Giovanni Seabra
            José Antonio Novaes da Silva
             Ivo Thadeu Lira Mendonça
                      (organizadores)




       A Conferência da Terra
Aquecimento global, sociedade e biodiversidade




                       Volume II




               Editora Universitária da UFPB
                      João Pessoa - PB
                            2010
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
                  reitor
       RÔMULO SOARES POLARI
               vice-reitora
     MARIA YARA CAMPOS MATOS




      EDITORA UNIVERSITÁRIA
                 diretor
         JOSÉ LUIZ DA SILVA
               vice-diretor
   JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS FILHO
         supervisor de editoração
ALMIR CORREIA DE VASCONCELLOS JUNIOR
Capa: Éric Seabra
Editoração: Ivo Thadeu Lira Mendonça
E-mail: gs_consultoria@yahoo.com.br




                                A    Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e
                                    biodiversidade. Volume II / Giovanni de Farias Seabra, José
                                    Antonio Novaes da Silva, Ivo Thadeu Lira Mendonça
                                    (organizadores). – João Pessoa: Editora Universitária da UFPB,
                                    2010.

                                675 p.: il.

                                ISBN: 978-85-7745-532-4

                                1. Meio Ambiente. 2. Mudanças climáticas. 3. Educação ambiental. 4.
                                   Ecossistemas terrestres e aquáticos. 5. Saúde global. I. Seabra,
                                   Giovanni de Farias. II. Silva, José Antonio Novaes da. III.
                                   Mendonça, Ivo Thadeu Lira.

                 UFPB/BC




As opiniões externadas nesta obra são de responsabilidade exclusiva dos seus autores.

Todos os direitos desta edição reservados à GS Consultoria Ambiental e Planejamento do Turismo Ltda.

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Foi feito depósito legal
Sumário


SUMÁRIO .......................................................................................................................................... 5

PREFÁCIO ......................................................................................................................................... 9

UM NOVO PASSO... ....................................................................................... ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.


3. EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL......................... 10

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO PARA A REALIZAÇÃO DO CONSUMO SUSTENTÁVEL
   E DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DO MEIO AMBIENTE .......................................................................... 11
AGRESTE SETENTRIONAL DO ESTADO DE PE: IMPACTOS AMBIENTAIS CARACTERIZADOS PELO
   PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO EM SERRA SECA-PE.................................................................................. 18
ANÁLISE DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DA COMUNIDADE RIBEIRINHA PANTANAL EM ARACAJU ....... 25
ANÁLISE QUALI-QUANTITATIVA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS EM PRAIAS DO MUNICÍPIO DE OLINDA-PE
    .................................................................................................................................................................................... 31
ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DO BAIRRO MAURO ANTÔNIO BENTO EM
   JATAÍ – GOIÁS, BRASIL ......................................................................................................................................... 38
ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS ASSOCIADOS AO ECOSSISTEMA MANGUEZAL
   DO RIO COCÓ, FORTALEZA/CE............................................................................................................................ 43
CARCINICULTURA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO AGROAMBIENTAL NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL
    .................................................................................................................................................................................... 50
CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO À LUZ DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ...... 58
CONTRIBUIÇÃO DA PREFEITURA DE OLINDA NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DE
   UM MUNICÍPIO SUSTENTÁVEL ........................................................................................................................... 64
DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA ZONA COSTEIRA DE SÃO LUIS – MA: UM ESTUDO DE CASO DA PRAIA
   DO ARAÇAGY .......................................................................................................................................................... 69
EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO DE SUSTENTABILIDADE NA ERA DO CONSUMO
   GLOBAL .................................................................................................................................................................... 75
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL ...................................................................................... 82
EDUCAÇÃO AMBIENTAL, EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E DESENVOLVIMENTO LOCAL
   SUSTENTÁVEL ........................................................................................................................................................ 88
EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM COMUNIDADES COSTEIRAS DO CEARÁ. .......................................................... 95
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO NA PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES DE ENSINO MÉDIO EM
   ESCOLA PÚBLICA ESTADUAL NA CIDADE DE CATALÃO – GOIÁS .......................................................... 102
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O ALAMBIQUE SAMANAÚ – RN ........................................................................... 108
EDUCOMUNICAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: O DESENVOLVIMENTO CRÍTICO E CONSCIENTE DE
   CONSUMO POR AQUELES QUE FAZEM RÁDIO COMUNITÁRIA ................................................................ 114
EDUCOMUNICAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE ...................... 122
EFETIVIDADE DA ROTULAGEM AMBIENTAL: UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DO RECIFE .............. 128
MARKETING VERDE: O SEU PAPEL NO PROCESSO DECISÓRIO DE COMPRA DOS UNIVERSITÁRIOS DAS
   INSTITUIÇÕES PRIVADAS DE ENSINO SUPERIOR. ........................................................................................ 134
O IMPACTO SECUNDÁRIO DA ATIVIDADE PETROLÍFERA NA CIDADE DE MACAÉ COM BASE NA
   FOTOINTERPRETAÇÃO DE IMAGENS AÉREAS .............................................................................................. 142
O USO DA AULA DE CAMPO COMO MECANISMO INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DA EDUCAÇÃO
   AMBIENTAL ........................................................................................................................................................... 151
O USO DE CARTILHA COMO INSTRUMENTO DE INFORMAÇÃO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E
   SANITÁRIA DIRECIONADO À COMUNIDADE TRADICIONAL DA APA DO MARACANÃ NO MUNICÍPIO
   DE SÃO LUÍS/MA ................................................................................................................................................... 158
OS REFLEXOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA INSPEÇÃO VEICULAR ........................................................ 163
PERCEPÇÃO DOS PESCADORES DO CABO DE SANTO AGOSTINHO SOBRE A ATIVIDADE PESQUEIRA
   FRENTE ÀS DRAGAGENS NO PORTO DE SUAPE (PE) ................................................................................... 169
PROJETO RIO LIMPO, RIO LINDO: EDUCAÇÃO AMBIENTAL AO LONGO DO RIO DAS MORTES ............. 176
SELO AMBIENTAL: EDUCAR PARA CIDADANIA ................................................................................................ 184
TIMOR-LESTE: PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR DE UM ESTADO EM CONSTRUÇÃO
   .................................................................................................................................................................................. 189
UNIVERSIDADE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL ................................ 196
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: UMA LEITURA A PARTIR DA
   SOCIEDADE DO CONSUMO ................................................................................................................................ 201
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR: A ESCOLA, O PROFESSOR E O ENSINO DE
   GEOGRAFIA ........................................................................................................................................................... 206
A FORMAÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO DENTRO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DO CURSO
   NORMAL MÉDIO DE UMA ESCOLA ESTADUAL EM PERNAMBUCO ......................................................... 213
A IMPORTÂNCIA DE PROJETOS AMBIENTAIS: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O PROJETO COM CIÊNCIA,
   NO BAIRRO ILHA DO BISPO, NA CIDADE DE JOÃO PESSOA – PARAÍBA ................................................. 219
A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DA COMUNIDADE LOTEAMENTO PADRE HENRIQUE
   BAIRRO DA VÁRZEA RECIFE-PE ....................................................................................................................... 222
AÇÕES ANTRÓPICAS NOS BAIXOS PLANALTOS COSTEIROS DA BR 101 NO TRECHO JOÃO PESSOA-
   MAMANGUAPE...................................................................................................................................................... 229
ALAMBIQUE SAMANAÚ E BACIA HIDROGRÁFICA PIRANHAS-ASSU – CASOS DE SUSTENTABILIDADE
   E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO SERIDÓ ..................................................................................................... 235
ANÁLISE DE DESENHOS SOBRE O MEIO AMBIENTE FEITOS POR ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL
   PÚBLICO DO MUNICÍPIO DE CUITÉ/PB ............................................................................................................ 240
ASPECTOS NATURAIS E CULTURAIS DO MORRO DA MASSARANDUBA, ARAPIRACA – AL ................... 246
AVALIAÇÃO DO PROCESSO DE DEGRADAÇÃO DA COBERTURA VEGETAL EM SERRA BRANCA E
   COXIXOLA - PB...................................................................................................................................................... 253
CATADORES DE MATERIAS RECICLÁVEIS DO LIXÃO DE IRECÊ- BA: EDUCAÇÃO– E PERSPECTIVAS DE
   QUALIDADE DE VIDA .......................................................................................................................................... 261
CONCEPÇÃO DOS MORADORES DO BAIRRO DA ILHA DE SANTA LUZIA NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ –
   RN, SOBRE PROCESSOS EROSIVOS .................................................................................................................. 267
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO PARQUE DOIS IRMÃOS, RECIFE-PERNAMBUCO ........................................... 275
EDUCAÇÃO AMBIENTAL COM OS CHACAREIROS DO ENTORNO DA ÁREA DE PRESERVAÇÃO
   PERMANENTE DO CÓRREGO GRANADA EM APARECIDA DE GOIÂNIA: UMA PROPOSTA EM PROL
   DA VEGETAÇÃO ................................................................................................................................................... 282
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS ESCOLAS DA RDS PONTA DO TUBARÃO – RN: POTENCIALIDADES E
   LIMITAÇÕES NA VISÃO DOS PROFESSORES .................................................................................................. 287
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL: A IMPORTÂNCIA DA
   CONSCIENTIZAÇÃO DA POPULAÇÃO .............................................................................................................. 295
ESTUDO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE CRIANÇAS RIBEIRINHAS PARA PLANEJAMENTO DE AÇÕES
   DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL .............................................................................................................................. 301
FORMAÇÃO DE PROFESSORES E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS SÉRIES INICIAIS DO ENSINO BÁSICO:
   UM ESTUDO NUMA CIDADE DO SERTÃO NORDESTINO ............................................................................. 308
IDENTIFICAÇÃO DE PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESENVOLVIDAS POR PROFESSORES DO
   MUNICÍPIO DE AREIA BRANCA/RN .................................................................................................................. 316
IMPACTO AMBIENTAL NA EXTRAÇÃO DE AREIA NA REGIÃO DO TABULEIRO DAS LAGOAS .............. 322
LINHAS QUE SE SOBREPÕEM: CONSIDERAÇÕES ACERCA DO TEMPO GEOLÓGICO E AS AÇÕES
   HUMANAS .............................................................................................................................................................. 330
MEIO AMBIENTE NOS OLHARES DE ESTUDANTES DO ENSINO FUNDAMENTAL II DE ESCOLAS
   PÚBLICAS, JOÃO PESSOA-PB ............................................................................................................................. 336
O LIMITE, O MAR: USO DA MÚSICA NA INVESTIGAÇÃO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS
   PROFESSORES DA RDS PONTA DO TUBARÃO ............................................................................................... 342
PADRÕES DE CONSUMO, EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL .................. 349
PERCEPÇÃO SÓCIO-AMBIENTAL DOS FREQUENTADORES DAS PRAIAS DO BESSA E INTERMARES
  (PARAÍBA-BRASIL) ............................................................................................................................................... 355
PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS EM UMA ESCOLA NORMAL, NO CONTEXTO DAS SALAS DE
  INCLUSÃO DA ESCOLA PÚBLICA, EM JOÃO PESSOA - PB .......................................................................... 362
PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS ALUNOS EM UMA ESCOLA DA REDE PRIVADA NO MUNICÍPIO DE JOÃO
  PESSOA – PARAÍBA. ............................................................................................................................................. 371
PERFIL E PERCEPÇÃO DOS PARTICIPANTES DE TRILHAS INTERPRETATIVAS DO PARQUE ESTADUAL
  DE DOIS IRMÃOS, RECIFE-PE ............................................................................................................................. 378
POSSIBILIDADES E ATUAÇÃO SOCIO EDUCACIONAL DO COMPLEXO ALUIZIO CAMPOS – CAMPINA
  GRANDE-PB ............................................................................................................................................................ 383
PRÁTICA DA AQUICULTURA NO ESTUÁRIO DO CANAL DE SANTA CRUZ: IMPACTOS AMBIENTAIS .. 390
PROPOSTA DO PLANO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DA UFPB-CAMPUS I, JOÃO PESSOA - PB ............... 397
RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS EM JAZIDAS DE INSTALAÇÕES DE PETROLÉO .................... 404
REFLEXÃO SOBRE CONSCIÊNCIA AMBIENTAL NOS DIAS ATUAIS ............................................................... 410
RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ-RN ........................................................... 414
ROEDORES “VILÕES” DA PESTE NEGRA: RECONSTRUINDO O CONHECIMENTO DOS ESTUDANTES NO
  SERTÃO PERNAMBUCANO ................................................................................................................................. 419
UM JOGO NECESSÁRIO ............................................................................................................................................. 425


4. MEGACIDADES E CIDADES SUSTENTÁVEIS .............................................................. 430

A RELAÇÃO ENTRE O HOMEM E A NATUREZA NA TRADICAÇÃO AFRICANA –BANTO .......................... 431
A ESTRUTURAÇÃO DO SISTEMA MUNICIPAL DE MEIO AMBIENTE DE PARNAMIRIM/RN E SUA
   IMPORTÂNCIA PARA A GESTÃO AMBIENTAL LOCAL ................................................................................ 437
CIDADANIA E SUSTENTABILIDADE: ANÁLISE TEÓRICA COMO FERRAMENTA PARA O ESTUDO DA
   EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MUNICÍPIO DE SERRA TALHADA-PE ......................................................... 444
CONDIÇÕES DO MEIO AMBIENTE E GESTÃO AMBIENTAL EM MUNICÍPIOS PERNAMBUCANOS .......... 450
POLUIÇÃO SONORA E SAÚDE ................................................................................................................................. 458
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E A DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO EM MUNICÍPIOS DA BACIA DE
   CAMPOS .................................................................................................................................................................. 464
RISCOS SOCIAL, ECONÔMICO E EPIDEMIOLÓGICO DAS FAMÍLIAS RESIDENTES NO MORRO CRISTO
   REI EM CAJAZEIRAS – PB ................................................................................................................................... 471
SOCIA(BI)LIDADE E SOLIDARIEDADE EM COMUNIDADES DE BAIXA RENDA: PRÁTICAS PARA VIVER
   EM AMBIENTES HOSTIS ...................................................................................................................................... 479
UM OLHAR VOLTADO A DEMOCRATIZAÇAO POPULAR EM PLANOS DIRETORES VISANDO CIDADES
   SUSTENTÁVEIS ..................................................................................................................................................... 487
CATADORES DE LIXO: REFÚGIO DO EXCEDENTE POPULACIONAL .............................................................. 492
MARECHAL DEODORO – AL EM FOCO: CENÁRIO E PERSPECTIVAS SOCIOAMBIENTAIS DA
   COMUNIDADE PESQUEIRA LOCAL .................................................................................................................. 498
PRÁTICAS DE PRESERVAÇÃO NO PARQUE ESTADUAL DE DOIS IRMÃOS/PE ............................................. 505


5. PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DOS RECURSOS HÍDRICOS .............................. 512

A LUTA CONTRA A POBREZA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NAS REGIÕES SEMI-ÁRIDAS
   PASSA PELO DESENVOLVIMENTO DA IRRIGAÇÃO A PARTIR DE PEQUENOS LENÇÓIS ALUVIAIS?
   REFLEXÕES A PARTIR DE UM ESTUDO DE CASO NO NORDESTE BRASILEIRO .................................... 513
ARAGUAIA – RIO DE AMOR E POESIA................................................................................................................... 525
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS ............................................................... 532
A UTILIZAÇÃO DO GEOPROCESSAMENTO PARA CRIAÇÃO DE UNIDADES HIDROGRÁFICAS NO
   ESTADO DA BAHIA: UM SUPORTE NO MONITORAMENTO DA QUALIDADE DAS ÁGUAS.................. 539
AVALIAÇÃO DA QUALIDADE AMBIENTAL DE ASSENTAMENTOS NA BACIA HIDROGRÁFICA DA
   REPRESA BILLINGS (MUNICÍPIO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO/SP) .................................................... 547
BACIAS HIDROGRÁFICAS: GESTÃO & DEGRADAÇÃO AMBIENTAL ............................................................. 555
CARACTERIZAÇÃO DO ÍNDICE DE DISPONIBILIDADE DE UMIDADE NA MICROBACIA HIDROGRÁFICA
   DO AÇUDE DOS NAMORADOS, SÃO JOÃO DO CARIRI, PB ......................................................................... 561
CARACTERIZAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: SISTEMA CATUAMA, MUNICÍPIO DE GOIANA-PE .................... 566
DESPERDÍCIO DE ÁGUA NAS EDIFICAÇÕES DA CIDADE UNIVERSITÁRIA - UFPB .................................... 573
QUANTIFICAÇÃO DA INTERCEPTAÇÃO DA ÁGUA DA CHUVA EM ÁRVORES ISOLADAS E EM GRUPO
    .................................................................................................................................................................................. 581
UTILIZAÇÃO DO MICROFITOPLÂNCTON NO MONITORAMENTO DA QUALIDADE DE ÁGUA DE UM
   RESERVATÓRIO HIDROELÉTRICO TROPICAL ............................................................................................... 588
A POLUIÇÃO DO AÇUDE MARECHAL DUTRA – O “GARGALHEIRAS” ........................................................... 598
ANÁLISES FÍSICO-QUÍMICAS E MICROBIOLÓGICA DA ÁGUA DO AÇUDE DE BODOCONGÓ, CAMPINA
   GRANDE, PARAÍBA .............................................................................................................................................. 604
AVALIAÇÃO DA IMPORTÂNCIA DADA PELOS MORADORES DA CIDADE DE MAMANGUAPE-PB SOBRE
   O MEIO AMBIENTE, O CASO DO RIO BANDEIRA .......................................................................................... 609
AVALIAÇÃO DA VULNERABILIDADE À EROSÃO NAS SUB-BACIAS DE CONTRIBUIÇÃO DOS
   RESERVATÓRIOS CARPINA, GLÓRIA DO GOITÁ E VÁRZEA DO UNA, PERNAMBUCO, UTILIZANDO
   TÉCNICAS DE GEOPROCESSAMENTO ............................................................................................................. 614
DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DO RIO VERMELHO – MUNICÍPIO DE RIO TINTO/PB ..................................... 621
EFEITO DA FRAGMENTAÇÃO SOBRE A DIETA DAS ESPÉCIES DE PEIXES EM IGARAPÉS DE BAIXA
   ORDEM NA AMAZÔNIA ....................................................................................................................................... 629
ESTUDOS PRELIMINARES DOS DADOS FÍSICO-QUÍMICOS DE 2007, RIO CUIÁ, JOÃO PESSOA/PB .......... 637
IDENTIFICAÇÃO E MAPEAMENTO DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE DUNARES NA
   MICROBACIA DO RIO DOCE NATAL/RN .......................................................................................................... 641
O REFLEXO DA POLUIÇÃO URBANA NOS ECOSSISTEMAS AQUÁTICOS: O CASO DO MANGUEZAL
   CHICO SCIENCE, COMPLEXO DE SALGADINHO, OLINDA-PE .................................................................... 649
O USO DAS ÁGUAS SUBTERÂNEAS PARA IRRIGAÇÃO NOS MUNICIPIOS DE JOÃO DOURADO, IRECÊ E
   LAPÃO - BAHIA ..................................................................................................................................................... 656
RIO MANDACARU: UMA ABORDAGEM SOBRE A PERCEPÇÃO AMBIENTAL E SITUAÇÃO SOCIAL DA
   POPULAÇÃO RIBEIRINHA ................................................................................................................................... 662
RIO MEKONG: TRANSNACIONALIDADE, DILEMAS DE AÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO
   INTERNACIONAL .................................................................................................................................................. 669
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          9


                                                 Prefácio

Um novo passo...




A
         quecimento global ou resfriamento do Planeta Terra? Estas indagações fazem parte de um
         elenco de incertezas com que a humanidade se defronta diante da realidade ambiental do
         mundo atual, mais antropocêntrico e menos holístico. As questões ambientais estão
incorporadas no dia-a-dia das pessoas, invadindo as residências, as escolas e os ambientes de
trabalho, incidindo na estrutura e hábitos da sociedade humana, tornando-se tema de destaque em
reuniões de associações intelectuais e científicas. Os programas e ações ambientais são quase
sempre sustentados pelas grandes corporações empresariais e políticas, cuja sustentação reside no
capital multinacional e nacional e estes, paradoxalmente, constituem os maiores poluidores. Esta
situação cria incertezas no pensamento individual e coletivo, exigindo ações de conscientização e
mobilização efetivas e livres da pressão do capital. Somente assim teremos uma sociedade mais
justa no Mundo ecologicamente correto.
          A Conferência da Terra surge como um importante instrumento de conscientização e
mobilização da população, um movimento contínuo em prol da saúde planetária. A Conferência da
Terra propicia a união de todos convergindo na perspectiva, do bem estar dos outros seres, e não
somente dos homens. De nada adianta estarmos sós no Planeta, sem a atmosfera e a biodiversidade
que nos permitem viver.
          Na segunda edição, a Conferência da Terra 2010 apresenta-se como mais uma
oportunidade para representantes de instituições acadêmicas, sociedade civil e organizada, bem
como entidades governamentais e privadas reunirem-se com o objetivo de trazerem soluções para a
preservação do meio ambiente. Sob o tema “Aquecimento global, sociedade e biodiversidade”,
damos um novo passo no intuito de despertar o censo crítico e instigar ações conservacionistas
eficazes e livres das interferências políticas e institucionais.
          A Conferência da Terra, uma realização da Universidade Federal da Paraíba, com apoio de
outras instituições, propiciou o acesso de todos os participantes ao que existe de mais novo, no
tocante às experiências profissionais e acadêmicas de centenas de pesquisadores e cidadãos
evolvendo meio ambiente, mudanças climáticas, educação ambiental, ecossistemas terrestres e
aquáticos e saúde global.


                                                                                  Giovanni Seabra
                                                                         Ivo Thadeu Lira Mendonça
3. Educação Ambiental no Mercado de Consumo Global
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                            11

 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO PARA A
REALIZAÇÃO DO CONSUMO SUSTENTÁVEL E DA PROTEÇÃO
        CONSTITUCIONAL DO MEIO AMBIENTE

                                                                                          Karoline de Lucena Araújo
               Universidade Federal da Paraíba. Centro de Ciências Jurídicas. Programa de Pós-graduação em Ciências
                                     Jurídicas. Mestranda em ciências jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba.
                                                                                            karolinerp@hotmail.com

         RESUMO
         O texto trata da importância da educação ambiental para a formação de uma população
consciente e, especialmente, de consumidores conscientes. A educação revela-se primordial para
que haja uma mudança na forma de consumir o que levará a uma mudança, também, na forma de
produzir, já que o sistema capitalista de produção tem como um de seus pilares o fomento ao
consumo. Mostrar-se-á que a educação ambiental é uma previsão constitucional e, por isso, é
reconhecidamente um instrumento para que a proteção constitucional do bem ambiental se
concretize. Além disso, é de grande relevância também para a realização do consumo sustentável,
que a forma de consumo que precisa ser fomentada diante da situação em que se encontra o meio
ambiente.
         PALAVRAS-CHAVE: Educação – Meio ambiente – Constituição – Consumo sustentável.

          ABSTRACT
          This paper addresses the importance of environmental education for the formation of a
conscious population and especially conscious consumers. Education appears to be essential if there
is a change in the way we consume leading to a change also in the form of produce, since the
capitalist system of production has as one of its pillars promoting consumption. Show will be that
environmental education is a constitutional provision and, therefore, is recognized as a means to the
constitutional protection of environmental good will come true. Furthermore, it is also of great
importance to the achievement of sustainable consumption, the pattern of consumption that needs to
be encouraged about the situation you are in the environment.
          KEYWORDS: Education - Environment - Constitution - Sustainable consumption

         1. INTRODUÇÃO
         O Brasil vive hoje um sistema capitalista de produção. Tal sistema consiste na extração de
recursos naturais, como matéria prima dos mais diversos produtos, e no fomento ao consumo. O
resultado dessa forma de produção já pode ser sentido e tal sensação não é das melhores, isso
porque o que se pode observar que é a degradação do meio ambiente que culmina com a escassez de
muitos de seus recursos. Diante desse quadro, iniciou-se um movimento em nível internacional de
divulgação do estado em que se encontrava o meio ambiente e de formas de se prevenir e evitar
novos danos a esse bem.
         Essa preocupação maior com meio ambiente ganhou relevo no início da década de 70, com
a Conferência das Nações Unidas de Estocolmo em 1972, que publicou o documento conhecido
como Declaração sobre o Meio Ambiente Humano. Esse evento teve como objetivo chamar a
atenção de todos os países para a necessidade de se viver em um ambiente de qualidade e que este,
para tanto, precisava ser preservado. Foi quando se começou a falar em desenvolvimento
sustentável. Tal desenvolvimento implica numa forma de produção que seja suportável pela
natureza. Era preciso equilibrar o desenvolvimento com o meio ambiente de qualidade.
         O presente trabalho traz, nesse diapasão, a educação como forma de esclarecer a população
para a importância do meio ambiente equilibrado para a manutenção da qualidade de vida. Para
tanto, destaca a proteção constitucional dada ao meio ambiente e a previsão no mesmo diploma da
promoção da educação ambiental como instrumento para proteger e preservar o bem ambiental.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                            12

Sendo assim, num primeiro momento do trabalho é feita localização do meio ambiente na
Constituição e, principalmente, é colocada a educação ambiental como instrumento para se chegar à
proteção determinada pela Lei Maior.
         É, ainda nesse momento, chamada atenção para o fato de que o Brasil possui uma Lei de
Educação Ambiental que estabelece diretrizes e que ratifica a relevância da implementação da
educação com foco ambiental para que a população contribua na prevenção de danos ao meio
ambiente e na manutenção do meio ambiente de qualidade, premissa constitucional.
         E é nesse contexto que se chega ao mercado de consumo. O consumo sustentável é um dos
sustentáculos para a mudança na forma de produção que, como dito, não possui nenhuma
preocupação com manutenção do meio ambiente em equilíbrio. O consumidor, através de uma
mudança de postura, vai estar mais atento ao que consome, pois tem conhecimento de como suas
atitudes na hora de consumir são decisivas para que haja a preservação do meio ambiente e, assim,
assegurar esse bem para outras gerações. Essas decisões serão positivas à medida que a população é
esclarecida para a importância de uma postura consumerista ambientalmente responsável o que é
possível através da educação ambiental.

         2. EDUCAÇÃO, CONSTITUIÇÃO FEDERAL E MEIO AMBIENTE
               A educação é uma das grandes riquezas, se não a maior, que o ser humano pode ter.
Riqueza que pode ser acumulada ilimitadamente. Mas, não basta o acúmulo de conhecimento. A
educação vai além. Ela se revela através dos atos de quem a adquire. Quando se diz que alguém é
educado é porque ele se comporta bem no relacionamento em sociedade, mesmo que não possua
conhecimento de muitas ciências. Assim, quando se fala em educação ambiental se quer dizer que é
uma forma de orientar o indivíduo para que se relacione bem com o meio ambiente, “um grande
movimento ético que deve permear toda a cultura, promovendo uma nova cosmovisão que integre e
entrelace as várias partes do mundo” 1.
               Assim, a educação ambiental é uma forma de esclarecer as pessoas sobre as formas
de proteger o meio ambiente e de assegurá-lo para as futuras gerações. A população precisa estar
ciente de que meio ambiente precisa ser protegido sob pena de a própria vida humana estar
condenada ao fim.
         Os problemas ambientais gerados por um sistema de produção descomprometido com o
meio ambiente levaram muitos países, inclusive o Brasil, a incorporar em sua legislação e,
principalmente, em sua Constituição o meio ambiente como bem protegido. O meio ambiente
ganhou destaque constitucional com a promulgação da Constituição de 1988, consolidando e
fortalecendo aquela proteção como aduz Antonio Herman Benjamin:

           Assim configurada, a proteção ambiental deixa, definitivamente, de ser um interesse menor ou acidental no
ordenamento, afastando-se dos tempos em que, quando muito, era objeto de intermináveis discussões científicas e
poéticas. Aqui, o meio ambiente é alçado ao patamar máximo do ordenamento, privilégio que outros valores sociais só
depois de décadas ou mesmo séculos lograram conquistar. 2

               A Constituição Federal de 1988 traz um capítulo específico para o meio ambiente
que se refere ao art. 225 daquele diploma. Ele ressalta a importância do meio ambiente para a vida
humana e o coloca como direito de todos, assim como impõe o dever de proteção ao Poder Público
e à população e, para tanto, destaca a importância da educação:

           Art. 225 - Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e
essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo
para as presentes e futuras gerações.



1 SEARA FILHO, Germano. O que é a Educação Ambiental. In: Desenvolvimento Sustentado: Problemas e estratégias.
Editora: Elisabete Gabriela Castellano pág. 6.
2 BENJAMIN, Antonio Herman. Meio ambiente e Constituição: uma primeira abordagem. In: 10 anos da Eco 92: O
direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002, pág. 94.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                                13

          §1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao poder público:

          [...]

          VI – promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a
preservação do meio ambiente;

               Necessário se faz, então, que haja uma união de forças, tanto do Poder Público como
de toda a população no sentido de preservar o meio ambiente, pois se é o ser humano que intervém
no ambiente, estabelecendo riscos de degradação é ele também que deve buscar formas de evitá-los
para protegê-lo como bem elucida Marcelo Abelha Rodrigues:

           Ora, só haverá a possibilidade de preservar e proteger para as futuras gerações se e somente se o papel do ser
humano for o de lutar pela sua preservação, pois caso contrário, permanecendo inerte ou em contínua destruição do
meio, terá em pouco tempo assassinado a si próprio3.

         Por isso, medidas que tenham como importância primeira a preservação devem ter lugar de
destaque nas políticas públicas. E sem dúvida a educação é uma delas. Isso porque uma sociedade
esclarecida dificilmente permite que seus direitos sejam violados e quando se transfere isso para a
educação com foco ambiental, o ato de educar ganha ainda mais relevância, pois se transforma num
grande instrumento de proteção ao meio ambiente.

          A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO CONSTITUCIONAL

         A Lei Maior constatou que a sadia qualidade de vida está condicionada ao equilíbrio
ambiental e que, portanto, uma afronta a tal equilíbrio deve ser evitada sob pena de se está
ameaçando a qualidade de vida de toda a coletividade, uma vez que o mesmo diploma define meio
ambiente como bem de uso como comum, ocorrendo a “existência de um direito material
constitucional caracterizado como direito ao meio ambiente, cujos destinatários são todos” 4
               Uma população esclarecida dificilmente vai permitir que o meio ambiente ao qual
tem direito, mas com qualidade, seja agredido por um sistema que põe em risco os recursos naturais
e a saúde da população. A educação da população desde os primeiros anos de vida escolar é uma
forma de se chegar ao equilíbrio do meio ambiente que é indispensável para a vida da pessoa que
habita atualmente o planeta, bem como as gerações futuras e a Constituição Federal reconhece isso
ao estabelecer a educação ambiental como um instrumento de proteção e como finalidade do Poder
Público, como nas palavras de Édis Milaré:

           A partir da tutela constitucional, o processo educativo relacionado com o meio ambiente adquire uma
dimensão transcendental, visto que ele se associa às finalidades do Estado enquanto representação da própria sociedade
como decorrência de um pacto social. (...) Vale dizer, a Educação ambiental, como preceito constitucional, é uma
exigência nacional que engloba dois aspectos distintos, contudo complementares: trata-se da exigência social e natural –
duas faces da mesma moeda.5

                O problema está no fato de que muitos não sabem da importância do bem ambiental
para garantia da qualidade de suas vidas. Isso porque desde a colonização desse país ficou incutida
na mente da população que os recursos naturais eram renováveis e que, portanto, a extração dos
mesmos poderia ser feita sem qualquer tipo de cuidado. É preciso quebrar paradigmas, o que era
visto como renovável não pode mais assim ser tido, além de que meio ambiente possui limites que
precisam ser respeitados sob pena de o ser humano pagar preços altos em razão do desrespeito a tais
limites. E é isso que deve ser esclarecido á população.


3 RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. São Paulo: Max Limonad, 2002, p.54.
4 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Princípios do processo ambiental. São Paulo: Saraiva, 2004. pág. 33.
5 MILARÉ, Édis. Direito de Ambiente. São Paulo: Revistas dos Tribunais, 2000. pág. 164.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                             14

                Além do disposto na Carta Magna existe a Lei de Educação Ambiental (Lei nº
9.795/99) que ratifica a premissa constitucional de proteção ambiental. Ela é um instrumento que
concede eficácia à preservação disposta na Carta Maior, pois ela dá as diretrizes para o
desenvolvimento da política de educação ambiental que deve ser desenvolvida pelo Poder Público,
incumbido a este a promoção da educação ambiental em todos os níveis de ensino. E esta promoção
está prevista tanto no inciso I do art. 3º da Lei 9.795/99 quanto no inciso VI do citado art. 225 da
Lei Maior, o que atesta a sintonia entre os dois diplomas.
                É a mudança de postura da sociedade, educada e preparada para lutar por seus
direitos, nesse caso, pela preservação do meio ambiente, que determinará a mudança de postura
daqueles que formam o poder econômico e colocam em risco a qualidade dos recursos naturais e,
por conseguinte, da vida humana.
                O meio ambiente é um direito de todos e de cada um assim como o é o dever de
protegê-lo, mas isso se torna uma tarefa árdua se toda a população não estiver atenta para isso. E foi
por essa razão que a Constituição colocou como dever do Poder Público a garantia dessa educação,
para que a população tivesse o conhecimento da importância de preservar o meio ambiente. A
implementação da educação ambiental nas escolas e na comunidade repercute em todas as áreas que
podem contribuir para preservação ecológica, já que uma população informada é exigente e atuante
o que contribui para a preservação ambiental, como nas palavras de José Kalil de Oliveira Costa:

           A sociedade civil educada com enfoque ambiental terá visão ecossistêmica da ordem pública jurídica e social
e poderá assumir um papel mais participativo no controle da comunidade e do Estado, já que estará melhor qualificada
para conseguir provocar a ação socioambiental mais efetiva da Administração Pública, a fim de se fazer implementar as
Políticas Públicas de Educação Ambiental, dentre tantas outras (...)6.

         Sendo assim, a educação foi um dos instrumentos eleitos pela Carta Magna para tornar
eficaz seu objetivo de proteção do meio ambiente. Além disso, convém aduzir que é através da
educação ambiental que se pode chegar a uma mudança importante na sociedade de consumo, pois
este é um lado relevante do atual sistema de produção, já que se trata do destinatário final dos
produtos e serviços para os quais é, na maioria das vezes, sacrificado o bem ambiental.


         3. O consumo sustentável
               Como foi dito, no início do ensejo, a forma de produção atual se baseia na
mercantilização de recursos e no estímulo ao consumo. Todos os dias as vitrines comerciais
apresentam produtos novos mais sofisticados, que desqualificam peremptoriamente o produto de
ontem. Essa mensagem atinge diretamente o consumidor que se sente obrigado a adquirir um novo
produto, sob pena de ser excluído da modernidade.
               O consumo cresce cada dia mais, o que leva a crer que a cada dia o bem ambiental é
mais sacrificado, já que as tecnologias se modernizam objetivando o lançamento de produtos novos
no mercado, mas o que permanece caduca é a forma de produção, que não se preocupa com a
sustentação de tal método produtivo pelos recursos ambientais.
               Em razão disso, quando se fala em desenvolvimento tendo em vista o meio ambiente,
não se pode esquecer na mudança de postura que deve assumir tais consumidores. O consumidor
precisa ser um consumidor consciente, ou seja, que conhece suas responsabilidades perante o meio
ambiente e que a mudança de sua postura contribui sobremaneira para degradação ambiental.
Afinal, “é o ritmo do consumo dos bens ambientais que determina a velocidade com esses bens
passem a ser escassos”7
               Optando por produtos ou serviços que sejam menos danosos ao meio ambiente, ou
que, se quer, lhe causem danos, a sociedade de consumo forçará os fornecedores a colocarem


6 COSTA, José Kalil de Oliveira. Educação ambiental, um direito social fundamental. In: 10 anos da Eco 92: O direito
e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002, pág. 448 – 449.
7 FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Consumo sustentável. In: Ibidem. Pág. 187.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                         15

produtos dessa natureza no mercado. Trata-se do consumo sustentável. Essa forma de consumo é,
sem dúvida, a maior busca que deve haver por parte da população, já que qualquer pessoa tem
obrigação de preservar o meio ambiente e, enquanto consumidor, está usufruindo dos recursos
ambientais, devendo procurar fazê-lo de forma responsável, como ratifica Lafayete Josué Petter:

           Aos consumidores são atribuíveis mais responsabilidades na proteção do meio ambiente. Como pondera a
doutrina, a livre escolha do consumidor pode ser legitimamente limitada em nome da defesa do meio ambiente. Os
consumidores, a cada dia precisam tornar-se mais conscientes da dimensão ecológica do processo de consumo em geral
e de seu comportamento individual e particular8.

         Isso confirma a relevância do consumidor para o movimento de preservação ambiental,
através da sua mudança de postura não só com relação ao que está consumindo, mas também com
relação ao destino dado ao produto quando este não mais servir para o uso. Ao optar por
determinado produto, o consumidor passa a ser responsável pela repercussão que aquele produto
terá no meio ambiente. É importante que o produto seja biodegradável, já que o lixo é outra forma
de agressão ao meio ambiente, mas que pode ser amenizada se o consumidor for responsável
também no momento de descartar o produto.
               Ainda acerca do consumo, é válido salientar que a mudança na postura da sociedade
consumerista não pode ser, apenas na opção por um produto não, ou menos, danoso ao meio
ambiente, mas também na quantidade de produtos que estes consomem. Assim, “o consumo verde
lança novos desafios para a comunidade mundial: a mudança radical nos processos produtivos,
assim como nos aspectos quantitativos e qualitativos do consumo”. 9
         E aqui se está diante do dilema de se educar toda uma sociedade treinada para consumir o
quanto puder, a consumir somente o necessário e ainda optar por aquele produto que não agrida a
natureza. E a palavra dita foi a mais acertada. Educar. A educação com foco ambiental é grande um
instrumento.

         3.1 A sociedade de consumo e a influência cultural
               A sociedade foi treinada, como dito, para consumir. Para tanto, alguns parâmetros
foram estabelecidos para que esse consumo seja eficiente para o sistema de produção. Existe um
parâmetro de beleza e para ter aquela beleza alguns produtos cosméticos são oferecidos para
consumidor. Existe um padrão de vestir que é aquele ditado pela famosa indústria da moda. Enfim,
isso acontece com os demais ramos da indústria.
               A preocupação com os danos que aqueles produtos causam ao meio ambiente e se a
produção dos mesmos se utiliza de tecnologias que não agridem, ou amenizam a agressão, ao meio
ambiente não faz parte das preocupações dos consumidores. Cria-se, então, uma cultura universal
onde todos comem, vestem e calçam a mesma coisa, até aqueles ditos de estilo alternativo possuem
um padrão. É a chamada indústria cultural que “insere no subconsciente humano a idéia de
imitação, que passa a ser considerada como um valor absoluto.”10
               Esse padrão de consumo precisa ser combatido e isso só é possível através da
demonstração de que existem outros valores a serem observados. E formação desses novos valores
para a formação de uma nova sociedade de consumo só ocorrerá através da educação ambiental.
Como já foi dito, é através da educação que antigos paradigmas são quebrados. A educação
ambiental possui um papel de grande importância para a mudança de parâmetro cultural da
sociedade de consumo.

          3.2 Educação ambiental para a formação de consumidores conscientes

8 PETTER, Lafayete Josué. Princípios constitucionais da ordem econômica: o significado e o alcance do art. 170 da
Constituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. pág. 38.
9 SPINOLA, Ana Luiza S. Consumo Sustentável: o alto custo dos produtos que consumimos. In: Revista de Direito
Ambiental. p. 215.
10 BASTOS, Lúcia Elena Arantes Ferreira Bastos. Consumo de massa e a ética ambientalista. In: Revista de Direito
Ambiental. pág. 185.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                            16

                Antes mesmo de ser dispositivo constitucional a educação aliada ao meio ambiente já
era pauta de alguns encontros de significativa importância, como é o caso da Conferência de
Estocolmo em 1972 em que se destacou a importância de introduzir a educação ambiental nos
estudos, principalmente de jovens e adultos com o fim de formar uma consciência de
responsabilidade sobre a natureza. E mesmo depois na Conferência do Rio de 1992, em que se
elaborou a agenda 21 que propôs a reorientação do ensino, devendo ser voltado para a consciência
ambiental.
                O certo é que a educação ambiental sempre foi e é mencionada como meio de grande
eficácia para a formação de uma postura responsável no consumo. A mudança na postura
consumerista se tornou imprescindível para a sustentação da produção pelos recursos naturais e o,
mais importante, para a preservação dos mesmos. E isso é relevante destacar que a preservação do
bem ambiental não é apenas para que o sistema de produção continue, mas para que o meio
ambiente seja protegido e preservado para as futuras gerações como reza o dispositivo
constitucional.
                A educação ambiental é um instrumento de grande eficácia para que o consumo
sustentável não seja um processo falacioso. É preciso que, como nas palavras de José Kalil de
Oliveira Costa:

           A educação ambiental contemple a formação de valores e alterações de paradigmas arraigados em nossa
sociedade, por um processo de aprendizado que é muito mais abrangente, capaz de despertar no individuo a cidadania, a
responsabilidade social e a preocupação com o bem estar comum, criando uma consciência crítica acerca da
necessidade de harmonizar as atividades humanas com a proteção ao Meio ambiente11.

               A educação entra, assim, como válvula propulsora da mudança de comportamento. É
preciso que o consumidor esteja bem informado e o Código de Defesa do Consumidor, em seu art.
31, garante o direito ao consumidor terem acesso a qualquer informação acerca do produto ou
serviço que adquire. Sendo assim, o consumidor tem direito de optar por um produto que seja ou
não menos danoso ao meio ambiente e essa opção só será benéfica ao meio ambiente se houver uma
preparação do consumidor pra isso preparação essa que fica a cargo da educação ambiental. Assim,
é muito mais do que ter direito à informação sobre o produto, mas ter a consciência de que tal
produto é danoso ou apresenta riscos ao meio ambiente e que essa consciência influencie na
escolha. “Dessa forma, se permite que a abertura comunicacional proporcionada pelo discurso
ecológico atue diretivamente na orientação de qualquer conduta e atividade de intervenção sobre o
ambiente”12
               A educação ambiental abre a comunicação para que a sociedade seja formada para
ter consciência ambiental e até se torne curiosa no sentido de buscar formas de proteger o meio
ambiente o que vai influenciar nas suas escolhas com relação, principalmente, ao que consumir e
como consumir.

         4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
                O estágio atual em que se encontra a biota não se pode mais pensar em mudança de
postura da população como algo a ser deixado para depois. É preciso formar pessoas
comprometidas com a preservação do meio ambiente urgentemente. E isso é possível através da
promoção da Educação Ambiental. Foi visto no ensejo que a Constituição impõe ao Poder Público a
implementação da educação ambiental nas escolas, o que mais tarde foi regulado também através de
lei específica, qual seja a Lei nº 9.795/99, Lei de Educação Ambiental.
                Todas as pessoas são consumidoras em potencial. Portanto, formar uma população
consciente é formar consumidores conscientes, que se preocupam com o impacto que seu consumo
terá no meio ambiente. A educação ambiental deve fazer parte da prática escolar, mas também das


11 COSTA, José Kalil de Oliveira. Ob. cit. Nota 5. pág. 450.
12 LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito ambiental na sociedade de risco. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2002. pág. 92.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          17

conversas em casa e também nas comunidades. Associações de bairro podem contribuir bastante
para essa mudança na mentalidade de jovens, adultos e crianças.
                É preciso que haja uma mudança de valores, para que isso repercuta na forma de
consumo e consequentemente obrigue uma mudança no próprio sistema. O que define a produção é
a demanda. Sendo assim, se os consumidores procurarem cada vez mais produtos que não agridam
a natureza e que seu descarte não gere tantos transtornos, o fornecedor indubitavelmente procurará
suprir essa demanda.
                A educação é, pois, o caminho seguro para a formação de consumidores conscientes
que protegem e preservam o meio ambiente seguindo o dever imposto pela Constituição Federal ao
garantir o direito ao meio ambiente de qualidade.

          5. REFERÊNCIAS
          BASTOS, Lúcia Elena Arantes Ferreira Bastos. Consumo de massa e a ética ambientalista.
In: Revista de Direito Ambiental. N. 43. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006.
          BENJAMIN, Antonio Herman. Meio ambiente e Constituição: uma primeira abordagem.
In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin.
São Paulo: IMESP, 2002
          COSTA, José Kalil de Oliveira. Educação ambiental, um direito social fundamental. In: 10
anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São
Paulo: IMESP, 2002.
          FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Consumo sustentável. In: 10 anos da Eco 92: O
direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP,
2002.
          FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Princípios do processo ambiental. São Paulo: Saraiva,
2004.
          LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito ambiental na sociedade
de risco. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
          MILARÉ, Édis. Direito de Ambiente. Doutrina – jurisprudência – prática e glossário. São
Paulo: Revistas dos Tribunais, 2000.
          PETTER, Lafayete Josué. Princípios constitucionais da ordem econômica: o significado e
o alcance do art. 170 da Constituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005.
          RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. São Paulo: Max
Limonad, 2002.
          SEARA FILHO, Germano. O que é a Educação Ambiental. In: Desenvolvimento
Sustentado: Problemas e estratégias. Editora: Elisabete Gabriela Castellano.
          SPINOLA, Ana Luiza S. Consumo Sustentável: o alto custo dos produtos que
consumimos. In: Revista de Direito Ambiental. N. 43. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,
2006.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                      18

   AGRESTE SETENTRIONAL DO ESTADO DE PE: IMPACTOS
    AMBIENTAIS CARACTERIZADOS PELO PROCESSO DE
          DESERTIFICAÇÃO EM SERRA SECA-PE

                                                                         Niédja Maria Galvão Araújo e OLIVEIRA
                                                                            Universidade de Pernambuco/UPE
                                                                                          noliveir@oi.com.br
                                                                            João Allyson Ribeiro de CARVALHO
                                                                            Universidade de Pernambuco/UPE
                                                                             allysondecarvalho@hotmail.com
                                                                                   Mariana Mendes NOGUEIRA
                                                      Universidade de Pernambuco/UPE, Bolsista PIBIC/CNPq

         ABSTRACT
         The protection of areas susceptible to desertification in Brazil should be seen as a priority
to the welfare of the nature and of the society which inhabits them. This research brings as aim to
analyze the resources of nature, that are in process of degradation in the area of Serra Seca in Santa
Maria do Cambucá-PE, while observing the continuation of a larger research project in this area.
About the methods and techniques, it was used a methodology connected directly in the field,
combined with analysis of staff, soil and interviews, all of these are the basis for a theoretical and
practical work. Still, we present the identification of the area undergoing rapid desertification,
which brings out a guiding of this process, through human activities, incompatible with the carrying
capacity of the environment.
         KEYWORDS: Desertification; Mineral Extraction, Soil Degradation.

         RESUMO
         A proteção das áreas susceptíveis a desertificação no Brasil devem ser vistas como
prioridade ao bem-estar da natureza e da sociedade que nelas habitam. A presente pesquisa versa à
leitura de objetivo voltado a analisar os recursos da natureza e da sociedade que encontram-se em
processo de degradação na área da Serra Seca no município de Santa Maria do Cambucá-PE,
pautando-se em continuidade de uma pesquisa maior dentro da área. No que se refere aos métodos e
técnicas, foram utilizadas a metodologia direta de campo consorciada com análises de gabinete,
analise de solo e entrevistas. Elementos basilares para fundamentação teorico-prática ao trabalho
com a identificação da área em acelerado processo de desertificação, apresentando características
que norteiam a esse processo, desencadeadas por atividades antrópicas incompatíveis com a
capacidade de suporte com o ambiente.
         PALAVRAS-CHAVE: Desertificação. Extração Mineral. Degradação de Solos.

         INTRODUÇÃO
         O processo de desertificação é um fenômeno que vem preocupando diversos países, face à
sua grande perda da biodiversidade e inserção maléfica ao socioeconômico do lugar. O Brasil não
está excluído dessa realidade degradativa: oito estados do Nordeste, além do norte de Minas Gerais
sofrem riscos potenciais ao processo de desertificação. Muitos locais, já com variados níveis de
ocorrência, como se faz sentir na região de Serra Seca, área objeto de estudo, localizada no
Município de Santa Maria do Cambucá/PE, cuja posição geográfica é de 7º 48’ 45’’ de latitude S e
35º 52’ 50’’ de longitude W de Greenwich (Figura 01).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                19




                  Figura 01: Localização da área de estudo. Fonte: EMBRAPA, 2005.

         O processo de desertificação vem sendo tratado desde os anos 30 do século passado. No
entanto, a evolução dos modelos de recuperação de tal processo se deu em 1992, na Conferência das
Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano do Rio de Janeiro, quando foi
possível delimitar conceitualmente o fenômeno desertificação, suas causas e efeitos, antes tratados
com várias divergências entre os estudiosos. Na referida Conferência foi aprovado o documento
discutido e válido até a atualidade. Pode-se exemplificar a partir da Agenda 21 nacional que em seu
12° capítulo define desertificação como:
          “(...) a degradação da terra nas regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, resultante de
vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”.

          Antes da formulação da Agenda 21 nacional, ocorreram discussões referenciando-se aos
fatores que atuavam na deflagração dos núcleos de desertificação, sem definição clara entre
desertificação e desertos. Além da Agenda 21, Nimer (1988, p. 04) também tratou do assunto,
diferenciando deserto como sendo um estágio final de degradação, tendo características próprias, e
a desertificação como um processo em que estas características se tornam variáveis de acordo com
o grau da evolução degradante:
          “Deserto e Desertificação, embora tenham a mesma etimologia e, de certa forma,
fundamentos semelhantes, designam coisas distintas. Deserto é um fenômeno acabado e resultante
da evolução de processos que alcançaram certa estabilidade final, e que pode ser definida como
um clímax ecológico, isto é, por uma espécie de equilíbrio homeostático natural”.

         Os impactos naturais vêm sendo visualizados, no ambiente, através da eliminação da
cobertura vegetal com consequente redução da biodiversidade local, permitindo que os solos fiquem
mais vulneráveis à erosão, como por exemplo: as águas da chuva que arrastam todos os seus
nutrientes inorgânicos e orgânicos, provocando nos rios enchimento dos leitos, fenômeno este
conhecido como assoreamento. Tais erosões fazem com que ocorram perdas, parcial ou total nos
solos, seja por fenômenos físicos (voçorocas) ou fenômenos químicos (salinização e alcalinização).
Além disso, a incapacidade de retenção de água nos solos aumenta à seca edáfica. Todos esses
fatores afetam a fertilidade e a produtividade agrícola, impactando o ambiente.

         Elementos esses, problemas à economia, como a queda na produção e produtividade
agrícola, diminuindo a renda e o consumo da população, resultando na desorganização do mercado
local e regional. Prejuízos sociais como estes, são caracterizados pela diminuição da qualidade de
vida, o aumento da mortalidade infantil e diminuição da expectativa de vida da população. Em
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            20

geral, pode-se afirmar que a população de Serra Seca é uma das mais pobres do Estado sem acesso
à educação e à renda adequada.

         Os impactos na região de Serra Seca não deixam de ser perceptíveis, assim como as áreas
que sofrem com a desertificação, essa região padece consequências dos impactos citados acima,
principalmente os que afetam os aspectos físicos, com a retirada da cobertura vegetal, e da areia
para a construção civil, e os que afetam os aspectos econômicos com a perda da produção da
castanha de caju, entre outros que existem na região, desestruturando a renda familiar e o comércio
regional. A desertificação não é um processo irreversível, porém, as recuperações das áreas afetadas
podem ser inacessíveis para muitos.

          É preocupante que, na maioria das localidades brasileiras, o desenvolvimento sustentável
ainda seja algo distante de ser percebido, principalmente, onde a desertificação e a seca estão
presentes, devido à carência da população que nela habita. O trabalho em referência já se encontra
em desenvolvimento desde 2008, na região do Sítio do Manduri, município em pauta, cujo norte de
intensificação da área de pesquisa passou a massificação face o processo de desertificação não estar
exclusivamente pontuado no Sítio do Manduri, mas que amplia-se em outras áreas implícitas no
município e até mesmo estendendo-se até outros, como se exemplifica em Vertente do Lério. Esse
último, através da extração do calcário. Diante do exposto, a pesquisa versa como objetivo de
potencializar análises do meio físico e socioeconômicos, de modo a priorizar o processo emergente
de desertificação na área e suas consequências no ambiente, associado a processos migratórios do
município de Santa Maria do Cambucá para as áreas adjacentes de oferta de mão-de-obra.

         METODOLOGIA
         Para a elaboração da pesquisa, foi necessário detectar o problema através da observação
em campo, do reconhecimento da degradação ambiental, das entrevistas e as pesquisas
bibliográficas no que diz respeito à desertificação, suas causas e consequências. Para obtenção dos
resultados, necessário se fez a parceira com a Prefeitura Municipal de Santa Maria do Cambucá e a
Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado de Pernambuco-
SECTMA/CONSEMA.

         No concernente à metodologia aplicada, estriba-se numa combinação peculiar para
percepção das investigações a seguir: a revisão bibliográfica veio contribuir para o subsídio da
fundamentação teórica necessária ao embasamento deste trabalho. Utilizaram-se ainda mapas
climáticos, geológicos, pedológicos, hidrográficos, políticos e imagens de satélite. A coleta de
amostras do solo, para análise químico-física e teor de matéria orgânica será imprescindível para
verificação do grau de probabilidade ao processo de desertificação e ao mesmo tempo à execução
de um manejo sustentável. Essas análises estão sendo aferidas em laboratório.

         Nesse sentido, pluraliza-se viabilidades de conscientização no âmbito ambiental. Os
participantes da pesquisa têm como objetivo fazer com que as famílias do município tenham
condições de viver do cultivo do caju, utilizando-o não apenas para a extração da castanha, mas
também aproveitando o seu pseudofruto, seja para a produção de doces e outros produtos. Para
tanto, o tratamento da presente proposta está sendo desenvolvida a partir de encontros e oficinas
com a população local.

         Através das entrevistas foram coletados dados sobre a estrutura sócio-econômica do local,
buscando soluções para a problemática. Tais soluções estão pautadas na adoção de alternativas
como programas para a sensibilização das famílias residentes nas áreas de extração. Como material
técnico, foram utilizados: bússola para a aferição do grau das vertentes, o GPS para a localização e
avaliação do tamanho das áreas degradadas, altímetro, que junto com o GPS foi utilizado para
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                    21

medir as altitudes, sacos plásticos, pás e espátulas para a coleta de material, e trenas para a medição
das vertentes.

         RESULTADOS E DISCUSSÃO
         A extração de areia que acontece na área foco de trabalho é um espelho das condições em
que vivem a população desfavorecidas da região. A necessidade e a desinformação são as principais
causas das vendas e alugueis de lotes para comercialização de sedimentos. A partir desta lacuna
aberta, as empresas propõem a estas famílias lucro imediato. Quem permite a extração em sua
propriedade não tem consciência de que a terra se tornará improdutiva. No sentido de compreender
e solucionar essa problemática encontra-se em processo de realização a tabulação dos dados obtidos
com as entrevistas realizadas com os moradores da área, uma vez que estes são os elementos
fundamentais por serem os atores diretos do processo de degradação in loco.

         Encontra-se em fase de trabalho a conscientização da população, com visitas a colégios
locais e palestras abertas às pessoas diretamente ligadas à atividade de extração de areia. Essas
atividades vêm sendo apoiadas através da Prefeitura. As entrevistas com os atores locais para a
análise dos trabalhos encontram-se em desenvolvimento, portanto, as mesmas não deverão aparecer
no texto em face de não representarem no momento a realidade do processo social em estudo.

         Com a sequência de trabalhos técnicos de campo, percebeu-se que a extração de areia é
feia a partir da venda ou aluguel de lotes de terra. Grande parte da areia retirada segue para
municípios vizinhos, para a indústria de construção civil. E, na maioria das vezes, não mais com a
retirada à base da pá (Figura 02), mas sim através de retro escavadeiras (Figura 03), retirando
sedimentos em volume muito mais acentuado, chegando a alimentar indústrias de construção civil
de grande porte na cidade do Recife.




          Figura 02: utilização da pá enquanto ferramenta.               Figura 03: uso de escavadeira.

         No caso do caju, também é utilizado para a extração da castanha, que segundo uma das
entrevistadas, é comercializada com um lucro médio mensal de R$50,00. Esta prática pode
contribuir no combate à desertificação, já que para cessarem as vendas e os alugueis de terras, as
famílias precisam de um trabalho que traga renda. O estudo realizado pela EMBRAPA (2009)
mostra que o Município de Santa Maria do Cambucá possui 63% de aptidão para a cultura do caju,
o que é um bom percentual visto que o solo e o clima não são favoráveis para todos os tipos de
cultura. Porém, falta às famílias de produtores o aprimoramento desta atividade, como cursos de
capacitação que os ajudem, a trabalhar a matéria-prima. Segundo outro entrevistado, foi construída
uma Usina de Benefício do Caju e da Castanha, que ajudaria os agricultores no trabalho com o caju.
Porém, segundo ele, a mesma foi construída longe da população (no centro urbano) e acabou por
não fazer o trabalho para o qual se destinava. Todavia, a usina atualmente após esse trabalho de
pesquisa, já se encontra lotada na área de produção, para seu beneficiamento.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                        22

         É notável que a desertificação gere múltiplos prejuízos econômicos e sociais. O êxodo
rural na região afetada é bastante comum. Considerando as entrevistas, foi percebido que as novas
gerações das famílias residentes na área vêm para a capital, tentando fugir da pobreza, fato que vem
agravando os problemas de infra-estrutura já existentes. No caso do município de Santa Maria do
Cambucá, o fenômeno do êxodo rural acontece quando as famílias percebem que a terra se tornou
pouco ou totalmente improdutiva após a degradação. De acordo com a SECTMA (1993, p. 03), a
degradação das terras causa sérios problemas econômicos. Isto se verifica principalmente no setor
agrícola, como comprometimento da produção de alimentos. Além do enorme prejuízo causado pela
quebra de safras e diminuição da produção.

         Como a prática da retirada de areia é ativa em certos terrenos, é possível observar na
Figuras 04 e 05 as áreas desnudadas após a partida de caminhões que levam o mineral.




          Figura 04: Área degradada. Solo estéril.             Figura 05: Cratera após a retirada da areia.

         A retirada da areia junto ao lucro traz consigo uma condição irreversível para a terra, pois
o solo fica vulnerável à ação das chuvas, que escoam e carregam os nutrientes da área afetada,
destruindo a cobertura vegetal e trazendo prejuízos a médio e/ou longo prazo. Este fato se dá pela
falta de permeabilidade da rocha matriz, sendo esta formada pelo embasamento geneticamente de
origem do planalto da Borborema. A Figura 06 mostra o afloramento da rocha matriz após a
extração da areia.

         Os prejuízos em longo prazo são mais preocupantes neste município, pois a agricultura é o
meio de subsistência da maioria das famílias residentes. Estas têm como principais atividades o
cultivo de feijão, milho e do caju, que na sua maioria são para consumo próprio. Com as visitas de
campo, foram coletados alguns dados sobre as crateras e locais degradados. Serão abordados a
seguir alguns fatores que mudam após modelos de uso e ocupação do solo inadequado.

         Atividade degradante: Em média 80% das crateras visitadas já são inativas, ou seja,
chegaram a um ponto em que os nutrientes e sedimentos finos se extinguem só restando a rocha
matriz. Nessas áreas podem ser observados troncos de árvores empilhados a serem comercializados.
(Figura 07).
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Figura 06: Afloramento da rocha matriz depois de retirada   Figura 07: madeira a ser comercializada proveniente do
          indiscriminada de sedimentos.                                Cajueiro.

          Unidade de relevo: Representada por pediplanos. Grande parte das áreas analisadas
demonstra um relevo de depressão relativa, aplainado com baixas altitudes também causadas pelos
processos intempéricos. O relevo estudado variou entre ondulado, levemente ondulado ou plano,
não tendo grandes variações de altura, a não ser nas vertentes das crateras, que chegam até 7 metros,
visualizado na Figura 06.
          Altitude: Foram aferidas com a ajuda do aparelho de GPS, medidas em cada ponto das
vertentes formando um “X”, variando de 423m a 494m. Um fato importante para a interpretação
ambiental da área, que por sua vez não apresenta declividades acentuadas apesar das consideráveis
médias de altitude.
          Hidrologia: Antes da retirada da areia, poucas vezes o solo consegue reservar água em sua
superfície pelo fato do relevo ser constituído de cobertura de regossolos, com altas taxas de
permeabilidade.
          Solos: Foram encontrados os seguintes tipos de solo:
          Regossolo: Em grande parte das áreas visitadas foi encontrado esse tipo de solo, quase
massificado localmente. As areias quartzosas distróficas ocupam o segundo tipo de solo mais
aflorante. Este solo como o regossolo possui grande poder de percolação, por ser um solo ácido não
retém umidade em seu perfil. Esse fato agrava o problema da população local, pois não existem
reservas para absorção de água necessária ao consumo. O Poder Público implementou nas áreas
críticas cisternas para o armazenamento de águas pluviais.
          Vegetação: Foram encontrados tipos de vegetação arbórea, arbustivas e herbáceas
retratando o domínio da caatinga, verificou-se algumas espécies atípicas a este domínio sendo a
maioria frutíferas, como o caju nativo com predomínio, coco, pinha, limão, goiaba, tamarindo e jaca
(cultura), que pelo que aparentavam estavam adaptadas ao ambiente.
          Dinâmica instável: Em alguns casos são encontradas moradias na proximidade das
crateras. Porém, na grande maioria, não há população perto das atividades de extração, enfatizando-
se, portanto, uma dinâmica voltada para a retirada indiscriminada de sedimentos.
          Aptidão Natural: A maior parte dos terrenos possui aptidão para o cultivo do caju.
Também há, em alguns locais, aptidão para a palma, agricultura de subsistência, pecuária e
laboratório para aulas práticas.

        CONCLUSÕES
        A busca por condições sociais favoráveis nem sempre é bem sucedida. Na maior parte das
vezes, quem vem para a cidade no intuito de buscar melhores condições sociais, acaba vivendo à
margem da sociedade, não participando da força de trabalho e agravando a estrutura urbana. Para
que a degradação ambiental progressiva do Município de Santa Maria do Cambucá seja reduzida,
fazem-se necessárias Políticas Publicas que venham estimular a comunidade a se fixar no campo,
evitando o êxodo.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              24

         A degradação da área de Serra Seca ocorre devido à extração exacerbada das areias nas
áreas menos desenvolvidas, por meio da negociação com os proprietários dos lotes que alugam a
área para a retirada da areia. Essa extração é muitas vezes feita por indivíduos de municípios
vizinhos que procuram este tipo de solo para a retirada e utilização na construção civil. Esta prática
vem trazendo grandes problemas para a população, desde a falta de terra fértil para o plantio, quanto
à marginalização da parcela afetada por esta atividade.

         A estrutura original da área se mostra por uma área de depressão relativa e em seu entorno,
testemunhos residuais do Planalto da Borborema e o calcário do município de Vertente do Lério. O
relevo local e tipo de solos, em junção com a escassez relativa de pluviosidade torna bastante difícil
o acúmulo de umidade no solo. Por ser de relevo de pediplano e solos porosa a água da chuva,
escoa e infiltra de forma a não permitir a concentração de nutrientes e consequentemente retenção
de umidade.

         Apesar de toda a dificuldade de fertilidade, o cajueiro é bastante comum no local, o que
pode ser o ponto inicial da tomada para a sustentabilidade das famílias residentes ali, já que para a
extração da areia faz-se necessária a retirada da cobertura vegetal, e consequentemente, do solo.
Nessa instância, para que a cultura do caju possa progredir as retiradas de sedimentos precisam
cessar urgentemente. A adoção de ações pautadas na Educação Ambiental deve subsidiar as
atividades inseridas na área com vistas à meta do desenvolvimento local e sustentável. A presente
meta está sendo perseguida a partir de pequenas, todavia, importantes ações propostas pelo presente
estudo e com a anuência da Prefeitura Municipal. Só com o consórcio da comunidade, Poder
Público e Academia, o futuro do Município de Santa Maria do Cambucá poderá assegurar aos seus
cidadãos sustentabilidade local e ambiental.

         REFERÊNCIAS
         BRASIL, Senado Federal. Conferência das nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Rio 92. Agenda 21. Brasília: Senado Federal; Subsecretaria de edições técnicas,
1996.
         EMBRAPA, Zoneamento Pedoclimático do Cajueiro para o Estado de Pernambuco.
Disponível em: http://www.uep.cnps.embrapa.br/caju/index.php?link=index. Acesso em:
20/11/2009.
         NIMER, E. Desertificação: Realidade ou Mito? Revista Brasileira de Geografia. Rio de
Janeiro, IBGE, 50 (1): 7 – 39 jan/mar, 1988.
         PERNAMBUCO. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Plano de
desenvolvimento florestal e da conservação da biodiversidade de Pernambuco. Recife:Sectma-
PE, 1993.
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   ANÁLISE DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DA COMUNIDADE
           RIBEIRINHA PANTANAL EM ARACAJU

                                                                             BIANCHINI, Ilka Maria Escaliante
                                                                         Rede Estadual de Ensino SE - Professora
                                                                                       ibianchini@yahoo.com.br
                                                                                   LIMA, Josael Bruno de Souza
                                                                         Rede Estadual de Ensino SE – Professor
                                                                                             jobs@infonet.com.br
                                                                                        SANTOS, Lorena Xavier
                                                                                            SENAI SE – Docente
                                                                                        lorenasantos@se.senai.br
                                                                                   RODRIGUES, José Lourenço
                                                                                            SENAI SE – Docente
                                                                                        joselourenco@se.senai.br

         ABSTRACT
         The necessity of protection for the aquatic environments has been assuming the projection
of global order. The adaptation of managerial and domestic processes with relationship to the
release of sewers and garbage is urgent and it requests of the competent organs a more critical
glance in than says respect to the environmental preservation. In another sphere, the environmental
education gone back to the riverine communities that a lot of times pollute the waters of the rivers
for knowledge lack makes itself necessary, because the pollution of water by riverine besides being
an environmental problem is also a public health problem. The objective of this work is to analyze
the environmental perception of a riverine community in the Pantanal, located the river Poxim near
the neighborhood Inácio Barbosa in Aracaju, Sergipe. Data collection through site visits and
investigative questionnaires, showed us the list of people who live there with the river Poxim.
         KEYWORDS: Environmental degradation; Riparian; river Poxim.

         RESUMO
         A necessidade de proteção aos ambientes aquáticos tem assumido projeção de ordem
global. A adequação de processos empresariais e domésticos quanto ao lançamento de esgotos e
efluentes é urgente e requer dos órgãos competentes um olhar mais crítico no que diz respeito à
preservação ambiental. Numa outra esfera, a educação ambiental voltada para as comunidades
ribeirinhas que muitas vezes poluem as águas dos rios por falta de conhecimento faz-se necessário,
pois a poluição das águas pelos ribeirinhos além de ser um problema ambiental é também um
problema de saúde pública. O objetivo geral deste trabalho será o de analisar a percepção ambiental
da população ribeirinha da comunidade do Pantanal, localizada as margens do rio Poxim, próximo
ao bairro Inácio Barbosa em Aracaju, Sergipe. O levantamento de dados deu-se através de visitas
“in loco” para aplicação de questionários investigativos, que se evidenciou uma relação de pessoas
que ali habitam com o rio Poxim.
         PALAVRAS-CHAVE: Degradação ambiental; Mata ciliar; rio Poxim.

         CARACTERIZAÇÃO DO RIO POXIM
         O rio Poxim, é um dos principais afluentes da margem direita da Bacia Hidrográfica do
Rio Sergipe, é considerado uma sub-bacia que abrange parte dos municípios de Itaporanga
D’Ajuda, Areia Branca, Laranjeiras, Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão e Aracaju recebendo
as águas dos rios Poxim-Mirim, Poxim-Açu e Pitanga, tendo sua foz na maré do Apicum.
         A região estuarina do rio Poxim, está localizada na região sudoeste do Estado de Sergipe,
possuindo uma extensão de aproximadamente 9 km, com cerca de 100 m de largura e profundidade
média de 2 m. O estuário do rio Poxim é uma das principais fontes de abastecimento de água do
Estado, recebendo uma grande carga poluidora decorrente da industrialização e do crescimento
urbano desordenado. Levando-se em consideração que as concentrações de nutrientes (nitrogênio e
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fósforo), estão geralmente relacionadas à carga poluidora recebida pelo ecossistema aquático, onde
elevados valores servem como indicativo do estado de eutrofização é, portanto, de grande
importância o controle dos teores de nutrientes neste ambiente.
         A necessidade de proteção aos ambientes aquáticos tem assumido projeção de ordem
global. O derramamento de óleo, despejos industriais e domésticos, rejeitos de origem hospitalar,
contaminação por fertilizantes e pesticidas, desmatamento de manguezais, bem como, redução de
espécies animais e vegetais, constituem foco da atenção a fim de estabelecer proteção adequada aos
recursos marinhos e aquáticos.
         A área estudada compreende a região que fica localizada atrás do Conjunto Beira Rio, no
Bairro Inácio Barbosa e surgiu de uma invasão tendo às margens o Distrito Industrial de Aracaju
(DIA), onde se encontram indústrias de produtos alimentícios, móveis, plásticos, produtos têxteis,
químicos, dentre outras. Constitui-se em um dos principais afluentes do rio Sergipe, amplamente
utilizado pela população do estado desde a captação de águas pela Companhia de Saneamento de
Sergipe (DESO), ao uso indiscriminado pela população em geral e comunidades ribeirinhas, que
apesar de retirar o sustento de suas famílias, possuem relações bem próximas com o rio no que diz
respeito a lazer, prática de esportes, uso das águas para lavagem de roupas, despejo de lixo entre
outros.
         A destruição da mata ciliar e os desvios feitos em mananciais por fazendeiros da região
também vem contribuindo significativamente para a agressão ao rio, influenciando no volume de
água. De acordo com o Comitê da bacia hidrográfica do rio Sergipe, a qualidade da água do rio
Poxim em alguns trechos é sofrível, apresenta altos índices de metais pesados, coliformes fecais e
pesticidas, prejudicando ainda mais o ecossistema do rio.

          O lançamento de efluentes domésticos e industriais sem tratamento eleva os processos de
eutrofização do rio, comprometendo a vida do ecossistema e a vida das pessoas que utilizam as suas
águas. O Poxim percorre vários bairros da capital sergipana, onde a maioria não possui uma rede de
saneamento correta e todos os dejetos que saem das casas da área em questão, sejam eles orgânicos
ou artificiais, são jogados diretamente no rio.
          O estuário do Rio Poxim pode ser caracterizado como um ambiente bastante impactado,
com resíduos oriundos basicamente do aporte de efluentes industriais e domésticos que não tem
tratamento adequado. Seu estado de eutrofização é bastante elevado, o que requer ações de
mitigação para colocá-lo em condições ambientais sustentáveis.

         COMUNIDADE PANTANAL: A INTERAÇÃO ENTRE OS ELEMENTOS
ECOLÓGICOS E SOCIAIS
         O Pantanal fica localizado atrás do Conjunto Beira Rio, no Bairro Inácio Barbosa na zona
sul de Aracaju e surgiu de uma invasão a mais de 25 anos. Os problemas de infra-estrutura desta
comunidade em maior ou menor grau condenam a qualidade de vida da população. Curiosamente, o
Pantanal está situado entre o Distrito Industrial de Aracaju, cujas atividades parecem não ter
absorvido a mão de obra local, fato que poderia ter auxiliado no desenvolvimento da comunidade, e
o Parque dos Coqueiros, bairro de classes média e média alta. No presente estudo, procurou-se
conhecer as percepções relacionadas ao meio ambiente da população ribeirinha do Assentamento
Pantanal as margens do Rio Poxim, no município de Aracaju, para que a questão ambiental pudesse
ser contextualizada como um sistema complexo, com a interação entre os elementos ecológicos e
sociais.
         A população atual é genuinamente urbana e composta por aproximadamente 500 famílias,
segundo pesquisa de 2005 realizada pela Secretaria Municipal de Saúde. Quem segue pelo primeiro
trecho do conjunto Beira Rio, bairro regulamentado nas proximidades do rio Poxim, depara-se de
repente com uma mudança radical de paisagem. O caminho inicial é repleto de casas grandes,
algumas até luxuosas, e a pista é asfaltada. Alguns metros depois a situação é bem diferente. Não há
mais asfalto, só uma estrada de terra. É aí então que começa a Comunidade Pantanal, margeando o
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             27

rio Poxim. O acesso é feito por um estreito caminho chamado de Avenida Pantanal que segundo
moradores, há muito tempo, foi a primeira avenida aberta na comunidade.
          A área apresenta problemas de infra-estrutura que, em maior ou menor grau, condenam a
qualidade de vida da população e comprometem o ambiente natural onde a comunidade esta
instalada. Curiosamente, o Pantanal está situado entre o Distrito Industrial de Aracaju, cujas
atividades parecem não ter absorvido a mão de obra local, fato que se ocorrido, poderia ter
auxiliado no desenvolvimento da comunidade, e o Parque dos Coqueiros, bairro de classes médias e
médias alta.
          Diante da crise ambiental que a humanidade está atravessando, à exploração equivocada
dos recursos naturais e à poluição diversificada do planeta, as questões referentes ao meio ambiente
adquirem grande importância. Entretanto, os problemas ambientais não estão restritos aos
elementos ecológicos, cuja degradação está combinada com a rápida expansão populacional e com a
visão fragmentada da sociedade. Esses problemas não podem ser entendidos isoladamente, pois são
problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. As soluções
para estas questões requerem mudanças de percepção em relação aos valores humanos, através de
uma reflexão ética para com as atitudes em relação ao meio ambiente. A escola por sua vez, torna-
se parte integrante na agregação destes valores ambientais que devem ser abordados, auxiliando na
construção de conceitos e ampliando a visão dos cidadãos em todos os níveis da sociedade. O
surgimento de metodologias de ensino participativas em prol da democracia, do exercício da
cidadania e da qualidade de vida deve existir para todos da mesma forma, respeitando a diversidade
cultural e as identidades dos grupos sociais. Neste sentido, a escola apresenta grande potencial para
a identificação, diagnóstico e contribuição no esclarecimento das questões ambientais da
comunidade à sua volta, uma vez que estudantes, professores e funcionários levam suas vivências
para a prática cotidiana escolar. Para tanto a identificação das representações desses sujeitos sobre
as questões ambientais deve ser o primeiro passo para a elaboração de um projeto de educação
ambiental.
          O conceito clássico de Bacia Hidrográfica explicita basicamente o conjunto de terras
drenadas por um corpo d’água principal e seus afluentes, numa perspectiva hidrológica (PIRES et.
al, 2002). Esse conceito, porém, vem se expandindo, uma vez que a bacia hidrográfica vem se
tomando uma unidade de planejamento e gerenciamento ambiental. Essa unidade é apropriada para
estudos ambientais integrados, pois sobre os sistemas hidrológicos, geológicos e ecológicos de uma
bacia hidrográfica atuam forças antropogênicas, onde os sistemas biogeofísicos, econômicos e
sociais interagem. (TUNDISI, 2003) A interação humana da comunidade Pantanal com o rio Poxim
tornou-se foco principal no levantamento de dados norteadores acerca da percepção ambiental dos
moradores desta região, com a finalidade de averiguar a estreita relação existente entre homem e
meio ambiente. No presente estudo, o conhecimento da percepção ambiental da comunidade
Pantanal sobre o Rio Poxim, no município de Aracaju, foi essencial para que a questão ambiental
local pudesse ser contextualizada como um sistema complexo, com a interpretação da interação
entre os elementos ecológicos e sociais.
          A Comunidade Pantanal apresenta problemas de infra-estrutura que a mais de 25 anos,
engessam a elevação da qualidade de vida da população: saneamento básico precário e/ou
improvisado, ausência de calçamento, iluminação pública deficitária, falta de segurança e
dificuldade de acesso aos programas sociais e/ou educativos. O poder público municipal apenas se
faz presente pela regularidade da coleta de lixo. O Pantanal se subdivide em duas etapas. Uma
delas, provavelmente a mais antiga, é conhecida por muitos como Vila do Rato, parte da invasão
que possui mais de vinte anos de existência e é a parte mais pobre do Pantanal. O acesso a esta
etapa é feito por um estreito caminho na beira do rio. As casas (barracos), improvisadas e sem
condições de habitação, acompanham a margem direita do Poxim e se espalham por algumas ruas.
A segunda parte, cujos traços de urbanização são mais evidentes (guardadas às devidas proporções),
apresenta construções mais bem acabadas, feitas de alvenaria e um número mínimo de
dependências (quarto, sala, cozinha e banheiro). Todavia, vale à pena sublinhar a existência de
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            28

casas que, com dois quartos (amplos) e bem divididas, acabam por se destacar dentre as demais
habitações.
         A partir de um questionário dirigido à comunidade no dia 08 de julho de 2009, foi possível
adquirir algumas informações pertinentes ao trabalho visitando 70 residências, com média de 04
pessoas por família. Perguntadas inicialmente se sabiam quais os motivos principais que levam a
escassez de água no Planeta Terra, 77% dos entrevistados afirmaram que sim, e apontaram o
desmatamento, o desperdício de água, o aquecimento global, lixos domésticos e dejetos industriais
como as maiores causas de degradação ambiental.
         Solicitados que justificassem suas respostas, aproximadamente 81% dos entrevistados
demonstraram possuir informações mesmo que superficiais a respeito dos reais motivos que tem
levado a escassez de água no planeta, e cerca de 19% desconhecem as suas reais causas. Para os
moradores as causas que mais contribuem para a escassez de água no Planeta Terra são: o
desperdício de água (50,8%), o desmatamento (15,4%) e a poluição (13,8%) de água no Planeta
Terra. As tabelas a seguir ilustram muito bem esta realidade que constatamos a partir de
depoimentos dos habitantes da região. As demais causas juntas representaram apenas 13,0%,
consideradas, portanto desprezíveis para uma análise mais profunda.
         Os moradores foram indagados se conheciam quais as causas de agressão aos rios que
banham a capital sergipana, especialmente o rio Poxim. Aproximadamente 94,40% dos
entrevistados disseram que sim, cerca de 4,40% afirmaram desconhecer e os 2,20% restantes nada
informaram. De posse destes dados, pedimos que citassem os principais agentes causadores desta
poluição. Após a análise e discussão chegou-se aos seguintes resultados: 42% citaram o lixo
comum, 21,74% os dejetos industriais, 16,31% citaram os esgotos domésticos e 9,79% a falta de
conscientização da população.
         Os entrevistados citaram o lixo, os poluentes industriais e a falta de tratamento de esgoto
com peso relevante para os resultados, ou seja, constituindo-se em 80,44% do problema. Foi
possível observar que todo tipo de dejeto produzido nos barracos vão direto para o rio, nem todas as
casas possuem fossa séptica e isso torna-se um grande problema para os moradores e para o rio. No
inicio do assentamento pescadores e familiares se alimentavam do rio. O pescado hoje no Rio
Poxim praticamente não existe, estando bastante escasso devido à poluição produzida pelas fábricas
do Distrito Industrial de Aracaju e pelas residências da própria comunidade.




         Uma das perguntas dirigida à comunidade é se conheciam o que pode causar as queimadas
e a devastação das matas ciliares aos rios. O primeiro passo foi esclarecer o que é mata ciliar.
Depois disso, alguns dos entrevistados disseram que as queimadas e a devastação das matas que
circundam os rios, modificam a estrutura do solo provocando o assoreamento pela diminuição da
capacidade para absorver as chuvas, afetando seriamente a pesca e a vida de outros organismos
vivos. Outros destacaram o aumento do buraco da camada de ozônio da atmosfera e o aumento da
poluição atmosférica como conseqüência principalmente das queimadas. Disseram que a poluição
agride ao meio ambiente e à saúde do homem. Pode-se notar também que 37% dos entrevistados
não responderam o que perguntamos, quem sabe, ou por não saber ou por não demonstrarem
interesse.
         Segundo moradores que já vive na comunidade há muito tempo toda área no inicio do
assentamento era uma lagoa de dejetos industriais. Para alguns as conseqüências de tudo isso são
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                               29

um número cada vez maior de ratos e doenças como leptospirose, cólera, doença de pele,
verminoses, além de agentes biológicos como bactérias e tantos outros que a comunidade
desconhece. De acordo com os dados da pesquisa realizada, foi possível verificar que 58% dos
moradores da localidade conhecem alguma lei que defende o meio ambiente de condutas que o
prejudiquem, porém, quando perguntamos se sabiam citar todos responderam que não. É
importante ressaltar que as leis são reguladores externos do comportamento humano, indispensáveis
à sociedade. No entanto, para que sejam conscientemente respeitadas, faz-se necessário conhecer
para que produza uma mudança interna nos indivíduos.
         A educação para o meio ambiente, no entanto, deve ser de maneira ampla e geral, para que
possa favorecer uma nova ordem social consciente, crítica, e, sobretudo, responsável. Apesar de não
citarem alguma legislação que defende o meio ambiente destacam o Ministério Público a ADEMA
e o IBAMA como órgãos de fiscalização e de encaminhamento de crimes ambientais.
         De acordo com os dados da pesquisa realizada, foi possível verificar que 97% dos
entrevistados disseram não ter hábito de poluir o Rio Poxim. Contradizem-se quando 61% afirmam
que os dejetos sanitários são jogados no rio e 71% destacam a não existência em suas residências de
fossa. Opondo-se a afirmação da maioria que dizem não poluir o rio, moradores talvez mais
conscientes, disseram que sempre se encontra no seu leito animais mortos, sofá boiando, fezes
dentro de sacos plásticos, móveis e eletrodomésticos.
         Apesar de 28% dos entrevistados afirmarem que suas casas possuem fossas, observa-se
outra realidade. Encontramos ruas totalmente poluídas e sem nenhum saneamento básico, a
exemplo da Avenida Pantanal que uma das mais antigas do assentamento segundo moradores.
Infere-se tudo isso a ausência do poder público, que pouco tem investido na educação para
preservação da natureza, apesar da coleta de lixo na comunidade acontecer com freqüência pelo
poder público municipal, ou seja, três vezes por semana, assim afirmaram 64% dos consultados.
Para 33% dos indagados a coleta de lixo acontece com regularidade, porém, acreditam que deveria
ser melhor. Apenas um afirmou que a coleta é rara.
         Ao analisar as informações a respeito do nível de escolaridade da comunidade percebeu-se
que 57% possuem nível fundamental, 38% nível médio, 3% tem formação em nível de 3º grau e 1%
concluiu curso técnico. Do universo de entrevistados foi encontrado apenas um analfabeto. Os
dados levam-se a concluir, que 99% da população entrevistada é alfabetizada. Já tinha sido
concluído anteriormente que 97% dos entrevistados afirmavam não jogar lixo no rio. O dado agora
pesquisado concluir-se que quanto melhor for o nível de escolaridade, ou seja, as pessoas forem
pelos menos alfabetizada, melhor também será seu nível de consciência.
         De acordo com a faixa etária das pessoas que moram na comunidade, verifica-se que do
total analisado, a faixa etária de maior incidência está no intervalo de 27 a 35 anos, num total de 20,
representando 32% do universo pesquisado, conforme pode ser visto na tabela 5 e no gráfico 5. Na
seqüência, as pessoas consultadas estão nas seguintes faixas etárias: de 11 a 19 anos, num total de
11, representando 17%, de 19 a 27 anos, num total de 13 pessoas consultadas, o correspondente a
21%, de 35 a 43 anos, num total de 8, o que corresponde a 13%, de 43 a 51 num total de 7 pessoas,
com um percentual de 11% e finalmente de 51 a 59 anos, 4 pessoas pesquisadas, representando
6%. Numa população tão jovem como a da comunidade pantanal, a aplicação de oficinas e palestras
voltadas a comunidade em prol do desenvolvimento da percepção ambiental é uma maneira de
construir quanto mais às pessoas participarem, mais elementos para desenvolvimento de uma
consciência de respeito ao meio ambiente terão.
         A partir do momento em que se consegue implantar nas mentes e nos corações de todos,
uma nova maneira de enxergar e de explicar a vida e tudo o que nela existe, os cidadãos bem
orientados poderão contribuir para a preservação da vida respeitando o meio ambiente.

         CONCLUSÃO
         Concluiu-se que devido à falta de moradia apropriada para alguns aracajuanos, a
comunidade teve início às margens do rio com casas construídas em madeira sem nenhuma
estrutura nem tampouco rede de esgoto. O Pantanal é fruto de um processo de loteamento irregular
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             30

efetivado em terras que pertence à União. Existe pelo menos há trinta anos segundo a pesquisa
efetuada no local. Podemos compreender que se fizermos uma projeção desse dado a população
hoje se aproxima de 3.000 moradores. Em conversas, através das entrevistas, pode-se perceber que
89% da população residem a menos de 11 anos no Pantanal e afirmam que no inicio não se via tanta
destruição.
          A comunidade observada hoje no Pantanal é jovem, boa parte instruída, fato que auxilia na
relação existente entre rio e comunidade. Os problemas sócio políticos que ali são verificados são
inúmeros, e concluiu-se que obras necessárias para o bem estar da população e promoção da
qualidade de vida, falta da aplicação e planejamento de gestão ambiental de resíduos industriais
tornaram-se uma constante em todos esses anos de assentamento, deixando a desejar e gerando uma
desconfiança da população em torno das resoluções governamentais e da justiça ambiental.
          Diante do exposto, percebe-se que a preservação do meio ambiente deve ir além das
questões legais e políticas, partindo do social, a educação voltada para o jovem, futuros cidadãos
atuantes, deve ser incentivada então no que se refere ao conhecimento do ambiente em que se vive e
isso sim, deve ser levado em consideração.
          O Poxim percorre vários bairros da capital sergipana, onde a maioria não possui uma rede
de saneamento correta e todos os dejetos que saem das casas, sejam eles orgânicos ou artificiais, são
jogados diretamente no rio. Para alguns moradores o mau cheiro incomoda a população e afasta a
clientela de alguns comerciantes. A ocupação desordenada e o despejo de lixo em locais
inadequados favorecem aos altos índices de poluição. Os órgãos ambientais permanecem
monitorando e fiscalizando todos os pontos a fim de manter o controle dos índices de poluição.
           A Educação Ambiental tem a sua importância na possibilidade de, a partir do
conhecimento das leis e o respeito ao meio ambiente, reduzir consideravelmente as agressões
ambientais e, sobretudo, os danos à natureza. Configura-se, pois, como expressão incondicional de
respeito à própria vida. A percepção ambiental, ou cognição ambiental, é o termo usado para se
referir à tendência geral pelas quais as pessoas desenvolvem atitudes e sentimentos em relação ao
ambiente. (ALTMAN; CHEMERS, 1989)
          Faz-se urgente o incentivo, a criação e aplicação de programas de educação ambiental seja
por meio das escolas circunvizinhas, por meio de oficinas organizadas pela própria comunidade. A
educação modifica o pensamento, o pensamento norteia as ações. Indivíduos bem informados
buscam por melhores condições e a partir daí, desenvolvem força para requerer junto às autoridades
os direitos que lhe assistem e lhe são tirados. Estas questões, como muitas outras, estão colocadas
para a sociedade brasileira e exigem repostas bem fundamentadas de todos nós. (BEOZZO et. al,
2003)

         REFERÊNCIAS
         ALTMAN, I. CHEMERS, M.M. Cultura e Ambiente. Cambridge. Cambridge Universit
Press, 1989.
         BEOZZO, José Oscar; REBOUÇAS, Aldo da Cunha; MALVEZZI, Roberto; SILVA,
Marina; BARROS, Marcelo; CAPPIO, Luis Flávio. Água é Vida: Dom de Deus e
Responsabilidade Humana. São Paulo: Paulus, 2003.
         PIRES, J. S. R. A utilização do conceito de Bacia Hidrográfica para conservação dos
recursos naturais. Conceitos de Bacias Hidrográficas: teorias e aplicações Ilhéus: Editus, 2002.
         TUNDISI. J.G. Água no século XXI: enfrentando a escassez. São Carlos: RIMA IIE,
2003.
         http://www.sbp.org.br/ranteriores/23/resumos/0722/index.html
         http://www.seplantec-srh.se.gov.br/
         http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/10950
         http://pt.wikipedia.org/wiki/lista de paises limítrofes do Brasil
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  ANÁLISE QUALI-QUANTITATIVA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS
        EM PRAIAS DO MUNICÍPIO DE OLINDA-PE

                                                                                       Claryana Alves da CUNHA
            Pós graduada em Gestão Ambiental pela Faculdade Frassinete do Recife; 1º Ten Professora de Geografia;
                                                                     Exército Brasileiro-Colégio Militar do Recife.
                                                                                 Mônica Márcia VICENTE LEAL
           Mestre em Oceanografia pela Universidade Federal de Pernambuco; 1º Ten Professora de Biologia e Oficial
                                                  de Meio Ambiente; Exército Brasileiro-Colégio Militar do Recife.

          RESUMO
          O presente trabalho visa realizar um levantamento quali-quantitativo dos resíduos sólidos
em praias do município de olinda-PE. Foram delimitados 3 transectos de 5 metros de largura,
estendendo-se desde o limite superior da praia até a linha de maré, nas praias do Carmo - A, Casa
Caiada – B e Rio Doce – C. Os resíduos sólidos foram coletados nas luas novas e cheias, aos
domingos, no período da tarde, nos meses de dezembro de 2007, janeiro e fevereiro de 2008 e
agrupados em categorias. Os plásticos se destacaram com 2722 itens, 44% do total, seguido por
alimentos (22,9%) e papel (17%). São necessárias políticas públicas direcionadas à população local
e turistas quanto à limpeza, e conservação das praias de Olinda, uma vez que o gerenciamento dos
resíduos sólidos é de extrema relevância para mitigar os impactos decorrentes das atividades
humanas no ambiente praial, bem como para preservar o ecossistema costeiro, na busca por um
desenvolvimento social justo e ambientalmente sustentável.
          PALAVRAS-CHAVE: resíduos sólidos, praia, Olinda.

          ABSTRACT
          This work aims making a research of quantity and quality of solid waster in beaches of
Olinda, Pernambuco. Three transects of five meters large were delimited, which was extended from
the top limit of the beach to the tide line on Carmo – A, Casa Caiada –B e Rio Doce – C beaches.
The solid wastes were caught in new and full moons, on sunday afternoons, in December 2007,
January and February 2008. Afterwards the wastes were grouped in categories. “Plastic” wastes
were the most representative, reaching 2.722 items, 44% of the total, followed by “food” (22,9%)
and “paper” (17%). It is necessary politics focused in the local population and and tourists regarding
to cleaning and conservation of Olinda’s beaches, since solid wastes management is extremely
relevant in order to mitigate impact derived from human activities on the beach environment, as
well as to preserve the coast ecosystem in a search from a faired social development and
environmentally sustainable.
          KEYWORDS: solid wastes, beach, Olinda.

         1. INTRODUÇÃO
         Uma vez que a praia é um espaço de lazer bastante diversificado, sua exploração como
recurso turístico gera empregos, demanda por serviços e renda para as populações locais (Bird,
1996).
         Com o incremento do consumo consolida-se a cultura do desperdício, que é bastante
presente no povo brasileiro. Segundo o último censo do IBGE a quantidade diária de lixo urbano
coletado no Brasil é de 228.413 toneladas, o que representa 1,25 Kg diários per capita (IBGE,
2001).
         O denominado lixo, em função de sua proveniência variada apresenta também constituintes
bastante diversos, e o volume de sua produção varia de acordo com sua procedência, com o nível
econômico da população e com a própria natureza das atividades econômicas na área onde é gerado
(Braga et al., 2006).
         As praias olindenses são utilizadas por visitantes locais, e de várias regiões do Brasil e do
mundo, e apresentam todas as nuances das questões aqui levantadas.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            32

               Em virtude disto, o presente trabalho tem por objetivo realizar um levantamento
quali-quantitativo dos resíduos sólidos em praias do município de Olinda PE, a fim de servir como
              tivo                                                Olinda-PE,
ferramenta de apoio ao gerenciamento ambiental da área. Para tal, os itens que compõe os resíduos
sólidos existentes nas praias de Olinda serão identificados,
         quantificados e agrupados em categorias de acordo com o tipo de resíduo e/ou natureza do
              tificados
material amostrado. Será ainda determinada a representatividade de cada categoria e
         a incidência espaço-temporal destes resíduos, como subsídio ao poder público para o
                              temporal
planejamento e direcionamento das medidas de gestão ambiental, com vistas a melhorar a qualidade
   nejamento
das praias e conseqüentemente de vida de seus usuários.

         2. DESCRIÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO
              Olinda, município da Região Metropolitana do Recife – RMR, encontra
                                                                           encontra-se entre os
paralelos 7°57’30” e 8°02’30”, latitude Sul e os meridianos 39°55’00” longitude Oeste de
Greenwich, com uma área de 43,55Km². Seus limites são: ao Norte o município de Paulista, à Leste
o Oceano Atlântico, à Oeste e ao Sul o Recife. De acordo com o Censo 2000 do IBGE a população
é de 368.643 habitantes e a densidade demográfica é de 8.991 hab/km². (IBGE, 2002 apud Beltrão
et al,1995).




          Figura 1: Localização do município de Olinda
                                                Olinda-PE. Fonte: Neves e Sá (2002).

          2.2 – O litoral de Olinda

               O litoral olindense é formado por 10,5km de costa aberta, caracterizada por depósitos
arenosos, compreendendo, no sentido Sul Norte, as praias: Istmo, Milagres, Carmo, São Francisco,
                                        Sul-Norte,
do Farol, Bairro Novo, Casa Caiada e Rio Doce.
               A linha costeira de Olinda é sem dúvida o maior sítio paisagístico municipal, sendo
de grande importância econômica, onde está concentrada a maior parte da população, bem como as
atividades comerciais, de recreação e de turismo.
               O Diagnóstico Ambiental de Olinda (Beltrão et al,1995) definiu quatro áreas do
                                                                    1995)
litoral com problemas ambientais tais como, erosão marinha, dificuldade de acesso à praia,
disposição de esgoto doméstico, entre outros: Unidade1 – Praia do Istmo até dos Milagres; Unidade
2 – praias dos Milagres, Carmo e São Francisco; Unidade 3 – praias do Farol e Bairro Novo; e
finalmente, unidade 4 – praias de Casa Caiada e Rio Doce.

         3. MATERIAL E MÉTODOS
         Inicialmente foi realizado um caminhamento ao longo de toda a orla, a fim de se
estabelecer áreas específicas a serem estudadas. Foram visualmente observados aspectos como a
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                              33

existência de faixa de areia, a intensidade de freqüência de usuários e a presença de resíduos na
areia e calçada. Desta forma, foram escolhidas para o estudo as praias do Carmo, Casa Caiada e Rio
Doce, situadas nas unidades 2 e 4 definidas por (Beltrão et al,1995). A praia de Casa Caiada é a
mais tradicionalmente freqüentada, constituindo-se num point da população jovem. A praia de Rio
Doce apresenta a faixa de areia mais extensa e é também bastante freqüentada, não tendo, porém as
mesmas condições de infra-estrutura da primeira. A praia do Carmo é a mais afastada dentre as
praias com maior número de usuários. No entanto, a quantidade destes é visualmente muito inferior
a das anteriormente citadas.
         Para a coleta de dados foram estabelecidos transectos piloto com 10 m de largura, reduzida
para 5 m de largura para a amostragem, dimensionados por meio de uma trena de 50 m e
georreferenciados com o auxílio de um GPS Etrex Garmin Estes transectos se estendiam do limite
superior da praia (calçada, rua, etc.) até a linha de maré. Em cada praia foi estabelecido um
transecto em um trecho fixo (A-Carmo, B-Casa Caiada e C-Rio Doce) (Tabela 1).
         Foi realizada uma medição de cada transecto em dias de maré com amplitude
significativamente baixa e alta, a fim de determinar a área amostral total em m², a mínima e a
máxima dos transectos (faixa de areia exposta) a fim de determinar a densidade de lixo por área em
m² em ambas as marés.
         Os horários de coleta foram entre 14 e 18 horas. A escolha dos dias de coleta de dados
baseou-se nos trabalhos de Leal (2006) e Silva (2006) para as praias de Boa Viagem e do Pina. Os
dias declaradamente preferidos de visita às praias foram domingos e sábados respectivamente. Com
base nestas informações, foi estabelecido o período amostral na estação seca, de dezembro a
fevereiro, aos domingos. A segunda autora afirma que o padrão de uso dos freqüentadores em sua
pesquisa foi o mesmo para o verão e inverno, mas a freqüência foi três vezes maior nos finais de
semana de verão, com destaque para o domingo.
         Foram feitas duas coletas por mês, num total de 6 coletas, nas luas novas e cheias. Os
resíduos sólidos, incluindo fragmentos, foram coletados por catação manual, colocados em sacos de
100 litros e retirados do local para posterior triagem.
         Os itens identificados foram contados, agrupados em uma tabela e classificados em
categorias por tipo, de acordo com a natureza do material que os constitui. Foi calculada
representatividade em números absolutos e percentagem de cada categoria, bem como dos itens que
se destacaram de forma isolada e em escala espaço-temporal.

Transecto   Praia     Localização   Características
A           Praia     41°21’52”S    Situa-se por trás da Agência dos Correios, sendo freqüentada por banhistas e
            do        8º03’19” W    pescadores. Apresenta construções (residencias) na pós-praia. Não apresenta
            Carmo                   vegetação, possui diques de contenção construídos no mar, paralelos à praia.
                                    Possui uma extensão de 100m na maré baixa.
B           Praia     51º48’02”S    Área próxima ao Bompreço, em frente à casa nº 3425. É muito frequentada por
            de        7º58’55” W    banhistas. Apresenta construções (residencias) no alto da praia. O ambiente praial
            Casa                    atinge 62 m de extensão da calçada à linha de praia na maré baixa.
            Caida
C           Praia     52º11’06”S    Fica em frente ao Bar do Vivaro, próximo à marina. É bastante freqüentada por
            de        7º58’15” W    banhistas. Apresenta cobertura de areia original que vai até as calçadas das casas.
            Rio                     Neste ponto a extensão é de 63 m do limite superior até a linha da água.
            Doce


         Tabela 1: Caracterização dos transectos de amostragem (A-Carmo, B-Casa Caiada e C-Rio
Doce), perfazendo uma área de 825 m2 de praia, nos meses de dezembro de 2007, janeiro e
fevereiro de 2008.

        4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
        Foram identificados um total de 6.191 itens de resíduos sólidos nas três áreas, durante todo
o período amostral. Os itens foram distribuídos nas seguintes categorias: Pl (plástico); V (vidro);
Me (metal); Pa (papel); Ma (madeira) e A (alimentos). (Tabela 2).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             34

               A categoria que se destacou foi a dos plásticos com um total de 2.722 itens, o que
representa 44,0% do total amostrado. Silva (2006) encontraou este mesmo padrão de prevalência
dos plásticos, para a praia de Boa Viagem, na qual esta categoria representou 40,2% do total da
amostra.
         Em segundo lugar destacou-se a categoria ‘alimentos’ com o total de 1.415 itens (22,9%).
Vale salientar que os itens plásticos mais representativos dentro da amostra total foram copos,
canudos e saquinhos (Tabela 2).
         Os vidros foram os menos representativos dentre todas as categorias, num total de 66 itens
(1,1%), isto se deve ao fato de os principais itens desta categoria serem garrafas e fragmentos
destas. As bebidas consumidas na praia, que são principalmente cerveja e refrigerante, são servidas
em embalagens de vidro retornáveis, não sendo, portanto, descartadas na praia. As garrafas
coletadas neste estudo foram de bebidas quentes (rum, whisky, campari, etc.), cujas embalagens não
são retornáveis.
         Dentre os papéis, que representaram 17,0% da amostra total, os guardanapos tiveram uma
predominância massiva. Dos 1.052 itens de papel encontrados, 840 foram guardanapos. Isto reforça
a idéia de que o lixo existente nas praias de Olinda é proveniente de seus usuários e que a
alimentação é uma das principais atividades desenvolvidas por estes.



                                    Total de itens por categoria.

                             3000
                             2500
            Total de itens




                             2000
                             1500
                             1000
                              500
                                0
                                     Pl      V     Me      Pa       Ma     A
                                          Categorias de resíduos sólidos


        Figura 2: Representatividade em valores absolutos das categorias de resíduos sólidos
coletados nas três praias estudadas em relação ao número total de itens. Pl (plástico); V (vidro);
Me (metal); Pa (plástico); Ma (madeira) e A (alimentos).
                Os metais, com 509 itens (8,2%) ficaram em 4° lugar. O número de tampas de
garrafa foi alto dentro desta categoria (392 ou 77,0%), embora a quantidade de garrafas tenha sido
de apenas 19. Como discutido antes, as garrafas de bebidas utilizadas na praia são retornáveis. Suas
tampas, no entanto, são descartadas na areia. Com relação às latas, é importante salientar que dentre
as 91 coletadas durante o período amostral, encontravam-se não somente as de alumínio, mas
também as de ferro e aço. Não se pode deixar de mencionar que a catação de latas de alumínio
como fonte alternativa de obtenção de renda é uma atividade bastante difundida entre a população
mais carente. Isto faz com que dificilmente este item seja largamente encontrado nas praias.
                Os itens agrupados na categoria madeira representaram 6,9% da amostra total, com
destaque para os palitos de churrasco (188 ou 44,0% do total da categoria). Os palitos de fósforo
estão associados à presença de fumantes. Foram coletadas 972 pontas de cigarro, que, contudo, não
constituem uma categoria por se tratar de um único item.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             35


                          1000        Quantidade de itens por m ês de coleta.
                          800
         Total de itens
                          600
                          400
                          200
                            0
                                 Pl    V         Me           Pa         Ma   A
                                      Categorias de resíduos sólidos
                                                Dez     Jan     Fev

         Figura 3: Variação quantitativa mensal dos resíduos sólidos nos três transectos. Pl
(plástico); V (vidro); Me (metal); Pa (plástico); Ma (madeira) e A (alimentos).

          Segundo Irapuã Muniz, Chefe do Departamento de Operações e Fiscalização da Limpeza
Urbana do município de Olinda (Comunicação pessoal), a limpeza da faixa de areia das praias é
realizada por um efetivo de 36 homens, divididos em duas equipes, distribuídos por cerca de 6 km
de praia. O trabalho é realizado todos os dias, das 6:30 às 23:30, com troca de turno às 15:30. A
limpeza é feita através de ciscação, seguida pelo ensacamento do lixo e sua disposição na calçada,
para posterior recolhimento por veículo coletor convencional. Este faz 3 coletas ao dia, por volta
das 11:00, 14:00-15:00 e à noite. Nos finais de semana são distribuídos, das 9:00 às 12:00, sacos
plásticos aos usuários e comerciantes Ele acrescenta que a deficiência de infra-estrurura sanitária e
de fiscalização da orla, além do compromisso de ambos, comerciantes e população em geral, em
manter o ambiente limpo, torna difícil o trabalho.
          Durante o período amostral foi possível observar que na praia de Casa Caiada existem mais
lixeiras, distribuídas em intervalos menores do que nas demais praias. Algumas estavam depredadas
ou restavam apenas os suportes.
          Os resultados demonstram que no período amostral, janeiro apresentou a maior produção
de resíduos, o que era esperado, por este ser um o mês das férias escolares do verão, o que aumenta
a freqüência da população na praia (figura 9). As variações nas quantidades de resíduos descritas na
(Tabela 1), sofreram influência das flutuações na quantidade de freqüentadores em cada dia de
coleta. Das três áreas de coleta, a B, que corresponde à praia de Casa Caiada, destacou-se em
número de itens em todos os meses de amostragem. Isto pode estar relacionado a uma maior
presença de usuários neste local, atraídos por uma infra-estrutura mais diversificada (banheiros
públicos, quiosques padronizados, segurança etc.).
          Fazendo uma comparação da quantidade de resíduos de cada trecho ao longo dos meses de
amostragem, é possível constatar que houve um padrão de variação no qual o número de itens
aumentou em janeiro e diminuiu em fevereiro, ficando este último, no entanto acima dos níveis do
mês de dezembro. Esta tendência foi observada tanto com relação ao número total de itens por
trecho por mês, quanto em cada categoria por área por mês, com exceção dos metais, cuja
quantidade foi mais expressiva no último mês de coleta (fevereiro).
          Com relação às marés, a mais alta e a mais baixa do período de coleta de dados foram 2.2 e
0.3 metros de amplitude respectivamente. A medição da extensão dos transectos foi feita em marés
com 1.9 e 0.4 m (www.dhn.mar.mil.br). Os dados estão agrupados na Tabela 3. Houve uma
diferença de extensão de faixa de areia exposta entre a maré baixa e a alta, nos trechos A, B e C, de
49, 25 e 27 m. Isto significa uma redução de aproximadamente 50% da área dos transectos na maré
alta.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             36


                                  Quantidade total de ite ns por áre a/m ês
                           1200
                           1000
          Total de itens

                           800
                           600
                           400
                           200
                             0
                                     DEZ                      JAN                  FEV
                                              Mes e s de cole ta

                                                    A    B      C

        Figura 4: Variação quantitativa em números absolutos dos resíduos sólidos por áreas nos
meses de amostragem nos transectos A, B e C.

         A densidade dos resíduos, ou seja, a relação entre o número de itens por área em m² obteve
valores mais elevados na maré alta em todos os trechos estudados. A área amostral total, resultante
da soma das áreas dos três transectos, foi de 1.125 m² na maré baixa, com densidade de 5,5
itens/m², e 620 m² na maré alta, com densidade de 10 itens/m². O transecto B apresentou as maiores
densidades de resíduos, em ambas as marés, corroborando as tendências já discutidas em relação a
esta área. Quanto maior a densidade de resíduos sólidos num ambiente praial, maiores serão os
impactos ambientais e prejuízos sociais decorrentes de sua presença.

                                   A                    B                  C
                                   Maré      Maré       Maré        Maré   Maré          Maré
                                   baixa     alta       baixa       alta   baixa         alta
      Extensão
      do transecto                 100       51         62          37     63            36
      (m)
      Área do
      Transecto                    500       255        310         185    315           180
      (m²)
      Densidade
      dos resíduos                 3,7       7,3        7,6         12,8   6,0           10,6
      (nº de itens/m²)

        Tabela 2: Variações na extensão dos transectos A, B e C, em relação à alternância das
marés baixa e alta em metros; área correspondente em m² e densidade de resíduos em itens/m².

          5- CONCLUSÕES
          A grande quantidade de resíduos sólidos, principalmente plásticos, oferece riscos aos
usuários, além de prejudicar a condição estético-paisagística da praia, comprometendo o turismo e a
economia do município.
          Diante deste quadro, constata-se a necessidade de se implementar programas e políticas
públicas por parte da Prefeitura Municipal de Olinda direcionadas para a conscientização da
população local e também dos turistas quanto à limpeza, manutenção e preservação das praias de
Olinda, visando estabelecer princípios, normas, diretrizes e instrumentos, no sentido de incentivar a
comunidade, os empresários, entre outros, a cuidar melhor das praias dessa região, tendo em vista
que o gerenciamento dos resíduos sólidos é de extrema relevância para mitigar os impactos
decorrentes das atividades humanas no ambiente praial, bem como para preservar o ecossistema
costeiro, como parte da busca por um desenvolvimento social justo e ambientalmente sustentável.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         37

         Os resíduos sólidos nas praias de Olinda demonstrou que os mesmos são provenientes de
fontes terrestres, sendo os principais geradores os próprios usuários.

         6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
         BELTRÃO, A. de L.; MAIA, J.T.A.; OLIVEIRA, M.L. de. et al. Diagnostico ambiental do
município de Olinda: uma contribuição ao Plano Diretor. Recife: Agência Estadual de Meio
Ambiente e Recursos Hídricos – CPRH, 1995. 160 p.
         BIRD, E.C.F. 1996. Beach management. New York: John Wiley & Sons, 281p.
         BRAGA, B; HESPANHOL, I.; CONEJO, J.G.; BARROS, M.T.; SPENCER, M.; PORTO,
M.; NUCCI, N.;JULIANO, N.; EIGER, S. Introdução à Engenharia Ambiental . São Paulo: Prenice
Hall, 2002. 305p.
         IBGE. Sinopse preliminar do censo demográfico 2000 – Brasil. 2001. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br - Acesso em: 13/05/2008.
         LEAL, M.M.V. Percepção dos usuários quanto à erosão costeira na praia da Boa Viagem,
Recife (PE), Brasil. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Pernambuco, 99 p., 2006.
         NEVES, J. M.; SÁ, L.A.C.M. de. Utilização de um Sistema de Geoinformação para o
Cadastro de Terrenos Foreiros – Olinda/PE, in: Congresso Brasileiro de Cadastro Técnico
Multifinalitário · UFSC Florianópolis · 6 a 10 de Outubro 2002.
         SILVA, J.S. Diagnóstico dos resíduos sólidos das praias da Boa Viagem e do Pina, Recife-
PE, Brasil. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Pernambuco, 99 p., 2006.
         Tábua de marés. Disponível em: http://www.dhn.mar.mil.br. Acesso em 10/11/2008.
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  ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES
   DO BAIRRO MAURO ANTÔNIO BENTO EM JATAÍ – GOIÁS,
                      BRASIL

                                                                         Kenia Alves Pereira LACERDA
                                                                               Carlos Cézar DA SILVA
                                                                                    Ceila de Brito DIAS
                                                                             Vanêssa Batista GOUVEIA

         RESUMO
         Buscar a percepção ambiental através da investigação sistemática é essencial na
compreensão das práticas da sociedade, seus saberes, sua cultura e de como estes conhecimentos ou
práticas afetam o meio ambiente. Estes conhecimentos são, sem dúvida, importantes ferramentas
para o correto direcionamento de uma educação ambiental transformadora e dialógica. O estudo de
percepção ambiental é uma dos meios utilizados pela etnociência para obter conhecimentos das
comunidades tradicionais e apontar caminhos para a práxis da Educação ambiental, principalmente
em espaços não escolarizados. O presente trabalho teve como principal objetivo mensurar a
percepção ambiental dos moradores de um bairro da cidade de Jataí - Goiás, diante da instalação de
aquecedores solares em suas residências, adquiridos através de programa governamental. A
pesquisa foi realizada com intuito de saber como os moradores percebiam ou não a importância dos
aquecedores em prol do meio ambiente. Notou-se, por meio desta pesquisa, que a percepção
ambiental dos moradores entrevistados é muito pequena, quase inexistente, principalmente por parte
das populações de baixa renda e com reduzida formação escolar. Não há, por parte da comunidade
pesquisada, conhecimento de práticas e ações para preservar o meio ambiente, talvez nem saibam
como e por onde começar. A população não tem consciência que muito das atitudes estão
colaborando para a degradação da natureza e do meio ambiente. O que não deixa de ser
responsabilidade dos Governos Municipal, Estadual e Federal, que deveriam, no mínimo,
conscientizar a população sobre a importância de se preservar o meio ambiente de uma maneira
geral e utilizar corretamente os equipamentos distribuídos pelo programa, numa visão mais pontual.
         PALAVRAS-CHAVES: Percepção ambiental, educação ambiental, aquecedor solar.

         ABSTRACT
         Search the environmental perception through systematic research is essential in
understanding the practices of society, their knowledge, their culture and how this knowledge or
practices affect the environment. These skills are undoubtedly important tools in the correct
direction of an environmental education and transformative dialogue. The study of environmental
perception is one of the means used by the ethno-science to gain knowledge of traditional
communities and point the way to the practice of environmental education, especially in non-
educated. This study aimed to measure the environmental perception of the residents of a
neighborhood in the city of Goiás - Goiás, before the installation of solar heaters in their homes
acquired through government program. The research was performed to find out how residents
perceive the importance or not of the heaters in favor of the environment. It was noted through this
research, the environmental perception of the residents interviewed is very small, almost
nonexistent, especially from low-income and low education. There is, by the community surveyed,
knowledge of practices and actions to preserve the environment, perhaps do not know how and
where to start. The population is unaware that much of the attitudes are contributing to the
degradation of nature and the environment. What it remains the responsibility of municipal
governments, state and federal, that should at least raise awareness about the importance of
preserving the environment in general, and correctly use the equipment distributed by the program
in a more timely.
         KEYWORDS: Environmental perception, environmental education, solar heater.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           39


         INTRODUÇÃO
         Em um cenário de crise ambiental e constantes catástrofes naturais, é preciso que haja uma
mudança na cultura e concepção dos valores de cada cidadão, objetivando uma maior relativa à
responsabilidade individual para com o meio ambiente. Torna-se cada vez mais necessário a real
implantação de uma Educação Ambiental, por meio dos órgãos públicos, pois “a maior contribuição
social tem vindo através dos movimentos da própria sociedade civil, das entidades não-
governamentais, dos veículos de comunicação, dos movimentos políticos e culturais (Carta
Brasileira para Educação Ambiental - MEC. Rio-92)”.
         Nesta linha de pensamento, TOZONI-REIS (2004) manifesta:
         Assim, se a educação é mediadora na atividade humana, articulando teoria e prática, a
educação ambiental é mediadora da apropriação, pelos sujeitos, das qualidades e capacidades
necessárias para a ação transformadora responsável diante do ambiente em que vivem.
         A percepção ambiental oriunda de diferentes grupos de indivíduos de uma sociedade é
relevante para o correto posicionamento das políticas públicas de Educação Ambiental. A
efetivação de sua práxis, partindo das necessidades emanadas sobre o meio ambiente em que estão
inseridos, em uma relação próxima, muitas vezes com valores ambientais muito significativos, o
que pode ser evidenciado nas indicações de Tuan (1980).
         Buscar a percepção ambiental através da investigação sistemática, é essencial na
compreensão das práticas da sociedade, seus saberes e sua cultura. Estes conhecimentos são, sem
dúvida, importantes ferramentas para o correto direcionamento de uma educação ambiental
transformadora e dialógica. Contudo, o estudo de percepção ambiental é uma das ferramentas
utilizadas pela etnociência para obter conhecimentos das comunidades tradicionais e apontar
caminhos para a práxis da Educação ambiental, principalmente em espaços não escolarizados,
Figueiredo (2009).
         A Educação Ambiental está longe de ser uma atividade tranquilamente aceita e
desenvolvida, porque implica em mudanças profundas e nada inócuas (Brasil, 1997). Atualmente já
são notadas ações governamentais que demonstram uma preocupação ambiental como, por
exemplo, a instalação de aquecedores solares gratuitos em conjuntos habitacionais para população
de baixa renda.
         O aproveitamento da energia solar para aquecimento de água é crescente, principalmente
devido à preocupação com os impactos ambientais provocados pelas formas de energia mais
utilizadas atualmente. Segundo Leite (2005), as construções de hidrelétricas interferem
drasticamente no meio ambiente, alterando o clima devido ao aumento da temperatura, alterando a
flora com a perda da biodiversidade, a paisagem natural, e fauna, pois vários animais morrem na
inundação e poucos são reintegrados a natureza. Tudo isso interfere na ocupação terrestre e na base
econômica da região.
         Conforme Global Energy Telecom (GET), 18% da capacidade de geração de eletricidade
instalada no Brasil é acionada nos momentos de pico pelo conjunto de chuveiros elétricos
residenciais. O uso de aquecedores solares reduz significativamente os consumos de energia elétrica
para usuários de água quente sendo uma forma de desenvolvimento sustentável e racional, levando
em consideração o impacto ambiental conseqüente da geração de energia elétrica além da
quantidade de empregos diretos gerados pelas empresas de pequeno e médio porte no mercado de
coletores solares.
         De acordo com relatório anual de responsabilidade socioambiental da Companhia
Energética de Goiás (CELG, 2008), houve uma redução de demanda de 647 kilowattes por hora e
economia anual de energia elétrica de 3.343 megawatts por hora devido à instalação dos
aquecedores solares nos municípios de Jataí, Goiatuba, Catalão, Itapirapuã, Luziânia, Novo Gama,
Formosa e Planaltina no Estado de Goiás.
                  O aquecedor de água por meio de energia solar consiste basicamente em dois
elementos: Coletor de energia solar e depósito acumulador de água quente. Os coletores são
projetados com materiais que possuem uma alta condutividade térmica para reduzir a resistência ao
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             40

fluxo por condução, assim a placa irá absorver a energia dos raios solares, transformando em calor
que transportado para a água irá aquecê-la. A água quente ficará armazenada no deposito
acumulador de água.
          Resultados de trabalhos de pesquisa (MATAJS, 1997) que incluíram medições e
          levantamentos de dados por questionários, que a Universidade de São Paulo (USP)
realizou em conjunto com a ELETROPAULO, no setor residencial, demonstraram que os chuveiros
elétricos provocam aumento de potência média instalada de 121%, ou seja, a potência do chuveiro
ultrapassa a soma de todos os outros eletrodomésticos juntos. Demonstra, ainda, que a inclusão do
chuveiro elétrico eleva a demanda máxima média em 365%, ou seja, no momento em que é
utilizado o chuveiro elétrico, a demanda sobe para mais de 4,5 vezes o consumo médio. A
substituição do chuveiro elétrico pelo aquecedor solar traduz-se em economia, em médio prazo,
principalmente para o usuário final, pois exige baixíssima manutenção e possui vida útil, em média,
superior a quinze anos, proporciona economia na conta de energia elétrica e recupera o
investimento num período de três a cinco anos.
          No ano de 2007, moradores do bairro Mauro Antônio Bento, no município de jataí – Goiás,
receberam como doação aquecedores solares para serem implantados em suas casas, que também
foram adquiridas em programas governamentais de habitação em anos anteriores.
          Muitos empreendimentos nos municípios são geridos diretamente por pessoas que não
possuem recursos técnicos adequados para tratar das questões ambientais. No entendimento de
Farias (2002), seja por falta de tempo, conhecimento ou recursos financeiros, a gestão dos impactos
ambientais é relevada em segundo plano.
          O objetivo central deste trabalho foi verificar a percepção ambiental dos moradores do
conjunto habitacional Mauro Bento na cidade de Jataí e o impacto ambiental provocado pelo uso de
aquecedores solares em suas residências.

         Metodologia
         O trabalho foi proposto e desenvolvido durante o segundo semestre de 2009 durante na
disciplina de Biologia Ambiental e Ecologia Humana, sendo coordenado pela professora e
pesquisadora dessa área no curso de Licenciatura em Física do Instituto Federal de Goiás – Campus
Jataí.
         A pesquisa foi realizada no Conjunto Habitacional Mauro Antônio Bento em Jataí, Goiás,
onde foram escolhidas aleatoriamente 100 residências como universo amostral. Foi aplicado um
questionário com 18 questões por residência, visando avaliar a percepção ambiental.
         A pesquisa, feita através de questionário, foi baseada nos seguintes parâmetros: idade, sexo
e moradores por residência.

        Análise dos Resultados
        O perfil etário dos moradores é heterogêneo, com predominância de casais jovens, 40%
têm entre vinte e trinta anos, enquanto 26% têm entre trinta e quarenta anos. Os demais 34% dos
moradores têm até vinte ou mais de quarenta e um anos. No total são 66% de publico feminino e
34% masculino. 52% das casas são habilitadas por até três pessoas, enquanto 46% tem entre 4 e 6
moradores, 2% das residências abrigam acima de 7 pessoas.
               Quando questionados sobre os benefícios do aquecedor solar, a grande maioria dos
moradores (86%) acredita apenas na redução do custo da energia elétrica. Apenas 4% vêem alguma
importância para o aquecedor além da redução de custo com energia elétrica e os demais não
responderam, não usam ou não verificaram qualquer diferença após a implantação do aquecedor
solar. Mesmo após a instalação do aquecedor solar boa parte dos moradores ainda utilizam o
chuveiro elétrico, 35% quando está muito frio, 15% quando está chovendo muito, 13% por outros
motivos e apenas 37% não usam mais o chuveiro elétrico.
               Quando questionados se o aquecedor solar ajuda a preservar o meio ambiente, 22%
dos moradores conseguiram responder com exatidão e demonstraram ter conhecimento sobre o
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            41

assunto. Os outros 78% não souberam responder, e ainda não perceberam a correlação existente
entre aquecedores e meio ambiente.
               Ao perguntarmos para os moradores quem eram responsáveis pela manutenção e a
qual era o tempo de garantia do equipamento, a maioria não souberam e não tiveram interesse em
obter informações, embora no aquecedor seja informado o endereço eletrônico da empresa, bem
como a forma de atendimento ao usuário.
               Os moradores quando entrevistados se haveria algum problema ambiental no bairro,
poucos citaram o lixo eminente nas ruas, inclusive relatando que não apresenta nenhum problema
ambiental. Um aspecto interessante é que diversos problemas, mesmo que amplamente divulgados
pela mídia, não foram citados, entre eles: o problema ocasionado pela incidência de chuvas, a falta
de esgoto, a degradação das nascentes, abuso no uso de agrotóxico, caça e pesca indiscriminada. A
complexidade destes temas aliados à ausência de informações pode inibir este público para debates.
Alguns moradores citaram como problema ambiental uma área de preservação permanente, que
circunda parte do bairro, onde há muito lixo, transferindo a responsabilidade aos órgãos públicos do
meio ambiente, omitindo o papel do cidadão. Segundo Morin (2006) “um cidadão é definido, em
uma democracia, por sua solidariedade e responsabilidade em relação à sua pátria”.
               Alguns problemas ambientais locais como a deficiência na arborização urbana
também não foram percebidos pelo grupo pesquisado.
               A orientação realizada pelos responsáveis pela instalação do aquecedor solar foi a
recomendação de como utilizar o mesmo, não havendo uma preocupação em orientá-los a respeito
do princípio de funcionamento e como o aquecedor contribui para preservação do meio ambiente.
Em relação ao desempenho do chuveiro, poucos entrevistados alegaram que o mesmo não estava
funcionando de forma adequada, citando que ele não aquece suficientemente durante o inverno.

         Conclusão
         Não há duvida de que o uso de aquecedor solar ajuda a preservar o meio ambiente, pena
que nem todos têm acesso ao mesmo, devido ao custo alto de compra. Mas alguns tendo acesso ao
aquecedor solar por meio de projetos do governo, não vêem nenhuma vantagem em ter este, a não
ser a economia no custo de energia elétrica no final do mês.
               Os entrevistados quando utilizam o aquecedor solar não se preocupam com a
preservação do meio ambiente, isso ocorre porque não há um esclarecimento sobre esses aspectos.
Na maioria das vezes há uma evidência apenas na redução no valor da quantia da conta de energia,
assim a realização desta pesquisa se apresenta como uma alternativa para alertar indústria e os
usuários no que diz respeito à forma de divulgação dos benefícios oriundos do uso do aquecedor
solar e de que forma o mesmo colabora para a preservação do meio ambiente.
         A percepção ambiental ainda é muito pequena, quase inexistente principalmente por parte
das populações de baixa renda e com reduzida formação escolar. Não há um interesse por parte dos
moradores em preservar o meio ambiente, talvez nem saibam como e por onde começar. A
população não tem consciência que muito dos nossos atos está ajudando na degradação da natureza
e do meio ambiente. O que não deixa de ser responsabilidade dos Governos Municipais, Estadual e
Federal.

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   ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS
ASSOCIADOS AO ECOSSISTEMA MANGUEZAL DO RIO COCÓ,
                  FORTALEZA/CE

                                                                                         Davi Aragão ROCHA
                             Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFC
                                                                                  daviaragaorocha@gmail.com
                                                                       Antonio Jeovah de Andrade MEIRELES
                                                                     Prof. Dr. Departamento de Geografia UFC
               Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFC. Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e
                                                                            Meio Ambiente – PRODEMA/UFC
                                                                                        jeovahmeireles@ufc.br

          RESUMO
          Este estudo descreve as funções socioambientais dos ecossistemas manguezais,
aprofundando-se na importância do ecossistema manguezal do Rio Cocó, em Fortaleza/CE. Estuda-
se, a partir de publicações acadêmicas e documentos governamentais, os impactos que esse
ecossistema vem sofrendo e os consequentes efeitos para a sua biodiversidade e para a população
fortalezense. Observou-se que manguezais são ecossistemas costeiros encontrados principalmente
nas regiões tropicais, sendo ricas fontes de produção de material orgânico, muito atrativo a diversas
espécies de animais e propícios a várias espécies de plantas, além de microorganismos. Os
ecossistemas manguezais se prestam a vários serviços sócio-ambientais. Insere-se nesse contexto o
ecossistema manguezal do Rio Cocó, que sofre com diversos problemas, como os impactos gerados
pela especulação imobiliária e ocupação irregular. Para potencializar as funções e serviços
ambientais, faz-se necessário a delimitação e demarcação das áreas de preservação permanente;
retiradas das construções irregulares em áreas de preservação permanente e a recuperação da
vegetação; amplo processo de saneamento básico e ações de implantação de políticas públicas para
ampliar a biodiversidade, principalmente com a conservação dos demais sistemas ambientais
associados ao manguezal. Conclui-se que o ecossistema manguezal do Rio Cocó, por todas a
funções socioambientais que presta, é essencial para o ecossistema urbano da cidade de Fortaleza.
Assim, é de extrema importância a realização de estudos ambientais para a fundamentação das
políticas públicas que envolvam esse ecossistema.
          PALAVRAS-CHAVE: Ecossistema, Manguezal, Rio Cocó, Impactos Ambientais

          ABSTRACT
          This study describes the social and environmental functions of mangrove ecosystems,
deepening the importance of mangrove ecosystem of Rio Coco in Fortaleza. It studies, using
academic publications and government documents, the impacts that this ecosystem is suffering and
the consequent effects on its biodiversity and on the population of Fortaleza. It was observed that
mangroves are coastal ecosystems found mainly in tropical regions, and that they are rich sources of
production of organic material, which is very attractive to several species of animals and prone to
various kinds of plants, and microorganisms. Mangrove ecosystems lend various social and
environmental services. In this context, the mangrove ecosystem of Rio Coco suffers several
problems, such as the impacts created by land speculation and illegal occupation. To enhance the
functions and environmental services, it is necessary the delimitation and demarcation of areas of
permanent preservation; the removal of buildings installeds in areas of permanent preservation;
restoration of vegetation; extensive process of sanitation and public actions to enlarge biodiversity,
especially with the conservation of other environmental systems associated with the mangrove. We
conclude that the mangrove ecosystem of Rio Coco, by all the social and environmental functions it
provides, is essential to the urban ecosystem of Fortaleza. The environmental studies are of extreme
importance for the public policy involving this ecosystem.
          KEYWORDS: Ecosystem, Mangrove, Rio Coco, Environmental Impacts
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         1. INTRODUÇÃO
         O Rio Cocó é o principal rio da cidade de Fortaleza, possuindo 45 km de extensão, dos
quais 24 km correm dentro desse município. Dessa forma, ele é historicamente, culturalmente,
economicamente e socialmente importante para a capital cearense. O ecossistema manguezal em
que o rio se insere realiza diversa funções essenciais ao ecossistema urbano da cidade.
         Nos últimos anos, os impactos que a expansão urbana causa nesse ecossistema são cada
vez mais perceptíveis, chamando a atenção da população e da mídia para o problema, exigindo
ações do poder público para a recuperação da área.
         Este estudo objetiva, assim, realizar uma descrição das funções socioambientais dos
ecossistemas manguezais, demonstrando-se a importância histórica, cultural, econômica e
ambiental. Aprofunda-se na importância do ecossistema manguezal do Rio Cocó. Partindo-se então
para o estudo dos impactos que esse ecossistema vem sofrendo e os consequentes efeitos para a sua
biodiversidade e para a população fortalezense. Utilizou-se, para o estudo, publicações de autores e
órgãos governamentais, pesquisas acadêmicas e documentos do governo e do ministério público.
         Essa pesquisa é importante por demonstrar a essencial necessidade de estudos ambientais
para a fundamentação das políticas públicas para a recuperação e ampliação dos ecossistemas
urbanos, em especial o Rio Cocó. Serve ainda de fonte para outros estudos que tratem da temática
ambiental, incluindo-se aí pesquisas dos campos do Direito, Arquitetura, Urbanismo, Ecologia,
Biologia e Geografia, dentre outros.

         2. ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS
         O que é ecossistema? Eco origina-se do termo grego oîkos e , como se observa pelo,
significa “casa, domicílio, habitat” (ODUM & BARRETT, 2007). Sistema, por sua vez, também
vem do grego, do termo systema (grupo, reunião), significando disposição das partes ou dos
elementos de um todo, coordenados entre si, e que funcionam como estrutura organizada.
         Sobre ecossistema, Fritjof Capra escreve o seguinte:
           Quanto mais estudamos o mundo vivo, mais nos apercebemos de que a tendência para a associação, para o
estabelecimento de vínculos, para viver uns dentro de outros e cooperar, é uma característica essencial dos organismos
vivos. Lewis Thomas observou: “Não temos seres solitários. Cada criatura está, de alguma forma, ligada ao resto e dele
depende”. As maiores redes de organismos formam ecossistemas, em conjunto com vários componentes inanimados
ligados aos animais, plantas e microorganismos, através de uma intrincada rede de relações que envolvem a troca de
matéria e energia em ciclos contínuos. Tal como os organismos individuais, os ecossistemas são sistemas auto-
organizadores e auto-reguladores nos quais determinadas populações de organismos sofrem flutuações periódicas. Em
virtude da natureza não-linear dos percursos e interligações dentro de um ecossistema, qualquer perturbação séria não
estará limitada a um único efeito, mas poderá propagar-se a todo o sistema e até ser ampliada por seus mecanismos
internos de realimentação.
           Num ecossistema equilibrado, animais e plantas convivem numa combinação de competição e mútua
dependência. Cada espécie te potencial suficiente para realizar um crescimento exponencial de sua população, mas
essas tendências são refreadas por vários controles e interações. (grifou-se) (CAPRA, 2005)

          Pode-se, portanto, entender ecossistema como uma rede de convivência dos seres
habitantes de determinado meio ambiente – fauna, flora e microrganismos –, relacionando-se com
os outros elementos deste e entre si, tendendo a um equilíbrio dinâmico e evoluindo ao longo do
tempo.
          A vegetação do mangue – a floresta – produz grande quantidade de matéria orgânica, que é
decomposta pela microfauna existente na água e no solo (CEARÁ, 1992). O fluxo da água – que
gera uma troca de elementos entre o mar e o rio (BRASIL, 2004) – encarrega-se de levar essa
matéria orgânica para o mar, tendo nisso a colaboração dos peixes, ajudando no desenvolvimento
dos organismos aquáticos da costa; e “do mar traz consigo nutrientes de um tipo diferente daqueles
[...] de forma que as contribuições se complementam” (VANNUCCI, 1999). Essa matéria orgânica
também serve de alimento a outros seres, como alguns crustáceos e peixes.
           Essa interação entre água doce e água marinha mostra-se muito importante, por exemplo,
em relação aos corais, que dependem dos manguezais, pois estes funcionam como controladores da
qualidade da água costeira. Em contrapartida, os corais protegem os manguezais das ondas de forte
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                  45

energia, dissipando-as e criando águas de baixa força e baixa energia, o que é muito relevante para
o equilíbrio do manguezal.
          Uma das características do mangue é a grande quantidade de peixes, crustáceos e
moluscos. A quantidade de peixes nos manguezais chega a ser muito maior do que nos habitat das
zonas costeiras adjacentes. Segundo relatos, o número de peixes nos manguezais da Flórida, nos
EUA, por exemplo, chega a ser 35 vezes maior do que na sua costa (RÖNNBÄCK, 1999).
          Saliente-se que, apesar de mais evidentes, os crustáceos e os peixes não são os únicos
habitantes do manguezal; encontrando-se ainda várias espécies de mamíferos, aves, insetos e
répteis, além de fungos e parasitas (VANNUCCI, 1999), que também mantêm uma rede de relações
nesse ecossistema.
          Compreende-se que há uma grande complexidade de relações e de trocas nos ecossistemas
manguezais. Complexidade que favorece o desenvolvimento de diversas espécies de animais.
          Os manguezais servem de zona de desova e de alimento de inumeráveis espécies de peixes,
chegando a 80% dos recursos pesqueiros dependerem, direta ou indiretamente, deles; tendo,
juntamente com arrecifes de coral e plantas herbáceas marinhas, função decisiva de armazenar e
reciclar os elementos nutritivos, regulando o equilíbrio aquático e protegendo as terras da erosão
(JUMA, 1997).
          Oferecem os manguezais uma abundância de alimentos bem maior do que nos
ecossistemas costeiros próximos, contendo, como já dito, grande quantidade de matéria orgânica,
tornando-se assim atrativo a larvas e peixes jovens. Estes têm, muitas vezes, como principal dieta
filhotes de caranguejos, abundantes nesse ecossistema. Assim, peixes jovens e camarões encontram
ali bons refúgios para proteção.
          Além da importância para a vida animal marinha e para a qualidade da água, muitos outros
serviços ambientais são prestados pelos manguezais. Como explicitam Barbier e Cox (2004), “as
florestas de mangue são uma das características primárias dos ecossistemas costeiros”, sendo, na
verdade, um dos mais produtivos ecossistemas costeiros das regiões tropicais e subtropicais do
mundo, produzindo, uma vez mais, bastante material orgânico.
          Alguns dos maiores serviços ecológicos promovidos pelos ecossistemas manguezais, de
acordo com UICN (2003) – The World Conservation Union –, que os classifica como categoria
especial de terra molhada, são o controle de enchentes e de poluição, a reciclagem da água do solo e
a estabilização da linha costeira e bancos de rios (TUPINAMBÁ, 2004).
          O Relatório GT-Carcinicultura de 2005 da Câmara Federal diz que o manguezal, sendo um
ecossistema dos mais complexos do Planeta, favorece a segurança alimentar advinda das atividades
de subsistência, pois atua como suporte para a pesca e a mariscagem. Serve ainda à preservação das
aves, por estar vinculado a rotas de migrações de várias espécies, e à geração e produção de vida
animal, principalmente marinha, sendo um verdadeiro “berçário da vida”.
          Estão elencadas, no Quadro 1, uma série de serviços ambientais e ecológicos, citados por
diversos autores, que são prestados pelos ecossistemas manguezais.

 Quadro 1 – Serviços ambientais e ecológicos*
 ► Fonte de produtos naturais diversos;
 ► Proteção contra enchentes, furacões e ondas fortes;
 ► Proteção e controle contra erosão pelo amortecimento da energia das marés através das raízes das
 plantas;
 ► Proteção e controle contra salinização de lençóis freáticos;
 ► Suporte biológico e físico a outros ecossistemas costeiros;
 ► Local de refúgio, desenvolvimento e alimentação de peixes – em especial marinhos – crustáceos e
 outros;
 ► Proteção e conservação de habitares de fauna de natureza rara;
 ► Armazenamento e reciclagem de matéria orgânica, nutrientes e poluentes;
 ► Exportação de matéria orgânica e de nutrientes, através da dinâmica das marés, para ecossistemas
 costeiros próximos, constituindo a base da cadeia trófica com espécies de importância econômica e/ou
 ecológica;
 ► Aumento do desenvolvimento da pesca em geral através do fornecimento de detritos;
 ► Manutenção, regulamento e diversificação da biodiversidade local;
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                     46

 ► Regulação biológica de processos e funções ecossistêmicas;
 ► Produção de oxigênio;
 ► Influência nos climas locais e no clima global;
 ► Habitat e suporte a atividades de subsistência de comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras,
 índios e agricultores);
 ► Valores espirituais, culturais, religiosos e hereditários;
 ► Inspiração artística;
 ► Fonte de informação educacional e científica;
 ► Turismo e recreação;
 ► Vinculação a rotas migratórias de aves
 *Fontes: BARBIER e COX, 2004; DESCH, 2004; IBAMA, 2005; Relatório GT-Carcinicultura da
 Câmara Federal, 2005; REIS ARAGÃO, 2004; RÖNNBÄCK, 1999; VANNUCCI, 1999; TUPINAMBÁ,
 1994.

          Apesar de todas essas importantes funções, os manguezais eram comumente considerados,
no passado, como “terras baldias” (IBAMA, 2005), chegando-se inclusive a afirmar que deveriam
ser transformados em terras “úteis e produtivas”.
          Dessa forma, os manguezais são atualmente um dos ecossistemas mais devastados, e estão
desaparecendo de forma rápida em vários países (BARBIER & COX, 2004), pois foram ao redor do
planeta gradativamente ocupados, urbanizados e, mais recentemente, degradados pela utilização
para a carcinicultura.
          Os números assustam. Muitos países da América Latina e da África perderam entre 30% e
70% nos últimos 40 anos. Na Ásia, a Índia perdeu 50% entre 1963 e 1977; as Filipinas perderam
70% entre os anos de 1920 e 1990 (BARBIER & COX, 2004). A indústria pesqueira chegou a
perdas anuais de 4,7 milhões de toneladas de peixes e 1,5 milhão de tonelada de camarão, em
virtude da degradação dos manguezais (IBAMA, 2005).
          Assim, faz-se necessário procurarem-se formas de parar as fontes causadoras da
degradação, ou de, pelo menos, atenuar seus efeitos, e de recuperar as áreas de manguezais
depredadas, sendo imprescindíveis a vontade política e a pressão da sociedade civil para que haja
políticas públicas voltadas para as questões sociais e ambientais inseridas nessa problemática.

         3. O MANGUEZAL DO RIO COCÓ NO CONTEXTO URBANO
         O estado do Ceará apresenta atualmente cerca de 182 km² de manguezais, que se estendem
ao longo dos seus aproximados 573 km de comprimento de zona costeira (CEARÁ, 2006). É nesse
estado, mais precisamente na cidade de Fortaleza, que se encontra o manguezal do Rio Cocó e onde
ele atinge o mar, na praia do Caça e Pesca.
         Formando uma zona estuarina, com terrenos sujeitos a inundação, a influência das marés
chega, atualmente, no rio Cocó, até 13 km da foz. “Nesta zona, os bosques de mangue que
conseguiram resistir ao desmatamento, ocupam uma área de cerca de 375 ha” (MIRANDA, 1988).
         Dos aproximados 45 km de curso do rio, 24 km percorrem o município de Fortaleza, onde
a poluição torna-se um grande prejuízo à saúde do Cocó. Aí se insere, como forte contribuinte desse
problema, a especulação imobiliária, que colabora com o aparecimento de esgotos a céu aberto, a
construção de comunidades sem saneamento básico e desmatamento e aterramento do manguezal.
         Como já dito, a zona estuarina no Rio Cocó vai, atualmente, até cerca de 13 km da foz,
sendo essa área a mais utilizada pela população de baixa renda (IBAMA, 2005). O bairro do
Lagamar, por exemplo, localiza-se nessa faixa, sofrendo com alagamentos no período de cheias.
Esses alagamentos ocorrem pelo aumento da permanência das águas sobre a superfície,
consequência da impermeabilização do solo, fruto das edificações, pavimentações de ruas e aterro
do manguezal.
         No documento “Proposta de Proteção, Conservação e Recuperação do Rio Cocó”
(CEARÁ, 2003) são apresentados os impactos ambientais identificados por estudo da
Superintendência Estadual do Meio Ambiente – SEMACE, afirmando que em toda a extensão do
rio “o homem tem provocado muitas alterações”, usando os recursos ambientais de forma
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irracional. Afirma ainda que, atravessando a Região Metropolitana de Fortaleza, a qualidade da
água do rio torna-se crítica em quase todo o trajeto, recebendo diversos tipos de poluentes.
          Esse estudo evidencia que os principais impactos ambientais associados ao Rio Cocó são:
          a) Disposição de resíduos sólidos (lixo doméstico), ressaltando-se a falta de infra-estrutura
dos locais vistoriados – lugares de moradias de baixa renda – e a tendência de agravamento do
problema, em virtude do crescimento da população na área;
          b) Ocupações irregulares por barracos, problema esse que está diretamente ligado ao
anterior, tendo não apenas questões ambientais envolvidas, mas essencialmente profundos
problemas sociais, que vão desde o desemprego à falta de moradia;
          c) Construções irregulares de alvenaria, que invadem as áreas de preservação permanente
do rio, incluindo-se aí prédios e residências;
          d) Lançamento de efluentes, incluindo-se desde efluentes de cemitérios e matadouros, a
efluentes de oficinas, lavagem de carros e troca de óleo.
          e) Desmatamento da vegetação de mangue para implantação de equipamentos provados
nas margens do estuário e afetando diretamente a biodiversidade do manguezal;
          f) Ocupação de áreas de preservação permanente do mangue e rio por avenidas, centros
comerciais e edifícios residenciais; reduzindo a área de influência do fluxo das marés e,
consequentemente, impedindo a ampliação da vegetação de mangue;
          g) Supressão de áreas úmidas de fundamental importância para as reações ecológicas
(habitat de anfíbios, aves de produtoras de nutrientes) e destinadas ao amortecimento das
inundações durante o período de cheias;
          h) Impermeabilização de extensos trechos do leito principal do estuário, com a extinção de
áreas de recarga do aquífero, planície de inundação e de riachos afluentes do rio Cocó.
          Sobre o problema do lançamento de efluentes no rio, relatório de estudo técnico do
Ministério Público Federal (2007) afirma:
            [...] a implantação de postos de combustíveis, oficinas mecânicas, indústrias e comércios em suas
adjacências, provocam forte pressão, inserindo diferentes tipos de tensores no meio [...], haja vista que “(...) foram
implementadas sem as devidas adequações ambientais, já que inibem ou interferem na livre passagem do fluxo de águas
e, (...), modificam as taxas de sedimentação, acelerando as precipitações (...)” desses sedimentos, pois houve alteração
da fonte primária de energia ou remoção da energia armazenada pelo sistema, bem como implicam no incentivo a
outros tipos de agressões, estimulando a deposição direta de lixo e de lançamento de esgotos in natura na área.

         Em trechos terraplenados, encontram-se extintos os sistemas ambientais destinados a
amortecer as enchentes (planície de inundação e de maré, lagoas e riachos), evidenciando-se ações
irregulares na implantação de intervenções que ocupam fundamentais setores do rio para o controle
das enchentes – promovendo impactos cumulativos. Posto isso, aumentarão os danos
socioambientais relacionados com as áreas de risco vinculadas à bacia hidrográfica do rio Cocó,
caso haja instalação e operação de novas edificações em áreas antes destinadas ao fluxo das marés e
regularização dos eventos de cheias.
         O conjunto de impactos promove desmatamento de vegetação de mangue,
impermeabilização do solo, supressão de unidades do ecossistema manguezal, extinção de setores
da planície de inundação, planície de maré e demais áreas úmidas vinculadas ao sistema estuarino,
representando intervenções em um sistema ambiental de fundamental importância para a cidade de
Fortaleza.
         Por tudo o que se mostrou, as funções e serviços ambientais do ecossistema em estudo
foram alteradas e modificadas, gerando consequências que interferiram na biodiversidade e na
qualidade de vida dos fortalezenses. A biodiversidade vem sendo paulatinamente ameaçada e
reduzida pela expansão da especulação imobiliária, com todos os seus impactos, que avança sobre a
floresta e o rio, desrespeitando a legislação vigente e quebrando importantes elos das cadeias
existentes no ecossistema, necessários à sua sobrevivência. O rio, aos poucos, morre, sendo poluído
pelos efluentes advindos de vários pontos da cidade por todo o trajeto que percorre. Os efeitos para
os fortalezenses são, por exemplo, problemas de saúde, perda de espaços de lazer e de memória
coletiva, mudanças no microclima, perda de potenciais fontes de renda e produção, além de
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             48

constantes – e cada vez maiores – enchentes, que provocam enormes transtornos à população e
grandes perdas financeiras ao poder público. Nisso tudo, importa salientar que quem mais sofre é a
população de menor renda, em especial a que vive irregularmente próxima ao rio, tendo perdas
incomensuráveis. Por isso, é urgente a realização de políticas públicas transformadoras dessa
realidade, através de obras de saneamento básico, de recuperação do ecossistema, de habitação e de
fiscalização, além da necessária demarcação das áreas legalmente protegidas.

         4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
         Manguezais são ecossistemas costeiros encontrados principalmente nas regiões tropicais,
sendo locais de encontro e interação de águas doces dos rios com águas salgadas do mar, formando
ambientes bastante característicos. Ressalte-se que apesar das características comuns, cada
manguezal é único, com suas próprias relações, interações e espécies de seres.
         Diversos estudos apontam os ecossistemas manguezais como ricas fontes de produção de
material orgânico, fruto das reações químicas e interações ambientais entre os seres vivos lá
presentes e o ambiente abiótico, tornando esses ecossistemas muito atrativos, pela grande
quantidade de nutrientes, a diversas espécies de animais e propícios a várias espécies de plantas,
além de microorganismos. Para diversas espécies de peixes e crustáceos, inclusive e especialmente
marinhos, esses ecossistemas possuem a função de berçário por servirem de refúgio contra
predadores e de local com fartura de alimento. Por isso, cerca de 70% da vida marinha depende dos
manguezais, incluindo-se nessa dependência os corais, dos quais, por sua vez, dependem os
ecossistemas em questão, existindo, como se percebe, uma interdependência.
         Além disso, os ecossistemas manguezais se prestam a vários serviços sócio-ambientais.
Pode-se destacar: proteção contra enchentes; proteção e controle contra erosão; proteção e controle
contra salinização de lençóis freáticos; suporte biológico e físico a outros ecossistemas costeiros;
local de desenvolvimento e de peixes – em especial marinhos – crustáceos e outros; proteção e
conservação de habitares de fauna de natureza rara; vinculação a rotas migratórias de aves;
armazenamento e reciclagem de matéria orgânica, nutrientes e poluentes; exportação de matéria
orgânica e de nutrientes, através da dinâmica das marés, para ecossistemas costeiros próximos,
constituindo a base da cadeia trófica com espécies de importância econômica e/ou ecológica;
produção de oxigênio; influência nos climas locais e no clima global; habitat e suporte a atividades
de subsistência de comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras, índios e agricultores); fonte
de informação educacional e científica; turismo e recreação.
         Fortaleza vem sofrendo desde a década de 30 um processo de crescimento populacional
desordenado, provocando forte pressão sobre o meio ambiente.
         Insere-se nesse contexto e no apresentado no início desta conclusão, o ecossistema
manguezal do Rio Cocó, que apesar da importância para a cidade em que se encontra – Fortaleza –
sofre com diversos problemas. Como exemplo, tem-se que antigamente o fluxo das marés
conseguia chegar a até 22km da foz; hoje, porém, não passa dos 13km.
         A especulação imobiliária no entorno do Cocó é grande. Encontrando-se parte dele
inserido em área nobre da cidade. Não apenas moradias de luxo fazem parte da paisagem, mas lojas,
supermercados, oficinas, postos de combustível, entre outros. Vastas áreas de comunidades pobres
cobrem também o entorno do rio, não possuindo o saneamento adequado. Vê-se de um lado a
pressão do luxo, onde verde é vendido como jardim particular; de outro a pressão da pobreza, onde
o rio toma a função do Poder Público de recolher o lixo da população. Não se pense, porém, que no
primeiro caso não se polui. Acontece que lá, procura-se utilizar o rio como tapete, para onde se joga
debaixo, furtivamente, os detritos do farto jantar.
         Para potencializar as funções e serviços ambientais relacionados ao manguezal do rio
Cocó, faz-se necessário a delimitação e demarcação das áreas de preservação permanente; retiradas
das construções irregulares em áreas de preservação permanente e a recuperação da vegetação;
amplo processo de saneamento básico e ações implantação de políticas públicas para ampliar a
biodiversidade, principalmente com a conservação dos demais sistemas ambientais associados ao
manguezal.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                      49

         5. REFERÊNCIAS
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        CARCINICULTURA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO
     AGROAMBIENTAL NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL13

                                                                                         SANTOS, Carmem Lúcia
                                                               Profª do IFS-SE, Doutoranda do NPGEO/UFS- Brasil
                                                                                        carmemls@infonet.com.br
                                                                                         COSTA, Boni Guimarães
                                                    Prof. da SEED, Mestrando em Geografia do NPGEO/UFS- Brasil
                                                                                           costaboni@hotmail.com

          RESUMO
          A carcinicultura, assim como qualquer outra atividade produtiva demanda o consumo de
recursos naturais e pode afetar adversamente o meio ambiente. Na região litorânea de Sergipe em
meados de 1998, iniciou-se o cultivo de camarão marinho com a espécie lipopenaeus Vannamei
adotando-se o sistema semi-intensivo. Neste contexto, este trabalho, baseado em fontes
bibliográficas e documentais, busca discutir o processo de transformação nos espaços no litoral
sergipano a partir da configuração territorial da carcinicultura, onde as relações sociais se
intensificam com mudanças na produção e organização espacial. O presente estudo consiste em
uma sistematização descritiva dos dados preliminares da pesquisa e fornece uma idéia da evolução e
da organização do espaço litorâneo agroambiental sergipano, bem como apresenta alguns aspectos
relativos às formas de organização do corredor produtivo, em especial a carcinicultura. Com base
em estudos da Companhia de Desenvolvimento Industrial e de Recursos Minerais de Sergipe -
CODISE o número de empreendimentos de carcinicultura em Sergipe cresceu entre 2004 e 2006
nas várias bacias hidrográficas do Estado. A atividade da carcinicultura no litoral sergipano
contribuiu para uma redução e extinção de habitats de numerosas espécies, o desmatamento de
extensas áreas de manguezal causando interferência direta na produção e distribuição de nutrientes
para o estuário e plataforma continental; extinção de setores de reprodução e alimento de moluscos,
aves e peixes e diminuição da biodiversidade ao longo das bacias hidrográficas. Isto gera a expulsão
de marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho, ou tornam-se
obstáculos a seu acesso, aos espaços produtivos do território, ao estuário e ao manguezal com a
privatização de terras da União, tradicionalmente utilizadas para o extrativismo animal e vegetal.
          PALAVRAS-CHAVE: Carcinicultura, povoamento, corredor produtivo, espaço
agroambiental e meio ambiente.

          ABSTRACT
          Shrimp farming, like any other productive activity demands the use of natural resources and can
adversely affect the environment. In the coastal region of Sergipe in mid-1998, began the cultivation of
marine shrimp species with lipopenaeus Vannamei adopting the semi-intensive system. In this context, this
paper, based on bibliographic and documentary discusses the process of transforming the spaces in the
Sergipe coast from the territory configuration of shrimp farming, where social relations are intensified with
changes in production and spatial organization. This study consists of a systematic descriptive of the research
and provides an idea of the evolution and organization of space-environment coastal Sergipe, introduces
some aspects of the forms of organization of productive runner, especially shrimp. According to the
Industrial Development Corporation and Mineral Resources of Sergipe - CODISE the number of projects in
Sergipe shrimp grew between 2004 and 2006 in various watersheds. The activity of shrimp farming in
coastal Sergipe contributed to a reduction and disappearance of habitats for many species, the deforestation
of large areas of marsh causing direct interference in the production and distribution of nutrients to the
estuary and continental shelf; extinguishing sectors of reproduction and food shellfish, birds and fish and
reduction of biodiversity along the river basin. This leads to the expulsion of seafood, fishermen and crab


13 Texto apresentado faz parte da avaliação final da disciplina “Dinâmica Ambiental e Agricultura” ministrada pela
Profª Drª. Rosemeri Melo e Souza do Programa de Pós-Graduação em Geografia – NPGEO/UFS, no 2º semestre de
2009.
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collectors of their work areas, or become obstacles to their access to productive areas of the area, estuaries
and mangroves with the privatization of the land traditionally used for extraction plant and animal.
          KEYWORDS: Shrimp farming, settlement, running productive, space-environment and
environment.

          INTRODUÇÃO
          A globalização da problemática ambiental apresentou sérias conseqüências ao sistema
mundo e acentuou-se, sobretudo, com as ações do capital com seus modelos desenvolvimentistas,
sobre os ambientes naturais, desconsiderando a questão da sustentabilidade socioambiental. Isto
pode ser visto pelo pouco envolvimento da sociedade em relação a elaboração de estratégias de
proteção dos recursos naturais.
           Ross (2006, p. 64), nos lembra que a produção do espaço atual no território brasileiro é o
resultado da combinação convergente de um conjunto de fatores naturais, técnico-científicos e
político-econômicos que se associam aos diferentes momentos da história econômica brasileira, em
que programas, projetos e planos dos governos federal e estaduais voltaram-se para uma política de
planejamento que visa ao desenvolvimento econômico, sem preocupação maior com o social e o
ambiental. Neste sentido, uma problemática que não pode deixar de ser considerada, é a realidade
na qual se encontra a zona costeira brasileira. Ela é uma região associada a importantes momentos
históricos e palco de grandes intervenções ao longo do tempo. Enquadra-se, portanto, num cenário
desafiador e influenciador de re-configurações territoriais.
          Deniz (1981) classifica zona costeira a partir do termo litoraneidade, entendido como um
conjunto de condições econômicas e ambientais submetidos ao processo histórico. O autor aponta
três elementos como critérios de definição da litoraneidade: o povoamento antigo, clima quente e
úmido e solos pobres e relevo suave. Para Diniz, o fato de estar junto ao mar dá fisionomia própria
ao litoral e explica uma série de fatos ligados à ocupação do espaço. Não que o importante seja o
mar propriamente dito, mas um conjunto de características associadas a essa posição, quer seja de
relevo e solo, quer seja de clima, de povoamento ou de atividade econômica (DINIZ, 1981).
          Vasconcelos (2005) destaca que a ocupação humana de forma desordenada gerou
rompimentos no equilíbrio dinâmico e sérios impactos negativos no ambiente costeiro brasileiro.
Essa zona vem sendo objeto de acelerado processo de ocupação com sérios reflexos na produção do
espaço geográfico e nas re-configurações dos territórios.
          Os reflexos dessa situação podem ser percebidos no litoral Sergipano que sofre do mesmo
tipo de intervenções e transformações ocorridas no litoral brasileiro, com uma relativa concentração
de atividades econômicas, indústriais, serviços, atividades primárias, concentração populacional
significativa em função de importantes municípios costeiros e também sistemas naturais protegidos.
Entretanto, não é difícil identificar na zona litorânea sergipana sistemas ambientais naturais
transformados pelas práticas econômicas, em projetos de carciniculturas 14 e construções de
viveiros nas margens dos rios e canais fluviais dos sistemas estuarinos. Nesta zona se definem
quadros problemáticos do ponto de vista da gestão ambiental, demandando ações de caráter
corretivo, com a mediação dos múltiplos conflitos de uso.
          Diante deste cenário, busca-se discutir o processo de transformação nos espaços no litoral
sergipano a partir da configuração territorial da carcinicultura, onde as relações sociais se
intensificam com mudanças na produção e organização espacial. A realização do estudo considerou
trabalhos científicos, dissertações de mestrados, teses de doutorado e relatórios de estudos de
planejamento dos órgãos estaduais. Apesar deste trabalho consistir, ainda, em uma sistematização
descritiva dos dados preliminares obtidos na pesquisa ele fornece uma idéia da evolução e da
organização do espaço litorâneo agroambiental sergipano, bem como apresenta alguns aspectos
relativos às formas de organização do corredor produtivo, em especial a carcinicultura.
          Para melhor entendimento dos termos espaços agroambiental e corredor produtivo costeiro
norte-sul, o trabalho teve como base as observações tecidas por Ross (2006) que: a partir da leitura

14 A carcinicultura é uma atividade que estabelece relações diretas com o ecossistema, podendo alterar sua dinâmica e
funções ecológicas caso a atividade não seja conduzida respeitando os princípios de sustentabilidade ambiental.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           52

do processo histórico de ocupação do território brasileiro, discutiu a classificação das unidades
geomorfológicas do país relacionadas com a vegetação e os sistemas naturais vegetais, sob a
perspectiva do grau de alteração pelo homem, quando se transformam em espaços de atuação
econômica: tanto em agropecuário quanto em extrativista. Nesse transcurso teórico foi possível
identificar que existem vastas áreas pouco produtivas, com agricultura e pecuária no geral
decadentes, combinadas com ambientes naturais degradados, ao lado de grandes espaços ainda
pouco ocupados e também pouco produtivos, que se apresentam em condições ambientais ainda
bastante preservados.
         Neste estudo, considerou-se o que foi determinado pela Política Nacional de
Gerenciamento Costeiro do Ministério do Meio Ambiente quanto à classificação adotada pelos
estudos para elaboração do Gerenciamento Costeiro em Sergipe. A zona costeira estadual encontra-
se subdividida em três setores: i) Litoral Norte – 17 municípios: Barra dos Coqueiros, Neópolis,
Nossa Senhora do Socorro, Laranjeiras, Riachuelo, Maruim, Santo Amaro das Brotas, Rosário do
Catete, General Maynard, Carmopólis, Pirambu, Japaratuba, Pacatuba, Brejo Grande, Ilha das
Flores; ii) Litoral Centro – Aracaju, e iii) Litoral Sul – 5 municípios: São Cristóvão, Itaporanga
D’Ajuda, Estância, Santa Luzia do Itanhi e Indiaroba.

          1.1 Algumas Considerações sobre a Ocupação do Espaço Agroambiental do Litoral
Sergipano
          A estrutura do espaço agroambiental sergipano é resultado de um longo processo, cujo
ponto inicial pode ser fixado na formação do espaço colonial brasileiro. Aí a exploração açucareira
representou seu grande instrumento de ocupação, sendo precedida pela pecuária extensiva, com o
intuito de promover cada vez mais o alargamento de suas fronteiras agrícolas e como não haviam de
deixar de ser, econômicos. Foi o cultivo da cana-de-açúcar, inicialmente no litoral da Capitania de
São Vicente, hoje litoral paulista, e pouco mais tarde no litoral de Pernambuco e Bahia, que começa
de fato o processo de ocupação do território, se estabelecendo uma incipiente transformação dos
ambientes naturais em áreas cultivadas( ROSS, 2006, p. 99).
          No processo de formação do território sergipano a pecuária é uma dessas atividades em
comum em todo o Estado, que não deve ser esquecida, inclusive pela forte influência que exerceu
nos municípios litorâneos como um todo. Porém, é somente nos anos de 1970 e principalmente nos
anos de 1980, que se comprova nitidamente a pecuarização. Os dados de mudanças nas formas de
utilização da terra e na orientação da agricultura deixam evidente o predomínio das pastagens,
mormente as plantadas, e do rebanho bovino (VILAR e VIEIRA, 2004).
          No final do século passado, o cultivo de arroz já se fazia presente no litoral sergipano,
sobretudo nas áreas próximas ao atual município de Brejo Grande. Entretanto, o referido cultivo não
tinha, naquela época a mesma importância da cana-de-açúcar e do sal, de exportação. Porém, para
aumentar a dinamização econômica entre os estuários, foram construídos canais de conexão fluvial,
permitindo a interligação das bacias hidrográficas dos rios Japaratuba e Sergipe, através da
construção do Canal do Pomonga, e entre as bacias hidrográficas do Rio Sergipe e do Vaza-Barriz
por intermédio do Canal de Santa Maria que facilitava a comunicação entre as áreas nucleares do
espaço litorâneo sergipano.
           O litoral sergipano apresenta-se devastado na sua cobertura vegetal primitiva. De acordo
com Santos e Andrade (1992), exemplo marcante é notado nos municípios de Pirambu e Pacatuba
ao observar uma forte transição da floresta costeira “tanto para a mata de restinga, quando se
encaminha para o litoral, quanto para o cerrado e mata não espinhosa, quando se dirige para o
interior”. É possível afirmar, então, a substituição, sobretudo, nas áreas mais devastadas, dessa
cobertura por cultivos perenes (exemplos do coco-da-baía e da manga) e temporários (cana-de-
açúcar e mandioca), e ainda pelas pastagens e do rebanho bovino, caracterizando um nítido
processo de pecuarização.
          Essas paisagens podem ser entendidas então, como um dos elementos fundamentais para o
entendimento das organizações e relações espaciais. Levando em consideração a perspectiva
humana pode ser evidenciada a partir dos estudos do geógrafo francês Georges Bertrand (2004, p.
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141) onde ele nos apresenta que: [...] a paisagem não é a simples adição de elementos geográficos
disparados. É uma determinada porção do espaço, resultado da combinação dinâmica, portanto
instável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente uns sobre os
outros, fazem da paisagem um conjunto único e indissociável, em perpétua evolução.
         Fontes (1990), por exemplo, afirma que a parcela considerável dos mangues vem sendo
devastada, ocorrendo sua ocupação, principalmente, por salinas, viveiros e canais artificiais,
alterando profundamente a circulação da água, modificando os ciclos das marés e
consequentemente reduzindo o ingresso de nutrientes. O aterro resulta, geralmente, da execução de
obras de engenharia (aterro para construção de obras de engenharia (aterro para construção de leito
de rodovias), que se interpõem isolando áreas de mangue. Caracteriza-se pela ação definitiva e
irreversível na alteração do manguezal suprimindo completamente a fauna e a flora.
         Atualmente, ao longo de toda zona litorânea pode-se observar a presença da rodovia
estadual (SE-100 e SE-318) que tem como meta interligar grande parte do litoral, os estados da
Bahia, Sergipe e Alagoas, com recursos provenientes do Programa de Desenvolvimento do Turismo
no Nordeste - PRODETUR. Amplia-se assim de forma significativa o fluxo de ocupação e servindo
de eixo estruturador do espaço.

          A CARCINICULTURA COMO ATIVIDADE DO CORREDOR PRODUTIVO
COSTEIRO NORTE-SUL
          Entendemos a organização espacial como sendo o conjunto de objetos ou formas espaciais
efetivadas no processo histórico, através da atuação humana. Neste contexto são construídos
campos de cultivos, pontes, rodovias, que facilitam os fluxos geográficos no litoral. “O conjunto de
todas essas formas configura a organização espacial da sociedade. A organização espacial é a
segunda natureza, ou seja, a natureza primitiva transformada pelo trabalho social” (CORRÊA,
2003b, p.54).
          Com Ross, (2006), obtivemos a compreensão de que existem dois macrocorredores de
maior produção e produtividade agropecuária no Brasil, que se estendem na direção norte-sul,
sendo um na parte central e o outro na zona costeira do país. Dentro desta zona encontra-se o litoral
do Nordeste que apresenta grande dinâmica econômica onde a carcinicultura vem se instalando.
          No Brasil, a prática da carcinicultura foi iniciada em 1970 e se firmou como uma atividade
industrial em 1980 a partir de articulação entre instituições de pesquisas regionais, governo e
iniciativa privada no sentido do planejamento e da implantação de tecnologias tais como:
engenharia de projetos, insumos, equipamentos, biotecnologia entre outros.
          O investimento nesse setor no Brasil, especialmente na Região Nordeste, ampliou-se nos
últimos dez anos devido às características edafoclimáticas, topográficas e hidrobiológicas que
beneficiam o cultivo do camarão durante todo o ano permitindo realizar três ciclos anuais de
produção, aos investimentos realizados em infra-estrutura da Região; e em razão de uma queda na
produção dos países com grande participação no mercado mundial (FIGUEIREDO, GONDIM,
2003).
          A viabilidade do cultivo comercial do camarão foi obtida com a aclimatação da espécie
Litopenaeus vannamei que é originária da costa do Pacífico e teve uma excelente adaptação às
condições tropicais de clima, solo e água principalmente as encontradas no litoral Nordeste. Por
isso, a região Nordeste detém a maior concentração de área produtiva e responde por quase a
totalidade da produção nacional, especialmente, nos Estados do Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia
e Pernambuco (ABCC, 2002).
          Forjado (2008, p.48) nos evidencia que, as dinâmicas econômicas “modificam as paisagens
(criando e recriando)”, produzindo, novas configurações territoriais.
          Um subsídio teórico-conceitual de Raffestin, acerca da compreensão de espaço e território
é evidenciado nesse trabalho. Ele afirma que é essencial compreender bem que o espaço é anterior
ao território. O território se forma a partir do espaço, é resultado de uma ação conduzida por um
ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível [...] O território nessa
perspectiva, é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                            54

conseqüência, revela relações marcadas pelo poder. O espaço é a “prisão original, o território é a
prisão que os homens constroem para si [...] O espaço é, portanto anterior, preexistente a qualquer
ação. O espaço é de certa forma, “dado” como se fosse uma matéria prima (RAFFESTIN, 1980).
          Seguindo o raciocínio de Raffestin, o ser humano constrói territórios a partir de interesses
capitalistas e a carcinicultura é um exemplo, se constituindo em um segmento produtivo da
aqüicultura15, derivada do processo de desenvolvimento tecnológico, associado ao crescimento da
demanda mundial por tais produtos. Como resposta às exigências da modernização socioeconômica,
a atividade além de utilizar recursos naturais progressivamente, proporciona agressões aos limites
de tolerância dos ecossistemas, reprimindo e eliminando espécies de natureza viva, reduzindo,
portanto, a biodiversidade (ALTVATER, 1995).
          Os problemas ambientais gerados pela criação de camarão em cativeiro são
frequentemente relatados. Tahim (2004), por exemplo, aponta o desmatamento de mangues,
lançamento de efluentes nos cursos d’água (causando mudanças das características físico-químicas
das águas), bem como o uso de produtos químicos, erosão, inundações, alterações no regime
hidrológico de rios gerando problemas socioeconômicos para as comunidades locais.
          Esse autor alerta que a implantação de viveiros de camarão é realizada em áreas que eram
utilizadas para a pesca, mariscagem, uso de produtos da flora do mangue por parte das comunidades
ribeirinhas. Porém, no lugar destas atividades a carcinicultura se introduziu, demarcando seu
território impedindo o acesso dessas comunidades, já que são áreas disponíveis para o extrativismo,
causando o que podemos chamar de privatização das terras da União. Os aspectos legais e sócio-
culturais estão relacionados, por exemplo, ao uso de águas públicas, conflitos locais, entre outros
fatores (ALTVATER, 1995).
          Os grandes projetos de carcinicultura marinha localizados nos estuários apresentam
conflitos com o mangue, degradando–o através de supressão de sua vegetação para
instalação/ampliação de viveiros ou para implantação de vias de acesso. O lançamento de fluentes e
resíduos em seus corpos de água compromete em médio prazo a função desses ecossistemas
(CPRH, 2003) e também o lançamento de resíduos da larvicultura no manguezal e corte de mangue
para instalação de viveiros de camarão (CPRH, 2003).
               Saquet (2007) aborda a formação do território como fruto de relações econômicas,
políticas e culturais efetivadas por um grupo social. Cotidianamente, são estabelecidas inúmeras
relações/ ligações/conexões, que formam o que se chama de redes geográficas. A precarização
socioespacial dominante na sociedade capitalista dá forma àquilo que se denominam aglomerados
humanos de exclusão, exemplo mais estrito de des-territorialização, considerado por HAESBAERT
(2006, p. 67) como “um processo de exclusão social, ou melhor, de exclusão socioespacial”.

         3.ESPAÇOS PRODUTIVOS DO LITORAL SERGIPANO: A CARCINICULTURA
               O litoral de Sergipe tem uma extensão, de aproximadamente 163 km e ocupa uma
superfície de 5.453 km2, composto de 23 municípios, classificados como costeiros, litorâneos ou
estuarinos, distribuídos, e delimitados pelos critérios do GERCO - Programa Nacional de
Gerenciamento Costeiro, fortemente marcado pela presença da planície Litorânea que recebe
influência direta dos estuários dos rios: São Francisco, Japaratuba, Sergipe, Vaza-Barris e Piauí –
Real.
               Além disso, comporta variadas paisagens, assentadas sobre a formação de vastas
áreas estuarinas e manguezais cujo potencial animal é constituído, basicamente, da fauna típica
desses ambientes, onde se podem destacar crustáceos, moluscos, aves. Associado à vegetação, ao
solo e as características hídricas dos estuários, a fauna típica é bastante diversificada, representada
por várias espécies de crustáceos, moluscos, cuja captura desempenha importante papel na

15 Aqüicultura é uma atividade multidisciplinar, que constitui no “cultivo de organismo aquático incluindo peixes,
moluscos, crustáceos e plantas aquáticas” (FAO, 1998). O cultivo implica em intervenção humana no processo de
criação para aumentar a produção, tal como regulação dos estoques, alimentação, proteção de predadores, entre outros.
Considerando, também, o potencial dos impactos econômicos com o crescimento da aqüicultura e a geração de emprego
e renda.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                                                                                                             55

sobrevivência das populações locais. Além da pesca artesanal outra forma de utilização desse
espaço é a instalação de viveiros para a prática de aqüicultura.
                       Segundo Carvalho (2004) a ocupação com os carcinicultores e seus sistemas
de produção, semi-intensivo, de natureza comercial do camarão marinho em Sergipe tiveram início
em meados de 1998, com a espécie cultivada lipopenaeus Vannamei e o sistema de cultivo semi-
intensivo. Este sistema conta com suporte de fertilizantes e/ou nutrientes externos. A espécie
cultivada depende de consumo de organismos vivos, presentes no viveiro, e de suplementos
alimentares. Conforme estudos desenvolvidos16, em 2004 havia 60 empreendimentos em produção
com área total de 636,87 hectares, distribuídos em cinco bacias hidrográficas (figura 1), destacando-
se, em número, a do rio Sergipe, com 21 unidades produtoras e, em área, a do São Francisco com
262,07 ha em produção. Com relação ao tamanho das unidades produtivas, 78,33% eram de
pequeno porte, 16,33% possuíam porte médio e apenas 5% são de grande porte.



                                                        649955




                                                                                                                          718758
                                            N
                                                                                                                           SERGIPE
                                  O             L
                                                                                                                   MUNICÍPIOS QUE CULTIVAM
                                            S
                                                                                                                     CAMARÃO MARINHO
                                                                                                                             2006


                                                                                                                                         ALAGOAS
                                  8892061




                                                BAHIA




                                                                                                                                                                              BREJO GRANDE
                                  8834276                                                                                                                    PACATUBA
                                                                                                                                                                                     3,41
                                                                                                                                                                  10,73
                                                                                                                                               PIRAMBU

                                                                                                                                                  0,49
                                                                                                                    SANTO AMARO
                                                                                                                    DAS BROTAS
                                                                                                                            1,95
                                                                                                     N. Sra. DO SOCORRO

                                                                                                          47,81                    BARRA DOS COQUEIROS
                                                                                                                       3,41
                                                                                                                                                              O
                                                                                                                                                          IC

                                                                                               SÃO CRISTÓVÃO

                                                                                                   11,71          ARACAJU
                                                                                                                                                         T




                                                                                         6,83
                                                                                                                                                    N




                                  8776491                                                                         0,49
                                                                                                                                                  Â
                                                                                                                                                L




                                                                                                                                                         BACIAS HIDROGRÁFICAS
                                                                                                                                              T




                                                                                           ITAPORANGA
                                                                                                                                            A




                                                                                             D'AJUDA                                                            RIO SÃO FRANCISCO
                                                                                                                                                                RIO JAPARATUBA
                                                                                                                                        O




                                                                               ESTÂNCIA
                                                                                                                                                                RIO SERGIPE
                                                                                                                                       N




                                                                                4,88                                                                            RIO VAZA-BARRIS
                                                                                                                                    A




                                                                                                                                                                RIO PIAUÍ
                                                                                                                                   E
                                                                                                                           C




                                                                                                                                                                RIO REAL
                                                                                                                     O




                                                                                                                                                          CONVENÇÕES CARTOGRÁFICAS
                                                                 SANTA LUZIA DO ITANHY                                                                          LIMITE MUNICIPAL
                                        BAHIA
                                                                           3,90                                                                                 MUNICÍPIOS COM
                                                                                                                                                                EMPREENDIMENTOS
                                                                                                                                                                REDE HIDROGRÁFICA
                                                                   INDIAROBA
                                                                            4,39                                                                          0,49 PERCENTUAL DE
                                                                                                                                                               EMPREENDIMENTOS

                                                                                           0         12        24 Km                                Fonte: Atlas Digital - SRH, 2004.
                                                                                                                                                    Organização: Marcelo Alves dos Santos, 2010.



          Figura 1: Empreendimentos de maricultura por bacias hidrográficas, 2006.

          De acordo com a CODISE (2004), no estuário do Rio São Francisco existiam 17
estabelecimentos de produção de camarão cultivado, dos quais 14 localizam-se no município de
Pacatuba, totalizando 259,77 ha produtivos, e 3 em Brejo Grande, com um total de 9,5ha. Estes
empreendimentos correspondem à maior área produtiva do estado, totalizando 41,20% da área em
produção.
          O estuário do rio Sergipe era o segundo maior em área produtiva de camarão cultivado
ocupando 25,60% dos hectares produtivos. Dos 21 empreendimentos de carcinicultura, 10 estão
localizados no município de Nossa Senhora do Socorro, 8 na Barra dos Coqueiros, 2 em Santo
Amaro das Brotas e 1 em Aracaju. O município com maior área em produção é Nossa Senhora do
Socorro, com 125,5ha. Com relação ao estuário do Rio Vaza Barris havia sete empreendimentos
localizados em Itaporanga d’Ajuda, somando 37 hectares de produção, enquanto São Cristóvão
apresentava apenas uma fazenda, que, no entanto, possui 70 ha em produção. Este estuário ocupava
a terceira posição em termos de área produtiva no estado, com 16,80%.
          No estuário do rio Piauí existiam nove unidades produtivas de camarão cultivado,
ocupando a quarta colocação em área produtiva do estado, com 8,25% hectares de espelho d’água
em produção. Dos 52,70 ha em produção, 34,5 ha estão localizados no município de Estância e 18,2

16 Refiro-me os resultados da dissertação de Márcia Eliane Silva Carvalho, “A Carcinicultura na Zona Costeira do
Estado de Sergipe”, defendida no NPGEO/UFS, em 2004.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           56

ha em Santa Luzia do Itanhy. Indiaroba é o único município sergipano localizado na bacia do Rio
Real concentrando cinco empreendimentos, com 52 ha em produção, o que equivale a 8,15% da
produção no estado. Com base nos dados da CODISE, em 2006 existiam 205 estabelecimentos
distribuídos em 978 ha voltados para o cultivo do camarão marinho na planície litorânea sergipana
com a maior incidência no estuário no rio Sergipe. Os municípios de Nossa Senhora do Socorro,
São Cristovão e Pacatuba, totalizam mais de 70% do total de empreendimentos (CODISE, 2007).
         Percebe-se um crescimento do número de empreendimentos e a área de produção nas
margens dos rios e canais fluviais dos sistemas estuarinos na zona litorânea sergipana. A
disponibilidade de área com essa destinação, segundo Fonseca et.al.(2008), 56,09% dos
empreendimentos, instalados em estruturas pré-existentes, eram salinas ou viveiros de maré.

          4. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A MAIS
                A implantação da carcinicultura no litoral Sergipano constitui um espaço modificado
a partir da relação do homem com a natureza configurando relações sociais por conta de novos
fatores territoriais onde tais relações se intensificam com mudanças na produção e organização da
sociedade. Partindo deste pressuposto Milton Santos esclarece que, “a paisagem é um conjunto de
formas, que num dado momento, exprime as heranças que representam as sucessivas relações
localizadas entre homem e natureza [...]” Santos (2002, p. 103 apud CASTRO, s.d, s.p.). Essa
conceitualização evidencia que a partir de algumas atividades socioeconômicas (carcinicultura) nos
permite entender os processos que produzem as paisagens.
          Com relação ao meio ambiente, a carcinicultura no litoral sergipano contribuiu para uma
redução e extinção de habitats de numerosas espécies, o desmatamento de extensas áreas de
manguezal causando interferência direta na produção e distribuição de nutrientes para o estuário e
plataforma continental; extinção de setores de reprodução e alimento de moluscos, aves e peixes e
diminuição da biodiversidade ao longo das bacias hidrográficas. Isto gera a expulsão de
marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho, ou tornam-se
obstáculos a seu acesso, aos espaços produtivos do território, ao estuário e ao manguezal com a
privatização de terras da União, tradicionalmente utilizadas para o extrativismo animal e vegetal.

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CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO
           À LUZ DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

                                                                                           Ana Gizelle da SILVA
                                                                    Mestranda em Geografia da UFG – Catalão/GO
                                                                                       anagizelles@yahoo.com.br
                                                                                        José A. Lima DOURADO
                                                                    Mestrando em Geografia da UFG – Catalão/GO
                                                                                   josephdourado@yahoo.com.br
                                                                                   Klayton Marcelino de PAULA
                                                                    Mestrando em Geografia da UFG – Catalão/GO
                                                                                klaytonmarcelino@yahoo.com.br
                                                                             Paulo Henrique Kingma ORLANDO
                                                                                Professor Dr. UFG – Catalão/GO
                                                                                        phorlando@yahoo.com.br

         RESUMO
         Ante aos desequilíbrios ambientais causados pelas atividades da sociedade e pela
necessidade de mudar os paradigmas atuais regularizados primordialmente pelo crescimento
econômico, a Educação Ambiental (EA) se apresenta como um instrumento de fundamental
importância, visto que, somente uma sociedade esclarecida e consciente das limitações dos recursos
naturais territorializados, poderá garantir a existência e o bem estar das atuais e futuras gerações,
através de outro tipo de organização societária. A EA é uma prática educativa que surgiu em virtude
da preocupação humana com a qualidade de vida, no entanto, seu contexto é muito amplo e
abrangem aspectos que não se dissociam da natureza, estando interligados aos aspectos sociais,
econômicos, políticos, éticos e culturais. Esse artigo faz uma análise das crises contemporâneas pela
ótica crítica da EA dialógica e emancipatória, que valoriza todos os saberes, e que conduz a
sociedade a uma maior participação política em defesa de uma nova postura diante das questões
engendradas pela ocupação territorial.
         PALAVRAS-CHAVE: Crise do Capital. Crise Ambiental. Educação. Educação
Ambiental.

          ABSTRACT
          With the environmental imbalance caused by the activities of society and for necessity to
change the present paradigms settled primarily by economic growth, environmental education (ee)
is presented as an instrument of fundamental importance, since only a company informed and aware
of the limitations of territorial resources, can guarantee the existence and well being of present and
future generations, through another type of corporate organization, ee is an educational practice that
arose as a result of human concern for quality of life, however, its context is very huge and cover
issues which do not dissociate from nature and are linked to social, economic, political, ethical and
cultural aspects. This article is an analysis of contemporary crisis through the eyes of ee dialogi cal
critical and emancipatory, which values all knowledge, and leading the company to a larger political
role in support of a new position with the issues created by the land occupation.
          KEYWORDS: Crisis in the capital. Environmental crisis. Education. Environmental
education.

         INTRODUÇÃO
         O fim da primeira década do séc. XXI está sendo marcado por calorosos debates
relacionados à crise ambiental, à crise do capital, à crise social, ou ainda, à crise da sociedade
contemporânea. A crise ambiental não se dissocia da social, tendo em vista que o termo
socioambiental é redundante, sendo comprovado pelo hibridismo homem/natureza, tão evidenciado
por Latour (1994) em Jamais Fomos Modernos. Então podemos afirmar que nos resta uma única
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              59

opção de crise que para efeito de análise pode ser discutida em seus dois focos: ambiental e do
capital.
          Partimos do princípio que os adjetivos que dão conotação às crises são extremamente
amplos, imbricados de indagações e pormenorizados em detalhes, fazendo com que a Geografia
saia na frente nesse embate teórico, por ter o privilégio de trabalhar a apropriação e uso da natureza
pela sociedade. Soma-se a essa questão o uso do território dentro de uma formação sócio-espacial,
pautado na lógica de máximo aproveitamento dos recursos naturais transformados em mercadorias.
Nesse cenário a Educação Ambiental (EA) dialógica e emancipatória, que valoriza todos os saberes,
torna-se um meio importante de conduzir a sociedade a uma maior participação política em defesa
de uma nova postura diante das questões engendradas pela ocupação territorial, num projeto de
educação que baseado na ação possível do agora, promova mudanças individuais e coletivas mais
precisas.
          A educação aqui é tratada como um processo que deve ser explorado e efetivado, pois, a
consideramos um mecanismo capaz de criar uma auto-reflexão no indivíduo, uma utopia no sentido
de desejo de um mundo melhor e uma peça chave de sensibilização que leva ao desencadear da
autoconscientização, portanto, a educação por si só e sem adjetivos exerce um papel primordial na
melhoria da qualidade de vida. O problema passa a ser então como oferecer uma educação de
qualidade e de cunho crítico? Como fazer cumprir as várias Leis existentes que organizam e
programam o processo de efetivação específico da EA no ensino formal? Como desburocratizar o
sistema e aproximar o educador do educando? Como facilitar o acesso do educador as fontes de
informações necessárias a um bom trabalho? Nas várias concepções teórico-metodológicas sobre
esse assunto existe um consenso: a relevância da educação de qualidade em todos os níveis, com
caráter global e holístico.
          É preciso ir além das disciplinas “engavetadas”. Nesse sentido é preciso também
ambientalizar a educação através do estudo efetivo das questões ambientais e do entendimento do
homem como natureza. É dever dos pesquisadores acadêmicos a árdua tarefa de inserir no debate
das Universidades a questão da formação dos professores como um todo, numa visão geral da
educação formal, incitada pela nova ordem econômica e socioambiental com suas incoerências e
deficiências.
          Racionalidade, Epistemologia e Saber Ambiental na visão de Enrrique Leff
          Começaremos o diálogo com o doutor em Economia do Desenvolvimento Enrique Leff
que se orienta fundamentalmente no sentido da análise de processos de articulação das ciências
naturais e sociais. Ele tece suas discussões formulando uma teoria baseada na Racionalidade
Ambiental (é preciso construir um saber diferenciado da razão produtivista dominante na economia
e na própria ciência). Para esse autor o Saber Ambiental poderia ajudar a compreender a dinâmica
ambiental lançando mão de outros saberes que não sejam só o científico. Leff (2000, p. 41) diz o
seguinte: A crise Ambiental não só se manifesta na destruição do meio físico e biológico, mas
também na degradação da qualidade de vida, tanto no âmbito rural como no urbano. Mais uma vez
fica nítido o hibridismo homem/ meio, onde não existe prejuízo a um que não seja também do
outro. Leff na mesma obra (p. 45) fala que toda a produção de valores de uso implica um processo
social de transformação da matéria e da energia acumuladas no planeta.
                Ratificando a idéia de que a crise do capital leva a crise ambiental e que a crise
ambiental promove a crise do capital, Leff escreveu:
          Com a conformação do Modo de Produção Capitalista, as tendências dos processos
ecológicos e culturais articulam-se, são assimiladas ou transformadas pela sobre-determinação que
lhes impõe a racionalidade econômica de uso dos recursos. (LEFF, 2000, p. 107).
                Percebemos então, que tudo passa pelo patamar econômico, e que se não “doesse no
bolso” a crise ambiental não seria tão relevante para a sociedade capitalista. Sobre esta questão o
mesmo autor diz o seguinte: A expansão internacional da Economia induziu processos de destruição
ecológica e étnica, pelo fato de a Natureza e a Cultura não terem valores contabilizáveis dentro da
racionalidade econômica prevalecente. (Leff, 2000, p. 124). Esses valores se diferenciam dos
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            60

valores dos bens produzidos, todavia, com a escassez generalizada dos “bens” naturais, existe uma
tendência a valorização financeira dos mesmos, a exemplo da água e do petróleo.
         A crise ambiental é uma crise do conhecimento: da dissociação entre o ser e o ente à lógica
autocentrada da ciência e ao processo de racionalização da modernidade guiado pelos imperativos
da racionalidade econômica e instrumental (...). O saber ambiental vai derrubando certezas e
abrindo os raciocínios fechados que expulsam o ambiente dos círculos concêntricos do
conhecimento. (LEFF, 2007, p. 13).
               Leff ainda afirma que a epistemologia ambiental funda-se a partir de um novo saber
que emerge do limite do real (entropia), do projeto de unificação forçada do ser e da epopéia da
ciência pela objetividade e transparência do mundo (2007 p. 15). Assim, problematiza e questiona
os paradigmas existentes, entre eles o positivismo e propõe uma nova abordagem, onde nas
entrelinhas se lê Educação Ambiental, ou seja, um projeto para pensar as condições teóricas e para
estabelecer métodos que orientem as práticas interdisciplinares.
               Fechando a linha de pensamento de Leff, vale citar o que ele disse no livro Saber
Ambiental (2008, p. 15) A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos
que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. Na atualidade, o
discurso começou a mudar e a sustentabilidade busca reconciliar os contrários da dialética do
desenvolvimento: o Meio Ambiente e o Crescimento Econômico. E o que se procura hoje é
ecologizar a economia.
         A problemática ambiental converteu-se numa questão eminentemente política. Os conflitos
socioambientais emergem de princípios éticos, direitos culturais e lutas pela apropriação da
natureza que vão além da internalização dos custos ecológicos para assegurar um crescimento
sustentado. (LEFF, 2008, P. 45).
         Eis aqui o grande desafio da sociedade, ou melhor, o grande desafio da classe trabalhadora
que sustenta os modelos vigentes e que no “frigir dos ovos” é a maior prejudicada com os
problemas socioambientais. Tal desafio ainda é maior por perpassar pela falta de ética generalizada
do atual padrão político e econômico.
         As novas tendências e abordagens que buscam mudanças da concepção linear da sociedade
para uma concepção holística
               Para dar inicio ao debate sobre mudanças escolhemos Frijot Capra. Destacamos que
esse autor em sua obra O Tao da Física “desafiou a sabedoria convencional ao demonstrar os
surpreendentes paralelos existentes entre as mais antigas tradições místicas e as descobertas da
Física, no séc. XX”. Em O Ponto de Mutação (1982) Capra criticou o pensamento cartesiano e
colocou a Física Moderna como responsável por uma revolução e transformação em todas as
ciências, o que levou a nova visão de mundo e de valores.
         A crise atual, portanto, não é apenas uma crise de indivíduos, governos ou instituições
sociais; é uma transição de dimensões planetárias. Como indivíduos, como sociedade, como
civilização e como ecossistema planetário, estamos chegando a um momento decisivo. (CAPRA,
1982, P. 30).
               Nessa concepção, baseado na Física Quântica, o autor aumenta as margens da crise,
tornando-a com uma dimensão incalculável. Capra diz que o pensamento racional é linear, ao passo
que a consciência ecológica decorre de uma intuição de sistemas não-lineares. Desta forma, afirma
(1982, p. 39) que nosso progresso, portanto, foi uma questão predominantemente racional e
intelectual, e essa evolução unilateral atingiu agora um estágio alarmante, uma situação tão
paradoxal que beira a insanidade.
         Dando seqüência ao debate citaremos as idéias de Edgard Morin que trata do Paradigma da
Complexidade, partindo também de uma abordagem sistêmica. Esse autor acredita na necessidade
de discutir a base da consciência humana como um ser que possui diversas identidades: Cósmica,
terrena/biológica, cultural e pessoal. Nesse sentido. Os modelos explicativos fazem parte do
cotidiano dos estudos do meio físico. A complexidade das relações, dos lugares e dos sistemas leva
a necessidade de discussão.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            61

         Seria preciso ensinar princípios de estratégias que permitam enfrentar os imprevistos, o
inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas
ao longo do tempo. É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a um
arquipélago de certezas. (MORIN, 2004, p.16).

          Pensando nisso, as noções de mundo e relações seriam ampliadas, ressaltando que o
homem como indivíduo (identidade pessoal) é predominante na sociedade contemporânea. Sobre
esse assunto escreveu Morin (2002, p. 63) A Terra não é a adição de um planeta físico, mais a
biosfera, mais a humanidade. É uma totalidade complexa física/biológica/antropológica, em que a
vida é uma emergência da história da Terra. Esse autor (2002, p.46) também contribui para a
justificativa da EA quando diz que nossa educação ensinou separar, compartimentar, isolar, e não
ligar os conhecimentos. Nos faz conceber nossa humanidade de forma insular. Assim, podemos
afirmar que o momento agora é de unir, aglutinar, ligar os conhecimentos, já que o desvelar da
história nos mostrou que não existem ilhas para o saber e não é o sistema cartesiano o caminho das
pedras.
          Chegou o tempo do neoliberalismo, onde a concorrência passou a ser natural, ou talvez,
um mal necessário. Existe competição em tudo: Blocos Econômicos, Países, Multinacionais,
Pequenas Empresas, Trabalhadores e em vários outros setores. Para (Gonçalves, 2006, p. 51) o
período atual da globalização neoliberal, difere dos períodos que o antecede pela especificidade do
desafio ambiental.
          O motor do mundo globalizado é a competitividade. E para que esse motor não pare de
funcionar, é alimentado pela “corrida” tecnológica. Chegar em primeiro lugar significa
teoricamente ter a maior economia. Assim, trava uma incessante e “burra” disputa econômica em
todas as escalas. “O Ter substituiu o Ser”. A razão “Cartesiana” questionada ou não, ainda
permanece nas entrelinhas das relações sociais e da construção de conhecimento.
                No entender de Gonçalves (2006, p. 113) o mercado se mostrou hábil para encontrar
mecanismos de remunerar os investimentos de acordo com seus riscos potenciais, o mesmo não se
dá com relação aos riscos ambientais. O processo de globalização traz em si mesmo a globalização
da exploração da natureza com proveitos e rejeitos distribuídos desigualmente.
                O estrago ambiental já foi feito. O lucro obtido com esse estrago não foi dividido
entre os povos do planeta. Contrastam no mundo nações ricas com sociedade altamente consumista
com nações pobres com a maioria da população de miseráveis famintos. O crescimento econômico
e tecnológico de algumas nações e o uso indiscriminado dos recursos naturais não foi acompanhado
pelo desenvolvimento social.
          A Educação Ambiental no contexto da Crise
          Em decorrência do desenvolvimento tecnológico, da produção em larga escala e do
consumismo, o meio ambiente tem passado por intensas transformações, induzidas pelo próprio
homem. A primeira década do século XXI está sendo marcada por um debate mundial acerca das
questões ambientais, o que fez difundir a idéia da finitude dos recursos naturais e das sutilezas do
mecanismo natural do planeta. Juntamente com o crescimento das discussões sobre a problemática
ambiental, cresce também, a preocupação coletiva com o futuro comum da humanidade, criando
assim, a necessidade de frear o processo de destruição. É viabilizada então a Educação Ambiental
como uma das propostas para alcançar uma nova relação da sociedade com o meio ambiente.
          Importante sublinhar que quando falamos EA, estamos falando de educação como
protagonista de libertação da sociedade nos moldes de Paulo Freire e, portanto, sem a mitificação de
que o indivíduo é o culpado por tudo, pela sua falta de ética e pelo seu consumismo. Só se consome
porque se produz. Além das salas de aula e das nossas casas, existem um complexo sistema
chamado capitalismo e uma estrutura política que maximizam os problemas ambientais. Assim, a
EA é necessária tanto quanto a educação, no desvelar de uma sociedade mais consciente e critica.
                As necessidades humanas são atendidas com os recursos da natureza. Natureza
complexa, impossível de ser estudada em todas as suas especificidades por apenas uma ciência, o
que leva profissionais de todas as áreas a trabalharem juntos, tornando a Educação Ambiental um
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           62

tema transversal, como é tratada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. Sobre essa questão
Guimarães disse:
         A Educação Ambiental apresenta uma nova dimensão a ser incorporada ao processo
educacional, trazendo toda uma recente discussão sobre as questões ambientais, e as conseqüentes
transformações de conhecimento, valores e atitudes diante de uma nova realidade a ser construída.
(GUIMARÃES, 2005, p. 9).
         Essa discussão não está somente na educação formal em si, ela ultrapassa os muros das
escolas e chega até a sociedade num contexto bem mais amplo, adquirindo força através do debate,
para combater as desigualdades sociais, políticas e ambientais consideradas o tripé da
insustentabilidade. A resolução dos problemas ambientais implica na solução de mazelas sociais
vergonhosas como a fome e todos os problemas inerentes à condição humana, visto que, homem é
natureza e não existe mal feito a um que não atinja o outro. Esse complexo sistema constitui a
preocupação maior da EA.
         Para Carvalho (2008) EA é a uma mediação importante na construção social de uma
prática político-pedagógica portadora de nova sensibilidade e postura ética, sintonizada com o
projeto de uma cidadania ampliada pela dimensão ambiental. Segundo essa autora a EA crítica
seria, portanto, aquela capaz de transitar entre os múltiplos saberes: científicos, populares e
tradicionais, alargando nossa visão do ambiente e captando os múltiplos sentidos que os grupos
sociais atribuem a ele.
         A EA é um discurso, assim como é ação, atitude, prática que de alguma forma tenta
mitigar e recuperar os estragos causados ao meio ambiente pela ação humana. É também,
protagonista de uma discussão necessária e comprometida com a transformação da sociedade,
conclamando para uma leitura crítica da realidade, apresentando à ética como principal coadjuvante.

          Reconhecemos que estamos imersos numa era de imprevisibilidades, em meio a uma
transição muito turbulenta, e precisamos estar preparados para o que vai ocorrer nos próximos anos.
Reconhecemos que estamos diante de um sistema cada vez mais limitado para responder os anseios
das sociedades, e que vivenciamos as diversas crises humanas – ambientais, sociais, econômicas... -
que são meros sintomas de uma crise ambiental mais profunda, cujas raízes se encontram na perda e
aquisição de novos valores humanos e na carência de ética. (DIAS, 2004, p.94).
          A globalização das questões ambientais vem despertando uma preocupação sem
precedentes em relação à degradação causada pelo desenvolvimento tecnológico/industrial. A
propagação da idéia que Desenvolvimento e Meio Ambiente constituem um binômio que deve ter
valores e prioridades equivalentes promoveu o entendimento que é essencial desenvolver
economicamente, mas é vital que os recursos naturais sejam poupados para que não faltem. Esta
visão apresenta fortes contradições.
          Mesmo dentro das limitações da EA, assim como da Educação, é possível afirmar que a
Educação permanente transforma a realidade. Não existe quem sabe tudo, tão pouco quem não sabe
nada, o homem assim como os outros animais é um ser inacabado e se diferencia pelo fato de ter
consciência disso, essa consciência ao ser desenvolvida pode transformar tornando-se crítica, e a
partir daí suscitar mudanças.
          Considerações Finais
          No novo cenário mundial de crises é necessária uma visão humanista da escola e do mundo
e uma visão crítica da realidade socioespacial. Nesse sentido, tentamos analisar a crise
ambiental/capital ou vice-versa, pelo prisma da EA, convocando a mesma para uma elucidação dos
problemas ambientais/econômicos vigentes. Nosso intuito foi beneficiar os estudos dessa área do
conhecimento e fortalecer o debate sobre as questões ambientais na Universidade a qual o projeto
que deu origem a esse artigo está vinculado. Enfatizamos que as colocações feitas aqui são
tangíveis de discussão e aprofundamento teórico e se pautam numa pergunta essencial: tem como
ser sustentável dentro dos marcos que regem a sociedade atual?
          Iniciamos citando Enrrique Leff que fez grandes contribuições ao diferenciar
Racionalidade, Epistemologia e Saber Ambiental e ao afirmar que a crise ambiental é também uma
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         63

crise de conhecimento. Na seqüência, falamos sobre as novas tendências e abordagens que buscam
mudanças da concepção linear da sociedade para uma concepção holística. Nesse momento da
discussão tentamos deixar claro nosso real objetivo ao pesquisarmos Educação Ambiental, ou seja,
conhecer para propor mudanças de atitudes e valores. Ao falarmos da Educação Ambiental no
contexto da crise, fizemos um recorte no tempo, para melhor entendê-la, e assim, clarificar sua
necessidade e justificar o título do artigo que diz: CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL:
uma discussão à luz da Educação Ambiental.
          Referências
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          __________. O Desafio Ambiental. Rio de Janeiro: Record, 2004.
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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                         64

        CONTRIBUIÇÃO DA PREFEITURA DE OLINDA NA
        EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DE UM
                 MUNICÍPIO SUSTENTÁVEL

                                                                                             Maria de Fátima Faro
                                                                                                    Cleide Amorim
                                                                                                     Sônia Brandão
                                                                                             Maria Helena Peixoto
                                                                                               Luiza Maria Barros
                                       Grupo da Sala Verde / Diretoria de Meio Ambiente da Prefeitura de Olinda-PE

         O Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso, CEA, situado na Secretaria de
Orçamento Participativo e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de Olinda, é um local de
Reedição de Práticas Ambientais, onde a comunidade olindense tem oportunidade de ser
sensibilizada em relação à problemática ambiental, através da exposição de temas ambientais,
debates, pesquisas e vivência de demonstrações de práticas ambientais. O CEA dispõe de uma Sala
Verde, Sala de Capacitação, Oficina de Papel, Oficina de Ecoartes e Pátio para Atividades de
Compostagem. Este espaço vem funcionando desde a sua inauguração em junho de 2006.

          SALA VERDE
          Sala Verde é um projeto do Ministério do Meio Ambiente que consiste em uma biblioteca
interativa sobre questões ambientais, onde os interessados encontrarão um acervo significativo
relacionado ao meio ambiente.
          Este acervo está disponível para leitura, pesquisa e consulta na forma de livros, cartilhas,
periódicos, folders, CDs, DVDs, fitas de vídeo. Podendo ser utilizado por professores, estudantes e
a comunidade em geral.
          O objetivo do espaço é democratizar o acesso da população às informações, materiais e
publicações ambientais, oferecendo atividades diversas como: capacitações, palestras, oficinas,
vivências, campanhas, entre outras experiências, viabilizando uma participação ativa do processo de
conservação da cidade.
          Sendo a cidade de Olinda Monumento Nacional e Patrimônio Cultural da Humanidade,
com rico acervo arquitetônico, urbanístico e cultural, a Sala Verde vem enriquecer na formação de
reeditores ambientais, visando melhorar a qualidade de vida e consequentemente a cidadania
ambiental. A Sala Verde funciona de segunda à sexta-feira no horário das 08 às 12 horas. com
visitas pré-agendadas.

          OFICINA DE PAPEL RECICLADO
          Na década de 80 foram introduzidas tecnologias alternativas em Olinda pelo governo
municipal como solo cimento, compostagem do lixo, sistema condominial de esgotamento sanitário
e a reciclagem de papel.
          O Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso-CEA continua com a prática da
reciclagem do papel para demonstração didática, através da Oficina de Papel, proporcionando à
comunidade a vivência do passo a passo do reaproveitamento do papel já utilizado. A oficina de
papel funciona de segunda à sexta no horário das 08 às 12 horas. com visitas pré-agendadas.

          EXPERIÊNCIA DE COMPOSTAGEM EM OLINDA
          A prática da compostagem em Olinda, iniciada desde a década de 80, tendo sido referência
no tratamento alternativo de resíduos sólidos orgânicos, prática ecologicamente correta.
          A compostagem é realizada em pequena escala, no CEA, para demonstração didática, a
partir da Coleta Alternativa de uma pequena área de difícil acesso no entorno da Secretaria.
          Consta de um processo biológico no qual o lixo orgânico é transformado em composto rico
em nutrientes, o húmus, o qual é utilizado nos jardins das praças olindenses.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            65

          Tal prática é mais um estímulo à reciclagem do Lixo vivenciado pela comunidade.

          Oficina de Ecoartes

          Nesta oficina, as arte educadoras do CEA desenvolvem produtos elaborados a partir da
reciclagem de papel, garrafas plásticas e outros materiais recicláveis, junto a comunidade. Existe
um atendimento a grupo da 3ª idade todas as segundas pela manhã. E atendimentos eventuais a
partir da demanda por esta atividade.

          Capacitações

         Á cada mês são desenvolvidos pelo menos dois temas do Calendário Ecológico, sendo
apresentado e discutido com o público presente. Podendo também ser apresentados outros temas
ambientais, dependendo do interesse do público alvo como Erosão Marinha, Hortas e outros.
         A cada visita inicial de um grupo é realizado um tour pelo CEA, onde são recepcionados
com conceitos de Meio Ambiente e Cidadania, depois acompanham o passo a passo da
Compostagem, recebem informações sobre os cuidados e responsabilidades sobre a questão do Lixo
e, aprendem e praticam o passo a passo da Reciclagem do Papel.
         Sendo Olinda uma cidade litorânea, enfatizamos a preocupação com o lixo nas praias e
suas consequencias na Biota Marinha.

          Por fim é apresentada a Sala Verde, colocando a disposição dos interessados todo o nosso
acervo.
        Em ocasiões especiais a capacitação é apresentada de forma lúdica através do Teatro de
Fantoches.

          Outro Projeto do CEA: Coletivos Educadores

          Outra atividade do Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso é a integração ao
programa do Ministério do Meio Ambiente Coletivos Educadores para Municípios Sustentáveis,
focando o fortalecimento da Educação Ambiental no nosso território e a melhoria da nossa
realidade socioambiental.
          O Coletivo Educador é constituído pela articulação de instituições que trabalham com
formação em Educação Ambiental, Educação Popular, Ambientalismo e Mobilização Social,
estabelecendo parcerias para implementar uma proposta integrada de Educação Ambiental na base
territorial, a partir de uma reflexão crítica acerca da problemática socioambiental local. Por meio
desse processo de formação, o Coletivo forma educadores ambientais populares que tem como
compromisso promover intervenções no território voltadas para a sustentabilidade socioambiental,
sendo apoiados pelo Coletivo de forma contínua e permanente.

         MATA DO PASSARINHO
         A Mata do Passarinho, resquício de Mata Atlântica em Olinda, definida como Reserva
Ecológica pela Lei Estadual nº 9.989/87, Área de Proteção Especial pela Lei Orgânica do Município
e Zona de Preservação Ambiental Especial pelo Plano Diretor, foi desapropriada pela Prefeitura de
Olinda em 1998, passando a ter um Núcleo de Educação Ambiental.
         É um espaço onde as pessoas vivenciam, através das trilhas de caráter educacional, a
dinâmica e a biodiversidade da mata, reconhecendo o seu papel na Natureza.
         Desde a inauguração do Núcleo de Educação Ambiental em 2002, foi visitado por
inúmeras escolas das redes municipal, estadual e particular, grupos da 3ª Idade, e público em geral.
         Este espaço, aberto ao público pode ser visitado no horário da manhã de segunda à sexta,
após agendamento na Diretoria de Planejamento Ambiental da Secretaria de Orçamento
Participativo e desenvolvimento Urbano.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade   66

          ROTINAS DO CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - CEA




          1. Recepção dos visitantes




          2. Demonstração do Processo de Compostagem




          3. Capacitação sobre Lixo
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade   67




          4. Oficina de Papel Reciclado




          5. Capacitação Calendário Ecológico e Sala Verde




          6. Capacitação com a 3ª Idade
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                        68

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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                           69

   DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA ZONA COSTEIRA DE SÃO
   LUIS – MA: UM ESTUDO DE CASO DA PRAIA DO ARAÇAGY

                                                                                       Lorena Santos GONÇALVES
                                                                                         lorenaangitur@hotmail.com
                                                                                                Janaíne Lira VIEIRA
                                                                                           biologajana@hotmail.com
                                                                                      Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA
                                                                                              thais.eline@gmail.com
                                                                                        Hadryan Lima RODRIGUES
                                                                                           hadryan11@yahoo.com.br
          Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / Curso
          de Especialização em Educação Ambiental - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do
                 Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil.

          RESUMO
          O presente trabalho objetiva fazer um estudo de caso na zona costeira do Maranhão,
especificadamente na área da praia do Araçagy, para analisar as condições ambientais da área,
caracterizando os impactos e/ou problemas ambientais gerados pelas desordenadas ações
antrópicas. Quanto à metodologia, utilizou-se, principalmente, a observação in locu, a partir das
visitas periódicas realizadas no local, simultaneamente, foi feito um levantamento sobre tais
impactos e registro dos mesmos. A partir dos dados obtidos, sentiu-se a necessidade de realizar
ações de Educação Ambiental na área, voltadas para o desenvolvimento da consciência crítica dos
barraqueiros e banhistas freqüentadores da praia, orientando-os sobre a importância da tomada de
atitudes ambientalmente corretas, no que diz respeito a conservação e preservação dos recursos
naturais, ainda existentes na área.
          PALAVRAS-CHAVES: zona costeira, educação ambiental, impactos ambientais.

          ABSTRACT
          The present paper aims at studying the shoreline of Brazilian Maranhao state, specifically
Araçagy beach, in Sao Luis, in order to analyze the environmental conditions in that area,
characterizing the impacts and environmental problems generated by anthropic disorderly actions.
Regarding methodology, one used, mainly, in locu observation, from periodical visits made to the
location. Simultaneously, a study was made about the impacts and their records. From the obtained
data, arised the need for Environmental Education actions in the area, aimed at the development of
critical conscience of bar owners and attenders of the beach, giving them orientation about the
importance of environmentally correct attitudes, regarding conservation and preservation of the
natural resources which still exist in the area.
          KEYWORDS: shoreline zone, environmental education, environmental impacts.

        1 INTRODUÇÃO
              Desde o surgimento da humanidade na superfície terrestre, a mais de um milhão de
anos, o homem vem transformando a natureza. No principio, essas transformações causava
impactos irrelevantes sobre o ambiente, exatamente pelo fato de haver um pequeno número de
pessoas vivendo no planeta. Assim, é possível verificar que o limite entre o homem submisso à
natureza e o grande agente modificador do espaço natural é marcado indiscutivelmente pela
Revolução Industrial. Nessa perspectiva, os principais impactos ambientais decorrentes da
capacidade humana de transformação da natureza, passaram a crescer em ritmo acelerado, não
somente locais, como também em escala global.
              A ilha do Maranhão, situada no Golfão Maranhense, possui mais de 1000 km², sendo
composta pelos municípios de São José de Ribamar, Raposa, Paço do Lumiar e São Luís. Juntos,
estes municípios perfazem uma população em torno de 1.211.270 habitantes (IBGE, 2008). Limita-
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se, ao norte, com o Oceano Atlântico; ao sul, com o Estreito dos Mosquitos; a leste, com a Baía de
São José, e a Oeste, com a Baía de São Marcos.
                No que se refere à zona costeira da capital maranhense, pode-se constatar que se trata
de uma das áreas de maior atração populacional, que como conseqüência da concentração das
atividades humanas, vem se constituindo numa das áreas mais afetadas pelo processo de degradação
ambiental, provocando sérios impactos e diminuindo a qualidade paisagística.
                Neste sentido, impacto ambiental caracteriza-se como:

          qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer
forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas, que direta ou indiretamente afetam: a saúde, a
segurança, o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do
meio ambiente; a qualidade dos recursos naturais. (Resolução CONAMA n0001/86 apud (et.al), 200p.133).

               Entretanto, pode-se espreitar que os impactos ambientais decorrentes das ações
antrópicas na praia do Araçagy extendendo-se ao Porto do 400, área de estudo, prejudicam toda a
dinâmica do ambiente, podendo-se arrolar, como exemplo; a degradação da paisagem, devido a
construções inadequadas, especialmente de edifícios que por suas dimensões, formas, cores e
matérias-primas utilizadas, podem ser consideradas arquitetonicamente inadequadas ao local;
aumento da utilização e da necessidade de abastecimento da água potável; contaminação da água do
mar, devido ao aumento de efluentes não tratados e contaminação por resíduos; degradação da
fauna e da flora; aumento da geração de resíduos sólidos.
               Assim como também podemos citar como exemplo, o aumento do tráfego de
veículos ocasionando conseqüentemente a redução da qualidade do ar; dos ruídos; os assoreamentos
da encosta, com destruição de corais, recifes, mangues, restingas e dunas, onde se destacam os
constantes aterros para aumentar a área urbana; necessidade de implantação de obras de infra-
estrutura causadoras de impactos ambientais tais como: estradas, sistemas de drenagem, aterros com
grande movimentação de terra, entre outros.
               As praias são ambientes costeiros que oferecem grande oportunidade para uma
imersão inicial no estudo do meio marinho, possibilitando um melhor entendimento da zonação do
mar e das características do oceano consideradas de maior interesse ecológico.
               Os ambientes marinhos possuem maior diversidade animal do que os ambientes
terrestres ou de água doce. Isso ocorre devido maior estabilidade de seus fatores ambientais durante
o tempo geológico (PEREIRA & SOARES-GOMES, 2002).
               A Zona Costeira abriga um mosaico de ecossistema de alta relevância ambiental. A
sustentabilidade das atividades humanas na Zona Costeira depende de um meio marinho saudável e
vice-versa (VIDIGAL et al., 2006). A caracterização física da Zona Costeira Brasileira leva em
consideração aspectos como: localização geográfica, geomorfologia, clima e a produtividade
(PEREIRA & SOARES-GOMES, 2002).

        2 OBJETIVOS
        2.1 Objetivo Geral
        Identificar o estado atual das condições naturais da Praia do Araçagy, fazendo um
levantamento sobre as características apresentadas, bem como analisar os diferentes graus de
impactos ambientais ocorridos na área da zona costeira decorrentes das ações antrópicas.

