Volume2
ComentárioBíblicoBroadman
Comentário
Bíblico
Broadman
Volume2
Levítico-Rute
Tradução deArthurAnthonyBoome
Todososdireitosreservados. Copyright © 1994da Juntade Educação Religiosae Publi­
caçõesdaConvençãoBatistaBrasileira.Direitoscedidos,mediantecontrato,porBroadman
Press, Nashville, Tennessee, USA. Copyright © 1969by Broadman Press.
Allen, Clifton J., ed. ger.
A425c ComentárioBíblicoBroadman/EditadoporCliftonJ.Alien.Tradução
de Arthur Anthony Boorne. 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1994. v. 2.
552p. 23 cm.
TituloOriginal: The Broadman Bible Commentary
1. Bíblia — Velho Testamento —Comentários. 2. Velho Testamento
—Comentários. I. Titulo
CDD — 220.7
Coordenação Editorial
Josemar de Souza Pinto
Edição de Arte
Nilcéa Pinheiro
Capas
Valter Karklis
ISBN 85-350-0041-0
Código para pedidos: 215031
Junta de Educação Religiosae Publicações da
Convenção Batista Brasileira
Caixa Postal 320 —CEP: 20001-970
Rua SilvaVale, 781 —Cavalcânti —CEP: 21370-360
Rio de Janeiro, RJ —Brasil
3.000/1994
Impresso em gráficas próprias.
COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN
Volume 2
JuntaEditorial
EDITOR GERAL
Clifton ]. Allen, Ex-Secretário Editorial da Junta de Escolas Dominicais
da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
Editores Consultores doVelhoTestamento
John I. Durham, ProfessorAssociado de Interpretação doVelho Testamen­
toeAdministrador Adjunto do Presidente do Seminário Batista do Sudoes­
te, Wake Forest, North Carolina, Estados Unidos.
RoyL. Honeycutt Jr., Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminá­
rio Batista do Centro-Oeste, Kansas City, Missouri, Estados Unidos.
Editores Consultores do NovoTestamento
J. W. MacGorman, Professor de Novo Testamento, Seminário Batista do
Sudoeste, Forth Worth, Texas, Estados Unidos.
Frank Stagg, Professor de Novo Testamento da James Buchanan Harrison,
SeminárioBatista do Sul, Louisville, Kentucky, Estados Unidos.
CONSULTORES EDITORIAIS
Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta de Escolas Dominicais da
Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
William J. Fallis, Editor Chefe de Publicações Gerais da Broadman Press,
Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
Joseph F. Green, Editor de Livros de Estudo Bíblico da Broadman Press,
Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
Junta deConsultores
Clifton I. Alien, ex-Secretário Editorial,
Junta Batista de Escolas Dominicais
da SBC
J. P. Alien, Pastor, Igreja Batista de
Broadway, Forth Worth
JohnE. Barnes, Jr., Pastor, Igreja Batis­
ta deMain Street, Hattiesburg
Olin T. Binkley, Presidente, Seminário
Teológico Batista do Sudeste, Wake
Forest, North Carolina
WilliamJ. Brown, Gerente, Departamen­
to Oriental, Livrarias Batistas, Junta
Batista de Escolas Dominicais
John R. Claypool, Pastor, Igreja Batista
deCrescentHill, Louisville, Kentucky
Howard P. Colson, Secretário Editorial,
Junta Batista de Escolas Dominicais
ChaunceyR. Daley, Jr., Editor, Western
Recorder, Middletown, Kentucky
Joseph R. Estes, Secretário, Departa­
mento de Obra Relacionada aos Não-
evangélicos, Junta Batista de Missões
Nacionais da Southern Baptist Con­
vention
William J. Fallis, Editor-Chefe, Livros
Religiososem Geral, Broadman Press
Allen W. Graves, Deão, Escola de Edu­
cação Religiosa, Seminário Teológico
Batista do Sul, Louisville, Kentucky
Joseph F. Green, Editor, Livros de Estu­
doBíblico, Broadman Press
Ralph A. Herring, ex-Diretor, Departa­
mento de Extensão Seminarial, Con­
venção Batista do Sul
Herschel H. Hobbs, Pastor, Primeira
Igreja Batista, Oklahoma City
Warren C. Hultgren, Pastor, Primeira
Igreja Batista, Tulsa
Lamar Jackson, Pastor, Igreja Batista
Meridional, Birmingham
L. D. Johnson, Capelão, Universidade
Furman
J. Hardee Kennedy, Professor de Velho
Testamento e Hebraico, Seminário
Teológico Batista de NewOrleans
HermanL. King, Diretor, Divisão de Pu­
blicação, Junta Batista de Escolas
Dominicais da SBC
William W. Lancaster, Pastor, Primeira
Igreja Batista, Decatur, Georgia
Randall Lolley, Pastor, Primeira Igreja
Batista, Winston-Salem
C. DeWitt Mathews, Professor de Prega­
ção, Seminário Teológico Batista do
Centro-Oeste
John P. Newport, Professor de Filosofia
da Religião, Seminário Teológico Ba­
tista do Sudoeste
Lucius M. Polhill, ex-Secretário Exe­
cutivo, Associação Geral Batista de
Virgínia
Porter Routh, Secretário Executivo Te­
soureiro, Comissão Executiva, Con­
venção Batista do Sul
John L. Slaughter, ex-Pastor, Primeira
Igreja Batista, Spartanburg
R.HoustonSmith, Pastor, Primeira Igre­
ja Batista, Pineville, Louisiana
James L. Sullivan, Secretário Executivo,
Junta Batista de Escolas Dominicais
Ray Summers, Presidente, Departamen­
to de Religião, Universidade de Bay­
lor
Charles A. Trentham, Pastor, Primeira
Igreja Batista, Knoxville
Keith von Hagen, Diretor, Divisão de
Livraria, Junta Batista de Escolas
Dominicais
J. R. White, Pastor, Primeira Igreja Ba­
tista, Montgomery
Conrad Willard, Pastor, Igreja Batista
Central, Miami
Kyle M. Yates, Jr., Professor de Reli­
gião, Universidade Estadual de Okla­
homa
Colaboradores
CliftonJ. Allen, Junta Batista de Escolas
Dominicais (aposentado): Artigo Ge­
ral
Morris Ashcraft, Seminário Teológico
Batista do Centro-Oeste: Apocalipse
G. R. Beasley-Murray, Faculdade Spur­
geon, Londres: II Coríntios
T. Milles Bennett, Seminário Teológico
Batista do Sudoeste: Malaquias
ReidarB. Bjornard, Seminário Teológico
Batista do Norte: Ester
James A. Brooks, Seminário Teológico
Batista de NewOrleans:Artigo Geral
Raymond Bryan Brown, Seminário Teo­
lógico Batista do Sudeste:I Coríntios
John T. Bunn, Universidade Campbell:
Cântico dos Cânticos; Ezequiel
JosephA. Callaway, SeminárioTeológico
Batista do Sul:Artigo Geral
E. Luther Copeland, Seminário Teoló­
gico Batista do Sudeste: Artigo Geral
Bruce C. Cresson, Universidade Baylor:
Obadias
Edward R. Dalglish, Universidade Bay­
lor:Juizes; Naum
John I. Durham, Seminário Teológico
Batista do Sudeste: Salmos; Artigo
Geral
Frank E. Eakin, Jr., Universidade de
Richmond: Sofonias
Clyde T. Francisco, Seminário Teológico
Batista do Sul: Gênesis; I e I I Crôni­
cas; Artigo Geral
D. David Garland, Seminário Teológico
Batista do Sudoeste: Habacuque
A.J. Glaze, Jr., Seminário Internacional
Teológico Batista, Buenos Aires: Jo­
nas
James Leo Green, Seminário Teológico
Batista do Sudeste:Jeremias
Emmett Willard Hamrick, Universidade
de Wake Forest: Esdras; Neemias
William L. Hendricks, Seminário Teoló­
gico Batista do Sudoeste: Artigo Ge­
ral
E. Glenn Hinson, Seminário Teológico
Batista do Sul: I e I I Timóteo; Tito;
Artigo Geral
Herschel H. Hobbs, Primeira Igreja Ba­
tista, Oklahoma City: I e I I Tessalo-
nicenses
RoyL. Honeycutt, Jr., Seminário Teoló­
gico Batista do Centro-Oeste: Êxodo;
I I Reis; Oséias
William E. Hull, Seminário Teológico
Batista do Sul:João
PageH. Kelley, Seminário Teológico Ba­
tista do Sul:Isaías
J. Hardee Kennedy, Seminário Teológi­
coBatista de NewOrleans: Rute; Joel
Robert B. Laurin, Seminário Americano
Batista do Oeste:Lamentações
John William Macgorman, Seminário
Teológico Batista do Sudoeste: Gá-
latas
Edward A. McDowell, Seminário Teoló­
gicoBatista do Sudeste (aposentado):
I, I I eIII João
Ralph P. Martin, Seminário Teológico
Fuller: I Reis
Dale Moody, Seminário Teológico Batis­
ta do Sul: Romanos
William H. Morton, Seminário Teológi­
co Batista do Centro-Oeste:Josué
Barclay M. Newman, Jr., Sociedade Bí­
blicaAmericana:Artigo Geral
John P. Newport, Seminário Teológico
Batista do Sudoeste: Artigo Geral
JohnJosephOwens, Seminário Teológico
Batista do Sul: Números; Jó (com
TateeWatts); Daniel
WayneH. Peterson, Seminário Teológico
Batista Golden Gate: Eclesiastes
Ben F. Philbeck, Jr., Faculdade Carson-
Newman:I eII Samuel
William M. Pinson, Jr., Seminário Teo­
lógico Batista do Sudoeste: Artigo
Geral
Ray F. Robbins, Seminário Teológico
Batista de NewOrleans: Filemom
EricC. Rust, Seminário Teológico Batis-
tista do Sul:Artigo Geral
B. Elmo Scoggin, Seminário Teológico
Batista do Sudeste: Miquéias; Artigo
Geral
Burlan A. Sizemore Jr., Seminário Teo­
lógico Batista do Centro-Oeste: Ar­
tigo geral
David A. Smith, Universidade Furman:
Ageu
Ralph L. Smith, Seminário Teológico
Batista do Sudoeste: Amós
T. C. Smith, Universidade Furman:
Atos; Artigo Geral
Harold S. Songer, Seminário Teológico
Batista do Sul: Tiago
Frank Stagg, Seminário Teológico Ba­
tista do Sul: Mateus; Filipenses
Ray Summers, Universidade Baylor: I e
II Pedro; Judas; Artigo Geral
Marvin E. Tate, Jr., Seminário Teológico
Batista do Sul: Jó (com Owens e
Watts): Provérbios
Malcolm O. Tolbert, Seminário Teológi­
co Batista de NewOrleans: Lucas
Charles A. Trentham, Primeira Igreja
Batista, Knoxville: Hebreus; Artigo
Geral
Henry E. Turlington, Igreja Batista Uni­
versitária, Chapel Hill, Carolina do
Norte: Marcos
John S. W. Watts, Faculdade Serampo-
re, Serampore, índia: Deuteronômio;
Jó (com Owense Tate);Zacarias
R. E. O. White, Faculdade Teológica
Batista, Glasgow: Colossenses
Prefácio
O COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN apresenta um estudo bíblico
atualizado, dentro do contexto de uma fé robusta na autoridade, adequação e
confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e
orientação para ocrente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como
um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e
propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades
do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição
bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal
possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são
limitadas às informaçõesessenciais.
Osescritoresforam cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração
sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as
necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais
acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o
significado do texto. Elesenfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à
linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham
pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os
seuspontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões
alternativas, quando estas são esposadas por outros sérios e bem-informados
estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser
consideradoscomoa posiçãooficial do editor.
O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação.
A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades
deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos —especialmente
pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo
comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas
deliberações, em 1961, ajunta de consultores que dirige a Editora autorizou a
publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram,
em 1966, à escolha de um editor geral e de uma Junta Consultiva. Esta junta de
pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966,
revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram
cumpridas à medida que oCOMENTÁRIO se foi desenvolvendo.
No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o
VelhoTestamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral,
esseshomens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar
o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos
escritores e na avaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e
esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos
funcionários da Editora que trabalharam com eles.
Aescolhada Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “de acordo com os melhores
textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita
obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que
foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­
ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do
texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e
amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza
assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios
autores doscomentários.
Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura
estabelecer uma combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo
abertamente que a natureza dosvárioslivros e o espaço destinado a cada um deles
modificará adequadamente a aplicação desta abordagem.
Os artigos gerais que aparecem no Volume 8 têm o objetivo de prover material
subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da
Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração,
deveréticoe missões mundiais da igreja.
O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis.
Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­
mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito
para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra deDeus naEscritura ena
Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas e da humanidade, no
mundo de Deus.
Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o
COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do
significado com a experiência. O seuobjetivoé respirar a atmosfera de relação com
a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas
vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior
clarezao que Deus Pai está-lhes dizendo.
Sumário
Levítico RonaldE. Clements
Introdução...................................................................
Comentário Sobreo Texto.........................................
Números JohnJoseph Owens
Introdução...................................................................
Comentário Sobre oTexto.........................................
Deuteronômio John D. W. Watts
Introdução...............................................................
Comentário Sobre oTexto.......................................
Josué WilliamH. Morton
Introdução.................................................................
Comentário SobreoTexto.......................................
Juizes EdwardR. Dalglish
Introdução.................................................................
Comentário Sobre oTexto.......................................
Rute J. HardeeKennedy
Introdução...............................................................
Comentário Sobre oTexto.......................................
LevíticoRONALD E. CLEMENTS
Introdução
I. Título, PropósitoeConteúdo
O título português “Levítico” teve a
sua origem naquele queencabeçavaoter­
ceiro livro de Moisés na Septuaginta, a
tradução antiga do Antigo Testamento
para o grego, onde se chama de Leuiti-
kon, “O (livro) Levítico”. Ele passou
para a versão Vulgata Latina como “Li­
ber Leviticus” e dela para o português.
Na Bíblia Hebraica, chama-se pela sua
palavra inicial Wayyiqra (“E ele cha­
mou”), de acordo com o costumejudaico
antigo de usar a palavra ou frase inicial
deum livrocomo seu título.
O título português descreveolivro pelo
seu conteúdo, pois contém assuntos de
interesse levítico, embora os mesmos le­
vitas sejam referidos somente em 25:32-
34. O título é, porém, plenamente jus­
tificado no sentido de que o livro trata
extensivamente de assuntos referentes ao
culto que era uma preocupação especial
dos sacerdotes, aos quais os levitas esta­
vam ligados pelo exercício de uma espé­
cie de ministério auxiliar. O livro como
um todo, portanto, deriva o seu caráter
especial de sua preocupação com o regu­
lamento docultoe com as exigências que
essecultoimpunha sobre a vida e condu­
ta doshomens e das mulheres em Israel.
Instruções dirigidas a cada israelita
estão intimamente entrelaçadas com as
que se relacionavam, com muito mais
particularidade, com a comunidade sa­
cerdotal. Além disso, muitos dos regula­
mentos que regiam a conduta dos cida­
dãos comuns teriam sido ensinados ao
povo pelos sacerdotes, que também vela­
vam pelo seu cumprimento. Assim, há,
através do livro todo, um interesse leví­
tico, ou sacerdotal, constante, embora
grande parte de seu conteúdo fosse diri­
gida aos cidadãos israelitas comuns. Se­
ria um engano, portanto, interpretar a
preocupação sacerdotal do livro como
indicação de que ele tratasse somente de
regulamentos que diziam respeito aos
sacerdotes. Abrange os aspectos da vida
em que um sacerdote estava envolvido,
quer como o dirigente no culto, quer
como o guardião especial da natureza
sagrada de Israelcomoum todo.
Achamos, por conseguinte, que Leví­
tico contém muitos regulamentos sobre
afazeres cotidianos, sobre o comporta­
mento familiar entre o povo de Deus e
sobre a manutenção da saúde e da higie­
ne no lar e nas relações pessoais. Todos
estes eram assuntos que se esperava que
um sacerdote explicasse ao povo, os
quais se lhe mandava velar, a fim de
evitar qualquer infração do posiciona­
mento santo que Deus exigia de Israel.
O título do livro é, portanto, totalmente
apropriadocomo uma descrição do cará­
teressencial de seu conteúdo.
O propósito de Levíticoé, claramente,
odejuntar numa só coletânea ordenada
regulamentos diversosque diziam respei­
toao oferecimento de sacrifício a Deus, à
organização do sacerdócio e muitos ou­
tros assuntos que surgiam da relação
sagrada existente entre Israel e Deus.
Pode, com toda a propriedade, ser inter­
15
pretado como um guia abrangente, que
mostra como Israel devia pôr em prática,
na rotina da vida cotidiana, a grande
promessa feita no monte Sinai: “E vós
sereispara mim reino sacerdotal e nação
santa” (Êx. 19:6).
De todos os cinco livros que compõem
oPentateuco, Levíticoé o que pode, com
maior coerência, ser descrito como Lei.
Seu conteúdo consiste, quase que exclu­
sivamente, de leis e regulamentos, com
um mínimo apenas de narrativa interve­
niente. Isso é mais significativo do que
possa parecer à primeira vista, porque,
embora o Pentateuco se descreva tradi­
cionalmente como contendo os cinco li­
vrosdalei, éessencialmenteuma obra de
narrativa histórica. Martinho Lutero re­
conheceu isto, pois classificou estes livros
de histórias, e esta praxe é seguida tam­
bém nos cabeçalhos da versão do Rei
Tiago (KJV). Porém Levítico contém
uma quantidade muito pequena de nar­
rativa, nos capítulos 8-10 e em 24:10-23,
enquanto o restante dele é composto de
regulamentos e leis. Mesmo na narrativa
histórica que contém, há uma nítida
preocupaçãocom questões da Lei.
II. DataeAutoria
Quem escreveu o livro de Levítico e
quando foi escrito são questões tão de
perto relacionadas que têm de ser consi­
deradasjuntamente. As duas são ligadas
de tal maneira ao papel de Moisés no
livro, que temos de considerar este papel
aqui. Tradicionalmente, os mestres ju­
daicos aceitavamMoisés comoo autor de
Levítico, e, na realidade, do Pentateuco
inteiro. Este ponto de vista era, no pas­
sado, largamente aceito dentro da Igreja
Cristã. Com o surgimento de uma eru­
diçãohistóricamais críticaeprecisa, este
ponto de vista tem sido quase totalmente
abandonado, embora de uma forma um
tanto negativa, que não tentou demons­
trar osmotivos práticos e religiosos sobre
que a atribuição do livro a Moisés se
fundamentava. Ê importante, desse mo­
do, não apenas examinarmos tais indí­
cios que o próprio livro nos dá com
respeito à data de sua origem, como
também entendermos, na medida do
possível, por que este material foi colo­
cado sob a autoridade de Moisés, pois é
nada menos que isso que o próprio livro
afirma.
Devemos, em primeiro lugar, voltar-
nos para a questão da data do material
apresentado nolivrode Levítico. Já nota­
mos que, em sua maior parte, este ma­
terial consiste em coleções de leis que
regem o oferecimento dos sacrifícios, a
ordem do sacerdócio, e uma gama de
assuntos em que as obrigações religiosas
afetam a vida cotidiana. Quando consi­
deramos como tais regulamentos surgem
dentro de uma comunidade, é evidente
que não aparecem todos de uma só vez,
em forma de um programa pormenoriza­
do de obrigações, mas, sim, gradativa-
mente, durante um número considerável
de anos, à medida que a experiência e a
necessidadeimpõem a organização da so­
ciedade e a direção doculto.
Os regulamentos individuais detalha­
dos emergem em resposta a situações
específicas, muito embora os princípios
fundamentais sobre que semelhantes
princípiossealicerçam sejam muito mais
antigos. Assim era, indubitavelmente,
em Israel, e não devemos ter receio de
reconhecer que a coleção final de todos
os regulamentos e leis coligados em Le­
vítico não se deu senão numa data rela­
tivamente tardia na história literária do
Pentateuco. No entanto, isso não mini­
miza o fato de que esse processo, de
expor em forma de regulamentos por­
menorizados aquilo que significava para
Israel ser opovo santo de Deus, repoüsa
em certos princípios fundamentais que
são tão antigos quanto opróprio Israel.
Estesprincípios diziam respeito à ofer­
ta a Deus de uma parte do aumento de
todos os rebanhos, manadas e de cam­
pos; também diziam respeito à santidade
associada a semelhantes oferendas. O
16
oferecimento delas em sacrifício impu­
nha certas precauções, especialmente a
abstenção de sangue e gordura, por cau­
sa da relação especial existente entre
estes e a vida animal. A observação de
certas estações de festas sagradas era
também fundamental para Israel, ser­
vindo elas como expressão de lealdade a
Deus e como um envolvimento da di­
mensão do tempo na santidade de Deus.
A questão da data, portanto, assume
certa complexidade, visto que não se
deve permitir que a forma final dada a
determinada lei esconda o fato de que
por detrás dela houve uma longa história
de experiência e prática, expressa atra­
vés de regulamentos semelhantes. Uma
vez que a relação entre Israel e Deus era
especial, revelada na história e afirmada
na experiência, as suas leis também ex­
perimentavam desenvolvimentos e modi­
ficações para corresponderem às necessi­
dadesprogressivas da vida sob a aliança.
Leis fixas e imutáveis teriam resultado
num “congelamento” da relação com
Deus.
Uma outra consideração também vem
ao caso aqui. O registro por escrito de
leis que regiam a direção do culto e os
deveressacerdotais não é largamente evi­
dente no mundo do Oriente Médio anti­
go. Não há dúvida de que tais registros
foram um passo relativamente tardio em
Israel.1
Longe de ser o registro por escrito de
uma lei do culto uma expressão do está­
gio durante o qual entrou ela, pela pri­
meira vez, em vigor, indica antes o ponto
no qual um costume, ou tradição, longa­
mente praticado chegou a ser documen­
tado. Anteriormente a leiteria sidocerta-
1 Ver especialmente E. Nielsen, Oral Tnditioii, A Mo-
dem Problem in Old Testament Introduction (Londres:
SCM Press 1954), p. 39 e ss., para o argumento em iavor
de uma data tardia para os registros, por escrito, das
tradições legal e histórica em Israel. Nielsen é, porém,
céptico demaissobre ouso do escrito para finsespeciais em
períodos anteriores. Material comparativo útU da área
nào-bíblica se pode achar em J. Vansina, Orai Tradition:
AStudyin HistoricalMethodology.Trad, para oinglês por
H.M. Wright(Londres: Routledge, 1965).
mente lembrada e transmitida oralmen­
te, de geração em geração, dentro das
famílias sacerdotais. A própria restrição
da realização dos deveres sacerdotais a
determinadas famílias era, em parte,
uma salvaguarda da preservação precisa
desseconhecimentoespecializado.
Não houve nenhum motivo uniforme
para a ocorrência da mudança da trans­
missão oral para a escrita, mas podemos
aceitar que era, muitas vezes, conse­
qüência de uma época de crise ou de
transição. Uma lei foi escrita e coligada
com outras leis quando estava em pe­
rigo de esquecimento ou de negligência.
No Israel antigo, a maior crise desta
natureza teve lugar em 587 a.C., com a
destruição do templo em Jerusalém e a
deportação de grande parte da popula­
ção de Jerusalém, inclusive de seus prin­
cipais sacerdotes. Este evento proporcio­
nou tão séria ameaça à continuação do
culto e da vida religiosa de Israel que,
por conseguinte, muitos regulamentos e
leis, que anteriormente tinham sido
transmitidos oralmente, foram agora re­
gistrados por escrito. Foi esse processo,
que prosseguiu durante o exílio babiló­
nicoe depois dele, que serviupara criar o
nossolivroatual de Levítico.
£ importante notar que este estágio da
escrita de uma lei não indica a data de
sua origem ou de sua entrada em vigor,
mas é um passo relativamente tardio em
sua história. As leis individuais, como
regulamentosque regiam o culto e a vida
comunitária, eram muitomais antigas do
que a sua coleçãoem forma de documen­
to escrito. Assim, falar em autoria no
sentido moderno levaria a mal-entendi­
dos, pois oautor quepreservouum relato
da lei por escrito não seria a mesma
pessoa, nem sequer um contemporâneo
daquele que a compôs. Enquanto muitas
vezes podemos aprender algo do pano de
fundo e da situação do coletor das leis,
geralmente há pouco que indique as cir­
cunstâncias ou data em que uma lei apa­
receupelaprimeiravez.Taisleissão, pela
17
sua natureza, atemporais no sentido de
que não dependem de uma ligação com
os eventos específicos da história externa
nem contêm normalmente referências a
qualquer momento quando tenham co­
meçado a vigorar.
Podemos afirmar muito pouco, por­
tanto, quanto à data exata quando os re­
gulamentos individuais no livro de Leví-
tico começaram a ser observados em
Israel. Que muitos deles são de grande
antiguidade não há dúvida. Ê também
certo quehouveum processo contínuo de
revisãoe de adaptação dessas regras que
diziam respeito ao relacionamento de
Israel com Deus. Esse elo era vivo, e
mudanças de circunstâncias levavam a
alterações e melhorias nos detalhes e nas
formas de culto. Assim, até a época de
sua coleção no livro de Levítico, esses
regulamentos, em sua maior parte, já
tinham passado por uma história consi­
derável.
Quanto à data de composição final de
Levítico,já sugerimos que se tenha dado
depois do exílio, e podemos agora pros­
seguir com a consideração do assunto.
A parte literária mais antiga do livro se
acha, quase certamente, nos capítulos
17-26, os quais originalmente compu­
nham um livrode leis independente, nor­
malmente chamado de Código da Santi­
dade, por causa de sua exigência carac­
terística que Israel fosse santo. Como
uma obra separada, formava um manual
de instrução sacerdotal para Israel, que
foi coligado e redigido em Jerusalém
antes da queda do templo. O manual de
sacrifíciocontidoem Levítico 1-7foitam­
bém, provavelmente, uma obra indepen­
dente, que surgiu da necessidade de ins­
trução, tanto para os sacerdotes como
para os leigos, sobre as modalidades e as
formas de sacrifício. Também podemos
aceitar que as leis de higiene, contidas
em Levítico 11-15, surgiram de listas
separadas, guardadas pelos sacerdotes
em Jerusalém. Este material foi então
unido, e o núcleo desta redação e cole­
ção era a narrativa histórica de Levítico
8- 10.
Esta narrativa é a continuação direta
do mais recente e abrangente dos relatos
das origens de Israel que compõem o
nosso Pentateuco. Este âmago histórico,
descrevendo o começo do culto de Israel
no Sinai, foi que proporcionou o ponto
central para os vários manuais e listas
que, de maneiras diversas, relacionavam-
se com esse culto. Assim Levítico reúne
de uma maneira tão completa quanto
possível tudo que dizia respeito ao contí­
nuo cultoevida de Israel como o povo de
Deus. Os regulamentos de Levítico ha­
viam de formar uma ponte, portanto,
entre o evento passado da revelação de
Deus no Sinai e o culto diário, no San­
tuário de Israel, que se originou naquele
evento.
Temos agora de considerar o significa­
do da figura de Moisés para a composi­
ção e origem de Levítico. Não há dúvida
que, de todos os grandes personagens de
Israel, é Moisés quem está mais direta­
mente associado com Levítico e é quem
se apresenta como aquele que, orientado
por Deus, deu ao livro sua autoridade e
caráter mandatário. Tanto o versículo
inicial como o final do livro (1:1; 27:34)
afirmam que o ensino e as leis de Leví­
tico são uma revelação divina para Israel
através de Moisés. Repetidas vezes, atra­
vés da obra, achamos seções ligadas pela
fórmula “O Senhor disse a Moisés”.
Esta ênfase não se concilia facilmente
com a descoberta crítica de que os regu­
lamentos de Levítico foram compilados
de um amplo arco da história de Israel e
escritos numa época relativamente tardia
em sua vida.
Podemos reconciliar essa divergência
somentepor indagar sobre a natureza e a
finalidade da atribuição do livro a Moi­
sés. Certamente não podemos entendê-la
comosignificando que Moisés tenha sido
o autor do livro no sentido moderno que
se atribui à palavra autoria. É significa­
tivo que, embora Arão, o cabeça ances-
18
trai das famílias sacerdotais de Israel, se
avulte no livro, não é a pessoa dele que
dâ autoridade ao todo. Nem se acha o
nome de Davi no livro, muito embora
fosse ele quem tivesse sido responsável
•pelo estabelecimento do culto de Israel
em Jerusalém (II Sam. 6:17; Sal. 132:
1-10), onde a maior parte do material
contido em Levítico, se não todo, foi, em
certa altura da história, ensinado e prati­
cado. É Moisés, e só o nome dele, que
confere a Levíticoseu cunho de autorida­
de e que o caracteriza como uma des­
crição das formas de culto e instrução
sacerdotal que Deus tinha entregue ao
seu povo Israel. Qual, então, é o segredo
da autoridade mosaica?
Para responder a esta pergunta, te­
mos, primeiro, de voltar aos primórdios
de Israel. O Deus a quem Israel chegou a
adorar como Soberano e Senhor tinha
primeiramente declarado a sua vontade
nasleisque acompanharam a sua doação
da aliança no monte Sinai (Êx. 19-33).
Por isso também Israel chegou a ser
conhecidopor aquilo que era, pela alian­
ça que lhe deu um destino e uma origem
divinos. Seu Deus havia de se tornar co­
nhecido às nações do mundo como o
Deus de Israel. Tanto Deus como seu
povo foram indissoluvelmente ligados,
aos olhos das nações, pela aliança que o
próprio Deus tinha estabelecido. Num
notável lance de auto-revelação, Deus
tinha secomprometidocom ohomem.
Amemória que Israel tinha desseeven­
to afirmava que Moisés era o mediador
da aliança e que foi através dele que a
sua realidade e as suas condições se
descobriram. Sem Moisés, Israel teria
ficado sem olhos para enxergar a glória
deDeuse sem ouvidos para ouvir a men­
sagem dele. Significativamente, também
é Moisés quem se apresenta como o pri­
meiro a inaugurar o culto de Israel den­
tro da aliança por meio de sacrifícios
(Êx. 24:4-8). Todo o culto relativo à
aliança, em Israel, portanto, ficou den­
tro da tradição e do padrão que tinha
começado com Moisés. É este fato que
jaz por detrás da forma que apresenta
Levíticocomoum livrode Moisés.
Visto que Levítico reúne e descreve os
regulamentos sacerdotais, por meio dos
quais Israel havia de continuar seu culto
aoDeus com quem estava comprometido
por aliança, estes regulamentos foram
considerados como se conformando ao
padrão que Moisés tinha estabelecido.
O culto relativo à aliança em Israel era,
portanto, entendido como estabelecido
sob a autoridade de Moisés. O que, pela
história e pela experiência, para a cons­
ciência de Israel, foi aprovado como, na
verdade, pertencente à sua fépactuai, foi
considerado como compartilhando da
autorização de culto outorgada por Moi­
sés. Esse não era umjuízo literal, basea­
do nas fontes conhecidas da história ou
nos documentos, mas umjuízo religioso,
fundamentado no que era certo e cabia
dentro da experiência comprovada do
povo de Deus. A autoridade de Moisés
significava a autoridade da aliança que
unia Israel a Deus. O que Moisés deu
não foium código de regulamentos fixo e
inalterável, quepoderia, por fim, tomar-
se embaraçoso e arcaico, mas, sim, uma
tradição vivade culto dentro deumarela­
ção de aliança. Precisamente por causa
disso a continuidade vital de tradições
sacerdotais de culto em Israel podia de­
clarar-se mantenedora da tradição que
Moisés tinha instituído.
A atribuição do livro de Levítico a
Moisés expressa, portanto, um juízo al­
tamente relevante e significativo sobre o
valor e autoridade religiosos do que con­
tém. Marca-o indelevelmente como per­
tencendo à aliança entre Deus e Israel.
m . SignificadoReligioso
Ê evidente, mesmo numa primeira lei­
tura, que Levítico é um livro de prática
antes do que de teoria. Isso quer dizer
que os seus regulamentos tinham a fina­
lidade de estimular a prestação de for­
mas específicas de culto e de um deter-
19
minado tipo de conduta, antes do que de
ensinar determinadas doutrinas e cren­
ças. Porém existe uma grande riqueza de
doutrina e fé em Levítico, que se pode
discernirfacilmente, eque proporciona o
significado e a explicação de todas as
suas exigências.
Levítico baseia-se numa compreensão
religiosa da vida, ao mesmo tempo ele­
vadae detalhada, epressupõeum concei­
to de Deus tão elevadoe espiritual quan­
to se possa achar em qualquer lugar do
Antigo Testamento. Posiciona-se dentro
da corrente principal do pensamento teo­
lógico de Israel e fundamenta todas as
suas exigências em seu entendimento
particular de Deus e em sua relação com
Israele com o mundo. O ensino religioso
deLevíticoé, portanto, não tanto explici­
tado quanto aceito comojá conhecido de
seus leitores. Ele vem à tona claramente
apenas em alguns pontos determinados.
Porém não é difícil desvendar esse pano
defundo teológico pela atenção cuidado­
sa dada aos regulamentos contidos no
próprio Levítico e pela consulta dos li­
vros anteriores de Gênesis e Êxodo, que
elesuplementa.
A primeira crença e de maior alcance
que subjaz às leis de Levíticoé que Deus
está realmente presente com o seu povo.
Os regulamentos para o culto e especial­
mente ospara o oferecimento dos sacrifí­
cios são expostos como mandamentos,
que devem ser cumpridos na própria
presença de Deus, que se acha no taber­
náculo. É aqui que apresença de Deus se
revela a Israel por meio de sua glória
(Êx. 25:8).
Depois de longo tempo, essa tenda do
período desérticofoisubstituída por uma
casa mais permanente, em Siló, e esta,
por sua vez, deu lugar ao Templo de
Jerusalém. Mas houve reconhecimento
da continuidade, que fez com que a tra­
dição israelita de culto em seu santuário
central constituísse um testemunho per­
pétuo da presença constante de Deus no
meiode seupovo. Todosos regulamentos
para oculto contidos em Levítico pressu­
põemessacrençana presençadeDeusno
tabernáculo, ou tenda da congregação,
comotambém échamado. O oferecimen­
to de sacrifícios era sempre “perante o
Senhor”, que não estavalonge de seu po­
vo, mas, sim, presente nosantuário, para
o qual o cultuador trazia a sua dádiva.
O culto de Israel era oferecido em tributo
a Deus, que cumpria a promessa da
aliançaporpermanecercom o seu povo e
por lhe dar, de seu santuário, a sua
bênção.
Das idéias principais de Levítico, a
segundaé que Deus é perfeitamente san­
to e que a sua presença com Israel es­
tende essa santidade para cobrir a vida
inteira da nação. Certamente não deve­
mos separar este conceito de sua santi­
dade do requisito moral de distinguir o
certo do errado na vida cotidiana. Po­
rém era muito mais que isso; denotava
um podere espírito de Deus, que afetava
aspessoas eascoisas quelhepertenciam.
Seu oposto é a imundície, que descreve
essas formas de vida física e mental que
seopõem a Deus — as doenças, a morte,
os ritos e objetos rituais pagãos, bem
como formas de vida naturais, tais como
animais, que podiam ser portadores de
doenças.
Assim, em preservando a santidade de
Israel, Levíticotambém sepreocupamui­
to em proteger Israel contra tudo que
pudesse comprometer ou destruir essa
santidade. Suas regras para a pureza do
culto são, portanto, nitidamente ligadas
às suas regras para a higiene e a obe­
diência moral, visto que todos esses as­
pectos da vida pertencem à santidade de
Israel. Para Levítico, o mundo não é um
lugar neutro, onde os homens possam
fazer o que bem entendem, mas, sim,
um lugar onde se defrontam em toda
partecom asexigências doDeussanto.
Esta ênfase fundamental na presença
deDeuscom oseu povo Israel e na santi­
dade que essa presença tanto afirma
como exige leva a mais uma caracterís-
20
tica teológica de Levitico. O livro pres­
supõe, como sua base, que a vontade de
Deus de que o seu povo deva viver numa
relação santa com ele recebeu expressão
no ato gracioso de eleição no monte
Sinai, pelo qual ele tomou Israel como
parceiro em aliança consigo mesmo (Êx.
19:6). A santidade de Israel é, portanto,
o resultado de um ato da graça divina, e
não uma conseqüência de suas próprias
ações. Nãoé simplesmenteuma condição
devida, deumtipoquasefísico,mas,sim,
um dom de Deus, que está arraigado em
sua açãopassada na história.
É por este motivo que uma importân­
cia teológicaconsiderável seassocia à au­
toridade mosaica atribuída ao livro. To­
dos os seus regulamentos e leis estão en­
gastados em suas narrativas históricas,
que descrevem os acontecimentos no
monte Sinai. Foi lá, pela declaração de
Deus na aliança, que Israel se tomou um
povo santo, e as leis de Levitico preten­
dem demonstrar comoIsrael podia conti­
nuar avivernesseestado de santidade.
Um movimento triangular muito ins­
trutivo e impressionante, assim, se evi­
dencia na estrutura teológica da obra.
O santo ser de Deus é, por definição,
atemporal e etemo, porém, em sua auto-
expressão para com o homem, ele reve­
lou a sua vontade num momento no tem­
po, quando acolheu Israel na aliança
comeleno Sinai.
Levíticomostra comoIsrael, através de
seu culto, foi capacitado a perpetuar e
tomar contemporânea essa auto-entrega
de Deus na aliança. O culto em Israel
era, num sentido bem real, uma reapre-
sentação dos atos salvíficos de Deus do
passado, pela qual a nação podia con­
tinuar a viver dentro da experiência da
salvação. Nãoera simplesmente uma res­
posta dos homens a Deus, embora conti­
vesse esse elemento, mas também um
meio contínuo da ação e graça divinas.
O cultoservia, portanto, para atualizar a
relação salvífica com Deus, pela qual
Israel tinha sido criado, e tomava-a uma
experiência contínua da nação. O Deus
etemo, a história passada de sua revela­
çãoea experiência presente de seu poder
ebondade são, assim, integrados no con­
ceito da santidade, do qual Levíticofala.
Embora, em muitas de suas exigên­
cias, Levítico pareça estar muito remoto
de nosso mundo modemo e de nossas
necessidades religiosas, tem muito que
nos dizer pelas suas doutrinas subjacen­
tesebásicas. Destaca ofato de que nossa
maior necessidade não é de um conceito
abstrato de Deus, mas, sim, de uma
experiência de sua presença e de um co­
nhecimento de como achá-la. O conheci­
mento de Deus não é uma idéia que se
busque, mas, sim, uma comunhão para
ser vivida e expressa na vida cotidiana.
Isso nos impõe as suas exigências custo­
sas em nos chamar à obediência e à
adoração. A tentativa de cumprir essas
exigências mostra que os homens não
podem, eles mesmos, ganhar a batalha
contra o pecado e a impureza, mas têm
de permanecer dependentes da graça de
Deus, pela providência, por parte dele,
de um meio de reconciliação. Como tão
bem descreve a Epístola aos Hebreus, as
leis de Levítico apontam para a cruz de
Cristo.
EsboçodoLivrodeLevítico
I. InstruçõesPara osSacrifícios
(1:1; 7:38)
1. AOferta Queimada(1:1-17)
2. AOferta de Cereais(2:1-16)
3. AOfertaPacífica(3:1-17)
4. As Ofertas Pelo Pecado e Pela
Culpa(4:1-6:7)
5. Instruções Para os Sacerdotes
com Relaçãoaos Sacrifícios
(6:8-7:38)
II. O Começo do Culto de Israel no
Sinai(8:1; 10:20)
1. AConsagraçãode Arãoe de Seus
Filhos Como os Sacerdotes de Is­
rael(8:1-36)
2. Os Primeiros Sacrifícios Públicos
em Israel(9:1-24)
21
3. O Erro de Nadabe eAbiú
(10:1-20)
III. Os Regulamentos Concernentes à
Pureza(11:1; 15:23)
1. Animais Limpos e os Imundos
(11:1-47)
2. A Impureza Relacionada com o
Parto (12:1-8)
3. Impureza Resultante da Lepra
(13:1; 15:33)
(1) ODiagnóstico da Doença
(13:1-46)
(2) A Identificação da Doença
nas Roupas(13:47-59)
(3) As Ofertas Pela Purificação
(14:1-32)
(4) O Processo Para a Lepra em
Casas(14:33-57)
(5) Impureza Pelos Fluxos Cor­
porais(15:1-33)
IV. O Grande Dia daExpiação
(16:1-34)
V. OCódigoda Santidade(17:1; 26:46)
1. A Oferta de Sacrifício e o Co­
merCarnes(17:1-16)
2. Os Regulamentos com Respeito
aoCasamento(18:1-30)
3. Uma Lista Geral deLeis
(19:1-37)
4. Leis Que Implicam a Pena de
Morte(20:1-27)
5. A Santidade dos Saeerdotes
(21:1-24)
6. A Santidade das Ofertas
(22:1-33)
7. O Calendário dosFestivais
(23:1-44)
(1) Festivais de Instituição Di­
vina(23:1-3)
(2) OFestival da Primavera
(23:4-14)
(3) O Festival do Começo do
Verão(23:15-22)
(4) O Festival do Outono
(23:23-44)
8. O Culto Regular no Santuário
(24:1-9)
9. A Validade da Lei de Israel
Para Estrangeiros(24:10-23)
10. O Ano Sabático e o Ano do Ju­
bileu(25:1; 26:2)
11. RecompensaseCastigos
(26:3-46)
VI. Leis com Respeito a Juramentos e
OfertasVotivas(27:1-34)
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ComentárioSobreoTexto
I. InstruçõesParaos Sacrifícios
(1:1-7:38)
A primeira parte do livro de Levítico é
dedicada a um manual pormenorizado
de instruções para o oferecimento de
sacrifício a Deus. Seu contexto histórico
é muito importante. O livro de Êxodo
narra o resgate divino do Egito e a alian­
ça entre Deus e Israel feita no Sinai.
Isso é seguido por uma série de instru­
ções para a construção do tabernáculo
(Êx. 26,27) e a ordenação do sacerdócio
da linha de Arão (Êx. 28,29). A constru­
ção do tabernáculo, a “igreja no deser­
to”, é, então, empreendida sob a direção
de Moisés (Êx. 35-40), e Deus aceita-o
como um lugar digno para o culto, por
ali revelar a sua presença na nuvem de
sua glória(Êx. 40:34-38).
Na continuação desta narrativa histó­
rica, Levítico 8 e 9 contam da realização
das instruções divinas para a ordenação
de Arão e de seus filhos como sacerdotes
e do oferecimento dos primeiros sacrifí­
cios a Deus no altar do tabernáculo
recém-construído. Antes que essas deter­
minações fossem cumpridas, porém, foi
necessário expor as instruções estabele­
cidas por Deus para os diversos tipos de
sacrifícios que se haviam de fazer no
novo santuário. Assim, Levítico 1:1-7:38
constituem, essencialmente, o manual de
sacrifício de Israel. Os capítulos l:l-6:7
contêm instruções para pessoas leigas,
concernentes aos quatro tipos principais
de sacrifícios que se hão de oferecer, e
6:8-7:38 contêm regulamentos estabele­
cidos para os sacerdotes com relação a
essas ofertas. O compartilhamento do
ministério do sacrifício entre os sacerdo­
tes e os israelitas leigos é, assim, bem
apresentado.
Acolocação deste manual de sacrifício
neste ponto da história da obra salvífica
de Deus para com Israel é muito impor­
tante. Enfatiza que o culto de Israel,
centralizado no tabernáculo e expresso
de forma máxima no oferecimento do
sacrifício, era o meio dado por Deus,
pelo qual a salvação do Êxodo e a co­
munhão com Deus, declaradas na alian­
ça do Sinai, haviam de ser continuamen­
te experimentadas por gerações sucessi­
vas deisraelitas. O ato histórico do resga­
te foi transferido a gerações posteriores
nas bênçãos que recebiam de Deus em
seu culto. Assim, o culto centralizado no
tabernáculo, e, mais tarde, no templo,
foi o meio pelo qual o poder da salvação
deDeusfoiestendido através da história.
Esse manual de sacrifício é apresenta­
do como uma revelação divina a Israel
através de Moisés. Ê o próprio Deus que
torna sabida a modalidade de culto que
lhe agrada. Isso remove por completo
qualquer sugestão que o oferecimento de
sacrifício em Israel fosse uma obra hu­
mana, destinada a conquistar o afeto de
um Deus indisposto ou a persuadi-lo a
ser gracioso. Ê precisamente porque
Deus é gracioso que ele tem revelado as
modalidades de culto e de sacrifício que
lhe agradam.
Istoéparticularmente importante por­
que, entre os vizinhos de Israel, certa­
mente era corrente o ponto de vista de
que ,os homens, por oferecerem sacrifí­
cios, eramcapazes de satisfazer uma ne­
cessidade de Deus e assim tomá-lo favo­
rável aos que o cultuavam. Não há dú­
23
vida de que, dada a semelhança conside­
rável entre os ritos sacrificais de Israel e
os de seus vizinhos, essa atitude também
seinfiltrou em Israel. Talponto devistaé
totalmente excluído, pela demonstração
de que é precisamente porque Deus é
graciosoque elemostra aoseu povocomo
devecultuá-lo. O sacrifícioera importan­
te para Israel não porque satisfazia uma
necessidade emDeus, mas porque supria
uma necessidade em Israel e lhe possibi­
litava continuar no gozo da bênção divi­
na. Desta maneira, por detrás do rito do
sacrifício, que expressava a dádiva do
homem a Deus, afirmou-se a verdade de
que mesmo essa oportunidade de dar a
Deus era um sinal de seu favor e uma
conseqüência de seu dom anterior da
salvação. A maneira como o código sa­
crifical de Israel é colocado dentro~da
revelação no Sinai revela que o culto a
Deus éum dom de Deus aos homens que
satisfaz as necessidades deles, e nãoas de
Deus.
A questão da época em que este ma­
nual de sacrifício foi redigido pode ser
respondida somente de maneira muito
geral. Na forma em que existe atualmen­
te, foi inserido na tradição global que
Israel possuía de sua história e constitui­
ção, em data relativamente tardia, al­
gum tempo depois do exílio. Porém o
oferecimentode sacrifícios dentro do cul­
to pactuai de Israel remonta ao começo
da história da nàção, ao tempo de Moi­
sés. Os regulamentos que regiam a natu­
reza desses sacrifícios e a maneira como
haviam de ser oferecidos foram transcri­
tos das práticas contemporâneas e com­
pilados em forma de leis através de um
longo período. Na forma em que existem
atualmente, refletem os padrões do culto
que se estabeleceu no templo em Jerusa­
lém durante o período da monarquia
israelita. Aqui, oculto de Israel alcançou
assuasformas mais belaseexpressivas.
A finalidade da compilação de seme­
lhante manualfoia de simplesmentepro­
videnciar para os cultuadores leigos ori­
entações com relação à maneira como os
sacrifícios deviam ser oferecidos e tam­
bém definir, tanto para leigos como para
os sacerdotes, os seus deveres respecti­
vos. As próprias leis são principalmente
de natureza técnica e prática, e visam
descrever o ritual a ser observado, mais
do que explicar os propósitos e a nature­
za do sacrifício em si. Em certa fase,
semelhantes leis foram preservadas no
santuário onde sefaziam tais sacrifícios e
certamente escritas para facilitar a con­
sulta de cultuadores e de sacerdotes. Tal­
vez também, em alguma época, o sacer­
dote tenha tido o costume, por ocasião
dosgrandesfestivais, de recitar oralmen­
te, para o povo, a forma de ritual que
devia observar, ao trazer as suas ofertas.
O significado e propósito dos sacrifícios
não são dados explicitamente em lugar
algum no Antigo Testamento, presumi­
velmente porque se supunha serem já
conhecidos de todos quefreqüentavam os
cultos. No entanto, os pormenores e as
alusões nos possibilitam inferir o seu
significado.
1. AOferta Queimada(1:1-17)
1 Ora, chamou o Senhor a Moisés e, da
tenda da revelação, lhe disse: 2 Fala aos
filhos de Israel e dize-lhes: Quando algum
de vós oferecer oferta ao Senhor, oferece­
reis as vossas ofertas de gado, isto é, do
gado vacum e das ovelhas. 3 Se a sua oferta
forholocausto de gado vacum, oferecerá ele
um macho sem defeito; à porta da tenda da
revelação o oferecerá, para que ache favor
perante o Senhor. 4 Porá a sua mão sobre a
cabeça do holocausto, e este será aceito a
favor dele, para a sua expiação. 5 Depois
imolará o novilho perante o Senhor; e os
filhos de Arão, os sacerdotes, oferecerão o
sangue, e espargirão o sangue em redor
sobre o altar que está à porta da tenda da
revelação. 6 Então esfolará o holocausto, e
o partirá nos seus pedaços. 7 E os filhos de
Arão, o sacerdote, porão fogo sobre o altar,
pondoem ordem a lenha sobre ofogo; 8tam­
bém os filhos de Arão, os sacerdotes, porão
em ordem ospedaços, a cabeça e a gordura,
sobre a lenha que está no fogo em cima do
altar;9a fressura,porém,e as pernas, ele as
lavará com água; e o sacerdote queimará
24
tudo isso sobre o altar como holocausto,
oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor.
10 Se a sua oferta for holocausto de gado
miúdo, seja das ovelhas seja das cabras,
oferecerá ele um macho sem defeito, 11e o
imolará ao lado do altar que dá para o
norte, perante o Senhor; e os filhos de Arão,
ossacerdotes, espargirão osangue em redor
sobre o altar. 12 Então o partirá nos seus
pedaços, juntamente com a cabeça e a gor­
dura; e o sacerdote os porá em ordem sobre
a lenha que está no fogo sobre o altar;
13 a fressura, porém, e as pernas, ele as la­
vará com água; e o sacerdote oferecerá
tudo isso, e o queimará sobre o altar; holo­
causto é, oferta queimada, de cheiro suave
ao Senhor. 14 Se a sua oferta ao Senhor for
holocausto tirado de aves, então de rolas ou
de pombinhos oferecerá a sua oferta. 15E o
sacerdote a trará ao altar, tirar-Ihe-á a ca­
beça e a queimará sobre o altar; e o seu
sangue será espremido na parede do altar;
16e o seu papo com as suas penas tirará e o
lançará junto ao altar, para o lado do orien­
te, nolugar da cinza; 17e fendê-la-á junto às
suas asas, mas não a partirá; e o sacerdote
a queimará em cima do altar sobre a lenha
que está no fogo; holocausto é, oferta quei­
mada, de cheiro suave ao Senhor.
A oferta queimada era a forma princi­
pal de sacrifício em Israel. Por esse moti­
vo, vem em primeiro lugar nesta lista de
sacrifícios. O formato e conteúdo das
instruções para oseu oferecimento foram
seguidos muito de perto por aquelas que
dizem respeito à oferta pacífica no capí­
tulo3. Expostas deuma maneira direta e
pragmática, sâo as informações que pos­
sibilitariam ao cultuador comum ofere­
cer sua oferta queimada a Deus. Dá-se
atençãoparticular aos deveres que opró­
prio cultuador havia de desempenhar e à
definição dos que eram da responsabili­
dade dosacerdote.
O ritual como um todo pode ser divi­
dido nas seguintes ações principais: (1) a
apresentação da oferta na entrada do
santuário(v. 3,10,14); (2) a colocação da
mão do ofertante sobre a cabeça da
vítima (v. 4); (3) a execução da vítima
(v. 5,11); (4) oespargirdo sangue sobre o
altar (v. 5,11,15); (5) a esfoladura do
animal e a sua divisão em pedaços
(v. 6,12,16,17); (6) a queima de certas
partes da vítima sobre o altar (v. 8,9,12,
13,15,17).
É evidente que são especificamente
essas ações que implicam contato direto
com o altar que foram reservadas para o
sacerdote. O derramamento do sangue
da vitima sobre o altar, a ordenação e o
acender dofogosobreele e a queima, em
si, das partes da vitima eram todos deve­
res do sacerdote. O altar, como o lugar
da reconciliação entre Deus e o homem,
era considerado sacríssimo, e as ações
que implicavam contato com o mesmo
foram reservadaspara os sacerdotes, que
compartilhavam de sua natureza espe­
cial, sagrada (cf. Ez. 44:4-31). Fora dis­
so, o cultuador comum desempenhava
um papel surpreendentemente grande,
no oferecimento do sacrifício, pois ele
matava o animal, esfolava-o e dividia-o
em pedaços.
Um interesse especial recai sobre a
colocação das mãos do cultuador sobre a
cabeça doanimal designadopara o sacri­
fício. O significado desta ação não é de
tudo claro. Aparece de novo, de maneira
especial, no Dia da Expiação, quando o
próprio sumo sacerdote colocava as suas
mãos sobre obode, queera levado para o
deserto (16:21). Neste caso se afirma
claramente que o propósito dessa ação
era a transferência dos pecados de Israel
para o bode, que em seguida os levava
embora para odeserto. No caso da oferta
queimada, essa transferência de pecado
não é tão claramente afirmada (1:4).
O significado desse gesto é, aparente­
mente, o da identificação. A colocação
das mãos do cultuador sobre a cabeça da
vítima declara de quem é o sacrifício e
para quem a reconciliação que obtém
seráválida. Assim, serve, de uma manei­
ra especial, para demonstrar a posse da
vítima por parte do cultuador, e o desejo
dele de buscar a graça divina por meio
dela. Serviu para ligar o desejo e a inten­
ção nítidos docultuador ao ritual externo
dosacrifício, que, como sabemos das crí­
2S
ticas dos profetas (Os. 6:6; Am. 5:21-24;
Miq. 6:6-8), podia facilmente descambar
para o vazio de uma formalidade ex­
terna.
Levítico 1:9 descreve a oferta queima­
da como de cheiro suave ao Senhor. Esta
expressão aparece várias vezes em rela­
ção à oferta queimada eà oferta pacífica.
Literalmente, quer dizerum cheiro “aca-
riciativo” ou “agradável”, indicando que
o cheiro do sacrifício era atraente para
Deus. Semelhante idéia antropomórfica
de Deus, e do efeito que o sacrifício
exercia sobre ele, era, indubitavelmente,
muito antiga e pré-israelita. Está muito
claro que os rituais, em Levítico, não
consideram osacrifíciocomouma dádiva
para aplacar uma deidade irada. Temos
deconcluir, portanto, que esta expressão
peculiar tem sido retida como uma ex­
pressão arcaica e colocada num contexto
onde tinha um sentido simbólico, já não
literal.
Não há nenhuma declaração, nestas
instruções, quanto ao significado do ri­
tual da oferta queimada ou em relação às
ocasiões quando se havia de oferecê-la,
mas as características essenciais de seu
uso podem ser deduzidas destes versí­
culos e de outras referências a ela no
Antigo Testamento. O nome hebraico
dela significa “o que sobe”, e, certamen­
te, deriva-se do fato de que era a forma
de sacrifício que subia até Deus na fu­
maça do altar. Pode ser entendido, em­
bora menos plausivelmente, como o que
subiu ao altar em oferenda a Deus. Por­
que a vítima era inteiramente consumi­
da pelo fogo, sobre o altar, podia tam­
bém ser chamada de oferta queimada
(1:9,13,17). Provavelmente, os “holo-
caustos” de Salmos 51:19 eram seme­
lhantes.
A vítima havia de ser escolhida dentre
os animais domésticos do ofertante, um
boi, umaovelhaou um bode, oupodia ser
uma rola ou um pombinho (v. 14-17).
Estaúltima possibilidade era introduzida
casoocultuadorfosse pobre demais para
oferecer um animal doméstico. E todo
israelita havia de participar desse culto e
não havia de ser privado do privilégio de
fazer a sua oferta a Deus, muito embora
a pobreza fizesse com que ela fosse mais
humilde e menos evidente do que a que
normalmente sedava.
Afinalidadeprimordial da oferta quei­
mada era assegurar a propiciação pelos
pecados, como se infere do versículo 4.
Um exemplo disso, na prática, se acha
em Números 15:24, onde uma oferta
queimada seria oferecida em sacrifício,
se a comunidade inteira transgredisse a
lei de Deus inadvertidamente. Não era
essa a única ocasião, todavia, quando
semelhante oferta podia ser feita. Leví­
tico 12:6-8 exige uma oferta queimada
junto com uma oferta pelo pecado da
parte de uma mulher depois do parto,
e Números 15:3 alude a se fazer uma
oferta queimada como pagamento de um
voto. O sacrifício da oferta queimada era
um ato de reconhecimento da soberania
de Deus e uma expressão visível de ação
de graças a ele.
Essas instruções determinadas que
achamos em Levítico 1 dizem respeito à
oferta queimada de um israelita leigo
individualmente. Noutros lugares, no
Antigo Testamento, achamos a oferta
queimada usada como um sacrifício ofe­
recido pelo rei (II Sam. 6:17 e s.; I Reis
9:25; 10:5), em prol dele mesmo e da
naçãosobre que reinava. Dissosurgiu em
Israel a prática de fazer uma oferta quei­
mada diária no templo em Jerusalém
pela manhã (Ez. 46:13-15) e, depois de
períodoindefinido, outro sacrifício seme­
lhante ao entardecer (Núm. 28:4,8). A
oferta queimada também se fazia' em
prol da comunidade inteira de Israel, por
ocasião das festividades especiais, nota-
damente no sábado, nasluas novas, e nas
outras festividades principais do ano is­
raelita(Núm. 28,29).
De todas as formas de sacrifícios cor­
rentesem Israel, a natureza distintiva da
26
oferta queimada era bem destacada. Era
a dádiva que o israelita fazia exclusiva­
mente a Deus, e assim constituía um ato
de culto expressivo de obediência total.
O ofertante não guardava nada para si, e
não usava seu sacrifício para providen­
ciar um repasto festivo, para o gozo dele
e de sua família. A oferenda era para
Deus somente, e, assim, em a oferecer,
ele reconhecia a total soberania de Deus
sobre todas as criaturas vivas e a reivin­
dicação divina de plena obediência em
suaprópriavida.
2. AOferta deCereais(2:1-16)
1 Quando alguém fizer ao Senhor uma
oferta de cereais, a sua oferta será de flor
de farinha; deitará nela azeite, e sobre ela
porá incenso; 2e a trará aos filhos de Arão,
os sacerdotes, um dos quais lhe tomará um
punhado de flor de farinha e do azeite com
todo o incenso, e o queimará sobre o altar
por oferta memorial, oferta queimada, de
cheiro suave ao Senhor. 3 O que restar da
oferta de cereais pertencerá a Arão e a seus
filhos; é coisa santíssima entre as ofertas
queimadas ao Senhor. 4Quando fizeres ofer­
ta de cereais assada ao forno, será de bolos
ázimos de flor de farinha, amassados com
azeite, e coscorões ázimosuntados comazei­
te. 5 E se a tua oferta for oferta de cereais
assada na assadeira, será de flor de farinha
sem fermento, amassada com azeite. 6 Em
pedaços a partirás, e sobre ela deitarás
azeite; é oferta de cereais. 7 E se a tua
oferta for oferta de cereais cozida na frigi­
deira, far-se-á de flor de farinha com azeite.
8Então trarás ao Senhor a oferta de cereais
que for feita destas coisas; e será apresen­
tada ao sacerdote, o qual a levará ao altar.
9 E o sacerdote tomará da oferta de cereais
o memorial dela, e o queimará sobre o al­
tar; é oferta queimada, de cheiro suave ao
Senhor. 10 E o que restar da oferta de ce­
reais pertencerá a Arão e a seus filhos; é
coisasantíssima entre as ofertas queimadas
ao Senhor. 11 Nenhuma oferta de cereais,
quefizerdes ao Senhor, será preparada com
fermento; porque não queimareis fermento
algum nem mel algum como oferta queima­
da ao Senhor. 12 Como oferta de primícias
oferecê-los-eis ao Senhor; mas sobre o altar
não subirão por cheiro suave. 13 Todas as
tuas ofertas de cereais temperarás com sal;
não deixarás faltar a elas o sal do pacto do
teu Deus; em todas as tuas ofertas oferece­
rás sal. 14 Se fizeres ao Senhor oferta de
cereais deprimícias, oferecerás, como ofer­
ta de cereais das tuas primícias, espigas
tostadas ao fogo, isto é, o grão trilhado de
espigas verdes. 15Sobre ela deitarás azeite,
e lhe porás- por cima incenso; é oferta de
cereais. 16 O sacerdote queimará o memo­
rial dela, isto é, parte do grão trilhado e
parte do azeite com todo o incenso; é oferta
queimadaao Senhor.
O ritual para a oferta de cereais é,
naturalmente, muito mais simples do
que o para a oferta queimada. As diver­
sas subseções do capítulo dizem respeito
principalmente aos materiais diferentes
que podiam ser usados para a oferta.
O título hebraico da oferta de cereais
quer dizer, simplesmente, “dádiva”, e a
mesma palavra podia ser usada em sen­
tido lato, para abranger todas as classes
diferentes de oferta de sacrifício, bem
como em sentido mais restrito, para se
referir àqueles sacrifícios que não impli­
cavam a matança de um animal. Isso é o
caso aqui, onde a oferta é composta de
cereais moídos grossos, ou de trigo ou de
centeio, preparados de uma dentre vá­
rias maneiras possíveis.
Acolocação das instruçõespara a ofer­
ta de cereais diretamente depois das ins­
truções para a oferta queimada reflete,
sem dúvida, a prática de trazer aquela
juntamente com esta. Assim, a oferta de
cereais era usada freqüentemente como
um tipo de sacrifício suplementar, para
acompanhar a oferta queimada, como é
mostrado em Números 15:3-5 e II Reis
16:13, quando ofertas de vinho como
libação eram também feitas. Nem sem­
pre acontecia assim, porém, e achamos
diversos exemplos da oferta de cereais
sendo trazida sozinha(6:14-18; 23:15,16;
Núm. 5:15; 28:26). A ocasião mais co­
mum para uma oferta de cereais inde­
pendente era a da entrega das primícias
da colheita aDeus.
Este capítulo menciona quatro formas
diferentes em que a oferta de cereais
podia ser trazida. Em cada caso os ingre­
dientes básicos, da farinha moída gros-
27
sa, de trigoou decenteio, misturada com
óleo, continuam os mesmos, e a diferen­
ça está na maneira como se prepara a
oferta. Os quatro tipos são:
(1) O cereal básico (farinha) com óleo
derramado sobre ele (v. 1-3). O incenso
estava misturado só com a parte que se
queimava sobre oaltar.
(2) Bolosde farinha, assados num for­
no e misturados com óleo enquanto sen­
do preparados ou untados com óleo de­
pois (v. 4). Nenhum fermento havia de
sermisturado com a massa.
(3) Bolos assados numa fôrma sobre
chapa de ferro quente (v. 5,6). Eles ti­
nham de ser misturados com óleo e,
quando cozidos, partidos em pedaços,
derramando-se ainda óleosobreeles.
(4) Bolos cozidos numa frigideira de
barro e também misturados com óleo
antes de cozidos(v. 7).
Exceto o cuidado de se evitar o uso de
qualquer fermento, na preparação dos
bolos(v. 5,11), não havia dúvida de que
cada uma dessas formas da oferta de
cereais representava um método comum
de preparar bolos em Israel. Assim, a
oferenda a Deus era uma parte simbó­
licada comidapreparada emcasa. Como
a oferta queimada expressava o elevado
custo da entrega integral da pessoa a
Deus, assim a oferta de cereais declarava
que era a vida cotidina de homens e
mulheres que havia de ser dedicada a
Deuseabençoadaporele.
O ritual de oferta de cereais consistia
no seguinte: (1) a preparação da oferta
(v. 1,4-7); (2) o trazimento da oferta ao
santuário(v.2,8); (3) a separação da por­
ção memorial especial (v. 2,9,16); e
(4) a queima da porção memorial sobre o
altarpelosacerdote.
Mais uma vez, como no caso da oferta
queimada, existe uma divisão nítida de
responsabilidade entre o israelita leigo,
que preparava e trazia a oferta, e o
sacerdote, que realmente queimava par­
te dela sobre o altar. A divisão da oferta
em duas partes mostra que apenas uma
parte dela se queimava no altar, como
sinal de que se dava o todo a Deus. Esta
parte se chama de porção memorial, e
esta tradição se deriva do fato de que o
adjetivo usado é formado do verbo que
normalmente significa “lembrar”. Po­
rém, num estudo cuidadoso da palavra,
G. R. Driver (Journal of Semitic Stu-
dies I, 1956, p. 97 e ss.) argumenta que
realmente significa “sinal”, e é isso que
esperávamos que significasse, à luz de
seuempregono ritual. Ê osinal da oferta
decereais queera queimado sobre o altar
como dádiva a Deus, e representava o
oferecimento da oferta toda a ele. A
parte que não era queimada se dava aos
sacerdotes (v. 3). De 6:16, sabemos que
esta parte seria comida pelos sacerdotes.
Assim, contava comoparte de sua renda.
Deste modo, ao dar a sua oferta de
cereais, o cidadão israelita estava cum­
prindo a sua responsabilidade para com
a manutenção do ministério sacerdotal,
através do qual a nação permaneceria em
comunhão comDeus.
Há duas características invulgares,
que deviam ser notadas nas instruções
para a oferta de cereais. Nenhum fer­
mento havia de ser permitido no preparo
de nenhum dosbolos. O motivo disso era
que o cereal tinha de estar intacto, e a
ação da fermentação da levedura estra­
garia isso. Mel e massa fermentada po­
diam ser trazidos somente como ofertas
dasprimícias(v. 11,12). Isso queria dizer
que podiam ser dados aos sacerdotes,
para usarem como alimento, mas não
haviam de ser oferecidos a Deus sobre o
altar. Esse regulamento considera a leve­
dura como uma influência danosa e per­
turbadora, por mais necessário que fosse
para fins de assadura. Ê este ponto de
vista que se reflete na advertência •de
nossoSenhor: “Acautelai-vos do fermen­
to dosfariseus” (Luc. 12:1).
Por outro lado, não se havia de dar
nenhuma oferta a Deus sem sal, que se
descreve como o sal do pacto do teu
Deus. Isto revela a importância do sal
28
como símbolo da amizade e da comu­
nhão. Aqueles que compartilhavam do
sal numa refeição estavam numa relação
genuínade confiança e lealdade. Como o
fermento simbolizava o que era inaceitá­
vela Deus, assim o sal simbolizava o que
lhe tomava as ofertas aceitáveis. Isso
lança luz sobre a descrição, feita por
Jesus, de seus discípulos como “o sal da
terra” (Mat. 5:3). Como o sal tomava
uma oferta agradável a Deus, assim os
crentes no mundo devem tomá-lo aceitá­
velaDeus.
3. AOfertaPacífica(3:1-17)
1 Se a oferta de alguém for sacrifício pa­
cífico: se a fizerde gado vacum, seja macho
oufêmea, oferecê-la-á sem defeito diante do
Senhor; 2 porá a mão sobre a cabeça da sua
oferta e a imolará à porta da tenda da
revelação; e os filhos de Arão, os sacerdo­
tes, espargirão o sangue sobre o altar em
redor. 3 Então, do sacrifício de oferta pací­
fica, fará uma oferta queimada ao Senhor;
a gordura que cobre a fressura, sim, toda a
gordura que está sobre ela, 4 os dois rins e a
gordura que está sobre eles, e a que está
juntoaos lombos, e o redenho que está sobre
o fígado, juntamente com os rins, ele os
tirará. 5 E os filhos de Arão queimarão isso
sobre o altar, em cima do holocausto que
está sobre a lenha no fogo; é oferta queima­
da, de cheiro suave ao Senhor. 6 E se a sua
oferta por sacrifício pacífico ao Senhor for
de gado miúdo, seja macho ou fêmea, sem
defeito oferecerá. 7 Se oferecer um cordeiro
por sua oferta, oferecê-lo-á perante o Se­
nhor; 8 e porá a mão sobre a cabeça da sua
oferta, e a imolará diante da tenda da reve­
lação; e os filhos de Arão espargirão o san­
gue sobre o altar em redor. 9 Então, do
sacrifício de oferta pacífica, fará uma ofer­
ta queimada ao Senhor; a gordurada oferta,
a cauda gorda inteira, tirá-la-á junto aoespi­
nhaço; e a gordura que cobre a fressura,
sim, toda a gordura que está sobre ela,
10 os dois rins e a gordura que está sobre
eles, e a que está junto aos lombos, e o re­
denho que está sobre o fígado, juntamente
com os rins, tirá-los-á. 11 E o sacerdote
queimará isso sobre o altar; é o alimento da
oferta queimada ao Senhor. 12 E se a sua
oferta for uma cabra, perante o Senhor a
oferecerá; 13 e lhe porá a mão sobre a ca­
beça, e a imolará diante da tenda da reve­
lação; e os filhos de Arão espargirão o san­
gue da cabra sobre o altar em redor. 14 De­
pois oferecerá dela a sua oferta, isto é, uma
oferta queimada ao Senhor; a gordura que
cobre a fressura, sim, toda a gordura que
está sobre ela, 15 os dois rins e a gordura
que está sobre eles, e a que está junto aos
lombos, e o redenho que está sobre o fígado,
juntamente com osrins, tirá-los-á. 16E o sa­
cerdote queimará isso sobre oaltar; é o ali­
mento da oferta queimada, de cheiro suave.
Todaa gordurapertencerá ao Senhor. 17Es­
tatuto perpétuo, pelas vossas gerações, em
todas as vossas habitações, será isto: ne­
nhuma gordura nem sangue algum come­
reis.
O ritual da oferta pacífica descrito em
Levítico 3 segue muito de perto aquele
para a oferta queimada do capítulo 1.
Não há necessidade, portanto, de expor o
conteúdo do ritual novamente. A diferen­
ça principal é que, enquanto a oferta
queimada inteira era ofertada sobre o
altar a Deus e queimada, somente certas
partes menores da oferta pacífica eram
usadas dessa forma. Elas são alistadas
pormenorizadamente(v. 3,4,9,10,14,15).
0 cultuador cozinhava ou assava o res­
tante da vítima e usava a came para
proporcionar uma refeição para ele mes­
mo, para a sua família e para outros
hóspedesconvidados.
Enquanto a característica da oferta
queimada era o oferecimento solene do
animal inteiro a Deus, a da oferta pa­
cífica era a característica muito mais
alegre, do gozo de uma refeição na com­
panhia da família e dos amigos. Con­
quanto a oferta queimada expressasse o
custo da obediência, a oferta pacífica
expressava a alegria e a felicidade da
comunhão, que trazia. Não é de sur­
preender, portanto, que freqüentemente
achamos estas duas formas de sacrifício
mencionadas juntamente, como tendo
sido oferecidas por ocasião do mesmo
festival (I Sam. 13:9; II Sam. 6:17,18;
1Reis8:64). Defato, a oferta queimadae
a oferta pacífica constituem, em con­
junto, as formas mais primitivas de sa­
crifíciocorrentesem Israel.
29
As instruções contidas em Levítico 3
dividem-se em três subdivisões, que tra­
tam, respectivamente, dos três tipos de
animais domésticos que podiam ser usa­
dos para a oferta; um boi ou vaca
(v. 1-5), uma ovelha (v. 6-11) ou uma
cabra (v. 12-16). A oferta pacífica difere
da oferta queimada no sentido de que o
animal podia ser macho ou fêmea (v. 1,
6), enquanto a oferta queimada tinha de
sermacho(1:3,10).
A expressão oferta pacífica tem-se tor­
nado comum no inglês desde a versão do
Rei Tiago (KJV) e é mantida na Versão
Padrão Revisada (RSV). Porém pode
causar mal-entendidos, pois este tipo de
sacrifício certamente não tinha como fi­
nalidade apaziguar uma deidade irada
da forma metafórica em que é às vezes
usada. O sentido exato da palavra he­
braica tem sido muito discutido. Ela está
ligada, etimologicamente, à palavra usa­
da para expressar “paz, bem-estar”,
através de um sentido básico de “ser
inteiro, completo”. Daí ter sido entendi­
da muitas vezes como referindo-se ao
sacrifício que faz com que o relaciona­
mento entre as pessoas seja inteiro ou
completo. Por conseguinte, tem sido su­
gerido que seu sentido real é ou “oferta
de comunhão” ou “oferta comunitária”.
Contudo, visto que diz respeito mais
especialmente à relação entre Israel e
Deus, muitas vezes num sentido nacio­
nal ou comunitário, tem sido também
sugerido que deverá chamar-se de “sacri­
fício da aliança”. Isto não é satisfatório,
porém, uma vez que, embora o sacrifício
fosse certamente usado por ocasião das
celebrações pactuais, o nome em si é
mais antigo que o seu uso em Israel e
sabe-se que era corrente entre os cana-
neus. O nome em si, portanto, não pode
ter sido derivado do significado determi­
nado que essa forma de sacrifício tinha
em Israel. Mais provavelmente significa
“sacrifício de encerramento” e refere-se
ao fato de que semelhantes sacrifícios
foram usados para completar uma festa
de ofertas solenes a Deus. Isso concorda
completamente com a ligação estreita
entre a oferta queimada e a oferta pací­
fica.
O título completo desse sacrifício é
sacrifíciode oferta pacífica, que se com­
põe, no hebraico, de duas palavras. O tí­
tuloem si reflete uma história considerá­
vel, na qual, originalmente, cada uma
dessas palavras se referia a um tipo dife­
rente de sacrifício. Como parte de um
processo de definição mais precisa e de
desenvolvimento mais complexo, o “sa­
crifício(abatido)” original e o “sacrifício
pacífico (de encerramento)” têm sido
ligados de tal forma que a natureza mais
geral daquele tem assumido as caracte­
rísticas especiais deste. Estas caracterís­
ticas especiais diziam respeito primeira­
mente à maneira de tratar as partes gor­
durosas e o sangue. Assim, o ritual da
oferta pacífica nos revela como Israel
ordenou e interpretou as formas mais
gerais de sacrifício que eram correntes
entre os seus vizinhos e deu-lhes um
significado especial.
O versículo 17 estabelece a regra que
se aplicava forçosamente a todos os sa­
crifícios em Israel. Nem sangue nem
gordura deviam ser comidos pelo cultua-
dor, mas deviam ser dados a Deus, no
caso da oferta pacífica, pela queima da
gordura no altar e pelo derramamento
dosangue noslados do altar.
A santidade especial do sangue, cuja
inclusão era proibida na carne sacrifical
queocultuadorcomia, recebemuito real­
ce no Antigo Testamento. É explicada
mais completamente em 17:11: “Porque
a vida da carne está no sangue.” A im­
portância dada ao sangue se deriva da
observação básica de que, se o sangue é
derramado, então avida da pessoa é der­
ramada com ele. A perda do sangue de
maneira grave implica a perda da vida.
É esta importância única do sangue para
a vida que fez com que fosse tratado de
uma forma muito especial, tanto no sa­
crifício, quando um animal era abatido
30
ritualmente, como, mais tarde, quando
se permitia o abate profano de animais
domésticos para alimento. Visto que a
vida é dom de Deus, o sangue era consi­
derado, de forma única, como uma ma­
nifestação física desse dom. Tinha, por­
tanto, de serdevolvidoaDeus.
O povojudeu continua a observar esta
proibição por uma tradição de abate
kosher (ou correto), que drena tanto
sangue de um animal quanto possível,
para este ser usado como alimento. Co­
mo um gesto conciliatório para os ju­
deus, o primeiro conselho apostólico em
Jerusalém também advogou que os cris­
tãos devessem abster-se de carnes que
continham sangue (At. 15:29). Quando
da separaçãoentre cristãos ejudeus, essa
praxe já não era vista como necessária.
Os cristãos primitivos consideravam Je­
sus Cristo como o seu verdadeiro sacri­
fício, e oseu sangue derramado, como a
verdadeira “vida” devolvida a Deus. As­
sim, uma proibição que se tinha tornado
uma obrigação ritual dentro dojudaísmo
foi abandonada pelos cristãos. Com o
cumprimento dosacrifício em Jesus Cris­
to, terminou a obrigação de se abster da
carne que continha sangue.
É supérfluo comentar que essa norma
do Antigo Testamento com relação a co­
mer sangue ou compartilhar dele não
tem nada a ver com a prática médica
moderna de transfusão de sangue e que
não se pode, de maneira nenhuma, con­
siderar aquela como contrária a esta. Na
medida em que a norma do Antigo Tes­
tamento se deriva de uma reverência
para com a vida, seu espírito deverá,
indubitavelmente, alimentar e encorajar
toda técnica que ajude na salvação e
preservação da vida.
Precisamente comoosangue era consi­
derado a concentração da vida da cria­
tura, assim também as partes gordurosas
eram consideradas lugares onde essa for­
ça vital estava localizada. Por esse mo­
tivo, não haviam de ser usadas como
alimento, mas sim devolvidas a Deus.
Em certa altura, na sociedade pré-israe-
lita, isso se supunha ser, sem dúvida,
para o reforço da própria vida de Deus
em si. Porém em Israel tais idéias foram
superadas pela consciência de que Deus
era o Deus vivo, a fonte de toda a vida e
acima de qualquer necessidade de revi­
talização. Portanto, os aspectos do ritual
qué implicavam a queima das partes
gordurosas da oferta pacífica sobre o
altar (v. 14-16) se relacionavam com o
lançamento do sangue contra o altar,
visto que os dois expressavam a devolu­
ção da força vital do animal a Deus.
Como a vida tinha sido dada por Deus,
assim tinha de ser devolvida a ele por
ocasiãoda morte da criatura, enãopodia
serapropriada peloshomens. O versículo
17 termina com uma declaração geral,
que resume a proibição permanente, em
Israel, do uso da gordura como comida e
do sangue como bebida. A mesma proi­
bição abrangente do uso do sangue e da
gordurapara oalimentoéreafirmada em
7:23-27.
Nada se diz diretamente, neste capí­
tulo, sobre o valor expiatório da oferta
pacífica, como em relação à oferta quei­
mada (1:4). Conquanto o derramamento
de todo o sangue no altar fosse consi­
derado um ato de expiação (17:11), pare­
ce que a oferta pacíficaera mais especial­
mente uma ocasião para ações de graças
eregozijo.
Era, num sentido real, uma refeiçãode
comunhão, celebrada perante Deus, da
qual compartilhavam a família e os ami­
gos do cultuador. Expressava a natureza
alegre da verdadeira religião e servia
para lembrar, a todo cultuador, da san­
tidade dos dons divinos da vida e do ali­
mento. As ofertas pacíficas podiam ser
oferecidas voluntariamente ou em paga­
mento deum voto.
4. As Ofertas Pelo Pecado e Pela Culpa
(4:l-6:7)
Esta série de instruções diz respeito a
duas formas de sacrifício: a oferta pelo
31
pecado e a oferta pela culpa. Estão rela­
cionadas muito de perto, e os dois nomes
dohebraicopraticamente condizem. Que
tenha existido alguma diferença entre
eles em determinada época, contudo,
parece inquestionável, embora seja mui­
to difícil definir precisamente em que
tenhaconsistido. No decorrer dos séculos
em que eram oferecidas estas ofertas em
Israel, elas sofriam forte influência uma
da outra e se tornaram tão aproximada­
mente relacionadas, que agora aparecem
lado a lado, com rituais praticamente
idênticos, visando oferenda por motivos
semelhantes.
Com mais probabilidade, devemos se­
guir a sugestão erudita recente (Rend-
torf, p. 233), de que, em sua origem, a
oferta pelo pecado visava primeiramente
um sacrifício especial, de consagração e
purificação pelo santuário, enquanto a
oferta pela culpa visava uma oferenda
para assegurar expiação pelos pecados
cometidos por um indivíduo. Onde eram
envolvidos os pecados de toda a comuni­
dade, e até detoda,a nação, já vimos que
a oferta queimada? podia ser trazida a
Deus para assegurar o perdão. Na forma
em que agora existe, a oferta queimada
também chegou a ser usada para obter a
expiação pelo pecado de um indivíduo
(1:4), de maneira que achamos a ocor­
rência de alguma repetição nas finalida­
des para que se usavam as diversas for­
mas de sacrifício.
1 Disse mais oSenhora Moisés: 2Fala aos
filhos de Israel, dizendo: Se alguém pecar
por ignorância no tocante a qualquer das
coisas que o Senhor ordenou que não se fi­
zessem, fazendo qualquer delas; 3 sé for o
sacerdote ungido que pecar, assim tornando
o povo culpado, oferecerá ao Senhor, pelo
pecado que cometeu, um novilho sem de­
feito como oferta pelo pecado. 4 Trará o no­
vilhoà porta da tenda da revelação, perante
o Senhor, porá a mão sobre a cabeça do
novilho e o imolará perante o Senhor. 5 En­
tão o sacerdote ungido tomará do sangue do
novilho, e o trará à tenda da revelação;
6 e, molhando o dedo no sangue, espargirá
dosangue sete vezesperante o Senhor, dian­
te do véu do santuário. 7 Também o sacer­
dote porá daquele sangue perante o Senhor,
sobre as pontas do altar do incenso aromá­
tico, que está na tenda da revelação; e todo
o resto do sangue do novilho derramará à
base doaltar doholocausto, que está à porta
da tenda da revelação. 8 E tirará toda a
gordura do novilho da oferta pelo pecado; a
gordura que cobre a fressura, sim, toda a
gordura que está sobre ela, 9 os dois rins e a
gordura que está sobre eles, e a que está
juntoaos lombos, e o redenho que está sobre
ofígado, juntamente com os rins, tirá-los-á,
10 assim como se tira do boi do sacrifício
pacífico; e o sacerdote os queimará sobre o
altar do holocausto. 11Mas o couro do novi­
lho, e toda a sua carne, com a cabeça, as
pernas, a fressura e o excremento, 12enfim,
onovilhotodo, levá-lo-á para fora do arraial
a um lugar limpo, em que se lança a cinza,
e o queimará sobre a lenha; onde se lança a
cinza, aí se queimará.
Basicamente, as ofertas pelo pecado e
pela culpa não são tipos novos de sacrifí­
cio, mas, sim, formas desenvolvidas da
ofertapacífica, etinham como finalidade
servir como sacrifícios de expiação por
pecados determinados. Diferem, portan­
to, da oferta pacífica, mais pelas situa­
ções para que o seu uso era proposto do
que por qualquer diferença essencial no
tipo do sacrifício. Nas situações esboça­
das neste capítulo, a oferta pelo pecado
é oferecida pelas ofensas inadvertidas
(inconscientes), enquanto a oferta pela
culpa érequerida por ofensas que redun­
daram nalgum dano a pessoas ou a suas
posses. Baseando-se nisso, N. H. Snaith
(p. 40,48,50) mostra que a oferta pela
culpa, em 5:14; 6:7, era essencialmente
uma forma de oferta de compensação.
