 A LEI ANTI-GAY RUSSA
a confirmação de que as leis anti-gays da Rússia vão vigorar
durante os Jogos Olímpicos de Inverno, que serão realizados
em Sochi em fevereiro de 2014, causou o descontentamento de
alguns atletas olímpicos que, em protesto, vão participar neste
fim de semana de uma parada contra a legislação que decreta
prisão para quem fizer propaganda homossexual durante as
Olimpíadas. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/
olimpiadas-de-inverno/noticia/2013/08/atletas-olimpicos-vao-
participar-de-parada-gay-contra-leis-da-russia.html. Acesso: 28
de Agosto de 2013.
Deacordocomasleisrussas,qualqueratletaoutorcedorgayoudefen-
sordosdireitosdosmesmos(incluindoatletasetreinadores)podemserpre-
sos por até 14 dias e, em seguida, expulsos do país caso tenham atitude de
divulgação do que é designado como“propaganda homossexual”, além do
pagamento de uma multa de até R$ 6,3 mil.
No dia 27/08/2013 o astro do hóquei Ilya Kovalchuk posicionou-se
a favor da lei anti-gay na Rússia:“É nosso país”– declarou o atleta. Koval-
chuk se disse a favor da legislação local, em oposição a outros jogadores
do esporte. O jogador se manifestou após as queixas feitas pelos atletas
canadenses, atletas que lideraram um abaixo assinado e inclusive amea-
çaram boicotar os jogos de inverno de Sochi em 2014.
Neste sentido, Butler (2003) menciona que a política exige um
sujeito especificamente demarcado em sua identidade na medida em
que pressupõe um sujeito estável, com identidade fixa. Sendo assim, o
que demonstram as reportagens acima é a imposição de uma norma
que tenta regular as identidades de gênero por meio de uma lei que
busca a classificação e demarcação dos corpos sexuados e sexualizados
para, então, pensar e efetivar políticas específicas para eles. Analogica-
mente, não foi à toa que espanhóis e portugueses, quando de seus pri-
meiros contatos com os nativos, buscaram, antes de que qualquer ação
mais efetiva e sistemática, uma classificação para eles, começando pelas
dúvidas acerca da humanidade ou da animalidade, mas também sobre
129Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
sua religiosidade, formas de governo, linguagem, sexualidade. Ou seja, a
depender da conclusão a que chegassem os europeus sobre que tipo de
sujeito que tinham à sua frente, a política colonial poderia proceder de
um dado modo ou de outro.
Buscar o governo destes corpos, de acordo com uma suposta vali-
dade de uma lei que regula e permite apenas duas categorias ou iden-
tidades de gênero: homem e mulher, assim como os colonizadores
refletiram acerca da identidade indígena se definir pela animalidade ou
pela humanidade, pela fé ou pela descrença, pelo governo ou pelo des-
governo, pela guerra ou pela paz é um modo de enumerar os problemas
sociais com os quais o Estado deverá lidar, demarcando seu campo e
modos de ação. Implica uma estratégia para simplificar a sociedade no
sentido de simplificar os princípios teóricos e as ações metodológicas
do governante diante da incontrolável multiplicidade de situações-pro-
blema que se impõem ao seu controle.
Ascategoriasdeidentidadesnuncasedãoporelasmesmas,massim
por um sistema de normas que as regulam (BUTTLER, 1998) e que pre-
tendem governar esses corpos. Nesse sentido, as identidades feminina
e masculina são efeitos das normas de gênero, o que podemos visua-
lizar no caso da lei anti-gay – a regulação de identidades de homem e
mulher e o governo dos corpos destes mediante um sistema de norma-
tização que necessita simplificar o complexo com o objetivo de poder
exercer um governo supostamente universalista que se perturba diante
da multiplicidade imprevisível da vida. A instauração dessa lei é uma
demonstração do que Louro (2010) destaca a respeito das identidades
de gênero, que estas fazem parte de jogos políticos e são construídas no
meio das relações políticas.
A partir das formulações de Michel Foucault, os postulados da hete-
rossexualidade como uma condição uniforme e um significado essencial
deramlugarànoçãodequeasexualidadevariaconsideravelmentetanto
no interior das sociedades como entre elas. (SOARES, 2010). Segundo
Weeks (1999), o termo sexualidade é empregado como “uma descrição
130 A LEI ANTI-GAY RUSSA
geral para a série de crenças, comportamentos, relações e identidades
sociais e históricos”. Afirma ainda que “a sexualidade, embora tendo
como suporte um corpo biológico, deve ser vista como uma construção
social, uma invenção histórica, pois o sentido e o peso que lhe é atri-
buído são modelados em situações sociais e concretas”.
Assim, podemos considerar a imposição dessa lei como um dis-
positivo que regula e dá uma suposta validade a um sistema no qual
o normal caracteriza-se pela heterossexualidade, contornando a mate-
rialidade do sexo (por meio da “demarcação” do corpo e pelo corpo),
materialidade que é sustentada e formada por normas regulatórias que
em grande parte são as da hegemonia sexual (BUTTLER 2010), ou seja, a
heteronormatividade.
Para a superação da demarcação e governo de gênero, Butler (2003)
sugere que a política se desloque no sentido não mais de estabelecer um
sujeito de identidade fixa, mas que deixe em aberto a questão da identi-
dade, que ela seja algo que não organize a pluralidade, mas que a man-
tenha aberta sob permanente vigilância. Se as identidades deixassem
de ser fixas como premissas de um silogismo político, e se a política não
fosse mais compreendida como um conjunto de práticas derivadas dos
supostos interesses de sujeitos prontos, uma nova configuração política
surgiria (BUTLER, 2003). Quem sabe uma política menos programática
e, portanto, mais atenta às dinâmicas das realidades sociais, culturais,
política e econômicas que surgem enquanto problemas no campo das
relações humanas.
Neste sentido, alguns atletas já se manifestam contra essa política
de apagamento das sexualidades – negação da pluralidade. Isso pode
ser percebido na descrição das reportagens abaixo que narram uma
certa luta de alguns atletas – sejam eles participantes ou não do Mun-
dial – contra a lei e o sistema classificatório desta.
Numa reportagem de 3 de Agosto de 2013, o portal (globo.com) noti-
cia que dois atletas olímpicos canadenses de esportes de inverno, o alpi-
nista Mike Janyk e a snowboarder Mercedes Nicoll, iriam participar de uma
131Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
parada gay na cidade deVancouver contra as leis da Rússia. O Comitê Olím-
pico Canadense já tinha se posicionado contra as leis anti-homossexuais
adotadas pela Rússia e o porta-voz do comitê fez a seguinte declaração:
Praticar esportes é um direito humano e deve estar disponível
para todos, independentemente de raça, gênero ou orientação
sexual. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/olimpia-
das-de-inverno/noticia/2013/08/atletas-olimpicos-vao-parti-
cipar-de-parada-gay-contra-leis-da-russia.html. Acesso: 28 de
Agosto de 2013.
No dia 17 de agosto de 2013 foi publicada a notícia de que no cerimo-
nial de premiação da prova do revezamento 4x400 feminino, duas das qua-
tro atletas medalhistas de ouro deram um beijo“selinho”para comemorar
o ouro no pódio. As corredoras Kseniya Ryzhova e Yulia Gushchina foram
fotografadas durante a comemoração, logo após receberem a medalha.
Na Rússia, é considerado comum que tanto homens quanto mulheres
troquembeijosquandoestãoentreamigosouemfamília.Noentanto,acena
chama atenção na semana em que a polêmica lei anti-gay do país ganhou
novos capítulos em toda a mídia internacional. No dia seguinte à publicação
daimagemdobeijodasatletasrussasnopódio,nomundocorriaapolêmica:
seriaounãoobeijoumprotestoàleianti-gay?O“globo.com”publicaque,em
entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, Ryzhova esclareceu que o ato
não teve nada a ver com a sexualidade das atletas. Disse a atleta:
- Foi somente (uma demonstração) de felicidade da nossa equipe.
Se as pessoas querem escrever sobre qualquer tipo de besteira
sobre a gente, deveriam pelo menos saber que nós somos ambas
casadas – disse a atleta, lembrando que as quatro corredoras se
beijaram na boca após receberem a medalha de ouro. Disponível
em: http://globoesporte.globo.com/atletismo/noticia/2013/08/
russa-explica-que-beijo-no-podio-no-mundial-nao-foi-protesto-
lei-anti-gay.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013.
132 A LEI ANTI-GAY RUSSA
Outro episódio que merece destaque em meio às manifestações e
protestos foi o caso das atletas suecas Moa Hjelmer e Emma Green-Tre-
garo, que pintaram as unhas com as cores do arco-íris para fazer um pro-
testo contra a lei anti-gay. A atleta Emma, da prova do salto em altura,
competiu as eliminatórias da prova com as unhas pintadas com as cores
do arco-íris. Emma é uma atleta homossexual assumida. No dia seguinte
ao protesto, a atleta disputou a final da prova do salto em altura com as
unhas pintadas de vermelho.
O dirigente da deleção da Suécia, Anders Albertsson, mencionou
que todos atletas da equipe foram avisados da lei russa, no entanto,
disse também que não pode proibir nenhum atleta de quebrar as regras,
pois isso fica a critério de cada um deles:
“Nós não temos objeções em relação a como os atletas pintam suas
unhas”. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/atletismo/
noticia/2013/08/iaaf-alerta-delegacao-e-sueca-pinta-unhas-de-
vermelho-apos-polemica.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013.
Os atletas que protestam não conseguem visualizar um lugar onde
seu“eu”seja contemplado. O eu é constituído por posições e essas posi-
ções não são meros produtos teóricos, mas princípios organizadores
totalmente imbuídos de práticas materiais que produzem um “sujeito”
viável (BUTLER, 1998). Frente à política que exige um sujeito “universal”,
os atletas e os demais sujeitos clamam contra seu apagamento singu-
lar, suas diferenças apesar da semelhança em torno da vagina ou do
pênis. Nesse sentido, protestar contra a lei é ir contra as formas de regu-
lação de comportamento que a mesma dita; é denunciar algo que não
os representa. Isso acontece pelo fato do signo operar pela diferença
em relação ao objeto que o mesmo tenta representar. Enquanto a lei,
enquanto signo o representa, pensa os corpos sexuados por categorias,
enquadrando-os em feminino ou masculino, o que está evidente é que
os protestos dos atletas reivindicam pensar os corpos pela questão da
diferença, pelo fato de a coisa não ser redutível aos signos que a apre-
133Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
sentam, que existem, portanto, outros modos para se pensar as relações
entre gêneros: pensando a diferença na diferença.
O protesto aqui fica em nível de interrogação e repúdio contra uma
premissa fundamentalista que constrói um sujeito previamente – de
antemão, que serve e é eficaz para uma política rigidamente programá-
tica. Assim, percebemos que esses sujeitos tentam se deslocar de forma
intencional em meio às relações de poder, fazendo com que os efeitos
instituídos pela lei anti-gay não seja unilinear quanto à sua direção, e
desta forma escapem desse teatro de operações materiais e simbólicas.
Na menção de Butler (1998, p. 17):
Dentrodocontextopolíticodopós-colonialismocontemporâneo,
talvez seja especialmente urgente sublinhar a própria categoria
do “universal” como lugar de insistente disputa e ressignificação.
Tendo em vista o caráter contestado do termo, supor desde o iní-
cio uma noção instrumental ou substantiva do universal é impor
uma noção culturalmente hegemônica sobre o campo social.
Lutar e evadir-se dessas representações caracteriza aquilo que
escapa às normas, evidenciando fissuras, fossos e mostrando as insta-
bilidades dessa construção (BUTLER, 2010). Fugir dessa formação iden-
titária de gênero, como nos mostra Butler (2010), é como se os corpos,
que fogem da norma (lei anti-gay) não fossem legitimados fora delas; é
como se estes corpos formassem um campo de deformação, pois vão
contra a norma ou forma regulatória de ser e de se expressar (e falsa-
mente a única válida). Nesse sentido, ainda nos menciona a autora, tais
corpos são corpos abjetos, pois não se enquadram na inteligibilidade de
uma determinada cultura, já que toda inteligibilidade implica sistemas
categoriais ou taxionômicos metafísicos responsáveis por organizar a
realidade material em termos filosóficos, científicos, religiosos, artísticos
etc. Ou seja, quando algo não compõe o campo simbólico da cultura,
será considerado um risco, um desvio, algo excluído das categorias e,
portanto, da metafísica social dos sujeitos.
134 A LEI ANTI-GAY RUSSA
As unhas pintadas da atleta Emma foram o estopim para estourar a
polêmica que envolveu a atleta russa Yelena Isinbayeva que, após rece-
ber o ouro na prova do salto com vara, condenou a atitude dos atletas
que apoiaram o movimento anti-gay. A temática que ora apresentamos
trata das questões que envolvem as polêmicas de Isinbayeva. Esse
tema apareceu em 3 títulos e no corpo de 9 das 12 reportagens.
Isinbayeva soltou o verbo contra os atletas que protestavam contra
a lei anti-gay russa. Em noticiário veiculado pelo “globo.com” em 15/08,
Isinbayeva fez o seguinte comentário:
- Se nos permitirmos promover e fazer esse tipo de coisas, teme-
mos muito por nossa nação porque nos consideramos normais,
com um padrão. Nós apenas vivemos com homens ao lado de
mulheres, e mulheres ao lado de homens. Tudo deve estar bem.
Isso vem da história. Nós nunca tivemos problemas assim na Rús-
sia. E não queremos ter problemas assim no futuro – afirmou.
Disponível em: http://globoesporte.globo.com/atletismo/noti-
cia/2013/08/isinbayeva-se-retrata-e-diz-ser-contra-discrimina-
cao-foi-um-mal-entendido.html . Acesso: 28 de Agosto de 2013.
Para a atleta russa, os competidores estrangeiros precisavam respei-
tar os costumes de seu país:
- É desrespeitoso com o nosso país. É desrespeitoso com nossos
cidadãos porque somos russos. Talvez sejamos diferentes de
outros europeus e de pessoas de diferentes países. Nós temos
nossa casa e todos devem respeitar. Quando chegamos a outros
países, tentamos seguir as regras deles. Disponível em: http://
globoesporte.globo.com/atletismo/noticia/2013/08/isinbayeva-
se-retrata-e-diz-ser-contra-discriminacao-foi-um-mal-entendido.
html. Acesso: 28 de Agosto de 2013.
Em relação ao caso da atleta Green Tregaro, que pintou as unhas,
e às declarações de Isinbayeva, a Federação Internacional de Atletismo
135Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
(IAAF), através de seu porta-voz Nick Davies, afirmou que as opiniões das
duas atletas devem ser respeitadas.
- A constituição da IAAF condiz com nosso princípio de não haver
discriminaçãoemtermosdereligião,políticaouorientaçãosexual.
Aliado a isso está nossa crença de que a liberdade de expressão
é um direito básico, o que significa que devemos respeitar as
opiniões de Green Tregaro e de Isinbayeva. Disponível em: http://
globoesporte.globo.com/atletismo/noticia/2013/08/isinbayeva-
condena-movimento-gay-e-diz-nunca-tivemos-problemas-
assim.html?hash=1. Acesso: 28 de Agosto de 2013.
Após essas declarações, Isinbayeva foi acusada de homofobia e veio
a público se retratar, como mostra a reportagem do dia 16/08/2013:
- Quero deixar claro que respeito os pontos de vista de meus
companheiros atletas e quero expressar de maneira firme que
me oponho a qualquer discriminação contra a comunidade gay a
respeito de sua sexualidade (o que iria contra a Carta Olímpica). O
inglês não é minha língua materna e acredito que aconteceu um
mal-entendido quando falei ontem. O que queria dizer é que as
pessoas devem respeitar as leis de outros países, particularmente
quando são convidados. Disponível em: http://globoesporte.
globo.com/atletismo/noticia/2013/08/isinbayeva-se-retrata-
e-diz-ser-contra-discriminacao-foi-um-mal-entendido.html.
Acesso: 28 de Agosto de 2013.
No mesmo dia em que Isinbayeva veio se retratar em público, o líder
do movimento gay russo, Nikolai Alexeyev, veio rebatê-la:
- Um atleta de tanta categoria deveria pensar no que fala.
Infelizmente, Isinbayeva cometeu um grande erro. Ela percebeu
isso e tentou sair da situação (com nota oficial). Tentou negar e
culpou a dificuldade da tradução, a dificuldade de falar inglês
136 A LEI ANTI-GAY RUSSA
etc. Mas isso não muda nada. Disponível em: http://sportv.
globo.com/site/programas/ta-na-area/noticia/2013/08/lider-de-
movimento-gay-russo-rebate-isinbayeva-cometeu-um-grande-
erro.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013.
A primeira fala de Isinbayeva, quando a mesma menciona que não
se pode“promover esse tipo de coisa”, pois possuem uma nação normal,
com um padrão e que convivem apenas com homens ao lado de mulhe-
res e vice-versa, representa bem a noção de gênero construída pela
matriz heterossexual ou heteronormativa. Após isso, ela usa um argu-
mento que quebra com o primeiro, quando, ainda nessa mesma fala, a
atleta enfatiza que isso já vem da história. De fato, quanto a isso, a russa
está certa, pois, como nos menciona Alós (2012), é apenas dentro da cul-
tura e da história que o corpo e o sexo expressam sentido e significado,
ou seja, tornam-se compreensíveis, aceitos, inteligíveis. Ainda segundo
o autor, a partir dessa noção, a categoria de gênero, assim como algu-
mas noções de“normal”e“anormal”a respeito de algumas sexualidades,
deixam de serem “verdades”, ou possuírem uma essência transcenden-
tal e inquestionável, e podem passar a serem questionadas, repensadas
como construto histórico-cultural.
Levando isso em consideração, a noção de um gênero ou sexua-
lidade válida vai de encontro às amarras culturais às quais os corpos
estão presos. Nesse sentido, uma suposta noção ontológica de gênero
de acordo com uma matriz heterossexual tem uma dada continuidade,
possui signos que fazem sentido e legitimam tal gênero no seio daquela
cultura (ALÓS, 2012). A partir do momento em que corpos e gêneros
fogem dos limites simbólicos demarcados, são considerados não legí-
timos, ou seja, anormais. Porém, como destaca Alós (2012), os corpos
que ultrapassam esses limites dão margem e brechas para questionar a
própria noção do que é acatado como culturalmente legítimo.
A declaração da IAAF, através de seu porta-voz Nick Davies, destaca
a possibilidade de questionamentos que vão contra a discriminação
137Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
de identidades subversivas, seja em relação a etnia, religião ou gênero.
Neste sentido, também questionamos: a noção da legitimidade do
gênero a partir do normal ou do anormal é vista nos corpos que não se
encaixam nos limites da lei ou na própria lei que é pautada numa matriz
heterossexual? A noção de gênero “normal” ou “anormal” está existente
nos próprios corpos ou no discurso da lei e dos que a defendem? Quem
estabelece as normas e que contestações elas produzem? Quais as ori-
gens das operações dessa construção? Quais as origens desse apaga-
mento para além do binário homem x mulher?
Pensar a partir destes questionamentos é se exercitar no sentido
de inverter os olhares que marcam o gênero como normal ou anor-
mal, legítimo ou não legítimo, pois essa noção não está engendrada no
gênero em si, mas sim no seio da própria matriz cultural que o discursa
e o forma. Ou seja, é a partir de formas de gênero que transcendem o
binarismo prescrito pela matriz heterossexual, são essas identidades de
gêneros subversivas, que abrem fissuras para desestabilizar as amarras
que prendem os corpos na inteligibilidade estrutural dessa matriz ou
modelo racional, ocasionando uma ressignificação subversiva de corpo,
sexo e gênero (ALÓS, 2012), abrindo as portas da própria estrutura/
matriz. Desta forma, segundo Butler (1998, p.22):
Para que o sujeito seja um ponto de partida prévio da política
é necessário adiar a questão da construção e regulação política
do próprio sujeito, pois é importante lembrar que os sujeitos se
constituem mediante a exclusão, isto é, mediante a criação de um
domínio de sujeitos desautorizados, pré-sujeitos, representações
de degradação, populações apagadas da vista.
Sabedores de que a Rússia sediaria dois grandes eventos de visibi-
lidade internacional: as Olímpiadas de Inverno de Sochi, em fevereiro
de 2014, e a Copa do Mundo de Futebol de 2018, algumas polêmicas
e manifestações frente à lei anti-gay acabaram respingando no agen-
damento desses eventos. Dessa forma, agora apresentamos a temática
138 A LEI ANTI-GAY RUSSA
intitulada agendamentos. Este tema aparece em 4 títulos e no corpo de
8 das 12 reportagens.
O agendamento, na menção de MEZZAROBA (2009, p. 153) é
um processo relacional entre a agenda jornalística (midiática)
e a agenda pública (social), em que há uma tentativa de alguns
grupos (financeiros, econômicos, políticos e a própria mídia)
em pautar temas e assuntos de seu interesse na esfera social e
colocar, desta maneira, sua(s) opinião(ões) com o objetivo de
torná-la(s) hegemônica(s). O agendamento, portanto, é sempre
exercido pela mídia, veículo que opera tais interesses, mas tem
uma relação de interação com a opinião pública, fazendo com
que, em sua operacionalização, vários campos se cruzem.
Das 8 reportagens que versam sobre as consequências das mani-
festações frente aos próximos eventos sediados na Rússia, 7 tratavam
de questões ligadas aos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi e apenas
1 fazia alusão à Copa do Mundo de Futebol em 2018. Esse fato talvez
se deva à proximidade do evento olímpico que estava praticamente às
vésperas de acontecer3
.
Antes mesmo do mundial de atletismo se iniciar, no dia 08/08/2013,
o ministro dos esportes da Rússia, Vitaly Mutko, se referindo às olimpía-
das de inverno de 2014, garantiu, em entrevista, que a lei sobre gays
não afetará os atletas e não interfere na vida privada das pessoas, porém,
destacou que as leis do país devem ser respeitadas.
-Euqueroacalmartodomundo,antesdetudo,jáque,alémdestalei,
no território da Rússia temos a Constituição da Federação Russa, que
garante a todos os cidadãos o direito a uma vida privada, garante
que não haverá interferência nesta vida privada. Essa lei não visa
privar os cidadãos de qualquer país, religião, ou orientações de seus
3
	 O Mundial de Atletismo aconteceu em agosto de 2013 e os Jogos Olímpicos de Inverno
aconteceram em fevereiro de 2014, ou seja, um intervalo de 6 meses.
139Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
interessesedireitos.Estaleivisaproibirapropagandaentreosjovens
maisdoquequalqueroutracoisa.Possoassegurar-lhesqueosJogos
Olímpicos acontecerão no mais alto nível.Todos os direitos de todos
os cidadãos serão protegidos, mas as leis de qualquer país em que
você entrar, devem, é claro, ser observadas. Mas eu vou dizer outra
vez: isso não afeta os atletas em nada. Venham competir. Disponível
em: http://globoesporte.globo.com/olimpiadas-de-inverno/noti-
cia/2013/08/ministro-russo-garante-que-polemica-lei-sobre-gays-
-nao-afetara-atletas.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013.
O astro russo do hóquei, Ilya Kovalchuk, declarou publicamente ser
a favor da lei anti-gay na Rússia: “é nosso país”. O jogador se manifes-
tou após as queixas feitas pelos atletas canadenses, que lideraram um
abaixo assinado e inclusive ameaçaram boicotar os jogos de inverno
de Sochi, em 2014. Ruídos de boicote dos jogos também aconteceram
entre atletas dos Estados Unidos.
Em relação ao boicote dos Jogos, o“globo.com”trouxe uma matéria
em que o presidente americano negava o boicote por parte do país.Veja
o que diz a reportagem:
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se pronunciou
para dizer que o país não fará boicote aos Jogos de Inverno de
2014, em Sochi, apesar de discordar de forma veemente sobre as
leis que buscam intimidar os homossexuais na Rússia. O presidente
americano ainda afirmou que deseja que atletas gays conquistem
medalhas nas Olimpíadas. Disponível em: http://m.sportv.globo.
com/site/programas/sportv-news/noticia/2013/08/obama-nega-
boicote-aos-jogos-de-inverno-e-espera-gays-medalhistas. Acesso:
28 de Agosto de 2013.
O país sede das olímpiadas de inverno precisou prestar esclareci-
mentos sobre a lei anti-gay depois que o presidente do Comitê Olímpico
Internacional (COI), Jacques Rogge, questionou o impacto da mesma
sobre os próximos Jogos: “Nós temos hoje garantias do governo russo
140 A LEI ANTI-GAY RUSSA
que todos serão bem-vindos nos jogos em Sochi, independentemente
da sua orientação sexual”.
Em resposta ao COI, o vice-presidente russo Dmitry Kozak afirmou
que a Rússia não vai discriminar gays em Sochi 2014:
- A Rússia vai cumprir integralmente o regulamento das Olimpía-
das, que prega a igualdade entre todos os competidores. A lei gay
penaliza a propaganda gay, e ela continua valendo. No entanto,
ela não pode ser considerada uma discriminação com base na
orientação sexual. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/
olimpiadas-de-inverno/noticia/2013/08/em-carta-ao-coi-russia-
-garante-que-nao-vai-discriminar-gays-em-sochi.html. Acesso: 28
de Agosto de 2013.
Seguindo a mesma linha do COI, a FIFA, em nota publicada em seu
site oficial, também cobrou esclarecimentos e detalhes da lei às autori-
dades russas por ser esse país a sede da Copa do Mundo de Futebol de
2018. A reportagem do “globo.com” traz o conteúdo da nota divulgada
pela FIFA:
Na nota, a Fifa afirma que espera que todos os convidados da
Copa do Mundo no país-sede, como torcedores, jornalistas,
árbitros e jogadores, possam aproveitar um grande torneio,
independentemente da sua opção sexual. ‘A Rússia se
comprometeuadarumarecepçãocalorosaegarantirasegurança
de todos os visitantes na Copa do Mundo de 2018. A Fifa acredita
que o anfitrião do Mundial vai cumprir esta promessa’. Disponível
em: http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/
noticia/2013/08/copa-de-2018-fifa-pede-detalhes-russia-sobre-
polemica-lei-dos-gays.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013.
Com isso, podemos notar que a polêmica da lei “anti-gay” promul-
gada pelo governo russo pode ser encontrada além da relação entre
Estado e indivíduos, na medida em que seus efeitos ganharam contor-
141Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
nos interinstitucionais e internacionais. Fica evidente que a noção de
subversão à lei não pode ser definida em termos factuais. Isto é, uma
ação pode ser criminosa ou não a depender da lei que a interpreta. Para
o Estado russo, realizar qualquer apologia à homossexualidade é crime.
Já na sociedade norte-americana, para citar os caso dos atletas dos EUA,
crime significa justamente o contrário: proibir que alguém divulgue a
homossexualidade (liberdade de expressão). Essa questão fica evidente
nos discursos dos dois atletas russos e, também, no pedido de esclare-
cimento do COI e da FIFA. Em todos os casos, a reinvindicação é pelo
reconhecimento da legitimidade não do fato, mas acerca da visão legal
e cultural sobre ele.
A lei russa e seus defensores e representantes não titubeiam ao aler-
tarem positivamente que não se trata de uma criminalização da orienta-
ção sexual de alguém, mas sim da expressão propagandista envolvendo
comportamentos homossexuais. A legislação russa, portanto, irá prote-
ger o direito da pessoa ser homossexual, desde que ela não se expresse.
Em outras palavras, desde que isso não seja público e não caracterize
propaganda, isto é, a tentativa de convencer os demais a optar por uma
dada orientação sexual ou de influenciá-los de algum modo, em espe-
cial os jovens. Em meio a esse impasse, os russos que se declararam
solicitam que os estrangeiros respeitem as normas do país. Ao mesmo
tempo e em igual medida, os atletas estrangeiros, homossexuais ou não,
parecem reivindicar que a nação russa respeite seus costumes e valores.
Entretanto, o problema se agrava quando, além das instituições
esportivas e do Estado russo, outra instituição, o Movimento Gay da Rús-
sia, representada por seu líder, entra em cena ao criticar a defesa da atleta
Isinbayeva dirigida à lei “anti-gay”; principalmente porque, a nosso ver,
essa última se pronuncia argumentando que a referida lei representa a
nação russa e, portanto, todos os russos, ao exigir que os estrangeiros
respeitem suas normas. Nikolai Alexeyev, conforme nosso referencial
teórico pós-estrutural, aparece como uma fissura nos limites do dis-
curso de unidade cultural promulgado por Isinbayeva, apontando que a
142 A LEI ANTI-GAY RUSSA
homossexualidade consiste em ser uma existência ou modo de ser para
além das culturas locais e seus conflitos internacionais. A sexualidade,
mais uma vez, se apresenta como um rasgo nas estruturas culturais, de
modo a fazer com que essas se reestruturem, considerando esse dado
como parte da vida pensada e não como anomalia categorial. Por isso, a
lei russa em pauta não representa todos russos e seus sentimentos.
Oagendamentoesportivopassaaterquedebaterprogramaticamente
algumas regras e procedimentos organizacionais para além da estrutura
esportiva. Atingindo uma esfera mais ampla e envolvendo problemáticas
políticas e culturais de cunho pós-estrutural, já que as estruturas não inte-
ragem apenas por meio de relações diagramáticas – quando uma estrutura
está ao lado da outra conforme seus pontos de semelhanças e diferenças.
Elementos de uma outra estrutura considerada estrangeira atravessam o
núcleo e as periferias de estruturas que tentam organizar comportamentos
díspares. Na prática, a sexualidade atravessa de surpresa a estrutura institu-
cional do esporte, para a qual a categorização ou divisão entre masculino
e feminino estava segura na distinção entre genitálias: pênis ou vagina. No
interior da classe genitália atravessam diferenças de sentido. Mas o curioso
de tudo isso é que a homossexualidade no esporte não abala a estrutura do
esporteemsi,mas,pormeiodele,perturbaumaoutraestruturaexternaem
termosdesemelhançadiagramática:osEstadosesuasilusõesdesociedade
homogênea e hegemônica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Retomando o objetivo de nosso artigo que foi investigar e anali-
sar as demarcações e governo dos corpos no que tange as questões
de gênero a partir de dados empíricos veiculados no portal “globo.
com” entendemos que corpo do outro e o meu próprio são enigmas
que nos oferecem pistas, indícios, signos, sintomas que desconstroem
todo tipo de taxonomia e, portanto, o contexto cultural que a sustenta.
Nessa desconstrução taxionômica, o exercício de desconstruir não
143Fabio Zoboli; Elder Silva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa
deve ser visto como sinônimo de censura ou aniquilamento, pelo con-
trário, trata-se de se libertar de amarras epistêmicas e metafísicas para
que os sentidos de gênero não fiquem presos a uma matriz antecipató-
ria que não deixe emergir outros significados. É um desafio no sentido
de emancipar o gênero de ontologias que os condenam a matrizes de
demarcação e governo.
Desta forma, poderemos visualizar que a homossexualidade dei-
xará de ser algo periférico, marginal ou anômalo e será vista sob o viés
epistemológico de outras estruturas relacionais para além daquelas
que até agora a enxergaram. Não obstante, é nesse ponto que o pós-
-estruturalismo oferece uma nova saída. A saída da proliferação das
diferenças, a proliferação de versões sobre a estrutura. Para começar a
mudar é necessário experimentar o olhar do outro em mim enquanto
o olhar da diferença.
Em suma, as políticas de Estado pautadas teórica e metodologica-
mente no estruturalismo buscaram organizar a realidade formada pelas
relações entre os viventes segundo seus respectivo sistemas categoriais
cujas bases estão fixadas na epistemologia e na metafísica ocidentais,
positivista e cristã. Já o pós-estruturalismo, enquanto corrente teórico-
-metodológica, defende que os modelos mentais devem se transformar
em função dos devires apresentados pela vida e pelos viventes. Nesses
termos, pensar os desafios governamentais em uma era democrática
significa que as leis devem garantir o bem-estar e o convívio humano
de todos. Portanto, toda lei que exclui ou criminaliza um sujeito ou um
grupo deverá ser revista para se adequar à necessidade das pessoas, já
que as leis e as normas só têm sentido para preservar a humanidade.
144 A LEI ANTI-GAY RUSSA
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CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE1
Cristiano Mezzaroba
Fabio Zoboli
Elder Silva Correia
RESUMO: O ensaio discorre sobre a relação “Saúde x Educação Física” critican-
do o modelo das práticas corporais fundamentalmente ligadas a uma visão
biologicista de corpo ao mesmo tempo em que estabelece um arrolamento
dessas práticas ao âmbito da disciplina ascética e da governabilidade que esta-
belece uma relação de moralidade ao discurso e às práticas de saúde.
PALAVRAS CHAVE: Corpo; Saúde; Governabilidade.
1
	 Compreendemos a governabilidade como objeto de estudo dos mecanismos políticos que
visam a subjetivação e a objetivação da educação dos corpos. A educação é encarada como
um dos mecanismos políticos das culturas no sentido destas conhecerem o corpo em suas
possibilidades materiais e simbólicas de exercer e de suportar atos governantes orientados
à produção de comportamentos corporais em suas sociedades mediadas por leis, regras,
valores, conceitos e saberes localizáveis histórica e geograficamente – tempo e espaço. Não
confundir a ideia de governabilidade apresentada no texto com o conceito de governamen-
tabilidade de Michel Foucault.
148 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
INTRODUÇÃO
Na modernidade foi-se disseminado um sem fim de práticas corpo-
rais baseados em modelos de atividades com desempenho físico, visando
a tão falada qualidade de vida. “Todo um vocabulário médico-fisicalista
baseado em constantes biológicas, taxas de colesterol, tono muscular,
capacidadeaeróbicapopulariza-seeadquireumaconotação‘quasemoral’,
fornecendo os critérios de avaliação individual”(BRACHT, 2013, p.184).
A ideologia da qualidade de vida sustentada pelos discursos e prá-
ticas da saúde criam uma moralidade ascética da qual o indivíduo se
apropria para seu autogoverno. A ascese é aqui compreendida como um
conjunto ordenado de exercícios disponíveis, recomendado e utilizado
pelos indivíduos dentro de um sistema simbólico que tem como fim
atingir um objetivo específico. Por assumir uma condição simbólica, a
ascese possui uma dimensão política e moral. Sob este viés, as posturas
ascéticas implicam processos de subjetivação/objetivação.
O eu que se pericia tem no corpo e no ato de se periciar a fonte
básica de sua identidade. Sendo assim, como nos apresenta Marzano-
-Parisoli (2001) apud Gomes (2013), ser magro, ou estar na linha, tor-
nou-se não apenas uma imagem sedutora e atrativa, mas também um
símbolo de autocontrole, integridade moral e estatuto social elevado.
Podemos considerar que a principal causa dessa visão unicamente
biológica da saúde é dada principalmente por um processo de tomada
do corpo como algo único e exclusivamente de descrição da medicina.
Um importante e fundamental campo que possibilitou essa tomada do
corpo para a medicina foi a anatomia. A história desta e as técnicas de
visualização da medicina provam a estreita relação na produção dos
discursos científicos sobre o corpo, tendo um forte papel na construção
sociocultural sobre o que entendemos do processo de saúde e doença,
intervenções terapêuticas, e, portanto, a ideia que temos do nosso pró-
prio corpo (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). Assim, pensar o corpo seria
então recorrer diretamente à medicina e ao seu vocabulário biológico.
149Cristiano Mezzaroba; Fabio Zoboli; Elder Silva Correia
Neste sentido, o objetivo deste ensaio gira em torno de uma crítica
ao modelo de corpo e práticas corporais ligadas a um modelo de corpo
biologicista que fomenta um autogoverno de si – ascese – pautado em
eventos em que o corpo fica preso a uma moral de saúde reduzida a
parâmetros bio/fisiológicos.
	 Sendo assim, apresentamos o presente texto focando a ques-
tão do corpo na biopolítica, e como a EF, dentro desta, serviu e serve de
dispositivo de gestão da saúde do sujeito, tanto no período em que o
Estado e as instituições eram responsáveis por este sujeito, assim como
também na inversão desta gestão, em que o sujeito passa a ser respon-
sável pela sua própria saúde, torna-se o gestor de si, e as questões rela-
cionadas à saúde ao corpo passam a ser como uma fonte de valor.
EDUCAÇÃO FÍSICA, SAÚDE E O AUTO-GOVERNO
O corpo enquanto objeto de estudo e de intervenção, é (e sempre
foi) tratado sob o viés de diversas ciências/campos do conhecimento.
Isso quer dizer que há vários enquadramentos de sentido para se conce-
ber o corpo, em que cada uma lê o mesmo a partir de suas significações.
Neste sentido, cada ciência que trata o corpo é uma verdadeira máquina
semiótica na medida em que a suas formas de olhar o corpo produz
sentidos sobre o mesmo. “O homem jamais reage à objetividade das
coisas: é a significação que ele atribui a elas que determina seu compor-
tamento” (LE BRETON, 2011, p.333). Sob este aspecto, cabe deixar claro
que quando as ciências naturais ou humanas falam sobre o corpo, não
estão falando dele em si, mas sim de representações ou signos degene-
rados ou ampliados dele – sendo assim, cada ciência com seus conceitos
é interpretante lógica do corpo.
Isso acontece porque toda e qualquer ciência não dá conta de tratar
o corpo em si que ela obtém como objeto, pois isto são apenas represen-
tações significadas ou ainda signos incompletos ou signos ampliados
(virtuosos ou virtuais) do objeto (corpo). Sendo assim:“Retoma-se aqui a
150 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
consideração do corpo como espaço de inscrição de signos, não sendo o
próprio corpo, por inteiro, significável. O corpo acolhe códigos que nele
ancoram ganhando assim um estatuto de significante flutuante” (BÁR-
TOLO, 2007, p.75).
Neste sentido, conceituar e compreender o corpo sob o viés da intei-
reza e complexidade passa a ser uma tarefa impossível, algo inabarcável,
pois somos capazes apenas de apreender significações e representações
deste de acordo com certos limites cognitivos do presente. Assim, Le
Breton (2009, p.24) enfatiza que “[...] qualquer questionamento sobre
corpo requer antes a construção de seu objeto, a elucidação daquilo
que subentende”. E continua:“[...] o‘corpo’é uma linha de pesquisa e não
uma realidade em si”(LE BRETON, 2009, p.33).
Para melhor situar e visualizar o corpo no contexto dos discursos
e práticas de saúde em EF, nos reportamos à citação de Mondin (2003),
quando este menciona que o corpo humano pode variar entre uma
concepção científica que pensa o corpo enquanto coisa, o corpo objeto,
aquilo que os alemães chamam de Körper, e a consideração fenomeno-
lógica que estuda o próprio corpo enquanto lugar de sentidos e signifi-
cações experimentadas e vividas, que para os alemães se trata do Leib.
O primeiro consiste em ser um cadáver a ser significado pelo segundo.
Quando a ciência se apropria do corpo a partir do Körper ela cria
no sujeito uma representação de corpo na qual o indivíduo ocupa um
lugar de objeto/coisa e não de ator, ou seja, de um ser humano/corpo
inscrito a partir de sua história/trajetória. O corpo passa a ser apenas um
evento mecânico fruto de sua estrutura anatômica pautada no cadáver
em detrimento de uma“anatomia viva”que“in-corpore”a subjetividade
e a intencionalidade.
O corpo Körper é “inaugurado” com Andreas Vesálio com um livro
publicado em 1543, cujo título é“Da organização do corpo humano”(De
Humanicorporis fabrica) que deu início à anatomia científica moderna
(ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). A partir de Vesálio e de suas publicações,
tornou-se uma premissa para o campo da medicina ocidental que toda
151Cristiano Mezzaroba; Fabio Zoboli; Elder Silva Correia
verdade a respeito das doenças poderiam ser vistas no interior e viscosi-
dade do corpo humano, ou seja, o importante era ver, originando assim
uma estreita e íntima relação entre o visual e o conhecimento científico
do corpo – e, portanto, dos processos de saúde e doença. Tal premissa
também trouxe consigo o modelo de um único e verdadeiro corpo, que
seria apresentado como norma para todos (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010)
– modelo este que seria pautado apenas nas dimensões anatomofisioló-
gicas do corpo humano.
A partir de Vesálio, a visualidade do corpo passou a ter um privilé-
gio no que se refere ao conhecimento do mesmo, e assim na sua con-
sequente objetivação, bem como surgiu a primazia do cadáver como
modelo de compreensão do estudo do corpo – características estas que
são heranças da tradição anatômica (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). A
visualização era tida como meio de apreensão da realidade objetiva de
um objeto que seria o corpo, ou seja, alvo de conhecimento externo –
consideravam que por meio da visualização, o objeto representado esta-
ria sendo acessado diretamente como ele realmente era. Assim “[...] o
estabelecimento de um conhecimento objetivante sobre o corpo é bem
ilustrado pelo modelo do corpo-máquina, cujas partes se relacionariam
umas com as outras como as engrenagens de um relógio – do que o
sistema filosófico de René Descartes seria, posteriormente, o apogeu”
(ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p.27).
Assim, ocorreu a redução epistemológica do ser humano, sendo
objetivado ao extremo, e neste sentido, a doença passou a ser entendida
como um evento detectável no interior do corpo, e o uso de ferramen-
tas pela medicina foi de suma importância para os diagnósticos destas
doenças (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). O que percebemos é que a medi-
cina pautada estritamente no modelo biológico de corpo fez surgir a
objetividade da doença, excluindo traços subjetivos e, além disso, outras
dimensões que abarcam o processo de saúde/doença – dimensões estas
que vão além da organicidade do corpo. Assim “o pedestal epistemoló-
gico da medicina repousa sobre o estudo rigoroso do corpo, mas de um
152 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
corpo cindido do homem, tornado leve, percebido como receptáculo da
doença”(LE BRETON, 2011 p.284). Assim, a medicina fornece:
A noção de um homem que não seria nada além de seu corpo,
de uma doença confundida com sua localização anatômica e
funcional, prelúdio de uma medicina que trata unicamente um
órgão ou função lesada, identificando a doença a uma mera
disfunção em um mecanismo corporal (LE BRETON, 2011 p.318).
Ou ainda,
[...] [a] visão de saúde e doença tem sido fartamente descrita
a partir do modelo da biomedicina, apoiado em concepções
genéricas do processo saúde e doença e na produção de
evidênciasanatomopatológicaseetiopatogênicas,supostamente
elucidáveispormeiodaobjetividadedastecnologias[biomédicas]
(ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p.18).
Apartirdisto,surgiuanecessidadedapreocupaçãocomocorpo,omodo
pelo qual ele é exposto a doenças e como estas o afligem – tais questões
interessariam cada vez mais à política/governo e à educação. Sendo assim,
ligados a movimentos da Medicina, junto ao desenvolvimento da ciência,
bem como a constituição do Estado Nacional e sistemas educacionais, a EF
enquantocomponentecurricularadentraaescolacomoinstrumentodeedu-
cação corporal, mais precisamente de promoção da saúde (BRACHT, 2001).
Neste sentido, a EF iria intervir na escola pautada estritamente no
discurso biomédico do século XVIII. A EF, assim, teve sua prática relacio-
nada a estratégias como a polícia médica, campanhas sanitárias e movi-
mento higienista – estratégias estas pensadas pelo governo como modo
de atingir toda a população e, neste sentido, a educação corporal seria
de suma importância (BRACHT, 2001).
Para tal educação do corpo, a EF primeiramente usou como meio os
métodos da ginástica e depois aos poucos foi incorporando o sistema
153Cristiano Mezzaroba; Fabio Zoboli; Elder Silva Correia
esportivo (BRACHT, 2001). No entanto cabe lembrar que o modelo de
corpo pautado para a prática pedagógica da EF – tanto pela ginástica,
como pelo esporte – era pautado no conhecimento biológico do seu
funcionamento, apesar de saberem que aspectos como a moralidade,
caráter e costumes, por exemplo, deveriam ser também trabalhados
com os alunos, mas tais práticas sempre estariam pautadas na dimensão
biológica (BRACHT, 2001).
Esse entendimento de prática voltada sobretudo a um modelo de
corpo puramente biológico, caracteriza a então visão hegemônica de
saúde. Quando voltamos nosso olhar para a visão da discussão da saúde
hoje na escola, o entendimento principalmente aqui no Brasil é que a
atividade, aptidão física, bem como conteúdos como o exercício físico
e o desporto (reduzido ao aspecto técnico e biológico) são conteúdos
principais e essenciais para se tratar de saúde na EF (MEZZAROBA, 2012).
Neste sentido, se reduz o entendimento de que atividade física
é sinônimo de saúde, assim “[...] defender o discurso de que ‘exercício
é saúde’ em determinado contexto sociocultural pode ser um grande
equívoco por parte de professores de EF, já que este discurso que liga a
causa (fazer atividade física) a um efeito (gerar saúde), o conhecido dis-
curso da causalidade, é algo reducionista e problemático”(MEZZAROBA,
2012, p.234-235).
No que tange os campos de intervenções da EF, principalmente no
que está relacionado à temática da saúde, podemos pensar que elas
ocorrem tanto no universo escolar como também nos serviços públicos
de saúde, seja com o propósito de educação em saúde, terapêutica, pre-
venção ou, de maneira mais ampla, promovendo a saúde humana (LUZ,
2007; ROCHA & CENTURIÃO, 2007).
Ainda em relação à sua contextualização, podemos situar um impor-
tante e necessário texto de Lovisolo (1997), chamado “A paisagem das
tribos da EF”, em que, numa linguagem metafórica, o autor apresenta as
configurações de como ocorre a formação e as intervenções relativas à
EF no Brasil, a partir de duas“tribos”principais: a tribo da saúde, que ele
154 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
chama de“tribo da conservação”, e a“tribo da potência”, nome dado em
relação àqueles que se dedicam ao esporte.
Além dessas duas, há a tribo da “modelagem corporal” que,
segundo o autor, está se constituindo de maneira cada vez mais forte,
aproveitando os discursos da tribo da conservação e tendo como ima-
gem, ou como modelo, os atletas (da tribo da potência), o que gera
uma ambiguidade nos discursos que envolvem/ligam saúde à estética.
Por último, a tribo da educação, aqueles que, na linguagem metafórica,
situam-se no meio do rio, entre essas duas margens principais (saúde
e esporte), navegando seu barquinho à vela e vulneráveis às tempes-
tades e correntes – ora indo em direção à margem da tribo da conser-
vação, ora indo para a margem da tribo da potência – e que, no fundo,
defendem uma variedade de saberes e práticas, mas que por causa
disso, falta uma “definição”, aquilo que discutimos costumeiramente
como a especificidade da EF escolar.
Poderíamos pensar que, passados mais de quinze anos da divul-
gação deste texto, o autor talvez tenha acertado seu prognóstico: a
separação na formação e nas intervenções, formando profissionais
completamente diferentes dentro daquilo que constituía-se como uma
“área única”, porém diversa. Hoje vemos professores de EF atuando no
ambiente escolar e bacharéis (personal trainners, técnicos, recreacionis-
tas etc.) atuando de maneira autônoma, em academias, clubes e institui-
ções privadas. Neste sentido, é importante destacarmos aqui a EF tanto
como um campo que está ligado ao universo público, tanto nas escolas
públicas, assim como nos sistemas públicos de saúde; e também em um
universo autônomo como nas academias, representados por personais
trainners, técnicos etc. Assim, destaca-se a EF enquanto um dos campos
que, atrelado a instituições públicas ou privadas, regem a saúde.
Os saberes que são produzidos pelas instituições que regem a
saúde – pela legitimidade de suas áreas – vão se materializando e
tomando forma no contexto social na medida em que vão subjetivando
os sujeitos. O corpo, assim, serve de âncora para a percepção individual
155Cristiano Mezzaroba; Fabio Zoboli; Elder Silva Correia
de se ser saudável e participa de um fluxo de sentidos que é cultural-
mente manipulado pelos esquemas de percepção que regulam o “ser
saudável”. Aqui é importante perceber a complexidade desse fenômeno
social amparado basicamente sobre a correlação entre: cultura e cam-
pos de saber (instituições que produzem ciência ou lidam e manipulam
a mesma); tipos de normatividade (legitimação/materialização de seus
resultados); e formas de subjetivação (estratégias de inculcação social).
O sujeito não existe fora dos processos sociais, sobretudo os
de ordem discursiva que os produzem enquanto seres livres e
autônomos. É justamente o significado do termo tecnologias da
subjetividade: um conjunto de técnicas de trabalho ético sobre
si próprio que tem a noção de subjetividade de seus principais
efeitos (GOMES, 2013, p.62).
Criam-se, assim, formas de ver e perceber o corpo no contexto da
saúde. Esse ver e perceber o corpo se institucionaliza e pauta saberes –
subjetivações – que vão sendo disseminadas e legitimadas pela área
médica sempre amparada pelo viés científico e suas tramas de métodos.
Sobre as instituições como forma gestora do indivíduo, como nos
lembra Ortega e Zorzanelli (2010), os estudos de Foucault já sinalizavam
a tomada do corpo, ou seja, do sujeito, como foco de ações e atenções
políticas. Neste sentido, Foucault detectou um forte processo de inves-
timento no corpo por meio do poder, ou o que ele chama de biopoder,
este que além do corpo, perpassava a vida e os mais variados campos
e fenômenos que envolvem a sociedade (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010).
Para Michel Foucault, as relações de poder eram responsáveis pela
produção de formas do sujeito se relacionar consigo mesmo e com os
outros, sendo por meio do controle dos gestos do corpo, do espaço e
do tempo (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). Podemos detectar isso quando
falamos do meio pelo qual a própria EF adentrou o ambiente escolar,
ou seja, pela preocupação com o corpo e o modo pelo qual o mesmo
era suscetível a doenças, e pelas estratégias práticas que regiam esses
156 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
corpo como, por exemplo, a ginástica e o esporte. Sob este viés, é impor-
tante entender que o poder deve ser apreendido como determinadas
situações estratégicas, representadas por um conjunto de ações que
operavam sobre o comportamento do sujeito, induzindo, dificultando,
facilitando ou não determinadas ações (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010).
Sobre as mudanças pelas quais o poder tendeu a transformar-se no
fim do século XVIII e começo do século XIX, Foucault designou o termo
biopolítica (REVEL, 2005). Essa noção de biopolítica tem em seu bojo
a necessidade de levar em consideração o nascimento do liberalismo
(REVEL, 2005), ou, como Foucault (2008) enfatiza, a“arte liberal de gover-
nar”, na medida em que a noção de biopolítica está atrelada a caracterís-
ticas desse modelo de governo.
A arte liberal que Foucault (2008) menciona como nova arte gover-
namental se caracteriza como gestora de liberdade, porém,“não no sen-
tido do imperativo ‘seja livre’ [...]” (FOUCAULT, 2008, p. 86), mas sim no
sentido de que esse tipo de governo vai proporcionar o necessário para
que haja liberdade, é por isso que essa arte de governo produz, con-
some e organiza a liberdade, (FOUCAULT, 2008).
[...]Oliberalismo,nosentidoemqueeuoentendo,esseliberalismo
que podemos caracterizar como nova arte de governar formada
no século XVIII, implica em seu cerne uma relação de produção/
destruição [com a] a liberdade [...]. É necessário, de um lado,
produzir a liberdade, mas esse mesmo implica que, de outro
lado, se estabeleçam limitações, controles, coerções, obrigações
apoiadas em ameaças etc. (FOUCAULT, 2008, 87).
É importante destacar que na medida em que o liberalismo se pro-
põe a ser o gestor e produtor da liberdade, é este governo que também
é responsável pelos problemas que essa fabricação implica (FOUCAULT,
2008). Neste sentido, para a gestão da liberdade, essa noção/sentido
de liberdade – que não é, vale aqui novamente enfatizar, um impera-
tivo do “seja livre” – implica numa noção de segurança, pois é através
157Cristiano Mezzaroba; Fabio Zoboli; Elder Silva Correia
disso que a arte liberal de governar determina até que ponto o interesse
individual não constitui um perigo para o interesse coletivo e vice-versa
(FOUCAULT, 2008). Considerando isso, o liberalismo ao mesmo tempo em
que manipula os interesses – sejam eles individuais e/ou coletivos – não
pode fazê-lo sem ao mesmo tempo ser o próprio gestor dos perigos e dos
mecanismos de segurança, desse jogo que deve garantir que os indiví-
duos estejam o menos possível sujeitados aos perigos (FOUCAULT, 2008).
[...] Os acidentes individuais, tudo o que pode acontecer na vida de
alguém, seja a doença, seja esta coisa que chega de todo modo,
que é a velhice, não podem constituir um perigo nem para indi-
víduos nem para sociedade. Em suma, a todos esses imperativos
– zelar para que a mecânica dos interesses não provoque perigo
nem para os indivíduos nem para a sociedade – devem correspon-
der estratégias de segurança que são de, de certo modo, o inverso
e a própria condição do liberalismo. A liberdade e a segurança, o
jogo liberdade e segurança [...] (FOUCAULT, 2008, p. 89).
É sobretudo nesse aspecto do jogo entre liberdade e segurança,
no que tange a gestão de interesses individuais ou coletivos em relação
aos mecanismos que irão deixar os sujeitos menos suscetíveis a riscos,
que a biopolítica se relaciona com o liberalismo. Faz-se essencial com-
preendermos que, por volta da metade do século XVIII, as instituições
como a escola e o próprio Estado faziam a gestão do indivíduo. Assim, é
interessante destacar uma vicissitude do biopoder (advindo do Estado)
que surgiu centrando-se no corpo e em seus processos biológicos como
o nascimento, a mortalidade e o nível de saúde. Tais processos viraram
centro de intervenção política mediante um sem fim de controles regu-
ladores, o que vem a caracterizar a entrada dos fenômenos da espécie
humana no campo do que se chama de biopolítica (ORTEGA; ZORZA-
NELLI, 2010), que:“[...] diz respeito ao conjunto de dispositivos que regu-
lavam naquele momento os nascimentos, a mortalidade, o nível de
saúde, a duração da vida, a longevidade e todas as condições que podem
158 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
fazer um corpo variar, tanto individual quanto coletivamente”(ORTEGA;
ZORZANELLI, 2010, p.71). Neste sentido, mais uma vez nos reportamos
aqui à EF, sobretudo no instante em que ela adentra no âmbito escolar
como um dispositivo do governo para a promoção e gestão da saúde
do sujeito. Ou seja, até aqui o governo era o responsável pelo cuidado e
gestão deste sujeito, e a EF era um dos dispositivos que possibilitariam
tais práticas.
No entanto, este panorama de ações das relações de biopoder sobre
o corpo – o sujeito – do qual Foucault falava, hoje apresenta-se caracte-
rizado por algumas mudanças, ou inversões. Isso acontece, sobretudo,
porque a biopolítica é exercida por outros modos de articulação, nos
quais podemos observar o abandono do estado e instituições como
gestor único do sujeito e o advento do próprio sujeito como sendo ele
mesmo o responsável por sua saúde, pelo cuidado de si.
O cenário em que nos encontramos, sobretudo desde o
final das últimas décadas do século passado, nos apresenta
particularidades nesse processo biopolítico, no qual notamos um
deslocamento do Estado como responsável pelos procedimentos
de saúde sobre os indivíduos e a coletividade para uma
autogestão da saúde. Trata-se de um regime de construção do
eu como“empresa prudente”ativamente constituída por atos de
escolha individual (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p. 73).
Sendo assim, o desgaste destas instituições que outrora eram exclu-
sivamente responsáveis pela gestão do sujeito vem conduzindo estes a
se juntarem ao campo da saúde e do corpo como fonte de valor. Aconte-
ceu isso quando a ciência suprimiu tais instituições, tendo assim o direito
de falar no lugar da “verdade”, o que provoca alterações nos valores e
sentidos que dão base à vida contemporânea (ORTEGA; ZORZANELLI,
2010). Neste sentido, a ciência ressignificou tais valores e sentidos, em
que as obrigações éticas e morais, as escolhas do estilo de vida são pau-
tadas no discurso científico – diria biomédico.
159Cristiano Mezzaroba; Fabio Zoboli; Elder Silva Correia
Ocontextodeênfaseexcessivaemumpadrãootimizadodesaúde
cria novas formas de relação consigo e com o outro, como, por
exemplo, o já mencionado uso corrente de vocabulário biológico
para a descrição de aspectos da identidade e da saúde, tais como
infelicidade, sofrimento ou características próprias (‘minha taxa
de colesterol está alta’, ‘sou muito vulnerável ao estresse’, ‘meu
sistema imunológico está em baixa’,‘tenho predisposição a certas
doenças’,‘estou deprimido’). Fato é que a linguagem por meio da
qual os indivíduos têm descrito a si mesmos tem se baseado cada
vez mais em termos médicos que se popularizam, fornecendo
princípios de avaliação dos indivíduos para gestão da própria
saúde (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010).
Neste processo, a otimização dos padrões corporais estabelecidos
via discurso médico-científico torna-se um parâmetro de valor para os
sujeitos. Criam-se assim modelos ideais baseados na performance física,
amparados em parâmetros que têm vínculos com determinadas nor-
mas e regras higiênicas. Assim, as ações dos sujeitos – ações estas indi-
viduais – passam a ter o objetivo de obtenção de uma maior e melhor
forma física, melhor saúde, mais longevidade, juventude – tudo pautado
no “mais”, ou seja, na performance. Neste sentido, passa-se a existir um
corpo mediado por representações normativas estabelecidas por espe-
cialistas da saúde que pautam as técnicas de si – bioascese.
As técnicas de si são práticas de reflexão voluntária através das
quais os indivíduos se procuram transformar a si próprios, fixar-se
regras de conduta e modificar-se na sua singular forma de ser.
Trata-se de um dispositivo de autogoverno dos indivíduos, que
exerce continuamente sem necessidade que haja quem governe
diretamente a conduta de cada um (GOMES, 2013, p.75).
Astecnologiasdesisãomecanismosdeautorregulaçãoquemobi-
lizam práticas de experimentação, compreensão e julgamento da
própria conduta. Tais práticas são realizadas sob a tutela de um
regime de verdade, seja ele pedagógico, psicológico, terapêutico
160 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
ou familiar. Em cada um destes campos, o que está em causa é
a relação de reciprocidade entre o corpo de conhecimentos de
práticas e a produção mesma do self (GOMES, 2013, p.80).
ComocitaOrtega(2005),asmodernasascesescorporais,asbioasceses,
reproduzem no foco subjetivo as regras da biossociabilidade, enfatizando-
-seosprocedimentosdecuidadoscorporais,médicos,higiênicoseestéticos
na construção das identidades pessoais, das bioidentidades.Trata-se da for-
mação de um sujeito que se autocontrola, autovigia e autogoverna. Porém,
sobre essa liberdade do sujeito no tocante a relação do governa:
A última consequência da liberdade do agente, na relação
de governo, desde que se disponha a tanto, é a possibilidade
que ele tem de reconfigurar, pelo menos em parte, as relações
de governo, as quais, na modernidade, são orientadas pela
governamentalidade biopolítica; portanto, a liberdade do agente
é a sua possibilidade de contornar os princípios biopolíticos que
o atrelam à sua finitude (FARHI NETO, 2010, p. 200).
Nesta lógica, é importante o sujeito gerir seu próprio corpo, como
se gerem outros patrimônios, pois o corpo passa a cada vez menos se
diferenciar de qualquer outro objeto a ser governado, na medida em
que o corpo tornou-se um empreendimento a ser administrado da
melhor maneira possível (LE BRETON, 2003).
O selo do domínio de si é o paradigma da relação com o próprio
corpo no contexto contemporâneo. Todo corpo contém a virtua-
lidade de inúmeros outros corpos que o indivíduo pode revelar
tornando-se o arranjador de sua aparência e de seus afetos. O
desinvestimento dos sistemas sociais de sentido conduz a uma
centralização maior sobre si. A retirada para o corpo, para a apa-
rência, para os afetos é um meio de reduzir a incerteza buscando
limites simbólicos o mais perto possível de si. Só resta o corpo
para o indivíduo acreditar e se ligar (LE BRETON, 2003, p.32).
161Cristiano Mezzaroba; Fabio Zoboli; Elder Silva Correia
O resultado disso é um sem fim de regras a serem seguidas e mode-
los que devem ser praticados. Nascem então as exigências de um estilo
de vida saudável, uma arte de governar os outros e a si mesmo no exercí-
cio de sua“própria liberdade”. O sujeito segue parâmetros de proibições
e permissões, um esquema de comportamentos. Isso pode ser lido e
compreendido muito nas noções que Foucault apresenta de tecnologias
políticas do corpo, bem como de governabilidade.
A descrição dos cuidados de saúde de um idoso feita por Coh-Ben-
dit (1981) apresentada por Le Breton (2011, p.252-253) retratam os cui-
dados minuciosos da arte bioascética:
Eu estou engajado no prolongamento máximo da duração de
minha vida. Eu tomo vitaminas, sais minerais. Eu como cereais no
café da manhã e salada ao meio-dia. Eu me ocupo de meu corpo
comosefosseumarevolução.Eucomoparamealimentarenãopor
prazer. Esses são os complementos naturais que eu tomo para meu
equilíbrio geral. Eu consumo cerca de quarenta a cinquenta desses
por dia. Esse é o Max Epi que protege dos acidentes cardíacos. O
betacaroteno tirado das plantas e que retarda o envelhecimento
das células. E aqui estão outros que impedem o desenvolvimento
do câncer, ou que limpam o sangue de suas impurezas. Esse é o
Ginseng, que reforça minha energia e me prepara para os esforços
esportivos. Eu também tomo vitaminas como aquelas que me aju-
dam a dormir à noite, e vitamina do complexo B6
.
Podemos considerar também o que Le Breton (2003) denomina de
“produção farmacológica de si”, na qual a programação farmacológica,
os psicotrópicos se oferecem como meios técnicos para a existência, no
qual, sob determinados ângulos, modulam o sujeito e assim o cotidiano,
estabelecendo uma fantasia de domínio de si mediante a turbulência
em que o mundo vive, embaraçando as fronteiras entre o que depende
exclusivamente de nós sob um determinado comportamento, ou uma
técnica exterior – diria uma técnica incorporada.
162 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
Por meio deles, o indivíduo propicia-se o sono desejado, o
apaziguamento da angústia e da ansiedade, o melhor estímulo
para o exame ou para o dia de trabalho difícil, uma maior
inteligência ou memória, o esquecimento de um cansaço
persistente, o fim de um nervosismo que impede a concentração
etc. Nesse sentido, o consumo de produtos para orientar o humor
ou a vigilância inscreve-se nos hábitos comuns de grande número
de ocidentais, mesmo onde não existe qualquer patologia (LE
BRETON, 2003, p.63).
Neste sentido, coloca-se uma série de signos a serem persegui-
dos pela sociedade, de acordo com seus valores culturais/simbólicos e
morais, que torna uma encenação deliberada do próprio sujeito com um
sem fim de variações que fazem do corpo e do próprio sujeito um mate-
rial a ser regido e controlado mediante as orientações daquele determi-
nado momento (LE BRETON, 2003).
É pautada nessa moralidade que os fumantes, os sedentários, os
alcoólatras, os drogados, os obesos, os anoréxicos etc. são julgados
como amorais e de pouca vontade. São eles o exemplo da “personifica-
ção do pecado”, a eles cabem todas as“penitências”por não seguirem a
conduta moral instituída pela saúde. A questão da “anormalidade” não
deve ser encarada como algo que foge necessariamente de regras fisio-
lógicas, isso porque o corpo e os processos de saúde-doença não estão
apenas nos limites do registro anatômico e funcional do corpo, mas tam-
bém numa dimensão sociocultural na qual são partilhadas uma série de
sentidos e significados (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010), dando assim sen-
tido a uma série de etiquetas morais e de ideias de saúde.
Numa sociedade cada vez mais individualista, a coletividade só for-
nece de forma alusiva os valores e a moralidade, na medida em que é o
próprio sujeito o mestre que decide o rumo que deve tomar sua exis-
tência (LE BRETON, 2003). Porém, entramos aí num paradoxo de uma
falsa liberdade, que serve apenas para inculcar a culpa e a suposta falta
de responsabilidade do sujeito mediante o manejo de si. Assim,“[...] em
163Cristiano Mezzaroba; Fabio Zoboli; Elder Silva Correia
contraposição, a normalidade desejável é o indivíduo capaz de autocon-
trole”(ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p.93). É como se houvesse uma:
Conduta mágica que garante pelo menos um domínio de si onde
o ambiente social é problemático, em uma sociedade em crise,
presa em um remanejamento sem trégua de seus valores e de
suas bases sociais, os recursos pessoais de cada indivíduo são
solicitados o tempo todo, com a confusão ou a ansiedade que
nasce do medo de não estar à altura (LE BRETON, 2003, p. 59).
Tudo isso vem reforçar a ideologia da saúde perfeita, que leva a crer
que um sujeito fora destes padrões de autocontrole tem origem numa
falha de caráter, falha no manejo de si mesmo (ORTEGA; ZORZANELLI,
2010, p.95). Tal discurso cai nas questões individuais, como no chamado
“estilo de vida”, como se todas as pessoas escolhessem a situação em que
vivem, e tivessem total controle sobre o que determina sua saúde. Assim:
Ao atribuir o peso da culpa ou da responsabilidade ao próprio
indivíduo, ocorre aquilo que a saúde coletiva denomina de cul-
pabilização da vítima, ou seja, exposto aos vários agravos que o
indivíduo sofre no seu dia a dia, seja pelas suas condições de
trabalho, de alimentação, de transporte, de relações pessoais,
e com o ‘bombardeio de informações’ que recebe quanto a
comportamentos preventivos que deve seguir para ‘ter saúde’,
seria‘culpa’dele mesmo não seguir o que médicos e profissionais
da saúde – incluídos aí os professores de EF e os personaltrainners
– dizem ou ‘recomendam’ para ser seguido (MEZZAROBA, 2012,
p.237-238).
Do contrário, temos os fanáticos da boa forma, os experts em calcu-
lar minutos de atividade física com queima de calorias e colesterol, os
que cronometram suas horas de sono, que contam as cores das saladas
que têm no prato e a quantidade de frutas e de litros de água que conso-
mem, os que praticam alguma atividade física com certa regularidade. É
164 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
aqui que adentra o que Lovisolo (1997) chamou tribo da saúde, que ele
chama de“tribo da conservação”, e a“tribo da potência”, nome dado em
relação àqueles que se dedicam ao esporte. Tais tribos que fazem parte
da paisagem da EF – na visão metafórica de Lovisolo – vêm com a ciência
falando em nome da“verdade”, dar subsídios para o indivíduo cuidar de
si mesmo, tornar-se um auto-gestor.
Sob esta lógica, a relação do indivíduo com seu corpo acontece por
meio do domínio de si, na medida em que “[...] o homem contemporâ-
neo é convidado a construir o corpo, conservar a forma, modelar a apa-
rência, ocultar o envelhecimento ou a fragilidade, manter a sua ‘saúde
potencial’ [...]” (LE BRETON, 2003, p.30). Neste sentido, Le Breton (2003),
utilizando-se de Sennett (1979) e Courtine (1993), enfatiza que essa cul-
tura do corpo tratada sob a égide do domínio de si pode ser considerada
uma forma moderna da ética protestante, no instante em que pode-
mos ver tal processo baseado no compromisso que perpassava a ética
puritana, caracterizada sob a disciplina e o cuidado de si, porém com
a necessidade do consumo de massa – apresentando-se assim como
um paradoxo na medida em que é pregada toda uma disciplina que o
sujeito deve ter em relação ao domínio de si, porém, com o discurso do
consumo de bens para as práticas, o próprio sujeito rege seu corpo.
Somos sabedores de que há toda uma cultura industrial e de mer-
cado que se serve dos padrões de saúde para criar necessidades e fazer
girar toda uma engrenagem tecnológica lucrativa. Por que não inves-
tir numa ética pautada na responsabilidade de assumir sua condição
de saúde na preservação moral dos sujeitos que fazem parte de seu
entorno? Seria isso possível?
Neste sentido, por que é difícil para nós romper com tais subjetiva-
ções? Precisamos insistir em criar metáforas/experiências sobre saúde
que transcendam os limites de padronização do que é certo e do que
é errado para investir em processos de experienciações singulares que
permitam o sujeito constituir-se e conduzir-se a si mesmo na medida
em que o indivíduo é levado a criar seus próprios mecanismos de se
165Cristiano Mezzaroba; Fabio Zoboli; Elder Silva Correia
sentir saudável. Ainda assim não estamos certos de haver uma possibi-
lidade de isso acontecer, na medida em que é difícil para nós conciliar
práticas corporais – técnicas de si – como prática ascética de liberdade,
pois, como mencionamos acima a partir da citação de Gomes (2013, p.
62) e agora reiteramos: “o sujeito não existe fora dos processos sociais,
sobretudo os de ordem discursiva que os produzem enquanto seres
livres e autônomos”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Torna-se cada vez mais inevitável, com tantos discursos, polifôni-
cos e polissêmicos, que na sua intensidade e facilidade de veiculação
às massas em geral (via meios de comunicação, a chamada mídia), vão
pedagogizandoquestõeshigiênicassobnovaroupagemnaatualidade,
principalmente com as dicas de qual atividade física fazer, quantas
calorias gastar, que musculatura utilizar, do que e quando se alimentar,
que roupa vestir nas práticas físicas, qual a dosagem ideal para as prá-
ticas físicas e esportivas, entre tantos outros exemplos – naquilo que a
Saúde Coletiva denuncia como os novos inimigos do mundo moderno:
o sedentário e o obeso1
.
Tais práticas e discursos estão pautados num modelo biologicista
de corpo, e assim na gestão de si ao modo da técnica, no qual a produ-
ção de si também está atrelada a uma produção da própria identidade
do sujeito. Identidade essa caracterizada no sujeito como um gestor
do seu próprio corpo, o que Le Breton (2003) considera ser o alter ego
– grande outro – se colocando diante do seu corpo como seu próprio
construtor, retificando, reparando, otimizando, potencializando sua
saúde, enfim, administrando sua “máquina” na qual o seu funciona-
mento normal depende única e exclusivamente das ações e cuidados
do seu próprio“engenheiro”.
1
	 Sobre isso, ver Fraga (2006).
166 CORPO, SAÚDE E GOVERNABILIDADE
À EF, enquanto campo do conhecimento que trata da saúde, cabe
melhor contextualizar e problematizar este conteúdo e as diversas ques-
tões que estão à sua volta – como o domínio de si – sem cair em oposi-
ções distanciadas e sem diálogo, apenas repetindo velhos discursos sob
a roupagem daquilo que é considerado como “renovado”; tampouco
negando que sua identidade, enquanto saberes e práticas constituí-
das social e historicamente, está sim atrelada de maneira direta à saúde
(entretanto não restrita ao campo biológico).
Portanto, uma saúde que leve em consideração o corpo enquanto
uma construção simbólica, social, destacando conceitos como, por
exemplo, a experiência que está relacionada com o princípio fenome-
nológico de uma constituição da identidade pessoal, resultado de um
processo de subjetivação e objetivação que seja pautado na própria
experiência do sujeito, em suas determinadas ações e relações com o
contexto social em que está inserido.
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Alegre: UFRGS, 2007, p.17-32.
ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD:
EL CASO DE LA DEL YOGA BUDISTA
COMO TECNOLOGÍA DEL YO
Eduardo Francisco Freyre Roach
RESUMEN: Este trabajo explora la descontextualización y recontextualización
delyogabudistao“yogamindfulness”.Seiniciaconunadiscusióndesusbenefi-
cios como la mejora del rendimiento físico y mental (deportivo, laboral, intelec-
tual, militar, y sexual). También se consideran su contribución al desarrollo de la
inteligencia emocional y el liderazgo para el trabajo empresarial y los negocios.
Se reafirma que quien participa en un programa basado en la atención plena
tienelaoportunidaddeaumentarsupropiobienestar,lafelicidadylaautorrea-
lización. Estos programas se publicitan y comercializan como compatibles con
los avances de la ciencia y la técnica, por un lado, y la espiritualidad budista, por
el otro. Y como tales resultan de hecho una especie de “Technique du soi “a la
que Foucault, que se acompaña de una discursividad portadora de mensajes de
indole individualista, consumista, minimalista y conservador. En este sentido,
estos sistemas están funcionando también como una “Technique du pouvoir
“ y dispositivo de “gouvernmentalite” de los sectores asociados al sector corpo-
rativo empresarial, mercantil y financiero, y el status quo económico, político y
social dominante y globalizado. Sin embargo ...
PALABRAS CLAVE: Yoga; Budismo; Michel Foucault; Tecnología del yo; Cuer-
po, Gobernabilidad.
170 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
INTRODUCCION
El yoga ha alcanzado gran popularidad en Occidente. Hoy en día
vienen adquiriendo auge programas que invitan a la práctica del yoga
en función de expectativas seculares. Algunos ofrecen mejoramiento
de la salud sea mental o corporal. Otros aseguran proporcionar rendi-
miento físico, atlético, o laboral. Hay aquellos que le prometen a usted
el incremento de su inteligencia emocional, y liderazgo en la toma de
decisiones. Y no faltan aquellos que se dedican a la estética corporal y el
placer sexual, e invocan la oportunidad de que usted satisfaga sus ansias
de bienestar, autorrealización personal, y felicidad.
Programas de esta índole son presentados como entornos efica-
ces, auténticos, y compatibles tanto con los avances de la ciencia y la
tecnología, como con las tradiciones de sabiduría y espiritualidad del
Oriente. Por cuanto lo que se publicita como tal a través de los mass
media encuentra gran demanda en el mercado, sus promotores y patro-
cinadores defienden a capa y espada copyright ya no solo sobre los con-
tenidos instructivos y materiales de apoyo (folletos, libros, CD-ROOMs,
etc.) de los programas, sino también sobre posturas o poses yogas (asa-
nas) mismas.
Tomando en préstamo conceptos de Michel Foucault se verá aquí
en este trabajo que el yoga budista o “mindfulness yoga” no escapan
a esta des-re/contextualización. Se argumenta que programas secula-
res que se basan, inspiran o dicen aplicar ese yoga se manifiesta como
un tipo de “technique du soi”, que al menos no cuestionan, o más bien,
en última pueden favorecer y reforzar actitudes como individualismo,
consumismo, conformismo, conservadurismo y minimalismo. Y en tal
sentido, se les puede enfocar también como una especie de “technique
du pouvoir”o dispositivo de“gouvermentalite”, que le viene como anillo
al dedo al sector empresarial-mercantil corporativo y al status quo eco-
nómico-financiero y político dominante y globalizado. Por último, se
invita a la comprensión que el yoga en el contexto budista va mas allá
171Eduardo Francisco Freyre Roach
de meros objetivos seculares y la transformación personal, sugiriendo
acción colectiva y transformación social.
EL YOGA BUDISTA COMO TECNOLOGIA DEL YO
Ciertamente, lo que nos viene de la India antigua sobre el yoga con-
templa lo que en términos de Foucault se denomina “technique du soi”
(FOUCAULT, 1990, p.45). En primer lugar, por que en el yoga las posturas
(asanas),losejerciciosderespiración(pranayama),asílameditación(bhah-
ava) y las absorciones, éxtasis o trances meditativos (jhanas) meditativos,
resultan precisamente acciones sobre el cuerpo y la mente. En segundo
lugar, esas acciones la persona la realiza en solitario o junto con otras. En
tercer lugar, se practica el yoga con“con el fin de alcanzar cierto estado de
felicidad, pureza, sabiduría o inmortalidad…”(IBIDEM). Veamos!
Aunque el yoga que se informa en las escrituras antiguas de la India
responde a expectativas religiosas y soteriológicas (la salvación del alma
humana), no hay porque descartar su práctica con fines seculares como
el mejoramiento de la salud, el rendimiento físico e intelectual, y el pla-
cer sexual. Pues, a fin de cuentas, tales fines u objetivos confluyen en la
búsqueda bienestar, felicidad y realización existencial. Lo planteado vale
incluso con respecto al hatha yoga, sistema de la doctrina y disciplina
yoga que proporciona detalladamente instrucciones de asana,0, y jhanas.
Si nos remontamos a la India antigua, se verá que el yoga no es
doctrinalmente neutral. Así se tiene que en el contexto de las escrituras
Vedas, los Upanishadas, y los sutras del Brahmanismo, y toda la litera-
tura Hinduista, el yoga significa unión o fusión mística y eterna del alma
humana con Dios o principio cósmico Brahma. En este contexto los
jhanas yogas se interpretan como separación del alma del cuerpo, su
liberación, y fusión anticipada con Brahma. A esto responde el yoga que
se expone en el Mahābhārata, sobre todo textos: el Śrīmadbhagavadgītā,
Bhagavad Gita o Gita, y de forma mas sistemática en el voluminoso cor-
pus Yogasutras de Patañjali.
172 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
Cronológicamente posterior a los Vedas, pero anterior al Gita y los
sutras de Patanjali, se informa del yoga en los sutras budistas tempranos,
recopilados bajo el titulo de Canon Pali. En esos sutras se registran técnicas
hathayoga tales como de respiración y movimientos de la lengua y la gar-
ganta que incrementan la resistencia al hambre y la sed (VILĀSNĀTH, 2010
Y BIRCH, 2011 citados por MALLINSON, 2012). Se habla de brahamines y
jainas yoguis que se causan fuertes dolores mentales porque meditando
mortifican su mente, y dolores corporales, porque desatienden la morti-
ficación del cuerpo. Las referencias de jhanas es abundante en los sutras
budistas. Entre los testimonios biográficos sobre Buda suele destacarse
que dominó a la perfección técnicas yogas que permiten alcanzar jhanas
superiores1
.SutrasytantrasdelBudismoMahayana,sobretodo,losYogācāra
yVajrayanas, aportan extensas referencias de asanas y pranayama.
Escrituras clásicas budistas de meditación (Sattipatana sutta,
Mahasatipattana, sutta, Anapasatti sutta, y Kayagata-sati sutta) dan
instrucciones precisas de meditación, contemplación o atención plena
de cuerpo, las sensaciones, y estados mentales2
. Es lo que se conoce
con el término original del Pali satī, y que se traduce al inglés como
1
	 Con la enseñanza yoga de Alara Kalama se alcanza el nivel o grado de absorción meditativa o
trance meditativo (jhana) denominado ākiñcaññāyatana (la nada), y con Uddaka Ramaputta el
jhana nevasanna nasannayatan (Ni la percepción ni la no percepción). En el yoga samkhya los
jhanas se conciben como un estado no dual o de no existencia que guarda una relación de iden-
tidad con “el estado inmanifiesto de Brahma” o del cosmos, o “estado ultimo del ser”. (WYNNE,
2007, p. 111). En ese contexto la liberación completa solo acontece en la muerte o vida de ultra-
tumba. El logro meditativo solo anticipa la fusión eterna del alma con Brahma. “La idea de la
liberación en esta vida es justamente extraña para los yogas bramánicos”(IBIDEM, p.109).
2
	 El sutra Satipattana sutta prescribe que satī ha de practicarse respecto a:
	- El cuerpo: respiración, posturas, órganos, fluidos, elementos, y el cadáver.
	 - Las emociones tanto placenteras, neutrales y desagradables,
	 - La mente o estados mentales: pasión, odio, ignorancia, concentración, apetito sensual, ira,
pereza, desasosiego, duda, etc.
	 - Los Cinco Agregados del Apego (khandhas): materia-cuerpo, sensaciones, percepciones,
construcciones mentales, y consciencia.
	 - Las Cuatro Noble Verdades (cattari ariya saccani): dukkha (sufrimiento), nirodha (origen del
sufrimiento), nirvana (cesación del sufrimiento), y magga (el camino de la cesación del sufri-
miento) (MAJJHIMA NIKAYA, 2006)
173Eduardo Francisco Freyre Roach
“mindfulness”. En el contexto de esta doctrina del mindfulness la alusión
al control de la respiración no es explicita, aunque si implícita cuando se
dice que uno puede practicar mindfulness en cualquier postura corporal,
y ya sea si la respiración es corta o larga3
. También se observa que se
habla de jhanas, cuyo logro implica ejercicios respiratorios deliberados.
Aunque tales no se describen, eso no significa que se descarten, mas
aun, como se dijo, Buda dominó a la perfección técnicas yogas que per-
miten alcanzar esos altos niveles de absorción mental. La insatisfacción
de Buda con esos métodos no significó su abandono, pues aparecen en
el acervo de las enseñanzas yogas del Budismo (véase sutras como el
Ariyaparisanasutta). Si se asume que el yoga originario viene de la mano
de la tradición religiosa vedica, entonces cabe suponer que el Budismo
lo descontextualiza de la misma, y lo recontextualiza bajo sus dominios.
En primer lugar, en el contexto budista esos jhanas no se interpre-
tan ni como prueba de la separación del alma del cuerpo y su anticipada
confusión definitiva y eterna con Brahma. La doctrina budista de anattā
(no-alma, no-ser, no-yo) desafía todo postulado idealista, metafísico,
y eternalista de attā (alma, ser, yo en si mismo) admitido en la tradición
que va desde los Vedas hasta el Hinduismo. Como se conoce, el postu-
lado de anattā resulta con corolario de la doctrina budista del Surgimiento
Dependiente (pattica samucaya), que estipula que nada existe sustraído de
causas, condiciones, de relaciones, y de la impermanencia. Por lo tanto, no
3
	 El mindfulness budista, cabe reiterarlo, prescribe básicamente que usted observe su cuerpo
y su mente atentamente sin juzgar lo que esta ocurriendo en ese momento. En los sutras
Satipaţţhāna Sutta y Mahā Satipaţţhāna Sutta se orienta este ejercicio de mindfulness:
“De la misma manera que un tornero experto o su aprendiz sabe, al labrar una voluta
grande: “Estoy labrando una voluta grande”, o al labrar una voluta corta, sabe: “Estoy
labrando una voluta corta”, así el monje, al hacer una aspiración larga, sabe: “Hago
una aspiración larga”. Al hacer una aspiración corta, sabe:“Hago una aspiración corta”.
(MAJJHIMA NIKAYA, 1999, P. 117).
	 Esto significa en esencia que el meditador ha de estar plenamente observando el aparecer y
desvanecer, la ausencia y presencia de ambos procesos de la respiración. No ha de intervenir
en fluir espontáneo de la misma. Resulta sumamente importante mantener a raya la codicia
o la aversión, así como todo juicio, toda proclividad o toda intervención ante lo que esta
experimentando.
174 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
tiene sentido decir que las cosas poseen ser en si mismo. En línea con los pos-
tuladosdepatticasamucaya yanattā, la tradiciónMahayanaelaboralaidea
de sunyata (vacuidad), ya anunciada en los sutras tempranos. Puede obser-
varse claramente en el Brahmajalasutta como se objeta que la posibilidad
de alcanzar altos niveles de concentración (hasta el punto de alcanzar a
recordar las vidas pasadas) sea invocada como prueba o argumento de la
existencia de attā. El mindfulness yoga sugiere que como mismo el monje
bien instruido percibe la vacuidad (es decir, el “no-ser” tanto del espacio
ilimitado, como la conciencia ilimitada, la esfera de la nada, y la esfera de
la percepción y no percepción. (MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p. 163).
En segundo lugar, a tono con lo planteado anteriormente, el
Budismo enseña que inclusive en esos altos grados de absorción medita-
tiva el yogui ha de encontrarse en mindfulness, lo cual le permite viven-
ciar el no-ser o vacuidad de los jhanas. Cha Chakka Sutta y Potthapada
Suttaregistran que Buda advierte como hay meditadores que se identifi-
can con la absorción meditativa alcanzada, por lo cual no logran superar
los apegos. De aquí se desprende que el meditador puede alcanzar esos
jhanas superiores (o estados inmateriales) sin mindfulness, o con mind-
fulness “incorrecto”. Los sutras budista asocian la liberación con samma
satī4
o mindfulness correcto. Se requiere que satī esté en sintonía con sīla
4
	 Un autor explica que miccha- satī solamente aparece cuando se habla de un satī fuera del
contexto del Camino Óctuplo, digamos que no armoniza ni con sīla ni pañña. Por otra parte,
satī siempre aparece como estado mental positivo, y asociado con sīla y pañña. Ahora bien,
como satī se presenta como una corporal y mental inherente al ser humano, resulta con-
vincente buscar el encaje de satī en los “cinco agregados del apego” (khandhas). Es lo que
propone el autor citado cuando establece que satī es más cercano al agregado de sañña
(apercepción-percepción). Estudios académicos suelen asociar este agregado con proclivi-
dades como “reconocimiento”, “comprensión”, “asimilación”, “discriminación”, “concepción”,
“noción”, “ideación”, “perspectiva subjetiva”, “nombrar” (o etiquetar) y sobre todo “identifi-
cación”. En este sentido satī funciona como práctica que neutraliza todo tipo de prolifera-
ción cognitiva-conceptual (papañca) y reacción subjetiva ante las experiencias corporales y
mentales. Al mismo tiempo, satī prevé las perturbaciones o agitaciones emocionales, propi-
ciando calma, paciencia, ecuanimidad, y serenidad. En esta perspectiva satī y sañña apare-
cen como términos intercambiables (KUAN, 2008, p.10, p.21, p.139). Digamos mejor que el
satī es cualidad de sanna, pero no todo sañña es satī sañña incluye tambien miccha satī.
175Eduardo Francisco Freyre Roach
(moral, generosidad, altruismo, compasión), pañña (sabiduría, correcta
intención). Y eso significa que no menos importante para la liberación
es el cultivo de ciertas cualidades morales y sociales “mundanas”5
. En
cualquier circunstancia, se trata de suspender todo juicio y toda inter-
vención respecto a la experiencia que esta ocurriendo, y se reitera que el
meditador eche a un lado toda codicia y avaricia, pena, aflicción, apego,
y asunción de que hay cosas permanentes, separadas, y sobre todo un
yo único. Sin embargo, en los sutras budistas se informa de monjes que
alcanzaron la iluminación sin los jhanas, pero en ningún sutra se dice
explícitamente que sea posible lograr eso sin aquello, es decir, sin medi-
tación yoga profunda. Esto último ha suscitado discusión. Según Wynne
(2007, p. 112) se trata de una concepción no temprana sino tardía. En
su investigación Kuan (2008) explica que los jhanas son partes indiso-
lubles de un mismo proceso6
, y que Satī funciona como una especie de
“general guideline” o principio fundamental y regulador a ser aplicado
5
	 Con términos deThera (2013, p.8) satīresulta un MundaneWay”(camino mundano) o camino
preparatorio que conduce al“Supramundane Peak”(Pico supramundano).
6
	 Nada se puede decir si el Buda o los autores de los sutras tempranos objetaran que nadie
podía llegar a tener esas facultades extraordinarias (paranormales y divinas) sin un mindful-
ness correcto, sin el contexto doctrina y técnico del Budismo. Pero del análisis de los jhanas
se puede inferir que uno puede alcanzar altos niveles de meditación, pero eso no significa
que logre la meta soteriológica máxima. Y también que uno pudiera alcanzar la liberación
sin tener esos poderes. De hecho hay sutras como el Susīma Sutta donde se habla de monjes
que alcanzaron la liberación por la sabiduría, sin necesidad de tener experiencias medita-
tivas sin formas (jhanas) especiales. Sin embargo, otros sutras como el Kitagiri sutta. Kuan
(2008, p.142), basándose en estudios, supone que esta idea de un monje liberado por la
sabiduria, pero sin experiencia de jhanas, resulte una idea tardía. De ahí la disociación que
se observa en los sutras entre satī, samatha o samathi. El autor citado también establece que
los comentarios de la tradiciónTheravada apuntan a la conexión entre satī y jhanas. 4 jhanas
se incluyen en la versión Sarvastivada del Satipattana sutras, pero ya no están en la versión
en Pali. En el Kayagatasatī Sutta en Pali si se incluye los jhanas. El análisis que este autor hace
del Mahasatipittana sutta arroja que en su parte final están implícitos los jhanas. Por ultimo,
cita a un pasaje del Dhammapada donde se dice que no hay jhanas para quien no alcanza
sabiduría y no hay sabiduría para quien no alcance los jhanas (IBÍDEM, P.143).
176 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
para diversas prácticas, meditativas samatha y vipassana, los jhanas, y
no meditativas (KUAN, 2011, p.139)7
.
En tercer lugar, se ve que en continuidad con el yoga que ya existía
antes de que el mismo Buda naciera, los sutras hablan de que tal práctica
proporciona múltiples beneficios. Por ejemplo, en el Kayagata-sati sutta
se dice: “Monjes, de la atención al cuerpo cultivada frecuentemente,…
tomada como vehículo y como base, bien emprendida, realizada y perfec-
cionada, cabe esperar diez beneficios”(MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p.143-144),
entre los que se encuentra el soportar adversidades corporales, mentales
y ambientales (frío, calor, hambre, enfermedades, sed, angustia, ofensas),
el alcance de jhanas, poderes supernaturales, y recuerdo de vidas pasadas.
Empero, como meta suprema se expone:
“Uno, habiendo experimentado por su propio conocimiento
superiorenestemismomundolaaniquilacióndelascorrupciones,
alcanza y permanece en la liberación de la mente y la liberación
por la sabiduría que están libre de corrupciones”(IBIDEM).
En virtud de lo planteado hasta aquí se tiene que la tecnología
budista del yo guarda continuidad en asanas, pranayama, y jhanas, en
función de una meta soteriológica. Sin embargo, esos elementos del
yoga se colocan en un contexto doctrinal que ruptura con el contexto
doctrinal de los Vedas.
7
	 Según Kuan (2008), satī se presenta como practica de observación o contemplación sin jui-
cios o sin evaluación de la experiencia, sea el cuerpo (en su anatomía y fisiología), la respira-
ción, las sensaciones, o los objetos mentales. A este“simple satī” le sigue que el meditador (y
también en la vida cotidiana) se abstenga de reacciones habituales “insanas”(como la codi-
cia o la aversión) respecto a los objetos (visuales, sonoros, olfativos, táctiles y mentales). Con-
tinuando este“satī protector”, se tiene el“satī introspectivo”como remedio a la aparición de
reacciones insanas. Es cuando el meditador se concentra en el estado insano que esta viven-
ciando (en el caso de la meditación sobre la repulsividad del cuerpo), pero interiorizando la
impermanencia y no-ser inherente a las experiencias. Finalmente, por este camino, se llega
a la cultivación de una concepción constructiva (“satī constructivo”) asociado a actitudes
morales como compasión, bondad, simpatía, amor y amabilidad.
177Eduardo Francisco Freyre Roach
EL MINDFULNES YOGA COMO TECNOLOGIA DE PODER
	
“Las tecnologías de poder…determinan la conducta de los individuos,
los someten a cierto tipo defines o de dominación, y consisten en una
objetivación del sujeto” (FOUCAULT, 1990, P.45). Hoy en día se ofertan
programas basados o inspirados en el Budismo, y sobre todo en el min-
dfulness, que se presentan como tecnología del poder. Primero, la oferta
de instrucciones yoga es presentada como mercancía y fuente de lucro
corporativos. En segundo lugar, esos programas en su acompañamiento
publicitario y mediático promocionan “ideologemas” sobre los benefi-
cios que aportan y las expectativas personales que satisfacen.
Es el caso de ciertos programas denominados satī, mindfulness
yoga, samatha, vipassana, yoga tibetano, tántrico o Vajrayana, y Zen
yoga. Se ofrecen espacios para el autodesarrollo de la inteligencia emo-
cional, el conocimiento de si mismo, y la promoción del pensamiento
contemplativo en la sociedad8
. Descollante resultan los sistemas de tera-
pias y psicoterapias que usan el mindfulness para curar el stress, la ansie-
dad, las fobias, las adicciones, y hasta perturbaciones fisiológicas como
la obesidad y el cancel9
. Y se observa que vienen ganando espacios los
“mindful”ejercicios físicos o entrenamiento deportivo10
.
8
	 Mindfulness-Based Emotional Intelligence (Inteligencia Emocional Basada en el Mindful-
ness, MSPE), Search Inside Yourself (Busque en el Interior de si Mismo, SIY), the Shamatha
Project (Proyecto Samatha), y Contemplative Mind in Society (Pensamiento Contemplativo
en la Sociedad). Se habla de Mindful Parenting, Mindful Eating, Mindful Teaching, Mindful Pol-
itics, Mindful Leadership, A Mindful Nation, The Power of Mindful Learning, The Mindful Path to
Self-Compassion (PURSER AND LOY, 2013).
9
	 Mindfulness-Based Psychotherapies (MBP): Mindfulness-based Stress Reduction (MBSR),
Mindfulness -Based Cognitive Therapy (MBCT), Mindfulness -Based Relapse Prevention for
Binge Drinking (MBRP), Mindfulness -Based Childbirth and Parenting (MBCP), Mindfulness -
Based Art Therapy for Cancer Patients (MBAT), Mindfulness - Based Eating Awareness Training
(MB-EAT), Mindfulness -Based Trauma Therapy (MBTT), Mindfulness - Based Relapse Preven-
tion,Women (MBRP-W), Mindfulness - Based Elder Care (MBEC), Dialectical Behaviour Therapy
(DBT), Acceptance and Commitment Therapy (ACT), Mindfulness -Informed psychotherapy.
10
	 Tales como Mindfulness -Based Mind Fitness Training (Entrenamiento Físico Militar Basado
en el Mindfulness, MMTM), Mindful Fitness (Ejercicio Físico Mindful), Mindfulness-Based
178 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
En la publicidad de estos programas se destacan dos aspectos, uno,
precisamente la promesa de beneficios a corto plazo, y, segundo, la
patente de corso o sello de autenticidad de la oferta, en cuanto compa-
tible con las ciencia y las espiritualidad budista.
Ambas estrategias se observan nítidamente en el ámbito de las
“mindfulness-based clinical interventions” En el caso de los de Mind-
fulness-Based Stress Reduction (MBSR), estos se realizan en sesiones a
cumplimentar en 8 semanas. A los pacientes se les invita y orienta en
meditación de mindfulness, sobre en la modalidad de prestar plena
atención a las experiencias corporales y mentales tal y como se presen-
tan en el momento presente, y suspendiendo todo juicio11
. Los progra-
mas de MBSR se desarrollan en sesiones terapéuticas diferentes, pero
complementarias entre sí. Hay pacientes que se inclina por la perspec-
tiva del “mindful hatha yoga” o propiamente “mindfulness yoga”. Otros
optan por las sesiones de “body scan”, donde se les orienta la contem-
plación del cuerpo en el cuerpo tal y como se prescribe en el Satipattana
sutta. Y un tercer grupo de paciente se instruyen en la “sitting medita-
tion” (meditación sentado). Se dice que el mindfulness con hatha yoga
es muy útil para quienes llevan un estilo de vida altamente sedentario,
y padecen de enfermedades crónicas, pues propicia interiorización de
la unidad cuerpo y mente, lo cual influye positivamente en los estados
mentales y fisiológicos. Al uno encontrarse mindful del lenguaje cor-
poral, se revelan aspectos de nuestra actitud y emociones, que puede
ayudar al cambio beneficioso de las mismas (WILLIANS AND KABAT-ZIN,
2011; KABAT-ZINN, 2003, 2005; 2012 y 2013).
Investigaciones con grupo de pacientes se ha detectado que a
diferencia de las otras dos perspectivas, el mindfulness hatha yoga pro-
Sport Performance Enhance (Mejoramiento del Rendimiento Deportivo Basado en el Mind-
fulness, MSPE).
11
	 George Drayfus alerta que esta no es la ùnica modalidad de mindfullnes, pues tambien hay
que considerar la dimensión del pasado, de retensión,“memorizacion”, recoleccion y evalua-
ción de las experiencias corporales y mentales. (WILLIANS AND KABAT-ZINN, 2013, p.41)
179Eduardo Francisco Freyre Roach
mueve mayor bienestar, en tanto puede influir en una mejor respuesta
al cansancio. La sitting meditation es muy buena para las personas afec-
tadas por emociones como el miedo, y que requieren cultivar el no-ju-
zgamiento. El body scan, según la fuente, acarrea menos rendimiento
con los otros dos métodos (JAZAIERI, 2014). Tal resultado puede que se
explique por el hecho de que la meditacion de body scan, se destina a
toda circunstancia de la vida cotidiana, y se trata de la exploración del
cuerpo tanto en su dimensión anatómica y fisiológica. Su beneficio no
es cuestión de dos o tres meses como se espera de las terapias basadas
en el mindfulness.
En tiempos recientes se viene trabajando con mindfulness también
en el campo del entrenamiento físico y deportivo (MARKKULA, 2006;
MCCANN C., 2014). Aquí también se integra el hatha yoga. En el ámbito
del Mindful Sport Performance Enhancement (MSPE) se busca poten-
ciar determinadas condiciones corporales y mentales que posibiliten el
mejoramiento del desempeño deportivo, tales como “attention” (aten-
ción), “affects” (afectos), “flow states” (estados de fluidez), y ciertos fac-
tores fisiológicos (PINEAU ET AL., 2014). La realización de esta práctica
asegura que el atleta se distraiga menos y preste atención sostenida a
las partes, componentes y sus de su cuerpo, así como al medio circun-
dante al lugar de entrenamiento y de competencia. Al mismo tiempo se
reduce “sport-related anxiety” (la ansiedad relacionada con el deporte),
la duda, y el pensamiento negativo. Por otro lado, aumenta el “sport-
-related optimism” (el optimismo relacionado con el deporte), y la no
reactividad y aceptación de sus estados corporales. Finalmente, con
el mindfulness se logra una mejor respuesta neurológica al dolor y la
fatiga, la presión arterial sanguínea, y los niveles de grasa, así como otros
factores fisiológicos.
Resultados de investigaciones recientes constatan que hoy en día
una gran cantidad de personas confiesan ser de pensamiento mono
(“monkey mind”), mente vagabunda (“mind wandering”) o distraída
cuando están realizando una determinada actividad. A este, digamos
180 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
pensarenotracosadiferentedeloqueseestarealizando,científicamente
se conceptúa como “stimulus-independent thought” (pensamiento
independiente estimulado) (KILLINGSWORTH AND GILBERT, 2010)12
. Los
programas basados en el mindfulness yoga ofrecen prevención y pode-
roso antídoto contra esta perturbación con la cual se asocia otras pertur-
baciones mentales y corporales (ROBERSTSON, 2013).
En los anuncios de los programas, sesiones, seminarios, cursos o
talleres basados en el mindfulness, prometen que mediante el mindful-
ness usted pudiera activar la reserva de recursos mentales y corporales
incluso para la solución de sus problemas de salud y desempeño físico,
pero también la satisfacción de sus expectativas personales de mayor
alcance.
Tómese por ejemplo, los términos de publicidad hace el Center of
Spirituality and Healing de la Universidad de Minesota al programa de
MBSR que oferta. Allí se dice que el programa le permitirá a usted“tomar
el control de su vida”, “estar plenamente consciente de las influencias
que afectan la salud y el bienestar”, así también como “encontrar paz
y equilibrio mental, en medio de mundo caótico en que vivimos, y los
desafios demandantes de la vida cotidiana” (Visitar sitio http://www.csh.
umn.edu/workshops-and-lectures/mindfulness-based-stress-reduction/index.
htm). Se habla de beneficios como el rejuvenecimiento, vivir de manera
amplia y completa en medio de las variadas circunstancias, y la capaci-
dad de disfrutar de la vida. En la propaganda que se hace en el Psycho-
logy Today se habla de que el MBSR le permitirá a usted “vivir la vida
que usted quiere vivir”(Visitar sitio: http://www.psychologytoday.com/blog/
crisis-knocks/201003/mindfulness-based-stress-reduction-what-it-is-how-it-
-helps ). Y el Center for Mindfullness de la Universidad de Massachusetts
12	
La investigación de campo realizada por estos autores de la Universidad de Harvard constato
que el 46 % de muestra poblacional que entrevistaron plantea que son de pensamiento-
-mono, mientras que el 30 % confiesan que eso los ocurre excepto cuando están haciendo
el amor. Pruebe usted hacer investigación similar consigo mismo, su familia, su comunidad o
donde trabaja.
181Eduardo Francisco Freyre Roach
apela al discurso que el MBSR ayuda a las personas a vivir una vida mas
rica y completa (Visitar sitio: http://www.mindfulness.hk/en/release-presure).
Similar estilo de discurso donde sutilmente se hace un diagnostico
de la adversidad del mundo en que se vive, y se deja caer la posibilidad
personal de adaptarse a ese mundo, se deja ver en la publicidad de las
ofertas de programas mindfulness para mejoramiento físico, atlético o
deportivo. Además de la promesa de mejoramiento de la salud, mayor
resistencia, fuerza, resiliencia, flexibilidad (Visitar sitio: http://www.mind-
fulfitness.com/ ), se menciona que el mindfulness fitness ofrece la posibi-
lidad, oportunidad y capacidad de“vivir a propósito y con sentido en un
mundo dominado por hábitos no mindfull y bajo una reactividad fuera
de control”(Visitar sitio http://www.huffingtonpost.com/joel-michelle-levey/
mindful-presence-mind-fitness_b_904183.html ).
Ciertamente los saberes sobre el cuerpo no son neutrales desde
el punto de vista de su contribución a la conservación o subversión de
determinado status quo económico, político o social. Ya Foucault apun-
taba sobre esto cuando hablaba de “modalidad pastoral del poder”,
“tecnología pastoral del poder”, y “las técnicas de verbalización sobre el
cuerpo del yo”, que se:
“… han convertido en un recurso tanto de los individuos para
reclamar al Estado. A su vez, el Estado se vale de las mismas para
el gobernar a aquellos…La gestión de las personas por el discurso
introspectivo que tienen sobre ellas mismas, se ha convertido
en un modo esencial de la gobernabilidad contemporánea”
(FOUCAULT, 1990, p.98).
Así se ve como“la manera en la que el cuerpo sirve de recurso para
reivindicar un derecho, a título de la enfermedad o del sufrimiento”,
como en el caso de las regulaciones sobre indocumentados en Fran-
cia, donde “las personas usan la estrategia de decirle “a la administra-
ción que el cuerpo sufre para suscitar su generosidad” (FASSIN, 2003,
p. 51). Un estudio descubre el papel civilizador y colonizador del cur-
182 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
rículo de educación en las escuelas para niños hindúes en los Estados
Unidos (LOMAWAIMA, 1975, citado por APONTE, 2010). Respecto a esta
misma circunstancia de la colonización (europeo-occidental, capitalista
y moderna), se dice que:
“…la “corporalidad” es el nivel decisivo de las relaciones de
poder… y lo que hace posible la “naturalización” de tales
relaciones sociales..En la explotación, es el “cuerpo” el que es
usado y consumido en el trabajo y, en la mayor parte del mundo,
en la pobreza, en el hambre, en la malnutrición, en la enfermedad.
Es el “cuerpo” el implicado en el castigo, en la represión, en
las torturas y en las masacres durante las luchas contra los
explotadores. Pinochet es un nombre de lo que le ocurre a los
explotados en su“cuerpo”cuando son derrotados en esas luchas.
En las relaciones de género, se trata del “cuerpo.” En la “raza,” la
referencia es al “cuerpo,” el “color” presume el “cuerpo””…El lugar
central de la “corporeidad” en este plano, lleva a la necesidad de
pensar, de repensar, vías específicas para su liberación, esto es,
para la liberación de las gentes, individualmente y en sociedad,
del poder, de todo poder. (QUIJANO, 1999, P. 380).
Esta perspectiva crítica se ha aplicado en la reflexión sobre los pro-
gramas basados en el mindfulness.y que colocan al yoga del Budismo
en un contexto secular (clínico, militar, empresarial, mercantil, y político).
Por ejemplo, el filósofo slovenio Žižek ha planteado que los pro-
gramas de mindfulness encajan perfectamente dentro del consumismo
corporativo, respondiendo a la necesidad de pacificación frente al inter-
minable stress que provoca (TRYCICLE, 2014). En sus trabajos recalca que
este tipo de adaptación del Budismo “se está convirtiendo en la forma
predominante de ideología”. Al respecto plantea:
“¿Cómo funciona este Budismo? ¿Por qué es la ideología ideal para
el capitalismo tardío? El mensaje fundamental [de esta nueva cor-
riente] es “no persigas el éxito material, no participes en el juego
183Eduardo Francisco Freyre Roach
social por entero, hacélo con distancia.” Ustedes saben como son
usualmente los posters de propaganda de los cursos budistas. Hay
un primer párrafo anticapitalista: “No te dejes atrapar en esta lucha
por lo material, retírate a la paz, etc., etc. Pero el segundo párrafo
siempre es “de esta manera vas a ser aún más exitoso en los nego-
cios. Podés participar completamente en el salvaje juego capitalista
mientras tu entrenamiento y tu meditación y demás te dan la ilusión
de que esa no es la vida real, sólo estas jugando el juego social, en
realidad estás en cualquier otro lado”(ŽIŽEK, 2009, p.1)
Con ello el filosofo citado alerta contra la utilización hipócrita de las
religiones. En otros trabajos Žižek (2001, 2012a) presenta la“meditación
budista occidental” como la vía actual mas eficiente para participar en
la dinámica capitalista, mientras manteniéndose la apariencia de salud
mental. Para Žižek este Budismo funciona al estilo de la ética protestante
presentada por Max Weber como el suporte ideológico y religioso del
capitalismo naciente. Žižek suele afirmar que el Budismo se acompaña
de una ambigüedad fundamental. Según su parecer, la meditación
budista conducente al nirvana significa que el sujeto se desconecta de
la realidad, pero deja intacta (sin transformar) las condiciones sociales
que producen sufrimiento. Eso significa respectivamente que el sujeto
que alcanza el nirvana esta atrapado entre dos extremos opuestos, el
minimalismo y el maximalismo (ŽIŽEK, 2012b).
Otros críticos de la reapropiación occidental de las espiritualidades
orientalescomoelyogabudistaindicanqueenlosprogramasdeestaíndole
las doctrinas budistas buscan la reposición del sujeto (del yo, del individuo
o persona) en el juego capitalista, mercantil, liberal global. Un juego que
requiere fragmentación, exploración y movilidad de las identidades, y moti-
vaciónporel“crecimientoindividual”,“autoafirmación”,y elconsumismo(yo
consumista).Tal reapropiación en términos de“adoración del ser individual”
conduce no a la espiritualidad social y el activismo político, sino mas bien a
una espiritualidad del conformismo social y la promoción individual de si
mismo”(CARRETTE AND KING, 2013, p.106).
184 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
Los autores citados hablan también en detalle de todo un pro-
ceso histórico de privatización o reapropiación de la religión y la espi-
ritualidad que propicia su mercantilización. A su vez, se tienen dos
subprocesos, uno es la “individualización de la religión” y el otro es la
“corporativización de la religión”. Lo primero se asocia con la separación
de la religión del estado, y su presentación como un asunto de sensibili-
dad personal. Tal proceso se encuentra teóricamente fundamentado en
los trabajos de Locke y Kant, y en todo el movimiento de la ilustración y
el liberalismo, y se enmarca enmarcado en el contexto de las tensiones
entre el Racionalismo Ilustrado y el Romanticismo, la ciencia y la religión,
la Iglesia Cristiana y sus críticos.
En el libro de los autores citados se alerta como la reapropiación
secular del saber yoga apuestan por encima de todo el éxito corpo-
rativo (no comunitario), que asegura bienestar y seguridad laborar a
empleados. Este y otros indicadores13
delatan como los programas que
asumen estos criterios tributan a lo que los autores denominan “corpo-
ratist monopoly” (p.5) y “corporatist/capitalist spiritualities” (p.84)14
. En
este contexto se observa también como en el mercado corporativo se
venden y revenden edificaciones religiosas, y se manipulan símbolos e
13
	 Otros indicadores se refieren a la individualización de la responsabilidad por encima de la
consideración social (Atomisation). Se aboga por la ética de interés propio en la ganancia
como motivación primaria de la acción ( Self-interest). Se promueve el trato de otros como
medio y no como fin, (Utilitarianism), por ejemplo, tomar las personas como consumidores
que hay que persuadir, otros empresarios como competidores a vencer, y como empleados
a ser utilizado). Se incita a la satisfacción de deseos como la llave de la felicidad (Consu-
merism). Se invita sutilmente no a la subversión de la injusticia social, sino a la aceptación
su inevitabilidad (Quietism). Se demanda neutralidad política (Political Myopia). Por último,
se indica la presentación de las tecnicas psicologicas y corporals en terminus de “desarrollo
personal”,“pacificación mental y de la ansiedad, en vez de comprometimiento en el desafío
del cambio social (Thought-control/Accommodationism ) (IBIDEM, p. 21-22).
14
	Es un fenómeno asociado con lo que estos dos autores citados denominan “corporate
enterprise”, “concorporate business culture”, “corporate-oriented approaches to spirituality”,
“corporate rebranding of spirituality”, “corporate takeover of spirituality”, “corporate marke-
tplace”,‘corporate-led’consumerism”, “corporate capitalist agenda”,“corporate marketplace”,
“global corporate power”,“corporate culture”.
185Eduardo Francisco Freyre Roach
ideas religiosas, y la noción de espiritualidad en la publicidad del nego-
cio corporativo de productos y servicios de todo tipo (Yoga clothes, yoga
accesories, Zen Car, Desodorante Zen for men, Zen coffe, etc.).
Siempre hay quienes defienden a capa la privatización ya no solo
de los contenidos y materiales de apoyo a los programas, sino también
de las posturas yogas. Es el caso de Bikram Choudhury que acusó a otro
empresario del yoga, Greg Gumucio (un ex alumno) de haber violado su
derecho de copyright de 26 posturas yogas (THE GUARDIAN, 9 FEBRUARY
2004, citado por CARRETTE AND KING, 2005, p. 9)15
. El The Times of India
reporta en una entrega reciente (NO COPYRIGHT ON YOGA, 2011) que el
gobierno indú esta tomando medidas para detener la fiebre de privati-
zación de asanas, y propiciar el acceso amplio a la información ancestral
sobre el yoga. Por ejemplo, la negación de reclamo de copyright sobre
asanas. Se estima que los Estados Unidos a concedido mas de 200 dere-
chos de copyrights relacionados con el yoga, y que ese mercado reporta
225 billones de dólares anuales en Occidente. También se supone que
los estadounidenses gastan 3 billones de dólares en clases de yoga.
Todo este conflicto que existente en torno a derechos de copyright y
patentes relacionadas con el yo, resultan casos de lo que muy bien los
autores llaman “commodification of religión”, al servicio de la ganancia
corporativa y la promoción de una cosmovisión y modo de vida capita-
lista corporativo (CARRETTE AND KING, 2005, p.16).
Todo este fenómeno relacionado con la secularización del saber
yoga (no solo budista incluso) y comercializa con rótulos como mind-
fulness y mindfulness yoga, sirve a un contexto o gobernabilidad global
mercantil, corporativa, capitalista, neoliberal. Por lo tanto, no estamos en
15	
Greg Gumucio, el profesor yoga acusado por Bikram cobraba 8 dólares la hora de entrena-
miento, mientras que Bikram de 15 a 25 dólares. Un curso de 9 semanas cobra 7 mil dólares.
Se dice que el Bikram yoga resulta una industria de lucro de mas de 3 billones anualmente.
El Yoga Journal informa que anualmente el mercado del yoga ostenta 27 billones de dólares.
Finalmente, la United States Copyright Office (USCO) canceló el copyright, argumentando
que tales posturas por cuanto mejoran la salud no son elegible para copyright. De todas for-
mas el acusado por Bikram decidió interrumpir la serie de 26 posturas yogas (MOSS, 2012).
186 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
presencia de meras tecnologías. Su parcialidad (explícita o tácita) eco-
nómica, ideológica, política y social es una realidad ante nuestros ojos,
como el sol, no se puede tapar con un dedo.
SIN EMBARGO….
No se trata de desacreditar los programas de mindfulness. De hecho
están ayudando a muchas personas en el alivio de serios padecimien-
tos, efectivamente asociados a la dinámica social predominante. Como
mismo sucedió cuando el emperador Asoka se convirtió al Budismo, e
impuso leyes inspiradas en el Budismo, así mismo de alguna manera en
Occidente muchas personas se están familiarizando con esta sabiduría
gracias a estos programas de secularización.
Ahora bien, a esa tendencia de colocar el mindfulness en una pers-
pectiva comercial, individualista, corporativa, conformista, consumista,
conservadora, y minimalista16
, se le enfrentan alternativas, inspiradas en
el mindfulness en un contexto religioso, soteriológico y moral propia-
mente budista. Por ejemplo, en una entrevista el monje Zen Thich Nhat
Hanh sobre la creciente marketization del mindfulness en el mundo de
los negocios, respondió, que mientras que un líder empresarial llegara
a practicar el “mindfulness correcto”, independientemente de la inten-
ción17
que tenga de ser mas efectivo en su trabajo o hacerse de ganan-
16	
Tendencia que atraviesa las publicaciones de autores sobre espiritualidad Stephan Russell,
Deepark Chopra, Sharon Janis, y Osho/Bhagwan Shree Rajneesh.
17
	 El autor de a entrevista a una promotora de mindfulness que dice que no hay nada de malo
en querer uno aumentar sus ganancias, y que el mindfulness y el MBSR no solo puede hacer
a alguien feliz y saludable, sino que proporciona ventajas para cualquier negocio que se
quiera hacer (HUFFTINGTON, A. (2013, citado por CONFINO, 2014). Esta retórica de glorifi-
cación del mindfulness para el mejor desempeño del trabajo y los negocios, pero también
como secreto para la salud y felicidad, se expresa muy bien en el artículo The Minful Revo-
lution de Kate Pickert, publicado en el Time Magazin. February 2, 2014 (http://www.lang.
osaka-u.ac.jp/~tabata/ENG2012/2014a_The_Mindful_Revolution.pdf ). Allí se habla bas-
tante de la aceptación del mindfulness en el sector empresarial, militar (El Pentágono), y
hasta en el Congreso de los Estados Unidos
187Eduardo Francisco Freyre Roach
cias, eso le cambiara la perspectiva de la vida y le abrirá su corazón para
ser mas compasivo y desarrollar el deseo de erradicar el sufrimientos
de sus semejantes (CONFINO, 2014, p.1). Si uno persiste en el mindful-
ness para hacer dinero nunca llegara a palpar su verdadero propósito, y
entonces se perderá la oportunidad de tener calma interior, goce y feli-
cidad interior. Y termina diciendo:“si usted es realmente feliz, no puede
que sea victima de su propia felicidad, pero si usted es una persona de
éxito, puede que termine siendo victima de su propio éxito” (IBIDEM).
En uno de sus escritos más recientes Thich Nhat Hanh contrasta el con-
sumismo con la doctrina budista de los cuatro nutrimentos: la comida, las
impresiones sensoriales y la voluntad18
. La actitud consumista se presenta
aquí como dimensión de los apegos y aferramientos a los deseos, a las sen-
saciones, a los conceptos y opiniones, y, en fin, a la idea de un yo.
Tanto la noción budista del no-yo como el surgir dependiente
llevan al entendimiento no solo que no hay una causa suprema, sino
también que se dan múltiples condiciones (incluso externas a nuestra
mente) para que algo ocurra. Una de las implicaciones que se derivan
de lo planteado es la interdependencia (biológica, ambiental, humana,
social) y el activismo y comprometimiento con el cambio social, lo cual,
a su vez, desafía la sobrevaloración del interés individual (egoísmo) y
el consumismo (CARRETTE Y KING, 2006). Ciertamente en el Budismo
se coloca gran énfasis en la transformación y el trabajo personal. Pero
como muy atinadamente plantean los autores citados ese acento que
el Budismo coloca en la práctica individual es mas bien una cuestión
de método y de punto de partida orientador y no meta última (IBIDEM,
p.101). De hecho la doctrina budista de annata precisamente llama al
desapego al yo. El apego al yo se expresa en la practica de la autoiden-
tificación: etam mama (esto es mío), eso ham asmi (este soy yo), eso me
18
	Esta doctrina se expone en el texto budista “The Four Nutriments of Life: An Anthology
of Buddhist Texts”, translated from the Pali, with an Introductory Essay by Nyanaponika
Thera. Access to Insight (Legacy Edition), 30 November 2013, http://www.accesstoinsight.org/
lib/authors/nyanaponika/wheel105.html .
188 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
attā (este es mi ser en si) (MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p.220). Se asume que
nos producimos sufrimiento al tomar nuestro cuerpo, nuestras sensa-
ciones, nuestra consciencia, nuestros conceptos, y, en fin, todo, como
entidades permanentes, con identidad irreductible (ser en si mismo), y
como si nos pertenecieran. La erradicación del sufrimiento viene de la
mano del abandono de la practica de“este es mi cuerpo”,“soy mi cuerpo”,
“mi cuerpo es mi ser”, y pudiera agregarse cuando esa misma formula de
autoidentificación se aplica a todo.
Nohafaltadolavoluntaddereacomodarestadoctrinadeannataconla
asuncióndelyosustanciasobrelacualseasientalaPsicologíaenOccidente.
Por ejemplo, es lo que hace Epstein (1995) cuando interpreta la doctrina de
la Rueda o los Seis Reinos de la Existencia en términos de perturbaciones
psicológicas, y el concepto freudiano de narcisismo, proponiendo la inclu-
sión de la noción budista del no-ser en la psicoterapia. Existe toda una tra-
dición de psicoterapeutas que afirman que la doctrina budista del no-ser o
no-yo puede complementar la doctrina del yo que se manejan en la clínica
psicoterapéutica. Una sentencia que expresa muy bien esta perspectiva es
“Usted necesita ser alguien, antes de no ser nadie”(ENGLER, 2007). Con ello
elautorfundamentalaintegraciónentrelaenseñanzabudistadelno-yoyla
idea del yo que soporta la práctica de la“psicología del yo”. Traducido a tér-
minos de tecnología de poder, el énfasis en ser yo conviene a un status quo
que necesita individuos suficiente voluntad individualista para el desarrollo
del afán desenfrenado de consumo. El cultivo del no-yo pega muy bien con
la capacidad del individuo de adaptarse en los cambios del mercado (sobre
todo de empleos), y al status quo dominante19
.
19
	 Un autor plantea lo siguiente:
“La metamorfosis del Budismo en el contexto del capitalismo tardío sugiere una relo-
calización del yo en una economía de la contingencia y pluralidad. En tal economía
el yo deviene en receptivo a los abordajes budistas de la iluminación individual. Tales
abordajes no enfatizan en la autoafirmación del yo, sino que sugieren la construcción
de la liberación como resultado de la deconstrucción del yo, un método que no es
antagónico con la economía política del pastiche que tipifica al capitalismo tardío”
(LEE, 2003: 365 citado por CARRETTE AND KING, 2013, p.104).
189Eduardo Francisco Freyre Roach
Se conoce muy bien de la centralidad de la moral o la ética en el
Budismo. El satī yoga engrana en la doctrina budista de las Cuatro Nobles
Verdades (cattari ariya saccani). Incluso esta doctrina es un objeto de
mindfulness. De por si la meta del mindfulness tanto en la vida cotidiana
como en la meditación es superar la practica de autoidentificación (el
yo) y los apegos al yo. La doctrina del Camino Óctuplo (Ariyo Atthangiko
Maggo)20
se resume en tres dimensiones, que se citaron arriba: sīla satī,
y paññā. Por lo que al mindfulness correcto le es inherente la dimensión
moral. No por casualidad entre las instrucciones de mindfulness tome
consciencia de los estados insanos y sanos.,
Se observa claramente como en el Satipattana sutta se reitera cons-
tantemente que el monje practicante del mindfulness ha de estar “fer-
voroso, comprendiendo claramente y atento, superando la codicia y la
aflicción inherentes al mundo” (MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p.74). Todo
parece indicar que los meditadores están expuestos a estas actitudes
(incluyendo la malevolencia, crueldad, apatía, pereza, desasosiego,
ansiedad, el apego a los conceptos, opiniones, y el yo) no solo antes
de comenzar la meditación, sino también en su proceso y logro. Como
forma de meditación se prescribe el mindfulness de tales actitudes21
. Los
textos budistas – Samannapala sutta- nos presentan la idea de que la
mente no puede elevarse a jhanas yogas hasta tanto no transite por el
camino moral preparatorio y regulador (sila), es decir, hasta que no logre
cierta disciplina en el plano ordinario (BARNES, 1981, p.243).
20
	 Estas vias, factores, o prácticas son: “correcta visión” (sammāditthi), “correcta sustentación”
(sammā-Ājīvo) ,“correcta intención”(sammāsankappo) ,“correcto hablar”(sammāvācā) ,“cor-
recto esfuerzo”(sammāvāyāmo),“correcta concentración”(sammāsamādhi),“correcto mind-
fulness”(sammāsati).
21
	 Se dice en el Satipattana sutta:
“Cuando la malevolencia esta presente, en él, el monje sabe: hay malevolencia en mi…
Sabe como surge la malevolencia que no existía previamente; sabe como renunciar a
la malevolencia que ha surgido y sabe como ya no vuelve a surgir en el futuro la male-
volencia a la que ha renunciado” (MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p.123).
190 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
Los autores de Mindfulness in the Marketplace: Compassionate Res-
ponses to Consumerism (BADINER, 2002) confrontan la reapropiación
mercatilista y corporativista del mindfulness, proponiendo que en vez
de tratar de occidentalizar el Budismo hay que hacer más budista a Occi-
dente (IBIDEM, p.67), y promover la perspectiva de la doctrina budista de
los 4 brahmavihāra cualidades (generosidad amorosa, compasión, goce
de simpatía y ecuanimidad), los 4 dharmas (compartir, hablar sincero,
acción constructiva e igualdad).
LadoctrinabudistaMahayanadelBodhisattvaprecisamenteapunta
al compromiso individual y la acción social colectiva. El meollo de esta
idea es que el cese del sufrimiento individual termina con el sufrimiento
de todos los seres sentientes. Esto se expresa muy bien en The Teaching
ofVimalakirti, texto Mahayana., donde se reflexiona puntualmente sobre
la carrera y motivación altruista del Bodhisattva.
Hay programas que ofrecen un sistema secuencial de posturas a
ser realizada desde la perspectiva del mindfulness que se expone en
el Satipattana sutta. Un repertorio de las misma se puede consultar en
el libro de Frank Jade Boccio Mindfulness Yoga: The Awakened Union of
Breath, Body, and Mind (1993), con el objetivo de generar no solo con-
centración, calma, y ecuanimidad, sino también compasión, generosi-
dad y altruismo. Al igual que en este libro, en el Tibetan Yogas of Body,
Speech, and Mind (2011) deTenzinWangyal Rinpoche se exponen gráfica
y descriptivamente posturas y movimientos corporales que junto con
la recitación de mantras y ciertas técnicas de meditación contribuyen
a erradicar emociones negativas (orgullo, vanidad, duda, apego, celos,
agitación, etc.) y potenciar emociones positivas (amor, generosidad,
sabiduría, paz y compasión).
Esta proyección moral del Budismo no es ajena a quienes colocan
el mindfulness en un contexto secular. Se conoce que el cultivo de la
tolerancia en los padres puede aliviar el sufrimiento mental de sus
hijos. Efecto sanador también se manifiesta cuando cesa la proclividad
de culpar a los otros. Evidencias científicas apuntan al vínculo entre la
191Eduardo Francisco Freyre Roach
regulación emocional, la reducción de la reactividad y el stress, por un
lado, y por el otro, el cultivo de la compasión, la generosidad, y el amor
(ERICKSON, 1994; JAZAIERI ET AL., 2013). El trabajo con esta dimensión
moral con fines terapéuticos es realmente meritorio, pero enmarcado
en un planteamiento centralizado en la acciona individualista, pierde la
perspectiva de la transformación social e institucional bajo la pauta que
establecen los valores morales.
Pues todo lo planteado sobre la perspectiva social (maximalista)
del Budismo, se expresa muy bien en autores denominan “mindfulness
social” como dimensión de la práctica del mindfulness, en tanto en el
contexto de la meditación se vive la base común compartida e interco-
nectividad entre todos los seres humanos (CHAPPELL 2003, p. 264, citado
por KUAN, 2008, p. 56). En contraposición, la popularización del mindful-
ness (en forma de McMindfulness22
se presenta como resultado de toda
una “marketing strategy”, vendida como una técnica de autoayuda banal
que reduce el stress, pero no promueve una acción sabia y ética basada en
la armonía y la compasión, sino mas bien dirigida a la estabilidad del status
quo y el reforzamiento del consumismo capitalista (PURSER AND LOY,
2013). Los autores citados advierte que tal marketization del mindfulness
y del rotulo de Budista no hace mas que desafortunadamente desnaturalizar
esa milenaria tradición, despojándola de su compromiso transformativo.
Mas que seguir la pista y subvertir las raíces institucionales que hacen
emerger la codicia y la ignorancia la ignorancia, lo que esa mercantiliza-
ción hace con la promoción de tecnología (supuestamente neutral desde el
punto de vista moral) de autoayuda es reforzar esas raíces.
22
	 Término que expresa con ironía la mercantilización del mindfulness como panacea de solu-
ción a muchos problemas.
192 ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD
CONCLUSIONES
	
El yoga budista es resultado de un proceso de recontextualización
del yoga que se practicaba en el tiempo en que surge el Budismo. El
fundador del Budismo, Buda, y la comunidad budista temprana colo-
can al yoga en un contexto religioso, soteriológico, filosófico, y técnico
diferente: elementos técnicos del yoga (asanas, pranayama, jhanas) se
asumen bajo perspectivas doctrinales budistas (annata, sati y la unidad
sila-panna-sati).
El yoga es ante todo meditación. Incluso lo es el sistema hatha yoga
donde se enfatiza en las posturas corporales. El Budismo da relevancia
a la actitud de mindfulness en la meditación, en la vida cotidiana, y en
cualquier postura corporal. Por lo tanto, el yoga budista es mindfulness
yoga, y no se reduce ni a posturas ni a jhanas.
Ciertamente el mindfulness yoga se manifiesta como tecnología del
yo. Como tal objeta la mortificación del cuerpo, del alma y el hedonismo
corporal como medios para alcanzar la felicidad. La meta soteriológica
suprema no consiste ni en la inmortalidad, ni en la aniquilación. La ilu-
minación o el nirvana implican ante todo la erradicación de los apegos o
aferramientos, del sufrimiento propio y ajeno, y del ciclo del nacer-mo-
rir-renacer (samsara).
El yoga budista sobre todo en Occidente ha sido colocado en un
contexto secular, Por un lado se tiene una publicitación y comercializa-
ción de programas terapéuticos y de entrenamiento físico y deportivo,
que se presentan como aplicación del mindfulness yoga y compatible
con el Budismo, aunque obviando su expectativa soteriológica. Por otro
lado, colocado en un contexto mercantil, el yoga budista se asume ya
no solo como una mercancía y fuente de lucro. Se revela también como
tecnología del poder, pues con su práctica se promociona una actitud
individualista, consumista, y políticamente conformista y conservadora,
que responde a los intereses de la gobernabilidad capitalista, neoliberal
y corporativista.
193Eduardo Francisco Freyre Roach
Si bien en el Budismo se aboga puntualmente por el trabajo espiri-
tual (meditativo y moral) en pos de la transformación corporal y mental
personal (perspectiva minimalista), no menos por la acción colectiva en
pos de la transformación del status quo (perspectiva maximalista).
Por lo tanto, los programas que dicen basarse o inspirarse en el
Budismo, al aplicar mindfulness yoga, respondiendo a expectativas secula-
res,podrían reclamar tal sello de legitimidad o autenticidad solo si se com-
prometen con ambas perspectiva, y no con una en detrimento de la otra.
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CORPO, BIOTECNOLOGIAS E
ANTIENVELHECIMENTO:
UM ESTUDO COM MULHERES
DA CIDADE DE ARACAJU/SE
Luana Alves dos Santos
Crislene Góis Santos
Theodoro Filho
RESUMO: O presente artigo tem como objetivo identificar e com-
preender de que forma as mulheres que estão na faixa etária entre
35-45 anos da cidade de Aracaju/SE se relacionam com o uso/ma-
nipulação da biotecnologia a fim de manter os padrões de beleza
corporal no sentido de apagar do corpo as marcas do início da
velhice. O texto é fruto de uma pesquisa quali-quantitativa abor-
dada sob o viés de um estudo de campo – por fazer uma análise de
um grupo específico, a pesquisa também se caracterizou como um
estudo descritivo de caso. Como instrumento para coleta de dados
foramutilizados2questionários:umaplicadojuntoaumaamostra
de 400 mulheres com idade entre 35-45 anos; e outro junto a 50 ho-
mens, parceiros destas mulheres. A insatisfação com o aumento de
peso foi apontado como maior preocupação com o corpo no pro-
cessodeenvelhecimentoeousodastecnologiasligadasasanares-
tesíndicesapareceramdeformamaissalientenosdadoscoletados.
PALAVRAS-CHAVE: Corpo; Mulher; Envelhecimento; Biotecnolo-
gia; Aracaju/SE.
198 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
INTRODUÇÃO
Opresenteartigotemcomoobjetivoidentificarecompreenderdeque
forma as mulheres que estão na faixa etária entre 35-45 anos da cidade de
Aracaju/SE se relacionam com o uso/manipulação da biotecnologia a fim
de manter os padrões de beleza corporal no sentido de apagar do corpo as
marcas do início da velhice. Os usos/manipulações da biotecnologias que
analisamos neste estudo vão desde uma simples tintura de cabelo até as
cirurgias plásticas de modelagem corporal a fim de manter os padrões de
beleza corporal e retardar as marcas do envelhecimento corporal.
Com a ciência moderna e sua ânsia de dominar a natureza, o homem
procura desenvolver ferramentas para o controle dela. Desse controle,
cria-se a “técnica”, e o corpo não foge a estas regras de manipulação e
governo, afinal, dominar o corpo e interferir na sua natureza é parte do
desejo do homem e da ciência.
Pela manipulação por meio da técnica, o corpo cada vez mais foi
sendo alvo de domínio da mesma. As ciências que lidam com o corpo
avançam a passos largos e é cada vez mais perceptível novas tecnolo-
gias acopladas a ele neste início de milênio. A biotecnologia, como um
dos ramos da tecnociência, cada vez mais se destaca no sentido de ser
um dispositivo de modulação do corpo (BRUNO, 1999). Assim, ela visa a
oferecer ao corpo seu estado de natureza, porém cada vez mais a biotec-
nologia está visando a penetrar/invadir/metamorfosear a organicidade
do corpo, não mais normalizando suas funções (dando a ele seu estado
de homeostase), mas sim ampliando, transpondo, potencializando,
transcendendo essas funções. Ou seja, pela técnica, busca-se sanar a
precariedade do corpo enquanto natureza.
Desta forma, a biotecnologia ligada ao âmbito da produção do
padrão de beleza corporal feminina se caracteriza como um dispositivo
de interferência, no qual se visa a potencializar e modular o corpo apon-
tando possibilidades de subverter a lógica do envelhecimento. Neste
sentido, potencializa-se o embelezamento do corpo – sua capacidade
199Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
de ficar ou permanecer belo – para além da condição de natureza destas
mulheres nessa fase da vida.
Este texto é fruto de uma pesquisa quali-quantitativa abordada sob
o viés de um estudo de campo. Por fazer uma análise de um grupo espe-
cífico, a pesquisa também se caracterizou como um estudo descritivo de
caso. Como instrumento para coleta de dados foram utilizados 2 ques-
tionários: um aplicado junto a uma amostra de 400 mulheres com idade
entre 35-45 anos; e outro junto a 50 homens, parceiros destas mulheres.
A fim de apresentarmos nossa pesquisa, o presente escrito foi divi-
dido em três partes: num primeiro momento, apresentamos o corpo e a
biotecnologia com foco no antienvelhecimento feminino e os mecanis-
mos de fabricação do belo e do jovem. Na sequência, apresentamos a
metodologia que orientou nosso estudo. Na terceira e última parte do
texto, analisamos e apresentamos os dados da pesquisa com a intenção
de discorrer com autores que abordam a temática.
CORPOEBIOTECNOLOGIA:OANTIENVELHECIMENTOFEMININO
E A FABRICAÇÃO DO BELO E DO JOVEM
Esse não-lugar habitado da velhice pode ser, portanto,
uma chance de transformação do imaginário social, das
representações
sociais que atrelam velhice a corpos desfeitos e mentes errantes,
que fazem de uma mítica juventude – tão fugaz, tão sofrida –
um ideal a ser eternamente perseguido.
(SWAIN, 2008, p. 263)
O corpo humano estabelece suas relações consigo mesmo, com o
outro e com o mundo. O sentir, o pensar e o agir caracterizam a existên-
cia e a vida humana. Essa tríade, no entanto, não se dá de modo frag-
mentado e linear, mas sim através de uma rede complexa de interações
que se dão na dimensão corporal humana. Pelo corpo eu percebo, pelo
corpo eu analiso e pelo corpo eu (com) existo no mundo.
200 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
A sociedade é uma estrutura acolhedora da cultura que está dotada
de significados, valores e normas que variam de acordo com cada época
(tempo) e cada lugar (espaço). E assim, o corpo se torna “um produto
de uma construção social específica e cada gesto ou postura como a
expressão individual de uma totalidade social”(DAOLIO, 1994, p. 98).
Neste sentido, os corpos são atravessados por signos que os mar-
cam, que os expõem enquanto suporte de sentidos e significados defi-
nidos dentro de um contexto social. Os padrões de beleza corporal não
fogem a estas demarcações sociais, pois, como afirma Bártolo (2007), não
há pensamento que não comece pelo corpo, tal como não há sentido que
não comece pelo corpo; mas, igualmente, não há corpo que não seja pen-
sado, tal como não há corpo que não seja sentido. Sendo assim, ser bela
na atualidade significa ter um corpo jovem, magro, esbelto, com alguns
grupos musculares definidos e delineados. Os padrões de beleza vêm cer-
cados de signos de higiene e saúde. Por estas características, envelhecer
acaba sendo um problema no contexto social, porque a velhice causa no
corpo – em termos de estrutura biológica – um desgaste que se materia-
liza em forma de rugas, flacidez, redução da libido, dentre outros tantos
fatores que acabam sendo estigmatizados como feios.
Destaforma,compactuamoscomSwain(2008,p.261)aomencionarque:
Velhice é a marca da morte em nosso corpo, em nossa pele,
em nossos olhos, em nosso olhar, mas também o é a doença,
o medo, o ódio, o poder que dissolve as estranhas [...]. Para as
mulheres, é“a essência que lhes é atribuída, a procriação-sedução
desaparece, reduzindo a corpos inexpressivos [...] significa perda:
perda de importância, status, de autoestima.
“Ser velha, com o espírito e aparência jovem”, é a expressão alme-
jada por muitas mulheres que se aproximam da meia idade. Surge nessa
fase um corpo que não quer sentir a rejeição social “contaminada” pela
cultura do belo. Grandes dificuldades começam a surgir em decorrência
das mudanças anatômicas como a pele flácida que resseca e perde o bri-
201Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
lho da jovialidade, os cabelos brancos ficam mais fracos e quebradiços,
“o enfraquecimento do tônus muscular e da constituição óssea leva a
mudanças na postura do tronco e das pernas, acentuando ainda mais as
curvaturas da coluna torácica e lombar”(NETTO, 2004, p.78).
A beleza corporal feminina na modernidade é por demais influen-
ciada pela “fabricação” mediada pela Indústria Cultural1
, sendo a moda
atual pensada para corpos jovens. São propagados padrões de beleza a
fim de que sejam subjetivados pelos sujeitos e, por consequência, pas-
sem a mediar o comportamento dos mesmos a fim de buscar tais mode-
los. Essa propagação de modelos de beleza disseminadas pela Indústria
Cultural tem interesses mercadológicos que fazem girar as ciências/tec-
nologias que lidam com o corpo.
Gera-se dentro dessa cultura uma necessidade de obter um corpo
bonito, jovem e de musculatura esguia. O mercado da beleza oferece
a essas mulheres tudo – ou quase tudo – que precisam para alcançar
o corpo ideal: o silicone para segurar o seio; a cirurgia plástica e os cre-
mes antienvelhecimento para apagar as marcas das rugas; a lipoaspira-
ção para ajustar partes do corpo que estão com gordura acumulada; e
outros. As candidatas à meia idade são atraídas pelas propagandas de
embelezamento feminino que as revistas de cosméticos, por exemplo,
trazem em um jogo de palavras, expressões como:
1. O que uma mulher viveu não precisa ficar no rosto. Pode ficar
na memória. O que uma mulher viveu, sua pele pode esquecer; 2.
O primeiro que combate às marcas do tempo sem ter a pretensão
de parar no tempo. Parar o tempo é parar a vida. E uma mulher
sem vida não é bonita por mais jovem que ela seja (PALÁCIOS,
2009, p.92).
1
	 A indústria cultural, segundo Adorno (2009), versa em“moldar”a produção cultural de modo
que assumam padrões comerciais, sendo assim facilmente reproduzidas e massificadas, dei-
xando a exclusividade para adotar o papel de simples coisas.
202 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
Diante das novidades biotecnológicas que circulam no mercado
da saúde, o corpo acaba sendo exposto a essas manipulações: artefatos
capazes de aumentar a eficiência do corpo enquanto objeto/produto
para potencializá-lo e assim promovê-lo. O mercado vem oferecer o que
as mulheres precisam para se manterem com as funcionalidades ainda
de um corpo jovem, expondo produtos de “viva juventude”: antimeno-
pausa, antirrugas, anticelulite, antivelhice.
Quanto mais uma mulher é subjetivada pela busca do corpo belo,
mais ela fica exposta às exigências de atingi-lo. Com isso, exige-se da
mulher um corpo esbelto, com alguns grupos musculares delineados;
com curvas que sustentem a leveza e a graciosidade feminina; nada de
barriga e gorduras localizadas salientes; nada de pele flácida e enru-
gada; enfim, são construídos signos que estruturam todo um esquema
de sentir/pensar e agir o corpo e a sua relação com o belo.
O organismo humano está se tornando, frente às novas tecnolo-
gias, uma espécie de “máquina” que tem a capacidade de ser modifi-
cada, consertada, moldada, reparada, enfim, corrigi o que está fora do
padrão para se atingir o que se define como “perfeito”. Essas são análi-
ses que aqui entendemos como ligadas ao âmbito da biotecnologia. A
biotecnologia é um dos ramos da tecnociência que, segundo Manske
(2013, p. 292), é:
Amplamente utilizado em diversas situações, o que lhe confere
diferentes definições e acarreta uma série de possibilidades de
produção, tais como a fabricação de antibióticos, vacinas, testes
genéticos e medicamentos diversos, bem como de campos de
intervenção como a engenharia e o aconselhamento genético.
A biotecnologia é caracterizada pela manipulação de componentes
dos seres vivos. São ramos da biotecnologia a microbiologia, a genética e
a biologia molecular. Basicamente, as biotecnologias buscam potencia-
lizar o corpo para além de suas condições naturais. A esperança de vida
tem se duplicado gradativamente graças às novidades tecnológicas, que
203Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
expandem cada vez mais os horizontes da condição humana. A ciência/
tecnologia disponibiliza com grande facilidade produtos no mercado,
capazes de sanar as necessidades do corpo. Dentre eles encontramos:
próteses, silicones, aparelhos de musculação, remédios emagrecedores,
cirurgias plásticas, roupas modeladoras, maquiagem, cremes de embe-
lezamento e um sem fim de produtos que podem, simplesmente, fazer
do meu corpo, o que eu quero que ele seja. Os padrões de beleza pas-
sam a criar tecnologias que alimentam o mercado desse corpo, seja ele
jovem ou velho, bonito ou feio, magro ou gordo.
Cuidar do corpo com a chegada da velhice, não é mais apenas tomar
remédios para repor hormônios, fortificar os ossos ou prevenir doenças,
mas, também fazer uso de medicamentos para emagrecer; exercícios
físicos e cremes para evitar o aparecimento de uma pele flácida, rugas e
seios caídos. A velhice hoje, para Le Breton (2011, p. 224):
É esse “continente cinza” delimitando uma população indecisa,
um pouco lunar, extraviada na Modernidade. O tempo não está
mais na experiência e na memória. Ele tão pouco está no tempo
deteriorado. A pessoa idosa resvala lentamente para fora do
campo simbólico, transgride os valores centrais da Modernidade:
a juventude, a sedução, a vitalidade do trabalho, o trabalho.
Ela é a encarnação do recalcado. Lembrete da precariedade e
da fragilidade da condição humana, ela é o rosto mesmo da
alteridade absoluta.
METODOLOGIA
O presente texto é fruto de uma pesquisa de cunho quali-quanti-
tativo. O viés qualitativo no estudo se caracteriza na medida em que na
pesquisa são interpretados problemas sociais e econômicos bem como
os sentidos e significados atribuídos ao envelhecimento do corpo entre
mulheres de 35-45 anos da cidade de Aracaju. Por sua vez, a pesquisa
quantitativa se justifica na medida em que“as explicações devem corres-
204 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
ponder ao critério da universalidade, isto é, devem ser compreendidas e
aceitas por muitos. O fenômeno é explicado a partir de um conjunto de
proposições plausíveis”(GRESSLER, 2007, 105).
A pesquisa se caracterizou como sendo uma pesquisa de campo. Para
Lakatos e Marconi (1991, p. 189), a “pesquisa de campo está voltada para
o estudo de indivíduos, grupos, comunidades, instituições e outros cam-
pos, visando à compreensão de vários aspectos da sociedade”. Inserido em
um contexto da vida real, a pesquisa investiga como os modos de vida em
mulheres de 35-45 anos, na cidade de Aracaju2
, no que tange os cuidados
com o seu corpo, agem no processo do antienvelhecimento, destacando a
apropriação das biotecnologias como forma de melhorar o corpo feminino.
Por fazer uma análise de um grupo específico, a pesquisa também
se encaixa dentro das características de um estudo descritivo de caso.
Segundo Gressler (2007, p. 61),“o estudo de caso surgiu da necessidade
de se obter modalidades mais adequadas para a investigação nas ciên-
cias humana e sociais”. Dessa forma, para compreensão de fenômenos
sociais complexos, atualmente, o estudo de caso descritivo não utiliza as
pesquisas experimentais como única maneira de se fazer investigações
explanatórias ou causais (YIN, 2001). Segundo Yin (2001, p.27):
O estudo de caso é a estratégia escolhida ao se examinarem
acontecimentos contemporâneos, mas quando não se podem
manipular comportamentos relevantes. O estudo de caso conta
com muitas das técnicas utilizadas pelas pesquisas históricas,
mas acrescenta duas fontes de evidências que usualmente não
são incluídas no repertório de um historiador: observação direta
e série sistemática de entrevistas.
2
	 Cidade de Aracaju é capital do estado de Sergipe – um dos 9 (nove) Estados do Nordeste.
Localiza-se no litoral leste do Brasil, sendo cortada pelos rios Sergipe e Poxim, tendo como
um dos principais pontos turísticos a Orla de Atalaia – uma das mais belas orlas do país. É
considerada a capital brasileira da qualidade de vida, já que em grande parte da cidade per-
cebe-se os investimentos nas obras de infraestrutura e nos aspectos sociais como a saúde e
educação. E apresenta uma economia baseada na indústria e comércio.
205Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
Para a realização da pesquisa foi utilizado dois questionários como
instrumento de coleta de dados: 1 (um) questionário com questões aber-
tas e fechadas, direcionado a mulheres de 35 a 45 anos de idade de Araca-
ju-SE; e o segundo questionário foi aplicado junto a 50 homens/parceiros3
que acompanhavam estas mulheres durante a pesquisa. Neste sentido,
compactuamos com Gressler (2007, p. 167) quando anuncia que“o ques-
tionário é constituído por uma série de perguntas, elaboradas com o
objetivo de se levantar dados para uma pesquisa, cujas respostas são for-
muladas por escrito pelo informante, sem o auxílio do investigador”. Para
a realização da aplicação dos questionários, solicitamos que os indivíduos
pesquisados assinassem um termo de consentimento livre e esclarecido.
Para chegar a um número representativo e válido no âmbito da pes-
quisa acadêmica, foi utilizado o cálculo da amostragem aleatória sim-
ples, elaborado por Barbetta (1999). Segue a fórmula para se calcular o
erro amostral:
Onde:
N= Número de elementos da população (quantidade de mulheres
de 35/45 anos que residem na cidade de Aracaju)
n = Tamanho (número de elementos) da amostra
n0= número aproximado para o tamanho da amostra e
E0= erro da amostra tolerável
O primeiro passo para se chegar ao resultado amostral foi encon-
trar o tamanho (N) da população. Para tal, foi necessário buscar o censo
da última pesquisa do IBGE (2010) em Aracaju, que apontou o número
de 350.719 mulheres como total de residentes na cidade. Deste total o
senso estima que 50.719 mulheres possuem idade dentro da faixa de 35
a 45 anos de idade.
3
	 Por parceiros nesta pesquisa, entendemos: maridos, namorados, noivos e amasiados.
206 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
Para que seja determinado o tamanho de uma amostra válida, o
pesquisador precisa especificar o erro amostral tolerável (EO). Segundo
Barbetta (1999, p.57), “erro amostral é a diferença entre o valor que a
estatística pode acusar e o verdadeiro valor do parâmetro que deseja
estimar”. Determina-se como a percentagem máxima para o erro amos-
tral uma percentagem de até 5%.
Admitimosqueos erros amostrais não ultrapassemde 5% (E0= 0,05).
Considerando o erro amostral de 5% e utilizando a fórmula acima,
encontramos o número aproximado para o tamanho da amostra, que
resulta em 400. Assim, partimos para o cálculo final da amostra:
Depois de aplicar os dados do IBGE na fórmula proposta por Bar-
betta (1999), obtivemos um total de 396,87 mulheres que participariam
do nosso estudo de caso, ou seja, 400 mulheres responderam aos ques-
tionários. Para aplicarmos o questionário fomos a locais que garantissem
essa aleatoriedade, então aplicamos as perguntas na Orla da Atalaia,
Centro de Aracaju, Mercado Municipal, Parque dos Cajueiros e Praias
(Atalaia, Aruanda e Mosqueiro). Esses lugares nos permitem abordar
mulheres que estão dentro do cálculo da amostragem aleatória simples
no contexto dos 39 bairros existentes na cidade de Aracaju/SE.
207Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
Como descrito acima, foram elaborados dois questionários com
questões abertas e fechadas: 1 (um) direcionado a mulheres de 35 a
45 anos e o outro para homens que convivem como parceiros dessas
mulheres (maridos, namorados, amigos ou amasiados).
Nossa amostra foi composta por 400 mulheres e 50 homens. A par-
tir de agora, passamos a apresentar os dados a fim de analisá-los.
A VOZ DAS MULHERES
O questionário apresentado às mulheres apresentava 3 sessões: 1)
identificação; 2) corpo e idade; e, 3) corpo e biotecnologia.