          2.2 Objetivos Específicos
          Levantar dados no que tange os impactos ambientais ao longo do litoral;
          Estabelecer relações entre os diversos tipos de degradação ambiental;
          Observar e registrar a paisagem natural da área;
          Caracterizar a zonação e fatores abióticos da praia;
          Divulgar os dados obtidos através de artigo cientifico.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              71

         3 MATERIAL E MÉTODOS
               Para a percepção do ambiente natural da praia realizou-se uma caminhada ao longo
da linha e poças de maré e pedras, com o objetivo de averiguar inicialmente o modo de vida ali
existente.
               Foi feito in loco: a medição dos parâmetros de temperatura e salinidade, a
caracterização da zonação e a observação dos fatores abióticos, registrado através de GPS, refrator e
termômetro em alguns pontos estratégicos do local, bem como a identificação das zonas intertidais,
supratidais e subtidais da região.
               Após a coleta dos dados supracitados, realizou-se uma entrevista (informal) com
alguns visitantes abordando principalmente as questões das potencialidades e/ou problemas da
praia. Na ocasião da entrevista, aproveitou-se da oportunidade para conversar informalmente um
pouco sobre Educação Ambiental com os banhistas freqüentadores da orla marítima com a intenção
de fazer um trabalho de conscientização ambiental com os mesmos.
               Todas as observações feitas foram registradas com fotografias e anotações para uma
posterior análise e compreensão acerca da temática abordada. Pensou-se ainda na possibilidade de
coletar esses dados e resultados obtidos para publicar em forma de artigo científico como um dos
objetivos do trabalho.

         4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
               O Brasil é um país com uma vasta zona costeira, tendo o nordeste vantagem sobre
outras regiões pelo seu clima e pela geomorfologia. No Estado do Maranhão, que tem o segundo
maior litoral no país, com 640 km, encontramos uma diversidade de paisagens que variam de
planaltos, tabuleiros, planícies, planície de maré areno-lamosa, planície flúviomarinha, cordões
arenosos, falésias, florestas, capoeira, campos, vegetação de dunas ou restingas, mangues, apicuns e
entre outros.

          4.1 ÁREA DE ESTUDO
          4.1.1 PRAIA DO ARAÇAGY
                 A Praia do Araçagy localiza-se nas coordenadas S 02º 27’911’’ e W 044º20’03’’
localizada na cidade de São José de Ribamar/MA, fica no litoral da ilha do Maranhão, também
conhecida como Ilha de Upaon-Açu. Toda a praia possui uma orla de dunas com vegetação rasteira
típica.
                 Ao longo da visita realizada à praia, pôde-se conhecer as seguintes zonações:
intertidal ou litoral (superfície do mar que sobe e desce com as ondas), supratidal (região localizada
acima da zona intertidal), e subtidal (é a região abaixo da zona intertidal).
                 Numa oportunidade seguinte visitou-se também na praia do Araçagy o projeto “Orla
Viva” que recebe entidades de todos os níveis de ensino e é aberta para visitação pública. Já possui
5 anos de existência. De março 2007 a dezembro de 2008 recebeu em média 4.164 visitantes sendo
80% estudantes. Para estudantes de instituição privada é cobrada uma taxa para manutenção do
projeto. Já passaram visitantes de 13 países, 23 estados brasileiros e 42 municípios. O referido
projeto é uma importante iniciativa voltada para o estudo das espécies marinhas encontradas na
área, assim como também para despertar uma consciência ecológica ligada à preservação e
conservação da biodiversidade da zona costeira maranhense.

         4.1.2 PORTO DO 400
               O Porto do 400 que é uma área limite de mangue e praia, localiza-se nas coordenadas
S 02º27’15’’ e W 44º09’33’’.
               Os manguezais são ecossistemas costeiros, estuarinos, sujeitos a inundações
periódicas pelas marés e por águas doces. São sistemas abertos no tocante a entrada e saída de
matéria e energia. Geralmente, ocorre nos manguezais entrada de sedimentos, água doce e
nutrientes e saída de água e matéria orgânica para os estuários (Araujo & Maciel, 1979; Cintrón,
Lugo & Martinez, 1980).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          72

               No Porto do 400 pode-se observar a presença de caranguejos do gênero Uca rapax
que é um componente bastante presente na macrofauna bentônica dos manguezais da Ilha do
Maranhão. Apesar de não possuir valor econômico esse táxon destaca-se, juntamente com as outras
espécies do gênero, por contribuírem grandemente na retenção de nutrientes e energia pelo consumo
da maioria do folhiço, aumentando a degradação das folhas, remineralizando os nutrientes e
promovendo a oxigenação pela atividade de alimentação e escavação de tocas, as quais parecem
estimular a produção de árvores dos manguezais (Schaeffer-Novelli, 1989).
               Constituem as florestas de mangue: Mangue vermelho (Rhizophora), Mangue
Branco (Laguncularia) e o Mangue de Seriúba (Avicennia). Vivem na zona das marés,
apresentando uma série de adaptações: raízes respiratórias, capacidade de ultrafiltragem da água
salobra e desenvolvimento das plântulas na planta materna, para serem posteriormente dispersas
pela água do mar. A flora do manguezal pode ser acrescida de poucas espécies como a samabaia do
mangue, a gramínea spartina e o hibisco.
               Todo esse cenário tem passado por inúmeras modificações que são verdadeiros
reflexos das ações antrópicas desordenadas, que visa defender seus interesses particulares.
               Vale ressaltar que existe uma série de fatores que agravam ainda mais a evolução do
processo erosivo, como a devastação da cobertura vegetal como efeito da especulação imobiliária e
o próprio crescimento populacional, que acaba impulsionando a ocupação desordenada de áreas de
ecossistema frágil como manguezais, dunas e margens de rios. As zonas costeiras estão em uma
fase de supervalorização e em São Luís isso não é diferente, visto que o processo de urbanização
tem crescido consideravelmente nessas áreas.

         4.2 PRINCIPAIS PROBLEMAS DETECTADOS
         *MAU USO E OCUPAÇÃO DA ZONA COSTEIRA
               Uma ocupação espacial de sistemas ambientais inadequada, com ações desenfreadas
que coduz a um anexo de agressões ao meio ambiente, que se manifesta por meio de verdadeiros
desastres que afetam o equilibrio ecológico, podendo até se tornar um caso irreversível.




                                        Figura 1: Ocupação da zona costeira

          *DESTRUIÇÃO DA MATA CILIAR
               Na área de estudo, encontram-se conjuntos faunisticos representados pelo mangue e
florestas secundarias, já bastante reduzidos devido a expanção urbana da cidade de São Luis.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                               73




                                         Figura 2: Destruição da mata ciliar

         *CONSTRUÇÃO DE EDIFICAÇÕES E EROSÃO PROVENIENTE DAS
CONSTRUÇÕES
               Com a grande concentração populacional, a apropriação desenfreada e desorganizada
e contruções inadequadas de edificios, geram alterações no ambiente.
               Devido ao mau planejamento, as dunas invadiram contruções feitas para o lazer.




                                         Figura 3: Edificações e erosão proveniente de construções

         *ACUMULO DE RESÍDUOS
              Neste aspecto, observou-se que as grandes quantidades de resíduos acumulados na
área são provenientes das atividades comerciais realizadas pelos barraqueiros da praia, onde os
mesmos até tentam organizar os resíduos produzidos, mas dependem diretamente do serviço
público de coleta de lixo, que passam no local em dias alternados, sendo insuficiente para a grande
quantidade de resíduos produzidos.

         6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
               Os problemas ambientais decorrentes das ações antrópicas associadas a um mau
planejamento do uso e ocupação do solo da zona costeira do Maranhão desencadearam uma série de
obstáculos ao desenvolvimento sustentável e à manutenção e/ou preservação dos recursos hídricos
dos quais se destaca a área de estudo.
               As alterações causadas pela intervenção do homem resultaram na quebra do
equilíbrio natural, acarretando não só o empobrecimento do solo como conseqüência do modo de
exploração, mas provocou também o surgimento de outros elementos prejudiciais ao homem e ao
meio ambiente. Dessa forma, as principais transformações ocorridas resultaram numa paisagem
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                 74

pontuada de formas residuais que encenam caracteres de antigos ambientes, esses testemunhos
encontram-se ao longo do litoral.
          O ambiente é o maior patrimônio que a humanidade possui; quanto maior for sua
qualidade, maiores serão os benefícios. Assim sendo, o que se pretende com esse trabalho é
caracterizar os impactos ao longo da Praia do Araçagy, e criar ações que possam minimizá-los, para
que assim se tenha um meio ambiente, equilibrado e sadio.
          Partindo desta premissa, foi discutido e analisado os aspectos apontados ao longo das
visitas in locu e pensou-se em tomar algumas medidas que pudessem pelo menos minimizar os
impactos já mencionados, em caráter emergencial, tais como:
          Realização de mutirões de limpeza ao longo da orla por educadores ambientais
devidamente identificados para chamar a atenção dos banhistas. Na ocasião, orientar as pessoas da
importância em tomar certas atitudes voltadas para a preservação e conservação das características
naturais da zona costeira, através de conversas informais e entregas de panfletos educativos.
          Posteriormente consolidar o trabalho com a elaboração de projetos em Educação
Ambiental Marinha para serem desenvolvidos com os barraqueiros e banhistas freqüentadores da
praia. Assim como também, implantar uma sede de estudos e ações em Educação Ambiental
Marinha na zona costeira de São Luís-MA, para o desenvolvimento de ações e produções
acadêmicas de Educação Ambiental realizadas nas praias de São Luís-MA.

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Guanabara. Cadernos FEEMA, ser. téc., 10/79: 1-115. 1979.
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1999.
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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                      75

        EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO DE
       SUSTENTABILIDADE NA ERA DO CONSUMO GLOBAL

                                                                                        Bruno Soares de ABREU
                                                    Economista - Doutorando em Recursos Naturais - CTRN/UFCG
                                                                                          abreu.ufcg@gmail.com
                                                                                          Vera Antunes de LIMA
                                                     Prof. da Unidade Acadêmica de Eng. Agrícola - CTRN/UFCG
                                                                                         antuneslima@gmail.com
                                                                                    Silvana FERNANDES NETO
                                                      Geógrafa – Doutoranda em Recursos Naturais - CTRN/UFCG
                                                                                            silfeneto@gmail.com
                                                                              Geraldo Moura BARACHUY NETO
                                                   Administrador, Doutorando em Recursos Naturais - CTRN/UFCG
                                                                                            baracuhy@gmail.com

         RESUMO
         As ações antrópicas em favor do consumo global têm aumentado gradativamente a
degradação ambiental em todo planeta, fazendo com que, os problemas ambientais se tornem cada
vez mais preocupantes. Notoriamente, a revolução industrial, o avanço tecnológico e o consumo
desenfreado pela população, favoreceram o desencadear de uma crise ambiental, outrora não tão
evidenciada. Assim sendo, a busca incessante por medidas que minimizassem tal situação passou a
ser foco principal mediante encontros, relatórios e convenções. A disseminação de informações de
caráter educativo sobre a necessidade de proteger e melhorar o meio ambiente, possibilitando o
desenvolvimento do homem de forma sustentável, em todos os sentidos, foi se tornando essencial
principalmente na era do consumo global. Nesse contexto, a educação ambiental versa para uma
sustentabilidade equitativa e duradoura, sendo um processo de aprendizagem contínuo e
permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida. Tal educação apresenta enfoque
humanístico e participativo, afirmando valores e ações que contribuem para a preservação ecológica
e transformação de sociedades socialmente justas. Incorporar a educação ambiental vai além das
mudanças de comportamento, paradigmas conceituais e metodológicos; busca a responsabilidade
individual e coletiva e a relação de interdependência e diversidade.
         PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Consumo. Sustentabilidade. Meio ambiente e
desenvolvimento.

         ABSTRACT
         The human actions encouraged by a global consumption have increased gradually
throughout the world environmental degradation, causing environmental problems become
increasingly worrying. Notably, the industrial revolution, technological advances and unbridled
consumption by the population, favored the onset of an environmental crisis, once not so evident.
Thus, the incessant search for measures that might minimize this situation came to be the main
focus through meetings, reports and conventions. The dissemination of information of an
educational nature on the need to protect and improve the environment, enabling the development
of mankind in a sustainable way, in every sense, was becoming essential, particularly in the era of
global consumption. In this context, environmental education versa for a fair and lasting
sustainability, being a continuous learning process and ongoing, based on respect for all life forms.
Such education has humanistic and participatory approach, affirming values and actions that
contribute to ecological preservation and processing of socially just societies. Incorporate
environmental education goes beyond the behavior changes, conceptual and methodological
paradigms; search the individual and collective responsibility and the relationship of
interdependence and diversity.
         KEYWORDS: Environmental education. Consumption. Sustainability. Environment and
development.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         76

         INTRODUÇÃO
         A realidade socioeconômica e ambiental, não apenas em escala nacional, mas também em
nível global, tende a ficar cada vez mais obscura quando nos dispomos a investigar de forma um
tanto quanto minuciosa e detalhada, como o atual modelo de desenvolvimento socioeconômico do
sistema capitalista vem causando danos muitas vezes irreparáveis à humanidade como um todo em
prol de seu desenvolvimento e consumo desenfreados.
         Cada vez mais nos deparamos com as crescentes incertezas e instabilidades que pairam na
mente das pessoas no que dizem respeito aos caminhos que devem ser implantados para que se
possa alcançar a plenitude de um desenvolvimento econômico e social mundial de forma igualitário,
equitativo, inclusivo e duradouro.
         Mesmo com a busca constante de um desenvolvimento equitativo e igualitário proposto
pelos princípios da sustentabilidade, observamos que o tão glorioso desenvolvimento social,
econômico e ambiental, articulado e imposto pelos grandes capitalistas vem nos provando o
contrário. Estes, sempre trazem em seus braços uma série de impactos e modificações geralmente
negativas nas quais, hoje a sociedade já começa a despertar e a questionar o seu tão impiedoso
modo de agir.
         Atualmente, os impactos sociais, econômicos e ambientais vêm aumentando de forma
exponencial, provocando a destruição dos ecossistemas e causando alterações do meio ambiente a
partir das atividades humanas que afetam a saúde, a segurança, o bem estar da população, as
atividades socioeconômicas, as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente como um todo.
         Diante desse contexto, este trabalho tem por intuito, a realização de uma retrospectiva
histórica acerca dos mecanismos que possibilitaram a observação gradativa dos problemas sociais,
econômicos e ambientais decorrentes da extração de recursos naturais para o consumo, bem como
a introdução de uma educação ambiental que versa para uma sustentabilidade equitativa e
duradoura, atraves de um processo de aprendizagem contínuo e permanente, baseado no respeito a
todas as formas de vida onde tal educação apresenta um enfoque humanístico e participativo, e
afirma valores e ações que contribuem para a preservação ecológica e transformação de sociedades
socialmente justas.

         Revisão teórica
         Atualmente, em todas as áreas do conhecimento, a questão ambiental e seus desafios vêm
sendo bastante refletidos por se tratar de uma preocupação mundial. Historicamente, a forma
irracional adotada na busca do desenvolvimento e consumo sócio-econômico vem causando danos
alarmantes não só ao meio ambiente, mas também a humanidade como um todo.
         Os avanços científicos e tecnológicos, a globalização da sociedade, a mudança dos
processos de produção e suas conseqüências na educação, trazem a tona novas exigências à
conscientização das pessoas objetivando reverter o atual quadro em que se encontra a questão
ambiental.
         Observou-se na segunda metade do século XVII, na Europa, o surgimento dos primeiros
movimentos que se preocupavam com questões relacionadas à preservação de áreas naturais, como
reação à degradação do meio ambiente promovida pela revolução industrial. E, a partir do século
XIX, foram criados os primeiros parques nacionais nos EUA, Austrália e Nova Zelândia, como
exigência da sociedade local.
         No século XX, mais precisamente na década de 60, começaram a surgir as primeiras
articulações de movimentos ambientalistas preocupados com questões referentes à preservação
ambiental, cujas informações sobre as ameaças que o planeta estava sofrendo, difundia-se
rapidamente entre as sociedades fazendo com que estas começassem a adquirir a noção de
equilíbrio ecológico e a consciência sobre a necessidade de preservar os recursos naturais e os
ecossistemas.
         Nos anos 70, o termo “ambiente” passou a constituir a agenda mundial no bojo da crise
econômica na maioria das nações do planeta, quer sejam estas desenvolvidas ou não. Nesse
contexto, observou-se um novo componente na crise e que este tinha relação direta com a redução
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                     77

do índice de qualidade de vida de uma grande parte da população mundial: a poluição, a degradação
ambiental, que juntamente com a possibilidade de saturação dos recursos naturais interferia no
presente e no futuro da humanidade.

          A degradação ambiental se manifesta como sintoma de uma crise de civilização marcada pelo
modelo de modernidade regido pelo predomínio do desenvolvimento da razão tecnológica sobre a
organização da natureza. A questão ambiental problematiza as próprias bases da produção; aponta para a
desconstrução do paradigma econômico da modernidade e para a construção de futuros possíveis, fundados
nos limites das leis da natureza, nos potenciais ecológicos, na produção de sentidos sociais e na criatividade
humana (LEFF, 2001).

         A partir de então, o tema passou a aparecer em diversos estudos, relatórios e programas
internacionais dedicados ao meio ambiente, embora de formas e com ênfases distintas, onde na
maioria das vezes vieram deturpar a visão da sociedade para as reais necessidades de preservação
do meio ambiente com intuito de minimizar o processo de degradação ambiental com a qual nos
deparamos na atualidade.
         Segundo Leff (2001), a degradação ambiental, o risco de colapso ecológico e o avanço da
desigualdade e da pobreza são sinais eloqüentes da crise do mundo globalizado. A sustentabilidade
é o “significante” de uma falha fundamental na história da humanidade; crise de civilização que
alcança seu momento culminante na modernidade, mas cujas origens remetem a concepção do
mundo que serve de base à civilização ocidental. A sustentabilidade é o tema do nosso tempo, do
final do século XX e da passagem para o terceiro milênio; da transição da modernidade truncada e
inacabada para uma pós-modernidade incerta, marcada pela diferença, pela diversidade, pela
democracia e pela autonomia.
                Mediante tais constatações surge o conceito de desenvolvimento sustentável que,
segundo Barbosa (2007), é aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer a
capacidade das futuras gerações de prover as suas próprias necessidades.
                Nesse sentido, o desenvolvimento sustentável implica necessariamente em uma ação
interligada e interdependente com as variáveis econômicas, sociais e ambientais de maneira estável
e equilibrada, pois, até então, a produção material, a reprodução e a conservação dos recursos
naturais não são corrigidas pela economia de mercado. Busca-se uma nova forma de racionalidade
do sistema capitalista frente às contradições do mundo moderno.

          A noção de desenvolvimento sustentável tem como uma de suas premissas fundamentais o
reconhecimento da “insustentabilidade” ou inadequação econômica, social e ambiental do padrão de
desenvolvimento das sociedades contemporâneas. Esta noção surge da compreensão da finitude dos recursos
naturais e das injustiças sociais provocadas pelo modelo de desenvolvimento vigente na maioria dos países
(BECKER, 1999).

         De acordo com Leff (2001), o princípio de sustentabilidade surge no contexto da
globalização como marca de um limite e o sinal que reorienta o processo de civilização da
humanidade. A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que
impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. Ultimamente, surge de
maneira crescente, à adesão a essa idéia mesmo que de forma genérica e pouco precisa.
         Nos anos 80, após a publicação em vários idiomas do “Relatório de Brundtland”, a noção
de desenvolvimento sustentável apresentada vem se tornando bastante usual em múltiplos espaços
sociais nos dias atuais.
         Notoriamente, a implementação do desenvolvimento sustentável percorre um processo de
discussão e comprometimento da sociedade como um todo, uma vez que implica em mudanças no
modo de agir dos agentes sociais.
         Vale salientar que, foi a partir da publicação do Relatório de Brundtland que se tornou
possível se problematizar algumas concepções e idéias do desenvolvimento sustentável, onde a
essência do que foi apresentado em tal documento vem recair sobre uma ótica mais crítica da
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             78

exploração que ocorre com os recursos naturais, da orientação dos investimentos e das
compatibilidades entre preservação e desenvolvimento. O mesmo também reafirma o fosso
profundo entre países centrais e países subdesenvolvidos (GIANSANTI, 1998).
          Dessa maneira, fica evidente que a garantia de sustentabilidade do patrimônio natural
integrada a um desenvolvimento econômico e social, necessita da elaboração e aquisição de vários
outros conceitos que possibilitem garantir um desenvolvimento justo, equitativo e duradouro.
          De acordo com Giansanti (1998), o Relatório de Brundtland, referencia ao atendimento das
“necessidades essenciais dos pobres no mundo”. Inegavelmente, tal meta possui grande mérito, mas
há evidentes dificuldades em definir essas necessidades, diferenciando as coisas que realmente
devem ser produzidas das coisas supérfluas.
          Consoante, Leff (2001) evidencia que o discurso da sustentabilidade leva, portanto, a lutar
por um crescimento sustentado, sem uma justificação rigorosa da capacidade do sistema econômico
de internalizar as condições ecológicas deste processo.
          A Organização das Nações Unidas (ONU), que é constituída por quase todos os países do
planeta, vem abordando a temática ambiental durante a realização de suas conferências. Dois desses
eventos que se destacaram e focaram a tal questão no mundo foram a Conferência de Estocolmo
(1972) e a Conferência do Rio (1992).
          Nessas conferências foram estabelecidos princípios que serviram de caminho para a
resolução das questões abordadas, como também a concretização de compromissos assumidos em
convenções. Embora se saiba que existe um longo caminho a ser percorrido entre o que se tem em
mente e o que se deseja pôr em prática, é de suma importância conhecermos e valorizarmos o
esforço das Nações Unidas, pois este constitui-se em um grande passo para que as mudanças
necessárias ocorram.
          A questão ambiental tornou-se uma preocupação mundial a partir do que foi declarado em
Estocolmo, passando a fazer parte do que era negociado internacionalmente. O primeiro passo
constituiu na criação de um mecanismo institucional para cuidar de questões ambientais no âmbito
das Nações Unidas. No ano de 1972, surge o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
(PNUMA).
          Segundo Giansanti (1998), nos anos 70, a preocupação básica da Conferência de
Estocolmo, era conter as várias formas de poluição, sendo que os debates foram marcados pela
polarização entre os defensores do chamado crescimento zero, que advogavam pela contenção dos
índices de crescimento econômico dos países pobres diante da ameaça de esgotamento dos recursos
naturais que o ritmo de exploração da natureza poderia causar e os desenvolvimentistas, que eram
compostos praticamente de representantes de países subdesenvolvidos que reivindicavam o direito
ao desenvolvimento, mesmo trazendo impactos ambientais.
          Ainda em 1972, durante a Conferência de Estocolmo, não só o Brasil como os países em
desenvolvimento opunham-se à problemática ambiental alegando que proteção ao meio ambiente
teria sido uma estratégia criada pelos países desenvolvidos para impor barreiras a industrialização
em andamento dos países subdesenvolvidos. Desta forma, o Brasil não reconhecia que as questões
ambientais assumiam dimensões muito mais responsáveis e complexas.
          Em junho de 1992, as Nações Unidas convocaram outra conferência a ser realizada no Rio
de Janeiro, denominada Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
(CNUMAD), para discutir conclusões e propostas do Relatório que introduziu o conceito de
desenvolvimento sustentável e ainda comemorar os 20 anos da Conferência de Estocolmo.
          Na Conferência do Rio foram produzidos documentos fundamentais ao conceito de
desenvolvimento sustentável, entre os quais podemos citar a criação da Agenda 21, um amplo
programa de ação com a finalidade de dar efeito prático aos princípios aprovados na declaração do
Rio.
          Em síntese, a Agenda 21 constitui um plano de ação estratégico, que possuiu a mais ousada
e abrangente tentativa já feita de realizar, em escala planetária, um novo padrão de
desenvolvimento, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica.
Assim, estabelecendo uma parceria entre governos e sociedades, ou seja, um programa estratégico,
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            79

universal, para alcançarmos o desenvolvimento sustentável no século XXI. Com isso, a implantação
da Agenda 21 pode proporcionar um Meio Ambiente equilibrado para as futuras gerações (ABREU,
2009).
                A construção e implementação de alguns processos da Agenda 21 tem o intuito de
sensibilizar a população através da educação ambiental, transformando e impulsionando as políticas
públicas ambientais, levando-se em consideração as demandas populares pela equidade de um
desenvolvimento social, econômico e ambiental.
                O papel da educação na promoção do desenvolvimento sustentável é tratado mais
especificamente no Capítulo 36 da Agenda 21, que trata da promoção do ensino, da conscientização
e do treinamento; propõe um esforço global para fortalecer atitudes, valores e ações que sejam
ambientalmente saudáveis e que subsidiem o desenvolvimento sustentável.
                Antes mesmo do surgimento da Agenda 21, segundo Sorrentino (1998), foi a partir
da Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental realizada em Tsibilisi (EUA), no
ano de 1977, que se iniciou um amplo processo em nível global orientado que visava criar as
condições que para formar uma nova consciência sobre o valor da natureza e para reorientar a
produção de conhecimento baseada nos métodos da interdisciplinaridade e nos princípios da
complexidade.
                Ainda segundo o autor, tal campo educativo tem sido fertilizado transversalmente, e
isso vem possibilitando a realização de experiências concretas de educação ambiental de forma
criativa e inovadora por diversos segmentos da população e em diversos níveis de formação.
                Na Cidade de Tessalônica, Grécia em 1997, foi realizada a Conferência Internacional
sobre Meio Ambiente e Sociedade, Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade, onde o
seu documento chama a atenção para a necessidade de se articularem ações de educação ambiental
baseadas nos conceitos de ética e sustentabilidade, identidade cultural e diversidade, mobilização e
participação e práticas interdisciplinares.
                Segundo Godard (1997), a interdisciplinaridade é com efeito, o tema ideal de
discursos enfáticos e abstratos, suscetíveis de inflamar as paixões e de alimentar longos debates,
onde cada qual se considera suficientemente competente de emitir uma opinião tão definitiva
quanto distante de um conhecimento prático comprovado.
                Ainda segundo o autor, quanto mais a aproximação interdisciplinar apontar na
direção da simbiose, tanto mais ela necessitará dispor de amplos horizontes temporais, considerados
suficientes para que o conhecimento mútuo e a confiança possam se estabelecer, e para que se possa
construir uma crônica de fases alternadas do conhecimento disciplinar isolado e de fases de forte
interação e de realizações comuns.
                Assim, a educação ambiental pode ser indicada como um dos possíveis instrumentos
interdisciplinar capaz de capacitar e ao mesmo tempo sensibilizar a população em geral acerca dos
problemas ambientais nos quais se deparam a humanidade na atualidade. Através desta, torna-se
possível a elaboração de métodos e técnicas que facilitam a tomada de consciência das pessoas a
respeito da gravidade e necessidade da implementação de providências urgentes no que diz respeito
aos problemas ambientais globais.
                De acordo com Minnini (1994), a Educação Ambiental enfatiza o desenvolvimento
de valores e comportamentos diferentes na inter-relação homem e meio ambiente, defendendo a
necessidade de um conhecimento integrado da realidade e procedimentos baseados na investigação
dos problemas ambientais, utilizando estratégias interdisciplinares.
                Diante disto, a educação é um meio para que aconteça a transformação na sociedade.
No entanto, essa mudança depende da práxis educativa do educador, que deve oferecer condições
para que o educando se torne independente, crítico, consciente, livre, responsável com o mundo,
com a vida e consigo mesmo.
                Educar é construir, é libertar o ser humano das cadeias do determinismo social,
reconhecendo no processo histórico um tempo de possibilidades inesgotáveis. Desta forma,
podemos dizer que o processo educativo configura-se como um "ensinar a pensar de forma
autônoma”. É um "que fazer dialogado, co-participado", integrado e por isso não pode de modo
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                               80

algum tornar-se produto de uma mente burocratizada e estagnada, ao contrário exige dos seus
participantes uma reflexão crítica reflexiva da prática e do contexto histórico, político e cultural no
qual encontra-se inserido (FREIRE, 1987).
                Sendo assim, a educação é um processo contínuo, devendo nunca se distanciar da
realidade concreta do educando e do educador, buscando a coerência entre o dizer e o fazer, entre o
pensar e o agir, entre o sentir e o falar.
                Partimos da concepção de que, a educação ambiental também é um processo
contínuo, interdisciplinar, direcionada a toda sociedade e, por isso mesmo, deve promover uma
vinculação estreita com as práticas sociais e políticas, com as nossas formas de intervir na realidade.
                A educação, assim como a educação ambiental, não se restringe apenas a uma mera
transferência de conhecimentos, mas a um ato de compromisso, de conscientização e de testemunho
de vida. Por conseguinte, a educação terá um papel determinante na criação da sensibilidade
social necessária para reorientar a humanidadade (ASSMANN, 2001, p. 26).
                De acordo com Freire (1977 apud Philippi Jr., 2005), a educação como prática de
liberdade não é a transferência ou a transmissão do saber nem da cultura; não é a extensão de
conhecimentos técnicos; não é o ato de depositar informes ou fatos nos educandos; não é a
perpetuação dos valores de uma cultura dada, nem o esforço de adaptação do educado a seu meio.
                A tarefa do educador, então, é problematizar aos educandos o conteúdo que os
mediatiza, e não dissertar sobre ele. Dessa forma, ele (o educador) aprofunda-se e compromete-se
com o processo, enquanto os educandos o captam, o analisam e o compreendem (PHILIPPI JR.,
2005).
                Nesse contexto, o processo de conscientização e sensibilização acerca das questões
sociais, econômicas e ambientais necessita do envolvimento e participação dos sujeitos, que por
meio das responsabilidades buscarão a ação e participarão na tomada de decisões para a solução dos
problemas ambientais.
                Desta maneira, a educação ambiental pode contribuir de forma significante na
formação da cidadania crítica e responsável, capaz de participar de forma democrática das decisões
políticas, econômicas do desenvolvimento das futuras gerações.
                Assim, precisamos tratar a educação ambiental a partir de sua vinculação direta com
a ética e a cidadania, situando-a numa reflexão mais ampla, o que envolve uma visão sociológica e
uma visão política de mundo.
                Nessa perspectiva, é importante que a educação ambiental desperte nas pessoas o
sentimento de que somos co-responsáveis pela mudança de atitude, que não só promova a
preservação da vida, mas uma nova mentalidade essencial para criar um novo tipo de
desenvolvimento - o desenvolvimento sustentável - onde as sociedades sustentáveis combatem o
desperdício, levam em conta o processo coletivo, e o bem comum sem violar os direitos individuais
das pessoas.
          Além disso, não basta apenas apontar problemas decorrentes de uma ação do homem em
relação ao meio ambiente, é imprescindível, entender o ambiente não somente como um meio para
satisfazer as necessidades humanas, mas como o meio ambiente do ser humano, que condiciona a
própria sobrevivência. Este ambiente tem sua própria dinâmica, suas regras e exigências e a
humanidade pode interagir com ele (PENTEADO, 1994).
          Segundo Philippi Jr. (2005), a educação ambiental deve, portanto, capacitar ao pleno
exercício da cidadania, permitindo a formação de uma base conceitual suficientemente
diversificada, técnica e cultural, de modo a permitir que sejam superados os obstáculos à utilização
sustentável do meio.
          Ainda de acordo com o mesmo autor, educação ambiental não é ecologia; pressupõe
conhecimentos disciplinares diversos, que permitam uma visão integral dos problemas e seu
enfrentamento de forma interdisciplinar.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           81

         Metodologia
         A metodologia utilizada para o desenvolvimento deste estudo partiu de uma abordagem
com natureza bibliográfica que, na visão de Gil (1991), é desenvolvida a partir de material já
elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos.
         Na desenvoltura do mesmo foi realizada uma análise documental referente às literaturas
em alguns autores que enfocam a questão da Educação Ambiental, consumo e sustentabilidade,
assim como periódicos (revistas e jornais) que serviram para enriquecimento, ampliação e
verificação das questões levantadas. Após a coleta e revisão do material, foi feita uma análise dos
dados escolhidos e dado início a escritura do mesmo.

         4 Conclusão
         A educação ambiental é um tema sempre presente nas discussões de âmbito educacional
nas últimas décadas. Entretanto, é possível perceber que embora esta temática seja amplamente
debatida, estudada, percebemos a cada dia, em uma velocidade assustadora, a destruição do meio
ambiente em prol do desenvolvimento e consumo estipulado pela humanidade.
         Nesse sentido, é imprescindível apresentar caminhos metodológicos para a implementação
de políticas de gestão do meio ambiente na escola e na sociedade, objetivando a formação de
consciências individuais e coletivas no sentido de alcançarmos a sustentabilidade ambiental.
         Diante do exposto, cabe-nos observar que o educador, o gestor, o pesquisador tem um
papel importante na formação de um sujeito crítico, participativo e criativo, com argumentação e
visão dialética do contexto sócio-político-ambiental e do processo de desenvolvimento sustentável,
pois, educar ambientalmente é um processo de educação política, é formar atitudes que
predisponham à ação.

         REFERÊNCIAS
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ambientais. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Campina Grande, 2009.
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Vozes, 2001.
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Possibilidade.2.ed. Santa Cruz do Sul:Edunisc, 1999.
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P. et al. (orgs.). Educação, meio ambiente e cidadania: reflexões e experiências. São Paulo:
SMA.1998. p.27-32.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                            82

       EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL

                                                                                       Hadryan Lima RODRIGUES
                                                                                          hadryan11@yahoo.com.br
                                                                                     Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA
                                                                                             thais.eline@gmail.com
                                                                                      Lorena Santos GONÇALVES
                                                                                        lorenaangitur@hotmail.com
          Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / Curso
          de Especialização em Educação Ambiental - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do
                Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil.

          RESUMO
          As questões ambientais geram diversas manifestações, principalmente contra a utilização
de “tecnologias poluentes”, o que de uma forma ou de outra nos conduz para a necessidade de
implantação de um processo de desenvolvimento mais responsáveis com o ambiente. Observando
esse contexto, a realização desse estudo nasceu do interesse em discutir os problemas relacionados
com as variadas formas de consumo do ambiente e fazer a conexão com os diversos saberes
relacionados às práticas de Educação Ambiental, de modo a fornecer subsídios para o entendimento
das múltiplas situações relacionadas à ação antrópica com o ambiente. Pretende-se, ainda, analisar
os impactos socioeconômicos decorrentes destas relações, bem como contribuir para o
desenvolvimento de ações que conduzam para uma melhoria da condição ambiental em níveis
locais, regionais e intrarregionais.
          PALAVRAS-CHAVES: educação ambiental, consumo sustentavel, sociedade.

         ABSTRACT
         Environmental issues generate several manifestations, mainly against the use of “polluting
technologies”, which leads us to the need for implementation of a development process more
responsible regarding environment. Observing this context, this study arose from the interest in
discussing problems related to the several forms of environmnet consumption and making the
connection with the several knowledges related to environmental education practices, in order to
supply with subsidies for the understanding of multiple situations related to anthropic action with
the environment. It also aims at analyzing the socieoeconomical impacts of these relations, as well
as contributing for the development of actions leading to the improvement in local, regional and
interregional levels.
         KEYWORDS: environmental education, sustainable consumption, society.

         1 INTRODUÇÃO
         A Educação Ambiental constitui-se em uma ação educativa permanente. É também através
dela que a comunidade educativa toma consciência de sua realidade global, do tipo de relações que
os homens estabelecem entre si e com a natureza, dos problemas decorrentes destas relações e de
causas mais profundas. Ela desenvolve, mediante uma prática que vincula o educando com a
comunidade, valores e atitudes que promovem um comportamento dirigido a transformação
superadora dessa realidade, tanto em seus aspectos naturais quanto sociais, desenvolvendo no
educando as habilidades e atitudes necessárias para esta transformação.
         No dia 27 de Abril de 1999 a Educação Ambiental tornou-se lei. Trata-se da Lei N° 9.795
– Lei da Educação Ambiental – que em seu Art. 2° afirma:

           A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar
presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal
(BRASIL, 1999).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                          83

          Ocorre que, muitas vezes em nome do desenvolvimento técnico-científico, tem se
efetivado o consumo cada vez mais desordenado do ambiente. Esse aspecto deixou claro os
problemas de ordem ambiental, fazendo com que essa problemática acabasse por agravar os
questionamentos sobre essa forma de consumo do espaço.
          Nesse cenário, as manifestações contra a utilização de “tecnologias poluentes” também
aumentaram, o que de uma forma ou de outra vai nos conduzindo para a necessidade de
implantação de um processo de desenvolvimento mais responsável com o ambiente. Conforme
Rosa (1992), é exatemente o desenvolvimento sustentável que vai apresentar uma síntese para
responder as demandas sociais emergentes desse contexto.
          Em uma visão empresarial, o espaço constitui-se cada vez mais em um produto de
consumo. Sob essa perspectiva, um outro problema surge dessa situação: a ocupação, a produção e
o consumo do meio ambiente geralmente é desacompanhada de uma preocupação ambiental, o que
contribui para o agravamento dos aspectos relacionados degradação ambiental. Entretanto, é
possível afirmar que estão sendo implantadas medidas, ainda que de forma pouco abrangentes, para
se promoverm uma melhoria do ambiente, mesmo que sejam para possibilitarem a otimização das
margens dos lucros empresariais.
          A degradaçao ambiental se manifesta de diversas formas e sob variadas cirunstâncias.
Nesse sentido, concordamos com Borrero (1990) quando afirma que a lógica da ciência e da
tecnologia, a falta de uma política social coerente e a procura por necessidades básicas que
garantam a sobrevivência faz com que muitas pessoas sejam “cúmplices involuntárias da
degradação ambiental”. Sendo assim, constata-se mais um agravante: a difusão da idéia de que a
implentação de ações que promovam a justiça social são impossíveis de acontecerem em países que
ainda estão em vias de desenvolvimento.
          Sabe-se que a produção industrial descontrolada ameaça signficativamente a vida no
planeta. Desta forma, é possível afirmar que há uma relação direta entre a atividade de consumo
realizada pelo homem com os padrões de sustentabilidade do ambiente. Além desta constatação,
pode-se afirmar, ainda, que o ambiente não é fonte inesgotável de recursos, bem como não assegura
o crescimento econômico permanente entre as nações.
          Levando-se em consideração o contexto atual, aponta-se para a necessidade de efetivação
de um consumo sustentável que possa auxiliar na mitigação dos problemas decorrentes das diversas
formas de produção e consumo ao qual estamos todos submetidos. Deve-se destacar, ainda, que o
conceito de consumo sustentável passou a ser construído a partir do termo desenvolvimento
sustentável, divulgado com a Agenda 21, documento produzido durante a Conferência das Nações
Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, na cidade do Rio de Janeiro, em 1992.
          A Agenda 21 relata quais as principais ações que devem ser tomadas pelos governos para
aliar a necessidade de crescimento dos países com a manutenção do equilíbrio do ambiente. Os
temas principais desse documento falam exatamente sobre as modificações dos padrões de
consumo, do manejo ambiental dos resíduos sólidos e do saneamento, bem como abordam o
fortalecimento do papel do comércio e da indústria.
          Desta forma, o consumo sustentável se trata de um desafio que nos remete ao pensamento
sobre a importância de se adotar um comportamento mais comprometido com a necessidade de
reciclar, bem como de se adotar um novo estilo de vida que nos conduza a novos padrões de
consumo. Sabe-se, ainda, que esta deve ser uma tarefa pertinente a todas as esferas, sejam
governamentais, sociais ou mesmo empresariais.
          Segundo Portilho (2004), é exatamente a partir do crescimento dos movimentos
ambientalistas, que vão surgir novos argumentos contra os hábitos ostensivos e consumistas de
nossa sociedade. Essa prerrogativa deixa evidente que o padrão de consumo das sociedades
ocidentais, além de se apresentar de forma socialmente injusta, também é imoral e ambientalmente
insustentável. Sobre esse assunto a autora se manifesta da seguinte forma:

           A crise ambiental mostrou que não é possível a incorporação de todos no universo de consumo em função da
finitude dos recursos naturais. O ambiente natural está sofrendo uma exploração excessiva que ameaça a estabilidade
dos seus sistemas de sustentação (exaustão de recursos naturais renováveis e não renováveis, desfiguração do solo,
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                           84

perda de florestas, poluição da água e do ar, perda de biodiversidade, mudanças climáticas etc.). Por outro lado, o
resultado dessa exploração excessiva não é repartido eqüitativamente e apenas uma minoria da população planetária se
beneficia desta riqueza. (PORTILHO, 2004)

          A realização desse estudo nasceu do interesse em discutir os problemas relacionados com
as variadas formas de consumo do ambiente e fazer a conexão com os diversos saberes relacionados
às práticas de Educação Ambiental, de modo a fornecer subsídios para o entendimento das
múltiplas situações relacionadas à ação antrópica com o ambiente. Pretende-se, ainda, analisar os
impactos socioeconômicos decorrentes destas relações, bem como contribuir para o
desenvolvimento de ações que conduzam para uma melhoria da condição ambiental em níveis
locais, regionais e intrarregionais.
          Se levarmos em consideração o princípio ético de igualdade, em que todos os habitantes do
planeta, das presentes e das futuras gerações, possuem o direito a usufruir os recursos naturais,
poderemos chegar a constatação de que enquanto os países desenvolvidos continuarem distribuindo
de forma desigual a riqueza e os recursos naturais, os países do subdesenvolvidos poderão continuar
reivindicando o direito de adotar o mesmo padrão de comportamento, tornando impossível a
contenção do consumo global dentro de limites considerados sustentáveis.
          Nesse sentido, os riscos de conflitos gerados a partir do interesse de consumo pelos
recursos naturais tenderão a aumentar. Esse dilema conduz para a percepção ética de que todos os
povos devem ter direitos proporcionais no acesso e na utilização dos recursos naturais. Sendo assim,
para se promover a redução das disparidades socioeconômicas, é necessário estabelecer um nível
mínimo e um máximo para os padrões de consumo. Entretanto, cada sociedade possui o direito e o
dever de desenvolver o seu estilo de vida, mas não sem antes estabelecer uma condição de vida e de
consumo que não comprometa a qualidade de vida da própria humanidade.
          O que é Educação Ambiental (EA)? O que é consumo sustentável? Qual é a relação entre a
EA e os níveis de consumo da humanidade? Quais os valores éticos referentes a prática do consumo
sustentável? Que tipos de ações em EA poderiam ser realizadas para se garantir uma melhor relação
entre consumo e qualidade de vida? Focalizar esta realidade significa, portanto, contribuir não
somente para o desenvolvimento da área das ciências sociais numa perspectiva acadêmica. Trata-se,
também de produzir conhecimentos que possam ser utilizados no campo da Educação Ambiental,
dando suporte às estratégias de desenvolvimento de ações que culminem na formação de cidadãos
mais críticos e responsáveis com o ambiente.

         2 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL
         Recorrendo a Portilho (2004), percebe-se que a qualidade de vida, a felicidade e a
qualidade ambiental estão sendo cada vez mais associadas ou reduzidas às conquistas materiais.
Essa constatação leva a um ciclo vicioso, onde o indivíduo trabalha não somente para manter um
determinado nível de consumo, mas também para ostentar uma condição materialista de sucesso
social. Esta situação reduz o tempo destinado ao lazer e a própria felicidade a mercadorias que
devem ser consumidas para alimentar a características inerentes ao modelo econômico do qual
fazemos parte.
         Por este ângulo, é conveniente destacar que a expansão da Sociedade de Consumo,
amplamente influenciada pelo modo de vida estadunidense, possibilitou que o consumo se
transformasse em uma compulsão, que é vastamente estimulada pelas forças do mercado
econômico. Sabe-se que esta sociedade produz carências, desejos e necessidades materiais e
simbólicas intimamente presentes no modelo industrial, na moda e nas diversas formas de
comunicação, como a publicidade.
         Estes aspectos convergem para a constatação de Santos (2005), que avisa sobre os
desajustes existentes entre as práticas de consumo e suas relações com o ambiente. Nessa ótica, a
autora destaca que a comunicação exerce um papel fundamental para conscientizar o consumidor,
mas, não com a intenção de estender o consumo a todas as classes, e sim por torná-lo uma forma de
pressão que norteia para mudanças no próprio modo de produção.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                             85

          Tal modelo de sociedade passa a reconhecer seus indivíduos a partir da avaliação e do
julgamento daquilo que consomem, utilizam ou simplesmente possuem e exibem aos outros. O
próprio indivíduo passa a fazer uma autoavaliação a partir do que possui, ou pelo seu poder de
consumo diante dos produtos ofertados pelo mercado. Trata-se de uma situação complexa em que
se torna muito difícil estabelecer o limite entre consumo e consumismo, pois a definição do que é
necessário ou supérfluo está diretamente relacionado às características culturais e socioeconômicas
da sociedade e do grupo ao qual fazemos parte.
          Exatamente pelos aspectos já destacados é que Canclini (1996) afirma que o consumo se
mostra como um tema relevante quando se trata de se investigar as representações e os valores
sociais que se constroem no cenário contemporâneo. Sob esta perspectiva, deve-se destacar que o
fenômeno do consumo se constitui, tanto como um campo de construção simbólica, quanto um ato
político e espaço de disputa pela hegemonia de determinados valores e parâmetros.
          Sobre a natureza e os aspectos que envolvem a produção simbólica, Bourdieu (1998)
contribui da seguinte forma:

           O campo de produção simbólica é um microcosmo da luta simbólica entre as classes: é ao servirem aos
interesses na luta interna do campo de produção (e só nessa medida) que os produtores servem aos interesses dos grupos
exteriores ao campo de produção (BOURDIEU, 1998, p. 12)

          Levando-se em consideração os padrões de consumo já citados, também é necessário
destacar o reconhecimento das limitações físicas do nosso planeta em relação ao reconhecimento do
princípio universal de eqüidade na distribuição e acesso aos recursos indispensáveis à vida humana.
A partir dessa percepção e da constatação de que os atuais padrões de consumo estão
inequívocamente relacionados às origens da crise ambiental, a crítica ao consumismo passa a ser
uma contribuição substancial para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e
sustentável.
          Nessa perspectiva, surgiram diversas propostas que objetivam a modificação desses
padrões, tais como: o consumo verde, consumo consciente, ético, responsável e sustentável. Trata-
se de uma proposta que é dominada por diversas análises que consideram que caso os consumidores
possuam conhecimento suficiente, irão por conseqüência obter a necessária “consciência
ambiental”, transformando-a em atitudes e comportamentos ambientalmente adequados. Conforme
Cohen (2001), um bom exemplo dessa questão seria o enfrentamento com maior ênfase exercido
pelos programas informativos que possuem estratégias de eco-rotulagem, como acabou sendo
empregado pela Comunidade Européia.
          Entretanto, o simples acesso a conhecimentos relacionados à questão ambiental não conduz
a estilos de vida e práticas ambientalmente corretas. Outro aspecto que merece ser destacado é a
excessiva quantidade de informações relacionadas com uma grande diversidade de assuntos, muitas
vezes altamente especializados, que impossibilitam a realização de uma análise correta, tendo em
vista que muitas informações são incompreensíveis ou incompatíveis, além de se configurarem
como aspectos conflitantes mesmo entre os especialistas no assunto.
          Recorrendo mais uma vez a Santos (2005), percebe-se que a idéia de consumo sustentável
nas organizações toma forma quando as posturas das empresas anunciam uma preocupação
realmente efetiva com os níveis de impacto socioambiental que sua produção e seu consumo
provocam. Outra evidência de destaque acontece quando um compromisso ainda maior com a
sustentabilidade ocorre nas empresas que promovem modificações em sua perspectiva de futuro
relacionadas, tanto em seu modo de produção, quanto em nível de compartilhamento das novas
políticas com fornecedores, clientes e com o próprio governo.
          Outro aspecto que merece observância refere-se ao papel que a mídia exerce na adoção de
padrões sustentáveis de consumo. É inegável que a disseminação de informações, bem como a
mudança cultural relativa ao consumo encontra nos instrumentos midiáticos um excelente
instrumento de influência nessas questões. Nesse contexto, Habermas (1997) destaca o poder que os
meios de comunicação possuem de produzir o que ele denomina de “esfera pública abstrata”. Tal
expressão contempla questões referentes a leitores, ouvintes e espectadores, onde quer que se
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             86

encontrem, pois compreende-se que tal esfera apresenta o poder de interferir no conjunto de
narrativas a que a mídia confere visibilidade.
         Com base no que foi exposto, é possível afirmar que a presença de temas relativos a
sustentabilidade constitui-se em reflexo de uma modificação contínua na percepção pública e em
uma condição importante para que este reflexo encontre eco nos variados segmentos sociais. A
partir do agir comunicativo, a mídia fomenta a geração do espaço social. Nessa perspectiva, ela
provoca a ambientação adequada para expor à cena pública os questionamentos relativos ao
desenvolvimento sustentável.
         Desta forma, deve-se destacar o argumento de que ações coletivas e intervenções políticas
podem realmente fazer ajustes, tanto no nível, quanto na estrutura do consumo de forma menos
onerosa, principalmente para os consumidores. Além desse aspecto, deve-se destacar que estas
ações e intervenções facilitam a distribuição dos custos e dos benefícios desses ajustes de uma
forma mais equilibrada.
         Finalmente, também é importante afirmar que as ações coletivas oferecem vários méritos,
principalmente o de eliminar os problemas causados pelos aproveitadores entre aqueles que
participam ativamente da construção de benefícios e de melhorias na qualidade ambiental, tendo em
vista que os mesmos pretendem usufruir dos benefícios, contudo se recusam a participarem dos
custos decorrentes dessa participação. Dessa forma, as ações coletivas se configuram como
excelentes estratégias, potencialmente mais adequadas e eficazes no que diz respeito a condução
dos atuais padrões de consumo em direção a construção de um mundo mais justo e democrático,
bem como de um ambiente mais sustentável.

         3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
         A sociedade de consumo e o consumismo estão intimamente relacionados. Os ideais de
liberdade individual e a valorização exarcebada ao individualismo comprometem de forma
significativa as ações convergentes para uma melhor condição ambiental. Neste sentido, pode se
afirmar que a sociedade de consumo foi erguida sob a bases da “liberdade individual de escolha.
         Entretanto, concordamos com Bauman (2000), quando se refere que o aumento da
liberdade individual pode coincidir com o aumento da impotência coletiva. Uma vez que não existe
uma forma única se traduzir preocupações pessoais em questões públicas, torna-se necessário
estabelecer a comunicação entre estas esferas e romper com as limitações que envolvem essas
circunstâncias.
         A análise das conseqüências das políticas de consumo como estratégia de enfrentamento
dos problemas ambientais nos leva a reforçar a afirmação de que as ações individuais não são o
espaço onde mudanças profundas nos padrões de consumo devem ser esperadas, sem uma pressão
vinda das organizações sociais e das instituições políticas, ainda que tenham sido eleitas
democraticamente.
         Conforme lembra Strasser et al (1998), as atividades de consumo operam na interseção
entre vida pública e privada, atuando no sentido de alterar as fronteiras entre elas. Acreditamos que
o debate sobre a Educação Ambiental e as práticas de Consumo Sustentável devem ocorrer em um
espaço público e ao mesmo tempo privado. Esse debate deve envolver questões de ambas as esferas
e objetivar recuperar os elos entre elas. Através dessa perspectiva, a questão ambiental certamente
poderá ser colocada em um lugar cujas preocupações privadas e as questões públicas se encontram.
Desta forma, o consumo sustentável pode funcionar como uma estratégia política para promover a
resolução de problemas coletivos e individuais, através da própria aproximação entre essas esferas.
         Quanto às críticas referentes ao consumismo, é possível dizer que a organização
individualista do consumo tende a nos desconectar, enquanto cidadãos, da solidariedade e do
interesse pelos problemas coletivos. Ainda que concordemos com essa afirmação bastante precisa,
também somos obrigados a concordar com Canclini (1996) quando afirma que a expansão das
comunicações e do consumo gera associações de consumidores e lutas sociais. Nesse sentido, muito
pouco tem sido feito para se analisar as práticas de consumo como uma forma de criação de redes
de intercâmbio de informação e de aprendizagem que sirvam para o exercício da cidadania.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             87

         Finalmente, ainda que não seja correto afirmar que o consumidor é o único “ator social”
capaz de mudar a sociedade em direção a um ideal mais sustentável, deve-se considerar a
possibilidade de se politizar o debate ambiental na esfera privada. Deve-se, ainda, considerar as
práticas políticas como uma necessária condição para o desenvolvimento de propostas que
conduzam para uma modificação dos padrões de consumo, além de fazerem parte de um projeto e
de utopia de implantação de uma sociedade que seja realmente sustentável.

         REFERÊNCIAS
         BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000.
         BORRERO, M. Los Estudios de Ciencia, Tecnologia e Sociedad em el contexto
lationoamericano. In: MANUEL MEDINA et al. (Orgs.). Ciência, tecnologia y sociedad: estúdios
interdisciplinares em la universidade, em la educación y em la gestinón política y social. Barcelona:
Antropos, p.125-9, 1990.
         BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
         BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Diretrizes para operacionalização do
Programa Nacional de Educação Ambiental. Disponível na internet no endereço:
http://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_legislacao/20_legislacao18032009111654.pdf em: 24
de julho de 2009.
         CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos - conflitos multiculturais da
globalização. Rio de Janeiro, UFRJ, 1996.
         HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
         PORTILHO, Fátima. Limites e possibilidades do consumo sustentável. In: Educação,
ambiente e sociedade: idéias e práticas em debates - Programa de Comunicação Ambiental. Serra,
CST, 2004, pp.73-96.
         SANTOS, Luciane Lucas dos. Comunicação e consumo sustentável: das entrelinhas do
capitalismo leve ao enquadramento da sustentabilidade na mídia. In: revista fronteiras – estudos
midiáticos. vol. 3. set./ dez. Porto Alegre: UNISINOS, 2005.
         STRASSER, Susan; McGOVERN, Charles & JUDT, Matthias. Getting and spending -
European and American consumer societies in the Twentieth century. Cambridge, Cambridge
University Press, 1998.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                   88

  EDUCAÇÃO AMBIENTAL, EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E
       DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL

                                                                          PINTO, Francisca Wislana Costa17
                                                                          FCAP/Universidade de Pernambuco
                                                                                         wislana@msn.com

         RESUMO
         O presente trabalho analisa questões-chave a respeito da educação ambiental como um
aliado na disseminação da educação empreendedora e do desenvolvimento local sustentável. Em
concordância com a visão do desenvolvimento, o empreendedorismo vem se consolidando cada vez
mais como um dos elementos de contribuição para a inclusão social e o desenvolvimento
econômico além de tornar-se um tema prioritário e relevante nas discussões referentes ao
crescimento do mercado de consumo e ao futuro do nosso País. Sendo assim, buscamos no sistema
educacional uma parceria no ensino e formação de empreendedores, com inserção de temas
relacionados a negócios em seus programas de ensino, em diferentes níveis, para a promoção do
desenvolvimento local sustentável.
         PALAVRAS-CHAVES: Empreendedorismo, Desenvolvimento Local, Educação
Empreendedora, Educação Ambiental.

         ABSTRACT
         This paper examines key issues concerning the environmental education as an ally in the
dissemination of entrepreneurial education and local development. In line with the vision of
development, entrepreneurship is consolidating more and more as one of the elements contributing
to social inclusion and economic development as well as become a priority and relevant in
discussions concerning the growth of the consumer market and the future of our country Therefore,
we sought a partnership in the educational system in teaching and training of entrepreneurs, with
inclusion of topics related to business in their teaching programs at different levels, to promote
sustainable local development.
         KEYWORDS: Entrepreneurship, Local Development, Entrepreneurial Education,
Environmental Education.

         1 INTRODUÇÃO
         O empreendedorismo tem como tema central promover o desenvolvimento, criar e inovar o
que já existe. É crescente o interesse pelo empreendedorismo como força propulsora na criação de
empresas. A disseminação da importância do empreendedorismo, através da educação, visa
contribuir com o processo de desenvolvimento econômico local e fundamenta-se na idéia de que a
educação empreendedora promove o rompimento de barreiras de resistência à realização de idéias
inovadoras e pode gerar comportamentos e atividades que conduzem à criatividade e à geração de
riquezas
               Dentre as idéias associadas à questão da criação de emprego e renda e a conseqüente
preocupação com a elevação da qualidade de vida da população está o empreendedorismo. Num
sentido amplo, empreendedorismo fomenta o desenvolvimento local integrado e sustentável,
vinculado à capacidade de uma comunidade ser autora dos processos de mudanças essenciais ao seu
crescimento e ao acesso de toda a população à riqueza gerada. E para ser empreendedor é preciso
ter seu próprio negócio? A resposta é não. Ser empreendedor é criar e inovar o que já existe. Ele
busca novos negócios e oportunidades e está sempre pesquisando para melhorar produtos ou
serviços com base nas necessidades do mercado, num processo contínuo pela busca da melhoria do
produto, da prestação do serviço ou do desempenho na função que exercer. Os empreendedores são

17 Administradora, acadêmica do programa de Mestrando em GDLS -Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável-
FACP/UPE
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            89

pessoas que inovam. Peter Drucker (1992) afirma "A inovação é o instrumento específico dos
empreendedores, o meio pelo qual eles exploram a mudança como uma oportunidade para um
negócio ou serviço diferente".
               A questão fundamental então é o preparo do empreendedor. O sistema educacional
assume um papel importante para com a causa empreendedora. A inclusão de temas no programa de
ensino das escolas de ensino médio, técnico e superior, voltados aos negócios, tem se mostrado uma
iniciativa bastante positiva para a promoção do empreendedorismo. E esse estudo tem como
propósito refletir sobre a importância da disseminação da educação empreendedora para a criação
de empresas e na promoção do desenvolvimento local de forma sustentável.

           2 Empreendedorismo
           Vários são os conceitos para o empreendedorismo. A literatura apresenta muitas definições
para os termos empreendedorismo e empreendedores, dada as diversas correntes de pesquisadores
desse campo, que utilizaram os princípios de suas áreas de interesse para construir o conceito. O
Termo empreendedorismo é um neologismo traduzido livremente do inglês entrepreneurship,
originada da palavra francesa entrepreneur, usada no século 12 para designar “aquele que
incentivava brigas” (Dolabela, 1999a, p. 43). Segundo Leite (2002) cita que o empreendedor é um
empresário ou aquele que abre um empreendimento, criando por conta própria um negócio em seu
benefício, assumindo riscos de um produto qualquer. Neste sentido, para Degen (2005) ser
empreendedor significa ter a necessidade de realizar coisas novas, pôr em prática suas próprias
idéias e essas são características de personalidade e comportamento não muito comuns de se
encontrar, mas que fazem com que as pessoas que as possuem se destaquem, pois são elas que
fazem as coisas acontecer.
           O empreendedorismo trata atos e comportamentos dos empreendedores. “Um
empreendedor é uma pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões” Filion (1999 p.9); o
empreendedor é um agente de mudanças e inovações, que identifica oportunidades e busca recursos
para transformar conhecimento em riqueza. Desta forma, o instrumento específico do espírito
empreendedor é a inovação, a busca deliberada e organizada de mudanças, as fontes das
oportunidades que tais mudanças podem oferecer. Os empreendedores estão comprometidos num
processo onde o economista Joseph Schumpeter (1959) descreveu como "destruição criativa", ou
seja, "romper com velhos hábitos, para gerar respostas novas às carências e desejos do mercado".
Eles (os empreendedores) forçam situações, com o objetivo de mudar as coisas para melhor. São
construtores compulsórios: quando começam, não param mais (LEITE, 2006). A respeito da
contribuição dos empreendedores na formação da riqueza de um país, Schumpeter (1959) afirma
que o empreendedor é o agente do processo de destruição criativa e é o impulso fundamental que
aciona e mantém em marcha o motor capitalista.
           Transformar conhecimento, nascido de uma idéia, de uma oportunidade, em riqueza,
através da realização da visão concebida a partir do sonho, é uma tarefa que requer do
empreendedor diversas características. O empreendedor tem características e traços capazes de
deixar todos os integrantes da empresa surpreendidos, sempre prontos para trazer e gerir novas
idéias, produtos ou mudar tudo o que já existe. É um otimista que vive no futuro, transformando
crises e oportunidades, e exercendo influencia sobre as pessoas para levá-las em direção às suas
idéias. Ele cria e inova o que já existe, busca novos negócios e oportunidades e está sempre
pesquisando para melhorar produtos ou serviços com base nas necessidades do mercado.
           Para Weber (1996) o empreendedor não parece tão arrojado quanto o de Schumpeter
(1959), mas é organizado e racional. A racionalidade, um dos pilares do empreendedor weberiano,
incluía todo o processo de produção, comercialização, a capacidade de organização e da
contabilidade, a busca do aumento da produtividade e a introdução de "baixos-preços e "grande
giro" [...] "e aqueles que não fizerem o mesmo, têm que sair do negócio" (WEBER, 1996, p. 44). O
termo empreendedorismo, embora tenha se originado a partir de pesquisas em economia, recebeu
fortes contribuições da psicologia e da sociologia, que deram ênfase as características pessoais do
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              90

indivíduo empreendedor o que provocou diferentes definições para o termo e, como conseqüência,
variações em seu conteúdo.
         O futuro é dinâmico e cheio de incertezas, sendo assim, é necessário refletir sobre as
nossas posturas, habilidades pessoais e profissionais; criatividade; memória; comunicação; como
enfrentar este século. São mudanças socioculturais e tecnológicas que fazem repensar hábitos e
atitudes frente às novas exigências do mercado. Diferenciar-se dos demais, rever convicções e
comportamentos, mudar paradigmas, sobrepor idéias antigas às novas verdades, este é o perfil do
profissional que, trocando informações, dados e conhecimentos, poderá fazer parte do cenário das
organizações que aprendem, das organizações sustentáveis.

         3 Educação empreendedora
               Antes, acreditava-se que o empreendedorismo não podia ser ensinado: Os
empreendedores eram indivíduos nascidos com dom inato, e com características especiais que os
levava ao sucesso no mundo dos negócios. Hoje, temos resultados diferentes. Os estudos recentes
indicam que embora características pessoais possam facilitar a atuação individual à frente de um
novo negócio, o processo empreendedor pode, sim, ser ensinado e aprendido (Dolabela, 1999b;
Dornelas, 2001).
         O autor Dornelas(2001) destaca que o processo empreendedor pode ser ensinado e
entendido por qualquer pessoa e que o sucesso é decorrente de uma gama de fatores internos e
externo ao negocio, do perfil do empreendedor e de como ele administra as adversidades que
encontra no dia-a-dia de seu empreendimento. Os empreendedores inatos continuam existindo e
sendo referencia se sucesso, exemplos como Ford, Bill Gates, Silvio Santos, Roberto Marinho.
Todavia muitos outros podem ser capacitados para a criação de empresa duradoras.
         A cultura empreendedora pode ser desenvolvida a partir de ações e políticas específicas
para este fim. Saini (2001), menciona que uma das questões básicas do desenvolvimento econômico
refere-se à promoção do espírito empreendedor na sociedade. Os países em desenvolvimento se
deparam com uma considerável população de empreendedores, que estão dispostos a criar novos
negócios e novas tecnologias, correr riscos, na criação de empregos, proporcionando o crescimento
da comunidade. Diante disso, podemos apontar que a educação é um dos grandes instrumentos para
o desenvolvimento da cultura empreendedora na sociedade, e quanto mais cedo se começar a
inculcar nos jovens, os valores e o pensamento empreendedor, tanto mais efetivos serão os
resultados. Como sustenta Dolabela (2003, p. 15), “a educação empreendedora deve começar na
mais tenra idade, porque diz respeito à cultura, que tem o poder de induzir ou de inibir a capacidade
empreendedora.” Qualquer curso de empreendedorismo deve focar em seus programas de ensino,
temas como:
         - A inovação e o processo empreendedor;
         - A importância do empreendedorismo para o desenvolvimento econômico;
         - Como preparar e utilizar um plano de negocio;
         - Como identificar fontes e obter financiamento para o novo negócio;
         - Como gerenciar e fazer a empresa crescer de forma sustentável, e
         - Como tornar-se responsável social e ambiental.
         A inserção desses temas relacionados à atividade empreendedora estimula uma iniciativa
bastante adequada para a promoção do empreendedorismo. De acordo com Lundström & Stevenson
(2002), programas desta natureza atendem a pelo menos duas necessidades: a) o fortalecimento da
cultura empreendedora; e b) a preparação dos jovens para as transformações no mercado de trabalho
– mudanças estas que, inevitavelmente, farão com que algum aspecto do empreendedorismo seja
incluído à futura experiência profissional deles.
         Dolabela (1999a; 1999b) relaciona outros motivos que por si só justificariam a
disseminação da cultura empreendedora através do sistema de ensino estabelecido. Dentre eles:
         a) fortalecer valores relacionados à ética e cidadania, fatores estes intrinsecamente ligados
ao empreendedorismo;
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           91

          b) aumentar a percepção quanto à importância da PME (Pequena e Média Empresa) para o
desenvolvimento econômico;
          c) reduzir a possibilidade de fracasso entre as empresas nascentes;
          d) preparar os jovens para atuarem como intraempreendedores (ou empreendedores dentro
das organizações);
         e) aproximar as instituições de ensino, sistemas de suporte e empresas, ainda muito
distantes entre si, no contexto brasileiro;
         f) estimular a auto-realização.
         No Brasil, o ensino do empreendedorismo já desponta iniciativas no sentido de levar o
empreendedorismo da sala de aula para a casa do aluno, para o trabalho e para o convívio social.
Vejamos alguns exemplos:
         - projeto “Aprender a Empreender”, parceria entre a Fundação Roberto Marinho, Programa
Brasil Empreendedor e SEBRAE Nacional, o qual tem levado o ensino do empreendedorismo de
maneira dinâmica e criativa a milhares de pessoas, através de um curso composto de 10 programas
de TV e um livro texto com os 10 capítulos correspondentes. Além de contribuir para o
desenvolvimento da cultura empreendedora, a iniciativa auxilia empreendedores, ou
empreendedores em potencial, em relação a aspectos como planejamento, organização, direção e
controle dos empreendimentos nascentes (FRM, PBE & SEBRAE Nacional, 2000).
         - projeto “Oficina do Empreendedor”, criado pelo Prof. Fernando Dolabela, aplicado em
escolas de segundo grau e universidades (Dolabela, 1999a).
           - Desafio SEBRAE voltada para o público universitário. O programa consiste em uma
competição entre equipes em torno da administração de uma empresa.
         - PROGER – Jovem Empreendedor. O programa, promovido pelo Governo Lula, é uma
linha de crédito especial abrangendo jovens com até 24 anos de idade que pretendam montar uma
microempresa, uma cooperativa ou trabalharem por conta própria. Esse financia investimento fixo e
capital de giro, com valores que podem chegar a R$ 50 mil e prazo de pagamento de até 84 meses,
com 18 meses de carência. O jovem financiado é obrigado a se submeter a capacitação técnico-
gerencial prévia e acompanhamento pós-crédito.
         - Incubadoras de Empresas, promovido pelas Escolas técnicas e IES como o propósito de
identificar o potencial empreendedor de pessoas que de outra forma não poderiam iniciar seus
empreendimentos inovadores. O programa é desenvolvido em laboratórios, centros de pesquisas, e
constitui-se em iniciativas de pré-incubação que permitiriam aos alunos vivenciar o ambiente de
uma empresa, sem a necessidade de sua constituição formal desde o inicio.

          4 Desenvolvimento Local Sustentável
          O desenvolvimento local é uma ação que possibilita o aumento de indicadores econômicos,
assim como também é o principal instrumento de melhoria da qualidade de vida- um processo
dinamizador que utiliza a comunidade, o ser humano. A problemática da sustentabilidade assume
neste novo século um papel central na reflexão sobre as dimensões do desenvolvimento e das
alternativas que se configuram. O quadro socioambiental que caracteriza as sociedades
contemporâneas revela que o impacto dos humanos sobre o meio ambiente tem tido conseqüências
cada vez mais complexas, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos (JACOBI, 2003).
          A construção histórica do conceito de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável está
vinculada ao incremento da preocupação com a manutenção da existência de recursos naturais em
um ambiente propício para a continuidade das gerações futuras, rediscutindo o ritmo e a forma
como o sistema capitalista propunha o desenvolvimento das sociedades. (SILVA, 2005). A
necessidade de abordar o tema da complexidade ambiental decorre da percepção sobre o incipiente
processo de reflexão acerca das práticas existentes e das múltiplas possibilidades de, ao pensar a
realidade de modo complexo, defini-la como uma nova racionalidade e um espaço onde se
articulam natureza, técnica e cultura. Refletir sobre a complexidade ambiental abre uma estimulante
oportunidade para compreender a gestação de novos atores sociais que se mobilizam para a
apropriação da natureza, para um processo educativo articulado e compromissado com a
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                               92

sustentabilidade e a participação, apoiado numa lógica que privilegia o diálogo e a interdependência
de diferentes áreas de saber. Mas também questiona valores e premissas que norteiam as práticas
sociais prevalecentes, implicando mudança na forma de pensar e transformação no conhecimento e
nas práticas educativas. Segundo Capra (2006) “Uma sociedade sustentável é aquela que satisfaz
suas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras” .
         A realidade atual exige uma reflexão cada vez menos linear, e isto se produz na inter-
relação dos saberes e das práticas coletivas que criam identidades e valores comuns e ações
solidárias diante da reapropriação da natureza, numa perspectiva que privilegia o diálogo entre
saberes. A preocupação com o desenvolvimento sustentável representa a possibilidade de garantir
mudanças sociopolíticas que não comprometam os sistemas ecológicos e sociais que sustentam as
comunidades. A complexidade desse processo de transformação de um planeta, não apenas
crescentemente ameaçado, mas também diretamente afetado pelos riscos socioambientais e seus
danos, é cada vez mais notória.

           Os economistas corporativos tratam como bens gratuitos não somente o ar, a água e o solo, mas, também a
delicada teia das relações sócias, que é seriamente afetada pela expansão econômica continua. Os lucros privados estão
sendo obtidos com os custos públicos em detrimento do meio ambiente e da qualidade geral de vida, e às expensas das
gerações futuras. O mercado, simplesmente, nos dá a informação errada. Há uma falta de realimentação, e a
alfabetização ecológica básica nos ensina que esse sistema não é Sustentável (CAPRA, 2006 p. 233)

                      A concepção “sociedade de risco”18, de Beck (1997), amplia a compreensão
de um cenário marcado por nova lógica de distribuição dos riscos. Isso implica a necessidade de se
multiplicarem as práticas sociais baseadas no fortalecimento do direito ao acesso à informação e à
educação ambiental em uma perspectiva integradora. E também demanda aumentar o poder das
iniciativas das empresas baseadas na premissa de que um maior acesso à informação e transparência
na administração dos problemas ambientais urbanos pode implicar a reorganização do poder e da
autoridade.
             [...] o indivíduo é o produto de um ciclo de reprodução; mas este produto é, ele próprio, reprodutor em seu
ciclo, [...]. Somos, portanto, produtos e produtores, ao mesmo tempo. Assim também, quando se considera o fenômeno
social, são as interações entre indivíduos que produzem a sociedade, com sua cultura, suas normas, retroage sobre os
indivíduos humanos e os produz enquanto indivíduos sociais dotados de uma cultura (MORIN, 2001, p.119)

         De acordo com Pedrosa (2000) “É preciso refletir que a forma de apropriação dos recursos
naturais é espelho de relações sociais marcadas pela noção de possuidor /possuído,
dominador/dominado.” Existe, portanto, a necessidade de incrementar os meios de informação e o
acesso a eles, bem como o papel indutivo do poder privado nos conteúdos educacionais, como
caminhos possíveis para alterar o quadro atual de degradação sócio ambiental. Trata-se de promover
o crescimento da consciência ambiental, expandindo a possibilidade das empresas participarem em
um nível mais alto no processo decisório, como uma forma de fortalecer sua co-responsabilidade na
fiscalização e no controle dos agentes de degradação ambiental.


          5 Considerações Finais

        De acordo com o estudo bibliográfico, deste trabalho, constatamos que o
empreendedorismo cumpre um importante papel em relação ao desenvolvimento local e que a
educação é a melhor ferramenta para a disseminação e formação do empreendedor. Segundo o
GEM (2008) o Brasil ocupou a 13ª posição no ranking mundial de empreendedorismo realizado
pelo Global Entrepreneurship Monitor em 2008. A Taxa de Empreendedores em Estágio Inicial

18 A noção de risco pode ser entendida a partir do que ele denomina lógica invertida. Tal inversão diz respeito à
passagem da sociedade de penúria, na qual a questão fundamental girava em torno de uma melhor divisão das riquezas,
para a sociedade de risco onde a questão fundamental passa a ser, como o próprio nome diz, a divisão dos riscos.
(BECK, 1997)
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           93

(TEA) brasileira foi de 12,02, o que significa que de cada 100 brasileiros 12 realizavam alguma
atividade empreendedora até o momento da pesquisa. Todavia, sendo uma característica de
indivíduos, é compreensível que o empreendedorismo esteja inter-relacionado com a cultura e
educação. Além do que, pode-se facilmente observar o potencial para o
desenvolvimento/fortalecimento de uma cultura empreendedora a partir da utilização do sistema
educacional estabelecido.
         O ensino do empreendedorismo nas escolas técnicas e universidades brasileiras baseiam-se
na criação de novos negócios, geração de riqueza e crescimento econômico. Sendo ainda necessário
reforçar ações que visem conscientizar e motivar os futuros empreendedores a serem proativos com
seus negócios em promover o desenvolvimento local sustentável. Não basta somente gerar riqueza
para reduzir a pobreza no mundo. È preciso preservar manter limpo e saudável o nosso meio
ambiente para as gerações futuras. Por isso, os empreendedores não só devem perseguir objetivos
financeiros e sociais, mas devem, também, procurar preservar os recursos naturais e proteger o meio
ambiente. As ações voltadas à educação ambiental nos curso de empreendedorismo têm o potencial
de contribuir para o aumento da atividade inovadora, do desenvolvimento local e do crescimento
econômico, além de conscientizar e motivar, o novo empreendedor para o mundo das oportunidades
de negócios baseados na preservação de recursos naturais de forma sustentável.

         6 Referências Bibliográficas
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM COMUNIDADES COSTEIRAS DO
                    CEARÁ.

                                                                                     Juliana Maria Oliveira SILVA
                                                           Universidade Federal do Ceará. Doutoranda em Geografia
                                                                                       juliana_geoufc@hotmail.com
                                                                                        Jocicléa de Sousa MENDES
                                                           Universidade Federal do Ceará. Graduanda em Geografia
                                                                           Cícera Angélica de Castro dos SANTOS
                                                            Universidade Federal do Ceará. Mestranda em Geografia
                                                                                 Prof. Dr. Edson Vicente da SILVA
                                                                                     Universidade Federal do Ceará

         RESUMO
         Este trabalho relata as experiências desenvolvidas pelo projeto de educação ambiental
desenvolvido na comunidade da Praia das Fontes, município de Beberibe-Ceará, contemplando em
média 35 crianças. O projeto visa fazer com que as crianças tenham uma consciência em relação
aos problemas sócioambientais do local e que juntas possam atuar na melhoria da área. A Geografia
Física possui um elo com a educação ambiental. A Geografia Física tem ajudado no embasamento
teórico e técnico. Através dos conhecimentos adquiridos no curso de Geografia é que é possível
desenvolver as atividades repassando para as crianças em uma linguagem acessível todo o
mecanismo que rege a praia das fontes, enfocando as principais unidades geoambientais da área
como os campos de dunas, falésias, faixa de praia, lagoas. As trilhas realizadas com as crianças
contribuem para uma melhor visualização dos fenômenos, já que as mesmas sabem que tem na área,
mas não como isso funciona e as oficinas contribuem para uma melhor aprendizagem.
         PALAVRAS-CHAVES: educação ambiental, comunidades costeiras, geografia.

           ASBTRACT
           This paper reports the experiments conducted by the environmental education project
developed in the community of Praia das Fontes, Ceara-Beberibe, comprising on average 35
children. The project aims to ensure that children have an awareness of the socio-environmental
problems of the site and that together they can act to improve the area. Physical geography has a
link to environmental education. Physical geography has aided in the theoretical and technical.
Through the knowledge acquired in the course of Geography is that it is possible to develop
activities for children passing on a language accessible throughout the mechanism governing the
beach of sources, focusing on the main geoenvironmental units in the area such as dune fields,
cliffs, full of beach ponds. The tracks performed with children contribute to a better visualization of
the phenomena, since they know they have in the area, but not how it works and workshops
contribute to better learning.
           KEYWORDS: environmental education, coastal communities, geography.

         INTRODUÇÃO
         O Laboratório de Climatologia e Recursos Hídricos do curso de Geografia da Universidade
Federal do Ceará realiza pesquisas e desenvolve suas atividades através da atuação de projetos de
extensão universitária com temáticas sobre Educação Ambiental, Educação Indígena e Produção de
Materiais Didáticos. O Laboratório dispõe de um quadro de oficinas temáticas, cursos e palestras
que são utilizadas nas ações realizadas na comunidade, onde a escola está envolvida através da
participação de professores e alunos, associação de bairro, sendo envolvidas as lideranças
comunitárias, os agentes de saúde e outros indivíduos. Por meio de visitas à comunidade são
realizadas palestras, oficinas e mini-cursos tornando possível ampliar e aprofundar as interações
entre o conhecimento científico e as experiências da comunidade.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          96

         Dentre os diversos projetos de educação ambiental que o Laboratório desenvolve destaca-
se o de Educação Ambiental em Comunidades Costeiras. Este artigo relata as experiências
desenvolvidas na comunidade da Praia das Fontes, município de Beberibe-Ceará, contemplando em
média 35 crianças. O projeto visa fazer com que as crianças tenham uma consciência em relação
aos problemas sócioambientais do local e que juntas possam atuar na melhoria da área. As ações do
projeto ocorrem na Escola Municipal Raimundo Fagner, com o apoio da Associação de Moradores
da Praia das Fontes. As crianças envolvidas com as atividades relacionadas são incentivadas e
informadas para atuarem como agentes multiplicadores das ações de Educação Ambiental em sua
comunidade.
         A comunidade da Praia das Fontes situa-se no município de Beberibe, litoral leste do
Ceará, com aproximadamente 200 famílias vivendo de atividades ligadas a agricultura, pesca,
comércio e turismo.
         A Praia das Fontes possui uma diversidade de paisagens composta por faixa de praia,
campos de dunas, lagoas e um extenso corredor de falésias com areias multicoloridas que são
lapidadas pela ação marinha e pluvial. Devido a esta diversidade de paisagens, a praia tem atraído
turista e muitos investidores imobiliários que construíram hotéis em áreas de preservação
permanente e que continuam a se expandir na praia (SILVA, 2008).
         Destacamos inicialmente a experiência vivenciada durante os anos de 2007, 2008 e 2009
na comunidade da praia das Fontes. Paralelamente houve a criação da Sala de Leitura Pedro Gomes
do Nascimento (figura 01) pelo trabalho conjunto entre a escola e a comunidade.




              Figura 01: Sala de Leitura Pedro Gomes do Nascimento –
              Funciona como mais um espaço para a leitura

         A questão ambiental trabalhada na comunidade, direciona-se do local para o global, pois a
comunidade é alvo de propagandas mercadológicas voltadas para o potencial turístico que o
Governo do Estado propõe e que chega a diversos países com essa característica. Logo, a população
vê seu litoral preenchido por turistas, trazendo novas culturas exploratórias, fazendo com que
muitas famílias se afastem do seu aconchego nativo (FREITAS, 2009).
         O projeto possibilitará que outras comunidades possam conhecer o que está sendo
desenvolvido na praia das Fontes e com os resultados obtidos através da Sala de Leitura e da
Educação Ambiental, possam inserir esses ideais na sala de aula ou até desenvolver projetos
educativos de maior alcance. Além do que, a própria população deve conhecer ainda mais esses
projetos educativos e com eles se envolver, principalmente os familiares dos alunos.
         METODOLOGIA
         Para se obter os objetivos propostos fizeram-se necessários alguns procedimentos teórico-
metodológicos que auxiliaram na compreensão do tema. Como referencial teórico utilizamos os
princípios e práticas da Educação Ambiental do Programa Nacional de Educação Ambiental, um
programa elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente (2005). Este documento lista 20 objetivos
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             97

da Educação Ambiental, e nós consideramos interessante e que nos é válido para a realização do
projeto na comunidade alguns como:
          ● Criar espaços de debate das realidades locais para o desenvolvimento de mecanismos de
articulação social, fortalecendo as práticas comunitárias sustentáveis e garantindo a participação da
população nos processos decisórios sobre a gestão dos recursos ambientais;
          ● Incentivar iniciativas que valorizem a relação entre cultura, memória e paisagem – sob a
perspectiva biofilia -, assim como a interação entre os saberes tradicionais e populares e os
conhecimentos técnico - cientifico;
          ● Difundir a legislação ambiental, por intermédio de programas, projetos e ações de
educação ambiental.
          O propósito da Educação Ambiental é a conscientização das pessoas em relação ao uso do
Meio, assim é necessário que se tenha um conhecimento do mesmo, sua formação, sua importância.
Para isso foi utilizado também como embasamento teórico conceitos da Geografia Física, no que se
refere às explicações a cerca da dinâmica natural.
          Para Guimarães (2005) essa demanda pela Educação Ambiental, não só decorrente dos
aspectos legais, mas também dos problemas ambientais vivenciados por toda a sociedade, provoca a
necessidade deformar profissionais aptos a trabalhar com essa nova dimensão do processo
educativo.
          A Educação Ambiental no Brasil é regulada pela Política Nacional de Educação Ambiental
- PNEA, instituída pela lei nº. 9795, de abril de 1999, que definiu os seus princípios básicos dentre
os quais se destaca o enfoque democrático e participativo, a concepção de ambiente em sua
totalidade e a garantia de continuidade e permanência do processo educativo.
          "Processo em que se busca despertar a preocupação individual e coletiva para a questão
ambiental, garantindo o acesso à informação em linguagem adequada, contribuindo para o
desenvolvimento de uma consciência crítica e estimulando o enfrentamento das questões ambientais
e sociais. Desenvolve-se num contexto de complexidade, procurando trabalhar não apenas a
mudança cultural, mas também a transformação social, assumindo a crise ambiental como uma
questão ética e política”.
          (Política Nacional de Educação Ambiental - Art. 1o da Lei nº. 9.795 de abril de 1999).

         Segundo Guimarães (2005), o educador ambiental, como liderança que pretenda contribuir
para a superação dos problemas ambientais, não se contenta em promover intervenções pontuais de
caráter meramente informativo. Esse processo deve ser educativo tem que ser potencializador,
gerador de movimento, impulsionando o processo de transformação social.
         A relação Universidade-Comunidade é importante para que se compartilhem experiências,
nesse caso especifico conteúdos aprendidos no curso de Geografia sendo trabalhado através de
atividades com as crianças da comunidade da Praia das Fontes, onde foi utilizada uma linguagem
acessível para explicar o mecanismo que rege a Praia das Fontes, enfocando as principais Unidades
Geoambientais da área como os campos de dunas, falésias, faixa de praia, lagoas, etc.
         Além do referencial teórico, os procedimentos técnicos adotados foram à elaboração de
uma série de oficinas, trilhas ecológicas, exposições e dinâmicas, visando um máximo de
esclarecimento e de entendimento sobre o meio ambiente e o local em que vivem.

          RESULTADOS: RELATOS DAS EXPERIÊNCIAS
          O projeto iniciou-se com uma oficina sobre Lixo (tabela 01) juntamente com um mutirão
de limpeza da praia (figuras 03 e 04). No primeiro momento criam-se concepções sobre o que é
lixo, como ele pode ser prejudicial ao homem, como o lixo pode ser dividido (figuras 05) para ser
reutilizado e qual o tempo de decomposição de cada tipo de lixo.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                               98




Figura 03: Início da trilha na praia   Figura 04: Mutirão de limpeza na             Figura 05: Explicação sobre os
                                       praia                                        tipos de lixo
            TABELA 01 – Dinâmicas executadas na oficina
DINÂMICA           DESCRIÇÃO                                                        OBJETIVO
1                  Apresentação de cada participante da oficina                     Proporcionar uma maior interação e
Apresentação                                                                        favorecer um maior reconhecimento
                                                                                    entre os participantes.
2    Dinâmica      Os participantes são dispostos um ao lado do outro e             Ressaltar     a    importância   da
das mãos           colocados em círculo, onde eles iram observar quem estar do      colaboração entre as pessoas. E que
                   seu lado esquerdo e direito, em seguida é pedido para que eles   essa colaboração é de fundamental
                   se movimentem entre eles, depois é pedido para pararem de se     importância para a preservação do
                   movimentar e para dar as mãos, sem sair do lugar, para o         meio ambiente.
                   companheiro que estava do seu lado esquerdo e direito. Logo
                   após é pedido para que eles tentem formar um circulo igual ao
                   feito no começo a dinâmica, contudo não é permitido que
                   soltem as mãos.
3 – Dinâmica       Pede-se a cada participante que pegue um material reciclado e    Proporcionar uma reflexão e
com dados19        coloque na caixa de cor correspondente ao tipo de produto.       visualizar qual a percepção desta
                   Caixa azul: papel (jornais, revistas, formulários contínuos,     pessoa sobre o tema tratado.
                   folhas de escritório, caixas, papelão, etc).
                   Caixa amarela: metal (latas de aço e de alumínio’, clipes,
                   grampos de papel e de cabelo, papel alumínio).
                   Caixa verde: vidro (garrafas, copos, recipientes). Vale
                   ressaltar que nesta dinâmica, para evitar o manuseio de vidro,
                   optou-se por escrever o nome do objeto em seu
                   correspondente de plástico.

4 – Dinâmica       Cada participante desenha algo que queira e que esteja           Observar e discutir a percepção
do desenho         relacionado com o tema. No final sorteiam-se três pessoas        ambiental de cada participante além
                   para explicar os seus desenhos.                                  de promover a socialização entre
                                                                                    eles. Assim passa-se a trabalhar os
                                                                                    temas a partir da percepção de cada
                                                                                    participante.

5 – Trilha na      Como ultima atividade a ser realizada, foi feita uma trilha ao   Coletar o lixo encontrado ao longo
praia              longo da praia. Em mutirão com todos os participantes            da trilha, discutir sobre alguns
                   coletou-se o lixo ao longo da trilha.                            problemas que a comunidade
                                                                                    enfrenta e ressaltar as belezas
                                                                                    naturais encontradas ao longo da
                                                                                    trilha.


19 Vale ressaltar que o processo de construção dos dados segue as seguintes etapas:
1º Material utilizado: duas caixas de papelão em forma de quadrado, fita adesiva, cola, cartolina, tesoura, e imagens de
paisagens.
2º Cortam-se as folhas de cartolina, de acordo com o tamanho de cada lado da caixa.
3º Em seguida, com o auxilio da cola e da fita adesiva, cola-se a cartolina cortada em cada lado da caixa, até cobrir
todos os lados da caixa.
4º Colam-se as imagens de paisagens em cada lado do dado.
O mesmo processo se repete para a construção do segundo dado, no entanto no lugar de imagens de paisagens,
colocam-se frases que façam as pessoas refletirem.
Cabe ressaltar que vários tipos de dados podem ser feitos, depende do assunto de cada oficina, no caso desta optou-se
por utilizar imagens da região onde a oficina foi ministrada.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             99

        A segunda oficina trabalhou-se o aproveitamento de resíduos sólidos para a confecção de
brinquedos (figuras 06 e 07).




     Figura 06: Confecção da peteca             Figura 07: Confecção de Brinquedos com
                                                Resíduos Sólidos

         Realizou-se uma Gincana Interdisciplinar, traçando como objetivo principal, praticar o
conhecimento que os alunos detinham a cerca do meio ambiente, focalizando os ecossistemas
litorâneos, aprimorando os saberes e analisando o perfil de conhecimento dos alunos a partir do
saber cotidiano. Participaram um total de 20 alunos, em conjunto com a participação da professora
da escola e integrantes da comunidade (figuras 08).




                             Figura 08: Gincana – momento de realização de
                             uma tarefa

         Foram realizadas as seguintes atividades: um diálogo inicial sobre a temática trabalhada,
lembrando as diferentes paisagens encontradas na localidade, indicando-se assim um mapeamento
sobre a percepção do litoral no cotidiano dos participantes. Os alunos foram divididos em equipes
para responder as perguntas sobre conhecimentos específicos de Geografia e Meio Ambiente,
seguindo com uma leitura para se contar uma história local e por fim discutimos sobre a temática de
uma música de contexto ecológico.
         Uma atividade de crucial importância no desenvolvimento do projeto foi à realização da
oficina com a temática: Unidades Geoambientais. Nela construímos juntamente com as crianças
maquetes, representando as paisagens que eram reconhecidas por eles, realizamos uma trilha e
percebemos que eles identificavam e conheciam cada unidade, entretanto não sabiam o que eram
exatamente nem como se formaram, alguns nunca tinham visto de perto o Monumento Natural das
Falésias. Dessa maneira dividiu-se essa atividade em duas, sendo a parte teórica onde se
construíram maquetes (Figura 09) para facilitar a identificação das unidades por eles e a prática, na
qual reconheceram-se cada unidade de paisagem.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                     100




                             Figura 10: Maquete de representação de lagoa costeira e
         Na parte teórica trabalhou-se a dinâmica de formação das lagoas, das falésias, da praia e o
cuidado que a comunidade deve ter com o meio. Um fato importante notado foi o quanto eles
sabiam sobre o assunto, às vezes de maneira popular e outras de maneira cientifica, tentamos fazer
com que eles firmassem esse conhecimento.
         Para desenvolver essas atividades firmaram-se parcerias com a prefeitura e a associação de
bugueiros do município, que disponibilizaram três bugues (Figura 11) para que se pudesse realizar a
trilha com 13 crianças (Figura 12). A trilha saiu da Praia das Fontes e seguiu-se em direção a Praia
de Morro Branco, onde se localiza o Monumento Natural das Falésias (figura 13), de lá se seguiu,
pela faixa de praia, para a Lagoa do Uruaú, durante o percurso pode-se observar toda a planície
litorânea e suas fácies (faixa de praia, pós-praia, campo de dunas, mar litorâneo, falésias e lagoas)
finalizamos a trilha na Lagoa do Uruaú.




Figura 11: Caminho para a praia de    Figura 12: Crianças que participaram da   Figura 13: Trilha no Monumento
Morro Branco                          trilha.                                   Natural das Falésias

         Percebeu-se a necessidade de trabalhar a questão sobre manguezal com as crianças, apesar
de na comunidade não haver manguezal, eles tinham um conhecimento sobre o assunto, pois muitos
dos pais viviam da exploração do mangue. Nessa oficina mostrou-se a eles, a importância desse
ecossistema para as comunidades pesqueiras, pois o mangue produz mais de 90% dos alimentos
capturados do mar pelo homem. Relatou-se sobre a importância da preservação do manguezal e a
utilização sustentável do mesmo já que ele é de grande importância para a dinâmica costeira. Pediu-
se para que as crianças desenhassem sobre o que entenderam da oficina em seguida foi utilizada
uma musica sobre mangue.
         Outra oficina realizada na comunidade da Praia das Fontes foi a Agenda 21. O objetivo
desta oficina foi discutir a importância da Agenda 21 como um compromisso com o meio ambiente,
buscando realizar ações de melhoria não só ambiental, mas o social também. Iniciou-se a oficina
perguntando o que tinha de bom e de ruim na comunidade e o que se poderia fazer para melhorar.
As crianças tiveram uma avaliação muito crítica da comunidade, onde o principal problema para
elas são os piquiniqueiros que freqüentam a praia dia de domingo e jogam o lixo na praia. Deste
modo, foi feito um dia de conscientização na praia com os freqüentadores, distribuindo sacos de
lixo e pedindo para que eles não jogassem o lixo na praia e sim no saco distribuído e depois
colocassem nos tambores de lixo que tem na praia. A partir desta oficina foi criada a comissão da
criação da Agenda 21 das crianças na Praia das Fontes. Outras oficinas serão realizadas para a
construção da agenda 21.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         101

         ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
         As oficinas tiveram uma participação total das crianças, com muito empenho e criatividade
na realização das atividades. Destaca-se também a consciência das crianças em relação à ocupação
indevida sobre as falésias e como estas podem atuar na comunidade, fazendo com que o meio-
ambiente da Praia das Fontes juntamente com a sua Unidade de Conservação seja respeitado e
preservado. No decorrer do projeto, outras oficinas serão ministradas visando assuntos que sejam
importantes para a área.
         A Geografia, como outras disciplinas escolares é um meio didático de mostrar às crianças
algumas das diversas conseqüências da expansão da ocupação na praia das Fontes. Muitos da
comunidade já compreendem os resultados, percebem através da movimentação de turistas nos
finais de semana, pelo trabalho dos pais e até pela quantidade de lixo que se é deixado após os
piqueniques de visitantes.
         A comunidade da praia das Fontes já apresenta um percurso histórico escolar dinamizado
que ganhou novas dimensões a partir do momento que permitiu-se trabalhar com projetos
educativos que estivessem suporte escolar.
               A Sala de Leitura Pedro Gomes pode ser desvendada como instrumento de
possibilidade de desenvolvimento da E.A. como também, símbolo da prática educativa como
modelagem local, no qual as atividades e características da Sala possibilitam visualizar como
trabalhar a partir do local o regional ou vice-versa, mas como enfoque, podemos expor a Sala como
recurso metodológico da educação ambiental.
         Na praia das Fontes existem disputas entre empresários de equipamentos turísticos e
comunidade local, principalmente em questão de espaço e meio ambiente. Parte da população
beneficia-se com o turismo, porém existe uma grande hierarquia em cargos e funções. Outra
questão que podemos destacar é a formação profissional dos que já estão inseridos nos serviços
prestados aos turistas, pois verificamos que os buggeiros e comerciantes não apresentam uma
formação adequada a área.
         Os atrativos da localidade se tornaram produto turístico, pois existiram investimentos
estruturais, porém um planejamento turístico, social e ambiental necessita de uma nova
configuração, nesse contexto se faz necessárias avaliações periódicas na busca de um turismo
integrado.
         Como forma de agregar as características locais, refletindo as influências regionais, a
educação ainda continua uma prática social viável a todas as populações, independente da
existência de problematizações, sejam essas referentes a dinâmica local, aos materiais didáticos
escolares ou aos espaços diferenciais.

         REFERÊNCIAS
         BRASIL. Congresso. Senado. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Regulamenta o art.
225, § O 1 , incisos I, II, III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de
Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências. Diário Oficial [da] República
Federativa do Brasil, Brasília, DF, 18 julho, 2000.
         FREITAS, B.M.R. Educação Ambiental e Sala de Leitura: Alternativas para o Ensino de
Geografia. Universidade Federal do Ceará, Curso de Geografia, 2009 (Trabalho de Graduação de
Licenciatura).
         GUIMARÃES, Mauro. Educação ambiental: no consenso, um embate? Campinas:
Papirus, 2000.
         SATO, Michele. Educação ambiental. São Carlos: Rima 2002.
         SILVA, J.M.O. Monumento Natural das Falésias: diretrizes para o planejamento e
gestão ambiental. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-Graduação em
Geografia, 2008. (Dissertação de Mestrado).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                        102

  EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO NA PERCEPÇÃO DOS
   ESTUDANTES DE ENSINO MÉDIO EM ESCOLA PÚBLICA
       ESTADUAL NA CIDADE DE CATALÃO – GOIÁS

                                                                                      Klayton Marcelino de Paula
                                         Mestrando em Geografia. Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão
                                                                                 klaytonmarcelino@yahoo.com.br
                                                                                              Ana Gizelle da Silva
                                          Mestranda em Geografia. Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão
                                                                                       anagizelles@yahoo.com.br
                                                                                        Manoel Rodrigues Chaves
                                                                                      Orientador: Prof. Dr. (UFG).
                                   Órgão Financiador: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás – FAPEG

          ABSTRACT
          Environmental changes of anthropogenic origin, waving with a series of impacts in Brazil,
ranging from changes in agricultural production to public health including population displacement
in the regions of the semi-arid toward the states of south and southeast as the most developed. The
human performance, in charge of growing environmental problems, promotes uncontrolled
exploitation of natural resources, many non-renewable, to meet the demands of the global consumer
market with goods increasingly less disposable and biodegradable. This whole discussion involving
the environment must pass the school, according to INEP last updated on 13/08/2009 were recorded
this year, 8.369.369 in the national enrollment average of which 69.999 are in schools federal,
7.239,523 in the state, 163.779 in city and 897.068 in private. These 8.369.369 adolescents enrolled
in high school education are consumers, workers who benefit from goods, facilities and services
provided by the modern world. It is urgent to understand how the perception of high school students
in public school in relation to consumption stimulated by the capitalist system and address issues
related to environmental education, learn ways to this study being efficient, provide students with
means of knowledge environmental issues and realize that part of the process as a transforming
agent of the environment, and the real possibilities didactic/methodological in public schools to
discuss environmental education and consumption.
          KEYWORDS: Environmental education. Public school. High school. Teaching.

         RESUMO
         As mudanças ambientais de origem antrópica, acenam com uma série de impactos que, no
Brasil, vão desde mudanças na produção agropecuária à área da saúde pública incluindo
deslocamentos populacionais das regiões do semi-árido em direção aos estados do sul e sudeste
considerados mais desenvolvidos. A atuação humana, responsável pelos crescentes problemas
ambientais, favorece a exploração desordenada dos recursos naturais, muitos não renováveis, para
atender à demanda do mercado de consumo global com mercadorias cada vez mais descartáveis e
menos biodegradáveis. Toda essa discussão envolvendo o meio ambiente deve passar pela escola,
segundo os dados do INEP atualizados em 13/08/2009 foram contabilizadas, neste ano, em rede
nacional 8.369.369 matrículas no ensino médio das quais 68.999 são nas escolas federais, 7.239.523
nas estaduais, 163.779 nas municipais e 897.068 nas particulares. Esses 8.369.369 adolescentes
matriculados nas séries do ensino médio são consumidores, trabalhadores que usufruem das
mercadorias, comodidades e serviços disponibilizados pelo mundo moderno. É urgente
compreender como é a percepção dos estudantes de ensino médio de escola pública estadual em
relação ao consumo estimulado pelo sistema capitalista e a abordagem das questões relacionadas à
Educação Ambiental, conhecer caminhos para que este estudo se torne eficiente, proporcionar aos
estudantes meios de conhecimento a respeito das questões ambientais e que se percebam parte
integrante do processo como agente transformador do ambiente, e as reais possibilidades
didático/metodológica das escolas públicas para discutir Educação Ambiental e Consumo.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          103

        PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Escola pública. Ensino médio. Práticas
pedagógicas.

         INTRODUÇÃO
               A Educação Ambiental tem sido apresentada como uma modalidade de educação
preocupada com a análise e interpretação dos problemas ambientais, sendo reconhecida como
instrumento decisivo para promover as mudanças na humanidade desde a Conferência de
Estocolmo (ONU, 1972) e prática educativa integrada, contínua e permanente com abordagem
transdisciplinar nas escolas em todas as modalidades e fases do ensino de acordo com a Lei n°
9.795, de 27 de abril de 1999. Nesse contexto, a educação assume posição de destaque para
construir os fundamentos da sociedade sustentável, propiciando os processos de mudanças culturais
em direção à instauração de uma ética ecológica individual e social. Diante do exposto, questionam-
se quais princípios teórico-metodológicos e estratégias educativas podem promover avanços nos
estudos da Educação Ambiental? Como construir uma proposta metodológica que ajude a tornar o
estudo mais objetivo possível, porém não-neutro? Como discutir consumo no mundo atual levando
em conta todas as facilidade e comodidades que o consumo oferta?
               A complexidade do significado e da representação da Educação Ambiental no
ambiente escolar vai mais além, será a Educação Ambiental uma prática pedagógica voltada à
conservação na natureza? Promover desenvolvimento sustentável? Religar o humano à natureza,
como se não fossem pertencentes à mesma essência? Seria mudança de comportamento e atitude
relacionada ao consumo para algo mais ecologicamente correto?
               Portanto, é no sentido de promover a articulação das ações educativas voltadas às
atividades de conscientização, proteção, recuperação de valores éticos e morais no trato com a
natureza, melhoria socioambiental, e de potencializar a função da educação para as mudanças
comportamentais, que se deve pensar a qualidade da abordagem das questões ambientais no
ambiente escolar. O debate sobre Educação Ambiental e Consumo deve estar presente na prática
docente, sem ser um discurso vazio, há que fugir do lugar-comum da crítica apenas pela crítica.

          JUSTIFICATIVA
               Meio ambiente, Educação ambiental, Consumo, Poluição, Política, todos esses temas
e outros tantos estão nas pautas das conversar informais, nas manchetes dos jornais e no noticiário
da TV, não há uma única pessoa que nunca tenha proferido um discurso crítico sobre esses
assuntos, porém, tão logo passe esses momentos onde se tenta resolver os problemas mundiais
numa roda de amigos, tudo continua como antes, isso significa que não há falta de informação sobre
as questões ambientais, não há falta de projetos mitigadores, há uma infinidade de ONGs com
proposta de salvação do planeta, porém, ainda persistem e aumentam a cada dia as agressões à
natureza em todos os sentidos. Isto é resultado da falta de qualidade, embasamento, credibilidade,
seriedade, compromisso com as questões que envolvam meio ambiente.
               Não precisaríamos de Educação ambiental, se a humanidade fosse educada de forma
ampla e completa, educação e nada mais, aprender a respeitar o próximo entendendo esse próximo
como tudo que está a nossa volta. A educação ampla é função da família e da escola.
               A escola, ao definir seu Projeto Político Pedagógico - PPP deve propiciar condições
para que o estudante conheça os fundamentos básicos da investigação científica; reconhecer a
ciência como uma atividade humana em constante transformação, fruto da conjunção de fatores
históricos, sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos e tecnológicos, e, portanto, não
neutra; compreender e interpretar os impactos do desenvolvimento científico e tecnológico na
sociedade e no ambiente. Reconhecendo que os principais temas referem-se à compreensão da vida
na Terra, das consequências dos avanços tecnológicos e da intervenção humana.
               A família aos poucos perde sua característica de formadora da ética e da moral
social. Independente da durabilidade das uniões, o compromisso com a formação do caráter da prole
é de responsabilidade dos seus genitores, porém a educação dos filhos é fortemente permissiva e
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                                 104

consumista, talvez compensado a falta de atenção preenchida com mercadorias, presentes,
gratificações para os olhos brilhantes de quem recebe um agrado material quando falta o afetivo.
            [...] Enquanto a cultura geral comportava a incitação à busca da contextualização de qualquer informação ou
idéia, a cultura científica e técnica disciplinar parcela, desune e compartimenta os saberes, tornando cada vez mais
difícil sua contextualização. [...] Daí decorre o paradoxo: o século XX produziu avanços gigantescos em todas as áreas
do conhecimento científico, assim como em todos os campos da técnica. Ao mesmo tempo, produziu nova cegueira
para os problemas globais, fundamentais e complexos, e esta cegueira gerou inúmeros erros e ilusões, a começar por
parte dos cientistas, técnicos e especialistas. Por quê? Porque se desconhecem os princípios maiores do conhecimento
pertinente. O parcelamento e a compartimentação dos saberes impedem apreender “o que está tecido junto”.[...] A
educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana. Estamos na era planetária;
uma aventura comum conduz os seres humanos, onde quer que se encontrem. Estes devem reconhecer-se em sua
humanidade comum e ao mesmo tempo reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano. Conhecer o
humano é, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não separá-lo dele, todo conhecimento deve contextualizar seu
objeto, para ser pertinente. “Quem somos?” É inseparável de “Onde estamos?”. “De onde viemos?”, “Para onde
vamos?” (MORIN, 2002, p. 41 - 47).
              Não há tempo disponível pra discutir ou delegar funções entre escola e família,
ambas estão despreparadas para formar esse cidadão completo e educado amplamente. A escola
enquanto espaço físico está sucateada e desfalcada de recursos, e enquanto componente humano
está despreparada desde a formação universitária dos docentes. A escola se ressente com tantas
obrigações delegadas a ela e por outro lado a família entende ser obrigação unicamente da escola a
formação do cidadão consciente.
              É preciso avaliar a forma da abordagem das questões ambientais e principalmente
proporcionar ao estudante meios para estabelecer comparações, perceber impasses, contradições,
desafios ambientais de nível local e global.
           A problemática ambiental – a poluição e degradação do meio, a crise de recursos naturais, energéticos e de
alimentos – surgiu nas últimas décadas do século XX como uma crise de civilização, questionando a racionalidade
econômica e tecnológica dominantes. Esta crise tem sido explicada a partir de uma diversidade de perspectivas
ideológicas. Por um lado, é percebida como resultado da pressão exercida pelo crescimento da população sobre os
limitados recursos do planeta. Por outro, é interpretada como o efeito da acumulação de capital e da maximização da
taxa de lucro a curto prazo, que induzem padrões tecnológicos de uso e ritmos de exploração da natureza, bem como
formas de consumo, que vêm esgotando as reservas de recursos naturais, degradando a fertilidade dos solos e afetando
as condições de regeneração dos ecossistemas naturais. A problemática ambiental gerou mudanças globais em sistemas
socioambientais complexos que afetam as condições de sustentabilidade do planeta, propondo a necessidade de
internalizar as bases ecológicas e os princípios jurídicos e sociais para a gestão democrática dos recursos naturais. Estes
processos estão intimamente vinculados ao conhecimento das relações sociedade-natureza: não só estão associados a
novos valores, mas a princípios epistemológicos e estratégias conceituais que orientam a construção de uma
racionalidade produtiva sobre bases de sustentabilidade ecológica e de equidade social. Desta forma a crise ambiental
problematiza os paradigmas estabelecidos do conhecimento e demanda novas metodologias capazes de orientar um
processo de reconstrução do saber que permita realizar uma análise integrada da realidade. Uma das principais causas
da problemática ambiental foi atribuída ao processo histórico do qual emerge a ciência moderna e a Revolução
Industrial. Este processo deu lugar à distinção das ciências, ao fracionamento do conhecimento e à
compartimentalização da realidade em campos disciplinares confinados, com o propósito de incrementar a eficácia do
saber científico e a eficiência da cadeia tecnológica de produção. A partir dessa premissa, iniciou-se a busca por um
método capaz de reintegrar esses conhecimentos dispersos num campo unificado do saber. Desta forma a análise da
questão ambiental exigiu uma visão sistêmica e um pensamento holístico para a reconstrução de uma realidade “total”.
Daí propôs um projeto para pensar as condições teóricas e para estabelecer métodos que orientem as práticas da
interdisciplinaridade. (LEFF, 2007, p. 61 e 62).
               Portanto, é no sentido de promover a articulação das ações educativas voltadas às
atividades de conscientização, proteção, recuperação de valores éticos e morais no trato com a
natureza, melhoria socioambiental, e de potencializar a função da educação para as mudanças
comportamentais, que se deve pensar a qualidade da abordagem das questões ambientais na escola
na intenção que esse conhecimento adquirido seja levado adiante na futura vida familiar e
profissional dos estudantes.

        Caracterização da área da pesquisa
              A pesquisa foi realizada na cidade de Catalão a sudeste do estado de Goiás divisa
com Minas Gerais, localiza-se à latitude 18º 9’ 57” sul e à longitude 47º 56’ 47” oeste e à altitude
de 835 metros, sua população foi recenseada em 2007 como sendo de 75.623 habitantes, seu PIB de
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              105

mais de 2,5 bilhões de reais em 2007 que o coloca como a sexta maior economia do Centro-Oeste e
a terceira de Goiás neste ano. Possui área de aproximadamente 3778 km². Também da nome ao
distrito sede do município (os outros dois são Pires Belo e Santo Antônio do Rio Verde) e a uma
microrregião do Estado de Goiás, formada pelos municípios de Catalão, Ipameri, Ouvidor, Três
Ranchos, Davinópolis, Goiandira, Cumari, Nova Aurora, Anhanguera e Corumbaíba.
                O Colégio Estadual Polivalente Dr. Tharsis Campos está situado à Avenida José
Marcelino s/n°, Bairro Nossa Senhora de Fátima em Catalão-GO, esta é a principal avenida de
acesso à cidade para quem entra pelo estado de Minas Gerais passando pelas cidades mineiras de
Uberlândia e Araguari, a avenida é basicamente comercial, porém o bairro como um todo é de
característica residencial, sendo um dos mais antigos da cidade devido a isso os moradores são em
geral de pessoas com mais idade havendo poucos jovens.
                A escola contabilizou no ano letivo de 2009 o número de 664 alunos matriculados,
destes, 499 no ensino médio, e os demais nas séries do ensino fundamental 8° e 9° anos. Em 2010 já
são 530 matrículas confirmadas para o Ensino Médio até a presente data (março de 2010) as
matriculas continuam em aberto e esperam-se novos alunos oriundos da vizinha Escola Estadual
David Persicano que teve extinguido em 2010 suas turmas de Ensino Médio ficando
exclusivamente com Ensino Fundamental.
                A escola possui 30 professores e 32 funcionários administrativos, 1 laboratório de
informática com 20 computadores conectados a internet, 1 laboratório de ciências equipado com 10
microscópios ópticos, 2 microscópios esteroscópicos, vidraria completa, 1 balança digital e
reagentes diversos utilizados nas aulas práticas, 1 biblioteca, 1 oficina de artes, 1 sala de leitura, 1
sala de vídeo com TV LCD e aparelho de DVD, acervo histórico com objetos antigos doados pela
comunidade e objetos da própria escola, auditório com equipamentos de som e imagem (DVD e
VHS) e projetor de multi mídia.
                O Colégio Polivalente foi fundado em maio de 1979 com a proposta de escola
profissionalizante ofertando no currículo do Ensino Fundamental disciplinas como: técnicas
industriais, técnicas comerciais e técnicas agrícolas. Para estas disciplinas contava com maquinário
de marcenaria e serralheria, mobiliário simulando uma loja e o espaço da horta. Aprendia-se a
trabalhar com madeira, ferragens, atendimento comercial e o trato com a terra desde o plantio até a
colheita. O ensino das disciplinas profissionalizantes foi extinto no início da década de 1990,
ficando caracterizada como escola de Ensino Médio.
                O Colégio atende alunos dos bairros: Nossa Senhora de Fátima, Santa Terezinha,
Castelo Branco, Pontal Norte, São Francisco, Santo Antônio, bairro JK e zona rural, Fazenda dos
Casados e Comunidade Cisterna. A renda média geral das famílias é entre 2 a 5 salários mínimos, a
principal fonte empregadora são as empresas de extração de minérios, montadoras de veículos e
empresas terceirizadas.
                As turmas do turno matutino são de alunos mais jovens que ainda não foram
introduzidos no mercado de trabalho, os alunos do vespertino são em grande parte da zona rural de
Catalão (GO) e os alunos do noturno são mais adultos e em grande maioria, trabalhadores nas
indústrias e comércio local.

         Metodologia da pesquisa
               Para a realização da pesquisa foi feito o estudo dos Parâmetros Curriculares
Nacionais para o Ensino Médio, Orientações Curriculares para o Ensino Médio que tratam do
estudo transdisciplinar da Educação Ambiental e a Lei nº. 9.795/99, que dispõe sobre a educação
ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e da outras providências, entre elas, a
obrigatoriedade da abordagem ambiental em todas as séries e modalidades de ensino. Foi aplicado
questionário aos alunos das 3ª séries do ensino médio matutino e noturno do Colégio Estadual
Polivalente Dr. Tharsis Campos em Catalão-GO.
               Foram entrevistados um total de 80 estudantes, deste total, 40 foram do turno
matutino sendo 28 mulheres e 12 homens com idades entre 16 a 20 anos e 40 estudantes do turno
noturno sendo 25 homens e 15 mulheres com idades entre 16 a 21 anos, a entrevista tentou revelar
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           106

um pouco do perfil e modelo de consumo dos estudantes, bem como, o perfil dos alunos que
estudam de manhã e dos que estudam a noite.

         Resultados
               Das 40 entrevistas pela manhã, 35 estudantes possuem aparelho celular, 24 possuem
computador de mesa, 7 possuem computador portátil e 19 possuem MP3 ou outro similar. Em
relação ao tempo que permanecem com esses aparelhos, 2 afirmaram trocar a cada seis meses, 12
trocam uma vez ao ano principalmente celular e 26 permanecem com o mesmo aparelho por mais
de um ano. O destino dos aparelhos usados, 24 disseram que revendem ou doam aos amigos ou
familiares, 16 simplesmente deixam em casa e ninguém descarta o aparelho antigo no lixo
doméstico. A manutenção financeira dos estudantes, para 29 deles fica a cargo dos pais ou outro
responsável, 2 são por conta dos cônjuges e 9 afirmam serem eles mesmos os responsáveis pelas
despesas. Na compra de roupas e sapatos 26 revelam que compram todos os meses, 9 compram a
cada seis meses e 5 passam mais de seis meses sem comprar peças de vestuário. Sobre o consumo
de alimentos industrializados, tipo refrigerante e salgadinhos, 17 dizem consumir todos os dias, 19
somente nos finais de semana e 4 somente em ocasiões especiais como uma festa, todos afirmam
consumir alimentos naturais no dia a dia.
               Das 40 entrevistas no período noturno, 38 estudantes possuem aparelho celular, 22
possuem computador de mesa, apenas 6 possuem computador portátil e 11 possuem MP3 ou outro
aparelho similar. Em relação ao tempo que permanecem com esses aparelhos, 2 afirmaram trocar a
cada seis meses, 16 trocam uma vez ao ano principalmente celular e 22 permanecem com o mesmo
aparelho por mais de um ano. O destino dos aparelhos usados, 1 revelou descartar no lixo doméstico
comum, 26 repassam a terceiros vendendo ou doando e 13 deixam o aparelho velho em casa. A
manutenção financeira dos estudantes, para 14 deles fica a cargo dos pais ou outro responsável, 2
são sustentados pelos cônjuges e 24 se mantém com o próprio trabalho. Na compra de roupas e
sapatos 19 revelam comprar todos os meses 18 compram a cada seis meses e 3 passam mais de seis
meses sem comprar peças de vestuário. Sobre o consumo de alimentos industrializados, tipo
refrigerante e salgadinhos, 23 dizem consumir todos os dias, 13 apenas nos finais de semana e 4
somente em ocasiões especiais como uma festa, todos afirmam consumir alimentos naturais no dia a
dia.

         Considerações finais
               Em linhas gerais, os alunos no matutino são mantidos pelos pais e os do noturno são
responsáveis pelas próprias despesas, isso determina os perfis de consumo, enquanto os alunos do
matutino se preocupam com a marca do celular e o trocam com freqüência, os do noturno se
preocupam com o valor do aparelho. Percebe-se pela pesquisa que os estudantes da manhã são mais
jovens que os do noturno, a grande maioria possuem mais computador de mesa em relação ao do
noturno, alguns preferem o computador portátil por ter a opção de levar para a escola ou trabalho.
Em relação ao vestuário, os alunos do matutino são mais consumistas e sempre valorizando a marca
da roupa ou sapato como status. No noturno há um consumo maior de alimentos industrializados,
pois muitos saem do trabalho e vão pra escola e a opção mais fácil e rápida de alimento é comprar
algo pronto no supermercado. Todos revelam uma certa preocupação e noções básicas de meio
ambiente e produção de lixo tecnológico, sabem ou já ouviram falar do perigo de descartar esse tipo
de material no lixo doméstico.
               A finalidade da pesquisa não foi apontar hábitos de consumo e classificá-los como
certos ou errados, afinal, estamos todos felizes com nossos aparelhos celulares modernos e ultra
modernos, nossos MP 3, 4, 5 e tantos outros MPs, estamos contentes com nossos computadores
portáteis cada vez mais leves, econômicos e rápidos, a questão está, onde e como usufruir, descartar
ou reciclar o obsoleto? A resposta a isso não virá da população consumidora apenas e nem será
papel da escola indicar um caminho, a escola pode e deve apontar as questões históricas do
desenvolvimento tecnológico, as questões biológicas e químicas da produção de lixo, as questões
sociais da produção industrial, trabalho e consumo, porém apontar uma melhoria sócio-ambiental é
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                       107

tarefa conjunta das grandes empresas produtoras de tecnologia, das revendedoras e é claro, do
consumidor final também.
                A escola trabalha com conscientização, visitando aterros sanitários, trabalhando
textos, livros, palestras e projetos, mas tudo isso é inócuo em relação à grandiosidade do mundo
consumista, os próprios professores são vítimas do modelo de consumo e da tecnologia. A
tecnologia facilitou nossas vidas, isso ninguém pode negar, seja na comunicação, na saúde, na
rapidez das informações, porém tudo isso teria que ser acessível a toda a população, mas
infelizmente o que se observa é a tecnologia se transformar em mais um aspecto de determinismo
de categoria social.

         REFERÊNCIAS
         BARCELOS, Valdo; Educação ambiental : sobre princípios, metodologias e atitudes /
Petrópolis RJ. ed. Vozes, 2008. – (Coleção Educação Ambiental).
         CARVALHO, Isabel C. de Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito
ecológico /– 2. ed. – São Paulo: Cortez, 2006.
         DIAS, Genebaldo Freire. Educação ambiental princípios e práticas. 3ª Ed. Editora Gaia.
São Paulo 1994.
         GALIAZI, Maria do Carmo; FREITAS, José Vicente de – Metodologias emergentes de
pesquisa em educação ambiental. Ijuí : Ed. Unijuí, 2007. (Coleção Educação em Ciências)
         LEFF, Enrique. Epistemologia Ambiental. 4. ed. – São Paulo : Cortez, 2007.
         LOUREIRO, Carlos Frederico B; Trajetória e fundamentos da educação ambiental / 2.
ed. – São Paulo : Cortez, 2006.
         Ministério da Educação (MEC), Secretaria de Educação Média e Tecnológica (Semtec).
Parâmetros curriculares nacionais para o ensino médio. Brasília MEC/Semtec, 1999.
         ______Secretaria de Educação Básica. Orientações curriculares para o ensino médio :
volume 2. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias Brasília, 2008.
         Ministério do Meio Ambiente, Programa nacional de educação ambiental – ProNEA
Diretoria de Educação Ambiental; Ministério da Educação. Coordenação Geral de Educação
Ambiental. – 3. ed. – Brasília, 2005.
         Rede Brasileira de Educação Ambiental; Revista brasileira de educação ambiental / - n.
2 (Fev. 2007). – Brasília, 2007
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                       108

   EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O ALAMBIQUE SAMANAÚ – RN

                                                                                    Maracajá, Kettrin Farias Bem
                                                                          Professora da UFRN/Curso de Turismo
                                                                                                kettrin@ufrnet.br
                                                                                              Dantas, José da Paz
                                                                                Bacharel em Turismo pela FCST
                                                                                          paizitopaz@bol.com.br
                                                                            Silva, Vicente de Paulo Rodrigues da
                                                                  UFCG/Unidade Acadêmica Ciências Atmosféricas
                                                                                        vicente@dca.ufcg.edu.br

          RESUMO
          Nos dias atuais existe uma preocupação constante em relação à educação ambiental como
alternativa sustentável de desenvolvimento econômico em áreas naturais. Porém, para isso é
necessário minimizar os impactos ambientais que são constantemente gerados nessa areas. O
presente trabalho discute a Educação Ambiental no Alambique Samanaú – RN e aponta alguns
procedimentos utilizados para minimizar os impactos ambientais provocados pelo cultivo da cana-
de-açúcar. O artigo é apresentado através de uma revisão bibliográfica e entrevistas na área de
estudo, como parte de um projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande
do Norte.
          PALAVRAS-CHAVE: impactos ambientais, áreas naturais, cana-de-açúcar

          ABSTRACT
          Nowadays there is a constant concern about environmental education as sustainable
alternative for the economic development in natural areas. However, for this it is necessary to
minimize the environmental impacts that are constantly generated on such areas. This paper
discusses the environmental education in the Alembic Samanaú – RN, indicating some procedures
for reducing the environmental impacts caused by growth of sugar cane. The article is presented
through a literature review and interviews in the study area, as part of a research project developed
by Federal University of Rio Grande do Norte.
          KEYWORDS: environmental impacts, natural areas, sugar cane

          ALAMBIQUE SAMANAÚ
          A messoregião do Seridó do Estado do Rio Grande do Norte tem grande potencial turístico
devido as suas belezas naturais como a vegetação, o relevo e o clima, além das belezas artificiais,
como açudes, barragens e a arquitetura em geral, e seus valores culturais, destacando-se a
religiosidade, festejos juninos, artesanato, gastronomia, dentre outros aspectos culturais.
                        Segundo ARAÚJO (2003) em 1994 foi construída no leito do Rio Seridó a
barragem Passagem das Traíras, perenizando assim o rio, beneficiando e valorizando toda a
messorregião, tornando produtivas aquelas terras que até então só eram aproveitadas para
plantações em épocas chuvosos. Essa construção favoreceu o plantio, dentre outras lavoras, a da
cana-de-açúcar, surgindo assim, a idéia da implantação de um alambique para a fabricação da
cachaça. Outro fator que influenciou e fomentou a idéia da produção da cachaça foi a alta
concentração de sacarose (açúcar) encontrada na planta, devida às condições climáticas ideais da
região para o desenvolvimento dessa cultura.
                        O senhor Dadá Costa, proprietário da cachaça Samanaú, muito embora não
tenha sido o pioneiro na fabricação de cachaça no Seridó, pois antigamente já existia uma produção
de cachaça na região, mas de maneira rudimentar, ele assumiu o desafio de instalar na sua fazenda
um alambique de cobre, com todos os seus aparatos e equipamentos necessários para produzir uma
cachaça de ótima qualidade. Muitos especialistas no assunto consideram essa cachaça de
excelência, que inclusive já está sendo comercializada para o exterior. O tipo de alambique utilizado
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                109

na Samanaú é o mais recomendado para a destilação e fabricação da cachaça artesanal, como
também é o mais usado no Brasil.
                       A cachaça foi batizada com o nome de Samanaú devido a fazenda, que
pertence a família do proprietário há mais de cem anos, encontrando-se localizada na serra de
Samanaú. O senhor Dada Costa, citando Câmara Cascudo, afirma que Samanaú significa serra,
elevação ou montanha listrada de preto. De fato, observando-se a Serra de São Bernardo se
constatam algumas pedras listradas de preto na antiga Serra de Samanaú. O Rio São Bernardo
também já foi chamado de Rio Samanaú, como também existe um bairro em Caicó com o mesmo
nome, dentre outros produtos existentes na região com o mesmo nome.
                       Assim, devido a sua importância histórica e cultural, o Alambique Samanaú
está de forma inovadora resgatando o seu nome de origem indígena, principalmente para ter o seu
reconhecimento histórico da época do Brasil colonial e que o mundo também conheça parte da
cultura dessa região semiárida através do consumo de um produto originalmente brasileiro.
                       Outrossim, no que diz respeito a produção de cachaça, a Samanaú não é
nenhuma novidade. Entretanto, levando-se em consideração a qualidade e a produtividade do
produto, pode-se afirmar que o projeto do Alambique Samanaú é totalmente inovador,
estabelecendo um marco na história sócio-cultural e econômica da região Seridó, como também do
estado do Rio Grande do Norte. Além disso, esse produto resgata no passado da microrregião do
Seridó uma de suas bases de sua economia, bem como mantém vivas as antigas tradições e
costumes de parte do País.


          ALAMBIQUE SAMANAÚ: UM PATRIMONIO TURÍSTICO NO SERIDÓ
                       A mesorregião do sertão se destaca por uma vasta diversidade de ecossistemas,
que estão sendo reduzidos em face das atividades agropastoris. Primeiramente, o grande ciclo
econômico na região foi a pecuária, depois veio o ciclo do algodão, fazendo com que o status da região
fosse elevado, chegando a ser, por muito tempo, o centro econômico e político do Estado do Rio Grande
do Norte. A prova disso é o grande número de governadores, dentre outros políticos influentes, que
saíram dessa região naquela época. Essa messoregião também se destaca pelos seus contrastes
climáticos, principalmente no regime pluviométrico, com grandes períodos de seca intermitentes e
pequenos períodos de chuva. Apesar disso, o Sertão sempre ofereceu condições suficientes para as
sobrevivências dos homens e dos animais, devido às técnicas utilizadas para construção de açudes,
barragens, poços e similares. Em 1994 foi construída no leito do rio Seridó a barragem Passagem das
Traíras, perenizando, assim, o rio que beneficiou e valorizou aquelas terras que até então eram utilizadas
para plantações nas épocas chuvosas. Essa construção favoreceu, dentre outras lavoras, o plantio da
cana-de-açúcar, surgindo assim a idéia da implantação de um alambique para a fabricação de cachaça.
Outro fator que também influenciou e fomentou a idéia de produzir aguardente da cana-de-açúcar foi o
alto nível de sacarose da planta, devida às condições climáticas da região favoráveis ao plantio dessa
cultura. A principal finalidade das plantações de cana-de-açúcar no Seridó foi na manutenção da
pecuária e na fabricação de rapadura e batida. Essa atividade e produtos já fazem parte da vida dos
seridoenses por mais de cem anos. Assim como no contexto nacional, a produção de cachaça não era o
principal objetivo do plantio, muito embora se fazia necessária para suprir as necessidades do consumo,
principalmente em nível familiar, pois, o que sobrava da fabricação da rapadura, os proprietários dos
engenhos utilizavam para a fabricação da cachaça, mesmo que de forma rudimentar, em alambiques
pequenos e artesanais para ser consumida nas festividades da região, como o natal, “noite de ano”, festas
de padroeiros, aniversários, casamentos, batizados, ou até mesmo em comemoração de fim da safra.
Esse produto era pouquíssimas vezes utilizado como complemento da renda familiar, assim como em
outras regiões do país, pelo fato do principal objetivo ser para o consumo próprio. Nesse contexto
destacou-se no passado o alambique Sipuada, que produzia uma cachaça artesanal de mesmo nome, e
que se localizava no município de São João do Sabugi. Outro alambique que se destacou na região foi o
da fazenda Caboclo, localizado no município de Caicó. A produção desses alambiques não tinha fins
comerciais.
                       Assim, no que diz respeito a produção de cachaça, a Samanaú não é nenhuma
novidade. Entretanto, levando-se em consideração a qualidade, a produtividade e a preocupação com a
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           110

educação ambiental se pode afirmar que o projeto do Alambique Samanaú é totalmente inovador,
estabelecendo um marco na história sócio-cultural e econômica da região Seridó, como também no
Estado do Rio Grande do Norte. Além de resgatar a história do Seridó Potiguar, essa atividade mantém
vivas as tradições e costumes da região.

          EDUCAÇÃO AMBIENTAL
                        A partir dos anos 80, o Brasil começa a se preocupar com a educação
ambiental, mediante a realização da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e
desenvolvimento, conhecida como Rio 92, dando início a uma série de discussões entre os diversos
representantes das nações.
                        Segundo a COMISSAO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E
DESENVOLVIMENTO, as ciências relacionadas à ecologia e aos recursos naturais elaboram os
fundamentos básicos da proposta pedagógica que veio a se chamar de Educação Ambiental,
enfocando: conscientização, mudanças de comportamento, desenvolvimento de competências,
capacidade de avaliação e participação.      Esse mesmo autor, José do Carmo Neves na época
presidente do Instituto Estadual de Florestas (IEF), propôs que os responsáveis pelo ensino no País,
Estados e Municípios incluíssem nos seus currículos dos cursos de primeiro e segundo graus noções
realistas e aplicáveis sobre conservação dos recursos naturais renováveis e a preservações e
melhoria do meio ambiente, conforme disposições do Artigo 42, do Código Florestal - Lei n 4771,
de 15 de setembro de 1965.
                        No âmbito do Alambique Samanaú a educação ambiental passa a ser um
processo contínuo de conscientização pelos trabalhadores da própria comunidade local, objetivando
a preservação do meio ambiente diariamente. A prática adotada consiste em transmitir todas as
instruções educacionais para que se atinja a produção de forma sustentável e com menor ação
impactante sobre o meio ambiente no Alambique Samanaú. A estimulação da conscientização da
população é baseada na Lei n 9795 de 27/04/99, que institui a Política Nacional de Educação
Ambiental não formal de ser incentivada pelo poder publico nas três esferas do governo (art.13
inciso VIII). É a partir de uma nova conduta, obtida através da educação ambiental, que se pretende
evitar muitos efeitos maléficos nos locais de produção, tentando, assim, fazer com que exista cada
vez mais um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) nessa mesorregião do Estado do Rio
Grande do Norte.

         ALAMBIQUE SAMANAÚ E EDUCAÇÃO AMBIENTAL
                      O Alambique é composto por um pátio central, jardins, área de secagem do
bagaço da cana, moendas, onde é moída a cana para a obtenção do caldo, decantadores, sala de
fermentação. Nele, ainda, consta a destilação, galpões onde são armazenados os barris e tonéis para
o envelhecimento, sala de engarrafamento, marcenaria e alojamento dos funcionários. Tudo isso é
distribuído em uma área de mil e noventa e dois metros quadrados, que é justamente a área
construída do empreendimento. As Figuras 1 e 2 exibem a faixada externa e as instalações internas
do alambique, respectivamente. Além desse espaço, o alambique ainda possui a área da lavoura de
cana-de-açúcar, lagoa de estabilização, casa da fazenda, dentre outras dependências.




Figura 1: Faixada do Alambique                        Figura 2: Instalações Externas
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         111

                      O Alambique Samanaú é uma indústria de cachaça artesanal que produ cem
                                                                                      produz
mil litros de cachaça por ano, com capacidade de dobrar a sua produção, pois, opera praticamente
com cinqüenta por cento de sua capacidade. A produção da cachaça no alambique Samanaú gera
emprego e renda de forma sustentável, tendo em vista que seus equipamentos produzem o mínimo
de poluição.
                      No plantio da cana do alambique é dispensado o uso de agrotóxicos, optando
apenas pelo adubo orgânico proveniente da própria produção, sendo utilizados os rejeitos das
leveduras usadas na fermentação. Além disso, é utilizado também o vinhoto, que consiste em um
                                         disso,
resíduo pastoso e com forte odor proveniente do rejeitado da fermentado da cana
                                                                             cana-de-açúcar. Para
cada litro de cachaça produzido, é deixado para traz aproximadamente dez litros de vinhoto, que se
jogados diretamente nos rios pode causar grande impacto ambiental. Porém, se tratado ele pode ser
           iretamente
usado como adubo na própria lavoura ou na obtenção de biogás. No caso do Alambique Samanaú,
essa substância é tratada em uma lagoa de contenção, onde o produto fica ar   armazenado por um
período de aproximadamente quarenta dias, e usado posteriormente como adubo. Isso torna a
atividade de fabricação de cachaça no Alambique Samanaú é auto sustentável, além de contribuir
                                                              auto-sustentável,
diretamente na preservação do meio ambiente.




Figura 3: Cana Cortada                                Figura 4: Lavoura de cana

                       Outra característica positiva do Alambique é a opção pela não queimada da
lavoura. As queimadas aumentam a produtividade da cana, devido ao ganho de tempo de colheita,
mas, diminui a qualidade do produto final, pois, a partir do momento em que a cana é aquecida, ela
passa por um processo químico que diminui o seu teor de açúcar. Esse processo estimula outras
propriedades da cana que podem ser nocivas ao consumo, comprometendo assim a bebida, sem
mencionar na produção de grande quantidade de fumaça tóxica, cujos danos muitas vezes são
irreversíveis para a saúde humana e para a atmosfera.
                       No Alambique Samanaú a cana é colhida manualmente, como mostra a figura
3, e cortada a parte da folhagem como se observa na figura 4, pois se as folhas fossem moídas
ocasionaria uma fermentação excessiva do caldo, influenciando diretamente na qualidade da
produção, tal como no brix (teor de açúcar).




Figura 5: Bagaço da cana
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           112

                     Após a moagem, o bagaço da cana (figura 5) que chega a trinta por cento do
produto, fica exposto em uma área descoberta para secagem, de duzentos e sessenta metros
quadrados. Após a secagem, cinqüenta por cento desse volume é hidrolisado e destinado à
alimentação do rebanho, e os outros cinqüenta por cento são aproveitados como combustível nas
fornalhas do alambique. A quantidade de bagaço produzida por safra chega à trezentas toneladas.


          IMPACTO NA ECONOMIA DA REGIÃO
                       Como o objetivo inicial do Alambique Samanaú era o de gerar emprego e
renda, foi articulada uma parceria com o perímetro irrigado Itans/Sabugí através da criação do
Açude para facilitar o cultivo da cana-de-açúcar naquela localidade. Entretanto, o que acontece
atualmente é que a zona rural está sendo esvaziada com o exôdo rural para os grandes centros
urbanos. A razão disso está associado ao fato de que antigamente os recursos naturais não eram tão
escassos como hoje. Toda fazenda tinha a sua lavoura de onde se tirava o sustento para os seu
moradores trocando por outros produtos. Um dos fatores que contribuiu para que esse quadro se
revertesse foi a própria ação predatória do homem, através de desmatamentos desordenados, caça e
pesca abusivas com fins comerciais, dentre outros. Todos esses fatores ocasionaram o
empobrecimento dos solos, erosões, assoreamento dos mananciais e o desaparecimento da flora e da
fauna. Assim, o homem quando se viu sem saída, começou a migrar para as cidades, aumentando
cada vez mais as dificuldades de sobrevivência. Muitas vezes essa população sem saber que se
algumas ações fossem tomadas, toda a potencialidade do campo poderia ser resgatadas, inclusive
com a agregação de outros valores. Portanto, sem nenhuma necessidade de deslocamento do seu
local de origem para se aventurar nos grandes centros urbanos e agravando ainda mais os problemas
sociais.
                       No caso em análise, a auternativa foi justamente a implantação da lavoura de
cana-de-açúcar, pois, todos os moradores que estavam desempregados, ou trabalhavam na zona
urbana tiveram a oportunidade de trabalhar na sua região de origem. Além disso, eles têm a
oportunidades de morar próximo a suas famílias, além de salário fixo e contar com as ações
públicas, tendo em vista que onde se desenvolve atividades geradoras de renda e de capital existem
programas sociais que melhoram a qualidade de vida dos habitantes daquela localidade. Soma-se a
isso o fato de possibilidade da comercialização de produtos tradicionais da região, como artesanato,
culinária, festas populares, dentre outros; abrindo, assim, precedentes para o desenvolvimento de
outras atividades, como por exemplo, o turismo.

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
                      Apesar de serem amplas as questões quanto aos impactos ambientais,
percebe-se que pouco se faz na prática para minimizá-los e a conscientização dos trabalhadores
sobre essa questão, assim como da população, ainda é muito restrita.
                      A educação ambiental pode ser utilizada com mais ênfase e, assim, se
transformar em uma ferramenta eficaz, trabalhando como forma de se obter a prevenção do meio
ambiente, como também, a utilização de ferramentas que estão disponíveis para diminuição da
poluição. O exemplo disso é o Alambique Samanaú que utiliza 50% do bagaço prensado da cana-
de-açúcar para servir de energia ao invés da madeira que provoca o desmatamento e a degradação
dos ecossistemas rurais. Já existem maquinas destinadas a queima de casca de coco, como também,
a prensa do bagaço de cana-de-açúcar para transformar em pequenos fardos, minimizando, assim, a
poluição ambiental. Isso também mostra que existe um crescimento da conscientização popular
sobre os problemas da poluição.
                      O Alambique Samanaú deve ser tornado como exemplo de como se pode
alcançar o desenvolvimento sem a emissão de poluentes através da pouca utilização de lenha, por
não existir queima da lavoura e também por ter uma lagoa de contenção. A educação ambiental tem
o potencial de contribuir para que as pessoas compreendam melhor as questões ambientais; desse
modo ampliar a conscientização desses problemas, para que as pessoas tenham contato mais
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         113

próximo como o meio ambiente natural. Esse contato eleva a consciência do valor da natureza e faz
com que a população adotem comportamentos e atitudes ambientalmente conscientes para preservar
o meio ambiente. Portanto, destaca-se que a educação ambiental realmente está atrelada às ações de
sustentabilidade do Alambique Samanaú, com qualidades cada vez mais destacadas dos demais
Alambiques da região que envolvidos diretamente com a atividade da fabricação de aguardente da
cana-se-açúcar. Somente através de ações educativas é possível reduzir os impactos negativos sobre
o meio ambiente e se obter os desenvolvimentos social e econômico de forma sustentável. Enquanto
este perfil de sustentabilidade ambiental não for atingido, a educação ambiental se torna a
ferramenta mais adequada a ser utilizada como alternativa para a prevenção e conservação dos
ecossistemas naturais.

         REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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         PELLEGRINI Filho, Américo. Ecologia, cultura e turismo- 2aed, Campinas- SP, Papirus;
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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                    114

       EDUCOMUNICAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: O
DESENVOLVIMENTO CRÍTICO E CONSCIENTE DE CONSUMO
    POR AQUELES QUE FAZEM RÁDIO COMUNITÁRIA

                                                                                   Marlos Feitosa MARQUES
               Biólogo, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática e Tecnológica, Centro de
                                                                                              Educação, UFPE
                                                                                    marlos.feitosa@gmail.com

          RESUMO
          O objetivo deste estudo foi demonstrar o modo processual de formação da consciência
crítica de consumo por jovens responsáveis pela realização de programas radiofônicos comunitários
no Município de Pombos-PE. O procedimento de coleta e análise de dados teve como fonte os
diálogos contidos em um programa sobre Educação Ambiental, produzido através de práticas
educomunicativas e veiculado no mês de outubro de 2009. A consciência crítica de consumo pôde
ser observada em estágios iniciais nos exemplos de diálogos travados entre os locutores do
programa. Embora as idéias e o discurso não tenham alcançado todo o potencial intrínseco ao
conteúdo específico trabalhado, os jovens conseguiram fazer relações importantes entre o tema e a
questão do consumo consciente. Contribuímos, dessa forma, para a compreensão do potencial de
desenvolvimento crítico e consciente de consumo, presente em práticas radiofônicas
educomunicativas, o que se constitui como um dos primeiros passos para o engajamento dos
sujeitos em ações que extrapolem o discurso e os limites espaciais do ambiente da rádio
comunitária.
          PALAVRAS-CHAVES: Educação Ambiental, Educomunicação Socioambiental, Rádio
Comunitária, Consumo Consciente.

         ABSTRACT
         The aim of this study was to demonstrate how procedural formation of critical conscience
of consumption by young people responsible for realization of communitarian radio programs in the
city of Pombos-PE. The source of data collect and analysis was the dialogue contained in an
Environmental Education program, produced through educommunication practices and transmitted
in october 2009. A critical conscience of consumption could be observed in the early stages in the
examples of dialogues between speakers of the program. Although the ideas and the discourse has
not reached all intrinsic potential of the specific content working, young people were able to make
important links between the theme and the question of conscientious consumption. We contribute,
therefore, to understand the potential of developing critical and conscious of consumption in this
educommunicatives practices of radio, which are constituted as a first step for the engagement of
individuals in actions that go beyond speech and spatial limits of the environment communitarian
radio.
         KEYWORDS: Environmental Education, Socioenvironmental Educommunication,
Community Radio, Conscious Consumption.

         INTRODUÇÃO
         No mundo contemporâneo globalizado as tecnologias da informação e comunicação,
transformam a distância e o tempo das relações estabelecidas ao criar redes invisíveis
interconectadas que, entre outros efeitos, aproximam mercados acelerando a produção e o consumo
das sociedades de forma nunca antes vista. Considerando que o desenvolvimento da humanidade se
deu a partir de sua formas de intervenção no meio natural e de acordo com sua capacidade de se
comunicar, o desenvolvimento dos diversos artefatos tecnológicos ocorreu concomitantemente ao
desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação (tic’s), a começar pela própria
linguagem humana.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          115

        Entretanto, Trigueiro (2004) nos dá uma idéia dos efeitos colaterais desse modelo de
desenvolvimento:

         Apenas 1,7 bilhão dos atuais 6,3 bilhões de pessoas que habitam o planeta têm hoje
condições de consumir além das necessidades básicas. Ainda assim, a demanda por matéria-prima e
energia cresce, precipitando o mundo na direção de um impasse civilizatório: ou a sociedade de
consumo enfrenta o desafio da sustentabilidade, ou teremos cada vez menos água doce e limpa,
menos florestas, menos solos férteis, menos espaço para a monumental produção de lixo e outros
efeitos colaterais desse modelo suicida de desenvolvimento (online).

         Defendemos, no entanto, neste artigo, a idéia que se, outrora, a linguagem, assim como as
tecnologias da informação e comunicação de uma forma geral, se relacionaram fortemente com o
desenvolvimento das técnicas de modificação do meio natural e conseqüentemente com a
consolidação do atual quadro de desequilíbrios instalado, cabe também a estas preponderante papel
na resolução da problemática ambiental, a começar pela formação de consumidores mais críticos e
conscientes.
         O papel da mídia, entretanto, em especial da grande mídia, isto é, aquela que tem longo
alcance e atinge públicos socialmente diversificados, (a exemplo do rádio e da televisão) é, a esse
respeito, historicamente pautado mais pelo estímulo ao consumo desequilibrado, e isto se deve,
basicamente, à forte dependência financeira dos meios de comunicação em relação à publicidade
empresarial. A crise ambiental contemporânea, por outro lado, vem estimulando o aumento de
propagandas em que muitas empresas se autopromovem como sustentáveis e socioambientalmente
responsáveis.
         Todavia, além da falta de compreensão de que há uma maior necessidade de medidas
preventivas que compensatórias, em razão do atual status de degradação ambiental, o apelo ao
consumo desenfreado permanece atrelado à propaganda empresarial e aos noticiários em geral,
revelando a não associação da crise ambiental ao modelo civilizatório de exploração dos recursos
naturais e produção e consumo de bens. O discurso da mídia, nesse sentido, é altamente
contraditório e continua a promover a perpetuação do consumo desequilibrado e inconsciente.
         A partir dessa problemática é possível constatar a dificuldade atual em desenvolver
processos de Educação Ambiental através dos meios tecnológicos de informação e comunicação.
Neste contexto, o novo campo da Educomunicação é visto como alternativa para a substituição de
velhas práticas pedagógicas que não mais respondem às necessidades urgentes contemporâneas de
relação com o ambiente. O termo Educomunicação foi originalmente criado pelo comunicador
argentino Mário Kaplún. As idéias deste autor e de grandes nomes da educação, como Martin Búber
e Paulo Freire, além de estudos de diversos pesquisadores interessados nesta área, somaram-se para
que o professor Ismar Soares formasse um entendimento mais completo da Educomunicação.
Segundo o autor, a Educomunicação tem como objetivos (2004 apud BRASIL/MMA, 2005):

         Promover o acesso democrático à produção e à difusão de informação; facilitar a
percepção crítica da maneira como o mundo é editado nos meios; facilitar o ensino/aprendizado
através do uso criativo dos meios de comunicação (não do ponto de vista instrumentalista, mas
partindo da percepção de suas peculiaridades e da importância de democratizar o acesso a eles); e,
por fim, promover a expressão comunicativa dos membros da comunidade em questão (p. 12).

         Nessa perspectiva, a característica que mais se destaca na Educomunicação é a mudança do
autor e do sentido da informação de modo a propiciar processos mais efetivos de conscientização
crítica e aprendizagem por aqueles que produzem e veiculam informações. Concordamos com
Volpato (2010), quando afirma que o fazer comunicação tem:

       (...) uma função contrahegemônica, ou seja, caminhar em direção à construção de uma
nova ordem comunicacional ligada às manifestações socioculturais da comunidade e não aos
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                    116

interesses mercadológicos e, ainda, que rompe com a relação dominador/dominado,
emissor/receptor (p.11).

         A Educomunicação é, portanto, a ciência do aprender fazendo, interagindo, se
comunicando mediado pelas tic´s. A Educação Ambiental, conceitualmente e pragmaticamente
transformada em Educomunicação Socioambiental pelos elementos essenciais da Educomunicação,
almeja ser eficaz nesse sentido. A Educomunicação Socioambiental não significa apenas mais uma
terminologia que representa os esforços desprendidos em torno da resolução da problemática
ambiental. A princípio, também não pretende ser uma nova forma de transmitir Educação
Ambiental, pois entende a Educação Ambiental de qualidade como conseqüência de uma práxis, e
isto significa que os maiores beneficiados são aqueles envolvidos em práticas dialógicas,
participativas e tecnologicamente mediadas entendidas como educomunicativas.
         Embora muitas tecnologias atendam a iniciativas de Educação Ambiental, a tecnologia
rádio, em especial, a rádio comunitária, promove segundo nossa visão maiores níveis de acesso
democrático à sociedade por ser dentre as tic´s mais populares aquela que é a mais difundida, de
menor custo e de mais fácil manuseio. Por essas qualidades, tem melhores condições de atender às
necessidades imediatas da comunidade. Segundo Kaplún (1994), é cada vez mais reconhecido o
papel do rádio em promover:

        (...) a transmissão de valores, a promoção humana, o desenvolvimento integral do homem e
das comunidades, em que se propõe a elevar o nível de consciência, estimular a reflexão e converter
cada homem em agente ativo da transformação em seu meio natural, econômico e social (p. 22).

              Em suas discussões contextualizadas em torno da rádio comunitária, Volpato (2010)
acrescenta que as contribuições educacionais que afloram em torno desta tecnologia estão
vinculadas à construção da cidadania dos sujeitos:

         A participação na comunicação comunitária contribui para uma formação cidadã porque
cria processos educativos que ampliam a consciência das pessoas e promove o desenvolvimento de
habilidades, além de fazê-las experimentar novas experiências e conhecer outras realidades (p. 11).

               No entanto, defendemos o ponto de vista da autora quando ela aponta que processos
mais efetivos de educação e cidadania ocorrem a partir de níveis ampliados de participação
proporcionados, não pela recepção passiva de mensagens através dos meios, mas através do fazer
comunicação pelo uso dos meios, porque permite “nascer nos envolvidos um sentimento de
compromisso, responsabilidade, de pertença a uma comunidade, de caráter cooperativo, o que, sem
dúvida, mobiliza com maior eficiência que pela simples veiculação de conteúdo” (p. 10)
         Certamente, concordamos com os autores citados que há o afloramento de todas essas
competências sócio-cognitivas. Demonstramos, inclusive, em outra oportunidade (MARQUES,
2010, dados não publicados)20, a relação entre a emergência dessas competências e as práticas
educomunicativas de jovens comunicadores, que constituem, mais uma vez, nosso público alvo. No
entanto, focaremos neste artigo na demonstração do modo processual de formação da consciência
crítica de consumo por jovens responsáveis pela realização de programas radiofônicos
comunitários. Consideramos oportuno estudar uma iniciativa particular visto que todas as
localidades, situadas ou não em grandes centros urbanos, influenciam e são influenciadas pelo
mercado de produção e consumo planetário, em face do atual nível de globalização observado.

          METODOLOGIA
          2.1 Campo de Pesquisa e Público Alvo

20 MARQUES, Marlos F. Educomunicação e juventude: um olhar sobre a produção de rádio comunitária por jovens no
Município de Pombos-PE. Trabalho submetido ao Encontro Nacional de Didática e Prática do Ensino de 2010 e
aguardando aprovação.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            117


          O nosso campo de pesquisa é o Programa denominado De Propósito veiculado dentro da
Rádio Comunitária Brasil FM, 98,5 localizada no município pernambucano de Pombos, por jovens
com faixa etária média de vinte anos, e formados pela Organização Não Governamental GIRAL
(Grupo de Informática, Comunicação e Ação Local). O público alvo deste estudo é formado por 8
jovens que se revezam em dois grupos de quatro para a realização semanal do programa. Para isso,
eles se reúnem duas vezes na semana: às quintas feiras, para produzir o roteiro e aos sábados, para a
veiculação do programa, que acontece no horário das 10:00 às 11:30 da manhã.
          Os jovens são acompanhados e orientados por um educador designado pela ONG e a
programação inclui temas variados a cada semana, não se restringindo necessariamente à temáticas
ambientais. A escolha do público alvo desta pesquisa se deve em razão de já haver sido
diagnosticada a presença de práticas educomunicativas pelo grupo, as quais consideramos
essenciais para demonstrar a formação dos sujeitos, como consumidores críticos.

          2.2 Coleta e Análise de Dados

        Para a coleta e análise de dados foi realizada uma viagem ao Município de Pombos no mês
de outubro de 2009 para acompanhamento do processo de reunião-produção-veiculação do
programa. A análise esta centrada, entretanto, somente no conteúdo de um programa sobre meio
ambiente, embora o processo geral de conscientização crítica se estenda desde a produção do roteiro
até o momento da veiculação do programa, como concluímos em outro trabalho (MARQUES,
2010).

         RESULTADOS E DISCUSSÃO
         Apresentada a técnica metodológica, procurar-se-á demonstrar o desenvolvimento da
consciência crítica de consumo nos diálogos entre os jovens locutores do Programa De Propósito.
Para isso, iniciamos a análise tomando como referência trechos das falas presentes em um programa
de temática ambiental, mais especificamente sobre desmatamento.

         Locutor 1: (...) focando desmatamento e queimadas que são grandes males do século,
destruindo inúmeros e inúmeros habitats de animais, até contribuindo com o aquecimento global!

        Locutor 2: é, e isso acontece por causa das necessidades do homem em obter matéria
prima, pensando apenas no benefício imediato que isso lhes trará. As áreas enormes de mata são
derrubadas para a construção de condomínios residenciais, industriais e rodovias.

        Locutor 1: isso ocorre e não é de hoje né, hoje é que a gente tem um alerta maior, talvez
tenha um entendimento mais claro sobre isso (...) a gente sabe que precisa realmente que o
progresso possa tomar algumas dessas áreas, mas com um certo controle devido ao
desordenamento.

         Aqui, tem-se um fragmento de diálogo que demonstra haver entre os atores um
entendimento da relação entre desenvolvimento urbano e geração de impactos ambientais,
extrapolando para a capacidade de associação entre este modelo de desenvolvimento não preventivo
e financeiramente interessado e uma problemática de larga escala temporal e espacial, que é o
aquecimento global. A última fala fornece indícios da compreensão do dilema entre progresso e
preservação, típico das discussões sobre desenvolvimento sustentável. A esse respeito e levando em
conta a existência dois tipos de mudanças para o enfrentamento da crise ambiental
(LAYRARGUES, 2009 p. 16): “profundas e radicais, contemplando o âmbito ético e paradigmático
(...) ou apenas (...) “reformando os sistemas sociais, mantendo intactos os mecanismos de
reprodução social”, o locutor concebe um raciocínio moderado, característico do segundo tipo de
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          118

mudança, o que demonstra ainda haver um estágio inicial de consciência crítica sobre esse tema
específico.

         Locutor 1: mas uma coisa há de se saber... Já existem formas para controlar ou para
tentar amenizar este problema, um deles é a certificação florestal. A certificação florestal é uma
garantia da origem que serve também para orientar o comprador atacadista ou varejista a
escolher um produto diferenciado e com valor agregado, capaz de conquistar um público mais
exigente e assim, abrir novos mercados. Ao mesmo tempo, permitir ao consumidor, de maneira
consciente, a obtenção de um produto que não degrada o meio ambiente e contribui para o
desenvolvimento socioeconômico das comunidades florestais.

                A questão do consumo consciente é retratada pelos atores através da certificação
florestal, vista como alternativa de controle ou mitigação de impactos. Trata-se de um discurso
adquirido que tem visivelmente a intencionalidade de fornecer uma informação pouco disseminada
ao ouvinte-consumidor, mas que é uma forte tendência para a qualificação de produtos destinados
ao mercado. Podemos inferir pela fala, que o tipo de valor agregado ao produto é o de
sustentabilidade e que o exemplo das comunidades florestais indica conscientização sobre a
responsabilidade socioambiental. Há, no entanto, potencial para um maior desenvolvimento da
consciência crítica sobre o assunto entre os jovens, já que, não basta atualmente que o consumidor
seja exigente ou consciente, pois, produtos com certificação ambiental, em geral, ainda são caros e
pouco competitivos, tendo, por isso, dificuldades em se popularizar.

          Locutor 1: Para muita gente o assunto do aquecimento global soa distante como se a
atitude de uma única pessoa não tivesse nada a ver com essas catástrofes naturais (...) a exemplo
do supermercado que as pessoas usam sacolas plásticas né, e preferem mesmo estando com um
monte de sacolas... Sempre quando alguém oferece mais uma... uma caneta que se compre, tem que
colocar em um saquinho plástico! (...) se você joga a sacola dentro de um rio, quando vem uma
enchente e ele joga de volta pra sua casa de novo! Então ele também tem a hora de se defender!
(...) ao falar de meio ambiente é preciso levar em conta as questões sociais, culturais, éticas e
políticas também. De repente você foi criado em determinada cultura, ou o seu pai, o seu avô, mas
que naquela época não se tinha uma noção exata das conseqüências para o meio ambiente.

        Locutor 3: é isso mesmo Jairo, infelizmente a globalização está esquecendo da geração
futura né? as crianças, os jovens...Tem pessoas que dizem... ah! Eu vou morrer mesmo! Mas
esquecem que tem seu neto, tem seu filho, tem seus bisnetos, que a vida continua né! A geração que
vem, com certeza merece um mundo igual ou melhor ao nosso né Jairo?

         Locutor 1: é, isso sem contar que a gente tem que pensar em fazer o hoje, não esperar o
amanhã confiando que alguém vai ter uma atitude brilhante e vai solucionar isso... que a gente vai
procurar outro planeta para morar de repente (...) Agora existe ainda nos dias de hoje, os
governantes, as pessoas, as autoridades nacionais, até mundiais que criaram algumas regras pra
inibir ou pelo menos conter alguns problemas.

         Locutor 3: E no Apocalipse fala, quem for ler vai ver que o mundo vai acabar do jeito que
começou, nas trevas, infelizmente né! Deus deu, Deus fez o mundo, fez a natureza, mas o homem
infelizmente não ta sabendo cuidar e o mundo vá acabar em fogo, mas esse fogo que a Bíblia diz é
o sol quente que vai queimar tudo mesmo (...)

         Desta vez, é possível observar no diálogo entre os três locutores uma série de elementos
discursivos que formam o raciocínio crítico de que a responsabilidade socioambiental deve ser
estendida desde o modelo social de técnicas de produção de alimentos pela agricultura até o plano
individual, como em atitudes corriqueiras de uso e descarte de sacolas plásticas. A formação da
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          119

consciência crítica para o consumo abrange, assim, todo o ciclo de produção de bens. A idéia de que
a natureza se defende do ser humano indica tanto o entendimento do efeito de ação e reação como a
percepção do planeta como um sistema vivo, interconectado e complexo, que precisa ser respeitado.
         Já a solução para os problemas ambientais perpassa desde o estabelecimento de regras
sociais, representadas pelas penalidades da lei, até a visão apocalíptica do fim do mundo. Isso
representa uma desorientação estendida à população em geral e até mesmo aos cientistas, sobre
métodos eficazes de prevenção e mitigação de impactos ambientais, pois as medidas
governamentais, em sua maioria, são apenas punitivas ou compensatórias A legislação ambiental,
mesmo quando fornece diretrizes preventivas padece de orientações metodológicas definitivas,
entre outros fatores, pela diversidade social, cultural e ecossistêmica existente no planeta.
Interessante ressaltar que a preocupação da locutora 3 com a geração futura esta, inclusive,
contemplada na Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 225 (BRASIL, 1998).

         Locutor 1: O Brasil está entre os países do mundo de maior diversidade biológica e ainda
possui a flora mais rica do planeta, mas o homem quando pratica o ato de queimar a pastaria e as
matas, não tem consciência que esse sistema levou anos pra se formar! Para apreciadores da
natureza, locais como esse são verdadeiros santuários ecológicos que uma vez preservados,
poderão ser utilizado como fonte de exploração turística, fonte permanente de estudos do poder
medicinal.

         Locutor 3: isso é verdade! Enquanto levam embora as coisas que a gente tem de
importante aqui no nosso país, esses produtos, tipo xampu, produto pra pele, são tudo cosméticos
feitos da natureza e a gente compra tão caro, sabendo que a gente tem essa plantinha aqui, até
mesmo na nossa casa (...)

               No diálogo acima, a natureza é concebida sob dois enfoques: de forma sagrada, como
local de contemplação para o bem estar social e como fonte de exploração comercial, através de
atividades turísticas e de produção de medicamentos e cosméticos. Destacamos nesses fragmentos a
questão da relação entre propriedade intelectual e plantas medicinais, que é bastante problemática
no Brasil em decorrência do confronto cultural entre instituições com interesses competitivos de
mercado e povos pautados por modo de vida solidário e detentores de conhecimento tradicional. A
conscientização crítica presente nesse diálogo se dá, portanto, pelo reconhecimento da importância
do conhecimento tradicional para o mercado de consumo global de medicamentos e cosméticos.

        Locutor 1: (...) Reduzir, Reutilizar e Reciclar são os chamados 3 Rs. Reduzir é consumir
menos, é fundamental (...)

        Locutor 2: Reutilizar: é impossível reduzir a zero a geração de resíduos, mas muito do que
jogamos fora poderia ser reaproveitado (...)

         Locutor 1: Reciclar: o R mais conhecido, é sinônimo de economia de matérias primas
como o vidro, papel, plástico e metal; e representam em média 50% do lixo que vai para os aterros,
hoje a gente já percebe que as pessoas, sobretudo as menos favorecidas, já conseguem ganhar
algum dinheiro com reciclagem de papelão, de papel e também de alumínio né, aqui na nossa
cidade é bem comum, a gente perceber as pessoas recolhendo esse tipo de material nas festas?

          Locutor 2: É, como, tipo, latinha também, eles recolhem e isso ajuda muito na limpeza da
cidade.

         Locutor 1: olha aí! Evitar comprar também coisas supérfluas, ou seja, coisas que não tem
utilidade, que não tem necessidade, apenas por impulso. É aquela coisa, você vê aquele produto
que já tem em casa e compra novamente, acaba não utilizando, vai ser jogado fora e vai dar
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            120

trabalho, (...) a gente usa descartável porque não vai dar trabalho limpar, joga fora, e isso vai
acumulando, mas o acúmulo vai demorar semanas, até meses, dependendo do tipo de material pra
se decompor. Olha, é complicado, mas não é impossível. A gente achava séculos atrás que era
impossível construir uma edificação com tantos andares, imagine então mudar alguns hábitos e
culturas que a gente tem no dia a dia, então eu acho que não é tão complicado.

         Nessa passagem, a questão do consumo consciente é abordada de forma mais direta. No
diálogo, os jovens formam uma concepção de que muitos dos bens comprados pelos consumidores
não são de primeira necessidade, gerando mais resíduos, o que poderia ser evitado. Isso se deve
muitas vezes a uma das artimanhas do sistema capitalista - a inovação estética - embora as
propriedades do produto continuem as mesmas a sua aparência muda para atrair o consumidor
causando nele uma falsa necessidade de consumo. Já os descartáveis são um exemplo típico de
outro artifício do mercado de consumo capitalista – a obsolescência planejada - que consiste na
fabricação pela indústria de produtos com pouca resistência e durabilidade, para que sejam
substituídos o mais rápido possível, realimentando o mercado (ZACARIAS, 2009).
         A fala sobre a redução, reutilização e reciclagem de resíduos simboliza a força contrária de
resistência a essas artimanhas do modelo de produção capitalista e tem implicitamente a
preocupação em não deixar que o valor de uso das mercadorias seja mais relevante que seu valor de
troca (ZACARIAS, 2009). A mudança de valores e hábitos também é validada na fala, quando os
jovens se referem aos catadores de lixo, e, em um segundo momento, ao fazer a analogia entre a
dificuldade de reforma individual e a das edificações. A educação ambiental é concebida, assim,
nesse discurso como processual, naturalmente difícil, mas não impossível.

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         O desenvolvimento da consciência crítica de consumo pôde ser observado no Programa De
Propósito através dos exemplos de diálogos entre os locutores. Faz-se importante ressaltar, no
entanto, que a formação crítica tem inicio na reunião de produção do roteiro do programa e,
portanto, se estende aos outros participantes do grupo que, assim como os locutores, também
participam da pesquisa e discussão da temática de cada semana.
         Embora as falas indiquem um estágio inicial de conscientização, acreditamos que possa
haver um amadurecimento das idéias e do discurso, visto que, o tema central era desmatamento e,
portanto, os jovens não tinham, diretamente, a intenção de aprofundá-lo naquele programa. Isso
demonstra, aliás, um aspecto positivo: a capacidade de associação pelos atores entre uma
problemática específica e outras questões sociais, como o consumo consciente.
         Acreditamos ter contribuído para reforçar a idéia de que práticas radiofônicas
educomunicativas podem propiciar processos sociocognitivos importantes para o desenvolvimento
da cidadania de jovens comunicadores. A formação da consciência crítica de consumo é um
exemplo disso e constitui-se em uma etapa chave para o envolvimento mais efetivo dos sujeitos em
ações que extrapolem o discurso e os limites físicos do ambiente da rádio comunitária.

         REFERÊNCIAS
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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                       122

           EDUCOMUNICAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA PARA A
               CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE

                                                                         Maria Vitória Elida do NASCIMENTO
           Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. cep: 59072-970.
                                                                                                Natal/RN, Brasil.
                                                                                     vitoriaelida@yahoo.com.br
                                                                             Jucicleide Gomes da Silva SOUZA
                           Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN.
                                                                                   Leonardo Oliveira da SILVA
                           Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN.
                                                                               Elineí ARAÚJO-DE-ALMEIDA
           Professora. Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. cep:
                                                                                   59072-970. Natal/RN, Brasil.

         RESUMO
         Temas referentes à degradação ambiental vêm recebendo destaque ao longo dos anos,
fazendo com que o homem passe a buscar estratégias para minimizar os problemas que emergem
dessa questão. Dentre as alternativas de solução, encontra-se a Educação Ambiental (EA),
importante ferramenta na luta pela conservação do meio ambiente. Implementar a EA em áreas
protegidas age fortalecendo os mecanismos de conservação da biodiversidade. Porém, esta
Educação Ambiental, também necessita desenvolver formas para alcançar seus objetivos de
sensibilização para esta conservação. Surge então o conceito de Educomunicação, que consiste em
ações que buscam fortalecer ás atividades de comunicação no âmbito educacional. Utilizar o
enfoque da Educomunicação em projetos de Educação Ambiental, pode tornar-se uma importante
atividade na busca de promoção da conservação da diversidade biológica em Unidades de
Conservação.
         PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental; Educomunicação; Conservação da
Biodiversidade

          ABSTRACT
          Topics related to environmental degradation has received attention over the years, making
the man go to seek strategies to minimize the problems that emerge from this issue. Among the
alternative solution, is the Environmental Education (EE), an important tool in the fight for
environmental conservation. Implement the EA in protected areas act strengthening mechanisms for
biodiversity conservation. However, this environmental education also needs to develop ways to
achieve their goals of raising awareness of this conservation. Then, it comes the concept of
Educommunication, which consists of actions that seek to strengthen communication activities in
education. Using the approach of Educommunication in projects of environmental education can
become an important activity in seeking to promote the conservation of biological diversity in
protected areas.
          KEYWORDS: Environmental Education; Educomunication; Biodiversity Conservation

        INTRODUÇÃO
        Segundo o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e
Responsabilidade Global, a Educação Ambiental surge como um processo orientado por valores
baseados na transformação social, tendo como ação necessária, garantir que os meios de
comunicação se transformem em instrumentos educacionais para a preservação e conservação do
meio ambiente.
        O Tratado, ainda, afirma que a Educação Ambiental requer a democratização dos meios de
comunicação de massa e seu comprometimento com os interesses de todos os setores da sociedade;
que a comunicação é um direito inalienável e que os meios de comunicação de massa devem ser
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           123

transformados em um canal privilegiado de educação, não somente disseminando informações em
bases igualitárias, mas também promovendo intercâmbio de experiências, métodos e valores.
         Nesse sentido, surge a Educomunicação não como uma nova disciplina a ser acrescentada
nos currículos acadêmicos, mas, segundo Soares (2000): “... como o novo campo, por sua natureza
relacional, estrutura-se de um modo processual, midiático, transdisciplinar e interdiscursivo, sendo
vivenciado na prática dos atores sociais, através de áreas concretas de intervenção social”.
                Este campo defende, segundo Soares (2000), o uso da comunicação como um meio
eficaz para ampliar ações voltadas à cidadania e para ampliar as formas de expressão dos membros
de uma comunidade, utilizando as Novas Tecnologias de Informação (NTICs) de maneira
transdisciplinar e interdiscursiva na produção e disseminação do conhecimento. Desta maneira, o
ambiente mediado por tecnologias pode ajudar a produzir sentidos, convertendo-se em mediação. É
o sentido que provoca a aprendizagem, não a tecnologia, e é por isso que o campo compete à
educomunicação (SOARES, 2002).
         Diante disso, a Educação Ambiental pode assumir uma função crítica e transformadora,
objetivando co-responsabilizar indivíduos no intuito de promover um novo modelo de
desenvolvimento (LEFF, 2001). Cabe, então, a esta Educação Ambiental, criar novas estratégias no
intuito de disseminar o conhecimento geral sobre o meio ambiente.
         Segundo Gutierrez (1978), a comunicação é um problema humano e, em síntese, é diálogo.
A educação, por outro lado, deve proporcionar as possibilidades para que o homem atue, modifique
e transforme a realidade. Atrelando tais pensamentos, pode-se perceber a necessidade de que a
educação seja voltada à comunicação, para utilizar desses meios comunicativos na expressão dos
envolvidos, sendo assim, a Educomunicação, um elemento de importância significativa.
                O termo Educomunicação surgiu através do filósofo de educação Mario Kaplun, e
une os conceitos de educação e comunicação, surgindo como um novo campo de intervenção nas
relações educativas. A Educomunicação é uma área do conhecimento que atua na interface da
educação e comunicação e tem como foco a formação crítica e reflexiva dos sujeitos (SCHAUN,
2002).
         Ao pensarmos Educomunicação e Meio Ambiente, devemos ter cuidado para entender a
complexidade do tema, e de como será feito o processo de transformação de saberes. Nesse sentido,
as atividades de escrita, fotografia, desenho, a fala, são registros elaborados desses saberes. E a
divulgação dessas ações através dos meios de comunicação, seja ele, rádio, TV, jornal ou outro
qualquer, realiza-se uma ação educomunicativa, onde a educação cruza seus conhecimentos com a
comunicação. Pois, conservar a diversidade biológica é de grande importância para a manutenção
da vida no planeta. Devido à contribuição econômica gerada, a participação na manutenção de
ciclos ambientais, manutenção de paisagens e principalmente, pelo direito a vida.
         Dessa forma, a pesquisa tem como objetivos proporcionar elementos de reflexão para
fornecer um maior entendimento sobre o meio ambiente, através de uma visão mais ampliada
acerca do universo de conhecimentos produzidos ao relacionar a Educomunicação às questões
envolvidas nos espaços destinados à conservação da diversidade biológica.

         PERCURSO METODOLÓGICO
               A pesquisa foi desenvolvida por meio de um levantamento amostral de alguns
referenciais bibliográficos disponíveis em sites diversos, seguindo alguns princípios da análise de
conteúdo exposta em Bauer (2008). Foram selecionados para orientação das reflexões sobre o tema,
os trabalhos que direcionassem para alguma fonte bibliográfica explicitada. Preferencialmente
foram selecionados trabalhos que conduziram às discussões à luz de algum referencial teórico
especializado. Também, nesta revisão, elegeu-se o tema meio ambiente, unidades de conservação e
biodiversidade enfocando a perspectiva da educomunicação, abrangendo informações relativas ao
Brasil como território fonte de estudo.
               Foram combinadas palavras-chave enfocando às seguintes combinações: a)
educomunicação + meio ambiente; b) educomunicação + unidade de conservação e, c)
educomunicação + biodiversidade. As fontes selecionadas para o estudo, em princípio foram
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             124

buscadas entre aquelas que contivessem, no mínimo frase(s) abordando um dos três conjuntos de
combinações conceituais. Em seguida, utilizou-se o critério de uma apreciação da experiência do
autor no estudo do tema e nas fontes onde os mesmos publicaram seus escritos.
         Acrescidas à pesquisa bibliográfica, fundamentada na busca por palavras-chave e leitura
crítica dos conteúdos conceituais, foram acrescidas as informações oriundas da experiência de
pesquisa com a temática conservação da biodiversidade dos três primeiros autores desse trabalho,
onde cada um pode interagir numa narrativa conceitual proporcionada pela expressão de seus perfis
relatados junto com os elementos da pesquisa, trazendo a tona, conteúdos carregados de sentidos e
de expressão pessoal diante do processo de releitura do objeto de pesquisa relacionando-o numa
perspectiva da investigação (auto)biográfica (ver Passeggi, 2008; Passeggi; Barbosa, 2008a;
Passeggi; Barbosa, 2008b), como também voltada para a construção interdisciplinar como se
encontram destacado em Araújo-de-Almeida (2010).

         A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO UM ELEMENTO A SER APLICADO NAS
UNIDADES DE CONSERVAÇÃO
         Ao longo dos anos têm-se percebido uma grande preocupação com as questões ambientais.
Isso se deve a forma como o homem se relaciona com o meio, relação esta de dominação e
exploração, gerando um ambiente degradado e cada dia mais ameaçado. A partir da década de 70, o
homem começou a inquietar-se diante destes problemas ambientais e de como seria o futuro da
humanidade, incluindo neste contexto as questões referentes à biodiversidade.
         Segundo Diegues (2004), um importante mecanismo de conservação da biodiversidade
encontra-se na criação de Unidades de Conservação (UC), que são espaços territoriais e seus
recursos ambientais, legalmente instituídos pelo Poder Público, com o objetivo de conservação e
limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de
proteção (BRASIL, 2000). Mas, apenas a criação destas unidades não tem sido efetiva na tentativa
de conservar a biodiversidade, visto que ainda se tem conhecimento de processos de degradação de
ecossistemas.
         Os rumos da Educação Ambiental (EA) começaram a ser definidos a partir da Conferência
de Estocolmo, em 1972, onde se inseriu a temática EA no cenário internacional. Mas foi em Tbilisi,
que saíram as definições, objetivos, princípios e estratégias para a Educação Ambiental, sendo estes
até hoje adotados.
               Uma das finalidades da Educação Ambiental (EA) é a formação de um sujeito crítico
e capaz de efetuar mudanças nas suas atitudes, com intuito de poder interferir positivamente no
meio, produzindo um ambiente digno e saudável.
               Aplicar a EA em áreas de conservação ambiental é importante na busca por
orientação e promoção de mudanças na visão com relação ao funcionamento da unidade de
conservação, produzindo hábitos que não acarretem na degradação destas áreas. Com isso, educar
nessas áreas significa problematizar sua finalidade e concertar a sua forma de utilização, inserido-as
na realidade local.
               A realização de Educação Ambiental em áreas protegidas requer que se desenvolvam
estratégias diferenciadas que se adequem a cada realidade local, para assim cumprir com seus
objetivos de sensibilização (SILVA, 2000). Estratégias essas que motivem a formação de uma nova
ética ambiental e social, facilitando o enfrentamento dos problemas ambientais.
               Dentro dessas estratégias encontra-se a utilização de meios de comunicação, através
da atividade denominada de Educomunicação, um novo campo de pesquisa, que conecta as áreas de
educação e comunicação de forma a contribuir na resolução de problemas ambientais. Os meios de
comunicação podem atuar potencializando as atividades e projetos de educação ambiental, pois
agem de maneira esclarecedora a cerca do panorama ambiental. O fornecimento de informações aos
cidadãos é um principio que deve nortear a gestão ambiental, de forma a permitir à tomada de
decisão e a promoção de ações voltadas à melhoria do ambiente (FURRIELA apud DUARTE;
ESPINOLA, 2006), visto que a comunicação é o elemento pelo qual é possível transformar o ser
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            125

humano em sujeito da sua própria história, vivendo uma relação dialética, em diálogo, que o conduz
a uma consciência crítica e a uma transformação.

         IMPORTÂNCIA DA CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE
               Segundo as considerações de Primack (1993) biodiversidade ou diversidade
biológica refere-se à variedade de formas de vida presente na Terra (diversidade de espécies), aos
genes que as constituem (diversidade genética) e aos ecossistemas dos quais são parte (diversidade
de ecossistemas). Este termo foi introduzido na metade da década de 80, pelos naturalistas que se
inquietavam pela rápida destruição dos ambientes naturais e suas espécies (LÉVÊQUE, 1999).
         O Brasil apresenta uma das maiores diversidades de espécies conhecidas (descritas) do
mundo. Mas essa riqueza gerou a idéia ilusória de que a biodiversidade brasileira é abundante e
inesgotável, por isso poderia ser explorada.
         Ao sediar a Conferência das Nações Unidades para o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento, em 1992, e confirmar a assinatura da Convenção sobre Diversidade Biológica, o
Brasil assumiu compromisso em proteger a biodiversidade, o que impulsionou a criação de ações
conservacionistas no país.
         Heywood e Watson (apud HOROWITZ, 2003) ampliam o conceito de biodiversidade, para
as relações estruturais e funcionais das organizações biológicas nas quais as atividades humanas
estão inseridas. Dessa forma pode-se expandir este tema para além da dimensão ambiental,
incorporando assim, as dimensões humanas e culturais, onde tudo mostra biodiversidade.
         A criação de Unidades de Conservação (UC) se tornou, então, uma estratégia muito
importante para a promoção da conservação da biodiversidade, devendo ser associada a atividades
de sensibilização das comunidades de dentro e do entorno da UC, para que haja uma manutenção
dessa área e assim, ocorra uma efetiva conservação da diversidade biológica.
         A Conservação da biodiversidade, portanto, deve ser compreendida como um
compromisso social que inclui ações de todos os indivíduos. Á medida que espécies correm o risco
de serem extintas, é necessário que se tomem medidas de proteção dos processos ecológicos que
mantêm tais espécies. Para isso, além de estratégias de conservação, é de fundamental importância
que a sociedade seja sensibilizada para compreender as ameaças a diversidade biológica e o risco
que a extinção das espécies representa.
         Nesse contexto, o acesso à informação surge como condição essencial para apoiar o
exercício da cidadania e o protagonismo social em políticas públicas, entre as quais, as que se
destinam à proteção de unidades de conversação. Colaboram para esse entendimento, autores como
Bordenave (1985), para quem não existe participação social, sem comunicação.
         Diante disso, é necessário que se pense como desenvolver atividades de educomunicação
em unidades de conservação, com intuito de sensibilizar a comunidade sobre a diversidade existente
em sua área, e sobre a necessidade de conservar as espécies aí presentes. Para isso, podem ser
propostas ações junto a autoridades locais, administrações escolares e alunos residentes em unidade
de conservação, como a elaboração de um jornal informativo sobre a biodiversidade da área, uma
rádio comunitária voltada para as questões ambientais do local, entre outras ações, todas com intuito
de promover a conservação.
         Pois, segundo informa Guimarães (2001) “O novo mundo que queremos, mais equilibrado
e justo, requer o engajamento pessoal coletivo de educadores e educandos no processo de
transformações sociais”. Isto personifica a incorporação do tema Educomunicação como uma
perspectiva de acesso as pessoas interessadas sobre a temática conservação da biodiversidade re-
configurando essa questão para a sociedade brasileira.
               Assim, a Educomunicação não vem subistituir a Educação Ambiental, mas ampliar o
seu campo de ação, aliando-se à comunicação como um meio eficaz para ampliar ações voltadas à
cidadania e as formas de expressão dos membros de uma comunidade, correspondendo, assim, a um
dos objetivos da Estratégia Nacional de Comunicação e Educação Ambiental (Brasil, 2009; p. 12):
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           126

         Elaborar e implementar projetos e ações de Educação Ambiental para as comunidades do
entorno, considerando lideranças comunitárias, mulheres, jovens e minorias para seu maior
envolvimento e diálogo quanto às atividades de gestão das UCs, destacando assuntos que se
relacionem a importância das UC e seu papel na conservação da biodiversidade e na manutenção
dos serviços ambientais da área protegida;

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         Como estamos diante de uma sociedade em que as mídias são as principais fontes de
informação, a Educação Ambiental pode utilizar esse mecanismo para disseminar conhecimentos
sobre biodiversidade e sua conservação, através do que chamamos de Educomunicação.
         Pode-se considerar importante a responsabilidade dos veículos de comunicação nas
tentativas de conservação de biodiversidade em unidades de conservação, torna-se uma estratégia
da educação ambiental. Maior importância ainda é confiada aos meios de comunicação
comunitários, seja pela possibilidade de veicularem um conteúdo mais ligado às necessidades da
comunidade, seja pela possibilidade de potencializarem ainda mais a educação ambiental através da
promoção da participação no fazer-comunicação.
         Realizar atividades de Educação Ambiental e buscar cada vez mais estratégias de
sensibilização torna-se foco significativo para futuras pesquisas em conservação em áreas
protegidas.
          Assim, Educomunicação e a Educação Ambiental se complementam e se interrelacionam
em suas propostas e ações ao promover interdisciplinaridade e sensibilização para traçar metas que
levem à conservação do meio ambiente.

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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                     128

  EFETIVIDADE DA ROTULAGEM AMBIENTAL: UM ESTUDO
            DE CASO NA CIDADE DO RECIFE

                                                                                      Adauto Alex dos SANTOS
            Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas – Zoologia, DSE, Universidade Federal
                                                                                              da Paraíba (UFPB)
                                                                                         adautoalexs@gmail.com
                                                                                         Maria Eduarda V. DIAS
            Graduada em Ciências Biológicas/Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
                                                                                   Tatiana de Oliveira CALADO
            Graduada em Ciências Biológicas/Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
                                                                                          Virgínia C. B. ROCHA
            Graduada em Ciências Biológicas/Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

         RESUMO
         Esta pesquisa buscou avaliar a relação entre consumidores de produtos de supermercados,
catadores de materiais recicláveis e a rotulagem ambiental. A rotulagem ambiental funciona como
um elo de comunicação entre produtor e consumidor, visando informar ao consumidor algumas
características sobre o produto. O trabalho trata-se de uma pesquisa exploratória com uma
abordagem qualitativa e quantitativa. Foram aplicados 100 questionários de múltipla escolha à
população de consumidores (n=80) e catadores de materiais recicláveis (n=20) na cidade do Recife,
no ano de 2008. Através da aplicação desses questionários pode-se constatar a falta de
conhecimento dos consumidores em relação ao selo ou rótulo ambiental, onde a grande maioria diz
nunca percebê-los nas embalagens, demonstrando que na hora da compra as pessoas pouco se
importam com o destino final do produto que levam para casa. Em relação aos catadores de
materiais recicláveis, surpreendentemente, a maioria dos entrevistados (19 catadores) souberam
explicar corretamente o que é uma coleta seletiva devido, principalmente, ao convívio direto com os
diversos tipos de materiais. Há uma necessidade de maior conteúdo informacional no que é passado
nos rótulos para garantir que os consumidores possam realmente se importar com a presença dos
selos ambientais e entenda o seu significado.

         PALAVRAS-CHAVE: Rótulo ambiental, Selo ambiental, Consumidor, Catador de
materiais recicláveis.

          ABSTRACT
          This research’s objective is to evaluate the correlation between the consumers of products
from supermarkets and recycled garbage pickers and the environmental labeling. The
Environmental Labeling working as a link of communication between producer and consumer,
aiming to inform the consumer some characteristics on the product. This document is an
exploratory research using a qualitative and quantitative approach. 100 Questionnaires were applied
multiple choice to the population of consumers (n=80) and recycled garbage pickers (n=20) in the
city of Recife, in the year 2008. Through the application of these questionnaires was possible to
notice the consumer’s lack of knowledge in respect to environmental labels or stamps, where the
great majority says never understand them on packs, showing that at the time of acquire people little
care to the final destination of the product that take to home. In relation to recycled garbage pickers,
surprisingly, most interviews (19 garbage pickers) able explain correctly what it is a selective
collect due, mainly, to direct contact with the various types of materials. There is a necessity for
greater informational content in what is transmitted in labels to ensure that consumer’s can actually
imported with the presence of the environmental stamps and understand its significance.
          KEYWORDS: Environmental label, Environmental stamp, Consumer, Recycled garbage
picker.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              129

          INTRODUÇÃO
               Através do marketing verde e do consumo consciente, atualmente em estágio de
evolução, identificou-se, no mercado, uma ferramenta que poderá agregar valor a essas duas
vertentes: Os rótulos ambientais. A rotulagem ambiental, que funciona como um elo de
comunicação entre produtor e consumidor, são selos que visam informar ao consumidor algumas
características sobre o produto, podendo ser conhecidos também como “selo verde”, “selo
ambiental” ou “rótulo ecológico”. Além do consumidor, esses rótulos têm como objetivo fornecer
orientação para o processo de coleta seletiva através de sua simbologia de produtos recicláveis
(GODOY & BIAZIN, 2000; KOHLRAUSCH, 2003).
               A ISO (Organização Internacional para Padronização) criou a série de Normas
“14020” falando sobre os três tipos de rotulagem ambiental. A Rotulagem tipo I (NBR ISO 14024)
aborda tópicos sobre os programas de Selo Verde, estabelecendo princípios e procedimentos para o
desenvolvimento de programas de rotulagem ambiental, incluindo a seleção de categorias de
produtos, critérios ambientais e características funcionais dos mesmos, além de avaliar e demonstrar
sua conformidade. Esta Norma também estabelece os procedimentos de certificação para a
concessão do rótulo (CEMPRE, 2008).
          A Rotulagem tipo II (NBR ISO 14021) especifica os requisitos para auto-declarações
ambientais, incluindo textos, símbolos e gráficos, no que se refere aos produtos. Este tipo de
rotulagem descreve termos selecionados usados comumente em declarações ambientais e fornece
qualificações para seu uso, além de trazer uma metodologia de avaliação e verificação geral para
auto-declarações ambientais e métodos específicos de avaliação e verificação para as declarações
selecionadas nesta Norma. Dentro desta Norma estão contidas declarações como “recicláveis”,
“lixo comum”, “plásticos”, entre outros, auxiliando, dessa forma, na coleta seletiva (CEMPRE,
2008).
           Os Rótulos do tipo III (ISO 14025) ainda estão sendo elaborados no âmbito da ISO, tendo
um alto grau de complexidade devido à inclusão da ferramenta “Avaliação do Ciclo de Vida”. A
percepção é de que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que este tipo de rotulagem
ganhe o mercado, visto que a ferramenta de ACV ainda não está definitivamente consolidada do
ponto de vista técnico (CEMPRE, 2008).
          O crescimento desordenado da população, a inexistência de uma política eficiente, e a falta
de informação da grande massa da população faz com que haja uma urgência de se criarem
diretrizes que acompanhem os rótulos ambientais, para que estes tenham seus objetivos alcançados
no seu público-alvo: população de consumidores e catadores de materiais recicláveis.
          Nesse contexto, o objetivo deste trabalho foi o de avaliar se a rotulagem ambiental, de fato,
está sendo posta em prática (Conhecimento e efetividade), atendendo, assim, os objetivos propostos
junto o público consumidor como informante de caracteres ambientais, e com os catadores de coleta
seletiva através de sua simbologia para produtos recicláveis.

         MATERIAIS E MÉTODOS
         De caráter exploratório este trabalho foi desenvolvido na região metropolitana do Recife-
PE, no ano de 2008, com uma abordagem quantitativa e qualitativa.
         A pesquisa exploratória objetiva, em geral, provocar o esclarecimento de uma situação
para a tomada de consciência, através de entrevistas com pessoas que tiveram (ou têm) experiências
práticas com o problema pesquisado, nesse caso, o conhecimento sobre a rotulagem ambiental
(CHIZZOTTI, 1995).
         Foram utilizados questionários como instrumento de coleta de dados, sendo estes aplicados
e preenchidos pelo entrevistador no momento da entrevista (ver LAKATOS & MARCONI, 1985).
Foram elaborados dois questionários de múltipla escolha, um destinado aos consumidores e o outro
aos catadores de materiais recicláveis.
         Para o público consumidor foram aplicados 20 questionários em cada um dos 4 (quatro)
grandes supermercados escolhidos aleatóriamente na cidade do Recife (Hiper Bompreço - Av.
Caxangá, 3942, Iputinga; Hiper Bompreço - Praça Francisco Pessoa de Queiroz, 23 Casa Forte;
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           130

Comprebem – Av. Caxangá, 2900, Iputinga; Extra – Av. Engenheiro Domingos Ferreira, 1818, Boa
Viagem), totalizando 80 consumidos entrevistados.
        O segundo tipo de formulário, direcionado aos catadores, foram aplicados em três núcleos
de catadores de coleta seletiva, localizados nos bairros da Torre, Cajueiro e Afogados. Ao todo
foram entrevistados 20 catadores.

          RESULTADOS
          Consumidores

               A Maioria dos entrevistados foi do sexo feminino (66%), com faixa etária entre 21 e
35 anos (33,7%), 2º grau completo (35%) e com renda familiar acima de 11 salários mínimos
(30%). Não foi registrado nenhum indivíduo com 1º grau completo ou analfabeto.
               Nos tipos de produtos que os consumidores afirmam ter o hábito de ler o rótulo, os
alimentícios foram os mais citado com 22,2%, seguido pelos de Limpeza e artigos de Higiene e
Perfumaria, ambos com 18,5% . Esses dados são referentes aos consumidores que afirmaram ler
apenas um tipo de produto, contudo, indivíduos que lêem todos os produtos compreenderam um
total de 48,15% dos entrevistados, e apenas 3,7% não lêem nenhum rótulo.
               Mais da metade dos consumidores (55%) afirmaram nunca observarem a presença de
selos ambientais no rótulo de um produto, e apenas 17,5% afirmam manter o hábito de lê-los. Com
os símbolos de reciclagem os dados são bastante semelhantes: apenas 22,5% dizem sempre observar
os símbolos. A grande maioria (47,5%) nunca percebe sua presença ou quase nunca (30%).
               Os consumidores demonstraram, a primeira vista, diferenciadas formas de analisar o
rótulo de um produto. Os itens que mais chamam atenção são o logotipo (marca) e o conteúdo, com
25% e 22,5%, respectivamente. A presença de alguma certificação no produto é notada por apenas
12,5% dos consumidores, seguido pela embalagem reciclável (10%).
               Na opinião da maioria dos consumidores (72,5%), prevaleceu a seguinte definição no
que diz respeito aos selos ambientais: “Declarações que atestam que um produto causa menor
impacto ambiental...”. Em seguida, com 12,5%, encontra-se a opção relacionada à legislação
vigente.
               Apenas 30% dos entrevistados sabem identificar no rótulo um selo ambiental, e, para
cerca de 46%, a presença de um selo ambiental no rótulo influenciaria em seu processo de compra.
A maioria daqueles que responderam não se influenciar pela presença de selo (54%) justificaram a
sua escolha, principalmente, pelo hábito de sempre comprar a mesma marca. Àqueles que
afirmaram ter preferência por produtos certificados citaram, como principal fator motivacional, o
processo de conscientização ambiental, proteção da natureza e conservação do meio ambiente
(59%).
               Em relação aos símbolos de reciclagem, 60% dos consumidores desconhecem esta
simbologia, enquanto 40% estão familiarizados. Quanto ao conhecimento dos símbolos entre os
diferentes materiais, 51,2% afirmaram saber a diferencia entre eles, ao passo que 48,7% não sabem
distingui-los.

          Catadores de Materiais Recicláveis

               Do total de entrevistados, 16 catadores eram do sexo masculino, com idade entre 21
a 35 anos (50%) e com 1º grau incompleto. A maioria (18 catadores) apresentou renda familiar
entre um e três salários mínimos. Quando perguntados se a sua renda principal era proveniente do
trabalho de coleta, 85% (17 catadores) responderam que sim, enquanto que os demais (3 catadores)
justificaram outras formas de comércio informal (ambulante) como sendo sua principal fonte de
renda.
               A maioria dos entrevistados (14 catadores) afirmou saber o que é uma coleta seletiva,
dentre eles, 19 catadores responderam que “Se trata de um processo de separação dos resíduos de
acordo com o material de que é composto”.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            131

              Quando questionados se sabiam identificar um símbolo de reciclagem no rótulo dos
produtos, 65% declararam que sim, porém nenhum dos entrevistados sabe diferenciar os símbolos
de reciclagem entre os diferentes materiais, assim como todos afirmaram nunca prestar atenção em
símbolos nos rótulos dos produtos que compra. Á exemplo da questão anterior, quando perguntados
se deixariam de comprar algum produto pelo fato de sua embalagem não ser reciclável, todos
confessaram que nunca fariam tal escolha, justificando-a por limitações financeiras.

          DISCUSSÃO
          O que mais chama a atenção dos consumidores nos produtos são a marca e o conteúdo,
isso confirma que a preferência do consumidor é manipulada pela produção e propaganda de
grandes empresas, elas decidem o que produzir, colocando no mercado seus produtos e deixando a
cargo da propaganda e do marketing a venda dos produtos (PIETROCOLLA, 1986). As grandes
empresas são responsáveis por definirem as necessidades e os valores da sociedade (SLATER,
2002).
          Segundo LAZZARINI & SODRÉ (2001), hoje se vive o que muitos autores chamam de
sociedade de consumo, sociedade que tem por características, entre outros fatores, a produção em
série, alta tecnologia na fabricação, distribuição em massa, crédito fácil e valorização da
publicidade como meio de venda. Esse sistema acaba atraindo os consumidores no seu dia-a-dia,
com as mais variadas propostas e produtos, tornando a escolha e a compra complicada, por não
haver discriminação entre um produto e outro, principalmente no que se refere aos impactos
ambientais. Os resultados apresentados neste trabalho corroboram esta idéia, visto que a presença
de alguma certificação e selos ambientais chamam atenção de uma ínfima parcela de consumidores.
          Em relação aos símbolos de reciclagem presentes nos rótulos dos produtos, a grande
maioria diz nunca percebê-los, com uma pequena parcela levando em consideração produtos que
apresentem tal embalagem. Na hora da compra, as pessoas pouco se importam com o destino final
do produto que levam para casa, levando ainda a uma reflexão sobre a coleta seletiva entre os
consumidores.
          De acordo com BENTLEY (2002), a alavanca principal para reduzir os efeitos ambientais
do consumo não precisa ser necessariamente o ato de consumir menos, mas como uma segunda
alternativa, consumir de maneira diferente. Consumir menos seria o caminho ideal, especialmente
nos países desenvolvidos, porém, consumir de maneira diferente utilizando-se da reutilização,
reciclando produtos, comprando peças construídas com considerações ambientais e produtos que
contenham rótulos ambientais, hoje, pode ser uma atitude mais realista.
               A definição de selos ambientais por parte dos consumidores, “Declarações que
atestam que um produto causa menor impacto ambiental em relação a outros produtos disponíveis
no mercado”, parece de acordo com as definições vigentes atualmente: “A rotulagem ambiental
consiste na atribuição de um selo ou rótulo a um produto para comunicar ao seu consumidor que
este atende aos padrões ambientais requeridos para sua concessão” (ROTULAGEM, 2002);
“Rotulagem ambiental são declarações que dão ao consumidor informação acurada a respeito do
impacto ambiental de um produto” (CEMPRE, 1999); “Os rótulos ecológicos atestam que um
produto causa menor impacto ambiental em relação a outros” (NASCIMENTO, 2002).
          Daqueles consumidores entrevistados que observa a presença de selos ambientais poucos
deles sabiam identificar no rótulo um selo ambiental, e, caso soubessem, pouco influenciaria em
seus respectivos processos de compra. A rotulagem é um dos meios capazes de informar a
sociedade a respeito dos impactos causados pela deterioração ininterrupta do meio ambiente pelo
modo insustentável de produção e consumo (SODRÉ, 2002).
          Em relação aos catadores de materiais recicláveis, sobre o conhecimento da coleta seletiva,
a hipótese testada foi de que os coletores não tinham conhecimento sobre esse processo, seguindo
apenas orientação do sucateiro (pessoa responsável por comprar os materiais coletados e revender a
terceiros). Contudo, a maioria dos entrevistados soube explicar o que é uma coleta seletiva, devido
ao convívio direto com os diversos tipos de materiais, refutando nossa hipótese inicial.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         132

         A maioria dos entrevistados sabia identificar os símbolos de reciclagem no rótulo, no
entanto, nenhum deles soube diferenciá-los. Os catadores não deixariam de comprar algum produto
pelo falo de sua embalagem não ser reciclável por falta de condições financeiras, sendo o preço
fator determinante para aquisição de produtos. Os catadores também ignoram os aspectos que
envolvem a logística do processo de reciclagem, desconhecimento muitas vezes atribuído ao baixo
nível de escolaridade. O pouco conhecimento do circuito da reciclagem é um forte impedimento
para que catadores obtenham ganhos melhores nessa atividade (CARMO, 2005; MAGERA, 2003).
         Observou-se com a pesquisa que não é o rótulo do produto que não é lido ou notado, já que
a maioria dos entrevistados o faz com freqüência, especialmente os alimentícios, o problema em
questão são os consumidores não saberem identificar um selo ambiental no rótulo dos produtos.
Com isso, comprova-se que o problema de identificação e compreensão se dá apenas com os selos
ambientais, e isso provavelmente estar ligado ao fato dos selos não agregarem informações e
conteúdo. Outro fator perceptível foi a falta de preocupação dos consumidores em comprar produtos
recicláveis, além da pouca relevância da simbologia e diferenciação dos símbolos de reciclagem
para eles, deixando claro a defasagem na preocupação com o destino final dos produtos
consumidos.
         Há uma necessidade de maior conteúdo informacional no que é passado nos rótulos para
garantir que os consumidores possam realmente se importar com a presença do selo ambiental e
entenda o seu significado. Observa-se que o consumidor tem pouca ou nenhuma informação sobre
os atributos de qualidade do produto. Informações do tipo: processo de produção, insumos
utilizados, tecnologias, entre outras, não são prontamente observáveis e, por isso, de difícil
avaliação pelo consumidor.

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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                 134

         MARKETING VERDE: O SEU PAPEL NO PROCESSO
        DECISÓRIO DE COMPRA DOS UNIVERSITÁRIOS DAS
         INSTITUIÇÕES PRIVADAS DE ENSINO SUPERIOR.

                                                                                 PEDROSA, André de Sousa
                                                                                                     UFCG
                                                                             andre_pedrosa1@yahoo.com.br
                                                                                SOUZA, Adriana Paula Braz
                                                                                                     UFCG
                                                                           adrianapaula.souza@hotmail.com
                                                                         PINHEIRO, Isabelle de Fátima Silva
                                                                                                     UFCG
                                                                                     isabelleisp@gmail.com
                                                                            FREITAS, Lúcia Santana de, Dra
                                                                                                     UFCG
                                                                                     luciasf@ch.ufcg.edu.br

         RESUMO
         O século XXI tem se caracterizado por uma peremptória evolução ambiental em virtude do
crescente desequilíbrio ambiental devido ao processo de industrialização e, sobretudo, ao
consumismo descontrolado das sociedades. Essa evolução ambiental desenvolve-se sobre o escopo
de uma nova sensibilização ambiental por parte de entidades governamentais, ONG`s, sociedade
civil e ambientalistas que exigem a inserção da sustentabilidade no âmbito das corporações. Essa
reivindicação da sociedade por organizações sustentáveis vem manifestando-se no processo
decisório de compra de um consumidor mais seletivo e, principalmente, mais racional com as
escolhas dos produtos. Face ao exposto, o presente artigo trata de uma análise do comportamento de
consumo dos estudantes de Instituições de Ensino Superior privada, localizadas na cidade de
Campina Grande-PB. O artigo apresentou como objetivo analisar as percepções dos estudantes
universitários sobre a utilização do marketing verde e os seus reflexos na decisão de compra. O
trabalho buscou identificar se o público pesquisado poderia desembolsar uma quantia maior para
comprar produtos ambientalmente corretos; avaliar se o público confia na preocupação das
organizações com o meio ambiente ao investirem na produção de produtos verdes; enumerar os
principais fatores que influenciam a decisão de compra; avaliar se as instituições de ensino superior
estão promovendo ações que notabilizem a promoção de uma nova racionalidade consumista
ambientalmente correta e verificar se as certificações são fatores preponderantes na decisão de
compra. A pesquisa de campo constatou que, de modo geral, os universitários ainda não se
conscientizaram sobre a possibilidade de modificarem as atitudes das organizações poluidoras
através do ato decisório de consumo. Outra informação auferida foi à mencionada inexistência de
ações proativas por parte da instituição de ensino para o fortalecimento de uma consciência
ambiental.
         PALAVRAS CHAVES: Consciência ambiental; Sustentabilidade; Marketing verde;
Educação

         ABSTRACT
         The century has been characterized by an adamant environmental changes due to the
growing environmental imbalance due to the process of industrialization and, above all, the
consumerism of society. This development environment is developed on the scope of a new
environmental awareness by government agencies, ONG’s, civil society and environmentalists who
demand the inclusion of sustainability within corporations. This widespread demand for sustainable
organizations is manifested in the decision process of purchasing a consumer more selective and
especially with the more rational choices of products. Given the above, this article deals with an
analysis of consumer behavior of students in institutions of higher education private, located in the
city of Campina Grande. The article presented to analyze the perceptions of university students on
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             135

the use of green marketing and its impact on purchasing decisions. The study aimed to identify
whether the public could pay searched a larger amount to purchase environmentally friendly
products, assessing whether the public trust in organizations concerned with the environment by
investing in the production of green products, list the main factors influencing the buying decision
and to evaluate whether the higher education institutions are promoting actions that excel in
promoting a new environmentally friendly consumer rationality and verify that the certifications are
important factors in purchasing decisions. The field research found that, overall, the university has
not become aware of the possibility of altering the attitudes of polluting organizations through the
act of making consumption. Other information was received for the aforementioned lack of
proactive efforts by the educational institution for the strengthening of environmental awareness.
         KEYWORDS: Environmental awareness, sustainability, green marketing, Education

          INTRODUÇÃO
          É notório que há muito tempo estamos no limiar de um cenário catastrófico e irreversível
para o planeta. Este inquestionalmente não suporta mais o ritmo consumista que nos imprimimos no
nosso cotidiano. O clamor por uma nova sociedade mais racional e por empresas sustentáveis
tornam-se mais latentes no cenário mundial.
          Uma nova consciência faz-se necessário, o desligamento de antigos paradigmas, de antigas
tautologias e paradoxos, almejando, desta forma, um consumo e um crescimento sustentado e
ordenado, no qual as organizações possuem um papel singular nesta evolução. Diante desta
realidade que sugere a inserção da sustentabilidade do desenvolvimento econômico, poucas
organizações se mostram simpatizantes na inserção de processo que venham a causar uma produção
mais limpa e sustentável. Uma grande parcela preocupa-se apenas em não divergir com a legislação,
evitando assim as penalidades, ou seja, ainda situam-se naquele estágio inerte diante das ações
antrópicas que as mesmas promovem para os seus colaboradores, à população e ao planeta. Por
outro lado, há organizações que conseguem interpretar essas mudanças de paradigmas através de
um prisma diferente, prisma esse que enxerga novas conveniências e diferenciais, e já direcionam
seus planejamentos para as novas contingências mercadológicas.
          O marketing verde é uma ferramenta de gestão holística de processos que alvitram
identificar, antecipar e satisfazer as necessidades dos clientes e sociedade, através de um novo
ordenamento balizado na consonância entre lucratividade e sustentabilidade. (PEATTIE;
CHARTER, 2003).
         A função deste tipo de marketing que enfatiza as questões ambientais é de agregar valores
aos produtos através dos enfoques ecológicos e sociais, tendo por preceitos a educação ambiental e
os seus valores gerados. O marketing verde quando planejado de forma ética e moral, incentiva o
consumo consciente da sociedade, e ao mesmo tempo projeta uma imagem de qualidade dos
produtos e de uma organização ciente de suas responsabilidades perante a sociedade.
         Assim, em decorrência dos novos cenários que ressaltam o meio ambiente e, sobretudo,
perante o contexto de que é plausível contribuir com o meio ambiente através das decisões de
consumo, enfatiza-se a importância da consciência verde nas universidades. As Instituições de
Ensino Superior tem a obrigação de difundir a educação ambiental, como um processo no qual o
indivíduo e a coletividade desenvolvem valores sociais, habilidades, atitudes, valores sociais e
competências direcionadas para a conservação do ambiente e, sobretudo, para um consumo
consciente e ético, visto que, os universitários representam uma parcela consumista considerável e
poderão representar a força motriz para as futuras transformações em termos de consumo no
mundo.
          Portanto, a justificativa deste trabalho encontra-se na importância que a temática ambiental
tem tomado dentro das esferas sociais, visto que, o processo de conscientização ambiental é um
dever de todos. Mesmo que estejamos inseridos em paradigma capitalista desenvolvimentista,
podemos através de um consumo consciente cooperar com a diminuição dos níveis de poluição
causados por nós e pelas organizações. Assim, é importante ressaltar que os universitários poderão
ser os principais atores de uma transformação de consumo. Por conseguinte o estudo procura
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          136

analisar as percepções dos estudantes universitários sobre a utilização do marketing verde e seus
reflexos na decisão de compra, como também a postura das instituições de ensino superior com
relação às questões ambientais e sua implantação no meio acadêmico.
         Metodologia
         Trata-se de uma pesquisa de campo quali-quantitativa tendo em vista que a coleta de dados
utilizou como instrumentos de investigação questionários aplicados aos discentes das instituições
privadas de ensino superior. Segundo Oliveira (2002) a abordagem da pesquisa quantitativa
significa quantificar opiniões, dados, na forma de coleta de informações, e empregar recursos e
técnicas estatísticas. A abordagem qualitativa não emprega tratamento estatístico como centro do
processo de análise do problema, mas é usada para poder entender a relação de causa e efeito do
fenômeno e conseqüentemente chegar a sua verdade e razão. O método de pesquisa a ser usado é o
Survey. Conforme Babbie (1999) a pesquisa Survey é usada para a obtenção de dados sobre
características, ações ou opiniões de determinado grupo, indicado como representante de uma
população alvo, por meio de questionários estruturados e entrevistas pessoais. A aplicação dos
questionários utilizou perguntas fechadas e de múltipla escolha. O universo da pesquisa envolveu
100 estudantes de duas instituições privadas de ensino superior do município de Campina Grande.
Os resultados foram obtidos a partir de uma análise estatística descritiva de caráter quali-
quantitativa de cinco cursos, a saber: Administração, Biomedicina, Biologia, Enfermagem e
Fisioterapia, pertencentes ao terceiro período, e todos tiveram na sua grade curricular disciplinas
relacionadas ao meio ambiente.
         Fundamentação teórica
              Marketing Verde: Um novo enfoque organizacional
         Com o reconhecido desenvolvimento das práticas da gestão ambiental, as organizações
iniciaram um novo processo de adaptação dentro de suas áreas mercadológicas, onde as temáticas
ambientais representam a principal força motriz desta nova adaptação.
         As organizações além de serem obrigadas a seguirem uma legislação ambiental incisiva
que as obriga a uma acuidade maior com o controle da poluição, também deverão coadunar seus
planejamentos com a nova visão da sociedade, visão esta que esta cada vez mais focada com as
conseqüências da degradação ambiental.
         Para Kotler (1995), o marketing verde surge quando as organizações começam a absolver
as temáticas ambientais e os anseios sociais sobre o meio ambiente. A produção de produtos
ecologicamente corretos, embalagens recicláveis e biodegradáveis e um maior controle da poluição,
foram estratégias utilizadas pelas organizações na tentativa de convergir suas culturas
organizacionais com a nova racionalidade ambiental imposta pela sociedade.
         Diante das recentes necessidades que norteiam essa racionalidade ambiental que se
dissemina de forma contínua entre os consumidores, as organizações deverão se adaptar a essas
novas necessidades através da ferramenta do marketing verde que proporciona a inserção de
políticas ambientais envolvendo todos os níveis setoriais da organização. Os consumidores estão
mais informados e atentos aos produtos que consomem e, sobretudo, muitos determinam suas
decisões de compra não apenas pelo fator preço, mas também pelo critério seletivo de escolha de
produtos que de alguma forma colaborem com a questão socioambiental.
         Para o marketing verde, a sua vertente principal é o desenvolvimento da educação
ambiental. Esta vertente apresenta-se como a força motriz que modificará as decisões dos cidadãos,
tornando-os mais atentos às conseqüências dos seus atos de compra e contribuindo para o avanço de
um consumo ético, consumo este que é pautado na sinergia da tríplice sociedade, organizações e
meio ambiente.
             O papel da Educação para o consumo ético e sustentável.
         A nossa sociedade ainda sobrevive no fundo de uma crise sócio-ambiental, onde a urgência
de mudar o paradigma desenvolvimentista e antropocêntrico para uma visão mais coletiva,
biocêntrica e comprometida com todos os temas relevantes para a sobrevivência da raça humana.
         O sistema capitalista impõe padrões de consumo não condizentes com a realidade
ambiental, sob pena de inviabilizar qualquer solução sustentável para o desenvolvimento das
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                               137

nações. Assim, o papel da educação é fundamental na criação de uma nova racionalidade, tendo
                                  ação                        ção
como elemento capital a conscientização do consumo. Há uma necessidade de mudanças no modo
de pensar que privilegie uma visão total do mundo, com uma postura ética, responsável e solidária.
          Segundo Barbieri (2006) a educação ambiental tem a função de criar uma nova
                                                                         unção
mentalidade nas pessoas, com o intuito de promover mudanças que venham a alterar vários
comportamentos divergentes com a realidade em vigência, como, por exemplo, os padrões de
consumo.
          Na concepção de Sirvinskas (2002) o caminho a ser percorrido para alcançar a consciência
                               vinskas
ecológica através da educação ambiental será melhor fundamentado com o fomento de uma nova
                                 ambiental,
ética ambiental, responsável e solidaria com o futuro do planeta.
                           vel
          A nova ética está fundamentada na responsabilidade e na solidariedade com o futuro. Para
Medina e Santos (1999, p. 18): “Há uma necessidade de mudança fundamental na maneira de
                                 ):
pensarmos acerca de nós mesmo, nosso meio, nossa sociedade e nosso futuro; uma mudança básica
nos valores e crenças que orientam nosso pensamento e nossas ações; mudanças que nos permita
adquirir uma percepção holística e integral do mundo com uma postura ética, responsável e
solidária.”
          Devido a sua importância, a educação ambiental deve ser atuante em todos os graus e
modalidades do ensino, e compete ao poder Público a fiscalização de sua aplica
                                                                            aplicação. O artigo 2º da
Lei 9.795/99 assim estabelece: “A educação ambiental é um componente essencial e permanente da
educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades
do processo educativo, em caráter formal e não
                                            não-formal.”
          Portanto, o futuro da espécie humana e de todas as espécies depende do equilíbrio do meio
ambiente. Sem uma relação harmônica e equilibrada entre o ser humano e a natureza, não há como
assegurar a sadia qualidade de vida no presente, e a existência das futuras gerações. Desta forma, a
educação ambiental tem um papel singular na tentativa de criar uma pluralidade de novos valores,
calcados na ética, responsabilidade e solidariedade ambiental nas camadas sociais.
          Análise dos resultados
          Perante o que foi exposto no decorrer da pesquisa, os questionários foram aplicados a 100
          discentes pertencentes a instituições privadas de ensino superior dos curcursos da área de
saúde (biomedicina, biologia, enfermagem e fisioterapia) e da área de humanas o curso de
administração. Ao analisarmos as respostas dadas percebemos que no momento da compra de um
produto o consumidor se utiliza de diferentes critérios.
          Quando indagados sobre tais critérios, pode se perceber claramente que o critério
              ndo                                     pode-se
ambiental aparece quase nulo, visto que a maioria desconhece a importância da certificação
ambiental. De acordo com a primeira pergunta do questionário, referente aos critérios para a escolha
e compra de um produto ou serviço, 59% dos entrevistados acham que a qualidade é o principal
critério de escolha, enquanto apenas 2% optaram pela certificação ambiental como critério.

  2%   Quais os principais critérios para
         a escolha e compra de um
             produto ou serviço?
                  4%   6%
                                                     Qualidade
            29%
                            59%
                                                     Preço                 Gráfico 1 Critério de escolha
                                                                                   1.

                                                                      O que você entende por um
e compra de um produto ou serviço.
                  oduto                                             produto ambientalmenteQue na
                                                                                            correto
        Um produto ambientalmente correto se
apresenta como estimulador na decisão de compra,                          ou produto verde? descarte consumo
                                                                                          produção,
                                                                                          e          esse não
pois ele se destaca perante a avaliação do                               4% 1%
                                                                             1%                   agrediu o meio
                                                                                                  ambiente.
                                                                                                  Que a empresa
                                                                          39%                     cumpre as leis
                                                                                55%
                                                                                                  ambientais.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                   138

consumidor, sendo então diferente dos demais ofertados, e por isso a impressão que se tem é que ele
é superior aos outros. Segundo o observado no gráfico 2, 55% dos pesquisados afirmaram que a
terminologia “produto ambientalmente correto ou produto verde” remete que na produção, consumo
e descarte, este produto não agrediu o meio ambiente. Por outro lado, 39% dos entrevistados
acreditam que “ambientalmente correto ou produto verde” significa que a empresa cumpre com as
leis ambientais. Revela-se então que os entrevistados apresentam uma visão limitada da função
ambientalmente correto, trazendo uma distorção do seu conceito e mostrando também ineficácia do
seu uso.