Era oferecida quando uma perda, que na
maioria dos casos podia ser avaliada,
tinha sido sanada.
Assim, o ritual a seguir é muito seme­
lhante ao da ofertapacífica, ea diferença
principal é que, conquanto a maior parte
da carne do animal oferecido como uma
ofertapacífica tivesse de ser comida, isso
era proibido no caso da oferta pelo pe­
cado. A maneira de dispor da maior
parte do corpo do animal é descrita em
32
4:12: “Onovilhotodo, [o sacerdote] levá-
lo-á para fora do arraial a um lugar
limpo, em que se lança a cinza, e o
queimarásobrealenha.” Embora, como
com a oferta queimada, o corpo do ani­
mal fosse queimado, isso não erâ reali­
zado sobre o altar, mas feito num lugar
especial, assinalado para esse fim. Por
ser oferecido como um sacrifício de ex­
piação a Deus, tinha-se tornado santíssi­
mo, e, portanto, não podia servir como
carne para uma refeiçãosacrifical.
No ritual da bem de perto relacionada
oferta pela culpa (7:1-6), era permitido
aossacerdotes(embora não às suas espo­
sas ou famílias) comerem a carne. Em
alguns casos também a oferta pelo peca­
dopodia sercomida(6:26,29,30).
A série inteira de instruções para as
ofertas pelopecado e pela culpa demons­
tra uma natureza diferente daquela das
instruções tratadas noscapítulos 1-3. En­
quanto estas últimas se preocupam pri­
meiramente com a definição do ritual
correto e com os animais apropriados
para o uso, o principal interesse com
relação às ofertas dopecado e da culpa se
focaliza nas ocasiões quando se haviam
de fazer os sacrifícios. Por conseguinte,
revelam mais informações sobre o signifi­
cado dossacrifícios.
Levítico 4:3-12 discute a oferta pelo
pecado, a ser apresentada por pecado
cometido pelo sacerdote ungido. Este
título seacha de novono versículo 16 e se
refere ao sumo sacerdote, que estava
incumbido de uma responsabilidade es­
pecial pela santidade de Israel. Mais
tarde, todos os sacerdotes, os filhos de
Arão, foram instalados em seu ofíciopela
unção (Êx. 29:21). Agora se dão as ins­
truções (4:13-21) para a oferta pelo pe­
cado quando era oferecida para fazer
expiação por pecado cometido por toda a
congregação de Israel. Isso podia signifi­
car tanto uma comunidade local como a
nação inteira. Em seguida (4:22-26) se
descreve o sacrifício pelo pecado de um
governante. Otítulo, aqui, se refere, sem
dúvida, ao rei ou príncipe (cf. Ez. 44:3;
45:7), porém em épocas primitivas se
aplicavaa um chefe ou representantes de
uma tribo. O surgimento de qualquer
rivalidade à soberania de Deus sobre
Israel tem sido evitado. Dão-se instru­
ções especiais para a oferta pelo pecado
por um israelita comum, leigo (4:27-35).
13 Se toda a congregação de Israel errar,
sendo isso oculto aos olhos da assembléia,
e eles tiverem feito qualquer de todas as
coisas que o Senhor ordenou que não se fi­
zessem, assim tornando-se culpados;
14 quando o pecado que cometeram for co­
nhecido, a assembléia oferecerá um novilho
comooferta pelo pecado, e o trará diante da
tenda da revelação. 15 Os anciãos da con­
gregação porão as mãos sobre a cabeça do
novilho perante o Senhor; e imolar-se-á o
novilho perante o Senhor. 16 Então o sacer­
dote ungido trará o sangue do novilho à ten­
da da revelação; 17 e o sacerdote molhará
o dedo no sangue, e o espargirá sete vezes
perante o Senhor, diante dovéu. 18E do san­
gue porá sobre as pontas do altar, que está
perante o Senhor, na tenda da revelação; e
todo o resto do sangue derramará à base do
altar doholocausto, que está diante da tenda
da revelação. 19 E tirará dele toda a sua
gordura, e queimá-la-á sobre o altar. 20 As­
sim fará com o novilho; como fez ao novilho
da oferta pelo pecado, assim fará a este; e o
sacerdote fará expiação por eles, e eles
serão perdoados. 21Depois levará o novilho
para fora do arraial, e o queimará como
queimou o primeiro novilho; é oferta pelo
pecado da assembléia. 22 Quando um prín­
cipepecar, fazendo por ignorância qualquer
das coisas que o Senhor seu Deus ordenou
que não fizessem, e assim se tornar culpa­
do; 23se o pecado que cometeu lhe for noti­
ficado, então trará por sua oferta um bode,
sem defeito; 24 porá a mão sobre a cabeça
do bode e o imolará no lugar em que se
imola o holocausto, perante o Senhor; é
oferta pelo pecado. 25 Depois o sacerdote,
com o dedo, tomará do sangue da oferta
pelo pecado e po-lo-á sobre as pontas do
altar do holocausto; então o resto do sangue
derramará à base do altar do holocausto.
26 Também queimará sobre o altar toda a
sua gordura comoa gordura do sacrifício da
oferta pacífica; assim o sacerdote fará por
ele expiação do seu pecado, e ele será per-
33
doado. 27 E se alguém dentre a plebe pecar
por ignorância, fazendo qualquer das coisas
que o Senhor ordenou que não se fizessem, e
assim se tornar culpado; 28se o pecado que
cometeu lhe for notificado, então trará por
sua oferta uma cabra, sem defeito, pelo
cado cometido; 29 porá a mão sobre a
beça da oferta pelo pecado,e a imolará no
lugar do holocausto. 30 Depois o sacerdote,
com o dedo, tomará do sangue da oferta, e
o porá sobre as pontas do altar do holocaus­
to; e todo o resto do sangue derramará à
base do altar. 31 Tirará toda a gordura,
como se tira a gordura do sacrifício pacífi­
co, e a queimará sobre o altar, por cheiro
suave ao Senhor; e o sacerdote fará expia­
ção por ele, e ele será perdoado. 32 Ou, se
pela sua oferta trouxer uma cordeira como
oferta pelo pecado, sem defeito a trará;
33porá a mão sobre a cabeça da oferta pelo
pecado, e a imolará por oferta pelo pecado,
no lugar onde se imola o holocausto. 34 De­
pois o sacerdote, com o dedo, tomará do
sangue da oferta pelo pecado, e o porá sobre
as pontas do altar do holocausto; então todo
o resto do sangue da oferta derramará à
basedoaltar. 35Tirará toda a gordura, como
se tira a gordura do cordeiro do sacrifício
pacífico, e a queimará sobre o altar, em
cima das ofertas queimadas do Senhor; as­
sim o sacerdote fará por ele expiação do
pecado que cometeu, e ele será perdoado.
Em cada um desses casos se dá grande
importância à advertência de que a ofer­
ta visava assegurar expiação somente pe­
las ofensas cometidas despercebidamente
(4:2,13,22,27). Essa expiação, podia cer­
tamente abranger os pecados cometidos
por ignorância, tais como a infração por
Jônatas do juramento feito pelo seu pai
(I Sam. 14:24-26), do qual não tinha
tomado conhecimento. Também abran­
gia as muitas infrações de regulamentos
rituais, quefacilmentesepoderiam come­
ter por erro. Mais precisamente, contu­
do, a palavra significa sem premeditação
e se refere não apenas às infrações da lei
divina cometidas por ignorância, mas
também a outras transgressões que se
não tenham feito com a intençãoproposi­
tada depecar.
Dá-se expressão ao contrário pelo ter­
mo pecar “à mão levantada” (Núm. 15:
30), que denota um ato cometido com o
propósito firmado de pecar contra Deus.
Mais tarde, osrabinos interpretavam isso
com referência aos pecados cometidos
com a clara intenção, já de antemão, de
procurar o perdão depois por meio de
sacrifício. Em tais casos nenhum sacrifí­
cio podia valer. Esta é uma das caracte­
rísticas e limitações mais notáveis dos
sacrifícios rituais do Antigo Testamento.
Pela desobediência deliberada a Deus
não se especificava sacrifício algum pelo
qual se pudesse fazer expiação, e ao pe­
cador não se deixava esperança nenhu­
ma, senão que selançasse sobre a miseri­
córdia deDeus.
Não se deve interpretar isso como se
implicasse que muitas ofensas não pu­
dessem ser perdoadas. Não é isso que se
quer dizer, e é claro, das narrativas do
Antigo Testamento, que até ofensas sé­
rias como roubo e assassínio podiam ser
perdoadas por Deus quando se eviden­
ciava verdadeiro arrependimento (I Reis
21:29). Deus sempre se mantinha sobe­
rano sobre o ritual i,..j selhe prestava.
O perdão era livre prerrogativa dele, e
não um direito humano, sendo controla­
do por condições rígidas. A intenção bá­
sica na definição de quando se deviam
usar determinados sacrifícios era odesejo
positivo de demonstrar o que eles conse­
guiriam, e não o negativo, de mostrar o
que nãopodiam conseguir.
Como teólogos cristãos têm visto, coe­
rentemente, e como a experiência confir­
ma, é a pecaminosidade da vontade hu­
mana que constitui oproblema mais pro­
fundo do homem. Erros inadvertidos não
trazem omesmosentimento deculpa que
a nossa própria consciência, quando pe­
camos, de que temos escolhido o cami­
nho da desobediência deliberadamente.
É a pecaminosidade da vontade humana
quejaz por detrás de cada feito pecami­
noso, eéisso que levou certos profetas do
AntigoTestamento a antevera renovação
do coração do homem (Jer. 31:31 e ss.;
Ez. 36:26 e s.) e os escritores do Novo
Testamento aver essa esperança cumpri­
da pelo dom do Espírito (Rom. 8:2 e ss.)
34
XSealguém, tendo-se ajuramentado como
testemunha, pecar por não denunciar o que
viu, ouo que soube, levará a sua iniqüidade.
2 Se alguém tocar alguma coisa imunda,
seja cadáver de besta-fera imunda, seja
cadáver de gado imundo, seja cadáver de
réptil imundo, embora faça sem se aperce­
ber, contudo será ele imundo e culpado.
3 Se alguém, sem se aperceber, tocar a
imundícia de um homem, seja qual for a
imundícia com que este se tornar imundo,
quando o souber será culpado. 4 Se alguém,
sem se aperceber, jurar temerariamente
com os seus lábios fazer mal ou fazer bem,
em tudo o que o homem pronunciar temera­
riamente com juramento, quando o souber,
culpado será numa destas coisas. 5 Deverá,
pois, quando foi culpado numa destas coi­
sas, confessaraquiloem que houver pecado.
6 E como sua oferta pela culpa, ele trará ao
Senhor, pelo pecado que cometeu, uma fê­
mea de gado miúdo; uma cordeira, ou uma
cabrinha, trará como oferta pelopecado; e o
sacerdote fará por ele expiação do seu pe­
cado. 7Mas, se as suas posses não bastarem
para gado miúdo, então trará ao Senhor,
como sua oferta pela culpa por aquilo em
que houver pecado, duas rolas, ou dois pom-
binhos; um como oferta pelo pecado, e o
outro como holocausto; 8e os trará ao sacer­
dote, oqual oferecerá primeiro aquele que é
para a oferta pelo pecado, e com a unha lhe
fenderá a cabeça junto ao pescoço, mas não
o partirá; 9 e do sangue da oferta pelo
pecado espargirá sobre a parede do altar,
porém o que restar daquele sangue espre-
mer-se-á à base do altar; é oferta pelo peca­
do. 10E do outro fará holocausto conforme a
ordenança; assim osacerdote fará expiação
por ele do pecado que cometeu, e ele será
perdoado. 11 Se, porém, as suas posses não
bastarem para duas rolas, ou dois pombi-
nhos, então, como oferta por aquilo em que
houver pecado, trará a décima parte duma
efa de florde farinha como oferta pelo peca­
do; não lhe deitará azeite nem lhe porá em
cima incenso, porquanto é oferta pelo pe­
cado; 12 e a trará ao sacerdote, o qual lhe
tomará um punhado como o memorial da
oferta, e a queimará sobre o altar em cima
das ofertas queimadas do Senhor; é oferta
pelo pecado. 13 Assim o sacerdote fará por
ele expiação do seu pecado, que houver co­
metido em alguma destas coisas, e ele será
perdoado; e o restante pertencerá ao sacer­
dote, comoa oferta de cereais. 14Disse mais
o Senhor a Moisés: 15 Se alguém cometer
uma transgressão, e pecar por ignorância
nas coisas sagradas do Senhor, então trará
ao Senhor, comoa sua oferta pela culpa, um
carneiro sem defeito, do rebanho, conforme
a tua avaliação em siclos de prata, segundo
0 siclo do santuário, para oferta pela culpa.
18 Assim fará restituição pelo pecado que
houver cometido na coisa sagrada, e ainda
lhe acrescentará a quinta parte, e a dará ao
sacerdote; e com o carneiro da oferta pela
culpa, o sacerdote fará expiação por ele, e
ele será perdoado. 17 Se alguém pecar, fa­
zendo qualquer de todas as coisas que o
Senhor ordenou que não se fizessem, ainda
que não o soubesse, contudo será ele culpa­
do, e levará a sua iniqüidade; 18 e como
oferta pela culpa trará ao sacerdote um
carneiro sem defeito, do rebanho, conforme
a tua avaliação; e o sacerdote fará por ele
expiação do erro que involuntariamente
houver cometido sem o saber; e ele será
perdoado. 19É oferta pela culpa; certamen­
te ele se tornou culpado diante do Senhor.
1 Disse ainda o Senhor a Moisés: 2 Se al­
guém pecar e cometer uma transgressão
contra o Senhor, e se houver dolosamente
para com o seu próximo tocante a um depó­
sito, ou penhor, ou roubo, ou tiver oprimido
a seu próximo; 3 se achar o perdido, e nisso
se houver dolosamente e jurar falso; ou se
fizer qualquer de todas as coisas em que o
homem costuma pecar; 4 se, pois, houver
pecado e for culpado, restituirá o que rou­
bou, ou o que obteve pela opressão, ou o
depósito que lhe foi dado em guarda, ou o
perdido que achou, 5ouqualquer coisa sobre
que jurou falso; por inteiro o restituirá, e
ainda a isso acrescentará a quinta parte; a
quem pertence, lho dará no dia em que
trouxer a sua oferta pela culpa. 6 E como a
sua oferta pela culpa, trará ao Senhor um
carneiro sem defeito, do rebanho; conforme
a tua avaliação para a oferta pela culpa trá-
lo-áao sacerdote; 7e osacerdote fará expia­
ção por ele diante do Senhor, e ele será per­
doado de todas as coisas que tiver feito, nas
quais se tenha tornado culpado.
A seção 5:1-6:7 forma uma espécie de
apêndice ao capítulo 4, e trata de deter­
minadas situações em que era requerida
a oferta pelo pecado ou pela culpa. Em
5:1-6, temos quatro exemplos alistados,
nos quais uma pessoa podia incorrer em
culpa por negligência. Essas são ofensas
de tipos bem diferentes, que têm em co­
mum o fato de que o ofensor traz culpa
sobre si mesmo pela retenção de infor­
mações sobre ofensas de que ele tem
conhecimento.
35
No versículo 1, a tradução adotada
pela RSV interpreta a situação comoa de
uma pessoa que está sob juramento pú­
blico, para testificar como testemunha
deumaofensa, mas quepropositadamen­
te retém informações. Essa é uma inter­
pretação possível do caso, mas mais pro­
vavelmenteasituação quesetemem men­
te é um pouco diferente. Tendo-se jura­
mentado como testemunha poderia ser
melhor traduzido “ouvindo alguém
amaldiçoar publicamente” (cf. a ASV
“a voz da adjuraçâo.”). M. Noth (p. 44)
aceita essa como a tradução certa, como
também a aceitam comentaristas ante­
riores. A ofensa está em não informar
sobreuma maldição ilegal.
O segundo caso também fica obscuro
na tradução da RSV, mas pode melhor
ser entendido quando se refere ao caso
deuma pessoa que traz culpasobre sipor
tocar num animal imundo (cf. 11:1 ess.)
edeuma outra pessoa(o “ele” de seráele
imundo e culpado) que omite de lhe
advertir sobre oassunto.
Semelhantemente, no terceiro exemplo
(v. 3), uma pessoa se infeta com impure­
za pelo contato com uma pessoa conta­
minada (cf. 13:1 e ss.) e uma terceira
pessoa que vê isso deixa de informar-lhe
para que possa tomar a ação purificado­
ra prescrita. A pessoa que deixa de avi­
sar sobre oassunto, por conseguinte, traz
culpa sobre si.
O quarto caso listado (v. 4) é de uma
pessoa que fazumjuramento temerário e
de outra que o ouve, mas que deixa de
tomá-lo conhecido.
São estas todas, basicamente, ofensas
de negligência, embora, sem dúvida, pu­
desse entrar um elemento de malícia ou
de evasão propositada. Para todos estes
casos se havia de trazer uma oferta pelo
pecado (v. 6). Os versículos 7-13 então
pormenorizam o ritual a ser seguido,
caso a pessoa culpada fosse pobre. Os
versículos 7-10consideram ocasoem que
o ofertante traz dois pombos ou rolas.
Um deles havia de ser oferecido como
uma oferta pelo pecado, porém com um
ritual ligeiramente modificado (v. 8), e o
outro comouma oferta queimada (v. 10).
Se os dois pombos fossem além das con­
dições do ofensor, então se lhe permitia
trazer uma oferta de cereais, de farinha
fina(v. 11-13).
Este estudo dos sacrifícios israelitas
lança uma luz clara sobre a abrangência
da afirmativa cristã de que “o sangue de
Jesus, seu Filho, purifica-nos de todo
pecado” (I João 1:7). Não se precisa de
tipos diferentes de sacrifícios para gêne­
ros diferentes depecado, nem há necessi­
dade de temer que haja alguns tipos de
pecado que não tenham sido cobertos
pelo sacrifício que Deus tem providen­
ciado emJesus Cristo. Todopecado é ex­
piadoporele, de maneira queele cumpre
a exigência do Antigo Testamento pelo
sacrifíciocomoomeiode expiaçãopara o
perdão deDeus.
5. Instruções Para os Sacerdotes com
RelaçãoaosSacrifícios(6:8-7:38)
8 Disse mais o Senhor a Moisés: 9 Dá or­
dem a Arão e as seus filhos, dizendo: Esta é
a lei do holocausto: o holocausto ficará a
noite toda, até pela manhã, sobre a lareira
do altar, e nela se conservará aceso o fogo
do altar. 10 E o sacerdote vestirá a sua
veste de linho, e vestirá as calças de linho
sobre a sua carne; e levantará a cinza,
quando ofogohouver consumido oholocaus­
to sobre o altar, e a porá junto ao altar.
11 Depois despirá as suas vestes, e vestirás
outras vestes; e levará a cinza para fora do
arraial a um lugar limpo. 12 O fogo sobre o
altar se conservará aceso; não se apagará.
O sacerdote acenderá lenha nele todos os
dias pela manhã, e sobre ele porá em ordem
o holocausto, e queimará a gordura das
ofertas pacíficas. 13 O fogo se conservará
continuamente aceso sobre o altar; não se
apagará. 14Esta é a leida oferta de cereais:
os filhos de Arão a oferecerão perante o
Senhordiante doaltar. 15O sacerdote toma­
rá dela um punhado, isto é, da flor de fari­
nha da oferta de cereais e do azeite da
mesma, e todo oincenso que estiver sobre a
oferta de cereais, e os queimará sobre o
altar por cheiro suave ao Senhor, como o
memorial da oferta. 16 E Arão e seus filhos
comerão o restante dela; comê-lo-ão sem
36
fermento em lugar santo; no átrio da tenda
da revelação ocomerão. 17Levedado não se
cozerá. Gomo a sua porção das minhas ofer­
tas queimadas lho tenho dado; coisa san­
tíssima é, comoa oferta pelo pecado, e como
a oferta pela culpa. 18 Todo varão entre os
filhos de Arão comerá dela, como a sua
porção das ofertas queimadas do Senhor;
estatuto perpétuo será para as vossas gera­
ções; tudo o que as tocar será santo. 19Dis­
se mais oSenhora Moisés: 20Esta é a oferta
de Arão e de seus filhos, a qual oferecerão
ao Senhor no dia em que ele for ungido: a
décima parte duma efa de flor de farinha,
como oferta de cereais, perpetuamente, a
metade delapela manhã, e a outra metade à
tarde. 21 Numa assadeira se fará com azei­
te; bem embebida a trarás; em pedaços
cozidos oferecerás a oferta de cereais por
cheiro suave ao Senhor. 22Também o sacer­
dote que, de entre seus filhos, for ungido em
seu lugar, a oferecerá; por estatuto perpé­
tuo será ela toda queimada ao Senhor. 23As­
sim toda oferta de cereais do sacerdote será
totalmente queimada; não se comerá.
Até aqui Levítico tem dado uma série
deinstruções com relação aos sacrifícios,
dirigida ao povo de Israel (1:2). O que
agora segue é mais uma série de instru­
ções com relação aos mesmos sacrifícios,
mas dirigida aos sacerdotes, e não ao
povoem geral. Agora temos esta diretriz:
Dá ordem a Arão e aos seus filhos, di­
zendo. Temos visto que o oferecimento
do sacrifício era uma forma de culto em
que oisraelitaleigoeosacerdote tinham,
cadaum, deveres determinadospara rea­
lizar. Não era permitida a um cidadão
comum a realização de qualquer tarefa
que implicasse contato direto com o al­
tar. Naturalmente, a comunidade sacer­
dotal requeria conhecimento mais espe­
cializadopara essas tarefas, que somente
elapodia cumprir, e temos de presumir a
probabilidade de que esse conhecimento
fosse transmitido de uma geração de
sacerdotes para a seguinte, oralmente.
Com maior probabilidade, foi durante o
exílio babilónico, quando, durante de­
terminado período, todo ocultosacrifical
de Israel desabou em desordem, que
surgiu a necessidade de produzir uma
versão escrita desse conhecimento. Isto
teria garantido a continuação das prá­
ticas antigas e evitado a introdução de
inovaçõesindesejáveis.
Na época em que essas regras foram
registradas por escrito, o altar sacrifical
de Israel situava-se no Templo em Jeru­
salém, mas a história dele como o lugar
legítimo onde os sacrifícios deviam ser
feitos remonta ao Tabernáculo no deser­
to. Semelhantemente, a autorização do
ministério dos sacerdotes da linha de
Arãoremontava ao próprioArão, e, além
dele, a Moisés. Todo oculto de Israel era
culto pactuai, visto que constituía o pac­
to prometido através de Abraão e cum­
prido através deMoisés, que ligava Israel
a Deus. Esta ênfase no procedimento
correto a ser observado, quando se ofere­
cia sacrifícios, e a restrição de certas
partes das cerimônias à família sacerdo­
tal deArãovisavam assegurar que os cul-
tuadores israelitas se submetessem às
formas deculto aceitas eautorizadas.
A preocupação principal destas ins­
truções sacerdotais é o estabelecimento
dos direitos e dos privilégios dos sacer­
dotes com relação às partes das ofertas
sacrificais que lhes eram devidas. No
caso das ofertas de cereais, o sacerdote
havia de ter a parte delas que não era
queimada sobre oaltar(6:16-18). Porém,
quando o próprio sacerdote fazia sua
oferta de cereais a Deus, tinha de ser
queimada e não devia ser comida nem
por ele nem por outros sacerdotes (6:23).
24 Disse mais oSenhora Moisés: 25Fala a
Arão e a seus filhos, dizendo: Esta é a lei da
oferta pelo pecado: no lugar em que se
imola o holocausto se imolará a oferta pelo
pecado perante o Senhor; coisa santíssima
é. 26O sacerdote que a oferecer pelo pecado
a comerá; comê-la-á em lugar santo, no
átrio da tenda da revelação. 27 Tudo o que
tocar a carne da oferta será santo; e quando
o sangue dela for espargido sobre qualquer
roupa, lavarás em lugar santo a roupa sobre
a qualele tiver sidoespargido. 28Mas ovaso
debarro em quefor cozida será quebrado; e
se for cozida num vaso de bronze, este será
esfregado, e lavado na água. 29 Todo varão
entre os sacerdotes comerá dela; coisa san­
37
tíssima é. 30 Contudo não se comerá nenhu­
ma ofertapelopecado, da qualuma parte do
sangue é trazida dentro da tenda da revela­
ção, para fazer expiação no lugar santo; no
fogo será queimada.
1 Esta é a lei da oferta pela culpa: coisa
santíssima é. 2 No lugar em que imolam o
holocausto, imolarão a oferta pela culpa, e o
sangue dela se espargirá sobre o altar em
redor. 3Dela se oferecerá toda a gordura: a
cauda gorda, e a gordura que cobre a fres-
sura, 4 os dois rins e a gordura que está
sobre eles, e a que está junto aos lombos, e o
redenho sobre o fígado, juntamente com os
rins, os tirará; 3 e o sacerdote os queimará
sobre o altar em oferta queimada ao Se­
nhor; é uma oferta pela culpa. 6 Todo varão
entre os sacerdotes comerá dela; num lugar
santo se comerá; coisa santíssima é. 7 Co­
mo é a oferta pelo pecado, assim será a
ofertapela culpa; há uma só lei para elas, a
saber, pertencerá ao sacerdote que com ela
houverfeito expiação. 8Também o sacerdo­
te que oferecer oholocausto de alguém terá
para si o couro do animal que tiver ofereci­
do. 9 Igualmente toda oferta de cereais que
se assar ao forno, como tudo o que se prepa­
rar na frigideira e na assadeira, pertencerá
ao sacerdote que a oferecer. 10 Também
toda oferta de cereais, seja ela amassada
com azeite, ou seja seca, pertencerá a todos
os filhos de Arão, tanto a um como a outro.
As regras que tratam das ofertas pelo
pecado e pela culpa são menos claras.
Às vezes, aparentemente, a oferta pelo
pecado podia ser comida pelo sacerdote
(6:30; cf. 4:11,12). Provavelmente, em
certa época, no passado, se permitisse
aos sacerdotes comerem a carne da oferta
pelo pecado; porém, com a evolução dos
ritos da aspersão do sangue, isso já não
se permitia. Semelhantemente, a carne
da oferta pela culpa era, em certa época,
comida pelos sacerdotes, porém, com a
evolução de ritos especiais, isso também
era proibido, visto que as ofertas pelo
pecado e pela culpa haviam de ser trata­
das da mesma maneira(7:1-10).
A carne da oferta pacífica tinha de ser
comida no dia do sacrifício (v. 15), en­
quanto a da oferta votiva ou voluntária
ainda podia ser comida no dia seguinte
(v. 16,17). Até oterceiro dia toda a carne
sacrifical se tornava numa coisa abomi­
nável, que é um termo técnico do culto
ritual de Israel para denotar o que é ina­
ceitável a Deus. Assim, a carne que era
dessa forma descrita já não podia ser
comida (v. 18). Estas praxes diferentes
refletem os graus de santidade que, con­
forme seacreditava, pertenciam aos tipos
diferentes de sacrifícios.
11 Esta é a lei do sacrifício das ofertas
pacíficas que se oferecerá ao Senhor: 12 Se
alguém ooferecer por oferta de ação de gra­
ças, com o sacrifício de ação de graças
oferecerá bolos ázimos amassados com
azeite, e coscorões ázimos untados com
azeite, ebolosamassados com azeite, deflor
defarinha, bem embebidos. 13Com os bolos
oferecerá pão levedado como sua oferta,
com o sacrifício de ofertas pacíficas por
ação de graças. 14 E dele oferecerá um de
cada oferta por oferta alçada ao Senhor, o
qualpertencerá ao sacerdote que espargir o
sangue da oferta pacífica. 15Ora, a carne do
sacrifício de ofertas pacíficas por ação de
graças se comerá no dia do seu oferecimen­
to; nada se deixará dela até pela manhã.
16 Se, porém, o sacrifício da sua oferta for
voto, ou oferta voluntária, no dia em que for
oferecido se comerá, e no dia seguinte se
comerá o que dele ficar; 17mas oque ainda
ficar da carne do sacrifício até o terceiro
dia será queimado no fogo. 18 Se alguma
parte da carne do sacrifício da sua oferta
pacífica se comer ao terceiro dia, aquele
sacrifício não será aceito, nem será imputa­
do àquele que o tiver oferecido; coisa abo­
minável será, e quem dela comer levará a
sua iniqüidade. 19Acarne que tocar alguma
coisa imunda não se comerá; será queima­
da no fogo; mas da outra carne, qualquer
que estiver limpo comerá dela; 20 todavia,
se alguma pessoa, estando imunda, comer a
carne do sacrifício da oferta pacífica, que
pertence ao Senhor, essa pessoa será extir­
pada do seu povo. 21 E, se alguma pessoa,
tendo tocado alguma coisa imunda, como
imundícia de homem, ou gado imundo, ou
qualquer abominação imunda, comer da
carne do sacrifício da oferta pacífica, que
pertence ao Senhor, essa pessoa será extir­
pada doseupovo. 22 Depois disse o Senhor'a
Moisés: 23 Fala aos filhos de Israel, dizen­
do: Nenhuma gordura de boi, nem de car­
neiro, nem de cabra comereis. 24 Todavia
pode-seusar a gordura doanimal que morre
por si mesmo, e a gordura do que é dilace­
rado por feras, para qualquer outro fim;
mas de maneira alguma comereis dela.
38
25 Pois quem quer que comer da gordura
do animal, do qual se oferecer oferta quei­
mada ao Senhor, sim, a pessoa que dela
comer será extirpada do seu povo. 26 E ne­
nhum sangue comereis, quer de aves, quer
de gado, em qualquer das vossas habita­
ções. 27 Toda pessoa que comer algum san­
gue será extirpada de seu povo. 28 Disse
mais o Senhor a Moisés: 29 Fala aos filhos
de Israel, dizendo: Quem oferecer sacrifício
de ofertapacífica ao Senhor trará ao Senhor
a respectiva oblação da sua oferta pacífica
30 Com as próprias mãos trará as ofertas
queimadas do Senhor; o peito com a gordu­
ra trará, para movê-lo por oferta de movi­
mento perante o Senhor. 31 E o sacerdote
queimará a gordura sobre o altar, mas o
peito pertencerá a Arão e a seus filhos.
32 E dos sacrifícios das vossas ofertas pací­
ficas, dareis a coxa direita ao sacerdote
por oferta alçada. 33Aquele dentre os filhos
de Arão que oferecer o sangue da oferta
pacífica, e a gordura, esse terá a coxa direi­
ta por sua porção; 34porque o peito movido
e a coxa alçada tenho tomado dos filhos de
Israel, dos sacrifícios das suas ofertas pa­
cíficas, e os tenho dado a Arão, o sacerdote,
e a seus filhos, como sua porção, para sem­
pre, da parte dos filhos de Israel. 35Esta é a
porção sagrada de Arão e a porção sagrada
de seus filhos, das ofertas queimadas do Se­
nhor, desde o dia em que ele os apresentou
para administrar o sacerdócio ao Senhor;
36 a qual o Senhor, no dia em que os ungiu,
ordenou que se lhesdesse da parte dos filhos
de Israel; é a sua porção para sempre, pelas
suas gerações. 37 Esta, é a lei do holocausto,
da oferta de cereais, da oferta pelo pecado,
da oferta pela culpa, da oferta das consa­
grações, e do sacrifício das ofertas pacífi­
cas; 38a qual oSenhor entregou a Moisés no
monte Sinai, nodia em que este estava orde­
nando aos filhos de Israel que oferecessem
as suas ofertas ao Senhor, no deserto do Si­
nai.
Era permitido ao próprio cultuador
comer a carne da oferta pacífica, mas
tinha de dar alguma parte dela ao sa­
cerdote (7:30-35). Essa parte era especi­
ficadacomo sendo opeitoea coxa direita
do animal, bem como um bolo dentre os
pães que acompanhavam semelhante
oferta (7:13,14). Era uma questão de
grande importância que os sacerdotes
soubessem precisamente quanto de cada
oferta se lhes devia, pois a incerteza
podia provocar discussões desonrosas.
Foiprecisamenteuma negligência de tais
regulamentos que constituiu o mau com­
portamento de Hofni e Finéias (I Sam.
2:12-17), que, por conseguinte, trouxe­
ram descrédito sobre todo o culto de
Israel.
Por detrás desses regulamentos con­
cernentes à renda sacerdotal advinda dos
sacrifícios jaz o princípio espiritual im­
portante de que aqueles que servem ao
altar devem ganhar o seu sustento dele
(cf. I Cor. 9:13). Ao estabelecer um
ministério de sacerdotes que eram consa­
grados a desempenhar todas as tarefas
que os israelitas leigos não eram permi­
tidos a realizar, Deus lhes ordenou os
seus próprios meios de sustento. Eles
advinham das oferendas consagradas dos
israelitas. Porque os cidadãos de Israel
eram, em certa medida, dependentes do
ministério dos sacerdotes da linha de
Arão, era espiritualmente certo que o
povo contribuísse com as suas dádivas
para o sustento de tais sacerdotes. Ou-
trossim, semelhante oferecimento não se
deixava ao capricho do cultuador indivi­
dual, como talvez em determinada época
tenha sido a praxe, mas era devidamente
definido, de forma quenenhuma parte se
sentisse defraudada.
À medida que passamos em revista o
Manual do Sacrifício, preservado nos
capítulos 1-7, talvez nos impressione
que, em meio a detalhes tão preciosos
sobre o que se devia fazer, pouquíssimo
se diz sobre o raciocínio que jazia por
detrás de semelhantes ofertas ou sobre a
atitude espiritual correta que devia
acompanhá-las. Esse silêncio surge da
natureza das instruções, que procuram
definir a prática, antes do que reafirmar
a teoriabásica dos sacrifícios.
Temos de lembrar que, no próprio
culto de adoração, quando se traziam os
sacrifícios a Deus, o cultuador também
cantava um salmo, como um “sacrifício
de louvor” a Deus. Freqüentemente, se­
melhante salmo explicaria o propósito
39
quelevou oofertante a fazera suaoferen­
da, tal o pagamento de um voto.
(cf. Sal. 116:16-19). Ao mesmo tempo
tais salmos podiam também afirmar a
atitude certa que o cultuador devia ado­
tar, comoébelamente expressono Salmo
51:17: “O sacrifício aceitável a Deus é o
espírito quebrantado; ao coração que­
brantado e contrito não desprezarás, ó
Deus.”
Da mesma maneira que o Manual do
Sacrifício mostra a forma externa do
culto de Israel, os salmos mostram o seu
espírito interior. Porém nenhum dos dois
representa por inteiro o caráter da devo­
ção deIsrael; elespertencem um ao outro
como partes relacionadas do culto de
louvor de Israel a Deus. Temos, portan­
to, de aprender a entender e interpre­
tá-los cada um em relação ao outro. Fo­
ram os salmos, que eram cantados para
acompanharossacrifícios, que deram seu
significado e coloração espirituais às leis
sacrificais. Também não haviam brotado
os salmos de uma devoção informe a
Deus, mas eram produto de um padrão
de devoção e culto que era ao mesmo
tempo disciplinado e custoso, como as
leis mostram. Assim, o louvor mais ele­
vado se expressava pelo sacrifício, e o
sacrifício mais verdadeiro era o que sur­
gia da obediência do coraçãohumano.
II. O Começo do Culto de Israel
no Sinai(8:1-10:20)
1. A Consagração de Arão e de Seus
Filhos ComoosSacerdotesdeIsrael
(8:1-36)
Este capítulo é uma narrativa históri­
ca, quenos conta comoArão eseus filhos
foram ordenados para o ministério sacer­
dotal de Israel, em conformidade com as
instruções dadas a Moisés em Êxodo 29.
Há um paralelismo muito grande entre
Êxodo 29, que expõe as instruções a
serem seguidas, e o capítulo 8, que des­
creve detalhadamente como foram cum­
pridas. Assim, está claro que o capítulo 8
prossegue com a história de Êxodo35-39,
queconta como o tabernáculo foi erigido
no deserto, de acordo com oplano divino
revelado a Moisés. Deste modo, mais
uma vez, como no Manual do Sacrifício,
achamos uma continua insistência sobre
a graça de Deus, que tem revelado ao seu
povo da aliança como há de ser adorado.
1 Disse mais o Senhora Moisés: 2Toma a
Arão e a seus filhos com ele, e os vestidos, e
o óleo da unção, e o novilho da oferta pelo
pecado, e os dois carneiros, e o cesto de pães
ázimos, 3 e reúne a congregação toda à
porta da tenda da revelação. 4 Fez, pois,
Moisés como o Senhor lhe ordenara; e a
congregação se reuniu à porta da tenda da
revelação.
Da máxima importância é a restrição
do ministério sacerdotal de Israel a Arão
e à sua descendência. Está claro, de
outras passagens do Antigo Testamento,
que a história do sacerdócio de Israel foi
complexa, e que devezem quando emer­
giam rivalidades entre diversas famílias
(cf. Núm. 16), especialmente quando o
culto sacrifical era proibido em qualquer
outro santuário que não fosse o de Jeru­
salém (cf. II Reis 23:9). Neste relato da
ordenação de Arão e seus filhos, estas
rivalidades e divisões já haviam sido re­
solvidas, e o serviço sacerdotal do altar
estava limitado a uma família, que rece­
beu a sua autoridade de Moisés. O que
achamos neste capítulo, portanto, não
era sempre seguido, através da longa
história do ministério sacerdotal de Is­
rael, como oAntigo Testamento mostra,
porém representa a situação resultante,
depois de muitos séculos de experiências.
Poressa experiência se afirmou um prin­
cípio dinástico de sucessão para o sacer­
dócio, dentro da família de Arão.
A prática de restringir o sacerdócio a
uma família era inteiramente conforme
ao costume normal do mundo antigo,
onde ocuidado sacerdotal dos santuários
locais ficava nas mãos de uma família
local. O motivo principal por essa res­
40
trição era, indubitavelmente, que as ta­
refas sacerdotais implicavam uma quan­
tidade considerável de conhecimentos es­
pecializados e técnicos com relação ao
oferecimento dos sacrifícios, à declara­
çãodeoráculose aos cuidados devidos ao
santuário. Tais conhecimentos podiam
sertransmitidos, com a maior facilidade,
oralmente, pelo treinamento e instruções
dentro de uma família. Ao mesmo tem­
po, como reconhecemos a correção dessa
restrição do sacerdócio a famílias especí­
ficas, temos também de notar as limita­
çõesque implicava. Em sentido global, a
religião de Israel devia mais aos seus
profetas do que aos seus sacerdotes, e
aqueles muitas vezes entravam em con­
flitocomestes(cf. Am. 7:10-17). O Espí­
rito de Deus não era restrito, na doação
de seus dons, a determinadas famílias,
de maneira que muitos dos maiores mo­
vimentos de renovaçãoedesenvolvimento
espiritual em Israel surgiram fora das
famílias sacerdotais reconhecidas. A li­
berdade dos profetas contrastava, de
muitas maneiras, com o conservantismo
dos sacerdotes.
O ritual para a ordenação de Arão e
seus filhos pode ser dividido nas seções
principais seguintes:
(1) A investidura de Arão com vesti­
mentas de sumo sacerdote (v. 5-9; cf. Êx.
28:1-39; 29:5-6).
(2) Aunção de Arão e do tabernáculo
comóleo(v. 10-12; cf. Êx. 29:7).
(3) A investidura dos filhos de Arão
com vestimentas sacerdotais (v. 13; cf.
Êx. 28:40-43; 29:8,9).
(4) O oferecimento de um novilho co­
mo uma oferta pelo pecado (v. 14-17;
cf. Êx. 29:10-14).
(5) O oferecimento de um carneiro
como uma oferta queimada (v. 18-21;
cf. Êx. 29:15-18).
(6) O oferecimento de um carneiro
como uma oferta de consagração (v. 22-
29; cf.Êx. 29:19-28).
(7) A consagração de Arão e seus fi­
lhoscom osangue da oferta da consagra­
ção(v. 23,24,30; cf. Êx. 29:20,21).
5 E disse Moisés à congregação: Isto é o
que oSenhorordenou que se fizesse. 6Então
Moisés fez chegar a Arão e seus filhos, e os
lavou com água, 7 e vestiu Arão com a
túnica, cingiu-o com o cinto, e vestiu-lhe o
manto, e pôs sobre ele o éfode, e cingiu
com ocinto de obra esmerada, e com ele lhe
apertou o éfode. 8 Colocou-lhe, então, o pei­
toral, noqualpôs o Urime o Tumim; 9epôs
sobre a sua cabeça a mitra, e sobre esta, na
parte dianteira, pôs a lâmina de ouro, a
coroa sagrada; como o Senhorlhe ordenara.
10 Então Moisés, tomando o óleo da unção,
ungiu o tabernáculo e tudo o que nele havia,
e os santificou; 11e dele espargiu sete vezes
sobre o altar, e ungiu o altar e todos os seus
utensílios, como também a pia e a sua base,
para santificá-los. 12Em seguida derramou
do óleo da unção sobre a cabeça de Arão, e
ungiu-o, para santificá-lo. 13Depois Moisés
fez chegar os filhos de Arão, e os vestiu de
túnicas, e os cingiu com cintos, e lhes atou
tiaras; comoo Senhorlhe ordenara.
O simbolismo das vestimentas do su­
mo sacerdote é muito mais claramente
ressaltado nas instruções dadas para a
suafeitura emÊxodo28. O peitoril tinha
pedras preciosas, ostentando os nomes
dos filhos de Israel (Êx. 28:21), engasta­
das nele, enquanto o Urim e Tumim
(v. 8) eram uma espécie de sortes sagra­
das, por meio de que o sacerdote trans­
mitia uma decisão oracular vinda de
Deus.
O uso do Urim e Tumim é mostrado
em I Samuel 23:9-12; 30:7,8 (cf. I Sam.
14:36,37; 28:6). Infelizmente, não se
pode tirar nenhuma ajuda da etimologia
das palavras, na busca de uma recons­
trução do que fossem. Com mais proba­
bilidade devemos pensar em duas pedras
com dois lados marcados, gravados com
símbolos, para mostrar sesehavia de dar
uma resposta afirmativa ou negativa.
Deuteronômio 33:8 e Esdras 2:63 impli­
cam que todosossacerdotes tinham aces­
soaouso doUrim eTumim.
41
Ás vestimentas do sumo sacerdote ser­
viam para destacar a natureza dupla das
tarefas sacerdotais; ou seja, para trazer o
povo a Deus, em intercessão e medita­
ção, e para trazer Deus ao povo, por
declarara vontade divina.
14 Então fez chegar o novilho da oferta
pelopecado; e Arão e seus filhospuseram as
mãos sobre a cabeça do novilho da oferta
pelo pecado; 15 e, depois de imolar o novi­
lho,Moiséstomou osangue, e pôsdele com o
dedo sobre as pontas do altar em redor, e
purificou o altar; depois derramou o resto
do sangue à base do altar, e o santificou,
para fazer expiação por ele. 16Então tomou
toda a gordura que estava na fressura, e o
redenho do fígado, e os dois rins com a sua
gordura, e os queimou sobre o altar. 17 Mas
onovilhocom oseu couro, com a sua carne e
com seu excremento, queimou-o com fogo
fora do arraial; como o Senhor lhe orde­
nara. 18 Depois fez chegar o carneiro do
holocausto; e Arão e seus filhos puseram as
mãos sobre a cabeça do carneiro. 19Haven­
do imolado o carneiro, Moisés espargiu o
sangue sobre o altar em redor. 20 Partiu
também o carneiro nosseus pedaços, e quei­
mou dele a cabeça, os pedaços e a gordura.
21 Mas a fressura e as pernas lavou com
água; então Moisés queimou o carneiro todo
sobre o altar; era holocausto de cheiro sua­
ve, uma oferta queimada ao Senhor; como o
Senhorlhe ordenara.
Fora umas diferenças menores, a ofer­
ta pelo pecado e a oferta queimada são
feitas de acordo com as instruções dadas
nos capítulos 1 e 6. Foram oferecidas
para assegurarexpiação para os sacerdo­
tes, no caso de terem cometido qualquer
infração despercebidamente. O sistema
sacrifical proporcionava providências es­
peciais para os pecados que fossem co­
metidos quando o sacerdote estava exer­
cendo as suas funções. A oferta da con­
sagração é mostrada, pelo seu ritual,
comosendouma forma especial da oferta
pacífica. O derramamento do sangue à
base do altar (v. 15) era para o purificar
para oserviço divino.
22 Depois fez chegar o outro carneiro, o car­
neiro da consagração; e Arão e seus filhos
puseram as mãos sobre a cabeça do carnei­
ro; 23 e tendo Moisés imolado o carneiro,
tomou do sangue deste e o pôs sobre a ponta
da orelha direita de Arão, sobre opolegar da
sua mão direita, e sobre o polegar do seu pé
direito. 24 Moisés fez chegar também os
filhosde Arão, e pôs daquele sangue sobre a
ponta da orelha direita deles, e sobre o
polegar da sua mão direita, e sobre o po­
legar do seu pé direito; e espargiu o sangue
sobre oaltar em redor. 25 E tomou a gordu­
ra, e a cauda gorda, e toda a gordura que
estava na fressura, e o redenho do fígado, e
os dois rins com a sua gordura, e a coxa
direita; 26 também do cesto dos pães ázi­
mos, que estava diante do Senhor, tomouum
bolo ázimo, e um bolo de pão azeitado, e um
coscorão, e os pôs sobre a gordura e sobre a
coxa direita; 27e pôstudo nas mãos de Arão
e de seus filhos, e o ofereceu por oferta
movida perante o Senhor. 28 Então Moisés
os tomou das mãos deles, e os queimou
sobre o altar em cima do holocausto; os
quais eram uma consagração por cheiro
suave, oferta queimada ao Senhor. 29 Em
seguida tomou Moisés o peito, e o ofereceu
por oferta movida perante o Senhor; era a
parte do carneiro da consagração que toca­
va Moisés, como o Senhor lhe ordenara.
30Tomou Moisés também do óleo da unção,
e do sangue que estava sobre o altar, e o
espargiu sobre Arão e suas vestes, e sobre
seus filhose as vestes de seus filhos com ele;
e assim santificou tanto a Arão e suas ves­
tes, como a seus filhos e as vestes de seus
filhoscom ele.
A colocação do sangue nas extremida­
des do corpo simbolizava a purificação
do corpo inteiro, que foi, desta maneira,
feitoapto para o serviço divino(v. 23,24;
cf. 14:17).
Particularmente instrutiva, no ritual
da ordenação, é a maneira como se mos­
tra que as vestimentas sacerdotais esta­
vam intimamente ligadas à vocação do
sacerdote. Jazpor detrás disso o conceito
antigo de que a santidade era quase um
ente físico, que podia afetar as roupas
impessoais que uma pessoa usava, b.em
como a própria pessoa. Assim, as vesti­
mentas do sacerdote tinham de ser con­
sagradas (v. 30), a fim de poderem ser
usadas para o serviço em contato com o
altar. Reconhecemos também, em certa
medida, que as roupas de uma pessoa
42
expressam algo de sua personalidade e
podem servir para indicar a sua vocação.
Era particularmente importante, portan­
to, que a santidade dos sacerdotes fosse
indicada pelas vestimentas que usavam.
Os pormenores escrupulosos do ritual
para a ordenação de Arão e seus filhos
refletem a grande seriedade que carac­
terizava o seu trabalho. Eles deviam ser
os guardiões espirituais das almas de
Israel. Aselevadas exigências desua con­
sagração lançam uma nova luz sobre o
significado das palavras de Jesus, em sua
oração sacerdotal: “E por eles me santi­
fico, para que também eles sejam santifi­
cados na verdade” (João 17:19). Jesus,
através de sua própria vida de autodis-
ciplina e pelo seu auto-oferecimento na
cruz, santificou-se, para se tomar nosso
sumo sacerdote junto a Deus. Através
dele, temos acesso a Deus, e o nosso pró­
prio sacerdócio depende dele.
31 E disse Moisés a Arão e seus filhos:
Cozeia carne à porta da tenda da revelação;
e ali a comereis com o pão que está no cesto
da consagração, como ordenei, dizendo:
Arão e seus filhos a comerão. 32 Mas o que
restar da carne e do pão, queimá-lo-eis ao
fogo. 33 Durante sete dias não saireis da
porta da tenda da revelação, até que se
cumpram os dias da vossa consagração;
porquanto por sete dias ele vos consagrará.
34 Como se fez neste dia, assim o Senhor
ordenou que se proceda, para fazer expia­
ção porvós. 35Permanecereis, pois, à porta
da tenda da revelação dia e noite por sete
dias, e guardareis as ordenanças do Senhor,
para que não morrais; porque assim me foi
ordenado. 36 E Arão e seus filhos fizeram
todas as coisas que o Senhor ordenara por
intermédio de Moisés.
A conclusão do ritual da ordenação é
descrita nosversículos 31-36. No todo, as
cerimônias deviam durar sete dias, e em
cada um desses dias os ritos especiais
relacionados com o sacrifício de ordena­
ção deviam ser repetidos. Durante este
tempoos sacerdotes tinham de permane­
cer no santuário sob pena de morte, e
somente no fim dos sete dias lhes era
permitido entrar novamente em contato
normalcomisraelitasleigos.
Assim como esse ritual de ordenação é
agora apresentado, isto é, em forma de
narrativa, ele diz respeito ao evento de­
terminado da ordenação de Arão. Mas
pode haver pouca dúvida de que cerimô­
nias essencialmente semelhantes foram
realizadas em anos posteriores, em Is­
rael, quando membros de famílias sacer­
dotais alcançavam uma idade suficiente
para assumirem oseu ofício sacerdotal, e
mais especialmente quando um novo
sumo sacerdote tinha de ser empossado.
Assim, o que é elaborado como um re­
gistro histórico, também servia como
modelo para a imitação de gerações fu­
turas.
2. Os Primeiros Sacrifícios Públicos em
Israel(9:1-24)
1 Ora, ao oitavo dia, Moisés chamou a
Arão e seus filhos, e os anciãos de Israel,
2 e disse a Arão: Toma um bezerro tenro
para oferta pelo pecado, e um carneiro para
holocausto, ambos sem defeito, e oferece-os
perante o Senhor. 3 E falarás aos filhos de
Israel, dizendo: Tomai um bode para oferta
pelo pecado; e um bezerro e um cordeiro,
ambos de um ano, e sem defeito, como ho­
locausto; 4 também um boi e um carneiro
para ofertas pacíficas, para sacrificar pe­
rante o Senhor, e oferta de cereais, amassa­
da com azeite; porquanto hoje o Senhor vos
aparecerá. 5Então trouxeram até a entrada
da tenda da revelação o que Moisés ordena­
ra,e chegou-setodaa congregação,eficoude
pédiantedoSenhor.6EdisseMoisés: Estaéa
coisaque o Senhorordenou que fizésseis; e a
glória do Senhor vos aparecerá. 7 Depois
disse Moisés a Arão: chega-te ao altar, e
apresenta a tua oferta pelo pecado e o teu
holocausto, e faze expiação por ti e pelo
povo; também apresenta a oferta do povo, e
faze expiação por ele, como ordenou o Se­
nhor. 8 Arão, pois, chegou-se ao altar, e
imolou o bezerro que era a sua própria
oferta pelo pecado. 9 Osfilhos de Arão trou­
xeram-lhe o sangue; e ele molhou o dedo no
sangue, e o pôs sobre as pontas do altar, e
derramou osangue à base do altar. 10mas a
gordura, e os rins, e o redenho do fígado,
tirados da oferta pelo pecado, queimou-os
sobre o altar, como o Senhor ordenara a
43
Moisés. 11£ queimou ao fogofora do arraial
a carne e o couro. 12 Depois imolou o holo­
causto, e os filhos de Arão lhe entregaram o
sangue, e ele o espargiu sobre o altar em
redor. 13 Também lhe entregaram o holo­
causto, pedaço porpedaço, e a cabeça; e ele
os queimou sobre o altar. 14 E lavou a
fressura e as pernas, e as queimou sobre o
holocausto no altar. 15 Então apresentou a
oferta do povo e, tomando o bode que era a
oferta pelo pecado do povo, imolou-o e o
ofereceu pelo pecado, como fizera com o
primeiro. 16 Apresentou também o holo­
causto, e o ofereceu segundo a ordenança.
17 E apresentou a oferta de cereais e, to­
mando dela um punhado, queimou-o sobre o
altar, além doholocausto da manhã. 18Imo­
lou também oboi e o carneiro em sacrifício
de oferta pacífica pelo povo; e os filhos de
Arão entregaram-lhe o sangue, que ele es­
pargiu sobre o altar em redor. 19como tam­
bém a gordura doboi e do carneiro, a cauda
gorda, eo que cobre a fressura, e os rins, e o
redenho do fígado; 20 e puseram a gordura
sobre os peitos, e ele queimou a gordura
sobre o altar; 21 mas os peitos e a coxa
direita, ofereceu-os a Arão por oferta movi­
da perante o Senhor, como Moisés tinha
ordenado. 22 Depois Arão, levantando as
mãos para o povo, o abençoou e desceu,
tendo acabado de oferecer a oferta pelo
pecado, o holocausto e as ofertas pacíficas.
23 E Moisés e Arão entraram na tenda da
revelação; depois saíram, e abençoaram o
povo; e a glória do Senhor apareceu a todo o
povo, 24 pois saiu fogo de diante do Senhor,
e consumiu o holocausto e a gordura sobre o
altar; o que vendo todo o povo, jubilaram e
prostraram-se sobre os seus rostos.
Esta seçâo continua com a narração
histórica dos começos do culto organiza­
doemIsrael, iniciado, apropriadamente,
com a ordenação dos sacerdotes. A refe­
rência noversículo 1ao oitavo dia refere-
se a Êxodo 40:17, onde sabemos que o
tabernáculo foi erigido “no primeiro mês
do segundo ano, no primeiro dia do
mês”. Os sete dias intervenientes eram
ocupados com a consagração dos sacer­
dotes da linha de Arão, que haviam de
zelarpelonovosantuário (8:35); então os
primeiros sacrifícios públicos de Israel
haviam de seroferecidos a Deus.
É significativo que, no ritual de orde­
nação do capítulo 8, Moisés desempenha
as tarefas atribuídas ao sacerdote pelo
Manual do Sacrifício(8:15 ess., 24ess.),
enquanto Arão e os seus familiares assu­
mem o papel de israelitas leigos comuns.
Somente depois de seu período de con­
sagração é-lhes permitido que assumam
as responsabilidades atribuídas aos sa­
cerdotes. É surpreendente também que,
apesar de o ritual complexo da ordena­
çãoconteruma oferta pelo pecado e uma
oferta queimada por Israel, a nova or­
dem de sacrifícios públicos se inicia com
ainda outra oferta pelo pecado feita em
prol deArão(v. 8).
A santidade de Israel dependia, em
grande medida, dos cuidados dos sacer­
dotes. Porém os sacerdotes, pela nature­
za de seu trabalho e seu contato chegado
com o altar, estavam numa posição em
que eles, mais facilmente do que outros,
podiam transgredir os regulamentos que
resguardavam a santidade de Deus. Era
tanto mais importante, portanto, que se
fizesse a expiação pelos pecados dos sa­
cerdotes pela apresentação de ofertas es­
peciais pelo pecado. Como em todo o
serviçode Deus, aqueles que lhe são mais
próximos e levam as cargas mais pesa­
das de responsabilidade espiritual estão
sujeitos às maiores tentações e podem,
mais facilmente do que os outros, trazer
desonra ao seunome.
Os primeiros sacrifícios públicos se­
guemessencialmenteosregulamentosex­
postos no Manual do Sacrifício nos capí­
tulos 1-7. Há, contudo, pequenas dife­
renças de fraseado e ligeiras variações de
procedimentos, mas nada de significado
maior. Moisés estava, aqui, delegando a
sua responsabilidade sacerdotal a Arão,
e, através dele, às gerações sucessivas de
sacerdotes da linha de Arão que teriam a
responsabilidade de assegurar que o ofe­
recimento de sacrifícios em Israel conti­
nuasse de acordo com opadrão estabele­
cido por Moisés. As instruções eram ini­
cialmentepreservadas oralmente e foram
apresentadas por escrito só muito mais
tarde, depois de o próprio sacerdócio
44
passarporuma história considerável.
A narrativa pode ser dividida nas se­
guintes seções principais: (1) O manda­
mento a Arão para oferecer sacrifícios
(v. 1-4). A motivação básica é porquanto
hojeo Senhorvos aparecerá, assim colo­
candotodo o sistema sacrifical dentro do
contexto doculto no tabernáculo, onde a
presença divina foi revelada a Israel.
Antes de se defrontar com a presença de
Deus, Arão tinha de assegurar uma ple­
na e completa expiação através do sacri­
fício.
(2) O oferecimento de sacrifícios em
prol de Arão (v. 5-14). A oferta pelo
pecadopor meio deum bezerro e a oferta
queimada de um carneiro foram apresen­
tadas a Deus na presença de toda a con­
gregação de Israel. Diferentemente do
capítulo 8, onde Moisés age como sacer­
dote, aqui o próprio Arão cumpre o
papel de sacerdote, enquanto os seus
filhos desempenham as tarefas adicio­
nais, que normalmente caberiam aos cul-
tuadores leigos (v. 8,12 e s.). Antes de o
culto da comunidade poder ser trazido a
Deus, osacerdote tem, primeiro, de pres­
tar o seu próprio culto e trazer a sua
própria oferta. Ninguém pode trazer ou­
tros mais perto de Deus do que ele
mesmoestá.
(3) O oferecimento de sacrifícios em
prol do povo(v. 15-21). Estes consistiam
num bode para uma oferta pelo pecado,
um boi e um carneiro para uma oferta
queimada, euma oferta de cereais.
(4) O aparecimento gloriosoe aprovação
divinos (v. 22-24). Estes versículos mos­
tram a aceitação divina da oferta do
povo. A finalidade dos sacrifícios era
assegurar uma comunhão adequada en­
tre Israel e Deus. Essa aprovação foi
afirmada pelo aparecimento da glória
divina, em cumprimento da promessa a
Arão(v. 24). Aentrada de Moisés e Arão
juntos na tenda da congregação tinha a
finalidade de permitir que o povo visse
Moisés introduzir Arãono santuário, que
agora elehavia de freqüentar permanen­
temente. Assim a autoridade de Moisés
como o mediador entre Israel e Deus foi
delegada aArão.
Este capítulo inteiro expõe, de ma­
neira exemplar, opropósito e a natureza
do culto sacrifical em Israel. Era para
estabelecer e manter a comunhão entre
Israel e Deus. Uma vez que essa comu­
nhão estava sendo continuamente colo­
cada em perigo, pelos pecados de Israel,
se fazia necessário que a expiação de­
sempenhasse uma parte proeminente, no
ritual e na interpretação de semelhantes
sacrifícios. No entanto, essa expiação
não era nenhum mero decreto legal de
perdão, mas uma experiência viva, de
reconciliação, assegurada e experimen­
tada no culto. O culto de Israel, como
seu sistema sacrifical, constituía o meio,
providenciado por Deus, para o cumpri­
mento da promessa a Abraão: “Serei o
seu Deus” (Gên. 17:8). O fato de Deus
ser por Israel, em sua promessa, era rea­
lizado através de seu estar com Israel em
seu culto. Assim, a tenda da congre­
gação, que originalmente significava,
provavelmente, tenda do festival, se tor­
nou o lugar da presença divina e o cená­
rio de seu encontro com Israel (Êx. 29:
44,45). A palavra hebraica para congre­
gação (mo‘edh) é usada regularmente
para denotar ocasiões festivas (“esta­
ções”,como em Gên. 1:14). Refere-se ao
ajuntamento de pessoas para culto, de
maneira que a tenda da congregação era
aquela que se usava em ocasiões festivas,
para semelhante culto.
O ponto culminante na edificação do
tabernáculo, aordenaçãodossacerdotese
o oferecimento do primeiro sacrifício fo­
ram atingidoscomoaparecimentoda gló­
riadivina(v. 23).Esta glóriafoiosímbolo
eoinstrumento dapresença deDeus com
o seu povo. O seu sinal foram o fogo a
queimar sobre o altar e a nuvem de fu­
maça que pairava sobre ele. Enquanto
esse fogo e essa fumaça estivessem pre­
sentes sobre o altar da oferta queimada
45
de Israel, seriam lembranças constantes
da promessa dapresença deDeus.
Diferentemente dos povos vizinhos,
que necessitavam de uma imagem para
servir de símbolo da presença de Deus,
Israel não tinha nenhuma representação
material da deidade. Noentanto, a estru­
tura inteira do culto israelita centraliza-
va-sena presença de Deus, prometida na
aliança, e constatada através do modelo
do culto iniciado no monte Sinai. Israel
estava mais, e não menos, consciente da
presença divina em seu meio por não
fazer uso de imagens materiais, e pro­
curava nos símbolos vivos do próprio
culto descobrir os sinais de sua comu­
nhão comDeus.
A presença de Deus em Israel não era
entendida, absolutamente, como suge­
rindo queeletivesse deixado de morar no
céu ou de estar presente através de todo o
seuUniverso. Assim, oconceito da glória
usado em Levítico (e através da grande
história sacerdotal pós-exílica) visava
afirmar a realidade da presença de Deus
com Israel, sem implicar que só ali fosse
que pudesse ser achada. Afirmava a sua
imanência, sem negar a sua transcen­
dência.
O padrão de culto sacrifical em Israel
suscita um problema histórico. De uma
abundância de evidências proporcionada
tanto pelo Antigo Testamento como pela
arqueologia, é claro que o sistema sacri­
fical de Israel foi desenvolvido e adapta­
do de formas de sacrifíciojá correntes no
mundo do Oriente Médio antigo. Vários
dos nomes dos tipos de sacrifícios se
acham fora do Antigo Testamento, no
mundo cananeu-fenício. Outrossim, as
origens reais de sacrifício como uma ex­
pressão de culto são tão remotas e a
prática é tão largamente corroborada
através do mundo que não há possibili­
dade de descobrir o seu significado ori­
ginal. Jaz ele escondido nas névoas da
antiguidade pré-histórica. O que está
claro é que Israel achou um significado
distintivo, próprio dele, nos sacrifícios
que oferecia. Enquanto havia, indubita­
velmente, muitas semelhanças externas,
entre os sacrifícios israelitas e os pagãos,
a unicidade daqueles deriva do fato de
que eram oferecidos ao Senhor Deus de
Israel e estavam integrados na estrutura
total de seu cultopactuai.
Essa unicidade não era algo introduzi­
do no sistema sacrifical numa única épo­
ca dotempo nem, necessariamente, pelos
mesmos motivos. Entrou gradativamen-
te, à medida que tanto sacerdotes como
cultuadores leigos refletiam sobre os sa­
crifícios e os ritos que já se tinham tor­
nado tradicionais para eles. Viam-nos
como mandamento solene de Deus, mas,
naturalmente, tentavam relacionar esse
mandamento, para oferecerem sacrifí­
cios àquilo que também, de outras ma­
neiras, se sabia ser de Deus. Em deter­
minadas épocas, certos profetas rejeita­
vam os sacrifícios totalmente (Jer. 7:21-
23; Am. 5:25), quando o seu uso e a sua
interpretação pareciam contradizer exi­
gências mais fundamentais de Deus. De
uma maneira ampla e geral, podemos re­
sumiressa unicidade da atitude de Israel
para com o sacrifício, por dizer que,
enquanto no mundo antigo o sacrifício
era geralmenteconsiderado como algo de
que os deuses tinham necessidade, em
Israel veio a ser visto como algo de que o
homem precisava, a fim de expressar
acertadamente a sua contrição e submis­
são aDeus.
Enquanto exteriormente os sacrifícios
muitas vezes se assemelhavam aos dos
pagãos, em seu propósito e significado
tinham assumido um caráter totalmente
diferente. Expressavam, pelo seu simbo­
lismo de fogo e fumaça, a promessa da
glória divina, residenteno meio de Israel,
e, pelo derramamento de sangue, oquan­
to custava o caminho da reconciliáção
comDeus.
3. OErrodeNadabeeAbiú(10:1-20)
1 Ora, Nadabe e Abiú, filhos de Arão, to­
maram cada um o seu incensário e, pondo
46
neles fogo e sobre ele deitando incenso, ofe­
receram fogo estranho perante o Senhor, o
que ele não lhes ordenara. 2 Então saiu fogo
de diante do Senhor, e os devorou; e morre­
ram peranteoSenhor.3DisseMoisésa Arão:
Isto é o que o Senhor falou, dizendo: Serei
santificado naqueles que se chegarem a
mim, e serei glorificado diante de todo o
povo. MasArão guardou silêncio. 4E Moisés
chamou a Misael e a Elzafã, filhos de Uziel,
tio de Arão, e disse-lhes: Chegai-vos, levai
vossos irmãos de diante do santuário, para
fora do arraial. 5 Chegaram-se, pois, e le­
varam-nos como estavam, nas próprias tú­
nicas, para fora do arraial, como Moisés
lhes dissera. 6 Então disse Moisés a Arão, e
a seus filhos Eleazar e Itamar: Não des­
cubrais as vossas cabeças, nem rasgueis as
vossas vestes, para que não morrais, nem
venha a ira sobre toda a congregação; mas
vossos irmãos, toda a casa de Israel, lamen­
tem este incêndio que o Senhor acendeu.
7E não saireis da porta da tenda da revela­
ção, para que não morrais; porque está
sobre vós o óleo da unção do Senhor. E eles
fizeram conforme a palavra de Moisés.
8 Falou também o Senhor a Arão, dizendo:
9 Não bebereis vinho nem bebida forte, nem
tu nem teus filhos contigo, quando entrardes
na tenda da revelação, para que não mor­
rais, estatuto perpétuo será isso pelas vos­
sas gerações, 10 não somente para fazer
separação entre o santo e o profano, e entre
o imundo e o limpo, 11 mas também para
ensinar aos filhos de Israel todos os estatu­
tos que o Senhor lhes tem dado por intermé­
diode Moisés.
Este capítulo trata de vários assuntos,
que surgem da celebração sacrifical nar­
rada no capítulo 9. O mais importante é
0 primeiro, tratado pelos versículos 1-7,
que descrevem as circunstâncias trági­
cas que cercaram a morte de Nadabe e
Abiú. Eles aparecem como os dois filhos
mais velhos de Arão (Êx. 6:23; 28:1;
1Crôn. 6:3; cf. Núm. 3:2-4; 26:60 e s.).
O relato deste evento visa, claramente,
servir como uma advertência aos sacer­
dotes de Israel, mostrando as conseqüên­
cias sérias que adviriam por qualquer
infração das instruções divinas. Levítico
8:35já adverte que uma quebra do man­
damento de Deus podia causar a morte
dos sacerdotes. Tragicamente, é isso que
agoraocorreu, embora em circunstâncias
inesperadase misteriosas.
Israel, como muitos povos antigos,
considerava que o fogo do altar tinha
sido ateado inicialmente pelo próprio
Deus (9:24). De então em diante, foi
continuamente mantido aceso sobre o al­
tar pelos sacerdotes. Nadabe e Abiú
transgrediram o mandamento divino
concernente ao fogo do altar, por ofere­
cerem fogo estranho perante Deus. No
hebraico a expressão é literalmente fogo
“estranho” ou “alheio”.
A natureza exata de sua ofensa conti­
nua um tanto obscura. O que fizeram foi
errado, porque não haviam sido incluí­
dos nos mandamentos divinosdados con­
cernentes ao altar, e talvez se refira a
uma espécie deincenso que não fora pre­
parado conforme a receita estabelecida
pela lei. Os regulamentos para o altar de
incenso de Israel (Êx. 30:1-10) proibiam,
especificamente, o oferecimento de in­
censoestranho(Êx. 30:9), onde a expres­
são é, literalmente, incenso “estranho”
ou “alheio”, semelhante à expressão usa­
dapara a ofensa de Nadabe eAbiú.
Por detrás desta narrativa talvez tenha
havidouma tentativa, em certa época, de
introduzir em Israel uma forma de in­
censo, ou de queima de incenso, que se
considerava pecaminosa e pagã. Porém
N. H. Snaith (p. 76) considera a base da
ofensa como surgindo da posição de Na­
dabe e Abiú como sacerdotes ilegítimos.
Ele compara Números 16:40 com Leví­
tico 22:12, para fundamentar a interpre­
tação de “estranho” como significando
não-sacerdotal. Assim, a ofensa de Na­
dabe e Abiú foi no oferecimento de fogo
não-consagradoou profano, eojuízo que
os atingiu demonstrava a hostilidade di­
vinaà sua prática presunçosa. Mais uma
vezé afirmado o princípio de que os que
estãopróximos deDeus têm uma respon­
sabilidade especial, tanto por eles mes­
moscomoporoutros, e, por conseguinte,
devem tomar cuidados especiais para
orientar as suas vidas de acordo com a
47
vontade, já conhecida, de Deus. Maior
privilégio implica maior responsabili­
dade.
Subseqüentemente à morte de Nadabe
e Abiú, Misael e Elzafâ, primos de Arâo
(v. 4; cf. Êx. 6:22), removem os corpos e
uma advertência especial é feita aos dois
filhos restantes de Arâo, Eleazar e Ita-
mar (Êx. 6:23). A proibição de deixarem
os seus cabelos soltos e de rasgarem as
suas roupas (v. 6) visava adverti-los con­
tra ações que eram ritos comuns de luto
pelos mortos (cf. 21:10). Não foi feita
essa proibição simplesmente porque a
morte de seusirmãosera resultado deum
pavorosojulgamento divino, mas era ge­
ralmente mais obrigatória para os sacer­
dotes quando qualquer parente próximo
morresse ou natural ou violentamente.
Permitia-se aosacerdote compartilhar no
luto familiar normal somente sob restri­
ções muito severas (21:1-6). Como quem
servia ao Senhor e Autor da vida, ele
podia abandonar suas tarefas somente
para lamentar a morte de um parente
muito próximo. A ele, mui especialmen­
te, não se permitia que seguisse os cos­
tumes pagãos de luto. Esta advertência
particular é, portanto, uma lembrança
geral, antes de ser um mandamento es­
pecífico, derivado do fim violento de
Nadabe eAbiú.
Os versículos 8-11 introduzem uma
outra advertência geral, que não está li­
gada diretamente ao incidente que a
antecedeu. Enquanto estivessem minis­
trando no santuário, os sacerdotes de
Israel deviam se abster de toda bebida
alcoólica. Isso seria especialmente im­
portante duranteuma celebração festiva,
quando os cultuadores leigos tomavam
vinho em sua refeição sacrifical, e os
sacerdotes, com suas tarefas a desem­
penhar, talvez tenham sido tentados a
participar. Também distinguia o sacer­
dócio de Israel dos das nações circunvi­
zinhas, onde às vezes se recorria ao uso
de bebida alcoólica ou inebriante a fim
de produzir uma condição especialmente
exaltadae deêxtase.
O motivo desta abstenção, em Israel,
torna-se perfeitamente claro no versí­
culo 10. O sacerdote tinha uma respon­
sabilidade educacional, no sentido de
assegurar que cada cultuador conheces­
sea distinção entre o que era sagrado e o
que era profano. Ele era também encar­
regado de ensinar aos cultuadores os re­
gulamentosdivinosconcernentes aoculto
e à conduta, e não podia fazer isso
apropriadamente se estivesse em estado
de embriaguez. Os perigos da bebida
alcoólica eram claros para o Israel anti­
go; e, conquanto não se impusesse ne­
nhuma proibição geral, exigia-se, espe­
cialmente daqueles que serviam ao altar
deDeus, a consciênciada necessidade do
autocontrole e de uma consciência ade­
quada das prioridades espirituais.
12 Também disse Moisés a Arâo, e a Elea­
zar e Itamar, seus filhos que lhe ficaram:
Tomai a oferta de cereais que resta das
ofertasqueimadas do Senhor, e comei-asem
levedura junto do altar, porquanto é coisa
santíssima. 13 Comê-la-eis em lugar santo,
porque isto é a tua porção, e a porção de teus
filhos, das ofertas queimadas do Senhor;
porque assim me foiordenado. 14Também o
peito da oferta movida e a coxa da oferta
alçada, comê-los-eis em lugar limpo, tu, e
teus filhos e tuas filhas contigo; porquanto
são eles dados como tua porção, e como
porção de teus filhos, dos sacrifícios das
ofertaspacíficas dos filhos de Israel. 15Tra­
rão a coxa da oferta alçada e o peito da
oferta movida juntamente com as ofertas
queimadas da gordura, para movê-los como
oferta movida perante o Senhor; isso te
pertencerá como porção, a ti e a teus filhos
contigo, para sempre, como o Senhor tem
ordenado. 16E Moisés buscou diligentemen­
te obode da oferta pelo pecado, e eis que já
tinha sido queimado; pelo que se indignou
grandemente contra Eleazar e contra Ita-
mar, os filhos que de Arão ficaram, e lhés
disse: 17Por que não comestes a oferta pelo
pecadoem lugar santo, visto que é coisasan­
tíssima, e oSenhora deu a vós para levardes
a iniqüidade da congregação, para fazerdes
expiação por eles diante do Senhor? 18 Eis
que não se trouxe o seu sangue para dentro
do santuário; certamente a devíeis ter co-
48
mido em lugar santo, como eu havia orde­
nado. 19Então disse Arão a Moisés: Eis que
hoje ofereceram a sua oferta pelopecado e p
seu holocausto perante o Senhor, e tais coi­
sas como essas me têm acontecido; se eu
tivesse comido hoje a oferta pelo pecado,
porventura teria sido isso coisa agradável
aos olhosdoSenhor? 20Ouvindo Moisés isto,
pareceu-lhe razoável.
Os versículos 12 e 13 reiniciam a dis­
cussão do oferecimento dos sacrifícios
registrados no capítulo 9. Ali nada se
disse sobre o que seria feito, finalmente,
com aquela parte da oferta de cereais do
povo que não era queimada sobre o al­
tar. Aqui foi ordenado aos sacerdotes
que a comessem num lugar santo, ao
lado do altar. Fazia parte da renda, di­
vinamente ordenada, dos sacerdotes.
Semelhantemente, os versículos 14 e
15nos dizem o que se havia de fazer com
o peito e a coxa, da oferta pacífica do
povo, que se davam ao sacerdote (9:21).
Esses também constituíam uma parte da
renda do sacerdote pelos seus serviços, e
podiam sercomidospelosacerdote epela
sua família, inclusive pelos seus filhos e
filhas, em qualquer lugar limpo. Não es­
tavam, portanto, sujeitos à obrigação de
seremcomidos aolado do altar.
Finalmente, neste estudo dos procedi­
mentos sacrificais de Israel, se levanta
de novo a questão do que se devia fazer
com o resto do corpo do animal sacrifi­
cado em oferta pelo pecado, do qual
apenas determinadas partes haviam de
ser queimadas sobre o altar. Regulamen­
tos diferentes prevaleciam em épocas di­
ferentes (cf. 4:21; 8:17; 10:16-20). Em
certas circunstâncias, podia ser comido
pelos sacerdotes, enquanto em outros
casos tinha de ser queimado num lugar
especial, separado para esse fim. O re­
gulamento era que, quando se trazia o
sangue para dentro do santuário interior
(6:30), a oferta pelo pecado não havia de
sercomida, mas, sim, queimada. Assim,
a crítica de Moisés, no versículo 18,
assevera que o procedimento errado ti­
nha sidoseguidonestecaso.
Aresposta de Arão refere-se à tragédia
deNadabeeAbiú(v. 19), mostrando que
não era ocasião própria para se comer e
se regozijar, mas, sim, para lamenta­
ções. Ele estava argumentando também
que a intensa ansiedade de que fora
acometido proporcionava uma expiação
suficiente por ter ele agido erradamente.
A inclusão, aqui, de semelhante nota
mostra como o tipo do “pecado inadver­
tido” podia surgir, para o qual a oferta
pelo pecado era especialmente proposta,
e demonstra que o bom senso havia de
prevalecer sobre o legalismo rigoroso, na
interpretação dos regulamentos sacri­
ficais.
UI. Os Regulamentos Concernen­
tes àPureza(11:1-15:33)
1. Os Animais Limpos e os Imundos
(11:1-47)
Este capítulo começa uma nova seção
dolivrodeLevítico, concernente à distin­
çãoentre os animais puros e os imundos.
É digno de nota, agora que Arão foi
empossado como sacerdote, que as ins­
truções são dirigidas a Moisés e Arão em
conjunto (v. 1). O capítulo divide-se em
várias seções principais, todas relativas a
animais limposea animais imundos.
(1) A impureza de certos animais ter­
restres, acarne dos quais não havia de ser
comida:
1 Falou o Senhor a Moisés e a Arão, di­
zendo-lhes: 2 Dizei aos filhos de Israel: Es­
tes são os animais que podereis comer den­
tre todos os animais que há sobre a terra:
3 dentre os animais, todo o que tem a unha
fendida, de sorte que se divide em duas, e
que rumina, esse podereis comer. 4 Os se­
guintes, contudo, não comereis, dentre os
que ruminam e dentre os que têm a unha
fendida: o camelo, porque rumina, mas não
tem a unha fendida, esse vos será imundo;
5 o querogrilo, porque rumina, mas não tem
a unhafendida, esse vosserá imundo; 6a le­
bre, porque rumina, mas não tem a unha
fendida, essa vos será imunda; 7e o porco,
porque tem a unha fendida, de sorte que se
49
divide em duas, mas não rumina, esse vos
será imundo. 8 Da sua carne não comereis,
nem tocareis nos seus cadáveres; esses vos
serão imundos.
(2) A impureza de certos peixes e ou­
tras criaturas aquáticas, tanto criaturas
de água doce como de água salgada:
9 Estes são osque podereis comerde todos
os que há nas águas: todo o que tem barba­
tanas e escamas, nas águas, nos mares e nos
rios, esse podereis comer. 10Mas todo o que
não tem barbatanas nem escamas, nos ma­
res e nos rios, todo réptil das águas, e todos
os animais que vivem nas águas, estes vos
serão abomináveis. 11 tê-los-eis em abomi­
nação; da sua carne não comereis, e abomi­
nareis os seus cadáveres. 12Tudo o que não
tem barbatanas nem escamas, nas águas,
será por vósabominável.
(3) Aimpureza decertas criaturas ala­
das, tanto avescomo insetos:
13 Dentre as aves, a estas abominareis;
nãose comerão, serãoabomináveis:a águia,
o quebrantosso, o xofrango, 14o açor, o fal­
cão segundo a sua espécie, 15 todo corvo
segundo a sua espécie, 16o avestruz, o mo­
cho, a gaivota, o gavião segundo a sua espé­
cie, 17 o bufo, o corvo marinho, a coruja,
18oporfirião, opelicano, oabutre, 19a cego­
nha, a garça segundo a sua espécie, a poupa
e o morcego. 20 Todos os insetos alados que
andam sobre quatro pés, serão para vós
uma abominação. 21 Contudo, estes há que
podereis comer de todos os insetos alados
que andam sobre quatro pés: os que têm
pernas sobre os seus pés, para saltar com
elas sobre a terra; 22 isto é, deles podereis
comer os seguintes: o gafanhoto segundo a
sua espécie, o solham segundo a sua espé­
cie, o hargol segundo a sua espécie e o ha-
gabe segundo a sua espécie. 23Mas todos os
outros insetos alados que têm quatro pés,
serão para vósuma abominação.
(4) A impureza através do contato
com animais:
24 Também por eles vos tomareis imun­
dos; qualquerque tocar nos seus cadáveres,
será imundo até a tarde, 25 e quem levar
qualquer parte dos seus cadáveres, lavará
as suas vestes, e será imundo até a tarde.
26 Todo animal que tem unhas fendidas,
mas cuja fendanão as divide em duas, e que
não rumina, será para vós imundo; qual­
quer que tocar neles será imundo. 27 Todos
os plantígrados dentre os quadrúpedes, es­
ses vos serão imundos; qualquer que tocar
nosseus cadáveres será imundo até a tarde,
28e o que levar os seus cadáveres lavará as
suas vestes, e será imundo até a tarde; eles
serão para vósimundos.
O significado de para vós imundo se
estende além da proibição de se comer a
carne do animal ou inseto, para abranger
evitar-se de tocar em seu cadáver. A con­
diçãode serimundoatéa tarde referia-se
especialmente a uma proibição de parti­
cipar-se de qualquer forma de culto,
mas, sem dúvida, ia mais além, na im­
posição de restrições consideráveis ao
movimento na sociedade.
(5) A impureza de criaturas menores,
inclusive de roedores domésticos, répteis
e insetos, que podiam contaminar a co­
mida, água, utensílios de cozinha ou
roupas:
29 Estes também vos serão por imundos
entre os animais que se arrastam sobre a
terra: a doninha, orato, o crocodilo da terra
segundo a sua espécie, 30 o musaranho, o
crocodilo da água, a lagartixa, o lagarto e a
toupeira. 31Esses vos serão imundos dentre
todos os animais rasteiros; qualquer que os
tocar, depois de mortos, será imundo até a
tarde; 32 e tudo aquilo sobre o que cair o
cadáver de qualquer deles será imundo;
seja vaso de madeira, ou vestidura, ou pele,
ousaco, seja qualquer instrumento com que
se faz alguma obra, será metido na água, e
será imundo até a tarde; então será limpo.
33 E quanto a todo vaso de barro dentro do
qual cair algum deles, tudo o que houver
nele será imundo, e ovaso quebrareis. 34To­
do alimento depositado nele, que se pode
comer, sobre oqualvierágua, será imundo;
e toda bebida que se pode beber, sendo
depositada em qualquer destes vasos, será
imunda, 35 E tudo aquilo sobre o que cair
alguma parte dos cadáveres deles será
imundo; seja forno, seja fogão, será que­
brado; imundos são, portanto para vós se­
rão imundos. 36 Contudo, uma fonte ou cis­
terna, em que há depósito de água, será
limpa; mas quem tocar no cadáver será
imundo. 37 E, se dos seus cadáveres cair
alguma coisa sobre alguma semente que se
50
bouver de semear, esta será limpa; 38 mas
se fordeitada água sobre a semente, e se dos
cadáveres cair alguma coisa sobre ela, en­
tão ela será para vósimunda.
