A
AÇÃO
HUMANA
A Filosofia da ação procura responder a problemas
como
O que é exatamente uma ação humana? Tudo o que
fazemos é uma ação? Como distinguir ações humanas de
meros acontecimentos? Quais são as condições
necessárias e suficientes para definir uma ação humana?
O CONCEITO FILOSÓFICO DE AÇÃO
O conceito de ação
Como definir a ação?
1ª) Uma ação é um acontecimento, na medida em é algo
que ocorre num determinado espaço e tempo,
produzindo efeitos, alterando o curso das coisas.
Objeção: nem todos os acontecimentos são ações, pelo
que não podemos definir uma ação como um simples
acontecimento.
Ação e acontecimento
2ª) “Ação é um acontecimento que envolve um
agente”
Objeção: nem todos os acontecimentos que envolvem agentes são
ações, pelo que não podemos aceitar essa definição de ação.
Exemplos:
Ser assaltado
Ser atropelado
Ser empurrado
O conceito de ação
Objeção: Ademais, distinguimos claramente o que fazemos do
que nos acontece.
O que nos acontece
•Resulta de causas exteriores à nossa vontade; não é iniciado, controlado
ou dirigido por nós.
•Salienta-se pela passividade do indivíduo: “Limitamo-nos a ser receptores
de efeitos que nós não iniciamos” (E Anscombe); não somos, portanto, os
seus autores.
3) Uma ação é um acontecimento que resulta da intervenção de
um agente, é algo que o agente faz.
Objeção: nem tudo o que o agente faz constitui uma ação.
Exemplo:
4) Uma ação é um acontecimento que resulta da intervenção
consciente e voluntária de um agente , é algo que o agente faz
intencionalmente.
Assim:
Ler , estudar, trabalhar, dançar, constituem exemplos de ações
praticadas intencionalmente.
Questões:
Só é considerada ação o que o sujeito faz intencionalmente. É
possível então, para um observador externo, saber o que o agente
está a fazer?
É suficiente observarmos o movimento para descrevermos
corretamente a ação que está a ser praticada?
“Uma ação é um acontecimento que resulta da intervenção
intencional de um agente.”
Questões:
- É a definição anterior isenta de objeções?
Imagine a seguinte situação “Ana pega na guitarra do avô para
cantar uma canção de embalar para adormecer o seu filho.
Inadvertidamente deixa cair o instrumento musical ao chão e parte-
o.”
- Neste caso, poderíamos dizer que Ana praticou e não praticou
uma ação? O que fez, efetivamente, Ana?
- Ana propõe-se cantar uma canção de embalar para adormecer o
seu filho.
- Ana pega na guitarra do avô.
- Ana deixa cair o instrumento musical ao chão e parte-o.
- Qual ou quais destas descrições traduzem ações?
- Com base no que sustenta Elizabeth Anscombe, podemos afirmar
que um dado acontecimento é uma ação humana se, e só se, é um
acontecimento que um agente “realiza intencionalmente segundo,
pelo menos, uma descrição verdadeira”.
Assim, as descrições
- Ana propõe-se cantar uma canção de embalar para adormecer o
seu filho.
- Ana pega na guitarra do avô.
descrevem ações, porque são acontecimentos realizados
intencionalmente.
Porém, estas descrições têm igual valor, quando se trata de
compreender e de explicar a ação? Qual delas nos permite
compreender verdadeiramente o que Ana fez?
Na análise da ação humana, encontramos um conjunto de componentes
interligadas, formando uma estrutura ou rede conceptual que nos
ajudam a compreendê-la:
- O agente – (sujeito da ação) o ator e autor, aquele que pratica a ação e
que é por ela responsável;
- A intenção - responde ao que e ao para quê da ação; agir
intencionalmente é ter consciência do que se está a fazer e querer fazê-lo
com um propósito;
- O motivo - a razão apresentada para justificar a ação, o porquê da
ação;
O que se entende por ato voluntário? Qual é a sua
estrutura?
Fases do ato voluntário:
•Conceção
•Deliberação
•Decisão
•Execução
O que torna racional uma ação?