Identificação
A primeira parte do questionário estava ligada ao contexto da iden-
tificação dos sujeitos pesquisados. A primeira questão fazia alusão a
idade das mulheres dentro de nosso recorte, desta forma, foi verificado
o seguinte resultado:
Gráfico 1 – Quantidade de mulheres de 35 a 45 anos de idade da cidade de Aracaju
que responderam ao questionário
208 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
O segundo questionamento refere-se ao estado civil das entrevis-
tadas. Foram apresentadas as seguintes opções: solteira, casada, ama-
siada, separada/divorciada ou viúva. O IBGE, censo demográfico 2010,
nos revela que as quantidades de mulheres casadas e solteiras são
maiores do que as outras opções. Nesse sentido, o gráfico 2 apresenta o
estado civil dessas mulheres entrevistadas.
Gráfico 2 – Percentual do Estado Civil das mulheres de Aracaju/SE que responderam
ao questionário
A terceira questão tratou sobre o local/bairro de residência das
mulheres. Dos 39 bairros que existem no município de Aracaju, 29 foram
citados pelas entrevistadas: Inácio Barbosa, Cidade Nova, Luzia, Suissa,
Industrial, Jardins, 13 de Julho, Novo Paraíso, Siqueira Campos, São José,
Getúlio Vargas, Jabotiana, Bugio, 18 do forte, Atalaia, América, Coroa do
Meio, Ponto Novo, Grageru, São Conrado, Soledade, Farolândia, Cirurgia,
Pereira Lobo, Santo Antônio, Santos Dumont, São José, Centro e Aero-
porto. Desta forma, podemos afirmar que os locais que escolhemos para
realizar a pesquisa a fim de garantir a aleatoriedade da amostra está
dentro de um percentual aceitável frente ao total de bairros, pois foram
atingidas mulheres de 74% dos lugares da cidade.
A quarta questão fazia alusão ao ter ou não filhos, sendo assim, das
400 entrevistadas, 108 disseram “não” ter filhos e 292 disseram ter. Às
209Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
mulheres que disseram possuir prole foi perguntada a quantidade de
filhos. O gráfico 3 ilustra os dados coletados.
Gráfico 3 – Quantidade de filhos que as mulheres entrevistadas possuem
A fim de sabermos sobre as condições financeiras dessas mulheres, a
quinta e última questão ligadas ao bloco de questões de identificação esteve
relacionada à renda mensal. Havia as seguintes opções: até 1 (um) salário
mínimo,até2(dois)saláriosmínimos,até3(três)saláriosmínimos,até4(qua-
tro) salários mínimos ou sem renda (ver gráfico 4). Entre essas mulheres que
não possuíam renda, todas colocaram como profissão“dona do lar”.
Gráfico4–PercentualdarendamensaldasmulheresdeAracaju/SEqueresponderam
ao questionário
210 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
Corpo e idade
A segunda sessão do questionário esteve focada com questões liga-
das ao âmbito do corpo e da idade, ou seja, questionamentos relaciona-
dos à preocupação do corpo com o avançar da idade. Desta forma, foi
perguntado se a mulher estava satisfeita com seu corpo: 206 mulheres
responderam “sim”, estão satisfeitas; e, 194 responderam que “não”. Das
que responderam “não” foi perguntado o porquê da insatisfação, elas
responderam estarem insatisfeitas pelos seguintes motivos representa-
dos no gráfico a seguir.
Gráfico 5 - Percentual dos motivos de insatisfação das mulheres entrevistadas com
o corpo
O resultado da relação de satisfação e insatisfação das mulheres
com o corpo foi no mínimo divergente, para não dizer contraditório.
Os números nos mostram que o índice de mulheres “satisfeitas” com
o corpo é maior do que as “não satisfeitas”. No entanto, apesar de as
mulheres de Aracaju se dizerem satisfeitas com o corpo, todas elas em
questões subsequentes apontam problemas e incômodos relativos ao
seu corpo e frente a isso criam uma necessidade de modificá-lo, corrigi-
-lo ou ajustá-lo.
Um dado importante é que, das mulheres que disseram “não ter
filhos”, a maioria alegou estar satisfeitas com o corpo; as outras – que
211Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
tem filhos – não estão satisfeitas com o corpo, e justificaram a resposta
mencionando que ficaram acima do peso depois da gravidez. Neste sen-
tido, percebemos que a mulher não está mais submissa a ter que enfren-
tar várias gestações – como nossas avós e bisavós –, mas está condenada
à cobrança de se manter atraente e bela depois de ter que gerar em, e,
com seu corpo, um (a) filho (a).
Odramadagordurapareceassolartodaumaculturaquejásereconhece
como lipofóbica. Nessa lógica, na menção de Del Priori (2000, p. 89-90):
O corpo precisa refletir o controle narcísico dos apetites, das
pulsões, das fraquezas. Ai daquelas que não se controlam frente
ao prato de batatas fritas! Vencidas pela gula, as gordas são
consideradas perdedoras [...] Tornar-se um saco de ossos parece
ser o ideal da mulher contemporânea, mulher que habita um
mundo onde milhares morrem de fome.
Sob a ótica das questões ligadas ao estigma frente ao corpo gordo,
podemos mencionar que estes dados podem ser vistos como aspectos que
estruturam relações de poder na medida em que atribuem valores às con-
figurações corporais, dimensionando-as simbolicamente como inferiores
ou superiores. Foucault (2000) menciona que o corpo estigmatizado passa
assim a ser dominado por inúmeros signos que exercem sobre ele relações
de poder na medida em que precisa ser formado, corrigido e receber certo
número de qualidades a fim de eliminar as marcas que o estigmatizam.
A velhice não foge à regra destes estigmas, ou seja, ela é regida
pelas mesmas dimensões simbólicas e imbuída igualmente de relações
de poder. Visualizamos isso na menção de Swain (2008, p. 261), quando
cita que “os corpos perdem força e vitalidade, é verdade, mas a ‘velhice’
não passa de uma representação social que polariza e hierarquiza o
humano para melhor excluir, para melhor controlar, para melhor cindir
as forças de resistência”.
Ainda no bojo das preocupações que dizem respeito ao corpo,
procuramos saber também como as mulheres entre 35 e 45 anos estão
212 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
lidando com as preocupações veiculadas ao corpo com o avançar da
idade. Das 400 entrevistadas, 46 responderem não estar preocupadas
com o corpo e 354 responderam que a chegada da “velhice” aumenta
as preocupações ligadas ao corpo. Estas últimas mencionaram que se
preocupam mais com o corpo no sentido da saúde, flacidez, doenças,
beleza, aumento de peso, alimentação e desempenho físico, como
podemos visualizar no gráfico em seguida.
Gráfico 6 – Percentual sobre o que mais preocupa as mulheres entrevistadas com o
avançar da idade
A relação entre aparência física, saúde, higiene, alimentação estão
cada vez mais estreitas e, às vezes, são confundidas, compreendidas
como sinônimos entre si. Sob esta ótica, Vigarello (2006) afirma que o
discursodeaproximação entresaúdeebelezatemsidoutilizadohistorica-
mente para mediar a construção do padrão de corpo feminino.“A biologia
de nossos corpos, medida pela aparência corporal, pela sua performance
e capacidade orgânica, tanto integra a identidade do sujeito contemporâ-
neo quanto constrói uma subjetividade, delineando aquilo que somos ou,
ainda, o que desejamos ser”(GOELNER E SILVA 2012, p. 203).
Perguntamos ainda se as mulheres mudariam alguma parte do
corpo por influência da mídia, amigos(as), namorado/marido/com-
213Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
panheiro, vontade própria; ou, se não sentia vontade/necessidade de
mudar nada. Dessas entrevistadas, 144 disseram que não sentiam neces-
sidade de tal mudança e 256 disseram que fariam mudanças por alguma
influência ou vontade própria.
Gráfico 7 – Percentual de mulheres entrevistadas que mudariam partes do corpo
por alguma influência
Estes dados são de difícil interpretação e análise na medida em que
acreditamos que o sujeito não existe fora do contexto social que o pro-
duz, afinal, como menciona Gomes (2013, p. 79), “aprender a ver-se, a
dizer-se, a julgar-se e a sujeitar-se é aprender a fabricar o próprio duplo
da imagem de si”. No entanto, o autor ressalta que esse duplo
não é a projeção espontânea do eu, sendo constituído por uma
série de mecanismos de relação: os mecanismos de observação
que determinam o que devo ver de mim próprio e como posso
ver; os mecanismos discursivos que estabelecem o que posso
dizer de mim mesmo e como posso dizê-lo; os mecanismos de
avaliação que fornecem as normas e os valores segundo as quais
o indivíduo se julga a si próprio; os mecanismos de sujeição que
constroem as parcelas e as formas de domínio sobre o ser próprio
(GOMES, 2013, p. 79).
214 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
Com a intenção de obtermos a opinião das mulheres sobre o que
elas consideram de maior importância quando devem cuidar do corpo
para adiar a meia idade, foi feita uma questão na qual foi solicitado que
as mulheres respondessem por grau de prioridade. Foram oferecidas
quatro opções: saúde, corpo/estética, melhor relacionamento e trabalho.
A partir disso, as entrevistadas foram convidadas a assinalar por grau de
importância todas as alternativas. Como resultado, a opção saúde apa-
receu como a de maior importância, sendo citada por 272 mulheres; em
segundo, corpo/estética, com 180 mulheres; em terceiro, relacionamen-
tos, com 228 mulheres; e em quarto, o trabalho, com 260 mulheres.
Corpo e biotecnologia
A terceira e última parte do questionário esteve focada com ques-
tões ligadas ao âmbito do corpo e da biotecnologia, ou seja, procuramos
saber como as mulheres se apropriam das biotecnologias para cuidar
do corpo. Sob esse viés, perguntamos que tipo de procedimentos já se
submeteram para cuidar do corpo e, assim, melhorar as “imperfeições”
do mesmo. Os resultados apontaram como itens mais citados: pintar os
cabelos esbranquiçados, usar produtos para evitar ou diminuir as rugas,
fazer dietas ou regimes alimentares e usar peças de roupas específicas
para tornear o corpo – cintas elásticas.
Para combater os aparecimentos indesejáveis da idade, as mulheres
buscam no mercado produtos biotecnológicos que potencializem seu
corpo para além de sua condição de natureza. Assim, por exemplo, uma
mulher de 43 anos com início de branqueamento de cabelos recorre
a uma tintura que devolve ao cabelo uma cor que a natureza corporal
desta mulher já não consegue mais gerir. Assim, discutimos a biotecno-
logia como um método para adiar o processo do envelhecimento e, con-
sequentemente, os sinais do tempo. Neste sentido, para Manske (2013),
as possibilidades de alteração do humano a partir das biotecnologias é
justificada pela busca de seu aperfeiçoamento, melhoria ou superação
da condição humana.
215Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
As introjeções tecnológicas surgem a fim de“turbinar”a máquina
humana, ampliando-a, melhorando-a, melhor adaptando-a às
necessidades ambientais. É como se a seleção“natural”de Darwin
ganhasse outros contornos e nós, à mercê das leis evolutivas,
tivéssemos de nos adaptar (MORENO e SILVA, 2005, p. 126).
Frente à manipulação do corpo e da vida com auxílio das biotecno-
logias, Vaz (1999, p. 101) menciona que:
Notempopresenteoprocessodecontroledocorpomediadopela
ciência e pela tecnologia alcança parte da experiência humana,
e tornam-se veículos importantes de uma prática cada vez mais
recorrente entre nós, o culto à performance. A performance e o
rendimento do corpo se expressam de diferentes formas, em
variados campos, mostrando um corpo cada vez mais capaz
de derrubar fronteiras. Essas podem ser externas ao corpo,
relacionadas ao espaço e ao tempo, ou internas à sua própria
constituição, de onde temos um corpo mais magro, mais forte,
com esse ou aquele músculo mais desenvolvido, conforme
conveniências e exigências de plantão (VAZ, 1999, p.101).
O gráfico seguinte apresenta o que as mulheres consideram
importante ser feito ao expor seu corpo fora de casa. Além dos dados
apresentados no gráfico, é indispensável mencionar que as mulheres
entrevistadas não deixaram de citar que cuidados higiênicos são de fun-
damental importância.
Segundo Del Priori (2000), o corpo da mulher na sociedade indus-
trial tem uma nova tarefa: ser um corpo consumidor, e pior, consumidor
em cada uma das partes – cada parte precisa ser cuidada.“Para as unhas,
esmalte e lixas. Para os cabelos, xampus, tinturas, secadores. Para a pele,
bronzeadores, hidratantes, sabonetes cremosos e desodorizantes” (DEL
PRIORI, 2000, p. 91).
216 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
Gráfico8–Percentualsobreoqueasmulheresentrevistadasconsideramimportante
ser feito ao expor seu corpo fora de casa
Sobre cirurgias plásticas, 214 mulheres assinalaram que“não”pensam
emfazeralgumtipodemodificaçãocorporalatravésdeintervençõesplásti-
cas e 186 disseram que pensam e estariam dispostas. Dessas 186 mulheres,
6 afirmaram ter feito cirurgia plástica nos seios de silicone ou redução das
mamas e no abdômen, realizando a lipoaspiração. Aquelas que marcaram
“sim”citaram que modificariam as seguintes partes do corpo:
Gráfico 9 – Percentual sobre partes do corpo que as mulheres entrevistadas
gostariam de mudar com cirurgia plástica
217Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
Todas as mulheres entrevistadas de alguma forma tomam cuidados
com o corpo ao expor o mesmo fora de casa, assim como mostra a Figura
8. Sendo assim, como mostra o gráfico da figura 12, 34% dos homens
entrevistados nos revelam que suas companheiras sempre perguntam
algo sobre o corpo, mostrando o quanto estão preocupadas com a opi-
nião do próximo em relação a ele. Como mostra o resultado no gráfico
da figura 9, tal preocupação faz com que essas mulheres desejem estar
em mesas cirúrgicas de centros estéticos, pois,
Guiado pelo ideário da razão instrumental, o corpo é esquartejado.
Suas partes são cobiçadas como objetos independentes. Busca-se
possuir determinado tipo de traseiro, conquistar um modelo abdo-
minal,alcançarpernasidealmenteroliçasouformasdepeitosimpos-
tas pelo imaginário social. A alienação corporal chegou a tal ponto
que o elogio a uma prótese de silicone implantada em alguma parte
do corpo para satisfazer a necessidades estéticas envaidece o sujeito
portador do artifício. [...] Nesse programa, não há diferença entre um
corpo e um carro. Ambos são objetos a serem consumidos e podem
ser“turbinados”(MELANI, 2004 apud ROMANELLI e BEDANI, 2009).
Sob o domínio da biotecnologia:
O corpo humano pode ser literalmente esculpido, transformado e
alterado através das cirurgias plásticas, tatuagens e maquiagens
definitivas; da alteração da cor e da forma da pele, dos cabelos.
Essas alterações visariam realçar a beleza, aperfeiçoar o gênero
por meio de transplantes, proteger contra as limitações da
natureza e“des”ou“re”configurar, às vezes, permanentemente, o
corpo e, consequentemente, a pessoa (SILVA, 2008, p.171,).
	
Considerando que atividade física é qualquer movimento muscu-
lar que gere energia e que tenha gastos calóricos, quando questionadas
sobre a prática de atividade física durante a semana, 148 responderam
que “não” fazem nenhum tipo de atividade física no sentido de manter
218 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
a saúde e 248 mulheres disseram que fazem atividades física. Dentre as
atividades que essas mulheres realizam, as mais citadas foram caminha-
das, dança, pilates, hidroginástica, treinamento funcional, musculação e
aeróbica, como aponta o gráfico 10.
Gráfico 10 – Percentual sobre os tipos de atividade física que as mulheres
entrevistadas praticam
Ao analisarmos estes dados, queremos nos remeter à narrativa
apresentada por Hari Kunzru num dos capítulos do livro “Antropologia
do ciborgue: vertigens do pós-humano”. Esta autora sustenta a tese de
que estamos na“Era do ciborgue”e, segundo ela, ser um ciborgue tem a
ver com as várias relações cotidianas que o humano estabelece com os
produtos tecnológicos – dos mais simples aos mais complexos:
Ser um ciborgue não tem a ver com quantos bits de silício temos
sob nossa pele ou com quantas próteses nosso corpo contém.
Tem a ver com o fato de Donna Haraway ir à academia de
ginástica, observar uma prateleira de alimentos energéticos para
bodybuilding, olhar as máquinas para malhação e dar-se conta de
que ela está em um lugar que não existiria sem a ideia do corpo
como uma máquina de alta performance.Tem a ver com calçados
atléticos (KUNZRU, 2009, p. 24).
219Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
A VOZ DOS HOMENS
Comojáfoiapresentado,oquestionáriodoshomensfoidirecionado
para aqueles que acompanharam as mulheres durante as entrevistas, e
que tinham alguma relação com a mulher de 35-45 anos na condição
de parceiro – podendo ser namorado, noivo, marido ou amasiado. Do
total de 50 homens entrevistados, constatou-se 6 namorados, 2 noivos,
34 casados e 8 amasiados. Estes homens convivem com estas mulheres
no contexto de suas intimidades, a maioria deles, por mais de 10 anos de
relacionamento, ficando expostos aos cuidados e comentários que elas
veiculam aos seus corpos.
Dentro do que foi perguntado aos homens, procuramos saber
que tipo de comentário eles ouvem as mulheres fazerem em relação
ao próprio corpo. Dos 50 homens entrevistados, 11 disseram não ouvir
nenhum comentário e 39 mencionaram ouvir queixas constantes das
mulheres no que tange ao envelhecimento do corpo. Do total das res-
postas, a que mais se evidenciou foi a queixa das mulheres no sentido
de estarem acima do peso e que precisam emagrecer para manter a
forma (ver gráfico 11).
Gráfico 11 – Percentual sobre as queixas que os homens entrevistados mais ouvem
das mulheres em relação ao envelhecimento do corpo
220 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
Mais uma vez a questão da gordura corporal lidera potencialmente
a preocupação das mulheres. Sobre estes dados, sinalizamos algumas
reflexões anteriormente. Queremos aqui discorrer sobre a importân-
cia do outro na constituição da imagem do corpo, na constituição de
uma representação de corpo que envelhece. Neste sentido, trazemos ao
texto a voz de Le Breton (2011, p. 236):“é do olhar do outro que nasce o
sentimento abstrato de envelhecer”. Ainda para este autor:
O sentimento de velhice é uma mistura indiscernível de
consciência de si (através da consciência aguda de um corpo
que muda) e de uma apreciação social e cultural. O sentimento
de ensomatose (queda do corpo) não é um dado bruto, é a
interiorização de um juízo que deprecia a velhice, antes de ser
um juízo pessoal (LE BRETON, 2011, p.236).
Perguntamos também aos companheiros das mulheres entrevis-
tadas com que frequência elas os questionam fazendo perguntas que
dizem respeito ao seu corpo. O gráfico 12 apresenta os resultados.
Gráfico 12 – Percentual sobre a frequência que as mulheres perguntam a opinião
dos companheiros entrevistados sobre o corpo delas
221Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
Sobre estes dados, os sujeitos ainda citaram que as perguntas das
mulheres sobre o corpo sempre estão relacionadas à aparência, esté-
tica, falta de confiança, boa convivência e autoestima. Neste sentido,
Wolf (1992) menciona que a preocupação da beleza das mulheres está
ligada ou diz respeito ao que os homens desejam e ao poder institu-
cional deles. Essa proposição do autor se evidencia em nossa pesquisa
na medida em que percebemos que 72% das mulheres de Aracaju de
alguma forma estão querendo saber a opinião dos companheiros em
relação ao seu corpo.
Outra questão direcionada aos homens foi relativa à opinião deles
sobre o que eles acham que incomoda mais no corpo da mulher com
o avançar da idade. Esta pergunta esteve centrada nas observações do
convívio diário junto a estas mulheres. Veja no gráfico 13 as principais
inquietações dessas mulheres.
Gráfico 13 – Percentual sobre o que os homens entrevistados acham que incomoda
no corpo da mulher
O entendimento de nosso corpo – e do “ser velho” – se dá a partir
dos desdobramentos do ambíguo “eu-outro/ dentro-fora” que somos.
Isso significa perceber “o corpo como tocante-tocado, o vidente-visto,
lugar de uma espécie de reflexão e, através disso, capaz de relacionar-se
222 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
a outra coisa que não a sua própria massa, de fechar o seu círculo sobre
o visível, sobre o sensível exterior”(MERLEAU-PONTY, 2006 P. 337). Neste
sentido, Bártolo (2007, p. 20-21) menciona que:
Estecorpoéelepróprioo“dentro”,ondearepresentaçãoseformaou
se projeta (sensação, percepção, imagem, memória, ideia, consciên-
cia)–enestecasoo“dentro”aparece(eapareceasi)comoestrangeiro
ao corpo como“espírito”. Outras vezes, o corpo é o“fora”significante
(“ponto zero” da orientação e da mira, origem e receptor das rela-
ções,inconsciente),enestecasoo“fora”aparececomoumainteriori-
dade espessa, uma caverna cheia, a abarrotar intencionalidade.
Desta forma, pensar a relação entre corpo, velhice e biotecnologia
significa pensar nos regimes de sentido que fazem significar o corpo
enquanto construto político mediado por técnicas. Ou seja, os sentidos
e significados de um corpo que envelhece é fruto de um devir de senti-
dos sociais que não existem imunes à técnica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Osdadosdesteestudorevelamumcertoparadoxonoquetangeàsatis-
fação das mulheres entre 35-45 anos da cidade de Aracaju/SE. Os resultado
obtidos apontam uma satisfação das mulheres para com seus corpos no pro-
cessodeenvelhecer–osdadosapontammaiorsatisfaçãodoqueinsatisfação.
No entanto, é perceptível no âmbito das demais questões que as mulheres
citam inúmeras preocupações e insatisfações relacionadas ao corpo.
Tanto na fala das mulheres como na de seus parceiros, o que causa
maior preocupação e insatisfação nas mulheres com o avançar da idade
é o aumento de peso corporal. A pele flácida e as rugas são o segundo
tema que mais absorve a atenção das mulheres nessa idade. Como o
questionário aplicado foi aberto, ou seja, a resposta veio do livre pensar
das mulheres e homens entrevistados e não na forma de alternativas
de escolha, percebemos que algumas preocupações apresentadas são
223Luana Alves dos Santos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho
mais gerais da vida cotidiana da mulher do que propriamente preocupa-
ções oriundas do processo inicial de envelhecimento corporal.
Especificamente no que tange ao uso e manipulação das biotec-
nologias ligadas às preocupações de retardar as marcas da idade no
corpo feminino, vemos uma prevalência – consonante com a questão
da insatisfação com o peso corporal – no desejo de mudanças no abdô-
men. 82% das mulheres se queixam do sobrepeso (67%) e outras (15%)
mencionam que precisam fazer uma reparação plástica. 39% das que se
dizem dispostas a mudar o corpo via cirurgia plástica mencionam que
mudariam o abdômen.
O baixo poder aquisitivo das mulheres entrevistadas mostra que
o acesso à biotecnologia fica deficitário (50% das mulheres tem renda
inferior a dois salários mínimos – 7% sem renda, 18% 1 salário mínimo
e 25% até 2 salários mínimos). Esses dados, de certa forma, justificam o
uso e manipulação das biotecnologias bem como os demais cuidados
com o corpo que as mulheres aracajuanas adotam – por exemplo: a pre-
valência da caminhada como prática corporal entre as mulheres – 46%.
De modo geral os dados apontam que as mulheres mostram-se preo-
cupadasecomdesejosligadosàmelhoriadasuaaparênciacorporalfrente
à fase de início do processo de envelhecimento. Neste sentido, percebe-
mos os esforços das mesmas nessa busca. No entanto, é também urgente
perceber que a condição financeira limita alguns desses cuidados.
Pelo viés da biotecnologia, podemos afirmar em certa medida que
cada vez mais o envelhecimento será substituído por próteses, silico-
nes, plásticas que devolverão ao corpo uma forma mais jovial, fármacos
que vão potencializar estruturas e funções corpóreas desgastadas. No
entanto, essa transição precisa ser mediada por um processo pautado
numa ética que transcenda os interesses econômicos, que veja no corpo
feminino que envelhece não apenas números e cifras. Do contrário, tere-
mos uma geração de idosos cada vez mais incomodada com as marcas
da velhice no corpo – o sentido de incômodo é aqui trazido como sinô-
nimo de quase neurose.
224 CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO
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O CORPO“EM-CENA”:
O CINEMA COMO PROPOSTA
PEDAGÓGICA NO ENSINO MÉDIO
Hamilcar Silveira Dantas Junior
Fabio Zoboli
Monara Santos Silva
Josineide de Amorim Santos
RESUMO: Este ensaio parte do princípio de que o cinema é uma manifesta-
ção cultural que nos permite o olhar para o mundo e seus corpos e para nós
mesmos enquanto corpo, para tanto, entendemos ser necessário estimular seu
uso na escola como ferramenta pedagógica em contraponto à lógica corrente.
No âmbito do Ensino Médio, com as exigências atuais do ENEM e as propos-
tas dos Parâmetros Curriculares Nacionais, encontramos um espaço fecundo à
ampliação desses olhares sobre o corpo e dinamização do processo formativo
da juventude. Este ensaio objetiva apresentar as primeiras proposições de uso
do cinema no Ensino Médio para ampliar a compreensão sobre o corpo e suas
representações na contemporaneidade.
PALAVRAS-CHAVE: Corpo; Cinema; Escola; Ensino Médio.
228 O CORPO“EM-CENA”
INTRODUÇÃO
Usando termos correntes de Zygmunt Bauman, em tempos de
modernidade líquida, fluida e sem alicerces sólidos ao trato com o
conhecimento, a escola é tornada um espaço de transmissão da infor-
mação rápida para consumo e aplicação imediatos. Dussel (2009) afirma
que o cerco à escola como campo de transmissão da cultura comum
foi intensificado em duas frentes: um declínio do ideal humanista, exi-
gindo da escola formação técnica; e a crise da reprodução cultural do
conhecimento, na qual valoriza-se o transitório, a informação dos últi-
mos segundos e estabelece um repúdio ao conhecimento duradouro,
de tradição. De maneira mais contundente, as artes, enquanto conheci-
mento pautado na fruição, no prazer e gozo estético, mas também em
um conhecimento histórico, não encontra acesso a essa escola.
Nesse espaço, por seu turno, educa-se sobretudo os corpos de
crianças e adolescentes. A preparação ao trabalho, a disciplina voltada
à busca da informação, a falta de exercício da memória no que ela tem
de seletiva para o permanente, não para o transitório, tem estabelecido
limites às capacidades de compreender a corporalidade dos alunos
como portadora de historicidade.	
Estabelecendo um contraponto a essa direção, compreendendo o
cinema como uma das manifestações culturais de massa que mais ser-
viram à educação das gerações do século XX, buscamos tencionar e rei-
vindicar o espaço escolar como espaço de acesso à cultura comum, à
cultura artística, à cultura cinematográfica no que lhes concerne como
permanente e histórico. Enquanto espaço de corpos jovens que se
veem, se tocam, se relacionam, propomos uma educação visual e das
sensibilidades no trato com o cinema.
Nessa escola pragmática, o Ensino Médio é a radicalização do anseio
pragmático: preparação irrestrita ao vestibular, ao ENEM, ao mundo do
trabalho que, contraditoriamente ao exigido, informa da necessidade
do aluno aprender a interpretar o mundo. Como, diante da crise do ideal
229Hamilcar Silveira Dantas Junior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos
humanista que reivindicava exatamente isso, abrir-se ao mundo? O obje-
tivo deste ensaio é estabelecer uma tensão à corrente dominante e pro-
por um trato pedagógico com o cinema no Ensino Médio para apreender
as formas de inserção e representação do corpo na contemporaneidade.
Para tanto, estabeleceremos duas bases de exposição: a primeira centrada
numa reflexão sobre proposições para uso do cinema na escola, aproxi-
mando-as de certos olhares sobre o corpo nessa relação; e a segunda, na
qualdescrevemososprimeirostraçosdeumaexperiênciaemconstrução.1
	
CINEMA NA ESCOLA: ENSAIANDO OLHARES SOBRE O CORPO
A modernidade deixou, como um de seus maiores legados, a escola
conforme a conhecemos, com seus princípios calcados no humanismo,
no uso analítico da razão e da busca pela ilustração. A organização esco-
lar por faixas etárias, com distribuição do conhecimento em áreas espe-
cíficas e por definição científica, a disposição dos alunos conforme os
preceitos hierárquicos e disciplinares são marcas evidentes desse pro-
cesso. Mas, certamente, os ideais humanistas da formação humana eram
o cerne do seio escolar.
Os avanços do progresso e a organização social capitalista pautada
na produção e circulação de bens exigiu da escola, ao longo de todo o
século XX, sua adequação ao mundo do trabalho. Buscava-se extrair da
escola seu caráter formativo ampliado de dar acesso à produção cultural
humana para limitá-la a um espaço de trato com o conhecimento téc-
nico e pragmático para inserção dos sujeitos no mercado.
1
	 Cabe destacar que em 26 de junho de 2014 foi aprovado o acréscimo de um parágrafo 8º, ao
Artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n.º 9394/96) que estabelece
que,“a exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular comple-
mentar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no
mínimo, 2 (duas) horas mensais”. Entendemos que, não obstante, os devidos cuidados que
se deve ter com as proposições de políticas educacionais e seus ecos na escola, a indicação
oportuniza aos jovens escolares um acesso a produções cinematográficas que vem sendo
cada vez mais restrito diante das programações dos cinemas e das TV’s por assinatura.
230 O CORPO“EM-CENA”
O corpo é central no contexto das mais variadas ciências e cam-
pos epistemológicos, pois o existir humano se dá através do corpo – o
corpo é o meio pelo qual nos utilizamos para experimentar o mundo,
para existir no mundo. O ser humano é presença no tempo e no espaço
como corpo/ desde o corpo/ através do corpo/ sendo corpo. Somente
existimos pelo e com o corpo, pelo e com o corpo o humano estabe-
lece suas relações consigo mesmo, com o outro e com o mundo/natu-
reza. “O corpo é o primeiro e o mais natural instrumento do homem”
(LE BRETON, 2009, p. 39).
Em sua espacialidade própria, descontínua, o corpo disponibiliza
desde componentes físico-químicos a signos que definem a
condição humana e as possibilidades de comunicação, que
tem conformado o interesse de diversas disciplinas científicas,
filosofias e modelos de educação (NÓBREGA, 2006 p. 65).
Pelo corpo trazer em si um campo de saberes polimorfos faz-se
necessário a costura de saberes advindos de várias áreas. O conceito
de corpo é transdisciplinar e essa perspectiva de conhecimento ana-
lisa o corpo a partir de um conjunto de disciplinas perpassando o
mesmo entre, através e além delas. Mais do que um conhecimento
integrado, a interdisciplinaridade nos remete a pensar o corpo de
forma complexa. Porém, ao estabelecermos essas redes de conexões
entre as várias áreas que tratam do corpo, faz-se necessário tomar
cuidado, pois:
Os conceitos não podem, sem perda ou risco de incoerência
ou de colagem, passar de uma disciplina para a outra sem o
tratamento apropriado. Os procedimentos de análise não são os
mesmos conforme as disciplinas, nem os métodos para a coleta
de dados. Sem controle rigoroso, a análise pode parecer uma
colcha de retalhos, uma colagem teórica que perde a pertinência
epistemológica (LE BRETON, p. 37, 2009).
231Hamilcar Silveira Dantas Junior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos
Como descrito acima, o corpo é um campo plural, dotado de vários
sentidos ele pode ser analisado sob o viés das mais variadas ciências ou
áreas do conhecimento. A escola deve ser um espaço que problematize
o corpo pela arte. No nosso caso específico, pretendemos problema-
tizar o corpo através do cinema, dialogando com algumas disciplinas
do Ensino Médio: Filosofia, Educação Física, História, Biologia e Sociolo-
gia. Além disso, pode-se estabelecer conexões e tensões com os temas
transversais: ética, saúde, orientação sexual, meio ambiente, pluralidade
cultural, trabalho e consumo.
Neste sentido este ensaio está em consonância com os Parâmetros
Curriculares Nacionais – PCN’s – para o Ensino Médio na medida em
que dialogamos com as “linguagens, códigos e suas tecnologias”, com
as “ciências humanas e suas tecnologias”, bem como com as “ciências
naturais e suas tecnologias”, além de estarmos em sintonia com os PCN’s
quanto à instrumentação utilizada, pois os mesmos sinalizam para:
As propostas de mudanças qualitativas para o ensino-aprendiza-
gem no nível médio indicam a sistematização de um conjunto de
disposições e atitudes como pesquisar, selecionar informações,
analisar, sintetizar, argumentar, negociar significados, cooperar, de
forma que o aluno possa participar do mundo social, incluindo-se
aí a cidadania, o trabalho e a continuidade dos estudos (PARÂME-
TROS CURRICULARES NACIONAIS – ENSINO MÉDIO, 2000, p. 05).
Cada filme possui suas particularidades, mas em sua maioria man-
tém um padrão que leva em conta a linguagem específica do cinema
dando a ele possibilidades de sentidos, significações e interpretações
diferentes. São os recursos utilizados pelos cineastas que de algum
modo interferem na maneira como apreendemos e interpretamos os
mais variados filmes que nos são apresentados. Nesse sentido, Barbosa
e Cunha (2006, p. 53) afirmam: “as linguagens audiovisuais definem
formas específicas de apreensão do mundo e proporcionam estilos
cognitivos e modos de compreensão e interpretação próprios. Elas
232 O CORPO“EM-CENA”
oferecem alternativas para a construção de modos de ver, elaborar e
construir conhecimentos”.
Desta forma o filósofo francês Gilles Deleuze aponta, a partir do
cinema, potencialidades para se pensar o corpo desvencilhando o
mesmo de uma lógica racional, no sentido de uma contemplação em
nível de sensação.
Deem-me um corpo: é a formula do desabamento filosófico. O
corpo já não é o obstáculo que separa o pensamento de si próprio,
oquetemdeultrapassarparaconseguirpensar. É,pelocontrário,no
que tem de mergulhar para alcançar o impensado, isto é, a vida. Não
que o corpo pense, mas, obstinado, teimoso, força a pensar, e força a
pensar o que se esquiva do pensamento, lançar-se-á os pensamen-
tos nas categorias da vida. As categorias da vida são precisamente
as atitudes do corpo, as suas posturas (...) É pelo corpo (e não por
intermédio do corpo) que o cinema realiza as suas bodas com o
espírito, com o pensamento (DELEUZE, 2006, p. 243).
A estrutura simbólica da comunicação visual – no caso específico
deste ensaio: o cinema – constitui sistemas arbitrários de sentidos e sig-
nificados. O filme/cinema como ferramenta pedagógica permite o con-
tato reflexivo com os códigos e símbolos que estão em uso com o intuito
de re-significar as representações convencionadas e padronizadas. “Ver
filmes, é uma prática social tão importante, do ponto de vista de forma-
ção cultural e educacional das pessoas, quanto a leitura de obras literá-
rias, filosóficas, sociológicas e tantas mais”(DUARTE, 2002, p. 17).
Entendemos que, historicamente, a inserção das artes no seio esco-
lar vincula-se à disciplina“Educação Artística”, a iniciativas individuais de
alguns professores como reforço ao conteúdo veiculado ou aos eventos
promovidos pelas diversas áreas e que envolvam pinturas, musicaliza-
ção, teatralização, fotografias, cartazes. Em contracorrente, entendemos
ser a arte uma experiência vivida, mais que aprendida, mais uma expe-
riência que um aprendizado teórico. As amarras disciplinares e a distin-
233Hamilcar Silveira Dantas Junior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos
ção entre cultura erudita e popular têm tornado as artes um território
de difícil acesso, criando um abismo para estimular o desenvolvimento
de sensibilidades. O cinema, comumente, é colocado na escola como
uma atividade complementar, ora para ilustração de conteúdos, ora
para preenchimento do tempo. Visto como uma manifestação cultural
de lazer, por isso mesmo improdutiva, o cinema não tem importância no
terreno “sério” e comprometido com a formação intelectual dos jovens.
Entendemos que tal conjuntura é incoerente e contraproducente. Milha-
res de pessoas aprendem história, relações sociais, tensões religiosas por
meio do que se passa na sala escura ou na sala de estar pelo DVD.
Duarte (2003) afirma que os filmes criam um efeito de realidade
nas pessoas muito mais impactante que qualquer outra forma de arte.
Ao irmos ao cinema, fazemos um pacto com a ficção e estabelecemos
um intervalo no cotidiano da vida e assumimos uma “impressão” da
realidade. O espectador também estabelece uma“identificação”com as
personagens e as tramas, vislumbrando possibilidades de realidade no
mundo possível. Por fim, o espectador produz uma dada“interpretação”,
produz sentidos e significados próprios das suas capacidades de ver e
ler o mundo por meio daqueles códigos de imagem e som. Com essas
interpretações é possível concluir que a escola precisa aceitar o conheci-
mento oriundo das nossas visitas aos filmes como algo elaborado e com
argúcia lógica.
A escola pode (e deve) ser o terreno de aguçar o pensamento e
os sentimentos. Concordamos com Cabrera (2006) que a experiência
visual do cinema nunca é somente prazer, fuga e sentimento, é também
cognitiva e lógica, ou obedece ao primado que a denomina de “razão
logopática”.
Para Cabrera (2006), o logos limita a compreensão do mundo aos
códigos intelectivos emanados do cérebro, ao passo que tal compreen-
são perpassa, indubitavelmente, pelo estar e vivenciar o mundo na
esfera afetiva (o pathos). O filósofo argentino defende, portanto, que
certas dimensões da realidade só podem ser captadas de modo racio-
234 O CORPO“EM-CENA”
nal e afetivo, sem separações, refletindo uma experiência em que: haja
abertura, vivência, um deixar-se afetar pelas imagens; se provoque um
“impacto emocional” (não “efeito dramático”) com valor cognitivo; se
reflita sobre o mundo, as pretensões de verdade e universalidade; se
propicie uma reflexão radical, porém com soluções lógicas, epistêmicas
e morais abertas e problemáticas.
A escola, portanto, vem perdendo a oportunidade de estabelecer
diálogos mais próximos aos anseios e linguagens da juventude ao se
privar de lidar com o cinema entre seus muros. Enquanto uma “janela”
que se abre para o mundo e possibilita olhares diferenciados, o cinema
oportuniza aos escolares, sobretudo no Ensino Médio, ver e sentir cor-
pos através de impressões, sentidos e significados gestados pelos seus
próprios corpos.
Neste sentido, nossa proposta tenta apontar outros caminhos de
compreensãoeexperimentaçãodocorponaeducaçãoatravésdocinema.
Pois acreditamos, amparados em Nóbrega e Tibúrcio (2004), que apontar
outros caminhos de compreensão do corpo na educação se faz necessário
no sentido de visar a superar o instrumentalismo e expandir as referências
educativas considerando o mesmo na sua relação com o conhecimento
sensível. Isso, na menção dos autores, faz com que, pelo processo edu-
cativo, se amplifique a textura corpórea dos processos de conhecimento:
Ao comportar esse saber sensível, que permite a comunicação
entre sentidos e o entrelaçamento do sujeito e do mundo, que
permite, ao mesmo tempo, a criação ininterrupta de novas
possibilidades de se organizar, o corpo oferece indicadores para
pensar em uma educação que ressalte a visão não dicotomizada
do humano (NÓBREGA; TIBÚRCIO, 2004, p. 467).
Visando a dilatar as oportunidades de vivência e aprendizado sobre o
corpo,pelocorpo,comocorpoeparaocorpo,eporentenderqueocinema
tem uma larga tradição de exposição e representação de imagens, sons e
histórias corpóreas, a escola pode: ilustrar as manifestações, expressões
235Hamilcar Silveira Dantas Junior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos
e representações corporais como metáforas da vida; mostrar as práticas
como modelos de desencanto, de desilusão e de controle, mas também de
superação, de êxtase e libertação; expor as inúmeras dimensões humanas e
sociais expressas através dos corpos dos sujeitos representados. Tais repre-
sentações são expostas por olhares plurais de cinematografias distintas no
que tange a objetivos, sobretudo a lógicas culturais próprias dos países pro-
dutores dos filmes. As abordagens plurais são frutos da representação de
filmes oriundos de diversos países como Brasil, Estados Unidos, Inglaterra,
Argentina, França, Itália, Alemanha, Hungria e outros.
De modo específico, pretendemos ilustrar nesse ensaio propostas
de uso de filmes de maneira a desenvolvermos, no futuro, capacidades
de investigação de como as produções cinematográficas contemporâ-
neas estão significando algumas temáticas que giram em torno da pro-
blemática do corpo e suas manifestações identitárias, ético-morais e
políticas, no sentido de projetar práticas sociais.
Para tanto, é necessário desenvolver as “competências para ver”.
Duarte (2002, p.13), amparada no sociólogo francês Pierre Bourdieu,
menciona que:
A experiência das pessoas com o cinema contribui para
desenvolver o que se pode chamar de “competência para ver”,
isto é, uma certa disposição, valorizada socialmente, para analisar,
compreender e apreciar qualquer história contada em linguagem
cinematográfica. Entretanto, essa “competência” não é adquirida
apenas vendo filmes; a atmosfera cultural em que as pessoas
estão imersas – o que inclui, além da experiência escolar, o grau
de afinidade que elas mantêm com as artes e a mídia – é o que
lhes permite desenvolver maneiras de lidar com os produtos
culturais, incluindo o cinema.
Na menção de Dantas Junior (2013, p. 67), “o cinema é uma ativi-
dade educativa por excelência. Sua capacidade narrativa se transmuta
em uma didática inebriante para formar percepções do mundo”. Nesse
236 O CORPO“EM-CENA”
sentido, acreditamos que ela possa contribuir na formação dos estudan-
tes de Ensino Médio. Continuando, o autor, ao se referir à arte/cinema
como possibilidade de educação, discute:
Entendo que uma educação por meio da arte pode proporcionar
o desenvolvimento do ato de julgar pelo estímulo aos novos
olhares acerca da vida e da realidade. A arte pode e deve ampliar
a diversidade cultural, posto que a redução da percepção do
outro limita meus horizontes de contato e alimenta práticas e
ideias intolerantes, assim como a redução da capacidade de
pensar está diretamente vinculada à redução da capacidade de
sentir (DANTAS JUNIOR, 2012, p. 77).
Por seu turno, Barbosa e Cunha (2006, p. 53) afirmam, para fins de
esclarecimento do processo analítico das imagens, que essas “podem
ser utilizadas como meio de acesso a formas de compreensão e inter-
pretação das visões de mundo dos sujeitos e das teias culturais em que
eles estão inseridos.” Desse modo, é possível identificar o campo mais
abrangente em que a pesquisa se assenta, tendo em vista a análise fíl-
mica que, por sua vez, considera as imagens e discursos produzidos no
âmbito de uma cultura, ao compreender também que a análise em si
torna-se uma possibilidade de diálogo com as regras e códigos de uma
determinada cultura. Nesse caso em particular, o corpo atravessado
pelos signos da cultura.
Isso leva ao entendimento de que a partir da análise fílmica é possí-
vel construirmos um conjunto de códigos e significações que, fundamen-
tados em nossa experiência visual, são naturalizados, dando de maneira
particular a cada indivíduo uma forma ou mais de apreensão e compreen-
são.Trabalharcomfilmesexigesaberqueseestátrabalhandocomarepre-
sentação de um imaginário cotidianamente recriado e em movimento.
Os estudos que vimos desenvolvendo pretendem encarar o uso
das imagens na análise de filmes como acréscimo de novas dimensões
e parâmetros para a interpretação da história cultural de um povo. Per-
237Hamilcar Silveira Dantas Junior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos
mitindo também, de acordo Barbosa e Cunha (2006, p. 57), “aprofundar
e compreender o universo simbólico dessas representações exprimindo
um sistema de atitudes pelos quais se definem grupos sociais se constrói
identidades e se apreendem mentalidades”.
O que se pode concluir, nesse momento, é que a análise fílmica é um
conjunto de operações que envolvem processos complexos de apreen-
são, e que é através da desconstrução e reconstrução de um filme que
descobrimos os seus princípios e fundamentos, reconhecendo sistema-
ticamente o que aparece na tela, através de uma descrição minuciosa e
uma interpretação pessoal das informações concedidas.
UM ENSAIO DE EXPERIÊNCIA
Os estudos que dão base a este ensaio são oriundos de uma proposta
em construção vinculada ao grupo de Pesquisa“corpo e governabilidade”
do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe
– UFS – na linha de“corpo e comunicação”. A linha“corpo e comunicação”
tem como objetivo estudar as mídias como ferramenta cultural e política
para a governabilidade do corpo e seus comportamentos sociais: texto,
pintura, fotografia, cinema, televisão, rádio, internet e mídias digitais. Os
objetivos da linha de pesquisa estão alinhados à proposta dos PCN’s do
Ensino Médio, pois os mesmos têm como centralidade a questão da lin-
guagem analisada sob o viés inter e transdisciplinar:
A linguagem tem sido objeto de estudo da filosofia, psicologia,
sociologia, epistemologia, história, semiótica, linguística,
antropologiaetc.Alinguagempelasuanaturezaétransdisciplinar,
nãomenosquandoéenfocadacomoobjetodeestudo,eexigedos
professores essa perspectiva em situação didática (PARÂMETROS
CURRICULARES NACIONAIS – ENSINO MÉDIO, 2000, p. 05).
Ao perspectivar a construção de uma proposta pedagógica, ou seja,
a construção de um fazer educacional e formativo, pressupomos o pen-
238 O CORPO“EM-CENA”
sar e o fazer como uma relação dialética. Para tanto, o conceito de expe-
riência é fundamental, posto que é na experiência e pela experiência
que os sujeitos se constituem indivíduos ou membros de um contexto
cultural. A escola é um campo fecundo às múltiplas possibilidades de
experimentação, sendo o cinema e as práticas corporais, notadamente
o esporte, espaços ao mesmo tempo fraternos e tensos, de convívio e
construção de concepções de mundo. Assumimos a dimensão enun-
ciada por Thompson (1981, p. 189), de que,
[...] as pessoas não experimentam sua própria experiência apenas
como ideias, no âmbito do pensamento e de seus procedimentos,
ou (como supõem alguns praticantes teóricos) como instinto
proletário etc. Elas também experimentam sua experiência como
sentimento e lidam com esses sentimentos na cultura, como
normas, obrigações familiares e de parentesco, e reciprocidades,
como valores ou (através de formas mais elaboradas) na arte ou
nas convicções religiosas.
A partir de uma Ação de Extensão intitulada “Corpo e cinema no
Ensino Médio”, os integrantes do grupo de pesquisa “corpo e governa-
bilidade” sistematizam filmes que abordam questões nas quais proble-
máticas que suspendem o corpo são trazidas à tona. Desta forma, são
levadas às escolas Públicas de Aracaju filmes que são discutidos com
os alunos do Ensino Médio. Assim, começamos a“ensaiar”a experiência
pedagógica estruturada através da apresentação e discussão de filmes.
Ora, a experiência estruturada é aqui entendida enquanto possui-
dora, como o próprio termo já diz, de uma estrutura preconcebida pelo
sujeito racional e, portanto, forjada por uma intencionalidade. Assim
como afirma a filosofia transcendental de Kant, é o sujeito que dita as
regras pelas quais os objetos podem ser conhecidos tendo como base as
suas capacidades centradas nas faculdades mentais. Em outras palavras,
a experiência sobre este ponto de vista é pautada sobre a noção dessa
estrutura racional/intencional necessária para que haja conhecimento.
239Hamilcar Silveira Dantas Junior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos
Bártolo (2007) aponta que, para Deleuze, a estrutura é uma máquina
semiótica, isto é, uma máquina de produção de sentido. Esse processo,
chamado de significação, busca dar sentido às coisas, classifica e orga-
niza signos (aspectos sensíveis) que se apresentam de forma bruta ao
contexto em que vivemos, à nossa cultura.
A estrutura que nos é dada dentre as formas distintas de organi-
zar experiências, é aqui formatada, conferida e entendida através da
noção filosófica de “propedêutica”. Esta, em nossa concepção, é o con-
ceito ligado à preparação, ou seja, estruturação e instituição das formas
pelas quais serão tomados os rumos da experiência, seja esta no sentido
amplo da atribuição e apreensão dos conhecimentos a partir do teor
metodológico proposto, seja esta em relação específica aos modelos
“estéticos” já pré-determinados pela estrutura do cinema e a vivência
dos alunos em relação aos filmes. A propedêutica, portanto, é o cerne
que torna possível a experiência e, em certa medida, define o produto
pelos quais esta irá estabelecer.
Têm-se observado que o cinema carrega características eminen-
tes para aqui serem entendidas sob a base conceitual da propedêu-
tica. Sua estrutura de base educativa/formadora, que age direta ou
indiretamente, propõe gerar uma consciência nos indivíduos, prin-
cipalmente nos aspectos que norteiam as questões socioculturais.
Como visto, o cinema, em sua forma de manifestação crítica, refle-
xiva, discursiva e, principalmente, de denúncia e de rupturas, coloca
em cheque os dogmas, os cânones tradicionais instituídos artistica-
mente e socialmente. Enquanto propedêutica, as discussões geradas
frente a temas ligados ao corpo apresentados nos filmes em suas
formas de organização e provocação direcionam à tomada de novos
posicionamentos e novos comportamentos dos indivíduos frente à
experiência por estes estabelecida. Assim, as formas pelas quais os
filmes e seus agentes estruturam e operam os signos na constituição
estética da experiência atribuem aos indivíduos modos distintos de
significar a realidade percebida.
240 O CORPO“EM-CENA”
Compreende-se que a vivência do saber, a experiência que se pro-
põe está diretamente ligada aos processos de significação intrinseca-
mente associados à produção de sentidos. Acredita-se que o sentido é
antes construído no e através do corpo na condição mais elementar e
imediata da experiência, sob o nível das sensações. A significação aqui
não pode ser compreendida simplesmente como um ato de pensa-
mento – restrito à mente e ao cérebro – mas, como “a experiência do
corpo ao nos fazer reconhecer uma imposição do sentido que não é ade-
rente a certos conteúdos. Meu corpo é esse núcleo significativo que se
comporta como uma função geral”(MERLEAU-PONTY, 1999, p. 203).
É necessário frisar que o conceito de experiência está intrinse-
camente relacionado ao ato de conhecer ou da constituição do pen-
samento que, embora ligada à concretude do “mental”, implica a
coparticipação do “corporal”, essencial na constituição da experiência.
A preocupação filosófica e as inúmeras possibilidades de desvendar os
processos pelos quais o indivíduo conhece/pensa foi parte da trajetó-
ria deste campo acadêmico, assim como o estudo de problemas funda-
mentais ligado à existência, à verdade, aos valores morais e estéticos,
à mente e à linguagem. Portanto, não é à toa que encontramos nesse
percurso inúmeros filósofos que se detiveram a desmembrar em suas
teorias esta problemática que envolve a experiência de pensamento e
seus métodos.
Dentre os mais diversos parâmetros sociais, os signos – vistos aqui
enquanto predicativos captados junto à noção de tempo e espaço (con-
texto) – são estruturados de várias maneiras. Sistemas e operadores
classificam, organizam os signos e conferem sentidos a estes, tornando
possível a experiência. Um conteúdo disciplinar, por exemplo, pode ser
lido, experimentado, entendido de diversas formas e isto depende dos
modos pelos quais os signos encontram-se estabelecidos a partir das
categorias da experiência. Os signos são produzidos na mente de modo
a participar da composição de seus raciocínios e constantemente forma-
dos de forma progressiva.
241Hamilcar Silveira Dantas Junior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos
De modo específico no âmbito escolar, o processo pedagógico
deve mediar a experiência do mundo cotidiano com o conhecimento
e organização da ciência, da arte e da cultura formal, incidindo sobre
nossas experiências físicas e corporais.
Neste“ensaio”de experiência, partimos da indicação metodológica
de Dantas Junior (2012) em seus estudos de cinema na escola, pois não
pretendemos usar filmes no âmbito das disciplinas, mas tornar o assistir
filmes uma atividade da escola que possibilite diálogos interdisciplina-
res ou mesmo transdisciplinares, portanto não se liga ao tempo escolar
das disciplinas específicas, mas sim a um tempo próprio de reunião dos
alunos para a sessão de cinema e reflexão.
Para a escolha dos filmes, estivemos atentos a algumas questões que
a mesma exige. Para Dantas Junior (2012, p. 71), a escolha dos filmes deve:
Contemplar a articulação entre os componentes curriculares que
dialogarão em cada sessão; ressaltar competências e habilidades
que deverão ser adquiridas após a exibição e debates dos filmes,
bem como ter clareza dos conceitos a serem trabalhados com os
alunos e seu vínculo às unidades temáticas planejadas ao longo
do ano; adequar-se à faixa etária e nível de escolaridade dos
alunos, sobretudo quanto ao nível cultural dos mesmos no que
tange ao cinema.
	
Pensar nas imagens e narrativas, sejam visuais ou audiovisuais,
como objeto de análise é propor uma abordagem aprofundada que leve
em conta aspectos diferenciados. Para Gardies (2008), na contempora-
neidade, os filmes continuam sendo particularmente preciosos para a
análise de questões que envolvem as identidades culturais. Neste sen-
tido, trazer o corpo como cerne de discussão através dos filmes é pensar
nas possibilidades de suas articulações políticas numa sociedade que
está constantemente a inscrever no corpo os seus mais variados enredos.
Nesse estágio da construção da experiência pedagógica estru-
turada, tentamos ilustrar filmes possíveis de olhar sobre o corpo, pelo
242 O CORPO“EM-CENA”
corpo, com o corpo e para o corpo, partindo de temas geradores de
debate: corpo e gênero; corpo e as concepções sobre normalidade e
deficiência; corpo e sua mercadorização sob as mais diversas práticas
sociais e culturais; corpo e as demandas das novas tecnologias, ges-
tando os corpos híbridos (fusão corpo/tecnologia); os usos cada vez
mais comuns de substâncias psicoativas que podem, inclusive, gerar
dependência química, sobretudo gerar sentimentos de opressão social;
as expressões dos corpos em culturas diversas, sua relação com o tempo,
o espaço, a natureza e a sociedade. Muitos dos filmes que apresentamos
abaixo são utilizados no projeto de extensão“Corpo e cinema no Ensino
Médio”, veiculados pelo grupo de pesquisa“corpo e governabilidade”.
No âmbito das relações de Corpo e Gênero é possível explorar fil-
mes que enfatizem o papel da mulher na sociedade, suas lutas, desejos
e repressões, as impressões sobre gênero, trans-gêneros e orientações
sexuais. Sugerimos, nesse contexto, filmes como: Onda nova (José Antô-
nio Garcia e Ícaro Martins, 1983); Uma equipe muito especial (Penny
Marshall, 1992); Billy Elliot (Stephen Daldry, 2000); Driblando o destino
(Gurinder Chadha, 2002); Madame Satã (Karim Aïnouz, 2002); Juwanna
Man (Jesse Vaughan, 2002); Osama (Siddiq Barmak, 2003); Menina de
ouro (Clint Eastwood, 2004); O segredo de Brokeback Mountain (Ang
Lee, 2005); Fora de jogo (Jafar Panahi, 2006); Gracie (Davis Guggenheim,
2007); De repente, Califórnia (Jonah Markowitz, 2007); Praia do futuro
(Karim Aïnouz, 2014). Tais filmes oportunizam aos jovens dimensionar
as relações que estabelecem com os outros sob uma perspectiva de
gênero e alçam o debate a patamares mais elaborados quando conse-
guimos estabelecer diálogos inter e transdisciplinares.
No campo das relações entre Corpo e as compreensões sobre nor-
malidade e deficiência, o cinema tem sido profícuo em problematizá-
-las sob vários aspectos. O que é ser normal? O que é ser deficiente? Ao
ser produtivo à sociedade, o deficiente torna-se normal? Filmes como:
Castelos de gelo (Donald Wrye, 1978); Gaby, uma história verdadeira (Luis
Mandoki, 1987); Nascido em 4 de julho (Oliver Stone, 1989); Rain Man
243Hamilcar Silveira Dantas Junior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos
(Barry Levinson, 1989); Meu pé esquerdo (Jim Sheridan, 1989); O mar mais
silencioso daquele verão (Takeshi Kitano, 1991); Perfume de mulher (Mar-
tin Brest, 1992); Bola pra frente (Michael Winterbottom, 1995); O oitavo
dia (Jaco Van Dormael, 1996); À primeira vista (Irwin Winkler, 1999); A
cor do paraíso (Majid Majidi, 1999); Meu namorado Pumpkin (Anthony
Abrams e Adam Larson Broder, 2002); Meu nome é Radio (Mike Tollin,
2003); Menina de ouro (Clint Eastwood, 2004); Mar adentro (Alejandro
Amenábar, 2004); O trapaceiro (Barry W. Blaustein, 2005); Soul surfer
(Sean McNamara, 2011) Hoje eu quero voltar sozinho (Daniel Ribeiro,
2014). Esses filmes, de modos distintos e sob prismas de outros ambien-
tes e práticas culturais, oportunizam aos alunos ampliarem os olhares
sobre si mesmos, sobre os colegas e sobre a sociedade e suas formas de
lidar com sujeitos diferentes dos padrões de“normalidade”.
Na sociedade da imagem ou do espetáculo, como diria Debord
(1997), tudo está à venda, pois o ser visto, o estar em cena, o parecer
(não ser) é a manifestação do capital em tal grau de acumulação que
se torna imagem. Nesse contexto, os corpos são comercializáveis no
âmbito social, científico, cultural, político e esportivo. Como se nego-
cia corpos? Como se descartam corpos? Como se massacram corpos na
esteira do desenvolvimento econômico e social? Como se instrumenta-
liza e se usa corpos para justificar ações políticas e religiosas? Caberia,
portanto, pela mediação de professores de diversas áreas, a análise de
filmes como: BlueChips (William Friedkin, 1994); Oalvo (JohnWoo, 1993);
O bravo (Johnny Depp, 1997); Um domingo qualquer (Oliver Stone, 1999);
Anatomia (Stefan Ruzowitzky, 2000); Paradise Now (Hany Abu-Assad,
2005); Tudo por dinheiro (D. J. Caruso, 2006).
A contemporaneidade tem apresentado novas demandas tecnoló-
gicas sobre o corpo que levam estudos atuais a pensar sobre a fusão do
corpo com a tecnologia no sentido de se pensar problemas de cunho
epistemológicos e ontológicos oriundos dessa hibridização. Assim,
encontramos diversas tramas nas quais a dimensão corporal tem sido
alterada sob diversas formas tecnológicas abordadas em filmes que
244 O CORPO“EM-CENA”
retratam o hoje a filmes que profetizam futuros distópicos. O cinema
tem sido fértil na exposição desse tipo de película. Filmes como: Blade
Runner, caçador de andróides (Ridley Scott, 1982); 1984 (Michael Rad-
ford, 1984); Robocop, o policial do futuro (Paul Verhoeven, 1987); Gat-
taca – experiência genética (Andrew Niccol, 1997); Matrix (Andy e Larry
Wachowsky, 1999); A ilha (Michael Bay, 2005); A pele que habito (Pedro
Almodóvar, 2011); Ela(Spike Jonze, 2013); Elysium (Neill Blomkam, 2013).
A escola é um espaço fundamental na discussão do uso de substân-
cias psicoativas que provocam prazer, estabelecem aproximações entre os
sujeitos, estimulam a desinibição, porém geram dependências químicas
e sociais muito sérias. Para além de discussões moralistas, à escola cabe
tencionar com essas questões e o cinema pode ser uma janela interes-
sante para olhar a problemática e estimular o debate. Cabe visualizar
filmes como: Farrapo humano (Billy Wilder, 1945); O homem do braço de
ouro (Otto Preminger, 1955); Eu, Christiane F., drogada e prostituída (Ulrich
Edel, 1981); Despedida em Las Vegas (Mike Figgis, 1995); Diário de um ado-
lescente (Scott Kalvert, 1995); Medo e delírio (Terry Gilliam, 1998); 28 dias
(Betty Thomas, 2000); Réquiem para um sonho (Darren Aronofsky, 2000);
Ray (Taylor Hackford, 2004); Meu nome não é Johnny (Mauro Lima, 2008).
Por fim, em um mundo globalizado no que se refere a ver (através
das multimídias) o outro, mas ainda provinciano no entender e aceitar
as diferenças do outro, o cinema tem oportunizado o acesso a culturas
distintas e suas formas de se relacionar social e culturalmente. Filmes
de nacionalidades diversas tem ampliado as formas de ver o mundo e a
escola deve ser um terreno que estimule esses olhares com uma media-
ção consistente de seu corpo docente. Particularmente, admiramos e
entendemos ser uma cinematografia acessível aos alunos e que possi-
bilita superar preconceitos enraizados a respeito do islamismo e países
como o Irã. Os filmes iranianos são muito sensíveis e focam questões
ricas ao desenvolvimento da infância, dos impactos sociais, culturais
e econômicos sobre a vida dos sujeitos. Cabe visualizar alguns filmes
como: Vida e nada mais (e a vida continua...) (Abbas Kiarostami, 1992); O
245Hamilcar Silveira Dantas Junior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos
balão branco (Jafar Panahi, 1995); Filhos do paraíso (Majid Majidi, 1997);
A caminho de Kandahar (Mohsen Makhmalbaf, 2001); Tartarugas podem
voar (Bahman Ghobadi, 2005); Fora do jogo (Jafar Panahi, 2006).
Por conseguinte, caberia aos professores conhecer a obra de alguns
cineastas internacionais de distintas nacionalidades que ampliam nos-
sas visões de mundo e aguçar nossa sensibilidade. Dentre vários, cabe
destacar: Ousmane Sembene (Senegal), Miklós Jancsó e Istvan Szabo
(Hungria), AndrzejWajda e Krisztoff Kieslowski (Polônia), Emir Kusturica
(Bósnia), Theo Angelopoulos (Grécia), Sergei Eisenstein (Rússia), Ing-
mar Bergman (Suécia), Thomas Vinterberg e Lars Von Trier (Dinamarca),
F. W. Murnau, Fritz Lang, Wim Wenders, Rainer Werner Fassbinder (Ale-
manha), Jean Renoir, François Truffaut, Jean-Luc Godard (França),
Federico Fellini, Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Giusepe Tornatore
(Itália), Luis Buñuel, Carlos Saura e Pedro Almodovar (Espanha), Denys
Arcand e Atom Egoyan (Canadá), Tomás Gutierrez Alea (Cuba), Alfonso
Arau, Alejandro Gonzalez Iñarritú, Alfonso Cuarón e Guillermo Del Toro
(México), Juan José Campanella, Fernando Solanas e Adolfo Aristarain
(Argentina), ZhangYimou e Chen Kaige (China),Yasujiro Ozu, Kenji Mizo-
guchi, Akira Kurosawa e Shoei Imamura (Japão), Kim Ki-Duk (Coreia do
Sul) e Satyajit Ray (Índia).
As sugestões ainda estão no processo de construção da experiência
concreta de relação educativa docente-discente e produção, mas sina-
lizam com as intenções que revelam os passos seguintes dessa proposi-
ção, ou como a escola pode organizar suas sessões de cinema e debate
sobre as temáticas elencadas: selecionar o filme com critérios específi-
cos; apresentar o contexto do filme e sua produção; exibir o filme; para,
em seguida, abrir um debate coletivo a partir de roteiros elaborados nos
grupos de pesquisa ou de organização das sessões. O roteiro não terá
um caráter fechado, pois entendemos que os alunos do Ensino Médio
serão os principais interlocutores. Havendo necessidade, após a exibi-
ção do filme pode-se organizar uma palestra para apresentar um contra-
ponto ao narrado visualmente.
246 O CORPO“EM-CENA”
Ao final de cada sessão pretende-se avaliar os pontos que digam
respeito a questões mais qualitativas no que tange aos objetivos propos-
tos pelos estudos que vimos gestando. Por conseguinte, cabe à escola,
e nos propomos aqui a participar como mediadores, ser um campo de
interlocução com o mundo pelo cinema, principalmente em momentos
nos quais os alunos mais estão sendo exigidos para tal, o Ensino Médio.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao advogar a tese da escola como um espaço fecundo à trans-
missão de uma cultura comum, ampliada, não pragmática e que use a
arte como um meio de olhar/sentir o mundo, concluímos com os crité-
rios elencados por Dussel (2009) para pensar essa escola: a escola deve
ser capaz de nos colocar em contato com o mundo-outro, do desco-
nhecido, que desafia nossos limites, compreensões e nos torna mais
abertos e receptivos; a escola sustenta-se no conhecimento acessível a
todos que queiram, não por obrigação ou porque “serve” para alguma
coisa, mas porque serve à “eternidade”, à nossa vida e nosso cresci-
mento; a escola deve nos dar chaves para decifrar as experiências das
disciplinas, das artes, das práticas, tornando-nos mais participativos,
analíticos e críticos.
Pensamos que a via pela arte é uma via possível, que abramos então
a janela do cinema e olhemos/sintamos o mundo.
	
REFERÊNCIAS
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DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
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THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao
pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
A ESTÉTICA DO OPACO:
CORPOS, AUSÊNCIAS E POLÍTICAS
VISUAIS NO BRASIL OITOCENTISTA
Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
RESUMO: O presente texto aborda o processo de invenção do que hoje se co-
nhece por “História do Brasil” durante o século XIX, assim como alguns meios
pelos quais a mesma foi disseminada entre vasta população do novo país. Um
destaque será dado aos trabalhos pioneiros de pintores da Academia Impe-
rial de Belas Artes (AIBA) que, diretamente financiados pelo Império brasileiro,
foram encarregados de eternizarem os episódios então entendidos como im-
portantes para a formação do recém independente estado nacional. Especifi-
camente, serão analisadas três obras canônicas de arte fundamentais para se
entender o processo de invenção da história (visual) brasileira: “A Redenção de
Cã”, Modesto Brocos (1895); “A Primeira Missa”, Victor Meirelles (1860) e “Inde-
pendência ou Morte!”, Pedro Américo (1888).
PALAVRAS-CHAVE: História do Brasil. Academia Imperial de Belas Artes. His-
toriografia.
250 A ESTÉTICA DO OPACO
NA(RRA)ÇÃO
Conquistada a independência política, o recém-fundado império brasi-
leiro impôs a si a urgente tarefa de criar uma história nacional que o diferen-
ciasse da antiga metrópole portuguesa. Fazer difundir uma versão oficial da
“história brasileira”– com seu panteão de heróis locais e exemplos de resis-
tência à tirania lusitana – serviria tanto para explicar o surgimento da nova
nação, quanto para garantir sua perpetuidade. Afinal, as elites, então à frente
do estado brasileiro, sabiam que a consolidação da independência brasileira
dependerianãosódalealdadedesoldadosedahabilidadediplomatas,como
também da força de signos; em especial no âmbito da pintura. É claro que os
perímetros do novo país estariam mais seguros com armas e tratados. Mas,
somenteopodercoesivodecidadãosplenamente“nacionalizados”poderiam
garantirsuaestabilidadeterritorialepolítica.Somenteumapopulaçãoqueao
genuinamentecrerterorigensemumpassadocomumestariadispostaatudo
para defender seus laços nacionais de parentesco e de solidariedade1
.
1
	 Ainda hoje, a história é popularmente entendida como uma disciplina acadêmica/escolar ocu-
pada em guardar datas e fatos memoráveis. No entanto, para além de sua inegável dimensão
pedagógica e arquivística, conhecimentos históricos sempre desempenharam um papel político
na organização de sociedades. Governantes sempre usaram narrativas sobre o passado tanto
para justificar seus privilégios no presente como para garantir a união/lealdade/subserviência
de seus governados. Exemplos que corroboram isso não faltam nos diversos cantos e épocas
do mundo, desde os baixos relevos mesopotâmicos às esculturas de bronze do reino de Benin;
das colunas de Trajano em Roma às biografias escritas em ouro dos imperadores Mugals na
Índia. As histórias nacionais que surgem a partir do século XIX, tema desse capítulo, apresentam
pelo menos três características específicas que as diferenciam do tipo de historiografia feita em
períodos anteriores: 1- tratam-se de narrativas que surgem como um componente intrínseco e
essencial de um inédito organismo político-social que surge nesse período e que permanece até
hoje como o modelo de divisão demográfica-territorial no planeta: os estados-nação modernos;
2- Em sintonia com a retórica liberal-republicana que caracteriza os estados-nação modernos,
as histórias nacionais enfatizam a homogeneidade e fraternidade entre cidadãos, baseada em
traçosculturais,geográficosegenealógicoscomuns(nessesentido,ashistóriasnacionaissedife-
rem dos relatos históricos de tipo monárquico ou religioso que as antecederam, cujas narrativas
focavam nas hierarquias e diferenças entre grupos dominantes/dominados ou predestinados/
infiéis. 3- Influenciada pelos avanços da ciência moderna, trata-se do primeiro de tipo de histo-
riografiaqueapelaaométodocientífico -nãoaautoridadededeuses,sábiosoumonarcas- para
justificar a importância do conhecimento que a disciplina produz.
251Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
Partindo desse tema amplo, este capítulo discute o processo espe-
cífico de invenção2
do que hoje se conhece por “História do Brasil”
durante o século XIX, assim como alguns meios pelos quais a mesma
foi disseminada entre sua vasta população. Um destaque especial será
dado aos trabalhos pioneiros de artistas da Academia Imperial de Belas
Artes que, diretamente financiados pelo Império brasileiro, foram encar-
regados de eternizarem, em cores e formas, os episódios então entendi-
dos como os mais importantes para a formação do recém independente
estado nacional. Acerca desses destaques pictóricos, focaremos na dinâ-
mica entre exposição e ocultamento étnico dos corpos de personagens
da história brasileira.	
O tema, nesse sentido, destoará de grande parte das abordagens
sobre História do Brasil. Ao invés do foco em fatos e/ou datas ditas
“importantes” e “verdadeiras”, interessa aqui discutir como e porque
certos“fatos”e“datas”se tornaram importantes e verdadeiros dentro da
narrativa ortodoxa de história nacional criada pelo imaginário do século
dezenove. Ou seja, discute-se aqui menos história e mais meta-histó-
2
	 O sentido do verbo“inventar”distancia-se aqui de idéias como“mentira”ou“falsidade”. Mais
próximo à máxima de Manoel de Barros, para quem tudo que não se inventa é falso (BARROS,
2003). Falar da invenção da História do Brasil, assim, é poder relembrar, mas também saber
criticar, o feito extraordinário de pessoas no século XIX terem conseguido escrever e pin-
tar, praticamente sem obras de referência, em um período relativamente curto, às custas de
arquivos dispersos e ao ritmo de bicos de penas, uma História nacional cujas idéias centrais
ainda norteiam políticas culturais e educacionais nos dias de hoje. Invenção, como lembra
Benedict Anderson (1989), não é um sinônimo de“contrafação”ou“falsidade”, e sim de“ima-
ginação” e “criação”; invenção como um conceito que pode ajudar a entender fenômenos
históricos não através do binômio falsidade/autenticidade e sim no estilo /forma em que são
imaginados na prática e adquirem os efeitos de verdades de que falava Foucault. Invenção
para fugir de essencialismos (o Brasil não é uma formação natural), de ideologismos (o Brasil
não é uma mentira sustentada por grupos dominantes), de ideologismos essencialistas (o
Brasil não é uma mentira que esconde a alma de um verdadeiro Brasil), de anacronismos (o
Brasil, País, é uma formação social do século XIX), de atemporalismos (o Brasil nem sempre
foi e nem sempre será), de imobilismos (o Brasil, como é próprio de qualquer Estado-nação,
investe incessantemente em mecanismos que reafirmam sua“unidade”, sendo que a produ-
ção de saberes sobre “História do Brasil” desempenha um papel privilegia-do e estratégico
dentro desse processo).
252 A ESTÉTICA DO OPACO
ria. Esse debate é importante já que, até o momento, tanto meios aca-
dêmicos como escolares ainda preferem ensinar o que supostamente
seria uma “correta” História do Brasil a discutirem com alunos a história
da História do Brasil. Investigar a forma como a narrativa que conhece-
mos hoje por “História do Brasil” foi e continua sendo (re)criada como
um conteúdo básico para tentar entender essa disciplina. Afinal, toda
história é uma história contemporânea, já dizia o filósofo italiano Bene-
detto Croce. Ou seja, toda história narrada é resultado de perguntas diri-
gidas ao passado a partir de inquietações do tempo presente. Não se
pode entender o que chamamos de “História do Brasil” sem antes
entender as ambições, inquietações e dilemas dos homens do
século XIX que construíram os pilares dessa narrativa.
Vale lembrar que a atual geração de leitores tem demonstrado um
grande interesse em diferentes formatos narrativos capazes de revelar
os seus processos de criação/planejamento/execução, como muitas
vezes acontece em meios audio-visuais. Não por acaso, foram as narrati-
vas cinematográficas que ajudaram a popularizar um termo que traduz
exemplarmente esse processo: making off. A História nacional brasileira,
ao contrário, parece se esconder atrás de si mesma. Nomes como Fran-
cisco Adolfo Varnhagen, Karl Von Martius e Capistrano de Abreu – para
citar apenas três personalidades decisivas, visando entender a história
do Brasil que se estuda ainda hoje – são praticamente desconhecidos
do público não-especializado. Talvez esteja faltando um investimento
mais contundente por parte de historiadores em mostrar o incrível
“making off” – os bastidores do processo de feitura – da história brasi-
leira. Sem pretensão, espaço ou tempo para de esgotar esse enorme
tema, este capítulo ao menos apresentará momentos decisivos para
melhor entendê-lo.
Inevitavelmente, reflexões meta-históricas sobre a História do Bra-
sil serão provocadoras – por isso mesmo, necessárias do ponto de vista
pedagógico do presente texto – para quem ainda entende a história
como uma mera “janela transparente” para o passado, não como um
253Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
campo discursivo de disputas em torno do poder/saber. Fazer essa
reflexão genealógica da história da História do Brasil, no sentido niezt-
cheano do termo, é também uma maneira de tentar desafiar a grande-
-narrativa da história brasileira que se impôs como “verdadeira”, a qual
se consolidou como interpretação hegemônica, descartando as tan-
tas possíveis maneiras de se narrar a história nacional3
; narrativa que
tem como traço crucial o ocultamento da sua própria origem histórica
(MAGNÓLI, 1997, p. 290-1).
Ao longo deste texto, portanto, será mostrado como os pais4
fun-
dadores da história nacional se dedicaram basicamente a responder
duas perguntas estruturais, as quais ainda servem de eixo para a maioria
das interpretações de História do Brasil: 1- como o estado brasileiro se
formou e se mantém unido?; 2- como a nação brasileira se formou e se
mantém unida? O debate gira em torno da complexidade de apresen-
tar explicações para esse longo processo enquanto fator decisivo para
adequá-las ao formato acessível e carismático da narrativa5
histórica,
3
	 Na maior parte da obras de história, a visualização didática dessa narrativa fundadora ficou
consagrada por uma divisão quadripartite e homogeneizadora do espaço-tempo brasileiro:
um período originário, indígena (também chamado de ameríndio, tupi-guarani ou pré-ca-
bralino); um período fundador, colonial; um período emancipador, imperial; e um período
contemporâneo, republicano. Essa forma de estudar os supostos quatro Brasis que se suce-
dem durante cinco séculos, de Cabral até todo atual presidente, tornou-se uma maneira
eficiente de enredar as dimensões temporais, espaciais e sócio-econômicas da História
nacional.Tamanha é sua aceitação e presença, tanto em publicações acadêmicas quanto em
materiais didáticos e/ou de entretenimento, que esse modelo interpretativo confunde-se
comumente como uma verdade em si.
4
	 Na época, todos aqueles que foram formalmente encarregados de escrever ou pintar a histó-
ria do Brasil eram homens, quase sempre euro-descendentes e abastados. Como resultado,
até hoje grande parte da produção historiográfica nacional é marcada por um discurso de
traços androcêntricos e“vistos de cima”(BURKE, 2000)
5
	 Apesar da palavra narrativa ser rotineiramente associada a vertentes“ficcionalistas”de his-
toriadores, seu uso aqui não pretende indicar qualquer adesão apriorística ou oportuna,
nem à “arte” nem à “ciência”. Ao definir a produção de discursos históricos dentro deum
jogo de forças de saber/poder, em que critérios epistemológicos e estéticos inevitavel-
mente confundem-se com brigas de departamento, normas de publicação, paradigmas
vigentes, mercados editoriais, êxito em disciplinas, agências financiadoras, linhagens de
orientadores e orientandos, não faz sentido perguntar se determinada produção historio-
254 A ESTÉTICA DO OPACO
recorrendo a artifícios retóricos de fácil e imediata aceitação: a perso-
nificação do protagonista (o Brasil); a diferenciação dos aliados (“Nós”, o
povo brasileiro); dos inimigos externos (principalmente, os holandeses
e franceses, assim como os portugueses após 1822), dos inimigos inter-
nos (particularmente indígenas e escravos não “pacificados”); a marca-
ção do começo da narrativa (a vida tupi-guarani limítrofe ao chamado
“Descobrimento”), de seu desenvolvimento (os períodos colonial e
imperial), de seu fim (o presente republicano) e fins (“nossa”existência).
APAGAR A COLÔNIA, PINTAR A NAÇÃO: ESTÉTICA E POLÍTICA
NA CRIAÇÃO DA ACADEMIA IMPERIAL DE BELAS ARTES (AIBA)
A dramática transmigração da Família Real Portuguesa em 1808
para o Brasil, fugindo das forças napoleônicas que invadiram a Penín-
sula Ibérica, trouxe mudanças rápidas para a capital colonial no Rio
de Janeiro. Além da tarefa urgente de encontrar alojamento adequado
para a família real e sua comitiva de estimados 20 mil nobres e cor-
tesãos, era também necessário tentar replicar nos trópicos o clima
metropolitano da Lisboa de inícios do século XIX. Os ambiciosos proje-
tos culturais, urbanos e paisagísticos iniciados por D. João VI incluíram
a construção de bibliotecas, jardins botânicos, avenidas, universida-
des, museus e outras instituições científicas, culturais e artísticas. Nor-
gráfica é “boa” ou “ruim” apenas por suas inclinações científicas ou literárias. Essa dúvida,
aliás, substitui-se por outras razoavelmente distintas: que tipo de“garantia”um historiador
pretende agregar ao seu trabalho quando afirma que faz uma história com fundamentos
científicos? (FOUCAULT, 1979) Que tipo de“mérito”ele almeja quando compara seu livro a
um romance? Naturalmente, ao estender um tipo definição de História (um relato do que
“realmente aconteceu”ou do que provavelmente deve ter acontecido) em direção a outra
(um saber legitimado na dinâmica de um campo erudito) o conceito de narrativa histórica
amplia-se automaticamente: de um conjunto de datas, sujeitos e períodos que “existiram”
e que podem ser“representados”através da da investigação metódica e/ou da imaginação
ficcional do pesquisador, para uma representação seletiva e competitiva do passado; per-
manentemente reescrita para o consumo político, mercadológico, educacional e lúdico de
cada época.
255Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
malmente espelhados em modelos franceses, esses projetos tinham
a intenção de criar “a infra-estrutura cultural apropriada para o novo
Estado-nação”, com o objetivo de “cultivar [nos trópicos] as lideranças
e a iluminação necessária para [a criação de uma] civilização nacional
e progresso nos mesmos moldes dos modelos aceitos do mundo con-
temporâneo europeu”(NEEDELL, 1999, p. 3).
Para os presentes objetivos, é respeitável notar que, entre as várias
instituições criadas com a chegada da família real portuguesa, uma das
mais importantes foi a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. Inaugu-
rada em 1816, o êxito da Escola está intimamente ligado à chegada da
chamada “Missão Artística Francesa” ao Rio de Janeiro. Essa expressão
se refere a um grupo de artistas e artesãos normalmente desiludidos
com os rumos da revolução francesa, que aceitaram o convite do Rei D.
João VI para viver no Brasil, com o objetivo de dar início ao ensino de
Artes e Ofícios na colônia, durante o período de exílio da corte no Rio
de Janeiro. Mesmo que a existência formal da Missão Francesa tenha
sido relativamente curta – sendo abalada inicialmente pelo retorno da
família real em 1820, e posteriormente pela a independência do Brasil
em 1822 –, seu legado foi decisivo para o tipo de produção artística
e ensino de arte que caracterizou o Brasil durante grande parte do
século dezenove.
Após a independência, a experiência pioneira da Escola Real de
Ciências, Artes e Ofícios serviria de base para o funcionamento da
mais importante instituição dedicada ao fomento artístico durante
o Império Brasileiro: a Academia Imperial de Belas Artes (AIBA). Ofi-
cialmente fundada em 1826, a AIBA continuou e expandiu as obras
da Escola, herdando as responsabilidades tanto de tentar refinar o
paladar artístico como de prover os parâmetros de ensino de arte
do país recém-independente. Aos diretores e professores da AIBA
foi dada tarefa dupla de desenvolver talentos locais e assegurar que
a formação artística brasileira acompanhasse o desenvolvimento e
tendências das principais escolas europeias.
256 A ESTÉTICA DO OPACO
Estudar o desenvolvimento da Academia Imperial de Belas Artes
(AIBA) é uma boa maneira de compreender a história do estado imperial
brasileiro como um todo. Criada logo após a declaração de independên-
cia – em um período em que o novo estado buscava mostrar que tam-
bém pertencia ao seleto grupo de nações “civilizadas” – o fechamento
da AIBA também coincidiu com a extinção do próprio Império no final
do século dezenove devido ao crescimento do movimento republicano
brasileiro (CASTRO, 2005). Enquanto a inauguração da AIBA acontecia
nos turbulentos primeiros anos do governo D. Pedro I, a instituição
ganhou prestígio e estabilidade apenas uma década mais tarde, justa-
mente quando o imperador Pedro II iniciou seu relativo estável e longo
reinado. Diferente do pai, Pedro II construiu uma autoimagem como
monarca “esclarecido”, amante das artes e ciências. Não por acaso, tor-
nou-se presidente honorário da AIBA, participando ativamente de suas
atividades enquanto o maior mecenas da instituição (SCHWARCZ, 2006).
Devido a sua estreita relação com a monarquia brasileira, a AIBA gozou
praticamente do monopólio sobre produção e educação artísticas brasilei-
ras durante a maior parte do século XIX. Como consequência, os critérios e
valores artísticos adotados e validados dentro da instituição foram cruciais
para legitimar o que deveria ser considerado “arte” ou quem mereceria
o título de “artista” durante este período. O valor das obras de arte ou
a progressão da carreira de artistas vinculados à instituição não eram
medidos apenas de acordo com o talento ou dedicação pessoais. Acima
de tudo, a qualidade artística era definida em relação ao que se conside-
rava normas“universais”, especial às novas tendências vindas de Paris.
Dando continuidade ao legado da Missão Artística francesa sobre
a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, a AIBA buscou reproduzir em
solo brasileiro o mesmo modelo administrativo e educacional seguido
pela École des Beaux-Arts. Apenas em relação ao ensino da pin-
tura, no entanto, os membros da AIBA ainda consideravam conven-
ções italianas – especialmente a de mestres do Renascimento – como
uma referência artística suprema (LEITE, 2009). Não foi à toa que, em
257Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
1845, quando a AIBA começou a conceder bolsas de estudos aos seus
alunos mais proeminentes, a maioria desses pintores aspirantes optou
por viajar sequencialmente de Roma a Paris. Esse trajeto era conside-
rado lógico e complementar: enquanto a cidade italiana ainda era
vista como símbolo maior das conquistas históricas da arte europeia,
a capital francesa tinha a fama de ser o centro das novas tendências
artísticas. Desenvolver uma escola de Belas Artes no Brasil era uma
tarefa vista como um pré-requisito para o país ser aceito no concerto
de nações então vistas como“civilizadas”.
Ao tentar entender a AIBA em seu contexto histórico, estudos recen-
tes também vêm revelando que os objetivos da instituição nunca se res-
tringiram apenas a replicar modelos franceses ou italianos. As primeiras
décadas pós-independência foram marcadas por esforços simultâneos
tanto para consolidar a estabilidade interna do País quanto para firmar
seu reconhecimento internacional. A apropriação do repertório artístico
estrangeiro era visto pelos membros da AIBA como uma maneira estra-
tégica de representar temas nacionais dentro de um padrão então visto
como “universal” e, ao mesmo tempo, posicionar a cultura brasileira em
equivalência com a dos demais países da Europa. A AIBA desempenhou
um papel semelhante ao de outras academias de arte criadas nas Amé-
ricas, como San Carlos no México, em que a “produção e proteção das
belas artes”servia como uma das poucas maneiras de um país demons-
trar a sua“entrada no mundo moderno“ (WIDDIFIELD, 1996, p. 29).
Para as elites dirigentes, o século dezenove foi marcado por um desa-
fio: como criar um discurso de identidade nacional baseado na distância
territorial e autonomia política diante da ex-metrópole portuguesa que,
ao mesmo tempo, afirmasse laços de proximidade cultural-científica com
o continente Europeu? Thomas Skidmore ironicamente lembra como
membros da elite brasileira viviam em uma tensão entre “dois mundos”:
enquanto a sua educação era“moldada por tradições culturais e humanís-
ticas jesuíticas, inicialmente vindas de Portugal, modificadas durante o
século XIX pela cultura francesa”, essa elite,“vivia no Brasil, e não Paris ou
258 A ESTÉTICA DO OPACO
Londres. Eça de Queirós ou Anatole France poderiam [...] visitar o Brasil,
mas [...] certamente não eram do Brasil” (SKIDMORE, 1974, p.xxiii). Inter-
preta-se esses “dois mundos” simplesmente como uma relação entre um
modelo e uma cópia; como se a Europa continuasse a exportar os seus
valores culturais para uma ex-colônia que, contradizendo sua nova condi-
ção de“livre”, continuava a importar idéias fora do lugar (SCHWARZ, 1993).
No entanto, como resultado do intenso – e quase sempre violento
– processo de mistura sociocultural que marcou os períodos coloniais
e pós-coloniais brasileiros há pelo menos 500 anos, é praticamente
impossível definir limites convincentes entre o que seriam característi-
cas nacionais “não adulteradas” em oposição aquelas “absolutamente”
estrangeiras. Em vez da antiga busca por essências “imaculadas” e “não
corrompidas” de arte nacional, estudiosos da cultura têm preferido
explorar os processos de transculturação (ORTIZ, 1995) e hibridismo
(CANCLINI, 1995) que caracterizam as obras de artistas não só no Brasil
como nos demais países latino-americanos. Além do foco em expres-
sões culturais, pesquisadores também têm investigado como popula-
ções latino-americanos sempre fizeram uso seletivo/criativo/subversivo
dos modelos europeus em outras esferas da sociedade, como a econo-
mia, ciência e política.
Mesmo quando as elites locais procuravam abertamente dar conti-
nuidade aos legados europeus, conscientemente ou não, esses legados
acabaram inevitavelmente sendo hibridizados ou reinventados em solo
americano. Desde níveis macroscópicos da administração do estado até
as sutilezas do ato diário de cozinhar6
, os historiadores têm acumulado
6
	 Para dois ensaios notáveis sobre estes dois respectivos temas, ver a análise de Lilia Moritz
Schwarcz (1998) sobre como o rei Dom Pedro II se utilizou estético-politicamente de vesti-
mentas com simbologias européias e tropicais para afirmar seu poder simultaneamente o
primeiro monarca nascido em solo brasileiro e, ao mesmo tempo, como um membro genu-
íno das casas Habsburgo e Bragança (2002); a magistral descrição de Evaldo Cabral de Mello
sobre a tarefa de colonos portugueses que, na tentativa de criar uma Nova Lusitânia nos
trópicos, tiveram que recriar a dieta tradicional Ibérica à base de trigo, queijos e vinhos adap-
tando-a com o uso de produtos locais tais como a mandioca e cachaça.
259Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
evidências de como colonos e seus descendentes foram, ao mesmo
tempo, replicantes e desviantes dos paradigmas europeus (JANCSÓ e
PIMENTA, 2000). Como tal, a sociedade luso-brasileira seguiu um cami-
nho análogo à maioria das sociedades latino-americanas do período
pós-independência. Em todo o continente negociações culturais e polí-
ticas foram marcadas pela eufórica afirmação da autonomia diante das
ex-metrópoles Ibéricas. No entanto, apesar das frequentes críticas a Por-
tugal e a Espanha, todas as novas nações independentes também foram
enfáticas em declarar seus elos de proximidade com as tradições e cos-
tumes vindos da Europa (COSTA, 2006, p. 208).
Assim, semelhante aos demais da América Latina, o século deze-
nove brasileiro foi marcado pelo ambivalente grito de soberania política
em relação à península Ibérica e, ao mesmo tempo, pelo enaltecimento
de consanguinidade cultural com a Europa. Politicamente, esse discurso
cumpriu um objetivo duplo e estratégico: louvar a expulsão dos ex-co-
lonos europeus e, simultaneamente, justificar os privilégios dos brasi-
leiros euro-descendentes em relação aos povos de origens indígenas,
mestiços e africanas. Ou seja, semelhante a países como o México, com
sua população inegavelmente multiétnica e miscigenada, o Brasil tam-
bém experimentou “a tensão de criar uma arte e identidade nacional”
específica que, ao mesmo tempo, afirmasse sua “diferença em relação a
Europa e sua semelhança com ela” (WIDDIFIELD, 1996, p. 5 ).
Ébomlembrarqueissonãofoiumaparticularidadedoestado-nação
brasileiro. Todos os estados nacionais que emergiram a partir do final
do século XVIII precisaram, entre outras coisas, disseminar narrativas
nacionais que convincentemente ilustrassem a unidade linguística,
territorial, cultural e histórica de populações que, objetivamente, eram
muito distintas entre si. Afinal, o processo de criação de estados-nações
foi normalmente marcado pela subjugação de povos que tinham suas
próprias línguas e filiações político-territoriais (plurinacionalidades).
Esse processo de nacionalização de povos foi feita por persuasão e/
ou por força. Ou seja, ao contrário de interpretações românticas-te-
260 A ESTÉTICA DO OPACO
leológicas disseminadas posteriormente - e ainda bastante populares
hoje em dia - o surgimento de Estados-nações modernos, não só nas
Américas mas também na Europa, não foi um processo histórico “natu-
ral”, predestinado ou linear. Ao contrário da antiga idéia de que Estados-
-nações se originaram espontaneamente, em função de laços históricos
e culturais tradicionais e pré-existentes, estudos históricos contempo-
râneos enfatizam que o surgimento dos Estados-nação é um fenômeno
relativamente recente.
Sobre esse tema, em seu clássico-contemporâneo “Nação e cons-
ciência nacional”, Benedict Anderson (1989) defende uma hipótese
engenhosa: meios de comunicação no século XIX, como o romance e o
jornal, provocaram mudanças culturais imprescindíveis para a forma-
ção dos primeiros estados nacionais no século XIX. Segundo Ander-
son, o capitalismo editorial (print capitalism) que se desenvolvia nesse
período serviu tanto como um veículo de disseminação quanto como
uma plataforma de estabilização de informações imprescindíveis para
que populações dispersas territorialmente, pela primeira vez, pudes-
sem se pensar simbolicamente como parte de um mesmo “organismo
sociológico”: o estado-nação.
Diferente do que chama de comunidade real, uma formação social
cuja extensão geográfica e densidade populacional ainda permitiria
que a maioria de seus membros reconhecessem-se (ao menos de vista),
Anderson batiza os estados nacionais emergentes no século XIX de
comunidades imaginadas: embora aglutinando milhões de pessoas que
jamais se veriam/conheceriam, mesmo cobrindo áreas monumentais
que a maioria jamais chegaria a visitar, os membros dessa comunidade
não teriam dúvidas quanto aos seus laços de pertencimento e solidarie-
dade perante a nação (nationness).
Porém, a hipótese central de Anderson não pode ser diretamente
aplicada ao contexto latino-americano a não ser que se considere as
enormes diferenças entre os níveis de alfabetização e o estágio de
desenvolvimento do capitalismo editorial (print capitalism) entre esse
261Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
continente e o europeu no século XIX. Tais como suas equivalentes
latino-americanas, as elites que viviam no Brasil nesse período sabiam
dessas diferenças e fizeram amplo uso de imagens, músicas, rituais cívi-
cos, teatro e outras performances/produtos visuais e sonoros para popu-
larizar discursos sobre a história brasileira7
.
Na sequencia, mostraremos exemplos práticos de como artistas
brasileiros inovaram ao copiar, por assim dizer, na medida em que se
apropriaram das convenções estéticas europeias e, ao mesmo tempo,
produziram uma arte indubitavelmente brasileira em relação aos temas
representados. Dos muitos exemplos possíveis, será dado destaque às
tentativas desses artistas em representar dois assuntos essenciais para
explicar a“História do Brasil”: a criação do estado e a formação da nação
brasileira. Apesar de parecem óbvios para o olhar plenamente “nacio-
nalizado” de hoje em dia, conseguir representar o estado e a nação de
maneira didática e persuasiva foram novidades intelectuais e artísticas
do século dezenove.
Para contribuir especificamente com esse debate sobre como o
sentimento de “ser brasileiro” e “pertencer a uma mesma história nacio-
nal” foi assimilado entre os grupos socioétnicos profundamente distin-
tos e através de diferentes meios de comunicação, a seguir focaremos
novamente no importante papel desempenhado pela AIBA nesse pro-
cesso. Particularmente, isso será feito mediante as análises respectivas
de três obras canônicas da história da arte brasileira:“A Redenção de Cã”,
de Modesto Brocos (1895); “A Primeira Missa”, de Victor Meirelles (1860)
e “Independência ou Morte!”, de Pedro Américo (1888) e Não obstante,
buscaremos mostrar como essas pinturas editaram uma realidade ima-
ginada por meio da estratégia de expor e ocultar os corpos dos persona-
gens da história brasileira.
7
	 Para uma discussão sobre o uso de imagens no contexto de formação nacional na América
Latina, ver: ANDERMANN and GONZÁLEZ-STEPHAN, 2006; GONZÁLEZSTEPHAN 2009; PUR-
CELL, 2010).
262 A ESTÉTICA DO OPACO
A ORIGINALIDADE DAS CÓPIAS: PINTANDO A FORMAÇÃO DO
ESTADO E A NAÇÃO NO BRASIL
	 Talvez nenhuma pintura traduza de forma tão exemplar
a expectativa que parte da elite brasileira da virada do século XIX
depositava na gradual “europeização” da nação brasileira do que “A
Redenção de Cã”,de Modesto Brocos. A obra, que à primeira vista parece
um simples retrato de uma família interiorana em frente a uma humilde
casa de pau-a-pique, permanece como um registro insuperável de como
teorias raciais-evolutivas influenciaram não apenas obras de pintores,
como também da maioria de demais artistas e intelectuais brasileiros
do período. Apesar de já ter sido objeto de diversas interpretações
anteriores8
, vale a pena revisitar o tema principal da pintura: a previsão
– então respaldada por interpretações de teorias raciais científicas – de
que as sucessivas gerações de brasileiros necessariamente passariam
por um processo crescente de embranquecimento, o qual extinguiria
quaisquer traços africanos e indígenas na população nacional.
No centro do quadro (Figura 1), uma mãe de pele morena está sen-
tada sobre um banco rústico de madeira. Na curva de seu braço esquerdo,
ela carinhosamente acalenta um recém-nascido de pele alva. Mais do que
sugerir conforto ou proteção materna, além de indicar o ponto exato de
simetria e equilíbrio para os demais elementos da composição, o colo da
mãe também serve uma importante função narrativa na pintura de Brocos:
inclinar o corpo da criança (e o olhar do espectador) para a esquerda da
imagem, onde uma mulher afrodescendente de idade avançada está posi-
cionada.Seuspésdescalçossãoumsímbolodiscreto,poréminequívoco,de
sua condição de escrava. Rezando com as mãos para o céu, a senhora idosa
aparentemente não sabe que está sendo observada de perto por seu neto.
Os olhos do bebê estão fixos sobre a avó. Parecem comparar sua pele
8
	 CARDOSO (2008), CHRISTO (2009), SCHLICHTA (2006), BITTENCOURT (2005) and SCHWARCZ
(1993).
263Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
enrugada com a textura das roupas velhas que ela usa, ou os contrastes
entre o lenço esbranquiçado que reveste a cabeça negra. No entanto, per-
pendicularmente ao olhar, as orelhas do bebê estão sintonizadas numa
direção bem diferente: ouvindo de perto as palavras murmuradas pela
mãe. Didaticamente apontando o dedo indicador direito para a senhora
negra (sua própria mãe), a jovem mãe mestiça parece resumir a moral da
estória para seu filho recém-nascido: a possibilidade da parentesco entre
uma criança branca e uma mulher negra. À direita do quadro, com os
olhos no filho e com as mãos a curta distância da aliança na mão esquerda
de sua esposa, um pai euro-descendente orgulhosamente aprova a cena.
Figura 1 – Modesto Brocos.“A Redenção de Cã”. Óleo sobre tela, 1895. 199 × 166 cm.
Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro.
Fonte: CARDOSO, Rafael. A arte brasileira em 25 quadros [1790-1930]. Rio de Janeiro: Record, 2008.
Apesar de Brocos ter claramente evitado adotar tendências artís-
ticas em voga na sua época, como Impressionismo, Simbolismo e
Esteticismo (CARDOSO, 2008), e apesar de seu quadro não apresen-
tar inovações técnicas genuínas, “A Redenção de Cã” foi publicamente
aclamada, sendo inclusive vencedora da medalha de ouro na Exposi-
ção Geral de 1885. Ao tentar explicar as razões pelas quais esse quadro
264 A ESTÉTICA DO OPACO
– certamente bem pintado, embora medíocre – agradou tanto espe-
cialistas quanto público em geral da época, a maioria dos historiado-
res de arte têm olhado para além de seus componentes artísticos ou
formais. De fato, para a maioria dos espectadores da época, os méritos
da pintura de Brocos residiam principalmente nos seus apelos retó-
ricos e semânticos. Especificamente, a genialidade de Brocos foi ter
conseguido traduzir e solucionar, em uma única imagem, aquele que
era então um dos mais atuais paradigmas científicos, o evolucionismo
social, com a principal ansiedade dos homens à frente da nação, os
dilemas da miscigenação racial.
Devido à sua capacidade de expressar o que havia de “mais cientí-
fico”no pensamento brasileiro da época, a pintura Brocos foi levada pelo
então diretor Museu Nacional do Rio de Janeiro, o antropólogo João
Batista de Lacerda, para o “Primeiro Congresso Universal de Raças” em
Londres (1911), para ilustrar sua apresentação sobre o suposto embran-
quecimento da nação brasileira (CARDOSO, 2008, p. 103). De acordo
com Schwarcz, o trabalho apresentado por Lacerda no congresso incluía
uma reprodução da pintura Brocos com a seguinte legenda: ““Le Nègre
passantau blanc, à troisième génération, par l’effet du croisement des races
[O negro tornando-se branco, na terceira geração, por causa da mistura
de raças]” (SCHWARCZ, 1993, p. 13). O eminente antropólogo brasileiro
estava absolutamente convencido da aplicação local de teorias eugêni-
cas vigentes, as quais previam que as suposta superioridade das “taxas
de fertilidade “ de brancos, somado à dominância dos “genes brancos”
e às elevadas taxas de casamento interraciais brasileiros, acabariam por
branquear a população. Lacerda previu que, até 2012, a população bra-
sileira seria 80% branca, 3 % mestiça, 17 % indígena e que não haveria
mais negros (TELLES, 2004, p. 29).
Porém, vale ressaltar que, a longo prazo, a recepção de teorias raciais
no Brasil não foi um processo passivo de importação de ideias, mas sim
uma operação intelectual seletiva e criativa. Ou seja, o pensamento bra-
sileiro eventualmente passou a incorporar apenas aquilo que desejava e
265Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
também a ignorar aquilo que não era conveniente ao contexto local (SCH-
WARCZ, 1998, p. 23). Contrariando previsões essencialmente determinis-
tas/pessimistas de que as populações mestiças tendiam necessariamente
à degeneração social e ao subdesenvolvimento econômico, intelectuais
como Silvio Romero, a partir de 1870, propuseram outra possível alter-
nativa para a mistura racial no Brasil: o branqueamento progressivo da
população por via da mistura interracial. O historiador Thomas Skidmore
documenta como Romero, apesar de suas notórias contradições intelec-
tuais e mudanças arbitrárias, declarou publicamente suas opiniões sobre
a tendência ao“embranquecimento”na sociedade brasileira:
a minha tese, pois, é que a vitória definitiva na luta pela vida e
pela civilização, entre nós pertencerá no futuro, ao branco (…)
pela seleção natural, todavia, depois de apoderado do auxílio
de que necessita, o tipo branco irá tomando a preponderância,
até mostrar-se puro e belo como no velho mundo (…)(ROMERO,
apud SKIDMORE, 1974, pp 36-7).
Assim, diferente do pessimismo e determinismo de teóricos europeus,
a adaptação das teorias raciais no Brasil feita por intelectuais locais como
Romero resultou em uma interpretação“otimista”e“redentora”da nação:
a raça primitiva [indígena] e selvagem está condenada a um irre-
mediável desaparecimento. Dos dois povos inovadores, o negro
resistirá ainda por muito tempo. Ir-se-á modificando no mestiço,
e ajudando, destarte, a formação do futuro branco brasileiro, que
acabará por triunfar de todo”(ROMERO, 1888, p. 232).
Mais do que um simples retrato de família, a obra de Brocos é
uma sofisticada alegoria da chamada teoria de branqueamento pre-
dita por Romero e outros pensadores brasileiros da época. Para ter
certeza de que sua alusão ao branqueamento da sociedade brasileira
seria visto como o tema central e inequívoco de sua pintura, Brocos
266 A ESTÉTICA DO OPACO
cuidadosamente deu-lhe o título da maldição bíblica de um dos filhos
de Noé (CARDOSO, 2008). A fábula religiosa sobre o castigo imposto
a Canaã e seus filhos de serem “servos” dos descendentes de seus tios
Sem e Jafé, porque seu pai Cã tinha visto“a nudez”do seu avô Noé, era
amplamente conhecida por população de maioria católica brasileira.
Em sociedades cristãs, escravocratas e racistas, tais como Brasil e EUA
do século XIX (JOHNSON, 2004), esta estória bíblica era comummente
evocada como explicação “divina” para justificar a supremacia branca
e a predestinação dos negros à servidão, uma vez que os primeiros
supostamente descendiam de Sem e Jafé, enquanto os últimos eram
descendentes diretos de Cam (SLENES, 1996, p. 294).
A pintura de Brocos habilmente conseguia resumir, simultanea-
mente, tanto a opinião de intelectuais que previam que o determinismo
biológico poderia ser superado por matrimônios multirraciais como as
crenças populares de que só a benevolência de Deus poderia remediar
os pecados humanos. Em“A Redenção de Cã”, através do uso engenhoso
de gradientes de cores, o pintor consegue simultaneamente conectar e
distanciar as três gerações da família: a partir do pigmento preto inequí-
voco usado para representar a avó, aos tons marrons usados para recor-
dar as ambiguidades sociais e fenotípicas vividas por mulatos como a
jovem mãe; ao patriarca euro-descendente pintado com tintas mais cla-
ras; até a escolha de uma tonalidade imaculada da pele para salientar a
condição“redentora”da criança.
Voltando ao tema central desta reflexão, mais do que teorias
raciais ou lendas bíblicas, é importante notar como a obra de Brocos
também familiarizava os seus espectadores com uma interpretação de
história brasileira específica, baseada na representação de seus dois
temas chaves mencionados anteriormente: o nação e do estado. De
fato, é possível argumentar que a alegoria de Brocos é, antes de tudo,
uma didática representação temporal-espacial sobre a mudança entre
o Brasil “antigo” e o seu “futuro”. Na obra de Brocos, a representação
da linha do tempo nacional é ordenada pela relação ambivalente de
267Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
proximidade e afastamento entre as 3 distintas gerações de brasileiros
(senhora, casal, criança), os quais representam respectivamente pas-
sado, presente e futuro tanto do povo como do território nacional. A
cuidadosa encenação dos elementos da obra, da esquerda para direita,
cria uma metáfora cronológica sutil que conecta e separa o “velho”e o
“novo”Brasil.
Os símbolos que representam passado, à esquerda, são refor-
çados não apenas pela idade avançada da mulher afrodescendente,
mas também pelo chão de terra batida onde seus pés descalços e
calejados pisam. Ela é também a única pessoa no quadro que não
tem contato com quaisquer símbolos de urbanidade-modernidade:
o chão calçado, sapatos, o móvel de madeira e, mais importante, o
acesso à casa cuja entrada está marcada pelo homem branco sepa-
rando o espaço (rural-rústico) habitado pela senhora e o território
(urbano-moderno) da casa, existem vários obstáculos: um sólido
muro de barro, o corpo da mãe protetora segurando seu bebê e o do
pai vigilante, cujas as pernas cruzadas, mãos entrelaçadas e interdi-
tam a entrada da porta. Uma palmeira – símbolo do Brasil primitivo,
selvagem e indomável – é o único objeto estrategicamente
posicionado perto da avó. Anexada à «natureza» originária,
como se pertencesse a mesma, a idosa reencena tanto o lugar
de fundo quanto o tempo pretérito reservado a povos indígenas e
afrodescendentes na cultural visual do período; povos não-euro-
peus, privados de subjetividade estética e agência histórica, eram
usualmente representados como parte da remota paisagem (quase
sempre como meros detalhes, ou em posição de servitude) nas belas
artes do século XIX no Brasil (SCHWARCZ, 2006).
Para refinar sua alegoria sobre a passagem do tempo nacional,
Brocos também faz sutis – porém, inequívocas – correlações entre
os tecidos/roupas usados pelos personagens e a formação do esta-
do-nação brasileiro. Para reforçar tanto a senilidade quanto condi-
ção racial da avó, o pintor veste-a com uma blusa preta e rota. Sua
268 A ESTÉTICA DO OPACO
filha mestiça, por sua vez, usa uma blusa mais refinada e com tons
mais claros. Não por acaso, apesar de também usar uma saia rosa
(para reforçar visualmente o parentesco com sua mãe negra), a filha
mestiça veste uma saia rosa, mas com um importante diferença: seu
tecido é revestido de detalhes brancos. Trata-se de uma irônica refe-
rência à condição racial ambígua e em transição do mestiço: branco,
mas não tanto (white, but not quite). O pai, aludindo à sua origem Ibé-
rica e seu papel de agente “civilizador”, usa roupas novas, alinhadas e
de tons de beije mediterrâneos.
Brocos pinta as roupas do recém-nascido com o tom de tinta mais
alvo encontrado em todo o quadro. A criança – sendo justamente a ter-
ceira geração que as teorias raciais previam estar finalmente“purificada”
dos sangues indígenas/africanos – está representada de forma imacu-
lada e “branqueada” pelo tempo. Segurando uma laranja, fruto icono-
graficamente associado a redenção e pureza cristãs (FERGUSON, 1961,
p 35.), a criança representa a semente do futuro nacional; agora viável
ao ser purificado dos pecados de origem oriundos da mistura étnica do
processo colonial.
Finalmente, não se pode esquecer que dentro da casa (o estado
– moderno-urbano – em formação) repousam três peças de roupas
recém-lavadas, secando à sombra no varal. Na extrema direita, as cal-
ças evidentemente pertencem ao pai que também está localizado
no lado direito do quadro. Assim como a esposa está sentada logo à
esquerda do marido, o tecido branco à esquerda da calça (semelhante
a uma saia) muito provavelmente pertence a jovem mãe mestiça. O ter-
ceiro pedaço de tecido, visivelmente menor do que os outros, só pode
pertencer ao recém-nascido. Ao posicionar apenas essas três roupas
“limpas” dentro da casa/estado, a mensagem de Brocos é clara: já não
há espaço para avó negra (corpo africano impuro) no futuro nacional.
Nesse sentido, os gestos dos personagens também desempenham um
papel fundamental para arrematar a alegoria da formação da nação
embranquecida.
269Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
Sozinha na terra descampada e campestre, a senhora negra ergue
os braços misericordiosamente agradecendo a Deus; sinalizando sua
satisfação em ver a boa fortuna de sua família, assim como uma acei-
tação de que ela já fez tudo o que pôde pela família (nacional) e está
pronta para partir. Seu neto parece perceber que, embora fisicamente
próxima, a avó pertence a um tempo distante, que está desaparecendo.
Com a mão direita levantada, o gesto do bebê é profundamente ambí-
guo: é um sinal óbvio de bênção e reconhecimento de seu parentesco
com a senhora, mas é também um gesto de despedida (BITTENCOURT,
2005). Tal como outros corpos indígenas e africanos, a função da avó
na narrativa histórica é sacrificial: ela viveu e trabalhou para morrer; sua
contribuição para a nação é reconhecida mas condicionada a existir ape-
nas no passado nacional.
O FUNDAMENTO: PINTANDO A ORIGEM DO ESTADO E DA
NAÇÃO BRASILEIROS
O tema da mistura entre etnias, simbologias cristãs e alegorias
sobre a formação da nação também fazem parte de um quadro ainda
mais famoso da história da arte brasileira: A “Primeira Missa no Bra-
sil”, de Victor Meirelles (Figura 2). Dos inúmeros escritos dedicados a
esse famoso quadro, talvez ao trabalho de interpretação mais influente
continue sendo o do historiador de arte Jorge Coli. Rigoroso e erudito,
seu ensaio “Invenção da Descoberta” tornou-se um ponto de partida
obrigatório para quaisquer outras análises da obra de Meirelles. Nele,
Coli argumenta convincentemente como o jovem Meirelles espelhou-
-se na metodologia de pesquisa dos historiadores profissionais da
época para garantir que sua pintura fosse vista como um relato fiel
e verdadeiro da história brasileira. Tratava-se de um procedimento
comum aos pintores de quadros históricos da época. A pintura de
história, aliás, era considerada um ofício reservado para apenas poucos
artistas de talentos privilegiados.
270 A ESTÉTICA DO OPACO
Considerada a modalidade mais difícil das belas artes, pois exi-
gia do pintor a habilidade de pintar conjuntamente todas as outras
(natureza morta, paisagem, animais, retrato humano; conectando-os
em uma narrativa/ação verosímil), somente alguns pintores recebiam
o treinamento e o status para poderem pintar quadros históricos. Além
de todas as provações técnicas, pintores de história no século XIX tam-
bém precisavam mostrar capacidade de cumprir com as etapas de
pesquisa semelhantes àquelas exigidas aos historiadores profissionais.
Isso muitas vezes implicava em viajar para estudar in loco as paisagens
retratadas, fazer a leitura de livros especializados, consultar arquivos
públicos e privados, entrevistar testemunhas oculares do evento e
interpretar fontes primárias e secundárias
No caso específico de Meirelles, Jorge Coli sustenta que o pintor,
para agregar valor e credibilidade à “Primeira Missa”, fez uso e citações
diretas a uma fonte primária específica: a Carta de Caminha. No ensaio,
através de comparações textuais e visuais, assim como a referências às
trocas de correspondências entre o jovem pintor e seus professores da
AIBA, Coli mostra que Meirelles utilizou estrategicamente trechos da
Carta para conferir realismo a sua obra9
; para convencer seus espectado-
res da época de que se tratava de uma inquestionável imagem“o Brasil
o instante de seu nascimento”(COLI, 2005, p. 30.).
9
	 No mesmo ensaio, Coli mostra como o jovem pintor brasileiro também recorreu a outro
tipo de retórica visual para dar credibilidade ao seu quadro: a citação obras de pintores
consagrados. Tratava-se de um procedimento comum aos pintores da época, que direta-
mente se espelhavam na obra de artistas consagrados para mostrar erudição artística e
domínio técnico e temático . No caso específico de Meirelles, Jorge Coli mostra como ele
se inspira no famoso pintor acadêmico francês, especificamente no seu quadro Première
Messe en Kabylie.
271Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
Figura 2 –“Primeira Missa no Brasil”,Victor Meirelles, 1860. Óleo sobre tela, 268 x 356
cm. Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes (MNBA)
Fonte: CARDOSO, Rafael. A arte brasileira em 25 quadros [1790-1930]. Rio de Janeiro: Record, 2008.
Apesar da menção à metodologia de historiadores que servia de
modeloparaotrabalhodeartistasdaépoca,alémdelembrarainfluência
do movimento romântico e as referências cristãs de Meirelles, o ensaio
de Coli é assumidamente centrado na invenção do episódio pontual da
“Descoberta”. Seu ensaio acaba perdendo de vista o quanto a obra ser-
viu para ajudar a consolidar uma estrutura de interpretar a História do
Brasil, inventando sentido e causalidade entre os vários séculos desde a
colonização até o período pós-independência. Muito além de uma hábil
reconstrução da chamada “certidão de nascimento” da nacionalidade
Brasileira, a obra de Meirelles se tornou paradigmática ao popularizar
elementos básicos de como gerações de brasileiros passariam a inter-
pretar temas-chave da formação do estado e da nação: desde a visão
“edênica” e teleológica da colonização portuguesa, à suposta receptivi-
dade e proto-cristandade indígena diante dos colonizadores, até a ideia
da imediata“cordial-harmoniosa”mistura entre europeus e indígenas.
Porém, talvez o mais duradouro, desses elementos interpretativos,
presente na obra de Meirelles seja o que denominamos de estado-nacio-
nalismo: a tendência de se reduzir múltiplas histórias ocorridas em ter-
ritórios plurinacionais e autogovernados – os quais apenas futuramente
272 A ESTÉTICA DO OPACO
seriam“do Brasil”– à história específica do estado nacional brasileiro.Tra-
ta-se de um recorrente anacronismo histórico, inicialmente criado pela
imaginação historiográfica do século XIX, que se mantém como eixo de
narrativas de história do Brasil até hoje, tanto em meios acadêmicos e
escolares, quanto em indústrias culturais e de entretenimento. É mais
fácil entender o conceito de estado-nacionalismo relembrando a ironia
do historiador Luiz Felipe de Alencastro que, em certa palestra, informal-
mente, afirmou que a tendência dos historiadores em projetar a história
brasileira para períodos pré-nacionais era tamanha que, muitas vezes,
até mesmo“dinossauros eram considerados brasileiros da gema”!10
Desde o século XIX, interpretações estado-nacionalistas da história
se baseiam no uso corrente e irrefletido do substantivo “Brasil” e de seu
adjetivo“brasileiro”. Estes sempre aparecem já nas primeiras páginas de
livros, ou no primeiro dia de aula, quando se alude aos supostos “pri-
meiros” habitantes “do Brasil”, os índios. A partir daí, as palavras “Brasil”
e“brasileiro”são usualmente utilizadas para organizar todos os grandes
marcos da história dita “nacional” contada por livros didáticos e profes-
sores: desde a chegada dos portugueses “no Brasil”, ao inicio da coloni-
zação “brasileira”, ao tráfico de escravos para “o Brasil”, a expansão das
fronteiras do “Brasil”, a expulsão dos holandeses das terras “brasileiras”,
as revoltas anticoloniais “no Brasil”, a transmigração da família real ao
“Brasil”etc.
Visões estado-nacionalistas da história baseiam-se nesse uso indis-
tinto das palavras“Brasil”e“brasileiro”para se referir a períodos/popula-
ções/acontecimentos pertencentes a um tempo/espaço heterogêneo e
plurinacional completamente alheio às ideias de nação ou estado “bra-
sileiro”; que, objetivamente, somente ao longo do século XIX, após um
extenso e conflituoso processo bélico, pedagógico e diplomático, passa
a ser o estado nacional brasileiro tal qual conhecemos hoje. Mais uma
10
	 Palestra realizada no 5º Congresso de História da Bahia, em 2001, organizada pelo Instituto
Histórico Geográfico da Bahia (IHGB).
273Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
vez, é preciso insistir na poderosa invenção identitária e genealógica
resumida por esse conceito. Estado-nacionalismo está na base na comu-
nidade imaginada brasileira. Desde os primeiros manuais oitocentistas
até os lançamentos que abarrotam prateleiras de shoppings centers hoje
em dia, o estado-nacionalismo presente nas narrativas de História do
Brasil tem celebrado vínculos diretos entre acontecimentos e persona-
gens dispersos no tempo e no espaço; promovendo assim a aceitação de
relações de parentesco nacional deveras abstratas entre, por exemplo, a
escrita de PeroVaz de Caminha no século XVI, sermões do Padre Antônio
Vieira, a degola de Tiradentes, o amor de Lampião e Maria Bonita, você e
o autor deste texto.
Além de ser uma tradução visual dos escritos de Caminha, uma pin-
tura de história que se inspirou em modelos de pesquisa de historiadores
profissionais do século XIX, e uma interpretação edênica e cristã da cha-
mada “Descoberta” do Brasil, a obra de Meirelles pode ser interpretada,
acima de tudo, como uma obra fundadora do olhar estado-nacionalista
com a qual se interpreta a história dita“do Brasil”. O título em si é indica-
tivo. Mesmo que Pindorama tenha sido o lar imemorial de milhares de
nações indígenas autônomas, na obra do pintor oitocentista, a missa já
acontece “no Brasil” tão logo os demiúrgicos corpos lusitanos pisaram-
-lhe o solo. Fazendo uma interpretação estado-nacionalista das palavras
de Caminha, Meirelles retrata os indígenas e portugueses como se os
mesmos estivessem selando um pacto de formação da futura nação
brasileira. E, assim, através da lente estado-nacionalista, o paradoxo se
resolve: como pode ter sido ao redor de 1500 o começo da História do
Brasil se ao redor de 1500 o Brasil não começou?
Cabral nada mais fez do que oficializar a posse de um novo territó-
rio para o império português. Não pensava em começar qualquer“povo
brasileiro”. Estaria provavelmente horrorizado, aliás, se soubesse que seu
nome está ligado à fundação de um país em que todos os adultos têm o
direito de voto, inclusive mulheres, índios e negros! Caminha tampouco
escreveu sobre índios brasileiros. Apenas descreveu uma das milhares
274 A ESTÉTICA DO OPACO
de diferentes nações tupi-guarani que existiam no território de Abya-
-Yala antes das chegadas dos europeus. No entanto, na obra de Mei-
relles, do séc. XIX, os indígenas são retratados como se estivessem há
séculos esperando a chegada da palavra de Deus e do caminho para o
progresso civilizatório-nacional. Providência e teleologia tingem o qua-
dro, tornando-lhes proto-cristãos-brasileiros.
Meirelles, como se sabe, fazia parte de uma geração de intelectuais
e artistas românticos. No Brasil, na ausência de um imaginário sobre um
passado repleto de pomposos castelos ou nobres medievais, o roman-
tismo local recorreu à nobreza dos “bons” tupis (em oposição aos “sel-
vagens” tapuias) e a monumentalidade da natureza tropical. Mas, em
sintonia com as demais nações euro-americanas oitocentistas, o roman-
tismo à brasileira também ignorou qualquer anacronismo e incorporou/
deglutiu territórios e povos pré-nacionais em suas narrativas nacionalis-
tas. Obstinado em enxergar no passado as sementes da alma nacional
oitocentista, românticos contaram uma estória do fim para o começo,
depositando entre aldeões tupinambás e súditos do império lusitano do
século XVI um nacionalismo brasileiro que só surgiria, aos poucos, a par-
tir do século XIX. O romantismo à brasileira consagrou simbolicamente
uma “alma” do Brasil onde só existia um Império português que avan-
çava seu ímpeto territorialista sobre aldeias tupis-guaranis. Assim como
as pinturas produzidas na AIBA, a literatura feita do período é repre-
sentativa desse tipo de narrativa histórica; os livros de José de Alencar
sendo paradigmáticos.
Mas, o anacronismo de Meirelles e demais intelectuais do período
não era mera ingenuidade epistemológica, mas uma estratégia política.
É preciso lembrar que a “Primeira Missa” foi produzido apenas poucas
décadas após a independência. Foram anos turbulentos em que o poder
central baseado no Rio de Janeiro enfrentou diversas revoltas regionais,
inclusive movimentos separatistas como a proclamação da Confedera-
ção do Equador, no Nordeste, e das Repúblicas Juliana e Rio-grandense,
no Sul. Além disso, as inúmeras revoltas escravas e resistências de gru-
275Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
pos indígenas frente ao processo colonizador mantinham o território
dito “brasileiro” como um campo de lutas instável e belicoso. Não se
pode menosprezar que, como todo recém-independente estado nacio-
nal, apesar de acordos internacionais, os líderes à frente do estado bra-
sileiro também sentiam-se vulneráveis a possíveis invasões de outros
países. Afinal, assim como os Portugueses haviam unilateralmente deci-
dido tomar posse as terras indígenas; franceses, holandeses, espanhóis e
ingleses já haviam demonstrado interesses materiais e geopolíticos pelo
litoral sul-americano anteriormente e poderiam renová-los.
Em um contexto de enorme turbulência e ansiedade quanto a viabi-
lidade do futuro nacional, a interpretação histórica serena e harmônica
traduzida através dos pincéis de Meirelles era uma ficção consoladora,
mas que também carregava uma clara mensagem política. Especifica-
mente, o quadro de Meirelles enfatizava um subtexto essencial que a
elite brasileira, descendente (acreditando descender) dos invasores
europeus, precisava repetir para si mesma: sua legitimidade como guar-
diã dos perímetros e destinos nacionais. Apenas poucas décadas antes
de Meirelles, sob o argumento de serem os genuínos representantes
da terra, patriotas brasileiros haviam expulso os lusitanos “invasores”.
A construção dessa dicotomia entre “nacionais” e “estrangeiros” está
implícita no quadro de Meirelles: ao contrário dos portugueses exóge-
nos, os brasileiros verdadeiros, além de origens ibéricas, descendiam
também dos nobres endógenos tupis. Assim, somente aos brasileiros
(frutos da mistura) poderia pertencer a terra que anteriormente era de
tupis-guaranis.
Essa sutil diferença está santificada na “certidão de nascimento” da
Primeira Missa. Mais uma vez, corpos indígenas ocupam um caráter sacri-
ficial na obra. Pertencem apenas e exclusivamente ao passado. São os
nobres tupis-guaranis de outrora idealizados pelo romantismo à brasileira
(não os“tapuias”do presente, que continuavam a defender seus territórios
tradicionais contra o avanço do Império, no momento em que Meirelles
pintava). Apesar de musculosos e joviais, pintados ao modelo de estátuas
276 A ESTÉTICA DO OPACO
renascentistas, suas ações são dóceis e resignadas. Tal qual a avó negra
de Brocos, os indígenas pertencem ao começo da narrativa, apenas à“des-
coberta”e não aos seus desdobramentos. Obviamente, assim como a avó
escrava, antes de sucumbirem à passagem do tempo nacional, os nobres
tupi-guaranis também abençoariam às futuras gerações de brasileiros
dando-lhes posse do território onde se ergueria o futuro estado e o paren-
tesco distante que lhes garantiria a legitimidade nacional.
Tal como no quadro de Brocos, existe na “Primeira Missa...” uma espé-
cie de transição do tempo nacional organizada da esquerda para direita.
Multidões de corpos indígenas, habitantes da interior do Brasil originário,
virgem e selvagem, descem às pressas para saudar os agentes civilizadores.
O movimento de corpos que organiza/equilibra todo quadro começa do
canto esquerdo no alto do quadro, onde se encontram minúsculos corpos
de índios saindo da floresta (passado) descendo para a praia onde está o
altar construído/desmatado (presente) dos portugueses. Apesar dos olhares
afoitos e mãos para cima, o movimento dos corpos indígenas é ordenado
e constante. Da esquerda em cima, descem em fila e em lenta curva para a
direita;organizando-seconcentricamenteaoredordaautoridadedacruz,de
Cabral, Frei Henrique de Coimbra e demais fidalgos.Vejamos a Figura 3.
Figura 3 –“Primeira Missa no Brasil”.
Fonte: Google Imagens (manipulada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6)
277Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
Aproveitando a condição oferecida pela própria dimensão física do
quadro (2,68 x 3,56 metros), projetando ser visto em exposições de arte
e em museus, Meirelles consegue construir uma espécie de anfiteatro
visual – virtual – da nação, que acolhe não apenas as levas de indíge-
nas que descem da esquerda, mas também todo espectador que se
aproxima para ver o quadro e acrescenta o seu próprio corpo aos dos
indígenas posicionados na elipse concêntrica mais ampla. Mais do que
agradar críticos de arte, Meirelles queria induzir plateias a se sentirem
testemunhas oculares do evento histórico. Da esquerda para direita,
em movimento espiral, com corpos ordenados em elipses concêntricas,
dá-se a passagem do tempo nacional: da barbárie à civilização, da mata
escura à luz da civilização cristã, dos corpos escuros indígenas à imacu-
lada veste/pele do sacerdote europeu; das trevas à luz.
A RE-ATUALIZAÇÃO DO SACRIFÍCIO DOS CORPOS:
CONSAGRAÇÃO DA ORIGEM E DA PASSAGEM
Apenas outra pintura de história produzida por um brasileiro riva-
liza a “Primeira Missa no Brasil” em popularidade e importância: “Inde-
pendência ou Morte!”, de Pedro Américo (Figura 4). Como Meirelles,
Américo foi um aluno prodígio da AIBA, que também obteve uma
bolsa do Império para estudar durante longos períodos na Europa,
retornando para o Rio para se tornar professor da instituição. Sua obra
prima é também um dos quadros mais estudados da história da arte
no Brasil. Com efeito, para finalizar as análises iconográficas deste
texto, as próximas páginas serão dedicadas a uma sucinta discussão
do quadro “Independência ou Morte!”. Mais uma vez, apesar de fazer
menção ao importante trabalho de outros intérpretes dessa obra,
será demonstrado como a maioria das leituras do quadro de Américo
falham ao não considerarem a centralidade dos dois temas chaves
do período pós-independência, que não poderiam deixar de ser
abordados pelo pintor: estado e nação.
278 A ESTÉTICA DO OPACO
Dois livros dedicados à vida e obra de Pedro Américo continuam
referências indispensáveis para se entender“Independência ou Morte!”:
“Pedro Américo e o olhar oitocentista”, de Liana Rosemberg, e“O Brado
do Ipiranga”, de ClaudiaValladão de Mattos e Cecilia H. S. Oliveira. Análo-
gos à análise de Jorge Coli sobre Meirelles, ambos os livros também
demonstram como Pedro Américo se vale da metodologia de pesquisa
de historiadores para dar credibilidade à sua composição. Américo pes-
quisou fontes primárias e secundárias, leu relatos de testemunhas ocu-
lares do famoso“grito”, visitou arquivos públicos e privados para estudar
objetos, mapas e uniformes militares, além de entrevistar pessoas que
eram crianças no ano de 1822, mas que tinham parentesco e memó-
rias de pessoas que diretamente participaram do evento (ROSEMBERG,
2002). Para além dos esforços de pesquisas antes de pintar, Américo tam-
bém se deu ao trabalho de escrever – à moda de historiadores da época
– uma dissertação de 15 páginas relatando as etapas metodológicas e
as justificativas históricas para compor seu quadro (MATTOS et al, 1999).
Apesar dos cuidados de Américo com a plausibilidade de seu relato
visual, é ainda muito comum ouvir críticas às idealizações e impreci-
sões presentes em seu quadro. Por exemplo, são frequentes as ironias
de que o então príncipe português jamais poderia viajar pelo interior
rural montado em um garboso cavalo branco trajando roupas de gala,
pois certamente estaria numa modesta mula, usando roupas castigadas
pela sujeira da estrada e mais simples, ainda mais levando em conta
que Pedro viajava sofrendo de um conhecido problema intestinal11
. Na
verdade, antecipando-se a críticas, o próprio Pedro Américo toca nes-
ses assuntos em sua dissertação, mas argumenta que retratar os mes-
mos contrariaria os objetivos edificantes das pinturas históricas e, por
isso mesmo, não mereciam ser contemplados pela posteridade (MELO,
1888, p. 20). É preciso lembrar que, durante a maior parte do século
11
	 Outra inexatidão histórica muito comentada é o anacronismo Américo em representar os
dragões da independência acompanhando D Pedro, uma vez que essa guarda imperial seria
criada apenas depois da independência.
279Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
XIX, as noções cicerianas da história enquanto mestra da vida (historia
est magistra vitae), como um conjunto de exemplos do passado que
tinham valor moral-educativo para o presente, ainda prevalecia. Na obra
de Américo, apesar da forte influência dos modelos da chamada histo-
riografia profissional/científica que se estabelece no período, o peso da
moral clássica mantinha sua autoridade.
De qualquer forma, era natural que a figura de D. Pedro I, alçado
à condição de herói da independência pela historiografia oficial, fosse
também a mais discutida no quadro de Américo. Claramente, Amé-
rico teve essa intenção quando o posicionou centralmente no terreno
mais alto da paisagem, com um gesto inequivocamente de comando,
atraindo o olhar e lealdade de todos os outros personagens do quadro.
Apesar da monumentalidade do quadro, do aparente conjunto desorga-
nizado de dezenas de corpos, vegetação e outros detalhes, a composi-
ção de Américo conduz o olhar de qualquer espectador imediatamente
para a figura de Pedro I. Trata-se do único corpo estático no meio do
turbilhão de movimentos. O futuro imperador se impõe como uma está-
tua equestre, sólida e eterna, em meio à multidão de admiradores. Como
na obra de Meirelles, Américo também constrói sua narrativa visual em
torno de uma estrutura elíptica que conecta todos os personagens. Ao
invés da cruz, a espada de Pedro é que se ergue para o céu, equilibrando
o evento histórico.
Para além de quaisquer inexatidões historiográficas da obra, análises
mais sofisticadas tem focado no tema da autoridade imperial que marca o
quadro. Mattos et al. (1999) discute como Américo usou estrategicamente
uma tradição de pintura bonapartista para sublinhar a legitimidade do
poder imperador brasileiro. Antes da revolução francesa, monarcas euro-
peus reinavam absolutos. Retratos de membros de casas reais europeias
quase sempre mostram reis e nobres pousando no conforto de seus
aposentos, placidamente gozando da vida da corte. Até então, afinal,
seus poderes eram indiscutíveis. Gozavam sem culpa de seus privilégios
genealógicos, os quais advinham, pressupunha-se, da graça divina.
280 A ESTÉTICA DO OPACO
Figura 4 –“Independência ou Morte!”, de Pedro Américo. 1888. Óleo sobre tela, 415
x 776 cm. São Paulo, Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP).
Fonte: ROSEMBERG, Liana Ruth B. Pedro Américo e o olhar oitocentista. Rio de. Janeiro: Barros Edições, 2002.
A subida de Napoleão Bonaparte muda não apenas as relações de
poder na Europa, mas também como as formas de representar o poder
artisticamente. Sendo um militar desprovido de sangue azul ou bênção
divina, Napoleão foi o primeiro imperador europeu que precisou mos-
trar que merecia sentar no trono por conta dos méritos de seus próprios
atos. Sua legitimidade não provinha de relações familiares ou prefe-
rência divina, mas de suas ações exitosas enquanto político e militar. A
escola de pintura que surge em meio à revolução francesa soube tra-
duzir bem isso. Diferente dos monarcas anteriores, que não precisavam
provar, mas apenas exibir, os seus poderes absolutos e inquestionáveis,
o poder/legitimidade Napoleão é usualmente mostrado através de ima-
gens de suas ações bélicas e políticas.
Américo pinta D. Pedro I à tradição napoleônica. Diferente de seu
pai D. JoãoVI - quase sempre retratado com seu corpo pousando em cal-
maria, a desfrutar das luxúrias preguiçosas de sua vida de corte -, Pedro
I é retratado como um soldado em marcha, liderando um país para a
guerra e glória. Ao associar os antigos imperadores francês e o brasileiro,
Américo claramente queria agradar o então atual imperador D Pedro II,
281Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
maior mecenas da AIBA, de cujos favores dependia o sucesso de qual-
quer artista da época. A vontade do pintor em agradar o monarca tinha
uma forte razão de ser. Poucos anos antes, Pedro Américo havia pintado
um outro quadro de história famoso e monumental:“A Batalha do Avaí”.
Tratava-se de uma obra polêmica para o período. Pela primeira vez, um
artista brasileiro havia ousado fugir das convenções acadêmicas – que
zelavam pela harmonia da composição e pelas mensagens edificantes e
morais da história – para pintar os horrores temáticos e o desarranjo de
corpos em uma cena de guerra.
Assim como outros artistas da segunda metade do século XIX, Pedro
Américo vivia em meio a uma tensão artística entre o tradicional para-
digma acadêmico-idealista e as novas tendências realistas-naturalistas
de arte. Ao optar pelo novo, acabou protagonizando polêmicas artísti-
cas e políticas. Isso porque, adotados oficialmente pela AIBA, os temas
“edificantes”e as formas “harmônicas”de retratar a nação brasileira pre-
sentes no retratos acadêmicos-idealistas eram obviamente também pre-
feridos pelo poder monárquico. Nesse sentido, para além de querelas
estritamente estéticas, pinturas que subvertiam os princípios acadêmi-
cos (como “A Batalha do Avaí”, de Américo) poderiam ser interpretadas
como críticas diretas ao sistema monárquico em si. Por esta mesma
razão, membros do crescente movimento republicano brasileiro passam
a apoiar publicamente trabalhos naturalistas-realistas que punham em
questão as cenas glorificadas de batalhas feitas até então.
Como um monarquista autodeclarado, amigo pessoal do impera-
dor D. Pedro II e funcionário público da burocracia imperial, Pedro Amé-
rico percebeu seu erro ao, conscientemente ou não, adotar um modelo
estético que desafiava politicamente o regime do qual ele dependia.
Neste sentido, historiadores de arte têm interpretado“Independência ou
Morte!” como um tipo de afirmação pessoal feita por Pedro Américo de
seu “retorno” ao estilo acadêmico - ou, pelo menos, de sua aceitação da
maioria dos seus princípios - e, portanto, uma declaração pública de sua
lealdade à monarquia (MATTOS et al., 1999, p. 117). No entanto, mesmo
282 A ESTÉTICA DO OPACO
uma análise sofisticada como de Mattos et al., ao centrar nos bastidores
das brigas político-estéticas da corte imperial, acaba ignorando a alegoria
explicita no quadro de Américo: outra vez, a da complexa formação do
novo estado e nação. Como já foi dito anteriormente, esses dois temas
eram incontornáveis para intelectuais do período pós-independentista,
ao mesmo tempo, testemunhas e agentes de um novo país em formação.
Já foi mencionado anteriormente alguns elementos comuns às ale-
gorias nacionais apresentadas de Meirelles e Américo. Ambas as obras
são organizadas entorno de uma forma elíptica, que conecta os inúme-
ros personagens numa espécie de anfiteatro visual da nação. Dois obje-
tos de poder, respectivamente, a cruz e espada, servem de eixo central
por onde os personagens se agrupam. Apesar da grande movimentação
de corpos, as narrativas nas duas obras são extremamente harmônicas,
ordenadas e didáticas, à moda acadêmica-idealista. No entanto, é pre-
ciso ressaltar diferenças entre as obras. Em primeiro lugar, vale lembrar
o período de trinta anos entre uma pintura e outra. Como foi mencio-
nado, Meirelles finalizou seu quadro em um ano cujas memórias de lutas
separatistas e revoltas internas que abalaram o novo país, de norte a sul,
ainda estavam bem frescas.
O recém-independente império ainda vivia anos de instabilidade
e ansiedade política, assombrado por desafios de inimigos internos e
externos. A imagem de Meirelles, além de um plácido retrato do pas-
sado, também fornecia argumentos aos brasileiros do presente sobre
sua legitimidade (por possuírem suposto parentesco remotíssimo com
nobres tupis) de salvaguardarem a terra local contra qualquer outro
povo que a cobiçasse. Diferentemente, no período em que Américo pin-
tou seu quadro, os perímetros do novo estado-nação já estavam mais
estáveis. Apesar das ocasionais revoltas internas (como Canudos) e da
persistente resistência de nações indígena autônomas, tratados diplo-
máticos, conchavos políticos, aumento da malha urbana-burocrática
imperial e, claro, do fortalecimento do exército nacional, pareciam ter
estabilizado as fronteiras e conferido solidez aos perímetros do estado.
283Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
A formação e a viabilidade da nação, porém, ainda estavam em
aberto.DuranteboapartedoséculoXIX,nãohaviadúvidasquantoaexis-
tência de um estado chamado Brasil, apenas de brasileiros (SCHWARCZ,
2006). Sobre esses debates nacionais, é no mínimo curioso que os intér-
pretes de Américo não levem em conta que, assim como “A Redenção
de Cã”, de Brocos, o quadro de Américo também foi elaborado em um
período de popularização de teorias raciais e do branqueamento. Assim,
seria difícil evitá-los em um quadro histórico, especialmente para um
pintor erudito como Américo, que ativamente participava de debates
públicos. Mesmo que mais sutil do que Brocos, é possível argumentar
que a alegoria do branqueamento dos corpos é também o tema chave
da obra de Américo, apesar de ter sido completamente ignorada por
estudiosos até hoje.
A atenção dada por historiadores em decifrar a função retórica
e simbólica do personagem caipira localizado em primeiro plano à
esquerda e abaixo no quadro (SCHLICHTA, 2006; CHRISTO, 2002; MATTOS
et al., 1999, ALVES 2003), fez com que todos esquecessem que Américo
posiciona não apenas um, mas três corpos no canto esquerdo do quadro.
O caipira, em destaque no primeiro plano, é sem dúvida o membro desse
trio mais facilmente avistado por plateias de ontem e de hoje. Sua fun-
ção retórica no quadro é evidente: ao olhar fixamente para D Pedro I, ele
também induz o olhar de espectadores para a figura do imperador, pro-
porcionando-lhes a ilusão de que também são testemunhas do evento
histórico (MATTOS et al., 1999. p. 89). Existem também diversas interpre-
tações sobre a função alegórica desempenhada pelo caipira; como um
símbolo das hierarquias nacionais (MATTOS et al., 1999, p. 91); da própria
nação sendo ignorada pela monarquia (SCHLICHTA, 2006, p. 225), ou até
mesmo a tentativa de salientar a importância dos resilientes paulistas que,
do interior, haviam contribuído para a formação da nação (ALVES, 2003).
No entanto, é possível argumentar que qualquer tentativa de inter-
pretar o caipira de forma isolada é uma tarefa falha. Isso porque, se o cai-
pira desempenha alguma função alegórica no quadro, essa só pode ser
284 A ESTÉTICA DO OPACO
entendida em conjunto com os outros dois personagens que, embora
mais discretos e praticamente ignorados pelas análises de historiadores
de arte, completam a alegoria de Américo. Observemos a Figura 5.
Figura 5 – Detalhe do quadro“Independência ou Morte!”
Fonte: Google Imagens (editada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6)
Logo acima do caipira (Figura 6), está posicionado um homem com
feições claramente europeias montado à cavalo.
Figura 6 – Detalhe do quadro“Independência ou Morte!”
Fonte: Google Imagens (editada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6)
285Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
Esse descendente de europeu está estrategicamente posicionado em
um ponto equidistante e central entre o caipira abaixo e um terceiro (Figura
7), minúsculo corpo de um escravo na parte alta à esquerda do quadro.
Figura 7 – Detalhe do quadro“Independência ou Morte!”.
Fonte: Google Imagens (editada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6)
De forma a não perturbar o foco do tema da independência que dá
título ao quadro, Américo foi capaz de inserir na sua obra uma audaciosa
alegoria da formação nacional baseada numa tríade racial. Professor de
pinturas históricas, Américo certamente conhecia em detalhes o traba-
lho historiográfico seminal de Karl Philipp Friedrich von Martius. Com
a dissertação “Como se deve escrever a História do Brasil”, o naturalista
alemão Martius ganharia o famoso concurso organizado pelo Instituto
Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB) que contemplaria com 200 mil réis
aquele que apresentasse “um plano para se escrever a história antiga e
moderna do Brasil, organizado de tal modo que nele se compreendessem
as partes política, civil, eclesiástica e literária”(RODRIGUES, 1957, p. 160).
Publicada na Revista do IHGB em 1845, o plano de escrita proposto
pela dissertação de von Martius, entre outras coisas, mencionava uma
poderosa metáfora “hidráulica” para pensar a nacionalidade brasileira.
Para Martius, o desenvolvimento da nação brasileira passava pelos três
286 A ESTÉTICA DO OPACO
povos que se encontravam no território do Brasil, então chamados de
“caucasianos”, “etíopes” e “americanos”. Segundo Martius, a história do
Brasil, como a de nenhum outro povo antigo, era marcada pela “mes-
cla das relações mútuas e mudanças dessas três raças”. Essa salada de
matrizes raciais indicava uma particularidade da história brasileira. No
entanto, para alento das elites brasileiras do período, que se criam“cau-
casianas”e a quem a obra de von Martius se destinava, ele fala de“con-
dições favoráveis de aperfeiçoamento de raças colocadas uma ao lado
da outra de modo desconhecido”. Por vontade da“vontade da Providên-
cia”, Martius usa uma metáfora hidráulica para garantir que essa mistura
racial seria aos poucos limpa no futuro pelo“poderoso rio português”.
Décadas antes das teorias“otimistas”de branqueamento propostas
pela geração de Sílvio Romero, através dessa metáfora hidraúlica, a
historiografia brasileira já havia previsto o futuro exclusivamente euro-
-descendente. O “poderoso” rio (sangue) português haveria de lavar/
redimir os afluentes africanos e indígenas. No quadro de Américo, o
corpo negro é estrategicamente posicionado mais distante. Minúsculo e
praticamente escondido atrás da mula de trabalho, o afrodescendente
caminha em oposição aos demais personagens.Tal como a avó negra de
Brocos, o escravo parece conhecer seu destino de estar prestes a desa-
parecer da paisagem nacional. Se a avó senil levantava as mãos, pronta
para se encaminhar para o céu divino, o escravo caminhava por conta
própria a desaparecer no céu do fim do horizonte. Assim, com pouco
uso de tinta, Américo simbolicamente resolvia a ansiedade da elite bra-
sileira que buscava uma solução rápida e definitiva tanto para os dile-
mas morais do sistema escravista quanto para corpos negros presentes
no território nacional.
O euro-descendente montado à cavalo, em posição elevada e no
centro dos outros dois outros personagens, ocupa uma clara posição de
comando na tríade racial. Por conta de sua cor de pele, por estar vestido
apropriadamente e possuir bens materiais, inclusive uma seleta monta-
ria, esse é o único personagem que poderia estar posicionado na parte
287Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
à direita do quadro, junto com o séquito de homens e cavalos acompa-
nhando D. Pedro I. Enquanto o negro e o caipira trabalham, o homem
branco ocupa uma posição senhoril, ao mesmo tempo em que contem-
pla seus pares euro-descendentes do outro lado do quadro. Mencio-
nados os lugares da matriz africana e europeia, faltava situar a porção
indígena da alegoria nacional. Diferente da opção por indígenas ideali-
zados de um passado remoto (à Meirelles), o quadro de Américo assume
a presença da matriz indígena no século XIX , mas de forma indireta: no
corpo mestiço do caipira.
São muitos os indícios que sugerem isso. O caipira, afinal, era
usualmente definido como corpo híbrido, fruto do choque e da mis-
tura imprevista entre populações indígenas habitantes do interior e
colonos portugueses que avançavam suas ambições territorialistas
em sua direção12
. Décadas antes do reconhecimento das contribui-
ções africanas para a nação, é muito mais provável que Américo ainda
se baseasse em ideais românticos que assumiam que o único tipo de
miscigenação que valia pena reconhecer era o resultado da suposta
subserviência (e inclinações sexuais) que as mulheres tupis-guaranis
tinham em relação aos colonizadores portugueses. Consequente-
mente, o caipira de Américo seria muito provavelmente um mameluco,
de ascendência indígena e europeia.
Além disso, semelhante às representações românticas que enfati-
zavam a propensão de povos indígenas para alcançarem o “progresso”,
caso fossem corretamente orientados e auxiliados por europeus, o caipira
também exibe sinais ambivalentes de comportamento e trajes ao mesmo
tempo“civilizados”e“selvagens”. Embora ele ainda ande descalço, à moda
de seus ancestrais, Américo faz questão de mostrar seu corpo, ao menos,
semivestido com roupas à moda europeia. Para ilustrar seu estágio de
transição rumo à “civilidade”, a roupa do caipira, apesar de ser rasgada e
12
	 Sobre isso, Euclides da Cunha já havia celebremente definido a força do“caipira do nordeste”
(o sertanejo) como oriunda mistura do sangue indígena e portugueses, em oposição aos
mulatos (africanos + portugueses) do litoral.
288 A ESTÉTICA DO OPACO
esfarrapada, exibe as mesmas cores brancos e vermelha vistas nos uni-
formes impecáveis usados pelos Dragões da Independência à sua direita.
No entanto, no lugar de ostentar uma espada de aço na bainha de couro,
como o oficial próximo a ele, o caipira carrega apenas um pequeno punhal
rústico, preso improvisadamente no tecido escarlate em torno de sua bar-
riga. Embora ele não tenha nem o dinheiro ou o treinamento necessário
para montar um cavalo, o caipira é retratado desempenhando um traba-
lho digno e ordeiro, transportando madeira para o seu senhor.
A referência histórica é evidente: análogo ao seus antepassados
indígenas que cortavam e transportavam pau-brasil para os primeiros
navios portugueses, o mameluco do século XIX transporta toras de
madeira para ganhar a vida e, implicitamente, receberá alguma recom-
pensa depois de entregá-los a um descendente de portugueses que o
emprega ou lhe possui. Mesmo obscurecido à sombra do chapéu, Amé-
rico cuidadosamente pinta a silhueta do rosto do caipira de modo que,
apesar da ascendência indígena, sua mestiçagem com o sangue euro-
peu esteja evidente. Assim sendo, o pintor lhe confere queixo e nariz
pontudos, além de um cavanhaque, de forma semelhante a dos outros
homens de ascendência ibérica no quadro. A cabeça mestiça do caipira
não é um lugar nobre o suficiente para usar a pureza do capacete de
ouro dos Dragões da Independência. No entanto, ao mostrar seu peito-
ral com marcas queimadas de sol, Américo está simbolicamente suge-
rindo que a pele do caipira já está suficientemente branqueada para
requerer a proteção do seu chapéu amarelo.
A cópia do quadro exibida neste capítulo não deixa ver um último
importante detalhe: o caipira é também a figura situada mais próxima
do Rio Ipiranga. Na verdade, ao puxar seu carro de boi, o caipira está
começando a atravessar as águas do famoso rio da independência. Não
parece mera coincidência que, tal qual previsto pela metáfora hidráulica
do plano de escrita de história de Martius, o corpo/legado indígena na
história visual de Américo também estava inevitavelmente destinada a
ser purificado no“poderoso”rio nacional.
289Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
CONSIDERAÇÕES FINAIS: OU ADMIRANDO A ESTÉTICA DO
OPACO
Mediante a análise de três quadros específicos, discutimos a impor-
tância da AIBA para criação de discursos fundadores de história do Bra-
sil no século XIX. Como se viu, recorrendo a metodologias e temáticas
desenvolvidas por historiadores da época, as obras de pintores de his-
tória da AIBA também tentaram responder inquietações intelectuais
básicas do período em que foram produzidas: como explicar a emergên-
cia do estado e a formação da nação brasileira? O capítulo demonstrou
como, ao ignorarem essas incontornáveis questões do período pós-in-
dependência brasileiro, historiadores de arte têm deixado de interpretar
importantes alegorias nacionais presentes nas narrativas dessas obras.