(6) A impureza do cadáver de um
animallimpo:
39 E se morrer algum dos animais de que
vos é lícito comer, quem tocar no seu cadá­
ver será imundo até a tarde; 40 e quem co­
merdo cadáverdelelavará as suas vestes, e
será imundo até a tarde; igualmente quem
levar ocadáver dele lavará as suas vestes, e
será imundo até a tarde. 41 Também todo
animal rasteiro que se move sobre a terra
será abominação; não se comerá. 42 Tudo o
que anda sobre o ventre, tudo o que anda
sobre quatro pés, e tudo o que tem muitos
pés, enfim todos os animais rasteiros que se
movem sobre a terra, desses não comereis,
porquanto são abomináveis. 43 Não vos tor­
nareis abomináveis por nenhum animal ras­
teiro, nem neles vos contaminareis, para
não vos tornardes imundos por eles. 44 Por­
que eu sou o Senhor vosso Deus; portanto
santificai-vos, e sede santos, porque eu sou
santo; e não voscontaminareis com nenhum
animal rasteiro que se move sobre a terra;
45porque eu sou o Senhor, que vos fiz subir
da terra do Egito, para ser o vosso Deus;
sereis pois santos, porque eu sou santo.
46 Esta é a lei sobre os animais e as aves, e
sobre toda criatura vivente que se move nas
águas e toda criatura que se arrasta sobre a
terra; 47para fazer separação entre o imun­
do e o limpo, e entre os animais que se
podem comer e os animais que não se po­
dem comer.
Esta seção afirma que até um animal
limpo pode tornar-se prejudicial, uma
vez morto, e que seu cadáver pode espa­
lhar impureza. Os versículos 41 e 42
referem-se, de forma geral, à impureza
de répteis pequenos, eos versículos 43-47
formamuma nota final, afirmando que a
abstinência de animais impuros na ali­
mentação e do contato com animais
imundos fazia parte do relacionamento
sagrado de Israel com Deus. Os regula­
mentos são assim, erguidos acima da
categoria do meramente aconselhável e
colocados no contexto básico do amor e
respeitopara com Deus.
Esta lista de regulamentos, proibindo
o uso como alimento de certos animais e
realçando a importância de evitar, tanto
quanto possível, todo contato com eles,
parece, à primeira vista, estranha. Além
decausarperplexidade, essesregulamen­
tos proporcionaram uma base para cer­
tas leis judaicas dietéticas, que, através
dos séculos, se constituíram num marco
distintivo dos judeus. Tais leis parecem
tanto mais estranhas aos leitores moder­
nos porque não oferecem nenhum mo­
tivo claro quanto à razão para a classifi­
cação de determinadas criaturas como
imundas. Esta classificação era, antes de
mais nada, uma expressão sacerdotal,
que denotava que alguma pessoa oucoisa
era incompatível com a santidade de
Deus. Dizia respeito a pessoas que eram
consideradas como estando num estado
inapropriado para a participação no cul­
to, e a materiais e animais que não po­
diam ser usados como alimento na vida
cotidiana. Uma pessoa classificada como
imunda ficava confinada à sua casa até
que a sua impureza tivesse sido remo­
vida.
Acategorização de animais em classes,
em conformidade de ruminarem ou não e
terem unha fendida, certamente não era
omotivopara serem considerados limpos
ou imundos. Esse foi simplesmente um
meio didático, que visava proporcionar
uma orientação, grosso modo, para a
pronta identificação deum animal imun­
do. Como uma orientação geral, servia
para mostrar se ou não se podia comer
um animal, mas não era, em si, o motivo
de oanimal ser ou limpo ou imundo.
Desde que o termo imundo está ligado
muito de perto com o culto, vários erudi­
tos têm procurado descobrir a base para
a classificação desses animais como
imundos, no uso, que era feito deles no
culto, pelas nações pagãs. Tem sido ar­
gumentado que o motivo original para a
proibição do comer desses animais em
51
Israel era que proporcionavam âs nações
pagãs osmateriais para o sacrifício e que
eram comidos em certos ritos totêmicos.
Portanto, Israel devia evitar tais práticas
pagãs por se abster de comer esses ani­
mais como alimento. Assim, a abstinên­
cia desses animais teria surgido da preo­
cupação mais fundamental, em Israel, de
evitar a imitação de formas pagãs de
culto. Em Isaías 65:4, hâ uma condena­
ção de práticas pagãs misteriosas, que
implicavam o uso de animais imundos
como alimento. O povo que comete essa
ofensaé descritocomo aquele que “se as­
senta entre as sepulturas, e passa as
noites junto aos lugares secretos; que
come carne de porco, achando-se caldo
decoisasabomináveis nas suasvasilhas”.
Conquanto o uso pagão dessas criatu­
ras no culto possa ter ajudado a nutrir
uma antipatia para com elas em Israel,
não pode ter formado a base real da
proibição de tantos animais, peixes, aves
e insetos como imundos. A grande maio­
ria dos sacrifícios pagãos fazia uso dos
mesmos animais que Israel, de maneira
que, sefosseesseo motivo, estes também
teriam de serproibidos.
É muito mais provável que deveríamos
seguirAlbright(Yahwehandthe Gods of
Canaan, p. 154,155), em reconhecer que
essesregulamentossurgiram antes da era
da ciência médica moderna e que consti­
tuem uma forma de higiene primitiva,
mas de maneira nenhuma inútil. Uma
vez que reconhecemos que estes regula­
mentos surgiram antes de os homens
serem capazes de descobrir as causas e o
alastramento de doençasespecíficas atra­
vés de bactérias, podemos ver que se
derivavam de uma preocupação geral
com a abstinência de carnes que podiam
serprejudiciais.
Acarne deporco, a menos que devida­
mente cozida, reconhece-se largamente
hoje como portadora da triquinose. O
querogriloe a lebre são também, sabida­
mente, portadores da tularemia. Os pei­
xes que não possuem escamas e barbata­
nas são peixes de água rasa e muitas
vezes, cavadores na lama, especialmente
no rio Nilo. Facilmente se tomam por­
tadores de diversas bactérias prejudi­
ciais. Assim também aves de rapina que
comem carniça são portadoras perigosas
de doenças, enquanto toda dona-de-casa
reconhecerá o prejuízo causado por inse­
tos e roedores, quando se lhes permite
contaminarem as vasilhas de armazena­
mento de alimentoseas panelas.
O que temos aqui é um guia simples e
abrangente para a higiene da alimenta­
ção e pessoal. Surgiu numa era pré-mé-
dica, quando somente uma regra prag­
mática podia ser aplicada. Não há ne­
nhum motivo para se duvidar que foi
composta na base do reconhecimento
precoce hebraico das conseqüências da­
nosas de comer certos animais e insetos.
Surgiu da experiência, antes do que do
conhecimento médico direto. Sem ser
capaz de especificar a natureza determi­
nada da doença portadora por esses se­
res, alistou-os comoimundos, porque, na
experiênciapassada, tinham sidoachados
como os causadores de enfermidades e
até de morte. Semelhante interpretação
não precisa ser seguida com exclusivi­
dade. É provável que os motivos e as
tradições que jazem por detrás dos con­
ceitos de limpo e imundo sejam variados
e não todos de um mesmo tipo. Desde
que o conceito de impureza era um ter­
mo especificamente religioso, é possível
que certos animais, dentre os que foram
proibidos para a alimentação, fossem
usadosem formaspagãs de culto. Outros
talvez tenham sido rejeitados por causa
deseushábitos repugnantes.
O queexiste de especialmente instruti­
vopara nós, nessa lista, não são tanto os
determinados animais relacionados,
mas, sim, a maneira como esses regula­
mentos ligam a religião e a higiene. O
ditado inglês “A higiene segue de perto a
santidade” assumeum significado novo e
valioso. A preocupação de Deus está em
dar a vida e a saúde ao seu povo. Ele
52
exige, portanto, a sua abstenção daquilo
que se tornou conhecido, pela experiên­
cia, como provável meio do alastramento
da doença e da morte. Como princípio
básico, isso ainda se aplica, embora a
ciência médica moderna tenha tornado
obsoletos determinados regulamentos e
sem perigo de ingestão a carne de alguns
animais aqui listados. Em condições his­
tóricas e geográficas diferentes, a lista
específica de animais imundosjá não tem
aplicação. Contudo, o princípio através
do qual Deus busca a saúde e a higiene
de todas as pessoas é um ensino bíblico
permanentemente válido.
2. AImpureza Relacionada com o Parto
(12:1-8)
1Disse mais o Senhora Moisés: 2Fala aos
filhos de Israel, dizendo: Se uma mulher
conceber e tiver um menino, será imunda
sete dias; assim como nos dias da impureza
da sua enfermidade, seráimunda. 3E no dia
oitavo se circuncidará ao menino a carne do
seu prepúcio. 4 Depois permanecerá ela
trinta e três dias no sangue da sua purifica­
ção; em nenhuma coisa sagrada tocará,
nem entrará no santuário até que se cum­
pram os dias da sua purificação. SMas, se
tiver uma menina, então será imunda duas
semanas, como na sua impureza; depois
permanecerá sessenta e seis dias no sangue
da sua purificação. 6E, quando forem cum­
pridos os dias da sua purificação, seja por
filho ou filha, trará um cordeiro de um ano
para holocausto, e um pombinho ou uma
rola para oferta pelo pecado, à porta da
tenda da revelação, ao sacerdote, 7o qual o
oferecerá perante o Senhor, e fará expiação
porela; então ela será limpa do fluxo do seu
sangue. Esta é a lei da que der à luz menino
ou menina. 8 Mas, se as suas posses não
bastarem para um cordeiro, então tomará
duas rolas, ou dois pombinhos: um para o
holocausto e outro para a oferta pelo peca­
do; assim o sacerdote fará expiação por ela,
e ela será limpa.
Pessoas de todas as épocas da história
têm reconhecido o parto como uma ex­
periência plena de mistério e espanto, e
tanto em Israel como em outras terras
antigas essa experiência era assinalada
por cerimônias especiais, que a identifi­
cavam como uma ocasião quando a pre­
sença de Deus era intensamente sentida.
Também era uma ocasião cheia de gran­
de perigo, e o nosso conhecimento mo­
derno da medicina e da higiene indica
que no mundo antigo a taxa de mortali­
dade infantil era certamente muito ele­
vada. Conquanto oparto fosse uma oca­
sião para regozijo, era especialmente
uma ocasião de medo e ansiedade. A
criançapodia muito facilmente ser perdi­
da ao nascer. O parto era, portanto, um
transe da existência quando o poder de
Deuspara dar vidaeopoder do mal para
tirá-la eram ambos muito notáveis. Con­
seqüentemente, se faziam necessários
que o filho e a mãe fossem adequada­
mente protegidos, que as ações de graças
devidasfossem dadas aDeus eque expia­
ção apropriada fosse feita, para que as
forças do mal não trouxessem desgraça.
O parto, a maturidade, o casamento e
amorte têm sido, desse modo, quase que
universalmente reconhecidos como os
três grandes períodos de transição na
existência humana. Em cada um deles,
os homens têm sentido o assombro e
maravilha da presença divina e do misté­
rio que cerca toda a vida. Outrossim, a
perda do sangue materno, por ocasião do
parto, que tanto no mundo antigo quan­
to em épocas até mais recentes podia fa­
cilmente se provar fatal, reforçava a con­
sideração do israelita comum pelo san­
gue como a fonte da vida. Era necessá­
rio, quando se derramava sangue, que se
fizesse expiação a Deus. Mesmo pela
perda de sanguepor ocasião do parto um
sacrifício de expiação era oferecido
(v. 6-8).
É importante reconhecer que isso não
surgiu porque o parto ou a concepção de
filhos fossem vistos como eventos peca­
minosos, mas, sim, que se originou de
um reconhecimento de que no parto as
forças do bem e do mal pareciam estar
presentes de uma maneira especial. O
Antigo Testamento considerava o nas­
cimento de filhos de forma muito positi-
53
va, como uma dádiva de Deus, e o gozo
de uma família grande, como um marco
da bênção de Deus(cf. Sal. 127:3-5).
0 período durante o qual se conside­
rava a mãe da criança imunda (v. 2,5)
era um período em que ela se confinava
ao seu lar. Por um período adicional de
purificação, a mulher não podia entrar
no santuário. Somente quando esse pe­
ríodo terminasse havia ela de entrar na
presença divina, com uma oferta quei­
mada e uma oferta pelo pecado. Mais
umavez a existência da pobreza extrema
é reconhecida pelo fato de a oferta não
precisar de ser mais custosa do que dois
pombinhos(v. 8).
Na consideração de Deus, os ricos e os
pobres eram iguais perante ele, em seu
culto, e ambos haviam de receber opor­
tunidade igual de lhe apresentarem as
suas dádivas. Uma característica impres­
sionante do período da impureza e da
purificação da mulher é que os dois
períodos eram dobrados se o nenê fosse
menina. No caso de um garoto, a impu­
reza da mãe durava sete dias e o período
de purificação 33 dias, enquanto no caso
deuma menina, a impureza durava qua­
torze diase a purificação 66. Isso reflete,
semdúvida, a inferioridade geral atribuí­
da às meninas no mundo antigo e a
preferência generalizada por filhos ho­
mens. Lança nova luz sobre a grande
afirmativa de Paulo, da igualdade espi­
ritual entre os sexos, que em Cristo “não
há macho nem fêmea, porque todos vós
sois um em Cristo Jesus” (Gál. 3:28).
A criança masculina era circuncidada ao
oitavo dia, de acordo com a lei e como
um sinal de sua incorporação na aliança
feitacomAbraão(Gên. 17:9-13).
3. AImpurezaResultantedaLepra
(13:1-15:33)
(1) ODiagnósticodaDoença
(13:1-46)
1Falou mais o Senhor a Moisés e a Arão,
dizendo: 2 Quando um homem tiver na pele
da sua carne inchação, ou pústula, ou man­
cha lustrosa, e esta se tomar na sua pele
como praga de lepra, então será levado a
Arão o sacerdote, ou a um de seus filhos, os
sacerdotes, 3 e o sacerdote examinará a
praga na pele da carne. Se o pêlo na praga
se tiver tornado branco, e a praga parecer
mais profunda que a pele, é praga de lepra;
o sacerdote, verificando isto, o declarará
imundo. 4Mas, se a mancha lustrosa na sua
pele for branca, e não parecer mais pro­
funda que a pele, e o pêlo não se tiver
tornado branco, o sacerdote encerrará por
sete dias aquele que tem a praga. 5 Ao sé­
timo dia o sacerdote o examinará; se a
praga, na sua opinião, tiver parado e não se
tiver estendido na pele, o sacerdote o en­
cerrará por outros sete dias. 6 Ao séti­
mo dia o sacerdote o examinará outra
vez; se a praga tiver escurecido, não se
tendo estendido na pele, o sacerdote o de­
clarará limpo; é uma pústula. O homem
lavará as suas vestes, e será limpo. 7Mas se
a pústula se estender muito na pele, depois
de se ter mostrado ao sacerdote para a sua
purificação, mostrar-se-á de novo ao sacer­
dote, 8 o qual o examinará; se a pústula se
tiver estendido na pele, o sacerdote o decla­
rará imundo; é lepra. 9Quandonum homem
houver praga de lepra, será ele levado ao
sacerdote, 10o qual o examinará; se houver
na pele inchação branca que tenha tornado
branco opêlo, e houver carne viva na incha­
ção, 11lepra inveterada é na sua pele. Por­
tanto, o sacerdote o declarará imundo; não
oencerrará, porque imundo é. 12 Se a lepra
se espalhar muito na pele, e cobrir toda a
pele do que tem a praga, desde a cabeça
até os pés, quanto podem ver os olhos do
sacerdote, 13este oexaminará; e, se a lepra
tiver coberto a carne toda, declarará limpo
oque tem a praga; ela toda se tomou bran­
ca; o homem é limpo. 14Mas no dia em que
nele aparecer carne viva será imundo.
15 Examinará, pois, o sacerdote a carne
viva, e declarará o homem imundo; a carne
viva é imunda; é lepra. 16 Ou, se a carne
vivamudar, e ficar de novo branca, ele virá
ao sacerdote, 17 e este o examinará; se a
praga se tiver tornado branca, o sacerdote
declarará limpo o que tem a praga; limpo
está. 18 Quando também a carne tiver na
sua pele alguma úlcera, se esta sarar,
19 e em seu lugar vier inchação branca ou
mancha lustrosa, tirando a vermelho, mos-
trar-se-á ao sacerdote, 20 e este a exami­
nará; se ela parecer mais profunda que a
pele, e o pêlo se tiver tornado branco, o
sacerdote declarará imundo o homem; é
praga de lepra, que brotou na úlcera. 21 Se,
54
porém, o sacerdote a examinar, e nela não
houver pêlo branco e não estiver mais pro­
funda que a pele, mas tiver escurecido,
o sacerdote encerrará por sete dias o ho­
mem. 22Se ela se estender na pele, o sacer­
dote odeclarará imundo; é praga. 23Mas se
a mancha lustrosa parar no seu lugar, não
se estendendo, é a cicatriz da úlcera; o
sacerdote, pois, o declarará limpo. 24 Ou,
quando na pele da carne houverqueimadura
de fogo, e a carne viva da queimadura se
tomar em mancha lustrosa, tirando a ver­
melho ou branco, 25o sacerdote a examina­
rá, e se o pêlo na mancha lustrosa se tiver
tornado branco, e ela parecer mais profun­
da que a pele, é lepra; brotou na queima­
dura; portanto o sacerdote o declarará
imundo; é praga de lepra. 26Mas se o sacer­
dote a examinar, e na mancha lustrosa não
houver pêlo branco, nem estiver mais pro­
funda que a pele, mas tiver escurecido, o
sacerdote o encerrará por sete dias. 27 Ao
sétimo dia o sacerdote o examinará. Se ela
se houver estendido na pele, o sacerdote o
declarará imundo; é praga de lepra. 28Mas
se a mancha lustrosa tiver parado no seu
lugar, não se estendendo na pele, e tiver
escurecido, é a inchação da queimadura;
portanto osacerdote odeclarará limpo; por­
que é a cicatriz da queimadura. 29E quando
homem (ou mulher) tiver praga na cabeça
ou na barba, 30 o sacerdote examinará a
praga, e se ela parecer mais profunda que a
pele, e nela houver pêlo fino amarelo, o
sacerdote o declarará imundo; é tinha, é
lepra da cabeça ou da barba. 31 Mas se o
sacerdote examinar a praga da tinha, e ela
não parecer mais profunda que a pele, e
nela não houver pêlo preto, o sacerdote en­
cerrará por sete dias o que tem a praga da
tinha. 32Aosétimo dia osacerdote examina­
rá a praga; se a tinha não se tiver estendido,
enelanãohouverpêlo amarelo, nem a tinha
parecer mais profunda que a pele, 33 o ho­
mem se rapará, mas não rapará a tinha; e o
sacerdote encerrará por mais sete dias o
que tem a tinha. 34Ao sétimo dia o sacerdo­
te examinará a tinha; e se ela não se houver
estendido na pele, e não parecer mais pro­
funda que a pele, o sacerdote declarará
limpo o homem; o qual lavará as suas ves­
tes, e será limpo. 35 Mas se, depois da sua
purificação, a tinha estender na pele, 36 o
sacerdote o examinará; se a tinha se tiver
estendido na pele, o sacerdote não busca­
rá pêlo amarelo; o homem está imundo.
37 Mas se a tinha, a seu ver, tiver parado, e
nela tiver crescido pêlo preto, a tinha terá
sarado; limpo está o homem; portanto o
sacerdote o declarará limpo. 38 Quando ho­
mem (oumulher) tiverna pele da sua carne
manchas lustrosas, isto é, manchas lustro­
sas brancas, 39 o sacerdote as examinará;
se essas manchas lustrosas forem brancas
tirando a escuro, é impigem que brotou na
pele; o homem é limpo. 40Quando a cabeça
do homem se pelar, ele é calvo; contudo é
limpo. 41 E, se a frente da sua cabeça se
pelar, ele é meio calvo; contudo é limpo.
42 Mas se na calva, ou na meia calva, hou­
ver praga branca tirando a vermelho, é
lepra que lhe está brotando na calva ou na
meia calva. 43 Então o sacerdote o exami­
nará, e se a inchação da praga na calva ou
na meia calva for branca tirando a verme­
lho, como parece a lepra na pele da carne,
44 leproso é aquele homem, é imundo; o
sacerdote certamente o declarará imundo;
na sua cabeça está a praga. 45 Também as
vestes do leproso, em quem está a praga,
serão rasgadas; ele ficará com a cabeça
descoberta e de cabelo solto, mas cobrirá o
bigode, e clamará: Imundo, imundo. 46 Por
todos os dias em que a praga estiver nele,
será imundo; imundo é; habitará só; a sua
habitação será fora doarraial.
O significadobásico dotermo imundo,
no Israel antigo, era uma referência à
impropriedade de uma pessoa ou coisa
para ouso ou participação no culto. Mas
éclaro da catalogaçãodos animais imun­
dos que não era um termo ritual, porém
se ligava vitalmente com a propriedade
de um objeto ou de uma pessoa para a
vida cotidiana na comunidade. Isso se
torna ainda mais claro na seção em pau­
ta, que diz respeito à identificação da
impureza causada pelas doenças e às
medidas necessárias para a restauração
da pureza, uma vez a doença tendo desa­
parecido. Assim, ocapítulo 13se concen­
tra nos sinais através dos quais se podia
identificar uma doença prejudicial da
pele, enquanto o capítulo 14 versa sobre
as medidas para se livrar da impureza e
para uma volta à vida normal na comuni­
dade.
A doença era considerada uma forma
deimpureza e a sua identificação,coloca­
da sob a responsabilidade do sacerdote.
Issoéindício muito claro de que estamos
tratando de uma situação em que Israel
carecia de doutores de medicina e que o
55
tratamento de doenças era quase ine­
xistente.
Médicos são mencionados em Gênesis
50:2, ondeparecem ser os embalsamado-
res profissionais do Egito, e em II Crô­
nicas 16:12, Jó 13:4 e Jeremias 8:22.
A referência em II Crônicas mostra uma
avaliação depreciativa dos médicos, visto
que buscar a sua ajuda é considerado
uma deslealdade para com Deus. Em
Eclesiastes 38:1-15 há uma defesa bem
enérgica a favor da função do médico,
mostrando que mesmo nesse período
mais avançado ainda havia uma descon­
fiançageneralizada contra eles.2
O objetivo primário da intervenção sa­
cerdotal, aqui, é, claramente, o de impe­
dir o alastramento da doença, retirando-
se o objeto ou a pessoa infetada do
contato direto com a sociedade. É signi­
ficativo que em lugar nenhum, nestes
dois capítulos, se faz qualquer pronun­
ciamento sobre o método de tratar a
doença. Aparentemente, a única coisa
que se poderia, normalmente, esperar
era que os processos normais de recupe­
ração restaurassem a pessoa afetada à
boa saúde. A responsabilidade do sacer­
dote era a de pronunciar uma decisão
sobre seapessoaera limpa ou não, e não
implicava nenhum tratamento ativo por
parte dele.
Através doscapítulos 13 e 14 inteiros a
doença de que se trata é descrita como
lepra, porém vários fatos tornam claro
que não se trata da doença grave que se
conhece por esse nome no mundo mo­
derno. Antes, os diversos sintomas des­
critos nocapítulo 13 indicam vários tipos
diferentes de doenças virulentas da pele.
Conquanto a gama de doenças aqui
abrangida fosse considerada, sem reser­
vas, como suscetível de cura completa, a
2 Cf. os excelentes artigos de R. K. Harrison, no IDB;
“Disease”, Vol. A-D p. 847-854; "Healing, Health”,
Vol. E-J, p. 541-548; “Medicine”, Vol. K-Q, p. 331-334
(Nashville; Abingdon, 1962).
doença que agora conhecemos como le­
pra não era curávelno mundo antigo.3
A experiência ensinou que algumas
dermatoses eram altamente contagiosase
perigosas, enquanto outras eram inócuas
e superficiais. Sem conhecimento médico
preciso, a única coisa que o israelita
antigo podia fazer era identificar a serie­
dade do problema e, se grave, assegurar
que a pessoa enferma fosse separada de
outras pessoas.
O processo a ser seguido pode ser
reconstituído deste capítulo. Quando
uma pessoa reconhecia que era portado­
ra de alguma infecção da pele, tinha que
levaro caso ao sacerdote imediatamente.
Se não estivesse suficientemente bem pa­
ra poder caminhar até o santuário, seria
carregada até lápor um parente próximo
(v. 2). O sacerdote então faria um exame
e talvez fosse capaz de chegar a uma
decisão imediata sobre a gravidade da
doença (v. 3). Se não houvesse sintomas
confirmados de que a enfermidade era
perigosa, então o enfermo seria mantido
isolado em sua casa por sete dias, depois
do que se fazia outro exame (v. 5). Se
necessário, esse período de isolamento
podia ser estendido por sete dias mais,
antes que se fizesse uma declaração
(v. 5). Se a moléstia não dava sinais de
piora, então se declarava o enfermo lim­
po (v. 6) e se lhe permitia voltar à vida
normal.
Se, contudo, o exame do sacerdote
resultasse no diagnóstico de uma doença
grave, então se declarava o enfermo
imundo, e ele era compelido a viver em
isolamento completo, na aldeia ou vila
(chamada de arraial no versículo 46, em
vista do contexto imediato do acampa­
mento do Sinai) onde morava (v. 45,46).
Vestia roupas rasgadas, e deixava que
3 Cf. R. K. Harrison, “Leprosy”, IDB, Vol. K-Q, p. 112
“Com toda a probabilidade o termo lepra era de natureza
indefinida e geral, com o resultado de que os tradutores
gregosda Bíblia hebraica empregavam-no para abranger a
psoríase, a leucodermia, a tinha e similares, bem como a
verdadeira lepra.
56
seuscabelospendessem soltos. Essa era a
praxe comum, em lamentação pelos mor­
tos (10:6). A isso se acrescentou o cobrir
do lábio superior, o que era também um
sinal de lamentação (Ez. 24:17,22).
Assim, o doente havia de se comportar
como se estivesse de luto pelos mortos,
visto que a sua enfermidade era conside­
rada ligada ao poder da morte, embora
se esperasse, e normalmente se previsse,
uma cura subseqüente(cap. 14).
(2) A Identificação da Doença nas
Roupas(13:47-59)
47Quando também houver praga de lepra
em alguma vestidura, seja em vestidura de
lã ou em vestidura de linho, 48 quer na ur­
didura, quer na trama, seja de linho ou seja
de lã; ou em pele, ou em qualquer obra de
pele; 49 se a praga na vestidura, quer na
urdidura, quer na trama, ou na pele, ou em
qualquer coisa de pele, for verde ou verme­
lha, é praga de lepra, pelo que se mostrará
ao sacerdote; 50 o sacerdote examinará a
praga, e encerrará por sete dias aquilo que
tem a praga. 51 Ao sétimo dia examinará a
praga; se ela se houver estendido na ves­
tidura, quer na urdidura, quer na trama, ou
na pele, seja qual for a obra em que se
empregue, a praga é lepra roedora; é imun­
da. 52 Pelo que se queimará aquela vestidu­
ra, seja a urdidura ou a trama, seja de lã ou
de linho, ou qualquer obra de pele, em que
houver a praga, porque é lepra roedora;
queimar-se-á ao fogo. 53Mas se o sacerdote
a examinar, e ela não se tiver estendido na
vestidura, seja na urdidura, seja na trama,
ou em qualquer obra de pele, 54 o sacerdote
ordenará que se lave aquilo em que está a
praga, e o encerrará por mais sete dias.
55 O sacerdote examinará a praga, depois
de lavada, e se ela não tiver mudado de cor,
nem se tiver estendido, é imunda; no fogo a
queimarás: é praga penetrante, seja por
dentro, seja por fora. 56 Mas se o sacerdote
a examinar, e a praga tiver escurecido, de­
pois de lavada, então a rasgará da vestidu­
ra, ou da pele, ou da urdidura, ou da trama;
57 se ela ainda aparecer na vestidura, seja
na urdidura, seja na trama, ou em qualquer
coisa de pele, é lepra brotante; no fogo quei­
marás aquilo em que há praga. 58 Mas a
vestidura, quer a urdidura, quera trama, ou
qualquer coisa de pele, que lavares, e de que
a praga se retirar, se lavará segunda vez, e
será limpa. 59 Esta é a lei da praga da lepra
na vestidura de lã, ou de linho, quer na urdi­
dura, quer na trama, ou em qualquer coisa
de pele, para declará-la limpa, ou para de­
clará-la imunda.
Esta seção soa muito estranha aos
ouvidos modernos, por causa da transfe­
rência que se faz a peças materiais de
roupas, ou de tecido ou de couro, dos
regulamentos concernentes à impureza
pela doença. Dessa forma, as roupas são
tratadas como adoentadas, da mesma
forma que as pessoas. Porém, tanto
quanto qualquer outra parte do Antigo
Testamento, revela o problema que a
doença representava para o israelita an­
tigo, com o reconhecimento de seus peri­
gos, paralelamente à sua ignorância da
natureza exata da infecção pelas bacté­
rias. Ele, indubitavelmente, tinha cons­
ciênciade dois fatos: que a doença podia
ser passada adiante pelas roupas infec­
tadas e que determinados tipos debolor e
fungos, nas roupas, se apresentavam
muito parecidos às doenças humanas de
pele.
Ainda se trata de uma outra situação
semelhante, nos regulamentos que regem
alepra nas casas(14:33-53). É certamen­
te o aparecimento de manchas de bolor
ou liquens que é interpretada como uma
doença numa casa. Em cada casoéclara­
mente a aparência “adoentada” que é
interpretada como prova de impureza,
antes mesmo que oconhecimento médico
preciso da presença de doenças infeccio­
sas. Assim, é bem ressaltada a aborda­
gem prática eempírica doproblema.
A destruição da peça de roupa imunda
por queima (v. 52,55,57) mostra um de­
sejomuito sensato de remover a causa do
perigo, em vez de tentar tratá-la pelos
ritos de purificação. Estes últimos são
reservados para a situação quando pare­
ce que a peça de roupa afetada está real­
mente limpa e apenas apresenta uma
descoloraçãosuperficial(v. 54-58).
A lavagem visa revelar se a doença
entrou profundamente na peça e não
pode ser facilmente removida (v. 57,58).
57
É digno de nota que, em todas estas
regraspara a identificação de uma infec­
ção leprosa num objeto ou pessoa, não
há, absolutamente, sugestão de que a
doença tenha sido causada ou espalhada
por espíritos malignos. Diferentemente
de tantos povos antigos, que interpreta­
vamasdoençasmitologicamente ou como
uma força demoníaca, os israelitas anti­
gos consideravam-nas parte integrante
da ordem criada do mundo. Os proble­
mas teológicos que as doenças criam nem
sequer são insinuados nem tampouco
evitados pelo falso recurso de recorrer-se
à mitologia.
As doenças suscitam muitos proble­
mas para a nossa compreensão da bon­
dade divina, e a existência delas, no
mundo, cria uma tensão em relação ao
reconhecimento da providência graciosa
deDeus. Aqueles que atribuem a presen­
ça da doença aos espíritos malignos ten­
dem a evitar esse problema, por reverte­
rem aum ponto de vistapoliteísta e mito­
lógico da vida. Por insistir na soberania
do único Deus e por encarar a doença
como um fato conhecido, os israelitas
tomaram possível considerar oproblema
do sofrimento de uma maneira honesta e
semrecorrer a explicações falsas.
(3) As OfertasPelaPurificação
(14:1-32)
1 Depois disse o Senhor a Moisés: 2 Esta
será a lei do leproso no dia da sua purifi­
cação: será levado ao sacerdote, 3e este sai­
rá para fora do arraial, e oexaminará; se a
praga do leproso tiver sarado, 4 o sacerdote
ordenará que, para aquele que se há de pu­
rificar, se tomem duas aves vivas e limpas,
pau de cedro, carmesim e hissopo. 5Manda­
rá também que se imole uma das aves num
vaso debarro sobre águas vivas. 6Tomará a
ave viva, e com ela o pau de cedro, o carme­
sim e o hissopo, os quais molhará, junta­
mente com a ave viva, no sangue da ave que
foi imolada sobre as águas vivas; 7 e o es­
pargirá sete vezes sobre aquele que se há de
purificar da lepra; então odeclarará limpo,
e soltará a ave viva sobre o campo aberto.
8 Aquele que se há de purificar lavará as
suas vestes, rapará todo o seu pêlo e se
lavará em água; assim será limpo. Depois
entrará no arraial, mas ficará fora da sua
tenda por sete dias. 9 Ao sétimo dia rapará
todo o seu pêlo, tanto a cabeça como a bar­
ba e as sobrancelhas, sim, rapará todo o
pêlo; também lavará as suas vestes, e ba­
nhará o seu corpo em água; assim será
limpo. 10Ao oitavo dia tomará dois cordei­
ros sem deféito, e uma cordeira sem defeito,
de um ano, e três décimos de efa de flor de
farinha para oferta de cereais amassada
com azeite, e um logue de azeite; 11e o sa­
cerdote que faz a purificação apresentará o
homem que se há de purificar, bem como
aquelas coisas, perante o Senhor, à porta da
tenda da revelação. 12E o sacerdote tomará
um dos cordeiros, e o oferecerá como oferta
pela culpa; e, tomando também o logue de
azeite, os moverá por oferta de movimento
perante o Senhor. 13E imolará o cordeiro no
lugar em que se imolaa oferta pelo pecado e
oholocausto, no lugar santo; porque, comoa
oferta pelo pecado pertence ao sacerdote,
assim também a oferta pela culpa; é coisa
santíssima. 14Então o sacerdote tomará do
sangue da oferta pela culpa e oporá sobre a
ponta da orelha direita daquele que se há de
purificar, e sobre o dedo polegar de sua
mão direita, e sobre o dedo polegar do seu
pé direito. 15 Tomará também do logue de
azeite, e o derramará na palma da sua pró­
pria mão esquerda; 16então molhará o dedo
direito no azeite que está na mão esquerda
e daquele azeite espargirá com o dedo sete
vezes perante o Senhor. 17 Do restante do
azeite que está na sua mão, o sacerdote porá
sobre a ponta da orelha direita daquele que
se há de purificar, e sobre o dedo polegar da
sua mão direita, e sobre o dedo polegar do
seu pé direito, por cima do sangue da oferta
pela culpa; 18e o restante do azeite que está
na sua mão, pô-lo-á sobre a cabeça daquele
quesehádepurificar;assim osacerdote fará
expiação por ele perante o Senhor. 19 Tam­
bém o sacerdote oferecerá a oferta pelo pe­
cado,efará expiação poraquele que se há de
purificar por causa da sua imundícia; e de­
pois imolará o holocausto, 20 e oferecerá o
holocaustoea oferta,decereaissobreoaltar;
assim o sacerdote fará expiação por ele, e
ele será limpo. 21Mas se for pobre, e as suas
possesnãobastarem para tanto, tomará um
cordeiro para oferta pela culpa como oferta
de movimento, para fazer expiação por ele,
um décimo de efa de florde farinha amassa­
da com azeite, para oferta de cereais, um
logue de azeite, 22 e duas rolas ou dois
pombinhos, conforme suas posses permiti­
rem; dos quais um será oferta pelo pecado,
58
e o outro holocausto. 23 Ao oitavo dia os
trará, para a sua purificação, ao sacerdote,
à porta da tenda da revelação, perante o
Senhor; 24 e o sacerdote tomará o cordeiro
da oferta pela culpa, e ologue de azeite, e os
moverá por oferta de movimento perante o
Senhor. 25Então imolará o cordeiro da ofer­
ta pela culpae, tomando dosangue da oferta
pela culpa, põ-lo-á sobre a ponta da orelha
direita daquele que se há de purificar, e
sobre o dedo polegar da sua mão direita, e
sobre o dedo polegar do seu pé direito.
26Também o sacerdote derramará do azei­
te na palma da sua própria mão esquerda;
27 e, com o dedo direito, espargirá do azeite
que está na mão esquerda, sete vezes peran­
te o Senhor; 28 igualmente, do azeite que
está na mão, porá na ponta da orelha direi­
ta daquele que se há de purificar, e no dedo
polegar da sua mão direita, e no dedo pole­
gar do seu pé direito, em cima do lugar do
sangue da oferta pela culpa; 29e o restante
doazeite que está na mão porá sobre a cabe­
ça daquele que se há de purificar, para
fazer expiação por ele perante o Senhor.
30Então oferecerá uma das rolas ou um dos
pombinhos, conforme as suas posses lhe
permitirem, 31 sim, conforme as suas pos­
ses, um para oferta pelo pecado, e o outro
como holocausto, juntamente com a oferta
de cereais; assim fará o sacerdote, perante
o Senhor, expiação por aquele que se há de
purificar. 32 Esta é a lei daquele em quem
estiver a praga da lepra, e cujas posses não
lhepermitirem apresentara oferta estipula­
da para a sua purificação.
Tencionava-se que os regulamentos ri­
tuais aqui dados fossem realizados de­
pois de as pessoas adoentadas terem sido
declaradas curadasou limpas, não sendo
propostos para assegurar essa cura. Ã
medida que estes capítulos (13-15) o
mostram, nenhuma receita específica es­
tava em uso. O paciente simplesmente
deixava que osprocessos naturais de cura
do corpo tivessem efeito, reforçados, co­
mo mostrado por diversos salmos, pela
oração fervorosa a Deus. Quando uma
pessoa se considerasse suficientemente
recuperada de sua lepra ou de sua in­
fecção da pele, para ser capaz de reco­
meçar uma vida social normal, traziam-
na ao sacerdote. Os versículos 2 e 3 pare­
cemfundir dois regulamentos diferentes.
Primeiro, traziam o doente ao sacerdote;
segundo, o sacerdote saía para o lugar
onde odoenteestavaisolado. Este último
regulamento foi introduzido, indubita­
velmente, a fim de impedir o alastramen­
to da doença, se a pretensão de cura por
parte do doente não se provasse autên­
tica.
Duas observâncias rituais deviam ser
realizadas, uma vez que o sacerdote se
desse por satisfeito, considerando a cura
completa, e tivesse declarado à pessoa
que estivera doente limpa. A primeira
delas (v. 4-7) traz muitos indícios de ser
muito mais antiga que a outra. Consistia
num rito em que se tomavam duas aves
vivas, uma das quais era morta por cima
de uma jarra que continha água de nas­
cente. Nosangue da ave morta, então, se
colocava madeira de cedro, pano carme­
sim e hissopo, ao qual se atribuía eficá­
cia na purificação. A outra ave, a viva,
era então mergulhada nesse líquido pu­
rificador e libertada, assim levando em­
bora, simbolicamente, a impureza da
pessoa. A pessoa que estivera doente era
então salpicada com o líquido. Depois
disso, sebarbeava e lavava e às suas rou­
pas. Então esperava por sete dias fora do
arraial, antes de poder entrar novamente
na sociedade, depois de se barbear e
lavar novamente(v. 8,9).
Depois desta observância, a pessoa
que fora curada realizava o segundo rito
de purificação (v. 10-20), que assumia a
forma mais costumeira de uma oferta
pela culpa, uma oferta pelo pecado e
uma oferta queimada. As ofertas pela
culpa e pelo pecado não implicavam que
a pessoa fosse considerada como moral­
mente culpada por sua doença, mas
eram simplesmente os meios prescritos
para a remoção de impureza, fosse mo­
ral, fosse higiênica. Além dos processos
sacrificais normais para a oferta pela
culpa, o sacerdote realizava a cerimônia
de untar as extremidades do corpo da
pessoacom osangue da oferta pela culpa
e com óleo. Estas ações simbolizavam
59
purificação, etanto osanguecomo o óleo
eram consideradoscomo possuindo opo­
der de renovar a vida. A sua aplicação
específica é descrita bem detalhadamen­
te, porque oritual ocorre somente aqui, e
não pertencia aos regulamentos para o
sacrifíciocomum.
Os versículos 21-32 repetem esse pro­
cesso sacrifical para o homem que era
pobre demais para providenciar três cor­
deiros, e a quem, portanto, se permitia
fazer a sua oferta de uma cordeira e dois
pombos ou rolas. Presume-se que o sa­
cerdote tinha de dar a sua aprovação de
que a pessoa era suficientemente pobre
para que se permitisse o oferecimento
dessaoferta reduzida.
(4) OProcessoPara a Lepraem Casas
(14:33-57)
33 Disse mais o Senhor a Moisés e Arão:
34 Quando tiverdes entrado na terra de Ca-
naã, que vos dou em possessão, e eu puser a
praga da lepra em alguma casa da terra da
vossa possessão, 35 aquele a quem perten­
cer a casa virá e informará o sacerdote, di­
zendo: Parece-me que há como que praga
em minha casa. 36 E o sacerdote ordenará
que despejem a casa, antes que entre para
examinar a praga, para que não se torne
imundo tudo o que está na casa; depois
entrará o sacerdote para examinar a casa;
37 examinará a praga, e se ela estiver nas
paredes da casa em covinhas verdes ou
vermelhas, e estas parecerem mais profun­
das que a superfície, 38 o sacerdote, saindo
daquela casa, deixá-la-á fechada por sete
dias. 39Aosétimo dia voltará osacerdote e a
examinará; se a praga se tiver estendido
nas paredes da casa, 40 o sacerdote ordena­
rá que arranquem as pedras em que estiver
a praga, e que as lancem fora da cidade,
num lugar imundo; 41 e fará raspar a casa
pordentroaoredor,e opóque houverem ras­
pado deitarão fora da cidade, num lugar
imundo; 42depois tomarão outras pedras, e
as porão no lugar das primeiras; e outra
argamassa se tomará, e se rebocará a casa.
43 Se, porém, a praga tornar a brotar na
casa, depois de arrancada as pedras, raspa­
da a casa e de novo rebocada, 44o sacerdote
entrará, e a examinará; se a praga se tiver
estendido na casa, lepra roedora há na
casa; é imunda. 45 Portanto se derrubará a
casa, as suas pedras, e a sua madeira, como
também toda a argamassa da casa, e se
levará tudo para fora da cidade, a um lugar
imundo. 46 Aquele que entrar na casa, en­
quanto estiver fechada, será imundo até a
tarde. 47 Aquele que se deitar na casa lava­
rá as suas vestes; e quem comer na casa
lavará as suas vestes. 48 Mas, tornando o
sacerdote a entrar, e examinando a casa, se
a praga não se tiver estendido nela, depois
de ter sido rebocada, o sacerdote declarará
limpa á casa, porque a praga está curada.
49 E, pára purificar a casa, tomará duas
aves, pau de cedro, carmesim e hissopo;
50Imolará uma das aves num vaso de barro
sobre águas vivas; 51 tomará o pau de ce­
dro, ohissopo, ocarmesim e a ave viva, e os
molhará no sangue da ave imolada e nas
águas vivas, e espargirá a casa sete vezes;
52 assim purificará a casa com o sangue da
ave, com as águas vivas, com a ave viva,
com o pau de cedro, com hissopo e com o
carmesim; 53 mas soltará a ave viva para
fora da cidade, para o campo aberto; assim
fará expiação pela casa, e ela será limpa.
54Esta é a lei de toda sorte de praga de
lepra e de tinha; 55da lepra das vestes e das
casas; 56 da inchação, das pústulas e das
manchas lustrosas; 57 para ensinar quando
alguma coisa será imunda, e quando será
limpa. Esta é a leida lepra.
Era claramente reconhecido pelos is­
raelitas antigos que a doença podia ser
espalhada pela infecção, e por esse mo­
tivo tanto as roupas como as construções
podiam tomar-se suspeitas. Porém, sem
oconhecimento médico da maneira como
a doença se alastrava, o povo tinha de
agir de acordo com os fatos observáveis.
Por isso, esta seção trata do processo
para a remoção da praga da lepra em
alguma casa. Dos sintomas descritos
(v. 37), parece que a infecção era algum
tipodefungooubolor. Este pode ter sido
bem inócuo, embora devamos reconhecer
que as condições úmidas que dão mar­
gemaosurgimento dessesfungos podem,
muitasvezes, serinsalubres e tomar uma
casa inadequada para residência huma­
na. Assim, não devemos desprezar essa
preocupação com a higiene em constru­
ções como errônea e desnecessária, em­
boravejamosas suaslimitações.
60
Se, depois de um período de prova e
renovação, a casa podia ser declarada
limpa, então o ritual de purificação, im­
plicando o uso de duas pequenas aves,
seria realizado (v. 49-53). Se, contudo, a
construção ainda parecesse infectada, ti­
nha de ser demolida e totalmente des­
truída. É significativo que oconteúdo da
casa era salvaguardado, por sua remo­
ção antes de o sacerdote chegar para
fazeroseu exame(v. 36).
A profunda preocupação da lei de
Deus, aqui expressa, com relação à saú­
de e à segurança de casas é uma lem­
brança perene da responsabilidade colo­
cada sobre todos os cristãos pela saúde e
limpeza públicas. Durante muitos perío­
dos da História, os cristãos têm tolerado,
na sociedade, moradias e condições de
vida péssimas, que são uma afronta a
Deus, tanto quanto o são violações mais
flagrantes de sua lei moral. Repetida­
mente, por detrás das leis do Antigo Tes­
tamento, descobrimos consideração divi­
na pela proteção e preservação da vida
contra a injustiça, a doença e a perversi­
dadehumanas.
(5) AImpureza Pelos FluxosCorporais
(15:1-33)
1Disse ainda o Senhor a Moisés e a Arão:
2 Falai aos filhos de Israel, e dizei-lhes:
Qualquer homem que tiver fluxo da sua
carne, por causa do seu fluxo será imundo.
3Esta, pois, será a sua imundícia por causa
doseu fluxo: se a sua carne vaza o seu fluxo,
ou se a sua carne estanca o seu fluxo, es­
ta é a suaimundícia. 4Toda cama em que se
deitaraquele que tiver fluxo será imunda; e
toda coisa sobre o que se sentar, será imun­
da. 5 E, qualquer que tocar na cama dele
lavará as suas vestes, e se banhará em
água, e será imundo até a tarde. 6 E aquele
que se sentar sobre aquilo em que se sentou
oque tem ofluxo, lavará as suas vestes, e se
banhará em água, e será imundo até a tar­
de. 7Também aquele que tocar na carne do
que tem o fluxo, lavará as suas vestes, e se
banhará em água, e será imundo até a tar­
de. 8 Quando o que tem o fluxo cuspir sobre
um limpo, então lavará este as suas vestes,
e se banhará em água, e será imundo até a
tarde. 9Também toda sela, em que cavalgar
o que tem o fluxo, será imunda. 10 E qual­
quer que tocar em alguma coisa que tiver
estado debaixo dele será imundo até a tar­
de; e aquele que levar alguma dessas coisas
lavará as suas vestes, e se banhará em
água, e será imundo até a tarde. 11Também
todo aquele em quem tocar o que tiver o
fluxo, sem haver antes lavado as mãos em
água, lavará as suas vestes, e se banhará
em água, e será imundo até a tarde. 12Todo
vaso de barro em que tocar o que tiver o
fluxo será quebrado; porém todo vaso de
madeira será lavado em água. 13 Quando,
pois, o que tiver o fluxo ficar limpo do seu
fluxo, contará para si sete dias para sua
purificação, lavará as suas vestes, banhará
o seu corpo em águas vivas, e será limpo.
14Ao oitavo dia tomará para si duas rolas,
ou dois pombinhos, e virá perante o Senhor,
à porta da tenda da revelação, e os dará ao
sacerdote, 15 o qual os oferecerá, um para
oferta pelo pecado, e o outro para holocaus­
to; e assim o sacerdote fará por ele expia­
ção perante o Senhor, por causa do seu
fluxo. IS Também se sair de um homem o
seu sêmen, banhará o seu corpo todo em
água, e será imundo até a tarde. 17E toda a
vestidura, e toda pele sobre que houver sê­
men, serão lavadas em água, e serão imun­
das até a tarde. 18Igualmente quanto à mu­
lher com quem o homem se deitar com
sêmen, ambos sebanharão em água, eserão
imundosaté a tarde. 19Mas a mulher, quan­
do tiver fluxo, e o fluxo na sua carne for
sangue, ficará na sua impureza por sete
dias, e qualquer que nela tocar será imundo
até a tarde. 20E tudo aquilo sobre o que ela
se deitar durante a sua impureza, será
imundo; e tudo sobre o que se sentar, será
imundo. 21 Também qualquer que tocar na
sua cama, lavará as suas vestes, e se ba­
nhará em água, e será imundo até a tarde.
22 E quem tocar em alguma coisa, sobre o
que ela se tiver sentado, lavará as suas
vestes, e se banhará em água, e será imundo
até a tarde. 23 Se o sangue estiver sobre a
cama, ou sobre alguma coisa em que ela se
sentar, quando alguém tocar nele, será
imundo até a tarde. 24 E se, com efeito,
qualquer homem se deitar com ela, e a sua
imundícia ficar sobre ele, imundo será por
sete dias; também toda cama, sobre que ele
se deitar, será imunda. 25 Se uma mulher
tiver um fluxo de sangue por muitos dias
fora do tempo da sua impureza, ou quando
tiver fluxo de sangue por mais tempo do que
a sua impureza, por todosos dias do fluxo da
sua imundícia será como nos dias da sua
61
impureza; imunda será. 26 Toda cama so­
bre queela se deitar durante todosos dias do
seu fluxo ser-lhe-á como a cama da sua
impureza; e toda coisa sobre que se sentar
será imunda, conforme a imundícia da sua
impureza. 27 E qualquer que tocar nessas
coisas será imundo; portanto lavará as suas
vestes, e se banhará em água, e será imun­
do até a tarde. 28Quando ela ficar limpa do
seufluxo, contará para si sete dias, e depois
será limpa. 29 Ao oitavo dia tomará para si
duas rolas, ou dois pombinhos, e os trará ao
sacerdote, à porta da tenda da revelação.
30 Então o sacerdote oferecerá um deles
para oferta pelo pecado, e o outro para
holocausto; e osacerdote fará por ela expia­
ção perante o Senhor, por causa do fluxo
da sua imundícia. 31 Assim separareis os
filhos de Israel da sua imundícia, para que
não morram na sua imundícia, contami­
nando o meu tabernáculo, que está no meio
deles. 32Esta é a lei daquele que tem o fluxo
e daquele de quem sai osêmen, de modo que
por eles se toma imundo; 33 como também
da mulher enferma com a sua impureza e
daquele que tem o fluxo, tanto do homem
como da mulher e do homem que se deita
com mulherimunda.
Além de moléstias externas da pele,
que podem ser vistas rapidamente e das
quais se trata no capítulo 14, outros
sintomas de saúde precária se acham nos
fluxos docorpo. Maisuma vez o precário
conhecimento médico dos israelitas é
aparente, como também a sua necessi­
dade de dependerem de fatos observá­
veis. O primeiro caso tratado (v. 1-15) é
o de um homem que tem um fluxo do
corpo. A inferência imediata é que o
fluxo foi causado por doença. Tomam-se
asprecauções necessárias para evitar que
qualquer infecção sealastre, por declarar
imunda qualquer pessoa ou objeto com
que a pessoa afetada teve contato. Visto
que semelhante fluxo talvez tenha sido
um sintoma de doença grave, a única
resposta prática era agir com base nesse
pressuposto. Assim, a pessoa tinha de
ficar em isolamento até sete dias após o
término dofluxo, quando era ordenada a
trazer uma oferta pelo pecado e uma
oferta pela culpa, de dois pombos ou
duas rolas. No caso de uma descarga do
sêmen do homem (v. 16-18), está claro,
das precauções prescritas, que este sin­
toma era reconhecido como menos grave
e que pode ter sido, muitas vezes, bem
inócuo.
Os fluxos de sangue da mulher (v. 19-
30)podem surgir pelo período regular da
menstruação ou podem ser sintomáticos
de uma condição enferma. Assim como
no caso do homem, tinha-se de tomar
precauções especiais somente no caso
do fluxo anormal da mulher (v. 25-27).
Sete dias depois de ele ter terminado,
uma oferta pelo pecado e uma oferta
queimada especiais tinham de ser trazi­
das. Através dos regulamentos todos,
podemos ver que sintomas que possam
indicar uma condição enferma são assim
entendidos eexigemprecauções especiais
contra o alastramento da doença. So­
mente depois da passagem de um perío­
do de tempo suficiente para indicar uma
volta à saúde normal, era permitido, à
pessoa afetada, regressar às suas ativi­
dades cotidianas.
Os versículos 31 e 32 resumem esta
seçãointeira que trata da impureza pelos
fluxos, tornando claro que, para Israel,
tolerar oqueera impuro, e, portanto, in­
salubre, resultava na profanação do ta­
bernáculo de Deus, colocado no meio de
Israel, em prol de quem Israel tinha de
ser santo. Tal santidade incluía boa
saúde.4
IV. O Grande Dia da Expiação
(16:1-34)
1 Falou o Senhor a Moisés, depois da
morte dos dois filhos de Arão, que morre­
ram quando se chegaram diante do Senhor.
2 Disse, pois, o Senhor a Moisés: Dize a
Arão, teu irmão, que não entre em todo
tempo no lugar santo, para dentro do véu,
4 Cf. R. K. Harrison, "A saúde era uma dádiva divina, e,
junto com a prosperidade material, era confiantemente
esperada pelos fiéis em Israel.” IDB, Vol. E-J., p. 546.
Ver também de Vaux, Ancient Israel; Its Life and Insti­
tutions, p. 460.
62
diante do propiciatório que está sobre a
arca, para que não morra; porque aparece­
rei na nuvem sobre o propiciatório. 3 Com
isto entrará Arão no lugar santo: com um
novilho, para oferta pelo pecado, e um car­
neiro para holocausto. 4Vestirá ele a túnica
sagrada de linho, e terá as calças de linho
sobre a sua carne, e cingir-se-á com o cinto
de linho, e porá na cabeça a mitra de linho;
essas são as vestes sagradas; por isso ba­
nhará o seu corpo em água, e as vestirá.
5 E da congregação dos filhos de Israel
tomará dois bodes para oferta pelo pecado e
um carneiro para holocausto. 6 Depois Arão
oferecerá onovilho da oferta pelo pecado, o
qual será para ele, e fará expiação por si e
pela sua casa. 7 Também tomará os dois
bodes, e osporá perante o Senhor, à porta da
tenda da revelação. 8 E Arão lançará sortes
sobre os dois bodes: uma pelo Senhor, e a
outra por Azazel. 9 Então apresentará o
bode sobre o qual cair a sorte pelo Senhor, e
ooferecerá como oferta pelo pecado; 10mas
o bode sobre que cair a sorte para Azazel
será postovivo perante o Senhor, para fazer
expiação com ele, a fim de enviá-lo ao de­
serto para Azazel. 11 Arão, pois, apresenta­
rá onovilho da oferta pelo pecado, que é por
ele, e fará expiação por si e pela sua casa; e
imolará o novilho que é a sua oferta pelo
pecado. 12 Então tomará um incensário
cheio de brasas de fogo de sobre o altar,
diante do Senhor, e doispunhados deincenso
aromático bem moído, e os trará para den­
tro do véu; 13e porá o incenso sobre o fogo
perante o Senhor, a fim de que a nuvem do
incenso cubra o propiciatório, que está so­
bre o testemunho, para que não morra.
14Tomará do sangue donovilho, eo espargi­
rá com o dedo sobre o propiciatório ao lado
oriental; e perante opropiciatório espargirá
do sangue sete vezes com o dedo. 15Depois
imolará obode da oferta pelo pecado, que é
pelo povo, e trará o sangue do bode para
dentro do véu; e fará com ele como fez com
o sangue do novilho, espargindo-o sobre o
propiciatório, e perante o propiciatório;
16 e fará expiação pelo santuário por causa
das imundícias dos filhos de Israel e das
suas transgressões, sim, de todos os seus
pecados. Assim também fará pela tenda da
revelação, que permanece com eles no meio
das suas imundícias. 17 Nenhum homem
estará na tenda da revelação quando Arão
entrar para fazer expiação no lugar santo,
até que ele saia, depois de ter feito expiação
por si mesmo, e pela sua casa, e por toda a
congregação de Israel. 18 Então sairá ao
altar, que está perante o Senhor, e fará
expiação pelo altar; tomará do sangue do
novilho, e do sangue do bode, e o porá sobre
as pontas do altar ao redor. 19 E do sangue
espargirá com o dedo sete vezes sobre o
altar, purificando-o e santificando-o das
imundícias dos filhos de Israel. 20 Quando
Arãohouver acabado de fazer expiação pelo
lugar santo, pela tenda da revelação, e pelo
altar, apresentará o bode vivo; 21 e, pondo
as mãos sobre a cabeça do bode vivo, con­
fessará sobre ele todas as iniqtiidades dos
filhos de Israel, e todas as suas transgres­
sões, sim, todos os seus pecados; e os porá
sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á para o
deserto, pela mão de um homem designado
para isso. 22Assim aquelebode levará sobre
si todas as iniqtiidades deles para uma re­
gião solitária; e esse homem soltará o bode
no deserto. 23Depois Arão entrará na tenda
da revelação, e despirá as vestes de linho,
que havia vestido quando entrara no lugar
santo, e ali as deixará. 24 E banhará o seu
corpo em água num lugar santo, e vestirá as
suas próprias vestes; então sairá e oferece­
rá oseu holocausto, e oholocausto dopovo, e
fará expiação por sie pelo povo. 25Também
queimará sobre o altar a gordura da oferta
pelo pecado. 26E aquele que tiver soltado o
bode para Azazel lavará as suas vestes, e
banhará o seu corpo em água, e depois
entrará no arraial. 27 Mas o novilho da
oferta pelo pecado e o bode da oferta pelo
pecado, cujo sangue foi trazido para fazer
expiação no lugar santo, serão levados para
fora do arraial; e lhes queimarão no fogo as
peles, a carne e oexcremento. 28Aquele que
osqueimarlavará as suas vestes, banhará o
seu corpo em água, e depois entrará no
arraial. 29 Também isto vos será por esta­
tuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do
mês, afligireis as vossas almas, e não fareis
trabalho algum, nem o natural nem o es­
trangeiro que peregrina entre vós; 30 por­
quenesse dia se fará expiação por vós, para
purificar-vos; de todos os vossos pecados
sereis purificados perante o Senhor. 31 Será
sábado de descanso solene para vós, e afli­
gireis as vossas almas; é estatuto perpétuo.
32 E o sacerdote que for ungido e que for
sagrado para administrar o sacerdócio no
lugar de seu pai, fará a expiação, havendo
vestido as vestes de linho, isto é, as vestes
sagradas; 33 assim fará expiação pelo san­
tuário; também fará expiaçãopela tenda da
revelação e pelo altar; igualmente fará ex­
piação pelos sacerdotes e por todo o povo da
congregação. 34 Isto vos será por estatuto
perpétuo, para fazer expiação uma vez no
ano pelos filhos de Israel por causa de todos
os seus pecados. E fez Arão como o Senhor
ordenara a Moisés.
63
Este capítulo fica à parte, e da refe­
rêncianoversículo1àsituaçãodescritano
capítulo 10, podemos ver que continua
com a série de regulamentos que regem o
cultoe a administração dosantuário, que
écentral nos capítulos 1-10. Mais do que
a maior parte de Levítico, o capítulo 16
levanta interrogações concernentes à
data domaterial que contém. Da posição
única, atribuída ao sumo sacerdote, de
seu direito exclusivo de entrada no lugar
santíssimo do templo apenas uma vez no
ano (v. 2) e de sua clara separação da
comunidade eaté dos demais sacerdotes,
podemos deduzir que o ritual é descrito
aqui como era praticado em tempos pós-
exílicos. Contudo, um Dia de Expiação
anual, celebrado no outono, como parte
da celebração mais extensiva do ano-no-
vo, certamente remonta aos primórdios
mais precoces da vida de Israel, quando
um ato geral de expiação se fazia pelos
pecados do ano anterior. Uma pequena
informação adicional está contida no
Antigo Testamento com relação a este
aspecto expiatório das celebrações do
ano-novo, embora se lhe possa achar re­
ferências em Números 29:7-11 e Ezequiel
45:18-20. O ritual do bode expiatório,
que não é mencionado em nenhum outro
lugar no Antigo Testamento, dá muitos
sinais de remota antiguidade.
O Dia da Expiação tinha duas finali­
dades principais: fazer expiação pelo
sumo sacerdote e a sua casa (v. 6,11) e,
assim, de maneira mais geral, por todos
os sacerdotes; e realizar um ato de lim­
peza e purificação do Templo (v. 16,18,
33). No decorrer do desenvolvimento, o
ritual, em sua totalidade, veio a ser con­
siderado mais geralmente como um ato
de expiação por Israel como um todo
(v. 33). Indubitavelmente, aspectos de
atos diversos de expiação foram unidos
num único ato abrangente, e talvez cos­
tumes de santuários locais diferentes fos­
sem ajuntados num único grande ato,
queera realizado anualmente em Jerusa­
lém, quando todo o culto sacrifical de
Israel tinha sido centralizadolá.
Podemos dividir este capítulo nas se­
guintespartesprincipais:
1. A Preparação (v. 3-5): (1) a prepa­
ração do sumo sacerdote, pela apresen­
tação de uma oferta pelo pecado (um
novilho) e uma oferta queimada (um
carneiro, v. 3), e pelo aparelhamento do
sumo sacerdotecom as vestes sacerdotais
(v. 4); (2) a preparação do povo, pela
apresentação de uma oferta pelo pecado
(dois bodes) e uma oferta queimada (um
carneiro, v. 5).
2. O rito básico (v. 6-10): (1) a apre­
sentação da oferta pelo pecado em prol
dosurfiosacerdote(v. 6); (2) a separação,
por sortes, dos dois bodes (v. 7,8); (3) o
oferecimento deum dosbodes como uma
oferta pelo pecado em favor do povo
(v. 9); (4) a separação do bode expiatório
(v. 10).
3. Os regulamentos especiais concer­
nentes ao ritual (v. 11-28): (1) o uso do
incenso com a oferta pelo pecado do
sumo sacerdote, a fim de esconder o
lugar da presença de Deus (v. 11-14);
(2) ritos especiais de sangue pela oferta
pelo pecado do povo, para purificar o
santuário (v. 15-17) e o altar (v. 18,19);
(3) o envio do bode expiatório para o
deserto, para Azazel(v. 20-22); (4) a tro­
ca de roupa do sumo sacerdote e o seu
banho (v. 23,24a); (5) a queima, sobre o
altar, da oferta queimada e da gordura
da oferta pelo pecado (v. 24b,25); (6) a
purificação da pessoa que levou embora
obodeexpiatório(v. 26); (7) a destruição
das partes da oferta pelo pecado e a
purificação da pessoa envolvida(v. 28).
A natureza básica da oferta pelo peca­
dojá foitratada no Manual doSacrifício,
de maneira que a maior parte do comen­
tário deste capítulo se relaciona a càrac-
terísticas que são distintivas desta ceri­
mônia de expiação especial. A ocasião
desta celebração solene é determinada
com precisão para o décimo dia do séti­
mo mês (cf. Núm. 29:7, e contrastar
64
Ez. 45:18-20), quando todo trabalho era
absolutamente proibido (16:29-31). So­
mente nesse dia (v. 2) era permitido, ao
sumo sacerdote, entrar no santíssimo lu­
gar do santuário. Em certa época talvez
se tenham permitido visitas mais fre­
qüentes, e, através dos séculos, houve,
indubitavelmente, variações na fixação
da data do Dia da Expiação. Para esta
entrada no lugar santíssimo, onde a pre­
sença divina se colocava acima da arca
entre os dois querubins (Êx. 25:22), o
sumo sacerdote tinha de tomar precau­
ções especiais. A santidade de Deus era
um poder para a vida e a bênção, porém
podia também ser prenhe de perigo para
a pessoa pecadora e profana, e, através
desse mesmo ato, o sumo sacerdote esta­
va confessando a sua própria pecamino-
sidade. Levava, portanto, um incensário
de brasas, e queimava incenso sobre o
altar, de maneira que a fumaça do incen­
socobria oaltar(v. 12,13), assim propor­
cionando uma nuvem protetora entre o
sacerdote e apresença deDeus.
A característica mais impressionante
do ritual é a separação, por sortes, do
bode expiatório e o seu envio para o
deserto, para Azazel. Esta, por muitos
sinais, mostra-se uma prática extrema­
mente antiga, e tem o seu paralelo mais
chegado no ritual de purificação, em que
setomavam duas aves, uma das quais era
sacrificada e a outra liberta para os ares
(14:7,51-53). Por colocar as suas mãos na
cabeça do bode vivo e confessar sobre ele
os pecados de Israel, o sumo sacerdote
estava transferindo, simbolicamente, ao
bode os pecados do povo de Israel. A
confissão se fazia, indubitavelmente, por
meiode uma fórmula muito geral, abran­
gendo os pecados dele mesmo e do povo
durante o ano anterior. O bode era,
então, levado para o deserto e libertado
para Azazel.
Esse nome tem provocado muito co­
mentário, vistoque pode ser interpretado
de maneiras diversas. A antiga Septua-
ginta o traduz como significando sim­
plesmente “para mandar embora”. Pa­
rece ser o nome de um demônio ou
espírito, que se acreditava viver nas ter­
ras inabitadas do deserto (cf. o Livro de
Enoque 8:1;.9:6). Assim, o bode expia­
tório levava os pecados de Israel embora
para o lugar e o espírito da destruição.
Alternativamente, o nome Azazel tem
sido considerado o nome de algum lugar
próximo, para indicar o lugar no deserto
onde obodeera morto. Talvez um despe­
nhadeiro íngreme. Esta conjetura recebe
apoio no antigo Mishnahjudaico (b. Yo-
ma 39a), onde é entendido como se refe­
rindo a um penhasco ou píncaro, bem
como do comentarista judaico medieval
Rashi. Esta interpretação foi defendida
por G. R. Driver (Journal of Semitic
Studies I, 1956, p.97 e ss.), ao argumen­
tar que a palavra Azazel quer dizer “pre­
cipício”. Apesar desses argumentos, ain­
da parece mais provável que o nome ori­
ginalmente dizia respeito a um demônio.
Tem sido argumentado que esse ritual
dobode expiatório remonta aum período
de nomadismo primitivo, na existência
de Israel, quando, numa determinada
estação do ano, os rebanhos dosisraelitas
eram enxotados para o deserto. Neste
caso, a oferta do bode teria sido uma
propiciação a Azazel, que se pensava
controlar a região desértica. Isso é muito
hipotético, e, mesmo se representasse a
origem dorito, certamente não explicaria
o significado e a finalidade dele como
registrado em Levítico. Aqui, a intenção
não é, de maneira nenhuma, trazer uma
oferta a Azazel, que assim pareceria um
rival do Deus de Israel, mas, sim, levar
embora, para a destruição, ospecados do
povo. O bode levava embora os pecados
dosacerdotee do povo, de maneira a po­
derem enfrentar o novo ano sem mácula
dopecado doano findo.
Nos regulamentos para a troca de ves­
tes eobanho do sacerdote (v. 23,24) e na
exigência que ohomem quelevava embo­
ra o bode expiatório se lavasse e às suas
roupas, podemos ver que se considerava
65
o pecado um tipo de sujeira. O contato
com o animal portador do pecado podia
levar à transferência do pecado para a
pessoa que tocava nele. Assim, as pre­
cauções devidas tinham de ser tomadas,
bem como as lavagens apropriadas serem
realizadas.
A entrada do sumo sacerdote uma vez
por ano no lugar santíssimo, para asse­
gurar a expiaçãopara opovo, assume, na
Epístola aos Hebreus, um significado
característico, comoum quadro interpre-
tativo do sacrifício e da morte de Cristo
(9:7 e ss). Dentro da religião de Israel, o
Dia da Expiação tinha um lugar todo
especial. Afirmava, mais do que qual­
quer outro festival do ano, um sentido
profundo de pecado e uma percepção de
que somente Deus era capaz de tratar
disso. De uma maneira especial, de­
monstrava que os ministros de Deus não
estavam, de forma alguma, isentos do
poder do pecado, mas que até o sumo
sacerdote tinha de ser liberto de seu
domínioe de sua impureza. Os ministros
de Deus eram santos, mas não estavam
livres do pecado, e se lhes impunha a
necessidade de encararem honestamente
o fato de seu próprio pecado. Isso po­
diam fazer por permitirem que Deus
tratasse dele e que o removesse através
das cerimônias que tinha providenciado.
Desta maneira, o ministério divino da
graça, para Israel, podia continuar atra­
vésdosacerdócio nomeado, sem permitir
nenhuma indiferença para com a sua
pecaminosidade e sem criar uma falsa
ilusão de suapiedade.
V. OCódigoda Santidade
(17:1-26:46)
O capítulo 17 começa uma parte dis­
tinta do livro de Levítico, que se estende
até o fim do capítulo 26, onde achamos
uma longa série de bênçãos e maldições,
que constituem um término adequado
para um código legal. Uma parte do
material, nesses capítulos, faz referência
ao sacrifício e aos animais puros e aos
imundos, dos quaisjá se tratou em capí­
tulos anteriores. Portanto, é quase que
unanimemente mantido, por eruditos
modernos, que estes capítulos integra­
vam, outrora, uma coleção de leis total­
mente separada, constituindo um código
escrito de uma data anterior ao restante
deLevítico.5Por causa de sua afirmação
da santidade divina e de sua exigência
que Israel fosse, semelhantemente, santo
(19:2; 20:26), esse código se chama, ge­
ralmente, deCódigo da Santidade. Não é
nada fácil determinar a sua data, embora
pareça se situar nalgum ponto entre o
livro da lei de Deuteronômio, que não
pode ter surgido depois de 621 a.C., e do
fim do exílio babilónico. Mas contém
materiais de uma data muito anterior à
de sua compilação num código legal
escrito.
Mais importante do que a questão da
data é a da localidade onde o código foi
compilado. Há muitos motivos para se
acreditar que o Código da Santidade foi
compilado em Jerusalém e que represen­
ta os regulamentos em vigor no Templo
antes da destruiçãobabilónica da cidade.
A redação final do Código da Santidade
parece ter ocorrido nalgum tempo duran­
te o período do exílio. Proporciona um
documento altamente instrutivo, concer­
nente à relação estreita entre as exigên­
cias religiosas decultoe de santidade e as
exigências da legislação social que se
aplicavam aoIsrael antigo. Asantidade a
que conclama não é nenhuma piedade
meramente individual, nem mesmo sim­
plesmente uma participação no culto pú­
blico, mas, sim, um modo de viver inte­
gral, que envolve todos os aspectos do
comprometimento pessoal, familiare so­
cial. A santidade de Deus impõe um
padrão completo de comportamento mo­
ral e social ao povo que ele escolheu, de
maneira que a santidade dele faz da
5Cf. OttoEissfeidt, The Old Testament: An Introduction.
Trad. Peter R. Ackroyd(Oxford: Blackwell, 1965), p. 233-
239; G. Henton Davies, “Leviticus”, IDB, Vol. K-Q,
p. 121.
66
santidade responsiva do povo uma exi­
gência inapelável.
1. A Oferta de Sacrifícios e o Comer
Cames(17:l-16)
1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Fala a
Arão e aos seus filhos, e a todos os filhos dè
Israel, e dize-lhes: Isto é o que o Senhor tem
ordenado: 3 Qualquer homem da casa de
Israel que imolar boi, ou cordeiro, ou cabra,
no arraial, ou fora do arraial, 4 e não o
trouxer à porta da tenda da revelação, para
o oferecer como oferta ao Senhor diante do
tabernáculo do Senhor, a esse homem será
imputado o sangue; derramou sangue, pelo
que será extirpado do seu povo; S a fim de
que os filhos de Israel tragam os seus sacri-
ficios, que oferecem no campo, isto é, a fim
de que os tragam ao Senhor, à porta da
tenda da revelação, ao sacerdote, e os ofe­
reçam por sacrifícios deofertas pacíficas ao
Senhor. 6 E o sacerdote espargirá o sangue
sobre o altar do Senhor, à porta da tenda da
revelação, e queimará a gordura por cheiro
suave ao Senhor. 7 E nunca mais oferecerão
os seus sacrifícios aos sátiros, após os quais
eles se prostituem; isso lhes será por esta­
tuto perpétuo pelas suas gerações. 8 Dir-
Ihes-ás pois: Qualquer homem da casa de
Israel, ou dos estrangeiros que entre vós
peregrinam, que oferecer holocausto ou sa­
crifício, 9e não otrouxer à porta da tenda da
revelação, para oferecê-lo ao Senhor, que
esse homem será extirpado do seu povo.
10 Também, qualquer homem da casa de
Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam
entre eles, que comer algum sangue, contra
aquela alma porei o meu rosto, e a extirpa­
rei do seu povo. 11 Porque a vida da carne
está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado
sobre o altar, para fazer expiação pelas
vossas almas; porquanto é o sangue que faz
expiação, em virtude da vida. 12 Portanto
tenho dito aos filhos de Israel: Nenhum de
vós comerá sangue; nem o estrangeiro que
peregrina entre vós comerá sangue. 13Tam­
bém, qualquer homem dos filhos de Israel,
ou dos estrangeiros que peregrinam entre
eles, que apanhar caça de fera oude ave que
sepode comer, derramará o sangue dela e o
cobrirá com pó. 14 Pois, quanto à vida de
toda a carne, oseu sangue é uma e a mesma
coisa com a sua vida; por isso eu disse aos
filhos de Israel: Não comereis o sangue de
nenhuma carne, porque a vida de toda a
carne é oseu sangue; qualquer que o comer
será extirpado. 15E todohomem, quer natu­
ral quer estrangeiro, que comer do que mor­
re por si ou do que é dilacerado por feras,
lavará as suas vestes, e se banhará em
água, e será imundo até a tarde; depois será
limpo. 16Mas, se não as lavar, nem banhar
oseu corpo, lévarà sobre si a sua iniqüidade.
Este capítulo inicial doCódigo da San­
tidade diz respeito às condições sob que
se podia consumir carne como comida
em Israel e às prescrições gerais para a
matança ritual e a oferta do sacrifício
que aquela implicava. Enquanto o Ma­
nual do Sacrifício (Lev. 1-7) trata do
ritual pormenorizado que se havia de
observar para os tipos diferentes de ofer­
ta, este capítulo se concentra na afirma­
ção da exigência geral de que todo con­
sumo de animais domésticos havia de
fazer parte de um ato ritual solene de
sacrifício. A motivação central para esta
exigência jaz na santidade especial do
sangue, queéa vida do animal.
Os versículos 3 e 4 exigem que nenhu­
ma matança profana de um animal do­
méstico (boi, cordeiro ou cabra) devesse
ser permitida em Israel, e que qualquer
que infringisse esse mandamento traria
imputação de sangue sobre si e deveria
ser castigado como se tivesse assassinado
um outro ser humano (cf. Êx. 22:2,3;
Deut. 21:1-4). Esta era a punição porque
a matança de um animal implicava o
derramamento de seu sangue, e esse per­
tencia, como a vida da criatura, a Deus
(v. 10-14). Assim, mesmo podendo um
animal ser morto no campo aberto
(v. 5), seu corpo tinha de ser trazido até
o santuário, a fim de que o sacerdote
pudesse espargir o altar com alguma
parte do seu sangue e ali também quei­
mar a sua gordura. Desta maneira se
tomava uma oferta pacífica(v. 5,6).
Um outro motivo para a restrição da
matança de animais domésticos como
atos de sacrifício no santuário oficial de
Israel é apresentado no versículo 7. Essa
restrição visava evitar o oferecimento de
sacrifícios aos sátiros. Essessátiros(a pa­
lavra significa bodes ou cabeludos) eram
67
os espíritos ou demônios do deserto, tal­
vez não dissimilares de Azazel. Apre­
sentar-lhes ofertas era uma infração do
Primeiro Mandamento, visto que impli­
cava prestar culto a outrem que não o
Senhor Deus de Israel. II Reis 23:8 (por
uma emenda de “portões” para “sáti­
ros”) talvez se refira aos santuários des­
sessátiros ou bodes localizadosjunto aos
murosdeJerusalém,peloladoexterno, su­
gerindo um determinado ponto de refe­
rência para alegislaçãolevítica.
Essa lei de sacrifício insiste nos dois
pontos principais de que Israel não havia
de praticar nenhuma matança profana
de animais domésticos e que todos os
animais trazidos em sacrifício a Deus
haviam de ser apresentados em seu san­
tuário legítimo, a tendadarevelação.
Essa ênfase sobre um único santuário
legítimo sugere alguma relação com a lei
de sacrifício em Deuteronômio 12, onde
se insiste fortemente no santuário único.
Ao contrário da lei deuteronômica, que
permitia a matança profana de animais
(12:15 e s.), Levítico 17 proíbe-a com
firmeza. Temos, indubitavelmente, neste
capítulo, uma exigência para a prática
mais antiga de Israel, que agora aparece
com alguma acomodação à situação pós-
deuteronômica, e sua centralização do
culto num único santuário. Levítico 17:
13 permite livremente que os homens
comam animais apanhados durante a
caçada, sem antes fazerem sacrifício
deles, visto que a caçada teria, muitas
vezes, acontecido a certa distância do
santuário. A única coisa em que se in­
siste, nestas circunstâncias, é que o san­
gue deva ser derramado sobre o chão e
coberto de terra, para que nenhum outro
animal obeba.
O motivo da maneira rígida de os
israelitas evitarem de comer o sangue é
exposto em 17:10-14 mais extensivamen­
te do que em qualquer outro lugar no
Antigo Testamento. O sangue era consi­
derado a vida essencial de uma criatura,
e, assim sendo, pertencia a Deus, que dá
avida a todos. Quando qualquer de suas
criaturas fosse morta, portanto, até pelo
motivo lícito de se comer a carne (Gên.
9:3-5), primeiramente se tinha de devol­
ver o sangue a Deus, pois, do contrário,
talvez os homens pudessem usurpar o
senhorio de Deus sobre suas criaturas.
Essa devolução a Deus, do sangue vital
de alguma de suas criaturas, era, além
disso, considerada como possuindo valor
expiatório (v. 11), que expressava o re­
morso dohomem pelo seupecado eocor­
respondente perdão de Deus. Assim, o
perdão se mostra como o dom mais caro
de Deus, implicando a perda da vida de
uma de suas criaturas, a fim de trazer
perdão ao homem.
Muitíssimas tradições e influências
têm contribuído para a formação do sis­
tema do culto sacrifical de Israel. Não
houve apenas um motivo isolado por que
os sacrifícios tinham de ser feitos, mas
uma variedade de motivos, que emer­
giam, originalmente, da antiguidade e
remontavam ao período ainda anterior
aos primórdios de Israel. Para o Antigo
Testamento, era da maior importância
que esse sistema sacrifical tivesse sido
tecido para formar uma unidade, e se
tivesse tornado a expressão das percep­
ções mais profundas de Israel com rela­
ção à sua própria natureza pecaminosa e
à natureza santa e graciosa de Deus.
O sacrifício era o meio indicado de per­
dão e expiação, e, como tal, era, em si
mesmo, a dádiva de Deus.
2. Os Regulamentos com Respeito ao
Casamento(18:1-30)
Aqui é-nos apresentada uma exigên­
cia altamente pormenorizada de santi­
dade na conduta pessoal, principalmente
em questões da ética sexual. O capítulo
contémuma exortaçãogeral à obediência
(v. 1-5) e uma advertência e exortação
adicional nos versículos 24-30. A lista
principal de mandamentos está na forma
de proibições detalhadas (v. 6-23) e os
versículos 6-18tratam de graus proibidos
68
de parentesco, dentro dos quais se proí­
bem o casamento e as relações sexuais.
Os versículos 19-23 dão um resumo mais
geral de regras para o controle do com­
portamento sexualepaterno.
1 Disse mais oSenhora Moisés: 2Fala aos
filhosde Israel, e dize-lhes: Eu sou o Senhor
vosso Deus. 3 Não fareis segundo as obras
da terra do Egito, em que habitastes; nem
fareis segundo as obras da terra de Canaã,
para a qual eu vos levo; nem andareis se­
gundoos seusestatutos. 4Os meus preceitos
observareis, e os meus estatutos guarda­
reis, para andardes neles. Eu sou o Senhor
vosso Deus. 5 Guardareis, pois, os meus
estatutos e as minhas ordenanças, pelas
quais o homem, observando-as, viverá. Eu
souoSenhor.
Abase da série principal de proibições
talvez tenha sido, originalmente, uma
composição de 10 ou 12 leis, que se pro­
punham a proteger a vida familiar no
conjunto familiar maior de Israel. Certa­
mente este capítulo, como um todo, foi
compilado a fim de apresentar as regras
que visavam manter e preservar a santi­
dade do casamento e a devida estima
para comessainstituição.
É evidente, do Antigo Testamento,
que, emsuas exigências pessoais básicas,
Israel mantinha um código de comporta­
mento muito mais estrito e elevado, em
relação ao sexo e ao casamento, do que
o costumeiro, no mundo antigo. O pa­
drão de comportamento sexual que se
esperava em Israel era muito mais casto
do que o que achamos refletido em ou­
tros códigos legais do Oriente Médio an­
tigo, e as penalidades severas impostas
em caso de infrações das leis matrimo­
niais indicam que tais leis eram geral­
mente observadas. A santidade em que
setinha oelodocasamento forma grande
contraste com os relacionamentos frou­
xos, emuitasvezesconfusos, que podiam
surgir nas comunidades antigas, espe­
cialmenteentre ospovoscananeus.
O fato de que a sociedade cananéia em
particular tinha baixíssimos padrões de
moralidade sexual éplenamente corrobo­
rado pelos textos, em existência, da mi­
tologia cananéia, bem como pela ênfase
repetida nas partes legais e proféticas do
Antigo Testamento contra imitar-se os
cananeus.6 Assim, as referências parti­
culares aos cananeus (18:3, 24-30) ti­
nham, sem dúvida, uma relevância mui­
to especial para Israel, ainda mais pelo
fato de a religião cananéia realmente
promover a frouxidão moral, em vez de
condená-la.