Proposta:
Uma ação é racional se for o resultado de:
- um processo deliberativo, que compreende a identificação,
análise e avaliação de alternativas;
- a consequente decisão em conformidade com o resultado
da ponderação.
Uma ação envolve sempre deliberação?
“Um erro comum que existe na teoria da ação é supor que todas as ações intencionais são o
resultado de alguma espécie de deliberação, que são o produto de uma cadeia de raciocínio
prático. Mas, obviamente, muitas coisas que fazemos não são assim. Simplesmente fazemos
alguma coisa sem qualquer reflexão prévia. Por exemplo, numa conversa normal, não se reflete
sobre o que se vai dizer a seguir – simplesmente se diz. Em tais casos, há decerto uma intenção,
mas não é uma intenção formada antes da realização da ação. É o que eu chamo uma intenção
na ação. Noutros casos, porém, formamos intenções antecedentes. Refletimos sobre o que
queremos e sobre qual é a melhor maneira de o levar a cabo. Este processo de reflexão
(Aristóteles chamou-lhe «raciocínio prático») resulta carateristicamente na formação de uma
intenção prévia, ou, como também Aristóteles sublinhou, resulta por vezes na própria ação.”
John Searle , Mente, Cérebro, e Ciência
Como compreender a ação acrática?
Ação acrática
- a ação que é a pior aos olhos do próprio agente,
que é contrária ao resultado da sua deliberação,
- ação que ele acaba por realizar
intencionalmente, tendo outra alternativa ao seu
dispor.
Só os seres humanos agem?
Tradicionalmente, salienta-se a diferença entre a conduta humana e a conduta animal:
Conduta animal Conduta humana
Comportamentos instintivos, i.
é, determinados por padrões
inatos e comuns à espécie.
Mais complexa, mediada por padrões culturais e por
variáveis de personalidade; portanto, diversa e variável
no tempo (considera-se questionável que o homem
possua “instintos”)
Atos reflexos (inatos ou
condicionados), i. é, respostas
automáticas e involuntárias a
estímulos do meio
Mais elaborada e ativa, pois o homem não se limita a
reagir passivamente, de acordo com determinantes
externas e internas: é capaz de se distanciar do
imediato, de prever, de planear e de considerar cursos
alternativos de ação; é capaz de se transformar e de
transformar as condições que lhe são dadas.
Predominam os atos
determinados por motivações
primárias, biológicas (fome,
sede, necessidade de
reprodução, ...)
Os seus atos não podem ser compreendidos com uma
referência exclusiva às motivações biológicas; o
homem possui necessidades de natureza superior que
se manifestam no que faz e condicionam os seus
projectos de vida.
“Prominent behavioral scientists Rumbaugh
and Washburn are highly persuasive in their
thesis that animals are rational, making
decisions by using higher reasoning skills, not
by trial and error and not by reacting in simple
stimulus-response fashion to their environs.”
“A meu ver, uma diferença essencial entre as pessoas e as outras criaturas
reside na estrutura da vontade de uma pessoa. Os seres humanos não são
os únicos que têm desejos e motivos ou que fazem escolhas. Partilham
estas caraterísticas com os membros de outras espécies, alguns dos quais
parecem mesmo empreender deliberações e tomar decisões baseadas em
pensamento prévio.
Proposta de Harry Frankfurt
Parece-me peculiarmente característico dos seres humanos, no entanto, o
facto de eles seres capazes de formar "desejos de segunda ordem", como
lhes chamarei. Além de quererem, escolherem e estarem motivados para
fazer isto ou aquilo, os homens também parecem querer ter (ou não ter)
certos desejos ou motivos. São capazes de querer ser diferentes, nas suas
preferências e propósitos, daquilo que são. Muitos animais parecem possuir
a capacidade de ter "desejos de primeira ordem", como lhes chamarei, que
são simplesmente desejos de fazer ou de não fazer isto ou aquilo. Nenhum
animal além do homem, no entanto, parece ter a capacidade da
autoavaliação reflexiva, que se manifestava na formação de desejos de
segunda ordem.”