        Gráfico 2. Entendimento com relação a produto ambientalmente correto ou verde.
        O processo de rotulagem, diante do acentuado avanço do mercado verde, surge como uma
temática em crescente evolução que vem sendo trabalhada em diversos tipos de países. É uma
ferramenta que fornece subsídios para uma padronização do consumo, visando uma evolução mais
consciente.
                                                                      De acordo com o gráfico 3,
   2%
        Quando é possível identificar um                    quando      os   estudantes   foram
                                                            indagados sobre a possibilidade de
       produto ambientalmente correto? selo identificação de um produto
                                       Quando possui o
                                       de certificação
                 1%
        0% 15%1% 1%                    ambiental            ambientalmente       correto,  80%
                                       Quando a sua         responderam que percebem essa
                                       embalagem é de papel possibilidade através do selo de
                   80%                 reciclavel
                                       Outro                certificação ambiental afixado no
                                                            produto, enquanto que 1% avaliam a
                                                            através da variável ‘preço’.




          Gráfico 3. Produto ambientalmente correto.
          Dada a relevância no entendimento da questão ambiental interpretada nos gráficos
anteriores, mesmo assim 60% dos entrevistados ainda não pagariam mais caro por produtos que
possuem certificação ambiental. O percentual de negação nos faz refletir sobre a real importância da
certificação, seria necessário algum tipo sensibilização que levasse então a população a
compreender melhor e então optar por pagar mais caro ou não.



         Você estaria disposto a pagar
            mais por produtos que
          possuíssem certificação…                                          Gráfico 4. Disposição dos
                                                                    usuários de produtos com certificação
                                                                    ambiental.
                                                           Sim
                                 40%                                        A     aplicação     de    ações
                  60%                                      Não      ambientais    pelas     empresas    são
                                                                    importantes, pois , mostram que de certa
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                139

forma, algum tipo de trabalho a organização está aplicando, por um lado percebe-se a desconfiança
do consumidor por achar que esse processo se faz apenas por um jogo de interesses. Faz-se
necessário então um melhor planejamento estratégico dessas ações. No gráfico 5, os entrevistados
mostraram-se receosos com relação as ações ambientais aplicadas pelas empresas, visto que 32%
entendem que estas ações visam apenas estratégias para vender mais, enquanto que 14% acreditam
que essas ações são realmente direcionadas para a proteção do meio ambiente.

           O que você acha das açoes
          ambientais aplicadas pelas… para
                               Uma estratégia
                                           vender mais
                  6% 2%
            14%             32%
                                                                                 Gráfico 5. Aplicações de
                                            Passar uma imagem
                                                                         ações ambientais.
            18%                            correta para os seus
                          28%              clientes
                                                                      As instituições pesquisadas
apresentam em sua grade curricular disciplinas que versão sobre a temática ambiental, utilizam
também eventos para estimular o uso consciente, porém o que ainda se percebe é um descrédito por
parte dos partícipes. Em relação a responsabilidade social e ambiental das IES para a construção de
uma racionalidade de consumo consciente, segundo 62% dos entrevistados, as instituições deixam a
desejar no que se refere a um trabalho de sensibilização e disseminação de novos valores pautados
numa nova ética ambiental.

          Você observa por parte das IES
            algum tipo de estímulo ao
              consumo consciente?
                   10% 3%
                                                      Raramente
                                                                 Gráfico 6. Avaliação na visão
                25%                                   Nunca
                           62%                          dos estudantes da ação das IES.
                                           Sempre                Quando        indagados     se
                                                        reduziriam o nível de consumo em prol
da preservação ambiental, 79% dos estudantes responderam que sim, ou seja, apesar de não
observarem um incentivo por parte das IES constatado no gráfico anterior, percebe-se que o
consumo consciente vem ganhando espaço através de fatores externos, fatores esses que podem ser
a mídia, a internet, a TV.

         Você reduziria o seu nível de
             consumo em prol da
           preservação ambiental?
                      6%
               15%
                                                      Sim
                                                                 Gráfico 7. Relação nível de
                                                      Não
                           79%                          consumo e preservação ambiental.
                                             Depende             Considerações Finais
                                                                 É imperativo modificar os
hábitos de consumo que causam sérios problemas ambientais e sociais, freando o consumismo e
fazendo escolhas que promovam o desenvolvimento sustentável. Nesse processo, o consumidor
consciente tem um papel fundamental. A realização deste estudo permitiu um melhor entendimento
do comportamento dos estudantes universitários sobre as questões ambientais e as suas relações
com o consumo ambientalmente correto.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           140

         Os resultados obtidos nas pesquisas de campo demonstram que o consumidor esta
passando por um novo estágio desenvolvimento, estágio esse que notabilizasse pelo interesse dos
consumidores nas questões ambientais e, conseqüentemente, no fator de que eles podem assumir
um papel fundamental no processo decisório das empresas através da sua força de consumo.
Entretanto, este público ainda não possui informações e critérios que venham a desenvolver um
conhecimento mais conciso sobre os produtos ambientalmente corretos, a ponto de mudarem os
seus hábitos tradicionais.
         Ficou evidenciado neste estudo que os estudantes são detentores de uma consciência
ambiental e que reconhecem o desequilíbrio ambiental em vigência, no entanto ainda não estão
cientes de que suas atitudes individuais de consumo podem contribuir para a mudança deste
cenário.
         No que se refere aos critérios que levam o consumidor a decidir por um produto, o público
pesquisado optou pela qualidade, ou seja, não interessa se o produto foi fabricado de forma
ambientalmente correta. Em relação às ações ambientais das empresas, os entrevistados acreditam
que as mesmas não possuem uma real preocupação ambiental, detendo-se apenas no interesse
comercial.
         Um dos aspectos negativos foi à ausência de estímulos das Instituições de Ensino Superior
na formação de novos valores que seriam imprescindíveis para a composição de uma consciência
ambiental real dos estudantes. Um número considerável de entrevistados afirmou que nunca ou
raramente as suas Instituições ressaltaram as questões ambientais com a devida precisão e
importância. Esta afirmação nos leva refletir sobre a eficiência do real papel das Instituições de
Ensino Superior na formação de um cidadão consciente, cabendo destacar que o desenvolvimento
de uma consciência ambiental que reflita em atitudes reais, deve ser iniciada desde o ensino
fundamental.
         Face ao exposto, a consciência ambiental é fator fundamental que deverá ser desenvolvida
tanto pelas organizações, como também pelos consumidores. Entretanto, nota-se que este tipo de
consciência ainda se encontra em uma fase embrionária no Brasil, requerendo assim uma maior pro
atividade de vários setores da sociedade. Para que isso ocorra é necessária a intervenção do governo
na composição de políticas que sejam eficientes no processo de conscientização ambiental
principalmente em relação a preservação do meio ambiente e ao consumo ambientalmente correto,
considerando que a decisão de compra está sendo cada dia mais repassada para crianças e
adolescentes.
         A realização deste estudo contribuiu para um esclarecimento mais conciso sobre o
comportamento dos estudantes universitários relacionados às suas percepções a respeito das
questões ambientais e suas relações com o consumo. A consciência ambiental ainda precisa ser
melhor trabalhada no intelecto dos universitários e nas suas respectivas instituições de ensino,
para que efetivamente surja um novo consumo consciente e ético, e que venha a modificar as
posturas empresariais que são divergentes com a realidade ambiental.
         Portanto, é fundamental que as empresas, sociedade, Instituições de Ensino Superior e o
governo se unam para atingir uma conscientização coletiva, ética e sustentável. Como por exemplo,
as empresas não devem deter-se apenas com o papel comercial, mas também na função de educar
ambientalmente o consumidor, as Instituições de Ensino Superior deverão estar mais cientes e
sensíveis com relação às questões ambientais, visto que, o seu papel é formar atores sociais
racionais com os temas que norteiam o desenvolvimento de nossa sociedade, favorecendo assim o
desenvolvimento de uma nova consciência de consumo no intelecto dos universitários que será
sentida em gerações futuras.
         Por conseguinte, para uma maior amplitude de resultados, faz-se necessário a conjectura de
análises oriundas de outras instituições e de outros cursos para a obtenção de uma melhor
diversidade e qualidade nas informações, visto que, o trabalho se restringiu apenas a um grupo de
discentes de instituições de ensino superior privado.
         Como sugestões para estudos que abordam temáticas associadas com os assuntos
trabalhados no estudo, pode-se analisar os seguintes temas para o desenvolvimento de trabalhos
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                      141

futuros: Produtos orgânicos e sua participação nos supermercados, uma análise sobre o nível de
conhecimento dos selos verdes por parte dos consumidores, o processo de implantação do (SGA)
em uma empresa, além da análise de projetos de implantação na rede de ensino de metodologias
educacionais acerca dos problemas ambientais.
         Referências Bibliográficas
         BABBIE, Earl. Métodos de Pesquisas de Survey. 1a. reimpressão. Belo Horizonte: UFMG,
1999.
         BARBIERI, José Carlos. Gestão ambiental empresarial. Conceitos, modelos e
instrumentos. São Paulo : Saraiva, 2006
         MEDINA, Naná Mininni; SANTOS, Elizabeth da Conceição. Educação ambiental: uma
metodologia participativa de formação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
         OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Metodologia científica aplicada ao Direito. São Paulo:
Thomson,2002.
         PEATTIE ; CHARTER, M. Green Marketing. In : BAKER, M. (ED). The marketing book.
Gran Britannia : Ed. Butter Wealth,2003.
         SIRVINSKAS, Luís Paulo. Meio ambiente e cidadania. Revista do Instituto de Pesquisas e
Estudos. Bauru, n. 35, p. 305-307, ago. 2002
         KOTLER, Administração de Marketing : análise,planejamento,implementação e
controle.4.ed.São Paulo : Atlas, 1995.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             142

O IMPACTO SECUNDÁRIO DA ATIVIDADE PETROLÍFERA NA
 CIDADE DE MACAÉ COM BASE NA FOTOINTERPRETAÇÃO
               DE IMAGENS AÉREAS

         Rafael Nogueira Costa
         Mestrando em Engenharia Ambiental, Instituto Federal Fluminense, IFF.
rafaelnogueiracosta@gmail.com
         Maria Inês Paes Ferreira
         Doutora em Engenharia Química e Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Petróleo
Energia e Recursos Naturais, Instituto Federal Fluminense, IFF
         ines_paes@yahoo.com.br

         RESUMO
         Atualmente existem poucos estudos sobre o impacto secundário da atividade petrolífera
nos Municípios da Bacia de Campos. A tímida atuação do poder público na mitigação desses
impactos, aliada à organização incipiente dos usuários dos recursos naturais da região pode levar ao
esgotamento de tais recursos, notadamente o dos recursos pesqueiros. Este artigo visa discutir a
relação de uso e apropriação dos recursos comuns, em especial, os do estuário do rio Macaé, situado
no epicentro das atividades de apoio à exploração e à produção de petróleo offshore na Bacia de
Campos. Compreender as funções ecológica e econômica desse ecossistema e entender os
pressupostos a ele aplicáveis pela legislação ambiental é um passo fundamental para propor
soluções e definir metas para protegê-lo, contribuindo assim para a manutenção de uma das
atividades tradicionais da Região Norte Fluminense, a pesca.
         PALAVRAS-CHAVE: Macaé, Petróleo, Crescimento Urbano, Impacto, Estuário

         ABSTRACT
         Currently there are few studies on the secondary impact of oil activity in the municipalities
of Campos Basin. The modest performance of the government in mitigating these impacts, coupled
with the incipient organization of users of natural resources in the region may lead to depletion of
these resources, notably fisheries resources. This paper discusses the relationship of use and
appropriation of common resources, in particular the Macaé River Estuary, located at the epicenter
of activities to support the exploration and production of offshore oil in the Campos Basin.
Understanding the ecological and economic functions of this ecosystem and understand the
conditions applicable to it by environmental legislation is a key step to propose solutions and set
goals to protect him, thus contributing to the maintenance of traditional activities of the North
Fluminense, fishing .
         Keywords: Macaé, Petroleum, Urban Growth, Impact, Estuary

          INTRODUÇÃO
          O Município de Macaé (Figura 1), localizado no Estado do Rio de Janeiro, Brasil, faz
divisa com as cidades de Quissamã, Carapebus, Conceição de Macabu, ao Norte; Rio das Ostras e
Casimiro de Abreu, ao Sul; Trajano de Moraes e Nova Friburgo, a Oeste; e com o Oceano
Atlântico, a Leste. Possui uma área total de 1.219,8 km2, destacando-se a presença de diversos
pontos turísticos, como as praias e a região serrana (MACAÉ, 2009). O objetivo desse estudo é
analisar através do uso de aerofotografias antigas e atuais os impactos secundários da atividade
petrolífera no Município de Macaé, em especial o estuário. Tal modificação vem gerando uma
descaracterização de um ecossistema de relevância ambiental e econômica para a Região.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                143




          Figura 1. Localização do Município de Macaé.
          Fonte: Fundação Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro CIDE (2001).

          A região de estudo adotada compreende o trecho inferior da bacia do rio Macaé, incluindo
a parte final estritamente fluvial e toda zona estuarina da bacia. O trecho em estudo, embora pouco
extenso, incorpora áreas de grande interesse social (navegação, moradias e pesca).

         METODOLOGIA
         O sensoriamento remoto é uma tecnologia que permite obter imagens e outros tipos de
dados, da superfície terrestre, por meio da captação e do registro da energia refletida ou emitida pela
superfície (GALLOTTI, 2007). Os fenômenos no mundo real podem ser observados sob três
aspectos: (i) temático, aquele que trata das variação de características; (ii) espacial, trata da variação
geográfica; e (iii) temporal, trata da variação em intervalos de tempo (SILVA, 2007). Neste trabalho
procuramos apresentar os três aspectos através do acompanhamento da série histórica: 1956, 1966,
1976, 1989 e 1999; e relacioná-lo com os conceitos de uso e apropriação apontados por Vieira et al.
(2005).
         RESULTADOS E DISCUSSAO

         IMPACTOS SECUNDÁRIOS DA ATIVIDADE PETROLÍFERA EM MACAÉ
         A Aerofotografia 1 foi tirada em 1956, época em que já era possível ver que a cidade de
Macaé estava localizada no estuário do Rio Macaé. Esse fenômeno de crescimento das cidades
acompanha o que acontece no mundo inteiro. Por se tratar de um ambiente de transição entre o
oceano e o continente, os estuários constituem áreas de grande complexidade e vulnerabilidade à
influencia do homem. Essa relação é estabelecida pelos seguintes motivos: (i) são locais adequados
para a instalação de portos; e (ii) constituem uma via de acesso importante para o interior dos
continentes (MIRANDA et al., 2002). A partir de meados desse século, com a conseqüente
expansão populacional nas cidades próximas aos estuários em todo o Planeta, aumentou
consideravelmente a influência do homem sobre esse ambiente (WELLS, 1999). Vale ressaltar que
nessa época o Código Florestal (Lei 4.777 de 1965) ainda não existia. Logo, suas definições de
áreas de preservação permanente e a proteção das matas ciliares não eram aplicadas nesse caso.
         Em 1966, a cidade ainda sobrevivia basicamente da pesca e do comércio local, dez anos se
passaram e quase não vemos muita diferença em relação à quantidade de moradias localizadas na
foz do rio Macaé (Aerofotografia 2), que passaram a ter suas margens protegidas pela Lei Federal
4.771 de 1965 (BRASIL, 1965).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                               144




          Aerofotografia 1. Data: 1956. O Rio Macaé com seus meandros naturais e o início do processo de
retificação. Fonte: GEOMACAÉ (2008).




         Aerofotografia 2. Data: 1966. A paisagem parece não mudar muito apesar te ter passado uma
década. Fonte: GEOMACAÉ (2008).

          As intervenções realizadas pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento
(DNOS) no rio Macaé trouxeram impactos negativos e positivos. Os positivos estão relacionados à
diminuição da incidência de malária, problema que muito preocupava as autoridades locais. Por
outro lado, se constatou a redução do pescado, dada a diminuição dos locais naturais de postura e
pelo desaparecimento de áreas de várzeas com vegetação natural. Houve também uma diminuição
do volume de água e acúmulo de terra em conseqüência de enchentes (AMARAL, 2003).
          Nota-se que o Rio permanecia com seus meandros naturais e que se torna visível o início
do processo de retilinização (Aerofotografia 3). Este processo criou ilhas entre o novo curso,
retilinizado, e o antigo, sinuoso, além de dois braços na desembocadura, separados pela ilha Colônia
Leocádia (SOFFIATI, 2007). Porém, após 20 anos ainda não se verificava mudança significativa
em termos de ocupação associada ao crescimento urbano.
          Como afirma Soffiati (2007), com a descoberta das jazidas de petróleo da Bacia de
Campos e a posterior construção das instalações da PETROBRAS em Macaé, a cidade passou a
receber anualmente milhares de pessoas de todo o Brasil em busca de emprego. Muitas não
conseguem trabalho e acabam marginalizadas, o que gera, além da violência, a invasão de áreas de
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              145

preservação ambiental (IPEA, 2008). Em alguns trechos verifica-se um vertiginoso processo de
urbanização por pessoas de baixa renda, tornando-se consolidado em alguns pontos: (i) na margem
direita do rio velho; (ii) no interior da ilha Colônia Leocádia; (iii) no trecho final do canal Campos-
Macaé; (iv) e na margem esquerda do rio. Entretanto o processo de invasão do estuário não se
limita a pessoas com baixo poder aquisitivo, o que pode ser visto na ilha da Caieira, onde está
localizado um condomínio fechado com mansões (Aerofotografia 4).
         A urbanização, além de suprimir importantes áreas, acarreta outro grande problema:
aumento de lançamentos de produtos químicos (LACERDA et al. 2008). Com efeito, é notória a
contaminação do rio Macaé por esgoto orgânico, por efluentes oleosos e por resíduos sólidos.
Apesar de possuir sua foz permanentemente aberta, permitindo a ação saudável das marés, esse
ecossistema encontra-se em estágio avançado de degradação sofrendo intensos e permanentes
impactos antrópicos como lançamento de esgoto in natura e despejo de óleo das pequenas
embarcações utilizadas para pesca, principalmente no final do Canal Campos-Macaé. Em 1999, o
Município de Macaé já estava consolidado no cenário nacional e até mesmo mundial no tocante à
indústria do petróleo. Associado aos problemas ambientais e sociais ocasionados pelo processo de
extração de óleo e gás, o crescimento da cidade gerou uma pressão sobre o estuário (Aerofotografia
5, na qual pode-se ver o Rio Macaé completamente retilinizado).




          Aerofotografia 3. Data: 1976. Início da formação da Ilha Colônia Leocádia. Fonte: GEOMACAÉ
(2008).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              146




         Aerofotografia 4. Data: 1989. Início do crescimento espontâneo em cima do estuário. Implantação
do Porto de Imbetiba. Fonte: GEOMACAÉ (2008).




          Aerofotografia 5. Data: 1999. Descaracterização do estuário do rio Macaé. Fonte: GEOMACAÉ
(2008).

         Atualmente, um dos maiores vetores de crescimento da cidade situa-se sobre o estuário, o
que acarreta em uma diminuição na quantidade de pescado, influenciado pela perda de habitat para
procriação e crescimento dos organismos marinhos, aliados a esse fator a sobre pesca e poluição
urbana, fazem desse um grande problema enfrentado pelo governo atual e futuro no que diz respeito
a sustentabilidade do município, principalmente após a finalização das atividades exploratórias de
petróleo e gás na Bacia de Campos. As atividades humanas concentradas nessas áreas podem gerar
outros tipos de estresse, podendo alterar completamente as condições naturais do meio (BONETTI,
2000). Almeida (2009) discute a falta de percepção ambiental de alguns alunos das escolas públicas
localizadas próximas ao manguezal, o que comprova não só a descaracterização do ambiente, mas
também a separação homem-natureza no tocante a esse ecossistema, que caracteriza, conforme
Foster (2005), um estado de alienação.

          FUNÇÕES ECOSSISTÊMICAS E RELAÇÕES HOMEM-NATUREZA NO ESTUÁRIO
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           147

          Segundo a definição de Dyer (1997, apud MIRANDA et al., 2002) os estuários são corpos
de água costeiros semifechados, com uma livre ligação com o oceano aberto, estabelecendo-se rio
acima até o limite da influência da maré, sendo que em seu interior a água do mar é
mensuravelmente diluída pela água doce oriunda da drenagem continental. Diversos peixes e
crustáceos utilizam o estuário como parte do seu ciclo de vida, entre eles o camarão-rosa
Farfantepenaeus paulensis apresenta forte valor comercial na região norte-fluminense (IWAI,
1978). Assim sendo, as regiões comerciais de pesca dependem da conservação e da proteção dos
estuários (BRAGA et al., 2005; MIRANDA, et al., 2002). O estuário, em especial o manguezal
desempenha diversas funções naturais de grande importância ecológica e econômica, dentre as
quais se destacam (SEMADS, 2001; HERCULANO & PACHECO, 2006): (i) Proteção da linha da
costa: a vegetação atua contra a ação erosiva das ondas e marés; (ii) Retenção dos sedimentos
carreados pelos rios; (iii) Ação depuradora: o ecossistema funciona como um filtro biológico; (iv)
Fonte de matéria orgânica particulada e dissolvida para as águas costeiras adjacentes e (v)
Renovação da biomassa costeira e reprodução de espécies. Costanza et al. (1997) relatam que os
ecossistemas apresentam serviços e funções ecológicas que podem ser classificados quanto ao seu
uso e valor para a sustentabilidade humana. Os estuários apresentam extrema relevância, pois
participam em praticamente todos os serviços apresentados, destacando-se: refúgio e berçário das
espécies, controle da linha da costa e inundações, ecoturismo, pescaria e recreação ao ar livre e
ciclagem dos nutrientes.
          Muitas são as normas jurídicas existentes para defesa desse ecossistema. Porém, como
afirma Leff (2000), elas mais sancionam as condutas individuais que geram efeitos nocivos no
ambiente do que reorientam a racionalidade global do aproveitamento dos recursos naturais de
propriedade comum. Com isso o processo de uso e ocupação do estuário passa a ser calcado na
premissa de punição individual. Como a punição não aconteceu no início e Nem vem sendo
praticada na atualidade, isso facilitou e vem facilitando a prática de apropriação das terras dentro
das áreas protegidas por lei. O processo de ocupação do estuário em Macaé foi acelerado pela
chegada da indústria petrolífera na Bacia de Campos, e em especial na cidade de Macaé, que foi
escolhida para ser à sede dos processos de exploração. Como no fim da década de 70 as questões
ambientais não estavam em voga, os princípios do discurso ambientalista não foram incorporados
na prática política daquela época, gerando uma forte degradação ambiental e diminuição de
qualidade de vida das populações locais, o que caracterizamos como impactos secundários dessa
atividade.
                É visível o fato que em Macaé o homem se tornou alienado em relação ao ambiente
natural, pois a busca pelo crescimento econômico individual e pelas riquezas materiais passa a ser o
centro das atenções. Os pescadores, por terem co-evolucionado sustentavelmente com a natureza e
assegurado à conservação da biodiversidade nos estuários (ALIER, 2007), são ou deveriam ser seus
defensores. Porém, em Macaé, esse grupo está desarticulado e sem lutas visíveis em relação à
defesa desse bem tão precioso. Muitas vezes, são os próprios pescadores os grandes culpados pela
descaracterização desse ecossistema, pois jogam toneladas de óleo das embarcações no rio. Em
Macaé também inexistem atualmente grupos articulados ligados a correntes do ativismo ambiental.
Nesse sentido, as instituições educacionais que chegaram no Município, como Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia Fluminense (IF Fluminense) e outras, passam a desempenhar papel
importantíssimo na construção de feedbacks, contribuindo assim para uma articulação com os
setores envolvidos direta e indiretamente com essas causas, necessária à construção da
racionalidade ambiental, formulando e/ou sistematizando princípios conceitos e teorias que se
articulam com os processos ecológicos, tecnológicos e sociais, os quais são a base de uma
racionalidade produtiva alternativa (LEFF, 2000).
          Ao falarmos em exaustão dos recursos naturais, cabe ressaltar a parábola usada por Hardin
(1968, apud Vieira et al., 2005) conhecida como “tragédia dos comuns”. Formulada inicialmente
para explicar a superexploração de áreas de pastagens, num hipotético sistema de recursos comuns
na Inglaterra medieval, pode ser aplicada aos dias atuais no Município de Macaé. Os indivíduos que
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            148

usam em conjunto o mesmo recurso são incapazes de se organizar e de se engajar numa ação
coletiva, ou seja, “a liberdade no uso de recursos comuns provoca a ruína de todos”. Entretanto
Vieira et al. (2005) considera que essa metáfora poderosa não chega a caracterizar muito bem o que
acontece em muitos casos de recursos comuns, pois não leva em conta a existência de instituições e
feedbacks. A organização seria um passo para evitar esse problema, fato que não está ocorrendo em
Macaé.
          Segundo Vieira et al. (2005) os recursos de uso comum podem ser geridos sob um dos
quatros regimes básicos de apropriação de recursos, entre eles: (i) livre acesso (geralmente a
demanda excede a capacidade de renovação, sendo seu esgotamento inevitável); (ii) propriedade
privada (tende a um incentivo para uso sustentável); (iii) propriedade estatal (na qual a quantidade
de regulamentos, gera um descumprimento generalizado); e (iv) propriedade comunal ou
comunitária (oferece o mais diversificado conjuntos de regulamentos, mas o crescimento
populacional, mudanças tecnológicas e econômicas podem contribuir para a desestruturação dos
mecanismos de exclusão).
          Na prática, os recursos tendem a ser controlados mediante combinações desses regimes, e
existem variações em cada combinação (VIEIRA et al. 2005).
          Os direitos de apropriação de uso dos recursos naturais estão associados às perspectivas
sobre as interações entre sistemas sociais e naturais. Os direitos de apropriação dos recursos de uso
comum em níveis locais e geridos sob diferentes regimes de apropriação são definidos e analisados
em diferentes possibilidades (VIEIRA et al. 2005). As características básicas na discussão sobre os
recursos comuns são: (i) exclusão ou controle do acesso e (ii) problema de uso compartilhado. Os
recursos que compartilham essas características tendem a ser susceptíveis ao esgotamento e a
degradação, esse dilema tem sido chamado de a “tragédia dos comuns”, ou seja, a liberdade no uso
de recursos comuns provoca a ruína de todos. Assim, apesar de existirem grupos organizados como
colônia de pescadores e associações de moradores, o modelo de apropriação é caracterizado como
livre acesso, tendo em vista que os incentivos para o uso sustentável dos recursos são fracos e
praticamente inexistente.
          Além desse problema ainda existe a invasão do manguezal para construção de moradias,
tanto de moradores de baixa renda como de condomínios de luxo. Nesse processo de “invasão” não
existe nenhum interesse em conservar os recursos, pois ambos utilizam o rio Macaé como
depositário de esgoto, logo a tendência nesse caso é o esgotamento dos principais organismos,
acarretando em uma maior dificuldade para os indivíduos que dependem diretamente e
indiretamente dos recursos biológicos desse ecossistema. Com isso, a atividade que um dia foi a
principal fonte de renda do munípio, fica cada vez menos viável, o que implica no baixo interesse
dos alunos do ensino fundamental do Colégio Municipal de Pescadores em desenvolver a pesca
como atividade profissional. Entrevistas realizadas previamente mostraram que apenas 6% do total
de alunos matriculados em 2010 possuem tal pretensão.
          Alguns estudos mostram que nem a gestão centrada exclusivamente no nível local e
tampouco aquela centrada exclusivamente nos níveis mais altos funcionam bem por si mesmas.
Como saída torna-se interessante apoiar instituições que permeiam as diversas escalas, denominadas
por Vieira et al. (2005) como interações transescalares, que estão conectadas tanto horizontalmente
(através do espaço) quanto verticalmente (através de níveis de organização). Além disso, quando há
dificuldades em se fazer cumprir a legislação, acordos de co-gestão envolvendo os usuários de
recursos pesqueiros e as instituições governamentais. Tais acordos podem contar ainda com a
participação de organizações não-governamentais para desenvolvimento e empoderamento dos
atores locais. Experiências análogas já foram tentadas em Macaé (como a formação da Rede
Solidária da Pesca, a REDESCA, que contou com a participação da Colônia de Pescadores, de
Instituições de Ensino e Pesquisa e do Poder Público, atualmente desarticulada).

        CONSIDERAÇÕES FINAIS
        Existem problemas no cumprimento da legislação federal, estadual e municipal no que
concerne às questões ambientais relacionadas ao uso e a ocupação do estuário do rio Macaé. Os
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           149

indivíduos que usam em conjunto o estuário, seja para alimentar-se e/ou retirar sustento familiar,
não estão conseguindo se organizar em uma ação coletiva para a conservação desse ecossistema.
Fato esse que torna os recursos desse ecossistema susceptíveis ao esgotamento e à degradação. A
falta de articulação entre os usuários é visível. A comunidade pesqueira de Macaé anda
desestimulada com a situação do futuro da profissão e sem interesse em iniciar qualquer tipo de
intervenção e se engajar numa ação coletiva, fato que sugere que os recursos desse ecossistema
estão susceptíveis. É papel das instituições de ensino e pesquisa, como IF Fluminense, UFRJ e
outras, localizadas no Estado do Rio de Janeiro, a produção de feedbacks de forma flexível, aberta e
atualizada. Um exemplo desse tipo de procedimento é o monitoramento constante da situação
ambiental desse ecossistema. Muitas informações já foram produzidas no Município, porém a
grande maioria está relacionada ao Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, pouco se sabe sobre
a situação ambiental do estuário do rio Macaé, um ecossistema frágil e de suma importância para a
economia da Região. A continuidade dessas ações e a não participação da comunidade na
elaboração de regulamentos, interligando os diferentes usos do estuário e dos recursos pesqueiros e
disciplinando as intervenções, como elaboração de normas explícitas e punições podem levar a um
colapso do ecossistema, influenciando deleteriamente as atividades econômicas locais ligadas à
pesca. Como recomendações, acreditamos que retomar os procedimentos que viabilizem os acordos
de co-gestão entre a comunidade (notadamente os pescadores), instituições da sociedade civil e
governos, que priorizem o poder formal, compartilhado em parceria, deveria ser uma medida
urgente para mitigar tal problema.

          REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                           151

     O USO DA AULA DE CAMPO COMO MECANISMO
INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

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                   Professor de Geografia (substituto) do ensino fundamental da escola “Ulisses Maurício de Pontes” –
                                                                 Sertãozinho, PB. Graduando em Geografia pela UEPB
                                                                                      Joelmacielbig_all@hotmail.com
                                                                                           Josenilson Soares BASÍLIO
               Professor de Ciências do ensino fundamental da escola “Ulisses Maurício de Pontes” – Sertãozinho, PB.
                  Graduado em Geografia pela UEPB, Biologia pela UVA e Especialista em Agroecologia pela UFPB
                                                                                       josenilsonsoares@hotmail.com

          RESUMO
          Este trabalho discute as contribuições das aulas de campo para motivar a aprendizagem do
aluno em relação ao conhecimento ambiental, porque é comum, hoje em dia, encontrar alunos e
professores reclamando que a sala de aula é um ambiente cansativo e pouco atrativo. A aula de
campo por sua vez, constitui um importante elemento que facilita no processo ensino-aprendizagem
ao comparar a teoria com a prática e simplificar assuntos que, às vezes, tornam-se tão complexos.
Contribui para enriquecer a discussão acerca da temática e dinamiza o trabalho do professor.
Experiências pessoais de emoções e sensações vivenciadas durante aulas de campo justificam a
elaboração deste trabalho, pretendendo, portanto, contribuir para incentivar o desenvolvimento de
iniciativas que dotem as instituições de ensino de capacidade técnica e de infraestrutura adequada
para realização de tais atividades. Através de resultados de uma pesquisa com alunos do 6º ano do
ensino fundamental da escola municipal “Ulisses Mauricio de Pontes” em Sertãozinho, no estado da
Paraíba e do posicionamento de diferentes autores sobre o tema, procurou-se por meio da análise,
distinguir pontos básicos necessário ao desenvolvimento do tema – o uso da aula de campo como
mecanismo interdisciplinar no ensino da educação ambiental – demonstrando um recurso
interessante para valorizar o ensino da educação ambiental e uma possibilidade de inovação para o
trabalho do professor, além de levar a compreensão de que a educação ambiental não se limita
apenas a algumas disciplinas, bem como a páginas de um livro ou a quatro paredes de uma sala de
aula, mas sim a todas as áreas do conhecimento e em todo o espaço que nos cerca.
          PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Interdisciplinaridade. Motivação. Aula de
campo.

         ABSTRACT
         This paper discusses the contributions of field classes to motivate students that are learning
about the environmental knowledge, because it’s common, nowadays, to find students and teachers
complaining that classrooms are boring and unattractive. The class field is an important strategy
that helps the teaching-learning process by comparing theory with practice, simplifying issues that
sometimes seem to be so difficult. It helps to enrich discussions about the theme and makes
teachers' practice more interesting. Personal experiences, emotions and sensations experienced
during field classes justify the production of this work, intending thus to encourage the development
of political initiatives which may bring educational stuff to the schools, infrastructure for
conducting such activities. Through the results of a survey with the 6th year atudents of an
elementary school, The Municipal School Ulisses Maurício de Pontes in Sertãozinho- Paraíba.
That’s why a research in different authors that discuss this subject, through it we wanted to
distinguish basic points os the development of our subject - the use of class field as an
interdisciplinary mechanism to environmental education teaching - demonstrating a nice feature to
enhance the environmental education teaching and an opportunity for innovation of the teacher's
work and it also leads to understanding that the environmental education is not limited to certain
subjects, as well as the pages of a book or the four walls of a classroom, but to all areas of
knowledge and all the space around us.
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          KEYWORDS: Environmental education. Interdisciplinarity. Motivation. Class field.

          A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E OS TRABALHOS DE CAMPO
          Na escola, no contexto atual, é comum encontrarmos professores reclamando do
desinteresse dos alunos. É de se considerar que os elementos encontrados no ambiente escolar no
qual os alunos se deparam todos os dias – salas de aulas cercadas por quatro paredes, carteiras onde
os alunos assistem às aulas sentados e observando constantemente o professor, o quadro negro e um
giz – transformam o ensino em algo monótono e cansativo.
          O professor de geografia e de ciências/biologia, bem como das demais áreas do
conhecimento, tem a sua disponibilidade diversos métodos que podem ser aplicados dentro e fora
da sala de aula para auxiliar na aprendizagem do aluno e dinamizar o ensino da educação ambiental.
Dentre os métodos para auxiliar no ensino da educação ambiental, as aulas de campo aparecem
como um instrumento eficiente para o estabelecimento de uma nova perspectiva na relação
aluno/aprendizagem, pois o aluno passa a “ver” o meio ambiente em vez de apenas “ler” o meio
ambiente, permitindo assim, uma maior compreensão da influência que exerce neste ambiente,
assim como passam a compreender melhor a influência dos fatores ambientais em sua vida.
          De acordo com Brasil (1998, p. 126) “Esses trabalhos contemplam visitas planejadas a
ambientes naturais, a áreas de preservação ou conservação, áreas de produção primária (plantações)
e indústrias, segundo os diferentes planos de ensino do professor”. E ainda complementam:

           Além de unidades de conservação, deve-se considerar a riqueza do trabalho de campo em áreas próximas,
como o próprio pátio da escola, a praça que muita vezes está a poucas quadras da escola, as ruas da cidade, os quintais
das casas, os terrenos baldios e outros espaços do ambiente urbano, como a zona comercial ou industrial ou da cidade
[...] (BRASIL, op cit, p. 126).

         Com relação à educação ambiental, as aulas de campo constituem um elemento importante
para superar as dicotomias existentes entre a teoria exposta em sala de aula e a prática advinda das
aulas de campo, bem como a integração entre as várias áreas do conhecimento.

         A atividade de campo passa a ser um momento de construir e de compartilhar o novo com o aluno e de
aproximar o conhecimento teórico, lógico, ao experienciado, ao empírico. Ela também dá sentido e prazer ao fazer
pedagógico, a que se propõe o educador (MATHEUS, 2007, p. 143).


         Para Lacoste (2006, p. 85) as excursões por ônibus durante a qual os professores, nas
diferentes paradas que previam no percurso, fazem um discurso diante dos estudantes passivos, são
importantes, porém insuficientes por servirem apenas de iniciação à pesquisa. Em contrapartida,
Alentejano e Rocha-Leão fazem a seguinte observação diante das afirmações de Lacoste:

          Ao nosso ver, se estas excursões forem previamente preparadas, instigando-se os alunos a problematizar o
que vão ver, a preparar o que vão perguntar e refletir acerca do que vão observar, podem representar uma importante
contribuição para o processo de formação destes como pesquisadores (ALENTEJANO e ROCHA-LEÃO 2006, p. 63).



         Pode-se observar ainda, a importância de uma orientação pedagógica necessária a
utilização adequada da dialética e os trabalhos de campo. “A didática devia comportar uma
oscilação dialética entre o campo e os exercícios na sala de aula: estudos de documentos,
exposições orais, discursos [...]. Após o campo, é necessário extrair conclusões, ampliar
conhecimentos.” (TRICART, 1985, p.117).
         Assim, objetivou-se descrever no presente artigo, as diversas contribuições que as aulas de
campo podem oferecer para transformar o ensino da educação ambiental em um dos temas mais
atraentes para os alunos de todos os níveis de ensino e, principalmente, incentivar o
desenvolvimento de iniciativas que dotem as instituições de ensino de capacidade técnica e de
infraestrutura adequada para a realização de tais atividades.
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         Materiais e métodos
                Para realizar o trabalho foram efetuadas pesquisas com 32 alunos, de idade entre 9 e
12 anos, matriculados na época em uma das turmas de 6º ano do ensino fundamental da Escola
Municipal de Ensino Fundamental “Ulisses Mauricio de Pontes” em Sertãozinho, no estado da
Paraíba. Houve-se primeiramente, um diálogo com os alunos da turma a respeito dos conteúdos que
sequencialmente seriam estudados, depois, discutiu-se a proposta da realização de uma aula de
campo após os mesmos aprofundarem-se nos conteúdos preestabelecidos.
                       Em um primeiro momento foram desenvolvidas aulas teóricas na escola, e
duas semanas depois, aulas de campo em região circunvizinha à cidade. Nas duas etapas foram
abordadas as seguintes áreas de conhecimento: degradação do meio ambiente, biogeografia,
biodiversidade e vegetações brasileiras (em especial a mata atlântica e a caatinga).
                       Em classe, os conteúdos foram sobrepostos através de aulas expositivas
dialogadas, atividades de leitura de textos e trabalhos pesquisados em equipes, além de
apresentações em DVD de algumas imagens referentes aos temas discutidos.
                       Ao levar a turma a campo pretendia-se mostrá-los as espécies vegetais da
caatinga e mata atlântica que podem ser encontradas no espaço vivenciado pelos alunos e suas
respectivas classificações (xerófitas, caducifólias, perenifólias). Almejava-se integrar os estudantes
e os professores em torno da preservação desses biomas para a garantia e sobrevivência da
diversidade de espécies animais e vegetais que correm o risco de desaparecer devido à degradação
desses ecossistemas pelo homem, despertando, contudo, a conscientização ecológica dos mesmos
ao fazê-los enxergar e sentir de perto a natureza, assim como os problemas provocados no meio
ambiente pela ação humana.
                       O lugar da aula de campo foi escolhido de forma intencional por ser próximo
à cidade e por atender as exigências dos conteúdos pressupostos em sala de aula: havia diversas
espécies vegetais da caatinga, como a jurema preta (Mimosa nigra), o juazeiro (Zizipus joazeiro),
mandacaru (Cereus jamacaru), sabiá (Mimosa sp) e da mata tropical a exemplo do pau d’arco
(Tabebuia sp) e o cajueiro (Anacardium occidentale), além de um açude onde havia indícios de
resíduos sólidos depositados no mesmo. Também podiam ser vistos algumas espécies de animais
como o anu (Crotophaga ani), a jaçanã (Jacana spinosa) e alguns insetos.
                       Após a aula de campo foram levantadas discussões em sala de aula com os
alunos, organizadas em círculos, onde seriam debatidos alguns elementos analisados no decorrer da
aula de campo, despertando desta forma, a interação dialética do aluno com o professor e a turma,
ao instigá-los a dar suas opiniões, fazer suas críticas ou comentários sobre os temas abordados. E
por fim, foi sobreposto um questionário aos alunos para analisar o conhecimento sobre os conceitos
estudados, bem como suas observações a respeito do ambiente visitado, além das emoções e
motivação com relação ao conhecimento ambiental despertados com a aula de campo.


          A motivação acompanha o conhecimento biogeográfico do meio ambiente

         Uma saída a campo constitui um elemento fundamental para dinamizar o ensino da
biogeografia e integrar os alunos nas questões ambientais, pois a diversidade de elementos
encontrados no espaço observado influencia na curiosidade do aluno e na aprendizagem de coisas
novas, assim como favorece o diálogo e uma melhor relação entre professores e alunos.
         “O dia da saída em geral é uma festa; a alegria de uma aula fora das quatro paredes é
sempre vivida com muito entusiasmo” (MARTINS, Ano 3, nº 14, p. 63). Por situar-se próximo à
escola, o percurso da aula de campo foi realizado através de caminhadas desde o inicio. Era notável
a ansiedade dos alunos e a curiosidade em aprender mais sobre os elementos observados:
“professor, que árvore é aquela?”; “a qual classificação pertence àquela árvore?”; “professor, por
que as árvores da caatinga perdem as folhas durante a estação seca?”; “professor, ali tem um cácto,
ele é da caatinga, não é?”. “Sair do ambiente escolar, por si só, gera um efeito geralmente positivo
sobre o interesse dos alunos pelo conteúdo” (FARINA e GUADAGNIN, 2007, p. 111).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                           154

          No campo eram colhidas amostras de folhas e galhos de plantas, sendo explicado aos
alunos algumas características que as classificassem como pertencentes a caatinga ou a mata
                                                               pertencentes
tropical. Também foi esclarecido aos alunos que a intervenção humana nesses biomas com práticas
de queimadas e derrubadas da vegetação nativa vem a cada dia pondo em risco as espécies de seres
vivos que dependem desse ambiente para sobreviver. Ao observar o açude notava
                              ambiente                                      notava-se que haviam
resíduos sólidos depositados no mesmo (isopor, garrafas pet, sacolas plásticas), e este problema
servia de base para explicar aos alunos sobre as conseqüências da degradação do meio ambiente
para o ser humano.
          As atividades realizadas no decorrer da aula de campo demonstraram satisfatórias junto
                                                                demonstraram-se
aos objetivos preestabelecidos. É de se concordar que:

           Além da fuga das paredes escolares (fundamental, sadia e necessária), que já serve como uma mo
                                                                                                       motivação para
o trabalho e para o surgimento de interesse, o estudo de caso específico tem como retorno imediato a atribuição de
significado ao conteúdo que esta sendo estudado (FARINA e GUADAGNIN, 2007, p. 118).
                onteúdo

              A aula de campo é um componente didático que não tem como ser separado da
                                                       que
sensação de lazer, ansiedade, angústia e novidade.
                  É nessa perspectiva que considero importante sair do espaço escolar, mais formal, com papeis
        definidos e cadeiras ordenadas, para um local que nos permita desfrutar emoções compartilhar, cantar, rir,
                                                                                emoções,
        quem sabe proporcionar um novo olhar ao que já está dado (MATHEUS, 2007, p. 142)
                                                                                     142).

         Através destas atividades observou-se que as aulas de campo despertam a motivação do
                                            se
aluno e contribuem para aproximar o mesmo do conhecimento biogeográfico, ou seja, ambiental
                                                                          ,         ambiental.
         Tanto nas discussões em sala de aula, como no questionário, ao questioná
                                                                     ao questioná-los sobre o que
eles mais gostaram na aula de campo, obteve se como resultado respostas bem diversificadas, desde
                                     obteve-se
a análise da paisagem, observar a natureza, os animais e as espécies vegetais, até respostas
                                     natureza,
relacionadas a aspectos emocionais como diversão e tranquilidade, conforme aparece no gráfico I:
                         mocionais                 tranquilidade,




          Gráfico I: Frequência de justificativas apresentadas pelos alunos com relação à seguinte questão: “O que
                          ência
você mais gostou na aula de campo?”

         No questionário foi elaborada uma questão para analisar quais os aspectos da paisagem
observada atraiu mais a atenção do aluno: “V cê achou o lugar visitado: feio ( ); bonito ( ); por
                                          “Você
quê? 31 alunos responderam que acharam o lugar bonito e apontaram diversas justificativas:
“porque é um lugar calmo, cheio de plantas e animais”; “porque é uma paisagem natural e
tranquila”; “por causa da natureza”; “porque o açude é enorme e tem muitas árvores” 2 alunos
                   usa                                                        árvores”.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                       155

consideraram o lugar feio e apontaram a poluição do açude como fator fundamental para suas
conclusões: “porque o açude estava poluído”; “porque havia lixo no açude”.
               A partir do observado evidenciou-se a importância da utilização das aulas de campo
                                                   se
para estabelecer uma relação entre teoria e prática, permitindo aos alunos vivenciarem aquilo que
foi prescrito em sala de aula, comprovando as diferenças e semelhanças da realidade biogeográfica
dos lugares visitados, aproximando, portanto, o alunado dos temas expostos.
          Desta forma, foram elaboradas mais três questões para analisar o aproveitamento e
assimilação dos conteúdos pelos alunos.
          Ao questioná-los: “Quais os elementos do conteúdo visto em sala de aula você observou no
                                                     conteúdo
decorrer da aula de campo?”, 26 alunos conseguiram estabelecer de forma coerente a relação entre a
teoria pressuposta em sala de aula com a aula prática desenvolvida no ambiente extra
         essuposta                                                                 extra-escolar: “as
plantas da caatinga e da mata atlântica: cajueiro, jurema, juazeiro”; “plantas caducifólias, xerófitas,
               inga
árvores da mata atlântica”; “árvores caducifólias como a jurema preta e a sabiá”; “as plantas da
                                rvores
caatinga como o cácto que tem espinhos no lugar de folhas”; “a degradação do meio ambiente, as
                    cto                                             degradação
árvores da caatinga e da mata atlântica”.
          De acordo com Alves (2008 p. 63), as espécies vegetais da depressão sublitorânea (na qual
                                (2008,       ),
Sertãozinho faz parte) mostram se acatingadas, com a maioria das espécies caducifólias e
                          mostram-se
espinhosas. E ainda ressalta: Ao lado das espécies da caatinga, encontra-se espécies da mata úmida,
           s.
o que talvez indique o seu caráter de transição entre esses biomas.
                        eu
          No questionário foi solicitado que os alunos caracterizassem as espécies da caatinga e da
mata atlântica e depois dessem alguns exemplos: 22 alunos caracterizaram as espécies da caatinga e
deram exemplos: “tem espinhos e folhas pequenas. O juazeiro e a jurema preta”; “tem espinhos e
algumas não tem folhas como o mandacaru”; “a jurema e a sabiá, porque tem espinhos e perdem as
                                                                    porque
folhas no verão”; 9 alunos deram apenas os exemplos e 2 alunos deixaram a questão em branco.
          Com relação à mata atlântica, 18 alunos caracterizaram as espécies de forma coerente: “o
cajueiro porque é perenifólia e tem as folhas grandes”; “tem folhas grades e são verdes o ano
                                                  grandes”;
inteiro, por exemplo: o cajueiro e o pau d’arco”; “elas são grandes e sempre verdes como o pau
d’arco e o pau-brasil”; 7 alunos deram apenas os exemplos e 8 responderam de forma incorreta ou
deixaram a questão em branco.



                                22
                                       18

                                                        9                              8
                                                               7
                                                                                 2


                           Caracterizaram as      Deram apenas os        Deixaram a questão em
                          espécies de forma          exemplos                  branco ou
                          correta e deram os                             responderam de forma
                               exemplos                                         incorreta


             Gráfico II – Comparação das respostas sobre a caracterização das formações vegetais: caatinga e mata
atlântica.

        Como se pode observar no gráfico II, houve uma diferença no número de respostas correta
com relação às características da caatinga e da mata atlântica. De certa forma, no ambiente da aula
                                  caatinga
de campo havia uma maior ocorrência em número e diversidade de espécies da caatinga que da
mata tropical, o que talvez tenha influenciado nas respostas. Alguns alunos inclusive deram
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                            156

exemplos de espécies da mata atlântica que não estavam presentes no lugar observado, como o pau-
brasil (Caesalpinia echinata) e a pitombeira (Talisia esculenta).

         A aula de campo: uma atividade complementar
         Por tudo o que foi mencionado, torna-se conveniente considerar a educação ambiental
como uma dos temas interdisciplinares mais adequadas para a utilização das aulas de campo como
metodologia de ensino. Se esse método desencadeia diversos aspectos positivos – relacionam a
teoria com a prática, proporciona uma melhor compreensão do espaço, quebra a rotina dos estudos,
motivam o interesse pelo tema em questão – é adequado que o educador passe a utilizar mais as
aulas de campo para minimizar a banalização das questões ambientais na sociedade, bem como na
comunidade escolar.
         Entretanto, vale salientar que apenas as aulas de campo não são suficientes para despertar o
interesse do aluno pela preservação ambiental, a integração das disciplinas/áreas do conhecimento,
exerce papel crucial nesse despertar.
                   Para isso, a preocupação ambiental inserida nas várias áreas do saber é decisiva. [...] As áreas de
        Ciências Naturais, História e Geografia são as tradicionais parceiras para o desenvolvimento dos conteúdos
        aqui relacionados, pela própria natureza dos seus objetos de estudos. Mas as demais áreas ganham importância
        fundamental, pois, cada uma, dentro da sua especialidade, pode contribuir para que o aluno tenha uma visão
        mais integrada do ambiente (BRASIL,1998, p. 194).

          A sala de aula é o lugar em que o educador convive com seus alunos, é a partir desse
ambiente que o professor deve compartilhar com os estudantes o conhecimento ali (no campo)
desenvolvido.
          O professor deve transformar a aula em um espaço aberto para o diálogo, as discussões, as
críticas e reflexões dos alunos diante dos temas abordados, bem como “fazer com que o aluno
perceba qual a importância do espaço, na constituição de sua individualidade e da(s) sociedade(s)
de que ele faz parte (escola, família, cidade, país, etc.)” (KAERCHER 2004, p. 223), obtendo assim,
resultados mais significativos no desenvolvimento do interesse do aluno pelo meio ambiente.

          Considerações finais
          As contribuições que as aulas de campo proporcionam ao trabalho do professor e o auxílio
que elas propõem para a compreensão dos conteúdos pelos alunos, demonstram que esse método
deveria ser mais usado nas instituições de ensino para aumentar a valorização dos conteúdos – em
particular a educação ambiental - abordados nas salas de aulas.
          As inovações associadas à interdisciplinaridade são muito proveitosas para que o estudante
compreenda os assuntos de forma mais agradável e satisfatória. As aulas de campo, como
alternativa de inovação e interdisciplinaridade, ajudam o aluno a analisar e refletir sobre a
interferência humana no meio ambiente que o cerca, contribuindo para desenvolver a capacidade de
interagir com o conhecimento e com a vida em sociedade. Por isso é de fundamental importância o
desenvolvimento de iniciativas que dotem as instituições de ensino de capacidade técnica e de
infraestrutura adequada para realização dos trabalhos de campo.
          Somando a vontade e determinação dos professores com os diversos métodos e inovações
que motivam os alunos a conhecer melhor o meio ambiente, esse tema tende a se tornar um dos
mais interessantes, admirados e respeitados pelos alunos em todos os estágios de ensino.

        REFERÊNCIAS
        ALENTEJANO, Paulo R. R.; ROCHA-LEÃO, Otávio M. Trabalho de campo: uma
ferramenta essencial para os geógrafos ou um instrumento banalizado? In: Boletim Paulista de
Geografia: trabalho de campo, nº 84. São Paulo: AGB, 2006; pp. 51-67
        ALVES, J. J. Amâncio. Biogeografia. João Pessoa; Ed. Do Autor, 2008
        BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências Naturais. Secretaria de Educação
Fundamental – Brasília: MEC/SEF, 1998
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         157

          _________. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais:
terceiro e quarto ciclos: Apresentação dos temas transversais – Brasília: MEC/SEF, 1998
          FARINA, B. C.; GUADAGNIN, F. Atividades práticas como elementos de motivação para
a aprendizagem em geografia ou aprendendo na prática. In: REGO, N.; CASTROGIOVANNI, A.
C.; KAERCHER, N. A. (ORG.). Geografia - práticas pedagógicas para o ensino médio. Porto
Alegre: Artmed, 2007; pp. 111-119
          KAERCHER, N. A. O gato comeu a geografia crítica? Alguns obstáculos a superar no
ensino-aprendizagem de geografia. In: PONTUSCHKA, N. N.; OLIVEIRA, A. U. de (ORG.).
Geografia em perspectiva: ensino e pesquisa. 2ª ed – São Paulo: Contexto, 2004; pp. 221-231
          LACOSTE, Yves. A pesquisa e o trabalho de campo: um problema político para os
pesquisadores, estudantes e cidadãos. In: Boletim Paulista de Geografia: trabalho de campo, nº 84.
São Paulo: AGB, 2006; pp. 77-92
          MARTINS, Dadá. Além dos muros da escola: como o estudo do meio pode ajudar na
propagação do conhecimento. In: Discutindo geografia, ano 3, nº14. Escala Educacional; pp. 62-63
          MATHEUS, E. H. C. O que há por trás de uma panela? Uma atividade de campo como
trajetória a um olhar geográfico. In: REGO, N.; CASTROGIOVANNI, A. C.; KAERCHER, N. A.
(ORG.). Geografia - práticas pedagógicas para o ensino médio. Porto Alegre: Artmed, 2007; pp.
135-148
          TRICART, Jean. O campo na dialética da Geografia. In: Associação de Geógrafos
Brasileiros – AGB. Reflexões sobre a Geografia. São Paulo: AGB, 1980; pp. 97-119
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                          158

       O USO DE CARTILHA COMO INSTRUMENTO DE
   INFORMAÇÃO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SANITÁRIA
  DIRECIONADO À COMUNIDADE TRADICIONAL DA APA DO
        MARACANÃ NO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS/MA

                                                                                           Luciana da Silva BASTOS
                                                                                         lucianabastos79@gmail.com
                                                                                      Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA
                                                                                               thais.eline@gmail.com
                                                                                        Lorena Santos GONÇALVES
                                                                                       lorenaangitur@hotmail.com.br
                                                                                         Hadryan Lima RODRIGUES
                                                                                           hadryan11@yahoo.com.br
               Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / 2
     Curso de Especialização em Educação Ambiental da UEMA - Departamento de Química e Biologia, Universidade
     Estadual do Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil.

          RESUMO
          A Área de Proteção Ambiental do Maracanã, constitui-se em Unidade de Conservação de
Uso Sustentável, abrangendo cerca de 1.8131 hectares (VASCONCELOS, 1995). A APA do
Maracanã, a exemplo de reservas extrativistas do norte do país, pode se aproveitar da exploração da
Euterpe oleracea Mart., a juçara, como atrativo turístico, pois o modo de extração e preparação da
bebida típica desta fruta é conhecido por grande parte da população, principalmente, na ocasião da
Festa da Juçara (MENDES, 2007). O objetivo desse trabalho é realizar ações de Educação
Ambiental com produtores do vinho da juçara do Parque da Juçara na APA do Maracanã, São Luis
– MA, utilizando como instrumento didático-pedagógico uma cartilha educativa sobre as boas
práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados. A
cartilha Saiba como preparar a Juçara abordou os seguintes temas: Perigos na produção do vinho de
juçara (doença de chagas, doenças de transmissão hídrica), e as Boas práticas na produção do vinho
de juçara - Passo a passo como produzir vinho de juçara com qualidade (Colheita, debulha,
armazenamento, transporte, processamento da juçara, acondicionamento e coleta de resíduos,
manipuladores). Sugeriram-se também algumas dicas visando os cuidados na lavagem de
reservatórios e como lavar as mãos.
          PALAVRAS-CHAVE: Festa da Juçara, cartilha educativa, Educação, APA do Maracanã.

         ABSTRACT
         The Environmental Protection Area of Maracana, it constitutes a Conservation Unit of
Sustainable Use, covering approximately 1.8131 hectares (Vasconcelos, 1995). APA Maracana, the
example of extractive reserves in the north, can take advantage of the exploitation of Euterpe
oleracea Mart. The juçara, as a tourist attraction, because the mode of extraction and preparation of
the typical drink of this fruit is known by most population, mainly in the Feast of Juçara (MENDES,
2007). The aim of this work is to perform actions on Environmental Education with wine producers
of the juçara Park Juçara the APA Maracanã, São Luis - MA, using as didactic and pedagogic an
educational booklet on good hygiene and sanitary practices in handling and marketing the juçara
and its derivatives. The booklet Learn how to prepare the Juçara covered the following topics:
Dangers in the production of wine juçara (Chagas' disease, waterborne diseases), and Best practices
in wine production juçara - Step by step how to produce wine with juçara quality (Harvesting,
threshing, storage, transportation, processing juçara, packaging and collection of waste handlers). It
also suggested some tips aimed at the care and cleaning of reservoirs such as hand washing.
         KEYWORDS: Festival Juçara, educational booklet, Education, APA Maracana.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          159

         1 INTRODUÇÃO
                     Uma Área de Proteção Ambiental (APA) é em geral extensa, com um certo
grau de ocupação humana, dotadas de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais
especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem
como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e
assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. (Legislação Brasileira do Meio Ambiente,
2002).
               A Área de Proteção Ambiental do Maracanã, constitui-se em Unidade de
Conservação de Uso Sustentável, abrangendo cerca de 18.131 hectares (VASCONCELOS, 1995).
A APA do Maracanã, a exemplo de reservas extrativistas do norte do país, pode se aproveitar da
exploração da Euterpe oleracea Mart., a juçara, como atrativo turístico, pois o modo de extração e
preparação da bebida típica desta fruta é conhecido por grande parte da população, principalmente,
na ocasião da Festa da Juçara (MENDES, 2007).
         A Festa da Juçara surgiu em 1970, idealizada pela então secretária de educação e ação
comunitária da prefeitura de São Luís e engenheira agrônoma Rosa Mochel, moradora do bairro
Maracanã situado na zona rural de São Luis – MA. Ao observar a abundante produção de juçara no
local e seu pequeno mercado consumidor, insuficiente para o escoamento de toda a produção, Rosa
Mochel resolveu organizar uma festa que acabasse com esse problema e pudesse trazer uma renda
extra para a população local. Em outubro desse mesmo ano realizou-se a primeira Festa da Juçara.
Em 2009 a festa comemora a sua 39ª edição.
         O Parque da Juçara possui uma área total de cinco hectares com a presença de trinta e três
barracas de alvenaria.
         É válido ressaltar que o trabalho do manipulador de alimentos é fundamental para garantir
produtos mais seguros e proteger a saúde dos consumidores, sendo importante investir em ações
contínuas de Educação Sanitária e Ambiental com esse público específico. Assim, torna-se
indispensável uma cartilha didática significativa, capaz de sensibilizar as pessoas que manipulam a
juçara, desde o momento da coleta do fruto até o momento da destinação final do vinho ao
consumidor, reconhecendo boas práticas.
         Nunes (2004) ressalta que a educação Ambiental é uma aliada fundamental no processo de
conscientização individual e coletiva, comprometida com a realidade vivenciada, na busca de
mudanças comportamentais que garantam a sustentabilidade da vida.
         De acordo com Teixeira (apud BRASIL, 2001, p.3) “a informação representa um fator
fundamental para identificar, prevenir, mitigar e reverter efeitos adversos que comprometem a
saúde e o bem-estar das comunidades”.
         Dias (apud COSTA, 2003, p.26), refere-se à educação ambiental como uma forma de
prática educacional sintonizada com a vida da sociedade e, só pode ser efetiva, se todos os membros
da sociedade participarem, de acordo com suas habilidades, das completas e múltiplas tarefas de
melhoria das relações das pessoas com seu ambiente.
         Esse trabalho objetivou realizar ações de Educação Ambiental com produtores do vinho da
juçara do Parque da Juçara na APA do Maracanã, São Luis – MA, utilizando como instrumento
didático-pedagógico uma cartilha educativa sobre as boas práticas higiênico-sanitárias na
manipulação e comercialização da juçara e seus derivados.

         2 PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS
         A ação educativa desenvolvida realizou-se através de entrega de cartilha educativa sobre
boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados e
conversa informal com cada barraqueiro.
         Na escolha da cartilha como forma de repassar as informações foram levados em
consideração: A necessidade de material gráfico a ser utilizado nas atividades profissionais
realizadas e o fato de a cartilha oferecer além da linguagem escrita, uma linguagem visual de fácil
entendimento do conteúdo do leitor. A utilização de ilustração permite o envolvimento dos
manipuladores com o texto, tornando prazerosa a aquisição destas informações, atraindo assim a
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          160

atenção destes leitores. O cuidado com esses detalhes teve como objetivo a fácil leitura e
entendimento do texto.
         A cartilha Saiba como preparar a Juçara foi elaborada destinada aos produtores do vinho da
juçara e vêm justamente com a intenção de possibilitar a esse público conhecimentos básicos e
importantes sobre boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e
seus derivados. Nesse contexto, enfocou-se os seguintes temas: Perigos na produção do vinho de
juçara (doença de chagas, doenças de transmissão hídrica), e as Boas práticas na produção do vinho
de juçara - Passo a passo como produzir vinho de juçara com qualidade de acordo com o
fluxograma a seguir.

          FLUXOGRAMA

                                                     Colheita



                                                     Debulha



                                                  Armazenamento



                                                    Transporte



                                              Processamento da juçara



                                                 Acondicionamento



                                                 Coleta de resíduos



                                                   Manipuladores


         Sugeriram-se também algumas dicas visando os cuidados na lavagem de reservatórios e
como lavar as mãos.
         Na confecção da cartilha foram utilizados o formato 16 (15x21cm), encadernação tipo
canoa, colorida (policromia), com 20 páginas.
         Neste cenário, a Educação Ambiental e Sanitária tem um papel importante a exercer
sensibilizando para a importância da adoção de boas práticas, quebrando o distanciamento entre
sujeito e objeto da pesquisa, partiu-se da realidade local para a elaboração da cartilha, como
instrumento educacional.

        3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
        Dentre os instrumentos atualmente utilizados como veículos na transmissão de informação
que possam conscientizar, sensibilizar e promover reflexão das pessoas,as cartilhas tem merecido
destaque, uma vez que de uma forma prática e concisa, conseguem transmitir de maneira agradável
os conhecimentos básicos sobre o assunto.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           161

         Considerando a importância da implantação de boas práticas higiênico-sanitárias na
manipulação e comercialização de suco de juçara, a suspeita de ocorrência de surto de Doença de
Chagas Aguda transmitida por alimentos contaminados com Trypanosoma cruzi e a característica
altamente perecível do fruto, elaborou-se essa cartilha trazendo informações úteis que vão ajudar os
comerciantes e manipuladores a produzir esses alimentos mais seguros e de forma a prevenir
possíveis danos à saúde dos consumidores.




          Figura I – Capa da cartilha

         O ministério da Educação (2001b) ressalta que, embora recomendada por todas as
conferências internacionais, exigida pela constituição e declarada como prioritária por todas as
instancias do poder, a Educação Ambiental está longe de ser uma atividade tranquilamente aceita e
desenvolvida, porque ela implica mudanças profundas e nada inócuas. Ao contrário, quando bem
realizada, a Educação Ambiental leva a mudanças de comportamento pessoal e a atitudes e valores
de cidadania que podem ter fortes conseqüências sociais.
         Nesse ponto é importante ressaltar que atingir o grande público no que se refere ao
conhecimento sobre boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e
seus derivados da comunidade tradicional da APA do Maracanã e, portanto, da Educação
Ambiental, só será possível se recorrermos a grupos de ligação, grupos diferenciados por sua
ligação social e profissional como indicam ZIAKA et al. (2003). Assim, é importante a
continuidade de ações educativas na área, visando à qualidade de vida dos produtores e
consumidores dessa festa.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           162

         4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
         A discussão em torno dos conteúdos a constar na cartilha, dentro da concepção de
investigação-ação, mostrou-se essencial por permitir discutir e esclarecer à comunidade o quanto é
importante adotar as boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara
e seus derivados, além de contribuir para a construção de conhecimentos individuais e coletivos,
culminando em ações conjuntas na busca de melhoria qualidade de vida da comunidade.
         Com a realização deste trabalho, pode-se perceber que a cartilha é um instrumento que
pode ser utilizado pela comunidade em geral visto que esta iniciativa é de fundamental importância
para a compreensão de temas relevantes que necessitam de maior atenção.
         A festa da Juçara reúne centenas de pessoas de todos os bairros de São Luís, além de
alguns turistas de outras regiões do país, portanto, tornou-se necessário um trabalho de prevenção e
orientação dos barraqueiros e demais profissionais que atuam na área durante a realização do
evento, no que se refere às boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da
juçara e seus derivados.

         REFERÊNCIAS
         MENDES, Edijanne R.; RIBEIRO, Érika F. V.; ROCHA, Ariadne E. Florística e
fitossociologia das Trilhas ecológicas da APA Maracanã, Ilha de São Luís – MA. Disponível
em: <http://www6.ufrgs.br/seeragroecologia.pdf>. Acesso em: 13 mai 2009.
         MINISTERIO DA EDUCAÇÃO. Parâmetros Curriculares Nacionais: Meio
Ambiente/Saúde. Secretaria de Educação, Fundamental, 3ªed. Brasília, DF. 2001b. 128p.
         NUNES, Ana Tereza de Sousa. ÁGUA: O bom uso começa em casa. 2004. 24f.
Monografia (Especialização em Educação Ambiental) – Universidade Estadual do Maranhão, São
Luis, 2004.
         SILVA, F.H.C. Educação Ambiental enfocando o desperdício de papel na sala de aula
de professores do UniCEUMA. 2003. 55f. Monografia (Graduação em Ciências Biológicas –
Curso de Ciências Biológicas). Centro Universitário do Maranhão, São Luis, 2003.
         VASCONCELOS, Janete Rodrigues de. Maracanã para todos: uma proposta de
desenvolvimento sustentável para a Área de Proteção Ambiental da Região do Maracanã.
UEMA/ CTDS. São Luís, 1995.
         ZIAKA, Y.; SOUCHON, C.; ROBICHON, P. Educação ambiental: seis proposições
para agirmos como cidadãos. São Paulo: Instituto Polis, 2003. 216p. (Cadernos de proposição
para o século XXI, 3).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                        163

   OS REFLEXOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA INSPEÇÃO
                      VEICULAR

                                                                                   Evandro OLIVEIRA SANTANA
                                                                  (Professor) FJAV - Faculdade José Augusto Vieira
                                                                                        Evandro_se@yahoo.com.br
                                                                            José Aldemar dos SANTOS ANDRADE
                                                                                       Ademário ALVES SANTOS
                                                                (Orientador) FJAV - Faculdade José Augusto Vieira
                               Praça Nossa Senhora Aparecida, s/n, Bairro Cidade Nova. CEP: 49400-000 Lagarto-SE

          ABSTRACT
          The environmental education is a present subject in all possible discussions. It is objective
of speech in parliament; it is also objective of academics approaches and informal talks in any place
on the planet. When we discuss about its importance we usually remember to destruction of the
forests, rivers and streams and its risings, like this we usually remind to the sanitary embankments
and the inadequate use of the solid residues. But is not common, in spite of being of extreme
importance, to link the environmental education the vehicular inspection, because when we link
environmental education to the world of the automobiles, we just remembers to the pollution
provoked by the liberation of the monoxide of the carbon in the atmosphere, among other, but the
agents traffic performance in the sense of the action against the abuses, is not at least associated the
a subject of environmental education.
          KEYWORDS: Education, inspection and traffic.

         RESUMO
         A educação ambiental é assunto presente em todas as discussões possíveis. É alvo de
discurso no parlamento, é alvo de abordagens no plano da academia, é alvo também de conversas
populares em qualquer lugar do planeta. Quando se trata de discutir sua importância, comumente é
vista quando se recorda a destruição das matas, os assoreamentos dos rios, a destruição das
nascentes de rios e riachos, os aterros sanitários, o uso inadequado de resíduos sólidos e por diante.
O que não é comum, apesar de ser de extrema importância, é vincular a educação ambiental a
inspeção veicular, pois o que se constata é que, quando se relaciona educação ambiental ao mundo
dos automóveis, lembra-se apenas da poluição provocada pela liberação do monóxido do carbono
na atmosfera, dentre outros, mas a atuação dos agentes de trânsito no sentido de coibir os abusos,
não é sequer associada a uma questão de educação ambiental.
         PALAVRAS-CHAVE: educação, inspeção e trânsito.

          INTRODUÇÃO
          Percebe-se que de um modo em geral, os países desenvolvidos ou do norte foram os
pioneiros no tocante aos problemas direcionados às questões ambientais. Com a preocupação
veicular ambiental, também não foi diferente. Há uma larga tradição dos moradores das cidades dos
países desenvolvidos em cobrarem o cumprimento das leis sejam elas quais forem. O exercício da
cidadania dá-se mediante a relação que as pessoas mantêm com o público no sentido de fazer valer
aquelas conquistas que demoraram, muitas vezes, séculos para se conseguir.
          Nos países subdesenvolvidos, nota-se o quanto tais atitudes demoram a serem postas em
prática, não por falta de conhecimento de tais problemas, mas por uma lógica capitalista insensível
à necessidade de se usar os recursos naturais disponíveis em seu meio de vivência de forma
ecologicamente correta.
          No Brasil, por exemplo, mesmo se tendo conhecimento da realidade depredadora dos
espaços urbanos e rurais de seu território, verifica-se que apenas no início da década de 80, quando
o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), mais precisamente em 31 de Agosto de
1981, no uso de suas atribuições, passou a vigorar a lei 6.938, a regulamentada pelo decreto número
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           164

99.274, de 06 de Junho de 1990 e suas alterações, tendo em vista o disposto em seu regimento
interno e considerando que a emissão de poluentes por veículos automotores contribui para a
contínua deterioração da qualidade do ar, especialmente nos grandes centros urbanos.
          Em Sergipe, a realidade vinculada à temática para a inspeção veicular não é diferente, uma
vez que se determinam ações voltadas para organizar o trânsito em si, com orientações e aplicações
de multas, sem de fato preocupar-se com as emissões de poluentes oriundos da queima de
combustíveis fosseis, emitidos pelos escapamentos dos automóveis e meios de transportes como um
todo. Com se diagnostica, conseqüentemente, que não há também preocupação com a qualidade do
ar que respiramos e as possíveis doenças respiratórias, originadas pela péssima qualidade do ar, que
a cada dia se multiplicam os números de pessoas acometidas com doenças respiratórias.
          Lagarto, município localizado na região centro-sul de Sergipe, é um dos municípios que
apresenta um fluxo de veículos em crescimento e que, senão forem adotadas medidas importantes,
tende apresentar sérios problemas relacionados aos resíduos tóxicos liberados no ar pela frota de
veículos. De acordo com as informações obtidas junto aos órgãos que fiscalizam e regulam as
atividades relacionadas à circulação de veículos, o referido município apresenta uma inspeção
veicular restritamente direcionada à orientação dos condutores de veículos e à aplicação de multas,
ambas voltadas com certa preocupação de evitar acidentes no trânsito e de angariar recursos
financeiros para abastecer os cofres públicos.
          Diante dessa realidade, faz-se necessário com uma certa urgência a devida aplicabilidade
da lei número 6.938, determinada pelo CONAMA, bem como, as políticas públicas de trânsito,
direcionadas à sensibilização e atuação dos proprietários de veículos particulares, empresas de
ônibus, moto taxi, taxistas, caminhões, carretas e veículos de cargas em geral, para que, juntos,
possam circular pelas rodovias e centros urbanos sem poluírem com tanta agressividade o ar.
          A referida pesquisa pode apontar que a forma pela qual a inspeção ambiental veicular é
conduzida sinaliza para uma interpretação da qualidade da educação (consciência) ambiental em
Sergipe. Para isso, procura-se a consistência numa iniciativa que, envereda na busca por retratar o
panorama das questões que envolvem as políticas públicas voltadas para a inspeção ambiental
veicular em Sergipe e todos os agentes envolvidos com a finalidade de proporcionar a sociedade
sergipana um diagnóstico que se aproxime o quanto possível, da real situação no Estado.
          A pesquisa em tela proposta procura compreender de que forma o povo e as instâncias
envolvidas com as questões de trânsito buscam outras posturas, através de novos comportamentos
sociais, de se relacionar com a problemática do trânsito. Não se omite quanto às questões clássicas
de educação ambiental e para tanto considera a emissão de poluentes no meio ambiente sergipano
como um dos itens que merecem redobradas atenções. Dessa forma, convém ressaltar o necessário
desenvolvimento deste trabalho, pois viabiliza a sociedade civil e jurídica o despertar por uma
educação ou reeducação nas ações relativas à sustentabilidade ambiental sem descartar a
importância do trânsito, também por não acarretar danos ao meio natural e à saúde da população.
          A pesquisa, além do custo social e da proteção ambiental, possibilita transformar-se em
material de estudo para a comunidade sergipana; aos pesquisadores, acadêmicos, estudantes em
geral e demais seguimentos afins; bem como, serve de documento e instrumento revelador de um
fato concreto que urge por iniciativas mais eficazes dos órgãos e personagens responsáveis.

         OS TRÂMITES PARA A REALIZAÇÃO DA VISTORIA DOS VEÍCULOS E A
FISCALIZAÇÃO VOLTADA PARA A INSPEÇÃO VEICULAR
         A educação no Brasil para onde quer que se olhe fornece numerosas condições precárias.
Esta precariedade se reflete nos números que o país apresenta anualmente, os quais dizem um pouco
da qualidade de vida da população. São gigantescos os desafios que o Brasil tem pela frente para
transformar esta realidade cruel. Há quem aponte no mínimo quarenta anos investindo
ininterruptamente (UNESCO, 1997). O que se percebe é que apesar do país investir quantias
significativas do PIB – Produto Interno Bruto – em educação, quando se vão olhar os resultados, os
números nos envergonham. O que diria daqueles setores vistos de forma separada? Como está a
educação ambiental do brasileiro? Como anda a educação no trânsito? De que forma está a
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             165

educação do brasileiro quando medida pela higiene e pelos cuidados em manter o patrimônio
público? Estas são questões que nos remetem a outro desafio: compreender de que maneira a
educação de um modo em geral influência em todas as demais instâncias da vida civilizada. Como
esta opção é praticamente impossível, nos resta observar, a partir da relação com o trânsito, como o
brasileiro, que vive aqui em lagarto, situa-se nesta temática.
          Conforme informações obtidas junto a Policia Rodoviária do Estado de Sergipe, detecta-se
que há uma fiscalização constante voltada para segurança no trânsito e ações direcionadas às
questões ilícitas de um modo geral. Porém, fiscalização relativa à inspeção veicular de cunho e
sensibilização ambiental, não. Segundo alguns motoristas de ônibus interestadual a abordagem das
blitz da Polícia Rodoviária Federal é para observar, juntamente com outros órgãos, responsáveis
como o DETRAN, a quantidade de passageiros, se o carro está com pneus adequados para circular,
se o uso de cintos de segurança é feito, utiliza-se, às vezes, o teste do bafômetro para fiscalizar e
punir motoristas embriagados nas rodovias. Nota-se também uma preocupação com a manutenção
do tacógrafo para verificar se há excesso de velocidade e se as condições dos veículos estão boas
para seguir viagem.
          Percebe-se que por parte dos donos de ônibus e outros veículos há uma preocupação com a
manutenção dos veículos para não provocarem acidentes e no caso dos ônibus para garantir um
melhor atendimento aos clientes, mas não objetiva diretamente os cuidados necessários, como a
qualidade do ar, com a redução de poluentes na atmosfera. Além disso, poucos ônibus e veículos
têm o saco plástico no seu interior para a coleta de lixo, com isso, passageiros e condutores em geral
lançam os resíduos sólidos nas Rodovias Federais, Estaduais e Municipais; nas ruas e avenidas das
cidades; e nas estradas e rodovias da zona rural; agregando à emissão de dióxido de carbono na
atmosfera, uma enorme e diversificada quantidade de lixo que contribui negativamente para a
qualidade de vida, uma vez que tais resíduos entopem bueiros, contamina as águas e o solo, além de
provocar outro tipo de poluição, a poluição visual.
          Segundo Adriano, motorista de ônibus da Empresa Coopertalse, ele se preocupa muito com
a manutenção do carro (mecânica, pneus, direção...); usa som baixo; atende bem aos passageiros;
paradas corretas e mais segurança para os clientes; limpeza do filtro de ar uma vez por mês, pois
não fazendo pode provocar falhas no veículo. Diz ainda que ao mesmo tempo em que conserva o
ônibus, contribui de forma indireta para diminuir a emissão de poluentes e que os novos veículos
são bem menos poluidores que os mais antigos.
          É correto afirmar que os veículos mais antigos são os mais poluidores. Nota-se, dessa
forma, um certo descaso dos órgãos responsáveis, principalmente no interior, com as medidas que
deveriam ser tomadas, nas doses de suas proporções, em relação ao cumprimento da lei, pois além
do alto índice de acidentes que os mesmos provocam, dizimando vidas, registra-se um aumento
significativo dos resíduos que não apenas comprometem o ar, mas desestabilizam os ecossistemas
quando objetos poluidores são lançados, sem mencionar a contribuição em grande escala para o
aquecimento global.
          De acordo com os agentes de trânsito dos Municípios de Aracaju e de Lagarto, no edital do
concurso o qual os mesmos foram submetidos para exercer a função, tem claramente que uma das
obrigações seria a inspeção veicular, utilizando aparelho devido para medir a emissão de poluentes
na atmosfera, porém não há aparelhos para os mesmos executarem a referida tarefa. Segundo eles,
apenas a Polícia Rodoviária Federal disponibiliza no Estado de Sergipe de tal aparelho. Nesse
sentido, percebe-se que mesmo disponibilizando do mencionado aparelho, nas blitz proferidas pela
Policia Rodoviária não há medição de índices de poluição e nem cobranças aos condutores de
veículos no sentido de minimizarem a emissão de poluentes no meio ambiente.
          O agente de trânsito Edivânio, diz que o governo deveria se preocupar com os órgãos
fiscalizadores no sentido de desenvolver práticas destinadas ao controle dos poluentes na atmosfera
e políticas públicas educativas para de fato surtir efeitos mais eficazes. O leque de obrigações dos
órgãos fiscalizadores é grande, no entanto, no caso de Sergipe, limita-se mais especificamente às
ações fiscalizadoras e punitivas. É a finalidade maior.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           166

          Constata-se de fato que as instâncias responsáveis pela inspeção veicular em Sergipe,
voltam-se, para galgar recursos financeiros para os cofres públicos, sem transformar tais recursos
em benefícios sociais coletivos. Essa é uma prática comum naqueles países que apresentam uma
estrutura arrecadadora de suprir apenas as necessidades coorporativas.
          Goldemberg (1999) argumenta que a questão da poluição do ar, seja pela emissão de gases
presentes, por exemplo, nos escapamentos de veículos, seja pela instalação de unidades industriais
sem a devida fiscalização ainda é um dos maiores desafios que o Brasil enfrenta. A deficiência de
projetos vinculados à temática educacional no Brasil, e de maneira especial em Sergipe, ainda é
algo insipiente. Em entrevista, um agente de trânsito relata que não há projetos de cunho educativo
voltados exclusivamente para a educação veicular ambiental. Em Sergipe, tanto para os críticos,
quanto para os especialistas, em especial, funcionários públicos envolvidos com a problemática do
trânsito, os governantes deveriam implantar a educação veicular ambiental desde a educação
infantil até o ensino médio, deveriam também exigir das autoescolas a obrigatoriedade de assumir
um papel dissipador em relação ao projeto educacional que tivesse como finalidade instruir os
condutores de veículos. Para estes, infelizmente existem no Brasil e em Sergipe autoescolas que
aceitam o pagamento pelas aulas sem que o aluno, e futuro motorista, tenha freqüentado como
deveria ser, quanto mais assumir outra responsabilidade (educação veicular ambiental).
          Observa-se, diante dessa vertente, que os governantes de todas as esferas de governo,
instâncias responsáveis, autoescola, indústrias automobilísticas e concessionárias de veículos
buscam dentro da lógica capitalista o acúmulo de capital sem a mínima preocupação com as
conseqüências da frota de automóveis que cresce significamente nas rodovias e ruas das cidades e
povoados do Estado em foco. Este fato confirma o pensamento de Harvey (2000) quando enfatiza
que a lógica do capital é a reprodução.
          Verifica-se que Lagarto e Aracaju sobressaem em relação aos demais municípios do
Estado de Sergipe que não implantaram a municipalização do trânsito, pois a capital, e o maior
município da região centro-sul do Estado, respectivamente, principiaram a fiscalização. Essa
fiscalização tinha inicialmente a intenção de ser orientadora e posteriormente punitiva como já
destacada antes, porém em todo o Estado não há preocupação e fiscalização de caráter ecológico ou
de sustentabilidade ambiental no trânsito. Na verdade, no Brasil há alguns casos isolados de Estados
que implantaram a lei nº 6.938, como por exemplo, São Paulo, Distrito Federal e alguns poucos
municípios do sul do País. Essa realidade confirma o pensamento de Correa (1996) ao enfatizar que
uma das principais formas de organizar o espaço é pela regulamentação de todas as atividades
presentes nas instâncias que respondem pela organização das atividades econômicas tuteladas pela
importância das leis.
          Por parte dos condutores de veículos não se percebe também qualquer preocupação. Como
o agente destaca a existência de veículos totalmente deteriorados em circulação, outros usando
irregularmente o gás de cozinha, que contribui para poluir de forma desenfreada ainda mais a
atmosfera, fazendo surgir com relativa freqüência às doenças respiratórias. O público que mais
abusa do vácuo, deixado pela completa ausência de fiscalização, é composto basicamente por
Jovens que abusam dos canos de descargas das motocicletas, o que acabam por provocar certo
incômodo aos moradores, que, por sua vez, reclamam da poluição sonora sem se deter das questões
ecológicas. Segundo Haguete (1994) quando os papeis são invertidos ou negligenciados sobra
somente o descaso. É este o descaso que se sustenta de um lado pelo não cumprimento das leis e de
outro pela própria precariedade das condições de civilidade que a educação promove.
          A comunidade, por sua vez, não costuma reclamar do incômodo causado pela destruição
ou depreciação dos espaços públicos, que servem para o lazer e para o divertimento das crianças,
quando isso acontece, no máximo, percebe-se uma voz indignada se levantar, o que, muitas vezes,
acaba sendo uma forma de exposição para quem costuma não aceitar as coisas como estão. Poucos
são aqueles moradores que procuram as autoridades para denunciar um comportamento acima ou
fora da lei. Por duas razões básicas: ou não vão ser atendidos dadas as condições de precariedade de
delegacias e demais órgãos responsáveis pela segurança, ou porque não acreditam mesmo nas
instituições públicas como promotoras da manutenção da lei e da ordem pública.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            167

         É interessante observar sobre esse ponto de vista o que nos foi relatado por um dos
agentes de trânsito: “Os incomodados reclamam da poluição sonora, questão ambiental,
preocupação nenhuma” (Edivânio – entrevista 2009). A preocupação do referido agente faz sentido
na medida em que as questões relacionadas às temáticas ambientais não estão apenas incluídas
naquelas que se sustentam na crítica ao lançamento de resíduos sólidos nos rios, riachos,
logradouros públicos etc., mas a toda uma série de fatores que refletem diretamente na qualidade de
vida dos moradores de uma comunidade qualquer (Alves, 2009).

          O PAPEL DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DE TRÂNSITO
          A educação poderia dizer tem dois papais simultâneos: educar e fazer o cidadão dono de si.
Alves (2008) enfatiza ainda, convém lembrar, que a expressão dono de si está diretamente
vinculada ao papel libertador da própria educação. Como os resultados positivos da educação é algo
que se conseguem com o tempo, a partir da execução de medidas corretas, deve-se esperar que estes
resultados, hoje desfavoráveis, possam ser modificados para melhores daqui a alguns anos, mas até
lá não resta outra alternativa senão a de exigir dos responsáveis o cumprimento dos dispositivos
constitucionais preconizados na legislação ambiental.
          Gonçalves (2001) pronuncia-se fazendo observações quanto ao lançamento de resíduos
tóxicos nos córregos e também do lançamento de dejetos de esgotos nos lixões das cidades, além de
toda a produção de elementos tóxicos presentes nos combustíveis queimados pelos veículos e
emitidos no ar sem qualquer fiscalização. Para ele, a atuação apenas dos órgãos públicos, sem a
participação da sociedade civil, não adianta visto ser muito difícil funcionar algo, que é coletivo,
individualmente. Para o referido autor, a situação da agroindústria canavieira em São Paulo
apresentou conquistas e avanços no sentido de se porem fim as práticas das queimadas para extrair a
cana.
          Alves (2009) ao observar a destruição da vegetação e a não tomada de consciência da
população em reivindicar a punição dos responsáveis, enfatiza que a proliferação de um
comportamento destrutivo e anti-social ganha força em sociedades com um largo perfil autoritário,
relata ainda a destruição de espécies antigas, presentes na formação da vegetação nativa no oeste
sergipano, e observa a importância da mediação dos educadores nas questões que tocam
diretamente nos problemas educacionais. Para isso, ele chama atenção para o papel da educação
como força libertadora indo de encontro ao pensamento de Freire (1986) que enfatiza que a
educação é a única forma de livrar os homens da opressão. E afirma que educar exige compromisso
e responsabilidade. Nesta freqüência, quando se avalia a participação dos moradores de Lagarto, nas
questões vinculadas ao trânsito em todas as suas formas legítimas, o que se denota é que nada
mudou. Só para se ter uma ideia, de acordo com os resultados obtidos numa ligeira amostragem,
86% da população tem sérias dificuldades em relacionar inspeção veicular às questões de saúde
ambiental.
          A inspeção dos veículos não é tarefa fácil também para que seja cumprida. Ainda que este
ou aquele agente diga que é possível realizar. Isto porque precisa de profissionais qualificados, que
identifiquem os veículos com problemas de emissão de ar, precisa-se também de um corpo de
funcionários que se identifique com o que faz. Por outro lado, necessita que a população colabore,
fazendo as denúncias e reconhecendo a importância do agente de trânsito, assim como outros
profissionais indispensáveis na formação de uma melhor convivência com as durezas da rotina de
quem passa horas por detrás de um volante.

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         A preocupação com a inspeção ambiental veicular teve sua origem nos países de
desenvolvimento, seja de maior sensibilização da sociedade ou por terem também iniciado a
deterioração e degradação das condições atmosféricas e da própria qualidade de vida.
         Notou-se que nos países menos desenvolvidos tais atitudes surgiram bem mais tarde e em
menores proporções. No Brasil apenas no final do século XX mais precisamente em 1981 é que
surge o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) é que se considera que a emissão de
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           168

poluentes por veículos automotores contribui para o continua deterioração da qualidade do ar,
especialmente nos centros urbanos.
         Considerou-se também a necessidade de contínua atualização do Programa de Controle da
Poluição do Ar por Veículos Automotores – PROCONVE; e considerou-se ainda, a produção
nacional e as importações de veículos automotores, juntamente com a necessidade de harmonização
tecnológica internacional, resolvem adequar à circulação de veículos e poluir menos o meio
ambientes. São Paulo é o estado brasileiro que mais busca seguir as novas exigências.
         No estado de Sergipe, observou-se que os governantes, os órgãos e os agentes responsáveis
pela inspeção ambiental veicular, também parte dos condutores de veículos e alguns membros da
sociedade, têm conhecimento da resolução do CONAMA e são sabedores dos problemas oriundos
pela emissão de gases poluentes por veículos, principalmente os mais antigos e em condições
irregulares de circulação pelas rodovias de todo o Estado, inclusive na capital. Quem primeiro
implantou o sistema de trânsito no Estado, porém até os dias atuais voltado apenas para a
fiscalização de caráter orientador e punitivo, sem ações direcionadas à proteção ambiental e melhor
qualidade do ar sergipano.
         Contudo percebeu-se a urgente necessidade de ações integradas de cunho educativo para
sensibilizar todos os seguimentos da sociedade sergipana na proteção da qualidade do ar; e que os
órgãos fiscalizadores façam com seriedade cumprimento das exigências do CONAMA.
         Portanto, nota-se de um modo em geral que, enquanto em Sergipe luta-se para iniciar o
cumprimento de uma lei existente há muito tempo, noutros estados, a exemplo de São Paulo, essas
questões vinculadas à inspeção já se encontram numa realidade bastante diferente da nossa ainda
que apresente também sérias dificuldades. Nos Estados Unidos, por exemplo, através da iniciativa
do governador da Califórnia, agora uma luta abraçada pelo atual presidente, que em acordo com
montadoras, ambientalistas e sindicalistas buscam inovações dessa lei, que em Sergipe, na prática
nem iniciou, para impor limites mais eficazes à emissão de gases, ou seja, produzir de fato o
chamado carro verde. É esperar para ver.

         REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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    PERCEPÇÃO DOS PESCADORES DO CABO DE SANTO
  AGOSTINHO SOBRE A ATIVIDADE PESQUEIRA FRENTE ÀS
         DRAGAGENS NO PORTO DE SUAPE (PE)

                                                                                       Christine Farias COELHO
           Laboratório de Nécton e Aqüicultura / IMAT, Departamento de Oceanografia, UFPE. Bacharel em Ciências
                                                                                                      Ambientais
                                                                                     chrisfcoelho@yahoo.com.br
                                                                                               Daniel Lino LIPPI
               Laboratório de Nécton e Aqüicultura / IMAT, Departamento de Oceanografia, UFPE. Bacharelando em
                                                                                              Ciências Biológicas
                                                                                      daniel_lippi@hotmail.com
                                                                                         Sidney Vieira da SILVA
          Laboratório de Nécton e Aqüicultura / IMAT, Departamento de Oceanografia, UFPE. Especialista em Gestão
                                                                                          de Ambientes Costeiros
                                                                                       sidneyvieira2@gmail.com
                                                                           Marcus Vinícius Bezerra dos SANTOS
          Laboratório de Nécton e Aqüicultura / IMAT, Departamento de Oceanografia, UFPE. Especialista em Gestão
                                                                                          de Ambientes Costeiros
                                                                                       vinymarcus@hotmail.com

          ABSTRACT
          The study aims to present the fishermen’s perceptions face to the enlargement of the Suape
Port and Industrial complex, considering possible impacts on the ichthyofauna resulting from the
dredging process during the construction of the quay 5. The work took place, monthly, in the first
half of 2009, at the same time of dredging. In addition to the qualitative interviews applied to 40
local fishermen, a survey of the fish fauna was performed, allowing a comparative assessment with
the information obtained from the fishing community. Bottom trawls were used on motorized boat
with collections at four distinct points. The natural channel farthest from the port, at the outer area
of the barrier reef, was chosen as the control zone by presenting similar ecological characteristics to
the other points and not be included among the places of dredging. Fishermen are aged between 40
and 60 years and engaged in the business for over 10 years, have low education level and average
monthly income of about 2 times the minimum wage. Most affirmed that carries out alternatives
activities to fishing for maintaining familiar livelihood and considers the current status of fish
stocks below standard. The dredging process to expand the CIPS and the removal of mangroves
have been quoted by fishermen as the main impacts to the region. Were captured 1112 fishes
belonging to 56 species and 22 families with total biomass of 13.88 kg. Ecological indices indicate
that in the area inside the dike and location of dredging, the number of species and biomass were
lower, possibly because they are places of greater substrate removal and excess of noise, besides the
increasing of suspended matter in the water column. The ichthyofaunistic survey results corroborate
the opinions of fishermen contemplated in this work.
          KEYWORDS: Fishing community, interviews, dredging, ichthyofauna

          RESUMO
          O estudo visa apresentar as percepções dos pescadores em relação à ampliação do
Complexo Industrial Portuário de Suape, levando-se em consideração possíveis impactos detectados
sobre a ictiofauna, decorrentes dos processos de dragagem na construção do Cais 5. O trabalho
ocorreu no primeiro semestre de 2009, com saídas mensais, no mesmo espaço temporal das
dragagens. Além das entrevistas qualitativas aplicadas a 40 pescadores locais, foi realizado o
levantamento da ictiofauna, possibilitando uma avaliação comparativa junto às informações obtidas
com a comunidade pesqueira. Foi usado arrasto de fundo em embarcação motorizada com coletas
em quatro pontos distintos. O canal natural mais distante do porto, na área externa da barreira
recifal, foi escolhido como área controle por apresentar características ecológicas semelhantes aos
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           170

demais pontos e por não estar incluso entre os locais de dragagem. Os pescadores têm idades entre
40 e 60 anos e exercem a atividade há mais de 10 anos, possuem baixo grau de escolaridade e renda
média mensal em torno de 2 salários mínimos. A maioria alegou que desenvolve atividades
alternativas à pesca para manutenção do sustento familiar e considera a situação atual dos recursos
pesqueiros abaixo do padrão. O processo de dragagem para ampliação do CIPS e a supressão do
manguezal foram citadas pelos pescadores como os principais agentes impactantes na região. Foram
capturados 1.112 peixes pertencentes a 56 espécies e 22 famílias, com uma biomassa total de
13,88kg. Os índices ecológicos indicam que na área interna do dique e local da dragagem o número
de espécie e biomassa foram menores, possivelmente por serem os locais de maior remoção do
substrato e excesso de ruído, além do aumento do material em suspensão na coluna de água. Os
resultados do levantamento ictiofaunístico corroboram com as opiniões dos pescadores
contemplados neste trabalho.
          PALAVRAS-CHAVE: Comunidade pesqueira, entrevistas, dragagem, ictiofauna

          INTRODUÇÃO
          A partir da década de 80, o cenário econômico em Pernambuco sofreu modificações com a
construção do Complexo Industrial Portuário de Suape (CIPS), o qual representa atualmente o pólo
industrial mais completo do nordeste do Brasil (SILVA-JÚNIOR, 2008). Todavia, à medida que se
tornou um dos principais eixos impulsionadores do desenvolvimento estadual, tal empreendimento
trouxe uma série de problemas de ordem ambiental, destacando-se as alterações nas características
ecológicas da área de influência das atividades portuárias (KOENING et al., 2002).
          Entre os principais agentes de impacto relacionados às atividades portuárias, inclui-se o
processo de dragagem, que consiste na retirada de sedimentos do fundo marinho e/ou estuarino com
a finalidade de aumentar a profundidade dos canais de acesso aos cais e permitir o tráfego de navios
de maior porte (VALE/CEPEMAR, 2010). Embora permitam melhorias para a navegação e
aumento considerável da movimentação portuária (TORRES, 2000), as dragagens trazem consigo
uma série de implicações ambientais, tais como assoreamento e deposição de sedimentos na área
estuarina e o aumento da turbidez da água (KOENING et al., 2002). Os efeitos decorrentes dessas
implicações podem interferir na estrutura da comunidade biótica, incluindo os peixes, e
conseqüentemente afetar a economia local. Em Pernambuco, a pesca é uma atividade econômica e
socialmente importante, diante do grande número de empregos diretos e indiretos gerados e à oferta
de proteína nobre de origem animal (CEPENE/IBAMA, 2007).
          Motivado pela problemática supracitada, o presente estudo tem como propósito apresentar
as características socioeconômicas dos pescadores da região de Suape, levando-se em consideração
possíveis impactos detectados sobre a ictiofauna decorrentes dos processos de dragagem para
ampliação do CIPS, a construção de mais um berço de atracação, o Cais 5. Foi realizado também o
levantamento da ictiofauna, de modo a permitir uma avaliação comparativa junto às informações
obtidas durante entrevistas com pescadores.

          METODOLOGIA
          O CIPS está localizado entre os municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, na zona
fisiográfica do litoral sul do estado de Pernambuco e compreendido entre as latitudes 8°20’00’’ e
8°29’00’’S e longitudes 34°56’30’’ e 35°03’00’’W, distando cerca de 40 km da cidade do Recife
(SOUZA & SAMPAIO, 2007). A baía de Suape, na qual parte do referido porto está inserido,
contém uma ilha central e está limitada a leste por um recife arenítico em barreira.
          Para obtenção dos dados com a finalidade de conhecer aspectos sociais, econômicos e
ambientais dos pescadores foi utilizado o método de entrevista qualitativa. Tal prática tem como
objetivo promover a elucidação das atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos
das pessoas em contextos sociais específicos, além disso, fornece dados básicos para o
entendimento das interações sociais (GASKELL, 2002). Assim, por meio de questionários semi-
estruturados, aplicados a 40 pescadores que residem e/ou realizam a atividade pesqueira nas
proximidades de Suape, as entrevistas foram conduzidas durante saídas mensais a campo, no
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período de janeiro a maio de 2009, junto à Colônia de Pescadores Z-08 (código na Capitania dos
Portos), situada em Gaibu, localidade vizinha a Suape, também pertencente ao município de Cabo
de Santo Agostinho. A associação citada conta com 166 pescadores cadastrados e o formulário
utilizado nas entrevistas constituiu-se de duas partes: a primeira objetivou traçar o perfil
socioeconômico dos pescadores e a segunda etapa foi elaborada com perguntas abertas,
possibilitando assim um maior espaço para respostas em termos do que os próprios interrogados
consideraram importantes.
          Para o levantamento ictiofaunístico foi empregada a técnica de arrasto de fundo em
embarcação motorizada utilizando uma rede com 25 m de comprimento e malha com abertura de 5
mm. Os arrastos tiveram duração de 15 minutos. As coletas foram conduzidas mensalmente no
mesmo período das entrevistas (e no mesmo espaço de tempo das dragagens) em quatro pontos
distintos; Ponto 1 (P1): entrada e saída principal do Porto; Ponto 2 (P2): área interna do dique e
local da dragagem; Ponto 3 (P3): paralelo à face interna da barreira recifal e Ponto 4 (P4): canal
natural mais distante do porto, na área externa ao recife (figura I). P4 foi escolhido como área
controle por apresentar características ecológicas semelhantes aos demais pontos e por não estar
incluso entre os locais de dragagem.




 Figura I - Pontos de Coleta: Ponto 1 (P1): entrada e saída principal do Porto, coordenada: S 08º23.477’ W
 034º57.163’; Ponto 2 (P2): área interna do dique e local da dragagem, Coordenada: S 08º23.297’ W 034º58.128’;
 Ponto 3 (P3): paralelo à face interna da barreira recifal, Coordenada: S 08º22.799’ W 034º57.300’ e Ponto 4 (P4):
 canal natural mais distante do porto, na área externa ao recife, Coordenada: S 08º21.816’ W 034º56.479’ Fonte:
 Google Earth, 2009.


          Foram determinados os índices ecológicos riqueza de Margalef (d), diversidade de
Shannon (H’) e equitabilidade de Pielou (J’), calculados para cada ponto de amostragem utilizando
o programa Primer 5.1.2. A similaridade entre os pontos foi calculada pelo coeficiente de Bray-
Curtis, através do programa Bioestat 3.0, utilizando-se os dados de abundância e freqüência.

         RESULTADOS E DISCUSSÃO
         A pesca, além de ser uma atividade comercialmente importante, assume uma relevância
social bastante expressiva, seja pelos aspectos culturais na manutenção do modo de vida tradicional
das comunidades costeiras, seja pela significativa quantidade de famílias que dependem direta ou
indiretamente desta prática para o seu sustento (AQUASIS, 2003).
         O resultado obtido a partir das 40 entrevistas com os pescadores da região de Suape
apontou que o perfil da comunidade pesqueira é formado por 88% de homens e 12% de mulheres, a
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           172

maioria (97,5%) exerce a atividade há mais de 10 anos. Em relação à faixa etária, a categoria é
representada principalmente por pessoas com idades entre 40 e 60 anos, perfazendo 64% dos
entrevistados. Do percentual restante, 16% afirmaram ter menos de 39 anos e 20% responderam ter
mais de 60 anos. Dentre estes últimos, alguns são aposentados, porém ainda exercem a atividade
mesmo que de forma esporádica, e suas informações foram consideradas relevantes, pois permitem
um resgate histórico a respeito do relacionamento da comunidade local com o seu meio ambiente já
quem vivem na região há mais tempo.
          O grau de escolaridade apresenta-se diversificado, compreendendo desde aqueles sem
escolaridade alguma (25%), até os que concluíram o nível médio (25%). Além destes, 40%
abandonaram os estudos ainda no nível fundamental e apenas 10% chegaram a cursar o nível
médio, mas não o finalizaram. Este perfil é similar aos dados obtidos em estudos com comunidades
pesqueiras de outras regiões (ALCÂNTARA, 2007; RODRIGUES, 2007; CABRAL et al., 2006;
SANTOS et al.,2008) e pode constituir um fator limitante para os pescadores que desejam (ou
necessitam) ingressar em outro ramo profissional.
          Quando questionados sobre o motivo da escolha profissional, 48% fizeram referência à
herança familiar, sendo esta uma característica comum para a categoria, uma vez que as
comunidades pesqueiras tradicionais fundamentam suas atividades no conhecimento empírico,
adquirido e repassado de geração em geração (SALLES et al., 2008). Do percentual restante, 28%
dos interrogados justificaram a escolha pela localização e pelo gosto da atividade pesqueira e 24%
alegaram ter sido a única opção de subsistência.
          A maior parte (95%) afirmou pescar com a finalidade de consumo próprio e comércio,
demonstrando que a atividade constitui um importante meio de produção e subsistência para a
comunidade local e uma significativa fonte de renda estatal. Os recursos provindos do mar são
vendidos em todo o município do Cabo de Santo Agostinho, principalmente em Suape e Gaibu, e
proporciona um ganho médio mensal de um salário mínimo por pescador. Alguns interrogados
(36%) não forneceram suas rendas mensais, alegando ser uma quantia instável. Contudo, 51% dos
entrevistados alegaram que desempenham outras atividades alternativas à pesca a fim de
complementar a renda familiar: muitos exercem funções de pedreiro, encanador, eletricista e
comerciante. Contudo, deste contingente, apenas 5% responderam possuir vínculo empregatício e
13% alegaram contar com benefícios do governo, como o Programa Bolsa-Escola.
          As respostas obtidas dos pescadores em relação à quantidade média semanal do pescado
mostraram-se variáveis, com grande percentual na categoria “Não informado”, de modo que 30%
atribuem tal ocorrência aos fatores ambientais, como condições climáticas desfavoráveis no período
chuvoso e “marés ruins no verão”. Dos demais entrevistados, 32% disseram pescar menos de 100
kg/semana, 33% responderam trazer entre 100 e 200 kg semanais e apenas 5% alegaram obter uma
quantidade superior a 300 kg por semana. Quanto à freqüência de saídas semanais para pesca, 50%
alegaram ser em média de quatro vezes, 25% disseram sair três vezes, e o percentual restante
respondeu realizar saídas irregulares de acordo com as condições do mar. Em outros locais, como
em Porto de Galinhas (Ipojuca, PE), o regime de trabalho é menos intenso, uma vez que os
pescadores têm a opção de complementar as suas rendas com atividades relacionadas ao turismo
conhecidamente estabelecido (ALCÂNTARA, 2007).
          Em relação ao tipo de petrechos utilizados, onze artefatos foram citados pelos pescadores,
sendo os mais empregados a linha de fundo, rede de espera e covo. A exaustão dos estoques no
estado pode estar relacionada ao excesso de esforço pesqueiro, que resulta na sobrepesca, ou seja,
pesca-se mais do que as espécies podem repor, além de se utilizar métodos que degradam os
ecossistemas (BOECKMANN & GEBER, 2006). Incluem-se nestas práticas inadequadas, as
capturas de indivíduos imaturos e de espécimes ovados, assim como várias atividades ilegais: pesca
com bomba, uso de cloro, venenos, rede de malha fina, pesca em épocas de defeso (GERCO, 2004).
Apesar dos entrevistados demonstrarem conhecimento acerca da utilização destas técnicas, nenhum
deles afirmou empregá-las.
          Em relação à percepção ambiental dos pescadores ao longo do espaço temporal, a situação
atual dos recursos pesqueiros é considerada abaixo do padrão pela maioria (85%), sendo necessário
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            173

ir à região não protegida pelos recifes, denominada por eles de “mar de fora”, para obtenção do
pescado. Apenas 2% dos entrevistados não perceberam nenhuma alteração e 13% não responderam
ao quesito. Em estudo de caso na comunidade de Brasília Teimosa (Recife-PE), os resultados
apontaram que aproximadamente 80% dos pescadores relataram a redução na quantidade do
pescado e as principais causas responsáveis citadas foram as seguintes: poluição, pesca predatória e
quantidade excessiva de embarcações (VIEIRA, 2008). Entretanto, no trabalho em tela, 67% dos
interrogados acreditam que a ampliação portuária em Suape constitui uma obra de impacto negativo
para a atividade pesqueira, desse percentual, 11% afirmaram ter o acesso restrito aos principais
pontos de pesca. Em contrapartida, 33% dos entrevistados mostraram-se favoráveis à ampliação do
CIPS alegando melhor oportunidade de emprego e/ou cursos profissionalizantes aos seus filhos.
         As possíveis alterações sobre os ecossistemas marinhos e estuarinos em Suape,
principalmente com a destruição dos habitats bentônicos e o aumento na turbidez da água, podem
causar alterações nos ciclos de desenvolvimento da ictiofauna (TORRES, 2000), contribuindo para
a diminuição do potencial de pesca na área. A respeito deste fato, 49% dos entrevistados opinaram
ser o processo de dragagem o responsável pela diminuição do estoque pesqueiro, seguido pela
supressão do manguezal (21%). Os demais direcionaram suas respostas à degradação do Rio
Ipojuca (13%), à pesca predatória (9%) e à especulação imobiliária (2%), em especial à construção
de resorts. Apenas 6% responderam não saber ou não terem percebido qualquer alteração dos
recursos bióticos na área de influência das dragagens.
         Quando perguntados sobre os cuidados para com o meio ambiente, quase a metade (46%)
dos interrogados admitiu não possuir nenhum tipo de atenção especial ao destino do lixo. Este
percentual é preocupante, pois a poluição com materiais sintéticos oferece sérios riscos à biota
marinha, uma vez que mamíferos marinhos, pássaros e tartarugas além de ingerirem, podem ficar
aprisionados em redes, e assim ter o padrão de comportamento alterado, dificultando a
sobrevivência destes organismos (SANTOS et al., 2008). Dos demais, 34% responderam descartar
adequadamente os resíduos ao retornarem da pescaria e o restante (20%) ressaltou que respeitam o
período de desova (no caso da lagostinha, por exemplo) e disseram utilizar artefatos que evitam a
coleta de exemplares juvenis (malhas grandes).
         Em relação às sugestões para a preservação ambiental, a necessidade de projetos de cunho
ambiental para a região foi o aspecto mais pontuado (27%), 18% fizeram alusão à recuperação do
manguezal através do replantio, 14% à proibição e/ou fiscalização de práticas de pesca inadequadas
(malha fina, bomba, etc.) e 25% não responderam a esse quesito. Apenas 7% dos entrevistados
fizeram referência ao embargo das obras de ampliação do CIPS, e 8% forneceu como resposta a
gestão turística e o tratamento de efluentes, domésticos e industriais. Além das informações
prestadas, alguns entrevistados citaram que as áreas mais freqüentadas por eles (ao norte do Porto
de Suape) vêm sofrendo intenso processo de sedimentação (“muita lama”), possivelmente
decorrente das dragagens.
               Durante o levantamento ictiofaunístico foram capturados 1.112 indivíduos
pertencentes a 56 espécies distribuídas em 22 famílias, com uma biomassa total de 13,88 kg. Em
levantamentos realizados em estuários na região sul do Brasil, um com acentuado grau de
assoreamento (CORTELLETE et al, 2009) e outro pouco impactado (BRANCO et al, 2002), foram
obtidos números inferiores de espécies quando comparados ao presente estudo. Para o estuário do
Rio Formoso no estado de Pernambuco, Paiva et al (2009) registrou 78 espécies e 39 famílias,
indicando que este encontra-se sob baixa influência antrópica. Além do estado de conservação, a
abundância (RAMOS & VIEIRA, 2001) e a composição da ictiofauna estuarina podem ser
influenciadas negativamente pela sua latitude (ARAÚJO & AZEVEDO, 2001).
         O ponto de maior contribuição em número de exemplares foi o P4 com 438, seguido por
P1 (377), P3 (180) e P2 com apenas 117 peixes coletados. A mesma tendência foi observada para o
número de espécies e biomassa total, tendo P4 e P1 apresentado os maiores valores, enquanto que
P2 e P3 foram os pontos mais pobres. As maiores similaridades obtidas através do coeficiente de
Bray-Curtis ocorreram entre os pares P1-P4, pontos externos à barreira recifal, e P2-P3, internos. Os
Pontos 1 e 4 encontram-se mais preservados e apresentaram, portanto, os melhores valores para os
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           174

índices ecológicos testados: P4 (d= 5,61; J’= 0,78 e H’= 1,20) e P1 (d= 5,05; J’= 0,65 e H’= 0,97).
A distância para o porto e a proteção dos recifes, parecem amenizar as influências da dragagem e
das atividades portuárias no Ponto 4.
          O ponto 2 (d= 2,93; J’= 0,53 e H’= 0,72) , interno ao porto e local da dragagem,
apresentou o menor número de indivíduos e biomassa devido possivelmente à elevada mortalidade
de indivíduos sugados pela dragagem, além da remoção do substrato (ANGONESI et al., 2006), re-
suspensão de sedimentos contaminados (SULLIVAN & HANCOCK, 1977), excesso de ruído e
aumento do material em suspensão na coluna de água (BLABER, 2000). Os piores índices foram
obtidos no ponto 3 (d= 2,50; J’= 0,53 e H’= 0,61). Segundo Torres (2000) o acentuado
assoreamento e a consequente redução da profundidade devido ao aporte de sedimentos
provenientes da dragagem, podem estar selecionando as espécies resistentes às mudanças imediatas
no ambiente (ANGONESI et al., 2006).
         Ao término da pesquisa, no dia 03 de agosto de 2009, foi vivenciado um novo encontro
com os pescadores da Colônia Z-08, dessa vez para agradecer pela participação nas entrevistas e
apresentar os aspectos mais relevantes obtidos com o estudo. Esta constitui uma maneira de
valorizar esta categoria já desanimada em colaborar com pesquisas acadêmicas e não obter melhora
(INSTITUTO OCEANÁRIO, 2010). Dessa forma, o conhecimento cultural da comunidade foi
apreciado e a cidadania foi fortalecida.

         CONCLUSÃO
         Os resultados do levantamento ictiofaunísticos corroboram com as informações fornecidas
pela comunidade pesqueira da região de Suape e apontam para uma diminuição significativa da
abundância e diversidade dos recursos pesqueiros.
         Grandes investimentos em infra-estrutura, como a ampliação de instalações portuárias,
requerem a previsão e mitigação de impactos sociais, fazendo-se necessária a gestão integrada que
orientem a adoção de políticas de exploração dos espaços litorâneos conforme os princípios de
desenvolvimento sustentável, incluindo a manutenção socioeconômica comunitária.
         O presente estudo pode contribuir para a formulação de políticas públicas adequadas ao
gerenciamento dos recursos costeiros (principalmente à pesca artesanal), sem esgotar as
possibilidades de novas pesquisas referentes ao tema.

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 PROJETO RIO LIMPO, RIO LINDO: EDUCAÇÃO AMBIENTAL
            AO LONGO DO RIO DAS MORTES

                                                                                      Roberto de Barros MESQUITA
                                                                Prof. MSc. Universidade do Estado de Mato Grosso.
                                                                                         robertomesquita@unemat.br
                                                                                            Ana Caroline MOCELIN
                                                                 Profª. Esp. Universidade do Estado de Mato Grosso.
                                                                                               amocelin@gmail.com
                                                                      Fátima Cristina Arantes Mobiglia MESQUITA
                                                          Bel. em Turismo. Universidade do Estado de Mato Grosso.
                                                                                       fatimamesquitanx@gmail.com

        RESUMO
        O Projeto Rio Limpo, Rio Lindo é uma parceria entre a União das Associações de
Moradores de Bairros de Nova Xavantina (UNAMB-NX) e a Universidade do Estado de Mato
Grosso (UNEMAT) Campus de Nova Xavantina, que tem por objetivo realizar diagnóstico
socioambiental da bacia do Rio das Mortes e exercer trabalhos de educação ambiental nas
comunidades ribeirinhas presentes num trecho de aproximadamente 600 km entre Nova Xavantina
(MT) e São Felix do Araguaia (MT). Este artigo pretende apresentar o trabalho de educação
ambiental desenvolvido pelo Projeto, que contribui para a criação de uma identidade cultural entre
os povos das margens do rio que valorize a preservação e a conservação do meio ambiente, visto
que a expansão desordenada das atividades agropecuárias, a pouca conscientização ambiental das
populações ribeirinhas e a fiscalização incipiente estão promovendo a degradação ambiental desta
importante bacia hidrográfica matogrossense.
        PALAVRAS-CHAVE: Meio Ambiente, Comunidades tradicionais, Degradação
Ambiental.

          ABSTRACT
          The Rio Limpo, Rio Lindo Project is a partnership between the Union of Neighborhoods
Associations of Nova Xavantina (UNAMB-NX) and the University of Mato Grosso (UNEMAT)
Campus of Xavantina, which has the objective to achieve socio-environmental diagnosis of the Rio
das Mortes Basin and pursue environmental education work in riverside communities present in a
stretch of about 600 km between Nova Xavantina (MT) and São Félix do Araguaia (MT). This
article aims to present the work of environmental education developed by the Project, which helps
to create a cultural identity among the peoples of the river that values the preservation and
conservation of the environment, since the uncontrolled expansion of agricultural activities, poor
environmental awareness of coastal communities and the lack of monitoring are promoting the
environmental degradation of this important watershed of Mato Grosso state.
          KEYWORDS: Environment, Traditional communities, Environmental Degradation.

          INTRODUÇÃO
          Nos últimos anos o meio ambiente tem sido pauta de intensas discussões em função da
acelerada degradação da natureza e consequente decadência da qualidade de vida nas cidades e no
campo. Situação que decorre, dentre outras razões, do mau gerenciamento ambiental executado
pelos setores público e privado.
          As preocupações com o meio ambiente, de acordo com Moura (1998), passaram a fazer
parte do cotidiano da sociedade moderna a partir de 1968, quando um grupo de cientistas publicou o
relatório denominado Limites do Crescimento (Limits to Growth), no qual, por meio de simulações
matemáticas, divulgaram projeções de crescimento desordenado da população, da poluição e do
esgotamento dos recursos naturais do planeta.
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         Neste sentido, Lima (1999) reflete sobre a questão ambiental e define-a como um
“conjunto de contradições resultantes das interações internas ao sistema social e deste com o meio
envolvente”. Em uma análise profunda, o autor refere-se a situações feridas por conflitos,
esgotamento e destrutividade, e caracterizadas pelo descontrole no crescimento econômico; na
expansão dos centros urbanos; no constante esgotamento dos recursos naturais e energéticos não
renováveis; desigualdade socioeconômica e exclusão social; extinção de espécies e degradação de
ecossistemas. Por fim, considera-as como realidades que comprometem a qualidade da “vida
humana” e do prosseguimento da “vida global”.
         O fato do meio ambiente ter sido considerado um recurso farto e abundante ao longo do
tempo dificulta a possibilidade de estabelecimento de critérios equilibrados para sua utilização,
disseminando mundialmente a problemática ambiental que, por sua vez, passa a influenciar toda a
sociedade contemporânea em virtude da apropriação indevida dos fatores ambientais (DONAIRE,
1999). Nosso planeta tem passado por muitas transformações.
           As ações antrópicas sobre ambientes naturais, resultantes das atividades humanas, vêm provocando grandes
alterações no meio ambiente natural sem ser levada em conta uma sustentabilidade a curto, médio e longo prazo. E o
resultado é uma crescente degradação ambiental, piorando a qualidade de vida e o bem estar das populações [...]
(BRITO; CAMARA, 1998, p. 36).

         Tal situação poderá ser minimizada na medida em que houver uma maior conscientização
das pessoas de que o meio ambiente é bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de
vida e sua sustentabilidade, bem como dos demais seres vivos. Uma das ferramentas que pode ser
utilizada no processo de sensibilização das pessoas é a educação ambiental.

         Educação Ambiental (EA)
         O progresso da humanidade baseado na industrialização tem gerado uma oferta maciça de
produtos para satisfazer necessidades crescentes da população. A produção de bens e serviços que
atendam às necessidades e desejos humanos requer fatores de produção, dentre os quais os recursos
naturais, em quantidades cada vez maiores. Paralelamente, há um incremento também crescente de
embalagens e produtos que são descartados após sua utilização, contribuindo para a perda de
qualidade do meio ambiente. O meio ambiente é, ao mesmo tempo, fonte de recursos e recipiente de
resíduos (BARBIERI, 2004). Logo, a maneira como a produção e o consumo de produtos e serviços
está ocorrendo promove a degradação acelerada do planeta.
          O modelo de desenvolvimento imposto ao mundo pela cultura moderna (industrial), baseado no lucro e na
produção de mercadorias, tem sido responsável pela maioria dos problemas socioambientais. O meio ambiente vem
sendo alterado/degradado ás vezes de forma irreversível e até mesmo para produzir bens perfeitamente dispensáveis
(PIAIA, 1999, p.199).

          A Resolução CONAMA n° 001, de 23 de janeiro de 1986, dispõe os critérios básicos e as
diretrizes gerais para o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). Nela compõe-se a definição dos
impactos ambientais como:
          [...] alterações das características geoecológicas (físicas, químicas e biológicas) do ambiente promovida pela
inserção de matéria e energia resultante das atividades humanas, afetando de forma direta ou indireta a saúde, a
segurança e o bem-estar da população; as atividades socioeconômicas; os seres vivos; as condições estéticas e sanitárias
do ambiente; e a qualidade dos recursos ambientais.

         Monteiro et al (2001) relatam a falta de atenção sobre a gestão dos resíduos sólidos no
Brasil, principalmente, por parte do poder público. Com isso, compromete-se a saúde da população
e degradam-se cada vez mais os recursos naturais, especialmente o solo e os recursos hídricos.
         Quanto ao desmatamento, outro vetor de impactos ambientais, a Secretaria de
Planejamento do Estado de Mato Grosso (2006) considera a expansão da agropecuária como
responsável pelos graves problemas de desmatamento, tais como redução dos recursos florestais e
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da biodiversidade; degradação de bacias ou sub-bacias hidrográficas, com o assoreamento dos rios e
degradação pela carga de agrotóxicos, além da compactação e erosão do solo.
         Miller Júnior (2007) entende que a contribuição da ciência e tecnologia tem sido
significativa para resolver os problemas decorrentes da poluição, mas muitas vezes questões de
ordem política, social e cultural retardam ou inviabilizam a adoção de soluções. Logo, a existência
de problemas ambientais torna necessária a gestão ambiental, que segundo o Ministério do Meio
Ambiente – MMA (2006), gestão ambiental é:
          [...] um conjunto de políticas, programas e práticas que levam em conta a saúde e a segurança das pessoas e a
proteção do meio ambiente. A gestão é realizada por meio da eliminação ou da minimização de impactos e danos
ambientais decorrentes do planejamento, implantação, operação, ampliação, realocação ou desativação de
empreendimentos e atividades, incluindo-se todas as fases do ciclo de vida de um produto (BRASIL, 2006, n. p.).

          Neste artigo aplica-se a gestão ambiental no entendimento de Baasch (apud FENGLER,
2002), ou seja, como um processo de mediação de interesses e conflitos entre atores sociais que
atuam sobre o meio ambiente. O modo como os diferentes atores por meio de atitudes alteram a
qualidade do meio ambiente e também como se distribuem na sociedade os custos e os benefícios
destas atitudes é, portanto, relevante para a proposição de melhorias.
          Assim, torna-se oportuno avaliar a forma que o homem está utilizando e ocupando o
espaço de seu habitat, estabelecendo seu grau de conservação e caracterizando os efeitos dos
impactos ambientais. A análise do uso e da ocupação atual do espaço torna-se relevante, pois as
informações obtidas a partir do modelo presente das atividades e sistemas de exploração, exercidas
no espaço, possibilitam instituir os processos e condições ambientais existentes (CEARÁ, 1994).
          A realização de um diagnóstico socioambiental pode comprovar as preocupações
mencionadas e produzir novas e consequentes ações a serem desenvolvidas, visando à melhoria da
qualidade ambiental. Para tanto, destaca-se a educação ambiental prevista como “condição
necessária para modificar um quadro de crescente degradação socioambiental” (JACOBI, 2003).
          Dias (2001) discute a finalidade da educação ambiental, reconhecendo nela a possibilidade
de promoção de interesse ativo e atitudes necessárias para proteger e melhorar a qualidade
ambiental, e de induzir novas formas de conduta nos indivíduos, grupos sociais e na sociedade em
seu conjunto, tornando-a apta a agir em busca de soluções para seus problemas ambientais.
          Sobre educação ambiental, diversas literaturas discutem sua aplicabilidade no tratamento
entre comunidades e os problemas ambientais. Para Phillipi Jr. (2005, p. 381) “a educação
ambiental (EA) objetiva desenvolver uma consciência ecológica no ser humano, por meio de
práticas de conscientização/sensibilização que começam no meio familiar e na escola”.
          Cascino (1999) acredita que a EA deve tratar das questões globais críticas, suas causas e
inter-relações em uma perspectiva sistêmica, em seu contexto social e histórico. Aspectos
primordiais relacionados com o desenvolvimento e o meio ambiente, tais como população, saúde,
paz, direitos humanos, democracia, fome, degradação da flora e da fauna, devem ser abordados
dessa maneira.
          Enfim, independente do conceito adotado vale citar que a EA em tempos de exploração
desenfreada “precisa ser permanente e abrangente, ou seja, fazer parte da vida de um número cada
vez maior de pessoas e num maior espaço de tempo possível” (SCHIMIEDER apud ZEPPONE,
1999, p. 147). E é com esta idéia que o Projeto Rio Limpo, Rio Lindo trabalha junto a comunidades
que dependem e interferem na dinâmica do meio ambiente.

         Projeto Rio Limpo, Rio Lindo: educação ambiental no Rio das Mortes
         Primack e Rodrigues (2001) ressaltam a urgência da sociedade em todos os seus
segmentos, entender que é de seu próprio interesse trabalhar pela conservação e desacelerar a perda
de espécies e de comunidades biológicas.
         Não obstante, remeter ao poder público a tarefa de redigir políticas preservacionistas
eficientes ao passo de aplicar estratégias de fiscalização eficazes, abre um paralelo de comparação
sobre a velocidade destas ações e a velocidade de destruição dos recursos naturais. Ademais,
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esperar da iniciativa privada decisões a respeito desdobra-se em programas com mais vantagens
corporativas do que preservacionistas.
         Assim, Lopes reafirma a visão supracitada sobre a importância de a sociedade interferir
neste cenário:
          Professores, alunos, segmentos comunitários, agentes sociais de uma prática social em que cada um contribua
com sua experiência acumulada, sua visão de mundo e suas expectativas, aflorando contradições. Dessa forma, facilita a
compreensão e a atuação integral e integrada sobre a realidade vivenciada. As pessoas envolvidas nesse processo terão,
como um exercício de cidadania, uma participação ativa na elaboração teórica e práticas das ações para a superação dos
problemas diagnosticados (apud GUIMARÃES, 1995, p. 42).

         Desta maneira, sociedade organizada, sociedade civil e Universidade determinam
mecanismos de atuação para contribuir com a conservação dos recursos naturais, por meio da
sensibilização do homem e sua interferência no meio ambiente, com a formação do Projeto Rio
Limpo, Rio Lindo, idealizado por membro do movimento social de Nova Xavantina – MT, Valteri
Araújo.
         Conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o Rio das Mortes é
considerado um dos rios menos poluídos do mundo. Atualmente, sua água é consumida por toda a
população ribeirinha de dezessete municípios do Estado de Mato Grosso, além de ser fonte de
sobrevivência para muitos por meio da pesca.
         O Projeto Rio Limpo, Rio Lindo objetiva a realização de diagnósticos da situação
socioambiental do Rio das Mortes e das populações ribeirinhas, ações de coleta de resíduos sólidos
nas margens e nas águas do rio, análises da água em diferentes trechos e trabalhos de educação
ambiental.
         O objeto deste artigo é a ação de educação ambiental promovida pela equipe do Projeto por
meio de apresentação da peça teatral denominada “Nós e o Rio”.

         A EA no Rio Limpo, Rio Lindo: metodologia e resultados
         Primack e Rodrigues (2001, p. 84-85) refletem sobre a atuação do homem, enquanto
espécie, na alteração dos processos ecológicos que acabam por ameaçar outras espécies.
          Somente alguns indivíduos de nossa espécie fazem isso. Assim como não é a espécie humana, como um todo,
que sofre a consequência dessas extinções. Alguns indivíduos sofrem mais com a degradação dos recursos naturais e
extinção de espécies do que outros. O consumo excessivo de recursos não é sustentável com o passar dos anos, e se este
padrão for adotado pela classe média em expansão dos países em desenvolvimento, causará uma perturbação ambiental
em larga escala.

         A educação ambiental instiga a percepção da necessidade do ser humano e meio ambiente
estarem integrados em uma relação harmoniosa e consciente do equilíbrio dinâmico na natureza.
Isto é, por meio da inserção do educando e do educador em interação de novos conhecimentos,
valores e atitudes sobre o processo de transformação ambiental do nosso planeta (GUIMARÃES,
1995).
         Em janeiro de 2010, a equipe do Projeto em expedição rio abaixo partindo de Nova
Xavantina realizou duas abordagens de trabalho de EA nas comunidades de Novo Santo Antônio e
São Félix do Araguaia.
         A metodologia utilizada para a realização destas duas ações seguiu praticamente o mesmo
roteiro e protocolo, sempre iniciando o processo com um contato prévio com autoridades locais
(Secretário de Meio Ambiente ou Prefeito) para estes auxiliarem na divulgação da chegada do
Projeto aos munícipes, através dos meios de comunicação das cidades.
         As abordagens junto às comunidades previam a interação entre os membros do projeto e as
pessoas que se deslocavam até o local, a fim de conhecer os moradores e estabelecer uma
divulgação do projeto e suas ações, pois de acordo com Sato (2004, p. 18), “a educação ambiental
deve estimular a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se de
estratégias democráticas e interação entre as culturas”.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                        180

        As peças teatrais com fantoches apresentavam personagens que remetiam à imagem de
elementos e figuras conhecidas do cotidiano da comunidade, no intuito de proporcionar ao público
uma forma interativa de associar sua realidade à mensagem proposta pelo teatro.




          Figura 01: Personagens da peça teatral apresentada pelo Projeto

                O roteiro da peça contextualiza a diminuição de espécies que vivem no rio ou em
suas margens em função do descarte de resíduos sólidos e do desmatamento das matas ciliares, e
utiliza personagens como pescadores, peixes diversos, animais silvestres e répteis, produzidos com
espuma e pintados por componentes do Projeto. Os personagens e os diálogos são os mesmos que
ilustram a cartilha ambiental que é distribuída ao público presente antes do início das apresentações.
          [...] a educação ambiental considera o ser humano como um ser integrante, agente na natureza e busca uma
modificação na forma como nos relacionamentos com ela. Nesta perspectiva o processo de aprendizagem se dá através
da sensibilidade, da criatividade, para ‘formar’ cidadãos críticos, criativos, sensíveis e comprometidos em buscar
relações mais sustentáveis com o meio (CAVEDON et al apud KINDEL; SILVA; SAMMARCO, 2004, p. 66).

         Uma vez encerrada a apresentação teatral, surge o palhaço Pinbim, um acadêmico do curso
de Turismo da Universidade do Estado de Mato Grosso, fazendo a animação do público presente e
distribuindo brinquedos às crianças.
         Para concluir os trabalhos, os membros do projeto são apresentados ao público e é feita
uma breve reflexão sobre a importância da conservação do rio para a manutenção da qualidade de
vida nas comunidades ribeirinhas.
         O público presente nessas ações foi estimado em 60 pessoas em Novo Santo Antonio, cuja
ação ocorreu durante a tarde, e de 250 pessoas em São Félix do Araguaia, onde a apresentação
ocorreu de noite.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         181




          Figura 02: Local da ação ambiental em Novo Santo Antonio

         A infraestrutura para as apresentações teatrais é montada pelos próprios membros do
Projeto às margens do rio das Mortes, assim que se chega nas comunidades, e é composta de uma
tenda de 16 metros quadrados e 50 cadeiras plásticas.
         Em São Félix do Araguaia, cidade situada a 7 quilômetros a montante da barra do rio das
Mortes no rio Araguaia, antes da apresentação da peça, foi exibido o vídeo Mudança do Clima,
Mudanças de Vidas produzido pelo Greenpeace, com duração de 15 minutos.
         Acredita-se que essas intervenções vão ao encontro da promoção da transformação e
construção da sociedade, pois conforme Guimarães (1995), a educação ambiental é transformadora
de valores e atitudes através da construção de novos hábitos e conhecimentos.
         É necessária a criação de uma nova ética que possibilite a melhoria da qualidade de vida
nas comunidades, e consequentemente, no planeta, pois não basta que os cidadãos tenham acesso à
informação, é preciso que a sensibilidade ambiental seja construída junto aos sujeitos das
localidades para que a sociedade se torne sustentável. Esta é uma das tarefas mais efetivas da EA,
visto que embora este seja um processo lento, tem consequências duradouras.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            182




          Figura 03: Crianças lendo as cartilhas ambientais em São Félix do Araguaia

          Cabe ressaltar que em ambas as comunidades visitadas professores solicitaram cartilhas
extras para que os mesmos possam trabalhar nas escolas locais. Tal fato ilustra uma participação
ativa e responsável de indivíduos que pretendem contribuir com o processo de desenvolvimento de
práticas educacionais voltadas a resolução de problemas do meio ambiente.

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         Acredita-se que o diagnóstico socioambiental, o processo educacional e as ações de coleta
de resíduos sólidos do Rio das Mortes realizados pelos membros do Projeto Rio Limpo, Rio Lindo
proporcionem a criação e estabelecimento de uma identidade cultural entre os povos das margens
do rio que valorize a preservação e a conservação do meio ambiente.
         Além disso, com a inclusão ecológica, espera-se da população ribeirinha um combate
sistemático a qualquer tipo de agressão à natureza e às leis ambientais, quer seja praticada no rio e
seus afluentes, ou no seio das comunidades que dele fazem uso diário para sua sobrevivência. Isso
trará impactos positivos à qualidade ambiental da região e gerará possibilidades ainda maiores para
o desenvolvimento da atividade turística, que tem potencial significativo de geração de emprego e
renda nas localidades, contribuindo para a criação de novas alternativas econômicas.

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             SELO AMBIENTAL: EDUCAR PARA CIDADANIA

                                                                               Alana Fernanda Dias CARVALHO
          Coordenadora de Meio Ambiente. Secretaria de Planejamento- SEPLAN - Av. Floriano Peixoto, 1726. Santo
                                                                                     Antonio, Campina Grande-PB
                                                                                  alana_carvalho25@hotmail.com
                                                                                     Edinete Maria de OLIVEIRA
             Professora. Secretaria de Planejamento- SEPLAN - Av. Floriano Peixoto, 1726. Santo Antonio, Campina
                                                                                                        Grande-PB
                                                                                      edineteoliver@yahoo.com.br
                                                                                         Marília Pereira AMORIM
                Gerente de Mobilização e Educação Ambiental. Secretaria de Planejamento- SEPLAN - Av. Floriano
                                                               Peixoto, 1726. Santo Antonio, Campina Grande-PB
                                                                                   mariliap.amorim@hotmail.com

         RESUMO
         O trabalho está sendo realizado pela Secretaria de Planejamento de Campina Grande-PB
através da Coordenadoria de Meio Ambiente- COMEA. Para primeira fase foram selecionadas dez
escolas públicas municipais de diferentes pontos da cidade para escolha do desenho a se tornar
oficialmente o Selo Amigo do Meio Ambiente. Considerando que esse trabalho está em andamento,
os primeiros resultados mostram ser de positivo impacto no despertar da sociedade local para maior
responsabilidade com o meio ambiente. A segunda fase será em parceria com empresas que
desejam agregar valor a seus produtos tornando-se “Amigo do Meio Ambiente”. O objetivo desse
trabalho é promover Educação Ambiental informal através de empresas comprometidas com o meio
ambiente e cidadania no município de Campina Grande.
         PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental, Selo, Cidadania.

         ABSTRACT
         The work is being conducted by the Secretaria de Planejamento of Campina Grande-PB
through the Coordenadoria de Meio Ambiente -COMEA. For first phase were selected ten public
schools in different parts of the city to choose the design to become the official stamp of the
Environment. Considering that this work is in progress, the first results show positive impact on the
awakening of society for more responsibility with environment. The second phase will be in
partnership with companies which want aggregate value to their products by becoming themselves
“Amigo do Meio Ambiente”. The objective this work is to promote informal environmental
education through committed companies to the environment and citizenship in the city of Campina
Grande.
         KEYWORDS: Environmental Education, Stamp, Citizenship.

          INTRODUÇÃO
          A Constituição Federal determina como uma das obrigações do Poder Público a promoção
da Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e conscientização pública, colocando o meio
ambiente ecologicamente equilibrado como um direito do cidadão, vinculando qualidade ambiental
e cidadania.
          O desafio do desenvolvimento sustentável está se tornando base para as políticas
ambientais e conseqüentemente ao desenvolvimento econômico das sociedades, o que requer
mudanças de comportamento e nesse sentido o planeta tem pressa. A economia dos recursos, a
opção por produtos ecologicamente corretos e a preocupação com o coletivo são atitudes que
podem ser alcançadas através da conscientização e educação ambiental (Pádua e Tabanez, 1997).
          Não é tão simples quanto parece, pois a história mostra que tudo passa por questões
políticas, sociais e econômicas, complexas e difíceis com muitas contradições, deixando o planeta
sempre distante do melhor caminho de mitigação dos problemas ambientais e consequentemente de
preservação do meio ambiente. Nesse sentido Mota Júnior (2009), baseado em muitos autores,
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           185

coloca como necessária a formação de uma Educação Ambiental crítica em meio às adversidades
como a crise da política e padrão de desenvolvimento e sustentabilidade concebido por meio do
consumo. Para isso a Educação Ambiental precisa aperfeiçoar metodologias e aprofundamento
teórico para o desafio de ser política e ao mesmo tempo promotora da nova cidadania.
         Sendo assim, os empresários de forma geral têm consciência da importância de seus
produtos estarem atrelados aos diversos conceitos de meio ambiente. Diante disso, a Prefeitura
Municipal de Campina Grande-PB através da através da Secretaria de Planejamento, pela
Coordenadoria do Meio Ambiente lança o Selo Municipal Amigo do Meio Ambiente e busca com
os empresários locais desenvolver parcerias objetivando sensibilizar a população da importância e
possibilidade de somar desenvolvimento econômico à preservação do meio ambiente.

          METODOLOGIA
          O trabalho foi realizado pela Secretaria de Planejamento de Campina Grande- PB através
da Coordenadoria de Meio Ambiente- COMEA.
          Esse trabalho possui duas fases, a primeira ocorreu entre os meses de setembro e dezembro
de 2009, através da escolha e lançamento do Selo Municipal Amigo do Meio Ambiente, onde em
parceria com a Secretaria de Educação do Município, foram selecionadas dez escolas públicas
municipais de diferentes pontos da cidade com prévia experiência em educação ambiental, de forma
a representar a toda a realidade do local.
          O trabalho de divulgação do projeto foi executado, pelos servidores da COMEA, sendo
apresentado aos professores em cada uma das escolas selecionadas. Às escolas restou divulgar o
concurso “Selo Amigo do Meio Ambiente”, realizar as inscrições dos alunos interessados e recolher
o material que os alunos produziram.
          Aos professores coube orientar os alunos no que concerne aos conceitos de meio ambiente,
recursos naturais e desenvolvimento sustentável, bem como, características e conceito de selo.
          A equipe para seleção do desenho foi formada por professores da rede pública municipal,
tendo sido avaliados os seguintes critérios: Criatividade do aluno, originalidade, ligação existente
entre a figura e o tema “Amigo do Meio Ambiente”, forma característica de uma figura preparada
para tornar-se selo.
          Foi obedecida a seqüência abaixo:
          Foram escolhidas de forma preliminar 03 (três) figuras, por ciclo, de cada escola
participante;
          Estas foram classificadas entre si, ainda por ciclo;
          Posteriormente os primeiros lugares de cada ciclo competiram entre si;
          Nesta última etapa restou apenas 01 representante de cada escola, dentre os quais será
escolhido o grande vencedor do concurso.
          Escolhido o desenho, foi promovido no dia 18 de dezembro de 2009, o evento oficial de
Lançamento do Selo Municipal “Amigo do Meio Ambiente”, instituído pela Lei 4.908 de 14 de
janeiro de 2010.
          A continuação desse trabalho se dará através das seguintes etapas: Divulgação do selo,
Confecção de kit com proposta do projeto para apresentar a empresários locais a fim de firmar
parcerias. A Coordenadoria de Meio Ambiente se propõe a promover palestras em Educação
Ambiental nas empresas, sobre temas de interesse e que estejam relacionados com a atividade da
mesma; contribuir com a destinação adequada de lixo; implantar coleta seletiva; divulgar o nome
das empresas como Amiga do Meio Ambiente nos eventos, através de material impresso,
logomarcas e mídia; autorizar a utilização do selo em seus produtos, com vistas a uma futura
certificação.

        RESULTADOS E DISCUSSÃO
        Considerando que esse trabalho ainda está em andamento, pois a fase de criação, escolha e
confecção do selo é considerada primeira etapa, observamos que as inscrições em dez escolas
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             186

municipais possibilita considerar o projeto como de positivo impacto, no despertar da sociedade
local para maior responsabilidade com o meio ambiente.
         Os resultados dos primeiros lugares por escola (tabela 1) mostraram certa proximidade nos
valores, embora seja considerável a diferença entre a menor e maior média (7,0 e 9,5) o que
demonstra nível constante de desenvolvimento e conhecimento sobre Meio Ambiente pelos alunos
no Município bem como bom entendimento na proposta do selo.

ESCOLA                             ALUNOS                ALUNO CLASSIFICADO EM 1º LUGAR NA   MÉDIA
                                   INSCRITOS             ESCOLA
Escola Municipal João Pereira de   28                    Larissa Alves Domingos              9,2
Assis
Escola Municipal Paulo Freire      25                    Karla Maria Domingos                7,5
Escola Municipal Tiradentes        38                    Karina de Cássia Cipriano           7,2
Escola Municipal Padre Antonino 71                       Nialisson Max da Silva              7,0
Escola Municipal Manoel da 112                           Renato Silva                        7,8
Costa Cirne
Escola Municipal Mª das Vitórias 49                      Luís Carlos Medeiros                9,0
Uchoa
Escola Municipal Frei Dagoberto 85                       Maria de Fátima Pereira             7,5
Stucker
Escola Municipal Antônio Mariz     29                    Thiago da Silva                     8,0
Escola    Municipal     Lafayete 102                     Demóstenes Gutierry                 9,5
Cavalcante
Escola     Municipal    Roberto 45                       Jéssica Luana                       7,8
Simonsen
          Tabela 1: Médias dos alunos com primeira colocação, por escola.

          No entanto, percebe-se que os trinta desenhos (figura 1) escolhidos apresentaram
características peculiares às idades, séries, realidades sociocultural (escolas), pois reconhecemos
que estamos muito longe de uma educação ambiental de qualidade por muitos motivos entre eles a
falta de preparação e atualização dos professores de escolas públicas. Para Brasil (1998), cada
professor dentro da especificidade de sua área deve adequar os tratamentos dos conteúdos para
contemplar o tema meio ambiente. Essa adequação pressupõe um compromisso com as relações
interpessoais no âmbito da escola. A educação ambiental se caracteriza por incorporar as dimensões
sociais, políticas, econômicas, culturais, ecológicas e éticas, devendo contemplar a sociedade como
um todo (Dias, 1994).
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          Figura 1. Alguns desenhos premiados

          As figuras abaixo (2 e 3) mostram o evento de lançamento do selo, com entrega de brindes
aos três primeiros colocados por escola, em um total de 30 (trinta) crianças, bem como a
oficialização do “Selo Amigo do Meio Ambiente”, desenho do aluno Demóstenes Gutierry da
Escola Municipal Lafayete Cavalcante.




          Figura 2. Mesa composta por autoridades municipais.




          Figura 3. Crianças premiadas pelo concurso.

       Na figura 4 o aluno recebe o prêmio pelo primeiro lugar no concurso (um
microcomputador) em sua residência, pelo desenho (Figura 5).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            188




          Figura 4. Aluno vencedor do concurso recebendo premiação.




          Figura 5. Desenho escolhido para o selo.

          CONSIDERAÇÕES FINAIS
          A Coordenadoria de Meio Ambiente juntamente com a Secretaria de Educação poderão
contribuir na melhoria da qualidade da Educação ambiental nas escolas públicas municipais de
Campina Grande-PB.
          A melhor maneira de fazer Educação Ambiental com qualidade é levantando os problemas
locais e sensibilizando a sociedade.
          Firmar parcerias entre Município e iniciativa privada, amplia o alcance do projeto, além de
aumentar as condições de trabalho do ponto de vista financeiro.

         REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Gráfica e Fotolito Ltda, 283p, Brasília, 1997.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                           189

    TIMOR-LESTE: PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO
        ESCOLAR DE UM ESTADO EM CONSTRUÇÃO

                                                                                     Elisabet Andrijani TARWANTI
           Aluna do Programa de Pós-graduação Lato Sensu em Educação/área Educação Ambiental, da Universidade
        Nacional Timor Lorosa’e-UNTL/CAPES. Professora secundarista da Escola Secundária Colégio de São José –
                                                                                                    Dili/Timor-Leste
                                                                                      Benedita Aparecida da SILVA
           Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Espírito Santo - IFES- Brasil – Professor-orientador
benedita@ifes.edu.br, Doutora em Ciências Biológicas (UNESP/Botucatu)/Professor Bolsista da CAPES no Programa
     de Pós-graduação Lato Sensu em Educação/área Educação Ambiental, da Universidade Nacional Timor Lorosa’e-
                                                                                     UNTL. Timor-Leste, 2008/2009

          ABSTRACT
          The Southeast Asian country East Timor, is a country which first obtained its
independence in 2002. A range of historical and political factors, and associated conflicts of
interest, have shaped this new nation. The current global pressure for sustainable development is
another challenge in the process of state and identity-building for the Timorese. The current study
was carried out to investigate perceptions of the environment in a school context, as the basis to
examine the effect of such factors on the entire environmental awareness of the country. The study
was carried out between October 2008 and May 2009 at the private catholic vocational secondary
College of St. Joseph, located in the capital city of Dili. The institutional model of this school is that
of the colonial past of the country, and therefore has a substantial effect on the current process of
state-building. This work can be classified as qualitative and interpretive research. It used structured
interviews with students and teachers, as well as observational analysis of the educational/learning
processes. The responses of both teachers and students clearly reflected an idealized vision of the
environment, without conflict. The key environmental issues on the minds of both teachers and
students were air pollution, poor sanitation and deforestation. Global warming was not linked to any
of these issues by respondents. Students and teachers had differing perceptions of the critical causes
and consequences of environmental degradation, but agreed on the general responsibility of society
for the damages seen, and on environmental protection. Teachers had little knowledge of
environmental issues. The integration of environmental awareness in the Timorese society is
incomplete. This partly due to significant communication problems in this multilingual country, as
well as ethnic issues. Environmental awareness however, can act as an important factor for the
Timorese in their own building of a sustainable society.
          KEYWORDS: East-Timor. Environmental perception. Sustainable society; Secondary
College of St. Joseph,

          RESUMO
          Timor-Leste, no Sudeste Asiático, é um Estado independente desde maio de 2002. O
conjunto de acontecimentos histórico-políticos, e as disputas de interesses associados, marcam sua
trajetória, e os desafios atuais em construir a identidade da nação, e um modelo de sociedade
timorense que inclua a demanda global por desenvolvimento sustentável. Esse trabalho tem por
objetivo investigar a percepção ambiental em um contexto escolar, como subsidio de análise da
inserção da dimensão ambiental na realidade timorense. O estudo foi realizado entre outubro de
2008 e maio de 2009, em uma instituição vocacional católica, privada, de ensino secundário, Escola
Secundária Colégio de São José, na capital Dili, cujo modelo institucional corresponde àquele
predominante no passado colonial do país e que subsiste com grande influência no processo atual de
construção desse Estado. Ele caracteriza-se como uma investigação qualitativa e interpretativa, com
o uso de entrevistas estruturadas com alunos e professores, e análise observacional dos espaços de
ensino-aprendizagem. Professores e alunos revelaram uma visão de meio ambiente como natureza
idealizada, e sem conflitos. As problemáticas ambientais de maior relevância apontados, global e
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              190

localmente, para professores e alunos, são aqueles vivenciados no cotidiano, como poluição
atmosférica, falta de saneamento e desmatamento. Aquecimento global não foi relacionado a estes.
Alunos e professores revelam percepções diferenciadas quanto a análise crítica de causas e
consequências dos fenômenos da degradação ambiental, porém concordam na responsabilização da
sociedade em geral pelos danos e pela proteção ambiental. Professores revelam pouco domínio das
temáticas ambientais. Os resultados revelam que a inserção da dimensão ambiental na sociedade
timorense ainda é incipiente, e passa pelo enfrentamento de questões como as barreiras de
comunicação entre sua população multilinguistica, e as rupturas em sua matriz étnica. Porém, ela
pode contribuir como elemento aglutinador do povo, na construção de um projeto comum de
sociedade sustentável.
        PALAVRAS-CHAVE: Timor-Leste; percepção ambiental; sociedade sustentável; Escola
Secundária Colégio de São José.

          INTRODUÇÃO
          Timor-Leste localizado no Sudeste Asiático, é um Estado independente desde maio de
2002. Ele representa no cenário internacional, o caso do maior volume de investimentos da
Assistência para Desenvolvimento Internacional (AID) na reconstrução das infra-estruturas físicas e
administrativas de um país (SILVA ; SIMIÃO, 2007). Colônia de Portugal por mais de 450, seu
território, foi ocupado em 1975, por forças militares da República Indonésia e a ela anexado. Em
1999, por meio de um referendo negociado pela ONU, ocorre sua desocupação pelas forças
indonésias, e tem início a ajuda da assistência internacional. O conjunto de acontecimentos
histórico-políticos, e as disputas de interesses associados, marcam a trajetória do país, e os desafios
atuais em construir a identidade da nação e um modelo de sociedade timorense, que inclua a
demanda global por desenvolvimento sustentável.
          O homem como ser histórico, desde o seu surgimento, vem produzindo profundas
transformações na natureza no sentido da produção de bens para a satisfação de suas necessidades.
Nesse processo ele construiu um modo de vida em sociedades urbano-industriais, que se caracteriza
não apenas por uma grande dependência de produtos gerados por transformações tecnológicas,
como alimentos, vestuários, moradias, medicamentos, transporte, energia, etc, mas também, e
sobretudo, por um elevado distanciamento do meio natural e intensiva degradação desse meio,
colocando em risco a sua própria sobrevivência no planeta Terra. A reflexão sobre a
responsabilidade de todos em relação as questões sócioambientais, adquire cada vez mais relevância
em nível mundial, e passa a fazer parte das agendas dos governos, como estratégia de
desenvolvimento. Assim é que Timor-Leste, o país que mais recentemente alcançou a condição de
Estado independente, já apresenta em sua Lei de Bases da Educação, promulgada em 29 de outubro
de 2008 (RDTL, 2008), a diretriz para abordagem da dimensão ambiental nos curriculos escolares.
          Logo, a compreensão que se tem de natureza e o valor que se atribui a ela, e às relações
que são estabelecidas com o mundo natural, dependem da cultura e do momento histórico
vivenciados por cada povo. A percepção ambiental de uma pessoa, nessa perspectiva, é o resultado
de fatores sociais, como aqueles relacionados com a educação e a cultura, e também da afetividade
como resultado das impressões que os sujeitos estabelecem com o meio onde vivem, das relações
que estabelecem com as pessoas da comunidade, do acesso a informações a partir da escola e outros
meios, televisão, jornal, internet, tradições da comunidade onde vive, além de características
pessoais específicas (HOEFFEL E FADINI, 2007).
          O fato dos sujeitos apresentarem diversas percepções sobre natureza ou mundo natural,
reflete-se também nas percepções que estes sujeitos têm sobre meio ambiente e as questões
ambientais. Conhecer estas percepções, torna-se portanto essencial no processo de elaboração e
aplicação de propostas que busquem contribuir com a melhoria da qualidade ambiental e de vida
das pessoas (SAUVÉ, 2000; REIGOTA, 2002; HOEFFEL e FADINI, 2007).
          O presente estudo tem por objetivo investigar a percepção ambiental relativa a questões
ambientais, como uso de recursos naturais, danos ambientais, aquecimento global, e outros, entre
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            191

alunos e professores da Escola Secundária Colégio de São José, como subsidio de análise da
inserção da dimensão ambiental na educação escolar em Timor-Leste.

         METODOLOGIA
         2.1. A Escola Secundária Colégio de São José
         A Escola Secundária Colégio de São José, é uma instituição vocacional católica, privada,
de ensino secundário subordinada a Congregação Jesuíta, fundada em 1971, em Dili, capital do
Timor-Leste. O seu turno matutino funciona com aulas da matriz curricular obrigatória, e
vespertino, com atividades extra-curriculares. No período de realização do estudo, outubro de 2008
a maio de 2009, contava com um corpo discente representado por 537 alunos, distribuídos nas três
séries do ensino secundário, com média de idade variando de 15 a 18 anos, e predomínio do gênero
feminino. O corpo docente, por sua vez, era constituído por 46 professores, incluindo os gestores,
sendo 19 mulheres e 27 homens, religiosos da congreção jesuíta e não religiosos. Contava ainda
com cinco agentes administrativos. Seu modelo institucional corresponde àquele predominante no
passado colonial do país e que subsiste com grande influência no processo atual de construção desse
Estado. O Colégio de São José, declara como Missão, a formação de lideres para atuarem em suas
comunidades, e atua na perspectiva da educação integral (COLÉGIO DE SÃO JOSÉ, 2008-2009)
         .
         2.2.Metodologia
         2.2.1.Coleta e avaliação de dados sobre a percepção ambiental dos alunos e
professores/gestores da Escola Secundária Colégio de São José.

         Esse estudo, caracteriza-se como uma investigação qualitativa e interpretativa, por meio da
coleta e análise de dados obtidos por meio de dois instrumentos:
          a) Entrevistas estruturadas, na forma de questionário com 15 questões fechadas aplicado a
alunos e professores. A amostra de alunos para aplicação do questionário, foi constituida de 61
educandos, em um total de 537, casualizada por meio de sorteio simples, incluindo
proporcionalmente representantes das três séries: 25 alun(a)os da primeira série (40%), 18
alun(a)os da segunda série (30%) e 18 alun(a)os da terceira série (30%). A amostra de professores
também foi casualizada, observando-se a equitatividade na representação das duas áreas de ensino
existentes na Escola, isto é, Ciências, incluindo professores de matemática, física, biologia,
química; e Sociais, incluindo professores de Sociologia, Economia, Contabilidade, Computador,
Geografia, História e Línguas. Esta amostra ficou constituída por 9 professores, dos quais um tem
também função administrativa, ocupando o cargo de Vice-diretor da Instituição. A análise dos
dados se deu por
          b)Análise observacional dos espaços de ensino-aprendizagem, particularmente por meio de
levantamento da temática ambiental na atividade Exibição da Aprendizagem.
          A atividade Exibição da Aprendizagem é uma atividade de iniciação científica, obrigatória
para a 3ª série como requisito para realização dos exames finais e conclusão do curso secundário.
Os aluno(a)s são organizados em duas áreas de ensino, Ciências e Sociais. O processo dessa
atividade começa no terceiro trimestre da 2ª série, onde os alunos devem definem um tema para o
trabalho a ser apresentado no ano seguinte. Os temas escolhidos são entregues para o Coordenador
da atividade. Na série seguinte, a 3 ª série, o Coordenador define um orientador para cada aluno, e o
processo de orientação tem início. Um vez concluido o trabalho, ele é defendido junto a uma banca
formada por dois professores. O levantamento dos temas dos trabalhos ou projetos científicos que
defendidos na edição Exibição de Aprendizagem 2009, foram analisados com a determinação do
número e as categorias em que a temática ambiental apareceu nos mesmos.

          3) Resultados e Discussão

        A análise dos resultados a partir da aplicação do questionários, sobre a visão de meio
ambiente, entre alunos e professores, revela uma visão romântica, e pouco crítica, associada a esse
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                192

conceito. Entre os professores, esse percentual chegou a 56%, e alunos, a 46%, como apresentado
no Quadro 1. Também é possivel observar neste Quadro, que , 21% dos alunos associam o conceito
a uma visão ecológica e ainda, na mesma proporção a uma visão sócioambiental (a escola, a igreja,
os esgotos, as comunidades humanasos animais, todos os espaços onde vivemos e realizamos
acões). Entre professores, no entanto, 33% associam o conceito a uma visão utilitarista, e nenhum, a
visão sócioambiental.


                 VISÕES SOBRE MEIO AMBIENTE
Sujeitos         Visão romântica Visão                 Visão               Visão           Não        sabe
pesquisados      (%)             Utilitarista(%)       Sócioambiental(%)   Ecológica (%)   opinar (%)
Professores      56              33                    0                   11              0
Alunos           43              13                    21                  21              2
        QUADRO1: Visão de meio ambiente entre alunos e professores/gestores da Escola
Secundária
               Colégio de São José observada em abril de 2009

          A Questão n.2 tratava da percepção dos alunos e professores quanto a relação entre os
fatores crescimento econômico, desenvolvimento e degradação ambiental. Entre os alunos, 49%
concordaram com afirmativa de que é possível haver crescimento econômico e desenvolvimento
social com base no controle das fontes poluidoras e geradoras de degradação ambiental; essa
porcentagem sobe para 78% entre os professores, revelando uma visão menos crítica por parte
destes últimos. Ainda apenas entre os alunos surge a percepção (7%) de que crescimento econômico
e desenvolvimento social no cenário atual, é indissociavel da geração de degradação ambiental.
          A Questão de n. 3, tratava da abordagem de temáticas ambientais no ambiente escolar.
Entre os professores, 56% responderam que a temática ambiental é frequentemente abordada na
escola; entre os alunos, apenas 15% compartilham da mesma opinião, 34% responderam que
raramente e 18%, que nunca é abordada. As Questões de ns. 4 e 12, em complementação com as
Questões de ns. 11 e 13, permitem conhecer a percepção de alunos e professores quanto aos
problemas ambientais globais e locais. Entre os 3 problemas ambientais de maior importância em
nível global, aparecem na visão dos alunos, a poluição atmosférica (52%), o desmatamento (26%) e
a falta de saneamento (19%). Na visão dos professores, aparecem empatados na primeira posição a
poluição atmosférica e a falta de saneamento (56%), na segunda posição, o desmatamento (44%).
Na Questão de n.12, onde se levantou os 3 problemas de maior importância em nível local (cidade
de Dili), novamente aparece, na visão dos alunos, a sequência dos três primeiros lugares anteriores.
Na visão dos professores, a poluição atmosférica (50%) também se mantém como o problema local
de maior importância, seguido pela falta de saneamento(31%) e desmatamento (19%). Em relação
Questão n.11, onde se questiona se a poluição na cidade de Dili pode afetar a saúde da população,
há uma concordância que sim, na visão dos alunos (90%) e professores (100%), observando que
essa poluição é entendida sobretudo como poluição atmosférica. A Questão n.13, onde se questiona
a qualidade ambiental de Dili, na visão dos alunos 55% a consideram boa ou adequada, enquanto
36%, a consideram péssima. Entre os professores, 56% a consideram, boa ou adequada, e 44%
péssima. A poluição atmosférica, resultante da poeira e da poluição veicular, é sentida por toda a
população de Dili, e a taxa de desmatamento em Timor-Leste é de 1,2% ao ano, uma das mais
elevadas do Sudeste Asiático, cuja explicação, segundo o BM&BAD (2007) está na conversão das
florestas em terrenos agrícolas. As representações quanto a responsabilização ambiental se deram
com base na interpretação das respostas às Questões de ns. 5, 6, 7, 8, 9 e 10. A Questão n.5, que
busca conhecer comportamentos negativos, e portanto relações, estabelecidas com o Meio
ambiente, mostram que entre os alunos, no conjunto de ações apresentadas, 48% responderam que
deitam (jogam) ou já deitaram lixo em locais inadequados e 34%, cortam, ou já cortaram árvores de
matas e florestas. Entre os professores, 67% responderam que deitam (jogam) ou já deitaram lixo
em locais inadequados e 22%, cortam, ou já cortaram árvores de matas e florestas. O
comportamento de jogar lixo em locais como vias públicas, é bastante comum na cidade de Dili, e
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           193

não é percebido pela população como uma agressão ao meio ambiente com implicações à saúde
pública. A captura de animais silvestres, sobretudo macacos e papagaios (loricos), como animais de
estimação, ou para venda é outra prática comum observada na cidade de Dili. Entre os sujeitos
pesquisados, apenas os alunos relataram a prática, e em baixa porcentagem (3%). Não há legislação
específica que proíba este tipo de atividade naquele no Timor-Leste. Não há um animal em especial
considerado sagrado no Timor-Leste, mas dentro da concepção mítica original do povo timorense a
natureza no seu todo é considerada sagrada (lulik).Eram frequentes, no entanto, o relato que durante
a ocupação indonésia muitos animais do território timorense foram levados para aquele país,
sobretudo aves, isso somado a internacionalização do seu território, tem levado à perda dessa forma
original de relação do povo com a natureza. As Questões n.6 e n. 7 tratam da atitude dos sujeitos em
relação a prática de ações negativas ao meio ambiente e as ações do governo de Timor-Leste em
relação ao meio ambiente, respectivmente. Os dois grupos concordam na responsabilização da
sociedade em geral pelos danos e pela proteção ambiental. Os resultados observados nas respostas
de professores e alunos apontam para um entendimento de que o governo de Timor-Leste tem
atenção e comprometimento com o meio ambiente. A visão dos professores no entanto é mais
crítica, porque a par dessa atenção do governo, avaliam que ele também provoca danos ao meio
ambiente. A Questão n.10 trata do conhecimento entre os sujeitos pesquisados, de alguma
Organização Não Governamental (ONG) voltada à defesa do meio ambiente em Timor-Leste. No
grupo de professores,78% responderam que sim, e citaram a Fundação Haburas, e no grupo de
alunos, 49%, também responderam que sim, e citaram a Fundação Haburas. A Fundação Haburas,
de acordo com informações contidas em seu site oficial (HABURAS FOUNDATION/FUNDAÇÃO
HABURAS, 2008), foi fundada em 1998 por um grupo de estudantes timorenses, com o objetivo de
mostrar a degradação ambiental causada pelos militares indonésios, durante o período de ocupação
do Timor-Leste. Após o referendo de 1999, a Haburas mudou seu foco de atuação para educação e
gestão ambiental, e com o suporte de muitos doadores internacionais desenvolve projetos nestas
áreas. A Questão n.14, buscou verificar o conhecimento entre professores e alunos, do documento
que visa a redução dos gases do efeito estufa. No grupo dos professores 89%, responderam Tratado
de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, e apenas 11%
Protocolo de Kioto, sendo, o respondente, professor de química. No grupo de alunos, 52%
responderam Protocolo de Kioto; 26% Tratado de Educação Ambiental para Sociedades
Sustentáveis e Responsabilidade Global; 20% Agenda 21 e 2% Carta da Terra. Os resultados
obtidos em relação ao documento que trata da redução da emissão de gases do efeito estufa, mostra
o grande desconhecimento entre professores, sobre os principais documentos norteadores dos
acordos internacionais para as grandes questões ambientais, e entre os alunos, o maior
conhecimento apresentado sobre o documento indica uma possível influência da pesquisadora que
também é professora na Escola Secundária Colégio de São José. Finalmente, a Questão n.15,
buscou conhecer o sentimento dos sujeitos em relação aos problemas ambientais. No grupo dos
professores 45% disse estarem tranquilos porque hoje a humanidade dispõe de tecnologia para
resolver qualquer problema de ordem ambiental. No grupo dos alunos 38% também afirmaram estar
tranquilos, ou pela segurança que sentem na tecnologia (21%) ou porque acreditam que problemas
como o aquecimento global estão muito longe da realidade de Timor-Leste (17%). As porcentagens
dos que afirmaram estar preocupados, foi de 55% entre professores, e 52% entre alunos, com
coincidência entre os dois grupos (44%) para os níveis de degradação ambiental e o risco de
sobrevivência no planeta.

         O levantamento dos temas dos trabalhos ou projetos científicos defendidos na Exibição de
Aprendizagem, edição 2009, foram analisados e a partir dessa análise, determinou-se o número e as
categorias em que a temática ambiental apareceu nos mesmos. Os dados levantados entre os alunos
na área de Ciências, e Sociais, estão apresentados nos Quadros 2 e 3, a seguir.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                     194

Aluno                                  Título                              Temática Ambiental
1- Baptista Mouzinho                   Vulcanismo                          Poluição (atmosférica e
                                                                           chuva ácida)
2- Sri Putri Ningsih                   O impacto das poeiras no sistema    Poluição atmosférica e
                                       respiratório                        saúde pública
3- Dulce Maria                         Bactérias causadoras de diarréias   Saneamento e saúde
                                                                           pública
4- Sonia Mariana Daos                  Compostagem a partir                Resíduo Sólido (lixo)
                                       do lixo

         QUADRO2: Levantamento dos temas relacionados com a temática ambiental na atividade Demonstração de
Aprendizagem dos alunos da 3ª série do Colégio São José do ano letivo de 2009

         O número total de trabalhos defendidos na área de Ciências foi de cinquenta e um (51), e
deste total, apenas quatro (4) trabalhos, ou seja 7,8% desenvolveram a temática ambiental. Entre
estes, a análise das categorias temáticas, mostrou que 2 trabalhos (50%) tratam da poluição, com
ênfase na poluição atmosférica; 1 trabalho (25%) trata do tema saneamento e saúde e 1 trabalho
(25%), aborda o tema resíduos sólidos.

Aluno                                  Título                                Temática Ambiental
1- Gui Santos da Cruz                  Corte e queimada de árvores no
                                       Suco* de Tibar                        Desmatamento
2- Jesuina C. S. X. Belo               A comunidade do subdistrito de Recursos Naturais e sistemas
                                       Laleia e o cultivo de arroz: produtivos
                                       dificuldades no acesso aos recursos
                                       hídricos
3- Joãozinho C. do Carmo               Influência da poluição atmosférica na
                                       saúde da                              Poluição Atmosférica
                                       comunidade
4- Lígia Esperança Guterres            Baixa produtividade agrícola no Recursos Naturais e sistemas
                                       subdistrito no subdistrito de Ossu    produtivos
5- Nancy dos Santos                    Importância da arborização no         Desmatamento
                                       Subdistrito de Metinaro e no país
                                       Timor-Leste
           *Suco= Unidade administrativa
           QUADRO 3: Levantamento de títulos relacionados com a temática ambiental na atividade Demonstração de
Aprendizagem dos alunos do terceiro ano da área de ensino Sociais

          O número total de trabalhos na área Sociais, por sua vez, foi de oitenta e seis (86), e deste
total, apenas cinco trabalhos (5,8%) desenvolveram a temática ambiental. Analisando-se estes cinco
trabalhos quanto as categorias temáticas, 2 trabalhos (40%) tratam da temática desmatamento e 2
(40%), da temática uso de recursos naturais e sistemas produtivos, e 1(20%), trata da poluição, com
ênfase na poluição atmosférica.
          Os resultados obtidos por meio da atividade Demonstração da Aprendizagem, nas áreas de
Ciências e Sociais, estão de acordo com os aqueles obtidos sobre a percepção dos sujeitos a partir
da aplicação dos questionários, e indicam que a dimensão ambiental ainda não está
significativamente inserida nas preocupações da sociedade civil de Dili, e na timorense em geral.
Quando as questões ambientais surgem em contextos como o escolar, as temáticas são aquelas
relativas aos problemas vivenciados de forma muito concreta na vida cotidiana, sem no entanto
uma vinculação ou análise mais crítica ou ampliada da crise ambiental vivenciada pela humanidade
de forma coletiva.

         4) Conclusões
         Os professores(as), em um mundo onde a diversidade de situações e problemas se tornam
cada vez mais complexos em todas as áreas, precisam estar cada vez mais preparados para
reelaborar seus conhecimentos e atuar como facilitadores da construção de conhecimentos e
cidadania, para seus alunos aprendizes;
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          195

          A falta de capacitação dos professores para abordagem da temática ambiental, identificada
no contexto investigado, se aplica a realidade de Timor-Leste em geral, e implica na necessidade
de investimentos em formação continuada desses profissionais;
         A construção da percepção ambiental de alunos, se formata a partir de influências, além
muros escolares;
         O aquecimento global, tido na atualidade como o maior problema ambiental enfrentado
pela humanidade, é suplantado, na percepção dos sujeitos avaliados, por problemas locais como
poluição atmosférica, falta de saneamento e desmatamento, sem uma ligação reflexiva com aquele
de natureza global;
         A ocupação no passado por forças militares indonésias, o seu contexto geopolítico do
passado e atual e a ostensiva presença da ajuda internacional em seu território, são fatores que
atuam paulatinamente na perda da identidade cultural do povo Timorense, e da sua relação de
harmonia com a natureza;
         O resgate de um projeto comum de sociedade ambientalmente sustentável, irá contribuir
com a superação das rupturas linguisticas e étnicas, que dificultam a construção do Estado-Nação
Timor-Leste.

          REFERÊNCIAS
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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                     196

UNIVERSIDADE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE
                 CONSUMO GLOBAL

                                                                                 ARAÚJO, Monica Lopes Folena
                                             Doutoranda em Educação (UFPE), Profa. Depto. de Educação (UFRPE)
                                                                                      monica.folena@gmail.com
                                                                                      FRANÇA, Tereza Luiza de
                                                       Profa. do Programa de Pós-Graduação em Educação (UFPE)
                                                                                            sansilsi@uol.com.br

          RESUMO
          Grande parte dos problemas socioambientais que vivemos resulta do entendimento de
desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico. Neste cenário, a Educação representa
a possibilidade de um futuro sustentável. O presente trabalho tem por objetivo geral refletir
proposições acerca do papel da universidade para a inserção da Educação Ambiental no mercado do
consumo global. A partir de revisão bibliográfica apontamos que alguns destes papéis são: formar
os mais diversos profissionais sob a lógica da sustentabilidade, contribuir para a discussão de temas
prioritários ao desenvolvimento sustentável, ocupar-se dos problemas locais, ser universal,
harmonizar-se com a natureza, criar um ambiente saudável, recuperar sonhos éticos, redescobrir o
valor da espiritualidade e transgredir os conceitos e práticas obsoletas. A universidade precisa
recriar sua história pensando na sustentabilidade que deve ser vista no plural. Isto implica em
chegarmos a consensos éticos sobre questões fundamentais; a inserção da Educação Ambiental na
Universidade é uma delas.
          PALAVRAS-CHAVE: Universidade; Educação Ambiental; Consumo.

          ABSTRACT
          Most of social environmental problems we live result of the understanding that
development is a synonym of economic development. In this scenery, Education represents the
possibility of a sustainable future. The present paper has as main goal think about university’s role
to the insertion of Environmental Education in the global consumption market. Using bibliographic
review, we point some of these roles that are: form the most different professionals under the logic
of sustainability, contribute with the discussion of priority themes to sustainable development, get
involved with local problems, be universal, tone in with nature, create a healthy environment,
recover ethic dreams, rediscover the value of spirituality and infringe obsolete concepts and
practices. The University needs to recreate its history considering sustainability that has to be seen
in the plural. This implies that we’ve got to get to ethic consensus about primordial questions; the
insertion of Environmental Education in university is one of them.
          KEYWORDS: University; Environmental Education; Consumption.

          INTRODUÇÃO
          As catástrofes anunciadas em jornais, revistas e outros meios de comunicação lembram-
nos diariamente do desequilíbrio ecológico, social, político, educacional e econômico no planeta.
São furacões, tornados, chuvas sem tréguas que castigam Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso,
desertificação no Nordeste, violência causada pela desumanização do humano, desrespeito às
diferenças, corrupção, fome e miséria em todo o mundo.
          Grande parte destes problemas apontados resulta do entendimento de desenvolvimento
como sinônimo de crescimento econômico. Vivemos em uma sociedade em que produção e
conservação de recursos naturais ainda parecem caminhar em direções contrárias. O mercado de
consumo global aumenta e carrega consigo registros freqüentes da insustentabilidade. A
coisificação já não é termo exclusivo das coisas, mas também das pessoas, pois marca, muitas
vezes, as relações humanas. Como nos diz Seabra (2009a), “o desenvolvimento sustentável está
francamente em desacordo com o modelo de consumo global” (p. 01).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          197

               Neste cenário, a Educação Ambiental (EA) encontra campo fértil para provocar
mudanças comportamentais e atitudinais no homem e, desse modo, melhorar as relações homem-
natureza e homem-homem. Mas por onde começar? Em casa, na escola, na rua, em todos os
lugares; mas, também, na universidade. Quais os papéis desta para a inserção da EA no mercado do
consumo global?
               O presente trabalho teve como objetivo geral refletir proposições acerca do papel da
universidade para a inserção da Educação Ambiental no mercado do consumo global. Deste modo,
definimos como objetivos específicos: discutir a EA como promotora do desenvolvimento
sustentável e contribuir com as discussões relativas à necessária inserção da EA nas universidades.

     EDUCAÇÃO AMBIENTAL, SUSTENTABILIDADE E MERCADO DO CONSUMO
GLOBAL: QUAIS OS PAPÉIS DA UNIVERSIDADE?

          Na Constituição Brasileira de 1988, o artigo 225 enfatiza que “todos têm direito ao Meio
Ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de
vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações”. No parágrafo 1º, o inciso VI determina: “Promover a Educação
Ambiental em todos os níveis de ensino e conscientização pública para a preservação do Meio
Ambiente”. Já a promulgação da lei 9795/99 instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental
(PNEA), oferecendo amparo legal à EA, responsabilizando e envolvendo todos os setores da
sociedade e incorporando oficialmente a EA nos sistemas de ensino.
          Em Pernambuco, o Programa de Educação Ambiental do Estado (PEA/PE) tem como um
de seus objetivos a conexão com os princípios norteadores estabelecidos na PNEA e com a Política
de Educação do Estado. Evidencia-se, dessa forma, que as ações e práticas educativas devem
respaldar a necessidade da conservação dos recursos ambientais, elo indispensável à construção de
uma sociedade justa e ecologicamente equilibrada (PERNAMBUCO, 2006).
          Assim, o Poder Público e a coletividade devem preservar a qualidade do Meio Ambiente
trabalhando juntos em favor da vida planetária, pois a organização social e econômica vigente nos
oprime e promove a alienação, materializada na subjugação pelo capital e “coisificação” de tudo e
de todos, assim estabelecendo uma dicotomia na relação sociedade-natureza e na relação entre
humanos. Logo, esse pacto para garantir a qualidade de vida e do ambiente não pode ser mediado
pela ideologia de mercado, mas sim pela idéia de sustentabilidade que, segundo Freire (2001), é
uma racionalidade impregnada de emoção; e para Morin, Ciurana e Motta (2003), é uma lógica do
vivente.
          Entretanto, como nos alerta Seabra (2009b), o modelo de desenvolvimento atual está
fundamentado no consumismo massificado. Consumir, para muitos em nossa sociedade, significa
fortalecimento ou até mesmo construção de identidade. Mas será que somos uma sociedade de
consumo ou uma sociedade ideologizada pelo consumo?
          Para Zacarias (2009), a segunda opção parece corresponder mais ao tipo de sociedade
contemporânea já que somente pequena parte da população mundial tem acesso à sociedade de
consumo. A autora defende a centralidade da produção como “fator organizador da sociedade e não
do consumo” (p. 120). Assim, podemos entender o consumo como uma das fases de um mesmo
processo que inclui a produção, a distribuição, a circulação e o consumo propriamente dito. Este
seria, então, a concretização da produção e também do trabalho.
          Porém, sob a ótica do capitalismo, a produção deixa de ser concebida como processo que
leva à satisfação das necessidades humanas e passa a ser desempenhada com o propósito de
obtenção de lucro. E, nestas condições, o consumo pode se tornar alienado, levando as pessoas a
colecionar mercadorias. O ato de consumir assume o significado de encontrar felicidade e deteriora
as relações sociais.
          As relações sociais capitalistas são, de acordo com Zacarias (2009), as causas da crise
ambiental, pois são fundadas na exploração do trabalho pelo capital, no lucro, na exploração da
força de trabalho e dos recursos naturais e no acúmulo do capital. Estes argumentos nos levam a
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                             198

constatar que os padrões de produção e de consumo na sociedade são “injustos socialmente e
insustentáveis ecologicamente” (idem, p. 135).
         A EA, neste cenário, precisa ser entendida como promotora de mudanças ambientais, mas
também de mudanças sociais. A partir de opções político-pedagógicas, a EA pode contribuir para a
“reprodução da sociedade tal qual está, ou a sua transformação” (LAYRARGUES, 2009, p. 11). A
EA, inserida em todos os níveis de ensino, pode ser potencializada na Década da Educação para o
Desenvolvimento Sustentável (2005-2014) e assim promover a transformação social. Segundo o
documento proposto pela UNESCO (2005):

           O objetivo maior da Década é integrar princípios, valores e práticas de desenvolvimento sustentável em todos
os aspectos da educação e do ensino. Esse esforço educacional deve encorajar mudanças no comportamento para criar
um futuro mais sustentável em termos de integridade do meio ambiente, da viabilidade econômica e de uma sociedade
justa para as atuais e futuras gerações (p. 57)

          Neste sentido, o programa Educação para o Desenvolvimento Sustentável exige a
reorientação da Educação desde o jardim de infância até a universidade, afinal a Educação “é um
elemento indispensável para que se atinja o desenvolvimento sustentável” (idem, p. 27). O que nos
parece problemático no documento, e faz-nos concordar com Gadotti (2008), é a relação entre
Educação para o Desenvolvimento Sustentável e Educação Ambiental. O documento propõe que
aquela não deve ser equiparada a esta e define a EA como uma disciplina que enfatiza a relação dos
homens com o ambiente natural. Portanto, “desenvolvimento sustentável engloba a educação
ambiental, colocando-a no contexto mais amplo dos fatores socioculturais e questões sociopolíticas
de igualdade, pobreza, democracia e qualidade de vida” (UNESCO, 2005, p. 46).
          Encaramos a compreensão da EA como disciplina um retrocesso nas discussões até hoje
estabelecidas nos grandes fóruns mundiais. A EA já engloba elementos sociais, culturais, políticos,
econômicos e educacionais, portanto, não há porque substituir um termo por outro. Através da
prática pedagógica da EA em todos os níveis de ensino podemos alcançar o desenvolvimento
sustentável. Debrucemo-nos então, sobre os papéis da universidade na inserção da EA.
          O artigo 52 da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) esclarece que “as universidades são
instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa,
de extensão e de domínio e cultivo do saber humano [...]”. Logo, as universidades são responsáveis
pela formação dos professores da Educação Básica e dela própria e pela formação de profissionais
das mais diferentes áreas que atuam diretamente com temas que perpassam a EA, como
engenheiros, agrônomos, biólogos, administradores de empresas e outros.
          A formação destes profissionais pode restringir-se à aquisição de competências técnicas o
que resultaria na visão provavelmente utilitarista dos recursos naturais, mas deve compreender as
realidades sociais, como ressalta Souza (2001), e também as ambientais. A indissociabilidade
ensino-pesquisa na universidade potencializa este modelo de formação esperado já que a pesquisa
cria novos conhecimentos e apresenta-se como “mola propulsora do progresso cultural, científico e
tecnológico da humanidade” (idem, p. 152). Deste modo, a universidade assume papéis
fundamentais na transformação ambiental e social da sociedade.
          A universidade constitui-se como um potencial local de formação de professores.
Entretanto, como argumentam Guerra e Guimarães (2007), as universidades foram um dos últimos
espaços instituídos da sociedade em que a EA se inseriu. Mesmo com este déficit, é incontestável a
responsabilidade destas instituições na formação e na atuação profissional dos professores. Além da
formação inicial que contemple princípios básicos da EA e metodologias diferenciadas de trabalho
neste campo, a universidade deveria ser um lugar para o qual o professor pudesse continuamente
retornar para atualizar-se das pesquisas realizadas em sua área de trabalho. A parceria escola-
universidade é vantajosa para todos, pois o professor se atualiza e, ao mesmo tempo, pode
contribuir na formação do licenciando.
          Formar professores é tarefa árdua e exige a compreensão de que, desde o primeiro
momento que entramos em uma escola para cursar a Educação Infantil ou o Ensino Fundamental,
começamos a construir esquemas e/ou modelos de docência. Deste modo, o papel de formar
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             199

professores para atuar efetivamente com a EA em todos os níveis de ensino leva-nos a algumas
pistas de ações das instituições formadoras: ser agente de transformação para o desenvolvimento
sustentável, conscientizando licenciandos, funcionários e professores de sua responsabilidade em
introduzir mudanças positivas na sociedade; incentivando valores, comportamentos e estilos de vida
adequados para um futuro sustentável; fortalecer a capacidade de reflexão orientada para o futuro e
valorizar nossa diversidade humana e natural como nossa principal riqueza.
          Amaro Lins, reitor da Universidade Federal de Pernambuco, em painel apresentado
durante o seminário Educação no Brasil: fator de desenvolvimento sustentável, organizado pela
Academia Pernambucana de Ciência (APC), trouxe-nos a reflexão de outro papel das universidades:
o de contribuir para a discussão de temas prioritários ao desenvolvimento sustentável. Entre os
temas destacados pelo reitor destacamos: cidades sustentáveis, energia e sustentabilidade,
empreendedorismo e tecnologias sociais, eco-eficiência e produção mais limpa, políticas públicas e
sustentabilidade, ética e sustentabilidade e mudanças climáticas.
          No mesmo evento, o senador e ex-ministro da Educação, Cristóvão Buarque, apontou
outros papéis da universidade que tem por meta a sustentabilidade: ocupar-se dos problemas locais;
ser universal; harmonizar-se com a natureza; criar um ambiente saudável; recuperar sonhos éticos,
controlando a técnica e unindo-a à humanidade; redescobrir o valor da espiritualidade e transgredir
os conceitos e práticas obsoletas, o que implica em mudanças permanentes na sua estrutura,
currículos e temas de estudo.
          Os papéis da universidade para a inserção da EA na sociedade atual são muitos e cabe-nos
refleti-los e implementá-los, pois o fortalecimento desta instituição é imprescindível para o avanço
nas questões socioambientais. Conhecimento, ciência e tecnologia a favor da vida em todas as suas
formas, o que inclui luta contra as desigualdades sociais, respeito às culturas e raças, novos padrões
de vida, enfim, a construção de um mundo sustentável.

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         Todos os papéis que enumeramos para que a universidade contribua efetivamente para a
inserção da EA na sociedade e, conseqüentemente, atinjamos o desenvolvimento sustentável estão
contidos em um papel maior que precisa ser desempenhado pela mesma. Trata-se de servir ao bem
público, produzir conhecimento e massa crítica como compromisso social.
         Contudo, para que os papéis apontados neste trabalho sejam desempenhados, é primordial
que a EA seja inserida, primeiramente, na universidade. Professores, alunos e funcionários precisam
ser envolvidos em uma atmosfera diferente, um ambiente que promova e contribua com a vida.
Novos padrões comportamentais e atitudinais precisam ser inseridos na mesma, como a
preocupação com o gasto de energia, o consumo e a quantidade e destino dos resíduos produzidos
por ela.
               Sem dúvida, a universidade é um dos maiores patrimônios de uma nação, pois dela
saem os profissionais que alimentarão o mercado, farão o desenvolvimento e mudarão o futuro. Mas
em que direção? A humanidade chegou a um ponto que poderia responder a quase todas as suas
necessidades, porém, isso não ocorre. O campo das relações está seriamente comprometido. A
humanidade parece ter encontrado uma missão ainda maior que passa pela universidade:
humanizar-se a si mesma.
               Nesta perspectiva, o pensamento fragmentado não mais dá conta das necessidades
atuais. Precisamos questionar as racionalidades e pensar em um paradigma complexo. Como pensar
de forma complexa em universidades departamentalizadas? A universidade precisa recriar sua
história pensando na sustentabilidade que deve ser vista no plural. Isto implica em chegarmos a
consensos éticos sobre questões fundamentais; a inserção da EA na universidade para a
sustentabilidade ambiental, social, política, econômica e educacional é uma delas.

        REFERÊNCIAS
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Senado, 1988.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                       200

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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                       201

   A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DO DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL: UMA LEITURA A PARTIR DA SOCIEDADE DO
                    CONSUMO

                                                                                           Fábio de Jesus Barreto
                                                                                  Mestrando em Geografia – UFS
                                                                                      fabiojbarreto@ibest.com.br
                                                                                              Sheilla Souza Prata
                                               Licenciada em Geografia – UFS e Bacharelando em Geografia – UFS.
                                                                                      sheillaprata@yahoo.com.br

         RESUMO
         O presente estudo tem como objetivo discutir a forma como o discurso do
desenvolvimento sustentável tem sido utilizado, atentando para as contradições de suas práticas no
seio da sociedade do consumo, onde todas as formas de produção ao invés de atender as
necessidades de reprodução humanas, visam à reprodução do sistema produtor de mercadorias que
tem como único objetivo a realização do lucro, dessa forma, produção, consumo e desperdício são
as principais características desse modelo social. Assim o papel da educação no sistema capitalista é
promover o desenvolvimento do movimento de expansão do capital, onde, através dela todos os
discursos estão velados de forma a possibilitar e mascarar todo o verdadeiro processo que envolve a
destruição e degradação do planeta que colocam em risco até mesmo a existência da própria
humanidade. Dessa forma, a possibilidade de existir um verdadeiro desenvolvimento sustentável só
se dará mediante a construção de uma sociedade onde a solidariedade em busca da satisfação das
necessidades humanas seja colocada como ponto central, uma sociedade onde o principal objetivo
seja a emancipação da humanidade.
         PALAVRAS-CHAVE: Sistema Capitalista, Educação, Desenvolvimento Sustentável

         ABSTRACT
         This study aims to discuss how the discourse of sustainable development has been used,
paying attention to the contradictions in their practices within the consumer society, where all forms
of production rather than meet the needs of human reproduction, aim the production of goods-
producing system that has as its sole objective to make a profit, thus, production, consumption and
waste are the main characteristics of this social model. Thus the role of education in the capitalist
system is to promote the development of the movement of capital expansion, where, through it all
speeches are veiled so as to enable and mask any real process that involves the destruction and
degradation of the planet that endanger even the very existence of mankind. Thus, the possible
existence of a true sustainable development will only be by building a society where solidarity in
pursuit of the satisfaction of human needs to be placed as a hub, a society where the main goal is the
emancipation of humanity.
         KEYWORDS: Capitalist System; Education; Sustainable Development

         INTRODUÇÃO
         Vivemos hoje um momento impar dentro da história daquilo que denominamos ao longo
do tempo de educação ambiental, sobretudo quando esta se encarrega de fornecer o suporte
necessário ao pleno estabelecimento e manutenção do Status cuo da atual sociedade de consumo.
Essa preocupação fica mais evidente quando vinculada principalmente ao discurso e a prática da
Educação Ambiental e do Desenvolvimento Sustentável.
          As transformações cíclicas do sistema capitalista que sucedem os seus momentos de crises
para os quais a reestruturação produtiva se coloca como necessária uma vez que objetiva a retomada
dos padrões anteriores de acumulação, provocam em escala cada vez mais crescente, o uso e a
exploração indiscriminada dos recursos naturais.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                 202

         O metabolismo social do capital e o processo de contradições que fazem parte da sua base
material se encarregam de criar todas as formas necessárias ao seu processo de acumulação
crescente sem o qual a própria sociedade do consumo estaria condenada, de forma a dar suporte ao
processo contraditório de geração do lucro a educação é utilizada para promover o desenvolvimento
do movimento de expansão do capital, onde, através dela todos os discursos estão velados de forma
a possibilitar e mascarar todo o verdadeiro processo que envolve a destruição e degradação do
planeta que colocam em risco até mesmo a existência da própria humanidade. Essa funcionalização
de toda a degradação ambiental e esgotamento dos recursos naturais que vemos hoje e que é
promovida pelo discurso da educação ambiental gerada inclusive nos centros acadêmicos, tem-se
constituído como ferramenta fundamental para atender as necessidades do sistema produtor de
mercadorias.
         A partir dessa premissa temos o objetivo de discutir a forma como o discurso do
desenvolvimento sustentável tem sido utilizado, bem como a impossibilidade da sua prática no seio
da sociedade do consumo, onde todas as formas de produção ao invés de atender as necessidades de
reprodução humanas visam à reprodução do sistema produtor de mercadorias que tem como único
objetivo a realização do lucro, dessa forma, produção, consumo e desperdício são as principais
características desse modelo social.
         O presente trabalho foi desenvolvido através de observações empíricas onde o local é
apenas um recorte escalar compreendido a partir do regional e global, as revisões bibliográficas e
análises metodológicas e discursivas foram realizadas através de intensos debates em grupos de
estudo e a partir desse universo emerge a prática pedagógica e seu discurso sobre o tema abordado
como objeto da discussão.

          A (IM)POSSIBILIDADE DA PRÁTICA X DISCURSO NA SOCIEDADE DE
CONSUMO
          É inquestionável que a atual sociedade capitalista dispõe do produto do seu progresso
científico, que nada mais representa do que séculos de exploração da classe trabalhadora e
destruição desenfreada dos recursos naturais, entretanto, esse progresso científico, que confere a
atual sociedade a capacidade de exterminar a fome e a desigualdade no mundo é totalmente
aproveitado no emprego da técnica das linhas produtivas, para a realização do lucro, dessa forma, o
que pode ser constatado pelo observador mais atento é que ao invés de serem atendidas as
necessidades humanas o que se vê são níveis cada vez mais acentuados de concentração, consumo e
desperdícios e que, paradoxalmente, acaba gerando os mais diversos tipos de problemas de natureza
social e ambiental.
         O capitalismo contemporâneo operou, portanto, o aprofundamento da separação entre, de um lado,
a produção voltada genuinamente para o atendimento das necessidades e, de outro, as necessidades de sua
auto-reprodução. E, quanto mais aumenta a competitividade e a concorrência intercapitais, mais nefastas são
suas conseqüências, das quais duas são particularmente graves: a destruição e/ou a degradação crescente do
meio ambiente, na relação metabólica entre homem, tecnologia e natureza, conduzida pela lógica societal
subordinada aos parâmetros do capital e do sistema produtor de mercadorias (Mészáros, 2002, p. 18).

               Diante dessa perspectiva, para esse modelo de sociedade, qualquer tipo de
possibilidade de desenvolvimento que atenda padrões de significativa sustentabilidade ambiental é
fruto é mera especulação. E a proposição desse discurso na grande maioria das vezes serve antes de
tudo, para atender ao mascaramento necessário ao controle “aceitável” da totalizante destruição
ambiental causado inevitavelmente pelo desenvolvimento capitalista.
               Crescimento desordenado, desemprego, violência, crises em variados seguimentos
sociais permeiam as discussões nos mais diferentes espaços de debate e veículos de comunicação.
Porém, mais do que nunca, vê-se o tema educação ambiental ganhar notoriedade, sobretudo a partir
da necessidade da funcionalização da degradação ambiental desenfreada e indiscriminada dos
recursos naturais, causada, sobretudo pela necessidade de acumulação crescente e reprodução
ampliada do capital.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                       203

              Alguns autores mais entusiasmados com o romantismo do sistema produtor de
mercadorias chegam a afirmar que;

         Sem dúvida somente a prática de um desenvolvimento econômico que concilie as prioridades
ambientais em seus objetivos pode alterar este quadro de insustentabilidade a longo prazo, proporcionando
uma harmonia entre as atividades e o meio ambiente (FRANCISCO, 1996, p 149).

         Naturalmente a formula apresentada pelo autor serviria de fato como a salvação para todos
os problemas de ordem ambiental, porem, é necessário observar que estamos diante da necessidade
de acumulação crescente do sistema produtor de mercadorias, onde para continuar existindo é
necessário que a cada ciclo os padrões de acumulação sejam superiores ao que o antecedeu, dessa
maneira, qualquer possibilidade de conciliação entre produção e preservação do meio ambiente
somente poderia existir diante de um consumo racional que pudesse ter como objetivo a retirada
consciente dos recursos naturais, por outro lado a retirada consciente desses recursos naturais na
sociedade do consumo de maneira alguma poderia representar controle de extração, produção e
destruição dos recursos naturais.

          DE ACORDO COM KARL MARX;
          A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades,
satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estomago ou da
fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de
subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente, como meio de produção (MARX, 2004, p 57).


         Para Marx, a mercadoria serve antes de mais nada para satisfazer necessidades humanas,
entretanto, sob a lógica do capital essa mercadoria passa a satisfazer a necessidade de acumulação
do capital. Diante desse fato a sua produção passa a ser uma necessidade constante, não
interessando se essa mercadoria será consumida ou não, ou mesmo se essa produção destruirá o
meio ambiente ou não.
          E essa transformação aplicada na mercadoria pelo capital que transforma a mercadoria de
valor de uso à valor de troca, modifica completamente a sua posição na relação entre sociedade e
natureza, onde a satisfação de necessidades humanas passa a não mais interessar e a produção do
lucro assume então o papel de elemento central, o único interesse passa a ser então o consumo
produtivo.
         Nesse contexto, o discurso do desenvolvimento sustentável, torna-se na atualidade uma
grande necessidade para a continuidade da exploração desenfreada dos recursos naturais, porém,
qualquer leitor mais atento reconhece de imediato a impossibilidade da sua prática em uma
sociedade de consumo, onde a principal marca é o desperdício.
         Nesse sentido a prática de um desenvolvimento sustentável consequentemente teria de
perpassar por uma nova maneira de se pensar sociedade, um modelo de sociedade onde o objetivo
principal não fosse a produção desenfreada do lucro, mas sim uma sociedade que produzisse para a
satisfação das suas necessidades.
          O principio básico da sociedade capitalista é a produção para o lucro, e dessa maneira, o
circuito da produção possui um objetivo imediato que é a realização da mais valia21 , que só se dará
através do consumo da sua produção, dessa maneira todo o discurso que sustenta e fundamenta esse
mecanismo de reprodução tem que estar dentro desse esquema de realização capitalista, é por esse
motivo que nos discursos convencionais de desenvolvimento do capital quase nunca vemos de
forma prática um direcionamento a uma postura de combate ao consumo desenfreado, e sim um
discurso normativo sobre esse consumo, ou seja, um discurso que antes funcionaliza esse consumo,

21       Ver MARX, K. O capital: crítica da economia política; apresentação Jacob Gorender; coordenação e revisão
de Paul Singer; Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. – São Paulo, SP: Abril Cultural, 1982.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              204

ou que ideologicamente transmita uma falsa preocupação social que desvia o olhar da sociedade do
verdadeiro foco de destruição ambiental.
         Coleta seletiva, plantação de mudas de árvores, filtros purificadores automotivos, essas são
geralmente as saídas básicas para se escapar da degradação ambiental. Entretanto, se olharmos bem,
estas também são formas de potencializar o consumo. No entanto quando se resolve nas
conferencias internacionais limitar a emissão de gases poluentes na atmosfera, produzidos pela
produção industrial, esses argumentos são imediatamente refutados, pois isso coloca-se contra os
interesses dos grande capital internacional.
           Tudo que se opuser a acumulação estará se opondo ao funcionamento do sistema, que
necessita de um grau cada vez maior de consumo, para alimentar a necessidade de acumulação
crescente.

          Mas talvez a mais séria das atuais tendências de dominação econômica e cultural seja a forma
voraz e terrivelmente perdulária com que os Estados Unidos tomam para si os recursos de energia e de
matérias-primas do mundo: 25% deles para não mais que 4% da população do mundo, com dano imenso e
crescente para as condições ambientais de sobrevivência humana. Pois, nesse mesmo espírito, os Estados
Unidos continuam o processo de sabotagem ativa de todos os esforços internacionais que visam introduzir
alguma forma de controle para limitar e, talvez no ano de 2012, reduzir em certo grau a atual tendência
catastrófica de dano ambiental, que já não pode mais ser negado nem mesmo pelos mais empedernidos
apologistas do sistema (Mészàros, 2003, p. 53).

          A abordagem que temos hoje de desenvolvimento sustentável bem como de educação
ambiental, é totalmente apropriada e utilizada para que a sociedade acompanhe e encontre maneiras
economicistas de lidarem com esse discurso, servindo assim de potencializador na reprodução
ampliada do capital. Essas medidas além de criarem as formas de controle social que possibilitam a
solidificação desse discurso, reproduzem ainda de maneira perversa uma forma de controle
ideológico eficiente, viabilizado graças aos meios educacionais.

         A PRÁTICA PEDAGÓGICA PARA A FUNCIONALIZAÇÃO DA DEGRADAÇÃO
AMBIENTAL
         O objetivo central da educação na sociedade capitalista é fornecer os conhecimentos
necessários à inserção do indivíduo no mercado de trabalho, além de preparar a sociedade para a
aceitação e naturalização de todas as disfunções geradas contraditoriamente pelo sistema produtor
de mercadorias.
         Nesse sentido, utilizada dessa forma, a educação passa de instrumento emancipador do
indivíduo a um aparelho ideológico de Estado. Ou seja, é apenas uma peça no funcionamento da
engrenagem geradora de lucro.
         Para Mészàros o papel da educação no atual contexto da sociedade capitalista é;

         Fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário a maquinaria produtiva em expansão do
sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses
dominantes (MÉSZÀROS, 2005, p.15).

               Desta forma, a escola constitui-se como espaço aberto para efetivação do processo,
em função de reunir em seu meio os instrumentos necessários para que tal prática se difunda com
maior rapidez e “confiabilidade”, pois, ideologicamente, a escola é concebida como espaço de
produção e transmissão de conhecimento, legitimado pelo sistema a partir do desenvolvimento de
projetos que venham atender os seus próprios interesses.
         Nesta diretriz que, diante das atuais transformações sócio-ambientais provocadas pelo
consumismo desenfreado e necessidades de respostas ao modismo da política de desenvolvimento
da educação ambiental, o sistema educacional é permeado por projetos para atender e/ou propor
medidas para a prática da educação ambiental. Porém, está funciona apenas de maneira a normatizar
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              205

a degradação ambiental, já que a real preservação do meio ambiente atacaria profundamente os
mecanismos de reprodução desse sistema.
         Nas mais diversas instituições de ensino é possível observar o modismo do discurso
convencional que chama a atenção para a importância do desenvolvimento sustentável tomando
conta de todos os espaços como única alternativa para a continuidade viável para o planeta, porém,
a reprodução desse pensamento, na maioria das vezes, acaba contribuindo com a consolidação e
reprodução da ordem consumista, perdendo assim a noção da real idéia de como está solidificado
esse discurso e qual é a sua principal finalidade.
         Esse discurso acaba transmitindo ao indivíduo a responsabilidade por toda a degradação
ambiental, que hoje ameaça a humanidade, fazendo com que ele perca a verdadeira percepção de
como essa degradação ambiental está estabelecida e que tipo de interesses a tornam possível.

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         O discurso e a prática da educação ambiental e do desenvolvimento sustentável se
constituem numa verdadeira anomalia quando aplicado a um modelo de sociedade onde todos os
objetivos estão voltados para a produção do lucro, que por sua vez só se realiza com o consumo.
Esse consumo por sua vez de modo algum servira para satisfazer as necessidades humanas, mas sim
a necessidade de acumulação capitalista, já que para a sua manutenção é necessário que essa
reprodução se realize de forma ampliada, expandindo assim cada vez mais os seus horizontes
produtivos.
               O sistema capitalista na sua atual conjuntura atravessa mais uma vez, por um período
de crise, dessa vez uma crise que ameaça a própria existência do modelo de sociedade. Uma das
formas buscadas para a superação dessa crise está na reprodução ideológica do controle da
degradação ambiental, a partir do indivíduo, que agora passa a acumular os papeis de vitima e
atualmente de principal autor dessa degradação, fazendo assim com que esse discurso aliado a essa
prática acabe atuando de forma ideológica na funcionalização da degradação ambiental.
               Segundo Mészàros;

         A criação da alternativa radical ao modo de reprodução metabólica do capital é uma necessidade
urgente, mas não há de acontecer sem uma reavaliação crítica do passado (MÉSZÀROS, 2002, p. 21).

          É nesse sentido que defendemos que, para que haja a possibilidade de um verdadeiro
desenvolvimento sustentável este somente seria possível mediante a construção de uma sociedade
onde a solidariedade em busca da satisfação das necessidades humanas se colocasse como ponto
central, uma sociedade onde o principal objetivo seja a emancipação da humanidade.

        BIBLIOGRAFIA
        Campinas, SP: Editora da Unicamp, São Paulo: Imprensa Oficial, 2001.
        FOLADORI, Guillermo. Limites do desenvolvimento sustentável; trad. Marise Manoel.
        FRANCISCO, C. F. Agricultura e meio ambiente. Um estudo sobre a sustentabilidade
ambiental de sistemas agrícolas na região de Ribeirão Preto (SP), São Paulo, 1996. Tese de
doutorado em Geografia. Departamento de Geografia do instituto de Geociências e Ciências Exatas,
Universidade Estadual Paulista.
        MARX, K. O capital: crítica da economia política; apresentação Jacob Gorender;
coordenação e revisão de Paul Singer; Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. – São Paulo,
SP: Abril Cultural, 1982.
        MÉSZÀROS, I. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005.
        ____________ O século XXI socialismo ou barbárie?; tradução de Paulo César
Castanheira. - São Paulo, SP: Boitempo Editorial, 2003.
        ____________ Para além do capital: Rumo a teoria da transição; apresentação de Ricardo
Antunes; tradução de Paulo Cesar Castanheira e Sérgio Lessa – São Paulo, SP: Editora INICAMP /
Boitempo, 2002.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                         206

     A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR: A
      ESCOLA, O PROFESSOR E O ENSINO DE GEOGRAFIA

                                                                                             Juliana Felipe FARIAS
                                                           Universidade Federal do Ceará - Graduanda em Geografia
                                                                                        julianageoufc@hotmail.com
                                                                                     Ronaldo Mendes LOURENÇO
                                                           Universidade Federal do Ceará - Graduando em Geografia
                                                                                  ronaldo.geografia@yahoo.com.br
                                                                                        Camila de Freitas CÂMARA
                                                           Universidade Federal do Ceará - Graduanda em Geografia
                                                                                      kamila.defreitas@hotmail.com
                                                                                Profº. Drº. Edson Vicente da SILVA
                                                                        Orientador - Universidade Federal do Ceará
                                                                                                       cacau@ufc.br

         RESUMO
         O presente artigo traz uma contribuição no que diz respeito ao discurso sobre a inserção da
Educação Ambiental - EA no espaço escolar. Para tanto, na primeira parte contextualiza-se a partir
de uma perspectiva histórica os reflexos que a discussão em torno da EA evidencia no Brasil. Na
segunda parte é feita uma análise sobre qual o papel da escola, do professor e do ensino de
geografia no contexto da Educação Ambiental, proporcionando maiores reflexões sobre de como é
importante estabelecer no espaço escolar o ingresso desse tema para que ocorra um maior debate
sobre o real significado e realidade dessa perspectiva educacional.
         PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental, Escola e Ensino de Geografia.

         ABSTRACT
         The present article brings a contribution to the speech of the inclusion of Environmental
Education – EE in school space. For that so, in the first part we contextualize, from a historical
perspective, how the reflections of the discussion around the theme EE materialize in Brazil. In
second part, we do an analysis about what role the school, the teacher and the geography’s teaching
have in the Environmental Education context, giving bigger reflections about of how important is to
establish in the school space the entering of this theme, so it can occur a better and larger debate
about the real meaning and about the reality of this educational perspective.
         KEYWORDS: Environmental Education, school and geography teaching.

        1. TRAJETÓRIAS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SUAS EVIDÊNCIAS NO
BRASIL
        A questão ambiental tem sido caracterizada como sendo cada vez mais importante para a
sociedade, pois a relação estabelecida entre os recursos naturais disponíveis e o seu ditam o futuro
da humanidade. Na medida em que a sociedade intensifica a exploração dos recursos naturais,
surgem tensões e conflitos quanto à necessidade de preservação do meio ambiente. Segundo Leff:

           uma das principais causas da problemática ambiental foi atribuída ao processo histórico do qual emerge a
ciência moderna e a Revolução Industrial (...) iniciou-se a busca por um método capaz de reintegrar esses
conhecimentos dispersos num campo unificado do saber. Desta forma a analise da questão ambiental exigiu uma visão
sistêmica e um pensamento holístico para a reconstituição de uma realidade total (LEFF, 2007, p. 62).


         De acordo com Pedrini (1997, p. 22) “o homem criou leis que previam multas e privação
da liberdade, mas estas medidas não foram suficientes e decidiu associar o processo educativo para
conceber estrategicamente sua sociedade”, eis que surge então o termo Educação Ambiental (EA)
imerso em um contexto derivado do uso inadequado dos recursos naturais em diferentes escalas.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                            207

         Dessa maneira, é preciso compreender a crise ambiental que emergia na época como uma
crise com fortes influências culturais, que com o desenvolvimento acelerado em detrimento dos
recursos naturais, de acordo com Rodriguez e Silva:

          levou a civilização humana a um desenvolvimento explosivo da capacidade cultural da exploração dos seres
humanos e dos bens naturais. Ocorreu um uso intensivo dos sistemas naturais que lhe modificou as propriedades e os
conduziu a uma perda irreversível dos seus atributos de auto regulação e homeostase (RODRIGUEZ & SILVA, 2009,
p. 175).


          As discussões sobre a problemática ambiental surgiram em meados da década de 1970,
como conseqüência do desenvolvimento do modelo capitalista, o qual priorizava os lucros e não as
questões ambientais, pois de acordo com Leff (2007, p. 64) “a problemática ambiental não é
ideologicamente neutra nem é alheia a interesses econômicos e sociais”.
          De acordo com Leff (2007), nesse período foram apontados os limites da racionalidade
econômica e os desafios apresentados pela degradação ambiental ao projeto civilizatório da
modernidade. Esse evento contou com a participação de 113 países, os quais objetivavam
estabelecer princípios que servissem de orientação para a humanidade como forma de preservar o
ambiente humano.
          Desse evento derivou alguns documentos como a Declaração sobre o Ambiente Humano e
seu Plano de Ação Mundial, que alertavam sobre o acelerado crescimento demográfico e os seus
efeitos sobre os recursos naturais, denunciando o provável colapso da humanidade. Nessa
declaração, pela primeira vez, a EA foi reconhecida como essencial para solucionar a crise
ambiental internacional.
          Segundo Pedrini (1997, p. 26) o “Plano de ação da Conferência de Estocolmo recomendou
a capacitação de professores e o desenvolvimento de novos métodos e recursos instrucionais para a
EA”.
          No ano de 1975, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(UNESCO), promoveu o Encontro Internacional sobre Educação Ambiental (EA). No encontro
foram elaborados orientações e princípios para um programa internacional de Educação Ambiental
contínuo e multidisciplinar. Foi organizada também nesse evento a Carta de Belgrado, a qual
expressava a necessidade de uma nova ética global que beneficiasse toda a humanidade e
possibilitasse o aumento da qualidade de vida.
          A UNESCO (1977) organizou a Primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação
Ambiental, ficando conhecida como Conferência de Tbilisi e como a mais marcante de todas, pois
revolucionou a EA. Aliada a UNESCO, o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas para o
Meio Ambiente (PNUMA), colaborou para a realização dessa conferência.
          Esse encontro contribuiu para definir os princípios, características, objetivos, estratégias,
funções e recomendações para o desenvolvimento da Educação Ambiental, reunidos em um
documento que foi publicado pelo PIEA/UNESCO. Pedrini (1997) enfatiza alguns pontos desse
documento, sugerindo que a EA

            deveria basear-se na ciência e tecnologia para a consciência e adequada apreensão dos problemas ambientais
(...) se dirigir tanto pela educação formal como informal a pessoas de todas as idades (...) despertar o individuo a
participar ativamente na solução de problemas ambientais do seu cotidiano (PEDRINI, 1997, p. 28).


          Nesse documento foram formuladas 41 recomendações que visavam alertar pela união
internacional dos esforços para o bem comum, considerando a EA como um fator essencial para que
a riqueza e o desenvolvimento dos países ocorram mais igualitariamente. Mesmo com todas essas
formulações a Conferência de Tbilisi não contemplou as demandas pedagógicas emergentes
internacionais, e somente na Conferência de Moscou foram criadas estruturas teórico-
metodológicas mais aperfeiçoadas.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          208

         A Conferência de Moscou foi realizada em Agosto de 1987, reunindo cerca de 300
educadores de diversos países, objetivando fazer uma avaliação sobre o desenvolvimento da EA
desde a Conferência de Tbilisi em todos os países membros da UNESCO.
         Os principais pontos enfocados nessa Conferência priorizavam elaborar um plano de ação
para a década de 1990, destacando-se “o desenvolvimento de um modelo e de novos recursos
instrucionais; capacitar docentes e licenciados em EA; melhorar a qualidade das mensagens
ambientais veiculadas pela mídia; informar sobre a legislação ambiental”, dentre outras medidas
(PEDRINI, 1997, p. 30).
         A temática ambiental ganhou relevância no Brasil no ano de 1992, com a Conferência das
Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), oficialmente denominada
de “Conferência de Cúpula da Terra”, realizada no Rio de Janeiro. A Rio-92, como ficou conhecida,
abordou a necessidade de esforços para a erradicação do analfabetismo ambiental, aprovando cinco
acordos oficiais internacionais dentre eles a Agenda 21 e a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente
e Desenvolvimento.
          Nessa ocasião ocorriam eventos paralelos onde foi elaborado um documento denominado
“Carta Brasileira para a Educação Ambiental”, enfocando o papel do estado e estimulando as mais
diversas instancias educacionais a implementar a imediata EA em todos os níveis de ensino. Um
dos eventos paralelos mais importantes para a EA foi à jornada Internacional de EA, da qual
derivou o “Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis”, o qual está na base da
formação da rede brasileira de Educação Ambiental, se diferenciando dos demais pelo fato de ter
sido formulado e aprovado em calorosas discussões entre educadores.
         O Brasil, imerso no regime ditatorial, andava na “contramão” das discussões internacionais
de preocupação com o ambiente, pois exibia ao mundo o Projeto Carajás e a Usina Hidrelétrica de
Tucuruí, iniciativas de forte degradação ambiental. Vale ressaltar que existiam alguns movimentos
isolados preocupados com a questão ambiental, como a criação da Associação Gaúcha de Proteção
ao Ambiente Natural (AGAPAN), instigadora de movimentos ambientais no país.
         A Conferência de Estocolmo teve suas conseqüências no Brasil, pois discussões ocorridas
no evento suscitaram em 1973, a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA),
orientada para a gestão integrada do Meio Ambiente.
         A Educação Ambiental no Brasil tem passado por muitos percalços para a sua implantação
e desenvolvimento no ensino formal, não-formal e informal. No Brasil, a trajetória da EA aparece
bastante coerente no discurso técnico, mas a sua prática ainda se mostra muito confusa. A EA foi
citada pela primeira vez na Constituição Brasileira em 1988, considerada como um reflexo de sua
inserção na Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), sendo tratada apenas no capítulo de
Meio Ambiente, mantendo uma dissociação de sua dimensão pedagógica. Segundo Pedrini (1997) a
EA foi formalmente instituída no Brasil pela lei federal de nº 6.938, sancionada a 31 de agosto de
1981, que criou a PNMA, sendo um marco histórico na defesa da qualidade ambiental brasileira.
         A criação de órgãos e leis que priorizam a utilização racional dos recursos naturais pelos
homens deve extinguir ações que trazem conseqüências negativas para o Meio Ambiente. Mas, na
prática percebe-se que muito ainda tem que ser feito para que os preceitos estabelecidos pela
Educação Ambiental ganhem as proporções necessárias para que sejam efetivados, e assim possam
contribuir com o desenvolvimento das civilizações. Dessa maneira, pode-se compreender a
Educação Ambiental, ao longo desse processo de consolidação marcado por avanços no que se
refere a sua implantação, “como um processo de aprendizagem e comunicação das questões
relacionadas com a interação dos seres humanos com o ambiente, tanto em âmbito global, natural,
como no criado pelo homem” (RODRIGUEZ; SILVA, 2009, p. 175).