6 Nenhum de vós se chegará àquela que
lhe é próxima por sangue, para descobrir a
sua nudez. Eu sou o Senhor. 7 Não descobri­
rás a nudez de teu pai, nem tampouco a de
tua mãe; ela é tua mãe, não descobrirás a
sua nudez. 8 Não descobrirás a nudez da
mulher de teu pai; é nudez de teu pai. 9Anu­
dez de tua irmã por parte de paiou por parte
de mãe, quer nascida em casa ou fora de
casa, não a descobrirás. 10 Nem tampouco
descobrirás a nudez da filha de teu filho, ou
da filha de tua filha: porque é tua nudez.
11 A nudez da filha da mulher de teu pai,
gerada de teu pai, a qual é tua irmã, não a
descobrirás. 12Não descobrirás a nudez da
irmã de teu pai; ela é parente chegada de
teu pai. 13Não descobrirás a nudez da irmã
de tua mãe, pois ela é parente chegada de
tua mãe. 14 Não descobrirás a nudez do
irmão de teu pai; não te chegarás à sua
mulher; ela é tua tia. 15 Não descobrirás a
nudez de tua nora; ela é mulher de teu filho;
não descobrirás a sua nudez. 16 Não desco­
brirás a nudez da mulher de teu irmão; é a
nudez de teu irmão. 17 Não descobrirás a
nudez duma mulher e de sua filha. Não
tomarás a filha de seu filho, nem a filha de
sua filha, para descobrir a sua nudez; são
parentas chegadas; é maldade. 18 E não to­
marás uma mulher juntamente com sua
irmã, durante a vida desta, para tornar-lha
rival, descobrindo a sua nudez ao lado da
outra.
Depois deuma introduçãopor meio de
uma fórmulageral no versículo 6, temos,
nos versículos 7-18, uma lista de ligações
familiares, dentro das quais se proibiam
as relações sexuais. Estas ligações fami­
6Cf. A. S. Kapelrud, The Ras Shamra Discoveries and the
Old Testament (Normam: University of Oklahoma Press,
1962); J. Gray, The Canaanites (Londres: Nelson, 1964);
também notarJer. 2:20ess., Os. 4:12e ss; 9:10.
69
liares são freqüentemente chamadas de
“relações consangüíneas”, como, indubi­
tavelmente, muitas delas eram. Outras
mostram umaligaçãomaisampla do que
de simples consangüinidade. Na realida­
de, os graus de parentesco proibidos
diziam respeito à unidade de famílias
extensas que, em certa época no passa­
do, existiam em Israel, morando em con­
junto. Na estrutura social baseada na
unidade do clã e da “casa paterna”, as
famíliascostumavam conviverem grupos
grandes, que abrangiam as três gera­
ções, de avós, pais e filhos. Uma quarta-
geração, de bisavós, talvez fosse incluída
(isso se reflete na referência à “terceira e
quarta geração” deÊx. 20:5).
Quando reconhecemos também que,
em certa altura, se aceitava a poligamia
em Israel, como é constatado no fato de
Abraão, Jacó e Davi possuírem, cada
um, várias esposas, então a situação re­
fletidaneste capítulo se torna mais clara.
Essa situação polígama é pressuposta no
versículo 11, onde a mulher era, indubi­
tavelmente, filha de uma mãe diferente
daquela do filho para quem se dirige, e
não era, então, sua irmã germana. As
relações familiares aqui descritas refle­
tem a situação em que um homem podia
ter mais do que uma esposa, e visto que
várias famílias podiam estar convivendo,
para constituir um grande grupo fami­
liar, estendendo-se através de três gera­
ções, a importância e a força das proi­
bições tornam-se bastante claras. Proi­
bia-se, rigorosamente, toda promiscuida­
de dentro da grande unidade familiar.
Os elos matrimoniais que existiam den­
tro da família tinham de ser devidamente
respeitados e observados, e não se per­
mitianenhuma confusãonesse relaciona­
mento. Isso explica a descrição cuidado­
sa das relações que sãoexpostas.
É, ainda, claro que o versículo 16 que
proíbe as relações sexuais com a esposa
do irmão não pretendia contradizer a lei
do levirato quanto ao casamento (Deut.
25:5-10), visto que, neste último caso, o
irmão estaria morto. A lei de 18:16 visa
situações em que o irmão ainda vive.
Além disso, não diz respeito tanto ao
casamento em si, mas, sim, às relações
sexuais fora do casamento. O casamento
simultâneo com uma mulher e sua filha
ou sua neta é proibido, visto que parece
que se considerava o próprio casamento
comoconstituindo algum tipo de consan­
güinidade.
19 Também não te chegarás à mulher
enquanto for impura em virtude da sua
imundícia, para lhe descobrir a nudez.
20 Nem te deitarás com a mulher de teu
próximo, contaminando-te com ela. 21 Não
oferecerás a Moloque nenhum dos teus fi­
lhos, fazendo-opassar pelo fogo; nem profa­
narás onome do teu Deus. Eu sou o Senhor.
22Não te deitarás com varão, como se fosse
mulher; é abominação. 23 Nem te deitarás
com animal algum, contaminando-te com
ele; nem a mulher se porá perante um ani­
mal, para ajuntar-se com ele; é confusão.
24 Não vos contamineis com nenhuma des­
sas coisas, porque com todas elas se conta­
minaram as nações que eu expulso de diante
de vós; 2S e, porquanto a terra está conta­
minada, eu visito sobre ela a sua iniqüidade,
e a terra vomita os seus habitantes. 26 Vós,
pois, guardareis os meus estatutos e os
meus preceitos, e nenhuma dessas abomi­
nações fareis, nem o natural, nem o estran­
geiro que peregrina entre vós 27 (porque to­
das essas abominações cometeram os ho­
mens da terra, que nela estavam antes de
vós, e a terra ficou contaminada); 28 para
que a terra não seja contaminada por vós e
não vos vomite também a vós, como vo­
mitou a nação que nela estava antes de vós.
29 Pois qualquer que cometer alguma des­
sas abominações, sim, aqueles que as come­
terem serão extirpados do seu povo. 30 Por­
tantoguardareisomeumandamento, de mo­
doque não caiais em nenhum desses abomi­
náveis costumes que antes de vós foram se­
guidos, e para que não vos contamineis com
eles. Eu sou oSenhorvossoDeus.
Os versículos 19-23 dão um resumo
geral da conduta sexual proibida dentro
da vida familiar. A referência no versí­
culo 21 à dedicação dos filhos a Moloque
é tratada mais extensamente em 20:2-5,
onde faz alusão ao ritual de sacrifício de
crianças. Sua presença numa lista de leis
70
relacionadas com a conduta sexual suge­
re queosritosem que se realizava fossem
denatureza nitidamente sexual.
Asantidade doeloconjugalem Israelé
bem exemplificada neste capítulo. Mos­
tra uma preocupação elevada e digna em
relação ao casamento e ao cuidado e
criação de filhos. Nãohá nenhumasuges­
tão de que a atividade sexual em si seja
errada, mas se insiste firmemente que
seja devidamente respeitada, dentro de
relações sociaisestabelecidas.
3. Uma ListaGeraldeLeis(19:1-37)
Este capítulo proporciona uma das
seções mais impressionantes e fascinan­
tes do livro de Levítico, com os seus
regulamentos que regem a vida cotidiana
dos cidadãos de Israel. Consta nele a
mais memorável afirmação da exigência
moral de Deus que o Antigo Testamento
contém (v. 18). Em sua forma e estrutu­
ra, porém, é muito diversificado e dá
pouca evidência de composição ordena­
da, quer nos assuntos tratados, quer no
estilo de apresentação. Representa uma
lista de exigências éticas básicas, feitas
aos israelitas individualmente, que tem
sidoelaborada, etem sofrido acréscimos,
através dos anos, a fim de lhe ser dado
maioralcanceeclareza.
O capítulo 19 apresenta uma relação
muito aproximada aos Dez Mandamen­
tos (Êx. 20:2-17), e vários eruditos acre­
ditam que é possível achar nos versículos
11-18uma parte de uma lista original de
dez, ou doze, mandamentos (Elliger,
p. 248)7. Se assim for, temos evidências
de ainda outro decálogo, ou lista de
Dez Mandamentos, comparável com as
coleçõesem Êxodo 20e 34. Em sua subs­
tância, vários dos mandamentos contidos
em Levítico 19 correspondem aos que se
conhecemem Êxodo 20.
7 Cf. R. Kilian, Literarkritische und formgeschichtliche
Untersuchung des Helligkeitsgesetzes (Bonner Biblische
Beitrage 19). Bonn, 1963, p. 61.
1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Fala a
toda a congregação dos filhos de Israel, e
dize-lhes: Sereis santos, porque eu, o Senhor
vossoDeus, sousanto.
O versículo 2, com a sua afirmação e
exigência Sereis santos, porque eu, o
SenhorvossoDeus, sou santo, descreve a
base final de toda a lei em Israel e
proporciona a chave essencial à com­
preensão doeloexistente entre as exigên­
cias religiosas do culto e as obrigações à
obediência na vida cotidiana. Toda afir­
mação bíblica sobre Deus traz consigo
umaexigência implícita aoshomens para
que o imitem em seu viver cotidiano.
Desta forma, não pode haver nenhum
divórcio entre a ética e a teologia. A Bí­
blia mostra, coerentemente, que a mora­
lidadehumana é, em última análise, jus­
tificadapela natureza deDeus.
3 Temerá cada um a sua mãe e a seu pai;
e guardareis os meus sábados. Eu sou o
SenhorvossoDeus. 4Nãovos volteis para os
ídolos, nem façais para vós deuses de fun­
dição. Eu sou oSenhorvosso Deus. 5Quando
oferecerdes ao Senhor sacrifício de oferta
pacífica, oferecê-los-eis de modo a serdes
aceitos. 6 No mesmo dia, pois, em que o
oferecerdes, e no dia seguinte, se comerá;
mas o que sobejar até o terceiro dia será
queimado no fogo. 7 E se, na verdade, algu­
ma coisa dele for comida ao terceiro dia, é
coisa abominável; não será aceito. 8 E qual­
quer que o comer levará sobre si a sua
iniqüidade, porquanto profanou a coisa san­
ta do Senhor; por isso tal alma será extir­
pada do seu povo. 9 Quando fizeres a colhei­
ta da tua terra, não segarás totalmente os
cantos do teu campo, nem colherás as espi­
gas caídas da tua sega. 10Semelhantemente
não rabiscarás a tua vinha, nem colherás os
bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás para
o pobre e para o estrangeiro. Eu sou o
Senhor vosso Deus. 11 Não furtareis; não
enganareis, nem mentireis uns aos outros;
12 não jurareis falso pelo meu nome, assim
profanando onome do vosso Deus. Eu sou o
Senhor. 13 Não oprimirás o teu próximo,
nem o roubarás; a paga do jornaleiro não
ficará contigoaté pela manhã. 14Não amal­
diçoarás ao surdo, nem porás tropeço diante
do cego; mas temerás a teu Deus. Eu sou o
Senhor.
71
Nosmandamentos individuais, devem-
se notar os seguintes pontos: No versí­
culo 3, a ordem de precedência, com a
mãe em primeiro lugar, é invulgar, e
pode refletir uma situação quando se
sentia que o lugar da mãe estava em
perigo, como, por exemplo, num grupo
familiar polígamo. A implicação do ver­
sículo 5 é que os sacrifícios têm de ser
oferecidos de acordo com os rituais pres­
critos pelossacerdotes, como expostos no
Manual do Sacrifício. A extirpação refe­
rida no versículo 8 significava primaria­
mente exclusão da comunidade do culto,
mas, provavelmente, outrora, implicava
a pena de morte. Considerava-se que
permitir que osanto sacrifício de Deus se
tornasse em abominação era um ato de
sacrilégioflagrante.
Osversículos 9e 10, com o seu manda­
mento de se deixar os bagos e as espigas
caídos nos vinhais e nos campos, depois
da colheita, são notáveis, pelo motivo
dado. Este é o motivo humanitário de
providenciar alimento para os pobres.
A prática de deixar os campos sem os
respigar era, certamente, de origem pré-
israelita, e observada nos tempos idos, a
fim de deixar alguma coisa para os espí­
ritos dos campos e das vinhas. Nenhuma
concessão semelhante aos poderes espiri­
tuais alheios sepermitia em Israel.
Os versículos 11 e 12 dizem respeito
especialmente às relações comerciais de­
sonestas, embora seu alcance vá além.
O falsojuramento pelo nome de Deus se
refere à afirmação de umjuramento pela
invocação do nome de Deus quando se
sabe que o assunto do juramento é uma
mentira. A desonestidade toma-se tanto
mais terrível quando procura esconder-
sepor detrás donome deDeus.
O versículo 13 pressupõe que o traba­
lhador receba o seu ordenado todo o dia,
de maneira que a recusa de pagar depois
que o trabalho do dia fora completado
facilmente poderia ter sido manipulada
como uma tentativa de defraudá-lo. O
motivo humanitário no versículo 14 é
muito relevante e é significativo que a
maldição aos surdos implica a crença no
poder da palavra falada, mesmo quando
apessoa a quem era dirigida não pudesse
ouvi-la.
lã Não farás injustiça no juízo; não farás
acepção da pessoa do pobre, nem honrarás o
poderoso; mas com justiça julgarás o teu
próximo. 16Não andarás como mexeriquei­
ro entre o teu povo; nem conspirarás contra
o sangue do teu próximo. Eu sou o Senhor.
17 Não odiarás a teu irmão no teu coração;
não deixarás de repreender oteu próximo, e
não levarás sobre ti pecado por causa dele.
18Não te vingarás nem guardarás ira con­
tra os filhos do teu povo; mas amarás o teu
próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.
Os versículos 15-18 dizem respeito ao
comportamento num processo legal, e se
endereçavam muito diretamente a cada
homem adulto, pois os anciãos da comu­
nidade, como um grupo, constituíam os
juizes do tribunal, que se congregava,
costumeiramente, na praça espaçosa, em
frente aos portões da cidade. Não podia
haver nenhuma deferência para com os
cidadãos ricos, quando eram acusados,
simplesmente em virtude de sua riqueza.
Por implicação, condena-se a aceitação
de peitas. Não se haviam de fazer acusa­
ções falsas ou carentes de prova contra
um concidadão (v. 16), e se faz uma
advertência quanto a se servir de teste­
munha (conspirar contra o sangue) con­
tra um concidadão quando as provas fo­
rem sabidamente falsas ou inadequadas.
O versículo 17 continua com a ques­
tão do comportamento perante o tribu­
nal, por proibir que se fizessem acusa­
ções como um meio de se vingar de um
concidadão. Proíbe-se o ódio pessoal
contra o próximo, visto que torceria a
apresentação das provas e levaria a
acusações falsas. É neste contexto de
comportamentoem questões legais que a
exigência ética suprema surge no versí­
culo 18. O cuidado e a preocupação da
pessoa para consigo mesma são pressu­
postoscomo atitudes humanas naturais e
72
estemesmo cuidado e preocupação deve­
rão serestendidos aos outros. Para Jesus,
se resumia nisso todo conceito do Antigo
Testamento sobre o dever do homem
para com seusemelhante(Mar. 12:31).
Não é em nada estranha a maneira
como se formulam as leis do Antigo Tes­
tamento, em que a declaração de um
princípio muitofundamental apareça co­
mo um adendo a um caso legal especí­
fico. Isso não quer dizer que tinha sido
uma reflexão posterior, mas, antes, mos­
tra comoas leisindividuais sópodiam ser
corretamente formuladas quando hou­
vesseuma devida compreensão ética das
relações humanas a que se pudesse re­
correr.
Aqui, umapreocupaçãosadia, daparte
da pessoa humana, por si própria e por
seu próprio bem-estar, é aceita como
natural e como implantada por Deus.
O que requer admoestação divina espe­
cial é o reconhecimento que outras pes­
soas são também criaturas de Deus e têm
o direito ao mesmo cuidado e considera­
ção. Assim, aqui há a implicação numa
ética natural, que descansa na própria
ordem da criação, mas que não contradiz
nem torna desnecessária uma ética reve­
lada da lei divina. Dentro desse princípio
espiritual, podemos achar uma devida
justificaçãopara as diligências que fazem
parte da realização da vida de cada um.
Ao mesmo tempo, a verdadeira busca
dessa realizaçãosópode serempreendida
quando abrange, pelo seu alcance, a rea­
lização da vida de nosso próximo tam­
bém. Asimplicações disto, tanto no nível
pessoal como no nível nacional, em ter­
mos de obrigação para com os povos
pobres e desprivilegiados do mundo, não
precisam de ser detalhadas aqui.
A ênfase, nos versículos 17 e 18, posta
numa atitude interior correta, é impor­
tante, haja vista o conceito errôneo, fre­
qüentemente adotado, de que a morali­
dade de Israel era externa e que se preo­
cupavasomentecom as açõesexternas.
19Guardareis os meus estatutos. Não per­
mitirás que se cruze o teu gado com o de
espécie diversa; não semearás o teu campo
com semente diversa; nem vestirás roupa
tecida de materiais diversos. 20 E, quando
um homem se deitar com uma mulher que
for escrava, desposada com um homem, e
que não for resgatada, nem se lhe houver
dado liberdade, então ambos serão açoita­
dos; não morrerão, pois ela não era livre.
21 E, como a sua oferta pela culpa, trará o
homem ao Senhor, à porta da tenda da
revelação, um carneiro para expiação de
culpa; 22 e, com o carneiro da oferta pela
culpa, o sacerdote fará expiação por ele
perante o Senhor, pelo pecado que cometeu;
e este lhe será perdoado. 23Quando tiverdes
entrado na terra e tiverdes plantado toda
qualidade de árvores para delas comerdes,
tereis o seu fruto como incircunciso; por
três anos ele vos será como incircunciso;
dele não se comerá. 24 No quarto ano, po­
rém, todo o seu fruto será santo, para oferta
delouvor ao Senhor. 25E partindo do quinto
ano comereis o seu fruto; para que elas vos
aumentem a sua produção. Eu sou o Senhor
vosso Deus. 26 Não comereis coisa alguma
com o sangue; não usareis de encantamen­
tos, nem de agouros. 27 Não cortareis o
cabelo, arredondando os cantos da vossa
cabeça, nem desfigurareis os cantos da vos­
sa barba. 28Não fareis lacerações na vossa
carne pelos mortos; nem no vosso corpo im­
primireis qualquer marca. Eu sou o Senhor.
O versículo 19, com as suas proibições
do cruzamento entre duas espécies dife­
rentes de animais, da semeadura de um
campocomdoistiposdiferentesdesemen­
tes e da mistura de dois materiais di­
ferentes numa peça de roupa, dizia res­
peito à manutenção daquilo que Israel
considerava a ordem divina da vida.
O homem não havia de confundir o que
Deus tinha feito diverso. Os versículos
23-25 consideram uma fruteira recém-
plantada como incircuncisa por três
anos. Somente no quinto ano poderia seu
fruto ser comido, depois de o fruto
do quarto ano ter sido dedicado to­
do a Deus no santuário. Esse gesto
assegurava o devido reconhecimento de
que todos osfrutos eram dádivas de Deus
e que somente quando esse reconheci­
mento fosse posto em termos práticos,
73
tinham os homens o direito de comer o
fruto deuma árvore nova.
Os sinais estranhos, referidos nos ver­
sículos 27 e 28, eram todos ritos costu­
meiros de luto, praticados no mundo
antigo. Á sua finalidade era tornar a
pessoaenlutada irreconhecível a espíritos
malignos que pudessem pairar ao redor
do morto. Em Israel, tal deferência à
presença de espíritos malignos e ao seu
poderera proibida.
29 Não profanarás a tua filha, fazendo-a
prostituir-se; para que a terra não se prosti­
tua e não se encha de maldade. 30 Guarda­
reis os meus sábados, e o meu santuário re­
verenciareis. Eu sou o Senhor. 31 Não vos
voltareis para os que consultam os mortos
nem para os feiticeiros; não os busqueis
para não ficardes contaminados por ele.
Eu sou o Senhor vosso Deus. 32 Diante das
cãs te levantarás, e honrarás a face do
ancião, e temerás o teu Deus. Eu sou o
Senhor. 33 Quando um estrangeiro peregri­
nar convosco na vossa terra, não o maltra­
tareis. 34Gomo um natural entre vós será o
estrangeiro que peregrinar convosco; amá-
lo-eiscomoa vós mesmos; pois estrangeiros
fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor
vosso Deus. 35 Não cometereis injustiça no
juízo, nem na vara, nem no peso, nem na
medida. 36 Balanças justas, pesos justos,
efajusta, ejusto him tereis. Eu sou o Senhor
vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito.
37 Pelo que guardareis todos os meus esta­
tutos e todososmeus preceitos, e os cumpri­
reis. Eu sou oSenhor.
Não era incomum, na religião cana-
néia, moças novas se tornarem prostitu­
tas para fins religiosos e se filiarem a um
santuário com este propósito. É a tenta­
ção de imitar essa prática que é conde­
nada no versículo 29. A oposição de
Israel à religião cananéia não era de
modo algum mera ideologia, mas uma
necessidade bem real, se se havia de
preservar um padrão de vida pessoal e
familiar digno.
O estrangeiro referido (v. 33,34) era
uma pessoa de naturalidade estrangeira
que tinha entrado numa das vilas ou
aldeias de Israel e se radicado ali perma­
nentemente. Havia uma tentação cons­
tante para se tirar vantagem de tal pes­
soa, visto que não tinha por detrás dela
uma família numerosa, para a sustentar
e proteger. Mais uma vez Israel havia de
se opor a esta tentação, em nome da
justiça e da humanidade. No versículo
36, a efa era uma medida de grãos, e o
him,uma medida líquida.
Toda esta coleção de leis é arrematada
por uma relembrança solene da forma
única de vida que se exigia de Israel
(v. 36b,37). Dois fatos imutáveis posta-
vam-se acima de todo israelita, a contro­
lar a sua maneira de viver: ele mantinha
uma relação especial com Deus, como
membro do povo da aliança, Israel, e,
não fora a graça de Deus, teria sido
escravo no Egito, como os seus antepas­
sados. Assim, a exigência de obediência
à lei, noversículo 37, tem de ser mantida
no contexto da afirmação de graça que
fazpor detrás dela. A obediência não era
um meio de acessoà graça de Deus, mas,
sim, uma necessária correspondência a
ela.
4. LeisQueImplicavamaPenadeMorte
(20:1-27)
As proibições deste capítulo repetem,
em certa medida, a lista de infrações se­
xuais e matrimoniais apresentada no ca­
pítulo 18. Contudo, este capítulo 20 não
é mera reprodução do capítulo 18. Em­
bora haja alguma repetição de conteúdo,
as pessoas a quem os mandamentos dos
dois capítulos são dirigidos não são as
mesmas. Enquanto o capítulo 18 se en­
dereça aopretenso infrator, o capítulo 20
dirige-se a toda a comunidade de Israel,
que era responsável por assegurar que o
infrator fosse punido. Exceto os versí­
culos 20 e 21, que deixam com Deus a
aplicação do castigo, todas as infrações
aqui descritas trazem a pena de morte.
É fácil de suporque, com relação a peca­
dos particulares, nas questões sexuais e
matrimoniais, houvesse a tentação para a
74
comunidade local, que era diretamente
responsável pela aplicação de suas leis,
de fazer vista grossa ao assunto, e deixar
o pecado passar impune, especialmente
quando eleimplicava a pena demorte.
A responsabilidade de todo o Israel
pela manutenção da santidade e pureza
de sua vida perante Deus é realçada de
uma maneira distintiva. Israel não podia
ser complacente para com o pecado,
fazendo-lhevista grossa, pois issoequiva­
leria à aceitação de uma parcela pessoal
dele. O pecado tinha de ser removido da
comunidade, e embora a aplicação da
pena de morte pareça um castigo extre­
mamente severo, a sua intenção era re­
mover a causa da impureza e impedir
que afetasse avida dopovo deDeus.
Há muitos indícios de que a lista de
infrações constantes neste capítulo foi
composta através de longo período, de
maneira que leis mais antigas foram sen­
do elaboradas de uma forma mais preci­
saeeficiente. Acha-se uma breve lista de
leis, mais antiga, que implicavam a pena
de morte, em Êxodo 21:12-17, onde te­
mosa forma característica do pronuncia­
mento da sentença: certamenteserá mor*
to(20:2,10,ll,13).
1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Tam­
bém dirás aos filhos de Israel: Qualquer dos
filhos de Israel, ou dos estrangeiros pere­
grinos em Israel, que der de seus filhos a
Moloque, certamente será morto; o povo da
terra o apedrejará. 3 Eu porei o meu rosto
contra esse homem, e o extirparei do meio
do seu povo; porquanto deu de seus filhos a
Moloque, assim contaminando o meu san­
tuário e profanando omeu santo nome. 4 E,
se o povo da terra de alguma maneira es­
conder os olhos para não ver esse homem,
quando der de seus filhos a Moloque, e não o
matar, 5 eu porei o meu rosto contra esse
bomem, e contra a sua família, e o extirpa­
rei do meio do seu povo, bem como a todos
os que forem após ele, prostituindo-se após
Moloque.6Quanto àquele que se voltar para
as que consultam os mortos e para os feiti­
ceiros, prostituindo-se após eles, porei o
meu rosto contra aquele homem, e o extir­
parei do meio do seu povo. 7 Portanto santi­
ficai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor
vosso Deus. 8 Guardai os meus estatutos, e
cumpri-os. Eu sou o Senhor, que vos san­
tifico. 9 Qualquer que amaldiçoar a seu pai
ou a sua mãe, certamente será morto;
amaldiçoou a seu pai ou a sua mãe; o seu
sangue será sobre ele.
Nos versículos 2-5, temos uma exposi­
ção extensa do crime distintivo de se
sacrificarcrianças a Moloque, do qualjá
sefezmenção(18:21). Acham-se referên­
cias a essa prática em II Reis 23:10 e
Jeremias 7:31; 32:35. De acordo com
II Reis 23:10, Josias removeu o lugar
onde se realizava essa particularmente
horrorosa prática pagã, porém a outra
referência, em Jeremias 32:35, sugere
que ela havia sido reiniciada posterior­
mente. Esta era uma forma de sacrifício
de crianças, corrente entre as famílias
influentes emJerusalém, e que foi adota­
da até por certos reis de Judá (II Reis
21:6). Quanto à sua origem, o sacrifício
de crianças parece ter entrado em Israel
provindo da esfera cananeu-fenícia, don­
de certos textos corroboram a sua preva­
lência, especialmente na colônia fenícia
de Cartago.
O título Moloque aparece em Levítico
20 como o nome de um deus, e por isso
deverá ser entendido como “Melek”,
significando rei, que era um dos títulos
de Baal. Existem algumas evidências,
contudo, de que estava em uso uma
palavra fenícia m-l-k, com referência a
um determinado tipo de sacrifício. Isso
tem levado alguns eruditos a sugerir que
a expressão a Moloque tenha significado
originalmente “como um sacrifício
m-I-k”. Em todo caso as vítimas do rito
eram filhos primogênitos (cf. Ez. 20:26),
oferecidos como ofertas queimadas a
Deus.
A rejeição de médiuns e feiticeiros
(v. 6,27) talvez seja reflexo do estímulo
real dado a esses meios de obter conhe­
cimentos ocultos por Manassés (II Reis
21:6). Tanto esta lei como a condenação
anterior dosacrifício de crianças a Molo­
que bem podem ter surgido no tempo de
Manassés, quando se dava apoio real a
75
essas práticas, tomando necessária uma
renovada ênfase em sua rejeição por
Deus.
10O homem que adulterar com a mulher
de outro, sim, aquele que adulterar com a
mulher de seu próximo, certamente será
morto, tanto o adúltero, como a adúltera.
110 homem que se deitar com a mulher de
seu pai terá descoberto a nudez de seu pai;
ambos os adúlteros certamente serão mor­
tos; o seu sangue será sobre eles. 12 Se um
homem se deitar com a sua nora, ambos
certamente serão mortos; cometeram uma
confusão; o seu sangue será sobre eles.
13 Se um homem se deitar com outro ho­
mem, como se fosse com mulher, ambos
terão praticado abominação; certamente
serão mortos; o seu sangue será sobre eles.
14Seum homem tomar uma mulher e a mãe
dela, é maldade; serão queimados no fogo,
tanto ele quanto elas, para que não haja
maldade no meio de vós. 15Seum homem se
ajuntar com um animal, certamente será
morto; também matareis o animal. 16 Se
uma mulher se chegar a algum animai,
para ajuntar-se com ele, matarás a mulher
e bem assim o animal; certamente serão
mortos; o seu sangue será sobre eles. 17 Se
um homem tomar a sua irmã, por parte de
pai, ou por parte de mãe, e vir a nudez dela,
e ela a dele, é torpeza; portanto serão extir­
pados aos olhos dos filhos do seu povo; terá
descoberto a nudez da sua irmã; levará
sobre si a sua iniqüidade. 18 Se um homem
se deitar com uma mulher no tempo da
enfermidade dela, e lhe descobrir a nudez,
descobrindo-lhe também a fonte, e ela des­
cobrir a fonte do seu sangue, ambos serão
extirpados do meio do seu povo. 19 Não
descobrirás a nudez da irmã de tua mãe, ou
da irmã de teu pai, porquanto isso será
descobrir a sua parenta chegada; levarão
sobre si a sua iniqüidade. 30 Se um homem
se deitar com a sua tia, terá descoberto a
nudez de seu tio; levarão sobre si o seu
pecado; sem filhos morrerão. 21 Se um ho­
mem tomar a mulher de seu irmão, é imun­
dícia; terá descoberto a nudez de seu irmão;
sem filhosficarão.
Os versículos 10-21 versam sobre in­
frações sexuais e matrimoniais, que já
foram abrangidas pelasleisafins no capí­
tulo 18. O homem que tivesse relações
sexuaiscom a esposa de seu tio ou que se
casasse (tomar, no versículo 21, normal­
mente dá a entender “em casamento”)
com a esposa de seu irmão havia de
morrer sem gerar filhos. A proibição, no
versículo21, impossibilitaria aprática do
casamento segundo a lei do levinato
(Deut. 25:5-10).
22 Guardareis, pois, todos os meus esta­
tutos e todos os meus preceitos, e os cum­
prireis; a fim de que a terra, para a qual eu
vos levo, para nela morardes, não vos vo­
mite. 23 E não andareis nos costumes dos
povos que eu expulso de diante de vós; por­
que eles fizeram todas estas coisas, e eu os
abominei. 24Mas a vós vos tenho dito: Her­
dareis a sua terra, e eu vo-la darei para a
possuirdes, terra que mana leite e mel. Eu
souoSenhorvossoDeus, que vosseparei dos
povos. 25 Fareis, pois, diferença entre os
animaislimpos e os imundos e entre as aves
imundas e as limpas; e não fareis abominá­
veis as vossas almas por causa de animais,
ou de aves, ou de qualquer coisa de tudo de
que está cheia a terra, as quais coisas apar­
tei de vós como imundas. 26 E sereis para
mim santos; porque eu, o Senhor, sou santo,
e vos separei dos povos, para serdes meus.
27 O homem ou mulher que consultar os
mortos ou for feiticeiro, certamente será
morto. Serão apedrejados, e o seu sangue
será sobre eles.
Os versículos 22-26 compõem uma
exortação resumida, que muito se asse­
melha a 18:24-30. Muitas das relações
surpreendentes que são proibidas (v. 11,
14) teriam surgido mais facilmente pela
posse de escravas-esposas numa família
polígama (cf. Am. 2:7). Os habitantes
anteriores da terra, os cananeus, haviam
sido especialmente perversos em suas
práticas sexuais, e este fato se apresenta
como a justificativa divina pela sua ex­
pulsão e substituição pelos israelitas.
Nem a própria terra era capaz de tolerar
os hábitos e costumes daquela gente. Se
osisraelitasfossem se comportar da mes­
ma forma, então eles também iriam ser
vomitados pela própria terra. A própria
natureza havia de reagir contra as viola­
ções de sua própria ordem. A separação
de Israel, de outros povos (v. 24,26),
não significava que a nação tivesse sido
76
deixada para levar uma vida própria,
não-natural e exclusiva. Antes, eram os
povosdomundo que tinham pervertido a
ordem natural, de tal forma que somente
pelo apegoa Deus poderia o seu povo ser
reconciliado à natureza e à ordem natu­
ral da vida.
O método de se realizar a pena de
morte era normalmente pelo apedreja­
mento até a morte, no que as testemu­
nhas principais haviam de ser os primei­
ros participantes (v. 2,27); porém, na
maioria dos casos, aqui isso se deixa in­
definido. Deve-se notar, porém, que um
homem que secasasse comuma mulher e
coma mãe delahavia de serqueimado no
fogo(v. 4).
S. A Santidade dos Sacerdotes (21:1*24)
Embora seja fundamental à teologia
do livro de Levítico que todo o Israel é
santo, isso não nega a santidade especial
dos sacerdotes nem ainda maior santida­
de do sumo sacerdote. Por conseguinte,
há um código rígido de conduta, estabe­
lecido para as famílias sacerdotais de
Israel. O mandamento dizei a Arão mos­
tra que as leis eram primeiramente uma
questão de conhecimento sacerdotal pro­
fissional, que tinha sido transmitido den­
tro das famílias sacerdotais. A extensão
dessa informação a todos os filhos de Is­
rael (v. 24) tinha como finalidade possi­
bilitar aos demais israelitas que respei­
tassem as exigências da santidade im­
posta aossacerdotes.
Os versículos 1-15 dizem respeito a
restrições à conduta de sacerdotes que
eram realmente efetivos e que estavam
oficiando junto ao altar, enquanto os
versículos 16-23 dizem respeito aos filhos
que nasciam dentro das famílias secerdo-
tais e que normalmente esperavam, por
conseguinte, assumir as funções sacerdo­
tais quando em idade avançada. Porém
são aqui proibidos de as assumirem
aqueles com determinados defeitos
físicos.
1 Depois disse o Senhora Moisés: Fala aos
sacerdotes, filhosde Arão, e dize-lhes: O sa­
cerdote não se contaminará por causa dum
morto entre o seu povo, 2 salvo por um seu
parente mais chegado: por sua mãe ou por
seu pai, por seu filho ou por sua filha, por
seu irmão, 3oupor sua irmã virgem, que lhe
é chegada, que ainda não tem marido; por
ela também pode contaminar-se. 4 O sacer­
dote, sendo homem principal entre o seu
povo, não Beprofanará, assim contaminan­
do*se. 5 Não farão os sacerdotes calva na
cabeça, e não raparão os cantos da barba,
nem farão lacerações na sua carne. 6 Santos
serão para seu Deus, e não profanarão o
nome do seu Deus; porque oferecem as ofer­
tas queimadas do Senhor, que são o pão do
seu Deus; portanto serão santos. 7 Não to­
marão mulher prostituta ou desonrada, nem
tomarão mulher repudiada de seu marido;
pois o sacerdote é santo para o seu Deus.
8Portanto osantificarás; porquanto oferece
o pão do teu Deus, santo te será; pois eu, o
Senhor, que vossantifico, sou santo. 9 E se a
filha dum sacerdote se profanar, tomando-
se prostituta, profana a seu pai, no fogo será
queimada.
Os versículos 1-4 permitem que um
sacerdote fique de luto somente por pa­
rentes muito próximos. Seriam esses que
normalmente estariam morando em sua
casa, como fica claro no versículo 3, que
distingue entre irmã casada e irmã sol­
teira. Embora a relação consangüínea
seja a mesma nos dois casos, o fato de a
irmã casada já não estar morando na
mesmacasa que o seu irmão é considera­
do motivo suficiente para escusá-lo do
luto por ela. O versículo 4, como o te­
mos, é ininteligível, e poderá ser mais
bem compreendido alterando-se como
nm marido para “por uma mulher casa­
da com um marido”, que então desen­
volveopensamento do versículo 3. Acha­
va-se que o contato com um corpo morto
tornasse um israelita imundo, e fizesse
com que até uma pessoa leiga ficasse
imunda por algum tempo. Quanto a um
sacerdote, era preciso que o evitasse to­
talmente, a não ser em certos casos da
morte deum parente próximo.
O versículo 5 proíbe, aos sacerdotes, o
uso de costumes antigos de luto (cf. 19:
77
27,28, onde são proibidos para todo o
Israel), eoversículo7impõe limitaçõesàs
opções para o casamento de um sacerdo­
te. Parece que o sacerdote comum, dife­
rentemente do sumo sacerdote (v. 14),
podia casar-se com uma viúva, enquanto
em Ezequiel 44:22 esse privilégio era
restrito ao casamento com a viúva de um
sacerdote. Oversículo 9 refere-se à práti­
ca cananéia de prostituição cultual, pela
qual se supunha estar servindo a um
propósito religioso, por semelhante imo­
ralidade, e onde as prostitutas muitas
vezes eram procedentes dos círculos sa­
cerdotais. Israel rejeitava tão completa­
mente a possibilidade de mulheres ser­
virem como sacerdotes, que nem sequer
possuiuma palavra para sacerdotisa.
10Aquele queé sumo sacerdote entre seus
irmãos, sobre cuja cabeça foi derramado o
óleo da unção, e que foi consagrado para
vestir as vestes sagradas, não descobrirá a
cabeça nem rasgará a sua vestidura; 11 e
não se chegará a cadáver algum; nem se­
quer por causa de seu pai ou de sua mãe se
contaminará; 12 não sairá do santuário,
nem profanará o santuário do seu Deus;
pois a coroa do óleo da unção do seu Deus
está sobre ele. Eu sou o Senhor. 13 E ele to­
mará por esposa uma mulher na sua virgin­
dade. 14Viúva, ou repudiada, ou desonrada,
ou prostituta, destas não tomará; mas vir­
gem do seu povo tomará por mulher. 15 E
não profanará a sua descendência entre o
seu povo; porque eu sou o Senhor que o
santifico.
Os versículos iO-15 impõem um rígido
controle sobre a vida particular do sumo
sacerdote, exigindodeleuma ainda maior
autodisciplina e abnegação do que se
requeria de outros sacerdotes. Sua dedi­
cação ao serviço divino impunha nele
ocupação integral dentro do santuário e
uma separação especial para usar as
vestimentas do sumo sacerdote. O ver­
sículo 10 deixa implícito que somente o
sumo sacerdote era ungido, mas os ou­
tros não. Essa era seguramente a praxe
mais antiga em Israel. Em tempos pos­
teriores, a unção foi estendida a todos os
sacerdotes (cf. Lev. 8:30). O ponto de
vista prevalecente de que o rito da unção
foi transferido ao sumo sacerdote depois
do término da monarquia davídica, por
ocasião do exílio de 587 a.C., não é de
maneira alguma definitivo, visto que
existem evidências da unção de sacerdo­
tes entre os vizinhos de Israel desde tem­
pos primitivos. É possível que Israel te­
nha adotado a praxe de ungir o sumo
sacerdote de Jerusalém em tempos pré-
exílicos e que ela remonta a Zadoque
(I Reis2:35).
16 Disse maiso Senhora Moisés: 17Fala a
Arão, dizendo: Ninguém dentre os teus des­
cendentes, por todas as suas gerações, que
tiverdefeito, se chegará para oferecer opão
do seu Deus. 18 Pois nenhum homem que
tiver algum defeito se chegará; como ho­
mem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de
membros demasiadamente compridos,
19ou homem que tiver o pé quebrado, ou a
mão quebrada, 20ou for corcunda, ou anão,
ou que tiver belida, ou sarna, ou impigens,
ou que tiver testículo lesado; %lnenhum ho­
mem dentre os descendentes de Arão, o
sacerdote, que tiver algum defeito, se che­
gará para oferecer as ofertas queimadas do
Senhor; ele tem defeito; não se chegará
para oferecer opão do seu Deus. 22 Comerá
do pão do seu Deus, tanto do santíssimo
comodosanto; 23contudo, não entrará até o
véu, nem se chegará ao altar, porquanto
tem defeito; para que não profane os meus
santuários; porque eu sou o Senhor que os
santifico. 24Moisés, pois, assim falou a Arão
e a seusfilhos, e a todososfilhosde Israel.
Os versículos 16-23 estabelecem uma
lista considerável de defeitos que impe­
diriam que um homem, cujo nascimento
dentrodeumafamília sacerdotal normal­
mente lhe teria conferido o direito de
assumir aposição de sacerdote, ofizesse.
Em Israel, oprincípio de admissão here­
ditária ao sacerdócio era seguido a rigor,
mas como estes versículos mostram, ti­
nha deser submetido a certas limitações.
Somente um homem fisicamente sadio e
cuja vida não fosse maculada por qual­
quer coisa que pudesse ser considerada
uma imperfeição podia servir ao altar.
78
Contudo, descendentes de famílias sacer­
dotais como os indicados, que não po­
deriam desempenhar funções sacerdo­
tais, tinham direito a comer o alimento
apresentado como oferta a Deus (v. 22).
As necessidades de santidade com rela­
ção às ofertas não sobrepujavam a neces­
sidade humanitária de proporcionar sus­
tento aos membros deformados e defei­
tuosos das famílias sacerdotais. Aqui
está colocada em vigor uma espécie de
plano de seguro, divinamente patroci­
nado.
Vezes sem conta, na História, o desejo
da santidade tem levado as pessoas a
praticarem ações carentes de considera­
çãoedescaridosas! Aqui se mostra corre­
tamente a santidade como exigindo uma
devidaexpressãode consideraçãoe amor.
Nos versículos 6, 17 e 22, as ofertas cha-
mam-se de o pao (ou comida) de Deus,
que era, indubitavelmente, uma descri­
ção muito antiga. Em Israel, porém,
certamente não significa que se julgava
que Deus precisasse das ofertas como
comida(cf. Sal. 50:12,13).
Os regulamentos estabelecidos neste
capítulo mostram que em Israel o minis­
tério do sacerdócio requeria os seus me­
lhores e mais destacados filhos. Esta era
uma tarefa mais exigente que as demais,
e sua necessidade de uma santidade es­
pecial impunha um grau considerável de
dedicação e de abnegação por parte da­
queles que ingressavam nela.
6. ASantidade das Ofertas(22:1-23)
1 Depois disse o Senhora Moisés: 2Dize a
Arão e a seus filhos que se abstenham das
coisas sagradas dos filhosde Israel, as quais
eles a mim me santificam, e que não pro­
fanem o meu santo nome. Eu sou o Senhor.
3 Dize-lhes: Todo homem dentre os vossos
descendentes pelas vossas gerações que,
tendo sobre si a sua imundícia, se chegar às
coisas sagradas que os filhos de Israel san­
tificam ao Senhor, aquela alma será extir­
pada da minha presença. Eu sou o Senhor
4 Ninguém dentre os descendentes de Arão
que for leproso, ou tiver fluxo, comerá das
coisas sagradas, até que seja limpo. Tam­
bém o que tocar em alguma coisa tornada
imunda por causa de um morto, ou aquele
deque sair osêmen, 5ou qualquer que tocar
em algum animal que se arrasta, pelo qual
se torne imundo, ou em algum homem, pelo
qual se torne imundo, seja qual for a sua
imundícia, 6 o homem que tocar em tais
coisas será imundo até a tarde, e não come­
rá das coisas sagradas, mas banhará o seu
corpo em água. 7 e, posto o sol, então será
limpo; depois comerá das coisas sagradas,
porque Isso é o seu pão. 8 Do animal que
morrer por si, ou do que for dilacerado por
feras, não comerá ohomem, para que não se
contamine com ele. Eu sou oSenhor. 9 Guar­
darão, pois, o meu mandamento, para que,
havendo-o profanado, não levem pecado so­
bre si e morram nele. Eu sou oSenhorque os
santifico.
O deverprimário dosacerdote era o de
servir ao altar do santuário, oferecendo
nele as oferendas sacrificais de Israel.
Porque essas oferendas haviam sido da­
das a Deus, eram sagradas, como tam­
bém o era o altar onde foram deposita­
das. Assim, o sacerdote tinha de salva­
guardar a sua própria santidade, e as
diversas regras deste capítulo mostram
comoelehaviade evitar a imundícia com
relação às ofertas sacrificais. Quando
uma pessoa leiga contraísse imundícia,
bastava que realizasse certos ritos, para
que ficasse purificada, e deixasse passar
um período de tempo determinado. Po­
rém as conseqüências para um sacerdote
eram muito mais sérias. Os versículos
3-9 impõem uma penalidade severa a
qualquer sacerdote que tocasse em coi­
sas sagradasenquanto numa condição de
imundícia. O versículo 3 implica bani­
mento do sacerdócio, como castigo por
qualquer infração dessa regra, enquanto
o versículo 9 fala em ele morrer por
carregar pecado. Não está claro se isso
significava que a comunidade efetivassea
sentença de morte ou se se deixava o
culpadopara morrerpela mão deDeus.
10Também nenhum estranho comerá das
coisas sagradas; nem ohóspede do sacerdo­
te, nem o jornaleiro, comerá delas. 11 Mas
aquele que osacerdote tiver comprado com
oseudinheiro, e onascidona sua casa, esses
79
comerão do seu pão. 12 Se a filha de um
sacerdote se casar com um estranho, ela
não comerá da oferta alçada das coisas
sagradas. 13Mas quando a filha do sacerdo­
te for viúva ou repudiada, e não tiver filhos,
e houver tornado para a casa de seu pai,
como na sua mocidade, do pão de seu pai
comerá; mas nenhum estranho comerá
dele. 14Sealguém por engano comer a coisa
sagrada, repô-la-á, acrescida da quinta par­
te, e a dará ao sacerdote como a coisa
sagrada. 15Assim não profanarão as coisas
sagradas dosfilhos de Israel, que eles ofere­
cem ao Senhor, 16nem os farão levar sobre
si a iniqüidade que envolve culpa, comendo
as suas coisas sagradas; pois eu sou o Se­
nhor que as santifico.
Os versículos 10-16 definem a exten­
são da santidade da família do sacerdote
emostram quempodia equem não podia
comer as oferendas sacrificais que pro­
porcionavam o sustento para os sacerdo­
tes e suas famílias. É claro que a santi­
dade sacerdotal se estendia a toda a sua
casa, e assim abrangia os membros, tais
como escravos e filhas solteiras, que per­
tenciam à casa. Filhas casadas e estra­
nhos(cidadãos livres, de naturalidade es­
trangeira) ou trabalhadores contratados
se supunham terem casas próprias, de
maneira que não eram considerados co­
mo membros plenos da casa do sacer­
dote.
A santidade não se considerava como
uma qualidade transferida automatica­
mente por consangüinidade, mas como
algo determinado pela convivência numa
casa e pela responsabilidade pelo sus­
tento daqueles que eram dependentes da
renda do sacerdote. Isso esclarece, de
maneiraespecial, oscomentários de Pau­
lo (I Cor. 7:14) sobre a santidade de
filhos que convivem com os seus pais na
casa da família. Semelhante santidade
não era transferida automaticamente pe­
lo nascimento (como alguns costumam
argumentar), e, sim, por uma convivên­
cia familiarconsagrada.
17 Disse mais o Senhora Moisés: 18Fala a
Arão, e a seus filhos, e a todos os filhos de
Israel, e dize-lhes: Todo homem da casa de
Israel, ou dos estrangeiros em Israel, que
oferecer a sua oferta, seja dos seus votos,
seja das suas ofertas voluntárias que ofere­
cerem ao Senhorem holocausto, 19para que
sejais aceitos, oferecereis macho sem defei­
to, ou dos novilhos ou dos cordeiros, ou das
cabras. 20Nenhuma coisa, porém, que tiver
defeitooferecereis, porque não será aceita a
vosso favor. 21 £, quando alguém oferecer
sacrifício de oferta pacífica ao Senhor para
cumprir um voto, ou para oferta voluntária,
seja do gado vacum, seja do gado miúdo, o
animal será perfeito, para que seja aceito;
nenhum defeito haverá nele. 22 O cego, ou
quebrado, ou aleijado, ou que tiver úlceras,
ousarna, ou impigens, estes não oferecereis
ao Senhor, nem deles poreis oferta queima­
da ao Senhor sobre o altar. 23 Todavia, um
novilho, ou um cordeiro, que tenha algum
membro comprido ou curto demais, pode­
rás oferecerpor oferta voluntária, mas para
cumprir voto não será aceito. 24 Não ofere­
cereis ao Senhor um animal que tiver testí­
culo machucado, ou moído, ou arrancado,
ou lacerado; não fareis isso na vossa terra.
25 Nem da mão do estrangeiro oferecereis
de alguma dessas coisas o pão do vosso
Deus; porque a sua corrupção nelas está;
há defeito nelas; não serão aceitas a vosso
fávor.
Os versículos 17-25 definem aqueles
defeitos num animal que o tomam im­
próprio como uma oferenda sacrifical.
Somente o animal íntegro e sem defeito
era digno de Deus. Não se estabelece
nenhum castigo para infrações dessas
regras, mas se faz uma advertência de
que, se um animal defeituoso for sacrifi­
cado, não será aceito por Deus (v. 20,23,
25). Nãoterá nenhum valor como sacrifí­
cio, de maneira que oferecê-lo a Deus
seria despropositado. O significado do
versículo 23 é que se dava uma oferta
voluntária espontaneamente, enquanto
uma oferta votiva se dava em cumpri­
mento de uma promessa anteriormente
feita. Um homem não podia dar menos
doquejá tinha prometido dar.
26Disse mais o Senhor a Moisés: 27Quan­
do nascer um novilho, ou uma ovelha, ou
uma cabra, por sete dias ficará debaixo de
sua mãe; depois, desde o dia oitavo em
diante, será aceito por oferta queimada ao
Senhor. 28 Também, seja vaca ou seja ove-
80
lha, não a imolareis a ela e à sua cria,
ambas no mesmo dia.. 29 E, quando ofere­
cerdes ao Senhor sacrifício de ação de gra­
ças, oferecê-lo-eis de modo a serdes aceitos.
30Nomesmo dia se comerá; nada deixareis
ficar dele até pela manhã. Eu sou o Senhor.
31 Guardareis os meus mandamentos, e os
cumprireis. Eu sou o Senhor. 32 Não profa­
nareis omeu santo nome, e serei santificado
nomeio dos filhosde Israel. Eu sou o Senhor
que vossantifico, 33que vos tirei da terra do
Egito para ser o vosso Deus. Eu sou o Se­
nhor.
Osversículos26-33concluem o capítu­
lo, com algumas considerações gerais que
diziam respeito à oferta do sacrifício. A
recusa de permitir a oferta de uma vaca
ou de uma ovelha e seus filhotes num
mesmo dia talvezfosseem oposição a um
rito cananeu, em que se usava tal práti­
ca. A regra para o comer do sacrifício
(v. 30) mostra um regulamento mais rí­
gido do que achamos anteriormente
(19:6). Aqui tinha de ser comido no dia
em que foi abatido, enquanto o regula­
mento anterior, para a oferta pacífica,
permitia que fosse guardado por mais
um dia.
7. OCalendáriodosFestivais(23:1-44)
A devoção particular e a piedade de
Israel foram mantidas eestimuladas pelo
culto público em seu santuário central, o
tabernáculo, com o seu sucessor natural,
o Templo de Jerusalém. Temos agora
como esse culto público era organizado
em grupos de festivais, que correspon­
diam aos pontos principais de transição
de seuano agrícola.
0 código legal mais primitivo de Is­
rael, oLivro da Aliança(Êx. 20:22-23:19),
tinhaestipulado que todo homem israeli­
ta havia de observartrês festivais por ano
(Êx. 23:14-17).
(1) FestivaisdeInstituiçãoDivina
(23:1-3)
1Depois disse o Senhor a Moisés: 2 Fala
aos filhos de Israel, e dize-lhes: As festas
fixas do Senhor, que proclamareis como
santas convocações, são estas: 3Seis dias se
fará otrabalho, mas o sétimo dia é o sábado
de descanso solene, uma santa convocação;
nenhum trabalho fareis; é sábado do Senhor
em todas as vossas habitações.
Agora, em Levítico 23, temos uma
versão posterior deste calendário dos fes­
tivais, no qual os três festivais principais
ainda são mantidos, porém elaborados
de tal forma que a primeira e a terceira
festas são expandidas em toda uma série
de celebrações. Somente a segunda das
festas mantém seu caráter independente.
Fazem-se as outras duas muito mais ex­
tensas, em seu significado, e se consti­
tuem deumavariedade de elementos que
têm sidofundidos. A fusão do calendário
rural é simples, determinada pelas ne­
cessidades agrícolas, com a organização
de culto mais elaborada do Templo de
Jerusalém, em que dois festivais princi­
pais predominavam, é a explicação mais
provável da Páscoa que se considerava o
principal, mas o do outono, que tinha
sido, em certa época, considerado como
ocomeçodeum novo ano. Depois de uma
breve recordação do sábado semanal
(v. 3), que é aqui elevado a ocupar um
lugar no calendário anual de festivais,
podemos distinguir os três grupos princi­
pais decelebrações festivas que seguem.
(2) OFestivaldaPrimavera(23:4-14)
4 São estas as festas fixas do Senhor,
santas convocações, que proclamareis no
seu tempo determinado: 5No mês primeiro,
aos catorze do mês, à tardinha, é a páscoa
doSenhor. 6E aos quinze dias desse mês é a
festa dos pães ázimos do Senhor; sete dias
comereis pães ázimos. 7 No primeiro dia
tereis santa convocação; nenhum trabalho
servilfareis. 8Mas por sete dias oferecereis
oferta queimada ao Senhor; ao sétimo dia
haverá santa convocação; nenhum trabalho
servil fareis. 9 Disse mais o Senhor a Moi­
sés: 10Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes:
Quando houverdes entrado na terra que eu
vosdou, e segardes a sua sega, então trareis
ao sacerdote um molho das primícias da
vossa sega; 11e ele moverá o molho perante
o Senhor, para que sejais aceitos. No dia se­
guinte ao sábado o sacerdote o moverá.
12E nodia em que moverdes omolho, ofere-
81
cereis um cordeiro sem defeito, de um ano,
em holocausto ao Senhor. 13 Sua oferta de
cereais será dois décimos de efa de flor de
farinha, amassada com azeite, para oferta
queimada em cheiro suave ao Senhor; e a
sua oferta de libação será de vinho, um
quarto de him. 14 E não comereis pão, nem
trigo torrado, nem espigas verdes, até aque­
le mesmodia, em que trouxerdes a oferta do
vosso Deus; é estatuto perpétuo pelas vos­
sas gerações, em todas as vossas habita­
ções.
O cálculo do ano israelita, partindo de
um começo na primavera (v. 5), de ma­
neira que oprimeiro mês é considerado a
partir dessaestação, representa uma aco­
modação ao cálculo babilónico do ano.8
Anteriormente, o primeiro mês tinha
sido contado a partir do outono. A tran­
sição para o sistema babilónico de cál­
culo provavelmente não teve lugar senão
um pouco antes da queda de Judá e de
sua captura em 587 a.C. Durante o pe­
ríodo da poderosa influência política de
Babilônia, quando Judá era um Estado
vassalo, o país foi, provavelmente, com­
pelido a aceitar o sistema babilónico do
cálculodo tempo.
A determinação precisa dos dias das
festas fixas é um sinal do desenvolvi­
mento e urbanização de Israel. Anterior­
mente, as datas das festas tinham sido
definidas sem muita precisão (cf. Êx.
23:14-17; Deut. 16), por causa da neces­
sidade de se acomodar às variações nas
condições da seara, tanto de região como
deestação.
O festival da primavera incluía a cele­
bração da Páscoa (v. 5), que era, nos
tempos pré-israelitas, uma festa pastoral
antiga, que tinha sido adaptada e inter­
pretada em Israel para servir de recor­
dação da saída do Egito (Êx. 12). Essa
festafoi ligada a uma abstinência de pão
levedadoeà preparaçãoealimentação de
pães ázimos durante sete dias (v. 6). Este
evento ocorria, originalmente, por oca­
8 Cf. S. J. DeVries, "Calendar”, IDB, Vol. A-D. (Nash­
ville: Abingdon, 1962p. 484ess.
sião de uma virada de estação, quando
acontecia o fim dos suprimentos alimen­
tícios do ano velho e o começo de uma
estaçãonova de colheita. Em Israel assu­
miu um significado especial, como uma
recordaçãodacomida de aflição, tomada
durante a opressão no Egito. Tanto no
primeiro como no sétimo dia dessa festa
depães ázimos, não se permitia trabalho
nenhum(v. 7,8).
Ligado a essas duas celebrações havia
ainda um outro rito, do movimento do
molho, no qual as primícias dos cereais
recém-colhidos eram oferecidos a Deus
(v. 10-14). Este era um gesto de gratidão
aDeus, e antes de ser realizado, nenhum
dos cereais da nova colheita devia ser
comido (v. 14). Somente quando as pri­
mícias tivessem sido dadas a Deus, po­
deria a colheita ser apreciada pelo seu
povo.
(3) OFestivaldoComeçodoVerão
(23:15-22)
15 Contareis para vós, desde o dia depois
do sábado, istoé, desde odia em que houver­
des trazido omolho da oferta de movimento,
sete semanas inteiras; 16até o dia seguinte
ao sétimo sábado, contareis cinqüenta dias;
então oferecereis nova oferta de cereais ao
Senhor. 17 Das vossas habitações trareis,
para oferta de movimento, dois pães e dois
décimos de efa; serão de flor de farinha, e
levedados se cozerão; são primícias ao Se­
nhor. 18 Com os pães oferecereis sete cor­
deiros sem defeito, de um ano, um novilho e
dois carneiros; serão holocausto ao Senhor,
com as respectivas ofertas de cereais e de
libação, por oferta queimada de cheiro sua­
ve ao Senhor. 19 Também oferecereis um
bode para oferta pelo pecado, e dois cordei­
ros de um ano para sacrifício de ofertas
pacíficas. 20 Então o sacerdote os moverá,
juntamente com os pães das primícias, por
oferta de movimento perante o Senhor, com
os dois cordeiros; santos serão ao Senhor
parausodo sacerdote. 21E fareis proclama­
ção nesse mesmo dia, pois tereis santa con­
vocação; nenhum trabalho servil fareis; é
estatuto perpétuo em todas as vossas habi­
tações pelas vossas gerações. 22 Quando
fizeres a sega da tua terra, não segarás
totalmente os cantos do teu campo, nem
colherás as espigas caídas da tua sega; para
82
opobre e para o estrangeiro as deixarás. Eu
souoSenhorvosso Deus.
Depois que omolho da oferta de movi­
mento tinha sido trazido ao santuário,
sete semanas completas tinham de ser
contadas, antes de a festa de semanas,
ou Pentecostes, como mais tarde veio a
ser chamada, ser celebrada. Essa oferta
consistia numa oferenda a Deus, de ce­
reais do grão novo, com dois pães feitos
de farinha da nova estação. Assim, no
fim da colheita de cereais, mais outro
gesto de gratidão se fazia, junto com
certos sacrifícios de animais dos reba­
nhos e manadas. Dois pães e dois cor­
deiros, depois de serem movimentados
perante Deus, eram entregues aos sacer­
dotes, para que eles também comparti­
lhassem dos benefícios da nova colheita.
É claro que a festa era própria à esta­
ção e que era de natureza agrícola, se
bem que, no judaísmo posterior, tenha
chegado a ser ligada especialmente a
uma recordação da entrega da Lei no
monte Sinai. Israel não vivia só de pão,
mas de toda palavra que procedia da
boca deDeus(Deut. 8:3).
No versículo 22, há uma repetição do
mandamento (19:9,10) de deixar-se as
espigas caídas nos campos, para os po­
bres, com a omissão da referência à vin­
dima, que não seria apropriada aqui.
(4) O Festivalde Outono (23:23-44)
23 Disse mais o Senhor a Moisés: 24 Fala
aos filhos de Israel: no sétimo mês, no pri­
meiro diado mês, haverá para vós descanso
solene, em memorial, com sonido de trom­
betas, uma santa convocação. 25 Nenhum
trabalho servil fareis, e oferecereis oferta
queimadaao Senhor. 26Disse mais o Senhor
a Moisés: 27Ora, o décimo dia desse sétimo
mês será o dia da expiação; tereis santa
convocação, e afligireis as vossas almas; e
oferecereis oferta queimada ao Senhor.
28 Nesse dia não fareis trabalho algum;
porque é o dia da expiação para nele fazer-
se expiação por vós perante o Senhor vosso
Deus. 29 Pois toda alma que não se afligir
nesse dia, será extirpada do seu povo.
30 Também toda alma que nesse dia fizer
algum trabalho, eu a destruirei do meio do
seupovo. 31Nãofareis nele trabalho algum;
isso será estatuto perpétuo pelas vossas ge­
raçõesem todas as vossas habitações. 32Sá­
bado de descanso vos será, e afligireis as
vossas almas; desde a tardinha do dia nono
domês até a outra tarde, guardareis o vosso
sábado.
Originalmente, o ano-novo em Israel
se iniciava no fim do verão, com o térmi­
no doano agrícola, depois da colheita da
uvaeda oliva. Esta celebração de outono
era, em determinada época, a festa mais
proeminente das festas do calendário de
Israel, sendo especialmente um memo­
rial da aliança do monte Sinai e do nasci­
mento da nação ali.9 Como está aqui
apresentado, esse festival divide-se em
três eventos distintos, embora, com qua­
se total certeza, os três eventos se rela­
cionassem muito de perto entre si em
certaépoca nopassado. O dia original do
ano-novo, que agora ocorre no sétimo
mês, celebrava-se por um sábado e um
sonido de trombetas (v. 24,25), procla­
mando a nova época que tinha raiado.
Nodécimo dia do mês celebrava-se oDia
da Expiação, de acordo com o ritual de
expiação descrito no capítulo 16. Esse
era um sábado especialmente solene,
quando o povo se afligia, em contrição
pelos pecados do ano que passara. So­
menteassegurando-se doperdão de Deus
pelo passado podia-se encarar o ano-
novocomconfiançaeexpectativa.
33 Disse mais o Senhor a Moisés: 34 Fala
aos filhos de Israel, dizendo: Desde o dia
quinze desse sétimo mês haverá a festa dos
tabernáculos ao Senhor por sete dias. 35 No
primeiro dia haverá santa convocação; ne­
nhum trabalho servil fareis. 36Por sete dias
oferecereis ofertas queimadas ao Senhor;
ao oitavo dia tereis santa convocação, e ofe­
recereis oferta queimada ao Senhor; será
uma assembléia solene; nenhum trabalho
servil fareis. 37 Estas são as festas fixas do
Senhor, que proclamareis como santas con­
vocações, para oferecer-se ao Senhor oferta
9 Cl. especialmente A. Weiser, The Psalms. Trad, para o
inglês por Herbert Hartwell (Philadelphia, Westminster,
1959), p. 35ess.
83
queimada, holocausto e oferta de cereais,
sacrifícios e ofertas de libação, cada qual
em seu dia próprio; 38 além dos sábados do
Senhor, e além dos vossos dons, e além de
todos os vossos votos, e além de todas as
vossas ofertas voluntárias que derdes ao
Senhor. 39 Desde o dia quinze do sétimo
mês, quando tiverdes colhido os frutos da
terra, celebrareis a festa do Senhor por sete
dias; no primeiro dia haverá descanso sole­
ne, e no oitavo dia haverá descanso solene.
40Noprimeiro dia tomareis para vós ofruto
de árvores formosas, folhas de palmeiras,
ramos de árvores frondosas e salgueiros de
ribeiras; e vos alegrareis perante o Senhor
vosso Deus por sete dias. 41E celebrá-la-eis
como festa ao Senhor por sete dias cada
ano; estatuto perpétuo será pelas vossas
gerações; no mês sétimo a celebrareis.
42 Por sete dias habitareis em tendas de
ramos; todos os naturais em Israel habita­
rão em tendas de ramos, 43 Para que as
vossas gerações saibam que eu fiz habitar
em tendas de ramos os filhos de Israel,
quando os tirei da terra do Egito. Eu sou o
Senhor vosso Deus. 44 Assim declarou Moi­
sés aos filhos de Israel as festas fixas do
Senhor.
A terceira parte do festival do outono
era a celebração da Festa de Barracas
ou Tabernáculos (v.33-36, 39-43), do dé­
cimo quinto ao vigésimo terceiro dia do
mês. Realizava-se por ocasião do fim da
colheita da uva e da oliva, de maneira
que a sua ligação com a vindima com­
pleta fazia dela uma ocasião especial­
mentejubilosa. O espírito alegre, próprio
à estação, desse evento, é visto no ver­
sículo 40, onde a tomada de ramos de
árvores indica o seu uso em procissões e
danças festivas. As barracas, das quais a
festa recebeu seu nome, eram simples
abrigos, feitos de ramos de árvores arran­
cados e usados para construir estruturas
toscas ao ar livre durante os dias quentes
do fim do verão (v. 42). Essa barraca,
portanto, não era realmente uma tenda,
mas, sim, uma cabana muitoprovisória e
rude. Averdadeira origem desse costume
pertencia às celebrações da viticultura
cananéia. Noversículo43, ela é ligada de
maneira mais característica à história de
Israel, e assim se lhe dá um significado
distintivo.10 Servia como um memorial
doperíodo quando Israel tinha vagueado
pelo deserto, antes de sua entrada na
TerraPrometida. Assim, as barracas for­
mamum elocom operíodo quando Israel
tinha habitado em tendas, apesar de, na
verdade, não se derivar, historicamente,
desse período. No hebraico, as palavras
para barraca etenda sãobem distintas.
Os versículos 37 e 38 apresentam uma
exortação geral feita a Israel no sentido
de guardarem osfestivais instituídos. Em
alguma época, estes versículos certamen­
te formavam uma conclusão geral do ca­
lendário festivo, que foi subseqüente­
mente aumentado, pelo acréscimo dos
versículos 39-43, que suplementam as
instruções para a Festa das Barracas.
Por todo o calendário festivo, há dois
pontos de especial interesse religioso.
O primeiro é a maneira como costumes e
ritos bem conhecidos que seguramente
não se originaram de Israel, mas foram
adaptados das práticas mais antigas dos
habitantes da terra de Canaã, foram
totalmente assimilados aoespírito e cará­
terisraelitas. Tal fato comprova as carac­
terísticasbem distintivas no conhecimen­
to israelita de Deus. Assim, a observân­
cia das festas servia como uma forma de
ensino e instrução religiosos, relembran­
do, a cada participante, do caráter e
natureza de Deus.
Podemosvera grande importância que
Israel dava à regularidade da observân­
cia de seu culto público. Pelo fato de o
ano israelita todo ser santo, e de todo o
tempo de Israel ser consagrado a Deus,
tornava-se tanto mais importante dar ex­
pressão a isso por separar dias e esta­
ções santosespeciais. Essa separação não
queria dizer que outros dias tivessem
menos importância para Deus, mas, sim,
que era uma maneira de dar uma parte
do ano a Deus de um modo especial,
10 Cf. J. C. Rylaarsdam, “Booths, Feast of”, IDB,
Vol. A-D. (NashvilleAbindgon, 1962), p. 455e ss.
84
a fim de mostrar que, na realidade, o ano
todolhepertencia.
8. OCultoRegularnoSantuário
(24:1-9)
1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Ordena
aõs filhos de Israel que te tragam, para o
candeeiro, azeite de oliveira, puro, batido, a
fim de manter uma lâmpada acesa conti­
nuamente. 3 Arão a conservará em ordem
perante o Senhor, continuamente, desde a
tarde até a manhã, fora do véu do testemu­
nho, na tenda da revelação; será estatuto
perpétuo pelas vossas gerações. 4 Sobre o
candelabro de ouro puro conservará em or­
dem as lâmpadas perante o Senhor conti­
nuamente. 5 Também tomarás flor de fari­
nha, e dela cozerás dozepães; cada pão será
de dois décimos de efa. 6 E pô-los-ás perante
o Senhor, em duas fileiras, seis em cada
fileira, sobre a mesa de ouro puro. 7 Sobre
cada fileira porás incenso puro, para que
seja sobre os pães como memorial, isto é,
comooferta queimadaao Senhor; 8em cada
dia de sábado, isso se porá em ordem pe­
rante o Senhor continuamente; é, a favor
dos filhos de Israel, um pacto perpétuo.
9Pertencerão ospães a Arão e a seus filhos,
que os comerão em lugar santo, por serem
coisa santíssimapara eles, das ofertas quei­
madasao Senhor, por estatuto perpétuo.
Trata-se, aqui, de dois assuntos secun­
dários, concernentes à manutenção do
santuário. Cada um deles, de uma ma­
neira peculiar, denotava a presença per­
manente de Deus com seu povo, assim
excluindo qualquer noção falsa de que
estaria com ele pelo tempo de duração
dos festivais. Conquanto os eventos prin­
cipais do culto de Israel tivessem lugar
em estações festivas fixas, havia tam­
bém uma tradição de culto, oficiado pe­
lossacerdotes, contínuae ininterrupta.
Esse culto era simbolizado por duas
particularidades da mobília do santuá­
rio. A primeira delas era a lâmpada, que
semantinha continuamente acesa peran­
te Deus (v. 2-4). Servia ela como lem­
brete da presença contínua de Deus com
Israel, para quem ele era uma luz (cf.
Núm. 6:25), e do fato de a luz ter sido a
primeira de suas obras de criação (Gên.
1:3). A primeira das dádivas de Deus
significava, por conseguinte, que toda a
vidaetoda a criação derivaram dele.
A segunda particularidade da vida
permanente do santuário era a colocação
de doze pães recém-assados sobre uma
mesa perante Deus (v. 5-9). Em outro
lugar, esses pães se chamam de pães da
proposição ou pães da Presença (Êx.
25:30; I Sam. 21:6). A origem do costu­
me de colocar tais pães no santuário era,
seguramente, pré-israelita, e remonta ao
tempo quando se pensava que o próprio
Deus carecia de semelhante alimentação.
Tal idéia era firmemente rejeitada em
Israel, cujo conceito espiritual de Deus
não podia tolerá-la, e era explicitamente
determinado que esses pães haviam de
sercomidos pelos sacerdotes(v. 9). A sua
exposição no santuário era um marco da
aliançaperpétua que ligava Israel a Deus
(v. 8). Era, especialmente, um símbolo
do dom divino da alimentação a Israel.
9. A Validade da Lei de Israel Para
Estrangeiros(24:10-23)
10 Naquele tempo apareceu no meio dos
filhos de Israel o filho duma mulher israeli­
ta, oqualera filhode um egípcio; e ofilho da
israelita e um homem israelita pelejaram
no arraial; 11 e o filho da mulher israelita
blasfemou o Nome, e praguejou; pelo que o
trouxeram a Moisés. Ora, o nome de sua
mãe era Selomite, filha de Dibri, da tribo de
Dã. 12 Puseram-no, pois, em detenção, até
que se lhes fizesse declaração pela boca do
Senhor. 13 Então disse o Senhor a Moisés:
14 Tira para fora do arraial o que tem
blasfemado; todos os que o ouviram porão
as mãos sobre a cabeça dele, e toda a con­
gregação o apedrejará. 15E dirás aos filhos
de Israel: Todo homem que amaldiçoar o
seu Deus, levará sobre si o seu pecado.
16 E aquele que blasfemar o nome do Se­
nhor, certamente será morto; toda a con­
gregação certamente o apedrejará. Tanto o
estrangeiro como onatural, queblasfemar o
nome do Senhor, será morto. 17Quem matar
a alguém, certamente será morto; 18 e
quem matar um animal, fará restituição por
ele, vida por vida. 19 Se alguém desfigurar
oseu próximo, como ele fez, assim lhe será
feito: 20 quebradura por quebradura, olho
por olho, dente por dente; como ele tiver
85
desfigurado algum homem, assim lhe será
feito. 21Quem, pois, matar um animal, fará
restituição por ele; mas quem matar ho­
mem, será morto. 22Uma mesma lei tereis,
tanto para o estrangeiro como para o natu­
ral; pois eu sou o Senhorvosso Deus. 23 En­
tão falou Moisés aos filhos de Israel. Depois
eles levaram para fora do arraial aquele
que tinha blasfemado e o apedrejaram. Fi­
zeram, pois, os filhos de Israel como o Se­
nhor ordenara a Moisés.
Aqui temos uma narrativa descritiva
de uma determinada situação histórica,
na qual se acha entretecida, nos versí­
culos 15-22, uma série de pronunciamen­
tos legais. Quanto à forma, é, portanto,
muito semelhante a Números 15:32-36.
Sua finalidade primária é afirmar que as
leis de Israel, que já foram expostas em
Êxodo e Levítico, são também válidas
para aspessoas que moram em Israel que
são de naturalidade estrangeira ou meio-
estrangeira. A alegação de descendência
estrangeira não deverá ser permitida,
absolutamente, como uma desculpa pela
não observância das leis de Israel. O caso
da blasfêmia, que era um crime capital
em Israel (v. 16), talvez seja destacado
por causa de sua natureza cultual.
Um filho de um pai egípcio não podia
tomar-se um membro praticante da con­
gregação de Israel (Deut. 23:7,8), de
maneira que seprecisava de uma decisão
para determinar se a lei israelita se apli­
cava a essa pessoa ou não. A resposta é
afirmativa, o que leva, então, à citação
de uma série de leis (v. 15-22). O mo­
tivo principal de sua citação é que con­
tém o regulamento que exige a pena de
morte pela blasfêmia. As outras leis têm
conteúdovariado. Um resumo, que serve
de conclusão, afirma o princípio básico
de que os estranhos (estrangeiros resi­
dentes) em Israelhão de viver em confor­
midade com asleis de Israel.
10. O Ano Sabático e o Ano do Jubileu
(25:1-26:2)
Esta coleção de regulamentos concer­
ne ao direito de posse de propriedade
particular em Israel, e especialmente de
posse de terra, que se constituía a forma
básica de riqueza. O propósito geral é o
de fixar certos limites ao direito de posse
de propriedade particular, pelo motivo
de que, fundamentalmente, toda pro­
priedade, especialmente na forma de ter­
ras e pessoas (v. 23,42,55), pertence a
Deus. Os homens podem apenas gozar
deum privilégio limitado de usufruto em
benefício próprio daquilo que, na reali­
dade, pertence a Deus. Eles não podem
possuir nem terra nem pessoas perma­
nentemente, pois tal direito pertence so­
mente aDeus.
As duas seçõesprincipais versam sobre
a lei do ano sabático (v. 1-7) e sobre as
leis relacionadas com o ano do jubileu
(v. 8-24). A essas têm sido acrescentadas
(v. 25 e ss.) várias leis concernentes aos
direitos de remissão de escravos e de
propriedades. Estas leis têm uma relação
apenas distante e geral com a instituição
do ano do jubileu. De uma maneira
geral, proporciona um quadro excepcio­
nalmente valioso e esclarecedor da ma­
neira como a fé do povo de Israel em
Deus e a sua confissão e sua soberania
sobre a vida afetavam uma das mais bá­
sicas das instituições humanas: o direito
à posseparticular de propriedade.
1 Disse mais o Senhor a Moisés no monte
Sinai: 2Fala aos filhos de Israel e dize-lhes:
Quando tiverdes entrado na terra que eu vos
dou, a terra guardará um sábado ao Senhor.
3Seisanos semearás a tua terra, e seis anos
podarás a tua vinha, e colherás os seus
frutos; 4 mas no sétimo ano haverá sábado
de descanso solene para a terra, um sábado
ao Senhor; não semearás o teu campo, nem
podarás a tua vinha 5 O que nascer de si
mesmo da tua sega não segarás, e as uvas
da tua vide não tratada não vindimarás;
.ano de descanso solene será para à terra,
6Masosfrutos do sábado da terra vos serão
poralimento, a ti, e ao teu servo, e à tua ser­
va, e ao teu jornaleiro, e ao estrangeiro que
peregrina contigo, 7e ao teu gado, e aos ani­
mais que estão na tua terra; todo o seu pro­
dutoserá por mantimento.
86
A lei do ano sabático (v. 1-7) começa
com o reconhecimento da santidade es­
pecial de cada sétimo ano, que remonta
aos dias maisprecoces da povoaçãoisrae­
lita deCanaã e a que se faz referência no
Livro da Aliança (Êx. 23:10,11). Nesse
regulamento primitivo, os campos culti­
vados haviam de ser deixados em des­
canso todo sétimo ano. O motivo dado
para assim se proceder é o de prover
alimento para os pobres de Israel. Por
detrás disso, jaz, sem dúvida, o conceito
mais antigo de que, vistoque a terra real­
mente pertence a Deus, havia de ser
deixadaincultivada no sétimo ano, como
sinal dessa propriedade divina. O sétimo
ano era para Deus, e o deixar a terra em
descanso era uma maneira de restituí-la
ao seuverdadeiroproprietário(v. 4).
Relacionado com isso, havia o desejo
prático de permitir que o que crescia no
sétimo ano fosse colhido pelos pobres,
que não tinham nenhuma terra própria
deles. Por conseguinte, usufruiriam de
algum benefício da terra que Deus tinha
dado a seu povo. Isso se afirma nos ver­
sículos 6 e 7, que parecem estar numa
relação de tensão com a proibição total
(v. 5) da colheita da produção que brota­
va naturalmente durante o sétimo ano.
Provavelmente, o propósito principal do
versículo 5 é evitar que o proprietário da
terra tirassepara simesmo o que brotava
no sétimo ano. Que também havia van­
tagens agrícolas em deixar um campo
descansar uma vez em cada sete anos,
para aliviar a exaustão do solo, certa­
mente teria sido reconhecido, porém não
éexplicitamente declarado.
8 Também contarás sete sábados de anos,
metevezes sete anos; de maneira que os dias
das sete sábados de anos serão quarenta e
■oveanos. 9 Então, no décimo dia do sétimo
mês, farás soar fortemente a trombeta; no
Aa da expiação fareis soar a trombeta por
M > a vossa terra. 10 E santificareis o ano
quinquagésimo, e apregoareis liberdade na
terra a todos os seus habitantes; ano de
JaÉMleu será para vós; pois tomareis, cada
T i à sua possessão, e cada um à sua famí­
lia. 11 Esse ano quinquagésimo será para
vós jubileu; não semeareis, nem segareis o
que nele nascer de si mesmo, nem nele vin­
dimareis as uvas das vides não tratadas.
12 Porque é jubileu; santo será para vós;
diretamente docampocomereisoseu produ­
to. 13 Nesse ano do jubileu tomareis, cada
um a sua possessão. 14Sevenderdes alguma
coisa ao vosso próximo ou a comprardes da
mão dovosso próximo, não vos defraudareis
uns aos outros. 15 Conforme o número de
anosdesde ojubileu é que comprarás ao teu
próximo, e conforme o número de anos das
colheitas é que ele te venderá. 16 Quanto
mais foram os anos, tanto mais aumentarás
o preço, e quanto menos forem os anos,
tanto mais abaixarás o preço; porque é o
número das colheitas que ele te vende.
17Nenhum de vós oprimirá ao seu próximo;
mas temerás o teu Deus; porque eu sou o
Senhor vosso Deus. 18 Pelo que observareis
os meus estatutos, e guardareis os meus
preceitos e os cumprireis; assim habitareis
seguros na terra. 19 Ela dará o seu fruto, e
comereis a fartar; e nela habitareis segu­
ros. 20 Se disserdes: Que comeremos no sé­
timo ano, visto que não havemos de semear,
nem fazer a nossa colheita? 21 então eu
mandarei a minha bênção sobre vós no sex­
to ano, e a terra produzirá fruto bastante
para os três anos. 22 No oitavo ano semea­
reis, e comereis da colheita velha; até o ano
nono, até que venha a colheita nova, come­
reis da velha. 23 Também não se venderá a
terra em perpetuidade, porque a terra é
minha,; pois vós estais comigo como estran­
geiros e peregrinos. 24 Portanto em toda a
terra da vossa possessão concedereis que
seja remida a terra.
O ano dejubileu (v. 8-24) é, fora desta
passagem, apenas mencionado resumi­
damente, no AntigoTestamento, em Nú­
meros 36:4. O seu título é, por si só,
contudo, indicação de que era uma ins­
tituição muito antiga. O seu nome deri­
vou-se da proclamação do ano com um
sonido de uma trombeta de carneiro
(heb., yodel), embora no hebraico mais
recente essa já não fosse a palavra nor­
malpara trombeta(que é shofar no v. 9).
Esse ano ocorreu entre cada 49 anos,
perfazendo um sábado de sábados, e no
mesmo ano todapropriedade tinha de ser
restaurada ao seuproprietário econdição
originais. Que o ano do jubileu começou
87
no Dia de Expiação, no sétimo mês, é
indício claro de que este foi originalmen­
teum dia da estação do ano-novo, o qual
só veio a ser classificado como do sétimo
mês no sistema posterior (babilónico) de
secalcular o ano-novo a partir da prima­
vera.
O propósito de restaurar toda proprie­
dade ao seu proprietário original depois
de 49 anos é, mais uma vez, como o ano
sabático, uma confissão prática de que a
terra pertence, na realidade, a Deus
(v. 23) e que os israelitas estavam nela
apenas como “hóspedes passageiros”,
com a permissão de aproveitarem dela
pela graça de Deus. Esta lei da restau­
ração, assim, significava que toda venda
de imóveis era por um número limitado
de anos e que seu valor tinha de ser cal­
culado em conformidade com o período
de tempo que ainda faltasse para o ano
dojubileu(v. 14-17).
Tem-se criticado esta lei muitas vezes,
sob a alegação de seu caráter utópico e
irrealista, de maneira que muitos erudi­
tos têm duvidado de sua real efetivação.
Devemos recordar que, durante a sua
história como Estado, Israel estava ape­
nas gradativamente se ajustando às con­
dições da terra colonizada, na qual se
mantinha propriedade privada. Ante­
riormente, toda a terra tinha pertencido,
de forma comunitária, ao clã ou tribo e
tinha sido dividida entre as famílias indi­
viduais por cordel (cf. Sal. 16:6; Miq.
2:5). O surgimento dos grandes latifún­
diosdesenvolveu-se a partir da urbaniza­
ção de Israel, e levou a muitos abusos
(cf. Is. 5:8). Dessa forma, a lei procura
aliviar alguns dos perigos inerentes no
direito à propriedade privada da terra
por relembrar o princípio básico de que
toda a terra era dádiva deDeus.
Quão eficazmente a observância de
semelhante lei do ano do jubileu era
efetivada é agora impossível saber, se
bem que foi com quase toda a certeza
redigida durante o período do exílio,
quando Israel não exercia diretamente
nenhum poder político para assegurar
que sefizessevigorar tallei.