Foi mostrado também como, para dar credibilidade às suas narrativas
históricas visuais, pintores da época se valeram de todas as ferramentas
intelectuais que dispunham.
Assim, para fazer uma leitura iconográfica das obras da AIBA hoje
em dia, é fundamental levar em conta a complexidade do imaginário
artístico, político e epistemológico do império brasileiro; que vivia a
popularização de teorias raciais europeias; a resposta local otimista
da teoria do branqueamento; o embate/negociação entre paradigmas
cristãos, cicerianos e científicos de historiografia; o romantismo à bra-
sileira; rachas estéticos entre partidários do academicismo-idealista e
naturalismo-realista, além de outros temas discutidos anteriormente.
Como não poderia deixar de ser, ao seguir modelos da historiografia
escrita do século XIX, os pintores da AIBA criaram narrativas visuais
baseadas em perspectivas eurocêntricas, elitistas, androcêntricas de
história. Nas mesmas, corpos indígenas e negros (sem falar na repre-
sentação do corpo feminino, não abordado neste texto) sempre ocu-
pam papéis coadjuvantes, sacrificiais e submissos; sempre localizados
no passado remoto, em processo de desaparecimento ou em estágios
de transição evolutiva.
290 A ESTÉTICA DO OPACO
Mais de 150 anos de lutas sociais e políticas identitárias separam
o mundo de hoje daquele vivido pelos historiadores e pintores do Bra-
sil imperial. Como a maioria dos estados-nacionais contemporâneos, o
Brasil atual está finalmente começando a reconhecer que sua história
está longe de ser linear, homogênea e coerente, como era considerada
no século XIX. Tópicos anteriormente ignorados na história do Brasil
incluem, mas não se limitam, a invenção das tradições nacionais, a diver-
sidade cultural e étnica da população, as narrativas falocêntricos que
silenciaram o protagonismo histórico de mulheres; a integração descon-
tínua e beligerante do território, o genocídio de populações que desafia-
ram o projeto nacional e do racismo estrutural da sociedade.
Como era de se esperar, a historiografia brasileira contemporânea
tem estado a frente desse processo da crítica da interpretações tradi-
cionais, patriarcais, teleológicas e eurocêntricas da história. Existem inú-
meros livros, artigos e teses dedicados a desmontar os pressupostos e
preconceitos legados da imaginação historiográfica do século XIX. No
entanto, devido à forte inclinação verbocêntrica da academia, todas as
críticas continuam sendo feitas exclusivamente através formatos escri-
tos. Como consequência, praticamente inexistem hoje releituras visuais
da história brasileira que tenham as ambições e o rigor da pesquisa aca-
dêmica. Trata-se de um trabalho de crítica pendente e urgente. Afinal, já
faz tempo que as obras de historiadores fundadores, como Martius, já
foram rasuradas por escritos de historiadores contemporâneos. As obras
de artistas como Meirelles e Américo, ao contrário, continuam intactas,
por assim dizer, ainda aguardando pichações acadêmicas.
Estamosaindaaesperadeumanovaiconografia que seja capazde tra-
duzir em imagens as mudanças, conquistas e dilemas da historiografia con-
temporânea. Afinal, parafraseando a máxima de Croce, citada no começo
do capítulo: toda história visual deveria ser uma história visual contempo-
rânea. Se os quadros canônicos do século XIX eram baseados no estado-
-nacionalismo que domesticou populações autônomas e pré-nacionais, é
preciso conceber obras que abordem as plurinacionalidades e simultanei-
291Genaro Vilanova Miranda de Oliveira
dades que sempre disputaram e coexistiram dentro do território anacroni-
camente denominado de “Brasil” nas narrativas de história. Seguramente,
alguma futura geração de acadêmicos, eruditos na arte de escrever através
de imagens, produzirá novas narrativas visuais que terão a mesma relevân-
ciaparaconstruçãodediscursosdehistóriabrasileiracomoobrascanônicas
feitas na Academia Imperial de Belas Artes. Enquanto isso não acontece,
resta a capacidade de especular sobre a importância de admirar a estética
do opaco: celebrando a vasta coleção de imagens ainda não pintadas dedi-
cadas ao protagonismo histórico de grupos indígenas, africanos e de outras
populações subalternizadas pela historiografia tradicional.
Afinal, não custa imaginar que, tomados pelas crescentes noções
polifônicas e plurinacionais de história, futuros curadores exibirão, ao
lado do quadro de Victor Meirelles,“O Primeiro Candomblé em Palmares”,
além de inúmeros outros quadros dedicados às religiosidades e cosmo-
logias dos povos originários de Pindorama e Abya Yala. Ou que, suple-
mentando a visão estado-nacionalista da independência do quadro de
Pedro Américo, novas histórias visuais darão visibilidade à resiliência das
incontáveis nações indígenas que, antes e depois da independência brasi-
leira, lutaram para continuar a viver autônoma e soberanamente nos seus
territórios ancestrais. Para tanto, sugerimos a seguinte representação do
“Grito do Ipiranga”, com base em“Independência ou Morte!”, de Américo.
Figura 8 – “Independência ou Morte!” Imagem manipulada pelo autor usando
Adobe Photoshop CS6
Fonte: Google Imagens (editada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6)
292 A ESTÉTICA DO OPACO
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CORPO E METÁFORA
USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA:
ASSOCIAÇÕES E METÁFORAS
NO ANÚNCIO PUBLICITÁRIO
DO NISSAN GT-R
Jessica Vitorino da Silva Terra Nova
Suely Oliveira dos Santos
Eduardo Carvalho Gomes de Menezes
RESUMO: As metáforas do corpo com a máquina se transformaram historica-
mente sob as condições que as ciências/tecnologias lhes oportunizaram. Num
primeiro momento a metáfora aparece sob a ótica do “relógio”, avança para o
modelo da “máquina a vapor”, e, na contemporaneidade, assume a condição
do “chip”. Sendo assim, tal artigo tem como objetivo analisar os elementos me-
tafóricos de um anúncio publicitário capaz de conferir a relação entre corpo
e máquina através da manipulação simbólica do atleta/velocista Usain Bolt e
do carro superesportivo Nissan GT-R, respectivamente. Através de uma aborda-
gem qualitativa do tipo descritivo exploratória, foi feita uma análise de produto
midiático sob o método da “análise fílmica” partindo de quatro temas: 1) pers-
pectivas mecânicas e anatômicas; 2) velocidade e aerodinâmica; 3) performan-
ce e suas tecnologias; 4) recordes, títulos e prêmios. Os resultados apontam que
o anúncio suspenso para análise metaforiza o corpo de Bolt com a máquina
pautado sob a óptica da anatomia e da fisiologia numa mescla com artefatos
mecânicos e tecnológicos do Nissan GT-R.
PALAVRAS-CHAVE: Corpo. Ciência e Tecnologia. Anúncio publicitário. Usain
Bolt. Nissan GT-R.
298 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
INTRODUÇÃO
O Jamaicano Usain Bolt, recordista olímpico dos 100 e 200 metros,
conhecido internacionalmente como o maior velocista de todos os
tempos, foi a personalidade escolhida em 2012 pela Nissan – marca de
veículos japonesa –para ser a estrela dos anúncios e promover a versão
2013 do“Nissan GT-R”, um carro superesportivo que chega a 100 km/h em
apenas 2.84 s. Bolt, que desde criança já chamava atenção dos seus técni-
cos pela sua velocidade, tornou-se um ícone, uma“lenda viva”do esporte
mundial. Dono de 6 medalhas olímpicas de ouro e detentor de vários
recordes mundiais e olímpicos, Bolt possui uma linha própria de roupas
em parceria com a Puma; o seu próprio relógio feito pela Hublot; o seu
próprio fone de ouvido gama‘Soul por Usain Bolt’; seu próprio restaurante
‘Tracks & Registros’, em Kingston/Jamaica; a“Fundação Usain Bolt”; e subs-
creve algumas das principais marcas do mundo. A partir dessas e outras
ações conferidas por Bolt durante o auge de sua carreira, pode-se conferir
a grande projeção da figura do atleta no âmbito publicitário.
A publicidade não mais como um sistema prioritário de informa-
ção – como foi na década de 1950 – mas, sim, de sedução, tem manipu-
lado emoções e símbolos na venda de produtos de consumo. De acordo
com Ferrés (1998), tais recursos, que não se encontram exatamente na
esfera da racionalidade, recorrem a duas técnicas ainda vigentes: 1) a de
jogar com os sentimentos de angústia e de culpa dos sujeitos; 2) a de
recorrer ao prestígio de alguns personagens populares – como o caso
em questão.
Conferir personalidade ao produto para que o consumidor adquira
um signo identitário através dele integra o lema do jogo associativo,
estratégia bastante frequente na publicidade televisiva. Busca-se, em
cada caso, associar os valores do produto aos de alguma celebridade sob
um viés emocional – não lógico. A celebridade transfere, assim, para o
produto os valores da sua personalidade. Em mecanismos desta ordem
entram em jogo processos emocionais localizados nas antípodas da racio-
299Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
nalidade, mantendo-se distantes da consciência, portanto, adequando-se
aos parâmetros dos mecanismos de sedução e governabilidade.
A utilização de famosos na publicidade tem sido uma tática de
venda infalível. A prova de que os comerciais com tais personalidades
funcionam pelo mecanismo da transferência emocional encontra-se nos
procedimentos que costumam ser utilizados para tal processo, certifica
Ferrés (1998). Em muitos casos, depois que a celebridade é escolhida,
são realizadas pesquisas a fim de observar quais são os produtos mais
idôneos para ela, isto é, investiga-se com que tipo de produtos as pes-
soas a associam.
No anúncio publicitário proposto para a análise no presente artigo,
o atleta Usain Bolt, o“homem mais rápido do mundo”, é assim associado
a um carro superesportivo (Nissan GT-R) lançado em sua versão 2013.
Ao explorar os elementos que compõem o objeto de análise, são per-
ceptíveis as relações conferidas, através da linguagem e das imagens,
principalmente do corpo (homem) com a máquina (carro).
É antiga a analogia conferida entre o corpo e a máquina. Atendo-
-se à constituição histórica do corpo, pode-se observar as alusões meta-
fóricas conferidas ao corpo em relação à máquina: em um primeiro
momento sob a ótica do “relógio” (corpo anatômico – as partes e o
todo), avançando para o modelo da “máquina a vapor” (corpo fisioló-
gico – movimento e combustão), e, na contemporaneidade, assumindo
a condição do “chip” (corpo genético – sistema de informação e códi-
gos). No esporte, tal alusão também é conjecturada na medida em que
percebe o corpo humano enquanto um conjunto de engrenagens, pro-
cessos mecânicos, físicos e químicos que devem funcionar em perfeita
harmonia para atuar com eficiência e alcançar o desempenho desejado.
Em outras palavras, o organismo humano é visto como um mecanismo
complexo manipulável, podendo ser tecnicamente “melhorado” para
além das suas aptidões “naturais” dos pontos de vista emocional (sen-
tir), intelectual (pensar) e físico (agir). Nesse sentido, as ciências naturais
(biologia, anatomia, fisiologia, física etc.) são tomadas como as princi-
300 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
pais aliadas para auxiliar na maximização do rendimento, e tal perspec-
tiva relaciona o grande modelo de“corpo-atleta”ao de“corpo-máquina”,
capaz de performances espetaculares.
Dito isso, tal artigo tem como objetivo analisar os elementos meta-
fóricos do anúncio publicitário da Nissan capazes de conferir sentido
a relação entre corpo e máquina através da manipulação simbólica do
atleta/velocista Usain Bolt e do carro superesportivo Nissan GT-R, respec-
tivamente. Sendo assim, o texto foi organizado em quatro momentos:
a primeira parte foi reservada para a apresentação do atleta Usain Bolt;
na sessão subsequente dissertamos sobre o aporte teórico que se diz
respeito a tematização histórica do corpo em suas metáforas, especifica-
mente a que sugere o homem em consonância com a máquina; na ter-
ceira parte é realizada a descrição dos procedimentos metodológicos;
por fim, aborda-se as congruências metafóricas entre “Bolt” e o “Nissan
GT-R” conferidas sob o viés analítico do anúncio publicitário suspenso
para apreciação.
USAIN BOLT: O HOMEM MAIS RÁPIDO DO MUNDO1
Usain St. Leo Bolt, o maior velocista de todos os tempos, nasceu em
Trelawny/Jamaica em 21 de Agosto de 1986. Após quebrar três recor-
des mundiais nos Jogos Olímpicos de 2008 (Pequim) e em seguida mais
recordes na defesa dos mesmos três títulos nos Jogos Olímpicos de 2012
(Londres) tornou-se uma“lenda viva”por se tratar do único atleta a con-
sagrar-se bicampeão consecutivo em todas as três modalidades disputa-
das em Jogos Olímpicos (100m, 200m e revezamento 4x100) até então.
1
	 Partes dessa sessão foram retiradas integralmente das seguintes fontes:
	http://www.infoescola.com/biografias/usain-bolt/
	http://imeviolao.googlepages.com/biografia-usain-bolt.html
	 http://pt.wikipedia.org/wiki/Usain_Bolt
	http://usainbolt.com/
301Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
Iniciando uma carreira esportiva no críquete, Bolt, o atleta mais
dotado já visto no mundo,ainda criança já chamava a atenção de seus
técnicos pela sua velocidade de arrancada. O técnico do seu colégio,
William Knibb, percebendo o futuro promissor do garoto, o incentivou a
deixar o críquete para ingressar no atletismo – daí por diante Usain Bolt
trilhou rumo as suas principais conquistas. O anúncio de seu reconhe-
cimento em termos mais globais, se deu pela primeira vez em Julho de
2002, no Campeonato Mundial de Atletismo Junior (Kingston). Com 15
anos de idade, o atleta venceu os 200 m (20,61s) conquistando a única
medalha de ouro individual do país anfitrião, feito que lhe conferiu
ampla visibilidade.
A partir de 2004 Bolt decidiu se profissionalizar ainda mais, porém
ao enfrentar lesões na perna o atleta foi impedido de avançar em algu-
mas competições importantes como, por exemplo, as Olimpíadas de
Atenas (2004) e o Campeonato Mundial em Helsinki, Finlândia (2005).
Dois anos mais tarde, o atleta conseguiu se recuperar e, no Mundial de
Atletismo da IAAF, em Stuttgart (Alemanha), levou a medalha de bronze
nos 200m rasos (20,1s). Em 2007, Bolt começou a disputar os 100m rasos
em competições – até então sua especialidade era apenas os 200m
rasos. Já em sua primeira disputa o atleta conquistou medalha de ouro
com tempo excepcional (10,03s) no 23º Encontro da Vardinoyiannia.
Em 2008, o atleta passou a reescrever os livros da história tornando-
-se uma das maiores estatísticas de esportes do planeta. No ranking das
disputas dos 100m, em sua segunda corrida do ano, quebrou o recorde
mundial (9,72s) em NovaYork. A partir de então, o atleta tem caminhado
“de vento em popa”para as conquistas heroicas nos Jogos Olímpicos de
Pequim e Londres e no mundo de IAAF T&F Championships em Berlim,
Daegu e Moscou. Por ter quebrado os recordes mundiais das três provas
– de 100m três vezes (Nova York, 2008; Pequim, 2008; Londres, 2012),
de 200m duas vezes (Pequim, 2008; Londres, 2012) e ainda o recorde
do revezamento 4 x 100 (Pequim, 2008) – ficou reconhecido como o
“homem mais rápido do mundo”.
302 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
Em agosto de 2013, venceu os 100 e os 200m no Campeonato Mun-
dial de Atletismo em Moscou e o revezamento 4x100m,  tornando-se
o maior vencedor de mundiais de atletismo da história. Usain Bolt foi
premiado com o Laureus World Sports man of the Year em duas ocasiões
(2009 e 2010), foi o atleta IAAF masculino do ano cinco vezes (2008, 2009,
2011, 2012, 2013), além de conquistar vários prêmios em muitos países
em todos os cantos do mundo. Em 2012, ano em que Bolt quebrou seu
último recorde em âmbito mundial, a Nissan (marca de veículos japo-
nesa) o escolheu para juntar-se ao GT-R, um carro superesportivo, em
nova ação publicitária. Usain Bolt, antes de completar os 26 anos, tor-
nou-se o“garoto-propaganda”do Nissan GT-R, obtendo peças publicitá-
rias espalhadas por vários aeroportos do mundo.
O HOMEM E A MÁQUINA: O CORPO E SUAS METÁFORAS
Com a intenção de entendermos melhor a relação entre corpo e tec-
nologia durante o transcorrer histórico da humanidade, passamos agora
a apresentar sintética e brevemente algumas transformações científicas
que pautaram esquemas de percepções que possibilitaram as metáforas
do corpo com a máquina. Suspendemos tal temática com o intuito de
refletir o domínio do corpo através das diversas técnicas e tecnologias
em momentos históricos diversos.
Os primeiros filósofos denominados de pré-socráticos (ou filóso-
fos da natureza) tentavam desvendar a origem do mundo e do homem
para além das míticas divinatórias. A preocupação era no sentido de
entender e explicar a natureza para tirá-la da “mão” e do domínio dos
deuses. Neste sentido, é errôneo restringir a cientificização e tecnifica-
ção do corpo ao pensamento das tecnologias contemporâneas, pois,
como afirma Vaz (1999), o controle/domínio da natureza – e, portanto,
do corpo – é o principal e mais antigo alvo da civilização. As técnicas,
domínios e formas de agenciamento deste perduram desde os tempos
mais longínquos do ser humano até os dias atuais. Neste sentido:
303Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
Quando falamos de corpo tecnológico não falamos de um
objeto de estudo exclusivamente atual em relação ao qual se
torne fundamental estar up to date, pelo contrário, é importante
perceber que esta interpretação que exige a atualização do
corpo face à técnica e a atualização da técnica face ao corpo
corresponde já a um processo tecnológico de agenciamento do
corpo (BÁRTOLO, 2007, p. 31-32).
No entanto, não podemos negar que os avanços mais consideráveis
no que tange ao domínio do corpo e sua natureza começaram a surgir
a partir do Renascimento – Idade Moderna. No início deste período, há
um movimento de mudança nos modos de ver e pensar o mundo. Deus
deixa de ser o centro do universo – teocentrismo – e o homem ocupa
seu lugar – antropocentrismo. Para caracterizar essa permuta, o homem
teve que tirar a natureza das mãos de Deus e então inventar técnicas para
dominá-la e manipulá-la. Na menção de Fensterseifer (2001, p. 56), dois
personagens foram importantes nessa tarefa de conquista: “Primeiro,
liberta-se a natureza do poder teológico e aqui Bacon é fundamental;
segundo, liberta-se o homem da natureza e aqui aparece Descartes”.
Nessa época, houve a preocupação em explicar o organismo atra-
vés das leis da Matemática e da Física, tentou-se explicar a vida de forma
mecânica, ou seja, foi uma tentativa de reduzir os mecanismos vivos –
principalmente e inclusive o corpo humano – a um sistema com várias
peças e com uma lógica mecânica.Tudo que não era explicado por essas
leis era considerado metafísico – ou seja, além das explicações da física.
A Idade Moderna se caracterizou por grandes revoluções em ter-
mos de conhecimento em todas as áreas. O grande empenho e curio-
sidade dos cientistas e inventores em saber como funcionam e como
fazer funcionar as máquinas, os relógios, as válvulas, dentre outros, fez
também surgir a imagem de corpo humano como uma máquina com-
plicada e complexa. A partir de então, o corpo humano passou a ser
medido, dissecado, desenhado, enfim, passou a ser um grande objeto
de experimentos.
304 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
Como nos menciona Sibilia (2002), por volta do século XV, cada vez
mais as máquinas tomaram conta da vida social, inserindo produtos
manufaturados em lugares onde permeavam o artesanal e o “natural”.
Tais aparatos – tendo como ícone o relógio e suas engrenagens – passa-
ram a maquinizar diversas funções e transferir seu ritmo e características
para a sociedade e os corpos que nela habitavam.
Emanavam assim diversas ideias e metáforas surgidas do intuito de
caracterizar o que realmente seria o ser humano/corpo, e do que seria
formado. Neste sentido, Descartes“atualiza”a cisão corpo e mente – for-
jada por Platão. Foi Descartes que cindiu o homem em duas partes dis-
tintas: o corpo – uma máquina, ou seja, um objeto como qualquer outro
e que portanto deveria ser examinado (dominado) pelo método cientí-
fico; e a mente, que seria uma alma que pensa, sendo de origem divina
(SIBILIA, 2002). Descartes, porém não conseguiu explicar como o objeto
(corpo) e a alma (mente) interagiam, no entanto, para ele a existência de
uma substância imaterial (a alma/mente) seria de extrema importância
para a existência humana, sendo situada no cérebro.
A figura de Descartes é emblemática em mais de um sentido: no
fecundo século XVII, ele se dedicou com igual ímpeto à filosofia.
Seu Tratado sobre o homem, portanto, não poderia prescindir das
inúmeras analogias de máquinas hidráulicas, relógios e autôma-
tos na tentativa de definir o corpo humano (SIBILIA, 2002, p. 66).
O mundo, até então regido por leis divinas, agora já poderia ser
lido a partir das leis mecânicas oriundas da matemática e da física.
Neste sentido, as leis estariam para o homem observar, descobrir,
explicar etc. Nada mais importante para a medicina emergente do que
desvendar“os mistérios”de Deus, deixando de lado os antigos reparos
ligados à religião, para colocar as mãos no corpo anatomizado e exa-
minar minuciosamente cada órgão, na tentativa de definir suas fun-
ções e seus atributos na complexa maquinaria do organismo humano
(SIBILIA, 2002). Foi neste sentido que a anatomia desmembrou todo o
305Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
corpo humano, tornando-o um conjunto de peças para explicar o todo
pela soma das partes.
Até aqui podemos visualizar o corpo como metáfora de um meca-
nismo de relojoaria; um objeto como outro qualquer dado na natureza
– como dizia Descartes – e formado por um amontoado de peças, sendo
que estas, separadas, poderiam explicar o corpo como um todo. Os cien-
tistas da época focavam seus estudos nas peças e órgãos inativos – o
corpo morto da anatomia – que faziam a tal máquina funcionar. Porém,
perceberam que não era possível explicar exatamente o funcionamento
da vida em um corpo desprovido de alma; afinal, era o polo imaterial e
divino (a alma)“as cordas”que davam vida ao“fantoche”(o corpo).
No entanto, nos conta Sibilia (2002), tais estudos foram base para
uma revolução do pensamento acerca do ser humano/corpo e seu fun-
cionamento biológico funcional:
[...] o médico inglês William Harvey – tido como fundador da
fisiologia moderna – reuniu vários desses achados anatômicos e
os combinou com observações de pacientes e animais vivos para
desvendar os enigmas da respiração e da circulação do sangue,
suscitando uma verdadeira revolução no pensamento acerca do
homem (SIBILIA, 2002, p. 69).
Começaapartirdetaisdescobertasaanalogiadocorpocomamáquina
a vapor – locomotiva – e tal relação entre corpo e máquina foi levada até as
últimas consequências pelo médico francês Julien Offray de La Mettrie. Foi
ele quem explanou com veemência que o corpo era uma máquina com-
posta por um amontoado de órgãos e músculos, e descartou a ideia dua-
lista de Descartes, pois La Mettrie acreditava que o homem era formado
apenas por uma substância – a material corpórea – não havendo qualquer
prova de que a tal da substância espiritual existia. Sendo assim, não seria
possível estabelecer nenhuma diferença entre o homem e o animal. Se para
Descartes os animais eram meros autômatos governados por leis da física,
para La Mettrie o homem também era um autômato (SIBILIA, 2002).
306 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
Mendes (2006, p 71-72) descreve de forma sintética como se deu
a transição da visão mecanicista de corpo do modelo de relógio para o
protótipo da máquina a vapor:
No século XIX, o modelo de máquina que influenciava a fisiologia
mecanicista era o da máquina a vapor, utilizado por Lavoisier. A
máquina animal é, então, considerada governada por três regula-
dores principais: a respiração, a transpiração e a digestão, diferen-
ciando-se dos modelos dos relógios, como ocorria na fisiologia
mecanicista do século XVII, quando os astros, as pedras e os seres
estavam submetidos às leis do movimento. Até o século XVIII não
existiu uma fronteira definida entre os seres e as coisas. As for-
ças físicas e não as mágicas explicavam os aspectos da fisiologia.
Entretanto, no século XVIII a fisiologia é influenciada pela química
e incorpora o mundo das substâncias.
Parece que o destino da humanidade, enquanto máquina, realmente
estava (pelo menos até então) inscrito nos seus órgãos – na sua anatomia e
fisiologia. No entanto, com o desenvolvimento da tecnologia e suas mudan-
çasdeparadigmas,avisãodecorpoearelaçãodelecomatecnologiamudou
esse panorama. Na menção de Sibilia (2002), a ordem e a visão mecânica
que regiam o mundo e o corpo pelas leis da física e da química aos poucos
foram dando lugar a outras formas e fundamentação; o corpo agora não
seria reduzido à máquina – amontoado de peças. O ser humano seria, então,
um feixe de informações, no qual o destino da humanidade estaria inscrito
numa estrutura minúscula do corpo: os genes – o homem informação.
Se no alvorecer da Revolução Industrial qualquer forma de vida
seria comparada à máquina, agora qualquer forma desta seria uma
soma organizada de informações/mensagens (LE BRETON, 2003). O
desenvolvimento das ciências – da eletrônica até a biologia molecular –
possibilitou o território de domínio da técnica, transpor as leis da física
clássica; o domínio agora seria em escala atômica, molecular, ou seja,
nas estruturas mais profundas e minúsculas do ser humano.
307Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
O sujeito dissolve-se em seus componentes elementares, é
um feixe de informações, uma série de instruções que visa a
seu desenvolvimento. As antigas perspectivas do humano
dissolvem-se por não encontrar mais um sujeito em seu caminho,
mas genes ou informações – uma nebulosa significante, mas cujo
rosto é diferente (LE BRETON, 2003, p. 102).
Quanto a essa mudança de metáforas, Sibilia (2002, p.74) enfatiza
que:“A mutação metafórica não é tão sutil como parece, e suas implica-
ções podem ser tão vastas (ou tão íntimas) quanto o próprio homem”.
Outro sistema de significação que vem configurar a metáfora do corpo
com a máquina/tecnologia, sai de cena a anatomia e a fisiologia e entra a
genética, que metaforiza o corpo a um chip. O corpo agora é visto como
um sistema de informação e códigos transportáveis e reproduzíveis. De
forma geral, podemos considerar o seguinte: com a anatomia e a física
clássica veio a analogia do corpo a um relógio; com a fisiologia moderna
veio a analogia com a máquina à vapor e com a engenharia genética, a
biotecnologia e a informática veio o corpo equiparado a um computa-
dor. Sendo assim, respectivamente o corpo foi reduzido ao seu conjunto
de membros e órgãos; depois aos seus sistemas (respiratório e circulató-
rio) e depois a sua molécula de DNA.
Em 1995, foi feita uma descoberta de suma importância para essa
nova visão de corpo e domínio das técnicas e tecnologias sobre ele: a
molécula de DNA (ácido desoxirribonucleico – ADN em português). Essa
estrutura é um conjunto de moléculas que possuem as instruções gené-
ticas de cada ser vivo,“[...] o texto bioquímico que codifica as especifica-
ções para a gênese de cada indivíduo”(SIBILIA, 2002, p.75). Os cientistas
também descobriram que a maneira pela qual a informação genética de
cada indivíduo era armazenada, e como tais informações eram passadas
de uma geração para outra – hereditariedade.
A linguagem decifrada há menos de cinquenta anos é universal:
todas as células de todos os seres vivos contêm um “manual
308 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
de instruções” escrito no mesmo código, o que lhes permite
reproduzir-se conservando intacta a sua informação genética.
O código é idêntico para todos os seres vivos, enquanto as
instruções nele escritas variam para cada espécie: em cada
caso, elas conformam um conjunto específico de informações
chamado genoma (SIBILIA, 2002, p. 75-76).
A partir de tais descobertas surgiu o ambicioso “Projeto Genoma”,
que consiste em localizar as cadeias de elementos que formam o DNA,
bem como determinar a localização dos genes do ser humano (LE BRE-
TON, 2003). O objetivo disto seria construir uma enciclopédia de refe-
rência para a biologia e medicina do futuro (LE BRETON, 2003), ou seja,
novas formas de domínio e manipulação do corpo.
Definitivamente, trata-se de uma brusca mudança de paradigma
tecnocientífico, que acabou deixando no passado o mundo
mecânico da física clássica e a sua natureza laboriosamente
domesticável. Na tecnociência de perspectiva fáustica, pelo con-
trário, a natureza é decomposta e recriada, não mais de acordo
com um regime mecânico-geométrico, mas segundo o modelo
informático-molecular [grifos da autora] (SIBILIA, 2002, p. 77).
As técnicas responsáveis por esse novo tipo de domínio do corpo se
dão através da relação entre biologia molecular e engenharia genética
(SIBILIA, 2002), bem como a biologia e a informática (LE BRETON, 2003).
A citação abaixo, nos mostra exemplos das relações entre tais áreas da
tecnociência, e da hibridização do metal seco com o silício úmido:
[...] os dispositivos em desenvolvimento são autênticos exemplos
de uma hibridização profunda, que mistura matérias orgânicas
e inorgânicas nos próprios aparelhos utilizados nos laboratórios.
Já existem, por exemplo, os chamados biochips ou wtchips (chips
úmidos). Trata-se de um novo tipo de microprocessador, em cuja
composição intervêm circuitos eletrônicos e tecidos vivos.
309Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
As duas classes de componentes se conectam logicamente e
intercambiamdados,porqueambasoperamcomamesmalógica:
a da informação digital. [...] Cientistas israelenses descobriram
que uma molécula de DNA [...] é capaz de armazenar bits e
processar instruções lógicas, podendo integrar os circuitos de um
computador (SIBILIA, 2002, p. 80).
O fato de a tecnociência considerar que o fundamento da vida
está imbricado em uma sequência de códigos, instruções digitais,
a tendência virtualizante da teleinformática (um dos ramos da tec-
nociência) privilegia o polo imaterial do velho dualismo cartesiano,
potencializando a mente (software) e querendo se desvencilhar das
limitações do corpo (hardware). Assim, é comum esse discurso entre os
mais entusiasmados cientistas e artistas da cibercultura; esse discurso
– paradoxal – de exclusão do corpo e potencialização da mente, como
nos denuncia Sibilia (2002, p. 84-85):
No mundo volátil do software, da inteligência artificial e
das comunicações via internet, a carne parece incomodar. A
materialidadedocorpoéumentraveasersuperadoparasepoder
mergulhar no ciberespaço e vivenciar o catálogo completo de
suas potencialidades. [...] surge assim, paradoxalmente, no cerne
de uma sociedade em feroz corrida tecnológica, avidamente
consumista e adoradora da “boa forma” física, um novo discurso
do impulso à materialidade corporal.
Esse novo paradigma científico de compreender o mundo como
uma rede de informação, e o corpo/ser humano como pura informação
(DNA), fez com que alguns pensadores desse fenômeno remetessem
certo neocartesianismo high-tech, em que a oposição corpo-alma seria
“atualizada”para o binário hardware-software [corpo-mente], sendo que
a balança pesaria mais para o lado do software [ou da mente enquanto
pensamento cognitivo] (SIBILIA, 2002). Entretanto, o corpo em seu con-
310 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
ceito físico, como tudo aquilo que existe e tem massa, volume e movi-
mento, não é descartado; a interdependência é fatal. No caso da relação
entre hardware e software, o segundo é dependente do primeiro para
existir e funcionar e vice-versa. O software necessita de uma base física
e energética capaz de agir como código binário que consiste em uma
sequência de pulsos elétricos oscilantes. Cada código é uma série fixa
ou conjunto delimitado de intensidades ou quantidades variadas entre
impulso e/ou repouso, ou 0 (0 volts) e/ou 1 (5 volts) (bit), respectiva-
mente, chamados de bytes.
Em suma, o software consiste em uma ou mais sequências lógicas –
organização – de quantidades elétricas em volts, de modo que necessita
do hardware ligado a alguma fonte emissora de eletricidade. Quando a
eletricidade circula no processador – hardware – a mesma deixa de ser
uma energia constante e invariante para então oscilar entre sequencias
de 0 volts (0 bit) e 5 volts (1 bit) ou conjuntos binários que formam os
bytes. Por outro lado, o hardware necessita do software para funcionar
enquanto tal, isto é, fazendo variar as quantidades binariamente entre 0
ou 1. Sem o software não apresenta comportamento de computador ou
de cálculo, permanece como um corpo sem pensamento. A energia ou
pulsações elétricas podem dentro dele circular, mas não irá gerar código:
sequências agrupadas de variações de intensidades de energia. Assim,
o computador é muito semelhante a uma comunicação por batidas em
um tambor musical. Uma sequência de batidas que não apresenta varia-
ção de quantidade não gera código. Contudo, uma sequência variada
entre batidas fortes, fracas, mais fortes e mais fracas podem gerar código
e comunicação.
Metaforicamente a molécula de DNA seria como um software – no
analogismo mecânico a mente/alma – de um computador/hardware –
no analogismo mecânico o corpo/máquina – a ser decifrado. Se para
Descartes o segredo da vida estava na alma/mente e decifrá-la/expli-
cá-la seria praticamente impossível, afinal sua natureza era divina, para
alguns cientistas e artistas de hoje, o DNA é a essência da vida do ser-
311Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
-humano, e o objetivo deles é decodificá-lo e livrar o ser humano de sua
precariedade enquanto corpo. Não obstante, intervir no código gené-
tico – no software – significa alterar o funcionamento lógico ou organi-
zação da base material – hardware ou corpo –; as cadências energéticas
que formam códigos. Nota-se, portanto, que para intervir no corpo, no
hardwareou no gene não se manipula o corpo, mas sim o modo de orga-
nização ou lógica de circulação e interação entre os pulsos energéticos.
Contudo, há outro problema, que certamente seja o motivo dos avanços
tecnológicos para além dos progressos lógicos. Todas as vezes que alte-
ramos os modelos lógicos que organizam as energias passamos a testar
os limites dos suportes energéticos. Ou seja, quando um software novo é
criado, mais complexo e dinâmico, pode ser que os hardwares existentes
não sejam capazes de suportar sua lógica, necessitando a construção
de novas bases materiais compatíveis com a nova inteligência artificial.
Como alerta Fensterseifer (2004, p. 293):
Podemos afirmar que só nós temos corpo, e este está na
linguagem, no mundo (não é um“dado”). É possível assim termos
vários corpos, e eles se constituem para nós em conquista, da
mesma forma que o homem conquista o seu próprio ser.
Em outras palavras, na medida em que a mente humana, que atual-
mente recebe ajudas dos softwares de computadores, vislumbra novos
modos de ser, novas maneiras de organizar a vida, outras formas de pen-
sar, ela também necessita criar e construir corpo capazes de suportas
lógicas nunca antes vivenciadas. Se assim não fosse, a indústria do har-
dware estaria estagnada e falida. Mas, é a dialética entre hardware e soft-
ware que a faz se mover. A partir desta elucidação do domínio do corpo
pelas diversas ciências, técnicas e tecnologias em suas respectivas épocas,
percebemos que o processo de hibridização e domínio/controle dele não
pertence apenas à contemporaneidade. Cada período gerou esquemas
de percepções que deram sentido a visão de mundo e de ser humano em
312 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
cada época. Reinventar tais percepções que envolvem o corpo é parte da
criação de novas metáforas para se olhar para o mesmo – uma reeduca-
ção do olhar. Isso tudo, porém, é própria e inerente da condição humana,
condição que reiteramos só existir na e pela linguagem.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Preocupados em compreender as relações factuais imbricadas no
produto midiático (anúncio publicitário) com o contexto em questão
através da descrição, decodificação e interpretação de um sistema com-
plexo de significados, optamos pela abordagem qualitativa do tipo des-
critivo-exploratória. Conforme Minayo (2002), a abordagem qualitativa
permite que o pesquisador aprofunde seus estudos – no mundo dos
significados das ações e das relações humanas.
Na área de Educação Física, tal estudo também pode se caracterizar
como uma pesquisa de análise de produto midiático que é empregada:
[...] quando se procura acompanhar determinado veículo
midiático e detectar/compreender seu conteúdo e seu discurso,
com suas possíveis intenções – por exemplo, acompanhar,
seja pela internet, ou pela mídia impressa ou mesmo por
algum programa televisivo, os discursos, os sentidos e as
representações de um grande evento esportivo (MEZZAROBA;
MENDES; PIRES, 2010, p. 202).
O anúncio publicitário escolhido para a análise trata-se do comer-
cial que veiculou a campanha mundial da Nissan para o lançamento do
carro GT-R, denominada “What If...” (“E se...”), protagonizada pelo atleta/
velocista Usain Bolt. O filme publicitário com 1m29s de duração é apre-
sentadoapartirdeumasucessãodeimagensestáticasquemostramBolt
e o GT-R juntos numa mesma“cena”ou alternados, em“cenas”diferentes.
O vídeo é apresentado a partir de 21 imagens subsequentes, aqui
agrupadas e organizadas em 6 figuras. Destas 6 figuras elencamos 4
313Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
temas que compõem a nossa análise: 1) perspectivas mecânicas e ana-
tômicas; 2) velocidade e aerodinâmica; 3) performance e suas tecnolo-
gias; 4) recordes, títulos e prêmios. Algumas das imagens/fotografias
utilizadas para constituir a cena visual se repetem, mudando apenas
o pequeno texto que as acompanham. As 2 primeiras figuras fazem
somente alusão à comparação do atleta ao carro, as 4 subsequentes
metaforizam Usain Bolt ao contexto da máquina, apontando temas que
nos permitiram proferir tais metáforas.
Figura 1: Anúncio publicitário suspenso para análise: Usain Bolt vs Nissan GT-R
Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores.
Paraefetuaraanálisedeumprodutopublicitário/midiático,umasérie
de métodos é comum: análise do discurso; análise de conteúdo; análise
estrutural da imagem; análise da mensagem linguística, análise semiótica
e outros. Por se tratar de um anúncio exibido na mídia televisiva, configu-
rando-se em forma de vídeo (filme publicitário), optamos por considerar
parte dos procedimentos sugeridos por Vanoye e Goliot-Lété (1994) para
análise fílmica – que não escapa aos preceitos pautados pelos demais
métodos supracitados. Tal escolha se deu pela identificação aproximativa
entre os elementos que constituem um vídeo publicitário e um filme.
Para esse tipo de análise,Vanoye e Goliot-Lété (1994) propõem uma
desconstrução (descrição) e reconstrução (interpretação), portanto se
configura em dois momentos. No primeiro observa-se que:
314 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
Analisar um filme ou um fragmento é, antes de mais nada, no
sentido científico do termo, assim como se analisa, por exemplo,
a composição química da água, decompô-lo em seus elementos
constitutivos. É despedaçar, descosturar, desunir, extrair,
separar, destacar e denominar materiais que não se percebem
isoladamente – a olho nu, pois se é tomado pela totalidade.
[...] Essa desconstrução pode naturalmente ser mais ou menos
aprofundada, mais ou menos seletiva segundo os desígnios da
análise. (VANOYE; GOLIOT-LÉTÉ, 1994, p. 15).
O segundo momento manifesta que devemos:
[...] estabelecer elos entre esses elementos isolados, em
compreender como eles se associam e se tornam cúmplices
para fazer surgir um todo significante: reconstruir o filme ou o
fragmento. É evidente que essa reconstrução não apresenta
qualquer ponto em comum com a realização concreta do filme. É
uma – criação – totalmente assumida pelo analista, é uma espécie
de ficção, enquanto a realização continua sendo uma realidade.
O analista traz algo ao filme; por sua atividade, à sua maneira, faz
com que o filme exista. (VANOYE e GOLIOT-LÉTÉ, 1994, p. 15)
Após transitar pelos momentos propostos pelo método, optamos
por não ficar tão restritos aos aspectos técnicos (cores, angulação e posi-
cionamento das imagens, plano de fundo, sonorização, fontes etc.), na
medida em que se pretende identificar na construção do anúncio (filme
publicitário) os elementos que nos propiciam constituir analogias refe-
rentes ao“corpo-máquina”.
O vídeo apresenta uma relação do atleta Usain Bolt com o Nissan
GT-R. Ao identificar que os registros visuais, imagens fotográficas/estáticas
– mediadas por transições e elementos textuais –, compuseram a maior
parte do anúncio, optamos, na descrição, por dividi-las e reorganizá-las
em seis grupos, ou seja, simplificamos o anúncio em seis figuras, pensadas
a partir da verossimilhança entre elas e da praticidade interpretativa no
315Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
momento posterior das análises.Tal tarefa está relacionada ao queVanoye
e Goliot-Lété (1994) enfatizaram enquanto momento inicial, citado acima.
Constituindo o segundo momento das análises, as interpretações
conferidas às metáforas sob tal perspectiva foram pensadas a partir das
comparações identificadas e pautadas sob quatro temáticas já explici-
tadas anteriormente. Valendo-se de tais prerrogativas estabelecidas, a
análise de tal produto publicitário/midiático segue através de algumas
relações concatenadas entre registros visuais e simbólicos amparados
por uma linha limítrofe: as metáforas entre corpo e máquina (Usain Bolt
x Nissan GT-R).
USAIN BOLT X GT-R: ANÁLISE DO PRODUTO MIDIÁTICO –
ANÚNCIO PUBLICITÁRIO
A fim de alcançar o objetivo desse estudo, a efetuação da análise foi
regulada sobre as pontes estabelecidas pela análise fílmica, primeiro no
sentido da fragmentação e descrição do“filme publicitário”e, por conse-
guinte, da reconstrução e interpretação do mesmo. Sendo assim, a aná-
lise a seguir encontra-se dividida em duas fases, que segue, de modo a
contemplar separadamente cada uma das considerações.
1ª Fase: Descrição do anúncio “What_If...”
Percebendo tais aproximações e ligações entre a teoria e ao anún-
cio, a análise foi pensada partindo de quatro temáticas descritas acima
e a partir destas foram conferidas as relações metafóricas. A análise fíl-
mica que propõe a interpretação enquanto possibilidade de reconstruir
o anúncio a partir das significações conferidas a partir do contexto que
se apresenta é aqui mais uma vez relembrada, pois se trata do método
escolhido para guiar-nos na proposição da respectiva análise.
Como explicitado pelos procedimentos metodológicos, trata-se de
um comercial que veicula a campanha mundial da Nissan para o lança-
mento do carro GT-R protagonizada pelo atleta/velocista Usain Bolt. O
316 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
filme publicitário com 1m29s de duração é apresentado a partir de uma
sucessão de imagens estáticas – 21 no total – que, quando não alterna-
das entre o Bolt e o GT-R, os mostra juntos numa mesma “cena”. Acom-
panhado por uma sonoplastia esportiva/radical (que alude a muita
adrenalina), transações e alguns elementos textuais, que ora remetem às
características do atleta, ora às características do carro superesportivo.
Algumas das imagens/fotografias, utilizadas para constituir a cena visual
se repetem, mudando apenas o pequeno texto que as acompanham.
Figura 2: Usain Bolt vs Nissan GT-R
Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores.
2º Fase: Reconstrução do anúncio (Interpretação)
O ato de jogar com as emoções do receptor, canalizando-as para a
compra do produto compõe as técnicas vigentes no processo de criação
publicitária. A fim de estabelecer novas propostas de venda, a publici-
dade procura concentrar-se no receptor e não no produto, ou seja, ao
invés de oferecer argumentos racionais para efetuar a compra, basear os
anúncios nas qualidades intrínsecas ou valores funcionais do produto,
procura-se anunciá-lo a partir de associações a valores emocionais do
receptor. Neste sentido, a figura da celebridade é utilizada como estraté-
gia de provocação de modo a gerar uma identificação ou uma projeção
de si (receptor) no produto. Segundo Férres (1998, p. 203):
317Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
[...] nada atrai mais as pessoas do que elas mesmas, a publicidade
não vende outra coisa a não ser projeções do próprio sujeito. Os
personagens dos anúncios não deixam de ser isso, já que a sua
função é provocar identificações e projeções. E também são pro-
jeções de nós mesmos os objetos, já que o seu objetivo é que se
transformem em prolongamentos de nós mesmos, em próteses,
em compensações. [...] A maioria dos produtos não são compra-
dos para satisfazer necessidades físicas, mas psicológicas, emoti-
vas: desejos e temores, geralmente criados de maneira artificial.
O jogo do tipo associativo ao recorrer às personalidades famosas
visa promover os produtos a partir da transferência dos valores emocio-
nais dos modelos. Usain Bolt, uma figura esportiva, recordista mundial,
o homem mais veloz do mundo etc., atribui alguns de seus valores ao
produto que, através do anúncio que se pretende interpretar, almeja
ser amparado pelo consumidor que simbolicamente será seduzido por
meio de uma possível identificação transferível. A comparação reluzente
conferida ao homem à máquina reflete uma analogia que é antiga. Um
corpo-objeto, altamente manipulável, operado a partir de uma lógica
de produção técnica-científica, compõe a ideia que excita a vontade
humana de superar os limites naturais.
Na especulação dos sentidos simbólicos transpassados no comer-
cial trazemos à tona os significados que, por ora, relacionam-se às expe-
riências implícitas na nossa subjetividade. Os valores transmitidos no
comercial através da figura do esportista ofereceram os subsídios para
pronunciarmos as metáforas. Para Le Breton (2011, p. 232) o valor é
[...] para o sujeito, a interiorização do juízo social que cerca os
atributos físicos que o caracterizam (bonito/feio, jovem/velho,
grande/pequeno, magro/gordo etc.). Segundo sua história
pessoal e a classe social no seio da qual ele estrutura sua relação
com o mundo, o sujeito faz se um juízo que marca então com sua
impressão a imagem que ele se faz de seu corpo e a estima que
ele tem por si.
318 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
Partindo de tais valores é possível sucumbir a algumas prerroga-
tivas da relação do corpo com a ciência/tecnologia e por consequên-
cia do avanço da performance esportiva e da analogia do corpo com
a máquina. Deste modo, afirmarmos que a invasão da “tecnociência” –
iniciada a partir do cientificismo de Descartes – foi a base fundante que
permitiu a manipulação e dominação do corpo e os avanços no sentido
performático do mesmo. O corpo passa a ser dominado por inúmeras
técnicas que exerceram sobre ele relações de poder, pois, como relata
Silva (2001), a transformação do corpo em algo que pode ser conhe-
cido e mensurável é, também, sua transformação em algo que pode ser
dominado. Essa dessacralização do corpo, diz a autora, aponta para sua
ambiguidade no interior da cultura ocidental: é importante enquanto
fonte de experiência, mas é, também, o corpo que se desvaloriza na
medida em que se pode mexer nele e alterá-lo.
“WhatIf_youhadnocompetition?”(E se_você não tivesse concorrên-
cia?), a primeira frase que aparece no anúncio, confere-nos à alusão da
principal ideia, do principal sentido que guiou a construção do anúncio.
A ideia de concorrência, conferida pelo atleta e pelo carro superespor-
tivo é construída, ou melhor, desconstruída continuamente a partir das
características de ambos colocadas em níveis equiparados que, dando
ênfase à impossibilidade concorrente, potencializa as metáforas entre o
homem e a máquina.
O primeiro agrupamento (Figura 3) composto por quatro imagens
subsequentes do vídeo anunciam as primeiras minúcias sobre qua-
lidades intrínsecas tanto da celebridade quanto do produto. Por sua
vez, tais características apresentadas nos remetem à primeira temática
aqui metaforizada a partir das leis mecânicas aludidas por Descartes
que, submisso a ideias cindidas entre corpo e mente, compara o corpo
humano a uma máquina complexa e complicada. Na fala de Descartes,
citado por Le Breton (2011, p. 95) – “Eu me considerei primeiramente
como tendo um rosto, mãos, braços, e toda essa máquina composta de
ossos e de carne, tal como ela aparece em um cadáver, a qual designei
319Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
pelo nome corpo”– vemos o corpo percebido como um amontoado de
peças, devendo ser dominado e examinado por métodos científicos pela
qual submerge a anatomia na tentativa de definir o funcionamento de
um conjunto a partir do entendimento sobre as partes que se somam.
Figura 3: Mecânica-Anatomia/combustão-movimento
Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores.
O motor e as fibras musculares foram dois dos elementos colocados
em foco nas imagens que se mostram. Enquanto possuidores de atribu-
tos mecânicos, o motor possui a função de transformar combustível em
energia capaz de gerar movimento nas rodas, enquanto os músculos,
da mesma forma, transformam energia química em energia mecânica,
produzindo força e movimento. Os músculos que funcionam pelo ato de
contração e extensão de suas fibras podem ser equiparados a um motor
ao proferir ao corpo a capacidade de se movimentar. Embora trabalhem
de maneiras diferenciadas, o sistema operacional muscular opera meta-
foricamente do mesmo modo que o sistema do motor de um carro: con-
verte energia em movimento.
Na primeira imagem da figura 3, a relação é conferida às funções
elencadas sob o bombeamento/adrenalina. A ação proferida pelo bom-
beamento tem por intuito fornecer energia a um fluido (combustível) de
modo a elevá-lo à conversão de energia mecânica à cinética (ou de movi-
320 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
mento) através de um motor. Deste modo, o bombeamento pode ser
definido como o ato de adicionar energia a um fluido com o desígnio de
movê-lo de um ponto para outro (OLIVEIRA; COELHO; OLIVEIRA JÚNIOR,
2009). Em contrapartida, a adrenalina/epinefrina, diferentemente de
uma ação em si, é uma substância (um hormônio) que atua como estí-
mulo ao coração (aumenta os batimentos cardíacos – o bombeamento
do sangue), estimula a vaso constrição, eleva a pressão arterial, libera a
glicose armazenada no fígado, relaxa alguns músculos involuntários ao
mesmo momento que contrai alguns outros.
A adrenalina tem sua importância para a manutenção da vida,
assim como o bombeamento – a queima de combustível – têm sua
importância dando“vida”a uma máquina. Em condições normais, a pre-
sença dessa substância no sangue (fluido humano) é muito pequena, no
entanto, nos momentos de excitação (medo, euforia) ou estresse emo-
cional é secretada uma grande quantidade de adrenalina para atuar em
determinadas partes do corpo, como nervos e músculos, de modo a pre-
pará-las para o esforço físico.
Assim, embora enquadrados em contextos distintos (humano/
máquina, natural/artificial etc.), tais níveis e funções exercidas pelas
“peças”destacadas (motor – músculos) se pareiam, na medida em que
o bombeamento do motor e a reação da adrenalina no corpo/múscu-
los são os agentes que acionam sistemas que se colocam a cumprir
funções vitais como na transformação de energias que coadunam no
ato de se movimentar.
Entre o século XVII e o século XIX as três figuras sucessivas do
corpo encontraram-se ligadas aos três paradigmas da física, da
qual são variantes e aplicações: a física dos choques (século XVII),
a física das ações a distância (século XVIII) e a termodinâmica
(século XIX). A importância da física e da mecânica da construção
de um modelo de compreensão do corpo, susceptível de ser
traduzido tanto no plano médico como no plano das práticas
quotidianas, impõem uma leitura maquínica do corpo enquanto
321Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
complexa maquinaria de tubos, de bombas, de filtros, de
alavanca onde circulam fluídos e há órgãos que se correspondem
(BÁRTOLO, 2007 p.208)
O corpo enquanto um conjunto de sistemas mecânicos e fisioló-
gicos, uma máquina perfeita, passou a ser estudado em suas minúcias
para atuar com eficiência e superar seus limites naturais na criação de
leis e técnicas que expliquem e auxiliem na maximização do rendimento
(a quebra constante de recordes etc.). O corpo-atleta tem sido tratado,
neste sentido, como uma verdadeira máquina humana capaz de perfor-
mances espetaculares.
Tal ideia provém do discurso dualista que categoriza o corpo como
objeto, um complexo habitável de símbolos. O corpo-máquina (ou o
corpo anatomizado), curiosamente carregando um sentido de máquina
bem ajustada, amorosamente supervisionada, foi absorvido paradigma-
ticamente como aquele confiável e pleno de vitalidade. Neste sentido,
um eco do ato anatômico confere um privilégio de valor metafórico.
A velocidade e ou/ o tempo de reação é a segunda temática sobre a
qual nos dispusemos a dissertar a partir das constatações apresentadas.
Enquadrada no ramo das capacidades físicas, a velocidade faz referência
aos níveis de deslocamento de um corpo em um determinado tempo
e espaço. Apresentados sob a forma de metros/segundo, os números
nas imagens conferem o tempo de reação do atleta, que pode partir de
um estímulo (tátil, visual ou auditivo) – a depender do caso – e o espaço
que ele percorre em uma fração de tempo. Do mesmo modo apresen-
tam o veículo aferidos sob a unidade de milhas/segundo, bem como a
função “modo de partida” que age perfeitamente no momento de seu
lançamento.
322 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
Figura 4: Velocidade/tempo de reação
Fonte: recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores.
Os pés/pernas do atleta e a parte traseira do carro são colocados
em ênfase em tais imagens. Durante uma corrida, o bloco de partida, no
qual o atleta encontra-se posicionado na imagem, é responsável por lan-
çar/impulsionar o atleta no momento da arrancada para que o mesmo
alcance um alto nível de velocidade mais rapidamente. Talvez esse seja
mais um ponto metafórico implícito que aproxima uma relação entre
Bolt, o atleta, e o superesportivo, GT-R, já que, como é possível conferir
nas imagens, o carro também apresenta um“modo de partida”capaz de
lançá-lo perfeitamente, mesma função atribuída ao“bloco de partida”.
Medir, mensurar, quantificar... A métrica passa a assumir centra-
lidade com o advento das tecnologias que manipulam o corpo. Nos
programas de dieta mede-se a quantidade calórica e o percentual de
gordura e nos programas de saúde percebemos que“todo um vocabulá-
rio médico-fisicalista baseado em constantes biológicas, taxas de coles-
terol, tônus muscular, capacidade aeróbica populariza-se e adquire uma
conotação‘quase moral’, fornecendo os critérios de avaliação individual”
(BRACHT, 2013, p.184). Nas performances esportivas, nos testes físicos...
– nada escapa ao número. Para Soares (2008, p.76):
A medida inaugura um modelo de olhar e ao mesmo tempo um
modo de intervir, materializando com intensidade, e quase meca-
323Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
nicamente, os processos de conformação dos corpos [...] Medir
torna-se, de fato, a ação e a intenção primeira para domesticar o
corpo e enquadrá-lo em supostas normalidades. Medir o peso, a
força, a resistência, a velocidade, a flexibilidade, e hoje mais inten-
sivamente, medir os índices de massa corporal [...].
Contudo, além das relações simbólicas dispostas nas imagens que
podem nos conferir outras tantas interpretações, a velocidade e tempo de
reação, apesar de serem medidas em unidades diferenciadas, tratam-se de
mais um fator de verossimilhança entre o homem Bolt e a máquina Nissan
GT-R.Medirequantificarníveisdemodogeral–independentementedaespe-
cificidade – é método que se confere por uma ordem comparativa e relativa.
A terceira temática foi pautada sobre os níveis da performance que
muitas vezes é subvertida aos níveis da aerodinâmica. Nos automóveis,
os resultados podem ser avantajados a partir de seus contornos, da cons-
tituição de uma arquitetura que possibilita uma redução quantitativa dos
níveis resistidos pelo ar, ou seja, os carros são projetados a partir de prin-
cípios que viabilizam o aperfeiçoamento de seu desempenho. Do mesmo
modo, as tecnologias, entre outros aspectos, estão postos para agir sobre
o corpo, em particular, sobre o seu desenvolvimento performático.
Figura 5: Performance/aerodinâmica
Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores.
Difusor, para-choque de ventilação, nervuras adicionais, sapatos
leves e personalizados, roupas dri-fit, foco, relaxamento e confiança são
os “acessórios” complementares pautados para auxiliar em tal processo
324 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
e que conferem mais uma vez os elementos metafóricos que constituem
outras aproximações entre homem e máquina. Frases que acompanham o
anúncio estão postas de modo a conferir reforço às ideias e minuciosidades
apresentadas pela figura. “Melhorou o coeficiente...” e “Desempenho melho-
rado...” são momentos que atribuem valores aos elementos/acessórios cita-
dos provedores do alcance de níveis performáticos mais elevados.
É nesta perspectiva que a ciência desmembra o corpo humano,
tomando-o como um conjunto de peças (órgãos) para estudá-lo melhor
e avançar no sentido de potencializar o mesmo para além de suas con-
dições naturais. A constituição ontológica de corpo como máquina
autoriza a potencialização de um trabalho mecanizado que permite a
subordinação do homem à ciência e à técnica, assim como à lógica da
taylorização2
. A este respeito, menciona Partisans (1978, p. 27): “El robot
del deporte está a punto de nacer”.
Aciênciaforneceoselementosquepermitirãoumcontroleeficiente
sobre o corpo e um aumento de sua eficiência mecânica. Melhorar
o funcionamento dessa máquina depende do conhecimento que se
tem de seu funcionamento e das técnicas corporais que construo
com base nesse conhecimento. (BRACHT, 1999, p. 103)
No quarto e último momento de contraposições apresentadas no
anúncio capazes de significar as nossas metáforas, são destacados os
recordes, os prêmios e os títulos já conquistados tanto pelo atleta Usain
Bolt quanto pela máquina GT-R. Em um primeiro momento é colocada
em foco a ideia de que “absolutamente não há competição” entre ambos.
Esta se trata de uma afirmativa certificada a partir das informações apre-
sentadas de forma explícita na figura seguinte – mas que veio sendo
conferida desde as imagens anteriores no percurso do anúncio a partir
2
	 A taylorização é um modelo de produção desenvolvido por Frederick W. Taylor (1856-1915).
É um método que tem sua base no controle do tempo e dos movimentos visando a padro-
nização e a fragmentação, a fim, de se obter uma redução de perdas e um aumento de
produtividade/performance.
325Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
dos dados medidos e comparados – que apresentam, por ano, a lista-
gem dos principais recordes, prêmios e títulos conquistados por eles.
Figura 6: Recordes, Títulos e Prêmios
Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores.
De um lado, o organismo – carne e subjetivação – que aos poucos se
torna, em vários aspectos,“artificial”; por outro lado, a máquina, um amon-
toado de engrenagens que aos poucos simula características humanas.
Máquinas atléticas fabricadas e subjetivadas, magníficos seres orgânicos
criados em laboratórios. Neste sentido, Kunzru (2000, p. 26) cita que:
Vencer os Jogos Olímpicos na era do ciborgue não tem a ver sim-
plesmente com correr mais rápido.Tem a ver com a interação entre
medicina, dieta, práticas de treinamento, vestimentas e fabricação
de equipamentos, visualização e controle de tempo.Tem a ver com
a ciborguização de atletas por meio de drogas e da manipulação
genética para melhorar a performance (Grifo nosso).
As mudanças na concepção de ciências mudaram também os
modos de se ver o humano. Hoje estamos na era da robótica e do cibor-
gue3
, a ciência em relação ao homem máquina evolui a passos largos e
3
	 O termo ciborgue deriva de cyborg, que é a abreviatura de cybernetic organism. Kybernetes
vem do grego, que significa“o homem que dirige”.
326 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
já se pensa na eliminação do corpo humano, projeta-se a sua recons-
trução até seu desaparecimento. A engenharia genética e a robótica
têm planos neste sentido. “Muitos autores vêm hoje com júbilo chegar
o momento abençoado do tempo‘pós-biológico’, ou‘pós-evolucionista’,
‘pós-orgânico’– em suma, o fim do corpo”(LE BRETON, 2003, p. 16).
Esse imaginário tecnocientífico é um pensamento radical da
suspeita; ele instrui o processo do corpo por meio da constatação
da precariedade da carne, de se sua falta de durabilidade, de sua
imperfeição na apreensão sensorial do mundo, da doença e da
dor que o atingem, do envelhecimento inelutável das funções e
dos órgãos, da ausência de seus desempenhos e da morte que
sempre o ameaça (LE BRETON, 2003, p. 16).
Parece que estamos próximos de nos livrar do corpo. E se isso acon-
tecer, estaremos livres de todo mal das precariedades de nossa carne,
dos limites impostos por ela. Estaríamos entrando numa nova era em
que não mais o dualismo corpo e mente se oporiam, seria agora a opo-
sição do corpo em relação ao próprio sujeito.
“Can’t be_beat” (“Não pode ser_derrotado”) é a frase que encerra
o anúncio. Disputando sobre as pistas, o GT-R e Bolt são colocados em
patamares semelhantes. A partir da constatação das verossimilhanças
aparentes e da incapacidade de competirem entre si (por serem idênti-
cos), foram forjados os elementos que nos permitem averiguar e cons-
tituir simbolicamente as metáforas entre o homem e a máquina a partir
de figuras pautadas e das temáticas transcorridas.
Entendendo a imagem como uma complexa representação de sig-
nos, tal interpretação e a analogia acima citada foram pensadas a partir
da ideia de que a mente é capaz de criar, a partir de signos externos,
outros signos equivalentes ou até mais desenvolvidos. Sendo assim, à
guisa de síntese, compreendemos o corpo como ente construído por
meio de interações de significados no interior de um determinado con-
texto que a ele atribui sentidos. Essa produção pode se dar a partir de
327Jessica Vitorino da S. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes
formalismos mais objetivos ou num plano mais simbólico e subjetivo.
Para Bártolo (2007), onde se encontra um corpo dever-se-á encontrar
também uma rede de relações instrumentais, uma série em funciona-
mento, de operadores epistêmicos, uma lógica de produção que é, antes
de qualquer coisa, produção de sentido, de um determinado sentido
legitimador da rede de relações, do funcionamento dos operadores, do
próprio procedimento das lógicas produtivas.
“Toda imagem, mesmo aquela tornada mais asséptica, a mais rigo-
rosamente sujeitada ao signo, suscita no homem um apelo do imagi-
nário” (LE BRETON, 2011, p. 331). A capacidade mental de decodificar
as mensagens inscritas nos incitou a estabelecer alguns sentidos em
relação à disposição das imagens. Ao realizar essas reflexões, considera-
mos que a significação se coloca entre o “poder de vir a ser”do sentido,
na medida em que não é possível apreender o sentido em si, mas tão
somente explicitar uma significação que pode ou não estar de acordo
com o sentido real.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A publicidade, dentre as suas inúmeras estratégias, tem buscado
realizar associações entre valores de um determinado produto à partir
daqueles proferidos por celebridades. Sob uma perspectiva sígnica, são
feitas as devidas transferências através de um jogo pautado na mani-
pulação emocional e simbólica, a fim de alavancar a venda de produtos
de consumo. Conferir personalidade ao produto para que o consumidor
adquira um signo identitário através dele integra uma estratégia em ter-
mos táticos de venda.
No anúncio publicitário analisado, o atleta Usain Bolt, o “homem
mais rápido do mundo”, foi associado a um carro superesportivo (Nissan
GT-R) lançado em sua versão 2013. Assim, aponta relações e metáforas,
expostas pelas palavras e pelas imagens presentes no anúncio sobre o
corpo-máquina. As imagens apresentadas pelo anúncio ofereceram os
328 USAIN BOLT E O CORPO MÁQUINA
signos que propiciaram a pauta dessignificação metafórica a partir de
quatro temas: 1) perspectivas mecânicas e anatômicas; 2) velocidade e
aerodinâmica; 3) performance e suas tecnologias; 4) recordes, títulos e prê-
mios. Utilizando-se de métodos elencados pela“análise fílmica”, dividimos a
parte de discussão em dois momentos, a saber: fragmentação/descrição e
reconstrução/interpretação. Assim, foi possível alcançar a proposta desen-
volvida pelo objetivo da pesquisa que foi analisar os elementos metafóricos
do anúncio publicitário da Nissan capazes de conferir a relação entre corpo
e máquina através da manipulação simbólica do atleta/velocista Usain Bolt
e do carro superesportivo NissanGT-R, respectivamente.
A apropriação do ser humano por meio da ciência e da técnica o fez
um imperativo da modernidade. A tecnologia transformou este ser em
produto que impulsiona a produção de tantos outros. Toda essa rela-
ção entre ciência e tecnologia se dá em consonância com a racionali-
zação do sistema de produção na sociedade. É esse o argumento que
também justifica a utilização de Usain Bolt no contexto de um produto
publicitário/midiático.
As analogias e metáforas entre “corpo e máquina” historicamente
construídas vêm nos mostrar que não existe sujeito ou subjetividade
fora da história e fora dos signos sociais – linguagem. Não há sujeito sem
cultura, nem cultura fora de uma estrutura mediada por saberes – ciên-
cia/tecnologia. Enquanto seres de cultura, estamos envoltos por opera-
dores de sentido, poucos entre nós estamos atentos em saber o que de
nós é“feito”e o que em nós é“desfeito”.
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A MARCA“NIKE”, SEUS
SIGNOS E ARGUMENTOS:
UM ESTUDO DE SEMIÓTICA APLICADA
Vinicius dos Santos Souza
Elder Silva Correia
Tiago de Brito Ferreira Santos
Renato Izidoro da Silva
RESUMO: O presente estudo elegeu como seu objeto de investigação a logo-
marca da empresa de materiais esportivos chamada Nike; que faz referência à
deus grega Nice: diva da vitória. Com base na semiótica de Peirce, objetivamos
identificar e compreender os fundamentos perceptivos e históricos responsá-
veis por sustentar a referida logomarca como um signo capaz de representar a
empresa em suas finalidades comerciais. Buscamos demonstrar que a escolha
dalogomarcapelosfundadoresdaempresaobedeceumalinhaargumentativa
voltada à construção de vínculos semióticos – perceptivos e históricos – entre a
marca, seus produtos e o comportamento de seus consumidores. A logomarca
implica, portanto, uma linguagem voltada para a possibilidade de um vínculo
comunicativo entre o produto e a subjetividade de seu consumidor; de modo
que o primeiro passa a logicamente fazer parte dos pensamentos e dos com-
portamentos do segundo.
PALAVRAS-CHAVE: Marca esportiva Nike. Subjetivação. Governabilidade.
Consumo. Semiótica.
332 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
INTRODUÇÃO
A governabilidade das marcas esportivas direcionada ao consumi-
dor, implica na capacidade empresarial de, mediante suas ações polí-
ticas e econômicas, pautar o comportamento e o desejo das pessoas
articulados ao consumo. A ação do comprar pode ser caracterizada em
diversas ocasiões de sentidos e significados coletivos e particulares. Para
tanto, há um sem fim de signos que, conforme uma doutrina semiótica,
operam nas propostas de compra de diversos produtos, dentre eles
os materiais esportivos. O código em que nossa “política de vida” está
escrito deriva da pragmática do comprar (BAUMAN, 2001, p.87).
Considerando tais características, a pretensão deste artigo foi ave-
riguar os esquemas perceptivos que, em termos semióticos, sustentam
a marca esportiva “Nike” no interior das dinâmicas contemporâneas de
consumo, mais especificamente, tomando como ponto de partida, sua
logomarca (Imagem 1). Diante disso, compreendemos que a relação
estabelecida entre a marca e o consumidor suscita uma relação de iden-
tificação semiótica, por meio da qual a constituição (características) da
marca provoca determinados comportamentos. Para melhor entender-
mos tal relação, é necessária aqui uma reflexão sobre os signos na forma-
ção das identidades no campo dos estudos sobre cultura.
Imagem 1: Logomarca da Nike
Fonte: Google Imagens 01
333Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
Primeiramente, é importante lembrarmos que o signo, na menção
de Peirce (2005, p.46): “[...] é aquilo que, sob certo aspecto ou modo,
representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente
dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvol-
vido [...]”. Frente a esse conceito de signo, consideramos necessário enfa-
tizar uma característica do mesmo (talvez a mais importante): o signo
tem o poder de representar seu objeto na subjetividade de uma pessoa.
Neste sentido, ele só pode funcionar como signo se tiver esse poder de
representar, substituir, de estar no lugar de algo (seu objeto) que seja
diferente dele. Ou seja, o signo não é o objeto, ele é o outro, está apenas
no lugar do objeto.
Assim, o signo só pode substituir o objeto de um certo modo, numa
certa capacidade, mas nunca por inteiro ou completamente, pois sua
principal característica é a diferença e seu poder de representação (SAN-
TAELLA, 2007). Além disso, em semiótica, considera-se que o signo é o
único modo de um sujeito apreender a realidade objetiva em sua sub-
jetividade. Ou seja, a realidade externa apenas pode ser pensada pela
mente se, e somente se, ela for traduzida pela percepção e pela cogni-
ção na forma de signo, de modo que, quando presente na subjetividade,
passa a se articular com outros signos, construindo redes de associação
semiótica: argumentos. A formação da identidade cultural é constituída
mediante a exposição do sujeito aos discursos e signos veiculados no
tecido social, os quais, paulatinamente, são subjetivados e, dessa forma,
passam a constituir seus pensamentos. A formação do sujeito, ou de sua
identidade, acontece mediante o contexto cultural e simbólico com qual
o mesmo está em contato e, nesse sentido, a experiência é a grande ope-
radora desse processo.
Entender a formação do sujeito baseados na semiótica de Peirce,
é compreender que as experiências vividas passam a ser experiências
pretéritas, passando, portanto, a ser aquilo que já foi e não é mais; é
outra coisa que tem o poder de representar, ou seja, é um signo com o
poder de agir e operar na mente do sujeito. A experiência pretérita passa
334 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
a ter um estatuto de alteridade para a consciência, formando assim um
não-ego interno (IBRI, 1992). Esse estatuto de alteridade existe porque a
experiência pretérita é algo distinto e exterior ao sujeito – sujeito este
que já é formado por um ego. Ao passar por uma experiência, o sujeito
não continua mais o mesmo, exatamente, porque a experiência deixa
resultados na mente do mesmo, que passam a participar/interferir nas
experiências presentes e futuras do sujeito.
Esse processo de incorporação de novas experiências no ego do
sujeito, ou de novos signos na mente do mesmo, é denominado sub-
jetivação. Peirce (2005) menciona que, para ocorrer esse processo, é
necessário que a mente esteja exposta a novos fenômenos que gerem
novos signos e que tenham o poder de significação, ou seja, que façam
sentido para a mesma. Esse processo pode se dar de alguns modos,
como por indução, dedução e por abdução. Mediante esse último –
abdução – a mente afetada tem o poder de gerar novas ideias e per-
cepções para os signos que lhes são apresentados e para o contexto
(cultural e simbólico) com que a mesma está em contato. Isso acontece
na medida em que é necessária uma real significação que represente,
que faça sentido para o sujeito. A partir daí, a abdução consiste em
um ato de criação, algum tipo de ligação entre signos ainda não pen-
sada pela mente, tampouco existente no fenômeno objetivo. Contudo,
esse novo signo criado pela mente pode ser objetivado no campo da
expressão a fim de afetar outras mentes, fazendo-as subjetivar novas
ideias, mas tornando-as habituais.
É seguindo essa lógica que as marcas esportivas, através de suas
propagandas, procuram operar na mente dos seus consumidores, à qual
através da apresentação de novos signos e significações, se juntam aos
signos já existentes na mente dos mesmos, gerando, assim, uma espé-
cie de conflito entre os signos novos e os já existentes e, consequen-
temente, criando novos signos e pensamentos nas pessoas. Em outras
palavras, o novo signo proposto por exemplo, por um comercial de
televisão, quando subjetivado por alguém, passa a funcionar na mente
335Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
como algo estranho: um não-ego. Ele é um não ego porque ainda não
passou para o campo da ação motora do sujeito, ou seja, para compor
sua expressão, não fazendo, portanto, parte de sua personalidade de um
dado modo pelo qual o sujeito diz: esse sou eu. Contudo, com o tempo,
esse signo estranho, que apenas está na mente, mas não no ato expres-
sivo do sujeito, aos poucos, em diálogo com outros signos estabelecidos
como compositores do ego pretérito da pessoa, poderá se ligar na forma
de um novo ego.
Levando isso em consideração, entendemos que as mensagens
geradas e transmitidas por uma marca esportiva, ou sua logomarca,
agem diretamente na subjetividade do indivíduo frente à exposição
dos signos gerados por meio de propagandas veiculadas pelas mídias
de massa. A partir da experiência e do contato com tais signos, o indiví-
duo incorpora em si, por um princípio de alteridade, em sua identidade,
também a identidade da marca. Funciona como se sua identidade fosse
o seu ego interno e a identidade da marca fosse o não-ego formado a
partir do contato do sujeito com a marca. Desse encontro, entre ego e
não-ego (signo da marca, como novidade subjetiva para a mente do
sujeito), ambas se alteram mutuamente constituindo comportamentos
e fazendo parte das experiências presentes e futuras.
Neste sentido, o objetivo da marca é criar uma relação de identi-
dade com o consumidor, e uma das estratégias par se atingir tal desígnio
é através da manipulação de sua logomarca, a qual busca em si trazer o
significado/sentido/significação da marca, bem como o argumento que
a sustenta no sentido de ser aceita ou subjetivada pelo sujeito. Sob este
aspecto, podemos considerar a marca como sendo um operador mental,
um software que opera na cabeça do consumidor a partir do argumento
da mesma. Relembrando o conceito de signo como algo que representa
em certa medida um objeto que não ele mesmo, a marca tenta exata-
mente ser o signo de alguma coisa além dela, para poder, assim, operar
na mente do consumidor. Ela é um signo exatamente porque precisa
ser algo novo, diferente e externo do sujeito, que represente algo para
336 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
ele, bem como ao mesmo tempo deve ser algo que, em certa medida,
seja familiar ao sujeito, para que lhe possa atribuir sentido e significação,
enquanto a única via possível de um novo signo não passar desperce-
bido pela mente do espectador.
Tendo como objeto de estudo a marca “Nike”, interessa-nos per-
guntar: qual o argumento do criador da mesma? Qual operação cog-
nitiva construiu a marca? O que a Nike quer representar na cabeça dos
consumidores? A logo da Nike “quer estar no lugar de quê”? O que ela
representa? Considerando a logomarca da Nike como uma linguagem,
notamos que a mesma está fundada em esquemas perceptivos. A logo,
sendo uma forma de linguagem, contém um potencial comunicativo de
diversos tipos de mensagens que produzem efeitos variados nos recep-
tores/consumidores, efeitos esses que vão desde o nível “puramente
emocional, sensório até os níveis metafóricos e simbólicos”(SANTAELLA,
2005, p.59). Sendo assim, o objetivo do presente texto foi, a partir de
um estudo semiótico da logo da marca esportiva Nike, desvendar quais
esquemas perceptivos sustentam os argumentos da empresa.
Visando alcançar esse objetivo, o presente escrito está dividido em
três partes: na primeira parte discorremos a respeito de nosso caminho
teórico-metodológico, o qual está baseado na Semiótica de Peirce; num
segundo momento, fazemos a análise semiótica da logomarca da Nike;
por fim, estabelecemos de forma ensaística uma relação do argumento
da Nike com os ideais gregos relacionados à deusa Nice e ao esporte.
METODOLOGIA
A logomarca da Nike, vista sob o viés de um signo que representa
alguma coisa, ou até mesmo um conjunto de coisas, além dela própria,
acaba ocupando na mente de alguém o lugar dessa(s) coisa(s) por sua
capacidade qualitativa e quantitativa. Ou seja, ele faz lembrar, imaginar
e/ou identificar subjetivamente uma determinada coisa, mesmo sobre
sua ausência objetiva. Nesse sentido, através de uma análise pautada
337Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
teórica e metodologicamente na semiótica, buscamos compreender,
o que a logomarca da Nike pode ou intenta representar – subjetivar –
na mente do indivíduo a partir dos mecanismos e níveis da experiência
fenomenológica.
É importante identificar quais os níveis da experiência
fenomenológica que a logomarca da Nike possibilita ao consumidor?
Quais categorias da experiência fenomenológica são contempladas a
partir dela? É devido a tais questões que nosso referencial teórico-me-
todológico está baseado na Semiótica de Peirce, pois compreendemos
que nele podemos visualizar uma intensa relação entre as categorias
da experiência e toda a constituição de sua semiótica. Podemos afir-
mar que a semiótica de Peirce tem como base a fenomenologia – bem
como a característica de transcendê-la por operações retóricas ou argu-
mentativas. Na menção de Peirce, a fenomenologia tem como objetivo
descrever/identificar de modo geral as formas pelas quais os fenôme-
nos se apresentam no mundo para uma mente. O fenômeno é qualquer
acontecimento percebido, por alguém, no mundo (IBRI, 1992). Todo e
qualquer fenômeno só pode existir em três modos: Primeiridade, Secun-
didade e Terceiridade.
A partir disso, a análise e interpretação semiótica implicam na uti-
lização dessa tricotomia, cujos termos também podem ser chamados,
respectivamente, de Originalidade (nível básico), Obsistência (nível
intermediário) e Transuação (nível mais complexo), respectivamente;
que são, em suma, os níveis ou as capacidades em que alguma coisa
pode ser dividida na experiência sensitiva, perceptiva e cognitiva. Logo,
a utilização da semiótica nesse estudo se faz necessária pelo fato de aqui
estarmos discutindo questões relacionadas à linguagem e aos proces-
sos de comunicação (área bastante abordada no campo da semiótica),
assim como o estudo dos signos envolvidos com a logomarca que, supo-
mos, busca comunicar algo; que representa algo diferente dela, mas que
com ela possui algumas relações de semelhança. Podemos visualizar tais
questões na descrição de Santaella (2005, p.59):
338 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
As linguagens estão fundamentadas em esquemas perceptivos.
Assim sendo, os processos perceptivos também fazem parte dos
estudos semióticos. Além disso, a semiótica estuda os processos
de comunicação, pois não há mensagem sem signos e não há
comunicação sem mensagem. É por isso que a semiótica nos
habilita a compreender o potencial comunicativo de todos
os tipos de mensagens, nos variados efeitos que estão aptos a
produzir no receptor. Esses efeitos vão desde o nível puramente
emocional, sensório até os níveis metafóricos e simbólicos.
Com isso, queremos identificar os variados efeitos – resultados
cognitivos, que são signos, da experiência sensitiva e perceptiva – que
a logomarca da Nike pode/quer provocar, despertar na mente do indi-
víduo, do seu consumidor, em forma de pensamento e de comporta-
mento (expressão). Seguindo essa linha, na prática, desejamos apontar
que a logomarca Nike, enquanto signo e capacidade, não à toa, repre-
senta esse papel de levar à mente do consumidor uma identificação
de maneira subjetiva, em relação a materiais esportivos ou a uma
série de fenômenos associados a essa linha, mesmo quando ausentes
objetivamente, apenas por estarem amparados por um argumento já
pré-estabelecido.
Com isso, veremos que no campo das propagandas, seus profis-
sionais procuram, antes de tudo, estabelecer um argumento de venda-
-compra-consumo, para em seguida buscar nas realidades objetivas e
subjetivas fundamentos materiais (sensações) e ideativos (percepções)
capazes de fazer com que esse mesmo argumento faça sentido. Para
isso, os mesmos (publicitários) devem elencar signos de Primeiridade,
Secundidade e Terceiridade, para sustentarem o seu argumento inicial.
Cada um desses três níveis de experiências abarcam níveis internos.
Segundo Netto (1980, p. 61):“A primeiridade recobre o nível do sensível
e do qualitativo e abrange o Ícone, o Qualissigno e o Rema”. Diz respeito
a qualidades mais singulares, impressões primeiras dos signos; aquilo
que se apresenta em primeira instância, seja em sua forma simples [sen-
339Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
sações] e/ou mais desenvolvidas [objetos e palavras] – sempre no plano
das qualidades ou existências primárias que podem servir de base ou
ponto de partida para se estabelecer relação (de Secundidade ou deTer-
ceiridade) com outras coisas.
Já no que se refere à Secundidade, “[...] diz respeito ao nível da
experiência, da coisa ou do evento: é o caso do Índice, do Sinsigno e do
Dicissigno”(Ibidem, p.61). Há uma qualidade, objeto ou palavra (Primeiri-
dade), que se relaciona, objetiva e/ou subjetivamente, com um segundo
elemento, que pode ser outra qualidade, um objeto ou uma palavra.
Quando ocorre a combinação de dois elementos dessa natureza, cha-
mamos de experiência de Secundidade, justamente porque em relação
a um primeiro entra em contracena um segundo. A Terceiridade que,
segundo Netto (Ibidem, p.61), “[...] refere-se à mente, ao pensamento,
isto é, à razão. Neste nível está presente o campo do Símbolo, do Legis-
signo e do Argumento”. Logo, a Terceiridade pode ser entendida como a
interpretação da mente, o terceiro da relação semiótica, que interpreta
o fato e adquire o signo mais desenvolvido, seja como uma lei, um sím-
bolo ou um argumento que busca explicar ou justificar as experiências
de Primeiradade e de Secundidade.
Antes de continuarmos, é importante destacar algumas questões
a respeito destas três categorias fenomenológicas, de modo a melhor
compreendermos as relações entre as mesmas. Não há como compreen-
der a Terceiridade sem que estejam presentes a primeira e a segunda
categorias. Assim como também não é possível a Secundidade sem que
esteja presente a Primeiridade. Ou seja, não tem como avançar para um
nívelfenomenológicoseguintesemhaverumnívelanterior,assim,éuma
experiência contínua. A experiência ocorre nesses três modos de ser do
fenômeno, que se articulam entre si, coexistem, se entrelaçam, pois não
há uma relação linear entre os mesmos, o que marca uma característica
de simultaneidade dos três, não tendo como identificar ao certo qual
dos três se sobressai. Podemos apenas identificar uma maior predomi-
nância de uma ou de outra, porém nunca somente de uma. Com isso,
340 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
podemos compreender que ao experimentamos um determinado fenô-
meno, a experiência implicada por esse resulta em uma percepção de
simultaneidade. Isso acontece na medida em que não percebemos de
forma fragmentada o fenômeno apresentado/percebido, mas ele, com
suas características misturadas, entrelaçadas, seus diversos aspectos e
modos de ser ao mesmo tempo, misturando sensações, ideias a respeito
da experiência gerada.
No que tange à Primeiridade, o Qualissigno tem como caracte-
rísticas ser um pré-signo, mais precisamente uma qualidade não cor-
porificada, atua como uma simples sensação, mas ainda não há uma
significação que o faça um signo, embora contenha a potência de sê-lo.
Para exemplificar, trazemos a cor vermelha, uma qualidade primária.
Não estamos falando de um objeto vermelho ou da palavra “vermelho”.
Trata-se de conceber o vermelho sem objeto, sem nome, à espera, jus-
tamente, de um objeto e/ou de um nome com os quais possa compor
outro signo. Segundo Peirce, “[...] um Qualissigno é uma qualidade que
é um Signo. Não pode atuar realmente como signo até que se corpo-
rifique; mas esta corporificação nada tem a ver com seu caráter como
signo”(PEIRCE, 2005, p. 52).
O Ícone tem como sua principal característica sua forma de repre-
sentação através da semelhança, quando é necessária a imagem para
o reconhecimento de um signo, enquanto objeto; como por exemplo,
fotografias de pessoas. Segundo Peirce (2005, p. 64), “[...] o ícone é um
signo que possui relação de semelhança global ou geral (real ou não)
com o objeto, ou seja, ele independente de existir ou não, necessita esta-
belecer uma semelhança com o objeto”.
O Rema estabelece uma relação de primeiridade com o signo
interpretante. Para Peirce (2005, p. 51):“Um Rema é um Signo que, para
seu Interpretante, é um signo de possibilidade qualitativa [...] é enten-
dido como representando esta e aquela espécie de objeto possível.
Todo Rema, propiciará, talvez, alguma informação, mas não é interpre-
tado nesse sentido”. Outra questão que caracterisa o Rema é que ele
341Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
está relacionado à escrita e não à imagem como o ícone. Um exemplo
é a palavra “vermelho”, que não traz consigo uma qualidade primária
(a cor vermelha), nem tampouco está relacionada a nenhuma outra
coisa ou palavra, estamos falando apenas da palavra“vermelho”. Sendo
assim, quando ela é associada a alguma coisa, como por exemplo uma
camisa, ela passa para a secundidade da existência (discente), como
veremos a seguir. Assim, toda palavra tem a potência de ser associada
a alguma outra de modo a produzir sentido em uma frase ou proposi-
ção. Mas, enquanto estiver só, ela não significa nada senão ela própria
e alguma qualidade que ela representa, sem, contudo, significar algo
além disso.
No que se refere à secundidade, temos inicialmente o Sinsigno, que
para Peirce (2005, p.52): “[...] é uma coisa ou evento existente e real que
é um signo. E só o pode ser através de suas qualidades, de tal modo
envolve um Qualissigno, ou melhor, vários qualissignos”. Ou seja, um
Sinsigno é para alguém uma qualidade articulada a outra qualidade e
sua subjetivação se dá ao passo que os qualissignos se tornam existen-
tes, concretos mediantes essas associações. Um exemplo, as sensações
da cor branca e da temperatura gelada, quando vemos observamos a
neve. Essa última é o objeto, enquanto que a qualidade de ser branca e
qualidade de ser gelada são dimensões que estão além dela.
O Índice, para Peirce,“é um signo que se refere ao Objeto, que
denota em virtude de ser realmente afetado por esse Objeto” (PEIRCE,
2005, p. 52). Portanto, esse tipo de signo passa a ideia de que algo exis-
tiu ou existe como, por exemplo, a fumaça que indica que há ou houve
fogo, embora nem sempre a relação seja verdadeira, mas existe uma
possibilidade. A fumaça é apenas um dos efeitos causados pelo fogo,
não possui nenhuma semelhança com o fogo, mas é causada por ele. O
índice, portanto, não se limita a qualidades no sentido de promover na
mente uma definição relacional. O calor, que é uma qualidade, pode ser
um indicativo da existência do fogo; mas, a fumaça é um indicativo, no
nível do objeto, mais evidente.
342 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
O Dicissigno existe no campo das associações linguísticas, ou seja,
quando dois objetos e qualidades são relacionados linguisticamente,
como quando falamos que “o céu é azul” ou simplesmente “céu azul”.
Vejamos que nesse momento o rema deixa de representar a si mesmo
e à qualidade que designa para formar um contexto ou uma realidade
mais ampla. Segundo Peirce (2005, p. 53), o dicissigno deve apontar
alguma existência real.Em outras palavras, uma proposição ou frase lin-
guística correspondente com algum fenômeno real de causa e efeito ou
de relações adjetivas, substantivas ou verbais. Por conseguinte, a propo-
sição “céu azul” implica uma existência real. Contudo, a frase “céu mar-
rom”dificilmente terá uma correlação com alguma existência real, salvo
nossa ignorância quanto às diversas tonalidades que o céu pode tomar
mediante sua relação real com o sol, as nuvens e outros componentes
químicos que estejam no ar.
Já sobre a Terceiridade, temos inicialmente o Legissigno, que “[...]
é uma lei que é um signo” (PEIRCE, 2005, p. 52). Essa lei só pode ser
estabelecida pelos homens através de qualidades estruturadas e que
está presente em todos os signos mais estruturados. Para exemplificar, o
semáforo de trânsito. Quando pensamos no mesmo, imediatamente vem
à mente que o sinal vermelho que significa “pare”, que o amarelo pede
“atenção”e o que o verde significa“seguir adiante”. Temos uma lei formu-
lada que nos obriga a agir de maneira a obedecê-la, mas se mudássemos
o semáforo e nele escrevêssemos o“siga adiante”em vermelho e o“pare”
em verde, teríamos uma confusão de signos que nos foram apresentados
anteriormente, o que fugiria da função do Legissigno, e todo um processo
teria que ser refeito para que pudéssemos formular uma nova convenção.
O Símbolo “[...] é um signo que se refere ao objeto que denota em
virtude de uma lei, normalmente uma associação de ideias gerais que
opera no sentido de fazer com que o Símbolo seja interpretado como
se referindo àquele Objeto”(PEIRCE, 2005, p. 52). Assim, o Símbolo pode
não possuir relação de semelhança com seu objeto, pois foi estabelecido
por convenção de ideias, o símbolo é por definição um tipo geral de lei
343Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
representativa. De outro modo, o símbolo consiste em ter a existência na
forma de traço, cuja semelhança se dá apenas em relação a ele mesmo,
mas seu poder representativo pode ser mais flexível que o de um ícone
ou índice, por exemplo, justamente por operar mediante consenso arbi-
trário. Esse tipo de signo, portanto, tem como condição experimental ser
da ordem de uma cifra, que deverá ser decifrada.
Por fim, o Argumento “[...] é um Signo que para seu Interpretante é
Signo de lei [...] é um signo que é entendido como representando seu
Objeto em seu caráter de Signo”(PEIRCE, 2005, p.53). O argumento paira
sobre as leis que cercam objeto, tornando-se compreensível para todos
aqueles que entram em contato consigo. Como podemos ver nos dis-
cursos atrelados aos comerciais, na intenção de conquistar o consumi-
dor para determinado produto. Veremos que o argumento é construído
tendo como base e trazendo à tona em sua expressão muitos dos signos
anteriormente explicitados e definidos. Não obstante, todo argumento
deve mobilizar o maior número de outras espécies de signos que puder,
tais como, ícones, índices, legissignos, remas, dicentes etc., a fim de se
compor consistentemente. Porém, o argumento deverá oferecer à rea-
lidade um dado a mais, uma espécie de juízo ou de verdade hipotética
ainda não percebida pela maioria das pessoas. Por isso, o argumento é
muito comum em teses científicas, ou em romances, bem como em cál-
culos e fórmulas matemáticas.
A fim de visualizarmos como se organiza tal processo e como ele
fica posicionado na forma de organização de Peirce, trazemos essa
tabela sugerida por Souza:
Tabela 1 - O signo e suas relações
Signo em relação a: Primeiridade Secundidade Terceiridade
Si mesmo (representamen) Qualissigno Sinsigno Legissigno
Objeto Ícone Índice Símbolo
Interpretante Rema Dicente Argumento
Fonte: SOUZA (2006, p. 161)
344 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
Na tabela de Souza (2006) apresentada acima, podemos identifi-
car os níveis de experiência: Primeiridade, Secundidade e Terceiridade,
abordando o desenvolvimento dos signos, em cada respectivo nível da
experiência, no sentido vertical de cima para baixo, que corresponde ao
do mais simples ao mais complexo e abstrato, ou seja, do signo em rela-
ção a si mesmo, passando pelo signo enquanto objeto, atingindo sua
dimensão interpretante. Já na evolução horizontal, temos os signos em
relação a: Si mesmo, ao Objeto e ao Interpretante. Cada qual possui um
desenvolvimento que atravessa os três níveis da experiência aponta-
dos anteriormente. Com isso, um signo em relação a si mesmo pode ser
experimentado tanto em uma experiência de primeiridade, quanto de
secundidade e de terceiridade.
Sobre os signos presentes na tabela, identificamos o signo Argu-
mento como sendo o mais completo, ou genuíno, como aponta Peirce
(2005); por estar presente na terceira linha vertical (signo em relação
à) e em terceiro também na linha horizontal (níveis de experiências).
Esse signo está diretamente relacionado aos outros signos por ser uma
evolução, um signo desenvolvido a partir de outros. Em contrapartida,
identificamos, também, o signo mais degenerado, ou seja, mais puro
entre todos, que é o Qualissigno, por estar na primeira fase do nível de
experiência, como também do signo em relação a si mesmo. O que pro-
curaremos mostrar aqui é que o qualissigno pode funcionar enquanto
signo de maneira dependente de um argumento. Isso implica dizer que
um argumento previamente estabelecido em uma mente faz com que a
percepção corporal e mental já sejam, de antemão, formatadas quanto
ao quadro de significados.
Nestesentido,tomamosessequadrocomoinstrumento/ferramenta
de análise da logomarca, pois entendemos que baseados nele podemos
demonstrar de forma mais organizada e analítica os elementos/signos
que correspondem a cada experiência fenomenológica gerada a partir
do contato da logomarca da Nike, de modo a notarmos como o argu-
mento da mesma pode ser sustentado, em outros termos, que signos
345Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
mais elementares são acionados pela marca Nike e sua logomarca a
fim de tornar ou manter seu argumento consistente e convincente no
campo da retórica, para além de qualquer proposição lógica que exige
um vínculo ou coincidência com as possibilidades reais ou objetivas de
uma relação entre signos. Não obstante, a logomarca em questão está
fundamentada em uma ficção, em parte, muito distante de uma reali-
dade material independente de nossa imaginação.
ANÁLISE SEMIÓTICA DA LOGOMARCA DA NIKE
Estando claro o que Peirce denomina de níveis da experiência feno-
menológica, passaremos agora à busca por identificar e compreender,
mediante processo de análise de dados, quais níveis da experiência a
logomarca da Nike abarca para buscar fundamentar o argumento que
constitui, a sustenta, passando a criar um elo e uma identidade com
o consumidor, isso é, com signos prévios já existentes e mobilizados
em sua mente. Por isso, antes da análise propriamente dita, para uma
melhor compreensão dos signos presentes na logomarca, é importante
destacar que tanto a figura da asa presente na logo da Nike, assim como
também o próprio nome, foram inspirados na deusa da mitologia grega
chamada Nice, que personificava a vitória. É importante também, de
maneira breve, apresentar questões relacionadas às considerações his-
tóricas da marca, antes de fazermos a análise da sua logomarca.
A empresa nasceu através de um treinador de atletismo universitá-
rio, Bill Bowerman, e seu sócio Phil Knight, que sempre acharam que os
tênis utilizados nas corridas de atletismo deveriam ser melhorados e aos
poucos foram efetuando inúmeras experiências com uma torradeira elé-
trica na casa de Bill, usando materiais como cimento, borracha, a fim de
descobrir uma sola melhor adaptada ao desempenho desportivo e ao
bem estar do atleta. Com resultados bastante satisfatórios, e com uma
aprovação imediata dos que passaram a utilizar seus produtos, começou
a crescer incrivelmente o número de pedidos. Desta maneira se fez a Blue
346 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
Ribon Sports, chamada assim por seus fundadores, fazendo referência ao
navio que fazia a travessia mais rápida do Atlântico naquela época. Pos-
teriormente é que o nome foi mudado para Nike, fazendo referência à
deusa grega da vitória Nice, bastante apropriado para uma marca de cal-
çados de corrida esportiva, à qual estão associadas, previamente, ideias
como a de vitória, velocidade, leveza.
A empresa Nike foi fundada em 1972 na cidade de Beaverton, no
estado de Oregon, nos Estados Unidos. O chamado Swoosh, logotipo
da marca (“asas da vitória”), foi criado por Carolyn Davidson em 1971,
um ano antes da fundação da Nike, sendo vendido por apenas U$35 à
empresa de Bowerman. A logo passou a ser a marca registrada em 1975.
Ao longo dos anos, o famoso símbolo da marca americana foi sofrendo
algumas modificações, sendo apresentado em outras cores, com o nome
da marca deixando de estar presente na logo, entre outras modificações
que vieram a ocorrer.
No que tange à análise semiótica da logomarca, no nível de expe-
riência fenomenológica da Primeiridade, identificamos que ela possui
alguns qualissignos: as cores preta e branca, bem como as curvas que
formam a asa e a palavra (Nike). Porém, ainda não é possível identificar
que as cores a as formas constituem uma imagem e uma palavra, pois
trata-se apenas da qualidade das cores e das formas. Na medida em que
essas cores se corporificam à figura (forma) da asa e à palavra (Nike), des-
tacando seus contornos, temos aí um sinsigno que corresponde a uma
experiência de Secundidade, pois se está relacionando duas qualidades
(cor e forma), produzindo um determinado sentido que possibilita iden-
tificar o desenho da asa e a palavra Nike. A partir do momento em que,
arbitrariamente ou por meio de uma lei, a junção entre o desenho da asa
e a palavra passa a representar, por consenso social – num determinado
contexto/grupo – a marca Nike, temos aí um legissigno que pertence a
uma experiência de Terceiridade.
O desenho da asa, presente na logomarca, tem o objetivo de ope-
rar como ícone da própria marca e de tudo que está relacionado a ela
347Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
– como os seus produtos e os próprios consumidores desses produtos.
Esta relação icônica consiste em estabelecer um elo entre a asa e a marca
por meio de traços de semelhança, e com isso a intenção da marca é
criar na mente do consumidor signos que indiquem que, ao se apropriar
de seus produtos, ele passe a possuir características que se assemelhem
tanto à marca, como também à deusa que dá origem à sua logomarca.
Ou seja, a marca deve ser semelhante à deusa Nice, assim como também
os seus produtos e consumidores. O estabelecimento dessa relação de
semelhança (icônica) corresponde ao nível de Primeiridade.
Ao estabelecer esse primeiro plano de semelhança, a marca tam-
bém almeja criar um segundo plano, que seria estabelecer uma relação
de ação (usar um produto da marca) e resultado (obter um determi-
nado resultado a partir do uso) no que tange ao uso de seus produtos.
A marca Nike tenta, a partir disso, gerar uma relação lógica que seria:
ao usar os produtos da Nike, o consumidor se sentirá mais próximo da
vitória na medida em que a logomarca e a tessitura argumentativa da
marca forjam uma relação de existência com a deusa que personifica
a vitória. A Nike, por meio de sua logomarca, procura criar na subjetivi-
dade do consumidor um signo inicial de realidade a respeito do uso de
seus produtos e dos possíveis resultados (vitória). Portanto, na mente
do consumidor, parte do argumento tenta funcionar como se a relação
entre a existência do produto implicasse, no real, a causa da vitória. Em
outras palavras, o produto acoplado ao corpo do consumidor deverá
indicar que ele é um sujeito vitorioso. Da mesma forma que a ausência
desse produto deverá funcionar como índice da derrota ou do fracasso.
Trata-se do nível de secundidade da experiência.
Percebemos que a logomarca possibilita também uma experiência
que corresponde ao que Peirce chama de símbolo, e que constitui um
dos signos da Terceiridade. Identificamos que, simbolicamente, a asa
representa os signos da vitória (quando essa não está associada dire-
tamente ou por semelhança com a deusa Nice) no esporte. Porém, para
exercer tal representação, a logomarca precisou fazer uma associação
348 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
de ideias, pois a asa por si só não tem a capacidade representativa nem
do esporte e nem da vitória, exigindo um trabalho de arbitrariedade
e consenso para então operar como representante dessas realidades.
Para isso, a marca ancorou-se na deusa Nice, pois ela representa a vitó-
ria e, por ser grega, simbolicamente ela também tem a capacidade de
representar o esporte, na medida em que, para o senso comum, bem
como para alguns teóricos, a Grécia foi o berço dos Jogos Olímpicos e,
portanto, do desporto. Podemos perceber com isso o caráter consensual
do símbolo e da associação de ideias que os criadores da logomarca pre-
cisaram estabelecer para dar poder à logomarca da Nike no sentido de
operar como símbolo da vitória e do esporte.
No nível deTerceiridade, podemos também encontrar o Argumento
que fundamenta a existência da própria marca no contexto do mercado
de produtos esportivos, por consequência, estabelecendo uma relação
identitária entre essa e o consumidor de seus produtos. Por sua vez, o
Argumento é formado por todas as experiências mencionadas até aqui.
Isso acontece, porque a logomarca precisa produzir no consumidor
efeitos variados em diversos níveis. Por ser uma linguagem, deve atin-
gir níveis sensórios, emocionais, metafóricos e simbólicos (SANTAELLA,
2005) para que faça sentido ao consumidor. O Argumento da Nike é
que através do uso de seus produtos, seus consumidores estarão tendo
em mãos a vitória, sobretudo no esporte. E para isso fundamenta-se na
mitologia grega e em sua deusa da vitória para corresponder ao seu
Argumento. Podemos notar também o caráter arbitrário do Argumento,
pois ele só pôde existir e fazer sentido a partir da associação de leis que
o constituem e o legitimam no âmbito da retórica, desgarrado, em parte,
do campo da lógica.
Por fim, a tabela abaixo traz um resumo da análise realizada com
o intuito de possibilitar um reforço sistematizado do que foi refletido,
principalmente separando cada elemento da análise em suas respec-
tivas categorias/níveis da experiência fenomenológica proposta por
Charles Peirce.
349Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
Tabela 2 - Níveis da experiência fenomenológica proposta por Peirce
Signo em
relação a:
Primeiridade Secundidade Terceiridade
Si mesmo
(representamen)
Qualissigno
Cor preta
Cor branca
Curvas da asa
Curvas da fonte da
palavra
Sinsigno
Relação entre
as cores preta e
branca e o formato
da asa e da palavra
para dar contraste.
Legissigno
Composição dos
elementos para
representar a
logomarca da Nike.
Objeto Ícone
Asa como ícone da
marca
Índice
A Asa como indício
de vitória.
Símbolo
A asa como símbolo
de vitória e esporte.
Interpretante Rema
A palavra“Nike”
Dicente
___
Argumento
O uso da logomarca
da Nike como
vitória no esporte.
Fonte: Adaptado de SOUZA (2006, p. 161)
A NIKE ENQUANTO MARCA ESPORTIVA E O“ESPORTE GREGO”
Mediante ao que foi exposto até então, compreendemos que o
argumento da marca Nike, para criar um vínculo de identificação
com seu consumidor, bem como para manter-se no mercado, está
pautado no signo da vitória de forma geral, porém principalmente
no esporte. Ou seja, somos sabedores de que quando o consumidor
compra algum produto da Nike, o mesmo não está levando apenas o
produto em si, mais do que isso, está levando um objeto carregado
por todo um ideal de vitória, especialmente de vitória no esporte
ou olímpico. E não é um mero ideal, afinal este vem da deusa alada
grega Nice, a personificação da vitória.
Talvez não houvesse personagem mais adequada para os criadores da
marca se inspirarem, para fundar seu argumento, do que uma deusa grega
que representasse a vitória. Por ser uma deusa grega, representaria bem a
vitória no esporte, afinal, muitos consideram a Grécia antiga como o berço
do esporte. Então, nada mais“perfeito”do que um personagem que repre-
350 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
sente vitória e esporte, para ser a base do ideal e do argumento de uma
marca esportiva – grande astúcia dos fundadores da marca. Apesar disso
estarclaro,nãosabemosoporquêdessaescolha,oporquêdosmotivosque
levaramamarcaaapostar,paraodesenhodesualogomarca,naasadeuma
deusa grega, bem como no nome da marca, que também está inspirada na
mesma. Mais do que isso, não sabemos os argumentos que fundamentam
a ideia de que o esporte moderno é uma continuação dos jogos praticados
na Grécia antiga. De todo modo, a deusa grega Nice consiste em um signo,
dentro de algumas capacidades, deveras adequado para constituir uma
dimensão sensorial, perceptiva e simbólica do argumento.
Diante disso, entendemos que essa escolha não aconteceu de modo
arbitrário e nossa hipótese para a mesma é que os criadores pensaram
na deusa Nice devido ao entendimento de que o esporte nasceu na Gré-
cia antiga com o objetivo de cultuar os deuses. Basearam-se numa deusa
grega que personificava a vitória para ter três grandes signos que repre-
sentassem o esporte: uma deusa, a vitória e o berço do nascimento do
esporte. O entendimento é de que ao reportar-se ao esporte, que supos-
tamente fora criado na Grécia antiga, se atribuiria também aos ideais
gregos que contemplavam o mesmo, principalmente nos Jogos Anti-
gos. Além do senso comum, como mencionam Lima, Martins e Capraro
(2009), muitas publicações científicas relatam o surgimento dos Jogos
Antigos e seu ressurgimento em 1886, com o Francês Pierre de Couber-
tein, momento das Olimpíadas Modernas.
Rubio (2002) é uma das pesquisadoras que considera o esporte
moderno como herdeiro dos Jogos Olímpicos da Grécia Helênica.
Para ela, o esporte teve sua origem ainda no período pré-histórico e
foi organizado na Grécia antiga como um dos eventos que possuíam
maior importância na Antiguidade. Ainda a autora considera o esporte
na Grécia Helênica como um importante elemento para a educação
grega. Quando se fala do antigo esporte grego, está se falando de um
fenômeno de grande influência na cultura da Grécia Antiga, pois para a
formação de um cidadão o processo de purificação do espírito passava
351Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
pela perfeição do corpo e, neste sentido, para a educação integral, ou
“Paideia”; atividades físicas tal como o esporte eram essenciais, sendo
pilares da educação grega, além do que ideais como estes forneceram
grande fundamento para o Ocidente (RUBIO, 2002).
Rubio (2002) destaca que os Jogos Olímpicos faziam parte dos
Jogos Pan-Helênicos (que eram formados por quatro grandes compe-
tições) e eram realizados para prestar homenagem ao deus Zeus. Os
jogos ocorriam de quatro em quatro anos, escolha essa que ocorreu por
ser o dia em que o Sol, atingindo o ponto mais alto de sua trajetória
no hemisfério Norte, mostrava todo o seu brilho, mostrando assim sua
vitória aos seus inimigos (RUBIO, 2002). Ainda segundo a autora, havia
aqueles que praticavam o esporte, bem como todos os outros pilares da
educação grega, como também aqueles que se serviam do esporte ape-
nas em busca da vitória pela vitória a qualquer preço, preocupando-se
apenas em competir. Porém, existiam aqueles que viviam nas competi-
ções, viviam do esporte, mas que não eram profissionais (no sentido do
termo tal como entendemos atualmente) (RUBIO, 2002).
No que tange à competição na Grécia Helênica:
[...] para os gregos, era considerada um princípio vital, não ape-
nas pelo rendimento ambicionado, mas em si mesma com inde-
pendência de todo objetivo. O indivíduo crescia e se desenvolvia
dentro de um espírito criador, um competidor à sua maneira, um
‘agonista’. Assim, a rivalidade fazia parte da essência da vida, não
apenas em situações onde é fácil a determinação da vitória ou da
derrota, mas também em situações imponderáveis como a criação
artística. Para o grego, a dignidade e o valor de uma competição
não residiam nos resultados. O fator determinante era o brilho e o
ardor que penetrava nos corpos e espíritos durante o jogo das pos-
sibilidades, dominando o instante supremo (RUBIO, 2002, p.136).
A autora ainda compreende que o esporte chegou à modernidade
e adaptou-se ao contexto, sofrendo influências políticas, sociais e eco-
352 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
nômicas, servindo como suporte para uma série de dramatizações da
sociedade (RUBIO, 2002). Isso quer dizer que autora enfatiza que o que
chamamos de esporte hoje é uma continuidade, ou é herdeiro, bem como
outros autores chamam, do esporte na Grécia antiga, mesmo com todas
as transformações e diferenças na contemporaneidade em relação ao que
ocorria na antiguidade. Visto isso, o que a marca Nike pretende, ao ter
como sustentação do seu argumento uma deusa grega, que representa
a vitória e o esporte, é justamente resgatar a ideia do que é o esporte,
deixando entender o que a marca compreende em sua gênese, com seus
supostos verdadeiros ideais, sobretudo no que tange à vitória. Isso quer
dizer que a marca objetiva poder ser capaz de produzir na mente do con-
sumidor a vitória e o esporte em seu maior estado de excelência. Afinal de
contas, seu verdadeiro objetivo é homenagear os deuses, que, por conse-
guinte, dará a recompensa, que são os poderes que lhes são atribuídos.
A deusa Nice vem estampada nas medalhas olímpicas de verão sim-
bolizando a vitória. Porém, a Nike visa despertar a sensação de vitória,
mesmo que não seja no esporte em si, afinal o ideário grego pregava
a competição à maneira do indivíduo, não especificamente na situa-
ção que exigiria de forma direta a vitória ou a derrota. Isso acontece na
medida em que o foco não reside no resultado em si, mas sim no ato
pleno da situação (independente que seja num jogo ou na vida de um
modo geral), pois a dignidade e o valor não estariam centrados no ven-
cer a competição, no instante em que estar ali, competindo, já poderia
significar uma forma de vitória, já que diz respeito a um grupo seleto.
Mediante a essa tendência – que inclusive a Nike utiliza – que considera
o esporte moderno como sendo uma continuidade dos jogos gregos,
até que ponto corremos o risco de relacionar dois fenômenos distintos e,
neste sentido, querer atribuir valores ao esporte que não lhe são ineren-
tes, visto o objetivo do mesmo, bem como o contexto socioeconômico
na contemporaneidade?
Compreendemos, a partir de Elias e Dunning (1992), que os Jogos
Olímpicos da Grécia apresentavam características bastante peculiares
353Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
e se desenvolveram em situações e contextos bastante diferentes do
esporte moderno. Lima, Martins e Capraro (2009), baseados em Gutt-
mann (2001), mencionam que é um grande erro considerar os jogos gre-
gos como os antecessores dos jogos modernos. As práticas antigas se
assemelhavam muito mais às dos povos primitivos do que os da moder-
nidade. Além disso, o caráter religioso dos jogos gregos era o que dava
sentido aos mesmos. Em relação ao termo Jogos Olímpicos, autores
como Simonovic acreditam que há uma interpretação equivocada no
que tange ao uso do mesmo por Coubertin. Pois, segundo o autor, o
barão não usou no sentido da herança espiritual antiga, mas sim porque
apresentava um caráter de solenidade, no qual viu uma denotação para
utilizar nas competições esportivas internacionais e que planejava orga-
nizar e institucionalizar (LIMA; MARTINS; CAPRARO, 2002).
Em concordância, escreveram Allen Guttmann (1978), Norbert
Elias (1992) e Eric Hobsbawm (1997), entre outros autores, que o
esporte é moderno. Ainda que Guttmann (1978) fale de raciona-
lização e burocratização, Elias (1992) destaque o controle da vio-
lência e o processo de civilização ou ainda que Hobsbawm (1997)
se refira à formação do esporte como um instrumento como tan-
tos outros, utilizado para inculcar valores e normas de comporta-
mento através da repetição, todos concordam que o esporte como
é conhecido hoje apresenta sua origem na Inglaterra no decorrer
dos séculos XVIII e XIX (LIMA; MARTINS; CAPRARO, 2002, p. 9).
O que se pretende afirmar é que o esporte é eminentemente um
produto da modernidade e nada tem a ver com os jogos antigos, na
medida em que a forma do jogo não importa, o que deve ser analisado
é o objetivo do mesmo. Deve-se levar em conta o contexto sócio histó-
rico, político e econômico do fenômeno. Frente a isso, entendemos que
a Nike, ao fundamentar-se no argumento do esporte reportando a um
ideário grego, apresenta contradições na medida em que desconsidera
o contexto tanto antigo como no moderno. Contraditório porque, pri-
354 A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS
meiramente, o esporte é um produto da modernidade e pouco tem a
ver com os Jogos Olímpicos da antiguidade. Além disso, é contraditório
porque é difícil falar em vitória no ideário grego, em um esporte que visa
a qualquer custo o máximo rendimento, a vitória a qualquer preço.
A contradição está presente também na medida em que a própria
marca investe na estrutura desse esporte, seja pagando fortunas a atle-
tas de alto nível, participando da organização de eventos cujo o objetivo
é o ganho financeiro e o espetáculo. Contudo, em certa medida e pers-
pectiva, todo esse conjunto de signos vem sendo adequado aos prin-
cípios da empresa Nike, pois, no campo dos argumentos, ou podemos
dizer no campo da retórica, o problema da origem não existe a rigor,
mas sim considera a capacidade de um signo criar na mente de alguém
outro signo, equivalente ou mais desenvolvido. O que a marca Nike faz é,
justamente, criar e desenvolver na mente de seus consumidores signos
desenvolvidos a partir daqueles já consolidados pela história.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo deste estudo foi analisar, pautado na semiótica de Chales
Sanders Peirce, a logomarca esportiva da Nike buscando compreender
de que maneira os signos presentes em sua logo chegam até a socie-
dade estabelecendo uma relação do argumento da Nike com os ideais
gregos relacionados à deusa Nice ligadas ao fenômeno esportivo.
A logomarca da Nike considerada como uma linguagem, está fun-
dada em esquemas perceptivos que produzem significações na sub-
jetividade dos indivíduos. Desta forma, a logo contém um potencial
comunicativo de diversos tipos de mensagens que produz efeitos varia-
dos nos receptores/consumidores, efeitos esses que transitam nos mais
variados níveis: emocionais, sensoriais e simbólicos. Assim, podemos
perceber que a logomarca da Nike é constituída por signos que corres-
pondem aos três modos da semiótica peirciana: Primeiridade, Secundi-
dade e Terceiridade – que sustentam o seu argumento inicial.
355Vinicius dos Santos Souza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva
Concluímos assim que a Nike, ao sustentar seu argumento no
âmbito esportivo na figura da deusa grega Nice – deusa da vitória –,
tenta resgatar a ideia do que é o esporte, supondo que o compreende
em sua gênese, com seus hipotéticos ideais verdadeiros sobretudo no
que tange à vitória. O que a marca Nike ambiciona é, exatamente, criar
e desenvolver na mente de seus consumidores signos gerados a partir
daqueles já consolidados pela história do esporte, e vai buscar isso
justamente no ideário grego – berço da civilização ocidental.
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search?newwindow=1&espv= 210&es_sm=93&biw= 1366&bih= 643&tbm=
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SOUZA, L. S. de. Introdução às teorias semióticas. Petrópolis, RJ: Editora Vozes,
2006.
“APELEQUEHABITO”EABIOTECNOLOGIA:
ANÁLISE FÍLMICA DE UMA
ONTOLOGIA INDETERMINADA
Joseneide de Amorim Santos
Fabio Zoboli
Renato Izidoro da Silva
Elder Silva Correia
RESUMO: Objetivou realizar uma análise do filme “A pele que Habito” dirigido por
Pedro Almodóvar, no sentido de auxiliar na compreensão de questões relativas a
biotecnologialigadaaocorpoemseusaspectosfundamentaisdaontologiahuma-
na.Ofilmeapresentaquestõesinquietantesnoquetangeàmanipulaçãodocorpo
pela tecnologia na modernidade, na medida em que rompe com os limites ontoló-
gicos conhecidos entre natural/artificial colocando em cheque a seu fundamento
na experiência humana. Como método de pesquisa foi utilizada a análise fílmica,
respeitando as fases de decomposição e reconstrução. Os dados foram organiza-
dos a partir de duas temáticas: a primeira diz respeito à “pele”, analisada segundo
duas sub temáticas denominadas “potencialização da pele” e “transgenese”; e a
segunda temática, intitulada “mudança de sexo”, investigada mediante as sub
temáticas: “vaginoplastia” e “modulação do corpo masculino em feminino”. Os
resultados apontam que a proposta do cineasta foi entrelaçar ficção e realidade
vislumbrando provocar tensões – estranhamentos e desconfortos – éticas e es-
téticas no horizonte possível e do indeterminado da experiência biotecnológica
enquantonovosparâmetrosparaasreflexõesontológicasnaatualidade.
PALAVRAS-CHAVE: Corpo; Biotecnologia; Análise fílmica; Filme “A pele que habi-
to”;PedroAlmodóvar.
358 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem como seu fundamento principal a realização
de uma análise fílmica da obra “A pele que Habito”, objetivando com-
preender, mediante um recorte temático e teórico-metodológico, o con-
texto da biotecnologia ligada ao corpo no interior da trama de ficção
científica dirigida pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar. A investi-
gação está ligada ao grupo de pesquisa “Corpo e Governabilidade”, que
estuda o corpo sob o viés da cultura e da política e tem como alguns
dos eixos de apreciação as questões atreladas às relações entre corpo e
comunicação e corpo e técnica/tecnologia.
A biotecnologia é um conceito que está ligado a aplicações tecno-
lógicas que utilizam sistemas biológicos – organismos vivos ou parte
deles – para produzir ou transformar produtos ou processos orgânicos e
anatômicos específicos. Por organismos vivos entendemos as plantas, os
animais e os seres humanos – também considerados uma espécie ani-
mal – fundados em mecanismos físico-químicos e fisiológicos capazes
de interagir com o ambiente de modo a sofrer transformações internas,
mas também provocar mudanças externas.
O corpo, enquanto modo de ser e existir humano, sempre se mostrou
vulnerável enquanto natureza; afinal, viver é estar preso a uma condição de
natureza corpórea. Na superação das vulnerabilidades impostas pela natu-
reza corporal, o homem – enquanto espécie –buscou potencializar suas
capacidadesesuperarsuasprecariedadesparaalémdessascondições.Desta
forma, o ser humano passou a manipular conhecimentos, técnicas e objetos
a fim de “reformar” a natureza em vista da satisfação de suas necessidades
e de seus desejos mais antagônicos. Na invenção de procedimentos para
acrescentar à natureza o que nela não há, o corpo humano historicamente
foisefundindocomaciência/tecnologiaesetransformandomediantecom-
posições anteriormente inexistentes e impensáveis.
A biotecnologia está sustentada na aplicação da tríade ciência/téc-
nica/tecnologia sobre o corpo para sua potencialização e extensão para
359Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
além de sua condição de natureza, ou seja, o uso da ciência ligada ao
aperfeiçoamento corporal – na qual os corpos naturalmente limitados
para algumas tarefas podem ser biotecnologicamente corrigidos e apri-
morados a fim de melhorar a condição humana segundo as demandas
de um dado contexto físico e cultural contemporâneo. A biotecnologia
mistura o artificial e o natural numa composição que atrela o ser bioló-
gico e o fabricado. Técnicas manipulativas que extrapolam a mera carac-
terização aparente dos corpos no sentido de transformações funcionais
incluem na humanidade mutações estéticas e ontológicas.
O filme “A pele que habito” foi construído e apresentado como
efeito artístico e cultural motivado pelas produções das ciências bio-
tecnológicas contemporâneas. Apresenta questões características da
modernidade no que tange à manipulação do corpo pela técnica e
pela tecnologia para uma dada efetividade funcional e estética própria
do universo cultural contemporâneo permitido pelo avanço científico.
Essas manifestações postas no interior do filme se tornam inquietantes
na medida em que rompem com os limites entre presente e futuro, real
e imaginário, entrelaçando ficção e realidade de modo a evocar um fas-
cinante e intrigante desconforto no espectador devido ao poder poético
e estético de suspensão da descrença que a obra provoca.
Contextualizando o filme em pauta no conjunto da obra de Almo-
dóvar, observamos uma continuidade de sua mudança de foco temático
e cinematográfico em relação a perspectivas trabalhadas. No caso do
filme suspenso para análise, o cineasta traz ao palco uma crítica ligada a
um tema abordado no campo da ciência. Com isso, ele permite pensar
não apenas num aprimoramento de suas obras, mas mostra a necessi-
dade de abordar tais contextos da modernidade. Seu amadurecimento
artístico está para sua história assim como o desenvolvimento científico
presente no filme está para a história do corpo e da própria humani-
dade. Ambas falam de uma evolução gradual.
Pedro Almodóvar Caballero nasceu na Espanha no dia 24 de setem-
bro de 1951. Ele passou alguns anos estudando numa escola de padres,
360 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
período marcado por resignação e medos. Foi onde perdeu a fé ao tes-
temunhar o abuso sexual na escola de padres, mas também onde teve
suas primeiras aproximações com o cinema. Em 1985 criou com seu
irmão, Augustin Almodóvar, a produtora “El deseo”, que expressa desde
já seu estilo pautado no princípio da liberdade de expressão.
Almodóvar, a partir de sua personalidade, aborda temas relaciona-
dos às “ações humanas impulsionadas pelo desejo”, apresentando em
suas produções assuntos ligados à educação religiosa, à sexualidade
– tema corriqueiro em suas narrativas. “Com o cineasta a paixão ficou
latente na tela e explodiu fora dela. Mulheres, homens e travestis convi-
vem, de forma, às vezes, harmoniosa. E, em muitos momentos, eferves-
centes”(GOMES e CURADORES, 2011, p,6).
No início da década de 1980 em“Pepi, Luci, Bom e outras garotas de
montão”, seu primeiro filme exibido comercialmente, aparecem todos
os elementos característicos dos trabalhos seguintes; sendo eles: “Labi-
rinto de Paixões”(1982),“Maus Hábitos”(1983),“Que Eu Fiz para Merecer
Isto?” (1984), “Matador” (1986), “A Lei do Desejo” (1987). Com a consa-
gração internacional, cria “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”
(1988), “Ata-me” (1989), “De Salto Alto” (1991), “Kika” (1993), “A Flor do
Meu Segredo”(1995). Já com maior maturidade artística dá vida a“Carne
Trêmula” (1997), “Tudo sobre Minha Mãe” (1999) – película esta que lhe
deu o Oscar de melhor filme estrangeiro.
“Fale com ela” (2002), “Má Educação” (2004), “Volver” (2006), “A
vereadora Antropofágica” (2009), “Abraços Partidos” (2009), “A pele que
habito” (2011) e “Amantes Passageiros” (2013) são filmes que mostram
a maturidade do cineasta frente ao novo século. Os últimos filmes de
Almodóvar deixam um pouco de lado certa noção de desejo estrita-
mente ligado à sensualidade libidinal exacerbada, na medida em que
suas ficções começam a figurar a potência do desejo na manipulação
do corpo do outro em prol de sua realização sublimada que transcende
o ato sexual. Preocupações sobre a reflexão da existência assimilam a
ciência – suas técnicas e tecnologias – no campo de uma radicalização
361Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
dramática da condição trágica da humanidade íntima das possibilidades
e dos limites dos desejos mais libidinosos, tônica de toda sua obra.
Por essa via, Almodóvar vem alcançando a meta de provocar estra-
nhamento ao mesmo tempo em que, enquanto exceção à norma, possa
naturalizar uma regra na provocação/recepção estética dos fenômenos
científicos, políticos, culturais etc. no cinema. Trata-se de uma relação
estreita entre estética e moral; sensação corporal e problemas éticos;
realização do desejo e efetividade da ciência. Apostamos na hipótese de
que seus filmes vislumbram e fazem com que o espectador rompa em si
os modos tradicionais de sentir a vida humana em suas tramas familia-
res, sociais, políticas e físicas.
“A Pele que Habito” reafirma, embora que diferenciando, a sexua-
lidade nas obras de Almodóvar, compreendida pelo cruzamento de
gêneros expostos a partir da apresentação da figura de uma lésbica e
na transmutação forçada do sexo masculino em feminino. O jogo de
gênero é parte da construção narrativa acoplada no efervescente da
trama em que não bastaria mostrar apenas a subversão dos gêneros
revolucionários e condizentes principalmente há décadas passadas, mas
a modificação extrema do corpo; ou seja, dos índices sexuais secundá-
rios como pelugem, formas corporais, tom da voz. Essa modificação, por
sua vez, é procedente do cenário atual que diz das mudanças nos pro-
cessos sociais, quando da possibilidade real de se tornar o outro sexo
mediante procedimentos – técnicos – cirúrgicos mediados por avança-
das tecnologias.
Visando ao nosso objetivo, este escrito foi organizado a partir de 3
seções: num primeiro momento discorremos sobre a relação do corpo
com a biotecnologia; na segunda parte foi construída a descrição dos
procedimentos metodológicos; e na terceira parte produzimos a análise
dos dados a fim de conferir as relações do corpo e da biotecnologia com
o contexto fílmico da película“A pele que habito”.
362 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
CORPO E BIOTECNOLOGIA
O ser humano se desprende do sanar das urgências vitais mediadas
pelo instinto, para planos de outras ordens. Ao fazer isso, o homem se dife-
rencia dentre os animais no sentido da utilização da técnica e dos objetos
(tecnologias) disponíveis no ambiente. Transcendente às circustâncias
objetivas e atuais de sua existência, mediante um retiro para dentro de si –
sua subjetividade – não aguarda um favorecimento – ou dádiva – da natu-
reza para concretizar seus projetos oníricos ou imaginários. “O comum a
esses atos é a invenção de um procedimento que nos permite obter o que
não há na natureza, mas de que precisamos”(CUPANI, 2011, p. 32).
Em face de suas circunstâncais corporais, não aguarda a vontade
evolucionista da natureza – de sua genética – para se colocar empreen-
dimentos objetivamente indisponíveis sem uma visão de projeto; de vir-
tualidade, de potência transformativa acerca do disponível. Ao dominar
natureza/corpo, o humano passa a ser o senhorio da mesma, estabele-
cendo assim uma relação de objeto com o próprio corpo, portanto, com
ele mesmo – coisificação. Ou seja, o ser humano passa a ser ao mesmo
tempo dominador e dominado. Neste sentido, Vaz (1999, p. 91) destaca
que “[...] ao pensarmos que também somos parte da natureza, ou, [...]
que temos parte da natureza em nós. Tornamo-nos outros em relação a
nós mesmos, objetos perante um espelho”.
Pela manipulação técnica mediada por tecnologia, o corpo cada vez
mais se transformou em alvo de ações governantes, no sentido de que
todo governo, conforme suas aspirações, promove mudanças teleoló-
gicas nas existências naturais. O corpo se transformou sob as condições
que as ciências/tecnologias lhe oportunizaram para governar e trans-
cender a sua e a natureza alheia. Assim, a técnica/tecnologia constante-
mente está buscando dominar e ultrapassar as fronteiras teleológicas do
corpo humano natural, tornando-o “[...] escaneado, purificado, gerado,
remanejado, renaturado, artificializado, recodificado geneticamente,
decomposto e reconstruído [...]”(LE BRETON, 2003, p. 26).
363Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
Nikolas (2013, p. 53-54) exemplifica os vínculos entre governo e
biotecnologia ao comentar sobre a Organização para Cooperação Eco-
nômica e Desenvolvimento ter projetado para 2030 ações sobre bioeco-
nomia mediante a criação de cenários imaginários capazes de esboçar
uma agenda futurista estratégica para governos em relação ao setor de
biotecnologia como parte da bioeconomia. Esse imaginário abarcaria
certos valores latentes presentes em processos biológicos orientados
para a produção da saúde aprimorada e sustentável. Conforme a autora,
Wladby chegou a propor o conceito de “biovalor” para “[...] caracterizar
os modos pelos quais os corpos e os tecidos derivados dos mortos são
recortados para a preservação e o incremento da saúde e da vitalidade
dos vivos” (NIKOLAS, 2013, p. 53). Nesse sentido, embora o valor esteja
aparentemente atrelado ao objeto de consumo, na verdade o valor
latente está no próprio corpo; basta que pesquisas descubram proces-
sos biológicos a serem potencializados.
Bio-processos sendo pontencializados significam que a vida passa a
ser governanda segundo uma lógica da transcendência e do excedente.
A biotecnologia permite, por exemplo, que as pessoas sejam mais do que
são ou esperavam ser. Sem embargo, por se tratar de pessoas, conforme
Nikolas (2013, p. 55) e suas reflexões junto a Milller, o governo de uma eco-
nomia depende de mecanismos discursivos que representam o domínio a
ser governado como um campo inteligível: passível de ser conhecido pela
ciência. Deduzindo essa premissa para a realidade corporal, o corpo é jus-
tamente o domínio a ser governado e, para tanto, a ser conhecido em suas
virtualidades e necessidades. Com efeito, nossa anatomia passa a ser ima-
ginada no horizonte do possível excedente: a pele pode desempenhar
suficientemente a função de proteção, por exemplo. Contudo, por que
não fortalecer ainda mais essa função? Nossos músculos são capazes de
nos mover. Mas, por que não melhorar essa capacidade?
Contudo, atualmente o melhoramento das capacidades natu-
rais vem focando em uma diretamente responsável pela manutenção
da vida: os processos regenerativos produzidos pelas próprias células
364 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
constituintes do corpo humano. Por essa via, a valorização não foi deslo-
cada apenas do objeto exterior ao corpo que pode lhe promover saúde,
como o caso dos fármacos e das próteses, já que o objeto central de toda
reparação é o próprio corpo. A valorização, portanto, do corpo, não está
como objeto fim da tecnologia, mas também como produtor de biotecno-
logia. Para Rodrigues etal. (2008, p. 66), a partir da década de 1990 o Projeto
Genoma desperta cientistas e investidores para o corpo humano enquanto
capaz de fornecer os medicamentos de que ele próprio necessita. Para a
medicina regenerativa “[...] a pesquisa genética procura os mecanismos
potencialmente autorregenerativos das próprias células [...]”.
De tal modo, a técnica mediada por tecnologia vem produzindo
as condições necessárias para penetrar/invadir/metamorfosear a orga-
nicidade do corpo, não mais normalizando suas funções, mas sim
ampliando, transpondo, potencializando, transcendendo essas funções.
Neste início de segundo milênio, uma das características mais notáveis
no que tange à condição humana como corpo é o promíscuo acopla-
mento do ser humano com a máquina – tecnologia. “Do lado do orga-
nismo: seres humanos que se tornam, em variados graus, ‘artificiais’. Do
lado da máquina: seres artificiais que não apenas simulam característi-
cas dos humanos, mas que se apresentam melhorados relativamente a
esses últimos”(TADEU, 2009, p.11).
A lista de termos e conceitos técnicos é vasta e diversa para retratar
a maquinização (mecanização) do humano e a humanização (biologiza-
ção) da máquina, considerando nossa inteligência cognitiva enquanto
uma capacidade atrelada ao nosso cérebro biológico, conforme Morin
(1999, p. 62) destaca a dimensão animal do conhecimento; embora estri-
tamente dependente dos contextos simbólico-culturais para sua produ-
ção abstrata (cf. POPPER e ECCLES, 1992, p. 27). Com efeito, implantes,
transplantes, enxertos, próteses, anabolizantes, vacinas, psicofármacos
etc. vêm permitindo a produção de superatletas, supermodelos, super-
guerreiros etc. Nas palavras de Tadeu (2009, p. 12-13): “[...] soldados e
astronautas quase ‘artificiais’, seres ‘artificiais’ quase humanos. Biotec-
365Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
nologias. Realidades virtuais. Clonagens que embaralham as distinções
entre reprodução natural e reprodução artificial. [...] corpos humano-elé-
tricos”(TADEU, 2009, p.12-13).
Todavia, toda essa dinâmica ainda mantém uma dimensão de estra-
nhamento, de descrença, de dúvida. Não podemos negar que estas
novas tecnologias ligadas ao corpo estão causando polêmicas no que
tange às fronteiras do humano, confundindo inclusive sua ontologia
clássica ou mesmo romântica, naturalista e/ou metafísica. Afinal de con-
tas, contemporaneamente o que caracteriza a máquina nos faz pensar
aquilo que caracteriza o homem. Em outras palavras, partindo das crí-
ticas de Heiddeger (2013, p. 7-9) acerca da ontologia tradicional, essa
última só é capaz de pensar o ser cujo fundamento principal é a noção
clássica de natureza sempre fixa, bloqueando o acesso a problemáticas
filosóficas do ser inevitavelmente sujeito e indeterminado às dinâmicas
de seu contexto existencial. A natureza não é fundamento irredutível da
temporalidade humana, mas sim sua historicidade: do mesmo modo se
deve interpelar o corpo.
O ser aberto, suscetível e indeterminado pelas próprias transforma-
ções que realiza em seu contexto em seu próprio corpo, implica essa
realidade vigente que vem fomentando estudos epistemológicos que
giram em torno do corpo e sua ontologia. Afirmamos isso sustentados
em Contreras (2011, p. 139), quando menciona que a hibridação do
corpo “corresponde a toda una ontología e una epistemología, que hunde
sus raíces en los câmbios en la representación de los objetos de la natureza
y de la tecnologia – los seres vivos y las máquinas”.
A síntese corpo e tecnologia forjada ou fabricada por técncias pre-
cisas de manipulação da matéria caracteriza o corpo biotecnológico, no
qual a tecnologia não se limita a estar à nossa volta, como positivamente
se pensava a natureza, no máximo em sua possibilidade protética; ela
literalmente nos“in-corpo-ra”. Serres (2003, p. 46) corrobora tal entendi-
mento, na medida em que, ao versar sobre corpo e tecnologia, anuncia
que esse soluciona o velho problema do acordo entre natureza e cultura
366 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
expresso na própria raiz da palavra natureza, que designa todo e qual-
quer fenômeno de nascimento. “Nada mais ‘natural’ do que o gesto de
instalar um equilíbrio distante de uma antiga estabilidade, e isso porque
a palavra natureza significa, justamente, um nascimento [...]”, que não
deixa de ser cíclico – renascimento – na“[...] repetição do processo [que]
projeta a história, essa mesma história que nos separa da evolução vital,
bacteriana, vegetal ou animal. A cultura começa pela natureza; ela é a
própria natureza, cuja continuidade se dá por outros meios”.
A fusão com a tecnologia faz nascer, no sentido que Serres dá à pala-
vra natureza, novas significações e vivências sobre o pensar/agir e sentir
o corpo. “Al transformar la naturaleza, el hombre no solo produce cosas,
sino que también produce de cierta forma sus proprios sentidos, les da
nuevas propiedades, produce sus sentidos como sentidos humanos” (CON-
TRERAS, 2011, p. 131). A exemplo das lentes que, acopladas aos nossos
olhos, alteram de diversas formas nosso sentido da visão – a exemplo de
óculos, lunetas, binóculos, microscópios, telescópios, televisões –“[...] há
um impacto profundo em tudo aquilo que é corporado, em cada corpo
individual e em cada corpo coletivo, nas máquinas e nas cidades, no tra-
balho e no lazer, nos hábitos de higiene e no comportamento social [...]”
(BÁRTOLO, 2007, p.16).
Sobre esse acoplamento cotidiano do ser humano às tecnologias
de percepção, isto é, de aferição de comportamentos comporais até
então imperceptíveis aos nosso sentido, Nikolas (2013, p. 24) observa
que:“A manutenção da saúde do corpo tornou-se central para a autoad-
ministração de muitos indivíduos e famílias, empregando práticas que
iam de dietas a exercícios, através do consumo de medicamentos [...], de
suplementos [...], do autotratamento”. Para tanto, a autora informa que
em 2003 a empresa Mintel contou que“[...] as vendas de equipamentos
de autoavaliação [biofeedback], tais como monitores de pressão arterial
e de verificadores de glicose no sangue, cresceram dramaticamente; que
quase 60% dos ingleses tinham pelo menos um [dentre esses e outros]
equipamentos [...]”.
367Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
Temosumcorponamedidaemquenosapropriamosdeleenquanto
instrumento e a ela incorporamos novas potências – virtualidades – téc-
nicas e tecnológicas: linguagens, símbolos e imagens; mas também, fer-
ramentas, próteses, fármacos. Nosso corpo corresponde antes de tudo a
vetores semânticos e sintáticos de diferentes construções e existências
que estão fora dele: como o voo dos pássaros reproduzido na asa-delta
humana. Desta forma, podemos nos perguntar: quantos corpos, nós
humanos, já tivemos ao longo da história? Quantos embustes, disfar-
ces, fantasias, máscaras, camuflagens técnicas e tecnológicas não cria-
mos para lidar com a natureza e a cultura? (cf. LEROI-GOURHAN, 2001, p.
127). Pela observação histórica da rotação de signos que atravessaram
o corpo, podemos afirmar que o mesmo é sempre uma construção vir-
tual, no sentido etimológico do virtus, aquilo que reserva a pontência
– a virtude – na iminência de se tornar algo que no presente não é (cf.
FONTANIER, 2007, p. 136).
“A PELE QUE HABITO”: ANÁLISE FÍLMICA
O presente trabalho é de abordagem qualitativa, pois pretendeu
analisar elementos apresentados no filme“A pele que habito”sob o viés
interpretativo visando a descrever e decodificar os componentes de
um sistema complexo de significados dos fenômenos do mundo social.
Compreendemos, assim, que a pesquisa também assume um caráter
descritivo sendo de grande importância para tal enfoque. Ainda no sen-
tido procedimental, elegemos o método de análise fílmica proposto no
livro “Ensaio Sobre a Análise Fílmica”, de Francis Vanoye e Gloiot-Lété
(1994), buscando aprofundar através de um recorte“as cenas”da biotec-
nologia ligada ao corpo no filme“A pele que habito”.
DeacordocomVanoyeeGoliot-Lété(1994,p.13),“[...]quandovemos
um filme criamos impressões, intuições, emoções que fazem com que
nos deparemos com atitudes de ‘analisante’”. Essa “análise” vem relativi-
zar as imagens espontaneístas recepcionadas durante apresentação da
368 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
obra.Tais fatos estão ligados às relações que se estabelecem entre especta-
dor e o filme no primeiro momento, o que faz construir fundos de hipóteses
sobre o filme. Porém, a análise não pode se restringir a uma apreciação com
base apenas nas primeiras impressões. Essas hipóteses deverão ser averi-
guadas concretamente por um processo metodológico e epistemológico
que se distancia dos deslumbres das impressões primeiras.
Conforme colocado pelos autores, a análise fílmica se dá geralmente
por meio da produção escrita. Sendo imprescindível no enquadramento
da análise do filme “a definição do contexto e do produto final”. “O que
permite esboçar, pelo menos em partes, seus limites, suas formas e seus
suportes, seu ou seus eixos (ou, pelo menos, a possibilidade de maior, ou
menor escolha de eixos)”(VANOYE e GOLIOT-LÉTÉ, 1994, p. 10).
É pertinente entendermos os procedimentos pelos quais se deve
dar esse processo de análise ao tempo em que compreendemos a pró-
pria consistência da atividade analítica. Para esse tipo de análise, Vanoye
e Goliot-Lété (1994, p. 15) propõem uma desconstrução (descrição) e
reconstrução (interpretação) configuradas em dois momentos: 1) aná-
lise de um filme ou de um fragmento enquanto exercício intelectual de
decomposição: apresentar um dado corpo em algumas partes; 2) sín-
tese interpretativa mediante recomposição textual das partes anterior-
mente fragmentadas. Demonstra e sugere nexos inerentes ao filme (ou
fragmento), bem como em relação a contextos sociais, políticos, econô-
micos, culturais etc. externos a ele.
Na prática, o primeiro instante procede por meio da descrição do
material segundo fragmentos constituintes, tais como: cenas, sequên-
cias de cenas, planos, elementos dos planos, imagens, objetos, perso-
nagens, gestos, discursos, pensamentos, diálogos etc. Não obstante, no
caso do presente estudo, interessa-nos a decomposição das partes refe-
rentes ao contexto biotecnológico apresentado no filme, mas sem per-
der de vista outras passagens das quais a compreensão de nosso objeto
seja dependente. Por conseguinte, no segundo momento, correlativo à
síntese interpretativa, nosso trabalho se volta para um exercício de con-
369Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
catenação entre os fragmentos selecionados a fim de estabelecer nexos
da narrativa fílmica e de seus recursos cinematográficos com o pano-
rama atual das incursões entre corpo e biotecnologia.
Exposto isso, as subsequentes operações de análise e de síntese
estão divididas em duas fases: 1a
) descrição analítica de “A pele que
habito”; 2a
) recomposição interpretativa de “A pele que habito” e suas
interfaces entre corpo e biotecnologia.
1ª Fase: Descrição analítica de“A pele que habito”
O Filme “A pele que habito” foi dirigido pelo cineasta espanhol
Pedro Almodóvar que fez uma adaptação do livro“Tarântula”, do francês
Thierry Jonquet, para o cinema. Com o título original“La Piel que Habito”,
a obra foi lançada pela produtora “El deseo” no ano de 2011. Trata-se de
um filme de “drama e ficção”, com duração aproximada de 117 minutos
(dividido em 12 capítulos) e sua recomendação é para o público com
idade superior a 16 anos. Estão entre os principais atores do elenco
Antônio Banderas, Elena Anaya e Jan Cornet.
Oscapítulosestãoacopladosnumsuspenseharmônicoreferenciado
por aparições e reaparições de cenários unidos pelo entrecruzamento
de histórias (estórias) e personagens diversas. Quanto à temporalidade
da narrativa, está organizada em torno de lembranças episódicas que
sequencialmente apresentam o conjunto de uma história exposta a par-
tir de três seguimentos, que mostram acontecimentos responsáveis por
significarem a dimensão do tempo presente na narrativa.
A menção espaço-temporal presente do filme nos leva à cidade
espanhola de Toledo no ano de 2012, numa mansão onde habita uma
paciente sob observação constante. As cenas seguintes seguem carac-
terísticas estéticas formais e temos nesse plano a palestra de um neu-
rocirurgião discursando sobre os benefícios de transplantes faciais e
reafirmando suas consagradas participações em cirurgias. Na sequência
aparece a figura do mesmo recebendo, secretamente, sangue de uma
maternidade e logo após, em outra cena, realizando manipulação do
370 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
material genético em um laboratório. Rapidamente, na cena seguinte,
no interior da mansão, observa a suposta paciente por um telão. Sob
uma sonoplastia de suspense, encontra-a desmaiada com sangramen-
tos rasos sobre o corpo e a leva para sala de cirurgia, estabelecendo a
relação entre os dois personagens, paciente e médico, mostrando tam-
bém outra face de seu trabalho.
Assim se constrói a narrativa inicial do filme, Antônio Banderas
é Robert Ledgar, um renomado médico e cientista que mantém ile-
galmente em um quarto fechado de sua mansão/clínica uma cobaia
humana para experimentos e, por meio de câmeras de vídeo espalha-
das, a monitora. Robert está produzindo uma pele artificial, que seja
imune a doenças e deteriorações. Numa composição de formato de tela
cheia preenchida pela figura do médico/cientista e paciente, chamada
Vera, inicia-se um diálogo entre eles. Enquanto cuida dos ferimentos,
Robert alega não ter percebido anteriormente a fragilidade de sua pele.
Com a voz em off, acompanha-se uma sequência de cenas em labo-
ratório que mostram Robert manipulando informações genéticas de
células de um porco para recombiná-las com uma célula humana. Por
diferentes ângulos, Robert é exibido minuciosamente acoplando a pele
a um manequim. Uma sequência de sobreposições de imagens produz
a ilusão da boneca se transformando em Vera. Ainda nessa cena, surge a
fala de Robert dialogando a respeito da pesquisa em torno da pele artifi-
cial para a sociedade cientifíca. Nesse segmento, em outro cenário, com
as vozes quase em múrmuro, Robert debate com um membro da comu-
nidade científica a respeito do que tem aprendido com a pesquisa. Ao ser
repreendido por trabalhar com transgênese, assunto delicado à bioética,
Ledgar afirma ter a pesquisa como uma aventura pessoal em memória da
esposa morta, com fins de ampliar apenas os conhecimentos.
De volta à mansão, segue-se com a trama de Robert e Vera1
. Nesse
instante percebe-se que os dois estabelecem uma relação estranha de
1
	 Papel encenado pela atriz Elena Anaya.
371Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
desejo. Além deVera, na mansão existem quatro funcionários que traba-
lham na manutenção e organização da casa, dentre eles Marilia, que há
tempos trabalha com Robert e discute com ele a semelhança entre Vera
e sua esposa morta, Gal. Uma nova narrativa se impõe a partir de um
homem fantasiado de tigre, referenciando o carnaval, adentra a mansão.
Trata-se do filho de Marilia, Zeca, que demanda abrigo depois de come-
ter um assalto a uma joalheria. Ao mirar o telão em que Vera é exibida,
Zeca, extasiado com a imagem, inicia uma perseguição. Acreditando se
tratar da esposa de Robert, Zeca a estupra. As cenas subsequentes mos-
tram Robert assassinando Zeca.
Em um diálogo, Marilia revela à Vera que Robert e Zeca são seus
filhos. Com isso inicia-se outro plano narrativo. Sob o clarão de um foga-
réu, fatos são esclarecidos. Marilia explica que seu filho Zeca havia con-
fundido Vera com a esposa de Robert, Gal, com a qual ele teve um caso
e, ao fugirem juntos, sofrem um grave acidente, então representados na
película por imagens de lembranças. Marilia narra que embora Gal não
tenha falecido no acidente, com graves queimaduras na pele, ficara por
meses em um quarto da mansão. Mas, ao ser atraída pela voz de sua filha
no quintal, observa sua imagem espelhada em um vidro e em seguida se
lança pela janela, cometendo suicídio.
Um terceiro plano narrativo surge como em sonho. As cenas nos
conduzem a seis anos antes, numa situação drástica de Robert com
sua filha, Norma, supostamente estuprada por um jovem em uma festa
na mansão. Fazendo referência à Vera, as cenas mostram a trajetória
do suposto agressor da filha de Robert, Vicente (Jan Cornet). Nesse
momento, volta-se ao segundo plano narrativo em que os momentos
são concordados sob a órbita do olhar de Vera, havendo uma sobreposi-
ção de cena que agrupa a imagem deVera à deVicente. Num secundário
cenário, após o ocorrido na festa, aparece Vicente sendo perseguido e
em seguida já encarcerado por Robert, que realiza visitas ao cativeiro.
Concatenam-se cenas que mostram a evolução de Norma segundo pro-
blemas psiquiátricos, possivelmente desencadeados pela crença de ter
372 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
sido violentada pelo pai, e não por Vicente. A filha passa a temer e afas-
tar o próprio pai, despertando nesse um profundo ódio por Vicente, o
suposto estuprador.
Desse ponto, o efervescente da narrativa emerge no que concerne
às referências aos limites entre o real e o ficcional da biotecnologia con-
temporânea. Cenários de salas de cirurgia contemplam uma mistura de
vingança pessoal e desenvolvimento científico, representada por parte
de Robert. Ao mesmo tempo podemos perceber outros dramas de
Robert, que é não aceitar a pele queimada e o suicídio de sua esposa. Em
um primeiro momento, realiza uma vaginoplastia em Vicente. Em outros
planos, transforma Vicente aos poucos em Vera, que traz consigo a apa-
rência de Gal. Cenas mostram o passo a passo da mudança de sexo que
nos leva à primeira narrativa em que Robert constrói a pele transgênica
a partir do tecido suíno testado no corpo de Vera.
De volta ao momento presente da história, Robert e Vera parecem
conviver como parceiros sexuais, pois essa última cria a ilusão de ter acei-
tado sua nova condição corporal graças à resignição promovida pelo
yoga, em que se refugia para um interior enigmático. Ele faz pensar que
se acomodara espiritualmente com a situação e vai iludindo, aos poucos,
Robert, que não mede esforços para entender a façanha. Em seguida,
depois de driblar quaisquer dúvidas da confiança de Robert depositada
nela, Vera, sob grande suspense, ao se ver como Vicente em fotografia de
jornal impresso sobre a mesa de Robert, na lista de desaparecidos, con-
segue escapar da mansão após assassinar seu raptor e em seguida, sua
cúmplice, Marilia. Livre da mansão, Vera/Vicente busca abrigo na loja da
mãe, onde estão ela e Cristina – sua assistente. Ele as convence de que fora
sequestrado e sujeito a uma mudança de sexo involuntária.
2º Fase: Recomposição interpretativa de “A pele que habito” e
suas interfaces entre corpo e biotecnologia
Para o momento, propomos uma seleção de capítulos/cenas
que vinculam os aspectos da manipulação do corpo segundo a bio-
373Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
tecnologia. A decomposição está organizada em duas categorias: a
primeira diz respeito à “pele”, a partir da qual abrimos duas subca-
tegorias denominadas “potencialização da pele” e “transgênese”;
e a segunda categoria intitulamos de “mudança de sexo” – quando
elencamos as subcategorias: “vaginoplastia” e “modulação do
corpo masculino em feminino”. Os momentos e diálogos referen-
tes à biotecnologia compõem um total de seis cenas sequenciadas
pela narrativa fílmica apresentadas nas duas extremidades do filme.