         2. A Escola, o Professor e o Ensino de Geografia no contexto da Educação Ambiental:
debates e perspectivas educacionais
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                          209

               No período de estruturação da Geografia, até meados do séc. XX, o meio ambiente
era percebido somente atrelado à natureza, onde segundo Paulo e Asari (2006, p. 53) “ao se romper
com a característica descritiva do ambiente natural, que é ainda muito presente, alguns geógrafos
passam a abordá-lo na perspectiva de interação, de recuperação, degradação da natureza e da
melhoria da qualidade de vida do homem”.
               Progressivamente, os preceitos que conduzem a Educação Ambiental foram sendo
incorporados no âmbito das instituições de ensino, demonstrando que as práticas da EA são
importantes para se estabelecer um equilíbrio na relação homem-natureza, pois segundo Guimarães
(1995, p. 15) “[...] educação ambiental tem o importante papel de fomentar a percepção da
necessária integração do ser humano com o meio ambiente, em uma relação harmoniosa, consciente
do equilíbrio na natureza”.
         Os valores adotados pelas políticas de EA objetivam conscientizar a população da
importância de se utilizar os recursos naturais de forma sustentável, pois de acordo com Dias:

          [...] a educação ambiental deve permitir a compreensão da natureza complexa do meio ambiente e interpretar
a interdependência entre os diversos elementos que conformam o ambiente, com vistas a utilizar racionalmente os
recursos do meio na satisfação material e espiritual da sociedade no presente e no futuro” (DIAS, 1998, p. 27).

               Compreender a educação ambiental como uma maneira de se perceber a interação do
homem com os recursos naturais permitiria a atuação dos educandos de maneira ativa e eficaz “na
prevenção e solução dos problemas ambientais, na gestão do uso dos recursos e serviços, bem como
para a elevação da qualidade de vida e para a conservação e proteção ambientais” (RODRIGUEZ &
SILVA, 2009, p. 175).
               Na atualidade, as concepções que envolvem a natureza necessitam de mudanças
profundas, uma vez que os novos valores individuais e sociais, embasados no atual modelo de
civilização, fazem com que o homem não se considere como integrante da natureza, utilizando-a
como um objeto de poder econômico sem importar-se com as possíveis conseqüências futuras.
               Nesse contexto, é necessária uma mudança de valores e posturas quanto ao papel do
homem na natureza, sendo indispensável que o mesmo perceba a importância de se preservar os
recursos naturais como forma de garantir o desenvolvimento e a sobrevivência das futuras gerações.
Dessa maneira, o papel da educação ganha relevância, sendo caracterizada por Rodriguez e Silva
como:

           um dos instrumentos mais importante para a adaptação cultural, tendo um papel fundamental na construção
do futuro [...] a educação ambiental deverá formar valores ambientais, ou valores verdes, que deverão ser muito
diferentes dos chamados valores da modernidade (RODRIGUEZ; SILVA, 2009, p. 176).


               Entretanto, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (Brasil, 1997),
mudanças só ocorrerão se houver esse entrelaçamento com a educação, ou seja, é a educação que
poderá mudar muitos setores da sociedade e solucionar ou amenizar muitos problemas atuais e
futuros, principalmente os de ordem humana.
               Na esfera educacional, o Governo Federal emitiu o parecer 226/87 de 11 de Março
de 1987 do Ministério da Educação (MEC), indicando o caráter interdisciplinar da EA e traçando
recomendações para sua realização em todos os níveis de ensino. O caráter interdisciplinar é de
suma importância para a EA, pois segundo Leff:

          a interdisciplinaridade é proclamada hoje em dia não só como um método e uma prática para a produção de
conhecimentos e para sua integração operativa na explicação e resolução dos cada vez mais complexos problemas do
desenvolvimento; além disso aparece com a pretensão de promover intercâmbios teóricos entre as ciências e de fundar
novos objetos científicos (LEFF, 2007, p. 72).

         No ano de 1991, o Ministério da Educação instituiu que a EA deveria ser englobada nos
currículos dos diferentes níveis de modalidades de ensino, lançando em 1997, os Parâmetros
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                           210

Curriculares Nacionais abordando temos como ética, saúde, meio ambiente, pluralidade sexual e
orientação sexual, discutidos como temas transversais.
          Dessa maneira, as escolas norteadas por documentos como os PCNs, surgem no atual
contexto como o local mais adequado para a disseminação dos princípios da Educação Ambiental e
para o desenvolvimento de atividades interdisciplinares, preparando as gerações futuras para viver
em harmonia com os recursos naturais do planeta, em especifico os recursos hídricos.
          A temática Educação Ambiental é trabalhada nas escolas como um tema transversal, e
“[...] deve ser desenvolvido a fim de ajudar os alunos a construírem uma consciência global das
questões relativas ao meio [...]” (PCN, 1997 p. 47).
          Uma mudança de postura perante a conservação, preservação e correta utilização dos
recursos hídricos disponíveis só ocorrerá quando a população for educada ambientalmente. Nessa
perspectiva, segundo Paulo e Asari:

            a escola torna-se fundamental, pois numa ação conjunta, professores e equipe pedagógica podem se propor a
realizar trabalhos de Educação Ambiental, pois sabe-se que, assim, os alunos terão maiores condições de reivindicar
seus direitos perante a sociedade (PAULO & ASSARI, 2006, p. 52)


          Sendo assim, o trabalho de Educação Ambiental efetivado na escola deve propiciar o
desenvolvimento de atitudes e valores ambientalmente corretas nos alunos. Segundo os PCNs temas
transversais o aluno deve “perceber-se integrante, dependente e agente transformador do ambiente,
identificando seus elementos e as interações entre eles, contribuindo ativamente para a melhoria do
meio ambiente” (PCN, 1997 p. 07).
          O papel do professor no desenvolvimento da Educação Ambiental é de extrema relevância,
pois “em educação ambiental é preciso que o educador trabalhe intensamente a integração entre o
ser humano e o ambiente e se conscientizar de que o ser humano é natureza e não apenas parte dela”
(GUIMARÃES, 1995, p. 30).
          Segundo os PCNs (Brasil, 1997) o professor tem uma importante tarefa associada ao meio
ambiente, que é proporcionar ao aluno o reconhecimento de fatores que produzam real bem-estar,
ajudando-o a desenvolver um espírito de crítica quanto as induções do consumismo, de modo a
respeitar o ambiente e a sociedade.
          Dessa maneira, escolas e professores devem permitir que o educando construa o seu
próprio conhecimento e, a partir daí, critique os valores da realidade na qual está inserido.
Guimarães (1995), afirma que assumindo essa postura, não significa dizer que o educador assumiu
um papel neutro perante a situação e nem que negou os seus próprios valores, e sim propiciou que o
educando confrontasse diferentes valores em busca de uma síntese pessoal que refletirá em novas
atitudes.
          A temática EA vem sendo progressivamente incorporada nas aulas, uma vez que as escolas
atuam como divulgadoras de atitudes ambientalmente corretas. De acordo com Guimarães (1995, p.
09) a EA apresenta uma nova dimensão que deve ser “incorporada ao processo educacional,
trazendo toda uma recente discussão sobre as questões ambientais, e as conseqüentes
transformações de conhecimento, valores e atitudes diante de uma nova realidade a ser construída”.
Cavalcanti (2002), afirma que a EA tem o objetivo de ofertar instrumentos essenciais para que os
cidadãos possam interagir com o meio ambiente de maneira consciente.
          Mesmo a EA possuindo um caráter interdisciplinar, ou seja, que deve ser abordada nas
mais variadas disciplinas, é na Geografia que a EA encontra bases mais sólidas para seu
desenvolvimento, pois a ciência geográfica trabalha de maneira detalhada a relação homem-
sociedade-natureza. Nas escolas a Geografia ganha representatividade quanto a Educação
Ambiental. De acordo com o PCN de Geografia o estudo do meio

           [...] não deve se restringir á mera constatação e descrição dos fenômenos que o constituem. Deve-se também
buscar as relações entre a sociedade e a natureza que ai se encontram presentes, situando-as em diferentes escalas
espaciais e temporais, comparando-as, conferindo-as significados, compreendendo-as. (PCN, 1997, p. 116).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          211


         A Educação Ambiental pode ser trabalhada com o auxilio da Geografia para a preservação
dos recursos hídricos. Segundo Cavalcanti (2002, p. 18) “outro aspecto da educação ambiental, que
pode ser trabalhada a partir da contribuição da Geografia, é o de fornecer instrumentos para que os
cidadãos possam localizar os diferentes ambientes produzidos pelo homem”.
         A Geografia Escolar, ministrada nas escolas, tem procurado desenvolver nos alunos o
pensar geográfico e o papel dos mesmos nessa sociedade em mudanças, indicando novos rumos e
reafirmando preceitos essenciais para o desenvolvimento sustentável da humanidade. A necessidade
de se trabalhar a temática Educação Ambiental nas escolas, não só na disciplina de Geografia, mas
também em caráter interdisciplinar, é de suma importância.
         Em suma, é através da utilização de uma metodologia que busca estudar de forma
unificada a Educação Ambiental, a conservação dos recursos hídricos e o desenvolvimento dessas
temáticas na escola, que o presente trabalho foi desenvolvido. Embasado em práticas
construtivistas, objetivou-se colaborar para a formação de futuros cidadãos conscientes da
importância de se preservar os recursos naturais disponíveis no planeta, em especifico os recursos
hídricos, como forma de garantir a sobrevivência de muitas gerações.
         Compreende-se que a educação sozinha não é suficiente para amenizar ou findar todos os
problemas ambientais que assolam o planeta. É necessário que ocorra um movimento mais amplo
que envolva população, poder público, em suas mais variadas instâncias, municipal, estadual e
federal, empresários, enfim, todos os agentes produtores do espaço, unidos com o objetivo de
“respeitar” os limites da natureza e priorizar o desenvolvimento sem o detrimento de algumas das
partes envolvidas no processo de modernização e expansão urbana.
         Entretanto, educar ambientalmente a população, com atividades sendo desenvolvidas desde
os primeiros anos nas escolas, ainda é a ferramenta mais eficaz no processo de preservação e
conservação dos recursos naturais.

          3. Considerações Finais

         A preocupação ambiental presente na sociedade repercute no campo educativo. A
educação, neste sentido, tem-se mostrado um campo altamente sensível às novas demandas e
temáticas socioculturais, como no caso da EA, elegendo-as como objeto da pesquisa e da prática
pedagógica.
         Ao constituir-se como prática educativa, a Educação Ambiental posiciona-se na
confluência do campo ambiental e das tradições educativas, as quais vão influenciar na formação de
diferentes segmentos e orientações pedagógicas no âmbito da Educação Ambiental ou, dito de outro
modo, produzir diferentes Educações Ambientais. Contudo, é importante não esquecer que esse
encontro entre o ambiental e o educativo, no caso da Educação Ambiental, se dá como movimento
proveniente do mundo da vida nada puramente biológica, mas na vida refletida, ou seja, do mundo
social.
         É baseado na dinâmica cultural diversificada que o conhecimento crítico passa a ser
aplicado as problemáticas que afetam ao meio ambiente e na consciência por parte dos indivíduos e
comunidades, e quando acontece o debate em torno da Educação Ambiental. Existem alguns fatores
que não podem ser esquecidos no processo de conservação ambiental, assim como no
fortalecimento dos sentimentos de identidade e cultura. Todos esses fatores fazem com que essa
consciência ambiental aconteça com os que estão envolvidos no processo de educação sejam eles
professores ou alunos.
         Sendo assim, acredita-se que o presente trabalho possa servir de contribuição para a
compreensão de como a EA se insere no atual contexto da escola brasileira, além claro de ser uma
ferramenta mediadora que traz novos conhecimentos sobre a importância da Ecopedagogia ser
trabalhada no âmbito das escolas.
         Referências Bibliográficas
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                       212

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história, geografia. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997.
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          CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia e práticas de ensino. Goiânia: Alternativa,
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          DIAS, Genebaldo Freire. Educação Ambiental: princípios e práticas. 5ª ed. São Paulo:
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          RODRIGUEZ, José M. M.; SILVA, Edson V. Educação ambiental e desenvolvimento
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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                213

   A FORMAÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO DENTRO DA
 FORMAÇÃO DE PROFESSORES DO CURSO NORMAL MÉDIO
     DE UMA ESCOLA ESTADUAL EM PERNAMBUCO

                                                                         Bárbara Graziella Monteiro GOMES
            Graduanda em Gestão Ambiental pelo Instituo Federal de Educação Ciência e Tecnologia
                                                                           de Pernambuco, IFPE.
                                                                            grazyellamonteiro@hotmail.com
                                                                           Anália Keila Rodrigues RIBEIRO
            Doutora em psicologia pela UFPE, professora pelo curso Gestão Ambiental pelo Instituto
                                  Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco, IFPE.
                                                                                 analiakeila@yahoo.com.br

         RESUMO
         O trabalho consiste numa pesquisa realizada com os alunos do curso Normal Médio de
uma escola estadual em Pernambuco. Por ser o meio ambiente, alvo das mais diversas especulações
da atualidade, estudos relacionados a essa temática despertam interesse no campo da pesquisa. Ao
passo que a formação de novos professores contribui para sustentabilidade da sociedade. O presente
estudo traz como objetivo principal, a tentativa de compreender como se forma a identidade do
sujeito ecológico dentro dessa formação de professores do curso, além de abordar outros aspectos
relevantes aos objetivos do trabalho. A pesquisa faz uso da metodologia de caráter qualitativo, com
aplicação de questionário misto a fim de obter dados acerca do tema em questão. De acordo com os
levantamentos bibliográficos, o curso de formação de professores Normal Médio traz aspectos
positivos com relação à formação do sujeito ecológico, porém os alunos pesquisados não trabalham
a Educação Ambiental dentre as práticas educativas do curso.
         PALAVRA-CHAVE: Meio Ambiente; Educação Ambiental; Formação de Professores;
Curso Normal Médio.

         ABSTRACT
         The work consists of a survey of students of normal course statewide average school in
Pernambuco. The target environment of today's most diverse speculation, studies related to this
issue are of interest in the field of search. While training new teachers contributes to sustainability
of society. This study brings as main objective, the attempt to understand how to shape the identity
of the subject ecological inside this teacher training course, in addition to addressing other aspects
relevant to the goals of the job. Search makes use of qualitative character methodology, with
application of joint questionnaire to obtain data about the subject in question. According to the
bibliographic surveys, the teacher training course brings average normal positive aspects with
respect to training of taxable ecological, however pupils searched aren't environmental education
among educational practices of the course.
         KEYWORD: Environment; Environmental Education; Teacher Training; Normal Course
Medium.

         INTRODUÇÃO
         O presente trabalho visa apresentar um estudo quanto à formação do sujeito ecológico
inserida em futuros professores. Tais professores, no entanto, serão formados após a conclusão do
curso Normal Médio, que tem duração de quatro anos. Também está contido nos objetivos do
presente trabalho, identificar potenciais educadores ambientais, a partir da perspectiva ambiental
dos alunos quanto às práticas pedagógicas do curso.
         O meio ambiente sofre constantes mudanças a todo o momento, que podem ser de ordem
natural ou pela ação humana. Os problemas ambientais vêm se acentuando cada vez mais devido a
essas mudanças que chegam a um nível de degradação ambiental ultrapassando os limites que o
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         214

planeta tem em se recuperar sozinho. Essa degradação ambiental, causada pela ação do homem, esta
relacionada, dentre outras circunstâncias, ao acelerado crescimento populacional de forma
descontrolada, aumento na demanda de recursos naturais, má distribuição de renda, e uma
sociedade cada vez mais escrava do modo de produção capitalista.
         Diante desse quadro surgem então os chamados movimentos ecológicos que buscam
solucionar os problemas ambientais a partir de ações sociais, tendo em vista uma consciência
ecológica, muito embora essa ecologia seja diferente da convencionalmente estudada pelos
biólogos. Trata-se de uma luta ecológica da sociedade para identificar e solucionar os problemas
ambientais. Surgido no Brasil nos anos 70, tais movimentos ecológicos quase sempre contam com
uma maior participação dos jovens, que manifestam os seus interesses por uma mudança social,
indo contra o modelo consumista de sociedade, cada vez mais presente. (CARVALHO, 2004).
         Ainda segundo Carvalho (2004), a Educação Ambiental (EA) surge no Brasil,
principalmente, com os debates inseridos em movimentos ecológicos, ganhando força, com os
avanços da conscientização humana em relação ao meio ambiente, por volta dos anos 80 e 90. Após
debates e movimentos sociais que incluem a EA como principal solução para o desenvolvimento
sustentável, surge em 1995, uma versão preliminar dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs),
que se consolidou com a publicação definitiva dos PCNs de 1ª a 4ª séries no ano de 1997 e de 5ª a
8ª séries em 1998, trazendo a proposta de abordar o meio ambiente dentro de sala de aula como
tema transversal e em todos os níveis de ensino. A partir deste momento, a EA passa a fazer parte
do currículo escolar, buscando a interdisciplinaridade como forma de abordar os temas ambientais
transversais. Esta, além de estar inserida no contexto do ensino formal, proposta pelos Parâmetros
Curriculares Nacionais, também se reflete em manifestações populares dentro da comunidade
através dos interesses sociais e culturais que seguem o pensamento ecológico anteriormente citado.
         Tal educação inovadora preocupada com o meio ambiente e suas interferências culturais,
sociais e biológicas, nos ensina o modo, os caminhos que nos levam a conscientização da nossa
realidade, onde podemos enxergar melhor as coisas ao nosso redor (GADOTTI, 2000).
         Para Reigota (2007), a prática da EA esta inserida dentro do contexto ecológico, social,
político e cultural, onde muito contribui para uma reflexão sobre a educação de um modo geral. O
autor diz ainda que, essa contribuição se dá ao passo que, o mundo em que vivemos nos dias de
hoje traz uma complexidade em seus problemas do cotidiano que a educação normal não abrange
em sua totalidade.
         Dentro do contexto estudado temos a figura do Educador Ambiental como sendo aquele
que faz uso da EA tanto formal, presente nas escolas através do ensino tradicional, quanto não-
formal, contida na comunidade através de ações comunitárias (CARVALHO, 2004). Com práticas
diferentes em ambientes mais diversos, a educação ambiental segue com os mesmos objetivos: que
é promover uma sensibilização da sociedade a fim de minimizar os impactos ambientais
prejudiciais ao meio ambiente.
         Novamente seguindo as idéias de Carvalho (2004), esse Educador ambiental pode ser
qualquer pessoa que desenvolva práticas ambientais com os objetivos propostos pela EA, não sendo
necessariamente um professor com formação acadêmica. A autora sugere ainda que: “O Educador é
por natureza um interprete, não apenas porque todos os humanos o são, mas também por oficio,
uma vez que educar é ser mediador, tradutor de mundos”. (CARVALHO, 2004, p.76). Assim,
qualquer professor pode vim a ser um Educador Ambiental, de modo que ele introduza em suas
práticas pedagógicas, conceitos e proposta de uma EA em sala de aula. Desse modo, ele passa a
possuir um diferencial, por envolver em sua metodologia de ensino temas atuais e de relevante
interesse social. Muito embora, o educador ambiental não deve ser visto como um ser perfeito, de
inteligência superior, uma vez que é um profissional da área de educação, ele precisa estar sempre
aberto a novos conhecimentos, aprendendo, ao passo que educa. De acordo com a ProFEA,
Programa Nacional de Formação de Educadoras(es) Ambientais (2000), a relação entre o educador
ambiental e o aluno consiste na troca mutua de saberes, onde não é permitida a hierarquia de
conhecimento nos diálogos sobre a realidade vivida por ambas as partes.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           215

          Partindo desse pressuposto, definiremos agora a formação do sujeito ecológico, que esta
intimamente relacionada à formação do educador ambiental. Para Carvalho (2004) o sujeito
ecológico em formação é um ser ideal, conhecedor e praticante de atitudes sustentáveis, ao mesmo
tempo em que faz uso da educação ambiental como prática cotidiana em seus diferentes aspectos. O
sujeito ecológico é um ser com ideários utópicos, que vive na constante busca da perfeição. Para
Leonardo Boff: “... o ser humano e a sociedade não podem viver sem utopia”. (BOFF, 1999, p.81).
A utopia faz com que busquemos fazer sempre o melhor, indo atrás de um ideal que nunca poderá
ser alcançado por estar sempre um passo a nossa frente. Essa idéia de utopia que o sujeito ecológico
traz, faz com que ele busque sempre melhorar suas atitudes, seus comportamentos, de maneira a
desenvolver cada vez mais atitudes sustentáveis.
          Carvalho (2004) combina o sujeito ecológico a características de um modo ideal de ser e
agir, na medida em que esse sujeito vive conforme os princípios dos comportamentos ecológicos.
Onde a EA esta inserida nos ideais do sujeito ecológico, do mesmo modo que esse sujeito é o ser
almejado pelos objetivos dessa educação, assim, os educadores que desenvolvem ideais ecológicos
em suas práticas educativas, estão desenvolvendo sua identidade sócio-ambiental, agindo como
sujeitos em busca da formação ecológica. Desse modo, um professor pode vir a desenvolver o papel
do educador ambiental, contribuindo no decorrer do processo, com a figura do sujeito ecológico em
formação.
          Após a definição dos conceitos que norteiam este trabalho, buscaremos compreender a
contribuição do curso Normal Médio para a formação de educadores enquanto sujeito ecológico. O
curso Normal Médio está previsto no artigo 62 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
nº. 9.394/1996 e regulamentado pela Resolução CNE/CEB nº. 02/99, que Institui Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Formação de Docentes da Educação Infantil e dos anos iniciais do
Ensino Fundamental, em nível médio, na modalidade Normal.
          Os docentes formados nessa modalidade atuam diretamente na educação formal, que é
dada em ambiente escolar. De acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional), no Brasil, a educação esta dividida em Educação Básica, que é formada pela educação
infantil, pelo ensino fundamental e ensino médio, e a Educação Superior. A educação tem por
finalidade a inserção dos indivíduos ao contexto social, de modo a proporcioná-lo ferramentas
necessárias para uma boa atuação na sociedade. Uma vez que os Parâmetros Curriculares Nacionais
determinam o meio ambiente como tema transversal, devendo ser abordado em sala de aula nos
diferentes níveis de ensino, assim sendo o professor precisa desenvolver metodologias de ensino
que tratem o meio ambiente conforme é proposto pelos PCNs. Essa é uma educação que vai além da
contida no currículo escolar, mas que não deixa de estar prevista nos objetivos da educação no
Brasil.
          O objetivo principal do presente trabalho consiste nessa compreensão do sujeito ecológico
inserido na formação de professores do curso, a partir de uma análise na perspectiva em se formar
possíveis educadores ambientais dentre os docentes que serão formados. Uma vez que, de acordo
com os requisitos do curso, este professor sairá apto para ensinar em escolas tanto públicas como
privadas.
          Assim sendo, a justificativa da escolha do tema se dá a partir da necessidade de se
conhecer dentro do curso normal médio, futuros professores que poderão atuar como educadores
ambientais, atendendo aos PCNs e consolidando a EA nas escolas da maneira como ela vem sendo
requerida.

        METODOLOGIA
        A fim de compreender a identidade socioambiental do grupo de alunos pesquisados,
buscando a complexidade dos fatos, a metodologia utilizada tem o enfoque qualitativo, por
promover uma maior proximidade entre o pesquisador e o grupo a ser pesquisado, isso possibilita
um melhor colhimento e analise dos dados. (TEIXEIRA, 2009).
        O estudo traz pontos relevantes da compreensão ambiental identificada na identidade
socioambiental dos alunos pesquisados, tendo em vista sua futura formação profissional. Bem como
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           216

define Isabel Carvalho (2004), as experiências e percepções dos alunos que atuam na formação de
professores devem ser identificadas para serem analisadas dentro de sala de aula, valorizando assim
a compreensão individual do meio ambiente, que serve muitas vezes de referência para importantes
discussões sobre o tema.
          A pesquisa foi realizada inteiramente nas dependências de uma escola estadual localizada
na cidade do Recife, com alunos do curso Normal Médio, curso esse de formação de professores.
Não citarei aqui o nome da escola a pedido da coordenadora da mesma. Foram selecionados, de
forma aleatória, representantes de cada série do curso, tendo assim dados de alunos do 1º ao 4º ano.
          A coleta dos dados foi dividida em duas etapas. A primeira com visita a campo, a fim de
conhecer melhor o meu objeto de estudo. Ocorreu no horário da manhã, e consistiu apenas em obter
informações sobre o curso, como a sua grade curricular, total de séries contidas e quais delas
atuantes no horário da manhã. Passado esse primeiro momento, a segunda etapa foi composta pela
coleta de dados através de um questionário misto.
          Os questionários foram divididos em duas partes, a primeira contendo perguntas abertas e a
segunda contendo perguntas fechadas de múltipla escolha. A primeira parte do questionário que
compunha perguntas abertas traz um incentivo aos alunos a refletir sobre suas escolhas
profissionais, e de que forma isso pode influenciar na vida de outras pessoas. Ainda na primeira
parte, foi feito um convite ao aluno para que ele identificasse características consideradas de um
bom professor e sua importância na formação social do ser humano. Paralelamente ele reflete sobre
suas atitudes ambientais, identificando-as em práticas cotidianas, tendo em vista sua compreensão
do venha a ser meio ambiente, buscando com isso alcançar um dos objetivos específicos da
pesquisa.
          A segunda parte do questionário, composta por perguntas fechadas, reforça a opinião dos
alunos pesquisados quanto à relação existentes na formação de professores e suas práticas
ambientais individuais. Perguntas essas, a fim de obter resposta para o objetivo principal da
pesquisa, que é compreender a contribuição do sujeito ecológico em formação dentro do curso,
procurando ainda identificar nos alunos suas possíveis práticas educacionais que podem ser
desenvolvida dentro de sala de aula, estando ele na condição de um educador. Além de identificar
atuais e futuras atitudes diante de assuntos ambientais, a segunda parte do questionário também traz
aspectos relevantes do quanto esses alunos podem vir a se tornar um educador ambiental, ao passo
que as perguntas feitas a ele fazem menção a uma auto-analise da preparação individual dos alunos
frente a problemas ambientais. Com isso, buscamos também associar a intervenção que o curso traz
quanto a essa formação do sujeito ecológico, identificando que tipo de atuação o mesmo vem
desenvolvendo com esses alunos a professores, se de forma positiva ou negativa.
          A metodologia utilizada faz possível a obtenção dos objetivos a serem alcançados, por
conter perguntas que deixam ao pesquisado opções de escolha, bem como sua liberdade de
expressão, uma vez que sua identidade não precisou ser revelada e por serem abordados temas de
fácil entendimento.
          Os questionários foram entregues em dois dias diferentes e seqüenciais, ambos pela manhã,
melhor horário identificado por conter nele todas as séries a serem pesquisadas.
          No primeiro dia, o questionário foi aplicado a cinco alunos do 1° ano e cinco alunos do 2°
ano. No dia seguinte, com os alunos do 3° e 4° ano, também cinco selecionados de cada série para
responder as perguntas. A entrega dos questionários para serem respondidos foi feita dentro de sala
de aula, onde foi estipulado um tempo para o recolhimento do material entregue. A fim de obter um
retorno de 100% desse material distribuído, todo o processo de aplicação e recolhimento dos
questionários foi feito no mesmo dia, conseguindo assim esse retorno previsto.
          Esse procedimento com aproveitamento máximo de retorno dos questionários só foi
possível por contar com o auxilio dos professores que estavam em sala de aula no momento da
entrega, e possibilitaram aos alunos um tempo para que eles respondessem as perguntas, mesmo
estando em horário de aula. Sendo assim, concluindo, dos vinte questionários entregues, vinte
foram devolvidos.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             217

         A análise dos dados ocorreu na identificação de pontos relevantes apontados pelas
respostas dos questionários, bem como as informações adquiridas nas primeiras visitas com o
reconhecimento do objeto de estudo.
         A contribuição do curso normal médio foi avaliada a partir da analise dos questionários,
com base nas respostas de alunos das diferentes séries do curso, podendo assim fazer um
comparativo entre essas classes de ensino, buscando relacionar a evolução sofrida pelos alunos
durante os anos letivos.

          RESULTADOS E DISCUSSÃO
          Nas primeiras visitas a fim de conhecer o meu objeto de estudo, pude perceber que dentro
das disciplinas curriculares do curso, nenhuma faz menção a EA, colocando em evidência a
deficiência do curso quanto à formação de educadores ambientais proposta por Carvalho (2004). E
que os alunos do curso de formação de professores na modalidade Normal Médio, quase não
praticam nenhuma atividade pontual relacionada ao meio ambiente, mas ainda quando o fazem, não
conseguem relacionar tais atividades as suas práticas educativas no curso. Isso porque quando foi
perguntado, de maneira informal, aos alunos se eles desenvolviam alguma atividade relacionada ao
meio ambiente, os alunos responderam que não, mas ao circular nas dependências da escola, pude
notar, através de cartazes, que a escola possui um projeto nomeado “Escola Limpa”.
          Essa falta da EA dentro do curso compromete a formação desses alunos como professores
capazes de cumprir seus princípios educacionais. Isso porque, os PCNs de 1ª a 4ª série do ensino
fundamental, que é justamente a área de atuação desses professores formados pelo curso Normal
Médio, propõe que o meio ambiente seja trabalhado em sala de aula, possibilitando que o aluno seja
inserido na sociedade de forma a valorizar sua identidade cultural, ambiental e social.
          No que diz respeito à formação do sujeito ecológico definida por Carvalho (2004), o curso
deixa muito a desejar nessa formação, uma vez que não incentiva seus alunos a abordarem temas
ambientais dentro e fora de sala de aula. Isso pôde ser identificado muito claramente no fato da falta
da EA abordada na grade curricular do curso.
          O que se pode identificar, é que os alunos estão estritamente inseridos aos conteúdos
programáticos do curso, impossibilitando assim, uma formação da sua identidade como um todo de
maneira mais complexa, e que inclui o educador ambiental.
          Discutindo a definição que a LDB traz sobre a educação normal, aquela que será
ministrada por esses alunos, e que se inserem no contexto da EA, uma vez formados professores
incapazes de estabelecer uma ligação intima entre essas duas esferas da educação, os princípios
educacionais regulamentados pela LDB fogem a regra de serem cumpridos.
          Muito curiosamente, os dados obtidos com os questionários mostraram que, os alunos do
1º ano do curso têm uma melhor visão e perspectiva sobre o meio ambiente e a importância de esse
tema ser trabalhado em sala de aula. Isso pôde ser identificado em diversas das perguntas realizadas
aos alunos, uma delas trouxe a intenção dos alunos em abordar o meio ambiente em suas aulas ao se
tornarem professores, os dados mostraram que todos os alunos pesquisados do 1º ano responderam
que sim, enquanto que nenhum dos alunos pesquisados do 4º ano respondeu que sim. Ou seja, os
alunos ingressantes do curso têm intenção em desenvolver a EA nas escolas que trabalharem, ao
contrário dos alunos que provavelmente concluíram esse ano.
          No que se refere aos alunos das séries intermediárias, 2º e 3º ano, os dados também
mostram que falta interesse dos alunos em desenvolver a EA em suas aulas. Essa deficiência por
partes dos alunos do 2º ao 4º ano pode estar relacionada à própria prática pedagógica do curso, uma
vez que, todos os alunos do 1º ano que foram questionados responderam que abordam temas
relacionados ao meio ambiente entre as aulas do curso, enquanto as demais séries divergem bastante
as respostas.
          Esses dados podem estar relacionados com o fato de o tema meio ambiente mostrar-se
muito mais em evidência nos últimos tempos, e que por isso, esses alunos que na sua maioria são
mais jovens, se mostram mais interessados pelo assunto. O curso de formação de professores por
sua vez também se mostra mais preocupado em abordar esses assuntos com os alunos ingressantes
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           218

do curso, isso pode ser constatado como um interesse do curso em formar alunos com essa
perspectiva ambiental desde o inicio de sua formação. Porém, isso se torna um ponto bastante
negativo, ao passo que o curso deixa a desejar quanto à formação dos demais alunos, que de toda
forma, também se tornaram professores.
         Como havia sido mencionado na fundamentação teórica da pesquisa, segundo Carvalho
(2004), o educador ambiental pode vir a ser qualquer pessoa que seja capacitado para essa função,
que desenvolva em sua identidade uma formação socioambiental característica dos objetivos
impostos pela EA. Com isso, pôde ser compreendido que os alunos do 1º ano do curso de formação
de professores Normal Médio têm uma maior tendência a virem a se tornar educadores ambientais,
muito embora, as práticas educativas do curso ainda não contribuam por completo com essa
formação.

          CONCLUSÃO
          De acordo com nosso referencial teórico concluímos que, o curso de formação de
professores Normal Médio tem todos os requisitos necessários para uma boa contribuição na
formação do sujeito ecológico, uma vez que, prepara profissionais para atuarem diretamente na área
da educação.
          Contudo, com base nos resultados adquiridos, os alunos do curso Normal Médio que foram
pesquisados, não trazem essa contribuição para o sujeito ecológico da maneira como poderiam
trazer, contribuição essa baseada na importância que esses alunos terão na formação educacional de
novos indivíduos.
          Essa compreensão da contribuição do curso para o sujeito ecológico só pôde ser
identificada em teoria, ou seja, ficou notável que, um curso formador de professores traz princípios
e objetivos semelhantes aos do sujeito ecológico em formação. Mas essa contribuição não ficou
consistente na prática, por não serem trabalhados mais objetivamente os temas ambientais dentre as
disciplinas do curso.

         REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Vozes, 1999.
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Nacional. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.
         BRASIL, Resolução n.º 002, de 29 de janeiro de 1999. Ministério da Educação e do
Desporto Conselho Nacional de Educação. Institui Diretrizes Curriculares para a Formação de
Docentes da Educação Infantil e dos anos Iniciais do Ensino Fundamental, em nível médio, na
modalidade Normal.
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introdução aos parâmetros curriculares nacionais / Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília:
MEC/SEF, 1997.
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ecológico. 3° Ed. Niterói, RJ: Vozes, 2004.
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Cidadão).
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formação de educadoras(es) ambientais. Por um Brasil educado e educando ambientalmente para a
sustentabilidade. 2006.
         REIGOTA, Marcos. Meio Ambiente e Representação Social. 7. ed. - São Paulo, Cortez,
2007. (Coleção questões da nossa época; v.41).
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– Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                        219

  A IMPORTÂNCIA DE PROJETOS AMBIENTAIS: UM ESTUDO
    DE CASO SOBRE O PROJETO COM CIÊNCIA, NO BAIRRO
   ILHA DO BISPO, NA CIDADE DE JOÃO PESSOA – PARAÍBA

                                                                                  Elisângela de Araújo BARBOSA
            Alunos do curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba – Campus V.
                                                                                       elisangelaz10@hotmail.com
                                                                                           Deinne Airles da SILVA
            Alunos do curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba – Campus V.
                                                                                                Théo BRASILINO
            Alunos do curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba – Campus V.
                                                                                           Vancarder Brito SOUSA
                          Orientador, Doutor em Sociologia (UFPB) e Professor da Universidade Estadual da Paraíba.
                                                                                           vancarder@hotmail.com

         RESUMO
         O presente estudo de caso pretende demonstrar a importância de projetos ambientais,
voltados para crianças e jovens em idade escolar. O projeto Com Ciência, criado em 2009 por
estudantes de graduação do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba,
realizou o seu primeiro trabalho no bairro da Ilha do Bispo, João Pessoa – PB, com finalidades de
promover Educação Ambiental naquela área, conseguiu apoio junto a Associação Recreativa,
Cultural e Artística (ARCA), local onde desenvolveram seus projetos com crianças e jovens de 10 a
19 anos. A educação ambiental, não promove apenas consciência relacionada a problemas
ambientes, abrange também todo o campo da cidadania, e através da solidariedade consegue
transmitir a essência entre o ensinar e o aprender, educando cidadãos capazes de exercer a cidadania
em sua plenitude, respeitando os direitos do próximo.
         PALAVRAS-CHAVES: Projetos ambientais, Com Ciência, Ilha do Bispo.

          ABSTRACT
          This case study aims to demonstrate the importance of environmental projects for children
and young people of school age. Project Com Ciência, created in 2009 by graduate students of the
course of Biological Sciences, State University of Paraíba, held his first job in the neighborhood of
Ilha do Bispo, João Pessoa - PB, with aims to promote environmental education in that area,
managed support from the Association Recreational, Cultural and Art (ARCA), where developed
their projects with children and young people aged 10 to 19 years. Environmental education not
only promotes awareness of problems related environments, it also covers the whole field of
citizenship, and through solidarity can convey the essence between teaching and learning, educating
citizens capable of exercising citizenship in its entirety, respecting the rights of next.
          KEYWORDS: Environmental Projects; Com Ciência; Ilha do Bispo

         INTRODUÇÃO
         O Projeto Com Ciência, criado em 2009, foi desenvolvido por estudantes de graduação do
Curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba, e possui como
principal objetivo ministrar aulas sobre educação ambiental a crianças e jovens em idade escolar,
que participam das atividades da Associação Recreativa Cultural e Artística, no bairro Ilha do
Bispo, na cidade de João Pessoa – Paraíba.
         Este projeto possui alguns trabalhos em que faz o estudo da população do bairro e da
Educação Ambiental na ARCA. Alguns artigos e resumos publicados: Projeto Com Ciência e
Educação Ambiental: o ensino da temática coleta seletiva para crianças; Educação Ambiental em
comunidades populares: um estudo sobre as concepções de Educação Ambiental de moradores da
Ilha do Bispo – João Pessoa/PB; Dos movimentos ambientalistas à Educação Ambiental Popular: o
processo de ensino-aprendizagem de crianças e jovens.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             220

         O com Ciência foi criado devido aos alunos notarem que o bairro, este localizado entre o
Rio Sanhauá e um de seus afluentes (KOURY, 2005) e possuir em seu território o ecossistema
manguezal, ter sido parcialmente alterado pela ação antrópica, através do aterramento para a
construção de casas, da presença de uma indústria, e pela poluição do rio, pois o mesmo recebe
diariamente resíduos provenientes das residências da população ribeirinha, que sem nenhum ou
pouco conhecimento, joga todo tipo de material no rio Sanhauá, prejudicando cada vez mais, sua
própria qualidade de vida.
                Geralmente os agentes responsáveis por projetos sócio-educativos e ambientais na
Ilha do Bispo são a ARCA e Associação Comunitária Índio Piragibe, que visam uma interação entre
os jovens e adultos, oferecendo atividades recreativas, como esporte, danças, arte, entre outras,
como meio de ocupar o tempo desses cidadãos. Essas instituições trabalham junto à comunidade
com o auxílio de educadores e voluntários.
                Diante do exposto, o objetivo deste trabalho é demonstrar a importância de projetos
de educação ambiental em comunidades, pois se tem conhecimento da importância e a necessidade
de se realizar projetos de cunho social voltados para o meio ambiente, pois eles ajudam na formação
do aluno como cidadão consciente de suas responsabilidades e direitos em todos os aspectos da
vida, aprendendo a valorizar e a respeitar o outro ser vivo, seja ele qual for.
         De acordo com Brandalise et al. (2009) “a educação ambiental é um dos instrumentos de
que se dispõe para tentar sanar ou minimizar os problemas ambientais”, sensibilizando toda da
população local.

          Para que a Educação Ambiental?

                Segundo Dias et al. (2009) “a educação ambiental é vista como um elemento
indispensável para a transformação da consciência dos alunos”. Para que haja uma resposta
realmente significativa, é necessário que os alunos se envolvam com o assunto em questão.
          Ao se abordar o tema Educação Ambiental, não basta apenas ensinar a não jogar o lixo no
chão, é preciso explicar sua origem, pra onde ele irá quando jogamos em coletores de lixo ou nas
ruas, e como podemos diminuir a quantidade desses resíduos no ambiente, dessa forma,
conseguimos influenciar de maneira positiva na forma com que esses alunos pensam,
sensibilizando-os através da Educação Ambiental.
          Esse trabalho se torna mais fácil, se forem abordados temas que fazem parte de seu
cotidiano, por exemplo, no caso das aulas de Educação Ambiental na Ilha do Bispo, se faz
exemplificações locais, como a ação de jogar o lixo no rio Sanhauá, o prejuízo de ser ter afetada a
qualidade de vida, devido à presença de esgotos a céu aberto.
          Por isso, em uma comunidade como o bairro Ilha do Bispo, que apresentar características
socioambientais peculiares não faz sentido falar sobre a caatinga, pois não faz parte da realidade dos
moradores, então, o aprendizado se torna mais difícil.
                O processo de educar, não se resume apenas em ensinar, mas também em aprender,
seja qual for o tipo de educação. No entanto quando se trata de educação ambiental, o processo se
torna mais dinâmico e o progresso é mútuo, pois um professor que mora em um local distante de
onde leciona, não tem como saber, por vivência, a realidade daquele local, mas conhece em sua
teoria, já que deve ter lido sobre o bairro em artigos, revistas, livros, etc. Esse professor pode
aprender muito com os alunos que ali vivem, pois apesar de não saberem na teoria, mas vivem na
prática, então acontece uma troca entre professores e alunos, teorias e praticas.
                Segundo Tristão (2005), “a Educação Ambiental visa, justamente, potencializar as
ações coletivas e a fortalecer o associativismo para resgatar o sentido da repolitização da vida
coletiva”. Nessa visão, a educação ambiental é tratada como algo maior, como um processo de
aprendizado na sociedade, visando o beneficio para o coletivo, e não individual, como ocorre em
muitas disciplinas.
          A solidariedade é um ponto chave no caminho rumo ao bem estar de todos e é utilizando
essa ferramenta que a educação ambiental alcançará seu sucesso e plenitude, e será (se já não for),
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                        221

tão necessária como outra disciplina. Devendo então ser abordada em todos os níveis escolares, do
fundamental ao superior.

         CONCLUSÃO
         A partir da experiência dos discentes de Ciências Biológicas no Com Ciência, pode-se
concluir que o projeto está tendo êxito no ensino das crianças e que além de levar a Educação
Ambiental e a Educação Ambiental Popular é um importante meio para se conhecer os problemas
sócio-ambientais da população por meio dos trabalhos publicados.

         REFERÊNCIAS
         BRANDALISE, L. T; BERTOLINI, G. R. F; Rojo, C. A.; LESANA, A. G. R.;
POSSAMAIS, O. A percepção e o comportamento ambiental dos universitários em relação ao grau
de educação ambiental. Gestão & Produção. vol.16 no.2 São Carlos. 2009. Disponível em:
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         DIAS, S. L. F. G.; TEODÓSIO, A. S. S.; CARVALHO, S.; Silva, H. M. R. Consciência
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eletrônica.       v.8       no.1        São       Paulo.      2009.      Disponível          em:
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fevereiro de 2010.
         TRISTÃO, M. Tecendo os fios da educação ambiental: o subjetivo e o coletivo, o pensado
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<http://www.acaprena.org.br/planodemanejo/artigos/tecendo_os_fios_da_educacao_ambiental.pdf>
Acesso em: 27 de fevereiro de 2010.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                          222

   A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DA
COMUNIDADE LOTEAMENTO PADRE HENRIQUE BAIRRO DA
               VÁRZEA RECIFE-PE

                                                                                           Marinalva Marina Espídola
                                                                      Graduanda do curso Gestão Ambiental no IFPE.
                                                                                      marinalvamarina@hotmail.com
                                                                                      Anália Keila Rodrigues Ribeiro
                                                                Professora do IFPE. Doutora em psicologia Cognitiva
                                                                                    analiakaeila@yahoo.com.br
            Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco/IFPE Av.Prof. Luis Freire, 500, Cidade
                                                                            Universitária, CEP 50740-540, Recife-PE.

          RESUMO
          A pesquisa busca inestigar como os processos da percepção ambiental pode contribuir para
a formação do sujeito ecológico na comunidade Loteamento Padre Henrique localizado no bairro da
várzea Recife PE, e tem como objetivos específicos: compreender as concepções dos moradores
sobre o meio ambiente; identificar em suas atividades do dia-a-dia práticas típicas do sujeito
ecológico e compreender como se desenvolve o processo de interação dos moradores com o meio
ambiente. O paradigma metodológico utilizado foi a pesquisa qualitativa, tendo como estratégia de
coleta de dados a entrevista na qual foram gravadas e posteriormente transcritas, obtendo após
análise prévia e parcial os resultados textuais. O entendimento da percepção ambiental irá contribuir
na identificação de problemas ambientais locais, ocasionados pela ação humana, que depois de
identificados será analisado para verificar a quem compete à resolução de tais problemas, se aos
moradores da comunidade ou ao Poder Público. Tendo em vista as diferentes formas que cada
indivíduo tem de perceber, reagir e responder as diferentes ações sobre o meio, além disso, a
percepção ambiental possibilitará uma melhor compreensão das inter-relações entre o homem e o
meio ambiente. Também, a partir dos achados, poder-se-á elaborar procedimentos associativos que
contribuam para uma percepção ambiental mais compatível com o ideário do sujeito ecológico. O
projeto terá também a contribuição dos vários conceitos da educação ambiental, pois esta
juntamente com a percepção ambiental forma conceitos de suma importância que postos em prática
serão bases consolidadas para a formação do sujeito ecológico. Pois o indivíduo necessita
inicialmente de um processo de aprendizagem para que ele possa passar de uma condição de
indivíduo para se transformar em sujeito social construtor de sua própria história, podendo dessa
forma perceber sua interação com o meio natural.
         PALAVRAS-CHAVE: Percepção ambiental, educação ambienta, sujeito ecológico.

         ABSTRACT
         The research seeks to understand how the processes of environmental perception
contribute to the formation of the ecological self in the community Allotment Father Henry located
in the floodplain Recife PE, and has the following objectives: to analyze the environmental
awareness of residents, to identify in their day - to-day practices typical of the ecological self and
understand how it develops the process of interaction people have with the environment. The
methodological paradigm used was qualitative research, with a strategy for data collection in which
the interview were recorded and transcribed, after obtaining prior analysis and partial results
supports.    The understanding of environmental awareness will help in identifying local
environmental problems, caused by human action, which once identified will be analyzed to
determine who is responsible for resolving such problems, the residents of the community or to the
Government. Given the different ways that each individual has to perceive, react and respond to
different actions on the environment, in addition, environmental perception, provide a better
understanding of the interrelationship between man and the environment. Also, from the findings,
one will develop procedures associations that contribute to environmental perception more
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             223

compatible with the ideas of ecological self. The project will also assess the contribution of the
various concepts of environmental education, as this along with environmental perception, form
concepts of paramount importance that will be put in place a consolidated basis for the formation of
ecological self. For the individual needs of an initial learning process so that it can pass from one
condition of the individual to become a social subject constructor of their own history, and can thus
understand their interaction with the environment.
         KEYWORDS: Environmental perception, environmental education, ecological self.

          INTRODUÇÃO
          Educação ambiental
          Segundo a Comissão Internacional na preparação da Eco92, a Educação Ambiental se
caracteriza por incorporar as dimensões sócio-econômica, política, cultural e histórica. Devendo
considerar as condições e estágios de cada país, região e comunidade, sob uma perspectiva
histórica, ou seja, partindo de uma perspectiva local para uma perspectiva global.
          Para formar cidadãos críticos com uma percepção ambiental voltada para a sua realidade
local é necessário uma formação adequada, incluindo em sua base educacional a educação
ambiental. Ultimamente, a educação ambiental vem assumindo um caráter mais realista, envolvida
na busca de um equilíbrio entre o homem e o meio ambiente, apesar da dicotomia existente entre
“sustentabilidade e desenvolvimento”. Além disso, pode ser considerada uma prática para a
sustentabilidade e para a sua percepção é necessário uma forma de pensar mais complexa.
          A lei de número 9.795, 27 de abril de 1999 da Constituição Federal em seu artigo primeiro
entende a Educação Ambiental como os processo por meio dos quais, o indivíduo e a coletividade
constroem valores sociais, conhecimentos habilidades e competências voltadas para a conservação
do meio ambiente. Partindo desse princípio o projeto será desenvolvido na comunidade Loteamento
Padre Henrique, localizada no bairro da várzea- Recife PE e tem como objetivo geral compreender
como os processos da percepção ambiental contribuem para a formação do sujeito ecológico.
Especificamente a pesquisa busca entender o que os moradores pensam sobre o meio ambiente,
além de identificar no seu dia-a-dia práticas típicas do sujeito ecológico e também analisar o
desenvolvimento das relações com o ambiente na comunidade. Entretanto, com esta pesquisa
pretende-se responder a seguinte questão: qual é a contribuição da percepção para a formação do
sujeito ecológico com uma consciência crítica-ambiental capaz de compreender a importância da
manutenção de um ambiente limpo e saudável para a sua qualidade de vida e para a melhoria do
planeta, visando o desenvolvimento sustentável.
          Ao responder a questão de estudo, a pesquisa contribui para a formação da consciência
ambiental dos moradores, visto que a experiência desenvolvida tem como expectativa compreender
como os moradores pensam e agem sobre o meio ambiente e de que forma procura solucionar
problemas concreto do meio ambiente, tendo por base a percepção ambiental com uma participação
ativa e responsável de cada indivíduo e da coletividade.
          Tendo além da percepção ambiental a contribuição da Educação Ambiental de forma
conceitual por ser um campo multi e interdisciplinar que se desenvolve em um processo contínuo e
permanente. Segundo Mauro Guimarães o processo educacional deve incorporar uma nova
dimensão com discussão sobre questões ambientais e possíveis transformações de conhecimento,
valores e atitudes diante de uma nova realidade a ser construída. Pois é importante ressaltar que ao
longo da história da humanidade, os valores e padrões éticos construídos não incluíram a dimensão
ambiental, tendo o homem se preocupado apenas com o seu bem estar, fornecido pela produção
ilimitada e pela utilização indiscriminada dos recursos naturais, visto que os paradigmas filosóficos,
éticos e econômicos levaram o homem a distanciar-se da natureza, impedindo dessa forma que a
sociedade reflita sobre a relação dos homens entre si, e deste com a natureza. Neste contexto, a
percepção ambiental e a educação ambiental vêm contribuir em processo interativo, participativo e
crítico para o desenvolvimento sustentável.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           224

          Referencial teórico

         A resolução CONAMA 306:2002: define “Meio Ambiente é o conjunto de condições, leis,
influencia e interações de ordem física, química, biológica, social, cultural e urbanística, que
permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. É de responsabilidade de toda a sociedade
pela preservação do meio ambiente, sendo preciso agir de maneira consciente para não modificá-lo
de forma negativa, tendo em vista que o meio é o lugar que nos envolve e nos cerca na qual
dependemos para nossa sobrevivência e que tais modificações tem influencia direta na nossa
qualidade de vida e na qualidade de vida de gerações futuras.
         Sendo a percepção ambiental a consciência do ambiente pelo homem, assim juntamente
com a educação ambiental, quando postos em prática formarão as bases consolidadas para a
formação do sujeito ecológico. Pois a percepção ambiental leva em consideração as diferentes
formas do ser humano ver e agir sobre o meio ambiente, que segundo OKAMOTO (2003), a
percepção ambiental é a visão que cada indivíduo tem do ambiente, de acordo com o contexto que o
envolve possibilitando diferentes formas de reagir com o meio a sua volta. Já para FAGGIONATO
(2007), “cada indivíduo percebe, reage e responde diferentemente frente às ações sobre o meio. As
respostas são resultados da percepção, processos cognitivos, julgamento e expectativa de cada
indivíduo”. Diante da importância da educação e percepção ambiental para um melhor
entendimento das inter-relações entre o homem e o meio ambiente, a pesquisa busca analisar como
a comunidade interage e percebe o meio ambiente.
         Durante muito tempo o atual modelo de desenvolvimento econômico não permitiu que o
homem refletisse sobre sua atuação no planeta, e se apoderou da necessidade e da dependência que
este tem com relação à natureza, para exaurir os recursos naturais, sendo assim um modelo
econômico injusto, pois visa apenas o lucro, além de ser o responsável pelas mazelas existentes e
pelo verdadeiro caos que presenciamos em pleno século XXI. É um modelo de causar indignação na
medida em que sobrepõem o luxo e o status acima da necessidade de sobrevivência, visto que os
beneficiados pela exploração dos recursos naturais constituem uma pequena parcela da população
que se preocupam apenas com seu bem estar, sendo a maioria vítima dos danos causados ao meio
ambiente, além do que muitos não têm o mínimo de tais recursos para atender as suas necessidades
básicas.
          Entretanto foi preciso o homem sentir na pele os efeitos da degradação ambiental, para ver
que os recursos naturais são finitos e que a sua ambiciosa exploração estava pondo em risco a vida
no planeta. Estava mais do que na hora do homem parar de “explorar” e parar para “pensar” um
pouco na sua generosa e grandiosa casa, “o planeta terra”. O homem viu que o modelo econômico
que lhe impõe a ambiciosa ganância de exploração, seria o mesmo que lhe levaria ao abismo no
momento em que não fosse mais possível extrair da natureza os recursos da qual necessita. Além
disso, ele viu que mesmo com os avanços tecnológicos não foi possível acabar com a fome, nem
mesmo diminuir as desigualdades existentes, só fez potencializar a capacidade de degradação
ambiental com a produção em larga escala. Torna-se necessário uma conscientização para possíveis
soluções dos problemas ambientais, o que será possível através dos vários processos em que se
desenvolve a Educação Ambiental com uma evidente mudança de atitudes, valores e ações na
forma do homem se relacionar com a natureza, ou seja, através de uma integração da educação
ambiental e da percepção ambiental.
         Foram muitos encontros, fóruns e conferências não só no Brasil, mas em todo mundo,
criando assim um novo olhar sobre as atividades humanas, na busca para preservação e melhoria do
meio ambiente. É possível a descrição de todo um panorama histórico que marca o início das
preocupações com o futuro da humanidade diante da grave crise ambiental. O Clube de Roma em
1968, que concluiu pela necessidade urgente de buscar meios de conservação dos recursos naturais
e controlar o crescimento populacional a partir de uma mudança radical na mentalidade de consumo
e procriação REIGOTA (1984). Tendo em seu relatório os limites do crescimento.
         Alguns anos depois em 1972, em Estolcomo, a organização das Nações Unidas (ONU)
promoveu a Primeira conferência sobre o Meio Ambiente, na qual se atribuiu à educação ambiental,
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recomendando o treinamento de professores e o desenvolvimento de novos recursos institucionais e
métodos HAMMES,( 2004).
          Segundo Dias (2003) nessa época pouco se falava em Educação Ambiental. Pois durante
muito tempo a natureza foi vista erroneamente apenas como flora e a fauna sem nenhum tipo de
integração homem-natureza, além de não levar em consideração as nossas condições
socioeconômicas.
          Ainda sobre a educação ambiental, por não ter uma definição exata continuou pouco
difundida, no entanto os conceitos e abordagens eram em função das diferentes visões em prol dos
interesses de cada país. Não era conveniente para os países ricos a divulgação das mazelas
ambientais, socioeconômicas entre outras produzidas pelos modelos econômicos adotados e que são
impostos aos países pobres.
          Em 1975, ocorreu em Tibilise (Geórgia) a primeira Conferência Intergovernamental sobre
Educação Ambiental, muito importante, pois tinha objetivos e princípios definidos com
recomendações e estratégias voltadas aos planos regional, nacional e internacional.
          Foi visto que para o desenvolvimento da Educação Ambiental é preciso levar em conta os
diversos componentes de uma sociedade, como os aspectos políticos, econômicos, sociais,
tecnológicos e éticos, ou seja, desenvolver a educação ambiental de forma interdisciplinar
possibilitando não só ao indivíduo, mas também a coletividade a compreensão da natureza
complexa do ambiente, fornecendo-lhe conhecimentos e habilidades para lidar com as questões
ambientais.
          No Brasil a Educação Ambiental ganhou impulso em 1981, com a lei 6.938 sobre a
Política Nacional do Meio Ambiente com determinados fins, formação e aplicação. É importante
lembrar que cabe ao Poder Público “promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino
e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente” (capítulo VI, Artigo225,
parágrafo I, item VI). Mas é preciso termos consciência de nossa responsabilidade em promover a
melhoria e manutenção da qualidade ambiental, através de nossas decisões e atitudes. Além dessa
consciência o indivíduo e a coletividade devem adquirir compreensão sobre o meio ambiente e seus
problemas, podendo assim mudar o seu comportamento, obtendo habilidades necessárias para
identificar e resolver problemas ambientais.
          A ética é outro elemento chave para proteger a vida sobre a terra. Segundo Hammes dentre
outros aspectos, a nova responsabilidade ética requer do homem:
          “Sentimento de unidade planetária; compreensão e respeito ao outro e à natureza, em suas diversidades;
solidariedade e trabalho participativo; sensibilidade, afetividade e amor; busca de humanização em sua consciência
pessoal; postura não-dogmática e abertura à mudança” (HAMMES, 2004, p.43).
          Mediante o nosso modo de vida adotado, predominando o individualismo e o
descompromisso com a vida e com o outro, nas nossas relações cotidianas, além da falta de ética em
todos os setores comprometendo a vida social e ecológica, é mais do que essencial a adoção desses
sentimentos para a mudança de postura.
          A Educação Ambiental tem como um de seus princípios básicos considerar o meio
ambiente em sua totalidade, ou seja, integrando o homem à natureza, construindo uma abordagem
holítica, que integra o todo, envolvendo todos os aspectos de vida.
          Para educadores que desenvolve trabalhos nesta corrente, o enfoque exclusivamente analítico e racional das
realidades ambientais encontra-se na origem de muitos problemas atuais. Onde é necessário levar em conta tanto as
dimensões das realidades socioambientais quanto as dimensões da pessoa que entra em relação com estas realidades,
da globalidade e da complexidade de seu “ser no mundo”. O sentido “global” refere-se à totalidade de cada ser, de
cada realidade, e a rede de relações que une os seres entre si, em conjunto onde eles adquirem sentido. (SATO E
CARVALHO, 2007, p. 26).
        Ainda de acordo com Santos e Carvalho no que diz respeito às matérias ambientais
(Educação e Ética), grande parte das filosofias holísticas pretende integrar o ser humano à natureza
como solução para crise ambiental. Tendo os seres humanos como parte da natureza. Porém as
mesmas ressaltam que na medida em que algumas posturas holísticas integram o homem à natureza
de tal modo que não seria possível fazer nenhuma distinção entre natureza e cultura, estariam
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                        226

causando um dos maiores problemas éticos e epistemológicos, criando assim alguns problemas para
conservação ambiental.
           Outro princípio da educação ambiental, é que esta se constitui de um processo contínuo e
permanente através de todas as fases de ensino seja ele formal e não-formal. Princípio este de
relevante importância na medida em que a educação ambiental não se restringe apenas nas escolas
com o ensino formal, mas é um conceito com práticas que se expande para além das escolas,
podendo ser desenvolvida em comunidades. Visto que após a elaboração do perfil ambiental das
comunidades, teremos informações das prioridades podendo dessa forma criar projetos ou
programas de educação ambiental de acordo com a realidade local.
           Um grande potencial da educação ambiental é o seu enfoque interdisciplinar, ou seja, é um
tema que consegue inter-relacionar as diversas disciplinas, adaptando-se a vários contextos sócio-
econômicos e culturais, de forma a tornar o conhecimento mais abrangente e eficaz. Santos e
Carvalho define a interdisciplinaridade como um conceito polissêmico, mas geralmente é entendido
como proposta epistemológica que tende a superar a excessiva especialização disciplinar surgida da
racionalidade científica moderna. Para as autoras é uma forma de reorganizar o conhecimento para
responder melhor aos problemas da sociedade, na medida em que parte da premissa de que a
realidade é divisível desde o teórico, para fins de estudo, porém os diversos componentes que
originam as disciplinas estão de fato relacionados. Para HAMMES (2004), a interdisciplinaridade se
efetiva em um diálogo entre as disciplinas cujas contribuições se mútuas regem as ações com
finalidade única: transformar indivíduos e sociedade.
          Outro ponto importante a ser mencionado é com relação ao campo ambiental, pois partindo
dessa concepção, é um amplo conjunto de práticas sociais voltadas para os diferentes aspectos das
relações entre sociedade e ambiente, sendo necessário outro paradigma (sócio-histórico) diferente
do paradigma naturalista para o campo ambiental.
          Segundo CARVALHO (2001), o paradigma naturalista tem uma visão da natureza como
um mundo de ordem biológica, essencialmente boa, pacificada, equilibrada, estável em suas
interações com o mundo cultural humano, enquanto que no campo ambiental entende a natureza
como lugar das interações entre a base física e cultural da vida nesse planeta. Ainda de acordo com
a autora, a educação ambiental contribui para a construção de uma atitude ecológica, trazendo
consigo forte potencial para alimentar o ideal de sujeito ecológico, na medida em que opera como
importante mediação, pela qual esse ideal vai sendo transformado em experiências concretas de
identificação e subjetivação de indivíduos e coletividade.
          No que se refere aos valores e crenças, estes explicam, legitimam e regulamentam a
estratificação social, ou seja, é um complexo de idéias coletivas direta ou indiretamente relacionado
a um sistema de estratificação. Quanto ao valor está ligado àquilo que é bom, útil, positivo. Os
valores indicam às expectativas as aspirações que caracterizam o homem em seu espaço de ser
superior a si mesmo e à situação histórica; marcam aquilo que deve ser em contraposição àquilo que
é. Já as crenças estão voltadas para a religião que se caracteriza na Fé de um povo.
          Com relação aos valores e crenças do sujeito ecológico, este deve adotar crenças e valores
voltados para um jeito ecológico de ser, com novo estilo de vida, com modos próprios de pensar o
mundo, com uma visão crítica aos valores, crenças e normas pré-estabelecidas, além de pensar a sua
relação com os demais seres existentes no planeta.
          O sujeito ecológico é um agente que surge para lutar em prol da preservação tornando-se
essencial para a educação ambiental, Carvalho (2004), o descreve como
          “Um sujeito ideal que sustenta a utopia dos que crêem nos valores ecológicos, tendo valor fundamental na
luta de um projeto de sociedade bem como na difusão desse projeto. Não se trata, de imaginá-lo como uma pessoa ou
grupo de pessoas completamente ecológicas em todas as suas esferas de vidas ou ainda como um código normativo a
ser seguido e praticado em sua totalidade por todos que nele se inspiram” (CARVALHO, 2004, p.67).
         No que se refere ao modelo ideal é importante compreender quais são os valores e crenças
centrais que constituem o sujeito ecológico e como ele opera como uma orientação de vida,
expressando-se de diferentes maneiras por meio das características pessoais e coletivas de
indivíduos e grupos em suas condições sócio-históricas de existência.
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         Mediante o modelo econômico adotado ainda sim, é possível a preservação dos recursos
naturais através do desenvolvimento sustentável, pois este engloba várias dimensões como a
ecológica, a social, a econômica, além das questões cultural, tecnológica e política, entretanto só
haverá desenvolvimento sustentável de fato se houver uma ordenação territorial com um
compromisso de monitoramento permanente e com a utilização racional dos recursos naturais,
buscando sempre o equilíbrio dos sistemas antrópicos de forma a garantir a preservação do meio
ambiente e a longevidade dos sistemas de ocupação e exploração. Além disso, deverá ter a
participação ativa das pessoas na proteção ambiental e na melhoria da qualidade de vida, levando
em consideração a importância da educação ambiental para reorientar e capacitar as pessoas na
construção de uma sociedade consciente e sustentável.

          Metodologia

         Esta pesquisa leva em consideração os diferentes conceitos de Educação Ambiental, e mais
precisamente como os processos da percepção ambiental contribuem para a formação do sujeito
ecológico. O entendimento da contribuição desses processos para formação do sujeito ecológico é
de suma importância, para a conclusão desse projeto, tendo por base a abordagem conceitual na
qual se refere à importância das diferentes concepções que cada um de nós tem sobre um mesmo
fenômeno ou coisa.
           “O conceito é um componente básico de qualquer teoria. São abstrações ou construções mentais de uma
realidade objetiva e socialmente definida. O sentido do conceito pode mudar e, assim, ele precisa de uma definição
operacional, ou seja, precisa ter um conteúdo sempre descrito. Um conceito precisa ser definido tanto em termos
abstratos, dando-lhes o significado geral que se pretende dar a conhecer quanto em termos operacionais pelos quais será
representado num determinado estudo”. (PEDRINI, 2007).
          A pesquisa será estruturada no paradigma metodológico qualitativo, tendo como apreensão
da realidade, a coleta e a análise de dados, informações sobre o tema da pesquisa, na qual serão
feitas segundo suas abordagens conceituais e operacionais.
          A pesquisa terá como estratégia de coleta a entrevista como um dos instrumentos
metodológico. Pois a entrevista possui grandes vantagens, como por exemplo, capacidade
contextual, além de não exigir a escolaridade do entrevistado. Existe a possibilidade dos dados
coletados serem categorizados e operacionalizados é possível também surgir novas perguntas, que
não foram previstas na medida em que ocorre a entrevista.
          No que se refere à análise dos dados /informações, será de forma prévia e parcial baseada
essencialmente nos resultados textuais como a transcrição das entrevistas.

          Resultados e discussões

          A entrevista realizada na comunidade Loteamento Padre Henrique foi dividida em duas
partes, a primeira parte refere-se à entrevista aberta na qual consta o nome, a idade, o local onde
mora e o grau de escolaridade dos entrevistados. A segunda parte é referente às perguntas
relacionadas ao meio ambiente. A pesquisa tem os seguintes resultados:

         Quando feito à pergunta, o que é meio ambiente para você a maioria dos entrevistados
disseram que é o lugar onde vivemos, onde envolve o ar a água o solo, a natureza em conjunto.
Quando perguntei aos entrevistados se consideravam como parte do meio ambiente todos respondeu
que sim, por que vivemos no espaço tido como meio ambiente, portanto fazemos parte dele. Para os
entrevistados cuidar do meio ambiente é cuidar da casa maior que é o planeta, é ter consciência e
não jogar lixo nas ruas, é a preservação para ter uma qualidade de vida, é evitar os vários tipos de
poluição como a visual a sonora etc. é cuidar dos animais para que estes não venham prejudicar os
vizinhos, é ter uma boa relação com os vinhos. Andar de carro, lixo mal condicionados, desperdício
de água, não cuidar dos animais, assistir televisão e gases poluentes, todo esse problemas
ambientais foram tidos como atividades do dia-a-dia que vem prejudicar o meio ambiente. Foi
perguntado se a coleta da comunidade é satisfatória todos disseram que sim, por que o carro da
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coleta passa todos os dias e só faltava ser seletiva. Para os entrevistados as pessoas que buscam de
alguma forma a melhoria ambiental, são pessoas louváveis, corajosas, conscientes. Quanto aos
problemas da comunidade os entrevistados identificaram vários como: a falta de educação por parte
de alguns moradores, o mau hábito do ser humano de jogar lixo nas ruas, jogar lixo no rio até
eletrodomésticos que não são mais usados como geladeira são jogados no rio. Com relação ao
tratamento de esgoto na comunidade não existe, o que existe é uma fossa séptica feita assim que o
loteamento foi construído e que está desativada e o esgoto é lançado no rio de forma in natura
através de uma rede subterrânea, sem nenhum tipo de tratamento. Projeto sugerido pelos
entrevistados para a comunidade, projeto educacional de forma atrativa com palestras, reciclagem,
educação ambiental, limpeza do rio e dos canais.

          Conclusão

         Com relação à percepção ambiental dos moradores da comunidade Loteamento Padre
Henrique do bairro da várzea Recife-PE, conclui-se que os entrevistados têm uma ampla visão
voltada para o meio ambiente, ao passo que o define como o lugar onde vivem, tendo também
consciência dos cuidados que devem ter para preservá-lo, além disso, os entrevistados identificam
facilmente os problemas ambientais da comunidade, mesmo tendo parte dos moradores conscientes
com relação ao meio ambiente ainda existe àqueles que não despertaram para a problemática
ambiental e continuam jogando lixo nas ruas e no rio. No que se refere ao problema ambiental mais
grave encontrado na comunidade, que é o lançamento dos esgotos no rio sem nenhuma forma de
tratamento, este depende do orçamento participativo e enquanto o orçamento participativo definir
prioridade de comunidade, para a liberação de verba para saneamento básico, os moradores da
comunidade Loteamento Padre Henrique continuará lançando seus esgotos sem tratamento no rio,
pois a quantidade de moradores na comunidade é bem inferior ao definido no orçamento
participativo.
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 AÇÕES ANTRÓPICAS NOS BAIXOS PLANALTOS COSTEIROS
   DA BR 101 NO TRECHO JOÃO PESSOA- MAMANGUAPE

                                                                                                Elaine de Jesus LIMA
                                                                         graduandos no curso de Geografia pela UFPB
                                                                                          elainejlima@yahoo.com.br
                                                                                               Rabá Sousa da SILVA
                                                                         graduandos no curso de Geografia pela UFPB
                                                                                               rabgeo@yahoo.com.br
                                                                                         Ana Maria Ferreira COSME
                                                                         graduandos no curso de Geografia pela UFPB
                                                                                   anamariageografia@yahoo.com.br
                                                                                    Paulo Roberto de Oliveira ROSA
                                                                                            Orientador Ms da UFPB
                                                                                       paulorosa_ufpb@hotmail.com

         RESUMO
         O presente artigo tem como objetivo apresentar as ações antrópicas nos baixos planaltos
costeiros da BR 101 no trecho João Pessoa-Mamanguape, evidenciando alterações no modelado dos
interflúvios decorrentes da duplicação da rodovia. A evolução das forças de produção fez com que
a natureza fosse sendo apropriada e transformada pelo homem, objetivando a produção dos recursos
necessários à sua existência, a exemplo das transformações observadas no segmento estudado da
BR 101. Diante disto faz-se necessária uma maior compreensão da atual dinâmica do relevo para
atenuar os impactos provocados pela interferência humana. Para isso esclarecemos a necessidade da
tomada de medidas preventivas com base em um planejamento geo-ambiental respaldado pelo
conhecimento geomorfológico para que se atinja um equilíbrio de estado contínuo.
         PALAVRAS-CHAVE: degradação ambiental, ação antrópica, planaltos costeiros.

         ABSTRACT
         This article aims to present human actions on the low coastal plains along the stretch of the
BR 101-João Pessoa Mamanguape, showing changes in the modeled interfluves resulting from
duplication of the highway. The development of productive forces has meant that nature were being
appropriated and transformed by man, aiming at the production of the resources necessary for their
existence, similar to changes observed in the studied segment of the BR 101. Given this it is
necessary a greater understanding of the current dynamics of relief to mitigate the impacts caused
by human interference. For that we clarify the need for preventive measures based on a geo-
environmental planning backed by knowledge geomorphological for achieving a continuous state of
equilibrium.
         KEYWORDS: environmental degradation, human action, coastal plains

          CONSIDERAÇÕES SOBRE AS AÇÕES ANTRÓPICAS
          Os processos de dinâmica superficial, aliados aos processos de dinâmica interna, sempre
atuaram como agentes modeladores da superfície terrestre. Estes processos atuavam de forma
natural, provocando alterações igualmente naturais. Com o surgimento do homem e a evolução das
forças de produção, a natureza passou a ser apropriada e transformada por ele. E a partir de então
com a apropriação da natureza para a indústria, o homem vem transformando a natureza,
produzindo através deste processo os recursos necessários à sua existência.
          No decorrer da evolução humana e social, as necessidades humanas também evoluíram,
sua tecnologia desenvolveu-se, para atendê-las melhor, o que acarretou a interferência e
intensificação dos agentes e processos modificadores da paisagem. O aumento do contingente
populacional aliado à atual economia especulativa, decorrente do desenvolvimento social e
tecnológico nos trouxe à atual degradação, tornando-a um elemento fundamental para o progresso.
Faz-se necessário evidenciar que a degradação é um problema social (Blaikie e Brookfield, 1987).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           230

Para Tricart (1970), o homem é agente desencadeador do processo geomorfológico de degradação e
desempenha este papel atuando e interferido na natureza de formas diretas e indiretas, algumas das
quais serão abordadas a seguir.
         O primeiro estágio da degradação antrópica é a interferência na cobertura vegetal. Sendo
esta o fator mais importante de defesa natural contra a erosão no solo, sua retirada ou sua
modificação, configura-se como fator desencadeante de vários outros fatores degradantes.
         O desmatamento em função da agricultura implica na substituição da vegetação natural por
uma vegetação artificial, o que interfere nos fenômenos hídricos e eólicos e proporciona a
potencialização da morfogênese, pois sem a cobertura vegetal, as partículas do solo ficam
vulneráveis à desagregação e à erosão pluvial e eólica. Neste caso, dependendo do tipo de cultivo, a
tecnologia agrícola aplicada também interfere nos mecanismos de degradação do solo, podem
acelerar a desfertilização e ocasionar áreas em processo de desertificação. Um exemplo claro disto é
o cultivo da cana-de-açúcar, que devido à substituição da vegetação natural que protege o solo do
impacto pluvial, por uma vegetação artificial e verticalizada que propicia um contato direto pluvial
e eólico no solo, provoca a desagregação das partículas, conferindo-lhe uma maior erodibilidade.
         Outro mecanismo de degradação que afeta o solo é a retirada da cobertura vegetal para fins
de pastagem. O desprovimento de cobertura vegetal associado ao pisoteio e à compactação do solo
impede a infiltração e modificam as condições do escoamento, tornando-o mais intenso, e a fixação
de cercas para demarcação de pasto potencializa o poder erosivo do escoamento superficial,
resultando em processos de ravinamento e/ ou voçorocamento, em estágios mais avançados.
         Vale salientar que existe outro efeito secundário da retirada da cobertura vegetal: o
assoreamento. Como o escoamento superficial é gravitacional, a água transporta todos os
sedimentos para as áreas de cotas mais baixas, que coincidem com os vales dos rios, provocando
erosão laminar em suas vertentes e efetuando a deposição em seus leitos. Sendo assim, a retirada da
cobertura vegetal altera o modelado de forma direta e indireta.
         (…) A pressão exercida pelo homem como agente desencadeador do processo
geomorfológico, origina fenômenos de degradação demasiadamente fortes: primeiro como
instrumento direto de modificação, como por exemplo, quando ele abrange uma pá e opera um Bull
Dozer. Segundo, através das sérias influências diversas sobre outros processos geomorfológicos:
quando represa um rio, ou corrige seu curso meândrico. Sua influência direta pode ser proposital ou
incidental para outras atividades. (TRICART: 1974)
         A ocupação humana em áreas de encostas contribui para a ocorrência de movimentos de
massa, como deslizamentos. Logicamente, estes fenômenos estão relacionados a causas geológicas
e climáticas naturais, entretanto, a retirada da vegetação em áreas de declividade considerada e a
ocupação desordenada associada a estas condições naturais de risco, desestabilizam as encostas,
provocando desastres que afeta, em sua maioria, a população de baixa renda.
         A pavimentação impede a percolação da água no solo, e o acúmulo de lixo nas ruas, que
obstrui as galerias de escoamento pluvial, atuam como fatores intensificadores de enchentes em
períodos de máximas e em alguns casos, corridas de lama e de detritos. O bombeamento de águas
subterrâneas, acréscimo de peso devido a obras e estruturas e extração de minerais também podem
ocasionar e intensificar os processos de subsidência e colapsos.
         A construção de grandes obras de engenharia pode deflagrar sismos e outros eventos
considerados de menor magnitude. Atividades de mineração e pedreiras causam a remoção de
grandes quantidades de rochas, podendo resultar em dois tipos de terremotos induzidos: os
provocados pela remoção de materiais em minas profundas, e os superficiais, devidos a escavações
em minas rasas e à remoção de materiais em pedreiras; a injeção de fluídos a grandes profundidades
induz sismos devido à pressão que a água exerce nos poros das rochas; a extração de fluidos das
rochas, através da exploração de petróleo, água ou gás, reduz a pressão nos poros das rochas,
alterando o estado dos esforços tectônicos, produzindo sismos; explosões subterrâneas também
podem desestabilizar o estado dos esforços tectônicos provocando sismos em função da
acomodação destes esforços. E o tipo mais comum de sismicidade induzida é a decorrente da
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           231

construção de reservatórios de água. Notadamente, os sismos são fenômenos geológicos, mas
dependendo de sua magnitude podem interferir na geomorfologia local.
          A região costeira, por se tratar da zona de contato entre a hidrosfera, a litosfera e a
atmosfera, é um dos sistemas mais sensíveis. A ocupação humana nessas áreas tem se dado de
forma cada vez mais acelerada e desordenada, acarretando uma gama de problemas como erosão
costeira, saneamento, poluição, desmatamento de manguezais, alteração do balanço de sedimentos,
construção de portos, dragagens e aterros. Estes fatores desconfiguram o ambiente influenciando e
alterando diretamente e indiretamente a dinâmica local.
          A degradação ambiental frente a reconfiguração geomorfológica
          A Geomorfologia, a ciência que estuda o relevo terrestre, palco da degradação ambiental, e
sua gênese; faz-se eminente a sua contribuição para a compreensão da atual dinâmica do relevo, o
diagnóstico de áreas impactadas e sua recuperação. Pois todas as interferências antrópicas causam
alterações no meio físico, alterações estas refletidas diretamente no modelado, seja por um
deslizamento numa encosta ou por um corte num interflúvio..Obviamente a degradação ambiental
se dá de forma holística, integrando vários outros fatores além da Geomorfologia, entretanto, esta
análise verticalizada tem o objetivo de chamar a atenção para o monitoramento dos fenômenos
geomorfológicos decorrentes da degradação ambiental para que se conheça a sua distribuição
geográfica, suas causas, como irão ocorrer no futuro e prever e estabelecer soluções que levem à
manutenção de um equilíbrio de estado contínuo, bem como preservar a integridade do nosso
planeta, ou ao menos atenuar os impactos provocados pela interferência humana.
          (…) Quando os conhecimentos geomorfológicos são utilizados de forma correta e
adequada, há uma pequena probabilidade de ocorrerem danos ambientais, como movimentos de
massa, erosões dos solos, erosão costeira, assoreamento, enchentes etc. (...) (GUERRA 2001: 70)
          Os Planaltos costeiros na Paraíba
                Compondo um dos compartimentos geomorfológicos da Paraíba, os baixos planaltos
costeiros constituem uma cobertura sedimentar terrígena continental de idade pliocênica, depositada
por sistemas fluviais entrelaçados associados a leques aluviais e são sustentados pelos depósitos
areno-argilosos da Formação Barreiras provenientes do Planalto da Borborema. Estes se estendem
ao longo do litoral paraibano com altitudes que variam entre 20 e 30 metros, havendo alguns com
até 200 m. O relevo varia entre vales estreitos e encostas abruptas ou vales abertos com vertentes
suaves com amplas várzeas. Em geral, os solos são pobres e possuem pouca capacidade de
armazenamento de água. A vegetação nativa é a Mata Atlântica e as terras são altamente férteis e
próprias para o cultivo da cana-de-açúcar.
          Estas áreas são palco de marcante ocupação antrópica através atividades agro-pastoris,
expansão do turismo e obras de engenharia. Estas atividades são potencialmente causadoras de
desequilíbrio do meio ambiente, através de interferências no meio físico. Os sedimentos do
Barreiras são também fonte importante de materiais de construção e de cerâmica, além de
constituírem, em alguns locais, aqüíferos importantes, responsáveis pelo abastecimento de água de
algumas cidades e vilarejos.
          A duplicação da BR 101 no trecho entre João Pessoa e Mamanguape – Paraíba
          A rodovia BR-101, também denominada translitorânea, é uma rodovia federal longitudinal
do Brasil. Seu ponto inicial está localizado na cidade de Touros (RN), e o final em São José do
Norte (RS). Atravessa 12 estados brasileiros: Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas,
Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do
Sul. Em toda sua extensão é denominada oficialmente Rodovia Governador Mário Covas.
          A adequação da capacidade e duplicação da BR-101 é uma obra do Governo Federal,
realizada pelo Ministério dos Transportes e executada pelo Departamento Nacional de Infra-
estrutura de Transportes (DNIT). O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo
Federal destinou investimentos alocados para o estado da Paraíba. Entre os novos recursos, uma
parte da verba foi destinada à duplicação da BR-101. No trecho entre João Pessoa e Mamanguape,
serão duplicados 52km da referida rodovia com o intuito de tornar o tráfego mais confortável,
seguro e rápido.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            232


          MÉTODOS E TÉCNICAS
          O trabalho foi realizado comportando trabalho de gabinete e pesquisa de campo. Em
gabinete, a priori foi desenvolvida uma revisão teórica conceitual acerca da interferência antrópica
na Geomorfologia, fazendo um resgate de alguns conceitos de processos morfogenéticos
desencadeados e suas implicações no modelado. Num segundo momento, surgiu a preocupação em
delimitar um espaço físico real onde podem ser observados alguns destes processos. Foi escolhida
então a BR101 no seu segmento João Pessoa - Mamanguape, por se tratar de um recorte espacial
bastante conhecido e onde atualmente estão sendo realizadas obras do PAC (Programa de
Aceleração do Crescimento), passando, atualmente, por processo de duplicação. Foi feita uma visita
virtual ao trecho da BR 101 utilizando o Google Earth como ferramenta de análise, realizando a
seleção da área e delimitando o segmento em foco, observando o recortes realizados nos planaltos
costeiros, afim de comprovar através das imagens, as possíveis alterações no modelado dos
interflúvios oriundas das obras do PAC. Utilizou-se um recorte do trecho João Pessoa Mamanguape
a partir de mapa rodoviário numa escala de 1:500000, para que se pudesse calcular a extensão do
segmento da BR 101 a ser estudado.
          Em campo realizou-se uma visita, para observação e coleta de dados in loco a partir de
imagens fotográficas horizontais comprobatórias dos questionamentos levantados acerca da
reconfiguração do modelado.
          Por último foi necessário voltar ao gabinete para plotar os dados , o aporte teórico e as
imagens virtuais, analisando-os e contrapondo-os no objetivo de definir as conclusões do estudo.
Foi constatado que há uma real desconfiguração do modelado dos planaltos costeiros, que se dá em
função da duplicação da rodovia.


          RESULTADOS E DISCUSSÃO

         A duplicação da BR aumentará a capacidade turística do Estado e lhe proporcionará mais
autonomia para movimentar suas riquezas, transportar sua gente e atrair novos investimentos.
Entretanto toda esta intervenção de infra-estrutura rodoviária implica na desconfiguração do
modelado dos planaltos costeiros através do corte dos interflúvios para a passagem da rodovia,
transformando as antigas vertentes em taludes paralelos com aproximadamente 70º de declividade.
Em outros pontos os tabuleiros são cortados com o objetivo de fornecer material para alimentar as
estradas na aplicação de obras de terraplanagem. Ou seja, as obras na BR não desconfiguram o
modelado original dos tabuleiros apenas ao longo da rodovia, mas também em outros locais onde
são implantadas as jazidas de sedimentos. A retirada de sedimentos para a construção da rodovia
acarreta alterações ambientais consideráveis, como a desestabilização do relevo, eliminação de
espécies, através da retirada de uma faixa residual de Mata Atlântica, e perda do potencial genético.
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         Figura 1 – Destacando a BR 101 no segmento João Pessoa- Mamanguape. Fonte: Google
Earth, 2010..




      Figura 2- Imagem obtida a partir mapa rodiviário representando o trecho da BR 101 entre
Mamanguape e João Pessoa.
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Figuras 3e 4 Representando os recortes realizados nos interflúvios para a passagem da rodovia. 2010

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         Existem causas naturais para a degradação, elas ocorrem com ou sem a intervenção
humana. No entanto, quando o homem transforma o ambiente, esses processos naturais tem
intensidade elevada ocasionando a reconfiguração do modelado. Analisando-se o trecho
Mamanguape-João Pessoa da BR 101 foi constatado que há uma real desconfiguração do modelado
dos planaltos costeiros, que se dá em função da duplicação da rodovia, configurando-se assim, um
processo de degradação proveniente da ação humana.
         Faz-se implícita a tomada de medidas preventivas e mitigadoras, aplicadas sob a égide do
conhecimento geomorfológico direcionado tanto pelo Estado, quanto pela iniciativa privada, para
que haja um efetivo desenvolvimento sustentável.

           REFERÊNCIAS
           BIGARELLA, João José, BECKER, Rosimari Dora e SANTOS, Gilberto F. dos. Estrutura
e origem
           BIOON, A.L. Superfície da Terra. Edgard Blücher/Edusp. São Paulo, 1988.
           CASSETI, Valter. Ambiente e apropriação do relevo. Contexto (coleção ensaios), 1991.
           CRISTOFOLETTI, Antônio. Geomorfologia. Edgar Blücher, 1980.
           das paisagens tropicais e subtropicais, Vol I. Editora UFSC, Florianópolis- SC, 1994.
           DREW, David. Processos interativos homem-meio ambiente. Editora Bertrand Brasil,
1996.
         GUERRA, Antônio Teixeira e BAPTISTA, Sandra. Geomorfologia e meio ambiente.
Editora Bertrand Brasil, 1996.
         GUERRA, Antônio Teixeira e BAPTISTA, Sandra. Geomorfologia: Uma atualização de
bases e conceitos, Bertrand Brasil, Rio de janeiro, 1994.
         GUERRA, Antônio Teixeira et all. Erosão e conservação dos solos- Conceitos temas e
aplicações. Bertrand Brasil, 1999.
         GUERRA, Antônio Teixeira. Dicionário Geológico-geomorfológico, 4ª edição. Rio de
Janeiro, IBGE, 1975.
         TRICART, Jean. A terra, planeta vivo. Lisboa, Editorial Presença, 1974.
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         ALAMBIQUE SAMANAÚ E BACIA HIDROGRÁFICA
        PIRANHAS-ASSU – CASOS DE SUSTENTABILIDADE E
             DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO SERIDÓ

                                                                                 ARAÚJO, Fernanda Santos Gentil
                      Graduanda do curso de Bacharelado em Turismo. Universidade Federal do Rio Grande do Norte
                                                                                     nandinhagentil@hotmail.com
                                                                                 MARACAJÁ, Kettrin Farias Bem
                                     Orientadora e Professora Mestre. Universidade Federal do Rio Grande do Norte
                                                                                                 kettrin@ufrnet.br

         RESUMO
         A proposta deste trabalho é apresentar alguns aspectos de sustentabilidade e de degradação
ambiental, relacionando-os aos casos do Alambique Samanaú e da Bacia Hidrográfica Piranhas-
Assu respectivamente, mostrando o processo de produção sustentável da cachaça, os principais
agentes causadores da degradação ambiental da Bacia e suas consequências. Em sua estrutura, após
a introdução, serão apresentados conceitos de degradação e de sustentabilidade, seguidos da
descrição dos casos Alambique Samanaú e Bacia hidrográfica Piranhas-Assu, e após, a relação
entre os mesmos, concluindo com as considerações finais.
         PALAVRAS-CHAVE: Meio ambiente, Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu, Alambique
Samanaú, Desenvolvimento Sustentável.

         ABSTRACT
         The purpose of this paper is to present some aspects of sustainability and environmental
degradation, linking them to cases of Samanaú Alembic and Watershed Piranhas-Assu,
respectively, showing the process of sustainable production of rum, the major causative agents of
environmental degradation in the Watershed and its consequences. In its structure, following the
introduction will be presented concepts degradation and sustainability, with descriptions of cases
Samanaú Alembic and Watershed Piranhas-Assu, and after, the relationship between them,
concluding with the final considerations.
         KEYWORDS: Environment, Watershed Piranhas-Assu, Samanaú Alembic, Sustainable
Development.

         INTRODUÇÃO
         A Constituição Federal de 1988, Art. 225 apud PEDRO e FRANGETTO (2004), determina
que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e
essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
         Sabe-se que a cada ano aumenta o número de casos de desastres ambientais provocados
por diversos fatores, tanto naturais quanto por interferência do homem. Os desastres provocados por
fatores naturais pode-se dizer que não têm como evitar. No entanto, os desastres provocados pelo
homem podem e devem ser evitados, ou minimizados, mas não é o que acontece. O homem com
sua necessidade do uso dos recursos naturais extraem da natureza recursos para sua sobrevivência,
sem nenhuma preocupação em recompensá-la por isso.
         A sociedade moderna é extremamente consumista e se acostumou ao descartável, o que
tem levado a uma enorme produção de lixo. Os sistemas adotados pela maioria das comunidades
para a administração de resíduos são resultantes de uma visão de inesgotabilidade dos recursos
naturais, o que necessita de revisão urgente, dentro da ótica do desenvolvimento sustentável, uma
vez que dele depende a existência harmoniosa do homem no Planeta. Outro conceito que carece de
revisão é quanto à responsabilidade pelo lixo. No que diz respeito à sociedade, ela não se encerra no
momento em que o lixo é colocado à porta para a coleta. Para tal, serão necessárias mudanças nos
hábitos de consumo, não apenas em relação à quantidade, mas também ao tipo de produto
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          236

adquirido, como e de quê ele é produzido. Um aspecto importante também decorre das
concentrações e da toxicidade dos resíduos, uma vez que a deposição pontual destes materiais pode
comprometer seriamente os ecossistemas de uma região, provocando alterações nas mesmas
proporções que a extração predatória de recursos naturais e, muitas vezes, inviabilizando a própria
extração dos recursos em função da contaminação, comprometendo assim a qualidade de vida da
população. (FIGUEIREDO, 1995 apud BROLLO e SILVA, 2001)


          DEGRADAÇÃO AMBIENTAL E SUSTENTABILIDADE
          A Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (artigo 3°, inciso II), define degradação
ambiental como a alteração adversa das características do meio ambiente. Ou seja, todo e qualquer
dano ao ambiente, o qual faz perder ou reduzir a qualidade dos recursos ambientais, os quais
geralmente são provocados pela ação antrópica.
                Com o paulatino aumento da população e a manutenção de um estilo tecnológico
obsoleto, é lícito esperar o agravamento dos problemas ambientais. Disso resulta a constante
deterioração dos ecossistemas naturais. O homem, em si, não é perturbador da natureza, mas são
suas más atividades canalizadas para um objetivo que não é o ótimo a longo prazo. A população, o
homem comum, é apenas um condutor propiciatório da poluição, motivo pelo qual, a nosso ver, a
orientação tecnológica é a verdadeira causadora da deterioração ambiental. A sociedade tecnológica
produz, ano após ano, um grande acúmulo de conhecimentos científicos que se aplicam à vida
cotidiana; é assim que uma geração muda radicalmente suas possibilidades e estilos de vida no
curso de 15 ou trinta anos, seja para o bem ou para o mal. A vida do homem tornou-se mais
acelerada, enfrentando múltiplas opções para encaminhar e satisfazer suas necessidades. É a
racionalidade científica e tecnológica que provoca o crescente esgotamento dos recursos naturais,
uma racionalidade ligada ao interesse do capital. (MOLINA, 2001)
                A partir disso, nasce a necessidade do consumo racional, mas não a racionalidade
ligada ao interesse capital, e sim a racionalidade ligada ao bem comum, a qual procura fazer com
que os recursos utilizados hoje possam ser acessíveis também para as futuras gerações, evitando o
esgotamento desses recursos, sendo assim chamado de sustentabilidade.
          A Sustentabilidade é a condição ou o resultado do equilíbrio nas relações entre uma
determinada sociedade humana e o meio natural em que ela vive e se organiza, de modo que as
demandas e ofertas recíprocas atendam às necessidades dos ecossistemas naturais e sociais, sem
prejuízo das gerações futuras, dos sistemas vivos e dos ecossistemas do planeta Terra. (COIMBRA,
2004)
                Diante desses conceitos e da importância que a sustentabilidade exerce para uma
vida sadia, Butler apud Hall (2004, 59) comenta que: Os maus resultados tratos da sincronização da
política e da prática parecem, portanto, ser um dos maiores impedimentos para cumprir os objetivos
do desenvolvimento sustentável.

          ALAMBIQUE SAMANAÚ
          O Alambique Samanaú localiza-se na região Seridó do Rio Grande do Norte, a 280 km da
capital do Estado, e a 15 km da cidade de Caicó pela BR 427, no Sítio Samanaú.
          O Alambique foi instalado em 2004 por seu proprietário Vivaldo Dadá Costa.
(ALAMBIQUE SAMANAÚ, 2010)
               No ano de 2008 o Alambique recebeu o Prêmio Socioambiental Chico Mendes, no
qual as empresas premiadas receberam um troféu, além do selo para veiculação em qualquer
material de comunicação que o contemplado julgar oportuno, certificado e passaporte de
responsabilidade socioambiental elaborado pelo Instituto, prevendo a redução de riscos ambientais,
sociais e econômicos por meio da implantação de modelos de prevenção.
          A seguir será descrito o processo de produção da cachaça:
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                        237

         A matéria prima utilizada para a fabricação da cachaça é a cana-de-açúcar. A cana de
açúcar utilizada na fabricação da cachaça samanaú é cultivada sem o uso de agrotóxicos nem
adubos químicos e é colhida manualmente. Ela contém um maior teor de sacarose, devido à
incidência de 4000 horas de sol/ano e à diferença acentuada de temperatura entre o dia e a noite
características da região.
         Moagem da cana: depois de colhida manualmente, a cana de açúcar madura, fresca e limpa
é moída num prazo máximo de 24 horas. O caldo da cana é decantado e filtrado para, em seguida,
ser levado às dornas de fermentação.
         Fermentação: o processo de fermentação da cachaça samanaú ocorre com leveduras
naturais, sem o uso de aditivos químicos, em dornas de inox, num período de 24/48 horas, a uma
temperatura de 29°, numa sala climatizada devido às altas temperaturas da região.
         Caldeira: O emprego da caldeira neste alambique é primordial para o sucesso da cachaça,
pois, fornece calor para a esterilização dos equipamentos, é responsável pelo bom andamento dos
destiladores, e aproveita o bagaço da cana como combustível.
         Destilação: A cachaça samanaú é obtida da destilação em alambiques de cobre, do mosto
fermentado da cana de açúcar, aproveitando somente o “coração”, que equivale a 75% do destilado
e, descartando a “cabeça” e a “cauda”.
         Envelhecimento: A cachaça artesanal para adquirir boas propriedades sensoriais, é
armazenada em tonéis/barris de madeira nobre, que além de melhorar o aroma e o paladar, modifica
a coloração de branca para amarelada, torna a cachaça macia e aveludada, atenuando a sensação do
álcool presente.
         Engarrafamento / envasamento: A cachaça samanaú é acondicionada em embalagem de
vidro, em volumes de 500 ml, 160 ml e 50 ml. Esse processo dar-se através de enchedora, a cachaça
é transferida para a embalagem, sendo posteriormente fechada com tampa metálica em alumínio.
Seguem-se as operações de rotulagem e acondicionamento.

         O Alambique também utiliza a coleta seletiva do lixo. As partes do produto que são
descartadas, a “cabeça” e “cauda” são destinadas a uma lagoa de estabilização. Bem como os
resíduos sólidos que são destinados a um aterro sanitário.

         BACIA HIDROGRÁFICA PIRANHAS-ASSU
         A Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu está localizada na região do semi-árido nos Estados
do Rio Grande do Norte e Paraíba exercendo uma grande importância econômica para o Estado,
pois além de fornecer água para o consumo humano, ela é fundamental para algumas das principais
atividades econômicas da região que a Bacia abrange como a agricultura e a indústria têxtil.
         O rio Piranhas-Açu nasce na Serra de Piancó na Paraíba com o nome de rio Piranhas,
recebe as águas dos rios Paraibanos Piancó e peixe, e entra no Rio Grande do Norte pelo município
de Jardim de Piranhas, desembocando próximo à cidade de Macau-RN. Como a maioria absoluta
dos rios do semi-árido nordestino, à exceção do rio São Francisco e do Parnaíba, é um rio
intermitente em condições naturais. A perenidade de seu fluxo é assegurada por dois reservatórios
de regularização construídos pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas): O
Coremas - Mãe d’Água, na Paraíba, com capacidade de 1,360 bilhões de m³ e vazão regularizada (Q
95%) de 9,5 m³/s e a barragem Armando Ribeiro Gonçalves (ARG), no Rio Grande do Norte, com
2,400 bilhões de m³ e vazão regularizada de 17,8 m³/s (Q 90%). Ao longo do sistema hídrico
formado pela calha do rio e seus reservatórios de regularização, denominado Sistema Curemas-
Assu, desenvolvem-se diversos usos como irrigação difusa, irrigação em perímetros públicos,
abastecimento humano, dessedentação animal, lazer, produção energética e aquicultura. (CHB,
2009)
         A Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – SEMARH/RN (2009) define a
extensão da Bacia Piranhas-Assu com “17.498,50 km² de superfície entre os estados do Rio Grande
do Norte e da Paraíba. No Estado do Rio Grande do Norte a bacia do Rio Piranhas-Assu
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corresponde a cerca de 32,8% do território estadual, abrangendo 33 municípios e uma população de
aproximadamente 415.000 habitantes”.
        A mesma, apesar de toda sua importância não é preservada como deveria, e essa não-
preservação provoca diversos problemas ambientais. O Laboratório de Microorganismos Aquáticos
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – LAMAq / UFRN (2009) descreve alguns dos
problemas causadores da degradação ambiental encontrados na Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu,
como: lançamento de despejos orgânicos de cidades, indústrias e esgotos em geral, como
detergentes sintéticos, pesticidas, herbicidas, nutrientes agrícolas, produtos químicos complexos e
substâncias tóxicas. Além disso, como principais fontes de poluição das águas do rio Piranhas-Assu,
podem ser citadas:

          Esgotos domésticos, principalmente em cidades pouco desenvolvidas, característica da
maioria das cidades que circunvizinham a bacia do rio Piranhas-Assu, que, sem saneamento básico
satisfatório, contribuem para a poluição ao transportarem diretamente para suas águas o
componente fecal e urinário;
          Águas de retorno dos sistemas de irrigação ou do escoamento superficial dos solos
agrícolas, cujos principais poluentes são os fertilizantes, especialmente nitrogênio e fósforo, e
pesticidas, principalmente o DDT;
          Esgotos industriais, que são lançados às águas receptoras diretamente ou por meio de
esgotos urbanos.
          RELAÇÃO ENTRE O ALAMBIQUE SAMANAÚ E A BACIA HIDROGRÁFICA
PIRANHAS-ASSU

                Pôde-se observar que no Alambique há uma preocupação com o tratamento e o
destino correto para cada resíduo sejam eles sólidos ou líquidos, utilizam as matérias que poderiam
ser descartadas, como é o caso do bagaço da cana que substitui a lenha e o carvão na caldeira, e as
cinzas da caldeira junto ao bagaço servem de adubos para cana-de-açúcar, não utilizando adubos
químicos nem agrotóxicos, dando assim sua contribuição para um mundo mais sustentável.
Enquanto isso, na mesma região, a Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu sofre sérios problemas de
degradação ambiental. As principais atividades da região que a Bacia abrange que são a agricultura
e a indústria têxtil provocam graves problemas como a alteração da qualidade de seus mananciais, e
não são apenas suas águas que são poluídas, são vidas que estão sendo postas em risco pela falta de
saneamento básico, de um destino e de um tratamento adequado para os resíduos industriais e
domésticos, risco de extinção de espécies da fauna, alteração do ambiente como um todo.
         A água é um elemento essencial para a vida humana, e no mundo os poucos m³ dela estão
sendo poluídos, como é o caso da Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu. E para tentar reverter essa
situação, a aplicação de uma gestão ambiental na região da Bacia seria o método mais eficaz.
          Philippi Jr. e Bruna (2004) definem gestão ambiental como,

          o ato de dirigir, administrar ou reger os ecossistemas naturais e sociais em que se insere o homem, individual
e socialmente, num processo de interação entre as atividades que exerce, buscando a preservação dos recursos naturais e
das características essenciais do entorno, de acordo com padrões de qualidade. O objetivo último é estabelecer,
recuperar ou manter o equilíbrio entre a natureza e o homem.

              Sendo assim, a gestão ambiental na região da Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu teria
o papel de avaliar os problemas do homem com seus impactos negativos sobre a mesma, e
transformar essa avaliação em ações para solucionar os problemas, tornando melhor a relação
homem-natureza.

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         Diante da descrição dos casos acima, fica clara a importância da sustentabilidade, da
extração responsável dos recursos naturais, da conscientização da comunidade e o alerta para a falta
de conservação e manuseio desordenado das áreas naturais.
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               A região na qual abrange Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu, por ser uma região
propícia a secas e ser alvo de inúmeros casos de degradação ambiental, se faz necessária a aplicação
de uma gestão ambiental para tentar amenizar a situação caótica na qual se encontra seus
mananciais, seu bem mais precioso. Por meio da gestão ambiental não só seus mananciais que serão
beneficiados, mas também a fauna, a flora e a qualidade de vida da população. E o caso do
Alambique Samanaú pode ser um exemplo de sustentabilidade a ser seguido na possível aplicação
da gestão ambiental na região que abrange a Bacia.
               Sendo o objetivo da gestão ambiental, estabelecer o equilíbrio entre o homem e a
natureza, a mesma promoverá adaptações ou modificações no ambiente natural, adequando-as às
necessidades individuais e coletivas, fomentando um desenvolvimento sustentável.

         REFERÊNCIAS
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Bacia Piranhas-Assu. Disponível em: http://www.cb.ufrn.br/~letma/areas.html. Acesso em: 25 de
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 ANÁLISE DE DESENHOS SOBRE O MEIO AMBIENTE FEITOS
  POR ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL PÚBLICO DO
               MUNICÍPIO DE CUITÉ/PB

                                                                                 Ana Carolina dos Santos FONSÊCA
            Aluna do Curso de Licenciatura em Biologia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Centro
        de Educação e Saúde (CES), Unidade Acadêmica de Educação (UAE) *E-mail: anacarolinacuite@hotmail.com
                                                                                      Cristiane Francisca da COSTA
                 Profª Dra. da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Centro de Educação e Saúde (CES),
                                                                            Unidade Acadêmica de Educação (UAE).
                                                                                               Anderson SCARDUA
           Prof. Dr. da área de psicologia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Centro de Educação e
                                                                   Saúde (CES), Unidade Acadêmica de Saúde (UAS).

         RESUMO
         O estudo da percepção ambiental é fundamental para compreendermos as relações
existentes entre os humanos e meio ambiente. Os seres humanos observam, interpretam e agem no
meio ambiente segundo sua percepção, que quase sempre é equivocada, pois existe desconexão
entre a percepção e as leis naturais, ocasionando diversos problemas ambientais e sociais. A
proposta deste trabalho foi verificar, através de desenhos, as concepções e percepções sobre o meio
ambiente dos alunos de três escolas da rede estadual e municipal do município de Cuité – PB e
como estes alunos se percebem como seres constituintes e atuantes no mesmo. Os desenhos foram
analisados através da técnica de análise de conteúdo temática. Durante o período de junho a
dezembro de 2009 foram realizados encontros semanais com os alunos onde foram trabalhadas
atividades de Educação Ambiental, de forma lúdica, como contos de histórias, análise de músicas,
produção de cartazes, montagem de quebra cabeças, jogos, etc. Os temas trabalhados foram: a
conservação ambiental; fauna e flora nativa; higiene e saúde; tipos de poluição; destino, reutilização
e reciclagem do lixo; formas de convivência e aspectos culturais do município de Cuité-PB. Em
todos os encontros os alunos foram incentivados a participarem das atividades de forma coletiva e a
representar o aprendizado adquirido em forma de desenhos. Um total de noventa e sete desenhos foi
produzido pelas crianças e a análise dos mesmos demonstra que estas são conscientes da
necessidade da preservação ambiental, se mostraram preocupadas com a degradação ambiental da
região e com o destino do lixo, mas revelam também que na percepção das crianças o ambiente só é
conservado se não existir a presença do homem, ou seja, elas concebem e percebem o ambiente
como algo alheio ao homem e do qual ele não poderá fazer parte sem degradar e destruir.
         PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental, percepção ambiental, psicologia, desenhos,
Cuité/PB.

         ABSTRACT
         The study of environment perception is crucial to understand the relationships between
humans and other living beings. Humans observe, interpret and act on the environment according to
their perception, which is almost always mistaken because there is disconnection between the
perception and the laws of nature, causing many environmental and social problems. The purpose of
this study was to assess, through the analysis of drawings, the perceptions and conceptions on
environment of students in public schools in Cuité – PB, and how they perceive themselves as
beings that are part of the environment and can act on it. We used the thematic content analysis to
analyze the drawings produced by these students. During the study, which occurred from April to
December of 2009, there were weekly meetings with the students related to environmental
education activities such as plays, storytelling, music analysis, production of posters, assembling
puzzles, games and others. The activities were related to the following themes: intending to work
various topics such as water, local fauna and flora region, pollution, waste and environmental
degradation; health and care, recycling; and local cultural aspects. In all the meetings the students
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were encouraged to participate collectively and to represent what they have learned through
drawings. A total of ninety-seven drawings were analyzed and these drawings seemed to show that
children are aware of the necessity of environmental preservation, but also reveal that in children’s
perception the environment is only maintained if man’s presence doesn’t exist, that is, they perceive
and conceive the environment as something alien to them and which they cannot be part without
degrading and destroying.
         KEYWORDS: environmental education, environmental perception, psychology, drawings,
Cuité / PB.

          INTRODUÇÃO
                Ao longo do tempo, o meio ambiente sempre foi visto como depositário direto dos
subprodutos inaproveitáveis das atividades humanas. Por trás deste comportamento, havia a
impressão de que os recursos da natureza seriam inesgotáveis e que o crescimento econômico e
tecnológico poderia continuar sem fronteiras e sem preocupações com o estoque destes recursos,
que, de acordo com essa percepção, seria inesgotável (COSTA et. al., 2005).
                A percepção que as pessoas têm de determinadas coisas ou situações não é isolada,
ela surge de suas relações com o meio cultural em que vivem. A partir da percepção das pessoas
acerca de determinado tema, surge o conhecimento e este é o ponto de partida para a prática.
Estudarmos a percepção ambiental é fundamental para podermos compreender as relações
existentes entre os humanos e os demais seres vivos (SILVA et. al., 2002).
                 Os seres humanos observam, interpretam e agem no meio ambiente segundo sua
percepção, que quase sempre é equivocada, pois existe desconexão entre a percepção e as leis
naturais, ocasionando diversos problemas ambientais e sociais. O indivíduo atua no ambiente, e nas
diversas esferas de sua vida, de acordo com seus interesses, necessidades, desejos e concepções
sobre o mundo, recebendo influências dos conhecimentos adquiridos anteriormente. A percepção
ambiental envolve acima de tudo o imaginário, os sonhos, as necessidades individuais e coletivas
(SILVA et. al., 2002).
                Costuma ocorrer um equívoco quando se fala em percepção, uma vez que o termo é
comumente entendido como sinônimo de conhecimento. Percepção é a distinção de uma forma
sobre um fundo, ou seja, um processo psicológico; e conhecimento é um processo epistemológico.
Os aspectos de imaginabilidade resultantes, o relacionamento ambiental e a topofilia (sentimento de
envolvimento com determinados locais), expressam a relação do homem com o seu meio ambiente
(ADDISSON, 2003).
                É evidente a necessidade de estudos de percepção para melhor compreender a
realidade urbana e seus habitantes como indicadores de planejamento, utilizando-se de critérios que
propiciem a participação da população, bem como a análise comportamental da mesma, a partir das
relações com o meio urbano (ADDISSON, 2003).
                Contudo, a percepção não atua de forma isolada, ela é permeada pelos
conhecimentos, pelas formas que representamos o mundo. Estas formas não são simplesmente
concepções individuais, mas são conhecimentos construídos socialmente e que influenciam e guiam
outros processos psicológicos como a percepção, direcionando, por exemplo, nosso olhar para
determinadas figuras em detrimento de outras (MOSCOVICI, 1978).
                Neste sentido, nos aproximamos da teoria das representações sociais. Esta procura
dar conta de um fenômeno, sobretudo urbano, em que as pessoas manifestam sua capacidade
imaginativa para assenhorar-se do mundo, por meio de conceitos, afirmações e explicações,
originadas no seu cotidiano, a respeito de qualquer objeto, social ou natural, para torná-lo familiar e
garantir a interação e comunicação com outras pessoas e grupos (SOUZA FILHO, 1993).
                Atividades de educação, planejamento e gerenciamento voltados para questões
ambientais fundamentam-se na importância de conhecer as concepções e a percepção ambiental dos
indivíduos envolvidos, o que facilita a compreensão das relações do ser humano com o meio
ambiente. A Educação Ambiental é um processo de ensino/aprendizagem que deve promover
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            242

mudanças de atitudes, de comportamentos e de percepção, além de garantir condições de vida digna
para as gerações atuais e futuras, aplicando o princípio da sustentabilidade (SILVA et. al., 2002).
               Atualmente, a sustentabilidade tem se firmado como um novo paradigma para o
desenvolvimento humano e é entendida como um senso profundamente ético, de igualdade e justiça
social, de preservação da diversidade cultural, de autodeterminação das comunidades e de
integridade ecológica e propõe a questão fundamental de que a sustentabilidade não é viver melhor
amanhã, mas viver de modo diferente hoje e para que isso aconteça são necessárias mudanças
profundas na forma de pensar, viver, produzir e consumir (RUSCHEINSKY, 2002).
               A mediação adequada entre meio ambiente, educação e sustentabilidade implica em
destacar a diversidade cultural, a participação, o envolvimento subjetivo e a cidadania ativa. Por
este caminho, passam a redescoberta da solidariedade entre os homens como agentes sociais e sua
moderação quanto ao uso dos bens naturais. Daí a necessidade de que as pessoas vislumbrem e
esquematizem os pilares de uma nova sociedade, construindo e reconstruindo sua própria história.
Este caminho também conduz a uma nova visão do mundo e suas relações com a natureza, vinda
das relações entre os que compartilham uma nova reflexão, discordante com a tradição de domínio
sobre a natureza pela ótica do antropocentrismo (RUSCHEINSKY, 2002).
               A psicologia ambiental fundamenta as inter-relações entre o ser humano e o
ambiente, considerando os efeitos das condições do ambiente sobre o comportamento dos
indivíduos, tanto quanto do indivíduo atuando sobre ele (LIRA e FERRAZ, 2009). Pensando dessa
forma, a proposta deste trabalho foi verificar a percepção ambiental dos alunos de escolas da rede
pública estadual e municipal da cidade de Cuité – PB, através da análise de conteúdo de desenhos
produzidos por estes alunos ao longo do período estudado.

         METODOLOGIA
               Durante o período de abril a dezembro de 2009, foram realizadas visitas semanais a
turmas de três escolas do município de Cuité/PB: Escola Estadual de Ensino Fundamental Maria
das Neves Lira de Carvalho, com duas turmas do 3° ano, com 25 alunos cada uma; e duas escolas
municipais, Escola Municipal de Ensino Fundamental Benedito Venâncio dos Santos, em uma
turma do 3° ano de 30 alunos, e Escola Estadual de Ensino Fundamental Celina de Lima
Montenegro, em uma turma do 5° ano de 40 alunos.
               Um total de 100 encontros foi realizado nas quatro turmas trabalhadas, envolvendo
120 alunos em todas as escolas. Nesses encontros, foram trabalhadas atividades de Educação
Ambiental, de forma lúdica, com contos de histórias, análise de músicas, produção de cartazes,
montagem de quebra cabeças, jogos, etc., sendo os temas voltados para a conservação ambiental,
fauna e flora nativa, higiene e saúde, tipos de poluição, destino, reutilização e reciclagem do lixo,
formas de convivência e aspectos culturais do município de Cuité-PB. Em todos os encontros os
alunos foram incentivados a participar das atividades de forma coletiva e a representar o
aprendizado adquirido em forma de desenhos.
         Foram selecionados e analisados, especificamente, os desenhos relacionados com o meio
ambiente e as formas de como as crianças o percebem, bem como sua participação no mesmo.
Todas as representações produzidas pelos alunos foram analisadas seguindo a metodologia descrita
por Souza Filho (1993) que se apóia na análise de conteúdos temáticos.

        RESULTADOS E DISCUSSÃO
              Um total de noventa e sete desenhos foi produzido pelas crianças e a análise dos
mesmos demonstra que estas são conscientes da necessidade da preservação ambiental, se
mostraram preocupadas com a degradação ambiental da região e com o destino do lixo, mas
revelam também que na percepção das crianças o ambiente só é conservado se não existir a
presença do homem, ou seja, elas percebem o ambiente como algo alheio ao homem e do qual ele
não poderá fazer parte sem degradar e destruir (Fig. 1).
              Dentre as representações produzidas pelos alunos, 49,48% representavam o meio
ambiente como algo natural, não havendo elementos que demonstrassem qualquer cenário urbano
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         243

como pessoas, construções, casas e outros. Os elementos presentes nesses desenhos foram: sol, lua,
arco-íris, nuvens, pedras, montanhas, cachoeiras, plantas e animais típicos da região. Também
ocorreram nos desenhos alguns animais que não fazem parte da fauna da região, como girafas,
elefantes e leões. 17,52% dos desenhos apresentavam o meio ambiente com a presença de
elementos urbanos em que apareciam construções, pessoas, mas estas se encontravam de uma forma
não completamente integrada, uma vez que essas pessoas estavam nesse ambiente apenas a passeio,
para nadar em águas limpas ou fazer atividades ao ar livre, como pular corda ou passeios em
família. Os elementos, como as pessoas que se banhavam nas águas, realizavam atividades ao ar
livre e as construções humanas, quando presentes, em sua maioria estavam representados de forma
que estes não faziam parte de um ambiente equilibrado e sim se encontravam no mesmo para tirar
vantagem dos recursos naturais disponíveis. A ação negativa do ser humano fica mais nítida quando
observamos os desenhos (4,12%) que representavam o meio ambiente sujo, com carros, aviões,
chaminés de casas produzindo fumaça e esgotos lançados em rios, resultando em morte de peixes.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                           244




         Fig. 1- Desenhos produzidos pelos alunos a respeito do meio ambiente, durante as visitas
realizadas às escolas do município de Cuité – PB, no período de abril a dezembro de 2009.

         As análises revelaram ainda que 28,86% dos desenhos representavam uma comparação
entre o que é um meio ambiente equilibrado e desequilibrado. No ambiente equilibrado,
encontramos elementos como: água limpa, animais, plantas, latas de lixo com o lixo dentro e em
alguns havia casas e pessoas. O ambiente desequilibrado foi representado por elementos como:
indústrias e automóveis produtores de fumaça, fontes de água poluídas por lixo, esgotos, plantas e
animais mortos, casas, queimadas, fogueiras, pessoas jogando lixo no chão ou nas águas,
derrubando árvores e agindo de outras formas negativas no meio ambiente.
               Nos desenhos em que havia essa comparação, a parte do ambiente desequilibrado era
representada de uma forma que os animais, as plantas e o sol estavam tristes e sem cor e na parte do
ambiente equilibrado, havia muita felicidade e cor.
               As análises dos dados revelaram que na percepção dos alunos o ambiente
desequilibrado é resultado das interferências humanas, cujas ações promovem poluição, sujeira e
morte de organismos, logo a maioria das ações humanas sobre a natureza tende a ser negativa. Tais
dados corroboram os encontrados por Reigota (1995) Apud (MAZZOTTI, 2001) que investigando
as representações sociais do ambiente elaboradas por um grupo de professores, inferiu que o
homem é uma nota dissonante do meio ambiente, o componente depredador por excelência.
               Diante do exposto percebe-se que para as crianças que foram trabalhadas, o conceito
de ambiente equilibrado está dissociado da presença humana e esta não é um integrante da natureza
e sim alheia a ela.

         CONCLUSÕES
         Inicialmente, alguns alunos apresentavam dificuldades de trabalhar em equipe, em se
concentrar nos ensinamentos apresentados e muita agitação. Ao final do trabalho, foram observadas
mudanças de comportamentos dos alunos, que se encontravam mais calmos e menos dispersos. Os
dirigentes e professores das escolas demonstraram satisfação em ver que o trabalho realizado foi
importante, pois as crianças apresentaram melhorias através do mesmo.
               As concepções dos alunos a respeito do meio ambiente refletem refletiram o ideal
antropocêntrico de nossa sociedade, que concebe erroneamente que as pessoas não fazem parte da
natureza, podendo assim, destruí-la e degradá-la. As atividades realizadas serviram para mostrar
que muito ainda pode ser feito para desenvolver nas pessoas atitudes de respeito e pertinência
valorização do ao meio ambiente em que vivem. Num horizonte mais ou menos distante seria
possível construir uma sociedade solidária e com justiça social, considerando uma convivência mais
harmônica com o meio ambiente.
                       Identificar os efeitos de trabalhos em educação ambiental nos permite
compreender melhor as possíveis mudanças geradas em termos de percepção e concepções sobre o
meio ambiente, trazendo-nos informações que sirvam para influenciar no desenvolvimento de novas
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                       245

estratégias de ação. Assim, podemos apontar que mais ênfase deve ser posta, em futuros trabalhos
sobre educação ambiental, em fatores que apontem para a relação entre o ser humano e o meio
ambiente, evitando concepções que separem estes dois elementos. Os trabalhos de educação, como
o nosso, podem auxiliar não na transformação das concepções devem priorizar o aspecto da
interação entre o humano e o natural, possibilitando mudar concepções de que o homem em contato
com a natureza não apenas a destrói, mas que pode conviver com ela de forma mais equilibrada e
harmônica.

          REFERÊNCIAS

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        ASPECTOS NATURAIS E CULTURAIS DO MORRO DA
              MASSARANDUBA, ARAPIRACA – AL

                                                                                 Rosineide Nascimento da SILVA
                          Universidade Federal de Alagoas – Campus Arapiraca. Graduanda em Biologia-Licenciatura
                                                                                          rosineideg7@gmail.com
                                                                                Marcos Antônio Silvestre GOMES
                                         Professor Adjunto da Universidade Federal de Alagoas – Campus Arapiraca
                                                                                        gomesmas@yahoo.com.br

         RESUMO
         Este trabalho resulta da pesquisa “Conservação ambiental e aspectos culturais do Morro da
Massaranduba, Arapiraca-AL: bases para a ação e a gestão participativas” subsidiada pelo
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Pesquisa-Ação (PIBIP-AÇÃO/2009). Trata-se da
análise e caracterização dos aspectos naturais e culturais do Morro da Massaranduba, que
compreende cerca de 30.000m2, distante da área central urbana do município de Arapiraca,
aproximadamente, 8 km. O Morro é uma das poucas áreas no município com vegetação
remanescente típica de regiões de transição entre os ecossistemas Caatinga e Mata Atlântica. É
considerado importante na legislação municipal para compor o patrimônio ambiental natural e
cultural, direcionado à conservação da biodiversidade. Culturalmente, destaca-se no agreste
alagoano como um local tradicionalmente religioso e de peregrinação, onde ocorre a encenação do
Espetáculo da Paixão de Cristo. Para este estudo foram necessários levantamentos e consultas
bibliográficas referente às temáticas explicitadas; consultas ao Plano Diretor Municipal de
Arapiraca e Agenda 21 Local; visitas técnicas a área para selecionar, classificar e catalogar as
principais espécies; entrevistas aos órgãos públicos; aplicação de questionários aos moradores para
identificar os aspectos históricos e a relação destes com o Morro etc. Observou-se, entre outros, que
a ausência de políticas públicas no planejamento e gestão da área a torna um local utilizado
especialmente para a encenação da “Paixão de Cristo”, que contraditoriamente contribui para a
extirpação dos elementos naturais. Por isso, um elemento norteador da pesquisa foi a compreensão
de que este espaço pode ser utilizado pelas escolas públicas do entorno na prática de atividades
interdisciplinares, por exemplo. Destarte, este trabalho procurou contribuir para o estudo da
conservação das espécies faunísticas e florísticas do Morro da Massaranduba, associando-a aos
aspectos culturais, privilegiando os interesses da população local etc. Contudo, são necessárias
mudanças na concepção dos gestores municipais quanto ao planejamento e gestão da natureza e no
reconhecimento da cultura local.
         PALAVRAS-CHAVE: natureza, cultura, Arapiraca, Morro da Massaranduba

         ABSTRACT
         This work results of the research “Environment Conservation and cultural aspects of the
Hill of the Massaranduba, Arapiraca-AL” with contribution of the Program of Initiation to
Research-Action (PIBIP-AÇÃO/2009). The o work is a analysis and characterization of the natural
and cultural aspects of the Hill of the Massaranduba, in the city of Arapiraca, Brazil. The hill has
typical vegetation of regions of transistion between the ecosystems Caatinga and Atlantic Forest. It
is important to natural and cultural environmental patrimony because has important biodiversity.
Culturally the Hill is a traditionally religious place and of peregrination. There, once a year arised
the Spectacle of the Passion of Christ. The work demonstrated that the absence of public politics in
the planning and management in the hill becomes it a place used especially for the spectacle of the
“Passion of Christ”, that contradictorily contributes to the extinction of the natural elements. The
work recommend that this space can to be used by the public schools to class about animals and
vegetation of Alagoas.
         KEYWORDS: nature, culture, Arapiraca, hill of the Massaranduba
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          INTRODUÇÃO
          Uma das principais preocupações mundiais observadas na atualidade refere-se à questão da
conservação da natureza, tratada em eventos como as conferências mundiais para o meio ambiente e
o desenvolvimento, das Nações Unidas. A conservação ambiental, contudo, deve ser analisada em
determinadas áreas considerando-se as características culturais de povos, suas manifestações
artísticas, religiosas etc. Os aspectos culturais, para muitos autores, integram um amplo conceito
que inclui, dentre outros elementos, a própria natureza, por isso a complexidade de se tratar de
ambas as vertentes – natureza e cultura.
          Este trabalho resulta da pesquisa intitulada “Conservação ambiental e aspectos culturais do
Morro da Massaranduba, Arapiraca-AL: bases para a ação e a gestão participativas”, que contou
com o apoio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Pesquisa-Ação (PIBIP-
AÇÃO/2009). Trata da análise e caracterização dos aspectos naturais e culturais do Morro da
Massaranduba que situa-se a 376m de altitude, compreende cerca de 30.000m2 e localiza-se na
interface da zona rural e urbana do município de Arapiraca – AL, distante da área central urbana,
aproximadamente 8km.
          O Morro torna-se relevante para esta análise, em especial, devido aos aspectos naturais,
pois representa uma das poucas áreas em Arapiraca com vegetação remanescente típica de regiões
de transição entre os ecossistemas Caatinga e Mata Atlântica, apontado na legislação municipal
como importante para compor o patrimônio ambiental natural e cultural, bem como um espaço
direcionado à conservação da diversidade biológica regional. Além disso, é dotado de relevante
beleza paisagística pelas suas características fisicogeográficas (Fig. 1).




                          Fig. 1. Vista panorâmica do Morro. Ao fundo, observa-se
                          uma capela. À direita tem-se uma das vias de acesso
                          (ladeira da penitência). Fonte: pesquisa de campo (2009).
                          Autor: Marcos A. S. Gomes.

         No âmbito cultural, o local destaca-se no contexto do agreste alagoano como um espaço de
peregrinação, construído coletivamente ao longo dos anos e que integra a identidade religiosa de
Arapiraca, pois, anualmente, ocorre a encenação do Espetáculo da Paixão de Cristo. O evento conta
com parcerias entre município, governo do estado e órgãos federais, como Ministério do Turismo.
         Como forma de melhorar e maximizar os usos e funções deste espaço, o referido estudo
procurou realizar palestras em duas escolas, uma do sítio Massaranduba e outra do sítio Carrasco,
com o intuito de fomentar nos professores e alunos das escolas discussões e práticas que resultem
na integração do Morro ao processo educativo. O intuito foi demonstrar que o Morro pode ser
utilizado como uma área capaz de subsidiar o desenvolvimento de atividades de campo que
envolvam a interdisciplinaridade e a contextualização dos componentes curriculares.
         Além disso, elaborou-se e distribuiu-se uma cartilha/folder com o propósito de divulgar os
aspectos naturais e culturais do Morro, contribuindo para disseminar a importância dessa área para a
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                         248

sociedade em geral, em especial, para os moradores do entorno, para as escolas e os órgãos
públicos, como secretarias municipais de meio ambiente e de cultura.

          METODOLOGIA
          Para este estudo foram necessários executar levantamentos e consultas bibliográficas em
livros, artigos, internet etc. que tratassem das temáticas estudadas (conservação, patrimônio natural
e cultural, entre outros); consultas ao Plano Diretor Municipal de Arapiraca e Agenda 21 Local;
visitas técnicas a área para selecionar e classificar as principais espécies da “Arthropofauna” e da
flora comumente encontradas no local para elaborar um catálogo com essas espécies; visitas
técnicas para verificar a cobertura vegetal do Morro e das suas adjacências, os diferentes tipos de
usos da terra; entrevistas aos órgãos públicos para verificar se na área há algum tipo de política
pública direcionada à manutenção da biodiversidade local, bem como prováveis parcerias na
realização do espetáculo que torna o espaço visível e reconhecido; aplicação de questionários aos
moradores locais para identificar os aspectos históricos e a relação destes com o Morro da
Massaranduba.
          Ao término do trabalho foi planejada a distribuição da cartilha/folder tanto para a
comunidade local, incluindo as escolas que colaboraram na execução da pesquisa, quanto para os
órgãos públicos, fato que contribuiu para a caracterização do trabalho como extensão,
proporcionando a disseminação do conhecimento produzido na academia.

         RESULTADOS/DISCUSSÕES
         Com a conclusão da pesquisa foi constatado que a área estudada, Morro da Massaranduba
(Fig. 2), tem sofrido um intenso processo de devastação em detrimento da realização do
“Espetáculo da Paixão de Cristo” (Fig. 3), que se tornou uma tradição durante as manifestações
cristãs da “Semana Santa”. Por outro lado, verificou-se que a degradação da biodiversidade
existente na área está associada à ausência de políticas públicas concretas, pois em entrevistas
cedidas pelas Secretarias de Meio Ambiente e de Cultura de Arapiraca foi observada a marcante
ausência dessas políticas, tendo em vista que os interesses dos gestores municipais atuais
concentram-se, especialmente, na área central da cidade ou em alguns bairros adjacentes, em
detrimento da periferia e a zona rural.




 Fig. 2. Vista aérea do Morro da Massaranduba, em 2004,     Fig. 3. Encenação do Espetáculo da Paixão de Cristo no
 onde se percebe a redução da cobertura vegetal. Em azul    Morro          da        Massaranduba.          Fonte:
 tem-se a delimitação do comprimento de toda a área         www.arapiraca.al.gov.br.
 (3.016m) e no interior da linha azul tem-se um limite de
 14, 625 ha. Cálculos efetuados com o programa GPS
 UTILITY, por Henrique C. H. da Silva. Fonte: Google
 Earth (2010).
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          Analisando a legislação municipal, especificamente o Plano Diretor do Municipal de
Arapiraca (Lei nº 2424/2006) tem-se que, embora este perceba o Morro como um potencial espaço
para a conservação da biodiversidade regional, não há, por parte do poder público, ações ou
medidas de intervenção embasadas em um plano de manejo. Existem, somente, intenções
declaradas tanto no Plano Diretor Municipal quanto na Agenda 21 Local. Nesta última, verifica-se
que a área tende a ser transformada em uma unidade de conservação e tombada como patrimônio
cultural e religioso, até 2017, para incentivar o turismo religioso e desenvolver ações que garantam
a sustentabilidade do espetáculo da Paixão de Cristo (ROMÃO, 2008). Por sua vez, o Plano Diretor
aponta algumas serras que constituem zonas especiais de interesse ambiental do patrimônio natural,
a exemplo do Morro da Massaranduba. Uma dicotomia complexa – natureza e cultura – permeia a
gestão e os distintos interesses desse espaço, como se pode observar.
          São perceptíveis, assim, os desafios que a gestão pública deve enfrentar quanto à
conciliação dos interesses divergentes em torno da área, pois, de um lado, pretende-se implantar
uma área de proteção ambiental – APA – que permite o uso dos recursos naturais apenas de modo
indireto; de outro, se pretende tornar o espaço um local de turismo religioso. Conforme o glossário
do Ministério do Meio Ambiente, uma Área de Proteção Ambiental deve ser concebida como uma

         área geralmente extensa, com certo grau de ocupação humana, dotada de atributos
abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o
bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica,
disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. É
constituída por terras públicas ou privadas.

         Percebe-se, assim, a necessidade de ser criado um plano de trabalho adequado a realidade
do Morro, além de instaurar uma gestão que priorize ações que não prejudiquem as características
naturais tampouco culturais e/ou sociais do espaço.
         As áreas protegidas figuram, sob algumas perspectivas de análise, como o principal
instrumento para a conservação da biodiversidade (BENSUSAN, 2006). Todavia, têm-se como uma
aliança entre o homem e a natureza, o respeito à diversidade cultural onde está calcada a
manutenção da diversidade biológica (DIEGUES, 2004), embora refletir sobre estas questões seja
cada vez mais difícil no mundo atual.
         A Agenda 21 Arapiraca, composta por dez estratégias distribuídas em diversas ações a
curto, médio e longo prazos, traz em suas ações gerais a curto prazo (até cinco anos) o Morro da
Massaranduba como uma área em que deve ser contido o desmatamento, bem como deve ser
reflorestado seu entorno e ser implantada uma APA, dada sua relevância quanto aos aspectos
naturais. A medida de criação de APAs deverá contemplar outras serras como, por exemplo,
Mangabeira (abriga o atual lixão) e Ferreiras. Contudo, se o Morro for considerado uma
propriedade particular, por que não se sabe de certo a quem pertence a titularidade das terras22,
aponta-se a necessidade de refletir sobre a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural
(RPPN) que não restringe a presença humana, desde que esta não prejudique a biodiversidade que
se pretende proteger.
          Segundo informações da Secretaria de Cultura de Arapiraca os interesses na área do Morro
permeiam mais a esfera econômica que necessariamente a religiosa. Esse espaço, de domínio
privado em sua maior extensão, onde o poder público pouco atua, não possui lei específica que o
declare como de interesse ambiental e cultural, há apenas intenções neste sentido.
          O espaço é utilizado para a promoção de uma “festa” que, segundo entrevistas com os
moradores, muitas pessoas não mais o procuram por motivos religiosos, mas para curtição e práticas
de ordem pessoal. Ou seja, através de análises, infere-se que essa tradição pode está sendo
ameaçada por diversos fatores que comprometem sua originalidade e função histórico-religiosa.


22 Há declarações de moradores do entorno que as terras pertencem a particulares, no entanto, não se conseguiu a
confirmação desse dado na Prefeitura Municipal.
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         As potencialidades do Morro, contudo, são pouco exploradas pela comunidade local, pois,
em geral, este apresenta pouca utilidade e usos para essa população. Por isso, procurou
                                                                                  procurou-se através
deste trabalho divulgar as características ambientais e culturais dessa área, especialmente, para a
comunidade escolar, incentivando nesta a possibilidade efetiva de utilizar o local em estudos extra
                                                                                               extra-
classe e/ou aulas práticas de Geografia, Biologia, História etc., bem como o reconhecimento da
produção e reprodução da cultura local
         No que tange à biodiversidade faunística e florística do lugar, percebeu
                                                                             percebeu-se, através de
visitas de campo, que a área apresenta bom nível de regeneração vegetal, apesar da apropriação e
devastação humanas.
         Durante os meses de outubro e novembro de 2009 foram realizadas duas visitas técnicas ao
Morro para coletar exemplares tanto de plantas quanto de animais. Estes foram representados pelos
insetos, considerados bons indicadores de níveis de impacto ambiental devido a sua sensibilidade,
                            indicadores
grande diversidade de espécies e habitats, distribuídos pelas distintas categorias taxonômicas, além
da sua importância nos processos biológicos dos ecossistemas naturais.
         De acordo com as avalavaliações realizadas no Morro, obteve-se um número razoável de
                                                                         se
espécimes de insetos. Esse número demonstra que o local de observação está se recuperando dos
efeitos da antropização, pois se encontrou trinta e nove representantes distribuídos pelas seguintes
ordens (Fig. 4): Odonata, Orthoptera, Lepidoptera, Diptera, Hemiptera, Hymenoptera, Coleoptera e
 rdens
Mantodea.




                                   Fig. 4. Ordens e respectivas percentagens de espécies
                         encontradas no Morro da Massaranduba, durante dois momentos de
                         observação, em um período de duas horas. Fonte: levantamento de
                         campo executado por Edmilson S. Silva. Org. Rosineide Nasc. da
                         Silva.
         Ressalte-se que, apesar de ter sido encontrado espécimes representantes de oito ordens,
                  se
observaram-se poucas espécies de cada ordem e muitos espécimes. Com isto, constata
            se                             ordem                                  constata-se que a
maioria das espécies presentes foi observada em ambas as coletas e geralmente são espécies
encontradas em ambientes agrícolas, causando danos às plantas cultivadas. Contudo, como
ressaltam Thomanzini e Thomanzini (2002) o número de ordens, famílias e espécies tendem a
                               omanzini
diminuir com a elevação do nível de antropização do ambiente.
         Quanto à vegetação, foi observado que esta pode ser classificada de acordo com dois
pontos de vista distintos: fitofisionomia e status de conservação. De acordo com sua fitofisionomia,
                                            status
a vegetação é considerada uma Savana Estápica Florestada, observandoobservando-se as características
apresentadas por Veloso et al (1991). De acordo com seu status de conservação pode ser
considerada uma vegetação secundária pelo elevado grau de distúrbio por tempo prolongado.
                          ção
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                              251

Também é possível observar na área do Morro a presença de “clareiras antrópicas”, indício da ação
humana devastadora.
         Dentre as espécies vegetais encontradas, têm-se algumas típicas da caatinga nordestina
como o Ipê (Tabebuia sp.), Senna sp., Braúna (Schinopsis brasiliensis Engl.), Juá (Ziziphus joazeiro
Mart.) e Angico da espécie Anadenanthera colubrina (Vell. Brenan). Ainda, foi possível encontrar a
Coccoloba latifolia Lam. na localidade, geralmente, encontrada em florestas úmidas.
         Embora o município de Arapiraca esteja em um domínio do semi-árido e sejam
encontradas espécies típicas de caatinga não se observou a caducifolia, fenômeno em que as plantas
perdem suas folhas no período seco. Além dessas espécies, foram observados alguns representantes
de demais famílias botânicas, como Caesalpinaceae, Solanaceae, Asteraceae, Cyperaceae,
Boraginaceae etc.
         Através dos levantamentos efetuados, foi verificado que o Morro apresenta uma
quantidade significativa de animais da classe Insecta, embora a diversidade seja limitada. A
vegetação, por sua vez, é marcada pela presença de algumas espécies e famílias, no entanto,
também não foi constatada maior diversidade florística na área.
         De modo geral, observou-se que o Morro da Massaranduba apresenta usos e funções
limitados a realização do evento da “Paixão de Cristo”, não possui políticas públicas atuantes que
criem e implantem um plano de manejo, salvaguardando suas características/potencialidades
naturais e/ou culturais. Por isso, uma das maiores preocupações deste trabalho referente à extensão
foi a otimização das potencialidades deste espaço, retratando-o, junto às escolas públicas dos sítios
Massaranduba e Carrasco como um local singular para a prática de atividades que integrem a teoria
abordada em salas de aula à aplicação de conceitos através da verificação, análise e discussão do
ambiente cujos alunos estão inseridos, entretanto, muitas vezes o desconhece.

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         Com este trabalho procurou-se contribuir com a discussão sobre a conservação das
espécies da fauna e da flora do Morro da Massaranduba, considerando os aspectos culturais deste
espaço, marcado por uma população que historicamente tem relação com o lugar.
         Pretende-se, com os resultados do trabalho, que o local seja percebido pelo poder público
no sentido de criar e implantar medidas eficazes de gestão, manutenção e conservação da
diversidade biológica da área, promovendo uma articulação com os proprietários do local e com
órgãos federais. Para tanto, há a necessidade de manifestação do interesse público para criação de
lei específica que estabeleça diretrizes de uso nesta área.
         O estudo significa uma primeira preocupação no estabelecimento de parcerias entre os
órgãos públicos diretamente relacionados, os moradores locais, as escolas dos sítios Massaranduba
e Carrasco e a própria universidade para criar diretrizes e executar ações que podem contribuir com
a manutenção do espaço e ampliar seus usos e funções, deixando de ser ocioso na maior parte do
ano para suprir alguns anseios dos moradores locais, porém sem comprometer os elementos naturais
e/ou culturais.
         Sabe-se, contudo, que para que esses objetivos sejam alcançados são necessárias mudanças
de concepção dos gestores municipais no que concerne a ambas as vertentes (natureza e cultura).
Por isso, diante da singularidade da área, destaca-se a urgência de medidas que possam auxiliar na
sua gestão e no planejamento de suas funções. O Morro precisa ser observado segundo as mais
diversas vertentes que se relacionam à identidade de um povo, daí a dificuldade de concepção do
mesmo pela comunidade local.
         Embora o Morro ainda não seja efetiva e legalmente uma área protegida, pode ser
compreendido como uma área importante para o município de Arapiraca para a conservação
ambiental e a prática cultural religiosa. Estes são apenas alguns dos elementos que se julgou
pertinente nesta análise na qual se aponta a diversidade de fatores e agentes relacionados à
problemática da área. A partir daí, destaca-se a necessidade de se elaborar e aplicar leis, organizar e
efetivar um plano de manejo, além de priorizar e consolidar ações e gestão participativas na área.
Ou seja, é preciso interesse, investimentos, políticas públicas atuantes, comprometimento e
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                        252

iniciativa dos atores sociais envolvidos com a área para que efetivamente se realizem as mudanças
necessárias.

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         VELOSO, H. P.; RANGEL FILHO, A. L. R.; LIMA, J. C. A. Classificação da vegetação
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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                        253

     AVALIAÇÃO DO PROCESSO DE DEGRADAÇÃO DA
  COBERTURA VEGETAL EM SERRA BRANCA E COXIXOLA -
                       PB

                                                                                         Patrícia H. C. FEITOSA
              UATA/CCTA/UFCG. Rua Coronel João Leite S/N Centro Pombal - PB. Professora Campus de Pombal
                                                                                          phcfeitosa@bol.com.br
                                                                                        Karina de S. ANDRADE
            Geomecância Engenharia S/A. Rua Bela, 1128 - São Cristóvão - 20930-381 - Rio de Janeiro – RJ. Telefax:
                                                                                     (21)3515-0100 e 3515-0101.
                                                                                       ks_andrade@hotmail.com
                                                                                             Marx P. BARBOSA
           UAEAG/CTRN/UFCG, Av. Aprígio Veloso 882, Bodocongó. CEP 58109-970, Campina Grande, PB. Fone:
                                                                                                     3310 – 1055.
                                                                                          marx@deag.ufcg.edu.br
                                                                                           Edilândia F DANTAS
          UATA/CCTA/UFCG. Rua Coronel João Leite S/N Centro Pombal – PB; Estudante de Engenharia Ambiental
                                                                                              Campus de Pombal
                                                                                   edilandiadantas@hotmail.com

          RESUMO
          O desenvolvimento desordenado e não-planejado da ocupação e uso das terras incrementa
a degradação da cobertura vegetal, cujos desmatamentos aceleram erosão e assoreamento dos rios e
reservatórios, aumentando a amplitude dos desastres relacionados às secas periódicas e cheias
atípicas no semi-árido nordestino. Assim, o objetivo foi avaliar a degradação da cobertura vegetal
ocorrido entre 1987 e 2004, nos municípios de Serra Branca e Coxixola, no Cariri Paraibano. A
classificação da cobertura vegetal foi realizada mediante a classificação de imagens digitais TM do
satélite Landsat 5 tendo como base as imagens IVDN, o que permitiu qualificar as diferentes classes
de vegetação, solo e água para os municípios em estudo. A análise evidenciou o aumento da
exploração da cobertura vegetal, observando-se uma transformação da paisagem, com um
incremento de 14,45% das áreas de vegetação rala associada a solos-expostos. O solo, desprovido
de sua proteção natural, favorece ao aumento do risco a erosão. Este processo indica a expansão das
áreas dos níveis de degradação grave a muito grave e reflete a importância em intervir neste
processo acelerado de devastação da caatinga contendo o uso irracional deste recurso natural.
          PALAVRAS-CHAVE: Desmatamento, Solo, Sensoriamento Remoto

         ABSTRACT
         The disordered and not-planned development of population distribution and soil usage
increases vegetal covering degradation, whose deforestations speed up rivers and reservoirs erosion
and river capture, rising the level of related atypical disasters related to seasonal floods and
droughts in the Brazilian northeastern (Semi Árido). Thus, the purpose was to evaluate the
degradation of vegetal covering between 1987 and 2004, in the towns of Serra Branca and
Coxixola, in the Cariri Paraibano. The classification of vegetal covering was carried through
analysis of TM digital images from Landsat 5 satellite taking into account the IVDN base images,
what allowed characterizing of vegetation type, soil and water. The analysis evidenced the increase
of the exploration of the vegetal covering, observing a transformation of the landscape, with an
increment of 14.45% of the areas of thin vegetation associated to exposed soil. The soil, without
natural protection, allows the increase of the erosion risk. This process indicates the expansion of
the areas with serious levels of degradation and shows the importance of actions to speed down the
Caatinga devastation process acting against the irrational usage of natural resources.
         KEYWORDS: Deforestation, Soil, Remote Sensing
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          INTRODUÇÃO
          Em âmbito urbano e rural, regiões são desmatadas, alterando a cobertura do solo e
ocasionando alterações tanto no ciclo hidrológico, como no solo, em função do empobrecimento de
sua fertilidade e perdas por erosão, tendo como conseqüência a diminuíção da capacidade produtiva
e comprometimento da cadeia alimentar.
          Entre as áreas em que esta degradação sócio-ambiental tem se tornado mais evidente, estão
as regiões áridas e semi-áridas em todo o mundo e o semi-árido nordestino não ficou imune aos
efeitos do processo global de degradação.
          A Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (United Nations, 2001)
conceituou a desertificação como o “processo de degradação das terras das regiões áridas, semi-
áridas e sub-úmidas secas, resultante de diferentes fatores, entre eles as variações climáticas e as
atividades humanas”. Além da pobreza, estão ligadas a essa conceituação as degradações do solo,
da fauna, da flora e dos recursos hídricos.
          Desta forma, torna-se imperativo avaliar o desenvolvimento local e apontar aspectos falhos
no planejamento e gestão da área e dos recursos voltados a ela e oferecidos por ela. Diferentes
formas de exploração dos bens disponíveis devem ser observadas as em função de sua capacidade
de suporte de exploração, buscando nas atividades desenvolvidas pelas comunidades locais
experiências favoráveis ao processo de preservação da qualidade do ambiente e da vida humana.
          Uma das ferramentas utilizadas para fazer o levantamento e reconhecimento da cobertura
dos solos é o sensoriamento remoto. A grande vantagem do uso de sensoriamento remoto orbital é
que essas informações são obtidas periodicamente, de modo que, constantemente, é possível fazer
uma adequação dos resultados obtidos em datas anteriores. Outra vantagem diz respeito à visão
ampla da área de estudo e à maior facilidade de se fazer o levantamento e acompanhamento do uso
do solo em áreas de difícil acesso (MOREIRA, 2003). Ele pode nos ajudar a entender o estado atual
e a tendência de desenvolvimento desse processo, além de fornecer dados para pesquisa sobre
mecanismos internos, processos atuais e diferenças espaciais e temporais da degradação do solo.
          A importância do sensoriamento remoto como ferramenta para avaliar os processos de
desertificação fica mais evidente, quando se verifica que um dos quatro indicadores recomendados
pela ONU para avaliar o problema é o índice de vegetação derivado de imagens de satélite, o
chamado IVDN Índice de Vegetação de Diferença Normalizada (United Nations, 2001),
(MOREIRA, 2003), (MENEZES & NETTO, 2001).
          Foi aplicado esse método de monitoração do processo de degradação através da imagem
remotamente detectada, analisando características e dinâmicas do comportamento da degradação da
cobertura vegetal que tenham ocorrido durante o período de 1987 a 2004, focando-se na
vulnerabilidade rural local, frente aos riscos e ameaças da seca, através de um estudo comparativo
entre os municípios de Serra Branca e Coxixola, PB. Assim, foram condensadas informações de
maneira simples e qualificada, para servir como instrumento de gestão e tomada de decisão
procurando contribuir para a produção de informação científica sobre a evolução do processo de
degradação da cobertura vegetal nos municípios, buscando alternativas na adaptabilidade cultural e
convivência do homem com situações climáticas extremas que conduzam ao desenvolvimento
sustentável do semi-árido.

         MATERIAL E MÉTODOS
         O presente trabalho foi conduzido nos municípios de Serra Branca e Coxixola, situados na
Microrregião do Cariri Ocidental, e contou com a disponibilidade da infra estrutura do Laboratório
de Sensoriamento Remoto e SIG da Unidade Acadêmica de Engenharia Agrícola da Universidade
federal de Campina Grande – Campus I, cumprindo-se a seguinte metodologia:
         Trabalhos de reconhecimento de campo:
         Reconhecimento geral da área segundo um roteiro pré-estabelecido, em função das
unidades ambientais reconhecidas nas imagens de satélite.
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          Identificação dos diferentes comportamentos da população local frente às vulnerabilidades
e avaliação da adaptabilidade cultural às características ambientais da região, a serem observados
durante as visitas de campo e relatos dos produtores rurais.
          Georreferenciamento e registro dos pontos eou características relevantes, mediante o uso
de GPS e máquina digital.
          Mapeamento das unidades ambientais (solo, água e vegetação) e avaliação dos diferentes
níveis de degradação ambiental para um período de 17 anos, a partir do uso de imagens de satélite,
para toda a microrregião de catolé do rocha;
          Para dar suporte ao desenvolvimento desta etapa do trabalho foram utilizadas imagens
orbitais multiespectrais do satélite TM/Landsat 5 órbita 215.065, bandas de 1 a 7, para duas datas
distintas, 09 de maio de 1987 e 17 de dezembro de 2004. Esta multitemporalidade permite o estudo
da evolução da ação antrópica e determinação qualitativa e quantitativa do processo de degradação
da cobertura vegetal.
          Para a elaboração dos mapas temáticos foram utilizados o software SPRING 4.0
desenvolvido pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), cartas topográficas da
SUDENE, tomadas como base cartográfica, mesa digitalizadora e softwares como mapinfo,
AutoCAD e microstation, que auxiliaram no tratamento dos dados.
          Antes de iniciar a interpretação visual das imagens orbitais foi realizado o processamento
digital destas através da manipulação do contraste das bandas 5, 4 e 3, seguindo-se com a
composição multiespectral ajustada das bandas 3 + IVDN + banda 1, que consiste de uma
transformação RGB onde no canhão vermelho está a banda 3, no verde a imagem IVDN e no azul a
banda 1. Depois, foi realizada a segmentação (10x20) da imagem IVDN pelo método de
crescimento de regiões, que corresponde a uma técnica de agrupamento de dados, na qual somente
as regiões adjacentes, espacialmente, podem ser agrupadas. Assim, a imagem é dividida em um
conjunto de sub-imagens e então é realizada a união entre elas, segundo um limiar de agregação
definido. (Câmara 1996). A partir daí, segue-se com a classificação de padrões das imagens IVDN
segmentada, utilizando-se o classificador Bhattacharrya. Neste método, as amostras foram as
regiões formadas na segmentação de imagens e as imagens classificadas foram vetorizadas através
da função mapeamento, permitindo fazer uma quantificação das diferentes classes de cobertura
vegetal, solo e água para os municípios estudados, sendo mapeadas cinco classes de cobertura
vegetal: vegetação densa, vegetação semi-densa, vegetação rala, vegetação rala + solo exposto, solo
exposto, afloramento de rocha, água;
          A identificação das classes foi feita a partir da análise visual das tonalidades de cinza, na
tela do computador. As tonalidades de cinza médio a escuro foram consideradas como
representativas da cobertura vegetal; as escuras como representativas de corpos d’água e as
tonalidades de cinza médio a claro como representativas de vegetação rala a solo exposto, conforme
os padrões de reposta espectral dos alvos
          As imagens classificadas foram então transformadas em matriz, através da função
Mapeamento, o que permitiu fazer uma quantificação das diferentes classes para os diversos mapas
temáticos de cada município estudado. Essa imagem foi editada e foi feito o refinamento da
classificação para eliminar a confusão de borda entre as imagens para homogeneização dos temas e
para minimizar os erros de omissão (áreas que não foram classificadas como pertencente a nenhuma
das classes) e de comissão (uma determinada classe é classificada como outra classe). A
quantificação das áreas em km2 estará sendo considerada relativa, embora a soma de seus valores
corresponda ao total da área territorial dos municípios (MORAIS NETO, 2003).

          RESULTADOS E DISCUSSÃO

         De acordo com o estudo realizado a partir do uso de imagens de satélite para identificação
das classes de cobertura vegetal e respectivas áreas, entre os anos de 1987 e 2004 (Figuras 1A e
1B), da visita de reconhecimento das características ambientais da área de estudo e depoimentos de
moradores locais, pôde-se observar uma modificação da paisagem ao longo dos anos.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         256




Figura 1A. Cobertura vegetal dos municípios de Serra Branca e Coxixola – 1987




Figura 1B. Cobertura vegetal dos municípios de Serra Branca e Coxixola – 2004

         Nos municípios de Serra Branca e Coxixola há predominância da vegetação de caatinga de
porte arbóreo baixo ou arbóreo arbustivo, cuja densidade varia de muito rala a semi-densa e densa,
mostrando-se mais conservada em pequenas áreas de serras, onde pode-se observar uma densidade
mais alta da vegetação e alguns exemplares arbóreos. Entretanto, em sua maioria, constatou-se uma
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vegetação que vem sofrendo com a ação devastadora do homem e que tenta se adaptar a nova
realidade ambiental que lhe é imposta. Tem-se, com freqüência, uma vegetação raquítica (Figura
2A) em meio a uma paisagem caracterizada por solos expostos e erodidos (Figura 2B).




                                                       (B) 7º31’35,7” S e 36º39’31,7”W
(A) 7º31’35,7” S e 36º39’31,7”W


        Figura 2. Vegetação raquítica (A) e aspecto geral da vegetação (B) no município de
Coxixola

          Nos ecossistemas não atingidos pela ação antrópica, ainda existe um equilíbrio dinâmico
entre a fauna e a flora, além de um teor substancial de matéria orgânica e gramíneas no solo.
Entretanto, o homem continua utilizando práticas agrícolas inadequadas e ineficientes, como o
desmatamento predatório para a exploração de novas áreas agrícolas, bem como o uso da caatinga
com pecuária extensiva ou mesmo a exploração vegetal para a produção de carvão, lenha, estacas e
construção civil.
          A análise da evolução da cobertura vegetal tem uma direta implicação na qualidade dos
solos e uma dependência na pressão da atividade antrópica sobre este meio. Atividades humanas
que resultam em áreas de solo exposto, culturas anuais e pastagens, possuem um alto valor de
vulnerabilidade nos processos de perda de solo, devido à baixa cobertura do solo e ao constante
preparo para a agricultura. As classes abrangidas nesse estudo e seus valores de ocorrência nos
municípios são verificados na Tabela 1
          Os valores apresentados refletem a dinâmica da cobertura vegetal desde 1987 até o ano de
2004. Tem-se que, para o intervalo de tempo de 17 anos, ocorreu um aumento da exploração da
cobertura vegetal, observando-se uma transformação da paisagem. Áreas de cobertura vegetal rala
passaram a se enquadrar em áreas de vegetação rala mais aberta (Figura 3A) associada a várias
manchas de solo exposto (Figura 3B), ocorrendo uma diminuição de 14,19% da área de vegetação
rala e aumento de 14,45% das áreas de vegetação rala+solos-expostos, quando comparado os anos
acima citados.
          As áreas de vegetação semi-densa e de vegetação rala, que em sua maioria representam as
áreas de Caatinga em recuperação e cultivo agricultura, tiveram um decréscimo, justificado pelo
aumento na classe de vegetação rala + solo exposto e vegetação rala. Esse acréscimo nas classes
mais críticas configura a realidade da pecuária extensiva sem manejo adequado, à criação pecuária
da região, aonde os caprinos e ovinos vem devastando tudo ao longo dos anos, e a vegetação,
quando presente, se caracterizam por diferentes graus de raquitismo em seu desenvolvimento.
          Esse aumento da degradação termina por ser confirmada no acréscimo das áreas de solo
exposto, demonstrando mais uma vez o aumento das vulnerabilidades dessas áreas e criando uma
alerta: se não houver uma mudança na configuração dessa realidade em que vive essa população
local, a sustentabilidade futura da área está seriamente comprometida.
          O solo, então desprovido de sua proteção natural, reflete um aumento do risco a erosão
(Figura 4 A e B) nesta região. Este processo indica a expansão das áreas de degradação grave a
muito grave e reflete a importância em intervir neste processo acelerado de devastação da caatinga,
de modo a conter o uso irracional desse recurso natural.
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         Um dado que poderia ser considerado positivo no processo de recuperação da caatinga,
seria o pequeno acréscimo, na ordem de 0,43%, da vegetação densa, quando comparamos os dados
de 1987 e 2004. Entretanto, ao confrontar os mapas de cobertura vegetal, constatou-se que ocorreu
uma dissipação da vegetação densa, que antes se convergia a noroeste e leste da área. Agora é
representado nas porções mais elevadas do terreno e de reflorestamento de algaroba, confirmadas
durante as visitas de reconhecimento de campo, vegetação essa muitas vezes situadas nos aluviões
(Figura 5), o que passa a ser um fator agravante no processo de desertificação.
         Nas imagens de satélite, áreas com reflorestamento de algaroba possuem resposta espectral
similar a de vegetação densa, levando à classificação como matas ciliares, que protegem os corpos
d'água ao longo de sua extensão.
         Entretanto, essa planta exótica degrada cada vez mais o solo. Sendo uma planta alopática,
compromete o sistema hídrico, com raízes profundas, que rompem quaisquer obstáculos em busca
de água, com uma característica fisiológica que apresenta elevada necessidade hídrica, impedindo o
desenvolvimento de qualquer outro tipo de vegetação no seu perímetro, e assim, minimizando a
capacidade de auto-recuperação da vegetação nativa.

        Tabela 1. Distribuição das classes de cobertura vegetal nos municípios de Serra Branca e
Coxixola
       CLASSES DE COBERTURA VEGETAL

                                                ÁREA (km2)
                                                                                           Variação
       TIPO DE VEGETAÇÃO
                                                                                           (%)
                                                1987       %             2004     %

       Vegetação Densa                          128,53     14,97         132,18   15,39    0,43

       Vegetação Semi-densa                     178,36     20,77         154,84   18,03    -2,74

       Vegetação Rala                           414,32     48,25         292,48   34,06    -14,19

       Vegetação Rala + Solo Exposto            106,97     12,46         231,03   26,91    14,45

       Solo Exposto                             22,41      2,61          43,15    5,02     2,42

       Afloramento de Rocha                     0,81       0,09          0,83     0,10     0,00

       Água*                                    7,25       0,84          4,15     0,48     -0,36

       Área Total das Classes                   858,65     100,00        858,65   100,00

        * A água não corresponde a uma classe de cobertura vegetal, porém, foi considerada
nos cálculos para obter uma melhor configuração da área total em estudo.
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                                                           (B) 7º36’50,3” S e 36º39’20,7”W
(A) 7º31’35,7” S e 36º39’31,7”W




        Figura 3. Áreas de vegetação rala (A) associada a várias manchas de solo exposto (B) em
Coxixola




(A) 7º28’11,37” S e 36º37’29,6”W                         (B) 7º28’36,68” S e 36º38’7,54”W
        Figura 4. Formação de sulcos e voçorocas (A) e testemunho de erosão laminar (B) em
Serra Branca




7º38’16,91” S e 36º45’36,23”W
          Figura 5. Área de aluvião com plantio de algaroba no município de Serra Branca

          CONCLUSÕES

          Foi constatado um aumento degradação da cobertura vegetal durante o período de 1987 a
2004.
         As áreas de cobertura vegetal rala passam a se enquadrar em áreas de vegetação rala mais
aberta associada a várias manchas de solo exposto.
         Os solos desprovidos de sua proteção natural refletem um aumento do risco a erosão nos
municípios de Serra branca e Coxixola.
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          O processo indica a expansão das áreas de degradação grave a muito grave e reflete a
importância de conter o uso irracional das terras.
         A ocupação das terras próximas aos sistemas de drenagem nos municípios de Serra Branca
e Coxixola, bem como o uso intensivo nas áreas de várzea coloca os recursos hídricos da região
numa situação de risco de contaminação em virtude de práticas agrícolas degradantes.
         A mesma prática de ocupação ribeirinha vem ocasionando diminuição da disponibilidade
hídrica nos aluviões em virtude das constantes requisições de água feitas nestas áreas quer seja para
consumo humano, como para irrigação das lavouras.

          LITERATURA CITADA
          CÂMARA, G.; MEDEIROS, J. S. Geoprocessamento para projetos ambientais. São José
dos Campos: INPE, 1996.
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   CATADORES DE MATERIAS RECICLÁVEIS DO LIXÃO DE
  IRECÊ- BA: EDUCAÇÃO– E PERSPECTIVAS DE QUALIDADE
                       DE VIDA

                                                                             Stelina Moreira de Vasconcelos Neta
                 Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus XVI e membro do
                                                                             Núcleo de Meio Ambiente - NUMA.
                                                                               Cláudio Roberto Meira de Oliveira
               Professor Doutor da UNEB, Campus XVI e IFBaiano, Campus Guanambi. Membro do Núcleo de Meio
                                                                                              Ambiente- NUMA.
                                                                                         Darcy Ribeiro de Castro
                     Professor Especialista da UNEB, Campus XVI. Membro do Núcleo de Meio Ambiente - NUMA.
                                                                               Arilma Oliveira do Carmo Tavares
             Professora Mestre da FTC- Salvador e SENAI-CETIND. Membro do Núcleo de Meio Ambiente - NUMA

         RESUMO
         A cidade de Irecê, localizada no Centro Oeste Baiano, possui uma população de 66.061
habitantes e apresenta diversos problemas socioambientais em virtude da produção e destinação
final dos resíduos, os quais são dispostos em um lixão. O objetivo desse trabalho foi pesquisar a
situação dos catadores de materiais recicláveis do lixão de Irecê, diagnosticando suas condições de
vida, trabalho e escolaridade. A pesquisa foi desenvolvida entre os meses de outubro de 2009 a
março de 2010, através de entrevistas com 22 dos 30 catadores cadastrados pela Prefeitura. Os
catadores entrevistados estão expostos diariamente às condições insalubres de trabalho provenientes
de um lixão. A baixa escolaridade foi um dos fatores considerado pelos catadores como impeditivo
para a obtenção de um emprego no mercado competitivo. Diante dessa investigação, constatou-se,
dentre outros, a necessidade de estimular os catadores através de políticas públicas voltadas para a
educação, melhoria das condições de trabalho e de vida para que possam desempenhar suas
atividades dignamente.
         PALAVRAS-CHAVE: Catadores de materiais recicláveis, Educação e Resíduos Sólidos.

          ABSTRACT
          The City of Irecê, located in the Midwest region of Bahia, has a population of 66,061
inhabitants, and presents several problems due to socio-environmental production and disposal of
waste, which are disposed in a landfill. The aim of this study was to investigate the situation for
collectors of recyclable materials from the landfill Irecê, diagnosing their conditions of life, work
and schooling. The research was carried out between October 2009 and March 2010, through
interviews with 22 of the 30 registered by the city of scavengers. The garbage pickers are exposed
daily to the unhealthy conditions of work from a landfill. Low education was one of the factors
considered by collectors as a hindrance to obtaining employment in the competitive market. Given
this research, it was found, among others, the need to encourage the collectors through public
policies for education, improvement of working conditions and living so that they can perform their
activities with dignity.
          KEYWORDS: Collectors of recyclable materials, Education and Solid Waste.

         INTRODUÇÃO
         A geração dos resíduos é oriunda de diversas atividades exercidas pelos seres humanos,
que ao longo dos séculos vem consumindo mais, tendo sua gênese na Revolução Industrial e, com o
consumo acelerado a natureza não consegue absorver e o lixo vai se acumulando.
         Com o avanço tecnológico observado nos últimos anos, diversas conquistas foram
observadas no campo das ciências por outro lado, o avanço tecnológico contribuiu para o aumento
na diversidade de produtos que trazem em sua composição componentes e materiais de difícil
degradação e maior toxidade ao ambiente (BRASIL, 2001).
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            262

          A produção de resíduos nas cidades é um fenômeno inevitável que ocorre diariamente
estando a quantidade produzida relacionada com o seu nível de desenvolvimento econômico, com
sua população e seus diferentes estratos sociais (D’ ALMEIDA, 2000).
          Nos últimos anos o planeta tem vivenciado diversas crises e desequilíbrios ambientais
provenientes do padrão de produção e consumo da sociedade. Com a ocorrência destas crises, a
espécie humana sofre com as reações da natureza, podendo ser estas manifestadas em diferentes
tipos de catástrofes. Nesse contexto, OLIVEIRA, MAGNA & SIMM (2007) corroboram essa idéia
ao afirmarem que os problemas ambientais começaram a surgir da exploração da natureza,
acrescentando que a geração de resíduos que não tratados adequadamente, passaram a agredir o
meio ambiente e estão fazendo parte desse cenário.
          A gestão de resíduos é um dos pontos críticos da contemporaneidade, que exige atenção,
pois, além de causar impactos negativos como a contaminação do solo, das águas subterrâneas,
atmosfera, ainda provoca diversas doenças de pele, verminoses, entre outras que afetam a saúde da
população em geral e das pessoas que tem contato ou trabalham na catação desses materiais.
          Outro aspecto negativo é que, segundo BRASIL (2008) apenas 5,9% das cidades
brasileiras tem o sistema de coleta seletiva. No Brasil, observa-se que o gerenciamento dos resíduos
sólidos é deficiente, pois 65% dos municípios dispõem os resíduos em lixões (IBGE, 2000). Esse
contexto reforça a necessidade de instituir políticas públicas e legislações para a preservação do
meio ambiente e da saúde pública através da criação de aterros sanitários e desativação dos lixões.
          Ainda no Brasil outro aspecto que tem chamado a atenção é o aumento acelerado na
qualificação dos trabalhadores, fato que tem levado muitas pessoas a se tornarem catadores de
materiais recicláveis como uma forma de garantir a sobrevivência e uma alternativa de trabalho
(MAGALHÃES et al., 2004). No entanto, os catadores de materiais recicláveis em sua maioria
realizam as suas atividades nos lixões estando expostas a um ambiente insalubre.
          Na última década, os catadores de materiais recicláveis conquistaram diversos direitos,
entre eles, mais precisamente no ano de 2001, com a criação do MNCNR (Movimento Nacional dos
Catadores de Materiais Recicláveis) que, em 2002 conseguiu agregar na CBO (Classificação
Brasileira de Ocupações), a profissão de catador, que incluí como função catar, selecionar e vender
materiais recicláveis como papel, papelão, vidro e materiais ferrosos e reaproveitáveis
(GONÇALVES, 2004).
          Estima-se que o número de catadores varia entre 300 mil e 1 milhão de pessoas no Brasil
(BRASIL, 2009). Segundo MNCMR (2010) de cada 1000 indivíduos 01 é catador, fato que
contribui para que o país esteja entre os 10 maiores do mundo em reciclagem. No Lixão de Irecê
são encontradas 30 pessoas trabalhando na catação de materiais recicláveis.
          Os movimentos sociais de classe no contexto nacional têm permitido aos catadores,
diversas vitórias, como a criação de cooperativas e associações, mas esse fato ainda está distante da
realidade de Irecê. Isso ocorre devido a não organização dos catadores que desenvolvem suas
atividades de forma individualizada, dificultando a negociação dos produtos para outras empresas e,
assim, permanecem dependentes dos atravessadores.

          OBJETIVO

               Diagnosticar as condições de vida, escolaridade e ambiente trabalho dos catadores de
materiais recicláveis do lixão de Irecê - Bahia.

         CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DA ÁREA DE ESTUDO
               A cidade de Irecê está localizada no centro oeste baiano, a uma distância de 478 km
da capital do estado, a cidade de Salvador, e possuí uma área aproximada de 314 km2 e possui as
seguintes coordenadas geográficas 11º 18’ e 38,5” S e 41º 53’ e 21,1” W.
         O lixão de Irecê no ano de 1997 foi transferido da BA-052, a rodovia estadual conhecida
como a estrada do feijão, para as proximidades do bairro Loteamento Félix, na divisa da cidade com
o povoado do Umbuzeiro. Esse lixão possui uma área de 17 ha, e está a uma distância de 5 km do
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                             263

centro da cidade. A prefeitura municipal, através da Secretaria de Infraestrutura autoriza o trabalho
de 30 catadores de materiais recicláveis nesse local. No entanto, no período em que foi feita a
pesquisa foram encontrados 22 deles laborando regularmente na área estudada.
         Nesta área observa-se a proliferação de vetores transmissores de doenças, a poluição do
solo através dos resíduos que são dispostos inadequadamente, bem como, os possíveis riscos de
contaminação do lençol freático ocasionado pela infiltração do chorume, proveniente da
decomposição do lixo depositado naquela área. Assim, a população que mora nas imediações do
lixão sofre com o odor provocado pela decomposição e queima dos resíduos.
         Mesmo possuindo características peculiares de um ambiente insalubre e desagradável,
diversas pessoas disputam uma vaga para trabalhar nesse local e se inscreverem em uma lista de
reserva, a qual constava 40 nomes que aguardavam uma desistência para poder desempenhar suas
atividades e garantir a sua sobrevivência através da catação de materiais recicláveis.

          METODOLOGIA
          Para conhecimento e estudo do ambiente de trabalho e da situação a que estão expostos os
catadores a pesquisa foi dividida em cinco etapas. A primeira constou de uma pesquisa bibliográfica
sobre os seguintes temas: impactos ambientais, lixão, catadores de materiais recicláveis,
classificação de resíduos, leis e regulamentações existentes.
                Na segunda etapa foram elaboradas as perguntas para as entrevistas com os catadores
e posteriormente, a aplicação das mesmas. O questionário abordou questões relacionadas com a
atividade desenvolvida e, temas referentes à escolaridade, situação econômica e social.
          Na terceira e quarta fases da pesquisa, foram realizados os registros fotográficos da área e
também dos indivíduos que trabalham nesse local, bem como a observação participante, em que a
pesquisadora esteve presente acompanhando o desenvolver das atividades dos pesquisados,
investigando seu dia-a-dia na área estudada.
          A última etapa da pesquisa aconteceu com a assinatura dos catadores de um termo
autorizando a divulgação dos dados e fotografias para eventos e reuniões científicas.
          A pesquisa teve duração de quatro meses com visitas periódicas ao lixão no período
compreendido entre outubro de 2009 a março de 2010.
          RESULTADOS E DISCUSSÕES
          No lixão de Irecê existe um cadastro que possibilita a atuação de somente 30 catadores
para exercerem a atividade como catadores. No entanto, nos meses em que a pesquisa fora
realizada, apenas 22 estavam indo regularmente e desses 21 aceitaram participar da entrevista e 01
recusou.
          São cadastradas três empresas para fazer a comercialização dos produtos coletados no
“lixão de Irecê”, entretanto, apenas uma o faz. Os catadores desempenham sua atividade de forma
independente, não fazem parte de nenhuma cooperativa ou associação. Dessa forma, a remuneração
é definida pela quantidade de resíduos coletados e vendidos aos intermediários, que repassam para
outras cidades do nordeste onde serão reciclados.
          No decorrer das visitas foram observadas as negociações, bem como, o descaso e a
exploração dos catadores. Muitas vezes os catadores ficavam esperando o comprador e o mesmo
não aparecia, outras vezes ia avisá-los que não iria comprar, deixando-os desesperados, pois
dependem dessa renda para a sobrevivência de sua família.
                Em relação à venda dos materiais coletados, o comprador é quem determina os
preços e no decorrer das semanas faz alterações alegando mudanças no mercado externo e, além
disso, não dispõe de nenhuma tabela de preços para que os catadores estejam cientes dos valores
que recebem por cada material.
          Acompanhando algumas negociações, foi constatado que os preços dos recicláveis
praticados no lixão de Irecê são inferiores aos praticados em Salvador e Recife (Tabela 01).
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          Tabela 01: Preço dos recicláveis praticados no Lixão de Irecê (kg).
 Resíduo                              Irecê (R$)               Salvador (1) (R$)   Recife(1) (R$)
 Garrafa PET                          0,20                     0,70                1,0
 Papel branco                         0,05                     0,35                0,32
 Latas de Aço                         0,15                     ----                0,22
 Papelão                              0,10                     0,20                0,28
 Alumínio                             1,50                     3,00                2,2
          (1)
            Fonte: CEMPRE (2009).

          Observou-se ainda que os preços praticados pelos atravessadores em Irecê são 50% mais
baixos do que os praticados em Recife para garrafa PET e 100% abaixo dos praticados em Salvador
para o alumínio (Tabela 1).
          Em termos de rendimentos mensais, a renda média obtida pelos catadores no período que
os questionários foram aplicados foi a seguinte: 75% conseguiram um ganho variável entre R$ 101
e 200,00 com os materiais recolhidos; 25% alcançaram uma renda entre R$ 201 e 300,00. Para
conseguir tal remuneração, a jornada de trabalho é variável. Assim, 20% deles trabalham até 4 horas
diárias; 30% têm atividade laborativa de 6 horas diárias; 45% ficam nesse espaço entre 7 e 8 horas e
5% permanecem nesse local mais de 8 horas diariamente.
          A baixa escolaridade é considerada como um dos fatores que pode ter levado esses
cidadãos a trabalhar nesse local, estando diretamente relacionada com a falta de opção, pois com o
mercado de trabalho cada vez mais competitivo, a exigência pela qualificação do profissional e a
ausência da mesma nos pesquisados é um dos fatores determinantes para que esses indivíduos se
submetam a atividades de baixa remuneração (RIBEIRO & SANTOS, 2000). Como encontrado na
pesquisa, 42,8% dos catadores do lixão de Irecê não sabem ler e nem escrever, o que dificulta
questionar os valores que o atravessador paga para eles.
          É notável que muitos dos catadores tiveram sua vida escolar interrompida. Assim, 23,8%
deixaram os estudos por causa do trabalho; 23,8% foi devido à falta de condições da família em
arcar com as despesas e 52,4% relataram que a deixaram por diversos motivos entre eles por falta
de incentivo familiar. Quando questionados sobre conhecer algum programa de alfabetização de
adultos 85,8% dizem nunca ter ouvido falar sobre essa modalidade de ensino e apenas 14,2%
julgam saber da existência dessa opção.
          A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) (IBGE, 2005) apontou que
31,5% da população brasileira apresentou entre quatro e sete anos de estudo. No que se refere aos
catadores, a média de estudo foi de dois anos e oito meses, sendo quase todos considerados
analfabetos ou analfabetos funcionais, pois apresentam escolaridade menor que quatro anos de
estudo (IBGE, 2000). Estes dados não diferem dos encontrados em Irecê onde apenas 23,8%
afirmam que sabem ler e escrever, 19% dos entrevistados revelou assinar o nome apenas e 14,2%
afirmam que “sabem um pouco”, o que é insuficiente para lê os rótulos dos resíduos.
          A população pesquisada é composta por indivíduos com idades que variam de 18 a 62
anos, sendo 14,2% deles com a idade compreendida de 18 a 25 anos; 19% com idade entre 26 a 35
anos, a mesma porcentagem refere-se aos catadores com idade de 36 a 40 anos; 23,8% possuem
entre 41 e 50 anos e apenas 4,8% deles tem mais de 60 anos.
          Em relação a vontade de voltar a estuda, 52,4% demonstram que tem desejo de ampliar o
seu conhecimento e melhorar a leitura e escrita enquanto 42,8% não apresentam o anseio de
aprender, pois acreditam que não existe mais tempo para isso, estão desmotivados e com a auto-
estima baixa e 4,8% admitiram que às vezes tem essa pretensão, mas, são descrentes que tenha
condições de instruir-se.
          Dos catadores entrevistados, 38,1% já buscou outro tipo de atividade e profissão, mas, não
obteve êxito e 61,9% revelou que não procurou outra oportunidade de emprego até mesmo por não
ter conseguido antes de se tornar catador, acreditando que se não alcançou sucesso antes, não teria
motivos para novas tentativas.
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          Dados do IBGE (2000) indicam que quanto menor a escolaridade, maior a quantidade de
filhos, fato observado entre os catadores do lixão, assim: 9,5% deles têm acima de oito filhos; 4,8%
cinco, 28,6% quatro, 19% tem três, 9,6% tem dois, 23,8% tem um e apenas 4,8% afirmou não ter
nenhum herdeiro.
          A profissão de catador de material reciclável existe desde meados de 1950 e ainda na
contemporaneidade esse individuo é visto como um sujeito excluído socialmente (MNCMR, 2010),
por esse motivo 81% dos catadores do lixão de Irecê sonham em mudar de profissão, 14,2%
afirmam que gostam de trabalhar nesse espaço e que não pensam em sair e 4,8% dizem que às vezes
refletem sobre essa possibilidade. Evidenciando que não estão satisfeitos com a sua situação atual,
ao mesmo tempo em que não encontram novas opções para mudar de vida ou melhores condições
de trabalho.
          No decorrer da pesquisa foi observado que 71,4% dos catadores do lixão de Irecê são afro-
descendentes e 28,6% tem a cor da pele parda, revelando a inexistência de catadores com a cor da
pele branca (segundo critérios próprios de avaliação).
          Dos catadores entrevistados, 38,1% fuma e bebe enquanto 61,9% informaram que não o
fazem; dos que apresentam algum vício, o cigarro é o mais comum. Ao se entregaram a algum tipo
de vício busca-se esquecer dos problemas e camufla o desânimo e a descrença na perspectiva de
uma melhor qualidade de vida.

         CONSIDERAÇÕES FINAIS
         A profissão de catador, ainda discriminada pela sociedade, faz-se necessária uma vez que
esses agentes ambientais retiram do ambiente materiais que poderão levar dezenas de anos para se
decompor e contribuírem para a redução da exploração dos recursos naturais que servem de
matéria-prima para o setor produtivo.
         O diagnóstico realizado com os catadores do lixão de Irecê evidenciou que eles não
reconhecem a sua importância para a preservação do meio ambiente, possuem baixa escolaridade e
desestímulo em relação à possibilidade de voltar à estudar, bem como, de melhorar a sua qualidade
de vida.
         A cidade de Irecê não possui programas que busquem melhorar a qualidade de vida desses
catadores através da instituição de políticas públicas que favoreçam a classe. Por outro lado, um
aterro sanitário compartilhado está sendo viabilizado através da implantação de um consórcio com o
apoio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia. O referido aterro pode ser
compreendido como uma ação positiva para os catadores caso eles sejam inseridos na gestão
integrada dos resíduos sólidos da cidade.
         Outras ações que podem melhorar as condições de vida dos catadores são: a coleta seletiva,
a padronização de uma tabela de preços dos materiais recicláveis e uma política de educação. A
ação da coleta seletiva na sociedade possibilitaria aos catadores um processo de catação mais eficaz,
com menor exposição a riscos de contaminação e também maior aproveitamento dos resíduos e
assim maior renda. A padronização de uma tabela de preço dos materiais recicláveis contribuiria
para que eles não fossem prejudicados por atravessadores. Por fim, uma política voltada para a
formação escolar e capacitação dos catadores ofereceria para que eles se tornassem independentes
para se organizarem através de associações ou cooperativas.
         Percebe-se que a baixa estima interfere no desejo de voltar a estudar por não acreditarem
na possibilidade e na capacidade de aprender e, diante desses fatores, as perspectivas de mudança
na qualidade de vida não são percebidas. Diante disso, é necessário que esses trabalhadores sejam
contemplados pelas políticas públicas, pois os catadores são atores sociais importantes que
contribuem para a preservação ambiental estimulando a prática da reutilização e reciclagem dos
resíduos sólidos.

          AGRADECIMENTOS
         Agradecemos a Sérgio Luís Varela da Silva que auxiliou no translado até a área de estudo
e no registro fotográfico. Aos catadores do lixão de Irecê que gentilmente aceitaram participar da
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                         266

pesquisa, ao senhor Genivaldo Pereira Moura funcionário do lixão que permitiu o acesso e facilitou
o contato com os catadores e a Delian Mendes de Souza e Rita de Cássia Machado Araújo do
SEBRAE - BA que disponibilizaram materiais para pesquisa e a Amanda da Silva Cascaes que
ajudou na tabulação dos dados.
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A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                                       267

    CONCEPÇÃO DOS MORADORES DO BAIRRO DA ILHA DE
    SANTA LUZIA NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ – RN, SOBRE
                  PROCESSOS EROSIVOS

                                                                        Emanoella Delfino Figueirêdo REINALDO
                                                           Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN
                                                            Graduando do Curso Bacharelado em Gestão Ambiental
                                                                                      manu_delfino@hotmail.com
                                                                                    Maria Clara Torquato SALLES
                                                           Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN
                                                            Graduando do Curso Bacharelado em Gestão Ambiental
                                                                                  mariaclaratorquato@hotmail.com
                                                                                        Zildenice Matias GUEDES
                                                           Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN
                                                            Graduando do Curso Bacharelado em Gestão Ambiental
                                                                                           zildenice@hotmail.com
                                                                             Jorge Luis de Oliveira PINTO FILHO
                                                           Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN
                    Bel. em Gestão Ambiental, Professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN
                                                                                       jorgefilho-uern@bol.com.br

         RESUMO
         Este artigo aborda um estudo de caso realizado no bairro da Ilha de Santa Luzia localizado
no Município de Mossoró – RN. Através do mesmo objetivou-se realizar um levantamento sobre os
problemas ambientais enfrentadas pelos moradores do bairro da Ilha de Santa Luzia, enfatizado os
processos erosivos. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica, aplicação de questionários
com os moradores do bairro com a finalidade de avaliar o nível de conscientização e conhecimento
dos problemas ambientais do Bairro e análise documental a exemplo do diagnostico final de
caracterização do município de Mossoró – RN. Através desse estudo pode-se observar inúmeros
problemas ambientais, dentre eles: poluição do rio, enchentes e inundações em período de inverno,
queimadas de resíduos pela própria população, surgimento de vetores devido a deposição do lixo
domiciliar as margens do rio e esgotos clandestinos a céu aberto mesmo sendo o referido bairro
saneado. Todavia em nenhum momento a população citou os processos erosivos como problemas
enfrentados pelo bairro, desconhecendo então suas causas e conseqüências. Isso demonstra o não
conhecimento das questões ambientais, por isso os moradores do bairro pouco participam e/ou
contribuem para mudança de cenário. Tornando-se dessa forma um problema que deve mobilizar
Poder Público, Sociedade Civil Organizada, Gestores, para que os impactos decorrentes da ação
antrópica sejam mitigados e torne-se possível um bairro sustentável para todos.
         PALAVRAS-CHAVE: Ilha de Santa Luzia, Processos Erosivos, Problemas Ambientais.

         RESUMEM
         Este artículo se acerca a un estudio del caso ejecutado en el cuarto de la isla del santo de
Luzia situada en la ciudad de Mossoró - RN. Con iguales objectified para llevar con un examen en
los problemas ambiente hechos frente por los habitantes del cuarto de la isla del santo de Luzia,
acentuada los procesos erosivos. La metodología usada era la investigación bibliográfica, uso de
cuestionarios con los habitantes del cuarto con el propósito de evaluar el nivel del conocimiento y el
conocimiento de los problemas ambiente del cuarto y del análisis documental el ejemplo de ella el
final de la caracterización de la ciudad de Mossoró - RN de la diagnosis de I. Con este estudio
puede ser problemas ambiente innumerables observados, entre ellos: contaminación del río,
inundaciones y floodings en el período de invierno, incendios forestales de los residuos para la
población apropiada, brote de los vectores debidos la deposición de la basura domiciliaria los
bordes del río y alcantarillas clandestinas el cielo abierto exactamente que es el cuarto relacionado
del saneado. No obstante en ninguÌ n momento la población citó los procesos erosivos como
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            268

problemas hechos frente para el cuarto, siendo inconsciente entonces de sus causas y consecuencias.
Esto demuestra no el conocimiento de las preguntas ambiente, por lo tanto los habitantes del cuarto
participan y/o contribuyen poco para el cambio de la escena. El pasar con esta forma un problema
que debe movilizar para ser público capaz, sociedad civil organizada, manejando, para atenuar y
lleguen a ser posibles los impactos decurrentes de la acción del antrópica un cuarto sostenible para
todos.
         PALABRA-CLAVE: Isla erosiva del santo de Luzia, procesos, problemas ambiente.

         INTRODUÇÃO
         O crescimento das cidades de forma contínua e descontrolada, as queimadas, os
desmatamentos dentre outras ações impactantes ao solo tem proporcionado de forma decisiva para o
aceleramento dos processos erosivos.
         Dorst (1973, p. 181) defende que a erosão acelerada provoca, uma sensível diminuição das
precipitações atmosféricas, acelerando os processos de desertificação.
         A erosão do solo trata-se da remoção das camadas superficiais do solo pelas ações do
vento e da água, tendo inicio a partir das forças de arrasto, de impacto ou tração agindo em
partículas individuais da superfície do solo (ARAUJO; ALMEIDA; GUERRA, 2007, p. 77).
         Estando o solo privado da sua cobertura vegetal a sua estrutura ficará modificada e suas
propriedades físico-químicas capazes de garantir a retenção da água serão perdidas contribuindo
para o aumento do escoamento, diminuindo a infiltração e contribuindo para o abaixamento do
lençol de água subterrâneo. Resulta daí um dessecamento progressivo dos horizontes superiores,
provocando um empobrecimento da vegetação (DORST, 1973, p. 180).
         Diante do contexto da erosão causada pelo escoamento superficial e intensificada pela ação
antrópica, apresenta-se o bairro da Ilha de Santa Luzia no Município de Mossoró/RN. O mesmo
situa-se entre dois braços do rio Apodi/Mossoró e enfrenta grandes problemas, sobretudo do ponto
de vista ambiental e social.
         Nesta perspectiva esta pesquisa tem como objetivo principal realizar um levantamento
sobre os problemas ambientais enfrentadas pelos moradores da comunidade da Ilha de Santa Luzia,
enfatizado os processos erosivos.
          Tipos de Erosão
          A erosão é um processo que se constitui em duas fases: uma que ocorre com a remoção de
partículas, e a outra que é o transporte desse material, efetuado pelos agentes erosivos. Não
possuindo energia suficiente para dar continuidade ocorrendo o transporte, uma terceira fase sucede,
que é a deposição desse material transportado (GUERRA; CUNHA, 2007, p. 165).
          Com base em Araujo; Almeida; Guerra (2007, p. 77) os dois tipos mais comuns de erosão
são a pluvial e a eólica. A erosão pluvial tem inicio com as gotas de chuva, de modo que quando
essas gotas colidem com o solo desnudo e sem cultivo podem desacomodar e mover as partículas de
solo a uma distância surpreendente.
          Solos desnudos e expostos tornam-se propícios a ação da erosão, todavia quando cobertos
pela vegetação a erosão pode ser evitada e/ou os processos erosivos podem ocorrer, porém de forma
atenuada.
          Miller Jr. (2008) enfatiza que o solo está erodindo mais rapidamente do que está se
formando em mais de um terço das terras cultiváveis.
          A erosão se desenvolve e evolui a partir da exposição dos solos, quase sempre provocada
pelo desmatamento, ao impacto direto das chuvas, que promove a desagregação de suas partículas.
A partir daí, segue alguns exemplos de erosão hídrica:
          Escoamento superficial - promove o arraste das partículas de solo liberadas e, pela ação da
enxurrada, a desagregação e arraste de novas partículas.
          Erosão laminar - é produto do escoamento superficial difuso da água da chuva sobre os
solos desprotegidos. A erosão se processa como uma lâmina agindo sobre toda a superfície agrícola,
removendo as camadas mais superficiais e expostas dos solos.
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          Erosão em sulcos ou ravinas - surgir, tanto como uma evolução da erosão laminar, quanto
pelo revolvimento e exposição dos horizontes B e C dos solos, provocados por obras de engenharia,
à ação do escoamento concentrado da água da chuva.
         Boçorocas (ou voçorocas) - trata-se da evolução da etapa anterior, quando, pela ação das
águas pluviais, uma ravina se aprofunda até atingir o lençol freático, perenizando-a (NOFFS;
GALLI; GONÇALVES, 2000, p.14).
         Ambiente Brasil (2010) destaca ainda a erosão provocada pelo vento, também chamada de
erosão eólica, que consiste no transporte aéreo ou por rolamento das partículas erodidas do solo, sua
importância é grande onde são comuns os ventos fortes.
         A vegetação surge com um papel importante na estabilidade do solo, pois a mesma
ameniza o impacto das chuvas, regulariza e reduz o escoamento superficial e aumenta o tempo
disponível para infiltração da água pelo subsolo. Desse modo a vegetação impede a ação direta das
águas pluviais sobre o manto, reduzindo o impacto no solo, e a velocidade do escoamento
superficial, contribuindo para evitar a instalação de processos de instabilidade (USINA CACAÚ,
2007, p. 03).
         2. A ação antrópica causando e intensificando a destruição do Solo
         As atividades humanas vem acelerando de forma vertiginosa os processos erosivos. O
crescimento urbano das cidades desordenado e mal planejado, o desmatamento e devastação da
vegetação, rios desprovidos de matas ciliares, o uso de técnicas inadequadas em solos aráveis,
dentre outros inúmeros fatores contribuem para o aumento da erosão do solo.
         Segundo Miller Jr. (2008) o solo se torna mais vulnerável à erosão por conta das atividades
humanas, por exemplo, plantações, alagamentos, construções, pastagens excessivas, uso de veículos
off-road e queimadas deliberadas da vegetação que destroem a cobertura das plantas.
         Guerra e Cunha (2007, p. 187) defendem que a erosão não causa problemas apenas nas
áreas onde ocorre, podendo ocorrer em nível local como também em grandes áreas. Como exemplo
os autores citam que:

           O material que é erodido de uma bacia hidrográfica pode causar assoreamento de rio e reservatórios. Além
disso, as partículas transportadoras pela água, em uma área agrícola, podem estar impregnadas de defensivos agrícolas e
contaminar as águas dos rios. O desmatamento e a erosão dos solos podem provocar o desaparecimento de mananciais,
bem como acentuar os efeitos de inundações. Enfim, a erosão dos solos causa uma grande gama de impactos
ambientais, desde a sua própria degradação, passando por problemas ambientais de uma forma geral (GUERRA;
CUNHA, 2007, p. 187).


         Os riscos de erosão dependem tanto das condições naturais quanto dos modelos de uso da
terra. O clima (especialmente a intensidade da chuva), as características das encostas, a cobertura
vegetal e a natureza do solo também são importantes. Com respeito ao uso da terra, qualquer
atividade humana que exija a remoção da cobertura vegetal protetora (florestas, arbustos, forragens
etc.) promove erosão, o mesmo ocorre com medidas impróprias como arar o solo (ARAUJO;
ALMEIDA; GUERRA, 2007, p. 24).
         Conforme Pedro; Lorandi (2004, p. 29) as feições erosivas, decorrentes da má gestão do
uso do solo e da falta de planejamento urbano, provocam impactos ambientais negativos devido a
produção de sedimentos que vão assorear os cursos d’água induzindo à ocorrência de enchente e
inundações, em períodos chuvosos.
         Comumente, a ocupação da área periurbana é desordenada gerando pontos de
desestabilização de encostas pela ausência de técnicas adequadas para a implantação de moradias,
como exemplo, a falta de sistema de drenagem, que aumenta o problema da erosão dos solos. O
crescimento da ocupação desordenada potencializa esse problema e pode vir a acarretar problemas
futuros como o aparecimento de trincas nas paredes das casas, surgimento de minas d’água e
vazamento de fossas sanitárias, pondo as famílias em risco (PEDRO; LORANDI, 2004, p. 29).
         Carrijo; Baccaro (2000, p. 71) ressaltam que com a expansão da malha urbana e, portanto a
necessidade cada vez maior de espaços habitáveis, torna-se necessário a criação de uma legislação
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                            270

ambiental mais rígida, de modo que desenvolvam estudos a fim de se fazer cumprir a legislação e
ainda apontar medidas preventivas e de contenção apropriadas.
          A erosão acelerada, é o maior risco para a manutenção da fertilidade dos solos, a longo
prazo. Ela além de reduzir a profundidade do solo pode, algumas vezes, remover o solo inteiro.
(WILD, 1993 citado por GUERRA; CUNHA, 2007, p. 187).
          Para Miller Jr. (2008, p. 236) a erosão do solo possui dois grandes efeitos nocivos. O
primeiro é a perda da fertilidade do solo pelo esgotamento dos nutrientes das plantas. Já o segundo
ocorre quando o solo erodido acaba como sedimento em águas superficiais nas proximidades,
podendo poluir a água, matar peixes e mariscos e obstruir valas de irrigação, canais para barcos,
reservatórios e lagos.
          3. MATERIAL E MÉTODOS
          3.1 Classificação da Pesquisa
          De acordo com Gil (2006) a pesquisa foi de natureza exploratória tendo em vista que será
realizado um levantamento bibliográfico e estudo de campo e classificada como qualitativa.
          A metodologia foi aplicada com a finalidade de avaliar o nível de conscientização e
conhecimento dos problemas ambientais no Bairro de Ilha de Santa Luzia no Município de
Mossoró-RN envolvendo diversos atores sociais desse Município localizados na área de estudo.
          3.2 Estudo de Caso
          O estudo foi realizado no Bairro da Ilha de Santa Luzia estando localizado em uma ilha
fluvial delimitada pelos braços do Rio Apodi/Mossoró, o que o caracteriza como área de
preservação, no entanto, com ocupação já consolidada.
          É um bairro com características de uso que se divide em parte residencial e parte de
comércio e serviços, os quais se concentram ao longo da Av. Presidente Dutra. A Avenida citada é a
principal via do bairro e constitui-se como a extensão da zona comercial do centro da cidade.
          A grande maioria das vias é calçada e o padrão construtivo das edificações é médio alto e a
infra-estrutura encontra-se consolidada, suficiente para ocupação e expansão. É uma região passível
de controle da ocupação devido a suas características citadas anteriormente.

         3.3 Procedimento da Pesquisa
         Os procedimentos metodológicos foram utilizados por meio de levantamento bibliográfico
e coleta de dados em campo junto ao bairro da Ilha de Santa Luzia.
         3.4 Levantamento Bibliográfico
         A fundamentação teórica do presente estudo foi realizada por meio de pesquisa em livros e
artigos sobre a temática Processos Erosivos.
         3.5 Obtenção dos Dados em Campo
         Os dados coletados foram obtidos através de observação in locu, registro fotográfico e
aplicação de questionários com os moradores da comunidade Ilha de Santa Luzia.
         A pesquisa se fixou em uma amostragem não probabilística de 39 indivíduos dos atores
sociais questionados.
         4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
         Através do referido estudo de caso pode-se evidenciar que a população residente no bairro
Ilha de Santa Luzia sofre inúmeros problemas ambientais, dentre eles: poluição do rio, enchentes e
inundações em período de inverno, queimadas de resíduos pela própria população, surgimento de
vetores devido a deposição do lixo domiciliar as margens do rio, esgotos clandestinos a céu aberto,
mesmo sendo o referido bairro saneado.
         Mesmo a população sendo vítima dos transtornos causados pela enchente e demais
problemas ambientais, percebeu-se através da aplicação dos questionários que não há percepção
quanto a origem das causas e suas co-responsabilidades, nem tampouco a medidas mitigadoras. A
figura abaixo retrata essa realidade, em que se verifica o índice considerado para os aspectos
ambientais, de modo que a população em estudo demonstrou-se incomodada com outros aspectos
como presença de vetores, tais como ratos, baratas, que estão relacionados com as questões
ambientais, porém
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          271


                                    Abastecimento de água            Falta de coleta de lixo
                                    Violência                        Saúde
                                    Falta de esgoto sanitário        Pavimentação
                                    Desemprego                       Desperdício de água
                                    Iluminação Publica               Falta de escola
                                    Processos Erosivos               Outros
                                                23%             19%
                                                                           2%
                                                2%                   3%
                                             8%                      13%
                                                5% 5%           5%
                                                        8% 7%


                             Figura 01 – Opinião dos moradores sobre os maiores problemas
                             da Ilha de Santa Luzia; 2010.

         A respeito da pergunta “Você sabe o que é erosão, suas causas, consequências e formas de
combate?” a maior parte dos entrevistados alegaram não ter conhecimento sobre a problemática em
questão.




                       Figura 02 – Resposta a pergunta “Você sabe o que é erosão, suas
                       causas, consequências e formas de combate?” Das famílias
                        residentes no bairro Ilha de Santa Luzia; 2010
                                                                  2010.

          Apesar de haver a coleta de lixo três vezes na semana no bairro estudado, pode verificar
                                                                                    pode-se
que a população ainda deposita os seus resíduos à margem do rio (Figura 3) Contribuindo para a
                                                                             3).
proliferação de vetores transmissores de doenças. Esse fato pode ser atribuído a irregularidades no
sistema de gerenciamento de resíduos sólidos, bem como o atendimento a todos os locais do bairro.
          Os moradores não apresentam consciência de que suas moradias estão localizadas em
Áreas de Preservação Permanente (Figura 04), nem tampouco de interferirem na qualidade do meio
                                                ,
ambiente, ou ate mesmo do Rio Apodi/Mossoró. Sofrendo então as conseqüências das cheias e
        te,
inundações em período de inverno, tendo que abandonar as suas casas.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                      272




                               Figura 03 – Despejo de resíduos sólidos a margem do Rio
                       Apodi/Mossoró – RN; 2010. Foto: Maria Clara Torquato.




                                   Figura 04 – Habitações irregulares as margens do Rio
                                   Apodi/Mossoró – RN; 2010. Foto: Maria Clara Torquato.


        Com relação aos processos erosivos, pode-se observar que o principal tipo de erosão
encontrado no Bairro foi a hídrica caracterizadas pelo escoamento superficial e erosão laminar.
Porém, evidenciou-se a falta de conhecimento dos moradores no tocante aos problemas ambientais
provenientes dos processos erosivos.
        Apesar dos dados evidenciados apontarem descaso com as questões ambientais e
problemas enfrentados no Bairro, a parcela da população questionada afirmou não causar danos ao
meio ambiente no seu dia-a-dia.
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                                   Figura 05 – Retirada da mata ciliar margens do Rio
                                   Apodi/Mossoró – RN; 2010. Foto: Maria Clara Torquato.




                                 Figura 06 – Resposta a pergunta “No seu dia a dia você
                                 considera que causa algum dano ao meio ambiente?”
                                 Das famílias residentes no bairro Ilha de Santa Luzia;
                       2010.
         Através da presente pesquisa pode se perceber que os moradores do bairro em estudo
                                      pode-se
apresentam desconhecimento e, portanto, descaso para com os processos erosivos ocorrentes ao seu
entorno. Mesmo que os mesmos reconheçam a falta de atuação do poder público, assumem a
ausência de consciência dos seus vizinhos, sem tampouco assumirem sua contribuição para a
minimização dos acentuados processos erosivos aos quais vivem submetidos.


        5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
        Os processos erosivos intensificados pela ação antrópica tem efeitos impactantes para o
                                                         antrópica
próprio homem e o meio ambiente. Tais efeitos têm sido vistos e sofridos de maneira acentuada
pelos moradores do bairro em estudo. As áreas situadas no entorno do rio tem sido cada vez mais
desprotegidas, acometidas de despejo inadequado dos resíduos sólidos e desmatamento da
                                despejo
vegetação nativa para fins domésticos. O que evidenciou se foi uma população desconhecedora das
                                              evidenciou-se
questões ambientais, portanto pouco participativa para mudança de cenário.
A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade                          274

         Sabe-se que solos desprotegidos tornam-se mais suscetíveis aos impactos negativos das
chuvas, e o que foi claramente identificado na área em estudo foi que, mesmo a referida área
tratando-se de uma APP não houve conscientização para com a população no que diz respeito a
importância da mesma, e ainda a contribuição da própria população para uma cidade sustentável.
Tampouco o Poder Público tem atuado para mudar esse cenário, pois não há fiscalização quanto às
construções irregulares, poluição ao rio Apodi/Mossoró e quanto aos modelos de uso da terra
identificados no bairro Ilha de Santa Luzia.
         Em épocas de intenso inverno os primeiros a sofrerem as conseqüências das chuvas de
forma calamitosa é o bairro da Ilha de Santa Luzia, mas devido aos resíduos, supressão da
vegetação, dentre outras conseqüências, outros bairros são acometidos dos danos ambientais. Sendo
assim, os moradores da Ilha de Santa Luzia têm suas conseqüências sofridas por outros moradores
de diversos bairros da cidade. Tornando-se dessa forma um problema que deve mobilizar Poder
Público, Sociedade Civil Organizada e Gestores para que os impactos decorrentes da ação antrópica
sejam mitigados e torne-se possível um bairro sustentável para todos.