25Seteu irmão empobrecer e vender uma
parte da sua possessão, virá o seu parente
mais chegado e remirá o que seu irmão
vendeu. 26 E se alguém não tiver remidor,
mas ele mesmo tiver enriquecido e achado o
que basta para o seu resgate, 27 contará os
anos desde a sua venda, e o que ficar do
preço da vendarestituirá ao homem a quem
a vendeu, etomará à sua possessão. 28Mas,
se as suas posses não bastarem para reavê-
la, aquilo que tivervendido ficará na mão do
comprador até o ano do jubileu; porém no
ano dojubileu sairá da posse deste, e aquele
que vendeu tomará à sua possessão. 29 Se
alguém vender uma casa de moradia em
cidade murada, poderá remi-la dentro de
um ano inteiro depoisda sua venda; durante
um ano inteiro terá o direito de a remir.
30Masse, passado um ano inteiro, não tiver
sidoresgatada, esta casa que está na cidade
murada ficará, em perpetuidade, perten­
cendo ao que a comprou, e à sua descendên­
cia; não sairá do seu poder no jubileu. 31To­
daviaas casasdaaldeiaquenãotêm muro ao
redor serão consideradas como o campo da
terra; poderão ser remidas, e sairão do
poderdocomprador no jubileu. 32Também,
no tocante às cidades dos levitas, às casas
da cidade da sua possessão, terão eles direi­
to perpétuo de remi-las. 33 E se alguém
comprar dos levitas uma casa, a casa
comprada e a cidade da sua possessão sai­
rão do poder do comprador no jubileu; por­
que as casas das cidades dos levitas são a
sua possessão no meio dos filhos de Israel.
34 Mas o campo do arrabalde das suas
cidades não se poderá vender, porque lhes é
possessão perpétua.
Os versículos 25-34 introduzem leis
para a remissão de terras, que ulterior­
mente regulavam o direito à posse de
propriedades em Israel. Se um homem
possuidor de uma propriedade se tor­
nasse tão pobre que fosse obrigado a
vendê-la, ainda assim retinha odireito de
redimi-la. Ou ele próprio ou um parente
podia redimir a propriedade, ou, de
qualquer maneira, quando chegasse o
ano dojubileu, reverteria ao seu proprie­
tário original (v. 25-28). O versículo 27
tem em conta que o valor da propriedade
diminui à medida que se aproxima do
88
ano dojubileu, e assim calcula que cada
ano uma proporção fixa do preço básico
da propriedade podia ser descontada.
De interesse especial, nos versículos
29-31, é a distinção que se faz entre
cidades e vilas muradas e as sem muros.
As propriedades nas povoações muradas
eram isentas da lei do ano do jubileu.
O único direito de remissão de proprie­
dade, numa cidade murada, era que o
vendedor podia readquiri-la por compra
dentro de um ano, presumivelmente cal­
culado da data da venda. A distinção
entre povoações muradas e sem muros
ilumina o pano de fundo histórico e cul­
tural de Israel, visto que aquelas eram de
origem cananéia, enquanto estas se deri­
vavam das colônias rurais dos israelitas,
que haviam penetrado aos poucos nas
vilasmuradas.
Nas cidades cananéias prevalecia um
sistema diferente de posse legal daquele
dos israelitas. Mesmo depois da unifica­
ção da terra toda sob o controle político
de Israel, as leis de propriedade caracte­
rísticas das antigas cidades cananéias
eram retidas. Uma exceção a essa regra
se fez para as cidades dos levitas (v. 32,
34), que lhes foram distribuídas por
mandamento divino (Jos. 21:1-42) como
sua possessão, porque não possuíam ne­
nhuma outra terra em Israel. Visto que o
seu direito a estas cidades era um privi­
légioespecial, deu-se-lhes um direito pri­
vilegiado de remissão.
35 Também, se teu irmão empobrecer ao
teu lado, e lhe enfraquecerem as mãos, sus-
tentá-lo-ás; como estrangeiro e peregrino
viverá contigo. 36 Não tomarás dele juros
nem ganho, mas temerás o teu Deus, para
qae teuirmão viva contigo. 37Não lhe darás
teu dinheiro a juros, nem os teus víveres por
lucro. 38 Eu sou o Senhor vosso Deus, que
vos tirei da terra do Egito, para vos dar a
terra de Canaã, para ser o vosso Deus.
39 Também, se teu irmão empobrecer ao teu
ladoe vender-se a ti, não ofarás servir como
escravo. 40 Como jornaleiro, como peregri-
■oestará ele contigo; até o ano do jubileu te
Mrvirá; 41então sairá do teu serviço, e com
d r seus filhos, e tornará à sua família, à
possessão de seus pais. 42 Porque são meus
servos, que tirei da terra do Egito; não
serão vendidos como escravos. 43 Não do­
minarás sobre ele com rigor, mas temerás o
teu Deus. 44 E quanto aos escravos ou às
escravas que chegares a possuir, das na­
ções que estiverem ao redor de vós, delas é
que os comprareis. 45 Também os compra­
reis dentre os filhos dos estrangeiros que
peregrinarem entre vós, tanto dentre esses
como dentre as suas famílias que estiverem
convosco, que tiverem eles gerado na vossa
terra; e vos serão por possessão. 46E deixá-
los-eis por herança aos vossos filhos depois
de vós, para os herdarem como possessão;
desses tomareis os vossos escravos para
sempre; mas sobre vossos irmãos, os filhos
de Israel, não dominareis com rigor, uns
sobre osoutros.
A questão da remissão de proprieda­
des também leva ao assunto da posse de
pessoas como escravas, e, nos versículos
35-55, existe um número de leis concer­
nentes à escravatura. Por motivo de dí­
vida, uma pessoa podia ser obrigada a
vender seus filhos e até a sua própria
pessoa em escravatura. A possibilidade
deisraelitas setornarem escravos é ativa­
mente desestimulada (v. 35-38), por or­
denar-se que, seseendividarem, há de se
lhes emprestar dinheiro sem cobrar ju­
ros.
A base disso é que todo o Israel foi
escravo no Egito, até que Deus o redi­
miu. Se, porém, a escravatura se tor­
nasse inevitável, então não se havia de
tratar um israelita como um verdadeiro
escravo, mas, sim, tinha-se de dar-lhe as
condições de empregado ou de trabalha­
dor estrangeiro (v. 39-43). No ano do
jubileu, devia ser libertado, junto com
seus filhos, de maneira que não se conce­
dia nenhum direitoúltimo de posse sobre
outra pessoa israelita.
Porém não se dava esse privilégio aos
estrangeiros e escravos comprados de
países estrangeiros ou estrangeiros resi­
dentes em Israel; podiam tomar-se es­
cravos permanentemente (v. 44-46).
47 Se um estrangeiro ou peregrino que
estiver contigo se tornar rico, e teu irmão,
89
que está com ele, empobrecer e vender-se
ao estrangeiro ou peregrino que está conti­
go, ouà linhagem da família do estrangeiro,
48 depois que se houver vendido, poderá ser
remido; um de seus irmãos o poderá remir;
49 ou seu tio, ou o filho de seu tio, ou qual­
quer parente chegado da sua família poderá
remi-lo; ou, se ele se tiver tomado rico,
poderá remir-se a simesmo. 50E com aque­
le que o comprou fará a conta desde o ano
em quesevendeua ele até oano dojubileu; e
opreço da sua venda será conforme o núme­
rodosanos;conformeosdiasdeum jornalei­
ro estará com ele. 51 Se ainda faltarem mui­
tosanos, conforme os mesmos restituirá, do
dinheiro pelo qual foi comprado, o preço da
sua redenção; 52 e se faltarem poucos anos
até o ano do jubileu, fará a conta com ele;
segundo onúmero dos anos restituirá o pre­
ço da sua redenção. 53 Como servo contra­
tado de ano em ano, estará com o compra­
dor; o qual não dominará sobre ele com
rigor diante dos teus olhos. 54 E, se não for
remido por nenhum desses meios, sairá li­
vre no ano do jubileu, e com ele seus filhos.
55 Porque os filhos de Israel são meus ser­
vos; eles são os meus servos que tirei da
terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus.
O último regulamento diz respeito a
um israelita que se vende como escravo a
um estrangeiro residente em Israel. De­
via ser redimido, se possível, por um
parente, ou tinha de comprar sua própria
liberdade por pagar opreço da redenção,
calculado em conformidade com o nú­
mero de anos até o ano do jubileu. Se
nenhum desses métodos de retorno à
plena liberdade fosse possível, então ha­
via de ser libertado no ano do jubileu.
Assim, se faz uma distinção bem clara e
nítida entre osescravos que eram compa­
triotasisraelitase os que não eram.
Transparece, por todas as leis da es­
cravatura, o reconhecimento franco da
natureza terrível desta instituição, e a
sua severidade é suavizada de diversas
maneiras. Se fosse de qualquer maneira
possível, havia-se de evitar a redução de
um compatriota israelita à escravatura.
Quando ela ainda se efetivasse, a sua
severidade havia de ser diminuída. A es­
cravatura permanente de compatriotas
israelitas era proibida pela libertação no
ano do jubileu. Esse controle e suaviza-
ção da escravatura são desvirtuados, em
certa medida, pela recusa de se conceder
privilégios semelhantes a escravos estran­
geiros, porém, indubitavelmente, repre­
senta um código substancioso de direitos
humanos dentro do contexto do mundo
antigo. Reafirma-se duas vezes que todo
israelitaéescravo deDeus (v. 42-55), por
isso dando-se um valor mais elevado à
personalidade humana, por impedir
qualquer exploração irrestrita de outros
cidadãos. Comoem toda doutrina do ho­
mem, éovalorcolocadono indivíduo por
Deus que lhe dá a sua verdadeira digni­
dade no mundo.
1 Nãofareispara vósídolos, nem para vós
levantareis imagem esculpida, nem coluna,
nem poreis na vossa terra pedra com figu­
ras, para vos inclinardes a ela; porque eu
sou o Senhor vosso Deus. 2 Guardareis os
meus sábados, e reverenciareis o meu san­
tuário. Eu souoSenhor.
Segue, então, em 26:1,2, uma breve
seção, que ficaisolada do que a precedeu
e do que reinicia, em seguida, as seções
principais do Código da Santidade. Esta
seção contém uma reafirmação de certas
leis israelitas distintivas: a rejeição da
idolatria, a observância do sábado, o
devido respeito para com a santidade
e a unidade do santuário de Deus. Estas
leis isoladas perfazem um catecismo
simples dos essenciais básicos ao culto
israelita. Por fugir de todos os altares
falsos aderir aos tempos e lugar próprios
para o culto a Deus, o cidadão israelita
ficaria sob a esfera da instrução sacerdo­
tal e dabênção divina.
11. Recompensase Castigos(26:3-46)
O Código da Santidade é conveniente­
mente arrematado através de um apelo
final, que expõe as recompensas que hão
de seguir à obediência israelita às leis de
Deus e os castigos que virão, se Israel
desobedecer. Apresenta-nos de uma ma­
neira deveras impressionante o fato de
90
que a lei de Israel contém uma maldição
sobre aqueles que lhe são desobedientes
(cf. Gál. 3:10). Visto que a lei é, em si,
umaparte da bênção que Deus concedeu
a Israel, a seção que elabora as recom­
pensas da obediência (v. 3-13) é mais
breve que a lista de castigos (v. 14-39).
Ê a ameaça da maldição da lei que Israel
tem de tomar extremo cuidado para evi­
tar. O capítulo tem muitos pontos de
contato com o apelo semelhante de Deu-
teronômio 8.
É muito provável que, durante os fes­
tivais religiosos de Israel, especialmente
durante os grandes festivais do outono,
as leis da aliança fossem proclamadas
publicamente por ocasião de um ato de
culto(cf. Deut. 31:9-13). Teria sidoapro­
priado, em tal ocasião, concluir-se a lei­
tura comumaexortação e uma advertên­
cia, indicando as recompensas da obe­
diência e os castigos da desobediência.
Comquase toda a certeza, podemos afir­
mar que essa prática influencia a coloca­
ção desta seção no fim do Código da
Santidade. Outrossim, até mesmo trata­
dos políticos seculares contêm, muitas
vezes, uma seção final de promessas de
bênçãopela fidelidade aos termos do tra­
tado, e ameaças de castigos para quem o
infringir, de maneira que isso também
pode ter influenciado Israel.
O Código da Santidade é uma tabela
de leis para as pessoas que estavam rela­
cionadas com Deus por tratado ou alian­
ça. Assim, existia em Israel um quadro
tradicional de bênçãos e de maldições,
que continha uma lista mais ou menos
padronizada deeventosbons emaus, que
poderiam sobrevir à nação. É a este ca­
bedal tradicional de material que se tem
recorrido aqui. É impossível, portanto,
tentar datar o capítulo pela busca da
identificação de quando os determinados
eventos tenham acontecido. Represen­
tam um estoque comum de imagens
mentais que era conhecido não só a
Israel, mas também a todo oOriente Mé­
dio antigo. Somente nosversículos 40-45,
onde sepressupõe a situação da queda de
Judá e de Jerusalém e do exílio babi­
lónico, é-nos dado algum indício quanto
a data. Aqui, porém, é altamente pro­
vável que estes versículos tenham sido
acrescentados, posteriormente, a uma
lista anterior de maldições, a fim de pro­
porcionar base para a esperança, uma
vez que se achava que as maldições ti­
vessemsidorealizadas.
3 Se andardes nos meus estatutos, e guar­
dardes osmeus mandamentos e os cumprir­
des, 4 eu vos darei as vossas chuvas a seu
tempo, e a terra dará o seu produto, e as
árvores do campo darão os seus frutos;
5 a debulha vos continuará até a vindima,
e a vindima até a semeadura; comereis o
vosso pão a fartar, e habitareis seguros na
vossa terra. 6 Também darei paz na terra,
evos deitareis, eninguém vos amedrontará.
Farei desaparecer da terra os animais noci­
vos, e pela vossa terra não passará espada.
7 Perseguireis os vossos inimigos, e eles
cairão à espada diante de vós. 8Cinco de vós
perseguirão a um cento deles, e cem de vós
perseguirão a dez mil; e os vossos inimigos
cairão à espada diante de vós. 9 Outrossim,
olhareipara vós, e vos farei frutificar, e vos
multiplicarei, e confirmarei o meu pacto
convosco. 10 E comereis da colheita velha
por longo tempo guardada, até afinal a re­
moverdes para dar lugar à nova. 11 Tam­
bém porei o meu tabernáculo no meio de
vós, e a minha alma não vos abominará.
12 Andarei no meio de vós, e serei o vosso
Deus, e vós sereis o meu povo. 13 Eu sou o
Senhor vosso Deus, que vostireida terra dos
egípcios, para que não fósseis seus escra­
vos; e quebrei os canzis do vosso jugo, e vos
fizandar erguidos.
A relação de recompensas (v. 3-13)
concentra-se em dois aspectos principais
da vida: a fertilidade dos campos e a
abundância da colheita deles (v. 4,5-10)
e o livramento da guerra (v. 6-8). Signi­
ficativamente, não se vê a finalidade da
vitória militar em termos do engrande­
cimento nacional e da edificação de um
império, mas, sim, na manutenção da
paz e segurança nacionais (v. 6). Que a
paz constituía a verdadeira vitória, se
afirma claramente. As bênçãos máximas
da vida são que a presença de Deus per­
91
maneça com seu povo (v. 11) e que as
promessas da aliança com Abraão sejam
cumpridas (cf. v. 12comGên. 17:7).
14 Mas, se não me ouvirdes, e não cum­
prirdes todos estes mandamentos, 15 e se
rejeitardes os meus estatutos, e a vossa
alma desprezar os meus preceitos, de modo
que não cumprais todos os meus manda­
mentos, mas violeis o meu pacto. 16 então
eu, com efeito, vos fareiisto: porei sobre vós
o terror, a tísica e a febre ardente, que
consumirão os olhos e farão definhara vida;
em vão semeareis a vossa semente, pois os
vossos inimigos a comerão. 17 Porei o meu
rosto contra vós, e sereis feridos diante de
vossos inimigos; os que vos odiarem do­
minarão sobre vós, e fugireis sem que nin­
guém vos persiga. 18Se nem ainda com isto
me ouvirdes, prosseguirei em castigar-vos
sete vezes mais, por causa dos vossos pe­
cados. 19Pois quebrarei a soberba do vosso
poder, e vos farei o céu como ferro e a terra
comobronze. 20 Em vão se gastará a vossa
força, porquanto a vossa terra não dará o
seu produto, nem as árvores da terra darão
os seus frutos. 21 Ora, se andardes contra­
riamente para comigo, e não me quiserdes
ouvir, trarei sobre vós pragas sete vezes
mais, conforme osvossospecados. 22Envia­
rei para o meio de vós as feras do campo,
asquaisvosdesfilharão, edestruirão ovosso
gado, e vos reduzirão a pequeno número;
e os vossos caminhos se tornarão desertos.
23 Se nem ainda com isto quiserdes voltar a
mim, mas continuardes a andar contraria­
mente para comigo. 24 eu também andarei
contrariamente para convosco; e eu, eu
mesmo, vos ferirei sete vezes mais, por
causa dos vossos pecados. 25 Trarei sobre
vós a espada, que executará a vingança do
pacto, e vos aglomerareis nas vossas cida­
des; então enviarei a peste entre vós, e se­
reis entregues na mão do inimigo. 26 Quan­
do eu vos quebrar o sustento do pão, dez
mulheres cozerão o vosso pão num só forno,
e de novovo-loentregarão porpeso; e come­
reis, mas não vos ifartareis. 27 Se nem ainda
com isto me ouvirdes, mas continuardes a
andar contrariamente para comigo, 28 tam­
bém eu andarei contrariamente para con­
vosco com furor; e vos castigarei sete vezes
mais, por causa dosvossospecados. 29E co­
mereis a carne de vossos filhos e a carne de
vossas filhas. 30 Destruirei os vossos altos,
derrubarei as vossas imagens do sol, e lan­
çarei osvossos cadáveres sobre osdestroços
dos vossos ídolos; e a minha alma vos abo­
minará. 31 Reduzirei as vossas cidades a
deserto, e assolarei os vossos santuários, e
não cheirarei ovosso cheiro suave. 32 Asso­
larei a terra, e sobre ela pasmarão os vossos
inimigos que nela habitam. 33Espalhar-vos-
ei por entre as nações e, desembainhando a
espada, vos perseguirei; a vossa terra será
assolada, e as vossas cidades se tornarão
em deserto. 34 Então a terra folgará nos
seus sábados, todos os dias da sua assola­
ção, e vós estareis na terra dos vossos ini­
migos; nesse tempo a terra descansará, e
folgará nos seus sábados. 35 Por todos os
dias da assolação descansará, pelos dias
que não descansou nos vossos sábados,
quando nela habitáveis. 36E, quanto aos que
de vós ficarem, eu lhes meterei pavor no
coração nas terras dos seus inimigos; e o
ruído de uma folhaagitada osporá em fuga;
fugirão comoquem foge da espada, e cairão
sem que ninguém os persiga; 37 sim, embo­
ra não haja quem ospersiga, tropeçarão uns
sobre os outros como diante da espada; e
não podereis resistir aos vossos inimigos.
38 Assim, perecereis entre as nações, e a
terra dos vossos inimigos vos devorará;
39 e os que de vós ficarem definharão pela
sua iniqüidade nas terras dos vossos inimi­
gos, como também pela iniqüidade de seus
pais.
A série de castigos que segue à deso­
bediência (v. 14-39) pinta em cores vivas
as ameaças de doenças (v. 16-25), colhei­
tas improdutivas (v. 20), derrota militar
(v. 16,17,25,26), a fome (v. 26,29), e o
desterro (v. 33), que sobreviriam a uma
nação. Em sentido algum representam,
essesmales, uma falha da parte de Deus,
na defesa de seu povo; antes, seriam um
juízo empreendido por ele. Esta é, preci­
samente, a interpretação da História,
que é básica aos grandes profetas de
Israel.
40 Então confessarãoa sua iniqüidade, e a
iniqüidade de seus pais, com as suas trans­
gressões, com que transgrediram contra
mim; igualmente confessarão que, por te­
rem andado contrariamente para comigo,
41 eu também andei contrariamente para
com eles, e os trouxe para a terra de seus
inimigos. Se então o seu coração incircun-
ciso se humilhar, e tomarem por bem o cas­
tigo da sua iniqüidade, 42 eu me lembrarei
do meu pacto com Jacó, do meu pacto com
Isaque, e do meu pacto com Abraão; e bem
assim da terra me lembrarei. 43 A terra
também será deixada por eles e folgará nos
92
seus sábados, sendo assolada por causa de­
les; e elestomarão por bem o castigo da sua
iniqüidade, em razão mesmo de que rejei­
taram os meus preceitos e a sua alma des­
prezou os meus estatutos. 44Todavia, ainda
assim, quando eles estiverem na terra dos
seus inimigos, não os rejeitarei nem qs abo­
minarei a ponto de consumi-los totalmente e
quebrar o meu pacto com eles; porque eu
sou o Senhor seu Deus. 45 Antes, por amor
deles me lembrarei do pacto com os seus
antepassados, que tirei da terra do Egito
perante os olhos das nações, para ser o seu
Deus. Eu sou o Senhor. 46 São esses os
estatutos, os preceitos e as leis que o Senhor
firmou entre si e os filhos de Israel, no mon­
te Sinai, porintermédio de Moisés.
Os versículos 40-46 levantam a ques­
tão do que possa acontecer a Israel de­
pois de os castigos ameaçados tiverem
sido infligidos. Se se datar estes versícu­
los na época do exílio babilónico, então
pode-se ver que o seu propósito era o de
proporcionar uma base de esperança pa­
ra o futuro de Israel. Deus não rejeitaria
totalmente o seu povo, visto que tinha
feito com ele uma aliança eterna através
deAbraão, Isaque e Jacó (v. 42; cf. Gên.
17:7,8). Quando o povo fosse levado
para o exílio, Deus se lembraria dele e
não o rejeitaria totalmente (v. 44,45).
Ê notável, contudo, que não há, aqui,
qualquer promessa de um retorno dos
exilados à sua própria terra, tal como
predito pelo profeta Ezequiel e Deutero-
Isaías. A terra devia ser deixada, para
gozar deseussábados (v. 34,35,43), visto
que o povo tinha sido culpado de negli­
genciar a observância dos anos sabáticos
de descanso que a leiexigia.
Esta seção arremata o Código da San­
tidade e proporciona uma conclusão
apropriada ao conteúdo principal de Le-
vítico. O que temos no capítulo 27 é à
guisa de um breve apêndice sobre as
ofertasvotivas sagradas.
VI. Leis Concernentes aos Jura­
mentose OfertasVotivas
(27:1-34)
Neste suplemento estabelecem-se di­
versas regras concernentes à promessa e
à entrega de ofertas a Deus, que se
tomam, então, propriedade dos sacerdo­
tes do santuário. Em certos casos, um
homem que tinha feito semelhante pro­
messa talvez quisesse voltar atrás, ou
talvez achasse necessário assim fazer por
motivos pessoais ou porque a oferta pro­
metida era inaceitável. Estas leis estipu­
lam as condições sob as quais tal oferta
podia ser revogada. É significativo que,
em muitos casos, não é a própria oferta
que se entregava ao sacerdote, mas, sim,
um equivalente pecuniário, mostrando
que esse suplemento surgiu numa época
quando ouso do dinheiro estava toman-
do-sebem difundido em Israel.
1 Disse mais oSenhora Moisés: 2Fala aos
filhos de Israel, e dize-lhes: Quando alguém
fizer ao Senhor um voto especial que envol­
ve pessoas, o voto será cumprido segundo a
tua avaliação das pessoas. 3 Se ftor de um
homem, desde a idade de vinte até sessenta
anos, a tua avaliação será de cinqüenta
siclos deprata, segundo osiclo do santuário.
4 Se for mulher, a tua avaliação será de
trinta siclos. 5Sefor de cinco anos até vinte,
a tua avaliação do homem será de vinte si­
clos, e da mulher dez siclos. 6 Se for de um
mês até cinco anos, a tua avaliação do ho­
mem será de cinco siclos de prata, e da
mulher três siclos de prata. 7 Se for de
sessenta anos para cima, a tua avaliação do
homem será de quinze siclos, e da mulher
dezsiclos. 8Mas, se for mais pobre do que a
tua avaliação, será apresentado perante o
sacerdote, que o avaliará conforme as pos­
ses daquele que tiverfeitoovoto.
Os versículos 1-8 relacionam as ofer­
tas a seremfeitas por pessoas que tinham
sido votadas a Deus, ou por elas mesmas
ou pela sua família, e que, por conse­
guinte, teriam auxiliado no cuidado do
santuário e de seu culto. Tais pessoas
seriam liberadas desses votos por um
pagamento em dinheiro, que é calculado
como sendo o dobro, para um homem,
do que para uma mulher. Se a pessoa
fosse pobre demais para pagar o preço
estipulado, permitia-se ao sacerdote fixar
uma avaliação inferior, a seu critério
(v. 8).
93
9 Se for animal dos que se oferecem em
oferta ao Senhor, tudo quanto der dele ao
Senhor será santo. 10Não o mudará, nem o
trocará, bom por mau, ou mau por bom;
mas se de qualquer maneira trocar animal
por animal, tanto um como o outro será
santo. 11 Se for algum animal imundo, dos
que não se oferecem em oferta ao Senhor,
apresentará o animal diante do sacerdote;
13e osacerdote o avaliará, seja bom ou seja
mau; segundo tu, sacerdote, o avaliares,
assim será. 13Mas, se ohomem, com efeito,
quiser reml-lo, acrescentará a quinta parte
sobre a tua avaliação.
Os casos de animais votados a Deus,
relacionados nos versículos 9-13, certa­
mente eram os mais freqüentes em oca­
siões de tais ofertas. Muitas vezes, em
ocasiões de tensão ou de doença, um
homem fazia um voto para trazer um
animal a Deus em sacrifício (cf. Jon.
2:9). Depois elepode ter querido modifi­
car a oferta prometida, ou talvez tenha
sido compelido a assim fazer. Se o ani­
mal fosse considerado limpo (i.e., apro­
priado para o sacrifício), não poderia ser
trocado ou redimido. Porém se permitia
que um animal que fosse inapropriado
para o sacrifício fosse substituído pelo
pagamento de dinheiro ao santuário, ou
podia ser remidopelo acréscimoao paga­
mento de um quinto de seu valor. Neste
último caso, o proprietário podia ficar
comoanimal(v. 13).
14 Quando alguém santificar a sua casa
para ser santa ao Senhor, o sacerdote a
avaliará, seja boa ou seja má; como o sa­
cerdote a avaliar, assim será. 13 Mas, se
aquele que a tiver santificado quiser remir a
sua casa, então acrescentará a quinta parte
do dinheiro sobre a tua avaliação, e terá a
casa. 16 Se alguém santificar ao Senhor
uma parte do campo da sua possessão, en­
tão a tua avaliação será segundo a sua
sementeira: um terreno que leva um hômer
de semente de cevada será avaliado em
cinqüenta siclos de prata. 17 Se ele santifi­
car o seu campo a partir do.ano do jubileu,
conforme a tua avaliação ficará. 18 Mas se
santificar seu campo depois do ano do jubi­
leu, o sacerdote lhe calculará o dinheiro
conforme os anos que restam até o ano do
jubileu, e assim será feita a tua avaliação.
19 Se aquele que tiver santificado o campo,
com efeito, quiser remi-lo, acrescentará a
quinta parte do dinheiro da tua avaliação, e
lhe ficará assegurado o campo. 20 Se não o
quiser remir, ou se houver vendido o campo
a outrem, nunca mais poderá ser remido.
21Mas o campo, quando sair livre no ano do
jubileu, será santo ao Senhor, como campo
consagrado; a possessão dele será do sacer­
dote. 22 Se alguém santificar ao Senhor um
campo que tiver comprado, o qual não for
parte docampo da sua possessão, 23o sacer­
dote lhe contará o valor da tua avaliação
até oano do jubileu; e no mesmo dia dará a
tua avaliação, como coisa santa ao Senhor.
24Noano do jubileu o campo tornará àquele
de quem tiver sido comprado, isto é, àquele
a quem pertencer a possessão do campo.
25Ora, toda tua avaliação se fará conforme
o siclo do santuário; o siclo será de vinte
jeiras.
Os versículos 14-25 tratam das ques­
tões muito mais complexas surgidas da
dedicação depropriedades a Deus. A de­
claração do versículo 14, o sacerdote a
avaliará, sejaboaou seja má, quer dizer,
provavelmente, que o sacerdote devia
fazer uma avaliação média entre as esti­
mativas mais alta e mais baixa. Mais
uma vez um quinto do valor de compra
da propriedade é acrescido como penali­
dade, se o doador desejasse redimi-la
(v. 15,19). Os versículos 16-24 pres­
supõem que ovalor da propriedade tinha
alguma relação direta com o número de
anos que ainda deviam passar antes do
ano do jubileu. Os versículos 20 e 21
mostram as dificuldades resultantes do
ato desonesto por parte do doador que
depois de dedicar a sua propriedade a
Deus a tivesse vendido a alguma pessoa
leiga. Neste caso, o doador havia de
perdertodo odireitoà redenção, e no ano
do jubileu, o campo havia de se tomar
em propriedade do santuário. Os versí­
culos 22-24 dizem respeito a alguém que
compra um campo de outrem, e eritâo
dedica-o a Deus. Nessa eventualidade,
pagar-se-á ovalor da propriedade direta­
mente aos sacerdotes, em proporção ao
número de anos ainda restantes, até o
ano dojubileu, quando a terra reverteria
94
ao seu proprietário original. A lei de re­
versão, por ocasião do jubileu, havia de
prevalecer sobre todas as outras conside­
rações.
26 Contudo o primogênito dum animal,
que por ser primogênito já pertence ao
Senhor, ninguém o santificará; seja boi ou
gadomiúdo, pertence ao Senhor. 27Mas se o
primogênito for dum animal imundo, remir-
se-á segundo a tua avaliação, e a esta se
acrescentará a quinta parte; e se não for
remido, será vendido segundo a tua avalia­
ção. 28Todavia, nenhuma coisa consagrada
ao Senhor por alguém, daquilo que possui,
seja homem, ou animal, ou campo da sua
possessão, será vendida nem será remida;
toda coisa consagrada será santíssima ao
Senhor. 29 Nenhuma pessoa que dentre os
homensfor devotada será resgatada; certa­
mente será morta. 30 Também todos os dí­
zimos da terra, quer dos cereais, quer do
fruto das árvores, pertencem ao Senhor;
santos são ao Senhor. 31 Se alguém quiser
remir uma parte dos seus dízimos, acres­
centar-lhe-á a quinta parte. 32Quanto a todo
dízimo do gado e do rebanho, de tudo o que
passar debaixo da vara, esse dízimo será
santo ao Senhor. 33 Não se examinará se é
bom ou mau, nem se trocará; mas se, com
efeito, se trocar, tanto um como o outro será
santo; não serão remidos. 34 São esses os
mandamentos que o Senhor ordenou a Moi­
sés, para os filhos de Israel, no monte Sinai.
Osversículos 26-34 completam a legis­
lação com respeito às ofertas votivas, por
relacionar as coisas e pessoas que não
podiam ser objeto de dedicação especial
a Deus, por já serem consideradas como
pertencentes a ele. Eram elas: os primo­
gênitos dos rebanhos e manadas (os pri­
mogênitos de animais imundos haviam
de ser redimidos ou vendidos pelo sacer­
dote); propriedades ou pessoas quejá es­
tavam dedicadas a Deus, porque tinham
sido tomadas numa guerra santa ou por
algum outro motivo desconhecido; e to­
dos os dízimos. Tudo isto se considerava
como já pertencente a Deus, e por isso
não podia ser usado como ofertas espe­
ciaispara ele.
Estas leis sobre o direito de remissão
de ofertas dedicadas a Deus realçam a
necessidade decuidado eseriedade em se
fazer votos e promessas a Deus. Promes­
sas impensadas podem ser lamentadas
depois, e a lei de Israel não permitia que
ohomem que tivesse feito uma promessa
precipitada se esquecesse dela e não fi­
zesse nada a seu respeito. Bem podemos
fazer uma pausa, para considerar quan­
tas promessas já fizemos a Deus e não a
cumprimos.
O livrode Levíticose encerra com uma
breve reafirmação da autoridade mosai­
ca das leis contidas nele e de sua ligação
com a aliança do monte Sinai (v. 34).
O livro parece concluir abruptamente
com o apêndice sobre a solenidade dos
votos. Sua história da instituição do sa­
cerdócio da linha de Arão fica como a
únicaparte danarrativa extensa do livro,
que é, fora disso, uma coleção de leis
muito compreensiva, se bem que um
tanto diversificada. Ãluz de nossa crítica
das fontes de Levítico (ver a Introdução),
deve-se lembrar que não havia, original­
mente, nenhuma conclusão dos princi­
pais documentos do Pentateuco no fim
deLevítico27.
A grande história sacerdotal das ori­
gens de Israel, que constituioâmago, em
tomo do qual Levítico foi elaborado,
continua a sua narração através do livro
deNúmerosefala do período passado no
deserto e dos progressos de Israel até as
vésperas de sua entrada na Terra Prome­
tida. Somente quando o Pentateuco in­
teiro foi tecido em uma só obra contínua
e extensa é que se tornou desejável, por
motivos práticos, dividi-lo em cinco li­
vros de cumprimentos mais ou menos
comparáveis. Levítico, com as suas vá­
rias grandes coleções deleis que regiam o
culto e a vida cotidiana, constituiu um
capítulo natural dentro dessetodo. Como
um capítulo, é coerente e completo. Po­
rém, temos constantemente de lembrar
que Levítico tinha um contexto propor­
cionado, por um lado, pelo relato da
criação da aliança no Sinai no livro de
Êxodo, e, por outro, pela história dos
95
progressos de Israel através do deserto,
até afronteira de Canaã.
Como uma coleção das leis especial­
mente concernentes à organização e à
prática do culto de Israel, o livro apre­
senta, inevitavelmente, um aspecto de
aridez e formalidade. Seu quadro analí­
tico da estrutura das cerimônias de pe­
nitênciae de louvornão contém nada das
emoções tempestuosas inspiradas pelas
orações e confissões dos Salmos. Con­
tudo, há que ser constantemente enfati­
zado que os Salmos são as palavras para
as quaiso livro de Levítico proporciona o
contexto e as rubricas. Seu conteúdo não
é totalmente dissimilar das rubricas de
uma peça redigida sem as partes que os
próprios atores têm de falar. A adoração
verdadeira requer elementos vocais, tan­
to falados comocantados, para poder ser
vista inteira.
Podemos, portanto, pela leitura para­
lela de Salmos e Levítico, montar um
quadro mais completo da natureza do
culto de Israel e conseguir uma perspec­
tiva melhor, que nos possibilite entender
olugar de Levítico no Antigo Testamen­
to. Levítico não pode ser visto isolada­
mente como uma obra escrita nem ainda
em função das coleções individuais de
regulamentos de que foicomposta, enem
se visava que assim fosse considerada.
Contém as regras formais do culto que
requeriam um contexto vivo de experiên­
cia histórica e um envolvimento mais
imediato da mente e da vontade, para se
tomar um quadro da plena abrangência
doculto de Deus em Israel.
Num sentido ainda mais amplo é que
este aspecto de incompleto diz respeito a
Levítico. A Epístola aos Hebreus argu­
menta que “éimpossível que o sangue de
touros e de bodes tire pecados” (10:4).
Assim interpreta as cerimônias expiató­
rias dotabernáculo como uma prefigura­
ção da morte expiatória de Jesus e con­
sidera osacerdócio deArâo uma previsão
dosacerdócioverdadeiro de Jesus. O que
lemos em Levítico se vê como transitório
eaguardando realizaçãona vida, morte e
intercessão celestial de Jesus. O culto de
Israel, como um todo, se revela, aqui,
comoimperfeitoenecessitandodaobra de
Cristo, para que o seu verdadeiro signifi­
cado se tomasse manifesto. Isso não
equivale a dizer que o culto de Israel era
falso ou inválido, mas afirmar simples­
mente que por si só não conseguia comu­
nicar a verdadeira plenitude da comu­
nhão entre os homens e Deus que o
próprio Deus tencionava. Essa plenitude
sótem sido declarada e instituída através
deJesus e da nova aliança. No entanto, o
livro de Levítico revela os princípios e
formas essenciais do culto, sem os quais
a verdadeira adoração espiritual através
da pessoa e da obra de Jesus não seria
inteligível.
96
Números
JOHN JOSEPH OWENS
Introdução
I. OTítulo
O título “Números” é uma tradução
do título da Vulgata Latina Numeri, ou
da Septuaginta grega Arithmoi. Os ou­
tros livros do Pentateuco têm títulos na
língua portuguesa que são meras transli-
terações do grego. É traduzido “Núme­
ros” por fazer referência às duas nume­
rações que são registradas nos capítulos
1-4 e 26. Porém esse título não se rela­
ciona diretamente com materiais dos res­
tantes 31 capítulos.
O título que se acha no Antigo Testa­
mentohebraico descreve muito mais ade­
quadamente o conteúdo total do livro.
Apraxe deadotar como título a primeira
palavra ou as primeiras palavras de um
livro tem sido conhecida desde tempos
antigos. Pode ser vista nas obras de Je-
rônimo eEpifânio, que conheciam o livro
de Números como “O Senhor Falou”.
OAntigoTestamento hebraico nãousava
essas primeiras duas palavras (hebrai­
cas), visto que essa expressão, wayeldab-
ber Yahweh, ocorria em Exodo mais de
15 vezes e em Levítico mais de 30 vezes.
Assim, este título não identificaria pron­
tamente este livro para oleitor, visto que
a expressão titular se acha no livro de
Números pelo menos 45 vezes. Portanto,
para se ser específico, a quarta palavra
do livro, bemidhbar (“no deserto”), foi
adotada como a designação descritiva.
O título chama a nossa atenção para o
contexto histórico dopróprio livro.
H. Esboço
O livro de Números começa no deserto
do Sinai, no segundo ano depois de os
israelitas terem saído do Egito. Havia
passado um mês desde a ereção do ta­
bernáculo (cf. Êx. 40:1,2; Núm. 1:1).
O livro termina aproximadamente 38
anos mais tarde, nas planícies de Moabe,
próximas ao Jordão, na altura de Jericó.
Não sepode descreveroconteúdo sob um
só tema. A história da aventura traça o
povo a partir do Sinai até o Jordão. É
mais fácil traçar os meandros geográficos
do que achar um enredo que permeie os
diversos eventos. Poder-se-ia tentar criar
alguma ordem cronológica. Porém seria
provisória, devido ao fato de que há ape­
nas umas poucas afirmações, no decorrer
do livro, para orientar o leitor na data­
ção das ocorrências. A abordagem mais
válidapara oentendimento do livro seria
através de uma divisão geográfica.
1. No Sinai. Fazem-se os preparativos
para a viagem de duração desconhecida
(1:1-10:10).
2. Do Sinai até o deserto de Parã (10:
11-20:29).
3. A aproximação pelo leste do Mar
Morto(21:l-36:13).
III. Cronologia
A divisão dos capítulos em torno de
centros geográficos não dá uma divisão
97
cronológica regular. Os preparativos pa­
ra a viagem demoraram vinte dias, do
“primeiro dia do segundo mês, no se­
gundo ano” (1:1) até o vigésimo dia do
mesmo mês (10:11). A viagem do Sinai,
inclusive a temporada em Cades, iío sul
de Canaâ, abrangeu, aproximadamente,
38 anos. A aproximação do monte Nebo
levou apenas cerca de cinco ou seis me­
ses.
IV. Conteúdo
O interesse principal recai sobre as
duas últimas seções do livro, visto que a
primeira seção (1:1-10:10) contém mate­
rial que é principalmente de natureza
legaleestatística. Aestrutura mental dos
hebreus exige que todos os eventos sejam
preservados numa perspectiva histórica.
Essaprimeira seçãocontém pouca narra­
tivahistóricapura.
A porção central apresenta muitas se­
ções de grande interesse: Moisés e seu
sogro (cap. 10); a reclamação do povo
sobre comida (11); a queixa de Miriã e
Arão a respeito da autoridade de Moisés
(12); a investigação dos doze espias (13);
a rebelião de Corá, Datã e Abirão (16);
o desabrochamento da vara de Arão
(17); o ato de Moisés de ferir a ro­
cha(20).
A terceira seção abrange as serpentes
abrasadoras (21); a vitória sobre Siom e
Ogue (21); a narrativa sobre Balaque e
Balaão (22-24); o perigo de alianças pa­
gãs (25); um censo adicional (26); a
designação de Josué como o novo lí­
der (27); instruções concernentes a vo­
tos (30); a guerra santa contra os midia-
nitas (31); a colonização pelas tribos ao
leste doJordão(32); um breve resumo da
longaviagem(33).
V. SuaRelaçãocomOutrosLivros
A ausência de um tema único impõe a
necessidade de um escrutínio muito mais
amplo, para se descobrir a função de
Números no cânon bíblico. Era Moisés o
líder do povo durante as peregrinações
no deserto. Os primeiros cinco livros do
cânon têm sido chamados “Os Cinco
Livros de Moisés” devido, principalmen­
te, ao fato de ser ele o personagem
central. Qualquer outro ponto de vista de
tal título não se basearia em fundamen­
tos históricos sólidos. Esses cinco livros
são chamados de Pentateuco.
O vulto de Moisés serve para moldar
esses cinco livros numa única unidade.
O livro de Gênesis abrange o período da
criação até o tempo da morte de José,
que segue a descida ao Egito pela família
de Jacó. Êxodo contém o registro da li­
bertação por Deus, de seu povo, da es­
cravidão egípcia, a viagem do Egito e a
estada no Sinai.
O livro de Levítico é datado no pri­
meiro mês do segundo ano do Êxodo
(cf. Êx. 40:1,2 e Núm. 1:1). O taberná­
culofoierigido até o fim do primeiro ano
do êxodo (Êx. 40:2). Regulamentos e
regras tornavam-se urgentemente neces­
sários, com a libertação do povo e a sua
oportunidade de governo independente.
Levíticoé predominantemente uma com­
pilação mais tardia das leispara o culto e
para a conduta, como formuladas atra­
vés de um longo período da história de
Israel.
Números éiniciadocomo primeiro dia
do mês, conforme o livro de Levítico.
Enquanto Levítico enfatiza as leis leví-
ticas, é em Números que achamos a as­
cendência da organização sacerdocrática
que havia de suceder Moisés. O livro de
Números encerra-se com opovo de Israel
nas alturas da Transjordânia, olhando
para aTerra Prometida.
Deuteronômio contém as três orações
de despedida de Moisés a seu povo
(1-30). Os capítulos 31-34 formam uma
seqüêncialógica aolivrodeNúmeros.
99
O livrode Números preencheum papel
importante pelorelato que faz da história
de Israel anterior à sua posse de Canaã.
Não fosse Números, haveria uma lacuna
de uns 38 anos em seus registros. Além
disso, a posição elevada dos sacerdotes
careceria de substanciação histórica.
VI. Materiais deFontes
Na tentativa de reconstruir tanto da
história de Israel quanto possível, temos
uma grande dívida para com os sacerdo­
tes, por preservarem e organizarem tan­
tos dos eventos da existência de Israel.
É através dos sacerdotes também que
recebemos uma perspectiva tão coerente,
embora relativamente tardia. A tradição
sacerdotal dá início ao livro de Gênesis
(l:l-2:4a) e se intercala com outras ên­
fases através de todo o livro de Gênesis.
A última parte de Êxodo (25-31 e 35-40)
é da mesma tradição sacerdotal. Este
material continua por todo o livro de
Levítico e ininterruptamente até inclusi­
ve Números 10:28. Na realidade, no mí­
nimotrês quartos do livro de Números se
constituem dematerial sacerdotal.
O próprio fato de tão grande parte
desses quatro primeiros livros advir da
tradição sacerdotal realça que esses livros
estão diretamente inter-relacionados
quanto ao conteúdo, estilo e abordagem.
Esse é o material que tem sido chamado
de a fonte P.1O “P” é tomado do termo
priestly(“sacerdotal”, noinglês).
Aidentificação do material comoP da­
taria oregistro dele como não posterior a
450a.C. Ao invés de datar todo o estrato
P como tendo sido composto original­
mente em 450 a.C., deve-se inyestigar
cada parágrafo separadamente (perí-
cope), para verificar sua própria história
de transmissão e preservação. Os fa­
tos do estudo histórico mostram que
se começa literalmente com o ano 450
a.C., para o material P, e se regride,
1Vera Introduçãoao Gênesis, no Volume 1.
pela História, até o evento original.
Muitos relatos foram transmitidos atra­
vés de um longo período de tempo, de
boca para ouvido (tradição oral), e en­
tão transcritos, de maneira que eram,
mais tarde, transmitidos em forma es­
crita (tradição escrita ou o próprio do­
cumento). O sacerdóciotemuma história
muito antiga, e, por conseguinte, haverá
uma longa história de material sacer­
dotal. Visto que havia ramos diferentes
das famílias sacerdotais e também diver­
sos centros sacerdotais, existem muitos
interesses, locais e ênfases diferentes,
identificáveis no material sacerdotal.
Muitos eventos, no Pentateuco, giram
em tomo da pessoa de Moisés, por isso
muitas pessoas simplesmente presumem
que ele tenha escrito o Pentateuco. O
texto dasEscrituras não apóia o ponto de
vista de que Moisés escreveu todos esses
livros nem o ponto de vista de que não
escreveu nada do que tem sido preser­
vado dentro desses livros. Todos os capí­
tulos dolivrodeNúmeros, menos quatro,
fazem referência a Moisés (usandc o
texto hebraico como critério para a d
são emcapítulos). Porém eleé menciona­
do por outras pessoas, i.e., na terceira
pessoa do singular, todas as vezes, exce­
tuando-se as citações diretas de suas
orações. É inconcebível, também, achar
que foi Moisés que escreveu: “Ora, Moi­
sés era homem mui manso, mais do que
todos oshomens que havia sobre a terra”
(12:3).
Por outro lado, 33:2 afirma claramen­
te que “Moisés registrou os pontos de
partida”. Porém não indica onde Moisés
os registrou nem de que fonte o compila­
dor deNúmerosconseguiu tal registro.
Por escrever na terceira pessoa, o au-
tor-compiladorfoimuito exatoem deixar
transparecer que ele registrou materiais
que tinham sido escritos sobre Moisés,
Arão, Miriã, os sacerdotes, eoutros.
Uma fonte é identificada, em 21:14,
15, como o “Livro das Guerras do Se­
100
nhor”. Esse livro era, evidentemente,
uma obra bem conhecida e antiga. Tam­
bém há fragmentos poéticos e canções
antigas que têm sido preservados (10:35;
21:14,15,17,18,27-30; 23:7-10,18-24; 24:
3-9,15-21,23 es.)
Podem-se descobrir outras fontes, ge­
ralmente pelo estudo intensivo do mate­
rial do Pentateuco. Por exemplo, as ano­
tações concernentes a Ogue, rei de Basã
(21:33-35), têm ligação direta com ma­
terial deuteronômico (Deut. 3:1-3). A in-
ter-relação dessa perícope identifica essa
seção como sendo do material D (usado
para significarDeuteronômio).
Os sacerdotes tratavam de eventos re­
ligiosos durante muitos séculos e preser­
varam materiais que compartilham mui­
tas semelhanças, mas que também de­
monstram diferenças. Todavia, incorpo­
ram muito material antigo, de muitas
fontes, que não foram identificadas, mas
que, na totalidade do material, mostra­
vam ossinais e a abordagem sacerdotais.
Além do material sacerdotal que se
tem tomado conhecido como P, as auto­
ridades têm concordado sobre a existên­
cia de três outros estratos gerais. Tem-se
estabelecido características várias como
critérios para esses estratos. Entre esses
critérios estão: o usojudicioso dos nomes
divinos, o uso repetido de frases que se
tomam técnicas ou idiomáticas e con­
ceitosteológicosespecíficos.
Os três estratos referidos se acham no
livro de Números. A narrativa Balaão-
Balaque(22:2-24:25) mostra, de maneira
bem viva, os efeitos de se entretecer
registros diferentes, a fim de criar uma
narração tão completa quanto possível.
Quando ossegmentos individuais de fon­
tes escritas mais precoces foram coligi­
dos, para preencher as lacunas, os sinais
estilísticos diversos ou os termos teoló­
gicos não sofreram modificações. Foram
mantidos para preservar a integridade e
a autenticidade das fontes usadas. Nos
registros sobre Balaãohá seções que ado­
tam o nome pactuai de Deus, Yahweh.
Esta única característica tem chamado a
atenção de estudiosos dedicados, que
também se mostram capazes de isolar
outras características. A fim de identifi­
car este segmento de materiais originá­
rios, o termo “J” tem sido selecionado.
Uma das maneiras detransliterar onome
Yahweh é também Jahveh ou Jahweh
(usando a pronúncia alemã de J como o
som do Y); assim J denota os materiais
“jeovísticos”.
O escritor refere-se a Deus por cinco
termos diferentes, no relato sobre Balaão
(Yahweh, ’Elohim,Yahweh’Elohim,’EI,
‘Elyon, e tinha motivos definidos para o
uso dos diferentes nomes. Se quisermos
tratar das Escrituras com o respeito e
autoridade que têm merecido, devemos,
forçosamente, procurar descobrir os me­
canismos literários intrincados que o au­
tor usou para transmitir as tonalidades
de seu pensamento. Esses nomes podem
indicaruma abordagem de estrutura lite­
rária, a extensão da relação pactuai e
também a referência teológica que se
tencionava.
A compreensão que os israelitas ti­
nham, concernente a uma relação espe­
cial com o seu Deus Yahweh, era tão
extraordinária para eles que registravam
grande parte de sua história desse ponto
de vista J. O material J pode ser datado
como tendo tido sua origem em 900 a.C.
ou antes. Quando se consegue isolar ma­
terial do registro histórico como sendo
material J, consegue-se isolar os mais
precoces materiais teológicos pactuais
distintos disponíveis. Os seguintes mate­
riais são também classificados como J:
10:29-32; 11:4-15, 18b-24a, 31-35; 22:
22-35.
Um termo muito antigo, para Deus,
usado por muitos povos diferentes, é a
palavra’Elohim. Ã medida que os erudi­
tos discerniram o uso desses termos para
Deus, passaram a designar esse estrato
de materiais literários como mate-
101
rial “E”. ’Elohim é usado no registro
sobre Balaâo nove vezes (22:9,10,12,20,
22a,38; 23:4,27; 24:2). O material E é
normalmente datado comotendo sua ori­
gem em 750 a.C. ou antes. Outro mate­
rial E também se acha em 11:16,17a,
24b-30; 12:1-15; 20:14-21; 21:21-24a.
Há muitas ocasiões quando essas duas
abordagens são unidas. Um dos sinais
dessa união é o título de Deus como
Yahweh’Elohim.
Usa-se Yahweh ’Elohim duas vezes na
história de Balaão (22:18; 23:21). Num
estudo dessas passagens, uma falha em
discriminação na tradução ou interpreta­
ção desses termos pode levar a um obs­
curecimento das distinções estabelecidas
pelo próprio autor. Os materiais que
contêm indícios que os relacionam com
J,E e JE compreendem menos que um
quarto de todo o livro de Números. Nem
sempre é possível dividir o material JE
nos elementos individuais respectivos de
J ou E, em cada caso. Alguma parte
distinta do materialJE é também achada
em 14:11-24; 21:1-3; 32:39-42.
VII. ÊnfasesReligiosas
A literatura do povo hebraico reflete
uma estrutura de pensamento ou uma
forma de crença, mostra um povo que
falava em expressões concretas, antes do
que em modos filosóficos. Os seus escri­
tos são caracterizados pela expressão de
seus pensamentos e ensinos, através de
uma narrativa histórica.
O contexto dentro do qual se coloca o
livro de Números lembra-nos que a he­
rança judaico-cristã surge da História e
se situa dentro da História. Dizer que
existem verdades eternas, em um senti­
do, obscurece as realidades de Deus
dentro da História. Todas as verdades
conhecidas são verdades dentro da di­
mensão temporal e dentro de situações
verificáveis. Os aspectos demonstrativos
de mudanças na Tora hebraica servem
para nos mostrar que não são asverdades
que mudam, mas, sim, que uma mesma
verdade assume formas e expressões mu­
táveise sujeitas a desenvolvimento, à me­
dida que os tempos mudam.
Os regulamentos e leis claramente sa­
cerdotais, que se acham em 1:1-10:10,
têm qualidade de narração. Porém a
seçãoqueémais diretamente uma narra­
tivanão começa senão no décimo capítu­
lo(10:11), quando o povo parte do Sinai,
a caminho do território prometido. En­
tretecidos nesta narrativa, há eventos,
orientações para o viver cotidiano, as
bases para as estruturas de autoridade
em sua organização, as instruções con­
cernentes ao exercício do calendário reli­
giosoanual eaté regras para os direitos a
propriedade e heranças. Estas histórias
foram os meios através dos quais eles
expressavam as suas verdades mais pro­
fundas.
Para os hebreus, o processo de pensar
não se completava senão quando um
pensamento tinha sido descoberto e ex­
pressado. Por conseguinte, uma verdade
ou doutrina religiosa precisava de ser
vestida de ação, para ser autêntica. Para
os sacerdotes, o ser religioso não cons­
tituía uma realidade estabelecida sem
haver “atividade” religiosa. Um espírito
de adoração realizar-se-ia num ato de
culto, se essa adoração fosse verdadeira­
mente válida.
Porque as diferentesgerações de sacer­
doteseas famílias concorrentes de sacer­
dotes trabalhavam em circunstâncias que
variavam entre a prosperidade e a fome,
entre a paz eaguerra, entre a liberdade e
a escravidão, entre a vitalidade espiri­
tual eoretrocessoreligioso, achavam que
as suas necessidades e as expressões de
sua aliança mudavam em suas ênfases e
em seu entendimento. Era possível que
alguém sem qualquer entendimento pes­
soal da aliança ou de lealdades divinas
muito fracas esboçasse os mesmos gestos
que os seus antepassados haviam formu­
lado, porém sem a profunda fé que os
seus antepassados tinham experimenta­
102
do. Devemos procurar as verdades vitais
duradouras noseventos que se desenrola­
vam, nos diferentes rituais e nas circuns­
tâncias sob mudança, mesmo quando
ocorreram em locais ou formas diversos.
Osatos de sacrifício, a observância das
regras do calendário cultual e a reverên­
cia com que mantinham os lugares ofi­
ciaisou pessoas são todos indícios de sua
relaçãocom Deus. Por exemplo, o taber­
náculo era, para eles, num sentido muito
real, a evidência da presença deDeus.
Este centro de culto chama-se por no­
mes vários, tais como “tenda da congre­
gação” (“tenda da revelação”, conforme
a Versão da Imprensa Bíblica Brasileira)
(10:3; 11:16; 12:4; 14:10; 16:18,42; 17:4;
18:22), “tenda” (9:17; 12:5,10; 18:3),
“tenda dotestemunho” (9:15; 18:2), “ta­
bernáculo” ou moradia (9:15,18,22), e
“tabernáculo dotestemunho” (“taberná­
culo da congregação”, conforme a Ver­
são da Imprensa Bíblica Brasileira) (10:
11). Os relatos da tenda indicam uma
tradiçãoem mudança. Porém os nomes e
as funções indicam três idéias básicas.
Era um lugar de reunião, onde o povo se
encontrava com Deus. Era também um
lugar que constituía o lugar onde Deus
residia. O termo mishkan (moradia) é a
maneira de o sacerdote expressar a re­
sidência temporária de Deus na terra,
muito embora morasse permanentemen­
te no céu. Esta parece ser a expressão
primordial do tema judaico da glória
“Shekinah”.*
Também, sempre que alguém desejava
consultar Yahweh, ia à tenda. Ali na
tenda, Yahweh se confrontava com Moi­
sés e o povo. Era ali que a revelação de
Deus se fazia conhecida repetidamente.
Otabernáculo era olugar da Presença.
Relacionados de perto com o relato do
tabernáculo, havia também os fenôme­
(*) NOTA DO TRADUTOR: Shekinah (verbo heb. sha-
khan, habitar) é palavra usada na tradição judaica para
denotar o resplendor da presença de Deus habitando no
meio de seu povo.
nos do fogo e da nuvem. Na narrativa de
Êxodo, o aparecimento do fogo e da
nuvem ressaltava direção. Em Números,
porém, ofogoe a nuvem são símbolos da
Presença residente, em suas diversas fun­
ções. A existência deste fogo e nuvem
específicos eram os aspectos externos,
que autenticavam a presença invisível de
Deus.
Anarrativa sacerdotal nãousa o termo
coluna, ao falar no fogo e na nuvem.
É este termo extra que distingue J e E de
P, neste relato (12:5; 14:14). Esta pre­
sença pode ser vista como proteção, co­
mo direção ou na revelação. Porém a
ênfase recai sobre a presença do Senhor
(cf. 12:5; 14:14).
A presença contínua realça a santida­
de de Deus. Há, envolvida, uma clara
idéia de separação. Por exemplo, a nu­
vem locomoveu-se de diante do povo
para trás dele, para o separar dos egíp­
cios. Há um sentido de santidade separa­
da ao redor do tabernáculo. Não se havia
de aproximar-se do tabernáculo impen­
sadamente. Não sehavia de tocar na arca
da aliança. Um misto interessante da
presença residente e da santidade sepa­
radora mantém sempre perante os leito­
res de Números uma certa fusão da ima­
nência de Deus e de sua transcendência.
Havia-se de aproximar-se com reverência
esantidade do Deus que era santo (sepa­
rado) e, contudo, estava presente. Num
sentido muito real, oshebreus entendiam
o tabernáculo, o fogo, a nuvem e a arca
como repositórios da revelação e da dei­
dade. Os objetos sagrados tinham de ser
usados com a mesma reverência e santi­
dade com que o povo se aproximava de
seuDeus.
Exatamente como os objetos eram ins­
trumentos da presença de Deus, certas
pessoas eram vistas como os representan­
tes especiais de Deus. Os primogênitos
recebiam um tratamento especial de
Deus e do homem desde os tempos an­
tigos. Os levitas deviam ser considerados
como na mesma relação dupla. Deviam
103
ser tratados de uma maneira diferente,
porque pertenciam a Deus de uma ma­
neira especial. Os levitas não recebiam
esse tratamento diferenciado por causa
de suas pessoas, mas, sim, por causa da
Pessoa de quem eram representativos.
Uma parte da família levítica, que che­
gou a ser conhecida como “os sacerdo­
tes, osfilhos de Arão”, era dotada com a
mesma relação invulgar com Deus e com
o seu semelhante. Em certa medida, o
princípio de direito por nascimento dizia
respeito ao primogênito, ao levita e ao
sacerdote. O primogênito tinha o direito
e a responsabilidade de uma porção do­
brada na herança, na guerra eno culto.
Uma das contribuições predominantes
feitas pelo livro de Números é a explica­
ção do processo pelo qual os filhos de
Arãovieram a ser os representantes reli­
giosos autoritários, mesmo à luz da im­
portância de Moisés. Houve muitas oca­
siões em que surgiu a luta pelo poder
entre o povo hebreu. Notar a desaprova­
ção por parte de Miriã e de Arão com
relação a Moisés, de sua esposa, e a
mudança da autoridade ou na corrente
de comando. Essas situações tensas leva­
ram, em Israel, à necessidade de alguma
autoridade “histórica”, pelo desloca­
mento, por parte da família de Arão, da
supremacia ou levíticaou mosaica.
EsboçodoLivrodeNúmeros
I. A Organização Anterior à Partida de
Sinai(1:1-10:10)
1. A Organização Para o Censo Militar
(1:1-46)
(1) AJunta doCenso(1:1-16)
(2) O Censo porTribos(1:17-46)
2. AOrganizaçãoPara o Serviço doTa­
bernáculo (1:47-54)
3. A Organização Para o Acampamen­
to(2:1-34)
4. A Organização dos Sacerdotes e Le­
vitas(3:1-4:49)
(1) As Gerações de Arão e Moisés
(3:1-13)
(2) ALinhagem ea Posição dos Le­
vitas(3:14,51)
(3) O Censo das Famílias Levíticas
(4:1-49)
5. AOrganização dos Regulamentos do
Acampamento(5:1-10:10)
(1) A Lei da Exclusão do Acampa­
mento(5:1-4)
(2) ALei da Restituição(5:5-10)
(3) ALei doCiúme(5:11-31)
(4) ALeidoNazireado(6:l-27)
(5) AConsagração doAltar
(7:1-89)
(6) As Instruções Para os Meno-
rahs (8:1-4)
(7) A Lei da Separação dos Levitas
(8:5-26)
(8) A Lei Para uma Observância
Adicional daPáscoa(9:1-14)
(9) O Significado da Nuvem com
Aparência deFogo(9:15-23)
(10) As Regras das Trombetas de
Prata (10:1-10)
II. Israel em Marcha do Sinai a Parã
(10:11-12:16)
1. O Relato Geral(Introdução)
(10:11,12)
2. AOrdem da Marcha (10:13-28)
3. MoiséseHobabe (10:29-32)
4. APrimeira Etapa da Marcha
(10:33-36)
5. As Reclamações doPovo
(11:1-12:16)
(1) AReclamaçãoemTabera
(11:1-3)
(2) A Reclamação em Quibrote-Ha-
taavá(11:4-35)
(3) AReclamação em Hazerote
(12:1-16)
III. As Reclamações no Deserto de Parã
(13:1-21:35)
1. As Investivações Pelos Doze na Ter­
ra Prometida (13:1-33)
2. 30 ConselhoVotano Relatório
(14:1-45)
(1) ATurba Governa(14:1-3)
(2) Moisés, Arão, Josué e Calebe
Aconselham uma Linha de Ação
(14:4-10a)
104
(3) Deus Pronuncia oSeuJulgamen­
to(14:10b-38)
(4) OJuízoÉ Irrevogável(14:39-45)
3. Várias LeisCultuais Sacerdotais
(15:1-41)
(1) Concernentes às Quantidades de
Farinha, Oleo e Vinho em Rela­
ção aos Holocaustos e às Ofertas
deLibação(15:1-16)
(2) Concernente à Oferta de um
Bolo das Primícias dos Cereais
(15:17-21)
(3) Concernente à Oferta Pelo “Pe­
cado Involuntário” (15:22-29)
(4) Concernente ao Pecado Proposi­
tado(15:30-36)
(5) Concernente àsFranjas
(15:37-41)
4. ALuta PeloPoder(16:1-18:32)
(1) As Rebeliões de Corá, Datã e
Abirão(16:1-50)
(2) O Brotamento da Vara de Arão
(17:1-11)
(3) O Reconhecimento da Congre­
gação(17:12,13)
(4) Os Deveres e Direitos dos Levi­
tas edos Sacerdotes(18:1-32)
5. Instruções Concernentes à Contami­
naçãoPeloContato comum Cadáver
(19:1-22)
6. Miriã, Moisés e Arão Não Poderiam
Entrarna Terra Prometida (20:1-29)
7. As Peregrinações Finais Anteriores
àTravessia doJordão(21:1-35)
(1) Israel Confronta o Rei de Arade
(21:1-3)
(2) As Serpentes Abrasadoras; As
Serpentes —Os Serafins(21:4-9)
(3) A Marcha de Punom até Pisga
(21:10-20)
(4) A Vitória Sobre Siom, Rei dos
Amorreus(21:21-32)
(5) A Vitória Sobre Ogue, Rei de
Basã(21:33-35)
IV. Israel Acampado nas Planícies de
Moabe(22:1-36:13)
1. O Registro Sobre Balaque e Balaão
(22:1-24:25)
(1) Introdução(22:1-6)
(2) Os Primeiros Emissários de
Moabe eMidiã a Balaão
(22:7-14)
(3) O Segundo Grupo de Emissários
(22:15-21)
(4) A Viagem de Balaão até Moabe
(22:22-35)
(5) Balaque e Balaão Encontram-se
(22:36-41)
(6) O Primeiro Oráculo de Balaão
Sobre Israel(23:1-12)
(7) O Segundo Oráculo de Balaão
Sobre Israel(23:13-26)
(8) O Terceiro Oráculo de Balaão
Sobre Israel(23:27-24:13)
(9) Os Demais Oráculos de Balaão
(24:14-25)
2. O Perigo Religioso de Alianças Pa­
gãs(25:1-18)
3. Um CensoAdicional(26:1-65)
(1) AForça Militar(26:1-51)
(2) O Princípio dasHeranças
(26:52-56)
(3) Os Levitas(26:57-62)
(4) Calebe e Josué São os Únicos a
Constar em Ambos os Censos
(26:63-65)
4. NovasLeis de Heranças(27:1-11)
5. Um Novo Líder, Josué, Ê Designado
(27:12-23)
6. As Instruções Concernentes ao Ca­
lendárioCultual(28:1-29:39)
(1) Introdução (28:1,2)
(2) AOferta Diária(28:3-8)
(3) AOferta do Sábado(28:9, 10)
(4) AOferta da LuaNova (28:11-15)
(5) AFesta dosPães Ázimos
(28:16-25)
(6) A Festa das Primícias (28:26-31)
(7) O Primeiro Dia do Sétimo Mês
(29:1-6)
(8) O Décimo Dia do Sétimo Mês
(29:7-11)
(9) O Décimo Quinto Dia do Séti­
moMês(29:12-38)
(10) Conclusão(29:39)
7. As Instruções Concernentes aos Vo­
tos(29:40-30:16)
(1) ALei doVoto(29:40-30:2)
105
(2) O Voto de umaMulher (30:3-16)
8. A Vingança Contra os Midianitas
(31:1-54)
(1) A Seleção do Exército da Vin­
gança(31:1-6)
(2) ABatalha (Guerra Santa)
(31:7-12)
(3) AIra de Moisés(31:13-18)
(4) A Purificação dos Homens e dos
Despojos (31:19-24)
(5) A Contagem e Distribuição da
Presa(31:25-54)
9. O Pedido dos Rubenitas e dos Gadi-
tas Leva à Divisão da Transjordânia
(32:1-42)
(1) O Pedido de Rúben e Gade
(32:1-5)
(2) AAdvertência deMoisés
(32:6-15)
(3) Rúben eGadeExplicam-se
(32:16-27)
(4) O Acordo Feito(32:28-32)
(5) A Terra Para o Leste do Jordão
Dividida(32:33-42)
10. Uma Revista da Viagem doEgito até
asPlanícies de Moabe (33:1-49)
(1) Introdução (33:1-4)
(2) De Ramessés até o Deserto de
Sinai(33:5-15)
(3) Do Sinai até oMonte Hor
(33:16-40)
(4) Do Monte Hor até as Planícies
de Moabe(33:41-49)
11. As Instruções Finais Anteriores à
Travessia doJordão(33:50-36:12)
(1) Despejar Todos os Habitantes e
DemolirTodoCultoPagão
(33:50-56)
(2) As Fronteiras a Serem Estabele­
cidas(34:1-29)
(3) AsCidadesPara osLevitas
(35:1-28)
(4) PormenoresLegais(35:29-36:12)
12. Conclusão Referente às Leis na Pla­
nície de Moabe(36:13)
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DE VAUX, ROLAND. Ancient Israel:
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106
Comentário SobreoTexto
I. A Organização Anterior à Par­
tidadeSinai(1:1-10:10)
1.' A Organização Para o Censo Militar
(1:1-46)
O escritor deixou claro que o contexto
original do livro era do tempo de Moisés
e que alguma parte do material é mosai­
ca. Porém muitas referências, através do
livro, revelam que idéias e práticas pos­
teriores foram usadas como o vocabulá­
rioeveículosdesseseventoseidéias.
O primeiro versículo de Números pro­
cura estabelecer uma ligação adequada
com o livro de Levítico, pelo acréscimo
dos dados cronológicos. Depois que os
filhos de Israel foram libertados da es­
cravidão egípcia, muitos aspectos de sua
vida comunitária passaram por mudan­
ças e reorganização. Muitas leis toma­
ram-se necessárias, em ocasiões diferen­
tes, à medida que o povo empreendeu a
mudança da escravidãopara a liberdade,
da não-organização para a nacionalida­
de, de serem abrigados pelos seus capto­
res para a responsabilidade de se prote­
gerem. Semelhantemente, depois de as
observâncias cultuais alcançarem um pa­
drão definido, a necessidade de uma
evidência mais regular e contínua da
presença deDeus sefazia sentir.
A cronologia dos eventos do livro visa
mais estabelecer a relação entre esses
eventos do que colocá-los dentro do con­
texto do calendário. A abertura deste
livro é datada no mês subseqüente à
ereção do tabernáculo. O registro sacer­
dotal de Êxodo 40:17 relata que do tem­
po do êxodo até a ereção do tabernáculo
passou-se apenas um ano. Não demorou
muito para os líderes perceberem a ne­
cessidade de um centro focalizador da
atividade religiosa. Os israelitas viveram
no Egito, onde conheceram muitos tem­
plos e santuário. Sem dúvida, os seus
antepassados tinham transmitido a eles
ashistórias davidano “velhopaís”, onde
haviauma “moradiapara Deus”, comoo
centro de suas comunidades. A demora
no tempo da ereção do tabernáculo até
o trabalho registrado no livro de Núme­
ros foi de um mês. É neste espaço que o
texto parece colocar as leis do livro de
Levítico(Êx. 40:2,17; Núm. 1:1). As me­
didas para a organização da vida cultual
do povo de Israel são registradas em
primeiro lugar, seguidas pela organiza­
ção mais prática. O primeiro segmento
das leis políticas diz respeito à proteção
dopovoem época de guerra.
(1) AJunta do Censo(1:1-16)
1Falou o Senhor a Moisés no deserto de
Sinai, na tenda da revelação, no primeiro
dia do segundo mês, no segundo ano depois
da saída dos filhos de Israel da terra do
Egito, dizendo: 2 Tomai a soma de toda a
congregação dosfilhosde Israel, segundo as
suas famílias, segundo as casas de seus
pais, conforme o número dos nomes de todo
o homem, cabeça por cabeça; 3 os da idade
de vinte anos para cima, isto é, todos os que
em Israel podem sair à guerra, a esses
contareis segundo os seus exércitos, tu e
Arão. 4 Estará convosco de cada tribo um
homem que seja cabeça da casa de seus
pais. 5Estes, pois, são os nomes dos homens
que vos assistirão: de Rúben, Elizur, filho
de Sedeur; 6 de Simeão, Selumiel, filho de
Zurisadai; 7 de Judá, Nasom, filho de Ami-
nadabe; 8 de Issacar, Netanel, filho de
Zuar; 9de Zebulom, Eliabe, filho de Helom;
10 dos filhos de José: de Efraim, Elisama,
filho de Pedazur; 11 de Benjamim, Abidã,
filho de Gideôni; 12 de Dã, AÍzer, filho de
Amisadai; 13de Aser, Pagiel, filho de Ocrã;
14 de Gade, Eliasafe, filho de Deuel; 15 de
Naftali, Afrá, filho de Enã. 16 São esses os
que foram chamados da congregação, os
príncipes dastribos de seus pais, os cabeças
dosmilhares de Israel.
Tomai a soma (v. 2). No Oriente Mé­
dio, havia dois motivos principais para
um censo, segundo os registros antigos.
Talvezocenso fosse necessário para veri­
ficar as possíveis fontes de renda por
107
impostos (cf. Êx. 38:26). O outro motivo
é o aqui indicado no versículo 3, para
determinar o tamanho potencial de uma
forçaarmada. Havia muitosplanos, rela­
cionados à marcha pelos desertos, regis­
trados como tendo sido feitos logo no
começo da viagem. Esses planos eram
importantes para uma marcha ordeira e
também para os acampamentos periódi­
cos durante tão longa viagem. O texto
ressalta a contagem dos homens robustos
com o fim de saber a força de seu exér­
cito. Não se ousava passar pelo deserto
sem alguma proteção.
Evidentemente, cada tribo(as casas de
seus pais) tinha alguma organização ou
sistema de proteção, visto que o versí­
culo 3registra que Moisés eArão haviam
de congregar todas “segundo os seus
exércitos”.
As famílias eram básicas para toda a
estrutura social de Israel, e as genealo­
gias eram contadas pelas casas de seus
pais (cf. os v. 2,4,18,20). Uma das ma­
neiras convencionadas de se referir ao
períodobíblico antigoépelo título “ope­
ríodo patriarcal”. Em muitos períodos
da história de Israel, pessoas de outras
famílias, áreas ou raças se juntaram a
eles. É possível que, ao longo da marcha,
Israel tenha ganho alguns seguidores das
“multidões mistas”. Eram assimilados
tão completamente no tecido social, que
não selhes fazia nenhuma distinção den­
tro dosclãs de Israel.
Toda esta contagem devia ser em­
preendida sob a direção de Moisés e
Arão, com o auxílio de um conselho
composto de um homem de cada tribo.
Este conselheiro tinha que ser o cabeça
da casa de seus pais. O motivo da pre­
sença de um conselheiro de cada tribo
podia estar no fato de ele ter que iden­
tificaroshomens de sua tribo.
Segundoassuasfamílias enfoca o con­
ceito da solidariedade da família. Dentro
de uma tribo, era incluso qualquer nú­
mero de famílias ou clãs. Um clã abran­
geria várias casas de seus pais. Havia
várias famílias descendentes de Abraão,
sendo que algumas delas seajuntavam de
uma forma um tanto incoesa em diversas
ocasiões. Essa ligação anfictiônica veio a
existir de maneira pragmática e pela
convivência, mais do que em virtude de
algum mandamento antigo.
O princípio do auxílio mútuo entre
grupos era bem conhecido. De fato, a
organização de um número determinado
de grupos parece ter sido bastante co­
mum. Por exemplo, o registro das tribos
de Israel e de Esaú usa a forma dos
“doze” (Gên. 25:16; 36:9-14). Os gru­
pos, são relacionados em 1:5-15.
(2) OCensoporTribos(1:17-46)
17 Então tomaram Moisés e Arão a esses
homens que são designados por nome; 18e,
tendo ajuntado toda a congregação no pri­
meiro dia do segundo mês, declararam a
linhagem deles segundo as suas famílias,
segundo as casas de seus pais, conforme o
número dos nomes dos de vinte anos para
cima, cabeça por cabeça; 19 como o Se­
nhor ordenara a Moisés, assim este os con­
tou no deserto de Sinai. 20 Os filhos de
Rúben, o primogênito de Israel, as suas
gerações, pelas suas famílias, segundo as
casas de seus pais, conforme o número dos
nomes, cabeça por cabeça, todo homem de
vinte anos para cima, todos os que podiam
sair à guerra, 21 os que foram contados
deles, da tribo de Rúben, eram quarenta e
seis mil e quinhentos. 22 Dos filhos de Si-
meão, as suas gerações, pelas suas famílias,
segundo as casas de seus pais, conforme o
número dos nomes, cabeça por cabeça, todo
homem de vinte anos para cima, todos os
que podiam sair à guerra, 23 os que foram
contados deles, da tribo de Simeão, eram
cinqüenta e nove mil e trezentos. 24 Dos
filhos de Gade, as suas gerações, pelas suas
famílias, segundo as casas de seus pais,
conforme o número dos nomes dos de vinte
anospara cima, todos os que podiam sair à
guerra, 25 os que foram contados deles, da
tribo de Gade eram quarenta e cinco mil
seiscentos e cinqüenta. 26 Dos filhos de Ju-
dá, as suas gerações, pelas suas famílias,
segundo as casas de seus pais, conforme o
número dos nomes dos de vinte anos para
cima, todos os que podiam sair à guerra,
27 os que foram contados deles, da tribo de
Judá, eram setenta e quatro mil e seiscen­
tos. 28 Dos filhos de Issacar, as suas gera-
108
ções, pelas suas famílias, segundo as casas
de seus pais, conforme onúmero dos nomes
dos de vinte anos para cima, todos os que
podiam sair à guerra, 29 os que foram con­
tados deles, da tribo de Issacar, eram cin­
qüenta e quatro mil e quatrocentos. 30 Dos
filhos de Zebulom, as suas gerações, pelas
suas famílias, segundo as casas de seus
pais, conforme o número dos nomes dos de
vinte anos para cima, todos os que podiam
sair à guerra, 31 os que foram contados
deles, da tribo de Zebulom, eram cinqüenta
e sete mil e quatrocentos. 32 Dos filhos de
José: dos filhos de Efraim, as suas gera­
ções, pelas suas famílias, segundo as casas
de seus pais, conforme o número dos nomes
dos de vinte anos para cima, todos os que
podiam sair à guerra, 33 os que foram con­
tados deles, da tribo de Efraim, eram qua­
renta mil e quinhentos; 34 e dos filhos de
Manassés, as suas gerações, pelas suas fa­
mílias, segundo as casas de seus pais, con­
forme onúmerodos nomesdos de vinte anos
para cima, todos os que podiam sair à guer­
ra, 35 os que foram contados deles, da tribo
de Manassés, eram trinta e dois mil e du­
zentos. 36 Dos filhos de Benjamim, as suas
gerações, pelas suas famílias, segundo as
casas de seus pais, conforme o número dos
nomes dosde vinte anos para cima, todos os
que podiam sair à guerra, 37 os que foram
contadosdeles, da tribo de Benjamim, eram
trinta e cinco mil e quatrocentos. 38 Dos
filhos de Dã, as suas gerações, pelas suas
famílias, segundo as casas de seus pais,
conforme o número dos nomes dos de vinte
anos para cima, todos os que podiam sair à
guerra, 39 os que foram contados deles, da
tribo de Dã, eram sessenta e dois mil e sete­
centos. 40 Dos filhos de Aser, as suas gera­
ções, pelas suas famílias, segundo as casas
de seus pais, conforme onúmero dos nomes
dos de vinte anos para cima, todos os que
podiam sair à guerra, 41 os que foram con­
tados deles, da tribo de Aser, eram quarenta
e um mil e quinhentos. 42 Dos filhos de
Naftali, as suas gerações, pelas suas famí­
lias, segundo as casas de seus pais, confor­
me o número dos nomes dos de vinte anos
para cima, todos os que podiam sair à guer­
ra, 43 os que foram contados deles, da tribo
de Naftali, eram cinqüenta e três mil e qua­
trocentos, 44 São esses os que foram con­
tados por Moisés e Arão, e pelospríncipes de
Israel, sendo estes doze homens e represen­
tando cada um a casa de seus pais. 45 Assim
todos os que foram contados dos filhos de
Israel, segundo as casas de seus pais, de
vinte anos para cima, todos os de Israel que
podiam sair à guerra, 46 sim, todos os que
foram contados eram seiscentos e três mil
quinhentos e cinqüenta.
Regras processualísticas(v. 17-19)
Rúben —46.500(v. 20,21)
Simeâo —59.300(v. 22,23)
Gade —45.650(v. 24,25)
Judá —74.600(v. 26,27)
Issacar —54.400(v. 28,29)
Zebulom —57.400(v. 30,31)
Efraim-40.500 (v. 32,33)
Manassés —32.200(v. 34,35)
Benjamim —35.400(v. 36,37)
Dã —62.700(v. 38,39)
Aser —41.500(v. 40,41)
Naftali —53.400(v. 42,43)
Total 603.550(v. 44-46)
Na introdução a Números, há três
termos que se relacionam entre si, mas
que não são sinônimos — i.e., as casas
dos pais, a família e a tribo. A expressão
as casas de seus pais é usada para cada
tribo (menos para a de Levi). Através de
toda a história de Israel, há vários seg­
mentos dentro da estrutura tribal. Nesta
expressão, casas de seus pais, pode-se ver
que, finalmente, o grupo todo tinha uma
coesãona descendência de um patriarca.
Gerou, este, filhos por sua esposa ou por
suas esposas. Também pode ter gerado
filhos por sua concubina ou por suas
concubinas (que eram, na realidade, es­
posas semreconhecimento legal).
O termo família quer dizer clã, poste­
ridade ouum grêmio, tal como dos escri­
vães, que era hereditário dentro das fa­
mílias. Esta unidade pode também in­
cluir os filhos nascidos de concubinas.
Quando se menciona cada uma das doze
tribos, há referência a suas gerações,
pelas suas famílias, segundo as casas de
seus pais; e tribo é também referida, em
caso de contagem. No primeiro capítulo,
há um rígido esboço e terminologia, tipo
sacerdotal, usados no registro do censo.
Tal acúmulo de termos indica um longo
período de desenvolvimento deste regis­
tro. Estas frases tinham significados es­
109
peciais em períodos diferentes da His­
tória.
Esses termos são relacionados, clara­
mente, à consangüinidade com o pai.
Porém o termo tribo pode passar a idéia
de descendentes ou da extensão do poder
e da pessoa do líder primitivo. Com toda
a probabilidade, esta palavra remonta à
época quando cada grupo era liderado
por um “chefecomuma vara”. Esta vara
eraum símbolode força eliderança, bem
como uma arma. Cada tribo continha
pessoas devárias gerações. Cada geração
possuía diversas famílias ou clãs. Cada
clã se compunha de várias casas de seus
pais.
Há alguma ambigüidade no significa­
do da palavra mil. A RSV a traduz por
clãs (1:16), enquanto a ASR a verte
como “milhares”, com a nota “ou famí­
lias” na margem (cf. Juí. 6:15; I Sam.
10:19). Notar o paralelo sinônimo em
1:16, entre “astribos de seus pais” e clãs
de Israel (IBB, “milhares”). A palavra
milhares pode designar uma unidade fa­
miliar ou uma companhia de mil ho­
mens, unida sob um líder. Usava-se o
termo, às vezes, para semelhante unida­
de, sem especificar o número de homens
envolvidos. Na fórmula deste censo, o
versículo 21 talvez leia quarenta e seis
(unidades), quinhentos. A palavra cem é
sempre usada numericamente, de ma­
neira que pode ter havido 46 unidades na
tribo de Rúben, com um total de 500
homens em idade hábil para o serviço
militar. A tribo de Simeão pode ter tido
59unidades tribais, com um total de 300
militares; Gade 45 unidades e uma força
militarde 650homens, etc.
Se o tamanho da força adequada para
o serviço militar totalizava 603.550 ho­
mens, onúmero total depessoas seria de,
aproximadamente, 2 milhões. Norman
Snaith conclui que, se marchassem em
fileiras de cinqüenta, com um metro
entre cada fileira e a seguinte, a coluna
estender-se-ia por 35 quilômetros. Por
conseguinte, muitos escritores questio­
nam a precisão de uma tradução que
resultasse em semelhante total. Seria
muito difícil, se não impossível, suster
com comida e água uma multidão tão
enorme durante as peregrinações no de­
serto.