A análise ocorreu sobre cinco cenas: três dos capítulos iniciais e duas
dos últimos capítulos, separadas pelas duas categorias anunciadas:
“pele” e “mudança de sexo”.
A pele: potencialização e trângense
A categoria “pele” abarca fragmentos do filme durante os quais é
manipulada por técnicas e tecnologias médico-cirúrgicas. Esta manipu-
lação ocorre em dois níveis/subcategorias que se entrelaçam: num pri-
meiro momento/nível, o médico Robert, através de seus experimentos,
cria uma pele – mais potente – que resiste a queimaduras e a picadas de
insetos. No entanto, o experimento se materializa no âmbito da trans-
gênese: manipulação de gene humano em fusão com o gene da pele
animal (porco). A trangênese caracteriza o segundo momento/nível
de análise da manipulação da pele pela tecnologia no sentido de sua
potencialização no que concerne à proteção.
As questões referentes à subcategoria da potencialização da pele
aparecem com bastante ênfase no filme em dois momentos em meio
aos procedimentos de trangênese. As cenas mostram o neurocirurgião
em laboratório, criando e sobrepondo a pele artificial, após ter recebido
um vaso contendo sangue fresco de porco. É a primeira vez em que o
tema aparece: capítulo inicial, décimo minuto do filme e tem duração
de 20 segundos. Em primeiro plano, temos uma cena que mostra Robert
sentado quando recebe Marília, que coloca sobre a mesa um vaso con-
tendo sangue e expõe:
374 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
Marília:“Aqui está, extraído de um animal ainda vivo”.
Ao agradecer, Robert retira-se da sala com o vaso em mãos.
Dá-se início a outra cena que abrange aspectos da mutação gené-
tica segundo um estereótipo de cientista. Corresponde a uma cena ini-
cial do segundo capítulo, com duração de 1’e 28’’, em que temos a figura
de Robert adentrando o laboratório com o vaso de sangue, o colocando
sobre um balcão, em seguida vestindo um jaleco. Robert surge ao lado
de prateleiras contendo cubas de vidro, retirando cilindros de vidro de
um tanque de nitrogênio. Ao retirar os recipientes vazios, manipula
gotas de sangue suíno, respingando-os em um dos recipientes. Robert
retira uma cuba circular onde flutua uma película sobre um líquido: é o
resultado da mutação genética
Em um período de 3’ e 4’’, as cenas estão sequenciadas em 3 ins-
tantes, constituídos de 17 cortes e um agrupamento de cena, em sua
maioria sob sonoplastia suspensiva e imagens em aproximação que res-
paldam sobre essas os aspectos do visual. O clima de suspense indica
a emergência de alguma novidade. No caso, uma inovação científica.
Contudo, a situação implica a iminência de um acontecimento proibido,
perigoso, imoral.
O primeiro momento se dá quando Robert, após criar a pele via
transgênese, a coloca sob o manequim e a recorta minuciosamente
para posteriormente acoplar a mesma ao corpo de Vera. Na segunda
cena, apresenta-se a modulação da pele ao manequim e com uma
sobreposição de imagens, o manequim torna-se a personagem Vera,
retirando-se o cenário anterior. Com isso, faz-se o terceiro instante,
quando o panorama mostra eventos que reafirmam a criação e poten-
cialização da nova pele ao trazer imagens de Robert realizando testes
que provam sua resistência. No primeiro ângulo, Robert, ao sobrepor a
pele em Vera, afirma:
Robert:“Agora é certeza que não haverá mais queimaduras”.
375Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
Com um corte, a cena seguinte traz Robert aproximando da pele de
Vera uma fagulha de fogo produzida por um isqueiro. Embora o foco do
momento seja o da inovação, no contexto geral da narrativa a referência
à pele queimada de Gal é patente; de modo que a objetividade científica
vela a subjetividade humana do desejo. Ao aproximar a chama, Robert
questiona Vera:
Robert:“Diga-me se te queima?”	
Vera:“Não”.
Aproximando o fogo ainda para mais perto da pele, Robert nova-
mente a questiona:
Robert:“E agora?”
Vera:“Não”.
	
Nesse momento da cena atual, temos a continuação dos eventos
que provam a resistência da pele articulada ao nome de sua falecida
esposa, certamente a motivação afetiva de toda empreitada. Assim,
Robert aparece colocando um recipiente com um mosquito dentro
sobre a pele de Vera, à qual dirige uma pergunta:
Robert:“Diga-me se o mosquito te pica?”
Vera:“Não”.
Além do diálogo, reforça a invenção da nova pele a voz de Robert
discursando num evento científico sobre seu estudo da pele artificial aos
seus pares cientistas:
Robert: “Esta pele é resistente à picada de qualquer inseto. O
que supõe que seja uma barreira natural à malária, por exemplo.
[...] Naturalmente tenho trabalhado um rigoroso controle de
qualidade nos tecidos implantados em mamíferos, em ratos
376 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
atímicos, e os resultados têm sido espetaculares. O que nos faz
supor que seriam igualmente positivos em mamíferos humanos”.
Em seguida, ainda afirmando essa questão, um diálogo entre Robert
e um membro da comunidade científica que o questiona sobre os pro-
cedimentos para criação da pele artificial.
Robert: “Batizei com o nome de Gal a pele artificial em que
trabalhei nos últimos anos”
Membro comunidade científica: “O que significa o nome Gal? É
só uma sigla?”
Robert: Minha mulher se chamava assim. Ela morreu queimada
em um acidente de carro.
Membro comunidade científica: “Em sua apresentação você
afirma que a pele é resistente a picadas de mosquitos, como de
malária. O que lhe faz supor isto?”
Robert: “A pele artificial é muito mais dura que a pele humana
e cheira diferente. Está comprovado que o mosquito da malária
distingue a pele humana pelo odor. O odor de Gal é diferente e
o repele”.
Membro da comunidade científica: “Isso não basta. Como
conseguiu endurecer a pele?Vamos para um lugar mais tranquilo.
[...] Só existe um meio de endurecer a pele. Com mutação.”
Mediante os diálogos de Robert com Vera e com o membro da
comunidade científica, o filme apresenta de forma ficcional uma pele
potencializada para além de sua condição natural. Nesse sentido, a
biotecnologia é um dos ramos da tecnociência que tem possibilitado
cenários inusitados no que tange às possibilidades de transformação e
potencialização tecnológica do corpo (LIMA, 2009). Uma destas transfor-
mações está no âmbito da convergência da engenharia de tecidos, que é
anunciada como uma verdadeira revolução nas práticas de transplantes,
abrindo assim novas perspectivas para que órgãos humanos possam ser
“fabricados” (LIMA, 2009). Neste sentido, como destaca Lima (2009, p.
377Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
29), “[...] uma lógica da produção da vida está subjacente à engenharia
de tecidos, pois, com ela, aprendemos que é possível produzir a vida em
laboratório”.
Sob essa lógica, cada vez mais esse cenário vem deixando de ser
exclusivo apenas do imaginário fílmico e, como nos apresenta Couto
(2009), vem fazendo parte de laboratórios respeitados em diversas
universidades que confiam na engenharia de tecidos como potenciali-
zação tecnológica da pele e de vários outros órgãos do corpo humano.
Ainda nas ideias do autor, para que isso se concretize, basta que a
técnica, a partir do cultivo de células, tenha o poder tanto de cons-
truir (como no filme) como o de restaurar tecidos e órgãos do corpo
humano. O corpo não seria construído integralmente, como promete a
clonagem, mas sim em partes.
Toda essa paisagem de promessas e realidades vem se justificar e se
legitimar pautada na ideia de potencialização do ser humano – do seu
corpo, de sua vida. Esse conjunto de ideias reflete o quanto se tem inves-
tido sobre o corpo, fazendo emergir a principal característica humana:
sua precariedade e limitação enquanto natureza. Esta manipulação do
corpo pela tecnologia o caracteriza cada vez mais como obsoleto. Per-
cebemos isso na menção de Goellner e Silva (2012, p. 189): “[...] o corpo
está condenado à obsolescência”. Por esta razão, o corpo precisa ser
constantemente corrigido, tonificado e potencializado a fim de tornar-
-se“mais e melhor”.
A subcategoria da transgênese apresenta-se no filme sob dois
aspectos: no diálogo entre Robert e o membro da comunidade cientí-
fica e através de cenas em que Robert trabalha na mutação de genes
humanos com o de suínos. Aproveitando o sequenciamento do diá-
logo da subcategoria anterior entre Robert e o membro da comuni-
dade científica, apresentamos inicialmente a descrição que abrange o
segundo capítulo do filme e tem duração de 1’ e 32’’. Esse diálogo é a
sequência do apresentado acima, em que Robert responde ao questio-
namento do membro da comunidade científica sobre como conseguiu
378 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
endurecer a pele, pois só há uma forma de fazê-lo: a mutação genética.
Vamos à resposta:
Robert: “Sim isso é fato. Transgênese?! Sim. Transferindo informação
genética de uma célula de porco a uma célula humana”.
Membro da comunidade científica: “De um porco?”
Robert:“É muito mais forte que a nossa!”
Membro da comunidade científica: “Está louco? Você sabe que
a aplicação de terapia transgênica em seres humanos está
absolutamente proibida!”
Robert: “Sim, eu sei. E me parece, com desculpa, o cúmulo do
paradoxo. Interferimos em tudo que nos rodeia. Na carne, na
roupa, nos vegetais, nas frutas, em tudo. Por que não aproveitar
os avanços da ciência e melhorar nossa espécie? Já pensou
nas doenças que podemos curar com a transgênese?! Ou as
malformações genéticas que se poderia evitar?”
Membro da comunidade científica:“Não continue, conheço a lista
de cor e não há um dia que eu não pense nisso. Mas isso não me
impede de lhe proibir que continue a investigar sobre a pele. Ou
me verei obrigado a denunciá-lo para a comunidade cientifica.
Além do que você e eu pensamos que a bioética é absolutamente
clara a esse respeito”.
Robert: “Não se preocupe, Gal tem sido uma aventura pessoal.
Fiz em memória de minha esposa e com único fim de aprimorar
meus conhecimentos”.
Esse diálogo deixa transparecer uma das maiores problemáticas em
termos das relações entre ética e epistemologia que envolvem o corpo
na fusão com a tecnologia e suas implicações ontológicas. De todo
modo, Robert tenta justificar uma infração ética pela via de sua subjeti-
vidade; pelo desejo em relação à sua esposa.
Pensando nessa síntese, Camargo e Vaz (2012) ressaltam que a
mesma traz uma carga complexa sobre os possíveis entrelaçamentos da
relação entre natureza/cultura, natural/artificial. Vemos o fato de a pele
379Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
de porco ter sido eleita para representar, na narrativa cinematográfica,
a base do artifício biotecnológico que testa alguns limites desse binô-
mio; pois, trata-se de um animal, condição a ser negada pelo homem em
seu inúmeros aspectos, mas principalmente em seus limites cognitivos.
Contudo, embora não tenha a inteligência humana, apresenta uma van-
tagem corporal: a resistência da pele. Não obstante, a pelo natural do
porco se artificializa na trangênese.
Ainda na direção desse pensamento, podemos afirmar que quanto
mais se pensa sobre o binário natureza/cultura, mais se desvelam pro-
fundas e complexas indagações sobre: o que é algo natural no corpo? O
que é algo artificial? O que diferencia natural e artificial? O que significa
alterar/produzir/destruir algo natural? O artificial descaracteriza a natu-
reza do humano? Natural e artificial não são tensões de um mesmo e
único processo do devir indeterminado do ontológico? Pode algo artifi-
cial se tornar autônomo e mudar seu rumo da natureza humana?
Sob este viés, segundo Camargo eVaz (2012), pensar a relação entre
o corpo e a tecnologia a partir de seu entrelaçamento significa tomar o
corpo em relação à própria suposta condição natural de sua existência.
Assim, não seria um exercício de especulação futura sobre o vivo e o
não-vivo, mas sim a possibilidade de pensá-lo, na atualidade, num movi-
mento que demanda o distanciamento dele mesmo. Seria como se fosse
um artefato que se desgasta com o tempo, porém, rearranja suas condi-
ções de estar no mundo a partir da coexistência e auxílio da biotecno-
logia. Questionamentos emergem sobre até que ponto dominamos as
técnicas e as tecnologias que o próprio ser humano desenvolve. Além de
pensar até que ponto as mesmas estão ao nosso favor e não o inverso,
pois há finitude nas circunstâncias favoráveis (CAMARGO; VAZ, 2012).
Não podemos negar que estas novas tecnologias ligadas ao corpo
estão causando polêmicas no que tange às fronteiras do humano, con-
fundindo inclusive sua ontologia tradicional. Afinal, o que caracteriza a
prótese-máquina e a transgênese prótese-animal nos faz pensar aquilo
que caracteriza o homem. Supõe-se que tal fusão poderia vir a apagar
380 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
essa suposta fronteira entre o humano e o não humano, tornando-se
uma problemática de difícil definição da vida (LIMA, 2009).
Acerca dessa problemática, Santaella (2004, p. 31) se apresenta
como uma das intelectuais contemporâneas que sistematicamente
insiste nesse tema:“A mistura crescente entre o vivo e o não-vivo, o natu-
ral e o artificial, permitida pelas tecnologias, atinge hoje um tal limiar
de ruptura que faz explodir a própria ontologia do vivo [...]”. Ou seja, a
biotecnologia vem inserindo e retirando algumas variáveis determi-
nantes na constituição dos seres em geral (animais e vegetais), mas do
ser humano em especial; de modo que podemos afirmar que os seres
de hoje não são regidos pelas mesmas regras filo e ontogenéticas do
passado.
Essa problemática evoca o pensamento de Le Breton (2003) a res-
peito da transgênese animal, ao abordar o desenvolvimento das indús-
trias responsáveis. O animal, produto da evolução – e aqui inserido, o
próprio ser humano –, é transformado em um objeto imperfeito que
precisa ser redesenhado; um ser composto por material montável e
desmontável sujeito a ser geneticamente acasalado com outros, obje-
tivando modificações de determinadas características, subtraindo ou
somando informações genéticas segundo o objetivo pretendido (no
caso do filme, a potencialização da pele). Nessa lógica, os porcos produ-
zem hemoglobina humana. Bem como os tradicionais soros antiofídicos
para humanos como produtos dos processos imunológicos dos sangues
de animais como o cavalo e o coelho (VASCONCELLOS et al., 1986, p. 98).
Do mesmo modo, algumas firmas fazem a inserção de genes
humanos em animais com o objetivo de tornar os órgãos compatíveis
com o sistema imunológico do ser humano e, neste sentido, a biotecno-
logia é um dos grandes setores no desenvolvimento de novas técnicas
(LE BRETON, 2003). A biotecnologia reinventa um mundo em que os
animais – e novamente o humano – por meio da transgênese, são fabri-
cações imaginárias do humano, tecnicamente manufaturados (LE BRE-
TON, 2003). Neste sentido, para Le Breton (2003), o ser vivo torna-se uma
381Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
matéria-prima que está à disposição para o uso e sua suposta essência
passa a ser agora tangível.
MUDANÇA DE SEXO: VAGINOPLASTIA E MODULAÇÃO DE
GÊNERO
A categoria“mudança de sexo”abarca fragmentos do filme nos quais
Robert, por meio da tecnologia, transformaVicente emVera. Esta transfor-
mação ocorre em dois níveis/subcategorias: a subcategoria vaginoplas-
tia, em que Robert retira as genitálias masculinas de Vicente, deixando
no lugar um orifício; a outra subcategoria intitulada modulação do corpo
masculino em feminino, que se refere à modulação das demais partes,
consideradas índices secundários da definição fenotípica da sexualidade
do corpo de Vicente, moldando-o na forma do corpo de Vera.
As cenas referentes à subcategoria “vaginoplastia” correspondem a
um sequenciamento que aparece no avançar de 1 hora e 16 minutos do
filme, com duração de 4 minutos. Consiste numa sequência de cenas ao
finaldosétimo,oitavoenonocapítulos,quemostramemprimeiroplanoo
procedimento inicial da cirurgia e, em seguida, o processo de cicatrização.
A primeira cena se dá em uma sala de cirurgia, em que o jovem
inconsciente é preparado sobre uma cama. Em um corte, apresenta-se
por um vidro da porta a chegada de especialistas ao local enquanto o
olhar da câmera movimenta-se pela sala, dando uma visão panorâmica
dos mesmos, se deslocando até a área cirúrgica. Uma imagem plena
do ambiente com Vicente deitado e, logo após, os médicos realizam
os primeiros procedimentos ao dialogarem sobre o paciente. Após o
corte, surge o jovem despertando vagarosamente. Ao perguntar o que
havia ocorrido, Vicente, desconsolado, descobre que passou por uma
mudança de sexo.
Interessante observar que a presença de outros personagens repre-
sentando médicos especialistas desconstrói qualquer indício de retra-
tar Robert como o cientista polivalente, generalista ou universalista; tal
382 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
como figura o Dr. Frankenstein, no romance de Mery Shelley, que sozi-
nho foi capaz de produzir vida na matéria inanimada de um cadáver. O
cientista contemporâneo é dependente de seus pares, até mesmo para
cometer infrações éticas ou mesmo crimes. Além disso, a necessidade de
especialistas para a operação almejada implica que, apesar dos apara-
tos biotecnológicos envolvidos, esses ainda dependem do domínio téc-
nico e cognitivo por parte de um humano. Esta dependência também é
demonstrada na disciplina de Vicente para modelar seu corpo.
As cenas após a mudança de sexo referem-se à “cicatrização” e tem
duração de 2’. e 4’’. Com a chegada de Robert no quarto, Vicente resguar-
da-se enquanto Robert caminha no espaço, apresentando a Vicente
dilatadores úteis para a cicatrização dos tecidos que agora compõem a
vagina. A cena se dá com faces dos personagens em primeiro plano. É
apresentada uma mudança de cena em tela média que se reporta à sala
de cirurgia e mostra Robert examinando a cicatrização da pele deVicente.
A descrição desta cena do filme nos remete a pensarmos a redefi-
nição do gênero e do sexo na contemporaneidade a partir da biotecno-
logia, mas também de uma dependência, por parte de seus resultados
efetivos, de técnicas de auto-cuidado. Ou seja, o sucesso subsequente
da intervenção cirúrgica promovida por Robert depende do esforço e
da disciplina do próprio Vicente em relação ao seu novo corpo. Araújo
(2010), pautada em Preciado (2008), destaca que o século XXI entra defi-
nitivamente na era do que ela chama de tecnogênero. A biotecnologia
entra como possibilidade para reescrever o jogo de regulação da femini-
lidade e da masculinidade, do domínio do corpo e das diferentes formas
de subjetividades, oferecendo um sem fim de opções para a redescrição
técnica do sexo e do gênero.
Estas possibilidades de redescrições podem ser vistas a partir das
palavras de Preciado (2008) apud Araújo (2010, p. 44): “O gênero [ou o
sexo] do século XXI funciona como um dispositivo abstrato de subjeti-
vação técnica: se pega, se corta, se movimenta, se desenha, se compra,
se vende, se modifica, se hipoteca, se transfere [...], se traciona, se modi-
383Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
fica”. Assim, a subcategoria “modulação do corpo masculino em femi-
nino”mostra a transformação externa do corpo de homem (Vicente) em
mulher (Vera) mediante a aplicação de técnicas e de instrumentos e se
faz presente em três cenas com duração total de 5 minutos.
Na primeira cena, que aborda a modulação do corpo masculino,
surge, no nono capítulo, a imagem do personagem Vicente, em plano
frontal, com uma máscara modular facial e sem cabelo. Com o ressur-
gimento de outro cenário, a imagem percorre o corpo de Vicente, mos-
trando marcas cicatrizadas pelo corpo e a presença de seios, então
acariciados por Robert, que contempla sua modelagem. Após esse
episódio, Robert determina que Vicente use uma roupa modeladora,
afirmando que irá ajudar a firmar a pele e moldar o corpo do mesmo
conforme aspectos da fenotípica feminina. É importante lembrar que
nesse momento da evolução do personagemVicente emVera a transgê-
nese da pele ainda não fora realizada.
As cenas seguintes, que tratam da modulação do corpo feminino,
apresentam-se com duração de 2’ e 43’’, quando se condensa o tempo
de seis semanas decorridas. Aproximando a tela da sala de cirurgia, apa-
rece Robert retirando de Vicente – agora com cabelo curto – a máscara
de modulação facial. Ao deparar-se com uma figura de traços faciais
e corporais femininos, Robert afirma não poder continuar referindo-se
ao mesmo como Vicente e, assim, passa a chamá-lo de Vera. Em cena
do décimo capítulo, Vera aparece com cabelos longos sobre os ombros,
escrevendo em uma parede.
Aqui, dá-se a continuação da transformação do corpo masculino de
Vicente, no corpo feminino de Vera, dando a entender que Robert con-
sidera que o que fará a transformação de um corpo masculino para um
feminino não é “simplesmente” a mudança de sexo por meio da cirur-
gia (vaginoplastia). Isso nos leva a considerar que, além da mudança
do órgão sexual, o corpo também deve apropriar-se de outros signos
que convencionalmente representam a mulher, tais como o formato do
rosto, da cintura, a textura da pele, os cabelos longos, a vestimenta, os
384 “A PELE QUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA
seios etc. que, como vimos, é o que Robert tenta fazer na redefinição do
corpo de Vicente por meio de manipulações técnicas de auto-cuidado.
Le Breton (2003) destaca ainda que o corpo trans é um viajante
em seu próprio corpo, e que tanto a forma quanto o gênero mudam
à sua vontade – no caso do filme aqui suspenso para análise, a
vontade não surgiu do próprio corpo transformado, remodelado,
porém de todo modo foi uma redefinição a partir da vontade de
outrem, por meio da biotecnologia, mas que necessitou da velei-
dade própria para se disciplinar tecnicamente no desenvolvimento
da modulação. Robert, esse outrem, pode estar representando a
vontade da ciência, que, como nessa narrativa, muitas vezes é con-
fundida com a vontade dos sujeitos.
Coloca-se, portanto, a constituição humana no campo da alteri-
dade descentrada em detrimento da concepção cartesiana do sujeito
centrado. A tecnologia, assim, não insiste apenas por ser o efeito do
desejo humano, mas passa a ser a causa dele. A biotecnologia consiste
em objeto a ser cobiçado na medida em que ela permite a realização de
alguns desejos. Os desejos da ciência enquanto outro vêm sendo subje-
tivados como desejos dos sujeitos em suas ontologias indeterminadas.
O trans representa um corpo levado à condição de objeto de circuns-
tância dele mesmo, que se tornou modelável e determinado não mais
com relação ao sujeito em si (a priori), mas sim ao momento, à vontade,
entrando na modalidade do possível.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise fílmica da película “A pele que habito”, aqui abordada sob
as categorias “pele” e “mudança de sexo”, nos mostra a manipulação do
corpo através da biotecnologia médica mediada por procedimentos
cirúrgicos de grande exigência técnica por parte de um agente humano.
Tal visão está relacionada com o que Tucherman (2009) destaca de har-
d-sciences e suas tecnologias de ponta, que se caracterizam por meio de
385Joseneide de Amorim Santos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia
implantes corporais como órgãos artificiais, drogas, cirurgias plásticas,
modificações genéticas etc.
Assim, o estudo corrobora com Lima (2009) ao considerarmos
que e os dispositivos de tais tecnologias envolvem práticas de saber-
-poder em que se produz uma nova dizibilidade e uma nova visibi-
lidade de corpo, a ponto de vermos e falarmos sobre o corpo e o
ser humano de uma nova forma, tratando de um novo ser. Os entre-
laçamentos entre o corpo e as tecnologias vêm produzindo novas
configurações na anatomia física e na anatomia mental (corpo repre-
sentado), não apenas em sua materialidade, mas sobretudo em suas
significações. Tal como tenta demonstrar o personagem Vicente e
sua relação com o yoga, a manipulação da matéria parece provocar
transformações no espírito ou no ser daquilo que se entende por
humanidade. Deste modo, diante das transformações biotecnológi-
cas, não são apenas os corpos que se remodelam, as mentes também
necessitam de novos modelos.
Filmes como“A pele que habito”vêm nos mostrar que essa relação
através desse entrelaçamento entre natureza, ciência e cultura torna-
-se verdadeiro dispositivo de discurso que tenta a legitimação de todo
um conjunto de ideias, hipóteses e proposições lógicas e preleções na
contemporaneidade a respeito do corpo e das tecnologias no hori-
zonte de uma ontologia fundada não na natureza, mas no contexto
histórico de transformações biológicas e culturais do humano e do
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SOBRE OS AUTORES
Crislene Góis Santos: Graduanda em Educação Física Licenciatura pela Uni-
versidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e Governa-
bilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: leninha_gois@hotmail.com.
Cristiano Mezzaroba: Doutorando em Educação – Linha Sociologia e
História pela UFSC. Mestre em Educação Física pela UFSC. Licenciado em
Educação Física e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Cata-
rina – UFSC. Integrante dos Grupos: LaboMidia/UFSC/UFS/CNPq; Núcleo de
Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea/UFSC/CNPq.
Professor do Departamento de Educação Física/CCBS/UFS. E-mail:  cris-
tiano_mezzaroba@yahoo.com.br.
Eduardo Carvalho Gomes de Menezes: Licenciado em Educação Física
pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Professor da rede pública do
Estado de Sergipe (SEED-SE). Membro do grupo “Corpo e governabilidade:
política, cultura e sociedade”. E-mail: dudu_bskt@hotmail.com.
Eduardo Francisco Freyre Roach: Doutor em Ciências Filosóficas pela Uni-
versidade Estatal de Moscou – Rússia. Mestrado em estudos Budistas pela
Universidade de Hong Kong – China. E-mail: freyre.roach2007@gmail.com.
Elder Silva Correia: Mestrando em Educação Física pela Universidade Fede-
ral do Espírito Santo – UFES. Licenciado em Educação Física pela Universi-
dade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo e governabilidade:
política, cultura e sociedade”. E-mail: eldercorreia21@gmail.com.
Evandro Santos de Melo Bomfim: Graduando em Educação Física Licen-
ciatura pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo
“Corpo e Governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: evando.san-
tosmelobomfim@gmail.com.
390 CORPO E GOVERNABILIDADE
Fabio Zoboli: Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia –
UFBA. Professor do Departamento de Educação Física e do Programa de
Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS.
Membro do grupo “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”.
E-mail: zobolito@gmail.com.
Felipe Quintão de Almeida: Doutor em Educação pela Universidade Fede-
ral de Santa Catarina (UFSC). Professor do Centro de Educação Física e Des-
portos da Universidade Federal do Espírito Santo (CEFD/UFES). Professor
da Pós-graduação em Educação Física da UFES. Laboratório de Estudos em
Educação Física (LESEF). E-mail: fqalmeida@hotmail.com.
Genaro Vilanova Miranda de Oliveira: Doutorado em PhD in Art History
pela The University of Auckland, Nova Zelândia(2013). Pesquisador
Visitante do Universität Basel, Suíça. Pesquisador do Instituto for Social
Sciences Research (ISSR) da Universidade de Queensland. PhD. E-mail:
gegecaspier@gmail.com.  
Hamilcar Silveira Dantas Junior: Doutor em Educação pela Universidade
Federal da Bahia – UFBA. Professor do Departamento de Educação Física
e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal
de Sergipe – UFS. Coordenador do Centro de Memória da Educação Física,
Esporte e Lazer de Sergipe – CEMEFEL/UFS. E-mail: hamilcarjr@hotmail.com.
Jaison José Bassani: Doutor em Educação e Professor do Departamento
de Educação Física e dos Programas de Pós-graduação em Educação Física
e Educação da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, Vice coorde-
nador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contempo-
rânea (UFSC/CNPq). E-mail: jaisonbassani@uol.com.br
Jessica Vitorino da Silva Terra Nova: Mestranda em Educação pela Uni-
versidade Federal de Sergipe – UFS. Especialista em Arte-Educação pela
Faculdade São Luís de França – SE. Licenciada em Educação Física pela UFS.
Membro do grupo “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”.
E-mail: vitorino_jessica@hotmail.com
391CORPO E GOVERNABILIDADE
João Filipe dos Santos: Licenciado em Educação Física pela Universidade
Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo e governabilidade: polí-
tica, cultura e sociedade”. E-mail: joao.filipe.dos.stos@gmail.com .
Josineide de Amorim Santos: Graduanda em Educação Física Licenciatura
pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e
Governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: josineideamorim_@
hotmail.com.
Luana Alves dos Santos: Graduanda em Educação Física Licenciatura pela
Universidade Feral de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e governa-
bilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: luana.adsantos1@gmail.com.
Monara Santos Silva: Mestranda em Educação pela Universidade Federal
de Sergipe – UFS. Licenciada em Educação Física pela UFS. Membro do
grupo “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: nara.
codap@gmail.com.
Miguel Angel Garcia Bordas: Pós Doutor em Sociosemió-
tica pela Universidade Autônoma de Barcelona – UAB. Dou-
tor em Filosofia pela Universidade Complutense de Madrid – UCM.
Graduado em Filosofia e Letras pela Universidade Central de Barce-
lona – UCB. Professor Associado IV do Departamento I da FACED/UFBA
Participante dos Programas de Pós-Graduação em Educação, Mestrado e
Doutorado e do Doutorado em Difusão do Conhecimento – DMMDC da
Universidade Federal da Bahia – UFBA. E-mail: magbordas@gmail.com.
Natalia Takaki: Licenciada em Educação Física e Mestre em Educação pela
Universidade Federal do Paraná – UFPR. E-mail: nataliatakaki@gmail.com.
Renato Izidoro da Silva: Doutor em Educação pela Universidade Federal
da Bahia – UFBA. Professor do Departamento de Educação Física e do Pro-
grama de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe
– UFS. Coordenador do grupo “Corpo e governabilidade: política, cultura e
sociedade”. E-mail: izidoro.renato@gmail.com.
392 CORPO E GOVERNABILIDADE
Suely Oliveira dos Santos: Graduanda em Educação Física Licenciatura pela
Universidade Federal de Sergipe – UFS. E-mail: suelyoliveira069@gmail.com.
Tammy Rocha Costa: Licenciada em Educação Física pela Universidade
Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo e Governabilidade: polí-
tica, cultura e sociedade”. E-mail: tammy.r.costa@gmail.com.
Theodoro Filho: Graduando em Educação Física Licenciatura pela Univer-
sidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e Governabili-
dade: política, cultura e sociedade”. E-mail: theodoro@infortele.com.br .
Tiago de Brito Ferreira Santos: Graduando em Educação Física Licencia-
tura pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo
e Governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: tiagopaulista10@
gmail.com.
Vinicius dos Santos Souza: Licenciado em Educação Física pela Universidade
Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo e governabilidade: política,
cultura e sociedade”. E-mail: vinicius.santos.2607@gmail.com.
Corpo e governabilidade isbn   simples
Corpo e governabilidade isbn   simples

Corpo e governabilidade isbn simples

  • 2.
    UNIVERSIDADE FEDERAL DESERGIPE REITOR Angelo Roberto Antoniolli VICE-REITOR André Maurício Conceição de Souza EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE COORDENADORA DO PROGRAMA EDITORIAL Messiluce da Rocha Hansen COORDENADOR GRÁFICO Vitor Braga CONSELHO EDITORIAL DA EDITORA UFS Adriana Andrade Carvalho Antonio Martins de Oliveira Junior Aurélia Santos Faraoni Ariovaldo Antônio Tadeu Lucas EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Adilma Menezes PROJETO GRÁFICO Victor Ribeiro Ubirajara Coelho Neto José Raimundo Galvão Luisa Helena Albertini Pádua Trombeta Mackely Ribeiro Borges Maria Leônia Garcia Costa Carvalho Cidade Universitária“Prof. José Aloísio de Campos” CEP 49.100-000 – São Cristóvão – SE. Telefone: 2105 – 6922/6923. e-mail: editora.ufs@gmail.com www.editora.ufs.br Este livro, ou parte dele, não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita da Editora. Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, adotado no Brasil em 2009.
  • 3.
    Fabio Zoboli Renato Izidoroda Silva Miguel Angel García Bordas ORGANIZADORES São Cristóvão, 2016 CORPO E GOVERNABILIDADE
  • 4.
    A responsabilidade peloconteúdo dos trabalhos publicados é exclusivamente de seus autores. Zoboli, Fabio Z83c Corpo e governabilidade / Fabio Zoboli, Renato Izidoro da Silva, Miguel Angel García Bordas. – São Cristovão: Editora UFS, 2016. 394 p. : il. ISBN 978-85-7822-519-3 1. Corpo humano – Aspectos sociais. 2. Corpo humano (Filosofia). I. Silva, Renato Izidoro da. II. Bordas, Miguel Angel García. III. Título. CDU 316.7 FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
  • 5.
    APRESENTAÇÃO Este livro éfruto de uma construção coletiva organizada a partir do grupo de pesquisa “Corpo e governabilidade: política, cultura e socie- dade” da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Este Grupo, através de seus orientadores Renato Izidoro da Silva e Fabio Zoboli, vem realizando pesquisas junto ao Departamento de Educação Física, ao Programa de Pós-graduação em Educação, além de estar ligado ao Núcleo Interdisci- plinar de Cinema – em formação. O grupo também vem tecendo parce- rias acadêmicas junto a outras Universidades Brasileiras (Universidade Federal da Bahia – UFBA, Universidade Federal do Espírito Santo – UFES e Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC), contando com a cola- boração de pesquisadores internacionais. Os estudos veiculados no grupo são organizados a partir de uma perspectiva teórico-metodológica constituída por uma articulação entre racionalismo, empirismo e materialismo acerca do corpo, da cognição, da linguagem e de outros elementos mediadores das relações huma- nas constituídas por amarras, laços ou ligas sociais. No grupo, pretende- mos estudar de modo multidisciplinar e multirreferencial o fenômeno da sociedade e seus modos codificados de governar e de desgovernar politicamente os comportamentos gregários dos corpos humanos em contextos públicos e privados da sociedade. De modo específico, dedicamos esforços no estudo semiótico e epistemológico dos arrolamentos entre corpo humano e cultura humana. Investigamos as diversas e variadas forças governantes que agem como responsáveis pelas configurações societárias – corporações, grupos, famílias, guetos, tribos, nações – traçadas por sistemas de códi- gos como o caso das leis, das regras, das normas e de outros limites está- ticos e dinâmicos que se interpõem politicamente nas relações entre os
  • 6.
    corpos humanos quepor meio da cognição e dos movimentos muscula- res constituem ambientes de vida social. O grupo de pesquisa “corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”está organizado a partir de 3 linhas de pesquisa. A linha “corpo e educação” estuda contextos institucionais, suas cul- turas e políticas de subjetivação e governabilidade das significações e dos comportamentos corporais na sociedade: gênero, etnia, estigma, poder, sexualidade, religião, mercado, aprendizagem, didática e pedagogia. O foco da linha“corpo e comunicação”centra-se nas mídias como ferramenta cultural e política para a governabilidade do corpo e seus comportamentos sociais: texto, pintura, fotografia, cinema, televisão, rádio, internet e mídias digitais. A linha que estuda “corpo e epistemologia” está centrada na investigação das produções científicas articuladas às dimensões cultu- rais e políticas da governabilidade social do corpo: ética, estética, rít- mica, ontologia e semiótica. O livro apresenta um coletivo de textos com estudos que são trans- versais às linhas. Textos escritos com temáticas de pesquisa que ultra- passam suas fronteiras, mas que giram em torno de temáticas do corpo e do governo. Desta forma, o livro foi organizado a partir de 3 partes: corpo e subjetivação, corpo e política e corpo e metáfora. A seção que trata do corpo e da subjetivação apresenta textos que versam sobre dispositivos e mecanismos semióticos e políticos capa- zes de constituir a dimensão corporal humana de um ponto de vista da identidade e da diferença responsáveis por localizar e oferecer parâme- tros e regras para o corpo e seus comportamentos relacionais nas tramas sociais. Os textos dessa seção tratam das relações do corpo no que tange aos processos de subjetivação de signos voltados às dimensões sensi- tiva e cognitiva do pertencimento e do não pertencimento próprias da constituição identitária. A segunda parte, que aborda o corpo sob o viés da política, contribui com os debates acerca da pragmática da subjetivação a partir de temas
  • 7.
    que discutem políticasde Estado, governo, legislação, tecnologias do eu e ascese em contextos sociais como o do esporte, saúde, práticas corporais alternativas, uso de biotecnologias, propedêutica educacional e da mani- pulação das artes. A terceira e última peça do livro se concentra nas metáforas do corpo produzidas no campo da comunicação e seus veículos. Desta forma, foram analisados um anúncio publicitário, uma logomarca espor- tiva e um filme como vetores metafóricos da existência corporal humana e suas tensões com a máquina, com o mercado e com a biotecnologia. A coletânea se apresenta com o propósito de sinalizar alguns cami- nhos no sentido de compreender o corpo como referência material e simbólica necessárias para se compreender processos de subjetivação pautados em mecanismos políticos de governo encenados por jogos de signos que engendram metáforas nas identificações sociais. Fabio Zoboli Renato Izidoro da Silva Miguel Angel García Bordas
  • 9.
    PREFÁCIO OS DESAFIOS DOPENSAR A tentativa de explicar o corpo atravessa diferentes temporalidades e contextos culturais. Na busca por respostas para as distintas indaga- ções que sobre ele se fazem, é possível identificar interpretações cujos argumentos encontram respaldo em intervenções científicas, artísticas, políticas, culturais, religiosas, médicas, pedagógicas e jurídicas. O corpo, desde há muito tempo, é alvo de especulações que ora mais, ora menos buscam encontrar a sua “verdade”, tentativa que tem promovido o apa- recimento de infinitas teorizações, práticas e discursos. Elemento central na construção da subjetividade contemporânea, o corpo revela um conjunto de significados que extrapola a sua materiali- dade biológica. Além disso, a centralidade que lhe é atribuída na repre- sentação identitária evidencia o quanto é alvo de diferentes poderes que operam, no detalhe, com o controle, a vigilância, o enquadrinhamento e a fixidez. E, também, com a resistência, o descentramento e a transgressão. Na esteira dessas questões, é possível evidenciar como alguns temas relacionados à governabilidade do corpo e aos poderes que nele se ins- crevem conquistaram relevância no meio acadêmico sendo facilmente percebidos em pesquisas, publicações, fóruns de debates e congressos de diferentes áreas do conhecimento. Da biologia à antropologia, da geogra- fia às artes visuais, da educação física às ciências jurídicas, são tantas as abordagens que se mostra impossível a tentativa de mapear a profícua produção que investe no estudo corpo como objeto biopolítico. No campo da educação e da educação física é a partir da década de 1980 que tímidas iniciativas começam a despontar, desestabilizando as teorizações que, pautadas por conhecimento biomédicos, homogenei- zavam interpretações às indagações que se faziam sobre o corpo, seu significado, funcionalidade, saúde e performance.
  • 10.
    Indiscutivelmente a teorizaçãode Michel Foucault foi determinante para que esse saber fosse destituído do patamar que politicamente fora alçado. As múltiplas leituras que foram feitas de seus escritos, ainda que nem sempre consoante o que efetivamente escreveu, permitiram a emergência de novos olhares sobre o corpo valorizando sua simbologia, sua produção, sua inscrição cultural e, sobretudo, sua referência capital na construção da subjetividade e da identidade dos sujeitos. Esse livro pode ser lido como uma produção que se dá no fluxo desse movimento no qual se percebe a mutação de olhares e leitu- ras sobre o corpo e seus desdobramentos. Seus textos atestam inves- timentos teóricos, metodológicos e epistemológicos que andam na contramão do saber biomédico que, apesar de não ser mais hegemô- nico na produção acadêmica destas áreas do conhecimento, ainda disputa de modo premente espaços de significação. Nesse aspecto há que destacar não apenas a qualidade dos textos produzidos como a criação de um grupo que reúne jovens professores, pesquisadores e discentes. Um grupo que ousa pensar o corpo a partir de diferentes problematizações sem deixar de analisá-lo como um substrato político produzido historica e culturalmente. Corpo e subjetividade, corpo e política, corpo e metáfora compõem a espinha dorsal da obra. Constituem o seu “corpo” permitindo que a leitura aconteça de modo não sequencial, linear ou pré-determinado. Suas entranhas oferecem a possibilidade de ir e vir, de começar pelo fim, de transpor fronteiras disciplinares, de mergulhar em temáticas diversas, de incorporar análises não fixas nem óbvias. Saúde, esporte, espirituali- dade, cinema, sexualidade, velhice, semiótica, estética, identidade, edu- cação, subjetividade conformam um conjunto cuja matéria confluente e dispersa, mostra-se viva, intensa e pulsante. Finda a leitura do livro só posso agradecer aos integrantes do grupo de estudos “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade” da Universidade Federal de Sergipe por me confiar sua apresentação. Agradeço, de forma muito intensa, a generosidade em tornar públicas
  • 11.
    as reflexões aquicontidas as quais declaram exercícios analíticos de pessoas em diferentes níveis de formação. De modo claro seus auto- res e autoras atestam que pensar é um grande desafio, sobretudo, neste tempo no qual esse exercício parece encontrar pouca voz e vez. “Corpo e Governabilidade”faz ver que informação não é o mesmo que conheci- mento e que este é fundamental para que livremos o corpo e a nós mes- mos de poderes que insistem em classificar, excluir, isolar e governar. Boa leitura! Porto Alegre, 2 de fevereiro de 2015 Silvana Vilodre Goellner
  • 13.
    SUMÁRIO PREFÁCIO 9 Silvana VilodreGoellner CORPO E SUBJETIVIDADE - Corpo, semiótica e subjetivação: perspectivas da fenomenologia em Peirce 19 João Filipe dos Santos, Evandro Santos de Melo Bomfim, Renato Izidoro da Silva e Miguel Angel Garcia Bordas - Corpo e identidade: dialogando com Zygmunt Bauman e Michel Maffesoli 45 Natalia Takaki e Jaison José Bassani - Corpo, educação e epistemologia: algumas questões 97 Felipe Quintão de Almeida, Fabio Zoboli e Miguel Angel García Bordas CORPO E POLÍTICA - Lei antigay russa: demarcações e governo dos corpos no mundial de atletismo 2013 117 Fabio Zoboli, Elder Silva Correia, Renato Izidoro da Silva e Tammy Rocha Costa - Corpo, saúde e governabilidade 147 Cristiano Mezzaroba, Fabio Zoboli e Elder Silva Correia - Espiritualidad y gobernabilidad: el caso de la del yoga budista como tecnología del yo 169 Eduardo Francisco Freyre Roach
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    - Corpo, biotecnologiase antienvelhecimento: um estudo com mulheres da cidade de Aracaju/SE 197 Luana Alves dos Santos, Crislene Góis Santos e Theodoro Filho - O corpo“em-cena”: o cinema como proposta pedagógica no ensino médio 227 Hamilcar Silveira Dantas Junior, Fabio Zoboli, Monara Santos Silva e Josineide de Amorim Santos - A estética do opaco: corpos, ausências e políticas visuais no Brasil Oitocentista 249 Genaro Vilanova Miranda de Oliveira CORPO E METÁFORA - Usain Bolt e o corpo máquina: associações e metáforas no anúncio publicitário do NISSAN GT-R 297 Jessica Vitorino da Silva Terra Nova, Suely Oliveira dos Santos e Eduardo Carvalho Gomes de Menezes - A marca esportiva“Nike”, seus signos e argumentos: um estudo de semiótica aplicada 331 Vinicius dos Santos Souza, Elder Silva Correia, Tiago de Brito Ferreira Santos e Renato Izidoro da Silva -“A pele que habito”e a biotecnologia: análise fílmica de uma ontologia indeterminada 357 Josineide de Amorim Santos, Fabio Zoboli, Elder Silva Correia e Renato Izidoro da Silva SOBRE OS AUTORES 389
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    CORPO, SEMIÓTICA ESUBJETIVAÇÃO: PERSPECTIVAS DA FENOMENOLOGIA EM PEIRCE João Filipe dos Santos Evandro Santos de Melo Bomfim Renato Izidoro da Silva Miguel Angel García Bordas RESUMO: Este texto tem por objetivo desvelar como se dá o processo de subjetivação em Peirce, para tanto nos valemos do capítulo seis do livro “Semiótica”, de Charles Sanders Pierce, um conjunto parcial de textos compilados e traduzidos por José Teixeira Coelho. Uma vez que, nestes escritos encontramos os indícios que nos embasam para chegarmos ao nosso objetivo central. Neste sentido concluímos que o processo de subjetivação se dá através das experiências, que vem de fora para den- tro, uma ação fenomenológica de alteridade, ou seja, um signo menos desenvolvido que ao ser interpretado por uma mente torna-se um sig- no mais desenvolvido. Para tanto, destacamos os princípios fenome- nológicos do ego e não ego, afim de esclarecer como ocorre no corpo, o processo de subjetivação a partir de signos semióticos. Ao traçarmos tal expectativa, buscamos nas categorias da experiência – Primeiridade, Secundidade e Terceiridade – instrumentos necessários para entender e afirmar como se dá o processo de subjetivação, sendo estas os pilares da teoria do pragmatismo semiótico Peirceano. PALAVRAS CHAVES: subjetivação; semiótica; signo; corpo.
  • 18.
    18 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO INTRODUÇÃO A fim de compreendermos como se dá o processo de subjetivação em Peirce, pretendemos estabelecer um diálogo com o capítulo seis do livro “Semiótica”, de Charles Sanders Pierce, um conjunto parcial de tex- tos compilados e traduzidos por José Teixeira Coelho. O referido capí- tulo, intitulado “Algumas Consequências de quatro incapacidades”, está subdividido em três partes: (a) “O Espírito do Cartesianismo”; (b) “Ação da mente” e (c) “Signos-pensamentos”. O texto (a) traz a intenção de mostrar as diferenças entre o pensamento cartesiano e o pensamento semiótico. Ao falar do espírito do cartesianismo, trazemos os conceitos de que o sujeito é quem cria suas ações a partir de uma autoridade, e ao falarmos do pensamento semiótico, entendemos que a ação fenomeno- lógica é quem cria as ações humanas através da alteridade. No texto (b) encontramos a ideia de como o signo se manifesta ou é criado na mente de cada um e o texto (c) aborda a hipótese de que não pensamos sem signos e que a partir do pensamento já adquirido podemos nos munir de mais signos derivados dos signos anteriores. Para tanto, o presente texto está dividido em cinco partes. Num pri- meiromomento,apresentamosametodologiautilizadanesteestudopara que fosse possível chegarmos ao nosso objetivo. Em seguida, estabelece- remos a crítica ao Cartesianismo, conforme foi estabelecida nos escritos de Peirce, pois por meio desta embasaremos nossos argumentos, filosófi- cos, para o processo subjetivo (do corpo) através dos signos cognoscíveis (reais) em que os signos postos na realidade embasam os signos criados na mente a partir da experiência fenomenológica com mundo (Pragma- tismoSemiótico).Emterceiro,apresentaremososignoenquantoprocesso de subjetivação (semiótica). Feito isso, de forma teórica, apresentaremos como os processos subjetivos podem ser aplicados aos estudos semióti- cos acerca do corpo. Por fim, teceremos nossas considerações finais. Ao estudarmos os conceitos semióticos, esbarramos em uma cita- ção que abarca o princípio da hipótese da subjetivação a partir dos sig-
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    19João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas nos, quando propomos a ideia de subjetivação a partir de fenômenos que agem e se integram ao corpo em termos da experiência fenomenológica. Por conseguinte, fixamos a seguinte proposição acerca do que vem a ser um signo:“[...] um signo [...] dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado [ou mais evoluído] denomino interpretante do primeiro signo”(PEIRCE, 2005, p. 46). A nosso ver, esta afirmativa expressa o cerne da dinâmica de subjetivação em Peirce, a partir da qual buscamos refletir todo o processo subsequente abordado nessa passagem. Corroborando com nossa hipótese sobre a subjetivação semiótica, destacamos a seguinte passagem: “[...] toda associação é feita através de signos. Tudo tem suas qualidades subjetivas ou emocionais, que são atribuídas de um modo absoluto ou de um modo relativo, ou através de uma imputação conven- cional a tudo aquilo que for um signo dessa coisa”(PEIRCE, 2005, p. 282). Explorando um pouco mais o trecho supracitado, notamos que o autor se refere ao poder subjetivo e emocional dos signos, ao passo que o signo é arquitetado de acordo com as experiências corporais do Interpretante, que cria outros signos na mente, sejam eles mais desen- volvidos ou não. As qualidades subjetivas dos signos dizem respeito, de forma direta, às categorias da experiência fenomenológica, que são a base do processo subjetivo na semiótica de Peirce. A semiótica, portanto, consiste em ser uma teoria da experiência e de seus resultados cogniti- vos e emotivos no campo simbólico, cultural, epistemológico, estético, religioso, ético e político. A partir dessa teoria, a semiótica se desdobra pragmaticamente em metodologias de intervenção no mundo das experiências corporais. Em outras palavras, os conhecimentos promovi- dos pelo estudo das doutrinas ou do regime dos signos podem funda- mentar ações capazes de estruturar artificialmente tanto experiências antigas quanto novas experimentações: poéticas, plásticas, científicas e filosóficas. Assim, embora a semiótica seja capaz de abordar as experiên- cias dos sentidos mais atávicos ou naturais, sua fenomenologia também preza pelas investigações levadas acerca da experiência cultural.
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    20 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO ESPÍRITO DO CARTESIANISMO COMO PONTO DE PARTIDA PARA OS ESTUDOS SOBRE SUBJETIVAÇÃO EM PEIRCE O ponto de partida para os estudos sobre a subjetivação semiótica em Peirce implica o momento em que sua semiótica traz à tona os pon- tos divergentes entre o cartesianismo e o escolasticismo, na medida em que esse antecede aquele. Peirce estabelece uma crítica ao pensamento cartesiano com as seguintes palavras: “[...] o cartesianismo instrui que o início da filosofia se dá por meio da dúvida universal, ao passo que o escolasticismo jamais discute os princípios essenciais”(2005, p. 259). Em outro enunciado, Peirce (2005, p. 259) afirma que o Cartesianismo “[...] ensina que a comprovação final da certeza encontra-se na consciência individual, ao passo que o escolasticismo se baseou no testemunho dos doutos e da igreja católica”. Segundo Santaella (2004, p.33): “O cartesia- nismo, tal como foi criticado por Peirce, entendia que a ação da mente era intuitiva [...]”. Ou seja, baseada na autoridade do sujeito em detri- mento de sua alteridade para com o mundo. Ao passo que, para os esco- lásticos, o pensamento verdadeiro era válido apenas para a autoridade dos doutos. Devemos reconhecer que Descartes avançou no sentido de autorizar todos a pensarem em detrimento da verdade exclusiva dos doutos. A autoridade do pensar é distribuída entre todos. No entanto, entendemos que, diferente do que aborda o carte- sianismo, a ação na mente se dá através dos “resultados cognitivos do viver”. A experiência corporal é a base para toda a significação poste- rior, pois não há subjetivação ou ação mental sem o ato da experiência vivida pela pessoa, enquanto existente material no mundo. Como já foi dito anteriormente, o fenômeno que se apresenta para o corpo e nele se intromete ou se subjetiva, constituindo todo processo posterior de significação. Os fenômenos signos da experiência são a base de todo o processo subjetivo de significação do mundo e do sujeito. Logo, Peirce (2005, p.259) indica que “[...] há muitos fatos que o cartesianismo não apenas não explica como também torna absolutamente inexplicável”.
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    21João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas Peirce entende como falho este pensamento cartesiano, na medida em que o mesmo, ao não explicar determinados fatos, diz que “[...] Deus os fez assim”(PEIRCE, 2005, p. 259). Peirce assinala que a dúvida cartesiana é limitada, ao ponto que, ao iniciarmos um pensamento pela dúvida completa, na filosofia, aca- bamos por deixar de lado nossos pré-conceitos, que são nossos fun- damentos ou solos mais atávicos responsáveis pela propedêutica da experiência vivida. Dessa forma, esse pensamento ceticista não passa de um “autoengano, e não dúvida real” ( PEIRCE, 2005, p.260). Principal- mente porque Descartes não duvida de seu ato irredutível do pensar, parando sua investigação em um proposição entendida como incon- testável:“Eu penso...”. Doravante, foi duvidando dessa proposição básica que Peirce perceberá que não existe um “Eu” que pensa a despeito de sua alteridade como mundo, isto é, em detrimento de toda experiên- cia corporal capaz de modelar boa parte do que pensamos. Todavia, a semiótica peirceana se afasta do estruturalismo europeu na medida em para esse o pensamento ou os signos estão em nós, enquanto que para aquele estamos imersos no mundo dos signos, dos sinais, dos sintomas, dos traços e, portanto, em pensamentos. O pensamento (signos) nos envolve e, por isso, pensamos semioticamente. Assim: Devemos começar com todos os preconceitos que realmente temosquandoencetamosoestudodafilosofia.Estespreconceitos não devem ser afastados por uma máxima, pois são coisas a respeito das quais não ocorre que possam ser questionados (PEIRCE 2005, p.260). Em outros termos, se estamos envolvidos por signos de pensa- mento, estamos também imersos em preconceitos e, por isso, por meio de preconceitos, pensamos; assim como por meio do vento o pássaro voa, por meio da terra a minhoca se locomove. Por essa via, o kantismo de Peirce pode ser compreendido pela metáfora do voo de uma pomba,
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    22 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO proposta por Kant em sua“Crítica da Razão Pura”.“Segundo ele, a pomba, ao voar e ao sentir a resistência do ar a detê-la, poderia supor que, se não houvesse essa resistência, se estivesse no espaço vazio, seu voo seria mais fácil do que nas condições em que se encontra”. Contudo:“Mal sabe a pomba que, se não houvesse a resistência do ar, ela nem sequer poderia voar! Sem essa resistência, não teria base sobre a qual pudesse se apoiar”(CARVALHO, 2013, p. 25). Assim são os signos de pensamento que, por vezes, geram preconceitos responsáveis por obstacularizar o fluxo de nossas reflexões. Ora, poderíamos pensar, como Descartes, que o melhor é pensar o mais próximo do nada, do sujeito puro, sem precon- ceitos. Contudo, kantianamente e, portanto, peirceanamente, sem pre- conceitos, que são signos subjetivados por experiências anteriores, não existiria aderência para o cogito. A cognição patinaria no vazio. A seguir, Peirce expõe quatro questões referentes à aversão ao car- tesianismo, retiradas de uma revista, cujo título diz:“Questões referentes a certas faculdades reivindicadas pelo homem”. São elas: 1. Não temos poder algum de introspecção, mas sim, todo conhecimento do mundo interno deriva-se, por raciocínio hipotético de nosso conhecimento dos fatos externos [adquiridos pela experiência da sensação]; 2. Não temos poder algum de intuição, mas, sim, toda cognição é determinada logicamente por cognições anteriores [como resultados de experiência]; 3. Não temos poder algum de pensar sem signos [portanto, sem um processo de subjetivação da realidade por signos ou sinais dela]; 4. Não temos concepção alguma do absolutamente incognoscível [pois, não se pensa fora da experiência sensitiva e cognitiva] (PEIRCE, 2005, p.260-261). Assim sendo, as afirmações supracitadas irão nos ajudar na busca de entendermos como a subjetivação ocorre para Peirce. Haja vista que, diferente do pensamento cartesiano, nossas introspecções se dão imersas em acontecimentos externos e não de forma intuitiva – como
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    23João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas afirmam alguns pensadores cartesianos. Dessa forma, os signos ante- riores formam nossas experiências e, por conseguinte, formam o conhe- cimento de nosso mundo interno e externo. Nesse sentido, podemos indagar sobre nosso poder de intuição, tendo em conta que os signos anteriores formam nossas vivências e nossas relações com mundo, ou seja, dão conta de uma fenomenologia perceptiva e retroativa que alimentam nosso poder de aprendizagem e cognições. Assim – como afirma Peirce na segunda questão – não temos força alguma de intuição, mas, sim, experiências anteriores que formam e estruturam novas expe- riências de sensação e de pensamento. Isso nos leva à terceira questão, que dá conta do signo como prin- cipal fator de nossos pensamentos – fator de aderência da cognição. Nossos engramas mentais são coordenados pelos signos que ditam nossas ações no mundo. Dessa forma, indagamos, é através dos signos que uma mente se comunica com outra? Tendo em vista as afirmações de Peirce, podemos responder que sim. Apenas por meio de signos que uma mente pode perceber a outra e a ela aderir em pensamentos intersubjetivos e coletivos. Logo, não conhecemos aquilo que não se conhece, isto é, que não está imerso em pensamentos. Nossas concep- ções só dão conta daquilo que apreendemos como real, tendo em conta que o real adequa-se ao campo do subjetivo no sentido de dar sentido ao que subjetiva enquanto signo ambulante no mundo. Por exemplo, como poderíamos explicar a sensação do frio no polo norte para uma pessoa que nunca lá esteve – ou seja, tratar-se-á de algo incognoscível para essa pessoa, de modo que as palavras não são suficientes para des- crever tal sensação; de modo que só a vivência poderia elucidar esse fato, dando aderência ao pensamento por meio de signos de emoção. No entanto, é importante salientar que não podemos confundir subjetividade com subjetivação, pois subjetividade está presente tanto no cartesianismo quanto na semiótica. O que temos que focar é que o processo de subjetivação é algo que está presente na semiótica, e não no cartesianismo, pois para esse o pensamento é intuitivo em detrimento
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    24 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO da experiência corporal. Com o intuito de provocar uma melhor com- preensão, suscitamos que o leitor faça o seguinte exercício: proponha-se a criar uma coisa, sendo que essa coisa não pode se assemelhar ou tra- zer com ela alguma relação com algo já existente. Com isso poderemos confirmar se temos a capacidade de criar e pensar sem interferência de nossas experiências. Por conseguinte, tendo identificado o rompimento da semiótica de Peirce com a filosofia cartesiana, vamos detalhar as cate- gorias da experiência como fator fundamental da ação do signo sobre a mente de alguém, para nela criar outro signo equivalente ou mais desenvolvido. Essa ação é chamada de subjetivação semiótica, processo ausente na teoria cartesiana. DA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVAÇÃO SEGUNDO BASES SEMIÓTICAS DA PRIMEIRIDADE, SECUNDIDADE ETERCEIRIDADE: EXPERIÊNCIA (FENOMENOLOGIA) DO EGO E DO NÃO-EGO Na semiótica de Peirce, segundo Ibri (1992, p. 9), toda experiên- cia corporal humana em relação ao mundo externo dos objetos e dos seres, que é fenomenológica, resulta em uma ou algumas ideias gerais na mente do sujeito pensante, formando nele um ego, muito distinto da noção intuitiva cartesiana. Desse modo, as experiências passadas formam na mente do sujeito alguns “resultados cognitivos do viver”, e em hipótese alguma se tratam de resultados absolutos enquanto repre- sentações mentais fiéis ou irredutíveis da realidade como se o sistema psíquico fosse um espelho perfeito da natureza. Tais resultados cogniti- vos das experiências pretéritas existem na forma de signos, implicando, portanto, representações parciais ou complementares das vivências, conforme a operação abdutiva – sugestiva – do pensamento. Esses signos, enquanto “resultados cognitivos do viver”, assumem certas especificidades de acordo com a mente da pessoa que o significa, mesmo porque essa última não deixa de se constituir por signos subjeti- vados em sua mente e cérebro e objetivados em seu corpo. Ao conside-
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    25João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas rarmos o sujeito ou a pessoa, baseados em Peirce, compreendemos que as experiências vividas, quando assumem o estatuto de“resultados cog- nitivos [signos] do viver”, passam a ser tratadas enquanto experiências pretéritas abstratas ou abduzidas, ou seja, extraídas, afastadas, sintetiza- das ou analisadas em relação ao lócus do acontecimento da experiência mesma em seu ex presente, tratando-se, portanto, de uma ex-periência: aquilo que um dia foi e hoje não é mais, mas é outra coisa, basicamente, um signo, que pode representar e significar o passado, o presente e o futuro na realidade mental daquele está em pensamento. Para Ibri (1992, p. 8), “[...] a experiência pretérita tem estatuto de alteridade para a consciência, assumindo, assim, o papel de um não- -ego interno”. Isso ocorre porque, na mente, ela, a experiência, apa- rece distinta, afastada, abstraída, experimentada, desligada da pessoa vivida existida no ato, mesmo porque ninguém permanece o mesmo após uma experiência, pois essa tem a capacidade de transformar, jus- tamente porque ela deixa em nós alguns “resultados cognitivos” que passam a participar ou a se impor, enquanto frutos do passado, nas vivências futuras no presente. Nesse momento, a experiência pretérita deixa de ser um não-ego latente, para ser assumida enquanto ego pre- sente em ato, personalidade, traço, marca no modo de agir da pessoa que age atualmente. Para Peirce, a experiência está sob o estatuto da alteridade justa- mente porque ela surge enquanto um acontecimento objetivo que se distingue da pessoa que a vive, pois é externo a ela, diferente se essa mesma vivesse uma experiência como se fosse uma extensão de seu corpo, não havendo, portanto, diferenciação. Nesse sentido, a“experiên- cia pretérita”e os“resultados cognitivos do viver”, produzidos na mente, são considerados, de início, um não-ego, porque eles participam da vida de um ego já estabelecido na pessoa como na condição de outro, de alteridade. Grosso modo, embora o não-ego esteja no interior da mente e seja formado por signos latentes de experiências passadas, ele fun- ciona como um pensamento outro em relação aos pensamentos já natu-
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    26 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO ralizados enquanto ego da pessoa. Em nossas experiências podemos reconhecer esse processo quando somos acometidos por pensamentos estranhos, confluentes ou contraditórios face às nossas reflexões mais familiares e naturais. Sendo assim, a experiência é um segundo que vem depois de um primeiro que é a pessoa mesma ou seu ego primeiro. Na situação de segundo, a experiência“[...] se opõe aqui e agora ao sujeito, conferindo- -lhe uma experiência de dualidade, torna-se para o ego sua negação, ou seja, um não-ego [isto é, um outro] [...]”(IBRI, 1992, p. 8). Assim, na pena de Peirce: “Tornamo-nos conscientes do eu ao nos tornarmos conscien- tes do não eu [ou seja, de um outro diferente de nós]”. De tal maneira, o não-ego, isto é, o outro da experiência, agora já integrado – subjetivado – à mente do sujeito como um “resultado cognitivo do viver”, não parti- cipa de imediato das ações desse mesmo sujeito na condição de pessoa ou ego na realidade, pois ele permanece na mente de modo latente, a espera de uma nova aderência – um signo – em que possa se agarrar e, assim, movimentar-se cognitivamente. O outro permanece, durante algum tempo, agora na forma de dúvida, distinto da pessoa que o acolhe em seu interior mental como resultado cognitivo. O ego já estabelecido, que também é o resultado cognitivo de experiências pretéritas, estende seu conflito exterior com o não-ego para dentro de si a partir dos fragmentos – resultados cog- nitivos – incorporados desde a experiência externa na condição de outro. O curioso é compreendermos que tudo isso ocorre indepen- dentemente do sujeito ou ego já estabelecido. Trata-se de um processo inevitável! Assim, vemos que “[...] a experiência pretérita sobre a qual não se tem qualquer poder modificador [...] é uma pluralidade de ocor- rências, um aglomerado de fragmentos individuais delimitados como recortes no espaço e no tempo” (IBRI, 1992, p. 8). O não-ego incorpo- rado passa a agir sobre o ego já estabelecido, lhe criando dúvidas. “A propósito do estatuto da dúvida, Peirce o afirma como uma experiência de binaridade em que o elemento negativo exerce sua força [sobre o
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    27João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas ego da certeza]”(IBRI, 1992, p. 8). Ou seja:“Entre as formas que assume a binaridade estão aquelas das dúvidas que são forçadas sobre nossas mentes”(PEIRCE, apud IBRI, 1992, p. 8). Sumariamente, portanto, não se pode perder de vista que tais dúvi- das são geradas pelo não-ego ou o outro, de tal modo que esse não passa de“resultados cognitivos do viver”, levando em conta que esse último é gerado por uma“experiência pretérita”, o não-ego é uma espécie de voz ou signo do passado que se coloca em conflito com o presente do ego. Para Peirce (apud IBRI, 1992, p. 8): [...] o passado contém apenas uma certa coleção de casos [resultados cognitivos do viver] que ocorreram. [Assim] O passado consiste na soma de faits accomplis [a serem completados, de tal modo que] o passado realmente age sobre nós precisamente como um objeto existente o faz [certamente porque uma parte dele um dia foi externa]. Sem embargo, devido a essa ação dos “resultados cognitivos do viver” sobre o ego, podemos considerar que aquilo que no interior da pessoa se distingue de seu ego e com ele conflita, poderá, em algum momento, tomar o seu lugar ou mesmo passar a integrá-lo em suas ações dedutivas em relação a si e à realidade externa, levando em conta o poder transformador do não-ego, mas não sem conflitos, da experiên- cia preparada pelo ego. Por esse fluxo, traremos aqui a relação de binaridade entre o sujeito e o signo, em que a formação do sujeito passa por um processo de subor- dinação dos fenômenos a ele apresentados. O homem se faz refém das experiências vividas por ele mesmo e, portanto, refém dos pensamentos na medida em que sua existência, enquanto Originalidade, é subme- tida a signos que impõe novas representações, que o faz se desenvol- ver enquanto ser armazenador e articulador abdutivo – sugestivos – de signos da experiência. O fato de um primeiro signo poder gerar outro signo a partir da interação com um segundo signo faz com que possa-
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    28 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO mos afirmar que o sujeito está sempre em processo de formação, pois o homem enquanto signo original, primeiro, mas não anterior ao mundo de signos que o acolhe, está sempre regrado de signos particulares que já o integram enquanto sujeito. Esses signos, quando entram em con- tato com signos segundos, com poder de obsistências, o tornam mais desenvolvido e angariam novos signos particulares mediante um pro- cesso cognitivo de abdução. A relação entre homem e fenômeno se dá a partir das experiências vividas pelo sujeito, que se configuram, em princípio, como o não-ego. Essa trajetória se dá a partir dos fenômenos a ele apresentados, inde- pendente de sua vontade, podendo se fundir em uma subjetivação que irá depender do que ocorrerá daquele momento em diante, do que o sujeito pode elaborar, abstrair, abduzir ou sugestionar dos resultados da experiência e não essa em sua totalidade. O sujeito, enquanto primeiro na ordem da Originalidade, está exposto a esse processo de subjetiva- ção, devido ao processo de alteridade que se estabelece em uma rela- ção de “brutalidade” dos signos que estão no passo da Obsistência para o sujeito enquanto ser da Originalidade, ambos, provando a existência na resistência exercida um em relação ao outro, enquanto a percepção de um segundo – não-ego – além do ego. O vivido e seus resultados se transformam em registros do passado. Ao ter contato com o passado, tornando-o mais novo, devido à interferência do vivido presente sobre a mente, somam-se novas significações e sentidos na mente dos sujeitos, aumentando essa gama de sentidos. Ao tomar conhecimento de novos fatos ou ter aproximações com outras pessoas, a mente do indivíduo se torna, de algum modo, parte daquilo, ou uma extensão daquele signo que é apresentado externamente, e isso é uma condição real da existên- cia humana, assim ocorre a subjetivação em cada sujeito. Tecendo a subjetivação a partir das ideias de Peirce (2005, p. 46), passamos a nos deter ao fato de que um signo que ocorre em segunda ordem como fenômeno ativo que cria na mente do sujeito outro signo semelhante ou mais desenvolvido, nesse momento o sujeito se encontra
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    29João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas na posição de passivo, sendo que esse processo fenomenológico se faz de maneira ativa através de signos obsistentes – resistência – ao sujeito. Com isso, podemos perceber que esse processo é sempre contínuo, por- que a partir das experiências que vão surgindo com o tempo, funda- dos nas vivências do indivíduo, estão na condição de não-ego, porque se originam do outro (sujeito ou objeto), em relação ao qual ocorrem subjeções na mente do sujeito, que fazem se desenvolver e tornar esses signos externos em signos que integram seus pensamentos, aquela consciência que ele perceberá como ego. O fato de um signo perma- necer na posição de Obsistência para o homem faz com que ele seja a representação de tudo que se manifesta – que lhe apresenta resistência – no mundo a ele apresentado, e que pode causar alguma subordinação na mente das pessoas que são infligidas por tais ações. O signo, nesse caso, faz-se absoluto perante ao seu significante, a mente, traçando uma relação de alteridade com o sujeito, à espera de significações. Emsuma,oprocessodesubjetivaçãoéformadoapartirdeduasinte- rações indispensáveis para a mente formar novos conceitos a partir das experiências. Esses processos são a dinâmica da geração de um signo e a dinâmica do pensamento abdutivo segundo Peirce (2005, p.233). Para a interação da mente com o signo, o sujeito deve ser exposto há um fenô- meno que o apresenta um novo signo, o qual poderá estabelecer uma condição de semelhança com o que foi a ele apresentado ou mais desen- volvido, de acordo com o nível de impacto da realidade – seus resulta- dos cognitivos – que ele cause para o sujeito. Tal processo se faz a partir do pensamento abdutivo, quando a mente interpretante, que é afetada por esse signo, mostra-se como uma criadora de novas ideias, suges- tões que essa mente faz para esse signo e para o mundo. Isso se dá pela necessidade de obter uma significação que represente algo apropriado para esse sujeito, que faça uma real significação para a mente afetada. Essa ordem fenomenológica não se manifesta de maneira representa- tiva, através de réplicas integrais para o interpretante, ela se manifesta de maneira única, nova, que signifique a realidade vivida pelo sujeito,
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    30 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO em que esses fenômenos permaneçam na forma de signos equivalentes ou mais desenvolvidos aos que foram apresentados anteriormente, pas- sando do não-ego para o ego, chegando à consciência do vivido. Ao tratarmos da fenomenologia peirciana, temos que dar ênfase ao queseriaabasedessepensamentofenomenológico,queéaexperiência. No momento em que se fala de fenômeno, Peirce (apud IBRI, 1992, p.4) entende“[...] o total coletivo de tudo aquilo que está de qualquer modo presente na mente, sem qualquer consideração se isto corresponde a qualquer coisa real ou não”. Quando falamos de faneron – fenômeno –, como é dito por Peirce, temos que necessariamente trazer a experiência como fator fundamental na forma de como o ser humano se constitui a partir dos “resultados cognitivos de viver”. Esses resultados não são representações, duplicações ou réplicas idênticas da realidade externa, mas sim modos como o corpo e a mente apreendem particularmente dados da experiência, os quais, na consciência, de modo sintético, pro- duzem um fenômeno em termos ideativos. A experiência, portanto, é principal via de subjetivação do mundo externo, contudo marcada pela interpretação. A experiência pode trazer consigo a inteligibilidade do homem, somente a partir do momento em que esse último já possui, preteritamente, algum“resultado cognitivo do viver”, que ao trazer suas vivências pretéritas alcança o estado de significação que trarão as repre- sentações para o desenvolvimento do sujeito, dando sentido ao curso da vida presente e futura através da experiência. Nesse sentido, a constituição do sujeito, a partir da experiência, não é passiva, pois os resultados pretéritos do viver conflitam dialeticamente com as novas experiências e seus resultados cognitivos. Conforme Ibri (1992, p.5), sobre a experiência: “[...] tal como conceituada, estatui-se como fator corretivo do pensamento, e esta característica, reconhecida por Peirce, é um dos pilares de toda sua Filosofia [...]”. A subjetivação, assim, não é um ato deliberado, mas sempre dialogado, conflitado, cal- culado de mudança, deslocamento, movimento, transformação. Con- tando com a concepção de que os resultados pretéritos da experiência
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    31João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas influenciam os resultados cognitivos do presente e do futuro, a fenome- nologia de Peirce, no sentido científico e metódico, propõe como fun- damento três faculdades do pensamento, capazes de orientar o pensar filosófico pautado na fenomenologia. A primeira é a faculdade de ver o fenômeno como ele se apresenta sem fazer interpretações ao seu respeito, ou seja, sem permitir, ainda, que os resultados pretéritos interpretem o fenômeno enquanto resul- tados cognitivos do viver presente; a segunda faculdade é a de detectar todos os casos presentes em um fenômeno, isto é, de quais elementos ou signos o fenômeno é constituído; já a terceira faculdade é dar uma significação geral de representação aos outros dois processos de pen- samento. Nesse terceiro momento, a mente sugere ou realiza abduções acerca do fenômeno e sua estrutura. Podemos, também, resumir essas faculdades em“ver, atentar para e generalizar”(IBRI,1992, p.7). Em síntese, Peirce sugere três categorias da experiência fenomeno- lógica, em que signos criam na mente de alguém outros signos similares ou mais desenvolvidos. Para tanto, ele sugere, a Originalidade (Primei- ridade), relacionada à atitude de simplesmente ver; Obsistência (Secun- didade), que implica a faculdade da atenção dirigida aos detalhes ou componentes estruturantes do fenômeno: suas reações no campo dos signos; e Transuasão (Terceiridade), que consiste na capacidade de fazer interagir dados separados na objetividade em uma ideia subjetiva geral e representativa de uma realidade. Doravante, tendo em vista que a sub- jetividade, ancorada na semiótica de Peirce, acontece através dos três tipos de experiências, vamos nos deter ao fato de que qualquer forma de subjetivação passa por uma dessas categorias da experiência, que por sua vez se ramificam em subcategorias responsáveis pela forma de incorporação dos signos no corpo e na mente. Dessas subcategorias, as principais estão ao nível do Representa- men, do objeto e do interpretante. Esse trio é chamado por Peirce de tricotomia. Ao nível do representamen as subcategorias são os Qualis- signo, Sinsigno e Legissigno; no Objeto têm o Ícone, Índice e Símbolo; no
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    32 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO Interpretante têm Rema, Dicente e Argumento, sendo cada uma dessas categorias um modo de subjetivação da experiência na forma de“resul- tados cognitivos do viver”. Ao tornar claro que as categorias da experiência sugeridas por Peirce (2005, p.27) são fundamentais para a subjetivação, devido ao processo de ação mental que exigem, começamos a falar da Primeiridade. Essa cate- goria tem um princípio claro na ordem dos signos, pois essa é a categoria que aborda o princípio básico da alteridade, em que os fenômenos que afetam o sujeito não têm nenhuma referência anterior, passando a tornar parte do ego já existente, mas tal representação se encontra em estado de imaturidade, devido a não existência representacional para a mente afetada. A experiência original ou primeira – Primeiridade – funda as bases materiais e fenomenológicas de todo fenômeno subsequentemente resultante de novas experiências. Com isso, o signo original se encontra como algo sem significação representativa prévia, mas, ligada ao afeto corporal. Poderíamos chamar de algo novo para aquele sujeito, um dado do inconsciente, independente de tudo que ele tenha vivido. Peirce (2005, p.24) diz: “seria algo que é aquilo que é sem referência a qualquer outra coisa dentro dele, ou fora dele, independentemente de toda força e razão”. Quando chegamos à ordem da Secundidade, percebemos um cará- ter evolutivo do signo, em que ele se encontra em um estado represen- tacional, em que se faz entendido a partir de uma referência vinda de um objeto – referente – conhecido em uma experiência pretérita.Tal processo ocorre pelo fato do signo da obsistência estar em uma relação à frente da Originalidade, usando essa última como fonte de progressão do signo ou condição existencial do signo, a Obsistência torna presente referências da mente do sujeito para dar significado para a Originalidade, ligada aos signos de sensações ou ao afeto primitivo. Podemos falar, basicamente, que a Secundidade depende de experiências guardadas na mente do sujeito para que ela possa significar algo em seguida,“[...] é aquilo no que a secundidade difere da primeiridade; ou é aquele elemento que, tomado em conexão com a originalidade, faz de uma coisa aquilo que uma outra a
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    33João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas obriga a ser”(PEIRCE, 2005, p.27). Os resultados cognitivos da Secundidade obrigam os resultados da Primeiridade significarem algo, isto é, uma outra coisa que não sua existência original. A experiência primeira da cor pode, em um segundo momento, de obsistência, pode ser obrigada a represen- tar ou a aderir um objeto ideal ou real. Como é caso da cor vermelha que poder representar o fogo que a significa e vice-versa. Tomando emprestados os conceitos de Primeiridade e Secundidade trazidos anteriormente, vamos tratar da Terceiridade, para a qual se faz necessária a participação dos dois processos anteriores para chegar em uma mediação ao nível da interpretação propriamente dita ou genuína. Essa é a terceira categoria que está entre as outras duas e atua como meio de significação criado a partir de um fenômeno anteriormente experimentado. A Terceiridade está totalmente ligada ao poder de inter- pretação, representação, mediação e ação mental. Esse processo ocorre quando tem um ser interpretante que através do raciocínio faz relações na mente e interpreta os signos a partir dos “resultados cognitivos de viver”, em uma consciência sintetizadora que busca o entendimento dos pensamentos. Esse processo de mediação/representação está à vista de um tempo futuro, no qual a partir da mediação entre passado e pre- sente, ou seja, Primeiridade e Secundidade, o pensamento generalizador da Terceiridade faz uma ruptura com o tempo e dá uma nova dimensão – sugestão ou abdução – para as coisas. Peirce (apud IBRI,1992, p.15) diz: A terceira categoria é a idéia daquilo que é tal qual é por ser um Terceiro ou Meio entre um Segundo e seu Primeiro. Isto é o mesmo que dizer que ele é Representação como um elemento do fenômeno. [Ainda:] Terceiridade nada é senão o caráter de um objeto que incorpora a Qualidade de Estar entre (Betweeness) ou Mediação nas suas formas mais simples e rudimentares; e eu a uso como o nome daquele elemento do fenômeno que é predominante onde quer que Mediação seja predominante, e que encontra sua plenitude na Representação, [e] Terceiridade, como eu uso o termo, é apenas sinônimos para Representação...
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    34 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO Com isso, as formas de Mediação/Representação são fatores que envolvem a mudança de tempo, modificando a brutalidade da alteridade vinda com a Primeiridade e a Secundidade para a inteligi- bilidade dos acontecimentos, dando um novo sentido para ações futuras (IBRI, 1992, p.15), bem como para sensações passadas. Reto- mando a proposição inicial que define o signo nas letras de Peirce: “[...] um signo [...] dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pes- soa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado [ou mais evoluído] denomino interpretante do primeiro signo”. É possível compreender que esse signo mais evo- luído, denominado interpretante, tem o poder de significar o pri- meiro signo, aquele a que se dirigiu, a alguém, enquanto criador de um signo equivalente. Entre o signo criador (que se dirige a...), o signo criado e equivalente e o signo mais evoluído ou interpre- tante, vemos uma relação de três, em que o último se volta para o primeiro e ao segundo, interpretando-os de um novo modo, de maneira abduzida ou sugestiva. Por isso, os signos ao nível da Ter- ceiridade estão na classe do Símbolo, que necessitam de uma mente interpretante para serem significados. Resumindo as categorias da experiência, trazemos Santaella (2005, p.7), que diz: A primeiridade aparece em tudo que estiver relacionado com acaso, possibilidade, qualidade, sentimento, originalidade, liberdade, mônada. A secundidade está ligada às idéias de dependência, determinação, dualidade, ação e reação, aqui e agora, conflito, surpresa, dúvida. A terceiridade diz respeito à generalidade, continuidade, crescimento, inteligência. A forma mais simples da terceiridade, segundo Peirce, manifesta-se no signo, visto que o signo é um primeiro (algo que se apresenta à mente), ligando um segundo (aquilo que o signo indica, se refere ou representa) a um terceiro (o efeito que o signo irá provocar em um possível intérprete).
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    35João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas Não podemos perder de vista que: A teoria lingüística, cujo objeto de análise é a linguagem – que não deve ser entendida como simples sistema de sinalização, mas como matriz do comportamento e pensamento humanos – tem por objetivo a formulação de um modelo de descrição desse instrumento através do qual o homem informa seus atos, vontades, sentimentos, emoções e projetos (NETTO, 1980, p.15). Na medida em que consideramos que a linguagem não se limita a um sistema de sinalização por signos expostos na realidade objetiva, pois também consiste em ser uma matriz ou fonte de comportamen- tos humanos, sendo um deles o pensamento, podemos compreender a semiótica como um horizonte teórico-metodológico de reflexão e ação acerca dos processos de subjetivação de signos na mente humana a partir das experiências que o corpo humano estabelece, imerso, com a realidade objetiva. Em outras palavras, entendemos que os sistemas de signos objetivos, tais como um texto, os sinais de trânsito, uma película cinematográfica etc., todos expostos às nossas sensações e percepções, desencadeiam na mente humana processos de registros e de articula- ção, que por tomarem a forma de pensamento ou cognição significada – representação por signos em vez de por coisas – no interior da mate- rialidade corpórea – cérebro – do humano, podem ser chamados de subjetivos. Evocando mais uma vez a assertiva de Peirce sobre a emergência da semiótica, os signos, inicialmente matrizes ou fontes objetivas, criam, por subjetivação mediada pela experiência sensitiva e perceptiva, bem como pelo ego pretérito, na mente de alguém, outros signos equivalen- tes ou mais desenvolvidos, haja vista que este signo pode ser uma emo- ção, um sentimento e ações interligadas ad infinit. Diante do exposto, partindo do princípio de que os signos objetivos se tornam subjetivos na mente de alguém mediante experiências que o corpo humano esta- belece com realidades percebidas como objetos para além da existência
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    36 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO dele, estabelecemos aqui que o fundamento ou caminho da emergên- cia de todo comportamento semiótico ou lógico – linguístico, de um modo mais restrito – do pensamento humano é a experiência em seu sentido fenomenológico e não puramente lógico. Adentramos agora nas categorias que constituem a experiência fenomenológica como ponto de partida dos processos de subjetivação ou criação de signos – equivalente ou mais desenvolvido – na mente humana a partir de outros signos inicialmente objetivos ou simplesmente apreensíveis – visíveis – desde fora pelo aparelho sensório-cognitivo-motor humano. Contudo, a experiência fenomenológica para Peirce não envolve um processo simples, unificado, unilateral e unidimensional. Há, segundo o filósofo e matemático, três diferentes níveis ou categorias interdepen- dentes da experiência, chamados de Originalidade (Primeiridade, nível básico), Obsistência (Secundidade, nível intermediário) e Transuação (Ter- ceiridade, nível complexo). Como podemos observar pela nomenclatura utilizada, embora tenhamos mencionado a interdependência entre os níveis, trata-se de uma interdependência hierarquizada, na medida em que as tricotomias dizem respeito às categorias da experiência ou tam- bémchamadasdecategoriasdossignosnaconcepçãodePeirce.Segundo Netto (1980, p.61),“A primeiridade recobre o nível do sensível e do quali- tativo e abrange o ícone, o Qualissigno e o rema”, ou seja, diz respeito a qualidades, impressões primeiras dos signos, aquilo que se apresenta em primeira instância, seja em sua forma simples e/ou mais desenvolvidas – sempre no plano das qualidades [Qualissigno, Ícone, Rema]. Em se tratando da Secundidade,“diz respeito ao nível da experiência, da coisa ou do evento: é o caso do índice, do sinsigno e do discissigno” (Idem, ibidem, p.61). Nesse sentido, a Secundidade envolve uma fenome- nologia semiótica na medida em que há uma sensação de qualidade (Primeiridade) que se relaciona a um objeto específico ou singular (Secun- didade). Assim, dessa relação se estabelece a noção do fenômeno per- cebido, haja vista que a semiótica ao nível do objeto é fenomenológica levando em conta esses aspectos que caracterizam a Secundidade. E por
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    37João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas fim, a Terceiridade que, segundo Netto (ibidem, p.61),“refere-se à mente ao pensamento, isto é à razão: cobre o campo do símbolo, do legissigno e do argumento”, logo a Terceiridade pode ser entendida como a ação do signo pós-relação fenomenológica, ou seja, a interpretação da mente, o terceiro da relação semiótica, que interpreta o fato e adquire o signo mais desen- volvido, seja como uma lei, um símbolo ou um argumento. Em seus estudos, Netto (1980) propôs um quadro para apresenta- ção dessas relações, ou seja, a relação do signo com suas tricotomias, o qual apresentamos a seguir: Quadro 1 DIVISÃO DOS SIGNOS CATEGORIA O Signo em relação a si mesmo O Signo em relação ao objeto O Signo em relação ao interpretante PRIMEIRIDADE Qualissigno Ícone Rema SECUNDIDADE Sinsigno Índice Dicissigno TERCEIRIDADE Legissigno Símbolo Argumento Fonte: NETTO, 1980, p 62. Com essa forma de agrupar os signos, acreditamos que a subjetiva- ção ocorre em planos de Primeiridade (em nível da qualidade do sensível), Secundidade (em nível do objeto da cognição), e Terceiridade (a qual refe- re-se ao argumento). Para tanto, se faz necessário explicarmos as partes que compõem cada uma das categorias da experiência. No que diz res- peito à Primeiridade, seguindo pela sua linha horizontal, de acordo com o quadro acima (NETTO, 1980, p. 62), identificamos as três subcategorias desse primeiro nível da experiência: Qualissigno, Ícone, Rema. O Qualissigno se configura como qualidade que é um signo. Não pode agir como tal até tornar-se corpóreo, ou seja, até que haja a afe- tação primária do corpo. Antes desse, esse signo seria a hipótese do exterior absoluto, que nem é objetivo, porque não pode ser visto ou sentido. Está no mundo, desligado de qualquer consciência. Quando
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    38 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO essa qualidade é notada por um corpo, ela ascende à condição de Qualis- signo, pois, na medida em que ela existe para um corpo, evidencia-se sua possibilidadedesersignoparaumamente,emboraaindasejaapenasafeto, pois já está prestes ou necessariamente será atrelada, em um momento seguinte, não a uma qualidade pura em si, mas sim a uma existência na formadeobjeto,sendoumaqualidadecorporificadaemalgumacoisaobje- tiva, como por exemplo o branco (Qualissigno) em uma camisa (Sinsigno). Issosedánamente,podendogeraroraciocíniodequeobrancorepresenta uma qualidade. Segundo Netto (1980, p.60): “[...] Por qualissigno enten- de-se uma qualidade que é um signo: Ex: uma cor [vermelho]”. Caso a mente fosse física, química ou fisiologicamente incapaz de perceber a cor branca, essa nunca poderia ascender à qualidade de signo – Qualissignos – pois, permaneceria incognoscível, não interessando, portanto, ao pensamento e às suas conexões e associações semióticas. Mas, na medida em que o branco e outras cores são perceptíveis para o humano, todas elas apresentam o potencial de serem signos ao se asso- ciarem ou se ligarem a algo para além delas: o corpo. Isto é, de repre- sentarem algo que não elas mesmas para alguém que possui um corpo afetivo e uma mente cognitiva. Neste sentido, ponderamos que quando se está diante de Qualissigno pode-se gerar um ícone. Dessa forma, há uma corporificação das formas e qualidades que compõem Qualissignos, que logo passam a ser ícones. Peirce (2005, p.73) nos indica que:“o Ícone não tem conexão dinâmica alguma com o objeto que representa: sim- plesmente acontece que suas qualidades [Qualissignos] se assemelham às do objeto e excitam sensações análogas na mente para a qual é uma semelhança”. É nesse sentido que as qualidades se corporificam, tornan- do-se ícones. Funciona tal como na natureza a orquídea se apresenta ao zangão como se fosse uma fêmea da espécie, atraindo-o para cópula. Ícone: “[...] é um signo que se refere ao Objeto que denota apenas em virtude de seus próprios caracteres que ele igualmente possui quer um tal Objeto realmente exista ou não”(PEIRCE, 2005, p.52). O Ícone car- rega a relação de semelhança com o objeto que pretende representar
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    39João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas para alguém, que se dá em três níveis: a imagem (caricatura), o diagrama (um mapa), metáfora (paralelismo com algo diverso que não a própria imagem apresente). O Ícone subjetiva a mente ao ponto de que algo se assemelhe ao objeto, traçando uma relação de caracteres que a ima- gem possa possuir. Ou seja, “[...] a escultura de uma mulher, uma foto- grafia de um carro, e mais genericamente, um diagrama, um esquema” (NETO, 1980, p.58). O Ícone é criado na mente de alguém por meio da ação de signos de semelhança que afetam a mente e fazem essa produ- zir uma síntese imaginária: a imagem de um objeto. Tendo estabelecido isso, segundo Nunes (2008, p.44): “[...] quando estamos diante de um Ícone tende-se a gerar um Rema”, pois ao se assemelhar (Ícone), o signo é levado ao nível das possibilidades linguísticas (Rema) que este Ícone pode vir a produzir. O Ícone está na primeiridade porque sua relação com o objeto se baseia na relação que os seus caracteres qualitativos possam possuir, sendo ainda que este objeto possa só existir na mente do interpretante na forma ideal. Rema:“[...] é um Signo que para seu Interpretante é um Signo de Pos- sibilidades qualitativas, ou seja, é entendido como representando esta e aquela espécie de Objeto possível” (PEIRCE, 2005, p.53). O Rema, por definição, envolve uma qualidade/hipótese que refletirá em seu inter- pretante; que será subjetivado por esta qualidade/hipótese, logo “[...] o Rema é um Signo que é entendido como representando seu objeto apenas em seus caracteres” (PEIRCE, 2005, p. 53). A Subjetivação ocorre por meio destes caracteres. Desse modo, o Rema que se dá ao nível da palavra escrita constitui-se também como uma forma que representa essa ou aquela imagem para seu interpretante. Não obstante, “[...] uma palavra isolada, como vermelho, pode funcionar como rema (do grego rhema, palavra)”(NETTO, 1980, p.61). Ela funciona no lugar da qualidade do vermelho em si e dessa mesma qualidade encarnada na imagem semelhante de um objeto. Desta forma, o signo de Primeiridade (Qualissignos, Ícone, Rema), que “recobre o nível do sensível e do qualitativo”(NETTO, 1980, p.61), participa
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    40 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO dasubjetivação,poisocorreemrelaçãoaosignoemsimesmo(qualidade), que tem potencial para evoluir para um signo que possui a capacidade de se assemelhar (Ícone), que por sua vez pode evoluir para um signo de pos- sibilidades qualitativas (Rema), todos pela ação do interpretante, presente nas três esferas do signo de primeiridade. A Primeiridade está no campo da gramática pura, pois tem como objetivo determinar o que deve ser verdade em relação ao Representamen para que o mesmo seja capaz de incorporar um significado, sendo ele qualquer um. A experiência da Secundidade pode ser dividida segundo três situa- ções: Sinsigno; Índice e Dicente. Sinsigno, para Peirce (2005, p.52): “[...] é uma coisa ou evento existente e real que é um signo. E só o pode ser atra- vés de suas qualidades, de tal modo envolve um Qualissigno ou, melhor vários qualissignos”. Deste modo, Netto (1980, p.60-61) apresenta como exemplos“cata-vento, um diagrama de alguma coisa em particular. O sin inicial de sinsigno indica que se trata de uma coisa ou evento singular, no sentido de‘uma única vez’[fato único]”. Assim, inferimos que um Sin- signo implica a subjetividade, na medida em que consiste em ser a asso- ciação entre duas qualidades, por exemplo, a temperatura e a cor, como no caso do vermelho associado ao calor, ambas as qualidades do fogo. Índice: “[...] é um signo que se refere ao objeto que denota em vir- tude de ser realmente afetado por esse objeto” (PEIRCE, 2005, p.52). O Índice subjetiva por meio das relações indiciais que estabelece com seu interpretante. Logo: “[...] Na medida em que o índice é afetado pelo objeto, tem ele necessariamente alguma qualidade em comum com o Objeto, e é com respeito a essas qualidades que ele se refere ao Objeto” (PEIRCE, 2005, p.52). Segundo Netto (1980, p.58): “O signo indicial tem alguma qualidade em comum com o objeto e, assim, não deixa de ser um certo tipo de ícone especial, embora não seja isto que o torne um signo mas, sim, o fato de ser modificado pelo objeto”. Para melhor visualizarmos esta afirmação, pensemos “[...] Ex: fumaça é signo indicial de fogo, um campo molhado é índice de que choveu [possivelmente], uma seta colocada num cruzamento é índice do caminho a seguir [...]”
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    41João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas (NETTO, 1980, p.58). O índice não implica semelhança, mas relação de existência, de causa e efeito material. A poça d’água é um dos efeitos da chuva, sendo, portanto, seu rastro. Para Nunes (2008, p.44): “[...] quando se está diante de um índice, tende-se a gerar um dicente”. Um Índice pode vir a ser um Dicente na medida em que relações indiciais do signo com objeto possua existên- cia real, haja vista que o índice é aberto a possibilidades. Quando se está diante de uma pegada humana na areia da praia, logo remetemo- -nos (interpretante) à pessoa que possivelmente a marcou com aquela pegada, ou seja, há uma relação existencial nos indícios que levaram o interpretante a tal proposição lógica. Entretanto, para deixar de ser um índice puro, para ascender à condição de Dicente, o signo, como sendo a relação de causa e efeito, deve se transformar linguisticamente em uma proposição lógica na mente do sujeito, de modo que esse possa afirmar que a pegada indica a passagem de um homem, por meio de uma frase. Dicente ou Dicissigno:“é um signo que, para seu Interpretante, é um signo de existência real [...] Um Dicissigno necessariamente envolve, como parte dele, um Rema para descrever o fato que é interpretado como sendo por ele indicado”(PEIRCE, 2005, p53). O Dicente diz respeito à existência do objeto e pode ser um índice na medida em que há uma conexão ao Objeto de forma inseparável. Logo o Dicente“[...] corresponde a um enunciado, envolve remas na des- crição do fato. Um sintagma como Este vermelho está manchado pode funcionar como dicissigno”(NETTO, 1980, p.61). Com isso, compreende- mos que a Secundidade diz respeito à relação de dois signos distintos, ou seja, um primeiro que se relaciona com um segundo. Em outras palavras, é o que Peirce (CP, 1.324 in IBRI, 1992, p.9) chama também de Secundi- dade se referindo às experiências estabelecidas na alteridade, tal como estudamos na dinâmica entre o ego e o não-ego: “A idéia do outro, de não, torna-se o pivô do pensamento [...] A este elemento eu dou o nome de Segundidade”. Ibri (1992, p.9) complementa que:“A Secundidade traz, no seu bojo, a ideia de segundo em relação a um primeiro”. Na Secun-
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    42 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO didade, temos a percepção do signo em relação ao objeto – que se faz através do primeiro em relação ao segundo – feita pelo interpretante, no entanto ainda não há lei que irá guiar esta percepção. A Secundidade está presente no segundo ramo da ciência semiótica, o da lógica. A Terceiridade envolve ainda mais três dimensões: Legissigno, Sím- bolo e Argumento. Legissigno: “[...] é uma lei que é um signo” (PEIRCE, 2005, p.52). Essa lei só pode ser estabelecida pelos humanos – Interpre- tantes. O signo que é estabelecido por convenção, obrigatoriamente é um Legissigno. Peirce (2005, p.52) aponta que “[...] todo Legissigno sig- nifica através de um caso de sua aplicação, que pode ser denominada Réplica”. A réplica por sua vez é um Sinsigno, logo todo Legissigno requer Sinsigno. Por fim, “[...] a réplica não seria significante se não fosse pela lei que a transforma em significante” (PEIRCE, 2005, p.52). O Legissigno “[...] não é uma coisa ou evento singular, determinada, mas uma conven- ção ou lei estabelecida pelos homens. Ex: as palavras [...]”(NETTO, 1980, p.61). Assim, o Legissigno é um signo que subjetiva por força de lei. Tra- ta-se de uma ideia geral que busca aplicação no particular. O Legissigno pode vir a ser um Símbolo, pois, como tal, é estabelecido por meio da convenção/associação de ideias que se refere ao objeto. Símbolo: “[...] é um signo que se refere ao objeto que denota em virtude de uma lei, normalmente uma associação de idéias gerais que opera no sentido de fazer com que o Símbolo seja interpretado como se referindo àquele Objeto” (idem, ibidem, 52). Assim, o Símbolo pode não possuir relação de semelhança com seu Objeto, pois foi estabelecido por convenção de ideias. O Símbolo é, por definição, um tipo geral de lei, logo, um Legissigno, ou seja, atua através de Réplica. Este “signo é mar- cado pela arbitrariedade [...] Ex: qualquer palavra de uma língua, a cor verde como símbolo de esperança etc.”(NETTO, 1980, p.58). A diferença de um símbolo para um Legissigno é que aquele se apresenta por meio de um objeto, enquanto que o segundo por meio de qualidades sensí- veis ou emotivas. Para Nunes (2008, p. 44), quando se está“[...] diante de um símbolo, a tendência é a geração de um argumento”, pois se tende
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    43João Filipe dosSantos; Evandro S. de M. Bomfim; Renato I. da Silva; Miguel A. García Bordas a representar seu Objeto em seu carácter de signo para isso usam-se os argumentos para criar os argumentos. Argumento: “[...] é um Signo que para seu Interpretante é Signo de lei [...] é um signo que é entendido como representando seu Objeto em seu caráter de Signo”(PEIRCE, 2005, p.53). O Argumento paira sobre as leis que cercam o Objeto, o tornando algo compreensível a todos que com ele entrem em contato, como as logomarcas de diversos produtos. Ao se depararem com essas, os interpretantes acessam suas experiências ante- riores para decifrar tal signo. Deste modo:“Um argumento é um signo de razão, um signo de lei, correspondendo a um juízo. Um silogismo do tipo‘ A é B, B é C, portanto A é C’é um exemplo de argumento”(NETTO, 1980, p. 61).Oargumentotemcomofunçãosuperarasrelaçõespresentesesugerir uma relação ou norma futura, ainda inexistente. Nesse sentido, ele supera a lógica e se aproxima da retórica e da especulação. Contudo, longe de se desdobrar por formulações absurdas, sustentado na lógica e no símbolo, bem como em seus antecedentes, o argumento deve possuir uma dimen- são de realidade. Ou seja, deve ser aplicável no comportamento. O PROCESSO DE SUBJETIVAÇÃO NOS ESTUDOS ACERCA DO CORPO: CONSIDERAÇÕES FINAIS Estudamos que existem três tricotomias, que são a Primeiridade, a Secundidade e a Terceiridade classificadas por Peirce (2005, p.51) da seguinte maneira: “[...] a primeira conforme o signo em si mesmo for uma mera qualidade, um existente concreto ou uma lei geral [...]”, neste caso o signo ocupa está próximo do Representamen. A segunda, “[...] conforme a relação do signo para com seu objeto consistir no fato de o signo ter algum caráter em si mesmo, ou manter alguma relação existen- cial com seu objeto [referente] ou em sua relação com um interpretante [...]” (PEIRCE, 2005, p.51). Temos o signo enquanto na condição Objeto. Por fim, a terceira, “[...] conforme seu interpretante representá-lo como um signo e possibilidade ou como um signo de fato ou como um signo
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    44 CORPO, SEMIÓTICAE SUBJETIVAÇÃO de razão”(PEIRCE 2005, p.51). Nesse caso o signo ocupa o lugar do Inter- pretante, nesta categoria temos a concretude de uma Lei – que é um signo para seu interpretante. Buscamos, neste estudo, de forma teórica e filosófica, elucidarmos como se dá o processo de subjetivação dos signos semióticos na mente e no corpo. Ou seja, como esse processo se constitui e como podemos pensar em uma leitura analítica e sintética desses signos (subjetivos) aos estudos do corpo – pensando na constituição dos signos de sensitivos, lógicos e argumentativos. Realizamos um percurso metodológico que embasou nossas considerações sobre esse processo de subjetivação. Concluímos, assim, que por meio das categorias da experiência – esta- belecidas na semiótica – que os processos de subjetivação ocorrem, tendo em vista o fenômeno enquanto percebido pelo corpo de modo a afetar cognitivamente a mente e que tornam estes signos argumentos para uma dada mente que interpreta (através de leis que são signos). REFERÊNCIAS CARVALHO, M. Teoria e experiência. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013. (Filosofias: prazer do pensar) IBRI, I. A. Kósmos Noêtós: a arquitetura metafísica da Charles S. Peirce. – São Paulo: Pespectiva: Hólon, 1992. – (Coleção estudos; v.130) NETTO, J. T. C. Semiótica, informação e comunicação. – São Paulo. Perspectiva 1980. NUNES, K. M. Uma análise da construção mítica no livro de fotografias Laróyé, de Mario Cravo Neto. Salvador: EDUFBA, 2008. PEIRCE, C. S. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2005. SANTELLA, L. O método anticartesiano de C. S. Peirce. São Paulo: Editora UNESP, 2004.
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    CORPO E IDENTIDADE: DIALOGANDOCOM ZYGMUNT BAUMAN E MICHEL MAFFESOLI1* Natalia Takaki Jaison José Bassani RESUMO: Muito tem se falado sobre os processos de construção das identida- des, sobre sua crise na modernidade, sobre as dificuldades, levadas ao paroxis- mo nos dias de hoje, de construirmos um “sentimento de pertencimento”, sobre- tudo por conta da velocidade das transformações e da efemeridade de nossos “projetos” de vida, do papel das novas ferramentas de comunicação neste pro- cesso. Nesse contexto, o lugar ocupado pelo corpo e suas expressões em nos- sas construções identitárias foi profundamente afetado por esse novo modo, vertiginoso, de se relacionar com as coisas do mundo. No presente trabalho, tomamos parte nesse intrincado debate em torno do conceito de identidade, e propomos um diálogo com Zygmunt Bauman e Michel Maffesoli, autores con- temporâneos que, entre outros, tem se ocupado teórica e politicamente dessa questão, buscando pensar o lugar social do corpo nos processos de construção identitária. PALAVRAS-CHAVE: Identidade; corpo; Zygmunt Bauman; Michel Maffesoli. * O presente texto é parte da dissertação intitulada Corpo, cultura e juventude nikkei: processos de construção identitária, defendida no Programa de Pós-graduação em Educação da Univer- sidade Federal do Paraná em 2012. Agradecemos a CAPES e ao CNPq pelos recursos finan- ceiros (bolsa e apoio a projeto de pesquisa) que tornam possível essa pesquisa.
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    46 CORPO EIDENTIDADE INTRODUÇÃO Os processos de construção identitária têm atraído, no campo acadê- mico, cada vez mais a atenção e preocupação de pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento, e se tornaram alvo de disputas políticas inflamadasemdiversossetoresdavidanocontemporâneo.Conformeargu- menta Bauman (2005), o problema da identidade parece ter se tornado, especialmente nas últimas décadas, um prisma através do qual outras tan- tas dimensões de nossas vidas são localizadas, agarradas e analisadas. Vivemos mesmo uma verdadeira“explosão discursiva”(HALL, 2005) em torno desse conceito, já que muito tem se falado sobre os processos de construção das identidades, sobre sua crise na modernidade, sobre as dificuldades, levadas ao paroxismo nos dias de hoje, de construirmos um “sentimento de pertencimento”, sobretudo por conta da velocidade das transformações e da efemeridade de nossos “projetos” de vida, do papel das novas ferramentas de comunicação neste processo, como a televisão, a internet, as redes sociais virtuais, entre outros. O contemporâneo tem promovido uma incessante profusão de novos hábitos físicos e mentais, que, se por um lado, nos trouxeram certo grau de estranheza e insegurança, por outro, permitiram que enxergás- semos novos horizontes. Como era de se supor, o lugar destinado ao corpo e suas expressões em nossas construções identitárias foi profun- damente afetado por esse novo modo, vertiginoso, de se relacionar com as coisas do mundo. Certamente, o “mundo é a moldura simbólica e material na qual nos movemos e da qual extraímos os elementos usados para formar hábitos físicos e mentais”(COSTA, 2005, p. 162), mas os ele- mentos que adquirimos dele não são sempre os mesmos: eles mudam de tempos em tempos, com implicações diretas sobre nossas culturas, nossas práticas, nossos ideais de eu, construindo assim novos conceitos, concepções e novos modos de vida. Como nos diz Sant’Anna (2001), o corpo é uma evidência que nos acompanha desde mesmo antes de nascermos até a nossa morte, expe-
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    47Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani riência irrenunciável de nossa história individual e coletiva. Para além de sua dimensão biológica, que nos lembra aquilo que há de natureza em nós (VAZ, 2000), o corpo é também território da cultura. Nesse sentido, o “corpo é um dos locais envolvidos no estabelecimento das fronteiras que definem quem nós somos, servindo de fundamento para a identi- dade”(WOODWARD, 2008, p. 15). No presente trabalho, tomamos parte nesse intrincado debate em torno do conceito de identidade, e propomos um diálogo com Zygmunt Bauman e Michel Maffesoli, autores contemporâneos que, entre outros, tem se ocupado teórica e politicamente dessa questão, buscando pen- sar o lugar social do corpo nos processos de construção identitária. Nesse sentido, e tomando o livro Identidade de Bauman (2005) como uma espécie “roteiro epistemológico” do problema da identidade na modernidade, buscaremos, nas próximas páginas, apresentar certo iti- nerário conceitual de ambos os autores que nos permitem refletir sobre a relação entre corpo e identidade. O “NASCIMENTO” DAS IDENTIDADES: COMPREENDENDO A(S) MODERNIDADE(S) Dia após dia, desde o nosso nascimento, travamos uma batalha intensa para descobrirmos quem nós realmente somos. Mesmo gas- tando um tempo considerável de nossas vidas arquitetando planos para termos alguma certeza e segurança sobre nossas figuras, essa tarefa parece nunca ter fim, de forma que vivemos em constante construção e desconstrução. A questão da construção das identidades nos causa tanto descon- forto, nos deixa agitados e inquietos porque é algo que diz respeito a todos nós, independentemente de sabermos ao certo qual identidade nos pertence: coletivas, individuais, nacionais, étnicas e raciais, sexual, “virtuais”, se várias ou nenhuma. Não há dúvidas de que a identidade é um conceito altamente contestado, um território de batalhas que nunca
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    48 CORPO EIDENTIDADE esteve em paz com todas as partes. “A identidade é uma luta simultânea contraadissoluçãoeafragmentação;umaintençãodedevorareaomesmo tempo uma recusa resoluta a ser devorado...”(BAUMAN, 2005, p. 84). Certamente essa inquietação não é exclusividade do nosso tempo, mas definir nossas identidades tem se tornado uma empreitada cada vez mais desafiadora, sobretudo se considerarmos que as bases sobre as quais as identidades, individuais e coletivas, se assentavam até bem pouco tempo atrás, conforme nos ensina o sociólogo Zygmunt Bauman, perderam sua solidez no mundo globalizante. Em seu livro Identidade, fruto de uma entrevista concedida a Bene- dettoVecchi, Bauman (2005) trata de questões que envolvem o problema da construção das identidades no mundo moderno: a gênese das identi- dades nacionais, o papel do Estado nessa construção, o papel das comu- nidades, identidades individuais e coletivas, a fluidez versus a solidificação das identidades, o surgimento das subclasses, o uso das novas tecnologias de comunicação, entre outros elementos que cercam o tema. A fluidez da modernidade acabou adentrando o território das identidades, pois, afinal de contas, não é tarefa fácil tapar todas as arestas e impedir que o líquido se infiltre, especialmente quando possui tanta força. Logo na introdução do livro, Vecchi nos diz que Bauman vê a globalização como “uma grande transformação que afe- tou as estruturas estatais, as condições de trabalho, as relações entre os Estados, a subjetividade coletiva, a produção cultural, a vida quoti- diana e as relações entre o eu e o outro.”(BAUMAN, 2005, p. 11). Assim, “erram”aqueles que ainda tentam se sustentar nos pilares sólidos e fir- mes que uma vez existiram, não sendo mais possível negar a facilidade com que as coisas surgem e em seguida se dissolvem, aparecem e eva- poram. Possuir identidades fluídas, que mudam a todo o momento, pode não ser de todo maléfico. No entanto, é preciso compreender como, por que e quais as consequências dessas constantes mudanças, que estão diretamente atreladas à modernidade líquida, utilizando a nomenclatura criada por Bauman, que estabelece diferenças notáveis
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    49Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani em relação ao que ele chama de modernidade sólida. Solidez e liquidez são metáforas usadas por ele para dar conta das mudanças que pau- latinamente ocorreram durante a transição do século XX para o XXI (ALMEIDA; GOMES; BRACHT, 2009). A modernidade sólida foi marcada pela ordem, pela rigidez, pela durabilidade, estabilidade, estratégias de longo prazo, enfim, por ele- mentos que pudessem dar aos indivíduos e a comunidade um senso de que o futuro seria algo ao qual não se precisasse temer, pois já estaria contido e definido no e pelo presente. Um elemento se destacou nessa busca e produção de solidez: o trabalho. Por meio do trabalho os sujeitos se tornavam cidadãos dignos, reproduzindo seus ideais e modos de vida. Estar empregado significava ter uma vida correta, ética, além disso, forneceria ao trabalhador uma estabilidade“proporcionada pelas instituições sociais, que indicavam as condutas a serem seguidas e que permitiam a manutenção de rotinas, ao mesmo tempo em que decretava a divisão entre o certo e errado, nor- mal e patológico”. (ALMEIDA; GOMES; BRACHT, 2009, p. 34). Se por meio do trabalho a honra do cidadão era estabelecida, portanto, nada mais razoáveldoquepossuirumtrabalhofixo,umempregoregular,elutarpara que essa relação fosse longa e duradoura. A modernidade sólida estava situada em um tempo extremante importante para o desenvolvimento capitalista, no qual trabalhador e patrão estavam intimamente ligados: o primeiro, por necessitar do trabalho para sua sobrevivência, e o segundo, por precisar de uma força capaz de produzir e lhe trazer lucro. Com os indivíduos ocupados trabalhando, a sociedade se mantinha equilibrada e ordeira, visando um futuro formidável e bastante produtivo: Quaisquer que tenham sido as virtudes que fizeram o trabalho ser elevado ao posto de principal valor dos tempos modernos, sua maravilhosa, quase mágica, capacidade de dar forma ao informe e duração ao transitório certamente esta entre elas. Graças a essa capacidade, foi atribuído ao trabalho um papel principal, mesmo decisivo na moderna ambição de submeter,
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    50 CORPO EIDENTIDADE encilhar e colonizar o futuro, a fim de substituir o caos pela ordem e a contingência pela previsível (e portanto controlável) seqüência dos eventos. Ao trabalho foram atribuídas muitas virtudes e efeitos benéficos, como por exemplo, o aumento da riqueza e a eliminação da miséria; mas subjacente a todos os méritos atribuídos estava sua suposta contribuição para o estabelecimento da ordem, para o ato histórico de colocar a espécie humana no comando de seu próprio destino (BAUMAN, 2001, p. 157). Nessa passagem que acabamos de ler a respeito do trabalho, Bauman nos mostra elementos que são característicos da moderni- dade sólida, como a certeza no/do futuro, o controle sobre adversi- dades e a consequentemente segurança, e, principalmente, a ordem. O trabalho trouxe a ordem como tarefa na modernidade sólida: tra- balhar era algo que estava atrelado à natureza humana; errático era ser um desempregado, sem vínculos que os ligassem e os prendes- sem a um lugar. A labuta diária fazia com que os indivíduos criassem uma rotina, padrões comportamentais a serem seguidos no intuito de manter o emprego, portanto, seu comportamento era previsível e fácil de ser controlado, um ambiente relativamente seguro para se fixar uma identidade. A ordem trouxe consigo a necessidade de disciplinar aqueles que viviam sob seu comando, e o medo do incerto, do desconhecido, do outro, desenvolveu uma incontrolável obsessão por classificações. Clas- sificar significava dizer que alguns seriam selecionados e outros seriam deixados de fora; incluídos seriam aqueles que se encaixam nos padrões ditados pela ordem e excluídos aqueles que não eram bem vindos por gerarem desconforto, por não se adequarem às classificações. A ordem era uma luta travada contra a ambivalência, contra o caos, a imprevisibi- lidade, o outro, a incerteza, a confusão, a dúvida, o diferente, o ambíguo, o desconhecido. Numa palavra: contra tudo aquilo que não se podia controlar (BAUMAN, 1999).
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    51Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani Para que nada escapasse do controle, a ordem deixava de ser o elemento final da ação, passando a ser sua origem, transformando o resultado final em um produto do disciplinamento. Esse, por sua vez, era alcançado pela vigilância constante, pela visão superior do disciplinador estabelecida nas torres panópticas modernas. As torres panópticas pos- suíam um elemento arquitetônico que possibilitava observar com um ângulo de 360º o recinto em que era construído; do alto, o observador pos- suíaavantagemdeumavisãoampla,semobstruções.Essaferramentafacili- tou e aumentou a vigilância e o controle daqueles a serem disciplinados: [...] escolas, quartéis, hospitais, clínicas psiquiátricas, albergues, instalações industriais e prisões. Todas essas instituições eram fábricas de ordem. E, como todas as fábricas, eram locais de atividade propositada, calculada para resultar num produto concebido com antecedência – no caso, no restabelecimento da certeza, eliminando a aleatoriedade, tornando a conduta dos internos regular e previsível novamente. (BAUMAN, 2011, p. 146). Pensando nas instituições que adotaram o panóptico como ele- mento disciplinador, nota-se que algumas delas, como as escolas, fábri- cas e quartéis, eram instituições pelas quais todos, eventualmente, acabavam passando. Sob essa ótica, o poder disciplinador se fazia bas- tante eficaz, pois os indivíduos acabavam fazendo parte de várias des- sas instituições ao longo de suas vidas, primeiramente durante os anos escolares, em seguida, para os homens, nos quartéis, e posteriormente o trabalho com a rotina estabelecida pelas fábricas. “Um homem incapaz de emprego ou de alistamento era um homem essencialmente fora da rede de controle social” (BAUMAN, 2011, p. 149). Dessa forma o poder disciplinador se tornava bastante eficaz, alcançando suas metas de tor- nar correto o incorrigível, de estabelecer padrões de comportamento, controlando e educando os corpos, tornando-os dóceis e fortes. O fato de possuir um corpo forte e produtivo, nessa perspectiva, era sinônimo de ser um sujeito saudável, apto ao trabalho, virtuoso para as
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    52 CORPO EIDENTIDADE fábricas, elevando o status daqueles que o possuíam e que eram capa- zes de desempenhar trabalhos pesados. Seu inimigo era o corpo fraco, franzino, doente. A cultura moderna trouxe o corpo aos holofotes, uma vez que era um representante das potencialidades do homem. O corpo também estava fortemente atrelado à economia, uma vez que era o corpo do tra- balhador que produzia. Sendo assim, o conceito de “corpo forte” gerou um mal que assombrou a modernidade, transformando a“degeneração” em algo a ser temido. Entenda-se degeneração como“‘perda de energia’, moleza corporal, fraqueza e flacidez”(BAUMAN, 2011, p. 150). No entanto, era crescente o número de pessoas consideradas“inap- tas”, ou com corpos insuficientemente fortes, como moradores das periferias urbanas ou bairros miseráveis, trabalhadores informais. Ao se alastrarem e adentrarem os centros civilizados, geravam um “pânico intelectual e legislativo, por serem lidos (e não erradamente) como sinais de fracasso do mais decisivo dos empreendimentos modernos” (BAUMAN, 2011, p. 150). O esforço físico estava totalmente atrelado à pobreza, e se o físico daqueles responsáveis por gerarem lucro não mais estava apto, então era inevitável que um colapso ocorresse. No entanto, as instituições que antes eram as responsáveis pelo estabelecimento da ordem foram perdendo suas forças normativas e ordeiras. Pode-se notar essa mudança, por exemplo, na relação, antes longa e sólida, entre as fábri- cas e seus trabalhadores: Atualmente, com a flexibilização, a desregulamentação e a precarização do trabalho, o antigo casamento entre patrões e empregados (vale dizer, entre capital e trabalho), que os mantinham presos ao “chão da fábrica”, não passa de uma coabitação até segunda ordem, sustentável apenas enquanto beneficiar um dos pólos ou até nova rodada de demissões e ajustes orçamentários. Outrora caracterizado como o principal valor dos tempos modernos na busca da ordem como tarefa, fornecendo
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    53Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani o (sólido) eixo ético da sociedade em seu conjunto e também o eixo seguro em torno do qual os indivíduos poderiam fixar suas identidades, o trabalho teria transitado do reino da ordem, da solidez, para o universo cambiável, errático, episódico e incerto do jogo, da fluidez. (ALMEIDA; GOMES; BRACHT, 2009, p. 34) O derretimento da solidez do mundo do trabalho alterou a forma, antes engessada e monótona, da vida de seus habitantes moder- nos; “caos e ordem”, elementos inseparáveis da modernidade, como afirma Bauman (1999, p.12), protagonizam um duelo interminável. Onde existe o caos, estará também a ordem para tentar classificar e controlar o indeterminado. Classificar fez e faz parte de uma estratégia ordeira, de buscar tornar padrão o aleatório, arrumar o bagunçado, fincar pilares em terras firmes para que nada saia do lugar. Assim como o caos gera a ordem, e vice-e- -versa, a classificação gera a ambivalência. Quando as ferramentas de classificação, por exemplo a linguagem, se tornam obsoletas, inadequa- das, insuficientes, abre-se uma brecha para que determinado elemento a ser classificado seja capaz de se encaixar em mais de uma categoria, gerando incertezas, indefinições, desconforto. A ambivalência cria um desiquilíbrio na ordem classificatória. Sem o papel imperante do Estado, ou do olhar vigilante e controlador das instituições públicas para assegurar um estilo de vida padronizado, e limites comportamentais a serem rigidamente seguidos, os indivíduos acabam sendo forçados a se responsabilizarem eles mesmos pelas suas decisões, pelas suas escolhas. Fica a cargo de cada um decidir pelo certo e errado, pelo amigo e inimigo, benéfico ou maléfico. A liquefação dos antigos sólidos deixa tudo a cargo do individuo, do“faça-você-mesmo”, e a auto-afirmação ganha forças e prioridade nas escolhas de cada um. Os papeis são invertidos na modernidade líquida: seguir o mestre e dar-se por satisfeito com isso é substituído por uma constante correria, um impulso de estar sempre se movimentando para não ser deixado para trás. Isso exige um enorme esforço para se manter em dia com as
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    54 CORPO EIDENTIDADE demandas do mundo líquido moderno, onde nada se fixa, nada se man- têm por muito tempo; onde o efêmero toma conta dos relacionamentos e nada mais é para“sempre”. A identidade é forçada a deixar o seu acon- chegante porto seguro do mundo sólido, para se tornar livre, diversa, desencaixada, fluída, ambivalente, múltipla. Na interpretação do sociólogo polonês, a ética do trabalho foi subs- tituída pela ética do consumo, os indivíduos deixam de lado a posição de indivíduosinternosparadaremlugaraumindivíduocoletordesensações. A modernidade líquida nos possibilita respirar novos ares, explorar terre- nos nunca antes visitados, serrar as amarras que nos prendiam a mesmice. Bauman (2001) afirma que a privatização dos afazeres modernos é um dos principais elementos que diferencia a modernidade líquida da sólida. Outra importante característica é a mudança na concepção de durabilidade, de fixidez, da necessidade de certezas a respeito do futuro. Na modernidade líquida, os projetos passam a ser transitórios, indefinidos, fluídos. Porém, nenhuma mudança é completamente livre de ônus. Muitos aspectos da vida moderna tornaram-se problemáticos para seus habitantes, provocando confusões, insegurança, ansiedades. Uma delas, e a que elegemos como mote para este trabalho, é a questão das identidades. IDENTIDADE COMO TAREFA Toda a virada de ano começa com resoluções para muitas pessoas. Promessas mirabolantes, que talvez nunca venham a ser cumpridas, metas às vezes razoáveis, até realistas, esperanças de que o ano que esta por iniciar seja (sempre) muito melhor do que o que passou. Aban- donamos o velho e adotamos o novo, sempre em busca de algo que nem sabemos ao certo o que é, embora saibamos, com certeza, que o que temos poderá ser melhor. Olhamos para frente sem saber o que vai acontecer e, ao mesmo tempo, vivemos ao máximo o agora. Queremos mudanças, acontecimentos, felicidades, novas experiências, viagens,
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    55Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani dinheiro, saúde. Estamos sempre em busca de algo, algo que nunca chega, nunca se satisfaz. Acreditamos que a construção de nossas identidades seja um pouco parecida com nossos votos de Ano Novo, pois estamos sem- pre nessa ânsia por movimento, da busca de algo novo, de construir, de ser diferente, melhor, mais feliz, mais adequado. Deixamos no passado o velho, para em seguida ir em busca do novo: queremos novas sensações, novas emoções. Nossas identidades estão sempre se renovando na liquidez da modernidade, aliás, é isso que fazemos para que não sejamos excluídos ou deixados de lado como o velho ano que passou. Somos impulsionados pela necessidade de conti- nuar pensando no amanhã, para não sermos atropelados pelo tempo, pelos outros, pela solidão. As mudanças decorrentes da passagem da modernidade sólida para a líquida trouxeram novos afazeres para os indivíduos. A metá- fora do líquido é bastante adequada quando pensamos também nas identidades. Devido ao declínio das influências exercidas pelas ins- tituições estatais, os indivíduos acabaram ficando sem um modelo que os moldava e que determinava como, e de que forma deveriam seguir suas vidas. A identidade foi uma maneira encontrada para suprir esse vazio: Pensa-se na identidade sempre que não há certeza sobre o lugar de pertencimento, quando não há certeza sobre como se colocar dentre a evidente variedade de estilos e padrões de comportamento, e sobre como se assegurar de que as pessoas aceitem essa posição como correta e adequada de modo que ambos os lados saibam como agir em presença do outro. “Identidade” é um nome dado à buscada fuga dessa incerteza. Assim “identidade”, apesar de ser claramente um substantivo, comporta-se como verbo, ainda que um verbo estranho: ele só aparece conjugado no futuro. (BAUMAN, 2011, p. 114; grifos do autor).
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    56 CORPO EIDENTIDADE De fato, as identidades não são algo a priori, mas sim uma invenção da modernidade, uma convenção social, um projeto a ser construído e, portanto, repleto de escolhas a serem tomadas. A partir do final do século XX, e conforme o projeto moderno ganha novas feições e se materializa em nossas sociedades, a fragilidade, bem como a condi- ção passageira das identidades, tem se mostrado cada vez mais óbvia. Porém, a identidade nem sempre foi um problema premente: somente a partir do momento em que o pódio no qual estava assentada entrou em crise é que os holofotes se voltaram para ela: Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedadesmodernasnofinaldoséculoXX.Issoestáfragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um “sentido de si” estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento – descentração dos indivíduos tanto do seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma “crise de identidade”para o indivíduo. (HALL, 2005, p. 9). Nessa passagem, Hall nos dá elementos importantes a serem conside- rados sobre a modernidade e também sobre as identidades. Gostaríamos de chamar atenção para o surgimento das identidades nacionais que, assim comooconceitodeEstado-nação,étambémumprodutodamodernidade. Bauman (2005, p. 23) remete-se a Polônia, sua terra natal, para rela- tar um fato que exemplifica bem a questão. Um censo estava sendo realizado naquele país com o intuito de “coletar informações sobre a auto-identificação de todos os indivíduos do Estado polonês”. Ao che- gar aos pequenos vilarejos, aos moradores do campo, os entrevistado- res não conseguiram extrair dos indivíduos uma definição de nação,
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    57Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani muito menos do significado de nacionalidade. Eles respondiam sim- plesmente que eram dali, que eram daquele lugar. Para eles, suas terras representavam o limite de seu país, pois nunca haviam ido a outros lugares, não conheciam as fronteiras geográficas reais – e tam- bém simbólicas – do país que habitavam. “Foram necessárias a lenta desintegração e a redução do poder aglutinador das vizinhanças, com- plementadas pela revolução dos transportes, para limpar a área, possibi- litando o nascimento da identidade – como problema e, acima de tudo, como tarefa.”(BAUMAN, 2005, p. 23-24). Tarefa,poiseraprecisofazeralgoarespeito.Asidentidadesdeixaram de ser algo natural, algo sobre o qual os indivíduos nada podiam fazer, para se tornar um elemento que precisava e precisa ser construído, batalhado, criado, sem poder se dar ao luxo da inércia. A identidade somente existe como um problema, da necessidade de se encaixar em algum padrão, em pertencer a algum grupo, tribo, comunidade, em saber se portar diante do(s) outro(s). Não é mais possível e aceitável conservar uma única identidade sem ser deixado para trás, sem ser con- siderado um excluído. No entanto, apesar desse fã de pertencimento, ela é uma construção individual, um fardo a ser carregado por cada um, pois as certezas e verdades passam agora a ser pensadas não mais coletiva- mente (BAUMAN, 2011). É nesse sentido que o sentimento de certeza é abalado, pois como saber ao certo o que é aceitável ou não, o que se espera como correto, adequado, permitido. A sensação de insegurança e instabilidade passa a fazer parte do cotidiano dos indivíduos no atual estado da modernidade. Foi o Estado-nação que tomou para si o local de nascimento dos sujeitos como fator determinante para o reconhecimento e afirmação de sua nacionalidade. Logo, todos deveriam possuir uma nacionali- dade, pertencer a uma nação e reconhecer-se nela. Os moradores das regiões mais afastadas dos centros urbanos, “atrasadas”, das florestas e das aldeias, como no episódio narrado por Bauman e anteriormente referido, não eram ignorantes ou limitados, o problema não era esse. O
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    58 CORPO EIDENTIDADE fato é que não se pode ser algo diferente sem conhecer outras realida- des, não é possível definir quem eu sou se nunca existiu a possibilidade de ser outra pessoa. Afinal, só almejamos algo que não temos ou que não somos quando sabemos de sua existência. Não fazia sentido inda- gar àqueles aldeões sobre suas identidades, uma vez que “seu mundo” nunca havia demandado tal definição. Para eles, “identidade” não era algo necessário, não lhes fazia falta. Não se pode possuir uma identidade sem saber o que ela representa. A idéia de“identidade”, e particularmente de“identidade nacional”, não foi“naturalmente”gestada e incubada na experiência humana, não emergiu dessa experiência como um “fato da vida” auto-evi- dente. Essa idéia foi forçada a sair da Lebenswelt de homens e mulheres modernos – e chegou como uma ficção. Ela se solidificou num“fato”, num“dado”, precisamente porque tinha sido uma ficção, e graças à brecha dolorosamente sentida que se estendeu entre aquilo que essa idéia sugeria, insinuava ou impelia, e ao status quo ante (o estado de coisas que precede a intervenção humana, por- tanto inocente em relação a esta). A idéia de “identidade” nasceu da crise do pertencimento e do esforço que esta desencadeou no sen- tido de transpor a brecha entre o“deve”e o“é”e erguer a realidade ao nível dos padrões estabelecidos pela idéia – recriar a realidade à semelhança da idéia. (BAUMAN, 2005, p. 26; grifos do autor). É relevante pensarmos no tema da identidade como uma cadeia de acontecimentos que surge, como mencionado acima, pela crise do pertencimento, pela falta de um sentimento de unidade dos indivíduos que nasceram e/ou viviam na mesma comunidade, no mesmo país. No entanto, progressivamente ela foi se sedimentando no fundamento que sustenta o “eu” de cada indivíduo. E a partir do momento em que esse sedimento passa a se movimentar, a se transformar, o que antes estava seguro e firme, agora perde sua estabilidade. Por conta dessa“inexatidão do ambiente”, os indivíduos não encontram mais as mesmas “bases” de
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    59Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani outrora sobre as quais assentavam seus comportamentos, produzindo, como efeito, um sentimento de insegurança e de crise. Como aponta Bauman (2005, p. 26), a identidade só poderia ingres- sar no mundo da vida (Lebenswelt) como “um estímulo, um dever e um ímpeto à ação”. Em uma palavra: como tarefa a ser realizada. Nesse sentido, o nascente Estado moderno, no seu “casamento” com a nação, necessitava que seus indivíduos se subordinassem incondicionalmente a apenas um comando, garantindo, assim, a segurança, existência e a realização do futuro da nação. Não fosse o poder do Estado de definir, classificar, segregar, separar e selecionar, o agregado de tradições, dialetos, leis consuetudinárias e modos de vida locais, dificilmente seria remodelado em algo como os requisitos de unidade e coesão da comunidade nacional. (BAUMAN, 2005, p. 27). Para que uma comunidade nacional coesa ocupasse o lugar de um aglomerado de indivíduos do Estado – projeto que, como aponta Bauman (2005, p. 27), permaneceu não apenas incompleto, mas cuja existência foi sempre precária – demandava um esforço de vigilância ininterrupta e o emprego, com frequência, de grandes doses de força e violência sobre os indivíduos. Assim, como forma de coibir pensamen- tos e práticas que fossem contrárias a ideia de uma identidade nacio- nal, a ameaça de “exclusão”, resultante, segundo Bauman (2005, p. 27), da “superposição do território domiciliar com a soberania indivisível do Estado”, passa a se colocar como uma possibilidade iminente. Ser excluído significa não fazer mais parte de determinado grupo, significa estar avulso, não fazer mais parte do “nós”, representando a ameaça de estar sozinho, e de não pertencer a nenhuma comunidade. Sem essa constante ameaça e prática, acrescenta Bauman (2005, p. 28), “o ‘pertencimento’ teria perdido o seu brilho e o seu poder de sedução, junto com sua função integradora/disciplinadora”.
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    60 CORPO EIDENTIDADE O sentimento de nacionalidade certamente não ocorreu, adverte o autor, com a naturalidade que imaginamos: nascimento e nacionali- dade não surgiram naturalmente atrelados um ao ou outro. Porém, é inegável que características pessoais como filiação, nome, idade, não eram tão merecedoras de atenção como a nacionalidade, e podemos afirmar que essa prática criou raízes tão profundas que até os dias de hoje ainda priorizamos a nacionalidade dos indivíduos perante outras características. Prova disso é a reação de oficiais de imigração nos Esta- dos Unidos – mas poderia ser em outro país –, por exemplo, ao receber o passaporte das mãos de um mexicano, ou de um inglês. Ao cruzarmos fronteiras somos sempre perseguidos por nossas identidades nacionais, carregando características e sentimentos de pertença que nos movem e que nos denunciam. Há sete anos, quando Bauman concedeu a entrevista que resul- tou no mencionado livro, as redes sociais, os sites de relacionamento na internet e a tecnologia informacional ainda não tinham atingido o grau de evolução em que se encontram hoje. O autor nos fala de como fazemos uso das chamadas “comunidades virtuais” como “substância à identidade pessoal”, que, segundo ele, acabam não funcionando exa- tamente como gostaríamos nesse processo. Aliás, muitas vezes elas tornam-se um obstáculo, dificultando ainda mais os “acordos” na cons- trução do eu e no sentimento de pertencimento (“sentimento do nós”), pois são muito mais frágeis do que as velhas “formas sólidas – com a pretensão de ser ainda mais sólidas – de convívio” (BAUMAN, 2005, p. 31). Na internet, podemos nos relacionar com outras pessoas com a mesma facilidade com que somos descartados por elas: é fácil entrar ou ser abandonado nas “comunidades” eletronicamente mediadas. Apoiado em Clifford Handy, Bauman adverte que as redes sociais esta- riam criando um distanciamento ainda maior entre as pessoas, dando a impressão de proximidade por possibilitarem contato, ou ao menos notícias diárias dos“amigos”, quando na verdade nos privam da vontade de estabelecer contato físico direto, de encontros pessoais, olho no olho.
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    61Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani As redes sociais, os sites de relacionamento, bem como os celu- lares, smartphones, aparelhos de MP3/4, estão desenvolvendo novos costumes, novos hábitos em nossas rotinas. Passamos mais tempo dia- logando com a câmera do computador ou falando ao celular do que frente a frente com outras pessoas. Além disso, os celulares tornaram-se nossos maiores (e melhores?) “companheiros”: não saímos de casa sem eles e tampouco desgrudamos deles mesmo dentro de nossos lares. Eles deixaram de ser apenas meros aparelhos com os quais falamos com pes- soas que estão distantes fisicamente. Os smartphones, por exemplo, uti- lizam tecnologia que nos encaminha cada vez mais para o isolamento, pois possuem funções que possibilitam o acesso à internet a qualquer momento, aplicativos que nos mantém ocupados sem necessitarmos de outra pessoa para compartilharmos qualquer tipo de experiência. E mesmo quando nos encontramos pessoalmente, esses incríveis apare- lhos não ficam fora da roda, pois nos habituamos a ficar “conectados” que, mesmo na presença física de outras pessoas, acabamos nos afas- tando temporariamente da conversa para checarmos nossos e-mails, ou para verificarmos se alguém nos deixou um recado em alguma página de relacionamento ou rede social. Como isso estaria afetando nossas identidades? É fato, por exem- plo, que as novas tecnologias possibilitam maior fluidez e variação, por assim dizer, de nossas identidades. Por exemplo, é possível assumir inú- meras identidades por meio de diferentes páginas de relacionamento, ser “outra pessoa” em cada uma delas. Aparentemente, não há grandes prejuízos – com exceção, claro, do sentimento de insegurança – em ser- mos pessoas diferentes em diferentes ocasiões, até porque assumimos papéis distintos no trabalho, em casa, na faculdade, com grupos de amigos etc. Talvez não seja esse o problema, mas sim a superficialidade, precariedade e volatilidade que cada identidade possui nos espaços virtuais. Assim, quando criamos vários “eus” na internet, nenhum deles possui consistência ou perdura o tempo suficiente para que possa ser assumido integralmente pelo indivíduo. A consequência direta disso
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    62 CORPO EIDENTIDADE parece ser uma maior exposição, sem nenhum“filtro”ou mediação sub- jetiva, às influências “externas”. No caso específico das redes sociais vir- tuais, talvez não sejamos nós que “surfarmos a onda” (da internet), mas ela que nos surfa. De acordo com Bauman (2005, p. 32), esse distanciamento vivido e sentido por meio da rede de computadores contemporaneamente é radicalmente distinto daquele experimentado por figuras características da modernidade “sólida”, como os vagabundos das análises de Simmel, os praticantes da desatenção civil de Goffman e, poderíamos acrescen- tar, o flâneur de Baudelaire e Benjamin. Essas figuras das grandes cidades do século XIX e início do XX (Berlin, Londres e, sobretudo, Paris) preten- diam se colocar como espectadores dos“dramas urbanos”que ocorriam nas ruas repletas de pessoas, mas entravam nesse teatro sem se juntarem à companhia. Distanciavam-sedaquiloqueviameobservavam.Masnãoerafácil para eles distanciar-se do palco em que o drama se desenrolava: a proximidade física podia ser facilmente confundida com a proximidade espiritual. (BAUMAN, 2005, p. 32). Emblemática, nesse caso, é a postura do flâneur retratada na poe- sia de Baudelaire e interpretada por Walter Benjamin. Apoiado nesse último e também em Rouanet (1999), Bassani (2008, p. 102-103) afirma que o flâneur mantém com a multidão – aglomerado de pessoas que se movimenta freneticamente pelos centros urbanos sem que se constitua uma “comunidade”, um “nós” – uma postura ambígua: diferentemente do passante comum, que se enfia na massa e nela se dilui, ele conserva ainda sua individualidade colocando-se na margem, na“periferia”. O flâ- neur despreza a massa, mas, ao mesmo tempo, é seu cúmplice, porque, se por vezes ela se coloca como paisagem,“contemplada à distância”, em outras ela é seu asilo, seu ninho acolhedor. Sua existência depende da multidão de pessoas.
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    63Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani Além do flâneur, vale pensarmos também em outras personalida- des que foram se construindo em decorrência das novas características trazidas pela modernidade liquida, e que representavam uma ameaça para a solidez, como o vagabundo, o turista e o jogador. Em seu livro Vidas em Fragmentos, Bauman (2011) nos fala sobre cada um deles em mais detalhes. O errante, considerado aquele que vaga sem destino pré-determi- nado, trazia insegurança e era malquisto por onde passava justamente por ser seu objetivo uma incógnita. Sua liberdade era ameaçadora, pois não respeitava barreiras e fugia ao controle do Estado. O enfraqueci- mento da necessidade de fincar raízes fez com que o número de“errantes” aumentasse nos tempos de liquidez, pois lugares que poderiam fornecer condições adequadas para que eles se estabilizassem foram ficando cada vez mais escassos; portanto, sua caminhada nunca chega ao fim. No caso do turista, seu movimento parte de sua insatisfação com os lugares em que já esteve e as experiências vividas proporcionadas por cada lugar. O turista sempre está, nunca é do lugar. Seu objetivo é sempre buscar novas experiências, novas sensações e emoções, nunca satisfeito. Ao contrário do vagabundo, o turista se dá ao direito de não ser incomo- dado, e não enfrenta uma realidade dura e de necessidades. Seu mundo é estetizado, e, além disso, possui sua própria casa, ao menos em teoria, algo que lhe proporciona certa segurança. Uma segurança de poder, e ter para onde voltar, um lar que o espera caso canse de suas viagens. O lar é o motivo que possibilita o turista a se aventurar, ir e vir, pois sabe que, ao final de suas explorações em terras antes desconhecidas, retornará a um lugar seguro e salvo, todo seu. Saber de sua existência torna a empreitada mais prazerosa, lá é possível baixar a guarda, retirar o escudo que o protege, e por isso sente-se bem em se fantasiar e ser o que deseja ser enquanto esta fora. O problema é que a aventura esta tomando o lugar da vida. O fato de estar sempre se aventurando torna-se um estilo de vida, tor- nando cada vez mais difícil reconhecer o que seria a vida e o que seria
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    64 CORPO EIDENTIDADE a jornada. A certeza de que é possível retornar ao lar é um sentimento futuro; se esse sentimento é transmitido ao presente, seu encanto e fascínio se perdem, se apagam. “A possibilidade de o sonho de casa se tornar realidade é tão assustadora quanto a possibilidade de nunca se tornar”. (BAUMAN, 2011, p. 134). Já o jogador gosta de viver uma vida rodeada de riscos. Em seu mundo é preciso saber lidar com a sorte e o azar de cada jogo, seu tempo é compartimentado em apostas, e ele preza por sua individua- lidade, afinal de contas, seu jogo não é um jogo em equipe. Seu grande objetivo é ganhar, portanto, não há lugar para compaixão ou coopera- ção. Casamentos, relacionamentos duradouros, amizades, empregos, são parte do jogo, e eles nunca se dão por inteiro, ele nunca joga“all in”, como no Poker, para que sempre haja a possibilidade de continuar na próxima rodada. Em comum, essas personagens que caracterizam nosso mundo moderno nos trazem a mensagem de que não mais estamos presos a nada e nem a ninguém. Elas representam o movimento e a falta de com- promisso, nos mostram como nos comportamos, mesmo que involunta- riamente, em determinados momentos de nossas vidas. Para Bauman (2011, p. 138), elas [as estratégias da vida pós-moderna] estão todas em pé de guerra contra as “marras”e consequências duradouras, e militam contra a construção de redes duradouras de diretos e obrigações recíprocos. Todas favorecem e promovem uma distância entre o individuo e o outro e apresentam o outro sobretudo como objeto de avaliação estética, não moral; como uma questão de gosto, não de responsabilidade. Os tempos mudaram e isso ninguém pode negar. Se valores, priori- dades e autoridades não são mais as mesmas, a identidade também não poderia ser. A modernidade abalou também o poder do Estado, pois não há mais o desejo de manter sólido o sentimento de união de um povo
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    65Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani como nação, nos levando a crer que as identidades nacionais estariam cada vez mais enfraquecidas, quase esquecidas. A queda das barreiras protecionistas no mercado livra o Estado do patriotismo que uma vez fizera questão de impor sob seus comandados. O mundo globalizado não oferece segurança para a identidade de seus habitantes; não há mais regras e nem posturas a serem respeitadas: “os direitos sociais são substituídos um a um pelo dever individual do cuidado consigo mesmo e de garantir a si mesmo vantagem sobre os demais”(BAUMAN, 2005, p. 35). Somos responsáveis por nossa própria identidade, estamos incum- bidos da tarefa de autoconstrução, autodefinição, pois não há mais uma instituição para nos apoiarmos, não há mais uma referência única para seguirmos ou copiarmos. Estamos livres para sermos o que quisermos, para fazer as opções que julgarmos mais convenientes e adequadas. Insegurança e fragilidade são palavras constantes no contemporâ- neo. Insegurança por não saber ao certo se o esforço que colocamos em determinado investimento (financeiro e, sobretudo, subjetivo) trará resultados ou recompensas. Afinal, em um mundo que está constante- mente em movimento, o que se investe hoje pode não ser válido ama- nhã. Carreira, relacionamentos, amizades, moda estão em constante transformação. “Visualizar-se” no futuro, mesmo que próximo, em qual- quer aspecto que seja, já não é mais tão fácil, pois, em meio a tantas oportunidades e mudanças, se apegar a uma única previsão, a um único “projeto”, passa a ser muito arriscado. Por conta disso, acabamos construindo novos tipos de comunidade, que Bauman (2005, p. 37) batizou de “comunidades guarda-roupa”, por representar a atitude dos sujeitos perante eventos de sucesso momen- tâneos, quando penduram seus problemas em cabides e os deixam guardados e esquecidos até que o evento acabe, e, então, voltam ao guarda-roupa para apanhar seus pertences e se dirigem à saída. Esses eventos momentâneos estão em todo lugar: na capa das revistas de fofocas e de notícias, na internet, nos programas de variedades da TV, escândalos na vida das celebridades, reality shows, jogos de futebol, fil-
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    66 CORPO EIDENTIDADE mes, crimes que ganham proporções nacionais, guerras, novos lança- mentos da moda, até mesmo acontecimentos mundiais e de extrema importância são esquecidos com imensa facilidade: As comunidades guarda-roupa são reunidas enquanto dura o espetáculo e prontamente desfeitas quando os espectadores apanham os seus casacos nos cabides. Suas vantagens em relação à “coisa genuína” são precisamente a curta duração de seu ciclo de vida e a precariedade do compromisso necessário para ingressar nelas e (embora por breve tempo) aproveitá-las. Mas elas diferem da sonhada comunidade calorosa e solidária da mesma forma que as cópias em massa vendidas nas lojas de departamentos diferem dos originais produzidos pela alta- costura... (BAUMAN, 2005, p. 37) Nesse contexto, não há necessidade de aproximação, de envolvi- mento com os outros, até porque esse outro está muito longe da rea- lidade daqueles que tentam copiá-la ou que querem criticá-la, nos tornando cada vez mais individualistas e sozinhos. Aparência e superfi- cialidadetomamcontadocenáriodoespetáculo,oquenãocontribuiem nada para aplacar a falta de segurança e no desafio de se afirmar como sujeito portador de uma identidade (minimamente?) coerente. A liber- dade e a falta de limites que antes provocavam excitação, agora se tor- naram um fardo para todos os habitantes do mundo líquido-moderno: Emnossomundode“individualização”emexcesso,asidentidades são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como dizer quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, essas duas modalidade líquido-modernas de identidade coabitam, mesmo que localizadas em diferentes níveis de consciência. Num ambiente de vida líquido-moderno, as identidades talvez sejam as encarnações mais comuns, mas aguçadas, mais profundamente sentidas e perturbadoras da ambivalência. (BAUMAN, 2005, p. 38; grifo do autor).