         REFERÊNCIAS
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<http://www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./agropecuario/index.html&conteudo=./a
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Antonio José Texeira. Gestão Ambiental de Áreas Degradadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand
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         DORST, Jean. Antes que a Natureza Morra. São Paulo: Edgard Blucher, 1973.
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Disponível                     em:                      <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-
67622002000600011&script=sci_arttext >. Acesso em: 01 fev. 2010.
         GUERRA, Antonio José Teixeira; CUNHA, Sandra Baptista da. Geomorfologia: uma
atualização de bases e conceitos. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
         IDEMA – INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E MEIO AMBIENTE
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<http://www.semarh.pb.gov.br/comites/rbma/pdf/cad3.pdf>. Acesso em: 01 fev. 2010.
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Disponível em: <http://www.cepan.org.br/promata/docs/prade_cacau.pdf> Acesso em: 01 fev.
2010.
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO PARQUE DOIS IRMÃOS, RECIFE-
                 PERNAMBUCO

                                                                                    Nilson da Rocha CORDEIRO
                                    Graduando em História pela UFPE; Graduando em Gestão Ambiental pelo IFPE
                                                                                       nilson.cordeiro@ymail.com
                                                                                 Anália Keila Rodrigues RIBEIRO
                                Doutora em psicologia pela UFPE; Professora do IFPE no curso de Gestão Ambiental
                                                                                        analiakeila@yahoo.com.br

         RESUMO
         Parques zoológicos são locais de recreação, mas também podem ser definidos como
museus, uma vez que são instituições que se ocupam com a conservação, pesquisa e comunicação
de elementos naturais. Neste contexto, eles são locais de grande potencial educativo, onde o animal
é o tema gerador de assuntos ligados à preservação ambiental. Assim, a educação ambiental faz
parte do contexto das atividades de um zoológico, não sendo este um local apenas para abrigar
animais. Esta educação permite que haja um maior respeito aos animais e uma maior
conscientização quanto à necessidade de preservação das espécies e de seus ambientes. Quando se
fala em educação ambiental os diferentes atores adotam diferentes discursos sobre a mesma e
propõem diversas maneiras de conceber e de praticar a ação educativa. Contudo, é predominante a
ideia de uma educação ambiental voltada apenas para o ensino da ecologia, deixando as questões
sociais e políticas fora do seu campo de reflexão. Nosso objetivo neste trabalho foi analisar o
programa de educação ambiental desenvolvido no Parque Dois Irmãos na cidade de Recife,
Pernambuco; entender sua orientação metodológica e medir a repercussão dessas práticas junto aos
visitantes do parque. Pudemos perceber, em nosso estudo, que os funcionários e estagiários do
parque, encontram-se bastante sensibilizados para a importância da educação ambiental. Os
visitantes reconhecem o Parque Dois Irmãos como um espaço de grande potencial para atividades
educacionais. Entretanto, é predominante a visão naturalista da educação ambiental, deixando as
questões sociais e políticas fora do seu campo de reflexão. Desta forma, faz-se necessário um uma
mudança na visão de educação ambiental que vem sendo desenvolvida.
         PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental. Parque Dois Irmãos. Zoológico