Os israelitas antigos são pintados co­
mo marchandojuntos, desde o Egito até
a Terra Prometida, numa unidade tão
compacta que se precisava de apenas
“duas...trombetas” para congregar todo
opovo (10:2). Deuteronômio 7:17-24 as­
sinala que algumas das nações que ha­
viam de encontrar nas suas viagens eram
maiores que eles. Um exército de 603.000
seriaum exército sobrepujante.
O crescimento de um grupo de 70
pessoas em uma multidão de 2 milhões,
no período de tempo de José a Moisés,
seria altamente surpreendente. Seme­
lhante aumento rápido de população só
por silevantaria uma dúvida.
Se a palavra for traduzida por clã ou
unidade, no lugar de mil, teríamos 598
unidades dentro das 12 tribos, com uma
força militar de 5.500. É preciso notar,
todavia, que as cifras totais (v. 46) foram
incluídas pelo compilador sacerdotal na
base da tradução de “mil”.
2. A Organização Para o Serviço do Ta­
bernáculo(l;47-54)
47 Mas os levitas, segundo a tribo de seus
pais, não foram contados entre eles; 48 por­
quanto o Senhor dissera a Moisés: 49 So­
mente não contarás a tribo de Levi, nem
tomarás a soma delas entre os filhos de
Israel; 50 mas tu põe os levitas sobre o ta­
bernáculo do testemunho, sobre todos os
seusmóveis, e sobre tudo oque lhe pertence.
Eles levarão o tabernáculo e todos os seus
móveis, e o administrarão; e acampar-se-ão
ao redor do tabernáculo. 51 Quando o taber­
náculo houver de partir, os levitas o desar­
marão; e quando otabernáculo se houver de
assentar, os levitas o armarão; e oestranho
què se chegar será morto. 52 Os filhos de
Israel acampar-se-ão, cada um no seu ar­
raial, e cada um junto ao seu estandarte,
segundo os seus exércitos. 53 Mas os levitas
acampar-se-ão ao redor do tabernáculo do
testemunho, para que não suceda acender-
110
se Ira contra a congregação dos filhos de
Israel; pelo que oslevitas terão ocuidado da
guarda do tabernáculo do testemunho.
54Assim fizeram os filhos de Israel; confor­
me tudo o que o Senhor ordenara a Moisés,
assim ofizeram.
Os levitas das tribos de seus pais não
foram incluídos no censo, em razão de
não constar na lista de deveres o serviço
militar e este censo ter sido feito exclusi­
vamente com fins militares. Os levitas
foram colocados à parte e tomaram o
lugar dos primogênitos, como pertencen­
do especialmente a Deus. Visto que os
primogênitos foram incluídos entre os
aptos para a guerra, os levitas ficaram
isentos.
Alguns escritores sustentam que os
levitasnão foram incluídos em razão de o
censo ser contrário à vontade de Deus
(II Sam. 24), e de serem eles santos.
Portanto, seria errado incluir os levitas
em semelhante assunto. Se esse for todo
o motivo, Números 3:15 (os levitas ha­
viam de ser contados conforme 3:15)
forçosamente há depertencer a um outro
estrato cultural. Cada censo deve ser
considerado no contexto em que é regis­
trado oufeito.
Não há nenhuma certeza quanto ao
conteúdo e à força do termo levitas.2
De fato, o termo pode às vezes conter
uma referência genealógica, porém, em
outras referências, pode fazer alusão a
uma função que tem sido equacionada
com este título.
Levi foi o terceiro filho de Jacó e Léia.
Como tal, foi o antepassado epônimo da
tribo. A semelhança entre a palavra Levi
e o nome Léia tem dado margem ao
ponto de vista de que “Levi” é um nome
gentílico, i.e., um leiaíta ou levita. Em
18:2 e 4, Levi é usado com a palavra
cognata unir-se (heb., lwh). Assim, a
idéia é de que um levita era alguém que
estava “unido” a ou que assistia a al­
guém.
2 Johannes Pedeisem, Israel, Vols. III,IV (Copenhague:
G. E. C. Gad), p. 680e ss.
Um outro ponto de vista relacionado
com esse baseia-se no fato de que os
nomes dos sacerdotes em Gênesis 14:18,
41:45, 46:20, 47:22-26eÊxodo2:16, 3:1,
18:1 eram de não-israelitas. Assim, uma
opinião é que eram estrangeiros que se
uniram aos israelitas durante a viagem
do Êxodo. Porém, o fato de não termos
os nomes de nenhum sacerdote israelita
de uma época primitiva não quer dizer,
necessariamente, que não tenham existi­
do. Um argumento de silêncio não pode
provarqualquer conclusão. Uma opinião
concomitante seria que o levita era um
assistente religiosohebreu ou não-israeli­
ta queera associado ao culto do taberná­
culoouaté a algum santuáriocultual.
Será necessário o intérprete examinar
cada uso em seu próprio contexto his­
tórico, para verificar se o termo levita é
puramente genealógico, genealógico e
funcional, ou puramente funcional. O
termo não pode ser classificado como
exclusivamente funcional, tendo em vista
a existência de registros bem substancio­
sos de que Levi era uma das tribos ori­
ginais de Israel.
No livro de Números, os levitas eram
colocados à parte, para o serviço do san­
tuário. Os três graus da hierarquia são os
levitas, os sacerdotes e o sumo sacerdote.
Os levitasestavam abaixo dossacerdotes,
os filhos de Arão. Entre os sacerdotes
havia um sumo (grande) sacerdote (35:
25,28). Em alguns registros, os sacer­
dotes são chamados de levíticos, mas em
1:47-54 somente os levitas são anotados.
Foram selecionados para funções sagra­
das, especiais, por ordem específica de
Deus. Foram nomeados e feitos supervi­
sores do tabernáculo e de todos os seus
apetrechos. Como parte de seu ofício,
deviam transportar o tabernáculo e cui­
dar dele. Todo o trabalho a ser feito com
relação à tenda estava a cargo dos levi­
tas. Também cabia a eles proporcionar
proteção.
O tabernáculo era o local físico que
representava, para o povo de Israel, a
111
presença deDeus. Era o lugar da habita­
ção do Santo. Irradiando da tenda em
todas as direções, havia a sua santidade.
Os levitas eram separados como servos
sagrados, e assim deviam cercar o taber­
náculo completamente com o seu acam­
pamento. Quanto mais próximo ao lugar
santíssimo, tanto mais poderoso o efeito
da santidade. Portanto, só o grande sa­
cerdotepodia entrar no lugar santíssimo.
A presença de Deus como santa devia
ser vista à luz da santidade e reverência
que se presta a ele, que é santo e tem de
ser reverenciado. A aproximação de sua
santidade será dentro do contexto da
aliança com ele. Os levitas incorporaram
não apenas oofício, mas também oprivi­
légioe a honra do povo de Israel como a
família da aliança. Eram os representan­
tes especiais do povo. Desse modo, de­
viam incorporar o princípio da primoge-
nitura. Não eram servos de tempo par­
cial, mas precisavam manter sempre di­
ante de todo o povo as responsabilidades
da aliança em cultoesantidade.
As atividades reais dos levitas varia­
vam de vez em quando na história de
Israel. Eles cuidavam dos vários segmen­
tos do santuário (I Crôn. 23:28-32). Al­
guns levitas são também citados como
porteiros (II Crôn. 8:14), encarregados
dos tesouros (I Crôn. 26:20), encarrega­
dos dos cânticos de ações de graças
(Neem. 12:8) e como ajudando o povo a
entender a Tora (Neem. 8:7). Houve
épocas em que os cantores e os porteiros
eram completamente separados dos levi­
tas. Na História posterior, os escribas
assumiram a função didática da inter­
pretação da Tora.
Assim, às vezes os levitas eram sacer­
dotais, e os sacerdotes, levitas. Porém,
quando o termo levita ou levítico se tor­
nou mais funcional do que genealógico,
não foi possível fazê-lo nem sinônimo de
sacerdote nem algo completamente di­
versodele.
Os deveres e a comissão dos levitas
eram mais importantes aos propósitos do
autor doque onúmero.
Este trecho (1:47-54) completa o le­
vantamento populacional. Dois aspectos
da vida de Israel que predominam no
registro são o culto e a guerra. É, pro­
vavelmente, à luz do princípio da primo-
genitura que os deveres do levita, dentro
do culto do tabernáculo, são relaciona­
dos ao serviço militar. A idéia da primo-
genitura incorporou os direitos tanto em
guerra como no culto. O censo do pri­
meiro capítulo constitui a organização
básica para a guerra, e este parágrafo
contém a organização básica das provi­
dências para o culto e a presença de
Deus.
3. A Organização Para o Acampamento
(2:1-34)
0 ponto focal do acampamento era o
tabernáculo. Formava-se um quadrado
externo, com três tribos para cada lado
da tenda.
(1) Leste—ludá(2:1-9)
1Disse oSenhor a Moisése a Arão: 2 Osfi­
lhosde Israel acampar-se-ão, cada um junto
ao seu estandarte, com as insígnias das
casas de seus pais; ao redor, de frente para
a tenda da revelação, se acamparão. 3Aola­
do oriental se acamparão os do estandarte
do arraial de Judá, segundo os seus exérci­
tos; e Nasom, filho de Aminadabe, será o
príncipe dos filhos de Judá. 4 E o seu exér­
cito, os que foram contados deles, era de
setenta e quatro mil e seiscentos. 5 Junto a
eles se acamparão os da tribo de Issacar; e
Netanel, filho de Zuar, será o príncipe dos
filhos de Issacar. 6 E o seu exército, os que
foramcontadosdeles,era decinqüentae qua­
tro mile quatrocentos. 7Depoisa tribo de Ze-
bulom; e Eliabe, filho de Helom, será o
príncipe dos filhos de Zebulom. 8 E o seu
exército, os que foram contados deles, era
de cinqüentae sete mil e quatrocentos. 9 To­
dos os que foram contados do arraial de
Judá eram cento e oitenta e seis mil e qua­
trocentos, segundo os seus exércitos. Esses
marcharão primeiro.
112
Judá é a tribo central, com Issacar de
um lado eZebulom do outro. O acampa­
mento oriental inteiro (Judá) se compu­
nha de 186.400 pessoas. Judá havia de
estabelecer o seu acampamento no leste,
antes de os outros acampamentos serem
erigidos. De frente para a tenda...se
acamparão é apresentado na KJV como
“distante, ao redor do tabernáculo”.
O rabi Rashi interpretou o texto como
significando uma milha ou dois mil cô-
vados.
(2) Sul —Rúben (2:10-17)
10 O estandarte do arraial de Rúben, se­
gundo os seus exércitos, estará para a ban­
da do sul; e Elizur, filho de Sedeur, será o
príncipe dos filhos de Rúben. 11 E o seu
exército, os que foram contados deles, era
dequarenta e seis mile quinhentos. 12Junto
a ele se acamparão os da tribo de Simeão;
e Selumiel, filho de Zurisadai, será o prín­
cipe dos filhos de Simeão. 13 E o seu exér­
cito, os que foram contados deles, era de
cinqüentae nove mile trezentos. 14Depois a
tribo de Gade; e Eliasafe, filho de Reuel,
será opríncipe dosfilhosde Gade. 15E o seu
exército, os que foram contados deles, era
de quarenta e cinco mil seiscentos e cin­
qüenta. lfi Todos os que foram contados do
arraial de Rúben eram cento e cinqüenta e
um mil quatrocentos e cinqüenta, segundo
os seus exércitos. Esses marcharão em se­
gundo lugar. 17 Então partirá a tenda da
revelação com o arraial dos levitas no meio
dos arraiais; como se acamparem, assim
marcharão, cada um no seu lugar, segundo
osseus estandartes.
Rúben é a tribo central para o lado
meridional, com Simeão e Gade a cada
lado dela. O acampamento de Rúben
deviaserinstalado aosul, imediatamente
depois de o acampamento de Judá, a
leste, ter sidofixado.
Oversículo 17 torna claro que a finali­
dade principal das instruções para o
acampamento e a marcha era fazer com
que a tenda da congregação ficasse no
centro. A tenda tinha de ser guardada
seguramente sempre. No acampamento,
haveria três tribos para cada lado, os
servos do tabernáculo formariam bem
dentro dessas doze tribos. Em Êxodo
33:7-11 eNúmeros 11:24-30(materialE),
a tenda “estava fora doarraial”.
Na marcha, haveria seistribos na fren­
te e seis tribos a seguir. Embora os
modelos do acampamento sejam predo­
minantes neste capítulo, as referências
nos versículos 9b, 16b, 17, 24b e 31b
indicam a centralidade da tenda da con­
gregação.
(3) Oeste —Efraim(2:18-24)
18 Para a banda do ocidente estará o
estandarte doarraial de Efraim, segundo os
seus exércitos; e Elisama, filho de Amiúde,
será o príncipe dos filhos de Efraim. 19 E o
seu exército, os que foram contados deles,
era de quarenta mil e quinhentos. 20Junto a
eles estará a tribo de Manassés; e Gama-
liei, filho de Pedazur, será o príncipe dos
filhos de Manassés. 21 E o seu exército,
os que foram contados deles, era de trin­
ta e dois mil e duzentos. 22 Depois a tri­
bo de Benjamim; e Abidã, filho de Gideô-
ni, será o príncipe dos filhos de Benjamim.
23 E o seu exército, os que foram contados
deles, era de trinta e cinco mil e quatrocen­
tos. 24 Todos os que foram contados do
arraial de Efraim eram cento e oito mil e
cem, segundo os seus exércitos. Esses mar­
charão em terceiro lugar.
Efraim é a tribo que dá o seu nome a
todo o acampamento ocidental. Assim
como fora dado aos levitas a tarefa im­
portante de cercar imediatamente o pon­
to focal da presença de Deus, estas tri­
bos haviam de tomar o seu lugar de
responsabilidade em proteger a tenda
reverenciada.
(4) Norte - Dã(2:25-34)
25 Para a banda do norte estará o estan­
darte do arraial de Dã, segundo os seus
exércitos; e Aíezer, filho de Amisadal, será
o príncipe dos filhos de Dã. 26 E o seu exér­
cito, os que foram contados deles, era de
sessenta e dois mil e setecentos. 27 Junto a
eles se acamparão os da tribo de Aser; e
Pagiel, filho de Ocrã, será o príncipe dos
filhos de Aser. 28 E o seu exército, os que
foram contados deles, era de quarenta e um
mile quinhentos. 29Depois a tribo de Nafta-
113
li; e Aírá, filho de Enã, será o príncipe dos
filhos de Naftali. 30 E o seu exército, os que
foram contados deles, era de cinqttenta e
três mil e quatrocentos. 31 Todos os que
foram contados do arraial de Dã eram cen­
to e cinqüenta e sete mil e seiscentos. Esses
marcharão em último lugar, segundo os
seus estandartes. 32 São esses os que foram
contados dos filhos de Israel, segundo as
casas de seus pais; todos os que foram
contados dos arraiais segundo os seus exér­
citos, eram seiscentos e três mil quinhentos
e cinqüenta. 33Os levitas, porém, conforme
o Senhor ordenara a Moisés, não foram con­
tados entre os filhos de Israel. 34 Assim
fizeram os filhos de Israel, conforme tudo o
que o Senhor ordenara a Moisés; acampa­
ram-se segundo os seus estandartes, e mar­
charam, cada qual segundo as suas famí­
lias, segundoas casas de seus pais.
Dã é o clã que mantém a posição
central, na orla externa de proteção.
Ê esta tribo que dá o seu nome ao grupo
setentrional.
Os acampamentos oriental, setentrio­
nal e meridional tinham a maior respon­
sabilidade na proteção. O grupo ociden­
tal era bem menor que os outros três.
Entre osgrupos principais, Judá e Rúben
eram osmaisfortes.
A organização tradicional do povo do
mundo oriental em clãs distintos apóia a
idéia de que cada uma das casas dos seus
pais possuía o seu próprio estandarte.
A maior parte dos exércitos orientais
tinhaemblemasreligiosos. O rabiAbraão
Ibn Ezra registra a tradição de que o
estandarte do acampamento meridional
deRúben tinha a forma deum homem, o
acampamento setentrional de Dã, a for­
ma de uma águia, o acampamento oci­
dental deEfraim, a forma de um boi, e o
acampamento oriental de Judá, a forma
deum leão.
O povo de Israel havia de acampar
cada um próximo de seu próprio estan­
darte. A palavra estandarte (degel) cos­
tuma ser traduzida por “pendão”, na
maioria dos léxicos, com base provavel­
mente no fato de que uma divisão de um
exército teria sua própria insígnia. Os
rolosdeQumran, como também os papi­
ros de Elefantina, contêm esta palavra
para significar divisão ou unidade de um
exército (de Vaux, p. 226 e 227). De
maneira que2:2 deveserentendido como j
encampar-se-ão cada um próximo à sua
própria(divisão militar), com oestandar­
te das casas de seus pus. Por todo o
segundo capítulo, a palavra estandarte
(v. 2,3,10,17,18,25,31,34) deverá ser in­
terpretada como divisão ou unidade mi­
litar.
4. A Organização dos Sacerdotes e Levi­
tas(3:1-4:49)
(1) AsGeraçõesdeArãoe Moisés
(3:1-13)
1 Estas, pois, eram as gerações de Arão e
de Moisés, nodia em que o Senhor falou com
Moisésnomonte Sinai. 2Osnomes dos filhos
de Arão são estes: o primogênito, Nadabe;
depois Abiú, Eleazar e Itamar. 3 São esses
os nomes dos filhos de Arão, dos sacerdotes
que foram ungidos, a quem ele consagrou
para administrarem o sacerdócio. 4 Mas
Nadabe e Abiú morreram perante o Senhor,
quando ofereceram fogo estranho perante o
Senhor no deserto de Sinai, e não tiveram
filhos; porém Eleazar e Itamar administra­
ram o sacerdócio diante de Arão, seu pal.
5Então disse oSenhora Moisés: 6Faze che­
gar a tribo de Levi, e põe-nos diante de
Arão, osacerdote, para que o sirvam; 7eles
cumprirão o que é devido a ele e a toda a
congregação, diante da tenda da revelação,
fazendo o serviço do tabernáculo; 8 cuida­
rão de todos os móveis da tenda da revela­
ção, e zelarão pelo cumprimento dos deve­
res dos filhos de Israel, fazendo oserviço do
tabernáculo. 9 Darás, pois os levitas a Arão
e a seus filhos; de todo lhes são dados da
parte dos filhos de Israel. 10Mas a Arão e a
seus filhos ordenarás que desempenhem o
seu sacerdócio; e o estranho que se chegar
será morto. 11 Disse mais o Senhor a Moi­
sés: 12Eu, eu mesmo tenho tomado os levi­
tas do meio dos filhos de Israel, em lugar de
todoprimogênito, que abre a madre entre'os
filhos de Israel; e os levitas serão meus,
13 porque todos os primogênitos são meus.
No dia em que feri a todos os primogênitos
na terra do Egito, santifiquei para mim
todos os primogênitos em Israel, tanto dos.
homens como dos animais; meus serão. Eu
souo Senhor.
114
Estas, pois, eram as Gerações de Arão
edeMoisés. Esta frase integra esta seção
na estrutura do Pentateuco como um
todo. O Pentateucopode ser didivido nas
dezseçõesde “gerações” (cf. Gên. 5:1 —
gerações deAdão; 6:9 — de Noé; 10:£1—
dos filhos de Noé; 11:10 — de Sem;
11:27 — de Tera; 25:12 — de Ismael;
25:19 — de Isaque; 36:1 — de Esaú;
37:2 — de Jacó: Núm. 3:1 — de Arão e
Moisés). Estas divisões revelam tanto
uma história genealógica quanto tam­
bém a história da salvação. Note-se que
este último versículo coloca Arão antes
de Moisés, conquanto se esperasse a or­
dem contrária. A ênfase, nesta seção,
está claramente em Arão, no sentido de
que o autor chama a atenção especifica­
mente para os sacerdotes, enquanto
mantém ainda em foco o papel dos le­
vitas.
Temos muita dificuldadeem distinguir
entre a tradição sobre Moisés e a sobre
Arão. Na verdade, é quase totalmente
infrutífero fazer a tentativa. Não há ne­
nhum registro dos descendentes do pró­
prioMoisés dentro da corrente central de
sua história. Os descendentes de Arão
aparecem através de toda a história reli­
giosa de Israel como preservada no sa­
cerdócio. Não é Moisés que se conhece
como o ancestral dos levitas. Porém se
mostra Arão como estando diretamente
relacionado com eles através de todo o
sacerdócio.
Os sacerdotes são introduzidos em
3:1-4 como a ordem posterior definida­
mente estabelecida, como os sacerdotes
ungidos, muito embora anteriormente a
ênfase toda recaísse sobre os levitas. Os
sacerdotes eram consagrados (lit. enchi­
das as suas mãos; cf. Êx. 28:41; 29:9;
Lev. 8:33). Porém os levitas não. A rela­
ção específica entre os sacerdotes e os
levitas é difícil de se descobrir. Na reali­
dade, ela não é registrada como idêntica
em todos os períodos nem das Escrituras
nem da históriajudaica.
Em Êxodo 6:16-25, achamos a linha­
gem da tribo de Levi. Levi teve três fi­
lhos: Gérson, Coate e Merári. Coate era
o pai de Anrâo, que era o pai de Moisés
e Arão. Números 3 também esboça a li­
nhagem de Levi e inclui as funções leví-
ticas.
A fim de que esse povo pudesse sobre­
vivernos desertos, em meioàs durezas da
viagem, aos perigos de bandos de saltea­
dores, e à desproteção diante dos muitos
deuses, ao longe do caminho, a impor­
tância especial e a centralidade da pre­
sença de Deus deveriam ser delegadas a
uma parte muito especial da família.
Note-se que se deu à tribo de Judá a
função e a posição mais importantes na
“política” do povo, ao passo que aos
sacerdotes da linha de Arão, a função
especial no aspecto “espiritual” de sua
vida.
A omissão de Moisés no versículo 2 é
bem significativa. O sacerdócio mantém
ocontrole sobre o enfoque deste historia­
dor. Através de todo omundo oriental, a
posição do primogênito era única, na
organização da família e para a posteri­
dade. Esperava-se que o primeiro filho
masculino, em virtude de ser o primeiro
filho nascido ao pai, assumisse uma par­
te dobrada de autoridade e de atividade.
Esse direito dava, às vezes, uma posição
de influência e, às vezes, era a causa de
tensões familiares (por ex., Jacó, Esaú e
Raquel). Não se sabia das origens da
tradição da primogenitura, porém era
compreendida por eles como um fato da
vida. Aceitavam-na com naturalidade e
raras vezes levantavam questões a esse
respeito. Se o primogênito falecesse ou
fosse morto, o direito da primogenitura
passava automaticamente para o próxi­
mo filho. Depois de Nadabe, o filho mais
velho, veio Abiú, e, então, Eleazar e
Itamar.
A história resumida de Nadabe e Abiú
(3:4) é narrada mais completamente em
Levítico 10:1-7 (cf. I Crôn. 24:2). Morre­
ram sem deixar filhos, o que colocou
115
Eleazar e Itamar na posição de filhos da
famíliade Arão sobre odireito espiritual.
O fogo estranho (“fogo profano”, nas
versões inglesas) que Nadabe e Abiú ofe­
receram era contrário à lei sacerdotal, e
osalienou da solidariedadereligiosa.
A tribo de Levi devia servir às necessi­
dades de Arão e seus filhos. Todos os
sacerdotes, ou seja, os descendentes de
Arão — Eleazar e Itamar — eram levi­
tas, porém nem todos os levitas eram
sacerdotes. Os levitas que não eram sa­
cerdotes tinham as suas funções levítica e
cultual, mas eram os sacerdotes que
constituíam o grupo central na vida do
tabernáculo e na direção religiosa. Os
deveres dos levitas são repetidos (cf. 1:50
e 51), com uma explicação importante,
ou seja, eles haviam de ser assistentes
sacerdotais. Pode-se ver a ênfase sacer­
dotal do escritor no fato de que os levitas
foram dados de todo a Arão e aos seus
filhos. A “qualquer outra pessoa” da
RSV (3:10,38) é literalmente “o estra­
nho”, como no texto português. Exata­
mente da mesma forma como o fogo de
Nadabe e Abiú não foi aceito porque era
profano(lit., estranho), as pessoas que se
aproximassempara servirno tabernáculo
não podiam ser estranhas ou de famílias
que não sacerdotais.
A explicação etiológicã da história dos
levitas é descrita sob outro prisma na
relação dos primogênitos (3:11,12). Não
existe qualquer dúvidade que o Universo
inteiro e todos os seres vivos seus habi­
tantes são propriedade de Deus. Há,
porém, seleções e vocações especiais. Os
primogênitos estavam em semelhante ca­
tegoria já em época muito primitiva
(cf. Êx. 13:2; 22:29 e 30; 34:19 e 20
JeE).
Há uma substituição “um por um”:
levitapor primogênito. O versículo 13 dá
uma clara idéia de direito de proprieda­
de ou posse como a base para a subs­
tituição. Os primogênitos de Israel eram
especiais, visto que foram preservados
por uma separação miraculosa e distin­
guidos dos primogênitos egípcios. Esta
distinção era tanto animal como huma­
na, e constituía mais uma prova signifi­
cativa da proximidade entre ohomem e o
animal e vice-versa. O princípio da subs­
tituição, comoexplicadoem 3:45, abran­
gia tanto seres humanos como gado, na
troca “um porum’’.
O primeiro pertence a Deus, como
também o que a partir daí for acrescen­
tado. As posses, os talentos, os lucros e
osprimogênitospertencem a Deus. Men­
ciona-se essa relação aos dízimos e das
ofertas trazidas no primeiro dia da se­
mana.
A clara necessidade da santidade dos
levitase dos sacerdotes(cf. oestranho e o
pagão, bem como o profano) é um des­
taque central do livro de Levítico. A ên­
fase no meus serão. Eu sou o Senhor é
uma expressão característica do Código
Sacerdotal da Santidade (Lev. 17:26).
Eu sou o Senhor contém uma singeleza
depropósito econtrole que é um elemen­
toprimário na santidade.
Os versículos 1-4 mostram a relação
dos sacerdotes para com os levitas, como
era entendida na época da redação final
do livro de Números. Evidentemente, o
padrão de referênciaésacerdotal.
Os versículos 5-13 estabelecem a posi­
ção dos levitas em função de sua substi­
tuição dos primogênitos. Assim vemos,
deforma inversa, a cronologia da organi­
zação religiosa oficial do povo de Israel.
O fundamento para o culto, para o local
do culto e para os apetrechos do culto,
etc., éoDeus da aliança.
(2) A Linhagem e a Posição dos Levitas
(3:14-51)
Em 3:14-4:49 se acha a explicação da
linhagem e dos deveres dos levitas. Este
censp realizou-se no deserto, e não na
montanha. Nachmanides sugere que os
sacerdotes foram nomeados no monte
Sinai, mas os levitas comissionados no
deserto de Sinai. O versículo 1 do capí­
tulo 3 fala das genealogias “no dia em
116
que oSenhorfalou com Moisés no monte
Sinai”, embora o versículo 4 mostre a
seleçãode Eleazare Itamarcomosendo o
verdadeiro sacerdócio. O versículo 14
leva-nosseguramenteao deserto.
14 Disse mais o Senhora Moisés no deser­
to de Sinai: 15 Conta os filhos de Levi,
segundo as casas de seus pais, pelas suas
famílias; contarás todo homem da idade de
um mês para cima. 16 E Moisés os contou
conforme o mandado do Senhor, como lhe
fora ordenado. 17 Estes, pois, foram os fi­
lhos de Levi, pelos seus nomes: Gérson,
Coate e Merári. 18E estes são os nomes dos
filhos de Gérson, pelas suas famílias: Lábni
e Simei. 19 E os filhos de Coate, pelas suas
famílias: Anrão, Izar, Hebrom e Uziel.
20 E os filhos de Merári, pelas suas famí­
lias: Mali e Musi. São essas as famílias dos
levitas, segundo as casas de seus pais.
Na contagem anterior, foram consi­
derados os homens acima de vinte anos.
Neste censo, porém, todos os homens a
partir de um mês de idade deviam ser
relacionados. A explicação para as dife­
renças entre as idades selecionadas se
vêna finalidade do censo. A faixa acima
dos 20 é da idade da força e maturidade
necessárias para a proteção. Mas os levi­
tas estavam sendo contados a fim de se
verificar o número total de seres de ma­
neira que a substituição “um por um”
pudesse ser efetivada. Um israelita tinha
queserredimido com a idade de um mês
ou menos. Tal seria a idade em que se
considerava o levita como um substituto
apropriado eválido.
A origem das diversas linhas nas ge­
nealogias dos levitas é esboçada (3:14-
20): Levitevetrês filhos —Gérson, Coate
eMerári: Gérson tevedoisfilhos —Líbni
e Simei; Coate teve quatro filhos —
Anrão (o pai de Moisés e Arâo), Izar,
Hebrom e Uziel; Merári teve dois filhos
—MalieMusi.
21De Gérson era a família dos libnitas e a
família dos simeitas. São estas as famílias
dos gersonitas. 22 Os que deles foram con­
tados, segundo onúmero de todos os homens
da idade de um mês para cima, sim, os que
deles foram contados eram sete mil e qui­
nhentos. 23 As famílias dos gersonitas
acampar-se-ão atrás do tabernáculo, ao oci­
dente. 24 E o príncipe da casa paterna dos
gersonitas será Eliasaie, filho de Lael.
25E osfilhosde'Gérson terão a seu cargo na
tenda da revelação o tabernáculo e a tenda,
a sua coberta e o reposteiro da porta da
tenda da revelação, 26e as cortinas do átrio,
e o reposteiro da porta do átrio que está
junto ao tabernáculo e junto ao altar, em
redor, como também as suas cordas para
todo oseu serviço. 27De Coate era a família
dos anramitas, e a família dos izaritas, e a
família dos hebronitas, e a família dos uzie-
litas; são estas as famílias dos coatitas.
28Segundo o número de todos os homens da
idade de um mês para cima, eram oito mil
e seiscentos os que tinham a seu cargo o
santuário. 29 As famílias dos filhos de Coate
acampar-se-ão ao lado do tabernáculo para
a banda do sul. 30 E o príncipe da casa
paterna das famílias dos coatitas será Eli-
zafã, filhode Uziel. 31Eles terão a seu cargo
aarcae a mesa, o candelabro, osaltares e os
utensílios do santuário com que ministram,
e o reposteiro com todo o seu serviço. 32E o
príncipe dospríncipes de Levi será Eleazar,
filho de Arâo, o sacerdote; ele terá a supe­
rintendência dos que têm a seu cargo o
santuário. 33 De Merári era a família dos
malitas e a família dosmusitas; são estas as
famílias de Merári. 34 Os que deles foram
contados, segundo o número de todos os
homens de um mês para cima, eram seis
mil e duzentos. 35 E o príncipe da casa
paterna das famílias de Merári será Zuriel,
filhode Abiail; eles se acamparão ao lado do
tabernáculo, para a banda do norte. 36 Por
designação os filhos de Merári terão a seu
cargo as armações do tabernáculo e os seus
travessões, as suas colunas e as suas bases,
e todos os seus pertences, com todo o seu
serviço, 37 e as colunas do átrio em redor e
as suas bases, as suas estacas e as suas cor­
das.
O ramo de Gérson (v. 21-26) tinha
7.500 homens com mais de um mês de
idade, que haviam de tomar o seu lugar
no acampamento no lado ocidental, en­
tre o tabernáculo e a tríade efraimita.
Os seus serviços diziam respeito às co­
berturas externas da tenda, inclusive a
própria tenda (Êx. 26:7-14), o reposteiro
para a porta da tenda (Êx. 26:36), as
117
cortinas do átrio(Êx. 27:9) e o reposteiro
para a porta (Êx. 27:16).
Os coatitas (v. 27-32) totalizavam
8.600, e dentre os oito netos de Levi,
haveria servos suficientes para colocar
dois filhos para cada lado do taberná­
culo. Moisés e Arão eram filhos dos
anramitas, mas são anotados separada­
mente dentro do contexto sacerdotal
(3:38). Os outros coatitas haviam de
acampar no lado meridional da tenda,
entre a tenda eo acampamento rubenita.
Os seus serviços relacionavam-se com a
arca, a mesa, o candelabro (Êx. 25:31-
40), os altares de bronze e de ouro
(Êx. 27:1-8; 30:1-10), os vasos sagrados
(Êx. 30:17-21; 31:7-11) e os reposteiros.
(Havia três reposteiros na tenda: um na
entrada (v. 25,31); um no portão do átrio
(v. 26); e o que isolava o lugar santíssi­
mo, dentro da tenda.)
O versículo 32 parece quebrar a conti­
nuidade histórica dentro deste capítulo.
Porém, visto que Eleazar pertencia à
família de Coate, pertencia por conse­
guinte, à linhagem levítica. O autor faz a
observação de que ele era o filho de
Arão e o chefe sobre todos os levitas.
Esta observação havia de ser de grande
importância numa época quando existia
alguma diferença de opinião concernente
à linhagem e seleção do sumo sacerdote
ou à superioridade dentro da linha sacer­
dotal. Eleazarera omais velho filho exis­
tente, e assim assumiu o lugar do primo­
gênito, segundo a praxe de família deles.
Os meraritas (v. 33-37) totalizavam
6.200 e deviam acampar-se no lado nor­
te, entre o acampamento de Da e a
tenda. Os seus serviços abrangiam a es­
trutura da tenda (Êx. 26:15-30) e os
suportespara oátrio(27:9-19).
38Diante do tabernáculo, para a banda do
oriente, diante da tenda da revelação,acam-
par-se-ão Moisés, e Arão com seus filhos,
que terão a seu cargo o santuário, para ze­
larem pelo cumprimento dos deveres dos
filhos de Israel; e o estranho que se chegar
será morto. 39Todos os que foram contados
doslevitas, queMoisése Arão contaram por
mandado do Senhor, segundo as suas famí­
lias todos os homens de um mês para cima,
eram vinte e dois mil. 40 Disse mais o Se­
nhor a Moisés: Conta todos os primogênitos
dos filhos de Israel, da idade de um mês
para cima, e toma o número dos seus no­
mes. 41 E para mim tomarás os levitas
(eu sou o Senhor) em lugar de todos os
primogênitos dos filhos de Israel, e o gado
dos levitas em lugar de todos os primogê­
nitos entre o gado de Israel. 42Moisés, pois,
contou, como o Senhor lhe ordenara, todos
os primogênitos entre os filhos de Israel.
43E todos os primogênitos, pelo número dos
nomes, da idade de um mês para cima,
segundo os que foram contados deles, eram
vinte e dois mil duzentos e setenta e três.
44 Disse ainda mais o Senhor a Moisés:
45 Toma os levitas em lugar de todos os
primogênitos entre os filhos de Israel, e o
gado dos levitas em lugar do gado deles;
porquanto os levitas serão meus. Eu sou o
Senhor. 46 Pela redenção dos duzentos e
setenta e três primogênitos dos filhos de
Israel, que excedem o número dos levitas,
47 receberás por cabeça cinco siclos; con­
forme o siclo do santuário os receberás
(o siclo tem vinte jeiras), 48 e darás a Arão
e a seus filhos o dinheiro da redenção dos
que excedem o número entre eles. 49 Então
Moisés recebeu o dinheiro da redenção dos
que excederam o número dos que foram
remidos pelos levitas; 50 dos primogênitos
dos filhos de Israel recebeu o dinheiro, mil
trezentos e sessenta e cinco siclos, segundo o
siclo do santuário. 51E Moisés deu o dinhei­
ro da redenção a Arão e a seus filhos, con­
forme o Senhorlhe ordenara.
Moisés e Arão (v. 38) junto com os
filhos de Arão haviam de morar no leste,
entre o acampamento de Judá e a tenda,
o que representava a posição mais privi­
legiada. A família de Coate ficou encar­
regada dos apetrechos internos da tenda
e dos próprios ritos a Serem realizados
dentro dela. Havia uma maldição sobre
qualquer intruso nesses atos ou lugares
sagrados. As outras duas famílias, os
gersonitas eos meraritas, eram trabalha­
dores e servos, e, como tais, ocupavam a
posição menos favorecida, no sentido de
carregarem os itens menos sagrados da
tenda. Gérson ficou encarregado das co­
berturas, tanto de cima como dos lados.
Merári, dos postes, encaixes, armações,
118
estacas e as cordas. Provavelmente se
havia de dar a Itamara posição de super­
visor desses dois grupos, visto que Elea-
zar era o principal de todos os líderes
levíticos.
A cifra total do censo era de 22.300,
sendo que 7.500 eram de Gérson, 8.600
de Coate, 6.200 de Merári. Sem dúvida,
Moisés, Arão e os filhos de Arão eram
contados nolugar certo entre os coatitas.
Porém o versículo 39 dá o total como
sendo de apenas 22 mil. Tem-se dado
váriasexplicações para essa diferença.
Uma dessas explicações é a alegação
de que tenha havido um erro textual no
número total dos coatitas. O total apare­
ce no versículo 28 como de 8.600, porém
se sugere que uma letra tenha sido omi­
tida. Apalavra hebraica para seis é shsh.
Tem-se sugerido que um “1” tenha caído
do texto. A palavra shlsh significa três.
Dessaforma, onúmero total dos coatitas
seria de apenas 8.300 e, por conseguinte,
a cifra de 22 mil seria correta. O Talmu-
de mantém a cifra total de 22.300 levitas
primogênitos. Visto que havia primogê­
nitos entre os próprios levitas, eles não
podiam liberar 300 primogênitos corres­
pondentes dentre osnâo-levitas.
Duas vezes o texto diz que todos os
homens dessa idade totalizavam 22 mil.
Quando seexamina ouso costumeiro dos
números por parte dos hebreus, percebe-
se que há um emprego preciso de núme­
ros, e, portanto, o emprego de números
redondos. Esse ajuste no uso dos núme­
ros ainda é uma realidade entre os ju­
deus. Ãs vezes, naturalmente, é muito
difícil, se não impossível, descobrir qual
o sistema de emprego de números que se
deveaplicar.
É muito difícil correlacionar todas as
cifras, em Números, de acordo com um
padrão compreensível. Por exemplo, ha­
via 22 mil filhos primogênitos do sexo
masculino entre uma população de,
aproximadamente, 2 milhões de pessoas.
Dariauma média de, aproximadamente,
oito filhos por família, isso, já desconta­
dos os avós e casais sem filhos. Essa
cifra, como média, é elevada, embora
não sejaum número tão exagerado quan­
to possa parecer, se lembrarmos das fa­
míliasgrandes; que sãocaracterísticas do
mundo oriental. Porém deve-senotar qué
na família de Levi (Gérson, o primogê­
nito) havia só três do sexo masculino; na
família de Gérson, apenas dois; Coate
tinha quatro do sexo masculino; Merári,
dois. Esta linhagem compunha-se de fa­
mílias pequenas. De forma que a lista
que foi preservada para nós, neste livro,
não condiria com a média numérica de
uma congregação tão enorme.
Um dos problemas principais está na
disponibilidade ou transporte do alimen­
to e da água para uma assembléia tão
grande. The Interpreter’s Bible propõe
que estas cifras não devem ser tomadas
como exatas, mas que tinham o propósi­
to de dar uma compreensão clara dos
grandes atos de Deus (Marsh e Butzer,
p. 158).
O número dos levitas é relacionado
(3:39) como sendo de 22 mil. O número
dosprimogênitosem Israel era de 22.273.
Assim, a comparação do censo dá 273
primogênitos a mais em Israel do que o-
número dè levitas.
Visto que os levitas haviam de ser
aceitos como substitutos para os primo*
gênitos, os 22 mil seriam substituídos^
“um por um”. Mas os 273 teriam sido
redimidos, à razão de cinco siclos cada
um. Estes siclos deviam ser calculados
conforme o síclo do santuário (cf. Êx.
30:13).
Uma tradição judaica reza que cinco
sicloseram iguais às vinte peças de prata
pelas quais se venderam José para o
Egito. Este siclo era do peso de 20jeiras
(cf. Êx. 30:13; Lev. 27:25; Núm. 18:16;
Ez. 45:12). O siclo das medidas antigas,
fenícia ou hebraica, era mais pesado que
o siclo da Babilônia usado em tempos
ulteriores. O escritor toma o cuidado de
indicar o peso maior, ao invés do peso
menor, que seusava na época dele. À ra-
119
zão de cinco siclos para cada um dos 273
israelitas, Moisésrecebeu 1.365, e deu-os
a Arãoeaos seusfilhos.
A pergunta quanto ao método usado
para levantar essa quantia fica sem res­
posta. Em Êxodo 30, cada pessoa tinha
de dar meio siclopela sua redenção. Não
há qualquer fundamento para se julgar
sehavia distribuição da quantia que cada
levita tinha de pagar ou se era usado
outro método para se levantar os fundos.
No versículo 45, há menção específica
da redenção também do gado de Israel
pelo gado doslevitas. Os primogênitos do
gado de Israel também pertenciam, de
uma maneira santa, especial, a Deus
(3:12, 13), o que, mais uma vez, reflete
a posição dos primogênitos na experiên­
cia da Páscoa egípcia. Não se faz nenhu­
ma mençãoda contagem do gado. Mas a
troca do gado pertencente a Levi e a
Israel constituía mais uma modificação
da posição convencionada dos primogê­
nitos.
O princípio da substituição abre a
questão da possibilidade da troca dos
recebedores da honra e da responsabili­
dade. O padrão convencional da vida, no
Oriente Médio, envolvia o primogênito,
por via de regra. O filho mais velho de
sexo masculino gozava de certos privilé­
gios, tais como precedência, herança e
posição. Embora o princípio ou os mo­
tivos para a concessão dos privilégios e
deveres permaneçam, o instrumento pa­
ra a realização desse princípio pode ser
(1) mudado, comouma variação da regra
(cf. Jacó e Esaú; Peres e Zerá; Davi, o
mais novo de sua família; Salomão, o
filhomais novode Davi), ou (2) mudado,
como uma praxe normal (cf. os levitas
pelos primogênitos; a igreja por uma
raça). Os direitos dos primogênitos po­
diam ser perdidos por causa de alguma
infração séria ou ser transferidos por
acordo. A seleção dos “escolhidos” devia
ficar sempre nas mãos deDeus.
(3) OCensodasFamíliasLevíticas
(4:1-49)
1Disse mais o Senhor a Moisés e a Arão:
2 Tomai a soma dos filhos de Coate, dentre
osfilhosde Levi, pelas suas famílias, segun­
doas casas de seus pais, 3 da idade de trinta
anos para cima até os cinqttenta anos, de
todos os que entrarem no serviço para faze­
rem o trabalho na tenda da revelação.
4 Este será o serviço dos filhos de Coate na
tenda da revelação, no tocante às coisas
santíssimas: 5Quandopartir oarraial, Arão
e seus filhos entrarão e, abaixando o véu do
reposteiro, com ele cobrirão a arca do tes­
temunho; 6 pôr-lhe-ão por cima uma co­
berta de peles de golfinhos, e sobre ela
estenderão um pano todo de azul, e lhe me­
terão os varais. 7 Sobre a mesa dos pães da
proposição estenderão um pano de azul, e
sobre ela colocarão os pratos, as colheres,
as tigelas e os cântaros para as ofertas de
libação; também o pão contínuo estará so­
bre ela. 8 Depois estender-lhe-ão por cima
um pano de carmesim, o qual cobrirão com
uma coberta de peles de golfinhos, e mete­
rão à mesa os varais. 9 Então tomarão um
pano de azul, e cobrirão o candelabro da lu­
minária, as suas lâmpadas, os seus espevi-
tadores, os seus cinzeiros, e todos os seus
vasos de azeite, com que o preparam; 10e o
envolverão, juntamente com todos os seus
utensílios, em uma coberta de peles de gol­
finhos, e o colocarão sobre os varais. 11 So­
bre o altar de ouro estenderão um pano de
azul, e com uma coberta de peles de golfi-
lhos o cobrirão, e lhe meterão os varais.
12 Também tomarão todos os utensílios do
ministério, com que servem no santuário,
envolvê-los-ãonum pano de azule, cobrindo-
oscom uma coberta de peles de golfinhos, os
colocarão sobre os varais. 13 E, tirando as
cinzas do altar, estenderão sobre ele um
pano de púrpura; 14colocarão nele todos os
utensílios com que o servem: os seus bra­
seiros, os garfos, as pás e as bacias, todos os
utensílios do altar; e sobre ele estenderão
uma coberta de peles de golfinhos, e lhe
meterão os varais. 15 Quando Arão e seus
filhos, ao partir o arraial, acabarem de co­
brir o santuário e todos os seus móveis, os
filhos de Coate virão para levá-lo; mas nas
coisas sagradas não tocarão, para que não
morram; esse é o cargo dos filhos de Coate
na tenda da revelação. 16 Eleazar, filho de
Arão, o sacerdote, terá a seu cargo o azeite
da luminária, o incenso aromático, a oferta
contínua de cereais e o óleo da unção; isto
é, terá a seu cargo todo o tabernáculo, e
tudo o que nele há, o santuário e os seus
120
da idade mínima, bemcomo da máxima,
era denotar os anos do pleno vigor da
forçafísica, vistoque tãogrande parte do
trabalho dizia respeito ao transporte e à
montagem das diversas partes da tenda.
A Septuaginta coloca a idade mínima
como sendo de 25 (cf. 8:24). Acha-se a
mesma mudança de 30 para 25 anos, na
Septuaginta, também nos versículos 23 e
30. Registra-se a idade mínima como de
20 anos, sem nenhuma menção de uma
idade máxima, em Esdras 3:8 e I Crôni­
cas 23:24, porém em I Crônicas 23:3 o
levantamento dos levitas se registra como
de 30anos para cima.
Os descendentes de Coate (v. 1-20)
eram favorecidos entre os filhos de Levi,
e faziam parte do ramo da árvore genea­
lógica do qual Moisés e Arão traçavam
a sua linhagem. Os serviços dos coatitas
relacionavam-se com as coisas santíssi­
mas. Os sacerdotes encaixotavam todos
os utensílios, mas os coatitas os carrega­
vam. Haviam de mudar com a tenda. Os
coatitas não podiam tocar nas coisas san­
tas, sob a pena de morte (v. 15); aliás,
não haviam sequer de olhar para eles
(v. 20) nem por um momento (lit., como
uma engolição; ou seja, nem mesmo pelo
espaço de tempo que se demora para en­
golir). Eleazar, filho de Arão, filho de
Anrão, filho deCoate, filho deLevi, era o
primogênito dos filhos restantes, de ma­
neira que havia de gozarda posição espe­
cial da supervisãoglobal(v. 16).
Gérson(v. 21:28) era oprimogênito de
Levi; Coate nasceu depois dele. A per­
gunta por que se deu a Coate os “privi­
légios da primogenitura” e não a Gérson
é interessante. Este é outro indício da
compilação do livro de Números num
período ulterior, quando se tinha de de­
fender o sacerdócio da linha de Arão.
Uma linhagem sacerdotal histórica tor­
nou-se muito importante depois da proe­
minência da realeza (monarquia). O sa­
cerdócio (sacerdocracia) podia defender-
se por mostrar uma história começando
antes do que qualquer outro ofício, fosse
deprofeta ou de rei.
A ênfase nos versículos 4-20 está na
obra de Arão e de seus filhos, e não na
dos coatitas. Na realidade, os versículos
5-15a tratam da obra de Arão e seus
filhos. Quase como um pensamento sur­
gido depois, o registro acrescenta que
quando Arão e seus filhos...acabarem...
osfilhosdeCoatevirãoparalevá-lo.
Nos versículos 21-28, os serviços dos
gersonitas são descritos como os de car­
regadores das cortinas, da cobertura, do
reposteiro e da tenda. Eleazar era o
supervisor dos coatitas. Itamar, o último
filho de Arão, era o supervisor tanto dos
gersonitas como dos meraritas.
É evidente que os levitas se situavam
numa posição mais remota da presença
de Deus do que os sacerdotes. Os levitas
haviam de se aproximar do santuário e
de seus apetrechos somente depois de os
sacerdotes terem colocado um véu como
cobertura sobre os apetrechos. Ã medida
que a linha de Levi se estende em famí­
lias cada vez mais divergentes, observa-
se uma reorganização progressiva dos
trabalhos relacionados com o taberná­
culo. Os diversos grupos tornam-se
“clãs-servos” dos sacerdotes. Alguns fo­
ram nomeados para posições mais próxi­
mas da presença de Deus do que outros.
A proximidade relativa do santuário re-
presentava-lhes o seu privilégio e dever
de estarem perante Deus e o povo e
apresentarem santidade.
5. A Organização dos Regulamentos do
Acampamento(5:1-10:10)
Até aqui, olivrocontém os regulamen­
tos ou as preparações para defesa, por
meio de uma força armada, os regula­
mentos ou as preparações para o acam­
pamentoepara aviagem da congregação
toda. No capítulo 5, tem início a seção
relacionada com os regulamentos para o
funcionamento interno do acampa­
mento.
122
(1) A Leida Exclusão do Acampamento
(5:1-4)
1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Ordena
aos filhos de Israel que lancem para foro do
arraial a todo leproso, e a todo oque padece
fluxo, e a todo o que está imundo por ter
tocado num morto; 3 tanto homem como
mulher os lançareis; para fora, sim, para
fora do arraial os lançareis; para que não
contaminem o seu arraial, no meio do qual
eu habito. 4 Assim fizeram os filhos de Is­
rael, lançando-ospara fora doarraial; como
o Senhor falara a Moisés, assim fizeram os
filhosde Israel.
Certas pessoas haviam de ser manti­
das fora do acampamento. Não podiam
estar dentro docordão interno dos levitas
nem dentro do coração externo das 12
tribos. As três categorias a serem excluí­
das são: osleprosos, aqueles com fluxos e
os que tiveram contato com cadáveres.
Essas três categorias tinham em comum
um período de sete dias de purgação
ritual e também o fato de que transmi­
tiam a sua contaminação. Eram conside­
radas imundas e, conforme a lei sacerdo­
tal, profanas.
Muito mais do que a saúde física do
acampamento estava envolvido nessas
restrições. Os israelitas não faziam se­
paração, em suas mentes ou leis, entre o
seu bem-estar físico e o espiritual. Em
sua história havia uma relação direta
entre a noção de limpeza ou pureza e a
da santidade ou consagração. Como o
levita e o sacerdote eram representantes
do Deus santo, eram também represen­
tantes do povo, que devia ser santo.
Como o tabernáculo era o ponto focal da
presença de Deus, era também o centro
de sua existência. A santidade de Deus é
um elemento básico na higiene. Havia
um elemento misterioso presente na san­
tidade. O que era santo era intocável.
Da mesma forma, o que era impuro era
intocável. Essa intocabilidade, com a sua
forçaperturbadora, era transmissível pe­
lo contato direto ou por um relaciona­
mento secundário(por ex., o lançamento
de uma sombra sobre alguém ou a pre­
sença da morte dentro de uma moradia).
O fato da imundícia do leproso vê-se
em Levítico 13:45-59, dos com fluxos do
corpo, dos órgãos sexuais, em Levítico
15:2-33, e daquele que tivera contato
com um cadáver em Levítico 21:1-12;
22:4; eAgeu 2:13.
A penalidade da exclusão do acampa­
mento (5:2-4) é mais rígida do que a de
Levítico 13:46, onde somente o leproso
devia ser excluído. Alguns explicam a
aplicação mais rígida, como interpretada
por alguns escritores, como necessária
por motivos militares. Porém esta expli­
cação não procede por causa da menção
de mulheres no versículo 3 (somente o
homem era contado na forçabélica).
No contexto do livro de Números, a
santidade da tenda e dos seus arredores
tem sido ressaltada. Os que eram consi­
derados imundos segundo a lei sacerdo­
tal deviam ser excluídos dos arredores do
lugar santo.
(2) ALeidaRestituição(5:5-10)
5 Disse mais oSenhora Moisés: 6 Dize aos
filhos de Israel: Quando homem ou mulher
pecar contra o seu próximo, transgredindo
os mandamentos do Senhor, e tornando-se
assim culpado, 7 confessará o pecado que
tiver cometido, e pela sua culpa fará plena
restituição, e ainda lhe acrescentará a sua
quinta parte; e a dará àquele contra quem
se fez culpado. 8 Mas, se esse homem não
tiver partente chegado, a quem se possa
fazer a restituição pela culpa, esta será feita
ao Senhor, e será do sacerdote, além do
carneiro da expiação com que se fizer expia­
ção por ele. 9 Semelhantemente toda oferta
alçada de todas as coisas consagradas dos
filhos de Israel, que estes trouxerem ao
sacerdote, será dele. 10 Enfim, as coisas
consagradas de cada um serão do sacerdo­
te; tudo oque alguém lhe der será dele.
Transgredindo os mandamentos do
Senhor é, literalmente, “agir traiçoeira­
mente comum ato traiçoeirocontra Yah-
weh”. A palavra “traiçoeiro” é uma pa­
lavra sacerdotal que descreve qualquer
pessoa que viola as regras sacerdotais.
123
Este parágrafo deverá ser estudado à luz
de Levítico 6:1-7. O impacto principal,
aqui, sevênofato de que nâo há nenhum
parente(go’e!) para recebera restituição.
Em determinadas situações, uma multa
(acrescentaráasuaquinta parte) é acres­
centada ao sacrifício. Quando o culpado
fazia restituição ao sacerdote, toda a
oferta trazida ao sacerdote lhe pertencia.
(3) ALeidoCiúme(5:11-31)
11 Disse mais o Senhor a Moisés: 12 Fala
aos filhos de Israel e dize-lhes: Se a mulher
de alguém se desviar pecando contra ele,
13 e algum homem se deitar com ela, sendo
isso oculto aos olhos de seu marido e conser­
vadoencoberto, se ela se tiver contaminado,
e contra ela não houver testemunha, por
não ter sido apanhada em flagrante; 14se o
espírito de ciúme vier sobre ele, e de sua
mulher tiver ciúmes, por ela se haver con­
taminado, ou se sobre ele vier o espírito de
ciúmes, e de sua mulher tiver ciúmes, mes­
mo que ela não se tenha contaminado;
15 o homem trará a sua mulher perante o
sacerdote, e juntamente trará a sua oferta
por ela, a décima parte de uma efa de fa­
rinha de cevada, sobre a qual não deitará
azeite nem porá incenso; porquanto é oferta
de cereais por ciúmes, oferta memorativa,
que traz a iniqüidade à memória. 16O sacer­
dote fará a mulher chegar, e a porá perante
oSenhor. 17E o sacerdote tomará num vaso
de barro água sagrada; também tomará do
pó que houver no chão do tabernáculo, e o
deitará na água. 18 Então apresentará a
mulher perante o Senhor, è descobrirá a
cabeça da mulher, e lhe porá na mão a
oferta de cereais memorativa, que é a oferta
de cereais por ciúmes; e o sacerdote terá
na mão a água de amargura, que traz con­
sigo a maldição; 19 e a fará jurar, e dir-
lhe-á: Se nenhum homem se deitou contigo,
e se não te desviaste para a imundícia,
violandoovotoconjugal, sejas tu livre desta
água de amargura, que traz consigo a mal­
dição; 20 mas se te desviaste, violando o
voto conjutal, e te contaminaste, e algum
homem que não é teu marido se deitou con­
tigo, 21 então o sacerdote, fazendo que a
mulher tome o juramento de 'maldição, lhe
dirá: —O Senhor te ponha por maldição e
praga no meio do teu povo, fazendo-te o
Senhorconsumir-se a tua coxae incharo teu
ventre; 22 e esta água que traz consigo a
maldição entrará nas tuas entranhas, para
te fazer incharoventre, e te fazer consumir-
se a coxa. Então a mulher dirá: Amém,
amém. 23Então osacerdote escreverá estas
maldições num livro, e na água de amargu­
ra as apagará; 24e fará que a mulherbeba a
água de amargura, que traz consigo a mal­
dição; e a água que traz consigo a maldição
entrará nela para se tomar amarga. 25 E o
sacerdote tomará da mão da mulher a ofer­
ta de cereais por ciúmes, e moverá a oferta
de cereais perante o Senhor, e a trará ao
altar; 26 também tomará um punhado da
oferta de cereais como memorial da oferta,
e oqueimará sobre oaltar, e depois fará que
a mulher beba a água. 27 Quando ele tiver
feito que ela beba a água, sucederá que, se
ela se tiver contaminado, e tiver pecado
contra seu marido, a água, que traz consigo
a maldição, entrará nela, tornando-se amar­
ga; inchar-lhe-á o ventre e a coxa se lhe
consumirá; e a mulher será pormaldição no
meio do seu povo. 28 E, se a mulher não se
tiver contaminado, mas for inocente, então
será livre, e conceberá filhos. 29Esta é a lei
dosciúmes, notocante à mulher que, violan­
doo voto conjugal, se desviar e for contami­
nada; 30 ou no tocante ao homem sobre
quem vier o espírito de ciúmes, e se enciu­
mar de sua mulher; ele apresentará a mu­
lher perante o Senhor, e o sacerdote cum­
prirá para com ela toda esta lei. 31 Esse ho­
mem será livre da iniqüidade; a mulher,
porém, levará sobre sia sua iniqüidade.
Este trecho aborda uma situação que
não édebatida em quaisquer outros luga­
res. Há indícios de grande antiguidade
nas implicações inseridas na tradição.
Naprimeira situação, não há testemunha
(v. 13) contra a mulher que se tiver con­
taminado (ou seja, que fizesse com que
ficasseimunda). Essa expressão significa
que nenhuma testemunha pode trazer
provas suficientes da suspeita. Por não
ter sido apanhada em flagrante, ou por­
que nenhuma testemunha pode garantir
que a esposa esteja grávida, ou porque o
marido acha que a criança aguardada
não é dele — esta é a relação com a
configuração do ciúme, pois o homem
não dispõe de qualquer prova de adulté­
rio, mas tem apenas algum ciúme ou
suspeita perturbadora. Pode ser que as
testemunhas do adultério tenham sido
124
desqualificadas pela lei para testifica­
rem.
Na segunda situação, o espírito devo­
rador do ciúme possui o marido, mesmo
que ela (a mulher) não se tenha conta­
minado(v. 14).
É difícil ver o que essas duas situações
têm em comum, a menos que sejam os
pensamentos do marido, porque num
caso a esposa tinha-se contaminado, en­
quanto no outro, não. Porém o marido,
como o chefe da casa, estava com ciú­
mes. Contudo, a expressão por não ter
sido apanhada em flagrante combinada
com a existência de uma situação que
talvezcriasse suspeita que levasse ao ciú­
me podia indicar que a esposa estivesse
grávida. Embora ela não fossepilhada no
ato sexual, omarido, ainda assim, levan­
tou a suspeita de que a criança concebi­
da não tivessesido gerada por ele. O ma­
rido devia trazer sua esposa até o sacer­
dote, junto com a oferta apropriada,
uma oferta de farinha de cevada, que
representava uma oferta de ciúmes.
O ciúme está no plural nos versículos
15,18,25 e 29. Estas são as únicas oca­
siões quando a palavra ciúme aparece
no plural no Antigo Testamento. Re­
fere-se à oferta ou à lei dos ciúmes. Tal­
vez seja, assim, uma declaração geral
com relação a todos os ciúmes. Ou tal­
vez seja uma referência a uma ofensa
tanto contra o marido quanto contra
Deus.
Comorealce dado à posição do macho
em sua sociedade, não é difícil ver como
os ciúmes da parte do marido constitui­
riam uma pressuposição de culpa contra
a mulher. O ônus daprova estava sobre a
mulher, mesmo que não houvesse teste­
munhas contra ela, ou, no caso do ciú­
me, mesmo que ela não se tivesse conta­
minado.
O julgamento por prova (5:16-28) da
água de amargura (5:19) tem um para­
lelo chegado no antigo Código de Ha-
murabi (132).3Nele, da mesma situação
se diz: “Pelo bem do marido, ela lançar-
se-á no rio sagrado.” Se ela afundasse,
tinha sido culpada, e se se salvasse de
afogamento, seria considerada sem
culpa.
Números 5:12,13 diz respeito a um
caso, enquanto o 14b, a outro. Tanto
numa situação como na outra, o marido
devia trazer a esposa ao sacerdote e
também a oferta que se requeria dela
(v. 15). Nos tempos antigos, o adultério
era um crime contra o marido ou uma
violação do direito de posse do marido.
Mas, nos tempos bíblicos, o adultério
representava uma violação das leis reli­
giosas, bem como um crime contra a lei
civil. No Código de Hamurabi, a lei civil
sesatisfaziacom a morte da mulher, mas
em Números se ordena a prova pela
água. Existe tanto a oferta aos sacerdotes
comoa prova pela água.
A prova pela água é pormenorizada,
especificamente, nosversos 16-28. A mu­
lher tinha debeber águasagradaque fos­
semisturada com a poeira do chão do ta­
bernáculo (v. 17) e com as raspagens do
apagamento das maldições que haviam
sido escritas no rolo (v. 23). Se a esposa
estivesse contaminada, a água da maldi­
ção causaria aflição física. O corpo in­
charia ou intumesceria.
O significado de a coxa se lhe consu­
mirá(RSV, “a sua coxacairá dela”) deve
ser o contrário de “conceberá filhos”
A palavra coxa sugere a idéia de ventre
como o assento do poder procriador. De
maneira que pode significar ou um abor­
to ou um choque por causa de esterili­
dade. A exposição pública, com a sol­
tura de seus cabelos, a água da maldi­
ção, dor física e o aborto estabeleciam a
mulher como desprezada aos olhos de
seu maridoeda tribo.
Contudo, se a mulher não se tivesse
contaminado, i. e., se a água da maldi-
3 Cf. Louis M. Epsteins, Sex Laws and Customs In Ju­
daism (New York: Ktav Publishing House, 1968), p. 217
e 218.
125
ção provasse sua inocência, ela ficaria
livre da culpa da iniqüidade e podia
conceber(v. 28).
Aleidociúme(v. 29) também abrange
a suspeita da culpa de adultério, que não
podia sercomprovado.
(4) ALeidoNazireado(6:1-27)
Evidentemente, este ofícioconsagrató-
rio era conhecido dos hebreus, pois é
por eles aceito com naturalidade e pou­
quíssima explicação é dada a seu respei­
to. Este capítulo é o escrito mais abran­
gente sobre o assunto (cf. Am. 2:11,12;
Juí. 13:5,7; 16:17). Sansão é chamado de
nazireu (Juí. 13:5,7). Refere-se a José
como a um príncipe (nazir) em Gênesis
49:26eDeuteronômio 33:16.
1 Disse mais o Senhora Moisés: 2Fala aos
filhos de Israel, e dize-lhes: Quando alguém,
seja homem, seja mulher, fizer voto espe­
cial de nazireu, a fim de se separar para o
Senhor, 3 abster-se-á de vinho e de bebida
forte; não beberá vinagre de vinho, nem
vinagre de bebida forte, nem bebida alguma
feita de uvas, nem comerá uvas frescas nem
secas. 4 Por todos os dias do seu nazireado
não comerá de coisa alguma que se faz da
uva, desde os caroços até as cascas. 5 Por
todos os dias doseu voto de nazireado, nava­
lha não passará sobre a sua cabeça; até que
se cumpram os dias pelos quais ele se tenha
separado para oSenhor, será santo; deixará
crescer as guedelhas do cabelo da sua cabe­
ça. 6 Por todos os dias da sua separação
para o Senhor, não se aproximará de cadá­
ver algum. 7 Não se contaminará nem por
seu pai, nem por sua mãe, nem por seu
irmão, nem por sua irmã, quando estes mor­
rerem; porquanto o nazireado do seu Deus
está sobre a sua cabeça. 8 Por todos os dias
do seu nazireado será santo ao Senhor.
9 Se alguém morrer subitamente junto dele,
contaminando-se assim a cabeça do seu na­
zireado, rapará a sua cabeça no dia da sua
purificação, ao sétimo dia a rapará. 10Aooi­
tavo dia trará duas rolas ou dois pombinhos,
ao sacerdote, à porta da tenda da revelação;
11 e o sacerdote oferecerá um como oferta
pelo pecado, e o outro como holocausto, e
fará expiação por esse que pecou no tocante
ao morto; assim naquele mesmo dia santifi­
cará a sua cabeça. 12 Então separará ao
Senhor os dias do seu nazireado, e para
oferta pela culpa trará um cordeiro de um
ano; mas os dias antecedentes serão per­
didos, porquanto o seu nazireado foi conta­
minado.
O versículo2 indica que se trata de um
voto extraordinário. Havia muitos votos
na vidacultural dosisraelitas, mas o voto
donazireado sefazia como acréscimo aos
demais votos. Era normalmente um voto
queuma pessoafaziapara simesma. Era
um voto que se fazia em virtude de uma
experiência invulgar com Deus, por ter
concedido um dom carismático. Talvez
também significasse um voto obrigatório
pelo fato de ter sido feito pela mãe da
pessoa. Semelhante voto seria aceito co­
mo obrigatório para o indivíduo, em vir­
tude da solidariedade da estrutura fa­
miliar.
Alguns escritores acham que este voto
era, inicialmente, um compromisso es­
pontâneo evitalício. Porém, na época em
que o livro de Números foi escrito, esse
votojá não era, necessariamente, vitalí­
cio, pois no versículo 13 lemosjio dia em
quesecumpriremos dias do seu nazirea­
do (na RSV se lê: “quando o tempo de
sua separação se houver completado”).
As palavras nazireu eseparadoescrevem-
se com as mesmas consoantes, e assim
são relacionadas bem de perto (de Vaux,
p. 466 e 467). O Nazireu, em virtude
dessa presença especial de Deus, dedica-
se à tarefa especial, pela qual assume
plena responsabilidadeperante Deus.
As restrições não constituem o voto, e,
sim, são simplesmente meras expressões
externas e visíveis, que demonstram que
a pessoa se consagrou a Deus, que lhe
abriu a porta do serviçoespecial. Assim o
ofício do nazireado impunha funções
santas especiais.
0s sinais externos a que um nazireu
havia voluntariamente de se submeter,
em acréscimo e como contributários à
realização da sua tarefa, são relaciona­
dosdepertocomos dos recabitas(Jer. 35;
mas osrecabitas não eram carismáticos).
126
O primeiro sinal externo mencionado
(v. 3,4) diz respeito a vinho ou bebida
forte. O termo nazireu pode ser traduzi­
do como “aquele que está sendo separa­
do”. Por isso, ele tem de ser separado do
suco do vinho (cf. os recabitas, em Jer.
35; vejatambém Luc. 1:15). Astrês áreas
bem definidas de separação são, sem
dúvida, uma compilação sacerdotal. To­
das as três talvez tenham sido impostas,
necessariamente, a partir do começo,
apesar de a menção da abstinência de
Samuel dos vinhos se registrar somente
na Septuaginta. A abstenção da mãe de
Sansão (Juí. 13) do vinho, é relacionada
de perto com o fato de que ele seria um
nazireu.
A bebida forte era uma bebida ine­
briante muito comum, tanto permitida
em determinadas circunstâncias (28:7;
Deut. 14:26; Prov. 31:6) como também
condenada muito severamente em outras
(Prov. 20:1; Is. 5:11,22; 28:7). A separa­
çãodovinho, devezem quando, podeser
entendida como uma ação do povo nô­
made rebelando-se contra os costumes
sociais de um povo agrícola estabelecido.
A inclusão da frase nem bebida alguma
feitadeuvas, nem...frescas nemsecasé a
mais clara prova da rebelião contra os
usos agrícolas cananeus da uva. O na­
zireu seria tão zeloso no cumprimento de
seu voto que recusaria qualquer costume
que interferisse na nitidez de seu voto.
O segundo elemento em se tomar o
votomais claro ou mais obrigatório era a
separação danavalha(v. 5,18). Na histó­
ria dos povos do Oriente havia muitas
práticas religiosas que envolviam os ca­
beloshumanos. Aênfase principal, aqui,
é o crescimento do cabelo, que seria, no
clímax do voto, queimado sobre o altar
junto com os outros elementos do sacrifí­
cio (v. 18). Conforme a sabedoria semí­
tica antiga, os cabelos, como o sangue,
simbolizavam a presença da própria
vida.4 É difícil ser categórico quanto à
4 Interpreter’s Dictionary of the Bible, Vol. K-Q (Nash­
ville, Abingdon, 1962), p. 527.
força exata deste quadro. Na história de
Sansão (Juí. 13:4,5), o cabelo era um
sinal externo do voto, que incluía a pre­
sença carismática do poder divino. Pa­
receria assinalar que a perda dos cabelos
mostrava a separação, da pessoa, de
Deus. Para Sansão, perder os seus cabe­
los significava algo destrutivo, porém, no
voto de um nazireu, a perda dos cabelos
era uma característica gloriosa de seu
votoe sacrifício.
O terceiro elemento (v. 6-12) é a sepa­
ração da proximidade de um cadáver.
Em Levítico 21:1-10, as regras para o
sacerdote lhe permitiam que se contami­
nasse em relação aos seus parentes mais
próximos. Porém, em Números 6:7, fica
claro que o voto do nazireu é mais obri­
gatórioou elevado do que o do sacerdote,
i. e., na área de competência do sumo
sacerdote(Lev. 21:11). O voto do nazireu
era um votoem termos absolutos durante
otempo de sua separação.
Mesmo a proximidade repentina ou
acidental da morte contaminaria a cabe­
ça do seu nazireado (cf. a RSV, “a cabe­
ça consagrada do nazireu”). Eles não
consideravam a morte como a experiên­
cia de meramente deixar de existir. Viam
o homem como um ser completo. Uma
pessoa não era corpo, mente e alma, pois
esses elementos eram partes inseparáveis
do homem total. Nephesh é muitas vezes
traduzida por “alma”. O nazireu não
podia aproximar-se de um cadáver (ne­
phesh) (v. 6). Enquanto o corpo perma­
neciainsepulto, a pessoa continuava pre­
sente. A pessoa existia “desvitalizada”,
como uma sombra, em estado de enfra­
quecimento (cf. Is. 14:9,10). A condição
enfraquecida da personalidade era inde­
sejável e, por isso, considerada inimiga.
O sofrimento, a dor, a fraqueza ou a
doença, segundo a filosofia antiga da
vida, eram evidências do pecado ou do
desagrado de Deus. A existência “desvi­
talizada” não estava de acordo com a
imagem de Deus, em cuja conformidade
ohomem haviasidofeito.
127
A morte era o aparecimento de uma
condição que destoava da presença vital
de Deus. O cabelo não-cortado do nazi-
reu era osímbolo deuma condição deum
devoto religioso. Estes dois elementos
conflitavam diretamente um com o ou­
tro. Visto à luz da solidariedade de uma
família ou de uma casa, qualquer pessoa
ou coisa que estivesse integrado a essa
família ou casa estaria integrado no do­
mínio da “morte”. A presença do inimi­
go (o fato de morrer) indicar-lhes-ia im­
pureza, fraqueza, profanidade ou imun­
dícia. Quando o nazireu fazia parte de
uma casa, i. e., onde houvesse proximi­
dade com a morte, a imundícia seria uma
violação do sersantoao Senhor(v. 8).
Se qualquer coisa interferisse no cará­
ter absoluto da separação, o voto ficaria
nulo, automaticamente, e o nazireu ha­
viade recomeçaroseu serviço. Não havia
ele apenas de recomeçar o seu serviço,
mas também teria de oferecer sacrifício e
fazerexpiação pela contaminação.
13Esta, pois, é a lei do nazireu: no dia em
que se cumprirem os dias do seu nazireado
ele será trazido à porta da tenda da revela­
ção, 14e oferecerá a sua oferta ao Senhor:
um cordeiro de um ano, sem defeito, como
holocausto, e uma cordeira de um ano, sem
defeito, como oferta pelo pecado, e um car­
neiro sem defeito como oferta pacífica;
15 e um cesto de pães ázimos, bolos de flor
de farinha amassados com azeite, e cosco-
rões ázimos untados com azeite, como tam­
bém as respectivas ofertas de cereais e de
libação. 16 E o sacerdote os apresentará
perante o Senhor, e oferecerá a oferta pelo
pecado, e o holocausto; 17também oferece­
rá o carneiro em sacrifício de oferta pacífi­
ca ao Senhor, com um cesto de pães ázimos
e as respectivas ofertas de cereais e de li­
bação. 18Então o nazireu, à porta da tenda
da revelação, rapará o cabelo do seu nazi­
reado, tomá-lo-á e o porá sobre o fogo que
está debaixo do sacrifício das ofertas pací­
ficas. 19 Depois o sacerdote tomará a espá­
dua cozida do carneiro, e um pão ázimo do
cesto, e um coscorão ázimo, e os porá nas 4
mãos do nazireu, depois dé haver este rapa­
do o cabelo do seu nazireado; 20 e o sacer­
dote os moverá como oferta de movimento
perante o Senhor; isto é santo para o sacer­
dote, juntamente o peito da oferta de movi­
mento, e com a espádua da oferta alçada; e
depoisonazireu poderá beber vinho. 21Esta
é a lei do que fizer voto de nazireu, e da sua
oferta ao Senhor pelo seu nazireado, afora
qualquer outra coisa que as suas posses lhe
permitirem oferecer; segundo o seu voto,
que fizer, assim fará conforme a lei do seu
nazireado.
O processo para o complemento do
voto do nazireu é dado nos versos 13-20.
Para o ritual e o significado de oferta
queimada, oferta pelo pecado, ofertapa­
cífica, oferta de cereais e oferta de liba­
ção, tem-se de recorrer a Levítico 1-7.
Aofertademovimentonão é tão clara ou
tão bem conhecida como as demais ofer­
tas. A movimentação da oferta indica o
oferecimento a Deus e o recebimento de
volta deuma porção que seriausada para
osustento ea manutenção dos sacerdotes
e desuas famílias.
O intuito dos versos 13-20 é esboçar a
sujeição do nazireu às regras sacerdo­
tais no desempenho de seu serviço cultu­
ral, como também na conclusão dele.
A oferta de movimento fornecida pelo
nazireu e oferecida a Deus faria parte do
sustento do sacerdócio. O voto de nazi­
reado não desobrigava a pessoa de quais­
quer outras responsabilidades culturais
(v. 21).
22 Disse mais oSenhora Moisés: 23Fala a
Arão, e a seus filhos, dizendo: Assim aben­
çoareis os filhos de Israel; dir-lhes-eis:
24O Senhor te abençoe e te guarde; 25 o Se­
nhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti,
e tenha misericórdia de ti; 26 O Senhor
levante sobre ti o seu rosto, e te dê a paz.
27 Assim porão o meu nome sobre os filhos
de Israel, e eu os abençoarei.
A bênção de Arão (v. 22-27) é citada,
em parte, nos Salmos 4:6 e 67:1. O
rSenhor (Yahweh) é o mais sagrado dos
nomes de Deus; indica o caráter chega­
do, pessoal, revelador deDeus. Apresen­
ça do nome três vezes nesta bênção não
tem nada a ver com a expressão cristã de
Deus na fórmula trinitária.
128
O povo de Israel entendia a presença
deDeusem termos debênçãos evidencia­
das de muitas maneiras. Te guarde teria
a força de proteger-te. Faça resplandecer
oseurostosobretielevantesobretio seu
rostosão expressões que significam favor
divino. O rosto de Deus é a fonte de luz
que iluminará qualquer homem para
quem eleestivervoltado.
Paz significa muito mais do que a ine­
xistência da hostilidade ou da guerra.
Traz sempre a força do bem-estar ou da
plenitude, no sentido do bem-estar.
Abrange as relações dentro da família
individual, bem como as relações tribais
e nacionais, tanto espirituais como so­
ciais. No contexto da santidade sacer­
dotal, otermo significaria, primariamen­
te, a totalidade dosvalorespactuais.
Porão o meu nome sobre os filhos de
Israel. Não existe privilégio nenhum
maior do que se receber o nome de seu
Senhor. Todo o poder da pessoa é assen­
tado no nome. Quando se põe o nome de
Deus em Israel, há uma identificação
específica.
A bênção de Arão é uma das mais cé­
lebres doAntigo Testamento. Esta alian­
ça estabeleceu uma relação que implica­
va a consagração do homem ao Senhor.
Também incorporou evidências da bên­
ção de Deus na doação da proteção, na
expressão da graça divina, na providên­
cia da paz e na honra e poder de seu
próprio ser.
Nestabênção, Arão eseus filhos são os
instrumentos da assoçiação de Israel com
Deus. Desta forma, o nome de Deus
pode ser colocado sobre o povo de Israel.
Esta é uma mudança tão abrupta, que
parece que os escritores são sacerdotes
que defendem, etiologicamente, a sua
posição de supremacia sobre todos os
aspectos da vida da nação.
(5) AConsagraçãodoAltar(7:1-89)
O capítulo 6 conclui com a bênção
sacerdotal. O capítulo 7 descreve a con­
sagração do altar. Por tratar-se do cabe­
ça do povo de Israel, Moisés é a personi­
ficação e a autoridade do povo inteiro.
Moisés não erigiu o tabernáculo inteiro
—a tarefa era grande demaispara um só
homem. Ele foi o supervisor. Moisés
acabou de levantar o tabernáculo, ten­
do...ungido...o altar e todos os seus
utensílios, O termo ungido tem a mesma
raiz que a palavra “Messias”. A palavra
Messias relaciona-se, com maior fre­
qüência, com oofício do rei e das demais
autoridades.
1No dia em que Moisés acabou de levan­
tar o tabernáculo, tendo-o ungido e santifi­
cado juntamente com todos os seus móveis,
bem como o altar e todos os seus utensílios,
depoisde ungi-lose santificá-los, 2os prínci­
pes de Israel, cabeças das casas de seus
pais, fizeram as suas ofertas. Estes eram os
príncipes das tribos, os que estavam sobre
os que foram contados. 3 Trouxeram eles a
sua oferta perante o Senhor: seis carros
cobertos, e doze bois; por dois príncipes um
carro, e por cada um, um boi; e os apresen­
taram diante dotabernáculo. 4Então disse o
Senhor a Moisés: 5 Recebe-os deles, para
serem utilizados no serviço da tenda da
revelação; e os darás aos levitas, a cada
qual segundo o seu serviço. 6 Assim Moisés
recebeu os carros e os bois, e os deu aos
levitas. 7 Dois carros e quatro bois deu aos
filhos de Gérson, segundo o seu serviço;
8 e quatro carros e oito bois deu aos filhos
de Merári, segundo o seu serviço, sob as
ordens de Itamar, filho de Arão, o sacerdo­
te. 9 Mas aos filhos de Coate não deu ne­
nhum, porquanto lhespertencia o serviço de
levar o santuário, e o levavam aos ombros.
10Ospríncipes fizeram também oferta para
a dedicação do altar no dia em que foi
ungido; e ospríncipes apresentaram as suas
ofertas perante oaltar. 11E disse o Senhor a
Moisés: Cada príncipe oferecerá a sua ofer­
ta, cada qualno seu dia, para a dedicação do
altar.
A oblação dada pelos líderes (lit., os
levantados, os príncipes principais) era
para os levitas. Toda esta oferta havia de
ser usada no serviço do tabernáculo. Os
seis carros cobertos (um carro para cada
duas tribos) e doze bois (um boi por
cada tribo) haviam de ser divididos entre
os gersonitas e os meraritas, visto que
129
essas duas famílias empreendiam o pró­
prio transporte do tabernáculo.
12 Oque ofereceu a sua oferta no primeiro
dia foi Nasom, filho de Aminadabe, da tribo
de Judá. 13 A sua oferta foi uma salva de
prata do peso de cento e trinta siclos, uma
bacia de prata de setenta siclos, segundo o
siclo do santuário; ambas cheias de flor de
farinha amassada com azeite, para oferta
de cereais; 14 uma colher de ouro de dez
siclos, cheia de incenso; 15um novilho, um
carneiro, um cordeiro de um ano, para holo­
causto; 16 um bode para oferta pelo pe­
cado; 17 e para sacrifício de ofertas pa­
cíficas dois bois, cinco carneiros, cinco
bodes, cinco cordeiros de um ano; esta
foi a oferta de Nasom, filho de Aminadabe.