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    67Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani Outra categoria que jogou papel importante na definição das iden- tidades no passado, a de classe social, também perde, no mundo líqui- do-moderno, seu primado. A classe proletária, por exemplo, que por tanto tempo tem lutado unida em prol de seus interesses, na atual fase da modernidade perde essa característica tão marcante, uma vez que a luta não é mais da classe e sim de cada um para se salvar no próximo corte no quadro de funcionários; cada um buscando ser notado, valori- zado pelo patrão para que seja lembrado de sua relevância no trabalho. Isso tudo em decorrência de novas características que tomaram conta das relações de trabalho em nossa sociedade, como por exemplo, desregulamentação, terceirização internacionalizada, “subsidia- riedade”, desengajamento administrativo, defasagem das “fábri- cas fordistas”, uma nova “flexibilidade” dos padrões de emprego e rotinas de trabalho, e de um desmantelamento gradual mas implacável dos instrumentos de proteção e autodefesa dos tra- balhadores [...]. (BAUMAN, 2005, p. 40). Uma vez tão sólidas e agora tão inseguras, as relação de trabalho acabam proporcionando o surgimento de sujeitos hesitantes não ape- nas em relação às esperanças de uma mudança social radical, senão que também em relação a investimentos de longa duração. A consequência é a preferência por viver baseando-se em pequenos projetos, deixando de lado a necessidade de uma identidade coletiva de classe, pois não há mais interesses em comum que liguem os sujeitos a um ideal de uma “boa sociedade” futura. Na modernidade líquida, cada um está por sua conta e risco. Afinal de contas, o objetivo é absorver o máximo possível enquanto dure o projeto, e em seguida“pular”para outro, sempre consi- derando apenas o agora e não o amanhã (BAUMAN, 2005, p. 41). Dessa forma, novas bandeiras foram costuradas e erguidas, novos manifestos elaborados,novoscartazesconcebidoseimpressos.Comoaclasse
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    68 CORPO EIDENTIDADE não mais oferecia um seguro para reivindicações discrepantes e difusas, o descontentamento social dissolveu-se num número indefinido de ressentimentos de grupos ou categorias, cada qual procurando a sua própria ancora social. Gênero, raça e heranças coloniais comuns parecerem ser os mais seguros e promissores. (BAUMAN, 2005, p. 42) O resultado dessa fragmentação em massa foi o surgimento de novos interesses, novas lutas, novos conflitos, agora entre os subgrupos ou categorias, e, se antes já era difícil reunir-se em uma única metasub- jetividade, agora essa tarefa torna-se praticamente impossível. Ao con- trário do que possa se imaginar, adverte-nos Bauman (2005, p. 42-43), essa fragmentação não melhorou em nada a discrepância em relação à distribuição de renda, e a diferença em relação a ricos e pobres con- tinuou a existir. Se, por um lado, a proliferação de bandeiras e campos de batalhas chamou a atenção para aspectos negligenciados na luta de classe, deslocando o foco dos aspectos econômicos sobre os quais se assentava a construção de um“mundo melhor”, para a questão do reco- nhecimento, respeito e destruição de estigmas de grupos e categorias, por outro, provocou o silenciamento da discussão sobre a questão finan- ceira que, segundo Bauman (2005, p. 43-44), está na origem de parte da desigualdade e miséria humana. Com a formação de subgrupos e também de categorias, a identi- ficação passou a ser algo muito relevante na constituição dos sujeitos, inclusive, como fator de estratificação e diferenciação social. Segundo Bauman (2005, p. 44), há dois pólos nesse processo: em um extremo se encontram “aqueles que constituem e desarticulam as suas iden- tidades mais ou menos à própria vontade”, e, no outro, “se abarrotam aqueles que tiveram negado o acesso à escolha da identidade, que não têm direito de manifestar as suas preferências e que no final se vêem oprimidos por identidades aplicadas e impostas por outros”. Para aque- les que conseguem transitar entre identidades, podendo esconder-se atrás de uma quando lhe interessa e assumir outra quando lhe con-
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    69Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani vêm, essa flexibilidade possibilita que esse indivíduo se adapte mais facilmente a qualquer ambiente e situação. No entanto, o fardo pesa sobre aqueles que não têm esse privilégio, uma vez que são identifica- dos e não possuem uma identidade constituída por eles mesmos, e da qual, inclusive, se ressentem, e passam a ser classificados, apontados, excluídos, estereotipados, estigmatizados. Para estes não há espaço e muito menos possibilidade para abandonar ou se livrar dessa identi- dade imposta, e estão sempre expostos aos olhares e aos dedos dos outros, que os identificam como bem entendem. O outro aqui se mos- tra como o vilão do oprimido. Max Frisch, citado por Bauman (2005. p. 45), define a “identidade como a rejeição daquilo que os outros dese- jam que você seja”. Em uma posição ainda mais complicada estão aqueles que se encontram naquilo que Bauman chama de “subclasse”: a estes não há possibilidade nenhuma de identidade. Os sujeitos que se encontram, aliás, que são enxotados para a subclasse, ficam à margem da sociedade, privados dos seus direitos, de serem reconhecidos e respeitados como sujeitos de bem: Se você foi destinado à subclasse (porque abandonou a escola, é mãe solteira vivendo de previdência social, viciado ou ex-viciado em drogas, sem-teto, mendigo ou membro de outras categorias arbitrariamente excluídas da lista oficial dos que são considerados adequados e admissíveis), qualquer outra identidade que você possa ambicionar ou lutar para obter lhe é negada a priori. O sig- nificado da “identidade da subclasse” é ausência de identidade, a abolição ou negação da individualidade, do “rosto” – esse objeto do dever ético e da preocupação moral.Você é excluído do espaço social em que as identidades são buscadas, escolhidas, construí- das, avaliadas, confirmadas ou refutadas. (BAUMAN, 2005, p. 46). Um dos resultados perversos da globalização em nossa sociedade é o acumulo do “lixo humano”, expressão que Baunam utiliza para refe-
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    70 CORPO EIDENTIDADE rir-se aos excluídos, uma vez que é cada vez maior o número que indiví- duos que não se encaixam nos parâmetros do grupo dos“perfeitos”, dos “normais”. A partir do momento que as identidades sociais deixaram de ser definidas e determinadas pelas classes, para dar lugar à ramificação dos subgrupos e categorias, os explorados deram lugar aos excluídos, sem deixar de lado a miséria e as desigualdades sociais, que não dimi- nuíram, muito pelo contrário, somente aumentaram ainda mais a fosso entre os bons e os humilhados. (BAUMAN, 2005, p. 47). Aos excluídos não há muitas possibilidades em aberto, ficando assim vulneráveis a qualquer oferta que possa oferecer um mínimo de esperança de deixarem essa condição de escória social. Para aqueles que têm sua identidade negada, ou aqueles que são identificados ao invés de optarem por sua própria identidade, as opções que lhes são ofereci- das para se integrarem novamente na sociedade são mínimas. Diferentemente do passado, não basta mais ser nato em determi- nado Estado ou nação para ser considerado parte dela. Além do mais, ser dependente dos meios públicos como a previdência, os serviços de saúde, educação, por exemplo, caracteriza pobreza, incapacidade de se auto-sustentar. A identidade, de qualquer tipo, para muitos é um sonho, um objetivo distante, difícil de ser alcançado. Pensemos mais cuidadosamente sobre as identidades pessoais, que são comparadas por Bauman (2005) a montagem de quebra-ca- beças, com o intuito de nos mostrar como essa construção é contínua, imprevisível e incerta. As biografias, ao contrário dos quebra-cabeças, não possuem uma imagem final a qual se deve buscar imitar, não são fixas, não possuem peças exatas que se encaixam facilmente umas nas outras. Aliás, as peças que compõem as biografias nem sempre estão todas à disposição para serem usadas. O quebra-cabeça das identidades pessoais não pode ser devolvido à loja em caso de defeito; sua inexati- dão gera várias possibilidades de montagem e demanda do montador maior esforço e imaginação. O resultado final da montagem de todas as peças é meramente impossível, e, além do mais, o objetivo não é neces-
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    71Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani sariamente o resultado final, mas sim o processo, os meios que serão utilizados para se tentar alcançar o fim. O vislumbre do que se espera dessa construção é o que motiva e o que nos guia durante a construção de nossas biografias. No entanto, é preciso desvirtuar nossas atenções da ânsia de se chegar ao fim e voltar- mos nossas atenções para o processo em si. Dessa maneira, estaríamos construindo nossas identidades com aquilo que temos, fazendo uso das peças disponíveis, ao invés de nos iludirmos com a possibilidade de algo que não pode ser alcançado. O fato é que, como o próprio autor atesta, a comparação entre a construção das identidades pessoais ao quebra-cabeça é apenas par- cialmente verdadeira, pois a construção de ambos é dada de maneira diferente. Se, por um lado, o quebra-cabeça possui desde o início um desenho que deve ser copiado, por outro, as identidades apenas utili- zam “uma série de peças já obtidas ou que pareçam valer a pela ter, e então se tenta descobrir como é possível agrupá-las e reagrupá-las para montar imagens (quantas?) agradáveis. Você esta experimentando com o que tem.”(BAUMAN, 2005. p. 55; grifos do autor). Além disso, as identida- des pessoais são representadas por sua inexatidão, flexibilidade, plurali- dade, enquanto que o quebra-cabeça é fixo, previsível. Podemosdizerqueasoluçãodeumquebra-cabeçaseguealógica da racionalidade instrumental (selecionar os meios adequados a um determinado fim). A construção da identidade, por outro lado, é guiada pela lógica da racionalidade do objetivo (descobrir o quão atraentes são os objetivos que podem ser atingidos com os meios que se possui). (BAUMAN, 2005, p. 55). No passado essa relação era diferente. Antes da modernidade, as identidades pessoais eram dadas pelo nascimento, portanto, sem mui- tas escolhas a serem feitas por parte dos indivíduos. Entretanto, a par- tir do momento que as identidades passaram a ser relacionadas com a classe social, deixaram de ser tão óbvias e imutáveis, convertendo-se
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    72 CORPO EIDENTIDADE em tarefas que os indivíduos necessitavam desempenhar por meio de suas biografias. Os burgueses, por exemplo, eram identificados não por terem nascidos na burguesia, mas sim pelo papel social que represen- tavam de acordo com seu modo de vida. Ser burguês requeria viver, pela vida inteira, como burguês, caso contrário sua identidade deixaria de ser reconhecida como tal. Apesar de as identidades pessoais serem sentidas como uma “jornada”, por assim dizer, ainda permanecia uma grande certeza sobre a forma com que cada indivíduo deveria viver para ser reconhecido como pertencente a uma determinada classe. “Acima de tudo, essa forma parecia moldada de uma vez por todas. Podia-se seguir a trajetória passo a passo, adquirindo as sucessivas insígnias de classe em sua ordem adequada,‘natural’”(BAUMAN, 2005, p. 56). A preo- cupação de que as características definidoras do modo de vida de uma classe fossem deslocadas, se perdessem ou virassem em direção contrá- ria antes de completado o percurso, algo muito comum no contemporâ- neo, estava completamente ausente nesse momento histórico. Sem os determinismos das eras pré-modernas, ficamos livres para podermos optar, escolher, eleger, selecionar as características que mais nos apetecem, sem termos de nos preocupar com uma verdade intransigente. Apoiado em Alain Peyrefitte, Bauman destaca que essa nova liberdade, representada pela auto-identificação, fez emergir uma grande confiança, igualmente nova e sem precedentes, em nós mesmos bem como nos outros, nas outras pessoas com as quais decidimos com- partilhar essa liberdade, e que recebeu o nome, segundo Bauman (2005, p. 56), de“sociedade”. Confiança na sabedoria coletiva, na confiabilidade de suas instruções e na durabilidade de suas instituições. Porém, tanta confiança demandou também certa coragem para tamanha exposição, e, na prática, não foi bem essa a realidade. As bases que poderiam sustentar e manter essa confiança foram logo se tor- nando cada vez mais fluídas, instáveis e em constante transformação, incapazes de fornecer uma sólida estrutura apropriada para amparar as mudanças que estavam ocorrendo no processo das construções identi-
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    73Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani tárias. Tudo se torna fluído e momentâneo, em especial as estruturas e as instituições. Nossos heróis não prevalecem por muito tempo no topo da lista de figuras admiráveis, nem mesmo os galãs do cinema e da TV, que vão e vem. Descobertas científicas, desastres naturais, novos presi- dentes, tragédias nacionais e internacionais, ataques terroristas, últimas tendências dos desfiles em Paris, lugares badalados, autores populares, músicas, nada disso sobrevive por muito tempo. O surgimento ou acon- tecimento dos fatos possuem uma data de validade que expira assim que surge outra novidade. Aqui valeria perguntar se toda essa liquidez, todas essas mudanças contínuas e constantes valem a pena. Estar sempre em movimento é a resposta para a felicidade? Como podemos “aproveitar” toda essa liber- dade – que, como vimos, também não é para todos –, se não sabemos ao certo para onde estamos caminhando? A resposta a essas perguntas, que talvez nem sejam legítimas, estão longe de serem dadas. Porém, uma coisa parece certa: não acompanhar esse movimento, essa fluidez, é mau sinal; estar fixo e imutável pode nos conduzir à mencionada sub- classe. O advento da modernidade líquida enfraqueceu os valores, as instituições, e as estruturas da tradição, modificando a maneira como estávamos acostumados a interpretá-las. Se antes o problema a ser enfrentado era a rigidez e a inflexibilidade à qual éramos submetidos, agora ele é completamente o inverso. Podemos afirmar que o desafio contemporâneo seria o de fazer com que as identidades não se esvaziem, não se tornem supérfluas diante de tanta inexatidão advindas da falta de referências, dos momentâneos e frágeis laços que criamos em nossos relacionamentos, e não o fato de serem múltiplas e fluídas. As identidades não podem mais ser vinculadas ao que não possui vínculo, como a permanência em determinadas terras e fronteiras, a sexualidade, os laços de parentesco, o trabalho, as gerações (BAUMAN, 2011).
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    74 CORPO EIDENTIDADE COMUNIDADE E IDENTIDADE A tentativa de reavivar as identidades nacionais retoma a discus- são sobre o que seria seu fator determinante: o local de nascimento ou ideais em comum? Para Bauman (2005, p. 68), isso seria uma tentativa de fuga, uma maneira de negar o que já não pode mais ser negado, e, de certa forma, um retrocesso: Para pessoas inseguras, desorientadas, confusas e assustadas pela instabilidade e transitoriedade do mundo que habitam, a “comunidade” parece uma alternativa tentadora. É um sonho agradável, uma visão de paraíso: de tranqüilidade, segurança física e paz espiritual. Para pessoas que lutam numa estreita rede de limitações, preceitos e condenações, pelejando pela liberdade de escolha e auto-afirmação, a mesmíssima comunidade que exige lealdade absoluta e que guarda estritamente as suas entradas e saídas é, pelo contrário, um pesadelo: uma visão de inferno ou da prisão. O rumo que o mundo moderno tomou nos desestimulou a inves- tir em projetos de longa duração. Ao não estabelecermos vínculos com nada e com ninguém, e inseguros em investir em compromissos que possam nos acorrentar, nos prender, não sabemos ao certo que tipo de relacionamento gostaríamos de estabelecer, e se de fato gostaríamos de estabelecer algum. Somos, assim, guiados por um sentimento, que, ao mesmo tempo em que deseja ser amado e acolhido, é hesitante demais para aceitar qualquer tipo de amarras. Em contrapartida à toda essa inexatidão, à falta de definições, as comunidades aparecem como um coringa na manga dos jogadores, uma ferramenta que pode ser usada para dar certa segurança aos indi- víduos, um sentimento de pertença que pode colocá-los de volta nos trilhos e guiá-los a partir de interesses em comuns, capazes, mesmo que momentaneamente, de aplacar o sentimento de incerteza.
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    75Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani Tanto nas comunidades antigas como nas comunidades moder- nas o entendimento compartilhado pelos membros que a constituem passa a ser a cola que os une, construindo um “circulo aconchegante”. No entanto, para se alcançar esse estágio comum de entendimento é preciso que todos o compartilhem de maneira natural e tácita. O vetor que os une deve ser horizontal e não vertical, caso contrário, voltaríamos a nos acorrentar à pilares sólidos e inflexíveis anteriormente derruba- dos. Para Bauman (2003), só pode existir uma comunidade quando há sinergia na execução dos acordos. Esses são naturais, nunca artificiais, e o laço real de uma comunidade quebra-se quando “seus membros” são forçados a apreciar, admirar, ou calar-se perante a necessidade desses acordos produzidos artificialmente. Uma comunidade se constitui diante da distinção entre nós e eles, entre aqueles que estão dentro e os que estão fora da comunidade. Autossuficiente e isolando-se das relações externas, a intenção da comu- nidade não é expandir, mas manter-se pequena. Quando esses três atri- butos se encontram em harmonia, não há necessidade de reflexão sobre os acordos produzidos e mantidos; não há razões para se criticar o que esta em voga e nem a vontade de experimentar novas sensações dispo- níveis apenas do lado de fora. Sendo assim, a unidade da comunidade depende da homogeneidade, da mesmidade (BAUMAN, 2003). Porém, contemporaneamente, fica cada vez mais difícil manter as barreiras, as fronteiras que cercam as comunidades. Elas estão for- temente ameaçadas pela rapidez dos meios de comunicação, pelos adventos tecnológicos, que nos proporcionam a circulação e trocas de notícias a uma velocidade cada vez maior, além dos meios de transporte mais eficientes que nos possibilitam maior agilidade de ir e vir: “a fronteira entre o ‘dentro’ e o ‘fora’ não pode mais ser estabele- cida e muito menos mantida” (BAUMAN, 2003, p. 19). Dessa forma, a mesmidade se esvai quando essa diversidade adentra seu território, transformando o que é de fora sempre mais relevante e atrativo do que está dentro.
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    76 CORPO EIDENTIDADE Assim, a unidade da comunidade é alcançada somente por meios artificiais. E se a coesão interna, como vimos, é alcançada dessa forma, ou seja, artificialmente, o vínculo que mantém a comunidade será frá- gil, necessitando vigilância constante. A comunidade resultante será um campo de batalha, que coloca seus membros em disputas constantes, sempre vislumbrando a tão desejada segurança. O problema é que“uma vez ‘desfeita’, uma comunidade, ao contrário da fênix com sua capaci- dade mágica de renascer das cinzas, não pode ser recomposta” (BAU- MAN, 2003, p. 20), partindo dai uma insegurança continua que assombra seus membros. Em resposta a essa constante sensação de incerteza, as apostas são feitas nas identidades, que acaba traindo sua origem de substituta da comunidade para atuar como uma promessa: a de ressuscitar a comuni- dade perdida. Assim como a comunidade, a identidade trás a promessa de segurança e durabilidade: nenhuma das duas [identidade e comunidade] está à disposição em nosso mundo rapidamente privatizado e individualizado, que se globaliza velozmente, e por isso cada uma delas pode ser livremente imaginada, sem medo do teste da pratica, como abrigo de segurança e confiança e, por essa razão, desejada com ardor. O paradoxo, contudo, é que para oferecer um mínimo de segurança e assim desempenhar uma espécie de papel tranquilizanteeconsolador,aidentidadedetrairsuaorigem;deve negar ser“apenas um substituto”– ela precisa invocar o fantasma da mesmíssima comunidade a que deve substituir. A identidade brota entre os túmulos das comunidades, mas floresce graças à promessa da ressurreição dos mortos. (BAUMAN, 2003, p. 20). A identidade, lembremos, é um elemento do advento da modernidade, portanto, sua característica excludente e classificatória não deixou de existir. A identidade tão almejada constrói barreiras que separam os diferentes, os desencaixados. Há nesse campo de
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    77Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani batalha uma luta constante entre liberdade e segurança, até agora sem perspectiva de vencedores. Enquanto buscamos nos libertar das amarras que nos prendem a modelos pouco flexíveis de conduta, para que possamos “respirar ar puro”, “correr pelos campos” sem preocupações, sem ter que se ater a uma regra ou lei, queremos, ao mesmo tempo, que essa experiência seja uma experiência sem riscos, sem medos, sem receios de que algo dê errado. Um equilíbrio entre segurança e liberdade seria o modelo da feli- cidade ideal. Uma liberdade que nos possibilitasse sermos o que quisés- semos, agindo da maneira que bem entendêssemos, assumindo papéis, identidades que não precisassem de vigilância constante, e que não nos tornassem indivíduos indesejáveis por sermos apenas o que gostaría- mos de ser. Para Bauman (2003, p. 26),“liberdade é a capacidade de fazer com que as coisas sejam realizadas do modo como queremos, sem que ninguém seja capaz de resistir ao resultado, e muito menos desfazê-lo”. “A guerra contra a comunidade foi declarada em nome da liberta- ção dos indivíduos da inércia da massa” (BAUMAN, 2003. p. 30). A ideia era acabar com uma comunidade de hábitos fortes e fixos, para que seus membros pudessem se adaptar aos novos modelos, e assim a comuni- dade sucumbiu aos interesses político-econômicos. A Revolução Industrial possui grande relevância para a compreen- são desse processo, afirma Bauman (2003), pois ela colocou um limite entre o trabalho antes artesanal (natural, comunitário) e o trabalho nas fábricas. Para que houvesse uma adaptação aos novos modos de produ- ção, a comunidade precisou deixar de existir, e, junto com ela, também a inércia das massas. O lar não era mais o local privilegiado de trabalho; a partir daquele momento, esses dois lugares deveriam ser separados: Para o empresário, a separação entre negocio e lar foi uma verdadeira emancipação. [...] os homens e mulheres deveriam primeiro ser separados da teia de laços comunitários que tolhia
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    78 CORPO EIDENTIDADE seus movimentos, para que pudessem ser mais tarde redispostos como equipes de fábrica. (BAUMAN, 2003, p. 33). Esse novo ritmo de vida preza valores diferentes, associados ao tra- balho e aos frutos que ele trás aos merecedores. É preciso fazer-se mere- cedor das suas conquistas, ou seja, a riqueza torna-se sinônimo de êxito, enquanto o seu oposto, a pobreza, torna-se um sinal de preguiça, de descaso com a própria vida. A elite é aquela que detém bens, tanto financeiros quanto culturais, que são seletivos e gostam de se distanciar da massa: “o estilo de vida ‘cosmopolita’ dos novos atores em secessão não foi feito para imitação das massas, e os‘cosmopolitas’não são apóstolos de um modelo novo e melhor de vida, nem são a vanguarda de um exército em marcha.”(BAU- MAN, 2003, p. 54). Eles não estão preocupados em pertencer, em buscar uma comunidade para tomar parte, nem querem proteção ou segu- rança; na verdade, eles se bastam a si mesmos. Já que supostamente cada um fez por merecer o que possui, não estão interessados em saber se a grande maioria, a massa, pode ou não pode usufruir das mesmas experiências e mordomias que eles. Outra mudança que acompanhou essa transição diz respeito ao conceito de autoridade, que antes repousava sobre a família, a reli- gião, os mestres, e agora se volta para figuras mais efêmeras, não tão fixas, ou melhor, nada fixas, como eram as anteriores. As autoridades que ditam as normas agora são as celebridades, a moda, a beleza. Movemos-nos em direção a uma comunidade estética, que preza a beleza e o visual. As identidades e as comunidades compartilham de muitas seme- lhanças, como a eterna construção e desconstrução, sempre em busca de novas estratégias capazes de transmitir certa paz e proteção. Seu pro- cesso, o“meio”ao qual nos referimos anteriormente, é sempre mais rele- vante que o produto final, até porque esse é tão temido quanto a própria incerteza do momento. Nas palavras de Bauman (2003, p. 62):
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    79Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani a construção da identidade é um processo sem fim para sempre incompleto, e assim deve permanecer para cumprir sua promessa (ou, mais precisamente, para manter a credibilidade da promessa). Na politica-vida que envolve a luta pela identidade, a autocriação e a auto-afirmação são cacifes, e a liberdade de escolha é ao mesmo tempo a principal arma e o premio mais desejado. A vitória final de uma só tacada removeria os cacifes, inutilizaria a arma e cancelaria a recompensa. Para evitar que isso aconteça, a identidade deve continuar flexível e sempre passível de experimentação e mudança; deve ser o tipo de identidade“até nova ordem”. A facilidade de desfazer-se de uma identidade no momentoqueeladeixadesersatisfatória,oudeixadeseratraente pela competição com outras identidades mais sedutoras, é muito mais importante do que o “realismo” da identidade buscada ou momentaneamente apropriada. Uma comunidade estética está em congruência com a flexibilidade e a maleabilidade que as identidades dispõem aos seus adeptos. Ela evi- dencia a beleza e tudo que ela tem de mais efêmera. Assim, na busca incessante em se fazer incluído, em possuir uma identidade que não seja excludente, os indivíduos modernos acabam abraçando essa causa. Suas identidades passam a se basear na moda, nos ideais de beleza e saúde, nos eventos mais badalados, e seus heróis estão nas capas das revistas, nos programas de televisão, na telona dos cinemas, nos outdoors. Mesmo sem nos darmos conta, a adoração aos astros e às celebri- dades acaba criando a sensação de uma “falsa comunidade”, pois seus adoradores acabam construindo seu referencial baseando-se neles, par- tilhando dos mesmos gostos e admirando as mesmas coisas. Sempre em busca de terras firmes em que possam sentir-se seguros, nem que seja até a próxima sessão de desfiles de moda. Na falta de referências, as cele- bridades surgem como uma agradável ferramenta que pode, nem que seja por um período curto de tempo, oferecer aos“perdidos”, aos“desen- caixados”, uma oportunidade de sentirem-se participantes. Lembrando
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    80 CORPO EIDENTIDADE que essa busca é sempre uma busca bastante individual, em que cada um é o responsável por construir e desconstruir sua própria identidade na intenção de manter-se em sintonia com as celebridades e a moda. A comunidade estética pode também ser chamada de comunidade “cabide”, já referida, pois uma característica marcante é a capacidade que esse tipo de comunidade oferece de poder se livrar das aflições, das preocupações, pendurando-as, deixando-as dentro do armário, enquanto se aventuram em novas experiências, novas identidades, para em seguida vesti-las novamente. Isso desenvolve nos indivíduos partici- pantes das“comunidades cabides”laços muito frágeis, superficiais, tran- sitórios e temporários. Outra estratégia encontrada para suprir a necessidade de encon- trar um porto seguro é o consumo, o qual “requer que a satisfação pre- cise ser, deva ser, seja de qualquer forma instantânea, enquanto o valor exclusivo, a única ‘utilidade’, dos objetos é a sua capacidade de propor- cionar satisfação” (BAUMAN, 2005, p. 70). Terminado o poder de satisfa- ção do objeto (ou do relacionamento), não nos sobra alternativa senão nos livrarmos daquilo que já não possui mais utilidade, não importando se esse objeto é inanimado – uma roupa, um brinquedo, um móvel – ou um ser vivo (humano ou animal). O intuito é sempre o mesmo: termi- nado o prazer, termina também a relação. O consumo de objetos e relacionamentos é uma constante opor- tunidade para nos criarmos e recriamos, sem que isso, paradoxalmente, nos torne vazios, sem que nos tornemos “sujeitos sem subjetividade”. Seria isso possível? TRIBOS E IDENTIDADE Sobre os temas das comunidades e das identidades, é importante considerar também as contribuições de Michel Maffesoli, que, em cer- tos aspectos, possuem convergência com as análises de Bauman, mas também diferenças significativas. De maneira geral, podemos dizer que
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    81Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani Maffesoli possui um discurso positivado e certamente menos crítico, no sentido da verificação dos limites da interpretação, em relação às comu- nidades e às identidades no contemporâneo do que Bauman. Para o autor francês, assim como para Bauman, apesar de possuírem caracte- rísticas diferentes das antigas, as comunidades atuais não deixaram de existir. Por conta disso, não viveríamos um clima de absoluta individua- lização. Ao mesmo tempo, parece apontar elementos marcadamente correspondentes às análises de Bauman sobre as características e causas dessa mudança. Vejamos. Maffesoli (1998, p. 103) nos diz que o conceito de socialidade marca o espírito do nosso tempo, constituído pelas “agências informáticas, as redes sexuais, as diversas solidariedades, os encontros esportivos e musicais”. Essas agências, por sua vez, tomam o lugar que antes era ocu- pado pela religião e seu corpo eclesial, entidade sólida, rígida, inflexível. Além disso, outros elementos, como “Deus (e a teologia), o Espirito (e a filosofia), o individuo (e a economia), cedem lugar ao reagrupamento. O homem não é mais considerado isoladamente”, e a auto-suficiência é substituída pela retroação (MAFFESOLI,1998, p. 104). Esse viver junto, reagrupado, em socialidade e solidarismo, oferece elementos que funcionariam como um pano de fundo para as identida- des. Nesse quadro, o das identidades, o autor faz uso do termo estético, entendendo-o como “a faculdade comum de sentir, de experimentar” (MAFFESOLI,1998, p. 105). Em suas análises, Maffesoli deixa de lado o sujeito-ator (individual) para dar lugar aos objetos-grupo, que se multiplicam infinitamente e que são mais abrangentes e pedem por um coletivo. Eventos esportivos, multidões turísticas, seguidores de estilos musicais, fazem parte de uma agenda do neotribalismo, constituído de características fluídas, superfi- ciais, bem como dos objetos-grupo, o que nos levaria a reforçar a ideia que esses agrupamentos, cada vez mais comuns em nosso tempo, cami- nham para um enfraquecimento do individualismo. Para o autor, ao con- trário do que imaginamos, nossas ideias e opiniões nunca são expedidas
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    82 CORPO EIDENTIDADE a partir de nós mesmos, de maneira individual; estamos sendo influen- ciados o tempo todo pelo grupo ao qual pertencemos, em uma relação reciproca de trocas e influências. De maneira quase animal sentimos uma força que transcende as trajetóriasindividuais,ouantes,quefazcomqueestasseinscrevam num grande balé cujas figuras, por mais estocásticas que sejam, no fim das contas, nem por isso deixam de formar uma constelação cujosdiversoselementosseajustamsobformadesistemasemque a vontade ou a consciência tenham nisso a menor importância. É este o arabesco da socialidade. (MAFFESOLI, 1998, p. 107). Além disso, o autor também elege diferenças entre social e socia- lidade. No primeiro caso, ou seja, no social, os indivíduos fazem parte de um sistema, são apenas peças constituintes objetivando um grupo estável. Já a socialidade pressupõe indivíduos mais atuantes, não ape- nas constituintes, mas construtores das realidades que habitam, dos diversos papéis que desempenham de acordo com seus gostos e dese- jos. Essa diferenciação permite entender que os indivíduos não são tão vítimas de seus destinos, mas responsáveis por eles. Podemos perceber aqui uma divergência em relação à Bauman, pois, para o autor polonês, os indivíduos estariam vivendo dentro de uma mecânica de sociali- dade e não de sociedade. A função da socialidade seria, para Maffesoli (1998), de anunciar a vinda de novidades, uma espécie de restauração do antigo, transformação do velho em algo novo, junto a um sentimento não de presente, mas de futuro. Ao tratar dessa comparação, sociedade/socialidade, Maffesoli aponta um elemento de muita relevância para nossa discussão, qual seja, a aparência. Para ele, a aparência funcionaria como um vetor de agregação, pois seria sobre a superfície das coisas, das pessoas, com suas escolhas das vestimentas, dos estilos, por exemplo, que os agrupamen- tos se estabeleceriam. É como se aqueles que compartilhassem de algo em comum, como gosto musical, estilos de vida, moda etc., o fizessem a
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    83Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani partir de suas aparências. Partindo desse elemento, tão superficial e ao mesmo tempo tão significativo, os indivíduos se uniriam, se agrupariam, compartilhando interesses em comum e acordos estipulados. Em sua obra O tempo das tribos, Maffesoli (1998) dá um tom posi- tivo em relação à vida social, que seria vivida e determinada em grupo e não individualmente, de forma solitária. Isso porque, para o autor, além das aparências que podem ser um fator agregador, podemos conside- rar outras características que os indivíduos de um mesmo grupo com- partilham, como por exemplo, “comunidade de idéias, preocupações impessoais, estabilidade da estrutura que supera as particularidades dos indivíduos”. (MAFFESOLI, 1998, p. 112). Podemos ainda apontar a comunicação verbal e não verbal para corroborar com o argumento. A primeira se refere ao uso das línguas, idiomas; a segunda, não verbal, e não menos importante, diz respeito às imagens, à música, às constru- ções arquitetônicas, às formas, aos corpos. Tempo houve em que se realçava tudo que era possível distinguir num dado conjunto, tudo que se podia separar e particularizar. Agora, cada vez mais, nos damos conta de que mais vale considerar a sincronia ou a sinergia das forças que agem na vida social. Isso posto, redescobrimos que o individuo não pode existir isolado, mas que ele esta ligado, pela cultura, pela comunicação, pelo lazer, e pela moda, a uma comunidade, que pode não ter as mesmas qualidades daqueles da idade média, mas que nem por isso deixa de ser uma comunidade. Esta é que precisa ser destacada. (MAFFESOLI, 1998, p. 114). Portanto, “estar junto”, fazer parte de um grupo, de uma tribo, de uma comunidade, não diz respeito apenas a não ficar sozinho; é mais do que isso, esse“estar junto”significa algo maior: a constituição de uma cul- tura, o fortalecimento de um grupo, uma sociedade e sua história, afinal de contas, pergunta-se o autor, o que seria de nós se desde sempre fosse- mos apenas um, cada qual vivendo ao redor de seu próprio umbigo.
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    84 CORPO EIDENTIDADE Outra importante contribuição do autor para a discussão é a defini- ção do termo “rede”. Para o Maffesoli (1998), o fato de instituições con- seguirem se agrupar, mesmo que de maneira inorganizada, de maneira independente, ou seja, sem a participação do Estado, estaria criando uma ordem anarquista, que permite o surgimento de“redes”. Essas redes dariam aos indivíduos um esqueleto, um mapa, algo em que pudessem se sustentar: “a lógica da rede. Quer dizer, algo que dá precedência do calor afetivo, ou que, pelo menos, demonstra que este tem um lugar privilegiado na estruturação ou no objetivo social”. (MAFFESOLI, 1998, p. 122). Maffesoli também ressalta que os indivíduos estariam aptos a fazer suas próprias escolhas quanto ao que lhes agrada ou não, ou ao que gostariam de tomar parte ou não, e que ele chamou de“socialidade eletiva”(MAFFESOLI, 1998, p. 121). Considerando a lógica da rede, a imagem que obtemos é a de vários grupos, cada um com seus próprios interesses e manifestações em comum, agindo de acordo com seus ideais, crenças e, no entanto, separados entre si. Cada grupo, atuando de maneira auto-suficiente, acaba esquecendo-se do sentido de sociedade; consequentemente essa compartimentalização gera muitos e diferentes estilos de vida. O fato é que as perspectivas de um futuro promissor se esvaíram com o passar do tempo, e o presente acabou tomando o seu lugar. Sobre esse aspecto o autor faz um importante comentário a respeito das características das modernidades que influenciaram na vida em sociedade, principalmente considerando os estilos de vida das grandes cidades: A Modernidade, ao mesmo tempo em que multiplicou a possibilidade das relações sociais, esvaziou-as, em parte, de todo conteúdo real. Esta foi, em particular, uma característica das metrópoles modernas, e sabemos que esse processo não contribuiupoucoparaasolidãogregáriasobreaqualtantosetem falado. A Pós-modernidade tende a favorecer, nas megalópoles contemporâneas, ao mesmo tempo o recolhimento no próprio grupo e um aprofundamento das relações no interior desses
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    85Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani grupos. Fica entendido que esse aprofundamento não é sinônimo de unanimismo, e tanto é assim que o conflito desempenha aí o seu papel. (MAFFESOLI, 1998, p. 126). O corpo, por exemplo, é uma forma de exibicionismo, de ostenta- ção, na medida em que, por meio das aparências, podemos transmitir uma imagem segura de nós mesmos. Por outro lado, quando olhamos bem de perto, microscopicamente, poderíamos dizer, temos uma iden- tidade fragilizada e insegura. Para o autor, são as “máscaras” que utiliza- mos para não sermos reconhecidos: um corpo super tatuado, cabelos espetados, coloridos, visuais que chamam atenção pela transgressão de regras, que fogem do normal como é caso, por exemplo, dos cosplay,1 dos punks, dos góticos, entre outros. A lógica da socialidade está assentada sobre a não obrigatoriedade, a não imposição, bem como da partilha de ideias, interesses, hábitos, objetivos. Seus membros se relacionam compartilhando os mesmos rituais e “signos de reconhecimento específicos, que não têm outro fim senão o de fortalecer o pequeno grupo contra o grande grupo.”(MAFFE- SOLLI, 1998, p. 131). O paradigma tribal, diz o autor, traria a responsabilidade da autono- mia,nãomaisemsentidoindividual,eosgrupospassamasercompreen- síveis apenas em seu interior, como um conjunto, não separadamente. O tribalismo deve ser considerado, segundo o autor, pensando nas mas- sas, nas redes que elas estabelecem, lutando contra a individualização e segregação. No entanto, é importante lembrar que os nichos, apesar de protetores e acolhedores, podem ao mesmo tempo ser excludentes, 1 De acordo com o site Cosplay Brasil, o termo surge da contração das palavras de origem inglesa costume, que quer dizer fantasia, e das palavras play – brincar – e roleplay – interpre- tar. A prática do cosplay“é um hobby que consiste em fantasiar-se de personagens oriundos, em geral, de quadrinhos, games e desenhos animados japoneses.” Além dos quadrinhos, outras mídias também influenciam na caracterização das vestimentas, como filmes, livros, séries de TV etc. Disponível em: <http://www.cosplaybr.com.br/site/index.php/O-Que-e- -Cosplay.html>. Acesso em: 14 mar. 2012.
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    86 CORPO EIDENTIDADE geradores de racismo e ostracismo. Seria preciso, novamente, encontrar um equilíbrio, um ponto de estabilidade, mas isso, com certeza, já seria uma promessa difícil de ser cumprida. O desafio é conseguir unir as dife- renças, fazer com que elas consigam coexistir sem que se transformem em campo de batalha. Enquanto Maffesoli nos fala que, no contemporâneo e seus tempos de mudança, não há necessidade e nem possibilidade de cruzá-los sozi- nhos, individualmente, e vê os grupos e tribos como sendo um elemento agregador que, por mais que pareçam fechados, possuem membros que compartilham dos mesmos princípios, costumes e crenças, Bauman, por sua vez, vê na modernidade líquida um período de maior isolamento, do “cada um por si”, pois, na medida em que somos obrigados a fazer por merecer, a nos proteger da forma que for possível para não sermos engolidos pelo outro, somos, cada um individualmente, responsáveis por nossas condutas, escolhas e identidades. Porém, nesse movimento de transformação, de agrupamento para um e de individualização para outro, as mudanças e incertezas, a flexibi- lidade, a liquidez, a espontaneidade, a insegurança, as múltiplas opções e escolhas são características comuns. E é justamente por isso que, para ambos os autores, os indivíduos buscam encontrar maneiras, sejam elas quais forem, de forma privatizada ou em tribos, para se sentirem acolhi- dos, seguros, despreocupados com a imprevisibilidade do futuro. Todos estão em busca de uma vida menos onerosa, mais feliz, capaz de satisfa- zer os desejos individuais. Não sabemos bem ao certo qual o momento ideal de parar – se é que isso é possível –, ou qual o momento exato para mudar, para seguir rumo a uma “nova” identidade. Novas formas de identificação e “comu- nidades” surgem a todo o momento e muitas ainda estão por vir, pois inúmeros recursos (materiais e simbólicos) estão a nossa disposição e encontramos/encontraremos diversas maneiras de usá-los para esse fim. Não há dúvidas que a mídia, as tecnologias e seus desdobramen- tos sociais influenciaram de maneira nunca antes testemunhada nesse
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    87Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani campo. Agora, cabe a nós tentarmos compreender quais são suas con- sequências e quais possibilidades de nos relacionarmos com elas, pois certamente não há como negá-las. Pensar sobre a identidade é dialogar com a diversidade, com possi- bilidades infinitas e desdobramentos surpreendentes. Se já não é mais recomendado que nos fixemos a determinadas características por longo período de tempo, é preciso também encontrar maneiras de se evitar que haja um esvaziamento da subjetividade. CORPO E IDENTIDADE Em tempos de curta durabilidade, em que tudo possui data de validade, sobram poucas coisas nas quais valha a pena investir: produ- tos, moda, relacionamentos, estilos de vida, entre tantos outros, estão fadados a caírem no esquecimento depois de um tempo. Considerar situações futuras ou passadas também parece pouco producente, pois o importante é o momento, o agora. No entanto, talvez uma das únicas coisas que não pode ser descartada, apesar do aparente desejo, é nosso corpo. Apesar de também ele poder ser alvo dos mais diferentes modis- mos, permanece, em sua materialidade, como experiência irrenunciável de nossa história individual e coletiva. Investir no corpo talvez seja uma das únicas coisas que faz real sen- tido no mundo líquido-moderno: como não podemos dele nos livrar, como já diziam Hokheimer e Adorno (1985) nos anos de 1940, nós o glo- rificamos, o exaltamos, fazendo com que renda o máximo de sua capaci- dade. Por essa razão, talvez seja possível compreender o que motiva os indivíduos a investirem tanto tempo, dinheiro e esforço na tentativa de prolongar a vitalidade do corpo. Muitas horas de academia por semana, sacrifícios na alimentação com dietas rigorosíssimas, cirurgias plásticas, clínicas de estética, revistas e mais revistas que tratam de questões vol- tadas à saúde, salões de beleza, uso de cosméticos, são apenas alguns exemplos de atividades diárias e rotineiras que realizamos para manter-
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    88 CORPO EIDENTIDADE mos nosso corpo em compasso com presente; um corpo atual e repagi- nado, que esteja acompanhando a velocidade das renovações. Possuir um corpo mal cuidado, não belo, que apresente ou porte pouca saúde, representa um anacronismo quase intolerável no contemporâneo. Tal- vez por isso ele se constitua no principal âmbito da investidura subjetiva. A questão das identidades nos causa tanto desconforto, nos deixa tão agitados e inquietos porque é algo que diz respeito a todos nós, independentemente de sabermos ao certo qual identidade nos per- tence: coletivas, individuais, nacionais, étnicas e raciais, sexual, se várias ou nenhuma. Não há dúvidas de que a identidade é um conceito alta- mente contestado, um território de batalhas que nunca esteve em paz com todas as partes. “A identidade é uma luta simultânea contra a dis- solução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa resoluta a ser devorado...”(BAUMAN, 2005, p. 84). Nessa disputa é preciso estar sempre atento para não se deixar dominar, para que os interesses pessoais, ou de um grupo ou tribo, sejam mantidos e respeitados também por aqueles que não compartilham dos mesmos ideais, para que as características locais não sejam engolidas pelas globais, ao mesmo tempo em que não se pode, e não se consegue, isolar-se completamente dos elementos exteriores à realidade local. É uma luta incessante pela liberdade, para que se possa transitar entre identidades sem se perder, expressar-se sem medo, fazer as próprias escolhas. Além disso, almejamos segurança: de pertencer a algum lugar, para poder ter terra firme, algo em que se possa confiar, que possa ser um refúgio, um abrigo, caso algo dê errado nessa aventura. Infelizmente as identidades não estão sempre“disponíveis”para todos a todo o momento. Na realidade, a identidade cataloga, classifica, aponta, seleciona, separa o que lhe interessa. E, como toda seleção, envolve tam- bém exclusão: “as batalhas de identidade não podem realizar a sua tarefa de identificação sem dividir tanto quanto, ou mais do que, unir. Suas inten- ções includentes se misturam com (ou melhor, são complementadas por) suas intenções de segregar, isentar e excluir.”(BAUMAN, 2005, p. 85).
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    89Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani É um processo que não possui data ou previsão para terminar. Necessitamos das identidades para nos afirmarmos como sujeitos, para representarmos nossos gostos, para que possamos, ao mesmo tempo, ser reconhecidos e reconhecer os demais. Em um mundo no qual a visão se tornou um elemento preponderante, as identidades se tornaram uma oportunidadedecolocarnopalconossopróprio“show”,nos“apresentado” (transformando-nos e adaptando-nos) conforme a“platéia”. O corpo, induzido pelo movimento de liquefação da modernidade, também passou por modificações significativas. Talvez não tanto como organismo, pois permanece estruturalmente o mesmo, mas o entendi- mento que temos dele e de suas possibilidades e virtualidades. Na modernidade sólida o corpo deveria ser produtor de trabalho, de riquezas, como no caso do operário, ou, como o corpo de um soldado, sempre a postos, deveria ser vigoroso, capaz de responder com força sempre que preciso. A saúde, item essencial nessa representação, deve- ria ser mantida para que este corpo pudesse desempenhar seu papel. Nesse sentido, a doença deveria ser combatida veementemente, pois seu portador corria o risco de ser um desviante, porque inútil. Na medida em que corpo vigoroso travava uma batalha contra a incapacidade, a nutrição torna-se instrumento precioso para a manutenção desse corpo robusto. O alimento era a fonte geradora de energia que capacitava o soldado e o trabalhador, devendo ser consumido na quantidade neces- sária, sem excessos. O que transpusesse essa quantia necessária era con- siderado luxo ou imoral (BAUMAN, 2011). Em contraposição a esse corpo robusto – e rígido –, a moderni- dade líquida valoriza um corpo que preza pelas experiências, enquanto receptor de sensações, instrumento de prazer, que consequentemente nos conduzirá à boa forma. O vilão desse corpo é a apatia, o desânimo, a preguiça, a inércia, assim como as doenças, que agora são enfermidades do consumo, como a depressão. Esse corpo busca incessantemente por prazeres: sexuais, gastronômicos e/ou advindos da prática de exercícios físicos. Aqui o foco não é o desempenho físico propriamente, e sim as
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    90 CORPO EIDENTIDADE sensações que essa prática causa no corpo, medidas por meio de sua performance. O modelo de corpo belo e perfeito começa a dar seus pri- meiros passos quando a medicina entre no jogo e estipula padrões de normalidade e anormalidade (BAUMAN, 2011). Os desviantes da modernidade líquida são outros e a guerra é tra- vada contra os gordos, os fumantes, os sedentários, os idosos, pois todos representam corpos fracos, disformes, portadores de anormalidades, que se distanciam do ideal da boa forma, de saúde. Em nome da normalidade, da conquista pelo corpo perfeito, do prazer, da experiência de novas sensações, topamos qualquer esforço e sacrifício. O problema é que não alcançamos esse ideal nunca. É como a água que se esvai por entre os dedos: é possível tocá-la, mas nunca retê-la. Sempre buscamos e de alguma forma alcançamos aquele que achamos ser o modelo ideal, surge mais uma experiência, mais uma novidade, mais um produto, mais uma dieta, mais um treinamento, mais um tipo de intervenção, que devemos usar, provar, sentir, prati- car. O corpo belo, sinônimo de corpo jovem, normal, não é compatível com o envelhecimento que bate a nossa porta todos os dias, nos lem- brando que essa dimensão da vida não é opcional. Por isso, deve ser combatido veementemente e de forma individual, ou seja, de maneira privatizada. É responsabilidade de cada um cuidar de si mesmo e tra- balhar de tal maneira que seu corpo se encaixe nos padrões, para que não seja apontado como desviante. O medo de ser diferente e de ser deixado à margem é o que move essa engrenagem. Sendo assim, é preciso estar atento, protegido, vigilante consigo mesmo para evitar os excessos, os desvios: Proponho que esse produto da“privatização”do corpo e das agên- cias de produção social do corpo é a“cena primordial”da ambivalên- cia pós-moderna. Ela empresta à cultura pós-moderna sua energia desconhecida, uma compulsão interior por estar em movimento. É também uma causa fundamental, talvez a principal, de sua embu- tida tendência ao envelhecimento instantâneo, a inquietação neu-
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    91Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani rótica,“rizomática”, aleatória, caótica, confusa, compulsiva da cultura pós-moderna com sua asfixiante cessão de modas e manias, desejos efêmeros, esperanças passageiras e medos horrendos, devorados por temores ainda mais horrorosos. (BAUMAN, 2011, p. 162). Como citado anteriormente, Maffesoli (1998) acredita que a aparên- cia é elemento agregador de modo que o corpo também se transforma em linguagem. A imagem que esse corpo transmite é capaz de expres- sar inúmeros significados, voluntários ou não, que acabam por classifi- car, elegendo certos indivíduos a determinados grupos, selecionando os estranhos, agregando para si seus semelhantes. O corpo e as iden- tidades caminham juntos quando pensamos nas funções que acabam desempenhando em nosso tempo. Quando falamos de aparência é preciso considerar também suas variações, como a moda, a arte, o cinema e o teatro, a televisão. Devemos pensar nesses âmbitos como um conjunto que representa não somente o externo, a casca, mas também seus significados e sentidos que per- passam a imagem. Estamos, assim, falando sobre suas formas, ou seja, da totalidade de cada um dos elementos que compõe uma sociedade. Pensar na forma, diz Maffesoli (1996), nos faz adentrar as camadas mais superficiais, consideradas, até então, menos importantes, fúteis, para tentar compreender a mecânica do corpo social, descrevendo seus ritos, seus estilos de vida, suas interações tribais. Assim, pode-se imaginar que cada fragmento é em si significante e contém o mundo na sua totalidade. É esta a lição essencial da forma. É isto que faz da frívola aparência um elemento de escolha para compreender um conjunto social. Pois suas diversas modulações, por aglomeração, por sedimentação, vão, num certo momento, determinar o ambiente da época. (MAFFESOLI, 1996, p. 141). Essas ditas futilidades, quando encaradas de tal forma que não se encontrem no fim da fila de uma hierarquia de poderes, de nível de
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    92 CORPO EIDENTIDADE importância; quando as formas, as imagens passam a ser relevantes, então, é possível compreendê-las e entender como elas ainda se conser- vam, como se mantém ativas e produtivas a cada dia que passa. A moda, por exemplo, é uma manifestação das mais ricas, se atentarmos para seu apelo visual, que apesar de ser apontada por muitos como supérflua, tolice, exageros de vaidade, faz-se presente, e muito presente, diga-se de passa- gem, em todas as épocas, nos mais diversos e longínquos lugares do pla- neta.Dessamaneira,aodaratençãoàsformas,àsimagens,àsaparências,ao fator estético de cada manifestação, o corpo passa a ser um convite atra- tivo para se pensar as culturas e os estilos de vida que as representariam. Maffesoli (1996, p. 145) chama isso de formismo, e acrescenta qua- tro elementos essenciais nessa construção da valorização da forma: “a prevalência do sensível, a importância do ambiente ou do espaço, a pro- cura do estilo e a valorização do sentimento tribal”. Juntos esses elemen- tos nos apontam, consequentemente, que “cada cultura é definida pela acentuação que vai dar às suas relações sociais, em seu ‘exterior’ ou em seu‘interior’”(MAFFESOLI, 1996, p. 145). É nesse jogo de apreciar o que está fora para se compreender o que esta dentro, de valorizar o produto da embalagem antes de atestar sua qualidade,deconsiderarqueacascapodesimprotegerumlindointerior, que o corpo ganha espaço e torna-se um representante por excelência do formismo. Afinal de contas, o homem se faz existir por meio de seu corpo; fazemo-nos presentes pelo espaço que nossos corpos ocupam; o espírito nada tem de material sem um corpo, de forma que é imprescin- dível a posse de um corpo para“comprovar”nossa existência. No entanto, quais seriam os limites e consequências desse corpo espetáculo, desse corpo que fica à mostra, sendo o fio condutor de nos- sas experiências, de nossas relações? Como poderemos depositar todas nossas fichas tranquilamente em algo que se esvai com o tempo, do qual não podemos renovar e nem trocar por um modelo mais novo? Até que ponto vale a pena investir nesse corpo, tão arcaico, defasado, que fica doente, que se machuca, que pode se deformar?
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    93Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani Se o corpo é ferramenta de existência, então as identidades tam- bém passam a ser dependentes dele. Migra para o corpo o fator pre- ponderante na definição das identidades. Se o“significado conta menos que o signo”(MAFFESOLI, 1996, p. 155), então é preciso dar atenção para as aparências. Se a identidade representa o lugar no qual os indivíduos almejavam repousar, é preciso que seus corpos e as imagens produzidas por eles sejam capazes de cumprir com seu papel. As aparências e o que fazemos delas funcionam perfeitamente nessa empreitada identitária, afinal de contas,“para ser, a vida deve parecer”(MAFFESOLI, 1996, p. 157). E é nesse parecer que acabamos criando outros mecanismos de comunicação diferentes do que o oral, o falado, mas com a mesma, ou talvez maior, eficácia. Ao tratar do corpo que se pavoneia, Maffesoli (1996) fala sobre o significado das vestes das mulheres de mercadores de Osaka, no Japão, que, para ostentar a riqueza e fartura de seu esposo, usavam quimonos feitos com os mais finos tecidos. Uma roupa que representava muito mais do que apenas o estar vestido, e que simboli- zava o status social e a situação econômica de sua família. De certa forma, o oriente e o ocidente não se diferenciaram muito nesse ponto: o corpo e os adornos que pode carregar comunicam signi- ficados. Nas palavras do autor: [...] isso significa reconhecer os atestados de nobreza do “frí- volo”: moda, “design”, estilismo, etc., como participando do terreno no qual vai crescer o imaginário social. Assim, o corpo que se pavoneia, referindo-se a alguns exemplos sócio-antropo- lógicos que dei, é causa e efeito de toda socialidade dinâmica. É também, como se compreenderá facilmente, a manifesta- ção privilegiada da estética, no sentido preciso que dou a esse termo: o de experimentar junto emoções, participar do mesmo ambiente, comungar dos mesmos valores, perder-se, enfim, numa teatralidade geral, permitindo, assim, a todos esses ele- mentos que fazem a superfície das coisas e das pessoas, fazer sentido. (MAFFESOLI, 1996, p. 163).
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    94 CORPO EIDENTIDADE É muito provável que a ânsia em copiar, em tentar ficar ao máximo parecido com as celebridades e estrelas da mídia, nem que seja apenas por instantes, tenha sua origem, em parte, no fato de nossas identida- des terem se corporificado, em termos nos tornado imagens de nós mesmo, diminuindo ou mesmo erradicando a diferença entre ser e pare- cer (SANT’ANNA, 1995). Copiar, imitar o que é socialmente aceito trás um sentimento, mesmo que efêmero e frágil, de pertencimento e até mesmo de segurança. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Felipe Quintão de; GOMES, Ivan Marcelo; BRACHT, Valter. Bauman e a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. BASSANI, Jaison José. Corpo, educação e reificação: Theodor W. Adorno e a crítica da cultura e da técnica. 2008. 234f. Tese (Doutorado em Educação). Centro de Ciências da Educação. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2008. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. ______. Comunidade: A busca por segurança no mundo atual. Tradução de Plínio Dentzein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. ______. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. ______. Vida em Fragmentos: sobre a ética pós-moderna. Tradução de Alexandre Werneck. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. COSTA, Jurandir Freire. O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janerio: Garamond, 2005. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
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    95Natalia Takaki; JaisonJosé Bassani MAFFESOLI, Michel. No fundo das aparências. Tradução de Bertha Halpern Gurovitz. 2. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1996. MAFFESOLI,Michel.Otempodastribos:odeclíniodoindividualismonassociedades de massa. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998. ROUANET, S. P. Édipo e o Anjo: Itinerários Freudianos em Walter Benjamin. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. Tempo Brasileiro, 1990. SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. É possível realizar uma história do corpo? In: SOARES, Carmen Lúcia. Corpo e história. Campinas: Autores Associados, 2001. p. 3-24. ______. Cuidados de si e embelezamento feminino. In: ______. (Org.). Políticas do corpo. São Paulo: Estação Liberdade, 1995. p. 121-139. VAZ,AlexandreFernandez.Corpo,naturezaeculturaemumprojetodeeducação no meio rural. Motrivivência, Florianópolis, Ano XI, n. 15, p. 1-10, ago. 2001. WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.). Identidade e diferença. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 7-72.
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    CORPO, EDUCAÇÃO EEPISTEMOLOGIA: ALGUMAS QUESTÕES Filipe Quintão de Almeida Fabio Zoboli Miguel Angel García Bordas RESUMO: O artigo é um recorte de uma pesquisa teórica que investiga as rela- ções entre corpo, epistemologia e educação. Parte da premissa de que o corpo tem, nos últimos anos, se apresentado como objeto de estudo na educação. Discorre sobre algumas problemáticas epistemológicas que interessam à refle- xão sobre o corpo. São elas: os binarismos corpo/mente e natureza/cultura e o debate a respeito do “homem pós-orgânico”. Conclui ao apontar desafios para a educação. PALAVRAS-CHAVE: Corpo; Epistemologia; Educação.
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    98 CORPO, EDUCAÇÃOE EPISTEMOLOGIA INTRODUÇÃO A relação entre corpo e educação não ocupou, pelo menos até meados da década de 1990, o cerne das preocupações pedagógicas – inclusive daquelas perspectivas consideradas críticas, como apontam Soares (1999) e Silva (2000a). Não sem motivo, portanto, que periódicos educacionais importantes –“Caderno Cedes”(1999),“Educar em Revista” (2000), “Educação e Realidade” (2001), “Perspectiva” (2003, 2004) e “Pro- -posições” (2004), Revista da Faculdade de Educação da UFBA – FACED (2011) e “Atos de pesquisa em Educação” (2012) – publicaram números temáticos ou dossiês cuja questão central enfocasse a relação, a partir de distintos vieses, entre corpo e educação. O corpo é central não só na esfera da Educação, mas no contexto das mais variadas ciências e campos epistemológicos, pois o existir humano se dá através do corpo – o corpo é o meio pelo qual nos utilizamos para experimentar o mundo, para existir no mundo. O ser humano é presença no tempo e no espaço como corpo/ desde o corpo/ através do corpo/ sendo corpo. Somente existimos pelo e com o corpo, pelo e com o corpo o humano estabelece suas relações consigo mesmo, com o outro e com o mundo/natureza. “O corpo é o primeiro e o mais natural instrumento do homem”(LE BRETON, 2009, p. 39). Em sua espacialidade própria, descontínua, o corpo disponibiliza desde componentes físico-químicos à signos que definem a condição humana e as possibilidades de comunicação, que tem conformado o interesse de diversas disciplinas científicas, filosofias e modelos de educação. (NÓBREGA, 2006 p. 65) Desta forma entendemos o corpo neste escrito a partir de sua extensão representacional no campo do cultural, ou seja, o corpo é aqui apresentado como vetor semântico pelo qual a evidência da rela- ção com o mundo é construída. Para Bártolo (2007), onde se encontra um corpo dever-se-á encontrar também uma rede de relações instru-
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    99Filipe Quintão deAlmeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas mentais, uma série em funcionamento, de operadores epistêmicos, uma lógica de produção de sentidos, de um determinado sentido legiti- mador da rede de relações, do funcionamento dos operadores, do pró- prio procedimento das lógicas produtivas. O corpo enquanto objeto de pesquisa sob o viés da filosofia e das ciências é algo a ser significado, neste sentido Le Breton (2009 p.24) afirma que “qualquer questiona- mento sobre corpo requer antes a construção de seu objeto, a eluci- dação daquilo que subentende”. E continua “O ‘corpo’ é uma linha de pesquisa e não uma realidade em si”(LE BRETON, p.33, 2009). Quando estudamos e escrevemos sobre o corpo e suas questões epistemológicas, na perspectiva de pensar desafios para a educação, logo somos tomados por uma dificuldade, pois várias questões nos parecem escapar pela complexidade e abstração que suscitam. Por isso, já nos justificamos, baseados em Silva (2006, p. 91), que O reconhecimento de que o todo não é apreensível, de que a totalidade não é cognoscível, de que algo escapa ao ser humano, poderia se tornar um indicativo importante para a existência humana, assim como para uma problematização epistemológica da corporeidade, inclusive porque esta possui aspectos não conceituáveis, o que impediria a plenitude de uma concepção científica. Considerando este alerta, este artigo tem a intenção de discorrer sobre algumas questões epistemológicas relacionadas ao corpo. São elas: os binarismos corpo/mente e natureza/cultura e o debate a res- peito do advento de uma nova figura antropológica: o “homem pós-or- gânico”. Na sequência, como conclusão, apresentamos desafios dessas problematizações para a educação.
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    100 CORPO, EDUCAÇÃOE EPISTEMOLOGIA OS BINARISMOS CORPO/MENTE E NATUREZA/CULTURA Uma análise na contextualização histórico-filosófica do homem nos faz perceber que este foi compreendido sob duas esferas: a mental e a corporal, como se fossem substâncias distintas. A visão cindida de ser humano em corpo/mente não implica, somente, duas realidades com status ontológicos e epistemológicos construídos de modo indepen- dente; ela pressupõe, também, a predominância da mente em relação ao corpo e a subordinação deste a ela. Compreendemos, além disso, que a cisão humana corpo/mente é uma idealização materializada historica- mente por meio de jogos de saber/poder, veiculada a partir de regimes de verdade, símbolos culturais e imaginários sociais que se encarnaram na história e nos sujeitos – subjetivando e objetivando-os – sustentando um determinado sistema de produção econômica. Esses dualismos remetem a todo um contexto semiótico/linguístico que dificulta concebermos de outro modo a relação mente/corpo, pois estamos subjetivados por uma cultura sob a qual se organizam aspectos de significação, de semântica, de linguagem que limitam nosso entendi- mento dessa questão. Searle (1997, p. 25) nos ajuda a compreender tal quadro ao mencionar que: Junto com a tradição cartesiana, herdamos um vocabulário, e, como vocabulário, um determinado conjunto de categorias, dentro das quais estamos historicamente condicionados a raciocinar sobre esses problemas. (...) O vocabulário inclui uma série de oposições aparentes: ‘físico’ versus ‘mental’, ‘corpo’ versus ‘mente’,‘materialismo’versus‘mentalismo’,‘matéria’versus‘espírito’. A cisão corpo/mente é culturalmente próxima de outras“epistemes” binárias clássicas, como sujeito/objeto, matéria/espírito, masculino/ feminino, biológico/social, vida/morte, presença/ausência, interiori- dade/exterioridade, homem/mundo. Desses, o dualismo natureza/cul- tura é exemplar para compreendermos o status que tem sido reservado
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    101Filipe Quintão deAlmeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas ao corpo na modernidade. No que tange a este dualismo e os desafios epistemológicos que ele suscita para a produção do conhecimento em Educação, Silva (2006) menciona que: Tratar da temática do corpo a partir de uma perspectiva epistemológica, implica em nos confrontarmos com sua complexidade, considerando que o corpo se mostra situado na interconexão entre a cultura e a natureza, entre o biológico e o social, segundo algumas dualidades modernas, sendo integralmente de ambos os domínios. (SILVA, 2006, p. 75). Ainda neste sentido, na interpretação de Vaz (2003, p. 124), Pensarsobreocorpoexigequeseconsidereaseparaçãoancestral entre cultura e natureza, entre uma dimensão corporal e outra que não seja. Essa separação outra vez, só pode ser não real, na medida em que se trata de um mesmo sujeito que não pode ser cindido, a não ser prototipicamente. A separação é, também, no entanto, real, já que é fundadora de nossa civilização, que a supõe. Mais que isso, ela é expressão de uma experiência que se atualiza, que é de dor e sofrimento, porque a cisão é violenta: trata-se da redução do corpo a objeto a ser conhecido e dominado. A história do corpo, na modernidade, foi primordialmente marcada pela tentativa de culturalizá-lo a partir da compreensão de que ele fazia parte da natureza. Como natureza, o corpo era o “outro” que precisava e podia ser controlado para que a razão pudesse realizar seus feitos. Essa perspectiva originou inúmeras tecnologias corporais cuja característica genérica, com o advento da ordem industrial, foi a manipulação cor- poral de caráter disciplinar-repressivo com vistas ao desenvolvimento do corpo produtivo. Nesse tipo de paisagem cognitiva, como observou Najmanovich (2001), o sujeito não pertencia ao quadro por ele mesmo pintado, uma vez que sua materialidade corpórea era prescindível na vida do sujeito desencarnado ou desencantado.
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    102 CORPO, EDUCAÇÃOE EPISTEMOLOGIA Embora muitos autores tenham denunciado esse processo de des- somatização da alma ou espiritualização do corpo, entendemos que a célebre descrição oferecida por Adorno e Horkheimer (1985), no excurso I da Dialética do Esclarecimento, é ímpar para caracterizá-lo. Conforme a arquiconhecida argumentação dos autores nesse livro, mediante o uso de sua razão, Ulisses, o protótipo do sujeito moderno, constrói sua sub- jetividade a partir do domínio da natureza externa à sua consciência. Mas não só isso: a forja da identidade de Ulisses como sujeito está asso- ciada ao sacrifício de parte de si mesmo, daquilo que é mais vivo, pelo mecanismo da renúncia à satisfação imediata e ilimitada das pulsões. Ao abdicar da dimensão sensível para assegurar sua sobrevivência e de seus subordinados, a saga vivida por Ulisses traz indícios de que o sensí- vel (ou a dimensão corporal) é impertinente para o desenvolvimento do sujeito cognoscente (esclarecido). A viagem de Ulisses retrata a domi- nação de nossa natureza interna, mediante o sacrifício e a subjugação do corpo a uma racionalidade subjetivista e instrumental que conferiu àquela dimensão um status secundário, transformando, assim, nossa noção de sujeito histórico em uma categoria essencialmente mentalista. Na obra daqueles dois autores, o imemorável processo de dominação da natureza (externa e interna) se apresenta sem disfarces na dominação totalitária, momento em que um poder sobre a vida transforma-se no paradigma político do cotidiano. No rastro deixado por essa concepção de sujeito desencarnado tem havido, como destaca Doel (2001), lamentação, alegria, nostalgia, res- tituição, ressurreição, substituição e corporificação. Essa corporificação tem transformado o status do corpo, o que constitui, conforme Eagleton (1993), uma das mudanças mais importantes do pensamento radical presente. Ainda para Eagleton (1993), essa transformação originou-se, em parte, de uma hostilidade pós--estruturalista e/ou pós-modernista à consciência, atribuindo ao corpo uma dignidade filosófica bem dis- tinta daquela radicalizada pelo cartesianismo. Nas palavras do filósofo Deleuze, um dos nomes responsáveis por essa virada em direção ao
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    103Filipe Quintão deAlmeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas corpo, agora“[...] o corpo não é mais o obstáculo que separa o pensamento de si próprio, aquilo que tem que ser superado para se chegar ao pensa- mento. É, ao contrário, aquilo no qual o pensamento mergulha, a fim de chegar ao impensado, isto é, à vida”(DELEUZE, apud DOEL, 2001, p. 82). Admite-se, agora, que nem a consciência nem o corpo constituem duas substâncias ou elementos opostos, que se definiriam por atribu- tos distintos. Nessa nova paisagem cognitiva, eles se apresentam como pares correlacionados, existindo uma tessitura comum que os atravessa, o que torna necessária a inversão do ponto de vista cartesiano de um corpo caracterizado por situar-se no espaço e uma consciência incor- poral. Como argumenta o filósofo Gil (2003), não há consciência sem consciência do corpo, sem que os movimentos corporais intervenham nos movimentos da consciência. Consciência do corpo significa uma espécie de avesso da intencionalidade: nela não se teria consciência do corpo como se tem de um objeto percepcionado, mas, sim, a impregna- ção da consciência pelo corpo:“[...] uma instância de recepção de forças do mundo graças ao corpo; e, assim, uma instância de devir as formas, as intensidades e o sentido do mundo”(GIL, 2003, p. 15). Ainda segundo Gil (2004, p. 121), essa impregnação da consciência pelo corpo é por ele definida como corpo de consciência, quer dizer, [...] a consciência tornada corpo, ou seja, que os movimentos da consciência, uma vez impregnada esta pelos movimentos do corpo, adquirem a mesma plasticidade, fluência e o mesmo conhecimento imediato de si (não-reflexivo) que o corpo possui de si próprio. Além das filosofias de Deleuze e Gil, vem da própria biologia, com Maturana e Varela, uma justificativa bastante plausível para recuperar a dignidade ontológica do corpo, já que esses biólogos nos oferecem a explicitação de um sistema cognitivo próprio ao corpo, contido nele e que produz seu próprio saber. É interessante perceber que, com eles, desmistifica-se a ideia de que só os estudos baseados na cultura reco-
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    104 CORPO, EDUCAÇÃOE EPISTEMOLOGIA nhecem a historicidade do corpo, pois não há um corpo-objeto que é universal e a-histórico, transcendente ao meio, pois “[...] as mudanças estruturais que ocorrem são contingentes com as interações com o meio. E vice-versa: o meio muda de maneira contingente com as interações com o organismo, e aquilo que o observador irá se referir vai depender de onde esteja seu olhar” (MATURANA, 2001, p. 82). Nessas condições, fica mais fácil compreender a sentença de Najmanovich (2001), segundo a qual o sujeito encarnado paga com sua incompletude a capacidade de conhecer, pois só podemos conhecer o que somos capazes de perceber e processar com nosso próprio corpo. Outro caminho possível é o reconhecimento da própria lingua- gem do corpo como possibilidade de conhecimento, como nos aponta Merleau-Ponty. Este filósofo, central nas discussões em torno do corpo, sinaliza uma epistemologia que acontece nos processos corporais, que está aquém da cultura e de toda tematização, sem o qual continuare- mos separando a teoria da prática, o vivido do pensado, o movimento do pensamento. Com a fenomenologia de Merleau- -Ponty, deveríamos nos ocupar mais dos efeitos do corpo sobre o meio cultural: sobre as coisas e os outros, pois a via fenomenológica nos lembra que o sentido equivale também à existência, no que refere aos vividos intuitivos pré-reflexivos que escapam à significação conceitual. Nem mesmo a interpretação do corpo na linguagem retira dele seu fundo de natureza, pois o nosso corpo, como ser dotado de movimento em direção ao mundo, é condição de possibilidade, inteiramente nova, original e poderosa até no próprio mundo da cultura. Isso é possível, pois, em Merleau-Ponty, a unidade do corpo é sempre implícita e con- fusa: “[...] está enraizado na natureza no próprio momento em que se transforma pela cultura, nunca fechado em si mesmo e nunca ultrapas- sado”(MERLEAU-PONTY, 1999, p. 269). A (des)construção dos saberes fundados na visão de ser humano pautado na cisão corpo/mente ou no binário natureza/cultura pressu- põe a sua ressignificação. Criar novas metáforas para se sentir, agir e
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    105Filipe Quintão deAlmeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas pensar o corpo, mudar as estruturas de significação nos modos de con- cebê-lo é também parte de um processo de mudar suas relações. Cabe a reinvenção e a produção de novos sentidos ao corpo na medida em que esses possam servir de metáforas para reduzirmos os fossos criados pelos dualismos/binários. Esse é um desafio epistemológico para quem estuda corpo no âmbito da educação. “O HOMEM PÓS-ORGÂNICO” E A ATUALIDADE DA “FORMA CORPO” O corpo se transformou sob as condições que as ciências/tecnolo- gias lhe oportunizam para transcender sua natureza. Assim, a técnica/ tecnologia constantemente está buscando dominar e ultrapassar as fronteiras do corpo humano, tornando-o “[...] escaneado, purificado, gerado, remanejado, renaturado, artificializado, recodificado geneti- camente, decomposto e reconstruído [...]” (LE BRETON, 2003, p. 26). De tal modo, cada vez mais a biotecnologia está visando penetrar/invadir/ metamorfosear a organicidade do corpo, não mais normalizando suas funções, mas sim ampliando, transpondo, potencializando, transcen- dendo essas funções. Ou seja, pela técnica busca-se sanar a precarie- dade do corpo enquanto natureza. Neste início de segundo milênio uma das características mais notáveis no que tange a condição humana como corpo é o promíscuo acoplamento do ser humano com a máquina – tecnologia. “Do lado do organismo: seres humanos que se tornam, em variados graus,‘artificiais’. Do lado da máquina: seres artificiais que não apenas simulam caracterís- ticas dos humanos, mas que se apresentam melhorados relativamente a esses últimos”(TADEU, 2009, p.11): Ao mesmo tempo em que presenciamos essa “virada corporal” (ORTEGA, 2008), é preciso lembrar que esta “forma corpo” (LIMA, 2004) passa, atualmente, por um processo de transformação acelerada, capaz de desencadear duas atitudes, que, na verdade, são os dois lados de uma
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    106 CORPO, EDUCAÇÃOE EPISTEMOLOGIA mesma moeda: salvar o que resta do humano ou descartar a humanidade em favor de uma nova via de evolução biológica (SANT’ANNA, 2002). Nes- sas circunstâncias, o que dizer dos“novos mundos”criados para se sentir/ pensar/agir o corpo criados pelas virtualizações da realidade por meio das tecnologias da informática? E das tecnologias médicas, capazes de fazer mutações/reconstruçõesdepartesdocorpopormeiodesimplespróteses de silicone ou de complexas próteses robóticas que colocam em xeque as fronteiras do humano? E a engenharia genética, que cada vez mais tem a capacidade de modificar nossa herança e produzir seres em laboratórios com uma precisão cada vez mais eficaz? Em síntese, como sustentar a ori- ginalidade do corpo ou de uma ontologia do humano? Não podemos negar que estas novas tecnologias ligadas ao corpo estão causando polêmicas no que tange às fronteiras do humano, con- fundindo inclusive sua ontologia, afinal, o que caracteriza a máquina nos faz pensar aquilo que caracteriza o homem. Essa realidade vem fomentando estudos epistemológicos que giram em torno do corpo e sua ontologia. Afirmamos isso sustentados em Contreras (2011, p. 139), quando menciona que a hibridação do corpo “corresponde a toda una ontología e una epistemología, que hunde sus raíces en los câmbios en la representación de los objetos de la natureza y de la tecnologia – los seres vivos y las máquinas”. Ainda sob este viés, segundo a interpretação de Santaella (2008, p. 31), Amisturacrescenteentreovivoeonão-vivo,onaturaleoartificial, permitida pelas tecnologias, atinge hoje um tal limiar de ruptura que faz explodir a própria ontologia do vivo. [...] Eis, portanto, a considerável ruptura filosófica e cultural que enfrentamos. Quando o corpo e todos os seres vivos tornam-se informações codificadas, o que permite a manipulação e replicação da própria vida, é a transformação ontológica do humano que está em jogo. A citação acima nos remete a pensar que o aparecimento do “homem pós-orgânico” (SIBILIA, 2002) desconstrói, de maneira ainda
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    107Filipe Quintão deAlmeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas mais radical, o lugar do sujeito encarnado nas filosofias que se ocupam do corpo com vistas a recuperar sua dignidade. Com a radicalização da virada cibernética, estudiosos de campos muito diversos, como a engenharia genética, a medicina biomolecular, a genômica, a robó- tica, a inteligência artificial, as biotecnologias, defendem o fim da “era do corpo” e celebram com júbilo a chegada do tempo pós-orgânico, pós-evolucionista e pós-humano. Esse movimento, que tem reper- cussões no campo das Ciências Sociais e na Filosofia, irá provocar, por sua vez, novamente uma ruptura no status do corpo: de sua “(re)des- coberta”passamos aos corpos pós-humanos, pós-orgânicos, compostos de órgãos e células sem corpos (SANT’ANNA, 2002), já que devidamente informatizados e digitalizados. Estaríamos transitando de um imaginário político e estético fun- dado na pele rasgada pelo metal – no corpo de próteses baseado em uma ontologia do ciborgue (HARAWAY, 2000) – para uma lógica política e estética que concebe a totalidade da própria natureza (não só corpó- rea) como um espaço de transitividade virtualmente perfeita: a recom- binação genética promovida pela biologia molecular aponta em uma direção que, se não contradiz politicamente a noção de inteireza plástica dos corpos, não depende tecnicamente desse artifício para transformar o mundo orgânico. Em última instância, é a possibilidade de se reprodu- zir a própria vida independentemente da materialidade corpórea. Em função disso, aquela antiga imagem do corpo como máquina, bem como a recente dignidade ontológica a ele atribuída, vai aos poucos sendo abalada por um regime discursivo que passa a concebê-lo como umdispositivoinformático,dandoorigemassimaumanovamudançade paradigma: não mais regime mecânico-eletrônico, nem mais um regime corporal-sensível, mas, sim, o paradigma molecular-digital; portanto, do corpo-máquina e do corpo-sujeito ao corpo-informação (SIBILIA, 2002; LIMA, 2004). Segundo este novo paradigma tecnológico, a própria mate- rialidade do real se torna virtual e o mundo natural e orgânico passa a ser percebido como atualização específica e não-excludente de uma
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    108 CORPO, EDUCAÇÃOE EPISTEMOLOGIA matriz de possibilidades informacionais. O mundo natural já não é mais “coisa em si”, esfera pré-fenomenológica, alteridade que a cultura alter- nativamente concebeu como domínio ou refúgio (FERREIRA, 2002). “Al transformar la naturaleza, el hombre no solo produce cosas, sino que también produce de cierta forma sus propios sentidos, les da nue- vas propiedades, produce sus sentidos como sentidos humanos” (CON- TRERAS, 2011, p. 131). A síntese corpo e tecnologia vem caracterizar o corpo biotecnológico, onde a tecnologia não se limita a estar a nossa volta, ela literalmente nos“in-corpo-ra”. Éinteressantenotar,entretanto,queoapagamentodacorporeidade produzido pelo discurso do fim da humanidade remonta, nuanças à parte, ao discurso do sujeito cartesiano da modernidade. Portanto, retira do corpo qualquer dignidade ontológica adquirida nos últimos anos, considerando nossa corporeidade uma mera contingência no caminho que, inexoravelmente, nos levaria à pós-evolução, ao corpo informacional. O pós-humanismo cibernético, embora desconstrua aquele sujeito cartesiano de várias maneiras, divide, com seus predecessores, uma ênfase na cognição em detrimento da corporeidade. Em ambos os casos, como vimos com o relato fornecido por Adorno e Horkheimer no iní- cio deste texto, a materialidade e a organicidade do corpo são rejeitadas como algo a ser superado, exacerbando o lado imaterial do dualismo car- tesiano, potencializando a mente e descartando o corpo como mero obstá- culo demasiadamente material. A rigor, a vida estrutura-se a partir de uma lógica independente deste lugar de poder específico que é o corpo. Por isso, alguns observadores deste fenômeno aludem a certo neocartesianismo high-tech, no qual a velha oposição binária corpo/alma corresponderia ao par hardware/software, com a balança pendendo para o polo do (imaterial) software (SIBILIA, 2002). No imaginário pós-humanista, mesmo a sensorialidade pode ser vista como um atributo da mente incorporal. Não é tanto o corpo que sente, mas, sim, a consciência. Os órgãos dos sentidos não precisariam mais estar presentes para mediar nossas percepções e sensações do
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    109Filipe Quintão deAlmeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas mundo exterior, dada sua possível substituição por próteses computa- dorizadas. O corpo seria, assim, a última mídia a ser descartada. Nessa concepção, o corpo não é mais uma fronteira de identidade, mas apenas um vestígio a ser deixado no espaço da virtualidade. Isso significa que, concomitantemente àquela preocupação e valo- rização excessiva com o corpo e sua elevação a sujeito epistêmico, o eclipsamento da fronteira entre cultura e natureza, entre natural e arti- ficial, nos leva a pensar em uma possível obsolescência do corpo e de sua“natureza”, sendo o resultado desse amor-ódio pelo corpo (ADORNO; HORKHEIMER, 1985) um anacronismo indigno, um vestígio arqueo- lógico ainda ligado ao homem, levado a desaparecer. A porosidade e indeterminação das fronteiras entre tecnologia, natureza e humanidade defendem alguns autores, não se sustentam diante do processo de digi- talização da vida, desfazendo, assim, a nostalgia pelo humano, seu corpo e sua originalidade. Afinal de contas, como interroga Silva (2000b), quem precisa mais de sujeito ou de uma ontologia do humano? CORPO E EPISTEMOLOGIA: DESAFIOS PARA A EDUCAÇÃO A problematização epistemológica do corpo, como apresentada nos tópicos anteriores, apresenta importantes desafios às até então mentalistas práticas e teorias pedagógicas. Por exemplo, como continuar negando a dimensão não discursiva na tarefa da autonomia humana? Como refutar a teia tecida entre a consciência e o corpo nos processos educacionais? Como relegar a dimensão corporal a um segundo plano na constituição de nossas subjetividades? Como não admitir, dada a cen- tralidade assumida pelo corpo na cultura contemporânea, sua impor- tância na constituição de nossas identidades? Essas questões colocam como tarefa (re)pensar a estrutura na qual estava assentada a figura do sujeito educacional moderno, incorporando à sua subjetividade/iden- tidade a natureza corpórea de todo o conhecimento e aprendizagem. Como afirma Assmann (1998, p. 47),
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    110 CORPO, EDUCAÇÃOE EPISTEMOLOGIA [...] todo conhecimento se instaura como um aprender mediado por movimentos internos e externos da corporeidade viva. Toda aprendizagem tem uma inscrição corporal. Não existe mentalização sem corporalização. Por isso, o corpo aprendente é a referência fundante de toda aprendizagem. Nesse ponto, a valorização do caráter estético do conhecimento é recrudescida para fazer frente à sua dimensão cognitiva. Não podemos mais, conforme Bracht (1999), considerar a criticidade como um fenô- meno exclusivo da cognição, mas que ela, também, englobe a dimensão estética ou emotiva, ampliando, assim, o conceito de razão; é difícil con- tinuar operando com um conceito de linguagem que silencie o poten- cial para signo da corporeidade, sua expressividade; não podemos nos esquecer da teia tecida entre a consciência e o corpo nos processos educativos ou, mesmo, da importância dos afetos e da sensibilidade na definição do comportamento social e político dos indivíduos. Isso não significa, sempre é bom lembrar, de subsumir a dimensão discursiva à da sensibilidade, mas, sim, de não pretender torná-la absoluta (BRACHT, 1999). Nessas condições, a estruturação estética da educação, um modo de conhecer pela sensibilidade, poderia ampliar de forma significativa a consciência ética, liberando novas formas de sensibilidade que temos deixado de lado ou que foram eclipsadas pelas fronteiras majoritaria- mente racionais do projeto iluminista, como pontua Hermann (2002). A expectativa é a de que, no enfrentamento desses desafios, con- sigamos materializar, na educação, os avanços filosóficos relativos ao novo status ontológico e epistemológico do corpo. Enquanto isso (não) vai acontecendo, os autores que apostam na reinvenção da relação entre corpo e educação precisariam ficar atentos ao desenvolvimento de uma paisagem cognitiva que borra de tal maneira a distinção entre a cultura e a natureza ou entre o corpo e a cultura que põe em questão a “virada corporal”nas últimas décadas (ORTEGA, 2008). Considerando essa nova paisagem, outras questões se apresen- tariam à educação. Por um lado, como sustentar a pretensão de uma
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    111Filipe Quintão deAlmeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas educação para ou por meio da sensibilidade em um momento em que a nossa corporeidade “primeira” vê-se negada como mera contingência (pós)evolucionista? O que significaria uma educação sensível em corpos digitalizados e/ou informatizados? Com sustentar, na esteira de Ass- mann (1998), que o corpo é referência fundante de toda aprendizagem? Ou, então, que o corpo é a instância fundamental e básica para articular os conceitos centrais de uma teoria pedagógica? Qual o sentido de uma educação estética no espectro de uma produção discursiva que consi- dera o corpo como o limite a ser ultrapassado, não mais o nosso limite? Por outro lado, se os conteúdos da subjetividade dependem cada vez de uma infinidade de sistemas maquínicos, porque não aceitar o desafio de criar novas formas de agenciamento a partir de uma subjetividade de um novo gênero, chamada de pós-orgânica? Ou, então, a elaboração de uma experiência estética onde o crepúsculo da fronteira homem- -máquina ou corpo-informação origine outras formas de sensibilidade, outra ordem de afetos ou uma nova subjetividade desejante? Nesses esforços não estariam colocadas as possibilidades de novas formas de subjetivação na educação? Não se trata, portanto, de olhar para a nova paisagem em tela e lamentar a desconstrução do humanismo nela pressuposta, mas, sim, se indagar, no interior das fronteiras, pelas novas possibilidades que se abrem. Isso pressupõe a abertura ao risco, à possibilidade de se reinven- tar, potencializando a vida. É só o processo que determina o ponto de chegada. É somente ele, para citar o Pelbart (2003), que permitiria dife- renciar as potencialidades da transversalidade e da hibridação de uma indiferenciação a serviço de manipulações irresponsáveis, obedecendo aos ditames da axiomática capitalística.“Potências da vida que precisam de corpos-sem-órgãos para se experimentarem, por um lado, poder sobre a vida que precisa de um corpo pós-orgânico para anexá-lo à axio- mática capitalística”(PELBART, 2003, p. 47). Para a educação, portanto, a problematização dos clássicos dua- lismos (e o novo “lugar” que o corpo ocupa diante da razão/mente/
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    112 CORPO, EDUCAÇÃOE EPISTEMOLOGIA linguagem), mas, também, a celeuma instaurada em torno da existên- cia dessa nova figura antropológica, o “homem pós-orgânico”, é pleno de consequências, apresentando, a essa área, desafios até então não considerados em sua agenda, seja em sua perspectiva crítica ou não. REFERÊNCIAS ADORNO, T. W; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1985. ASSMANN, H. Metáforas novas para reencantar a educação: epistemologia e didática. Piracicaba: Unimep, 1998. BÁRTOLO, J. Corpo e sentido: estudos intersemióticos. Covilhã: Livros LabCom, 2007. BRACHT, V. Educação Física e Ciência: cenas de uma casamento (in)feliz. Ijuí: Unijui, 1999. CONTRERAS, R.C. Ontología y epistemologia cyborg: representaciones emergentes del vínculo orgânico entre el hombre y la naturaleza. Revista Ibero Americana de ciência, tecnologia y sociedad, Buenos Aires, v. 7, n.19, p. 131-141, dez., 2011. DOEL, M. Corpos sem órgãos: esquizoanálise e desconstrução. In: SILVA, T. T. (Org.). Nunca fomos humanos: nos rastros do sujeito. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p. 77-110. EDUCAÇÃO E REALIDADE. Produção do corpo. Educação e Realidade. Rio Grande do Sul, v. 25, n. 2, jul/dez 2000. EDUCAR EM REVISTA. Dossiê corporalidade e educação. Educar em Revista, Curitiba, n. 16, 2000. EAGLETON, T. A ideologia da estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. FERREIRA, J. O alfabeto da vida. Lua Nova, São Paulo, n. 55-56, p. 219-240, 2002. GIL, J. Abrir o corpo. IN: FONSECA,T. M.; ENGELMAN, S. (Org.). Corpo, arte e clínica. Porto Alegre: UFRGS, 2003. p. 13-28. ______. Movimento total: o corpo e a dança. São Paulo: Iluminuras, 2004.
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    113Filipe Quintão deAlmeida; Fabio Zoboli; Miguel Angel García Bordas HARAWAY, D. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. IN: SILVA,T.T. (Org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 37-129. HERMANN, N. Razão e sensibilidade: notas para a contribuição do estético para a ética. Educação e Realidade, Rio Grande do Sul, v. 27, n. 1, p. 11-25, jan/jul 2002. LE BRETON, D. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 2003. ______. A sociologia do corpo. Tradução de Sonia M. S. Fuhrmann. 3.ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2009. LIMA, H. L. A. A. Do corpo máquina ao corpo-informação: o pós-humano como horizontebiotecnológico.2004.TesedeDoutoradoemSociologia–ProgramadePós- graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2004. MATURANA, H. Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: UFMG, 2001. MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999. NAJMANOVICH, D. O sujeito encarnado: questões para a pesquisa no/do cotidiano. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. NÓBREGA. T. P. Corpo e Epistemologia. In NÓBREGA. T. P. (ORG.) Epistemologia, saberes e práticas da Educação Física. João Pessoa: Universitária / UFPB, p. 59-74. 2006. ORTEGA, F. O corpo incerto: corporeidade, tecnologias médicas e cultura contemporânea. Rio de Janeiro: Garamond, 2008. PELBART, P. P. Vida capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003. PERSPECTIVA. Dossiê Educação do corpo. Perspectiva, Florianópolis, v. 21, n. 1, jan./jun. 2003. ______. Dossiê Educação do corpo: teoria e história. Perspectiva, Florianópolis, v.22, n. Especial, jul./dez. 2004. PRO-PROSIÇÕES. Dossiê – Visibilidade do corpo. Pro-posições, Campinas, v. 14, n. 2(41), mai/ago, 2003. Revista da Faculdade de Educação da UFBA – FACED. Dossiê corpo e sexualidade. ISSN: 1516-2907. Salvador: BA, n.19, 2011.
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    114 CORPO, EDUCAÇÃOE EPISTEMOLOGIA Revista atos de Pesquisa em Educação da FURB. Dossiê Corpo e educação. Blumenau: SC, volume 7, n.2, 2012 ISSN: 1809-0354 SANT’ANNA, D. B. Transformações do corpo: controle de si e uso dos prazeres. In: RAGO, M.; ORLANDI, L. B. L.; VEIGA-NETO. A. (Orgs.). Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2002. p. 99-110 SANTAELLA, L. Corpoecomunicação: sintoma da cultura. São Paulo: Paulus, 2008. SEARLE, J. R. A redescoberta da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1997. SIBILIA, P. Ohomempós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. SILVA. A. M. Corpo e epistemologia: algumas tensões em torno da dualidade entre o social e o biológico. In: NÓBREGA. T. P. (ORG.) Epistemologia, saberes e práticas da Educação Física. João Pessoa: Editora Universitária / UFPB, p. 75-96. 2006. SILVA, T. T. Teoria cultural e educação: um vocabulário crítico. Belo Horizonte: autêntica, 2000a. ______. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000b. SOARES, C. L. Apresentação. Cadernos Cedes. Campinas, v. 19, n. 48, p. 5-6, ago. 1999. TADEU, T. Nós, ciborgues: o corpo elétrico e a dissolução do humano. Sem itálicoIn: HARAWAY, D.; KUNZRU, H.;_______ . (Org) Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, p. 7-15, 2009. VAZ. A. F. Metodologia da pesquisa em Educação Física: algumas questões esparsas. In BRACHT, V; CRISORIO, R. (Orgs.). A Educação Física no Brasil e na Argentina: identidade, desafios e perspectivas. Campinas: Autores Associados; Rio de Janeiro: PROSUL, 2003. p. 115-127. Submetido em : 02/09/2014 Parecer em: 25/09/2014
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    A LEI ANTI-GAYRUSSA: DEMARCAÇÕES E GOVERNO DOS CORPOS NO MUNDIAL DE ATLETISMO 2013 Fabio Zoboli Elder Silva Correia Renato Izidoro da Silva Tammy Rocha Costa RESUMO: Artigo que objetiva investigar as demarcações e governo dos corpos no que tange as questões de gênero ocorridas no Mundial de Atletismo de Mos- cou no ano de 2013 frente as polêmicas da lei anti-gay russa. A escolha de tal evento se deve ao fato do mesmo polemizar questões que rondam os estudos do corpo na modernidade referentes às questões de gênero e aos preconcei- tos sofridos por homossexuais. Tratou-se um estudo de abordagem qualitativa feita a partir de uma pesquisa descritivo-exploratória. Os dados empíricos uti- lizados para conjecturar os objetivos do texto foram retirados das publicações feitasnoportaldeinternet“globo.com”.Nossaanáliseseatevea12reportagens e foi feita por meio de três grandes temas: “manifestações/protestos”, “polêmica Isinbayeva” e “agendamentos”. Como resultado, observamos que a lei anti-gay da Rússia está pautada numa estratégia de demarcação e governo de corpos e as manifestações de atletas foram no sentido de clamar contra seu apagamen- to singular frenteaumapolíticaqueexigeumsujeito“universal”. PALAVRAS-CHAVE: Mundial atletismo Rússia 2014; Lei anti-gay; esporte; ho- mossexualidade.
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    118 A LEIANTI-GAY RUSSA INTRODUÇÃO O campeonato mundial de atletismo1 de 2013 ocorrido na cidade de Moscou – capital da Rússia – entre os dias 10 e 18 de agosto no Estádio Lujniki repercutiu no cenário esportivo mundial por tencionar questões relativas à homossexualidade no esporte. O evento não foi marcado só pelo pouco público e pela não superação de nenhum recorde nas provas da modalidade em disputa, mas também por repressões e proibições no que tange às questões ligadas a “relações sexuais não tradicionais” ou heteronormativas. Isso aconteceu pois meses antes do evento – junho de 2013 – foi declarada, pelo presidente Vladmir Putin, a lei anti-gay, na Rússia, aprovada na Duma (câmera baixa do Parlamento russo), em uma votação unânime de 436 votos a 0 (zero). A lei anti-gay proíbe propagandas e divulgações sobre a homosse- xualidade para menores de 18 anos de idade. De acordo com o Artigo 6.21 do Código de Violações Legais Administrativas da Federação Russa, é permitido ao governo multar pessoas acusadas de espalhar “propa- ganda de relações sexuais não tradicionais entre menores”. A multa pode variar os valores entre 4 mil a 1 milhão de rublos (R$ 120 a 130 mil), como também podendo prender aquele que fizer ou apoiar qualquer tipo de adesão às manifestações homossexuais. Essa lei contra a apologia à homossexualidade, instaurada na Rús- sia, traz um“ar”de intolerância, preconceito e até mesmo de crime, pois, a partir desta decretação, os gays estão sendo perseguidos, humilhados, demitidos e torturados não só pelo governo, mas também pela maio- ria da sociedade russa. Em contraponto, a Rússia, em sua constituição, 1 O mundial de atletismo é uma competição organizada pela IAAF (International Association of Athletics Federations). Ela foi idealizada em Porto Rico, no ano de 1976, porém o primeiro campeonato mundial foi realizado somente no ano de 1983 em Helsinque, na Finlândia.Vale destacar que, inicialmente, o Mundial de atletismo era disputado em um período de quatro em quatro anos, porém, desde 1991 essa duração diminuiu e permanece até hoje a cada dois anos, período este posterior e anterior aos Jogos Olímpicos.
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    119Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa discursa em defesa da igualdade e pela livre expressão. Eis o paradoxo: como um país pode apoiar e falar em direitos humanos a partir da pro- mulgação de uma lei contra a homossexualidade? O mundial de atletismo ocorrido no país, em meio à efervescência da decretação da lei, fez gerar algumas manifestações por parte dos atletas que protestaram frente ao preceito. Os episódios que geraram maior repercussão contra a regra foram dois: o caso das suecas Moa Hjel- mer e Emma Green-Tregaro, que pintaram suas unhas com as cores do arco-íris em apoio aos gays; e as atletas russas Kseniya Ryzhova e Tat- yana Firova, que durante a cerimônia de entrega de medalhas do reveza- mento 4x400, beijaram-se nos lábios, quando se encontravam no pódio para o recebimento público das premiações. Diante do ocorrido, algumas manifestações de apoio à lei surgi- ram por parte de alguns atletas. Em meio à contestação, destacou-se a declaração da recordista mundial de salto com vara e principal atleta russa, Yelena Isinbayeva2 , que manifestando-se a favor da lei disse: “os homens devem ficar ao lado de mulheres, como também, as mulheres dos homens, essa formação é histórica, e tudo deve continuar dessa maneira, como uma nação‘normal’”. As repercussões frente à lei anti-gay ultrapassaram o âmbito do campeonato mundial de atletismo de 2013 e acabaram por repercutir no agendamento de outros dois megaeventos que serão realizados na Rússia: os Jogos Olímpicos de inverno de 2014, em Sochi, e a copa do mundo de futebol, no ano de 2018. Apresentados sinteticamente alguns episódios ocorridos na com- petição, mencionamos que a escolha de tal evento para mediar as inter- locuções midiáticas que faremos neste texto deve-se ao fato do mesmo 2 Yelena Gadzhievna Isinbayeva (03/06/1982) é uma atleta Russa que compete no atletismo na modalidade de salto com vara. Isinbayeva é bicampeã olímpica e atual recordista mundial com a marca de 5,06 metros, obtida em 28 de agosto de 2009 em Zurique. A atleta é a única do mundo a ultrapassar os 5 metros na prova de salto com vara e já bateu o recorde mundial por 16 vezes.
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    120 A LEIANTI-GAY RUSSA polemizar questões atualmente intrínsecas aos estudos do corpo na modernidade, principalmente no que diz respeito às questões de gênero e dos preconceitos sofridos por homossexuais, já que esses expressam comportamentos sexuais, sociais, culturais e políticos diferentes ou estranhos aos heterossexuais. Por se tratar de um evento esportivo em nível mundial, a questão do esporte e da homossexualidade também são centrais na pesquisa na medida em que são temas globalmente comuns à maioria dos povos e nações. Nesse sentido, o presente texto pretende investigar e analisar as demarcações e governo dos corpos no que tange as questões de gênero a partir de dados empíricos publicados na mídia – aqui circunscrita à esfera digital – por meio do portal de internet“globo.com”. A escolha do portal “globo.com” como fonte de dados empíricos se deve ao fato de que o Mundial de Atletismo 2013 teve a cobertura do canal por assina- tura da“sportv”, canal esse filiado a Rede Globo que como portal digital a “globo.com”. Justificamos também a escolha da “gobo.com” pela sua representatividade hegemônica sustentada por uma grande empresa de comunicação. No portal “globo.com” identificamos 12 reportagens que tratavam especificamente da polêmica da“lei anti-gay”e sua repercussão no Mun- dial de Atletismo em Moscou. Tais dados foram coletados no período entre 31 de julho a 28 de Agosto de 2013, ou seja, 10 dias antes do evento (31 de julho a 9 de agosto), durante o evento (10 a 18 de Agosto de 2013) e 10 dias após o evento (19 a 29 de agosto), resultando em um total de 28 dias de coletas de dados. O presente estudo se caracteriza metodologicamente como uma abordagem qualitativa, na medida em que articula os“achados”da pes- quisa com um determinado universo de sentidos e significados (signi- ficações) (MINAYO, 2010) próprios da vida cultural humana. Trata-se de uma pesquisa descritivo-exploratória (TRIVIÑOS, 2010), pois traz fatos da realidade sem a preocupação de abordá-los no sentido de“busca ou fechamento de uma verdade”, mas sim de descrever as características,
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    121Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa destacando determinados pontos referentes ao que foi veiculado sobre a“lei anti-gay”no Mundial de Atletismo 2013. Nesse sentido, nossa análise das 12 reportagens referentes à polê- mica a respeito da “lei anti-gay” promulgada durante o Mundial de Atletismo de 2013, foi feita por meio de três grandes temas. O primeiro chamamos de “manifestações/protestos”, que diz respeito às reporta- gens que informaram sobre manifestações e protestos feitos por atle- tas que participaram do Mundial, bem como atletas não participantes, que se manifestaram a favor ou contra (protestaram) à lei “anti-gay” e seus desdobramentos no Mundial. O segundo tema intitulado de “polê- mica Isinbayeva”, que trata das reportagens que trouxeram as declara- ções da atleta russa do salto com vara, bem como as repercussões das declarações de Isinbayeva sobre a lei na Rússia e consequentemente no Mundial de Atletismo. O terceiro e último tema, denominada de “agen- damentos”, diz respeito às reportagens que, mesmo sendo sobre o Mundial de Atletismo 2013, faziam referência a eventos futuros ao Mun- dial de Atletismo, como as Olimpíadas de Inverno 2014 (que ocorreram também na Rússia na cidade de Sochi) e a Copa do Mundo de Futebol (que acontecerá também na Rússia em 2018). Para a construção destes três eixos temáticos foram lidas as 12 reportagens e por meio do recorte de episódios ocorridos no mundial foram perspectivadas associações/agregações de ocorrências que nos possibilitaram visualizar indicadores para uma análise e interpretação de dados. A análise ou tratamento dos dados foi feita de forma ensaís- tica, onde os dados foram inferidos a fim de decodificarmos as temáticas abordadas nas reportagens. Sendo assim, o texto foi organizado em dois momentos: a primeira parte foi reservada para uma discussão do corpo enquanto vetor de demarcação e governo; na sessão subsequente dissertamos e analisa- mos os dados a partir dos temas elencados para pesquisa.
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    122 A LEIANTI-GAY RUSSA CORPO E GÊNERO: DEMARCAÇÕES E GOVERNO Nosso corpo vai além de seus limites enquanto estrutura biológica e “natural”. Somos e temos um corpo principalmente quando nos apro- priamos de linguagens, na medida em que esse corresponde antes de tudo a vetores semânticos e sintáticos de diferentes construções e for- mas de existência: formas de ser corpo. Neste sentido, pensar o corpo, requer pensar na rotação de signos (linguagens) que atravessam o mesmo, bem como entender que ele não é algo em si, mas sim uma construção. A cada nova construção de corpo, se cria uma nova forma de entendimento do mesmo e uma nova maneira de sê-lo e de com ele se relacionar individual e socialmente. Quando há uma alteração na con- cepção de corpo, há uma alteração intensa em tudo aquilo que é “cor- porado”enquanto comportamento social e todas as instâncias corporais existentes na sociedade (BÁRTOLO, 2007). O corpo é um território de “demarcações”, tanto no âmbito das capacidades fenotípicas de identificação por meio de traços físicos ou características observáveis, bem como pelo fato do corpo ser um territó- rio demarcado por signos (linguagens) que dão a ele uma capacidade de representação. O corpo é território de“demarcações”no instante em que ele ao mesmo tempo pode ser considerado sede de signos por ser atra- vessado por esses, assim como pode ser signo na medida em que pode representar algo e, assim, na expressão, atravessar outros corpos. Com isso, as significações podem não apenas se inscrever no corpo, mas tam- bém o próprio corpo pode gerar significações e se inscrever em outros corpos, sejam eles biológicos ou puramente físicos. O corpo pode tanto ser “demarcado”, como também pode “demarcar”, sendo, portanto, um território de“demarcações”. É por essa dupla capacidade de “demarcar” e de ser “demarcado” que compreendemos o corpo como entidade passível de governar e de ser governado. Essa dupla capacidade se dá por meio de mecanis- mos que são internos e externos a ele, num dado contexto cultural
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    123Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa permeado por uma rede de signos/linguagens que vão embotando sentido e “legitimação” aos dispositivos que o governam, gerando assim as formas de comportamentos. Historicamente, o corpo, sob o signo da genitália – estruturação bio- lógica ou fenotípica – foi vetor de uma demarcação e governo. Sob o viés estruturalista, o fato de possuir tal ou qual genitália evidenciou o corpo enquanto um território de “demarcação” de gênero de duas formas: seja no ato da descoberta do sexo do bebê, quando o mesmo é enquadrado enquanto masculino ou feminino; seja a partir desta identificação passar a inscrever no corpo comportamentos condizentes ao ser homem ou ao ser mulher em uma dada sociedade. Entendemos isso na medida em que, para o estruturalismo, não basta só possuirmos uma genitália feminina ou masculina para nos tornarmos mulheres ou homens, também precisamos nos apropriar dos signos que indicam, subjetiva e objetivamente, com- portamentos socialmente próprios para cada um dos sexos. O pênis e a vagina seriam signos distintivos, de diferenças físicas, responsáveis por agrupar a pessoa no interior de um gênero biológico. A partir dessa classificação distintiva, a sociedade passa a se relacionar com um ou com outro de modos, também, diferentes. Dessa forma, o pênis e a vagina indicam, cada qual, como os outros na sociedade deverão se relacionar com aquele que é portador de um signo ou de outro. Con- sequentemente, o sujeito que recebe dado tratamento social, porque tem um pênis ou uma vagina, deverá devolver à sociedade comporta- mentos que sigam o mesmo padrão, conforme os signos que informam sobre uma ação ou relação ser permitida ou proibida. As categorias de gênero, dispositivo de demarcação e governo de corpos nada mais são do que uma gama de discursos e práticas, uma gama de técnicas e sis- temas de julgamentos – de cunho moral e ético – mediados a partir de agenciamentos históricos de subjetivação na medida em que, além de ter um pênis ou uma vagina, o sujeito deverá internalizar os conteúdos e as formas de relacionamentos existentes na sociedade, entre os sujeitos, conforme suas diferenças e semelhanças.
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    124 A LEIANTI-GAY RUSSA Sobaóticapós-estruturalista,nãohádivisãonaturalnemsocialdesexo e de gênero capaz de determinar e fixar o significado de um signo de dife- rençatalcomoosãoopêniseavagina.Ambososdadosanatômicospodem desencadear significações diversas. Podemos refletir que não há qualquer ligação entre o aparelho psíquico e as genitálias que determine que essas possuamrelaçãocomacópula,comohomem,comamulher,comapassivi- dade, com a atividade.Tudo isso está no campo do pensamento na medida em que está no campo da criação e da descoberta mediante interação sem programação. Lembrando que não estamos adentrando em problemáticas sociais e políticas que geram o hermafroditismo e a transexualidade. Para Butler(1998p.25),“talvezosexosempretenhasidogênero,detalformaque a distinção entre sexo e gênero revela-se absolutamente nenhuma”. Sendo assim, para a autora, pensar sexo como algo natural e gênero como algo cultural perde o sentido na medida em que: Não há reflexividade ontologicamente inata para o sujeito que é então colocado dentro de um contexto cultural; é como se esse contexto já estivesse aí como o processo desarticulado da produção desse sujeito, escondido pelo enquadramento que situaria um sujeito ready-made numa teia externa de relações culturais (BUTLER, 2003 p.21). Para Butler (1998), o gênero seria um fenômeno inconsciente e con- textual, que não denotaria um ser substantivo – aquele que é idêntico – “mas um ponto relativo de convergência entre conjuntos específicos de relações, cultural e historicamente convergentes”. No entanto, pen- sar essa convergência inconsciente e histórica não seria negar dimen- são biológica do corpo, pois, como já mencionava Canguilhem (2005), a sociedade regulariza o organismo, e a normatividade social se funde com a normatividade social. Essa é uma característica – norma – do ser enquanto vida. O corpo enquanto vetor de gênero é um agenciamento em cons- tante construção e o sujeito se constrói enquanto gênero através de um
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    125Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa acoplamento de fluxos assimétricos. Em suma, o sujeito é o contexto em que ele é produzido. Esse sujeito e esse contexto, na menção de Deleuze e Guattari (1996), são máquinas que se retroalimentam:“O que há por toda a parte são máquinas e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com suas ligações e conexões. Uma máquina-órgão está ligada a uma máquina-origem: uma emite o fluxo que a outra corta” (DELEUZE & GUATTARI, 1966, p.7). Neste sentido, “nenhum sujeito é seu próprio ponto de partida; e a fantasia de que o seja só pode desconhecer suas relações constitutivas refundindo-se com o domínio de uma exter- nalidade contrabalançadora”(BUTLER, 2003 p.18). É importante se pensar que, quando tratamos de gênero, nos remetemos à questão da identidade. Surge então o questionamento: como colocar, então, a questão da identidade no que tange às ques- tões de gênero? O corpo enquanto objeto de estudo é, então, um corpo cuja identidade é um agenciamento da linguagem que estuda. Nesta perspectiva este agenciamento é identitário mas, com rigor, ele apenas é, parcialmente, identitário. De facto, a identidade permanece sempre fugidia em relação ao nosso ponto de vista (seja ele “natural” ou “técnico”). Aquilo que identificamos quando estudamos o corpo não é tanto uma identidade (e ainda menos a identidade) mas uma intensificação (ou enunciação) da identidade. De facto se a identidade não se deixa nunca fixar ela deixa-se enunciar. O que distingue uma enunciação de cariz identitário de uma outra é o tipo de intensificação que se agencia pela linguagem (BÁRTOLO, 2007 p. 178-179). Isso nos leva a pensar que qualquer que seja uma evidência de iden- tidade, resulta por si só já uma definição de identidade. Quando identifi- camos o corpo humano (no caso de nosso estudo sob o viés do gênero), usamos uma definição identitária operativa que é resultado de certo agenciamento da linguagem e, assim, não pode ser transportado, no
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    126 A LEIANTI-GAY RUSSA que tange o ponto de vista de sua validade, para um plano vamos assim dizer ontológico (BÁRTOLO, 2007) ou natural, como algo em si. Isso quer dizer que quando há a descrição do que é ser homem ou mulher esta- mos evidenciando determinados paradoxos, baseando-se em um certo agenciamento linguístico (discursos) do corpo, ou seja, do corpo como território de“demarcações”de gênero e assim, como signo, é agenciado ao ser objetivado. O corpo é o emblema daquilo que eu sou, e o que eu sou é um construto da comunidade. (...) O corpo é um texto aberto para a leitura de quem o vê. O escritor é a comunidade. Portanto, meu corpo não é meu, mas um texto coletivo. (...) será sempre cheio de sinais, símbolos e marcas. O corpo é um vestígio dos valores civilizatórios do grupo que nele escreve e nele se reconhece (OLIVEIRA, 2007, p.124). Abordar o corpo sob o viés do discurso e da linguagem não significa negar sua materialidade. Neste sentido, Butler (1998, p. 26) menciona que: O corpo postulado como prévio ao signo é sempre postulado ou significado como prévio. Essa significação funciona mediante a produção de um efeito de seu próprio procedimento, o corpo que ela todavia e simultaneamente afirma descobrir como aquilo que precede a significação. Se o corpo significado como prévio a sig- nificação é um efeito de significação, então o estatuto mimético ou representativo da linguagem, que afirma que o signo segue os corpos como seus espelhos necessários, não é de forma alguma mimético; ao contrário, é produtivo, constitutivo, pode-se até dizer performativo, visto que esse ato de significação produz o corpo que então afirma encontrar antes de qualquer significação. Nesse sentido, podemos pensar também, como cita Louro (2010), que as identidades de gênero articulam-se em variadas combinações e são construídas por redes de poder, bem como são constituídas delas.
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    127Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa Com isso, destaca o autor, não existe identidade fora das relações de poder, elas reforçam o poder na mesma medida em que sofrem sua ação. Sendo assim, tais identidades de gênero fazem parte dos jogos políticos e se fazem no meio das relações políticas. O que é necessário então para se pensar o gênero é ampliar a ideia das análises que se limitam a entender tal questão por meio dos papéis do feminino e masculino, e ampliar esse olhar para uma compreensão que considere que as instituições sociais, doutrinas, normas, leis, política, são instâncias constituídas por representações de feminino e masculino, assim como pensar em tais instâncias que desempenham também um papel importante para a produção, manutenção e ressignificação de tais representações de gênero (MEYER, 2010) que podemos ver “demarca- das”nos corpos“femininos”e“masculinos”. DIALOGANDO COM OS DADOS Como apresentado, nossa análise de dados será pautada em 12 reportagens referentes à polêmica a respeito da “lei anti-gay” no Mun- dial de Atletismo de 2013, encontradas no período de 29 de julho a 28 de agosto de 2013 no portal“globo.com”. A partir da análise das reporta- gens elencamos três grandes temas para análise. O primeiro chamamos de “manifestações/protestos”; o segundo tema foi intitulado “polê- mica Isinbayeva”; e o terceiro e último tema foi denominado “agenda- mentos”. O critério para alocação dos temas foi o título das reportagens, pois no corpo das mesmas os temas se entrecruzam, ou seja, várias reportagens tratam de dois ou mesmo dos três temas. Passamos agora a analisar os dados a partir das temáticas elencadas. O tema que trata das questões das manifestações/protestos ocor- ridas no mundial de atletismo 2013 fica manifesta em 5 títulos das 12 reportagens. No entanto, a temática aparece em 8 das 12 reportagens. No dia 03/08/2013, o “globo.com” publicou a matéria na qual informa que:
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    128 A LEIANTI-GAY RUSSA a confirmação de que as leis anti-gays da Rússia vão vigorar durante os Jogos Olímpicos de Inverno, que serão realizados em Sochi em fevereiro de 2014, causou o descontentamento de alguns atletas olímpicos que, em protesto, vão participar neste fim de semana de uma parada contra a legislação que decreta prisão para quem fizer propaganda homossexual durante as Olimpíadas. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/ olimpiadas-de-inverno/noticia/2013/08/atletas-olimpicos-vao- participar-de-parada-gay-contra-leis-da-russia.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013. Deacordocomasleisrussas,qualqueratletaoutorcedorgayoudefen- sordosdireitosdosmesmos(incluindoatletasetreinadores)podemserpre- sos por até 14 dias e, em seguida, expulsos do país caso tenham atitude de divulgação do que é designado como“propaganda homossexual”, além do pagamento de uma multa de até R$ 6,3 mil. No dia 27/08/2013 o astro do hóquei Ilya Kovalchuk posicionou-se a favor da lei anti-gay na Rússia:“É nosso país”– declarou o atleta. Koval- chuk se disse a favor da legislação local, em oposição a outros jogadores do esporte. O jogador se manifestou após as queixas feitas pelos atletas canadenses, atletas que lideraram um abaixo assinado e inclusive amea- çaram boicotar os jogos de inverno de Sochi em 2014. Neste sentido, Butler (2003) menciona que a política exige um sujeito especificamente demarcado em sua identidade na medida em que pressupõe um sujeito estável, com identidade fixa. Sendo assim, o que demonstram as reportagens acima é a imposição de uma norma que tenta regular as identidades de gênero por meio de uma lei que busca a classificação e demarcação dos corpos sexuados e sexualizados para, então, pensar e efetivar políticas específicas para eles. Analogica- mente, não foi à toa que espanhóis e portugueses, quando de seus pri- meiros contatos com os nativos, buscaram, antes de que qualquer ação mais efetiva e sistemática, uma classificação para eles, começando pelas dúvidas acerca da humanidade ou da animalidade, mas também sobre
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    129Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa sua religiosidade, formas de governo, linguagem, sexualidade. Ou seja, a depender da conclusão a que chegassem os europeus sobre que tipo de sujeito que tinham à sua frente, a política colonial poderia proceder de um dado modo ou de outro. Buscar o governo destes corpos, de acordo com uma suposta vali- dade de uma lei que regula e permite apenas duas categorias ou iden- tidades de gênero: homem e mulher, assim como os colonizadores refletiram acerca da identidade indígena se definir pela animalidade ou pela humanidade, pela fé ou pela descrença, pelo governo ou pelo des- governo, pela guerra ou pela paz é um modo de enumerar os problemas sociais com os quais o Estado deverá lidar, demarcando seu campo e modos de ação. Implica uma estratégia para simplificar a sociedade no sentido de simplificar os princípios teóricos e as ações metodológicas do governante diante da incontrolável multiplicidade de situações-pro- blema que se impõem ao seu controle. Ascategoriasdeidentidadesnuncasedãoporelasmesmas,massim por um sistema de normas que as regulam (BUTTLER, 1998) e que pre- tendem governar esses corpos. Nesse sentido, as identidades feminina e masculina são efeitos das normas de gênero, o que podemos visua- lizar no caso da lei anti-gay – a regulação de identidades de homem e mulher e o governo dos corpos destes mediante um sistema de norma- tização que necessita simplificar o complexo com o objetivo de poder exercer um governo supostamente universalista que se perturba diante da multiplicidade imprevisível da vida. A instauração dessa lei é uma demonstração do que Louro (2010) destaca a respeito das identidades de gênero, que estas fazem parte de jogos políticos e são construídas no meio das relações políticas. A partir das formulações de Michel Foucault, os postulados da hete- rossexualidade como uma condição uniforme e um significado essencial deramlugarànoçãodequeasexualidadevariaconsideravelmentetanto no interior das sociedades como entre elas. (SOARES, 2010). Segundo Weeks (1999), o termo sexualidade é empregado como “uma descrição
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    130 A LEIANTI-GAY RUSSA geral para a série de crenças, comportamentos, relações e identidades sociais e históricos”. Afirma ainda que “a sexualidade, embora tendo como suporte um corpo biológico, deve ser vista como uma construção social, uma invenção histórica, pois o sentido e o peso que lhe é atri- buído são modelados em situações sociais e concretas”. Assim, podemos considerar a imposição dessa lei como um dis- positivo que regula e dá uma suposta validade a um sistema no qual o normal caracteriza-se pela heterossexualidade, contornando a mate- rialidade do sexo (por meio da “demarcação” do corpo e pelo corpo), materialidade que é sustentada e formada por normas regulatórias que em grande parte são as da hegemonia sexual (BUTTLER 2010), ou seja, a heteronormatividade. Para a superação da demarcação e governo de gênero, Butler (2003) sugere que a política se desloque no sentido não mais de estabelecer um sujeito de identidade fixa, mas que deixe em aberto a questão da identi- dade, que ela seja algo que não organize a pluralidade, mas que a man- tenha aberta sob permanente vigilância. Se as identidades deixassem de ser fixas como premissas de um silogismo político, e se a política não fosse mais compreendida como um conjunto de práticas derivadas dos supostos interesses de sujeitos prontos, uma nova configuração política surgiria (BUTLER, 2003). Quem sabe uma política menos programática e, portanto, mais atenta às dinâmicas das realidades sociais, culturais, política e econômicas que surgem enquanto problemas no campo das relações humanas. Neste sentido, alguns atletas já se manifestam contra essa política de apagamento das sexualidades – negação da pluralidade. Isso pode ser percebido na descrição das reportagens abaixo que narram uma certa luta de alguns atletas – sejam eles participantes ou não do Mun- dial – contra a lei e o sistema classificatório desta. Numa reportagem de 3 de Agosto de 2013, o portal (globo.com) noti- cia que dois atletas olímpicos canadenses de esportes de inverno, o alpi- nista Mike Janyk e a snowboarder Mercedes Nicoll, iriam participar de uma
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    131Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa parada gay na cidade deVancouver contra as leis da Rússia. O Comitê Olím- pico Canadense já tinha se posicionado contra as leis anti-homossexuais adotadas pela Rússia e o porta-voz do comitê fez a seguinte declaração: Praticar esportes é um direito humano e deve estar disponível para todos, independentemente de raça, gênero ou orientação sexual. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/olimpia- das-de-inverno/noticia/2013/08/atletas-olimpicos-vao-parti- cipar-de-parada-gay-contra-leis-da-russia.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013. No dia 17 de agosto de 2013 foi publicada a notícia de que no cerimo- nial de premiação da prova do revezamento 4x400 feminino, duas das qua- tro atletas medalhistas de ouro deram um beijo“selinho”para comemorar o ouro no pódio. As corredoras Kseniya Ryzhova e Yulia Gushchina foram fotografadas durante a comemoração, logo após receberem a medalha. Na Rússia, é considerado comum que tanto homens quanto mulheres troquembeijosquandoestãoentreamigosouemfamília.Noentanto,acena chama atenção na semana em que a polêmica lei anti-gay do país ganhou novos capítulos em toda a mídia internacional. No dia seguinte à publicação daimagemdobeijodasatletasrussasnopódio,nomundocorriaapolêmica: seriaounãoobeijoumprotestoàleianti-gay?O“globo.com”publicaque,em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, Ryzhova esclareceu que o ato não teve nada a ver com a sexualidade das atletas. Disse a atleta: - Foi somente (uma demonstração) de felicidade da nossa equipe. Se as pessoas querem escrever sobre qualquer tipo de besteira sobre a gente, deveriam pelo menos saber que nós somos ambas casadas – disse a atleta, lembrando que as quatro corredoras se beijaram na boca após receberem a medalha de ouro. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/atletismo/noticia/2013/08/ russa-explica-que-beijo-no-podio-no-mundial-nao-foi-protesto- lei-anti-gay.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013.
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    132 A LEIANTI-GAY RUSSA Outro episódio que merece destaque em meio às manifestações e protestos foi o caso das atletas suecas Moa Hjelmer e Emma Green-Tre- garo, que pintaram as unhas com as cores do arco-íris para fazer um pro- testo contra a lei anti-gay. A atleta Emma, da prova do salto em altura, competiu as eliminatórias da prova com as unhas pintadas com as cores do arco-íris. Emma é uma atleta homossexual assumida. No dia seguinte ao protesto, a atleta disputou a final da prova do salto em altura com as unhas pintadas de vermelho. O dirigente da deleção da Suécia, Anders Albertsson, mencionou que todos atletas da equipe foram avisados da lei russa, no entanto, disse também que não pode proibir nenhum atleta de quebrar as regras, pois isso fica a critério de cada um deles: “Nós não temos objeções em relação a como os atletas pintam suas unhas”. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/atletismo/ noticia/2013/08/iaaf-alerta-delegacao-e-sueca-pinta-unhas-de- vermelho-apos-polemica.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013. Os atletas que protestam não conseguem visualizar um lugar onde seu“eu”seja contemplado. O eu é constituído por posições e essas posi- ções não são meros produtos teóricos, mas princípios organizadores totalmente imbuídos de práticas materiais que produzem um “sujeito” viável (BUTLER, 1998). Frente à política que exige um sujeito “universal”, os atletas e os demais sujeitos clamam contra seu apagamento singu- lar, suas diferenças apesar da semelhança em torno da vagina ou do pênis. Nesse sentido, protestar contra a lei é ir contra as formas de regu- lação de comportamento que a mesma dita; é denunciar algo que não os representa. Isso acontece pelo fato do signo operar pela diferença em relação ao objeto que o mesmo tenta representar. Enquanto a lei, enquanto signo o representa, pensa os corpos sexuados por categorias, enquadrando-os em feminino ou masculino, o que está evidente é que os protestos dos atletas reivindicam pensar os corpos pela questão da diferença, pelo fato de a coisa não ser redutível aos signos que a apre-
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    133Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa sentam, que existem, portanto, outros modos para se pensar as relações entre gêneros: pensando a diferença na diferença. O protesto aqui fica em nível de interrogação e repúdio contra uma premissa fundamentalista que constrói um sujeito previamente – de antemão, que serve e é eficaz para uma política rigidamente programá- tica. Assim, percebemos que esses sujeitos tentam se deslocar de forma intencional em meio às relações de poder, fazendo com que os efeitos instituídos pela lei anti-gay não seja unilinear quanto à sua direção, e desta forma escapem desse teatro de operações materiais e simbólicas. Na menção de Butler (1998, p. 17): Dentrodocontextopolíticodopós-colonialismocontemporâneo, talvez seja especialmente urgente sublinhar a própria categoria do “universal” como lugar de insistente disputa e ressignificação. Tendo em vista o caráter contestado do termo, supor desde o iní- cio uma noção instrumental ou substantiva do universal é impor uma noção culturalmente hegemônica sobre o campo social. Lutar e evadir-se dessas representações caracteriza aquilo que escapa às normas, evidenciando fissuras, fossos e mostrando as insta- bilidades dessa construção (BUTLER, 2010). Fugir dessa formação iden- titária de gênero, como nos mostra Butler (2010), é como se os corpos, que fogem da norma (lei anti-gay) não fossem legitimados fora delas; é como se estes corpos formassem um campo de deformação, pois vão contra a norma ou forma regulatória de ser e de se expressar (e falsa- mente a única válida). Nesse sentido, ainda nos menciona a autora, tais corpos são corpos abjetos, pois não se enquadram na inteligibilidade de uma determinada cultura, já que toda inteligibilidade implica sistemas categoriais ou taxionômicos metafísicos responsáveis por organizar a realidade material em termos filosóficos, científicos, religiosos, artísticos etc. Ou seja, quando algo não compõe o campo simbólico da cultura, será considerado um risco, um desvio, algo excluído das categorias e, portanto, da metafísica social dos sujeitos.
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    134 A LEIANTI-GAY RUSSA As unhas pintadas da atleta Emma foram o estopim para estourar a polêmica que envolveu a atleta russa Yelena Isinbayeva que, após rece- ber o ouro na prova do salto com vara, condenou a atitude dos atletas que apoiaram o movimento anti-gay. A temática que ora apresentamos trata das questões que envolvem as polêmicas de Isinbayeva. Esse tema apareceu em 3 títulos e no corpo de 9 das 12 reportagens. Isinbayeva soltou o verbo contra os atletas que protestavam contra a lei anti-gay russa. Em noticiário veiculado pelo “globo.com” em 15/08, Isinbayeva fez o seguinte comentário: - Se nos permitirmos promover e fazer esse tipo de coisas, teme- mos muito por nossa nação porque nos consideramos normais, com um padrão. Nós apenas vivemos com homens ao lado de mulheres, e mulheres ao lado de homens. Tudo deve estar bem. Isso vem da história. Nós nunca tivemos problemas assim na Rús- sia. E não queremos ter problemas assim no futuro – afirmou. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/atletismo/noti- cia/2013/08/isinbayeva-se-retrata-e-diz-ser-contra-discrimina- cao-foi-um-mal-entendido.html . Acesso: 28 de Agosto de 2013. Para a atleta russa, os competidores estrangeiros precisavam respei- tar os costumes de seu país: - É desrespeitoso com o nosso país. É desrespeitoso com nossos cidadãos porque somos russos. Talvez sejamos diferentes de outros europeus e de pessoas de diferentes países. Nós temos nossa casa e todos devem respeitar. Quando chegamos a outros países, tentamos seguir as regras deles. Disponível em: http:// globoesporte.globo.com/atletismo/noticia/2013/08/isinbayeva- se-retrata-e-diz-ser-contra-discriminacao-foi-um-mal-entendido. html. Acesso: 28 de Agosto de 2013. Em relação ao caso da atleta Green Tregaro, que pintou as unhas, e às declarações de Isinbayeva, a Federação Internacional de Atletismo
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    135Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa (IAAF), através de seu porta-voz Nick Davies, afirmou que as opiniões das duas atletas devem ser respeitadas. - A constituição da IAAF condiz com nosso princípio de não haver discriminaçãoemtermosdereligião,políticaouorientaçãosexual. Aliado a isso está nossa crença de que a liberdade de expressão é um direito básico, o que significa que devemos respeitar as opiniões de Green Tregaro e de Isinbayeva. Disponível em: http:// globoesporte.globo.com/atletismo/noticia/2013/08/isinbayeva- condena-movimento-gay-e-diz-nunca-tivemos-problemas- assim.html?hash=1. Acesso: 28 de Agosto de 2013. Após essas declarações, Isinbayeva foi acusada de homofobia e veio a público se retratar, como mostra a reportagem do dia 16/08/2013: - Quero deixar claro que respeito os pontos de vista de meus companheiros atletas e quero expressar de maneira firme que me oponho a qualquer discriminação contra a comunidade gay a respeito de sua sexualidade (o que iria contra a Carta Olímpica). O inglês não é minha língua materna e acredito que aconteceu um mal-entendido quando falei ontem. O que queria dizer é que as pessoas devem respeitar as leis de outros países, particularmente quando são convidados. Disponível em: http://globoesporte. globo.com/atletismo/noticia/2013/08/isinbayeva-se-retrata- e-diz-ser-contra-discriminacao-foi-um-mal-entendido.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013. No mesmo dia em que Isinbayeva veio se retratar em público, o líder do movimento gay russo, Nikolai Alexeyev, veio rebatê-la: - Um atleta de tanta categoria deveria pensar no que fala. Infelizmente, Isinbayeva cometeu um grande erro. Ela percebeu isso e tentou sair da situação (com nota oficial). Tentou negar e culpou a dificuldade da tradução, a dificuldade de falar inglês
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    136 A LEIANTI-GAY RUSSA etc. Mas isso não muda nada. Disponível em: http://sportv. globo.com/site/programas/ta-na-area/noticia/2013/08/lider-de- movimento-gay-russo-rebate-isinbayeva-cometeu-um-grande- erro.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013. A primeira fala de Isinbayeva, quando a mesma menciona que não se pode“promover esse tipo de coisa”, pois possuem uma nação normal, com um padrão e que convivem apenas com homens ao lado de mulhe- res e vice-versa, representa bem a noção de gênero construída pela matriz heterossexual ou heteronormativa. Após isso, ela usa um argu- mento que quebra com o primeiro, quando, ainda nessa mesma fala, a atleta enfatiza que isso já vem da história. De fato, quanto a isso, a russa está certa, pois, como nos menciona Alós (2012), é apenas dentro da cul- tura e da história que o corpo e o sexo expressam sentido e significado, ou seja, tornam-se compreensíveis, aceitos, inteligíveis. Ainda segundo o autor, a partir dessa noção, a categoria de gênero, assim como algu- mas noções de“normal”e“anormal”a respeito de algumas sexualidades, deixam de serem “verdades”, ou possuírem uma essência transcenden- tal e inquestionável, e podem passar a serem questionadas, repensadas como construto histórico-cultural. Levando isso em consideração, a noção de um gênero ou sexua- lidade válida vai de encontro às amarras culturais às quais os corpos estão presos. Nesse sentido, uma suposta noção ontológica de gênero de acordo com uma matriz heterossexual tem uma dada continuidade, possui signos que fazem sentido e legitimam tal gênero no seio daquela cultura (ALÓS, 2012). A partir do momento em que corpos e gêneros fogem dos limites simbólicos demarcados, são considerados não legí- timos, ou seja, anormais. Porém, como destaca Alós (2012), os corpos que ultrapassam esses limites dão margem e brechas para questionar a própria noção do que é acatado como culturalmente legítimo. A declaração da IAAF, através de seu porta-voz Nick Davies, destaca a possibilidade de questionamentos que vão contra a discriminação
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    137Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa de identidades subversivas, seja em relação a etnia, religião ou gênero. Neste sentido, também questionamos: a noção da legitimidade do gênero a partir do normal ou do anormal é vista nos corpos que não se encaixam nos limites da lei ou na própria lei que é pautada numa matriz heterossexual? A noção de gênero “normal” ou “anormal” está existente nos próprios corpos ou no discurso da lei e dos que a defendem? Quem estabelece as normas e que contestações elas produzem? Quais as ori- gens das operações dessa construção? Quais as origens desse apaga- mento para além do binário homem x mulher? Pensar a partir destes questionamentos é se exercitar no sentido de inverter os olhares que marcam o gênero como normal ou anor- mal, legítimo ou não legítimo, pois essa noção não está engendrada no gênero em si, mas sim no seio da própria matriz cultural que o discursa e o forma. Ou seja, é a partir de formas de gênero que transcendem o binarismo prescrito pela matriz heterossexual, são essas identidades de gêneros subversivas, que abrem fissuras para desestabilizar as amarras que prendem os corpos na inteligibilidade estrutural dessa matriz ou modelo racional, ocasionando uma ressignificação subversiva de corpo, sexo e gênero (ALÓS, 2012), abrindo as portas da própria estrutura/ matriz. Desta forma, segundo Butler (1998, p.22): Para que o sujeito seja um ponto de partida prévio da política é necessário adiar a questão da construção e regulação política do próprio sujeito, pois é importante lembrar que os sujeitos se constituem mediante a exclusão, isto é, mediante a criação de um domínio de sujeitos desautorizados, pré-sujeitos, representações de degradação, populações apagadas da vista. Sabedores de que a Rússia sediaria dois grandes eventos de visibi- lidade internacional: as Olímpiadas de Inverno de Sochi, em fevereiro de 2014, e a Copa do Mundo de Futebol de 2018, algumas polêmicas e manifestações frente à lei anti-gay acabaram respingando no agen- damento desses eventos. Dessa forma, agora apresentamos a temática
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    138 A LEIANTI-GAY RUSSA intitulada agendamentos. Este tema aparece em 4 títulos e no corpo de 8 das 12 reportagens. O agendamento, na menção de MEZZAROBA (2009, p. 153) é um processo relacional entre a agenda jornalística (midiática) e a agenda pública (social), em que há uma tentativa de alguns grupos (financeiros, econômicos, políticos e a própria mídia) em pautar temas e assuntos de seu interesse na esfera social e colocar, desta maneira, sua(s) opinião(ões) com o objetivo de torná-la(s) hegemônica(s). O agendamento, portanto, é sempre exercido pela mídia, veículo que opera tais interesses, mas tem uma relação de interação com a opinião pública, fazendo com que, em sua operacionalização, vários campos se cruzem. Das 8 reportagens que versam sobre as consequências das mani- festações frente aos próximos eventos sediados na Rússia, 7 tratavam de questões ligadas aos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi e apenas 1 fazia alusão à Copa do Mundo de Futebol em 2018. Esse fato talvez se deva à proximidade do evento olímpico que estava praticamente às vésperas de acontecer3 . Antes mesmo do mundial de atletismo se iniciar, no dia 08/08/2013, o ministro dos esportes da Rússia, Vitaly Mutko, se referindo às olimpía- das de inverno de 2014, garantiu, em entrevista, que a lei sobre gays não afetará os atletas e não interfere na vida privada das pessoas, porém, destacou que as leis do país devem ser respeitadas. -Euqueroacalmartodomundo,antesdetudo,jáque,alémdestalei, no território da Rússia temos a Constituição da Federação Russa, que garante a todos os cidadãos o direito a uma vida privada, garante que não haverá interferência nesta vida privada. Essa lei não visa privar os cidadãos de qualquer país, religião, ou orientações de seus 3 O Mundial de Atletismo aconteceu em agosto de 2013 e os Jogos Olímpicos de Inverno aconteceram em fevereiro de 2014, ou seja, um intervalo de 6 meses.
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    139Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa interessesedireitos.Estaleivisaproibirapropagandaentreosjovens maisdoquequalqueroutracoisa.Possoassegurar-lhesqueosJogos Olímpicos acontecerão no mais alto nível.Todos os direitos de todos os cidadãos serão protegidos, mas as leis de qualquer país em que você entrar, devem, é claro, ser observadas. Mas eu vou dizer outra vez: isso não afeta os atletas em nada. Venham competir. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/olimpiadas-de-inverno/noti- cia/2013/08/ministro-russo-garante-que-polemica-lei-sobre-gays- -nao-afetara-atletas.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013. O astro russo do hóquei, Ilya Kovalchuk, declarou publicamente ser a favor da lei anti-gay na Rússia: “é nosso país”. O jogador se manifes- tou após as queixas feitas pelos atletas canadenses, que lideraram um abaixo assinado e inclusive ameaçaram boicotar os jogos de inverno de Sochi, em 2014. Ruídos de boicote dos jogos também aconteceram entre atletas dos Estados Unidos. Em relação ao boicote dos Jogos, o“globo.com”trouxe uma matéria em que o presidente americano negava o boicote por parte do país.Veja o que diz a reportagem: O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se pronunciou para dizer que o país não fará boicote aos Jogos de Inverno de 2014, em Sochi, apesar de discordar de forma veemente sobre as leis que buscam intimidar os homossexuais na Rússia. O presidente americano ainda afirmou que deseja que atletas gays conquistem medalhas nas Olimpíadas. Disponível em: http://m.sportv.globo. com/site/programas/sportv-news/noticia/2013/08/obama-nega- boicote-aos-jogos-de-inverno-e-espera-gays-medalhistas. Acesso: 28 de Agosto de 2013. O país sede das olímpiadas de inverno precisou prestar esclareci- mentos sobre a lei anti-gay depois que o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge, questionou o impacto da mesma sobre os próximos Jogos: “Nós temos hoje garantias do governo russo
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    140 A LEIANTI-GAY RUSSA que todos serão bem-vindos nos jogos em Sochi, independentemente da sua orientação sexual”. Em resposta ao COI, o vice-presidente russo Dmitry Kozak afirmou que a Rússia não vai discriminar gays em Sochi 2014: - A Rússia vai cumprir integralmente o regulamento das Olimpía- das, que prega a igualdade entre todos os competidores. A lei gay penaliza a propaganda gay, e ela continua valendo. No entanto, ela não pode ser considerada uma discriminação com base na orientação sexual. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/ olimpiadas-de-inverno/noticia/2013/08/em-carta-ao-coi-russia- -garante-que-nao-vai-discriminar-gays-em-sochi.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013. Seguindo a mesma linha do COI, a FIFA, em nota publicada em seu site oficial, também cobrou esclarecimentos e detalhes da lei às autori- dades russas por ser esse país a sede da Copa do Mundo de Futebol de 2018. A reportagem do “globo.com” traz o conteúdo da nota divulgada pela FIFA: Na nota, a Fifa afirma que espera que todos os convidados da Copa do Mundo no país-sede, como torcedores, jornalistas, árbitros e jogadores, possam aproveitar um grande torneio, independentemente da sua opção sexual. ‘A Rússia se comprometeuadarumarecepçãocalorosaegarantirasegurança de todos os visitantes na Copa do Mundo de 2018. A Fifa acredita que o anfitrião do Mundial vai cumprir esta promessa’. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/ noticia/2013/08/copa-de-2018-fifa-pede-detalhes-russia-sobre- polemica-lei-dos-gays.html. Acesso: 28 de Agosto de 2013. Com isso, podemos notar que a polêmica da lei “anti-gay” promul- gada pelo governo russo pode ser encontrada além da relação entre Estado e indivíduos, na medida em que seus efeitos ganharam contor-
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    141Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa nos interinstitucionais e internacionais. Fica evidente que a noção de subversão à lei não pode ser definida em termos factuais. Isto é, uma ação pode ser criminosa ou não a depender da lei que a interpreta. Para o Estado russo, realizar qualquer apologia à homossexualidade é crime. Já na sociedade norte-americana, para citar os caso dos atletas dos EUA, crime significa justamente o contrário: proibir que alguém divulgue a homossexualidade (liberdade de expressão). Essa questão fica evidente nos discursos dos dois atletas russos e, também, no pedido de esclare- cimento do COI e da FIFA. Em todos os casos, a reinvindicação é pelo reconhecimento da legitimidade não do fato, mas acerca da visão legal e cultural sobre ele. A lei russa e seus defensores e representantes não titubeiam ao aler- tarem positivamente que não se trata de uma criminalização da orienta- ção sexual de alguém, mas sim da expressão propagandista envolvendo comportamentos homossexuais. A legislação russa, portanto, irá prote- ger o direito da pessoa ser homossexual, desde que ela não se expresse. Em outras palavras, desde que isso não seja público e não caracterize propaganda, isto é, a tentativa de convencer os demais a optar por uma dada orientação sexual ou de influenciá-los de algum modo, em espe- cial os jovens. Em meio a esse impasse, os russos que se declararam solicitam que os estrangeiros respeitem as normas do país. Ao mesmo tempo e em igual medida, os atletas estrangeiros, homossexuais ou não, parecem reivindicar que a nação russa respeite seus costumes e valores. Entretanto, o problema se agrava quando, além das instituições esportivas e do Estado russo, outra instituição, o Movimento Gay da Rús- sia, representada por seu líder, entra em cena ao criticar a defesa da atleta Isinbayeva dirigida à lei “anti-gay”; principalmente porque, a nosso ver, essa última se pronuncia argumentando que a referida lei representa a nação russa e, portanto, todos os russos, ao exigir que os estrangeiros respeitem suas normas. Nikolai Alexeyev, conforme nosso referencial teórico pós-estrutural, aparece como uma fissura nos limites do dis- curso de unidade cultural promulgado por Isinbayeva, apontando que a
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    142 A LEIANTI-GAY RUSSA homossexualidade consiste em ser uma existência ou modo de ser para além das culturas locais e seus conflitos internacionais. A sexualidade, mais uma vez, se apresenta como um rasgo nas estruturas culturais, de modo a fazer com que essas se reestruturem, considerando esse dado como parte da vida pensada e não como anomalia categorial. Por isso, a lei russa em pauta não representa todos russos e seus sentimentos. Oagendamentoesportivopassaaterquedebaterprogramaticamente algumas regras e procedimentos organizacionais para além da estrutura esportiva. Atingindo uma esfera mais ampla e envolvendo problemáticas políticas e culturais de cunho pós-estrutural, já que as estruturas não inte- ragem apenas por meio de relações diagramáticas – quando uma estrutura está ao lado da outra conforme seus pontos de semelhanças e diferenças. Elementos de uma outra estrutura considerada estrangeira atravessam o núcleo e as periferias de estruturas que tentam organizar comportamentos díspares. Na prática, a sexualidade atravessa de surpresa a estrutura institu- cional do esporte, para a qual a categorização ou divisão entre masculino e feminino estava segura na distinção entre genitálias: pênis ou vagina. No interior da classe genitália atravessam diferenças de sentido. Mas o curioso de tudo isso é que a homossexualidade no esporte não abala a estrutura do esporteemsi,mas,pormeiodele,perturbaumaoutraestruturaexternaem termosdesemelhançadiagramática:osEstadosesuasilusõesdesociedade homogênea e hegemônica. CONSIDERAÇÕES FINAIS Retomando o objetivo de nosso artigo que foi investigar e anali- sar as demarcações e governo dos corpos no que tange as questões de gênero a partir de dados empíricos veiculados no portal “globo. com” entendemos que corpo do outro e o meu próprio são enigmas que nos oferecem pistas, indícios, signos, sintomas que desconstroem todo tipo de taxonomia e, portanto, o contexto cultural que a sustenta. Nessa desconstrução taxionômica, o exercício de desconstruir não
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    143Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa deve ser visto como sinônimo de censura ou aniquilamento, pelo con- trário, trata-se de se libertar de amarras epistêmicas e metafísicas para que os sentidos de gênero não fiquem presos a uma matriz antecipató- ria que não deixe emergir outros significados. É um desafio no sentido de emancipar o gênero de ontologias que os condenam a matrizes de demarcação e governo. Desta forma, poderemos visualizar que a homossexualidade dei- xará de ser algo periférico, marginal ou anômalo e será vista sob o viés epistemológico de outras estruturas relacionais para além daquelas que até agora a enxergaram. Não obstante, é nesse ponto que o pós- -estruturalismo oferece uma nova saída. A saída da proliferação das diferenças, a proliferação de versões sobre a estrutura. Para começar a mudar é necessário experimentar o olhar do outro em mim enquanto o olhar da diferença. Em suma, as políticas de Estado pautadas teórica e metodologica- mente no estruturalismo buscaram organizar a realidade formada pelas relações entre os viventes segundo seus respectivo sistemas categoriais cujas bases estão fixadas na epistemologia e na metafísica ocidentais, positivista e cristã. Já o pós-estruturalismo, enquanto corrente teórico- -metodológica, defende que os modelos mentais devem se transformar em função dos devires apresentados pela vida e pelos viventes. Nesses termos, pensar os desafios governamentais em uma era democrática significa que as leis devem garantir o bem-estar e o convívio humano de todos. Portanto, toda lei que exclui ou criminaliza um sujeito ou um grupo deverá ser revista para se adequar à necessidade das pessoas, já que as leis e as normas só têm sentido para preservar a humanidade.
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    144 A LEIANTI-GAY RUSSA REFERÊNCIAS ALÓS, A. P. A letra, o corpo e o desejo: masculinidades subversivas no romance latino-americano. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2012. ANDRADE, S. S. Mídia Impressa e Educação dos Corpos Femininos. In: Corpo, Gênero e Sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Petropólis. Rio de Janeiro, 2003. p.108 – 121. BÁRTOLO, J. Corpo e Sentido: estudos intersemióticos. Civilhã: Portugal. Livros LabCom, 2007. BUTLER, J. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In: LOURO, Guacira. L. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2010 p. 151-172. _____. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2003. ______, Judith. Fundamentos contingentes: o feminismo e a questão do “pós- moderno”. Cadernos Pagu trajetórias do gênero, masculinidades, Campinas, v. 11, p. 11-43, 1998. CANGUILHEM, G. O problema das regulações no organismo e na sociedade. In: ______ Escritossobreamedicina.Tradução deVera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Forence Universitária, 2005. (Fundamentos do saber) p. 71-88 DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O anti-Édipo. Capitalismo e esquizofrenia. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996. LOURO, G, L. Currículo, gênero e sexualidade: o “normal”, o “diferente” e o “exêntrico”.In:LOURO,G.L.;FELIPE,J.;GOELLNER,S.V.Corpo,gêneroesexualidade: um debate contemporâneo na educação. 6. ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, p. 41-52, 2010. MEZZAROBA, C. O processo de agendamento esportivo e os Jogos Pan- americanos Rio/2007 na visão de escolares: um estudo de recepção midiática e (possíveis) repercussões para a educação física escolar. In: PIRES, G. L. P.; RIBEIRO, S. D. (org.) Pesquisa em Educação Física e mídia: contribuições do LaboMídia/ UFSC. Florianópolis: Tribo da Ilha, p. 150-172, 2009. MINAYO, M.C. de S. (org.) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 29ª ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
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    145Fabio Zoboli; ElderSilva Correia; Renato Izidoro da Silva; Tammy Rocha Costa OLIVEIRA, D. E. Filosofia da ancestralidade: corpo e mito na filosofia da educação brasileira. Curitiba: Editora Gráfica Popular, 2007. SOARES, R.; Fica comigo gay: O que um programa de TV ensina sobre uma sexualidade juvenil? In: LOURO, G. L.; FELIPE, J.; GOELLNER, S. V. Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na educação. 6. ed.– Petrópolis, RJ: Vozes, p. 136- 148, 2010. TRIVIÑOS, A.N.S. Introdução à pesquisa em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 2010. WEEKS, J. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, G. (org.) In: O corpo educado: Pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, p. 35-82. 1999.
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    CORPO, SAÚDE EGOVERNABILIDADE1 Cristiano Mezzaroba Fabio Zoboli Elder Silva Correia RESUMO: O ensaio discorre sobre a relação “Saúde x Educação Física” critican- do o modelo das práticas corporais fundamentalmente ligadas a uma visão biologicista de corpo ao mesmo tempo em que estabelece um arrolamento dessas práticas ao âmbito da disciplina ascética e da governabilidade que esta- belece uma relação de moralidade ao discurso e às práticas de saúde. PALAVRAS CHAVE: Corpo; Saúde; Governabilidade. 1 Compreendemos a governabilidade como objeto de estudo dos mecanismos políticos que visam a subjetivação e a objetivação da educação dos corpos. A educação é encarada como um dos mecanismos políticos das culturas no sentido destas conhecerem o corpo em suas possibilidades materiais e simbólicas de exercer e de suportar atos governantes orientados à produção de comportamentos corporais em suas sociedades mediadas por leis, regras, valores, conceitos e saberes localizáveis histórica e geograficamente – tempo e espaço. Não confundir a ideia de governabilidade apresentada no texto com o conceito de governamen- tabilidade de Michel Foucault.
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    148 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE INTRODUÇÃO Na modernidade foi-se disseminado um sem fim de práticas corpo- rais baseados em modelos de atividades com desempenho físico, visando a tão falada qualidade de vida. “Todo um vocabulário médico-fisicalista baseado em constantes biológicas, taxas de colesterol, tono muscular, capacidadeaeróbicapopulariza-seeadquireumaconotação‘quasemoral’, fornecendo os critérios de avaliação individual”(BRACHT, 2013, p.184). A ideologia da qualidade de vida sustentada pelos discursos e prá- ticas da saúde criam uma moralidade ascética da qual o indivíduo se apropria para seu autogoverno. A ascese é aqui compreendida como um conjunto ordenado de exercícios disponíveis, recomendado e utilizado pelos indivíduos dentro de um sistema simbólico que tem como fim atingir um objetivo específico. Por assumir uma condição simbólica, a ascese possui uma dimensão política e moral. Sob este viés, as posturas ascéticas implicam processos de subjetivação/objetivação. O eu que se pericia tem no corpo e no ato de se periciar a fonte básica de sua identidade. Sendo assim, como nos apresenta Marzano- -Parisoli (2001) apud Gomes (2013), ser magro, ou estar na linha, tor- nou-se não apenas uma imagem sedutora e atrativa, mas também um símbolo de autocontrole, integridade moral e estatuto social elevado. Podemos considerar que a principal causa dessa visão unicamente biológica da saúde é dada principalmente por um processo de tomada do corpo como algo único e exclusivamente de descrição da medicina. Um importante e fundamental campo que possibilitou essa tomada do corpo para a medicina foi a anatomia. A história desta e as técnicas de visualização da medicina provam a estreita relação na produção dos discursos científicos sobre o corpo, tendo um forte papel na construção sociocultural sobre o que entendemos do processo de saúde e doença, intervenções terapêuticas, e, portanto, a ideia que temos do nosso pró- prio corpo (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). Assim, pensar o corpo seria então recorrer diretamente à medicina e ao seu vocabulário biológico.