Conceito de ação.pdf66666666666666666666666666

  • 1.
  • 2.
    A Filosofia daação procura responder a problemas como O que é exatamente uma ação humana? Tudo o que fazemos é uma ação? Como distinguir ações humanas de meros acontecimentos? Quais são as condições necessárias e suficientes para definir uma ação humana? O CONCEITO FILOSÓFICO DE AÇÃO
  • 3.
    O conceito deação Como definir a ação? 1ª) Uma ação é um acontecimento, na medida em é algo que ocorre num determinado espaço e tempo, produzindo efeitos, alterando o curso das coisas. Objeção: nem todos os acontecimentos são ações, pelo que não podemos definir uma ação como um simples acontecimento. Ação e acontecimento
  • 4.
    2ª) “Ação éum acontecimento que envolve um agente” Objeção: nem todos os acontecimentos que envolvem agentes são ações, pelo que não podemos aceitar essa definição de ação. Exemplos: Ser assaltado Ser atropelado Ser empurrado O conceito de ação
  • 5.
    Objeção: Ademais, distinguimosclaramente o que fazemos do que nos acontece. O que nos acontece •Resulta de causas exteriores à nossa vontade; não é iniciado, controlado ou dirigido por nós. •Salienta-se pela passividade do indivíduo: “Limitamo-nos a ser receptores de efeitos que nós não iniciamos” (E Anscombe); não somos, portanto, os seus autores.
  • 6.
    3) Uma açãoé um acontecimento que resulta da intervenção de um agente, é algo que o agente faz. Objeção: nem tudo o que o agente faz constitui uma ação. Exemplo:
  • 7.
    4) Uma açãoé um acontecimento que resulta da intervenção consciente e voluntária de um agente , é algo que o agente faz intencionalmente. Assim: Ler , estudar, trabalhar, dançar, constituem exemplos de ações praticadas intencionalmente. Questões: Só é considerada ação o que o sujeito faz intencionalmente. É possível então, para um observador externo, saber o que o agente está a fazer? É suficiente observarmos o movimento para descrevermos corretamente a ação que está a ser praticada?
  • 8.
    “Uma ação éum acontecimento que resulta da intervenção intencional de um agente.” Questões: - É a definição anterior isenta de objeções? Imagine a seguinte situação “Ana pega na guitarra do avô para cantar uma canção de embalar para adormecer o seu filho. Inadvertidamente deixa cair o instrumento musical ao chão e parte- o.”
  • 9.
    - Neste caso,poderíamos dizer que Ana praticou e não praticou uma ação? O que fez, efetivamente, Ana? - Ana propõe-se cantar uma canção de embalar para adormecer o seu filho. - Ana pega na guitarra do avô. - Ana deixa cair o instrumento musical ao chão e parte-o. - Qual ou quais destas descrições traduzem ações? - Com base no que sustenta Elizabeth Anscombe, podemos afirmar que um dado acontecimento é uma ação humana se, e só se, é um acontecimento que um agente “realiza intencionalmente segundo, pelo menos, uma descrição verdadeira”.
  • 10.
    Assim, as descrições -Ana propõe-se cantar uma canção de embalar para adormecer o seu filho. - Ana pega na guitarra do avô. descrevem ações, porque são acontecimentos realizados intencionalmente. Porém, estas descrições têm igual valor, quando se trata de compreender e de explicar a ação? Qual delas nos permite compreender verdadeiramente o que Ana fez?
  • 11.
    Na análise daação humana, encontramos um conjunto de componentes interligadas, formando uma estrutura ou rede conceptual que nos ajudam a compreendê-la: - O agente – (sujeito da ação) o ator e autor, aquele que pratica a ação e que é por ela responsável; - A intenção - responde ao que e ao para quê da ação; agir intencionalmente é ter consciência do que se está a fazer e querer fazê-lo com um propósito; - O motivo - a razão apresentada para justificar a ação, o porquê da ação;
  • 12.
    O que seentende por ato voluntário? Qual é a sua estrutura? Fases do ato voluntário: •Conceção •Deliberação •Decisão •Execução
  • 13.