18No segundo dia fez a sua oferta Netanel,
filhode Zuar, príncipe de Issacar. 19E como
sua oferta ofereceu uma salva de prata do
peso de cento e trinta siclos, uma bacia de
prata de setenta siclos, segundo o siclo do
santuário; ambos cheios de flor de farinha
amassada com azeite, para oferta de ce­
reais; 20 uma colher de ouro de dez siclos,
cheia de incenso; 21 um novilho, um carnei­
ro, um cordeiro de um ano, para holocaus­
to; 22 um bode para oferta pelo pecado;
23 e para sacrifício de ofertas pacíficas dois
bois, cinco carneiros, cincobodes, cinco cor­
deiros de um ano; esta foi a oferta de Ne­
tanel, filho de Zuar. 24 No terceiro dia fez a
sua oferta Eliabe, filho de Helom, príncipe
dos filhos de Zebulom. 25 A sua oferta foi
uma salva de prata do peso de cento e trinta
siclos, uma bacia de prata de setenta siclos,
segundo o siclo do santuário; ambos cheios
de flor de farinha amassada com azeite,
para oferta de cereais; 26 uma colher de
ouro de dez siclos, cheia de incenso; 27 um
novilho, um carneiro, um cordeiro de um
ano, para holocausto; 28um bode para ofer­
ta pelo pecado; 29 e para sacrifício de ofer­
tas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cin­
cobodes, cinco cordeiros de um ano; esta foi
a oferta de Eliabe, filho de Helom. 30 No
quarto dia fez a sua oferta Elizur, filho de
Sedeur, príncipe dos filhos de Rúben. 31 A
sua oferta foi uma salva de prata do pçso de
cento e trinta siclos, uma bacia de prata
de setenta siclos, segundo o siclo do santuá­
rio; ambos cheios de flor de farinha amas­
sada com azeite, para oferta de cereais;
32uma colherde ouro de dez siclos, cheia de
incenso; 33 um novilho, um carneiro, um
cordeiro de um ano, para holocausto; 34 um
bode para oferta pelo pecado; 35 e para
sacrifício de ofertas pacíficas dois bois,
cinco carneiros, cinco bodes, cinco cor­
deiros de um ano; esta foi a oferta de
Elizur, filho de Sedeur. 36 No quinto dia fez
a sua oferta Selumiel, filho de Zurisadai,
príncipe dos filhos de Simeão. 37 A sua
oferta foi uma salva de prata do peso de
cento e trinta siclos, uma bacia de prata de
setenta siclos, segundo o siclo do santuário;
ambos cheios de flor de farinha amassada
com azeite, para oferta de cereais; 38 uma
colher de ouro de dez siclos, cheia de incen­
so; 39um novilho, um carneiro, um cordeiro
de um ano, para holocausto; 40 um bode
para oferta pelo pecado; 41 e para sacrifício
de ofertas pacíficas dois bois, cinco carnei­
ros, cincobodes, cinco cordeiros de um ano;
esta foi a oferta de Selumiel, filho de Zuri­
sadai. 42 No sexto dia fez a sua oferta Elia-
safe, filho de Deuel, príncipe dos filhos de
Gade. 43Asua oferta foi uma salva de prata
do peso de cento e trinta siclos, uma bacia
deprata de setenta siclos, segundo o siclo do
santuário; ambos cheios de flor de farinha
amassada com azeite, para oferta de ce­
reais; 44 uma colher de ouro de dez siclos,
cheia de incenso; 45 um novilho, um carnei­
ro, um cordeiro de um ano, para holocausto;
46 um bodepara oferta pelo pecado; 47e pa­
ra sacrificio de ofertas pacíficas dois bois,
cinco carneiros, cinco bodes, cinco cordei­
ros de um ano; esta foi a oferta de Eliasafe,
filho de Deuel. 48 No sétimo dia fez a sua
oferta Elisama, filho de Amiúde, príncipe
dosfilhos de Efraim. 49Asua oferta foi uma
salva de prata do peso de cento e trinta
siclos, uma bacia de prata de setenta siclos,
segundo o siclo do santuário; ambos cheios
de flor de farinha amassada com azeite,
para oferta de cereais; 50 uma colher de
ouro de dez siclos, cheia de incenso; 51 um
novilho, um carneiro, um cordeiro de um
ano, para holocausto; 52um bode para ofer­
ta pelo pecado; 53 e para sacrifício de ofer­
tas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cin­
cobodes, cinco cordeiros de um ano; esta foi
a oferta de Elisama, filho de Amiúde. 54 No
oitavo dia fez a sua oferta Gamaliel, filho de
Pedazur, príncipe dos filhos de Manassés.
55 A sua oferta foi uma salva de prata do
peso de cento e trinta siclos, uma bacia de
prata de setenta siclos, segundo o siclo do
santuário; ambos cheios de flor de farinha
amassada com azeite, para oferta de ce­
reais; 56 uma colher de ouro de dez siclos,
cheia de incenso; 57 um novilho, um carnei­
ro, um cordeiro deum ano, para holocausto;
58um bodepara oferta pelo pecado; 59epa-
ra sacrifício de ofertas pacíficas dois bois,
cinco carneiros, cinco bodes, cinco cordei­
ros de um ano; esta foi a oferta de Gama­
liel, filho de Pedazur. 60 No dia nono fez a
130
dos filhos de Benjamim. 61 A sua oferta foi
uma salva de prata do peso de cento e trinta
siclos, uma bacia de prata de setenta siclos,
segundo o siclo do santuário; ambos cheios
de flor de farinha amassada com azeite,
para oferta de cereais; 62 uma colher de
ouro de dez siclos, cheia de incenso; 63 um
novilho, um carneiro, um cordeiro de um
ano, para holocausto; 64um bode para ofer­
ta pelo pecado; 65 e para sacrifício de ofer­
tas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cin­
cobodes, cinco cordeiros de um ano; esta foi
a oferta de Abidã, filho de Gideôni. 66No dé­
cimo dia fez a sua oferta Afezer, filho de
Amisadai, príncipe dos filhos de Dã. 67 A
sua oferta foi uma salva de prata do peso de
cento e trinta siclos, uma bacia de prata de
setenta siclos, segundo osiclo do santuário;
ambos cheios de flor de farinha amassada
com azeite, para oferta de cereais; 68 uma
colher de ouro de dez siclos, cheia de incen­
so; 69um novilho, um carneiro, um cordeiro
de um ano, para holocausto; 70 um bode
para oferta pelo pecado; 71e para sacrifício
de ofertas pacíficas dois bois, cinco carnei­
ros, cincobodes, cinco cordeiros de um ano;
esta foi a oferta de Afezer, filho de Amisa­
dai. 72No dia undécimo fez a sua oferta Pa-
giel, filho de Ocrã, príncipe dos filhos de
Azer. 73A sua oferta foi uma salva de prata
do peso de cento e trinta siclos, uma bacia
de prata de setenta siclos, segundo o siclo do
santuário; ambos cheios de flor de farinha
amassada com azeite, para oferta de ce­
reais; 74 uma colher de ouro de dez siclos,
cheia de incenso; 75 um novilho, um car­
neiro, um cordeiro de um ano, para holo­
causto; 76um bodepara oferta pelo pecado;
77 e para sacrifício de ofertas pacíficas dois
bois, cincocarneiros, cincobodes, cinco cor­
deiros de um ano; esta foia oferta de Pagiel,
filho de Ocrã. 78No duodécimo dia fez a sua
ofertaAírá, filhode Enã, príncipe dos filhos
de Naftali. 79 A sua oferta foi uma salva de
prata do peso de cento e trinta siclos, uma
bacia de prata de setenta siclos, segundo o
siclo do santuário; ambos cheios de flor de
farinha amassada com azeite, para oferta
de cereais; 80 uma colher de ouro de dez
siclos, cheia de incenso; 81 um novilho, um
carneiro, um cordeiro de um ano, para ho­
locausto; 82um bode para oferta pelo peca­
do; 83 e para sacrifício de ofertas pacíficas
dois bois, cinco carneiros, cinco bodes, cin­
co cordeiros de um ano; esta foi a oferta de
Aírá, filho de Enã. 84 Esta foi a oferta
dedicatória doaltar, feita pelos príncipes de
Israel, nodia em que foi ungido: doze salvas
deprata, dozebacias de prata, dozecolheres
de ouro, 85 pesando cada salva de prata
cento e trinta siclos, e cada bacia setenta;
toda a prata dos vasos foi dois mil e quatro­
centos siclos, segundo o siclo do santuário;
86 doze colheres de ouro cheias de incenso,
pesando cada colher dez siclos, segundo o
siclo do santuário; todo o ouro das colheres
foi cento e vinte siclos. 87 Todos os animais
para holocausto foram doze novilhos, doze
carneiros, e doze cordeiros de um ano, com
as respectivas ofertas de cereais; e para
ofertapelopecado, doze bodes; 88e todos os
animais para sacrifício das ofertas pacífi­
cas foram vinte e quatro novilhos, sessenta
carneiros, sessenta bodes, e sessenta cor­
deiros de um ano. Esta foi a oferta dedica­
tória do altar depois que foi ungido. 89 Quan­
do Moisés entrava na tenda da revelação
para falar com o Senhor, ouvia a voz que
lhefalava de cima dopropiciatório, que está
sobre a arca do testemunho entre os dois
querubins; assim ele lhefalava.
A oferta de dedicação, do príncipe de
cada tribo, foi idêntica. Consistia num
total de 21 animais, uma colher de ouro e
duas vasilhas de prata. A ênfase sacer­
dotal é evidenciada quando se observa
que essas dádivas secompunham de uma
oferta de cereais, uma oferta queimada,
uma oferta pelo pecado e uma oferta
pacífica.
Aordem das 12tribos éidêntica àquela
usada anteriormente com relação à pro-
cessualísticapara o acampamento. O ca­
pítulo 7pode ser chamado de capítulo da
dedicação.
O último versículo do capítulo é de
difícil interpretação dentro deste contex­
to. Certamente houve algum significado
cultual que relembrava alguma ocasião
quando Moisés ouviu a voz de Deus.
É um cumprimento deÊxodo 25:22.
Opropiciatório(RSV, “assento da mi­
sericórdia”) é kapporeth, da raiz que
significa “encobrir” pecado ou (recon­
ciliaratravésdo) “expiar”.Éumapalavra
técnica, surgida posteriormente, que se
relaciona com a propiciação. No Dia da
Expiação, o sumo sacerdote salpicava a
frente do propiciatório (“assento da mi­
sericórdia”) de sangue e também espar­
gia sangue sete vezes perante o altar
131
(Lev. 16:14,15). O propiciatório ficava
localizado no topo da arca, mas era
separado dela. Consistia numa placa de
ouro, medindo dois côvados e meio por
um côvado e meio. Também fazendo
parte do propiciatório, havia dois que­
rubins de ouro. Posicionados um de fren­
te para o outro, com as asas estendidas
por cima, formavam desse modo o trono
de Deus. Estas não eram as figuras gi­
gantescas (de uma altura de mais de
quatro metros e meio) do Templo de
Salomão, que eram de madeira de oli­
veira dourada. A origem do querubim
pode estar no Salmo 18:10-15. As espes­
sas nuvens do céu eram ligadas à voz do
Senhor. A voz (v. 89) falou a Moisés
dentre os dois querubins.
Os querubins, a arca do testemunho e
o propiciatório (“o o assento da miseri­
córdia”) representavam, para eles, o as­
sento ou trono da presença de Deus.
Eram símbolos impróprios. Na realida­
de, representavam tanto o trono como o
escabelo de Deus. Os hebreus sabiam
que tais símbolos não continham Deus,
porém procuravam expressar, da forma
mais elevada possível, o ideal supremo.
Expressavam de maneira visível a reali­
dade que era invisível. As idéias transfor­
mavam-se costumeiramente em imagens,
eas imagens transmitiam a realidade das
idéias. O Deus revelador estava na ima­
gem da voz. O Deus reinante tinha um
trono. Todos estes estão dentro do con­
texto da santidade de Deus e da função
sacerdotal da reconciliação pela expiação
e da oferta.
(6) AsInstruções ParaosMenorahs
(8:1-4)
1Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Fala a
Arão, e dize-lhe: Quando acenderes as lâm­
padas, as sete lâmpadas alumiarão o espaço
em frente do candelabro. 3Arão, pois, assim
fez; acendeu as lâmpadas do candelabro de
modo que alumiassem o espaço em frente do
mesmo, como o Senhor ordenara a Moisés.
4 Esta era a obra do candelabro, obra de
ourobatido; desde oseu pedestal até as suas
corolas, era ele de ouro batido; conforme o
modelo que o Senhor mostrara a Moisés,
assim ele tinha feito o candelabro.
Yahweh dá a Moisésas instruções, que
são transmitidas a Arão. Üma caracterís­
tica desta seção geral de Números é:
Dissemaiso SenhoraMoisés. “Logo que
tiveres colocado” (RSV; cf. Matos Soa­
res) é melhor do que o quando acenderes
do nosso texto e da ASV e da KJV.
Também no versículo 3 da RSV cons­
ta que Arão “colocou as lâmpadas”,
em lugar de acendê-las. O menorah, qüe
é tão importantepara osjudeus, tanto no
referenteà história do tabernáculo quan­
to no referente à história atual, relacio­
na-se diretamente com estas lâmpadas.
A palavra significa “o lugar de uma
lâmpada", e, assim, um candelabro. Me-
noroth é o mesmo que menorahs. As
lâmpadas deviam ser colocadas de modo
a lançar luz na frente do pedestal. Eram
postas para o lado meridional do lugar
santíssimo, para que a luz iluminasse a
mesa dospães da presença no lado seten­
trional.
Os candeeiros de setebraços refletem o
número sagrado. As sete lâmpadas re­
presentam as sete fontes da luz terrestre,
ou seja, o sol, a lua e os sete planetas
conhecidos na cosmologia antiga. O nú­
mero sete é visto, muitas vezes, nos es­
critos hebraicos e especialmente nos lu­
gares onde a influência mesopotâmica se
fazia sentir. O ponto de vista mesopotâ-
mico dos sete astros é claramente evi­
dente nas sete lâmpadas do menorah.
Os judeus vêem este parágrafo como o
pano defundo, que alcançou o seu ponto
alto quando os descendentes de Arão, os
hasmoneus, acenderam as lâmpadas na
cerimônia de dedicação a Hanukkah, em
165a.C.
(7) ALeidaSeparaçãodosLevitas
(8:5-26)
5 Disse mais oSenhora Moisés: 6Toma os
levitas do meio dos filhos de Israel, e purifi­
ca-os; 7 e assim lhes farás, para os purifi-
132
car: esparge sobre eles a água da purifica­
ção; e eles farão passar a navalha sobre
todo o seu corpo, e lavarão os seus vestidos,
e se purificarão. 8Depois tomarão um novi­
lho, com a sua oferta de cereais de flor de
farinha amassada com azeite; e tomarás tu
outro novilho para oferta pelo pecado. 9
Também farás chegar os levitas perante a
tenda da revelação, e ajuntarás toda a con­
gregação dos filhos de Israel. 10 Apresenta­
rás, pois, os levitas perante o Senhor, e os
filhos de Israel porão as suas mãos sobre os
levitas. 11 £ Arão oferecerá os levitas pe­
rante o Senhor como oferta de movimento,
da parte dos filhos de Israel, para que sir­
vam no ministério do Senhor. 12 Os levitas
porãoas suas mãos sobre a cabeça dos novi­
lhos; então tu sacrificarás um como ofer­
ta pelopecado, e o outro como holocausto ao
Senhor, para fazeres expiação pelos levitas.
13E porás oslevitas perante Arão, e perante
osseus filhos, e osoferecerás comooferta de
movimento ao Senhor. 14 Assim separarás
os levitas do meio dos filhos de Israel; e os
levitas serão meus. 15 Depois disso os levi­
tas entrarão para fazerem o serviço da ten­
da da revelação, depois de os teres purifi­
cadoe oferecido como oferta de movimento.
16 Porquanto eles me são dados inteiramen­
te dentre os filhos de Israel; em lugar de
todo aquele que abre a madre, isto é, do
primogênito de todos os filhos de Israel,
para mim ostenho tomado. 17Porque meu é
todo primogênito entre os filhos de Israel,
tanto entre os homens como entre os ani­
mais; no dia em que, na terra do Egito, feri
a todo primogênito, ossantifiqueipara mim.
18Mastomei os levitas em lugar de todos os
primogênitos entre os filhos de Israel.
19 Dentre os filhos de Israel tenho dado os
levitas a Arão e a seus filhos, para fazerem o
serviço dos filhos de Israel na tenda da
revelação, e para fazerem expiação por
eles, a fim de que não haja praga entre
eles, quando se aproximarem do santuário.
20 Assim Moisés e Arão e toda a congrega­
ção dos filhos de Israel fizeram aos levitas;
conforme tudo o que o Senhor ordenara a
Moisés no tocante aos levitas, assim os fi­
lhos de Israel lhes fizeram. 21 Os levitas,
pois, purificaram-se, e lavaram os seus ves­
tidos; e Arão os ofereceu como oferta de
movimento perante o Senhor, e fez expiação
por eles, para purificá-los. 22 Depois disso
entraram os levitas, para fazerem o seu
serviço na tenda da revelação, perante Arão
e seus filhos; como o Senhor ordenara a
Moisés acerca dos levitas, assim lhes fize­
ram. 23 Disse mais o Senhor a Moisés:
24Este será o encargo dos levitas: Da idade
de vinte e cinco anos para cima entrarão
para se ocuparem no serviço da tenda da
revelação; 25e aos cinqüenta anos de idade
sairão desse serviço e não servirão mais.
26 Continuarão a servir, porém, com seus
irmãos na tenda da revelação, orientando-
os no cumprimento dos seus encargos; mas
não farão trabalho. Assim farás para com os
levitasno tocante aos seus cargos.
Esta cerimônia especial não se com­
para com a cerimônia especial realizada
para o sacerdócio da linha de Arão como
registrada em Levítico 6. Moisés recebe
instruções para purificar oslevitas.
Espargesobre eles a água de purifica­
ção (RSV, “de expiação”). A palavra
espargir tem sido inserida nos textos
ingleses (e portugueses), a fim de fazer
melhor sentido. Âgua de purificação é,
literalmente, “águas de pecado” ou
“oferta pelo pecado”. Assim, significa
águas que são usadas na remoção cultual
ou cerimonial do pecado. Em Números
19, se acha a mesma idéia geral com
relação às cinzas do bezerro (embora as
palavras usadas sejam diferentes).
Farão passar a navalha sobre todo o
seu corpo. A depilação do corpo era
outro dos ritos da purificação cerimonial
como conhecida da história antiga. He-
ródoto (II, 37) relata que os sacerdotes
egípcios depilavam todo o seu corpo de
doisem dois dias, para assegurar a pure­
za de qualquer imundícia. Mas os levi­
tas depilavam o seu corpo no começo de
sua dedicação. Qualquer cabelo novo
seriasanto esem mácula.
Lavarão os seus vestidos. A diferença
entre os ritos de purificação dos sacerdo­
tes e dos levitas é bem notável para assi­
nalar a diferença no nível de importância
entre oslevitase ossacerdotes.
Moisés devia trazer oslevitas perante a
tenda da congregação junto com toda
a assembléia do povo de Israel. Os filhos
deIsrael porão as suas mãos sobre os le­
vitas. A imposição das mãos fazia parte
da aceitação deuma oferta (cf. Lev. 1:4).
Este ato era necessário por parte do
133
povo, para oferecer os levitas como uma
oferta por toda a congregação. Estabele­
cia oponto de contato em prol da nação,
que tomava os levitas como a porção
dedicada em lugar de todos os primogê­
nitos (cf. v. 16-19) Toda essa prática se
fazia necessária no estabelecimento da
expiação. Este ato assinala a solidarie­
dade ou unidade do povo com os levitas.
Na expiação ou na constituição de um
(os levitas) pelo outro (o povo inteiro),
há dois que se mostram unidos. Os dois
animais do sacrifício fazem, assim, ceri-
monialmente, cada um parte do todo. Os
dois sacrifícios ordenados são a oferta
pelo pecado e o holocausto ou oferta
queimada. Aqui, os dois aspectos são
cumpridos. Os levitas puseram suas
mãos sobre os bois das ofertas precisa­
mente como a congregação toda punha
asmãos sobre oslevitas.
Arão havia de oferecer os levitas...co­
mo uma oferta de movimento (v. 11,13,
15). A força do termo há de ser a de
“uma contribuição especial”.
Costumeiramente, o termo oferta de
movimento se referia ao ato de acenar
com a oferta, movimentando-a em dire­
ção ao altar, e, então, em sentido contrá­
rio, como um símbolo de dar a oferta a
Deus e de receber uma parte dela de
volta (cf. Êx. 29:26 e ss. e Lev. 7:29-36).
Naturalmente, não se podia movimentar
os levitas para lá e para cá, fisicamente.
Evidentemente, este relato foi feito numa
data posterior, na história do sistema
sacrifical dos hebreus, depois de o ato
físico, por diversos motivos, ter sido omi­
tido. O efeito do oferecimento era enten­
dido como realizado no ato, com a ênfa­
se no significado e impacto espirituais.
O simbolismo era mais importante que o
atoem si.
A reconciliação pela expiação (ingl.:
atonement) era muito importante na his­
tória de Israel. Realçava a unidade (1) do
povo e Deus (v. 17), (2) dos levitas e pri­
mogênitos (v. 18), (3) dos levitas e sacer­
dotes (v. 19) e(4) do serviço da tenda da
revelaçãoeopovo de Israel (v. 19). O en­
foque, aqui, na reconciliação pela expia­
ção está na posição dos levitas. Haviam
de proteger o povo contra uma calami­
dade que o escravizaria. Praga (negeph)
é a mesma palavra usada na experiência
do êxodo que causou a morte dos primo­
gênitos, de pessoas e de animais, que
não estavam protegidos pelo escudo do
sangue (cf. Jos. 22:17; Is. 8:14). Os le­
vitas ocupavam a posição dos primogê­
nitos, e podiam, assim, escudar o povo
contra a ira de Deus, provocada por um
serviço ou uma aproximação inapropria-
dos, no santuário(v. 19).
Limitações são colocadas para as con­
dições de serviço (v. 23-26). O levita em
serviço deveria ter entre 25 e 50 anos de
idade. Essa exigência não implica a ex­
clusão daqueles de outras idades. É uma
limitação apenas em relação ao serviço
da tenda. A faixa etária de 25-50 anos
abrangeria, deuma maneira geral, aque­
les capazes da maior resistência física
que se precisava, no levantamento e
transporte dos materiais. Os jovens se­
riam empregados em treinamento e de­
sempenhariam as funções de assistentes.
Os homens acima dos 50 seriam conse­
lheiros, porteiros ou supervisores da
música.
(8) A Lei Para uma Observância Adicio­
naldaPáscoa(9:1-14)
1 Também falou o Senhor a Moisés no
deserto de Sinai, no primeiro mês do segun­
do ano depois que saíram da terra do Egito,
dizendo: 2 Celebrem os filhos de Israel a
páscoa a seu tempo determinado. 3 No dia
catorze deste mês, à tardinha, a seu tem­
po determinado, a celebrareis; segundo to­
dos os seus estatutos, e segundo todas as
suas ordenanças a celebrareis. 4Disse, pois,
Moisés aos filhos de Israel que celebrassem
a páscoa. 5 Então celebraram a páscoa.no
dia catorze do primeiro mês, à tardinha, no
deserto do Sinai; conforme tudo o que o
Senhorordenara a Moisés, assim fizeram os
filhos de Israel. 6 Ora, havia alguns que se
achavam imundos por terem tocado o cadá­
ver deum homem, de modo que não podiam
celebrar a páscoa naquele dia; pelo que no
134
mesmo dia se chegaram perante Moisés e
Arão; 7 e aqueles homens disseram-lhes:
Estamos imundos por havermos tocado o
cadáver de um homem; por que seríamos
privados de oferecer a oferta do Senhor a
seu tempo determinado no meio dos filhos
de Israel? 8 Respondeu-lhes Moisés: Espe­
rai para que eu ouça o que o Senhor há de
ordenar acerca de vós. 9 Então disse o Se­
nhor a Moisés: 10 Fala aos filhos de Israel,
dizendo: Se alguém dentre vós, ou dentre os
vossos descendentes estiver imundo por ter
tocado um cadáver, ou achar-se longe, em
viagem, contudo ainda celebrará a páscoa
ao Senhor. 11No segundo mês, no dia cator­
ze, à tardinha, a celebração; comê-la-ão
com pães ázimos e ervas amargas. 12 Dela
não deixarão nada até pela manhã, nem
quebrarão dela osso algum; segundo todo o
estatuto da páscoa a celebrarão. 13 Mas o
homem que, estando limpo e não se achando
em viagem, deixar de celebrar a páscoa,
essa alma será extirpada do seu povo; por­
quanto não ofereceu a oferta do Senhora seu
tempo determinado, tal homem levará o seu
pecado. 14Também se um estrangeiro pere­
grinar entre vós e celebrar a páscoa ao
Senhor, segundo o estatuto da páscoa e se­
gundo a sua ordenança a celebrará; haverá
um só estatuto, quer para o estrangeiro,
quer para onatural da terra.
As idéias da praga (8:19) e dos primo­
gênitos na terra do Egito (8:17) chama­
ram à memória as experiências da Pás­
coa. A recordação das instruções para a
Páscoa (v. 2-4) e ofato de a terem obser­
vado no Sinai, conforme as instruções
(v. 5), introduzem o fato de que alguns
dentre opovo não eram capazes de guar­
dar a Páscoa. Os homens que tinham
entrado em contato com um corpo morto
estavam cerimonialmente impuros. A
simplicidade de sua lei era tamanha, que
muitos problemas podiam surgir. Geral­
mente, as leis se desenvolvem ou são
modificadas para corresponderem a si­
tuaçõesespecíficas.
O próprio povo reconhecia a impureza
de qualquer um que tivesse tocado num
corpo morto, ou involuntariamente ou
comoresultado de seusafazeres no lar ou
nos negócios. Uma pessoa tornava-se
uma parte daquilo em que tocava opoder
do ponto imediato de contato. Esses ho­
menspercebiam que o seu contato com a
morte os desqualificava para a participa­
çãonas celebrações davida.
A ocasião da observância da Páscoa
era fixa (cf. ós v. 2,5,7 — a seu tempo
determinado). Estas duas idéias, ou seja,
a da impureza, que fazia com que a
pessoa não pudesse participar da convo­
cação sagrada, e a data anual fixa, fi­
zeram com que alguns dentre o povo
não pudessem guardar a festa instituída.
Eles reconheciam a festa como instituí­
da, mas também a reconheciam como
sendo a seu tempo determinado. Esses
imundos perguntavam: por que seríamos
privadosdeoferecera ofertado Senhora
seutempo determinado? Moisés não deu
a resposta imediatamente. A sabedoria
de Moisés vê-se em sua afirmação: Espe­
rai, para que eu ouça. A tradição judai­
ca sustenta que este problema surgiu por
ocasião da primeira Páscoa depois do
êxodo com relação a homens que esta­
vam cumprindo o seu dever religioso de
assistirem aosseus mortos.
Moisés desempenhou a sua função sa­
cerdotal. Os sacerdotes chegaram a ser
conhecidos como especialistas em ques­
tões da conduta pessoal, do culto público
e da pureza e imundícia. Haviam de ins­
truir sobre as questões da lei. A tora era
originariamente uma breve orientação
concernente a semelhantes leis. A tora
sacerdotal evoluiu, para resultar na
Tora, que era uma coleção destas leis da
relação do homem com Deus. A lei veio
de Deus a Moisés. Quando alguém que­
ria uma resposta de Deus, chegava à
tenda do testemunho. Então Moisés en­
trava sozinho e recebia a mensagem de
Deus face a face (Êx. 33:5,9,10; Núm.
12:8). Essa era a prerrogativa de Moisés,
da qual os sacerdotes não podiam com­
partilhar. Moisés confiava as instruções
aos sacerdotes(Deut. 31:9-11).
A resposta, como registrada neste ca­
pítulo, vai além da situação imediata da
imundícia por motivo de morte. Sem dú­
vida, semelhante situação surgiu cedo,
135
porém a resposta dada nos versos 9-14
caberia a uma época depois de o povo
ter-se radicado na terra pelo menos tem­
pobastantepara fazeruma viagem longa
desuascasas.
A resposta equaciona quatro situa­
ções: (1) imundícia, (2) ausência, por
viagem, (3) abstinência da Páscoa sob
quaisquer circunstâncias e (4) um estra­
nho em seu meio. Se alguém estivesse
imundo, em razão de seus deveres num
enterro, ou estivesse viajando distante
(v. 10,13), podia guardar a Páscoa num
tempo determinado, um mês depois do
tempo da observância pela grande maio­
ria do povo de Israel. Porém, se alguém
não tivesse guardado a Páscoa por um
motivo outro que não esses dois, teria se
distanciado de seu povo no sentido de o
poder expiador da Páscoa ter sido in­
terrompido. O estrangeiro(v. 14) era um
residente temporário ou um recém-che­
gado. Não tinha direito de herança. Mas
havia de compartilhar das obrigações
(direitos, privilégios e responsabilidades)
da cidadania israelita.
Contido no oráculo primitivo, havia
um princípio a ser mantido. Não haveria
como prever todas as situações a que
seria aplicado. Os versículos 1-14 são
uma ilustração clara do caráter das ob-
servâncias ou de alguns oráculos — um
caráter sujeito ao desenvolvimentoeaté a
modificações.
O mesmo processo aparece em todas
as gerações. Os padrões de vida e de
sustento mudam à medida que a socie­
dadee asculturas sedesenvolvem. Até os
horários e a estrutura de nossa vida diá­
ria mudam. Porexemplo, sob um regime
agrícola, oagricultorpode escolherpor si
mesmo qual o dia que observará como o
dia de descanso. Assim surgiu o costume
regular de se observar o domingo como o
dia legal do descanso.
Mas as grandes corporações e indús­
trias, nas grandes cidades, muitas vezes
possuem um cronograma de trabalho
(mudanças de turno, mudança de dias de
folga, etc.) que não estão sob o controle
do trabalhador. Por conseguinte, muitas
vezes se vê obrigado a trabalhar no do­
mingo. Concomitantemente, talvez não
compartilhe da experiência do culto sob
a orientação de sua igreja.
Em 9:1-14, os homens que não tinham
a oportunidade de guardar a Páscoa pe­
diram a Moisés que arranjasse a vida cul­
tual de tal forma que pudessem partici­
par desse culto. Ao invés de o cronogra­
ma de trabalho levar ao cancelamento
das experiências cultuais, deverá apenas
levar à reestruturação da vida cultual
para os prejudicados. O trabalhador
(primeiro) e o líder do culto (o pastor)
deverão cooperar em identificar as áreas
eem proporcionar as respostas sob a di­
reção do Espírito de Deus na comunida­
de sob transição. Aárea do sábado domi­
nicalé apenasuma ilustração da lição da
estrutura temporal adaptável na obser­
vância ena participação da Páscoa.
(9) O Significado da Nuvem com Apa­
rênciadeFogo(9:15-23)
15 No dia em que foi levantado o taber­
náculo, a nuvem cobriu o tabernáculo, isto
é, a própria tenda do testemunho; e desde
a tarde até pela manhã havia sobre o taber­
náculo uma aparência de fogo. 16 Assim
acontecia de contínuo: a nuvem o cobria, e
de noite havia aparência de fogo. 17 Mas
sempre que a nuvem se alçava de sobre a
tenda, osfilhos de Israel partiam; e no lugar
em que a nuvem parava, ali os filhos de
Israel se acampavam. 18Àordem do Senhor
os filhos de Israel partiam, e à ordem do
Senhor se acampavam; por todososdias em
que a nuvem parava sobre o tabernáculo
eles ficavam acampados. 19 E, quando a
nuvem se detinha sobre o tabernáculo mui­
tos dias, os filhos de Israel cumpriam o
mandado do Senhor, e não partiam. 20 Às
vezes a nuvem ficava poucos dias sobre o
tabernáculo; então à ordem do Senhor per­
maneciam acampados, e à ordem do Senhor
partiam. 21 Outras vezes ficava a nuvem
desde a tarde até pela manhã; e quando pela
manhã a nuvem se alçava, eles partiam; ou
de dia ou de noite, alçando-se a nuvem, par­
tiam. 22 Quer fosse por dois dias, quer por
um mês, quer por mais tempo, que a nuvem
136
se detinha sobre o tabernáculo, enquanto
ficava sobre ele os filhos de Israel permane­
ciam acampados e não partiam; mas, al­
çando-se ela, eles partiam. 23 À ordem do
Senhor se acampavam, e à ordem do Senhor
partiam; cumpriam o mandado do Senhor,
que ele lhes dera por intermédio de Moisés.
A conexão desta seção com as ante­
riores pode ser vista no tema da santida­
de. O capítulo 8 apresenta a santidade
dos levitas em sua dedicação ao serviço.
O capítulo 9:1-14 concentra-se na neces­
sidade de todo o povo participar da ob­
servância da Páscoa. Os versículos 15-23
mostram a nuvem com aparência de
fogo como o sinal da presença de Deus
entre opovo deIsrael.
Nos desertos áridos, o calor do sol é
devastador. Por todos os desertos havia
pouquíssimo abrigo. Conseqüentemente,
a presença da nuvem assumia para eles
uma importância inusitada. Uma pala­
vra árabe para nuvem, ‘ana’n, quer di­
zer algo que intervém e assim obstrui.5
A nuvem obstruía os raios abrasadores
do sol. A nuvem que sombreava o taber­
náculo (Êx. 40:36,37) “não era uma nu­
vem solitária, definida, mas, sim, uma
neblina matutina ou um céu nublado”.6
Ospovosnômades deixam de viajar ao
sol abrasador. Foram treinados, desde
tenra infância, a tirar vantagem do sur­
gimento das mudanças do tempo e dos
elementos da natureza. Hodiemamente,
já nos temos acostumado a explicações
de meteorologistas, concernentes aos sis­
temas do tempoe das nuvens. Estes vian­
dantes desérticos não tinham tais infor­
mações científicas. Contudo, sabiam ler
os céus. A sua palavra para nuvem
(‘anan) provavelmente até tivesse um sig­
nificado original de cobertura. Conhe­
ciam Deus como o Deus de toda a natu­
reza. De maneira que era inteiramente
apropriado que recorressem às providên­
cias divinas para abrigo e aproveitassem
da cobertura nebulosa, que conheciam
5 Brown, Drivere Briggs, op.dt. p. 777.
6IDBV0I. A-D, p. 655.
como uma das evidências físicas da pre­
sençadeDeus.
A nuvem com aparência de fogo apa­
recia como uma nuvem de dia e como
aparência de fogo de noite. Cobria o ta­
bernáculo, no centro do acampamento.
Em Êxodo 13:21,22, a coluna de fogo se
descreve como lhes dando luz, pela qual
podiam viajar tanto de noite como de
dia. Neste contexto, porém, a nuvem
devia pairar sobre a tenda da revelação.
O povo devia viajar à ordem do Senhor
(v. 18,20,23). A nuvem não era um sinal
de orientação para a viagem, mas antes
um sinal da presença de Deus. O povo
partia conforme o mandamento de Deus
como evidenciado no sinal que demons­
trava a presença de Deus com ele. Era
importante que partisse ou parasse, con­
forme a ordem (10:13). Independente­
mente de quanto tempo a nuvem perma­
necesse perto, por sobre a tenda, o povo
ficava perto. Também independente­
mente de quanto tempo a nuvem perma­
necessealçada, opovocontinuava a mar­
char. Podia ser por dois dias ou por um
mês, ou por mais tempo. O uso de
“ano”, em lugar de “mais tempo”, por
parte da ASV e da KJV, é uma interpre­
tação dos tradutores, porque a palavra é
literalmente “dias” de número indeter­
minado. A ênfase, nos versos 15-23, pa­
rece estar no peso do comando de Deus,
quer seja na marcha, quer seja na espera
dopovo.
(10) As Regras das Trombetas de Prata
(10:1-10)
1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Faze-te
duas trombetas de prata; de obra batida as
farás, e elas te servirão para convocares a
congregação, e para ordenares a partida
dos arraiais. 3 Quando se tocarem as trom­
betas, toda a congregação se ajuntará a ti
à porta da tenda da revelação. 4Mas quando
se tocar uma só, a ti se congregarão os
princípes, os cabeças dos milhares de Is­
rael. 5 Quando se tocar retinindo, partirão
os arraiais que estão acampados da banda
do oriente. 6 Mas quando se tocar retinindo,
pela segunda vez, partirão os arraiais que
137
estão acampados da banda do sul; para as
partidas dos arraiais se tocará retinindo.
7Mas quando se houver de reunir a congre­
gação, tocar-se-á sem retinir. 8 Os filhos de
Arão, sacerdotes, tocarão as trombetas; e
isto vos será por estatuto perpétuo nas vos­
sas gerações. 9 Ora, quando na vossa terra
sairdes à guerra contra o inimigo que vos
estiver oprimindo, fareis retinir as trombe-
as; e perante o Senhor vosso Deus sereis
tidos em memória, e sereis salvos de vossos
inimigos. 10 Semelhantemente, no dia da
vossa alegria, nas vossas festas fixas e nos
princípios dos vossos meses, tocareis as
trombetas sobre os vossos holocaustos, e
sobre os sacrifícios de vossas ofertas pacífi­
cas; e eles vos serão por memorial perante
vossoDeus. Eu sou o Senhor vosso Deus.
Um dos problemas bem práticos era o
de comunicar as ordens ao povo. Visto
que a marcha, o levantar do acampa­
mento e as reuniões do conselho do povo
não se realizavam segundo um planeja­
mento regular estabelecido, o método de
sinais autorizados tinha de ser elabora­
do, a fim de haver unidade na cam­
panha.
Havia duas trombetas de prata; de
obrabatida. Estas trombetas deviam dar
os sinais para todo o acampamento. O
problema de o acampamento inteiro ser
capaz de ouvir só duas trombetas não é
mencionado. O importante é que um sis­
tema de comunicação era considerado
essencial. Se o povo tinha de acampar
junto e marchar junto, a comunicação
das ordens se tornava necessária. É um
tanto incongruente imaginar que somen­
te duas trombetas pudesem ser ouvidas
por mais de 600 mil pessoas simultanea­
mente. Este é só um dos problemas que
têm levado muitos intérpretes a questio­
nar a validade dos números do censo.
Ou havia menos que 600 mil, em cada
êxodo específico, ou o relato das duas
trombetas foisupersimplificado.
Havia dois tipos de sonido. Um era
militar (v. 3) e o outro, para a congre­
gação (v. 4). Um toque retinindo (“alar­
me”, conforme a RSV) (teru‘ah) consis­
tia em três notas agudas com rapidez de
staccato. O toque ou sopro era uma nota
prolongada, de duração igual à das três
notas do toque que retinia. O toque que
retinia era o sinal para o povo levantar
acampamento e começar a marchar.
O sopro(toque) era osinalpara oslíderes
se congregarem para uma reunião do
conselho. Quando se emitia sonidos sem
retinir era um sinal para todo o povo
congregar-se à entrada da tenda. Esses
sons variados são diferenciados no versí­
culo7.
Não se deve confundir as trombetas
com as shofar (shofar ocorre no Penta-
teuco somente em Êx. 19:16,19; 20:18;
Lev. 25:9 — se bem que em Lev. 25:9
seja shofar teru‘ah). Também não se
deve confundi-las com yovel — cometa
de chifre de carneiro — relacionado de
perto com oano dojubileu (yovel é usado
como cometa somente em Êx. 19:13 e
Jos. 6:4-6,8,13). A palavra usada aqui
em Números é trombeta (htstsrh) e é,
distintivamente, um termo surgido poste­
riormente e, normalmente, uma palavra
sacerdotal. O uso não-sacerdotal desta
palavra acha-se somenteem II Reis 11:14
e Oséias 5:8. O versículo 10 indica que
todos estes instrumentos deviam ser usa­
dos, em lugar de regulamentos legais rí­
gidos, por memorial perante o Deus da
aliança.
n. Israel em Marcha do Sinai a
Parã(10:11-12:16)
Os preparativos para a marcha têm
sido explicados nos primeiros nove capí­
tulos. O estilo agora muda para um
padrão mais estritamente narrativo. Os
eventos foram relatados de tal forma que
apresentassem uma verdade basilar. As
tradições concernentes às questões orga­
nizacionais ou aos mandamentos divinos
foram reunidas numa época suficiente­
mente posterior que permitisse chegar­
mos a uma interpretação mais clara de­
les. As informações concernentes a mui­
tos desses eventos estavam contidas em
relatos convencionados de atividades cul-
138
tuais. Esta seção apresenta um prisma
sacerdotal usando materiais das fontes J
eE. Há maior idealização dos eventos do
que podia ter surgido em meio aos pró­
prios acontecimentos. A base do pro­
pósito e da ordem dos relatos do deserto
se achava na posição do sacerdócio da
família de Arâo dentro da totalidade da
estrutura. Tudo istoécolocado dentro do
contexto da demonstração da presença
acompanhante deDeus.
1. ORelato Geral(Introdução)
(10:11,12)
11 Ora, aconteceu, no segundo ano, no
segundo mês, aos vinte domês, que a nuvem
se alçou de sobre o tabernáculo da congre­
gação. 12partiram, pois, os filhos de Israel
dodeserto de Sinai para as suas jornadas; e
a nuvem parou no deserto de Parã.
A nuvem se alçou de sobre o taberná­
culo. Uma vezque aunidade tinha de ser
mantida, era um sinal que o povo havia
de se colocar em marcha. Esse povo per­
manecera no Sinai por 11 meses. Nú­
meros 1:1 data o censo em “o primeiro
dia do segundo mês, no segundo ano”.
A data do começo da marcha (v. 11) é o
vigésimodia do segundo mês do segundo
ano. As instruções são colocadas num
espaço de 19 dias. Como é típico de es­
critos hebraicos, dá-se o conteúdo geral
em forma resumida, no começo de uma
passagem (v. 11,12). Depois desta intro­
duçãobreve, dá-se um relato maior, com
muitospormenores(10:13-12:16).
Os 40 anos entre o êxodo egípcio e a
entrada na Palestina são conhecidos co­
mo as peregrinações no deserto. Identifi-
caram-se muitos desertos, durante esta
longa caminhada. No versículo 12, exis­
tem dois deles, ou seja, o de Sinai e o de
Parã. Eventualmente pode surgir confu­
são no uso de alguns destes termos. As
cidades podem ser as cidades centrais de
determinadas áreas, e, assim, uma re­
giãointeira pode ser chamada pelo nome
da cidade. Desta maneira, pode surgir
alguma dúvida seseestá fazendoreferên­
ciaà própria cidade ou à área toda.
2. A OrdemdaMarcha(10:13-28)
13 Assim iniciaram a primeira caminha­
da, à ordem do Senhor por intermédio de
Moisés: 14 partiu primeiramente o estan­
darte do arraial dos filhos de Judá segundo
os seus exércitos; sobre o seu exército es­
tava Nasom, filho de Aminadabe; 15sobre o
exército da tribo dos filhos de Issacar, Ne-
tanel, filho de Zuar; 16e sobre o exército da
tribo dos filhos de Zebulom, Eliabe, filho de
Helom. 17Então o tabernáculo foi desarma­
do, e osfilhosde Gérson e os filhosde Merári
partiram, levando o tabernáculo. 18 Depois
partiu o estandarte do arraial de Rúben se­
gundo os seus exércitos; sobre o seu exér­
cito estava Elizur, filho de Sedeur; 19 sobre
oexércitoda tribodos filhosde Simeão. Selu-
miel,filhode Zurisadai; 20e sobre oexército
da tribo dosfilhos de Gade, Eliasafe, filhode
Deuel. 21 Então partiram os coatitas, le­
vando o santuário; e os outros erigiam o
tabernáculo, enquanto estes vinham. 22 De­
poispartiu oestandarte do arraial dos filhos
de Efraim segundo os seus exércitos; sobre
o seu exército estava Elisama, filho de
Amiúde; 23 sobre o exército da tribo dos
filhosde Manassés, Gamaliel, filho de Peda-
zur; 24e sobre o exército da tribo dos filhos
de Benjamim, Abidã, filho de Gideôni.
23 Então partiu o estandarte do arraial dos
filhos de Dã, que era a retaguarda de todos
osarraiais, segundoosseus exércitos; sobre
o seu exércitoestava Aíezer, filho de Amisa-
dai; 26sobre oexército da tribo dos filhos de
Aser, Pagiel, filho de Ocrã; 21 e sobre o
exército da tribo dos filhos de Naftali, Aírá,
filho de Enã. 28 Tal era a ordem de partida
dos filhos de Israel segundo os seus exérci­
tos, quando partiram.
As instruções concernentes à marcha
já tinham sido descritas no capítulo 2.
A ordem das doze tribos concorda com
aquela ordem. Os estandartes —ou seja,
asdivisões militares — de Judá, Rúben e
Efraim foram seguidos pela unidade de
Dã como a retaguarda. Vê-se a mudança
no tratamento dos levitas. O capítulo 2
apresenta os levitas como estando no
centro da marcha, isto é, entre Rúben e
Efraim. No capítulo 10, os levitas gerso-
nitas emeraritas haviam de partir depois
139
de Judá, mas antes de Rúben. Estes
homens carregavam a carga do taberná­
culo. Note-se a diferença entre “tenda da
revelação” (RSV, “congregação”) e “ta­
bernáculo” (10:17,21). Os levitas coati-
tas, responsáveis pelas coisas sagradas,
haviam de marchar depois de Rúben,
mas antes de Efraim, isto é, no meio.
Note-se que os coatitas são da família de
Moisés e Arão. Em 2:17, todos os levitas
deviam estarjuntos no arraial do centro.
Em 10:17-22, os levitas carregadores, ou
seja, os de Gérson e de Merári, tinham
sido enviados adiante dos coatitas, de
sorte que o tabernáculo pudesse ser er­
guido antes da chegada das coisas sagra­
das(10:21b). Isso significaria que o capí­
tulo 10é um desenvolvimento posterior e
também que os coatitas foram especial­
mente honrados em ficar com as coisas
sagradas.
O pai de Eliasafe é Deuel em 1:14 e
10:20, porém em 2:14 é alistado como
Reuel. Na língua hebraica, as letras d er
são muito semelhantes. A diferença prin­
cipal é que o d tem o til ou chifrinho.
Certamente um copista leu o d como um
rem 2:14. Talvez assim tenha feito, visto
que conhecia onome Reuel como relacio­
nado a Moisés.
3. MoiséseHobabe(10:29-32)
29 Disse então Moisés a Hobabe, filho de
Reuel, o midianita, sogro de Moisés: Nós
caminhamos para aquele lugar de que o
Senhor disse: Vo-lo darei. Vai conosco, e te
faremos bem; porque o Senhor falou bem
acerca de Israel. 30 Respondeu ele: Não
irei; antes irei à minha terra e à minha pa­
rentela. 31 Tornou-lhe Moisés: Ora, não nos
deixes, porquanto sabes onde devamos
acampar no deserto; de olhos nos servirás.
32 Se, pois, vieres conosco, o bem que o
Senhornos fizer, também nós faremos a ti.
A mudança “do deserto do Sinai”
(10:12,13,28) significava que homens do
povo de Israel deviam deixar alguns de
seus amigos, e, em alguns casos, de seus
parentes. Foi o caso com Moisés. Não
queria deixar alguns de seus parentes
para trás. Convidou-os a acompanhá-los.
O relato do convite a Hobabe era, sem
dúvida, típico demuitos convites.
Os relatos dão nomes diferentes ao
sogro de Moisés. A palavra sogro (ho-
then) égeralmente traduzida por “pai da
esposa”. A raiz árabe significa um “cir-
cuncidador”, e daí um sogro. Este vocá­
bulo se refere ao rito da circuncisão,
realizada nosjovens imediatamente antes
do seu casamento. No caso de o pai da
noiva já ter falecido, o irmão da noiva
seria o “circuncidador”. Assim, a pala­
vra é traduzida tanto como “sogro”
quanto como “cunhado”.O sentido mais
comum seria o pai da esposa. A identi­
dade do sogro de Moisés(10:29) é Hoba­
be, filhode Reuel, o midianita. É impos­
sível ser categórico se é Hobabe que é
sogro ou se é “Reuel (Jetro)”. O texto
hebraico de 10:29 pode significar ou que
Hobabe ou que Reuelfosseosogro.
Em Êxodo 3:1; 4:18; 18:1,2,5,6,12, o
nome do sogro deMoiséséJetro(cf. tam­
bém Êx. 18:7,8,14,15,17,24,27). Em Jui­
zes4:11, Hobabe é onome dado ao sogro
de Moisés. Também em Juizes 1:16 al­
guns manuscritos antigos incluem o
nome Hobabe comoosogro deMoisés.
O nome Reuel ocorre duas vezes em
relação a Moisés. Em Êxodo 2:18, ele é
citado como o pai de Zípora. Estes três
nomes, ou seja, os de Jetro, Hobabe e
Reuel, aparecem em relação direta com
Moisés. Números 10:29 dá a linhagem
mais direta, ao afirmar queHobabe era o
filho de Reuel. O problema que ainda
deixa dúvida é a relação de Jetro com
Hobabe. Cada um é chamado de sogro
de Moisés (Êx. 3:1; 4:18; 18:1,2,5,6,12
—Jetro; Juí. 4:11 e, possivelmente, 1:16
— Hobabe). Assim, Jetro e Hobabe são
doisnomes deuma mesma pessoa. Não é
incomum que doishomens para um mes­
mo lugar ou uma mesma pessoa sejam
preservados, por ex., Sinai-Horebe; Ti-
glate-Pileser-Pul; Daniel-Beltessazar; Ja-
có-Israel, etc.
140
Hobabe era o chefe do grupo conheci­
do como os queneus (Juí. 1:16; 4:11),
um clã midianita. Comoum sacerdote de
Midiã, era também muito benéfico a
Moisés no tocante ao entendimento de
sua própria religião, da revelação do
Deusda aliança etambém na reorganiza­
ção da estrutura legal de Israel.
É preciso ver um outro aspecto do
problema. Tem-se de fazeruma interpre­
tação de 12:1. Se a mulher com quem
Moisés se casou, mencionada no capítu­
lo 12, é outra que não Zípora, então
Moisés teria tido dois sogros. Porém Je-
tro e Reuel são mencionados com Zí­
pora. E Hobabe é chamado de o filho de
Reuel. Todos os três são relacionados
diretamente com Moisés e Zípora. De
sorte que a soluçãofácil de que dois deles
sejam sogrosnão pode ser a solução para
dilema da identidade dos três nomes,
visto que todos os três são ligados, no
textobíblico, a Zípora.
Moisés urgia que Hobabe os acompa­
nhasse. Relembra Hobabe da promessa
queDeuslhes tinha feito, i.e., da posses­
são daTerra Prometida, que évistacomo
o bem que Deus falava acerca de Israel
(v. 29). Hobabe responde (v. 30) que vai
voltar para casa, para sua própria terra.
Moisés insta de novo com ele e agora re­
velaum outro motivo de sua necessidade
deHobabe (v. 31). Precisariam dele para
os dirigir pelos caminhos dos oásis e por
veredas seguras. Moisés promete a Ho­
babe igualdade de direitos na possessão
(v. 32). Nada é afirmado sobre a mudan­
ça de idéia de Hobabe, de maneira que é
provável que Hobabe não tenha acompa­
nhadoMoisése os filhos de Israel daí em
diante.
4. APrimeiraEtapadaMarcha
(10:33-36)
33 Assim partiram do monte do Senhor
caminho de três dias; e a arca do pacto do
Senhor ia adiante deles, para lhes buscar
lugar de descanso. 34 E a nuvem do Senhor
ia sobre eles de dia, quando partiam do
arraial. 35Quando, pois, a arca partia, dizia
Moisés: Levanta-te, Senhor, e dissipados
sejam os teus inimigos, e fujam diante de ti
os que te odeiam. 36 E, quando ela pousava,
dizia: Volta, ó Senhor, para os muitos mi­
lhares de Israel.
Novamente se realça a presença de
Deus em contraste com a confiança em
Hobabe como guia. A nuvem significava
a presença de Deus (v. 34), que pairava
sobre eles de dia, quando partiam na
primeira etapa da viagem. A nuvem não
ia “adiante” deles, mas sobreeles, signi­
ficando mais a presença de Deus do que
a sua direção. Esta etapa era umaviagem
de três dias, do Sinai. O versículo 33 é o
único lugar onde se refere ao Sinai como
omontedo Senhor.
A arca do pacto do Senhor (v. 33) é
distintivamente um termo deuteronômi-
co, colocando uma maior ênfase na pre­
sença divina. A menção de a nuvem do
Senhor(v. 34)é tirada do contexto sacer­
dotal anterior(9:15-23).
A arca ia adiante deles (v. 33) quer
dizer, literalmente, “aos seus rostos”,
que podia significar “à sua vista”, bem
como na sua frente. Não é lógico que a
arca fosse “caminho de três dias” adian­
te deles (como nos textos hebraico e
inglês). Durante ostrês dias da viagem, a
arca estava na presença deles precisa­
mente como a nuvem estava sobre eles.
Porém o termo buscar é o mesmo que o
usado no capítulo 13 com relação à in­
vestigação da terra. Neste caso, o motivo
da menção da nuvem é claro, no sentido
de que a arca ia adiante do povo e a
nuvem pairava sobre ele. Nas marchas
subseqüentes, a arca era carregada pelos
coatitas no centro das doze tribos em
marcha.
A arca era o símbolo material da pre­
sença invisível de Deus no seu culto sa­
grado, bem como em sua guerra santa
(Jos. 3:3,6; 4:11-13; I Sam. 4:3-22). Os
versículos 35 e 36 contêm duas antigas
canções de batalha, relacionadas com a
arca e com o exército em marcha. Quan­
141
do a arca começava a mover-se, o povo
costumava gritar: Levanta-te, Senhor, e
dissipados sejam os teus inimigos. A ar­
caeraconsiderada, pelosisraelitas, como
o trono de Deus. Quando ela ia adiante
deles, eram vitoriosos, porque Deus esta­
va ali. Quando era trazida ao local do
acampamento, opovo costumava cantar:
Volta, ó Senhor,paraos muitos milhares
deIsrael.
Os muitos milhares pode também ser
traduzido como “a multidão das tribos
de Israel”. Notar a tradução da Socie­
dade de PublicaçõesJudaicas(JewishPu-
blication Society), “as dez mil das famí­
lias de Israel”.
5. As Reclamações do Povo (11:1-12:16)
Quando as pessoas se acham em di­
ficuldades, sejam físicas, mentais, finan­
ceiras oueconômicas, é relativamente fá­
cil dimensionarem os seus problemas em
proporções muito maiores. Quando uma
pessoa se queixa de sua sorte, na vida,
muitos outros tomam a oportunidade de
contar de seus infortúnios. Somos tão
prontos a nos queixarmos da comida, das
despesas, das autoridades, do tempo ou
uns dos outros. O povo de Israel demons­
trava essas mesmas fraquezas. Este ma­
terial não é sacerdotal, mas provém das
fontesJ eE.
(1) A Reclamação em Tabera (11:1-3)
1Depois o povo tornou-se queixoso, falan­
do o que era mau aos ouvidos do Senhor; e
quando oouviu, acendeu-se a sua ira; o fogo
do Senhor irrompeu entre eles, e devorou as
extremidades do arraial. 2 Então o povo
clamou a Moisés, e Moisés orou ao Senhor, e
o fogo se apagou. 3 Pelo que se chamou
aquele lugar Tabera, porquanto o fogo do
Senhor se acendera entre eles.
Uma reclamação eventual é de se es­
perar em qualquer organização ou famí­
lia. Mas quando as pessoas chegam a ser
reclamadoras contínuas, algo está erra­
do, ou com a situação ou com elas, ou
com ambas. O povo tornou-se queixoso
significa uma atitude contínua ou até
característica.
As queixas eram sobre os seus infor­
túnios (conforme a RSV). A palavra é
impropriamente traduzida na ASV e no
nosso texto português por “mal”. Ela
traz essa idéia em muitos contextos, po­
rém o pensamento central aqui é que a
sua sorte na vida lhes desagradava. Se
um feito ou um pensamento for desagra­
dável oumau aos olhos de Deus, é moral­
mente ruim. O texto mostra que o povo
estava se entregando a murmurações
constantes. O autor não declara qual o
objetivo específico de seu desagrado. Es­
tavam reclamando incessantemente aos
ouvidos do Senhor. Acendeu-se a sua ira
éuma expressão antropopática, indican­
do o seu próprio e definido desagrado,
não por causa da sorte do povo, mas,
sim, por causa das suas reclamações
contínuas.
O fogo do Senhor é um termo indefi­
nido. Alguns comentaristas procuram
explicá-lo como raio ou algum outro fe­
nômeno elétrico. Talvez tenha sido. Po­
rém o leitor que estiver obcecado pela
necessidade absoluta de explicar o fenô­
meno como natural ou não-natural pres­
cinde da fé como um elemento essencial
para a interpretação. O fogo, aqui, é
uma figura de linguagem, interpretada
como a santidade consumidora de Deus,
como também no caso de Nadabe e Eliú
(Lev. 10:1-3).
Quando surgiram os problemas, o
povo soltou um grito de socorro a al­
guém, neste caso Moisés. Moisés orou
(não foium grito de socorro, mas um ato
desintercessão) ao Senhor. Isto ocorreu
no lugar chamado Tabera, que significa
ardor (cf. Deut. 9:22). Sem dúvida, esta
éuma história etiológica, que relembra o
significado do nome do lugar como uma
unidade da primeira etapa da viagem.
142
(2) A Reclamação em Quibrote-Hataavá
(11:4-35)
4 Ora, o vulgo que estava no meio deles
veio a ter grande desejo; pelo que os filhos
de Israel também tornaram a chorar e dis­
seram: Quem nos dará carne a comer?
5 Lembramo-nos dos peixes que no Egito
comíamos de graça, e dos pepinos, dos me­
lões, dos porros, das cebolas e dos alhos.
6 Mas agora nossa alma se seca; coisa
nenhuma há senão este maná diante dos
nossos olhos. 7 E era o maná como a semen­
te do coentro, e a sua aparência como a
aparência de bdélio. 8Opovo espalhava-se e
o colhia, e, triturando-o em moinhos ou pi­
sando-onum gral, em panelas o cozia, e dele
fazia bolos; e o seu sabor era como o sabor
de azeite fresco. 9 E, quando o orvalho des­
cia de noite sobre oarraial, sobre ele descia
também o maná. 10 Então Moisés ouviu
chorar o povo, todas as suas famílias, cada
qual à porta da sua tenda; e a ira do Senhor
grandemente se acendeu; e aquilo pareceu
mal aos olhos de Moisés. 11 Disse, pois,
Moisés ao Senhor: Por que fizeste mal a teu
servo, e por que não achei graça aos teus
olhos, pois que puseste sobre mim o peso de
todo este povo? 12 Concebi eu porventura
todo este povo? dei-o eu à luz, para que me
dissesses: Leva-o ao teu colo, como a ama
leva a criança de peito, para a terra que
com juramento prometeste a seus pais?
13Donde teria eu carne para dar a todo este
povo? porquanto choram diante de mim,
dizendo: Dá-nos carne a comer. 14Eu só não
posso levar a todo este povo, porque me é
pesado demais. 15 Se tu me hás de tratar
assim, mata-me, peço-te, se tenho achado
graça aos teus olhos; e não me deixes ver a
minha miséria. 16 Disse então o Senhor a
Moisés: Ajunta-me setenta homens dos an­
ciãos de Israel, que sabes serem os anciãos
dopovoe seus oficiais; e os trarás perante a
tenda da revelação, para que estejam ali
contigo. 17Então descereie ali falarei conti­
go, e tirarei do espírito que está sobre ti, e o
porei sobre eles; e contigo levarão eles o
peso do povo para que tu não o leves só.
18E dirás ao povo: Santificai-vos para ama­
nhã, e comereis carne; porquanto chorastes
aos ouvidos do Senhor, dizendo: Quem nos
dará carne a comer? pois bem nos ia no
Egito. Pelo que o Senhor vos dará carne, e
comereis. ISNãocomereis um dia, nem dois
dias, nem cinco dias, nem dez dias, nem
vinte dias; 20 mas um mês inteiro, até vos
sair pelas narinas, até que se vos torne coisa
nojenta; porquanto rejeitastes ao Senhor,
que está no meio de vós, e chorastes diante
dele, dizendo: Porque saímos do Egito?
21 Respondeu Moisés: Seiscentos mil ho­
mens de pé é este povo no meio do qual es­
tou; todavia tu tens dito: Dar-lhes-ei carne,
e comerão um mês inteiro. 22 Matar-se-ão
para eles rebanhos e gados, que lhes bas­
tem? ouajuntar-se-ão para eles todos os pei­
xes do mar, que lhes bastem? 23 Pelo que
replicou o Senhor a Moisés: Porventura
tem-se encurtado a mão do Senhor? agora
mesmo verás se a minha palavra se há de
cumprir ounão.
O vulgo (ingl.: turba) tinha desejos
muito fortes para si mesmo. Este termo
vulgonão ocorre em nenhum outro lugar
no Antigo Testamento. Tem a acepção
de os ajuntados, e pode estar fazendo
referência à maneira como as pessoas são
propensas a se ajuntarem em pequenos
grupos, especialmente em épocas de ten­
são sustida. Aqueles nos pequenos gru­
pos tinham desenvolvido um grande de­
sejo, que se alastrou, até todo o povo
chorar: Quem nos dará came a comer?
Essa não foi a primeira vez que chora­
ram (cf. Êx. 16:1-3). O relato de Êxodo
que é o registro E da história das codor-
nizes tem algumas semelhanças com esta
história. Conta como o povo recordava
“quando estávamos sentados junto às
panelas de carne” (Êx. 16:3). O registro
sacerdotal é, provavelmente, mais pre­
ciso em lembrar dos peixes... dos pepi­
nos, dos melões (melancias), dos porros,
dascebolas e dos alhos. Peixe era a dieta
comum dos pobres no Egito. Heródoto
(II, 125) nota que os homens que ser­
viamno trabalho forçado, nas pirâmides,
foram alimentados deporros ecebolas.
Os israelitas recordavam como co­
miam peixes, que não lhes custavam
nada, e agora não podiam sequer com­
prar came. Não tinham comida, senão
o maná. Agora a sua alma (“força”, no
inglês) se seca. Snaith7explica a expres­
são como significando que não tinham
nada para abrir oseu apetite. Deduz esse
7 Peake’s Commentary on the Blbie, eds. Matthew Black e
H.H. Rowley(Londres: Nelson, 1962), p. 259.
143
pensamento da interpretação de que o
seu apetite estava ressequido pela falta
de carne fresca e suculenta. O maná
passou a ser assim chamado após a ob­
servaçãofeita pelo povo, quando o viram
pela primeira vez: “Que é isto?” como
explicado em Exodo 16:15.8 O maná é
descritonosversos 7-9. Êxodo 16:14tam­
bém diz que era miúdo e fino. Existe
uma planta conhecida por tamarix galli-
ca mannifera ou árvore tarfa, que segre­
ga um suco de gotas pesadas, a partir do
fim demaio atéjulho. Estas gotas apare­
cem durante a noite, mas são derretidas
ao calor do sol. São doces, com uma
consistência pegajosa, parecida com o
mel.
O sabor de bolos assados com óleo
seria bem diferente do dos alhos e das
cebolas, aos quais se tinham habituado
durante os longos anos no Egito. Essa
suavidade de gosto acentuava a ausência
de qualquer carne de sua dieta.
Os versículos 10-15 unem duas idéias.
Uma delas é da continuação das recla­
mações dopovo, que eram desagradáveis
para Deus e para Moisés. A outra é da
estrutura autoritária ou organizacional
de sua sociedade. A queixa sobre a carne
(cf.Êx. 17:2-4)elevouaumgrau decriseo
acúmulo de problemas, de tal sorte que
Moisés sesentiu pessoalmente rejeitado e
sobrecarregado. Moisés sentiu quejá não
podia continuar com as pesadas respon­
sabilidades da liderança. Ele queria al­
guma mudança ou das estruturas ou pela
morte (Êx. 18:17,18; 32:30-32).
O sentimento que Moisés tinha de so­
brecarga insuportável é aliviado pela dis­
tribuição da carga e das atividades entre
setenta outros. Estes homens haviam de
sertrazidos à tendadarevelaçãoe imbuí­
dos de uma porção do espírito que habi­
tavaem Moisés.
Uma outra maneira de tornar mais
leve a sobrecarga insuportável do líder é
a resposta firme àqueles que trouxeram a
queixa. O relato da situação alimentícia
8Ver ocomentário sobre Êxodo, Volume 1.
écontinuado no versículo 18. É dito ao
povo que se santifique. Esse serviço é,
basicamente, um aviso para que se pre­
parem. Estes preparativos podiam ser
para o mal, como também para o bem.
Haviam de recebercarne no dia seguinte.
O povo era cético, pois estava muito
longe de qualquer via de suprimentos.
Além disso, já tinha peregrinado por
tanto tempo, e não conseguira carne
alguma. Assim reiterou o dito que já
quase se tornara em chavão, bem nos ia
noEgito. Nãojulgava assim quando cati­
vo no Egito. Porém a fraqueza humana
faz com que alguém com uma tendência
para ter pena de si olhe para o capim
verde dooutro lado dacerca.
Moisés informou-lhesque oDeus deles
lhes daria carne. A ênfase principal des­
tes versículos é o poder espantoso de
Deus para suprir semelhante multidão
com tamanha abundância por um tão
extenso período de tempo. A carne seria
tão abundante que se tomaria nojenta,
estranhae repugnante.
24 Saiu, pois, Moisés, e relatou ao povo as
palavras do Senhor; e ajuntou setenta ho­
mens dentre os anciãos do povo e os colocou
ao redor da tenda. 25Então o Senhor desceu
na nuvem, e lhe falou; e, tirando do espírito
que estava sobre ele, pô-lo sobre aqueles
setenta anciãos; e aconteceu que, quando o
espírito repousou sobre eles, profetizaram,
mas depois nunca mais o fizeram. 26Mas no
arraial ficaram dois homens; chamava-se
um Eldade, e o outro Medade; e repousou
sobre eles o espírito, porquanto estavam
entre os inscritos, ainda que não saíram
para irem à tenda; e profetizavam no ar­
raial. 27 Correu, pois, um moço, e o anun­
ciou a Moisés, dizendo: Eldade e Medade
profetizam no arraial. 28 Então Josué, filho
de Num, servidor de Moisés, um dos seus
mancebos escolhidos, respondeu e disse:
Meu senhor Moisés, proíbe-lho. 29 Moisés,
porém, lhe disse: Tens tu ciúmes por mim?
Oxalá que do povo do Senhor todos fossem
profetas, que oSenhorpusesse o seu espírito
sobre eles! 30 Depois Moisés se recolheu ao
arraial, ele e osanciãos de Israel.
Reinicia-se orelato dos setenta anciãos
(v. 24-30). Seguindo a diretriz do versí-
144
culo 16, Moisés ^juntou setenta homens
dentre os anciãos... ao redor da tenda.
Ali Deus lhes doou o mesmo espírito que
tinha inspirado a atuação de Moisés.
A forma apresentada não é o emprego
mais clássico do verbo “profetizar”. Ca­
racteriza a fase extática da profecia, que
era comum na história primitiva dos
israelitas. O desenvolvimento do movi­
mento profético mostra muita influência
cananéia, particularmente na evidência
do êxtase, tanto com estímulo musical,
comosemele.
Mas depois nunca mais o fizeram
(v. 25) significa, literalmente, “e não
acrescentaram”. Isto podia querer dizer
que não aumentaram. Mas podia tam­
bém querer dizer que profetizaram so­
mente o que oespírito lhes revelou e não
lhe acrescentaram nada. O contexto re­
quer a leitura de que não acrescentavam
nada à mensagem, visto que nos versos
26-30 podemos notar a adição de mais
dois ao número setenta. Assim, a sobre­
carga, que tinha sido onerosa sobre Moi­
sés, foi repartida entre os representantes
da congregação inteira.
Dois homens, respectivamente de no­
me Eldade e Medade, tinham sido regis­
trados, mas não podiam ir com os demais
setenta representantes. Enquanto ainda
estavam no arraial, possivelmente, em
virtude de imundícia cultual, foram pos­
suídos pelas mesmas expressões profé­
ticas que os outros setenta, que estavam
ao redor da tenda. É interessante notar
que este relato situa a tenda fora do
acampamento, contrariamente ao regis­
tro anterior (cap. 2), que diz que a tenda
havia de estar no centro do acampa­
mento.
Um moço contou a Moisés, aliás, pro­
vavelmente" a Josué, que por sua vez
informou a Moisés, que Eldade e Meda­
de estavam profetizando. Josué esperava
que Moisés os proibisse de profetizar,
visto que não constavam entre os setenta
escolhidos. Porém a resposta de Moisés
alcança alturas progressivas. A expecta­
tiva de Josué era mais característica de
uma luta pelo poder, dentro de uma
organização, do que da exaltação do
espírito de Deus. Josué tinha ciúmes
pelaposição deMoisés, enquantoMiriã e
Arâo tinham ciúmes de sua posição.
A resposta de Moisés é outra prova de
sua mansidão. Significava uma crença
fundamental de que Deus podia doar de
seu espírito a qualquer pessoa, sem limi­
tações de tempo, de lugar ou de ritual
prescrito. Moisés desejava que toda a
congregação, ao invés de apenas os 72,
fossem profetas e recebedores do espírito
deDeus.
31 Soprou, então, um vento da parte do
Senhore, do lado do mar, trouxe codornizes
que deixou cairjunto ao arraial quase cami­
nho de um dia de um e de outro lado, à roda
doarraial, a cerca de dois côvados da terra.
32 Então o povo, levantando-se, colheu as
codornizes portodo daquele dia e toda aque­
la noite, e por todo o dia seguinte; o que
colheu menos, colheu dez hômeres. E as
estenderam para si ao redor do arraial.
33 Quando a carne ainda estava entre os
seus dentes, antes que fosse mastigada,
acendeu-se a ira do Senhor contra o povo, e
feriu o Senhor ao povo com uma praga mui
grande. 34Pelo que se chamou aquele lugar
Quibrote-Hataavá, porquanto ali enterra­
ram o povo que tivera o desejo. 35 De Qui-
brote-Hataavápartiu o povo para Hazerote;
e demorou-se em Hazerote.
A história das codornizes recomeça
(do v. 23) com o versículo 31. Um vento
de Deus (cf. Êx. 14:21) trouxe as codor­
nizes. Semelhantemente ao maná, as co-
domizes são nativas daquele deserto.
O vento trouxe uma abundância em mi­
gração do Golfo de Ãcaba. Estas migra­
ções acontecem geralmente em março.
Quando estas aves atravessavam as pla­
nícies em números tão grandes e de tão
longe, ficavam exaustas, e assim podiam
serapanhadas facilmente. O versículo 31
assinala a parte mais inusitada do regis­
tro, i.e., as codornizes perfaziam uma
camada de um metro de altura numa
área que se estendia pela viagem de um
145
dia em qualquer direção do acampa­
mento.
Seria realmente muitíssimo incomum
que as aves estivessem presentes pela
ocasiãoespecífica da reclamação do povo
e em números tão elevados. Estes são os
elementos de um registro veterotesta-
mentário de um milagre: (1) algo extra­
ordinário ocorreu(não, necessariamente,
totalmente fora do reino dos eventos na­
turais); (2) o tempo era especificamente
oportuno; e (3) havia uma mente pre­
sentepara interpretar o evento e o tempo
como sob controle doSenhor.
Há uma interpretação antiga que man­
tém que as codornizes estavam voando
a cerca de dois côvados da terra(ou seja,
acima da terra) (v. 31), de maneira que o
povopodia pegá-las facilmente, pois voa­
vam pelo seu caminho exaustas. Assim o
povo levantou-se a apanhou as codorni­
zes. Cada pessoa apanhou pelo menos
dez hômeres (v. 32). Um hômer corres­
pondia à carga de um jumento. Dez
carregamentos de jumentos seriam uma
quantidade fantástica, indicando uma
ganância desordenada. Sem dúvida, po­
diam apanhar codornizes suficientes pa­
ra, pelomenos, um mêsinteiro (cf. v. 19,
20). Estenderam-nas ao redor do acam­
pamento, a fim de secá-las epreservá- las
para uso futuro. O excitamento crescia à
medida que opovo prelibava a satisfação
de seus apetites egoístas. Estavam tão
envolvidos na sua gula, que a ira do
Senhor se acendeu de tal forma a trazer
uma praga sobreeles. Esta praga foiuma
enfermidade, surgida, aparentemente,
do comer das codornizes (não da quanti­
dade comida), e foi interpretada como
umjuízocontra eles.
Osversículos34e35são topográficos e
também etiológicos. O lugar lhes era
conhecido e o nome é explicado em ter­
mos das “covas da cobiça”, que é o
significado deQuibrote-Hataavá. Tabera
(11:3) eQuibrote-Hataavá (11:34,35) são
dois lugares registrados em Deuteronô-
mio9:22 comolugares ondeDeus expres­
sou desagradopara comseu povo.
(3) AReclamaçãoemHazerote(12:1-16)
1 Ora, falaram Miriã e Arão contra Moi­
sés por causa da mulher cuchita que este
tomara; porquanto tinha tomado uma mu­
lher cuchita. 2 E disseram: Porventura fa­
louo Senhor somente por Moisés? Não falou
também por nós? E o Senhor o ouviu. 3Ora,
Moisés era homem mui manso, mais do que
todos os homens que havia sobre a terra.
4E logo o Senhor disse a Moisés, a Arão e a
Miriã: Saí vós três à tenda da revelação.
E saíram eles três. 3 Então o Senhor desceu
em uma coluna de nuvem, e se pôs à porta
da tenda; depois chamou a Arão e a Miriã,
e os dois acudiram. 6 Então disse: Ouvi
agora as minhas palavras: se entre vós
houverprofeta, eu, o Senhor, a ele me farei
conhecer em visão, em sonho falarei com
ele. 7 Mas não é assim com o meu servo
Moisés, que é fiel em toda a minha casa;
8bocaa boca falo com ele, claramente e não
em enigmas; pois ele contempla a forma do
Senhor. Por que, pois, não temestes falar
contra o meu servo, contra Moisés? 9Assim
se acendeu a ira do Senhor contra eles; e ele
se retirou; 10também a nuvem se retirou de
sobre a tenda; e eis que Miriã se tornara le­
prosa, branca como a neve; e olhou Arão
para Miriã e eis que estava leprosa. 11Pelo
que Arão disse a Moisés: Ah, meu senhor!
rogo-te não ponhas sobre nós este pecado,
porque procedemos loucamente, e pecamos.
12Não seja ela como um morto que, ao sair
do ventre de sua mãe, tenha a sua carne já
meio consumida. 13Clamou, pois, Moisés ao
Senhor, dizendo: Ó Deus, rogo-te que a
cures. 14Respondeu o Senhor a Moisés: Se
seupailhe tivesse cuspido na cara não seria
envergonhadapor sete dias? Esteja fechada
por sete dias fora do arraial, e depois se
recolherá outra vez. 15 Assim Miriã esteve
fechada fora do arraial por sete dias; e o
povonão partiu, enquanto Miriãnão se reco­
lheu de novo. 16Mas depois o povo partiu de
Hazerote, e acampou-se no deserto de Parã.
Miriã e Arão tinham ciúmes da posi­
ção de Moisés. O seu descontentamento
achouexpressão contra a mulher cuchita
com quem Moisés tinha casado. O texto
não assinala, aqui, se esse casamento
acontecera havia bastante tempo ou se
era um eventorecente.
146
Moisés era único, no sentido de que
Deus lhe falava face a face (v. 6-8), con­
quanto todos oSoutros profetas ouvissem
a Deus em sonhos e visões (v. 6; Jó
4:12-17; 33:15). Arão e Miriã eram reco­
nhecidos como lideres do povo, mas
ocupavam, seguramente, o segundo lu­
gar depois deMoisés.
A identidade da mulher cuchita tem
sido largamente debatida. O único nome
conhecido de uma esposa de Moisés era
Zípora (Êx. 2:16-22; 4:25; 18:2). Porém
hâ ocasiões, aqui e em outros lugares,
onde há referência à esposa de Moisés
sem nenhum nome específico. Possivel­
mente oescritorestejafazendo referência
a Zípora, aqui. Era através dela e de seu
parentesco que se tinham efetivado mui­
tas mudanças na vida de Israel. O con­
selho para trazer outros a fim de inte­
grarem a organizaçãoregente(Êx. 18:13-
27) fez com que a posição de Miriã e
Arão fosse menos central. Também mui­
tos consideram que os queneus exerce­
ram considerável influência, em termos
espirituais e de revelação, sobre Moisés e
opovo. Assim, o prestígio e a influência
de Miriã e de Arão foram diminuídos.
Seria compreensível que Arão e Miriã
estivessemdescontentes comZípora.
Zípora tinha sido deixada com seu pai
por longotempo(juntocom os dois filhos
deMoisés), masJetro ostrouxe a Moisés.
Enquanto Zípora e os dois meninos esta­
vam ausentes, Miriã e Arão não tinham
quem os rivalizasse, relegando-os a um
segundo lugar; mas ao estarem presen­
tes, havia uma lembrança constante das
diversas sugestões que tinham vindo
através dos midianitas, desequilibrando
ostatusquo.
Zípora era uma midianita (Êx. 2:16)
ou uma quenéia (Juí. 1:16; 4:11). Em
Habacuque 3:7, os termos Cusã e Midiâ
são usados em paralelismo sinônimo.
Dessaforma, ela pode ser citada correta­
mentecomouma mulhercuchita.
A história de Zípora registra o fato de
queMoisés a despedira(Êx. 18:2). Este é
o mesmo termo usado em outros lugares
para o divórcio. Neste mesmo capítulo
(Êx. 18:1,6) somos informados que Jetro,
ainda chamado de sogrode Moisés, trou­
xe Zípora a Moisés “no deserto onde se
tinha acampado, junto ao monte de
Deus” (Êx. 18:5), trazendo também os
seus dois filhos. Este registro assinala
(Êx. 18:27) que mais tarde “despediu
Moisés a seu sogro” para a sua pátria.
Não se faz menção nenhuma de Zípora e
dos dois filhos, Gérson e Eliezer. Assim,
é possível que a mulher cuchita fosse Zí­
pora. Nesse caso, a referência explicaria
uma menção repetida a cuchita, para
realçar, com certo desdém, que Miriã e
Arão a consideravam uma “estrangeira”.
A Septuaginta e a Vulgata traduzem o
termo por Etiópia. Entre as muitas len­
das sobre Tharbis, a filha de Kirkanos,
rei da Etiópia, existe uma que conta que
Moisés se casou com a rainha da Etiópia
e governou aquele país por mais de 40
anos. Cusã recebe os seguintes significa­
dos: Etiópia; Cassita — ao leste da Babi­
lônia; Cusi (Arábia Setentrional); Cusã-
Midiâ; ede aparência vistosa.
Miriã e Arão eram oficiais religiosos
servindo sob Moisés. A ira deles explica-
se no versículo 2, na pergunta: Porven­
turafalouo Senhorsomentepor Moisés?
MasMoiséserahomemmuimanso, mais
do que todos os homens... sobre a terra.
Issonão quer dizer que não manifestasse
resistência perante alguma situação
humana. A mansidão tem de ser enten­
dida dentro da relação do homem com
Deus (Êx. 3:11; Sof. 2:3).
Todos os três foram chamados para
irem à tenda. Aqui o Senhor se irou
contra Miriã e Arão por ousarem falar
contra o servo de Deus (v. 9). Miriã é
selecionada para o castigo. Não há qual­
quer registro de castigo para Arão. Não
se dá nenhum motivo pela diferença no
tratamento de Miriã e de Arão. Os escri­
tossacerdotais enaltecem a descendência
deArão.
147
Trata-se dos três em níveis diferentes.
Arão confessa o pecado deles e intercede
por Miriã. Moisés também intercede por
ela, mas lepra é imundícia. O juízo de
Deus sobre ela tornou-a inaceitável den­
tro da congregação. Pela sua crítica a
Moisés com relação à autoridade sobre a
congregação, Miriã tomou-se inaceitável
à congregação. Ela teve de passar o pe­
ríodo de imundícia fora do acampamen­
to. O versículo 16 marca a transição de
Hazerote para odeserto deParâ.
III. AsReclamaçõesnoDesertode
Parã(13:1-21:35)
1. AsInvestigações Pelos Doze na Terra
Prometida(13:1-33)
1 Então disse o Senhor a Moisés: 2 Envia
homensque espiem a terra de Canaã, que eu
heide dar aos filhos de Israel. De cada tribo
de seus pais enviarás um homem, sendo
cada qual príncipe entre eles. 3Moisés, pois,
enviou-os do deserto de Parã, segundo a
ordem do Senhor; eram todos eles homens
principais dentre os filhos de Israel. 5 E es­
tes são os seus nomes: da tribo de Rúben,
Samua, filhode Zacur; Sda tribo de Simeão,
Safate, filho de Hori; 6 da tribo de Judá,
Calebe, filho de Jefoné; 7 da tribo de Issa-
car, Igal, filhode José; 8da tribo de Efraim,
Oséias, filho de Num; 9 da tribo de Benja­
mim, Palti, filho de Rafu; 10 da tribo de
Zebulom, Gadiel, filho de Sódi; 11 da tribo
de José, pela tribo de Manassés, Gadi, filho
de Susi; 12 da tribo de Dã, Amiel, filho de
Gemali; 13da tribo de Aser, Setur, filho de
Micael; 14da tribo de Naftali, Nabi, filho de
Vofsi; 15 da tribo de Gade, Geuel, filho de
Maqui. 16 Estes são os nomes dos homens
que Moisés enviou a espiar a terra. Ora, a
Oséias, filhode Num, Moisés chamou Josué.
17 Enviou-os, pois, Moisés a espiar a terra
de Canaã, e disseram-lhes: Subi por aqui
para õ Negebe, e penetrai nas montanhas;
18e vede a terra, que talé; e opovo que nela
habita, se é forte ou fraco, se pouco ou mui­
to; 19que tal é a terra em que habita, se boa
ou má; que tais são as cidades em que
habita, se arraiais ou fortalezas; 20e que tal
é a terra, se gorda ou magra; se nela hâ
árvores, ou não; e esforçai-vos, e tomai do
fruto da terra. Ora, a estação era a das uvas
temporãs. 21 Assim subiram e espiaram a
terra desde o deserto de Zim, até Reobe, à
entrada de Hamate. 22 E subindo para o
Negebe, vieram até Hebrom, onde estavam
Aima, Sesai e Talmai, filho de Anaque.
(Ora, Hebrom foi edificada sete anos antes
deZoãnoEgito).23Depoisvieram até ovale
de Escol, e dali cortaram um ramo de vide
comum só cacho, oqual doishomenstrouxe­
ram sobre uma verga; trouxeram também
romãs e figos. 24 Chamou-se aquele lugar o
vale de Escol, por causa do cacho que dali
cortaram os filhos de Israel. 25 Ao fim de
quarenta dias voltaram de espiar a terra.
20 E, chegando, apresentaram-se a Moisés
e a Arão, e a toda a congregação dos filhos
de Israel, no deserto de Parã, em Cades; e
deram-lhes notícias, a eles e a toda a con­
gregação, e mostraram-lhes o fruto da ter­
ra. 27 E, dando conta a Moisés, disseram:
Fomos à terra a que nos enviaste. Ela, em
verdade, mana leite e mel; e este é o seu
fruto. 28 Contudo o povo que habita nessa
terra é poderoso, e as cidades são fortifica­
das e mui grandes. Vimos também ali os
filhos de Anaque. 29 Os amalequitas habi­
tam na terra do Negebe; os heteus, os jebu-
seus e os amorreus habitam nas monta­
nhas; e os cananeus habitam junto domar, e
ao longo do rio Jordão. 30 Então Calebe,
fázendo calar opovo perante Moisés, disse:
Subamos animosamente, e apoderemo-nos
dela; porque bem poderemos prevalecer
contra ela. 31 Disseram, porém, os homens
que subiram com ele: Não poderemos subir
contra aquele povo, porque é mais forte do
quenós. 32Assim, perante osfilhosde Israel
infamaram a terra que haviam espiado, di*
zendo: A terra pela qual passamos para
espiá-la, é terra que devora os seus habitan­
tes; e todo o povo que vimos nela são ho­
mensde grande estatura. 33Também vimos
ali os nefilins, isto é, os filhos de Anaque,
que são descendentes dos nefilins; éramos
aos nossos olhos como gafanhotos e assim
também éramos aos seus olhos.