          ABSTRACT
          Zoos are places for recreation, but can also be defined as museums, since they are
institutions with the conservation, research and communication of natural elements. In this context,
they are places of great educational potential, where the animal is the theme generator of
environmental preservation issues. Environmental education is part of the context of zoo activities,
not only is this a place to house animals. This education allows greater respect for animals and a
greater awareness on the need for preservation of species and their environment. When we talk
about environmental education in the different actors take different speeches about the same and
propose various ways of conceiving and practice educational action. Predominant however is the
idea of environmental education focused only for teaching ecology, leaving the social and political
issues outside its field of reflection. Our goal in this job was to analyse the environmental education
program developed in Dois Irmãos Park in the city of Recife, Pernambuco; understand their
methodological orientation and measure the impact of such practices with park visitors. We realize,
in our study, which employees and trainees of the park, are quite aware of the importance of
environmental education. Visitors recognize the Dois Irmãos Park as an area of great potential to
educational activities. However, is predominant vision naturalist of environmental education,
leaving the social and political issues outside its field of reflection. This way, a change is needed in
the environmental education vision being developed.
          KEYWORDS: Environmental education. Dois Irmãos Park. Zoo
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          INTRODUÇÃO
          Antes de as funções atuais dos zoológicos serem definidas, os mesmos já serviram como
coleções em cativeiro de animais selvagens para usufruto dos homens e como forma de
entretenimento da alta realeza (BARRELLA et al., 2000). Foi apenas a partir do século XX que
passaram a desenvolver atividades e a terem funções voltadas para conservação da fauna regional e
global. Wemmer (2006) considera como principais funções de um zoológico: lazer, educação,
conservação e pesquisa.
          Para Primack & Rodrigues (2002), o principal objetivo da maioria dos grandes jardins
zoológicos é estabelecer populações de criação em cativeiro, sobretudo de animais raros ou
ameaçados de extinção. Assim, parques zoológicos são locais de recreação, mas também podem ser
definidos como museus, uma vez que são instituições que se ocupam com a conservação, pesquisa e
comunicação de elementos naturais, neste caso, considerando-se os animais (ZOLCSAK, 2002). Sua
evolução histórica se deu em paralelo com os princípios ambientais e hoje atuam em busca de
técnicas eficazes para a preservação da fauna silvestre e, ao mesmo tempo, realizam trabalhos de
educação ambiental que, nos dias atuais, está incluída entre os principais objetivos dessas
instituições.
          Segundo Mergulhão (1998), a educação ambiental faz parte do contexto das atividades de
um zoológico, não sendo este um local apenas para abrigar animais. Esta educação permite que haja
um maior respeito aos animais e uma maior sensibilização quanto à necessidade de preservação das
espécies e de seus ambientes. Figueiredo (2001), também considera que além da conservação há
outras importantes funções dos zoológicos, tais como o lazer e a educação ambiental que, por sua
vez, é de extrema importância para a conscientização das pessoas, mostrando a importância da
conservação da biodiversidade, incluindo as espécies da fauna ameaçadas de extinção.
          Neste contexto, os zoológicos são locais de grande potencial educativo, onde o animal é o
tema gerador de assuntos ligados à preservação ambiental. Aproveitando a grande visitação e os
sentimentos de empatia e curiosidade, estas instituições podem desempenhar papel importante na
educação não formal de seu público. Em diversas cidades, os zoológicos são uma das principais
áreas de lazer e recreação, onde as escolas realizam aulas práticas e, nos finais de semana, reúnem
inúmeras famílias que lá encontram um lugar tranqüilo para diversão. Nesse contexto, os trabalhos
de educação ambiental implantados nos zoológicos dinamizam as programações e tornam as visitas
mais atrativas.
          Acompanhando toda a evolução pela qual os zoológicos passaram, a educação ambiental
passou a fazer parte dos objetivos dessas instituições e vem, a cada dia, aperfeiçoando o modo de
educar as pessoas a partir da exposição de animais silvestres em cativeiro. Atualmente, grande parte
dos zoológicos brasileiros realiza programas de educação ambiental e, muitas vezes, tais programas
são responsáveis pelo aumento do número de visitantes, uma vez que passam a incentivar a
visitação, principalmente de escolas (AURICCHIO, 1999).
          Após a realização de um trabalho que visava reunir informações sobre os zoológicos que
realizavam educação ambiental, Auricchio (1999) constatou que os zoológicos brasileiros são muito
procurados por escolas que desejam realizar atividades extracurriculares ou recreativas. Com o atual
desenvolvimento da educação ambiental, muitos zoológicos passaram a realizar programas para
atender as escolas. Em sua pesquisa, Auricchio (1999) obteve como resultado que cerca de 80% dos
zoológicos já apresentavam trabalhos de educação ambiental.
          Apesar de diversas funções terem sido atribuídas aos zoológicos, Ribeiro-Marino et al.
(2007) consideram que, diante destas, a compreensão da relação existente entre a proteção
(preservação, conservação e recuperação) ambiental e o uso público dos parques para atividades
recreativas ou educativas tem sido o grande desafio dos administradores destas instituições,
reforçando a necessidade de instrumentos que definam claramente as diretrizes para a administração
e manejo.
          Nosso objetivo neste trabalho foi de analisar o programa de
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    Giovanni Seabra José Antonio Novaes da Silva Ivo Thadeu Lira Mendonça (organizadores) A Conferência da Terra Aquecimento global, sociedade e biodiversidade Volume II Editora Universitária da UFPB João Pessoa - PB 2010
  • 3.
    UNIVERSIDADE FEDERAL DAPARAÍBA reitor RÔMULO SOARES POLARI vice-reitora MARIA YARA CAMPOS MATOS EDITORA UNIVERSITÁRIA diretor JOSÉ LUIZ DA SILVA vice-diretor JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS FILHO supervisor de editoração ALMIR CORREIA DE VASCONCELLOS JUNIOR
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    Capa: Éric Seabra Editoração:Ivo Thadeu Lira Mendonça E-mail: gs_consultoria@yahoo.com.br A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade. Volume II / Giovanni de Farias Seabra, José Antonio Novaes da Silva, Ivo Thadeu Lira Mendonça (organizadores). – João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2010. 675 p.: il. ISBN: 978-85-7745-532-4 1. Meio Ambiente. 2. Mudanças climáticas. 3. Educação ambiental. 4. Ecossistemas terrestres e aquáticos. 5. Saúde global. I. Seabra, Giovanni de Farias. II. Silva, José Antonio Novaes da. III. Mendonça, Ivo Thadeu Lira. UFPB/BC As opiniões externadas nesta obra são de responsabilidade exclusiva dos seus autores. Todos os direitos desta edição reservados à GS Consultoria Ambiental e Planejamento do Turismo Ltda. Impresso no Brasil Printed in Brazil Foi feito depósito legal
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    Sumário SUMÁRIO .......................................................................................................................................... 5 PREFÁCIO......................................................................................................................................... 9 UM NOVO PASSO... ....................................................................................... ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO. 3. EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL......................... 10 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO PARA A REALIZAÇÃO DO CONSUMO SUSTENTÁVEL E DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DO MEIO AMBIENTE .......................................................................... 11 AGRESTE SETENTRIONAL DO ESTADO DE PE: IMPACTOS AMBIENTAIS CARACTERIZADOS PELO PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO EM SERRA SECA-PE.................................................................................. 18 ANÁLISE DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DA COMUNIDADE RIBEIRINHA PANTANAL EM ARACAJU ....... 25 ANÁLISE QUALI-QUANTITATIVA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS EM PRAIAS DO MUNICÍPIO DE OLINDA-PE .................................................................................................................................................................................... 31 ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DO BAIRRO MAURO ANTÔNIO BENTO EM JATAÍ – GOIÁS, BRASIL ......................................................................................................................................... 38 ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS ASSOCIADOS AO ECOSSISTEMA MANGUEZAL DO RIO COCÓ, FORTALEZA/CE............................................................................................................................ 43 CARCINICULTURA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO AGROAMBIENTAL NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL .................................................................................................................................................................................... 50 CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO À LUZ DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ...... 58 CONTRIBUIÇÃO DA PREFEITURA DE OLINDA NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNICÍPIO SUSTENTÁVEL ........................................................................................................................... 64 DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA ZONA COSTEIRA DE SÃO LUIS – MA: UM ESTUDO DE CASO DA PRAIA DO ARAÇAGY .......................................................................................................................................................... 69 EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO DE SUSTENTABILIDADE NA ERA DO CONSUMO GLOBAL .................................................................................................................................................................... 75 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL ...................................................................................... 82 EDUCAÇÃO AMBIENTAL, EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL ........................................................................................................................................................ 88 EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM COMUNIDADES COSTEIRAS DO CEARÁ. .......................................................... 95 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO NA PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES DE ENSINO MÉDIO EM ESCOLA PÚBLICA ESTADUAL NA CIDADE DE CATALÃO – GOIÁS .......................................................... 102 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O ALAMBIQUE SAMANAÚ – RN ........................................................................... 108 EDUCOMUNICAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: O DESENVOLVIMENTO CRÍTICO E CONSCIENTE DE CONSUMO POR AQUELES QUE FAZEM RÁDIO COMUNITÁRIA ................................................................ 114 EDUCOMUNICAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE ...................... 122 EFETIVIDADE DA ROTULAGEM AMBIENTAL: UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DO RECIFE .............. 128 MARKETING VERDE: O SEU PAPEL NO PROCESSO DECISÓRIO DE COMPRA DOS UNIVERSITÁRIOS DAS INSTITUIÇÕES PRIVADAS DE ENSINO SUPERIOR. ........................................................................................ 134 O IMPACTO SECUNDÁRIO DA ATIVIDADE PETROLÍFERA NA CIDADE DE MACAÉ COM BASE NA FOTOINTERPRETAÇÃO DE IMAGENS AÉREAS .............................................................................................. 142 O USO DA AULA DE CAMPO COMO MECANISMO INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ........................................................................................................................................................... 151
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    O USO DECARTILHA COMO INSTRUMENTO DE INFORMAÇÃO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SANITÁRIA DIRECIONADO À COMUNIDADE TRADICIONAL DA APA DO MARACANÃ NO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS/MA ................................................................................................................................................... 158 OS REFLEXOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA INSPEÇÃO VEICULAR ........................................................ 163 PERCEPÇÃO DOS PESCADORES DO CABO DE SANTO AGOSTINHO SOBRE A ATIVIDADE PESQUEIRA FRENTE ÀS DRAGAGENS NO PORTO DE SUAPE (PE) ................................................................................... 169 PROJETO RIO LIMPO, RIO LINDO: EDUCAÇÃO AMBIENTAL AO LONGO DO RIO DAS MORTES ............. 176 SELO AMBIENTAL: EDUCAR PARA CIDADANIA ................................................................................................ 184 TIMOR-LESTE: PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR DE UM ESTADO EM CONSTRUÇÃO .................................................................................................................................................................................. 189 UNIVERSIDADE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL ................................ 196 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: UMA LEITURA A PARTIR DA SOCIEDADE DO CONSUMO ................................................................................................................................ 201 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR: A ESCOLA, O PROFESSOR E O ENSINO DE GEOGRAFIA ........................................................................................................................................................... 206 A FORMAÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO DENTRO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DO CURSO NORMAL MÉDIO DE UMA ESCOLA ESTADUAL EM PERNAMBUCO ......................................................... 213 A IMPORTÂNCIA DE PROJETOS AMBIENTAIS: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O PROJETO COM CIÊNCIA, NO BAIRRO ILHA DO BISPO, NA CIDADE DE JOÃO PESSOA – PARAÍBA ................................................. 219 A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DA COMUNIDADE LOTEAMENTO PADRE HENRIQUE BAIRRO DA VÁRZEA RECIFE-PE ....................................................................................................................... 222 AÇÕES ANTRÓPICAS NOS BAIXOS PLANALTOS COSTEIROS DA BR 101 NO TRECHO JOÃO PESSOA- MAMANGUAPE...................................................................................................................................................... 229 ALAMBIQUE SAMANAÚ E BACIA HIDROGRÁFICA PIRANHAS-ASSU – CASOS DE SUSTENTABILIDADE E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO SERIDÓ ..................................................................................................... 235 ANÁLISE DE DESENHOS SOBRE O MEIO AMBIENTE FEITOS POR ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL PÚBLICO DO MUNICÍPIO DE CUITÉ/PB ............................................................................................................ 240 ASPECTOS NATURAIS E CULTURAIS DO MORRO DA MASSARANDUBA, ARAPIRACA – AL ................... 246 AVALIAÇÃO DO PROCESSO DE DEGRADAÇÃO DA COBERTURA VEGETAL EM SERRA BRANCA E COXIXOLA - PB...................................................................................................................................................... 253 CATADORES DE MATERIAS RECICLÁVEIS DO LIXÃO DE IRECÊ- BA: EDUCAÇÃO– E PERSPECTIVAS DE QUALIDADE DE VIDA .......................................................................................................................................... 261 CONCEPÇÃO DOS MORADORES DO BAIRRO DA ILHA DE SANTA LUZIA NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ – RN, SOBRE PROCESSOS EROSIVOS .................................................................................................................. 267 EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO PARQUE DOIS IRMÃOS, RECIFE-PERNAMBUCO ........................................... 275 EDUCAÇÃO AMBIENTAL COM OS CHACAREIROS DO ENTORNO DA ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE DO CÓRREGO GRANADA EM APARECIDA DE GOIÂNIA: UMA PROPOSTA EM PROL DA VEGETAÇÃO ................................................................................................................................................... 282 EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS ESCOLAS DA RDS PONTA DO TUBARÃO – RN: POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES NA VISÃO DOS PROFESSORES .................................................................................................. 287 EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL: A IMPORTÂNCIA DA CONSCIENTIZAÇÃO DA POPULAÇÃO .............................................................................................................. 295 ESTUDO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE CRIANÇAS RIBEIRINHAS PARA PLANEJAMENTO DE AÇÕES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL .............................................................................................................................. 301 FORMAÇÃO DE PROFESSORES E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS SÉRIES INICIAIS DO ENSINO BÁSICO: UM ESTUDO NUMA CIDADE DO SERTÃO NORDESTINO ............................................................................. 308 IDENTIFICAÇÃO DE PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESENVOLVIDAS POR PROFESSORES DO MUNICÍPIO DE AREIA BRANCA/RN .................................................................................................................. 316 IMPACTO AMBIENTAL NA EXTRAÇÃO DE AREIA NA REGIÃO DO TABULEIRO DAS LAGOAS .............. 322 LINHAS QUE SE SOBREPÕEM: CONSIDERAÇÕES ACERCA DO TEMPO GEOLÓGICO E AS AÇÕES HUMANAS .............................................................................................................................................................. 330 MEIO AMBIENTE NOS OLHARES DE ESTUDANTES DO ENSINO FUNDAMENTAL II DE ESCOLAS PÚBLICAS, JOÃO PESSOA-PB ............................................................................................................................. 336 O LIMITE, O MAR: USO DA MÚSICA NA INVESTIGAÇÃO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS PROFESSORES DA RDS PONTA DO TUBARÃO ............................................................................................... 342
  • 7.
    PADRÕES DE CONSUMO,EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL .................. 349 PERCEPÇÃO SÓCIO-AMBIENTAL DOS FREQUENTADORES DAS PRAIAS DO BESSA E INTERMARES (PARAÍBA-BRASIL) ............................................................................................................................................... 355 PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS EM UMA ESCOLA NORMAL, NO CONTEXTO DAS SALAS DE INCLUSÃO DA ESCOLA PÚBLICA, EM JOÃO PESSOA - PB .......................................................................... 362 PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS ALUNOS EM UMA ESCOLA DA REDE PRIVADA NO MUNICÍPIO DE JOÃO PESSOA – PARAÍBA. ............................................................................................................................................. 371 PERFIL E PERCEPÇÃO DOS PARTICIPANTES DE TRILHAS INTERPRETATIVAS DO PARQUE ESTADUAL DE DOIS IRMÃOS, RECIFE-PE ............................................................................................................................. 378 POSSIBILIDADES E ATUAÇÃO SOCIO EDUCACIONAL DO COMPLEXO ALUIZIO CAMPOS – CAMPINA GRANDE-PB ............................................................................................................................................................ 383 PRÁTICA DA AQUICULTURA NO ESTUÁRIO DO CANAL DE SANTA CRUZ: IMPACTOS AMBIENTAIS .. 390 PROPOSTA DO PLANO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DA UFPB-CAMPUS I, JOÃO PESSOA - PB ............... 397 RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS EM JAZIDAS DE INSTALAÇÕES DE PETROLÉO .................... 404 REFLEXÃO SOBRE CONSCIÊNCIA AMBIENTAL NOS DIAS ATUAIS ............................................................... 410 RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ-RN ........................................................... 414 ROEDORES “VILÕES” DA PESTE NEGRA: RECONSTRUINDO O CONHECIMENTO DOS ESTUDANTES NO SERTÃO PERNAMBUCANO ................................................................................................................................. 419 UM JOGO NECESSÁRIO ............................................................................................................................................. 425 4. MEGACIDADES E CIDADES SUSTENTÁVEIS .............................................................. 430 A RELAÇÃO ENTRE O HOMEM E A NATUREZA NA TRADICAÇÃO AFRICANA –BANTO .......................... 431 A ESTRUTURAÇÃO DO SISTEMA MUNICIPAL DE MEIO AMBIENTE DE PARNAMIRIM/RN E SUA IMPORTÂNCIA PARA A GESTÃO AMBIENTAL LOCAL ................................................................................ 437 CIDADANIA E SUSTENTABILIDADE: ANÁLISE TEÓRICA COMO FERRAMENTA PARA O ESTUDO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MUNICÍPIO DE SERRA TALHADA-PE ......................................................... 444 CONDIÇÕES DO MEIO AMBIENTE E GESTÃO AMBIENTAL EM MUNICÍPIOS PERNAMBUCANOS .......... 450 POLUIÇÃO SONORA E SAÚDE ................................................................................................................................. 458 REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E A DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO EM MUNICÍPIOS DA BACIA DE CAMPOS .................................................................................................................................................................. 464 RISCOS SOCIAL, ECONÔMICO E EPIDEMIOLÓGICO DAS FAMÍLIAS RESIDENTES NO MORRO CRISTO REI EM CAJAZEIRAS – PB ................................................................................................................................... 471 SOCIA(BI)LIDADE E SOLIDARIEDADE EM COMUNIDADES DE BAIXA RENDA: PRÁTICAS PARA VIVER EM AMBIENTES HOSTIS ...................................................................................................................................... 479 UM OLHAR VOLTADO A DEMOCRATIZAÇAO POPULAR EM PLANOS DIRETORES VISANDO CIDADES SUSTENTÁVEIS ..................................................................................................................................................... 487 CATADORES DE LIXO: REFÚGIO DO EXCEDENTE POPULACIONAL .............................................................. 492 MARECHAL DEODORO – AL EM FOCO: CENÁRIO E PERSPECTIVAS SOCIOAMBIENTAIS DA COMUNIDADE PESQUEIRA LOCAL .................................................................................................................. 498 PRÁTICAS DE PRESERVAÇÃO NO PARQUE ESTADUAL DE DOIS IRMÃOS/PE ............................................. 505 5. PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DOS RECURSOS HÍDRICOS .............................. 512 A LUTA CONTRA A POBREZA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NAS REGIÕES SEMI-ÁRIDAS PASSA PELO DESENVOLVIMENTO DA IRRIGAÇÃO A PARTIR DE PEQUENOS LENÇÓIS ALUVIAIS? REFLEXÕES A PARTIR DE UM ESTUDO DE CASO NO NORDESTE BRASILEIRO .................................... 513 ARAGUAIA – RIO DE AMOR E POESIA................................................................................................................... 525 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS ............................................................... 532 A UTILIZAÇÃO DO GEOPROCESSAMENTO PARA CRIAÇÃO DE UNIDADES HIDROGRÁFICAS NO ESTADO DA BAHIA: UM SUPORTE NO MONITORAMENTO DA QUALIDADE DAS ÁGUAS.................. 539 AVALIAÇÃO DA QUALIDADE AMBIENTAL DE ASSENTAMENTOS NA BACIA HIDROGRÁFICA DA REPRESA BILLINGS (MUNICÍPIO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO/SP) .................................................... 547
  • 8.
    BACIAS HIDROGRÁFICAS: GESTÃO& DEGRADAÇÃO AMBIENTAL ............................................................. 555 CARACTERIZAÇÃO DO ÍNDICE DE DISPONIBILIDADE DE UMIDADE NA MICROBACIA HIDROGRÁFICA DO AÇUDE DOS NAMORADOS, SÃO JOÃO DO CARIRI, PB ......................................................................... 561 CARACTERIZAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: SISTEMA CATUAMA, MUNICÍPIO DE GOIANA-PE .................... 566 DESPERDÍCIO DE ÁGUA NAS EDIFICAÇÕES DA CIDADE UNIVERSITÁRIA - UFPB .................................... 573 QUANTIFICAÇÃO DA INTERCEPTAÇÃO DA ÁGUA DA CHUVA EM ÁRVORES ISOLADAS E EM GRUPO .................................................................................................................................................................................. 581 UTILIZAÇÃO DO MICROFITOPLÂNCTON NO MONITORAMENTO DA QUALIDADE DE ÁGUA DE UM RESERVATÓRIO HIDROELÉTRICO TROPICAL ............................................................................................... 588 A POLUIÇÃO DO AÇUDE MARECHAL DUTRA – O “GARGALHEIRAS” ........................................................... 598 ANÁLISES FÍSICO-QUÍMICAS E MICROBIOLÓGICA DA ÁGUA DO AÇUDE DE BODOCONGÓ, CAMPINA GRANDE, PARAÍBA .............................................................................................................................................. 604 AVALIAÇÃO DA IMPORTÂNCIA DADA PELOS MORADORES DA CIDADE DE MAMANGUAPE-PB SOBRE O MEIO AMBIENTE, O CASO DO RIO BANDEIRA .......................................................................................... 609 AVALIAÇÃO DA VULNERABILIDADE À EROSÃO NAS SUB-BACIAS DE CONTRIBUIÇÃO DOS RESERVATÓRIOS CARPINA, GLÓRIA DO GOITÁ E VÁRZEA DO UNA, PERNAMBUCO, UTILIZANDO TÉCNICAS DE GEOPROCESSAMENTO ............................................................................................................. 614 DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DO RIO VERMELHO – MUNICÍPIO DE RIO TINTO/PB ..................................... 621 EFEITO DA FRAGMENTAÇÃO SOBRE A DIETA DAS ESPÉCIES DE PEIXES EM IGARAPÉS DE BAIXA ORDEM NA AMAZÔNIA ....................................................................................................................................... 629 ESTUDOS PRELIMINARES DOS DADOS FÍSICO-QUÍMICOS DE 2007, RIO CUIÁ, JOÃO PESSOA/PB .......... 637 IDENTIFICAÇÃO E MAPEAMENTO DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE DUNARES NA MICROBACIA DO RIO DOCE NATAL/RN .......................................................................................................... 641 O REFLEXO DA POLUIÇÃO URBANA NOS ECOSSISTEMAS AQUÁTICOS: O CASO DO MANGUEZAL CHICO SCIENCE, COMPLEXO DE SALGADINHO, OLINDA-PE .................................................................... 649 O USO DAS ÁGUAS SUBTERÂNEAS PARA IRRIGAÇÃO NOS MUNICIPIOS DE JOÃO DOURADO, IRECÊ E LAPÃO - BAHIA ..................................................................................................................................................... 656 RIO MANDACARU: UMA ABORDAGEM SOBRE A PERCEPÇÃO AMBIENTAL E SITUAÇÃO SOCIAL DA POPULAÇÃO RIBEIRINHA ................................................................................................................................... 662 RIO MEKONG: TRANSNACIONALIDADE, DILEMAS DE AÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO INTERNACIONAL .................................................................................................................................................. 669
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 9 Prefácio Um novo passo... A quecimento global ou resfriamento do Planeta Terra? Estas indagações fazem parte de um elenco de incertezas com que a humanidade se defronta diante da realidade ambiental do mundo atual, mais antropocêntrico e menos holístico. As questões ambientais estão incorporadas no dia-a-dia das pessoas, invadindo as residências, as escolas e os ambientes de trabalho, incidindo na estrutura e hábitos da sociedade humana, tornando-se tema de destaque em reuniões de associações intelectuais e científicas. Os programas e ações ambientais são quase sempre sustentados pelas grandes corporações empresariais e políticas, cuja sustentação reside no capital multinacional e nacional e estes, paradoxalmente, constituem os maiores poluidores. Esta situação cria incertezas no pensamento individual e coletivo, exigindo ações de conscientização e mobilização efetivas e livres da pressão do capital. Somente assim teremos uma sociedade mais justa no Mundo ecologicamente correto. A Conferência da Terra surge como um importante instrumento de conscientização e mobilização da população, um movimento contínuo em prol da saúde planetária. A Conferência da Terra propicia a união de todos convergindo na perspectiva, do bem estar dos outros seres, e não somente dos homens. De nada adianta estarmos sós no Planeta, sem a atmosfera e a biodiversidade que nos permitem viver. Na segunda edição, a Conferência da Terra 2010 apresenta-se como mais uma oportunidade para representantes de instituições acadêmicas, sociedade civil e organizada, bem como entidades governamentais e privadas reunirem-se com o objetivo de trazerem soluções para a preservação do meio ambiente. Sob o tema “Aquecimento global, sociedade e biodiversidade”, damos um novo passo no intuito de despertar o censo crítico e instigar ações conservacionistas eficazes e livres das interferências políticas e institucionais. A Conferência da Terra, uma realização da Universidade Federal da Paraíba, com apoio de outras instituições, propiciou o acesso de todos os participantes ao que existe de mais novo, no tocante às experiências profissionais e acadêmicas de centenas de pesquisadores e cidadãos evolvendo meio ambiente, mudanças climáticas, educação ambiental, ecossistemas terrestres e aquáticos e saúde global. Giovanni Seabra Ivo Thadeu Lira Mendonça
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    3. Educação Ambientalno Mercado de Consumo Global
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 11 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO PARA A REALIZAÇÃO DO CONSUMO SUSTENTÁVEL E DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DO MEIO AMBIENTE Karoline de Lucena Araújo Universidade Federal da Paraíba. Centro de Ciências Jurídicas. Programa de Pós-graduação em Ciências Jurídicas. Mestranda em ciências jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba. karolinerp@hotmail.com RESUMO O texto trata da importância da educação ambiental para a formação de uma população consciente e, especialmente, de consumidores conscientes. A educação revela-se primordial para que haja uma mudança na forma de consumir o que levará a uma mudança, também, na forma de produzir, já que o sistema capitalista de produção tem como um de seus pilares o fomento ao consumo. Mostrar-se-á que a educação ambiental é uma previsão constitucional e, por isso, é reconhecidamente um instrumento para que a proteção constitucional do bem ambiental se concretize. Além disso, é de grande relevância também para a realização do consumo sustentável, que a forma de consumo que precisa ser fomentada diante da situação em que se encontra o meio ambiente. PALAVRAS-CHAVE: Educação – Meio ambiente – Constituição – Consumo sustentável. ABSTRACT This paper addresses the importance of environmental education for the formation of a conscious population and especially conscious consumers. Education appears to be essential if there is a change in the way we consume leading to a change also in the form of produce, since the capitalist system of production has as one of its pillars promoting consumption. Show will be that environmental education is a constitutional provision and, therefore, is recognized as a means to the constitutional protection of environmental good will come true. Furthermore, it is also of great importance to the achievement of sustainable consumption, the pattern of consumption that needs to be encouraged about the situation you are in the environment. KEYWORDS: Education - Environment - Constitution - Sustainable consumption 1. INTRODUÇÃO O Brasil vive hoje um sistema capitalista de produção. Tal sistema consiste na extração de recursos naturais, como matéria prima dos mais diversos produtos, e no fomento ao consumo. O resultado dessa forma de produção já pode ser sentido e tal sensação não é das melhores, isso porque o que se pode observar que é a degradação do meio ambiente que culmina com a escassez de muitos de seus recursos. Diante desse quadro, iniciou-se um movimento em nível internacional de divulgação do estado em que se encontrava o meio ambiente e de formas de se prevenir e evitar novos danos a esse bem. Essa preocupação maior com meio ambiente ganhou relevo no início da década de 70, com a Conferência das Nações Unidas de Estocolmo em 1972, que publicou o documento conhecido como Declaração sobre o Meio Ambiente Humano. Esse evento teve como objetivo chamar a atenção de todos os países para a necessidade de se viver em um ambiente de qualidade e que este, para tanto, precisava ser preservado. Foi quando se começou a falar em desenvolvimento sustentável. Tal desenvolvimento implica numa forma de produção que seja suportável pela natureza. Era preciso equilibrar o desenvolvimento com o meio ambiente de qualidade. O presente trabalho traz, nesse diapasão, a educação como forma de esclarecer a população para a importância do meio ambiente equilibrado para a manutenção da qualidade de vida. Para tanto, destaca a proteção constitucional dada ao meio ambiente e a previsão no mesmo diploma da promoção da educação ambiental como instrumento para proteger e preservar o bem ambiental.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 12 Sendo assim, num primeiro momento do trabalho é feita localização do meio ambiente na Constituição e, principalmente, é colocada a educação ambiental como instrumento para se chegar à proteção determinada pela Lei Maior. É, ainda nesse momento, chamada atenção para o fato de que o Brasil possui uma Lei de Educação Ambiental que estabelece diretrizes e que ratifica a relevância da implementação da educação com foco ambiental para que a população contribua na prevenção de danos ao meio ambiente e na manutenção do meio ambiente de qualidade, premissa constitucional. E é nesse contexto que se chega ao mercado de consumo. O consumo sustentável é um dos sustentáculos para a mudança na forma de produção que, como dito, não possui nenhuma preocupação com manutenção do meio ambiente em equilíbrio. O consumidor, através de uma mudança de postura, vai estar mais atento ao que consome, pois tem conhecimento de como suas atitudes na hora de consumir são decisivas para que haja a preservação do meio ambiente e, assim, assegurar esse bem para outras gerações. Essas decisões serão positivas à medida que a população é esclarecida para a importância de uma postura consumerista ambientalmente responsável o que é possível através da educação ambiental. 2. EDUCAÇÃO, CONSTITUIÇÃO FEDERAL E MEIO AMBIENTE A educação é uma das grandes riquezas, se não a maior, que o ser humano pode ter. Riqueza que pode ser acumulada ilimitadamente. Mas, não basta o acúmulo de conhecimento. A educação vai além. Ela se revela através dos atos de quem a adquire. Quando se diz que alguém é educado é porque ele se comporta bem no relacionamento em sociedade, mesmo que não possua conhecimento de muitas ciências. Assim, quando se fala em educação ambiental se quer dizer que é uma forma de orientar o indivíduo para que se relacione bem com o meio ambiente, “um grande movimento ético que deve permear toda a cultura, promovendo uma nova cosmovisão que integre e entrelace as várias partes do mundo” 1. Assim, a educação ambiental é uma forma de esclarecer as pessoas sobre as formas de proteger o meio ambiente e de assegurá-lo para as futuras gerações. A população precisa estar ciente de que meio ambiente precisa ser protegido sob pena de a própria vida humana estar condenada ao fim. Os problemas ambientais gerados por um sistema de produção descomprometido com o meio ambiente levaram muitos países, inclusive o Brasil, a incorporar em sua legislação e, principalmente, em sua Constituição o meio ambiente como bem protegido. O meio ambiente ganhou destaque constitucional com a promulgação da Constituição de 1988, consolidando e fortalecendo aquela proteção como aduz Antonio Herman Benjamin: Assim configurada, a proteção ambiental deixa, definitivamente, de ser um interesse menor ou acidental no ordenamento, afastando-se dos tempos em que, quando muito, era objeto de intermináveis discussões científicas e poéticas. Aqui, o meio ambiente é alçado ao patamar máximo do ordenamento, privilégio que outros valores sociais só depois de décadas ou mesmo séculos lograram conquistar. 2 A Constituição Federal de 1988 traz um capítulo específico para o meio ambiente que se refere ao art. 225 daquele diploma. Ele ressalta a importância do meio ambiente para a vida humana e o coloca como direito de todos, assim como impõe o dever de proteção ao Poder Público e à população e, para tanto, destaca a importância da educação: Art. 225 - Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. 1 SEARA FILHO, Germano. O que é a Educação Ambiental. In: Desenvolvimento Sustentado: Problemas e estratégias. Editora: Elisabete Gabriela Castellano pág. 6. 2 BENJAMIN, Antonio Herman. Meio ambiente e Constituição: uma primeira abordagem. In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002, pág. 94.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 13 §1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao poder público: [...] VI – promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente; Necessário se faz, então, que haja uma união de forças, tanto do Poder Público como de toda a população no sentido de preservar o meio ambiente, pois se é o ser humano que intervém no ambiente, estabelecendo riscos de degradação é ele também que deve buscar formas de evitá-los para protegê-lo como bem elucida Marcelo Abelha Rodrigues: Ora, só haverá a possibilidade de preservar e proteger para as futuras gerações se e somente se o papel do ser humano for o de lutar pela sua preservação, pois caso contrário, permanecendo inerte ou em contínua destruição do meio, terá em pouco tempo assassinado a si próprio3. Por isso, medidas que tenham como importância primeira a preservação devem ter lugar de destaque nas políticas públicas. E sem dúvida a educação é uma delas. Isso porque uma sociedade esclarecida dificilmente permite que seus direitos sejam violados e quando se transfere isso para a educação com foco ambiental, o ato de educar ganha ainda mais relevância, pois se transforma num grande instrumento de proteção ao meio ambiente. A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO CONSTITUCIONAL A Lei Maior constatou que a sadia qualidade de vida está condicionada ao equilíbrio ambiental e que, portanto, uma afronta a tal equilíbrio deve ser evitada sob pena de se está ameaçando a qualidade de vida de toda a coletividade, uma vez que o mesmo diploma define meio ambiente como bem de uso como comum, ocorrendo a “existência de um direito material constitucional caracterizado como direito ao meio ambiente, cujos destinatários são todos” 4 Uma população esclarecida dificilmente vai permitir que o meio ambiente ao qual tem direito, mas com qualidade, seja agredido por um sistema que põe em risco os recursos naturais e a saúde da população. A educação da população desde os primeiros anos de vida escolar é uma forma de se chegar ao equilíbrio do meio ambiente que é indispensável para a vida da pessoa que habita atualmente o planeta, bem como as gerações futuras e a Constituição Federal reconhece isso ao estabelecer a educação ambiental como um instrumento de proteção e como finalidade do Poder Público, como nas palavras de Édis Milaré: A partir da tutela constitucional, o processo educativo relacionado com o meio ambiente adquire uma dimensão transcendental, visto que ele se associa às finalidades do Estado enquanto representação da própria sociedade como decorrência de um pacto social. (...) Vale dizer, a Educação ambiental, como preceito constitucional, é uma exigência nacional que engloba dois aspectos distintos, contudo complementares: trata-se da exigência social e natural – duas faces da mesma moeda.5 O problema está no fato de que muitos não sabem da importância do bem ambiental para garantia da qualidade de suas vidas. Isso porque desde a colonização desse país ficou incutida na mente da população que os recursos naturais eram renováveis e que, portanto, a extração dos mesmos poderia ser feita sem qualquer tipo de cuidado. É preciso quebrar paradigmas, o que era visto como renovável não pode mais assim ser tido, além de que meio ambiente possui limites que precisam ser respeitados sob pena de o ser humano pagar preços altos em razão do desrespeito a tais limites. E é isso que deve ser esclarecido á população. 3 RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. São Paulo: Max Limonad, 2002, p.54. 4 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Princípios do processo ambiental. São Paulo: Saraiva, 2004. pág. 33. 5 MILARÉ, Édis. Direito de Ambiente. São Paulo: Revistas dos Tribunais, 2000. pág. 164.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 14 Além do disposto na Carta Magna existe a Lei de Educação Ambiental (Lei nº 9.795/99) que ratifica a premissa constitucional de proteção ambiental. Ela é um instrumento que concede eficácia à preservação disposta na Carta Maior, pois ela dá as diretrizes para o desenvolvimento da política de educação ambiental que deve ser desenvolvida pelo Poder Público, incumbido a este a promoção da educação ambiental em todos os níveis de ensino. E esta promoção está prevista tanto no inciso I do art. 3º da Lei 9.795/99 quanto no inciso VI do citado art. 225 da Lei Maior, o que atesta a sintonia entre os dois diplomas. É a mudança de postura da sociedade, educada e preparada para lutar por seus direitos, nesse caso, pela preservação do meio ambiente, que determinará a mudança de postura daqueles que formam o poder econômico e colocam em risco a qualidade dos recursos naturais e, por conseguinte, da vida humana. O meio ambiente é um direito de todos e de cada um assim como o é o dever de protegê-lo, mas isso se torna uma tarefa árdua se toda a população não estiver atenta para isso. E foi por essa razão que a Constituição colocou como dever do Poder Público a garantia dessa educação, para que a população tivesse o conhecimento da importância de preservar o meio ambiente. A implementação da educação ambiental nas escolas e na comunidade repercute em todas as áreas que podem contribuir para preservação ecológica, já que uma população informada é exigente e atuante o que contribui para a preservação ambiental, como nas palavras de José Kalil de Oliveira Costa: A sociedade civil educada com enfoque ambiental terá visão ecossistêmica da ordem pública jurídica e social e poderá assumir um papel mais participativo no controle da comunidade e do Estado, já que estará melhor qualificada para conseguir provocar a ação socioambiental mais efetiva da Administração Pública, a fim de se fazer implementar as Políticas Públicas de Educação Ambiental, dentre tantas outras (...)6. Sendo assim, a educação foi um dos instrumentos eleitos pela Carta Magna para tornar eficaz seu objetivo de proteção do meio ambiente. Além disso, convém aduzir que é através da educação ambiental que se pode chegar a uma mudança importante na sociedade de consumo, pois este é um lado relevante do atual sistema de produção, já que se trata do destinatário final dos produtos e serviços para os quais é, na maioria das vezes, sacrificado o bem ambiental. 3. O consumo sustentável Como foi dito, no início do ensejo, a forma de produção atual se baseia na mercantilização de recursos e no estímulo ao consumo. Todos os dias as vitrines comerciais apresentam produtos novos mais sofisticados, que desqualificam peremptoriamente o produto de ontem. Essa mensagem atinge diretamente o consumidor que se sente obrigado a adquirir um novo produto, sob pena de ser excluído da modernidade. O consumo cresce cada dia mais, o que leva a crer que a cada dia o bem ambiental é mais sacrificado, já que as tecnologias se modernizam objetivando o lançamento de produtos novos no mercado, mas o que permanece caduca é a forma de produção, que não se preocupa com a sustentação de tal método produtivo pelos recursos ambientais. Em razão disso, quando se fala em desenvolvimento tendo em vista o meio ambiente, não se pode esquecer na mudança de postura que deve assumir tais consumidores. O consumidor precisa ser um consumidor consciente, ou seja, que conhece suas responsabilidades perante o meio ambiente e que a mudança de sua postura contribui sobremaneira para degradação ambiental. Afinal, “é o ritmo do consumo dos bens ambientais que determina a velocidade com esses bens passem a ser escassos”7 Optando por produtos ou serviços que sejam menos danosos ao meio ambiente, ou que, se quer, lhe causem danos, a sociedade de consumo forçará os fornecedores a colocarem 6 COSTA, José Kalil de Oliveira. Educação ambiental, um direito social fundamental. In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002, pág. 448 – 449. 7 FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Consumo sustentável. In: Ibidem. Pág. 187.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 15 produtos dessa natureza no mercado. Trata-se do consumo sustentável. Essa forma de consumo é, sem dúvida, a maior busca que deve haver por parte da população, já que qualquer pessoa tem obrigação de preservar o meio ambiente e, enquanto consumidor, está usufruindo dos recursos ambientais, devendo procurar fazê-lo de forma responsável, como ratifica Lafayete Josué Petter: Aos consumidores são atribuíveis mais responsabilidades na proteção do meio ambiente. Como pondera a doutrina, a livre escolha do consumidor pode ser legitimamente limitada em nome da defesa do meio ambiente. Os consumidores, a cada dia precisam tornar-se mais conscientes da dimensão ecológica do processo de consumo em geral e de seu comportamento individual e particular8. Isso confirma a relevância do consumidor para o movimento de preservação ambiental, através da sua mudança de postura não só com relação ao que está consumindo, mas também com relação ao destino dado ao produto quando este não mais servir para o uso. Ao optar por determinado produto, o consumidor passa a ser responsável pela repercussão que aquele produto terá no meio ambiente. É importante que o produto seja biodegradável, já que o lixo é outra forma de agressão ao meio ambiente, mas que pode ser amenizada se o consumidor for responsável também no momento de descartar o produto. Ainda acerca do consumo, é válido salientar que a mudança na postura da sociedade consumerista não pode ser, apenas na opção por um produto não, ou menos, danoso ao meio ambiente, mas também na quantidade de produtos que estes consomem. Assim, “o consumo verde lança novos desafios para a comunidade mundial: a mudança radical nos processos produtivos, assim como nos aspectos quantitativos e qualitativos do consumo”. 9 E aqui se está diante do dilema de se educar toda uma sociedade treinada para consumir o quanto puder, a consumir somente o necessário e ainda optar por aquele produto que não agrida a natureza. E a palavra dita foi a mais acertada. Educar. A educação com foco ambiental é grande um instrumento. 3.1 A sociedade de consumo e a influência cultural A sociedade foi treinada, como dito, para consumir. Para tanto, alguns parâmetros foram estabelecidos para que esse consumo seja eficiente para o sistema de produção. Existe um parâmetro de beleza e para ter aquela beleza alguns produtos cosméticos são oferecidos para consumidor. Existe um padrão de vestir que é aquele ditado pela famosa indústria da moda. Enfim, isso acontece com os demais ramos da indústria. A preocupação com os danos que aqueles produtos causam ao meio ambiente e se a produção dos mesmos se utiliza de tecnologias que não agridem, ou amenizam a agressão, ao meio ambiente não faz parte das preocupações dos consumidores. Cria-se, então, uma cultura universal onde todos comem, vestem e calçam a mesma coisa, até aqueles ditos de estilo alternativo possuem um padrão. É a chamada indústria cultural que “insere no subconsciente humano a idéia de imitação, que passa a ser considerada como um valor absoluto.”10 Esse padrão de consumo precisa ser combatido e isso só é possível através da demonstração de que existem outros valores a serem observados. E formação desses novos valores para a formação de uma nova sociedade de consumo só ocorrerá através da educação ambiental. Como já foi dito, é através da educação que antigos paradigmas são quebrados. A educação ambiental possui um papel de grande importância para a mudança de parâmetro cultural da sociedade de consumo. 3.2 Educação ambiental para a formação de consumidores conscientes 8 PETTER, Lafayete Josué. Princípios constitucionais da ordem econômica: o significado e o alcance do art. 170 da Constituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. pág. 38. 9 SPINOLA, Ana Luiza S. Consumo Sustentável: o alto custo dos produtos que consumimos. In: Revista de Direito Ambiental. p. 215. 10 BASTOS, Lúcia Elena Arantes Ferreira Bastos. Consumo de massa e a ética ambientalista. In: Revista de Direito Ambiental. pág. 185.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 16 Antes mesmo de ser dispositivo constitucional a educação aliada ao meio ambiente já era pauta de alguns encontros de significativa importância, como é o caso da Conferência de Estocolmo em 1972 em que se destacou a importância de introduzir a educação ambiental nos estudos, principalmente de jovens e adultos com o fim de formar uma consciência de responsabilidade sobre a natureza. E mesmo depois na Conferência do Rio de 1992, em que se elaborou a agenda 21 que propôs a reorientação do ensino, devendo ser voltado para a consciência ambiental. O certo é que a educação ambiental sempre foi e é mencionada como meio de grande eficácia para a formação de uma postura responsável no consumo. A mudança na postura consumerista se tornou imprescindível para a sustentação da produção pelos recursos naturais e o, mais importante, para a preservação dos mesmos. E isso é relevante destacar que a preservação do bem ambiental não é apenas para que o sistema de produção continue, mas para que o meio ambiente seja protegido e preservado para as futuras gerações como reza o dispositivo constitucional. A educação ambiental é um instrumento de grande eficácia para que o consumo sustentável não seja um processo falacioso. É preciso que, como nas palavras de José Kalil de Oliveira Costa: A educação ambiental contemple a formação de valores e alterações de paradigmas arraigados em nossa sociedade, por um processo de aprendizado que é muito mais abrangente, capaz de despertar no individuo a cidadania, a responsabilidade social e a preocupação com o bem estar comum, criando uma consciência crítica acerca da necessidade de harmonizar as atividades humanas com a proteção ao Meio ambiente11. A educação entra, assim, como válvula propulsora da mudança de comportamento. É preciso que o consumidor esteja bem informado e o Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 31, garante o direito ao consumidor terem acesso a qualquer informação acerca do produto ou serviço que adquire. Sendo assim, o consumidor tem direito de optar por um produto que seja ou não menos danoso ao meio ambiente e essa opção só será benéfica ao meio ambiente se houver uma preparação do consumidor pra isso preparação essa que fica a cargo da educação ambiental. Assim, é muito mais do que ter direito à informação sobre o produto, mas ter a consciência de que tal produto é danoso ou apresenta riscos ao meio ambiente e que essa consciência influencie na escolha. “Dessa forma, se permite que a abertura comunicacional proporcionada pelo discurso ecológico atue diretivamente na orientação de qualquer conduta e atividade de intervenção sobre o ambiente”12 A educação ambiental abre a comunicação para que a sociedade seja formada para ter consciência ambiental e até se torne curiosa no sentido de buscar formas de proteger o meio ambiente o que vai influenciar nas suas escolhas com relação, principalmente, ao que consumir e como consumir. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O estágio atual em que se encontra a biota não se pode mais pensar em mudança de postura da população como algo a ser deixado para depois. É preciso formar pessoas comprometidas com a preservação do meio ambiente urgentemente. E isso é possível através da promoção da Educação Ambiental. Foi visto no ensejo que a Constituição impõe ao Poder Público a implementação da educação ambiental nas escolas, o que mais tarde foi regulado também através de lei específica, qual seja a Lei nº 9.795/99, Lei de Educação Ambiental. Todas as pessoas são consumidoras em potencial. Portanto, formar uma população consciente é formar consumidores conscientes, que se preocupam com o impacto que seu consumo terá no meio ambiente. A educação ambiental deve fazer parte da prática escolar, mas também das 11 COSTA, José Kalil de Oliveira. Ob. cit. Nota 5. pág. 450. 12 LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito ambiental na sociedade de risco. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002. pág. 92.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 17 conversas em casa e também nas comunidades. Associações de bairro podem contribuir bastante para essa mudança na mentalidade de jovens, adultos e crianças. É preciso que haja uma mudança de valores, para que isso repercuta na forma de consumo e consequentemente obrigue uma mudança no próprio sistema. O que define a produção é a demanda. Sendo assim, se os consumidores procurarem cada vez mais produtos que não agridam a natureza e que seu descarte não gere tantos transtornos, o fornecedor indubitavelmente procurará suprir essa demanda. A educação é, pois, o caminho seguro para a formação de consumidores conscientes que protegem e preservam o meio ambiente seguindo o dever imposto pela Constituição Federal ao garantir o direito ao meio ambiente de qualidade. 5. REFERÊNCIAS BASTOS, Lúcia Elena Arantes Ferreira Bastos. Consumo de massa e a ética ambientalista. In: Revista de Direito Ambiental. N. 43. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006. BENJAMIN, Antonio Herman. Meio ambiente e Constituição: uma primeira abordagem. In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002 COSTA, José Kalil de Oliveira. Educação ambiental, um direito social fundamental. In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002. FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Consumo sustentável. In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002. FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Princípios do processo ambiental. São Paulo: Saraiva, 2004. LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito ambiental na sociedade de risco. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002. MILARÉ, Édis. Direito de Ambiente. Doutrina – jurisprudência – prática e glossário. São Paulo: Revistas dos Tribunais, 2000. PETTER, Lafayete Josué. Princípios constitucionais da ordem econômica: o significado e o alcance do art. 170 da Constituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. São Paulo: Max Limonad, 2002. SEARA FILHO, Germano. O que é a Educação Ambiental. In: Desenvolvimento Sustentado: Problemas e estratégias. Editora: Elisabete Gabriela Castellano. SPINOLA, Ana Luiza S. Consumo Sustentável: o alto custo dos produtos que consumimos. In: Revista de Direito Ambiental. N. 43. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 18 AGRESTE SETENTRIONAL DO ESTADO DE PE: IMPACTOS AMBIENTAIS CARACTERIZADOS PELO PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO EM SERRA SECA-PE Niédja Maria Galvão Araújo e OLIVEIRA Universidade de Pernambuco/UPE noliveir@oi.com.br João Allyson Ribeiro de CARVALHO Universidade de Pernambuco/UPE allysondecarvalho@hotmail.com Mariana Mendes NOGUEIRA Universidade de Pernambuco/UPE, Bolsista PIBIC/CNPq ABSTRACT The protection of areas susceptible to desertification in Brazil should be seen as a priority to the welfare of the nature and of the society which inhabits them. This research brings as aim to analyze the resources of nature, that are in process of degradation in the area of Serra Seca in Santa Maria do Cambucá-PE, while observing the continuation of a larger research project in this area. About the methods and techniques, it was used a methodology connected directly in the field, combined with analysis of staff, soil and interviews, all of these are the basis for a theoretical and practical work. Still, we present the identification of the area undergoing rapid desertification, which brings out a guiding of this process, through human activities, incompatible with the carrying capacity of the environment. KEYWORDS: Desertification; Mineral Extraction, Soil Degradation. RESUMO A proteção das áreas susceptíveis a desertificação no Brasil devem ser vistas como prioridade ao bem-estar da natureza e da sociedade que nelas habitam. A presente pesquisa versa à leitura de objetivo voltado a analisar os recursos da natureza e da sociedade que encontram-se em processo de degradação na área da Serra Seca no município de Santa Maria do Cambucá-PE, pautando-se em continuidade de uma pesquisa maior dentro da área. No que se refere aos métodos e técnicas, foram utilizadas a metodologia direta de campo consorciada com análises de gabinete, analise de solo e entrevistas. Elementos basilares para fundamentação teorico-prática ao trabalho com a identificação da área em acelerado processo de desertificação, apresentando características que norteiam a esse processo, desencadeadas por atividades antrópicas incompatíveis com a capacidade de suporte com o ambiente. PALAVRAS-CHAVE: Desertificação. Extração Mineral. Degradação de Solos. INTRODUÇÃO O processo de desertificação é um fenômeno que vem preocupando diversos países, face à sua grande perda da biodiversidade e inserção maléfica ao socioeconômico do lugar. O Brasil não está excluído dessa realidade degradativa: oito estados do Nordeste, além do norte de Minas Gerais sofrem riscos potenciais ao processo de desertificação. Muitos locais, já com variados níveis de ocorrência, como se faz sentir na região de Serra Seca, área objeto de estudo, localizada no Município de Santa Maria do Cambucá/PE, cuja posição geográfica é de 7º 48’ 45’’ de latitude S e 35º 52’ 50’’ de longitude W de Greenwich (Figura 01).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 19 Figura 01: Localização da área de estudo. Fonte: EMBRAPA, 2005. O processo de desertificação vem sendo tratado desde os anos 30 do século passado. No entanto, a evolução dos modelos de recuperação de tal processo se deu em 1992, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano do Rio de Janeiro, quando foi possível delimitar conceitualmente o fenômeno desertificação, suas causas e efeitos, antes tratados com várias divergências entre os estudiosos. Na referida Conferência foi aprovado o documento discutido e válido até a atualidade. Pode-se exemplificar a partir da Agenda 21 nacional que em seu 12° capítulo define desertificação como: “(...) a degradação da terra nas regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”. Antes da formulação da Agenda 21 nacional, ocorreram discussões referenciando-se aos fatores que atuavam na deflagração dos núcleos de desertificação, sem definição clara entre desertificação e desertos. Além da Agenda 21, Nimer (1988, p. 04) também tratou do assunto, diferenciando deserto como sendo um estágio final de degradação, tendo características próprias, e a desertificação como um processo em que estas características se tornam variáveis de acordo com o grau da evolução degradante: “Deserto e Desertificação, embora tenham a mesma etimologia e, de certa forma, fundamentos semelhantes, designam coisas distintas. Deserto é um fenômeno acabado e resultante da evolução de processos que alcançaram certa estabilidade final, e que pode ser definida como um clímax ecológico, isto é, por uma espécie de equilíbrio homeostático natural”. Os impactos naturais vêm sendo visualizados, no ambiente, através da eliminação da cobertura vegetal com consequente redução da biodiversidade local, permitindo que os solos fiquem mais vulneráveis à erosão, como por exemplo: as águas da chuva que arrastam todos os seus nutrientes inorgânicos e orgânicos, provocando nos rios enchimento dos leitos, fenômeno este conhecido como assoreamento. Tais erosões fazem com que ocorram perdas, parcial ou total nos solos, seja por fenômenos físicos (voçorocas) ou fenômenos químicos (salinização e alcalinização). Além disso, a incapacidade de retenção de água nos solos aumenta à seca edáfica. Todos esses fatores afetam a fertilidade e a produtividade agrícola, impactando o ambiente. Elementos esses, problemas à economia, como a queda na produção e produtividade agrícola, diminuindo a renda e o consumo da população, resultando na desorganização do mercado local e regional. Prejuízos sociais como estes, são caracterizados pela diminuição da qualidade de vida, o aumento da mortalidade infantil e diminuição da expectativa de vida da população. Em
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 20 geral, pode-se afirmar que a população de Serra Seca é uma das mais pobres do Estado sem acesso à educação e à renda adequada. Os impactos na região de Serra Seca não deixam de ser perceptíveis, assim como as áreas que sofrem com a desertificação, essa região padece consequências dos impactos citados acima, principalmente os que afetam os aspectos físicos, com a retirada da cobertura vegetal, e da areia para a construção civil, e os que afetam os aspectos econômicos com a perda da produção da castanha de caju, entre outros que existem na região, desestruturando a renda familiar e o comércio regional. A desertificação não é um processo irreversível, porém, as recuperações das áreas afetadas podem ser inacessíveis para muitos. É preocupante que, na maioria das localidades brasileiras, o desenvolvimento sustentável ainda seja algo distante de ser percebido, principalmente, onde a desertificação e a seca estão presentes, devido à carência da população que nela habita. O trabalho em referência já se encontra em desenvolvimento desde 2008, na região do Sítio do Manduri, município em pauta, cujo norte de intensificação da área de pesquisa passou a massificação face o processo de desertificação não estar exclusivamente pontuado no Sítio do Manduri, mas que amplia-se em outras áreas implícitas no município e até mesmo estendendo-se até outros, como se exemplifica em Vertente do Lério. Esse último, através da extração do calcário. Diante do exposto, a pesquisa versa como objetivo de potencializar análises do meio físico e socioeconômicos, de modo a priorizar o processo emergente de desertificação na área e suas consequências no ambiente, associado a processos migratórios do município de Santa Maria do Cambucá para as áreas adjacentes de oferta de mão-de-obra. METODOLOGIA Para a elaboração da pesquisa, foi necessário detectar o problema através da observação em campo, do reconhecimento da degradação ambiental, das entrevistas e as pesquisas bibliográficas no que diz respeito à desertificação, suas causas e consequências. Para obtenção dos resultados, necessário se fez a parceira com a Prefeitura Municipal de Santa Maria do Cambucá e a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado de Pernambuco- SECTMA/CONSEMA. No concernente à metodologia aplicada, estriba-se numa combinação peculiar para percepção das investigações a seguir: a revisão bibliográfica veio contribuir para o subsídio da fundamentação teórica necessária ao embasamento deste trabalho. Utilizaram-se ainda mapas climáticos, geológicos, pedológicos, hidrográficos, políticos e imagens de satélite. A coleta de amostras do solo, para análise químico-física e teor de matéria orgânica será imprescindível para verificação do grau de probabilidade ao processo de desertificação e ao mesmo tempo à execução de um manejo sustentável. Essas análises estão sendo aferidas em laboratório. Nesse sentido, pluraliza-se viabilidades de conscientização no âmbito ambiental. Os participantes da pesquisa têm como objetivo fazer com que as famílias do município tenham condições de viver do cultivo do caju, utilizando-o não apenas para a extração da castanha, mas também aproveitando o seu pseudofruto, seja para a produção de doces e outros produtos. Para tanto, o tratamento da presente proposta está sendo desenvolvida a partir de encontros e oficinas com a população local. Através das entrevistas foram coletados dados sobre a estrutura sócio-econômica do local, buscando soluções para a problemática. Tais soluções estão pautadas na adoção de alternativas como programas para a sensibilização das famílias residentes nas áreas de extração. Como material técnico, foram utilizados: bússola para a aferição do grau das vertentes, o GPS para a localização e avaliação do tamanho das áreas degradadas, altímetro, que junto com o GPS foi utilizado para
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 21 medir as altitudes, sacos plásticos, pás e espátulas para a coleta de material, e trenas para a medição das vertentes. RESULTADOS E DISCUSSÃO A extração de areia que acontece na área foco de trabalho é um espelho das condições em que vivem a população desfavorecidas da região. A necessidade e a desinformação são as principais causas das vendas e alugueis de lotes para comercialização de sedimentos. A partir desta lacuna aberta, as empresas propõem a estas famílias lucro imediato. Quem permite a extração em sua propriedade não tem consciência de que a terra se tornará improdutiva. No sentido de compreender e solucionar essa problemática encontra-se em processo de realização a tabulação dos dados obtidos com as entrevistas realizadas com os moradores da área, uma vez que estes são os elementos fundamentais por serem os atores diretos do processo de degradação in loco. Encontra-se em fase de trabalho a conscientização da população, com visitas a colégios locais e palestras abertas às pessoas diretamente ligadas à atividade de extração de areia. Essas atividades vêm sendo apoiadas através da Prefeitura. As entrevistas com os atores locais para a análise dos trabalhos encontram-se em desenvolvimento, portanto, as mesmas não deverão aparecer no texto em face de não representarem no momento a realidade do processo social em estudo. Com a sequência de trabalhos técnicos de campo, percebeu-se que a extração de areia é feia a partir da venda ou aluguel de lotes de terra. Grande parte da areia retirada segue para municípios vizinhos, para a indústria de construção civil. E, na maioria das vezes, não mais com a retirada à base da pá (Figura 02), mas sim através de retro escavadeiras (Figura 03), retirando sedimentos em volume muito mais acentuado, chegando a alimentar indústrias de construção civil de grande porte na cidade do Recife. Figura 02: utilização da pá enquanto ferramenta. Figura 03: uso de escavadeira. No caso do caju, também é utilizado para a extração da castanha, que segundo uma das entrevistadas, é comercializada com um lucro médio mensal de R$50,00. Esta prática pode contribuir no combate à desertificação, já que para cessarem as vendas e os alugueis de terras, as famílias precisam de um trabalho que traga renda. O estudo realizado pela EMBRAPA (2009) mostra que o Município de Santa Maria do Cambucá possui 63% de aptidão para a cultura do caju, o que é um bom percentual visto que o solo e o clima não são favoráveis para todos os tipos de cultura. Porém, falta às famílias de produtores o aprimoramento desta atividade, como cursos de capacitação que os ajudem, a trabalhar a matéria-prima. Segundo outro entrevistado, foi construída uma Usina de Benefício do Caju e da Castanha, que ajudaria os agricultores no trabalho com o caju. Porém, segundo ele, a mesma foi construída longe da população (no centro urbano) e acabou por não fazer o trabalho para o qual se destinava. Todavia, a usina atualmente após esse trabalho de pesquisa, já se encontra lotada na área de produção, para seu beneficiamento.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 22 É notável que a desertificação gere múltiplos prejuízos econômicos e sociais. O êxodo rural na região afetada é bastante comum. Considerando as entrevistas, foi percebido que as novas gerações das famílias residentes na área vêm para a capital, tentando fugir da pobreza, fato que vem agravando os problemas de infra-estrutura já existentes. No caso do município de Santa Maria do Cambucá, o fenômeno do êxodo rural acontece quando as famílias percebem que a terra se tornou pouco ou totalmente improdutiva após a degradação. De acordo com a SECTMA (1993, p. 03), a degradação das terras causa sérios problemas econômicos. Isto se verifica principalmente no setor agrícola, como comprometimento da produção de alimentos. Além do enorme prejuízo causado pela quebra de safras e diminuição da produção. Como a prática da retirada de areia é ativa em certos terrenos, é possível observar na Figuras 04 e 05 as áreas desnudadas após a partida de caminhões que levam o mineral. Figura 04: Área degradada. Solo estéril. Figura 05: Cratera após a retirada da areia. A retirada da areia junto ao lucro traz consigo uma condição irreversível para a terra, pois o solo fica vulnerável à ação das chuvas, que escoam e carregam os nutrientes da área afetada, destruindo a cobertura vegetal e trazendo prejuízos a médio e/ou longo prazo. Este fato se dá pela falta de permeabilidade da rocha matriz, sendo esta formada pelo embasamento geneticamente de origem do planalto da Borborema. A Figura 06 mostra o afloramento da rocha matriz após a extração da areia. Os prejuízos em longo prazo são mais preocupantes neste município, pois a agricultura é o meio de subsistência da maioria das famílias residentes. Estas têm como principais atividades o cultivo de feijão, milho e do caju, que na sua maioria são para consumo próprio. Com as visitas de campo, foram coletados alguns dados sobre as crateras e locais degradados. Serão abordados a seguir alguns fatores que mudam após modelos de uso e ocupação do solo inadequado. Atividade degradante: Em média 80% das crateras visitadas já são inativas, ou seja, chegaram a um ponto em que os nutrientes e sedimentos finos se extinguem só restando a rocha matriz. Nessas áreas podem ser observados troncos de árvores empilhados a serem comercializados. (Figura 07).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 23 Figura 06: Afloramento da rocha matriz depois de retirada Figura 07: madeira a ser comercializada proveniente do indiscriminada de sedimentos. Cajueiro. Unidade de relevo: Representada por pediplanos. Grande parte das áreas analisadas demonstra um relevo de depressão relativa, aplainado com baixas altitudes também causadas pelos processos intempéricos. O relevo estudado variou entre ondulado, levemente ondulado ou plano, não tendo grandes variações de altura, a não ser nas vertentes das crateras, que chegam até 7 metros, visualizado na Figura 06. Altitude: Foram aferidas com a ajuda do aparelho de GPS, medidas em cada ponto das vertentes formando um “X”, variando de 423m a 494m. Um fato importante para a interpretação ambiental da área, que por sua vez não apresenta declividades acentuadas apesar das consideráveis médias de altitude. Hidrologia: Antes da retirada da areia, poucas vezes o solo consegue reservar água em sua superfície pelo fato do relevo ser constituído de cobertura de regossolos, com altas taxas de permeabilidade. Solos: Foram encontrados os seguintes tipos de solo: Regossolo: Em grande parte das áreas visitadas foi encontrado esse tipo de solo, quase massificado localmente. As areias quartzosas distróficas ocupam o segundo tipo de solo mais aflorante. Este solo como o regossolo possui grande poder de percolação, por ser um solo ácido não retém umidade em seu perfil. Esse fato agrava o problema da população local, pois não existem reservas para absorção de água necessária ao consumo. O Poder Público implementou nas áreas críticas cisternas para o armazenamento de águas pluviais. Vegetação: Foram encontrados tipos de vegetação arbórea, arbustivas e herbáceas retratando o domínio da caatinga, verificou-se algumas espécies atípicas a este domínio sendo a maioria frutíferas, como o caju nativo com predomínio, coco, pinha, limão, goiaba, tamarindo e jaca (cultura), que pelo que aparentavam estavam adaptadas ao ambiente. Dinâmica instável: Em alguns casos são encontradas moradias na proximidade das crateras. Porém, na grande maioria, não há população perto das atividades de extração, enfatizando- se, portanto, uma dinâmica voltada para a retirada indiscriminada de sedimentos. Aptidão Natural: A maior parte dos terrenos possui aptidão para o cultivo do caju. Também há, em alguns locais, aptidão para a palma, agricultura de subsistência, pecuária e laboratório para aulas práticas. CONCLUSÕES A busca por condições sociais favoráveis nem sempre é bem sucedida. Na maior parte das vezes, quem vem para a cidade no intuito de buscar melhores condições sociais, acaba vivendo à margem da sociedade, não participando da força de trabalho e agravando a estrutura urbana. Para que a degradação ambiental progressiva do Município de Santa Maria do Cambucá seja reduzida, fazem-se necessárias Políticas Publicas que venham estimular a comunidade a se fixar no campo, evitando o êxodo.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 24 A degradação da área de Serra Seca ocorre devido à extração exacerbada das areias nas áreas menos desenvolvidas, por meio da negociação com os proprietários dos lotes que alugam a área para a retirada da areia. Essa extração é muitas vezes feita por indivíduos de municípios vizinhos que procuram este tipo de solo para a retirada e utilização na construção civil. Esta prática vem trazendo grandes problemas para a população, desde a falta de terra fértil para o plantio, quanto à marginalização da parcela afetada por esta atividade. A estrutura original da área se mostra por uma área de depressão relativa e em seu entorno, testemunhos residuais do Planalto da Borborema e o calcário do município de Vertente do Lério. O relevo local e tipo de solos, em junção com a escassez relativa de pluviosidade torna bastante difícil o acúmulo de umidade no solo. Por ser de relevo de pediplano e solos porosa a água da chuva, escoa e infiltra de forma a não permitir a concentração de nutrientes e consequentemente retenção de umidade. Apesar de toda a dificuldade de fertilidade, o cajueiro é bastante comum no local, o que pode ser o ponto inicial da tomada para a sustentabilidade das famílias residentes ali, já que para a extração da areia faz-se necessária a retirada da cobertura vegetal, e consequentemente, do solo. Nessa instância, para que a cultura do caju possa progredir as retiradas de sedimentos precisam cessar urgentemente. A adoção de ações pautadas na Educação Ambiental deve subsidiar as atividades inseridas na área com vistas à meta do desenvolvimento local e sustentável. A presente meta está sendo perseguida a partir de pequenas, todavia, importantes ações propostas pelo presente estudo e com a anuência da Prefeitura Municipal. Só com o consórcio da comunidade, Poder Público e Academia, o futuro do Município de Santa Maria do Cambucá poderá assegurar aos seus cidadãos sustentabilidade local e ambiental. REFERÊNCIAS BRASIL, Senado Federal. Conferência das nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Rio 92. Agenda 21. Brasília: Senado Federal; Subsecretaria de edições técnicas, 1996. EMBRAPA, Zoneamento Pedoclimático do Cajueiro para o Estado de Pernambuco. Disponível em: http://www.uep.cnps.embrapa.br/caju/index.php?link=index. Acesso em: 20/11/2009. NIMER, E. Desertificação: Realidade ou Mito? Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, 50 (1): 7 – 39 jan/mar, 1988. PERNAMBUCO. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Plano de desenvolvimento florestal e da conservação da biodiversidade de Pernambuco. Recife:Sectma- PE, 1993.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 25 ANÁLISE DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DA COMUNIDADE RIBEIRINHA PANTANAL EM ARACAJU BIANCHINI, Ilka Maria Escaliante Rede Estadual de Ensino SE - Professora ibianchini@yahoo.com.br LIMA, Josael Bruno de Souza Rede Estadual de Ensino SE – Professor jobs@infonet.com.br SANTOS, Lorena Xavier SENAI SE – Docente lorenasantos@se.senai.br RODRIGUES, José Lourenço SENAI SE – Docente joselourenco@se.senai.br ABSTRACT The necessity of protection for the aquatic environments has been assuming the projection of global order. The adaptation of managerial and domestic processes with relationship to the release of sewers and garbage is urgent and it requests of the competent organs a more critical glance in than says respect to the environmental preservation. In another sphere, the environmental education gone back to the riverine communities that a lot of times pollute the waters of the rivers for knowledge lack makes itself necessary, because the pollution of water by riverine besides being an environmental problem is also a public health problem. The objective of this work is to analyze the environmental perception of a riverine community in the Pantanal, located the river Poxim near the neighborhood Inácio Barbosa in Aracaju, Sergipe. Data collection through site visits and investigative questionnaires, showed us the list of people who live there with the river Poxim. KEYWORDS: Environmental degradation; Riparian; river Poxim. RESUMO A necessidade de proteção aos ambientes aquáticos tem assumido projeção de ordem global. A adequação de processos empresariais e domésticos quanto ao lançamento de esgotos e efluentes é urgente e requer dos órgãos competentes um olhar mais crítico no que diz respeito à preservação ambiental. Numa outra esfera, a educação ambiental voltada para as comunidades ribeirinhas que muitas vezes poluem as águas dos rios por falta de conhecimento faz-se necessário, pois a poluição das águas pelos ribeirinhos além de ser um problema ambiental é também um problema de saúde pública. O objetivo geral deste trabalho será o de analisar a percepção ambiental da população ribeirinha da comunidade do Pantanal, localizada as margens do rio Poxim, próximo ao bairro Inácio Barbosa em Aracaju, Sergipe. O levantamento de dados deu-se através de visitas “in loco” para aplicação de questionários investigativos, que se evidenciou uma relação de pessoas que ali habitam com o rio Poxim. PALAVRAS-CHAVE: Degradação ambiental; Mata ciliar; rio Poxim. CARACTERIZAÇÃO DO RIO POXIM O rio Poxim, é um dos principais afluentes da margem direita da Bacia Hidrográfica do Rio Sergipe, é considerado uma sub-bacia que abrange parte dos municípios de Itaporanga D’Ajuda, Areia Branca, Laranjeiras, Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão e Aracaju recebendo as águas dos rios Poxim-Mirim, Poxim-Açu e Pitanga, tendo sua foz na maré do Apicum. A região estuarina do rio Poxim, está localizada na região sudoeste do Estado de Sergipe, possuindo uma extensão de aproximadamente 9 km, com cerca de 100 m de largura e profundidade média de 2 m. O estuário do rio Poxim é uma das principais fontes de abastecimento de água do Estado, recebendo uma grande carga poluidora decorrente da industrialização e do crescimento urbano desordenado. Levando-se em consideração que as concentrações de nutrientes (nitrogênio e
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 26 fósforo), estão geralmente relacionadas à carga poluidora recebida pelo ecossistema aquático, onde elevados valores servem como indicativo do estado de eutrofização é, portanto, de grande importância o controle dos teores de nutrientes neste ambiente. A necessidade de proteção aos ambientes aquáticos tem assumido projeção de ordem global. O derramamento de óleo, despejos industriais e domésticos, rejeitos de origem hospitalar, contaminação por fertilizantes e pesticidas, desmatamento de manguezais, bem como, redução de espécies animais e vegetais, constituem foco da atenção a fim de estabelecer proteção adequada aos recursos marinhos e aquáticos. A área estudada compreende a região que fica localizada atrás do Conjunto Beira Rio, no Bairro Inácio Barbosa e surgiu de uma invasão tendo às margens o Distrito Industrial de Aracaju (DIA), onde se encontram indústrias de produtos alimentícios, móveis, plásticos, produtos têxteis, químicos, dentre outras. Constitui-se em um dos principais afluentes do rio Sergipe, amplamente utilizado pela população do estado desde a captação de águas pela Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO), ao uso indiscriminado pela população em geral e comunidades ribeirinhas, que apesar de retirar o sustento de suas famílias, possuem relações bem próximas com o rio no que diz respeito a lazer, prática de esportes, uso das águas para lavagem de roupas, despejo de lixo entre outros. A destruição da mata ciliar e os desvios feitos em mananciais por fazendeiros da região também vem contribuindo significativamente para a agressão ao rio, influenciando no volume de água. De acordo com o Comitê da bacia hidrográfica do rio Sergipe, a qualidade da água do rio Poxim em alguns trechos é sofrível, apresenta altos índices de metais pesados, coliformes fecais e pesticidas, prejudicando ainda mais o ecossistema do rio. O lançamento de efluentes domésticos e industriais sem tratamento eleva os processos de eutrofização do rio, comprometendo a vida do ecossistema e a vida das pessoas que utilizam as suas águas. O Poxim percorre vários bairros da capital sergipana, onde a maioria não possui uma rede de saneamento correta e todos os dejetos que saem das casas da área em questão, sejam eles orgânicos ou artificiais, são jogados diretamente no rio. O estuário do Rio Poxim pode ser caracterizado como um ambiente bastante impactado, com resíduos oriundos basicamente do aporte de efluentes industriais e domésticos que não tem tratamento adequado. Seu estado de eutrofização é bastante elevado, o que requer ações de mitigação para colocá-lo em condições ambientais sustentáveis. COMUNIDADE PANTANAL: A INTERAÇÃO ENTRE OS ELEMENTOS ECOLÓGICOS E SOCIAIS O Pantanal fica localizado atrás do Conjunto Beira Rio, no Bairro Inácio Barbosa na zona sul de Aracaju e surgiu de uma invasão a mais de 25 anos. Os problemas de infra-estrutura desta comunidade em maior ou menor grau condenam a qualidade de vida da população. Curiosamente, o Pantanal está situado entre o Distrito Industrial de Aracaju, cujas atividades parecem não ter absorvido a mão de obra local, fato que poderia ter auxiliado no desenvolvimento da comunidade, e o Parque dos Coqueiros, bairro de classes média e média alta. No presente estudo, procurou-se conhecer as percepções relacionadas ao meio ambiente da população ribeirinha do Assentamento Pantanal as margens do Rio Poxim, no município de Aracaju, para que a questão ambiental pudesse ser contextualizada como um sistema complexo, com a interação entre os elementos ecológicos e sociais. A população atual é genuinamente urbana e composta por aproximadamente 500 famílias, segundo pesquisa de 2005 realizada pela Secretaria Municipal de Saúde. Quem segue pelo primeiro trecho do conjunto Beira Rio, bairro regulamentado nas proximidades do rio Poxim, depara-se de repente com uma mudança radical de paisagem. O caminho inicial é repleto de casas grandes, algumas até luxuosas, e a pista é asfaltada. Alguns metros depois a situação é bem diferente. Não há mais asfalto, só uma estrada de terra. É aí então que começa a Comunidade Pantanal, margeando o
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 27 rio Poxim. O acesso é feito por um estreito caminho chamado de Avenida Pantanal que segundo moradores, há muito tempo, foi a primeira avenida aberta na comunidade. A área apresenta problemas de infra-estrutura que, em maior ou menor grau, condenam a qualidade de vida da população e comprometem o ambiente natural onde a comunidade esta instalada. Curiosamente, o Pantanal está situado entre o Distrito Industrial de Aracaju, cujas atividades parecem não ter absorvido a mão de obra local, fato que se ocorrido, poderia ter auxiliado no desenvolvimento da comunidade, e o Parque dos Coqueiros, bairro de classes médias e médias alta. Diante da crise ambiental que a humanidade está atravessando, à exploração equivocada dos recursos naturais e à poluição diversificada do planeta, as questões referentes ao meio ambiente adquirem grande importância. Entretanto, os problemas ambientais não estão restritos aos elementos ecológicos, cuja degradação está combinada com a rápida expansão populacional e com a visão fragmentada da sociedade. Esses problemas não podem ser entendidos isoladamente, pois são problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. As soluções para estas questões requerem mudanças de percepção em relação aos valores humanos, através de uma reflexão ética para com as atitudes em relação ao meio ambiente. A escola por sua vez, torna- se parte integrante na agregação destes valores ambientais que devem ser abordados, auxiliando na construção de conceitos e ampliando a visão dos cidadãos em todos os níveis da sociedade. O surgimento de metodologias de ensino participativas em prol da democracia, do exercício da cidadania e da qualidade de vida deve existir para todos da mesma forma, respeitando a diversidade cultural e as identidades dos grupos sociais. Neste sentido, a escola apresenta grande potencial para a identificação, diagnóstico e contribuição no esclarecimento das questões ambientais da comunidade à sua volta, uma vez que estudantes, professores e funcionários levam suas vivências para a prática cotidiana escolar. Para tanto a identificação das representações desses sujeitos sobre as questões ambientais deve ser o primeiro passo para a elaboração de um projeto de educação ambiental. O conceito clássico de Bacia Hidrográfica explicita basicamente o conjunto de terras drenadas por um corpo d’água principal e seus afluentes, numa perspectiva hidrológica (PIRES et. al, 2002). Esse conceito, porém, vem se expandindo, uma vez que a bacia hidrográfica vem se tomando uma unidade de planejamento e gerenciamento ambiental. Essa unidade é apropriada para estudos ambientais integrados, pois sobre os sistemas hidrológicos, geológicos e ecológicos de uma bacia hidrográfica atuam forças antropogênicas, onde os sistemas biogeofísicos, econômicos e sociais interagem. (TUNDISI, 2003) A interação humana da comunidade Pantanal com o rio Poxim tornou-se foco principal no levantamento de dados norteadores acerca da percepção ambiental dos moradores desta região, com a finalidade de averiguar a estreita relação existente entre homem e meio ambiente. No presente estudo, o conhecimento da percepção ambiental da comunidade Pantanal sobre o Rio Poxim, no município de Aracaju, foi essencial para que a questão ambiental local pudesse ser contextualizada como um sistema complexo, com a interpretação da interação entre os elementos ecológicos e sociais. A Comunidade Pantanal apresenta problemas de infra-estrutura que a mais de 25 anos, engessam a elevação da qualidade de vida da população: saneamento básico precário e/ou improvisado, ausência de calçamento, iluminação pública deficitária, falta de segurança e dificuldade de acesso aos programas sociais e/ou educativos. O poder público municipal apenas se faz presente pela regularidade da coleta de lixo. O Pantanal se subdivide em duas etapas. Uma delas, provavelmente a mais antiga, é conhecida por muitos como Vila do Rato, parte da invasão que possui mais de vinte anos de existência e é a parte mais pobre do Pantanal. O acesso a esta etapa é feito por um estreito caminho na beira do rio. As casas (barracos), improvisadas e sem condições de habitação, acompanham a margem direita do Poxim e se espalham por algumas ruas. A segunda parte, cujos traços de urbanização são mais evidentes (guardadas às devidas proporções), apresenta construções mais bem acabadas, feitas de alvenaria e um número mínimo de dependências (quarto, sala, cozinha e banheiro). Todavia, vale à pena sublinhar a existência de
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 28 casas que, com dois quartos (amplos) e bem divididas, acabam por se destacar dentre as demais habitações. A partir de um questionário dirigido à comunidade no dia 08 de julho de 2009, foi possível adquirir algumas informações pertinentes ao trabalho visitando 70 residências, com média de 04 pessoas por família. Perguntadas inicialmente se sabiam quais os motivos principais que levam a escassez de água no Planeta Terra, 77% dos entrevistados afirmaram que sim, e apontaram o desmatamento, o desperdício de água, o aquecimento global, lixos domésticos e dejetos industriais como as maiores causas de degradação ambiental. Solicitados que justificassem suas respostas, aproximadamente 81% dos entrevistados demonstraram possuir informações mesmo que superficiais a respeito dos reais motivos que tem levado a escassez de água no planeta, e cerca de 19% desconhecem as suas reais causas. Para os moradores as causas que mais contribuem para a escassez de água no Planeta Terra são: o desperdício de água (50,8%), o desmatamento (15,4%) e a poluição (13,8%) de água no Planeta Terra. As tabelas a seguir ilustram muito bem esta realidade que constatamos a partir de depoimentos dos habitantes da região. As demais causas juntas representaram apenas 13,0%, consideradas, portanto desprezíveis para uma análise mais profunda. Os moradores foram indagados se conheciam quais as causas de agressão aos rios que banham a capital sergipana, especialmente o rio Poxim. Aproximadamente 94,40% dos entrevistados disseram que sim, cerca de 4,40% afirmaram desconhecer e os 2,20% restantes nada informaram. De posse destes dados, pedimos que citassem os principais agentes causadores desta poluição. Após a análise e discussão chegou-se aos seguintes resultados: 42% citaram o lixo comum, 21,74% os dejetos industriais, 16,31% citaram os esgotos domésticos e 9,79% a falta de conscientização da população. Os entrevistados citaram o lixo, os poluentes industriais e a falta de tratamento de esgoto com peso relevante para os resultados, ou seja, constituindo-se em 80,44% do problema. Foi possível observar que todo tipo de dejeto produzido nos barracos vão direto para o rio, nem todas as casas possuem fossa séptica e isso torna-se um grande problema para os moradores e para o rio. No inicio do assentamento pescadores e familiares se alimentavam do rio. O pescado hoje no Rio Poxim praticamente não existe, estando bastante escasso devido à poluição produzida pelas fábricas do Distrito Industrial de Aracaju e pelas residências da própria comunidade. Uma das perguntas dirigida à comunidade é se conheciam o que pode causar as queimadas e a devastação das matas ciliares aos rios. O primeiro passo foi esclarecer o que é mata ciliar. Depois disso, alguns dos entrevistados disseram que as queimadas e a devastação das matas que circundam os rios, modificam a estrutura do solo provocando o assoreamento pela diminuição da capacidade para absorver as chuvas, afetando seriamente a pesca e a vida de outros organismos vivos. Outros destacaram o aumento do buraco da camada de ozônio da atmosfera e o aumento da poluição atmosférica como conseqüência principalmente das queimadas. Disseram que a poluição agride ao meio ambiente e à saúde do homem. Pode-se notar também que 37% dos entrevistados não responderam o que perguntamos, quem sabe, ou por não saber ou por não demonstrarem interesse. Segundo moradores que já vive na comunidade há muito tempo toda área no inicio do assentamento era uma lagoa de dejetos industriais. Para alguns as conseqüências de tudo isso são
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 29 um número cada vez maior de ratos e doenças como leptospirose, cólera, doença de pele, verminoses, além de agentes biológicos como bactérias e tantos outros que a comunidade desconhece. De acordo com os dados da pesquisa realizada, foi possível verificar que 58% dos moradores da localidade conhecem alguma lei que defende o meio ambiente de condutas que o prejudiquem, porém, quando perguntamos se sabiam citar todos responderam que não. É importante ressaltar que as leis são reguladores externos do comportamento humano, indispensáveis à sociedade. No entanto, para que sejam conscientemente respeitadas, faz-se necessário conhecer para que produza uma mudança interna nos indivíduos. A educação para o meio ambiente, no entanto, deve ser de maneira ampla e geral, para que possa favorecer uma nova ordem social consciente, crítica, e, sobretudo, responsável. Apesar de não citarem alguma legislação que defende o meio ambiente destacam o Ministério Público a ADEMA e o IBAMA como órgãos de fiscalização e de encaminhamento de crimes ambientais. De acordo com os dados da pesquisa realizada, foi possível verificar que 97% dos entrevistados disseram não ter hábito de poluir o Rio Poxim. Contradizem-se quando 61% afirmam que os dejetos sanitários são jogados no rio e 71% destacam a não existência em suas residências de fossa. Opondo-se a afirmação da maioria que dizem não poluir o rio, moradores talvez mais conscientes, disseram que sempre se encontra no seu leito animais mortos, sofá boiando, fezes dentro de sacos plásticos, móveis e eletrodomésticos. Apesar de 28% dos entrevistados afirmarem que suas casas possuem fossas, observa-se outra realidade. Encontramos ruas totalmente poluídas e sem nenhum saneamento básico, a exemplo da Avenida Pantanal que uma das mais antigas do assentamento segundo moradores. Infere-se tudo isso a ausência do poder público, que pouco tem investido na educação para preservação da natureza, apesar da coleta de lixo na comunidade acontecer com freqüência pelo poder público municipal, ou seja, três vezes por semana, assim afirmaram 64% dos consultados. Para 33% dos indagados a coleta de lixo acontece com regularidade, porém, acreditam que deveria ser melhor. Apenas um afirmou que a coleta é rara. Ao analisar as informações a respeito do nível de escolaridade da comunidade percebeu-se que 57% possuem nível fundamental, 38% nível médio, 3% tem formação em nível de 3º grau e 1% concluiu curso técnico. Do universo de entrevistados foi encontrado apenas um analfabeto. Os dados levam-se a concluir, que 99% da população entrevistada é alfabetizada. Já tinha sido concluído anteriormente que 97% dos entrevistados afirmavam não jogar lixo no rio. O dado agora pesquisado concluir-se que quanto melhor for o nível de escolaridade, ou seja, as pessoas forem pelos menos alfabetizada, melhor também será seu nível de consciência. De acordo com a faixa etária das pessoas que moram na comunidade, verifica-se que do total analisado, a faixa etária de maior incidência está no intervalo de 27 a 35 anos, num total de 20, representando 32% do universo pesquisado, conforme pode ser visto na tabela 5 e no gráfico 5. Na seqüência, as pessoas consultadas estão nas seguintes faixas etárias: de 11 a 19 anos, num total de 11, representando 17%, de 19 a 27 anos, num total de 13 pessoas consultadas, o correspondente a 21%, de 35 a 43 anos, num total de 8, o que corresponde a 13%, de 43 a 51 num total de 7 pessoas, com um percentual de 11% e finalmente de 51 a 59 anos, 4 pessoas pesquisadas, representando 6%. Numa população tão jovem como a da comunidade pantanal, a aplicação de oficinas e palestras voltadas a comunidade em prol do desenvolvimento da percepção ambiental é uma maneira de construir quanto mais às pessoas participarem, mais elementos para desenvolvimento de uma consciência de respeito ao meio ambiente terão. A partir do momento em que se consegue implantar nas mentes e nos corações de todos, uma nova maneira de enxergar e de explicar a vida e tudo o que nela existe, os cidadãos bem orientados poderão contribuir para a preservação da vida respeitando o meio ambiente. CONCLUSÃO Concluiu-se que devido à falta de moradia apropriada para alguns aracajuanos, a comunidade teve início às margens do rio com casas construídas em madeira sem nenhuma estrutura nem tampouco rede de esgoto. O Pantanal é fruto de um processo de loteamento irregular
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 30 efetivado em terras que pertence à União. Existe pelo menos há trinta anos segundo a pesquisa efetuada no local. Podemos compreender que se fizermos uma projeção desse dado a população hoje se aproxima de 3.000 moradores. Em conversas, através das entrevistas, pode-se perceber que 89% da população residem a menos de 11 anos no Pantanal e afirmam que no inicio não se via tanta destruição. A comunidade observada hoje no Pantanal é jovem, boa parte instruída, fato que auxilia na relação existente entre rio e comunidade. Os problemas sócio políticos que ali são verificados são inúmeros, e concluiu-se que obras necessárias para o bem estar da população e promoção da qualidade de vida, falta da aplicação e planejamento de gestão ambiental de resíduos industriais tornaram-se uma constante em todos esses anos de assentamento, deixando a desejar e gerando uma desconfiança da população em torno das resoluções governamentais e da justiça ambiental. Diante do exposto, percebe-se que a preservação do meio ambiente deve ir além das questões legais e políticas, partindo do social, a educação voltada para o jovem, futuros cidadãos atuantes, deve ser incentivada então no que se refere ao conhecimento do ambiente em que se vive e isso sim, deve ser levado em consideração. O Poxim percorre vários bairros da capital sergipana, onde a maioria não possui uma rede de saneamento correta e todos os dejetos que saem das casas, sejam eles orgânicos ou artificiais, são jogados diretamente no rio. Para alguns moradores o mau cheiro incomoda a população e afasta a clientela de alguns comerciantes. A ocupação desordenada e o despejo de lixo em locais inadequados favorecem aos altos índices de poluição. Os órgãos ambientais permanecem monitorando e fiscalizando todos os pontos a fim de manter o controle dos índices de poluição. A Educação Ambiental tem a sua importância na possibilidade de, a partir do conhecimento das leis e o respeito ao meio ambiente, reduzir consideravelmente as agressões ambientais e, sobretudo, os danos à natureza. Configura-se, pois, como expressão incondicional de respeito à própria vida. A percepção ambiental, ou cognição ambiental, é o termo usado para se referir à tendência geral pelas quais as pessoas desenvolvem atitudes e sentimentos em relação ao ambiente. (ALTMAN; CHEMERS, 1989) Faz-se urgente o incentivo, a criação e aplicação de programas de educação ambiental seja por meio das escolas circunvizinhas, por meio de oficinas organizadas pela própria comunidade. A educação modifica o pensamento, o pensamento norteia as ações. Indivíduos bem informados buscam por melhores condições e a partir daí, desenvolvem força para requerer junto às autoridades os direitos que lhe assistem e lhe são tirados. Estas questões, como muitas outras, estão colocadas para a sociedade brasileira e exigem repostas bem fundamentadas de todos nós. (BEOZZO et. al, 2003) REFERÊNCIAS ALTMAN, I. CHEMERS, M.M. Cultura e Ambiente. Cambridge. Cambridge Universit Press, 1989. BEOZZO, José Oscar; REBOUÇAS, Aldo da Cunha; MALVEZZI, Roberto; SILVA, Marina; BARROS, Marcelo; CAPPIO, Luis Flávio. Água é Vida: Dom de Deus e Responsabilidade Humana. São Paulo: Paulus, 2003. PIRES, J. S. R. A utilização do conceito de Bacia Hidrográfica para conservação dos recursos naturais. Conceitos de Bacias Hidrográficas: teorias e aplicações Ilhéus: Editus, 2002. TUNDISI. J.G. Água no século XXI: enfrentando a escassez. São Carlos: RIMA IIE, 2003. http://www.sbp.org.br/ranteriores/23/resumos/0722/index.html http://www.seplantec-srh.se.gov.br/ http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/10950 http://pt.wikipedia.org/wiki/lista de paises limítrofes do Brasil
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 31 ANÁLISE QUALI-QUANTITATIVA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS EM PRAIAS DO MUNICÍPIO DE OLINDA-PE Claryana Alves da CUNHA Pós graduada em Gestão Ambiental pela Faculdade Frassinete do Recife; 1º Ten Professora de Geografia; Exército Brasileiro-Colégio Militar do Recife. Mônica Márcia VICENTE LEAL Mestre em Oceanografia pela Universidade Federal de Pernambuco; 1º Ten Professora de Biologia e Oficial de Meio Ambiente; Exército Brasileiro-Colégio Militar do Recife. RESUMO O presente trabalho visa realizar um levantamento quali-quantitativo dos resíduos sólidos em praias do município de olinda-PE. Foram delimitados 3 transectos de 5 metros de largura, estendendo-se desde o limite superior da praia até a linha de maré, nas praias do Carmo - A, Casa Caiada – B e Rio Doce – C. Os resíduos sólidos foram coletados nas luas novas e cheias, aos domingos, no período da tarde, nos meses de dezembro de 2007, janeiro e fevereiro de 2008 e agrupados em categorias. Os plásticos se destacaram com 2722 itens, 44% do total, seguido por alimentos (22,9%) e papel (17%). São necessárias políticas públicas direcionadas à população local e turistas quanto à limpeza, e conservação das praias de Olinda, uma vez que o gerenciamento dos resíduos sólidos é de extrema relevância para mitigar os impactos decorrentes das atividades humanas no ambiente praial, bem como para preservar o ecossistema costeiro, na busca por um desenvolvimento social justo e ambientalmente sustentável. PALAVRAS-CHAVE: resíduos sólidos, praia, Olinda. ABSTRACT This work aims making a research of quantity and quality of solid waster in beaches of Olinda, Pernambuco. Three transects of five meters large were delimited, which was extended from the top limit of the beach to the tide line on Carmo – A, Casa Caiada –B e Rio Doce – C beaches. The solid wastes were caught in new and full moons, on sunday afternoons, in December 2007, January and February 2008. Afterwards the wastes were grouped in categories. “Plastic” wastes were the most representative, reaching 2.722 items, 44% of the total, followed by “food” (22,9%) and “paper” (17%). It is necessary politics focused in the local population and and tourists regarding to cleaning and conservation of Olinda’s beaches, since solid wastes management is extremely relevant in order to mitigate impact derived from human activities on the beach environment, as well as to preserve the coast ecosystem in a search from a faired social development and environmentally sustainable. KEYWORDS: solid wastes, beach, Olinda. 1. INTRODUÇÃO Uma vez que a praia é um espaço de lazer bastante diversificado, sua exploração como recurso turístico gera empregos, demanda por serviços e renda para as populações locais (Bird, 1996). Com o incremento do consumo consolida-se a cultura do desperdício, que é bastante presente no povo brasileiro. Segundo o último censo do IBGE a quantidade diária de lixo urbano coletado no Brasil é de 228.413 toneladas, o que representa 1,25 Kg diários per capita (IBGE, 2001). O denominado lixo, em função de sua proveniência variada apresenta também constituintes bastante diversos, e o volume de sua produção varia de acordo com sua procedência, com o nível econômico da população e com a própria natureza das atividades econômicas na área onde é gerado (Braga et al., 2006). As praias olindenses são utilizadas por visitantes locais, e de várias regiões do Brasil e do mundo, e apresentam todas as nuances das questões aqui levantadas.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 32 Em virtude disto, o presente trabalho tem por objetivo realizar um levantamento quali-quantitativo dos resíduos sólidos em praias do município de Olinda PE, a fim de servir como tivo Olinda-PE, ferramenta de apoio ao gerenciamento ambiental da área. Para tal, os itens que compõe os resíduos sólidos existentes nas praias de Olinda serão identificados, quantificados e agrupados em categorias de acordo com o tipo de resíduo e/ou natureza do tificados material amostrado. Será ainda determinada a representatividade de cada categoria e a incidência espaço-temporal destes resíduos, como subsídio ao poder público para o temporal planejamento e direcionamento das medidas de gestão ambiental, com vistas a melhorar a qualidade nejamento das praias e conseqüentemente de vida de seus usuários. 2. DESCRIÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO Olinda, município da Região Metropolitana do Recife – RMR, encontra encontra-se entre os paralelos 7°57’30” e 8°02’30”, latitude Sul e os meridianos 39°55’00” longitude Oeste de Greenwich, com uma área de 43,55Km². Seus limites são: ao Norte o município de Paulista, à Leste o Oceano Atlântico, à Oeste e ao Sul o Recife. De acordo com o Censo 2000 do IBGE a população é de 368.643 habitantes e a densidade demográfica é de 8.991 hab/km². (IBGE, 2002 apud Beltrão et al,1995). Figura 1: Localização do município de Olinda Olinda-PE. Fonte: Neves e Sá (2002). 2.2 – O litoral de Olinda O litoral olindense é formado por 10,5km de costa aberta, caracterizada por depósitos arenosos, compreendendo, no sentido Sul Norte, as praias: Istmo, Milagres, Carmo, São Francisco, Sul-Norte, do Farol, Bairro Novo, Casa Caiada e Rio Doce. A linha costeira de Olinda é sem dúvida o maior sítio paisagístico municipal, sendo de grande importância econômica, onde está concentrada a maior parte da população, bem como as atividades comerciais, de recreação e de turismo. O Diagnóstico Ambiental de Olinda (Beltrão et al,1995) definiu quatro áreas do 1995) litoral com problemas ambientais tais como, erosão marinha, dificuldade de acesso à praia, disposição de esgoto doméstico, entre outros: Unidade1 – Praia do Istmo até dos Milagres; Unidade 2 – praias dos Milagres, Carmo e São Francisco; Unidade 3 – praias do Farol e Bairro Novo; e finalmente, unidade 4 – praias de Casa Caiada e Rio Doce. 3. MATERIAL E MÉTODOS Inicialmente foi realizado um caminhamento ao longo de toda a orla, a fim de se estabelecer áreas específicas a serem estudadas. Foram visualmente observados aspectos como a
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 33 existência de faixa de areia, a intensidade de freqüência de usuários e a presença de resíduos na areia e calçada. Desta forma, foram escolhidas para o estudo as praias do Carmo, Casa Caiada e Rio Doce, situadas nas unidades 2 e 4 definidas por (Beltrão et al,1995). A praia de Casa Caiada é a mais tradicionalmente freqüentada, constituindo-se num point da população jovem. A praia de Rio Doce apresenta a faixa de areia mais extensa e é também bastante freqüentada, não tendo, porém as mesmas condições de infra-estrutura da primeira. A praia do Carmo é a mais afastada dentre as praias com maior número de usuários. No entanto, a quantidade destes é visualmente muito inferior a das anteriormente citadas. Para a coleta de dados foram estabelecidos transectos piloto com 10 m de largura, reduzida para 5 m de largura para a amostragem, dimensionados por meio de uma trena de 50 m e georreferenciados com o auxílio de um GPS Etrex Garmin Estes transectos se estendiam do limite superior da praia (calçada, rua, etc.) até a linha de maré. Em cada praia foi estabelecido um transecto em um trecho fixo (A-Carmo, B-Casa Caiada e C-Rio Doce) (Tabela 1). Foi realizada uma medição de cada transecto em dias de maré com amplitude significativamente baixa e alta, a fim de determinar a área amostral total em m², a mínima e a máxima dos transectos (faixa de areia exposta) a fim de determinar a densidade de lixo por área em m² em ambas as marés. Os horários de coleta foram entre 14 e 18 horas. A escolha dos dias de coleta de dados baseou-se nos trabalhos de Leal (2006) e Silva (2006) para as praias de Boa Viagem e do Pina. Os dias declaradamente preferidos de visita às praias foram domingos e sábados respectivamente. Com base nestas informações, foi estabelecido o período amostral na estação seca, de dezembro a fevereiro, aos domingos. A segunda autora afirma que o padrão de uso dos freqüentadores em sua pesquisa foi o mesmo para o verão e inverno, mas a freqüência foi três vezes maior nos finais de semana de verão, com destaque para o domingo. Foram feitas duas coletas por mês, num total de 6 coletas, nas luas novas e cheias. Os resíduos sólidos, incluindo fragmentos, foram coletados por catação manual, colocados em sacos de 100 litros e retirados do local para posterior triagem. Os itens identificados foram contados, agrupados em uma tabela e classificados em categorias por tipo, de acordo com a natureza do material que os constitui. Foi calculada representatividade em números absolutos e percentagem de cada categoria, bem como dos itens que se destacaram de forma isolada e em escala espaço-temporal. Transecto Praia Localização Características A Praia 41°21’52”S Situa-se por trás da Agência dos Correios, sendo freqüentada por banhistas e do 8º03’19” W pescadores. Apresenta construções (residencias) na pós-praia. Não apresenta Carmo vegetação, possui diques de contenção construídos no mar, paralelos à praia. Possui uma extensão de 100m na maré baixa. B Praia 51º48’02”S Área próxima ao Bompreço, em frente à casa nº 3425. É muito frequentada por de 7º58’55” W banhistas. Apresenta construções (residencias) no alto da praia. O ambiente praial Casa atinge 62 m de extensão da calçada à linha de praia na maré baixa. Caida C Praia 52º11’06”S Fica em frente ao Bar do Vivaro, próximo à marina. É bastante freqüentada por de 7º58’15” W banhistas. Apresenta cobertura de areia original que vai até as calçadas das casas. Rio Neste ponto a extensão é de 63 m do limite superior até a linha da água. Doce Tabela 1: Caracterização dos transectos de amostragem (A-Carmo, B-Casa Caiada e C-Rio Doce), perfazendo uma área de 825 m2 de praia, nos meses de dezembro de 2007, janeiro e fevereiro de 2008. 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram identificados um total de 6.191 itens de resíduos sólidos nas três áreas, durante todo o período amostral. Os itens foram distribuídos nas seguintes categorias: Pl (plástico); V (vidro); Me (metal); Pa (papel); Ma (madeira) e A (alimentos). (Tabela 2).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 34 A categoria que se destacou foi a dos plásticos com um total de 2.722 itens, o que representa 44,0% do total amostrado. Silva (2006) encontraou este mesmo padrão de prevalência dos plásticos, para a praia de Boa Viagem, na qual esta categoria representou 40,2% do total da amostra. Em segundo lugar destacou-se a categoria ‘alimentos’ com o total de 1.415 itens (22,9%). Vale salientar que os itens plásticos mais representativos dentro da amostra total foram copos, canudos e saquinhos (Tabela 2). Os vidros foram os menos representativos dentre todas as categorias, num total de 66 itens (1,1%), isto se deve ao fato de os principais itens desta categoria serem garrafas e fragmentos destas. As bebidas consumidas na praia, que são principalmente cerveja e refrigerante, são servidas em embalagens de vidro retornáveis, não sendo, portanto, descartadas na praia. As garrafas coletadas neste estudo foram de bebidas quentes (rum, whisky, campari, etc.), cujas embalagens não são retornáveis. Dentre os papéis, que representaram 17,0% da amostra total, os guardanapos tiveram uma predominância massiva. Dos 1.052 itens de papel encontrados, 840 foram guardanapos. Isto reforça a idéia de que o lixo existente nas praias de Olinda é proveniente de seus usuários e que a alimentação é uma das principais atividades desenvolvidas por estes. Total de itens por categoria. 3000 2500 Total de itens 2000 1500 1000 500 0 Pl V Me Pa Ma A Categorias de resíduos sólidos Figura 2: Representatividade em valores absolutos das categorias de resíduos sólidos coletados nas três praias estudadas em relação ao número total de itens. Pl (plástico); V (vidro); Me (metal); Pa (plástico); Ma (madeira) e A (alimentos). Os metais, com 509 itens (8,2%) ficaram em 4° lugar. O número de tampas de garrafa foi alto dentro desta categoria (392 ou 77,0%), embora a quantidade de garrafas tenha sido de apenas 19. Como discutido antes, as garrafas de bebidas utilizadas na praia são retornáveis. Suas tampas, no entanto, são descartadas na areia. Com relação às latas, é importante salientar que dentre as 91 coletadas durante o período amostral, encontravam-se não somente as de alumínio, mas também as de ferro e aço. Não se pode deixar de mencionar que a catação de latas de alumínio como fonte alternativa de obtenção de renda é uma atividade bastante difundida entre a população mais carente. Isto faz com que dificilmente este item seja largamente encontrado nas praias. Os itens agrupados na categoria madeira representaram 6,9% da amostra total, com destaque para os palitos de churrasco (188 ou 44,0% do total da categoria). Os palitos de fósforo estão associados à presença de fumantes. Foram coletadas 972 pontas de cigarro, que, contudo, não constituem uma categoria por se tratar de um único item.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 35 1000 Quantidade de itens por m ês de coleta. 800 Total de itens 600 400 200 0 Pl V Me Pa Ma A Categorias de resíduos sólidos Dez Jan Fev Figura 3: Variação quantitativa mensal dos resíduos sólidos nos três transectos. Pl (plástico); V (vidro); Me (metal); Pa (plástico); Ma (madeira) e A (alimentos). Segundo Irapuã Muniz, Chefe do Departamento de Operações e Fiscalização da Limpeza Urbana do município de Olinda (Comunicação pessoal), a limpeza da faixa de areia das praias é realizada por um efetivo de 36 homens, divididos em duas equipes, distribuídos por cerca de 6 km de praia. O trabalho é realizado todos os dias, das 6:30 às 23:30, com troca de turno às 15:30. A limpeza é feita através de ciscação, seguida pelo ensacamento do lixo e sua disposição na calçada, para posterior recolhimento por veículo coletor convencional. Este faz 3 coletas ao dia, por volta das 11:00, 14:00-15:00 e à noite. Nos finais de semana são distribuídos, das 9:00 às 12:00, sacos plásticos aos usuários e comerciantes Ele acrescenta que a deficiência de infra-estrurura sanitária e de fiscalização da orla, além do compromisso de ambos, comerciantes e população em geral, em manter o ambiente limpo, torna difícil o trabalho. Durante o período amostral foi possível observar que na praia de Casa Caiada existem mais lixeiras, distribuídas em intervalos menores do que nas demais praias. Algumas estavam depredadas ou restavam apenas os suportes. Os resultados demonstram que no período amostral, janeiro apresentou a maior produção de resíduos, o que era esperado, por este ser um o mês das férias escolares do verão, o que aumenta a freqüência da população na praia (figura 9). As variações nas quantidades de resíduos descritas na (Tabela 1), sofreram influência das flutuações na quantidade de freqüentadores em cada dia de coleta. Das três áreas de coleta, a B, que corresponde à praia de Casa Caiada, destacou-se em número de itens em todos os meses de amostragem. Isto pode estar relacionado a uma maior presença de usuários neste local, atraídos por uma infra-estrutura mais diversificada (banheiros públicos, quiosques padronizados, segurança etc.). Fazendo uma comparação da quantidade de resíduos de cada trecho ao longo dos meses de amostragem, é possível constatar que houve um padrão de variação no qual o número de itens aumentou em janeiro e diminuiu em fevereiro, ficando este último, no entanto acima dos níveis do mês de dezembro. Esta tendência foi observada tanto com relação ao número total de itens por trecho por mês, quanto em cada categoria por área por mês, com exceção dos metais, cuja quantidade foi mais expressiva no último mês de coleta (fevereiro). Com relação às marés, a mais alta e a mais baixa do período de coleta de dados foram 2.2 e 0.3 metros de amplitude respectivamente. A medição da extensão dos transectos foi feita em marés com 1.9 e 0.4 m (www.dhn.mar.mil.br). Os dados estão agrupados na Tabela 3. Houve uma diferença de extensão de faixa de areia exposta entre a maré baixa e a alta, nos trechos A, B e C, de 49, 25 e 27 m. Isto significa uma redução de aproximadamente 50% da área dos transectos na maré alta.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 36 Quantidade total de ite ns por áre a/m ês 1200 1000 Total de itens 800 600 400 200 0 DEZ JAN FEV Mes e s de cole ta A B C Figura 4: Variação quantitativa em números absolutos dos resíduos sólidos por áreas nos meses de amostragem nos transectos A, B e C. A densidade dos resíduos, ou seja, a relação entre o número de itens por área em m² obteve valores mais elevados na maré alta em todos os trechos estudados. A área amostral total, resultante da soma das áreas dos três transectos, foi de 1.125 m² na maré baixa, com densidade de 5,5 itens/m², e 620 m² na maré alta, com densidade de 10 itens/m². O transecto B apresentou as maiores densidades de resíduos, em ambas as marés, corroborando as tendências já discutidas em relação a esta área. Quanto maior a densidade de resíduos sólidos num ambiente praial, maiores serão os impactos ambientais e prejuízos sociais decorrentes de sua presença. A B C Maré Maré Maré Maré Maré Maré baixa alta baixa alta baixa alta Extensão do transecto 100 51 62 37 63 36 (m) Área do Transecto 500 255 310 185 315 180 (m²) Densidade dos resíduos 3,7 7,3 7,6 12,8 6,0 10,6 (nº de itens/m²) Tabela 2: Variações na extensão dos transectos A, B e C, em relação à alternância das marés baixa e alta em metros; área correspondente em m² e densidade de resíduos em itens/m². 5- CONCLUSÕES A grande quantidade de resíduos sólidos, principalmente plásticos, oferece riscos aos usuários, além de prejudicar a condição estético-paisagística da praia, comprometendo o turismo e a economia do município. Diante deste quadro, constata-se a necessidade de se implementar programas e políticas públicas por parte da Prefeitura Municipal de Olinda direcionadas para a conscientização da população local e também dos turistas quanto à limpeza, manutenção e preservação das praias de Olinda, visando estabelecer princípios, normas, diretrizes e instrumentos, no sentido de incentivar a comunidade, os empresários, entre outros, a cuidar melhor das praias dessa região, tendo em vista que o gerenciamento dos resíduos sólidos é de extrema relevância para mitigar os impactos decorrentes das atividades humanas no ambiente praial, bem como para preservar o ecossistema costeiro, como parte da busca por um desenvolvimento social justo e ambientalmente sustentável.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 37 Os resíduos sólidos nas praias de Olinda demonstrou que os mesmos são provenientes de fontes terrestres, sendo os principais geradores os próprios usuários. 6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BELTRÃO, A. de L.; MAIA, J.T.A.; OLIVEIRA, M.L. de. et al. Diagnostico ambiental do município de Olinda: uma contribuição ao Plano Diretor. Recife: Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – CPRH, 1995. 160 p. BIRD, E.C.F. 1996. Beach management. New York: John Wiley & Sons, 281p. BRAGA, B; HESPANHOL, I.; CONEJO, J.G.; BARROS, M.T.; SPENCER, M.; PORTO, M.; NUCCI, N.;JULIANO, N.; EIGER, S. Introdução à Engenharia Ambiental . São Paulo: Prenice Hall, 2002. 305p. IBGE. Sinopse preliminar do censo demográfico 2000 – Brasil. 2001. Disponível em: http://www.ibge.gov.br - Acesso em: 13/05/2008. LEAL, M.M.V. Percepção dos usuários quanto à erosão costeira na praia da Boa Viagem, Recife (PE), Brasil. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Pernambuco, 99 p., 2006. NEVES, J. M.; SÁ, L.A.C.M. de. Utilização de um Sistema de Geoinformação para o Cadastro de Terrenos Foreiros – Olinda/PE, in: Congresso Brasileiro de Cadastro Técnico Multifinalitário · UFSC Florianópolis · 6 a 10 de Outubro 2002. SILVA, J.S. Diagnóstico dos resíduos sólidos das praias da Boa Viagem e do Pina, Recife- PE, Brasil. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Pernambuco, 99 p., 2006. Tábua de marés. Disponível em: http://www.dhn.mar.mil.br. Acesso em 10/11/2008.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 38 ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DO BAIRRO MAURO ANTÔNIO BENTO EM JATAÍ – GOIÁS, BRASIL Kenia Alves Pereira LACERDA Carlos Cézar DA SILVA Ceila de Brito DIAS Vanêssa Batista GOUVEIA RESUMO Buscar a percepção ambiental através da investigação sistemática é essencial na compreensão das práticas da sociedade, seus saberes, sua cultura e de como estes conhecimentos ou práticas afetam o meio ambiente. Estes conhecimentos são, sem dúvida, importantes ferramentas para o correto direcionamento de uma educação ambiental transformadora e dialógica. O estudo de percepção ambiental é uma dos meios utilizados pela etnociência para obter conhecimentos das comunidades tradicionais e apontar caminhos para a práxis da Educação ambiental, principalmente em espaços não escolarizados. O presente trabalho teve como principal objetivo mensurar a percepção ambiental dos moradores de um bairro da cidade de Jataí - Goiás, diante da instalação de aquecedores solares em suas residências, adquiridos através de programa governamental. A pesquisa foi realizada com intuito de saber como os moradores percebiam ou não a importância dos aquecedores em prol do meio ambiente. Notou-se, por meio desta pesquisa, que a percepção ambiental dos moradores entrevistados é muito pequena, quase inexistente, principalmente por parte das populações de baixa renda e com reduzida formação escolar. Não há, por parte da comunidade pesquisada, conhecimento de práticas e ações para preservar o meio ambiente, talvez nem saibam como e por onde começar. A população não tem consciência que muito das atitudes estão colaborando para a degradação da natureza e do meio ambiente. O que não deixa de ser responsabilidade dos Governos Municipal, Estadual e Federal, que deveriam, no mínimo, conscientizar a população sobre a importância de se preservar o meio ambiente de uma maneira geral e utilizar corretamente os equipamentos distribuídos pelo programa, numa visão mais pontual. PALAVRAS-CHAVES: Percepção ambiental, educação ambiental, aquecedor solar. ABSTRACT Search the environmental perception through systematic research is essential in understanding the practices of society, their knowledge, their culture and how this knowledge or practices affect the environment. These skills are undoubtedly important tools in the correct direction of an environmental education and transformative dialogue. The study of environmental perception is one of the means used by the ethno-science to gain knowledge of traditional communities and point the way to the practice of environmental education, especially in non- educated. This study aimed to measure the environmental perception of the residents of a neighborhood in the city of Goiás - Goiás, before the installation of solar heaters in their homes acquired through government program. The research was performed to find out how residents perceive the importance or not of the heaters in favor of the environment. It was noted through this research, the environmental perception of the residents interviewed is very small, almost nonexistent, especially from low-income and low education. There is, by the community surveyed, knowledge of practices and actions to preserve the environment, perhaps do not know how and where to start. The population is unaware that much of the attitudes are contributing to the degradation of nature and the environment. What it remains the responsibility of municipal governments, state and federal, that should at least raise awareness about the importance of preserving the environment in general, and correctly use the equipment distributed by the program in a more timely. KEYWORDS: Environmental perception, environmental education, solar heater.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 39 INTRODUÇÃO Em um cenário de crise ambiental e constantes catástrofes naturais, é preciso que haja uma mudança na cultura e concepção dos valores de cada cidadão, objetivando uma maior relativa à responsabilidade individual para com o meio ambiente. Torna-se cada vez mais necessário a real implantação de uma Educação Ambiental, por meio dos órgãos públicos, pois “a maior contribuição social tem vindo através dos movimentos da própria sociedade civil, das entidades não- governamentais, dos veículos de comunicação, dos movimentos políticos e culturais (Carta Brasileira para Educação Ambiental - MEC. Rio-92)”. Nesta linha de pensamento, TOZONI-REIS (2004) manifesta: Assim, se a educação é mediadora na atividade humana, articulando teoria e prática, a educação ambiental é mediadora da apropriação, pelos sujeitos, das qualidades e capacidades necessárias para a ação transformadora responsável diante do ambiente em que vivem. A percepção ambiental oriunda de diferentes grupos de indivíduos de uma sociedade é relevante para o correto posicionamento das políticas públicas de Educação Ambiental. A efetivação de sua práxis, partindo das necessidades emanadas sobre o meio ambiente em que estão inseridos, em uma relação próxima, muitas vezes com valores ambientais muito significativos, o que pode ser evidenciado nas indicações de Tuan (1980). Buscar a percepção ambiental através da investigação sistemática, é essencial na compreensão das práticas da sociedade, seus saberes e sua cultura. Estes conhecimentos são, sem dúvida, importantes ferramentas para o correto direcionamento de uma educação ambiental transformadora e dialógica. Contudo, o estudo de percepção ambiental é uma das ferramentas utilizadas pela etnociência para obter conhecimentos das comunidades tradicionais e apontar caminhos para a práxis da Educação ambiental, principalmente em espaços não escolarizados, Figueiredo (2009). A Educação Ambiental está longe de ser uma atividade tranquilamente aceita e desenvolvida, porque implica em mudanças profundas e nada inócuas (Brasil, 1997). Atualmente já são notadas ações governamentais que demonstram uma preocupação ambiental como, por exemplo, a instalação de aquecedores solares gratuitos em conjuntos habitacionais para população de baixa renda. O aproveitamento da energia solar para aquecimento de água é crescente, principalmente devido à preocupação com os impactos ambientais provocados pelas formas de energia mais utilizadas atualmente. Segundo Leite (2005), as construções de hidrelétricas interferem drasticamente no meio ambiente, alterando o clima devido ao aumento da temperatura, alterando a flora com a perda da biodiversidade, a paisagem natural, e fauna, pois vários animais morrem na inundação e poucos são reintegrados a natureza. Tudo isso interfere na ocupação terrestre e na base econômica da região. Conforme Global Energy Telecom (GET), 18% da capacidade de geração de eletricidade instalada no Brasil é acionada nos momentos de pico pelo conjunto de chuveiros elétricos residenciais. O uso de aquecedores solares reduz significativamente os consumos de energia elétrica para usuários de água quente sendo uma forma de desenvolvimento sustentável e racional, levando em consideração o impacto ambiental conseqüente da geração de energia elétrica além da quantidade de empregos diretos gerados pelas empresas de pequeno e médio porte no mercado de coletores solares. De acordo com relatório anual de responsabilidade socioambiental da Companhia Energética de Goiás (CELG, 2008), houve uma redução de demanda de 647 kilowattes por hora e economia anual de energia elétrica de 3.343 megawatts por hora devido à instalação dos aquecedores solares nos municípios de Jataí, Goiatuba, Catalão, Itapirapuã, Luziânia, Novo Gama, Formosa e Planaltina no Estado de Goiás. O aquecedor de água por meio de energia solar consiste basicamente em dois elementos: Coletor de energia solar e depósito acumulador de água quente. Os coletores são projetados com materiais que possuem uma alta condutividade térmica para reduzir a resistência ao
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 40 fluxo por condução, assim a placa irá absorver a energia dos raios solares, transformando em calor que transportado para a água irá aquecê-la. A água quente ficará armazenada no deposito acumulador de água. Resultados de trabalhos de pesquisa (MATAJS, 1997) que incluíram medições e levantamentos de dados por questionários, que a Universidade de São Paulo (USP) realizou em conjunto com a ELETROPAULO, no setor residencial, demonstraram que os chuveiros elétricos provocam aumento de potência média instalada de 121%, ou seja, a potência do chuveiro ultrapassa a soma de todos os outros eletrodomésticos juntos. Demonstra, ainda, que a inclusão do chuveiro elétrico eleva a demanda máxima média em 365%, ou seja, no momento em que é utilizado o chuveiro elétrico, a demanda sobe para mais de 4,5 vezes o consumo médio. A substituição do chuveiro elétrico pelo aquecedor solar traduz-se em economia, em médio prazo, principalmente para o usuário final, pois exige baixíssima manutenção e possui vida útil, em média, superior a quinze anos, proporciona economia na conta de energia elétrica e recupera o investimento num período de três a cinco anos. No ano de 2007, moradores do bairro Mauro Antônio Bento, no município de jataí – Goiás, receberam como doação aquecedores solares para serem implantados em suas casas, que também foram adquiridas em programas governamentais de habitação em anos anteriores. Muitos empreendimentos nos municípios são geridos diretamente por pessoas que não possuem recursos técnicos adequados para tratar das questões ambientais. No entendimento de Farias (2002), seja por falta de tempo, conhecimento ou recursos financeiros, a gestão dos impactos ambientais é relevada em segundo plano. O objetivo central deste trabalho foi verificar a percepção ambiental dos moradores do conjunto habitacional Mauro Bento na cidade de Jataí e o impacto ambiental provocado pelo uso de aquecedores solares em suas residências. Metodologia O trabalho foi proposto e desenvolvido durante o segundo semestre de 2009 durante na disciplina de Biologia Ambiental e Ecologia Humana, sendo coordenado pela professora e pesquisadora dessa área no curso de Licenciatura em Física do Instituto Federal de Goiás – Campus Jataí. A pesquisa foi realizada no Conjunto Habitacional Mauro Antônio Bento em Jataí, Goiás, onde foram escolhidas aleatoriamente 100 residências como universo amostral. Foi aplicado um questionário com 18 questões por residência, visando avaliar a percepção ambiental. A pesquisa, feita através de questionário, foi baseada nos seguintes parâmetros: idade, sexo e moradores por residência. Análise dos Resultados O perfil etário dos moradores é heterogêneo, com predominância de casais jovens, 40% têm entre vinte e trinta anos, enquanto 26% têm entre trinta e quarenta anos. Os demais 34% dos moradores têm até vinte ou mais de quarenta e um anos. No total são 66% de publico feminino e 34% masculino. 52% das casas são habilitadas por até três pessoas, enquanto 46% tem entre 4 e 6 moradores, 2% das residências abrigam acima de 7 pessoas. Quando questionados sobre os benefícios do aquecedor solar, a grande maioria dos moradores (86%) acredita apenas na redução do custo da energia elétrica. Apenas 4% vêem alguma importância para o aquecedor além da redução de custo com energia elétrica e os demais não responderam, não usam ou não verificaram qualquer diferença após a implantação do aquecedor solar. Mesmo após a instalação do aquecedor solar boa parte dos moradores ainda utilizam o chuveiro elétrico, 35% quando está muito frio, 15% quando está chovendo muito, 13% por outros motivos e apenas 37% não usam mais o chuveiro elétrico. Quando questionados se o aquecedor solar ajuda a preservar o meio ambiente, 22% dos moradores conseguiram responder com exatidão e demonstraram ter conhecimento sobre o
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 41 assunto. Os outros 78% não souberam responder, e ainda não perceberam a correlação existente entre aquecedores e meio ambiente. Ao perguntarmos para os moradores quem eram responsáveis pela manutenção e a qual era o tempo de garantia do equipamento, a maioria não souberam e não tiveram interesse em obter informações, embora no aquecedor seja informado o endereço eletrônico da empresa, bem como a forma de atendimento ao usuário. Os moradores quando entrevistados se haveria algum problema ambiental no bairro, poucos citaram o lixo eminente nas ruas, inclusive relatando que não apresenta nenhum problema ambiental. Um aspecto interessante é que diversos problemas, mesmo que amplamente divulgados pela mídia, não foram citados, entre eles: o problema ocasionado pela incidência de chuvas, a falta de esgoto, a degradação das nascentes, abuso no uso de agrotóxico, caça e pesca indiscriminada. A complexidade destes temas aliados à ausência de informações pode inibir este público para debates. Alguns moradores citaram como problema ambiental uma área de preservação permanente, que circunda parte do bairro, onde há muito lixo, transferindo a responsabilidade aos órgãos públicos do meio ambiente, omitindo o papel do cidadão. Segundo Morin (2006) “um cidadão é definido, em uma democracia, por sua solidariedade e responsabilidade em relação à sua pátria”. Alguns problemas ambientais locais como a deficiência na arborização urbana também não foram percebidos pelo grupo pesquisado. A orientação realizada pelos responsáveis pela instalação do aquecedor solar foi a recomendação de como utilizar o mesmo, não havendo uma preocupação em orientá-los a respeito do princípio de funcionamento e como o aquecedor contribui para preservação do meio ambiente. Em relação ao desempenho do chuveiro, poucos entrevistados alegaram que o mesmo não estava funcionando de forma adequada, citando que ele não aquece suficientemente durante o inverno. Conclusão Não há duvida de que o uso de aquecedor solar ajuda a preservar o meio ambiente, pena que nem todos têm acesso ao mesmo, devido ao custo alto de compra. Mas alguns tendo acesso ao aquecedor solar por meio de projetos do governo, não vêem nenhuma vantagem em ter este, a não ser a economia no custo de energia elétrica no final do mês. Os entrevistados quando utilizam o aquecedor solar não se preocupam com a preservação do meio ambiente, isso ocorre porque não há um esclarecimento sobre esses aspectos. Na maioria das vezes há uma evidência apenas na redução no valor da quantia da conta de energia, assim a realização desta pesquisa se apresenta como uma alternativa para alertar indústria e os usuários no que diz respeito à forma de divulgação dos benefícios oriundos do uso do aquecedor solar e de que forma o mesmo colabora para a preservação do meio ambiente. A percepção ambiental ainda é muito pequena, quase inexistente principalmente por parte das populações de baixa renda e com reduzida formação escolar. Não há um interesse por parte dos moradores em preservar o meio ambiente, talvez nem saibam como e por onde começar. A população não tem consciência que muito dos nossos atos está ajudando na degradação da natureza e do meio ambiente. O que não deixa de ser responsabilidade dos Governos Municipais, Estadual e Federal. BIBLIOGRAFIA BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Meio Ambiente, Saúde/ Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 128p. v.9. 1997. Eletrotécnica e Energia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1997. FARIAS, J. S. ; A Pequena e micro empresa e o meio ambiente: A percepção dos empresários com relação aos impactos ambientais. Revista Organizações & Sociedades. Ed. Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, v.9, n.23, janeiro/Abril, 2006. FIGUEIREDO, J. NETO, G.G. ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE UM GRUPO DE EMPRESÁRIOS DE SINOP, MATO GROSSO, BRASIL. Monografia de conclusão
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 42 do curso de Graduação em Biologia UFMT. Revista eletrônica Mestrado em Educação Ambiental , v.22, janeiro a julho de 2009. GET – Global Energy And Telecom Ltda, Aquecedor Solar reduz consumo de energia e água e preserva o meio ambiente, disponível em http://aquecedores.get.ind.br/index.php/tag/aquecedores-solares/ acesso em setembro 2009. LEITE, M. A. IMPACTO AMBIENTAL DAS USINAS HIDRELÉTRICAS. II Semana do Meio Ambiente. UNESP. Ilha Solteira, Junho, 2005. MATAJS, R.R. Demanda, consumo e custo das alternativas ao chuveiro elétrico no Estado de São Paulo. 1997. 156 f. Dissertação (Mestrado em Inter unidades em Energia) - Instituto de MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC), CARTA BRASILEIRA PARA EDUCAÇÃO AMBIENTAL, Workshop sobre Educação Ambiental, Jacarépaguá, Rio de Janeiro 1 a 12 de julho de 1992. MORIN, E. A cabeça bem feita. São Paulo: 120 edição Bertrand, Brasil, p.128, 2006. Relatório Anual de Responsabilidade Socioambiental, 2008. Disponível em http://www.celg.com.br/arquivos.pdf acesso em 26 de fevereiro de 2010. TOZONI-REIS, M.F.C. Educação ambiental para crianças no ambiente urbano: uma proposta de pesquisa-ação. Revista Ciência & Educação. v. 10, n2, p.149-159, 2004. TUAN, YI-FU. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo. DIFEL. 288p. 1980.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 43 ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS ASSOCIADOS AO ECOSSISTEMA MANGUEZAL DO RIO COCÓ, FORTALEZA/CE Davi Aragão ROCHA Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFC daviaragaorocha@gmail.com Antonio Jeovah de Andrade MEIRELES Prof. Dr. Departamento de Geografia UFC Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFC. Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFC jeovahmeireles@ufc.br RESUMO Este estudo descreve as funções socioambientais dos ecossistemas manguezais, aprofundando-se na importância do ecossistema manguezal do Rio Cocó, em Fortaleza/CE. Estuda- se, a partir de publicações acadêmicas e documentos governamentais, os impactos que esse ecossistema vem sofrendo e os consequentes efeitos para a sua biodiversidade e para a população fortalezense. Observou-se que manguezais são ecossistemas costeiros encontrados principalmente nas regiões tropicais, sendo ricas fontes de produção de material orgânico, muito atrativo a diversas espécies de animais e propícios a várias espécies de plantas, além de microorganismos. Os ecossistemas manguezais se prestam a vários serviços sócio-ambientais. Insere-se nesse contexto o ecossistema manguezal do Rio Cocó, que sofre com diversos problemas, como os impactos gerados pela especulação imobiliária e ocupação irregular. Para potencializar as funções e serviços ambientais, faz-se necessário a delimitação e demarcação das áreas de preservação permanente; retiradas das construções irregulares em áreas de preservação permanente e a recuperação da vegetação; amplo processo de saneamento básico e ações de implantação de políticas públicas para ampliar a biodiversidade, principalmente com a conservação dos demais sistemas ambientais associados ao manguezal. Conclui-se que o ecossistema manguezal do Rio Cocó, por todas a funções socioambientais que presta, é essencial para o ecossistema urbano da cidade de Fortaleza. Assim, é de extrema importância a realização de estudos ambientais para a fundamentação das políticas públicas que envolvam esse ecossistema. PALAVRAS-CHAVE: Ecossistema, Manguezal, Rio Cocó, Impactos Ambientais ABSTRACT This study describes the social and environmental functions of mangrove ecosystems, deepening the importance of mangrove ecosystem of Rio Coco in Fortaleza. It studies, using academic publications and government documents, the impacts that this ecosystem is suffering and the consequent effects on its biodiversity and on the population of Fortaleza. It was observed that mangroves are coastal ecosystems found mainly in tropical regions, and that they are rich sources of production of organic material, which is very attractive to several species of animals and prone to various kinds of plants, and microorganisms. Mangrove ecosystems lend various social and environmental services. In this context, the mangrove ecosystem of Rio Coco suffers several problems, such as the impacts created by land speculation and illegal occupation. To enhance the functions and environmental services, it is necessary the delimitation and demarcation of areas of permanent preservation; the removal of buildings installeds in areas of permanent preservation; restoration of vegetation; extensive process of sanitation and public actions to enlarge biodiversity, especially with the conservation of other environmental systems associated with the mangrove. We conclude that the mangrove ecosystem of Rio Coco, by all the social and environmental functions it provides, is essential to the urban ecosystem of Fortaleza. The environmental studies are of extreme importance for the public policy involving this ecosystem. KEYWORDS: Ecosystem, Mangrove, Rio Coco, Environmental Impacts
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 44 1. INTRODUÇÃO O Rio Cocó é o principal rio da cidade de Fortaleza, possuindo 45 km de extensão, dos quais 24 km correm dentro desse município. Dessa forma, ele é historicamente, culturalmente, economicamente e socialmente importante para a capital cearense. O ecossistema manguezal em que o rio se insere realiza diversa funções essenciais ao ecossistema urbano da cidade. Nos últimos anos, os impactos que a expansão urbana causa nesse ecossistema são cada vez mais perceptíveis, chamando a atenção da população e da mídia para o problema, exigindo ações do poder público para a recuperação da área. Este estudo objetiva, assim, realizar uma descrição das funções socioambientais dos ecossistemas manguezais, demonstrando-se a importância histórica, cultural, econômica e ambiental. Aprofunda-se na importância do ecossistema manguezal do Rio Cocó. Partindo-se então para o estudo dos impactos que esse ecossistema vem sofrendo e os consequentes efeitos para a sua biodiversidade e para a população fortalezense. Utilizou-se, para o estudo, publicações de autores e órgãos governamentais, pesquisas acadêmicas e documentos do governo e do ministério público. Essa pesquisa é importante por demonstrar a essencial necessidade de estudos ambientais para a fundamentação das políticas públicas para a recuperação e ampliação dos ecossistemas urbanos, em especial o Rio Cocó. Serve ainda de fonte para outros estudos que tratem da temática ambiental, incluindo-se aí pesquisas dos campos do Direito, Arquitetura, Urbanismo, Ecologia, Biologia e Geografia, dentre outros. 2. ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS O que é ecossistema? Eco origina-se do termo grego oîkos e , como se observa pelo, significa “casa, domicílio, habitat” (ODUM & BARRETT, 2007). Sistema, por sua vez, também vem do grego, do termo systema (grupo, reunião), significando disposição das partes ou dos elementos de um todo, coordenados entre si, e que funcionam como estrutura organizada. Sobre ecossistema, Fritjof Capra escreve o seguinte: Quanto mais estudamos o mundo vivo, mais nos apercebemos de que a tendência para a associação, para o estabelecimento de vínculos, para viver uns dentro de outros e cooperar, é uma característica essencial dos organismos vivos. Lewis Thomas observou: “Não temos seres solitários. Cada criatura está, de alguma forma, ligada ao resto e dele depende”. As maiores redes de organismos formam ecossistemas, em conjunto com vários componentes inanimados ligados aos animais, plantas e microorganismos, através de uma intrincada rede de relações que envolvem a troca de matéria e energia em ciclos contínuos. Tal como os organismos individuais, os ecossistemas são sistemas auto- organizadores e auto-reguladores nos quais determinadas populações de organismos sofrem flutuações periódicas. Em virtude da natureza não-linear dos percursos e interligações dentro de um ecossistema, qualquer perturbação séria não estará limitada a um único efeito, mas poderá propagar-se a todo o sistema e até ser ampliada por seus mecanismos internos de realimentação. Num ecossistema equilibrado, animais e plantas convivem numa combinação de competição e mútua dependência. Cada espécie te potencial suficiente para realizar um crescimento exponencial de sua população, mas essas tendências são refreadas por vários controles e interações. (grifou-se) (CAPRA, 2005) Pode-se, portanto, entender ecossistema como uma rede de convivência dos seres habitantes de determinado meio ambiente – fauna, flora e microrganismos –, relacionando-se com os outros elementos deste e entre si, tendendo a um equilíbrio dinâmico e evoluindo ao longo do tempo. A vegetação do mangue – a floresta – produz grande quantidade de matéria orgânica, que é decomposta pela microfauna existente na água e no solo (CEARÁ, 1992). O fluxo da água – que gera uma troca de elementos entre o mar e o rio (BRASIL, 2004) – encarrega-se de levar essa matéria orgânica para o mar, tendo nisso a colaboração dos peixes, ajudando no desenvolvimento dos organismos aquáticos da costa; e “do mar traz consigo nutrientes de um tipo diferente daqueles [...] de forma que as contribuições se complementam” (VANNUCCI, 1999). Essa matéria orgânica também serve de alimento a outros seres, como alguns crustáceos e peixes. Essa interação entre água doce e água marinha mostra-se muito importante, por exemplo, em relação aos corais, que dependem dos manguezais, pois estes funcionam como controladores da qualidade da água costeira. Em contrapartida, os corais protegem os manguezais das ondas de forte
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 45 energia, dissipando-as e criando águas de baixa força e baixa energia, o que é muito relevante para o equilíbrio do manguezal. Uma das características do mangue é a grande quantidade de peixes, crustáceos e moluscos. A quantidade de peixes nos manguezais chega a ser muito maior do que nos habitat das zonas costeiras adjacentes. Segundo relatos, o número de peixes nos manguezais da Flórida, nos EUA, por exemplo, chega a ser 35 vezes maior do que na sua costa (RÖNNBÄCK, 1999). Saliente-se que, apesar de mais evidentes, os crustáceos e os peixes não são os únicos habitantes do manguezal; encontrando-se ainda várias espécies de mamíferos, aves, insetos e répteis, além de fungos e parasitas (VANNUCCI, 1999), que também mantêm uma rede de relações nesse ecossistema. Compreende-se que há uma grande complexidade de relações e de trocas nos ecossistemas manguezais. Complexidade que favorece o desenvolvimento de diversas espécies de animais. Os manguezais servem de zona de desova e de alimento de inumeráveis espécies de peixes, chegando a 80% dos recursos pesqueiros dependerem, direta ou indiretamente, deles; tendo, juntamente com arrecifes de coral e plantas herbáceas marinhas, função decisiva de armazenar e reciclar os elementos nutritivos, regulando o equilíbrio aquático e protegendo as terras da erosão (JUMA, 1997). Oferecem os manguezais uma abundância de alimentos bem maior do que nos ecossistemas costeiros próximos, contendo, como já dito, grande quantidade de matéria orgânica, tornando-se assim atrativo a larvas e peixes jovens. Estes têm, muitas vezes, como principal dieta filhotes de caranguejos, abundantes nesse ecossistema. Assim, peixes jovens e camarões encontram ali bons refúgios para proteção. Além da importância para a vida animal marinha e para a qualidade da água, muitos outros serviços ambientais são prestados pelos manguezais. Como explicitam Barbier e Cox (2004), “as florestas de mangue são uma das características primárias dos ecossistemas costeiros”, sendo, na verdade, um dos mais produtivos ecossistemas costeiros das regiões tropicais e subtropicais do mundo, produzindo, uma vez mais, bastante material orgânico. Alguns dos maiores serviços ecológicos promovidos pelos ecossistemas manguezais, de acordo com UICN (2003) – The World Conservation Union –, que os classifica como categoria especial de terra molhada, são o controle de enchentes e de poluição, a reciclagem da água do solo e a estabilização da linha costeira e bancos de rios (TUPINAMBÁ, 2004). O Relatório GT-Carcinicultura de 2005 da Câmara Federal diz que o manguezal, sendo um ecossistema dos mais complexos do Planeta, favorece a segurança alimentar advinda das atividades de subsistência, pois atua como suporte para a pesca e a mariscagem. Serve ainda à preservação das aves, por estar vinculado a rotas de migrações de várias espécies, e à geração e produção de vida animal, principalmente marinha, sendo um verdadeiro “berçário da vida”. Estão elencadas, no Quadro 1, uma série de serviços ambientais e ecológicos, citados por diversos autores, que são prestados pelos ecossistemas manguezais. Quadro 1 – Serviços ambientais e ecológicos* ► Fonte de produtos naturais diversos; ► Proteção contra enchentes, furacões e ondas fortes; ► Proteção e controle contra erosão pelo amortecimento da energia das marés através das raízes das plantas; ► Proteção e controle contra salinização de lençóis freáticos; ► Suporte biológico e físico a outros ecossistemas costeiros; ► Local de refúgio, desenvolvimento e alimentação de peixes – em especial marinhos – crustáceos e outros; ► Proteção e conservação de habitares de fauna de natureza rara; ► Armazenamento e reciclagem de matéria orgânica, nutrientes e poluentes; ► Exportação de matéria orgânica e de nutrientes, através da dinâmica das marés, para ecossistemas costeiros próximos, constituindo a base da cadeia trófica com espécies de importância econômica e/ou ecológica; ► Aumento do desenvolvimento da pesca em geral através do fornecimento de detritos; ► Manutenção, regulamento e diversificação da biodiversidade local;
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 46 ► Regulação biológica de processos e funções ecossistêmicas; ► Produção de oxigênio; ► Influência nos climas locais e no clima global; ► Habitat e suporte a atividades de subsistência de comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras, índios e agricultores); ► Valores espirituais, culturais, religiosos e hereditários; ► Inspiração artística; ► Fonte de informação educacional e científica; ► Turismo e recreação; ► Vinculação a rotas migratórias de aves *Fontes: BARBIER e COX, 2004; DESCH, 2004; IBAMA, 2005; Relatório GT-Carcinicultura da Câmara Federal, 2005; REIS ARAGÃO, 2004; RÖNNBÄCK, 1999; VANNUCCI, 1999; TUPINAMBÁ, 1994. Apesar de todas essas importantes funções, os manguezais eram comumente considerados, no passado, como “terras baldias” (IBAMA, 2005), chegando-se inclusive a afirmar que deveriam ser transformados em terras “úteis e produtivas”. Dessa forma, os manguezais são atualmente um dos ecossistemas mais devastados, e estão desaparecendo de forma rápida em vários países (BARBIER & COX, 2004), pois foram ao redor do planeta gradativamente ocupados, urbanizados e, mais recentemente, degradados pela utilização para a carcinicultura. Os números assustam. Muitos países da América Latina e da África perderam entre 30% e 70% nos últimos 40 anos. Na Ásia, a Índia perdeu 50% entre 1963 e 1977; as Filipinas perderam 70% entre os anos de 1920 e 1990 (BARBIER & COX, 2004). A indústria pesqueira chegou a perdas anuais de 4,7 milhões de toneladas de peixes e 1,5 milhão de tonelada de camarão, em virtude da degradação dos manguezais (IBAMA, 2005). Assim, faz-se necessário procurarem-se formas de parar as fontes causadoras da degradação, ou de, pelo menos, atenuar seus efeitos, e de recuperar as áreas de manguezais depredadas, sendo imprescindíveis a vontade política e a pressão da sociedade civil para que haja políticas públicas voltadas para as questões sociais e ambientais inseridas nessa problemática. 3. O MANGUEZAL DO RIO COCÓ NO CONTEXTO URBANO O estado do Ceará apresenta atualmente cerca de 182 km² de manguezais, que se estendem ao longo dos seus aproximados 573 km de comprimento de zona costeira (CEARÁ, 2006). É nesse estado, mais precisamente na cidade de Fortaleza, que se encontra o manguezal do Rio Cocó e onde ele atinge o mar, na praia do Caça e Pesca. Formando uma zona estuarina, com terrenos sujeitos a inundação, a influência das marés chega, atualmente, no rio Cocó, até 13 km da foz. “Nesta zona, os bosques de mangue que conseguiram resistir ao desmatamento, ocupam uma área de cerca de 375 ha” (MIRANDA, 1988). Dos aproximados 45 km de curso do rio, 24 km percorrem o município de Fortaleza, onde a poluição torna-se um grande prejuízo à saúde do Cocó. Aí se insere, como forte contribuinte desse problema, a especulação imobiliária, que colabora com o aparecimento de esgotos a céu aberto, a construção de comunidades sem saneamento básico e desmatamento e aterramento do manguezal. Como já dito, a zona estuarina no Rio Cocó vai, atualmente, até cerca de 13 km da foz, sendo essa área a mais utilizada pela população de baixa renda (IBAMA, 2005). O bairro do Lagamar, por exemplo, localiza-se nessa faixa, sofrendo com alagamentos no período de cheias. Esses alagamentos ocorrem pelo aumento da permanência das águas sobre a superfície, consequência da impermeabilização do solo, fruto das edificações, pavimentações de ruas e aterro do manguezal. No documento “Proposta de Proteção, Conservação e Recuperação do Rio Cocó” (CEARÁ, 2003) são apresentados os impactos ambientais identificados por estudo da Superintendência Estadual do Meio Ambiente – SEMACE, afirmando que em toda a extensão do rio “o homem tem provocado muitas alterações”, usando os recursos ambientais de forma
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 47 irracional. Afirma ainda que, atravessando a Região Metropolitana de Fortaleza, a qualidade da água do rio torna-se crítica em quase todo o trajeto, recebendo diversos tipos de poluentes. Esse estudo evidencia que os principais impactos ambientais associados ao Rio Cocó são: a) Disposição de resíduos sólidos (lixo doméstico), ressaltando-se a falta de infra-estrutura dos locais vistoriados – lugares de moradias de baixa renda – e a tendência de agravamento do problema, em virtude do crescimento da população na área; b) Ocupações irregulares por barracos, problema esse que está diretamente ligado ao anterior, tendo não apenas questões ambientais envolvidas, mas essencialmente profundos problemas sociais, que vão desde o desemprego à falta de moradia; c) Construções irregulares de alvenaria, que invadem as áreas de preservação permanente do rio, incluindo-se aí prédios e residências; d) Lançamento de efluentes, incluindo-se desde efluentes de cemitérios e matadouros, a efluentes de oficinas, lavagem de carros e troca de óleo. e) Desmatamento da vegetação de mangue para implantação de equipamentos provados nas margens do estuário e afetando diretamente a biodiversidade do manguezal; f) Ocupação de áreas de preservação permanente do mangue e rio por avenidas, centros comerciais e edifícios residenciais; reduzindo a área de influência do fluxo das marés e, consequentemente, impedindo a ampliação da vegetação de mangue; g) Supressão de áreas úmidas de fundamental importância para as reações ecológicas (habitat de anfíbios, aves de produtoras de nutrientes) e destinadas ao amortecimento das inundações durante o período de cheias; h) Impermeabilização de extensos trechos do leito principal do estuário, com a extinção de áreas de recarga do aquífero, planície de inundação e de riachos afluentes do rio Cocó. Sobre o problema do lançamento de efluentes no rio, relatório de estudo técnico do Ministério Público Federal (2007) afirma: [...] a implantação de postos de combustíveis, oficinas mecânicas, indústrias e comércios em suas adjacências, provocam forte pressão, inserindo diferentes tipos de tensores no meio [...], haja vista que “(...) foram implementadas sem as devidas adequações ambientais, já que inibem ou interferem na livre passagem do fluxo de águas e, (...), modificam as taxas de sedimentação, acelerando as precipitações (...)” desses sedimentos, pois houve alteração da fonte primária de energia ou remoção da energia armazenada pelo sistema, bem como implicam no incentivo a outros tipos de agressões, estimulando a deposição direta de lixo e de lançamento de esgotos in natura na área. Em trechos terraplenados, encontram-se extintos os sistemas ambientais destinados a amortecer as enchentes (planície de inundação e de maré, lagoas e riachos), evidenciando-se ações irregulares na implantação de intervenções que ocupam fundamentais setores do rio para o controle das enchentes – promovendo impactos cumulativos. Posto isso, aumentarão os danos socioambientais relacionados com as áreas de risco vinculadas à bacia hidrográfica do rio Cocó, caso haja instalação e operação de novas edificações em áreas antes destinadas ao fluxo das marés e regularização dos eventos de cheias. O conjunto de impactos promove desmatamento de vegetação de mangue, impermeabilização do solo, supressão de unidades do ecossistema manguezal, extinção de setores da planície de inundação, planície de maré e demais áreas úmidas vinculadas ao sistema estuarino, representando intervenções em um sistema ambiental de fundamental importância para a cidade de Fortaleza. Por tudo o que se mostrou, as funções e serviços ambientais do ecossistema em estudo foram alteradas e modificadas, gerando consequências que interferiram na biodiversidade e na qualidade de vida dos fortalezenses. A biodiversidade vem sendo paulatinamente ameaçada e reduzida pela expansão da especulação imobiliária, com todos os seus impactos, que avança sobre a floresta e o rio, desrespeitando a legislação vigente e quebrando importantes elos das cadeias existentes no ecossistema, necessários à sua sobrevivência. O rio, aos poucos, morre, sendo poluído pelos efluentes advindos de vários pontos da cidade por todo o trajeto que percorre. Os efeitos para os fortalezenses são, por exemplo, problemas de saúde, perda de espaços de lazer e de memória coletiva, mudanças no microclima, perda de potenciais fontes de renda e produção, além de
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 48 constantes – e cada vez maiores – enchentes, que provocam enormes transtornos à população e grandes perdas financeiras ao poder público. Nisso tudo, importa salientar que quem mais sofre é a população de menor renda, em especial a que vive irregularmente próxima ao rio, tendo perdas incomensuráveis. Por isso, é urgente a realização de políticas públicas transformadoras dessa realidade, através de obras de saneamento básico, de recuperação do ecossistema, de habitação e de fiscalização, além da necessária demarcação das áreas legalmente protegidas. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Manguezais são ecossistemas costeiros encontrados principalmente nas regiões tropicais, sendo locais de encontro e interação de águas doces dos rios com águas salgadas do mar, formando ambientes bastante característicos. Ressalte-se que apesar das características comuns, cada manguezal é único, com suas próprias relações, interações e espécies de seres. Diversos estudos apontam os ecossistemas manguezais como ricas fontes de produção de material orgânico, fruto das reações químicas e interações ambientais entre os seres vivos lá presentes e o ambiente abiótico, tornando esses ecossistemas muito atrativos, pela grande quantidade de nutrientes, a diversas espécies de animais e propícios a várias espécies de plantas, além de microorganismos. Para diversas espécies de peixes e crustáceos, inclusive e especialmente marinhos, esses ecossistemas possuem a função de berçário por servirem de refúgio contra predadores e de local com fartura de alimento. Por isso, cerca de 70% da vida marinha depende dos manguezais, incluindo-se nessa dependência os corais, dos quais, por sua vez, dependem os ecossistemas em questão, existindo, como se percebe, uma interdependência. Além disso, os ecossistemas manguezais se prestam a vários serviços sócio-ambientais. Pode-se destacar: proteção contra enchentes; proteção e controle contra erosão; proteção e controle contra salinização de lençóis freáticos; suporte biológico e físico a outros ecossistemas costeiros; local de desenvolvimento e de peixes – em especial marinhos – crustáceos e outros; proteção e conservação de habitares de fauna de natureza rara; vinculação a rotas migratórias de aves; armazenamento e reciclagem de matéria orgânica, nutrientes e poluentes; exportação de matéria orgânica e de nutrientes, através da dinâmica das marés, para ecossistemas costeiros próximos, constituindo a base da cadeia trófica com espécies de importância econômica e/ou ecológica; produção de oxigênio; influência nos climas locais e no clima global; habitat e suporte a atividades de subsistência de comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras, índios e agricultores); fonte de informação educacional e científica; turismo e recreação. Fortaleza vem sofrendo desde a década de 30 um processo de crescimento populacional desordenado, provocando forte pressão sobre o meio ambiente. Insere-se nesse contexto e no apresentado no início desta conclusão, o ecossistema manguezal do Rio Cocó, que apesar da importância para a cidade em que se encontra – Fortaleza – sofre com diversos problemas. Como exemplo, tem-se que antigamente o fluxo das marés conseguia chegar a até 22km da foz; hoje, porém, não passa dos 13km. A especulação imobiliária no entorno do Cocó é grande. Encontrando-se parte dele inserido em área nobre da cidade. Não apenas moradias de luxo fazem parte da paisagem, mas lojas, supermercados, oficinas, postos de combustível, entre outros. Vastas áreas de comunidades pobres cobrem também o entorno do rio, não possuindo o saneamento adequado. Vê-se de um lado a pressão do luxo, onde verde é vendido como jardim particular; de outro a pressão da pobreza, onde o rio toma a função do Poder Público de recolher o lixo da população. Não se pense, porém, que no primeiro caso não se polui. Acontece que lá, procura-se utilizar o rio como tapete, para onde se joga debaixo, furtivamente, os detritos do farto jantar. Para potencializar as funções e serviços ambientais relacionados ao manguezal do rio Cocó, faz-se necessário a delimitação e demarcação das áreas de preservação permanente; retiradas das construções irregulares em áreas de preservação permanente e a recuperação da vegetação; amplo processo de saneamento básico e ações implantação de políticas públicas para ampliar a biodiversidade, principalmente com a conservação dos demais sistemas ambientais associados ao manguezal.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 49 5. REFERÊNCIAS ARAGÃO, A. C. R. A Percepção da Comunidade sobre as Opções de Lazer e de Conservação do Parque Ecológico do Cocó. Monografia (Graduação em Turismo). Fortaleza: UNIFOR, 2004. BARBIER, E. B. & COX, M. An Economic Analysis of Shrimp Farm Expansion and Mangrove Conversion in Thailand. In: Land Economics. Wisconsin: BRUWS, 2004. BRASIL. Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias da Câmara dos Deputados; MELO, João Alfredo Telles (rel.). Relatório GT-Carcinicultura. Brasília: Câmara Federal, 2004. CAPRA, F. O Ponto de Mutação; trad. Álvaro Cabral. 25ª edição. São Paulo: Cultrix, 2005. CEARÁ. Secretaria de Desenvolvimento e Meio Ambiente – SDU e Superintendência Estadual do Meio Ambiente – SEMACE. O que é Manguezal. Fortaleza: SEMACE, 1992. p. 13 CEARÁ. Secretaria de Desenvolvimento e Meio Ambiente – SEMACE. Proposta de Proteção, Conservação e Recuperação do Rio Cocó. Fortaleza: SEMACE, 2003. CEARÁ. Secretaria de Desenvolvimento e Meio Ambiente – SEMACE. Atlas dos Manguezais do Nordeste do Brasil: Avaliação das áreas de manguezais dos Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco Fortaleza: SEMACE, 2006. IBAMA. Diagnóstico da Carcinicultura no Ceará. Ministério do Meio Ambiente, 2005. JUMA, Calestous. Mundos Perdidos. In: Fuentes UNESCO nº96. UNESCO, 1997. MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Ação Civil Pública nº 064/2007; Ref.: Procedimento Administrativo nº 1.15.000.001348/2006-30. MIRANDA, M. e S. In: MOREIRA, M. O. Produção do Fitoplâncton em Um Ecossistema Estuarino Tropical (Estuário do Rio Cocó, Fortaleza, Ceará). Recife, 1994. ODUM, P.E.; BARRET, G.W. Fundamentos de Ecologia. 5. ed. São Paulo: Thomson, 2007. RÖNNBÄCK, P. The ecological basis for economic value of seafood production supported by mangrove ecosystems. In: Ecological Economics. Elsevier Science, 1999. TUPINAMBÁ, S. V. Inventário Florestal do Manguezal do Cocó. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 1994. __________. In: LEROY, J. (Relator). Populações Litorâneas Ameaçadas: Carcinicultura, Pesca Industrial, Turismo, Empreendimentos Públicos e Poluição. Relatoria Nacional para o Direito Humano ao Meio Ambiente, 2004. UNION, The World Conservation. Regional Technical Assistance For Coastal And Marine Resourcer Management And Poverty Reduction In South Asia: An Economic Evaluation Of Mangrove Ecosystem And Different Fishing Techniques In The Vanthavilluwa Divisional Secretariat In Puttalam District Of Sri Lanka. Sri Lanka: Asian Development Bank, 2003. VANNUCCI, M. Os Manguezais e Nós: Uma Síntese de Percepções; versão em português Denise Navas-Pereira. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 50 CARCINICULTURA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO AGROAMBIENTAL NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL13 SANTOS, Carmem Lúcia Profª do IFS-SE, Doutoranda do NPGEO/UFS- Brasil carmemls@infonet.com.br COSTA, Boni Guimarães Prof. da SEED, Mestrando em Geografia do NPGEO/UFS- Brasil costaboni@hotmail.com RESUMO A carcinicultura, assim como qualquer outra atividade produtiva demanda o consumo de recursos naturais e pode afetar adversamente o meio ambiente. Na região litorânea de Sergipe em meados de 1998, iniciou-se o cultivo de camarão marinho com a espécie lipopenaeus Vannamei adotando-se o sistema semi-intensivo. Neste contexto, este trabalho, baseado em fontes bibliográficas e documentais, busca discutir o processo de transformação nos espaços no litoral sergipano a partir da configuração territorial da carcinicultura, onde as relações sociais se intensificam com mudanças na produção e organização espacial. O presente estudo consiste em uma sistematização descritiva dos dados preliminares da pesquisa e fornece uma idéia da evolução e da organização do espaço litorâneo agroambiental sergipano, bem como apresenta alguns aspectos relativos às formas de organização do corredor produtivo, em especial a carcinicultura. Com base em estudos da Companhia de Desenvolvimento Industrial e de Recursos Minerais de Sergipe - CODISE o número de empreendimentos de carcinicultura em Sergipe cresceu entre 2004 e 2006 nas várias bacias hidrográficas do Estado. A atividade da carcinicultura no litoral sergipano contribuiu para uma redução e extinção de habitats de numerosas espécies, o desmatamento de extensas áreas de manguezal causando interferência direta na produção e distribuição de nutrientes para o estuário e plataforma continental; extinção de setores de reprodução e alimento de moluscos, aves e peixes e diminuição da biodiversidade ao longo das bacias hidrográficas. Isto gera a expulsão de marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho, ou tornam-se obstáculos a seu acesso, aos espaços produtivos do território, ao estuário e ao manguezal com a privatização de terras da União, tradicionalmente utilizadas para o extrativismo animal e vegetal. PALAVRAS-CHAVE: Carcinicultura, povoamento, corredor produtivo, espaço agroambiental e meio ambiente. ABSTRACT Shrimp farming, like any other productive activity demands the use of natural resources and can adversely affect the environment. In the coastal region of Sergipe in mid-1998, began the cultivation of marine shrimp species with lipopenaeus Vannamei adopting the semi-intensive system. In this context, this paper, based on bibliographic and documentary discusses the process of transforming the spaces in the Sergipe coast from the territory configuration of shrimp farming, where social relations are intensified with changes in production and spatial organization. This study consists of a systematic descriptive of the research and provides an idea of the evolution and organization of space-environment coastal Sergipe, introduces some aspects of the forms of organization of productive runner, especially shrimp. According to the Industrial Development Corporation and Mineral Resources of Sergipe - CODISE the number of projects in Sergipe shrimp grew between 2004 and 2006 in various watersheds. The activity of shrimp farming in coastal Sergipe contributed to a reduction and disappearance of habitats for many species, the deforestation of large areas of marsh causing direct interference in the production and distribution of nutrients to the estuary and continental shelf; extinguishing sectors of reproduction and food shellfish, birds and fish and reduction of biodiversity along the river basin. This leads to the expulsion of seafood, fishermen and crab 13 Texto apresentado faz parte da avaliação final da disciplina “Dinâmica Ambiental e Agricultura” ministrada pela Profª Drª. Rosemeri Melo e Souza do Programa de Pós-Graduação em Geografia – NPGEO/UFS, no 2º semestre de 2009.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 51 collectors of their work areas, or become obstacles to their access to productive areas of the area, estuaries and mangroves with the privatization of the land traditionally used for extraction plant and animal. KEYWORDS: Shrimp farming, settlement, running productive, space-environment and environment. INTRODUÇÃO A globalização da problemática ambiental apresentou sérias conseqüências ao sistema mundo e acentuou-se, sobretudo, com as ações do capital com seus modelos desenvolvimentistas, sobre os ambientes naturais, desconsiderando a questão da sustentabilidade socioambiental. Isto pode ser visto pelo pouco envolvimento da sociedade em relação a elaboração de estratégias de proteção dos recursos naturais. Ross (2006, p. 64), nos lembra que a produção do espaço atual no território brasileiro é o resultado da combinação convergente de um conjunto de fatores naturais, técnico-científicos e político-econômicos que se associam aos diferentes momentos da história econômica brasileira, em que programas, projetos e planos dos governos federal e estaduais voltaram-se para uma política de planejamento que visa ao desenvolvimento econômico, sem preocupação maior com o social e o ambiental. Neste sentido, uma problemática que não pode deixar de ser considerada, é a realidade na qual se encontra a zona costeira brasileira. Ela é uma região associada a importantes momentos históricos e palco de grandes intervenções ao longo do tempo. Enquadra-se, portanto, num cenário desafiador e influenciador de re-configurações territoriais. Deniz (1981) classifica zona costeira a partir do termo litoraneidade, entendido como um conjunto de condições econômicas e ambientais submetidos ao processo histórico. O autor aponta três elementos como critérios de definição da litoraneidade: o povoamento antigo, clima quente e úmido e solos pobres e relevo suave. Para Diniz, o fato de estar junto ao mar dá fisionomia própria ao litoral e explica uma série de fatos ligados à ocupação do espaço. Não que o importante seja o mar propriamente dito, mas um conjunto de características associadas a essa posição, quer seja de relevo e solo, quer seja de clima, de povoamento ou de atividade econômica (DINIZ, 1981). Vasconcelos (2005) destaca que a ocupação humana de forma desordenada gerou rompimentos no equilíbrio dinâmico e sérios impactos negativos no ambiente costeiro brasileiro. Essa zona vem sendo objeto de acelerado processo de ocupação com sérios reflexos na produção do espaço geográfico e nas re-configurações dos territórios. Os reflexos dessa situação podem ser percebidos no litoral Sergipano que sofre do mesmo tipo de intervenções e transformações ocorridas no litoral brasileiro, com uma relativa concentração de atividades econômicas, indústriais, serviços, atividades primárias, concentração populacional significativa em função de importantes municípios costeiros e também sistemas naturais protegidos. Entretanto, não é difícil identificar na zona litorânea sergipana sistemas ambientais naturais transformados pelas práticas econômicas, em projetos de carciniculturas 14 e construções de viveiros nas margens dos rios e canais fluviais dos sistemas estuarinos. Nesta zona se definem quadros problemáticos do ponto de vista da gestão ambiental, demandando ações de caráter corretivo, com a mediação dos múltiplos conflitos de uso. Diante deste cenário, busca-se discutir o processo de transformação nos espaços no litoral sergipano a partir da configuração territorial da carcinicultura, onde as relações sociais se intensificam com mudanças na produção e organização espacial. A realização do estudo considerou trabalhos científicos, dissertações de mestrados, teses de doutorado e relatórios de estudos de planejamento dos órgãos estaduais. Apesar deste trabalho consistir, ainda, em uma sistematização descritiva dos dados preliminares obtidos na pesquisa ele fornece uma idéia da evolução e da organização do espaço litorâneo agroambiental sergipano, bem como apresenta alguns aspectos relativos às formas de organização do corredor produtivo, em especial a carcinicultura. Para melhor entendimento dos termos espaços agroambiental e corredor produtivo costeiro norte-sul, o trabalho teve como base as observações tecidas por Ross (2006) que: a partir da leitura 14 A carcinicultura é uma atividade que estabelece relações diretas com o ecossistema, podendo alterar sua dinâmica e funções ecológicas caso a atividade não seja conduzida respeitando os princípios de sustentabilidade ambiental.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 52 do processo histórico de ocupação do território brasileiro, discutiu a classificação das unidades geomorfológicas do país relacionadas com a vegetação e os sistemas naturais vegetais, sob a perspectiva do grau de alteração pelo homem, quando se transformam em espaços de atuação econômica: tanto em agropecuário quanto em extrativista. Nesse transcurso teórico foi possível identificar que existem vastas áreas pouco produtivas, com agricultura e pecuária no geral decadentes, combinadas com ambientes naturais degradados, ao lado de grandes espaços ainda pouco ocupados e também pouco produtivos, que se apresentam em condições ambientais ainda bastante preservados. Neste estudo, considerou-se o que foi determinado pela Política Nacional de Gerenciamento Costeiro do Ministério do Meio Ambiente quanto à classificação adotada pelos estudos para elaboração do Gerenciamento Costeiro em Sergipe. A zona costeira estadual encontra- se subdividida em três setores: i) Litoral Norte – 17 municípios: Barra dos Coqueiros, Neópolis, Nossa Senhora do Socorro, Laranjeiras, Riachuelo, Maruim, Santo Amaro das Brotas, Rosário do Catete, General Maynard, Carmopólis, Pirambu, Japaratuba, Pacatuba, Brejo Grande, Ilha das Flores; ii) Litoral Centro – Aracaju, e iii) Litoral Sul – 5 municípios: São Cristóvão, Itaporanga D’Ajuda, Estância, Santa Luzia do Itanhi e Indiaroba. 1.1 Algumas Considerações sobre a Ocupação do Espaço Agroambiental do Litoral Sergipano A estrutura do espaço agroambiental sergipano é resultado de um longo processo, cujo ponto inicial pode ser fixado na formação do espaço colonial brasileiro. Aí a exploração açucareira representou seu grande instrumento de ocupação, sendo precedida pela pecuária extensiva, com o intuito de promover cada vez mais o alargamento de suas fronteiras agrícolas e como não haviam de deixar de ser, econômicos. Foi o cultivo da cana-de-açúcar, inicialmente no litoral da Capitania de São Vicente, hoje litoral paulista, e pouco mais tarde no litoral de Pernambuco e Bahia, que começa de fato o processo de ocupação do território, se estabelecendo uma incipiente transformação dos ambientes naturais em áreas cultivadas( ROSS, 2006, p. 99). No processo de formação do território sergipano a pecuária é uma dessas atividades em comum em todo o Estado, que não deve ser esquecida, inclusive pela forte influência que exerceu nos municípios litorâneos como um todo. Porém, é somente nos anos de 1970 e principalmente nos anos de 1980, que se comprova nitidamente a pecuarização. Os dados de mudanças nas formas de utilização da terra e na orientação da agricultura deixam evidente o predomínio das pastagens, mormente as plantadas, e do rebanho bovino (VILAR e VIEIRA, 2004). No final do século passado, o cultivo de arroz já se fazia presente no litoral sergipano, sobretudo nas áreas próximas ao atual município de Brejo Grande. Entretanto, o referido cultivo não tinha, naquela época a mesma importância da cana-de-açúcar e do sal, de exportação. Porém, para aumentar a dinamização econômica entre os estuários, foram construídos canais de conexão fluvial, permitindo a interligação das bacias hidrográficas dos rios Japaratuba e Sergipe, através da construção do Canal do Pomonga, e entre as bacias hidrográficas do Rio Sergipe e do Vaza-Barriz por intermédio do Canal de Santa Maria que facilitava a comunicação entre as áreas nucleares do espaço litorâneo sergipano. O litoral sergipano apresenta-se devastado na sua cobertura vegetal primitiva. De acordo com Santos e Andrade (1992), exemplo marcante é notado nos municípios de Pirambu e Pacatuba ao observar uma forte transição da floresta costeira “tanto para a mata de restinga, quando se encaminha para o litoral, quanto para o cerrado e mata não espinhosa, quando se dirige para o interior”. É possível afirmar, então, a substituição, sobretudo, nas áreas mais devastadas, dessa cobertura por cultivos perenes (exemplos do coco-da-baía e da manga) e temporários (cana-de- açúcar e mandioca), e ainda pelas pastagens e do rebanho bovino, caracterizando um nítido processo de pecuarização. Essas paisagens podem ser entendidas então, como um dos elementos fundamentais para o entendimento das organizações e relações espaciais. Levando em consideração a perspectiva humana pode ser evidenciada a partir dos estudos do geógrafo francês Georges Bertrand (2004, p.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 53 141) onde ele nos apresenta que: [...] a paisagem não é a simples adição de elementos geográficos disparados. É uma determinada porção do espaço, resultado da combinação dinâmica, portanto instável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente uns sobre os outros, fazem da paisagem um conjunto único e indissociável, em perpétua evolução. Fontes (1990), por exemplo, afirma que a parcela considerável dos mangues vem sendo devastada, ocorrendo sua ocupação, principalmente, por salinas, viveiros e canais artificiais, alterando profundamente a circulação da água, modificando os ciclos das marés e consequentemente reduzindo o ingresso de nutrientes. O aterro resulta, geralmente, da execução de obras de engenharia (aterro para construção de obras de engenharia (aterro para construção de leito de rodovias), que se interpõem isolando áreas de mangue. Caracteriza-se pela ação definitiva e irreversível na alteração do manguezal suprimindo completamente a fauna e a flora. Atualmente, ao longo de toda zona litorânea pode-se observar a presença da rodovia estadual (SE-100 e SE-318) que tem como meta interligar grande parte do litoral, os estados da Bahia, Sergipe e Alagoas, com recursos provenientes do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste - PRODETUR. Amplia-se assim de forma significativa o fluxo de ocupação e servindo de eixo estruturador do espaço. A CARCINICULTURA COMO ATIVIDADE DO CORREDOR PRODUTIVO COSTEIRO NORTE-SUL Entendemos a organização espacial como sendo o conjunto de objetos ou formas espaciais efetivadas no processo histórico, através da atuação humana. Neste contexto são construídos campos de cultivos, pontes, rodovias, que facilitam os fluxos geográficos no litoral. “O conjunto de todas essas formas configura a organização espacial da sociedade. A organização espacial é a segunda natureza, ou seja, a natureza primitiva transformada pelo trabalho social” (CORRÊA, 2003b, p.54). Com Ross, (2006), obtivemos a compreensão de que existem dois macrocorredores de maior produção e produtividade agropecuária no Brasil, que se estendem na direção norte-sul, sendo um na parte central e o outro na zona costeira do país. Dentro desta zona encontra-se o litoral do Nordeste que apresenta grande dinâmica econômica onde a carcinicultura vem se instalando. No Brasil, a prática da carcinicultura foi iniciada em 1970 e se firmou como uma atividade industrial em 1980 a partir de articulação entre instituições de pesquisas regionais, governo e iniciativa privada no sentido do planejamento e da implantação de tecnologias tais como: engenharia de projetos, insumos, equipamentos, biotecnologia entre outros. O investimento nesse setor no Brasil, especialmente na Região Nordeste, ampliou-se nos últimos dez anos devido às características edafoclimáticas, topográficas e hidrobiológicas que beneficiam o cultivo do camarão durante todo o ano permitindo realizar três ciclos anuais de produção, aos investimentos realizados em infra-estrutura da Região; e em razão de uma queda na produção dos países com grande participação no mercado mundial (FIGUEIREDO, GONDIM, 2003). A viabilidade do cultivo comercial do camarão foi obtida com a aclimatação da espécie Litopenaeus vannamei que é originária da costa do Pacífico e teve uma excelente adaptação às condições tropicais de clima, solo e água principalmente as encontradas no litoral Nordeste. Por isso, a região Nordeste detém a maior concentração de área produtiva e responde por quase a totalidade da produção nacional, especialmente, nos Estados do Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia e Pernambuco (ABCC, 2002). Forjado (2008, p.48) nos evidencia que, as dinâmicas econômicas “modificam as paisagens (criando e recriando)”, produzindo, novas configurações territoriais. Um subsídio teórico-conceitual de Raffestin, acerca da compreensão de espaço e território é evidenciado nesse trabalho. Ele afirma que é essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. O território se forma a partir do espaço, é resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível [...] O território nessa perspectiva, é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 54 conseqüência, revela relações marcadas pelo poder. O espaço é a “prisão original, o território é a prisão que os homens constroem para si [...] O espaço é, portanto anterior, preexistente a qualquer ação. O espaço é de certa forma, “dado” como se fosse uma matéria prima (RAFFESTIN, 1980). Seguindo o raciocínio de Raffestin, o ser humano constrói territórios a partir de interesses capitalistas e a carcinicultura é um exemplo, se constituindo em um segmento produtivo da aqüicultura15, derivada do processo de desenvolvimento tecnológico, associado ao crescimento da demanda mundial por tais produtos. Como resposta às exigências da modernização socioeconômica, a atividade além de utilizar recursos naturais progressivamente, proporciona agressões aos limites de tolerância dos ecossistemas, reprimindo e eliminando espécies de natureza viva, reduzindo, portanto, a biodiversidade (ALTVATER, 1995). Os problemas ambientais gerados pela criação de camarão em cativeiro são frequentemente relatados. Tahim (2004), por exemplo, aponta o desmatamento de mangues, lançamento de efluentes nos cursos d’água (causando mudanças das características físico-químicas das águas), bem como o uso de produtos químicos, erosão, inundações, alterações no regime hidrológico de rios gerando problemas socioeconômicos para as comunidades locais. Esse autor alerta que a implantação de viveiros de camarão é realizada em áreas que eram utilizadas para a pesca, mariscagem, uso de produtos da flora do mangue por parte das comunidades ribeirinhas. Porém, no lugar destas atividades a carcinicultura se introduziu, demarcando seu território impedindo o acesso dessas comunidades, já que são áreas disponíveis para o extrativismo, causando o que podemos chamar de privatização das terras da União. Os aspectos legais e sócio- culturais estão relacionados, por exemplo, ao uso de águas públicas, conflitos locais, entre outros fatores (ALTVATER, 1995). Os grandes projetos de carcinicultura marinha localizados nos estuários apresentam conflitos com o mangue, degradando–o através de supressão de sua vegetação para instalação/ampliação de viveiros ou para implantação de vias de acesso. O lançamento de fluentes e resíduos em seus corpos de água compromete em médio prazo a função desses ecossistemas (CPRH, 2003) e também o lançamento de resíduos da larvicultura no manguezal e corte de mangue para instalação de viveiros de camarão (CPRH, 2003). Saquet (2007) aborda a formação do território como fruto de relações econômicas, políticas e culturais efetivadas por um grupo social. Cotidianamente, são estabelecidas inúmeras relações/ ligações/conexões, que formam o que se chama de redes geográficas. A precarização socioespacial dominante na sociedade capitalista dá forma àquilo que se denominam aglomerados humanos de exclusão, exemplo mais estrito de des-territorialização, considerado por HAESBAERT (2006, p. 67) como “um processo de exclusão social, ou melhor, de exclusão socioespacial”. 3.ESPAÇOS PRODUTIVOS DO LITORAL SERGIPANO: A CARCINICULTURA O litoral de Sergipe tem uma extensão, de aproximadamente 163 km e ocupa uma superfície de 5.453 km2, composto de 23 municípios, classificados como costeiros, litorâneos ou estuarinos, distribuídos, e delimitados pelos critérios do GERCO - Programa Nacional de Gerenciamento Costeiro, fortemente marcado pela presença da planície Litorânea que recebe influência direta dos estuários dos rios: São Francisco, Japaratuba, Sergipe, Vaza-Barris e Piauí – Real. Além disso, comporta variadas paisagens, assentadas sobre a formação de vastas áreas estuarinas e manguezais cujo potencial animal é constituído, basicamente, da fauna típica desses ambientes, onde se podem destacar crustáceos, moluscos, aves. Associado à vegetação, ao solo e as características hídricas dos estuários, a fauna típica é bastante diversificada, representada por várias espécies de crustáceos, moluscos, cuja captura desempenha importante papel na 15 Aqüicultura é uma atividade multidisciplinar, que constitui no “cultivo de organismo aquático incluindo peixes, moluscos, crustáceos e plantas aquáticas” (FAO, 1998). O cultivo implica em intervenção humana no processo de criação para aumentar a produção, tal como regulação dos estoques, alimentação, proteção de predadores, entre outros. Considerando, também, o potencial dos impactos econômicos com o crescimento da aqüicultura e a geração de emprego e renda.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 55 sobrevivência das populações locais. Além da pesca artesanal outra forma de utilização desse espaço é a instalação de viveiros para a prática de aqüicultura. Segundo Carvalho (2004) a ocupação com os carcinicultores e seus sistemas de produção, semi-intensivo, de natureza comercial do camarão marinho em Sergipe tiveram início em meados de 1998, com a espécie cultivada lipopenaeus Vannamei e o sistema de cultivo semi- intensivo. Este sistema conta com suporte de fertilizantes e/ou nutrientes externos. A espécie cultivada depende de consumo de organismos vivos, presentes no viveiro, e de suplementos alimentares. Conforme estudos desenvolvidos16, em 2004 havia 60 empreendimentos em produção com área total de 636,87 hectares, distribuídos em cinco bacias hidrográficas (figura 1), destacando- se, em número, a do rio Sergipe, com 21 unidades produtoras e, em área, a do São Francisco com 262,07 ha em produção. Com relação ao tamanho das unidades produtivas, 78,33% eram de pequeno porte, 16,33% possuíam porte médio e apenas 5% são de grande porte. 649955 718758 N SERGIPE O L MUNICÍPIOS QUE CULTIVAM S CAMARÃO MARINHO 2006 ALAGOAS 8892061 BAHIA BREJO GRANDE 8834276 PACATUBA 3,41 10,73 PIRAMBU 0,49 SANTO AMARO DAS BROTAS 1,95 N. Sra. DO SOCORRO 47,81 BARRA DOS COQUEIROS 3,41 O IC SÃO CRISTÓVÃO 11,71 ARACAJU T 6,83 N 8776491 0,49 Â L BACIAS HIDROGRÁFICAS T ITAPORANGA A D'AJUDA RIO SÃO FRANCISCO RIO JAPARATUBA O ESTÂNCIA RIO SERGIPE N 4,88 RIO VAZA-BARRIS A RIO PIAUÍ E C RIO REAL O CONVENÇÕES CARTOGRÁFICAS SANTA LUZIA DO ITANHY LIMITE MUNICIPAL BAHIA 3,90 MUNICÍPIOS COM EMPREENDIMENTOS REDE HIDROGRÁFICA INDIAROBA 4,39 0,49 PERCENTUAL DE EMPREENDIMENTOS 0 12 24 Km Fonte: Atlas Digital - SRH, 2004. Organização: Marcelo Alves dos Santos, 2010. Figura 1: Empreendimentos de maricultura por bacias hidrográficas, 2006. De acordo com a CODISE (2004), no estuário do Rio São Francisco existiam 17 estabelecimentos de produção de camarão cultivado, dos quais 14 localizam-se no município de Pacatuba, totalizando 259,77 ha produtivos, e 3 em Brejo Grande, com um total de 9,5ha. Estes empreendimentos correspondem à maior área produtiva do estado, totalizando 41,20% da área em produção. O estuário do rio Sergipe era o segundo maior em área produtiva de camarão cultivado ocupando 25,60% dos hectares produtivos. Dos 21 empreendimentos de carcinicultura, 10 estão localizados no município de Nossa Senhora do Socorro, 8 na Barra dos Coqueiros, 2 em Santo Amaro das Brotas e 1 em Aracaju. O município com maior área em produção é Nossa Senhora do Socorro, com 125,5ha. Com relação ao estuário do Rio Vaza Barris havia sete empreendimentos localizados em Itaporanga d’Ajuda, somando 37 hectares de produção, enquanto São Cristóvão apresentava apenas uma fazenda, que, no entanto, possui 70 ha em produção. Este estuário ocupava a terceira posição em termos de área produtiva no estado, com 16,80%. No estuário do rio Piauí existiam nove unidades produtivas de camarão cultivado, ocupando a quarta colocação em área produtiva do estado, com 8,25% hectares de espelho d’água em produção. Dos 52,70 ha em produção, 34,5 ha estão localizados no município de Estância e 18,2 16 Refiro-me os resultados da dissertação de Márcia Eliane Silva Carvalho, “A Carcinicultura na Zona Costeira do Estado de Sergipe”, defendida no NPGEO/UFS, em 2004.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 56 ha em Santa Luzia do Itanhy. Indiaroba é o único município sergipano localizado na bacia do Rio Real concentrando cinco empreendimentos, com 52 ha em produção, o que equivale a 8,15% da produção no estado. Com base nos dados da CODISE, em 2006 existiam 205 estabelecimentos distribuídos em 978 ha voltados para o cultivo do camarão marinho na planície litorânea sergipana com a maior incidência no estuário no rio Sergipe. Os municípios de Nossa Senhora do Socorro, São Cristovão e Pacatuba, totalizam mais de 70% do total de empreendimentos (CODISE, 2007). Percebe-se um crescimento do número de empreendimentos e a área de produção nas margens dos rios e canais fluviais dos sistemas estuarinos na zona litorânea sergipana. A disponibilidade de área com essa destinação, segundo Fonseca et.al.(2008), 56,09% dos empreendimentos, instalados em estruturas pré-existentes, eram salinas ou viveiros de maré. 4. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A MAIS A implantação da carcinicultura no litoral Sergipano constitui um espaço modificado a partir da relação do homem com a natureza configurando relações sociais por conta de novos fatores territoriais onde tais relações se intensificam com mudanças na produção e organização da sociedade. Partindo deste pressuposto Milton Santos esclarece que, “a paisagem é um conjunto de formas, que num dado momento, exprime as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homem e natureza [...]” Santos (2002, p. 103 apud CASTRO, s.d, s.p.). Essa conceitualização evidencia que a partir de algumas atividades socioeconômicas (carcinicultura) nos permite entender os processos que produzem as paisagens. Com relação ao meio ambiente, a carcinicultura no litoral sergipano contribuiu para uma redução e extinção de habitats de numerosas espécies, o desmatamento de extensas áreas de manguezal causando interferência direta na produção e distribuição de nutrientes para o estuário e plataforma continental; extinção de setores de reprodução e alimento de moluscos, aves e peixes e diminuição da biodiversidade ao longo das bacias hidrográficas. Isto gera a expulsão de marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho, ou tornam-se obstáculos a seu acesso, aos espaços produtivos do território, ao estuário e ao manguezal com a privatização de terras da União, tradicionalmente utilizadas para o extrativismo animal e vegetal. REFERÊNCIAS ABCC. Associação Brasileira de Criadores de Camarão. O cultivo de camarão e meio ambiente. Disponível em http//www.abcc.com.br. Acesso em 30/11/2009. __________ Censo de carcinicultura nacional 2004. http//www.abcc.com.br. Acesso em novembro/2009. ALTVATER, E. O preço da riqueza. São Paulo, UNESP, 1995. ANDRADE, Manuel Correia de. A terra e o homem no Nordeste – contribuição ao estudo da questão agrária no Nordeste. São Paulo, Editora Atlas S.A, 1986. BERTRAND, George. Paisagem e geografia física global. Esboço metodológico. RA’EGA. Curitiba, n.8, 2004, p.141-152. CARVALHO, Márcia Eliane Silva, A carcinicultura na zona costeira do Estado de Sergipe. Dissertação de mestrado. Aracaju, NPGEO-UFS, 2004. CODISE. Companhia de Desenvolvimento Industrial e de Recursos Minerais. Censo georeferenciado da carcinicultura no Estado de Sergipe. Aracaju, 2007. __________ Censo georeferenciado da carcinicultura no Estado de Sergipe. Aracaju, 2004. CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. 7 ed. São Paulo: ática, 2003b. CPRH. Companhia Pernambucana do Meio Ambiente. Diagnóstico Socioambiental do Litoral de Pernambuco. Recife, 2003, 214p. DINIZ, José Alexandre Filizola. Áreas agrícolas subcosteiras do nordeste meridional. Recife: SUDENE, 1981. FARJADO, Sérgio. Territorialidades corporativas no rural paranaense. Guarapuava. Ed. UNICENTRO, 2008. FAO. The state of word fisheries and aquaculture. Roma, 1998, 114p.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 57 FIGUERÊDO, M.C de, ROSA, M. F.; GONDIM, R. S. Sustentabilidade ambiental da carcinicultura no Brasil: desafios para a pesquisa. Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v.34, n.2, abr-jun. 2003. FONTES, Aracy Losano. Aspecto da geomorfologia costeira no Norte do Estado de Sergipe. 2º Simpósio de Ecossistema da Costa Sul e Sudeste Brasileiro – Estrutura, Função e Manejo. ÁCIESP, Águas de Lindóia/SP, 1990. FREIRE, Felisbelo. Historia Territorial de Sergipe. Aracaju, Sociedade Editorial de Sergipe/ S.E.C. /FUNDEPAH, 1977. GOVERNO DO ESTADO DE SERGIPE. Companhia de Desenvolvimento Industrial e de Recursos Minerais de Sergipe – CODISE. Estudo de Áreas Potenciais para o Cultivo de Camarão Marinho em Sergipe. Aracaju: CODISE, 2004. HAESBAERT, Rogério. Concepções de Território para entender a desterritorialização. In: SANTOS, M; BECKER,B.K., (org.) Território, territórios: ensaios sobre o ordenamento territorial. 2. Ed. Rio de Janeiro: PPGEO/UFF, DP&A Editora, 2006. JUNIOR, Lamartine Richard, Modelo para implementação de sistema integrado de gestão ambiental para a carcinicultura marinha, Tese de doutorado, Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, UFSC, Florianópolis, 2006. RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1980. ROSS, Jurandyr Luciano Sanches, Natureza e sociedade nos espaços agroambientais do brasil. In: Ecogeografia do Brasil: subsídios para planejamento ambiental, São Paulo, Oficina de textos, p. 62-146, 2006. SANTOS, Adelci Figueiredo & ANDRADE, José Augusto. Delimitação e regionalização do Brasil semi-árido – Sergipe. Aracaju, Universidade Federal de Sergipe - UFS/SE, 1992. SAQUET, Marcos Aurélio. Abordagens e Concepções de Território. São Paulo: Expressão Popular, 2007. SOUTO, P.H. Litoral norte sergipano: história e perspectivas socioeconômicas. GEOUFS. São Cristovão, 2002, v.1, nº 1. TAHIM, Elda Fontinele, A Carcinicultura e o meio ambiente: o desafio da sustentabilidade. Apresentação oral-Agropecuária, meio ambiente e desenvolvimento sustentável, Instituto Centec, Fortaleza/Ceará, 2005. VEIGA, José Eli da. Apresentação. In: Caio Prado Jr. (Org). A questão Agrária. 5ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 200, v.1, p. 3-23 (Prefácio, Pósfacio, Apresentação). VILAR, José Wellington Carvalho e VIEIRA, L.V.L. Consolidação do diagnóstico do litoral sul de Sergipe. Relatório de Consultoria. MMA/ADEMA. Aracaju, 2004.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 58 CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO À LUZ DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Ana Gizelle da SILVA Mestranda em Geografia da UFG – Catalão/GO anagizelles@yahoo.com.br José A. Lima DOURADO Mestrando em Geografia da UFG – Catalão/GO josephdourado@yahoo.com.br Klayton Marcelino de PAULA Mestrando em Geografia da UFG – Catalão/GO klaytonmarcelino@yahoo.com.br Paulo Henrique Kingma ORLANDO Professor Dr. UFG – Catalão/GO phorlando@yahoo.com.br RESUMO Ante aos desequilíbrios ambientais causados pelas atividades da sociedade e pela necessidade de mudar os paradigmas atuais regularizados primordialmente pelo crescimento econômico, a Educação Ambiental (EA) se apresenta como um instrumento de fundamental importância, visto que, somente uma sociedade esclarecida e consciente das limitações dos recursos naturais territorializados, poderá garantir a existência e o bem estar das atuais e futuras gerações, através de outro tipo de organização societária. A EA é uma prática educativa que surgiu em virtude da preocupação humana com a qualidade de vida, no entanto, seu contexto é muito amplo e abrangem aspectos que não se dissociam da natureza, estando interligados aos aspectos sociais, econômicos, políticos, éticos e culturais. Esse artigo faz uma análise das crises contemporâneas pela ótica crítica da EA dialógica e emancipatória, que valoriza todos os saberes, e que conduz a sociedade a uma maior participação política em defesa de uma nova postura diante das questões engendradas pela ocupação territorial. PALAVRAS-CHAVE: Crise do Capital. Crise Ambiental. Educação. Educação Ambiental. ABSTRACT With the environmental imbalance caused by the activities of society and for necessity to change the present paradigms settled primarily by economic growth, environmental education (ee) is presented as an instrument of fundamental importance, since only a company informed and aware of the limitations of territorial resources, can guarantee the existence and well being of present and future generations, through another type of corporate organization, ee is an educational practice that arose as a result of human concern for quality of life, however, its context is very huge and cover issues which do not dissociate from nature and are linked to social, economic, political, ethical and cultural aspects. This article is an analysis of contemporary crisis through the eyes of ee dialogi cal critical and emancipatory, which values all knowledge, and leading the company to a larger political role in support of a new position with the issues created by the land occupation. KEYWORDS: Crisis in the capital. Environmental crisis. Education. Environmental education. INTRODUÇÃO O fim da primeira década do séc. XXI está sendo marcado por calorosos debates relacionados à crise ambiental, à crise do capital, à crise social, ou ainda, à crise da sociedade contemporânea. A crise ambiental não se dissocia da social, tendo em vista que o termo socioambiental é redundante, sendo comprovado pelo hibridismo homem/natureza, tão evidenciado por Latour (1994) em Jamais Fomos Modernos. Então podemos afirmar que nos resta uma única
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 59 opção de crise que para efeito de análise pode ser discutida em seus dois focos: ambiental e do capital. Partimos do princípio que os adjetivos que dão conotação às crises são extremamente amplos, imbricados de indagações e pormenorizados em detalhes, fazendo com que a Geografia saia na frente nesse embate teórico, por ter o privilégio de trabalhar a apropriação e uso da natureza pela sociedade. Soma-se a essa questão o uso do território dentro de uma formação sócio-espacial, pautado na lógica de máximo aproveitamento dos recursos naturais transformados em mercadorias. Nesse cenário a Educação Ambiental (EA) dialógica e emancipatória, que valoriza todos os saberes, torna-se um meio importante de conduzir a sociedade a uma maior participação política em defesa de uma nova postura diante das questões engendradas pela ocupação territorial, num projeto de educação que baseado na ação possível do agora, promova mudanças individuais e coletivas mais precisas. A educação aqui é tratada como um processo que deve ser explorado e efetivado, pois, a consideramos um mecanismo capaz de criar uma auto-reflexão no indivíduo, uma utopia no sentido de desejo de um mundo melhor e uma peça chave de sensibilização que leva ao desencadear da autoconscientização, portanto, a educação por si só e sem adjetivos exerce um papel primordial na melhoria da qualidade de vida. O problema passa a ser então como oferecer uma educação de qualidade e de cunho crítico? Como fazer cumprir as várias Leis existentes que organizam e programam o processo de efetivação específico da EA no ensino formal? Como desburocratizar o sistema e aproximar o educador do educando? Como facilitar o acesso do educador as fontes de informações necessárias a um bom trabalho? Nas várias concepções teórico-metodológicas sobre esse assunto existe um consenso: a relevância da educação de qualidade em todos os níveis, com caráter global e holístico. É preciso ir além das disciplinas “engavetadas”. Nesse sentido é preciso também ambientalizar a educação através do estudo efetivo das questões ambientais e do entendimento do homem como natureza. É dever dos pesquisadores acadêmicos a árdua tarefa de inserir no debate das Universidades a questão da formação dos professores como um todo, numa visão geral da educação formal, incitada pela nova ordem econômica e socioambiental com suas incoerências e deficiências. Racionalidade, Epistemologia e Saber Ambiental na visão de Enrrique Leff Começaremos o diálogo com o doutor em Economia do Desenvolvimento Enrique Leff que se orienta fundamentalmente no sentido da análise de processos de articulação das ciências naturais e sociais. Ele tece suas discussões formulando uma teoria baseada na Racionalidade Ambiental (é preciso construir um saber diferenciado da razão produtivista dominante na economia e na própria ciência). Para esse autor o Saber Ambiental poderia ajudar a compreender a dinâmica ambiental lançando mão de outros saberes que não sejam só o científico. Leff (2000, p. 41) diz o seguinte: A crise Ambiental não só se manifesta na destruição do meio físico e biológico, mas também na degradação da qualidade de vida, tanto no âmbito rural como no urbano. Mais uma vez fica nítido o hibridismo homem/ meio, onde não existe prejuízo a um que não seja também do outro. Leff na mesma obra (p. 45) fala que toda a produção de valores de uso implica um processo social de transformação da matéria e da energia acumuladas no planeta. Ratificando a idéia de que a crise do capital leva a crise ambiental e que a crise ambiental promove a crise do capital, Leff escreveu: Com a conformação do Modo de Produção Capitalista, as tendências dos processos ecológicos e culturais articulam-se, são assimiladas ou transformadas pela sobre-determinação que lhes impõe a racionalidade econômica de uso dos recursos. (LEFF, 2000, p. 107). Percebemos então, que tudo passa pelo patamar econômico, e que se não “doesse no bolso” a crise ambiental não seria tão relevante para a sociedade capitalista. Sobre esta questão o mesmo autor diz o seguinte: A expansão internacional da Economia induziu processos de destruição ecológica e étnica, pelo fato de a Natureza e a Cultura não terem valores contabilizáveis dentro da racionalidade econômica prevalecente. (Leff, 2000, p. 124). Esses valores se diferenciam dos
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 60 valores dos bens produzidos, todavia, com a escassez generalizada dos “bens” naturais, existe uma tendência a valorização financeira dos mesmos, a exemplo da água e do petróleo. A crise ambiental é uma crise do conhecimento: da dissociação entre o ser e o ente à lógica autocentrada da ciência e ao processo de racionalização da modernidade guiado pelos imperativos da racionalidade econômica e instrumental (...). O saber ambiental vai derrubando certezas e abrindo os raciocínios fechados que expulsam o ambiente dos círculos concêntricos do conhecimento. (LEFF, 2007, p. 13). Leff ainda afirma que a epistemologia ambiental funda-se a partir de um novo saber que emerge do limite do real (entropia), do projeto de unificação forçada do ser e da epopéia da ciência pela objetividade e transparência do mundo (2007 p. 15). Assim, problematiza e questiona os paradigmas existentes, entre eles o positivismo e propõe uma nova abordagem, onde nas entrelinhas se lê Educação Ambiental, ou seja, um projeto para pensar as condições teóricas e para estabelecer métodos que orientem as práticas interdisciplinares. Fechando a linha de pensamento de Leff, vale citar o que ele disse no livro Saber Ambiental (2008, p. 15) A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. Na atualidade, o discurso começou a mudar e a sustentabilidade busca reconciliar os contrários da dialética do desenvolvimento: o Meio Ambiente e o Crescimento Econômico. E o que se procura hoje é ecologizar a economia. A problemática ambiental converteu-se numa questão eminentemente política. Os conflitos socioambientais emergem de princípios éticos, direitos culturais e lutas pela apropriação da natureza que vão além da internalização dos custos ecológicos para assegurar um crescimento sustentado. (LEFF, 2008, P. 45). Eis aqui o grande desafio da sociedade, ou melhor, o grande desafio da classe trabalhadora que sustenta os modelos vigentes e que no “frigir dos ovos” é a maior prejudicada com os problemas socioambientais. Tal desafio ainda é maior por perpassar pela falta de ética generalizada do atual padrão político e econômico. As novas tendências e abordagens que buscam mudanças da concepção linear da sociedade para uma concepção holística Para dar inicio ao debate sobre mudanças escolhemos Frijot Capra. Destacamos que esse autor em sua obra O Tao da Física “desafiou a sabedoria convencional ao demonstrar os surpreendentes paralelos existentes entre as mais antigas tradições místicas e as descobertas da Física, no séc. XX”. Em O Ponto de Mutação (1982) Capra criticou o pensamento cartesiano e colocou a Física Moderna como responsável por uma revolução e transformação em todas as ciências, o que levou a nova visão de mundo e de valores. A crise atual, portanto, não é apenas uma crise de indivíduos, governos ou instituições sociais; é uma transição de dimensões planetárias. Como indivíduos, como sociedade, como civilização e como ecossistema planetário, estamos chegando a um momento decisivo. (CAPRA, 1982, P. 30). Nessa concepção, baseado na Física Quântica, o autor aumenta as margens da crise, tornando-a com uma dimensão incalculável. Capra diz que o pensamento racional é linear, ao passo que a consciência ecológica decorre de uma intuição de sistemas não-lineares. Desta forma, afirma (1982, p. 39) que nosso progresso, portanto, foi uma questão predominantemente racional e intelectual, e essa evolução unilateral atingiu agora um estágio alarmante, uma situação tão paradoxal que beira a insanidade. Dando seqüência ao debate citaremos as idéias de Edgard Morin que trata do Paradigma da Complexidade, partindo também de uma abordagem sistêmica. Esse autor acredita na necessidade de discutir a base da consciência humana como um ser que possui diversas identidades: Cósmica, terrena/biológica, cultural e pessoal. Nesse sentido. Os modelos explicativos fazem parte do cotidiano dos estudos do meio físico. A complexidade das relações, dos lugares e dos sistemas leva a necessidade de discussão.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 61 Seria preciso ensinar princípios de estratégias que permitam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo. É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a um arquipélago de certezas. (MORIN, 2004, p.16). Pensando nisso, as noções de mundo e relações seriam ampliadas, ressaltando que o homem como indivíduo (identidade pessoal) é predominante na sociedade contemporânea. Sobre esse assunto escreveu Morin (2002, p. 63) A Terra não é a adição de um planeta físico, mais a biosfera, mais a humanidade. É uma totalidade complexa física/biológica/antropológica, em que a vida é uma emergência da história da Terra. Esse autor (2002, p.46) também contribui para a justificativa da EA quando diz que nossa educação ensinou separar, compartimentar, isolar, e não ligar os conhecimentos. Nos faz conceber nossa humanidade de forma insular. Assim, podemos afirmar que o momento agora é de unir, aglutinar, ligar os conhecimentos, já que o desvelar da história nos mostrou que não existem ilhas para o saber e não é o sistema cartesiano o caminho das pedras. Chegou o tempo do neoliberalismo, onde a concorrência passou a ser natural, ou talvez, um mal necessário. Existe competição em tudo: Blocos Econômicos, Países, Multinacionais, Pequenas Empresas, Trabalhadores e em vários outros setores. Para (Gonçalves, 2006, p. 51) o período atual da globalização neoliberal, difere dos períodos que o antecede pela especificidade do desafio ambiental. O motor do mundo globalizado é a competitividade. E para que esse motor não pare de funcionar, é alimentado pela “corrida” tecnológica. Chegar em primeiro lugar significa teoricamente ter a maior economia. Assim, trava uma incessante e “burra” disputa econômica em todas as escalas. “O Ter substituiu o Ser”. A razão “Cartesiana” questionada ou não, ainda permanece nas entrelinhas das relações sociais e da construção de conhecimento. No entender de Gonçalves (2006, p. 113) o mercado se mostrou hábil para encontrar mecanismos de remunerar os investimentos de acordo com seus riscos potenciais, o mesmo não se dá com relação aos riscos ambientais. O processo de globalização traz em si mesmo a globalização da exploração da natureza com proveitos e rejeitos distribuídos desigualmente. O estrago ambiental já foi feito. O lucro obtido com esse estrago não foi dividido entre os povos do planeta. Contrastam no mundo nações ricas com sociedade altamente consumista com nações pobres com a maioria da população de miseráveis famintos. O crescimento econômico e tecnológico de algumas nações e o uso indiscriminado dos recursos naturais não foi acompanhado pelo desenvolvimento social. A Educação Ambiental no contexto da Crise Em decorrência do desenvolvimento tecnológico, da produção em larga escala e do consumismo, o meio ambiente tem passado por intensas transformações, induzidas pelo próprio homem. A primeira década do século XXI está sendo marcada por um debate mundial acerca das questões ambientais, o que fez difundir a idéia da finitude dos recursos naturais e das sutilezas do mecanismo natural do planeta. Juntamente com o crescimento das discussões sobre a problemática ambiental, cresce também, a preocupação coletiva com o futuro comum da humanidade, criando assim, a necessidade de frear o processo de destruição. É viabilizada então a Educação Ambiental como uma das propostas para alcançar uma nova relação da sociedade com o meio ambiente. Importante sublinhar que quando falamos EA, estamos falando de educação como protagonista de libertação da sociedade nos moldes de Paulo Freire e, portanto, sem a mitificação de que o indivíduo é o culpado por tudo, pela sua falta de ética e pelo seu consumismo. Só se consome porque se produz. Além das salas de aula e das nossas casas, existem um complexo sistema chamado capitalismo e uma estrutura política que maximizam os problemas ambientais. Assim, a EA é necessária tanto quanto a educação, no desvelar de uma sociedade mais consciente e critica. As necessidades humanas são atendidas com os recursos da natureza. Natureza complexa, impossível de ser estudada em todas as suas especificidades por apenas uma ciência, o que leva profissionais de todas as áreas a trabalharem juntos, tornando a Educação Ambiental um
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 62 tema transversal, como é tratada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. Sobre essa questão Guimarães disse: A Educação Ambiental apresenta uma nova dimensão a ser incorporada ao processo educacional, trazendo toda uma recente discussão sobre as questões ambientais, e as conseqüentes transformações de conhecimento, valores e atitudes diante de uma nova realidade a ser construída. (GUIMARÃES, 2005, p. 9). Essa discussão não está somente na educação formal em si, ela ultrapassa os muros das escolas e chega até a sociedade num contexto bem mais amplo, adquirindo força através do debate, para combater as desigualdades sociais, políticas e ambientais consideradas o tripé da insustentabilidade. A resolução dos problemas ambientais implica na solução de mazelas sociais vergonhosas como a fome e todos os problemas inerentes à condição humana, visto que, homem é natureza e não existe mal feito a um que não atinja o outro. Esse complexo sistema constitui a preocupação maior da EA. Para Carvalho (2008) EA é a uma mediação importante na construção social de uma prática político-pedagógica portadora de nova sensibilidade e postura ética, sintonizada com o projeto de uma cidadania ampliada pela dimensão ambiental. Segundo essa autora a EA crítica seria, portanto, aquela capaz de transitar entre os múltiplos saberes: científicos, populares e tradicionais, alargando nossa visão do ambiente e captando os múltiplos sentidos que os grupos sociais atribuem a ele. A EA é um discurso, assim como é ação, atitude, prática que de alguma forma tenta mitigar e recuperar os estragos causados ao meio ambiente pela ação humana. É também, protagonista de uma discussão necessária e comprometida com a transformação da sociedade, conclamando para uma leitura crítica da realidade, apresentando à ética como principal coadjuvante. Reconhecemos que estamos imersos numa era de imprevisibilidades, em meio a uma transição muito turbulenta, e precisamos estar preparados para o que vai ocorrer nos próximos anos. Reconhecemos que estamos diante de um sistema cada vez mais limitado para responder os anseios das sociedades, e que vivenciamos as diversas crises humanas – ambientais, sociais, econômicas... - que são meros sintomas de uma crise ambiental mais profunda, cujas raízes se encontram na perda e aquisição de novos valores humanos e na carência de ética. (DIAS, 2004, p.94). A globalização das questões ambientais vem despertando uma preocupação sem precedentes em relação à degradação causada pelo desenvolvimento tecnológico/industrial. A propagação da idéia que Desenvolvimento e Meio Ambiente constituem um binômio que deve ter valores e prioridades equivalentes promoveu o entendimento que é essencial desenvolver economicamente, mas é vital que os recursos naturais sejam poupados para que não faltem. Esta visão apresenta fortes contradições. Mesmo dentro das limitações da EA, assim como da Educação, é possível afirmar que a Educação permanente transforma a realidade. Não existe quem sabe tudo, tão pouco quem não sabe nada, o homem assim como os outros animais é um ser inacabado e se diferencia pelo fato de ter consciência disso, essa consciência ao ser desenvolvida pode transformar tornando-se crítica, e a partir daí suscitar mudanças. Considerações Finais No novo cenário mundial de crises é necessária uma visão humanista da escola e do mundo e uma visão crítica da realidade socioespacial. Nesse sentido, tentamos analisar a crise ambiental/capital ou vice-versa, pelo prisma da EA, convocando a mesma para uma elucidação dos problemas ambientais/econômicos vigentes. Nosso intuito foi beneficiar os estudos dessa área do conhecimento e fortalecer o debate sobre as questões ambientais na Universidade a qual o projeto que deu origem a esse artigo está vinculado. Enfatizamos que as colocações feitas aqui são tangíveis de discussão e aprofundamento teórico e se pautam numa pergunta essencial: tem como ser sustentável dentro dos marcos que regem a sociedade atual? Iniciamos citando Enrrique Leff que fez grandes contribuições ao diferenciar Racionalidade, Epistemologia e Saber Ambiental e ao afirmar que a crise ambiental é também uma
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 63 crise de conhecimento. Na seqüência, falamos sobre as novas tendências e abordagens que buscam mudanças da concepção linear da sociedade para uma concepção holística. Nesse momento da discussão tentamos deixar claro nosso real objetivo ao pesquisarmos Educação Ambiental, ou seja, conhecer para propor mudanças de atitudes e valores. Ao falarmos da Educação Ambiental no contexto da crise, fizemos um recorte no tempo, para melhor entendê-la, e assim, clarificar sua necessidade e justificar o título do artigo que diz: CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL: uma discussão à luz da Educação Ambiental. Referências CAPRA, fritjot, O Ponto de Mutação. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1982. CARVALHO, Isabel C. de Moura. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2008. _________, A Invenção Ecológica – Narrativas e Trajetórias da Educação Ambiental no Brasil. 3. ed. Porto alegre: UFRGS, 2008. DIAS, Genebaldo Freire. Ecopercepção: um resumo didático dos desafios socioambientais. São Paulo: Gaia, 2004. ____. Educação Ambiental – princípios e práticas. 9.ed. São Paulo: Gaia, 2004. GONÇALVES, Carlos W. Porto. Os (des)caminhos do meio ambiente. São Paulo: Contexto, 2005. __________. A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. __________. O Desafio Ambiental. Rio de Janeiro: Record, 2004. GUIMARÃES, Mauro. A Dimensão Ambiental na Educação. 6. ed. SP: Papirus. 2005. __________. A Formação de Educadores Ambientais. 3. ed. SP: Papirus, 2007.. LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade a fora. São Paulo: UNESP, 2000. _______. Jamais Fomos Modernos. Tradução de Carlos Irineu da Costa. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed 34, 2000. LEFF, Enrrique. Saber Ambiental. Tradução: Lúcia Mathilde Endlich Orth. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2008. ____. Ecologia, Capital e Cultura – racionalidade ambiental, democracia participativa e desenvolvimento sustentável. Tradução de Jorge Esteves da Silva. Blumenau: edifurb, 2000. ____. Epistemologia Ambiental. Tradução de Sandra Valenzuela. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2007 MORIN, Edgar. Ciência e Consciência. São Paulo: Bertrand Brasil, 1996. ____. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. Tradução de Catarina Eleonora F. da Silva Jeanne Sawaya. 5. ed. UNESCO, Cortez, 2000. ____. A cabeça bem-feita – repensar a reforma reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. SATO, M. e SANTOS, J. E. A Contribuição da EA à Esperança de Pandora. 2. ed. São Carlos: Rima, 2003. SATO, Michèle; SANTOS, José Eduardo. Tendências nas pesquisas em educação ambiental. In NOAL, F.; BARCELOS, V. (Org) Educação ambiental e cidadania: cenários brasileiros. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 64 CONTRIBUIÇÃO DA PREFEITURA DE OLINDA NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNICÍPIO SUSTENTÁVEL Maria de Fátima Faro Cleide Amorim Sônia Brandão Maria Helena Peixoto Luiza Maria Barros Grupo da Sala Verde / Diretoria de Meio Ambiente da Prefeitura de Olinda-PE O Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso, CEA, situado na Secretaria de Orçamento Participativo e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de Olinda, é um local de Reedição de Práticas Ambientais, onde a comunidade olindense tem oportunidade de ser sensibilizada em relação à problemática ambiental, através da exposição de temas ambientais, debates, pesquisas e vivência de demonstrações de práticas ambientais. O CEA dispõe de uma Sala Verde, Sala de Capacitação, Oficina de Papel, Oficina de Ecoartes e Pátio para Atividades de Compostagem. Este espaço vem funcionando desde a sua inauguração em junho de 2006. SALA VERDE Sala Verde é um projeto do Ministério do Meio Ambiente que consiste em uma biblioteca interativa sobre questões ambientais, onde os interessados encontrarão um acervo significativo relacionado ao meio ambiente. Este acervo está disponível para leitura, pesquisa e consulta na forma de livros, cartilhas, periódicos, folders, CDs, DVDs, fitas de vídeo. Podendo ser utilizado por professores, estudantes e a comunidade em geral. O objetivo do espaço é democratizar o acesso da população às informações, materiais e publicações ambientais, oferecendo atividades diversas como: capacitações, palestras, oficinas, vivências, campanhas, entre outras experiências, viabilizando uma participação ativa do processo de conservação da cidade. Sendo a cidade de Olinda Monumento Nacional e Patrimônio Cultural da Humanidade, com rico acervo arquitetônico, urbanístico e cultural, a Sala Verde vem enriquecer na formação de reeditores ambientais, visando melhorar a qualidade de vida e consequentemente a cidadania ambiental. A Sala Verde funciona de segunda à sexta-feira no horário das 08 às 12 horas. com visitas pré-agendadas. OFICINA DE PAPEL RECICLADO Na década de 80 foram introduzidas tecnologias alternativas em Olinda pelo governo municipal como solo cimento, compostagem do lixo, sistema condominial de esgotamento sanitário e a reciclagem de papel. O Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso-CEA continua com a prática da reciclagem do papel para demonstração didática, através da Oficina de Papel, proporcionando à comunidade a vivência do passo a passo do reaproveitamento do papel já utilizado. A oficina de papel funciona de segunda à sexta no horário das 08 às 12 horas. com visitas pré-agendadas. EXPERIÊNCIA DE COMPOSTAGEM EM OLINDA A prática da compostagem em Olinda, iniciada desde a década de 80, tendo sido referência no tratamento alternativo de resíduos sólidos orgânicos, prática ecologicamente correta. A compostagem é realizada em pequena escala, no CEA, para demonstração didática, a partir da Coleta Alternativa de uma pequena área de difícil acesso no entorno da Secretaria. Consta de um processo biológico no qual o lixo orgânico é transformado em composto rico em nutrientes, o húmus, o qual é utilizado nos jardins das praças olindenses.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 65 Tal prática é mais um estímulo à reciclagem do Lixo vivenciado pela comunidade. Oficina de Ecoartes Nesta oficina, as arte educadoras do CEA desenvolvem produtos elaborados a partir da reciclagem de papel, garrafas plásticas e outros materiais recicláveis, junto a comunidade. Existe um atendimento a grupo da 3ª idade todas as segundas pela manhã. E atendimentos eventuais a partir da demanda por esta atividade. Capacitações Á cada mês são desenvolvidos pelo menos dois temas do Calendário Ecológico, sendo apresentado e discutido com o público presente. Podendo também ser apresentados outros temas ambientais, dependendo do interesse do público alvo como Erosão Marinha, Hortas e outros. A cada visita inicial de um grupo é realizado um tour pelo CEA, onde são recepcionados com conceitos de Meio Ambiente e Cidadania, depois acompanham o passo a passo da Compostagem, recebem informações sobre os cuidados e responsabilidades sobre a questão do Lixo e, aprendem e praticam o passo a passo da Reciclagem do Papel. Sendo Olinda uma cidade litorânea, enfatizamos a preocupação com o lixo nas praias e suas consequencias na Biota Marinha. Por fim é apresentada a Sala Verde, colocando a disposição dos interessados todo o nosso acervo. Em ocasiões especiais a capacitação é apresentada de forma lúdica através do Teatro de Fantoches. Outro Projeto do CEA: Coletivos Educadores Outra atividade do Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso é a integração ao programa do Ministério do Meio Ambiente Coletivos Educadores para Municípios Sustentáveis, focando o fortalecimento da Educação Ambiental no nosso território e a melhoria da nossa realidade socioambiental. O Coletivo Educador é constituído pela articulação de instituições que trabalham com formação em Educação Ambiental, Educação Popular, Ambientalismo e Mobilização Social, estabelecendo parcerias para implementar uma proposta integrada de Educação Ambiental na base territorial, a partir de uma reflexão crítica acerca da problemática socioambiental local. Por meio desse processo de formação, o Coletivo forma educadores ambientais populares que tem como compromisso promover intervenções no território voltadas para a sustentabilidade socioambiental, sendo apoiados pelo Coletivo de forma contínua e permanente. MATA DO PASSARINHO A Mata do Passarinho, resquício de Mata Atlântica em Olinda, definida como Reserva Ecológica pela Lei Estadual nº 9.989/87, Área de Proteção Especial pela Lei Orgânica do Município e Zona de Preservação Ambiental Especial pelo Plano Diretor, foi desapropriada pela Prefeitura de Olinda em 1998, passando a ter um Núcleo de Educação Ambiental. É um espaço onde as pessoas vivenciam, através das trilhas de caráter educacional, a dinâmica e a biodiversidade da mata, reconhecendo o seu papel na Natureza. Desde a inauguração do Núcleo de Educação Ambiental em 2002, foi visitado por inúmeras escolas das redes municipal, estadual e particular, grupos da 3ª Idade, e público em geral. Este espaço, aberto ao público pode ser visitado no horário da manhã de segunda à sexta, após agendamento na Diretoria de Planejamento Ambiental da Secretaria de Orçamento Participativo e desenvolvimento Urbano.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 66 ROTINAS DO CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - CEA 1. Recepção dos visitantes 2. Demonstração do Processo de Compostagem 3. Capacitação sobre Lixo
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 67 4. Oficina de Papel Reciclado 5. Capacitação Calendário Ecológico e Sala Verde 6. Capacitação com a 3ª Idade
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 68 REFERÊNCIA BIBLIOGFAFICA DELORS, Jacques e outros (1996) Educação: um tesouro a descobrir. Relatório da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI Paris: UNESCO/ Rio Tinto: ASA, 1996. Encontros e caminhos: formação de educadoras (es) ambientais e coletivos educadores / Luiz Antonio Ferraro Junior, organizador. – Brasília: MMA, Diretoria de Educação Ambiental, 2005. FAZENDA, I.C.A. (Org). Práticas interdisciplinares na escola. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2004. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 20 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. GUTIÉRREZ, F.; PRADO, C. Ecopedagogia e cidadania planetária. São Paulo: Cortez, 1999. Programa Nacional de Educação Ambiental – PRONEA. Documento em Consulta Nacional. Brasília: DEA / MMA, COEA / MEC, 2003. TORO, J. B.; WERNECK, N. M. D. Mobilização Social: um modo de construir a democracia e participação. Brasília: SRH/ MMA, ABEAS, UNICEF, 1997.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 69 DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA ZONA COSTEIRA DE SÃO LUIS – MA: UM ESTUDO DE CASO DA PRAIA DO ARAÇAGY Lorena Santos GONÇALVES lorenaangitur@hotmail.com Janaíne Lira VIEIRA biologajana@hotmail.com Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA thais.eline@gmail.com Hadryan Lima RODRIGUES hadryan11@yahoo.com.br Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / Curso de Especialização em Educação Ambiental - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil. RESUMO O presente trabalho objetiva fazer um estudo de caso na zona costeira do Maranhão, especificadamente na área da praia do Araçagy, para analisar as condições ambientais da área, caracterizando os impactos e/ou problemas ambientais gerados pelas desordenadas ações antrópicas. Quanto à metodologia, utilizou-se, principalmente, a observação in locu, a partir das visitas periódicas realizadas no local, simultaneamente, foi feito um levantamento sobre tais impactos e registro dos mesmos. A partir dos dados obtidos, sentiu-se a necessidade de realizar ações de Educação Ambiental na área, voltadas para o desenvolvimento da consciência crítica dos barraqueiros e banhistas freqüentadores da praia, orientando-os sobre a importância da tomada de atitudes ambientalmente corretas, no que diz respeito a conservação e preservação dos recursos naturais, ainda existentes na área. PALAVRAS-CHAVES: zona costeira, educação ambiental, impactos ambientais. ABSTRACT The present paper aims at studying the shoreline of Brazilian Maranhao state, specifically Araçagy beach, in Sao Luis, in order to analyze the environmental conditions in that area, characterizing the impacts and environmental problems generated by anthropic disorderly actions. Regarding methodology, one used, mainly, in locu observation, from periodical visits made to the location. Simultaneously, a study was made about the impacts and their records. From the obtained data, arised the need for Environmental Education actions in the area, aimed at the development of critical conscience of bar owners and attenders of the beach, giving them orientation about the importance of environmentally correct attitudes, regarding conservation and preservation of the natural resources which still exist in the area. KEYWORDS: shoreline zone, environmental education, environmental impacts. 1 INTRODUÇÃO Desde o surgimento da humanidade na superfície terrestre, a mais de um milhão de anos, o homem vem transformando a natureza. No principio, essas transformações causava impactos irrelevantes sobre o ambiente, exatamente pelo fato de haver um pequeno número de pessoas vivendo no planeta. Assim, é possível verificar que o limite entre o homem submisso à natureza e o grande agente modificador do espaço natural é marcado indiscutivelmente pela Revolução Industrial. Nessa perspectiva, os principais impactos ambientais decorrentes da capacidade humana de transformação da natureza, passaram a crescer em ritmo acelerado, não somente locais, como também em escala global. A ilha do Maranhão, situada no Golfão Maranhense, possui mais de 1000 km², sendo composta pelos municípios de São José de Ribamar, Raposa, Paço do Lumiar e São Luís. Juntos, estes municípios perfazem uma população em torno de 1.211.270 habitantes (IBGE, 2008). Limita-
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 70 se, ao norte, com o Oceano Atlântico; ao sul, com o Estreito dos Mosquitos; a leste, com a Baía de São José, e a Oeste, com a Baía de São Marcos. No que se refere à zona costeira da capital maranhense, pode-se constatar que se trata de uma das áreas de maior atração populacional, que como conseqüência da concentração das atividades humanas, vem se constituindo numa das áreas mais afetadas pelo processo de degradação ambiental, provocando sérios impactos e diminuindo a qualidade paisagística. Neste sentido, impacto ambiental caracteriza-se como: qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas, que direta ou indiretamente afetam: a saúde, a segurança, o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; a qualidade dos recursos naturais. (Resolução CONAMA n0001/86 apud (et.al), 200p.133). Entretanto, pode-se espreitar que os impactos ambientais decorrentes das ações antrópicas na praia do Araçagy extendendo-se ao Porto do 400, área de estudo, prejudicam toda a dinâmica do ambiente, podendo-se arrolar, como exemplo; a degradação da paisagem, devido a construções inadequadas, especialmente de edifícios que por suas dimensões, formas, cores e matérias-primas utilizadas, podem ser consideradas arquitetonicamente inadequadas ao local; aumento da utilização e da necessidade de abastecimento da água potável; contaminação da água do mar, devido ao aumento de efluentes não tratados e contaminação por resíduos; degradação da fauna e da flora; aumento da geração de resíduos sólidos. Assim como também podemos citar como exemplo, o aumento do tráfego de veículos ocasionando conseqüentemente a redução da qualidade do ar; dos ruídos; os assoreamentos da encosta, com destruição de corais, recifes, mangues, restingas e dunas, onde se destacam os constantes aterros para aumentar a área urbana; necessidade de implantação de obras de infra- estrutura causadoras de impactos ambientais tais como: estradas, sistemas de drenagem, aterros com grande movimentação de terra, entre outros. As praias são ambientes costeiros que oferecem grande oportunidade para uma imersão inicial no estudo do meio marinho, possibilitando um melhor entendimento da zonação do mar e das características do oceano consideradas de maior interesse ecológico. Os ambientes marinhos possuem maior diversidade animal do que os ambientes terrestres ou de água doce. Isso ocorre devido maior estabilidade de seus fatores ambientais durante o tempo geológico (PEREIRA & SOARES-GOMES, 2002). A Zona Costeira abriga um mosaico de ecossistema de alta relevância ambiental. A sustentabilidade das atividades humanas na Zona Costeira depende de um meio marinho saudável e vice-versa (VIDIGAL et al., 2006). A caracterização física da Zona Costeira Brasileira leva em consideração aspectos como: localização geográfica, geomorfologia, clima e a produtividade (PEREIRA & SOARES-GOMES, 2002). 2 OBJETIVOS 2.1 Objetivo Geral Identificar o estado atual das condições naturais da Praia do Araçagy, fazendo um levantamento sobre as características apresentadas, bem como analisar os diferentes graus de impactos ambientais ocorridos na área da zona costeira decorrentes das ações antrópicas. 2.2 Objetivos Específicos Levantar dados no que tange os impactos ambientais ao longo do litoral; Estabelecer relações entre os diversos tipos de degradação ambiental; Observar e registrar a paisagem natural da área; Caracterizar a zonação e fatores abióticos da praia; Divulgar os dados obtidos através de artigo cientifico.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 71 3 MATERIAL E MÉTODOS Para a percepção do ambiente natural da praia realizou-se uma caminhada ao longo da linha e poças de maré e pedras, com o objetivo de averiguar inicialmente o modo de vida ali existente. Foi feito in loco: a medição dos parâmetros de temperatura e salinidade, a caracterização da zonação e a observação dos fatores abióticos, registrado através de GPS, refrator e termômetro em alguns pontos estratégicos do local, bem como a identificação das zonas intertidais, supratidais e subtidais da região. Após a coleta dos dados supracitados, realizou-se uma entrevista (informal) com alguns visitantes abordando principalmente as questões das potencialidades e/ou problemas da praia. Na ocasião da entrevista, aproveitou-se da oportunidade para conversar informalmente um pouco sobre Educação Ambiental com os banhistas freqüentadores da orla marítima com a intenção de fazer um trabalho de conscientização ambiental com os mesmos. Todas as observações feitas foram registradas com fotografias e anotações para uma posterior análise e compreensão acerca da temática abordada. Pensou-se ainda na possibilidade de coletar esses dados e resultados obtidos para publicar em forma de artigo científico como um dos objetivos do trabalho. 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES O Brasil é um país com uma vasta zona costeira, tendo o nordeste vantagem sobre outras regiões pelo seu clima e pela geomorfologia. No Estado do Maranhão, que tem o segundo maior litoral no país, com 640 km, encontramos uma diversidade de paisagens que variam de planaltos, tabuleiros, planícies, planície de maré areno-lamosa, planície flúviomarinha, cordões arenosos, falésias, florestas, capoeira, campos, vegetação de dunas ou restingas, mangues, apicuns e entre outros. 4.1 ÁREA DE ESTUDO 4.1.1 PRAIA DO ARAÇAGY A Praia do Araçagy localiza-se nas coordenadas S 02º 27’911’’ e W 044º20’03’’ localizada na cidade de São José de Ribamar/MA, fica no litoral da ilha do Maranhão, também conhecida como Ilha de Upaon-Açu. Toda a praia possui uma orla de dunas com vegetação rasteira típica. Ao longo da visita realizada à praia, pôde-se conhecer as seguintes zonações: intertidal ou litoral (superfície do mar que sobe e desce com as ondas), supratidal (região localizada acima da zona intertidal), e subtidal (é a região abaixo da zona intertidal). Numa oportunidade seguinte visitou-se também na praia do Araçagy o projeto “Orla Viva” que recebe entidades de todos os níveis de ensino e é aberta para visitação pública. Já possui 5 anos de existência. De março 2007 a dezembro de 2008 recebeu em média 4.164 visitantes sendo 80% estudantes. Para estudantes de instituição privada é cobrada uma taxa para manutenção do projeto. Já passaram visitantes de 13 países, 23 estados brasileiros e 42 municípios. O referido projeto é uma importante iniciativa voltada para o estudo das espécies marinhas encontradas na área, assim como também para despertar uma consciência ecológica ligada à preservação e conservação da biodiversidade da zona costeira maranhense. 4.1.2 PORTO DO 400 O Porto do 400 que é uma área limite de mangue e praia, localiza-se nas coordenadas S 02º27’15’’ e W 44º09’33’’. Os manguezais são ecossistemas costeiros, estuarinos, sujeitos a inundações periódicas pelas marés e por águas doces. São sistemas abertos no tocante a entrada e saída de matéria e energia. Geralmente, ocorre nos manguezais entrada de sedimentos, água doce e nutrientes e saída de água e matéria orgânica para os estuários (Araujo & Maciel, 1979; Cintrón, Lugo & Martinez, 1980).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 72 No Porto do 400 pode-se observar a presença de caranguejos do gênero Uca rapax que é um componente bastante presente na macrofauna bentônica dos manguezais da Ilha do Maranhão. Apesar de não possuir valor econômico esse táxon destaca-se, juntamente com as outras espécies do gênero, por contribuírem grandemente na retenção de nutrientes e energia pelo consumo da maioria do folhiço, aumentando a degradação das folhas, remineralizando os nutrientes e promovendo a oxigenação pela atividade de alimentação e escavação de tocas, as quais parecem estimular a produção de árvores dos manguezais (Schaeffer-Novelli, 1989). Constituem as florestas de mangue: Mangue vermelho (Rhizophora), Mangue Branco (Laguncularia) e o Mangue de Seriúba (Avicennia). Vivem na zona das marés, apresentando uma série de adaptações: raízes respiratórias, capacidade de ultrafiltragem da água salobra e desenvolvimento das plântulas na planta materna, para serem posteriormente dispersas pela água do mar. A flora do manguezal pode ser acrescida de poucas espécies como a samabaia do mangue, a gramínea spartina e o hibisco. Todo esse cenário tem passado por inúmeras modificações que são verdadeiros reflexos das ações antrópicas desordenadas, que visa defender seus interesses particulares. Vale ressaltar que existe uma série de fatores que agravam ainda mais a evolução do processo erosivo, como a devastação da cobertura vegetal como efeito da especulação imobiliária e o próprio crescimento populacional, que acaba impulsionando a ocupação desordenada de áreas de ecossistema frágil como manguezais, dunas e margens de rios. As zonas costeiras estão em uma fase de supervalorização e em São Luís isso não é diferente, visto que o processo de urbanização tem crescido consideravelmente nessas áreas. 4.2 PRINCIPAIS PROBLEMAS DETECTADOS *MAU USO E OCUPAÇÃO DA ZONA COSTEIRA Uma ocupação espacial de sistemas ambientais inadequada, com ações desenfreadas que coduz a um anexo de agressões ao meio ambiente, que se manifesta por meio de verdadeiros desastres que afetam o equilibrio ecológico, podendo até se tornar um caso irreversível. Figura 1: Ocupação da zona costeira *DESTRUIÇÃO DA MATA CILIAR Na área de estudo, encontram-se conjuntos faunisticos representados pelo mangue e florestas secundarias, já bastante reduzidos devido a expanção urbana da cidade de São Luis.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 73 Figura 2: Destruição da mata ciliar *CONSTRUÇÃO DE EDIFICAÇÕES E EROSÃO PROVENIENTE DAS CONSTRUÇÕES Com a grande concentração populacional, a apropriação desenfreada e desorganizada e contruções inadequadas de edificios, geram alterações no ambiente. Devido ao mau planejamento, as dunas invadiram contruções feitas para o lazer. Figura 3: Edificações e erosão proveniente de construções *ACUMULO DE RESÍDUOS Neste aspecto, observou-se que as grandes quantidades de resíduos acumulados na área são provenientes das atividades comerciais realizadas pelos barraqueiros da praia, onde os mesmos até tentam organizar os resíduos produzidos, mas dependem diretamente do serviço público de coleta de lixo, que passam no local em dias alternados, sendo insuficiente para a grande quantidade de resíduos produzidos. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os problemas ambientais decorrentes das ações antrópicas associadas a um mau planejamento do uso e ocupação do solo da zona costeira do Maranhão desencadearam uma série de obstáculos ao desenvolvimento sustentável e à manutenção e/ou preservação dos recursos hídricos dos quais se destaca a área de estudo. As alterações causadas pela intervenção do homem resultaram na quebra do equilíbrio natural, acarretando não só o empobrecimento do solo como conseqüência do modo de exploração, mas provocou também o surgimento de outros elementos prejudiciais ao homem e ao meio ambiente. Dessa forma, as principais transformações ocorridas resultaram numa paisagem
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 74 pontuada de formas residuais que encenam caracteres de antigos ambientes, esses testemunhos encontram-se ao longo do litoral. O ambiente é o maior patrimônio que a humanidade possui; quanto maior for sua qualidade, maiores serão os benefícios. Assim sendo, o que se pretende com esse trabalho é caracterizar os impactos ao longo da Praia do Araçagy, e criar ações que possam minimizá-los, para que assim se tenha um meio ambiente, equilibrado e sadio. Partindo desta premissa, foi discutido e analisado os aspectos apontados ao longo das visitas in locu e pensou-se em tomar algumas medidas que pudessem pelo menos minimizar os impactos já mencionados, em caráter emergencial, tais como: Realização de mutirões de limpeza ao longo da orla por educadores ambientais devidamente identificados para chamar a atenção dos banhistas. Na ocasião, orientar as pessoas da importância em tomar certas atitudes voltadas para a preservação e conservação das características naturais da zona costeira, através de conversas informais e entregas de panfletos educativos. Posteriormente consolidar o trabalho com a elaboração de projetos em Educação Ambiental Marinha para serem desenvolvidos com os barraqueiros e banhistas freqüentadores da praia. Assim como também, implantar uma sede de estudos e ações em Educação Ambiental Marinha na zona costeira de São Luís-MA, para o desenvolvimento de ações e produções acadêmicas de Educação Ambiental realizadas nas praias de São Luís-MA. REFERÊNCIAS ARAÚJO, D. S. D. & MACIEL, N.C. Os manguezais do recôncavo da Baia de Guanabara. Cadernos FEEMA, ser. téc., 10/79: 1-115. 1979. BANCO DO NORDESTE. Manual de impactos ambientais. Fortaleza: Banco do nordeste, 1999. CINTRÓN, G; LUGO, A. E. & MARTINEZ, R. Structural and functional propeties of mangrove forests. Symp. Signaling the Completion of the flora of Panama, p. 53-66. 1980. ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. PEREIRA, R. C.; SOARES-GOMES, A. (Orgs). Biologia marinha. Rio de Janeiro: Interciência, 2002. SCHAEFFER-NOVELLI, Y. Perfil dos ecossistemas litorâneos brasileiros com especial ênfase sobre o ecossistema manguezal. S. Paulo: Publicação esp. Inst. oceanogr., 1989. SILVA, Pedro Paulo de Lima [et. al.]. Dicionário brasileiro de ciências ambientais. Rio de Janeiro: Thex editora, 2005. T. S. Oliveira e [et. al.]. Alometria no crescimento de uca rapax (crustacea, decapoda, ocypodidae) na ilha de são luís, maranhão. Caxambu – MG: Anais do VII Congresso de Ecologia do Brasil, Setembro de 2007. VIDIGAL, A. A. F. [et. al.] Amazônia azul: o mar que nos pertence. Rio de Janeiro: Record, 2006.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 75 EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO DE SUSTENTABILIDADE NA ERA DO CONSUMO GLOBAL Bruno Soares de ABREU Economista - Doutorando em Recursos Naturais - CTRN/UFCG abreu.ufcg@gmail.com Vera Antunes de LIMA Prof. da Unidade Acadêmica de Eng. Agrícola - CTRN/UFCG antuneslima@gmail.com Silvana FERNANDES NETO Geógrafa – Doutoranda em Recursos Naturais - CTRN/UFCG silfeneto@gmail.com Geraldo Moura BARACHUY NETO Administrador, Doutorando em Recursos Naturais - CTRN/UFCG baracuhy@gmail.com RESUMO As ações antrópicas em favor do consumo global têm aumentado gradativamente a degradação ambiental em todo planeta, fazendo com que, os problemas ambientais se tornem cada vez mais preocupantes. Notoriamente, a revolução industrial, o avanço tecnológico e o consumo desenfreado pela população, favoreceram o desencadear de uma crise ambiental, outrora não tão evidenciada. Assim sendo, a busca incessante por medidas que minimizassem tal situação passou a ser foco principal mediante encontros, relatórios e convenções. A disseminação de informações de caráter educativo sobre a necessidade de proteger e melhorar o meio ambiente, possibilitando o desenvolvimento do homem de forma sustentável, em todos os sentidos, foi se tornando essencial principalmente na era do consumo global. Nesse contexto, a educação ambiental versa para uma sustentabilidade equitativa e duradoura, sendo um processo de aprendizagem contínuo e permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida. Tal educação apresenta enfoque humanístico e participativo, afirmando valores e ações que contribuem para a preservação ecológica e transformação de sociedades socialmente justas. Incorporar a educação ambiental vai além das mudanças de comportamento, paradigmas conceituais e metodológicos; busca a responsabilidade individual e coletiva e a relação de interdependência e diversidade. PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Consumo. Sustentabilidade. Meio ambiente e desenvolvimento. ABSTRACT The human actions encouraged by a global consumption have increased gradually throughout the world environmental degradation, causing environmental problems become increasingly worrying. Notably, the industrial revolution, technological advances and unbridled consumption by the population, favored the onset of an environmental crisis, once not so evident. Thus, the incessant search for measures that might minimize this situation came to be the main focus through meetings, reports and conventions. The dissemination of information of an educational nature on the need to protect and improve the environment, enabling the development of mankind in a sustainable way, in every sense, was becoming essential, particularly in the era of global consumption. In this context, environmental education versa for a fair and lasting sustainability, being a continuous learning process and ongoing, based on respect for all life forms. Such education has humanistic and participatory approach, affirming values and actions that contribute to ecological preservation and processing of socially just societies. Incorporate environmental education goes beyond the behavior changes, conceptual and methodological paradigms; search the individual and collective responsibility and the relationship of interdependence and diversity. KEYWORDS: Environmental education. Consumption. Sustainability. Environment and development.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 76 INTRODUÇÃO A realidade socioeconômica e ambiental, não apenas em escala nacional, mas também em nível global, tende a ficar cada vez mais obscura quando nos dispomos a investigar de forma um tanto quanto minuciosa e detalhada, como o atual modelo de desenvolvimento socioeconômico do sistema capitalista vem causando danos muitas vezes irreparáveis à humanidade como um todo em prol de seu desenvolvimento e consumo desenfreados. Cada vez mais nos deparamos com as crescentes incertezas e instabilidades que pairam na mente das pessoas no que dizem respeito aos caminhos que devem ser implantados para que se possa alcançar a plenitude de um desenvolvimento econômico e social mundial de forma igualitário, equitativo, inclusivo e duradouro. Mesmo com a busca constante de um desenvolvimento equitativo e igualitário proposto pelos princípios da sustentabilidade, observamos que o tão glorioso desenvolvimento social, econômico e ambiental, articulado e imposto pelos grandes capitalistas vem nos provando o contrário. Estes, sempre trazem em seus braços uma série de impactos e modificações geralmente negativas nas quais, hoje a sociedade já começa a despertar e a questionar o seu tão impiedoso modo de agir. Atualmente, os impactos sociais, econômicos e ambientais vêm aumentando de forma exponencial, provocando a destruição dos ecossistemas e causando alterações do meio ambiente a partir das atividades humanas que afetam a saúde, a segurança, o bem estar da população, as atividades socioeconômicas, as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente como um todo. Diante desse contexto, este trabalho tem por intuito, a realização de uma retrospectiva histórica acerca dos mecanismos que possibilitaram a observação gradativa dos problemas sociais, econômicos e ambientais decorrentes da extração de recursos naturais para o consumo, bem como a introdução de uma educação ambiental que versa para uma sustentabilidade equitativa e duradoura, atraves de um processo de aprendizagem contínuo e permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida onde tal educação apresenta um enfoque humanístico e participativo, e afirma valores e ações que contribuem para a preservação ecológica e transformação de sociedades socialmente justas. Revisão teórica Atualmente, em todas as áreas do conhecimento, a questão ambiental e seus desafios vêm sendo bastante refletidos por se tratar de uma preocupação mundial. Historicamente, a forma irracional adotada na busca do desenvolvimento e consumo sócio-econômico vem causando danos alarmantes não só ao meio ambiente, mas também a humanidade como um todo. Os avanços científicos e tecnológicos, a globalização da sociedade, a mudança dos processos de produção e suas conseqüências na educação, trazem a tona novas exigências à conscientização das pessoas objetivando reverter o atual quadro em que se encontra a questão ambiental. Observou-se na segunda metade do século XVII, na Europa, o surgimento dos primeiros movimentos que se preocupavam com questões relacionadas à preservação de áreas naturais, como reação à degradação do meio ambiente promovida pela revolução industrial. E, a partir do século XIX, foram criados os primeiros parques nacionais nos EUA, Austrália e Nova Zelândia, como exigência da sociedade local. No século XX, mais precisamente na década de 60, começaram a surgir as primeiras articulações de movimentos ambientalistas preocupados com questões referentes à preservação ambiental, cujas informações sobre as ameaças que o planeta estava sofrendo, difundia-se rapidamente entre as sociedades fazendo com que estas começassem a adquirir a noção de equilíbrio ecológico e a consciência sobre a necessidade de preservar os recursos naturais e os ecossistemas. Nos anos 70, o termo “ambiente” passou a constituir a agenda mundial no bojo da crise econômica na maioria das nações do planeta, quer sejam estas desenvolvidas ou não. Nesse contexto, observou-se um novo componente na crise e que este tinha relação direta com a redução
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 77 do índice de qualidade de vida de uma grande parte da população mundial: a poluição, a degradação ambiental, que juntamente com a possibilidade de saturação dos recursos naturais interferia no presente e no futuro da humanidade. A degradação ambiental se manifesta como sintoma de uma crise de civilização marcada pelo modelo de modernidade regido pelo predomínio do desenvolvimento da razão tecnológica sobre a organização da natureza. A questão ambiental problematiza as próprias bases da produção; aponta para a desconstrução do paradigma econômico da modernidade e para a construção de futuros possíveis, fundados nos limites das leis da natureza, nos potenciais ecológicos, na produção de sentidos sociais e na criatividade humana (LEFF, 2001). A partir de então, o tema passou a aparecer em diversos estudos, relatórios e programas internacionais dedicados ao meio ambiente, embora de formas e com ênfases distintas, onde na maioria das vezes vieram deturpar a visão da sociedade para as reais necessidades de preservação do meio ambiente com intuito de minimizar o processo de degradação ambiental com a qual nos deparamos na atualidade. Segundo Leff (2001), a degradação ambiental, o risco de colapso ecológico e o avanço da desigualdade e da pobreza são sinais eloqüentes da crise do mundo globalizado. A sustentabilidade é o “significante” de uma falha fundamental na história da humanidade; crise de civilização que alcança seu momento culminante na modernidade, mas cujas origens remetem a concepção do mundo que serve de base à civilização ocidental. A sustentabilidade é o tema do nosso tempo, do final do século XX e da passagem para o terceiro milênio; da transição da modernidade truncada e inacabada para uma pós-modernidade incerta, marcada pela diferença, pela diversidade, pela democracia e pela autonomia. Mediante tais constatações surge o conceito de desenvolvimento sustentável que, segundo Barbosa (2007), é aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de prover as suas próprias necessidades. Nesse sentido, o desenvolvimento sustentável implica necessariamente em uma ação interligada e interdependente com as variáveis econômicas, sociais e ambientais de maneira estável e equilibrada, pois, até então, a produção material, a reprodução e a conservação dos recursos naturais não são corrigidas pela economia de mercado. Busca-se uma nova forma de racionalidade do sistema capitalista frente às contradições do mundo moderno. A noção de desenvolvimento sustentável tem como uma de suas premissas fundamentais o reconhecimento da “insustentabilidade” ou inadequação econômica, social e ambiental do padrão de desenvolvimento das sociedades contemporâneas. Esta noção surge da compreensão da finitude dos recursos naturais e das injustiças sociais provocadas pelo modelo de desenvolvimento vigente na maioria dos países (BECKER, 1999). De acordo com Leff (2001), o princípio de sustentabilidade surge no contexto da globalização como marca de um limite e o sinal que reorienta o processo de civilização da humanidade. A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. Ultimamente, surge de maneira crescente, à adesão a essa idéia mesmo que de forma genérica e pouco precisa. Nos anos 80, após a publicação em vários idiomas do “Relatório de Brundtland”, a noção de desenvolvimento sustentável apresentada vem se tornando bastante usual em múltiplos espaços sociais nos dias atuais. Notoriamente, a implementação do desenvolvimento sustentável percorre um processo de discussão e comprometimento da sociedade como um todo, uma vez que implica em mudanças no modo de agir dos agentes sociais. Vale salientar que, foi a partir da publicação do Relatório de Brundtland que se tornou possível se problematizar algumas concepções e idéias do desenvolvimento sustentável, onde a essência do que foi apresentado em tal documento vem recair sobre uma ótica mais crítica da
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 78 exploração que ocorre com os recursos naturais, da orientação dos investimentos e das compatibilidades entre preservação e desenvolvimento. O mesmo também reafirma o fosso profundo entre países centrais e países subdesenvolvidos (GIANSANTI, 1998). Dessa maneira, fica evidente que a garantia de sustentabilidade do patrimônio natural integrada a um desenvolvimento econômico e social, necessita da elaboração e aquisição de vários outros conceitos que possibilitem garantir um desenvolvimento justo, equitativo e duradouro. De acordo com Giansanti (1998), o Relatório de Brundtland, referencia ao atendimento das “necessidades essenciais dos pobres no mundo”. Inegavelmente, tal meta possui grande mérito, mas há evidentes dificuldades em definir essas necessidades, diferenciando as coisas que realmente devem ser produzidas das coisas supérfluas. Consoante, Leff (2001) evidencia que o discurso da sustentabilidade leva, portanto, a lutar por um crescimento sustentado, sem uma justificação rigorosa da capacidade do sistema econômico de internalizar as condições ecológicas deste processo. A Organização das Nações Unidas (ONU), que é constituída por quase todos os países do planeta, vem abordando a temática ambiental durante a realização de suas conferências. Dois desses eventos que se destacaram e focaram a tal questão no mundo foram a Conferência de Estocolmo (1972) e a Conferência do Rio (1992). Nessas conferências foram estabelecidos princípios que serviram de caminho para a resolução das questões abordadas, como também a concretização de compromissos assumidos em convenções. Embora se saiba que existe um longo caminho a ser percorrido entre o que se tem em mente e o que se deseja pôr em prática, é de suma importância conhecermos e valorizarmos o esforço das Nações Unidas, pois este constitui-se em um grande passo para que as mudanças necessárias ocorram. A questão ambiental tornou-se uma preocupação mundial a partir do que foi declarado em Estocolmo, passando a fazer parte do que era negociado internacionalmente. O primeiro passo constituiu na criação de um mecanismo institucional para cuidar de questões ambientais no âmbito das Nações Unidas. No ano de 1972, surge o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Segundo Giansanti (1998), nos anos 70, a preocupação básica da Conferência de Estocolmo, era conter as várias formas de poluição, sendo que os debates foram marcados pela polarização entre os defensores do chamado crescimento zero, que advogavam pela contenção dos índices de crescimento econômico dos países pobres diante da ameaça de esgotamento dos recursos naturais que o ritmo de exploração da natureza poderia causar e os desenvolvimentistas, que eram compostos praticamente de representantes de países subdesenvolvidos que reivindicavam o direito ao desenvolvimento, mesmo trazendo impactos ambientais. Ainda em 1972, durante a Conferência de Estocolmo, não só o Brasil como os países em desenvolvimento opunham-se à problemática ambiental alegando que proteção ao meio ambiente teria sido uma estratégia criada pelos países desenvolvidos para impor barreiras a industrialização em andamento dos países subdesenvolvidos. Desta forma, o Brasil não reconhecia que as questões ambientais assumiam dimensões muito mais responsáveis e complexas. Em junho de 1992, as Nações Unidas convocaram outra conferência a ser realizada no Rio de Janeiro, denominada Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), para discutir conclusões e propostas do Relatório que introduziu o conceito de desenvolvimento sustentável e ainda comemorar os 20 anos da Conferência de Estocolmo. Na Conferência do Rio foram produzidos documentos fundamentais ao conceito de desenvolvimento sustentável, entre os quais podemos citar a criação da Agenda 21, um amplo programa de ação com a finalidade de dar efeito prático aos princípios aprovados na declaração do Rio. Em síntese, a Agenda 21 constitui um plano de ação estratégico, que possuiu a mais ousada e abrangente tentativa já feita de realizar, em escala planetária, um novo padrão de desenvolvimento, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica. Assim, estabelecendo uma parceria entre governos e sociedades, ou seja, um programa estratégico,
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 79 universal, para alcançarmos o desenvolvimento sustentável no século XXI. Com isso, a implantação da Agenda 21 pode proporcionar um Meio Ambiente equilibrado para as futuras gerações (ABREU, 2009). A construção e implementação de alguns processos da Agenda 21 tem o intuito de sensibilizar a população através da educação ambiental, transformando e impulsionando as políticas públicas ambientais, levando-se em consideração as demandas populares pela equidade de um desenvolvimento social, econômico e ambiental. O papel da educação na promoção do desenvolvimento sustentável é tratado mais especificamente no Capítulo 36 da Agenda 21, que trata da promoção do ensino, da conscientização e do treinamento; propõe um esforço global para fortalecer atitudes, valores e ações que sejam ambientalmente saudáveis e que subsidiem o desenvolvimento sustentável. Antes mesmo do surgimento da Agenda 21, segundo Sorrentino (1998), foi a partir da Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental realizada em Tsibilisi (EUA), no ano de 1977, que se iniciou um amplo processo em nível global orientado que visava criar as condições que para formar uma nova consciência sobre o valor da natureza e para reorientar a produção de conhecimento baseada nos métodos da interdisciplinaridade e nos princípios da complexidade. Ainda segundo o autor, tal campo educativo tem sido fertilizado transversalmente, e isso vem possibilitando a realização de experiências concretas de educação ambiental de forma criativa e inovadora por diversos segmentos da população e em diversos níveis de formação. Na Cidade de Tessalônica, Grécia em 1997, foi realizada a Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade, Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade, onde o seu documento chama a atenção para a necessidade de se articularem ações de educação ambiental baseadas nos conceitos de ética e sustentabilidade, identidade cultural e diversidade, mobilização e participação e práticas interdisciplinares. Segundo Godard (1997), a interdisciplinaridade é com efeito, o tema ideal de discursos enfáticos e abstratos, suscetíveis de inflamar as paixões e de alimentar longos debates, onde cada qual se considera suficientemente competente de emitir uma opinião tão definitiva quanto distante de um conhecimento prático comprovado. Ainda segundo o autor, quanto mais a aproximação interdisciplinar apontar na direção da simbiose, tanto mais ela necessitará dispor de amplos horizontes temporais, considerados suficientes para que o conhecimento mútuo e a confiança possam se estabelecer, e para que se possa construir uma crônica de fases alternadas do conhecimento disciplinar isolado e de fases de forte interação e de realizações comuns. Assim, a educação ambiental pode ser indicada como um dos possíveis instrumentos interdisciplinar capaz de capacitar e ao mesmo tempo sensibilizar a população em geral acerca dos problemas ambientais nos quais se deparam a humanidade na atualidade. Através desta, torna-se possível a elaboração de métodos e técnicas que facilitam a tomada de consciência das pessoas a respeito da gravidade e necessidade da implementação de providências urgentes no que diz respeito aos problemas ambientais globais. De acordo com Minnini (1994), a Educação Ambiental enfatiza o desenvolvimento de valores e comportamentos diferentes na inter-relação homem e meio ambiente, defendendo a necessidade de um conhecimento integrado da realidade e procedimentos baseados na investigação dos problemas ambientais, utilizando estratégias interdisciplinares. Diante disto, a educação é um meio para que aconteça a transformação na sociedade. No entanto, essa mudança depende da práxis educativa do educador, que deve oferecer condições para que o educando se torne independente, crítico, consciente, livre, responsável com o mundo, com a vida e consigo mesmo. Educar é construir, é libertar o ser humano das cadeias do determinismo social, reconhecendo no processo histórico um tempo de possibilidades inesgotáveis. Desta forma, podemos dizer que o processo educativo configura-se como um "ensinar a pensar de forma autônoma”. É um "que fazer dialogado, co-participado", integrado e por isso não pode de modo
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 80 algum tornar-se produto de uma mente burocratizada e estagnada, ao contrário exige dos seus participantes uma reflexão crítica reflexiva da prática e do contexto histórico, político e cultural no qual encontra-se inserido (FREIRE, 1987). Sendo assim, a educação é um processo contínuo, devendo nunca se distanciar da realidade concreta do educando e do educador, buscando a coerência entre o dizer e o fazer, entre o pensar e o agir, entre o sentir e o falar. Partimos da concepção de que, a educação ambiental também é um processo contínuo, interdisciplinar, direcionada a toda sociedade e, por isso mesmo, deve promover uma vinculação estreita com as práticas sociais e políticas, com as nossas formas de intervir na realidade. A educação, assim como a educação ambiental, não se restringe apenas a uma mera transferência de conhecimentos, mas a um ato de compromisso, de conscientização e de testemunho de vida. Por conseguinte, a educação terá um papel determinante na criação da sensibilidade social necessária para reorientar a humanidadade (ASSMANN, 2001, p. 26). De acordo com Freire (1977 apud Philippi Jr., 2005), a educação como prática de liberdade não é a transferência ou a transmissão do saber nem da cultura; não é a extensão de conhecimentos técnicos; não é o ato de depositar informes ou fatos nos educandos; não é a perpetuação dos valores de uma cultura dada, nem o esforço de adaptação do educado a seu meio. A tarefa do educador, então, é problematizar aos educandos o conteúdo que os mediatiza, e não dissertar sobre ele. Dessa forma, ele (o educador) aprofunda-se e compromete-se com o processo, enquanto os educandos o captam, o analisam e o compreendem (PHILIPPI JR., 2005). Nesse contexto, o processo de conscientização e sensibilização acerca das questões sociais, econômicas e ambientais necessita do envolvimento e participação dos sujeitos, que por meio das responsabilidades buscarão a ação e participarão na tomada de decisões para a solução dos problemas ambientais. Desta maneira, a educação ambiental pode contribuir de forma significante na formação da cidadania crítica e responsável, capaz de participar de forma democrática das decisões políticas, econômicas do desenvolvimento das futuras gerações. Assim, precisamos tratar a educação ambiental a partir de sua vinculação direta com a ética e a cidadania, situando-a numa reflexão mais ampla, o que envolve uma visão sociológica e uma visão política de mundo. Nessa perspectiva, é importante que a educação ambiental desperte nas pessoas o sentimento de que somos co-responsáveis pela mudança de atitude, que não só promova a preservação da vida, mas uma nova mentalidade essencial para criar um novo tipo de desenvolvimento - o desenvolvimento sustentável - onde as sociedades sustentáveis combatem o desperdício, levam em conta o processo coletivo, e o bem comum sem violar os direitos individuais das pessoas. Além disso, não basta apenas apontar problemas decorrentes de uma ação do homem em relação ao meio ambiente, é imprescindível, entender o ambiente não somente como um meio para satisfazer as necessidades humanas, mas como o meio ambiente do ser humano, que condiciona a própria sobrevivência. Este ambiente tem sua própria dinâmica, suas regras e exigências e a humanidade pode interagir com ele (PENTEADO, 1994). Segundo Philippi Jr. (2005), a educação ambiental deve, portanto, capacitar ao pleno exercício da cidadania, permitindo a formação de uma base conceitual suficientemente diversificada, técnica e cultural, de modo a permitir que sejam superados os obstáculos à utilização sustentável do meio. Ainda de acordo com o mesmo autor, educação ambiental não é ecologia; pressupõe conhecimentos disciplinares diversos, que permitam uma visão integral dos problemas e seu enfrentamento de forma interdisciplinar.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 81 Metodologia A metodologia utilizada para o desenvolvimento deste estudo partiu de uma abordagem com natureza bibliográfica que, na visão de Gil (1991), é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. Na desenvoltura do mesmo foi realizada uma análise documental referente às literaturas em alguns autores que enfocam a questão da Educação Ambiental, consumo e sustentabilidade, assim como periódicos (revistas e jornais) que serviram para enriquecimento, ampliação e verificação das questões levantadas. Após a coleta e revisão do material, foi feita uma análise dos dados escolhidos e dado início a escritura do mesmo. 4 Conclusão A educação ambiental é um tema sempre presente nas discussões de âmbito educacional nas últimas décadas. Entretanto, é possível perceber que embora esta temática seja amplamente debatida, estudada, percebemos a cada dia, em uma velocidade assustadora, a destruição do meio ambiente em prol do desenvolvimento e consumo estipulado pela humanidade. Nesse sentido, é imprescindível apresentar caminhos metodológicos para a implementação de políticas de gestão do meio ambiente na escola e na sociedade, objetivando a formação de consciências individuais e coletivas no sentido de alcançarmos a sustentabilidade ambiental. Diante do exposto, cabe-nos observar que o educador, o gestor, o pesquisador tem um papel importante na formação de um sujeito crítico, participativo e criativo, com argumentação e visão dialética do contexto sócio-político-ambiental e do processo de desenvolvimento sustentável, pois, educar ambientalmente é um processo de educação política, é formar atitudes que predisponham à ação. REFERÊNCIAS ABREU, Bruno Soares. Gestão e resíduos sólidos e seus aspectos sociais econômicos e ambientais. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Campina Grande, 2009. ASSMANN, H. Reencantar a educação rumo à sociedade aprendente. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 2001. BARBOSA, Erivaldo Moreira. Introdução ao direito ambiental. Campina Grande: EDUFCG, 2007. BECKER, Dionizar Fermiano. Desenvolvimento Sustentável: Necessidade e/ou Possibilidade.2.ed. Santa Cruz do Sul:Edunisc, 1999. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 27 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. GIANSANTI, R. O desafio do desenvolvimento sustentável. São Paulo: Atlas, 1998. GODARD, O. A relação interdisciplinar: problemas e estratégias. In: VIEIRA, Paulo Freire; WEBER, Jacques (Eds). Gestão de recursos naturais renováveis e desenvolvimento. Novos desafios para a pesquisa ambiental. São Paulo: Cortez, 1997, pp. 321-360. LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis: Vozes, 2001. 343p. MININNI, N.M. Elementos para a introdução da dimensão ambiental na educação escolar – 1º grau. Amazônia: uma proposta interdisciplinar de educação ambiental. Brasília, IBAMA, 1994. PENTEADO, H.D. Meio ambiente e formação de professores. São Paulo: Cortez, 1994. PHILIPPI JR., A. Saneamento, saúde e ambiente – fundamentos para um desenvolvimento sustentável. São Paulo: Manole, 2005. SORRENTINO, M. De Tbilisi a Tessaloniki, a educação ambiental no Brasil. In: JACOBI, P. et al. (orgs.). Educação, meio ambiente e cidadania: reflexões e experiências. São Paulo: SMA.1998. p.27-32.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 82 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL Hadryan Lima RODRIGUES hadryan11@yahoo.com.br Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA thais.eline@gmail.com Lorena Santos GONÇALVES lorenaangitur@hotmail.com Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / Curso de Especialização em Educação Ambiental - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil. RESUMO As questões ambientais geram diversas manifestações, principalmente contra a utilização de “tecnologias poluentes”, o que de uma forma ou de outra nos conduz para a necessidade de implantação de um processo de desenvolvimento mais responsáveis com o ambiente. Observando esse contexto, a realização desse estudo nasceu do interesse em discutir os problemas relacionados com as variadas formas de consumo do ambiente e fazer a conexão com os diversos saberes relacionados às práticas de Educação Ambiental, de modo a fornecer subsídios para o entendimento das múltiplas situações relacionadas à ação antrópica com o ambiente. Pretende-se, ainda, analisar os impactos socioeconômicos decorrentes destas relações, bem como contribuir para o desenvolvimento de ações que conduzam para uma melhoria da condição ambiental em níveis locais, regionais e intrarregionais. PALAVRAS-CHAVES: educação ambiental, consumo sustentavel, sociedade. ABSTRACT Environmental issues generate several manifestations, mainly against the use of “polluting technologies”, which leads us to the need for implementation of a development process more responsible regarding environment. Observing this context, this study arose from the interest in discussing problems related to the several forms of environmnet consumption and making the connection with the several knowledges related to environmental education practices, in order to supply with subsidies for the understanding of multiple situations related to anthropic action with the environment. It also aims at analyzing the socieoeconomical impacts of these relations, as well as contributing for the development of actions leading to the improvement in local, regional and interregional levels. KEYWORDS: environmental education, sustainable consumption, society. 1 INTRODUÇÃO A Educação Ambiental constitui-se em uma ação educativa permanente. É também através dela que a comunidade educativa toma consciência de sua realidade global, do tipo de relações que os homens estabelecem entre si e com a natureza, dos problemas decorrentes destas relações e de causas mais profundas. Ela desenvolve, mediante uma prática que vincula o educando com a comunidade, valores e atitudes que promovem um comportamento dirigido a transformação superadora dessa realidade, tanto em seus aspectos naturais quanto sociais, desenvolvendo no educando as habilidades e atitudes necessárias para esta transformação. No dia 27 de Abril de 1999 a Educação Ambiental tornou-se lei. Trata-se da Lei N° 9.795 – Lei da Educação Ambiental – que em seu Art. 2° afirma: A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal (BRASIL, 1999).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 83 Ocorre que, muitas vezes em nome do desenvolvimento técnico-científico, tem se efetivado o consumo cada vez mais desordenado do ambiente. Esse aspecto deixou claro os problemas de ordem ambiental, fazendo com que essa problemática acabasse por agravar os questionamentos sobre essa forma de consumo do espaço. Nesse cenário, as manifestações contra a utilização de “tecnologias poluentes” também aumentaram, o que de uma forma ou de outra vai nos conduzindo para a necessidade de implantação de um processo de desenvolvimento mais responsável com o ambiente. Conforme Rosa (1992), é exatemente o desenvolvimento sustentável que vai apresentar uma síntese para responder as demandas sociais emergentes desse contexto. Em uma visão empresarial, o espaço constitui-se cada vez mais em um produto de consumo. Sob essa perspectiva, um outro problema surge dessa situação: a ocupação, a produção e o consumo do meio ambiente geralmente é desacompanhada de uma preocupação ambiental, o que contribui para o agravamento dos aspectos relacionados degradação ambiental. Entretanto, é possível afirmar que estão sendo implantadas medidas, ainda que de forma pouco abrangentes, para se promoverm uma melhoria do ambiente, mesmo que sejam para possibilitarem a otimização das margens dos lucros empresariais. A degradaçao ambiental se manifesta de diversas formas e sob variadas cirunstâncias. Nesse sentido, concordamos com Borrero (1990) quando afirma que a lógica da ciência e da tecnologia, a falta de uma política social coerente e a procura por necessidades básicas que garantam a sobrevivência faz com que muitas pessoas sejam “cúmplices involuntárias da degradação ambiental”. Sendo assim, constata-se mais um agravante: a difusão da idéia de que a implentação de ações que promovam a justiça social são impossíveis de acontecerem em países que ainda estão em vias de desenvolvimento. Sabe-se que a produção industrial descontrolada ameaça signficativamente a vida no planeta. Desta forma, é possível afirmar que há uma relação direta entre a atividade de consumo realizada pelo homem com os padrões de sustentabilidade do ambiente. Além desta constatação, pode-se afirmar, ainda, que o ambiente não é fonte inesgotável de recursos, bem como não assegura o crescimento econômico permanente entre as nações. Levando-se em consideração o contexto atual, aponta-se para a necessidade de efetivação de um consumo sustentável que possa auxiliar na mitigação dos problemas decorrentes das diversas formas de produção e consumo ao qual estamos todos submetidos. Deve-se destacar, ainda, que o conceito de consumo sustentável passou a ser construído a partir do termo desenvolvimento sustentável, divulgado com a Agenda 21, documento produzido durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, na cidade do Rio de Janeiro, em 1992. A Agenda 21 relata quais as principais ações que devem ser tomadas pelos governos para aliar a necessidade de crescimento dos países com a manutenção do equilíbrio do ambiente. Os temas principais desse documento falam exatamente sobre as modificações dos padrões de consumo, do manejo ambiental dos resíduos sólidos e do saneamento, bem como abordam o fortalecimento do papel do comércio e da indústria. Desta forma, o consumo sustentável se trata de um desafio que nos remete ao pensamento sobre a importância de se adotar um comportamento mais comprometido com a necessidade de reciclar, bem como de se adotar um novo estilo de vida que nos conduza a novos padrões de consumo. Sabe-se, ainda, que esta deve ser uma tarefa pertinente a todas as esferas, sejam governamentais, sociais ou mesmo empresariais. Segundo Portilho (2004), é exatamente a partir do crescimento dos movimentos ambientalistas, que vão surgir novos argumentos contra os hábitos ostensivos e consumistas de nossa sociedade. Essa prerrogativa deixa evidente que o padrão de consumo das sociedades ocidentais, além de se apresentar de forma socialmente injusta, também é imoral e ambientalmente insustentável. Sobre esse assunto a autora se manifesta da seguinte forma: A crise ambiental mostrou que não é possível a incorporação de todos no universo de consumo em função da finitude dos recursos naturais. O ambiente natural está sofrendo uma exploração excessiva que ameaça a estabilidade dos seus sistemas de sustentação (exaustão de recursos naturais renováveis e não renováveis, desfiguração do solo,
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 84 perda de florestas, poluição da água e do ar, perda de biodiversidade, mudanças climáticas etc.). Por outro lado, o resultado dessa exploração excessiva não é repartido eqüitativamente e apenas uma minoria da população planetária se beneficia desta riqueza. (PORTILHO, 2004) A realização desse estudo nasceu do interesse em discutir os problemas relacionados com as variadas formas de consumo do ambiente e fazer a conexão com os diversos saberes relacionados às práticas de Educação Ambiental, de modo a fornecer subsídios para o entendimento das múltiplas situações relacionadas à ação antrópica com o ambiente. Pretende-se, ainda, analisar os impactos socioeconômicos decorrentes destas relações, bem como contribuir para o desenvolvimento de ações que conduzam para uma melhoria da condição ambiental em níveis locais, regionais e intrarregionais. Se levarmos em consideração o princípio ético de igualdade, em que todos os habitantes do planeta, das presentes e das futuras gerações, possuem o direito a usufruir os recursos naturais, poderemos chegar a constatação de que enquanto os países desenvolvidos continuarem distribuindo de forma desigual a riqueza e os recursos naturais, os países do subdesenvolvidos poderão continuar reivindicando o direito de adotar o mesmo padrão de comportamento, tornando impossível a contenção do consumo global dentro de limites considerados sustentáveis. Nesse sentido, os riscos de conflitos gerados a partir do interesse de consumo pelos recursos naturais tenderão a aumentar. Esse dilema conduz para a percepção ética de que todos os povos devem ter direitos proporcionais no acesso e na utilização dos recursos naturais. Sendo assim, para se promover a redução das disparidades socioeconômicas, é necessário estabelecer um nível mínimo e um máximo para os padrões de consumo. Entretanto, cada sociedade possui o direito e o dever de desenvolver o seu estilo de vida, mas não sem antes estabelecer uma condição de vida e de consumo que não comprometa a qualidade de vida da própria humanidade. O que é Educação Ambiental (EA)? O que é consumo sustentável? Qual é a relação entre a EA e os níveis de consumo da humanidade? Quais os valores éticos referentes a prática do consumo sustentável? Que tipos de ações em EA poderiam ser realizadas para se garantir uma melhor relação entre consumo e qualidade de vida? Focalizar esta realidade significa, portanto, contribuir não somente para o desenvolvimento da área das ciências sociais numa perspectiva acadêmica. Trata-se, também de produzir conhecimentos que possam ser utilizados no campo da Educação Ambiental, dando suporte às estratégias de desenvolvimento de ações que culminem na formação de cidadãos mais críticos e responsáveis com o ambiente. 2 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL Recorrendo a Portilho (2004), percebe-se que a qualidade de vida, a felicidade e a qualidade ambiental estão sendo cada vez mais associadas ou reduzidas às conquistas materiais. Essa constatação leva a um ciclo vicioso, onde o indivíduo trabalha não somente para manter um determinado nível de consumo, mas também para ostentar uma condição materialista de sucesso social. Esta situação reduz o tempo destinado ao lazer e a própria felicidade a mercadorias que devem ser consumidas para alimentar a características inerentes ao modelo econômico do qual fazemos parte. Por este ângulo, é conveniente destacar que a expansão da Sociedade de Consumo, amplamente influenciada pelo modo de vida estadunidense, possibilitou que o consumo se transformasse em uma compulsão, que é vastamente estimulada pelas forças do mercado econômico. Sabe-se que esta sociedade produz carências, desejos e necessidades materiais e simbólicas intimamente presentes no modelo industrial, na moda e nas diversas formas de comunicação, como a publicidade. Estes aspectos convergem para a constatação de Santos (2005), que avisa sobre os desajustes existentes entre as práticas de consumo e suas relações com o ambiente. Nessa ótica, a autora destaca que a comunicação exerce um papel fundamental para conscientizar o consumidor, mas, não com a intenção de estender o consumo a todas as classes, e sim por torná-lo uma forma de pressão que norteia para mudanças no próprio modo de produção.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 85 Tal modelo de sociedade passa a reconhecer seus indivíduos a partir da avaliação e do julgamento daquilo que consomem, utilizam ou simplesmente possuem e exibem aos outros. O próprio indivíduo passa a fazer uma autoavaliação a partir do que possui, ou pelo seu poder de consumo diante dos produtos ofertados pelo mercado. Trata-se de uma situação complexa em que se torna muito difícil estabelecer o limite entre consumo e consumismo, pois a definição do que é necessário ou supérfluo está diretamente relacionado às características culturais e socioeconômicas da sociedade e do grupo ao qual fazemos parte. Exatamente pelos aspectos já destacados é que Canclini (1996) afirma que o consumo se mostra como um tema relevante quando se trata de se investigar as representações e os valores sociais que se constroem no cenário contemporâneo. Sob esta perspectiva, deve-se destacar que o fenômeno do consumo se constitui, tanto como um campo de construção simbólica, quanto um ato político e espaço de disputa pela hegemonia de determinados valores e parâmetros. Sobre a natureza e os aspectos que envolvem a produção simbólica, Bourdieu (1998) contribui da seguinte forma: O campo de produção simbólica é um microcosmo da luta simbólica entre as classes: é ao servirem aos interesses na luta interna do campo de produção (e só nessa medida) que os produtores servem aos interesses dos grupos exteriores ao campo de produção (BOURDIEU, 1998, p. 12) Levando-se em consideração os padrões de consumo já citados, também é necessário destacar o reconhecimento das limitações físicas do nosso planeta em relação ao reconhecimento do princípio universal de eqüidade na distribuição e acesso aos recursos indispensáveis à vida humana. A partir dessa percepção e da constatação de que os atuais padrões de consumo estão inequívocamente relacionados às origens da crise ambiental, a crítica ao consumismo passa a ser uma contribuição substancial para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e sustentável. Nessa perspectiva, surgiram diversas propostas que objetivam a modificação desses padrões, tais como: o consumo verde, consumo consciente, ético, responsável e sustentável. Trata- se de uma proposta que é dominada por diversas análises que consideram que caso os consumidores possuam conhecimento suficiente, irão por conseqüência obter a necessária “consciência ambiental”, transformando-a em atitudes e comportamentos ambientalmente adequados. Conforme Cohen (2001), um bom exemplo dessa questão seria o enfrentamento com maior ênfase exercido pelos programas informativos que possuem estratégias de eco-rotulagem, como acabou sendo empregado pela Comunidade Européia. Entretanto, o simples acesso a conhecimentos relacionados à questão ambiental não conduz a estilos de vida e práticas ambientalmente corretas. Outro aspecto que merece ser destacado é a excessiva quantidade de informações relacionadas com uma grande diversidade de assuntos, muitas vezes altamente especializados, que impossibilitam a realização de uma análise correta, tendo em vista que muitas informações são incompreensíveis ou incompatíveis, além de se configurarem como aspectos conflitantes mesmo entre os especialistas no assunto. Recorrendo mais uma vez a Santos (2005), percebe-se que a idéia de consumo sustentável nas organizações toma forma quando as posturas das empresas anunciam uma preocupação realmente efetiva com os níveis de impacto socioambiental que sua produção e seu consumo provocam. Outra evidência de destaque acontece quando um compromisso ainda maior com a sustentabilidade ocorre nas empresas que promovem modificações em sua perspectiva de futuro relacionadas, tanto em seu modo de produção, quanto em nível de compartilhamento das novas políticas com fornecedores, clientes e com o próprio governo. Outro aspecto que merece observância refere-se ao papel que a mídia exerce na adoção de padrões sustentáveis de consumo. É inegável que a disseminação de informações, bem como a mudança cultural relativa ao consumo encontra nos instrumentos midiáticos um excelente instrumento de influência nessas questões. Nesse contexto, Habermas (1997) destaca o poder que os meios de comunicação possuem de produzir o que ele denomina de “esfera pública abstrata”. Tal expressão contempla questões referentes a leitores, ouvintes e espectadores, onde quer que se
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 86 encontrem, pois compreende-se que tal esfera apresenta o poder de interferir no conjunto de narrativas a que a mídia confere visibilidade. Com base no que foi exposto, é possível afirmar que a presença de temas relativos a sustentabilidade constitui-se em reflexo de uma modificação contínua na percepção pública e em uma condição importante para que este reflexo encontre eco nos variados segmentos sociais. A partir do agir comunicativo, a mídia fomenta a geração do espaço social. Nessa perspectiva, ela provoca a ambientação adequada para expor à cena pública os questionamentos relativos ao desenvolvimento sustentável. Desta forma, deve-se destacar o argumento de que ações coletivas e intervenções políticas podem realmente fazer ajustes, tanto no nível, quanto na estrutura do consumo de forma menos onerosa, principalmente para os consumidores. Além desse aspecto, deve-se destacar que estas ações e intervenções facilitam a distribuição dos custos e dos benefícios desses ajustes de uma forma mais equilibrada. Finalmente, também é importante afirmar que as ações coletivas oferecem vários méritos, principalmente o de eliminar os problemas causados pelos aproveitadores entre aqueles que participam ativamente da construção de benefícios e de melhorias na qualidade ambiental, tendo em vista que os mesmos pretendem usufruir dos benefícios, contudo se recusam a participarem dos custos decorrentes dessa participação. Dessa forma, as ações coletivas se configuram como excelentes estratégias, potencialmente mais adequadas e eficazes no que diz respeito a condução dos atuais padrões de consumo em direção a construção de um mundo mais justo e democrático, bem como de um ambiente mais sustentável. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A sociedade de consumo e o consumismo estão intimamente relacionados. Os ideais de liberdade individual e a valorização exarcebada ao individualismo comprometem de forma significativa as ações convergentes para uma melhor condição ambiental. Neste sentido, pode se afirmar que a sociedade de consumo foi erguida sob a bases da “liberdade individual de escolha. Entretanto, concordamos com Bauman (2000), quando se refere que o aumento da liberdade individual pode coincidir com o aumento da impotência coletiva. Uma vez que não existe uma forma única se traduzir preocupações pessoais em questões públicas, torna-se necessário estabelecer a comunicação entre estas esferas e romper com as limitações que envolvem essas circunstâncias. A análise das conseqüências das políticas de consumo como estratégia de enfrentamento dos problemas ambientais nos leva a reforçar a afirmação de que as ações individuais não são o espaço onde mudanças profundas nos padrões de consumo devem ser esperadas, sem uma pressão vinda das organizações sociais e das instituições políticas, ainda que tenham sido eleitas democraticamente. Conforme lembra Strasser et al (1998), as atividades de consumo operam na interseção entre vida pública e privada, atuando no sentido de alterar as fronteiras entre elas. Acreditamos que o debate sobre a Educação Ambiental e as práticas de Consumo Sustentável devem ocorrer em um espaço público e ao mesmo tempo privado. Esse debate deve envolver questões de ambas as esferas e objetivar recuperar os elos entre elas. Através dessa perspectiva, a questão ambiental certamente poderá ser colocada em um lugar cujas preocupações privadas e as questões públicas se encontram. Desta forma, o consumo sustentável pode funcionar como uma estratégia política para promover a resolução de problemas coletivos e individuais, através da própria aproximação entre essas esferas. Quanto às críticas referentes ao consumismo, é possível dizer que a organização individualista do consumo tende a nos desconectar, enquanto cidadãos, da solidariedade e do interesse pelos problemas coletivos. Ainda que concordemos com essa afirmação bastante precisa, também somos obrigados a concordar com Canclini (1996) quando afirma que a expansão das comunicações e do consumo gera associações de consumidores e lutas sociais. Nesse sentido, muito pouco tem sido feito para se analisar as práticas de consumo como uma forma de criação de redes de intercâmbio de informação e de aprendizagem que sirvam para o exercício da cidadania.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 87 Finalmente, ainda que não seja correto afirmar que o consumidor é o único “ator social” capaz de mudar a sociedade em direção a um ideal mais sustentável, deve-se considerar a possibilidade de se politizar o debate ambiental na esfera privada. Deve-se, ainda, considerar as práticas políticas como uma necessária condição para o desenvolvimento de propostas que conduzam para uma modificação dos padrões de consumo, além de fazerem parte de um projeto e de utopia de implantação de uma sociedade que seja realmente sustentável. REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000. BORRERO, M. Los Estudios de Ciencia, Tecnologia e Sociedad em el contexto lationoamericano. In: MANUEL MEDINA et al. (Orgs.). Ciência, tecnologia y sociedad: estúdios interdisciplinares em la universidade, em la educación y em la gestinón política y social. Barcelona: Antropos, p.125-9, 1990. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Diretrizes para operacionalização do Programa Nacional de Educação Ambiental. Disponível na internet no endereço: http://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_legislacao/20_legislacao18032009111654.pdf em: 24 de julho de 2009. CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos - conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro, UFRJ, 1996. HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. PORTILHO, Fátima. Limites e possibilidades do consumo sustentável. In: Educação, ambiente e sociedade: idéias e práticas em debates - Programa de Comunicação Ambiental. Serra, CST, 2004, pp.73-96. SANTOS, Luciane Lucas dos. Comunicação e consumo sustentável: das entrelinhas do capitalismo leve ao enquadramento da sustentabilidade na mídia. In: revista fronteiras – estudos midiáticos. vol. 3. set./ dez. Porto Alegre: UNISINOS, 2005. STRASSER, Susan; McGOVERN, Charles & JUDT, Matthias. Getting and spending - European and American consumer societies in the Twentieth century. Cambridge, Cambridge University Press, 1998.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 88 EDUCAÇÃO AMBIENTAL, EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL PINTO, Francisca Wislana Costa17 FCAP/Universidade de Pernambuco wislana@msn.com RESUMO O presente trabalho analisa questões-chave a respeito da educação ambiental como um aliado na disseminação da educação empreendedora e do desenvolvimento local sustentável. Em concordância com a visão do desenvolvimento, o empreendedorismo vem se consolidando cada vez mais como um dos elementos de contribuição para a inclusão social e o desenvolvimento econômico além de tornar-se um tema prioritário e relevante nas discussões referentes ao crescimento do mercado de consumo e ao futuro do nosso País. Sendo assim, buscamos no sistema educacional uma parceria no ensino e formação de empreendedores, com inserção de temas relacionados a negócios em seus programas de ensino, em diferentes níveis, para a promoção do desenvolvimento local sustentável. PALAVRAS-CHAVES: Empreendedorismo, Desenvolvimento Local, Educação Empreendedora, Educação Ambiental. ABSTRACT This paper examines key issues concerning the environmental education as an ally in the dissemination of entrepreneurial education and local development. In line with the vision of development, entrepreneurship is consolidating more and more as one of the elements contributing to social inclusion and economic development as well as become a priority and relevant in discussions concerning the growth of the consumer market and the future of our country Therefore, we sought a partnership in the educational system in teaching and training of entrepreneurs, with inclusion of topics related to business in their teaching programs at different levels, to promote sustainable local development. KEYWORDS: Entrepreneurship, Local Development, Entrepreneurial Education, Environmental Education. 1 INTRODUÇÃO O empreendedorismo tem como tema central promover o desenvolvimento, criar e inovar o que já existe. É crescente o interesse pelo empreendedorismo como força propulsora na criação de empresas. A disseminação da importância do empreendedorismo, através da educação, visa contribuir com o processo de desenvolvimento econômico local e fundamenta-se na idéia de que a educação empreendedora promove o rompimento de barreiras de resistência à realização de idéias inovadoras e pode gerar comportamentos e atividades que conduzem à criatividade e à geração de riquezas Dentre as idéias associadas à questão da criação de emprego e renda e a conseqüente preocupação com a elevação da qualidade de vida da população está o empreendedorismo. Num sentido amplo, empreendedorismo fomenta o desenvolvimento local integrado e sustentável, vinculado à capacidade de uma comunidade ser autora dos processos de mudanças essenciais ao seu crescimento e ao acesso de toda a população à riqueza gerada. E para ser empreendedor é preciso ter seu próprio negócio? A resposta é não. Ser empreendedor é criar e inovar o que já existe. Ele busca novos negócios e oportunidades e está sempre pesquisando para melhorar produtos ou serviços com base nas necessidades do mercado, num processo contínuo pela busca da melhoria do produto, da prestação do serviço ou do desempenho na função que exercer. Os empreendedores são 17 Administradora, acadêmica do programa de Mestrando em GDLS -Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável- FACP/UPE
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 89 pessoas que inovam. Peter Drucker (1992) afirma "A inovação é o instrumento específico dos empreendedores, o meio pelo qual eles exploram a mudança como uma oportunidade para um negócio ou serviço diferente". A questão fundamental então é o preparo do empreendedor. O sistema educacional assume um papel importante para com a causa empreendedora. A inclusão de temas no programa de ensino das escolas de ensino médio, técnico e superior, voltados aos negócios, tem se mostrado uma iniciativa bastante positiva para a promoção do empreendedorismo. E esse estudo tem como propósito refletir sobre a importância da disseminação da educação empreendedora para a criação de empresas e na promoção do desenvolvimento local de forma sustentável. 2 Empreendedorismo Vários são os conceitos para o empreendedorismo. A literatura apresenta muitas definições para os termos empreendedorismo e empreendedores, dada as diversas correntes de pesquisadores desse campo, que utilizaram os princípios de suas áreas de interesse para construir o conceito. O Termo empreendedorismo é um neologismo traduzido livremente do inglês entrepreneurship, originada da palavra francesa entrepreneur, usada no século 12 para designar “aquele que incentivava brigas” (Dolabela, 1999a, p. 43). Segundo Leite (2002) cita que o empreendedor é um empresário ou aquele que abre um empreendimento, criando por conta própria um negócio em seu benefício, assumindo riscos de um produto qualquer. Neste sentido, para Degen (2005) ser empreendedor significa ter a necessidade de realizar coisas novas, pôr em prática suas próprias idéias e essas são características de personalidade e comportamento não muito comuns de se encontrar, mas que fazem com que as pessoas que as possuem se destaquem, pois são elas que fazem as coisas acontecer. O empreendedorismo trata atos e comportamentos dos empreendedores. “Um empreendedor é uma pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões” Filion (1999 p.9); o empreendedor é um agente de mudanças e inovações, que identifica oportunidades e busca recursos para transformar conhecimento em riqueza. Desta forma, o instrumento específico do espírito empreendedor é a inovação, a busca deliberada e organizada de mudanças, as fontes das oportunidades que tais mudanças podem oferecer. Os empreendedores estão comprometidos num processo onde o economista Joseph Schumpeter (1959) descreveu como "destruição criativa", ou seja, "romper com velhos hábitos, para gerar respostas novas às carências e desejos do mercado". Eles (os empreendedores) forçam situações, com o objetivo de mudar as coisas para melhor. São construtores compulsórios: quando começam, não param mais (LEITE, 2006). A respeito da contribuição dos empreendedores na formação da riqueza de um país, Schumpeter (1959) afirma que o empreendedor é o agente do processo de destruição criativa e é o impulso fundamental que aciona e mantém em marcha o motor capitalista. Transformar conhecimento, nascido de uma idéia, de uma oportunidade, em riqueza, através da realização da visão concebida a partir do sonho, é uma tarefa que requer do empreendedor diversas características. O empreendedor tem características e traços capazes de deixar todos os integrantes da empresa surpreendidos, sempre prontos para trazer e gerir novas idéias, produtos ou mudar tudo o que já existe. É um otimista que vive no futuro, transformando crises e oportunidades, e exercendo influencia sobre as pessoas para levá-las em direção às suas idéias. Ele cria e inova o que já existe, busca novos negócios e oportunidades e está sempre pesquisando para melhorar produtos ou serviços com base nas necessidades do mercado. Para Weber (1996) o empreendedor não parece tão arrojado quanto o de Schumpeter (1959), mas é organizado e racional. A racionalidade, um dos pilares do empreendedor weberiano, incluía todo o processo de produção, comercialização, a capacidade de organização e da contabilidade, a busca do aumento da produtividade e a introdução de "baixos-preços e "grande giro" [...] "e aqueles que não fizerem o mesmo, têm que sair do negócio" (WEBER, 1996, p. 44). O termo empreendedorismo, embora tenha se originado a partir de pesquisas em economia, recebeu fortes contribuições da psicologia e da sociologia, que deram ênfase as características pessoais do
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 90 indivíduo empreendedor o que provocou diferentes definições para o termo e, como conseqüência, variações em seu conteúdo. O futuro é dinâmico e cheio de incertezas, sendo assim, é necessário refletir sobre as nossas posturas, habilidades pessoais e profissionais; criatividade; memória; comunicação; como enfrentar este século. São mudanças socioculturais e tecnológicas que fazem repensar hábitos e atitudes frente às novas exigências do mercado. Diferenciar-se dos demais, rever convicções e comportamentos, mudar paradigmas, sobrepor idéias antigas às novas verdades, este é o perfil do profissional que, trocando informações, dados e conhecimentos, poderá fazer parte do cenário das organizações que aprendem, das organizações sustentáveis. 3 Educação empreendedora Antes, acreditava-se que o empreendedorismo não podia ser ensinado: Os empreendedores eram indivíduos nascidos com dom inato, e com características especiais que os levava ao sucesso no mundo dos negócios. Hoje, temos resultados diferentes. Os estudos recentes indicam que embora características pessoais possam facilitar a atuação individual à frente de um novo negócio, o processo empreendedor pode, sim, ser ensinado e aprendido (Dolabela, 1999b; Dornelas, 2001). O autor Dornelas(2001) destaca que o processo empreendedor pode ser ensinado e entendido por qualquer pessoa e que o sucesso é decorrente de uma gama de fatores internos e externo ao negocio, do perfil do empreendedor e de como ele administra as adversidades que encontra no dia-a-dia de seu empreendimento. Os empreendedores inatos continuam existindo e sendo referencia se sucesso, exemplos como Ford, Bill Gates, Silvio Santos, Roberto Marinho. Todavia muitos outros podem ser capacitados para a criação de empresa duradoras. A cultura empreendedora pode ser desenvolvida a partir de ações e políticas específicas para este fim. Saini (2001), menciona que uma das questões básicas do desenvolvimento econômico refere-se à promoção do espírito empreendedor na sociedade. Os países em desenvolvimento se deparam com uma considerável população de empreendedores, que estão dispostos a criar novos negócios e novas tecnologias, correr riscos, na criação de empregos, proporcionando o crescimento da comunidade. Diante disso, podemos apontar que a educação é um dos grandes instrumentos para o desenvolvimento da cultura empreendedora na sociedade, e quanto mais cedo se começar a inculcar nos jovens, os valores e o pensamento empreendedor, tanto mais efetivos serão os resultados. Como sustenta Dolabela (2003, p. 15), “a educação empreendedora deve começar na mais tenra idade, porque diz respeito à cultura, que tem o poder de induzir ou de inibir a capacidade empreendedora.” Qualquer curso de empreendedorismo deve focar em seus programas de ensino, temas como: - A inovação e o processo empreendedor; - A importância do empreendedorismo para o desenvolvimento econômico; - Como preparar e utilizar um plano de negocio; - Como identificar fontes e obter financiamento para o novo negócio; - Como gerenciar e fazer a empresa crescer de forma sustentável, e - Como tornar-se responsável social e ambiental. A inserção desses temas relacionados à atividade empreendedora estimula uma iniciativa bastante adequada para a promoção do empreendedorismo. De acordo com Lundström & Stevenson (2002), programas desta natureza atendem a pelo menos duas necessidades: a) o fortalecimento da cultura empreendedora; e b) a preparação dos jovens para as transformações no mercado de trabalho – mudanças estas que, inevitavelmente, farão com que algum aspecto do empreendedorismo seja incluído à futura experiência profissional deles. Dolabela (1999a; 1999b) relaciona outros motivos que por si só justificariam a disseminação da cultura empreendedora através do sistema de ensino estabelecido. Dentre eles: a) fortalecer valores relacionados à ética e cidadania, fatores estes intrinsecamente ligados ao empreendedorismo;