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    149Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia Neste sentido, o objetivo deste ensaio gira em torno de uma crítica ao modelo de corpo e práticas corporais ligadas a um modelo de corpo biologicista que fomenta um autogoverno de si – ascese – pautado em eventos em que o corpo fica preso a uma moral de saúde reduzida a parâmetros bio/fisiológicos. Sendo assim, apresentamos o presente texto focando a ques- tão do corpo na biopolítica, e como a EF, dentro desta, serviu e serve de dispositivo de gestão da saúde do sujeito, tanto no período em que o Estado e as instituições eram responsáveis por este sujeito, assim como também na inversão desta gestão, em que o sujeito passa a ser respon- sável pela sua própria saúde, torna-se o gestor de si, e as questões rela- cionadas à saúde ao corpo passam a ser como uma fonte de valor. EDUCAÇÃO FÍSICA, SAÚDE E O AUTO-GOVERNO O corpo enquanto objeto de estudo e de intervenção, é (e sempre foi) tratado sob o viés de diversas ciências/campos do conhecimento. Isso quer dizer que há vários enquadramentos de sentido para se conce- ber o corpo, em que cada uma lê o mesmo a partir de suas significações. Neste sentido, cada ciência que trata o corpo é uma verdadeira máquina semiótica na medida em que a suas formas de olhar o corpo produz sentidos sobre o mesmo. “O homem jamais reage à objetividade das coisas: é a significação que ele atribui a elas que determina seu compor- tamento” (LE BRETON, 2011, p.333). Sob este aspecto, cabe deixar claro que quando as ciências naturais ou humanas falam sobre o corpo, não estão falando dele em si, mas sim de representações ou signos degene- rados ou ampliados dele – sendo assim, cada ciência com seus conceitos é interpretante lógica do corpo. Isso acontece porque toda e qualquer ciência não dá conta de tratar o corpo em si que ela obtém como objeto, pois isto são apenas represen- tações significadas ou ainda signos incompletos ou signos ampliados (virtuosos ou virtuais) do objeto (corpo). Sendo assim:“Retoma-se aqui a
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    150 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE consideração do corpo como espaço de inscrição de signos, não sendo o próprio corpo, por inteiro, significável. O corpo acolhe códigos que nele ancoram ganhando assim um estatuto de significante flutuante” (BÁR- TOLO, 2007, p.75). Neste sentido, conceituar e compreender o corpo sob o viés da intei- reza e complexidade passa a ser uma tarefa impossível, algo inabarcável, pois somos capazes apenas de apreender significações e representações deste de acordo com certos limites cognitivos do presente. Assim, Le Breton (2009, p.24) enfatiza que “[...] qualquer questionamento sobre corpo requer antes a construção de seu objeto, a elucidação daquilo que subentende”. E continua:“[...] o‘corpo’é uma linha de pesquisa e não uma realidade em si”(LE BRETON, 2009, p.33). Para melhor situar e visualizar o corpo no contexto dos discursos e práticas de saúde em EF, nos reportamos à citação de Mondin (2003), quando este menciona que o corpo humano pode variar entre uma concepção científica que pensa o corpo enquanto coisa, o corpo objeto, aquilo que os alemães chamam de Körper, e a consideração fenomeno- lógica que estuda o próprio corpo enquanto lugar de sentidos e signifi- cações experimentadas e vividas, que para os alemães se trata do Leib. O primeiro consiste em ser um cadáver a ser significado pelo segundo. Quando a ciência se apropria do corpo a partir do Körper ela cria no sujeito uma representação de corpo na qual o indivíduo ocupa um lugar de objeto/coisa e não de ator, ou seja, de um ser humano/corpo inscrito a partir de sua história/trajetória. O corpo passa a ser apenas um evento mecânico fruto de sua estrutura anatômica pautada no cadáver em detrimento de uma“anatomia viva”que“in-corpore”a subjetividade e a intencionalidade. O corpo Körper é “inaugurado” com Andreas Vesálio com um livro publicado em 1543, cujo título é“Da organização do corpo humano”(De Humanicorporis fabrica) que deu início à anatomia científica moderna (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). A partir de Vesálio e de suas publicações, tornou-se uma premissa para o campo da medicina ocidental que toda
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    151Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia verdade a respeito das doenças poderiam ser vistas no interior e viscosi- dade do corpo humano, ou seja, o importante era ver, originando assim uma estreita e íntima relação entre o visual e o conhecimento científico do corpo – e, portanto, dos processos de saúde e doença. Tal premissa também trouxe consigo o modelo de um único e verdadeiro corpo, que seria apresentado como norma para todos (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010) – modelo este que seria pautado apenas nas dimensões anatomofisioló- gicas do corpo humano. A partir de Vesálio, a visualidade do corpo passou a ter um privilé- gio no que se refere ao conhecimento do mesmo, e assim na sua con- sequente objetivação, bem como surgiu a primazia do cadáver como modelo de compreensão do estudo do corpo – características estas que são heranças da tradição anatômica (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). A visualização era tida como meio de apreensão da realidade objetiva de um objeto que seria o corpo, ou seja, alvo de conhecimento externo – consideravam que por meio da visualização, o objeto representado esta- ria sendo acessado diretamente como ele realmente era. Assim “[...] o estabelecimento de um conhecimento objetivante sobre o corpo é bem ilustrado pelo modelo do corpo-máquina, cujas partes se relacionariam umas com as outras como as engrenagens de um relógio – do que o sistema filosófico de René Descartes seria, posteriormente, o apogeu” (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p.27). Assim, ocorreu a redução epistemológica do ser humano, sendo objetivado ao extremo, e neste sentido, a doença passou a ser entendida como um evento detectável no interior do corpo, e o uso de ferramen- tas pela medicina foi de suma importância para os diagnósticos destas doenças (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). O que percebemos é que a medi- cina pautada estritamente no modelo biológico de corpo fez surgir a objetividade da doença, excluindo traços subjetivos e, além disso, outras dimensões que abarcam o processo de saúde/doença – dimensões estas que vão além da organicidade do corpo. Assim “o pedestal epistemoló- gico da medicina repousa sobre o estudo rigoroso do corpo, mas de um
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    152 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE corpo cindido do homem, tornado leve, percebido como receptáculo da doença”(LE BRETON, 2011 p.284). Assim, a medicina fornece: A noção de um homem que não seria nada além de seu corpo, de uma doença confundida com sua localização anatômica e funcional, prelúdio de uma medicina que trata unicamente um órgão ou função lesada, identificando a doença a uma mera disfunção em um mecanismo corporal (LE BRETON, 2011 p.318). Ou ainda, [...] [a] visão de saúde e doença tem sido fartamente descrita a partir do modelo da biomedicina, apoiado em concepções genéricas do processo saúde e doença e na produção de evidênciasanatomopatológicaseetiopatogênicas,supostamente elucidáveispormeiodaobjetividadedastecnologias[biomédicas] (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p.18). Apartirdisto,surgiuanecessidadedapreocupaçãocomocorpo,omodo pelo qual ele é exposto a doenças e como estas o afligem – tais questões interessariam cada vez mais à política/governo e à educação. Sendo assim, ligados a movimentos da Medicina, junto ao desenvolvimento da ciência, bem como a constituição do Estado Nacional e sistemas educacionais, a EF enquantocomponentecurricularadentraaescolacomoinstrumentodeedu- cação corporal, mais precisamente de promoção da saúde (BRACHT, 2001). Neste sentido, a EF iria intervir na escola pautada estritamente no discurso biomédico do século XVIII. A EF, assim, teve sua prática relacio- nada a estratégias como a polícia médica, campanhas sanitárias e movi- mento higienista – estratégias estas pensadas pelo governo como modo de atingir toda a população e, neste sentido, a educação corporal seria de suma importância (BRACHT, 2001). Para tal educação do corpo, a EF primeiramente usou como meio os métodos da ginástica e depois aos poucos foi incorporando o sistema
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    153Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia esportivo (BRACHT, 2001). No entanto cabe lembrar que o modelo de corpo pautado para a prática pedagógica da EF – tanto pela ginástica, como pelo esporte – era pautado no conhecimento biológico do seu funcionamento, apesar de saberem que aspectos como a moralidade, caráter e costumes, por exemplo, deveriam ser também trabalhados com os alunos, mas tais práticas sempre estariam pautadas na dimensão biológica (BRACHT, 2001). Esse entendimento de prática voltada sobretudo a um modelo de corpo puramente biológico, caracteriza a então visão hegemônica de saúde. Quando voltamos nosso olhar para a visão da discussão da saúde hoje na escola, o entendimento principalmente aqui no Brasil é que a atividade, aptidão física, bem como conteúdos como o exercício físico e o desporto (reduzido ao aspecto técnico e biológico) são conteúdos principais e essenciais para se tratar de saúde na EF (MEZZAROBA, 2012). Neste sentido, se reduz o entendimento de que atividade física é sinônimo de saúde, assim “[...] defender o discurso de que ‘exercício é saúde’ em determinado contexto sociocultural pode ser um grande equívoco por parte de professores de EF, já que este discurso que liga a causa (fazer atividade física) a um efeito (gerar saúde), o conhecido dis- curso da causalidade, é algo reducionista e problemático”(MEZZAROBA, 2012, p.234-235). No que tange os campos de intervenções da EF, principalmente no que está relacionado à temática da saúde, podemos pensar que elas ocorrem tanto no universo escolar como também nos serviços públicos de saúde, seja com o propósito de educação em saúde, terapêutica, pre- venção ou, de maneira mais ampla, promovendo a saúde humana (LUZ, 2007; ROCHA & CENTURIÃO, 2007). Ainda em relação à sua contextualização, podemos situar um impor- tante e necessário texto de Lovisolo (1997), chamado “A paisagem das tribos da EF”, em que, numa linguagem metafórica, o autor apresenta as configurações de como ocorre a formação e as intervenções relativas à EF no Brasil, a partir de duas“tribos”principais: a tribo da saúde, que ele
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    154 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE chama de“tribo da conservação”, e a“tribo da potência”, nome dado em relação àqueles que se dedicam ao esporte. Além dessas duas, há a tribo da “modelagem corporal” que, segundo o autor, está se constituindo de maneira cada vez mais forte, aproveitando os discursos da tribo da conservação e tendo como ima- gem, ou como modelo, os atletas (da tribo da potência), o que gera uma ambiguidade nos discursos que envolvem/ligam saúde à estética. Por último, a tribo da educação, aqueles que, na linguagem metafórica, situam-se no meio do rio, entre essas duas margens principais (saúde e esporte), navegando seu barquinho à vela e vulneráveis às tempes- tades e correntes – ora indo em direção à margem da tribo da conser- vação, ora indo para a margem da tribo da potência – e que, no fundo, defendem uma variedade de saberes e práticas, mas que por causa disso, falta uma “definição”, aquilo que discutimos costumeiramente como a especificidade da EF escolar. Poderíamos pensar que, passados mais de quinze anos da divul- gação deste texto, o autor talvez tenha acertado seu prognóstico: a separação na formação e nas intervenções, formando profissionais completamente diferentes dentro daquilo que constituía-se como uma “área única”, porém diversa. Hoje vemos professores de EF atuando no ambiente escolar e bacharéis (personal trainners, técnicos, recreacionis- tas etc.) atuando de maneira autônoma, em academias, clubes e institui- ções privadas. Neste sentido, é importante destacarmos aqui a EF tanto como um campo que está ligado ao universo público, tanto nas escolas públicas, assim como nos sistemas públicos de saúde; e também em um universo autônomo como nas academias, representados por personais trainners, técnicos etc. Assim, destaca-se a EF enquanto um dos campos que, atrelado a instituições públicas ou privadas, regem a saúde. Os saberes que são produzidos pelas instituições que regem a saúde – pela legitimidade de suas áreas – vão se materializando e tomando forma no contexto social na medida em que vão subjetivando os sujeitos. O corpo, assim, serve de âncora para a percepção individual
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    155Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia de se ser saudável e participa de um fluxo de sentidos que é cultural- mente manipulado pelos esquemas de percepção que regulam o “ser saudável”. Aqui é importante perceber a complexidade desse fenômeno social amparado basicamente sobre a correlação entre: cultura e cam- pos de saber (instituições que produzem ciência ou lidam e manipulam a mesma); tipos de normatividade (legitimação/materialização de seus resultados); e formas de subjetivação (estratégias de inculcação social). O sujeito não existe fora dos processos sociais, sobretudo os de ordem discursiva que os produzem enquanto seres livres e autônomos. É justamente o significado do termo tecnologias da subjetividade: um conjunto de técnicas de trabalho ético sobre si próprio que tem a noção de subjetividade de seus principais efeitos (GOMES, 2013, p.62). Criam-se, assim, formas de ver e perceber o corpo no contexto da saúde. Esse ver e perceber o corpo se institucionaliza e pauta saberes – subjetivações – que vão sendo disseminadas e legitimadas pela área médica sempre amparada pelo viés científico e suas tramas de métodos. Sobre as instituições como forma gestora do indivíduo, como nos lembra Ortega e Zorzanelli (2010), os estudos de Foucault já sinalizavam a tomada do corpo, ou seja, do sujeito, como foco de ações e atenções políticas. Neste sentido, Foucault detectou um forte processo de inves- timento no corpo por meio do poder, ou o que ele chama de biopoder, este que além do corpo, perpassava a vida e os mais variados campos e fenômenos que envolvem a sociedade (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). Para Michel Foucault, as relações de poder eram responsáveis pela produção de formas do sujeito se relacionar consigo mesmo e com os outros, sendo por meio do controle dos gestos do corpo, do espaço e do tempo (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). Podemos detectar isso quando falamos do meio pelo qual a própria EF adentrou o ambiente escolar, ou seja, pela preocupação com o corpo e o modo pelo qual o mesmo era suscetível a doenças, e pelas estratégias práticas que regiam esses
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    156 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE corpo como, por exemplo, a ginástica e o esporte. Sob este viés, é impor- tante entender que o poder deve ser apreendido como determinadas situações estratégicas, representadas por um conjunto de ações que operavam sobre o comportamento do sujeito, induzindo, dificultando, facilitando ou não determinadas ações (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). Sobre as mudanças pelas quais o poder tendeu a transformar-se no fim do século XVIII e começo do século XIX, Foucault designou o termo biopolítica (REVEL, 2005). Essa noção de biopolítica tem em seu bojo a necessidade de levar em consideração o nascimento do liberalismo (REVEL, 2005), ou, como Foucault (2008) enfatiza, a“arte liberal de gover- nar”, na medida em que a noção de biopolítica está atrelada a caracterís- ticas desse modelo de governo. A arte liberal que Foucault (2008) menciona como nova arte gover- namental se caracteriza como gestora de liberdade, porém,“não no sen- tido do imperativo ‘seja livre’ [...]” (FOUCAULT, 2008, p. 86), mas sim no sentido de que esse tipo de governo vai proporcionar o necessário para que haja liberdade, é por isso que essa arte de governo produz, con- some e organiza a liberdade, (FOUCAULT, 2008). [...]Oliberalismo,nosentidoemqueeuoentendo,esseliberalismo que podemos caracterizar como nova arte de governar formada no século XVIII, implica em seu cerne uma relação de produção/ destruição [com a] a liberdade [...]. É necessário, de um lado, produzir a liberdade, mas esse mesmo implica que, de outro lado, se estabeleçam limitações, controles, coerções, obrigações apoiadas em ameaças etc. (FOUCAULT, 2008, 87). É importante destacar que na medida em que o liberalismo se pro- põe a ser o gestor e produtor da liberdade, é este governo que também é responsável pelos problemas que essa fabricação implica (FOUCAULT, 2008). Neste sentido, para a gestão da liberdade, essa noção/sentido de liberdade – que não é, vale aqui novamente enfatizar, um impera- tivo do “seja livre” – implica numa noção de segurança, pois é através
  • 157.
    157Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia disso que a arte liberal de governar determina até que ponto o interesse individual não constitui um perigo para o interesse coletivo e vice-versa (FOUCAULT, 2008). Considerando isso, o liberalismo ao mesmo tempo em que manipula os interesses – sejam eles individuais e/ou coletivos – não pode fazê-lo sem ao mesmo tempo ser o próprio gestor dos perigos e dos mecanismos de segurança, desse jogo que deve garantir que os indiví- duos estejam o menos possível sujeitados aos perigos (FOUCAULT, 2008). [...] Os acidentes individuais, tudo o que pode acontecer na vida de alguém, seja a doença, seja esta coisa que chega de todo modo, que é a velhice, não podem constituir um perigo nem para indi- víduos nem para sociedade. Em suma, a todos esses imperativos – zelar para que a mecânica dos interesses não provoque perigo nem para os indivíduos nem para a sociedade – devem correspon- der estratégias de segurança que são de, de certo modo, o inverso e a própria condição do liberalismo. A liberdade e a segurança, o jogo liberdade e segurança [...] (FOUCAULT, 2008, p. 89). É sobretudo nesse aspecto do jogo entre liberdade e segurança, no que tange a gestão de interesses individuais ou coletivos em relação aos mecanismos que irão deixar os sujeitos menos suscetíveis a riscos, que a biopolítica se relaciona com o liberalismo. Faz-se essencial com- preendermos que, por volta da metade do século XVIII, as instituições como a escola e o próprio Estado faziam a gestão do indivíduo. Assim, é interessante destacar uma vicissitude do biopoder (advindo do Estado) que surgiu centrando-se no corpo e em seus processos biológicos como o nascimento, a mortalidade e o nível de saúde. Tais processos viraram centro de intervenção política mediante um sem fim de controles regu- ladores, o que vem a caracterizar a entrada dos fenômenos da espécie humana no campo do que se chama de biopolítica (ORTEGA; ZORZA- NELLI, 2010), que:“[...] diz respeito ao conjunto de dispositivos que regu- lavam naquele momento os nascimentos, a mortalidade, o nível de saúde, a duração da vida, a longevidade e todas as condições que podem
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    158 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE fazer um corpo variar, tanto individual quanto coletivamente”(ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p.71). Neste sentido, mais uma vez nos reportamos aqui à EF, sobretudo no instante em que ela adentra no âmbito escolar como um dispositivo do governo para a promoção e gestão da saúde do sujeito. Ou seja, até aqui o governo era o responsável pelo cuidado e gestão deste sujeito, e a EF era um dos dispositivos que possibilitariam tais práticas. No entanto, este panorama de ações das relações de biopoder sobre o corpo – o sujeito – do qual Foucault falava, hoje apresenta-se caracte- rizado por algumas mudanças, ou inversões. Isso acontece, sobretudo, porque a biopolítica é exercida por outros modos de articulação, nos quais podemos observar o abandono do estado e instituições como gestor único do sujeito e o advento do próprio sujeito como sendo ele mesmo o responsável por sua saúde, pelo cuidado de si. O cenário em que nos encontramos, sobretudo desde o final das últimas décadas do século passado, nos apresenta particularidades nesse processo biopolítico, no qual notamos um deslocamento do Estado como responsável pelos procedimentos de saúde sobre os indivíduos e a coletividade para uma autogestão da saúde. Trata-se de um regime de construção do eu como“empresa prudente”ativamente constituída por atos de escolha individual (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p. 73). Sendo assim, o desgaste destas instituições que outrora eram exclu- sivamente responsáveis pela gestão do sujeito vem conduzindo estes a se juntarem ao campo da saúde e do corpo como fonte de valor. Aconte- ceu isso quando a ciência suprimiu tais instituições, tendo assim o direito de falar no lugar da “verdade”, o que provoca alterações nos valores e sentidos que dão base à vida contemporânea (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). Neste sentido, a ciência ressignificou tais valores e sentidos, em que as obrigações éticas e morais, as escolhas do estilo de vida são pau- tadas no discurso científico – diria biomédico.
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    159Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia Ocontextodeênfaseexcessivaemumpadrãootimizadodesaúde cria novas formas de relação consigo e com o outro, como, por exemplo, o já mencionado uso corrente de vocabulário biológico para a descrição de aspectos da identidade e da saúde, tais como infelicidade, sofrimento ou características próprias (‘minha taxa de colesterol está alta’, ‘sou muito vulnerável ao estresse’, ‘meu sistema imunológico está em baixa’,‘tenho predisposição a certas doenças’,‘estou deprimido’). Fato é que a linguagem por meio da qual os indivíduos têm descrito a si mesmos tem se baseado cada vez mais em termos médicos que se popularizam, fornecendo princípios de avaliação dos indivíduos para gestão da própria saúde (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010). Neste processo, a otimização dos padrões corporais estabelecidos via discurso médico-científico torna-se um parâmetro de valor para os sujeitos. Criam-se assim modelos ideais baseados na performance física, amparados em parâmetros que têm vínculos com determinadas nor- mas e regras higiênicas. Assim, as ações dos sujeitos – ações estas indi- viduais – passam a ter o objetivo de obtenção de uma maior e melhor forma física, melhor saúde, mais longevidade, juventude – tudo pautado no “mais”, ou seja, na performance. Neste sentido, passa-se a existir um corpo mediado por representações normativas estabelecidas por espe- cialistas da saúde que pautam as técnicas de si – bioascese. As técnicas de si são práticas de reflexão voluntária através das quais os indivíduos se procuram transformar a si próprios, fixar-se regras de conduta e modificar-se na sua singular forma de ser. Trata-se de um dispositivo de autogoverno dos indivíduos, que exerce continuamente sem necessidade que haja quem governe diretamente a conduta de cada um (GOMES, 2013, p.75). Astecnologiasdesisãomecanismosdeautorregulaçãoquemobi- lizam práticas de experimentação, compreensão e julgamento da própria conduta. Tais práticas são realizadas sob a tutela de um regime de verdade, seja ele pedagógico, psicológico, terapêutico
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    160 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE ou familiar. Em cada um destes campos, o que está em causa é a relação de reciprocidade entre o corpo de conhecimentos de práticas e a produção mesma do self (GOMES, 2013, p.80). ComocitaOrtega(2005),asmodernasascesescorporais,asbioasceses, reproduzem no foco subjetivo as regras da biossociabilidade, enfatizando- -seosprocedimentosdecuidadoscorporais,médicos,higiênicoseestéticos na construção das identidades pessoais, das bioidentidades.Trata-se da for- mação de um sujeito que se autocontrola, autovigia e autogoverna. Porém, sobre essa liberdade do sujeito no tocante a relação do governa: A última consequência da liberdade do agente, na relação de governo, desde que se disponha a tanto, é a possibilidade que ele tem de reconfigurar, pelo menos em parte, as relações de governo, as quais, na modernidade, são orientadas pela governamentalidade biopolítica; portanto, a liberdade do agente é a sua possibilidade de contornar os princípios biopolíticos que o atrelam à sua finitude (FARHI NETO, 2010, p. 200). Nesta lógica, é importante o sujeito gerir seu próprio corpo, como se gerem outros patrimônios, pois o corpo passa a cada vez menos se diferenciar de qualquer outro objeto a ser governado, na medida em que o corpo tornou-se um empreendimento a ser administrado da melhor maneira possível (LE BRETON, 2003). O selo do domínio de si é o paradigma da relação com o próprio corpo no contexto contemporâneo. Todo corpo contém a virtua- lidade de inúmeros outros corpos que o indivíduo pode revelar tornando-se o arranjador de sua aparência e de seus afetos. O desinvestimento dos sistemas sociais de sentido conduz a uma centralização maior sobre si. A retirada para o corpo, para a apa- rência, para os afetos é um meio de reduzir a incerteza buscando limites simbólicos o mais perto possível de si. Só resta o corpo para o indivíduo acreditar e se ligar (LE BRETON, 2003, p.32).
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    161Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia O resultado disso é um sem fim de regras a serem seguidas e mode- los que devem ser praticados. Nascem então as exigências de um estilo de vida saudável, uma arte de governar os outros e a si mesmo no exercí- cio de sua“própria liberdade”. O sujeito segue parâmetros de proibições e permissões, um esquema de comportamentos. Isso pode ser lido e compreendido muito nas noções que Foucault apresenta de tecnologias políticas do corpo, bem como de governabilidade. A descrição dos cuidados de saúde de um idoso feita por Coh-Ben- dit (1981) apresentada por Le Breton (2011, p.252-253) retratam os cui- dados minuciosos da arte bioascética: Eu estou engajado no prolongamento máximo da duração de minha vida. Eu tomo vitaminas, sais minerais. Eu como cereais no café da manhã e salada ao meio-dia. Eu me ocupo de meu corpo comosefosseumarevolução.Eucomoparamealimentarenãopor prazer. Esses são os complementos naturais que eu tomo para meu equilíbrio geral. Eu consumo cerca de quarenta a cinquenta desses por dia. Esse é o Max Epi que protege dos acidentes cardíacos. O betacaroteno tirado das plantas e que retarda o envelhecimento das células. E aqui estão outros que impedem o desenvolvimento do câncer, ou que limpam o sangue de suas impurezas. Esse é o Ginseng, que reforça minha energia e me prepara para os esforços esportivos. Eu também tomo vitaminas como aquelas que me aju- dam a dormir à noite, e vitamina do complexo B6 . Podemos considerar também o que Le Breton (2003) denomina de “produção farmacológica de si”, na qual a programação farmacológica, os psicotrópicos se oferecem como meios técnicos para a existência, no qual, sob determinados ângulos, modulam o sujeito e assim o cotidiano, estabelecendo uma fantasia de domínio de si mediante a turbulência em que o mundo vive, embaraçando as fronteiras entre o que depende exclusivamente de nós sob um determinado comportamento, ou uma técnica exterior – diria uma técnica incorporada.
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    162 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE Por meio deles, o indivíduo propicia-se o sono desejado, o apaziguamento da angústia e da ansiedade, o melhor estímulo para o exame ou para o dia de trabalho difícil, uma maior inteligência ou memória, o esquecimento de um cansaço persistente, o fim de um nervosismo que impede a concentração etc. Nesse sentido, o consumo de produtos para orientar o humor ou a vigilância inscreve-se nos hábitos comuns de grande número de ocidentais, mesmo onde não existe qualquer patologia (LE BRETON, 2003, p.63). Neste sentido, coloca-se uma série de signos a serem persegui- dos pela sociedade, de acordo com seus valores culturais/simbólicos e morais, que torna uma encenação deliberada do próprio sujeito com um sem fim de variações que fazem do corpo e do próprio sujeito um mate- rial a ser regido e controlado mediante as orientações daquele determi- nado momento (LE BRETON, 2003). É pautada nessa moralidade que os fumantes, os sedentários, os alcoólatras, os drogados, os obesos, os anoréxicos etc. são julgados como amorais e de pouca vontade. São eles o exemplo da “personifica- ção do pecado”, a eles cabem todas as“penitências”por não seguirem a conduta moral instituída pela saúde. A questão da “anormalidade” não deve ser encarada como algo que foge necessariamente de regras fisio- lógicas, isso porque o corpo e os processos de saúde-doença não estão apenas nos limites do registro anatômico e funcional do corpo, mas tam- bém numa dimensão sociocultural na qual são partilhadas uma série de sentidos e significados (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010), dando assim sen- tido a uma série de etiquetas morais e de ideias de saúde. Numa sociedade cada vez mais individualista, a coletividade só for- nece de forma alusiva os valores e a moralidade, na medida em que é o próprio sujeito o mestre que decide o rumo que deve tomar sua exis- tência (LE BRETON, 2003). Porém, entramos aí num paradoxo de uma falsa liberdade, que serve apenas para inculcar a culpa e a suposta falta de responsabilidade do sujeito mediante o manejo de si. Assim,“[...] em
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    163Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia contraposição, a normalidade desejável é o indivíduo capaz de autocon- trole”(ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p.93). É como se houvesse uma: Conduta mágica que garante pelo menos um domínio de si onde o ambiente social é problemático, em uma sociedade em crise, presa em um remanejamento sem trégua de seus valores e de suas bases sociais, os recursos pessoais de cada indivíduo são solicitados o tempo todo, com a confusão ou a ansiedade que nasce do medo de não estar à altura (LE BRETON, 2003, p. 59). Tudo isso vem reforçar a ideologia da saúde perfeita, que leva a crer que um sujeito fora destes padrões de autocontrole tem origem numa falha de caráter, falha no manejo de si mesmo (ORTEGA; ZORZANELLI, 2010, p.95). Tal discurso cai nas questões individuais, como no chamado “estilo de vida”, como se todas as pessoas escolhessem a situação em que vivem, e tivessem total controle sobre o que determina sua saúde. Assim: Ao atribuir o peso da culpa ou da responsabilidade ao próprio indivíduo, ocorre aquilo que a saúde coletiva denomina de cul- pabilização da vítima, ou seja, exposto aos vários agravos que o indivíduo sofre no seu dia a dia, seja pelas suas condições de trabalho, de alimentação, de transporte, de relações pessoais, e com o ‘bombardeio de informações’ que recebe quanto a comportamentos preventivos que deve seguir para ‘ter saúde’, seria‘culpa’dele mesmo não seguir o que médicos e profissionais da saúde – incluídos aí os professores de EF e os personaltrainners – dizem ou ‘recomendam’ para ser seguido (MEZZAROBA, 2012, p.237-238). Do contrário, temos os fanáticos da boa forma, os experts em calcu- lar minutos de atividade física com queima de calorias e colesterol, os que cronometram suas horas de sono, que contam as cores das saladas que têm no prato e a quantidade de frutas e de litros de água que conso- mem, os que praticam alguma atividade física com certa regularidade. É
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    164 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE aqui que adentra o que Lovisolo (1997) chamou tribo da saúde, que ele chama de“tribo da conservação”, e a“tribo da potência”, nome dado em relação àqueles que se dedicam ao esporte. Tais tribos que fazem parte da paisagem da EF – na visão metafórica de Lovisolo – vêm com a ciência falando em nome da“verdade”, dar subsídios para o indivíduo cuidar de si mesmo, tornar-se um auto-gestor. Sob esta lógica, a relação do indivíduo com seu corpo acontece por meio do domínio de si, na medida em que “[...] o homem contemporâ- neo é convidado a construir o corpo, conservar a forma, modelar a apa- rência, ocultar o envelhecimento ou a fragilidade, manter a sua ‘saúde potencial’ [...]” (LE BRETON, 2003, p.30). Neste sentido, Le Breton (2003), utilizando-se de Sennett (1979) e Courtine (1993), enfatiza que essa cul- tura do corpo tratada sob a égide do domínio de si pode ser considerada uma forma moderna da ética protestante, no instante em que pode- mos ver tal processo baseado no compromisso que perpassava a ética puritana, caracterizada sob a disciplina e o cuidado de si, porém com a necessidade do consumo de massa – apresentando-se assim como um paradoxo na medida em que é pregada toda uma disciplina que o sujeito deve ter em relação ao domínio de si, porém, com o discurso do consumo de bens para as práticas, o próprio sujeito rege seu corpo. Somos sabedores de que há toda uma cultura industrial e de mer- cado que se serve dos padrões de saúde para criar necessidades e fazer girar toda uma engrenagem tecnológica lucrativa. Por que não inves- tir numa ética pautada na responsabilidade de assumir sua condição de saúde na preservação moral dos sujeitos que fazem parte de seu entorno? Seria isso possível? Neste sentido, por que é difícil para nós romper com tais subjetiva- ções? Precisamos insistir em criar metáforas/experiências sobre saúde que transcendam os limites de padronização do que é certo e do que é errado para investir em processos de experienciações singulares que permitam o sujeito constituir-se e conduzir-se a si mesmo na medida em que o indivíduo é levado a criar seus próprios mecanismos de se
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    165Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia sentir saudável. Ainda assim não estamos certos de haver uma possibi- lidade de isso acontecer, na medida em que é difícil para nós conciliar práticas corporais – técnicas de si – como prática ascética de liberdade, pois, como mencionamos acima a partir da citação de Gomes (2013, p. 62) e agora reiteramos: “o sujeito não existe fora dos processos sociais, sobretudo os de ordem discursiva que os produzem enquanto seres livres e autônomos”. CONSIDERAÇÕES FINAIS Torna-se cada vez mais inevitável, com tantos discursos, polifôni- cos e polissêmicos, que na sua intensidade e facilidade de veiculação às massas em geral (via meios de comunicação, a chamada mídia), vão pedagogizandoquestõeshigiênicassobnovaroupagemnaatualidade, principalmente com as dicas de qual atividade física fazer, quantas calorias gastar, que musculatura utilizar, do que e quando se alimentar, que roupa vestir nas práticas físicas, qual a dosagem ideal para as prá- ticas físicas e esportivas, entre tantos outros exemplos – naquilo que a Saúde Coletiva denuncia como os novos inimigos do mundo moderno: o sedentário e o obeso1 . Tais práticas e discursos estão pautados num modelo biologicista de corpo, e assim na gestão de si ao modo da técnica, no qual a produ- ção de si também está atrelada a uma produção da própria identidade do sujeito. Identidade essa caracterizada no sujeito como um gestor do seu próprio corpo, o que Le Breton (2003) considera ser o alter ego – grande outro – se colocando diante do seu corpo como seu próprio construtor, retificando, reparando, otimizando, potencializando sua saúde, enfim, administrando sua “máquina” na qual o seu funciona- mento normal depende única e exclusivamente das ações e cuidados do seu próprio“engenheiro”. 1 Sobre isso, ver Fraga (2006).
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    166 CORPO, SAÚDEE GOVERNABILIDADE À EF, enquanto campo do conhecimento que trata da saúde, cabe melhor contextualizar e problematizar este conteúdo e as diversas ques- tões que estão à sua volta – como o domínio de si – sem cair em oposi- ções distanciadas e sem diálogo, apenas repetindo velhos discursos sob a roupagem daquilo que é considerado como “renovado”; tampouco negando que sua identidade, enquanto saberes e práticas constituí- das social e historicamente, está sim atrelada de maneira direta à saúde (entretanto não restrita ao campo biológico). Portanto, uma saúde que leve em consideração o corpo enquanto uma construção simbólica, social, destacando conceitos como, por exemplo, a experiência que está relacionada com o princípio fenome- nológico de uma constituição da identidade pessoal, resultado de um processo de subjetivação e objetivação que seja pautado na própria experiência do sujeito, em suas determinadas ações e relações com o contexto social em que está inserido. REFERÊNCIAS BÁRTOLO, J. Corpo e sentido: estudos intersemióticos. Covilhã: Livros LabCom, 2007. BRACHT,V. Saber e fazer pedagógicos: acerca da legitimidade da Educação Física como componente curricular. In: CAPARRÓZ, F.E. (org.). Educação Física escolar: política, investigação e intervenção. Vitória: Proteoria, 2001, p.67-79. _____. Educação Física & saúde coletiva: reflexões pedagógicas. In: FRAGA, A.B.; CARVALHO,Y.M.; GOMES, I.M. Aspráticascorporaisnocampodasaúde. São Paulo: Hucitec, 2013, p.155-197. FARHI NETO, L. Biopolíticas: as formulações de Foucault. Florianópolis: Cidade Futura, 2010. FOUCAULT, M. Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008. GOMES, R.M. A política da vida e a saúde. In: FRAGA, A.B.; CARVALHO,Y.M.; GOMES, I.M. As práticas corporais no campo da saúde. São Paulo: Hucitec, 2013, p.52-82.
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    167Cristiano Mezzaroba; FabioZoboli; Elder Silva Correia LE BRETON, D. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. Campinas: Papirus, 2003. _____. A sociologia do corpo. Tradução de Sonia M. S. Fuhrmann. 3d. Petrópolis: Editora Vozes, 2009. ______. Antropologia do corpo e modernidade. Tradução de Fábio dos Santos Creder Lopes. Petrópolis: Vozes, 2011. LOVISOLO, H. A paisagem das tribos na Educação Física. In: Lecturas: Educación Física y Deportes. Buenos Aires, ano 3, n. 12, dez./1998. Disponível em: http:// www.efdeportes.com/efd12/hlov.htm Acesso em: 02 março 2009. LUZ, M.T. Novos saberes e práticas em saúde coletiva. 3ª ed. São Paulo: Hucitec, 2007. MEZZAROBA, C. Ampliando o olhar sobre saúde na educação física escolar: críticas e possibilidades no diálogo com o tema do meio-ambiente a partir da SaúdeColetiva.Motrivivência,Florianópolis,anoXXIV,n.38,p.231-246,Jun./2012. MONDIN, B. O homem: quem ele é? Elementos de antropologia filosófica. Tradução de R. Leal Ferreira e M.A.S. Ferrari. São Paulo: Paulus, 2003. ORTEGA, F. Da ascese à bio-ascese ou do corpo submetido à submissão do corpo. In: RAGO, F; ORLANDI, L.B.L.;VEIGA-NETO, A.ImagensdeFoucaulteDeleuze ressonâncias nietzschianas. 2 Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. ORTEGA, F.; ZORZANELLI, R. Corpo em evidência: a ciência e a redefinição do humano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. REVEL, J. Foucault: conceitos essenciais. São Carlos: Claraluz, 2005. ROCHA,V.M. da; CENTURIÃO, C.H. Profissionais da saúde: formação, competência e responsabilidade social. In: FRAGA, A.B.; WACHS, F. (orgs). Educação Física e Saúde Coletiva: políticas de formação e perspectivas de intervenção. 2ª ed. Porto Alegre: UFRGS, 2007, p.17-32.
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    ESPIRITUALIDAD Y GOBERNABILIDAD: ELCASO DE LA DEL YOGA BUDISTA COMO TECNOLOGÍA DEL YO Eduardo Francisco Freyre Roach RESUMEN: Este trabajo explora la descontextualización y recontextualización delyogabudistao“yogamindfulness”.Seiniciaconunadiscusióndesusbenefi- cios como la mejora del rendimiento físico y mental (deportivo, laboral, intelec- tual, militar, y sexual). También se consideran su contribución al desarrollo de la inteligencia emocional y el liderazgo para el trabajo empresarial y los negocios. Se reafirma que quien participa en un programa basado en la atención plena tienelaoportunidaddeaumentarsupropiobienestar,lafelicidadylaautorrea- lización. Estos programas se publicitan y comercializan como compatibles con los avances de la ciencia y la técnica, por un lado, y la espiritualidad budista, por el otro. Y como tales resultan de hecho una especie de “Technique du soi “a la que Foucault, que se acompaña de una discursividad portadora de mensajes de indole individualista, consumista, minimalista y conservador. En este sentido, estos sistemas están funcionando también como una “Technique du pouvoir “ y dispositivo de “gouvernmentalite” de los sectores asociados al sector corpo- rativo empresarial, mercantil y financiero, y el status quo económico, político y social dominante y globalizado. Sin embargo ... PALABRAS CLAVE: Yoga; Budismo; Michel Foucault; Tecnología del yo; Cuer- po, Gobernabilidad.
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    170 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD INTRODUCCION El yoga ha alcanzado gran popularidad en Occidente. Hoy en día vienen adquiriendo auge programas que invitan a la práctica del yoga en función de expectativas seculares. Algunos ofrecen mejoramiento de la salud sea mental o corporal. Otros aseguran proporcionar rendi- miento físico, atlético, o laboral. Hay aquellos que le prometen a usted el incremento de su inteligencia emocional, y liderazgo en la toma de decisiones. Y no faltan aquellos que se dedican a la estética corporal y el placer sexual, e invocan la oportunidad de que usted satisfaga sus ansias de bienestar, autorrealización personal, y felicidad. Programas de esta índole son presentados como entornos efica- ces, auténticos, y compatibles tanto con los avances de la ciencia y la tecnología, como con las tradiciones de sabiduría y espiritualidad del Oriente. Por cuanto lo que se publicita como tal a través de los mass media encuentra gran demanda en el mercado, sus promotores y patro- cinadores defienden a capa y espada copyright ya no solo sobre los con- tenidos instructivos y materiales de apoyo (folletos, libros, CD-ROOMs, etc.) de los programas, sino también sobre posturas o poses yogas (asa- nas) mismas. Tomando en préstamo conceptos de Michel Foucault se verá aquí en este trabajo que el yoga budista o “mindfulness yoga” no escapan a esta des-re/contextualización. Se argumenta que programas secula- res que se basan, inspiran o dicen aplicar ese yoga se manifiesta como un tipo de “technique du soi”, que al menos no cuestionan, o más bien, en última pueden favorecer y reforzar actitudes como individualismo, consumismo, conformismo, conservadurismo y minimalismo. Y en tal sentido, se les puede enfocar también como una especie de “technique du pouvoir”o dispositivo de“gouvermentalite”, que le viene como anillo al dedo al sector empresarial-mercantil corporativo y al status quo eco- nómico-financiero y político dominante y globalizado. Por último, se invita a la comprensión que el yoga en el contexto budista va mas allá
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    171Eduardo Francisco FreyreRoach de meros objetivos seculares y la transformación personal, sugiriendo acción colectiva y transformación social. EL YOGA BUDISTA COMO TECNOLOGIA DEL YO Ciertamente, lo que nos viene de la India antigua sobre el yoga con- templa lo que en términos de Foucault se denomina “technique du soi” (FOUCAULT, 1990, p.45). En primer lugar, por que en el yoga las posturas (asanas),losejerciciosderespiración(pranayama),asílameditación(bhah- ava) y las absorciones, éxtasis o trances meditativos (jhanas) meditativos, resultan precisamente acciones sobre el cuerpo y la mente. En segundo lugar, esas acciones la persona la realiza en solitario o junto con otras. En tercer lugar, se practica el yoga con“con el fin de alcanzar cierto estado de felicidad, pureza, sabiduría o inmortalidad…”(IBIDEM). Veamos! Aunque el yoga que se informa en las escrituras antiguas de la India responde a expectativas religiosas y soteriológicas (la salvación del alma humana), no hay porque descartar su práctica con fines seculares como el mejoramiento de la salud, el rendimiento físico e intelectual, y el pla- cer sexual. Pues, a fin de cuentas, tales fines u objetivos confluyen en la búsqueda bienestar, felicidad y realización existencial. Lo planteado vale incluso con respecto al hatha yoga, sistema de la doctrina y disciplina yoga que proporciona detalladamente instrucciones de asana,0, y jhanas. Si nos remontamos a la India antigua, se verá que el yoga no es doctrinalmente neutral. Así se tiene que en el contexto de las escrituras Vedas, los Upanishadas, y los sutras del Brahmanismo, y toda la litera- tura Hinduista, el yoga significa unión o fusión mística y eterna del alma humana con Dios o principio cósmico Brahma. En este contexto los jhanas yogas se interpretan como separación del alma del cuerpo, su liberación, y fusión anticipada con Brahma. A esto responde el yoga que se expone en el Mahābhārata, sobre todo textos: el Śrīmadbhagavadgītā, Bhagavad Gita o Gita, y de forma mas sistemática en el voluminoso cor- pus Yogasutras de Patañjali.
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    172 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD Cronológicamente posterior a los Vedas, pero anterior al Gita y los sutras de Patanjali, se informa del yoga en los sutras budistas tempranos, recopilados bajo el titulo de Canon Pali. En esos sutras se registran técnicas hathayoga tales como de respiración y movimientos de la lengua y la gar- ganta que incrementan la resistencia al hambre y la sed (VILĀSNĀTH, 2010 Y BIRCH, 2011 citados por MALLINSON, 2012). Se habla de brahamines y jainas yoguis que se causan fuertes dolores mentales porque meditando mortifican su mente, y dolores corporales, porque desatienden la morti- ficación del cuerpo. Las referencias de jhanas es abundante en los sutras budistas. Entre los testimonios biográficos sobre Buda suele destacarse que dominó a la perfección técnicas yogas que permiten alcanzar jhanas superiores1 .SutrasytantrasdelBudismoMahayana,sobretodo,losYogācāra yVajrayanas, aportan extensas referencias de asanas y pranayama. Escrituras clásicas budistas de meditación (Sattipatana sutta, Mahasatipattana, sutta, Anapasatti sutta, y Kayagata-sati sutta) dan instrucciones precisas de meditación, contemplación o atención plena de cuerpo, las sensaciones, y estados mentales2 . Es lo que se conoce con el término original del Pali satī, y que se traduce al inglés como 1 Con la enseñanza yoga de Alara Kalama se alcanza el nivel o grado de absorción meditativa o trance meditativo (jhana) denominado ākiñcaññāyatana (la nada), y con Uddaka Ramaputta el jhana nevasanna nasannayatan (Ni la percepción ni la no percepción). En el yoga samkhya los jhanas se conciben como un estado no dual o de no existencia que guarda una relación de iden- tidad con “el estado inmanifiesto de Brahma” o del cosmos, o “estado ultimo del ser”. (WYNNE, 2007, p. 111). En ese contexto la liberación completa solo acontece en la muerte o vida de ultra- tumba. El logro meditativo solo anticipa la fusión eterna del alma con Brahma. “La idea de la liberación en esta vida es justamente extraña para los yogas bramánicos”(IBIDEM, p.109). 2 El sutra Satipattana sutta prescribe que satī ha de practicarse respecto a: - El cuerpo: respiración, posturas, órganos, fluidos, elementos, y el cadáver. - Las emociones tanto placenteras, neutrales y desagradables, - La mente o estados mentales: pasión, odio, ignorancia, concentración, apetito sensual, ira, pereza, desasosiego, duda, etc. - Los Cinco Agregados del Apego (khandhas): materia-cuerpo, sensaciones, percepciones, construcciones mentales, y consciencia. - Las Cuatro Noble Verdades (cattari ariya saccani): dukkha (sufrimiento), nirodha (origen del sufrimiento), nirvana (cesación del sufrimiento), y magga (el camino de la cesación del sufri- miento) (MAJJHIMA NIKAYA, 2006)
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    173Eduardo Francisco FreyreRoach “mindfulness”. En el contexto de esta doctrina del mindfulness la alusión al control de la respiración no es explicita, aunque si implícita cuando se dice que uno puede practicar mindfulness en cualquier postura corporal, y ya sea si la respiración es corta o larga3 . También se observa que se habla de jhanas, cuyo logro implica ejercicios respiratorios deliberados. Aunque tales no se describen, eso no significa que se descarten, mas aun, como se dijo, Buda dominó a la perfección técnicas yogas que per- miten alcanzar esos altos niveles de absorción mental. La insatisfacción de Buda con esos métodos no significó su abandono, pues aparecen en el acervo de las enseñanzas yogas del Budismo (véase sutras como el Ariyaparisanasutta). Si se asume que el yoga originario viene de la mano de la tradición religiosa vedica, entonces cabe suponer que el Budismo lo descontextualiza de la misma, y lo recontextualiza bajo sus dominios. En primer lugar, en el contexto budista esos jhanas no se interpre- tan ni como prueba de la separación del alma del cuerpo y su anticipada confusión definitiva y eterna con Brahma. La doctrina budista de anattā (no-alma, no-ser, no-yo) desafía todo postulado idealista, metafísico, y eternalista de attā (alma, ser, yo en si mismo) admitido en la tradición que va desde los Vedas hasta el Hinduismo. Como se conoce, el postu- lado de anattā resulta con corolario de la doctrina budista del Surgimiento Dependiente (pattica samucaya), que estipula que nada existe sustraído de causas, condiciones, de relaciones, y de la impermanencia. Por lo tanto, no 3 El mindfulness budista, cabe reiterarlo, prescribe básicamente que usted observe su cuerpo y su mente atentamente sin juzgar lo que esta ocurriendo en ese momento. En los sutras Satipaţţhāna Sutta y Mahā Satipaţţhāna Sutta se orienta este ejercicio de mindfulness: “De la misma manera que un tornero experto o su aprendiz sabe, al labrar una voluta grande: “Estoy labrando una voluta grande”, o al labrar una voluta corta, sabe: “Estoy labrando una voluta corta”, así el monje, al hacer una aspiración larga, sabe: “Hago una aspiración larga”. Al hacer una aspiración corta, sabe:“Hago una aspiración corta”. (MAJJHIMA NIKAYA, 1999, P. 117). Esto significa en esencia que el meditador ha de estar plenamente observando el aparecer y desvanecer, la ausencia y presencia de ambos procesos de la respiración. No ha de intervenir en fluir espontáneo de la misma. Resulta sumamente importante mantener a raya la codicia o la aversión, así como todo juicio, toda proclividad o toda intervención ante lo que esta experimentando.
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    174 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD tiene sentido decir que las cosas poseen ser en si mismo. En línea con los pos- tuladosdepatticasamucaya yanattā, la tradiciónMahayanaelaboralaidea de sunyata (vacuidad), ya anunciada en los sutras tempranos. Puede obser- varse claramente en el Brahmajalasutta como se objeta que la posibilidad de alcanzar altos niveles de concentración (hasta el punto de alcanzar a recordar las vidas pasadas) sea invocada como prueba o argumento de la existencia de attā. El mindfulness yoga sugiere que como mismo el monje bien instruido percibe la vacuidad (es decir, el “no-ser” tanto del espacio ilimitado, como la conciencia ilimitada, la esfera de la nada, y la esfera de la percepción y no percepción. (MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p. 163). En segundo lugar, a tono con lo planteado anteriormente, el Budismo enseña que inclusive en esos altos grados de absorción medita- tiva el yogui ha de encontrarse en mindfulness, lo cual le permite viven- ciar el no-ser o vacuidad de los jhanas. Cha Chakka Sutta y Potthapada Suttaregistran que Buda advierte como hay meditadores que se identifi- can con la absorción meditativa alcanzada, por lo cual no logran superar los apegos. De aquí se desprende que el meditador puede alcanzar esos jhanas superiores (o estados inmateriales) sin mindfulness, o con mind- fulness “incorrecto”. Los sutras budista asocian la liberación con samma satī4 o mindfulness correcto. Se requiere que satī esté en sintonía con sīla 4 Un autor explica que miccha- satī solamente aparece cuando se habla de un satī fuera del contexto del Camino Óctuplo, digamos que no armoniza ni con sīla ni pañña. Por otra parte, satī siempre aparece como estado mental positivo, y asociado con sīla y pañña. Ahora bien, como satī se presenta como una corporal y mental inherente al ser humano, resulta con- vincente buscar el encaje de satī en los “cinco agregados del apego” (khandhas). Es lo que propone el autor citado cuando establece que satī es más cercano al agregado de sañña (apercepción-percepción). Estudios académicos suelen asociar este agregado con proclivi- dades como “reconocimiento”, “comprensión”, “asimilación”, “discriminación”, “concepción”, “noción”, “ideación”, “perspectiva subjetiva”, “nombrar” (o etiquetar) y sobre todo “identifi- cación”. En este sentido satī funciona como práctica que neutraliza todo tipo de prolifera- ción cognitiva-conceptual (papañca) y reacción subjetiva ante las experiencias corporales y mentales. Al mismo tiempo, satī prevé las perturbaciones o agitaciones emocionales, propi- ciando calma, paciencia, ecuanimidad, y serenidad. En esta perspectiva satī y sañña apare- cen como términos intercambiables (KUAN, 2008, p.10, p.21, p.139). Digamos mejor que el satī es cualidad de sanna, pero no todo sañña es satī sañña incluye tambien miccha satī.
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    175Eduardo Francisco FreyreRoach (moral, generosidad, altruismo, compasión), pañña (sabiduría, correcta intención). Y eso significa que no menos importante para la liberación es el cultivo de ciertas cualidades morales y sociales “mundanas”5 . En cualquier circunstancia, se trata de suspender todo juicio y toda inter- vención respecto a la experiencia que esta ocurriendo, y se reitera que el meditador eche a un lado toda codicia y avaricia, pena, aflicción, apego, y asunción de que hay cosas permanentes, separadas, y sobre todo un yo único. Sin embargo, en los sutras budistas se informa de monjes que alcanzaron la iluminación sin los jhanas, pero en ningún sutra se dice explícitamente que sea posible lograr eso sin aquello, es decir, sin medi- tación yoga profunda. Esto último ha suscitado discusión. Según Wynne (2007, p. 112) se trata de una concepción no temprana sino tardía. En su investigación Kuan (2008) explica que los jhanas son partes indiso- lubles de un mismo proceso6 , y que Satī funciona como una especie de “general guideline” o principio fundamental y regulador a ser aplicado 5 Con términos deThera (2013, p.8) satīresulta un MundaneWay”(camino mundano) o camino preparatorio que conduce al“Supramundane Peak”(Pico supramundano). 6 Nada se puede decir si el Buda o los autores de los sutras tempranos objetaran que nadie podía llegar a tener esas facultades extraordinarias (paranormales y divinas) sin un mindful- ness correcto, sin el contexto doctrina y técnico del Budismo. Pero del análisis de los jhanas se puede inferir que uno puede alcanzar altos niveles de meditación, pero eso no significa que logre la meta soteriológica máxima. Y también que uno pudiera alcanzar la liberación sin tener esos poderes. De hecho hay sutras como el Susīma Sutta donde se habla de monjes que alcanzaron la liberación por la sabiduría, sin necesidad de tener experiencias medita- tivas sin formas (jhanas) especiales. Sin embargo, otros sutras como el Kitagiri sutta. Kuan (2008, p.142), basándose en estudios, supone que esta idea de un monje liberado por la sabiduria, pero sin experiencia de jhanas, resulte una idea tardía. De ahí la disociación que se observa en los sutras entre satī, samatha o samathi. El autor citado también establece que los comentarios de la tradiciónTheravada apuntan a la conexión entre satī y jhanas. 4 jhanas se incluyen en la versión Sarvastivada del Satipattana sutras, pero ya no están en la versión en Pali. En el Kayagatasatī Sutta en Pali si se incluye los jhanas. El análisis que este autor hace del Mahasatipittana sutta arroja que en su parte final están implícitos los jhanas. Por ultimo, cita a un pasaje del Dhammapada donde se dice que no hay jhanas para quien no alcanza sabiduría y no hay sabiduría para quien no alcance los jhanas (IBÍDEM, P.143).
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    176 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD para diversas prácticas, meditativas samatha y vipassana, los jhanas, y no meditativas (KUAN, 2011, p.139)7 . En tercer lugar, se ve que en continuidad con el yoga que ya existía antes de que el mismo Buda naciera, los sutras hablan de que tal práctica proporciona múltiples beneficios. Por ejemplo, en el Kayagata-sati sutta se dice: “Monjes, de la atención al cuerpo cultivada frecuentemente,… tomada como vehículo y como base, bien emprendida, realizada y perfec- cionada, cabe esperar diez beneficios”(MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p.143-144), entre los que se encuentra el soportar adversidades corporales, mentales y ambientales (frío, calor, hambre, enfermedades, sed, angustia, ofensas), el alcance de jhanas, poderes supernaturales, y recuerdo de vidas pasadas. Empero, como meta suprema se expone: “Uno, habiendo experimentado por su propio conocimiento superiorenestemismomundolaaniquilacióndelascorrupciones, alcanza y permanece en la liberación de la mente y la liberación por la sabiduría que están libre de corrupciones”(IBIDEM). En virtud de lo planteado hasta aquí se tiene que la tecnología budista del yo guarda continuidad en asanas, pranayama, y jhanas, en función de una meta soteriológica. Sin embargo, esos elementos del yoga se colocan en un contexto doctrinal que ruptura con el contexto doctrinal de los Vedas. 7 Según Kuan (2008), satī se presenta como practica de observación o contemplación sin jui- cios o sin evaluación de la experiencia, sea el cuerpo (en su anatomía y fisiología), la respira- ción, las sensaciones, o los objetos mentales. A este“simple satī” le sigue que el meditador (y también en la vida cotidiana) se abstenga de reacciones habituales “insanas”(como la codi- cia o la aversión) respecto a los objetos (visuales, sonoros, olfativos, táctiles y mentales). Con- tinuando este“satī protector”, se tiene el“satī introspectivo”como remedio a la aparición de reacciones insanas. Es cuando el meditador se concentra en el estado insano que esta viven- ciando (en el caso de la meditación sobre la repulsividad del cuerpo), pero interiorizando la impermanencia y no-ser inherente a las experiencias. Finalmente, por este camino, se llega a la cultivación de una concepción constructiva (“satī constructivo”) asociado a actitudes morales como compasión, bondad, simpatía, amor y amabilidad.
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    177Eduardo Francisco FreyreRoach EL MINDFULNES YOGA COMO TECNOLOGIA DE PODER “Las tecnologías de poder…determinan la conducta de los individuos, los someten a cierto tipo defines o de dominación, y consisten en una objetivación del sujeto” (FOUCAULT, 1990, P.45). Hoy en día se ofertan programas basados o inspirados en el Budismo, y sobre todo en el min- dfulness, que se presentan como tecnología del poder. Primero, la oferta de instrucciones yoga es presentada como mercancía y fuente de lucro corporativos. En segundo lugar, esos programas en su acompañamiento publicitario y mediático promocionan “ideologemas” sobre los benefi- cios que aportan y las expectativas personales que satisfacen. Es el caso de ciertos programas denominados satī, mindfulness yoga, samatha, vipassana, yoga tibetano, tántrico o Vajrayana, y Zen yoga. Se ofrecen espacios para el autodesarrollo de la inteligencia emo- cional, el conocimiento de si mismo, y la promoción del pensamiento contemplativo en la sociedad8 . Descollante resultan los sistemas de tera- pias y psicoterapias que usan el mindfulness para curar el stress, la ansie- dad, las fobias, las adicciones, y hasta perturbaciones fisiológicas como la obesidad y el cancel9 . Y se observa que vienen ganando espacios los “mindful”ejercicios físicos o entrenamiento deportivo10 . 8 Mindfulness-Based Emotional Intelligence (Inteligencia Emocional Basada en el Mindful- ness, MSPE), Search Inside Yourself (Busque en el Interior de si Mismo, SIY), the Shamatha Project (Proyecto Samatha), y Contemplative Mind in Society (Pensamiento Contemplativo en la Sociedad). Se habla de Mindful Parenting, Mindful Eating, Mindful Teaching, Mindful Pol- itics, Mindful Leadership, A Mindful Nation, The Power of Mindful Learning, The Mindful Path to Self-Compassion (PURSER AND LOY, 2013). 9 Mindfulness-Based Psychotherapies (MBP): Mindfulness-based Stress Reduction (MBSR), Mindfulness -Based Cognitive Therapy (MBCT), Mindfulness -Based Relapse Prevention for Binge Drinking (MBRP), Mindfulness -Based Childbirth and Parenting (MBCP), Mindfulness - Based Art Therapy for Cancer Patients (MBAT), Mindfulness - Based Eating Awareness Training (MB-EAT), Mindfulness -Based Trauma Therapy (MBTT), Mindfulness - Based Relapse Preven- tion,Women (MBRP-W), Mindfulness - Based Elder Care (MBEC), Dialectical Behaviour Therapy (DBT), Acceptance and Commitment Therapy (ACT), Mindfulness -Informed psychotherapy. 10 Tales como Mindfulness -Based Mind Fitness Training (Entrenamiento Físico Militar Basado en el Mindfulness, MMTM), Mindful Fitness (Ejercicio Físico Mindful), Mindfulness-Based
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    178 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD En la publicidad de estos programas se destacan dos aspectos, uno, precisamente la promesa de beneficios a corto plazo, y, segundo, la patente de corso o sello de autenticidad de la oferta, en cuanto compa- tible con las ciencia y las espiritualidad budista. Ambas estrategias se observan nítidamente en el ámbito de las “mindfulness-based clinical interventions” En el caso de los de Mind- fulness-Based Stress Reduction (MBSR), estos se realizan en sesiones a cumplimentar en 8 semanas. A los pacientes se les invita y orienta en meditación de mindfulness, sobre en la modalidad de prestar plena atención a las experiencias corporales y mentales tal y como se presen- tan en el momento presente, y suspendiendo todo juicio11 . Los progra- mas de MBSR se desarrollan en sesiones terapéuticas diferentes, pero complementarias entre sí. Hay pacientes que se inclina por la perspec- tiva del “mindful hatha yoga” o propiamente “mindfulness yoga”. Otros optan por las sesiones de “body scan”, donde se les orienta la contem- plación del cuerpo en el cuerpo tal y como se prescribe en el Satipattana sutta. Y un tercer grupo de paciente se instruyen en la “sitting medita- tion” (meditación sentado). Se dice que el mindfulness con hatha yoga es muy útil para quienes llevan un estilo de vida altamente sedentario, y padecen de enfermedades crónicas, pues propicia interiorización de la unidad cuerpo y mente, lo cual influye positivamente en los estados mentales y fisiológicos. Al uno encontrarse mindful del lenguaje cor- poral, se revelan aspectos de nuestra actitud y emociones, que puede ayudar al cambio beneficioso de las mismas (WILLIANS AND KABAT-ZIN, 2011; KABAT-ZINN, 2003, 2005; 2012 y 2013). Investigaciones con grupo de pacientes se ha detectado que a diferencia de las otras dos perspectivas, el mindfulness hatha yoga pro- Sport Performance Enhance (Mejoramiento del Rendimiento Deportivo Basado en el Mind- fulness, MSPE). 11 George Drayfus alerta que esta no es la ùnica modalidad de mindfullnes, pues tambien hay que considerar la dimensión del pasado, de retensión,“memorizacion”, recoleccion y evalua- ción de las experiencias corporales y mentales. (WILLIANS AND KABAT-ZINN, 2013, p.41)
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    179Eduardo Francisco FreyreRoach mueve mayor bienestar, en tanto puede influir en una mejor respuesta al cansancio. La sitting meditation es muy buena para las personas afec- tadas por emociones como el miedo, y que requieren cultivar el no-ju- zgamiento. El body scan, según la fuente, acarrea menos rendimiento con los otros dos métodos (JAZAIERI, 2014). Tal resultado puede que se explique por el hecho de que la meditacion de body scan, se destina a toda circunstancia de la vida cotidiana, y se trata de la exploración del cuerpo tanto en su dimensión anatómica y fisiológica. Su beneficio no es cuestión de dos o tres meses como se espera de las terapias basadas en el mindfulness. En tiempos recientes se viene trabajando con mindfulness también en el campo del entrenamiento físico y deportivo (MARKKULA, 2006; MCCANN C., 2014). Aquí también se integra el hatha yoga. En el ámbito del Mindful Sport Performance Enhancement (MSPE) se busca poten- ciar determinadas condiciones corporales y mentales que posibiliten el mejoramiento del desempeño deportivo, tales como “attention” (aten- ción), “affects” (afectos), “flow states” (estados de fluidez), y ciertos fac- tores fisiológicos (PINEAU ET AL., 2014). La realización de esta práctica asegura que el atleta se distraiga menos y preste atención sostenida a las partes, componentes y sus de su cuerpo, así como al medio circun- dante al lugar de entrenamiento y de competencia. Al mismo tiempo se reduce “sport-related anxiety” (la ansiedad relacionada con el deporte), la duda, y el pensamiento negativo. Por otro lado, aumenta el “sport- -related optimism” (el optimismo relacionado con el deporte), y la no reactividad y aceptación de sus estados corporales. Finalmente, con el mindfulness se logra una mejor respuesta neurológica al dolor y la fatiga, la presión arterial sanguínea, y los niveles de grasa, así como otros factores fisiológicos. Resultados de investigaciones recientes constatan que hoy en día una gran cantidad de personas confiesan ser de pensamiento mono (“monkey mind”), mente vagabunda (“mind wandering”) o distraída cuando están realizando una determinada actividad. A este, digamos
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    180 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD pensarenotracosadiferentedeloqueseestarealizando,científicamente se conceptúa como “stimulus-independent thought” (pensamiento independiente estimulado) (KILLINGSWORTH AND GILBERT, 2010)12 . Los programas basados en el mindfulness yoga ofrecen prevención y pode- roso antídoto contra esta perturbación con la cual se asocia otras pertur- baciones mentales y corporales (ROBERSTSON, 2013). En los anuncios de los programas, sesiones, seminarios, cursos o talleres basados en el mindfulness, prometen que mediante el mindful- ness usted pudiera activar la reserva de recursos mentales y corporales incluso para la solución de sus problemas de salud y desempeño físico, pero también la satisfacción de sus expectativas personales de mayor alcance. Tómese por ejemplo, los términos de publicidad hace el Center of Spirituality and Healing de la Universidad de Minesota al programa de MBSR que oferta. Allí se dice que el programa le permitirá a usted“tomar el control de su vida”, “estar plenamente consciente de las influencias que afectan la salud y el bienestar”, así también como “encontrar paz y equilibrio mental, en medio de mundo caótico en que vivimos, y los desafios demandantes de la vida cotidiana” (Visitar sitio http://www.csh. umn.edu/workshops-and-lectures/mindfulness-based-stress-reduction/index. htm). Se habla de beneficios como el rejuvenecimiento, vivir de manera amplia y completa en medio de las variadas circunstancias, y la capaci- dad de disfrutar de la vida. En la propaganda que se hace en el Psycho- logy Today se habla de que el MBSR le permitirá a usted “vivir la vida que usted quiere vivir”(Visitar sitio: http://www.psychologytoday.com/blog/ crisis-knocks/201003/mindfulness-based-stress-reduction-what-it-is-how-it- -helps ). Y el Center for Mindfullness de la Universidad de Massachusetts 12 La investigación de campo realizada por estos autores de la Universidad de Harvard constato que el 46 % de muestra poblacional que entrevistaron plantea que son de pensamiento- -mono, mientras que el 30 % confiesan que eso los ocurre excepto cuando están haciendo el amor. Pruebe usted hacer investigación similar consigo mismo, su familia, su comunidad o donde trabaja.
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    181Eduardo Francisco FreyreRoach apela al discurso que el MBSR ayuda a las personas a vivir una vida mas rica y completa (Visitar sitio: http://www.mindfulness.hk/en/release-presure). Similar estilo de discurso donde sutilmente se hace un diagnostico de la adversidad del mundo en que se vive, y se deja caer la posibilidad personal de adaptarse a ese mundo, se deja ver en la publicidad de las ofertas de programas mindfulness para mejoramiento físico, atlético o deportivo. Además de la promesa de mejoramiento de la salud, mayor resistencia, fuerza, resiliencia, flexibilidad (Visitar sitio: http://www.mind- fulfitness.com/ ), se menciona que el mindfulness fitness ofrece la posibi- lidad, oportunidad y capacidad de“vivir a propósito y con sentido en un mundo dominado por hábitos no mindfull y bajo una reactividad fuera de control”(Visitar sitio http://www.huffingtonpost.com/joel-michelle-levey/ mindful-presence-mind-fitness_b_904183.html ). Ciertamente los saberes sobre el cuerpo no son neutrales desde el punto de vista de su contribución a la conservación o subversión de determinado status quo económico, político o social. Ya Foucault apun- taba sobre esto cuando hablaba de “modalidad pastoral del poder”, “tecnología pastoral del poder”, y “las técnicas de verbalización sobre el cuerpo del yo”, que se: “… han convertido en un recurso tanto de los individuos para reclamar al Estado. A su vez, el Estado se vale de las mismas para el gobernar a aquellos…La gestión de las personas por el discurso introspectivo que tienen sobre ellas mismas, se ha convertido en un modo esencial de la gobernabilidad contemporánea” (FOUCAULT, 1990, p.98). Así se ve como“la manera en la que el cuerpo sirve de recurso para reivindicar un derecho, a título de la enfermedad o del sufrimiento”, como en el caso de las regulaciones sobre indocumentados en Fran- cia, donde “las personas usan la estrategia de decirle “a la administra- ción que el cuerpo sufre para suscitar su generosidad” (FASSIN, 2003, p. 51). Un estudio descubre el papel civilizador y colonizador del cur-
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    182 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD rículo de educación en las escuelas para niños hindúes en los Estados Unidos (LOMAWAIMA, 1975, citado por APONTE, 2010). Respecto a esta misma circunstancia de la colonización (europeo-occidental, capitalista y moderna), se dice que: “…la “corporalidad” es el nivel decisivo de las relaciones de poder… y lo que hace posible la “naturalización” de tales relaciones sociales..En la explotación, es el “cuerpo” el que es usado y consumido en el trabajo y, en la mayor parte del mundo, en la pobreza, en el hambre, en la malnutrición, en la enfermedad. Es el “cuerpo” el implicado en el castigo, en la represión, en las torturas y en las masacres durante las luchas contra los explotadores. Pinochet es un nombre de lo que le ocurre a los explotados en su“cuerpo”cuando son derrotados en esas luchas. En las relaciones de género, se trata del “cuerpo.” En la “raza,” la referencia es al “cuerpo,” el “color” presume el “cuerpo””…El lugar central de la “corporeidad” en este plano, lleva a la necesidad de pensar, de repensar, vías específicas para su liberación, esto es, para la liberación de las gentes, individualmente y en sociedad, del poder, de todo poder. (QUIJANO, 1999, P. 380). Esta perspectiva crítica se ha aplicado en la reflexión sobre los pro- gramas basados en el mindfulness.y que colocan al yoga del Budismo en un contexto secular (clínico, militar, empresarial, mercantil, y político). Por ejemplo, el filósofo slovenio Žižek ha planteado que los pro- gramas de mindfulness encajan perfectamente dentro del consumismo corporativo, respondiendo a la necesidad de pacificación frente al inter- minable stress que provoca (TRYCICLE, 2014). En sus trabajos recalca que este tipo de adaptación del Budismo “se está convirtiendo en la forma predominante de ideología”. Al respecto plantea: “¿Cómo funciona este Budismo? ¿Por qué es la ideología ideal para el capitalismo tardío? El mensaje fundamental [de esta nueva cor- riente] es “no persigas el éxito material, no participes en el juego
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    183Eduardo Francisco FreyreRoach social por entero, hacélo con distancia.” Ustedes saben como son usualmente los posters de propaganda de los cursos budistas. Hay un primer párrafo anticapitalista: “No te dejes atrapar en esta lucha por lo material, retírate a la paz, etc., etc. Pero el segundo párrafo siempre es “de esta manera vas a ser aún más exitoso en los nego- cios. Podés participar completamente en el salvaje juego capitalista mientras tu entrenamiento y tu meditación y demás te dan la ilusión de que esa no es la vida real, sólo estas jugando el juego social, en realidad estás en cualquier otro lado”(ŽIŽEK, 2009, p.1) Con ello el filosofo citado alerta contra la utilización hipócrita de las religiones. En otros trabajos Žižek (2001, 2012a) presenta la“meditación budista occidental” como la vía actual mas eficiente para participar en la dinámica capitalista, mientras manteniéndose la apariencia de salud mental. Para Žižek este Budismo funciona al estilo de la ética protestante presentada por Max Weber como el suporte ideológico y religioso del capitalismo naciente. Žižek suele afirmar que el Budismo se acompaña de una ambigüedad fundamental. Según su parecer, la meditación budista conducente al nirvana significa que el sujeto se desconecta de la realidad, pero deja intacta (sin transformar) las condiciones sociales que producen sufrimiento. Eso significa respectivamente que el sujeto que alcanza el nirvana esta atrapado entre dos extremos opuestos, el minimalismo y el maximalismo (ŽIŽEK, 2012b). Otros críticos de la reapropiación occidental de las espiritualidades orientalescomoelyogabudistaindicanqueenlosprogramasdeestaíndole las doctrinas budistas buscan la reposición del sujeto (del yo, del individuo o persona) en el juego capitalista, mercantil, liberal global. Un juego que requiere fragmentación, exploración y movilidad de las identidades, y moti- vaciónporel“crecimientoindividual”,“autoafirmación”,y elconsumismo(yo consumista).Tal reapropiación en términos de“adoración del ser individual” conduce no a la espiritualidad social y el activismo político, sino mas bien a una espiritualidad del conformismo social y la promoción individual de si mismo”(CARRETTE AND KING, 2013, p.106).
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    184 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD Los autores citados hablan también en detalle de todo un pro- ceso histórico de privatización o reapropiación de la religión y la espi- ritualidad que propicia su mercantilización. A su vez, se tienen dos subprocesos, uno es la “individualización de la religión” y el otro es la “corporativización de la religión”. Lo primero se asocia con la separación de la religión del estado, y su presentación como un asunto de sensibili- dad personal. Tal proceso se encuentra teóricamente fundamentado en los trabajos de Locke y Kant, y en todo el movimiento de la ilustración y el liberalismo, y se enmarca enmarcado en el contexto de las tensiones entre el Racionalismo Ilustrado y el Romanticismo, la ciencia y la religión, la Iglesia Cristiana y sus críticos. En el libro de los autores citados se alerta como la reapropiación secular del saber yoga apuestan por encima de todo el éxito corpo- rativo (no comunitario), que asegura bienestar y seguridad laborar a empleados. Este y otros indicadores13 delatan como los programas que asumen estos criterios tributan a lo que los autores denominan “corpo- ratist monopoly” (p.5) y “corporatist/capitalist spiritualities” (p.84)14 . En este contexto se observa también como en el mercado corporativo se venden y revenden edificaciones religiosas, y se manipulan símbolos e 13 Otros indicadores se refieren a la individualización de la responsabilidad por encima de la consideración social (Atomisation). Se aboga por la ética de interés propio en la ganancia como motivación primaria de la acción ( Self-interest). Se promueve el trato de otros como medio y no como fin, (Utilitarianism), por ejemplo, tomar las personas como consumidores que hay que persuadir, otros empresarios como competidores a vencer, y como empleados a ser utilizado). Se incita a la satisfacción de deseos como la llave de la felicidad (Consu- merism). Se invita sutilmente no a la subversión de la injusticia social, sino a la aceptación su inevitabilidad (Quietism). Se demanda neutralidad política (Political Myopia). Por último, se indica la presentación de las tecnicas psicologicas y corporals en terminus de “desarrollo personal”,“pacificación mental y de la ansiedad, en vez de comprometimiento en el desafío del cambio social (Thought-control/Accommodationism ) (IBIDEM, p. 21-22). 14 Es un fenómeno asociado con lo que estos dos autores citados denominan “corporate enterprise”, “concorporate business culture”, “corporate-oriented approaches to spirituality”, “corporate rebranding of spirituality”, “corporate takeover of spirituality”, “corporate marke- tplace”,‘corporate-led’consumerism”, “corporate capitalist agenda”,“corporate marketplace”, “global corporate power”,“corporate culture”.
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    185Eduardo Francisco FreyreRoach ideas religiosas, y la noción de espiritualidad en la publicidad del nego- cio corporativo de productos y servicios de todo tipo (Yoga clothes, yoga accesories, Zen Car, Desodorante Zen for men, Zen coffe, etc.). Siempre hay quienes defienden a capa la privatización ya no solo de los contenidos y materiales de apoyo a los programas, sino también de las posturas yogas. Es el caso de Bikram Choudhury que acusó a otro empresario del yoga, Greg Gumucio (un ex alumno) de haber violado su derecho de copyright de 26 posturas yogas (THE GUARDIAN, 9 FEBRUARY 2004, citado por CARRETTE AND KING, 2005, p. 9)15 . El The Times of India reporta en una entrega reciente (NO COPYRIGHT ON YOGA, 2011) que el gobierno indú esta tomando medidas para detener la fiebre de privati- zación de asanas, y propiciar el acceso amplio a la información ancestral sobre el yoga. Por ejemplo, la negación de reclamo de copyright sobre asanas. Se estima que los Estados Unidos a concedido mas de 200 dere- chos de copyrights relacionados con el yoga, y que ese mercado reporta 225 billones de dólares anuales en Occidente. También se supone que los estadounidenses gastan 3 billones de dólares en clases de yoga. Todo este conflicto que existente en torno a derechos de copyright y patentes relacionadas con el yo, resultan casos de lo que muy bien los autores llaman “commodification of religión”, al servicio de la ganancia corporativa y la promoción de una cosmovisión y modo de vida capita- lista corporativo (CARRETTE AND KING, 2005, p.16). Todo este fenómeno relacionado con la secularización del saber yoga (no solo budista incluso) y comercializa con rótulos como mind- fulness y mindfulness yoga, sirve a un contexto o gobernabilidad global mercantil, corporativa, capitalista, neoliberal. Por lo tanto, no estamos en 15 Greg Gumucio, el profesor yoga acusado por Bikram cobraba 8 dólares la hora de entrena- miento, mientras que Bikram de 15 a 25 dólares. Un curso de 9 semanas cobra 7 mil dólares. Se dice que el Bikram yoga resulta una industria de lucro de mas de 3 billones anualmente. El Yoga Journal informa que anualmente el mercado del yoga ostenta 27 billones de dólares. Finalmente, la United States Copyright Office (USCO) canceló el copyright, argumentando que tales posturas por cuanto mejoran la salud no son elegible para copyright. De todas for- mas el acusado por Bikram decidió interrumpir la serie de 26 posturas yogas (MOSS, 2012).
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    186 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD presencia de meras tecnologías. Su parcialidad (explícita o tácita) eco- nómica, ideológica, política y social es una realidad ante nuestros ojos, como el sol, no se puede tapar con un dedo. SIN EMBARGO…. No se trata de desacreditar los programas de mindfulness. De hecho están ayudando a muchas personas en el alivio de serios padecimien- tos, efectivamente asociados a la dinámica social predominante. Como mismo sucedió cuando el emperador Asoka se convirtió al Budismo, e impuso leyes inspiradas en el Budismo, así mismo de alguna manera en Occidente muchas personas se están familiarizando con esta sabiduría gracias a estos programas de secularización. Ahora bien, a esa tendencia de colocar el mindfulness en una pers- pectiva comercial, individualista, corporativa, conformista, consumista, conservadora, y minimalista16 , se le enfrentan alternativas, inspiradas en el mindfulness en un contexto religioso, soteriológico y moral propia- mente budista. Por ejemplo, en una entrevista el monje Zen Thich Nhat Hanh sobre la creciente marketization del mindfulness en el mundo de los negocios, respondió, que mientras que un líder empresarial llegara a practicar el “mindfulness correcto”, independientemente de la inten- ción17 que tenga de ser mas efectivo en su trabajo o hacerse de ganan- 16 Tendencia que atraviesa las publicaciones de autores sobre espiritualidad Stephan Russell, Deepark Chopra, Sharon Janis, y Osho/Bhagwan Shree Rajneesh. 17 El autor de a entrevista a una promotora de mindfulness que dice que no hay nada de malo en querer uno aumentar sus ganancias, y que el mindfulness y el MBSR no solo puede hacer a alguien feliz y saludable, sino que proporciona ventajas para cualquier negocio que se quiera hacer (HUFFTINGTON, A. (2013, citado por CONFINO, 2014). Esta retórica de glorifi- cación del mindfulness para el mejor desempeño del trabajo y los negocios, pero también como secreto para la salud y felicidad, se expresa muy bien en el artículo The Minful Revo- lution de Kate Pickert, publicado en el Time Magazin. February 2, 2014 (http://www.lang. osaka-u.ac.jp/~tabata/ENG2012/2014a_The_Mindful_Revolution.pdf ). Allí se habla bas- tante de la aceptación del mindfulness en el sector empresarial, militar (El Pentágono), y hasta en el Congreso de los Estados Unidos
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    187Eduardo Francisco FreyreRoach cias, eso le cambiara la perspectiva de la vida y le abrirá su corazón para ser mas compasivo y desarrollar el deseo de erradicar el sufrimientos de sus semejantes (CONFINO, 2014, p.1). Si uno persiste en el mindful- ness para hacer dinero nunca llegara a palpar su verdadero propósito, y entonces se perderá la oportunidad de tener calma interior, goce y feli- cidad interior. Y termina diciendo:“si usted es realmente feliz, no puede que sea victima de su propia felicidad, pero si usted es una persona de éxito, puede que termine siendo victima de su propio éxito” (IBIDEM). En uno de sus escritos más recientes Thich Nhat Hanh contrasta el con- sumismo con la doctrina budista de los cuatro nutrimentos: la comida, las impresiones sensoriales y la voluntad18 . La actitud consumista se presenta aquí como dimensión de los apegos y aferramientos a los deseos, a las sen- saciones, a los conceptos y opiniones, y, en fin, a la idea de un yo. Tanto la noción budista del no-yo como el surgir dependiente llevan al entendimiento no solo que no hay una causa suprema, sino también que se dan múltiples condiciones (incluso externas a nuestra mente) para que algo ocurra. Una de las implicaciones que se derivan de lo planteado es la interdependencia (biológica, ambiental, humana, social) y el activismo y comprometimiento con el cambio social, lo cual, a su vez, desafía la sobrevaloración del interés individual (egoísmo) y el consumismo (CARRETTE Y KING, 2006). Ciertamente en el Budismo se coloca gran énfasis en la transformación y el trabajo personal. Pero como muy atinadamente plantean los autores citados ese acento que el Budismo coloca en la práctica individual es mas bien una cuestión de método y de punto de partida orientador y no meta última (IBIDEM, p.101). De hecho la doctrina budista de annata precisamente llama al desapego al yo. El apego al yo se expresa en la practica de la autoiden- tificación: etam mama (esto es mío), eso ham asmi (este soy yo), eso me 18 Esta doctrina se expone en el texto budista “The Four Nutriments of Life: An Anthology of Buddhist Texts”, translated from the Pali, with an Introductory Essay by Nyanaponika Thera. Access to Insight (Legacy Edition), 30 November 2013, http://www.accesstoinsight.org/ lib/authors/nyanaponika/wheel105.html .
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    188 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD attā (este es mi ser en si) (MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p.220). Se asume que nos producimos sufrimiento al tomar nuestro cuerpo, nuestras sensa- ciones, nuestra consciencia, nuestros conceptos, y, en fin, todo, como entidades permanentes, con identidad irreductible (ser en si mismo), y como si nos pertenecieran. La erradicación del sufrimiento viene de la mano del abandono de la practica de“este es mi cuerpo”,“soy mi cuerpo”, “mi cuerpo es mi ser”, y pudiera agregarse cuando esa misma formula de autoidentificación se aplica a todo. Nohafaltadolavoluntaddereacomodarestadoctrinadeannataconla asuncióndelyosustanciasobrelacualseasientalaPsicologíaenOccidente. Por ejemplo, es lo que hace Epstein (1995) cuando interpreta la doctrina de la Rueda o los Seis Reinos de la Existencia en términos de perturbaciones psicológicas, y el concepto freudiano de narcisismo, proponiendo la inclu- sión de la noción budista del no-ser en la psicoterapia. Existe toda una tra- dición de psicoterapeutas que afirman que la doctrina budista del no-ser o no-yo puede complementar la doctrina del yo que se manejan en la clínica psicoterapéutica. Una sentencia que expresa muy bien esta perspectiva es “Usted necesita ser alguien, antes de no ser nadie”(ENGLER, 2007). Con ello elautorfundamentalaintegraciónentrelaenseñanzabudistadelno-yoyla idea del yo que soporta la práctica de la“psicología del yo”. Traducido a tér- minos de tecnología de poder, el énfasis en ser yo conviene a un status quo que necesita individuos suficiente voluntad individualista para el desarrollo del afán desenfrenado de consumo. El cultivo del no-yo pega muy bien con la capacidad del individuo de adaptarse en los cambios del mercado (sobre todo de empleos), y al status quo dominante19 . 19 Un autor plantea lo siguiente: “La metamorfosis del Budismo en el contexto del capitalismo tardío sugiere una relo- calización del yo en una economía de la contingencia y pluralidad. En tal economía el yo deviene en receptivo a los abordajes budistas de la iluminación individual. Tales abordajes no enfatizan en la autoafirmación del yo, sino que sugieren la construcción de la liberación como resultado de la deconstrucción del yo, un método que no es antagónico con la economía política del pastiche que tipifica al capitalismo tardío” (LEE, 2003: 365 citado por CARRETTE AND KING, 2013, p.104).
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    189Eduardo Francisco FreyreRoach Se conoce muy bien de la centralidad de la moral o la ética en el Budismo. El satī yoga engrana en la doctrina budista de las Cuatro Nobles Verdades (cattari ariya saccani). Incluso esta doctrina es un objeto de mindfulness. De por si la meta del mindfulness tanto en la vida cotidiana como en la meditación es superar la practica de autoidentificación (el yo) y los apegos al yo. La doctrina del Camino Óctuplo (Ariyo Atthangiko Maggo)20 se resume en tres dimensiones, que se citaron arriba: sīla satī, y paññā. Por lo que al mindfulness correcto le es inherente la dimensión moral. No por casualidad entre las instrucciones de mindfulness tome consciencia de los estados insanos y sanos., Se observa claramente como en el Satipattana sutta se reitera cons- tantemente que el monje practicante del mindfulness ha de estar “fer- voroso, comprendiendo claramente y atento, superando la codicia y la aflicción inherentes al mundo” (MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p.74). Todo parece indicar que los meditadores están expuestos a estas actitudes (incluyendo la malevolencia, crueldad, apatía, pereza, desasosiego, ansiedad, el apego a los conceptos, opiniones, y el yo) no solo antes de comenzar la meditación, sino también en su proceso y logro. Como forma de meditación se prescribe el mindfulness de tales actitudes21 . Los textos budistas – Samannapala sutta- nos presentan la idea de que la mente no puede elevarse a jhanas yogas hasta tanto no transite por el camino moral preparatorio y regulador (sila), es decir, hasta que no logre cierta disciplina en el plano ordinario (BARNES, 1981, p.243). 20 Estas vias, factores, o prácticas son: “correcta visión” (sammāditthi), “correcta sustentación” (sammā-Ājīvo) ,“correcta intención”(sammāsankappo) ,“correcto hablar”(sammāvācā) ,“cor- recto esfuerzo”(sammāvāyāmo),“correcta concentración”(sammāsamādhi),“correcto mind- fulness”(sammāsati). 21 Se dice en el Satipattana sutta: “Cuando la malevolencia esta presente, en él, el monje sabe: hay malevolencia en mi… Sabe como surge la malevolencia que no existía previamente; sabe como renunciar a la malevolencia que ha surgido y sabe como ya no vuelve a surgir en el futuro la male- volencia a la que ha renunciado” (MAJJHIMA NIKAYA, 2006, p.123).
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    190 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD Los autores de Mindfulness in the Marketplace: Compassionate Res- ponses to Consumerism (BADINER, 2002) confrontan la reapropiación mercatilista y corporativista del mindfulness, proponiendo que en vez de tratar de occidentalizar el Budismo hay que hacer más budista a Occi- dente (IBIDEM, p.67), y promover la perspectiva de la doctrina budista de los 4 brahmavihāra cualidades (generosidad amorosa, compasión, goce de simpatía y ecuanimidad), los 4 dharmas (compartir, hablar sincero, acción constructiva e igualdad). LadoctrinabudistaMahayanadelBodhisattvaprecisamenteapunta al compromiso individual y la acción social colectiva. El meollo de esta idea es que el cese del sufrimiento individual termina con el sufrimiento de todos los seres sentientes. Esto se expresa muy bien en The Teaching ofVimalakirti, texto Mahayana., donde se reflexiona puntualmente sobre la carrera y motivación altruista del Bodhisattva. Hay programas que ofrecen un sistema secuencial de posturas a ser realizada desde la perspectiva del mindfulness que se expone en el Satipattana sutta. Un repertorio de las misma se puede consultar en el libro de Frank Jade Boccio Mindfulness Yoga: The Awakened Union of Breath, Body, and Mind (1993), con el objetivo de generar no solo con- centración, calma, y ecuanimidad, sino también compasión, generosi- dad y altruismo. Al igual que en este libro, en el Tibetan Yogas of Body, Speech, and Mind (2011) deTenzinWangyal Rinpoche se exponen gráfica y descriptivamente posturas y movimientos corporales que junto con la recitación de mantras y ciertas técnicas de meditación contribuyen a erradicar emociones negativas (orgullo, vanidad, duda, apego, celos, agitación, etc.) y potenciar emociones positivas (amor, generosidad, sabiduría, paz y compasión). Esta proyección moral del Budismo no es ajena a quienes colocan el mindfulness en un contexto secular. Se conoce que el cultivo de la tolerancia en los padres puede aliviar el sufrimiento mental de sus hijos. Efecto sanador también se manifiesta cuando cesa la proclividad de culpar a los otros. Evidencias científicas apuntan al vínculo entre la
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    191Eduardo Francisco FreyreRoach regulación emocional, la reducción de la reactividad y el stress, por un lado, y por el otro, el cultivo de la compasión, la generosidad, y el amor (ERICKSON, 1994; JAZAIERI ET AL., 2013). El trabajo con esta dimensión moral con fines terapéuticos es realmente meritorio, pero enmarcado en un planteamiento centralizado en la acciona individualista, pierde la perspectiva de la transformación social e institucional bajo la pauta que establecen los valores morales. Pues todo lo planteado sobre la perspectiva social (maximalista) del Budismo, se expresa muy bien en autores denominan “mindfulness social” como dimensión de la práctica del mindfulness, en tanto en el contexto de la meditación se vive la base común compartida e interco- nectividad entre todos los seres humanos (CHAPPELL 2003, p. 264, citado por KUAN, 2008, p. 56). En contraposición, la popularización del mindful- ness (en forma de McMindfulness22 se presenta como resultado de toda una “marketing strategy”, vendida como una técnica de autoayuda banal que reduce el stress, pero no promueve una acción sabia y ética basada en la armonía y la compasión, sino mas bien dirigida a la estabilidad del status quo y el reforzamiento del consumismo capitalista (PURSER AND LOY, 2013). Los autores citados advierte que tal marketization del mindfulness y del rotulo de Budista no hace mas que desafortunadamente desnaturalizar esa milenaria tradición, despojándola de su compromiso transformativo. Mas que seguir la pista y subvertir las raíces institucionales que hacen emerger la codicia y la ignorancia la ignorancia, lo que esa mercantiliza- ción hace con la promoción de tecnología (supuestamente neutral desde el punto de vista moral) de autoayuda es reforzar esas raíces. 22 Término que expresa con ironía la mercantilización del mindfulness como panacea de solu- ción a muchos problemas.
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    192 ESPIRITUALIDAD YGOBERNABILIDAD CONCLUSIONES El yoga budista es resultado de un proceso de recontextualización del yoga que se practicaba en el tiempo en que surge el Budismo. El fundador del Budismo, Buda, y la comunidad budista temprana colo- can al yoga en un contexto religioso, soteriológico, filosófico, y técnico diferente: elementos técnicos del yoga (asanas, pranayama, jhanas) se asumen bajo perspectivas doctrinales budistas (annata, sati y la unidad sila-panna-sati). El yoga es ante todo meditación. Incluso lo es el sistema hatha yoga donde se enfatiza en las posturas corporales. El Budismo da relevancia a la actitud de mindfulness en la meditación, en la vida cotidiana, y en cualquier postura corporal. Por lo tanto, el yoga budista es mindfulness yoga, y no se reduce ni a posturas ni a jhanas. Ciertamente el mindfulness yoga se manifiesta como tecnología del yo. Como tal objeta la mortificación del cuerpo, del alma y el hedonismo corporal como medios para alcanzar la felicidad. La meta soteriológica suprema no consiste ni en la inmortalidad, ni en la aniquilación. La ilu- minación o el nirvana implican ante todo la erradicación de los apegos o aferramientos, del sufrimiento propio y ajeno, y del ciclo del nacer-mo- rir-renacer (samsara). El yoga budista sobre todo en Occidente ha sido colocado en un contexto secular, Por un lado se tiene una publicitación y comercializa- ción de programas terapéuticos y de entrenamiento físico y deportivo, que se presentan como aplicación del mindfulness yoga y compatible con el Budismo, aunque obviando su expectativa soteriológica. Por otro lado, colocado en un contexto mercantil, el yoga budista se asume ya no solo como una mercancía y fuente de lucro. Se revela también como tecnología del poder, pues con su práctica se promociona una actitud individualista, consumista, y políticamente conformista y conservadora, que responde a los intereses de la gobernabilidad capitalista, neoliberal y corporativista.
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    193Eduardo Francisco FreyreRoach Si bien en el Budismo se aboga puntualmente por el trabajo espiri- tual (meditativo y moral) en pos de la transformación corporal y mental personal (perspectiva minimalista), no menos por la acción colectiva en pos de la transformación del status quo (perspectiva maximalista). Por lo tanto, los programas que dicen basarse o inspirarse en el Budismo, al aplicar mindfulness yoga, respondiendo a expectativas secula- res,podrían reclamar tal sello de legitimidad o autenticidad solo si se com- prometen con ambas perspectiva, y no con una en detrimento de la otra. BIBLIOGRAFIA APONTE, G.   (2010). The relationships between power, knowledge, and  body November 22. http://www.academia.edu/1050194/ The_relationship_between_power_Knowledge_and_body BADINER, A. (ed.). (2002). Mindfulness in the Marketplace: Compassionate Response to Consumerism. Berkeley: Parallax Press. BARNES, M.A. (1976) The Buddhist Way of Deliverance: A Comparison between the Pali Canon and the Yoga-praxis of the Great Epic, unpublished B. Litt. thesis, Oxford. BIRCH, J. (2011). The Meaning of Hatha in Early Hathayoga,” In the Journal of the American Oriental Society 131-4(Oct-Dec). http://www.jstor.org/ discover/10.2307/41440511?uid=2&uid=4&sid=21104970439103 BOCCIO, F.J. (1993). Mindfulness Yoga: The Awakened Union of Breath, Body, and Mind. Wisdom Publications. http://www.amazon.com/ Mindfulness-Yoga-Awakened-Union-Breath/dp/0861713354 CHAPPELL, D.W. (2003)“Buddhist Social Principles”. In: PsychologyandBuddhism: From Individual to Global Community, ed. Kathleen H. Dockett, G. Rita Dudley- Grant and C. Peter Bankart, New York: Kluwer Academic/Plenum Publishers, pp. 259–274. CONFINO, J. (2014). Thich Nhat Hanh: is mindfulness being corrupted by business and finance? The Guardian. March 28 http://www.theguardian.com/ sustainable-business/thich-nhat-hanh-mindfulness-google-tech
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    CORPO, BIOTECNOLOGIAS E ANTIENVELHECIMENTO: UMESTUDO COM MULHERES DA CIDADE DE ARACAJU/SE Luana Alves dos Santos Crislene Góis Santos Theodoro Filho RESUMO: O presente artigo tem como objetivo identificar e com- preender de que forma as mulheres que estão na faixa etária entre 35-45 anos da cidade de Aracaju/SE se relacionam com o uso/ma- nipulação da biotecnologia a fim de manter os padrões de beleza corporal no sentido de apagar do corpo as marcas do início da velhice. O texto é fruto de uma pesquisa quali-quantitativa abor- dada sob o viés de um estudo de campo – por fazer uma análise de um grupo específico, a pesquisa também se caracterizou como um estudo descritivo de caso. Como instrumento para coleta de dados foramutilizados2questionários:umaplicadojuntoaumaamostra de 400 mulheres com idade entre 35-45 anos; e outro junto a 50 ho- mens, parceiros destas mulheres. A insatisfação com o aumento de peso foi apontado como maior preocupação com o corpo no pro- cessodeenvelhecimentoeousodastecnologiasligadasasanares- tesíndicesapareceramdeformamaissalientenosdadoscoletados. PALAVRAS-CHAVE: Corpo; Mulher; Envelhecimento; Biotecnolo- gia; Aracaju/SE.
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    198 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO INTRODUÇÃO Opresenteartigotemcomoobjetivoidentificarecompreenderdeque forma as mulheres que estão na faixa etária entre 35-45 anos da cidade de Aracaju/SE se relacionam com o uso/manipulação da biotecnologia a fim de manter os padrões de beleza corporal no sentido de apagar do corpo as marcas do início da velhice. Os usos/manipulações da biotecnologias que analisamos neste estudo vão desde uma simples tintura de cabelo até as cirurgias plásticas de modelagem corporal a fim de manter os padrões de beleza corporal e retardar as marcas do envelhecimento corporal. Com a ciência moderna e sua ânsia de dominar a natureza, o homem procura desenvolver ferramentas para o controle dela. Desse controle, cria-se a “técnica”, e o corpo não foge a estas regras de manipulação e governo, afinal, dominar o corpo e interferir na sua natureza é parte do desejo do homem e da ciência. Pela manipulação por meio da técnica, o corpo cada vez mais foi sendo alvo de domínio da mesma. As ciências que lidam com o corpo avançam a passos largos e é cada vez mais perceptível novas tecnolo- gias acopladas a ele neste início de milênio. A biotecnologia, como um dos ramos da tecnociência, cada vez mais se destaca no sentido de ser um dispositivo de modulação do corpo (BRUNO, 1999). Assim, ela visa a oferecer ao corpo seu estado de natureza, porém cada vez mais a biotec- nologia está visando a penetrar/invadir/metamorfosear a organicidade do corpo, não mais normalizando suas funções (dando a ele seu estado de homeostase), mas sim ampliando, transpondo, potencializando, transcendendo essas funções. Ou seja, pela técnica, busca-se sanar a precariedade do corpo enquanto natureza. Desta forma, a biotecnologia ligada ao âmbito da produção do padrão de beleza corporal feminina se caracteriza como um dispositivo de interferência, no qual se visa a potencializar e modular o corpo apon- tando possibilidades de subverter a lógica do envelhecimento. Neste sentido, potencializa-se o embelezamento do corpo – sua capacidade
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    199Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho de ficar ou permanecer belo – para além da condição de natureza destas mulheres nessa fase da vida. Este texto é fruto de uma pesquisa quali-quantitativa abordada sob o viés de um estudo de campo. Por fazer uma análise de um grupo espe- cífico, a pesquisa também se caracterizou como um estudo descritivo de caso. Como instrumento para coleta de dados foram utilizados 2 ques- tionários: um aplicado junto a uma amostra de 400 mulheres com idade entre 35-45 anos; e outro junto a 50 homens, parceiros destas mulheres. A fim de apresentarmos nossa pesquisa, o presente escrito foi divi- dido em três partes: num primeiro momento, apresentamos o corpo e a biotecnologia com foco no antienvelhecimento feminino e os mecanis- mos de fabricação do belo e do jovem. Na sequência, apresentamos a metodologia que orientou nosso estudo. Na terceira e última parte do texto, analisamos e apresentamos os dados da pesquisa com a intenção de discorrer com autores que abordam a temática. CORPOEBIOTECNOLOGIA:OANTIENVELHECIMENTOFEMININO E A FABRICAÇÃO DO BELO E DO JOVEM Esse não-lugar habitado da velhice pode ser, portanto, uma chance de transformação do imaginário social, das representações sociais que atrelam velhice a corpos desfeitos e mentes errantes, que fazem de uma mítica juventude – tão fugaz, tão sofrida – um ideal a ser eternamente perseguido. (SWAIN, 2008, p. 263) O corpo humano estabelece suas relações consigo mesmo, com o outro e com o mundo. O sentir, o pensar e o agir caracterizam a existên- cia e a vida humana. Essa tríade, no entanto, não se dá de modo frag- mentado e linear, mas sim através de uma rede complexa de interações que se dão na dimensão corporal humana. Pelo corpo eu percebo, pelo corpo eu analiso e pelo corpo eu (com) existo no mundo.
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    200 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO A sociedade é uma estrutura acolhedora da cultura que está dotada de significados, valores e normas que variam de acordo com cada época (tempo) e cada lugar (espaço). E assim, o corpo se torna “um produto de uma construção social específica e cada gesto ou postura como a expressão individual de uma totalidade social”(DAOLIO, 1994, p. 98). Neste sentido, os corpos são atravessados por signos que os mar- cam, que os expõem enquanto suporte de sentidos e significados defi- nidos dentro de um contexto social. Os padrões de beleza corporal não fogem a estas demarcações sociais, pois, como afirma Bártolo (2007), não há pensamento que não comece pelo corpo, tal como não há sentido que não comece pelo corpo; mas, igualmente, não há corpo que não seja pen- sado, tal como não há corpo que não seja sentido. Sendo assim, ser bela na atualidade significa ter um corpo jovem, magro, esbelto, com alguns grupos musculares definidos e delineados. Os padrões de beleza vêm cer- cados de signos de higiene e saúde. Por estas características, envelhecer acaba sendo um problema no contexto social, porque a velhice causa no corpo – em termos de estrutura biológica – um desgaste que se materia- liza em forma de rugas, flacidez, redução da libido, dentre outros tantos fatores que acabam sendo estigmatizados como feios. Destaforma,compactuamoscomSwain(2008,p.261)aomencionarque: Velhice é a marca da morte em nosso corpo, em nossa pele, em nossos olhos, em nosso olhar, mas também o é a doença, o medo, o ódio, o poder que dissolve as estranhas [...]. Para as mulheres, é“a essência que lhes é atribuída, a procriação-sedução desaparece, reduzindo a corpos inexpressivos [...] significa perda: perda de importância, status, de autoestima. “Ser velha, com o espírito e aparência jovem”, é a expressão alme- jada por muitas mulheres que se aproximam da meia idade. Surge nessa fase um corpo que não quer sentir a rejeição social “contaminada” pela cultura do belo. Grandes dificuldades começam a surgir em decorrência das mudanças anatômicas como a pele flácida que resseca e perde o bri-
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    201Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho lho da jovialidade, os cabelos brancos ficam mais fracos e quebradiços, “o enfraquecimento do tônus muscular e da constituição óssea leva a mudanças na postura do tronco e das pernas, acentuando ainda mais as curvaturas da coluna torácica e lombar”(NETTO, 2004, p.78). A beleza corporal feminina na modernidade é por demais influen- ciada pela “fabricação” mediada pela Indústria Cultural1 , sendo a moda atual pensada para corpos jovens. São propagados padrões de beleza a fim de que sejam subjetivados pelos sujeitos e, por consequência, pas- sem a mediar o comportamento dos mesmos a fim de buscar tais mode- los. Essa propagação de modelos de beleza disseminadas pela Indústria Cultural tem interesses mercadológicos que fazem girar as ciências/tec- nologias que lidam com o corpo. Gera-se dentro dessa cultura uma necessidade de obter um corpo bonito, jovem e de musculatura esguia. O mercado da beleza oferece a essas mulheres tudo – ou quase tudo – que precisam para alcançar o corpo ideal: o silicone para segurar o seio; a cirurgia plástica e os cre- mes antienvelhecimento para apagar as marcas das rugas; a lipoaspira- ção para ajustar partes do corpo que estão com gordura acumulada; e outros. As candidatas à meia idade são atraídas pelas propagandas de embelezamento feminino que as revistas de cosméticos, por exemplo, trazem em um jogo de palavras, expressões como: 1. O que uma mulher viveu não precisa ficar no rosto. Pode ficar na memória. O que uma mulher viveu, sua pele pode esquecer; 2. O primeiro que combate às marcas do tempo sem ter a pretensão de parar no tempo. Parar o tempo é parar a vida. E uma mulher sem vida não é bonita por mais jovem que ela seja (PALÁCIOS, 2009, p.92). 1 A indústria cultural, segundo Adorno (2009), versa em“moldar”a produção cultural de modo que assumam padrões comerciais, sendo assim facilmente reproduzidas e massificadas, dei- xando a exclusividade para adotar o papel de simples coisas.
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    202 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO Diante das novidades biotecnológicas que circulam no mercado da saúde, o corpo acaba sendo exposto a essas manipulações: artefatos capazes de aumentar a eficiência do corpo enquanto objeto/produto para potencializá-lo e assim promovê-lo. O mercado vem oferecer o que as mulheres precisam para se manterem com as funcionalidades ainda de um corpo jovem, expondo produtos de “viva juventude”: antimeno- pausa, antirrugas, anticelulite, antivelhice. Quanto mais uma mulher é subjetivada pela busca do corpo belo, mais ela fica exposta às exigências de atingi-lo. Com isso, exige-se da mulher um corpo esbelto, com alguns grupos musculares delineados; com curvas que sustentem a leveza e a graciosidade feminina; nada de barriga e gorduras localizadas salientes; nada de pele flácida e enru- gada; enfim, são construídos signos que estruturam todo um esquema de sentir/pensar e agir o corpo e a sua relação com o belo. O organismo humano está se tornando, frente às novas tecnolo- gias, uma espécie de “máquina” que tem a capacidade de ser modifi- cada, consertada, moldada, reparada, enfim, corrigi o que está fora do padrão para se atingir o que se define como “perfeito”. Essas são análi- ses que aqui entendemos como ligadas ao âmbito da biotecnologia. A biotecnologia é um dos ramos da tecnociência que, segundo Manske (2013, p. 292), é: Amplamente utilizado em diversas situações, o que lhe confere diferentes definições e acarreta uma série de possibilidades de produção, tais como a fabricação de antibióticos, vacinas, testes genéticos e medicamentos diversos, bem como de campos de intervenção como a engenharia e o aconselhamento genético. A biotecnologia é caracterizada pela manipulação de componentes dos seres vivos. São ramos da biotecnologia a microbiologia, a genética e a biologia molecular. Basicamente, as biotecnologias buscam potencia- lizar o corpo para além de suas condições naturais. A esperança de vida tem se duplicado gradativamente graças às novidades tecnológicas, que
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    203Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho expandem cada vez mais os horizontes da condição humana. A ciência/ tecnologia disponibiliza com grande facilidade produtos no mercado, capazes de sanar as necessidades do corpo. Dentre eles encontramos: próteses, silicones, aparelhos de musculação, remédios emagrecedores, cirurgias plásticas, roupas modeladoras, maquiagem, cremes de embe- lezamento e um sem fim de produtos que podem, simplesmente, fazer do meu corpo, o que eu quero que ele seja. Os padrões de beleza pas- sam a criar tecnologias que alimentam o mercado desse corpo, seja ele jovem ou velho, bonito ou feio, magro ou gordo. Cuidar do corpo com a chegada da velhice, não é mais apenas tomar remédios para repor hormônios, fortificar os ossos ou prevenir doenças, mas, também fazer uso de medicamentos para emagrecer; exercícios físicos e cremes para evitar o aparecimento de uma pele flácida, rugas e seios caídos. A velhice hoje, para Le Breton (2011, p. 224): É esse “continente cinza” delimitando uma população indecisa, um pouco lunar, extraviada na Modernidade. O tempo não está mais na experiência e na memória. Ele tão pouco está no tempo deteriorado. A pessoa idosa resvala lentamente para fora do campo simbólico, transgride os valores centrais da Modernidade: a juventude, a sedução, a vitalidade do trabalho, o trabalho. Ela é a encarnação do recalcado. Lembrete da precariedade e da fragilidade da condição humana, ela é o rosto mesmo da alteridade absoluta. METODOLOGIA O presente texto é fruto de uma pesquisa de cunho quali-quanti- tativo. O viés qualitativo no estudo se caracteriza na medida em que na pesquisa são interpretados problemas sociais e econômicos bem como os sentidos e significados atribuídos ao envelhecimento do corpo entre mulheres de 35-45 anos da cidade de Aracaju. Por sua vez, a pesquisa quantitativa se justifica na medida em que“as explicações devem corres-
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    204 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO ponder ao critério da universalidade, isto é, devem ser compreendidas e aceitas por muitos. O fenômeno é explicado a partir de um conjunto de proposições plausíveis”(GRESSLER, 2007, 105). A pesquisa se caracterizou como sendo uma pesquisa de campo. Para Lakatos e Marconi (1991, p. 189), a “pesquisa de campo está voltada para o estudo de indivíduos, grupos, comunidades, instituições e outros cam- pos, visando à compreensão de vários aspectos da sociedade”. Inserido em um contexto da vida real, a pesquisa investiga como os modos de vida em mulheres de 35-45 anos, na cidade de Aracaju2 , no que tange os cuidados com o seu corpo, agem no processo do antienvelhecimento, destacando a apropriação das biotecnologias como forma de melhorar o corpo feminino. Por fazer uma análise de um grupo específico, a pesquisa também se encaixa dentro das características de um estudo descritivo de caso. Segundo Gressler (2007, p. 61),“o estudo de caso surgiu da necessidade de se obter modalidades mais adequadas para a investigação nas ciên- cias humana e sociais”. Dessa forma, para compreensão de fenômenos sociais complexos, atualmente, o estudo de caso descritivo não utiliza as pesquisas experimentais como única maneira de se fazer investigações explanatórias ou causais (YIN, 2001). Segundo Yin (2001, p.27): O estudo de caso é a estratégia escolhida ao se examinarem acontecimentos contemporâneos, mas quando não se podem manipular comportamentos relevantes. O estudo de caso conta com muitas das técnicas utilizadas pelas pesquisas históricas, mas acrescenta duas fontes de evidências que usualmente não são incluídas no repertório de um historiador: observação direta e série sistemática de entrevistas. 2 Cidade de Aracaju é capital do estado de Sergipe – um dos 9 (nove) Estados do Nordeste. Localiza-se no litoral leste do Brasil, sendo cortada pelos rios Sergipe e Poxim, tendo como um dos principais pontos turísticos a Orla de Atalaia – uma das mais belas orlas do país. É considerada a capital brasileira da qualidade de vida, já que em grande parte da cidade per- cebe-se os investimentos nas obras de infraestrutura e nos aspectos sociais como a saúde e educação. E apresenta uma economia baseada na indústria e comércio.
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    205Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho Para a realização da pesquisa foi utilizado dois questionários como instrumento de coleta de dados: 1 (um) questionário com questões aber- tas e fechadas, direcionado a mulheres de 35 a 45 anos de idade de Araca- ju-SE; e o segundo questionário foi aplicado junto a 50 homens/parceiros3 que acompanhavam estas mulheres durante a pesquisa. Neste sentido, compactuamos com Gressler (2007, p. 167) quando anuncia que“o ques- tionário é constituído por uma série de perguntas, elaboradas com o objetivo de se levantar dados para uma pesquisa, cujas respostas são for- muladas por escrito pelo informante, sem o auxílio do investigador”. Para a realização da aplicação dos questionários, solicitamos que os indivíduos pesquisados assinassem um termo de consentimento livre e esclarecido. Para chegar a um número representativo e válido no âmbito da pes- quisa acadêmica, foi utilizado o cálculo da amostragem aleatória sim- ples, elaborado por Barbetta (1999). Segue a fórmula para se calcular o erro amostral: Onde: N= Número de elementos da população (quantidade de mulheres de 35/45 anos que residem na cidade de Aracaju) n = Tamanho (número de elementos) da amostra n0= número aproximado para o tamanho da amostra e E0= erro da amostra tolerável O primeiro passo para se chegar ao resultado amostral foi encon- trar o tamanho (N) da população. Para tal, foi necessário buscar o censo da última pesquisa do IBGE (2010) em Aracaju, que apontou o número de 350.719 mulheres como total de residentes na cidade. Deste total o senso estima que 50.719 mulheres possuem idade dentro da faixa de 35 a 45 anos de idade. 3 Por parceiros nesta pesquisa, entendemos: maridos, namorados, noivos e amasiados.
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    206 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO Para que seja determinado o tamanho de uma amostra válida, o pesquisador precisa especificar o erro amostral tolerável (EO). Segundo Barbetta (1999, p.57), “erro amostral é a diferença entre o valor que a estatística pode acusar e o verdadeiro valor do parâmetro que deseja estimar”. Determina-se como a percentagem máxima para o erro amos- tral uma percentagem de até 5%. Admitimosqueos erros amostrais não ultrapassemde 5% (E0= 0,05). Considerando o erro amostral de 5% e utilizando a fórmula acima, encontramos o número aproximado para o tamanho da amostra, que resulta em 400. Assim, partimos para o cálculo final da amostra: Depois de aplicar os dados do IBGE na fórmula proposta por Bar- betta (1999), obtivemos um total de 396,87 mulheres que participariam do nosso estudo de caso, ou seja, 400 mulheres responderam aos ques- tionários. Para aplicarmos o questionário fomos a locais que garantissem essa aleatoriedade, então aplicamos as perguntas na Orla da Atalaia, Centro de Aracaju, Mercado Municipal, Parque dos Cajueiros e Praias (Atalaia, Aruanda e Mosqueiro). Esses lugares nos permitem abordar mulheres que estão dentro do cálculo da amostragem aleatória simples no contexto dos 39 bairros existentes na cidade de Aracaju/SE.
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    207Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS Como descrito acima, foram elaborados dois questionários com questões abertas e fechadas: 1 (um) direcionado a mulheres de 35 a 45 anos e o outro para homens que convivem como parceiros dessas mulheres (maridos, namorados, amigos ou amasiados). Nossa amostra foi composta por 400 mulheres e 50 homens. A par- tir de agora, passamos a apresentar os dados a fim de analisá-los. A VOZ DAS MULHERES O questionário apresentado às mulheres apresentava 3 sessões: 1) identificação; 2) corpo e idade; e, 3) corpo e biotecnologia. Identificação A primeira parte do questionário estava ligada ao contexto da iden- tificação dos sujeitos pesquisados. A primeira questão fazia alusão a idade das mulheres dentro de nosso recorte, desta forma, foi verificado o seguinte resultado: Gráfico 1 – Quantidade de mulheres de 35 a 45 anos de idade da cidade de Aracaju que responderam ao questionário
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    208 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO O segundo questionamento refere-se ao estado civil das entrevis- tadas. Foram apresentadas as seguintes opções: solteira, casada, ama- siada, separada/divorciada ou viúva. O IBGE, censo demográfico 2010, nos revela que as quantidades de mulheres casadas e solteiras são maiores do que as outras opções. Nesse sentido, o gráfico 2 apresenta o estado civil dessas mulheres entrevistadas. Gráfico 2 – Percentual do Estado Civil das mulheres de Aracaju/SE que responderam ao questionário A terceira questão tratou sobre o local/bairro de residência das mulheres. Dos 39 bairros que existem no município de Aracaju, 29 foram citados pelas entrevistadas: Inácio Barbosa, Cidade Nova, Luzia, Suissa, Industrial, Jardins, 13 de Julho, Novo Paraíso, Siqueira Campos, São José, Getúlio Vargas, Jabotiana, Bugio, 18 do forte, Atalaia, América, Coroa do Meio, Ponto Novo, Grageru, São Conrado, Soledade, Farolândia, Cirurgia, Pereira Lobo, Santo Antônio, Santos Dumont, São José, Centro e Aero- porto. Desta forma, podemos afirmar que os locais que escolhemos para realizar a pesquisa a fim de garantir a aleatoriedade da amostra está dentro de um percentual aceitável frente ao total de bairros, pois foram atingidas mulheres de 74% dos lugares da cidade. A quarta questão fazia alusão ao ter ou não filhos, sendo assim, das 400 entrevistadas, 108 disseram “não” ter filhos e 292 disseram ter. Às
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    209Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho mulheres que disseram possuir prole foi perguntada a quantidade de filhos. O gráfico 3 ilustra os dados coletados. Gráfico 3 – Quantidade de filhos que as mulheres entrevistadas possuem A fim de sabermos sobre as condições financeiras dessas mulheres, a quinta e última questão ligadas ao bloco de questões de identificação esteve relacionada à renda mensal. Havia as seguintes opções: até 1 (um) salário mínimo,até2(dois)saláriosmínimos,até3(três)saláriosmínimos,até4(qua- tro) salários mínimos ou sem renda (ver gráfico 4). Entre essas mulheres que não possuíam renda, todas colocaram como profissão“dona do lar”. Gráfico4–PercentualdarendamensaldasmulheresdeAracaju/SEqueresponderam ao questionário
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    210 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO Corpo e idade A segunda sessão do questionário esteve focada com questões liga- das ao âmbito do corpo e da idade, ou seja, questionamentos relaciona- dos à preocupação do corpo com o avançar da idade. Desta forma, foi perguntado se a mulher estava satisfeita com seu corpo: 206 mulheres responderam “sim”, estão satisfeitas; e, 194 responderam que “não”. Das que responderam “não” foi perguntado o porquê da insatisfação, elas responderam estarem insatisfeitas pelos seguintes motivos representa- dos no gráfico a seguir. Gráfico 5 - Percentual dos motivos de insatisfação das mulheres entrevistadas com o corpo O resultado da relação de satisfação e insatisfação das mulheres com o corpo foi no mínimo divergente, para não dizer contraditório. Os números nos mostram que o índice de mulheres “satisfeitas” com o corpo é maior do que as “não satisfeitas”. No entanto, apesar de as mulheres de Aracaju se dizerem satisfeitas com o corpo, todas elas em questões subsequentes apontam problemas e incômodos relativos ao seu corpo e frente a isso criam uma necessidade de modificá-lo, corrigi- -lo ou ajustá-lo. Um dado importante é que, das mulheres que disseram “não ter filhos”, a maioria alegou estar satisfeitas com o corpo; as outras – que
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    211Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho tem filhos – não estão satisfeitas com o corpo, e justificaram a resposta mencionando que ficaram acima do peso depois da gravidez. Neste sen- tido, percebemos que a mulher não está mais submissa a ter que enfren- tar várias gestações – como nossas avós e bisavós –, mas está condenada à cobrança de se manter atraente e bela depois de ter que gerar em, e, com seu corpo, um (a) filho (a). Odramadagordurapareceassolartodaumaculturaquejásereconhece como lipofóbica. Nessa lógica, na menção de Del Priori (2000, p. 89-90): O corpo precisa refletir o controle narcísico dos apetites, das pulsões, das fraquezas. Ai daquelas que não se controlam frente ao prato de batatas fritas! Vencidas pela gula, as gordas são consideradas perdedoras [...] Tornar-se um saco de ossos parece ser o ideal da mulher contemporânea, mulher que habita um mundo onde milhares morrem de fome. Sob a ótica das questões ligadas ao estigma frente ao corpo gordo, podemos mencionar que estes dados podem ser vistos como aspectos que estruturam relações de poder na medida em que atribuem valores às con- figurações corporais, dimensionando-as simbolicamente como inferiores ou superiores. Foucault (2000) menciona que o corpo estigmatizado passa assim a ser dominado por inúmeros signos que exercem sobre ele relações de poder na medida em que precisa ser formado, corrigido e receber certo número de qualidades a fim de eliminar as marcas que o estigmatizam. A velhice não foge à regra destes estigmas, ou seja, ela é regida pelas mesmas dimensões simbólicas e imbuída igualmente de relações de poder. Visualizamos isso na menção de Swain (2008, p. 261), quando cita que “os corpos perdem força e vitalidade, é verdade, mas a ‘velhice’ não passa de uma representação social que polariza e hierarquiza o humano para melhor excluir, para melhor controlar, para melhor cindir as forças de resistência”. Ainda no bojo das preocupações que dizem respeito ao corpo, procuramos saber também como as mulheres entre 35 e 45 anos estão
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    212 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO lidando com as preocupações veiculadas ao corpo com o avançar da idade. Das 400 entrevistadas, 46 responderem não estar preocupadas com o corpo e 354 responderam que a chegada da “velhice” aumenta as preocupações ligadas ao corpo. Estas últimas mencionaram que se preocupam mais com o corpo no sentido da saúde, flacidez, doenças, beleza, aumento de peso, alimentação e desempenho físico, como podemos visualizar no gráfico em seguida. Gráfico 6 – Percentual sobre o que mais preocupa as mulheres entrevistadas com o avançar da idade A relação entre aparência física, saúde, higiene, alimentação estão cada vez mais estreitas e, às vezes, são confundidas, compreendidas como sinônimos entre si. Sob esta ótica, Vigarello (2006) afirma que o discursodeaproximação entresaúdeebelezatemsidoutilizadohistorica- mente para mediar a construção do padrão de corpo feminino.“A biologia de nossos corpos, medida pela aparência corporal, pela sua performance e capacidade orgânica, tanto integra a identidade do sujeito contemporâ- neo quanto constrói uma subjetividade, delineando aquilo que somos ou, ainda, o que desejamos ser”(GOELNER E SILVA 2012, p. 203). Perguntamos ainda se as mulheres mudariam alguma parte do corpo por influência da mídia, amigos(as), namorado/marido/com-
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    213Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho panheiro, vontade própria; ou, se não sentia vontade/necessidade de mudar nada. Dessas entrevistadas, 144 disseram que não sentiam neces- sidade de tal mudança e 256 disseram que fariam mudanças por alguma influência ou vontade própria. Gráfico 7 – Percentual de mulheres entrevistadas que mudariam partes do corpo por alguma influência Estes dados são de difícil interpretação e análise na medida em que acreditamos que o sujeito não existe fora do contexto social que o pro- duz, afinal, como menciona Gomes (2013, p. 79), “aprender a ver-se, a dizer-se, a julgar-se e a sujeitar-se é aprender a fabricar o próprio duplo da imagem de si”. No entanto, o autor ressalta que esse duplo não é a projeção espontânea do eu, sendo constituído por uma série de mecanismos de relação: os mecanismos de observação que determinam o que devo ver de mim próprio e como posso ver; os mecanismos discursivos que estabelecem o que posso dizer de mim mesmo e como posso dizê-lo; os mecanismos de avaliação que fornecem as normas e os valores segundo as quais o indivíduo se julga a si próprio; os mecanismos de sujeição que constroem as parcelas e as formas de domínio sobre o ser próprio (GOMES, 2013, p. 79).
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    214 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO Com a intenção de obtermos a opinião das mulheres sobre o que elas consideram de maior importância quando devem cuidar do corpo para adiar a meia idade, foi feita uma questão na qual foi solicitado que as mulheres respondessem por grau de prioridade. Foram oferecidas quatro opções: saúde, corpo/estética, melhor relacionamento e trabalho. A partir disso, as entrevistadas foram convidadas a assinalar por grau de importância todas as alternativas. Como resultado, a opção saúde apa- receu como a de maior importância, sendo citada por 272 mulheres; em segundo, corpo/estética, com 180 mulheres; em terceiro, relacionamen- tos, com 228 mulheres; e em quarto, o trabalho, com 260 mulheres. Corpo e biotecnologia A terceira e última parte do questionário esteve focada com ques- tões ligadas ao âmbito do corpo e da biotecnologia, ou seja, procuramos saber como as mulheres se apropriam das biotecnologias para cuidar do corpo. Sob esse viés, perguntamos que tipo de procedimentos já se submeteram para cuidar do corpo e, assim, melhorar as “imperfeições” do mesmo. Os resultados apontaram como itens mais citados: pintar os cabelos esbranquiçados, usar produtos para evitar ou diminuir as rugas, fazer dietas ou regimes alimentares e usar peças de roupas específicas para tornear o corpo – cintas elásticas. Para combater os aparecimentos indesejáveis da idade, as mulheres buscam no mercado produtos biotecnológicos que potencializem seu corpo para além de sua condição de natureza. Assim, por exemplo, uma mulher de 43 anos com início de branqueamento de cabelos recorre a uma tintura que devolve ao cabelo uma cor que a natureza corporal desta mulher já não consegue mais gerir. Assim, discutimos a biotecno- logia como um método para adiar o processo do envelhecimento e, con- sequentemente, os sinais do tempo. Neste sentido, para Manske (2013), as possibilidades de alteração do humano a partir das biotecnologias é justificada pela busca de seu aperfeiçoamento, melhoria ou superação da condição humana.
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    215Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho As introjeções tecnológicas surgem a fim de“turbinar”a máquina humana, ampliando-a, melhorando-a, melhor adaptando-a às necessidades ambientais. É como se a seleção“natural”de Darwin ganhasse outros contornos e nós, à mercê das leis evolutivas, tivéssemos de nos adaptar (MORENO e SILVA, 2005, p. 126). Frente à manipulação do corpo e da vida com auxílio das biotecno- logias, Vaz (1999, p. 101) menciona que: Notempopresenteoprocessodecontroledocorpomediadopela ciência e pela tecnologia alcança parte da experiência humana, e tornam-se veículos importantes de uma prática cada vez mais recorrente entre nós, o culto à performance. A performance e o rendimento do corpo se expressam de diferentes formas, em variados campos, mostrando um corpo cada vez mais capaz de derrubar fronteiras. Essas podem ser externas ao corpo, relacionadas ao espaço e ao tempo, ou internas à sua própria constituição, de onde temos um corpo mais magro, mais forte, com esse ou aquele músculo mais desenvolvido, conforme conveniências e exigências de plantão (VAZ, 1999, p.101). O gráfico seguinte apresenta o que as mulheres consideram importante ser feito ao expor seu corpo fora de casa. Além dos dados apresentados no gráfico, é indispensável mencionar que as mulheres entrevistadas não deixaram de citar que cuidados higiênicos são de fun- damental importância. Segundo Del Priori (2000), o corpo da mulher na sociedade indus- trial tem uma nova tarefa: ser um corpo consumidor, e pior, consumidor em cada uma das partes – cada parte precisa ser cuidada.“Para as unhas, esmalte e lixas. Para os cabelos, xampus, tinturas, secadores. Para a pele, bronzeadores, hidratantes, sabonetes cremosos e desodorizantes” (DEL PRIORI, 2000, p. 91).
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    216 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO Gráfico8–Percentualsobreoqueasmulheresentrevistadasconsideramimportante ser feito ao expor seu corpo fora de casa Sobre cirurgias plásticas, 214 mulheres assinalaram que“não”pensam emfazeralgumtipodemodificaçãocorporalatravésdeintervençõesplásti- cas e 186 disseram que pensam e estariam dispostas. Dessas 186 mulheres, 6 afirmaram ter feito cirurgia plástica nos seios de silicone ou redução das mamas e no abdômen, realizando a lipoaspiração. Aquelas que marcaram “sim”citaram que modificariam as seguintes partes do corpo: Gráfico 9 – Percentual sobre partes do corpo que as mulheres entrevistadas gostariam de mudar com cirurgia plástica
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    217Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho Todas as mulheres entrevistadas de alguma forma tomam cuidados com o corpo ao expor o mesmo fora de casa, assim como mostra a Figura 8. Sendo assim, como mostra o gráfico da figura 12, 34% dos homens entrevistados nos revelam que suas companheiras sempre perguntam algo sobre o corpo, mostrando o quanto estão preocupadas com a opi- nião do próximo em relação a ele. Como mostra o resultado no gráfico da figura 9, tal preocupação faz com que essas mulheres desejem estar em mesas cirúrgicas de centros estéticos, pois, Guiado pelo ideário da razão instrumental, o corpo é esquartejado. Suas partes são cobiçadas como objetos independentes. Busca-se possuir determinado tipo de traseiro, conquistar um modelo abdo- minal,alcançarpernasidealmenteroliçasouformasdepeitosimpos- tas pelo imaginário social. A alienação corporal chegou a tal ponto que o elogio a uma prótese de silicone implantada em alguma parte do corpo para satisfazer a necessidades estéticas envaidece o sujeito portador do artifício. [...] Nesse programa, não há diferença entre um corpo e um carro. Ambos são objetos a serem consumidos e podem ser“turbinados”(MELANI, 2004 apud ROMANELLI e BEDANI, 2009). Sob o domínio da biotecnologia: O corpo humano pode ser literalmente esculpido, transformado e alterado através das cirurgias plásticas, tatuagens e maquiagens definitivas; da alteração da cor e da forma da pele, dos cabelos. Essas alterações visariam realçar a beleza, aperfeiçoar o gênero por meio de transplantes, proteger contra as limitações da natureza e“des”ou“re”configurar, às vezes, permanentemente, o corpo e, consequentemente, a pessoa (SILVA, 2008, p.171,). Considerando que atividade física é qualquer movimento muscu- lar que gere energia e que tenha gastos calóricos, quando questionadas sobre a prática de atividade física durante a semana, 148 responderam que “não” fazem nenhum tipo de atividade física no sentido de manter
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    218 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO a saúde e 248 mulheres disseram que fazem atividades física. Dentre as atividades que essas mulheres realizam, as mais citadas foram caminha- das, dança, pilates, hidroginástica, treinamento funcional, musculação e aeróbica, como aponta o gráfico 10. Gráfico 10 – Percentual sobre os tipos de atividade física que as mulheres entrevistadas praticam Ao analisarmos estes dados, queremos nos remeter à narrativa apresentada por Hari Kunzru num dos capítulos do livro “Antropologia do ciborgue: vertigens do pós-humano”. Esta autora sustenta a tese de que estamos na“Era do ciborgue”e, segundo ela, ser um ciborgue tem a ver com as várias relações cotidianas que o humano estabelece com os produtos tecnológicos – dos mais simples aos mais complexos: Ser um ciborgue não tem a ver com quantos bits de silício temos sob nossa pele ou com quantas próteses nosso corpo contém. Tem a ver com o fato de Donna Haraway ir à academia de ginástica, observar uma prateleira de alimentos energéticos para bodybuilding, olhar as máquinas para malhação e dar-se conta de que ela está em um lugar que não existiria sem a ideia do corpo como uma máquina de alta performance.Tem a ver com calçados atléticos (KUNZRU, 2009, p. 24).
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    219Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho A VOZ DOS HOMENS Comojáfoiapresentado,oquestionáriodoshomensfoidirecionado para aqueles que acompanharam as mulheres durante as entrevistas, e que tinham alguma relação com a mulher de 35-45 anos na condição de parceiro – podendo ser namorado, noivo, marido ou amasiado. Do total de 50 homens entrevistados, constatou-se 6 namorados, 2 noivos, 34 casados e 8 amasiados. Estes homens convivem com estas mulheres no contexto de suas intimidades, a maioria deles, por mais de 10 anos de relacionamento, ficando expostos aos cuidados e comentários que elas veiculam aos seus corpos. Dentro do que foi perguntado aos homens, procuramos saber que tipo de comentário eles ouvem as mulheres fazerem em relação ao próprio corpo. Dos 50 homens entrevistados, 11 disseram não ouvir nenhum comentário e 39 mencionaram ouvir queixas constantes das mulheres no que tange ao envelhecimento do corpo. Do total das res- postas, a que mais se evidenciou foi a queixa das mulheres no sentido de estarem acima do peso e que precisam emagrecer para manter a forma (ver gráfico 11). Gráfico 11 – Percentual sobre as queixas que os homens entrevistados mais ouvem das mulheres em relação ao envelhecimento do corpo
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    220 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO Mais uma vez a questão da gordura corporal lidera potencialmente a preocupação das mulheres. Sobre estes dados, sinalizamos algumas reflexões anteriormente. Queremos aqui discorrer sobre a importân- cia do outro na constituição da imagem do corpo, na constituição de uma representação de corpo que envelhece. Neste sentido, trazemos ao texto a voz de Le Breton (2011, p. 236):“é do olhar do outro que nasce o sentimento abstrato de envelhecer”. Ainda para este autor: O sentimento de velhice é uma mistura indiscernível de consciência de si (através da consciência aguda de um corpo que muda) e de uma apreciação social e cultural. O sentimento de ensomatose (queda do corpo) não é um dado bruto, é a interiorização de um juízo que deprecia a velhice, antes de ser um juízo pessoal (LE BRETON, 2011, p.236). Perguntamos também aos companheiros das mulheres entrevis- tadas com que frequência elas os questionam fazendo perguntas que dizem respeito ao seu corpo. O gráfico 12 apresenta os resultados. Gráfico 12 – Percentual sobre a frequência que as mulheres perguntam a opinião dos companheiros entrevistados sobre o corpo delas
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    221Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho Sobre estes dados, os sujeitos ainda citaram que as perguntas das mulheres sobre o corpo sempre estão relacionadas à aparência, esté- tica, falta de confiança, boa convivência e autoestima. Neste sentido, Wolf (1992) menciona que a preocupação da beleza das mulheres está ligada ou diz respeito ao que os homens desejam e ao poder institu- cional deles. Essa proposição do autor se evidencia em nossa pesquisa na medida em que percebemos que 72% das mulheres de Aracaju de alguma forma estão querendo saber a opinião dos companheiros em relação ao seu corpo. Outra questão direcionada aos homens foi relativa à opinião deles sobre o que eles acham que incomoda mais no corpo da mulher com o avançar da idade. Esta pergunta esteve centrada nas observações do convívio diário junto a estas mulheres. Veja no gráfico 13 as principais inquietações dessas mulheres. Gráfico 13 – Percentual sobre o que os homens entrevistados acham que incomoda no corpo da mulher O entendimento de nosso corpo – e do “ser velho” – se dá a partir dos desdobramentos do ambíguo “eu-outro/ dentro-fora” que somos. Isso significa perceber “o corpo como tocante-tocado, o vidente-visto, lugar de uma espécie de reflexão e, através disso, capaz de relacionar-se
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    222 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO a outra coisa que não a sua própria massa, de fechar o seu círculo sobre o visível, sobre o sensível exterior”(MERLEAU-PONTY, 2006 P. 337). Neste sentido, Bártolo (2007, p. 20-21) menciona que: Estecorpoéelepróprioo“dentro”,ondearepresentaçãoseformaou se projeta (sensação, percepção, imagem, memória, ideia, consciên- cia)–enestecasoo“dentro”aparece(eapareceasi)comoestrangeiro ao corpo como“espírito”. Outras vezes, o corpo é o“fora”significante (“ponto zero” da orientação e da mira, origem e receptor das rela- ções,inconsciente),enestecasoo“fora”aparececomoumainteriori- dade espessa, uma caverna cheia, a abarrotar intencionalidade. Desta forma, pensar a relação entre corpo, velhice e biotecnologia significa pensar nos regimes de sentido que fazem significar o corpo enquanto construto político mediado por técnicas. Ou seja, os sentidos e significados de um corpo que envelhece é fruto de um devir de senti- dos sociais que não existem imunes à técnica. CONSIDERAÇÕES FINAIS Osdadosdesteestudorevelamumcertoparadoxonoquetangeàsatis- fação das mulheres entre 35-45 anos da cidade de Aracaju/SE. Os resultado obtidos apontam uma satisfação das mulheres para com seus corpos no pro- cessodeenvelhecer–osdadosapontammaiorsatisfaçãodoqueinsatisfação. No entanto, é perceptível no âmbito das demais questões que as mulheres citam inúmeras preocupações e insatisfações relacionadas ao corpo. Tanto na fala das mulheres como na de seus parceiros, o que causa maior preocupação e insatisfação nas mulheres com o avançar da idade é o aumento de peso corporal. A pele flácida e as rugas são o segundo tema que mais absorve a atenção das mulheres nessa idade. Como o questionário aplicado foi aberto, ou seja, a resposta veio do livre pensar das mulheres e homens entrevistados e não na forma de alternativas de escolha, percebemos que algumas preocupações apresentadas são
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    223Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho mais gerais da vida cotidiana da mulher do que propriamente preocupa- ções oriundas do processo inicial de envelhecimento corporal. Especificamente no que tange ao uso e manipulação das biotec- nologias ligadas às preocupações de retardar as marcas da idade no corpo feminino, vemos uma prevalência – consonante com a questão da insatisfação com o peso corporal – no desejo de mudanças no abdô- men. 82% das mulheres se queixam do sobrepeso (67%) e outras (15%) mencionam que precisam fazer uma reparação plástica. 39% das que se dizem dispostas a mudar o corpo via cirurgia plástica mencionam que mudariam o abdômen. O baixo poder aquisitivo das mulheres entrevistadas mostra que o acesso à biotecnologia fica deficitário (50% das mulheres tem renda inferior a dois salários mínimos – 7% sem renda, 18% 1 salário mínimo e 25% até 2 salários mínimos). Esses dados, de certa forma, justificam o uso e manipulação das biotecnologias bem como os demais cuidados com o corpo que as mulheres aracajuanas adotam – por exemplo: a pre- valência da caminhada como prática corporal entre as mulheres – 46%. De modo geral os dados apontam que as mulheres mostram-se preo- cupadasecomdesejosligadosàmelhoriadasuaaparênciacorporalfrente à fase de início do processo de envelhecimento. Neste sentido, percebe- mos os esforços das mesmas nessa busca. No entanto, é também urgente perceber que a condição financeira limita alguns desses cuidados. Pelo viés da biotecnologia, podemos afirmar em certa medida que cada vez mais o envelhecimento será substituído por próteses, silico- nes, plásticas que devolverão ao corpo uma forma mais jovial, fármacos que vão potencializar estruturas e funções corpóreas desgastadas. No entanto, essa transição precisa ser mediada por um processo pautado numa ética que transcenda os interesses econômicos, que veja no corpo feminino que envelhece não apenas números e cifras. Do contrário, tere- mos uma geração de idosos cada vez mais incomodada com as marcas da velhice no corpo – o sentido de incômodo é aqui trazido como sinô- nimo de quase neurose.
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    224 CORPO, BIOTECNOLOGIASE ANTIENVELHECIMENTO REFERÊNCIAS BARBETTA, P. A. EstatísticaaplicadaàsCiênciasSociais. 3 ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 1999. BÁRTOLO, J. Corpo e Sentido: estudos intersemióticos. Covilhã- Portugal. Livros LABCOM, 2007. BRUNO, F. “Membranas e Interfaces”, in Nízia Villaça et al., (orgs.). Que Corpo É Esse? Rio de Janeiro: Mauad, 1999. DAOLIO, J. Da cultura do corpo. Campinas-SP: Papirus, 1995. DEL PRIORI. M. Corpoacorpocomamulher: pequena história das transformações do corpo feminino no brasil. São Paulo: Editora SENAC. 2000. FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. 22. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. GOMES, R.M. A política da vida e a saúde. In: FRAGA, A.B.; CARVALHO, Y.M.; GOMES, I.M. As práticas corporais no campo da saúde. São Paulo: Hucitec, 2013, p.52-82. GOELLNER, S.V.; SILVA, A.L.S. Biotecnologia e neoeugenia: olhares a partir do esporte e da cultura fitness. In: COUTO, E.S.; GOELLNER, S.V. (org). O triunfo do corpo: polêmicas contemporâneas. Petrópolis: Vozes, 2012, p.187-210. GRESSLER, L. A. Introdução à pesquisa: projetos e relatórios. 3 ed. Ver. Atual. São Paulo: Loyola, 2007. IBGE, 2010. Acesso abril de 2013. Disponível em: http://www.sidra.ibge.gov.br/ bda/tabela/listabl.asp?c=1378&z=cd&o=7 IBGE, Censo demográfico 2010 http://cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil. php?lang=&codmun=280030&search=sergipe|aracaju KUNZRU, H. “Você é um ciborgue”: um encontro com Donna Haraway. In: HARAWAY, D.; KUNZRU, H.; TADEU, T. (Orgs.) Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, p. 7-15, 2009. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M.A. Fundamentos de metodologia científica. 3. Edição revista e ampliada. São Paulo: Atlas, 1991. LE BRETON, D. A sociologia do corpo. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2006.
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    225Luana Alves dosSantos; Crislene Góis Santos; Theodoro Filho ______. Antropologia do corpo e modernidade. Tradução de Fábio dos Santos Creder Lopes. Petrópolis: Vozes, 2011. MANSKE, S. G. Atletas do século XXI: ou das fusões: biotecnológicas nos atletas de alto rendimento. Porto Alegre, Revista Movimento. v. 19, n. 01, p. 289-308, jan/mar de 2013. MERLEAU-PONTY, M. A natureza. Tradução Álvaro Cabral. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. NETTO, F. L. M. Aspectos biológicos e fisiológicos do envelhecimento humano e suas implicações na saúde do idoso.RevistaPensaraPrática7: 75-84, Mar. – 2004. PALÁCIOS, A. da R. J. Uma estética para corpos mutantes. In COUTO, E. S.; GOELLNER, S. V. (org.). Corpos Mutantes: ensaios sobre novas (d)eficiências corporais. 2 ed. Potro Alegre. Editora, 2011. ROMANELLI, N.; BEDANI, A. O engodo do corpo perfeito: alguns apontamentos inspiradosnasideiasdeAdornoeHorkheimer.MinasGerais.Revistaon-lineVeritonio de Educação e Ciências Humanas n. 10, AnoV. Outubro. 2009 SILVA, A. L.; MORENO, A. Frankenstein e cyborgs: pistas no caminho da ciência indicam o “novo eugenismo”. Revista Pensar a Prática v.8, n.2, p. 125-139, Jul./ Dez. 2005 SILVA, R. C. M. Um rosto para vestir, um corpo para usar: narrativa literária e biotecnologia. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 14, n. 29, p. 151- 188, jan./jun. 2008. SWAIN, T. N. Velha? Eu?: autorretrato de uma feminista. In RAGO, M.; NETO, A. V. (org.). Figuras de Foucault. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntico, 2008. VAZ, A. Do culto a peformace: esporte, corpo e rendimento. Revista Brasileira de ciências do esporte, v. 21, n. 01. Florianópolis, setembro de 1999. VIGARELLO, G. História da Beleza: O corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Tradução de Léo Schlafman. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 2006. WOLF, N. O mito da beleza. Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro. Rocco, 1992. YIN, R.K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 2 ed. Porto Alegre. Bookman, 2001.
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    O CORPO“EM-CENA”: O CINEMACOMO PROPOSTA PEDAGÓGICA NO ENSINO MÉDIO Hamilcar Silveira Dantas Junior Fabio Zoboli Monara Santos Silva Josineide de Amorim Santos RESUMO: Este ensaio parte do princípio de que o cinema é uma manifesta- ção cultural que nos permite o olhar para o mundo e seus corpos e para nós mesmos enquanto corpo, para tanto, entendemos ser necessário estimular seu uso na escola como ferramenta pedagógica em contraponto à lógica corrente. No âmbito do Ensino Médio, com as exigências atuais do ENEM e as propos- tas dos Parâmetros Curriculares Nacionais, encontramos um espaço fecundo à ampliação desses olhares sobre o corpo e dinamização do processo formativo da juventude. Este ensaio objetiva apresentar as primeiras proposições de uso do cinema no Ensino Médio para ampliar a compreensão sobre o corpo e suas representações na contemporaneidade. PALAVRAS-CHAVE: Corpo; Cinema; Escola; Ensino Médio.
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    228 O CORPO“EM-CENA” INTRODUÇÃO Usandotermos correntes de Zygmunt Bauman, em tempos de modernidade líquida, fluida e sem alicerces sólidos ao trato com o conhecimento, a escola é tornada um espaço de transmissão da infor- mação rápida para consumo e aplicação imediatos. Dussel (2009) afirma que o cerco à escola como campo de transmissão da cultura comum foi intensificado em duas frentes: um declínio do ideal humanista, exi- gindo da escola formação técnica; e a crise da reprodução cultural do conhecimento, na qual valoriza-se o transitório, a informação dos últi- mos segundos e estabelece um repúdio ao conhecimento duradouro, de tradição. De maneira mais contundente, as artes, enquanto conheci- mento pautado na fruição, no prazer e gozo estético, mas também em um conhecimento histórico, não encontra acesso a essa escola. Nesse espaço, por seu turno, educa-se sobretudo os corpos de crianças e adolescentes. A preparação ao trabalho, a disciplina voltada à busca da informação, a falta de exercício da memória no que ela tem de seletiva para o permanente, não para o transitório, tem estabelecido limites às capacidades de compreender a corporalidade dos alunos como portadora de historicidade. Estabelecendo um contraponto a essa direção, compreendendo o cinema como uma das manifestações culturais de massa que mais ser- viram à educação das gerações do século XX, buscamos tencionar e rei- vindicar o espaço escolar como espaço de acesso à cultura comum, à cultura artística, à cultura cinematográfica no que lhes concerne como permanente e histórico. Enquanto espaço de corpos jovens que se veem, se tocam, se relacionam, propomos uma educação visual e das sensibilidades no trato com o cinema. Nessa escola pragmática, o Ensino Médio é a radicalização do anseio pragmático: preparação irrestrita ao vestibular, ao ENEM, ao mundo do trabalho que, contraditoriamente ao exigido, informa da necessidade do aluno aprender a interpretar o mundo. Como, diante da crise do ideal
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    229Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos humanista que reivindicava exatamente isso, abrir-se ao mundo? O obje- tivo deste ensaio é estabelecer uma tensão à corrente dominante e pro- por um trato pedagógico com o cinema no Ensino Médio para apreender as formas de inserção e representação do corpo na contemporaneidade. Para tanto, estabeleceremos duas bases de exposição: a primeira centrada numa reflexão sobre proposições para uso do cinema na escola, aproxi- mando-as de certos olhares sobre o corpo nessa relação; e a segunda, na qualdescrevemososprimeirostraçosdeumaexperiênciaemconstrução.1 CINEMA NA ESCOLA: ENSAIANDO OLHARES SOBRE O CORPO A modernidade deixou, como um de seus maiores legados, a escola conforme a conhecemos, com seus princípios calcados no humanismo, no uso analítico da razão e da busca pela ilustração. A organização esco- lar por faixas etárias, com distribuição do conhecimento em áreas espe- cíficas e por definição científica, a disposição dos alunos conforme os preceitos hierárquicos e disciplinares são marcas evidentes desse pro- cesso. Mas, certamente, os ideais humanistas da formação humana eram o cerne do seio escolar. Os avanços do progresso e a organização social capitalista pautada na produção e circulação de bens exigiu da escola, ao longo de todo o século XX, sua adequação ao mundo do trabalho. Buscava-se extrair da escola seu caráter formativo ampliado de dar acesso à produção cultural humana para limitá-la a um espaço de trato com o conhecimento téc- nico e pragmático para inserção dos sujeitos no mercado. 1 Cabe destacar que em 26 de junho de 2014 foi aprovado o acréscimo de um parágrafo 8º, ao Artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n.º 9394/96) que estabelece que,“a exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular comple- mentar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no mínimo, 2 (duas) horas mensais”. Entendemos que, não obstante, os devidos cuidados que se deve ter com as proposições de políticas educacionais e seus ecos na escola, a indicação oportuniza aos jovens escolares um acesso a produções cinematográficas que vem sendo cada vez mais restrito diante das programações dos cinemas e das TV’s por assinatura.
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    230 O CORPO“EM-CENA” Ocorpo é central no contexto das mais variadas ciências e cam- pos epistemológicos, pois o existir humano se dá através do corpo – o corpo é o meio pelo qual nos utilizamos para experimentar o mundo, para existir no mundo. O ser humano é presença no tempo e no espaço como corpo/ desde o corpo/ através do corpo/ sendo corpo. Somente existimos pelo e com o corpo, pelo e com o corpo o humano estabe- lece suas relações consigo mesmo, com o outro e com o mundo/natu- reza. “O corpo é o primeiro e o mais natural instrumento do homem” (LE BRETON, 2009, p. 39). Em sua espacialidade própria, descontínua, o corpo disponibiliza desde componentes físico-químicos a signos que definem a condição humana e as possibilidades de comunicação, que tem conformado o interesse de diversas disciplinas científicas, filosofias e modelos de educação (NÓBREGA, 2006 p. 65). Pelo corpo trazer em si um campo de saberes polimorfos faz-se necessário a costura de saberes advindos de várias áreas. O conceito de corpo é transdisciplinar e essa perspectiva de conhecimento ana- lisa o corpo a partir de um conjunto de disciplinas perpassando o mesmo entre, através e além delas. Mais do que um conhecimento integrado, a interdisciplinaridade nos remete a pensar o corpo de forma complexa. Porém, ao estabelecermos essas redes de conexões entre as várias áreas que tratam do corpo, faz-se necessário tomar cuidado, pois: Os conceitos não podem, sem perda ou risco de incoerência ou de colagem, passar de uma disciplina para a outra sem o tratamento apropriado. Os procedimentos de análise não são os mesmos conforme as disciplinas, nem os métodos para a coleta de dados. Sem controle rigoroso, a análise pode parecer uma colcha de retalhos, uma colagem teórica que perde a pertinência epistemológica (LE BRETON, p. 37, 2009).
  • 231.
    231Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos Como descrito acima, o corpo é um campo plural, dotado de vários sentidos ele pode ser analisado sob o viés das mais variadas ciências ou áreas do conhecimento. A escola deve ser um espaço que problematize o corpo pela arte. No nosso caso específico, pretendemos problema- tizar o corpo através do cinema, dialogando com algumas disciplinas do Ensino Médio: Filosofia, Educação Física, História, Biologia e Sociolo- gia. Além disso, pode-se estabelecer conexões e tensões com os temas transversais: ética, saúde, orientação sexual, meio ambiente, pluralidade cultural, trabalho e consumo. Neste sentido este ensaio está em consonância com os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN’s – para o Ensino Médio na medida em que dialogamos com as “linguagens, códigos e suas tecnologias”, com as “ciências humanas e suas tecnologias”, bem como com as “ciências naturais e suas tecnologias”, além de estarmos em sintonia com os PCN’s quanto à instrumentação utilizada, pois os mesmos sinalizam para: As propostas de mudanças qualitativas para o ensino-aprendiza- gem no nível médio indicam a sistematização de um conjunto de disposições e atitudes como pesquisar, selecionar informações, analisar, sintetizar, argumentar, negociar significados, cooperar, de forma que o aluno possa participar do mundo social, incluindo-se aí a cidadania, o trabalho e a continuidade dos estudos (PARÂME- TROS CURRICULARES NACIONAIS – ENSINO MÉDIO, 2000, p. 05). Cada filme possui suas particularidades, mas em sua maioria man- tém um padrão que leva em conta a linguagem específica do cinema dando a ele possibilidades de sentidos, significações e interpretações diferentes. São os recursos utilizados pelos cineastas que de algum modo interferem na maneira como apreendemos e interpretamos os mais variados filmes que nos são apresentados. Nesse sentido, Barbosa e Cunha (2006, p. 53) afirmam: “as linguagens audiovisuais definem formas específicas de apreensão do mundo e proporcionam estilos cognitivos e modos de compreensão e interpretação próprios. Elas
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    232 O CORPO“EM-CENA” oferecemalternativas para a construção de modos de ver, elaborar e construir conhecimentos”. Desta forma o filósofo francês Gilles Deleuze aponta, a partir do cinema, potencialidades para se pensar o corpo desvencilhando o mesmo de uma lógica racional, no sentido de uma contemplação em nível de sensação. Deem-me um corpo: é a formula do desabamento filosófico. O corpo já não é o obstáculo que separa o pensamento de si próprio, oquetemdeultrapassarparaconseguirpensar. É,pelocontrário,no que tem de mergulhar para alcançar o impensado, isto é, a vida. Não que o corpo pense, mas, obstinado, teimoso, força a pensar, e força a pensar o que se esquiva do pensamento, lançar-se-á os pensamen- tos nas categorias da vida. As categorias da vida são precisamente as atitudes do corpo, as suas posturas (...) É pelo corpo (e não por intermédio do corpo) que o cinema realiza as suas bodas com o espírito, com o pensamento (DELEUZE, 2006, p. 243). A estrutura simbólica da comunicação visual – no caso específico deste ensaio: o cinema – constitui sistemas arbitrários de sentidos e sig- nificados. O filme/cinema como ferramenta pedagógica permite o con- tato reflexivo com os códigos e símbolos que estão em uso com o intuito de re-significar as representações convencionadas e padronizadas. “Ver filmes, é uma prática social tão importante, do ponto de vista de forma- ção cultural e educacional das pessoas, quanto a leitura de obras literá- rias, filosóficas, sociológicas e tantas mais”(DUARTE, 2002, p. 17). Entendemos que, historicamente, a inserção das artes no seio esco- lar vincula-se à disciplina“Educação Artística”, a iniciativas individuais de alguns professores como reforço ao conteúdo veiculado ou aos eventos promovidos pelas diversas áreas e que envolvam pinturas, musicaliza- ção, teatralização, fotografias, cartazes. Em contracorrente, entendemos ser a arte uma experiência vivida, mais que aprendida, mais uma expe- riência que um aprendizado teórico. As amarras disciplinares e a distin-
  • 233.