    O que tornaracional uma ação? Proposta: Uma ação é racional se for o resultado de: - um processo deliberativo, que compreende a identificação, análise e avaliação de alternativas; - a consequente decisão em conformidade com o resultado da ponderação.
  • 14.
    Uma ação envolvesempre deliberação? “Um erro comum que existe na teoria da ação é supor que todas as ações intencionais são o resultado de alguma espécie de deliberação, que são o produto de uma cadeia de raciocínio prático. Mas, obviamente, muitas coisas que fazemos não são assim. Simplesmente fazemos alguma coisa sem qualquer reflexão prévia. Por exemplo, numa conversa normal, não se reflete sobre o que se vai dizer a seguir – simplesmente se diz. Em tais casos, há decerto uma intenção, mas não é uma intenção formada antes da realização da ação. É o que eu chamo uma intenção na ação. Noutros casos, porém, formamos intenções antecedentes. Refletimos sobre o que queremos e sobre qual é a melhor maneira de o levar a cabo. Este processo de reflexão (Aristóteles chamou-lhe «raciocínio prático») resulta carateristicamente na formação de uma intenção prévia, ou, como também Aristóteles sublinhou, resulta por vezes na própria ação.” John Searle , Mente, Cérebro, e Ciência
  • 15.
    Como compreender aação acrática? Ação acrática - a ação que é a pior aos olhos do próprio agente, que é contrária ao resultado da sua deliberação, - ação que ele acaba por realizar intencionalmente, tendo outra alternativa ao seu dispor.
  • 16.
    Só os sereshumanos agem? Tradicionalmente, salienta-se a diferença entre a conduta humana e a conduta animal: Conduta animal Conduta humana Comportamentos instintivos, i. é, determinados por padrões inatos e comuns à espécie. Mais complexa, mediada por padrões culturais e por variáveis de personalidade; portanto, diversa e variável no tempo (considera-se questionável que o homem possua “instintos”) Atos reflexos (inatos ou condicionados), i. é, respostas automáticas e involuntárias a estímulos do meio Mais elaborada e ativa, pois o homem não se limita a reagir passivamente, de acordo com determinantes externas e internas: é capaz de se distanciar do imediato, de prever, de planear e de considerar cursos alternativos de ação; é capaz de se transformar e de transformar as condições que lhe são dadas. Predominam os atos determinados por motivações primárias, biológicas (fome, sede, necessidade de reprodução, ...) Os seus atos não podem ser compreendidos com uma referência exclusiva às motivações biológicas; o homem possui necessidades de natureza superior que se manifestam no que faz e condicionam os seus projectos de vida.
  • 17.
    “Prominent behavioral scientistsRumbaugh and Washburn are highly persuasive in their thesis that animals are rational, making decisions by using higher reasoning skills, not by trial and error and not by reacting in simple stimulus-response fashion to their environs.”
  • 18.
    “A meu ver,uma diferença essencial entre as pessoas e as outras criaturas reside na estrutura da vontade de uma pessoa. Os seres humanos não são os únicos que têm desejos e motivos ou que fazem escolhas. Partilham estas caraterísticas com os membros de outras espécies, alguns dos quais parecem mesmo empreender deliberações e tomar decisões baseadas em pensamento prévio. Proposta de Harry Frankfurt
  • 19.
    Parece-me peculiarmente característicodos seres humanos, no entanto, o facto de eles seres capazes de formar "desejos de segunda ordem", como lhes chamarei. Além de quererem, escolherem e estarem motivados para fazer isto ou aquilo, os homens também parecem querer ter (ou não ter) certos desejos ou motivos. São capazes de querer ser diferentes, nas suas preferências e propósitos, daquilo que são. Muitos animais parecem possuir a capacidade de ter "desejos de primeira ordem", como lhes chamarei, que são simplesmente desejos de fazer ou de não fazer isto ou aquilo. Nenhum animal além do homem, no entanto, parece ter a capacidade da autoavaliação reflexiva, que se manifestava na formação de desejos de segunda ordem.”