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 91 b) aumentar a percepção quanto à importância da PME (Pequena e Média Empresa) para o desenvolvimento econômico; c) reduzir a possibilidade de fracasso entre as empresas nascentes; d) preparar os jovens para atuarem como intraempreendedores (ou empreendedores dentro das organizações); e) aproximar as instituições de ensino, sistemas de suporte e empresas, ainda muito distantes entre si, no contexto brasileiro; f) estimular a auto-realização. No Brasil, o ensino do empreendedorismo já desponta iniciativas no sentido de levar o empreendedorismo da sala de aula para a casa do aluno, para o trabalho e para o convívio social. Vejamos alguns exemplos: - projeto “Aprender a Empreender”, parceria entre a Fundação Roberto Marinho, Programa Brasil Empreendedor e SEBRAE Nacional, o qual tem levado o ensino do empreendedorismo de maneira dinâmica e criativa a milhares de pessoas, através de um curso composto de 10 programas de TV e um livro texto com os 10 capítulos correspondentes. Além de contribuir para o desenvolvimento da cultura empreendedora, a iniciativa auxilia empreendedores, ou empreendedores em potencial, em relação a aspectos como planejamento, organização, direção e controle dos empreendimentos nascentes (FRM, PBE & SEBRAE Nacional, 2000). - projeto “Oficina do Empreendedor”, criado pelo Prof. Fernando Dolabela, aplicado em escolas de segundo grau e universidades (Dolabela, 1999a). - Desafio SEBRAE voltada para o público universitário. O programa consiste em uma competição entre equipes em torno da administração de uma empresa. - PROGER – Jovem Empreendedor. O programa, promovido pelo Governo Lula, é uma linha de crédito especial abrangendo jovens com até 24 anos de idade que pretendam montar uma microempresa, uma cooperativa ou trabalharem por conta própria. Esse financia investimento fixo e capital de giro, com valores que podem chegar a R$ 50 mil e prazo de pagamento de até 84 meses, com 18 meses de carência. O jovem financiado é obrigado a se submeter a capacitação técnico- gerencial prévia e acompanhamento pós-crédito. - Incubadoras de Empresas, promovido pelas Escolas técnicas e IES como o propósito de identificar o potencial empreendedor de pessoas que de outra forma não poderiam iniciar seus empreendimentos inovadores. O programa é desenvolvido em laboratórios, centros de pesquisas, e constitui-se em iniciativas de pré-incubação que permitiriam aos alunos vivenciar o ambiente de uma empresa, sem a necessidade de sua constituição formal desde o inicio. 4 Desenvolvimento Local Sustentável O desenvolvimento local é uma ação que possibilita o aumento de indicadores econômicos, assim como também é o principal instrumento de melhoria da qualidade de vida- um processo dinamizador que utiliza a comunidade, o ser humano. A problemática da sustentabilidade assume neste novo século um papel central na reflexão sobre as dimensões do desenvolvimento e das alternativas que se configuram. O quadro socioambiental que caracteriza as sociedades contemporâneas revela que o impacto dos humanos sobre o meio ambiente tem tido conseqüências cada vez mais complexas, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos (JACOBI, 2003). A construção histórica do conceito de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável está vinculada ao incremento da preocupação com a manutenção da existência de recursos naturais em um ambiente propício para a continuidade das gerações futuras, rediscutindo o ritmo e a forma como o sistema capitalista propunha o desenvolvimento das sociedades. (SILVA, 2005). A necessidade de abordar o tema da complexidade ambiental decorre da percepção sobre o incipiente processo de reflexão acerca das práticas existentes e das múltiplas possibilidades de, ao pensar a realidade de modo complexo, defini-la como uma nova racionalidade e um espaço onde se articulam natureza, técnica e cultura. Refletir sobre a complexidade ambiental abre uma estimulante oportunidade para compreender a gestação de novos atores sociais que se mobilizam para a apropriação da natureza, para um processo educativo articulado e compromissado com a
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 92 sustentabilidade e a participação, apoiado numa lógica que privilegia o diálogo e a interdependência de diferentes áreas de saber. Mas também questiona valores e premissas que norteiam as práticas sociais prevalecentes, implicando mudança na forma de pensar e transformação no conhecimento e nas práticas educativas. Segundo Capra (2006) “Uma sociedade sustentável é aquela que satisfaz suas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras” . A realidade atual exige uma reflexão cada vez menos linear, e isto se produz na inter- relação dos saberes e das práticas coletivas que criam identidades e valores comuns e ações solidárias diante da reapropriação da natureza, numa perspectiva que privilegia o diálogo entre saberes. A preocupação com o desenvolvimento sustentável representa a possibilidade de garantir mudanças sociopolíticas que não comprometam os sistemas ecológicos e sociais que sustentam as comunidades. A complexidade desse processo de transformação de um planeta, não apenas crescentemente ameaçado, mas também diretamente afetado pelos riscos socioambientais e seus danos, é cada vez mais notória. Os economistas corporativos tratam como bens gratuitos não somente o ar, a água e o solo, mas, também a delicada teia das relações sócias, que é seriamente afetada pela expansão econômica continua. Os lucros privados estão sendo obtidos com os custos públicos em detrimento do meio ambiente e da qualidade geral de vida, e às expensas das gerações futuras. O mercado, simplesmente, nos dá a informação errada. Há uma falta de realimentação, e a alfabetização ecológica básica nos ensina que esse sistema não é Sustentável (CAPRA, 2006 p. 233) A concepção “sociedade de risco”18, de Beck (1997), amplia a compreensão de um cenário marcado por nova lógica de distribuição dos riscos. Isso implica a necessidade de se multiplicarem as práticas sociais baseadas no fortalecimento do direito ao acesso à informação e à educação ambiental em uma perspectiva integradora. E também demanda aumentar o poder das iniciativas das empresas baseadas na premissa de que um maior acesso à informação e transparência na administração dos problemas ambientais urbanos pode implicar a reorganização do poder e da autoridade. [...] o indivíduo é o produto de um ciclo de reprodução; mas este produto é, ele próprio, reprodutor em seu ciclo, [...]. Somos, portanto, produtos e produtores, ao mesmo tempo. Assim também, quando se considera o fenômeno social, são as interações entre indivíduos que produzem a sociedade, com sua cultura, suas normas, retroage sobre os indivíduos humanos e os produz enquanto indivíduos sociais dotados de uma cultura (MORIN, 2001, p.119) De acordo com Pedrosa (2000) “É preciso refletir que a forma de apropriação dos recursos naturais é espelho de relações sociais marcadas pela noção de possuidor /possuído, dominador/dominado.” Existe, portanto, a necessidade de incrementar os meios de informação e o acesso a eles, bem como o papel indutivo do poder privado nos conteúdos educacionais, como caminhos possíveis para alterar o quadro atual de degradação sócio ambiental. Trata-se de promover o crescimento da consciência ambiental, expandindo a possibilidade das empresas participarem em um nível mais alto no processo decisório, como uma forma de fortalecer sua co-responsabilidade na fiscalização e no controle dos agentes de degradação ambiental. 5 Considerações Finais De acordo com o estudo bibliográfico, deste trabalho, constatamos que o empreendedorismo cumpre um importante papel em relação ao desenvolvimento local e que a educação é a melhor ferramenta para a disseminação e formação do empreendedor. Segundo o GEM (2008) o Brasil ocupou a 13ª posição no ranking mundial de empreendedorismo realizado pelo Global Entrepreneurship Monitor em 2008. A Taxa de Empreendedores em Estágio Inicial 18 A noção de risco pode ser entendida a partir do que ele denomina lógica invertida. Tal inversão diz respeito à passagem da sociedade de penúria, na qual a questão fundamental girava em torno de uma melhor divisão das riquezas, para a sociedade de risco onde a questão fundamental passa a ser, como o próprio nome diz, a divisão dos riscos. (BECK, 1997)
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 93 (TEA) brasileira foi de 12,02, o que significa que de cada 100 brasileiros 12 realizavam alguma atividade empreendedora até o momento da pesquisa. Todavia, sendo uma característica de indivíduos, é compreensível que o empreendedorismo esteja inter-relacionado com a cultura e educação. Além do que, pode-se facilmente observar o potencial para o desenvolvimento/fortalecimento de uma cultura empreendedora a partir da utilização do sistema educacional estabelecido. O ensino do empreendedorismo nas escolas técnicas e universidades brasileiras baseiam-se na criação de novos negócios, geração de riqueza e crescimento econômico. Sendo ainda necessário reforçar ações que visem conscientizar e motivar os futuros empreendedores a serem proativos com seus negócios em promover o desenvolvimento local sustentável. Não basta somente gerar riqueza para reduzir a pobreza no mundo. È preciso preservar manter limpo e saudável o nosso meio ambiente para as gerações futuras. Por isso, os empreendedores não só devem perseguir objetivos financeiros e sociais, mas devem, também, procurar preservar os recursos naturais e proteger o meio ambiente. As ações voltadas à educação ambiental nos curso de empreendedorismo têm o potencial de contribuir para o aumento da atividade inovadora, do desenvolvimento local e do crescimento econômico, além de conscientizar e motivar, o novo empreendedor para o mundo das oportunidades de negócios baseados na preservação de recursos naturais de forma sustentável. 6 Referências Bibliográficas CAPRA Fritjof, A teia da vida: uma nova compreensão cientifica dos sistemas vivos/Fritjof Capra: tradução Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 2006. BECK, Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexiva. In Anthony Giddens. Modernização Reflexiva. São Paulo: UNESP, 1997 DEGEN, Ronald. O Empreendedor: fundamentos da iniciativa empresarial. São Paulo: Markon Books, 2005. 368 p DOLABELA, F. (1999a) Oficina do Empreendedor. São Paulo: Cultura Editores Associados. DOLABELA, F. (1999b) O Segredo de Luísa. São Paulo: Cultura Editores Associados. DOLABELA, F. (2003) Pedagogia Empreendedora. São Paulo: Editora de Cultura. DORNELAS, J. C. A. (2001) Empreendedorismo: Transformando Idéias em Negócios. Rio de Janeiro: Campus. DRUKER, P. F. Administrando para o futuro: os anos 90 e a virada do século. São Paulo: Pioneira, 1992. FILION, L.J. Diferenças entre Sistemas Gerenciais de Empreendedores e Operadores de Pequenos Negócios. RAE-Revista de Administração de Empresas, FGV. São Paulo: 1999. FRM, PBE & SEBRAE Nacional. (2000) Aprender a Empreender. Fundação Roberto Marinho, Programa Brasil Empreendedor e SEBRAE Nacional. Sala Produções. GEM.Empreendedorismo no Brasil – Global Entrepreneurship Monitor, 2008. Disponível em:http://201.2.114.147/bds/BDS.nsf/5D1CAC412448B0428325757B00697DC7/$File/NT0003EF 2A.pdf. Acesso em 20 de setembro de 09. JACOBI, Pedro. Educação Ambiental, Cidadania e Sustentabilidade. In: Cadernos de Pesquisa- vol. 118- março 2003- Fundação Carlos Chagas LEITE, Emanuel F. O fenômeno do empreendedorismo/ Recife: Bagaço, 2002. _________Empreendedorismo, inovação e incubação de empresas: Lei de Inovação/Emanuel Leite. – Recife: Bagaço, 2006. LUNDSTRÖM, A., & L. Stevenson. (2002) On the Road to Entrepreneurship Policy. Stockholm: Swedish Foundation for Small Business Research. MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001 PEDROSA, Fábio J. A. Cavernas Tecnológicas. Revista de Ciências da Administração de Pernambuco, 2000, v. 1, 2000.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 94 SAINI, J. S. (2001) “Economic Development and Entrepreneurship”. In Entrepreneurship & Education: Challenges and Strategies, eds. J. S. Saini, & B. R. Gurjar. Jaipur: Rawat Publications. SEBRAE. Desafio Sebrae, Disponível no site www.sebrae.com.br acessado em 04/01/2009. SHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959. SILVA, C. L. Desenvolvimento Sustentável. Um conceito Multidisciplinar. IN: SILVA, C.L.; MENDES, J. T. G. (Orgs). Reflexões sobre desenvolvimento sustentável. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo - 11. ed. Tradução de M. Irene de Q. F. Szmrecsányi e Tomás J. M. K. Szmrecsányi. São Paulo: Pioneira , 1996.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 95 EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM COMUNIDADES COSTEIRAS DO CEARÁ. Juliana Maria Oliveira SILVA Universidade Federal do Ceará. Doutoranda em Geografia juliana_geoufc@hotmail.com Jocicléa de Sousa MENDES Universidade Federal do Ceará. Graduanda em Geografia Cícera Angélica de Castro dos SANTOS Universidade Federal do Ceará. Mestranda em Geografia Prof. Dr. Edson Vicente da SILVA Universidade Federal do Ceará RESUMO Este trabalho relata as experiências desenvolvidas pelo projeto de educação ambiental desenvolvido na comunidade da Praia das Fontes, município de Beberibe-Ceará, contemplando em média 35 crianças. O projeto visa fazer com que as crianças tenham uma consciência em relação aos problemas sócioambientais do local e que juntas possam atuar na melhoria da área. A Geografia Física possui um elo com a educação ambiental. A Geografia Física tem ajudado no embasamento teórico e técnico. Através dos conhecimentos adquiridos no curso de Geografia é que é possível desenvolver as atividades repassando para as crianças em uma linguagem acessível todo o mecanismo que rege a praia das fontes, enfocando as principais unidades geoambientais da área como os campos de dunas, falésias, faixa de praia, lagoas. As trilhas realizadas com as crianças contribuem para uma melhor visualização dos fenômenos, já que as mesmas sabem que tem na área, mas não como isso funciona e as oficinas contribuem para uma melhor aprendizagem. PALAVRAS-CHAVES: educação ambiental, comunidades costeiras, geografia. ASBTRACT This paper reports the experiments conducted by the environmental education project developed in the community of Praia das Fontes, Ceara-Beberibe, comprising on average 35 children. The project aims to ensure that children have an awareness of the socio-environmental problems of the site and that together they can act to improve the area. Physical geography has a link to environmental education. Physical geography has aided in the theoretical and technical. Through the knowledge acquired in the course of Geography is that it is possible to develop activities for children passing on a language accessible throughout the mechanism governing the beach of sources, focusing on the main geoenvironmental units in the area such as dune fields, cliffs, full of beach ponds. The tracks performed with children contribute to a better visualization of the phenomena, since they know they have in the area, but not how it works and workshops contribute to better learning. KEYWORDS: environmental education, coastal communities, geography. INTRODUÇÃO O Laboratório de Climatologia e Recursos Hídricos do curso de Geografia da Universidade Federal do Ceará realiza pesquisas e desenvolve suas atividades através da atuação de projetos de extensão universitária com temáticas sobre Educação Ambiental, Educação Indígena e Produção de Materiais Didáticos. O Laboratório dispõe de um quadro de oficinas temáticas, cursos e palestras que são utilizadas nas ações realizadas na comunidade, onde a escola está envolvida através da participação de professores e alunos, associação de bairro, sendo envolvidas as lideranças comunitárias, os agentes de saúde e outros indivíduos. Por meio de visitas à comunidade são realizadas palestras, oficinas e mini-cursos tornando possível ampliar e aprofundar as interações entre o conhecimento científico e as experiências da comunidade.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 96 Dentre os diversos projetos de educação ambiental que o Laboratório desenvolve destaca- se o de Educação Ambiental em Comunidades Costeiras. Este artigo relata as experiências desenvolvidas na comunidade da Praia das Fontes, município de Beberibe-Ceará, contemplando em média 35 crianças. O projeto visa fazer com que as crianças tenham uma consciência em relação aos problemas sócioambientais do local e que juntas possam atuar na melhoria da área. As ações do projeto ocorrem na Escola Municipal Raimundo Fagner, com o apoio da Associação de Moradores da Praia das Fontes. As crianças envolvidas com as atividades relacionadas são incentivadas e informadas para atuarem como agentes multiplicadores das ações de Educação Ambiental em sua comunidade. A comunidade da Praia das Fontes situa-se no município de Beberibe, litoral leste do Ceará, com aproximadamente 200 famílias vivendo de atividades ligadas a agricultura, pesca, comércio e turismo. A Praia das Fontes possui uma diversidade de paisagens composta por faixa de praia, campos de dunas, lagoas e um extenso corredor de falésias com areias multicoloridas que são lapidadas pela ação marinha e pluvial. Devido a esta diversidade de paisagens, a praia tem atraído turista e muitos investidores imobiliários que construíram hotéis em áreas de preservação permanente e que continuam a se expandir na praia (SILVA, 2008). Destacamos inicialmente a experiência vivenciada durante os anos de 2007, 2008 e 2009 na comunidade da praia das Fontes. Paralelamente houve a criação da Sala de Leitura Pedro Gomes do Nascimento (figura 01) pelo trabalho conjunto entre a escola e a comunidade. Figura 01: Sala de Leitura Pedro Gomes do Nascimento – Funciona como mais um espaço para a leitura A questão ambiental trabalhada na comunidade, direciona-se do local para o global, pois a comunidade é alvo de propagandas mercadológicas voltadas para o potencial turístico que o Governo do Estado propõe e que chega a diversos países com essa característica. Logo, a população vê seu litoral preenchido por turistas, trazendo novas culturas exploratórias, fazendo com que muitas famílias se afastem do seu aconchego nativo (FREITAS, 2009). O projeto possibilitará que outras comunidades possam conhecer o que está sendo desenvolvido na praia das Fontes e com os resultados obtidos através da Sala de Leitura e da Educação Ambiental, possam inserir esses ideais na sala de aula ou até desenvolver projetos educativos de maior alcance. Além do que, a própria população deve conhecer ainda mais esses projetos educativos e com eles se envolver, principalmente os familiares dos alunos. METODOLOGIA Para se obter os objetivos propostos fizeram-se necessários alguns procedimentos teórico- metodológicos que auxiliaram na compreensão do tema. Como referencial teórico utilizamos os princípios e práticas da Educação Ambiental do Programa Nacional de Educação Ambiental, um programa elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente (2005). Este documento lista 20 objetivos
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 97 da Educação Ambiental, e nós consideramos interessante e que nos é válido para a realização do projeto na comunidade alguns como: ● Criar espaços de debate das realidades locais para o desenvolvimento de mecanismos de articulação social, fortalecendo as práticas comunitárias sustentáveis e garantindo a participação da população nos processos decisórios sobre a gestão dos recursos ambientais; ● Incentivar iniciativas que valorizem a relação entre cultura, memória e paisagem – sob a perspectiva biofilia -, assim como a interação entre os saberes tradicionais e populares e os conhecimentos técnico - cientifico; ● Difundir a legislação ambiental, por intermédio de programas, projetos e ações de educação ambiental. O propósito da Educação Ambiental é a conscientização das pessoas em relação ao uso do Meio, assim é necessário que se tenha um conhecimento do mesmo, sua formação, sua importância. Para isso foi utilizado também como embasamento teórico conceitos da Geografia Física, no que se refere às explicações a cerca da dinâmica natural. Para Guimarães (2005) essa demanda pela Educação Ambiental, não só decorrente dos aspectos legais, mas também dos problemas ambientais vivenciados por toda a sociedade, provoca a necessidade deformar profissionais aptos a trabalhar com essa nova dimensão do processo educativo. A Educação Ambiental no Brasil é regulada pela Política Nacional de Educação Ambiental - PNEA, instituída pela lei nº. 9795, de abril de 1999, que definiu os seus princípios básicos dentre os quais se destaca o enfoque democrático e participativo, a concepção de ambiente em sua totalidade e a garantia de continuidade e permanência do processo educativo. "Processo em que se busca despertar a preocupação individual e coletiva para a questão ambiental, garantindo o acesso à informação em linguagem adequada, contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência crítica e estimulando o enfrentamento das questões ambientais e sociais. Desenvolve-se num contexto de complexidade, procurando trabalhar não apenas a mudança cultural, mas também a transformação social, assumindo a crise ambiental como uma questão ética e política”. (Política Nacional de Educação Ambiental - Art. 1o da Lei nº. 9.795 de abril de 1999). Segundo Guimarães (2005), o educador ambiental, como liderança que pretenda contribuir para a superação dos problemas ambientais, não se contenta em promover intervenções pontuais de caráter meramente informativo. Esse processo deve ser educativo tem que ser potencializador, gerador de movimento, impulsionando o processo de transformação social. A relação Universidade-Comunidade é importante para que se compartilhem experiências, nesse caso especifico conteúdos aprendidos no curso de Geografia sendo trabalhado através de atividades com as crianças da comunidade da Praia das Fontes, onde foi utilizada uma linguagem acessível para explicar o mecanismo que rege a Praia das Fontes, enfocando as principais Unidades Geoambientais da área como os campos de dunas, falésias, faixa de praia, lagoas, etc. Além do referencial teórico, os procedimentos técnicos adotados foram à elaboração de uma série de oficinas, trilhas ecológicas, exposições e dinâmicas, visando um máximo de esclarecimento e de entendimento sobre o meio ambiente e o local em que vivem. RESULTADOS: RELATOS DAS EXPERIÊNCIAS O projeto iniciou-se com uma oficina sobre Lixo (tabela 01) juntamente com um mutirão de limpeza da praia (figuras 03 e 04). No primeiro momento criam-se concepções sobre o que é lixo, como ele pode ser prejudicial ao homem, como o lixo pode ser dividido (figuras 05) para ser reutilizado e qual o tempo de decomposição de cada tipo de lixo.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 98 Figura 03: Início da trilha na praia Figura 04: Mutirão de limpeza na Figura 05: Explicação sobre os praia tipos de lixo TABELA 01 – Dinâmicas executadas na oficina DINÂMICA DESCRIÇÃO OBJETIVO 1 Apresentação de cada participante da oficina Proporcionar uma maior interação e Apresentação favorecer um maior reconhecimento entre os participantes. 2 Dinâmica Os participantes são dispostos um ao lado do outro e Ressaltar a importância da das mãos colocados em círculo, onde eles iram observar quem estar do colaboração entre as pessoas. E que seu lado esquerdo e direito, em seguida é pedido para que eles essa colaboração é de fundamental se movimentem entre eles, depois é pedido para pararem de se importância para a preservação do movimentar e para dar as mãos, sem sair do lugar, para o meio ambiente. companheiro que estava do seu lado esquerdo e direito. Logo após é pedido para que eles tentem formar um circulo igual ao feito no começo a dinâmica, contudo não é permitido que soltem as mãos. 3 – Dinâmica Pede-se a cada participante que pegue um material reciclado e Proporcionar uma reflexão e com dados19 coloque na caixa de cor correspondente ao tipo de produto. visualizar qual a percepção desta Caixa azul: papel (jornais, revistas, formulários contínuos, pessoa sobre o tema tratado. folhas de escritório, caixas, papelão, etc). Caixa amarela: metal (latas de aço e de alumínio’, clipes, grampos de papel e de cabelo, papel alumínio). Caixa verde: vidro (garrafas, copos, recipientes). Vale ressaltar que nesta dinâmica, para evitar o manuseio de vidro, optou-se por escrever o nome do objeto em seu correspondente de plástico. 4 – Dinâmica Cada participante desenha algo que queira e que esteja Observar e discutir a percepção do desenho relacionado com o tema. No final sorteiam-se três pessoas ambiental de cada participante além para explicar os seus desenhos. de promover a socialização entre eles. Assim passa-se a trabalhar os temas a partir da percepção de cada participante. 5 – Trilha na Como ultima atividade a ser realizada, foi feita uma trilha ao Coletar o lixo encontrado ao longo praia longo da praia. Em mutirão com todos os participantes da trilha, discutir sobre alguns coletou-se o lixo ao longo da trilha. problemas que a comunidade enfrenta e ressaltar as belezas naturais encontradas ao longo da trilha. 19 Vale ressaltar que o processo de construção dos dados segue as seguintes etapas: 1º Material utilizado: duas caixas de papelão em forma de quadrado, fita adesiva, cola, cartolina, tesoura, e imagens de paisagens. 2º Cortam-se as folhas de cartolina, de acordo com o tamanho de cada lado da caixa. 3º Em seguida, com o auxilio da cola e da fita adesiva, cola-se a cartolina cortada em cada lado da caixa, até cobrir todos os lados da caixa. 4º Colam-se as imagens de paisagens em cada lado do dado. O mesmo processo se repete para a construção do segundo dado, no entanto no lugar de imagens de paisagens, colocam-se frases que façam as pessoas refletirem. Cabe ressaltar que vários tipos de dados podem ser feitos, depende do assunto de cada oficina, no caso desta optou-se por utilizar imagens da região onde a oficina foi ministrada.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 99 A segunda oficina trabalhou-se o aproveitamento de resíduos sólidos para a confecção de brinquedos (figuras 06 e 07). Figura 06: Confecção da peteca Figura 07: Confecção de Brinquedos com Resíduos Sólidos Realizou-se uma Gincana Interdisciplinar, traçando como objetivo principal, praticar o conhecimento que os alunos detinham a cerca do meio ambiente, focalizando os ecossistemas litorâneos, aprimorando os saberes e analisando o perfil de conhecimento dos alunos a partir do saber cotidiano. Participaram um total de 20 alunos, em conjunto com a participação da professora da escola e integrantes da comunidade (figuras 08). Figura 08: Gincana – momento de realização de uma tarefa Foram realizadas as seguintes atividades: um diálogo inicial sobre a temática trabalhada, lembrando as diferentes paisagens encontradas na localidade, indicando-se assim um mapeamento sobre a percepção do litoral no cotidiano dos participantes. Os alunos foram divididos em equipes para responder as perguntas sobre conhecimentos específicos de Geografia e Meio Ambiente, seguindo com uma leitura para se contar uma história local e por fim discutimos sobre a temática de uma música de contexto ecológico. Uma atividade de crucial importância no desenvolvimento do projeto foi à realização da oficina com a temática: Unidades Geoambientais. Nela construímos juntamente com as crianças maquetes, representando as paisagens que eram reconhecidas por eles, realizamos uma trilha e percebemos que eles identificavam e conheciam cada unidade, entretanto não sabiam o que eram exatamente nem como se formaram, alguns nunca tinham visto de perto o Monumento Natural das Falésias. Dessa maneira dividiu-se essa atividade em duas, sendo a parte teórica onde se construíram maquetes (Figura 09) para facilitar a identificação das unidades por eles e a prática, na qual reconheceram-se cada unidade de paisagem.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 100 Figura 10: Maquete de representação de lagoa costeira e Na parte teórica trabalhou-se a dinâmica de formação das lagoas, das falésias, da praia e o cuidado que a comunidade deve ter com o meio. Um fato importante notado foi o quanto eles sabiam sobre o assunto, às vezes de maneira popular e outras de maneira cientifica, tentamos fazer com que eles firmassem esse conhecimento. Para desenvolver essas atividades firmaram-se parcerias com a prefeitura e a associação de bugueiros do município, que disponibilizaram três bugues (Figura 11) para que se pudesse realizar a trilha com 13 crianças (Figura 12). A trilha saiu da Praia das Fontes e seguiu-se em direção a Praia de Morro Branco, onde se localiza o Monumento Natural das Falésias (figura 13), de lá se seguiu, pela faixa de praia, para a Lagoa do Uruaú, durante o percurso pode-se observar toda a planície litorânea e suas fácies (faixa de praia, pós-praia, campo de dunas, mar litorâneo, falésias e lagoas) finalizamos a trilha na Lagoa do Uruaú. Figura 11: Caminho para a praia de Figura 12: Crianças que participaram da Figura 13: Trilha no Monumento Morro Branco trilha. Natural das Falésias Percebeu-se a necessidade de trabalhar a questão sobre manguezal com as crianças, apesar de na comunidade não haver manguezal, eles tinham um conhecimento sobre o assunto, pois muitos dos pais viviam da exploração do mangue. Nessa oficina mostrou-se a eles, a importância desse ecossistema para as comunidades pesqueiras, pois o mangue produz mais de 90% dos alimentos capturados do mar pelo homem. Relatou-se sobre a importância da preservação do manguezal e a utilização sustentável do mesmo já que ele é de grande importância para a dinâmica costeira. Pediu- se para que as crianças desenhassem sobre o que entenderam da oficina em seguida foi utilizada uma musica sobre mangue. Outra oficina realizada na comunidade da Praia das Fontes foi a Agenda 21. O objetivo desta oficina foi discutir a importância da Agenda 21 como um compromisso com o meio ambiente, buscando realizar ações de melhoria não só ambiental, mas o social também. Iniciou-se a oficina perguntando o que tinha de bom e de ruim na comunidade e o que se poderia fazer para melhorar. As crianças tiveram uma avaliação muito crítica da comunidade, onde o principal problema para elas são os piquiniqueiros que freqüentam a praia dia de domingo e jogam o lixo na praia. Deste modo, foi feito um dia de conscientização na praia com os freqüentadores, distribuindo sacos de lixo e pedindo para que eles não jogassem o lixo na praia e sim no saco distribuído e depois colocassem nos tambores de lixo que tem na praia. A partir desta oficina foi criada a comissão da criação da Agenda 21 das crianças na Praia das Fontes. Outras oficinas serão realizadas para a construção da agenda 21.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 101 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES As oficinas tiveram uma participação total das crianças, com muito empenho e criatividade na realização das atividades. Destaca-se também a consciência das crianças em relação à ocupação indevida sobre as falésias e como estas podem atuar na comunidade, fazendo com que o meio- ambiente da Praia das Fontes juntamente com a sua Unidade de Conservação seja respeitado e preservado. No decorrer do projeto, outras oficinas serão ministradas visando assuntos que sejam importantes para a área. A Geografia, como outras disciplinas escolares é um meio didático de mostrar às crianças algumas das diversas conseqüências da expansão da ocupação na praia das Fontes. Muitos da comunidade já compreendem os resultados, percebem através da movimentação de turistas nos finais de semana, pelo trabalho dos pais e até pela quantidade de lixo que se é deixado após os piqueniques de visitantes. A comunidade da praia das Fontes já apresenta um percurso histórico escolar dinamizado que ganhou novas dimensões a partir do momento que permitiu-se trabalhar com projetos educativos que estivessem suporte escolar. A Sala de Leitura Pedro Gomes pode ser desvendada como instrumento de possibilidade de desenvolvimento da E.A. como também, símbolo da prática educativa como modelagem local, no qual as atividades e características da Sala possibilitam visualizar como trabalhar a partir do local o regional ou vice-versa, mas como enfoque, podemos expor a Sala como recurso metodológico da educação ambiental. Na praia das Fontes existem disputas entre empresários de equipamentos turísticos e comunidade local, principalmente em questão de espaço e meio ambiente. Parte da população beneficia-se com o turismo, porém existe uma grande hierarquia em cargos e funções. Outra questão que podemos destacar é a formação profissional dos que já estão inseridos nos serviços prestados aos turistas, pois verificamos que os buggeiros e comerciantes não apresentam uma formação adequada a área. Os atrativos da localidade se tornaram produto turístico, pois existiram investimentos estruturais, porém um planejamento turístico, social e ambiental necessita de uma nova configuração, nesse contexto se faz necessárias avaliações periódicas na busca de um turismo integrado. Como forma de agregar as características locais, refletindo as influências regionais, a educação ainda continua uma prática social viável a todas as populações, independente da existência de problematizações, sejam essas referentes a dinâmica local, aos materiais didáticos escolares ou aos espaços diferenciais. REFERÊNCIAS BRASIL. Congresso. Senado. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Regulamenta o art. 225, § O 1 , incisos I, II, III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 18 julho, 2000. FREITAS, B.M.R. Educação Ambiental e Sala de Leitura: Alternativas para o Ensino de Geografia. Universidade Federal do Ceará, Curso de Geografia, 2009 (Trabalho de Graduação de Licenciatura). GUIMARÃES, Mauro. Educação ambiental: no consenso, um embate? Campinas: Papirus, 2000. SATO, Michele. Educação ambiental. São Carlos: Rima 2002. SILVA, J.M.O. Monumento Natural das Falésias: diretrizes para o planejamento e gestão ambiental. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-Graduação em Geografia, 2008. (Dissertação de Mestrado).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 102 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO NA PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES DE ENSINO MÉDIO EM ESCOLA PÚBLICA ESTADUAL NA CIDADE DE CATALÃO – GOIÁS Klayton Marcelino de Paula Mestrando em Geografia. Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão klaytonmarcelino@yahoo.com.br Ana Gizelle da Silva Mestranda em Geografia. Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão anagizelles@yahoo.com.br Manoel Rodrigues Chaves Orientador: Prof. Dr. (UFG). Órgão Financiador: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás – FAPEG ABSTRACT Environmental changes of anthropogenic origin, waving with a series of impacts in Brazil, ranging from changes in agricultural production to public health including population displacement in the regions of the semi-arid toward the states of south and southeast as the most developed. The human performance, in charge of growing environmental problems, promotes uncontrolled exploitation of natural resources, many non-renewable, to meet the demands of the global consumer market with goods increasingly less disposable and biodegradable. This whole discussion involving the environment must pass the school, according to INEP last updated on 13/08/2009 were recorded this year, 8.369.369 in the national enrollment average of which 69.999 are in schools federal, 7.239,523 in the state, 163.779 in city and 897.068 in private. These 8.369.369 adolescents enrolled in high school education are consumers, workers who benefit from goods, facilities and services provided by the modern world. It is urgent to understand how the perception of high school students in public school in relation to consumption stimulated by the capitalist system and address issues related to environmental education, learn ways to this study being efficient, provide students with means of knowledge environmental issues and realize that part of the process as a transforming agent of the environment, and the real possibilities didactic/methodological in public schools to discuss environmental education and consumption. KEYWORDS: Environmental education. Public school. High school. Teaching. RESUMO As mudanças ambientais de origem antrópica, acenam com uma série de impactos que, no Brasil, vão desde mudanças na produção agropecuária à área da saúde pública incluindo deslocamentos populacionais das regiões do semi-árido em direção aos estados do sul e sudeste considerados mais desenvolvidos. A atuação humana, responsável pelos crescentes problemas ambientais, favorece a exploração desordenada dos recursos naturais, muitos não renováveis, para atender à demanda do mercado de consumo global com mercadorias cada vez mais descartáveis e menos biodegradáveis. Toda essa discussão envolvendo o meio ambiente deve passar pela escola, segundo os dados do INEP atualizados em 13/08/2009 foram contabilizadas, neste ano, em rede nacional 8.369.369 matrículas no ensino médio das quais 68.999 são nas escolas federais, 7.239.523 nas estaduais, 163.779 nas municipais e 897.068 nas particulares. Esses 8.369.369 adolescentes matriculados nas séries do ensino médio são consumidores, trabalhadores que usufruem das mercadorias, comodidades e serviços disponibilizados pelo mundo moderno. É urgente compreender como é a percepção dos estudantes de ensino médio de escola pública estadual em relação ao consumo estimulado pelo sistema capitalista e a abordagem das questões relacionadas à Educação Ambiental, conhecer caminhos para que este estudo se torne eficiente, proporcionar aos estudantes meios de conhecimento a respeito das questões ambientais e que se percebam parte integrante do processo como agente transformador do ambiente, e as reais possibilidades didático/metodológica das escolas públicas para discutir Educação Ambiental e Consumo.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 103 PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Escola pública. Ensino médio. Práticas pedagógicas. INTRODUÇÃO A Educação Ambiental tem sido apresentada como uma modalidade de educação preocupada com a análise e interpretação dos problemas ambientais, sendo reconhecida como instrumento decisivo para promover as mudanças na humanidade desde a Conferência de Estocolmo (ONU, 1972) e prática educativa integrada, contínua e permanente com abordagem transdisciplinar nas escolas em todas as modalidades e fases do ensino de acordo com a Lei n° 9.795, de 27 de abril de 1999. Nesse contexto, a educação assume posição de destaque para construir os fundamentos da sociedade sustentável, propiciando os processos de mudanças culturais em direção à instauração de uma ética ecológica individual e social. Diante do exposto, questionam- se quais princípios teórico-metodológicos e estratégias educativas podem promover avanços nos estudos da Educação Ambiental? Como construir uma proposta metodológica que ajude a tornar o estudo mais objetivo possível, porém não-neutro? Como discutir consumo no mundo atual levando em conta todas as facilidade e comodidades que o consumo oferta? A complexidade do significado e da representação da Educação Ambiental no ambiente escolar vai mais além, será a Educação Ambiental uma prática pedagógica voltada à conservação na natureza? Promover desenvolvimento sustentável? Religar o humano à natureza, como se não fossem pertencentes à mesma essência? Seria mudança de comportamento e atitude relacionada ao consumo para algo mais ecologicamente correto? Portanto, é no sentido de promover a articulação das ações educativas voltadas às atividades de conscientização, proteção, recuperação de valores éticos e morais no trato com a natureza, melhoria socioambiental, e de potencializar a função da educação para as mudanças comportamentais, que se deve pensar a qualidade da abordagem das questões ambientais no ambiente escolar. O debate sobre Educação Ambiental e Consumo deve estar presente na prática docente, sem ser um discurso vazio, há que fugir do lugar-comum da crítica apenas pela crítica. JUSTIFICATIVA Meio ambiente, Educação ambiental, Consumo, Poluição, Política, todos esses temas e outros tantos estão nas pautas das conversar informais, nas manchetes dos jornais e no noticiário da TV, não há uma única pessoa que nunca tenha proferido um discurso crítico sobre esses assuntos, porém, tão logo passe esses momentos onde se tenta resolver os problemas mundiais numa roda de amigos, tudo continua como antes, isso significa que não há falta de informação sobre as questões ambientais, não há falta de projetos mitigadores, há uma infinidade de ONGs com proposta de salvação do planeta, porém, ainda persistem e aumentam a cada dia as agressões à natureza em todos os sentidos. Isto é resultado da falta de qualidade, embasamento, credibilidade, seriedade, compromisso com as questões que envolvam meio ambiente. Não precisaríamos de Educação ambiental, se a humanidade fosse educada de forma ampla e completa, educação e nada mais, aprender a respeitar o próximo entendendo esse próximo como tudo que está a nossa volta. A educação ampla é função da família e da escola. A escola, ao definir seu Projeto Político Pedagógico - PPP deve propiciar condições para que o estudante conheça os fundamentos básicos da investigação científica; reconhecer a ciência como uma atividade humana em constante transformação, fruto da conjunção de fatores históricos, sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos e tecnológicos, e, portanto, não neutra; compreender e interpretar os impactos do desenvolvimento científico e tecnológico na sociedade e no ambiente. Reconhecendo que os principais temas referem-se à compreensão da vida na Terra, das consequências dos avanços tecnológicos e da intervenção humana. A família aos poucos perde sua característica de formadora da ética e da moral social. Independente da durabilidade das uniões, o compromisso com a formação do caráter da prole é de responsabilidade dos seus genitores, porém a educação dos filhos é fortemente permissiva e
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 104 consumista, talvez compensado a falta de atenção preenchida com mercadorias, presentes, gratificações para os olhos brilhantes de quem recebe um agrado material quando falta o afetivo. [...] Enquanto a cultura geral comportava a incitação à busca da contextualização de qualquer informação ou idéia, a cultura científica e técnica disciplinar parcela, desune e compartimenta os saberes, tornando cada vez mais difícil sua contextualização. [...] Daí decorre o paradoxo: o século XX produziu avanços gigantescos em todas as áreas do conhecimento científico, assim como em todos os campos da técnica. Ao mesmo tempo, produziu nova cegueira para os problemas globais, fundamentais e complexos, e esta cegueira gerou inúmeros erros e ilusões, a começar por parte dos cientistas, técnicos e especialistas. Por quê? Porque se desconhecem os princípios maiores do conhecimento pertinente. O parcelamento e a compartimentação dos saberes impedem apreender “o que está tecido junto”.[...] A educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana. Estamos na era planetária; uma aventura comum conduz os seres humanos, onde quer que se encontrem. Estes devem reconhecer-se em sua humanidade comum e ao mesmo tempo reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano. Conhecer o humano é, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não separá-lo dele, todo conhecimento deve contextualizar seu objeto, para ser pertinente. “Quem somos?” É inseparável de “Onde estamos?”. “De onde viemos?”, “Para onde vamos?” (MORIN, 2002, p. 41 - 47). Não há tempo disponível pra discutir ou delegar funções entre escola e família, ambas estão despreparadas para formar esse cidadão completo e educado amplamente. A escola enquanto espaço físico está sucateada e desfalcada de recursos, e enquanto componente humano está despreparada desde a formação universitária dos docentes. A escola se ressente com tantas obrigações delegadas a ela e por outro lado a família entende ser obrigação unicamente da escola a formação do cidadão consciente. É preciso avaliar a forma da abordagem das questões ambientais e principalmente proporcionar ao estudante meios para estabelecer comparações, perceber impasses, contradições, desafios ambientais de nível local e global. A problemática ambiental – a poluição e degradação do meio, a crise de recursos naturais, energéticos e de alimentos – surgiu nas últimas décadas do século XX como uma crise de civilização, questionando a racionalidade econômica e tecnológica dominantes. Esta crise tem sido explicada a partir de uma diversidade de perspectivas ideológicas. Por um lado, é percebida como resultado da pressão exercida pelo crescimento da população sobre os limitados recursos do planeta. Por outro, é interpretada como o efeito da acumulação de capital e da maximização da taxa de lucro a curto prazo, que induzem padrões tecnológicos de uso e ritmos de exploração da natureza, bem como formas de consumo, que vêm esgotando as reservas de recursos naturais, degradando a fertilidade dos solos e afetando as condições de regeneração dos ecossistemas naturais. A problemática ambiental gerou mudanças globais em sistemas socioambientais complexos que afetam as condições de sustentabilidade do planeta, propondo a necessidade de internalizar as bases ecológicas e os princípios jurídicos e sociais para a gestão democrática dos recursos naturais. Estes processos estão intimamente vinculados ao conhecimento das relações sociedade-natureza: não só estão associados a novos valores, mas a princípios epistemológicos e estratégias conceituais que orientam a construção de uma racionalidade produtiva sobre bases de sustentabilidade ecológica e de equidade social. Desta forma a crise ambiental problematiza os paradigmas estabelecidos do conhecimento e demanda novas metodologias capazes de orientar um processo de reconstrução do saber que permita realizar uma análise integrada da realidade. Uma das principais causas da problemática ambiental foi atribuída ao processo histórico do qual emerge a ciência moderna e a Revolução Industrial. Este processo deu lugar à distinção das ciências, ao fracionamento do conhecimento e à compartimentalização da realidade em campos disciplinares confinados, com o propósito de incrementar a eficácia do saber científico e a eficiência da cadeia tecnológica de produção. A partir dessa premissa, iniciou-se a busca por um método capaz de reintegrar esses conhecimentos dispersos num campo unificado do saber. Desta forma a análise da questão ambiental exigiu uma visão sistêmica e um pensamento holístico para a reconstrução de uma realidade “total”. Daí propôs um projeto para pensar as condições teóricas e para estabelecer métodos que orientem as práticas da interdisciplinaridade. (LEFF, 2007, p. 61 e 62). Portanto, é no sentido de promover a articulação das ações educativas voltadas às atividades de conscientização, proteção, recuperação de valores éticos e morais no trato com a natureza, melhoria socioambiental, e de potencializar a função da educação para as mudanças comportamentais, que se deve pensar a qualidade da abordagem das questões ambientais na escola na intenção que esse conhecimento adquirido seja levado adiante na futura vida familiar e profissional dos estudantes. Caracterização da área da pesquisa A pesquisa foi realizada na cidade de Catalão a sudeste do estado de Goiás divisa com Minas Gerais, localiza-se à latitude 18º 9’ 57” sul e à longitude 47º 56’ 47” oeste e à altitude de 835 metros, sua população foi recenseada em 2007 como sendo de 75.623 habitantes, seu PIB de
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 105 mais de 2,5 bilhões de reais em 2007 que o coloca como a sexta maior economia do Centro-Oeste e a terceira de Goiás neste ano. Possui área de aproximadamente 3778 km². Também da nome ao distrito sede do município (os outros dois são Pires Belo e Santo Antônio do Rio Verde) e a uma microrregião do Estado de Goiás, formada pelos municípios de Catalão, Ipameri, Ouvidor, Três Ranchos, Davinópolis, Goiandira, Cumari, Nova Aurora, Anhanguera e Corumbaíba. O Colégio Estadual Polivalente Dr. Tharsis Campos está situado à Avenida José Marcelino s/n°, Bairro Nossa Senhora de Fátima em Catalão-GO, esta é a principal avenida de acesso à cidade para quem entra pelo estado de Minas Gerais passando pelas cidades mineiras de Uberlândia e Araguari, a avenida é basicamente comercial, porém o bairro como um todo é de característica residencial, sendo um dos mais antigos da cidade devido a isso os moradores são em geral de pessoas com mais idade havendo poucos jovens. A escola contabilizou no ano letivo de 2009 o número de 664 alunos matriculados, destes, 499 no ensino médio, e os demais nas séries do ensino fundamental 8° e 9° anos. Em 2010 já são 530 matrículas confirmadas para o Ensino Médio até a presente data (março de 2010) as matriculas continuam em aberto e esperam-se novos alunos oriundos da vizinha Escola Estadual David Persicano que teve extinguido em 2010 suas turmas de Ensino Médio ficando exclusivamente com Ensino Fundamental. A escola possui 30 professores e 32 funcionários administrativos, 1 laboratório de informática com 20 computadores conectados a internet, 1 laboratório de ciências equipado com 10 microscópios ópticos, 2 microscópios esteroscópicos, vidraria completa, 1 balança digital e reagentes diversos utilizados nas aulas práticas, 1 biblioteca, 1 oficina de artes, 1 sala de leitura, 1 sala de vídeo com TV LCD e aparelho de DVD, acervo histórico com objetos antigos doados pela comunidade e objetos da própria escola, auditório com equipamentos de som e imagem (DVD e VHS) e projetor de multi mídia. O Colégio Polivalente foi fundado em maio de 1979 com a proposta de escola profissionalizante ofertando no currículo do Ensino Fundamental disciplinas como: técnicas industriais, técnicas comerciais e técnicas agrícolas. Para estas disciplinas contava com maquinário de marcenaria e serralheria, mobiliário simulando uma loja e o espaço da horta. Aprendia-se a trabalhar com madeira, ferragens, atendimento comercial e o trato com a terra desde o plantio até a colheita. O ensino das disciplinas profissionalizantes foi extinto no início da década de 1990, ficando caracterizada como escola de Ensino Médio. O Colégio atende alunos dos bairros: Nossa Senhora de Fátima, Santa Terezinha, Castelo Branco, Pontal Norte, São Francisco, Santo Antônio, bairro JK e zona rural, Fazenda dos Casados e Comunidade Cisterna. A renda média geral das famílias é entre 2 a 5 salários mínimos, a principal fonte empregadora são as empresas de extração de minérios, montadoras de veículos e empresas terceirizadas. As turmas do turno matutino são de alunos mais jovens que ainda não foram introduzidos no mercado de trabalho, os alunos do vespertino são em grande parte da zona rural de Catalão (GO) e os alunos do noturno são mais adultos e em grande maioria, trabalhadores nas indústrias e comércio local. Metodologia da pesquisa Para a realização da pesquisa foi feito o estudo dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, Orientações Curriculares para o Ensino Médio que tratam do estudo transdisciplinar da Educação Ambiental e a Lei nº. 9.795/99, que dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e da outras providências, entre elas, a obrigatoriedade da abordagem ambiental em todas as séries e modalidades de ensino. Foi aplicado questionário aos alunos das 3ª séries do ensino médio matutino e noturno do Colégio Estadual Polivalente Dr. Tharsis Campos em Catalão-GO. Foram entrevistados um total de 80 estudantes, deste total, 40 foram do turno matutino sendo 28 mulheres e 12 homens com idades entre 16 a 20 anos e 40 estudantes do turno noturno sendo 25 homens e 15 mulheres com idades entre 16 a 21 anos, a entrevista tentou revelar
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 106 um pouco do perfil e modelo de consumo dos estudantes, bem como, o perfil dos alunos que estudam de manhã e dos que estudam a noite. Resultados Das 40 entrevistas pela manhã, 35 estudantes possuem aparelho celular, 24 possuem computador de mesa, 7 possuem computador portátil e 19 possuem MP3 ou outro similar. Em relação ao tempo que permanecem com esses aparelhos, 2 afirmaram trocar a cada seis meses, 12 trocam uma vez ao ano principalmente celular e 26 permanecem com o mesmo aparelho por mais de um ano. O destino dos aparelhos usados, 24 disseram que revendem ou doam aos amigos ou familiares, 16 simplesmente deixam em casa e ninguém descarta o aparelho antigo no lixo doméstico. A manutenção financeira dos estudantes, para 29 deles fica a cargo dos pais ou outro responsável, 2 são por conta dos cônjuges e 9 afirmam serem eles mesmos os responsáveis pelas despesas. Na compra de roupas e sapatos 26 revelam que compram todos os meses, 9 compram a cada seis meses e 5 passam mais de seis meses sem comprar peças de vestuário. Sobre o consumo de alimentos industrializados, tipo refrigerante e salgadinhos, 17 dizem consumir todos os dias, 19 somente nos finais de semana e 4 somente em ocasiões especiais como uma festa, todos afirmam consumir alimentos naturais no dia a dia. Das 40 entrevistas no período noturno, 38 estudantes possuem aparelho celular, 22 possuem computador de mesa, apenas 6 possuem computador portátil e 11 possuem MP3 ou outro aparelho similar. Em relação ao tempo que permanecem com esses aparelhos, 2 afirmaram trocar a cada seis meses, 16 trocam uma vez ao ano principalmente celular e 22 permanecem com o mesmo aparelho por mais de um ano. O destino dos aparelhos usados, 1 revelou descartar no lixo doméstico comum, 26 repassam a terceiros vendendo ou doando e 13 deixam o aparelho velho em casa. A manutenção financeira dos estudantes, para 14 deles fica a cargo dos pais ou outro responsável, 2 são sustentados pelos cônjuges e 24 se mantém com o próprio trabalho. Na compra de roupas e sapatos 19 revelam comprar todos os meses 18 compram a cada seis meses e 3 passam mais de seis meses sem comprar peças de vestuário. Sobre o consumo de alimentos industrializados, tipo refrigerante e salgadinhos, 23 dizem consumir todos os dias, 13 apenas nos finais de semana e 4 somente em ocasiões especiais como uma festa, todos afirmam consumir alimentos naturais no dia a dia. Considerações finais Em linhas gerais, os alunos no matutino são mantidos pelos pais e os do noturno são responsáveis pelas próprias despesas, isso determina os perfis de consumo, enquanto os alunos do matutino se preocupam com a marca do celular e o trocam com freqüência, os do noturno se preocupam com o valor do aparelho. Percebe-se pela pesquisa que os estudantes da manhã são mais jovens que os do noturno, a grande maioria possuem mais computador de mesa em relação ao do noturno, alguns preferem o computador portátil por ter a opção de levar para a escola ou trabalho. Em relação ao vestuário, os alunos do matutino são mais consumistas e sempre valorizando a marca da roupa ou sapato como status. No noturno há um consumo maior de alimentos industrializados, pois muitos saem do trabalho e vão pra escola e a opção mais fácil e rápida de alimento é comprar algo pronto no supermercado. Todos revelam uma certa preocupação e noções básicas de meio ambiente e produção de lixo tecnológico, sabem ou já ouviram falar do perigo de descartar esse tipo de material no lixo doméstico. A finalidade da pesquisa não foi apontar hábitos de consumo e classificá-los como certos ou errados, afinal, estamos todos felizes com nossos aparelhos celulares modernos e ultra modernos, nossos MP 3, 4, 5 e tantos outros MPs, estamos contentes com nossos computadores portáteis cada vez mais leves, econômicos e rápidos, a questão está, onde e como usufruir, descartar ou reciclar o obsoleto? A resposta a isso não virá da população consumidora apenas e nem será papel da escola indicar um caminho, a escola pode e deve apontar as questões históricas do desenvolvimento tecnológico, as questões biológicas e químicas da produção de lixo, as questões sociais da produção industrial, trabalho e consumo, porém apontar uma melhoria sócio-ambiental é
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 107 tarefa conjunta das grandes empresas produtoras de tecnologia, das revendedoras e é claro, do consumidor final também. A escola trabalha com conscientização, visitando aterros sanitários, trabalhando textos, livros, palestras e projetos, mas tudo isso é inócuo em relação à grandiosidade do mundo consumista, os próprios professores são vítimas do modelo de consumo e da tecnologia. A tecnologia facilitou nossas vidas, isso ninguém pode negar, seja na comunicação, na saúde, na rapidez das informações, porém tudo isso teria que ser acessível a toda a população, mas infelizmente o que se observa é a tecnologia se transformar em mais um aspecto de determinismo de categoria social. REFERÊNCIAS BARCELOS, Valdo; Educação ambiental : sobre princípios, metodologias e atitudes / Petrópolis RJ. ed. Vozes, 2008. – (Coleção Educação Ambiental). CARVALHO, Isabel C. de Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico /– 2. ed. – São Paulo: Cortez, 2006. DIAS, Genebaldo Freire. Educação ambiental princípios e práticas. 3ª Ed. Editora Gaia. São Paulo 1994. GALIAZI, Maria do Carmo; FREITAS, José Vicente de – Metodologias emergentes de pesquisa em educação ambiental. Ijuí : Ed. Unijuí, 2007. (Coleção Educação em Ciências) LEFF, Enrique. Epistemologia Ambiental. 4. ed. – São Paulo : Cortez, 2007. LOUREIRO, Carlos Frederico B; Trajetória e fundamentos da educação ambiental / 2. ed. – São Paulo : Cortez, 2006. Ministério da Educação (MEC), Secretaria de Educação Média e Tecnológica (Semtec). Parâmetros curriculares nacionais para o ensino médio. Brasília MEC/Semtec, 1999. ______Secretaria de Educação Básica. Orientações curriculares para o ensino médio : volume 2. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias Brasília, 2008. Ministério do Meio Ambiente, Programa nacional de educação ambiental – ProNEA Diretoria de Educação Ambiental; Ministério da Educação. Coordenação Geral de Educação Ambiental. – 3. ed. – Brasília, 2005. Rede Brasileira de Educação Ambiental; Revista brasileira de educação ambiental / - n. 2 (Fev. 2007). – Brasília, 2007
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 108 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O ALAMBIQUE SAMANAÚ – RN Maracajá, Kettrin Farias Bem Professora da UFRN/Curso de Turismo kettrin@ufrnet.br Dantas, José da Paz Bacharel em Turismo pela FCST paizitopaz@bol.com.br Silva, Vicente de Paulo Rodrigues da UFCG/Unidade Acadêmica Ciências Atmosféricas vicente@dca.ufcg.edu.br RESUMO Nos dias atuais existe uma preocupação constante em relação à educação ambiental como alternativa sustentável de desenvolvimento econômico em áreas naturais. Porém, para isso é necessário minimizar os impactos ambientais que são constantemente gerados nessa areas. O presente trabalho discute a Educação Ambiental no Alambique Samanaú – RN e aponta alguns procedimentos utilizados para minimizar os impactos ambientais provocados pelo cultivo da cana- de-açúcar. O artigo é apresentado através de uma revisão bibliográfica e entrevistas na área de estudo, como parte de um projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. PALAVRAS-CHAVE: impactos ambientais, áreas naturais, cana-de-açúcar ABSTRACT Nowadays there is a constant concern about environmental education as sustainable alternative for the economic development in natural areas. However, for this it is necessary to minimize the environmental impacts that are constantly generated on such areas. This paper discusses the environmental education in the Alembic Samanaú – RN, indicating some procedures for reducing the environmental impacts caused by growth of sugar cane. The article is presented through a literature review and interviews in the study area, as part of a research project developed by Federal University of Rio Grande do Norte. KEYWORDS: environmental impacts, natural areas, sugar cane ALAMBIQUE SAMANAÚ A messoregião do Seridó do Estado do Rio Grande do Norte tem grande potencial turístico devido as suas belezas naturais como a vegetação, o relevo e o clima, além das belezas artificiais, como açudes, barragens e a arquitetura em geral, e seus valores culturais, destacando-se a religiosidade, festejos juninos, artesanato, gastronomia, dentre outros aspectos culturais. Segundo ARAÚJO (2003) em 1994 foi construída no leito do Rio Seridó a barragem Passagem das Traíras, perenizando assim o rio, beneficiando e valorizando toda a messorregião, tornando produtivas aquelas terras que até então só eram aproveitadas para plantações em épocas chuvosos. Essa construção favoreceu o plantio, dentre outras lavoras, a da cana-de-açúcar, surgindo assim, a idéia da implantação de um alambique para a fabricação da cachaça. Outro fator que influenciou e fomentou a idéia da produção da cachaça foi a alta concentração de sacarose (açúcar) encontrada na planta, devida às condições climáticas ideais da região para o desenvolvimento dessa cultura. O senhor Dadá Costa, proprietário da cachaça Samanaú, muito embora não tenha sido o pioneiro na fabricação de cachaça no Seridó, pois antigamente já existia uma produção de cachaça na região, mas de maneira rudimentar, ele assumiu o desafio de instalar na sua fazenda um alambique de cobre, com todos os seus aparatos e equipamentos necessários para produzir uma cachaça de ótima qualidade. Muitos especialistas no assunto consideram essa cachaça de excelência, que inclusive já está sendo comercializada para o exterior. O tipo de alambique utilizado
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 109 na Samanaú é o mais recomendado para a destilação e fabricação da cachaça artesanal, como também é o mais usado no Brasil. A cachaça foi batizada com o nome de Samanaú devido a fazenda, que pertence a família do proprietário há mais de cem anos, encontrando-se localizada na serra de Samanaú. O senhor Dada Costa, citando Câmara Cascudo, afirma que Samanaú significa serra, elevação ou montanha listrada de preto. De fato, observando-se a Serra de São Bernardo se constatam algumas pedras listradas de preto na antiga Serra de Samanaú. O Rio São Bernardo também já foi chamado de Rio Samanaú, como também existe um bairro em Caicó com o mesmo nome, dentre outros produtos existentes na região com o mesmo nome. Assim, devido a sua importância histórica e cultural, o Alambique Samanaú está de forma inovadora resgatando o seu nome de origem indígena, principalmente para ter o seu reconhecimento histórico da época do Brasil colonial e que o mundo também conheça parte da cultura dessa região semiárida através do consumo de um produto originalmente brasileiro. Outrossim, no que diz respeito a produção de cachaça, a Samanaú não é nenhuma novidade. Entretanto, levando-se em consideração a qualidade e a produtividade do produto, pode-se afirmar que o projeto do Alambique Samanaú é totalmente inovador, estabelecendo um marco na história sócio-cultural e econômica da região Seridó, como também do estado do Rio Grande do Norte. Além disso, esse produto resgata no passado da microrregião do Seridó uma de suas bases de sua economia, bem como mantém vivas as antigas tradições e costumes de parte do País. ALAMBIQUE SAMANAÚ: UM PATRIMONIO TURÍSTICO NO SERIDÓ A mesorregião do sertão se destaca por uma vasta diversidade de ecossistemas, que estão sendo reduzidos em face das atividades agropastoris. Primeiramente, o grande ciclo econômico na região foi a pecuária, depois veio o ciclo do algodão, fazendo com que o status da região fosse elevado, chegando a ser, por muito tempo, o centro econômico e político do Estado do Rio Grande do Norte. A prova disso é o grande número de governadores, dentre outros políticos influentes, que saíram dessa região naquela época. Essa messoregião também se destaca pelos seus contrastes climáticos, principalmente no regime pluviométrico, com grandes períodos de seca intermitentes e pequenos períodos de chuva. Apesar disso, o Sertão sempre ofereceu condições suficientes para as sobrevivências dos homens e dos animais, devido às técnicas utilizadas para construção de açudes, barragens, poços e similares. Em 1994 foi construída no leito do rio Seridó a barragem Passagem das Traíras, perenizando, assim, o rio que beneficiou e valorizou aquelas terras que até então eram utilizadas para plantações nas épocas chuvosas. Essa construção favoreceu, dentre outras lavoras, o plantio da cana-de-açúcar, surgindo assim a idéia da implantação de um alambique para a fabricação de cachaça. Outro fator que também influenciou e fomentou a idéia de produzir aguardente da cana-de-açúcar foi o alto nível de sacarose da planta, devida às condições climáticas da região favoráveis ao plantio dessa cultura. A principal finalidade das plantações de cana-de-açúcar no Seridó foi na manutenção da pecuária e na fabricação de rapadura e batida. Essa atividade e produtos já fazem parte da vida dos seridoenses por mais de cem anos. Assim como no contexto nacional, a produção de cachaça não era o principal objetivo do plantio, muito embora se fazia necessária para suprir as necessidades do consumo, principalmente em nível familiar, pois, o que sobrava da fabricação da rapadura, os proprietários dos engenhos utilizavam para a fabricação da cachaça, mesmo que de forma rudimentar, em alambiques pequenos e artesanais para ser consumida nas festividades da região, como o natal, “noite de ano”, festas de padroeiros, aniversários, casamentos, batizados, ou até mesmo em comemoração de fim da safra. Esse produto era pouquíssimas vezes utilizado como complemento da renda familiar, assim como em outras regiões do país, pelo fato do principal objetivo ser para o consumo próprio. Nesse contexto destacou-se no passado o alambique Sipuada, que produzia uma cachaça artesanal de mesmo nome, e que se localizava no município de São João do Sabugi. Outro alambique que se destacou na região foi o da fazenda Caboclo, localizado no município de Caicó. A produção desses alambiques não tinha fins comerciais. Assim, no que diz respeito a produção de cachaça, a Samanaú não é nenhuma novidade. Entretanto, levando-se em consideração a qualidade, a produtividade e a preocupação com a
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 110 educação ambiental se pode afirmar que o projeto do Alambique Samanaú é totalmente inovador, estabelecendo um marco na história sócio-cultural e econômica da região Seridó, como também no Estado do Rio Grande do Norte. Além de resgatar a história do Seridó Potiguar, essa atividade mantém vivas as tradições e costumes da região. EDUCAÇÃO AMBIENTAL A partir dos anos 80, o Brasil começa a se preocupar com a educação ambiental, mediante a realização da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e desenvolvimento, conhecida como Rio 92, dando início a uma série de discussões entre os diversos representantes das nações. Segundo a COMISSAO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, as ciências relacionadas à ecologia e aos recursos naturais elaboram os fundamentos básicos da proposta pedagógica que veio a se chamar de Educação Ambiental, enfocando: conscientização, mudanças de comportamento, desenvolvimento de competências, capacidade de avaliação e participação. Esse mesmo autor, José do Carmo Neves na época presidente do Instituto Estadual de Florestas (IEF), propôs que os responsáveis pelo ensino no País, Estados e Municípios incluíssem nos seus currículos dos cursos de primeiro e segundo graus noções realistas e aplicáveis sobre conservação dos recursos naturais renováveis e a preservações e melhoria do meio ambiente, conforme disposições do Artigo 42, do Código Florestal - Lei n 4771, de 15 de setembro de 1965. No âmbito do Alambique Samanaú a educação ambiental passa a ser um processo contínuo de conscientização pelos trabalhadores da própria comunidade local, objetivando a preservação do meio ambiente diariamente. A prática adotada consiste em transmitir todas as instruções educacionais para que se atinja a produção de forma sustentável e com menor ação impactante sobre o meio ambiente no Alambique Samanaú. A estimulação da conscientização da população é baseada na Lei n 9795 de 27/04/99, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental não formal de ser incentivada pelo poder publico nas três esferas do governo (art.13 inciso VIII). É a partir de uma nova conduta, obtida através da educação ambiental, que se pretende evitar muitos efeitos maléficos nos locais de produção, tentando, assim, fazer com que exista cada vez mais um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) nessa mesorregião do Estado do Rio Grande do Norte. ALAMBIQUE SAMANAÚ E EDUCAÇÃO AMBIENTAL O Alambique é composto por um pátio central, jardins, área de secagem do bagaço da cana, moendas, onde é moída a cana para a obtenção do caldo, decantadores, sala de fermentação. Nele, ainda, consta a destilação, galpões onde são armazenados os barris e tonéis para o envelhecimento, sala de engarrafamento, marcenaria e alojamento dos funcionários. Tudo isso é distribuído em uma área de mil e noventa e dois metros quadrados, que é justamente a área construída do empreendimento. As Figuras 1 e 2 exibem a faixada externa e as instalações internas do alambique, respectivamente. Além desse espaço, o alambique ainda possui a área da lavoura de cana-de-açúcar, lagoa de estabilização, casa da fazenda, dentre outras dependências. Figura 1: Faixada do Alambique Figura 2: Instalações Externas
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 111 O Alambique Samanaú é uma indústria de cachaça artesanal que produ cem produz mil litros de cachaça por ano, com capacidade de dobrar a sua produção, pois, opera praticamente com cinqüenta por cento de sua capacidade. A produção da cachaça no alambique Samanaú gera emprego e renda de forma sustentável, tendo em vista que seus equipamentos produzem o mínimo de poluição. No plantio da cana do alambique é dispensado o uso de agrotóxicos, optando apenas pelo adubo orgânico proveniente da própria produção, sendo utilizados os rejeitos das leveduras usadas na fermentação. Além disso, é utilizado também o vinhoto, que consiste em um disso, resíduo pastoso e com forte odor proveniente do rejeitado da fermentado da cana cana-de-açúcar. Para cada litro de cachaça produzido, é deixado para traz aproximadamente dez litros de vinhoto, que se jogados diretamente nos rios pode causar grande impacto ambiental. Porém, se tratado ele pode ser iretamente usado como adubo na própria lavoura ou na obtenção de biogás. No caso do Alambique Samanaú, essa substância é tratada em uma lagoa de contenção, onde o produto fica ar armazenado por um período de aproximadamente quarenta dias, e usado posteriormente como adubo. Isso torna a atividade de fabricação de cachaça no Alambique Samanaú é auto sustentável, além de contribuir auto-sustentável, diretamente na preservação do meio ambiente. Figura 3: Cana Cortada Figura 4: Lavoura de cana Outra característica positiva do Alambique é a opção pela não queimada da lavoura. As queimadas aumentam a produtividade da cana, devido ao ganho de tempo de colheita, mas, diminui a qualidade do produto final, pois, a partir do momento em que a cana é aquecida, ela passa por um processo químico que diminui o seu teor de açúcar. Esse processo estimula outras propriedades da cana que podem ser nocivas ao consumo, comprometendo assim a bebida, sem mencionar na produção de grande quantidade de fumaça tóxica, cujos danos muitas vezes são irreversíveis para a saúde humana e para a atmosfera. No Alambique Samanaú a cana é colhida manualmente, como mostra a figura 3, e cortada a parte da folhagem como se observa na figura 4, pois se as folhas fossem moídas ocasionaria uma fermentação excessiva do caldo, influenciando diretamente na qualidade da produção, tal como no brix (teor de açúcar). Figura 5: Bagaço da cana
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 112 Após a moagem, o bagaço da cana (figura 5) que chega a trinta por cento do produto, fica exposto em uma área descoberta para secagem, de duzentos e sessenta metros quadrados. Após a secagem, cinqüenta por cento desse volume é hidrolisado e destinado à alimentação do rebanho, e os outros cinqüenta por cento são aproveitados como combustível nas fornalhas do alambique. A quantidade de bagaço produzida por safra chega à trezentas toneladas. IMPACTO NA ECONOMIA DA REGIÃO Como o objetivo inicial do Alambique Samanaú era o de gerar emprego e renda, foi articulada uma parceria com o perímetro irrigado Itans/Sabugí através da criação do Açude para facilitar o cultivo da cana-de-açúcar naquela localidade. Entretanto, o que acontece atualmente é que a zona rural está sendo esvaziada com o exôdo rural para os grandes centros urbanos. A razão disso está associado ao fato de que antigamente os recursos naturais não eram tão escassos como hoje. Toda fazenda tinha a sua lavoura de onde se tirava o sustento para os seu moradores trocando por outros produtos. Um dos fatores que contribuiu para que esse quadro se revertesse foi a própria ação predatória do homem, através de desmatamentos desordenados, caça e pesca abusivas com fins comerciais, dentre outros. Todos esses fatores ocasionaram o empobrecimento dos solos, erosões, assoreamento dos mananciais e o desaparecimento da flora e da fauna. Assim, o homem quando se viu sem saída, começou a migrar para as cidades, aumentando cada vez mais as dificuldades de sobrevivência. Muitas vezes essa população sem saber que se algumas ações fossem tomadas, toda a potencialidade do campo poderia ser resgatadas, inclusive com a agregação de outros valores. Portanto, sem nenhuma necessidade de deslocamento do seu local de origem para se aventurar nos grandes centros urbanos e agravando ainda mais os problemas sociais. No caso em análise, a auternativa foi justamente a implantação da lavoura de cana-de-açúcar, pois, todos os moradores que estavam desempregados, ou trabalhavam na zona urbana tiveram a oportunidade de trabalhar na sua região de origem. Além disso, eles têm a oportunidades de morar próximo a suas famílias, além de salário fixo e contar com as ações públicas, tendo em vista que onde se desenvolve atividades geradoras de renda e de capital existem programas sociais que melhoram a qualidade de vida dos habitantes daquela localidade. Soma-se a isso o fato de possibilidade da comercialização de produtos tradicionais da região, como artesanato, culinária, festas populares, dentre outros; abrindo, assim, precedentes para o desenvolvimento de outras atividades, como por exemplo, o turismo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar de serem amplas as questões quanto aos impactos ambientais, percebe-se que pouco se faz na prática para minimizá-los e a conscientização dos trabalhadores sobre essa questão, assim como da população, ainda é muito restrita. A educação ambiental pode ser utilizada com mais ênfase e, assim, se transformar em uma ferramenta eficaz, trabalhando como forma de se obter a prevenção do meio ambiente, como também, a utilização de ferramentas que estão disponíveis para diminuição da poluição. O exemplo disso é o Alambique Samanaú que utiliza 50% do bagaço prensado da cana- de-açúcar para servir de energia ao invés da madeira que provoca o desmatamento e a degradação dos ecossistemas rurais. Já existem maquinas destinadas a queima de casca de coco, como também, a prensa do bagaço de cana-de-açúcar para transformar em pequenos fardos, minimizando, assim, a poluição ambiental. Isso também mostra que existe um crescimento da conscientização popular sobre os problemas da poluição. O Alambique Samanaú deve ser tornado como exemplo de como se pode alcançar o desenvolvimento sem a emissão de poluentes através da pouca utilização de lenha, por não existir queima da lavoura e também por ter uma lagoa de contenção. A educação ambiental tem o potencial de contribuir para que as pessoas compreendam melhor as questões ambientais; desse modo ampliar a conscientização desses problemas, para que as pessoas tenham contato mais
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 113 próximo como o meio ambiente natural. Esse contato eleva a consciência do valor da natureza e faz com que a população adotem comportamentos e atitudes ambientalmente conscientes para preservar o meio ambiente. Portanto, destaca-se que a educação ambiental realmente está atrelada às ações de sustentabilidade do Alambique Samanaú, com qualidades cada vez mais destacadas dos demais Alambiques da região que envolvidos diretamente com a atividade da fabricação de aguardente da cana-se-açúcar. Somente através de ações educativas é possível reduzir os impactos negativos sobre o meio ambiente e se obter os desenvolvimentos social e econômico de forma sustentável. Enquanto este perfil de sustentabilidade ambiental não for atingido, a educação ambiental se torna a ferramenta mais adequada a ser utilizada como alternativa para a prevenção e conservação dos ecossistemas naturais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARAÚJO, R. C. Açude Itans: estação de piscicultura e perímetro irrigado. In: Muirakytan;K. de Macedo (org.). Caicó: uma viagem pela memória seridoense. Natal: SEBRAE/RN, 2003. CÂMARA, Marcelo. Cachaças: bebendo e aprendendo. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006. ______. CARVALHO Hernani de. A cachaça, vista pelo folclore. Jangada Brasil, Rio de Janeiro, v. 5, n. 49, set. 2002. Disponível em: <http://www.jangadabrasil.com.br/setembro49especial02.htm>. Acesso em: 12 set, 2008. COMISSAO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso Futuro Comum. 2 ed. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas. 1991 DOCUMENTÁRIO sobre a cachaça. Diário Turismo. TV Diário, 09 jun. 2008. MOLETTA, Vânia Florentino. Turismo rural. 3. ed. Porto Alegre: SEBRAE/RS, 2002. MOLINA E. Sérgio. Turismo y Ecología- 6a ed. México, Trilhas;1998. TRINDADE, Alesandra Garcia. Cachaça: um amor brasileiro. São Paulo: Melhoramentos, 2006. ORGANIZACAO MUNDIAL DE TURISMO-OMT. Guia de desenvolvimento do turismo sustentável. Porto Alegre: Bookman, 2003. PELLEGRINI Filho, Américo. Ecologia, cultura e turismo- 2aed, Campinas- SP, Papirus; 1997.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 114 EDUCOMUNICAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: O DESENVOLVIMENTO CRÍTICO E CONSCIENTE DE CONSUMO POR AQUELES QUE FAZEM RÁDIO COMUNITÁRIA Marlos Feitosa MARQUES Biólogo, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática e Tecnológica, Centro de Educação, UFPE marlos.feitosa@gmail.com RESUMO O objetivo deste estudo foi demonstrar o modo processual de formação da consciência crítica de consumo por jovens responsáveis pela realização de programas radiofônicos comunitários no Município de Pombos-PE. O procedimento de coleta e análise de dados teve como fonte os diálogos contidos em um programa sobre Educação Ambiental, produzido através de práticas educomunicativas e veiculado no mês de outubro de 2009. A consciência crítica de consumo pôde ser observada em estágios iniciais nos exemplos de diálogos travados entre os locutores do programa. Embora as idéias e o discurso não tenham alcançado todo o potencial intrínseco ao conteúdo específico trabalhado, os jovens conseguiram fazer relações importantes entre o tema e a questão do consumo consciente. Contribuímos, dessa forma, para a compreensão do potencial de desenvolvimento crítico e consciente de consumo, presente em práticas radiofônicas educomunicativas, o que se constitui como um dos primeiros passos para o engajamento dos sujeitos em ações que extrapolem o discurso e os limites espaciais do ambiente da rádio comunitária. PALAVRAS-CHAVES: Educação Ambiental, Educomunicação Socioambiental, Rádio Comunitária, Consumo Consciente. ABSTRACT The aim of this study was to demonstrate how procedural formation of critical conscience of consumption by young people responsible for realization of communitarian radio programs in the city of Pombos-PE. The source of data collect and analysis was the dialogue contained in an Environmental Education program, produced through educommunication practices and transmitted in october 2009. A critical conscience of consumption could be observed in the early stages in the examples of dialogues between speakers of the program. Although the ideas and the discourse has not reached all intrinsic potential of the specific content working, young people were able to make important links between the theme and the question of conscientious consumption. We contribute, therefore, to understand the potential of developing critical and conscious of consumption in this educommunicatives practices of radio, which are constituted as a first step for the engagement of individuals in actions that go beyond speech and spatial limits of the environment communitarian radio. KEYWORDS: Environmental Education, Socioenvironmental Educommunication, Community Radio, Conscious Consumption. INTRODUÇÃO No mundo contemporâneo globalizado as tecnologias da informação e comunicação, transformam a distância e o tempo das relações estabelecidas ao criar redes invisíveis interconectadas que, entre outros efeitos, aproximam mercados acelerando a produção e o consumo das sociedades de forma nunca antes vista. Considerando que o desenvolvimento da humanidade se deu a partir de sua formas de intervenção no meio natural e de acordo com sua capacidade de se comunicar, o desenvolvimento dos diversos artefatos tecnológicos ocorreu concomitantemente ao desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação (tic’s), a começar pela própria linguagem humana.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 115 Entretanto, Trigueiro (2004) nos dá uma idéia dos efeitos colaterais desse modelo de desenvolvimento: Apenas 1,7 bilhão dos atuais 6,3 bilhões de pessoas que habitam o planeta têm hoje condições de consumir além das necessidades básicas. Ainda assim, a demanda por matéria-prima e energia cresce, precipitando o mundo na direção de um impasse civilizatório: ou a sociedade de consumo enfrenta o desafio da sustentabilidade, ou teremos cada vez menos água doce e limpa, menos florestas, menos solos férteis, menos espaço para a monumental produção de lixo e outros efeitos colaterais desse modelo suicida de desenvolvimento (online). Defendemos, no entanto, neste artigo, a idéia que se, outrora, a linguagem, assim como as tecnologias da informação e comunicação de uma forma geral, se relacionaram fortemente com o desenvolvimento das técnicas de modificação do meio natural e conseqüentemente com a consolidação do atual quadro de desequilíbrios instalado, cabe também a estas preponderante papel na resolução da problemática ambiental, a começar pela formação de consumidores mais críticos e conscientes. O papel da mídia, entretanto, em especial da grande mídia, isto é, aquela que tem longo alcance e atinge públicos socialmente diversificados, (a exemplo do rádio e da televisão) é, a esse respeito, historicamente pautado mais pelo estímulo ao consumo desequilibrado, e isto se deve, basicamente, à forte dependência financeira dos meios de comunicação em relação à publicidade empresarial. A crise ambiental contemporânea, por outro lado, vem estimulando o aumento de propagandas em que muitas empresas se autopromovem como sustentáveis e socioambientalmente responsáveis. Todavia, além da falta de compreensão de que há uma maior necessidade de medidas preventivas que compensatórias, em razão do atual status de degradação ambiental, o apelo ao consumo desenfreado permanece atrelado à propaganda empresarial e aos noticiários em geral, revelando a não associação da crise ambiental ao modelo civilizatório de exploração dos recursos naturais e produção e consumo de bens. O discurso da mídia, nesse sentido, é altamente contraditório e continua a promover a perpetuação do consumo desequilibrado e inconsciente. A partir dessa problemática é possível constatar a dificuldade atual em desenvolver processos de Educação Ambiental através dos meios tecnológicos de informação e comunicação. Neste contexto, o novo campo da Educomunicação é visto como alternativa para a substituição de velhas práticas pedagógicas que não mais respondem às necessidades urgentes contemporâneas de relação com o ambiente. O termo Educomunicação foi originalmente criado pelo comunicador argentino Mário Kaplún. As idéias deste autor e de grandes nomes da educação, como Martin Búber e Paulo Freire, além de estudos de diversos pesquisadores interessados nesta área, somaram-se para que o professor Ismar Soares formasse um entendimento mais completo da Educomunicação. Segundo o autor, a Educomunicação tem como objetivos (2004 apud BRASIL/MMA, 2005): Promover o acesso democrático à produção e à difusão de informação; facilitar a percepção crítica da maneira como o mundo é editado nos meios; facilitar o ensino/aprendizado através do uso criativo dos meios de comunicação (não do ponto de vista instrumentalista, mas partindo da percepção de suas peculiaridades e da importância de democratizar o acesso a eles); e, por fim, promover a expressão comunicativa dos membros da comunidade em questão (p. 12). Nessa perspectiva, a característica que mais se destaca na Educomunicação é a mudança do autor e do sentido da informação de modo a propiciar processos mais efetivos de conscientização crítica e aprendizagem por aqueles que produzem e veiculam informações. Concordamos com Volpato (2010), quando afirma que o fazer comunicação tem: (...) uma função contrahegemônica, ou seja, caminhar em direção à construção de uma nova ordem comunicacional ligada às manifestações socioculturais da comunidade e não aos
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 116 interesses mercadológicos e, ainda, que rompe com a relação dominador/dominado, emissor/receptor (p.11). A Educomunicação é, portanto, a ciência do aprender fazendo, interagindo, se comunicando mediado pelas tic´s. A Educação Ambiental, conceitualmente e pragmaticamente transformada em Educomunicação Socioambiental pelos elementos essenciais da Educomunicação, almeja ser eficaz nesse sentido. A Educomunicação Socioambiental não significa apenas mais uma terminologia que representa os esforços desprendidos em torno da resolução da problemática ambiental. A princípio, também não pretende ser uma nova forma de transmitir Educação Ambiental, pois entende a Educação Ambiental de qualidade como conseqüência de uma práxis, e isto significa que os maiores beneficiados são aqueles envolvidos em práticas dialógicas, participativas e tecnologicamente mediadas entendidas como educomunicativas. Embora muitas tecnologias atendam a iniciativas de Educação Ambiental, a tecnologia rádio, em especial, a rádio comunitária, promove segundo nossa visão maiores níveis de acesso democrático à sociedade por ser dentre as tic´s mais populares aquela que é a mais difundida, de menor custo e de mais fácil manuseio. Por essas qualidades, tem melhores condições de atender às necessidades imediatas da comunidade. Segundo Kaplún (1994), é cada vez mais reconhecido o papel do rádio em promover: (...) a transmissão de valores, a promoção humana, o desenvolvimento integral do homem e das comunidades, em que se propõe a elevar o nível de consciência, estimular a reflexão e converter cada homem em agente ativo da transformação em seu meio natural, econômico e social (p. 22). Em suas discussões contextualizadas em torno da rádio comunitária, Volpato (2010) acrescenta que as contribuições educacionais que afloram em torno desta tecnologia estão vinculadas à construção da cidadania dos sujeitos: A participação na comunicação comunitária contribui para uma formação cidadã porque cria processos educativos que ampliam a consciência das pessoas e promove o desenvolvimento de habilidades, além de fazê-las experimentar novas experiências e conhecer outras realidades (p. 11). No entanto, defendemos o ponto de vista da autora quando ela aponta que processos mais efetivos de educação e cidadania ocorrem a partir de níveis ampliados de participação proporcionados, não pela recepção passiva de mensagens através dos meios, mas através do fazer comunicação pelo uso dos meios, porque permite “nascer nos envolvidos um sentimento de compromisso, responsabilidade, de pertença a uma comunidade, de caráter cooperativo, o que, sem dúvida, mobiliza com maior eficiência que pela simples veiculação de conteúdo” (p. 10) Certamente, concordamos com os autores citados que há o afloramento de todas essas competências sócio-cognitivas. Demonstramos, inclusive, em outra oportunidade (MARQUES, 2010, dados não publicados)20, a relação entre a emergência dessas competências e as práticas educomunicativas de jovens comunicadores, que constituem, mais uma vez, nosso público alvo. No entanto, focaremos neste artigo na demonstração do modo processual de formação da consciência crítica de consumo por jovens responsáveis pela realização de programas radiofônicos comunitários. Consideramos oportuno estudar uma iniciativa particular visto que todas as localidades, situadas ou não em grandes centros urbanos, influenciam e são influenciadas pelo mercado de produção e consumo planetário, em face do atual nível de globalização observado. METODOLOGIA 2.1 Campo de Pesquisa e Público Alvo 20 MARQUES, Marlos F. Educomunicação e juventude: um olhar sobre a produção de rádio comunitária por jovens no Município de Pombos-PE. Trabalho submetido ao Encontro Nacional de Didática e Prática do Ensino de 2010 e aguardando aprovação.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 117 O nosso campo de pesquisa é o Programa denominado De Propósito veiculado dentro da Rádio Comunitária Brasil FM, 98,5 localizada no município pernambucano de Pombos, por jovens com faixa etária média de vinte anos, e formados pela Organização Não Governamental GIRAL (Grupo de Informática, Comunicação e Ação Local). O público alvo deste estudo é formado por 8 jovens que se revezam em dois grupos de quatro para a realização semanal do programa. Para isso, eles se reúnem duas vezes na semana: às quintas feiras, para produzir o roteiro e aos sábados, para a veiculação do programa, que acontece no horário das 10:00 às 11:30 da manhã. Os jovens são acompanhados e orientados por um educador designado pela ONG e a programação inclui temas variados a cada semana, não se restringindo necessariamente à temáticas ambientais. A escolha do público alvo desta pesquisa se deve em razão de já haver sido diagnosticada a presença de práticas educomunicativas pelo grupo, as quais consideramos essenciais para demonstrar a formação dos sujeitos, como consumidores críticos. 2.2 Coleta e Análise de Dados Para a coleta e análise de dados foi realizada uma viagem ao Município de Pombos no mês de outubro de 2009 para acompanhamento do processo de reunião-produção-veiculação do programa. A análise esta centrada, entretanto, somente no conteúdo de um programa sobre meio ambiente, embora o processo geral de conscientização crítica se estenda desde a produção do roteiro até o momento da veiculação do programa, como concluímos em outro trabalho (MARQUES, 2010). RESULTADOS E DISCUSSÃO Apresentada a técnica metodológica, procurar-se-á demonstrar o desenvolvimento da consciência crítica de consumo nos diálogos entre os jovens locutores do Programa De Propósito. Para isso, iniciamos a análise tomando como referência trechos das falas presentes em um programa de temática ambiental, mais especificamente sobre desmatamento. Locutor 1: (...) focando desmatamento e queimadas que são grandes males do século, destruindo inúmeros e inúmeros habitats de animais, até contribuindo com o aquecimento global! Locutor 2: é, e isso acontece por causa das necessidades do homem em obter matéria prima, pensando apenas no benefício imediato que isso lhes trará. As áreas enormes de mata são derrubadas para a construção de condomínios residenciais, industriais e rodovias. Locutor 1: isso ocorre e não é de hoje né, hoje é que a gente tem um alerta maior, talvez tenha um entendimento mais claro sobre isso (...) a gente sabe que precisa realmente que o progresso possa tomar algumas dessas áreas, mas com um certo controle devido ao desordenamento. Aqui, tem-se um fragmento de diálogo que demonstra haver entre os atores um entendimento da relação entre desenvolvimento urbano e geração de impactos ambientais, extrapolando para a capacidade de associação entre este modelo de desenvolvimento não preventivo e financeiramente interessado e uma problemática de larga escala temporal e espacial, que é o aquecimento global. A última fala fornece indícios da compreensão do dilema entre progresso e preservação, típico das discussões sobre desenvolvimento sustentável. A esse respeito e levando em conta a existência dois tipos de mudanças para o enfrentamento da crise ambiental (LAYRARGUES, 2009 p. 16): “profundas e radicais, contemplando o âmbito ético e paradigmático (...) ou apenas (...) “reformando os sistemas sociais, mantendo intactos os mecanismos de reprodução social”, o locutor concebe um raciocínio moderado, característico do segundo tipo de
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 118 mudança, o que demonstra ainda haver um estágio inicial de consciência crítica sobre esse tema específico. Locutor 1: mas uma coisa há de se saber... Já existem formas para controlar ou para tentar amenizar este problema, um deles é a certificação florestal. A certificação florestal é uma garantia da origem que serve também para orientar o comprador atacadista ou varejista a escolher um produto diferenciado e com valor agregado, capaz de conquistar um público mais exigente e assim, abrir novos mercados. Ao mesmo tempo, permitir ao consumidor, de maneira consciente, a obtenção de um produto que não degrada o meio ambiente e contribui para o desenvolvimento socioeconômico das comunidades florestais. A questão do consumo consciente é retratada pelos atores através da certificação florestal, vista como alternativa de controle ou mitigação de impactos. Trata-se de um discurso adquirido que tem visivelmente a intencionalidade de fornecer uma informação pouco disseminada ao ouvinte-consumidor, mas que é uma forte tendência para a qualificação de produtos destinados ao mercado. Podemos inferir pela fala, que o tipo de valor agregado ao produto é o de sustentabilidade e que o exemplo das comunidades florestais indica conscientização sobre a responsabilidade socioambiental. Há, no entanto, potencial para um maior desenvolvimento da consciência crítica sobre o assunto entre os jovens, já que, não basta atualmente que o consumidor seja exigente ou consciente, pois, produtos com certificação ambiental, em geral, ainda são caros e pouco competitivos, tendo, por isso, dificuldades em se popularizar. Locutor 1: Para muita gente o assunto do aquecimento global soa distante como se a atitude de uma única pessoa não tivesse nada a ver com essas catástrofes naturais (...) a exemplo do supermercado que as pessoas usam sacolas plásticas né, e preferem mesmo estando com um monte de sacolas... Sempre quando alguém oferece mais uma... uma caneta que se compre, tem que colocar em um saquinho plástico! (...) se você joga a sacola dentro de um rio, quando vem uma enchente e ele joga de volta pra sua casa de novo! Então ele também tem a hora de se defender! (...) ao falar de meio ambiente é preciso levar em conta as questões sociais, culturais, éticas e políticas também. De repente você foi criado em determinada cultura, ou o seu pai, o seu avô, mas que naquela época não se tinha uma noção exata das conseqüências para o meio ambiente. Locutor 3: é isso mesmo Jairo, infelizmente a globalização está esquecendo da geração futura né? as crianças, os jovens...Tem pessoas que dizem... ah! Eu vou morrer mesmo! Mas esquecem que tem seu neto, tem seu filho, tem seus bisnetos, que a vida continua né! A geração que vem, com certeza merece um mundo igual ou melhor ao nosso né Jairo? Locutor 1: é, isso sem contar que a gente tem que pensar em fazer o hoje, não esperar o amanhã confiando que alguém vai ter uma atitude brilhante e vai solucionar isso... que a gente vai procurar outro planeta para morar de repente (...) Agora existe ainda nos dias de hoje, os governantes, as pessoas, as autoridades nacionais, até mundiais que criaram algumas regras pra inibir ou pelo menos conter alguns problemas. Locutor 3: E no Apocalipse fala, quem for ler vai ver que o mundo vai acabar do jeito que começou, nas trevas, infelizmente né! Deus deu, Deus fez o mundo, fez a natureza, mas o homem infelizmente não ta sabendo cuidar e o mundo vá acabar em fogo, mas esse fogo que a Bíblia diz é o sol quente que vai queimar tudo mesmo (...) Desta vez, é possível observar no diálogo entre os três locutores uma série de elementos discursivos que formam o raciocínio crítico de que a responsabilidade socioambiental deve ser estendida desde o modelo social de técnicas de produção de alimentos pela agricultura até o plano individual, como em atitudes corriqueiras de uso e descarte de sacolas plásticas. A formação da
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 119 consciência crítica para o consumo abrange, assim, todo o ciclo de produção de bens. A idéia de que a natureza se defende do ser humano indica tanto o entendimento do efeito de ação e reação como a percepção do planeta como um sistema vivo, interconectado e complexo, que precisa ser respeitado. Já a solução para os problemas ambientais perpassa desde o estabelecimento de regras sociais, representadas pelas penalidades da lei, até a visão apocalíptica do fim do mundo. Isso representa uma desorientação estendida à população em geral e até mesmo aos cientistas, sobre métodos eficazes de prevenção e mitigação de impactos ambientais, pois as medidas governamentais, em sua maioria, são apenas punitivas ou compensatórias A legislação ambiental, mesmo quando fornece diretrizes preventivas padece de orientações metodológicas definitivas, entre outros fatores, pela diversidade social, cultural e ecossistêmica existente no planeta. Interessante ressaltar que a preocupação da locutora 3 com a geração futura esta, inclusive, contemplada na Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 225 (BRASIL, 1998). Locutor 1: O Brasil está entre os países do mundo de maior diversidade biológica e ainda possui a flora mais rica do planeta, mas o homem quando pratica o ato de queimar a pastaria e as matas, não tem consciência que esse sistema levou anos pra se formar! Para apreciadores da natureza, locais como esse são verdadeiros santuários ecológicos que uma vez preservados, poderão ser utilizado como fonte de exploração turística, fonte permanente de estudos do poder medicinal. Locutor 3: isso é verdade! Enquanto levam embora as coisas que a gente tem de importante aqui no nosso país, esses produtos, tipo xampu, produto pra pele, são tudo cosméticos feitos da natureza e a gente compra tão caro, sabendo que a gente tem essa plantinha aqui, até mesmo na nossa casa (...) No diálogo acima, a natureza é concebida sob dois enfoques: de forma sagrada, como local de contemplação para o bem estar social e como fonte de exploração comercial, através de atividades turísticas e de produção de medicamentos e cosméticos. Destacamos nesses fragmentos a questão da relação entre propriedade intelectual e plantas medicinais, que é bastante problemática no Brasil em decorrência do confronto cultural entre instituições com interesses competitivos de mercado e povos pautados por modo de vida solidário e detentores de conhecimento tradicional. A conscientização crítica presente nesse diálogo se dá, portanto, pelo reconhecimento da importância do conhecimento tradicional para o mercado de consumo global de medicamentos e cosméticos. Locutor 1: (...) Reduzir, Reutilizar e Reciclar são os chamados 3 Rs. Reduzir é consumir menos, é fundamental (...) Locutor 2: Reutilizar: é impossível reduzir a zero a geração de resíduos, mas muito do que jogamos fora poderia ser reaproveitado (...) Locutor 1: Reciclar: o R mais conhecido, é sinônimo de economia de matérias primas como o vidro, papel, plástico e metal; e representam em média 50% do lixo que vai para os aterros, hoje a gente já percebe que as pessoas, sobretudo as menos favorecidas, já conseguem ganhar algum dinheiro com reciclagem de papelão, de papel e também de alumínio né, aqui na nossa cidade é bem comum, a gente perceber as pessoas recolhendo esse tipo de material nas festas? Locutor 2: É, como, tipo, latinha também, eles recolhem e isso ajuda muito na limpeza da cidade. Locutor 1: olha aí! Evitar comprar também coisas supérfluas, ou seja, coisas que não tem utilidade, que não tem necessidade, apenas por impulso. É aquela coisa, você vê aquele produto que já tem em casa e compra novamente, acaba não utilizando, vai ser jogado fora e vai dar
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 120 trabalho, (...) a gente usa descartável porque não vai dar trabalho limpar, joga fora, e isso vai acumulando, mas o acúmulo vai demorar semanas, até meses, dependendo do tipo de material pra se decompor. Olha, é complicado, mas não é impossível. A gente achava séculos atrás que era impossível construir uma edificação com tantos andares, imagine então mudar alguns hábitos e culturas que a gente tem no dia a dia, então eu acho que não é tão complicado. Nessa passagem, a questão do consumo consciente é abordada de forma mais direta. No diálogo, os jovens formam uma concepção de que muitos dos bens comprados pelos consumidores não são de primeira necessidade, gerando mais resíduos, o que poderia ser evitado. Isso se deve muitas vezes a uma das artimanhas do sistema capitalista - a inovação estética - embora as propriedades do produto continuem as mesmas a sua aparência muda para atrair o consumidor causando nele uma falsa necessidade de consumo. Já os descartáveis são um exemplo típico de outro artifício do mercado de consumo capitalista – a obsolescência planejada - que consiste na fabricação pela indústria de produtos com pouca resistência e durabilidade, para que sejam substituídos o mais rápido possível, realimentando o mercado (ZACARIAS, 2009). A fala sobre a redução, reutilização e reciclagem de resíduos simboliza a força contrária de resistência a essas artimanhas do modelo de produção capitalista e tem implicitamente a preocupação em não deixar que o valor de uso das mercadorias seja mais relevante que seu valor de troca (ZACARIAS, 2009). A mudança de valores e hábitos também é validada na fala, quando os jovens se referem aos catadores de lixo, e, em um segundo momento, ao fazer a analogia entre a dificuldade de reforma individual e a das edificações. A educação ambiental é concebida, assim, nesse discurso como processual, naturalmente difícil, mas não impossível. CONSIDERAÇÕES FINAIS O desenvolvimento da consciência crítica de consumo pôde ser observado no Programa De Propósito através dos exemplos de diálogos entre os locutores. Faz-se importante ressaltar, no entanto, que a formação crítica tem inicio na reunião de produção do roteiro do programa e, portanto, se estende aos outros participantes do grupo que, assim como os locutores, também participam da pesquisa e discussão da temática de cada semana. Embora as falas indiquem um estágio inicial de conscientização, acreditamos que possa haver um amadurecimento das idéias e do discurso, visto que, o tema central era desmatamento e, portanto, os jovens não tinham, diretamente, a intenção de aprofundá-lo naquele programa. Isso demonstra, aliás, um aspecto positivo: a capacidade de associação pelos atores entre uma problemática específica e outras questões sociais, como o consumo consciente. Acreditamos ter contribuído para reforçar a idéia de que práticas radiofônicas educomunicativas podem propiciar processos sociocognitivos importantes para o desenvolvimento da cidadania de jovens comunicadores. A formação da consciência crítica de consumo é um exemplo disso e constitui-se em uma etapa chave para o envolvimento mais efetivo dos sujeitos em ações que extrapolem o discurso e os limites físicos do ambiente da rádio comunitária. REFERÊNCIAS ARCOVERDE, Kalinne de Silveira; NORONHA, Karla Rossana F. R.; OLIVEIRA, Sara Luísa de; TAVARES, Olga. Mídia e Universidade: Caminhos Radiofônicos para a Conscientização Ambiental. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Natal, RN – 2 a 6 de setembro de 2008. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2008/resumos/R3-1030-1.pdf>. Acesso em: 06 març. 2010. BRASIL, 1998. Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. Acesso em: 06 març. 2010. BRASIL, MMA. Programa de Educomunicação Socioambiental. Série Documentos Técnicos-2. Brasília: órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental. 2005. Disponível
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 122 EDUCOMUNICAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE Maria Vitória Elida do NASCIMENTO Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. cep: 59072-970. Natal/RN, Brasil. vitoriaelida@yahoo.com.br Jucicleide Gomes da Silva SOUZA Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. Leonardo Oliveira da SILVA Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. Elineí ARAÚJO-DE-ALMEIDA Professora. Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. cep: 59072-970. Natal/RN, Brasil. RESUMO Temas referentes à degradação ambiental vêm recebendo destaque ao longo dos anos, fazendo com que o homem passe a buscar estratégias para minimizar os problemas que emergem dessa questão. Dentre as alternativas de solução, encontra-se a Educação Ambiental (EA), importante ferramenta na luta pela conservação do meio ambiente. Implementar a EA em áreas protegidas age fortalecendo os mecanismos de conservação da biodiversidade. Porém, esta Educação Ambiental, também necessita desenvolver formas para alcançar seus objetivos de sensibilização para esta conservação. Surge então o conceito de Educomunicação, que consiste em ações que buscam fortalecer ás atividades de comunicação no âmbito educacional. Utilizar o enfoque da Educomunicação em projetos de Educação Ambiental, pode tornar-se uma importante atividade na busca de promoção da conservação da diversidade biológica em Unidades de Conservação. PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental; Educomunicação; Conservação da Biodiversidade ABSTRACT Topics related to environmental degradation has received attention over the years, making the man go to seek strategies to minimize the problems that emerge from this issue. Among the alternative solution, is the Environmental Education (EE), an important tool in the fight for environmental conservation. Implement the EA in protected areas act strengthening mechanisms for biodiversity conservation. However, this environmental education also needs to develop ways to achieve their goals of raising awareness of this conservation. Then, it comes the concept of Educommunication, which consists of actions that seek to strengthen communication activities in education. Using the approach of Educommunication in projects of environmental education can become an important activity in seeking to promote the conservation of biological diversity in protected areas. KEYWORDS: Environmental Education; Educomunication; Biodiversity Conservation INTRODUÇÃO Segundo o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, a Educação Ambiental surge como um processo orientado por valores baseados na transformação social, tendo como ação necessária, garantir que os meios de comunicação se transformem em instrumentos educacionais para a preservação e conservação do meio ambiente. O Tratado, ainda, afirma que a Educação Ambiental requer a democratização dos meios de comunicação de massa e seu comprometimento com os interesses de todos os setores da sociedade; que a comunicação é um direito inalienável e que os meios de comunicação de massa devem ser
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 123 transformados em um canal privilegiado de educação, não somente disseminando informações em bases igualitárias, mas também promovendo intercâmbio de experiências, métodos e valores. Nesse sentido, surge a Educomunicação não como uma nova disciplina a ser acrescentada nos currículos acadêmicos, mas, segundo Soares (2000): “... como o novo campo, por sua natureza relacional, estrutura-se de um modo processual, midiático, transdisciplinar e interdiscursivo, sendo vivenciado na prática dos atores sociais, através de áreas concretas de intervenção social”. Este campo defende, segundo Soares (2000), o uso da comunicação como um meio eficaz para ampliar ações voltadas à cidadania e para ampliar as formas de expressão dos membros de uma comunidade, utilizando as Novas Tecnologias de Informação (NTICs) de maneira transdisciplinar e interdiscursiva na produção e disseminação do conhecimento. Desta maneira, o ambiente mediado por tecnologias pode ajudar a produzir sentidos, convertendo-se em mediação. É o sentido que provoca a aprendizagem, não a tecnologia, e é por isso que o campo compete à educomunicação (SOARES, 2002). Diante disso, a Educação Ambiental pode assumir uma função crítica e transformadora, objetivando co-responsabilizar indivíduos no intuito de promover um novo modelo de desenvolvimento (LEFF, 2001). Cabe, então, a esta Educação Ambiental, criar novas estratégias no intuito de disseminar o conhecimento geral sobre o meio ambiente. Segundo Gutierrez (1978), a comunicação é um problema humano e, em síntese, é diálogo. A educação, por outro lado, deve proporcionar as possibilidades para que o homem atue, modifique e transforme a realidade. Atrelando tais pensamentos, pode-se perceber a necessidade de que a educação seja voltada à comunicação, para utilizar desses meios comunicativos na expressão dos envolvidos, sendo assim, a Educomunicação, um elemento de importância significativa. O termo Educomunicação surgiu através do filósofo de educação Mario Kaplun, e une os conceitos de educação e comunicação, surgindo como um novo campo de intervenção nas relações educativas. A Educomunicação é uma área do conhecimento que atua na interface da educação e comunicação e tem como foco a formação crítica e reflexiva dos sujeitos (SCHAUN, 2002). Ao pensarmos Educomunicação e Meio Ambiente, devemos ter cuidado para entender a complexidade do tema, e de como será feito o processo de transformação de saberes. Nesse sentido, as atividades de escrita, fotografia, desenho, a fala, são registros elaborados desses saberes. E a divulgação dessas ações através dos meios de comunicação, seja ele, rádio, TV, jornal ou outro qualquer, realiza-se uma ação educomunicativa, onde a educação cruza seus conhecimentos com a comunicação. Pois, conservar a diversidade biológica é de grande importância para a manutenção da vida no planeta. Devido à contribuição econômica gerada, a participação na manutenção de ciclos ambientais, manutenção de paisagens e principalmente, pelo direito a vida. Dessa forma, a pesquisa tem como objetivos proporcionar elementos de reflexão para fornecer um maior entendimento sobre o meio ambiente, através de uma visão mais ampliada acerca do universo de conhecimentos produzidos ao relacionar a Educomunicação às questões envolvidas nos espaços destinados à conservação da diversidade biológica. PERCURSO METODOLÓGICO A pesquisa foi desenvolvida por meio de um levantamento amostral de alguns referenciais bibliográficos disponíveis em sites diversos, seguindo alguns princípios da análise de conteúdo exposta em Bauer (2008). Foram selecionados para orientação das reflexões sobre o tema, os trabalhos que direcionassem para alguma fonte bibliográfica explicitada. Preferencialmente foram selecionados trabalhos que conduziram às discussões à luz de algum referencial teórico especializado. Também, nesta revisão, elegeu-se o tema meio ambiente, unidades de conservação e biodiversidade enfocando a perspectiva da educomunicação, abrangendo informações relativas ao Brasil como território fonte de estudo. Foram combinadas palavras-chave enfocando às seguintes combinações: a) educomunicação + meio ambiente; b) educomunicação + unidade de conservação e, c) educomunicação + biodiversidade. As fontes selecionadas para o estudo, em princípio foram
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 124 buscadas entre aquelas que contivessem, no mínimo frase(s) abordando um dos três conjuntos de combinações conceituais. Em seguida, utilizou-se o critério de uma apreciação da experiência do autor no estudo do tema e nas fontes onde os mesmos publicaram seus escritos. Acrescidas à pesquisa bibliográfica, fundamentada na busca por palavras-chave e leitura crítica dos conteúdos conceituais, foram acrescidas as informações oriundas da experiência de pesquisa com a temática conservação da biodiversidade dos três primeiros autores desse trabalho, onde cada um pode interagir numa narrativa conceitual proporcionada pela expressão de seus perfis relatados junto com os elementos da pesquisa, trazendo a tona, conteúdos carregados de sentidos e de expressão pessoal diante do processo de releitura do objeto de pesquisa relacionando-o numa perspectiva da investigação (auto)biográfica (ver Passeggi, 2008; Passeggi; Barbosa, 2008a; Passeggi; Barbosa, 2008b), como também voltada para a construção interdisciplinar como se encontram destacado em Araújo-de-Almeida (2010). A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO UM ELEMENTO A SER APLICADO NAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO Ao longo dos anos têm-se percebido uma grande preocupação com as questões ambientais. Isso se deve a forma como o homem se relaciona com o meio, relação esta de dominação e exploração, gerando um ambiente degradado e cada dia mais ameaçado. A partir da década de 70, o homem começou a inquietar-se diante destes problemas ambientais e de como seria o futuro da humanidade, incluindo neste contexto as questões referentes à biodiversidade. Segundo Diegues (2004), um importante mecanismo de conservação da biodiversidade encontra-se na criação de Unidades de Conservação (UC), que são espaços territoriais e seus recursos ambientais, legalmente instituídos pelo Poder Público, com o objetivo de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção (BRASIL, 2000). Mas, apenas a criação destas unidades não tem sido efetiva na tentativa de conservar a biodiversidade, visto que ainda se tem conhecimento de processos de degradação de ecossistemas. Os rumos da Educação Ambiental (EA) começaram a ser definidos a partir da Conferência de Estocolmo, em 1972, onde se inseriu a temática EA no cenário internacional. Mas foi em Tbilisi, que saíram as definições, objetivos, princípios e estratégias para a Educação Ambiental, sendo estes até hoje adotados. Uma das finalidades da Educação Ambiental (EA) é a formação de um sujeito crítico e capaz de efetuar mudanças nas suas atitudes, com intuito de poder interferir positivamente no meio, produzindo um ambiente digno e saudável. Aplicar a EA em áreas de conservação ambiental é importante na busca por orientação e promoção de mudanças na visão com relação ao funcionamento da unidade de conservação, produzindo hábitos que não acarretem na degradação destas áreas. Com isso, educar nessas áreas significa problematizar sua finalidade e concertar a sua forma de utilização, inserido-as na realidade local. A realização de Educação Ambiental em áreas protegidas requer que se desenvolvam estratégias diferenciadas que se adequem a cada realidade local, para assim cumprir com seus objetivos de sensibilização (SILVA, 2000). Estratégias essas que motivem a formação de uma nova ética ambiental e social, facilitando o enfrentamento dos problemas ambientais. Dentro dessas estratégias encontra-se a utilização de meios de comunicação, através da atividade denominada de Educomunicação, um novo campo de pesquisa, que conecta as áreas de educação e comunicação de forma a contribuir na resolução de problemas ambientais. Os meios de comunicação podem atuar potencializando as atividades e projetos de educação ambiental, pois agem de maneira esclarecedora a cerca do panorama ambiental. O fornecimento de informações aos cidadãos é um principio que deve nortear a gestão ambiental, de forma a permitir à tomada de decisão e a promoção de ações voltadas à melhoria do ambiente (FURRIELA apud DUARTE; ESPINOLA, 2006), visto que a comunicação é o elemento pelo qual é possível transformar o ser
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 125 humano em sujeito da sua própria história, vivendo uma relação dialética, em diálogo, que o conduz a uma consciência crítica e a uma transformação. IMPORTÂNCIA DA CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE Segundo as considerações de Primack (1993) biodiversidade ou diversidade biológica refere-se à variedade de formas de vida presente na Terra (diversidade de espécies), aos genes que as constituem (diversidade genética) e aos ecossistemas dos quais são parte (diversidade de ecossistemas). Este termo foi introduzido na metade da década de 80, pelos naturalistas que se inquietavam pela rápida destruição dos ambientes naturais e suas espécies (LÉVÊQUE, 1999). O Brasil apresenta uma das maiores diversidades de espécies conhecidas (descritas) do mundo. Mas essa riqueza gerou a idéia ilusória de que a biodiversidade brasileira é abundante e inesgotável, por isso poderia ser explorada. Ao sediar a Conferência das Nações Unidades para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, em 1992, e confirmar a assinatura da Convenção sobre Diversidade Biológica, o Brasil assumiu compromisso em proteger a biodiversidade, o que impulsionou a criação de ações conservacionistas no país. Heywood e Watson (apud HOROWITZ, 2003) ampliam o conceito de biodiversidade, para as relações estruturais e funcionais das organizações biológicas nas quais as atividades humanas estão inseridas. Dessa forma pode-se expandir este tema para além da dimensão ambiental, incorporando assim, as dimensões humanas e culturais, onde tudo mostra biodiversidade. A criação de Unidades de Conservação (UC) se tornou, então, uma estratégia muito importante para a promoção da conservação da biodiversidade, devendo ser associada a atividades de sensibilização das comunidades de dentro e do entorno da UC, para que haja uma manutenção dessa área e assim, ocorra uma efetiva conservação da diversidade biológica. A Conservação da biodiversidade, portanto, deve ser compreendida como um compromisso social que inclui ações de todos os indivíduos. Á medida que espécies correm o risco de serem extintas, é necessário que se tomem medidas de proteção dos processos ecológicos que mantêm tais espécies. Para isso, além de estratégias de conservação, é de fundamental importância que a sociedade seja sensibilizada para compreender as ameaças a diversidade biológica e o risco que a extinção das espécies representa. Nesse contexto, o acesso à informação surge como condição essencial para apoiar o exercício da cidadania e o protagonismo social em políticas públicas, entre as quais, as que se destinam à proteção de unidades de conversação. Colaboram para esse entendimento, autores como Bordenave (1985), para quem não existe participação social, sem comunicação. Diante disso, é necessário que se pense como desenvolver atividades de educomunicação em unidades de conservação, com intuito de sensibilizar a comunidade sobre a diversidade existente em sua área, e sobre a necessidade de conservar as espécies aí presentes. Para isso, podem ser propostas ações junto a autoridades locais, administrações escolares e alunos residentes em unidade de conservação, como a elaboração de um jornal informativo sobre a biodiversidade da área, uma rádio comunitária voltada para as questões ambientais do local, entre outras ações, todas com intuito de promover a conservação. Pois, segundo informa Guimarães (2001) “O novo mundo que queremos, mais equilibrado e justo, requer o engajamento pessoal coletivo de educadores e educandos no processo de transformações sociais”. Isto personifica a incorporação do tema Educomunicação como uma perspectiva de acesso as pessoas interessadas sobre a temática conservação da biodiversidade re- configurando essa questão para a sociedade brasileira. Assim, a Educomunicação não vem subistituir a Educação Ambiental, mas ampliar o seu campo de ação, aliando-se à comunicação como um meio eficaz para ampliar ações voltadas à cidadania e as formas de expressão dos membros de uma comunidade, correspondendo, assim, a um dos objetivos da Estratégia Nacional de Comunicação e Educação Ambiental (Brasil, 2009; p. 12):
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 126 Elaborar e implementar projetos e ações de Educação Ambiental para as comunidades do entorno, considerando lideranças comunitárias, mulheres, jovens e minorias para seu maior envolvimento e diálogo quanto às atividades de gestão das UCs, destacando assuntos que se relacionem a importância das UC e seu papel na conservação da biodiversidade e na manutenção dos serviços ambientais da área protegida; CONSIDERAÇÕES FINAIS Como estamos diante de uma sociedade em que as mídias são as principais fontes de informação, a Educação Ambiental pode utilizar esse mecanismo para disseminar conhecimentos sobre biodiversidade e sua conservação, através do que chamamos de Educomunicação. Pode-se considerar importante a responsabilidade dos veículos de comunicação nas tentativas de conservação de biodiversidade em unidades de conservação, torna-se uma estratégia da educação ambiental. Maior importância ainda é confiada aos meios de comunicação comunitários, seja pela possibilidade de veicularem um conteúdo mais ligado às necessidades da comunidade, seja pela possibilidade de potencializarem ainda mais a educação ambiental através da promoção da participação no fazer-comunicação. Realizar atividades de Educação Ambiental e buscar cada vez mais estratégias de sensibilização torna-se foco significativo para futuras pesquisas em conservação em áreas protegidas. Assim, Educomunicação e a Educação Ambiental se complementam e se interrelacionam em suas propostas e ações ao promover interdisciplinaridade e sensibilização para traçar metas que levem à conservação do meio ambiente. REFERÊNCIAS ARAÚJO-DE-ALMEIDA, E. (org.). Ensino de Zoologia: ensaios interdisciplinares. 2ª. Ed. João Pessoa :EdUFPB, 2009. BAUER, M. W. Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In: BAUER, M. W.; GASKEL, G. (Org.). Pesquisa qualitativa com texto imagem e som. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2008, 516p. BORDENAVE, J. D. O que é participação? São Paulo: Brasiliense, 1985. BRASIL Cartilha para Consulta Pública: Estratégia Nacional de Comunicação e Educação Ambiental no Âmbito do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, Brasília/DF: Ministério do Meio Ambiente, 2009. BRASIL. Lei nº. 9.985 de 18 de julho de 2000, que regulamenta o art. 225, § 1o, incisos I, II, III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências, Brasil, 2000. DIEGUES, A. C. O mito moderno da natureza intocada. 5ª. Ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2004. DUARTE, F.; ESPINOLA, B. Comunicação e Educação Ambiental: Estudo de Caso em Curitiba. In: Comunicação e espaço público. Ano IX, n. 1 e 2, 2006. p. 108-119. GUIMARÃES, M. A dimensão ambiental na educação. 4ª. Ed. São Paulo: Papirus, 2001. GUTIERREZ, F. Linguagem total: uma pedagogia dos meios de comunicação. São Paulo: Summus, 1978. HOROWITZ, C. A sustentabilidade da biodiversidade em unidades de conservação de proteção integral: Parque Nacional de Brasília. Tese de doutorado, CDS/UnB, Brasília, 2003. LEFF, E. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis: LÉVÊQUE, C. A Biodiversidade. Tradução: Waldo Mermelstein. São Paulo: EDUSC, 1999. PASSEGGI, M. C. Memoriais auto-bio-gráficos: a arte profissional de tecer uma figura pública de si. In: PASSEGGI, M. C.; BARBOSA, T. M. N. (Org.). Memórias, memoriais:
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 127 pesquisa e formação docente. Natal: EdUFRN; São Paulo: Paulus, 2008. (Coleção Pesquisa (Auto) Biográfica-Educação, nº 5). PASSEGGI, M. C.; BARBOSA, T. M. N. (Org.). Memórias, memoriais: pesquisa e formação docente. Natal: EdUFRN; São Paulo: Paulus, 2008a. (Coleção Pesquisa (Auto) Biográfica-Educação, nº 5). PASSEGGI, M. C.; BARBOSA, T. M. N. (Org.). Narrativas de formação e saberes biográficos. Natal: EdUFRN; São Paulo: Paulus, 2008b. (Coleção Pesquisa (Auto) Biográfica- Educação, nº 6). PRIMACK, R. B. Essentials of conservation biology. Massachusetts: Sinauer Associates Inc., 1993. SCHAUN, Angela. Educomunicação. Reflexões e Princípios. Rio de Janeiro: Maud, 2002. SILVA, M. M. P. da. Estratégias em educação ambiental. 2000. Dissertação. Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente/PRODEMA). UFPB/UEPB. Campina Grande. SOARES, I. 2002. Gestão Comunicativa da Educação: Caminhos da Educomunicação. In: Revista Comunicação e Educação. Editora Ano VII, jan./abr. 2002, p 16 – 25. TRATADO de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Reponsabilidade Global – Aprovado na Jornada Internacional de Educação/Fórum Global – Rio 92. Foz do Iguaçu (PR): Itaipu Binacional, 2008. Vozes, 2001.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 128 EFETIVIDADE DA ROTULAGEM AMBIENTAL: UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DO RECIFE Adauto Alex dos SANTOS Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas – Zoologia, DSE, Universidade Federal da Paraíba (UFPB) adautoalexs@gmail.com Maria Eduarda V. DIAS Graduada em Ciências Biológicas/Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Tatiana de Oliveira CALADO Graduada em Ciências Biológicas/Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Virgínia C. B. ROCHA Graduada em Ciências Biológicas/Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) RESUMO Esta pesquisa buscou avaliar a relação entre consumidores de produtos de supermercados, catadores de materiais recicláveis e a rotulagem ambiental. A rotulagem ambiental funciona como um elo de comunicação entre produtor e consumidor, visando informar ao consumidor algumas características sobre o produto. O trabalho trata-se de uma pesquisa exploratória com uma abordagem qualitativa e quantitativa. Foram aplicados 100 questionários de múltipla escolha à população de consumidores (n=80) e catadores de materiais recicláveis (n=20) na cidade do Recife, no ano de 2008. Através da aplicação desses questionários pode-se constatar a falta de conhecimento dos consumidores em relação ao selo ou rótulo ambiental, onde a grande maioria diz nunca percebê-los nas embalagens, demonstrando que na hora da compra as pessoas pouco se importam com o destino final do produto que levam para casa. Em relação aos catadores de materiais recicláveis, surpreendentemente, a maioria dos entrevistados (19 catadores) souberam explicar corretamente o que é uma coleta seletiva devido, principalmente, ao convívio direto com os diversos tipos de materiais. Há uma necessidade de maior conteúdo informacional no que é passado nos rótulos para garantir que os consumidores possam realmente se importar com a presença dos selos ambientais e entenda o seu significado. PALAVRAS-CHAVE: Rótulo ambiental, Selo ambiental, Consumidor, Catador de materiais recicláveis. ABSTRACT This research’s objective is to evaluate the correlation between the consumers of products from supermarkets and recycled garbage pickers and the environmental labeling. The Environmental Labeling working as a link of communication between producer and consumer, aiming to inform the consumer some characteristics on the product. This document is an exploratory research using a qualitative and quantitative approach. 100 Questionnaires were applied multiple choice to the population of consumers (n=80) and recycled garbage pickers (n=20) in the city of Recife, in the year 2008. Through the application of these questionnaires was possible to notice the consumer’s lack of knowledge in respect to environmental labels or stamps, where the great majority says never understand them on packs, showing that at the time of acquire people little care to the final destination of the product that take to home. In relation to recycled garbage pickers, surprisingly, most interviews (19 garbage pickers) able explain correctly what it is a selective collect due, mainly, to direct contact with the various types of materials. There is a necessity for greater informational content in what is transmitted in labels to ensure that consumer’s can actually imported with the presence of the environmental stamps and understand its significance. KEYWORDS: Environmental label, Environmental stamp, Consumer, Recycled garbage picker.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 129 INTRODUÇÃO Através do marketing verde e do consumo consciente, atualmente em estágio de evolução, identificou-se, no mercado, uma ferramenta que poderá agregar valor a essas duas vertentes: Os rótulos ambientais. A rotulagem ambiental, que funciona como um elo de comunicação entre produtor e consumidor, são selos que visam informar ao consumidor algumas características sobre o produto, podendo ser conhecidos também como “selo verde”, “selo ambiental” ou “rótulo ecológico”. Além do consumidor, esses rótulos têm como objetivo fornecer orientação para o processo de coleta seletiva através de sua simbologia de produtos recicláveis (GODOY & BIAZIN, 2000; KOHLRAUSCH, 2003). A ISO (Organização Internacional para Padronização) criou a série de Normas “14020” falando sobre os três tipos de rotulagem ambiental. A Rotulagem tipo I (NBR ISO 14024) aborda tópicos sobre os programas de Selo Verde, estabelecendo princípios e procedimentos para o desenvolvimento de programas de rotulagem ambiental, incluindo a seleção de categorias de produtos, critérios ambientais e características funcionais dos mesmos, além de avaliar e demonstrar sua conformidade. Esta Norma também estabelece os procedimentos de certificação para a concessão do rótulo (CEMPRE, 2008). A Rotulagem tipo II (NBR ISO 14021) especifica os requisitos para auto-declarações ambientais, incluindo textos, símbolos e gráficos, no que se refere aos produtos. Este tipo de rotulagem descreve termos selecionados usados comumente em declarações ambientais e fornece qualificações para seu uso, além de trazer uma metodologia de avaliação e verificação geral para auto-declarações ambientais e métodos específicos de avaliação e verificação para as declarações selecionadas nesta Norma. Dentro desta Norma estão contidas declarações como “recicláveis”, “lixo comum”, “plásticos”, entre outros, auxiliando, dessa forma, na coleta seletiva (CEMPRE, 2008). Os Rótulos do tipo III (ISO 14025) ainda estão sendo elaborados no âmbito da ISO, tendo um alto grau de complexidade devido à inclusão da ferramenta “Avaliação do Ciclo de Vida”. A percepção é de que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que este tipo de rotulagem ganhe o mercado, visto que a ferramenta de ACV ainda não está definitivamente consolidada do ponto de vista técnico (CEMPRE, 2008). O crescimento desordenado da população, a inexistência de uma política eficiente, e a falta de informação da grande massa da população faz com que haja uma urgência de se criarem diretrizes que acompanhem os rótulos ambientais, para que estes tenham seus objetivos alcançados no seu público-alvo: população de consumidores e catadores de materiais recicláveis. Nesse contexto, o objetivo deste trabalho foi o de avaliar se a rotulagem ambiental, de fato, está sendo posta em prática (Conhecimento e efetividade), atendendo, assim, os objetivos propostos junto o público consumidor como informante de caracteres ambientais, e com os catadores de coleta seletiva através de sua simbologia para produtos recicláveis. MATERIAIS E MÉTODOS De caráter exploratório este trabalho foi desenvolvido na região metropolitana do Recife- PE, no ano de 2008, com uma abordagem quantitativa e qualitativa. A pesquisa exploratória objetiva, em geral, provocar o esclarecimento de uma situação para a tomada de consciência, através de entrevistas com pessoas que tiveram (ou têm) experiências práticas com o problema pesquisado, nesse caso, o conhecimento sobre a rotulagem ambiental (CHIZZOTTI, 1995). Foram utilizados questionários como instrumento de coleta de dados, sendo estes aplicados e preenchidos pelo entrevistador no momento da entrevista (ver LAKATOS & MARCONI, 1985). Foram elaborados dois questionários de múltipla escolha, um destinado aos consumidores e o outro aos catadores de materiais recicláveis. Para o público consumidor foram aplicados 20 questionários em cada um dos 4 (quatro) grandes supermercados escolhidos aleatóriamente na cidade do Recife (Hiper Bompreço - Av. Caxangá, 3942, Iputinga; Hiper Bompreço - Praça Francisco Pessoa de Queiroz, 23 Casa Forte;
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 130 Comprebem – Av. Caxangá, 2900, Iputinga; Extra – Av. Engenheiro Domingos Ferreira, 1818, Boa Viagem), totalizando 80 consumidos entrevistados. O segundo tipo de formulário, direcionado aos catadores, foram aplicados em três núcleos de catadores de coleta seletiva, localizados nos bairros da Torre, Cajueiro e Afogados. Ao todo foram entrevistados 20 catadores. RESULTADOS Consumidores A Maioria dos entrevistados foi do sexo feminino (66%), com faixa etária entre 21 e 35 anos (33,7%), 2º grau completo (35%) e com renda familiar acima de 11 salários mínimos (30%). Não foi registrado nenhum indivíduo com 1º grau completo ou analfabeto. Nos tipos de produtos que os consumidores afirmam ter o hábito de ler o rótulo, os alimentícios foram os mais citado com 22,2%, seguido pelos de Limpeza e artigos de Higiene e Perfumaria, ambos com 18,5% . Esses dados são referentes aos consumidores que afirmaram ler apenas um tipo de produto, contudo, indivíduos que lêem todos os produtos compreenderam um total de 48,15% dos entrevistados, e apenas 3,7% não lêem nenhum rótulo. Mais da metade dos consumidores (55%) afirmaram nunca observarem a presença de selos ambientais no rótulo de um produto, e apenas 17,5% afirmam manter o hábito de lê-los. Com os símbolos de reciclagem os dados são bastante semelhantes: apenas 22,5% dizem sempre observar os símbolos. A grande maioria (47,5%) nunca percebe sua presença ou quase nunca (30%). Os consumidores demonstraram, a primeira vista, diferenciadas formas de analisar o rótulo de um produto. Os itens que mais chamam atenção são o logotipo (marca) e o conteúdo, com 25% e 22,5%, respectivamente. A presença de alguma certificação no produto é notada por apenas 12,5% dos consumidores, seguido pela embalagem reciclável (10%). Na opinião da maioria dos consumidores (72,5%), prevaleceu a seguinte definição no que diz respeito aos selos ambientais: “Declarações que atestam que um produto causa menor impacto ambiental...”. Em seguida, com 12,5%, encontra-se a opção relacionada à legislação vigente. Apenas 30% dos entrevistados sabem identificar no rótulo um selo ambiental, e, para cerca de 46%, a presença de um selo ambiental no rótulo influenciaria em seu processo de compra. A maioria daqueles que responderam não se influenciar pela presença de selo (54%) justificaram a sua escolha, principalmente, pelo hábito de sempre comprar a mesma marca. Àqueles que afirmaram ter preferência por produtos certificados citaram, como principal fator motivacional, o processo de conscientização ambiental, proteção da natureza e conservação do meio ambiente (59%). Em relação aos símbolos de reciclagem, 60% dos consumidores desconhecem esta simbologia, enquanto 40% estão familiarizados. Quanto ao conhecimento dos símbolos entre os diferentes materiais, 51,2% afirmaram saber a diferencia entre eles, ao passo que 48,7% não sabem distingui-los. Catadores de Materiais Recicláveis Do total de entrevistados, 16 catadores eram do sexo masculino, com idade entre 21 a 35 anos (50%) e com 1º grau incompleto. A maioria (18 catadores) apresentou renda familiar entre um e três salários mínimos. Quando perguntados se a sua renda principal era proveniente do trabalho de coleta, 85% (17 catadores) responderam que sim, enquanto que os demais (3 catadores) justificaram outras formas de comércio informal (ambulante) como sendo sua principal fonte de renda. A maioria dos entrevistados (14 catadores) afirmou saber o que é uma coleta seletiva, dentre eles, 19 catadores responderam que “Se trata de um processo de separação dos resíduos de acordo com o material de que é composto”.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 131 Quando questionados se sabiam identificar um símbolo de reciclagem no rótulo dos produtos, 65% declararam que sim, porém nenhum dos entrevistados sabe diferenciar os símbolos de reciclagem entre os diferentes materiais, assim como todos afirmaram nunca prestar atenção em símbolos nos rótulos dos produtos que compra. Á exemplo da questão anterior, quando perguntados se deixariam de comprar algum produto pelo fato de sua embalagem não ser reciclável, todos confessaram que nunca fariam tal escolha, justificando-a por limitações financeiras. DISCUSSÃO O que mais chama a atenção dos consumidores nos produtos são a marca e o conteúdo, isso confirma que a preferência do consumidor é manipulada pela produção e propaganda de grandes empresas, elas decidem o que produzir, colocando no mercado seus produtos e deixando a cargo da propaganda e do marketing a venda dos produtos (PIETROCOLLA, 1986). As grandes empresas são responsáveis por definirem as necessidades e os valores da sociedade (SLATER, 2002). Segundo LAZZARINI & SODRÉ (2001), hoje se vive o que muitos autores chamam de sociedade de consumo, sociedade que tem por características, entre outros fatores, a produção em série, alta tecnologia na fabricação, distribuição em massa, crédito fácil e valorização da publicidade como meio de venda. Esse sistema acaba atraindo os consumidores no seu dia-a-dia, com as mais variadas propostas e produtos, tornando a escolha e a compra complicada, por não haver discriminação entre um produto e outro, principalmente no que se refere aos impactos ambientais. Os resultados apresentados neste trabalho corroboram esta idéia, visto que a presença de alguma certificação e selos ambientais chamam atenção de uma ínfima parcela de consumidores. Em relação aos símbolos de reciclagem presentes nos rótulos dos produtos, a grande maioria diz nunca percebê-los, com uma pequena parcela levando em consideração produtos que apresentem tal embalagem. Na hora da compra, as pessoas pouco se importam com o destino final do produto que levam para casa, levando ainda a uma reflexão sobre a coleta seletiva entre os consumidores. De acordo com BENTLEY (2002), a alavanca principal para reduzir os efeitos ambientais do consumo não precisa ser necessariamente o ato de consumir menos, mas como uma segunda alternativa, consumir de maneira diferente. Consumir menos seria o caminho ideal, especialmente nos países desenvolvidos, porém, consumir de maneira diferente utilizando-se da reutilização, reciclando produtos, comprando peças construídas com considerações ambientais e produtos que contenham rótulos ambientais, hoje, pode ser uma atitude mais realista. A definição de selos ambientais por parte dos consumidores, “Declarações que atestam que um produto causa menor impacto ambiental em relação a outros produtos disponíveis no mercado”, parece de acordo com as definições vigentes atualmente: “A rotulagem ambiental consiste na atribuição de um selo ou rótulo a um produto para comunicar ao seu consumidor que este atende aos padrões ambientais requeridos para sua concessão” (ROTULAGEM, 2002); “Rotulagem ambiental são declarações que dão ao consumidor informação acurada a respeito do impacto ambiental de um produto” (CEMPRE, 1999); “Os rótulos ecológicos atestam que um produto causa menor impacto ambiental em relação a outros” (NASCIMENTO, 2002). Daqueles consumidores entrevistados que observa a presença de selos ambientais poucos deles sabiam identificar no rótulo um selo ambiental, e, caso soubessem, pouco influenciaria em seus respectivos processos de compra. A rotulagem é um dos meios capazes de informar a sociedade a respeito dos impactos causados pela deterioração ininterrupta do meio ambiente pelo modo insustentável de produção e consumo (SODRÉ, 2002). Em relação aos catadores de materiais recicláveis, sobre o conhecimento da coleta seletiva, a hipótese testada foi de que os coletores não tinham conhecimento sobre esse processo, seguindo apenas orientação do sucateiro (pessoa responsável por comprar os materiais coletados e revender a terceiros). Contudo, a maioria dos entrevistados soube explicar o que é uma coleta seletiva, devido ao convívio direto com os diversos tipos de materiais, refutando nossa hipótese inicial.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 132 A maioria dos entrevistados sabia identificar os símbolos de reciclagem no rótulo, no entanto, nenhum deles soube diferenciá-los. Os catadores não deixariam de comprar algum produto pelo falo de sua embalagem não ser reciclável por falta de condições financeiras, sendo o preço fator determinante para aquisição de produtos. Os catadores também ignoram os aspectos que envolvem a logística do processo de reciclagem, desconhecimento muitas vezes atribuído ao baixo nível de escolaridade. O pouco conhecimento do circuito da reciclagem é um forte impedimento para que catadores obtenham ganhos melhores nessa atividade (CARMO, 2005; MAGERA, 2003). Observou-se com a pesquisa que não é o rótulo do produto que não é lido ou notado, já que a maioria dos entrevistados o faz com freqüência, especialmente os alimentícios, o problema em questão são os consumidores não saberem identificar um selo ambiental no rótulo dos produtos. Com isso, comprova-se que o problema de identificação e compreensão se dá apenas com os selos ambientais, e isso provavelmente estar ligado ao fato dos selos não agregarem informações e conteúdo. Outro fator perceptível foi a falta de preocupação dos consumidores em comprar produtos recicláveis, além da pouca relevância da simbologia e diferenciação dos símbolos de reciclagem para eles, deixando claro a defasagem na preocupação com o destino final dos produtos consumidos. Há uma necessidade de maior conteúdo informacional no que é passado nos rótulos para garantir que os consumidores possam realmente se importar com a presença do selo ambiental e entenda o seu significado. Observa-se que o consumidor tem pouca ou nenhuma informação sobre os atributos de qualidade do produto. Informações do tipo: processo de produção, insumos utilizados, tecnologias, entre outras, não são prontamente observáveis e, por isso, de difícil avaliação pelo consumidor. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENTLEY, M. 2002 Consumir menos, mais ou de outro jeito? Disponível em: <http:// CARMO, M. S. 2005. A semântica "negativa" do lixo como fator "positivo" à sobrevivência da Catação – Estudo de caso sobre a associação dos recicladores do Rio de Janeiro. Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-graduação em Pesquisa em Administração. ENANPAD, Brasília – DF. CEMPRE, 2008. A rotulagem ambiental aplicada às embalagens. ABRE – Associação Brasileira de Embalagem, Cartilha, 20p. CEMPRE. 1999. A Rotulagem Ambiental e o Consumidor no Mercado Brasileiro de Embalagens. Acessado em 25/02/2010, Disponível em www.cempre.org.br. CHIZZOTTI, A. 1995. Pesquisa em ciências humanas e sociais. São Paulo: Cortez. GODOY, A.M.G. & BIAZIN, C.C. 2000. A rotulagem ambiental no Comércio Internacional, Anais 4º Encontro Eco-Eco. KOHLRAUSCH, A. K. 2003. A Rotulagem Ambiental no Auxílio à Formação de Consumidores Conscientes. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Pós graduação em Engenharia de produção, UFSC, Florianópolis, 153p. LAKATOS, E. M. & MARCONI, M. A. 1985. Metodologia Científica. São Paulo, Atlas, 1985. LAZZARINI, M. & SODRÉ, M. G. 2001. Consumidores organizados – os reis do mercado? Disponível em: http://www.meioambiente.org.br/consumo_sust.htm>. Acessado em 02 jan.2010. MAGERA, M. 2003. Os empresários do lixo: um paradoxo da modernidade. Campinas, SP: Átomo. NASCIMENTO, L. F. 2002. Rotulagem Ambiental. Disponível em: <http://www.disciplinas.adm.ufrgs.br/engambiental/download/Aula%206-%20selos.ppt>. Acesso em: 19 dez. 2009. PIETROCOLLA, L. G. 1986. O que todo cidadão precisa saber sobre sociedade de consumo. São Paulo/SP: Global, 74p.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 133 ROTULAGEM ambiental. 2002. O compromisso selado. Sitivesp News. São Paulo, ano II, edição VI. SLATER, D. 2002. Cultura do consumo & Modernidade. São Paulo: Nobel. SODRÉ, M. G. O. 2002. Dever de Informar e a Proteção Ambiental. Disponível em: <http://server.digipronto.com.br/idec.org.br/consumidorsa/arquivo/fev00/fev0028.htm>. Acesso em: 20 dez 2009. www.akatu.net/conheca/visualizarConteudo.asp?InfoID=220>. Acesso em: 08 de fev 2010.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 134 MARKETING VERDE: O SEU PAPEL NO PROCESSO DECISÓRIO DE COMPRA DOS UNIVERSITÁRIOS DAS INSTITUIÇÕES PRIVADAS DE ENSINO SUPERIOR. PEDROSA, André de Sousa UFCG andre_pedrosa1@yahoo.com.br SOUZA, Adriana Paula Braz UFCG adrianapaula.souza@hotmail.com PINHEIRO, Isabelle de Fátima Silva UFCG isabelleisp@gmail.com FREITAS, Lúcia Santana de, Dra UFCG luciasf@ch.ufcg.edu.br RESUMO O século XXI tem se caracterizado por uma peremptória evolução ambiental em virtude do crescente desequilíbrio ambiental devido ao processo de industrialização e, sobretudo, ao consumismo descontrolado das sociedades. Essa evolução ambiental desenvolve-se sobre o escopo de uma nova sensibilização ambiental por parte de entidades governamentais, ONG`s, sociedade civil e ambientalistas que exigem a inserção da sustentabilidade no âmbito das corporações. Essa reivindicação da sociedade por organizações sustentáveis vem manifestando-se no processo decisório de compra de um consumidor mais seletivo e, principalmente, mais racional com as escolhas dos produtos. Face ao exposto, o presente artigo trata de uma análise do comportamento de consumo dos estudantes de Instituições de Ensino Superior privada, localizadas na cidade de Campina Grande-PB. O artigo apresentou como objetivo analisar as percepções dos estudantes universitários sobre a utilização do marketing verde e os seus reflexos na decisão de compra. O trabalho buscou identificar se o público pesquisado poderia desembolsar uma quantia maior para comprar produtos ambientalmente corretos; avaliar se o público confia na preocupação das organizações com o meio ambiente ao investirem na produção de produtos verdes; enumerar os principais fatores que influenciam a decisão de compra; avaliar se as instituições de ensino superior estão promovendo ações que notabilizem a promoção de uma nova racionalidade consumista ambientalmente correta e verificar se as certificações são fatores preponderantes na decisão de compra. A pesquisa de campo constatou que, de modo geral, os universitários ainda não se conscientizaram sobre a possibilidade de modificarem as atitudes das organizações poluidoras através do ato decisório de consumo. Outra informação auferida foi à mencionada inexistência de ações proativas por parte da instituição de ensino para o fortalecimento de uma consciência ambiental. PALAVRAS CHAVES: Consciência ambiental; Sustentabilidade; Marketing verde; Educação ABSTRACT The century has been characterized by an adamant environmental changes due to the growing environmental imbalance due to the process of industrialization and, above all, the consumerism of society. This development environment is developed on the scope of a new environmental awareness by government agencies, ONG’s, civil society and environmentalists who demand the inclusion of sustainability within corporations. This widespread demand for sustainable organizations is manifested in the decision process of purchasing a consumer more selective and especially with the more rational choices of products. Given the above, this article deals with an analysis of consumer behavior of students in institutions of higher education private, located in the city of Campina Grande. The article presented to analyze the perceptions of university students on
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 135 the use of green marketing and its impact on purchasing decisions. The study aimed to identify whether the public could pay searched a larger amount to purchase environmentally friendly products, assessing whether the public trust in organizations concerned with the environment by investing in the production of green products, list the main factors influencing the buying decision and to evaluate whether the higher education institutions are promoting actions that excel in promoting a new environmentally friendly consumer rationality and verify that the certifications are important factors in purchasing decisions. The field research found that, overall, the university has not become aware of the possibility of altering the attitudes of polluting organizations through the act of making consumption. Other information was received for the aforementioned lack of proactive efforts by the educational institution for the strengthening of environmental awareness. KEYWORDS: Environmental awareness, sustainability, green marketing, Education INTRODUÇÃO É notório que há muito tempo estamos no limiar de um cenário catastrófico e irreversível para o planeta. Este inquestionalmente não suporta mais o ritmo consumista que nos imprimimos no nosso cotidiano. O clamor por uma nova sociedade mais racional e por empresas sustentáveis tornam-se mais latentes no cenário mundial. Uma nova consciência faz-se necessário, o desligamento de antigos paradigmas, de antigas tautologias e paradoxos, almejando, desta forma, um consumo e um crescimento sustentado e ordenado, no qual as organizações possuem um papel singular nesta evolução. Diante desta realidade que sugere a inserção da sustentabilidade do desenvolvimento econômico, poucas organizações se mostram simpatizantes na inserção de processo que venham a causar uma produção mais limpa e sustentável. Uma grande parcela preocupa-se apenas em não divergir com a legislação, evitando assim as penalidades, ou seja, ainda situam-se naquele estágio inerte diante das ações antrópicas que as mesmas promovem para os seus colaboradores, à população e ao planeta. Por outro lado, há organizações que conseguem interpretar essas mudanças de paradigmas através de um prisma diferente, prisma esse que enxerga novas conveniências e diferenciais, e já direcionam seus planejamentos para as novas contingências mercadológicas. O marketing verde é uma ferramenta de gestão holística de processos que alvitram identificar, antecipar e satisfazer as necessidades dos clientes e sociedade, através de um novo ordenamento balizado na consonância entre lucratividade e sustentabilidade. (PEATTIE; CHARTER, 2003). A função deste tipo de marketing que enfatiza as questões ambientais é de agregar valores aos produtos através dos enfoques ecológicos e sociais, tendo por preceitos a educação ambiental e os seus valores gerados. O marketing verde quando planejado de forma ética e moral, incentiva o consumo consciente da sociedade, e ao mesmo tempo projeta uma imagem de qualidade dos produtos e de uma organização ciente de suas responsabilidades perante a sociedade. Assim, em decorrência dos novos cenários que ressaltam o meio ambiente e, sobretudo, perante o contexto de que é plausível contribuir com o meio ambiente através das decisões de consumo, enfatiza-se a importância da consciência verde nas universidades. As Instituições de Ensino Superior tem a obrigação de difundir a educação ambiental, como um processo no qual o indivíduo e a coletividade desenvolvem valores sociais, habilidades, atitudes, valores sociais e competências direcionadas para a conservação do ambiente e, sobretudo, para um consumo consciente e ético, visto que, os universitários representam uma parcela consumista considerável e poderão representar a força motriz para as futuras transformações em termos de consumo no mundo. Portanto, a justificativa deste trabalho encontra-se na importância que a temática ambiental tem tomado dentro das esferas sociais, visto que, o processo de conscientização ambiental é um dever de todos. Mesmo que estejamos inseridos em paradigma capitalista desenvolvimentista, podemos através de um consumo consciente cooperar com a diminuição dos níveis de poluição causados por nós e pelas organizações. Assim, é importante ressaltar que os universitários poderão ser os principais atores de uma transformação de consumo. Por conseguinte o estudo procura
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 136 analisar as percepções dos estudantes universitários sobre a utilização do marketing verde e seus reflexos na decisão de compra, como também a postura das instituições de ensino superior com relação às questões ambientais e sua implantação no meio acadêmico. Metodologia Trata-se de uma pesquisa de campo quali-quantitativa tendo em vista que a coleta de dados utilizou como instrumentos de investigação questionários aplicados aos discentes das instituições privadas de ensino superior. Segundo Oliveira (2002) a abordagem da pesquisa quantitativa significa quantificar opiniões, dados, na forma de coleta de informações, e empregar recursos e técnicas estatísticas. A abordagem qualitativa não emprega tratamento estatístico como centro do processo de análise do problema, mas é usada para poder entender a relação de causa e efeito do fenômeno e conseqüentemente chegar a sua verdade e razão. O método de pesquisa a ser usado é o Survey. Conforme Babbie (1999) a pesquisa Survey é usada para a obtenção de dados sobre características, ações ou opiniões de determinado grupo, indicado como representante de uma população alvo, por meio de questionários estruturados e entrevistas pessoais. A aplicação dos questionários utilizou perguntas fechadas e de múltipla escolha. O universo da pesquisa envolveu 100 estudantes de duas instituições privadas de ensino superior do município de Campina Grande. Os resultados foram obtidos a partir de uma análise estatística descritiva de caráter quali- quantitativa de cinco cursos, a saber: Administração, Biomedicina, Biologia, Enfermagem e Fisioterapia, pertencentes ao terceiro período, e todos tiveram na sua grade curricular disciplinas relacionadas ao meio ambiente. Fundamentação teórica Marketing Verde: Um novo enfoque organizacional Com o reconhecido desenvolvimento das práticas da gestão ambiental, as organizações iniciaram um novo processo de adaptação dentro de suas áreas mercadológicas, onde as temáticas ambientais representam a principal força motriz desta nova adaptação. As organizações além de serem obrigadas a seguirem uma legislação ambiental incisiva que as obriga a uma acuidade maior com o controle da poluição, também deverão coadunar seus planejamentos com a nova visão da sociedade, visão esta que esta cada vez mais focada com as conseqüências da degradação ambiental. Para Kotler (1995), o marketing verde surge quando as organizações começam a absolver as temáticas ambientais e os anseios sociais sobre o meio ambiente. A produção de produtos ecologicamente corretos, embalagens recicláveis e biodegradáveis e um maior controle da poluição, foram estratégias utilizadas pelas organizações na tentativa de convergir suas culturas organizacionais com a nova racionalidade ambiental imposta pela sociedade. Diante das recentes necessidades que norteiam essa racionalidade ambiental que se dissemina de forma contínua entre os consumidores, as organizações deverão se adaptar a essas novas necessidades através da ferramenta do marketing verde que proporciona a inserção de políticas ambientais envolvendo todos os níveis setoriais da organização. Os consumidores estão mais informados e atentos aos produtos que consomem e, sobretudo, muitos determinam suas decisões de compra não apenas pelo fator preço, mas também pelo critério seletivo de escolha de produtos que de alguma forma colaborem com a questão socioambiental. Para o marketing verde, a sua vertente principal é o desenvolvimento da educação ambiental. Esta vertente apresenta-se como a força motriz que modificará as decisões dos cidadãos, tornando-os mais atentos às conseqüências dos seus atos de compra e contribuindo para o avanço de um consumo ético, consumo este que é pautado na sinergia da tríplice sociedade, organizações e meio ambiente. O papel da Educação para o consumo ético e sustentável. A nossa sociedade ainda sobrevive no fundo de uma crise sócio-ambiental, onde a urgência de mudar o paradigma desenvolvimentista e antropocêntrico para uma visão mais coletiva, biocêntrica e comprometida com todos os temas relevantes para a sobrevivência da raça humana. O sistema capitalista impõe padrões de consumo não condizentes com a realidade ambiental, sob pena de inviabilizar qualquer solução sustentável para o desenvolvimento das
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 137 nações. Assim, o papel da educação é fundamental na criação de uma nova racionalidade, tendo ação ção como elemento capital a conscientização do consumo. Há uma necessidade de mudanças no modo de pensar que privilegie uma visão total do mundo, com uma postura ética, responsável e solidária. Segundo Barbieri (2006) a educação ambiental tem a função de criar uma nova unção mentalidade nas pessoas, com o intuito de promover mudanças que venham a alterar vários comportamentos divergentes com a realidade em vigência, como, por exemplo, os padrões de consumo. Na concepção de Sirvinskas (2002) o caminho a ser percorrido para alcançar a consciência vinskas ecológica através da educação ambiental será melhor fundamentado com o fomento de uma nova ambiental, ética ambiental, responsável e solidaria com o futuro do planeta. vel A nova ética está fundamentada na responsabilidade e na solidariedade com o futuro. Para Medina e Santos (1999, p. 18): “Há uma necessidade de mudança fundamental na maneira de ): pensarmos acerca de nós mesmo, nosso meio, nossa sociedade e nosso futuro; uma mudança básica nos valores e crenças que orientam nosso pensamento e nossas ações; mudanças que nos permita adquirir uma percepção holística e integral do mundo com uma postura ética, responsável e solidária.” Devido a sua importância, a educação ambiental deve ser atuante em todos os graus e modalidades do ensino, e compete ao poder Público a fiscalização de sua aplica aplicação. O artigo 2º da Lei 9.795/99 assim estabelece: “A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não não-formal.” Portanto, o futuro da espécie humana e de todas as espécies depende do equilíbrio do meio ambiente. Sem uma relação harmônica e equilibrada entre o ser humano e a natureza, não há como assegurar a sadia qualidade de vida no presente, e a existência das futuras gerações. Desta forma, a educação ambiental tem um papel singular na tentativa de criar uma pluralidade de novos valores, calcados na ética, responsabilidade e solidariedade ambiental nas camadas sociais. Análise dos resultados Perante o que foi exposto no decorrer da pesquisa, os questionários foram aplicados a 100 discentes pertencentes a instituições privadas de ensino superior dos curcursos da área de saúde (biomedicina, biologia, enfermagem e fisioterapia) e da área de humanas o curso de administração. Ao analisarmos as respostas dadas percebemos que no momento da compra de um produto o consumidor se utiliza de diferentes critérios. Quando indagados sobre tais critérios, pode se perceber claramente que o critério ndo pode-se ambiental aparece quase nulo, visto que a maioria desconhece a importância da certificação ambiental. De acordo com a primeira pergunta do questionário, referente aos critérios para a escolha e compra de um produto ou serviço, 59% dos entrevistados acham que a qualidade é o principal critério de escolha, enquanto apenas 2% optaram pela certificação ambiental como critério. 2% Quais os principais critérios para a escolha e compra de um produto ou serviço? 4% 6% Qualidade 29% 59% Preço Gráfico 1 Critério de escolha 1. O que você entende por um e compra de um produto ou serviço. oduto produto ambientalmenteQue na correto Um produto ambientalmente correto se apresenta como estimulador na decisão de compra, ou produto verde? descarte consumo produção, e esse não pois ele se destaca perante a avaliação do 4% 1% 1% agrediu o meio ambiente. Que a empresa 39% cumpre as leis 55% ambientais.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 138 consumidor, sendo então diferente dos demais ofertados, e por isso a impressão que se tem é que ele é superior aos outros. Segundo o observado no gráfico 2, 55% dos pesquisados afirmaram que a terminologia “produto ambientalmente correto ou produto verde” remete que na produção, consumo e descarte, este produto não agrediu o meio ambiente. Por outro lado, 39% dos entrevistados acreditam que “ambientalmente correto ou produto verde” significa que a empresa cumpre com as leis ambientais. Revela-se então que os entrevistados apresentam uma visão limitada da função ambientalmente correto, trazendo uma distorção do seu conceito e mostrando também ineficácia do seu uso. Gráfico 2. Entendimento com relação a produto ambientalmente correto ou verde. O processo de rotulagem, diante do acentuado avanço do mercado verde, surge como uma temática em crescente evolução que vem sendo trabalhada em diversos tipos de países. É uma ferramenta que fornece subsídios para uma padronização do consumo, visando uma evolução mais consciente. De acordo com o gráfico 3, 2% Quando é possível identificar um quando os estudantes foram indagados sobre a possibilidade de produto ambientalmente correto? selo identificação de um produto Quando possui o de certificação 1% 0% 15%1% 1% ambiental ambientalmente correto, 80% Quando a sua responderam que percebem essa embalagem é de papel possibilidade através do selo de 80% reciclavel Outro certificação ambiental afixado no produto, enquanto que 1% avaliam a através da variável ‘preço’. Gráfico 3. Produto ambientalmente correto. Dada a relevância no entendimento da questão ambiental interpretada nos gráficos anteriores, mesmo assim 60% dos entrevistados ainda não pagariam mais caro por produtos que possuem certificação ambiental. O percentual de negação nos faz refletir sobre a real importância da certificação, seria necessário algum tipo sensibilização que levasse então a população a compreender melhor e então optar por pagar mais caro ou não. Você estaria disposto a pagar mais por produtos que possuíssem certificação… Gráfico 4. Disposição dos usuários de produtos com certificação ambiental. Sim 40% A aplicação de ações 60% Não ambientais pelas empresas são importantes, pois , mostram que de certa
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 139 forma, algum tipo de trabalho a organização está aplicando, por um lado percebe-se a desconfiança do consumidor por achar que esse processo se faz apenas por um jogo de interesses. Faz-se necessário então um melhor planejamento estratégico dessas ações. No gráfico 5, os entrevistados mostraram-se receosos com relação as ações ambientais aplicadas pelas empresas, visto que 32% entendem que estas ações visam apenas estratégias para vender mais, enquanto que 14% acreditam que essas ações são realmente direcionadas para a proteção do meio ambiente. O que você acha das açoes ambientais aplicadas pelas… para Uma estratégia vender mais 6% 2% 14% 32% Gráfico 5. Aplicações de Passar uma imagem ações ambientais. 18% correta para os seus 28% clientes As instituições pesquisadas apresentam em sua grade curricular disciplinas que versão sobre a temática ambiental, utilizam também eventos para estimular o uso consciente, porém o que ainda se percebe é um descrédito por parte dos partícipes. Em relação a responsabilidade social e ambiental das IES para a construção de uma racionalidade de consumo consciente, segundo 62% dos entrevistados, as instituições deixam a desejar no que se refere a um trabalho de sensibilização e disseminação de novos valores pautados numa nova ética ambiental. Você observa por parte das IES algum tipo de estímulo ao consumo consciente? 10% 3% Raramente Gráfico 6. Avaliação na visão 25% Nunca 62% dos estudantes da ação das IES. Sempre Quando indagados se reduziriam o nível de consumo em prol da preservação ambiental, 79% dos estudantes responderam que sim, ou seja, apesar de não observarem um incentivo por parte das IES constatado no gráfico anterior, percebe-se que o consumo consciente vem ganhando espaço através de fatores externos, fatores esses que podem ser a mídia, a internet, a TV. Você reduziria o seu nível de consumo em prol da preservação ambiental? 6% 15% Sim Gráfico 7. Relação nível de Não 79% consumo e preservação ambiental. Depende Considerações Finais É imperativo modificar os hábitos de consumo que causam sérios problemas ambientais e sociais, freando o consumismo e fazendo escolhas que promovam o desenvolvimento sustentável. Nesse processo, o consumidor consciente tem um papel fundamental. A realização deste estudo permitiu um melhor entendimento do comportamento dos estudantes universitários sobre as questões ambientais e as suas relações com o consumo ambientalmente correto.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 140 Os resultados obtidos nas pesquisas de campo demonstram que o consumidor esta passando por um novo estágio desenvolvimento, estágio esse que notabilizasse pelo interesse dos consumidores nas questões ambientais e, conseqüentemente, no fator de que eles podem assumir um papel fundamental no processo decisório das empresas através da sua força de consumo. Entretanto, este público ainda não possui informações e critérios que venham a desenvolver um conhecimento mais conciso sobre os produtos ambientalmente corretos, a ponto de mudarem os seus hábitos tradicionais. Ficou evidenciado neste estudo que os estudantes são detentores de uma consciência ambiental e que reconhecem o desequilíbrio ambiental em vigência, no entanto ainda não estão cientes de que suas atitudes individuais de consumo podem contribuir para a mudança deste cenário. No que se refere aos critérios que levam o consumidor a decidir por um produto, o público pesquisado optou pela qualidade, ou seja, não interessa se o produto foi fabricado de forma ambientalmente correta. Em relação às ações ambientais das empresas, os entrevistados acreditam que as mesmas não possuem uma real preocupação ambiental, detendo-se apenas no interesse comercial. Um dos aspectos negativos foi à ausência de estímulos das Instituições de Ensino Superior na formação de novos valores que seriam imprescindíveis para a composição de uma consciência ambiental real dos estudantes. Um número considerável de entrevistados afirmou que nunca ou raramente as suas Instituições ressaltaram as questões ambientais com a devida precisão e importância. Esta afirmação nos leva refletir sobre a eficiência do real papel das Instituições de Ensino Superior na formação de um cidadão consciente, cabendo destacar que o desenvolvimento de uma consciência ambiental que reflita em atitudes reais, deve ser iniciada desde o ensino fundamental. Face ao exposto, a consciência ambiental é fator fundamental que deverá ser desenvolvida tanto pelas organizações, como também pelos consumidores. Entretanto, nota-se que este tipo de consciência ainda se encontra em uma fase embrionária no Brasil, requerendo assim uma maior pro atividade de vários setores da sociedade. Para que isso ocorra é necessária a intervenção do governo na composição de políticas que sejam eficientes no processo de conscientização ambiental principalmente em relação a preservação do meio ambiente e ao consumo ambientalmente correto, considerando que a decisão de compra está sendo cada dia mais repassada para crianças e adolescentes. A realização deste estudo contribuiu para um esclarecimento mais conciso sobre o comportamento dos estudantes universitários relacionados às suas percepções a respeito das questões ambientais e suas relações com o consumo. A consciência ambiental ainda precisa ser melhor trabalhada no intelecto dos universitários e nas suas respectivas instituições de ensino, para que efetivamente surja um novo consumo consciente e ético, e que venha a modificar as posturas empresariais que são divergentes com a realidade ambiental. Portanto, é fundamental que as empresas, sociedade, Instituições de Ensino Superior e o governo se unam para atingir uma conscientização coletiva, ética e sustentável. Como por exemplo, as empresas não devem deter-se apenas com o papel comercial, mas também na função de educar ambientalmente o consumidor, as Instituições de Ensino Superior deverão estar mais cientes e sensíveis com relação às questões ambientais, visto que, o seu papel é formar atores sociais racionais com os temas que norteiam o desenvolvimento de nossa sociedade, favorecendo assim o desenvolvimento de uma nova consciência de consumo no intelecto dos universitários que será sentida em gerações futuras. Por conseguinte, para uma maior amplitude de resultados, faz-se necessário a conjectura de análises oriundas de outras instituições e de outros cursos para a obtenção de uma melhor diversidade e qualidade nas informações, visto que, o trabalho se restringiu apenas a um grupo de discentes de instituições de ensino superior privado. Como sugestões para estudos que abordam temáticas associadas com os assuntos trabalhados no estudo, pode-se analisar os seguintes temas para o desenvolvimento de trabalhos
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 141 futuros: Produtos orgânicos e sua participação nos supermercados, uma análise sobre o nível de conhecimento dos selos verdes por parte dos consumidores, o processo de implantação do (SGA) em uma empresa, além da análise de projetos de implantação na rede de ensino de metodologias educacionais acerca dos problemas ambientais. Referências Bibliográficas BABBIE, Earl. Métodos de Pesquisas de Survey. 1a. reimpressão. Belo Horizonte: UFMG, 1999. BARBIERI, José Carlos. Gestão ambiental empresarial. Conceitos, modelos e instrumentos. São Paulo : Saraiva, 2006 MEDINA, Naná Mininni; SANTOS, Elizabeth da Conceição. Educação ambiental: uma metodologia participativa de formação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Metodologia científica aplicada ao Direito. São Paulo: Thomson,2002. PEATTIE ; CHARTER, M. Green Marketing. In : BAKER, M. (ED). The marketing book. Gran Britannia : Ed. Butter Wealth,2003. SIRVINSKAS, Luís Paulo. Meio ambiente e cidadania. Revista do Instituto de Pesquisas e Estudos. Bauru, n. 35, p. 305-307, ago. 2002 KOTLER, Administração de Marketing : análise,planejamento,implementação e controle.4.ed.São Paulo : Atlas, 1995.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 142 O IMPACTO SECUNDÁRIO DA ATIVIDADE PETROLÍFERA NA CIDADE DE MACAÉ COM BASE NA FOTOINTERPRETAÇÃO DE IMAGENS AÉREAS Rafael Nogueira Costa Mestrando em Engenharia Ambiental, Instituto Federal Fluminense, IFF. rafaelnogueiracosta@gmail.com Maria Inês Paes Ferreira Doutora em Engenharia Química e Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Petróleo Energia e Recursos Naturais, Instituto Federal Fluminense, IFF ines_paes@yahoo.com.br RESUMO Atualmente existem poucos estudos sobre o impacto secundário da atividade petrolífera nos Municípios da Bacia de Campos. A tímida atuação do poder público na mitigação desses impactos, aliada à organização incipiente dos usuários dos recursos naturais da região pode levar ao esgotamento de tais recursos, notadamente o dos recursos pesqueiros. Este artigo visa discutir a relação de uso e apropriação dos recursos comuns, em especial, os do estuário do rio Macaé, situado no epicentro das atividades de apoio à exploração e à produção de petróleo offshore na Bacia de Campos. Compreender as funções ecológica e econômica desse ecossistema e entender os pressupostos a ele aplicáveis pela legislação ambiental é um passo fundamental para propor soluções e definir metas para protegê-lo, contribuindo assim para a manutenção de uma das atividades tradicionais da Região Norte Fluminense, a pesca. PALAVRAS-CHAVE: Macaé, Petróleo, Crescimento Urbano, Impacto, Estuário ABSTRACT Currently there are few studies on the secondary impact of oil activity in the municipalities of Campos Basin. The modest performance of the government in mitigating these impacts, coupled with the incipient organization of users of natural resources in the region may lead to depletion of these resources, notably fisheries resources. This paper discusses the relationship of use and appropriation of common resources, in particular the Macaé River Estuary, located at the epicenter of activities to support the exploration and production of offshore oil in the Campos Basin. Understanding the ecological and economic functions of this ecosystem and understand the conditions applicable to it by environmental legislation is a key step to propose solutions and set goals to protect him, thus contributing to the maintenance of traditional activities of the North Fluminense, fishing . Keywords: Macaé, Petroleum, Urban Growth, Impact, Estuary INTRODUÇÃO O Município de Macaé (Figura 1), localizado no Estado do Rio de Janeiro, Brasil, faz divisa com as cidades de Quissamã, Carapebus, Conceição de Macabu, ao Norte; Rio das Ostras e Casimiro de Abreu, ao Sul; Trajano de Moraes e Nova Friburgo, a Oeste; e com o Oceano Atlântico, a Leste. Possui uma área total de 1.219,8 km2, destacando-se a presença de diversos pontos turísticos, como as praias e a região serrana (MACAÉ, 2009). O objetivo desse estudo é analisar através do uso de aerofotografias antigas e atuais os impactos secundários da atividade petrolífera no Município de Macaé, em especial o estuário. Tal modificação vem gerando uma descaracterização de um ecossistema de relevância ambiental e econômica para a Região.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 143 Figura 1. Localização do Município de Macaé. Fonte: Fundação Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro CIDE (2001). A região de estudo adotada compreende o trecho inferior da bacia do rio Macaé, incluindo a parte final estritamente fluvial e toda zona estuarina da bacia. O trecho em estudo, embora pouco extenso, incorpora áreas de grande interesse social (navegação, moradias e pesca). METODOLOGIA O sensoriamento remoto é uma tecnologia que permite obter imagens e outros tipos de dados, da superfície terrestre, por meio da captação e do registro da energia refletida ou emitida pela superfície (GALLOTTI, 2007). Os fenômenos no mundo real podem ser observados sob três aspectos: (i) temático, aquele que trata das variação de características; (ii) espacial, trata da variação geográfica; e (iii) temporal, trata da variação em intervalos de tempo (SILVA, 2007). Neste trabalho procuramos apresentar os três aspectos através do acompanhamento da série histórica: 1956, 1966, 1976, 1989 e 1999; e relacioná-lo com os conceitos de uso e apropriação apontados por Vieira et al. (2005). RESULTADOS E DISCUSSAO IMPACTOS SECUNDÁRIOS DA ATIVIDADE PETROLÍFERA EM MACAÉ A Aerofotografia 1 foi tirada em 1956, época em que já era possível ver que a cidade de Macaé estava localizada no estuário do Rio Macaé. Esse fenômeno de crescimento das cidades acompanha o que acontece no mundo inteiro. Por se tratar de um ambiente de transição entre o oceano e o continente, os estuários constituem áreas de grande complexidade e vulnerabilidade à influencia do homem. Essa relação é estabelecida pelos seguintes motivos: (i) são locais adequados para a instalação de portos; e (ii) constituem uma via de acesso importante para o interior dos continentes (MIRANDA et al., 2002). A partir de meados desse século, com a conseqüente expansão populacional nas cidades próximas aos estuários em todo o Planeta, aumentou consideravelmente a influência do homem sobre esse ambiente (WELLS, 1999). Vale ressaltar que nessa época o Código Florestal (Lei 4.777 de 1965) ainda não existia. Logo, suas definições de áreas de preservação permanente e a proteção das matas ciliares não eram aplicadas nesse caso. Em 1966, a cidade ainda sobrevivia basicamente da pesca e do comércio local, dez anos se passaram e quase não vemos muita diferença em relação à quantidade de moradias localizadas na foz do rio Macaé (Aerofotografia 2), que passaram a ter suas margens protegidas pela Lei Federal 4.771 de 1965 (BRASIL, 1965).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 144 Aerofotografia 1. Data: 1956. O Rio Macaé com seus meandros naturais e o início do processo de retificação. Fonte: GEOMACAÉ (2008). Aerofotografia 2. Data: 1966. A paisagem parece não mudar muito apesar te ter passado uma década. Fonte: GEOMACAÉ (2008). As intervenções realizadas pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) no rio Macaé trouxeram impactos negativos e positivos. Os positivos estão relacionados à diminuição da incidência de malária, problema que muito preocupava as autoridades locais. Por outro lado, se constatou a redução do pescado, dada a diminuição dos locais naturais de postura e pelo desaparecimento de áreas de várzeas com vegetação natural. Houve também uma diminuição do volume de água e acúmulo de terra em conseqüência de enchentes (AMARAL, 2003). Nota-se que o Rio permanecia com seus meandros naturais e que se torna visível o início do processo de retilinização (Aerofotografia 3). Este processo criou ilhas entre o novo curso, retilinizado, e o antigo, sinuoso, além de dois braços na desembocadura, separados pela ilha Colônia Leocádia (SOFFIATI, 2007). Porém, após 20 anos ainda não se verificava mudança significativa em termos de ocupação associada ao crescimento urbano. Como afirma Soffiati (2007), com a descoberta das jazidas de petróleo da Bacia de Campos e a posterior construção das instalações da PETROBRAS em Macaé, a cidade passou a receber anualmente milhares de pessoas de todo o Brasil em busca de emprego. Muitas não conseguem trabalho e acabam marginalizadas, o que gera, além da violência, a invasão de áreas de
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 145 preservação ambiental (IPEA, 2008). Em alguns trechos verifica-se um vertiginoso processo de urbanização por pessoas de baixa renda, tornando-se consolidado em alguns pontos: (i) na margem direita do rio velho; (ii) no interior da ilha Colônia Leocádia; (iii) no trecho final do canal Campos- Macaé; (iv) e na margem esquerda do rio. Entretanto o processo de invasão do estuário não se limita a pessoas com baixo poder aquisitivo, o que pode ser visto na ilha da Caieira, onde está localizado um condomínio fechado com mansões (Aerofotografia 4). A urbanização, além de suprimir importantes áreas, acarreta outro grande problema: aumento de lançamentos de produtos químicos (LACERDA et al. 2008). Com efeito, é notória a contaminação do rio Macaé por esgoto orgânico, por efluentes oleosos e por resíduos sólidos. Apesar de possuir sua foz permanentemente aberta, permitindo a ação saudável das marés, esse ecossistema encontra-se em estágio avançado de degradação sofrendo intensos e permanentes impactos antrópicos como lançamento de esgoto in natura e despejo de óleo das pequenas embarcações utilizadas para pesca, principalmente no final do Canal Campos-Macaé. Em 1999, o Município de Macaé já estava consolidado no cenário nacional e até mesmo mundial no tocante à indústria do petróleo. Associado aos problemas ambientais e sociais ocasionados pelo processo de extração de óleo e gás, o crescimento da cidade gerou uma pressão sobre o estuário (Aerofotografia 5, na qual pode-se ver o Rio Macaé completamente retilinizado). Aerofotografia 3. Data: 1976. Início da formação da Ilha Colônia Leocádia. Fonte: GEOMACAÉ (2008).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 146 Aerofotografia 4. Data: 1989. Início do crescimento espontâneo em cima do estuário. Implantação do Porto de Imbetiba. Fonte: GEOMACAÉ (2008). Aerofotografia 5. Data: 1999. Descaracterização do estuário do rio Macaé. Fonte: GEOMACAÉ (2008). Atualmente, um dos maiores vetores de crescimento da cidade situa-se sobre o estuário, o que acarreta em uma diminuição na quantidade de pescado, influenciado pela perda de habitat para procriação e crescimento dos organismos marinhos, aliados a esse fator a sobre pesca e poluição urbana, fazem desse um grande problema enfrentado pelo governo atual e futuro no que diz respeito a sustentabilidade do município, principalmente após a finalização das atividades exploratórias de petróleo e gás na Bacia de Campos. As atividades humanas concentradas nessas áreas podem gerar outros tipos de estresse, podendo alterar completamente as condições naturais do meio (BONETTI, 2000). Almeida (2009) discute a falta de percepção ambiental de alguns alunos das escolas públicas localizadas próximas ao manguezal, o que comprova não só a descaracterização do ambiente, mas também a separação homem-natureza no tocante a esse ecossistema, que caracteriza, conforme Foster (2005), um estado de alienação. FUNÇÕES ECOSSISTÊMICAS E RELAÇÕES HOMEM-NATUREZA NO ESTUÁRIO
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 147 Segundo a definição de Dyer (1997, apud MIRANDA et al., 2002) os estuários são corpos de água costeiros semifechados, com uma livre ligação com o oceano aberto, estabelecendo-se rio acima até o limite da influência da maré, sendo que em seu interior a água do mar é mensuravelmente diluída pela água doce oriunda da drenagem continental. Diversos peixes e crustáceos utilizam o estuário como parte do seu ciclo de vida, entre eles o camarão-rosa Farfantepenaeus paulensis apresenta forte valor comercial na região norte-fluminense (IWAI, 1978). Assim sendo, as regiões comerciais de pesca dependem da conservação e da proteção dos estuários (BRAGA et al., 2005; MIRANDA, et al., 2002). O estuário, em especial o manguezal desempenha diversas funções naturais de grande importância ecológica e econômica, dentre as quais se destacam (SEMADS, 2001; HERCULANO & PACHECO, 2006): (i) Proteção da linha da costa: a vegetação atua contra a ação erosiva das ondas e marés; (ii) Retenção dos sedimentos carreados pelos rios; (iii) Ação depuradora: o ecossistema funciona como um filtro biológico; (iv) Fonte de matéria orgânica particulada e dissolvida para as águas costeiras adjacentes e (v) Renovação da biomassa costeira e reprodução de espécies. Costanza et al. (1997) relatam que os ecossistemas apresentam serviços e funções ecológicas que podem ser classificados quanto ao seu uso e valor para a sustentabilidade humana. Os estuários apresentam extrema relevância, pois participam em praticamente todos os serviços apresentados, destacando-se: refúgio e berçário das espécies, controle da linha da costa e inundações, ecoturismo, pescaria e recreação ao ar livre e ciclagem dos nutrientes. Muitas são as normas jurídicas existentes para defesa desse ecossistema. Porém, como afirma Leff (2000), elas mais sancionam as condutas individuais que geram efeitos nocivos no ambiente do que reorientam a racionalidade global do aproveitamento dos recursos naturais de propriedade comum. Com isso o processo de uso e ocupação do estuário passa a ser calcado na premissa de punição individual. Como a punição não aconteceu no início e Nem vem sendo praticada na atualidade, isso facilitou e vem facilitando a prática de apropriação das terras dentro das áreas protegidas por lei. O processo de ocupação do estuário em Macaé foi acelerado pela chegada da indústria petrolífera na Bacia de Campos, e em especial na cidade de Macaé, que foi escolhida para ser à sede dos processos de exploração. Como no fim da década de 70 as questões ambientais não estavam em voga, os princípios do discurso ambientalista não foram incorporados na prática política daquela época, gerando uma forte degradação ambiental e diminuição de qualidade de vida das populações locais, o que caracterizamos como impactos secundários dessa atividade. É visível o fato que em Macaé o homem se tornou alienado em relação ao ambiente natural, pois a busca pelo crescimento econômico individual e pelas riquezas materiais passa a ser o centro das atenções. Os pescadores, por terem co-evolucionado sustentavelmente com a natureza e assegurado à conservação da biodiversidade nos estuários (ALIER, 2007), são ou deveriam ser seus defensores. Porém, em Macaé, esse grupo está desarticulado e sem lutas visíveis em relação à defesa desse bem tão precioso. Muitas vezes, são os próprios pescadores os grandes culpados pela descaracterização desse ecossistema, pois jogam toneladas de óleo das embarcações no rio. Em Macaé também inexistem atualmente grupos articulados ligados a correntes do ativismo ambiental. Nesse sentido, as instituições educacionais que chegaram no Município, como Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IF Fluminense) e outras, passam a desempenhar papel importantíssimo na construção de feedbacks, contribuindo assim para uma articulação com os setores envolvidos direta e indiretamente com essas causas, necessária à construção da racionalidade ambiental, formulando e/ou sistematizando princípios conceitos e teorias que se articulam com os processos ecológicos, tecnológicos e sociais, os quais são a base de uma racionalidade produtiva alternativa (LEFF, 2000). Ao falarmos em exaustão dos recursos naturais, cabe ressaltar a parábola usada por Hardin (1968, apud Vieira et al., 2005) conhecida como “tragédia dos comuns”. Formulada inicialmente para explicar a superexploração de áreas de pastagens, num hipotético sistema de recursos comuns na Inglaterra medieval, pode ser aplicada aos dias atuais no Município de Macaé. Os indivíduos que
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 148 usam em conjunto o mesmo recurso são incapazes de se organizar e de se engajar numa ação coletiva, ou seja, “a liberdade no uso de recursos comuns provoca a ruína de todos”. Entretanto Vieira et al. (2005) considera que essa metáfora poderosa não chega a caracterizar muito bem o que acontece em muitos casos de recursos comuns, pois não leva em conta a existência de instituições e feedbacks. A organização seria um passo para evitar esse problema, fato que não está ocorrendo em Macaé. Segundo Vieira et al. (2005) os recursos de uso comum podem ser geridos sob um dos quatros regimes básicos de apropriação de recursos, entre eles: (i) livre acesso (geralmente a demanda excede a capacidade de renovação, sendo seu esgotamento inevitável); (ii) propriedade privada (tende a um incentivo para uso sustentável); (iii) propriedade estatal (na qual a quantidade de regulamentos, gera um descumprimento generalizado); e (iv) propriedade comunal ou comunitária (oferece o mais diversificado conjuntos de regulamentos, mas o crescimento populacional, mudanças tecnológicas e econômicas podem contribuir para a desestruturação dos mecanismos de exclusão). Na prática, os recursos tendem a ser controlados mediante combinações desses regimes, e existem variações em cada combinação (VIEIRA et al. 2005). Os direitos de apropriação de uso dos recursos naturais estão associados às perspectivas sobre as interações entre sistemas sociais e naturais. Os direitos de apropriação dos recursos de uso comum em níveis locais e geridos sob diferentes regimes de apropriação são definidos e analisados em diferentes possibilidades (VIEIRA et al. 2005). As características básicas na discussão sobre os recursos comuns são: (i) exclusão ou controle do acesso e (ii) problema de uso compartilhado. Os recursos que compartilham essas características tendem a ser susceptíveis ao esgotamento e a degradação, esse dilema tem sido chamado de a “tragédia dos comuns”, ou seja, a liberdade no uso de recursos comuns provoca a ruína de todos. Assim, apesar de existirem grupos organizados como colônia de pescadores e associações de moradores, o modelo de apropriação é caracterizado como livre acesso, tendo em vista que os incentivos para o uso sustentável dos recursos são fracos e praticamente inexistente. Além desse problema ainda existe a invasão do manguezal para construção de moradias, tanto de moradores de baixa renda como de condomínios de luxo. Nesse processo de “invasão” não existe nenhum interesse em conservar os recursos, pois ambos utilizam o rio Macaé como depositário de esgoto, logo a tendência nesse caso é o esgotamento dos principais organismos, acarretando em uma maior dificuldade para os indivíduos que dependem diretamente e indiretamente dos recursos biológicos desse ecossistema. Com isso, a atividade que um dia foi a principal fonte de renda do munípio, fica cada vez menos viável, o que implica no baixo interesse dos alunos do ensino fundamental do Colégio Municipal de Pescadores em desenvolver a pesca como atividade profissional. Entrevistas realizadas previamente mostraram que apenas 6% do total de alunos matriculados em 2010 possuem tal pretensão. Alguns estudos mostram que nem a gestão centrada exclusivamente no nível local e tampouco aquela centrada exclusivamente nos níveis mais altos funcionam bem por si mesmas. Como saída torna-se interessante apoiar instituições que permeiam as diversas escalas, denominadas por Vieira et al. (2005) como interações transescalares, que estão conectadas tanto horizontalmente (através do espaço) quanto verticalmente (através de níveis de organização). Além disso, quando há dificuldades em se fazer cumprir a legislação, acordos de co-gestão envolvendo os usuários de recursos pesqueiros e as instituições governamentais. Tais acordos podem contar ainda com a participação de organizações não-governamentais para desenvolvimento e empoderamento dos atores locais. Experiências análogas já foram tentadas em Macaé (como a formação da Rede Solidária da Pesca, a REDESCA, que contou com a participação da Colônia de Pescadores, de Instituições de Ensino e Pesquisa e do Poder Público, atualmente desarticulada). CONSIDERAÇÕES FINAIS Existem problemas no cumprimento da legislação federal, estadual e municipal no que concerne às questões ambientais relacionadas ao uso e a ocupação do estuário do rio Macaé. Os
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 149 indivíduos que usam em conjunto o estuário, seja para alimentar-se e/ou retirar sustento familiar, não estão conseguindo se organizar em uma ação coletiva para a conservação desse ecossistema. Fato esse que torna os recursos desse ecossistema susceptíveis ao esgotamento e à degradação. A falta de articulação entre os usuários é visível. A comunidade pesqueira de Macaé anda desestimulada com a situação do futuro da profissão e sem interesse em iniciar qualquer tipo de intervenção e se engajar numa ação coletiva, fato que sugere que os recursos desse ecossistema estão susceptíveis. É papel das instituições de ensino e pesquisa, como IF Fluminense, UFRJ e outras, localizadas no Estado do Rio de Janeiro, a produção de feedbacks de forma flexível, aberta e atualizada. Um exemplo desse tipo de procedimento é o monitoramento constante da situação ambiental desse ecossistema. Muitas informações já foram produzidas no Município, porém a grande maioria está relacionada ao Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, pouco se sabe sobre a situação ambiental do estuário do rio Macaé, um ecossistema frágil e de suma importância para a economia da Região. A continuidade dessas ações e a não participação da comunidade na elaboração de regulamentos, interligando os diferentes usos do estuário e dos recursos pesqueiros e disciplinando as intervenções, como elaboração de normas explícitas e punições podem levar a um colapso do ecossistema, influenciando deleteriamente as atividades econômicas locais ligadas à pesca. Como recomendações, acreditamos que retomar os procedimentos que viabilizem os acordos de co-gestão entre a comunidade (notadamente os pescadores), instituições da sociedade civil e governos, que priorizem o poder formal, compartilhado em parceria, deveria ser uma medida urgente para mitigar tal problema. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALIER, J. M. 2007. O Ecologismo dos pobres. Conflitos ambientais e linguagens de valoração. Editora Contexto. São Paulo. 2007. AMARAL, K. J. Estuário do rio Macaé: Modelagem computacional como ferramenta para o gerenciamento integrado de recursos hídricos. Tese de mestrado em Engenharia Civil, COPPE/UFRJ. Rio de Janeiro. 2003. p-53. BONETTI, C. V. D. H. C. 2000. Foraminíferos como bioindicadores do gradiente de estresse ecológico em ambientes costeiros poluídos. Estudo aplicado ao sistema estuarino de Santos - São Vicente (SP, Brasil). Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, Instituto Oceanográfico, 229 p. BRAGA, B.; et al. Introdução à engenharia Ambiental. 2ª ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005, 23p. BRASIL. Lei n. 4.771 de 15 de setembro de 1965. Institui o Novo Código Florestal. Brasília. DOU 16.09.1965. CIDE (1994). Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro. Percentual das áreas, por tipo de uso do solo, segundo os municípios. Disponível em http://www.cide.rj.gov.br/tabelas/CoberturaVegetal.htm. Acesso em: 24 de junho de 2009. COSTANZA et al. (1997). The value os the world`s ecosystem services and natural capital. Nature. Vol. 387. FOSTER, J. B. 2005. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. LEFF, E. 2000. Ecologia, Capital e Cultura. Racionalidade Ambiental, Democracia Participativa e Desenvolvimento Sustentável. Edifurb. 2000. IPEA. PAULA, G. (2008). Desafios do desenvolvimento. A revista mensal de informações e debate do PNUD. Disponível em : <http://www.ipea.gov.br/desafios/edicoes/29/artigo37746- 3.php> Acesso em: 16 dezembro de 2008. GALLOTTI, F. T. Iniciação em sensoriamento remoto. 2a Edição. Oficina de Textos. São Paulo. 2007. GEOMACAÉ. 2008. Secretaria Municipal Especial de Planejamento e Gestão. Macaé. Rio de Janaeiro.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 150 HERCULANO, S.; PACHECO, T. (2006). Racismo Ambiental. I Seminário Brasileiro contra o Racismo Ambiental. Walprint Gráfica e Editora Ltda. Rio de Janeiro – RJ, 100-48p. IWAI, M. 1978. Desenvolvimento larval e pós-larval de Penaeus (Melicertus) paulensis Pérez Farfante, 1967 (Crustacea, Decapoda) e o ciclo de vida dos camarões do gênero Penaeus da região centro-sul do Brasil. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. p. 138. LACERDA, L. D.; MOLISANI, M. M.; SENA, D.; MAIA, L. P. 2008. Estimating the importance of natural and anthropogenic sources on N and P emission to estuaries along the Ceará State Coast NE Brazil. Environ. Monit. Assess. (2008) 141:149–164. MACAÉ. 2009. Macaé: petróleo e desenvolvimento. Disponível em <http://www.macae.rj.gov.br/municipio/macaeped.asp>. Acesso em 15 de julho de 2009. MIRANDA, L. B., CASTRO, B. M., KJERFVE, B. 2002. Princípios de Oceanografia Física de estuários. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 25-424p. SILVA. R. M. Introdução ao Geoprocessamento. Conceitos, técnicas e aplicações. Editora FEEVALE. Novo Hamburgo. RS. 2007. SOFFIATI, A. Os manguezais do Sul do Espírito Santo e do Norte do Rio de Janeiro (no prelo). 2007. VIEIRA, P. F., BERKES, F., SEIXAS, C.S. Gestão Integrada e Participativa de Recursos Naturais: Conceitos, Métodos e Experiências. Florianópolis: APED, 2005. Capítulo 1 e 9. WELLS, P. G. 1999. Biomonitoring the Health of Coastal Marine Ecosystems – The Roles and Challenges of Microscale Toxicity Tests. Marine Pollution Bulletin. Voll.39, Nos. 1-12, p39.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 151 O USO DA AULA DE CAMPO COMO MECANISMO INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Joel Maciel Pereira CORDEIRO Professor de Geografia (substituto) do ensino fundamental da escola “Ulisses Maurício de Pontes” – Sertãozinho, PB. Graduando em Geografia pela UEPB Joelmacielbig_all@hotmail.com Josenilson Soares BASÍLIO Professor de Ciências do ensino fundamental da escola “Ulisses Maurício de Pontes” – Sertãozinho, PB. Graduado em Geografia pela UEPB, Biologia pela UVA e Especialista em Agroecologia pela UFPB josenilsonsoares@hotmail.com RESUMO Este trabalho discute as contribuições das aulas de campo para motivar a aprendizagem do aluno em relação ao conhecimento ambiental, porque é comum, hoje em dia, encontrar alunos e professores reclamando que a sala de aula é um ambiente cansativo e pouco atrativo. A aula de campo por sua vez, constitui um importante elemento que facilita no processo ensino-aprendizagem ao comparar a teoria com a prática e simplificar assuntos que, às vezes, tornam-se tão complexos. Contribui para enriquecer a discussão acerca da temática e dinamiza o trabalho do professor. Experiências pessoais de emoções e sensações vivenciadas durante aulas de campo justificam a elaboração deste trabalho, pretendendo, portanto, contribuir para incentivar o desenvolvimento de iniciativas que dotem as instituições de ensino de capacidade técnica e de infraestrutura adequada para realização de tais atividades. Através de resultados de uma pesquisa com alunos do 6º ano do ensino fundamental da escola municipal “Ulisses Mauricio de Pontes” em Sertãozinho, no estado da Paraíba e do posicionamento de diferentes autores sobre o tema, procurou-se por meio da análise, distinguir pontos básicos necessário ao desenvolvimento do tema – o uso da aula de campo como mecanismo interdisciplinar no ensino da educação ambiental – demonstrando um recurso interessante para valorizar o ensino da educação ambiental e uma possibilidade de inovação para o trabalho do professor, além de levar a compreensão de que a educação ambiental não se limita apenas a algumas disciplinas, bem como a páginas de um livro ou a quatro paredes de uma sala de aula, mas sim a todas as áreas do conhecimento e em todo o espaço que nos cerca. PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Interdisciplinaridade. Motivação. Aula de campo. ABSTRACT This paper discusses the contributions of field classes to motivate students that are learning about the environmental knowledge, because it’s common, nowadays, to find students and teachers complaining that classrooms are boring and unattractive. The class field is an important strategy that helps the teaching-learning process by comparing theory with practice, simplifying issues that sometimes seem to be so difficult. It helps to enrich discussions about the theme and makes teachers' practice more interesting. Personal experiences, emotions and sensations experienced during field classes justify the production of this work, intending thus to encourage the development of political initiatives which may bring educational stuff to the schools, infrastructure for conducting such activities. Through the results of a survey with the 6th year atudents of an elementary school, The Municipal School Ulisses Maurício de Pontes in Sertãozinho- Paraíba. That’s why a research in different authors that discuss this subject, through it we wanted to distinguish basic points os the development of our subject - the use of class field as an interdisciplinary mechanism to environmental education teaching - demonstrating a nice feature to enhance the environmental education teaching and an opportunity for innovation of the teacher's work and it also leads to understanding that the environmental education is not limited to certain subjects, as well as the pages of a book or the four walls of a classroom, but to all areas of knowledge and all the space around us.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 152 KEYWORDS: Environmental education. Interdisciplinarity. Motivation. Class field. A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E OS TRABALHOS DE CAMPO Na escola, no contexto atual, é comum encontrarmos professores reclamando do desinteresse dos alunos. É de se considerar que os elementos encontrados no ambiente escolar no qual os alunos se deparam todos os dias – salas de aulas cercadas por quatro paredes, carteiras onde os alunos assistem às aulas sentados e observando constantemente o professor, o quadro negro e um giz – transformam o ensino em algo monótono e cansativo. O professor de geografia e de ciências/biologia, bem como das demais áreas do conhecimento, tem a sua disponibilidade diversos métodos que podem ser aplicados dentro e fora da sala de aula para auxiliar na aprendizagem do aluno e dinamizar o ensino da educação ambiental. Dentre os métodos para auxiliar no ensino da educação ambiental, as aulas de campo aparecem como um instrumento eficiente para o estabelecimento de uma nova perspectiva na relação aluno/aprendizagem, pois o aluno passa a “ver” o meio ambiente em vez de apenas “ler” o meio ambiente, permitindo assim, uma maior compreensão da influência que exerce neste ambiente, assim como passam a compreender melhor a influência dos fatores ambientais em sua vida. De acordo com Brasil (1998, p. 126) “Esses trabalhos contemplam visitas planejadas a ambientes naturais, a áreas de preservação ou conservação, áreas de produção primária (plantações) e indústrias, segundo os diferentes planos de ensino do professor”. E ainda complementam: Além de unidades de conservação, deve-se considerar a riqueza do trabalho de campo em áreas próximas, como o próprio pátio da escola, a praça que muita vezes está a poucas quadras da escola, as ruas da cidade, os quintais das casas, os terrenos baldios e outros espaços do ambiente urbano, como a zona comercial ou industrial ou da cidade [...] (BRASIL, op cit, p. 126). Com relação à educação ambiental, as aulas de campo constituem um elemento importante para superar as dicotomias existentes entre a teoria exposta em sala de aula e a prática advinda das aulas de campo, bem como a integração entre as várias áreas do conhecimento. A atividade de campo passa a ser um momento de construir e de compartilhar o novo com o aluno e de aproximar o conhecimento teórico, lógico, ao experienciado, ao empírico. Ela também dá sentido e prazer ao fazer pedagógico, a que se propõe o educador (MATHEUS, 2007, p. 143). Para Lacoste (2006, p. 85) as excursões por ônibus durante a qual os professores, nas diferentes paradas que previam no percurso, fazem um discurso diante dos estudantes passivos, são importantes, porém insuficientes por servirem apenas de iniciação à pesquisa. Em contrapartida, Alentejano e Rocha-Leão fazem a seguinte observação diante das afirmações de Lacoste: Ao nosso ver, se estas excursões forem previamente preparadas, instigando-se os alunos a problematizar o que vão ver, a preparar o que vão perguntar e refletir acerca do que vão observar, podem representar uma importante contribuição para o processo de formação destes como pesquisadores (ALENTEJANO e ROCHA-LEÃO 2006, p. 63). Pode-se observar ainda, a importância de uma orientação pedagógica necessária a utilização adequada da dialética e os trabalhos de campo. “A didática devia comportar uma oscilação dialética entre o campo e os exercícios na sala de aula: estudos de documentos, exposições orais, discursos [...]. Após o campo, é necessário extrair conclusões, ampliar conhecimentos.” (TRICART, 1985, p.117). Assim, objetivou-se descrever no presente artigo, as diversas contribuições que as aulas de campo podem oferecer para transformar o ensino da educação ambiental em um dos temas mais atraentes para os alunos de todos os níveis de ensino e, principalmente, incentivar o desenvolvimento de iniciativas que dotem as instituições de ensino de capacidade técnica e de infraestrutura adequada para a realização de tais atividades.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 153 Materiais e métodos Para realizar o trabalho foram efetuadas pesquisas com 32 alunos, de idade entre 9 e 12 anos, matriculados na época em uma das turmas de 6º ano do ensino fundamental da Escola Municipal de Ensino Fundamental “Ulisses Mauricio de Pontes” em Sertãozinho, no estado da Paraíba. Houve-se primeiramente, um diálogo com os alunos da turma a respeito dos conteúdos que sequencialmente seriam estudados, depois, discutiu-se a proposta da realização de uma aula de campo após os mesmos aprofundarem-se nos conteúdos preestabelecidos. Em um primeiro momento foram desenvolvidas aulas teóricas na escola, e duas semanas depois, aulas de campo em região circunvizinha à cidade. Nas duas etapas foram abordadas as seguintes áreas de conhecimento: degradação do meio ambiente, biogeografia, biodiversidade e vegetações brasileiras (em especial a mata atlântica e a caatinga). Em classe, os conteúdos foram sobrepostos através de aulas expositivas dialogadas, atividades de leitura de textos e trabalhos pesquisados em equipes, além de apresentações em DVD de algumas imagens referentes aos temas discutidos. Ao levar a turma a campo pretendia-se mostrá-los as espécies vegetais da caatinga e mata atlântica que podem ser encontradas no espaço vivenciado pelos alunos e suas respectivas classificações (xerófitas, caducifólias, perenifólias). Almejava-se integrar os estudantes e os professores em torno da preservação desses biomas para a garantia e sobrevivência da diversidade de espécies animais e vegetais que correm o risco de desaparecer devido à degradação desses ecossistemas pelo homem, despertando, contudo, a conscientização ecológica dos mesmos ao fazê-los enxergar e sentir de perto a natureza, assim como os problemas provocados no meio ambiente pela ação humana. O lugar da aula de campo foi escolhido de forma intencional por ser próximo à cidade e por atender as exigências dos conteúdos pressupostos em sala de aula: havia diversas espécies vegetais da caatinga, como a jurema preta (Mimosa nigra), o juazeiro (Zizipus joazeiro), mandacaru (Cereus jamacaru), sabiá (Mimosa sp) e da mata tropical a exemplo do pau d’arco (Tabebuia sp) e o cajueiro (Anacardium occidentale), além de um açude onde havia indícios de resíduos sólidos depositados no mesmo. Também podiam ser vistos algumas espécies de animais como o anu (Crotophaga ani), a jaçanã (Jacana spinosa) e alguns insetos. Após a aula de campo foram levantadas discussões em sala de aula com os alunos, organizadas em círculos, onde seriam debatidos alguns elementos analisados no decorrer da aula de campo, despertando desta forma, a interação dialética do aluno com o professor e a turma, ao instigá-los a dar suas opiniões, fazer suas críticas ou comentários sobre os temas abordados. E por fim, foi sobreposto um questionário aos alunos para analisar o conhecimento sobre os conceitos estudados, bem como suas observações a respeito do ambiente visitado, além das emoções e motivação com relação ao conhecimento ambiental despertados com a aula de campo. A motivação acompanha o conhecimento biogeográfico do meio ambiente Uma saída a campo constitui um elemento fundamental para dinamizar o ensino da biogeografia e integrar os alunos nas questões ambientais, pois a diversidade de elementos encontrados no espaço observado influencia na curiosidade do aluno e na aprendizagem de coisas novas, assim como favorece o diálogo e uma melhor relação entre professores e alunos. “O dia da saída em geral é uma festa; a alegria de uma aula fora das quatro paredes é sempre vivida com muito entusiasmo” (MARTINS, Ano 3, nº 14, p. 63). Por situar-se próximo à escola, o percurso da aula de campo foi realizado através de caminhadas desde o inicio. Era notável a ansiedade dos alunos e a curiosidade em aprender mais sobre os elementos observados: “professor, que árvore é aquela?”; “a qual classificação pertence àquela árvore?”; “professor, por que as árvores da caatinga perdem as folhas durante a estação seca?”; “professor, ali tem um cácto, ele é da caatinga, não é?”. “Sair do ambiente escolar, por si só, gera um efeito geralmente positivo sobre o interesse dos alunos pelo conteúdo” (FARINA e GUADAGNIN, 2007, p. 111).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 154 No campo eram colhidas amostras de folhas e galhos de plantas, sendo explicado aos alunos algumas características que as classificassem como pertencentes a caatinga ou a mata pertencentes tropical. Também foi esclarecido aos alunos que a intervenção humana nesses biomas com práticas de queimadas e derrubadas da vegetação nativa vem a cada dia pondo em risco as espécies de seres vivos que dependem desse ambiente para sobreviver. Ao observar o açude notava ambiente notava-se que haviam resíduos sólidos depositados no mesmo (isopor, garrafas pet, sacolas plásticas), e este problema servia de base para explicar aos alunos sobre as conseqüências da degradação do meio ambiente para o ser humano. As atividades realizadas no decorrer da aula de campo demonstraram satisfatórias junto demonstraram-se aos objetivos preestabelecidos. É de se concordar que: Além da fuga das paredes escolares (fundamental, sadia e necessária), que já serve como uma mo motivação para o trabalho e para o surgimento de interesse, o estudo de caso específico tem como retorno imediato a atribuição de significado ao conteúdo que esta sendo estudado (FARINA e GUADAGNIN, 2007, p. 118). onteúdo A aula de campo é um componente didático que não tem como ser separado da que sensação de lazer, ansiedade, angústia e novidade. É nessa perspectiva que considero importante sair do espaço escolar, mais formal, com papeis definidos e cadeiras ordenadas, para um local que nos permita desfrutar emoções compartilhar, cantar, rir, emoções, quem sabe proporcionar um novo olhar ao que já está dado (MATHEUS, 2007, p. 142) 142). Através destas atividades observou-se que as aulas de campo despertam a motivação do se aluno e contribuem para aproximar o mesmo do conhecimento biogeográfico, ou seja, ambiental , ambiental. Tanto nas discussões em sala de aula, como no questionário, ao questioná ao questioná-los sobre o que eles mais gostaram na aula de campo, obteve se como resultado respostas bem diversificadas, desde obteve-se a análise da paisagem, observar a natureza, os animais e as espécies vegetais, até respostas natureza, relacionadas a aspectos emocionais como diversão e tranquilidade, conforme aparece no gráfico I: mocionais tranquilidade, Gráfico I: Frequência de justificativas apresentadas pelos alunos com relação à seguinte questão: “O que ência você mais gostou na aula de campo?” No questionário foi elaborada uma questão para analisar quais os aspectos da paisagem observada atraiu mais a atenção do aluno: “V cê achou o lugar visitado: feio ( ); bonito ( ); por “Você quê? 31 alunos responderam que acharam o lugar bonito e apontaram diversas justificativas: “porque é um lugar calmo, cheio de plantas e animais”; “porque é uma paisagem natural e tranquila”; “por causa da natureza”; “porque o açude é enorme e tem muitas árvores” 2 alunos usa árvores”.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 155 consideraram o lugar feio e apontaram a poluição do açude como fator fundamental para suas conclusões: “porque o açude estava poluído”; “porque havia lixo no açude”. A partir do observado evidenciou-se a importância da utilização das aulas de campo se para estabelecer uma relação entre teoria e prática, permitindo aos alunos vivenciarem aquilo que foi prescrito em sala de aula, comprovando as diferenças e semelhanças da realidade biogeográfica dos lugares visitados, aproximando, portanto, o alunado dos temas expostos. Desta forma, foram elaboradas mais três questões para analisar o aproveitamento e assimilação dos conteúdos pelos alunos. Ao questioná-los: “Quais os elementos do conteúdo visto em sala de aula você observou no conteúdo decorrer da aula de campo?”, 26 alunos conseguiram estabelecer de forma coerente a relação entre a teoria pressuposta em sala de aula com a aula prática desenvolvida no ambiente extra essuposta extra-escolar: “as plantas da caatinga e da mata atlântica: cajueiro, jurema, juazeiro”; “plantas caducifólias, xerófitas, inga árvores da mata atlântica”; “árvores caducifólias como a jurema preta e a sabiá”; “as plantas da rvores caatinga como o cácto que tem espinhos no lugar de folhas”; “a degradação do meio ambiente, as cto degradação árvores da caatinga e da mata atlântica”. De acordo com Alves (2008 p. 63), as espécies vegetais da depressão sublitorânea (na qual (2008, ), Sertãozinho faz parte) mostram se acatingadas, com a maioria das espécies caducifólias e mostram-se espinhosas. E ainda ressalta: Ao lado das espécies da caatinga, encontra-se espécies da mata úmida, s. o que talvez indique o seu caráter de transição entre esses biomas. eu No questionário foi solicitado que os alunos caracterizassem as espécies da caatinga e da mata atlântica e depois dessem alguns exemplos: 22 alunos caracterizaram as espécies da caatinga e deram exemplos: “tem espinhos e folhas pequenas. O juazeiro e a jurema preta”; “tem espinhos e algumas não tem folhas como o mandacaru”; “a jurema e a sabiá, porque tem espinhos e perdem as porque folhas no verão”; 9 alunos deram apenas os exemplos e 2 alunos deixaram a questão em branco. Com relação à mata atlântica, 18 alunos caracterizaram as espécies de forma coerente: “o cajueiro porque é perenifólia e tem as folhas grandes”; “tem folhas grades e são verdes o ano grandes”; inteiro, por exemplo: o cajueiro e o pau d’arco”; “elas são grandes e sempre verdes como o pau d’arco e o pau-brasil”; 7 alunos deram apenas os exemplos e 8 responderam de forma incorreta ou deixaram a questão em branco. 22 18 9 8 7 2 Caracterizaram as Deram apenas os Deixaram a questão em espécies de forma exemplos branco ou correta e deram os responderam de forma exemplos incorreta Gráfico II – Comparação das respostas sobre a caracterização das formações vegetais: caatinga e mata atlântica. Como se pode observar no gráfico II, houve uma diferença no número de respostas correta com relação às características da caatinga e da mata atlântica. De certa forma, no ambiente da aula caatinga de campo havia uma maior ocorrência em número e diversidade de espécies da caatinga que da mata tropical, o que talvez tenha influenciado nas respostas. Alguns alunos inclusive deram
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 156 exemplos de espécies da mata atlântica que não estavam presentes no lugar observado, como o pau- brasil (Caesalpinia echinata) e a pitombeira (Talisia esculenta). A aula de campo: uma atividade complementar Por tudo o que foi mencionado, torna-se conveniente considerar a educação ambiental como uma dos temas interdisciplinares mais adequadas para a utilização das aulas de campo como metodologia de ensino. Se esse método desencadeia diversos aspectos positivos – relacionam a teoria com a prática, proporciona uma melhor compreensão do espaço, quebra a rotina dos estudos, motivam o interesse pelo tema em questão – é adequado que o educador passe a utilizar mais as aulas de campo para minimizar a banalização das questões ambientais na sociedade, bem como na comunidade escolar. Entretanto, vale salientar que apenas as aulas de campo não são suficientes para despertar o interesse do aluno pela preservação ambiental, a integração das disciplinas/áreas do conhecimento, exerce papel crucial nesse despertar. Para isso, a preocupação ambiental inserida nas várias áreas do saber é decisiva. [...] As áreas de Ciências Naturais, História e Geografia são as tradicionais parceiras para o desenvolvimento dos conteúdos aqui relacionados, pela própria natureza dos seus objetos de estudos. Mas as demais áreas ganham importância fundamental, pois, cada uma, dentro da sua especialidade, pode contribuir para que o aluno tenha uma visão mais integrada do ambiente (BRASIL,1998, p. 194). A sala de aula é o lugar em que o educador convive com seus alunos, é a partir desse ambiente que o professor deve compartilhar com os estudantes o conhecimento ali (no campo) desenvolvido. O professor deve transformar a aula em um espaço aberto para o diálogo, as discussões, as críticas e reflexões dos alunos diante dos temas abordados, bem como “fazer com que o aluno perceba qual a importância do espaço, na constituição de sua individualidade e da(s) sociedade(s) de que ele faz parte (escola, família, cidade, país, etc.)” (KAERCHER 2004, p. 223), obtendo assim, resultados mais significativos no desenvolvimento do interesse do aluno pelo meio ambiente. Considerações finais As contribuições que as aulas de campo proporcionam ao trabalho do professor e o auxílio que elas propõem para a compreensão dos conteúdos pelos alunos, demonstram que esse método deveria ser mais usado nas instituições de ensino para aumentar a valorização dos conteúdos – em particular a educação ambiental - abordados nas salas de aulas. As inovações associadas à interdisciplinaridade são muito proveitosas para que o estudante compreenda os assuntos de forma mais agradável e satisfatória. As aulas de campo, como alternativa de inovação e interdisciplinaridade, ajudam o aluno a analisar e refletir sobre a interferência humana no meio ambiente que o cerca, contribuindo para desenvolver a capacidade de interagir com o conhecimento e com a vida em sociedade. Por isso é de fundamental importância o desenvolvimento de iniciativas que dotem as instituições de ensino de capacidade técnica e de infraestrutura adequada para realização dos trabalhos de campo. Somando a vontade e determinação dos professores com os diversos métodos e inovações que motivam os alunos a conhecer melhor o meio ambiente, esse tema tende a se tornar um dos mais interessantes, admirados e respeitados pelos alunos em todos os estágios de ensino. REFERÊNCIAS ALENTEJANO, Paulo R. R.; ROCHA-LEÃO, Otávio M. Trabalho de campo: uma ferramenta essencial para os geógrafos ou um instrumento banalizado? In: Boletim Paulista de Geografia: trabalho de campo, nº 84. São Paulo: AGB, 2006; pp. 51-67 ALVES, J. J. Amâncio. Biogeografia. João Pessoa; Ed. Do Autor, 2008 BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências Naturais. Secretaria de Educação Fundamental – Brasília: MEC/SEF, 1998
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 157 _________. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos: Apresentação dos temas transversais – Brasília: MEC/SEF, 1998 FARINA, B. C.; GUADAGNIN, F. Atividades práticas como elementos de motivação para a aprendizagem em geografia ou aprendendo na prática. In: REGO, N.; CASTROGIOVANNI, A. C.; KAERCHER, N. A. (ORG.). Geografia - práticas pedagógicas para o ensino médio. Porto Alegre: Artmed, 2007; pp. 111-119 KAERCHER, N. A. O gato comeu a geografia crítica? Alguns obstáculos a superar no ensino-aprendizagem de geografia. In: PONTUSCHKA, N. N.; OLIVEIRA, A. U. de (ORG.). Geografia em perspectiva: ensino e pesquisa. 2ª ed – São Paulo: Contexto, 2004; pp. 221-231 LACOSTE, Yves. A pesquisa e o trabalho de campo: um problema político para os pesquisadores, estudantes e cidadãos. In: Boletim Paulista de Geografia: trabalho de campo, nº 84. São Paulo: AGB, 2006; pp. 77-92 MARTINS, Dadá. Além dos muros da escola: como o estudo do meio pode ajudar na propagação do conhecimento. In: Discutindo geografia, ano 3, nº14. Escala Educacional; pp. 62-63 MATHEUS, E. H. C. O que há por trás de uma panela? Uma atividade de campo como trajetória a um olhar geográfico. In: REGO, N.; CASTROGIOVANNI, A. C.; KAERCHER, N. A. (ORG.). Geografia - práticas pedagógicas para o ensino médio. Porto Alegre: Artmed, 2007; pp. 135-148 TRICART, Jean. O campo na dialética da Geografia. In: Associação de Geógrafos Brasileiros – AGB. Reflexões sobre a Geografia. São Paulo: AGB, 1980; pp. 97-119
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 158 O USO DE CARTILHA COMO INSTRUMENTO DE INFORMAÇÃO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SANITÁRIA DIRECIONADO À COMUNIDADE TRADICIONAL DA APA DO MARACANÃ NO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS/MA Luciana da Silva BASTOS lucianabastos79@gmail.com Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA thais.eline@gmail.com Lorena Santos GONÇALVES lorenaangitur@hotmail.com.br Hadryan Lima RODRIGUES hadryan11@yahoo.com.br Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / 2 Curso de Especialização em Educação Ambiental da UEMA - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil. RESUMO A Área de Proteção Ambiental do Maracanã, constitui-se em Unidade de Conservação de Uso Sustentável, abrangendo cerca de 1.8131 hectares (VASCONCELOS, 1995). A APA do Maracanã, a exemplo de reservas extrativistas do norte do país, pode se aproveitar da exploração da Euterpe oleracea Mart., a juçara, como atrativo turístico, pois o modo de extração e preparação da bebida típica desta fruta é conhecido por grande parte da população, principalmente, na ocasião da Festa da Juçara (MENDES, 2007). O objetivo desse trabalho é realizar ações de Educação Ambiental com produtores do vinho da juçara do Parque da Juçara na APA do Maracanã, São Luis – MA, utilizando como instrumento didático-pedagógico uma cartilha educativa sobre as boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados. A cartilha Saiba como preparar a Juçara abordou os seguintes temas: Perigos na produção do vinho de juçara (doença de chagas, doenças de transmissão hídrica), e as Boas práticas na produção do vinho de juçara - Passo a passo como produzir vinho de juçara com qualidade (Colheita, debulha, armazenamento, transporte, processamento da juçara, acondicionamento e coleta de resíduos, manipuladores). Sugeriram-se também algumas dicas visando os cuidados na lavagem de reservatórios e como lavar as mãos. PALAVRAS-CHAVE: Festa da Juçara, cartilha educativa, Educação, APA do Maracanã. ABSTRACT The Environmental Protection Area of Maracana, it constitutes a Conservation Unit of Sustainable Use, covering approximately 1.8131 hectares (Vasconcelos, 1995). APA Maracana, the example of extractive reserves in the north, can take advantage of the exploitation of Euterpe oleracea Mart. The juçara, as a tourist attraction, because the mode of extraction and preparation of the typical drink of this fruit is known by most population, mainly in the Feast of Juçara (MENDES, 2007). The aim of this work is to perform actions on Environmental Education with wine producers of the juçara Park Juçara the APA Maracanã, São Luis - MA, using as didactic and pedagogic an educational booklet on good hygiene and sanitary practices in handling and marketing the juçara and its derivatives. The booklet Learn how to prepare the Juçara covered the following topics: Dangers in the production of wine juçara (Chagas' disease, waterborne diseases), and Best practices in wine production juçara - Step by step how to produce wine with juçara quality (Harvesting, threshing, storage, transportation, processing juçara, packaging and collection of waste handlers). It also suggested some tips aimed at the care and cleaning of reservoirs such as hand washing. KEYWORDS: Festival Juçara, educational booklet, Education, APA Maracana.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 159 1 INTRODUÇÃO Uma Área de Proteção Ambiental (APA) é em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotadas de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. (Legislação Brasileira do Meio Ambiente, 2002). A Área de Proteção Ambiental do Maracanã, constitui-se em Unidade de Conservação de Uso Sustentável, abrangendo cerca de 18.131 hectares (VASCONCELOS, 1995). A APA do Maracanã, a exemplo de reservas extrativistas do norte do país, pode se aproveitar da exploração da Euterpe oleracea Mart., a juçara, como atrativo turístico, pois o modo de extração e preparação da bebida típica desta fruta é conhecido por grande parte da população, principalmente, na ocasião da Festa da Juçara (MENDES, 2007). A Festa da Juçara surgiu em 1970, idealizada pela então secretária de educação e ação comunitária da prefeitura de São Luís e engenheira agrônoma Rosa Mochel, moradora do bairro Maracanã situado na zona rural de São Luis – MA. Ao observar a abundante produção de juçara no local e seu pequeno mercado consumidor, insuficiente para o escoamento de toda a produção, Rosa Mochel resolveu organizar uma festa que acabasse com esse problema e pudesse trazer uma renda extra para a população local. Em outubro desse mesmo ano realizou-se a primeira Festa da Juçara. Em 2009 a festa comemora a sua 39ª edição. O Parque da Juçara possui uma área total de cinco hectares com a presença de trinta e três barracas de alvenaria. É válido ressaltar que o trabalho do manipulador de alimentos é fundamental para garantir produtos mais seguros e proteger a saúde dos consumidores, sendo importante investir em ações contínuas de Educação Sanitária e Ambiental com esse público específico. Assim, torna-se indispensável uma cartilha didática significativa, capaz de sensibilizar as pessoas que manipulam a juçara, desde o momento da coleta do fruto até o momento da destinação final do vinho ao consumidor, reconhecendo boas práticas. Nunes (2004) ressalta que a educação Ambiental é uma aliada fundamental no processo de conscientização individual e coletiva, comprometida com a realidade vivenciada, na busca de mudanças comportamentais que garantam a sustentabilidade da vida. De acordo com Teixeira (apud BRASIL, 2001, p.3) “a informação representa um fator fundamental para identificar, prevenir, mitigar e reverter efeitos adversos que comprometem a saúde e o bem-estar das comunidades”. Dias (apud COSTA, 2003, p.26), refere-se à educação ambiental como uma forma de prática educacional sintonizada com a vida da sociedade e, só pode ser efetiva, se todos os membros da sociedade participarem, de acordo com suas habilidades, das completas e múltiplas tarefas de melhoria das relações das pessoas com seu ambiente. Esse trabalho objetivou realizar ações de Educação Ambiental com produtores do vinho da juçara do Parque da Juçara na APA do Maracanã, São Luis – MA, utilizando como instrumento didático-pedagógico uma cartilha educativa sobre as boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados. 2 PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS A ação educativa desenvolvida realizou-se através de entrega de cartilha educativa sobre boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados e conversa informal com cada barraqueiro. Na escolha da cartilha como forma de repassar as informações foram levados em consideração: A necessidade de material gráfico a ser utilizado nas atividades profissionais realizadas e o fato de a cartilha oferecer além da linguagem escrita, uma linguagem visual de fácil entendimento do conteúdo do leitor. A utilização de ilustração permite o envolvimento dos manipuladores com o texto, tornando prazerosa a aquisição destas informações, atraindo assim a
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 160 atenção destes leitores. O cuidado com esses detalhes teve como objetivo a fácil leitura e entendimento do texto. A cartilha Saiba como preparar a Juçara foi elaborada destinada aos produtores do vinho da juçara e vêm justamente com a intenção de possibilitar a esse público conhecimentos básicos e importantes sobre boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados. Nesse contexto, enfocou-se os seguintes temas: Perigos na produção do vinho de juçara (doença de chagas, doenças de transmissão hídrica), e as Boas práticas na produção do vinho de juçara - Passo a passo como produzir vinho de juçara com qualidade de acordo com o fluxograma a seguir. FLUXOGRAMA Colheita Debulha Armazenamento Transporte Processamento da juçara Acondicionamento Coleta de resíduos Manipuladores Sugeriram-se também algumas dicas visando os cuidados na lavagem de reservatórios e como lavar as mãos. Na confecção da cartilha foram utilizados o formato 16 (15x21cm), encadernação tipo canoa, colorida (policromia), com 20 páginas. Neste cenário, a Educação Ambiental e Sanitária tem um papel importante a exercer sensibilizando para a importância da adoção de boas práticas, quebrando o distanciamento entre sujeito e objeto da pesquisa, partiu-se da realidade local para a elaboração da cartilha, como instrumento educacional. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Dentre os instrumentos atualmente utilizados como veículos na transmissão de informação que possam conscientizar, sensibilizar e promover reflexão das pessoas,as cartilhas tem merecido destaque, uma vez que de uma forma prática e concisa, conseguem transmitir de maneira agradável os conhecimentos básicos sobre o assunto.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 161 Considerando a importância da implantação de boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização de suco de juçara, a suspeita de ocorrência de surto de Doença de Chagas Aguda transmitida por alimentos contaminados com Trypanosoma cruzi e a característica altamente perecível do fruto, elaborou-se essa cartilha trazendo informações úteis que vão ajudar os comerciantes e manipuladores a produzir esses alimentos mais seguros e de forma a prevenir possíveis danos à saúde dos consumidores. Figura I – Capa da cartilha O ministério da Educação (2001b) ressalta que, embora recomendada por todas as conferências internacionais, exigida pela constituição e declarada como prioritária por todas as instancias do poder, a Educação Ambiental está longe de ser uma atividade tranquilamente aceita e desenvolvida, porque ela implica mudanças profundas e nada inócuas. Ao contrário, quando bem realizada, a Educação Ambiental leva a mudanças de comportamento pessoal e a atitudes e valores de cidadania que podem ter fortes conseqüências sociais. Nesse ponto é importante ressaltar que atingir o grande público no que se refere ao conhecimento sobre boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados da comunidade tradicional da APA do Maracanã e, portanto, da Educação Ambiental, só será possível se recorrermos a grupos de ligação, grupos diferenciados por sua ligação social e profissional como indicam ZIAKA et al. (2003). Assim, é importante a continuidade de ações educativas na área, visando à qualidade de vida dos produtores e consumidores dessa festa.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 162 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A discussão em torno dos conteúdos a constar na cartilha, dentro da concepção de investigação-ação, mostrou-se essencial por permitir discutir e esclarecer à comunidade o quanto é importante adotar as boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados, além de contribuir para a construção de conhecimentos individuais e coletivos, culminando em ações conjuntas na busca de melhoria qualidade de vida da comunidade. Com a realização deste trabalho, pode-se perceber que a cartilha é um instrumento que pode ser utilizado pela comunidade em geral visto que esta iniciativa é de fundamental importância para a compreensão de temas relevantes que necessitam de maior atenção. A festa da Juçara reúne centenas de pessoas de todos os bairros de São Luís, além de alguns turistas de outras regiões do país, portanto, tornou-se necessário um trabalho de prevenção e orientação dos barraqueiros e demais profissionais que atuam na área durante a realização do evento, no que se refere às boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados. REFERÊNCIAS MENDES, Edijanne R.; RIBEIRO, Érika F. V.; ROCHA, Ariadne E. Florística e fitossociologia das Trilhas ecológicas da APA Maracanã, Ilha de São Luís – MA. Disponível em: <http://www6.ufrgs.br/seeragroecologia.pdf>. Acesso em: 13 mai 2009. MINISTERIO DA EDUCAÇÃO. Parâmetros Curriculares Nacionais: Meio Ambiente/Saúde. Secretaria de Educação, Fundamental, 3ªed. Brasília, DF. 2001b. 128p. NUNES, Ana Tereza de Sousa. ÁGUA: O bom uso começa em casa. 2004. 24f. Monografia (Especialização em Educação Ambiental) – Universidade Estadual do Maranhão, São Luis, 2004. SILVA, F.H.C. Educação Ambiental enfocando o desperdício de papel na sala de aula de professores do UniCEUMA. 2003. 55f. Monografia (Graduação em Ciências Biológicas – Curso de Ciências Biológicas). Centro Universitário do Maranhão, São Luis, 2003. VASCONCELOS, Janete Rodrigues de. Maracanã para todos: uma proposta de desenvolvimento sustentável para a Área de Proteção Ambiental da Região do Maracanã. UEMA/ CTDS. São Luís, 1995. ZIAKA, Y.; SOUCHON, C.; ROBICHON, P. Educação ambiental: seis proposições para agirmos como cidadãos. São Paulo: Instituto Polis, 2003. 216p. (Cadernos de proposição para o século XXI, 3).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 163 OS REFLEXOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA INSPEÇÃO VEICULAR Evandro OLIVEIRA SANTANA (Professor) FJAV - Faculdade José Augusto Vieira Evandro_se@yahoo.com.br José Aldemar dos SANTOS ANDRADE Ademário ALVES SANTOS (Orientador) FJAV - Faculdade José Augusto Vieira Praça Nossa Senhora Aparecida, s/n, Bairro Cidade Nova. CEP: 49400-000 Lagarto-SE ABSTRACT The environmental education is a present subject in all possible discussions. It is objective of speech in parliament; it is also objective of academics approaches and informal talks in any place on the planet. When we discuss about its importance we usually remember to destruction of the forests, rivers and streams and its risings, like this we usually remind to the sanitary embankments and the inadequate use of the solid residues. But is not common, in spite of being of extreme importance, to link the environmental education the vehicular inspection, because when we link environmental education to the world of the automobiles, we just remembers to the pollution provoked by the liberation of the monoxide of the carbon in the atmosphere, among other, but the agents traffic performance in the sense of the action against the abuses, is not at least associated the a subject of environmental education. KEYWORDS: Education, inspection and traffic. RESUMO A educação ambiental é assunto presente em todas as discussões possíveis. É alvo de discurso no parlamento, é alvo de abordagens no plano da academia, é alvo também de conversas populares em qualquer lugar do planeta. Quando se trata de discutir sua importância, comumente é vista quando se recorda a destruição das matas, os assoreamentos dos rios, a destruição das nascentes de rios e riachos, os aterros sanitários, o uso inadequado de resíduos sólidos e por diante. O que não é comum, apesar de ser de extrema importância, é vincular a educação ambiental a inspeção veicular, pois o que se constata é que, quando se relaciona educação ambiental ao mundo dos automóveis, lembra-se apenas da poluição provocada pela liberação do monóxido do carbono na atmosfera, dentre outros, mas a atuação dos agentes de trânsito no sentido de coibir os abusos, não é sequer associada a uma questão de educação ambiental. PALAVRAS-CHAVE: educação, inspeção e trânsito. INTRODUÇÃO Percebe-se que de um modo em geral, os países desenvolvidos ou do norte foram os pioneiros no tocante aos problemas direcionados às questões ambientais. Com a preocupação veicular ambiental, também não foi diferente. Há uma larga tradição dos moradores das cidades dos países desenvolvidos em cobrarem o cumprimento das leis sejam elas quais forem. O exercício da cidadania dá-se mediante a relação que as pessoas mantêm com o público no sentido de fazer valer aquelas conquistas que demoraram, muitas vezes, séculos para se conseguir. Nos países subdesenvolvidos, nota-se o quanto tais atitudes demoram a serem postas em prática, não por falta de conhecimento de tais problemas, mas por uma lógica capitalista insensível à necessidade de se usar os recursos naturais disponíveis em seu meio de vivência de forma ecologicamente correta. No Brasil, por exemplo, mesmo se tendo conhecimento da realidade depredadora dos espaços urbanos e rurais de seu território, verifica-se que apenas no início da década de 80, quando o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), mais precisamente em 31 de Agosto de 1981, no uso de suas atribuições, passou a vigorar a lei 6.938, a regulamentada pelo decreto número
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 164 99.274, de 06 de Junho de 1990 e suas alterações, tendo em vista o disposto em seu regimento interno e considerando que a emissão de poluentes por veículos automotores contribui para a contínua deterioração da qualidade do ar, especialmente nos grandes centros urbanos. Em Sergipe, a realidade vinculada à temática para a inspeção veicular não é diferente, uma vez que se determinam ações voltadas para organizar o trânsito em si, com orientações e aplicações de multas, sem de fato preocupar-se com as emissões de poluentes oriundos da queima de combustíveis fosseis, emitidos pelos escapamentos dos automóveis e meios de transportes como um todo. Com se diagnostica, conseqüentemente, que não há também preocupação com a qualidade do ar que respiramos e as possíveis doenças respiratórias, originadas pela péssima qualidade do ar, que a cada dia se multiplicam os números de pessoas acometidas com doenças respiratórias. Lagarto, município localizado na região centro-sul de Sergipe, é um dos municípios que apresenta um fluxo de veículos em crescimento e que, senão forem adotadas medidas importantes, tende apresentar sérios problemas relacionados aos resíduos tóxicos liberados no ar pela frota de veículos. De acordo com as informações obtidas junto aos órgãos que fiscalizam e regulam as atividades relacionadas à circulação de veículos, o referido município apresenta uma inspeção veicular restritamente direcionada à orientação dos condutores de veículos e à aplicação de multas, ambas voltadas com certa preocupação de evitar acidentes no trânsito e de angariar recursos financeiros para abastecer os cofres públicos. Diante dessa realidade, faz-se necessário com uma certa urgência a devida aplicabilidade da lei número 6.938, determinada pelo CONAMA, bem como, as políticas públicas de trânsito, direcionadas à sensibilização e atuação dos proprietários de veículos particulares, empresas de ônibus, moto taxi, taxistas, caminhões, carretas e veículos de cargas em geral, para que, juntos, possam circular pelas rodovias e centros urbanos sem poluírem com tanta agressividade o ar. A referida pesquisa pode apontar que a forma pela qual a inspeção ambiental veicular é conduzida sinaliza para uma interpretação da qualidade da educação (consciência) ambiental em Sergipe. Para isso, procura-se a consistência numa iniciativa que, envereda na busca por retratar o panorama das questões que envolvem as políticas públicas voltadas para a inspeção ambiental veicular em Sergipe e todos os agentes envolvidos com a finalidade de proporcionar a sociedade sergipana um diagnóstico que se aproxime o quanto possível, da real situação no Estado. A pesquisa em tela proposta procura compreender de que forma o povo e as instâncias envolvidas com as questões de trânsito buscam outras posturas, através de novos comportamentos sociais, de se relacionar com a problemática do trânsito. Não se omite quanto às questões clássicas de educação ambiental e para tanto considera a emissão de poluentes no meio ambiente sergipano como um dos itens que merecem redobradas atenções. Dessa forma, convém ressaltar o necessário desenvolvimento deste trabalho, pois viabiliza a sociedade civil e jurídica o despertar por uma educação ou reeducação nas ações relativas à sustentabilidade ambiental sem descartar a importância do trânsito, também por não acarretar danos ao meio natural e à saúde da população. A pesquisa, além do custo social e da proteção ambiental, possibilita transformar-se em material de estudo para a comunidade sergipana; aos pesquisadores, acadêmicos, estudantes em geral e demais seguimentos afins; bem como, serve de documento e instrumento revelador de um fato concreto que urge por iniciativas mais eficazes dos órgãos e personagens responsáveis. OS TRÂMITES PARA A REALIZAÇÃO DA VISTORIA DOS VEÍCULOS E A FISCALIZAÇÃO VOLTADA PARA A INSPEÇÃO VEICULAR A educação no Brasil para onde quer que se olhe fornece numerosas condições precárias. Esta precariedade se reflete nos números que o país apresenta anualmente, os quais dizem um pouco da qualidade de vida da população. São gigantescos os desafios que o Brasil tem pela frente para transformar esta realidade cruel. Há quem aponte no mínimo quarenta anos investindo ininterruptamente (UNESCO, 1997). O que se percebe é que apesar do país investir quantias significativas do PIB – Produto Interno Bruto – em educação, quando se vão olhar os resultados, os números nos envergonham. O que diria daqueles setores vistos de forma separada? Como está a educação ambiental do brasileiro? Como anda a educação no trânsito? De que forma está a
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 165 educação do brasileiro quando medida pela higiene e pelos cuidados em manter o patrimônio público? Estas são questões que nos remetem a outro desafio: compreender de que maneira a educação de um modo em geral influência em todas as demais instâncias da vida civilizada. Como esta opção é praticamente impossível, nos resta observar, a partir da relação com o trânsito, como o brasileiro, que vive aqui em lagarto, situa-se nesta temática. Conforme informações obtidas junto a Policia Rodoviária do Estado de Sergipe, detecta-se que há uma fiscalização constante voltada para segurança no trânsito e ações direcionadas às questões ilícitas de um modo geral. Porém, fiscalização relativa à inspeção veicular de cunho e sensibilização ambiental, não. Segundo alguns motoristas de ônibus interestadual a abordagem das blitz da Polícia Rodoviária Federal é para observar, juntamente com outros órgãos, responsáveis como o DETRAN, a quantidade de passageiros, se o carro está com pneus adequados para circular, se o uso de cintos de segurança é feito, utiliza-se, às vezes, o teste do bafômetro para fiscalizar e punir motoristas embriagados nas rodovias. Nota-se também uma preocupação com a manutenção do tacógrafo para verificar se há excesso de velocidade e se as condições dos veículos estão boas para seguir viagem. Percebe-se que por parte dos donos de ônibus e outros veículos há uma preocupação com a manutenção dos veículos para não provocarem acidentes e no caso dos ônibus para garantir um melhor atendimento aos clientes, mas não objetiva diretamente os cuidados necessários, como a qualidade do ar, com a redução de poluentes na atmosfera. Além disso, poucos ônibus e veículos têm o saco plástico no seu interior para a coleta de lixo, com isso, passageiros e condutores em geral lançam os resíduos sólidos nas Rodovias Federais, Estaduais e Municipais; nas ruas e avenidas das cidades; e nas estradas e rodovias da zona rural; agregando à emissão de dióxido de carbono na atmosfera, uma enorme e diversificada quantidade de lixo que contribui negativamente para a qualidade de vida, uma vez que tais resíduos entopem bueiros, contamina as águas e o solo, além de provocar outro tipo de poluição, a poluição visual. Segundo Adriano, motorista de ônibus da Empresa Coopertalse, ele se preocupa muito com a manutenção do carro (mecânica, pneus, direção...); usa som baixo; atende bem aos passageiros; paradas corretas e mais segurança para os clientes; limpeza do filtro de ar uma vez por mês, pois não fazendo pode provocar falhas no veículo. Diz ainda que ao mesmo tempo em que conserva o ônibus, contribui de forma indireta para diminuir a emissão de poluentes e que os novos veículos são bem menos poluidores que os mais antigos. É correto afirmar que os veículos mais antigos são os mais poluidores. Nota-se, dessa forma, um certo descaso dos órgãos responsáveis, principalmente no interior, com as medidas que deveriam ser tomadas, nas doses de suas proporções, em relação ao cumprimento da lei, pois além do alto índice de acidentes que os mesmos provocam, dizimando vidas, registra-se um aumento significativo dos resíduos que não apenas comprometem o ar, mas desestabilizam os ecossistemas quando objetos poluidores são lançados, sem mencionar a contribuição em grande escala para o aquecimento global. De acordo com os agentes de trânsito dos Municípios de Aracaju e de Lagarto, no edital do concurso o qual os mesmos foram submetidos para exercer a função, tem claramente que uma das obrigações seria a inspeção veicular, utilizando aparelho devido para medir a emissão de poluentes na atmosfera, porém não há aparelhos para os mesmos executarem a referida tarefa. Segundo eles, apenas a Polícia Rodoviária Federal disponibiliza no Estado de Sergipe de tal aparelho. Nesse sentido, percebe-se que mesmo disponibilizando do mencionado aparelho, nas blitz proferidas pela Policia Rodoviária não há medição de índices de poluição e nem cobranças aos condutores de veículos no sentido de minimizarem a emissão de poluentes no meio ambiente. O agente de trânsito Edivânio, diz que o governo deveria se preocupar com os órgãos fiscalizadores no sentido de desenvolver práticas destinadas ao controle dos poluentes na atmosfera e políticas públicas educativas para de fato surtir efeitos mais eficazes. O leque de obrigações dos órgãos fiscalizadores é grande, no entanto, no caso de Sergipe, limita-se mais especificamente às ações fiscalizadoras e punitivas. É a finalidade maior.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 166 Constata-se de fato que as instâncias responsáveis pela inspeção veicular em Sergipe, voltam-se, para galgar recursos financeiros para os cofres públicos, sem transformar tais recursos em benefícios sociais coletivos. Essa é uma prática comum naqueles países que apresentam uma estrutura arrecadadora de suprir apenas as necessidades coorporativas. Goldemberg (1999) argumenta que a questão da poluição do ar, seja pela emissão de gases presentes, por exemplo, nos escapamentos de veículos, seja pela instalação de unidades industriais sem a devida fiscalização ainda é um dos maiores desafios que o Brasil enfrenta. A deficiência de projetos vinculados à temática educacional no Brasil, e de maneira especial em Sergipe, ainda é algo insipiente. Em entrevista, um agente de trânsito relata que não há projetos de cunho educativo voltados exclusivamente para a educação veicular ambiental. Em Sergipe, tanto para os críticos, quanto para os especialistas, em especial, funcionários públicos envolvidos com a problemática do trânsito, os governantes deveriam implantar a educação veicular ambiental desde a educação infantil até o ensino médio, deveriam também exigir das autoescolas a obrigatoriedade de assumir um papel dissipador em relação ao projeto educacional que tivesse como finalidade instruir os condutores de veículos. Para estes, infelizmente existem no Brasil e em Sergipe autoescolas que aceitam o pagamento pelas aulas sem que o aluno, e futuro motorista, tenha freqüentado como deveria ser, quanto mais assumir outra responsabilidade (educação veicular ambiental). Observa-se, diante dessa vertente, que os governantes de todas as esferas de governo, instâncias responsáveis, autoescola, indústrias automobilísticas e concessionárias de veículos buscam dentro da lógica capitalista o acúmulo de capital sem a mínima preocupação com as conseqüências da frota de automóveis que cresce significamente nas rodovias e ruas das cidades e povoados do Estado em foco. Este fato confirma o pensamento de Harvey (2000) quando enfatiza que a lógica do capital é a reprodução. Verifica-se que Lagarto e Aracaju sobressaem em relação aos demais municípios do Estado de Sergipe que não implantaram a municipalização do trânsito, pois a capital, e o maior município da região centro-sul do Estado, respectivamente, principiaram a fiscalização. Essa fiscalização tinha inicialmente a intenção de ser orientadora e posteriormente punitiva como já destacada antes, porém em todo o Estado não há preocupação e fiscalização de caráter ecológico ou de sustentabilidade ambiental no trânsito. Na verdade, no Brasil há alguns casos isolados de Estados que implantaram a lei nº 6.938, como por exemplo, São Paulo, Distrito Federal e alguns poucos municípios do sul do País. Essa realidade confirma o pensamento de Correa (1996) ao enfatizar que uma das principais formas de organizar o espaço é pela regulamentação de todas as atividades presentes nas instâncias que respondem pela organização das atividades econômicas tuteladas pela importância das leis. Por parte dos condutores de veículos não se percebe também qualquer preocupação. Como o agente destaca a existência de veículos totalmente deteriorados em circulação, outros usando irregularmente o gás de cozinha, que contribui para poluir de forma desenfreada ainda mais a atmosfera, fazendo surgir com relativa freqüência às doenças respiratórias. O público que mais abusa do vácuo, deixado pela completa ausência de fiscalização, é composto basicamente por Jovens que abusam dos canos de descargas das motocicletas, o que acabam por provocar certo incômodo aos moradores, que, por sua vez, reclamam da poluição sonora sem se deter das questões ecológicas. Segundo Haguete (1994) quando os papeis são invertidos ou negligenciados sobra somente o descaso. É este o descaso que se sustenta de um lado pelo não cumprimento das leis e de outro pela própria precariedade das condições de civilidade que a educação promove. A comunidade, por sua vez, não costuma reclamar do incômodo causado pela destruição ou depreciação dos espaços públicos, que servem para o lazer e para o divertimento das crianças, quando isso acontece, no máximo, percebe-se uma voz indignada se levantar, o que, muitas vezes, acaba sendo uma forma de exposição para quem costuma não aceitar as coisas como estão. Poucos são aqueles moradores que procuram as autoridades para denunciar um comportamento acima ou fora da lei. Por duas razões básicas: ou não vão ser atendidos dadas as condições de precariedade de delegacias e demais órgãos responsáveis pela segurança, ou porque não acreditam mesmo nas instituições públicas como promotoras da manutenção da lei e da ordem pública.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 167 É interessante observar sobre esse ponto de vista o que nos foi relatado por um dos agentes de trânsito: “Os incomodados reclamam da poluição sonora, questão ambiental, preocupação nenhuma” (Edivânio – entrevista 2009). A preocupação do referido agente faz sentido na medida em que as questões relacionadas às temáticas ambientais não estão apenas incluídas naquelas que se sustentam na crítica ao lançamento de resíduos sólidos nos rios, riachos, logradouros públicos etc., mas a toda uma série de fatores que refletem diretamente na qualidade de vida dos moradores de uma comunidade qualquer (Alves, 2009). O PAPEL DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DE TRÂNSITO A educação poderia dizer tem dois papais simultâneos: educar e fazer o cidadão dono de si. Alves (2008) enfatiza ainda, convém lembrar, que a expressão dono de si está diretamente vinculada ao papel libertador da própria educação. Como os resultados positivos da educação é algo que se conseguem com o tempo, a partir da execução de medidas corretas, deve-se esperar que estes resultados, hoje desfavoráveis, possam ser modificados para melhores daqui a alguns anos, mas até lá não resta outra alternativa senão a de exigir dos responsáveis o cumprimento dos dispositivos constitucionais preconizados na legislação ambiental. Gonçalves (2001) pronuncia-se fazendo observações quanto ao lançamento de resíduos tóxicos nos córregos e também do lançamento de dejetos de esgotos nos lixões das cidades, além de toda a produção de elementos tóxicos presentes nos combustíveis queimados pelos veículos e emitidos no ar sem qualquer fiscalização. Para ele, a atuação apenas dos órgãos públicos, sem a participação da sociedade civil, não adianta visto ser muito difícil funcionar algo, que é coletivo, individualmente. Para o referido autor, a situação da agroindústria canavieira em São Paulo apresentou conquistas e avanços no sentido de se porem fim as práticas das queimadas para extrair a cana. Alves (2009) ao observar a destruição da vegetação e a não tomada de consciência da população em reivindicar a punição dos responsáveis, enfatiza que a proliferação de um comportamento destrutivo e anti-social ganha força em sociedades com um largo perfil autoritário, relata ainda a destruição de espécies antigas, presentes na formação da vegetação nativa no oeste sergipano, e observa a importância da mediação dos educadores nas questões que tocam diretamente nos problemas educacionais. Para isso, ele chama atenção para o papel da educação como força libertadora indo de encontro ao pensamento de Freire (1986) que enfatiza que a educação é a única forma de livrar os homens da opressão. E afirma que educar exige compromisso e responsabilidade. Nesta freqüência, quando se avalia a participação dos moradores de Lagarto, nas questões vinculadas ao trânsito em todas as suas formas legítimas, o que se denota é que nada mudou. Só para se ter uma ideia, de acordo com os resultados obtidos numa ligeira amostragem, 86% da população tem sérias dificuldades em relacionar inspeção veicular às questões de saúde ambiental. A inspeção dos veículos não é tarefa fácil também para que seja cumprida. Ainda que este ou aquele agente diga que é possível realizar. Isto porque precisa de profissionais qualificados, que identifiquem os veículos com problemas de emissão de ar, precisa-se também de um corpo de funcionários que se identifique com o que faz. Por outro lado, necessita que a população colabore, fazendo as denúncias e reconhecendo a importância do agente de trânsito, assim como outros profissionais indispensáveis na formação de uma melhor convivência com as durezas da rotina de quem passa horas por detrás de um volante. CONSIDERAÇÕES FINAIS A preocupação com a inspeção ambiental veicular teve sua origem nos países de desenvolvimento, seja de maior sensibilização da sociedade ou por terem também iniciado a deterioração e degradação das condições atmosféricas e da própria qualidade de vida. Notou-se que nos países menos desenvolvidos tais atitudes surgiram bem mais tarde e em menores proporções. No Brasil apenas no final do século XX mais precisamente em 1981 é que surge o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) é que se considera que a emissão de
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 168 poluentes por veículos automotores contribui para o continua deterioração da qualidade do ar, especialmente nos centros urbanos. Considerou-se também a necessidade de contínua atualização do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores – PROCONVE; e considerou-se ainda, a produção nacional e as importações de veículos automotores, juntamente com a necessidade de harmonização tecnológica internacional, resolvem adequar à circulação de veículos e poluir menos o meio ambientes. São Paulo é o estado brasileiro que mais busca seguir as novas exigências. No estado de Sergipe, observou-se que os governantes, os órgãos e os agentes responsáveis pela inspeção ambiental veicular, também parte dos condutores de veículos e alguns membros da sociedade, têm conhecimento da resolução do CONAMA e são sabedores dos problemas oriundos pela emissão de gases poluentes por veículos, principalmente os mais antigos e em condições irregulares de circulação pelas rodovias de todo o Estado, inclusive na capital. Quem primeiro implantou o sistema de trânsito no Estado, porém até os dias atuais voltado apenas para a fiscalização de caráter orientador e punitivo, sem ações direcionadas à proteção ambiental e melhor qualidade do ar sergipano. Contudo percebeu-se a urgente necessidade de ações integradas de cunho educativo para sensibilizar todos os seguimentos da sociedade sergipana na proteção da qualidade do ar; e que os órgãos fiscalizadores façam com seriedade cumprimento das exigências do CONAMA. Portanto, nota-se de um modo em geral que, enquanto em Sergipe luta-se para iniciar o cumprimento de uma lei existente há muito tempo, noutros estados, a exemplo de São Paulo, essas questões vinculadas à inspeção já se encontram numa realidade bastante diferente da nossa ainda que apresente também sérias dificuldades. Nos Estados Unidos, por exemplo, através da iniciativa do governador da Califórnia, agora uma luta abraçada pelo atual presidente, que em acordo com montadoras, ambientalistas e sindicalistas buscam inovações dessa lei, que em Sergipe, na prática nem iniciou, para impor limites mais eficazes à emissão de gases, ou seja, produzir de fato o chamado carro verde. É esperar para ver. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Ademário. Os Aterros Sanitários numa Proposta de Educação Ambiental. 12º Encontro de Geógrafos da América latina. Montevidéu – Uruguai, abril 2009. _______ Agricultura Canavieira Sergipe, Brasil: Mídia, Energia e a problemática Ambiental. III Encontro Nordestino de Biogeografia. Natal/Rio Grande do Norte. 2008. _______ Gestão em Educação: Pressuposto Teórico-Metodológico em Jean-Paul Sartre. Encontro de Educação Superior Fjav- Lagarto. 2009. FInotti, P. O sofrimento do solo. Folha de São Paulo, 13 de Abril, 1991, São Paulo, editora Hucitec,. 1980. GONÇALVES, D. B. A Regulamentação das Queimadas e as Mudanças nos Canaviais Paulistas. Campinas. Universidade Estadual de Campinas. 2001 GOLDEMBERG, José. Estudo de Redução de Emissão de CO2. São Paulo, ÚNICA., 1999 MORAES, Antonio Carlos Robert. Geografia: Pequena História Critica. São Paulo, Hucitec, 1990. _____Ideologias Geográficas. São Paulo, Ed. Hucitec 1996. ______ O Estado e a Cumulação no Norte Nordeste: Acumulação Administrativa, Fortaleza, 1998. PAULILLO, Luiz Fernando. Redes de Poder e Territórios Produtivos. São Carlos, São Paulo, Ed. UFSCar. 2000. LEFÉBVRE, H. La producion de L’espace. Paris Antropos, 1981 HAGUETE, Teresa Maria Frota. O Cidadão e o Estado. Fortaleza, Editora da universidade Federal do Ceará, Fortaleza. 1994
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 169 PERCEPÇÃO DOS PESCADORES DO CABO DE SANTO AGOSTINHO SOBRE A ATIVIDADE PESQUEIRA FRENTE ÀS DRAGAGENS NO PORTO DE SUAPE (PE) Christine Farias COELHO Laboratório de Nécton e Aqüicultura / IMAT, Departamento de Oceanografia, UFPE. Bacharel em Ciências Ambientais chrisfcoelho@yahoo.com.br Daniel Lino LIPPI Laboratório de Nécton e Aqüicultura / IMAT, Departamento de Oceanografia, UFPE. Bacharelando em Ciências Biológicas daniel_lippi@hotmail.com Sidney Vieira da SILVA Laboratório de Nécton e Aqüicultura / IMAT, Departamento de Oceanografia, UFPE. Especialista em Gestão de Ambientes Costeiros sidneyvieira2@gmail.com Marcus Vinícius Bezerra dos SANTOS Laboratório de Nécton e Aqüicultura / IMAT, Departamento de Oceanografia, UFPE. Especialista em Gestão de Ambientes Costeiros vinymarcus@hotmail.com ABSTRACT The study aims to present the fishermen’s perceptions face to the enlargement of the Suape Port and Industrial complex, considering possible impacts on the ichthyofauna resulting from the dredging process during the construction of the quay 5. The work took place, monthly, in the first half of 2009, at the same time of dredging. In addition to the qualitative interviews applied to 40 local fishermen, a survey of the fish fauna was performed, allowing a comparative assessment with the information obtained from the fishing community. Bottom trawls were used on motorized boat with collections at four distinct points. The natural channel farthest from the port, at the outer area of the barrier reef, was chosen as the control zone by presenting similar ecological characteristics to the other points and not be included among the places of dredging. Fishermen are aged between 40 and 60 years and engaged in the business for over 10 years, have low education level and average monthly income of about 2 times the minimum wage. Most affirmed that carries out alternatives activities to fishing for maintaining familiar livelihood and considers the current status of fish stocks below standard. The dredging process to expand the CIPS and the removal of mangroves have been quoted by fishermen as the main impacts to the region. Were captured 1112 fishes belonging to 56 species and 22 families with total biomass of 13.88 kg. Ecological indices indicate that in the area inside the dike and location of dredging, the number of species and biomass were lower, possibly because they are places of greater substrate removal and excess of noise, besides the increasing of suspended matter in the water column. The ichthyofaunistic survey results corroborate the opinions of fishermen contemplated in this work. KEYWORDS: Fishing community, interviews, dredging, ichthyofauna RESUMO O estudo visa apresentar as percepções dos pescadores em relação à ampliação do Complexo Industrial Portuário de Suape, levando-se em consideração possíveis impactos detectados sobre a ictiofauna, decorrentes dos processos de dragagem na construção do Cais 5. O trabalho ocorreu no primeiro semestre de 2009, com saídas mensais, no mesmo espaço temporal das dragagens. Além das entrevistas qualitativas aplicadas a 40 pescadores locais, foi realizado o levantamento da ictiofauna, possibilitando uma avaliação comparativa junto às informações obtidas com a comunidade pesqueira. Foi usado arrasto de fundo em embarcação motorizada com coletas em quatro pontos distintos. O canal natural mais distante do porto, na área externa da barreira recifal, foi escolhido como área controle por apresentar características ecológicas semelhantes aos
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 170 demais pontos e por não estar incluso entre os locais de dragagem. Os pescadores têm idades entre 40 e 60 anos e exercem a atividade há mais de 10 anos, possuem baixo grau de escolaridade e renda média mensal em torno de 2 salários mínimos. A maioria alegou que desenvolve atividades alternativas à pesca para manutenção do sustento familiar e considera a situação atual dos recursos pesqueiros abaixo do padrão. O processo de dragagem para ampliação do CIPS e a supressão do manguezal foram citadas pelos pescadores como os principais agentes impactantes na região. Foram capturados 1.112 peixes pertencentes a 56 espécies e 22 famílias, com uma biomassa total de 13,88kg. Os índices ecológicos indicam que na área interna do dique e local da dragagem o número de espécie e biomassa foram menores, possivelmente por serem os locais de maior remoção do substrato e excesso de ruído, além do aumento do material em suspensão na coluna de água. Os resultados do levantamento ictiofaunístico corroboram com as opiniões dos pescadores contemplados neste trabalho. PALAVRAS-CHAVE: Comunidade pesqueira, entrevistas, dragagem, ictiofauna INTRODUÇÃO A partir da década de 80, o cenário econômico em Pernambuco sofreu modificações com a construção do Complexo Industrial Portuário de Suape (CIPS), o qual representa atualmente o pólo industrial mais completo do nordeste do Brasil (SILVA-JÚNIOR, 2008). Todavia, à medida que se tornou um dos principais eixos impulsionadores do desenvolvimento estadual, tal empreendimento trouxe uma série de problemas de ordem ambiental, destacando-se as alterações nas características ecológicas da área de influência das atividades portuárias (KOENING et al., 2002). Entre os principais agentes de impacto relacionados às atividades portuárias, inclui-se o processo de dragagem, que consiste na retirada de sedimentos do fundo marinho e/ou estuarino com a finalidade de aumentar a profundidade dos canais de acesso aos cais e permitir o tráfego de navios de maior porte (VALE/CEPEMAR, 2010). Embora permitam melhorias para a navegação e aumento considerável da movimentação portuária (TORRES, 2000), as dragagens trazem consigo uma série de implicações ambientais, tais como assoreamento e deposição de sedimentos na área estuarina e o aumento da turbidez da água (KOENING et al., 2002). Os efeitos decorrentes dessas implicações podem interferir na estrutura da comunidade biótica, incluindo os peixes, e conseqüentemente afetar a economia local. Em Pernambuco, a pesca é uma atividade econômica e socialmente importante, diante do grande número de empregos diretos e indiretos gerados e à oferta de proteína nobre de origem animal (CEPENE/IBAMA, 2007). Motivado pela problemática supracitada, o presente estudo tem como propósito apresentar as características socioeconômicas dos pescadores da região de Suape, levando-se em consideração possíveis impactos detectados sobre a ictiofauna decorrentes dos processos de dragagem para ampliação do CIPS, a construção de mais um berço de atracação, o Cais 5. Foi realizado também o levantamento da ictiofauna, de modo a permitir uma avaliação comparativa junto às informações obtidas durante entrevistas com pescadores. METODOLOGIA O CIPS está localizado entre os municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, na zona fisiográfica do litoral sul do estado de Pernambuco e compreendido entre as latitudes 8°20’00’’ e 8°29’00’’S e longitudes 34°56’30’’ e 35°03’00’’W, distando cerca de 40 km da cidade do Recife (SOUZA & SAMPAIO, 2007). A baía de Suape, na qual parte do referido porto está inserido, contém uma ilha central e está limitada a leste por um recife arenítico em barreira. Para obtenção dos dados com a finalidade de conhecer aspectos sociais, econômicos e ambientais dos pescadores foi utilizado o método de entrevista qualitativa. Tal prática tem como objetivo promover a elucidação das atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos das pessoas em contextos sociais específicos, além disso, fornece dados básicos para o entendimento das interações sociais (GASKELL, 2002). Assim, por meio de questionários semi- estruturados, aplicados a 40 pescadores que residem e/ou realizam a atividade pesqueira nas proximidades de Suape, as entrevistas foram conduzidas durante saídas mensais a campo, no
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 171 período de janeiro a maio de 2009, junto à Colônia de Pescadores Z-08 (código na Capitania dos Portos), situada em Gaibu, localidade vizinha a Suape, também pertencente ao município de Cabo de Santo Agostinho. A associação citada conta com 166 pescadores cadastrados e o formulário utilizado nas entrevistas constituiu-se de duas partes: a primeira objetivou traçar o perfil socioeconômico dos pescadores e a segunda etapa foi elaborada com perguntas abertas, possibilitando assim um maior espaço para respostas em termos do que os próprios interrogados consideraram importantes. Para o levantamento ictiofaunístico foi empregada a técnica de arrasto de fundo em embarcação motorizada utilizando uma rede com 25 m de comprimento e malha com abertura de 5 mm. Os arrastos tiveram duração de 15 minutos. As coletas foram conduzidas mensalmente no mesmo período das entrevistas (e no mesmo espaço de tempo das dragagens) em quatro pontos distintos; Ponto 1 (P1): entrada e saída principal do Porto; Ponto 2 (P2): área interna do dique e local da dragagem; Ponto 3 (P3): paralelo à face interna da barreira recifal e Ponto 4 (P4): canal natural mais distante do porto, na área externa ao recife (figura I). P4 foi escolhido como área controle por apresentar características ecológicas semelhantes aos demais pontos e por não estar incluso entre os locais de dragagem. Figura I - Pontos de Coleta: Ponto 1 (P1): entrada e saída principal do Porto, coordenada: S 08º23.477’ W 034º57.163’; Ponto 2 (P2): área interna do dique e local da dragagem, Coordenada: S 08º23.297’ W 034º58.128’; Ponto 3 (P3): paralelo à face interna da barreira recifal, Coordenada: S 08º22.799’ W 034º57.300’ e Ponto 4 (P4): canal natural mais distante do porto, na área externa ao recife, Coordenada: S 08º21.816’ W 034º56.479’ Fonte: Google Earth, 2009. Foram determinados os índices ecológicos riqueza de Margalef (d), diversidade de Shannon (H’) e equitabilidade de Pielou (J’), calculados para cada ponto de amostragem utilizando o programa Primer 5.1.2. A similaridade entre os pontos foi calculada pelo coeficiente de Bray- Curtis, através do programa Bioestat 3.0, utilizando-se os dados de abundância e freqüência. RESULTADOS E DISCUSSÃO A pesca, além de ser uma atividade comercialmente importante, assume uma relevância social bastante expressiva, seja pelos aspectos culturais na manutenção do modo de vida tradicional das comunidades costeiras, seja pela significativa quantidade de famílias que dependem direta ou indiretamente desta prática para o seu sustento (AQUASIS, 2003). O resultado obtido a partir das 40 entrevistas com os pescadores da região de Suape apontou que o perfil da comunidade pesqueira é formado por 88% de homens e 12% de mulheres, a
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 172 maioria (97,5%) exerce a atividade há mais de 10 anos. Em relação à faixa etária, a categoria é representada principalmente por pessoas com idades entre 40 e 60 anos, perfazendo 64% dos entrevistados. Do percentual restante, 16% afirmaram ter menos de 39 anos e 20% responderam ter mais de 60 anos. Dentre estes últimos, alguns são aposentados, porém ainda exercem a atividade mesmo que de forma esporádica, e suas informações foram consideradas relevantes, pois permitem um resgate histórico a respeito do relacionamento da comunidade local com o seu meio ambiente já quem vivem na região há mais tempo. O grau de escolaridade apresenta-se diversificado, compreendendo desde aqueles sem escolaridade alguma (25%), até os que concluíram o nível médio (25%). Além destes, 40% abandonaram os estudos ainda no nível fundamental e apenas 10% chegaram a cursar o nível médio, mas não o finalizaram. Este perfil é similar aos dados obtidos em estudos com comunidades pesqueiras de outras regiões (ALCÂNTARA, 2007; RODRIGUES, 2007; CABRAL et al., 2006; SANTOS et al.,2008) e pode constituir um fator limitante para os pescadores que desejam (ou necessitam) ingressar em outro ramo profissional. Quando questionados sobre o motivo da escolha profissional, 48% fizeram referência à herança familiar, sendo esta uma característica comum para a categoria, uma vez que as comunidades pesqueiras tradicionais fundamentam suas atividades no conhecimento empírico, adquirido e repassado de geração em geração (SALLES et al., 2008). Do percentual restante, 28% dos interrogados justificaram a escolha pela localização e pelo gosto da atividade pesqueira e 24% alegaram ter sido a única opção de subsistência. A maior parte (95%) afirmou pescar com a finalidade de consumo próprio e comércio, demonstrando que a atividade constitui um importante meio de produção e subsistência para a comunidade local e uma significativa fonte de renda estatal. Os recursos provindos do mar são vendidos em todo o município do Cabo de Santo Agostinho, principalmente em Suape e Gaibu, e proporciona um ganho médio mensal de um salário mínimo por pescador. Alguns interrogados (36%) não forneceram suas rendas mensais, alegando ser uma quantia instável. Contudo, 51% dos entrevistados alegaram que desempenham outras atividades alternativas à pesca a fim de complementar a renda familiar: muitos exercem funções de pedreiro, encanador, eletricista e comerciante. Contudo, deste contingente, apenas 5% responderam possuir vínculo empregatício e 13% alegaram contar com benefícios do governo, como o Programa Bolsa-Escola. As respostas obtidas dos pescadores em relação à quantidade média semanal do pescado mostraram-se variáveis, com grande percentual na categoria “Não informado”, de modo que 30% atribuem tal ocorrência aos fatores ambientais, como condições climáticas desfavoráveis no período chuvoso e “marés ruins no verão”. Dos demais entrevistados, 32% disseram pescar menos de 100 kg/semana, 33% responderam trazer entre 100 e 200 kg semanais e apenas 5% alegaram obter uma quantidade superior a 300 kg por semana. Quanto à freqüência de saídas semanais para pesca, 50% alegaram ser em média de quatro vezes, 25% disseram sair três vezes, e o percentual restante respondeu realizar saídas irregulares de acordo com as condições do mar. Em outros locais, como em Porto de Galinhas (Ipojuca, PE), o regime de trabalho é menos intenso, uma vez que os pescadores têm a opção de complementar as suas rendas com atividades relacionadas ao turismo conhecidamente estabelecido (ALCÂNTARA, 2007). Em relação ao tipo de petrechos utilizados, onze artefatos foram citados pelos pescadores, sendo os mais empregados a linha de fundo, rede de espera e covo. A exaustão dos estoques no estado pode estar relacionada ao excesso de esforço pesqueiro, que resulta na sobrepesca, ou seja, pesca-se mais do que as espécies podem repor, além de se utilizar métodos que degradam os ecossistemas (BOECKMANN & GEBER, 2006). Incluem-se nestas práticas inadequadas, as capturas de indivíduos imaturos e de espécimes ovados, assim como várias atividades ilegais: pesca com bomba, uso de cloro, venenos, rede de malha fina, pesca em épocas de defeso (GERCO, 2004). Apesar dos entrevistados demonstrarem conhecimento acerca da utilização destas técnicas, nenhum deles afirmou empregá-las. Em relação à percepção ambiental dos pescadores ao longo do espaço temporal, a situação atual dos recursos pesqueiros é considerada abaixo do padrão pela maioria (85%), sendo necessário
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 173 ir à região não protegida pelos recifes, denominada por eles de “mar de fora”, para obtenção do pescado. Apenas 2% dos entrevistados não perceberam nenhuma alteração e 13% não responderam ao quesito. Em estudo de caso na comunidade de Brasília Teimosa (Recife-PE), os resultados apontaram que aproximadamente 80% dos pescadores relataram a redução na quantidade do pescado e as principais causas responsáveis citadas foram as seguintes: poluição, pesca predatória e quantidade excessiva de embarcações (VIEIRA, 2008). Entretanto, no trabalho em tela, 67% dos interrogados acreditam que a ampliação portuária em Suape constitui uma obra de impacto negativo para a atividade pesqueira, desse percentual, 11% afirmaram ter o acesso restrito aos principais pontos de pesca. Em contrapartida, 33% dos entrevistados mostraram-se favoráveis à ampliação do CIPS alegando melhor oportunidade de emprego e/ou cursos profissionalizantes aos seus filhos. As possíveis alterações sobre os ecossistemas marinhos e estuarinos em Suape, principalmente com a destruição dos habitats bentônicos e o aumento na turbidez da água, podem causar alterações nos ciclos de desenvolvimento da ictiofauna (TORRES, 2000), contribuindo para a diminuição do potencial de pesca na área. A respeito deste fato, 49% dos entrevistados opinaram ser o processo de dragagem o responsável pela diminuição do estoque pesqueiro, seguido pela supressão do manguezal (21%). Os demais direcionaram suas respostas à degradação do Rio Ipojuca (13%), à pesca predatória (9%) e à especulação imobiliária (2%), em especial à construção de resorts. Apenas 6% responderam não saber ou não terem percebido qualquer alteração dos recursos bióticos na área de influência das dragagens. Quando perguntados sobre os cuidados para com o meio ambiente, quase a metade (46%) dos interrogados admitiu não possuir nenhum tipo de atenção especial ao destino do lixo. Este percentual é preocupante, pois a poluição com materiais sintéticos oferece sérios riscos à biota marinha, uma vez que mamíferos marinhos, pássaros e tartarugas além de ingerirem, podem ficar aprisionados em redes, e assim ter o padrão de comportamento alterado, dificultando a sobrevivência destes organismos (SANTOS et al., 2008). Dos demais, 34% responderam descartar adequadamente os resíduos ao retornarem da pescaria e o restante (20%) ressaltou que respeitam o período de desova (no caso da lagostinha, por exemplo) e disseram utilizar artefatos que evitam a coleta de exemplares juvenis (malhas grandes). Em relação às sugestões para a preservação ambiental, a necessidade de projetos de cunho ambiental para a região foi o aspecto mais pontuado (27%), 18% fizeram alusão à recuperação do manguezal através do replantio, 14% à proibição e/ou fiscalização de práticas de pesca inadequadas (malha fina, bomba, etc.) e 25% não responderam a esse quesito. Apenas 7% dos entrevistados fizeram referência ao embargo das obras de ampliação do CIPS, e 8% forneceu como resposta a gestão turística e o tratamento de efluentes, domésticos e industriais. Além das informações prestadas, alguns entrevistados citaram que as áreas mais freqüentadas por eles (ao norte do Porto de Suape) vêm sofrendo intenso processo de sedimentação (“muita lama”), possivelmente decorrente das dragagens. Durante o levantamento ictiofaunístico foram capturados 1.112 indivíduos pertencentes a 56 espécies distribuídas em 22 famílias, com uma biomassa total de 13,88 kg. Em levantamentos realizados em estuários na região sul do Brasil, um com acentuado grau de assoreamento (CORTELLETE et al, 2009) e outro pouco impactado (BRANCO et al, 2002), foram obtidos números inferiores de espécies quando comparados ao presente estudo. Para o estuário do Rio Formoso no estado de Pernambuco, Paiva et al (2009) registrou 78 espécies e 39 famílias, indicando que este encontra-se sob baixa influência antrópica. Além do estado de conservação, a abundância (RAMOS & VIEIRA, 2001) e a composição da ictiofauna estuarina podem ser influenciadas negativamente pela sua latitude (ARAÚJO & AZEVEDO, 2001). O ponto de maior contribuição em número de exemplares foi o P4 com 438, seguido por P1 (377), P3 (180) e P2 com apenas 117 peixes coletados. A mesma tendência foi observada para o número de espécies e biomassa total, tendo P4 e P1 apresentado os maiores valores, enquanto que P2 e P3 foram os pontos mais pobres. As maiores similaridades obtidas através do coeficiente de Bray-Curtis ocorreram entre os pares P1-P4, pontos externos à barreira recifal, e P2-P3, internos. Os Pontos 1 e 4 encontram-se mais preservados e apresentaram, portanto, os melhores valores para os
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 174 índices ecológicos testados: P4 (d= 5,61; J’= 0,78 e H’= 1,20) e P1 (d= 5,05; J’= 0,65 e H’= 0,97). A distância para o porto e a proteção dos recifes, parecem amenizar as influências da dragagem e das atividades portuárias no Ponto 4. O ponto 2 (d= 2,93; J’= 0,53 e H’= 0,72) , interno ao porto e local da dragagem, apresentou o menor número de indivíduos e biomassa devido possivelmente à elevada mortalidade de indivíduos sugados pela dragagem, além da remoção do substrato (ANGONESI et al., 2006), re- suspensão de sedimentos contaminados (SULLIVAN & HANCOCK, 1977), excesso de ruído e aumento do material em suspensão na coluna de água (BLABER, 2000). Os piores índices foram obtidos no ponto 3 (d= 2,50; J’= 0,53 e H’= 0,61). Segundo Torres (2000) o acentuado assoreamento e a consequente redução da profundidade devido ao aporte de sedimentos provenientes da dragagem, podem estar selecionando as espécies resistentes às mudanças imediatas no ambiente (ANGONESI et al., 2006). Ao término da pesquisa, no dia 03 de agosto de 2009, foi vivenciado um novo encontro com os pescadores da Colônia Z-08, dessa vez para agradecer pela participação nas entrevistas e apresentar os aspectos mais relevantes obtidos com o estudo. Esta constitui uma maneira de valorizar esta categoria já desanimada em colaborar com pesquisas acadêmicas e não obter melhora (INSTITUTO OCEANÁRIO, 2010). Dessa forma, o conhecimento cultural da comunidade foi apreciado e a cidadania foi fortalecida. CONCLUSÃO Os resultados do levantamento ictiofaunísticos corroboram com as informações fornecidas pela comunidade pesqueira da região de Suape e apontam para uma diminuição significativa da abundância e diversidade dos recursos pesqueiros. Grandes investimentos em infra-estrutura, como a ampliação de instalações portuárias, requerem a previsão e mitigação de impactos sociais, fazendo-se necessária a gestão integrada que orientem a adoção de políticas de exploração dos espaços litorâneos conforme os princípios de desenvolvimento sustentável, incluindo a manutenção socioeconômica comunitária. O presente estudo pode contribuir para a formulação de políticas públicas adequadas ao gerenciamento dos recursos costeiros (principalmente à pesca artesanal), sem esgotar as possibilidades de novas pesquisas referentes ao tema. REFERÊNCIAS ALCÂNTARA, R. 2007. Pesca, perfil socioeconômico e percepção ecológica dos pescadores artesanais de Porto de Galinhas, Pernambuco. Dissertação (Mestrado em Oceanografia). Universidade Federal de Pernambuco. ANGONESI, L.G.; BEMVENUTI, C.E.; GANDRA, M.S. 2006. Effects of dredged sediment disposal on the coastal marine macrobenthic assemblage in southern Brazil. Brazilian Journal of Biology. v.66, n.2A, p.413-420. AQUASIS – Associação de Pesquisas e Preservação de Ecossistemas Aquáticos. 2003. A zona costeira do Ceará – Diagnóstico para gestão integrada. ARAUJO, J. G. & AZEVEDO, M. C. C. 2001. Assemblages of Southeast-South Brazilian coastal systems based on the distribution of fishes. Estuarine, Coastal and Shelf Sciences, 52: 729- 738. BLABER, S. J. M. 2000. Tropical Estuarine Fishes, ecology, exploitation and conservation. Fish and aquatic resource series 7. Blackwell Science. 372 p. BOECKMANN, C. E.; GEBER, F. O. 2006. Propostas para o desenvolvimento sustentável do setor pesqueiro no estado de Pernambuco, com apoio de incentivos fiscais. B. Inst. Pesca, São Paulo, 32(2): 199 – 211. BRANCO, J. O.; LUNARDON-BRANCO, M. J.; BRAUN, R. R. J. 2002. Monitoramento da carcinofauna, ictiofauna e avifauna do estuário do Saco da Fazenda, Itajaí,SC. Itajaí: UNIVALI- CTTMar, 24 p. Relatório técnico.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 176 PROJETO RIO LIMPO, RIO LINDO: EDUCAÇÃO AMBIENTAL AO LONGO DO RIO DAS MORTES Roberto de Barros MESQUITA Prof. MSc. Universidade do Estado de Mato Grosso. robertomesquita@unemat.br Ana Caroline MOCELIN Profª. Esp. Universidade do Estado de Mato Grosso. amocelin@gmail.com Fátima Cristina Arantes Mobiglia MESQUITA Bel. em Turismo. Universidade do Estado de Mato Grosso. fatimamesquitanx@gmail.com RESUMO O Projeto Rio Limpo, Rio Lindo é uma parceria entre a União das Associações de Moradores de Bairros de Nova Xavantina (UNAMB-NX) e a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) Campus de Nova Xavantina, que tem por objetivo realizar diagnóstico socioambiental da bacia do Rio das Mortes e exercer trabalhos de educação ambiental nas comunidades ribeirinhas presentes num trecho de aproximadamente 600 km entre Nova Xavantina (MT) e São Felix do Araguaia (MT). Este artigo pretende apresentar o trabalho de educação ambiental desenvolvido pelo Projeto, que contribui para a criação de uma identidade cultural entre os povos das margens do rio que valorize a preservação e a conservação do meio ambiente, visto que a expansão desordenada das atividades agropecuárias, a pouca conscientização ambiental das populações ribeirinhas e a fiscalização incipiente estão promovendo a degradação ambiental desta importante bacia hidrográfica matogrossense. PALAVRAS-CHAVE: Meio Ambiente, Comunidades tradicionais, Degradação Ambiental. ABSTRACT The Rio Limpo, Rio Lindo Project is a partnership between the Union of Neighborhoods Associations of Nova Xavantina (UNAMB-NX) and the University of Mato Grosso (UNEMAT) Campus of Xavantina, which has the objective to achieve socio-environmental diagnosis of the Rio das Mortes Basin and pursue environmental education work in riverside communities present in a stretch of about 600 km between Nova Xavantina (MT) and São Félix do Araguaia (MT). This article aims to present the work of environmental education developed by the Project, which helps to create a cultural identity among the peoples of the river that values the preservation and conservation of the environment, since the uncontrolled expansion of agricultural activities, poor environmental awareness of coastal communities and the lack of monitoring are promoting the environmental degradation of this important watershed of Mato Grosso state. KEYWORDS: Environment, Traditional communities, Environmental Degradation. INTRODUÇÃO Nos últimos anos o meio ambiente tem sido pauta de intensas discussões em função da acelerada degradação da natureza e consequente decadência da qualidade de vida nas cidades e no campo. Situação que decorre, dentre outras razões, do mau gerenciamento ambiental executado pelos setores público e privado. As preocupações com o meio ambiente, de acordo com Moura (1998), passaram a fazer parte do cotidiano da sociedade moderna a partir de 1968, quando um grupo de cientistas publicou o relatório denominado Limites do Crescimento (Limits to Growth), no qual, por meio de simulações matemáticas, divulgaram projeções de crescimento desordenado da população, da poluição e do esgotamento dos recursos naturais do planeta.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 177 Neste sentido, Lima (1999) reflete sobre a questão ambiental e define-a como um “conjunto de contradições resultantes das interações internas ao sistema social e deste com o meio envolvente”. Em uma análise profunda, o autor refere-se a situações feridas por conflitos, esgotamento e destrutividade, e caracterizadas pelo descontrole no crescimento econômico; na expansão dos centros urbanos; no constante esgotamento dos recursos naturais e energéticos não renováveis; desigualdade socioeconômica e exclusão social; extinção de espécies e degradação de ecossistemas. Por fim, considera-as como realidades que comprometem a qualidade da “vida humana” e do prosseguimento da “vida global”. O fato do meio ambiente ter sido considerado um recurso farto e abundante ao longo do tempo dificulta a possibilidade de estabelecimento de critérios equilibrados para sua utilização, disseminando mundialmente a problemática ambiental que, por sua vez, passa a influenciar toda a sociedade contemporânea em virtude da apropriação indevida dos fatores ambientais (DONAIRE, 1999). Nosso planeta tem passado por muitas transformações. As ações antrópicas sobre ambientes naturais, resultantes das atividades humanas, vêm provocando grandes alterações no meio ambiente natural sem ser levada em conta uma sustentabilidade a curto, médio e longo prazo. E o resultado é uma crescente degradação ambiental, piorando a qualidade de vida e o bem estar das populações [...] (BRITO; CAMARA, 1998, p. 36). Tal situação poderá ser minimizada na medida em que houver uma maior conscientização das pessoas de que o meio ambiente é bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade, bem como dos demais seres vivos. Uma das ferramentas que pode ser utilizada no processo de sensibilização das pessoas é a educação ambiental. Educação Ambiental (EA) O progresso da humanidade baseado na industrialização tem gerado uma oferta maciça de produtos para satisfazer necessidades crescentes da população. A produção de bens e serviços que atendam às necessidades e desejos humanos requer fatores de produção, dentre os quais os recursos naturais, em quantidades cada vez maiores. Paralelamente, há um incremento também crescente de embalagens e produtos que são descartados após sua utilização, contribuindo para a perda de qualidade do meio ambiente. O meio ambiente é, ao mesmo tempo, fonte de recursos e recipiente de resíduos (BARBIERI, 2004). Logo, a maneira como a produção e o consumo de produtos e serviços está ocorrendo promove a degradação acelerada do planeta. O modelo de desenvolvimento imposto ao mundo pela cultura moderna (industrial), baseado no lucro e na produção de mercadorias, tem sido responsável pela maioria dos problemas socioambientais. O meio ambiente vem sendo alterado/degradado ás vezes de forma irreversível e até mesmo para produzir bens perfeitamente dispensáveis (PIAIA, 1999, p.199). A Resolução CONAMA n° 001, de 23 de janeiro de 1986, dispõe os critérios básicos e as diretrizes gerais para o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). Nela compõe-se a definição dos impactos ambientais como: [...] alterações das características geoecológicas (físicas, químicas e biológicas) do ambiente promovida pela inserção de matéria e energia resultante das atividades humanas, afetando de forma direta ou indireta a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as atividades socioeconômicas; os seres vivos; as condições estéticas e sanitárias do ambiente; e a qualidade dos recursos ambientais. Monteiro et al (2001) relatam a falta de atenção sobre a gestão dos resíduos sólidos no Brasil, principalmente, por parte do poder público. Com isso, compromete-se a saúde da população e degradam-se cada vez mais os recursos naturais, especialmente o solo e os recursos hídricos. Quanto ao desmatamento, outro vetor de impactos ambientais, a Secretaria de Planejamento do Estado de Mato Grosso (2006) considera a expansão da agropecuária como responsável pelos graves problemas de desmatamento, tais como redução dos recursos florestais e
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 178 da biodiversidade; degradação de bacias ou sub-bacias hidrográficas, com o assoreamento dos rios e degradação pela carga de agrotóxicos, além da compactação e erosão do solo. Miller Júnior (2007) entende que a contribuição da ciência e tecnologia tem sido significativa para resolver os problemas decorrentes da poluição, mas muitas vezes questões de ordem política, social e cultural retardam ou inviabilizam a adoção de soluções. Logo, a existência de problemas ambientais torna necessária a gestão ambiental, que segundo o Ministério do Meio Ambiente – MMA (2006), gestão ambiental é: [...] um conjunto de políticas, programas e práticas que levam em conta a saúde e a segurança das pessoas e a proteção do meio ambiente. A gestão é realizada por meio da eliminação ou da minimização de impactos e danos ambientais decorrentes do planejamento, implantação, operação, ampliação, realocação ou desativação de empreendimentos e atividades, incluindo-se todas as fases do ciclo de vida de um produto (BRASIL, 2006, n. p.). Neste artigo aplica-se a gestão ambiental no entendimento de Baasch (apud FENGLER, 2002), ou seja, como um processo de mediação de interesses e conflitos entre atores sociais que atuam sobre o meio ambiente. O modo como os diferentes atores por meio de atitudes alteram a qualidade do meio ambiente e também como se distribuem na sociedade os custos e os benefícios destas atitudes é, portanto, relevante para a proposição de melhorias. Assim, torna-se oportuno avaliar a forma que o homem está utilizando e ocupando o espaço de seu habitat, estabelecendo seu grau de conservação e caracterizando os efeitos dos impactos ambientais. A análise do uso e da ocupação atual do espaço torna-se relevante, pois as informações obtidas a partir do modelo presente das atividades e sistemas de exploração, exercidas no espaço, possibilitam instituir os processos e condições ambientais existentes (CEARÁ, 1994). A realização de um diagnóstico socioambiental pode comprovar as preocupações mencionadas e produzir novas e consequentes ações a serem desenvolvidas, visando à melhoria da qualidade ambiental. Para tanto, destaca-se a educação ambiental prevista como “condição necessária para modificar um quadro de crescente degradação socioambiental” (JACOBI, 2003). Dias (2001) discute a finalidade da educação ambiental, reconhecendo nela a possibilidade de promoção de interesse ativo e atitudes necessárias para proteger e melhorar a qualidade ambiental, e de induzir novas formas de conduta nos indivíduos, grupos sociais e na sociedade em seu conjunto, tornando-a apta a agir em busca de soluções para seus problemas ambientais. Sobre educação ambiental, diversas literaturas discutem sua aplicabilidade no tratamento entre comunidades e os problemas ambientais. Para Phillipi Jr. (2005, p. 381) “a educação ambiental (EA) objetiva desenvolver uma consciência ecológica no ser humano, por meio de práticas de conscientização/sensibilização que começam no meio familiar e na escola”. Cascino (1999) acredita que a EA deve tratar das questões globais críticas, suas causas e inter-relações em uma perspectiva sistêmica, em seu contexto social e histórico. Aspectos primordiais relacionados com o desenvolvimento e o meio ambiente, tais como população, saúde, paz, direitos humanos, democracia, fome, degradação da flora e da fauna, devem ser abordados dessa maneira. Enfim, independente do conceito adotado vale citar que a EA em tempos de exploração desenfreada “precisa ser permanente e abrangente, ou seja, fazer parte da vida de um número cada vez maior de pessoas e num maior espaço de tempo possível” (SCHIMIEDER apud ZEPPONE, 1999, p. 147). E é com esta idéia que o Projeto Rio Limpo, Rio Lindo trabalha junto a comunidades que dependem e interferem na dinâmica do meio ambiente. Projeto Rio Limpo, Rio Lindo: educação ambiental no Rio das Mortes Primack e Rodrigues (2001) ressaltam a urgência da sociedade em todos os seus segmentos, entender que é de seu próprio interesse trabalhar pela conservação e desacelerar a perda de espécies e de comunidades biológicas. Não obstante, remeter ao poder público a tarefa de redigir políticas preservacionistas eficientes ao passo de aplicar estratégias de fiscalização eficazes, abre um paralelo de comparação sobre a velocidade destas ações e a velocidade de destruição dos recursos naturais. Ademais,
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 179 esperar da iniciativa privada decisões a respeito desdobra-se em programas com mais vantagens corporativas do que preservacionistas. Assim, Lopes reafirma a visão supracitada sobre a importância de a sociedade interferir neste cenário: Professores, alunos, segmentos comunitários, agentes sociais de uma prática social em que cada um contribua com sua experiência acumulada, sua visão de mundo e suas expectativas, aflorando contradições. Dessa forma, facilita a compreensão e a atuação integral e integrada sobre a realidade vivenciada. As pessoas envolvidas nesse processo terão, como um exercício de cidadania, uma participação ativa na elaboração teórica e práticas das ações para a superação dos problemas diagnosticados (apud GUIMARÃES, 1995, p. 42). Desta maneira, sociedade organizada, sociedade civil e Universidade determinam mecanismos de atuação para contribuir com a conservação dos recursos naturais, por meio da sensibilização do homem e sua interferência no meio ambiente, com a formação do Projeto Rio Limpo, Rio Lindo, idealizado por membro do movimento social de Nova Xavantina – MT, Valteri Araújo. Conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o Rio das Mortes é considerado um dos rios menos poluídos do mundo. Atualmente, sua água é consumida por toda a população ribeirinha de dezessete municípios do Estado de Mato Grosso, além de ser fonte de sobrevivência para muitos por meio da pesca. O Projeto Rio Limpo, Rio Lindo objetiva a realização de diagnósticos da situação socioambiental do Rio das Mortes e das populações ribeirinhas, ações de coleta de resíduos sólidos nas margens e nas águas do rio, análises da água em diferentes trechos e trabalhos de educação ambiental. O objeto deste artigo é a ação de educação ambiental promovida pela equipe do Projeto por meio de apresentação da peça teatral denominada “Nós e o Rio”. A EA no Rio Limpo, Rio Lindo: metodologia e resultados Primack e Rodrigues (2001, p. 84-85) refletem sobre a atuação do homem, enquanto espécie, na alteração dos processos ecológicos que acabam por ameaçar outras espécies. Somente alguns indivíduos de nossa espécie fazem isso. Assim como não é a espécie humana, como um todo, que sofre a consequência dessas extinções. Alguns indivíduos sofrem mais com a degradação dos recursos naturais e extinção de espécies do que outros. O consumo excessivo de recursos não é sustentável com o passar dos anos, e se este padrão for adotado pela classe média em expansão dos países em desenvolvimento, causará uma perturbação ambiental em larga escala. A educação ambiental instiga a percepção da necessidade do ser humano e meio ambiente estarem integrados em uma relação harmoniosa e consciente do equilíbrio dinâmico na natureza. Isto é, por meio da inserção do educando e do educador em interação de novos conhecimentos, valores e atitudes sobre o processo de transformação ambiental do nosso planeta (GUIMARÃES, 1995). Em janeiro de 2010, a equipe do Projeto em expedição rio abaixo partindo de Nova Xavantina realizou duas abordagens de trabalho de EA nas comunidades de Novo Santo Antônio e São Félix do Araguaia. A metodologia utilizada para a realização destas duas ações seguiu praticamente o mesmo roteiro e protocolo, sempre iniciando o processo com um contato prévio com autoridades locais (Secretário de Meio Ambiente ou Prefeito) para estes auxiliarem na divulgação da chegada do Projeto aos munícipes, através dos meios de comunicação das cidades. As abordagens junto às comunidades previam a interação entre os membros do projeto e as pessoas que se deslocavam até o local, a fim de conhecer os moradores e estabelecer uma divulgação do projeto e suas ações, pois de acordo com Sato (2004, p. 18), “a educação ambiental deve estimular a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se de estratégias democráticas e interação entre as culturas”.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 180 As peças teatrais com fantoches apresentavam personagens que remetiam à imagem de elementos e figuras conhecidas do cotidiano da comunidade, no intuito de proporcionar ao público uma forma interativa de associar sua realidade à mensagem proposta pelo teatro. Figura 01: Personagens da peça teatral apresentada pelo Projeto O roteiro da peça contextualiza a diminuição de espécies que vivem no rio ou em suas margens em função do descarte de resíduos sólidos e do desmatamento das matas ciliares, e utiliza personagens como pescadores, peixes diversos, animais silvestres e répteis, produzidos com espuma e pintados por componentes do Projeto. Os personagens e os diálogos são os mesmos que ilustram a cartilha ambiental que é distribuída ao público presente antes do início das apresentações. [...] a educação ambiental considera o ser humano como um ser integrante, agente na natureza e busca uma modificação na forma como nos relacionamentos com ela. Nesta perspectiva o processo de aprendizagem se dá através da sensibilidade, da criatividade, para ‘formar’ cidadãos críticos, criativos, sensíveis e comprometidos em buscar relações mais sustentáveis com o meio (CAVEDON et al apud KINDEL; SILVA; SAMMARCO, 2004, p. 66). Uma vez encerrada a apresentação teatral, surge o palhaço Pinbim, um acadêmico do curso de Turismo da Universidade do Estado de Mato Grosso, fazendo a animação do público presente e distribuindo brinquedos às crianças. Para concluir os trabalhos, os membros do projeto são apresentados ao público e é feita uma breve reflexão sobre a importância da conservação do rio para a manutenção da qualidade de vida nas comunidades ribeirinhas. O público presente nessas ações foi estimado em 60 pessoas em Novo Santo Antonio, cuja ação ocorreu durante a tarde, e de 250 pessoas em São Félix do Araguaia, onde a apresentação ocorreu de noite.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 181 Figura 02: Local da ação ambiental em Novo Santo Antonio A infraestrutura para as apresentações teatrais é montada pelos próprios membros do Projeto às margens do rio das Mortes, assim que se chega nas comunidades, e é composta de uma tenda de 16 metros quadrados e 50 cadeiras plásticas. Em São Félix do Araguaia, cidade situada a 7 quilômetros a montante da barra do rio das Mortes no rio Araguaia, antes da apresentação da peça, foi exibido o vídeo Mudança do Clima, Mudanças de Vidas produzido pelo Greenpeace, com duração de 15 minutos. Acredita-se que essas intervenções vão ao encontro da promoção da transformação e construção da sociedade, pois conforme Guimarães (1995), a educação ambiental é transformadora de valores e atitudes através da construção de novos hábitos e conhecimentos. É necessária a criação de uma nova ética que possibilite a melhoria da qualidade de vida nas comunidades, e consequentemente, no planeta, pois não basta que os cidadãos tenham acesso à informação, é preciso que a sensibilidade ambiental seja construída junto aos sujeitos das localidades para que a sociedade se torne sustentável. Esta é uma das tarefas mais efetivas da EA, visto que embora este seja um processo lento, tem consequências duradouras.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 182 Figura 03: Crianças lendo as cartilhas ambientais em São Félix do Araguaia Cabe ressaltar que em ambas as comunidades visitadas professores solicitaram cartilhas extras para que os mesmos possam trabalhar nas escolas locais. Tal fato ilustra uma participação ativa e responsável de indivíduos que pretendem contribuir com o processo de desenvolvimento de práticas educacionais voltadas a resolução de problemas do meio ambiente. CONSIDERAÇÕES FINAIS Acredita-se que o diagnóstico socioambiental, o processo educacional e as ações de coleta de resíduos sólidos do Rio das Mortes realizados pelos membros do Projeto Rio Limpo, Rio Lindo proporcionem a criação e estabelecimento de uma identidade cultural entre os povos das margens do rio que valorize a preservação e a conservação do meio ambiente. Além disso, com a inclusão ecológica, espera-se da população ribeirinha um combate sistemático a qualquer tipo de agressão à natureza e às leis ambientais, quer seja praticada no rio e seus afluentes, ou no seio das comunidades que dele fazem uso diário para sua sobrevivência. Isso trará impactos positivos à qualidade ambiental da região e gerará possibilidades ainda maiores para o desenvolvimento da atividade turística, que tem potencial significativo de geração de emprego e renda nas localidades, contribuindo para a criação de novas alternativas econômicas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBIERI, J. C. Gestão ambiental empresarial. São Paulo: Saraiva, 2004. BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Cadernos de formação, v. 1, 2006. Disponível em: <http://www.cepam.sp.gov.br/v11/arquivos/sisnama_site_AF.pdf> Acesso em: 10 maio 2008. BRITO, Francisco A.; CÂMARA, João B. D. Democratização e gestão ambiental: em busca do desenvolvimento sustentável. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1998. CASCINO, Fábio. Educação ambiental: princípios, história, formação de professores. São Paulo: SENAC-SP, 1999. CEARÁ. Secretaria de Planejamento e Coordenação. Projeto Áridas. Grupo de Trabalho I, vol. II, Recursos Naturais e Meio Ambiente. Fortaleza: SEPLAN, 1994. DIAS, Genebaldo Freire. Educação ambiental: princípios e práticas. 7. ed. São Paulo: Gaia, 2001. DONAIRE, D. Gestão ambiental na empresa. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 184 SELO AMBIENTAL: EDUCAR PARA CIDADANIA Alana Fernanda Dias CARVALHO Coordenadora de Meio Ambiente. Secretaria de Planejamento- SEPLAN - Av. Floriano Peixoto, 1726. Santo Antonio, Campina Grande-PB alana_carvalho25@hotmail.com Edinete Maria de OLIVEIRA Professora. Secretaria de Planejamento- SEPLAN - Av. Floriano Peixoto, 1726. Santo Antonio, Campina Grande-PB edineteoliver@yahoo.com.br Marília Pereira AMORIM Gerente de Mobilização e Educação Ambiental. Secretaria de Planejamento- SEPLAN - Av. Floriano Peixoto, 1726. Santo Antonio, Campina Grande-PB mariliap.amorim@hotmail.com RESUMO O trabalho está sendo realizado pela Secretaria de Planejamento de Campina Grande-PB através da Coordenadoria de Meio Ambiente- COMEA. Para primeira fase foram selecionadas dez escolas públicas municipais de diferentes pontos da cidade para escolha do desenho a se tornar oficialmente o Selo Amigo do Meio Ambiente. Considerando que esse trabalho está em andamento, os primeiros resultados mostram ser de positivo impacto no despertar da sociedade local para maior responsabilidade com o meio ambiente. A segunda fase será em parceria com empresas que desejam agregar valor a seus produtos tornando-se “Amigo do Meio Ambiente”. O objetivo desse trabalho é promover Educação Ambiental informal através de empresas comprometidas com o meio ambiente e cidadania no município de Campina Grande. PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental, Selo, Cidadania. ABSTRACT The work is being conducted by the Secretaria de Planejamento of Campina Grande-PB through the Coordenadoria de Meio Ambiente -COMEA. For first phase were selected ten public schools in different parts of the city to choose the design to become the official stamp of the Environment. Considering that this work is in progress, the first results show positive impact on the awakening of society for more responsibility with environment. The second phase will be in partnership with companies which want aggregate value to their products by becoming themselves “Amigo do Meio Ambiente”. The objective this work is to promote informal environmental education through committed companies to the environment and citizenship in the city of Campina Grande. KEYWORDS: Environmental Education, Stamp, Citizenship. INTRODUÇÃO A Constituição Federal determina como uma das obrigações do Poder Público a promoção da Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e conscientização pública, colocando o meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito do cidadão, vinculando qualidade ambiental e cidadania. O desafio do desenvolvimento sustentável está se tornando base para as políticas ambientais e conseqüentemente ao desenvolvimento econômico das sociedades, o que requer mudanças de comportamento e nesse sentido o planeta tem pressa. A economia dos recursos, a opção por produtos ecologicamente corretos e a preocupação com o coletivo são atitudes que podem ser alcançadas através da conscientização e educação ambiental (Pádua e Tabanez, 1997). Não é tão simples quanto parece, pois a história mostra que tudo passa por questões políticas, sociais e econômicas, complexas e difíceis com muitas contradições, deixando o planeta sempre distante do melhor caminho de mitigação dos problemas ambientais e consequentemente de preservação do meio ambiente. Nesse sentido Mota Júnior (2009), baseado em muitos autores,