    233Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos ção entre cultura erudita e popular têm tornado as artes um território de difícil acesso, criando um abismo para estimular o desenvolvimento de sensibilidades. O cinema, comumente, é colocado na escola como uma atividade complementar, ora para ilustração de conteúdos, ora para preenchimento do tempo. Visto como uma manifestação cultural de lazer, por isso mesmo improdutiva, o cinema não tem importância no terreno “sério” e comprometido com a formação intelectual dos jovens. Entendemos que tal conjuntura é incoerente e contraproducente. Milha- res de pessoas aprendem história, relações sociais, tensões religiosas por meio do que se passa na sala escura ou na sala de estar pelo DVD. Duarte (2003) afirma que os filmes criam um efeito de realidade nas pessoas muito mais impactante que qualquer outra forma de arte. Ao irmos ao cinema, fazemos um pacto com a ficção e estabelecemos um intervalo no cotidiano da vida e assumimos uma “impressão” da realidade. O espectador também estabelece uma“identificação”com as personagens e as tramas, vislumbrando possibilidades de realidade no mundo possível. Por fim, o espectador produz uma dada“interpretação”, produz sentidos e significados próprios das suas capacidades de ver e ler o mundo por meio daqueles códigos de imagem e som. Com essas interpretações é possível concluir que a escola precisa aceitar o conheci- mento oriundo das nossas visitas aos filmes como algo elaborado e com argúcia lógica. A escola pode (e deve) ser o terreno de aguçar o pensamento e os sentimentos. Concordamos com Cabrera (2006) que a experiência visual do cinema nunca é somente prazer, fuga e sentimento, é também cognitiva e lógica, ou obedece ao primado que a denomina de “razão logopática”. Para Cabrera (2006), o logos limita a compreensão do mundo aos códigos intelectivos emanados do cérebro, ao passo que tal compreen- são perpassa, indubitavelmente, pelo estar e vivenciar o mundo na esfera afetiva (o pathos). O filósofo argentino defende, portanto, que certas dimensões da realidade só podem ser captadas de modo racio-
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    234 O CORPO“EM-CENA” nale afetivo, sem separações, refletindo uma experiência em que: haja abertura, vivência, um deixar-se afetar pelas imagens; se provoque um “impacto emocional” (não “efeito dramático”) com valor cognitivo; se reflita sobre o mundo, as pretensões de verdade e universalidade; se propicie uma reflexão radical, porém com soluções lógicas, epistêmicas e morais abertas e problemáticas. A escola, portanto, vem perdendo a oportunidade de estabelecer diálogos mais próximos aos anseios e linguagens da juventude ao se privar de lidar com o cinema entre seus muros. Enquanto uma “janela” que se abre para o mundo e possibilita olhares diferenciados, o cinema oportuniza aos escolares, sobretudo no Ensino Médio, ver e sentir cor- pos através de impressões, sentidos e significados gestados pelos seus próprios corpos. Neste sentido, nossa proposta tenta apontar outros caminhos de compreensãoeexperimentaçãodocorponaeducaçãoatravésdocinema. Pois acreditamos, amparados em Nóbrega e Tibúrcio (2004), que apontar outros caminhos de compreensão do corpo na educação se faz necessário no sentido de visar a superar o instrumentalismo e expandir as referências educativas considerando o mesmo na sua relação com o conhecimento sensível. Isso, na menção dos autores, faz com que, pelo processo edu- cativo, se amplifique a textura corpórea dos processos de conhecimento: Ao comportar esse saber sensível, que permite a comunicação entre sentidos e o entrelaçamento do sujeito e do mundo, que permite, ao mesmo tempo, a criação ininterrupta de novas possibilidades de se organizar, o corpo oferece indicadores para pensar em uma educação que ressalte a visão não dicotomizada do humano (NÓBREGA; TIBÚRCIO, 2004, p. 467). Visando a dilatar as oportunidades de vivência e aprendizado sobre o corpo,pelocorpo,comocorpoeparaocorpo,eporentenderqueocinema tem uma larga tradição de exposição e representação de imagens, sons e histórias corpóreas, a escola pode: ilustrar as manifestações, expressões
  • 235.
    235Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos e representações corporais como metáforas da vida; mostrar as práticas como modelos de desencanto, de desilusão e de controle, mas também de superação, de êxtase e libertação; expor as inúmeras dimensões humanas e sociais expressas através dos corpos dos sujeitos representados. Tais repre- sentações são expostas por olhares plurais de cinematografias distintas no que tange a objetivos, sobretudo a lógicas culturais próprias dos países pro- dutores dos filmes. As abordagens plurais são frutos da representação de filmes oriundos de diversos países como Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, Argentina, França, Itália, Alemanha, Hungria e outros. De modo específico, pretendemos ilustrar nesse ensaio propostas de uso de filmes de maneira a desenvolvermos, no futuro, capacidades de investigação de como as produções cinematográficas contemporâ- neas estão significando algumas temáticas que giram em torno da pro- blemática do corpo e suas manifestações identitárias, ético-morais e políticas, no sentido de projetar práticas sociais. Para tanto, é necessário desenvolver as “competências para ver”. Duarte (2002, p.13), amparada no sociólogo francês Pierre Bourdieu, menciona que: A experiência das pessoas com o cinema contribui para desenvolver o que se pode chamar de “competência para ver”, isto é, uma certa disposição, valorizada socialmente, para analisar, compreender e apreciar qualquer história contada em linguagem cinematográfica. Entretanto, essa “competência” não é adquirida apenas vendo filmes; a atmosfera cultural em que as pessoas estão imersas – o que inclui, além da experiência escolar, o grau de afinidade que elas mantêm com as artes e a mídia – é o que lhes permite desenvolver maneiras de lidar com os produtos culturais, incluindo o cinema. Na menção de Dantas Junior (2013, p. 67), “o cinema é uma ativi- dade educativa por excelência. Sua capacidade narrativa se transmuta em uma didática inebriante para formar percepções do mundo”. Nesse
  • 236.
    236 O CORPO“EM-CENA” sentido,acreditamos que ela possa contribuir na formação dos estudan- tes de Ensino Médio. Continuando, o autor, ao se referir à arte/cinema como possibilidade de educação, discute: Entendo que uma educação por meio da arte pode proporcionar o desenvolvimento do ato de julgar pelo estímulo aos novos olhares acerca da vida e da realidade. A arte pode e deve ampliar a diversidade cultural, posto que a redução da percepção do outro limita meus horizontes de contato e alimenta práticas e ideias intolerantes, assim como a redução da capacidade de pensar está diretamente vinculada à redução da capacidade de sentir (DANTAS JUNIOR, 2012, p. 77). Por seu turno, Barbosa e Cunha (2006, p. 53) afirmam, para fins de esclarecimento do processo analítico das imagens, que essas “podem ser utilizadas como meio de acesso a formas de compreensão e inter- pretação das visões de mundo dos sujeitos e das teias culturais em que eles estão inseridos.” Desse modo, é possível identificar o campo mais abrangente em que a pesquisa se assenta, tendo em vista a análise fíl- mica que, por sua vez, considera as imagens e discursos produzidos no âmbito de uma cultura, ao compreender também que a análise em si torna-se uma possibilidade de diálogo com as regras e códigos de uma determinada cultura. Nesse caso em particular, o corpo atravessado pelos signos da cultura. Isso leva ao entendimento de que a partir da análise fílmica é possí- vel construirmos um conjunto de códigos e significações que, fundamen- tados em nossa experiência visual, são naturalizados, dando de maneira particular a cada indivíduo uma forma ou mais de apreensão e compreen- são.Trabalharcomfilmesexigesaberqueseestátrabalhandocomarepre- sentação de um imaginário cotidianamente recriado e em movimento. Os estudos que vimos desenvolvendo pretendem encarar o uso das imagens na análise de filmes como acréscimo de novas dimensões e parâmetros para a interpretação da história cultural de um povo. Per-
  • 237.
    237Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos mitindo também, de acordo Barbosa e Cunha (2006, p. 57), “aprofundar e compreender o universo simbólico dessas representações exprimindo um sistema de atitudes pelos quais se definem grupos sociais se constrói identidades e se apreendem mentalidades”. O que se pode concluir, nesse momento, é que a análise fílmica é um conjunto de operações que envolvem processos complexos de apreen- são, e que é através da desconstrução e reconstrução de um filme que descobrimos os seus princípios e fundamentos, reconhecendo sistema- ticamente o que aparece na tela, através de uma descrição minuciosa e uma interpretação pessoal das informações concedidas. UM ENSAIO DE EXPERIÊNCIA Os estudos que dão base a este ensaio são oriundos de uma proposta em construção vinculada ao grupo de Pesquisa“corpo e governabilidade” do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe – UFS – na linha de“corpo e comunicação”. A linha“corpo e comunicação” tem como objetivo estudar as mídias como ferramenta cultural e política para a governabilidade do corpo e seus comportamentos sociais: texto, pintura, fotografia, cinema, televisão, rádio, internet e mídias digitais. Os objetivos da linha de pesquisa estão alinhados à proposta dos PCN’s do Ensino Médio, pois os mesmos têm como centralidade a questão da lin- guagem analisada sob o viés inter e transdisciplinar: A linguagem tem sido objeto de estudo da filosofia, psicologia, sociologia, epistemologia, história, semiótica, linguística, antropologiaetc.Alinguagempelasuanaturezaétransdisciplinar, nãomenosquandoéenfocadacomoobjetodeestudo,eexigedos professores essa perspectiva em situação didática (PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS – ENSINO MÉDIO, 2000, p. 05). Ao perspectivar a construção de uma proposta pedagógica, ou seja, a construção de um fazer educacional e formativo, pressupomos o pen-
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    238 O CORPO“EM-CENA” sare o fazer como uma relação dialética. Para tanto, o conceito de expe- riência é fundamental, posto que é na experiência e pela experiência que os sujeitos se constituem indivíduos ou membros de um contexto cultural. A escola é um campo fecundo às múltiplas possibilidades de experimentação, sendo o cinema e as práticas corporais, notadamente o esporte, espaços ao mesmo tempo fraternos e tensos, de convívio e construção de concepções de mundo. Assumimos a dimensão enun- ciada por Thompson (1981, p. 189), de que, [...] as pessoas não experimentam sua própria experiência apenas como ideias, no âmbito do pensamento e de seus procedimentos, ou (como supõem alguns praticantes teóricos) como instinto proletário etc. Elas também experimentam sua experiência como sentimento e lidam com esses sentimentos na cultura, como normas, obrigações familiares e de parentesco, e reciprocidades, como valores ou (através de formas mais elaboradas) na arte ou nas convicções religiosas. A partir de uma Ação de Extensão intitulada “Corpo e cinema no Ensino Médio”, os integrantes do grupo de pesquisa “corpo e governa- bilidade” sistematizam filmes que abordam questões nas quais proble- máticas que suspendem o corpo são trazidas à tona. Desta forma, são levadas às escolas Públicas de Aracaju filmes que são discutidos com os alunos do Ensino Médio. Assim, começamos a“ensaiar”a experiência pedagógica estruturada através da apresentação e discussão de filmes. Ora, a experiência estruturada é aqui entendida enquanto possui- dora, como o próprio termo já diz, de uma estrutura preconcebida pelo sujeito racional e, portanto, forjada por uma intencionalidade. Assim como afirma a filosofia transcendental de Kant, é o sujeito que dita as regras pelas quais os objetos podem ser conhecidos tendo como base as suas capacidades centradas nas faculdades mentais. Em outras palavras, a experiência sobre este ponto de vista é pautada sobre a noção dessa estrutura racional/intencional necessária para que haja conhecimento.
  • 239.
    239Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos Bártolo (2007) aponta que, para Deleuze, a estrutura é uma máquina semiótica, isto é, uma máquina de produção de sentido. Esse processo, chamado de significação, busca dar sentido às coisas, classifica e orga- niza signos (aspectos sensíveis) que se apresentam de forma bruta ao contexto em que vivemos, à nossa cultura. A estrutura que nos é dada dentre as formas distintas de organi- zar experiências, é aqui formatada, conferida e entendida através da noção filosófica de “propedêutica”. Esta, em nossa concepção, é o con- ceito ligado à preparação, ou seja, estruturação e instituição das formas pelas quais serão tomados os rumos da experiência, seja esta no sentido amplo da atribuição e apreensão dos conhecimentos a partir do teor metodológico proposto, seja esta em relação específica aos modelos “estéticos” já pré-determinados pela estrutura do cinema e a vivência dos alunos em relação aos filmes. A propedêutica, portanto, é o cerne que torna possível a experiência e, em certa medida, define o produto pelos quais esta irá estabelecer. Têm-se observado que o cinema carrega características eminen- tes para aqui serem entendidas sob a base conceitual da propedêu- tica. Sua estrutura de base educativa/formadora, que age direta ou indiretamente, propõe gerar uma consciência nos indivíduos, prin- cipalmente nos aspectos que norteiam as questões socioculturais. Como visto, o cinema, em sua forma de manifestação crítica, refle- xiva, discursiva e, principalmente, de denúncia e de rupturas, coloca em cheque os dogmas, os cânones tradicionais instituídos artistica- mente e socialmente. Enquanto propedêutica, as discussões geradas frente a temas ligados ao corpo apresentados nos filmes em suas formas de organização e provocação direcionam à tomada de novos posicionamentos e novos comportamentos dos indivíduos frente à experiência por estes estabelecida. Assim, as formas pelas quais os filmes e seus agentes estruturam e operam os signos na constituição estética da experiência atribuem aos indivíduos modos distintos de significar a realidade percebida.
  • 240.
    240 O CORPO“EM-CENA” Compreende-seque a vivência do saber, a experiência que se pro- põe está diretamente ligada aos processos de significação intrinseca- mente associados à produção de sentidos. Acredita-se que o sentido é antes construído no e através do corpo na condição mais elementar e imediata da experiência, sob o nível das sensações. A significação aqui não pode ser compreendida simplesmente como um ato de pensa- mento – restrito à mente e ao cérebro – mas, como “a experiência do corpo ao nos fazer reconhecer uma imposição do sentido que não é ade- rente a certos conteúdos. Meu corpo é esse núcleo significativo que se comporta como uma função geral”(MERLEAU-PONTY, 1999, p. 203). É necessário frisar que o conceito de experiência está intrinse- camente relacionado ao ato de conhecer ou da constituição do pen- samento que, embora ligada à concretude do “mental”, implica a coparticipação do “corporal”, essencial na constituição da experiência. A preocupação filosófica e as inúmeras possibilidades de desvendar os processos pelos quais o indivíduo conhece/pensa foi parte da trajetó- ria deste campo acadêmico, assim como o estudo de problemas funda- mentais ligado à existência, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem. Portanto, não é à toa que encontramos nesse percurso inúmeros filósofos que se detiveram a desmembrar em suas teorias esta problemática que envolve a experiência de pensamento e seus métodos. Dentre os mais diversos parâmetros sociais, os signos – vistos aqui enquanto predicativos captados junto à noção de tempo e espaço (con- texto) – são estruturados de várias maneiras. Sistemas e operadores classificam, organizam os signos e conferem sentidos a estes, tornando possível a experiência. Um conteúdo disciplinar, por exemplo, pode ser lido, experimentado, entendido de diversas formas e isto depende dos modos pelos quais os signos encontram-se estabelecidos a partir das categorias da experiência. Os signos são produzidos na mente de modo a participar da composição de seus raciocínios e constantemente forma- dos de forma progressiva.
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    241Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos De modo específico no âmbito escolar, o processo pedagógico deve mediar a experiência do mundo cotidiano com o conhecimento e organização da ciência, da arte e da cultura formal, incidindo sobre nossas experiências físicas e corporais. Neste“ensaio”de experiência, partimos da indicação metodológica de Dantas Junior (2012) em seus estudos de cinema na escola, pois não pretendemos usar filmes no âmbito das disciplinas, mas tornar o assistir filmes uma atividade da escola que possibilite diálogos interdisciplina- res ou mesmo transdisciplinares, portanto não se liga ao tempo escolar das disciplinas específicas, mas sim a um tempo próprio de reunião dos alunos para a sessão de cinema e reflexão. Para a escolha dos filmes, estivemos atentos a algumas questões que a mesma exige. Para Dantas Junior (2012, p. 71), a escolha dos filmes deve: Contemplar a articulação entre os componentes curriculares que dialogarão em cada sessão; ressaltar competências e habilidades que deverão ser adquiridas após a exibição e debates dos filmes, bem como ter clareza dos conceitos a serem trabalhados com os alunos e seu vínculo às unidades temáticas planejadas ao longo do ano; adequar-se à faixa etária e nível de escolaridade dos alunos, sobretudo quanto ao nível cultural dos mesmos no que tange ao cinema. Pensar nas imagens e narrativas, sejam visuais ou audiovisuais, como objeto de análise é propor uma abordagem aprofundada que leve em conta aspectos diferenciados. Para Gardies (2008), na contempora- neidade, os filmes continuam sendo particularmente preciosos para a análise de questões que envolvem as identidades culturais. Neste sen- tido, trazer o corpo como cerne de discussão através dos filmes é pensar nas possibilidades de suas articulações políticas numa sociedade que está constantemente a inscrever no corpo os seus mais variados enredos. Nesse estágio da construção da experiência pedagógica estru- turada, tentamos ilustrar filmes possíveis de olhar sobre o corpo, pelo
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    242 O CORPO“EM-CENA” corpo,com o corpo e para o corpo, partindo de temas geradores de debate: corpo e gênero; corpo e as concepções sobre normalidade e deficiência; corpo e sua mercadorização sob as mais diversas práticas sociais e culturais; corpo e as demandas das novas tecnologias, ges- tando os corpos híbridos (fusão corpo/tecnologia); os usos cada vez mais comuns de substâncias psicoativas que podem, inclusive, gerar dependência química, sobretudo gerar sentimentos de opressão social; as expressões dos corpos em culturas diversas, sua relação com o tempo, o espaço, a natureza e a sociedade. Muitos dos filmes que apresentamos abaixo são utilizados no projeto de extensão“Corpo e cinema no Ensino Médio”, veiculados pelo grupo de pesquisa“corpo e governabilidade”. No âmbito das relações de Corpo e Gênero é possível explorar fil- mes que enfatizem o papel da mulher na sociedade, suas lutas, desejos e repressões, as impressões sobre gênero, trans-gêneros e orientações sexuais. Sugerimos, nesse contexto, filmes como: Onda nova (José Antô- nio Garcia e Ícaro Martins, 1983); Uma equipe muito especial (Penny Marshall, 1992); Billy Elliot (Stephen Daldry, 2000); Driblando o destino (Gurinder Chadha, 2002); Madame Satã (Karim Aïnouz, 2002); Juwanna Man (Jesse Vaughan, 2002); Osama (Siddiq Barmak, 2003); Menina de ouro (Clint Eastwood, 2004); O segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005); Fora de jogo (Jafar Panahi, 2006); Gracie (Davis Guggenheim, 2007); De repente, Califórnia (Jonah Markowitz, 2007); Praia do futuro (Karim Aïnouz, 2014). Tais filmes oportunizam aos jovens dimensionar as relações que estabelecem com os outros sob uma perspectiva de gênero e alçam o debate a patamares mais elaborados quando conse- guimos estabelecer diálogos inter e transdisciplinares. No campo das relações entre Corpo e as compreensões sobre nor- malidade e deficiência, o cinema tem sido profícuo em problematizá- -las sob vários aspectos. O que é ser normal? O que é ser deficiente? Ao ser produtivo à sociedade, o deficiente torna-se normal? Filmes como: Castelos de gelo (Donald Wrye, 1978); Gaby, uma história verdadeira (Luis Mandoki, 1987); Nascido em 4 de julho (Oliver Stone, 1989); Rain Man
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    243Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos (Barry Levinson, 1989); Meu pé esquerdo (Jim Sheridan, 1989); O mar mais silencioso daquele verão (Takeshi Kitano, 1991); Perfume de mulher (Mar- tin Brest, 1992); Bola pra frente (Michael Winterbottom, 1995); O oitavo dia (Jaco Van Dormael, 1996); À primeira vista (Irwin Winkler, 1999); A cor do paraíso (Majid Majidi, 1999); Meu namorado Pumpkin (Anthony Abrams e Adam Larson Broder, 2002); Meu nome é Radio (Mike Tollin, 2003); Menina de ouro (Clint Eastwood, 2004); Mar adentro (Alejandro Amenábar, 2004); O trapaceiro (Barry W. Blaustein, 2005); Soul surfer (Sean McNamara, 2011) Hoje eu quero voltar sozinho (Daniel Ribeiro, 2014). Esses filmes, de modos distintos e sob prismas de outros ambien- tes e práticas culturais, oportunizam aos alunos ampliarem os olhares sobre si mesmos, sobre os colegas e sobre a sociedade e suas formas de lidar com sujeitos diferentes dos padrões de“normalidade”. Na sociedade da imagem ou do espetáculo, como diria Debord (1997), tudo está à venda, pois o ser visto, o estar em cena, o parecer (não ser) é a manifestação do capital em tal grau de acumulação que se torna imagem. Nesse contexto, os corpos são comercializáveis no âmbito social, científico, cultural, político e esportivo. Como se nego- cia corpos? Como se descartam corpos? Como se massacram corpos na esteira do desenvolvimento econômico e social? Como se instrumenta- liza e se usa corpos para justificar ações políticas e religiosas? Caberia, portanto, pela mediação de professores de diversas áreas, a análise de filmes como: BlueChips (William Friedkin, 1994); Oalvo (JohnWoo, 1993); O bravo (Johnny Depp, 1997); Um domingo qualquer (Oliver Stone, 1999); Anatomia (Stefan Ruzowitzky, 2000); Paradise Now (Hany Abu-Assad, 2005); Tudo por dinheiro (D. J. Caruso, 2006). A contemporaneidade tem apresentado novas demandas tecnoló- gicas sobre o corpo que levam estudos atuais a pensar sobre a fusão do corpo com a tecnologia no sentido de se pensar problemas de cunho epistemológicos e ontológicos oriundos dessa hibridização. Assim, encontramos diversas tramas nas quais a dimensão corporal tem sido alterada sob diversas formas tecnológicas abordadas em filmes que
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    244 O CORPO“EM-CENA” retratamo hoje a filmes que profetizam futuros distópicos. O cinema tem sido fértil na exposição desse tipo de película. Filmes como: Blade Runner, caçador de andróides (Ridley Scott, 1982); 1984 (Michael Rad- ford, 1984); Robocop, o policial do futuro (Paul Verhoeven, 1987); Gat- taca – experiência genética (Andrew Niccol, 1997); Matrix (Andy e Larry Wachowsky, 1999); A ilha (Michael Bay, 2005); A pele que habito (Pedro Almodóvar, 2011); Ela(Spike Jonze, 2013); Elysium (Neill Blomkam, 2013). A escola é um espaço fundamental na discussão do uso de substân- cias psicoativas que provocam prazer, estabelecem aproximações entre os sujeitos, estimulam a desinibição, porém geram dependências químicas e sociais muito sérias. Para além de discussões moralistas, à escola cabe tencionar com essas questões e o cinema pode ser uma janela interes- sante para olhar a problemática e estimular o debate. Cabe visualizar filmes como: Farrapo humano (Billy Wilder, 1945); O homem do braço de ouro (Otto Preminger, 1955); Eu, Christiane F., drogada e prostituída (Ulrich Edel, 1981); Despedida em Las Vegas (Mike Figgis, 1995); Diário de um ado- lescente (Scott Kalvert, 1995); Medo e delírio (Terry Gilliam, 1998); 28 dias (Betty Thomas, 2000); Réquiem para um sonho (Darren Aronofsky, 2000); Ray (Taylor Hackford, 2004); Meu nome não é Johnny (Mauro Lima, 2008). Por fim, em um mundo globalizado no que se refere a ver (através das multimídias) o outro, mas ainda provinciano no entender e aceitar as diferenças do outro, o cinema tem oportunizado o acesso a culturas distintas e suas formas de se relacionar social e culturalmente. Filmes de nacionalidades diversas tem ampliado as formas de ver o mundo e a escola deve ser um terreno que estimule esses olhares com uma media- ção consistente de seu corpo docente. Particularmente, admiramos e entendemos ser uma cinematografia acessível aos alunos e que possi- bilita superar preconceitos enraizados a respeito do islamismo e países como o Irã. Os filmes iranianos são muito sensíveis e focam questões ricas ao desenvolvimento da infância, dos impactos sociais, culturais e econômicos sobre a vida dos sujeitos. Cabe visualizar alguns filmes como: Vida e nada mais (e a vida continua...) (Abbas Kiarostami, 1992); O
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    245Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos balão branco (Jafar Panahi, 1995); Filhos do paraíso (Majid Majidi, 1997); A caminho de Kandahar (Mohsen Makhmalbaf, 2001); Tartarugas podem voar (Bahman Ghobadi, 2005); Fora do jogo (Jafar Panahi, 2006). Por conseguinte, caberia aos professores conhecer a obra de alguns cineastas internacionais de distintas nacionalidades que ampliam nos- sas visões de mundo e aguçar nossa sensibilidade. Dentre vários, cabe destacar: Ousmane Sembene (Senegal), Miklós Jancsó e Istvan Szabo (Hungria), AndrzejWajda e Krisztoff Kieslowski (Polônia), Emir Kusturica (Bósnia), Theo Angelopoulos (Grécia), Sergei Eisenstein (Rússia), Ing- mar Bergman (Suécia), Thomas Vinterberg e Lars Von Trier (Dinamarca), F. W. Murnau, Fritz Lang, Wim Wenders, Rainer Werner Fassbinder (Ale- manha), Jean Renoir, François Truffaut, Jean-Luc Godard (França), Federico Fellini, Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Giusepe Tornatore (Itália), Luis Buñuel, Carlos Saura e Pedro Almodovar (Espanha), Denys Arcand e Atom Egoyan (Canadá), Tomás Gutierrez Alea (Cuba), Alfonso Arau, Alejandro Gonzalez Iñarritú, Alfonso Cuarón e Guillermo Del Toro (México), Juan José Campanella, Fernando Solanas e Adolfo Aristarain (Argentina), ZhangYimou e Chen Kaige (China),Yasujiro Ozu, Kenji Mizo- guchi, Akira Kurosawa e Shoei Imamura (Japão), Kim Ki-Duk (Coreia do Sul) e Satyajit Ray (Índia). As sugestões ainda estão no processo de construção da experiência concreta de relação educativa docente-discente e produção, mas sina- lizam com as intenções que revelam os passos seguintes dessa proposi- ção, ou como a escola pode organizar suas sessões de cinema e debate sobre as temáticas elencadas: selecionar o filme com critérios específi- cos; apresentar o contexto do filme e sua produção; exibir o filme; para, em seguida, abrir um debate coletivo a partir de roteiros elaborados nos grupos de pesquisa ou de organização das sessões. O roteiro não terá um caráter fechado, pois entendemos que os alunos do Ensino Médio serão os principais interlocutores. Havendo necessidade, após a exibi- ção do filme pode-se organizar uma palestra para apresentar um contra- ponto ao narrado visualmente.
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    246 O CORPO“EM-CENA” Aofinal de cada sessão pretende-se avaliar os pontos que digam respeito a questões mais qualitativas no que tange aos objetivos propos- tos pelos estudos que vimos gestando. Por conseguinte, cabe à escola, e nos propomos aqui a participar como mediadores, ser um campo de interlocução com o mundo pelo cinema, principalmente em momentos nos quais os alunos mais estão sendo exigidos para tal, o Ensino Médio. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao advogar a tese da escola como um espaço fecundo à trans- missão de uma cultura comum, ampliada, não pragmática e que use a arte como um meio de olhar/sentir o mundo, concluímos com os crité- rios elencados por Dussel (2009) para pensar essa escola: a escola deve ser capaz de nos colocar em contato com o mundo-outro, do desco- nhecido, que desafia nossos limites, compreensões e nos torna mais abertos e receptivos; a escola sustenta-se no conhecimento acessível a todos que queiram, não por obrigação ou porque “serve” para alguma coisa, mas porque serve à “eternidade”, à nossa vida e nosso cresci- mento; a escola deve nos dar chaves para decifrar as experiências das disciplinas, das artes, das práticas, tornando-nos mais participativos, analíticos e críticos. Pensamos que a via pela arte é uma via possível, que abramos então a janela do cinema e olhemos/sintamos o mundo. REFERÊNCIAS BARBOSA, A; CUNHA, E. T. Antropologia da imagem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2006. (Passo a Passo). BÁRTOLO, J. Corpo e sentido: estudos intersemióticos. Portugal/ Covilhã: Livros Lab Com, 2007. DANTAS JUNIOR, H. S. Esporte e cinema: possibilidades pedagógicas para a
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    247Hamilcar Silveira DantasJunior; Fabio Zoboli; Monara Santos Silva; Josineide de Amorim Santos educação física escolar. Cadernos de Formação RBCE, p. 67-78, set. 2012 DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. DELEUZE, G. Cinema 2 – A “imagem-tempo”. Lisboa: Assírio & Alvin, 2006. DUARTE, R. Cinema e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. DUSSEL, I. A transmissão cultural assediada: metamorfoses da cultura comum na escola. Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 137, p. 351-365, maio/ago. 2009. GARDIES, R. (org.). Compreender o cinema e as imagens. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2008. LE BRETON, D. A sociologia do corpo. Tradução de Sonia M. S. Fuhrmann. 3d. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2009. MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 2 ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999. NÓBREGA, T. P.; TIBÚRCIO, L. K. de O. M. A experiência do corpo na dança butô: indicadores para pensar a educação. Revista Educação e Pesquisa, São Paulo, v.30, n. 3, set./dez. p. 461-468. 2004 NÓBREGA. T. P. Corpo e Epistemologia. In NÓBREGA. T. P. (ORG.) Epistemologia, saberes e práticas da Educação Física. João Pessoa: Editora Universitária / UFPB, p. 59-74. 2006. PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS (ENSINO MÉDIO), Parte II Linguagens, códigos e suas tecnologias. Brasília, 2000. THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
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    A ESTÉTICA DOOPACO: CORPOS, AUSÊNCIAS E POLÍTICAS VISUAIS NO BRASIL OITOCENTISTA Genaro Vilanova Miranda de Oliveira RESUMO: O presente texto aborda o processo de invenção do que hoje se co- nhece por “História do Brasil” durante o século XIX, assim como alguns meios pelos quais a mesma foi disseminada entre vasta população do novo país. Um destaque será dado aos trabalhos pioneiros de pintores da Academia Impe- rial de Belas Artes (AIBA) que, diretamente financiados pelo Império brasileiro, foram encarregados de eternizarem os episódios então entendidos como im- portantes para a formação do recém independente estado nacional. Especifi- camente, serão analisadas três obras canônicas de arte fundamentais para se entender o processo de invenção da história (visual) brasileira: “A Redenção de Cã”, Modesto Brocos (1895); “A Primeira Missa”, Victor Meirelles (1860) e “Inde- pendência ou Morte!”, Pedro Américo (1888). PALAVRAS-CHAVE: História do Brasil. Academia Imperial de Belas Artes. His- toriografia.
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    250 A ESTÉTICADO OPACO NA(RRA)ÇÃO Conquistada a independência política, o recém-fundado império brasi- leiro impôs a si a urgente tarefa de criar uma história nacional que o diferen- ciasse da antiga metrópole portuguesa. Fazer difundir uma versão oficial da “história brasileira”– com seu panteão de heróis locais e exemplos de resis- tência à tirania lusitana – serviria tanto para explicar o surgimento da nova nação, quanto para garantir sua perpetuidade. Afinal, as elites, então à frente do estado brasileiro, sabiam que a consolidação da independência brasileira dependerianãosódalealdadedesoldadosedahabilidadediplomatas,como também da força de signos; em especial no âmbito da pintura. É claro que os perímetros do novo país estariam mais seguros com armas e tratados. Mas, somenteopodercoesivodecidadãosplenamente“nacionalizados”poderiam garantirsuaestabilidadeterritorialepolítica.Somenteumapopulaçãoqueao genuinamentecrerterorigensemumpassadocomumestariadispostaatudo para defender seus laços nacionais de parentesco e de solidariedade1 . 1 Ainda hoje, a história é popularmente entendida como uma disciplina acadêmica/escolar ocu- pada em guardar datas e fatos memoráveis. No entanto, para além de sua inegável dimensão pedagógica e arquivística, conhecimentos históricos sempre desempenharam um papel político na organização de sociedades. Governantes sempre usaram narrativas sobre o passado tanto para justificar seus privilégios no presente como para garantir a união/lealdade/subserviência de seus governados. Exemplos que corroboram isso não faltam nos diversos cantos e épocas do mundo, desde os baixos relevos mesopotâmicos às esculturas de bronze do reino de Benin; das colunas de Trajano em Roma às biografias escritas em ouro dos imperadores Mugals na Índia. As histórias nacionais que surgem a partir do século XIX, tema desse capítulo, apresentam pelo menos três características específicas que as diferenciam do tipo de historiografia feita em períodos anteriores: 1- tratam-se de narrativas que surgem como um componente intrínseco e essencial de um inédito organismo político-social que surge nesse período e que permanece até hoje como o modelo de divisão demográfica-territorial no planeta: os estados-nação modernos; 2- Em sintonia com a retórica liberal-republicana que caracteriza os estados-nação modernos, as histórias nacionais enfatizam a homogeneidade e fraternidade entre cidadãos, baseada em traçosculturais,geográficosegenealógicoscomuns(nessesentido,ashistóriasnacionaissedife- rem dos relatos históricos de tipo monárquico ou religioso que as antecederam, cujas narrativas focavam nas hierarquias e diferenças entre grupos dominantes/dominados ou predestinados/ infiéis. 3- Influenciada pelos avanços da ciência moderna, trata-se do primeiro de tipo de histo- riografiaqueapelaaométodocientífico -nãoaautoridadededeuses,sábiosoumonarcas- para justificar a importância do conhecimento que a disciplina produz.
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    251Genaro Vilanova Mirandade Oliveira Partindo desse tema amplo, este capítulo discute o processo espe- cífico de invenção2 do que hoje se conhece por “História do Brasil” durante o século XIX, assim como alguns meios pelos quais a mesma foi disseminada entre sua vasta população. Um destaque especial será dado aos trabalhos pioneiros de artistas da Academia Imperial de Belas Artes que, diretamente financiados pelo Império brasileiro, foram encar- regados de eternizarem, em cores e formas, os episódios então entendi- dos como os mais importantes para a formação do recém independente estado nacional. Acerca desses destaques pictóricos, focaremos na dinâ- mica entre exposição e ocultamento étnico dos corpos de personagens da história brasileira. O tema, nesse sentido, destoará de grande parte das abordagens sobre História do Brasil. Ao invés do foco em fatos e/ou datas ditas “importantes” e “verdadeiras”, interessa aqui discutir como e porque certos“fatos”e“datas”se tornaram importantes e verdadeiros dentro da narrativa ortodoxa de história nacional criada pelo imaginário do século dezenove. Ou seja, discute-se aqui menos história e mais meta-histó- 2 O sentido do verbo“inventar”distancia-se aqui de idéias como“mentira”ou“falsidade”. Mais próximo à máxima de Manoel de Barros, para quem tudo que não se inventa é falso (BARROS, 2003). Falar da invenção da História do Brasil, assim, é poder relembrar, mas também saber criticar, o feito extraordinário de pessoas no século XIX terem conseguido escrever e pin- tar, praticamente sem obras de referência, em um período relativamente curto, às custas de arquivos dispersos e ao ritmo de bicos de penas, uma História nacional cujas idéias centrais ainda norteiam políticas culturais e educacionais nos dias de hoje. Invenção, como lembra Benedict Anderson (1989), não é um sinônimo de“contrafação”ou“falsidade”, e sim de“ima- ginação” e “criação”; invenção como um conceito que pode ajudar a entender fenômenos históricos não através do binômio falsidade/autenticidade e sim no estilo /forma em que são imaginados na prática e adquirem os efeitos de verdades de que falava Foucault. Invenção para fugir de essencialismos (o Brasil não é uma formação natural), de ideologismos (o Brasil não é uma mentira sustentada por grupos dominantes), de ideologismos essencialistas (o Brasil não é uma mentira que esconde a alma de um verdadeiro Brasil), de anacronismos (o Brasil, País, é uma formação social do século XIX), de atemporalismos (o Brasil nem sempre foi e nem sempre será), de imobilismos (o Brasil, como é próprio de qualquer Estado-nação, investe incessantemente em mecanismos que reafirmam sua“unidade”, sendo que a produ- ção de saberes sobre “História do Brasil” desempenha um papel privilegia-do e estratégico dentro desse processo).
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    252 A ESTÉTICADO OPACO ria. Esse debate é importante já que, até o momento, tanto meios aca- dêmicos como escolares ainda preferem ensinar o que supostamente seria uma “correta” História do Brasil a discutirem com alunos a história da História do Brasil. Investigar a forma como a narrativa que conhece- mos hoje por “História do Brasil” foi e continua sendo (re)criada como um conteúdo básico para tentar entender essa disciplina. Afinal, toda história é uma história contemporânea, já dizia o filósofo italiano Bene- detto Croce. Ou seja, toda história narrada é resultado de perguntas diri- gidas ao passado a partir de inquietações do tempo presente. Não se pode entender o que chamamos de “História do Brasil” sem antes entender as ambições, inquietações e dilemas dos homens do século XIX que construíram os pilares dessa narrativa. Vale lembrar que a atual geração de leitores tem demonstrado um grande interesse em diferentes formatos narrativos capazes de revelar os seus processos de criação/planejamento/execução, como muitas vezes acontece em meios audio-visuais. Não por acaso, foram as narrati- vas cinematográficas que ajudaram a popularizar um termo que traduz exemplarmente esse processo: making off. A História nacional brasileira, ao contrário, parece se esconder atrás de si mesma. Nomes como Fran- cisco Adolfo Varnhagen, Karl Von Martius e Capistrano de Abreu – para citar apenas três personalidades decisivas, visando entender a história do Brasil que se estuda ainda hoje – são praticamente desconhecidos do público não-especializado. Talvez esteja faltando um investimento mais contundente por parte de historiadores em mostrar o incrível “making off” – os bastidores do processo de feitura – da história brasi- leira. Sem pretensão, espaço ou tempo para de esgotar esse enorme tema, este capítulo ao menos apresentará momentos decisivos para melhor entendê-lo. Inevitavelmente, reflexões meta-históricas sobre a História do Bra- sil serão provocadoras – por isso mesmo, necessárias do ponto de vista pedagógico do presente texto – para quem ainda entende a história como uma mera “janela transparente” para o passado, não como um
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    253Genaro Vilanova Mirandade Oliveira campo discursivo de disputas em torno do poder/saber. Fazer essa reflexão genealógica da história da História do Brasil, no sentido niezt- cheano do termo, é também uma maneira de tentar desafiar a grande- -narrativa da história brasileira que se impôs como “verdadeira”, a qual se consolidou como interpretação hegemônica, descartando as tan- tas possíveis maneiras de se narrar a história nacional3 ; narrativa que tem como traço crucial o ocultamento da sua própria origem histórica (MAGNÓLI, 1997, p. 290-1). Ao longo deste texto, portanto, será mostrado como os pais4 fun- dadores da história nacional se dedicaram basicamente a responder duas perguntas estruturais, as quais ainda servem de eixo para a maioria das interpretações de História do Brasil: 1- como o estado brasileiro se formou e se mantém unido?; 2- como a nação brasileira se formou e se mantém unida? O debate gira em torno da complexidade de apresen- tar explicações para esse longo processo enquanto fator decisivo para adequá-las ao formato acessível e carismático da narrativa5 histórica, 3 Na maior parte da obras de história, a visualização didática dessa narrativa fundadora ficou consagrada por uma divisão quadripartite e homogeneizadora do espaço-tempo brasileiro: um período originário, indígena (também chamado de ameríndio, tupi-guarani ou pré-ca- bralino); um período fundador, colonial; um período emancipador, imperial; e um período contemporâneo, republicano. Essa forma de estudar os supostos quatro Brasis que se suce- dem durante cinco séculos, de Cabral até todo atual presidente, tornou-se uma maneira eficiente de enredar as dimensões temporais, espaciais e sócio-econômicas da História nacional.Tamanha é sua aceitação e presença, tanto em publicações acadêmicas quanto em materiais didáticos e/ou de entretenimento, que esse modelo interpretativo confunde-se comumente como uma verdade em si. 4 Na época, todos aqueles que foram formalmente encarregados de escrever ou pintar a histó- ria do Brasil eram homens, quase sempre euro-descendentes e abastados. Como resultado, até hoje grande parte da produção historiográfica nacional é marcada por um discurso de traços androcêntricos e“vistos de cima”(BURKE, 2000) 5 Apesar da palavra narrativa ser rotineiramente associada a vertentes“ficcionalistas”de his- toriadores, seu uso aqui não pretende indicar qualquer adesão apriorística ou oportuna, nem à “arte” nem à “ciência”. Ao definir a produção de discursos históricos dentro deum jogo de forças de saber/poder, em que critérios epistemológicos e estéticos inevitavel- mente confundem-se com brigas de departamento, normas de publicação, paradigmas vigentes, mercados editoriais, êxito em disciplinas, agências financiadoras, linhagens de orientadores e orientandos, não faz sentido perguntar se determinada produção historio-
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    254 A ESTÉTICADO OPACO recorrendo a artifícios retóricos de fácil e imediata aceitação: a perso- nificação do protagonista (o Brasil); a diferenciação dos aliados (“Nós”, o povo brasileiro); dos inimigos externos (principalmente, os holandeses e franceses, assim como os portugueses após 1822), dos inimigos inter- nos (particularmente indígenas e escravos não “pacificados”); a marca- ção do começo da narrativa (a vida tupi-guarani limítrofe ao chamado “Descobrimento”), de seu desenvolvimento (os períodos colonial e imperial), de seu fim (o presente republicano) e fins (“nossa”existência). APAGAR A COLÔNIA, PINTAR A NAÇÃO: ESTÉTICA E POLÍTICA NA CRIAÇÃO DA ACADEMIA IMPERIAL DE BELAS ARTES (AIBA) A dramática transmigração da Família Real Portuguesa em 1808 para o Brasil, fugindo das forças napoleônicas que invadiram a Penín- sula Ibérica, trouxe mudanças rápidas para a capital colonial no Rio de Janeiro. Além da tarefa urgente de encontrar alojamento adequado para a família real e sua comitiva de estimados 20 mil nobres e cor- tesãos, era também necessário tentar replicar nos trópicos o clima metropolitano da Lisboa de inícios do século XIX. Os ambiciosos proje- tos culturais, urbanos e paisagísticos iniciados por D. João VI incluíram a construção de bibliotecas, jardins botânicos, avenidas, universida- des, museus e outras instituições científicas, culturais e artísticas. Nor- gráfica é “boa” ou “ruim” apenas por suas inclinações científicas ou literárias. Essa dúvida, aliás, substitui-se por outras razoavelmente distintas: que tipo de“garantia”um historiador pretende agregar ao seu trabalho quando afirma que faz uma história com fundamentos científicos? (FOUCAULT, 1979) Que tipo de“mérito”ele almeja quando compara seu livro a um romance? Naturalmente, ao estender um tipo definição de História (um relato do que “realmente aconteceu”ou do que provavelmente deve ter acontecido) em direção a outra (um saber legitimado na dinâmica de um campo erudito) o conceito de narrativa histórica amplia-se automaticamente: de um conjunto de datas, sujeitos e períodos que “existiram” e que podem ser“representados”através da da investigação metódica e/ou da imaginação ficcional do pesquisador, para uma representação seletiva e competitiva do passado; per- manentemente reescrita para o consumo político, mercadológico, educacional e lúdico de cada época.
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    255Genaro Vilanova Mirandade Oliveira malmente espelhados em modelos franceses, esses projetos tinham a intenção de criar “a infra-estrutura cultural apropriada para o novo Estado-nação”, com o objetivo de “cultivar [nos trópicos] as lideranças e a iluminação necessária para [a criação de uma] civilização nacional e progresso nos mesmos moldes dos modelos aceitos do mundo con- temporâneo europeu”(NEEDELL, 1999, p. 3). Para os presentes objetivos, é respeitável notar que, entre as várias instituições criadas com a chegada da família real portuguesa, uma das mais importantes foi a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. Inaugu- rada em 1816, o êxito da Escola está intimamente ligado à chegada da chamada “Missão Artística Francesa” ao Rio de Janeiro. Essa expressão se refere a um grupo de artistas e artesãos normalmente desiludidos com os rumos da revolução francesa, que aceitaram o convite do Rei D. João VI para viver no Brasil, com o objetivo de dar início ao ensino de Artes e Ofícios na colônia, durante o período de exílio da corte no Rio de Janeiro. Mesmo que a existência formal da Missão Francesa tenha sido relativamente curta – sendo abalada inicialmente pelo retorno da família real em 1820, e posteriormente pela a independência do Brasil em 1822 –, seu legado foi decisivo para o tipo de produção artística e ensino de arte que caracterizou o Brasil durante grande parte do século dezenove. Após a independência, a experiência pioneira da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios serviria de base para o funcionamento da mais importante instituição dedicada ao fomento artístico durante o Império Brasileiro: a Academia Imperial de Belas Artes (AIBA). Ofi- cialmente fundada em 1826, a AIBA continuou e expandiu as obras da Escola, herdando as responsabilidades tanto de tentar refinar o paladar artístico como de prover os parâmetros de ensino de arte do país recém-independente. Aos diretores e professores da AIBA foi dada tarefa dupla de desenvolver talentos locais e assegurar que a formação artística brasileira acompanhasse o desenvolvimento e tendências das principais escolas europeias.
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    256 A ESTÉTICADO OPACO Estudar o desenvolvimento da Academia Imperial de Belas Artes (AIBA) é uma boa maneira de compreender a história do estado imperial brasileiro como um todo. Criada logo após a declaração de independên- cia – em um período em que o novo estado buscava mostrar que tam- bém pertencia ao seleto grupo de nações “civilizadas” – o fechamento da AIBA também coincidiu com a extinção do próprio Império no final do século dezenove devido ao crescimento do movimento republicano brasileiro (CASTRO, 2005). Enquanto a inauguração da AIBA acontecia nos turbulentos primeiros anos do governo D. Pedro I, a instituição ganhou prestígio e estabilidade apenas uma década mais tarde, justa- mente quando o imperador Pedro II iniciou seu relativo estável e longo reinado. Diferente do pai, Pedro II construiu uma autoimagem como monarca “esclarecido”, amante das artes e ciências. Não por acaso, tor- nou-se presidente honorário da AIBA, participando ativamente de suas atividades enquanto o maior mecenas da instituição (SCHWARCZ, 2006). Devido a sua estreita relação com a monarquia brasileira, a AIBA gozou praticamente do monopólio sobre produção e educação artísticas brasilei- ras durante a maior parte do século XIX. Como consequência, os critérios e valores artísticos adotados e validados dentro da instituição foram cruciais para legitimar o que deveria ser considerado “arte” ou quem mereceria o título de “artista” durante este período. O valor das obras de arte ou a progressão da carreira de artistas vinculados à instituição não eram medidos apenas de acordo com o talento ou dedicação pessoais. Acima de tudo, a qualidade artística era definida em relação ao que se conside- rava normas“universais”, especial às novas tendências vindas de Paris. Dando continuidade ao legado da Missão Artística francesa sobre a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, a AIBA buscou reproduzir em solo brasileiro o mesmo modelo administrativo e educacional seguido pela École des Beaux-Arts. Apenas em relação ao ensino da pin- tura, no entanto, os membros da AIBA ainda consideravam conven- ções italianas – especialmente a de mestres do Renascimento – como uma referência artística suprema (LEITE, 2009). Não foi à toa que, em
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    257Genaro Vilanova Mirandade Oliveira 1845, quando a AIBA começou a conceder bolsas de estudos aos seus alunos mais proeminentes, a maioria desses pintores aspirantes optou por viajar sequencialmente de Roma a Paris. Esse trajeto era conside- rado lógico e complementar: enquanto a cidade italiana ainda era vista como símbolo maior das conquistas históricas da arte europeia, a capital francesa tinha a fama de ser o centro das novas tendências artísticas. Desenvolver uma escola de Belas Artes no Brasil era uma tarefa vista como um pré-requisito para o país ser aceito no concerto de nações então vistas como“civilizadas”. Ao tentar entender a AIBA em seu contexto histórico, estudos recen- tes também vêm revelando que os objetivos da instituição nunca se res- tringiram apenas a replicar modelos franceses ou italianos. As primeiras décadas pós-independência foram marcadas por esforços simultâneos tanto para consolidar a estabilidade interna do País quanto para firmar seu reconhecimento internacional. A apropriação do repertório artístico estrangeiro era visto pelos membros da AIBA como uma maneira estra- tégica de representar temas nacionais dentro de um padrão então visto como “universal” e, ao mesmo tempo, posicionar a cultura brasileira em equivalência com a dos demais países da Europa. A AIBA desempenhou um papel semelhante ao de outras academias de arte criadas nas Amé- ricas, como San Carlos no México, em que a “produção e proteção das belas artes”servia como uma das poucas maneiras de um país demons- trar a sua“entrada no mundo moderno“ (WIDDIFIELD, 1996, p. 29). Para as elites dirigentes, o século dezenove foi marcado por um desa- fio: como criar um discurso de identidade nacional baseado na distância territorial e autonomia política diante da ex-metrópole portuguesa que, ao mesmo tempo, afirmasse laços de proximidade cultural-científica com o continente Europeu? Thomas Skidmore ironicamente lembra como membros da elite brasileira viviam em uma tensão entre “dois mundos”: enquanto a sua educação era“moldada por tradições culturais e humanís- ticas jesuíticas, inicialmente vindas de Portugal, modificadas durante o século XIX pela cultura francesa”, essa elite,“vivia no Brasil, e não Paris ou
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    258 A ESTÉTICADO OPACO Londres. Eça de Queirós ou Anatole France poderiam [...] visitar o Brasil, mas [...] certamente não eram do Brasil” (SKIDMORE, 1974, p.xxiii). Inter- preta-se esses “dois mundos” simplesmente como uma relação entre um modelo e uma cópia; como se a Europa continuasse a exportar os seus valores culturais para uma ex-colônia que, contradizendo sua nova condi- ção de“livre”, continuava a importar idéias fora do lugar (SCHWARZ, 1993). No entanto, como resultado do intenso – e quase sempre violento – processo de mistura sociocultural que marcou os períodos coloniais e pós-coloniais brasileiros há pelo menos 500 anos, é praticamente impossível definir limites convincentes entre o que seriam característi- cas nacionais “não adulteradas” em oposição aquelas “absolutamente” estrangeiras. Em vez da antiga busca por essências “imaculadas” e “não corrompidas” de arte nacional, estudiosos da cultura têm preferido explorar os processos de transculturação (ORTIZ, 1995) e hibridismo (CANCLINI, 1995) que caracterizam as obras de artistas não só no Brasil como nos demais países latino-americanos. Além do foco em expres- sões culturais, pesquisadores também têm investigado como popula- ções latino-americanos sempre fizeram uso seletivo/criativo/subversivo dos modelos europeus em outras esferas da sociedade, como a econo- mia, ciência e política. Mesmo quando as elites locais procuravam abertamente dar conti- nuidade aos legados europeus, conscientemente ou não, esses legados acabaram inevitavelmente sendo hibridizados ou reinventados em solo americano. Desde níveis macroscópicos da administração do estado até as sutilezas do ato diário de cozinhar6 , os historiadores têm acumulado 6 Para dois ensaios notáveis sobre estes dois respectivos temas, ver a análise de Lilia Moritz Schwarcz (1998) sobre como o rei Dom Pedro II se utilizou estético-politicamente de vesti- mentas com simbologias européias e tropicais para afirmar seu poder simultaneamente o primeiro monarca nascido em solo brasileiro e, ao mesmo tempo, como um membro genu- íno das casas Habsburgo e Bragança (2002); a magistral descrição de Evaldo Cabral de Mello sobre a tarefa de colonos portugueses que, na tentativa de criar uma Nova Lusitânia nos trópicos, tiveram que recriar a dieta tradicional Ibérica à base de trigo, queijos e vinhos adap- tando-a com o uso de produtos locais tais como a mandioca e cachaça.
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    259Genaro Vilanova Mirandade Oliveira evidências de como colonos e seus descendentes foram, ao mesmo tempo, replicantes e desviantes dos paradigmas europeus (JANCSÓ e PIMENTA, 2000). Como tal, a sociedade luso-brasileira seguiu um cami- nho análogo à maioria das sociedades latino-americanas do período pós-independência. Em todo o continente negociações culturais e polí- ticas foram marcadas pela eufórica afirmação da autonomia diante das ex-metrópoles Ibéricas. No entanto, apesar das frequentes críticas a Por- tugal e a Espanha, todas as novas nações independentes também foram enfáticas em declarar seus elos de proximidade com as tradições e cos- tumes vindos da Europa (COSTA, 2006, p. 208). Assim, semelhante aos demais da América Latina, o século deze- nove brasileiro foi marcado pelo ambivalente grito de soberania política em relação à península Ibérica e, ao mesmo tempo, pelo enaltecimento de consanguinidade cultural com a Europa. Politicamente, esse discurso cumpriu um objetivo duplo e estratégico: louvar a expulsão dos ex-co- lonos europeus e, simultaneamente, justificar os privilégios dos brasi- leiros euro-descendentes em relação aos povos de origens indígenas, mestiços e africanas. Ou seja, semelhante a países como o México, com sua população inegavelmente multiétnica e miscigenada, o Brasil tam- bém experimentou “a tensão de criar uma arte e identidade nacional” específica que, ao mesmo tempo, afirmasse sua “diferença em relação a Europa e sua semelhança com ela” (WIDDIFIELD, 1996, p. 5 ). Ébomlembrarqueissonãofoiumaparticularidadedoestado-nação brasileiro. Todos os estados nacionais que emergiram a partir do final do século XVIII precisaram, entre outras coisas, disseminar narrativas nacionais que convincentemente ilustrassem a unidade linguística, territorial, cultural e histórica de populações que, objetivamente, eram muito distintas entre si. Afinal, o processo de criação de estados-nações foi normalmente marcado pela subjugação de povos que tinham suas próprias línguas e filiações político-territoriais (plurinacionalidades). Esse processo de nacionalização de povos foi feita por persuasão e/ ou por força. Ou seja, ao contrário de interpretações românticas-te-
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    260 A ESTÉTICADO OPACO leológicas disseminadas posteriormente - e ainda bastante populares hoje em dia - o surgimento de Estados-nações modernos, não só nas Américas mas também na Europa, não foi um processo histórico “natu- ral”, predestinado ou linear. Ao contrário da antiga idéia de que Estados- -nações se originaram espontaneamente, em função de laços históricos e culturais tradicionais e pré-existentes, estudos históricos contempo- râneos enfatizam que o surgimento dos Estados-nação é um fenômeno relativamente recente. Sobre esse tema, em seu clássico-contemporâneo “Nação e cons- ciência nacional”, Benedict Anderson (1989) defende uma hipótese engenhosa: meios de comunicação no século XIX, como o romance e o jornal, provocaram mudanças culturais imprescindíveis para a forma- ção dos primeiros estados nacionais no século XIX. Segundo Ander- son, o capitalismo editorial (print capitalism) que se desenvolvia nesse período serviu tanto como um veículo de disseminação quanto como uma plataforma de estabilização de informações imprescindíveis para que populações dispersas territorialmente, pela primeira vez, pudes- sem se pensar simbolicamente como parte de um mesmo “organismo sociológico”: o estado-nação. Diferente do que chama de comunidade real, uma formação social cuja extensão geográfica e densidade populacional ainda permitiria que a maioria de seus membros reconhecessem-se (ao menos de vista), Anderson batiza os estados nacionais emergentes no século XIX de comunidades imaginadas: embora aglutinando milhões de pessoas que jamais se veriam/conheceriam, mesmo cobrindo áreas monumentais que a maioria jamais chegaria a visitar, os membros dessa comunidade não teriam dúvidas quanto aos seus laços de pertencimento e solidarie- dade perante a nação (nationness). Porém, a hipótese central de Anderson não pode ser diretamente aplicada ao contexto latino-americano a não ser que se considere as enormes diferenças entre os níveis de alfabetização e o estágio de desenvolvimento do capitalismo editorial (print capitalism) entre esse
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    261Genaro Vilanova Mirandade Oliveira continente e o europeu no século XIX. Tais como suas equivalentes latino-americanas, as elites que viviam no Brasil nesse período sabiam dessas diferenças e fizeram amplo uso de imagens, músicas, rituais cívi- cos, teatro e outras performances/produtos visuais e sonoros para popu- larizar discursos sobre a história brasileira7 . Na sequencia, mostraremos exemplos práticos de como artistas brasileiros inovaram ao copiar, por assim dizer, na medida em que se apropriaram das convenções estéticas europeias e, ao mesmo tempo, produziram uma arte indubitavelmente brasileira em relação aos temas representados. Dos muitos exemplos possíveis, será dado destaque às tentativas desses artistas em representar dois assuntos essenciais para explicar a“História do Brasil”: a criação do estado e a formação da nação brasileira. Apesar de parecem óbvios para o olhar plenamente “nacio- nalizado” de hoje em dia, conseguir representar o estado e a nação de maneira didática e persuasiva foram novidades intelectuais e artísticas do século dezenove. Para contribuir especificamente com esse debate sobre como o sentimento de “ser brasileiro” e “pertencer a uma mesma história nacio- nal” foi assimilado entre os grupos socioétnicos profundamente distin- tos e através de diferentes meios de comunicação, a seguir focaremos novamente no importante papel desempenhado pela AIBA nesse pro- cesso. Particularmente, isso será feito mediante as análises respectivas de três obras canônicas da história da arte brasileira:“A Redenção de Cã”, de Modesto Brocos (1895); “A Primeira Missa”, de Victor Meirelles (1860) e “Independência ou Morte!”, de Pedro Américo (1888) e Não obstante, buscaremos mostrar como essas pinturas editaram uma realidade ima- ginada por meio da estratégia de expor e ocultar os corpos dos persona- gens da história brasileira. 7 Para uma discussão sobre o uso de imagens no contexto de formação nacional na América Latina, ver: ANDERMANN and GONZÁLEZ-STEPHAN, 2006; GONZÁLEZSTEPHAN 2009; PUR- CELL, 2010).
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    262 A ESTÉTICADO OPACO A ORIGINALIDADE DAS CÓPIAS: PINTANDO A FORMAÇÃO DO ESTADO E A NAÇÃO NO BRASIL Talvez nenhuma pintura traduza de forma tão exemplar a expectativa que parte da elite brasileira da virada do século XIX depositava na gradual “europeização” da nação brasileira do que “A Redenção de Cã”,de Modesto Brocos. A obra, que à primeira vista parece um simples retrato de uma família interiorana em frente a uma humilde casa de pau-a-pique, permanece como um registro insuperável de como teorias raciais-evolutivas influenciaram não apenas obras de pintores, como também da maioria de demais artistas e intelectuais brasileiros do período. Apesar de já ter sido objeto de diversas interpretações anteriores8 , vale a pena revisitar o tema principal da pintura: a previsão – então respaldada por interpretações de teorias raciais científicas – de que as sucessivas gerações de brasileiros necessariamente passariam por um processo crescente de embranquecimento, o qual extinguiria quaisquer traços africanos e indígenas na população nacional. No centro do quadro (Figura 1), uma mãe de pele morena está sen- tada sobre um banco rústico de madeira. Na curva de seu braço esquerdo, ela carinhosamente acalenta um recém-nascido de pele alva. Mais do que sugerir conforto ou proteção materna, além de indicar o ponto exato de simetria e equilíbrio para os demais elementos da composição, o colo da mãe também serve uma importante função narrativa na pintura de Brocos: inclinar o corpo da criança (e o olhar do espectador) para a esquerda da imagem, onde uma mulher afrodescendente de idade avançada está posi- cionada.Seuspésdescalçossãoumsímbolodiscreto,poréminequívoco,de sua condição de escrava. Rezando com as mãos para o céu, a senhora idosa aparentemente não sabe que está sendo observada de perto por seu neto. Os olhos do bebê estão fixos sobre a avó. Parecem comparar sua pele 8 CARDOSO (2008), CHRISTO (2009), SCHLICHTA (2006), BITTENCOURT (2005) and SCHWARCZ (1993).
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    263Genaro Vilanova Mirandade Oliveira enrugada com a textura das roupas velhas que ela usa, ou os contrastes entre o lenço esbranquiçado que reveste a cabeça negra. No entanto, per- pendicularmente ao olhar, as orelhas do bebê estão sintonizadas numa direção bem diferente: ouvindo de perto as palavras murmuradas pela mãe. Didaticamente apontando o dedo indicador direito para a senhora negra (sua própria mãe), a jovem mãe mestiça parece resumir a moral da estória para seu filho recém-nascido: a possibilidade da parentesco entre uma criança branca e uma mulher negra. À direita do quadro, com os olhos no filho e com as mãos a curta distância da aliança na mão esquerda de sua esposa, um pai euro-descendente orgulhosamente aprova a cena. Figura 1 – Modesto Brocos.“A Redenção de Cã”. Óleo sobre tela, 1895. 199 × 166 cm. Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro. Fonte: CARDOSO, Rafael. A arte brasileira em 25 quadros [1790-1930]. Rio de Janeiro: Record, 2008. Apesar de Brocos ter claramente evitado adotar tendências artís- ticas em voga na sua época, como Impressionismo, Simbolismo e Esteticismo (CARDOSO, 2008), e apesar de seu quadro não apresen- tar inovações técnicas genuínas, “A Redenção de Cã” foi publicamente aclamada, sendo inclusive vencedora da medalha de ouro na Exposi- ção Geral de 1885. Ao tentar explicar as razões pelas quais esse quadro
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    264 A ESTÉTICADO OPACO – certamente bem pintado, embora medíocre – agradou tanto espe- cialistas quanto público em geral da época, a maioria dos historiado- res de arte têm olhado para além de seus componentes artísticos ou formais. De fato, para a maioria dos espectadores da época, os méritos da pintura de Brocos residiam principalmente nos seus apelos retó- ricos e semânticos. Especificamente, a genialidade de Brocos foi ter conseguido traduzir e solucionar, em uma única imagem, aquele que era então um dos mais atuais paradigmas científicos, o evolucionismo social, com a principal ansiedade dos homens à frente da nação, os dilemas da miscigenação racial. Devido à sua capacidade de expressar o que havia de “mais cientí- fico”no pensamento brasileiro da época, a pintura Brocos foi levada pelo então diretor Museu Nacional do Rio de Janeiro, o antropólogo João Batista de Lacerda, para o “Primeiro Congresso Universal de Raças” em Londres (1911), para ilustrar sua apresentação sobre o suposto embran- quecimento da nação brasileira (CARDOSO, 2008, p. 103). De acordo com Schwarcz, o trabalho apresentado por Lacerda no congresso incluía uma reprodução da pintura Brocos com a seguinte legenda: ““Le Nègre passantau blanc, à troisième génération, par l’effet du croisement des races [O negro tornando-se branco, na terceira geração, por causa da mistura de raças]” (SCHWARCZ, 1993, p. 13). O eminente antropólogo brasileiro estava absolutamente convencido da aplicação local de teorias eugêni- cas vigentes, as quais previam que as suposta superioridade das “taxas de fertilidade “ de brancos, somado à dominância dos “genes brancos” e às elevadas taxas de casamento interraciais brasileiros, acabariam por branquear a população. Lacerda previu que, até 2012, a população bra- sileira seria 80% branca, 3 % mestiça, 17 % indígena e que não haveria mais negros (TELLES, 2004, p. 29). Porém, vale ressaltar que, a longo prazo, a recepção de teorias raciais no Brasil não foi um processo passivo de importação de ideias, mas sim uma operação intelectual seletiva e criativa. Ou seja, o pensamento bra- sileiro eventualmente passou a incorporar apenas aquilo que desejava e
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    265Genaro Vilanova Mirandade Oliveira também a ignorar aquilo que não era conveniente ao contexto local (SCH- WARCZ, 1998, p. 23). Contrariando previsões essencialmente determinis- tas/pessimistas de que as populações mestiças tendiam necessariamente à degeneração social e ao subdesenvolvimento econômico, intelectuais como Silvio Romero, a partir de 1870, propuseram outra possível alter- nativa para a mistura racial no Brasil: o branqueamento progressivo da população por via da mistura interracial. O historiador Thomas Skidmore documenta como Romero, apesar de suas notórias contradições intelec- tuais e mudanças arbitrárias, declarou publicamente suas opiniões sobre a tendência ao“embranquecimento”na sociedade brasileira: a minha tese, pois, é que a vitória definitiva na luta pela vida e pela civilização, entre nós pertencerá no futuro, ao branco (…) pela seleção natural, todavia, depois de apoderado do auxílio de que necessita, o tipo branco irá tomando a preponderância, até mostrar-se puro e belo como no velho mundo (…)(ROMERO, apud SKIDMORE, 1974, pp 36-7). Assim, diferente do pessimismo e determinismo de teóricos europeus, a adaptação das teorias raciais no Brasil feita por intelectuais locais como Romero resultou em uma interpretação“otimista”e“redentora”da nação: a raça primitiva [indígena] e selvagem está condenada a um irre- mediável desaparecimento. Dos dois povos inovadores, o negro resistirá ainda por muito tempo. Ir-se-á modificando no mestiço, e ajudando, destarte, a formação do futuro branco brasileiro, que acabará por triunfar de todo”(ROMERO, 1888, p. 232). Mais do que um simples retrato de família, a obra de Brocos é uma sofisticada alegoria da chamada teoria de branqueamento pre- dita por Romero e outros pensadores brasileiros da época. Para ter certeza de que sua alusão ao branqueamento da sociedade brasileira seria visto como o tema central e inequívoco de sua pintura, Brocos
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    266 A ESTÉTICADO OPACO cuidadosamente deu-lhe o título da maldição bíblica de um dos filhos de Noé (CARDOSO, 2008). A fábula religiosa sobre o castigo imposto a Canaã e seus filhos de serem “servos” dos descendentes de seus tios Sem e Jafé, porque seu pai Cã tinha visto“a nudez”do seu avô Noé, era amplamente conhecida por população de maioria católica brasileira. Em sociedades cristãs, escravocratas e racistas, tais como Brasil e EUA do século XIX (JOHNSON, 2004), esta estória bíblica era comummente evocada como explicação “divina” para justificar a supremacia branca e a predestinação dos negros à servidão, uma vez que os primeiros supostamente descendiam de Sem e Jafé, enquanto os últimos eram descendentes diretos de Cam (SLENES, 1996, p. 294). A pintura de Brocos habilmente conseguia resumir, simultanea- mente, tanto a opinião de intelectuais que previam que o determinismo biológico poderia ser superado por matrimônios multirraciais como as crenças populares de que só a benevolência de Deus poderia remediar os pecados humanos. Em“A Redenção de Cã”, através do uso engenhoso de gradientes de cores, o pintor consegue simultaneamente conectar e distanciar as três gerações da família: a partir do pigmento preto inequí- voco usado para representar a avó, aos tons marrons usados para recor- dar as ambiguidades sociais e fenotípicas vividas por mulatos como a jovem mãe; ao patriarca euro-descendente pintado com tintas mais cla- ras; até a escolha de uma tonalidade imaculada da pele para salientar a condição“redentora”da criança. Voltando ao tema central desta reflexão, mais do que teorias raciais ou lendas bíblicas, é importante notar como a obra de Brocos também familiarizava os seus espectadores com uma interpretação de história brasileira específica, baseada na representação de seus dois temas chaves mencionados anteriormente: o nação e do estado. De fato, é possível argumentar que a alegoria de Brocos é, antes de tudo, uma didática representação temporal-espacial sobre a mudança entre o Brasil “antigo” e o seu “futuro”. Na obra de Brocos, a representação da linha do tempo nacional é ordenada pela relação ambivalente de
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    267Genaro Vilanova Mirandade Oliveira proximidade e afastamento entre as 3 distintas gerações de brasileiros (senhora, casal, criança), os quais representam respectivamente pas- sado, presente e futuro tanto do povo como do território nacional. A cuidadosa encenação dos elementos da obra, da esquerda para direita, cria uma metáfora cronológica sutil que conecta e separa o “velho”e o “novo”Brasil. Os símbolos que representam passado, à esquerda, são refor- çados não apenas pela idade avançada da mulher afrodescendente, mas também pelo chão de terra batida onde seus pés descalços e calejados pisam. Ela é também a única pessoa no quadro que não tem contato com quaisquer símbolos de urbanidade-modernidade: o chão calçado, sapatos, o móvel de madeira e, mais importante, o acesso à casa cuja entrada está marcada pelo homem branco sepa- rando o espaço (rural-rústico) habitado pela senhora e o território (urbano-moderno) da casa, existem vários obstáculos: um sólido muro de barro, o corpo da mãe protetora segurando seu bebê e o do pai vigilante, cujas as pernas cruzadas, mãos entrelaçadas e interdi- tam a entrada da porta. Uma palmeira – símbolo do Brasil primitivo, selvagem e indomável – é o único objeto estrategicamente posicionado perto da avó. Anexada à «natureza» originária, como se pertencesse a mesma, a idosa reencena tanto o lugar de fundo quanto o tempo pretérito reservado a povos indígenas e afrodescendentes na cultural visual do período; povos não-euro- peus, privados de subjetividade estética e agência histórica, eram usualmente representados como parte da remota paisagem (quase sempre como meros detalhes, ou em posição de servitude) nas belas artes do século XIX no Brasil (SCHWARCZ, 2006). Para refinar sua alegoria sobre a passagem do tempo nacional, Brocos também faz sutis – porém, inequívocas – correlações entre os tecidos/roupas usados pelos personagens e a formação do esta- do-nação brasileiro. Para reforçar tanto a senilidade quanto condi- ção racial da avó, o pintor veste-a com uma blusa preta e rota. Sua
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    268 A ESTÉTICADO OPACO filha mestiça, por sua vez, usa uma blusa mais refinada e com tons mais claros. Não por acaso, apesar de também usar uma saia rosa (para reforçar visualmente o parentesco com sua mãe negra), a filha mestiça veste uma saia rosa, mas com um importante diferença: seu tecido é revestido de detalhes brancos. Trata-se de uma irônica refe- rência à condição racial ambígua e em transição do mestiço: branco, mas não tanto (white, but not quite). O pai, aludindo à sua origem Ibé- rica e seu papel de agente “civilizador”, usa roupas novas, alinhadas e de tons de beije mediterrâneos. Brocos pinta as roupas do recém-nascido com o tom de tinta mais alvo encontrado em todo o quadro. A criança – sendo justamente a ter- ceira geração que as teorias raciais previam estar finalmente“purificada” dos sangues indígenas/africanos – está representada de forma imacu- lada e “branqueada” pelo tempo. Segurando uma laranja, fruto icono- graficamente associado a redenção e pureza cristãs (FERGUSON, 1961, p 35.), a criança representa a semente do futuro nacional; agora viável ao ser purificado dos pecados de origem oriundos da mistura étnica do processo colonial. Finalmente, não se pode esquecer que dentro da casa (o estado – moderno-urbano – em formação) repousam três peças de roupas recém-lavadas, secando à sombra no varal. Na extrema direita, as cal- ças evidentemente pertencem ao pai que também está localizado no lado direito do quadro. Assim como a esposa está sentada logo à esquerda do marido, o tecido branco à esquerda da calça (semelhante a uma saia) muito provavelmente pertence a jovem mãe mestiça. O ter- ceiro pedaço de tecido, visivelmente menor do que os outros, só pode pertencer ao recém-nascido. Ao posicionar apenas essas três roupas “limpas” dentro da casa/estado, a mensagem de Brocos é clara: já não há espaço para avó negra (corpo africano impuro) no futuro nacional. Nesse sentido, os gestos dos personagens também desempenham um papel fundamental para arrematar a alegoria da formação da nação embranquecida.
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    269Genaro Vilanova Mirandade Oliveira Sozinha na terra descampada e campestre, a senhora negra ergue os braços misericordiosamente agradecendo a Deus; sinalizando sua satisfação em ver a boa fortuna de sua família, assim como uma acei- tação de que ela já fez tudo o que pôde pela família (nacional) e está pronta para partir. Seu neto parece perceber que, embora fisicamente próxima, a avó pertence a um tempo distante, que está desaparecendo. Com a mão direita levantada, o gesto do bebê é profundamente ambí- guo: é um sinal óbvio de bênção e reconhecimento de seu parentesco com a senhora, mas é também um gesto de despedida (BITTENCOURT, 2005). Tal como outros corpos indígenas e africanos, a função da avó na narrativa histórica é sacrificial: ela viveu e trabalhou para morrer; sua contribuição para a nação é reconhecida mas condicionada a existir ape- nas no passado nacional. O FUNDAMENTO: PINTANDO A ORIGEM DO ESTADO E DA NAÇÃO BRASILEIROS O tema da mistura entre etnias, simbologias cristãs e alegorias sobre a formação da nação também fazem parte de um quadro ainda mais famoso da história da arte brasileira: A “Primeira Missa no Bra- sil”, de Victor Meirelles (Figura 2). Dos inúmeros escritos dedicados a esse famoso quadro, talvez ao trabalho de interpretação mais influente continue sendo o do historiador de arte Jorge Coli. Rigoroso e erudito, seu ensaio “Invenção da Descoberta” tornou-se um ponto de partida obrigatório para quaisquer outras análises da obra de Meirelles. Nele, Coli argumenta convincentemente como o jovem Meirelles espelhou- -se na metodologia de pesquisa dos historiadores profissionais da época para garantir que sua pintura fosse vista como um relato fiel e verdadeiro da história brasileira. Tratava-se de um procedimento comum aos pintores de quadros históricos da época. A pintura de história, aliás, era considerada um ofício reservado para apenas poucos artistas de talentos privilegiados.
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    270 A ESTÉTICADO OPACO Considerada a modalidade mais difícil das belas artes, pois exi- gia do pintor a habilidade de pintar conjuntamente todas as outras (natureza morta, paisagem, animais, retrato humano; conectando-os em uma narrativa/ação verosímil), somente alguns pintores recebiam o treinamento e o status para poderem pintar quadros históricos. Além de todas as provações técnicas, pintores de história no século XIX tam- bém precisavam mostrar capacidade de cumprir com as etapas de pesquisa semelhantes àquelas exigidas aos historiadores profissionais. Isso muitas vezes implicava em viajar para estudar in loco as paisagens retratadas, fazer a leitura de livros especializados, consultar arquivos públicos e privados, entrevistar testemunhas oculares do evento e interpretar fontes primárias e secundárias No caso específico de Meirelles, Jorge Coli sustenta que o pintor, para agregar valor e credibilidade à “Primeira Missa”, fez uso e citações diretas a uma fonte primária específica: a Carta de Caminha. No ensaio, através de comparações textuais e visuais, assim como a referências às trocas de correspondências entre o jovem pintor e seus professores da AIBA, Coli mostra que Meirelles utilizou estrategicamente trechos da Carta para conferir realismo a sua obra9 ; para convencer seus espectado- res da época de que se tratava de uma inquestionável imagem“o Brasil o instante de seu nascimento”(COLI, 2005, p. 30.). 9 No mesmo ensaio, Coli mostra como o jovem pintor brasileiro também recorreu a outro tipo de retórica visual para dar credibilidade ao seu quadro: a citação obras de pintores consagrados. Tratava-se de um procedimento comum aos pintores da época, que direta- mente se espelhavam na obra de artistas consagrados para mostrar erudição artística e domínio técnico e temático . No caso específico de Meirelles, Jorge Coli mostra como ele se inspira no famoso pintor acadêmico francês, especificamente no seu quadro Première Messe en Kabylie.
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    271Genaro Vilanova Mirandade Oliveira Figura 2 –“Primeira Missa no Brasil”,Victor Meirelles, 1860. Óleo sobre tela, 268 x 356 cm. Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) Fonte: CARDOSO, Rafael. A arte brasileira em 25 quadros [1790-1930]. Rio de Janeiro: Record, 2008. Apesar da menção à metodologia de historiadores que servia de modeloparaotrabalhodeartistasdaépoca,alémdelembrarainfluência do movimento romântico e as referências cristãs de Meirelles, o ensaio de Coli é assumidamente centrado na invenção do episódio pontual da “Descoberta”. Seu ensaio acaba perdendo de vista o quanto a obra ser- viu para ajudar a consolidar uma estrutura de interpretar a História do Brasil, inventando sentido e causalidade entre os vários séculos desde a colonização até o período pós-independência. Muito além de uma hábil reconstrução da chamada “certidão de nascimento” da nacionalidade Brasileira, a obra de Meirelles se tornou paradigmática ao popularizar elementos básicos de como gerações de brasileiros passariam a inter- pretar temas-chave da formação do estado e da nação: desde a visão “edênica” e teleológica da colonização portuguesa, à suposta receptivi- dade e proto-cristandade indígena diante dos colonizadores, até a ideia da imediata“cordial-harmoniosa”mistura entre europeus e indígenas. Porém, talvez o mais duradouro, desses elementos interpretativos, presente na obra de Meirelles seja o que denominamos de estado-nacio- nalismo: a tendência de se reduzir múltiplas histórias ocorridas em ter- ritórios plurinacionais e autogovernados – os quais apenas futuramente
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    272 A ESTÉTICADO OPACO seriam“do Brasil”– à história específica do estado nacional brasileiro.Tra- ta-se de um recorrente anacronismo histórico, inicialmente criado pela imaginação historiográfica do século XIX, que se mantém como eixo de narrativas de história do Brasil até hoje, tanto em meios acadêmicos e escolares, quanto em indústrias culturais e de entretenimento. É mais fácil entender o conceito de estado-nacionalismo relembrando a ironia do historiador Luiz Felipe de Alencastro que, em certa palestra, informal- mente, afirmou que a tendência dos historiadores em projetar a história brasileira para períodos pré-nacionais era tamanha que, muitas vezes, até mesmo“dinossauros eram considerados brasileiros da gema”!10 Desde o século XIX, interpretações estado-nacionalistas da história se baseiam no uso corrente e irrefletido do substantivo “Brasil” e de seu adjetivo“brasileiro”. Estes sempre aparecem já nas primeiras páginas de livros, ou no primeiro dia de aula, quando se alude aos supostos “pri- meiros” habitantes “do Brasil”, os índios. A partir daí, as palavras “Brasil” e“brasileiro”são usualmente utilizadas para organizar todos os grandes marcos da história dita “nacional” contada por livros didáticos e profes- sores: desde a chegada dos portugueses “no Brasil”, ao inicio da coloni- zação “brasileira”, ao tráfico de escravos para “o Brasil”, a expansão das fronteiras do “Brasil”, a expulsão dos holandeses das terras “brasileiras”, as revoltas anticoloniais “no Brasil”, a transmigração da família real ao “Brasil”etc. Visões estado-nacionalistas da história baseiam-se nesse uso indis- tinto das palavras“Brasil”e“brasileiro”para se referir a períodos/popula- ções/acontecimentos pertencentes a um tempo/espaço heterogêneo e plurinacional completamente alheio às ideias de nação ou estado “bra- sileiro”; que, objetivamente, somente ao longo do século XIX, após um extenso e conflituoso processo bélico, pedagógico e diplomático, passa a ser o estado nacional brasileiro tal qual conhecemos hoje. Mais uma 10 Palestra realizada no 5º Congresso de História da Bahia, em 2001, organizada pelo Instituto Histórico Geográfico da Bahia (IHGB).
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    273Genaro Vilanova Mirandade Oliveira vez, é preciso insistir na poderosa invenção identitária e genealógica resumida por esse conceito. Estado-nacionalismo está na base na comu- nidade imaginada brasileira. Desde os primeiros manuais oitocentistas até os lançamentos que abarrotam prateleiras de shoppings centers hoje em dia, o estado-nacionalismo presente nas narrativas de História do Brasil tem celebrado vínculos diretos entre acontecimentos e persona- gens dispersos no tempo e no espaço; promovendo assim a aceitação de relações de parentesco nacional deveras abstratas entre, por exemplo, a escrita de PeroVaz de Caminha no século XVI, sermões do Padre Antônio Vieira, a degola de Tiradentes, o amor de Lampião e Maria Bonita, você e o autor deste texto. Além de ser uma tradução visual dos escritos de Caminha, uma pin- tura de história que se inspirou em modelos de pesquisa de historiadores profissionais do século XIX, e uma interpretação edênica e cristã da cha- mada “Descoberta” do Brasil, a obra de Meirelles pode ser interpretada, acima de tudo, como uma obra fundadora do olhar estado-nacionalista com a qual se interpreta a história dita“do Brasil”. O título em si é indica- tivo. Mesmo que Pindorama tenha sido o lar imemorial de milhares de nações indígenas autônomas, na obra do pintor oitocentista, a missa já acontece “no Brasil” tão logo os demiúrgicos corpos lusitanos pisaram- -lhe o solo. Fazendo uma interpretação estado-nacionalista das palavras de Caminha, Meirelles retrata os indígenas e portugueses como se os mesmos estivessem selando um pacto de formação da futura nação brasileira. E, assim, através da lente estado-nacionalista, o paradoxo se resolve: como pode ter sido ao redor de 1500 o começo da História do Brasil se ao redor de 1500 o Brasil não começou? Cabral nada mais fez do que oficializar a posse de um novo territó- rio para o império português. Não pensava em começar qualquer“povo brasileiro”. Estaria provavelmente horrorizado, aliás, se soubesse que seu nome está ligado à fundação de um país em que todos os adultos têm o direito de voto, inclusive mulheres, índios e negros! Caminha tampouco escreveu sobre índios brasileiros. Apenas descreveu uma das milhares
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    274 A ESTÉTICADO OPACO de diferentes nações tupi-guarani que existiam no território de Abya- -Yala antes das chegadas dos europeus. No entanto, na obra de Mei- relles, do séc. XIX, os indígenas são retratados como se estivessem há séculos esperando a chegada da palavra de Deus e do caminho para o progresso civilizatório-nacional. Providência e teleologia tingem o qua- dro, tornando-lhes proto-cristãos-brasileiros. Meirelles, como se sabe, fazia parte de uma geração de intelectuais e artistas românticos. No Brasil, na ausência de um imaginário sobre um passado repleto de pomposos castelos ou nobres medievais, o roman- tismo local recorreu à nobreza dos “bons” tupis (em oposição aos “sel- vagens” tapuias) e a monumentalidade da natureza tropical. Mas, em sintonia com as demais nações euro-americanas oitocentistas, o roman- tismo à brasileira também ignorou qualquer anacronismo e incorporou/ deglutiu territórios e povos pré-nacionais em suas narrativas nacionalis- tas. Obstinado em enxergar no passado as sementes da alma nacional oitocentista, românticos contaram uma estória do fim para o começo, depositando entre aldeões tupinambás e súditos do império lusitano do século XVI um nacionalismo brasileiro que só surgiria, aos poucos, a par- tir do século XIX. O romantismo à brasileira consagrou simbolicamente uma “alma” do Brasil onde só existia um Império português que avan- çava seu ímpeto territorialista sobre aldeias tupis-guaranis. Assim como as pinturas produzidas na AIBA, a literatura feita do período é repre- sentativa desse tipo de narrativa histórica; os livros de José de Alencar sendo paradigmáticos. Mas, o anacronismo de Meirelles e demais intelectuais do período não era mera ingenuidade epistemológica, mas uma estratégia política. É preciso lembrar que a “Primeira Missa” foi produzido apenas poucas décadas após a independência. Foram anos turbulentos em que o poder central baseado no Rio de Janeiro enfrentou diversas revoltas regionais, inclusive movimentos separatistas como a proclamação da Confedera- ção do Equador, no Nordeste, e das Repúblicas Juliana e Rio-grandense, no Sul. Além disso, as inúmeras revoltas escravas e resistências de gru-
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    275Genaro Vilanova Mirandade Oliveira pos indígenas frente ao processo colonizador mantinham o território dito “brasileiro” como um campo de lutas instável e belicoso. Não se pode menosprezar que, como todo recém-independente estado nacio- nal, apesar de acordos internacionais, os líderes à frente do estado bra- sileiro também sentiam-se vulneráveis a possíveis invasões de outros países. Afinal, assim como os Portugueses haviam unilateralmente deci- dido tomar posse as terras indígenas; franceses, holandeses, espanhóis e ingleses já haviam demonstrado interesses materiais e geopolíticos pelo litoral sul-americano anteriormente e poderiam renová-los. Em um contexto de enorme turbulência e ansiedade quanto a viabi- lidade do futuro nacional, a interpretação histórica serena e harmônica traduzida através dos pincéis de Meirelles era uma ficção consoladora, mas que também carregava uma clara mensagem política. Especifica- mente, o quadro de Meirelles enfatizava um subtexto essencial que a elite brasileira, descendente (acreditando descender) dos invasores europeus, precisava repetir para si mesma: sua legitimidade como guar- diã dos perímetros e destinos nacionais. Apenas poucas décadas antes de Meirelles, sob o argumento de serem os genuínos representantes da terra, patriotas brasileiros haviam expulso os lusitanos “invasores”. A construção dessa dicotomia entre “nacionais” e “estrangeiros” está implícita no quadro de Meirelles: ao contrário dos portugueses exóge- nos, os brasileiros verdadeiros, além de origens ibéricas, descendiam também dos nobres endógenos tupis. Assim, somente aos brasileiros (frutos da mistura) poderia pertencer a terra que anteriormente era de tupis-guaranis. Essa sutil diferença está santificada na “certidão de nascimento” da Primeira Missa. Mais uma vez, corpos indígenas ocupam um caráter sacri- ficial na obra. Pertencem apenas e exclusivamente ao passado. São os nobres tupis-guaranis de outrora idealizados pelo romantismo à brasileira (não os“tapuias”do presente, que continuavam a defender seus territórios tradicionais contra o avanço do Império, no momento em que Meirelles pintava). Apesar de musculosos e joviais, pintados ao modelo de estátuas
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    276 A ESTÉTICADO OPACO renascentistas, suas ações são dóceis e resignadas. Tal qual a avó negra de Brocos, os indígenas pertencem ao começo da narrativa, apenas à“des- coberta”e não aos seus desdobramentos. Obviamente, assim como a avó escrava, antes de sucumbirem à passagem do tempo nacional, os nobres tupi-guaranis também abençoariam às futuras gerações de brasileiros dando-lhes posse do território onde se ergueria o futuro estado e o paren- tesco distante que lhes garantiria a legitimidade nacional. Tal como no quadro de Brocos, existe na “Primeira Missa...” uma espé- cie de transição do tempo nacional organizada da esquerda para direita. Multidões de corpos indígenas, habitantes da interior do Brasil originário, virgem e selvagem, descem às pressas para saudar os agentes civilizadores. O movimento de corpos que organiza/equilibra todo quadro começa do canto esquerdo no alto do quadro, onde se encontram minúsculos corpos de índios saindo da floresta (passado) descendo para a praia onde está o altar construído/desmatado (presente) dos portugueses. Apesar dos olhares afoitos e mãos para cima, o movimento dos corpos indígenas é ordenado e constante. Da esquerda em cima, descem em fila e em lenta curva para a direita;organizando-seconcentricamenteaoredordaautoridadedacruz,de Cabral, Frei Henrique de Coimbra e demais fidalgos.Vejamos a Figura 3. Figura 3 –“Primeira Missa no Brasil”. Fonte: Google Imagens (manipulada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6)
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    277Genaro Vilanova Mirandade Oliveira Aproveitando a condição oferecida pela própria dimensão física do quadro (2,68 x 3,56 metros), projetando ser visto em exposições de arte e em museus, Meirelles consegue construir uma espécie de anfiteatro visual – virtual – da nação, que acolhe não apenas as levas de indíge- nas que descem da esquerda, mas também todo espectador que se aproxima para ver o quadro e acrescenta o seu próprio corpo aos dos indígenas posicionados na elipse concêntrica mais ampla. Mais do que agradar críticos de arte, Meirelles queria induzir plateias a se sentirem testemunhas oculares do evento histórico. Da esquerda para direita, em movimento espiral, com corpos ordenados em elipses concêntricas, dá-se a passagem do tempo nacional: da barbárie à civilização, da mata escura à luz da civilização cristã, dos corpos escuros indígenas à imacu- lada veste/pele do sacerdote europeu; das trevas à luz. A RE-ATUALIZAÇÃO DO SACRIFÍCIO DOS CORPOS: CONSAGRAÇÃO DA ORIGEM E DA PASSAGEM Apenas outra pintura de história produzida por um brasileiro riva- liza a “Primeira Missa no Brasil” em popularidade e importância: “Inde- pendência ou Morte!”, de Pedro Américo (Figura 4). Como Meirelles, Américo foi um aluno prodígio da AIBA, que também obteve uma bolsa do Império para estudar durante longos períodos na Europa, retornando para o Rio para se tornar professor da instituição. Sua obra prima é também um dos quadros mais estudados da história da arte no Brasil. Com efeito, para finalizar as análises iconográficas deste texto, as próximas páginas serão dedicadas a uma sucinta discussão do quadro “Independência ou Morte!”. Mais uma vez, apesar de fazer menção ao importante trabalho de outros intérpretes dessa obra, será demonstrado como a maioria das leituras do quadro de Américo falham ao não considerarem a centralidade dos dois temas chaves do período pós-independência, que não poderiam deixar de ser abordados pelo pintor: estado e nação.
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    278 A ESTÉTICADO OPACO Dois livros dedicados à vida e obra de Pedro Américo continuam referências indispensáveis para se entender“Independência ou Morte!”: “Pedro Américo e o olhar oitocentista”, de Liana Rosemberg, e“O Brado do Ipiranga”, de ClaudiaValladão de Mattos e Cecilia H. S. Oliveira. Análo- gos à análise de Jorge Coli sobre Meirelles, ambos os livros também demonstram como Pedro Américo se vale da metodologia de pesquisa de historiadores para dar credibilidade à sua composição. Américo pes- quisou fontes primárias e secundárias, leu relatos de testemunhas ocu- lares do famoso“grito”, visitou arquivos públicos e privados para estudar objetos, mapas e uniformes militares, além de entrevistar pessoas que eram crianças no ano de 1822, mas que tinham parentesco e memó- rias de pessoas que diretamente participaram do evento (ROSEMBERG, 2002). Para além dos esforços de pesquisas antes de pintar, Américo tam- bém se deu ao trabalho de escrever – à moda de historiadores da época – uma dissertação de 15 páginas relatando as etapas metodológicas e as justificativas históricas para compor seu quadro (MATTOS et al, 1999). Apesar dos cuidados de Américo com a plausibilidade de seu relato visual, é ainda muito comum ouvir críticas às idealizações e impreci- sões presentes em seu quadro. Por exemplo, são frequentes as ironias de que o então príncipe português jamais poderia viajar pelo interior rural montado em um garboso cavalo branco trajando roupas de gala, pois certamente estaria numa modesta mula, usando roupas castigadas pela sujeira da estrada e mais simples, ainda mais levando em conta que Pedro viajava sofrendo de um conhecido problema intestinal11 . Na verdade, antecipando-se a críticas, o próprio Pedro Américo toca nes- ses assuntos em sua dissertação, mas argumenta que retratar os mes- mos contrariaria os objetivos edificantes das pinturas históricas e, por isso mesmo, não mereciam ser contemplados pela posteridade (MELO, 1888, p. 20). É preciso lembrar que, durante a maior parte do século 11 Outra inexatidão histórica muito comentada é o anacronismo Américo em representar os dragões da independência acompanhando D Pedro, uma vez que essa guarda imperial seria criada apenas depois da independência.
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    279Genaro Vilanova Mirandade Oliveira XIX, as noções cicerianas da história enquanto mestra da vida (historia est magistra vitae), como um conjunto de exemplos do passado que tinham valor moral-educativo para o presente, ainda prevalecia. Na obra de Américo, apesar da forte influência dos modelos da chamada histo- riografia profissional/científica que se estabelece no período, o peso da moral clássica mantinha sua autoridade. De qualquer forma, era natural que a figura de D. Pedro I, alçado à condição de herói da independência pela historiografia oficial, fosse também a mais discutida no quadro de Américo. Claramente, Amé- rico teve essa intenção quando o posicionou centralmente no terreno mais alto da paisagem, com um gesto inequivocamente de comando, atraindo o olhar e lealdade de todos os outros personagens do quadro. Apesar da monumentalidade do quadro, do aparente conjunto desorga- nizado de dezenas de corpos, vegetação e outros detalhes, a composi- ção de Américo conduz o olhar de qualquer espectador imediatamente para a figura de Pedro I. Trata-se do único corpo estático no meio do turbilhão de movimentos. O futuro imperador se impõe como uma está- tua equestre, sólida e eterna, em meio à multidão de admiradores. Como na obra de Meirelles, Américo também constrói sua narrativa visual em torno de uma estrutura elíptica que conecta todos os personagens. Ao invés da cruz, a espada de Pedro é que se ergue para o céu, equilibrando o evento histórico. Para além de quaisquer inexatidões historiográficas da obra, análises mais sofisticadas tem focado no tema da autoridade imperial que marca o quadro. Mattos et al. (1999) discute como Américo usou estrategicamente uma tradição de pintura bonapartista para sublinhar a legitimidade do poder imperador brasileiro. Antes da revolução francesa, monarcas euro- peus reinavam absolutos. Retratos de membros de casas reais europeias quase sempre mostram reis e nobres pousando no conforto de seus aposentos, placidamente gozando da vida da corte. Até então, afinal, seus poderes eram indiscutíveis. Gozavam sem culpa de seus privilégios genealógicos, os quais advinham, pressupunha-se, da graça divina.
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    280 A ESTÉTICADO OPACO Figura 4 –“Independência ou Morte!”, de Pedro Américo. 1888. Óleo sobre tela, 415 x 776 cm. São Paulo, Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP). Fonte: ROSEMBERG, Liana Ruth B. Pedro Américo e o olhar oitocentista. Rio de. Janeiro: Barros Edições, 2002. A subida de Napoleão Bonaparte muda não apenas as relações de poder na Europa, mas também como as formas de representar o poder artisticamente. Sendo um militar desprovido de sangue azul ou bênção divina, Napoleão foi o primeiro imperador europeu que precisou mos- trar que merecia sentar no trono por conta dos méritos de seus próprios atos. Sua legitimidade não provinha de relações familiares ou prefe- rência divina, mas de suas ações exitosas enquanto político e militar. A escola de pintura que surge em meio à revolução francesa soube tra- duzir bem isso. Diferente dos monarcas anteriores, que não precisavam provar, mas apenas exibir, os seus poderes absolutos e inquestionáveis, o poder/legitimidade Napoleão é usualmente mostrado através de ima- gens de suas ações bélicas e políticas. Américo pinta D. Pedro I à tradição napoleônica. Diferente de seu pai D. JoãoVI - quase sempre retratado com seu corpo pousando em cal- maria, a desfrutar das luxúrias preguiçosas de sua vida de corte -, Pedro I é retratado como um soldado em marcha, liderando um país para a guerra e glória. Ao associar os antigos imperadores francês e o brasileiro, Américo claramente queria agradar o então atual imperador D Pedro II,
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    281Genaro Vilanova Mirandade Oliveira maior mecenas da AIBA, de cujos favores dependia o sucesso de qual- quer artista da época. A vontade do pintor em agradar o monarca tinha uma forte razão de ser. Poucos anos antes, Pedro Américo havia pintado um outro quadro de história famoso e monumental:“A Batalha do Avaí”. Tratava-se de uma obra polêmica para o período. Pela primeira vez, um artista brasileiro havia ousado fugir das convenções acadêmicas – que zelavam pela harmonia da composição e pelas mensagens edificantes e morais da história – para pintar os horrores temáticos e o desarranjo de corpos em uma cena de guerra. Assim como outros artistas da segunda metade do século XIX, Pedro Américo vivia em meio a uma tensão artística entre o tradicional para- digma acadêmico-idealista e as novas tendências realistas-naturalistas de arte. Ao optar pelo novo, acabou protagonizando polêmicas artísti- cas e políticas. Isso porque, adotados oficialmente pela AIBA, os temas “edificantes”e as formas “harmônicas”de retratar a nação brasileira pre- sentes no retratos acadêmicos-idealistas eram obviamente também pre- feridos pelo poder monárquico. Nesse sentido, para além de querelas estritamente estéticas, pinturas que subvertiam os princípios acadêmi- cos (como “A Batalha do Avaí”, de Américo) poderiam ser interpretadas como críticas diretas ao sistema monárquico em si. Por esta mesma razão, membros do crescente movimento republicano brasileiro passam a apoiar publicamente trabalhos naturalistas-realistas que punham em questão as cenas glorificadas de batalhas feitas até então. Como um monarquista autodeclarado, amigo pessoal do impera- dor D. Pedro II e funcionário público da burocracia imperial, Pedro Amé- rico percebeu seu erro ao, conscientemente ou não, adotar um modelo estético que desafiava politicamente o regime do qual ele dependia. Neste sentido, historiadores de arte têm interpretado“Independência ou Morte!” como um tipo de afirmação pessoal feita por Pedro Américo de seu “retorno” ao estilo acadêmico - ou, pelo menos, de sua aceitação da maioria dos seus princípios - e, portanto, uma declaração pública de sua lealdade à monarquia (MATTOS et al., 1999, p. 117). No entanto, mesmo
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    282 A ESTÉTICADO OPACO uma análise sofisticada como de Mattos et al., ao centrar nos bastidores das brigas político-estéticas da corte imperial, acaba ignorando a alegoria explicita no quadro de Américo: outra vez, a da complexa formação do novo estado e nação. Como já foi dito anteriormente, esses dois temas eram incontornáveis para intelectuais do período pós-independentista, ao mesmo tempo, testemunhas e agentes de um novo país em formação. Já foi mencionado anteriormente alguns elementos comuns às ale- gorias nacionais apresentadas de Meirelles e Américo. Ambas as obras são organizadas entorno de uma forma elíptica, que conecta os inúme- ros personagens numa espécie de anfiteatro visual da nação. Dois obje- tos de poder, respectivamente, a cruz e espada, servem de eixo central por onde os personagens se agrupam. Apesar da grande movimentação de corpos, as narrativas nas duas obras são extremamente harmônicas, ordenadas e didáticas, à moda acadêmica-idealista. No entanto, é pre- ciso ressaltar diferenças entre as obras. Em primeiro lugar, vale lembrar o período de trinta anos entre uma pintura e outra. Como foi mencio- nado, Meirelles finalizou seu quadro em um ano cujas memórias de lutas separatistas e revoltas internas que abalaram o novo país, de norte a sul, ainda estavam bem frescas. O recém-independente império ainda vivia anos de instabilidade e ansiedade política, assombrado por desafios de inimigos internos e externos. A imagem de Meirelles, além de um plácido retrato do pas- sado, também fornecia argumentos aos brasileiros do presente sobre sua legitimidade (por possuírem suposto parentesco remotíssimo com nobres tupis) de salvaguardarem a terra local contra qualquer outro povo que a cobiçasse. Diferentemente, no período em que Américo pin- tou seu quadro, os perímetros do novo estado-nação já estavam mais estáveis. Apesar das ocasionais revoltas internas (como Canudos) e da persistente resistência de nações indígena autônomas, tratados diplo- máticos, conchavos políticos, aumento da malha urbana-burocrática imperial e, claro, do fortalecimento do exército nacional, pareciam ter estabilizado as fronteiras e conferido solidez aos perímetros do estado.
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    283Genaro Vilanova Mirandade Oliveira A formação e a viabilidade da nação, porém, ainda estavam em aberto.DuranteboapartedoséculoXIX,nãohaviadúvidasquantoaexis- tência de um estado chamado Brasil, apenas de brasileiros (SCHWARCZ, 2006). Sobre esses debates nacionais, é no mínimo curioso que os intér- pretes de Américo não levem em conta que, assim como “A Redenção de Cã”, de Brocos, o quadro de Américo também foi elaborado em um período de popularização de teorias raciais e do branqueamento. Assim, seria difícil evitá-los em um quadro histórico, especialmente para um pintor erudito como Américo, que ativamente participava de debates públicos. Mesmo que mais sutil do que Brocos, é possível argumentar que a alegoria do branqueamento dos corpos é também o tema chave da obra de Américo, apesar de ter sido completamente ignorada por estudiosos até hoje. A atenção dada por historiadores em decifrar a função retórica e simbólica do personagem caipira localizado em primeiro plano à esquerda e abaixo no quadro (SCHLICHTA, 2006; CHRISTO, 2002; MATTOS et al., 1999, ALVES 2003), fez com que todos esquecessem que Américo posiciona não apenas um, mas três corpos no canto esquerdo do quadro. O caipira, em destaque no primeiro plano, é sem dúvida o membro desse trio mais facilmente avistado por plateias de ontem e de hoje. Sua fun- ção retórica no quadro é evidente: ao olhar fixamente para D Pedro I, ele também induz o olhar de espectadores para a figura do imperador, pro- porcionando-lhes a ilusão de que também são testemunhas do evento histórico (MATTOS et al., 1999. p. 89). Existem também diversas interpre- tações sobre a função alegórica desempenhada pelo caipira; como um símbolo das hierarquias nacionais (MATTOS et al., 1999, p. 91); da própria nação sendo ignorada pela monarquia (SCHLICHTA, 2006, p. 225), ou até mesmo a tentativa de salientar a importância dos resilientes paulistas que, do interior, haviam contribuído para a formação da nação (ALVES, 2003). No entanto, é possível argumentar que qualquer tentativa de inter- pretar o caipira de forma isolada é uma tarefa falha. Isso porque, se o cai- pira desempenha alguma função alegórica no quadro, essa só pode ser
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    284 A ESTÉTICADO OPACO entendida em conjunto com os outros dois personagens que, embora mais discretos e praticamente ignorados pelas análises de historiadores de arte, completam a alegoria de Américo. Observemos a Figura 5. Figura 5 – Detalhe do quadro“Independência ou Morte!” Fonte: Google Imagens (editada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6) Logo acima do caipira (Figura 6), está posicionado um homem com feições claramente europeias montado à cavalo. Figura 6 – Detalhe do quadro“Independência ou Morte!” Fonte: Google Imagens (editada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6)
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    285Genaro Vilanova Mirandade Oliveira Esse descendente de europeu está estrategicamente posicionado em um ponto equidistante e central entre o caipira abaixo e um terceiro (Figura 7), minúsculo corpo de um escravo na parte alta à esquerda do quadro. Figura 7 – Detalhe do quadro“Independência ou Morte!”. Fonte: Google Imagens (editada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6) De forma a não perturbar o foco do tema da independência que dá título ao quadro, Américo foi capaz de inserir na sua obra uma audaciosa alegoria da formação nacional baseada numa tríade racial. Professor de pinturas históricas, Américo certamente conhecia em detalhes o traba- lho historiográfico seminal de Karl Philipp Friedrich von Martius. Com a dissertação “Como se deve escrever a História do Brasil”, o naturalista alemão Martius ganharia o famoso concurso organizado pelo Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB) que contemplaria com 200 mil réis aquele que apresentasse “um plano para se escrever a história antiga e moderna do Brasil, organizado de tal modo que nele se compreendessem as partes política, civil, eclesiástica e literária”(RODRIGUES, 1957, p. 160). Publicada na Revista do IHGB em 1845, o plano de escrita proposto pela dissertação de von Martius, entre outras coisas, mencionava uma poderosa metáfora “hidráulica” para pensar a nacionalidade brasileira. Para Martius, o desenvolvimento da nação brasileira passava pelos três
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    286 A ESTÉTICADO OPACO povos que se encontravam no território do Brasil, então chamados de “caucasianos”, “etíopes” e “americanos”. Segundo Martius, a história do Brasil, como a de nenhum outro povo antigo, era marcada pela “mes- cla das relações mútuas e mudanças dessas três raças”. Essa salada de matrizes raciais indicava uma particularidade da história brasileira. No entanto, para alento das elites brasileiras do período, que se criam“cau- casianas”e a quem a obra de von Martius se destinava, ele fala de“con- dições favoráveis de aperfeiçoamento de raças colocadas uma ao lado da outra de modo desconhecido”. Por vontade da“vontade da Providên- cia”, Martius usa uma metáfora hidráulica para garantir que essa mistura racial seria aos poucos limpa no futuro pelo“poderoso rio português”. Décadas antes das teorias“otimistas”de branqueamento propostas pela geração de Sílvio Romero, através dessa metáfora hidraúlica, a historiografia brasileira já havia previsto o futuro exclusivamente euro- -descendente. O “poderoso” rio (sangue) português haveria de lavar/ redimir os afluentes africanos e indígenas. No quadro de Américo, o corpo negro é estrategicamente posicionado mais distante. Minúsculo e praticamente escondido atrás da mula de trabalho, o afrodescendente caminha em oposição aos demais personagens.Tal como a avó negra de Brocos, o escravo parece conhecer seu destino de estar prestes a desa- parecer da paisagem nacional. Se a avó senil levantava as mãos, pronta para se encaminhar para o céu divino, o escravo caminhava por conta própria a desaparecer no céu do fim do horizonte. Assim, com pouco uso de tinta, Américo simbolicamente resolvia a ansiedade da elite bra- sileira que buscava uma solução rápida e definitiva tanto para os dile- mas morais do sistema escravista quanto para corpos negros presentes no território nacional. O euro-descendente montado à cavalo, em posição elevada e no centro dos outros dois outros personagens, ocupa uma clara posição de comando na tríade racial. Por conta de sua cor de pele, por estar vestido apropriadamente e possuir bens materiais, inclusive uma seleta monta- ria, esse é o único personagem que poderia estar posicionado na parte
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    287Genaro Vilanova Mirandade Oliveira à direita do quadro, junto com o séquito de homens e cavalos acompa- nhando D. Pedro I. Enquanto o negro e o caipira trabalham, o homem branco ocupa uma posição senhoril, ao mesmo tempo em que contem- pla seus pares euro-descendentes do outro lado do quadro. Mencio- nados os lugares da matriz africana e europeia, faltava situar a porção indígena da alegoria nacional. Diferente da opção por indígenas ideali- zados de um passado remoto (à Meirelles), o quadro de Américo assume a presença da matriz indígena no século XIX , mas de forma indireta: no corpo mestiço do caipira. São muitos os indícios que sugerem isso. O caipira, afinal, era usualmente definido como corpo híbrido, fruto do choque e da mis- tura imprevista entre populações indígenas habitantes do interior e colonos portugueses que avançavam suas ambições territorialistas em sua direção12 . Décadas antes do reconhecimento das contribui- ções africanas para a nação, é muito mais provável que Américo ainda se baseasse em ideais românticos que assumiam que o único tipo de miscigenação que valia pena reconhecer era o resultado da suposta subserviência (e inclinações sexuais) que as mulheres tupis-guaranis tinham em relação aos colonizadores portugueses. Consequente- mente, o caipira de Américo seria muito provavelmente um mameluco, de ascendência indígena e europeia. Além disso, semelhante às representações românticas que enfati- zavam a propensão de povos indígenas para alcançarem o “progresso”, caso fossem corretamente orientados e auxiliados por europeus, o caipira também exibe sinais ambivalentes de comportamento e trajes ao mesmo tempo“civilizados”e“selvagens”. Embora ele ainda ande descalço, à moda de seus ancestrais, Américo faz questão de mostrar seu corpo, ao menos, semivestido com roupas à moda europeia. Para ilustrar seu estágio de transição rumo à “civilidade”, a roupa do caipira, apesar de ser rasgada e 12 Sobre isso, Euclides da Cunha já havia celebremente definido a força do“caipira do nordeste” (o sertanejo) como oriunda mistura do sangue indígena e portugueses, em oposição aos mulatos (africanos + portugueses) do litoral.
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    288 A ESTÉTICADO OPACO esfarrapada, exibe as mesmas cores brancos e vermelha vistas nos uni- formes impecáveis usados pelos Dragões da Independência à sua direita. No entanto, no lugar de ostentar uma espada de aço na bainha de couro, como o oficial próximo a ele, o caipira carrega apenas um pequeno punhal rústico, preso improvisadamente no tecido escarlate em torno de sua bar- riga. Embora ele não tenha nem o dinheiro ou o treinamento necessário para montar um cavalo, o caipira é retratado desempenhando um traba- lho digno e ordeiro, transportando madeira para o seu senhor. A referência histórica é evidente: análogo ao seus antepassados indígenas que cortavam e transportavam pau-brasil para os primeiros navios portugueses, o mameluco do século XIX transporta toras de madeira para ganhar a vida e, implicitamente, receberá alguma recom- pensa depois de entregá-los a um descendente de portugueses que o emprega ou lhe possui. Mesmo obscurecido à sombra do chapéu, Amé- rico cuidadosamente pinta a silhueta do rosto do caipira de modo que, apesar da ascendência indígena, sua mestiçagem com o sangue euro- peu esteja evidente. Assim sendo, o pintor lhe confere queixo e nariz pontudos, além de um cavanhaque, de forma semelhante a dos outros homens de ascendência ibérica no quadro. A cabeça mestiça do caipira não é um lugar nobre o suficiente para usar a pureza do capacete de ouro dos Dragões da Independência. No entanto, ao mostrar seu peito- ral com marcas queimadas de sol, Américo está simbolicamente suge- rindo que a pele do caipira já está suficientemente branqueada para requerer a proteção do seu chapéu amarelo. A cópia do quadro exibida neste capítulo não deixa ver um último importante detalhe: o caipira é também a figura situada mais próxima do Rio Ipiranga. Na verdade, ao puxar seu carro de boi, o caipira está começando a atravessar as águas do famoso rio da independência. Não parece mera coincidência que, tal qual previsto pela metáfora hidráulica do plano de escrita de história de Martius, o corpo/legado indígena na história visual de Américo também estava inevitavelmente destinada a ser purificado no“poderoso”rio nacional.
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    289Genaro Vilanova Mirandade Oliveira CONSIDERAÇÕES FINAIS: OU ADMIRANDO A ESTÉTICA DO OPACO Mediante a análise de três quadros específicos, discutimos a impor- tância da AIBA para criação de discursos fundadores de história do Bra- sil no século XIX. Como se viu, recorrendo a metodologias e temáticas desenvolvidas por historiadores da época, as obras de pintores de his- tória da AIBA também tentaram responder inquietações intelectuais básicas do período em que foram produzidas: como explicar a emergên- cia do estado e a formação da nação brasileira? O capítulo demonstrou como, ao ignorarem essas incontornáveis questões do período pós-in- dependência brasileiro, historiadores de arte têm deixado de interpretar importantes alegorias nacionais presentes nas narrativas dessas obras. Foi mostrado também como, para dar credibilidade às suas narrativas históricas visuais, pintores da época se valeram de todas as ferramentas intelectuais que dispunham. Assim, para fazer uma leitura iconográfica das obras da AIBA hoje em dia, é fundamental levar em conta a complexidade do imaginário artístico, político e epistemológico do império brasileiro; que vivia a popularização de teorias raciais europeias; a resposta local otimista da teoria do branqueamento; o embate/negociação entre paradigmas cristãos, cicerianos e científicos de historiografia; o romantismo à bra- sileira; rachas estéticos entre partidários do academicismo-idealista e naturalismo-realista, além de outros temas discutidos anteriormente. Como não poderia deixar de ser, ao seguir modelos da historiografia escrita do século XIX, os pintores da AIBA criaram narrativas visuais baseadas em perspectivas eurocêntricas, elitistas, androcêntricas de história. Nas mesmas, corpos indígenas e negros (sem falar na repre- sentação do corpo feminino, não abordado neste texto) sempre ocu- pam papéis coadjuvantes, sacrificiais e submissos; sempre localizados no passado remoto, em processo de desaparecimento ou em estágios de transição evolutiva.
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    290 A ESTÉTICADO OPACO Mais de 150 anos de lutas sociais e políticas identitárias separam o mundo de hoje daquele vivido pelos historiadores e pintores do Bra- sil imperial. Como a maioria dos estados-nacionais contemporâneos, o Brasil atual está finalmente começando a reconhecer que sua história está longe de ser linear, homogênea e coerente, como era considerada no século XIX. Tópicos anteriormente ignorados na história do Brasil incluem, mas não se limitam, a invenção das tradições nacionais, a diver- sidade cultural e étnica da população, as narrativas falocêntricos que silenciaram o protagonismo histórico de mulheres; a integração descon- tínua e beligerante do território, o genocídio de populações que desafia- ram o projeto nacional e do racismo estrutural da sociedade. Como era de se esperar, a historiografia brasileira contemporânea tem estado a frente desse processo da crítica da interpretações tradi- cionais, patriarcais, teleológicas e eurocêntricas da história. Existem inú- meros livros, artigos e teses dedicados a desmontar os pressupostos e preconceitos legados da imaginação historiográfica do século XIX. No entanto, devido à forte inclinação verbocêntrica da academia, todas as críticas continuam sendo feitas exclusivamente através formatos escri- tos. Como consequência, praticamente inexistem hoje releituras visuais da história brasileira que tenham as ambições e o rigor da pesquisa aca- dêmica. Trata-se de um trabalho de crítica pendente e urgente. Afinal, já faz tempo que as obras de historiadores fundadores, como Martius, já foram rasuradas por escritos de historiadores contemporâneos. As obras de artistas como Meirelles e Américo, ao contrário, continuam intactas, por assim dizer, ainda aguardando pichações acadêmicas. Estamosaindaaesperadeumanovaiconografia que seja capazde tra- duzir em imagens as mudanças, conquistas e dilemas da historiografia con- temporânea. Afinal, parafraseando a máxima de Croce, citada no começo do capítulo: toda história visual deveria ser uma história visual contempo- rânea. Se os quadros canônicos do século XIX eram baseados no estado- -nacionalismo que domesticou populações autônomas e pré-nacionais, é preciso conceber obras que abordem as plurinacionalidades e simultanei-
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    291Genaro Vilanova Mirandade Oliveira dades que sempre disputaram e coexistiram dentro do território anacroni- camente denominado de “Brasil” nas narrativas de história. Seguramente, alguma futura geração de acadêmicos, eruditos na arte de escrever através de imagens, produzirá novas narrativas visuais que terão a mesma relevân- ciaparaconstruçãodediscursosdehistóriabrasileiracomoobrascanônicas feitas na Academia Imperial de Belas Artes. Enquanto isso não acontece, resta a capacidade de especular sobre a importância de admirar a estética do opaco: celebrando a vasta coleção de imagens ainda não pintadas dedi- cadas ao protagonismo histórico de grupos indígenas, africanos e de outras populações subalternizadas pela historiografia tradicional. Afinal, não custa imaginar que, tomados pelas crescentes noções polifônicas e plurinacionais de história, futuros curadores exibirão, ao lado do quadro de Victor Meirelles,“O Primeiro Candomblé em Palmares”, além de inúmeros outros quadros dedicados às religiosidades e cosmo- logias dos povos originários de Pindorama e Abya Yala. Ou que, suple- mentando a visão estado-nacionalista da independência do quadro de Pedro Américo, novas histórias visuais darão visibilidade à resiliência das incontáveis nações indígenas que, antes e depois da independência brasi- leira, lutaram para continuar a viver autônoma e soberanamente nos seus territórios ancestrais. Para tanto, sugerimos a seguinte representação do “Grito do Ipiranga”, com base em“Independência ou Morte!”, de Américo. Figura 8 – “Independência ou Morte!” Imagem manipulada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6 Fonte: Google Imagens (editada pelo autor usando Adobe Photoshop CS6)
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    292 A ESTÉTICADO OPACO REFERÊNCIAS ANDERSON, B. Nação e consciência nacional. São Paulo: Editora Ática, 1989. BARROS, Manoel de. O guardador de águas. São Paulo: Rocco, 2003. BURKE, P. (org.) A escrita da História: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 2000. CANCLINI, N. G. Hybrid Cultures: Strategies for Entering and Leaving Modernity. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1995. CARDOSO Rafael. A arte brasileira em 25 quadros [1790-1930]. Rio de Janeiro: Record, 2008. CASTRO, I P. Os pintores de História: a pintura Histórica e sua relação com a cultura histórica oitocentista.” Pergaminho, Paraíba. UFPB. Ano 1, Número Zero, (2005): 53-68. CHRISTO, M. C. V. Bandeirantes ao chão: estudos Históricos. Rio de Janeiro: 30, 2002. 33-55p. ______. A pintura de história no Brasil no século XIX: panorama introdutório. Dossiê Los relatos icônicos de la nación. Arbor. Vol. 185, N. 740, p. 1147-1168, 2009. FOUCAULT, M. A microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. JANCSÓ, I.; PIMENTA, João P. G. Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira. In: MOTA, C.G. (org) . Viagem In-completa. A experiência Brasileira. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000. MAGNOLI, Demétrio. O corpo da pátria. Imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-1912). São Paulo: UNESP / Moderna, 1997. MATTOS, C. V. et al. O Brado do Ipiranga. São Paulo: Edusp, 1999. MELLO, E. C. de. Um imenso Portugal. Revista História e historiografia. São Paulo: Ed 34, 2002. ROMERO, S. História da literatura brasileira, tomo 1, 6 ºedição, José Olympio. Livraria José Olympio: Rio de Janeiro, 1888. ROSEMBERG, L. R. B. Pedro Américo e o olhar oitocentista. Rio de. Janeiro: Barroso Edições, 2002.
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    293Genaro Vilanova Mirandade Oliveira SCHWARCZ, L. K. M. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. ______. A Mestizo and Tropical Country: The Creation of the Official Image of Independent Brazil. Revista Europea de Estudios Latinoamericanos y del Caribe, ed. 80, Abril, 2006, p.25-42. ______. As barbas do imperador. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
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    USAIN BOLT EO CORPO MÁQUINA: ASSOCIAÇÕES E METÁFORAS NO ANÚNCIO PUBLICITÁRIO DO NISSAN GT-R Jessica Vitorino da Silva Terra Nova Suely Oliveira dos Santos Eduardo Carvalho Gomes de Menezes RESUMO: As metáforas do corpo com a máquina se transformaram historica- mente sob as condições que as ciências/tecnologias lhes oportunizaram. Num primeiro momento a metáfora aparece sob a ótica do “relógio”, avança para o modelo da “máquina a vapor”, e, na contemporaneidade, assume a condição do “chip”. Sendo assim, tal artigo tem como objetivo analisar os elementos me- tafóricos de um anúncio publicitário capaz de conferir a relação entre corpo e máquina através da manipulação simbólica do atleta/velocista Usain Bolt e do carro superesportivo Nissan GT-R, respectivamente. Através de uma aborda- gem qualitativa do tipo descritivo exploratória, foi feita uma análise de produto midiático sob o método da “análise fílmica” partindo de quatro temas: 1) pers- pectivas mecânicas e anatômicas; 2) velocidade e aerodinâmica; 3) performan- ce e suas tecnologias; 4) recordes, títulos e prêmios. Os resultados apontam que o anúncio suspenso para análise metaforiza o corpo de Bolt com a máquina pautado sob a óptica da anatomia e da fisiologia numa mescla com artefatos mecânicos e tecnológicos do Nissan GT-R. PALAVRAS-CHAVE: Corpo. Ciência e Tecnologia. Anúncio publicitário. Usain Bolt. Nissan GT-R.
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    298 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA INTRODUÇÃO O Jamaicano Usain Bolt, recordista olímpico dos 100 e 200 metros, conhecido internacionalmente como o maior velocista de todos os tempos, foi a personalidade escolhida em 2012 pela Nissan – marca de veículos japonesa –para ser a estrela dos anúncios e promover a versão 2013 do“Nissan GT-R”, um carro superesportivo que chega a 100 km/h em apenas 2.84 s. Bolt, que desde criança já chamava atenção dos seus técni- cos pela sua velocidade, tornou-se um ícone, uma“lenda viva”do esporte mundial. Dono de 6 medalhas olímpicas de ouro e detentor de vários recordes mundiais e olímpicos, Bolt possui uma linha própria de roupas em parceria com a Puma; o seu próprio relógio feito pela Hublot; o seu próprio fone de ouvido gama‘Soul por Usain Bolt’; seu próprio restaurante ‘Tracks & Registros’, em Kingston/Jamaica; a“Fundação Usain Bolt”; e subs- creve algumas das principais marcas do mundo. A partir dessas e outras ações conferidas por Bolt durante o auge de sua carreira, pode-se conferir a grande projeção da figura do atleta no âmbito publicitário. A publicidade não mais como um sistema prioritário de informa- ção – como foi na década de 1950 – mas, sim, de sedução, tem manipu- lado emoções e símbolos na venda de produtos de consumo. De acordo com Ferrés (1998), tais recursos, que não se encontram exatamente na esfera da racionalidade, recorrem a duas técnicas ainda vigentes: 1) a de jogar com os sentimentos de angústia e de culpa dos sujeitos; 2) a de recorrer ao prestígio de alguns personagens populares – como o caso em questão. Conferir personalidade ao produto para que o consumidor adquira um signo identitário através dele integra o lema do jogo associativo, estratégia bastante frequente na publicidade televisiva. Busca-se, em cada caso, associar os valores do produto aos de alguma celebridade sob um viés emocional – não lógico. A celebridade transfere, assim, para o produto os valores da sua personalidade. Em mecanismos desta ordem entram em jogo processos emocionais localizados nas antípodas da racio-
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    299Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes nalidade, mantendo-se distantes da consciência, portanto, adequando-se aos parâmetros dos mecanismos de sedução e governabilidade. A utilização de famosos na publicidade tem sido uma tática de venda infalível. A prova de que os comerciais com tais personalidades funcionam pelo mecanismo da transferência emocional encontra-se nos procedimentos que costumam ser utilizados para tal processo, certifica Ferrés (1998). Em muitos casos, depois que a celebridade é escolhida, são realizadas pesquisas a fim de observar quais são os produtos mais idôneos para ela, isto é, investiga-se com que tipo de produtos as pes- soas a associam. No anúncio publicitário proposto para a análise no presente artigo, o atleta Usain Bolt, o“homem mais rápido do mundo”, é assim associado a um carro superesportivo (Nissan GT-R) lançado em sua versão 2013. Ao explorar os elementos que compõem o objeto de análise, são per- ceptíveis as relações conferidas, através da linguagem e das imagens, principalmente do corpo (homem) com a máquina (carro). É antiga a analogia conferida entre o corpo e a máquina. Atendo- -se à constituição histórica do corpo, pode-se observar as alusões meta- fóricas conferidas ao corpo em relação à máquina: em um primeiro momento sob a ótica do “relógio” (corpo anatômico – as partes e o todo), avançando para o modelo da “máquina a vapor” (corpo fisioló- gico – movimento e combustão), e, na contemporaneidade, assumindo a condição do “chip” (corpo genético – sistema de informação e códi- gos). No esporte, tal alusão também é conjecturada na medida em que percebe o corpo humano enquanto um conjunto de engrenagens, pro- cessos mecânicos, físicos e químicos que devem funcionar em perfeita harmonia para atuar com eficiência e alcançar o desempenho desejado. Em outras palavras, o organismo humano é visto como um mecanismo complexo manipulável, podendo ser tecnicamente “melhorado” para além das suas aptidões “naturais” dos pontos de vista emocional (sen- tir), intelectual (pensar) e físico (agir). Nesse sentido, as ciências naturais (biologia, anatomia, fisiologia, física etc.) são tomadas como as princi-
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    300 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA pais aliadas para auxiliar na maximização do rendimento, e tal perspec- tiva relaciona o grande modelo de“corpo-atleta”ao de“corpo-máquina”, capaz de performances espetaculares. Dito isso, tal artigo tem como objetivo analisar os elementos meta- fóricos do anúncio publicitário da Nissan capazes de conferir sentido a relação entre corpo e máquina através da manipulação simbólica do atleta/velocista Usain Bolt e do carro superesportivo Nissan GT-R, respec- tivamente. Sendo assim, o texto foi organizado em quatro momentos: a primeira parte foi reservada para a apresentação do atleta Usain Bolt; na sessão subsequente dissertamos sobre o aporte teórico que se diz respeito a tematização histórica do corpo em suas metáforas, especifica- mente a que sugere o homem em consonância com a máquina; na ter- ceira parte é realizada a descrição dos procedimentos metodológicos; por fim, aborda-se as congruências metafóricas entre “Bolt” e o “Nissan GT-R” conferidas sob o viés analítico do anúncio publicitário suspenso para apreciação. USAIN BOLT: O HOMEM MAIS RÁPIDO DO MUNDO1 Usain St. Leo Bolt, o maior velocista de todos os tempos, nasceu em Trelawny/Jamaica em 21 de Agosto de 1986. Após quebrar três recor- des mundiais nos Jogos Olímpicos de 2008 (Pequim) e em seguida mais recordes na defesa dos mesmos três títulos nos Jogos Olímpicos de 2012 (Londres) tornou-se uma“lenda viva”por se tratar do único atleta a con- sagrar-se bicampeão consecutivo em todas as três modalidades disputa- das em Jogos Olímpicos (100m, 200m e revezamento 4x100) até então. 1 Partes dessa sessão foram retiradas integralmente das seguintes fontes: http://www.infoescola.com/biografias/usain-bolt/ http://imeviolao.googlepages.com/biografia-usain-bolt.html http://pt.wikipedia.org/wiki/Usain_Bolt http://usainbolt.com/
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    301Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes Iniciando uma carreira esportiva no críquete, Bolt, o atleta mais dotado já visto no mundo,ainda criança já chamava a atenção de seus técnicos pela sua velocidade de arrancada. O técnico do seu colégio, William Knibb, percebendo o futuro promissor do garoto, o incentivou a deixar o críquete para ingressar no atletismo – daí por diante Usain Bolt trilhou rumo as suas principais conquistas. O anúncio de seu reconhe- cimento em termos mais globais, se deu pela primeira vez em Julho de 2002, no Campeonato Mundial de Atletismo Junior (Kingston). Com 15 anos de idade, o atleta venceu os 200 m (20,61s) conquistando a única medalha de ouro individual do país anfitrião, feito que lhe conferiu ampla visibilidade. A partir de 2004 Bolt decidiu se profissionalizar ainda mais, porém ao enfrentar lesões na perna o atleta foi impedido de avançar em algu- mas competições importantes como, por exemplo, as Olimpíadas de Atenas (2004) e o Campeonato Mundial em Helsinki, Finlândia (2005). Dois anos mais tarde, o atleta conseguiu se recuperar e, no Mundial de Atletismo da IAAF, em Stuttgart (Alemanha), levou a medalha de bronze nos 200m rasos (20,1s). Em 2007, Bolt começou a disputar os 100m rasos em competições – até então sua especialidade era apenas os 200m rasos. Já em sua primeira disputa o atleta conquistou medalha de ouro com tempo excepcional (10,03s) no 23º Encontro da Vardinoyiannia. Em 2008, o atleta passou a reescrever os livros da história tornando- -se uma das maiores estatísticas de esportes do planeta. No ranking das disputas dos 100m, em sua segunda corrida do ano, quebrou o recorde mundial (9,72s) em NovaYork. A partir de então, o atleta tem caminhado “de vento em popa”para as conquistas heroicas nos Jogos Olímpicos de Pequim e Londres e no mundo de IAAF T&F Championships em Berlim, Daegu e Moscou. Por ter quebrado os recordes mundiais das três provas – de 100m três vezes (Nova York, 2008; Pequim, 2008; Londres, 2012), de 200m duas vezes (Pequim, 2008; Londres, 2012) e ainda o recorde do revezamento 4 x 100 (Pequim, 2008) – ficou reconhecido como o “homem mais rápido do mundo”.
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    302 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA Em agosto de 2013, venceu os 100 e os 200m no Campeonato Mun- dial de Atletismo em Moscou e o revezamento 4x100m,  tornando-se o maior vencedor de mundiais de atletismo da história. Usain Bolt foi premiado com o Laureus World Sports man of the Year em duas ocasiões (2009 e 2010), foi o atleta IAAF masculino do ano cinco vezes (2008, 2009, 2011, 2012, 2013), além de conquistar vários prêmios em muitos países em todos os cantos do mundo. Em 2012, ano em que Bolt quebrou seu último recorde em âmbito mundial, a Nissan (marca de veículos japo- nesa) o escolheu para juntar-se ao GT-R, um carro superesportivo, em nova ação publicitária. Usain Bolt, antes de completar os 26 anos, tor- nou-se o“garoto-propaganda”do Nissan GT-R, obtendo peças publicitá- rias espalhadas por vários aeroportos do mundo. O HOMEM E A MÁQUINA: O CORPO E SUAS METÁFORAS Com a intenção de entendermos melhor a relação entre corpo e tec- nologia durante o transcorrer histórico da humanidade, passamos agora a apresentar sintética e brevemente algumas transformações científicas que pautaram esquemas de percepções que possibilitaram as metáforas do corpo com a máquina. Suspendemos tal temática com o intuito de refletir o domínio do corpo através das diversas técnicas e tecnologias em momentos históricos diversos. Os primeiros filósofos denominados de pré-socráticos (ou filóso- fos da natureza) tentavam desvendar a origem do mundo e do homem para além das míticas divinatórias. A preocupação era no sentido de entender e explicar a natureza para tirá-la da “mão” e do domínio dos deuses. Neste sentido, é errôneo restringir a cientificização e tecnifica- ção do corpo ao pensamento das tecnologias contemporâneas, pois, como afirma Vaz (1999), o controle/domínio da natureza – e, portanto, do corpo – é o principal e mais antigo alvo da civilização. As técnicas, domínios e formas de agenciamento deste perduram desde os tempos mais longínquos do ser humano até os dias atuais. Neste sentido:
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    303Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes Quando falamos de corpo tecnológico não falamos de um objeto de estudo exclusivamente atual em relação ao qual se torne fundamental estar up to date, pelo contrário, é importante perceber que esta interpretação que exige a atualização do corpo face à técnica e a atualização da técnica face ao corpo corresponde já a um processo tecnológico de agenciamento do corpo (BÁRTOLO, 2007, p. 31-32). No entanto, não podemos negar que os avanços mais consideráveis no que tange ao domínio do corpo e sua natureza começaram a surgir a partir do Renascimento – Idade Moderna. No início deste período, há um movimento de mudança nos modos de ver e pensar o mundo. Deus deixa de ser o centro do universo – teocentrismo – e o homem ocupa seu lugar – antropocentrismo. Para caracterizar essa permuta, o homem teve que tirar a natureza das mãos de Deus e então inventar técnicas para dominá-la e manipulá-la. Na menção de Fensterseifer (2001, p. 56), dois personagens foram importantes nessa tarefa de conquista: “Primeiro, liberta-se a natureza do poder teológico e aqui Bacon é fundamental; segundo, liberta-se o homem da natureza e aqui aparece Descartes”. Nessa época, houve a preocupação em explicar o organismo atra- vés das leis da Matemática e da Física, tentou-se explicar a vida de forma mecânica, ou seja, foi uma tentativa de reduzir os mecanismos vivos – principalmente e inclusive o corpo humano – a um sistema com várias peças e com uma lógica mecânica.Tudo que não era explicado por essas leis era considerado metafísico – ou seja, além das explicações da física. A Idade Moderna se caracterizou por grandes revoluções em ter- mos de conhecimento em todas as áreas. O grande empenho e curio- sidade dos cientistas e inventores em saber como funcionam e como fazer funcionar as máquinas, os relógios, as válvulas, dentre outros, fez também surgir a imagem de corpo humano como uma máquina com- plicada e complexa. A partir de então, o corpo humano passou a ser medido, dissecado, desenhado, enfim, passou a ser um grande objeto de experimentos.
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    304 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA Como nos menciona Sibilia (2002), por volta do século XV, cada vez mais as máquinas tomaram conta da vida social, inserindo produtos manufaturados em lugares onde permeavam o artesanal e o “natural”. Tais aparatos – tendo como ícone o relógio e suas engrenagens – passa- ram a maquinizar diversas funções e transferir seu ritmo e características para a sociedade e os corpos que nela habitavam. Emanavam assim diversas ideias e metáforas surgidas do intuito de caracterizar o que realmente seria o ser humano/corpo, e do que seria formado. Neste sentido, Descartes“atualiza”a cisão corpo e mente – for- jada por Platão. Foi Descartes que cindiu o homem em duas partes dis- tintas: o corpo – uma máquina, ou seja, um objeto como qualquer outro e que portanto deveria ser examinado (dominado) pelo método cientí- fico; e a mente, que seria uma alma que pensa, sendo de origem divina (SIBILIA, 2002). Descartes, porém não conseguiu explicar como o objeto (corpo) e a alma (mente) interagiam, no entanto, para ele a existência de uma substância imaterial (a alma/mente) seria de extrema importância para a existência humana, sendo situada no cérebro. A figura de Descartes é emblemática em mais de um sentido: no fecundo século XVII, ele se dedicou com igual ímpeto à filosofia. Seu Tratado sobre o homem, portanto, não poderia prescindir das inúmeras analogias de máquinas hidráulicas, relógios e autôma- tos na tentativa de definir o corpo humano (SIBILIA, 2002, p. 66). O mundo, até então regido por leis divinas, agora já poderia ser lido a partir das leis mecânicas oriundas da matemática e da física. Neste sentido, as leis estariam para o homem observar, descobrir, explicar etc. Nada mais importante para a medicina emergente do que desvendar“os mistérios”de Deus, deixando de lado os antigos reparos ligados à religião, para colocar as mãos no corpo anatomizado e exa- minar minuciosamente cada órgão, na tentativa de definir suas fun- ções e seus atributos na complexa maquinaria do organismo humano (SIBILIA, 2002). Foi neste sentido que a anatomia desmembrou todo o
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    305Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes corpo humano, tornando-o um conjunto de peças para explicar o todo pela soma das partes. Até aqui podemos visualizar o corpo como metáfora de um meca- nismo de relojoaria; um objeto como outro qualquer dado na natureza – como dizia Descartes – e formado por um amontoado de peças, sendo que estas, separadas, poderiam explicar o corpo como um todo. Os cien- tistas da época focavam seus estudos nas peças e órgãos inativos – o corpo morto da anatomia – que faziam a tal máquina funcionar. Porém, perceberam que não era possível explicar exatamente o funcionamento da vida em um corpo desprovido de alma; afinal, era o polo imaterial e divino (a alma)“as cordas”que davam vida ao“fantoche”(o corpo). No entanto, nos conta Sibilia (2002), tais estudos foram base para uma revolução do pensamento acerca do ser humano/corpo e seu fun- cionamento biológico funcional: [...] o médico inglês William Harvey – tido como fundador da fisiologia moderna – reuniu vários desses achados anatômicos e os combinou com observações de pacientes e animais vivos para desvendar os enigmas da respiração e da circulação do sangue, suscitando uma verdadeira revolução no pensamento acerca do homem (SIBILIA, 2002, p. 69). Começaapartirdetaisdescobertasaanalogiadocorpocomamáquina a vapor – locomotiva – e tal relação entre corpo e máquina foi levada até as últimas consequências pelo médico francês Julien Offray de La Mettrie. Foi ele quem explanou com veemência que o corpo era uma máquina com- posta por um amontoado de órgãos e músculos, e descartou a ideia dua- lista de Descartes, pois La Mettrie acreditava que o homem era formado apenas por uma substância – a material corpórea – não havendo qualquer prova de que a tal da substância espiritual existia. Sendo assim, não seria possível estabelecer nenhuma diferença entre o homem e o animal. Se para Descartes os animais eram meros autômatos governados por leis da física, para La Mettrie o homem também era um autômato (SIBILIA, 2002).
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    306 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA Mendes (2006, p 71-72) descreve de forma sintética como se deu a transição da visão mecanicista de corpo do modelo de relógio para o protótipo da máquina a vapor: No século XIX, o modelo de máquina que influenciava a fisiologia mecanicista era o da máquina a vapor, utilizado por Lavoisier. A máquina animal é, então, considerada governada por três regula- dores principais: a respiração, a transpiração e a digestão, diferen- ciando-se dos modelos dos relógios, como ocorria na fisiologia mecanicista do século XVII, quando os astros, as pedras e os seres estavam submetidos às leis do movimento. Até o século XVIII não existiu uma fronteira definida entre os seres e as coisas. As for- ças físicas e não as mágicas explicavam os aspectos da fisiologia. Entretanto, no século XVIII a fisiologia é influenciada pela química e incorpora o mundo das substâncias. Parece que o destino da humanidade, enquanto máquina, realmente estava (pelo menos até então) inscrito nos seus órgãos – na sua anatomia e fisiologia. No entanto, com o desenvolvimento da tecnologia e suas mudan- çasdeparadigmas,avisãodecorpoearelaçãodelecomatecnologiamudou esse panorama. Na menção de Sibilia (2002), a ordem e a visão mecânica que regiam o mundo e o corpo pelas leis da física e da química aos poucos foram dando lugar a outras formas e fundamentação; o corpo agora não seria reduzido à máquina – amontoado de peças. O ser humano seria, então, um feixe de informações, no qual o destino da humanidade estaria inscrito numa estrutura minúscula do corpo: os genes – o homem informação. Se no alvorecer da Revolução Industrial qualquer forma de vida seria comparada à máquina, agora qualquer forma desta seria uma soma organizada de informações/mensagens (LE BRETON, 2003). O desenvolvimento das ciências – da eletrônica até a biologia molecular – possibilitou o território de domínio da técnica, transpor as leis da física clássica; o domínio agora seria em escala atômica, molecular, ou seja, nas estruturas mais profundas e minúsculas do ser humano.
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    307Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes O sujeito dissolve-se em seus componentes elementares, é um feixe de informações, uma série de instruções que visa a seu desenvolvimento. As antigas perspectivas do humano dissolvem-se por não encontrar mais um sujeito em seu caminho, mas genes ou informações – uma nebulosa significante, mas cujo rosto é diferente (LE BRETON, 2003, p. 102). Quanto a essa mudança de metáforas, Sibilia (2002, p.74) enfatiza que:“A mutação metafórica não é tão sutil como parece, e suas implica- ções podem ser tão vastas (ou tão íntimas) quanto o próprio homem”. Outro sistema de significação que vem configurar a metáfora do corpo com a máquina/tecnologia, sai de cena a anatomia e a fisiologia e entra a genética, que metaforiza o corpo a um chip. O corpo agora é visto como um sistema de informação e códigos transportáveis e reproduzíveis. De forma geral, podemos considerar o seguinte: com a anatomia e a física clássica veio a analogia do corpo a um relógio; com a fisiologia moderna veio a analogia com a máquina à vapor e com a engenharia genética, a biotecnologia e a informática veio o corpo equiparado a um computa- dor. Sendo assim, respectivamente o corpo foi reduzido ao seu conjunto de membros e órgãos; depois aos seus sistemas (respiratório e circulató- rio) e depois a sua molécula de DNA. Em 1995, foi feita uma descoberta de suma importância para essa nova visão de corpo e domínio das técnicas e tecnologias sobre ele: a molécula de DNA (ácido desoxirribonucleico – ADN em português). Essa estrutura é um conjunto de moléculas que possuem as instruções gené- ticas de cada ser vivo,“[...] o texto bioquímico que codifica as especifica- ções para a gênese de cada indivíduo”(SIBILIA, 2002, p.75). Os cientistas também descobriram que a maneira pela qual a informação genética de cada indivíduo era armazenada, e como tais informações eram passadas de uma geração para outra – hereditariedade. A linguagem decifrada há menos de cinquenta anos é universal: todas as células de todos os seres vivos contêm um “manual
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    308 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA de instruções” escrito no mesmo código, o que lhes permite reproduzir-se conservando intacta a sua informação genética. O código é idêntico para todos os seres vivos, enquanto as instruções nele escritas variam para cada espécie: em cada caso, elas conformam um conjunto específico de informações chamado genoma (SIBILIA, 2002, p. 75-76). A partir de tais descobertas surgiu o ambicioso “Projeto Genoma”, que consiste em localizar as cadeias de elementos que formam o DNA, bem como determinar a localização dos genes do ser humano (LE BRE- TON, 2003). O objetivo disto seria construir uma enciclopédia de refe- rência para a biologia e medicina do futuro (LE BRETON, 2003), ou seja, novas formas de domínio e manipulação do corpo. Definitivamente, trata-se de uma brusca mudança de paradigma tecnocientífico, que acabou deixando no passado o mundo mecânico da física clássica e a sua natureza laboriosamente domesticável. Na tecnociência de perspectiva fáustica, pelo con- trário, a natureza é decomposta e recriada, não mais de acordo com um regime mecânico-geométrico, mas segundo o modelo informático-molecular [grifos da autora] (SIBILIA, 2002, p. 77). As técnicas responsáveis por esse novo tipo de domínio do corpo se dão através da relação entre biologia molecular e engenharia genética (SIBILIA, 2002), bem como a biologia e a informática (LE BRETON, 2003). A citação abaixo, nos mostra exemplos das relações entre tais áreas da tecnociência, e da hibridização do metal seco com o silício úmido: [...] os dispositivos em desenvolvimento são autênticos exemplos de uma hibridização profunda, que mistura matérias orgânicas e inorgânicas nos próprios aparelhos utilizados nos laboratórios. Já existem, por exemplo, os chamados biochips ou wtchips (chips úmidos). Trata-se de um novo tipo de microprocessador, em cuja composição intervêm circuitos eletrônicos e tecidos vivos.
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    309Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes As duas classes de componentes se conectam logicamente e intercambiamdados,porqueambasoperamcomamesmalógica: a da informação digital. [...] Cientistas israelenses descobriram que uma molécula de DNA [...] é capaz de armazenar bits e processar instruções lógicas, podendo integrar os circuitos de um computador (SIBILIA, 2002, p. 80). O fato de a tecnociência considerar que o fundamento da vida está imbricado em uma sequência de códigos, instruções digitais, a tendência virtualizante da teleinformática (um dos ramos da tec- nociência) privilegia o polo imaterial do velho dualismo cartesiano, potencializando a mente (software) e querendo se desvencilhar das limitações do corpo (hardware). Assim, é comum esse discurso entre os mais entusiasmados cientistas e artistas da cibercultura; esse discurso – paradoxal – de exclusão do corpo e potencialização da mente, como nos denuncia Sibilia (2002, p. 84-85): No mundo volátil do software, da inteligência artificial e das comunicações via internet, a carne parece incomodar. A materialidadedocorpoéumentraveasersuperadoparasepoder mergulhar no ciberespaço e vivenciar o catálogo completo de suas potencialidades. [...] surge assim, paradoxalmente, no cerne de uma sociedade em feroz corrida tecnológica, avidamente consumista e adoradora da “boa forma” física, um novo discurso do impulso à materialidade corporal. Esse novo paradigma científico de compreender o mundo como uma rede de informação, e o corpo/ser humano como pura informação (DNA), fez com que alguns pensadores desse fenômeno remetessem certo neocartesianismo high-tech, em que a oposição corpo-alma seria “atualizada”para o binário hardware-software [corpo-mente], sendo que a balança pesaria mais para o lado do software [ou da mente enquanto pensamento cognitivo] (SIBILIA, 2002). Entretanto, o corpo em seu con-
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    310 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA ceito físico, como tudo aquilo que existe e tem massa, volume e movi- mento, não é descartado; a interdependência é fatal. No caso da relação entre hardware e software, o segundo é dependente do primeiro para existir e funcionar e vice-versa. O software necessita de uma base física e energética capaz de agir como código binário que consiste em uma sequência de pulsos elétricos oscilantes. Cada código é uma série fixa ou conjunto delimitado de intensidades ou quantidades variadas entre impulso e/ou repouso, ou 0 (0 volts) e/ou 1 (5 volts) (bit), respectiva- mente, chamados de bytes. Em suma, o software consiste em uma ou mais sequências lógicas – organização – de quantidades elétricas em volts, de modo que necessita do hardware ligado a alguma fonte emissora de eletricidade. Quando a eletricidade circula no processador – hardware – a mesma deixa de ser uma energia constante e invariante para então oscilar entre sequencias de 0 volts (0 bit) e 5 volts (1 bit) ou conjuntos binários que formam os bytes. Por outro lado, o hardware necessita do software para funcionar enquanto tal, isto é, fazendo variar as quantidades binariamente entre 0 ou 1. Sem o software não apresenta comportamento de computador ou de cálculo, permanece como um corpo sem pensamento. A energia ou pulsações elétricas podem dentro dele circular, mas não irá gerar código: sequências agrupadas de variações de intensidades de energia. Assim, o computador é muito semelhante a uma comunicação por batidas em um tambor musical. Uma sequência de batidas que não apresenta varia- ção de quantidade não gera código. Contudo, uma sequência variada entre batidas fortes, fracas, mais fortes e mais fracas podem gerar código e comunicação. Metaforicamente a molécula de DNA seria como um software – no analogismo mecânico a mente/alma – de um computador/hardware – no analogismo mecânico o corpo/máquina – a ser decifrado. Se para Descartes o segredo da vida estava na alma/mente e decifrá-la/expli- cá-la seria praticamente impossível, afinal sua natureza era divina, para alguns cientistas e artistas de hoje, o DNA é a essência da vida do ser-
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    311Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes -humano, e o objetivo deles é decodificá-lo e livrar o ser humano de sua precariedade enquanto corpo. Não obstante, intervir no código gené- tico – no software – significa alterar o funcionamento lógico ou organi- zação da base material – hardware ou corpo –; as cadências energéticas que formam códigos. Nota-se, portanto, que para intervir no corpo, no hardwareou no gene não se manipula o corpo, mas sim o modo de orga- nização ou lógica de circulação e interação entre os pulsos energéticos. Contudo, há outro problema, que certamente seja o motivo dos avanços tecnológicos para além dos progressos lógicos. Todas as vezes que alte- ramos os modelos lógicos que organizam as energias passamos a testar os limites dos suportes energéticos. Ou seja, quando um software novo é criado, mais complexo e dinâmico, pode ser que os hardwares existentes não sejam capazes de suportar sua lógica, necessitando a construção de novas bases materiais compatíveis com a nova inteligência artificial. Como alerta Fensterseifer (2004, p. 293): Podemos afirmar que só nós temos corpo, e este está na linguagem, no mundo (não é um“dado”). É possível assim termos vários corpos, e eles se constituem para nós em conquista, da mesma forma que o homem conquista o seu próprio ser. Em outras palavras, na medida em que a mente humana, que atual- mente recebe ajudas dos softwares de computadores, vislumbra novos modos de ser, novas maneiras de organizar a vida, outras formas de pen- sar, ela também necessita criar e construir corpo capazes de suportas lógicas nunca antes vivenciadas. Se assim não fosse, a indústria do har- dware estaria estagnada e falida. Mas, é a dialética entre hardware e soft- ware que a faz se mover. A partir desta elucidação do domínio do corpo pelas diversas ciências, técnicas e tecnologias em suas respectivas épocas, percebemos que o processo de hibridização e domínio/controle dele não pertence apenas à contemporaneidade. Cada período gerou esquemas de percepções que deram sentido a visão de mundo e de ser humano em
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    312 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA cada época. Reinventar tais percepções que envolvem o corpo é parte da criação de novas metáforas para se olhar para o mesmo – uma reeduca- ção do olhar. Isso tudo, porém, é própria e inerente da condição humana, condição que reiteramos só existir na e pela linguagem. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Preocupados em compreender as relações factuais imbricadas no produto midiático (anúncio publicitário) com o contexto em questão através da descrição, decodificação e interpretação de um sistema com- plexo de significados, optamos pela abordagem qualitativa do tipo des- critivo-exploratória. Conforme Minayo (2002), a abordagem qualitativa permite que o pesquisador aprofunde seus estudos – no mundo dos significados das ações e das relações humanas. Na área de Educação Física, tal estudo também pode se caracterizar como uma pesquisa de análise de produto midiático que é empregada: [...] quando se procura acompanhar determinado veículo midiático e detectar/compreender seu conteúdo e seu discurso, com suas possíveis intenções – por exemplo, acompanhar, seja pela internet, ou pela mídia impressa ou mesmo por algum programa televisivo, os discursos, os sentidos e as representações de um grande evento esportivo (MEZZAROBA; MENDES; PIRES, 2010, p. 202). O anúncio publicitário escolhido para a análise trata-se do comer- cial que veiculou a campanha mundial da Nissan para o lançamento do carro GT-R, denominada “What If...” (“E se...”), protagonizada pelo atleta/ velocista Usain Bolt. O filme publicitário com 1m29s de duração é apre- sentadoapartirdeumasucessãodeimagensestáticasquemostramBolt e o GT-R juntos numa mesma“cena”ou alternados, em“cenas”diferentes. O vídeo é apresentado a partir de 21 imagens subsequentes, aqui agrupadas e organizadas em 6 figuras. Destas 6 figuras elencamos 4
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    313Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes temas que compõem a nossa análise: 1) perspectivas mecânicas e ana- tômicas; 2) velocidade e aerodinâmica; 3) performance e suas tecnolo- gias; 4) recordes, títulos e prêmios. Algumas das imagens/fotografias utilizadas para constituir a cena visual se repetem, mudando apenas o pequeno texto que as acompanham. As 2 primeiras figuras fazem somente alusão à comparação do atleta ao carro, as 4 subsequentes metaforizam Usain Bolt ao contexto da máquina, apontando temas que nos permitiram proferir tais metáforas. Figura 1: Anúncio publicitário suspenso para análise: Usain Bolt vs Nissan GT-R Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores. Paraefetuaraanálisedeumprodutopublicitário/midiático,umasérie de métodos é comum: análise do discurso; análise de conteúdo; análise estrutural da imagem; análise da mensagem linguística, análise semiótica e outros. Por se tratar de um anúncio exibido na mídia televisiva, configu- rando-se em forma de vídeo (filme publicitário), optamos por considerar parte dos procedimentos sugeridos por Vanoye e Goliot-Lété (1994) para análise fílmica – que não escapa aos preceitos pautados pelos demais métodos supracitados. Tal escolha se deu pela identificação aproximativa entre os elementos que constituem um vídeo publicitário e um filme. Para esse tipo de análise,Vanoye e Goliot-Lété (1994) propõem uma desconstrução (descrição) e reconstrução (interpretação), portanto se configura em dois momentos. No primeiro observa-se que:
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    314 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA Analisar um filme ou um fragmento é, antes de mais nada, no sentido científico do termo, assim como se analisa, por exemplo, a composição química da água, decompô-lo em seus elementos constitutivos. É despedaçar, descosturar, desunir, extrair, separar, destacar e denominar materiais que não se percebem isoladamente – a olho nu, pois se é tomado pela totalidade. [...] Essa desconstrução pode naturalmente ser mais ou menos aprofundada, mais ou menos seletiva segundo os desígnios da análise. (VANOYE; GOLIOT-LÉTÉ, 1994, p. 15). O segundo momento manifesta que devemos: [...] estabelecer elos entre esses elementos isolados, em compreender como eles se associam e se tornam cúmplices para fazer surgir um todo significante: reconstruir o filme ou o fragmento. É evidente que essa reconstrução não apresenta qualquer ponto em comum com a realização concreta do filme. É uma – criação – totalmente assumida pelo analista, é uma espécie de ficção, enquanto a realização continua sendo uma realidade. O analista traz algo ao filme; por sua atividade, à sua maneira, faz com que o filme exista. (VANOYE e GOLIOT-LÉTÉ, 1994, p. 15) Após transitar pelos momentos propostos pelo método, optamos por não ficar tão restritos aos aspectos técnicos (cores, angulação e posi- cionamento das imagens, plano de fundo, sonorização, fontes etc.), na medida em que se pretende identificar na construção do anúncio (filme publicitário) os elementos que nos propiciam constituir analogias refe- rentes ao“corpo-máquina”. O vídeo apresenta uma relação do atleta Usain Bolt com o Nissan GT-R. Ao identificar que os registros visuais, imagens fotográficas/estáticas – mediadas por transições e elementos textuais –, compuseram a maior parte do anúncio, optamos, na descrição, por dividi-las e reorganizá-las em seis grupos, ou seja, simplificamos o anúncio em seis figuras, pensadas a partir da verossimilhança entre elas e da praticidade interpretativa no
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    315Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes momento posterior das análises.Tal tarefa está relacionada ao queVanoye e Goliot-Lété (1994) enfatizaram enquanto momento inicial, citado acima. Constituindo o segundo momento das análises, as interpretações conferidas às metáforas sob tal perspectiva foram pensadas a partir das comparações identificadas e pautadas sob quatro temáticas já explici- tadas anteriormente. Valendo-se de tais prerrogativas estabelecidas, a análise de tal produto publicitário/midiático segue através de algumas relações concatenadas entre registros visuais e simbólicos amparados por uma linha limítrofe: as metáforas entre corpo e máquina (Usain Bolt x Nissan GT-R). USAIN BOLT X GT-R: ANÁLISE DO PRODUTO MIDIÁTICO – ANÚNCIO PUBLICITÁRIO A fim de alcançar o objetivo desse estudo, a efetuação da análise foi regulada sobre as pontes estabelecidas pela análise fílmica, primeiro no sentido da fragmentação e descrição do“filme publicitário”e, por conse- guinte, da reconstrução e interpretação do mesmo. Sendo assim, a aná- lise a seguir encontra-se dividida em duas fases, que segue, de modo a contemplar separadamente cada uma das considerações. 1ª Fase: Descrição do anúncio “What_If...” Percebendo tais aproximações e ligações entre a teoria e ao anún- cio, a análise foi pensada partindo de quatro temáticas descritas acima e a partir destas foram conferidas as relações metafóricas. A análise fíl- mica que propõe a interpretação enquanto possibilidade de reconstruir o anúncio a partir das significações conferidas a partir do contexto que se apresenta é aqui mais uma vez relembrada, pois se trata do método escolhido para guiar-nos na proposição da respectiva análise. Como explicitado pelos procedimentos metodológicos, trata-se de um comercial que veicula a campanha mundial da Nissan para o lança- mento do carro GT-R protagonizada pelo atleta/velocista Usain Bolt. O
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    316 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA filme publicitário com 1m29s de duração é apresentado a partir de uma sucessão de imagens estáticas – 21 no total – que, quando não alterna- das entre o Bolt e o GT-R, os mostra juntos numa mesma “cena”. Acom- panhado por uma sonoplastia esportiva/radical (que alude a muita adrenalina), transações e alguns elementos textuais, que ora remetem às características do atleta, ora às características do carro superesportivo. Algumas das imagens/fotografias, utilizadas para constituir a cena visual se repetem, mudando apenas o pequeno texto que as acompanham. Figura 2: Usain Bolt vs Nissan GT-R Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores. 2º Fase: Reconstrução do anúncio (Interpretação) O ato de jogar com as emoções do receptor, canalizando-as para a compra do produto compõe as técnicas vigentes no processo de criação publicitária. A fim de estabelecer novas propostas de venda, a publici- dade procura concentrar-se no receptor e não no produto, ou seja, ao invés de oferecer argumentos racionais para efetuar a compra, basear os anúncios nas qualidades intrínsecas ou valores funcionais do produto, procura-se anunciá-lo a partir de associações a valores emocionais do receptor. Neste sentido, a figura da celebridade é utilizada como estraté- gia de provocação de modo a gerar uma identificação ou uma projeção de si (receptor) no produto. Segundo Férres (1998, p. 203):
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    317Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes [...] nada atrai mais as pessoas do que elas mesmas, a publicidade não vende outra coisa a não ser projeções do próprio sujeito. Os personagens dos anúncios não deixam de ser isso, já que a sua função é provocar identificações e projeções. E também são pro- jeções de nós mesmos os objetos, já que o seu objetivo é que se transformem em prolongamentos de nós mesmos, em próteses, em compensações. [...] A maioria dos produtos não são compra- dos para satisfazer necessidades físicas, mas psicológicas, emoti- vas: desejos e temores, geralmente criados de maneira artificial. O jogo do tipo associativo ao recorrer às personalidades famosas visa promover os produtos a partir da transferência dos valores emocio- nais dos modelos. Usain Bolt, uma figura esportiva, recordista mundial, o homem mais veloz do mundo etc., atribui alguns de seus valores ao produto que, através do anúncio que se pretende interpretar, almeja ser amparado pelo consumidor que simbolicamente será seduzido por meio de uma possível identificação transferível. A comparação reluzente conferida ao homem à máquina reflete uma analogia que é antiga. Um corpo-objeto, altamente manipulável, operado a partir de uma lógica de produção técnica-científica, compõe a ideia que excita a vontade humana de superar os limites naturais. Na especulação dos sentidos simbólicos transpassados no comer- cial trazemos à tona os significados que, por ora, relacionam-se às expe- riências implícitas na nossa subjetividade. Os valores transmitidos no comercial através da figura do esportista ofereceram os subsídios para pronunciarmos as metáforas. Para Le Breton (2011, p. 232) o valor é [...] para o sujeito, a interiorização do juízo social que cerca os atributos físicos que o caracterizam (bonito/feio, jovem/velho, grande/pequeno, magro/gordo etc.). Segundo sua história pessoal e a classe social no seio da qual ele estrutura sua relação com o mundo, o sujeito faz se um juízo que marca então com sua impressão a imagem que ele se faz de seu corpo e a estima que ele tem por si.
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    318 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA Partindo de tais valores é possível sucumbir a algumas prerroga- tivas da relação do corpo com a ciência/tecnologia e por consequên- cia do avanço da performance esportiva e da analogia do corpo com a máquina. Deste modo, afirmarmos que a invasão da “tecnociência” – iniciada a partir do cientificismo de Descartes – foi a base fundante que permitiu a manipulação e dominação do corpo e os avanços no sentido performático do mesmo. O corpo passa a ser dominado por inúmeras técnicas que exerceram sobre ele relações de poder, pois, como relata Silva (2001), a transformação do corpo em algo que pode ser conhe- cido e mensurável é, também, sua transformação em algo que pode ser dominado. Essa dessacralização do corpo, diz a autora, aponta para sua ambiguidade no interior da cultura ocidental: é importante enquanto fonte de experiência, mas é, também, o corpo que se desvaloriza na medida em que se pode mexer nele e alterá-lo. “WhatIf_youhadnocompetition?”(E se_você não tivesse concorrên- cia?), a primeira frase que aparece no anúncio, confere-nos à alusão da principal ideia, do principal sentido que guiou a construção do anúncio. A ideia de concorrência, conferida pelo atleta e pelo carro superespor- tivo é construída, ou melhor, desconstruída continuamente a partir das características de ambos colocadas em níveis equiparados que, dando ênfase à impossibilidade concorrente, potencializa as metáforas entre o homem e a máquina. O primeiro agrupamento (Figura 3) composto por quatro imagens subsequentes do vídeo anunciam as primeiras minúcias sobre qua- lidades intrínsecas tanto da celebridade quanto do produto. Por sua vez, tais características apresentadas nos remetem à primeira temática aqui metaforizada a partir das leis mecânicas aludidas por Descartes que, submisso a ideias cindidas entre corpo e mente, compara o corpo humano a uma máquina complexa e complicada. Na fala de Descartes, citado por Le Breton (2011, p. 95) – “Eu me considerei primeiramente como tendo um rosto, mãos, braços, e toda essa máquina composta de ossos e de carne, tal como ela aparece em um cadáver, a qual designei
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    319Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes pelo nome corpo”– vemos o corpo percebido como um amontoado de peças, devendo ser dominado e examinado por métodos científicos pela qual submerge a anatomia na tentativa de definir o funcionamento de um conjunto a partir do entendimento sobre as partes que se somam. Figura 3: Mecânica-Anatomia/combustão-movimento Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores. O motor e as fibras musculares foram dois dos elementos colocados em foco nas imagens que se mostram. Enquanto possuidores de atribu- tos mecânicos, o motor possui a função de transformar combustível em energia capaz de gerar movimento nas rodas, enquanto os músculos, da mesma forma, transformam energia química em energia mecânica, produzindo força e movimento. Os músculos que funcionam pelo ato de contração e extensão de suas fibras podem ser equiparados a um motor ao proferir ao corpo a capacidade de se movimentar. Embora trabalhem de maneiras diferenciadas, o sistema operacional muscular opera meta- foricamente do mesmo modo que o sistema do motor de um carro: con- verte energia em movimento. Na primeira imagem da figura 3, a relação é conferida às funções elencadas sob o bombeamento/adrenalina. A ação proferida pelo bom- beamento tem por intuito fornecer energia a um fluido (combustível) de modo a elevá-lo à conversão de energia mecânica à cinética (ou de movi-
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    320 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA mento) através de um motor. Deste modo, o bombeamento pode ser definido como o ato de adicionar energia a um fluido com o desígnio de movê-lo de um ponto para outro (OLIVEIRA; COELHO; OLIVEIRA JÚNIOR, 2009). Em contrapartida, a adrenalina/epinefrina, diferentemente de uma ação em si, é uma substância (um hormônio) que atua como estí- mulo ao coração (aumenta os batimentos cardíacos – o bombeamento do sangue), estimula a vaso constrição, eleva a pressão arterial, libera a glicose armazenada no fígado, relaxa alguns músculos involuntários ao mesmo momento que contrai alguns outros. A adrenalina tem sua importância para a manutenção da vida, assim como o bombeamento – a queima de combustível – têm sua importância dando“vida”a uma máquina. Em condições normais, a pre- sença dessa substância no sangue (fluido humano) é muito pequena, no entanto, nos momentos de excitação (medo, euforia) ou estresse emo- cional é secretada uma grande quantidade de adrenalina para atuar em determinadas partes do corpo, como nervos e músculos, de modo a pre- pará-las para o esforço físico. Assim, embora enquadrados em contextos distintos (humano/ máquina, natural/artificial etc.), tais níveis e funções exercidas pelas “peças”destacadas (motor – músculos) se pareiam, na medida em que o bombeamento do motor e a reação da adrenalina no corpo/múscu- los são os agentes que acionam sistemas que se colocam a cumprir funções vitais como na transformação de energias que coadunam no ato de se movimentar. Entre o século XVII e o século XIX as três figuras sucessivas do corpo encontraram-se ligadas aos três paradigmas da física, da qual são variantes e aplicações: a física dos choques (século XVII), a física das ações a distância (século XVIII) e a termodinâmica (século XIX). A importância da física e da mecânica da construção de um modelo de compreensão do corpo, susceptível de ser traduzido tanto no plano médico como no plano das práticas quotidianas, impõem uma leitura maquínica do corpo enquanto
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    321Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes complexa maquinaria de tubos, de bombas, de filtros, de alavanca onde circulam fluídos e há órgãos que se correspondem (BÁRTOLO, 2007 p.208) O corpo enquanto um conjunto de sistemas mecânicos e fisioló- gicos, uma máquina perfeita, passou a ser estudado em suas minúcias para atuar com eficiência e superar seus limites naturais na criação de leis e técnicas que expliquem e auxiliem na maximização do rendimento (a quebra constante de recordes etc.). O corpo-atleta tem sido tratado, neste sentido, como uma verdadeira máquina humana capaz de perfor- mances espetaculares. Tal ideia provém do discurso dualista que categoriza o corpo como objeto, um complexo habitável de símbolos. O corpo-máquina (ou o corpo anatomizado), curiosamente carregando um sentido de máquina bem ajustada, amorosamente supervisionada, foi absorvido paradigma- ticamente como aquele confiável e pleno de vitalidade. Neste sentido, um eco do ato anatômico confere um privilégio de valor metafórico. A velocidade e ou/ o tempo de reação é a segunda temática sobre a qual nos dispusemos a dissertar a partir das constatações apresentadas. Enquadrada no ramo das capacidades físicas, a velocidade faz referência aos níveis de deslocamento de um corpo em um determinado tempo e espaço. Apresentados sob a forma de metros/segundo, os números nas imagens conferem o tempo de reação do atleta, que pode partir de um estímulo (tátil, visual ou auditivo) – a depender do caso – e o espaço que ele percorre em uma fração de tempo. Do mesmo modo apresen- tam o veículo aferidos sob a unidade de milhas/segundo, bem como a função “modo de partida” que age perfeitamente no momento de seu lançamento.
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    322 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA Figura 4: Velocidade/tempo de reação Fonte: recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores. Os pés/pernas do atleta e a parte traseira do carro são colocados em ênfase em tais imagens. Durante uma corrida, o bloco de partida, no qual o atleta encontra-se posicionado na imagem, é responsável por lan- çar/impulsionar o atleta no momento da arrancada para que o mesmo alcance um alto nível de velocidade mais rapidamente. Talvez esse seja mais um ponto metafórico implícito que aproxima uma relação entre Bolt, o atleta, e o superesportivo, GT-R, já que, como é possível conferir nas imagens, o carro também apresenta um“modo de partida”capaz de lançá-lo perfeitamente, mesma função atribuída ao“bloco de partida”. Medir, mensurar, quantificar... A métrica passa a assumir centra- lidade com o advento das tecnologias que manipulam o corpo. Nos programas de dieta mede-se a quantidade calórica e o percentual de gordura e nos programas de saúde percebemos que“todo um vocabulá- rio médico-fisicalista baseado em constantes biológicas, taxas de coles- terol, tônus muscular, capacidade aeróbica populariza-se e adquire uma conotação‘quase moral’, fornecendo os critérios de avaliação individual” (BRACHT, 2013, p.184). Nas performances esportivas, nos testes físicos... – nada escapa ao número. Para Soares (2008, p.76): A medida inaugura um modelo de olhar e ao mesmo tempo um modo de intervir, materializando com intensidade, e quase meca-
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    323Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes nicamente, os processos de conformação dos corpos [...] Medir torna-se, de fato, a ação e a intenção primeira para domesticar o corpo e enquadrá-lo em supostas normalidades. Medir o peso, a força, a resistência, a velocidade, a flexibilidade, e hoje mais inten- sivamente, medir os índices de massa corporal [...]. Contudo, além das relações simbólicas dispostas nas imagens que podem nos conferir outras tantas interpretações, a velocidade e tempo de reação, apesar de serem medidas em unidades diferenciadas, tratam-se de mais um fator de verossimilhança entre o homem Bolt e a máquina Nissan GT-R.Medirequantificarníveisdemodogeral–independentementedaespe- cificidade – é método que se confere por uma ordem comparativa e relativa. A terceira temática foi pautada sobre os níveis da performance que muitas vezes é subvertida aos níveis da aerodinâmica. Nos automóveis, os resultados podem ser avantajados a partir de seus contornos, da cons- tituição de uma arquitetura que possibilita uma redução quantitativa dos níveis resistidos pelo ar, ou seja, os carros são projetados a partir de prin- cípios que viabilizam o aperfeiçoamento de seu desempenho. Do mesmo modo, as tecnologias, entre outros aspectos, estão postos para agir sobre o corpo, em particular, sobre o seu desenvolvimento performático. Figura 5: Performance/aerodinâmica Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores. Difusor, para-choque de ventilação, nervuras adicionais, sapatos leves e personalizados, roupas dri-fit, foco, relaxamento e confiança são os “acessórios” complementares pautados para auxiliar em tal processo
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    324 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA e que conferem mais uma vez os elementos metafóricos que constituem outras aproximações entre homem e máquina. Frases que acompanham o anúncio estão postas de modo a conferir reforço às ideias e minuciosidades apresentadas pela figura. “Melhorou o coeficiente...” e “Desempenho melho- rado...” são momentos que atribuem valores aos elementos/acessórios cita- dos provedores do alcance de níveis performáticos mais elevados. É nesta perspectiva que a ciência desmembra o corpo humano, tomando-o como um conjunto de peças (órgãos) para estudá-lo melhor e avançar no sentido de potencializar o mesmo para além de suas con- dições naturais. A constituição ontológica de corpo como máquina autoriza a potencialização de um trabalho mecanizado que permite a subordinação do homem à ciência e à técnica, assim como à lógica da taylorização2 . A este respeito, menciona Partisans (1978, p. 27): “El robot del deporte está a punto de nacer”. Aciênciaforneceoselementosquepermitirãoumcontroleeficiente sobre o corpo e um aumento de sua eficiência mecânica. Melhorar o funcionamento dessa máquina depende do conhecimento que se tem de seu funcionamento e das técnicas corporais que construo com base nesse conhecimento. (BRACHT, 1999, p. 103) No quarto e último momento de contraposições apresentadas no anúncio capazes de significar as nossas metáforas, são destacados os recordes, os prêmios e os títulos já conquistados tanto pelo atleta Usain Bolt quanto pela máquina GT-R. Em um primeiro momento é colocada em foco a ideia de que “absolutamente não há competição” entre ambos. Esta se trata de uma afirmativa certificada a partir das informações apre- sentadas de forma explícita na figura seguinte – mas que veio sendo conferida desde as imagens anteriores no percurso do anúncio a partir 2 A taylorização é um modelo de produção desenvolvido por Frederick W. Taylor (1856-1915). É um método que tem sua base no controle do tempo e dos movimentos visando a padro- nização e a fragmentação, a fim, de se obter uma redução de perdas e um aumento de produtividade/performance.
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    325Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes dos dados medidos e comparados – que apresentam, por ano, a lista- gem dos principais recordes, prêmios e títulos conquistados por eles. Figura 6: Recordes, Títulos e Prêmios Fonte: Recorte e manipulação do anúncio feita pelos autores. De um lado, o organismo – carne e subjetivação – que aos poucos se torna, em vários aspectos,“artificial”; por outro lado, a máquina, um amon- toado de engrenagens que aos poucos simula características humanas. Máquinas atléticas fabricadas e subjetivadas, magníficos seres orgânicos criados em laboratórios. Neste sentido, Kunzru (2000, p. 26) cita que: Vencer os Jogos Olímpicos na era do ciborgue não tem a ver sim- plesmente com correr mais rápido.Tem a ver com a interação entre medicina, dieta, práticas de treinamento, vestimentas e fabricação de equipamentos, visualização e controle de tempo.Tem a ver com a ciborguização de atletas por meio de drogas e da manipulação genética para melhorar a performance (Grifo nosso). As mudanças na concepção de ciências mudaram também os modos de se ver o humano. Hoje estamos na era da robótica e do cibor- gue3 , a ciência em relação ao homem máquina evolui a passos largos e 3 O termo ciborgue deriva de cyborg, que é a abreviatura de cybernetic organism. Kybernetes vem do grego, que significa“o homem que dirige”.
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    326 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA já se pensa na eliminação do corpo humano, projeta-se a sua recons- trução até seu desaparecimento. A engenharia genética e a robótica têm planos neste sentido. “Muitos autores vêm hoje com júbilo chegar o momento abençoado do tempo‘pós-biológico’, ou‘pós-evolucionista’, ‘pós-orgânico’– em suma, o fim do corpo”(LE BRETON, 2003, p. 16). Esse imaginário tecnocientífico é um pensamento radical da suspeita; ele instrui o processo do corpo por meio da constatação da precariedade da carne, de se sua falta de durabilidade, de sua imperfeição na apreensão sensorial do mundo, da doença e da dor que o atingem, do envelhecimento inelutável das funções e dos órgãos, da ausência de seus desempenhos e da morte que sempre o ameaça (LE BRETON, 2003, p. 16). Parece que estamos próximos de nos livrar do corpo. E se isso acon- tecer, estaremos livres de todo mal das precariedades de nossa carne, dos limites impostos por ela. Estaríamos entrando numa nova era em que não mais o dualismo corpo e mente se oporiam, seria agora a opo- sição do corpo em relação ao próprio sujeito. “Can’t be_beat” (“Não pode ser_derrotado”) é a frase que encerra o anúncio. Disputando sobre as pistas, o GT-R e Bolt são colocados em patamares semelhantes. A partir da constatação das verossimilhanças aparentes e da incapacidade de competirem entre si (por serem idênti- cos), foram forjados os elementos que nos permitem averiguar e cons- tituir simbolicamente as metáforas entre o homem e a máquina a partir de figuras pautadas e das temáticas transcorridas. Entendendo a imagem como uma complexa representação de sig- nos, tal interpretação e a analogia acima citada foram pensadas a partir da ideia de que a mente é capaz de criar, a partir de signos externos, outros signos equivalentes ou até mais desenvolvidos. Sendo assim, à guisa de síntese, compreendemos o corpo como ente construído por meio de interações de significados no interior de um determinado con- texto que a ele atribui sentidos. Essa produção pode se dar a partir de
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    327Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes formalismos mais objetivos ou num plano mais simbólico e subjetivo. Para Bártolo (2007), onde se encontra um corpo dever-se-á encontrar também uma rede de relações instrumentais, uma série em funciona- mento, de operadores epistêmicos, uma lógica de produção que é, antes de qualquer coisa, produção de sentido, de um determinado sentido legitimador da rede de relações, do funcionamento dos operadores, do próprio procedimento das lógicas produtivas. “Toda imagem, mesmo aquela tornada mais asséptica, a mais rigo- rosamente sujeitada ao signo, suscita no homem um apelo do imagi- nário” (LE BRETON, 2011, p. 331). A capacidade mental de decodificar as mensagens inscritas nos incitou a estabelecer alguns sentidos em relação à disposição das imagens. Ao realizar essas reflexões, considera- mos que a significação se coloca entre o “poder de vir a ser”do sentido, na medida em que não é possível apreender o sentido em si, mas tão somente explicitar uma significação que pode ou não estar de acordo com o sentido real. CONSIDERAÇÕES FINAIS A publicidade, dentre as suas inúmeras estratégias, tem buscado realizar associações entre valores de um determinado produto à partir daqueles proferidos por celebridades. Sob uma perspectiva sígnica, são feitas as devidas transferências através de um jogo pautado na mani- pulação emocional e simbólica, a fim de alavancar a venda de produtos de consumo. Conferir personalidade ao produto para que o consumidor adquira um signo identitário através dele integra uma estratégia em ter- mos táticos de venda. No anúncio publicitário analisado, o atleta Usain Bolt, o “homem mais rápido do mundo”, foi associado a um carro superesportivo (Nissan GT-R) lançado em sua versão 2013. Assim, aponta relações e metáforas, expostas pelas palavras e pelas imagens presentes no anúncio sobre o corpo-máquina. As imagens apresentadas pelo anúncio ofereceram os
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    328 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA signos que propiciaram a pauta dessignificação metafórica a partir de quatro temas: 1) perspectivas mecânicas e anatômicas; 2) velocidade e aerodinâmica; 3) performance e suas tecnologias; 4) recordes, títulos e prê- mios. Utilizando-se de métodos elencados pela“análise fílmica”, dividimos a parte de discussão em dois momentos, a saber: fragmentação/descrição e reconstrução/interpretação. Assim, foi possível alcançar a proposta desen- volvida pelo objetivo da pesquisa que foi analisar os elementos metafóricos do anúncio publicitário da Nissan capazes de conferir a relação entre corpo e máquina através da manipulação simbólica do atleta/velocista Usain Bolt e do carro superesportivo NissanGT-R, respectivamente. A apropriação do ser humano por meio da ciência e da técnica o fez um imperativo da modernidade. A tecnologia transformou este ser em produto que impulsiona a produção de tantos outros. Toda essa rela- ção entre ciência e tecnologia se dá em consonância com a racionali- zação do sistema de produção na sociedade. É esse o argumento que também justifica a utilização de Usain Bolt no contexto de um produto publicitário/midiático. As analogias e metáforas entre “corpo e máquina” historicamente construídas vêm nos mostrar que não existe sujeito ou subjetividade fora da história e fora dos signos sociais – linguagem. Não há sujeito sem cultura, nem cultura fora de uma estrutura mediada por saberes – ciên- cia/tecnologia. Enquanto seres de cultura, estamos envoltos por opera- dores de sentido, poucos entre nós estamos atentos em saber o que de nós é“feito”e o que em nós é“desfeito”. REFERÊNCIAS BÁRTOLO, J. Corpo e sentido: estudos intersemióticos. Portugal/ Covilhã: Livros Lab Com, 2007. BRACHT,V. A constituição das teorias pedagógicas em educação física. Cadernos CEDES, v.19, n.48. pág. 69-88. Campinas, ago. de 1999.
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    329Jessica Vitorino daS. Terra Nova; Suely O. dos Santos; Eduardo C. Gomes de Menezes __________. Educação Física & saúde coletiva: reflexões pedagógicas. In: FRAGA, A.B.; CARVALHO, Y.M.; GOMES, I.M. As práticas corporais no campo da saúde. São Paulo: Hucitec, 2013, p.155-197. FENSTERSEIFER, P. E. A Educação Física na crise da modernidade. Ijuí: UNIJUÍ, 2001. FENSTERSEIFER, P.E. Corpo e linguagem. In: STREY, M.N.; CABEDA, S.T.L. (org.) Corpos e subjetividades em exercício interdisciplinar. p. 289-303. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. FERRÉS, J. Televisão subliminar: socializando através de comunicações despercebidas. Tradução: Ernani Rosa e Beatriz A. Neves. Porto Alegre: Artmed, 1998. KUNZRU, H.“Você é um ciborgue”: Um encontro com Donna Haraway. In SILVA,T. T. Antropologiadociborgue:asvertigensdopós-humano. P. 19-37. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. LE BRETON, D. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 2003. ______. Antropologia do corpo e modernidade. Tradução de Fábio dos Santos Creder Lopes. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. MENDES, M. I. B. S. Mens sana in corpore sano: compreensão de corpo, saúde e educação física. Tese de doutorado em educação. Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Natal, 2006. MEZZAROBA, C.; MENDES, D.S.; PIRES, G.D.L. Grandes eventos esportivos, mídia e representações: possibilidades/responsabilidades para a Educação Física escolar. In: DANTAS JUNIOR, H.S.; KUHN, R.; DORENSKI, S. (Orgs.) Educação Física, esporte e sociedade: temas emergentes. Vol. 4. São Cristóvão: Editora da UFS, 2010. MINAYO, M. C. de S. (org). Pesquisa Social: Teoria, método e criatividade. 21. ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2002. OLIVEIRA, G.A.de.; COELHO, L.P.P.P.; OLIVEIRA JÚNIOR, M.M. 5º Laboratório: Estudo da Eficiência energética de sistemas de bombeamento. Uberlândia, FEMEC, 2009. Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/ ABAAAAqpEAL/estudo-eficiencia-energetica-sistemas-bombeamento>. Acesso em: 13 Jun. 2014. PARTISANS, J. Deporte, cultura y represión.Barcelona, Editorial Gustavo Gil, 1978.
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    330 USAIN BOLTE O CORPO MÁQUINA SIBILIA, P. Ohomempós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. SILVA, A. M. Corpo, ciência e mercado: reflexões acerca da gestação de um novo arquétipo da felicidade. Campinas: Autores Associados: Florianópolis: UFSC, 2001. SOARES, C. L. Pedagogias do corpo: higiene, ginástica, esporte. In: RAGO, M.; VEIGA-NETO, A. Figuras de Foucault. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, p.75-86, 2008. VANOYE, F.; GOLLIOT-LÉTÉ, A. Ensaio sobre a Análise Fílmica. Campinas-SP: Papirus, 1994. VAZ, A. F.Treinar o corpo, dominar a natureza: notas para uma análise do esporte com base no treinamento corporal. In: Caderno Cedes. Ano 9, n.48, Agosto, 1999.
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    A MARCA“NIKE”, SEUS SIGNOSE ARGUMENTOS: UM ESTUDO DE SEMIÓTICA APLICADA Vinicius dos Santos Souza Elder Silva Correia Tiago de Brito Ferreira Santos Renato Izidoro da Silva RESUMO: O presente estudo elegeu como seu objeto de investigação a logo- marca da empresa de materiais esportivos chamada Nike; que faz referência à deus grega Nice: diva da vitória. Com base na semiótica de Peirce, objetivamos identificar e compreender os fundamentos perceptivos e históricos responsá- veis por sustentar a referida logomarca como um signo capaz de representar a empresa em suas finalidades comerciais. Buscamos demonstrar que a escolha dalogomarcapelosfundadoresdaempresaobedeceumalinhaargumentativa voltada à construção de vínculos semióticos – perceptivos e históricos – entre a marca, seus produtos e o comportamento de seus consumidores. A logomarca implica, portanto, uma linguagem voltada para a possibilidade de um vínculo comunicativo entre o produto e a subjetividade de seu consumidor; de modo que o primeiro passa a logicamente fazer parte dos pensamentos e dos com- portamentos do segundo. PALAVRAS-CHAVE: Marca esportiva Nike. Subjetivação. Governabilidade. Consumo. Semiótica.
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    332 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS INTRODUÇÃO A governabilidade das marcas esportivas direcionada ao consumi- dor, implica na capacidade empresarial de, mediante suas ações polí- ticas e econômicas, pautar o comportamento e o desejo das pessoas articulados ao consumo. A ação do comprar pode ser caracterizada em diversas ocasiões de sentidos e significados coletivos e particulares. Para tanto, há um sem fim de signos que, conforme uma doutrina semiótica, operam nas propostas de compra de diversos produtos, dentre eles os materiais esportivos. O código em que nossa “política de vida” está escrito deriva da pragmática do comprar (BAUMAN, 2001, p.87). Considerando tais características, a pretensão deste artigo foi ave- riguar os esquemas perceptivos que, em termos semióticos, sustentam a marca esportiva “Nike” no interior das dinâmicas contemporâneas de consumo, mais especificamente, tomando como ponto de partida, sua logomarca (Imagem 1). Diante disso, compreendemos que a relação estabelecida entre a marca e o consumidor suscita uma relação de iden- tificação semiótica, por meio da qual a constituição (características) da marca provoca determinados comportamentos. Para melhor entender- mos tal relação, é necessária aqui uma reflexão sobre os signos na forma- ção das identidades no campo dos estudos sobre cultura. Imagem 1: Logomarca da Nike Fonte: Google Imagens 01
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    333Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva Primeiramente, é importante lembrarmos que o signo, na menção de Peirce (2005, p.46): “[...] é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvol- vido [...]”. Frente a esse conceito de signo, consideramos necessário enfa- tizar uma característica do mesmo (talvez a mais importante): o signo tem o poder de representar seu objeto na subjetividade de uma pessoa. Neste sentido, ele só pode funcionar como signo se tiver esse poder de representar, substituir, de estar no lugar de algo (seu objeto) que seja diferente dele. Ou seja, o signo não é o objeto, ele é o outro, está apenas no lugar do objeto. Assim, o signo só pode substituir o objeto de um certo modo, numa certa capacidade, mas nunca por inteiro ou completamente, pois sua principal característica é a diferença e seu poder de representação (SAN- TAELLA, 2007). Além disso, em semiótica, considera-se que o signo é o único modo de um sujeito apreender a realidade objetiva em sua sub- jetividade. Ou seja, a realidade externa apenas pode ser pensada pela mente se, e somente se, ela for traduzida pela percepção e pela cogni- ção na forma de signo, de modo que, quando presente na subjetividade, passa a se articular com outros signos, construindo redes de associação semiótica: argumentos. A formação da identidade cultural é constituída mediante a exposição do sujeito aos discursos e signos veiculados no tecido social, os quais, paulatinamente, são subjetivados e, dessa forma, passam a constituir seus pensamentos. A formação do sujeito, ou de sua identidade, acontece mediante o contexto cultural e simbólico com qual o mesmo está em contato e, nesse sentido, a experiência é a grande ope- radora desse processo. Entender a formação do sujeito baseados na semiótica de Peirce, é compreender que as experiências vividas passam a ser experiências pretéritas, passando, portanto, a ser aquilo que já foi e não é mais; é outra coisa que tem o poder de representar, ou seja, é um signo com o poder de agir e operar na mente do sujeito. A experiência pretérita passa
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    334 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS a ter um estatuto de alteridade para a consciência, formando assim um não-ego interno (IBRI, 1992). Esse estatuto de alteridade existe porque a experiência pretérita é algo distinto e exterior ao sujeito – sujeito este que já é formado por um ego. Ao passar por uma experiência, o sujeito não continua mais o mesmo, exatamente, porque a experiência deixa resultados na mente do mesmo, que passam a participar/interferir nas experiências presentes e futuras do sujeito. Esse processo de incorporação de novas experiências no ego do sujeito, ou de novos signos na mente do mesmo, é denominado sub- jetivação. Peirce (2005) menciona que, para ocorrer esse processo, é necessário que a mente esteja exposta a novos fenômenos que gerem novos signos e que tenham o poder de significação, ou seja, que façam sentido para a mesma. Esse processo pode se dar de alguns modos, como por indução, dedução e por abdução. Mediante esse último – abdução – a mente afetada tem o poder de gerar novas ideias e per- cepções para os signos que lhes são apresentados e para o contexto (cultural e simbólico) com que a mesma está em contato. Isso acontece na medida em que é necessária uma real significação que represente, que faça sentido para o sujeito. A partir daí, a abdução consiste em um ato de criação, algum tipo de ligação entre signos ainda não pen- sada pela mente, tampouco existente no fenômeno objetivo. Contudo, esse novo signo criado pela mente pode ser objetivado no campo da expressão a fim de afetar outras mentes, fazendo-as subjetivar novas ideias, mas tornando-as habituais. É seguindo essa lógica que as marcas esportivas, através de suas propagandas, procuram operar na mente dos seus consumidores, à qual através da apresentação de novos signos e significações, se juntam aos signos já existentes na mente dos mesmos, gerando, assim, uma espé- cie de conflito entre os signos novos e os já existentes e, consequen- temente, criando novos signos e pensamentos nas pessoas. Em outras palavras, o novo signo proposto por exemplo, por um comercial de televisão, quando subjetivado por alguém, passa a funcionar na mente
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    335Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva como algo estranho: um não-ego. Ele é um não ego porque ainda não passou para o campo da ação motora do sujeito, ou seja, para compor sua expressão, não fazendo, portanto, parte de sua personalidade de um dado modo pelo qual o sujeito diz: esse sou eu. Contudo, com o tempo, esse signo estranho, que apenas está na mente, mas não no ato expres- sivo do sujeito, aos poucos, em diálogo com outros signos estabelecidos como compositores do ego pretérito da pessoa, poderá se ligar na forma de um novo ego. Levando isso em consideração, entendemos que as mensagens geradas e transmitidas por uma marca esportiva, ou sua logomarca, agem diretamente na subjetividade do indivíduo frente à exposição dos signos gerados por meio de propagandas veiculadas pelas mídias de massa. A partir da experiência e do contato com tais signos, o indiví- duo incorpora em si, por um princípio de alteridade, em sua identidade, também a identidade da marca. Funciona como se sua identidade fosse o seu ego interno e a identidade da marca fosse o não-ego formado a partir do contato do sujeito com a marca. Desse encontro, entre ego e não-ego (signo da marca, como novidade subjetiva para a mente do sujeito), ambas se alteram mutuamente constituindo comportamentos e fazendo parte das experiências presentes e futuras. Neste sentido, o objetivo da marca é criar uma relação de identi- dade com o consumidor, e uma das estratégias par se atingir tal desígnio é através da manipulação de sua logomarca, a qual busca em si trazer o significado/sentido/significação da marca, bem como o argumento que a sustenta no sentido de ser aceita ou subjetivada pelo sujeito. Sob este aspecto, podemos considerar a marca como sendo um operador mental, um software que opera na cabeça do consumidor a partir do argumento da mesma. Relembrando o conceito de signo como algo que representa em certa medida um objeto que não ele mesmo, a marca tenta exata- mente ser o signo de alguma coisa além dela, para poder, assim, operar na mente do consumidor. Ela é um signo exatamente porque precisa ser algo novo, diferente e externo do sujeito, que represente algo para
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    336 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS ele, bem como ao mesmo tempo deve ser algo que, em certa medida, seja familiar ao sujeito, para que lhe possa atribuir sentido e significação, enquanto a única via possível de um novo signo não passar desperce- bido pela mente do espectador. Tendo como objeto de estudo a marca “Nike”, interessa-nos per- guntar: qual o argumento do criador da mesma? Qual operação cog- nitiva construiu a marca? O que a Nike quer representar na cabeça dos consumidores? A logo da Nike “quer estar no lugar de quê”? O que ela representa? Considerando a logomarca da Nike como uma linguagem, notamos que a mesma está fundada em esquemas perceptivos. A logo, sendo uma forma de linguagem, contém um potencial comunicativo de diversos tipos de mensagens que produzem efeitos variados nos recep- tores/consumidores, efeitos esses que vão desde o nível “puramente emocional, sensório até os níveis metafóricos e simbólicos”(SANTAELLA, 2005, p.59). Sendo assim, o objetivo do presente texto foi, a partir de um estudo semiótico da logo da marca esportiva Nike, desvendar quais esquemas perceptivos sustentam os argumentos da empresa. Visando alcançar esse objetivo, o presente escrito está dividido em três partes: na primeira parte discorremos a respeito de nosso caminho teórico-metodológico, o qual está baseado na Semiótica de Peirce; num segundo momento, fazemos a análise semiótica da logomarca da Nike; por fim, estabelecemos de forma ensaística uma relação do argumento da Nike com os ideais gregos relacionados à deusa Nice e ao esporte. METODOLOGIA A logomarca da Nike, vista sob o viés de um signo que representa alguma coisa, ou até mesmo um conjunto de coisas, além dela própria, acaba ocupando na mente de alguém o lugar dessa(s) coisa(s) por sua capacidade qualitativa e quantitativa. Ou seja, ele faz lembrar, imaginar e/ou identificar subjetivamente uma determinada coisa, mesmo sobre sua ausência objetiva. Nesse sentido, através de uma análise pautada
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    337Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva teórica e metodologicamente na semiótica, buscamos compreender, o que a logomarca da Nike pode ou intenta representar – subjetivar – na mente do indivíduo a partir dos mecanismos e níveis da experiência fenomenológica. É importante identificar quais os níveis da experiência fenomenológica que a logomarca da Nike possibilita ao consumidor? Quais categorias da experiência fenomenológica são contempladas a partir dela? É devido a tais questões que nosso referencial teórico-me- todológico está baseado na Semiótica de Peirce, pois compreendemos que nele podemos visualizar uma intensa relação entre as categorias da experiência e toda a constituição de sua semiótica. Podemos afir- mar que a semiótica de Peirce tem como base a fenomenologia – bem como a característica de transcendê-la por operações retóricas ou argu- mentativas. Na menção de Peirce, a fenomenologia tem como objetivo descrever/identificar de modo geral as formas pelas quais os fenôme- nos se apresentam no mundo para uma mente. O fenômeno é qualquer acontecimento percebido, por alguém, no mundo (IBRI, 1992). Todo e qualquer fenômeno só pode existir em três modos: Primeiridade, Secun- didade e Terceiridade. A partir disso, a análise e interpretação semiótica implicam na uti- lização dessa tricotomia, cujos termos também podem ser chamados, respectivamente, de Originalidade (nível básico), Obsistência (nível intermediário) e Transuação (nível mais complexo), respectivamente; que são, em suma, os níveis ou as capacidades em que alguma coisa pode ser dividida na experiência sensitiva, perceptiva e cognitiva. Logo, a utilização da semiótica nesse estudo se faz necessária pelo fato de aqui estarmos discutindo questões relacionadas à linguagem e aos proces- sos de comunicação (área bastante abordada no campo da semiótica), assim como o estudo dos signos envolvidos com a logomarca que, supo- mos, busca comunicar algo; que representa algo diferente dela, mas que com ela possui algumas relações de semelhança. Podemos visualizar tais questões na descrição de Santaella (2005, p.59):
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    338 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS As linguagens estão fundamentadas em esquemas perceptivos. Assim sendo, os processos perceptivos também fazem parte dos estudos semióticos. Além disso, a semiótica estuda os processos de comunicação, pois não há mensagem sem signos e não há comunicação sem mensagem. É por isso que a semiótica nos habilita a compreender o potencial comunicativo de todos os tipos de mensagens, nos variados efeitos que estão aptos a produzir no receptor. Esses efeitos vão desde o nível puramente emocional, sensório até os níveis metafóricos e simbólicos. Com isso, queremos identificar os variados efeitos – resultados cognitivos, que são signos, da experiência sensitiva e perceptiva – que a logomarca da Nike pode/quer provocar, despertar na mente do indi- víduo, do seu consumidor, em forma de pensamento e de comporta- mento (expressão). Seguindo essa linha, na prática, desejamos apontar que a logomarca Nike, enquanto signo e capacidade, não à toa, repre- senta esse papel de levar à mente do consumidor uma identificação de maneira subjetiva, em relação a materiais esportivos ou a uma série de fenômenos associados a essa linha, mesmo quando ausentes objetivamente, apenas por estarem amparados por um argumento já pré-estabelecido. Com isso, veremos que no campo das propagandas, seus profis- sionais procuram, antes de tudo, estabelecer um argumento de venda- -compra-consumo, para em seguida buscar nas realidades objetivas e subjetivas fundamentos materiais (sensações) e ideativos (percepções) capazes de fazer com que esse mesmo argumento faça sentido. Para isso, os mesmos (publicitários) devem elencar signos de Primeiridade, Secundidade e Terceiridade, para sustentarem o seu argumento inicial. Cada um desses três níveis de experiências abarcam níveis internos. Segundo Netto (1980, p. 61):“A primeiridade recobre o nível do sensível e do qualitativo e abrange o Ícone, o Qualissigno e o Rema”. Diz respeito a qualidades mais singulares, impressões primeiras dos signos; aquilo que se apresenta em primeira instância, seja em sua forma simples [sen-
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    339Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva sações] e/ou mais desenvolvidas [objetos e palavras] – sempre no plano das qualidades ou existências primárias que podem servir de base ou ponto de partida para se estabelecer relação (de Secundidade ou deTer- ceiridade) com outras coisas. Já no que se refere à Secundidade, “[...] diz respeito ao nível da experiência, da coisa ou do evento: é o caso do Índice, do Sinsigno e do Dicissigno”(Ibidem, p.61). Há uma qualidade, objeto ou palavra (Primeiri- dade), que se relaciona, objetiva e/ou subjetivamente, com um segundo elemento, que pode ser outra qualidade, um objeto ou uma palavra. Quando ocorre a combinação de dois elementos dessa natureza, cha- mamos de experiência de Secundidade, justamente porque em relação a um primeiro entra em contracena um segundo. A Terceiridade que, segundo Netto (Ibidem, p.61), “[...] refere-se à mente, ao pensamento, isto é, à razão. Neste nível está presente o campo do Símbolo, do Legis- signo e do Argumento”. Logo, a Terceiridade pode ser entendida como a interpretação da mente, o terceiro da relação semiótica, que interpreta o fato e adquire o signo mais desenvolvido, seja como uma lei, um sím- bolo ou um argumento que busca explicar ou justificar as experiências de Primeiradade e de Secundidade. Antes de continuarmos, é importante destacar algumas questões a respeito destas três categorias fenomenológicas, de modo a melhor compreendermos as relações entre as mesmas. Não há como compreen- der a Terceiridade sem que estejam presentes a primeira e a segunda categorias. Assim como também não é possível a Secundidade sem que esteja presente a Primeiridade. Ou seja, não tem como avançar para um nívelfenomenológicoseguintesemhaverumnívelanterior,assim,éuma experiência contínua. A experiência ocorre nesses três modos de ser do fenômeno, que se articulam entre si, coexistem, se entrelaçam, pois não há uma relação linear entre os mesmos, o que marca uma característica de simultaneidade dos três, não tendo como identificar ao certo qual dos três se sobressai. Podemos apenas identificar uma maior predomi- nância de uma ou de outra, porém nunca somente de uma. Com isso,
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    340 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS podemos compreender que ao experimentamos um determinado fenô- meno, a experiência implicada por esse resulta em uma percepção de simultaneidade. Isso acontece na medida em que não percebemos de forma fragmentada o fenômeno apresentado/percebido, mas ele, com suas características misturadas, entrelaçadas, seus diversos aspectos e modos de ser ao mesmo tempo, misturando sensações, ideias a respeito da experiência gerada. No que tange à Primeiridade, o Qualissigno tem como caracte- rísticas ser um pré-signo, mais precisamente uma qualidade não cor- porificada, atua como uma simples sensação, mas ainda não há uma significação que o faça um signo, embora contenha a potência de sê-lo. Para exemplificar, trazemos a cor vermelha, uma qualidade primária. Não estamos falando de um objeto vermelho ou da palavra “vermelho”. Trata-se de conceber o vermelho sem objeto, sem nome, à espera, jus- tamente, de um objeto e/ou de um nome com os quais possa compor outro signo. Segundo Peirce, “[...] um Qualissigno é uma qualidade que é um Signo. Não pode atuar realmente como signo até que se corpo- rifique; mas esta corporificação nada tem a ver com seu caráter como signo”(PEIRCE, 2005, p. 52). O Ícone tem como sua principal característica sua forma de repre- sentação através da semelhança, quando é necessária a imagem para o reconhecimento de um signo, enquanto objeto; como por exemplo, fotografias de pessoas. Segundo Peirce (2005, p. 64), “[...] o ícone é um signo que possui relação de semelhança global ou geral (real ou não) com o objeto, ou seja, ele independente de existir ou não, necessita esta- belecer uma semelhança com o objeto”. O Rema estabelece uma relação de primeiridade com o signo interpretante. Para Peirce (2005, p. 51):“Um Rema é um Signo que, para seu Interpretante, é um signo de possibilidade qualitativa [...] é enten- dido como representando esta e aquela espécie de objeto possível. Todo Rema, propiciará, talvez, alguma informação, mas não é interpre- tado nesse sentido”. Outra questão que caracterisa o Rema é que ele
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    341Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva está relacionado à escrita e não à imagem como o ícone. Um exemplo é a palavra “vermelho”, que não traz consigo uma qualidade primária (a cor vermelha), nem tampouco está relacionada a nenhuma outra coisa ou palavra, estamos falando apenas da palavra“vermelho”. Sendo assim, quando ela é associada a alguma coisa, como por exemplo uma camisa, ela passa para a secundidade da existência (discente), como veremos a seguir. Assim, toda palavra tem a potência de ser associada a alguma outra de modo a produzir sentido em uma frase ou proposi- ção. Mas, enquanto estiver só, ela não significa nada senão ela própria e alguma qualidade que ela representa, sem, contudo, significar algo além disso. No que se refere à secundidade, temos inicialmente o Sinsigno, que para Peirce (2005, p.52): “[...] é uma coisa ou evento existente e real que é um signo. E só o pode ser através de suas qualidades, de tal modo envolve um Qualissigno, ou melhor, vários qualissignos”. Ou seja, um Sinsigno é para alguém uma qualidade articulada a outra qualidade e sua subjetivação se dá ao passo que os qualissignos se tornam existen- tes, concretos mediantes essas associações. Um exemplo, as sensações da cor branca e da temperatura gelada, quando vemos observamos a neve. Essa última é o objeto, enquanto que a qualidade de ser branca e qualidade de ser gelada são dimensões que estão além dela. O Índice, para Peirce,“é um signo que se refere ao Objeto, que denota em virtude de ser realmente afetado por esse Objeto” (PEIRCE, 2005, p. 52). Portanto, esse tipo de signo passa a ideia de que algo exis- tiu ou existe como, por exemplo, a fumaça que indica que há ou houve fogo, embora nem sempre a relação seja verdadeira, mas existe uma possibilidade. A fumaça é apenas um dos efeitos causados pelo fogo, não possui nenhuma semelhança com o fogo, mas é causada por ele. O índice, portanto, não se limita a qualidades no sentido de promover na mente uma definição relacional. O calor, que é uma qualidade, pode ser um indicativo da existência do fogo; mas, a fumaça é um indicativo, no nível do objeto, mais evidente.
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    342 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS O Dicissigno existe no campo das associações linguísticas, ou seja, quando dois objetos e qualidades são relacionados linguisticamente, como quando falamos que “o céu é azul” ou simplesmente “céu azul”. Vejamos que nesse momento o rema deixa de representar a si mesmo e à qualidade que designa para formar um contexto ou uma realidade mais ampla. Segundo Peirce (2005, p. 53), o dicissigno deve apontar alguma existência real.Em outras palavras, uma proposição ou frase lin- guística correspondente com algum fenômeno real de causa e efeito ou de relações adjetivas, substantivas ou verbais. Por conseguinte, a propo- sição “céu azul” implica uma existência real. Contudo, a frase “céu mar- rom”dificilmente terá uma correlação com alguma existência real, salvo nossa ignorância quanto às diversas tonalidades que o céu pode tomar mediante sua relação real com o sol, as nuvens e outros componentes químicos que estejam no ar. Já sobre a Terceiridade, temos inicialmente o Legissigno, que “[...] é uma lei que é um signo” (PEIRCE, 2005, p. 52). Essa lei só pode ser estabelecida pelos homens através de qualidades estruturadas e que está presente em todos os signos mais estruturados. Para exemplificar, o semáforo de trânsito. Quando pensamos no mesmo, imediatamente vem à mente que o sinal vermelho que significa “pare”, que o amarelo pede “atenção”e o que o verde significa“seguir adiante”. Temos uma lei formu- lada que nos obriga a agir de maneira a obedecê-la, mas se mudássemos o semáforo e nele escrevêssemos o“siga adiante”em vermelho e o“pare” em verde, teríamos uma confusão de signos que nos foram apresentados anteriormente, o que fugiria da função do Legissigno, e todo um processo teria que ser refeito para que pudéssemos formular uma nova convenção. O Símbolo “[...] é um signo que se refere ao objeto que denota em virtude de uma lei, normalmente uma associação de ideias gerais que opera no sentido de fazer com que o Símbolo seja interpretado como se referindo àquele Objeto”(PEIRCE, 2005, p. 52). Assim, o Símbolo pode não possuir relação de semelhança com seu objeto, pois foi estabelecido por convenção de ideias, o símbolo é por definição um tipo geral de lei
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    343Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva representativa. De outro modo, o símbolo consiste em ter a existência na forma de traço, cuja semelhança se dá apenas em relação a ele mesmo, mas seu poder representativo pode ser mais flexível que o de um ícone ou índice, por exemplo, justamente por operar mediante consenso arbi- trário. Esse tipo de signo, portanto, tem como condição experimental ser da ordem de uma cifra, que deverá ser decifrada. Por fim, o Argumento “[...] é um Signo que para seu Interpretante é Signo de lei [...] é um signo que é entendido como representando seu Objeto em seu caráter de Signo”(PEIRCE, 2005, p.53). O argumento paira sobre as leis que cercam objeto, tornando-se compreensível para todos aqueles que entram em contato consigo. Como podemos ver nos dis- cursos atrelados aos comerciais, na intenção de conquistar o consumi- dor para determinado produto. Veremos que o argumento é construído tendo como base e trazendo à tona em sua expressão muitos dos signos anteriormente explicitados e definidos. Não obstante, todo argumento deve mobilizar o maior número de outras espécies de signos que puder, tais como, ícones, índices, legissignos, remas, dicentes etc., a fim de se compor consistentemente. Porém, o argumento deverá oferecer à rea- lidade um dado a mais, uma espécie de juízo ou de verdade hipotética ainda não percebida pela maioria das pessoas. Por isso, o argumento é muito comum em teses científicas, ou em romances, bem como em cál- culos e fórmulas matemáticas. A fim de visualizarmos como se organiza tal processo e como ele fica posicionado na forma de organização de Peirce, trazemos essa tabela sugerida por Souza: Tabela 1 - O signo e suas relações Signo em relação a: Primeiridade Secundidade Terceiridade Si mesmo (representamen) Qualissigno Sinsigno Legissigno Objeto Ícone Índice Símbolo Interpretante Rema Dicente Argumento Fonte: SOUZA (2006, p. 161)
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    344 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS Na tabela de Souza (2006) apresentada acima, podemos identifi- car os níveis de experiência: Primeiridade, Secundidade e Terceiridade, abordando o desenvolvimento dos signos, em cada respectivo nível da experiência, no sentido vertical de cima para baixo, que corresponde ao do mais simples ao mais complexo e abstrato, ou seja, do signo em rela- ção a si mesmo, passando pelo signo enquanto objeto, atingindo sua dimensão interpretante. Já na evolução horizontal, temos os signos em relação a: Si mesmo, ao Objeto e ao Interpretante. Cada qual possui um desenvolvimento que atravessa os três níveis da experiência aponta- dos anteriormente. Com isso, um signo em relação a si mesmo pode ser experimentado tanto em uma experiência de primeiridade, quanto de secundidade e de terceiridade. Sobre os signos presentes na tabela, identificamos o signo Argu- mento como sendo o mais completo, ou genuíno, como aponta Peirce (2005); por estar presente na terceira linha vertical (signo em relação à) e em terceiro também na linha horizontal (níveis de experiências). Esse signo está diretamente relacionado aos outros signos por ser uma evolução, um signo desenvolvido a partir de outros. Em contrapartida, identificamos, também, o signo mais degenerado, ou seja, mais puro entre todos, que é o Qualissigno, por estar na primeira fase do nível de experiência, como também do signo em relação a si mesmo. O que pro- curaremos mostrar aqui é que o qualissigno pode funcionar enquanto signo de maneira dependente de um argumento. Isso implica dizer que um argumento previamente estabelecido em uma mente faz com que a percepção corporal e mental já sejam, de antemão, formatadas quanto ao quadro de significados. Nestesentido,tomamosessequadrocomoinstrumento/ferramenta de análise da logomarca, pois entendemos que baseados nele podemos demonstrar de forma mais organizada e analítica os elementos/signos que correspondem a cada experiência fenomenológica gerada a partir do contato da logomarca da Nike, de modo a notarmos como o argu- mento da mesma pode ser sustentado, em outros termos, que signos
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    345Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva mais elementares são acionados pela marca Nike e sua logomarca a fim de tornar ou manter seu argumento consistente e convincente no campo da retórica, para além de qualquer proposição lógica que exige um vínculo ou coincidência com as possibilidades reais ou objetivas de uma relação entre signos. Não obstante, a logomarca em questão está fundamentada em uma ficção, em parte, muito distante de uma reali- dade material independente de nossa imaginação. ANÁLISE SEMIÓTICA DA LOGOMARCA DA NIKE Estando claro o que Peirce denomina de níveis da experiência feno- menológica, passaremos agora à busca por identificar e compreender, mediante processo de análise de dados, quais níveis da experiência a logomarca da Nike abarca para buscar fundamentar o argumento que constitui, a sustenta, passando a criar um elo e uma identidade com o consumidor, isso é, com signos prévios já existentes e mobilizados em sua mente. Por isso, antes da análise propriamente dita, para uma melhor compreensão dos signos presentes na logomarca, é importante destacar que tanto a figura da asa presente na logo da Nike, assim como também o próprio nome, foram inspirados na deusa da mitologia grega chamada Nice, que personificava a vitória. É importante também, de maneira breve, apresentar questões relacionadas às considerações his- tóricas da marca, antes de fazermos a análise da sua logomarca. A empresa nasceu através de um treinador de atletismo universitá- rio, Bill Bowerman, e seu sócio Phil Knight, que sempre acharam que os tênis utilizados nas corridas de atletismo deveriam ser melhorados e aos poucos foram efetuando inúmeras experiências com uma torradeira elé- trica na casa de Bill, usando materiais como cimento, borracha, a fim de descobrir uma sola melhor adaptada ao desempenho desportivo e ao bem estar do atleta. Com resultados bastante satisfatórios, e com uma aprovação imediata dos que passaram a utilizar seus produtos, começou a crescer incrivelmente o número de pedidos. Desta maneira se fez a Blue
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    346 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS Ribon Sports, chamada assim por seus fundadores, fazendo referência ao navio que fazia a travessia mais rápida do Atlântico naquela época. Pos- teriormente é que o nome foi mudado para Nike, fazendo referência à deusa grega da vitória Nice, bastante apropriado para uma marca de cal- çados de corrida esportiva, à qual estão associadas, previamente, ideias como a de vitória, velocidade, leveza. A empresa Nike foi fundada em 1972 na cidade de Beaverton, no estado de Oregon, nos Estados Unidos. O chamado Swoosh, logotipo da marca (“asas da vitória”), foi criado por Carolyn Davidson em 1971, um ano antes da fundação da Nike, sendo vendido por apenas U$35 à empresa de Bowerman. A logo passou a ser a marca registrada em 1975. Ao longo dos anos, o famoso símbolo da marca americana foi sofrendo algumas modificações, sendo apresentado em outras cores, com o nome da marca deixando de estar presente na logo, entre outras modificações que vieram a ocorrer. No que tange à análise semiótica da logomarca, no nível de expe- riência fenomenológica da Primeiridade, identificamos que ela possui alguns qualissignos: as cores preta e branca, bem como as curvas que formam a asa e a palavra (Nike). Porém, ainda não é possível identificar que as cores a as formas constituem uma imagem e uma palavra, pois trata-se apenas da qualidade das cores e das formas. Na medida em que essas cores se corporificam à figura (forma) da asa e à palavra (Nike), des- tacando seus contornos, temos aí um sinsigno que corresponde a uma experiência de Secundidade, pois se está relacionando duas qualidades (cor e forma), produzindo um determinado sentido que possibilita iden- tificar o desenho da asa e a palavra Nike. A partir do momento em que, arbitrariamente ou por meio de uma lei, a junção entre o desenho da asa e a palavra passa a representar, por consenso social – num determinado contexto/grupo – a marca Nike, temos aí um legissigno que pertence a uma experiência de Terceiridade. O desenho da asa, presente na logomarca, tem o objetivo de ope- rar como ícone da própria marca e de tudo que está relacionado a ela
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    347Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva – como os seus produtos e os próprios consumidores desses produtos. Esta relação icônica consiste em estabelecer um elo entre a asa e a marca por meio de traços de semelhança, e com isso a intenção da marca é criar na mente do consumidor signos que indiquem que, ao se apropriar de seus produtos, ele passe a possuir características que se assemelhem tanto à marca, como também à deusa que dá origem à sua logomarca. Ou seja, a marca deve ser semelhante à deusa Nice, assim como também os seus produtos e consumidores. O estabelecimento dessa relação de semelhança (icônica) corresponde ao nível de Primeiridade. Ao estabelecer esse primeiro plano de semelhança, a marca tam- bém almeja criar um segundo plano, que seria estabelecer uma relação de ação (usar um produto da marca) e resultado (obter um determi- nado resultado a partir do uso) no que tange ao uso de seus produtos. A marca Nike tenta, a partir disso, gerar uma relação lógica que seria: ao usar os produtos da Nike, o consumidor se sentirá mais próximo da vitória na medida em que a logomarca e a tessitura argumentativa da marca forjam uma relação de existência com a deusa que personifica a vitória. A Nike, por meio de sua logomarca, procura criar na subjetivi- dade do consumidor um signo inicial de realidade a respeito do uso de seus produtos e dos possíveis resultados (vitória). Portanto, na mente do consumidor, parte do argumento tenta funcionar como se a relação entre a existência do produto implicasse, no real, a causa da vitória. Em outras palavras, o produto acoplado ao corpo do consumidor deverá indicar que ele é um sujeito vitorioso. Da mesma forma que a ausência desse produto deverá funcionar como índice da derrota ou do fracasso. Trata-se do nível de secundidade da experiência. Percebemos que a logomarca possibilita também uma experiência que corresponde ao que Peirce chama de símbolo, e que constitui um dos signos da Terceiridade. Identificamos que, simbolicamente, a asa representa os signos da vitória (quando essa não está associada dire- tamente ou por semelhança com a deusa Nice) no esporte. Porém, para exercer tal representação, a logomarca precisou fazer uma associação
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    348 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS de ideias, pois a asa por si só não tem a capacidade representativa nem do esporte e nem da vitória, exigindo um trabalho de arbitrariedade e consenso para então operar como representante dessas realidades. Para isso, a marca ancorou-se na deusa Nice, pois ela representa a vitó- ria e, por ser grega, simbolicamente ela também tem a capacidade de representar o esporte, na medida em que, para o senso comum, bem como para alguns teóricos, a Grécia foi o berço dos Jogos Olímpicos e, portanto, do desporto. Podemos perceber com isso o caráter consensual do símbolo e da associação de ideias que os criadores da logomarca pre- cisaram estabelecer para dar poder à logomarca da Nike no sentido de operar como símbolo da vitória e do esporte. No nível deTerceiridade, podemos também encontrar o Argumento que fundamenta a existência da própria marca no contexto do mercado de produtos esportivos, por consequência, estabelecendo uma relação identitária entre essa e o consumidor de seus produtos. Por sua vez, o Argumento é formado por todas as experiências mencionadas até aqui. Isso acontece, porque a logomarca precisa produzir no consumidor efeitos variados em diversos níveis. Por ser uma linguagem, deve atin- gir níveis sensórios, emocionais, metafóricos e simbólicos (SANTAELLA, 2005) para que faça sentido ao consumidor. O Argumento da Nike é que através do uso de seus produtos, seus consumidores estarão tendo em mãos a vitória, sobretudo no esporte. E para isso fundamenta-se na mitologia grega e em sua deusa da vitória para corresponder ao seu Argumento. Podemos notar também o caráter arbitrário do Argumento, pois ele só pôde existir e fazer sentido a partir da associação de leis que o constituem e o legitimam no âmbito da retórica, desgarrado, em parte, do campo da lógica. Por fim, a tabela abaixo traz um resumo da análise realizada com o intuito de possibilitar um reforço sistematizado do que foi refletido, principalmente separando cada elemento da análise em suas respec- tivas categorias/níveis da experiência fenomenológica proposta por Charles Peirce.
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    349Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva Tabela 2 - Níveis da experiência fenomenológica proposta por Peirce Signo em relação a: Primeiridade Secundidade Terceiridade Si mesmo (representamen) Qualissigno Cor preta Cor branca Curvas da asa Curvas da fonte da palavra Sinsigno Relação entre as cores preta e branca e o formato da asa e da palavra para dar contraste. Legissigno Composição dos elementos para representar a logomarca da Nike. Objeto Ícone Asa como ícone da marca Índice A Asa como indício de vitória. Símbolo A asa como símbolo de vitória e esporte. Interpretante Rema A palavra“Nike” Dicente ___ Argumento O uso da logomarca da Nike como vitória no esporte. Fonte: Adaptado de SOUZA (2006, p. 161) A NIKE ENQUANTO MARCA ESPORTIVA E O“ESPORTE GREGO” Mediante ao que foi exposto até então, compreendemos que o argumento da marca Nike, para criar um vínculo de identificação com seu consumidor, bem como para manter-se no mercado, está pautado no signo da vitória de forma geral, porém principalmente no esporte. Ou seja, somos sabedores de que quando o consumidor compra algum produto da Nike, o mesmo não está levando apenas o produto em si, mais do que isso, está levando um objeto carregado por todo um ideal de vitória, especialmente de vitória no esporte ou olímpico. E não é um mero ideal, afinal este vem da deusa alada grega Nice, a personificação da vitória. Talvez não houvesse personagem mais adequada para os criadores da marca se inspirarem, para fundar seu argumento, do que uma deusa grega que representasse a vitória. Por ser uma deusa grega, representaria bem a vitória no esporte, afinal, muitos consideram a Grécia antiga como o berço do esporte. Então, nada mais“perfeito”do que um personagem que repre-
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    350 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS sente vitória e esporte, para ser a base do ideal e do argumento de uma marca esportiva – grande astúcia dos fundadores da marca. Apesar disso estarclaro,nãosabemosoporquêdessaescolha,oporquêdosmotivosque levaramamarcaaapostar,paraodesenhodesualogomarca,naasadeuma deusa grega, bem como no nome da marca, que também está inspirada na mesma. Mais do que isso, não sabemos os argumentos que fundamentam a ideia de que o esporte moderno é uma continuação dos jogos praticados na Grécia antiga. De todo modo, a deusa grega Nice consiste em um signo, dentro de algumas capacidades, deveras adequado para constituir uma dimensão sensorial, perceptiva e simbólica do argumento. Diante disso, entendemos que essa escolha não aconteceu de modo arbitrário e nossa hipótese para a mesma é que os criadores pensaram na deusa Nice devido ao entendimento de que o esporte nasceu na Gré- cia antiga com o objetivo de cultuar os deuses. Basearam-se numa deusa grega que personificava a vitória para ter três grandes signos que repre- sentassem o esporte: uma deusa, a vitória e o berço do nascimento do esporte. O entendimento é de que ao reportar-se ao esporte, que supos- tamente fora criado na Grécia antiga, se atribuiria também aos ideais gregos que contemplavam o mesmo, principalmente nos Jogos Anti- gos. Além do senso comum, como mencionam Lima, Martins e Capraro (2009), muitas publicações científicas relatam o surgimento dos Jogos Antigos e seu ressurgimento em 1886, com o Francês Pierre de Couber- tein, momento das Olimpíadas Modernas. Rubio (2002) é uma das pesquisadoras que considera o esporte moderno como herdeiro dos Jogos Olímpicos da Grécia Helênica. Para ela, o esporte teve sua origem ainda no período pré-histórico e foi organizado na Grécia antiga como um dos eventos que possuíam maior importância na Antiguidade. Ainda a autora considera o esporte na Grécia Helênica como um importante elemento para a educação grega. Quando se fala do antigo esporte grego, está se falando de um fenômeno de grande influência na cultura da Grécia Antiga, pois para a formação de um cidadão o processo de purificação do espírito passava
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    351Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva pela perfeição do corpo e, neste sentido, para a educação integral, ou “Paideia”; atividades físicas tal como o esporte eram essenciais, sendo pilares da educação grega, além do que ideais como estes forneceram grande fundamento para o Ocidente (RUBIO, 2002). Rubio (2002) destaca que os Jogos Olímpicos faziam parte dos Jogos Pan-Helênicos (que eram formados por quatro grandes compe- tições) e eram realizados para prestar homenagem ao deus Zeus. Os jogos ocorriam de quatro em quatro anos, escolha essa que ocorreu por ser o dia em que o Sol, atingindo o ponto mais alto de sua trajetória no hemisfério Norte, mostrava todo o seu brilho, mostrando assim sua vitória aos seus inimigos (RUBIO, 2002). Ainda segundo a autora, havia aqueles que praticavam o esporte, bem como todos os outros pilares da educação grega, como também aqueles que se serviam do esporte ape- nas em busca da vitória pela vitória a qualquer preço, preocupando-se apenas em competir. Porém, existiam aqueles que viviam nas competi- ções, viviam do esporte, mas que não eram profissionais (no sentido do termo tal como entendemos atualmente) (RUBIO, 2002). No que tange à competição na Grécia Helênica: [...] para os gregos, era considerada um princípio vital, não ape- nas pelo rendimento ambicionado, mas em si mesma com inde- pendência de todo objetivo. O indivíduo crescia e se desenvolvia dentro de um espírito criador, um competidor à sua maneira, um ‘agonista’. Assim, a rivalidade fazia parte da essência da vida, não apenas em situações onde é fácil a determinação da vitória ou da derrota, mas também em situações imponderáveis como a criação artística. Para o grego, a dignidade e o valor de uma competição não residiam nos resultados. O fator determinante era o brilho e o ardor que penetrava nos corpos e espíritos durante o jogo das pos- sibilidades, dominando o instante supremo (RUBIO, 2002, p.136). A autora ainda compreende que o esporte chegou à modernidade e adaptou-se ao contexto, sofrendo influências políticas, sociais e eco-
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    352 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS nômicas, servindo como suporte para uma série de dramatizações da sociedade (RUBIO, 2002). Isso quer dizer que autora enfatiza que o que chamamos de esporte hoje é uma continuidade, ou é herdeiro, bem como outros autores chamam, do esporte na Grécia antiga, mesmo com todas as transformações e diferenças na contemporaneidade em relação ao que ocorria na antiguidade. Visto isso, o que a marca Nike pretende, ao ter como sustentação do seu argumento uma deusa grega, que representa a vitória e o esporte, é justamente resgatar a ideia do que é o esporte, deixando entender o que a marca compreende em sua gênese, com seus supostos verdadeiros ideais, sobretudo no que tange à vitória. Isso quer dizer que a marca objetiva poder ser capaz de produzir na mente do con- sumidor a vitória e o esporte em seu maior estado de excelência. Afinal de contas, seu verdadeiro objetivo é homenagear os deuses, que, por conse- guinte, dará a recompensa, que são os poderes que lhes são atribuídos. A deusa Nice vem estampada nas medalhas olímpicas de verão sim- bolizando a vitória. Porém, a Nike visa despertar a sensação de vitória, mesmo que não seja no esporte em si, afinal o ideário grego pregava a competição à maneira do indivíduo, não especificamente na situa- ção que exigiria de forma direta a vitória ou a derrota. Isso acontece na medida em que o foco não reside no resultado em si, mas sim no ato pleno da situação (independente que seja num jogo ou na vida de um modo geral), pois a dignidade e o valor não estariam centrados no ven- cer a competição, no instante em que estar ali, competindo, já poderia significar uma forma de vitória, já que diz respeito a um grupo seleto. Mediante a essa tendência – que inclusive a Nike utiliza – que considera o esporte moderno como sendo uma continuidade dos jogos gregos, até que ponto corremos o risco de relacionar dois fenômenos distintos e, neste sentido, querer atribuir valores ao esporte que não lhe são ineren- tes, visto o objetivo do mesmo, bem como o contexto socioeconômico na contemporaneidade? Compreendemos, a partir de Elias e Dunning (1992), que os Jogos Olímpicos da Grécia apresentavam características bastante peculiares
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    353Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva e se desenvolveram em situações e contextos bastante diferentes do esporte moderno. Lima, Martins e Capraro (2009), baseados em Gutt- mann (2001), mencionam que é um grande erro considerar os jogos gre- gos como os antecessores dos jogos modernos. As práticas antigas se assemelhavam muito mais às dos povos primitivos do que os da moder- nidade. Além disso, o caráter religioso dos jogos gregos era o que dava sentido aos mesmos. Em relação ao termo Jogos Olímpicos, autores como Simonovic acreditam que há uma interpretação equivocada no que tange ao uso do mesmo por Coubertin. Pois, segundo o autor, o barão não usou no sentido da herança espiritual antiga, mas sim porque apresentava um caráter de solenidade, no qual viu uma denotação para utilizar nas competições esportivas internacionais e que planejava orga- nizar e institucionalizar (LIMA; MARTINS; CAPRARO, 2002). Em concordância, escreveram Allen Guttmann (1978), Norbert Elias (1992) e Eric Hobsbawm (1997), entre outros autores, que o esporte é moderno. Ainda que Guttmann (1978) fale de raciona- lização e burocratização, Elias (1992) destaque o controle da vio- lência e o processo de civilização ou ainda que Hobsbawm (1997) se refira à formação do esporte como um instrumento como tan- tos outros, utilizado para inculcar valores e normas de comporta- mento através da repetição, todos concordam que o esporte como é conhecido hoje apresenta sua origem na Inglaterra no decorrer dos séculos XVIII e XIX (LIMA; MARTINS; CAPRARO, 2002, p. 9). O que se pretende afirmar é que o esporte é eminentemente um produto da modernidade e nada tem a ver com os jogos antigos, na medida em que a forma do jogo não importa, o que deve ser analisado é o objetivo do mesmo. Deve-se levar em conta o contexto sócio histó- rico, político e econômico do fenômeno. Frente a isso, entendemos que a Nike, ao fundamentar-se no argumento do esporte reportando a um ideário grego, apresenta contradições na medida em que desconsidera o contexto tanto antigo como no moderno. Contraditório porque, pri-
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    354 A MARCA“NIKE”,SEUS SIGNOS E ARGUMENTOS meiramente, o esporte é um produto da modernidade e pouco tem a ver com os Jogos Olímpicos da antiguidade. Além disso, é contraditório porque é difícil falar em vitória no ideário grego, em um esporte que visa a qualquer custo o máximo rendimento, a vitória a qualquer preço. A contradição está presente também na medida em que a própria marca investe na estrutura desse esporte, seja pagando fortunas a atle- tas de alto nível, participando da organização de eventos cujo o objetivo é o ganho financeiro e o espetáculo. Contudo, em certa medida e pers- pectiva, todo esse conjunto de signos vem sendo adequado aos prin- cípios da empresa Nike, pois, no campo dos argumentos, ou podemos dizer no campo da retórica, o problema da origem não existe a rigor, mas sim considera a capacidade de um signo criar na mente de alguém outro signo, equivalente ou mais desenvolvido. O que a marca Nike faz é, justamente, criar e desenvolver na mente de seus consumidores signos desenvolvidos a partir daqueles já consolidados pela história. CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo deste estudo foi analisar, pautado na semiótica de Chales Sanders Peirce, a logomarca esportiva da Nike buscando compreender de que maneira os signos presentes em sua logo chegam até a socie- dade estabelecendo uma relação do argumento da Nike com os ideais gregos relacionados à deusa Nice ligadas ao fenômeno esportivo. A logomarca da Nike considerada como uma linguagem, está fun- dada em esquemas perceptivos que produzem significações na sub- jetividade dos indivíduos. Desta forma, a logo contém um potencial comunicativo de diversos tipos de mensagens que produz efeitos varia- dos nos receptores/consumidores, efeitos esses que transitam nos mais variados níveis: emocionais, sensoriais e simbólicos. Assim, podemos perceber que a logomarca da Nike é constituída por signos que corres- pondem aos três modos da semiótica peirciana: Primeiridade, Secundi- dade e Terceiridade – que sustentam o seu argumento inicial.
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    355Vinicius dos SantosSouza; Elder Silva Correia; Tiago de Brito F. Santos; Renato Izidoro da Silva Concluímos assim que a Nike, ao sustentar seu argumento no âmbito esportivo na figura da deusa grega Nice – deusa da vitória –, tenta resgatar a ideia do que é o esporte, supondo que o compreende em sua gênese, com seus hipotéticos ideais verdadeiros sobretudo no que tange à vitória. O que a marca Nike ambiciona é, exatamente, criar e desenvolver na mente de seus consumidores signos gerados a partir daqueles já consolidados pela história do esporte, e vai buscar isso justamente no ideário grego – berço da civilização ocidental. REFERÊNCIAS BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. ELIAS, N.; DUNNING, E. A Busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. IBRI, I. A. Kosmosnoètos: a arquitetura metafísica de Charles S. Peirce. São Paulo: Perspectiva, 1992. GOOGLE IMAGENS 01, disponível em: https://www.google.com.br/ search?newwindow=1&espv= 210&es_sm=93&biw= 1366&bih= 643&tbm= isch&sa =1&q=logomarca+da +nike&oq= logomarca+da+nike&gs_l= mg.3...82772.87267.0.87728. 26.13.0.0.0.0.261.261.2-1.1.0 ....0...1c.1.54.img.. 26.0.0.aeMPY30U0K8 acessado em: 01/10/2014. LIMA, M. A.; MARTINS, C. J.; CAPRARO, A. M. Olimpíadas modernas: a história de uma tradição inventada. Pensar a prática. V. 12, n. 1, jan./abr. 2009. p. 1-11. NETTO, J. T. C. Semiótica, informação e comunição. – São Paulo. Perspectiva 1980. PEIRCE, C. S. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2005. RUBIO, K. Do olimpo ao pós-olimpismo: elementos para uma reflexão sobre o esporte atual. Rev. Paul. Ed. Fis. São Paulo, V: 16. N 2, jul./dez., 2002. p. 131-143 SANTAELLA, L. O que é semiótica. São Paulo: Brasilense, 2007 (Coleções primeiros passos). ______. Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005. SOUZA, L. S. de. Introdução às teorias semióticas. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2006.
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    “APELEQUEHABITO”EABIOTECNOLOGIA: ANÁLISE FÍLMICA DEUMA ONTOLOGIA INDETERMINADA Joseneide de Amorim Santos Fabio Zoboli Renato Izidoro da Silva Elder Silva Correia RESUMO: Objetivou realizar uma análise do filme “A pele que Habito” dirigido por Pedro Almodóvar, no sentido de auxiliar na compreensão de questões relativas a biotecnologialigadaaocorpoemseusaspectosfundamentaisdaontologiahuma- na.Ofilmeapresentaquestõesinquietantesnoquetangeàmanipulaçãodocorpo pela tecnologia na modernidade, na medida em que rompe com os limites ontoló- gicos conhecidos entre natural/artificial colocando em cheque a seu fundamento na experiência humana. Como método de pesquisa foi utilizada a análise fílmica, respeitando as fases de decomposição e reconstrução. Os dados foram organiza- dos a partir de duas temáticas: a primeira diz respeito à “pele”, analisada segundo duas sub temáticas denominadas “potencialização da pele” e “transgenese”; e a segunda temática, intitulada “mudança de sexo”, investigada mediante as sub temáticas: “vaginoplastia” e “modulação do corpo masculino em feminino”. Os resultados apontam que a proposta do cineasta foi entrelaçar ficção e realidade vislumbrando provocar tensões – estranhamentos e desconfortos – éticas e es- téticas no horizonte possível e do indeterminado da experiência biotecnológica enquantonovosparâmetrosparaasreflexõesontológicasnaatualidade. PALAVRAS-CHAVE: Corpo; Biotecnologia; Análise fílmica; Filme “A pele que habi- to”;PedroAlmodóvar.
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    358 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA INTRODUÇÃO O presente artigo tem como seu fundamento principal a realização de uma análise fílmica da obra “A pele que Habito”, objetivando com- preender, mediante um recorte temático e teórico-metodológico, o con- texto da biotecnologia ligada ao corpo no interior da trama de ficção científica dirigida pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar. A investi- gação está ligada ao grupo de pesquisa “Corpo e Governabilidade”, que estuda o corpo sob o viés da cultura e da política e tem como alguns dos eixos de apreciação as questões atreladas às relações entre corpo e comunicação e corpo e técnica/tecnologia. A biotecnologia é um conceito que está ligado a aplicações tecno- lógicas que utilizam sistemas biológicos – organismos vivos ou parte deles – para produzir ou transformar produtos ou processos orgânicos e anatômicos específicos. Por organismos vivos entendemos as plantas, os animais e os seres humanos – também considerados uma espécie ani- mal – fundados em mecanismos físico-químicos e fisiológicos capazes de interagir com o ambiente de modo a sofrer transformações internas, mas também provocar mudanças externas. O corpo, enquanto modo de ser e existir humano, sempre se mostrou vulnerável enquanto natureza; afinal, viver é estar preso a uma condição de natureza corpórea. Na superação das vulnerabilidades impostas pela natu- reza corporal, o homem – enquanto espécie –buscou potencializar suas capacidadesesuperarsuasprecariedadesparaalémdessascondições.Desta forma, o ser humano passou a manipular conhecimentos, técnicas e objetos a fim de “reformar” a natureza em vista da satisfação de suas necessidades e de seus desejos mais antagônicos. Na invenção de procedimentos para acrescentar à natureza o que nela não há, o corpo humano historicamente foisefundindocomaciência/tecnologiaesetransformandomediantecom- posições anteriormente inexistentes e impensáveis. A biotecnologia está sustentada na aplicação da tríade ciência/téc- nica/tecnologia sobre o corpo para sua potencialização e extensão para
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    359Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia além de sua condição de natureza, ou seja, o uso da ciência ligada ao aperfeiçoamento corporal – na qual os corpos naturalmente limitados para algumas tarefas podem ser biotecnologicamente corrigidos e apri- morados a fim de melhorar a condição humana segundo as demandas de um dado contexto físico e cultural contemporâneo. A biotecnologia mistura o artificial e o natural numa composição que atrela o ser bioló- gico e o fabricado. Técnicas manipulativas que extrapolam a mera carac- terização aparente dos corpos no sentido de transformações funcionais incluem na humanidade mutações estéticas e ontológicas. O filme “A pele que habito” foi construído e apresentado como efeito artístico e cultural motivado pelas produções das ciências bio- tecnológicas contemporâneas. Apresenta questões características da modernidade no que tange à manipulação do corpo pela técnica e pela tecnologia para uma dada efetividade funcional e estética própria do universo cultural contemporâneo permitido pelo avanço científico. Essas manifestações postas no interior do filme se tornam inquietantes na medida em que rompem com os limites entre presente e futuro, real e imaginário, entrelaçando ficção e realidade de modo a evocar um fas- cinante e intrigante desconforto no espectador devido ao poder poético e estético de suspensão da descrença que a obra provoca. Contextualizando o filme em pauta no conjunto da obra de Almo- dóvar, observamos uma continuidade de sua mudança de foco temático e cinematográfico em relação a perspectivas trabalhadas. No caso do filme suspenso para análise, o cineasta traz ao palco uma crítica ligada a um tema abordado no campo da ciência. Com isso, ele permite pensar não apenas num aprimoramento de suas obras, mas mostra a necessi- dade de abordar tais contextos da modernidade. Seu amadurecimento artístico está para sua história assim como o desenvolvimento científico presente no filme está para a história do corpo e da própria humani- dade. Ambas falam de uma evolução gradual. Pedro Almodóvar Caballero nasceu na Espanha no dia 24 de setem- bro de 1951. Ele passou alguns anos estudando numa escola de padres,
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    360 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA período marcado por resignação e medos. Foi onde perdeu a fé ao tes- temunhar o abuso sexual na escola de padres, mas também onde teve suas primeiras aproximações com o cinema. Em 1985 criou com seu irmão, Augustin Almodóvar, a produtora “El deseo”, que expressa desde já seu estilo pautado no princípio da liberdade de expressão. Almodóvar, a partir de sua personalidade, aborda temas relaciona- dos às “ações humanas impulsionadas pelo desejo”, apresentando em suas produções assuntos ligados à educação religiosa, à sexualidade – tema corriqueiro em suas narrativas. “Com o cineasta a paixão ficou latente na tela e explodiu fora dela. Mulheres, homens e travestis convi- vem, de forma, às vezes, harmoniosa. E, em muitos momentos, eferves- centes”(GOMES e CURADORES, 2011, p,6). No início da década de 1980 em“Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão”, seu primeiro filme exibido comercialmente, aparecem todos os elementos característicos dos trabalhos seguintes; sendo eles: “Labi- rinto de Paixões”(1982),“Maus Hábitos”(1983),“Que Eu Fiz para Merecer Isto?” (1984), “Matador” (1986), “A Lei do Desejo” (1987). Com a consa- gração internacional, cria “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988), “Ata-me” (1989), “De Salto Alto” (1991), “Kika” (1993), “A Flor do Meu Segredo”(1995). Já com maior maturidade artística dá vida a“Carne Trêmula” (1997), “Tudo sobre Minha Mãe” (1999) – película esta que lhe deu o Oscar de melhor filme estrangeiro. “Fale com ela” (2002), “Má Educação” (2004), “Volver” (2006), “A vereadora Antropofágica” (2009), “Abraços Partidos” (2009), “A pele que habito” (2011) e “Amantes Passageiros” (2013) são filmes que mostram a maturidade do cineasta frente ao novo século. Os últimos filmes de Almodóvar deixam um pouco de lado certa noção de desejo estrita- mente ligado à sensualidade libidinal exacerbada, na medida em que suas ficções começam a figurar a potência do desejo na manipulação do corpo do outro em prol de sua realização sublimada que transcende o ato sexual. Preocupações sobre a reflexão da existência assimilam a ciência – suas técnicas e tecnologias – no campo de uma radicalização
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    361Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia dramática da condição trágica da humanidade íntima das possibilidades e dos limites dos desejos mais libidinosos, tônica de toda sua obra. Por essa via, Almodóvar vem alcançando a meta de provocar estra- nhamento ao mesmo tempo em que, enquanto exceção à norma, possa naturalizar uma regra na provocação/recepção estética dos fenômenos científicos, políticos, culturais etc. no cinema. Trata-se de uma relação estreita entre estética e moral; sensação corporal e problemas éticos; realização do desejo e efetividade da ciência. Apostamos na hipótese de que seus filmes vislumbram e fazem com que o espectador rompa em si os modos tradicionais de sentir a vida humana em suas tramas familia- res, sociais, políticas e físicas. “A Pele que Habito” reafirma, embora que diferenciando, a sexua- lidade nas obras de Almodóvar, compreendida pelo cruzamento de gêneros expostos a partir da apresentação da figura de uma lésbica e na transmutação forçada do sexo masculino em feminino. O jogo de gênero é parte da construção narrativa acoplada no efervescente da trama em que não bastaria mostrar apenas a subversão dos gêneros revolucionários e condizentes principalmente há décadas passadas, mas a modificação extrema do corpo; ou seja, dos índices sexuais secundá- rios como pelugem, formas corporais, tom da voz. Essa modificação, por sua vez, é procedente do cenário atual que diz das mudanças nos pro- cessos sociais, quando da possibilidade real de se tornar o outro sexo mediante procedimentos – técnicos – cirúrgicos mediados por avança- das tecnologias. Visando ao nosso objetivo, este escrito foi organizado a partir de 3 seções: num primeiro momento discorremos sobre a relação do corpo com a biotecnologia; na segunda parte foi construída a descrição dos procedimentos metodológicos; e na terceira parte produzimos a análise dos dados a fim de conferir as relações do corpo e da biotecnologia com o contexto fílmico da película“A pele que habito”.
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    362 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA CORPO E BIOTECNOLOGIA O ser humano se desprende do sanar das urgências vitais mediadas pelo instinto, para planos de outras ordens. Ao fazer isso, o homem se dife- rencia dentre os animais no sentido da utilização da técnica e dos objetos (tecnologias) disponíveis no ambiente. Transcendente às circustâncias objetivas e atuais de sua existência, mediante um retiro para dentro de si – sua subjetividade – não aguarda um favorecimento – ou dádiva – da natu- reza para concretizar seus projetos oníricos ou imaginários. “O comum a esses atos é a invenção de um procedimento que nos permite obter o que não há na natureza, mas de que precisamos”(CUPANI, 2011, p. 32). Em face de suas circunstâncais corporais, não aguarda a vontade evolucionista da natureza – de sua genética – para se colocar empreen- dimentos objetivamente indisponíveis sem uma visão de projeto; de vir- tualidade, de potência transformativa acerca do disponível. Ao dominar natureza/corpo, o humano passa a ser o senhorio da mesma, estabele- cendo assim uma relação de objeto com o próprio corpo, portanto, com ele mesmo – coisificação. Ou seja, o ser humano passa a ser ao mesmo tempo dominador e dominado. Neste sentido, Vaz (1999, p. 91) destaca que “[...] ao pensarmos que também somos parte da natureza, ou, [...] que temos parte da natureza em nós. Tornamo-nos outros em relação a nós mesmos, objetos perante um espelho”. Pela manipulação técnica mediada por tecnologia, o corpo cada vez mais se transformou em alvo de ações governantes, no sentido de que todo governo, conforme suas aspirações, promove mudanças teleoló- gicas nas existências naturais. O corpo se transformou sob as condições que as ciências/tecnologias lhe oportunizaram para governar e trans- cender a sua e a natureza alheia. Assim, a técnica/tecnologia constante- mente está buscando dominar e ultrapassar as fronteiras teleológicas do corpo humano natural, tornando-o “[...] escaneado, purificado, gerado, remanejado, renaturado, artificializado, recodificado geneticamente, decomposto e reconstruído [...]”(LE BRETON, 2003, p. 26).
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    363Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia Nikolas (2013, p. 53-54) exemplifica os vínculos entre governo e biotecnologia ao comentar sobre a Organização para Cooperação Eco- nômica e Desenvolvimento ter projetado para 2030 ações sobre bioeco- nomia mediante a criação de cenários imaginários capazes de esboçar uma agenda futurista estratégica para governos em relação ao setor de biotecnologia como parte da bioeconomia. Esse imaginário abarcaria certos valores latentes presentes em processos biológicos orientados para a produção da saúde aprimorada e sustentável. Conforme a autora, Wladby chegou a propor o conceito de “biovalor” para “[...] caracterizar os modos pelos quais os corpos e os tecidos derivados dos mortos são recortados para a preservação e o incremento da saúde e da vitalidade dos vivos” (NIKOLAS, 2013, p. 53). Nesse sentido, embora o valor esteja aparentemente atrelado ao objeto de consumo, na verdade o valor latente está no próprio corpo; basta que pesquisas descubram proces- sos biológicos a serem potencializados. Bio-processos sendo pontencializados significam que a vida passa a ser governanda segundo uma lógica da transcendência e do excedente. A biotecnologia permite, por exemplo, que as pessoas sejam mais do que são ou esperavam ser. Sem embargo, por se tratar de pessoas, conforme Nikolas (2013, p. 55) e suas reflexões junto a Milller, o governo de uma eco- nomia depende de mecanismos discursivos que representam o domínio a ser governado como um campo inteligível: passível de ser conhecido pela ciência. Deduzindo essa premissa para a realidade corporal, o corpo é jus- tamente o domínio a ser governado e, para tanto, a ser conhecido em suas virtualidades e necessidades. Com efeito, nossa anatomia passa a ser ima- ginada no horizonte do possível excedente: a pele pode desempenhar suficientemente a função de proteção, por exemplo. Contudo, por que não fortalecer ainda mais essa função? Nossos músculos são capazes de nos mover. Mas, por que não melhorar essa capacidade? Contudo, atualmente o melhoramento das capacidades natu- rais vem focando em uma diretamente responsável pela manutenção da vida: os processos regenerativos produzidos pelas próprias células
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    364 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA constituintes do corpo humano. Por essa via, a valorização não foi deslo- cada apenas do objeto exterior ao corpo que pode lhe promover saúde, como o caso dos fármacos e das próteses, já que o objeto central de toda reparação é o próprio corpo. A valorização, portanto, do corpo, não está como objeto fim da tecnologia, mas também como produtor de biotecno- logia. Para Rodrigues etal. (2008, p. 66), a partir da década de 1990 o Projeto Genoma desperta cientistas e investidores para o corpo humano enquanto capaz de fornecer os medicamentos de que ele próprio necessita. Para a medicina regenerativa “[...] a pesquisa genética procura os mecanismos potencialmente autorregenerativos das próprias células [...]”. De tal modo, a técnica mediada por tecnologia vem produzindo as condições necessárias para penetrar/invadir/metamorfosear a orga- nicidade do corpo, não mais normalizando suas funções, mas sim ampliando, transpondo, potencializando, transcendendo essas funções. Neste início de segundo milênio, uma das características mais notáveis no que tange à condição humana como corpo é o promíscuo acopla- mento do ser humano com a máquina – tecnologia. “Do lado do orga- nismo: seres humanos que se tornam, em variados graus, ‘artificiais’. Do lado da máquina: seres artificiais que não apenas simulam característi- cas dos humanos, mas que se apresentam melhorados relativamente a esses últimos”(TADEU, 2009, p.11). A lista de termos e conceitos técnicos é vasta e diversa para retratar a maquinização (mecanização) do humano e a humanização (biologiza- ção) da máquina, considerando nossa inteligência cognitiva enquanto uma capacidade atrelada ao nosso cérebro biológico, conforme Morin (1999, p. 62) destaca a dimensão animal do conhecimento; embora estri- tamente dependente dos contextos simbólico-culturais para sua produ- ção abstrata (cf. POPPER e ECCLES, 1992, p. 27). Com efeito, implantes, transplantes, enxertos, próteses, anabolizantes, vacinas, psicofármacos etc. vêm permitindo a produção de superatletas, supermodelos, super- guerreiros etc. Nas palavras de Tadeu (2009, p. 12-13): “[...] soldados e astronautas quase ‘artificiais’, seres ‘artificiais’ quase humanos. Biotec-
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    365Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia nologias. Realidades virtuais. Clonagens que embaralham as distinções entre reprodução natural e reprodução artificial. [...] corpos humano-elé- tricos”(TADEU, 2009, p.12-13). Todavia, toda essa dinâmica ainda mantém uma dimensão de estra- nhamento, de descrença, de dúvida. Não podemos negar que estas novas tecnologias ligadas ao corpo estão causando polêmicas no que tange às fronteiras do humano, confundindo inclusive sua ontologia clássica ou mesmo romântica, naturalista e/ou metafísica. Afinal de con- tas, contemporaneamente o que caracteriza a máquina nos faz pensar aquilo que caracteriza o homem. Em outras palavras, partindo das crí- ticas de Heiddeger (2013, p. 7-9) acerca da ontologia tradicional, essa última só é capaz de pensar o ser cujo fundamento principal é a noção clássica de natureza sempre fixa, bloqueando o acesso a problemáticas filosóficas do ser inevitavelmente sujeito e indeterminado às dinâmicas de seu contexto existencial. A natureza não é fundamento irredutível da temporalidade humana, mas sim sua historicidade: do mesmo modo se deve interpelar o corpo. O ser aberto, suscetível e indeterminado pelas próprias transforma- ções que realiza em seu contexto em seu próprio corpo, implica essa realidade vigente que vem fomentando estudos epistemológicos que giram em torno do corpo e sua ontologia. Afirmamos isso sustentados em Contreras (2011, p. 139), quando menciona que a hibridação do corpo “corresponde a toda una ontología e una epistemología, que hunde sus raíces en los câmbios en la representación de los objetos de la natureza y de la tecnologia – los seres vivos y las máquinas”. A síntese corpo e tecnologia forjada ou fabricada por técncias pre- cisas de manipulação da matéria caracteriza o corpo biotecnológico, no qual a tecnologia não se limita a estar à nossa volta, como positivamente se pensava a natureza, no máximo em sua possibilidade protética; ela literalmente nos“in-corpo-ra”. Serres (2003, p. 46) corrobora tal entendi- mento, na medida em que, ao versar sobre corpo e tecnologia, anuncia que esse soluciona o velho problema do acordo entre natureza e cultura
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    366 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA expresso na própria raiz da palavra natureza, que designa todo e qual- quer fenômeno de nascimento. “Nada mais ‘natural’ do que o gesto de instalar um equilíbrio distante de uma antiga estabilidade, e isso porque a palavra natureza significa, justamente, um nascimento [...]”, que não deixa de ser cíclico – renascimento – na“[...] repetição do processo [que] projeta a história, essa mesma história que nos separa da evolução vital, bacteriana, vegetal ou animal. A cultura começa pela natureza; ela é a própria natureza, cuja continuidade se dá por outros meios”. A fusão com a tecnologia faz nascer, no sentido que Serres dá à pala- vra natureza, novas significações e vivências sobre o pensar/agir e sentir o corpo. “Al transformar la naturaleza, el hombre no solo produce cosas, sino que también produce de cierta forma sus proprios sentidos, les da nuevas propiedades, produce sus sentidos como sentidos humanos” (CON- TRERAS, 2011, p. 131). A exemplo das lentes que, acopladas aos nossos olhos, alteram de diversas formas nosso sentido da visão – a exemplo de óculos, lunetas, binóculos, microscópios, telescópios, televisões –“[...] há um impacto profundo em tudo aquilo que é corporado, em cada corpo individual e em cada corpo coletivo, nas máquinas e nas cidades, no tra- balho e no lazer, nos hábitos de higiene e no comportamento social [...]” (BÁRTOLO, 2007, p.16). Sobre esse acoplamento cotidiano do ser humano às tecnologias de percepção, isto é, de aferição de comportamentos comporais até então imperceptíveis aos nosso sentido, Nikolas (2013, p. 24) observa que:“A manutenção da saúde do corpo tornou-se central para a autoad- ministração de muitos indivíduos e famílias, empregando práticas que iam de dietas a exercícios, através do consumo de medicamentos [...], de suplementos [...], do autotratamento”. Para tanto, a autora informa que em 2003 a empresa Mintel contou que“[...] as vendas de equipamentos de autoavaliação [biofeedback], tais como monitores de pressão arterial e de verificadores de glicose no sangue, cresceram dramaticamente; que quase 60% dos ingleses tinham pelo menos um [dentre esses e outros] equipamentos [...]”.
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    367Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia Temosumcorponamedidaemquenosapropriamosdeleenquanto instrumento e a ela incorporamos novas potências – virtualidades – téc- nicas e tecnológicas: linguagens, símbolos e imagens; mas também, fer- ramentas, próteses, fármacos. Nosso corpo corresponde antes de tudo a vetores semânticos e sintáticos de diferentes construções e existências que estão fora dele: como o voo dos pássaros reproduzido na asa-delta humana. Desta forma, podemos nos perguntar: quantos corpos, nós humanos, já tivemos ao longo da história? Quantos embustes, disfar- ces, fantasias, máscaras, camuflagens técnicas e tecnológicas não cria- mos para lidar com a natureza e a cultura? (cf. LEROI-GOURHAN, 2001, p. 127). Pela observação histórica da rotação de signos que atravessaram o corpo, podemos afirmar que o mesmo é sempre uma construção vir- tual, no sentido etimológico do virtus, aquilo que reserva a pontência – a virtude – na iminência de se tornar algo que no presente não é (cf. FONTANIER, 2007, p. 136). “A PELE QUE HABITO”: ANÁLISE FÍLMICA O presente trabalho é de abordagem qualitativa, pois pretendeu analisar elementos apresentados no filme“A pele que habito”sob o viés interpretativo visando a descrever e decodificar os componentes de um sistema complexo de significados dos fenômenos do mundo social. Compreendemos, assim, que a pesquisa também assume um caráter descritivo sendo de grande importância para tal enfoque. Ainda no sen- tido procedimental, elegemos o método de análise fílmica proposto no livro “Ensaio Sobre a Análise Fílmica”, de Francis Vanoye e Gloiot-Lété (1994), buscando aprofundar através de um recorte“as cenas”da biotec- nologia ligada ao corpo no filme“A pele que habito”. DeacordocomVanoyeeGoliot-Lété(1994,p.13),“[...]quandovemos um filme criamos impressões, intuições, emoções que fazem com que nos deparemos com atitudes de ‘analisante’”. Essa “análise” vem relativi- zar as imagens espontaneístas recepcionadas durante apresentação da
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    368 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA obra.Tais fatos estão ligados às relações que se estabelecem entre especta- dor e o filme no primeiro momento, o que faz construir fundos de hipóteses sobre o filme. Porém, a análise não pode se restringir a uma apreciação com base apenas nas primeiras impressões. Essas hipóteses deverão ser averi- guadas concretamente por um processo metodológico e epistemológico que se distancia dos deslumbres das impressões primeiras. Conforme colocado pelos autores, a análise fílmica se dá geralmente por meio da produção escrita. Sendo imprescindível no enquadramento da análise do filme “a definição do contexto e do produto final”. “O que permite esboçar, pelo menos em partes, seus limites, suas formas e seus suportes, seu ou seus eixos (ou, pelo menos, a possibilidade de maior, ou menor escolha de eixos)”(VANOYE e GOLIOT-LÉTÉ, 1994, p. 10). É pertinente entendermos os procedimentos pelos quais se deve dar esse processo de análise ao tempo em que compreendemos a pró- pria consistência da atividade analítica. Para esse tipo de análise, Vanoye e Goliot-Lété (1994, p. 15) propõem uma desconstrução (descrição) e reconstrução (interpretação) configuradas em dois momentos: 1) aná- lise de um filme ou de um fragmento enquanto exercício intelectual de decomposição: apresentar um dado corpo em algumas partes; 2) sín- tese interpretativa mediante recomposição textual das partes anterior- mente fragmentadas. Demonstra e sugere nexos inerentes ao filme (ou fragmento), bem como em relação a contextos sociais, políticos, econô- micos, culturais etc. externos a ele. Na prática, o primeiro instante procede por meio da descrição do material segundo fragmentos constituintes, tais como: cenas, sequên- cias de cenas, planos, elementos dos planos, imagens, objetos, perso- nagens, gestos, discursos, pensamentos, diálogos etc. Não obstante, no caso do presente estudo, interessa-nos a decomposição das partes refe- rentes ao contexto biotecnológico apresentado no filme, mas sem per- der de vista outras passagens das quais a compreensão de nosso objeto seja dependente. Por conseguinte, no segundo momento, correlativo à síntese interpretativa, nosso trabalho se volta para um exercício de con-
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    369Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia catenação entre os fragmentos selecionados a fim de estabelecer nexos da narrativa fílmica e de seus recursos cinematográficos com o pano- rama atual das incursões entre corpo e biotecnologia. Exposto isso, as subsequentes operações de análise e de síntese estão divididas em duas fases: 1a ) descrição analítica de “A pele que habito”; 2a ) recomposição interpretativa de “A pele que habito” e suas interfaces entre corpo e biotecnologia. 1ª Fase: Descrição analítica de“A pele que habito” O Filme “A pele que habito” foi dirigido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar que fez uma adaptação do livro“Tarântula”, do francês Thierry Jonquet, para o cinema. Com o título original“La Piel que Habito”, a obra foi lançada pela produtora “El deseo” no ano de 2011. Trata-se de um filme de “drama e ficção”, com duração aproximada de 117 minutos (dividido em 12 capítulos) e sua recomendação é para o público com idade superior a 16 anos. Estão entre os principais atores do elenco Antônio Banderas, Elena Anaya e Jan Cornet. Oscapítulosestãoacopladosnumsuspenseharmônicoreferenciado por aparições e reaparições de cenários unidos pelo entrecruzamento de histórias (estórias) e personagens diversas. Quanto à temporalidade da narrativa, está organizada em torno de lembranças episódicas que sequencialmente apresentam o conjunto de uma história exposta a par- tir de três seguimentos, que mostram acontecimentos responsáveis por significarem a dimensão do tempo presente na narrativa. A menção espaço-temporal presente do filme nos leva à cidade espanhola de Toledo no ano de 2012, numa mansão onde habita uma paciente sob observação constante. As cenas seguintes seguem carac- terísticas estéticas formais e temos nesse plano a palestra de um neu- rocirurgião discursando sobre os benefícios de transplantes faciais e reafirmando suas consagradas participações em cirurgias. Na sequência aparece a figura do mesmo recebendo, secretamente, sangue de uma maternidade e logo após, em outra cena, realizando manipulação do
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    370 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA material genético em um laboratório. Rapidamente, na cena seguinte, no interior da mansão, observa a suposta paciente por um telão. Sob uma sonoplastia de suspense, encontra-a desmaiada com sangramen- tos rasos sobre o corpo e a leva para sala de cirurgia, estabelecendo a relação entre os dois personagens, paciente e médico, mostrando tam- bém outra face de seu trabalho. Assim se constrói a narrativa inicial do filme, Antônio Banderas é Robert Ledgar, um renomado médico e cientista que mantém ile- galmente em um quarto fechado de sua mansão/clínica uma cobaia humana para experimentos e, por meio de câmeras de vídeo espalha- das, a monitora. Robert está produzindo uma pele artificial, que seja imune a doenças e deteriorações. Numa composição de formato de tela cheia preenchida pela figura do médico/cientista e paciente, chamada Vera, inicia-se um diálogo entre eles. Enquanto cuida dos ferimentos, Robert alega não ter percebido anteriormente a fragilidade de sua pele. Com a voz em off, acompanha-se uma sequência de cenas em labo- ratório que mostram Robert manipulando informações genéticas de células de um porco para recombiná-las com uma célula humana. Por diferentes ângulos, Robert é exibido minuciosamente acoplando a pele a um manequim. Uma sequência de sobreposições de imagens produz a ilusão da boneca se transformando em Vera. Ainda nessa cena, surge a fala de Robert dialogando a respeito da pesquisa em torno da pele artifi- cial para a sociedade cientifíca. Nesse segmento, em outro cenário, com as vozes quase em múrmuro, Robert debate com um membro da comu- nidade científica a respeito do que tem aprendido com a pesquisa. Ao ser repreendido por trabalhar com transgênese, assunto delicado à bioética, Ledgar afirma ter a pesquisa como uma aventura pessoal em memória da esposa morta, com fins de ampliar apenas os conhecimentos. De volta à mansão, segue-se com a trama de Robert e Vera1 . Nesse instante percebe-se que os dois estabelecem uma relação estranha de 1 Papel encenado pela atriz Elena Anaya.
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    371Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia desejo. Além deVera, na mansão existem quatro funcionários que traba- lham na manutenção e organização da casa, dentre eles Marilia, que há tempos trabalha com Robert e discute com ele a semelhança entre Vera e sua esposa morta, Gal. Uma nova narrativa se impõe a partir de um homem fantasiado de tigre, referenciando o carnaval, adentra a mansão. Trata-se do filho de Marilia, Zeca, que demanda abrigo depois de come- ter um assalto a uma joalheria. Ao mirar o telão em que Vera é exibida, Zeca, extasiado com a imagem, inicia uma perseguição. Acreditando se tratar da esposa de Robert, Zeca a estupra. As cenas subsequentes mos- tram Robert assassinando Zeca. Em um diálogo, Marilia revela à Vera que Robert e Zeca são seus filhos. Com isso inicia-se outro plano narrativo. Sob o clarão de um foga- réu, fatos são esclarecidos. Marilia explica que seu filho Zeca havia con- fundido Vera com a esposa de Robert, Gal, com a qual ele teve um caso e, ao fugirem juntos, sofrem um grave acidente, então representados na película por imagens de lembranças. Marilia narra que embora Gal não tenha falecido no acidente, com graves queimaduras na pele, ficara por meses em um quarto da mansão. Mas, ao ser atraída pela voz de sua filha no quintal, observa sua imagem espelhada em um vidro e em seguida se lança pela janela, cometendo suicídio. Um terceiro plano narrativo surge como em sonho. As cenas nos conduzem a seis anos antes, numa situação drástica de Robert com sua filha, Norma, supostamente estuprada por um jovem em uma festa na mansão. Fazendo referência à Vera, as cenas mostram a trajetória do suposto agressor da filha de Robert, Vicente (Jan Cornet). Nesse momento, volta-se ao segundo plano narrativo em que os momentos são concordados sob a órbita do olhar de Vera, havendo uma sobreposi- ção de cena que agrupa a imagem deVera à deVicente. Num secundário cenário, após o ocorrido na festa, aparece Vicente sendo perseguido e em seguida já encarcerado por Robert, que realiza visitas ao cativeiro. Concatenam-se cenas que mostram a evolução de Norma segundo pro- blemas psiquiátricos, possivelmente desencadeados pela crença de ter
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    372 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA sido violentada pelo pai, e não por Vicente. A filha passa a temer e afas- tar o próprio pai, despertando nesse um profundo ódio por Vicente, o suposto estuprador. Desse ponto, o efervescente da narrativa emerge no que concerne às referências aos limites entre o real e o ficcional da biotecnologia con- temporânea. Cenários de salas de cirurgia contemplam uma mistura de vingança pessoal e desenvolvimento científico, representada por parte de Robert. Ao mesmo tempo podemos perceber outros dramas de Robert, que é não aceitar a pele queimada e o suicídio de sua esposa. Em um primeiro momento, realiza uma vaginoplastia em Vicente. Em outros planos, transforma Vicente aos poucos em Vera, que traz consigo a apa- rência de Gal. Cenas mostram o passo a passo da mudança de sexo que nos leva à primeira narrativa em que Robert constrói a pele transgênica a partir do tecido suíno testado no corpo de Vera. De volta ao momento presente da história, Robert e Vera parecem conviver como parceiros sexuais, pois essa última cria a ilusão de ter acei- tado sua nova condição corporal graças à resignição promovida pelo yoga, em que se refugia para um interior enigmático. Ele faz pensar que se acomodara espiritualmente com a situação e vai iludindo, aos poucos, Robert, que não mede esforços para entender a façanha. Em seguida, depois de driblar quaisquer dúvidas da confiança de Robert depositada nela, Vera, sob grande suspense, ao se ver como Vicente em fotografia de jornal impresso sobre a mesa de Robert, na lista de desaparecidos, con- segue escapar da mansão após assassinar seu raptor e em seguida, sua cúmplice, Marilia. Livre da mansão, Vera/Vicente busca abrigo na loja da mãe, onde estão ela e Cristina – sua assistente. Ele as convence de que fora sequestrado e sujeito a uma mudança de sexo involuntária. 2º Fase: Recomposição interpretativa de “A pele que habito” e suas interfaces entre corpo e biotecnologia Para o momento, propomos uma seleção de capítulos/cenas que vinculam os aspectos da manipulação do corpo segundo a bio-
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    373Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia tecnologia. A decomposição está organizada em duas categorias: a primeira diz respeito à “pele”, a partir da qual abrimos duas subca- tegorias denominadas “potencialização da pele” e “transgênese”; e a segunda categoria intitulamos de “mudança de sexo” – quando elencamos as subcategorias: “vaginoplastia” e “modulação do corpo masculino em feminino”. Os momentos e diálogos referen- tes à biotecnologia compõem um total de seis cenas sequenciadas pela narrativa fílmica apresentadas nas duas extremidades do filme. A análise ocorreu sobre cinco cenas: três dos capítulos iniciais e duas dos últimos capítulos, separadas pelas duas categorias anunciadas: “pele” e “mudança de sexo”. A pele: potencialização e trângense A categoria “pele” abarca fragmentos do filme durante os quais é manipulada por técnicas e tecnologias médico-cirúrgicas. Esta manipu- lação ocorre em dois níveis/subcategorias que se entrelaçam: num pri- meiro momento/nível, o médico Robert, através de seus experimentos, cria uma pele – mais potente – que resiste a queimaduras e a picadas de insetos. No entanto, o experimento se materializa no âmbito da trans- gênese: manipulação de gene humano em fusão com o gene da pele animal (porco). A trangênese caracteriza o segundo momento/nível de análise da manipulação da pele pela tecnologia no sentido de sua potencialização no que concerne à proteção. As questões referentes à subcategoria da potencialização da pele aparecem com bastante ênfase no filme em dois momentos em meio aos procedimentos de trangênese. As cenas mostram o neurocirurgião em laboratório, criando e sobrepondo a pele artificial, após ter recebido um vaso contendo sangue fresco de porco. É a primeira vez em que o tema aparece: capítulo inicial, décimo minuto do filme e tem duração de 20 segundos. Em primeiro plano, temos uma cena que mostra Robert sentado quando recebe Marília, que coloca sobre a mesa um vaso con- tendo sangue e expõe:
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    374 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA Marília:“Aqui está, extraído de um animal ainda vivo”. Ao agradecer, Robert retira-se da sala com o vaso em mãos. Dá-se início a outra cena que abrange aspectos da mutação gené- tica segundo um estereótipo de cientista. Corresponde a uma cena ini- cial do segundo capítulo, com duração de 1’e 28’’, em que temos a figura de Robert adentrando o laboratório com o vaso de sangue, o colocando sobre um balcão, em seguida vestindo um jaleco. Robert surge ao lado de prateleiras contendo cubas de vidro, retirando cilindros de vidro de um tanque de nitrogênio. Ao retirar os recipientes vazios, manipula gotas de sangue suíno, respingando-os em um dos recipientes. Robert retira uma cuba circular onde flutua uma película sobre um líquido: é o resultado da mutação genética Em um período de 3’ e 4’’, as cenas estão sequenciadas em 3 ins- tantes, constituídos de 17 cortes e um agrupamento de cena, em sua maioria sob sonoplastia suspensiva e imagens em aproximação que res- paldam sobre essas os aspectos do visual. O clima de suspense indica a emergência de alguma novidade. No caso, uma inovação científica. Contudo, a situação implica a iminência de um acontecimento proibido, perigoso, imoral. O primeiro momento se dá quando Robert, após criar a pele via transgênese, a coloca sob o manequim e a recorta minuciosamente para posteriormente acoplar a mesma ao corpo de Vera. Na segunda cena, apresenta-se a modulação da pele ao manequim e com uma sobreposição de imagens, o manequim torna-se a personagem Vera, retirando-se o cenário anterior. Com isso, faz-se o terceiro instante, quando o panorama mostra eventos que reafirmam a criação e poten- cialização da nova pele ao trazer imagens de Robert realizando testes que provam sua resistência. No primeiro ângulo, Robert, ao sobrepor a pele em Vera, afirma: Robert:“Agora é certeza que não haverá mais queimaduras”.
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    375Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia Com um corte, a cena seguinte traz Robert aproximando da pele de Vera uma fagulha de fogo produzida por um isqueiro. Embora o foco do momento seja o da inovação, no contexto geral da narrativa a referência à pele queimada de Gal é patente; de modo que a objetividade científica vela a subjetividade humana do desejo. Ao aproximar a chama, Robert questiona Vera: Robert:“Diga-me se te queima?” Vera:“Não”. Aproximando o fogo ainda para mais perto da pele, Robert nova- mente a questiona: Robert:“E agora?” Vera:“Não”. Nesse momento da cena atual, temos a continuação dos eventos que provam a resistência da pele articulada ao nome de sua falecida esposa, certamente a motivação afetiva de toda empreitada. Assim, Robert aparece colocando um recipiente com um mosquito dentro sobre a pele de Vera, à qual dirige uma pergunta: Robert:“Diga-me se o mosquito te pica?” Vera:“Não”. Além do diálogo, reforça a invenção da nova pele a voz de Robert discursando num evento científico sobre seu estudo da pele artificial aos seus pares cientistas: Robert: “Esta pele é resistente à picada de qualquer inseto. O que supõe que seja uma barreira natural à malária, por exemplo. [...] Naturalmente tenho trabalhado um rigoroso controle de qualidade nos tecidos implantados em mamíferos, em ratos
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    376 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA atímicos, e os resultados têm sido espetaculares. O que nos faz supor que seriam igualmente positivos em mamíferos humanos”. Em seguida, ainda afirmando essa questão, um diálogo entre Robert e um membro da comunidade científica que o questiona sobre os pro- cedimentos para criação da pele artificial. Robert: “Batizei com o nome de Gal a pele artificial em que trabalhei nos últimos anos” Membro comunidade científica: “O que significa o nome Gal? É só uma sigla?” Robert: Minha mulher se chamava assim. Ela morreu queimada em um acidente de carro. Membro comunidade científica: “Em sua apresentação você afirma que a pele é resistente a picadas de mosquitos, como de malária. O que lhe faz supor isto?” Robert: “A pele artificial é muito mais dura que a pele humana e cheira diferente. Está comprovado que o mosquito da malária distingue a pele humana pelo odor. O odor de Gal é diferente e o repele”. Membro da comunidade científica: “Isso não basta. Como conseguiu endurecer a pele?Vamos para um lugar mais tranquilo. [...] Só existe um meio de endurecer a pele. Com mutação.” Mediante os diálogos de Robert com Vera e com o membro da comunidade científica, o filme apresenta de forma ficcional uma pele potencializada para além de sua condição natural. Nesse sentido, a biotecnologia é um dos ramos da tecnociência que tem possibilitado cenários inusitados no que tange às possibilidades de transformação e potencialização tecnológica do corpo (LIMA, 2009). Uma destas transfor- mações está no âmbito da convergência da engenharia de tecidos, que é anunciada como uma verdadeira revolução nas práticas de transplantes, abrindo assim novas perspectivas para que órgãos humanos possam ser “fabricados” (LIMA, 2009). Neste sentido, como destaca Lima (2009, p.
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    377Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia 29), “[...] uma lógica da produção da vida está subjacente à engenharia de tecidos, pois, com ela, aprendemos que é possível produzir a vida em laboratório”. Sob essa lógica, cada vez mais esse cenário vem deixando de ser exclusivo apenas do imaginário fílmico e, como nos apresenta Couto (2009), vem fazendo parte de laboratórios respeitados em diversas universidades que confiam na engenharia de tecidos como potenciali- zação tecnológica da pele e de vários outros órgãos do corpo humano. Ainda nas ideias do autor, para que isso se concretize, basta que a técnica, a partir do cultivo de células, tenha o poder tanto de cons- truir (como no filme) como o de restaurar tecidos e órgãos do corpo humano. O corpo não seria construído integralmente, como promete a clonagem, mas sim em partes. Toda essa paisagem de promessas e realidades vem se justificar e se legitimar pautada na ideia de potencialização do ser humano – do seu corpo, de sua vida. Esse conjunto de ideias reflete o quanto se tem inves- tido sobre o corpo, fazendo emergir a principal característica humana: sua precariedade e limitação enquanto natureza. Esta manipulação do corpo pela tecnologia o caracteriza cada vez mais como obsoleto. Per- cebemos isso na menção de Goellner e Silva (2012, p. 189): “[...] o corpo está condenado à obsolescência”. Por esta razão, o corpo precisa ser constantemente corrigido, tonificado e potencializado a fim de tornar- -se“mais e melhor”. A subcategoria da transgênese apresenta-se no filme sob dois aspectos: no diálogo entre Robert e o membro da comunidade cientí- fica e através de cenas em que Robert trabalha na mutação de genes humanos com o de suínos. Aproveitando o sequenciamento do diá- logo da subcategoria anterior entre Robert e o membro da comuni- dade científica, apresentamos inicialmente a descrição que abrange o segundo capítulo do filme e tem duração de 1’ e 32’’. Esse diálogo é a sequência do apresentado acima, em que Robert responde ao questio- namento do membro da comunidade científica sobre como conseguiu
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    378 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA endurecer a pele, pois só há uma forma de fazê-lo: a mutação genética. Vamos à resposta: Robert: “Sim isso é fato. Transgênese?! Sim. Transferindo informação genética de uma célula de porco a uma célula humana”. Membro da comunidade científica: “De um porco?” Robert:“É muito mais forte que a nossa!” Membro da comunidade científica: “Está louco? Você sabe que a aplicação de terapia transgênica em seres humanos está absolutamente proibida!” Robert: “Sim, eu sei. E me parece, com desculpa, o cúmulo do paradoxo. Interferimos em tudo que nos rodeia. Na carne, na roupa, nos vegetais, nas frutas, em tudo. Por que não aproveitar os avanços da ciência e melhorar nossa espécie? Já pensou nas doenças que podemos curar com a transgênese?! Ou as malformações genéticas que se poderia evitar?” Membro da comunidade científica:“Não continue, conheço a lista de cor e não há um dia que eu não pense nisso. Mas isso não me impede de lhe proibir que continue a investigar sobre a pele. Ou me verei obrigado a denunciá-lo para a comunidade cientifica. Além do que você e eu pensamos que a bioética é absolutamente clara a esse respeito”. Robert: “Não se preocupe, Gal tem sido uma aventura pessoal. Fiz em memória de minha esposa e com único fim de aprimorar meus conhecimentos”. Esse diálogo deixa transparecer uma das maiores problemáticas em termos das relações entre ética e epistemologia que envolvem o corpo na fusão com a tecnologia e suas implicações ontológicas. De todo modo, Robert tenta justificar uma infração ética pela via de sua subjeti- vidade; pelo desejo em relação à sua esposa. Pensando nessa síntese, Camargo e Vaz (2012) ressaltam que a mesma traz uma carga complexa sobre os possíveis entrelaçamentos da relação entre natureza/cultura, natural/artificial. Vemos o fato de a pele
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    379Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia de porco ter sido eleita para representar, na narrativa cinematográfica, a base do artifício biotecnológico que testa alguns limites desse binô- mio; pois, trata-se de um animal, condição a ser negada pelo homem em seu inúmeros aspectos, mas principalmente em seus limites cognitivos. Contudo, embora não tenha a inteligência humana, apresenta uma van- tagem corporal: a resistência da pele. Não obstante, a pelo natural do porco se artificializa na trangênese. Ainda na direção desse pensamento, podemos afirmar que quanto mais se pensa sobre o binário natureza/cultura, mais se desvelam pro- fundas e complexas indagações sobre: o que é algo natural no corpo? O que é algo artificial? O que diferencia natural e artificial? O que significa alterar/produzir/destruir algo natural? O artificial descaracteriza a natu- reza do humano? Natural e artificial não são tensões de um mesmo e único processo do devir indeterminado do ontológico? Pode algo artifi- cial se tornar autônomo e mudar seu rumo da natureza humana? Sob este viés, segundo Camargo eVaz (2012), pensar a relação entre o corpo e a tecnologia a partir de seu entrelaçamento significa tomar o corpo em relação à própria suposta condição natural de sua existência. Assim, não seria um exercício de especulação futura sobre o vivo e o não-vivo, mas sim a possibilidade de pensá-lo, na atualidade, num movi- mento que demanda o distanciamento dele mesmo. Seria como se fosse um artefato que se desgasta com o tempo, porém, rearranja suas condi- ções de estar no mundo a partir da coexistência e auxílio da biotecno- logia. Questionamentos emergem sobre até que ponto dominamos as técnicas e as tecnologias que o próprio ser humano desenvolve. Além de pensar até que ponto as mesmas estão ao nosso favor e não o inverso, pois há finitude nas circunstâncias favoráveis (CAMARGO; VAZ, 2012). Não podemos negar que estas novas tecnologias ligadas ao corpo estão causando polêmicas no que tange às fronteiras do humano, con- fundindo inclusive sua ontologia tradicional. Afinal, o que caracteriza a prótese-máquina e a transgênese prótese-animal nos faz pensar aquilo que caracteriza o homem. Supõe-se que tal fusão poderia vir a apagar
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    380 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA essa suposta fronteira entre o humano e o não humano, tornando-se uma problemática de difícil definição da vida (LIMA, 2009). Acerca dessa problemática, Santaella (2004, p. 31) se apresenta como uma das intelectuais contemporâneas que sistematicamente insiste nesse tema:“A mistura crescente entre o vivo e o não-vivo, o natu- ral e o artificial, permitida pelas tecnologias, atinge hoje um tal limiar de ruptura que faz explodir a própria ontologia do vivo [...]”. Ou seja, a biotecnologia vem inserindo e retirando algumas variáveis determi- nantes na constituição dos seres em geral (animais e vegetais), mas do ser humano em especial; de modo que podemos afirmar que os seres de hoje não são regidos pelas mesmas regras filo e ontogenéticas do passado. Essa problemática evoca o pensamento de Le Breton (2003) a res- peito da transgênese animal, ao abordar o desenvolvimento das indús- trias responsáveis. O animal, produto da evolução – e aqui inserido, o próprio ser humano –, é transformado em um objeto imperfeito que precisa ser redesenhado; um ser composto por material montável e desmontável sujeito a ser geneticamente acasalado com outros, obje- tivando modificações de determinadas características, subtraindo ou somando informações genéticas segundo o objetivo pretendido (no caso do filme, a potencialização da pele). Nessa lógica, os porcos produ- zem hemoglobina humana. Bem como os tradicionais soros antiofídicos para humanos como produtos dos processos imunológicos dos sangues de animais como o cavalo e o coelho (VASCONCELLOS et al., 1986, p. 98). Do mesmo modo, algumas firmas fazem a inserção de genes humanos em animais com o objetivo de tornar os órgãos compatíveis com o sistema imunológico do ser humano e, neste sentido, a biotecno- logia é um dos grandes setores no desenvolvimento de novas técnicas (LE BRETON, 2003). A biotecnologia reinventa um mundo em que os animais – e novamente o humano – por meio da transgênese, são fabri- cações imaginárias do humano, tecnicamente manufaturados (LE BRE- TON, 2003). Neste sentido, para Le Breton (2003), o ser vivo torna-se uma
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    381Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia matéria-prima que está à disposição para o uso e sua suposta essência passa a ser agora tangível. MUDANÇA DE SEXO: VAGINOPLASTIA E MODULAÇÃO DE GÊNERO A categoria“mudança de sexo”abarca fragmentos do filme nos quais Robert, por meio da tecnologia, transformaVicente emVera. Esta transfor- mação ocorre em dois níveis/subcategorias: a subcategoria vaginoplas- tia, em que Robert retira as genitálias masculinas de Vicente, deixando no lugar um orifício; a outra subcategoria intitulada modulação do corpo masculino em feminino, que se refere à modulação das demais partes, consideradas índices secundários da definição fenotípica da sexualidade do corpo de Vicente, moldando-o na forma do corpo de Vera. As cenas referentes à subcategoria “vaginoplastia” correspondem a um sequenciamento que aparece no avançar de 1 hora e 16 minutos do filme, com duração de 4 minutos. Consiste numa sequência de cenas ao finaldosétimo,oitavoenonocapítulos,quemostramemprimeiroplanoo procedimento inicial da cirurgia e, em seguida, o processo de cicatrização. A primeira cena se dá em uma sala de cirurgia, em que o jovem inconsciente é preparado sobre uma cama. Em um corte, apresenta-se por um vidro da porta a chegada de especialistas ao local enquanto o olhar da câmera movimenta-se pela sala, dando uma visão panorâmica dos mesmos, se deslocando até a área cirúrgica. Uma imagem plena do ambiente com Vicente deitado e, logo após, os médicos realizam os primeiros procedimentos ao dialogarem sobre o paciente. Após o corte, surge o jovem despertando vagarosamente. Ao perguntar o que havia ocorrido, Vicente, desconsolado, descobre que passou por uma mudança de sexo. Interessante observar que a presença de outros personagens repre- sentando médicos especialistas desconstrói qualquer indício de retra- tar Robert como o cientista polivalente, generalista ou universalista; tal
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    382 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA como figura o Dr. Frankenstein, no romance de Mery Shelley, que sozi- nho foi capaz de produzir vida na matéria inanimada de um cadáver. O cientista contemporâneo é dependente de seus pares, até mesmo para cometer infrações éticas ou mesmo crimes. Além disso, a necessidade de especialistas para a operação almejada implica que, apesar dos apara- tos biotecnológicos envolvidos, esses ainda dependem do domínio téc- nico e cognitivo por parte de um humano. Esta dependência também é demonstrada na disciplina de Vicente para modelar seu corpo. As cenas após a mudança de sexo referem-se à “cicatrização” e tem duração de 2’. e 4’’. Com a chegada de Robert no quarto, Vicente resguar- da-se enquanto Robert caminha no espaço, apresentando a Vicente dilatadores úteis para a cicatrização dos tecidos que agora compõem a vagina. A cena se dá com faces dos personagens em primeiro plano. É apresentada uma mudança de cena em tela média que se reporta à sala de cirurgia e mostra Robert examinando a cicatrização da pele deVicente. A descrição desta cena do filme nos remete a pensarmos a redefi- nição do gênero e do sexo na contemporaneidade a partir da biotecno- logia, mas também de uma dependência, por parte de seus resultados efetivos, de técnicas de auto-cuidado. Ou seja, o sucesso subsequente da intervenção cirúrgica promovida por Robert depende do esforço e da disciplina do próprio Vicente em relação ao seu novo corpo. Araújo (2010), pautada em Preciado (2008), destaca que o século XXI entra defi- nitivamente na era do que ela chama de tecnogênero. A biotecnologia entra como possibilidade para reescrever o jogo de regulação da femini- lidade e da masculinidade, do domínio do corpo e das diferentes formas de subjetividades, oferecendo um sem fim de opções para a redescrição técnica do sexo e do gênero. Estas possibilidades de redescrições podem ser vistas a partir das palavras de Preciado (2008) apud Araújo (2010, p. 44): “O gênero [ou o sexo] do século XXI funciona como um dispositivo abstrato de subjeti- vação técnica: se pega, se corta, se movimenta, se desenha, se compra, se vende, se modifica, se hipoteca, se transfere [...], se traciona, se modi-
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    383Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia fica”. Assim, a subcategoria “modulação do corpo masculino em femi- nino”mostra a transformação externa do corpo de homem (Vicente) em mulher (Vera) mediante a aplicação de técnicas e de instrumentos e se faz presente em três cenas com duração total de 5 minutos. Na primeira cena, que aborda a modulação do corpo masculino, surge, no nono capítulo, a imagem do personagem Vicente, em plano frontal, com uma máscara modular facial e sem cabelo. Com o ressur- gimento de outro cenário, a imagem percorre o corpo de Vicente, mos- trando marcas cicatrizadas pelo corpo e a presença de seios, então acariciados por Robert, que contempla sua modelagem. Após esse episódio, Robert determina que Vicente use uma roupa modeladora, afirmando que irá ajudar a firmar a pele e moldar o corpo do mesmo conforme aspectos da fenotípica feminina. É importante lembrar que nesse momento da evolução do personagemVicente emVera a transgê- nese da pele ainda não fora realizada. As cenas seguintes, que tratam da modulação do corpo feminino, apresentam-se com duração de 2’ e 43’’, quando se condensa o tempo de seis semanas decorridas. Aproximando a tela da sala de cirurgia, apa- rece Robert retirando de Vicente – agora com cabelo curto – a máscara de modulação facial. Ao deparar-se com uma figura de traços faciais e corporais femininos, Robert afirma não poder continuar referindo-se ao mesmo como Vicente e, assim, passa a chamá-lo de Vera. Em cena do décimo capítulo, Vera aparece com cabelos longos sobre os ombros, escrevendo em uma parede. Aqui, dá-se a continuação da transformação do corpo masculino de Vicente, no corpo feminino de Vera, dando a entender que Robert con- sidera que o que fará a transformação de um corpo masculino para um feminino não é “simplesmente” a mudança de sexo por meio da cirur- gia (vaginoplastia). Isso nos leva a considerar que, além da mudança do órgão sexual, o corpo também deve apropriar-se de outros signos que convencionalmente representam a mulher, tais como o formato do rosto, da cintura, a textura da pele, os cabelos longos, a vestimenta, os
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    384 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA seios etc. que, como vimos, é o que Robert tenta fazer na redefinição do corpo de Vicente por meio de manipulações técnicas de auto-cuidado. Le Breton (2003) destaca ainda que o corpo trans é um viajante em seu próprio corpo, e que tanto a forma quanto o gênero mudam à sua vontade – no caso do filme aqui suspenso para análise, a vontade não surgiu do próprio corpo transformado, remodelado, porém de todo modo foi uma redefinição a partir da vontade de outrem, por meio da biotecnologia, mas que necessitou da velei- dade própria para se disciplinar tecnicamente no desenvolvimento da modulação. Robert, esse outrem, pode estar representando a vontade da ciência, que, como nessa narrativa, muitas vezes é con- fundida com a vontade dos sujeitos. Coloca-se, portanto, a constituição humana no campo da alteri- dade descentrada em detrimento da concepção cartesiana do sujeito centrado. A tecnologia, assim, não insiste apenas por ser o efeito do desejo humano, mas passa a ser a causa dele. A biotecnologia consiste em objeto a ser cobiçado na medida em que ela permite a realização de alguns desejos. Os desejos da ciência enquanto outro vêm sendo subje- tivados como desejos dos sujeitos em suas ontologias indeterminadas. O trans representa um corpo levado à condição de objeto de circuns- tância dele mesmo, que se tornou modelável e determinado não mais com relação ao sujeito em si (a priori), mas sim ao momento, à vontade, entrando na modalidade do possível. CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise fílmica da película “A pele que habito”, aqui abordada sob as categorias “pele” e “mudança de sexo”, nos mostra a manipulação do corpo através da biotecnologia médica mediada por procedimentos cirúrgicos de grande exigência técnica por parte de um agente humano. Tal visão está relacionada com o que Tucherman (2009) destaca de har- d-sciences e suas tecnologias de ponta, que se caracterizam por meio de
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    385Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia implantes corporais como órgãos artificiais, drogas, cirurgias plásticas, modificações genéticas etc. Assim, o estudo corrobora com Lima (2009) ao considerarmos que e os dispositivos de tais tecnologias envolvem práticas de saber- -poder em que se produz uma nova dizibilidade e uma nova visibi- lidade de corpo, a ponto de vermos e falarmos sobre o corpo e o ser humano de uma nova forma, tratando de um novo ser. Os entre- laçamentos entre o corpo e as tecnologias vêm produzindo novas configurações na anatomia física e na anatomia mental (corpo repre- sentado), não apenas em sua materialidade, mas sobretudo em suas significações. Tal como tenta demonstrar o personagem Vicente e sua relação com o yoga, a manipulação da matéria parece provocar transformações no espírito ou no ser daquilo que se entende por humanidade. Deste modo, diante das transformações biotecnológi- cas, não são apenas os corpos que se remodelam, as mentes também necessitam de novos modelos. Filmes como“A pele que habito”vêm nos mostrar que essa relação através desse entrelaçamento entre natureza, ciência e cultura torna- -se verdadeiro dispositivo de discurso que tenta a legitimação de todo um conjunto de ideias, hipóteses e proposições lógicas e preleções na contemporaneidade a respeito do corpo e das tecnologias no hori- zonte de uma ontologia fundada não na natureza, mas no contexto histórico de transformações biológicas e culturais do humano e do não-humano. REFERÊNCIAS ARAÚJO, R. L. Transexualidade: dos transtornos às experiências singulares. Dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica. Universidade Católica de Pernambuco. Recife, 2010. A PELE QUE HABITO – Filme. Direção Pedro Almodóvar. Produtora El deseo: Espanha, 2011. 1 DVD (117 min.)
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    386 “A PELEQUE HABITO”E A BIOTECNOLOGIA BÁRTOLO, J. Corpo e sentido: estudos intersemióticos. Covilhã: Livros LabCom, 2007. BORBA, A. Análise de cartazes dos filmes de Pedro Almodóvar. São Paulo, Centro Universitário Senac. 2008. Disponível em <http://algumaexistencia.blogspot. com/os-cartazes-originalmente-almodovar.html. Acesso em: 20 de março de 2014. CAMARGO, W. X.; VAZ, A. F. De humano e pós-humano – Ponderações sobre o corpo queer na arena esportiva. In: COUTO, E. S.; GOELLNER, S. V. O triunfo do corpo: polêmicas contemporâneas. Petrópoloes,: Vozes, 2012, p. 119-144. CONTRERAS, R.C. Ontología y epistemologia cyborg: representaciones emergentes del vínculo orgânico entre el hombre y la naturaleza. Revista Ibero Americana de ciência, tecnologia y sociedade. Buenos Aires,v. 7, n.19, p. 131-141, dez., 2011. COUTO, E. S. Uma estética para corpos mutantes. In: COUTO, E. S.; GOELLNER, S. V. Corpos mutantes: ensaios sobre novas (d)eficiências corporais. Porto Alegre; Editora da UFRGS, 2009, p. 43-56. CUPANI, A. Filosofia da tecnologia: um convite. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011. DUARTE, R. Cinema e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. GOELLNER, S. V.; SILVA, A. L. S. Biotecnologia e neoeugenia: olhares a partir do esporte e da cultura fitness. In: COUTO, E. S.; GOELLNER, S. V. O triunfo do corpo: polêmicas contemporâneas. Petrópoloes: Vozes, 2012, p. 187-210. GOMES, B. I; CURADORES, S. O; In: COUTINHO, A. B; LIRA GOMES, (org). El Deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar. p. 36-37, Rio de Janeiro: Editora Caixa Cultural sebo Sebo Releituras Centro 2ª. Edição Julho de 2011. HEIDEGGER, M. Ontologia: hermenêutica da facticidade. Tradução de Renato Kirchner. 2a ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. (Coleção Textos Filosóficos). LE BRETON, D. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. Campinas: Papirus, 2003. LEROI-GOURHAN, A. Os caçadores da pré-história. Tradução de Joaquim João Coelho da Rosa. Lisboa: Edições 70, 2001. (Perspectivas do homem) LIMA, H. L. A. Corpo cyborg e o dispositivo das novas tecnologias. In: COUTO, E. S.; GOELLNER, S.V. Corposmutantes: ensaios sobre novas (d)eficiências corporais. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009, p. 13-28.
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    387Joseneide de AmorimSantos; Fabio Zoboli; Renato Izidoro da Silva; Elder Silva Correia MORIN, E. A animalidade do conhecimento. In: ______ Ométodo3: a consciência da consciência. Tradução de Juremir Machado da Silva. 2a ed. Porto Alegre: Sulina, 1999. p. 62-78 NIKOLAS, R. A política da própria vida: biomedicina, poder e subjetividade no século XXI. Tradução de Paulo Ferreira Valerio. São Paulo: Paulus, 2013. (Coleção biopolíticas) POPPER, K. R.; ECCLES, J. C. Océrebroeopensamento.Tradução de Sílvio Meneses Gracia et all. Campinas, SP: Papirus; Brasília, DF: Editora da UNB, 1992. RODRIGUES, N. at all. As intermitências da vida: uma analítica da longevidade em histórias de biotecnologia. In: ALMEIDA FILHO, N. at all. Cultura, tecnologias em saúde e medicina: perspectivas antropológicas. Salvador: EDUFBA, 2008. p. 63-88 SANTAELLA, L. Corpoecomunicação: sintoma da cultura. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2004. SERRES, M. Hominescências: o começo de uma outra humanidade? Tradução de Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. TADEU, T. Nós, ciborgues: o corpo elétrico e a dissolução do humano. In: HARAWAY, D.; KUNZRU, H.;_______ . (Org) Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, p. 7-15, 2009. TUFVESSON, C. Universo de Almodóvar de elementos diversos. In: COUTINHO, A. B; LIRA GOMES, (org). El Deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar. p. 36-37, Rio de Janeiro: Editora Caixa Cultural Sebo Releituras Centro, 2ª. Edição Julho de 2011. VANOYE, F.; GOLLIOT-LÉTÉ, A. Ensaio sobre a Análise Fílmica. Campinas-SP: Papirus, 1994. VASCONCELLOS, J. L. et. al. Programas de saúde. 11a ed. São Paulo: Editora Ática S.A., 1986. VAZ, A. F.Treinar o corpo, dominar a natureza: notas para uma análise do esporte com base no treinamento corporal. Caderno Cedes, Campinas, Ano 9, n. 48, ago. 1999.
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    SOBRE OS AUTORES CrisleneGóis Santos: Graduanda em Educação Física Licenciatura pela Uni- versidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e Governa- bilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: leninha_gois@hotmail.com. Cristiano Mezzaroba: Doutorando em Educação – Linha Sociologia e História pela UFSC. Mestre em Educação Física pela UFSC. Licenciado em Educação Física e Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Cata- rina – UFSC. Integrante dos Grupos: LaboMidia/UFSC/UFS/CNPq; Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea/UFSC/CNPq. Professor do Departamento de Educação Física/CCBS/UFS. E-mail:  cris- tiano_mezzaroba@yahoo.com.br. Eduardo Carvalho Gomes de Menezes: Licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Professor da rede pública do Estado de Sergipe (SEED-SE). Membro do grupo “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: dudu_bskt@hotmail.com. Eduardo Francisco Freyre Roach: Doutor em Ciências Filosóficas pela Uni- versidade Estatal de Moscou – Rússia. Mestrado em estudos Budistas pela Universidade de Hong Kong – China. E-mail: freyre.roach2007@gmail.com. Elder Silva Correia: Mestrando em Educação Física pela Universidade Fede- ral do Espírito Santo – UFES. Licenciado em Educação Física pela Universi- dade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: eldercorreia21@gmail.com. Evandro Santos de Melo Bomfim: Graduando em Educação Física Licen- ciatura pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e Governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: evando.san- tosmelobomfim@gmail.com.
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    390 CORPO EGOVERNABILIDADE Fabio Zoboli: Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia – UFBA. Professor do Departamento de Educação Física e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: zobolito@gmail.com. Felipe Quintão de Almeida: Doutor em Educação pela Universidade Fede- ral de Santa Catarina (UFSC). Professor do Centro de Educação Física e Des- portos da Universidade Federal do Espírito Santo (CEFD/UFES). Professor da Pós-graduação em Educação Física da UFES. Laboratório de Estudos em Educação Física (LESEF). E-mail: fqalmeida@hotmail.com. Genaro Vilanova Miranda de Oliveira: Doutorado em PhD in Art History pela The University of Auckland, Nova Zelândia(2013). Pesquisador Visitante do Universität Basel, Suíça. Pesquisador do Instituto for Social Sciences Research (ISSR) da Universidade de Queensland. PhD. E-mail: gegecaspier@gmail.com.   Hamilcar Silveira Dantas Junior: Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia – UFBA. Professor do Departamento de Educação Física e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Coordenador do Centro de Memória da Educação Física, Esporte e Lazer de Sergipe – CEMEFEL/UFS. E-mail: hamilcarjr@hotmail.com. Jaison José Bassani: Doutor em Educação e Professor do Departamento de Educação Física e dos Programas de Pós-graduação em Educação Física e Educação da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, Vice coorde- nador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contempo- rânea (UFSC/CNPq). E-mail: jaisonbassani@uol.com.br Jessica Vitorino da Silva Terra Nova: Mestranda em Educação pela Uni- versidade Federal de Sergipe – UFS. Especialista em Arte-Educação pela Faculdade São Luís de França – SE. Licenciada em Educação Física pela UFS. Membro do grupo “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: vitorino_jessica@hotmail.com
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    391CORPO E GOVERNABILIDADE JoãoFilipe dos Santos: Licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo e governabilidade: polí- tica, cultura e sociedade”. E-mail: joao.filipe.dos.stos@gmail.com . Josineide de Amorim Santos: Graduanda em Educação Física Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e Governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: josineideamorim_@ hotmail.com. Luana Alves dos Santos: Graduanda em Educação Física Licenciatura pela Universidade Feral de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e governa- bilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: luana.adsantos1@gmail.com. Monara Santos Silva: Mestranda em Educação pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Licenciada em Educação Física pela UFS. Membro do grupo “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: nara. codap@gmail.com. Miguel Angel Garcia Bordas: Pós Doutor em Sociosemió- tica pela Universidade Autônoma de Barcelona – UAB. Dou- tor em Filosofia pela Universidade Complutense de Madrid – UCM. Graduado em Filosofia e Letras pela Universidade Central de Barce- lona – UCB. Professor Associado IV do Departamento I da FACED/UFBA Participante dos Programas de Pós-Graduação em Educação, Mestrado e Doutorado e do Doutorado em Difusão do Conhecimento – DMMDC da Universidade Federal da Bahia – UFBA. E-mail: magbordas@gmail.com. Natalia Takaki: Licenciada em Educação Física e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná – UFPR. E-mail: nataliatakaki@gmail.com. Renato Izidoro da Silva: Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia – UFBA. Professor do Departamento de Educação Física e do Pro- grama de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Coordenador do grupo “Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: izidoro.renato@gmail.com.
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    392 CORPO EGOVERNABILIDADE Suely Oliveira dos Santos: Graduanda em Educação Física Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. E-mail: suelyoliveira069@gmail.com. Tammy Rocha Costa: Licenciada em Educação Física pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo e Governabilidade: polí- tica, cultura e sociedade”. E-mail: tammy.r.costa@gmail.com. Theodoro Filho: Graduando em Educação Física Licenciatura pela Univer- sidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo “Corpo e Governabili- dade: política, cultura e sociedade”. E-mail: theodoro@infortele.com.br . Tiago de Brito Ferreira Santos: Graduando em Educação Física Licencia- tura pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo e Governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: tiagopaulista10@ gmail.com. Vinicius dos Santos Souza: Licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro do grupo“Corpo e governabilidade: política, cultura e sociedade”. E-mail: vinicius.santos.2607@gmail.com.