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 185 coloca como necessária a formação de uma Educação Ambiental crítica em meio às adversidades como a crise da política e padrão de desenvolvimento e sustentabilidade concebido por meio do consumo. Para isso a Educação Ambiental precisa aperfeiçoar metodologias e aprofundamento teórico para o desafio de ser política e ao mesmo tempo promotora da nova cidadania. Sendo assim, os empresários de forma geral têm consciência da importância de seus produtos estarem atrelados aos diversos conceitos de meio ambiente. Diante disso, a Prefeitura Municipal de Campina Grande-PB através da através da Secretaria de Planejamento, pela Coordenadoria do Meio Ambiente lança o Selo Municipal Amigo do Meio Ambiente e busca com os empresários locais desenvolver parcerias objetivando sensibilizar a população da importância e possibilidade de somar desenvolvimento econômico à preservação do meio ambiente. METODOLOGIA O trabalho foi realizado pela Secretaria de Planejamento de Campina Grande- PB através da Coordenadoria de Meio Ambiente- COMEA. Esse trabalho possui duas fases, a primeira ocorreu entre os meses de setembro e dezembro de 2009, através da escolha e lançamento do Selo Municipal Amigo do Meio Ambiente, onde em parceria com a Secretaria de Educação do Município, foram selecionadas dez escolas públicas municipais de diferentes pontos da cidade com prévia experiência em educação ambiental, de forma a representar a toda a realidade do local. O trabalho de divulgação do projeto foi executado, pelos servidores da COMEA, sendo apresentado aos professores em cada uma das escolas selecionadas. Às escolas restou divulgar o concurso “Selo Amigo do Meio Ambiente”, realizar as inscrições dos alunos interessados e recolher o material que os alunos produziram. Aos professores coube orientar os alunos no que concerne aos conceitos de meio ambiente, recursos naturais e desenvolvimento sustentável, bem como, características e conceito de selo. A equipe para seleção do desenho foi formada por professores da rede pública municipal, tendo sido avaliados os seguintes critérios: Criatividade do aluno, originalidade, ligação existente entre a figura e o tema “Amigo do Meio Ambiente”, forma característica de uma figura preparada para tornar-se selo. Foi obedecida a seqüência abaixo: Foram escolhidas de forma preliminar 03 (três) figuras, por ciclo, de cada escola participante; Estas foram classificadas entre si, ainda por ciclo; Posteriormente os primeiros lugares de cada ciclo competiram entre si; Nesta última etapa restou apenas 01 representante de cada escola, dentre os quais será escolhido o grande vencedor do concurso. Escolhido o desenho, foi promovido no dia 18 de dezembro de 2009, o evento oficial de Lançamento do Selo Municipal “Amigo do Meio Ambiente”, instituído pela Lei 4.908 de 14 de janeiro de 2010. A continuação desse trabalho se dará através das seguintes etapas: Divulgação do selo, Confecção de kit com proposta do projeto para apresentar a empresários locais a fim de firmar parcerias. A Coordenadoria de Meio Ambiente se propõe a promover palestras em Educação Ambiental nas empresas, sobre temas de interesse e que estejam relacionados com a atividade da mesma; contribuir com a destinação adequada de lixo; implantar coleta seletiva; divulgar o nome das empresas como Amiga do Meio Ambiente nos eventos, através de material impresso, logomarcas e mídia; autorizar a utilização do selo em seus produtos, com vistas a uma futura certificação. RESULTADOS E DISCUSSÃO Considerando que esse trabalho ainda está em andamento, pois a fase de criação, escolha e confecção do selo é considerada primeira etapa, observamos que as inscrições em dez escolas
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 186 municipais possibilita considerar o projeto como de positivo impacto, no despertar da sociedade local para maior responsabilidade com o meio ambiente. Os resultados dos primeiros lugares por escola (tabela 1) mostraram certa proximidade nos valores, embora seja considerável a diferença entre a menor e maior média (7,0 e 9,5) o que demonstra nível constante de desenvolvimento e conhecimento sobre Meio Ambiente pelos alunos no Município bem como bom entendimento na proposta do selo. ESCOLA ALUNOS ALUNO CLASSIFICADO EM 1º LUGAR NA MÉDIA INSCRITOS ESCOLA Escola Municipal João Pereira de 28 Larissa Alves Domingos 9,2 Assis Escola Municipal Paulo Freire 25 Karla Maria Domingos 7,5 Escola Municipal Tiradentes 38 Karina de Cássia Cipriano 7,2 Escola Municipal Padre Antonino 71 Nialisson Max da Silva 7,0 Escola Municipal Manoel da 112 Renato Silva 7,8 Costa Cirne Escola Municipal Mª das Vitórias 49 Luís Carlos Medeiros 9,0 Uchoa Escola Municipal Frei Dagoberto 85 Maria de Fátima Pereira 7,5 Stucker Escola Municipal Antônio Mariz 29 Thiago da Silva 8,0 Escola Municipal Lafayete 102 Demóstenes Gutierry 9,5 Cavalcante Escola Municipal Roberto 45 Jéssica Luana 7,8 Simonsen Tabela 1: Médias dos alunos com primeira colocação, por escola. No entanto, percebe-se que os trinta desenhos (figura 1) escolhidos apresentaram características peculiares às idades, séries, realidades sociocultural (escolas), pois reconhecemos que estamos muito longe de uma educação ambiental de qualidade por muitos motivos entre eles a falta de preparação e atualização dos professores de escolas públicas. Para Brasil (1998), cada professor dentro da especificidade de sua área deve adequar os tratamentos dos conteúdos para contemplar o tema meio ambiente. Essa adequação pressupõe um compromisso com as relações interpessoais no âmbito da escola. A educação ambiental se caracteriza por incorporar as dimensões sociais, políticas, econômicas, culturais, ecológicas e éticas, devendo contemplar a sociedade como um todo (Dias, 1994).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 187 Figura 1. Alguns desenhos premiados As figuras abaixo (2 e 3) mostram o evento de lançamento do selo, com entrega de brindes aos três primeiros colocados por escola, em um total de 30 (trinta) crianças, bem como a oficialização do “Selo Amigo do Meio Ambiente”, desenho do aluno Demóstenes Gutierry da Escola Municipal Lafayete Cavalcante. Figura 2. Mesa composta por autoridades municipais. Figura 3. Crianças premiadas pelo concurso. Na figura 4 o aluno recebe o prêmio pelo primeiro lugar no concurso (um microcomputador) em sua residência, pelo desenho (Figura 5).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 188 Figura 4. Aluno vencedor do concurso recebendo premiação. Figura 5. Desenho escolhido para o selo. CONSIDERAÇÕES FINAIS A Coordenadoria de Meio Ambiente juntamente com a Secretaria de Educação poderão contribuir na melhoria da qualidade da Educação ambiental nas escolas públicas municipais de Campina Grande-PB. A melhor maneira de fazer Educação Ambiental com qualidade é levantando os problemas locais e sensibilizando a sociedade. Firmar parcerias entre Município e iniciativa privada, amplia o alcance do projeto, além de aumentar as condições de trabalho do ponto de vista financeiro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclo do ensino fundamental; temas transversais. Brasília: MEC/ SEF, 1998. DIAS, G.F. Educação Ambiental: Princípios e Práticas. Ed.Global, 551p, São Paulo, 1994. MOTA JÚNIOR. V. D. Educação Ambiental, Política, Cidadania e Consumo. Interacções (Portugal), V. 11, p. 214-229, 2009. PADUA, S.M & TABANEZ, M.F. Educação Ambiental: Caminhos trilhados no Brasil.Ed. Gráfica e Fotolito Ltda, 283p, Brasília, 1997.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 189 TIMOR-LESTE: PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR DE UM ESTADO EM CONSTRUÇÃO Elisabet Andrijani TARWANTI Aluna do Programa de Pós-graduação Lato Sensu em Educação/área Educação Ambiental, da Universidade Nacional Timor Lorosa’e-UNTL/CAPES. Professora secundarista da Escola Secundária Colégio de São José – Dili/Timor-Leste Benedita Aparecida da SILVA Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Espírito Santo - IFES- Brasil – Professor-orientador benedita@ifes.edu.br, Doutora em Ciências Biológicas (UNESP/Botucatu)/Professor Bolsista da CAPES no Programa de Pós-graduação Lato Sensu em Educação/área Educação Ambiental, da Universidade Nacional Timor Lorosa’e- UNTL. Timor-Leste, 2008/2009 ABSTRACT The Southeast Asian country East Timor, is a country which first obtained its independence in 2002. A range of historical and political factors, and associated conflicts of interest, have shaped this new nation. The current global pressure for sustainable development is another challenge in the process of state and identity-building for the Timorese. The current study was carried out to investigate perceptions of the environment in a school context, as the basis to examine the effect of such factors on the entire environmental awareness of the country. The study was carried out between October 2008 and May 2009 at the private catholic vocational secondary College of St. Joseph, located in the capital city of Dili. The institutional model of this school is that of the colonial past of the country, and therefore has a substantial effect on the current process of state-building. This work can be classified as qualitative and interpretive research. It used structured interviews with students and teachers, as well as observational analysis of the educational/learning processes. The responses of both teachers and students clearly reflected an idealized vision of the environment, without conflict. The key environmental issues on the minds of both teachers and students were air pollution, poor sanitation and deforestation. Global warming was not linked to any of these issues by respondents. Students and teachers had differing perceptions of the critical causes and consequences of environmental degradation, but agreed on the general responsibility of society for the damages seen, and on environmental protection. Teachers had little knowledge of environmental issues. The integration of environmental awareness in the Timorese society is incomplete. This partly due to significant communication problems in this multilingual country, as well as ethnic issues. Environmental awareness however, can act as an important factor for the Timorese in their own building of a sustainable society. KEYWORDS: East-Timor. Environmental perception. Sustainable society; Secondary College of St. Joseph, RESUMO Timor-Leste, no Sudeste Asiático, é um Estado independente desde maio de 2002. O conjunto de acontecimentos histórico-políticos, e as disputas de interesses associados, marcam sua trajetória, e os desafios atuais em construir a identidade da nação, e um modelo de sociedade timorense que inclua a demanda global por desenvolvimento sustentável. Esse trabalho tem por objetivo investigar a percepção ambiental em um contexto escolar, como subsidio de análise da inserção da dimensão ambiental na realidade timorense. O estudo foi realizado entre outubro de 2008 e maio de 2009, em uma instituição vocacional católica, privada, de ensino secundário, Escola Secundária Colégio de São José, na capital Dili, cujo modelo institucional corresponde àquele predominante no passado colonial do país e que subsiste com grande influência no processo atual de construção desse Estado. Ele caracteriza-se como uma investigação qualitativa e interpretativa, com o uso de entrevistas estruturadas com alunos e professores, e análise observacional dos espaços de ensino-aprendizagem. Professores e alunos revelaram uma visão de meio ambiente como natureza idealizada, e sem conflitos. As problemáticas ambientais de maior relevância apontados, global e
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 190 localmente, para professores e alunos, são aqueles vivenciados no cotidiano, como poluição atmosférica, falta de saneamento e desmatamento. Aquecimento global não foi relacionado a estes. Alunos e professores revelam percepções diferenciadas quanto a análise crítica de causas e consequências dos fenômenos da degradação ambiental, porém concordam na responsabilização da sociedade em geral pelos danos e pela proteção ambiental. Professores revelam pouco domínio das temáticas ambientais. Os resultados revelam que a inserção da dimensão ambiental na sociedade timorense ainda é incipiente, e passa pelo enfrentamento de questões como as barreiras de comunicação entre sua população multilinguistica, e as rupturas em sua matriz étnica. Porém, ela pode contribuir como elemento aglutinador do povo, na construção de um projeto comum de sociedade sustentável. PALAVRAS-CHAVE: Timor-Leste; percepção ambiental; sociedade sustentável; Escola Secundária Colégio de São José. INTRODUÇÃO Timor-Leste localizado no Sudeste Asiático, é um Estado independente desde maio de 2002. Ele representa no cenário internacional, o caso do maior volume de investimentos da Assistência para Desenvolvimento Internacional (AID) na reconstrução das infra-estruturas físicas e administrativas de um país (SILVA ; SIMIÃO, 2007). Colônia de Portugal por mais de 450, seu território, foi ocupado em 1975, por forças militares da República Indonésia e a ela anexado. Em 1999, por meio de um referendo negociado pela ONU, ocorre sua desocupação pelas forças indonésias, e tem início a ajuda da assistência internacional. O conjunto de acontecimentos histórico-políticos, e as disputas de interesses associados, marcam a trajetória do país, e os desafios atuais em construir a identidade da nação e um modelo de sociedade timorense, que inclua a demanda global por desenvolvimento sustentável. O homem como ser histórico, desde o seu surgimento, vem produzindo profundas transformações na natureza no sentido da produção de bens para a satisfação de suas necessidades. Nesse processo ele construiu um modo de vida em sociedades urbano-industriais, que se caracteriza não apenas por uma grande dependência de produtos gerados por transformações tecnológicas, como alimentos, vestuários, moradias, medicamentos, transporte, energia, etc, mas também, e sobretudo, por um elevado distanciamento do meio natural e intensiva degradação desse meio, colocando em risco a sua própria sobrevivência no planeta Terra. A reflexão sobre a responsabilidade de todos em relação as questões sócioambientais, adquire cada vez mais relevância em nível mundial, e passa a fazer parte das agendas dos governos, como estratégia de desenvolvimento. Assim é que Timor-Leste, o país que mais recentemente alcançou a condição de Estado independente, já apresenta em sua Lei de Bases da Educação, promulgada em 29 de outubro de 2008 (RDTL, 2008), a diretriz para abordagem da dimensão ambiental nos curriculos escolares. Logo, a compreensão que se tem de natureza e o valor que se atribui a ela, e às relações que são estabelecidas com o mundo natural, dependem da cultura e do momento histórico vivenciados por cada povo. A percepção ambiental de uma pessoa, nessa perspectiva, é o resultado de fatores sociais, como aqueles relacionados com a educação e a cultura, e também da afetividade como resultado das impressões que os sujeitos estabelecem com o meio onde vivem, das relações que estabelecem com as pessoas da comunidade, do acesso a informações a partir da escola e outros meios, televisão, jornal, internet, tradições da comunidade onde vive, além de características pessoais específicas (HOEFFEL E FADINI, 2007). O fato dos sujeitos apresentarem diversas percepções sobre natureza ou mundo natural, reflete-se também nas percepções que estes sujeitos têm sobre meio ambiente e as questões ambientais. Conhecer estas percepções, torna-se portanto essencial no processo de elaboração e aplicação de propostas que busquem contribuir com a melhoria da qualidade ambiental e de vida das pessoas (SAUVÉ, 2000; REIGOTA, 2002; HOEFFEL e FADINI, 2007). O presente estudo tem por objetivo investigar a percepção ambiental relativa a questões ambientais, como uso de recursos naturais, danos ambientais, aquecimento global, e outros, entre
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 191 alunos e professores da Escola Secundária Colégio de São José, como subsidio de análise da inserção da dimensão ambiental na educação escolar em Timor-Leste. METODOLOGIA 2.1. A Escola Secundária Colégio de São José A Escola Secundária Colégio de São José, é uma instituição vocacional católica, privada, de ensino secundário subordinada a Congregação Jesuíta, fundada em 1971, em Dili, capital do Timor-Leste. O seu turno matutino funciona com aulas da matriz curricular obrigatória, e vespertino, com atividades extra-curriculares. No período de realização do estudo, outubro de 2008 a maio de 2009, contava com um corpo discente representado por 537 alunos, distribuídos nas três séries do ensino secundário, com média de idade variando de 15 a 18 anos, e predomínio do gênero feminino. O corpo docente, por sua vez, era constituído por 46 professores, incluindo os gestores, sendo 19 mulheres e 27 homens, religiosos da congreção jesuíta e não religiosos. Contava ainda com cinco agentes administrativos. Seu modelo institucional corresponde àquele predominante no passado colonial do país e que subsiste com grande influência no processo atual de construção desse Estado. O Colégio de São José, declara como Missão, a formação de lideres para atuarem em suas comunidades, e atua na perspectiva da educação integral (COLÉGIO DE SÃO JOSÉ, 2008-2009) . 2.2.Metodologia 2.2.1.Coleta e avaliação de dados sobre a percepção ambiental dos alunos e professores/gestores da Escola Secundária Colégio de São José. Esse estudo, caracteriza-se como uma investigação qualitativa e interpretativa, por meio da coleta e análise de dados obtidos por meio de dois instrumentos: a) Entrevistas estruturadas, na forma de questionário com 15 questões fechadas aplicado a alunos e professores. A amostra de alunos para aplicação do questionário, foi constituida de 61 educandos, em um total de 537, casualizada por meio de sorteio simples, incluindo proporcionalmente representantes das três séries: 25 alun(a)os da primeira série (40%), 18 alun(a)os da segunda série (30%) e 18 alun(a)os da terceira série (30%). A amostra de professores também foi casualizada, observando-se a equitatividade na representação das duas áreas de ensino existentes na Escola, isto é, Ciências, incluindo professores de matemática, física, biologia, química; e Sociais, incluindo professores de Sociologia, Economia, Contabilidade, Computador, Geografia, História e Línguas. Esta amostra ficou constituída por 9 professores, dos quais um tem também função administrativa, ocupando o cargo de Vice-diretor da Instituição. A análise dos dados se deu por b)Análise observacional dos espaços de ensino-aprendizagem, particularmente por meio de levantamento da temática ambiental na atividade Exibição da Aprendizagem. A atividade Exibição da Aprendizagem é uma atividade de iniciação científica, obrigatória para a 3ª série como requisito para realização dos exames finais e conclusão do curso secundário. Os aluno(a)s são organizados em duas áreas de ensino, Ciências e Sociais. O processo dessa atividade começa no terceiro trimestre da 2ª série, onde os alunos devem definem um tema para o trabalho a ser apresentado no ano seguinte. Os temas escolhidos são entregues para o Coordenador da atividade. Na série seguinte, a 3 ª série, o Coordenador define um orientador para cada aluno, e o processo de orientação tem início. Um vez concluido o trabalho, ele é defendido junto a uma banca formada por dois professores. O levantamento dos temas dos trabalhos ou projetos científicos que defendidos na edição Exibição de Aprendizagem 2009, foram analisados com a determinação do número e as categorias em que a temática ambiental apareceu nos mesmos. 3) Resultados e Discussão A análise dos resultados a partir da aplicação do questionários, sobre a visão de meio ambiente, entre alunos e professores, revela uma visão romântica, e pouco crítica, associada a esse
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 192 conceito. Entre os professores, esse percentual chegou a 56%, e alunos, a 46%, como apresentado no Quadro 1. Também é possivel observar neste Quadro, que , 21% dos alunos associam o conceito a uma visão ecológica e ainda, na mesma proporção a uma visão sócioambiental (a escola, a igreja, os esgotos, as comunidades humanasos animais, todos os espaços onde vivemos e realizamos acões). Entre professores, no entanto, 33% associam o conceito a uma visão utilitarista, e nenhum, a visão sócioambiental. VISÕES SOBRE MEIO AMBIENTE Sujeitos Visão romântica Visão Visão Visão Não sabe pesquisados (%) Utilitarista(%) Sócioambiental(%) Ecológica (%) opinar (%) Professores 56 33 0 11 0 Alunos 43 13 21 21 2 QUADRO1: Visão de meio ambiente entre alunos e professores/gestores da Escola Secundária Colégio de São José observada em abril de 2009 A Questão n.2 tratava da percepção dos alunos e professores quanto a relação entre os fatores crescimento econômico, desenvolvimento e degradação ambiental. Entre os alunos, 49% concordaram com afirmativa de que é possível haver crescimento econômico e desenvolvimento social com base no controle das fontes poluidoras e geradoras de degradação ambiental; essa porcentagem sobe para 78% entre os professores, revelando uma visão menos crítica por parte destes últimos. Ainda apenas entre os alunos surge a percepção (7%) de que crescimento econômico e desenvolvimento social no cenário atual, é indissociavel da geração de degradação ambiental. A Questão de n. 3, tratava da abordagem de temáticas ambientais no ambiente escolar. Entre os professores, 56% responderam que a temática ambiental é frequentemente abordada na escola; entre os alunos, apenas 15% compartilham da mesma opinião, 34% responderam que raramente e 18%, que nunca é abordada. As Questões de ns. 4 e 12, em complementação com as Questões de ns. 11 e 13, permitem conhecer a percepção de alunos e professores quanto aos problemas ambientais globais e locais. Entre os 3 problemas ambientais de maior importância em nível global, aparecem na visão dos alunos, a poluição atmosférica (52%), o desmatamento (26%) e a falta de saneamento (19%). Na visão dos professores, aparecem empatados na primeira posição a poluição atmosférica e a falta de saneamento (56%), na segunda posição, o desmatamento (44%). Na Questão de n.12, onde se levantou os 3 problemas de maior importância em nível local (cidade de Dili), novamente aparece, na visão dos alunos, a sequência dos três primeiros lugares anteriores. Na visão dos professores, a poluição atmosférica (50%) também se mantém como o problema local de maior importância, seguido pela falta de saneamento(31%) e desmatamento (19%). Em relação Questão n.11, onde se questiona se a poluição na cidade de Dili pode afetar a saúde da população, há uma concordância que sim, na visão dos alunos (90%) e professores (100%), observando que essa poluição é entendida sobretudo como poluição atmosférica. A Questão n.13, onde se questiona a qualidade ambiental de Dili, na visão dos alunos 55% a consideram boa ou adequada, enquanto 36%, a consideram péssima. Entre os professores, 56% a consideram, boa ou adequada, e 44% péssima. A poluição atmosférica, resultante da poeira e da poluição veicular, é sentida por toda a população de Dili, e a taxa de desmatamento em Timor-Leste é de 1,2% ao ano, uma das mais elevadas do Sudeste Asiático, cuja explicação, segundo o BM&BAD (2007) está na conversão das florestas em terrenos agrícolas. As representações quanto a responsabilização ambiental se deram com base na interpretação das respostas às Questões de ns. 5, 6, 7, 8, 9 e 10. A Questão n.5, que busca conhecer comportamentos negativos, e portanto relações, estabelecidas com o Meio ambiente, mostram que entre os alunos, no conjunto de ações apresentadas, 48% responderam que deitam (jogam) ou já deitaram lixo em locais inadequados e 34%, cortam, ou já cortaram árvores de matas e florestas. Entre os professores, 67% responderam que deitam (jogam) ou já deitaram lixo em locais inadequados e 22%, cortam, ou já cortaram árvores de matas e florestas. O comportamento de jogar lixo em locais como vias públicas, é bastante comum na cidade de Dili, e
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 193 não é percebido pela população como uma agressão ao meio ambiente com implicações à saúde pública. A captura de animais silvestres, sobretudo macacos e papagaios (loricos), como animais de estimação, ou para venda é outra prática comum observada na cidade de Dili. Entre os sujeitos pesquisados, apenas os alunos relataram a prática, e em baixa porcentagem (3%). Não há legislação específica que proíba este tipo de atividade naquele no Timor-Leste. Não há um animal em especial considerado sagrado no Timor-Leste, mas dentro da concepção mítica original do povo timorense a natureza no seu todo é considerada sagrada (lulik).Eram frequentes, no entanto, o relato que durante a ocupação indonésia muitos animais do território timorense foram levados para aquele país, sobretudo aves, isso somado a internacionalização do seu território, tem levado à perda dessa forma original de relação do povo com a natureza. As Questões n.6 e n. 7 tratam da atitude dos sujeitos em relação a prática de ações negativas ao meio ambiente e as ações do governo de Timor-Leste em relação ao meio ambiente, respectivmente. Os dois grupos concordam na responsabilização da sociedade em geral pelos danos e pela proteção ambiental. Os resultados observados nas respostas de professores e alunos apontam para um entendimento de que o governo de Timor-Leste tem atenção e comprometimento com o meio ambiente. A visão dos professores no entanto é mais crítica, porque a par dessa atenção do governo, avaliam que ele também provoca danos ao meio ambiente. A Questão n.10 trata do conhecimento entre os sujeitos pesquisados, de alguma Organização Não Governamental (ONG) voltada à defesa do meio ambiente em Timor-Leste. No grupo de professores,78% responderam que sim, e citaram a Fundação Haburas, e no grupo de alunos, 49%, também responderam que sim, e citaram a Fundação Haburas. A Fundação Haburas, de acordo com informações contidas em seu site oficial (HABURAS FOUNDATION/FUNDAÇÃO HABURAS, 2008), foi fundada em 1998 por um grupo de estudantes timorenses, com o objetivo de mostrar a degradação ambiental causada pelos militares indonésios, durante o período de ocupação do Timor-Leste. Após o referendo de 1999, a Haburas mudou seu foco de atuação para educação e gestão ambiental, e com o suporte de muitos doadores internacionais desenvolve projetos nestas áreas. A Questão n.14, buscou verificar o conhecimento entre professores e alunos, do documento que visa a redução dos gases do efeito estufa. No grupo dos professores 89%, responderam Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, e apenas 11% Protocolo de Kioto, sendo, o respondente, professor de química. No grupo de alunos, 52% responderam Protocolo de Kioto; 26% Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global; 20% Agenda 21 e 2% Carta da Terra. Os resultados obtidos em relação ao documento que trata da redução da emissão de gases do efeito estufa, mostra o grande desconhecimento entre professores, sobre os principais documentos norteadores dos acordos internacionais para as grandes questões ambientais, e entre os alunos, o maior conhecimento apresentado sobre o documento indica uma possível influência da pesquisadora que também é professora na Escola Secundária Colégio de São José. Finalmente, a Questão n.15, buscou conhecer o sentimento dos sujeitos em relação aos problemas ambientais. No grupo dos professores 45% disse estarem tranquilos porque hoje a humanidade dispõe de tecnologia para resolver qualquer problema de ordem ambiental. No grupo dos alunos 38% também afirmaram estar tranquilos, ou pela segurança que sentem na tecnologia (21%) ou porque acreditam que problemas como o aquecimento global estão muito longe da realidade de Timor-Leste (17%). As porcentagens dos que afirmaram estar preocupados, foi de 55% entre professores, e 52% entre alunos, com coincidência entre os dois grupos (44%) para os níveis de degradação ambiental e o risco de sobrevivência no planeta. O levantamento dos temas dos trabalhos ou projetos científicos defendidos na Exibição de Aprendizagem, edição 2009, foram analisados e a partir dessa análise, determinou-se o número e as categorias em que a temática ambiental apareceu nos mesmos. Os dados levantados entre os alunos na área de Ciências, e Sociais, estão apresentados nos Quadros 2 e 3, a seguir.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 194 Aluno Título Temática Ambiental 1- Baptista Mouzinho Vulcanismo Poluição (atmosférica e chuva ácida) 2- Sri Putri Ningsih O impacto das poeiras no sistema Poluição atmosférica e respiratório saúde pública 3- Dulce Maria Bactérias causadoras de diarréias Saneamento e saúde pública 4- Sonia Mariana Daos Compostagem a partir Resíduo Sólido (lixo) do lixo QUADRO2: Levantamento dos temas relacionados com a temática ambiental na atividade Demonstração de Aprendizagem dos alunos da 3ª série do Colégio São José do ano letivo de 2009 O número total de trabalhos defendidos na área de Ciências foi de cinquenta e um (51), e deste total, apenas quatro (4) trabalhos, ou seja 7,8% desenvolveram a temática ambiental. Entre estes, a análise das categorias temáticas, mostrou que 2 trabalhos (50%) tratam da poluição, com ênfase na poluição atmosférica; 1 trabalho (25%) trata do tema saneamento e saúde e 1 trabalho (25%), aborda o tema resíduos sólidos. Aluno Título Temática Ambiental 1- Gui Santos da Cruz Corte e queimada de árvores no Suco* de Tibar Desmatamento 2- Jesuina C. S. X. Belo A comunidade do subdistrito de Recursos Naturais e sistemas Laleia e o cultivo de arroz: produtivos dificuldades no acesso aos recursos hídricos 3- Joãozinho C. do Carmo Influência da poluição atmosférica na saúde da Poluição Atmosférica comunidade 4- Lígia Esperança Guterres Baixa produtividade agrícola no Recursos Naturais e sistemas subdistrito no subdistrito de Ossu produtivos 5- Nancy dos Santos Importância da arborização no Desmatamento Subdistrito de Metinaro e no país Timor-Leste *Suco= Unidade administrativa QUADRO 3: Levantamento de títulos relacionados com a temática ambiental na atividade Demonstração de Aprendizagem dos alunos do terceiro ano da área de ensino Sociais O número total de trabalhos na área Sociais, por sua vez, foi de oitenta e seis (86), e deste total, apenas cinco trabalhos (5,8%) desenvolveram a temática ambiental. Analisando-se estes cinco trabalhos quanto as categorias temáticas, 2 trabalhos (40%) tratam da temática desmatamento e 2 (40%), da temática uso de recursos naturais e sistemas produtivos, e 1(20%), trata da poluição, com ênfase na poluição atmosférica. Os resultados obtidos por meio da atividade Demonstração da Aprendizagem, nas áreas de Ciências e Sociais, estão de acordo com os aqueles obtidos sobre a percepção dos sujeitos a partir da aplicação dos questionários, e indicam que a dimensão ambiental ainda não está significativamente inserida nas preocupações da sociedade civil de Dili, e na timorense em geral. Quando as questões ambientais surgem em contextos como o escolar, as temáticas são aquelas relativas aos problemas vivenciados de forma muito concreta na vida cotidiana, sem no entanto uma vinculação ou análise mais crítica ou ampliada da crise ambiental vivenciada pela humanidade de forma coletiva. 4) Conclusões Os professores(as), em um mundo onde a diversidade de situações e problemas se tornam cada vez mais complexos em todas as áreas, precisam estar cada vez mais preparados para reelaborar seus conhecimentos e atuar como facilitadores da construção de conhecimentos e cidadania, para seus alunos aprendizes;
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 195 A falta de capacitação dos professores para abordagem da temática ambiental, identificada no contexto investigado, se aplica a realidade de Timor-Leste em geral, e implica na necessidade de investimentos em formação continuada desses profissionais; A construção da percepção ambiental de alunos, se formata a partir de influências, além muros escolares; O aquecimento global, tido na atualidade como o maior problema ambiental enfrentado pela humanidade, é suplantado, na percepção dos sujeitos avaliados, por problemas locais como poluição atmosférica, falta de saneamento e desmatamento, sem uma ligação reflexiva com aquele de natureza global; A ocupação no passado por forças militares indonésias, o seu contexto geopolítico do passado e atual e a ostensiva presença da ajuda internacional em seu território, são fatores que atuam paulatinamente na perda da identidade cultural do povo Timorense, e da sua relação de harmonia com a natureza; O resgate de um projeto comum de sociedade ambientalmente sustentável, irá contribuir com a superação das rupturas linguisticas e étnicas, que dificultam a construção do Estado-Nação Timor-Leste. REFERÊNCIAS BM&BA (BANCO MUNDIAL; BANCO ASIÁTICO DE DESENVOLVIMENTO). Documento breve sobre desenvolvimento económico e social, 2007, 81p. COLÉGIO DE SÃO JOSÉ. Livru matadalan Colégio de São José. Dili, 2008-2009. 25p. HABURAS FOUNDATION/FUNDAÇÃO HABURAS. Haburas brochure. Disponível em: <http:haburasfoundation.org/index_files/Page388.htm>. Acesso em 14 dez. 2008. HOEFFEL, J.L.; FADINI, A. A.B. Percepção Ambiental. In: FERRARO JUNIOR, L. A. (Org.). Encontros e caminhos: formação de educadoras(es) ambientais e coletivos educadores. Brasília: MMA-Departamento de Educação Ambiental,v2. 2007.p. 255-262. REIGOTA, M. Meio ambiente e representações sociais. São Paulo: Cortez, 2002. REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE TIMOR-LESTE (RDTL). Lei de Bases da Educação (N. 14/2008). Publicada no Jornal da República de 29 de outubro de 2008 – Série I, n. 40, p 2641- 2658. SAUVÉ,Lucie (Ed.). A educação ambiental: uma relação construtiva entre a escola e a comunidade. Montreal: Projeto EDAMAZ, UQAM, 2000. SILVA, K. C.; SIMIÃO, D.S (Orgs.). Timor-Leste por trás do palco: cooperação internacional e a dialética da formação do Estado. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 196 UNIVERSIDADE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL ARAÚJO, Monica Lopes Folena Doutoranda em Educação (UFPE), Profa. Depto. de Educação (UFRPE) monica.folena@gmail.com FRANÇA, Tereza Luiza de Profa. do Programa de Pós-Graduação em Educação (UFPE) sansilsi@uol.com.br RESUMO Grande parte dos problemas socioambientais que vivemos resulta do entendimento de desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico. Neste cenário, a Educação representa a possibilidade de um futuro sustentável. O presente trabalho tem por objetivo geral refletir proposições acerca do papel da universidade para a inserção da Educação Ambiental no mercado do consumo global. A partir de revisão bibliográfica apontamos que alguns destes papéis são: formar os mais diversos profissionais sob a lógica da sustentabilidade, contribuir para a discussão de temas prioritários ao desenvolvimento sustentável, ocupar-se dos problemas locais, ser universal, harmonizar-se com a natureza, criar um ambiente saudável, recuperar sonhos éticos, redescobrir o valor da espiritualidade e transgredir os conceitos e práticas obsoletas. A universidade precisa recriar sua história pensando na sustentabilidade que deve ser vista no plural. Isto implica em chegarmos a consensos éticos sobre questões fundamentais; a inserção da Educação Ambiental na Universidade é uma delas. PALAVRAS-CHAVE: Universidade; Educação Ambiental; Consumo. ABSTRACT Most of social environmental problems we live result of the understanding that development is a synonym of economic development. In this scenery, Education represents the possibility of a sustainable future. The present paper has as main goal think about university’s role to the insertion of Environmental Education in the global consumption market. Using bibliographic review, we point some of these roles that are: form the most different professionals under the logic of sustainability, contribute with the discussion of priority themes to sustainable development, get involved with local problems, be universal, tone in with nature, create a healthy environment, recover ethic dreams, rediscover the value of spirituality and infringe obsolete concepts and practices. The University needs to recreate its history considering sustainability that has to be seen in the plural. This implies that we’ve got to get to ethic consensus about primordial questions; the insertion of Environmental Education in university is one of them. KEYWORDS: University; Environmental Education; Consumption. INTRODUÇÃO As catástrofes anunciadas em jornais, revistas e outros meios de comunicação lembram- nos diariamente do desequilíbrio ecológico, social, político, educacional e econômico no planeta. São furacões, tornados, chuvas sem tréguas que castigam Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso, desertificação no Nordeste, violência causada pela desumanização do humano, desrespeito às diferenças, corrupção, fome e miséria em todo o mundo. Grande parte destes problemas apontados resulta do entendimento de desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico. Vivemos em uma sociedade em que produção e conservação de recursos naturais ainda parecem caminhar em direções contrárias. O mercado de consumo global aumenta e carrega consigo registros freqüentes da insustentabilidade. A coisificação já não é termo exclusivo das coisas, mas também das pessoas, pois marca, muitas vezes, as relações humanas. Como nos diz Seabra (2009a), “o desenvolvimento sustentável está francamente em desacordo com o modelo de consumo global” (p. 01).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 197 Neste cenário, a Educação Ambiental (EA) encontra campo fértil para provocar mudanças comportamentais e atitudinais no homem e, desse modo, melhorar as relações homem- natureza e homem-homem. Mas por onde começar? Em casa, na escola, na rua, em todos os lugares; mas, também, na universidade. Quais os papéis desta para a inserção da EA no mercado do consumo global? O presente trabalho teve como objetivo geral refletir proposições acerca do papel da universidade para a inserção da Educação Ambiental no mercado do consumo global. Deste modo, definimos como objetivos específicos: discutir a EA como promotora do desenvolvimento sustentável e contribuir com as discussões relativas à necessária inserção da EA nas universidades. EDUCAÇÃO AMBIENTAL, SUSTENTABILIDADE E MERCADO DO CONSUMO GLOBAL: QUAIS OS PAPÉIS DA UNIVERSIDADE? Na Constituição Brasileira de 1988, o artigo 225 enfatiza que “todos têm direito ao Meio Ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. No parágrafo 1º, o inciso VI determina: “Promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e conscientização pública para a preservação do Meio Ambiente”. Já a promulgação da lei 9795/99 instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), oferecendo amparo legal à EA, responsabilizando e envolvendo todos os setores da sociedade e incorporando oficialmente a EA nos sistemas de ensino. Em Pernambuco, o Programa de Educação Ambiental do Estado (PEA/PE) tem como um de seus objetivos a conexão com os princípios norteadores estabelecidos na PNEA e com a Política de Educação do Estado. Evidencia-se, dessa forma, que as ações e práticas educativas devem respaldar a necessidade da conservação dos recursos ambientais, elo indispensável à construção de uma sociedade justa e ecologicamente equilibrada (PERNAMBUCO, 2006). Assim, o Poder Público e a coletividade devem preservar a qualidade do Meio Ambiente trabalhando juntos em favor da vida planetária, pois a organização social e econômica vigente nos oprime e promove a alienação, materializada na subjugação pelo capital e “coisificação” de tudo e de todos, assim estabelecendo uma dicotomia na relação sociedade-natureza e na relação entre humanos. Logo, esse pacto para garantir a qualidade de vida e do ambiente não pode ser mediado pela ideologia de mercado, mas sim pela idéia de sustentabilidade que, segundo Freire (2001), é uma racionalidade impregnada de emoção; e para Morin, Ciurana e Motta (2003), é uma lógica do vivente. Entretanto, como nos alerta Seabra (2009b), o modelo de desenvolvimento atual está fundamentado no consumismo massificado. Consumir, para muitos em nossa sociedade, significa fortalecimento ou até mesmo construção de identidade. Mas será que somos uma sociedade de consumo ou uma sociedade ideologizada pelo consumo? Para Zacarias (2009), a segunda opção parece corresponder mais ao tipo de sociedade contemporânea já que somente pequena parte da população mundial tem acesso à sociedade de consumo. A autora defende a centralidade da produção como “fator organizador da sociedade e não do consumo” (p. 120). Assim, podemos entender o consumo como uma das fases de um mesmo processo que inclui a produção, a distribuição, a circulação e o consumo propriamente dito. Este seria, então, a concretização da produção e também do trabalho. Porém, sob a ótica do capitalismo, a produção deixa de ser concebida como processo que leva à satisfação das necessidades humanas e passa a ser desempenhada com o propósito de obtenção de lucro. E, nestas condições, o consumo pode se tornar alienado, levando as pessoas a colecionar mercadorias. O ato de consumir assume o significado de encontrar felicidade e deteriora as relações sociais. As relações sociais capitalistas são, de acordo com Zacarias (2009), as causas da crise ambiental, pois são fundadas na exploração do trabalho pelo capital, no lucro, na exploração da força de trabalho e dos recursos naturais e no acúmulo do capital. Estes argumentos nos levam a
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 198 constatar que os padrões de produção e de consumo na sociedade são “injustos socialmente e insustentáveis ecologicamente” (idem, p. 135). A EA, neste cenário, precisa ser entendida como promotora de mudanças ambientais, mas também de mudanças sociais. A partir de opções político-pedagógicas, a EA pode contribuir para a “reprodução da sociedade tal qual está, ou a sua transformação” (LAYRARGUES, 2009, p. 11). A EA, inserida em todos os níveis de ensino, pode ser potencializada na Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014) e assim promover a transformação social. Segundo o documento proposto pela UNESCO (2005): O objetivo maior da Década é integrar princípios, valores e práticas de desenvolvimento sustentável em todos os aspectos da educação e do ensino. Esse esforço educacional deve encorajar mudanças no comportamento para criar um futuro mais sustentável em termos de integridade do meio ambiente, da viabilidade econômica e de uma sociedade justa para as atuais e futuras gerações (p. 57) Neste sentido, o programa Educação para o Desenvolvimento Sustentável exige a reorientação da Educação desde o jardim de infância até a universidade, afinal a Educação “é um elemento indispensável para que se atinja o desenvolvimento sustentável” (idem, p. 27). O que nos parece problemático no documento, e faz-nos concordar com Gadotti (2008), é a relação entre Educação para o Desenvolvimento Sustentável e Educação Ambiental. O documento propõe que aquela não deve ser equiparada a esta e define a EA como uma disciplina que enfatiza a relação dos homens com o ambiente natural. Portanto, “desenvolvimento sustentável engloba a educação ambiental, colocando-a no contexto mais amplo dos fatores socioculturais e questões sociopolíticas de igualdade, pobreza, democracia e qualidade de vida” (UNESCO, 2005, p. 46). Encaramos a compreensão da EA como disciplina um retrocesso nas discussões até hoje estabelecidas nos grandes fóruns mundiais. A EA já engloba elementos sociais, culturais, políticos, econômicos e educacionais, portanto, não há porque substituir um termo por outro. Através da prática pedagógica da EA em todos os níveis de ensino podemos alcançar o desenvolvimento sustentável. Debrucemo-nos então, sobre os papéis da universidade na inserção da EA. O artigo 52 da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) esclarece que “as universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano [...]”. Logo, as universidades são responsáveis pela formação dos professores da Educação Básica e dela própria e pela formação de profissionais das mais diferentes áreas que atuam diretamente com temas que perpassam a EA, como engenheiros, agrônomos, biólogos, administradores de empresas e outros. A formação destes profissionais pode restringir-se à aquisição de competências técnicas o que resultaria na visão provavelmente utilitarista dos recursos naturais, mas deve compreender as realidades sociais, como ressalta Souza (2001), e também as ambientais. A indissociabilidade ensino-pesquisa na universidade potencializa este modelo de formação esperado já que a pesquisa cria novos conhecimentos e apresenta-se como “mola propulsora do progresso cultural, científico e tecnológico da humanidade” (idem, p. 152). Deste modo, a universidade assume papéis fundamentais na transformação ambiental e social da sociedade. A universidade constitui-se como um potencial local de formação de professores. Entretanto, como argumentam Guerra e Guimarães (2007), as universidades foram um dos últimos espaços instituídos da sociedade em que a EA se inseriu. Mesmo com este déficit, é incontestável a responsabilidade destas instituições na formação e na atuação profissional dos professores. Além da formação inicial que contemple princípios básicos da EA e metodologias diferenciadas de trabalho neste campo, a universidade deveria ser um lugar para o qual o professor pudesse continuamente retornar para atualizar-se das pesquisas realizadas em sua área de trabalho. A parceria escola- universidade é vantajosa para todos, pois o professor se atualiza e, ao mesmo tempo, pode contribuir na formação do licenciando. Formar professores é tarefa árdua e exige a compreensão de que, desde o primeiro momento que entramos em uma escola para cursar a Educação Infantil ou o Ensino Fundamental, começamos a construir esquemas e/ou modelos de docência. Deste modo, o papel de formar
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 199 professores para atuar efetivamente com a EA em todos os níveis de ensino leva-nos a algumas pistas de ações das instituições formadoras: ser agente de transformação para o desenvolvimento sustentável, conscientizando licenciandos, funcionários e professores de sua responsabilidade em introduzir mudanças positivas na sociedade; incentivando valores, comportamentos e estilos de vida adequados para um futuro sustentável; fortalecer a capacidade de reflexão orientada para o futuro e valorizar nossa diversidade humana e natural como nossa principal riqueza. Amaro Lins, reitor da Universidade Federal de Pernambuco, em painel apresentado durante o seminário Educação no Brasil: fator de desenvolvimento sustentável, organizado pela Academia Pernambucana de Ciência (APC), trouxe-nos a reflexão de outro papel das universidades: o de contribuir para a discussão de temas prioritários ao desenvolvimento sustentável. Entre os temas destacados pelo reitor destacamos: cidades sustentáveis, energia e sustentabilidade, empreendedorismo e tecnologias sociais, eco-eficiência e produção mais limpa, políticas públicas e sustentabilidade, ética e sustentabilidade e mudanças climáticas. No mesmo evento, o senador e ex-ministro da Educação, Cristóvão Buarque, apontou outros papéis da universidade que tem por meta a sustentabilidade: ocupar-se dos problemas locais; ser universal; harmonizar-se com a natureza; criar um ambiente saudável; recuperar sonhos éticos, controlando a técnica e unindo-a à humanidade; redescobrir o valor da espiritualidade e transgredir os conceitos e práticas obsoletas, o que implica em mudanças permanentes na sua estrutura, currículos e temas de estudo. Os papéis da universidade para a inserção da EA na sociedade atual são muitos e cabe-nos refleti-los e implementá-los, pois o fortalecimento desta instituição é imprescindível para o avanço nas questões socioambientais. Conhecimento, ciência e tecnologia a favor da vida em todas as suas formas, o que inclui luta contra as desigualdades sociais, respeito às culturas e raças, novos padrões de vida, enfim, a construção de um mundo sustentável. CONSIDERAÇÕES FINAIS Todos os papéis que enumeramos para que a universidade contribua efetivamente para a inserção da EA na sociedade e, conseqüentemente, atinjamos o desenvolvimento sustentável estão contidos em um papel maior que precisa ser desempenhado pela mesma. Trata-se de servir ao bem público, produzir conhecimento e massa crítica como compromisso social. Contudo, para que os papéis apontados neste trabalho sejam desempenhados, é primordial que a EA seja inserida, primeiramente, na universidade. Professores, alunos e funcionários precisam ser envolvidos em uma atmosfera diferente, um ambiente que promova e contribua com a vida. Novos padrões comportamentais e atitudinais precisam ser inseridos na mesma, como a preocupação com o gasto de energia, o consumo e a quantidade e destino dos resíduos produzidos por ela. Sem dúvida, a universidade é um dos maiores patrimônios de uma nação, pois dela saem os profissionais que alimentarão o mercado, farão o desenvolvimento e mudarão o futuro. Mas em que direção? A humanidade chegou a um ponto que poderia responder a quase todas as suas necessidades, porém, isso não ocorre. O campo das relações está seriamente comprometido. A humanidade parece ter encontrado uma missão ainda maior que passa pela universidade: humanizar-se a si mesma. Nesta perspectiva, o pensamento fragmentado não mais dá conta das necessidades atuais. Precisamos questionar as racionalidades e pensar em um paradigma complexo. Como pensar de forma complexa em universidades departamentalizadas? A universidade precisa recriar sua história pensando na sustentabilidade que deve ser vista no plural. Isto implica em chegarmos a consensos éticos sobre questões fundamentais; a inserção da EA na universidade para a sustentabilidade ambiental, social, política, econômica e educacional é uma delas. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado, 1988.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 200 ______. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Senado Federal, 1997. ______. Lei No 9795 de abril de 1999. Dispõe sobre a Educação Ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 28 de abril 1999 Ip.01. BUARQUE, C. O modelo de universidade do século XXI. In: SEMINÁRIO EDUCAÇÃO NO BRASIL: FATOR DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Pernambuco: Academia Pernambucana de Ciências, 2009. FREIRE, P. Á sombra desta mangueira. 4 ed. São Paulo: Olho D´Água, 2001. GADOTTI, M. Educar para a sustentabilidade: uma contribuição à Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008. GUERRA, A. F. S.; GUIMARÃES, M. Educação ambiental no contexto escolar: questões levantadas no GDP. Pesquisa em Educação Ambiental, v. 2, n. 1, p. 155-166, jan./jun. 2007. LAYRARGUES, P. P. Educação ambiental como compromisso social: o desafio da superação das desigualdades. In: LOUREIRO, C.F.; LAYRARGUES, P.P; CASTRO, R. S. de (Orgs). Repensar a educação ambiental: um olhar crítico. São Paulo: Cortez, 2009, p. 11-31. LINS, A. H. P. Contribuições das universidades para o desenvolvimento sustentável. In: SEMINÁRIO EDUCAÇÃO NO BRASIL: FATOR DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Pernambuco: Academia Pernambucana de Ciências, 2009. MORIN, E.; CIURANA, E.; MOTTA, R.D. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e incerteza humana. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2003. PERNAMBUCO. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Programa de Educação Ambiental do Estado de Pernambuco, Recife: Sectma, 2006. SEABRA, G. Educação ambiental e dever de casa. In: EcoAgência Solidária de Notícias Ambientais. Jun. 2009a. Disponível em: <http:www.ecoagencia.com.br/?open=artigo&id> Acesso em 26 jan. 2010. ______. Educação ambiental na sociedade de consumo e riscos. In: SEABRA, G. (Org). Educação ambiental. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2009, p. 11-24. SOUZA, P. N. P. de. LDB e educação superior: estrutura e funcionamento. 2 ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2001. UNESCO. Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014). Brasília: Unesco, 2005. ZACARIAS, R. Sociedade de consumo, ideologia do consumo e as iniqüidades socioambientais dos atuais padrões de produção e consumo. In: LOUREIRO, C.F.; LAYRARGUES, P.P; CASTRO, R. S. de (Orgs). Repensar a educação ambiental: um olhar crítico. São Paulo: Cortez, 2009, p. 119-140.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 201 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: UMA LEITURA A PARTIR DA SOCIEDADE DO CONSUMO Fábio de Jesus Barreto Mestrando em Geografia – UFS fabiojbarreto@ibest.com.br Sheilla Souza Prata Licenciada em Geografia – UFS e Bacharelando em Geografia – UFS. sheillaprata@yahoo.com.br RESUMO O presente estudo tem como objetivo discutir a forma como o discurso do desenvolvimento sustentável tem sido utilizado, atentando para as contradições de suas práticas no seio da sociedade do consumo, onde todas as formas de produção ao invés de atender as necessidades de reprodução humanas, visam à reprodução do sistema produtor de mercadorias que tem como único objetivo a realização do lucro, dessa forma, produção, consumo e desperdício são as principais características desse modelo social. Assim o papel da educação no sistema capitalista é promover o desenvolvimento do movimento de expansão do capital, onde, através dela todos os discursos estão velados de forma a possibilitar e mascarar todo o verdadeiro processo que envolve a destruição e degradação do planeta que colocam em risco até mesmo a existência da própria humanidade. Dessa forma, a possibilidade de existir um verdadeiro desenvolvimento sustentável só se dará mediante a construção de uma sociedade onde a solidariedade em busca da satisfação das necessidades humanas seja colocada como ponto central, uma sociedade onde o principal objetivo seja a emancipação da humanidade. PALAVRAS-CHAVE: Sistema Capitalista, Educação, Desenvolvimento Sustentável ABSTRACT This study aims to discuss how the discourse of sustainable development has been used, paying attention to the contradictions in their practices within the consumer society, where all forms of production rather than meet the needs of human reproduction, aim the production of goods- producing system that has as its sole objective to make a profit, thus, production, consumption and waste are the main characteristics of this social model. Thus the role of education in the capitalist system is to promote the development of the movement of capital expansion, where, through it all speeches are veiled so as to enable and mask any real process that involves the destruction and degradation of the planet that endanger even the very existence of mankind. Thus, the possible existence of a true sustainable development will only be by building a society where solidarity in pursuit of the satisfaction of human needs to be placed as a hub, a society where the main goal is the emancipation of humanity. KEYWORDS: Capitalist System; Education; Sustainable Development INTRODUÇÃO Vivemos hoje um momento impar dentro da história daquilo que denominamos ao longo do tempo de educação ambiental, sobretudo quando esta se encarrega de fornecer o suporte necessário ao pleno estabelecimento e manutenção do Status cuo da atual sociedade de consumo. Essa preocupação fica mais evidente quando vinculada principalmente ao discurso e a prática da Educação Ambiental e do Desenvolvimento Sustentável. As transformações cíclicas do sistema capitalista que sucedem os seus momentos de crises para os quais a reestruturação produtiva se coloca como necessária uma vez que objetiva a retomada dos padrões anteriores de acumulação, provocam em escala cada vez mais crescente, o uso e a exploração indiscriminada dos recursos naturais.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 202 O metabolismo social do capital e o processo de contradições que fazem parte da sua base material se encarregam de criar todas as formas necessárias ao seu processo de acumulação crescente sem o qual a própria sociedade do consumo estaria condenada, de forma a dar suporte ao processo contraditório de geração do lucro a educação é utilizada para promover o desenvolvimento do movimento de expansão do capital, onde, através dela todos os discursos estão velados de forma a possibilitar e mascarar todo o verdadeiro processo que envolve a destruição e degradação do planeta que colocam em risco até mesmo a existência da própria humanidade. Essa funcionalização de toda a degradação ambiental e esgotamento dos recursos naturais que vemos hoje e que é promovida pelo discurso da educação ambiental gerada inclusive nos centros acadêmicos, tem-se constituído como ferramenta fundamental para atender as necessidades do sistema produtor de mercadorias. A partir dessa premissa temos o objetivo de discutir a forma como o discurso do desenvolvimento sustentável tem sido utilizado, bem como a impossibilidade da sua prática no seio da sociedade do consumo, onde todas as formas de produção ao invés de atender as necessidades de reprodução humanas visam à reprodução do sistema produtor de mercadorias que tem como único objetivo a realização do lucro, dessa forma, produção, consumo e desperdício são as principais características desse modelo social. O presente trabalho foi desenvolvido através de observações empíricas onde o local é apenas um recorte escalar compreendido a partir do regional e global, as revisões bibliográficas e análises metodológicas e discursivas foram realizadas através de intensos debates em grupos de estudo e a partir desse universo emerge a prática pedagógica e seu discurso sobre o tema abordado como objeto da discussão. A (IM)POSSIBILIDADE DA PRÁTICA X DISCURSO NA SOCIEDADE DE CONSUMO É inquestionável que a atual sociedade capitalista dispõe do produto do seu progresso científico, que nada mais representa do que séculos de exploração da classe trabalhadora e destruição desenfreada dos recursos naturais, entretanto, esse progresso científico, que confere a atual sociedade a capacidade de exterminar a fome e a desigualdade no mundo é totalmente aproveitado no emprego da técnica das linhas produtivas, para a realização do lucro, dessa forma, o que pode ser constatado pelo observador mais atento é que ao invés de serem atendidas as necessidades humanas o que se vê são níveis cada vez mais acentuados de concentração, consumo e desperdícios e que, paradoxalmente, acaba gerando os mais diversos tipos de problemas de natureza social e ambiental. O capitalismo contemporâneo operou, portanto, o aprofundamento da separação entre, de um lado, a produção voltada genuinamente para o atendimento das necessidades e, de outro, as necessidades de sua auto-reprodução. E, quanto mais aumenta a competitividade e a concorrência intercapitais, mais nefastas são suas conseqüências, das quais duas são particularmente graves: a destruição e/ou a degradação crescente do meio ambiente, na relação metabólica entre homem, tecnologia e natureza, conduzida pela lógica societal subordinada aos parâmetros do capital e do sistema produtor de mercadorias (Mészáros, 2002, p. 18). Diante dessa perspectiva, para esse modelo de sociedade, qualquer tipo de possibilidade de desenvolvimento que atenda padrões de significativa sustentabilidade ambiental é fruto é mera especulação. E a proposição desse discurso na grande maioria das vezes serve antes de tudo, para atender ao mascaramento necessário ao controle “aceitável” da totalizante destruição ambiental causado inevitavelmente pelo desenvolvimento capitalista. Crescimento desordenado, desemprego, violência, crises em variados seguimentos sociais permeiam as discussões nos mais diferentes espaços de debate e veículos de comunicação. Porém, mais do que nunca, vê-se o tema educação ambiental ganhar notoriedade, sobretudo a partir da necessidade da funcionalização da degradação ambiental desenfreada e indiscriminada dos recursos naturais, causada, sobretudo pela necessidade de acumulação crescente e reprodução ampliada do capital.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 203 Alguns autores mais entusiasmados com o romantismo do sistema produtor de mercadorias chegam a afirmar que; Sem dúvida somente a prática de um desenvolvimento econômico que concilie as prioridades ambientais em seus objetivos pode alterar este quadro de insustentabilidade a longo prazo, proporcionando uma harmonia entre as atividades e o meio ambiente (FRANCISCO, 1996, p 149). Naturalmente a formula apresentada pelo autor serviria de fato como a salvação para todos os problemas de ordem ambiental, porem, é necessário observar que estamos diante da necessidade de acumulação crescente do sistema produtor de mercadorias, onde para continuar existindo é necessário que a cada ciclo os padrões de acumulação sejam superiores ao que o antecedeu, dessa maneira, qualquer possibilidade de conciliação entre produção e preservação do meio ambiente somente poderia existir diante de um consumo racional que pudesse ter como objetivo a retirada consciente dos recursos naturais, por outro lado a retirada consciente desses recursos naturais na sociedade do consumo de maneira alguma poderia representar controle de extração, produção e destruição dos recursos naturais. DE ACORDO COM KARL MARX; A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estomago ou da fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente, como meio de produção (MARX, 2004, p 57). Para Marx, a mercadoria serve antes de mais nada para satisfazer necessidades humanas, entretanto, sob a lógica do capital essa mercadoria passa a satisfazer a necessidade de acumulação do capital. Diante desse fato a sua produção passa a ser uma necessidade constante, não interessando se essa mercadoria será consumida ou não, ou mesmo se essa produção destruirá o meio ambiente ou não. E essa transformação aplicada na mercadoria pelo capital que transforma a mercadoria de valor de uso à valor de troca, modifica completamente a sua posição na relação entre sociedade e natureza, onde a satisfação de necessidades humanas passa a não mais interessar e a produção do lucro assume então o papel de elemento central, o único interesse passa a ser então o consumo produtivo. Nesse contexto, o discurso do desenvolvimento sustentável, torna-se na atualidade uma grande necessidade para a continuidade da exploração desenfreada dos recursos naturais, porém, qualquer leitor mais atento reconhece de imediato a impossibilidade da sua prática em uma sociedade de consumo, onde a principal marca é o desperdício. Nesse sentido a prática de um desenvolvimento sustentável consequentemente teria de perpassar por uma nova maneira de se pensar sociedade, um modelo de sociedade onde o objetivo principal não fosse a produção desenfreada do lucro, mas sim uma sociedade que produzisse para a satisfação das suas necessidades. O principio básico da sociedade capitalista é a produção para o lucro, e dessa maneira, o circuito da produção possui um objetivo imediato que é a realização da mais valia21 , que só se dará através do consumo da sua produção, dessa maneira todo o discurso que sustenta e fundamenta esse mecanismo de reprodução tem que estar dentro desse esquema de realização capitalista, é por esse motivo que nos discursos convencionais de desenvolvimento do capital quase nunca vemos de forma prática um direcionamento a uma postura de combate ao consumo desenfreado, e sim um discurso normativo sobre esse consumo, ou seja, um discurso que antes funcionaliza esse consumo, 21 Ver MARX, K. O capital: crítica da economia política; apresentação Jacob Gorender; coordenação e revisão de Paul Singer; Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. – São Paulo, SP: Abril Cultural, 1982.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 204 ou que ideologicamente transmita uma falsa preocupação social que desvia o olhar da sociedade do verdadeiro foco de destruição ambiental. Coleta seletiva, plantação de mudas de árvores, filtros purificadores automotivos, essas são geralmente as saídas básicas para se escapar da degradação ambiental. Entretanto, se olharmos bem, estas também são formas de potencializar o consumo. No entanto quando se resolve nas conferencias internacionais limitar a emissão de gases poluentes na atmosfera, produzidos pela produção industrial, esses argumentos são imediatamente refutados, pois isso coloca-se contra os interesses dos grande capital internacional. Tudo que se opuser a acumulação estará se opondo ao funcionamento do sistema, que necessita de um grau cada vez maior de consumo, para alimentar a necessidade de acumulação crescente. Mas talvez a mais séria das atuais tendências de dominação econômica e cultural seja a forma voraz e terrivelmente perdulária com que os Estados Unidos tomam para si os recursos de energia e de matérias-primas do mundo: 25% deles para não mais que 4% da população do mundo, com dano imenso e crescente para as condições ambientais de sobrevivência humana. Pois, nesse mesmo espírito, os Estados Unidos continuam o processo de sabotagem ativa de todos os esforços internacionais que visam introduzir alguma forma de controle para limitar e, talvez no ano de 2012, reduzir em certo grau a atual tendência catastrófica de dano ambiental, que já não pode mais ser negado nem mesmo pelos mais empedernidos apologistas do sistema (Mészàros, 2003, p. 53). A abordagem que temos hoje de desenvolvimento sustentável bem como de educação ambiental, é totalmente apropriada e utilizada para que a sociedade acompanhe e encontre maneiras economicistas de lidarem com esse discurso, servindo assim de potencializador na reprodução ampliada do capital. Essas medidas além de criarem as formas de controle social que possibilitam a solidificação desse discurso, reproduzem ainda de maneira perversa uma forma de controle ideológico eficiente, viabilizado graças aos meios educacionais. A PRÁTICA PEDAGÓGICA PARA A FUNCIONALIZAÇÃO DA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL O objetivo central da educação na sociedade capitalista é fornecer os conhecimentos necessários à inserção do indivíduo no mercado de trabalho, além de preparar a sociedade para a aceitação e naturalização de todas as disfunções geradas contraditoriamente pelo sistema produtor de mercadorias. Nesse sentido, utilizada dessa forma, a educação passa de instrumento emancipador do indivíduo a um aparelho ideológico de Estado. Ou seja, é apenas uma peça no funcionamento da engrenagem geradora de lucro. Para Mészàros o papel da educação no atual contexto da sociedade capitalista é; Fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário a maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes (MÉSZÀROS, 2005, p.15). Desta forma, a escola constitui-se como espaço aberto para efetivação do processo, em função de reunir em seu meio os instrumentos necessários para que tal prática se difunda com maior rapidez e “confiabilidade”, pois, ideologicamente, a escola é concebida como espaço de produção e transmissão de conhecimento, legitimado pelo sistema a partir do desenvolvimento de projetos que venham atender os seus próprios interesses. Nesta diretriz que, diante das atuais transformações sócio-ambientais provocadas pelo consumismo desenfreado e necessidades de respostas ao modismo da política de desenvolvimento da educação ambiental, o sistema educacional é permeado por projetos para atender e/ou propor medidas para a prática da educação ambiental. Porém, está funciona apenas de maneira a normatizar
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 205 a degradação ambiental, já que a real preservação do meio ambiente atacaria profundamente os mecanismos de reprodução desse sistema. Nas mais diversas instituições de ensino é possível observar o modismo do discurso convencional que chama a atenção para a importância do desenvolvimento sustentável tomando conta de todos os espaços como única alternativa para a continuidade viável para o planeta, porém, a reprodução desse pensamento, na maioria das vezes, acaba contribuindo com a consolidação e reprodução da ordem consumista, perdendo assim a noção da real idéia de como está solidificado esse discurso e qual é a sua principal finalidade. Esse discurso acaba transmitindo ao indivíduo a responsabilidade por toda a degradação ambiental, que hoje ameaça a humanidade, fazendo com que ele perca a verdadeira percepção de como essa degradação ambiental está estabelecida e que tipo de interesses a tornam possível. CONSIDERAÇÕES FINAIS O discurso e a prática da educação ambiental e do desenvolvimento sustentável se constituem numa verdadeira anomalia quando aplicado a um modelo de sociedade onde todos os objetivos estão voltados para a produção do lucro, que por sua vez só se realiza com o consumo. Esse consumo por sua vez de modo algum servira para satisfazer as necessidades humanas, mas sim a necessidade de acumulação capitalista, já que para a sua manutenção é necessário que essa reprodução se realize de forma ampliada, expandindo assim cada vez mais os seus horizontes produtivos. O sistema capitalista na sua atual conjuntura atravessa mais uma vez, por um período de crise, dessa vez uma crise que ameaça a própria existência do modelo de sociedade. Uma das formas buscadas para a superação dessa crise está na reprodução ideológica do controle da degradação ambiental, a partir do indivíduo, que agora passa a acumular os papeis de vitima e atualmente de principal autor dessa degradação, fazendo assim com que esse discurso aliado a essa prática acabe atuando de forma ideológica na funcionalização da degradação ambiental. Segundo Mészàros; A criação da alternativa radical ao modo de reprodução metabólica do capital é uma necessidade urgente, mas não há de acontecer sem uma reavaliação crítica do passado (MÉSZÀROS, 2002, p. 21). É nesse sentido que defendemos que, para que haja a possibilidade de um verdadeiro desenvolvimento sustentável este somente seria possível mediante a construção de uma sociedade onde a solidariedade em busca da satisfação das necessidades humanas se colocasse como ponto central, uma sociedade onde o principal objetivo seja a emancipação da humanidade. BIBLIOGRAFIA Campinas, SP: Editora da Unicamp, São Paulo: Imprensa Oficial, 2001. FOLADORI, Guillermo. Limites do desenvolvimento sustentável; trad. Marise Manoel. FRANCISCO, C. F. Agricultura e meio ambiente. Um estudo sobre a sustentabilidade ambiental de sistemas agrícolas na região de Ribeirão Preto (SP), São Paulo, 1996. Tese de doutorado em Geografia. Departamento de Geografia do instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista. MARX, K. O capital: crítica da economia política; apresentação Jacob Gorender; coordenação e revisão de Paul Singer; Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. – São Paulo, SP: Abril Cultural, 1982. MÉSZÀROS, I. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005. ____________ O século XXI socialismo ou barbárie?; tradução de Paulo César Castanheira. - São Paulo, SP: Boitempo Editorial, 2003. ____________ Para além do capital: Rumo a teoria da transição; apresentação de Ricardo Antunes; tradução de Paulo Cesar Castanheira e Sérgio Lessa – São Paulo, SP: Editora INICAMP / Boitempo, 2002.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 206 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR: A ESCOLA, O PROFESSOR E O ENSINO DE GEOGRAFIA Juliana Felipe FARIAS Universidade Federal do Ceará - Graduanda em Geografia julianageoufc@hotmail.com Ronaldo Mendes LOURENÇO Universidade Federal do Ceará - Graduando em Geografia ronaldo.geografia@yahoo.com.br Camila de Freitas CÂMARA Universidade Federal do Ceará - Graduanda em Geografia kamila.defreitas@hotmail.com Profº. Drº. Edson Vicente da SILVA Orientador - Universidade Federal do Ceará cacau@ufc.br RESUMO O presente artigo traz uma contribuição no que diz respeito ao discurso sobre a inserção da Educação Ambiental - EA no espaço escolar. Para tanto, na primeira parte contextualiza-se a partir de uma perspectiva histórica os reflexos que a discussão em torno da EA evidencia no Brasil. Na segunda parte é feita uma análise sobre qual o papel da escola, do professor e do ensino de geografia no contexto da Educação Ambiental, proporcionando maiores reflexões sobre de como é importante estabelecer no espaço escolar o ingresso desse tema para que ocorra um maior debate sobre o real significado e realidade dessa perspectiva educacional. PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental, Escola e Ensino de Geografia. ABSTRACT The present article brings a contribution to the speech of the inclusion of Environmental Education – EE in school space. For that so, in the first part we contextualize, from a historical perspective, how the reflections of the discussion around the theme EE materialize in Brazil. In second part, we do an analysis about what role the school, the teacher and the geography’s teaching have in the Environmental Education context, giving bigger reflections about of how important is to establish in the school space the entering of this theme, so it can occur a better and larger debate about the real meaning and about the reality of this educational perspective. KEYWORDS: Environmental Education, school and geography teaching. 1. TRAJETÓRIAS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SUAS EVIDÊNCIAS NO BRASIL A questão ambiental tem sido caracterizada como sendo cada vez mais importante para a sociedade, pois a relação estabelecida entre os recursos naturais disponíveis e o seu ditam o futuro da humanidade. Na medida em que a sociedade intensifica a exploração dos recursos naturais, surgem tensões e conflitos quanto à necessidade de preservação do meio ambiente. Segundo Leff: uma das principais causas da problemática ambiental foi atribuída ao processo histórico do qual emerge a ciência moderna e a Revolução Industrial (...) iniciou-se a busca por um método capaz de reintegrar esses conhecimentos dispersos num campo unificado do saber. Desta forma a analise da questão ambiental exigiu uma visão sistêmica e um pensamento holístico para a reconstituição de uma realidade total (LEFF, 2007, p. 62). De acordo com Pedrini (1997, p. 22) “o homem criou leis que previam multas e privação da liberdade, mas estas medidas não foram suficientes e decidiu associar o processo educativo para conceber estrategicamente sua sociedade”, eis que surge então o termo Educação Ambiental (EA) imerso em um contexto derivado do uso inadequado dos recursos naturais em diferentes escalas.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 207 Dessa maneira, é preciso compreender a crise ambiental que emergia na época como uma crise com fortes influências culturais, que com o desenvolvimento acelerado em detrimento dos recursos naturais, de acordo com Rodriguez e Silva: levou a civilização humana a um desenvolvimento explosivo da capacidade cultural da exploração dos seres humanos e dos bens naturais. Ocorreu um uso intensivo dos sistemas naturais que lhe modificou as propriedades e os conduziu a uma perda irreversível dos seus atributos de auto regulação e homeostase (RODRIGUEZ & SILVA, 2009, p. 175). As discussões sobre a problemática ambiental surgiram em meados da década de 1970, como conseqüência do desenvolvimento do modelo capitalista, o qual priorizava os lucros e não as questões ambientais, pois de acordo com Leff (2007, p. 64) “a problemática ambiental não é ideologicamente neutra nem é alheia a interesses econômicos e sociais”. De acordo com Leff (2007), nesse período foram apontados os limites da racionalidade econômica e os desafios apresentados pela degradação ambiental ao projeto civilizatório da modernidade. Esse evento contou com a participação de 113 países, os quais objetivavam estabelecer princípios que servissem de orientação para a humanidade como forma de preservar o ambiente humano. Desse evento derivou alguns documentos como a Declaração sobre o Ambiente Humano e seu Plano de Ação Mundial, que alertavam sobre o acelerado crescimento demográfico e os seus efeitos sobre os recursos naturais, denunciando o provável colapso da humanidade. Nessa declaração, pela primeira vez, a EA foi reconhecida como essencial para solucionar a crise ambiental internacional. Segundo Pedrini (1997, p. 26) o “Plano de ação da Conferência de Estocolmo recomendou a capacitação de professores e o desenvolvimento de novos métodos e recursos instrucionais para a EA”. No ano de 1975, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), promoveu o Encontro Internacional sobre Educação Ambiental (EA). No encontro foram elaborados orientações e princípios para um programa internacional de Educação Ambiental contínuo e multidisciplinar. Foi organizada também nesse evento a Carta de Belgrado, a qual expressava a necessidade de uma nova ética global que beneficiasse toda a humanidade e possibilitasse o aumento da qualidade de vida. A UNESCO (1977) organizou a Primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, ficando conhecida como Conferência de Tbilisi e como a mais marcante de todas, pois revolucionou a EA. Aliada a UNESCO, o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), colaborou para a realização dessa conferência. Esse encontro contribuiu para definir os princípios, características, objetivos, estratégias, funções e recomendações para o desenvolvimento da Educação Ambiental, reunidos em um documento que foi publicado pelo PIEA/UNESCO. Pedrini (1997) enfatiza alguns pontos desse documento, sugerindo que a EA deveria basear-se na ciência e tecnologia para a consciência e adequada apreensão dos problemas ambientais (...) se dirigir tanto pela educação formal como informal a pessoas de todas as idades (...) despertar o individuo a participar ativamente na solução de problemas ambientais do seu cotidiano (PEDRINI, 1997, p. 28). Nesse documento foram formuladas 41 recomendações que visavam alertar pela união internacional dos esforços para o bem comum, considerando a EA como um fator essencial para que a riqueza e o desenvolvimento dos países ocorram mais igualitariamente. Mesmo com todas essas formulações a Conferência de Tbilisi não contemplou as demandas pedagógicas emergentes internacionais, e somente na Conferência de Moscou foram criadas estruturas teórico- metodológicas mais aperfeiçoadas.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 208 A Conferência de Moscou foi realizada em Agosto de 1987, reunindo cerca de 300 educadores de diversos países, objetivando fazer uma avaliação sobre o desenvolvimento da EA desde a Conferência de Tbilisi em todos os países membros da UNESCO. Os principais pontos enfocados nessa Conferência priorizavam elaborar um plano de ação para a década de 1990, destacando-se “o desenvolvimento de um modelo e de novos recursos instrucionais; capacitar docentes e licenciados em EA; melhorar a qualidade das mensagens ambientais veiculadas pela mídia; informar sobre a legislação ambiental”, dentre outras medidas (PEDRINI, 1997, p. 30). A temática ambiental ganhou relevância no Brasil no ano de 1992, com a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), oficialmente denominada de “Conferência de Cúpula da Terra”, realizada no Rio de Janeiro. A Rio-92, como ficou conhecida, abordou a necessidade de esforços para a erradicação do analfabetismo ambiental, aprovando cinco acordos oficiais internacionais dentre eles a Agenda 21 e a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Nessa ocasião ocorriam eventos paralelos onde foi elaborado um documento denominado “Carta Brasileira para a Educação Ambiental”, enfocando o papel do estado e estimulando as mais diversas instancias educacionais a implementar a imediata EA em todos os níveis de ensino. Um dos eventos paralelos mais importantes para a EA foi à jornada Internacional de EA, da qual derivou o “Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis”, o qual está na base da formação da rede brasileira de Educação Ambiental, se diferenciando dos demais pelo fato de ter sido formulado e aprovado em calorosas discussões entre educadores. O Brasil, imerso no regime ditatorial, andava na “contramão” das discussões internacionais de preocupação com o ambiente, pois exibia ao mundo o Projeto Carajás e a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, iniciativas de forte degradação ambiental. Vale ressaltar que existiam alguns movimentos isolados preocupados com a questão ambiental, como a criação da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), instigadora de movimentos ambientais no país. A Conferência de Estocolmo teve suas conseqüências no Brasil, pois discussões ocorridas no evento suscitaram em 1973, a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA), orientada para a gestão integrada do Meio Ambiente. A Educação Ambiental no Brasil tem passado por muitos percalços para a sua implantação e desenvolvimento no ensino formal, não-formal e informal. No Brasil, a trajetória da EA aparece bastante coerente no discurso técnico, mas a sua prática ainda se mostra muito confusa. A EA foi citada pela primeira vez na Constituição Brasileira em 1988, considerada como um reflexo de sua inserção na Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), sendo tratada apenas no capítulo de Meio Ambiente, mantendo uma dissociação de sua dimensão pedagógica. Segundo Pedrini (1997) a EA foi formalmente instituída no Brasil pela lei federal de nº 6.938, sancionada a 31 de agosto de 1981, que criou a PNMA, sendo um marco histórico na defesa da qualidade ambiental brasileira. A criação de órgãos e leis que priorizam a utilização racional dos recursos naturais pelos homens deve extinguir ações que trazem conseqüências negativas para o Meio Ambiente. Mas, na prática percebe-se que muito ainda tem que ser feito para que os preceitos estabelecidos pela Educação Ambiental ganhem as proporções necessárias para que sejam efetivados, e assim possam contribuir com o desenvolvimento das civilizações. Dessa maneira, pode-se compreender a Educação Ambiental, ao longo desse processo de consolidação marcado por avanços no que se refere a sua implantação, “como um processo de aprendizagem e comunicação das questões relacionadas com a interação dos seres humanos com o ambiente, tanto em âmbito global, natural, como no criado pelo homem” (RODRIGUEZ; SILVA, 2009, p. 175). 2. A Escola, o Professor e o Ensino de Geografia no contexto da Educação Ambiental: debates e perspectivas educacionais
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 209 No período de estruturação da Geografia, até meados do séc. XX, o meio ambiente era percebido somente atrelado à natureza, onde segundo Paulo e Asari (2006, p. 53) “ao se romper com a característica descritiva do ambiente natural, que é ainda muito presente, alguns geógrafos passam a abordá-lo na perspectiva de interação, de recuperação, degradação da natureza e da melhoria da qualidade de vida do homem”. Progressivamente, os preceitos que conduzem a Educação Ambiental foram sendo incorporados no âmbito das instituições de ensino, demonstrando que as práticas da EA são importantes para se estabelecer um equilíbrio na relação homem-natureza, pois segundo Guimarães (1995, p. 15) “[...] educação ambiental tem o importante papel de fomentar a percepção da necessária integração do ser humano com o meio ambiente, em uma relação harmoniosa, consciente do equilíbrio na natureza”. Os valores adotados pelas políticas de EA objetivam conscientizar a população da importância de se utilizar os recursos naturais de forma sustentável, pois de acordo com Dias: [...] a educação ambiental deve permitir a compreensão da natureza complexa do meio ambiente e interpretar a interdependência entre os diversos elementos que conformam o ambiente, com vistas a utilizar racionalmente os recursos do meio na satisfação material e espiritual da sociedade no presente e no futuro” (DIAS, 1998, p. 27). Compreender a educação ambiental como uma maneira de se perceber a interação do homem com os recursos naturais permitiria a atuação dos educandos de maneira ativa e eficaz “na prevenção e solução dos problemas ambientais, na gestão do uso dos recursos e serviços, bem como para a elevação da qualidade de vida e para a conservação e proteção ambientais” (RODRIGUEZ & SILVA, 2009, p. 175). Na atualidade, as concepções que envolvem a natureza necessitam de mudanças profundas, uma vez que os novos valores individuais e sociais, embasados no atual modelo de civilização, fazem com que o homem não se considere como integrante da natureza, utilizando-a como um objeto de poder econômico sem importar-se com as possíveis conseqüências futuras. Nesse contexto, é necessária uma mudança de valores e posturas quanto ao papel do homem na natureza, sendo indispensável que o mesmo perceba a importância de se preservar os recursos naturais como forma de garantir o desenvolvimento e a sobrevivência das futuras gerações. Dessa maneira, o papel da educação ganha relevância, sendo caracterizada por Rodriguez e Silva como: um dos instrumentos mais importante para a adaptação cultural, tendo um papel fundamental na construção do futuro [...] a educação ambiental deverá formar valores ambientais, ou valores verdes, que deverão ser muito diferentes dos chamados valores da modernidade (RODRIGUEZ; SILVA, 2009, p. 176). Entretanto, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (Brasil, 1997), mudanças só ocorrerão se houver esse entrelaçamento com a educação, ou seja, é a educação que poderá mudar muitos setores da sociedade e solucionar ou amenizar muitos problemas atuais e futuros, principalmente os de ordem humana. Na esfera educacional, o Governo Federal emitiu o parecer 226/87 de 11 de Março de 1987 do Ministério da Educação (MEC), indicando o caráter interdisciplinar da EA e traçando recomendações para sua realização em todos os níveis de ensino. O caráter interdisciplinar é de suma importância para a EA, pois segundo Leff: a interdisciplinaridade é proclamada hoje em dia não só como um método e uma prática para a produção de conhecimentos e para sua integração operativa na explicação e resolução dos cada vez mais complexos problemas do desenvolvimento; além disso aparece com a pretensão de promover intercâmbios teóricos entre as ciências e de fundar novos objetos científicos (LEFF, 2007, p. 72). No ano de 1991, o Ministério da Educação instituiu que a EA deveria ser englobada nos currículos dos diferentes níveis de modalidades de ensino, lançando em 1997, os Parâmetros
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 210 Curriculares Nacionais abordando temos como ética, saúde, meio ambiente, pluralidade sexual e orientação sexual, discutidos como temas transversais. Dessa maneira, as escolas norteadas por documentos como os PCNs, surgem no atual contexto como o local mais adequado para a disseminação dos princípios da Educação Ambiental e para o desenvolvimento de atividades interdisciplinares, preparando as gerações futuras para viver em harmonia com os recursos naturais do planeta, em especifico os recursos hídricos. A temática Educação Ambiental é trabalhada nas escolas como um tema transversal, e “[...] deve ser desenvolvido a fim de ajudar os alunos a construírem uma consciência global das questões relativas ao meio [...]” (PCN, 1997 p. 47). Uma mudança de postura perante a conservação, preservação e correta utilização dos recursos hídricos disponíveis só ocorrerá quando a população for educada ambientalmente. Nessa perspectiva, segundo Paulo e Asari: a escola torna-se fundamental, pois numa ação conjunta, professores e equipe pedagógica podem se propor a realizar trabalhos de Educação Ambiental, pois sabe-se que, assim, os alunos terão maiores condições de reivindicar seus direitos perante a sociedade (PAULO & ASSARI, 2006, p. 52) Sendo assim, o trabalho de Educação Ambiental efetivado na escola deve propiciar o desenvolvimento de atitudes e valores ambientalmente corretas nos alunos. Segundo os PCNs temas transversais o aluno deve “perceber-se integrante, dependente e agente transformador do ambiente, identificando seus elementos e as interações entre eles, contribuindo ativamente para a melhoria do meio ambiente” (PCN, 1997 p. 07). O papel do professor no desenvolvimento da Educação Ambiental é de extrema relevância, pois “em educação ambiental é preciso que o educador trabalhe intensamente a integração entre o ser humano e o ambiente e se conscientizar de que o ser humano é natureza e não apenas parte dela” (GUIMARÃES, 1995, p. 30). Segundo os PCNs (Brasil, 1997) o professor tem uma importante tarefa associada ao meio ambiente, que é proporcionar ao aluno o reconhecimento de fatores que produzam real bem-estar, ajudando-o a desenvolver um espírito de crítica quanto as induções do consumismo, de modo a respeitar o ambiente e a sociedade. Dessa maneira, escolas e professores devem permitir que o educando construa o seu próprio conhecimento e, a partir daí, critique os valores da realidade na qual está inserido. Guimarães (1995), afirma que assumindo essa postura, não significa dizer que o educador assumiu um papel neutro perante a situação e nem que negou os seus próprios valores, e sim propiciou que o educando confrontasse diferentes valores em busca de uma síntese pessoal que refletirá em novas atitudes. A temática EA vem sendo progressivamente incorporada nas aulas, uma vez que as escolas atuam como divulgadoras de atitudes ambientalmente corretas. De acordo com Guimarães (1995, p. 09) a EA apresenta uma nova dimensão que deve ser “incorporada ao processo educacional, trazendo toda uma recente discussão sobre as questões ambientais, e as conseqüentes transformações de conhecimento, valores e atitudes diante de uma nova realidade a ser construída”. Cavalcanti (2002), afirma que a EA tem o objetivo de ofertar instrumentos essenciais para que os cidadãos possam interagir com o meio ambiente de maneira consciente. Mesmo a EA possuindo um caráter interdisciplinar, ou seja, que deve ser abordada nas mais variadas disciplinas, é na Geografia que a EA encontra bases mais sólidas para seu desenvolvimento, pois a ciência geográfica trabalha de maneira detalhada a relação homem- sociedade-natureza. Nas escolas a Geografia ganha representatividade quanto a Educação Ambiental. De acordo com o PCN de Geografia o estudo do meio [...] não deve se restringir á mera constatação e descrição dos fenômenos que o constituem. Deve-se também buscar as relações entre a sociedade e a natureza que ai se encontram presentes, situando-as em diferentes escalas espaciais e temporais, comparando-as, conferindo-as significados, compreendendo-as. (PCN, 1997, p. 116).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 211 A Educação Ambiental pode ser trabalhada com o auxilio da Geografia para a preservação dos recursos hídricos. Segundo Cavalcanti (2002, p. 18) “outro aspecto da educação ambiental, que pode ser trabalhada a partir da contribuição da Geografia, é o de fornecer instrumentos para que os cidadãos possam localizar os diferentes ambientes produzidos pelo homem”. A Geografia Escolar, ministrada nas escolas, tem procurado desenvolver nos alunos o pensar geográfico e o papel dos mesmos nessa sociedade em mudanças, indicando novos rumos e reafirmando preceitos essenciais para o desenvolvimento sustentável da humanidade. A necessidade de se trabalhar a temática Educação Ambiental nas escolas, não só na disciplina de Geografia, mas também em caráter interdisciplinar, é de suma importância. Em suma, é através da utilização de uma metodologia que busca estudar de forma unificada a Educação Ambiental, a conservação dos recursos hídricos e o desenvolvimento dessas temáticas na escola, que o presente trabalho foi desenvolvido. Embasado em práticas construtivistas, objetivou-se colaborar para a formação de futuros cidadãos conscientes da importância de se preservar os recursos naturais disponíveis no planeta, em especifico os recursos hídricos, como forma de garantir a sobrevivência de muitas gerações. Compreende-se que a educação sozinha não é suficiente para amenizar ou findar todos os problemas ambientais que assolam o planeta. É necessário que ocorra um movimento mais amplo que envolva população, poder público, em suas mais variadas instâncias, municipal, estadual e federal, empresários, enfim, todos os agentes produtores do espaço, unidos com o objetivo de “respeitar” os limites da natureza e priorizar o desenvolvimento sem o detrimento de algumas das partes envolvidas no processo de modernização e expansão urbana. Entretanto, educar ambientalmente a população, com atividades sendo desenvolvidas desde os primeiros anos nas escolas, ainda é a ferramenta mais eficaz no processo de preservação e conservação dos recursos naturais. 3. Considerações Finais A preocupação ambiental presente na sociedade repercute no campo educativo. A educação, neste sentido, tem-se mostrado um campo altamente sensível às novas demandas e temáticas socioculturais, como no caso da EA, elegendo-as como objeto da pesquisa e da prática pedagógica. Ao constituir-se como prática educativa, a Educação Ambiental posiciona-se na confluência do campo ambiental e das tradições educativas, as quais vão influenciar na formação de diferentes segmentos e orientações pedagógicas no âmbito da Educação Ambiental ou, dito de outro modo, produzir diferentes Educações Ambientais. Contudo, é importante não esquecer que esse encontro entre o ambiental e o educativo, no caso da Educação Ambiental, se dá como movimento proveniente do mundo da vida nada puramente biológica, mas na vida refletida, ou seja, do mundo social. É baseado na dinâmica cultural diversificada que o conhecimento crítico passa a ser aplicado as problemáticas que afetam ao meio ambiente e na consciência por parte dos indivíduos e comunidades, e quando acontece o debate em torno da Educação Ambiental. Existem alguns fatores que não podem ser esquecidos no processo de conservação ambiental, assim como no fortalecimento dos sentimentos de identidade e cultura. Todos esses fatores fazem com que essa consciência ambiental aconteça com os que estão envolvidos no processo de educação sejam eles professores ou alunos. Sendo assim, acredita-se que o presente trabalho possa servir de contribuição para a compreensão de como a EA se insere no atual contexto da escola brasileira, além claro de ser uma ferramenta mediadora que traz novos conhecimentos sobre a importância da Ecopedagogia ser trabalhada no âmbito das escolas. Referências Bibliográficas
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 212 BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: história, geografia. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. ________, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: meio ambiente, saúde. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia e práticas de ensino. Goiânia: Alternativa, 2002. DIAS, Genebaldo Freire. Educação Ambiental: princípios e práticas. 5ª ed. São Paulo: Gaia, 1998. GUIMARÃES, Mauro. A dimensão ambiental na educação. 2ª ed. São Paulo: Papirus, 1995. LEFF, Enrique. Epistemologia Ambiental. 4ª ed. São Paulo: Cortez, 2007. PAULO, Miriam Lopes; ASARI, Alice Yatiyo. A educação ambiental na escola estadual de Pau d’alho do Sul. In: ANTONELLO, Ideni T.; MOURA, Jeani D. P.; TSUKAMOTO, Ruth Y. (orgs). Múltiplas geografias: ensino-pesquisa-reflexão. v. III. Londrina: Edições humanidades, 2006. PEDRINI, Alexandre G. (org.). Educação ambiental: reflexões e práticas contemporâneas. 5ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. RODRIGUEZ, José M. M.; SILVA, Edson V. Educação ambiental e desenvolvimento sustentável. Fortaleza: Edições UFC, 2009.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 213 A FORMAÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO DENTRO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DO CURSO NORMAL MÉDIO DE UMA ESCOLA ESTADUAL EM PERNAMBUCO Bárbara Graziella Monteiro GOMES Graduanda em Gestão Ambiental pelo Instituo Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco, IFPE. grazyellamonteiro@hotmail.com Anália Keila Rodrigues RIBEIRO Doutora em psicologia pela UFPE, professora pelo curso Gestão Ambiental pelo Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco, IFPE. analiakeila@yahoo.com.br RESUMO O trabalho consiste numa pesquisa realizada com os alunos do curso Normal Médio de uma escola estadual em Pernambuco. Por ser o meio ambiente, alvo das mais diversas especulações da atualidade, estudos relacionados a essa temática despertam interesse no campo da pesquisa. Ao passo que a formação de novos professores contribui para sustentabilidade da sociedade. O presente estudo traz como objetivo principal, a tentativa de compreender como se forma a identidade do sujeito ecológico dentro dessa formação de professores do curso, além de abordar outros aspectos relevantes aos objetivos do trabalho. A pesquisa faz uso da metodologia de caráter qualitativo, com aplicação de questionário misto a fim de obter dados acerca do tema em questão. De acordo com os levantamentos bibliográficos, o curso de formação de professores Normal Médio traz aspectos positivos com relação à formação do sujeito ecológico, porém os alunos pesquisados não trabalham a Educação Ambiental dentre as práticas educativas do curso. PALAVRA-CHAVE: Meio Ambiente; Educação Ambiental; Formação de Professores; Curso Normal Médio. ABSTRACT The work consists of a survey of students of normal course statewide average school in Pernambuco. The target environment of today's most diverse speculation, studies related to this issue are of interest in the field of search. While training new teachers contributes to sustainability of society. This study brings as main objective, the attempt to understand how to shape the identity of the subject ecological inside this teacher training course, in addition to addressing other aspects relevant to the goals of the job. Search makes use of qualitative character methodology, with application of joint questionnaire to obtain data about the subject in question. According to the bibliographic surveys, the teacher training course brings average normal positive aspects with respect to training of taxable ecological, however pupils searched aren't environmental education among educational practices of the course. KEYWORD: Environment; Environmental Education; Teacher Training; Normal Course Medium. INTRODUÇÃO O presente trabalho visa apresentar um estudo quanto à formação do sujeito ecológico inserida em futuros professores. Tais professores, no entanto, serão formados após a conclusão do curso Normal Médio, que tem duração de quatro anos. Também está contido nos objetivos do presente trabalho, identificar potenciais educadores ambientais, a partir da perspectiva ambiental dos alunos quanto às práticas pedagógicas do curso. O meio ambiente sofre constantes mudanças a todo o momento, que podem ser de ordem natural ou pela ação humana. Os problemas ambientais vêm se acentuando cada vez mais devido a essas mudanças que chegam a um nível de degradação ambiental ultrapassando os limites que o
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 214 planeta tem em se recuperar sozinho. Essa degradação ambiental, causada pela ação do homem, esta relacionada, dentre outras circunstâncias, ao acelerado crescimento populacional de forma descontrolada, aumento na demanda de recursos naturais, má distribuição de renda, e uma sociedade cada vez mais escrava do modo de produção capitalista. Diante desse quadro surgem então os chamados movimentos ecológicos que buscam solucionar os problemas ambientais a partir de ações sociais, tendo em vista uma consciência ecológica, muito embora essa ecologia seja diferente da convencionalmente estudada pelos biólogos. Trata-se de uma luta ecológica da sociedade para identificar e solucionar os problemas ambientais. Surgido no Brasil nos anos 70, tais movimentos ecológicos quase sempre contam com uma maior participação dos jovens, que manifestam os seus interesses por uma mudança social, indo contra o modelo consumista de sociedade, cada vez mais presente. (CARVALHO, 2004). Ainda segundo Carvalho (2004), a Educação Ambiental (EA) surge no Brasil, principalmente, com os debates inseridos em movimentos ecológicos, ganhando força, com os avanços da conscientização humana em relação ao meio ambiente, por volta dos anos 80 e 90. Após debates e movimentos sociais que incluem a EA como principal solução para o desenvolvimento sustentável, surge em 1995, uma versão preliminar dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que se consolidou com a publicação definitiva dos PCNs de 1ª a 4ª séries no ano de 1997 e de 5ª a 8ª séries em 1998, trazendo a proposta de abordar o meio ambiente dentro de sala de aula como tema transversal e em todos os níveis de ensino. A partir deste momento, a EA passa a fazer parte do currículo escolar, buscando a interdisciplinaridade como forma de abordar os temas ambientais transversais. Esta, além de estar inserida no contexto do ensino formal, proposta pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, também se reflete em manifestações populares dentro da comunidade através dos interesses sociais e culturais que seguem o pensamento ecológico anteriormente citado. Tal educação inovadora preocupada com o meio ambiente e suas interferências culturais, sociais e biológicas, nos ensina o modo, os caminhos que nos levam a conscientização da nossa realidade, onde podemos enxergar melhor as coisas ao nosso redor (GADOTTI, 2000). Para Reigota (2007), a prática da EA esta inserida dentro do contexto ecológico, social, político e cultural, onde muito contribui para uma reflexão sobre a educação de um modo geral. O autor diz ainda que, essa contribuição se dá ao passo que, o mundo em que vivemos nos dias de hoje traz uma complexidade em seus problemas do cotidiano que a educação normal não abrange em sua totalidade. Dentro do contexto estudado temos a figura do Educador Ambiental como sendo aquele que faz uso da EA tanto formal, presente nas escolas através do ensino tradicional, quanto não- formal, contida na comunidade através de ações comunitárias (CARVALHO, 2004). Com práticas diferentes em ambientes mais diversos, a educação ambiental segue com os mesmos objetivos: que é promover uma sensibilização da sociedade a fim de minimizar os impactos ambientais prejudiciais ao meio ambiente. Novamente seguindo as idéias de Carvalho (2004), esse Educador ambiental pode ser qualquer pessoa que desenvolva práticas ambientais com os objetivos propostos pela EA, não sendo necessariamente um professor com formação acadêmica. A autora sugere ainda que: “O Educador é por natureza um interprete, não apenas porque todos os humanos o são, mas também por oficio, uma vez que educar é ser mediador, tradutor de mundos”. (CARVALHO, 2004, p.76). Assim, qualquer professor pode vim a ser um Educador Ambiental, de modo que ele introduza em suas práticas pedagógicas, conceitos e proposta de uma EA em sala de aula. Desse modo, ele passa a possuir um diferencial, por envolver em sua metodologia de ensino temas atuais e de relevante interesse social. Muito embora, o educador ambiental não deve ser visto como um ser perfeito, de inteligência superior, uma vez que é um profissional da área de educação, ele precisa estar sempre aberto a novos conhecimentos, aprendendo, ao passo que educa. De acordo com a ProFEA, Programa Nacional de Formação de Educadoras(es) Ambientais (2000), a relação entre o educador ambiental e o aluno consiste na troca mutua de saberes, onde não é permitida a hierarquia de conhecimento nos diálogos sobre a realidade vivida por ambas as partes.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 215 Partindo desse pressuposto, definiremos agora a formação do sujeito ecológico, que esta intimamente relacionada à formação do educador ambiental. Para Carvalho (2004) o sujeito ecológico em formação é um ser ideal, conhecedor e praticante de atitudes sustentáveis, ao mesmo tempo em que faz uso da educação ambiental como prática cotidiana em seus diferentes aspectos. O sujeito ecológico é um ser com ideários utópicos, que vive na constante busca da perfeição. Para Leonardo Boff: “... o ser humano e a sociedade não podem viver sem utopia”. (BOFF, 1999, p.81). A utopia faz com que busquemos fazer sempre o melhor, indo atrás de um ideal que nunca poderá ser alcançado por estar sempre um passo a nossa frente. Essa idéia de utopia que o sujeito ecológico traz, faz com que ele busque sempre melhorar suas atitudes, seus comportamentos, de maneira a desenvolver cada vez mais atitudes sustentáveis. Carvalho (2004) combina o sujeito ecológico a características de um modo ideal de ser e agir, na medida em que esse sujeito vive conforme os princípios dos comportamentos ecológicos. Onde a EA esta inserida nos ideais do sujeito ecológico, do mesmo modo que esse sujeito é o ser almejado pelos objetivos dessa educação, assim, os educadores que desenvolvem ideais ecológicos em suas práticas educativas, estão desenvolvendo sua identidade sócio-ambiental, agindo como sujeitos em busca da formação ecológica. Desse modo, um professor pode vir a desenvolver o papel do educador ambiental, contribuindo no decorrer do processo, com a figura do sujeito ecológico em formação. Após a definição dos conceitos que norteiam este trabalho, buscaremos compreender a contribuição do curso Normal Médio para a formação de educadores enquanto sujeito ecológico. O curso Normal Médio está previsto no artigo 62 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº. 9.394/1996 e regulamentado pela Resolução CNE/CEB nº. 02/99, que Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Docentes da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental, em nível médio, na modalidade Normal. Os docentes formados nessa modalidade atuam diretamente na educação formal, que é dada em ambiente escolar. De acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), no Brasil, a educação esta dividida em Educação Básica, que é formada pela educação infantil, pelo ensino fundamental e ensino médio, e a Educação Superior. A educação tem por finalidade a inserção dos indivíduos ao contexto social, de modo a proporcioná-lo ferramentas necessárias para uma boa atuação na sociedade. Uma vez que os Parâmetros Curriculares Nacionais determinam o meio ambiente como tema transversal, devendo ser abordado em sala de aula nos diferentes níveis de ensino, assim sendo o professor precisa desenvolver metodologias de ensino que tratem o meio ambiente conforme é proposto pelos PCNs. Essa é uma educação que vai além da contida no currículo escolar, mas que não deixa de estar prevista nos objetivos da educação no Brasil. O objetivo principal do presente trabalho consiste nessa compreensão do sujeito ecológico inserido na formação de professores do curso, a partir de uma análise na perspectiva em se formar possíveis educadores ambientais dentre os docentes que serão formados. Uma vez que, de acordo com os requisitos do curso, este professor sairá apto para ensinar em escolas tanto públicas como privadas. Assim sendo, a justificativa da escolha do tema se dá a partir da necessidade de se conhecer dentro do curso normal médio, futuros professores que poderão atuar como educadores ambientais, atendendo aos PCNs e consolidando a EA nas escolas da maneira como ela vem sendo requerida. METODOLOGIA A fim de compreender a identidade socioambiental do grupo de alunos pesquisados, buscando a complexidade dos fatos, a metodologia utilizada tem o enfoque qualitativo, por promover uma maior proximidade entre o pesquisador e o grupo a ser pesquisado, isso possibilita um melhor colhimento e analise dos dados. (TEIXEIRA, 2009). O estudo traz pontos relevantes da compreensão ambiental identificada na identidade socioambiental dos alunos pesquisados, tendo em vista sua futura formação profissional. Bem como
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 216 define Isabel Carvalho (2004), as experiências e percepções dos alunos que atuam na formação de professores devem ser identificadas para serem analisadas dentro de sala de aula, valorizando assim a compreensão individual do meio ambiente, que serve muitas vezes de referência para importantes discussões sobre o tema. A pesquisa foi realizada inteiramente nas dependências de uma escola estadual localizada na cidade do Recife, com alunos do curso Normal Médio, curso esse de formação de professores. Não citarei aqui o nome da escola a pedido da coordenadora da mesma. Foram selecionados, de forma aleatória, representantes de cada série do curso, tendo assim dados de alunos do 1º ao 4º ano. A coleta dos dados foi dividida em duas etapas. A primeira com visita a campo, a fim de conhecer melhor o meu objeto de estudo. Ocorreu no horário da manhã, e consistiu apenas em obter informações sobre o curso, como a sua grade curricular, total de séries contidas e quais delas atuantes no horário da manhã. Passado esse primeiro momento, a segunda etapa foi composta pela coleta de dados através de um questionário misto. Os questionários foram divididos em duas partes, a primeira contendo perguntas abertas e a segunda contendo perguntas fechadas de múltipla escolha. A primeira parte do questionário que compunha perguntas abertas traz um incentivo aos alunos a refletir sobre suas escolhas profissionais, e de que forma isso pode influenciar na vida de outras pessoas. Ainda na primeira parte, foi feito um convite ao aluno para que ele identificasse características consideradas de um bom professor e sua importância na formação social do ser humano. Paralelamente ele reflete sobre suas atitudes ambientais, identificando-as em práticas cotidianas, tendo em vista sua compreensão do venha a ser meio ambiente, buscando com isso alcançar um dos objetivos específicos da pesquisa. A segunda parte do questionário, composta por perguntas fechadas, reforça a opinião dos alunos pesquisados quanto à relação existentes na formação de professores e suas práticas ambientais individuais. Perguntas essas, a fim de obter resposta para o objetivo principal da pesquisa, que é compreender a contribuição do sujeito ecológico em formação dentro do curso, procurando ainda identificar nos alunos suas possíveis práticas educacionais que podem ser desenvolvida dentro de sala de aula, estando ele na condição de um educador. Além de identificar atuais e futuras atitudes diante de assuntos ambientais, a segunda parte do questionário também traz aspectos relevantes do quanto esses alunos podem vir a se tornar um educador ambiental, ao passo que as perguntas feitas a ele fazem menção a uma auto-analise da preparação individual dos alunos frente a problemas ambientais. Com isso, buscamos também associar a intervenção que o curso traz quanto a essa formação do sujeito ecológico, identificando que tipo de atuação o mesmo vem desenvolvendo com esses alunos a professores, se de forma positiva ou negativa. A metodologia utilizada faz possível a obtenção dos objetivos a serem alcançados, por conter perguntas que deixam ao pesquisado opções de escolha, bem como sua liberdade de expressão, uma vez que sua identidade não precisou ser revelada e por serem abordados temas de fácil entendimento. Os questionários foram entregues em dois dias diferentes e seqüenciais, ambos pela manhã, melhor horário identificado por conter nele todas as séries a serem pesquisadas. No primeiro dia, o questionário foi aplicado a cinco alunos do 1° ano e cinco alunos do 2° ano. No dia seguinte, com os alunos do 3° e 4° ano, também cinco selecionados de cada série para responder as perguntas. A entrega dos questionários para serem respondidos foi feita dentro de sala de aula, onde foi estipulado um tempo para o recolhimento do material entregue. A fim de obter um retorno de 100% desse material distribuído, todo o processo de aplicação e recolhimento dos questionários foi feito no mesmo dia, conseguindo assim esse retorno previsto. Esse procedimento com aproveitamento máximo de retorno dos questionários só foi possível por contar com o auxilio dos professores que estavam em sala de aula no momento da entrega, e possibilitaram aos alunos um tempo para que eles respondessem as perguntas, mesmo estando em horário de aula. Sendo assim, concluindo, dos vinte questionários entregues, vinte foram devolvidos.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 217 A análise dos dados ocorreu na identificação de pontos relevantes apontados pelas respostas dos questionários, bem como as informações adquiridas nas primeiras visitas com o reconhecimento do objeto de estudo. A contribuição do curso normal médio foi avaliada a partir da analise dos questionários, com base nas respostas de alunos das diferentes séries do curso, podendo assim fazer um comparativo entre essas classes de ensino, buscando relacionar a evolução sofrida pelos alunos durante os anos letivos. RESULTADOS E DISCUSSÃO Nas primeiras visitas a fim de conhecer o meu objeto de estudo, pude perceber que dentro das disciplinas curriculares do curso, nenhuma faz menção a EA, colocando em evidência a deficiência do curso quanto à formação de educadores ambientais proposta por Carvalho (2004). E que os alunos do curso de formação de professores na modalidade Normal Médio, quase não praticam nenhuma atividade pontual relacionada ao meio ambiente, mas ainda quando o fazem, não conseguem relacionar tais atividades as suas práticas educativas no curso. Isso porque quando foi perguntado, de maneira informal, aos alunos se eles desenvolviam alguma atividade relacionada ao meio ambiente, os alunos responderam que não, mas ao circular nas dependências da escola, pude notar, através de cartazes, que a escola possui um projeto nomeado “Escola Limpa”. Essa falta da EA dentro do curso compromete a formação desses alunos como professores capazes de cumprir seus princípios educacionais. Isso porque, os PCNs de 1ª a 4ª série do ensino fundamental, que é justamente a área de atuação desses professores formados pelo curso Normal Médio, propõe que o meio ambiente seja trabalhado em sala de aula, possibilitando que o aluno seja inserido na sociedade de forma a valorizar sua identidade cultural, ambiental e social. No que diz respeito à formação do sujeito ecológico definida por Carvalho (2004), o curso deixa muito a desejar nessa formação, uma vez que não incentiva seus alunos a abordarem temas ambientais dentro e fora de sala de aula. Isso pôde ser identificado muito claramente no fato da falta da EA abordada na grade curricular do curso. O que se pode identificar, é que os alunos estão estritamente inseridos aos conteúdos programáticos do curso, impossibilitando assim, uma formação da sua identidade como um todo de maneira mais complexa, e que inclui o educador ambiental. Discutindo a definição que a LDB traz sobre a educação normal, aquela que será ministrada por esses alunos, e que se inserem no contexto da EA, uma vez formados professores incapazes de estabelecer uma ligação intima entre essas duas esferas da educação, os princípios educacionais regulamentados pela LDB fogem a regra de serem cumpridos. Muito curiosamente, os dados obtidos com os questionários mostraram que, os alunos do 1º ano do curso têm uma melhor visão e perspectiva sobre o meio ambiente e a importância de esse tema ser trabalhado em sala de aula. Isso pôde ser identificado em diversas das perguntas realizadas aos alunos, uma delas trouxe a intenção dos alunos em abordar o meio ambiente em suas aulas ao se tornarem professores, os dados mostraram que todos os alunos pesquisados do 1º ano responderam que sim, enquanto que nenhum dos alunos pesquisados do 4º ano respondeu que sim. Ou seja, os alunos ingressantes do curso têm intenção em desenvolver a EA nas escolas que trabalharem, ao contrário dos alunos que provavelmente concluíram esse ano. No que se refere aos alunos das séries intermediárias, 2º e 3º ano, os dados também mostram que falta interesse dos alunos em desenvolver a EA em suas aulas. Essa deficiência por partes dos alunos do 2º ao 4º ano pode estar relacionada à própria prática pedagógica do curso, uma vez que, todos os alunos do 1º ano que foram questionados responderam que abordam temas relacionados ao meio ambiente entre as aulas do curso, enquanto as demais séries divergem bastante as respostas. Esses dados podem estar relacionados com o fato de o tema meio ambiente mostrar-se muito mais em evidência nos últimos tempos, e que por isso, esses alunos que na sua maioria são mais jovens, se mostram mais interessados pelo assunto. O curso de formação de professores por sua vez também se mostra mais preocupado em abordar esses assuntos com os alunos ingressantes
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 218 do curso, isso pode ser constatado como um interesse do curso em formar alunos com essa perspectiva ambiental desde o inicio de sua formação. Porém, isso se torna um ponto bastante negativo, ao passo que o curso deixa a desejar quanto à formação dos demais alunos, que de toda forma, também se tornaram professores. Como havia sido mencionado na fundamentação teórica da pesquisa, segundo Carvalho (2004), o educador ambiental pode vir a ser qualquer pessoa que seja capacitado para essa função, que desenvolva em sua identidade uma formação socioambiental característica dos objetivos impostos pela EA. Com isso, pôde ser compreendido que os alunos do 1º ano do curso de formação de professores Normal Médio têm uma maior tendência a virem a se tornar educadores ambientais, muito embora, as práticas educativas do curso ainda não contribuam por completo com essa formação. CONCLUSÃO De acordo com nosso referencial teórico concluímos que, o curso de formação de professores Normal Médio tem todos os requisitos necessários para uma boa contribuição na formação do sujeito ecológico, uma vez que, prepara profissionais para atuarem diretamente na área da educação. Contudo, com base nos resultados adquiridos, os alunos do curso Normal Médio que foram pesquisados, não trazem essa contribuição para o sujeito ecológico da maneira como poderiam trazer, contribuição essa baseada na importância que esses alunos terão na formação educacional de novos indivíduos. Essa compreensão da contribuição do curso para o sujeito ecológico só pôde ser identificada em teoria, ou seja, ficou notável que, um curso formador de professores traz princípios e objetivos semelhantes aos do sujeito ecológico em formação. Mas essa contribuição não ficou consistente na prática, por não serem trabalhados mais objetivamente os temas ambientais dentre as disciplinas do curso. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. BRASIL, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. BRASIL, Resolução n.º 002, de 29 de janeiro de 1999. Ministério da Educação e do Desporto Conselho Nacional de Educação. Institui Diretrizes Curriculares para a Formação de Docentes da Educação Infantil e dos anos Iniciais do Ensino Fundamental, em nível médio, na modalidade Normal. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais / Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 1997. CARVALHO, Isabel Cristina de Moura. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. 3° Ed. Niterói, RJ: Vozes, 2004. GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis, 2000. (Série Brasil Cidadão). MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO. ProFEA: programa nacional de formação de educadoras(es) ambientais. Por um Brasil educado e educando ambientalmente para a sustentabilidade. 2006. REIGOTA, Marcos. Meio Ambiente e Representação Social. 7. ed. - São Paulo, Cortez, 2007. (Coleção questões da nossa época; v.41). TEIXEIRA, Elizabeth. As Três Metodologias: acadêmica, da ciência e da pesquisa. 6. Ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 219 A IMPORTÂNCIA DE PROJETOS AMBIENTAIS: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O PROJETO COM CIÊNCIA, NO BAIRRO ILHA DO BISPO, NA CIDADE DE JOÃO PESSOA – PARAÍBA Elisângela de Araújo BARBOSA Alunos do curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba – Campus V. elisangelaz10@hotmail.com Deinne Airles da SILVA Alunos do curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba – Campus V. Théo BRASILINO Alunos do curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba – Campus V. Vancarder Brito SOUSA Orientador, Doutor em Sociologia (UFPB) e Professor da Universidade Estadual da Paraíba. vancarder@hotmail.com RESUMO O presente estudo de caso pretende demonstrar a importância de projetos ambientais, voltados para crianças e jovens em idade escolar. O projeto Com Ciência, criado em 2009 por estudantes de graduação do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba, realizou o seu primeiro trabalho no bairro da Ilha do Bispo, João Pessoa – PB, com finalidades de promover Educação Ambiental naquela área, conseguiu apoio junto a Associação Recreativa, Cultural e Artística (ARCA), local onde desenvolveram seus projetos com crianças e jovens de 10 a 19 anos. A educação ambiental, não promove apenas consciência relacionada a problemas ambientes, abrange também todo o campo da cidadania, e através da solidariedade consegue transmitir a essência entre o ensinar e o aprender, educando cidadãos capazes de exercer a cidadania em sua plenitude, respeitando os direitos do próximo. PALAVRAS-CHAVES: Projetos ambientais, Com Ciência, Ilha do Bispo. ABSTRACT This case study aims to demonstrate the importance of environmental projects for children and young people of school age. Project Com Ciência, created in 2009 by graduate students of the course of Biological Sciences, State University of Paraíba, held his first job in the neighborhood of Ilha do Bispo, João Pessoa - PB, with aims to promote environmental education in that area, managed support from the Association Recreational, Cultural and Art (ARCA), where developed their projects with children and young people aged 10 to 19 years. Environmental education not only promotes awareness of problems related environments, it also covers the whole field of citizenship, and through solidarity can convey the essence between teaching and learning, educating citizens capable of exercising citizenship in its entirety, respecting the rights of next. KEYWORDS: Environmental Projects; Com Ciência; Ilha do Bispo INTRODUÇÃO O Projeto Com Ciência, criado em 2009, foi desenvolvido por estudantes de graduação do Curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da Universidade Estadual da Paraíba, e possui como principal objetivo ministrar aulas sobre educação ambiental a crianças e jovens em idade escolar, que participam das atividades da Associação Recreativa Cultural e Artística, no bairro Ilha do Bispo, na cidade de João Pessoa – Paraíba. Este projeto possui alguns trabalhos em que faz o estudo da população do bairro e da Educação Ambiental na ARCA. Alguns artigos e resumos publicados: Projeto Com Ciência e Educação Ambiental: o ensino da temática coleta seletiva para crianças; Educação Ambiental em comunidades populares: um estudo sobre as concepções de Educação Ambiental de moradores da Ilha do Bispo – João Pessoa/PB; Dos movimentos ambientalistas à Educação Ambiental Popular: o processo de ensino-aprendizagem de crianças e jovens.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 220 O com Ciência foi criado devido aos alunos notarem que o bairro, este localizado entre o Rio Sanhauá e um de seus afluentes (KOURY, 2005) e possuir em seu território o ecossistema manguezal, ter sido parcialmente alterado pela ação antrópica, através do aterramento para a construção de casas, da presença de uma indústria, e pela poluição do rio, pois o mesmo recebe diariamente resíduos provenientes das residências da população ribeirinha, que sem nenhum ou pouco conhecimento, joga todo tipo de material no rio Sanhauá, prejudicando cada vez mais, sua própria qualidade de vida. Geralmente os agentes responsáveis por projetos sócio-educativos e ambientais na Ilha do Bispo são a ARCA e Associação Comunitária Índio Piragibe, que visam uma interação entre os jovens e adultos, oferecendo atividades recreativas, como esporte, danças, arte, entre outras, como meio de ocupar o tempo desses cidadãos. Essas instituições trabalham junto à comunidade com o auxílio de educadores e voluntários. Diante do exposto, o objetivo deste trabalho é demonstrar a importância de projetos de educação ambiental em comunidades, pois se tem conhecimento da importância e a necessidade de se realizar projetos de cunho social voltados para o meio ambiente, pois eles ajudam na formação do aluno como cidadão consciente de suas responsabilidades e direitos em todos os aspectos da vida, aprendendo a valorizar e a respeitar o outro ser vivo, seja ele qual for. De acordo com Brandalise et al. (2009) “a educação ambiental é um dos instrumentos de que se dispõe para tentar sanar ou minimizar os problemas ambientais”, sensibilizando toda da população local. Para que a Educação Ambiental? Segundo Dias et al. (2009) “a educação ambiental é vista como um elemento indispensável para a transformação da consciência dos alunos”. Para que haja uma resposta realmente significativa, é necessário que os alunos se envolvam com o assunto em questão. Ao se abordar o tema Educação Ambiental, não basta apenas ensinar a não jogar o lixo no chão, é preciso explicar sua origem, pra onde ele irá quando jogamos em coletores de lixo ou nas ruas, e como podemos diminuir a quantidade desses resíduos no ambiente, dessa forma, conseguimos influenciar de maneira positiva na forma com que esses alunos pensam, sensibilizando-os através da Educação Ambiental. Esse trabalho se torna mais fácil, se forem abordados temas que fazem parte de seu cotidiano, por exemplo, no caso das aulas de Educação Ambiental na Ilha do Bispo, se faz exemplificações locais, como a ação de jogar o lixo no rio Sanhauá, o prejuízo de ser ter afetada a qualidade de vida, devido à presença de esgotos a céu aberto. Por isso, em uma comunidade como o bairro Ilha do Bispo, que apresentar características socioambientais peculiares não faz sentido falar sobre a caatinga, pois não faz parte da realidade dos moradores, então, o aprendizado se torna mais difícil. O processo de educar, não se resume apenas em ensinar, mas também em aprender, seja qual for o tipo de educação. No entanto quando se trata de educação ambiental, o processo se torna mais dinâmico e o progresso é mútuo, pois um professor que mora em um local distante de onde leciona, não tem como saber, por vivência, a realidade daquele local, mas conhece em sua teoria, já que deve ter lido sobre o bairro em artigos, revistas, livros, etc. Esse professor pode aprender muito com os alunos que ali vivem, pois apesar de não saberem na teoria, mas vivem na prática, então acontece uma troca entre professores e alunos, teorias e praticas. Segundo Tristão (2005), “a Educação Ambiental visa, justamente, potencializar as ações coletivas e a fortalecer o associativismo para resgatar o sentido da repolitização da vida coletiva”. Nessa visão, a educação ambiental é tratada como algo maior, como um processo de aprendizado na sociedade, visando o beneficio para o coletivo, e não individual, como ocorre em muitas disciplinas. A solidariedade é um ponto chave no caminho rumo ao bem estar de todos e é utilizando essa ferramenta que a educação ambiental alcançará seu sucesso e plenitude, e será (se já não for),
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 221 tão necessária como outra disciplina. Devendo então ser abordada em todos os níveis escolares, do fundamental ao superior. CONCLUSÃO A partir da experiência dos discentes de Ciências Biológicas no Com Ciência, pode-se concluir que o projeto está tendo êxito no ensino das crianças e que além de levar a Educação Ambiental e a Educação Ambiental Popular é um importante meio para se conhecer os problemas sócio-ambientais da população por meio dos trabalhos publicados. REFERÊNCIAS BRANDALISE, L. T; BERTOLINI, G. R. F; Rojo, C. A.; LESANA, A. G. R.; POSSAMAIS, O. A percepção e o comportamento ambiental dos universitários em relação ao grau de educação ambiental. Gestão & Produção. vol.16 no.2 São Carlos. 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-530X2009000200010&script=sci_arttext> Acesso em: 23 de fevereiro de 2010. DIAS, S. L. F. G.; TEODÓSIO, A. S. S.; CARVALHO, S.; Silva, H. M. R. Consciência ambiental: um estudo exploratório sobre suas implicações para o ensino de administração. RAE eletrônica. v.8 no.1 São Paulo. 2009. Disponível em: <http://www.gv.br/biblioteca/pe/raeeletronica/SP000529447.pdf > Acesso em: 05 de março de 2010. KOURY, Mauro G. P. Tenso convívio, sociabilidade, medo, hierarquização e segregação em um bairro popular. Revista de Antropologia Experimental [on-line], Espanha, v. 5, n. 6, 2005. Disponível em: <http://www.ujaen.es/huesped/rae/articulos2005/koury2005.pdf> Acesso em: 05 de fevereiro de 2010. TRISTÃO, M. Tecendo os fios da educação ambiental: o subjetivo e o coletivo, o pensado e o vivido. Educação e Pesquisa. vol.31 no.2 São Paulo. 2005 Disponível em: <http://www.acaprena.org.br/planodemanejo/artigos/tecendo_os_fios_da_educacao_ambiental.pdf> Acesso em: 27 de fevereiro de 2010.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 222 A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DA COMUNIDADE LOTEAMENTO PADRE HENRIQUE BAIRRO DA VÁRZEA RECIFE-PE Marinalva Marina Espídola Graduanda do curso Gestão Ambiental no IFPE. marinalvamarina@hotmail.com Anália Keila Rodrigues Ribeiro Professora do IFPE. Doutora em psicologia Cognitiva analiakaeila@yahoo.com.br Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco/IFPE Av.Prof. Luis Freire, 500, Cidade Universitária, CEP 50740-540, Recife-PE. RESUMO A pesquisa busca inestigar como os processos da percepção ambiental pode contribuir para a formação do sujeito ecológico na comunidade Loteamento Padre Henrique localizado no bairro da várzea Recife PE, e tem como objetivos específicos: compreender as concepções dos moradores sobre o meio ambiente; identificar em suas atividades do dia-a-dia práticas típicas do sujeito ecológico e compreender como se desenvolve o processo de interação dos moradores com o meio ambiente. O paradigma metodológico utilizado foi a pesquisa qualitativa, tendo como estratégia de coleta de dados a entrevista na qual foram gravadas e posteriormente transcritas, obtendo após análise prévia e parcial os resultados textuais. O entendimento da percepção ambiental irá contribuir na identificação de problemas ambientais locais, ocasionados pela ação humana, que depois de identificados será analisado para verificar a quem compete à resolução de tais problemas, se aos moradores da comunidade ou ao Poder Público. Tendo em vista as diferentes formas que cada indivíduo tem de perceber, reagir e responder as diferentes ações sobre o meio, além disso, a percepção ambiental possibilitará uma melhor compreensão das inter-relações entre o homem e o meio ambiente. Também, a partir dos achados, poder-se-á elaborar procedimentos associativos que contribuam para uma percepção ambiental mais compatível com o ideário do sujeito ecológico. O projeto terá também a contribuição dos vários conceitos da educação ambiental, pois esta juntamente com a percepção ambiental forma conceitos de suma importância que postos em prática serão bases consolidadas para a formação do sujeito ecológico. Pois o indivíduo necessita inicialmente de um processo de aprendizagem para que ele possa passar de uma condição de indivíduo para se transformar em sujeito social construtor de sua própria história, podendo dessa forma perceber sua interação com o meio natural. PALAVRAS-CHAVE: Percepção ambiental, educação ambienta, sujeito ecológico. ABSTRACT The research seeks to understand how the processes of environmental perception contribute to the formation of the ecological self in the community Allotment Father Henry located in the floodplain Recife PE, and has the following objectives: to analyze the environmental awareness of residents, to identify in their day - to-day practices typical of the ecological self and understand how it develops the process of interaction people have with the environment. The methodological paradigm used was qualitative research, with a strategy for data collection in which the interview were recorded and transcribed, after obtaining prior analysis and partial results supports. The understanding of environmental awareness will help in identifying local environmental problems, caused by human action, which once identified will be analyzed to determine who is responsible for resolving such problems, the residents of the community or to the Government. Given the different ways that each individual has to perceive, react and respond to different actions on the environment, in addition, environmental perception, provide a better understanding of the interrelationship between man and the environment. Also, from the findings, one will develop procedures associations that contribute to environmental perception more
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 223 compatible with the ideas of ecological self. The project will also assess the contribution of the various concepts of environmental education, as this along with environmental perception, form concepts of paramount importance that will be put in place a consolidated basis for the formation of ecological self. For the individual needs of an initial learning process so that it can pass from one condition of the individual to become a social subject constructor of their own history, and can thus understand their interaction with the environment. KEYWORDS: Environmental perception, environmental education, ecological self. INTRODUÇÃO Educação ambiental Segundo a Comissão Internacional na preparação da Eco92, a Educação Ambiental se caracteriza por incorporar as dimensões sócio-econômica, política, cultural e histórica. Devendo considerar as condições e estágios de cada país, região e comunidade, sob uma perspectiva histórica, ou seja, partindo de uma perspectiva local para uma perspectiva global. Para formar cidadãos críticos com uma percepção ambiental voltada para a sua realidade local é necessário uma formação adequada, incluindo em sua base educacional a educação ambiental. Ultimamente, a educação ambiental vem assumindo um caráter mais realista, envolvida na busca de um equilíbrio entre o homem e o meio ambiente, apesar da dicotomia existente entre “sustentabilidade e desenvolvimento”. Além disso, pode ser considerada uma prática para a sustentabilidade e para a sua percepção é necessário uma forma de pensar mais complexa. A lei de número 9.795, 27 de abril de 1999 da Constituição Federal em seu artigo primeiro entende a Educação Ambiental como os processo por meio dos quais, o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos habilidades e competências voltadas para a conservação do meio ambiente. Partindo desse princípio o projeto será desenvolvido na comunidade Loteamento Padre Henrique, localizada no bairro da várzea- Recife PE e tem como objetivo geral compreender como os processos da percepção ambiental contribuem para a formação do sujeito ecológico. Especificamente a pesquisa busca entender o que os moradores pensam sobre o meio ambiente, além de identificar no seu dia-a-dia práticas típicas do sujeito ecológico e também analisar o desenvolvimento das relações com o ambiente na comunidade. Entretanto, com esta pesquisa pretende-se responder a seguinte questão: qual é a contribuição da percepção para a formação do sujeito ecológico com uma consciência crítica-ambiental capaz de compreender a importância da manutenção de um ambiente limpo e saudável para a sua qualidade de vida e para a melhoria do planeta, visando o desenvolvimento sustentável. Ao responder a questão de estudo, a pesquisa contribui para a formação da consciência ambiental dos moradores, visto que a experiência desenvolvida tem como expectativa compreender como os moradores pensam e agem sobre o meio ambiente e de que forma procura solucionar problemas concreto do meio ambiente, tendo por base a percepção ambiental com uma participação ativa e responsável de cada indivíduo e da coletividade. Tendo além da percepção ambiental a contribuição da Educação Ambiental de forma conceitual por ser um campo multi e interdisciplinar que se desenvolve em um processo contínuo e permanente. Segundo Mauro Guimarães o processo educacional deve incorporar uma nova dimensão com discussão sobre questões ambientais e possíveis transformações de conhecimento, valores e atitudes diante de uma nova realidade a ser construída. Pois é importante ressaltar que ao longo da história da humanidade, os valores e padrões éticos construídos não incluíram a dimensão ambiental, tendo o homem se preocupado apenas com o seu bem estar, fornecido pela produção ilimitada e pela utilização indiscriminada dos recursos naturais, visto que os paradigmas filosóficos, éticos e econômicos levaram o homem a distanciar-se da natureza, impedindo dessa forma que a sociedade reflita sobre a relação dos homens entre si, e deste com a natureza. Neste contexto, a percepção ambiental e a educação ambiental vêm contribuir em processo interativo, participativo e crítico para o desenvolvimento sustentável.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 224 Referencial teórico A resolução CONAMA 306:2002: define “Meio Ambiente é o conjunto de condições, leis, influencia e interações de ordem física, química, biológica, social, cultural e urbanística, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. É de responsabilidade de toda a sociedade pela preservação do meio ambiente, sendo preciso agir de maneira consciente para não modificá-lo de forma negativa, tendo em vista que o meio é o lugar que nos envolve e nos cerca na qual dependemos para nossa sobrevivência e que tais modificações tem influencia direta na nossa qualidade de vida e na qualidade de vida de gerações futuras. Sendo a percepção ambiental a consciência do ambiente pelo homem, assim juntamente com a educação ambiental, quando postos em prática formarão as bases consolidadas para a formação do sujeito ecológico. Pois a percepção ambiental leva em consideração as diferentes formas do ser humano ver e agir sobre o meio ambiente, que segundo OKAMOTO (2003), a percepção ambiental é a visão que cada indivíduo tem do ambiente, de acordo com o contexto que o envolve possibilitando diferentes formas de reagir com o meio a sua volta. Já para FAGGIONATO (2007), “cada indivíduo percebe, reage e responde diferentemente frente às ações sobre o meio. As respostas são resultados da percepção, processos cognitivos, julgamento e expectativa de cada indivíduo”. Diante da importância da educação e percepção ambiental para um melhor entendimento das inter-relações entre o homem e o meio ambiente, a pesquisa busca analisar como a comunidade interage e percebe o meio ambiente. Durante muito tempo o atual modelo de desenvolvimento econômico não permitiu que o homem refletisse sobre sua atuação no planeta, e se apoderou da necessidade e da dependência que este tem com relação à natureza, para exaurir os recursos naturais, sendo assim um modelo econômico injusto, pois visa apenas o lucro, além de ser o responsável pelas mazelas existentes e pelo verdadeiro caos que presenciamos em pleno século XXI. É um modelo de causar indignação na medida em que sobrepõem o luxo e o status acima da necessidade de sobrevivência, visto que os beneficiados pela exploração dos recursos naturais constituem uma pequena parcela da população que se preocupam apenas com seu bem estar, sendo a maioria vítima dos danos causados ao meio ambiente, além do que muitos não têm o mínimo de tais recursos para atender as suas necessidades básicas. Entretanto foi preciso o homem sentir na pele os efeitos da degradação ambiental, para ver que os recursos naturais são finitos e que a sua ambiciosa exploração estava pondo em risco a vida no planeta. Estava mais do que na hora do homem parar de “explorar” e parar para “pensar” um pouco na sua generosa e grandiosa casa, “o planeta terra”. O homem viu que o modelo econômico que lhe impõe a ambiciosa ganância de exploração, seria o mesmo que lhe levaria ao abismo no momento em que não fosse mais possível extrair da natureza os recursos da qual necessita. Além disso, ele viu que mesmo com os avanços tecnológicos não foi possível acabar com a fome, nem mesmo diminuir as desigualdades existentes, só fez potencializar a capacidade de degradação ambiental com a produção em larga escala. Torna-se necessário uma conscientização para possíveis soluções dos problemas ambientais, o que será possível através dos vários processos em que se desenvolve a Educação Ambiental com uma evidente mudança de atitudes, valores e ações na forma do homem se relacionar com a natureza, ou seja, através de uma integração da educação ambiental e da percepção ambiental. Foram muitos encontros, fóruns e conferências não só no Brasil, mas em todo mundo, criando assim um novo olhar sobre as atividades humanas, na busca para preservação e melhoria do meio ambiente. É possível a descrição de todo um panorama histórico que marca o início das preocupações com o futuro da humanidade diante da grave crise ambiental. O Clube de Roma em 1968, que concluiu pela necessidade urgente de buscar meios de conservação dos recursos naturais e controlar o crescimento populacional a partir de uma mudança radical na mentalidade de consumo e procriação REIGOTA (1984). Tendo em seu relatório os limites do crescimento. Alguns anos depois em 1972, em Estolcomo, a organização das Nações Unidas (ONU) promoveu a Primeira conferência sobre o Meio Ambiente, na qual se atribuiu à educação ambiental,
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 225 recomendando o treinamento de professores e o desenvolvimento de novos recursos institucionais e métodos HAMMES,( 2004). Segundo Dias (2003) nessa época pouco se falava em Educação Ambiental. Pois durante muito tempo a natureza foi vista erroneamente apenas como flora e a fauna sem nenhum tipo de integração homem-natureza, além de não levar em consideração as nossas condições socioeconômicas. Ainda sobre a educação ambiental, por não ter uma definição exata continuou pouco difundida, no entanto os conceitos e abordagens eram em função das diferentes visões em prol dos interesses de cada país. Não era conveniente para os países ricos a divulgação das mazelas ambientais, socioeconômicas entre outras produzidas pelos modelos econômicos adotados e que são impostos aos países pobres. Em 1975, ocorreu em Tibilise (Geórgia) a primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, muito importante, pois tinha objetivos e princípios definidos com recomendações e estratégias voltadas aos planos regional, nacional e internacional. Foi visto que para o desenvolvimento da Educação Ambiental é preciso levar em conta os diversos componentes de uma sociedade, como os aspectos políticos, econômicos, sociais, tecnológicos e éticos, ou seja, desenvolver a educação ambiental de forma interdisciplinar possibilitando não só ao indivíduo, mas também a coletividade a compreensão da natureza complexa do ambiente, fornecendo-lhe conhecimentos e habilidades para lidar com as questões ambientais. No Brasil a Educação Ambiental ganhou impulso em 1981, com a lei 6.938 sobre a Política Nacional do Meio Ambiente com determinados fins, formação e aplicação. É importante lembrar que cabe ao Poder Público “promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente” (capítulo VI, Artigo225, parágrafo I, item VI). Mas é preciso termos consciência de nossa responsabilidade em promover a melhoria e manutenção da qualidade ambiental, através de nossas decisões e atitudes. Além dessa consciência o indivíduo e a coletividade devem adquirir compreensão sobre o meio ambiente e seus problemas, podendo assim mudar o seu comportamento, obtendo habilidades necessárias para identificar e resolver problemas ambientais. A ética é outro elemento chave para proteger a vida sobre a terra. Segundo Hammes dentre outros aspectos, a nova responsabilidade ética requer do homem: “Sentimento de unidade planetária; compreensão e respeito ao outro e à natureza, em suas diversidades; solidariedade e trabalho participativo; sensibilidade, afetividade e amor; busca de humanização em sua consciência pessoal; postura não-dogmática e abertura à mudança” (HAMMES, 2004, p.43). Mediante o nosso modo de vida adotado, predominando o individualismo e o descompromisso com a vida e com o outro, nas nossas relações cotidianas, além da falta de ética em todos os setores comprometendo a vida social e ecológica, é mais do que essencial a adoção desses sentimentos para a mudança de postura. A Educação Ambiental tem como um de seus princípios básicos considerar o meio ambiente em sua totalidade, ou seja, integrando o homem à natureza, construindo uma abordagem holítica, que integra o todo, envolvendo todos os aspectos de vida. Para educadores que desenvolve trabalhos nesta corrente, o enfoque exclusivamente analítico e racional das realidades ambientais encontra-se na origem de muitos problemas atuais. Onde é necessário levar em conta tanto as dimensões das realidades socioambientais quanto as dimensões da pessoa que entra em relação com estas realidades, da globalidade e da complexidade de seu “ser no mundo”. O sentido “global” refere-se à totalidade de cada ser, de cada realidade, e a rede de relações que une os seres entre si, em conjunto onde eles adquirem sentido. (SATO E CARVALHO, 2007, p. 26). Ainda de acordo com Santos e Carvalho no que diz respeito às matérias ambientais (Educação e Ética), grande parte das filosofias holísticas pretende integrar o ser humano à natureza como solução para crise ambiental. Tendo os seres humanos como parte da natureza. Porém as mesmas ressaltam que na medida em que algumas posturas holísticas integram o homem à natureza de tal modo que não seria possível fazer nenhuma distinção entre natureza e cultura, estariam
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 226 causando um dos maiores problemas éticos e epistemológicos, criando assim alguns problemas para conservação ambiental. Outro princípio da educação ambiental, é que esta se constitui de um processo contínuo e permanente através de todas as fases de ensino seja ele formal e não-formal. Princípio este de relevante importância na medida em que a educação ambiental não se restringe apenas nas escolas com o ensino formal, mas é um conceito com práticas que se expande para além das escolas, podendo ser desenvolvida em comunidades. Visto que após a elaboração do perfil ambiental das comunidades, teremos informações das prioridades podendo dessa forma criar projetos ou programas de educação ambiental de acordo com a realidade local. Um grande potencial da educação ambiental é o seu enfoque interdisciplinar, ou seja, é um tema que consegue inter-relacionar as diversas disciplinas, adaptando-se a vários contextos sócio- econômicos e culturais, de forma a tornar o conhecimento mais abrangente e eficaz. Santos e Carvalho define a interdisciplinaridade como um conceito polissêmico, mas geralmente é entendido como proposta epistemológica que tende a superar a excessiva especialização disciplinar surgida da racionalidade científica moderna. Para as autoras é uma forma de reorganizar o conhecimento para responder melhor aos problemas da sociedade, na medida em que parte da premissa de que a realidade é divisível desde o teórico, para fins de estudo, porém os diversos componentes que originam as disciplinas estão de fato relacionados. Para HAMMES (2004), a interdisciplinaridade se efetiva em um diálogo entre as disciplinas cujas contribuições se mútuas regem as ações com finalidade única: transformar indivíduos e sociedade. Outro ponto importante a ser mencionado é com relação ao campo ambiental, pois partindo dessa concepção, é um amplo conjunto de práticas sociais voltadas para os diferentes aspectos das relações entre sociedade e ambiente, sendo necessário outro paradigma (sócio-histórico) diferente do paradigma naturalista para o campo ambiental. Segundo CARVALHO (2001), o paradigma naturalista tem uma visão da natureza como um mundo de ordem biológica, essencialmente boa, pacificada, equilibrada, estável em suas interações com o mundo cultural humano, enquanto que no campo ambiental entende a natureza como lugar das interações entre a base física e cultural da vida nesse planeta. Ainda de acordo com a autora, a educação ambiental contribui para a construção de uma atitude ecológica, trazendo consigo forte potencial para alimentar o ideal de sujeito ecológico, na medida em que opera como importante mediação, pela qual esse ideal vai sendo transformado em experiências concretas de identificação e subjetivação de indivíduos e coletividade. No que se refere aos valores e crenças, estes explicam, legitimam e regulamentam a estratificação social, ou seja, é um complexo de idéias coletivas direta ou indiretamente relacionado a um sistema de estratificação. Quanto ao valor está ligado àquilo que é bom, útil, positivo. Os valores indicam às expectativas as aspirações que caracterizam o homem em seu espaço de ser superior a si mesmo e à situação histórica; marcam aquilo que deve ser em contraposição àquilo que é. Já as crenças estão voltadas para a religião que se caracteriza na Fé de um povo. Com relação aos valores e crenças do sujeito ecológico, este deve adotar crenças e valores voltados para um jeito ecológico de ser, com novo estilo de vida, com modos próprios de pensar o mundo, com uma visão crítica aos valores, crenças e normas pré-estabelecidas, além de pensar a sua relação com os demais seres existentes no planeta. O sujeito ecológico é um agente que surge para lutar em prol da preservação tornando-se essencial para a educação ambiental, Carvalho (2004), o descreve como “Um sujeito ideal que sustenta a utopia dos que crêem nos valores ecológicos, tendo valor fundamental na luta de um projeto de sociedade bem como na difusão desse projeto. Não se trata, de imaginá-lo como uma pessoa ou grupo de pessoas completamente ecológicas em todas as suas esferas de vidas ou ainda como um código normativo a ser seguido e praticado em sua totalidade por todos que nele se inspiram” (CARVALHO, 2004, p.67). No que se refere ao modelo ideal é importante compreender quais são os valores e crenças centrais que constituem o sujeito ecológico e como ele opera como uma orientação de vida, expressando-se de diferentes maneiras por meio das características pessoais e coletivas de indivíduos e grupos em suas condições sócio-históricas de existência.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 227 Mediante o modelo econômico adotado ainda sim, é possível a preservação dos recursos naturais através do desenvolvimento sustentável, pois este engloba várias dimensões como a ecológica, a social, a econômica, além das questões cultural, tecnológica e política, entretanto só haverá desenvolvimento sustentável de fato se houver uma ordenação territorial com um compromisso de monitoramento permanente e com a utilização racional dos recursos naturais, buscando sempre o equilíbrio dos sistemas antrópicos de forma a garantir a preservação do meio ambiente e a longevidade dos sistemas de ocupação e exploração. Além disso, deverá ter a participação ativa das pessoas na proteção ambiental e na melhoria da qualidade de vida, levando em consideração a importância da educação ambiental para reorientar e capacitar as pessoas na construção de uma sociedade consciente e sustentável. Metodologia Esta pesquisa leva em consideração os diferentes conceitos de Educação Ambiental, e mais precisamente como os processos da percepção ambiental contribuem para a formação do sujeito ecológico. O entendimento da contribuição desses processos para formação do sujeito ecológico é de suma importância, para a conclusão desse projeto, tendo por base a abordagem conceitual na qual se refere à importância das diferentes concepções que cada um de nós tem sobre um mesmo fenômeno ou coisa. “O conceito é um componente básico de qualquer teoria. São abstrações ou construções mentais de uma realidade objetiva e socialmente definida. O sentido do conceito pode mudar e, assim, ele precisa de uma definição operacional, ou seja, precisa ter um conteúdo sempre descrito. Um conceito precisa ser definido tanto em termos abstratos, dando-lhes o significado geral que se pretende dar a conhecer quanto em termos operacionais pelos quais será representado num determinado estudo”. (PEDRINI, 2007). A pesquisa será estruturada no paradigma metodológico qualitativo, tendo como apreensão da realidade, a coleta e a análise de dados, informações sobre o tema da pesquisa, na qual serão feitas segundo suas abordagens conceituais e operacionais. A pesquisa terá como estratégia de coleta a entrevista como um dos instrumentos metodológico. Pois a entrevista possui grandes vantagens, como por exemplo, capacidade contextual, além de não exigir a escolaridade do entrevistado. Existe a possibilidade dos dados coletados serem categorizados e operacionalizados é possível também surgir novas perguntas, que não foram previstas na medida em que ocorre a entrevista. No que se refere à análise dos dados /informações, será de forma prévia e parcial baseada essencialmente nos resultados textuais como a transcrição das entrevistas. Resultados e discussões A entrevista realizada na comunidade Loteamento Padre Henrique foi dividida em duas partes, a primeira parte refere-se à entrevista aberta na qual consta o nome, a idade, o local onde mora e o grau de escolaridade dos entrevistados. A segunda parte é referente às perguntas relacionadas ao meio ambiente. A pesquisa tem os seguintes resultados: Quando feito à pergunta, o que é meio ambiente para você a maioria dos entrevistados disseram que é o lugar onde vivemos, onde envolve o ar a água o solo, a natureza em conjunto. Quando perguntei aos entrevistados se consideravam como parte do meio ambiente todos respondeu que sim, por que vivemos no espaço tido como meio ambiente, portanto fazemos parte dele. Para os entrevistados cuidar do meio ambiente é cuidar da casa maior que é o planeta, é ter consciência e não jogar lixo nas ruas, é a preservação para ter uma qualidade de vida, é evitar os vários tipos de poluição como a visual a sonora etc. é cuidar dos animais para que estes não venham prejudicar os vizinhos, é ter uma boa relação com os vinhos. Andar de carro, lixo mal condicionados, desperdício de água, não cuidar dos animais, assistir televisão e gases poluentes, todo esse problemas ambientais foram tidos como atividades do dia-a-dia que vem prejudicar o meio ambiente. Foi perguntado se a coleta da comunidade é satisfatória todos disseram que sim, por que o carro da
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 228 coleta passa todos os dias e só faltava ser seletiva. Para os entrevistados as pessoas que buscam de alguma forma a melhoria ambiental, são pessoas louváveis, corajosas, conscientes. Quanto aos problemas da comunidade os entrevistados identificaram vários como: a falta de educação por parte de alguns moradores, o mau hábito do ser humano de jogar lixo nas ruas, jogar lixo no rio até eletrodomésticos que não são mais usados como geladeira são jogados no rio. Com relação ao tratamento de esgoto na comunidade não existe, o que existe é uma fossa séptica feita assim que o loteamento foi construído e que está desativada e o esgoto é lançado no rio de forma in natura através de uma rede subterrânea, sem nenhum tipo de tratamento. Projeto sugerido pelos entrevistados para a comunidade, projeto educacional de forma atrativa com palestras, reciclagem, educação ambiental, limpeza do rio e dos canais. Conclusão Com relação à percepção ambiental dos moradores da comunidade Loteamento Padre Henrique do bairro da várzea Recife-PE, conclui-se que os entrevistados têm uma ampla visão voltada para o meio ambiente, ao passo que o define como o lugar onde vivem, tendo também consciência dos cuidados que devem ter para preservá-lo, além disso, os entrevistados identificam facilmente os problemas ambientais da comunidade, mesmo tendo parte dos moradores conscientes com relação ao meio ambiente ainda existe àqueles que não despertaram para a problemática ambiental e continuam jogando lixo nas ruas e no rio. No que se refere ao problema ambiental mais grave encontrado na comunidade, que é o lançamento dos esgotos no rio sem nenhuma forma de tratamento, este depende do orçamento participativo e enquanto o orçamento participativo definir prioridade de comunidade, para a liberação de verba para saneamento básico, os moradores da comunidade Loteamento Padre Henrique continuará lançando seus esgotos sem tratamento no rio, pois a quantidade de moradores na comunidade é bem inferior ao definido no orçamento participativo.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 229 AÇÕES ANTRÓPICAS NOS BAIXOS PLANALTOS COSTEIROS DA BR 101 NO TRECHO JOÃO PESSOA- MAMANGUAPE Elaine de Jesus LIMA graduandos no curso de Geografia pela UFPB elainejlima@yahoo.com.br Rabá Sousa da SILVA graduandos no curso de Geografia pela UFPB rabgeo@yahoo.com.br Ana Maria Ferreira COSME graduandos no curso de Geografia pela UFPB anamariageografia@yahoo.com.br Paulo Roberto de Oliveira ROSA Orientador Ms da UFPB paulorosa_ufpb@hotmail.com RESUMO O presente artigo tem como objetivo apresentar as ações antrópicas nos baixos planaltos costeiros da BR 101 no trecho João Pessoa-Mamanguape, evidenciando alterações no modelado dos interflúvios decorrentes da duplicação da rodovia. A evolução das forças de produção fez com que a natureza fosse sendo apropriada e transformada pelo homem, objetivando a produção dos recursos necessários à sua existência, a exemplo das transformações observadas no segmento estudado da BR 101. Diante disto faz-se necessária uma maior compreensão da atual dinâmica do relevo para atenuar os impactos provocados pela interferência humana. Para isso esclarecemos a necessidade da tomada de medidas preventivas com base em um planejamento geo-ambiental respaldado pelo conhecimento geomorfológico para que se atinja um equilíbrio de estado contínuo. PALAVRAS-CHAVE: degradação ambiental, ação antrópica, planaltos costeiros. ABSTRACT This article aims to present human actions on the low coastal plains along the stretch of the BR 101-João Pessoa Mamanguape, showing changes in the modeled interfluves resulting from duplication of the highway. The development of productive forces has meant that nature were being appropriated and transformed by man, aiming at the production of the resources necessary for their existence, similar to changes observed in the studied segment of the BR 101. Given this it is necessary a greater understanding of the current dynamics of relief to mitigate the impacts caused by human interference. For that we clarify the need for preventive measures based on a geo- environmental planning backed by knowledge geomorphological for achieving a continuous state of equilibrium. KEYWORDS: environmental degradation, human action, coastal plains CONSIDERAÇÕES SOBRE AS AÇÕES ANTRÓPICAS Os processos de dinâmica superficial, aliados aos processos de dinâmica interna, sempre atuaram como agentes modeladores da superfície terrestre. Estes processos atuavam de forma natural, provocando alterações igualmente naturais. Com o surgimento do homem e a evolução das forças de produção, a natureza passou a ser apropriada e transformada por ele. E a partir de então com a apropriação da natureza para a indústria, o homem vem transformando a natureza, produzindo através deste processo os recursos necessários à sua existência. No decorrer da evolução humana e social, as necessidades humanas também evoluíram, sua tecnologia desenvolveu-se, para atendê-las melhor, o que acarretou a interferência e intensificação dos agentes e processos modificadores da paisagem. O aumento do contingente populacional aliado à atual economia especulativa, decorrente do desenvolvimento social e tecnológico nos trouxe à atual degradação, tornando-a um elemento fundamental para o progresso. Faz-se necessário evidenciar que a degradação é um problema social (Blaikie e Brookfield, 1987).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 230 Para Tricart (1970), o homem é agente desencadeador do processo geomorfológico de degradação e desempenha este papel atuando e interferido na natureza de formas diretas e indiretas, algumas das quais serão abordadas a seguir. O primeiro estágio da degradação antrópica é a interferência na cobertura vegetal. Sendo esta o fator mais importante de defesa natural contra a erosão no solo, sua retirada ou sua modificação, configura-se como fator desencadeante de vários outros fatores degradantes. O desmatamento em função da agricultura implica na substituição da vegetação natural por uma vegetação artificial, o que interfere nos fenômenos hídricos e eólicos e proporciona a potencialização da morfogênese, pois sem a cobertura vegetal, as partículas do solo ficam vulneráveis à desagregação e à erosão pluvial e eólica. Neste caso, dependendo do tipo de cultivo, a tecnologia agrícola aplicada também interfere nos mecanismos de degradação do solo, podem acelerar a desfertilização e ocasionar áreas em processo de desertificação. Um exemplo claro disto é o cultivo da cana-de-açúcar, que devido à substituição da vegetação natural que protege o solo do impacto pluvial, por uma vegetação artificial e verticalizada que propicia um contato direto pluvial e eólico no solo, provoca a desagregação das partículas, conferindo-lhe uma maior erodibilidade. Outro mecanismo de degradação que afeta o solo é a retirada da cobertura vegetal para fins de pastagem. O desprovimento de cobertura vegetal associado ao pisoteio e à compactação do solo impede a infiltração e modificam as condições do escoamento, tornando-o mais intenso, e a fixação de cercas para demarcação de pasto potencializa o poder erosivo do escoamento superficial, resultando em processos de ravinamento e/ ou voçorocamento, em estágios mais avançados. Vale salientar que existe outro efeito secundário da retirada da cobertura vegetal: o assoreamento. Como o escoamento superficial é gravitacional, a água transporta todos os sedimentos para as áreas de cotas mais baixas, que coincidem com os vales dos rios, provocando erosão laminar em suas vertentes e efetuando a deposição em seus leitos. Sendo assim, a retirada da cobertura vegetal altera o modelado de forma direta e indireta. (…) A pressão exercida pelo homem como agente desencadeador do processo geomorfológico, origina fenômenos de degradação demasiadamente fortes: primeiro como instrumento direto de modificação, como por exemplo, quando ele abrange uma pá e opera um Bull Dozer. Segundo, através das sérias influências diversas sobre outros processos geomorfológicos: quando represa um rio, ou corrige seu curso meândrico. Sua influência direta pode ser proposital ou incidental para outras atividades. (TRICART: 1974) A ocupação humana em áreas de encostas contribui para a ocorrência de movimentos de massa, como deslizamentos. Logicamente, estes fenômenos estão relacionados a causas geológicas e climáticas naturais, entretanto, a retirada da vegetação em áreas de declividade considerada e a ocupação desordenada associada a estas condições naturais de risco, desestabilizam as encostas, provocando desastres que afeta, em sua maioria, a população de baixa renda. A pavimentação impede a percolação da água no solo, e o acúmulo de lixo nas ruas, que obstrui as galerias de escoamento pluvial, atuam como fatores intensificadores de enchentes em períodos de máximas e em alguns casos, corridas de lama e de detritos. O bombeamento de águas subterrâneas, acréscimo de peso devido a obras e estruturas e extração de minerais também podem ocasionar e intensificar os processos de subsidência e colapsos. A construção de grandes obras de engenharia pode deflagrar sismos e outros eventos considerados de menor magnitude. Atividades de mineração e pedreiras causam a remoção de grandes quantidades de rochas, podendo resultar em dois tipos de terremotos induzidos: os provocados pela remoção de materiais em minas profundas, e os superficiais, devidos a escavações em minas rasas e à remoção de materiais em pedreiras; a injeção de fluídos a grandes profundidades induz sismos devido à pressão que a água exerce nos poros das rochas; a extração de fluidos das rochas, através da exploração de petróleo, água ou gás, reduz a pressão nos poros das rochas, alterando o estado dos esforços tectônicos, produzindo sismos; explosões subterrâneas também podem desestabilizar o estado dos esforços tectônicos provocando sismos em função da acomodação destes esforços. E o tipo mais comum de sismicidade induzida é a decorrente da
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 231 construção de reservatórios de água. Notadamente, os sismos são fenômenos geológicos, mas dependendo de sua magnitude podem interferir na geomorfologia local. A região costeira, por se tratar da zona de contato entre a hidrosfera, a litosfera e a atmosfera, é um dos sistemas mais sensíveis. A ocupação humana nessas áreas tem se dado de forma cada vez mais acelerada e desordenada, acarretando uma gama de problemas como erosão costeira, saneamento, poluição, desmatamento de manguezais, alteração do balanço de sedimentos, construção de portos, dragagens e aterros. Estes fatores desconfiguram o ambiente influenciando e alterando diretamente e indiretamente a dinâmica local. A degradação ambiental frente a reconfiguração geomorfológica A Geomorfologia, a ciência que estuda o relevo terrestre, palco da degradação ambiental, e sua gênese; faz-se eminente a sua contribuição para a compreensão da atual dinâmica do relevo, o diagnóstico de áreas impactadas e sua recuperação. Pois todas as interferências antrópicas causam alterações no meio físico, alterações estas refletidas diretamente no modelado, seja por um deslizamento numa encosta ou por um corte num interflúvio..Obviamente a degradação ambiental se dá de forma holística, integrando vários outros fatores além da Geomorfologia, entretanto, esta análise verticalizada tem o objetivo de chamar a atenção para o monitoramento dos fenômenos geomorfológicos decorrentes da degradação ambiental para que se conheça a sua distribuição geográfica, suas causas, como irão ocorrer no futuro e prever e estabelecer soluções que levem à manutenção de um equilíbrio de estado contínuo, bem como preservar a integridade do nosso planeta, ou ao menos atenuar os impactos provocados pela interferência humana. (…) Quando os conhecimentos geomorfológicos são utilizados de forma correta e adequada, há uma pequena probabilidade de ocorrerem danos ambientais, como movimentos de massa, erosões dos solos, erosão costeira, assoreamento, enchentes etc. (...) (GUERRA 2001: 70) Os Planaltos costeiros na Paraíba Compondo um dos compartimentos geomorfológicos da Paraíba, os baixos planaltos costeiros constituem uma cobertura sedimentar terrígena continental de idade pliocênica, depositada por sistemas fluviais entrelaçados associados a leques aluviais e são sustentados pelos depósitos areno-argilosos da Formação Barreiras provenientes do Planalto da Borborema. Estes se estendem ao longo do litoral paraibano com altitudes que variam entre 20 e 30 metros, havendo alguns com até 200 m. O relevo varia entre vales estreitos e encostas abruptas ou vales abertos com vertentes suaves com amplas várzeas. Em geral, os solos são pobres e possuem pouca capacidade de armazenamento de água. A vegetação nativa é a Mata Atlântica e as terras são altamente férteis e próprias para o cultivo da cana-de-açúcar. Estas áreas são palco de marcante ocupação antrópica através atividades agro-pastoris, expansão do turismo e obras de engenharia. Estas atividades são potencialmente causadoras de desequilíbrio do meio ambiente, através de interferências no meio físico. Os sedimentos do Barreiras são também fonte importante de materiais de construção e de cerâmica, além de constituírem, em alguns locais, aqüíferos importantes, responsáveis pelo abastecimento de água de algumas cidades e vilarejos. A duplicação da BR 101 no trecho entre João Pessoa e Mamanguape – Paraíba A rodovia BR-101, também denominada translitorânea, é uma rodovia federal longitudinal do Brasil. Seu ponto inicial está localizado na cidade de Touros (RN), e o final em São José do Norte (RS). Atravessa 12 estados brasileiros: Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em toda sua extensão é denominada oficialmente Rodovia Governador Mário Covas. A adequação da capacidade e duplicação da BR-101 é uma obra do Governo Federal, realizada pelo Ministério dos Transportes e executada pelo Departamento Nacional de Infra- estrutura de Transportes (DNIT). O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal destinou investimentos alocados para o estado da Paraíba. Entre os novos recursos, uma parte da verba foi destinada à duplicação da BR-101. No trecho entre João Pessoa e Mamanguape, serão duplicados 52km da referida rodovia com o intuito de tornar o tráfego mais confortável, seguro e rápido.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 232 MÉTODOS E TÉCNICAS O trabalho foi realizado comportando trabalho de gabinete e pesquisa de campo. Em gabinete, a priori foi desenvolvida uma revisão teórica conceitual acerca da interferência antrópica na Geomorfologia, fazendo um resgate de alguns conceitos de processos morfogenéticos desencadeados e suas implicações no modelado. Num segundo momento, surgiu a preocupação em delimitar um espaço físico real onde podem ser observados alguns destes processos. Foi escolhida então a BR101 no seu segmento João Pessoa - Mamanguape, por se tratar de um recorte espacial bastante conhecido e onde atualmente estão sendo realizadas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), passando, atualmente, por processo de duplicação. Foi feita uma visita virtual ao trecho da BR 101 utilizando o Google Earth como ferramenta de análise, realizando a seleção da área e delimitando o segmento em foco, observando o recortes realizados nos planaltos costeiros, afim de comprovar através das imagens, as possíveis alterações no modelado dos interflúvios oriundas das obras do PAC. Utilizou-se um recorte do trecho João Pessoa Mamanguape a partir de mapa rodoviário numa escala de 1:500000, para que se pudesse calcular a extensão do segmento da BR 101 a ser estudado. Em campo realizou-se uma visita, para observação e coleta de dados in loco a partir de imagens fotográficas horizontais comprobatórias dos questionamentos levantados acerca da reconfiguração do modelado. Por último foi necessário voltar ao gabinete para plotar os dados , o aporte teórico e as imagens virtuais, analisando-os e contrapondo-os no objetivo de definir as conclusões do estudo. Foi constatado que há uma real desconfiguração do modelado dos planaltos costeiros, que se dá em função da duplicação da rodovia. RESULTADOS E DISCUSSÃO A duplicação da BR aumentará a capacidade turística do Estado e lhe proporcionará mais autonomia para movimentar suas riquezas, transportar sua gente e atrair novos investimentos. Entretanto toda esta intervenção de infra-estrutura rodoviária implica na desconfiguração do modelado dos planaltos costeiros através do corte dos interflúvios para a passagem da rodovia, transformando as antigas vertentes em taludes paralelos com aproximadamente 70º de declividade. Em outros pontos os tabuleiros são cortados com o objetivo de fornecer material para alimentar as estradas na aplicação de obras de terraplanagem. Ou seja, as obras na BR não desconfiguram o modelado original dos tabuleiros apenas ao longo da rodovia, mas também em outros locais onde são implantadas as jazidas de sedimentos. A retirada de sedimentos para a construção da rodovia acarreta alterações ambientais consideráveis, como a desestabilização do relevo, eliminação de espécies, através da retirada de uma faixa residual de Mata Atlântica, e perda do potencial genético.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 233 Figura 1 – Destacando a BR 101 no segmento João Pessoa- Mamanguape. Fonte: Google Earth, 2010.. Figura 2- Imagem obtida a partir mapa rodiviário representando o trecho da BR 101 entre Mamanguape e João Pessoa.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 234 Figuras 3e 4 Representando os recortes realizados nos interflúvios para a passagem da rodovia. 2010 CONSIDERAÇÕES FINAIS Existem causas naturais para a degradação, elas ocorrem com ou sem a intervenção humana. No entanto, quando o homem transforma o ambiente, esses processos naturais tem intensidade elevada ocasionando a reconfiguração do modelado. Analisando-se o trecho Mamanguape-João Pessoa da BR 101 foi constatado que há uma real desconfiguração do modelado dos planaltos costeiros, que se dá em função da duplicação da rodovia, configurando-se assim, um processo de degradação proveniente da ação humana. Faz-se implícita a tomada de medidas preventivas e mitigadoras, aplicadas sob a égide do conhecimento geomorfológico direcionado tanto pelo Estado, quanto pela iniciativa privada, para que haja um efetivo desenvolvimento sustentável. REFERÊNCIAS BIGARELLA, João José, BECKER, Rosimari Dora e SANTOS, Gilberto F. dos. Estrutura e origem BIOON, A.L. Superfície da Terra. Edgard Blücher/Edusp. São Paulo, 1988. CASSETI, Valter. Ambiente e apropriação do relevo. Contexto (coleção ensaios), 1991. CRISTOFOLETTI, Antônio. Geomorfologia. Edgar Blücher, 1980. das paisagens tropicais e subtropicais, Vol I. Editora UFSC, Florianópolis- SC, 1994. DREW, David. Processos interativos homem-meio ambiente. Editora Bertrand Brasil, 1996. GUERRA, Antônio Teixeira e BAPTISTA, Sandra. Geomorfologia e meio ambiente. Editora Bertrand Brasil, 1996. GUERRA, Antônio Teixeira e BAPTISTA, Sandra. Geomorfologia: Uma atualização de bases e conceitos, Bertrand Brasil, Rio de janeiro, 1994. GUERRA, Antônio Teixeira et all. Erosão e conservação dos solos- Conceitos temas e aplicações. Bertrand Brasil, 1999. GUERRA, Antônio Teixeira. Dicionário Geológico-geomorfológico, 4ª edição. Rio de Janeiro, IBGE, 1975. TRICART, Jean. A terra, planeta vivo. Lisboa, Editorial Presença, 1974.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 235 ALAMBIQUE SAMANAÚ E BACIA HIDROGRÁFICA PIRANHAS-ASSU – CASOS DE SUSTENTABILIDADE E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO SERIDÓ ARAÚJO, Fernanda Santos Gentil Graduanda do curso de Bacharelado em Turismo. Universidade Federal do Rio Grande do Norte nandinhagentil@hotmail.com MARACAJÁ, Kettrin Farias Bem Orientadora e Professora Mestre. Universidade Federal do Rio Grande do Norte kettrin@ufrnet.br RESUMO A proposta deste trabalho é apresentar alguns aspectos de sustentabilidade e de degradação ambiental, relacionando-os aos casos do Alambique Samanaú e da Bacia Hidrográfica Piranhas- Assu respectivamente, mostrando o processo de produção sustentável da cachaça, os principais agentes causadores da degradação ambiental da Bacia e suas consequências. Em sua estrutura, após a introdução, serão apresentados conceitos de degradação e de sustentabilidade, seguidos da descrição dos casos Alambique Samanaú e Bacia hidrográfica Piranhas-Assu, e após, a relação entre os mesmos, concluindo com as considerações finais. PALAVRAS-CHAVE: Meio ambiente, Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu, Alambique Samanaú, Desenvolvimento Sustentável. ABSTRACT The purpose of this paper is to present some aspects of sustainability and environmental degradation, linking them to cases of Samanaú Alembic and Watershed Piranhas-Assu, respectively, showing the process of sustainable production of rum, the major causative agents of environmental degradation in the Watershed and its consequences. In its structure, following the introduction will be presented concepts degradation and sustainability, with descriptions of cases Samanaú Alembic and Watershed Piranhas-Assu, and after, the relationship between them, concluding with the final considerations. KEYWORDS: Environment, Watershed Piranhas-Assu, Samanaú Alembic, Sustainable Development. INTRODUÇÃO A Constituição Federal de 1988, Art. 225 apud PEDRO e FRANGETTO (2004), determina que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Sabe-se que a cada ano aumenta o número de casos de desastres ambientais provocados por diversos fatores, tanto naturais quanto por interferência do homem. Os desastres provocados por fatores naturais pode-se dizer que não têm como evitar. No entanto, os desastres provocados pelo homem podem e devem ser evitados, ou minimizados, mas não é o que acontece. O homem com sua necessidade do uso dos recursos naturais extraem da natureza recursos para sua sobrevivência, sem nenhuma preocupação em recompensá-la por isso. A sociedade moderna é extremamente consumista e se acostumou ao descartável, o que tem levado a uma enorme produção de lixo. Os sistemas adotados pela maioria das comunidades para a administração de resíduos são resultantes de uma visão de inesgotabilidade dos recursos naturais, o que necessita de revisão urgente, dentro da ótica do desenvolvimento sustentável, uma vez que dele depende a existência harmoniosa do homem no Planeta. Outro conceito que carece de revisão é quanto à responsabilidade pelo lixo. No que diz respeito à sociedade, ela não se encerra no momento em que o lixo é colocado à porta para a coleta. Para tal, serão necessárias mudanças nos hábitos de consumo, não apenas em relação à quantidade, mas também ao tipo de produto
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 236 adquirido, como e de quê ele é produzido. Um aspecto importante também decorre das concentrações e da toxicidade dos resíduos, uma vez que a deposição pontual destes materiais pode comprometer seriamente os ecossistemas de uma região, provocando alterações nas mesmas proporções que a extração predatória de recursos naturais e, muitas vezes, inviabilizando a própria extração dos recursos em função da contaminação, comprometendo assim a qualidade de vida da população. (FIGUEIREDO, 1995 apud BROLLO e SILVA, 2001) DEGRADAÇÃO AMBIENTAL E SUSTENTABILIDADE A Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (artigo 3°, inciso II), define degradação ambiental como a alteração adversa das características do meio ambiente. Ou seja, todo e qualquer dano ao ambiente, o qual faz perder ou reduzir a qualidade dos recursos ambientais, os quais geralmente são provocados pela ação antrópica. Com o paulatino aumento da população e a manutenção de um estilo tecnológico obsoleto, é lícito esperar o agravamento dos problemas ambientais. Disso resulta a constante deterioração dos ecossistemas naturais. O homem, em si, não é perturbador da natureza, mas são suas más atividades canalizadas para um objetivo que não é o ótimo a longo prazo. A população, o homem comum, é apenas um condutor propiciatório da poluição, motivo pelo qual, a nosso ver, a orientação tecnológica é a verdadeira causadora da deterioração ambiental. A sociedade tecnológica produz, ano após ano, um grande acúmulo de conhecimentos científicos que se aplicam à vida cotidiana; é assim que uma geração muda radicalmente suas possibilidades e estilos de vida no curso de 15 ou trinta anos, seja para o bem ou para o mal. A vida do homem tornou-se mais acelerada, enfrentando múltiplas opções para encaminhar e satisfazer suas necessidades. É a racionalidade científica e tecnológica que provoca o crescente esgotamento dos recursos naturais, uma racionalidade ligada ao interesse do capital. (MOLINA, 2001) A partir disso, nasce a necessidade do consumo racional, mas não a racionalidade ligada ao interesse capital, e sim a racionalidade ligada ao bem comum, a qual procura fazer com que os recursos utilizados hoje possam ser acessíveis também para as futuras gerações, evitando o esgotamento desses recursos, sendo assim chamado de sustentabilidade. A Sustentabilidade é a condição ou o resultado do equilíbrio nas relações entre uma determinada sociedade humana e o meio natural em que ela vive e se organiza, de modo que as demandas e ofertas recíprocas atendam às necessidades dos ecossistemas naturais e sociais, sem prejuízo das gerações futuras, dos sistemas vivos e dos ecossistemas do planeta Terra. (COIMBRA, 2004) Diante desses conceitos e da importância que a sustentabilidade exerce para uma vida sadia, Butler apud Hall (2004, 59) comenta que: Os maus resultados tratos da sincronização da política e da prática parecem, portanto, ser um dos maiores impedimentos para cumprir os objetivos do desenvolvimento sustentável. ALAMBIQUE SAMANAÚ O Alambique Samanaú localiza-se na região Seridó do Rio Grande do Norte, a 280 km da capital do Estado, e a 15 km da cidade de Caicó pela BR 427, no Sítio Samanaú. O Alambique foi instalado em 2004 por seu proprietário Vivaldo Dadá Costa. (ALAMBIQUE SAMANAÚ, 2010) No ano de 2008 o Alambique recebeu o Prêmio Socioambiental Chico Mendes, no qual as empresas premiadas receberam um troféu, além do selo para veiculação em qualquer material de comunicação que o contemplado julgar oportuno, certificado e passaporte de responsabilidade socioambiental elaborado pelo Instituto, prevendo a redução de riscos ambientais, sociais e econômicos por meio da implantação de modelos de prevenção. A seguir será descrito o processo de produção da cachaça:
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 237 A matéria prima utilizada para a fabricação da cachaça é a cana-de-açúcar. A cana de açúcar utilizada na fabricação da cachaça samanaú é cultivada sem o uso de agrotóxicos nem adubos químicos e é colhida manualmente. Ela contém um maior teor de sacarose, devido à incidência de 4000 horas de sol/ano e à diferença acentuada de temperatura entre o dia e a noite características da região. Moagem da cana: depois de colhida manualmente, a cana de açúcar madura, fresca e limpa é moída num prazo máximo de 24 horas. O caldo da cana é decantado e filtrado para, em seguida, ser levado às dornas de fermentação. Fermentação: o processo de fermentação da cachaça samanaú ocorre com leveduras naturais, sem o uso de aditivos químicos, em dornas de inox, num período de 24/48 horas, a uma temperatura de 29°, numa sala climatizada devido às altas temperaturas da região. Caldeira: O emprego da caldeira neste alambique é primordial para o sucesso da cachaça, pois, fornece calor para a esterilização dos equipamentos, é responsável pelo bom andamento dos destiladores, e aproveita o bagaço da cana como combustível. Destilação: A cachaça samanaú é obtida da destilação em alambiques de cobre, do mosto fermentado da cana de açúcar, aproveitando somente o “coração”, que equivale a 75% do destilado e, descartando a “cabeça” e a “cauda”. Envelhecimento: A cachaça artesanal para adquirir boas propriedades sensoriais, é armazenada em tonéis/barris de madeira nobre, que além de melhorar o aroma e o paladar, modifica a coloração de branca para amarelada, torna a cachaça macia e aveludada, atenuando a sensação do álcool presente. Engarrafamento / envasamento: A cachaça samanaú é acondicionada em embalagem de vidro, em volumes de 500 ml, 160 ml e 50 ml. Esse processo dar-se através de enchedora, a cachaça é transferida para a embalagem, sendo posteriormente fechada com tampa metálica em alumínio. Seguem-se as operações de rotulagem e acondicionamento. O Alambique também utiliza a coleta seletiva do lixo. As partes do produto que são descartadas, a “cabeça” e “cauda” são destinadas a uma lagoa de estabilização. Bem como os resíduos sólidos que são destinados a um aterro sanitário. BACIA HIDROGRÁFICA PIRANHAS-ASSU A Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu está localizada na região do semi-árido nos Estados do Rio Grande do Norte e Paraíba exercendo uma grande importância econômica para o Estado, pois além de fornecer água para o consumo humano, ela é fundamental para algumas das principais atividades econômicas da região que a Bacia abrange como a agricultura e a indústria têxtil. O rio Piranhas-Açu nasce na Serra de Piancó na Paraíba com o nome de rio Piranhas, recebe as águas dos rios Paraibanos Piancó e peixe, e entra no Rio Grande do Norte pelo município de Jardim de Piranhas, desembocando próximo à cidade de Macau-RN. Como a maioria absoluta dos rios do semi-árido nordestino, à exceção do rio São Francisco e do Parnaíba, é um rio intermitente em condições naturais. A perenidade de seu fluxo é assegurada por dois reservatórios de regularização construídos pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas): O Coremas - Mãe d’Água, na Paraíba, com capacidade de 1,360 bilhões de m³ e vazão regularizada (Q 95%) de 9,5 m³/s e a barragem Armando Ribeiro Gonçalves (ARG), no Rio Grande do Norte, com 2,400 bilhões de m³ e vazão regularizada de 17,8 m³/s (Q 90%). Ao longo do sistema hídrico formado pela calha do rio e seus reservatórios de regularização, denominado Sistema Curemas- Assu, desenvolvem-se diversos usos como irrigação difusa, irrigação em perímetros públicos, abastecimento humano, dessedentação animal, lazer, produção energética e aquicultura. (CHB, 2009) A Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – SEMARH/RN (2009) define a extensão da Bacia Piranhas-Assu com “17.498,50 km² de superfície entre os estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba. No Estado do Rio Grande do Norte a bacia do Rio Piranhas-Assu
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 238 corresponde a cerca de 32,8% do território estadual, abrangendo 33 municípios e uma população de aproximadamente 415.000 habitantes”. A mesma, apesar de toda sua importância não é preservada como deveria, e essa não- preservação provoca diversos problemas ambientais. O Laboratório de Microorganismos Aquáticos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – LAMAq / UFRN (2009) descreve alguns dos problemas causadores da degradação ambiental encontrados na Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu, como: lançamento de despejos orgânicos de cidades, indústrias e esgotos em geral, como detergentes sintéticos, pesticidas, herbicidas, nutrientes agrícolas, produtos químicos complexos e substâncias tóxicas. Além disso, como principais fontes de poluição das águas do rio Piranhas-Assu, podem ser citadas: Esgotos domésticos, principalmente em cidades pouco desenvolvidas, característica da maioria das cidades que circunvizinham a bacia do rio Piranhas-Assu, que, sem saneamento básico satisfatório, contribuem para a poluição ao transportarem diretamente para suas águas o componente fecal e urinário; Águas de retorno dos sistemas de irrigação ou do escoamento superficial dos solos agrícolas, cujos principais poluentes são os fertilizantes, especialmente nitrogênio e fósforo, e pesticidas, principalmente o DDT; Esgotos industriais, que são lançados às águas receptoras diretamente ou por meio de esgotos urbanos. RELAÇÃO ENTRE O ALAMBIQUE SAMANAÚ E A BACIA HIDROGRÁFICA PIRANHAS-ASSU Pôde-se observar que no Alambique há uma preocupação com o tratamento e o destino correto para cada resíduo sejam eles sólidos ou líquidos, utilizam as matérias que poderiam ser descartadas, como é o caso do bagaço da cana que substitui a lenha e o carvão na caldeira, e as cinzas da caldeira junto ao bagaço servem de adubos para cana-de-açúcar, não utilizando adubos químicos nem agrotóxicos, dando assim sua contribuição para um mundo mais sustentável. Enquanto isso, na mesma região, a Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu sofre sérios problemas de degradação ambiental. As principais atividades da região que a Bacia abrange que são a agricultura e a indústria têxtil provocam graves problemas como a alteração da qualidade de seus mananciais, e não são apenas suas águas que são poluídas, são vidas que estão sendo postas em risco pela falta de saneamento básico, de um destino e de um tratamento adequado para os resíduos industriais e domésticos, risco de extinção de espécies da fauna, alteração do ambiente como um todo. A água é um elemento essencial para a vida humana, e no mundo os poucos m³ dela estão sendo poluídos, como é o caso da Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu. E para tentar reverter essa situação, a aplicação de uma gestão ambiental na região da Bacia seria o método mais eficaz. Philippi Jr. e Bruna (2004) definem gestão ambiental como, o ato de dirigir, administrar ou reger os ecossistemas naturais e sociais em que se insere o homem, individual e socialmente, num processo de interação entre as atividades que exerce, buscando a preservação dos recursos naturais e das características essenciais do entorno, de acordo com padrões de qualidade. O objetivo último é estabelecer, recuperar ou manter o equilíbrio entre a natureza e o homem. Sendo assim, a gestão ambiental na região da Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu teria o papel de avaliar os problemas do homem com seus impactos negativos sobre a mesma, e transformar essa avaliação em ações para solucionar os problemas, tornando melhor a relação homem-natureza. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante da descrição dos casos acima, fica clara a importância da sustentabilidade, da extração responsável dos recursos naturais, da conscientização da comunidade e o alerta para a falta de conservação e manuseio desordenado das áreas naturais.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 239 A região na qual abrange Bacia Hidrográfica Piranhas-Assu, por ser uma região propícia a secas e ser alvo de inúmeros casos de degradação ambiental, se faz necessária a aplicação de uma gestão ambiental para tentar amenizar a situação caótica na qual se encontra seus mananciais, seu bem mais precioso. Por meio da gestão ambiental não só seus mananciais que serão beneficiados, mas também a fauna, a flora e a qualidade de vida da população. E o caso do Alambique Samanaú pode ser um exemplo de sustentabilidade a ser seguido na possível aplicação da gestão ambiental na região que abrange a Bacia. Sendo o objetivo da gestão ambiental, estabelecer o equilíbrio entre o homem e a natureza, a mesma promoverá adaptações ou modificações no ambiente natural, adequando-as às necessidades individuais e coletivas, fomentando um desenvolvimento sustentável. REFERÊNCIAS BROLLO, Maria José; SILVA, Mirtes Moreira. Política e gestão ambiental em resíduos sólidos. Revisão e análise sobre a atual situação no Brasil. Disponível em: http://www.bvsde.paho.org/bvsaidis/brasil21/vi-078.pdf. Acesso em: 05 de Março de 2010. CACHAÇA SAMANAÚ. Disponível em: http://www.cachacasamanau.com.br/novo/principal.htm. Acesso em: 27 de Fevereiro de 2010. COIMBRA, José de Ávila Aguiar. Linguagem e Percepção Ambiental. In: PHILIPPI JR., Arlindo; ROMÉRO, Marcelo de Andrade; BRUNA, Gilda Collet (ORG). Curso de Gestão Ambiental. Manole LTDA. Barueri – SP, 2004. COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA PIRANHAS-ASSU (CBH – Piranhas-Assu). Disponível em: http://www.piranhasacu.cbh.gov.br/A_bacia.aspx. Acesso em: 30 de outubro de 2009. FIGUEIREDO P J M. A sociedade do lixo: os resíduos, a questão energética e a crise ambiental. 2ª ed. UNIMEP. Piracicaba – SP, 1995. LABORATÓRIO DE MICROORGANISMOS AQUÁTICOS – LAMAq. Descrição da Bacia Piranhas-Assu. Disponível em: http://www.cb.ufrn.br/~letma/areas.html. Acesso em: 25 de outubro de 2009. MOLINA E. , Sérgio. Turismo e Ecologia. EDUSC. Bauru – SP, 2001. PEDRO, Antônio Fernando Pinheiro; FRANGETTO, Flávia Witkowski. Direito ambiental aplicado. In: PHILIPPI JR., Arlindo; ROMÉRO, Marcelo de Andrade; BRUNA, Gilda Collet (ORG). Curso de Gestão Ambiental. Manole LTDA. Barueri – SP, 2004.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 240 ANÁLISE DE DESENHOS SOBRE O MEIO AMBIENTE FEITOS POR ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL PÚBLICO DO MUNICÍPIO DE CUITÉ/PB Ana Carolina dos Santos FONSÊCA Aluna do Curso de Licenciatura em Biologia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Centro de Educação e Saúde (CES), Unidade Acadêmica de Educação (UAE) *E-mail: anacarolinacuite@hotmail.com Cristiane Francisca da COSTA Profª Dra. da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Centro de Educação e Saúde (CES), Unidade Acadêmica de Educação (UAE). Anderson SCARDUA Prof. Dr. da área de psicologia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Centro de Educação e Saúde (CES), Unidade Acadêmica de Saúde (UAS). RESUMO O estudo da percepção ambiental é fundamental para compreendermos as relações existentes entre os humanos e meio ambiente. Os seres humanos observam, interpretam e agem no meio ambiente segundo sua percepção, que quase sempre é equivocada, pois existe desconexão entre a percepção e as leis naturais, ocasionando diversos problemas ambientais e sociais. A proposta deste trabalho foi verificar, através de desenhos, as concepções e percepções sobre o meio ambiente dos alunos de três escolas da rede estadual e municipal do município de Cuité – PB e como estes alunos se percebem como seres constituintes e atuantes no mesmo. Os desenhos foram analisados através da técnica de análise de conteúdo temática. Durante o período de junho a dezembro de 2009 foram realizados encontros semanais com os alunos onde foram trabalhadas atividades de Educação Ambiental, de forma lúdica, como contos de histórias, análise de músicas, produção de cartazes, montagem de quebra cabeças, jogos, etc. Os temas trabalhados foram: a conservação ambiental; fauna e flora nativa; higiene e saúde; tipos de poluição; destino, reutilização e reciclagem do lixo; formas de convivência e aspectos culturais do município de Cuité-PB. Em todos os encontros os alunos foram incentivados a participarem das atividades de forma coletiva e a representar o aprendizado adquirido em forma de desenhos. Um total de noventa e sete desenhos foi produzido pelas crianças e a análise dos mesmos demonstra que estas são conscientes da necessidade da preservação ambiental, se mostraram preocupadas com a degradação ambiental da região e com o destino do lixo, mas revelam também que na percepção das crianças o ambiente só é conservado se não existir a presença do homem, ou seja, elas concebem e percebem o ambiente como algo alheio ao homem e do qual ele não poderá fazer parte sem degradar e destruir. PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental, percepção ambiental, psicologia, desenhos, Cuité/PB. ABSTRACT The study of environment perception is crucial to understand the relationships between humans and other living beings. Humans observe, interpret and act on the environment according to their perception, which is almost always mistaken because there is disconnection between the perception and the laws of nature, causing many environmental and social problems. The purpose of this study was to assess, through the analysis of drawings, the perceptions and conceptions on environment of students in public schools in Cuité – PB, and how they perceive themselves as beings that are part of the environment and can act on it. We used the thematic content analysis to analyze the drawings produced by these students. During the study, which occurred from April to December of 2009, there were weekly meetings with the students related to environmental education activities such as plays, storytelling, music analysis, production of posters, assembling puzzles, games and others. The activities were related to the following themes: intending to work various topics such as water, local fauna and flora region, pollution, waste and environmental degradation; health and care, recycling; and local cultural aspects. In all the meetings the students
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 241 were encouraged to participate collectively and to represent what they have learned through drawings. A total of ninety-seven drawings were analyzed and these drawings seemed to show that children are aware of the necessity of environmental preservation, but also reveal that in children’s perception the environment is only maintained if man’s presence doesn’t exist, that is, they perceive and conceive the environment as something alien to them and which they cannot be part without degrading and destroying. KEYWORDS: environmental education, environmental perception, psychology, drawings, Cuité / PB. INTRODUÇÃO Ao longo do tempo, o meio ambiente sempre foi visto como depositário direto dos subprodutos inaproveitáveis das atividades humanas. Por trás deste comportamento, havia a impressão de que os recursos da natureza seriam inesgotáveis e que o crescimento econômico e tecnológico poderia continuar sem fronteiras e sem preocupações com o estoque destes recursos, que, de acordo com essa percepção, seria inesgotável (COSTA et. al., 2005). A percepção que as pessoas têm de determinadas coisas ou situações não é isolada, ela surge de suas relações com o meio cultural em que vivem. A partir da percepção das pessoas acerca de determinado tema, surge o conhecimento e este é o ponto de partida para a prática. Estudarmos a percepção ambiental é fundamental para podermos compreender as relações existentes entre os humanos e os demais seres vivos (SILVA et. al., 2002). Os seres humanos observam, interpretam e agem no meio ambiente segundo sua percepção, que quase sempre é equivocada, pois existe desconexão entre a percepção e as leis naturais, ocasionando diversos problemas ambientais e sociais. O indivíduo atua no ambiente, e nas diversas esferas de sua vida, de acordo com seus interesses, necessidades, desejos e concepções sobre o mundo, recebendo influências dos conhecimentos adquiridos anteriormente. A percepção ambiental envolve acima de tudo o imaginário, os sonhos, as necessidades individuais e coletivas (SILVA et. al., 2002). Costuma ocorrer um equívoco quando se fala em percepção, uma vez que o termo é comumente entendido como sinônimo de conhecimento. Percepção é a distinção de uma forma sobre um fundo, ou seja, um processo psicológico; e conhecimento é um processo epistemológico. Os aspectos de imaginabilidade resultantes, o relacionamento ambiental e a topofilia (sentimento de envolvimento com determinados locais), expressam a relação do homem com o seu meio ambiente (ADDISSON, 2003). É evidente a necessidade de estudos de percepção para melhor compreender a realidade urbana e seus habitantes como indicadores de planejamento, utilizando-se de critérios que propiciem a participação da população, bem como a análise comportamental da mesma, a partir das relações com o meio urbano (ADDISSON, 2003). Contudo, a percepção não atua de forma isolada, ela é permeada pelos conhecimentos, pelas formas que representamos o mundo. Estas formas não são simplesmente concepções individuais, mas são conhecimentos construídos socialmente e que influenciam e guiam outros processos psicológicos como a percepção, direcionando, por exemplo, nosso olhar para determinadas figuras em detrimento de outras (MOSCOVICI, 1978). Neste sentido, nos aproximamos da teoria das representações sociais. Esta procura dar conta de um fenômeno, sobretudo urbano, em que as pessoas manifestam sua capacidade imaginativa para assenhorar-se do mundo, por meio de conceitos, afirmações e explicações, originadas no seu cotidiano, a respeito de qualquer objeto, social ou natural, para torná-lo familiar e garantir a interação e comunicação com outras pessoas e grupos (SOUZA FILHO, 1993). Atividades de educação, planejamento e gerenciamento voltados para questões ambientais fundamentam-se na importância de conhecer as concepções e a percepção ambiental dos indivíduos envolvidos, o que facilita a compreensão das relações do ser humano com o meio ambiente. A Educação Ambiental é um processo de ensino/aprendizagem que deve promover
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 242 mudanças de atitudes, de comportamentos e de percepção, além de garantir condições de vida digna para as gerações atuais e futuras, aplicando o princípio da sustentabilidade (SILVA et. al., 2002). Atualmente, a sustentabilidade tem se firmado como um novo paradigma para o desenvolvimento humano e é entendida como um senso profundamente ético, de igualdade e justiça social, de preservação da diversidade cultural, de autodeterminação das comunidades e de integridade ecológica e propõe a questão fundamental de que a sustentabilidade não é viver melhor amanhã, mas viver de modo diferente hoje e para que isso aconteça são necessárias mudanças profundas na forma de pensar, viver, produzir e consumir (RUSCHEINSKY, 2002). A mediação adequada entre meio ambiente, educação e sustentabilidade implica em destacar a diversidade cultural, a participação, o envolvimento subjetivo e a cidadania ativa. Por este caminho, passam a redescoberta da solidariedade entre os homens como agentes sociais e sua moderação quanto ao uso dos bens naturais. Daí a necessidade de que as pessoas vislumbrem e esquematizem os pilares de uma nova sociedade, construindo e reconstruindo sua própria história. Este caminho também conduz a uma nova visão do mundo e suas relações com a natureza, vinda das relações entre os que compartilham uma nova reflexão, discordante com a tradição de domínio sobre a natureza pela ótica do antropocentrismo (RUSCHEINSKY, 2002). A psicologia ambiental fundamenta as inter-relações entre o ser humano e o ambiente, considerando os efeitos das condições do ambiente sobre o comportamento dos indivíduos, tanto quanto do indivíduo atuando sobre ele (LIRA e FERRAZ, 2009). Pensando dessa forma, a proposta deste trabalho foi verificar a percepção ambiental dos alunos de escolas da rede pública estadual e municipal da cidade de Cuité – PB, através da análise de conteúdo de desenhos produzidos por estes alunos ao longo do período estudado. METODOLOGIA Durante o período de abril a dezembro de 2009, foram realizadas visitas semanais a turmas de três escolas do município de Cuité/PB: Escola Estadual de Ensino Fundamental Maria das Neves Lira de Carvalho, com duas turmas do 3° ano, com 25 alunos cada uma; e duas escolas municipais, Escola Municipal de Ensino Fundamental Benedito Venâncio dos Santos, em uma turma do 3° ano de 30 alunos, e Escola Estadual de Ensino Fundamental Celina de Lima Montenegro, em uma turma do 5° ano de 40 alunos. Um total de 100 encontros foi realizado nas quatro turmas trabalhadas, envolvendo 120 alunos em todas as escolas. Nesses encontros, foram trabalhadas atividades de Educação Ambiental, de forma lúdica, com contos de histórias, análise de músicas, produção de cartazes, montagem de quebra cabeças, jogos, etc., sendo os temas voltados para a conservação ambiental, fauna e flora nativa, higiene e saúde, tipos de poluição, destino, reutilização e reciclagem do lixo, formas de convivência e aspectos culturais do município de Cuité-PB. Em todos os encontros os alunos foram incentivados a participar das atividades de forma coletiva e a representar o aprendizado adquirido em forma de desenhos. Foram selecionados e analisados, especificamente, os desenhos relacionados com o meio ambiente e as formas de como as crianças o percebem, bem como sua participação no mesmo. Todas as representações produzidas pelos alunos foram analisadas seguindo a metodologia descrita por Souza Filho (1993) que se apóia na análise de conteúdos temáticos. RESULTADOS E DISCUSSÃO Um total de noventa e sete desenhos foi produzido pelas crianças e a análise dos mesmos demonstra que estas são conscientes da necessidade da preservação ambiental, se mostraram preocupadas com a degradação ambiental da região e com o destino do lixo, mas revelam também que na percepção das crianças o ambiente só é conservado se não existir a presença do homem, ou seja, elas percebem o ambiente como algo alheio ao homem e do qual ele não poderá fazer parte sem degradar e destruir (Fig. 1). Dentre as representações produzidas pelos alunos, 49,48% representavam o meio ambiente como algo natural, não havendo elementos que demonstrassem qualquer cenário urbano
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 243 como pessoas, construções, casas e outros. Os elementos presentes nesses desenhos foram: sol, lua, arco-íris, nuvens, pedras, montanhas, cachoeiras, plantas e animais típicos da região. Também ocorreram nos desenhos alguns animais que não fazem parte da fauna da região, como girafas, elefantes e leões. 17,52% dos desenhos apresentavam o meio ambiente com a presença de elementos urbanos em que apareciam construções, pessoas, mas estas se encontravam de uma forma não completamente integrada, uma vez que essas pessoas estavam nesse ambiente apenas a passeio, para nadar em águas limpas ou fazer atividades ao ar livre, como pular corda ou passeios em família. Os elementos, como as pessoas que se banhavam nas águas, realizavam atividades ao ar livre e as construções humanas, quando presentes, em sua maioria estavam representados de forma que estes não faziam parte de um ambiente equilibrado e sim se encontravam no mesmo para tirar vantagem dos recursos naturais disponíveis. A ação negativa do ser humano fica mais nítida quando observamos os desenhos (4,12%) que representavam o meio ambiente sujo, com carros, aviões, chaminés de casas produzindo fumaça e esgotos lançados em rios, resultando em morte de peixes.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 244 Fig. 1- Desenhos produzidos pelos alunos a respeito do meio ambiente, durante as visitas realizadas às escolas do município de Cuité – PB, no período de abril a dezembro de 2009. As análises revelaram ainda que 28,86% dos desenhos representavam uma comparação entre o que é um meio ambiente equilibrado e desequilibrado. No ambiente equilibrado, encontramos elementos como: água limpa, animais, plantas, latas de lixo com o lixo dentro e em alguns havia casas e pessoas. O ambiente desequilibrado foi representado por elementos como: indústrias e automóveis produtores de fumaça, fontes de água poluídas por lixo, esgotos, plantas e animais mortos, casas, queimadas, fogueiras, pessoas jogando lixo no chão ou nas águas, derrubando árvores e agindo de outras formas negativas no meio ambiente. Nos desenhos em que havia essa comparação, a parte do ambiente desequilibrado era representada de uma forma que os animais, as plantas e o sol estavam tristes e sem cor e na parte do ambiente equilibrado, havia muita felicidade e cor. As análises dos dados revelaram que na percepção dos alunos o ambiente desequilibrado é resultado das interferências humanas, cujas ações promovem poluição, sujeira e morte de organismos, logo a maioria das ações humanas sobre a natureza tende a ser negativa. Tais dados corroboram os encontrados por Reigota (1995) Apud (MAZZOTTI, 2001) que investigando as representações sociais do ambiente elaboradas por um grupo de professores, inferiu que o homem é uma nota dissonante do meio ambiente, o componente depredador por excelência. Diante do exposto percebe-se que para as crianças que foram trabalhadas, o conceito de ambiente equilibrado está dissociado da presença humana e esta não é um integrante da natureza e sim alheia a ela. CONCLUSÕES Inicialmente, alguns alunos apresentavam dificuldades de trabalhar em equipe, em se concentrar nos ensinamentos apresentados e muita agitação. Ao final do trabalho, foram observadas mudanças de comportamentos dos alunos, que se encontravam mais calmos e menos dispersos. Os dirigentes e professores das escolas demonstraram satisfação em ver que o trabalho realizado foi importante, pois as crianças apresentaram melhorias através do mesmo. As concepções dos alunos a respeito do meio ambiente refletem refletiram o ideal antropocêntrico de nossa sociedade, que concebe erroneamente que as pessoas não fazem parte da natureza, podendo assim, destruí-la e degradá-la. As atividades realizadas serviram para mostrar que muito ainda pode ser feito para desenvolver nas pessoas atitudes de respeito e pertinência valorização do ao meio ambiente em que vivem. Num horizonte mais ou menos distante seria possível construir uma sociedade solidária e com justiça social, considerando uma convivência mais harmônica com o meio ambiente. Identificar os efeitos de trabalhos em educação ambiental nos permite compreender melhor as possíveis mudanças geradas em termos de percepção e concepções sobre o meio ambiente, trazendo-nos informações que sirvam para influenciar no desenvolvimento de novas
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 245 estratégias de ação. Assim, podemos apontar que mais ênfase deve ser posta, em futuros trabalhos sobre educação ambiental, em fatores que apontem para a relação entre o ser humano e o meio ambiente, evitando concepções que separem estes dois elementos. Os trabalhos de educação, como o nosso, podem auxiliar não na transformação das concepções devem priorizar o aspecto da interação entre o humano e o natural, possibilitando mudar concepções de que o homem em contato com a natureza não apenas a destrói, mas que pode conviver com ela de forma mais equilibrada e harmônica. REFERÊNCIAS ADDISSON, E.E. 2003. A Percepção ambiental da população do município de Florianópolis em relação à cidade. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina. 152p. COSTA, J. R., LIU, A.S, FIORINI, M. P., GIRARDI, L, AQUINO-SILVA, M. R. Percepção ambiental e participação pública na gestão dos recursos hídricos da cidade de São Sebastião (SP). In: Anais do IX Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e V Encontro Latino Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale do Paraíba. São José dos Campos, 2005. 4p. FILHO, E. A. de S. Análise das representações sociais. In: SPINK, M. J. (Org.). O conhecimento no cotidiano: as representações sociais na perspectiva da psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 1993. 109-145p. LIRA, L.; FERRAZ, V. Psicologia ambiental: uma relação de equilíbrio entre o homem e a natureza. In: SEABRA, G. (org.). Educação ambiental. João Pessoa: Ed. UFPB. 2009, 53-68p. MAZZOTTI, T. B. Representação social de “problema ambiental”: uma contribuição à educação ambiental. In: MOREIRA, A. S. P. Representações sociais: teoria e prática. João Pessoa: Ed. UFPB. 2001, 333-368 p. MOSCOVICI. S. A Representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar. 1978. RUSCHEINSKY, A. Educação ambiental: abordagens múltiplas. Porto Alegre: Artmed, 2002. SILVA, M. M. P. da; LEITE,V. D.; ROSA, L. G.; VIEIRA, M. M. de P.; SOUZA, J. M. F. de; ANDRADE L. A. de. Percepção ambiental de educadores e educadoras do estado da Paraíba/Brasil. In: Anais do XXVIII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental. Cancún, 2002. 5p.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 246 ASPECTOS NATURAIS E CULTURAIS DO MORRO DA MASSARANDUBA, ARAPIRACA – AL Rosineide Nascimento da SILVA Universidade Federal de Alagoas – Campus Arapiraca. Graduanda em Biologia-Licenciatura rosineideg7@gmail.com Marcos Antônio Silvestre GOMES Professor Adjunto da Universidade Federal de Alagoas – Campus Arapiraca gomesmas@yahoo.com.br RESUMO Este trabalho resulta da pesquisa “Conservação ambiental e aspectos culturais do Morro da Massaranduba, Arapiraca-AL: bases para a ação e a gestão participativas” subsidiada pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Pesquisa-Ação (PIBIP-AÇÃO/2009). Trata-se da análise e caracterização dos aspectos naturais e culturais do Morro da Massaranduba, que compreende cerca de 30.000m2, distante da área central urbana do município de Arapiraca, aproximadamente, 8 km. O Morro é uma das poucas áreas no município com vegetação remanescente típica de regiões de transição entre os ecossistemas Caatinga e Mata Atlântica. É considerado importante na legislação municipal para compor o patrimônio ambiental natural e cultural, direcionado à conservação da biodiversidade. Culturalmente, destaca-se no agreste alagoano como um local tradicionalmente religioso e de peregrinação, onde ocorre a encenação do Espetáculo da Paixão de Cristo. Para este estudo foram necessários levantamentos e consultas bibliográficas referente às temáticas explicitadas; consultas ao Plano Diretor Municipal de Arapiraca e Agenda 21 Local; visitas técnicas a área para selecionar, classificar e catalogar as principais espécies; entrevistas aos órgãos públicos; aplicação de questionários aos moradores para identificar os aspectos históricos e a relação destes com o Morro etc. Observou-se, entre outros, que a ausência de políticas públicas no planejamento e gestão da área a torna um local utilizado especialmente para a encenação da “Paixão de Cristo”, que contraditoriamente contribui para a extirpação dos elementos naturais. Por isso, um elemento norteador da pesquisa foi a compreensão de que este espaço pode ser utilizado pelas escolas públicas do entorno na prática de atividades interdisciplinares, por exemplo. Destarte, este trabalho procurou contribuir para o estudo da conservação das espécies faunísticas e florísticas do Morro da Massaranduba, associando-a aos aspectos culturais, privilegiando os interesses da população local etc. Contudo, são necessárias mudanças na concepção dos gestores municipais quanto ao planejamento e gestão da natureza e no reconhecimento da cultura local. PALAVRAS-CHAVE: natureza, cultura, Arapiraca, Morro da Massaranduba ABSTRACT This work results of the research “Environment Conservation and cultural aspects of the Hill of the Massaranduba, Arapiraca-AL” with contribution of the Program of Initiation to Research-Action (PIBIP-AÇÃO/2009). The o work is a analysis and characterization of the natural and cultural aspects of the Hill of the Massaranduba, in the city of Arapiraca, Brazil. The hill has typical vegetation of regions of transistion between the ecosystems Caatinga and Atlantic Forest. It is important to natural and cultural environmental patrimony because has important biodiversity. Culturally the Hill is a traditionally religious place and of peregrination. There, once a year arised the Spectacle of the Passion of Christ. The work demonstrated that the absence of public politics in the planning and management in the hill becomes it a place used especially for the spectacle of the “Passion of Christ”, that contradictorily contributes to the extinction of the natural elements. The work recommend that this space can to be used by the public schools to class about animals and vegetation of Alagoas. KEYWORDS: nature, culture, Arapiraca, hill of the Massaranduba
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 247 INTRODUÇÃO Uma das principais preocupações mundiais observadas na atualidade refere-se à questão da conservação da natureza, tratada em eventos como as conferências mundiais para o meio ambiente e o desenvolvimento, das Nações Unidas. A conservação ambiental, contudo, deve ser analisada em determinadas áreas considerando-se as características culturais de povos, suas manifestações artísticas, religiosas etc. Os aspectos culturais, para muitos autores, integram um amplo conceito que inclui, dentre outros elementos, a própria natureza, por isso a complexidade de se tratar de ambas as vertentes – natureza e cultura. Este trabalho resulta da pesquisa intitulada “Conservação ambiental e aspectos culturais do Morro da Massaranduba, Arapiraca-AL: bases para a ação e a gestão participativas”, que contou com o apoio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Pesquisa-Ação (PIBIP- AÇÃO/2009). Trata da análise e caracterização dos aspectos naturais e culturais do Morro da Massaranduba que situa-se a 376m de altitude, compreende cerca de 30.000m2 e localiza-se na interface da zona rural e urbana do município de Arapiraca – AL, distante da área central urbana, aproximadamente 8km. O Morro torna-se relevante para esta análise, em especial, devido aos aspectos naturais, pois representa uma das poucas áreas em Arapiraca com vegetação remanescente típica de regiões de transição entre os ecossistemas Caatinga e Mata Atlântica, apontado na legislação municipal como importante para compor o patrimônio ambiental natural e cultural, bem como um espaço direcionado à conservação da diversidade biológica regional. Além disso, é dotado de relevante beleza paisagística pelas suas características fisicogeográficas (Fig. 1). Fig. 1. Vista panorâmica do Morro. Ao fundo, observa-se uma capela. À direita tem-se uma das vias de acesso (ladeira da penitência). Fonte: pesquisa de campo (2009). Autor: Marcos A. S. Gomes. No âmbito cultural, o local destaca-se no contexto do agreste alagoano como um espaço de peregrinação, construído coletivamente ao longo dos anos e que integra a identidade religiosa de Arapiraca, pois, anualmente, ocorre a encenação do Espetáculo da Paixão de Cristo. O evento conta com parcerias entre município, governo do estado e órgãos federais, como Ministério do Turismo. Como forma de melhorar e maximizar os usos e funções deste espaço, o referido estudo procurou realizar palestras em duas escolas, uma do sítio Massaranduba e outra do sítio Carrasco, com o intuito de fomentar nos professores e alunos das escolas discussões e práticas que resultem na integração do Morro ao processo educativo. O intuito foi demonstrar que o Morro pode ser utilizado como uma área capaz de subsidiar o desenvolvimento de atividades de campo que envolvam a interdisciplinaridade e a contextualização dos componentes curriculares. Além disso, elaborou-se e distribuiu-se uma cartilha/folder com o propósito de divulgar os aspectos naturais e culturais do Morro, contribuindo para disseminar a importância dessa área para a
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 248 sociedade em geral, em especial, para os moradores do entorno, para as escolas e os órgãos públicos, como secretarias municipais de meio ambiente e de cultura. METODOLOGIA Para este estudo foram necessários executar levantamentos e consultas bibliográficas em livros, artigos, internet etc. que tratassem das temáticas estudadas (conservação, patrimônio natural e cultural, entre outros); consultas ao Plano Diretor Municipal de Arapiraca e Agenda 21 Local; visitas técnicas a área para selecionar e classificar as principais espécies da “Arthropofauna” e da flora comumente encontradas no local para elaborar um catálogo com essas espécies; visitas técnicas para verificar a cobertura vegetal do Morro e das suas adjacências, os diferentes tipos de usos da terra; entrevistas aos órgãos públicos para verificar se na área há algum tipo de política pública direcionada à manutenção da biodiversidade local, bem como prováveis parcerias na realização do espetáculo que torna o espaço visível e reconhecido; aplicação de questionários aos moradores locais para identificar os aspectos históricos e a relação destes com o Morro da Massaranduba. Ao término do trabalho foi planejada a distribuição da cartilha/folder tanto para a comunidade local, incluindo as escolas que colaboraram na execução da pesquisa, quanto para os órgãos públicos, fato que contribuiu para a caracterização do trabalho como extensão, proporcionando a disseminação do conhecimento produzido na academia. RESULTADOS/DISCUSSÕES Com a conclusão da pesquisa foi constatado que a área estudada, Morro da Massaranduba (Fig. 2), tem sofrido um intenso processo de devastação em detrimento da realização do “Espetáculo da Paixão de Cristo” (Fig. 3), que se tornou uma tradição durante as manifestações cristãs da “Semana Santa”. Por outro lado, verificou-se que a degradação da biodiversidade existente na área está associada à ausência de políticas públicas concretas, pois em entrevistas cedidas pelas Secretarias de Meio Ambiente e de Cultura de Arapiraca foi observada a marcante ausência dessas políticas, tendo em vista que os interesses dos gestores municipais atuais concentram-se, especialmente, na área central da cidade ou em alguns bairros adjacentes, em detrimento da periferia e a zona rural. Fig. 2. Vista aérea do Morro da Massaranduba, em 2004, Fig. 3. Encenação do Espetáculo da Paixão de Cristo no onde se percebe a redução da cobertura vegetal. Em azul Morro da Massaranduba. Fonte: tem-se a delimitação do comprimento de toda a área www.arapiraca.al.gov.br. (3.016m) e no interior da linha azul tem-se um limite de 14, 625 ha. Cálculos efetuados com o programa GPS UTILITY, por Henrique C. H. da Silva. Fonte: Google Earth (2010).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 249 Analisando a legislação municipal, especificamente o Plano Diretor do Municipal de Arapiraca (Lei nº 2424/2006) tem-se que, embora este perceba o Morro como um potencial espaço para a conservação da biodiversidade regional, não há, por parte do poder público, ações ou medidas de intervenção embasadas em um plano de manejo. Existem, somente, intenções declaradas tanto no Plano Diretor Municipal quanto na Agenda 21 Local. Nesta última, verifica-se que a área tende a ser transformada em uma unidade de conservação e tombada como patrimônio cultural e religioso, até 2017, para incentivar o turismo religioso e desenvolver ações que garantam a sustentabilidade do espetáculo da Paixão de Cristo (ROMÃO, 2008). Por sua vez, o Plano Diretor aponta algumas serras que constituem zonas especiais de interesse ambiental do patrimônio natural, a exemplo do Morro da Massaranduba. Uma dicotomia complexa – natureza e cultura – permeia a gestão e os distintos interesses desse espaço, como se pode observar. São perceptíveis, assim, os desafios que a gestão pública deve enfrentar quanto à conciliação dos interesses divergentes em torno da área, pois, de um lado, pretende-se implantar uma área de proteção ambiental – APA – que permite o uso dos recursos naturais apenas de modo indireto; de outro, se pretende tornar o espaço um local de turismo religioso. Conforme o glossário do Ministério do Meio Ambiente, uma Área de Proteção Ambiental deve ser concebida como uma área geralmente extensa, com certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. É constituída por terras públicas ou privadas. Percebe-se, assim, a necessidade de ser criado um plano de trabalho adequado a realidade do Morro, além de instaurar uma gestão que priorize ações que não prejudiquem as características naturais tampouco culturais e/ou sociais do espaço. As áreas protegidas figuram, sob algumas perspectivas de análise, como o principal instrumento para a conservação da biodiversidade (BENSUSAN, 2006). Todavia, têm-se como uma aliança entre o homem e a natureza, o respeito à diversidade cultural onde está calcada a manutenção da diversidade biológica (DIEGUES, 2004), embora refletir sobre estas questões seja cada vez mais difícil no mundo atual. A Agenda 21 Arapiraca, composta por dez estratégias distribuídas em diversas ações a curto, médio e longo prazos, traz em suas ações gerais a curto prazo (até cinco anos) o Morro da Massaranduba como uma área em que deve ser contido o desmatamento, bem como deve ser reflorestado seu entorno e ser implantada uma APA, dada sua relevância quanto aos aspectos naturais. A medida de criação de APAs deverá contemplar outras serras como, por exemplo, Mangabeira (abriga o atual lixão) e Ferreiras. Contudo, se o Morro for considerado uma propriedade particular, por que não se sabe de certo a quem pertence a titularidade das terras22, aponta-se a necessidade de refletir sobre a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) que não restringe a presença humana, desde que esta não prejudique a biodiversidade que se pretende proteger. Segundo informações da Secretaria de Cultura de Arapiraca os interesses na área do Morro permeiam mais a esfera econômica que necessariamente a religiosa. Esse espaço, de domínio privado em sua maior extensão, onde o poder público pouco atua, não possui lei específica que o declare como de interesse ambiental e cultural, há apenas intenções neste sentido. O espaço é utilizado para a promoção de uma “festa” que, segundo entrevistas com os moradores, muitas pessoas não mais o procuram por motivos religiosos, mas para curtição e práticas de ordem pessoal. Ou seja, através de análises, infere-se que essa tradição pode está sendo ameaçada por diversos fatores que comprometem sua originalidade e função histórico-religiosa. 22 Há declarações de moradores do entorno que as terras pertencem a particulares, no entanto, não se conseguiu a confirmação desse dado na Prefeitura Municipal.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 250 As potencialidades do Morro, contudo, são pouco exploradas pela comunidade local, pois, em geral, este apresenta pouca utilidade e usos para essa população. Por isso, procurou procurou-se através deste trabalho divulgar as características ambientais e culturais dessa área, especialmente, para a comunidade escolar, incentivando nesta a possibilidade efetiva de utilizar o local em estudos extra extra- classe e/ou aulas práticas de Geografia, Biologia, História etc., bem como o reconhecimento da produção e reprodução da cultura local No que tange à biodiversidade faunística e florística do lugar, percebeu percebeu-se, através de visitas de campo, que a área apresenta bom nível de regeneração vegetal, apesar da apropriação e devastação humanas. Durante os meses de outubro e novembro de 2009 foram realizadas duas visitas técnicas ao Morro para coletar exemplares tanto de plantas quanto de animais. Estes foram representados pelos insetos, considerados bons indicadores de níveis de impacto ambiental devido a sua sensibilidade, indicadores grande diversidade de espécies e habitats, distribuídos pelas distintas categorias taxonômicas, além da sua importância nos processos biológicos dos ecossistemas naturais. De acordo com as avalavaliações realizadas no Morro, obteve-se um número razoável de se espécimes de insetos. Esse número demonstra que o local de observação está se recuperando dos efeitos da antropização, pois se encontrou trinta e nove representantes distribuídos pelas seguintes ordens (Fig. 4): Odonata, Orthoptera, Lepidoptera, Diptera, Hemiptera, Hymenoptera, Coleoptera e rdens Mantodea. Fig. 4. Ordens e respectivas percentagens de espécies encontradas no Morro da Massaranduba, durante dois momentos de observação, em um período de duas horas. Fonte: levantamento de campo executado por Edmilson S. Silva. Org. Rosineide Nasc. da Silva. Ressalte-se que, apesar de ter sido encontrado espécimes representantes de oito ordens, se observaram-se poucas espécies de cada ordem e muitos espécimes. Com isto, constata se ordem constata-se que a maioria das espécies presentes foi observada em ambas as coletas e geralmente são espécies encontradas em ambientes agrícolas, causando danos às plantas cultivadas. Contudo, como ressaltam Thomanzini e Thomanzini (2002) o número de ordens, famílias e espécies tendem a omanzini diminuir com a elevação do nível de antropização do ambiente. Quanto à vegetação, foi observado que esta pode ser classificada de acordo com dois pontos de vista distintos: fitofisionomia e status de conservação. De acordo com sua fitofisionomia, status a vegetação é considerada uma Savana Estápica Florestada, observandoobservando-se as características apresentadas por Veloso et al (1991). De acordo com seu status de conservação pode ser considerada uma vegetação secundária pelo elevado grau de distúrbio por tempo prolongado. ção
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 251 Também é possível observar na área do Morro a presença de “clareiras antrópicas”, indício da ação humana devastadora. Dentre as espécies vegetais encontradas, têm-se algumas típicas da caatinga nordestina como o Ipê (Tabebuia sp.), Senna sp., Braúna (Schinopsis brasiliensis Engl.), Juá (Ziziphus joazeiro Mart.) e Angico da espécie Anadenanthera colubrina (Vell. Brenan). Ainda, foi possível encontrar a Coccoloba latifolia Lam. na localidade, geralmente, encontrada em florestas úmidas. Embora o município de Arapiraca esteja em um domínio do semi-árido e sejam encontradas espécies típicas de caatinga não se observou a caducifolia, fenômeno em que as plantas perdem suas folhas no período seco. Além dessas espécies, foram observados alguns representantes de demais famílias botânicas, como Caesalpinaceae, Solanaceae, Asteraceae, Cyperaceae, Boraginaceae etc. Através dos levantamentos efetuados, foi verificado que o Morro apresenta uma quantidade significativa de animais da classe Insecta, embora a diversidade seja limitada. A vegetação, por sua vez, é marcada pela presença de algumas espécies e famílias, no entanto, também não foi constatada maior diversidade florística na área. De modo geral, observou-se que o Morro da Massaranduba apresenta usos e funções limitados a realização do evento da “Paixão de Cristo”, não possui políticas públicas atuantes que criem e implantem um plano de manejo, salvaguardando suas características/potencialidades naturais e/ou culturais. Por isso, uma das maiores preocupações deste trabalho referente à extensão foi a otimização das potencialidades deste espaço, retratando-o, junto às escolas públicas dos sítios Massaranduba e Carrasco como um local singular para a prática de atividades que integrem a teoria abordada em salas de aula à aplicação de conceitos através da verificação, análise e discussão do ambiente cujos alunos estão inseridos, entretanto, muitas vezes o desconhece. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com este trabalho procurou-se contribuir com a discussão sobre a conservação das espécies da fauna e da flora do Morro da Massaranduba, considerando os aspectos culturais deste espaço, marcado por uma população que historicamente tem relação com o lugar. Pretende-se, com os resultados do trabalho, que o local seja percebido pelo poder público no sentido de criar e implantar medidas eficazes de gestão, manutenção e conservação da diversidade biológica da área, promovendo uma articulação com os proprietários do local e com órgãos federais. Para tanto, há a necessidade de manifestação do interesse público para criação de lei específica que estabeleça diretrizes de uso nesta área. O estudo significa uma primeira preocupação no estabelecimento de parcerias entre os órgãos públicos diretamente relacionados, os moradores locais, as escolas dos sítios Massaranduba e Carrasco e a própria universidade para criar diretrizes e executar ações que podem contribuir com a manutenção do espaço e ampliar seus usos e funções, deixando de ser ocioso na maior parte do ano para suprir alguns anseios dos moradores locais, porém sem comprometer os elementos naturais e/ou culturais. Sabe-se, contudo, que para que esses objetivos sejam alcançados são necessárias mudanças de concepção dos gestores municipais no que concerne a ambas as vertentes (natureza e cultura). Por isso, diante da singularidade da área, destaca-se a urgência de medidas que possam auxiliar na sua gestão e no planejamento de suas funções. O Morro precisa ser observado segundo as mais diversas vertentes que se relacionam à identidade de um povo, daí a dificuldade de concepção do mesmo pela comunidade local. Embora o Morro ainda não seja efetiva e legalmente uma área protegida, pode ser compreendido como uma área importante para o município de Arapiraca para a conservação ambiental e a prática cultural religiosa. Estes são apenas alguns dos elementos que se julgou pertinente nesta análise na qual se aponta a diversidade de fatores e agentes relacionados à problemática da área. A partir daí, destaca-se a necessidade de se elaborar e aplicar leis, organizar e efetivar um plano de manejo, além de priorizar e consolidar ações e gestão participativas na área. Ou seja, é preciso interesse, investimentos, políticas públicas atuantes, comprometimento e
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 252 iniciativa dos atores sociais envolvidos com a área para que efetivamente se realizem as mudanças necessárias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENSUSAN, N. Conservação da biodiversidade em áreas protegidas. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2006. GOMES, M. A. S. [cood.]. Conservação ambiental e aspectos culturais do Morro da Massaranduba, Arapiraca-AL: bases para a ação e a gestão participativas. Relatório de pesquisa de iniciação científica (PIBIP - AÇÃO). Arapiraca: Universidade Federal de Alagoas, 2009. DIEGUES, A. C. S. O mito moderno da natureza intocada. 5ª Ed. Universidade de São Paulo. Núcleo de apoio à pesquisa sobre populações humanas e áreas úmidas brasileiras. São Paulo: Hucitec, 2004. GALLO, D. [et al]. Entomologia agrícola. Piracicaba: FEALQ, 2002. 920p. INSTITUTO BRASILEIRO DE ANÁLISES SOCIAIS E ECONÔMICAS (IBASE). Educação ambiental e gestão participativa em Unidades de Conservação. Rio de Janeiro: Ibase: Ibama, 2003. Disponível em: <http://fr.calameo.com>. Acesso em: 27 Nov. 2009. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Agenda 21 brasileira: bases para a discussão. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Comissão de Política de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional, criada por decreto presidencial em 26/02/1997. Brasília, 2000. _________________. Departamento de Conservação da Biodiversidade. Secretaria de Biodiversidade e Florestas. Disponível em: <http://www.mma.gov.br>. Acesso em: 23 Jul. 2009. _________________. Glossário. Secretaria de Biodiversidade e Florestas. Disponível em: <http://www.mma.gov.br>. Acesso em: 22 Fev. 2010. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA (UNESCO). Convenção para a proteção do patrimônio mundial, cultural e natural. Paris, 1972. Disponível em: <http://www.brasilia.unesco.org>. Acesso em: 29 Jul. 2009. PELEGRINI, S. C. A. Cultura e natureza: os desafios das práticas preservacionistas na esfera do patrimônio cultural e ambiental. Universidade Estadual de Maringá. Revista Brasileira de História. Vol. 26. São Paulo, 2006. Disponível em: <http://www.scielo.org>. Acesso em: 18 Jun. 2009. PREFEITURA MUNICIPAL DE ARAPIRACA. Plano Diretor Municipal de Arapiraca. Lei nº 2424, de 23 de Janeiro de 2006. Arapiraca, 2006. ____________________. Departamento de Imprensa. Disponível em: <http//:www.arapiraca.al.gov.br>. Acesso em: 30 Nov. 2009. ROMÃO, S. R. L. A cidade do futuro: agenda 21 Arapiraca. Maceió: Ideário Comunicação e Cultura, 2008. TOWNSEND. C. R.; BEGON, M.; HARPER, J. L. Fundamentos em ecologia. 2ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. THOMANZINI, M. J. & THOMANZINI, A.P. B. W. A fragmentação florestal e a diversidade de insetos nas florestas tropicais úmidas. Circular Técnica, 57. Rio Branco: EMBRAPA, 2000. 21p. VELOSO, H. P.; RANGEL FILHO, A. L. R.; LIMA, J. C. A. Classificação da vegetação brasileira, adaptada a um sistema universal. Rio de Janeiro: IBGE: Departamento de Recursos Naturais e Estudos Ambientais, 1991.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 253 AVALIAÇÃO DO PROCESSO DE DEGRADAÇÃO DA COBERTURA VEGETAL EM SERRA BRANCA E COXIXOLA - PB Patrícia H. C. FEITOSA UATA/CCTA/UFCG. Rua Coronel João Leite S/N Centro Pombal - PB. Professora Campus de Pombal phcfeitosa@bol.com.br Karina de S. ANDRADE Geomecância Engenharia S/A. Rua Bela, 1128 - São Cristóvão - 20930-381 - Rio de Janeiro – RJ. Telefax: (21)3515-0100 e 3515-0101. ks_andrade@hotmail.com Marx P. BARBOSA UAEAG/CTRN/UFCG, Av. Aprígio Veloso 882, Bodocongó. CEP 58109-970, Campina Grande, PB. Fone: 3310 – 1055. marx@deag.ufcg.edu.br Edilândia F DANTAS UATA/CCTA/UFCG. Rua Coronel João Leite S/N Centro Pombal – PB; Estudante de Engenharia Ambiental Campus de Pombal edilandiadantas@hotmail.com RESUMO O desenvolvimento desordenado e não-planejado da ocupação e uso das terras incrementa a degradação da cobertura vegetal, cujos desmatamentos aceleram erosão e assoreamento dos rios e reservatórios, aumentando a amplitude dos desastres relacionados às secas periódicas e cheias atípicas no semi-árido nordestino. Assim, o objetivo foi avaliar a degradação da cobertura vegetal ocorrido entre 1987 e 2004, nos municípios de Serra Branca e Coxixola, no Cariri Paraibano. A classificação da cobertura vegetal foi realizada mediante a classificação de imagens digitais TM do satélite Landsat 5 tendo como base as imagens IVDN, o que permitiu qualificar as diferentes classes de vegetação, solo e água para os municípios em estudo. A análise evidenciou o aumento da exploração da cobertura vegetal, observando-se uma transformação da paisagem, com um incremento de 14,45% das áreas de vegetação rala associada a solos-expostos. O solo, desprovido de sua proteção natural, favorece ao aumento do risco a erosão. Este processo indica a expansão das áreas dos níveis de degradação grave a muito grave e reflete a importância em intervir neste processo acelerado de devastação da caatinga contendo o uso irracional deste recurso natural. PALAVRAS-CHAVE: Desmatamento, Solo, Sensoriamento Remoto ABSTRACT The disordered and not-planned development of population distribution and soil usage increases vegetal covering degradation, whose deforestations speed up rivers and reservoirs erosion and river capture, rising the level of related atypical disasters related to seasonal floods and droughts in the Brazilian northeastern (Semi Árido). Thus, the purpose was to evaluate the degradation of vegetal covering between 1987 and 2004, in the towns of Serra Branca and Coxixola, in the Cariri Paraibano. The classification of vegetal covering was carried through analysis of TM digital images from Landsat 5 satellite taking into account the IVDN base images, what allowed characterizing of vegetation type, soil and water. The analysis evidenced the increase of the exploration of the vegetal covering, observing a transformation of the landscape, with an increment of 14.45% of the areas of thin vegetation associated to exposed soil. The soil, without natural protection, allows the increase of the erosion risk. This process indicates the expansion of the areas with serious levels of degradation and shows the importance of actions to speed down the Caatinga devastation process acting against the irrational usage of natural resources. KEYWORDS: Deforestation, Soil, Remote Sensing
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 254 INTRODUÇÃO Em âmbito urbano e rural, regiões são desmatadas, alterando a cobertura do solo e ocasionando alterações tanto no ciclo hidrológico, como no solo, em função do empobrecimento de sua fertilidade e perdas por erosão, tendo como conseqüência a diminuíção da capacidade produtiva e comprometimento da cadeia alimentar. Entre as áreas em que esta degradação sócio-ambiental tem se tornado mais evidente, estão as regiões áridas e semi-áridas em todo o mundo e o semi-árido nordestino não ficou imune aos efeitos do processo global de degradação. A Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (United Nations, 2001) conceituou a desertificação como o “processo de degradação das terras das regiões áridas, semi- áridas e sub-úmidas secas, resultante de diferentes fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”. Além da pobreza, estão ligadas a essa conceituação as degradações do solo, da fauna, da flora e dos recursos hídricos. Desta forma, torna-se imperativo avaliar o desenvolvimento local e apontar aspectos falhos no planejamento e gestão da área e dos recursos voltados a ela e oferecidos por ela. Diferentes formas de exploração dos bens disponíveis devem ser observadas as em função de sua capacidade de suporte de exploração, buscando nas atividades desenvolvidas pelas comunidades locais experiências favoráveis ao processo de preservação da qualidade do ambiente e da vida humana. Uma das ferramentas utilizadas para fazer o levantamento e reconhecimento da cobertura dos solos é o sensoriamento remoto. A grande vantagem do uso de sensoriamento remoto orbital é que essas informações são obtidas periodicamente, de modo que, constantemente, é possível fazer uma adequação dos resultados obtidos em datas anteriores. Outra vantagem diz respeito à visão ampla da área de estudo e à maior facilidade de se fazer o levantamento e acompanhamento do uso do solo em áreas de difícil acesso (MOREIRA, 2003). Ele pode nos ajudar a entender o estado atual e a tendência de desenvolvimento desse processo, além de fornecer dados para pesquisa sobre mecanismos internos, processos atuais e diferenças espaciais e temporais da degradação do solo. A importância do sensoriamento remoto como ferramenta para avaliar os processos de desertificação fica mais evidente, quando se verifica que um dos quatro indicadores recomendados pela ONU para avaliar o problema é o índice de vegetação derivado de imagens de satélite, o chamado IVDN Índice de Vegetação de Diferença Normalizada (United Nations, 2001), (MOREIRA, 2003), (MENEZES & NETTO, 2001). Foi aplicado esse método de monitoração do processo de degradação através da imagem remotamente detectada, analisando características e dinâmicas do comportamento da degradação da cobertura vegetal que tenham ocorrido durante o período de 1987 a 2004, focando-se na vulnerabilidade rural local, frente aos riscos e ameaças da seca, através de um estudo comparativo entre os municípios de Serra Branca e Coxixola, PB. Assim, foram condensadas informações de maneira simples e qualificada, para servir como instrumento de gestão e tomada de decisão procurando contribuir para a produção de informação científica sobre a evolução do processo de degradação da cobertura vegetal nos municípios, buscando alternativas na adaptabilidade cultural e convivência do homem com situações climáticas extremas que conduzam ao desenvolvimento sustentável do semi-árido. MATERIAL E MÉTODOS O presente trabalho foi conduzido nos municípios de Serra Branca e Coxixola, situados na Microrregião do Cariri Ocidental, e contou com a disponibilidade da infra estrutura do Laboratório de Sensoriamento Remoto e SIG da Unidade Acadêmica de Engenharia Agrícola da Universidade federal de Campina Grande – Campus I, cumprindo-se a seguinte metodologia: Trabalhos de reconhecimento de campo: Reconhecimento geral da área segundo um roteiro pré-estabelecido, em função das unidades ambientais reconhecidas nas imagens de satélite.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 255 Identificação dos diferentes comportamentos da população local frente às vulnerabilidades e avaliação da adaptabilidade cultural às características ambientais da região, a serem observados durante as visitas de campo e relatos dos produtores rurais. Georreferenciamento e registro dos pontos eou características relevantes, mediante o uso de GPS e máquina digital. Mapeamento das unidades ambientais (solo, água e vegetação) e avaliação dos diferentes níveis de degradação ambiental para um período de 17 anos, a partir do uso de imagens de satélite, para toda a microrregião de catolé do rocha; Para dar suporte ao desenvolvimento desta etapa do trabalho foram utilizadas imagens orbitais multiespectrais do satélite TM/Landsat 5 órbita 215.065, bandas de 1 a 7, para duas datas distintas, 09 de maio de 1987 e 17 de dezembro de 2004. Esta multitemporalidade permite o estudo da evolução da ação antrópica e determinação qualitativa e quantitativa do processo de degradação da cobertura vegetal. Para a elaboração dos mapas temáticos foram utilizados o software SPRING 4.0 desenvolvido pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), cartas topográficas da SUDENE, tomadas como base cartográfica, mesa digitalizadora e softwares como mapinfo, AutoCAD e microstation, que auxiliaram no tratamento dos dados. Antes de iniciar a interpretação visual das imagens orbitais foi realizado o processamento digital destas através da manipulação do contraste das bandas 5, 4 e 3, seguindo-se com a composição multiespectral ajustada das bandas 3 + IVDN + banda 1, que consiste de uma transformação RGB onde no canhão vermelho está a banda 3, no verde a imagem IVDN e no azul a banda 1. Depois, foi realizada a segmentação (10x20) da imagem IVDN pelo método de crescimento de regiões, que corresponde a uma técnica de agrupamento de dados, na qual somente as regiões adjacentes, espacialmente, podem ser agrupadas. Assim, a imagem é dividida em um conjunto de sub-imagens e então é realizada a união entre elas, segundo um limiar de agregação definido. (Câmara 1996). A partir daí, segue-se com a classificação de padrões das imagens IVDN segmentada, utilizando-se o classificador Bhattacharrya. Neste método, as amostras foram as regiões formadas na segmentação de imagens e as imagens classificadas foram vetorizadas através da função mapeamento, permitindo fazer uma quantificação das diferentes classes de cobertura vegetal, solo e água para os municípios estudados, sendo mapeadas cinco classes de cobertura vegetal: vegetação densa, vegetação semi-densa, vegetação rala, vegetação rala + solo exposto, solo exposto, afloramento de rocha, água; A identificação das classes foi feita a partir da análise visual das tonalidades de cinza, na tela do computador. As tonalidades de cinza médio a escuro foram consideradas como representativas da cobertura vegetal; as escuras como representativas de corpos d’água e as tonalidades de cinza médio a claro como representativas de vegetação rala a solo exposto, conforme os padrões de reposta espectral dos alvos As imagens classificadas foram então transformadas em matriz, através da função Mapeamento, o que permitiu fazer uma quantificação das diferentes classes para os diversos mapas temáticos de cada município estudado. Essa imagem foi editada e foi feito o refinamento da classificação para eliminar a confusão de borda entre as imagens para homogeneização dos temas e para minimizar os erros de omissão (áreas que não foram classificadas como pertencente a nenhuma das classes) e de comissão (uma determinada classe é classificada como outra classe). A quantificação das áreas em km2 estará sendo considerada relativa, embora a soma de seus valores corresponda ao total da área territorial dos municípios (MORAIS NETO, 2003). RESULTADOS E DISCUSSÃO De acordo com o estudo realizado a partir do uso de imagens de satélite para identificação das classes de cobertura vegetal e respectivas áreas, entre os anos de 1987 e 2004 (Figuras 1A e 1B), da visita de reconhecimento das características ambientais da área de estudo e depoimentos de moradores locais, pôde-se observar uma modificação da paisagem ao longo dos anos.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 256 Figura 1A. Cobertura vegetal dos municípios de Serra Branca e Coxixola – 1987 Figura 1B. Cobertura vegetal dos municípios de Serra Branca e Coxixola – 2004 Nos municípios de Serra Branca e Coxixola há predominância da vegetação de caatinga de porte arbóreo baixo ou arbóreo arbustivo, cuja densidade varia de muito rala a semi-densa e densa, mostrando-se mais conservada em pequenas áreas de serras, onde pode-se observar uma densidade mais alta da vegetação e alguns exemplares arbóreos. Entretanto, em sua maioria, constatou-se uma
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 257 vegetação que vem sofrendo com a ação devastadora do homem e que tenta se adaptar a nova realidade ambiental que lhe é imposta. Tem-se, com freqüência, uma vegetação raquítica (Figura 2A) em meio a uma paisagem caracterizada por solos expostos e erodidos (Figura 2B). (B) 7º31’35,7” S e 36º39’31,7”W (A) 7º31’35,7” S e 36º39’31,7”W Figura 2. Vegetação raquítica (A) e aspecto geral da vegetação (B) no município de Coxixola Nos ecossistemas não atingidos pela ação antrópica, ainda existe um equilíbrio dinâmico entre a fauna e a flora, além de um teor substancial de matéria orgânica e gramíneas no solo. Entretanto, o homem continua utilizando práticas agrícolas inadequadas e ineficientes, como o desmatamento predatório para a exploração de novas áreas agrícolas, bem como o uso da caatinga com pecuária extensiva ou mesmo a exploração vegetal para a produção de carvão, lenha, estacas e construção civil. A análise da evolução da cobertura vegetal tem uma direta implicação na qualidade dos solos e uma dependência na pressão da atividade antrópica sobre este meio. Atividades humanas que resultam em áreas de solo exposto, culturas anuais e pastagens, possuem um alto valor de vulnerabilidade nos processos de perda de solo, devido à baixa cobertura do solo e ao constante preparo para a agricultura. As classes abrangidas nesse estudo e seus valores de ocorrência nos municípios são verificados na Tabela 1 Os valores apresentados refletem a dinâmica da cobertura vegetal desde 1987 até o ano de 2004. Tem-se que, para o intervalo de tempo de 17 anos, ocorreu um aumento da exploração da cobertura vegetal, observando-se uma transformação da paisagem. Áreas de cobertura vegetal rala passaram a se enquadrar em áreas de vegetação rala mais aberta (Figura 3A) associada a várias manchas de solo exposto (Figura 3B), ocorrendo uma diminuição de 14,19% da área de vegetação rala e aumento de 14,45% das áreas de vegetação rala+solos-expostos, quando comparado os anos acima citados. As áreas de vegetação semi-densa e de vegetação rala, que em sua maioria representam as áreas de Caatinga em recuperação e cultivo agricultura, tiveram um decréscimo, justificado pelo aumento na classe de vegetação rala + solo exposto e vegetação rala. Esse acréscimo nas classes mais críticas configura a realidade da pecuária extensiva sem manejo adequado, à criação pecuária da região, aonde os caprinos e ovinos vem devastando tudo ao longo dos anos, e a vegetação, quando presente, se caracterizam por diferentes graus de raquitismo em seu desenvolvimento. Esse aumento da degradação termina por ser confirmada no acréscimo das áreas de solo exposto, demonstrando mais uma vez o aumento das vulnerabilidades dessas áreas e criando uma alerta: se não houver uma mudança na configuração dessa realidade em que vive essa população local, a sustentabilidade futura da área está seriamente comprometida. O solo, então desprovido de sua proteção natural, reflete um aumento do risco a erosão (Figura 4 A e B) nesta região. Este processo indica a expansão das áreas de degradação grave a muito grave e reflete a importância em intervir neste processo acelerado de devastação da caatinga, de modo a conter o uso irracional desse recurso natural.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 258 Um dado que poderia ser considerado positivo no processo de recuperação da caatinga, seria o pequeno acréscimo, na ordem de 0,43%, da vegetação densa, quando comparamos os dados de 1987 e 2004. Entretanto, ao confrontar os mapas de cobertura vegetal, constatou-se que ocorreu uma dissipação da vegetação densa, que antes se convergia a noroeste e leste da área. Agora é representado nas porções mais elevadas do terreno e de reflorestamento de algaroba, confirmadas durante as visitas de reconhecimento de campo, vegetação essa muitas vezes situadas nos aluviões (Figura 5), o que passa a ser um fator agravante no processo de desertificação. Nas imagens de satélite, áreas com reflorestamento de algaroba possuem resposta espectral similar a de vegetação densa, levando à classificação como matas ciliares, que protegem os corpos d'água ao longo de sua extensão. Entretanto, essa planta exótica degrada cada vez mais o solo. Sendo uma planta alopática, compromete o sistema hídrico, com raízes profundas, que rompem quaisquer obstáculos em busca de água, com uma característica fisiológica que apresenta elevada necessidade hídrica, impedindo o desenvolvimento de qualquer outro tipo de vegetação no seu perímetro, e assim, minimizando a capacidade de auto-recuperação da vegetação nativa. Tabela 1. Distribuição das classes de cobertura vegetal nos municípios de Serra Branca e Coxixola CLASSES DE COBERTURA VEGETAL ÁREA (km2) Variação TIPO DE VEGETAÇÃO (%) 1987 % 2004 % Vegetação Densa 128,53 14,97 132,18 15,39 0,43 Vegetação Semi-densa 178,36 20,77 154,84 18,03 -2,74 Vegetação Rala 414,32 48,25 292,48 34,06 -14,19 Vegetação Rala + Solo Exposto 106,97 12,46 231,03 26,91 14,45 Solo Exposto 22,41 2,61 43,15 5,02 2,42 Afloramento de Rocha 0,81 0,09 0,83 0,10 0,00 Água* 7,25 0,84 4,15 0,48 -0,36 Área Total das Classes 858,65 100,00 858,65 100,00 * A água não corresponde a uma classe de cobertura vegetal, porém, foi considerada nos cálculos para obter uma melhor configuração da área total em estudo.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 259 (B) 7º36’50,3” S e 36º39’20,7”W (A) 7º31’35,7” S e 36º39’31,7”W Figura 3. Áreas de vegetação rala (A) associada a várias manchas de solo exposto (B) em Coxixola (A) 7º28’11,37” S e 36º37’29,6”W (B) 7º28’36,68” S e 36º38’7,54”W Figura 4. Formação de sulcos e voçorocas (A) e testemunho de erosão laminar (B) em Serra Branca 7º38’16,91” S e 36º45’36,23”W Figura 5. Área de aluvião com plantio de algaroba no município de Serra Branca CONCLUSÕES Foi constatado um aumento degradação da cobertura vegetal durante o período de 1987 a 2004. As áreas de cobertura vegetal rala passam a se enquadrar em áreas de vegetação rala mais aberta associada a várias manchas de solo exposto. Os solos desprovidos de sua proteção natural refletem um aumento do risco a erosão nos municípios de Serra branca e Coxixola.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 260 O processo indica a expansão das áreas de degradação grave a muito grave e reflete a importância de conter o uso irracional das terras. A ocupação das terras próximas aos sistemas de drenagem nos municípios de Serra Branca e Coxixola, bem como o uso intensivo nas áreas de várzea coloca os recursos hídricos da região numa situação de risco de contaminação em virtude de práticas agrícolas degradantes. A mesma prática de ocupação ribeirinha vem ocasionando diminuição da disponibilidade hídrica nos aluviões em virtude das constantes requisições de água feitas nestas áreas quer seja para consumo humano, como para irrigação das lavouras. LITERATURA CITADA CÂMARA, G.; MEDEIROS, J. S. Geoprocessamento para projetos ambientais. São José dos Campos: INPE, 1996. MENESES, P. R.; NETTO, J. S. M. Sensoriamento Remoto: Reflectância dos alvos naturais. Brasília, DF: UnB; Planaltina: Embrapa Cerrados. 2001. MORAES NETO, J. M. Gestão de riscos a desastres ENOS (EL NINÕ OSCILAÇÃO SUL) no semi-árido paraibano: uma análise comparativa. Campina Grande: UFCG, 2003. 175 p. Tese de Doutorado MOREIRA, M. A. Fundamentos do sensoriamento remoto e metodologias de aplicação. 2.ed. – Viçosa: UFV, 2003. UNITED NATIONS. Text of the United Nations Convention to Combat Desertification. Disponível em <www.unccd.int/convention/text/convention. php>. Acesso em 25 Set. 2001. VENEZIANI, P.; ANJOS, C. E. Metodologia de interpretação de dados de sensoriamento remoto e aplicações em geologia. INPE-2227-MD/014, 1982.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 261 CATADORES DE MATERIAS RECICLÁVEIS DO LIXÃO DE IRECÊ- BA: EDUCAÇÃO– E PERSPECTIVAS DE QUALIDADE DE VIDA Stelina Moreira de Vasconcelos Neta Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus XVI e membro do Núcleo de Meio Ambiente - NUMA. Cláudio Roberto Meira de Oliveira Professor Doutor da UNEB, Campus XVI e IFBaiano, Campus Guanambi. Membro do Núcleo de Meio Ambiente- NUMA. Darcy Ribeiro de Castro Professor Especialista da UNEB, Campus XVI. Membro do Núcleo de Meio Ambiente - NUMA. Arilma Oliveira do Carmo Tavares Professora Mestre da FTC- Salvador e SENAI-CETIND. Membro do Núcleo de Meio Ambiente - NUMA RESUMO A cidade de Irecê, localizada no Centro Oeste Baiano, possui uma população de 66.061 habitantes e apresenta diversos problemas socioambientais em virtude da produção e destinação final dos resíduos, os quais são dispostos em um lixão. O objetivo desse trabalho foi pesquisar a situação dos catadores de materiais recicláveis do lixão de Irecê, diagnosticando suas condições de vida, trabalho e escolaridade. A pesquisa foi desenvolvida entre os meses de outubro de 2009 a março de 2010, através de entrevistas com 22 dos 30 catadores cadastrados pela Prefeitura. Os catadores entrevistados estão expostos diariamente às condições insalubres de trabalho provenientes de um lixão. A baixa escolaridade foi um dos fatores considerado pelos catadores como impeditivo para a obtenção de um emprego no mercado competitivo. Diante dessa investigação, constatou-se, dentre outros, a necessidade de estimular os catadores através de políticas públicas voltadas para a educação, melhoria das condições de trabalho e de vida para que possam desempenhar suas atividades dignamente. PALAVRAS-CHAVE: Catadores de materiais recicláveis, Educação e Resíduos Sólidos. ABSTRACT The City of Irecê, located in the Midwest region of Bahia, has a population of 66,061 inhabitants, and presents several problems due to socio-environmental production and disposal of waste, which are disposed in a landfill. The aim of this study was to investigate the situation for collectors of recyclable materials from the landfill Irecê, diagnosing their conditions of life, work and schooling. The research was carried out between October 2009 and March 2010, through interviews with 22 of the 30 registered by the city of scavengers. The garbage pickers are exposed daily to the unhealthy conditions of work from a landfill. Low education was one of the factors considered by collectors as a hindrance to obtaining employment in the competitive market. Given this research, it was found, among others, the need to encourage the collectors through public policies for education, improvement of working conditions and living so that they can perform their activities with dignity. KEYWORDS: Collectors of recyclable materials, Education and Solid Waste. INTRODUÇÃO A geração dos resíduos é oriunda de diversas atividades exercidas pelos seres humanos, que ao longo dos séculos vem consumindo mais, tendo sua gênese na Revolução Industrial e, com o consumo acelerado a natureza não consegue absorver e o lixo vai se acumulando. Com o avanço tecnológico observado nos últimos anos, diversas conquistas foram observadas no campo das ciências por outro lado, o avanço tecnológico contribuiu para o aumento na diversidade de produtos que trazem em sua composição componentes e materiais de difícil degradação e maior toxidade ao ambiente (BRASIL, 2001).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 262 A produção de resíduos nas cidades é um fenômeno inevitável que ocorre diariamente estando a quantidade produzida relacionada com o seu nível de desenvolvimento econômico, com sua população e seus diferentes estratos sociais (D’ ALMEIDA, 2000). Nos últimos anos o planeta tem vivenciado diversas crises e desequilíbrios ambientais provenientes do padrão de produção e consumo da sociedade. Com a ocorrência destas crises, a espécie humana sofre com as reações da natureza, podendo ser estas manifestadas em diferentes tipos de catástrofes. Nesse contexto, OLIVEIRA, MAGNA & SIMM (2007) corroboram essa idéia ao afirmarem que os problemas ambientais começaram a surgir da exploração da natureza, acrescentando que a geração de resíduos que não tratados adequadamente, passaram a agredir o meio ambiente e estão fazendo parte desse cenário. A gestão de resíduos é um dos pontos críticos da contemporaneidade, que exige atenção, pois, além de causar impactos negativos como a contaminação do solo, das águas subterrâneas, atmosfera, ainda provoca diversas doenças de pele, verminoses, entre outras que afetam a saúde da população em geral e das pessoas que tem contato ou trabalham na catação desses materiais. Outro aspecto negativo é que, segundo BRASIL (2008) apenas 5,9% das cidades brasileiras tem o sistema de coleta seletiva. No Brasil, observa-se que o gerenciamento dos resíduos sólidos é deficiente, pois 65% dos municípios dispõem os resíduos em lixões (IBGE, 2000). Esse contexto reforça a necessidade de instituir políticas públicas e legislações para a preservação do meio ambiente e da saúde pública através da criação de aterros sanitários e desativação dos lixões. Ainda no Brasil outro aspecto que tem chamado a atenção é o aumento acelerado na qualificação dos trabalhadores, fato que tem levado muitas pessoas a se tornarem catadores de materiais recicláveis como uma forma de garantir a sobrevivência e uma alternativa de trabalho (MAGALHÃES et al., 2004). No entanto, os catadores de materiais recicláveis em sua maioria realizam as suas atividades nos lixões estando expostas a um ambiente insalubre. Na última década, os catadores de materiais recicláveis conquistaram diversos direitos, entre eles, mais precisamente no ano de 2001, com a criação do MNCNR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis) que, em 2002 conseguiu agregar na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações), a profissão de catador, que incluí como função catar, selecionar e vender materiais recicláveis como papel, papelão, vidro e materiais ferrosos e reaproveitáveis (GONÇALVES, 2004). Estima-se que o número de catadores varia entre 300 mil e 1 milhão de pessoas no Brasil (BRASIL, 2009). Segundo MNCMR (2010) de cada 1000 indivíduos 01 é catador, fato que contribui para que o país esteja entre os 10 maiores do mundo em reciclagem. No Lixão de Irecê são encontradas 30 pessoas trabalhando na catação de materiais recicláveis. Os movimentos sociais de classe no contexto nacional têm permitido aos catadores, diversas vitórias, como a criação de cooperativas e associações, mas esse fato ainda está distante da realidade de Irecê. Isso ocorre devido a não organização dos catadores que desenvolvem suas atividades de forma individualizada, dificultando a negociação dos produtos para outras empresas e, assim, permanecem dependentes dos atravessadores. OBJETIVO Diagnosticar as condições de vida, escolaridade e ambiente trabalho dos catadores de materiais recicláveis do lixão de Irecê - Bahia. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DA ÁREA DE ESTUDO A cidade de Irecê está localizada no centro oeste baiano, a uma distância de 478 km da capital do estado, a cidade de Salvador, e possuí uma área aproximada de 314 km2 e possui as seguintes coordenadas geográficas 11º 18’ e 38,5” S e 41º 53’ e 21,1” W. O lixão de Irecê no ano de 1997 foi transferido da BA-052, a rodovia estadual conhecida como a estrada do feijão, para as proximidades do bairro Loteamento Félix, na divisa da cidade com o povoado do Umbuzeiro. Esse lixão possui uma área de 17 ha, e está a uma distância de 5 km do
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 263 centro da cidade. A prefeitura municipal, através da Secretaria de Infraestrutura autoriza o trabalho de 30 catadores de materiais recicláveis nesse local. No entanto, no período em que foi feita a pesquisa foram encontrados 22 deles laborando regularmente na área estudada. Nesta área observa-se a proliferação de vetores transmissores de doenças, a poluição do solo através dos resíduos que são dispostos inadequadamente, bem como, os possíveis riscos de contaminação do lençol freático ocasionado pela infiltração do chorume, proveniente da decomposição do lixo depositado naquela área. Assim, a população que mora nas imediações do lixão sofre com o odor provocado pela decomposição e queima dos resíduos. Mesmo possuindo características peculiares de um ambiente insalubre e desagradável, diversas pessoas disputam uma vaga para trabalhar nesse local e se inscreverem em uma lista de reserva, a qual constava 40 nomes que aguardavam uma desistência para poder desempenhar suas atividades e garantir a sua sobrevivência através da catação de materiais recicláveis. METODOLOGIA Para conhecimento e estudo do ambiente de trabalho e da situação a que estão expostos os catadores a pesquisa foi dividida em cinco etapas. A primeira constou de uma pesquisa bibliográfica sobre os seguintes temas: impactos ambientais, lixão, catadores de materiais recicláveis, classificação de resíduos, leis e regulamentações existentes. Na segunda etapa foram elaboradas as perguntas para as entrevistas com os catadores e posteriormente, a aplicação das mesmas. O questionário abordou questões relacionadas com a atividade desenvolvida e, temas referentes à escolaridade, situação econômica e social. Na terceira e quarta fases da pesquisa, foram realizados os registros fotográficos da área e também dos indivíduos que trabalham nesse local, bem como a observação participante, em que a pesquisadora esteve presente acompanhando o desenvolver das atividades dos pesquisados, investigando seu dia-a-dia na área estudada. A última etapa da pesquisa aconteceu com a assinatura dos catadores de um termo autorizando a divulgação dos dados e fotografias para eventos e reuniões científicas. A pesquisa teve duração de quatro meses com visitas periódicas ao lixão no período compreendido entre outubro de 2009 a março de 2010. RESULTADOS E DISCUSSÕES No lixão de Irecê existe um cadastro que possibilita a atuação de somente 30 catadores para exercerem a atividade como catadores. No entanto, nos meses em que a pesquisa fora realizada, apenas 22 estavam indo regularmente e desses 21 aceitaram participar da entrevista e 01 recusou. São cadastradas três empresas para fazer a comercialização dos produtos coletados no “lixão de Irecê”, entretanto, apenas uma o faz. Os catadores desempenham sua atividade de forma independente, não fazem parte de nenhuma cooperativa ou associação. Dessa forma, a remuneração é definida pela quantidade de resíduos coletados e vendidos aos intermediários, que repassam para outras cidades do nordeste onde serão reciclados. No decorrer das visitas foram observadas as negociações, bem como, o descaso e a exploração dos catadores. Muitas vezes os catadores ficavam esperando o comprador e o mesmo não aparecia, outras vezes ia avisá-los que não iria comprar, deixando-os desesperados, pois dependem dessa renda para a sobrevivência de sua família. Em relação à venda dos materiais coletados, o comprador é quem determina os preços e no decorrer das semanas faz alterações alegando mudanças no mercado externo e, além disso, não dispõe de nenhuma tabela de preços para que os catadores estejam cientes dos valores que recebem por cada material. Acompanhando algumas negociações, foi constatado que os preços dos recicláveis praticados no lixão de Irecê são inferiores aos praticados em Salvador e Recife (Tabela 01).
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 264 Tabela 01: Preço dos recicláveis praticados no Lixão de Irecê (kg). Resíduo Irecê (R$) Salvador (1) (R$) Recife(1) (R$) Garrafa PET 0,20 0,70 1,0 Papel branco 0,05 0,35 0,32 Latas de Aço 0,15 ---- 0,22 Papelão 0,10 0,20 0,28 Alumínio 1,50 3,00 2,2 (1) Fonte: CEMPRE (2009). Observou-se ainda que os preços praticados pelos atravessadores em Irecê são 50% mais baixos do que os praticados em Recife para garrafa PET e 100% abaixo dos praticados em Salvador para o alumínio (Tabela 1). Em termos de rendimentos mensais, a renda média obtida pelos catadores no período que os questionários foram aplicados foi a seguinte: 75% conseguiram um ganho variável entre R$ 101 e 200,00 com os materiais recolhidos; 25% alcançaram uma renda entre R$ 201 e 300,00. Para conseguir tal remuneração, a jornada de trabalho é variável. Assim, 20% deles trabalham até 4 horas diárias; 30% têm atividade laborativa de 6 horas diárias; 45% ficam nesse espaço entre 7 e 8 horas e 5% permanecem nesse local mais de 8 horas diariamente. A baixa escolaridade é considerada como um dos fatores que pode ter levado esses cidadãos a trabalhar nesse local, estando diretamente relacionada com a falta de opção, pois com o mercado de trabalho cada vez mais competitivo, a exigência pela qualificação do profissional e a ausência da mesma nos pesquisados é um dos fatores determinantes para que esses indivíduos se submetam a atividades de baixa remuneração (RIBEIRO & SANTOS, 2000). Como encontrado na pesquisa, 42,8% dos catadores do lixão de Irecê não sabem ler e nem escrever, o que dificulta questionar os valores que o atravessador paga para eles. É notável que muitos dos catadores tiveram sua vida escolar interrompida. Assim, 23,8% deixaram os estudos por causa do trabalho; 23,8% foi devido à falta de condições da família em arcar com as despesas e 52,4% relataram que a deixaram por diversos motivos entre eles por falta de incentivo familiar. Quando questionados sobre conhecer algum programa de alfabetização de adultos 85,8% dizem nunca ter ouvido falar sobre essa modalidade de ensino e apenas 14,2% julgam saber da existência dessa opção. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) (IBGE, 2005) apontou que 31,5% da população brasileira apresentou entre quatro e sete anos de estudo. No que se refere aos catadores, a média de estudo foi de dois anos e oito meses, sendo quase todos considerados analfabetos ou analfabetos funcionais, pois apresentam escolaridade menor que quatro anos de estudo (IBGE, 2000). Estes dados não diferem dos encontrados em Irecê onde apenas 23,8% afirmam que sabem ler e escrever, 19% dos entrevistados revelou assinar o nome apenas e 14,2% afirmam que “sabem um pouco”, o que é insuficiente para lê os rótulos dos resíduos. A população pesquisada é composta por indivíduos com idades que variam de 18 a 62 anos, sendo 14,2% deles com a idade compreendida de 18 a 25 anos; 19% com idade entre 26 a 35 anos, a mesma porcentagem refere-se aos catadores com idade de 36 a 40 anos; 23,8% possuem entre 41 e 50 anos e apenas 4,8% deles tem mais de 60 anos. Em relação a vontade de voltar a estuda, 52,4% demonstram que tem desejo de ampliar o seu conhecimento e melhorar a leitura e escrita enquanto 42,8% não apresentam o anseio de aprender, pois acreditam que não existe mais tempo para isso, estão desmotivados e com a auto- estima baixa e 4,8% admitiram que às vezes tem essa pretensão, mas, são descrentes que tenha condições de instruir-se. Dos catadores entrevistados, 38,1% já buscou outro tipo de atividade e profissão, mas, não obteve êxito e 61,9% revelou que não procurou outra oportunidade de emprego até mesmo por não ter conseguido antes de se tornar catador, acreditando que se não alcançou sucesso antes, não teria motivos para novas tentativas.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 265 Dados do IBGE (2000) indicam que quanto menor a escolaridade, maior a quantidade de filhos, fato observado entre os catadores do lixão, assim: 9,5% deles têm acima de oito filhos; 4,8% cinco, 28,6% quatro, 19% tem três, 9,6% tem dois, 23,8% tem um e apenas 4,8% afirmou não ter nenhum herdeiro. A profissão de catador de material reciclável existe desde meados de 1950 e ainda na contemporaneidade esse individuo é visto como um sujeito excluído socialmente (MNCMR, 2010), por esse motivo 81% dos catadores do lixão de Irecê sonham em mudar de profissão, 14,2% afirmam que gostam de trabalhar nesse espaço e que não pensam em sair e 4,8% dizem que às vezes refletem sobre essa possibilidade. Evidenciando que não estão satisfeitos com a sua situação atual, ao mesmo tempo em que não encontram novas opções para mudar de vida ou melhores condições de trabalho. No decorrer da pesquisa foi observado que 71,4% dos catadores do lixão de Irecê são afro- descendentes e 28,6% tem a cor da pele parda, revelando a inexistência de catadores com a cor da pele branca (segundo critérios próprios de avaliação). Dos catadores entrevistados, 38,1% fuma e bebe enquanto 61,9% informaram que não o fazem; dos que apresentam algum vício, o cigarro é o mais comum. Ao se entregaram a algum tipo de vício busca-se esquecer dos problemas e camufla o desânimo e a descrença na perspectiva de uma melhor qualidade de vida. CONSIDERAÇÕES FINAIS A profissão de catador, ainda discriminada pela sociedade, faz-se necessária uma vez que esses agentes ambientais retiram do ambiente materiais que poderão levar dezenas de anos para se decompor e contribuírem para a redução da exploração dos recursos naturais que servem de matéria-prima para o setor produtivo. O diagnóstico realizado com os catadores do lixão de Irecê evidenciou que eles não reconhecem a sua importância para a preservação do meio ambiente, possuem baixa escolaridade e desestímulo em relação à possibilidade de voltar à estudar, bem como, de melhorar a sua qualidade de vida. A cidade de Irecê não possui programas que busquem melhorar a qualidade de vida desses catadores através da instituição de políticas públicas que favoreçam a classe. Por outro lado, um aterro sanitário compartilhado está sendo viabilizado através da implantação de um consórcio com o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia. O referido aterro pode ser compreendido como uma ação positiva para os catadores caso eles sejam inseridos na gestão integrada dos resíduos sólidos da cidade. Outras ações que podem melhorar as condições de vida dos catadores são: a coleta seletiva, a padronização de uma tabela de preços dos materiais recicláveis e uma política de educação. A ação da coleta seletiva na sociedade possibilitaria aos catadores um processo de catação mais eficaz, com menor exposição a riscos de contaminação e também maior aproveitamento dos resíduos e assim maior renda. A padronização de uma tabela de preço dos materiais recicláveis contribuiria para que eles não fossem prejudicados por atravessadores. Por fim, uma política voltada para a formação escolar e capacitação dos catadores ofereceria para que eles se tornassem independentes para se organizarem através de associações ou cooperativas. Percebe-se que a baixa estima interfere no desejo de voltar a estudar por não acreditarem na possibilidade e na capacidade de aprender e, diante desses fatores, as perspectivas de mudança na qualidade de vida não são percebidas. Diante disso, é necessário que esses trabalhadores sejam contemplados pelas políticas públicas, pois os catadores são atores sociais importantes que contribuem para a preservação ambiental estimulando a prática da reutilização e reciclagem dos resíduos sólidos. AGRADECIMENTOS Agradecemos a Sérgio Luís Varela da Silva que auxiliou no translado até a área de estudo e no registro fotográfico. Aos catadores do lixão de Irecê que gentilmente aceitaram participar da
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 266 pesquisa, ao senhor Genivaldo Pereira Moura funcionário do lixão que permitiu o acesso e facilitou o contato com os catadores e a Delian Mendes de Souza e Rita de Cássia Machado Araújo do SEBRAE - BA que disponibilizaram materiais para pesquisa e a Amanda da Silva Cascaes que ajudou na tabulação dos dados. REFERÊNCIAS AJUDABRASIL. Reciclagem. Disponível em: <http://www.ajudabrasil.org/6.567.html#03>. Acesso em: 01 abr 2010. BRASIL, Ministério da Saúde Secretaria Executiva Projeto REFORSUS. Gerenciamento de Resíduos de Serviço de Saúde. Brasília – DF, 2001. BRASIL, Ministérios do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Parceria entre Governo Federal e Catadores de Papel visa Gerar Trabalho e Renda. 2009. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/noticias/parceria-entre-governo-federal-e-catadores-de-papel-visa-gerar- trabalho-e-renda-1> Acesso em: 31 mar 2010. CEMPRE – Compromisso Empresarial para Reciclagem. Preço dos materiais recicláveis (2009). Disponível em: <http://www.cempre.org.br> Acesso em: 20 mar. 2010. D’ ALMEIDA, M. L., VILHENA, A. Lixo Municipal: Manual de Gerenciamento Integrado. São Paulo: IPT/ CEMPRE, 2000. GONÇALVES, R. de S. Catadores de Materiais Recicláveis: trajetórias de vida, trabalho e saúde. Rio de Janeiro, FIOCRUZ/ENSP, 2004. IBGE. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico - PNSB/2000. Rio de Janeiro: IBGE/DPE, 2002. CD-Rom. IBGE. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (2000). Censo Demográfico, 2000. <http://www.mds.gov.br/noticias/parceria-entre-governo-federal-e-catadores- de-papel-visa-gerar-trabalho-e-renda-1>. Acesso em: 01 de abr. 2010. IBGE. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (2000). Cidades 2000, Censo 2000, Brasil em Síntese, Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, 2000, Síntese de Indicadores Sociais 2000, 2003 e 2004. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2004-2005. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 17 fev. 2007. RIBEIRO, A. C. M.; SANTOS, V. F. Criança no Lixo, Nunca Mais. Relatório Social – Morro do Céu. Jornal do Meio Ambiente, Niterói, Jul. 2000. Disponível em: <http://www.jornaldomeioambiente.com.br> Acesso em: 15 dez. 2006. MAGALHÃES, M. A.; MAGALHÃES, A. B. S.; MATOS, A. T. Levantamento e Diagnóstico das Condições Socioeconômicas e Culturais dos Catadores de Lixo e do Mercado de Recicláveis no Município de Viçosa, MG. In: Congresso Mundial de Educação Ambiental, 2. 2004, Rio de Janeiro. Anais. Rio de Janeiro, 2004. MNCR - Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis. (2009) Disponível em: <http://www.movimentodoscatadores.org.br> Acesso em: 20 de fev. de 2010. OLIVEIRA, T. M. N. de; MAGNA, D. J.; SIMM, M. Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos o Desafio do Novo Milênio. Revista Saúde e Ambiente (Health and Environment Journal). Volume 8. Nº 1, Jun. 2007. Univille – Universidade de Joinvile, 2007. RIBEIRO, A. C. M.; SANTOS, V. F. Criança no Lixo, Nunca Mais. Relatório Social – Morro do Céu. Jornal do Meio Ambiente, Niterói, Jul. 2000. Disponível em: <http://www.jornaldomeioambiente.com.br> Acesso em: 15 dez. 2006.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 267 CONCEPÇÃO DOS MORADORES DO BAIRRO DA ILHA DE SANTA LUZIA NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ – RN, SOBRE PROCESSOS EROSIVOS Emanoella Delfino Figueirêdo REINALDO Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN Graduando do Curso Bacharelado em Gestão Ambiental manu_delfino@hotmail.com Maria Clara Torquato SALLES Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN Graduando do Curso Bacharelado em Gestão Ambiental mariaclaratorquato@hotmail.com Zildenice Matias GUEDES Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN Graduando do Curso Bacharelado em Gestão Ambiental zildenice@hotmail.com Jorge Luis de Oliveira PINTO FILHO Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN Bel. em Gestão Ambiental, Professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN jorgefilho-uern@bol.com.br RESUMO Este artigo aborda um estudo de caso realizado no bairro da Ilha de Santa Luzia localizado no Município de Mossoró – RN. Através do mesmo objetivou-se realizar um levantamento sobre os problemas ambientais enfrentadas pelos moradores do bairro da Ilha de Santa Luzia, enfatizado os processos erosivos. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica, aplicação de questionários com os moradores do bairro com a finalidade de avaliar o nível de conscientização e conhecimento dos problemas ambientais do Bairro e análise documental a exemplo do diagnostico final de caracterização do município de Mossoró – RN. Através desse estudo pode-se observar inúmeros problemas ambientais, dentre eles: poluição do rio, enchentes e inundações em período de inverno, queimadas de resíduos pela própria população, surgimento de vetores devido a deposição do lixo domiciliar as margens do rio e esgotos clandestinos a céu aberto mesmo sendo o referido bairro saneado. Todavia em nenhum momento a população citou os processos erosivos como problemas enfrentados pelo bairro, desconhecendo então suas causas e conseqüências. Isso demonstra o não conhecimento das questões ambientais, por isso os moradores do bairro pouco participam e/ou contribuem para mudança de cenário. Tornando-se dessa forma um problema que deve mobilizar Poder Público, Sociedade Civil Organizada, Gestores, para que os impactos decorrentes da ação antrópica sejam mitigados e torne-se possível um bairro sustentável para todos. PALAVRAS-CHAVE: Ilha de Santa Luzia, Processos Erosivos, Problemas Ambientais. RESUMEM Este artículo se acerca a un estudio del caso ejecutado en el cuarto de la isla del santo de Luzia situada en la ciudad de Mossoró - RN. Con iguales objectified para llevar con un examen en los problemas ambiente hechos frente por los habitantes del cuarto de la isla del santo de Luzia, acentuada los procesos erosivos. La metodología usada era la investigación bibliográfica, uso de cuestionarios con los habitantes del cuarto con el propósito de evaluar el nivel del conocimiento y el conocimiento de los problemas ambiente del cuarto y del análisis documental el ejemplo de ella el final de la caracterización de la ciudad de Mossoró - RN de la diagnosis de I. Con este estudio puede ser problemas ambiente innumerables observados, entre ellos: contaminación del río, inundaciones y floodings en el período de invierno, incendios forestales de los residuos para la población apropiada, brote de los vectores debidos la deposición de la basura domiciliaria los bordes del río y alcantarillas clandestinas el cielo abierto exactamente que es el cuarto relacionado del saneado. No obstante en ninguÌ n momento la población citó los procesos erosivos como
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 268 problemas hechos frente para el cuarto, siendo inconsciente entonces de sus causas y consecuencias. Esto demuestra no el conocimiento de las preguntas ambiente, por lo tanto los habitantes del cuarto participan y/o contribuyen poco para el cambio de la escena. El pasar con esta forma un problema que debe movilizar para ser público capaz, sociedad civil organizada, manejando, para atenuar y lleguen a ser posibles los impactos decurrentes de la acción del antrópica un cuarto sostenible para todos. PALABRA-CLAVE: Isla erosiva del santo de Luzia, procesos, problemas ambiente. INTRODUÇÃO O crescimento das cidades de forma contínua e descontrolada, as queimadas, os desmatamentos dentre outras ações impactantes ao solo tem proporcionado de forma decisiva para o aceleramento dos processos erosivos. Dorst (1973, p. 181) defende que a erosão acelerada provoca, uma sensível diminuição das precipitações atmosféricas, acelerando os processos de desertificação. A erosão do solo trata-se da remoção das camadas superficiais do solo pelas ações do vento e da água, tendo inicio a partir das forças de arrasto, de impacto ou tração agindo em partículas individuais da superfície do solo (ARAUJO; ALMEIDA; GUERRA, 2007, p. 77). Estando o solo privado da sua cobertura vegetal a sua estrutura ficará modificada e suas propriedades físico-químicas capazes de garantir a retenção da água serão perdidas contribuindo para o aumento do escoamento, diminuindo a infiltração e contribuindo para o abaixamento do lençol de água subterrâneo. Resulta daí um dessecamento progressivo dos horizontes superiores, provocando um empobrecimento da vegetação (DORST, 1973, p. 180). Diante do contexto da erosão causada pelo escoamento superficial e intensificada pela ação antrópica, apresenta-se o bairro da Ilha de Santa Luzia no Município de Mossoró/RN. O mesmo situa-se entre dois braços do rio Apodi/Mossoró e enfrenta grandes problemas, sobretudo do ponto de vista ambiental e social. Nesta perspectiva esta pesquisa tem como objetivo principal realizar um levantamento sobre os problemas ambientais enfrentadas pelos moradores da comunidade da Ilha de Santa Luzia, enfatizado os processos erosivos. Tipos de Erosão A erosão é um processo que se constitui em duas fases: uma que ocorre com a remoção de partículas, e a outra que é o transporte desse material, efetuado pelos agentes erosivos. Não possuindo energia suficiente para dar continuidade ocorrendo o transporte, uma terceira fase sucede, que é a deposição desse material transportado (GUERRA; CUNHA, 2007, p. 165). Com base em Araujo; Almeida; Guerra (2007, p. 77) os dois tipos mais comuns de erosão são a pluvial e a eólica. A erosão pluvial tem inicio com as gotas de chuva, de modo que quando essas gotas colidem com o solo desnudo e sem cultivo podem desacomodar e mover as partículas de solo a uma distância surpreendente. Solos desnudos e expostos tornam-se propícios a ação da erosão, todavia quando cobertos pela vegetação a erosão pode ser evitada e/ou os processos erosivos podem ocorrer, porém de forma atenuada. Miller Jr. (2008) enfatiza que o solo está erodindo mais rapidamente do que está se formando em mais de um terço das terras cultiváveis. A erosão se desenvolve e evolui a partir da exposição dos solos, quase sempre provocada pelo desmatamento, ao impacto direto das chuvas, que promove a desagregação de suas partículas. A partir daí, segue alguns exemplos de erosão hídrica: Escoamento superficial - promove o arraste das partículas de solo liberadas e, pela ação da enxurrada, a desagregação e arraste de novas partículas. Erosão laminar - é produto do escoamento superficial difuso da água da chuva sobre os solos desprotegidos. A erosão se processa como uma lâmina agindo sobre toda a superfície agrícola, removendo as camadas mais superficiais e expostas dos solos.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 269 Erosão em sulcos ou ravinas - surgir, tanto como uma evolução da erosão laminar, quanto pelo revolvimento e exposição dos horizontes B e C dos solos, provocados por obras de engenharia, à ação do escoamento concentrado da água da chuva. Boçorocas (ou voçorocas) - trata-se da evolução da etapa anterior, quando, pela ação das águas pluviais, uma ravina se aprofunda até atingir o lençol freático, perenizando-a (NOFFS; GALLI; GONÇALVES, 2000, p.14). Ambiente Brasil (2010) destaca ainda a erosão provocada pelo vento, também chamada de erosão eólica, que consiste no transporte aéreo ou por rolamento das partículas erodidas do solo, sua importância é grande onde são comuns os ventos fortes. A vegetação surge com um papel importante na estabilidade do solo, pois a mesma ameniza o impacto das chuvas, regulariza e reduz o escoamento superficial e aumenta o tempo disponível para infiltração da água pelo subsolo. Desse modo a vegetação impede a ação direta das águas pluviais sobre o manto, reduzindo o impacto no solo, e a velocidade do escoamento superficial, contribuindo para evitar a instalação de processos de instabilidade (USINA CACAÚ, 2007, p. 03). 2. A ação antrópica causando e intensificando a destruição do Solo As atividades humanas vem acelerando de forma vertiginosa os processos erosivos. O crescimento urbano das cidades desordenado e mal planejado, o desmatamento e devastação da vegetação, rios desprovidos de matas ciliares, o uso de técnicas inadequadas em solos aráveis, dentre outros inúmeros fatores contribuem para o aumento da erosão do solo. Segundo Miller Jr. (2008) o solo se torna mais vulnerável à erosão por conta das atividades humanas, por exemplo, plantações, alagamentos, construções, pastagens excessivas, uso de veículos off-road e queimadas deliberadas da vegetação que destroem a cobertura das plantas. Guerra e Cunha (2007, p. 187) defendem que a erosão não causa problemas apenas nas áreas onde ocorre, podendo ocorrer em nível local como também em grandes áreas. Como exemplo os autores citam que: O material que é erodido de uma bacia hidrográfica pode causar assoreamento de rio e reservatórios. Além disso, as partículas transportadoras pela água, em uma área agrícola, podem estar impregnadas de defensivos agrícolas e contaminar as águas dos rios. O desmatamento e a erosão dos solos podem provocar o desaparecimento de mananciais, bem como acentuar os efeitos de inundações. Enfim, a erosão dos solos causa uma grande gama de impactos ambientais, desde a sua própria degradação, passando por problemas ambientais de uma forma geral (GUERRA; CUNHA, 2007, p. 187). Os riscos de erosão dependem tanto das condições naturais quanto dos modelos de uso da terra. O clima (especialmente a intensidade da chuva), as características das encostas, a cobertura vegetal e a natureza do solo também são importantes. Com respeito ao uso da terra, qualquer atividade humana que exija a remoção da cobertura vegetal protetora (florestas, arbustos, forragens etc.) promove erosão, o mesmo ocorre com medidas impróprias como arar o solo (ARAUJO; ALMEIDA; GUERRA, 2007, p. 24). Conforme Pedro; Lorandi (2004, p. 29) as feições erosivas, decorrentes da má gestão do uso do solo e da falta de planejamento urbano, provocam impactos ambientais negativos devido a produção de sedimentos que vão assorear os cursos d’água induzindo à ocorrência de enchente e inundações, em períodos chuvosos. Comumente, a ocupação da área periurbana é desordenada gerando pontos de desestabilização de encostas pela ausência de técnicas adequadas para a implantação de moradias, como exemplo, a falta de sistema de drenagem, que aumenta o problema da erosão dos solos. O crescimento da ocupação desordenada potencializa esse problema e pode vir a acarretar problemas futuros como o aparecimento de trincas nas paredes das casas, surgimento de minas d’água e vazamento de fossas sanitárias, pondo as famílias em risco (PEDRO; LORANDI, 2004, p. 29). Carrijo; Baccaro (2000, p. 71) ressaltam que com a expansão da malha urbana e, portanto a necessidade cada vez maior de espaços habitáveis, torna-se necessário a criação de uma legislação
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 270 ambiental mais rígida, de modo que desenvolvam estudos a fim de se fazer cumprir a legislação e ainda apontar medidas preventivas e de contenção apropriadas. A erosão acelerada, é o maior risco para a manutenção da fertilidade dos solos, a longo prazo. Ela além de reduzir a profundidade do solo pode, algumas vezes, remover o solo inteiro. (WILD, 1993 citado por GUERRA; CUNHA, 2007, p. 187). Para Miller Jr. (2008, p. 236) a erosão do solo possui dois grandes efeitos nocivos. O primeiro é a perda da fertilidade do solo pelo esgotamento dos nutrientes das plantas. Já o segundo ocorre quando o solo erodido acaba como sedimento em águas superficiais nas proximidades, podendo poluir a água, matar peixes e mariscos e obstruir valas de irrigação, canais para barcos, reservatórios e lagos. 3. MATERIAL E MÉTODOS 3.1 Classificação da Pesquisa De acordo com Gil (2006) a pesquisa foi de natureza exploratória tendo em vista que será realizado um levantamento bibliográfico e estudo de campo e classificada como qualitativa. A metodologia foi aplicada com a finalidade de avaliar o nível de conscientização e conhecimento dos problemas ambientais no Bairro de Ilha de Santa Luzia no Município de Mossoró-RN envolvendo diversos atores sociais desse Município localizados na área de estudo. 3.2 Estudo de Caso O estudo foi realizado no Bairro da Ilha de Santa Luzia estando localizado em uma ilha fluvial delimitada pelos braços do Rio Apodi/Mossoró, o que o caracteriza como área de preservação, no entanto, com ocupação já consolidada. É um bairro com características de uso que se divide em parte residencial e parte de comércio e serviços, os quais se concentram ao longo da Av. Presidente Dutra. A Avenida citada é a principal via do bairro e constitui-se como a extensão da zona comercial do centro da cidade. A grande maioria das vias é calçada e o padrão construtivo das edificações é médio alto e a infra-estrutura encontra-se consolidada, suficiente para ocupação e expansão. É uma região passível de controle da ocupação devido a suas características citadas anteriormente. 3.3 Procedimento da Pesquisa Os procedimentos metodológicos foram utilizados por meio de levantamento bibliográfico e coleta de dados em campo junto ao bairro da Ilha de Santa Luzia. 3.4 Levantamento Bibliográfico A fundamentação teórica do presente estudo foi realizada por meio de pesquisa em livros e artigos sobre a temática Processos Erosivos. 3.5 Obtenção dos Dados em Campo Os dados coletados foram obtidos através de observação in locu, registro fotográfico e aplicação de questionários com os moradores da comunidade Ilha de Santa Luzia. A pesquisa se fixou em uma amostragem não probabilística de 39 indivíduos dos atores sociais questionados. 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES Através do referido estudo de caso pode-se evidenciar que a população residente no bairro Ilha de Santa Luzia sofre inúmeros problemas ambientais, dentre eles: poluição do rio, enchentes e inundações em período de inverno, queimadas de resíduos pela própria população, surgimento de vetores devido a deposição do lixo domiciliar as margens do rio, esgotos clandestinos a céu aberto, mesmo sendo o referido bairro saneado. Mesmo a população sendo vítima dos transtornos causados pela enchente e demais problemas ambientais, percebeu-se através da aplicação dos questionários que não há percepção quanto a origem das causas e suas co-responsabilidades, nem tampouco a medidas mitigadoras. A figura abaixo retrata essa realidade, em que se verifica o índice considerado para os aspectos ambientais, de modo que a população em estudo demonstrou-se incomodada com outros aspectos como presença de vetores, tais como ratos, baratas, que estão relacionados com as questões ambientais, porém
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 271 Abastecimento de água Falta de coleta de lixo Violência Saúde Falta de esgoto sanitário Pavimentação Desemprego Desperdício de água Iluminação Publica Falta de escola Processos Erosivos Outros 23% 19% 2% 2% 3% 8% 13% 5% 5% 5% 8% 7% Figura 01 – Opinião dos moradores sobre os maiores problemas da Ilha de Santa Luzia; 2010. A respeito da pergunta “Você sabe o que é erosão, suas causas, consequências e formas de combate?” a maior parte dos entrevistados alegaram não ter conhecimento sobre a problemática em questão. Figura 02 – Resposta a pergunta “Você sabe o que é erosão, suas causas, consequências e formas de combate?” Das famílias residentes no bairro Ilha de Santa Luzia; 2010 2010. Apesar de haver a coleta de lixo três vezes na semana no bairro estudado, pode verificar pode-se que a população ainda deposita os seus resíduos à margem do rio (Figura 3) Contribuindo para a 3). proliferação de vetores transmissores de doenças. Esse fato pode ser atribuído a irregularidades no sistema de gerenciamento de resíduos sólidos, bem como o atendimento a todos os locais do bairro. Os moradores não apresentam consciência de que suas moradias estão localizadas em Áreas de Preservação Permanente (Figura 04), nem tampouco de interferirem na qualidade do meio , ambiente, ou ate mesmo do Rio Apodi/Mossoró. Sofrendo então as conseqüências das cheias e te, inundações em período de inverno, tendo que abandonar as suas casas.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 272 Figura 03 – Despejo de resíduos sólidos a margem do Rio Apodi/Mossoró – RN; 2010. Foto: Maria Clara Torquato. Figura 04 – Habitações irregulares as margens do Rio Apodi/Mossoró – RN; 2010. Foto: Maria Clara Torquato. Com relação aos processos erosivos, pode-se observar que o principal tipo de erosão encontrado no Bairro foi a hídrica caracterizadas pelo escoamento superficial e erosão laminar. Porém, evidenciou-se a falta de conhecimento dos moradores no tocante aos problemas ambientais provenientes dos processos erosivos. Apesar dos dados evidenciados apontarem descaso com as questões ambientais e problemas enfrentados no Bairro, a parcela da população questionada afirmou não causar danos ao meio ambiente no seu dia-a-dia.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 273 Figura 05 – Retirada da mata ciliar margens do Rio Apodi/Mossoró – RN; 2010. Foto: Maria Clara Torquato. Figura 06 – Resposta a pergunta “No seu dia a dia você considera que causa algum dano ao meio ambiente?” Das famílias residentes no bairro Ilha de Santa Luzia; 2010. Através da presente pesquisa pode se perceber que os moradores do bairro em estudo pode-se apresentam desconhecimento e, portanto, descaso para com os processos erosivos ocorrentes ao seu entorno. Mesmo que os mesmos reconheçam a falta de atuação do poder público, assumem a ausência de consciência dos seus vizinhos, sem tampouco assumirem sua contribuição para a minimização dos acentuados processos erosivos aos quais vivem submetidos. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os processos erosivos intensificados pela ação antrópica tem efeitos impactantes para o antrópica próprio homem e o meio ambiente. Tais efeitos têm sido vistos e sofridos de maneira acentuada pelos moradores do bairro em estudo. As áreas situadas no entorno do rio tem sido cada vez mais desprotegidas, acometidas de despejo inadequado dos resíduos sólidos e desmatamento da despejo vegetação nativa para fins domésticos. O que evidenciou se foi uma população desconhecedora das evidenciou-se questões ambientais, portanto pouco participativa para mudança de cenário.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 274 Sabe-se que solos desprotegidos tornam-se mais suscetíveis aos impactos negativos das chuvas, e o que foi claramente identificado na área em estudo foi que, mesmo a referida área tratando-se de uma APP não houve conscientização para com a população no que diz respeito a importância da mesma, e ainda a contribuição da própria população para uma cidade sustentável. Tampouco o Poder Público tem atuado para mudar esse cenário, pois não há fiscalização quanto às construções irregulares, poluição ao rio Apodi/Mossoró e quanto aos modelos de uso da terra identificados no bairro Ilha de Santa Luzia. Em épocas de intenso inverno os primeiros a sofrerem as conseqüências das chuvas de forma calamitosa é o bairro da Ilha de Santa Luzia, mas devido aos resíduos, supressão da vegetação, dentre outras conseqüências, outros bairros são acometidos dos danos ambientais. Sendo assim, os moradores da Ilha de Santa Luzia têm suas conseqüências sofridas por outros moradores de diversos bairros da cidade. Tornando-se dessa forma um problema que deve mobilizar Poder Público, Sociedade Civil Organizada e Gestores para que os impactos decorrentes da ação antrópica sejam mitigados e torne-se possível um bairro sustentável para todos. REFERÊNCIAS AMBIENTE BRASIL. Portal Ambiental. Erosão do Solo. Disponível em: <http://www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./agropecuario/index.html&conteudo=./a gropecuario/erosao.html> Acesso em: 29 de jan. de 2010. ARAUJO, Gustavo Henrique de Sousa; ALMEIDA, Josimar Ribeiro de; GUERRA, Antonio José Texeira. Gestão Ambiental de Áreas Degradadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. DORST, Jean. Antes que a Natureza Morra. São Paulo: Edgard Blucher, 1973. FRANCO, Fernando Silveira et al. Quantificação de erosão em sistemas agroflorestais e convencionais na Zona da Mata de Minas Gerais. Rev. Árvore. 2002, vol.26, n.6, pp. 751-760. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100- 67622002000600011&script=sci_arttext >. Acesso em: 01 fev. 2010. GUERRA, Antonio José Teixeira; CUNHA, Sandra Baptista da. Geomorfologia: uma atualização de bases e conceitos. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. IDEMA – INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E MEIO AMBIENTE DO RIO GRANDE DO NORTE, Diretoria Técnica Administrativa. Perfil do seu município: aspectos geoambientais. Relatório 2003. MILLER JR, G. Tyler. Ciência Ambiental. São Paulo: Cengage Learning, 2008. NOFFS, Paulo da Silva; GALLI, Luiz Fernando; GONÇALVS Jânio Carlos. RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADASDA MATA ATLANTICA: Uma experiência da CESP Companhia Energética de São Paulo. Disponível em: <http://www.semarh.pb.gov.br/comites/rbma/pdf/cad3.pdf>. Acesso em: 01 fev. 2010. Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRADE) - USINA CUCAÚ, 2007. Disponível em: <http://www.cepan.org.br/promata/docs/prade_cacau.pdf> Acesso em: 01 fev. 2010.
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 275 EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO PARQUE DOIS IRMÃOS, RECIFE- PERNAMBUCO Nilson da Rocha CORDEIRO Graduando em História pela UFPE; Graduando em Gestão Ambiental pelo IFPE nilson.cordeiro@ymail.com Anália Keila Rodrigues RIBEIRO Doutora em psicologia pela UFPE; Professora do IFPE no curso de Gestão Ambiental analiakeila@yahoo.com.br RESUMO Parques zoológicos são locais de recreação, mas também podem ser definidos como museus, uma vez que são instituições que se ocupam com a conservação, pesquisa e comunicação de elementos naturais. Neste contexto, eles são locais de grande potencial educativo, onde o animal é o tema gerador de assuntos ligados à preservação ambiental. Assim, a educação ambiental faz parte do contexto das atividades de um zoológico, não sendo este um local apenas para abrigar animais. Esta educação permite que haja um maior respeito aos animais e uma maior conscientização quanto à necessidade de preservação das espécies e de seus ambientes. Quando se fala em educação ambiental os diferentes atores adotam diferentes discursos sobre a mesma e propõem diversas maneiras de conceber e de praticar a ação educativa. Contudo, é predominante a ideia de uma educação ambiental voltada apenas para o ensino da ecologia, deixando as questões sociais e políticas fora do seu campo de reflexão. Nosso objetivo neste trabalho foi analisar o programa de educação ambiental desenvolvido no Parque Dois Irmãos na cidade de Recife, Pernambuco; entender sua orientação metodológica e medir a repercussão dessas práticas junto aos visitantes do parque. Pudemos perceber, em nosso estudo, que os funcionários e estagiários do parque, encontram-se bastante sensibilizados para a importância da educação ambiental. Os visitantes reconhecem o Parque Dois Irmãos como um espaço de grande potencial para atividades educacionais. Entretanto, é predominante a visão naturalista da educação ambiental, deixando as questões sociais e políticas fora do seu campo de reflexão. Desta forma, faz-se necessário um uma mudança na visão de educação ambiental que vem sendo desenvolvida. PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental. Parque Dois Irmãos. Zoológico ABSTRACT Zoos are places for recreation, but can also be defined as museums, since they are institutions with the conservation, research and communication of natural elements. In this context, they are places of great educational potential, where the animal is the theme generator of environmental preservation issues. Environmental education is part of the context of zoo activities, not only is this a place to house animals. This education allows greater respect for animals and a greater awareness on the need for preservation of species and their environment. When we talk about environmental education in the different actors take different speeches about the same and propose various ways of conceiving and practice educational action. Predominant however is the idea of environmental education focused only for teaching ecology, leaving the social and political issues outside its field of reflection. Our goal in this job was to analyse the environmental education program developed in Dois Irmãos Park in the city of Recife, Pernambuco; understand their methodological orientation and measure the impact of such practices with park visitors. We realize, in our study, which employees and trainees of the park, are quite aware of the importance of environmental education. Visitors recognize the Dois Irmãos Park as an area of great potential to educational activities. However, is predominant vision naturalist of environmental education, leaving the social and political issues outside its field of reflection. This way, a change is needed in the environmental education vision being developed. KEYWORDS: Environmental education. Dois Irmãos Park. Zoo
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    A Conferência daTerra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 276 INTRODUÇÃO Antes de as funções atuais dos zoológicos serem definidas, os mesmos já serviram como coleções em cativeiro de animais selvagens para usufruto dos homens e como forma de entretenimento da alta realeza (BARRELLA et al., 2000). Foi apenas a partir do século XX que passaram a desenvolver atividades e a terem funções voltadas para conservação da fauna regional e global. Wemmer (2006) considera como principais funções de um zoológico: lazer, educação, conservação e pesquisa. Para Primack & Rodrigues (2002), o principal objetivo da maioria dos grandes jardins zoológicos é estabelecer populações de criação em cativeiro, sobretudo de animais raros ou ameaçados de extinção. Assim, parques zoológicos são locais de recreação, mas também podem ser definidos como museus, uma vez que são instituições que se ocupam com a conservação, pesquisa e comunicação de elementos naturais, neste caso, considerando-se os animais (ZOLCSAK, 2002). Sua evolução histórica se deu em paralelo com os princípios ambientais e hoje atuam em busca de técnicas eficazes para a preservação da fauna silvestre e, ao mesmo tempo, realizam trabalhos de educação ambiental que, nos dias atuais, está incluída entre os principais objetivos dessas instituições. Segundo Mergulhão (1998), a educação ambiental faz parte do contexto das atividades de um zoológico, não sendo este um local apenas para abrigar animais. Esta educação permite que haja um maior respeito aos animais e uma maior sensibilização quanto à necessidade de preservação das espécies e de seus ambientes. Figueiredo (2001), também considera que além da conservação há outras importantes funções dos zoológicos, tais como o lazer e a educação ambiental que, por sua vez, é de extrema importância para a conscientização das pessoas, mostrando a importância da conservação da biodiversidade, incluindo as espécies da fauna ameaçadas de extinção. Neste contexto, os zoológicos são locais de grande potencial educativo, onde o animal é o tema gerador de assuntos ligados à preservação ambiental. Aproveitando a grande visitação e os sentimentos de empatia e curiosidade, estas instituições podem desempenhar papel importante na educação não formal de seu público. Em diversas cidades, os zoológicos são uma das principais áreas de lazer e recreação, onde as escolas realizam aulas práticas e, nos finais de semana, reúnem inúmeras famílias que lá encontram um lugar tranqüilo para diversão. Nesse contexto, os trabalhos de educação ambiental implantados nos zoológicos dinamizam as programações e tornam as visitas mais atrativas. Acompanhando toda a evolução pela qual os zoológicos passaram, a educação ambiental passou a fazer parte dos objetivos dessas instituições e vem, a cada dia, aperfeiçoando o modo de educar as pessoas a partir da exposição de animais silvestres em cativeiro. Atualmente, grande parte dos zoológicos brasileiros realiza programas de educação ambiental e, muitas vezes, tais programas são responsáveis pelo aumento do número de visitantes, uma vez que passam a incentivar a visitação, principalmente de escolas (AURICCHIO, 1999). Após a realização de um trabalho que visava reunir informações sobre os zoológicos que realizavam educação ambiental, Auricchio (1999) constatou que os zoológicos brasileiros são muito procurados por escolas que desejam realizar atividades extracurriculares ou recreativas. Com o atual desenvolvimento da educação ambiental, muitos zoológicos passaram a realizar programas para atender as escolas. Em sua pesquisa, Auricchio (1999) obteve como resultado que cerca de 80% dos zoológicos já apresentavam trabalhos de educação ambiental. Apesar de diversas funções terem sido atribuídas aos zoológicos, Ribeiro-Marino et al. (2007) consideram que, diante destas, a compreensão da relação existente entre a proteção (preservação, conservação e recuperação) ambiental e o uso público dos parques para atividades recreativas ou educativas tem sido o grande desafio dos administradores destas instituições, reforçando a necessidade de instrumentos que definam claramente as diretrizes para a administração e manejo. Nosso objetivo neste trabalho foi de analisar o programa de