Para que o relatório do grupo de son­
dagem fosse uma verdadeira representa­
ção do sentido da maioria, um espia de
cada uma das doze tribos foi enviado.
Estes líderes não são os mesmos notados
em 1:5-15. Foram enviados do sul (Ne-
guev) ao norte, até Hebrom (v. 22), da
terra deCanaã. As suas instruções eram,
principalmente, que trouxessem relató­
rios sobre a terra e sobre a maneira como
estava construída e era cultivada. Como
parte desse relatório, haviam de desco­
148
brir se os habitantes eram fortes e nume­
rosos ou fracos e poucos. Partiram de
Cades(v. 26), nodeserto de Parã, e pros­
seguiramatéReobe, àentradade Hama-
te, na fronteira mais setentrional de Ca-
naã, perto de Dã. O relatório da terra foi
entusiástico. As frutas que trouxeram
com eles eram suculentas. O vale de
Escol era uma região vitícola famosa.
Apalavra Escol quer dizercacho. A terra
manava leite e mel. Esses são gêneros
que fariam com que uma terra parecesse
altamente desejável aos olhos do povo
que estiveraviajando no desertoou ermo.
Por quarenta dias peregrinaram por
toda a terra. Os habitantes de Canaâ
eram uma população mista (v. 29), e
assim não foi uma tarefa muito difícil,
para eles, fazer um levantamento do
povo e da terra com relativa segurança.
Aliás, alguns dos habitantes da terra
talvezfossemparentes.
Os israelitas, mal-equipados, ficaram
profundamente impressionados com as
fortificações e as tropas. Entre o povo
havia os filhos (ingl., descendentes) de
Anaque. Este termo talvez se refira aos
soldados profissionais do “exército de
Anaque” (de Vaux, p. 219, 242). O ver­
sículo28começa com a palavra contudo,
sinal de que nãoexistia esperança nenhu­
ma de conquistarem o povo dali. Os
filhos de Anaque (a palavra Anaque sig­
nifica “pescoço comprido”) são relacio­
nados, no verso 33, aos nefilins(cf. Gên.
6:4). A palavra nefilim pode ser traduzi­
da comoos “caídos”,esereferiaa gigan­
tes lendários, que traziam terror ao povo
de menor porte físico, assim indicando o
seu medo da ferocidade e da estatura.
Os habitantes eram tão grandes, que os
espias sentiam não existir qualquer chan­
ce. A terra era tão grande, que o ser
humano se sentia insignificante em com­
paração. Calebe, o representante da tri­
bo deJudá, pediu a mobilização imedia­
ta, com grande confiança na vitória (v.
30). Porém o relatório da maioria era
desfavorável.
2. OConselhoVotanoRelatório
(14:1-45)
(1) ATurbaGoverna(14:1-3)
1 Então toda'a congregação levantoua voz
e gritou; e o povo chorou naquela noite.
2 E todos os filhos de Israel murmuraram
contra Moisés e Arão; e toda a congregação
lhes disse: Antes tivéssemos morrido na
terra do Egito, ou tivéssemos morrido neste
deserto! 33Por que nos traz o Senhor a esta
terra para cairmos à espada? Nossas mu­
lheres e nossos pequeninos serão por presa.
Não nos seria melhor voltarmos para o Egi­
to?
Quando a congregação ouviu, tanto o
relatório da maioria (13:31,33) como o
relatório da minoria (13:30), virou-se
contra Moisés e Arão. Fizeram a mesma
queixa que tinham feito anteriormente
(Êx. 14:11,12), com relação ao perigo, à
fomeeà sede. Aprimeira conclusãoera a
sua vontade de estar de volta no Egito
(v. 3).
/
(2) Moisés, Arão, Josué e Calebe Acon­
selhamumaLinhadeAção
(14:4-10a)
4 E diziam uns aos outros: Constituamos
um por chefe e voltemos para o Egito. 5 En­
tão Moisés e Arão caíram com os rostos por
terra perante toda a assembléia da congre­
gação dosfilhos de Israel. 6E Josué, filho de
Num, e Calebe, filho de Jefoné, que eram
dosque espiaram a terra, rasgaram as suas
vestes; 7 e falaram a toda a congregação
dos filhos de Israel, dizendo: A terra, pela
qual passamos para a espiar, é terra mui­
tíssimoboa. 8Seo Senhor se agradar de nós.
então nos introduzirá nesta terra e no-la
dará; terra que mana leite e mel. 9 Tão-so­
mente não sejais rebeldes contra o Senhor, e
não temais o povo desta terra, porquanto
são eles nosso pão. Retirou-se deles a sua
defesa, e o Senhor está conosco; não os
temais. 10Mas toda a congregaçãodisse que
fossem apedrejados.
O povo estava pronto a nomear um
chefe, que o levaria de volta à “terra da
sua escravidão”. Moisés e Arão uniram-
se, num apelofervoroso, para que o povo
149
cancelasse ou revogasse a sua decisão.
Josué e Calebe tomaram a iniciativa de
falarem ao povo, louvando a terra e
suplicando-lhes que seguissem a Yah-
weh. Imploraram que deixassem de agir
de tal forma, que desagradava a Deus.
Contudo, o ardor do descontentamento
do povo se expressou no seu desejo de
apedrejar aqueles que discordavam dele.
Então Deus tomou a iniciativa.
(3) DeusPronunciaSeuJulgamento
(14:10b-38)
O homem não podia ver Deus direta­
mente. Só podia ver a glória do Senhor,
que era uma manifestação de sua pre­
sença. Nos escritos sacerdotais, a glória
é relacionada com o tabernáculo, a arca,
a nuvem e ofogo. Esta presença residen­
te de Deus era um aparecimento ou de
favorou de ira.
Somente a glória de Deus aparecia ao
povo, provavelmente na nuvem. A nuvem
eofogotinhamjá se tomado tradicionais
como sinais da presença de Deus. Porém
Moisés ouvia a voz de Deus diretamente.
10b Nisso a glória do Senhor apareceu na
tenda da revelação a todos os filhos de Is­
rael. 11Disse então o Senhor a Moisés: Até
quando me desprezará este povo? e até
quando não crerá em mim, apesar de todos
os sinais que tenho feito no meio dele?
12Com pestilência o ferirei, e o rejeitarei; e
farei de ti uma nação maior e mais forte do
que ele. 13 Respondeu Moisés ao Senhor:
Assim os egípcios o ouvirão, eles, do meio
dosquais, com a tua força, fizeste subir este
povo, 14e o dirão aos habitantes desta terra.
Eles ouviram que tu, ó Senhor, estás no
meio deste povo; pois tu, ó Senhor, és visto
face a face, e a tua nuvem permanece sobre
eles, e tu vais adiante deles numa coluna de
nuvem de dia, e numa coluna de fogo de
noite. 15E se matares este povo como a um
só homem, então as nações que têm ouvido
da tua fama, dirão: 16 Porquanto o Senhor
não podia introduzir este povo na terra que
com juramento lhe prometera, por isso os
matou no deserto. 17 Agora, pois, rogo-te
que o poder do meu Senhor se engrandeça,
segundo tens dito: 18 O Senhor é tardio em
irar-se, e grande em misericórdia; perdoa a
iniqüidade e a transgressão; ao culpado não
tem por inocente, mas visita a iniqüidade
dos pais nos filhos até a terceira e a quarta
geração. 19 Perdoa, rogo-te, a iniqüidade
deste povo, segundo a tua grande misericór­
dia, como o tens perdoado desde o Egito até
aqui. 20Disse-lhe o Senhor: Conforme a tua
palavra lhe perdoei; 21 tão certo, porém,
como eu vivo, e como a glória do Senhor
encherá toda a terra, 22nenhum de todos os
homens que viram a minha glória e os sinais
que fiz no Egito e no deserto, e todavia me
tentaram estas dez vezes, não obedecendo à
minha voz, 23nenhum deles verá a terra que
com juramento prometi a seus pais; ne­
nhum daqueles que me desprezaram a verá.
24 Mas o meu servo Calebe, porque nele
houve outro espírito, e porque perseverou
em seguir-me, eu ointroduzirei na terra em
que entrou, e a sua posteridade a possuirá.
25 Ora, os amalequitas e os cananeus habi­
tam novale; tornai-vos amanhã, e caminhai
para o deserto em direção ao Mar Ver­
melho.
Moisés ouviu quando Deus coiidenou
opovo(v. 10b-12)por desprezá-lo, apesar
de todos os milagres e advertências. Este
povo devia ser deserdado e substituído
por uma nação maior do que ele. Eis
aqui um princípio que permeia o Antigo
Testamento. Deus estivera fazendo uma
seleção — dentre toda a humanidade ele
escolheu os filhos de Abraão; dentre os
filhos de Israel escolheu Judá; dentre
Judá escolheu osfilhos docativeiro; desse
Israelescolheu onovoIsraelem Cristo.
Porém Moisés intercede (v. 13-19),
fundamentando-se no fato de que havia
uma mensagem para as outras nações e
nofato do poder e da promessa de Deus.
Privilégios implicam responsabilidades
inevitáveis (v. 20-25). Deus manifestou-
semuitas vezesaopovo de Israel noEgito
e nos desertos. Eles presenciaram a sua
glória em sinais, bem como no fogo e na
nuvem, no maná e nas codornizes. Era
também importante que toda a terra o
visse. Essa é uma base sobre que Moisés
tinha apelado a Deus. Este povo, que
viera do Egito, devia estar dando teste­
munho, ao invés de fazer reclamações.
Puseram Deus à prova estas dez vezes.
O número dez, bem como os múltiplos
150
exatos dele, indica um termo geral, como
“muitas vezes”.
Os que não tinham correspondido ao
seu privilégio antevisto (de habitar na
pátria prometida) com atuação responsá­
velseriam proibidos deobter o privilégio.
Estes, que tinham proposto retomar à
terra de sua escravidão e que não se
lançavam a uma linha de ação que lhes
garantisse a promessa, foram ordenados
a regressaremdireçãoaoMarVermelho.
Ê lamentável que seja preciso instar com
o povo para que se aposse de uma pro­
messa.
Calebe tinha um espírito diferente dos
demais. Portanto, ele havia de possuir a
terra. Não se faz menção de Josué. O re­
gistro de seu acordo com Calebe talvez
tenha sidotirado deuma coleção diferen­
te de relatos preservados. O povo estava
com tanto medo de empreender qualquer
confronto, que o seu itinerário foi proje­
tado para contornar os amalequitas e ca-
naneus. Partiram para o sul, para cir­
cundar os amalequitas, e assim entrar
em Canaã doleste.
26 Depois disse o Senhor a Moisés e a
Arão: 21 Até quando sofrerei esta má con­
gregação, que murmura contra mim? tenho
ouvidoas murmurações dos filhos de Israel,
que eles fazem contra mim. 28 Dize-lhes:
Pela minha vida, diz o Senhor, certamente
conforme oque vos ouvi falar, assim vos hei
de fazer: 29 neste deserto cairão os vossos
cadáveres; nenhum de todos vós que fostes
contados, segundo toda a vossa conta, de
vinte anos para cima, que contra mim mur­
murastes, 30 certamente nenhum de vós
entrará na terra a respeito da qual jurei que
vosfaria habitar nela, salvo Calebe, filho de
Jefoné, e Josué, filho de Num. 31 Mas aos
vossos pequeninos, dos quais dissestes que
seriam por presa, a estes introduzirei na
terra, e eles conhecerão a terra que vós re­
jeitastes. 32Quanto a vós, porém, os vossos
cadáveres cairão neste deserto; 33 e vossos
filhos serão pastores no deserto quarenta
anos, e levarão sobre si as vossas infideli­
dades, até que os vossos cadáveres se consu­
mam neste deserto. 34 Segundo o número
dos dias em que espiastes a terra, a saber,
quarenta dias, levareis sobre vós as vossas
iniqUidades por quarenta anos, um ano por
um dia, e conhecereis a minha oposição.
35 Eu, o Senhor, tenho falado; certamente
assim o farei a toda esta má congregação,
aos que se sublevaram contra mim; neste
deserto se consumirão, e aqui morrerão.
36Ora, quanto aos homens que Moisés man­
dara a espiar à terra e que, voltando, fi­
zeram murmurar toda a congregação con­
tra ele, infamando a terra, 37 aqueles mes­
mos homens que infamaram a terra mor­
reram de praga perante o Senhor. 38 Mas
Josué, filho de Num, e Calebe, filho de Jefo­
né, que eram doshomens que foram espiar a
terra, ficaram com vida.
As murmurações(v. 26-38) passaram a
caracterizar opovocomoum grupo mau.
Uma parte de sua reclamação era o dese­
jo despropositado que tivessem morrido
no deserto (14:2). Deus condenou-os ao
destino reclamado por eles mesmos — o
de morrer no deserto. Todos aqueles
arrolados no censo militar (1:2) perece­
riam no deserto. Pela minha vida, diz o
Senhor (v. 28) é uma fusão de duas
expressões invulgares. Pela minha vida
acha-se, no Pentateuco, somente aqui e
no versículo 21. Embora seja usado mui­
tas vezes em outros lugares, este é o ju­
ramento usado quando Deus é quem
fala. ^
Diz o Senhor (ne'um Yahweh) ocorre
só poucas vezes fora dos profetas (Gên.
?2:16; I Sam. 2:30; II Reis 9:26; 19:32,
33; 22:19; II CrÔn. 34:27; Sal. 110:1).
É uma expressão muito comum nos pro­
fetas, por ex., Jeremias usou-a 162 vezes.
Ne’um, para “diz”, é usado fora dos
profetas somente nesses casos. Tem a
força de “um oráculo”. De maneira que
esse pronunciamento é excepcional e,
provavelmente, foi preservado pelo setor
profético da comunidade.
Deus explica esta sentença de julga­
mento. De todos os homens acima de 20
anos de idade, somente Calebe e Josué
entrariam na terra de leite e mel. Calebe
é mencionado primeiro, porque foi ele
quem intercedeu em primeiro lugar, pelo
relatório minoritário. Esse relatório
abrangeria toda a congregação e não
excluiria oslevitas, os sacerdotes, Moisés
151
ou Arão. Aqueles abaixo dos 20 anos
vagueariam como pastores enquanto a
morte não cumprisse a sentença causada
pelas infidelidades (lit. prostituições).
A duração da sentença tinha relação
direta com a investigação da terra pelos
dozeespias. Como os espias passaram 40
dias, o povo a passaria 40 anos entre
peregrinar emorrer.
Os dez que voltando... infamaram a
terra... morreram de praga. Alguns in­
térpretes acham que morreram repenti­
namente, porém não há nada no texto
que indique a ocasião de sua morte. Suas
mortes foram um resultado de serem in­
fiéis a Deus. Seu desejo expresso foi de
terem morrido no deserto (14:2), e assim
morreram como o resultado de uma pra­
ga do clima do deserto, recebendo medi­
da por medida.
(4) OJuízoÊIrrevogável(14:39-45)
39 Então Moisés falou estas palavras a
todos os filhos de Israel, pelo que o povo se
entristeceu muito. 40 Eles, pois, levantan­
do-se de manhã cedo, subiram ao cume do
monte, e disseram: Eis-nos aqui; subire­
mos ao lugar que o Senhor tem dito; por­
quanto havemos pecado. 41 Respondeu Moi­
sés: Ora, por que transgredis o mandado do
Senhor, visto que isso não prosperará?
42 Não subais, pois o Senhor não está no
meio de vós; para que não sejais feridos
diante dos vossos inimigos. 43 Porque os
amalequitas e os cananeus estão ali diante
da vossa face, e caireis à espada; pois, por­
quanto vos desviastes do Senhor, o Senhor
não estará convosco. 44Contudo, temeraria-
mente subiram eles ao cume do monte; mas
a arca do pacto do Senhor, e Moisés, não se
apartaram doarraial. 45Então desceram os
amalequitas e os cananeus, que habitavam
na montanha, e os feriram, derrotando-os
até Horma.
O povo mudou de linha de ação tarde
demais. Estava mais interessado em es­
capar do castigo do que em possuir a
promessa de Deus. Moisés lhes tinha
contadoo oráculo de Deus, e a noticia os
entristeceu, mas não fez com que mu­
dassem.
Este relato demonstra o erro, no ho­
mem, de pensar que pode organizar as
suas ações conforme a conveniência de
seu programa pessoal, presumindo que
possui a promessa infinda de Deus. To­
das as promessas de Deus têm as suas
condições; estas podem ser deocasião, de
correspondência moral, de ação correta,
etc. Os israelitas tinham-se desviado de
Deus. Deus desviou-se deles. Mas presu­
miram que Deus fosse obrigado a cum­
prir a promessa da maneira e na ocasião
que eles determinassem. Ê catastrófico
tratar a Deus com insistência impensada
oucompresunção desdenhosa.
Esta tentativa tardia de se aproximar
da terra (e escapar do castigo) culminou
no desastre. Os amalequitas e os cana-
neus,comoavisadonoversículo25, derro­
taram-nos e causaram a morte de muitos
dosguerreiros. O motivo da catástrofe foi
que nem a arca de Deus nem o represen­
tante de Deus tinham saído do acampa­
mento. A arca da aliança representava a
segurança da presença de Deus (cf. o
v. 43, o Senhor não estará convosco).
Visto que o povo estava tentando fugir
do castigo, ao invés de seguir fielmente o
seu Deus, o porta-voz e a presença de
Deus não podiam acompanhar o seu
planomalfadado.
Até Horma quer dizer “até a destrui­
ção”. A palavra corresponde à forma
feminina ou abstrata de cherem, um voto
sagrado, implicando a destruição, e tam­
bém uma paronomásia hebraica típica
(umjogo de palavras) no que os profetas
são tão célebres. Pelo uso da expressão
única, mais do que uma idéia é trazida
à mente. Este lugar podia ter sido uma
vila a dezesseis quilômetros ao leste de
Berseba, o Tell el-Mishash, no extremo
sul da região. Também traz à memória a
guep-a santa, bem como o fato da des­
truição. Uma leitura de 21:3 indica que
este título não foi dado a esse lugar senão
mais tarde. Ali significa o devotamento
ou banimento dos cananeus pelas mãos
de Israel.
152
3. VáriasLeisCultuaisSacerdotais
(15:1-41)
Cinco conjuntos de diretrizes são da­
dos para os que entrarão na Terra Pro­
metida. A ênfase nas regras sacerdotais,
em sua história, é vista no recomeço das
leis cultuais. Os que contavam menos
que 20 anos de idade por ocasião do
êxodo egípcio, bem como aqueles nasci­
dos nos desertos, precisariam de alguma
instrução durante os 40 anos de peregri­
nação.
(1) Concernenteàs Quantidadesde Fari­
nha, Õleo e Vinho còm Relação aos
Holocaustos e às Ofertas de Libação
(15:1-16)
1 Depois disse o Senhor a Moisés: 2 Fala
aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando en­
trardes na terra da vossa habitação, que eu
vos hei de dar, 3 e ao Senhor fizerdes, do
gado ou do rebanho, oferta queimada, holo­
causto ou sacrifício, para cumprir um voto,
ou como oferta voluntária, para fazer nas
vossas festas fixas um cheiro suave ao Se­
nhor, 4 então aquele que fizer a sua oferta,
fará ao Senhor uma oferta de cereais de um
décimo de efa de flor de farinha, misturada
com a quarta parte de um him de azeite;
5e de vinho para a oferta de libação prepa­
rarás a quarta parte de um him para o
holocausto, ou para o sacrifício, para cada
cordeiro; 6e para cada carneiro prepararás
como oferta de cereais, dois décimos de efa
de flor de farinha, misturada com a terça
parte de um him de azeite; 7e de vinho para
a oferta de libação oferecerás a terça parte
de um him em cheiro suave ao Senhor.
8Também, quando preparares novilho para
holocausto ou sacrifício, para cumprir um
voto, ouum sacrifício de ofertas pacíficas ao
Senhor, 9 com o novilho oferecerás uma
oferta de cereais de três décimos de efa de
flor de farinha, misturada com a metade de
um him de azeite; 10e de vinhopara a oferta
de libação oferecerás a metade de um him
como oferta queimada em cheiro suave ao
Senhor. 11Assim se fará com cada novilho,
ou carneiro, ou com cada um dos cordeiros
ou dos cabritos. 13 Segundo o número que
oferecerdes, assim fareis com cada um de­
les. 13Todo natural assim fará estas coisas,
ao oferecer oferta queimada em cheiro sua­
ve ao Senhor. 14Também se peregrinar con­
vosco algum estrangeiro, ou quem quer que
estiver entre vós nas vossas gerações, e ele
oferecer uma oferta queimada de cheiro
suave ao Senhor, como vós fizerdes, assim
fará ele. 15Quanto à assembléia, haverá um
mesmo estatuto para vós e para o estran­
geiro que peregrinar convosco, estatuto per­
pétuonas vossas gerações; como vós, assim
será o peregrino perante o Senhor. 16 Uma
mesma lei e uma mesma ordenança haverá
para vós e para o estrangeiro que peregri­
nar convosco.
Este trecho é a passagem mais especí­
fica sobre as exigências sacerdotais con­
cernentes às quantidades de farinha, óleo
e vinho para o holocausto e a oferta de
libação. Estes dois sacrifícios eram rela­
tivamente desconhecidos do povo desér­
tico. Jeremias 7:22 e Amós 5:25 sugerem
que não houvera nenhum sacrifício du­
rante as peregrinações nos desertos, se­
gundo muitos intérpretes. Do contrário,
seria importante dar ensinamentos claros
sobre essas ofertas.
A oferta de libação não é explicada no
Antigo Testamento e é a menos conheci­
da. Os gregos e os romanos tinham o
costume de derramar o vinho sobre os
animais sacrificais. Baseados nisso, po­
deríamos supor a existência da mesma
prática em Israel.
Cheiro suave é uma frase técnica cul­
tual usada pelo escritor sacerdotal. É
usada 35 vezes em Números e Levítico
(uma vez em Gên., 3 vezes em Êx. e 4
vezes em Ez.). É sinônimo de sacrifícios
como holocausto ou sacrifícios pelo fogo.
Se a oferta de libação fosse uma oferta
queimada, sobre a qual o vinho fosse
derramado, o termo cheiro suave seria
usado em referência à mesma oferta.
Porém Siraque 50:15 e Josefo (Antig.
III, IX, 4) concordam com o ponto de
vista de que a oferta era derramada na
base do altar, fundamentados, provavel­
mente, no fato de que oferta de libação
tem o significado básico de “derramar”.
A ênfase não deve ser esquecida, i. e.,
cheirosuaveaoSenhor.
Parece haveruma conexão direta entre
a relação pactuai e a fidelidade com que
153
Israel aderia ao oferecimento desses sa­
crifícios. Portanto, entendiam o sacrifí­
cioea obtenção do perdão ou favor como
inextricavelmente ligados. O sacerdote
era aquele através de quem tudo isso
ocorria.
As quantidades específicas destes sa­
crifícios eram estabelecidas conforme o
porte do animal (cordeiro, carneiro ou
boi). Levítico 2:1-11 não prescreve ne­
nhuma quantidade fixa, mas Ezequiel
46:5-15 dá uma padronização das quan­
tidades. Uma efa é, aproximadamente,
quinze litros, de maneira que um décimo
seria, aproximadamente, um litro e
meio. Um him é, aproximadamente, 3,8
litros, e, assim, uma quarta parte do him
seria, aproximadamente, um litro. 9
A especificação quanto às pessoas en­
volvidas nestas instruções se dá nos ver­
sos 11-16. Todos são envolvidos, sem
nenhuma distinção de origem ou de per­
manência.
(2) Concernente à Oferta de um Bolo
dasPrimícias dosCereais(15:17-21)
17 Disse mais o Senhor a Moisés: 18 Fala
aos filhos de Israel, e dize-lhes: Depois de
terdes entrado na terra em que vos hei de
introduzir, 19 será que, ao comerdes do pão
da terra, oferecereis ao Senhor uma oferta
alçada. 20 Das primícias da vossa massa
oferecereis um boloem oferta alçada; como
oferta alçada da eira, assim o oferecereis.
21 Das primícias das vossas massas dareis
ao Senhor oferta alçada durante as vossas
geraçòes.
Estas diretrizes eram para aqueles que
haviam de entrar na nova terra. O bolo
referido havia de ser feito das primícias
do grão integral da eira. O bolo (hallah)
é assim chamado porque era perfurado
(raizhll —perfurar, furar, pungir). Esta
seção deverá ser vista em relação aos
ensinamentos sobre as primícias no capí­
tulo 18eLevítico 23:9-14. A possessão de
semelhante cereal pressupõe um povo
9 IDB Vol E-J, p. 107,605; Vol. R-Z, p. 834e 835.
agrícola, com plantações de cereais e
eiras.
(3) Concernente à Oferta Pelo “Pecado
Involuntário”(15:22-29)
22 Igualmente, quando vierdes a errar, e
não observardes todos esses mandamentos,
que o Senhor tem falado a Moisés, 23 sim,
tudo quanto o Senhor vos tem ordenado por
intermédio de Moisés, desde o dia em que o
Senhor começou a dar os seus mandamen­
tos, e daí em diante pelas vossas gerações,
24 será que, quando se fizer alguma coisa
sem querer, e isso forencoberto aos olhos da
congregação, toda a congregação oferecerá
um novilho para holocausto em cheiro suave
ao Senhor, juntamente com a oferta de ce­
reais do mesmo e a sua oferta de libação,
segundo a ordenança, e um bode como sacri­
fício pelo pecado. 25 E o sacerdote fará
expiação por toda a congregação dos filhos
de Israel, e eles serão perdoados; porquanto
foi erro, e trouxeram a sua oferta, oferta
queimada ao Senhor, e o seu sacrifício pelo
pecado perante o Senhor, por causa do seu
erro. 26 Será, pois, perdoada toda a congre­
gação dos filhos de Israel, bem como o es­
trangeiro que peregrinar entre eles; por­
quanto sem querer errou o povo todo. 27 E,
se uma só pessoa pecar sem querer, ofere­
cerá uma cabra de um ano como sacrifício
pelopecado. 28 E o sacerdote fará perante o
Senhor expiação pela alma que peca, quan­
dopecar sem querer; e, feita a expiação por
ela, será perdoada. 29 Haverá uma mesma
lei para aquele que pecar sem querer, tanto
para o natural entre os filhos de Israel,
comopara o estrangeiro que peregrinar en­
tre eles.
Há algumas leis concernentes aos pe­
cados cometidos inadvertidamente ou
por ignorância em Levítico 4:1-35 e
5:7-13, porém se julga serem posteriores
e mais altamente desenvolvidas e, prova­
velmente, preservadas por uma coloniza­
ção separada. Estas leis abrangem mais
do que a oferta dos bolos das primícias
dos cereais, pois dizem respeito a todos
os mandamentos. Isso liga o povo às leis
anteriores, bem como a estas regras, que
se relacionam apenas com os que entra­
riam na Terra Prometida, i.e., com um
povoagrícola.
154
Outras diretrizes podem ser achadas
em Levítico 4:13-21. É claro que muitas
leissedesenvolveram à medida que novas
situaçõessurgiam, porex., dai em diante
pelas vossas gerações. As ofertas deviam
ser trazidas em prol do povo todo que
tinha, sem premeditação ou instrução
anterior, transgredido as leis que diziam
respeito a todo o povo. Ritos cultuais
existiam que deviam ser realizados para
todos, por exemplo, a refeição comuni­
tária, a instrução dos jovens na Tora e
todos os mandamentos, etc. O sacerdote
era ooficial religioso encarregado de rea­
lizar o rito expiatório, propiciatório. Es­
tes ritos visavam reconciliar Deus e o
povo mais uma vez. O povo havia de
levantarum cheirosuaveao Senhor.
Assim, como havia regras para gover­
nar ogrupo todo, também havia regras e
responsabilidades para cada pessoa
(v. 27-29). Este trecho não especifica
classes diferentes de indivíduos. Levítico
4:3-12 diz respeito ao sacerdote ungido;
Levítico 4:22-26 é sobre o governador;
Levítico4:27-35 refere-se a qualquer pes­
soa dentre o povo comum; e Levítico
5:7-13 diz respeito aos pobres. Mas esta
passagem serefere a uma sóclasse.
(4) Concernente ao Pecado Propositado
(15:30-36)
30 Mas a pessoa que fizer alguma coisa
temerariamente, quer seja natural, quer
estrangeira, blasfema ao Senhor; tal pessoa
será extirpada do meio do seu povo, 31 por
haver desprezado a palavra do Senhor, e
quebrado o seu mandamento; essa alma
certamente será extirpada, e sobre ela re­
cairá a sua iniqüidade. 32 Estando, pois, os
filhos de Israel no deserto, acharam um
homem apanhando lenha no dia de sábado.
33 E os que o acharam apanhando lenha
trouxeram-no a Moisés e a Arão, e a toda a
congregação. 34 E o meteram em prisão,
porquanto ainda não estava declarado o que
se lhe devia fazer. 35Então disse o Senhor a
Moisés: Certamente será morto o homem;
toda a congregação o apedrejará fora do
arraial. 36 Levaram-no, pois, para fora do
arraial, e o apedrejaram, de modo que ele
morreu; como o Senhor ordenara a Moisés.
Agora oescritorsevolta ao caso de um
indivíduo que realizou uma ação temera­
riamente(ingl., “de mão erguida”). Este
mesmo termo se traduz por “afoitamen­
te” (ingl., “desafiadoramente”) em Êxo­
do 14:8. No código sacerdotal, não há
qualquer possibilidade de perdão (expia­
ção) por este tipo de pecado. Esta é
sempre uma ação individual, ao invés de
ser atuação deum grupo ou comunidade.
Diz respeito a qualquer ação feita com
semelhante atitude, pois é a própria pes­
soa e o seu espírito antes do que o feito
em si que incorreu em culpa. O homem
que age temerariamente se exalta acima
de Deus, das instruções e da comunida­
de. Por esse espírito, a pessoa é por si
mesma extirpada do meio do seu povo,
com base no respeito à autoridade supe­
rior, tendo desprezado a palavra do Se­
nhor. O pecador temerário, por seu pró­
prio comportamento, demonstra o seu
sentimento de que a sua mão (poder) é
mais importante do que Deus, que opovo
ou que a solidariedade humana.
Ocaso dohomemapanhandolenha no
dia de sábado é inserido aqui (v. 32-36)
comoum exemplo deuma pessoa que fez
algo temerariamente (ingl., “de mão er­
guida”). Era culpado de violar o sábado
(Êx. 31:14,15; 35:2). O julgamento foi a
morte, mas omeio de execução não ficou
claro. Ele foi guardado em prisão, en­
quanto esperava o oráculo divino. Ele
sabia que violara leis aceitas pela comu­
nidade comoum sinal da aliança (cf. Êx.
31:13,17; Ez. 20:12,20). O versículo 34 é
uma outra indicação do caráter desen-
volvível de um corpo de leis cultuais.
O pecador devia ser apedrejado até mor­
rer. O apedrejamento evitava o derrama­
mento de sangue e a atribuição, conse­
qüente, da culpa de sangue (cf. Lev.
24:10-23, quanto a uma história seme­
lhante).
(5) ConcernenteàsFraiyas(15:37-41)
37 Disse mais o Senhor a Moisés: 38 Fala
aos filhos de Israel e dize-lhes que façam
155
para si franjas nas bordas das suas vestes,
pelas suas gerações; e que ponham nas
franjas das bordas um cordão azul. 39 Tê-
lo-eis nas franjas, para que o vejais, e vos
lembreis de todos os mandamentos do Se­
nhor, e os observeis; e para que não vos
deixeis arrastar à infidelidade pelo vosso
coração ou pela vossa vista, como antes o
fazíeis; 40para que vos lembreis de todos os
meus mandamentos, e os observeis, e sejais
santos para com o vosso Deus. 41 Eu sou o
Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do
Egito para ser o vosso Deus. Eu sou o Se­
nhorvosso Deus.
Ocostume deusar franjas(ingl., “cor­
dões”) nas roupas é uma prática muito
antiga, conforme evidenciada por monu­
mentos antigos. Conhecia-se este costu­
me no Egito, na Assíria e na Ãsia. Este
trecho mostra a adaptação e reinterpre-
tação israelita do costume. Borda (kana-
ph) (ingl., “canto”) pode ser traduzidà
por “asa” ou “extremidade”, e pode
descrever os cantos ou extremidades da
pele de um animal.
Talvez as franjas fizessem parte de um
pedaço de tecido ou pele retangular, com
uma franja ao redor de todas as quatro
beiradas. Estas franjas podem mesmo ter
sidoentretecidas.
Era mister que houvesse um fio de azul
sobre a franja em cada borda. A cor azul
costuma ser interpretada de maneiras di­
versas. No mundo semítico, há o pensa­
mento de que a cor azul manterá os espí­
ritos malignos aiastados. Alguns rabinos
interpretam o azul, aqui, como sugerin­
do o mar, visto que a tinta azul era
obtida de um molusco. O mar sugere os
céus, eoscéus sugerem otrono da glória.
A verdadeira razão de usar as franjas
nas roupas era a de se ter em mente a
observância de todos os meus manda­
mentos. A verdade que tinha de ser real­
çada era que o homem não deve fazer
nada “temerariamente”, e, sim, lembrar
e observar todas as leis de Deus, para se
manter em comunhão com Deus. O ho­
mem nunca deverá exaltar-se acima do
poder superior. O versículo 41 reitera o
fato de que Deus tinha feito algo por eles
que não podiam fazer para si mesmos,
ou seja, que os resgatara do Egito e
elegeracomooseupovoescolhido.
4. ALutaPeloPoder(16:1-18:32)
Estes capítulos são também diretrizes
concernentes à aproximação da tenda da
congregação.
(1) As Rebeliões de Corá, Data e Abirão
(16:1-50)
A esta altura descobrimos rebeliões
que questionam a autoridade civil de
Moisés, a supremacia religiosa do sacer­
dócio da linhagem de Arão sobre os levi­
tas e até a estrutura comunitária, duran­
te a estada em Cades.
1 Ora, Corá, filho de Izar, filho de Coate,
filho de Levi, juntamente com Datã e Abi­
rão, filhos de Eliabe, e Om, filho de Pelete,
filhos de Rúben, tomando certos homens,
2 levantaram-se perante Moisés, juntamen­
te com duzentos e cinqüenta homens dos
filhos de Israel, príncipes da congregação,
chamados à assembléia, varões de renome;
3 e ajuntando-se contra Moisés e contra
Arão, disseram-lhes: Demais é o que vos
arrogais a vós, visto que toda a congrega­
ção é santa, todoseles são santos, e o Senhor
está nomeio deles; por que, pois, vos elevais
sobre a assembléia do Senhor? 4 Quando
Moisés ouviu isso, caiu com o rosto em
terra; 5 depois falou a Corá e a toda a sua
companhia, dizendo: Amanhã pela manhã o
Senhor fará saber quem é seu, e quem é o
santo, ao qual ele fará chegar a si; e aquele
a quem escolher fará chegar a si. 6 Fazei
isto: Corá e toda a sua companhia, tomai
para vós incensários; 7 e amanhã, pondo
fogo neles, sobre eles deitai incenso perante
o Senhor; e será que o homem a quem o
Senhorescolher, esse será osanto; demais é
o que vos arrogais a vós, filhos de Levi.
8 Disse mais Moisés a Corá: Ouvi agora,
filhos de Levi! 9 Acaso é pouco para vós que
o Deus de Israel vos tenha separado da
congregação de Israel, para vos fazer che­
gar a si, a fim de fazerdes o serviço do
tabernáculo do Senhor e estardes perante a
congregação para ministrar-lhe, 10 e te fez
chegar, e contigo todos os teus irmãos, os
filhos de Levi? procurais também osacerdó­
cio? 11Pelo que tu e toda a tua companhia
estais congregados contra o Senhor; e Arão,
quem é ele, para que murmureis contra
ele?
156
A rebelião de Corá (v. la,2b-ll,16-24,
27a,35-50) relacionava-se com a autori­
dade religiosa. Este capítulo é uma com­
posição de, pelo menos, duas rebeliões,
que são fundidas no registro das lutas
que a comunidade suportou. Corá« era
um levita, como também o eram os ho­
mens que sejuntaram a ele nesta revolta.
O povo já tivera a sua tranqüilidade de
espírito despedaçada pelas reclamações
anteriores (quando o fogo do Senhor os
queimou, em Tabera, 11:1-3; quando a
praga se abateu sobre eles, depois de
comerem as codomizes, em Quibrote-
Hataavá, 11:4-35; e quando a carne de
Miriã ficou leprosa, em Hazerote, 12:1-
15). Ainsatisfação de diversos segmentos
dopovolevou-oa váriascrises.
A alegação, na rebelião de Corá, ba­
seava-se na insubordinação de alguns
levitas à ordem da linhagem de Arão
(3:5-10; 8:5-22). Alegaram que Moisés e
Arão tinham abusado de sua autoridade.
Corá era primo de Moisés e Arão. Seu
pai, Izar, era irmão de Anrão, o pai de
Moisés e Arão. Uma briga familiar le­
vantou a questão da autoridade sacerdo­
tal. Corá argumentava que a família toda
era sagrada. Esta revolta não surgiu en­
tre a população. Os 250 homens com
Corá eram oficiais, chefes tribais ou prín­
cipes. Repetidas vezes, em Números, as
lutasentre o sacerdócio da linha de Arão
e o sistema levítico são evidentes. No de­
senvolvimento das instituições, diversos
ofícios rivalizavam-se pela supremacia e
pela sobrevivência. Esta luta entre os
descendentes de Levi dá evidências de
sua historicidade. Mostram-se os sacer­
dotes como a linha legítima de autori­
dade. O termo de renome(v. 2) realmen­
te vem da mesma raiz que vos elevais
(v. 3). Corá e os outros homens “eleva­
dos” alegaram que Moisés e Arão se
tinham elevado.
Moisés não respondeu baseado em sua
própria autoridade, mas os convocou a
um concílio no dia seguinte, para que o
Senhor pudesse fazer conhecida a von­
tade dele. Moisés não os repreendeu em
relação à questão da posição elevada
delessobre osdemais.
Como sói acontecer na maioria das
controvérsias,, questões secundárias são
introduzidas, ou propositadamente ou
por mal-entendido, de maneira a desviar
ocentro da discussão da questão primá­
ria. A doutrina do sacerdócio dos crentes
pode ser o tema da rebelião de Corá,
mas, se assim fosse, por que o castigo?
Por outro lado, estava envolvido o sacer­
dócio como a hierarquia oficial. Além
disso, a natureza transitória da estrutura
institucional entre os hebreus é demons­
trada. Embora fosse o levita o envolvido
na substituição especial dos primogêni­
tos, agora é o sacerdócio da família de
Arão que assume a supremacia na luta
doméstica.
12Então Moisés mandou chamar a Data e
a Abirão, filhos de Eliabe; eles porém res­
ponderam: Não subiremos. 13É pouco, por­
ventura, que nos tenhas feito subir de uma
terra que mana leite e mel, para nos mata­
res no deserto, para que queiras ainda fazer-
te príncipe sobre nós? 14 Ademais, não nos
introduziste em uma terra que mana leite,e
mel, nem nos deste campos e vinhas em he­
rança; porventura cegarás os olhos a estes
homens? Não subiremos. 15 Então Moisés
irou-se grandemente, e disse ao Senhor:
Não atentes para sua oferta; nem um só
jumento tenho tomado deles, nem a nenhum
deles feito mal. 16 Disse mais Moisés a
Corá: Comparecei amanhã tu e toda a tua
companhia perante o Senhor; tu e eles, e
Arão. 17 Tome cada um o seu incensário, e
ponha nele incenso; cada um traga perante
o Senhor o seu incensário, duzentos e cin­
qüenta incensários; também tu e Arão, cada
qual o seu incensário. 18 Tomou, pois, cada
qual o seu incensário, e nele pôs fogo, e nele
deitou incenso; e se puseram à porta da
tenda da revelação com Moisés e Arão.
19 E Corá fez ajuntar contra eles toda a
congregação à porta da tenda da revelação;
então a glória do Senhor apareceu a toda a
congregação. 20Então disse o Senhor a Moi­
sés e a Arão: 21 Apartai-vos do meio desta
congregação, para que eu, num momento,
os possa consumir. 22 Mas eles caíram com
os rostos em terra, e disseram: Ó Deus,
Deus dos espíritos de toda a carne, pecará
um só homem, e indignar-te-ás tu contra
157
toda esta congregação? 23 Respondeu o Se­
nhora Moisés: 24Fala a toda esta congrega­
ção, dizendo: Subi do derredor da habitação
de Corá, Datã e Abirão. 25 Então Moisés
levantou-se, e foi ter com Datã e Abirão;
e seguiram-no os anciãos de Israel. 26 E fa­
louà congregação, dizendo: Retirai-vos, pe­
ço-vos, das tendas desses homens ímpios,
e não toqueis nada do que é seu, para que
não pereçais em todos os seus pecados.
27 Subiram, pois, do derredor da habitação
de Corá, Datã e Abirão. E Datã e Abirão
saíram, e se puseram à porta das suas ten­
das, juntamente com as suas mulheres, e
seus filhos e seus pequeninos. 28Então disse
Moisés: Nisto conhecereis que o Senhor me
envioua fazer todas estas obras; pois não as
tenho feito de mim mesmo. 29Se estes mor­
rerem como morrem todos os homens, e se
forem visitados como são visitados todos os
homens, o Senhor não me enviou. 30Mas, se
o Senhor criar alguma coisa nova, e a terra
abrir a boca e os tragar com tudo o que é
deles, e vivos descerem ao Seol, então com­
preendereis que estes homens têm despre­
zado oSenhor.
Um outro aspecto de rebelião (v. 12-
15,25-30) achado entre o povo é uma
seqüência de queixas envolvendo recor­
dações do Egito contrastadas com a mi­
séria do deserto. Ao mesmo tempo em
que recusaram atender ao chamado de
Moisés, acusaram-no de tentar fazer de
si um príncipe. Este relato forma um
prólogo para a história de como Israel
chegou a possuir um rei. Datã e Abirão
vão bastante além, no sentido de acusa­
rem Moisés de cegar os olhos (ingl.,
“tirar os olhos”) de outros, ou seja, de
cegá-los, para que não enxergassem a
verdade. Esta foi, provavelmente, uma
revolta de leigos. Uma tradição antiga
indica ter sido uma revolta da tribo de
Rúben, por sentir-se insatisfeita com a
liderança deMoisés.
31E aconteceu que, acabando ele de falar
todas estas palavras, a terra que estava
debaixo deles se fendeu; 32e a terra abriu a
boca e os tragou com as suas famílias, como
também a todos os homens que pertenciam
a Corá, e a toda a sua fazenda. 33Assim eles
e tudo oque era seu desceram vivos ao Seol;
e a terra os cobriu, e pereceram do meio da
congregação. 34 E todo o Israel, que estava
ao seu redor, fugiu ao clamor deles, dizen­
do: Não suceda que a terra nos trague tam­
bém a nós. 35 Então saiu fogo do Senhor, e
consumiu os duzentos e cinqüenta homens
que ofereciam o incenso. 36 Então disse o
Senhor a Moisés: 37 Dize a Eleazar, filho de
Arão, o sacerdote, que tire os incensários
do meio do incêndio; e espalha tu o fogo
longe; porque se tornaram santos 38 os in­
censários daqueles que pecaram contra as
suas almas; deles se façam chapas, de obra
batida, para cobertura do altar; porquanto
os trouxeram perante o Senhor, por isso se
tomaram santos; e serão por sinalaos filhos
de Israel. 39 Eleazar, pois, o sacerdote, to­
mouosincensários de bronze, osquais aque­
les que foram queimados tinham oferecido;
e os converteram em chapas para cobertura
do altar, 40 para servir de memorial aos
filhos de Israel, a fim de que nenhum estra­
nho, ninguém que não seja da descendência
de Arão, se chegue para queimar o incenso
perante o Senhor, para que não seja como
Corá e a sua companhia; conforme o Senhor
dissera a Eleazar por intermédio de Moisés.
A punição por se colocar fora da auto­
ridade estabelecida (v. 31-34) pode ser
vista quando Corá e todo o seu clã mais
restrito foram tragados pela terra.
Ê claro que a antiga solidariedade do
clã estava em vigor. Eles desceram vivos
ao Seol. Seol é a habitação dos mortos
que se achava existir ou por baixo da
terra ou dentro dela. O significado desta
palavra é desconhecido. Costumava-se
pensar que fosse um abismo ou buraco,
visto que uma raiz hebraica semelhante
podesignificar “algooco”,tal como uma
mãooca(i.e., em forma de concha). Não
há fundamento para se entender esse
lugar como sendo apenas para os mortos
maus.
Os 250 homens principais que se ti
nham ajuntado a Corá na rebelião foram
consumidos por fogo. Estes homens ti­
nham o ofício de oferecer incenso (v.35-
40), e eram, assim, sagrados. Os incen-
sários sagrados não deviam ser distribuí­
dos indiscriminadamente, pois conti­
nham o fogo de Yahweh. Eles eram ins­
trumentos portáteis, como pás, usadas
158
para carregarem brasas vivas e/ou in­
censo.
Aexplicaçãoé que esses incensários de
bronze foram martelados, até formarem
uma chapa usada como cobertura para o
altar. Êxodo 27:2 assinala que, desde o
começo, o altar deveria ser coberto com
uma camada de bronze. A camada de
bronze recebe o significado de uma ad­
vertência a outros que busquem assumir
o ofício sagrado. Este ofício é reservado
exclusivamente para o sacerdote, que
tinha de ser um descendente de Arão.
O claro propósito do capítulo 16 é man­
ter as prerrogativas do sacerdócio da
linha deArão.
41 Mas no dia seguinte toda a congrega­
ção dos filhos de Israel murmurou contra
Moisés e Arão, dizendo: Vós matastes o
povo do Senhor. 42 £ tendo-se sublevado a
congregação contra Moisés e Arão, dirigiu-
se para a tenda da revelação, e eis que a
nuvem a cobriu, e a glória do Senhor apa­
receu. 43 Vieram, pois, Moisés e Arão á
frente da tenda da revelação. 44 Então disse
o Senhor a Moisés: 45 Levantai-vos do meio
desta congregação, para que eu, num mo­
mento, a possa consumir. Então caíram
com o rosto em terra. 46 Depois disse Moi­
sés a Arão: Toma o teu incensário, põe nele
fogo do altar, deita incenso sobre ele e
leva-o depressa à congregação e faze expia­
çãopor eles; porque grande indignação saiu
do Senhor; já começou a praga. 47 Tomou-o
Arão, como Moisés tinha falado, e correu ao
meio da congregação; e eis que já a praga
havia começado entre o povo; e deitando o
incenso no incensário, fez expiação pelo
povo. 48 E pôs-se em pé entre os mortos e
os vivos, e a praga cessou. 49 Ora, os que
morreram da praga foram catorze mil e
setecentos, além dos que morreram no caso
de Corá. 50 E voltou Arão a Moisés à porta
datenda da revelação, poiscessara a praga.
Nodia seguinte, toda a congregação se
virou contra Moisés e Arão por causa da
morte de tantas pessoas (v. 41-50). Diri­
giu-se para a tenda, que estava coberta
pela nuvem. A presença de Deus estava
ali, e assim o encontro foi um confronto
com Deus. O Senhor avisou a Moisés e
Arão para se retirarem de diante da
tenda. Moisés começou a interceder em
prol da congregação eenviou Arão com o
seu incensário e seu fogo ao meio do
povo. Era tarde demais para impedir
todas as mortes, porque a praga já tinha
começado. Os que morreram da praga
foram14.700.
(2) O Brotamento da Vara de Arão
(17:1-11)
1 Então disse o Senhor a Moisés: 2 Fala
aos filhos de Israel, e toma deles uma vara
para cada casa paterna de todos os seus
príncipes, segundo as casas de seus pais,
doze varas; e escreve o nome de cada um
sobre a sua vara. 3 O nome de Arão escre­
verás sobre a vara de Levi; porque cada
cabeça das casas de seus pais terá uma
vara. 4 E as porás na tenda da revelação,
perante o testemunho, onde venho a vós.
5 Então brotará a vara do homem que eu
escolher; assim farei cessar as murmura­
ções dos filhos de Israel contra mim, com
que murmuram contra vós. 6 Falou, pois,
Moisés aos filhos de Israel, e todos os seus
príncipes deram-lhe varas, cada príncipe
uma, segundo as casas de seus pais, doze
varas; e entre elas estava a vara de Arão.
7 E Moisés depositou as varas perante o
Senhor na tenda do testemunho. 8 Sucedeu,
pois, no dia seguinte, que Moisés entrou na
tenda do testemunho, e eis que a vara de
Arão, pela casa de Levi, brotara, produzira
gomos, rebentara em flores e dera amên­
doas maduras. 9 Então Moisés trouxe todas
as varas de diante do Senhor a todos os
filhos de Israel; e eles olharam, e tomaram
cada um a sua vara. 10Então o Senhor disse
a Moisés: Toma a pôr a vara de Arão peran­
te o testemunho, para se guardar por sinal
contra os filhos rebeldes; para que possa
fazer acabar as suas murmurações contra
mim, a fim de quenão morram. 11Assim fez
Moisés; como lhe ordenara o Senhor, assim
fez.
Aluta de Corá (um levita) contra Moi­
sés e Arão tinha-se espalhado de tal
forma que Datã e Abirão (rubenitas)
foram envolvidos. O descontentamento,
ou reclamação, era tamanho que a con­
gregação toda (todas as tribos) ficou en­
volvida. Quase 15mil dentre opovo pere­
ceram. Todas astribos precisavam que se
lhes mostrasse, de maneira visível (ou
seja, de forma outra que não pelos pa­
159
drões organizacionais existentes), que
Moisés e Arão eram os líderes colocados
por Deus. O Senhor ordenou a Moisés
que obtivesse uma vara de cada tribo.
Cada viajante tinha sua própria vara.
Àrão tinha, inquestionavelmente, uma
vara que operava milagres (Êx. 7:9,19;
8:5,16).
Existem muitas lendas sobre varas que
seguem um padrão similar (ainda que
dissimilar). Algumas destas lendas con­
tam de uma vara que brotou e verdejou
quando fincada na terra. Por exemplo, a
de José de Arimatéia em Glastonbuiy, a
lança de Rômulo, a vara de Hércules
perto da estátua de Hermes. Mas a vara
de Arão não foi enfiada na terra. Foi
colocada no meio das outras, uma vara
para cada tribo.
Aseleçãonão é da vara de Arão em si,
mas da vara que era a da tribo de Levi.
Arão era um dos muitos membros da
tribo de Levi (que tinha três filhos e pelo
menos oito netos). Moisés e Arão consta­
vam entre os bisnetos de Levi. O Eleazar
de 16:37 era um trineto de Levi, e assim
16:36-40 forçosamente é de uma data
posterior à de alguns dos outros regis­
tros. Vara é a palavra usada também
para tribo. O uso da vara com referên­
cia à tribo é um exemplo de um jogo de
palavras do tipo do qual os escritores
hebreus tanto gostam.
O sinal do homem estava escrito em
sua própria vara. No dia seguinte se
descobriu que a vara da tribo de Levi
produzira gomos, flores e amêndoas ma­
duras durante a noite. A amendoeira é a
primeira árvore a lançar gomo na prima­
vera (cf. Jer. 1:11,12). É assim chamada
da raiz “acordar” ou “vigiar”. Talvez
seja significativo o fato de haver fruto
maduro na vara, sugerindo a presença de
uma tribo frutífera, ao invés de ser ela
uma tribo meramente do futuro. A vara
de Arão brotada, florescente e frutífera
devia ser posta de novo perante o teste­
munho. Devia servir de sinal para os
filhos rebeldes, assegurando que não
houvesse mais nenhuma rebelião contra
oSenhor, pelomedo da morte.
(3) O Reconhecimento da Congregação
(17:12,13)
12 Então disseram os filhos de Israel a
Moisés: Eis aqui, nós expiramos, perece­
mos, todos nós perecemos. 13 Todo aquele
que se aproximar, sim, todo o que se aproxi­
mar do tabernáculo do Senhor, morrerá;
porventura pereceremos todos?
Com a clara referência à rebelião de
Corá e também àquela da congregação
toda, eles reconheceram que todo aquele
que se aproximar da habitação do Se­
nhor está destinado ao extermínio. Re­
conheceram que eram dignos de morte.
Perguntam de modo bastante poético:
Porventura pereceremos todos? Isso
equivale à indagação: “Sobreviverá al­
guém?” ou: “Que há de acontecer ao
serviço do santuário?” ou: “Quem fica­
rá, para prosseguir com o trabalho do
culto?”
(4) Os Deveres e Direitos dos Levitas e
dos Sacerdotes(18:1-32)
Apergunta dos dois versículos anterio­
res servede introdução a esta seção.
1 Depois disse o Senhor a Arão: Tu e teus
filhos, e a casa de teu pai contigo, levareis a
iniqüidade do santuário; e tu e teus filhos
contigolevareis a iniqüidade dovosso sacer­
dócio. 2 Faze, pois, chegar contigo também
osteus irmãos, a tribo deLevi, a tribo de teu
pai, para que se ajuntem a ti, e te sirvam;
mas tu e teus filhos contigo estareis perante
a tenda do testemunho. 3Eles cumprirão as
tuas ordens e assumirão oencargo de toda a
tenda; mas não se chegarão aos utensílios
do santuário, nem ao altar, para que não
morram, assim eles como vós. 4 Mas se
ajuntarão a ti, e assumirão o encargo da
tenda da revelação, para todo o serviço da
tenda; e o estranho não se chegará a' vós.
5 Vós, pois, assumireis o encargo do santuá­
rio e o encargo do altar, para que não haja
outra vez furor sobre os filhos de Israel.
6Eis que eu tenho tomado vossos irmãos, os
levitas, do meio dos filhos de Israel; eles
vos são uma dádiva, feita ao Senhor, para
160
fazerem o serviço da tenda da revelação.
7 Mas tu e teus filhos contigo cumprireis o
vossosacerdócio notocante a tudo oque é do
altar, e a tudo o que está dentro do véu;
nisso servireis. Eu vos dou o sacerdócio
comodádiva ministerial, e oestranho que se
chegar será morto. •
O primeiro versículo deste capítulo
mostra a divisão dos deveres. Os serviços
dos levitas são relacionados nos versos
1-6. Toda a família dos levitas deveria
suportar a iniqüidade ou agüentar as
conseqüências de qualquer transgressão
em relação ao santuário. Arão e seus
filhos tinham a responsabilidade do sa­
cerdócio. Estas diretrizes foram dadas
especificamente a Arão. A única outra
ocasião em que há referência a tais dire­
trizes (dadas apenas a Arão, e não tam­
bém a Moisés), acha-se em Levítico 10:8.
A tarefa dos levitas consistia em ser­
vir aos da linha de Arão quando eles
estavam diante da tenda. Enquanto os
sacerdotesestivessemsepreparando para
se aproximarem dos utensílios da tenda
ou do altar, oslevitas deviam assisti-los.
Note-se como o santuário, ou a tenda,
estavaenvolvido nos relatos das rebeliões
(16:9,18,19,39,40,42,43,46,50; 17:4,8,
10). Todo opovo era santo mas os levitas
foram selecionados e se lhes deu a dá­
diva de serem permitidos a se qjuntarem
aos sacerdotes e de assumiremo encargo
da tenda da revelação, para fazerem o
serviço da tenda. Mas estranho não che­
gará à tenda, senão será considerado à
mesma luz que as rebeliões do capítulo
anterior. A palavra qjuntarão (v.4) é,
literalmente, “eles deverão ajuntar-se”.
Nota-se aqui um jogo de palavras com o
nome de Levi, valendo dizer que nessa
posição se tomavam levitas de verdade.
Eles cumpriam a Levi-ança em serem
ajuntados aArão e seusfilhos.
Arão e seus filhos receberam o sacer­
dócio como uma dádiva de serviço (v.7).
Essa dádivanão era uma possessão, mas,
sim, o direito de servir. A sua área
exclusiva de serviço era a do altar e do
véu. Deviam fazer tudo concernente a
isso, enquanto aos levitas cabia fazer
tudo relacionado com a tenda fora dessa
área. Assim, como a ninguém, senão aos
sacerdotes e levitas, era permitido se
aproximar da tenda da revelação, tam­
bém a ninguém, senão aos sacerdotes,
era permitido se aproximar do altar ou
da área dentro do véu, o lugar santís­
simo.
A dádiva do sacerdócio impunha exi­
gências infindáveis. Não era uma dádiva
que pudesse ser empreendida leviana­
mente ou recusada, visto tratar-se de um
compromisso permanente. O Deus do
AntigoTestamento eraum Deus degran­
de generosidade e também de grandes
exigências. Visto que aos sacerdotes era
atribuída uma tarefa de responsabilida­
desininterruptas, não estavam numa po­
sição para empreender uma ocupação
remunerada, como os homens das outras
12tribos. Como as exigências eram gran­
des, também a honra era grande.
8 Disse mais o Senhor a Arão: Eis que eu
te tenho dado as minhas ofertas alçadas,
com todas as coisas santificadas dos filhos
de Israel; a ti as tenho dado como porção,
e a teus filhos como direito perpétuo. 9 Das
coisas santíssimas reservadas do fogo serão
tuas todas as suas ofertas, a saber, todas as
ofertas de cereais, todas as ofertas pelo
pecado e todas as ofertas pela culpa, que me
entregarem; estas coisas serão santíssimas
para ti e para teus filhos. 10 Num lugar
santo as comerás;delastodovarão comerá;
santas te serão. 11Também isto será teu: a
oferta alçada das suas dádivas, com todas
as ofertas de movimento dos filhos de Is­
rael; a ti, a teus filhos, e a tuas filhas conti­
go, as tenho dado como porção, para sem­
pre. Todo o que na tua casa estiver limpo,
comerá delas. 12Tudo o que do azeite há de
melhor, e tudo o que do mosto e do grão há
de melhor, as primícias destes que eles de­
rem ao Senhor, a ti as tenho dado. 13Os pri­
meiros frutos de tudo o que houver na sua
terra, que trouxerem ao Senhor, serão teus.
Todooque na tua casa estiver limpo comerá
deles. 14 Toda coisa consagrada em Israel
será tua. 15 Todo primogênito de toda a
carne, que oferecerem ao Senhor, tanto de
homens como de animais, será teu; contudo
os primogênitos dos homens certamente re­
mirás; também os primogênitos dos ani­
161
mais imundos remirás. 16 Os que deles se
houverem de remir desde a idade de um
mês os remirás, segundo a tua avaliação,
por cinco sidos de dinheiro, segundo o siclo
do santuário, que é de vinte jeiras. 17 Mas o
primogênito da vaca, o primogênito da ove­
lha, e o primogênito da cabra não remirás,
porque eles são santos. Espargirás o seu
sangue sobre o altar, e queimarás a sua
gorduraem oferta queimada, de cheiro sua­
ve ao Senhor. 18 E a carne deles será tua,
bem como serão teus o peito da oferta de
movimento e a coxa direita. 19 Todas as
ofertas alçadas das coisas sagradas, que os
filhos de Israel oferecerem ao Senhor, eu as
tenho dado a ti, a teus filhos e a tuas filhas
contigo, como porção, para sempre; é um
pacto perpétuo de sal perante o Senhor,
para ti e para a tua descendência contigo.
20 Disse também o Senhor a Arão: Na sua
terra herança nenhuma terás, e no meio
deles nenhuma porção terás; eu sou a tua
porção e a tua herança entre os filhos de
Israel.
A responsabilidade que as 12 tribos
tinham era grande com relação às ofertas
de Deus (korbanim). Assim, a renda dos
sacerdotes seria grande, não em termos
de posses privadas, mas em mantimento
(v.8-10). Ossacerdotes deviam receberos
sacrifícios e as ofertas que não eram
queimados pelo fogo. As ofertas (kor­
banim) seriam de qualquer tipo, ou seja:
de animal, vegetal, ouro, prata ou ma­
deira. Também são mencionadas as ofer­
tas de cereais, as ofertas pelo pecado, e
as ofertas pela culpa. Estas eram santís­
simas, e deviam ser comidas num lugar
santo, pelos sacerdotes somente.
As famílias dos sacerdotes (v.11-20)
podiam comer as ofertas de movimento
e tudo o que do azeite há de melhor,...
mosto e...grão. O que há de melhor, as
primícias (v.12) dizem respeito à quali­
dade. Não há possibilidade de nenhum
mal-entendido, pois oversículo 13 relem­
bra que a parte inicial da colheita era
dedicada a Deus; o versículo 14 indica
que as coisas consagradas (cherem) eram
de Deus. As coisas dedicadas eram de
grão; as primícias; as coisas tomadas na
guerra santa; as coisas ofertadas sem
possibilidade de redenção. Oversículo 19
indica que todas as ofertas sagradas
eram deles. Os versículos 15-18 explicam
as porções das ofertas redimíveis, que
deviampertencer aossacerdotes.
Este era o pacto de sal, que se consti­
tuía num elo inquebrantável. Pode ser
vistosob o significado de que, quando os
homens comem sal juntos (Esdras 4:14),
há uma mistura irrecuperável de si mes­
mos, ou de que o sal é um preservativo,
indicando assim durabilidade.
21 Eis que aos filhos de Levi tenho dado
todosos dízimos em Israel por herança, pelo
serviço que prestam, o serviço da tenda da
revelação. 22 Ora, nunca mais os filhos de
Israel se chegarão à tenda da revelação,
para que não levem sobre si o pecado e
morram. 23 Mas os levitas farão o serviço
da tenda da revelação, e eles levarão sobre
si a sua iniqüidade; pelas vossas gerações
estatuto perpétuo será; e no meio dos filhos
de Israel nenhuma herança terão. 24 Porque
os dízimos que os filhos de Israel oferece­
rem ao Senhor em oferta alçada, eu os te­
nho dado por herança aos levitas; porquan­
to eu lhes disse que nenhuma herança te­
riam entre os filhos de Israel. 25 Disse mais
o Senhor a Moisés: 26 Também falarás aos
levitas, e lhes dirás: Quando dos filhos de
Israel receberdes os dízimos, que deles vos
tenho dado por herança, então desses dízi­
mos fareis ao Senhor uma oferta alçada, o
dízimo dos dízimos. 27 E computar-se-á a
vossa oferta alçada, como o grão da eira, e
como a plenitude do lagar. 28 Assim fareis
ao Senhor uma oferta alçada de todos os
vossos dízimos, que receberdes dos filhos
de Israel; e desses dízimos dareis a oferta
alçada do Senhor a Arão, o sacerdote. 29 De
todas as dádivas que vosforem feitas, ofere­
cereis, do melhordelas, toda a oferta alçada
do Senhor, a sua santa parte. 30 Portanto
lhesdirás: Quando fizerdes oferta alçada do
melhor dos dízimos, será ela computada aos
levitas, como a novidade da eira e como a
novidade do lagar. 31 E o comereis em
qualquer lugar, vós e as vossas famílias;
porque é a vossa recompensa pelo vosso
serviço na tenda da revelação. 32 Pelo que
não levareis sobre vós pecado, se tiverdes
alçado o que deles há de melhor; e não pro­
fanareis as coisas sagradas dos filhos de
Israel, para quenão morrais.
Visto que os levitas também não ti­
nham uma ocupação remunerada e ser-
162
viam a todoopovocomo servos da tenda,
também eles deviam receber todos os dí­
zimosdopovo(v. 21-24). Faz-se claro que
os levitas estavam prestando um serviço
ao povo, que este não era capaz de
realizar por si mesmo, visto que havia o
perigo de ele se aproximar da tenda de
uma maneira imprópria. O dízimo con­
tínuo seria a possessão dos levitas. Ã me­
dida que cada geração trazia o seu dízi­
mo, oslevitasrecebiam a suaherança.
Os levitas deviam aceitar os dízimos
como as tribos aceitavam a sua renda.
Aoreceberemo dízimo, os levitas deviam
trazer o dízimo dele, ou seja, um dí­
zimo daquilo que receberam. Este dízi­
mo era para Deus e deviam trazê-lo a
Arão, o sacerdote (v. 25-32). Este dízimo
devia ser o melhor, exatamente como o
povo era instado a trazer o melhor (de
primeira qualidade).
5. Instruções Concernentes à Contami­
nação Pelo Contato com um Cadáver
(19:1-22)
(1) A Preparaçãode um Agente de Puri­
ficação(19:1-10)
1Disse mais o Senhor a Moisés e a Arão:
2 Este é o estatuto da lei que o Senhor
ordenou, dizendo: Dize aos filhos de Israel
que te tragam uma novilha vermelha sem
defeito, que não tenha mancha, e sobre a
qual não se tenha posto jugo. 3 Entregá-la-
eis a Eleazar, o sacerdote; ele a tirará para
fora do arraial, e a imolarão diante dele.
4 Eleazar, o sacerdote, tomará do sangue
com o dedo, e dele espargirá para a frente
da tenda da revelação sete vezes. 5 Então à
vista dele se queimará a novilha, tanto o
couro e a carne, como o sangue e o excre­
mento; 6 e o sacerdote, tomando pau de
cedro, hissopo e carmesim, os lançará no
meiodofogoque queima a novilha. 7Então o
sacerdote lavará as suas vestes e banhará
o seu corpo em água; depois entrará no
arraial; e o sacerdote será imundo até a
tarde. 8Também oque tiver queimado lava­
rá as suas vestes e banhará o seu corpo em
água, e será imundo até a tarde. 9 E um
homem limpo recolherá a cinza da novilha,
e a depositará fora do arraial, num lugar
limpo, e ficará ela guardada para a con­
gregação dosfilhos de Israel, para a água de
purificação; é oferta pelopecado. 10E o que
recolher a cinza da novilha lavará as suas
vestes e será imundo até a tarde; isto será
por estatuto perpétuo aos filhos de Israel e
aoestrangeiro queperegrina entre eles.
Este rito é muitas vezes chamado de
rito da novilha vermelha, mas deverá ser
chamado de rito da água de purificação
para a ofertapelo pecado(ingl., “a água
para a impureza, para a remoção do pe­
cado”)(v.9).
A palavra hebraica novilha não dá
nenhuma indicação quanto à idade, e
assim deverá ser traduzida, apropriada­
mente, como uma vaca. Os tradutores
que seguiram a Septuaginta interpreta­
ram a afirmação sobre a qual não se
tenha posto jugo como impondo seme­
lhante condição. A tradição judaica é
que a vaca devia ter entre dois e cinco
anos de idade. É difícil trazer até nós o
cenário existente quando da realização
deste ritual. O termo vaca é usado so­
mente 26 vezes no Antigo Testamento,
e este uso no sacrifício ou expiação é
único.
Na índia, as vacas têm um lugar defi­
nido em algumas cerimônias de purifi­
cação, mas não existe especificação de
uma cor ou morte determinadas. Talvez
seja possível encontrar a origem desse
rito em algum sistema oriental antigo
que tivesse entre suas divindades uma
deusa-vaca. Se assim é, essa origem já
perdeu todo o efeito, a não ser o de ter
colocadoorelato ou prática na mente dos
israelitas, para ser reinterpretado. É so­
mente através de Deus, em primeiro lu­
gar, que operdão podevir.
Este animal tinha de ser fêmea, sem
mancha e de cor vermelha. Pode ser que
este rito forme um contraste com a liba­
ção das cinzas do bezerro de ouro (Êx.
32:20). Existem muitas sugestões quanto
ao uso da cor vermelha. O vermelho é a
cor do sangue, relacionado a uma oferta
pelo pecado (cf. Lev. 4:3-6; 6:30; 17:11).
Os romanos sacrificavam cachorrinhos
vermelhos e homens de cabelos verme-
163
lhos e jogavam as suas cinzas na eira.
Apalavra vermelho é ’adumah, e a pala­
vra para sangue é semelhante, dam. A
palavra para homem é ’adam. Há uma
relação entre a cor vermelha, o sangue, o
homem e a terra habitável, que é ’ada-
mah. A cor vermelha podia facilmente
trazer à mente a humanidade, a substi­
tuiçãopela qual sehaviafeito.
Um outro ponto de vista é que ver­
melho, por ser a cor do fogo, agente de
purificação, éusado com relação ao per­
dão dos pecados (cf. Is. 6:6,7). Mas é
difícil saber se por analogia a novilha
vermelha teria que ser submetida ao
fogo. A vaca vermelha devia ser levada
paraforado arraial. Comparar, no livro
deHebreus: “sem derramamento de san­
guenão há remissão (de pecados)” (Heb.
9:22); também a água, o hissopo e a lã
purpúrea (9:19) e a vara de Arão(9:4).
O animalvermelhofoidado ao filho de
Arão, a Eleazar, o sacerdote... tirado
para fora do arraial e imolado diante
dele. O sacerdote tomará do sangue e
dele espargirá para a frente da tenda da
revelaçãosetevezes. O espargimentopela
tenda significava que o animal e a sua
vida pertenciam a Deus. As sete vezes
são uma referência à totalidade ou à
eficiência, que éessencial à eficácia com­
pleta de muitos ritos.
O animal todo foi queimado sob a
supervisão cuidadosa dos sacerdotes.
Esta supervisão é invulgar, visto que o
abate foi feito por um não-sacerdote.
Era feito assim somente quando o sangue
tinha que ser queimado fora do acampa­
mento. O Mishnah diz que o rito da
novilha vermelha ocorreu somente sete
vezes em toda a História, tendp sido
realizado uma vez por Moisés, uma vez
por Esdras e cinco vezes desde Esdras.
Esta cerimônia de purificação envolvia o
funcionário sagrado, o sacerdote, e tam­
bém osangue sagrado, a tenda sagrada e
onúmero sagrado.
O sacerdote lançava madeira de cedro,
por causa de sua longevidade natural,
hissopo, pelas suas qualidades de puri­
ficação, e tecido carmesim, como um
símbolo da vida (cf. Lev. 14:4,6,49,51,
52), nofogoque queimavaoanimal.
Cada pessoa que ajudasse na prepara­
ção das cinzas do animal vermelho lava­
ria suas roupas, tomaria banho e seria
considerada imunda até o anoitecer. As
cinzas seriam guardadas para uso na
purificação de qualquer pessoa que ti­
vesse tido contato com um cadáver hu­
mano.
(2) O Rito da Purificação Cerimonial
(19:11-13)
11 Aquele que tocar o cadáver de algum
homem, será imundo sete dias. 12Ao tercei­
ro dia o mesmo se purificará com aquela
água, e ao sétimo dia se tomará limpo;
mas, se ao terceiro dia não se purificar,
não se tornará limpo ao sétimo dia. 13 Todo
aquele que tocar o cadáver de algum ho­
mem que tenha morrido, e não se purificar,
contamina o tabernáculo do Senhor; e essa
alma será extirpada de Israel; porque a
água da purificação não foi espargida sobre
ele, continua imundo; a sua imundícia está
ainda sobre ele.
Este rito diz respeito ao contato de
uma pessoa com um cadáver humano.
Havia três coisas que causavam imundí­
cia que excluiria uma pessoa da comuni­
dade: a lepra; os fluxos do corpo (o san­
gue, o sêmen, o fluxo menstrual ou as
excreções por ocasião do parto); e o con­
tato comum morto (5:2). Aimpureza era
considerada contagiosa ou como trans­
mitida pela proximidade ou pelo contato
físico.
Tudo o que era misterioso, anormal,
irruptivo e repulsivo era considerado
imundo. Na morte, havia forças podero­
sas e misteriosas em operação. A morte
era considerada com pavor e como um
perigo. Nos tempos antigos, pensava-se
que o espírito do morto ficava perto do
cadáver, para fazer mal a qualquer um
queestivessepróximo. Essas “almas fan­
tasmas” transmitiam imundícia a todos
queestivessempor perto.
164
(3) VáriasCategoriasdeImundícias
(19:14-22)
6. Miria, Moisés e Arão Não Poderiam
EntrarnaTerraPrometida(20:1*29)
14Esta é a lei, quando um homem morrer
numa tenda: todo aquele que entrar na ten­
da, e todo aquele que nela estiver, será
imundo sete dias. 15 Também, todo vaso
aberto, sobre que não houver pano atado,
será imundo. 16E todo aquele que no campo
tocar alguém que tenha sido morto pela
espada, ou outro cadáver, ou um osso de
algum homem, ou uma sepultura, será
imundo sete dias. 17 Para o imundo, pois,
tomarão da cinza da queima da oferta pelo
pecado, e sobre ela deitarão água viva num
vaso; 18e um homem limpo tomará hissopo,
e o molhará na água, e a espargirá sobre a
tenda, sobre todos os objetos e sobre as
pessoas que ali estiverem, como também
sobre aquele que tiver tocado o osso, ou o
que foi morto, ou o que faleceu, ou a sepul­
tura. 19 Também o limpo, ao terceiro dia e
ao sétimo dia, a espargirá sobre o imundo,
e ao sétimo dia o purificará; e o que era
imundo lavará as suas vestes, e se banhará
em água, e à tarde será limpo. 20Mas o que
estiver imundo e não se purificar, esse será
extirpado do meio da assembléia, porquan­
to contaminou o santuário do Senhor; a
água de purificação não foi espargida sobre
ele; é imundo. 21 Isto lhes será por estatuto
perpétuo: oque espargir a água de purifica­
ção lavará as suas vestes; e o que tocar a
água de purificação será imundo até a tar­
de. 22E tudoquanto oimundotocar também
será imundo; e a pessoa que tocar naquilo
será imunda até a tarde.
Seum homem morresse dentro de uma
tenda, qualquerpessoana tenda ou qual­
quer pessoa que nela entrasse antes da
purificação da tenda ficaria imunda por
sete dias. Se alguém tocasse num osso ou
num corpo morto, mesmo em campo
aberto, ficaria imundo. A lei dava mar­
gem ao costume da caiação dos túmulos,
de maneira que ninguém tocasse num
túmulo inadvertidamente (cf. Mat. 23:
27). Seuma pessoa imunda não aprovei­
tasse das cinzas sacerdotais preparadas
para a água da purificação, seria ceri-
monialmente imunda, e, assim, ficaria
separada dopovode Israel.
(1) AMortedeMiriã(20:l)
1Os filhos de Israel, a congregação toda,
chegaram ao deserto de Zim no primeiro
mês, e o povo ficou em Cades. Ali morreu
Miriã, e ali foisepultada.
A congregação inteira tinha sido sen­
tenciada a 40 anos de peregrinação, para
corresponder aos 40 dias da investiga­
ção da terra pelos espias. A aproximação
que Moisés planejou (caps. 13 e 14) era,
evidentemente, do sul, como visto do
relatório dosespias. Porém elafalhou, de
maneira que planejaram voltar-se para o
norte e nordeste, para se aproximarem
de Canaã pelo leste, através do territó­
rio ao leste do rio Jordão. Este primeiro
versículo resume toda a longa relação
com Cades. Faz menção do primeiro
mês, porém não especifica oano.
Miriã pode ter morrido em qualquer
ocasião, durante o período dos 40 anos,
porém geralmente se pensa que ela fa­
leceu depois de 38 anos de peregrinação
(Snaith, p. 274). A última vez, em Nú­
meros, que se usou a fórmula cronológi­
ca foi nos capítulos 13 e 14, quando o
povo estava em Cades. Agora está em
Cades novamente. Não há nenhum re­
gistro da cronologia entre essesdois even­
tos. Porém o fato está estabelecido de
que Miriã, que tinha sido a líder numa
rebelião contra Moisés, morreu sem en­
trar naTerra da Promissão esema ver.
(2) OPecadodeMoisés(20:2-13)
2 Ora, não havia água para a congrega­
ção; pelo que se ajuntaram contra Moisés e
Arão. 3 E o povo contendeu com Moisés,
dizendo: Oxalá tivéssemos perecido quando
pereceram nossosirmãos perante o Senhor!
4 Por que trouxestes a congregação do Se­
nhor a este deserto, para que morramos
aqui, nós e os nossos animais? 5 E por que
nos fizestes subir do Egito, para nos trazer
a este mau lugar? lugar onde não há se­
mente, nem figos, nem vides, nem romãs,
nem mesmo água para beber. 6 Então Moi-
165
sés e Arão se foram da presença da assem­
bléia até a porta da tenda da revelação, e
selançaram com orosto em terra; e a glória
do Senhor lhes apareceu. 7£ o Senhor disse
a Moisés: 8 Toma a vara e ajunta a congre­
gação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha
perante os seus olhos, que ela dê as suas
águas. Assim lhes tirarás água da rocha, e
darás a beber à congregação e aos seus ani­
mais. 9Moisés, pois, tomou a vara de diante
do Senhor, como este lhe ordenou. 10Moisés
e Arão reuniram a assembléia diante da
rocha, e Moisés disse-lhes: Ouvi agora, re­
beldes! Porventura tiraremos água desta
rocha para vós? 11Então Moisés levantou a
mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua
vara, e saiu água copiosamente, e a congre­
gação bebeu, e os seus animais. 12 Pelo que
o Senhor disse a Moisése a Arão: Porquanto
não me crestes a mim, para me santificar­
des diante dos filhos de Israel, por isso não
introduzireis esta congregação na terra que
lhes dei. 13 Estas são as águas de Meribá,
porque ali os filhos de Israel contenderam
com oSenhor, que neles se santificou.
Não é de admirar uma escassez de
água, para semelhante multidão no de­
serto. A congregação reuniu-se em rebe­
lião (cf. 16:3,42) contra Moisés e Arão.
Identificaram-se com Corá, Datã e Abi-
rão, a quem chamaram de nossos ir­
mãos. Esta vez o povo também conten­
deu(apresentou uma queixalegal).
Há vários pontos comuns entre este
registro e Êxodo 17:1-7. Muitos escrito­
res acham que os dois textos são relatos
deum mesmoevento, em razão de tantas
semelhanças entre ambos. Porém tam­
bém observam-se algumas diferenças; as
palavras para gado são diferentes; as pa­
lavras para rocha são diferentes; num
relato Moisés havia de golpear a rocha,
mas no outro Moisés e Arão haviam de
falar à rocha; Êxodo, em seu registro,
acrescenta o nome Massá ao de Meribá.
As semelhanças são: (1) não havia
água; (2) o povo contendeu com Moisés;
(3) Por que nos fizestes subir do Egito?
(4) para que morramos.aqui, nós e os
nossos animais; (5) Toma a vara; (6) a
água saiu da rocha; (7) o nome Meribá.
O nome do lugar onde tudo isso aconte­
ceucaracterizou-se a tal ponto, pela con­
tenda, que foi chamado de Meribá, que
querdizercontenda.Éinteressante queos
registros deÊxodo chamam esse lugar de
Meribá, etambém deMassá, que signifi­
ca “pondo à prova”. Os dois relatos do
livro de Números (20:2-13 e 27:13,14)
fazem um trocadilho com a palavra Me­
ribá, e também acrescentam outro, com
a palavraCades, que significasanto.
É difícil correlacionar todas as facetas
deste incidente. O ponto principal da
história é que Moisés não levaria a con­
gregação terra de Canaã adentro. O Se­
nhor disse a Moisés para tomar a vara.
Esta era a varacom que ele tinha golpea­
do o Nilo, de forma que as águas se tor­
naram em sangue (Êx. 7:20); com que
abriu o mar (Êx. 14:16). Não está claro
se a vara era de Moisés ou de Arão
(cf. Êx. 7:9,20; 8:5).
Várias interpretações têm sido dadas.
O versículo 12 afirma que o motivo da
exclusão era incredulidade, porém o ver­
so 24 sugere tratar-se de rebelião. Moi­
sés chama o povo de rebeldes, porém o
Salmo 106:33 diz que eles “amargura­
ram o seu espírito” (da mesma raiz que
“rebeldes” em Núm. 20:10). A palavra
no verso 8, falai à rocha, está no plural,
com referência a Moisés e Arão, porém
foi Moisés quem golpeou a rocha. Exa­
tamente como o desprazer de Deus foi
provocado, é difícil de se determinar,
pois existem várias possibilidades. Ao
perguntar ao povo (v.10): Porventura ti­
raremos água desta rocha? estaria Moi­
sés querendo dizer: “podemos tirar?”
ou: “devemos tirar?” Em caso positivo,
podia estar demonstrando alguma dúvi­
da ou até desrespeito para com a pala­
vra de Deus. Por que Moisés golpeou a
rocha duas vezes, ao invés de uma vez
apenas? Revelaria este gesto contrarie­
dade, ou precisou do segundo golpe para
realizar o seu propósito? Em Deuteronô-
mio 1:37, 3:26e4:21, Moisés diz ao povo
que oSenhorirou-se contra ele por causa
do povo, i. e., porque recusou aceitar o
relatório minoritário dos espias e entrar
166
para tomar posse da terra antes dos 40
anos deperegrinações.
Parece apropriado, no versículo 12 e
em Deuteronômio 32:50-52, que o escri­
tor interpreta a omissão de Moisés em
não exaltar opoder de Deus, evidenciado
no milagre das águas, como um ato de
incredulidade ou, ao menos, como uma
negligência dapossibilidade de chamar a
atençãopara a santidade de Deus.
(3) ArãoMorrenoMonteHor(20:14-29)
14 De Cades, Moisés enviou mensageiros
ao rei do Edom, dizendo: Assim diz teu
irmão Israel: Tu sabes todo o trabalho que
nos tem sobrevindo; 15 como nossos pais
desceram ao Egito, e nós no Egito habita­
mos muito tempo; e como os egípcios nos
maltrataram, a nós e a nossos pais; 16 e
quando clamamos ao Senhor, ele ouviu a
nossa voz, e mandou um anjo, e nos tirou do
Egito; e eis que estamos em Cades, cidade
na extremidade dos teus termos. 17 Deixa-
nos, pois, passar pela tua terra; não passa­
remos pelos campos, nem pelas vinhas, nem
beberemos a água dos poços; iremos pela
estrada real, não nos desviando para a
direita nem para a esquerda, até que tenha­
mos passado os teus termos. 18Respondeu-
lhe Edom: Não passarás por mim, para que
eu não saia com a espada ao teu encontro.
19 Os filhos de Israel lhe replicaram: Subi­
remos pela estrada real; e se bebermos das
tuas águas, eu e o meu gado, darei o preço
delas; sob condição de eu nada mais fazer,
deixa-me somente passar a pé. 20Edom, po­
rém, respondeu: Não passarás. E saiu-lhe
ao encontro com muita gente, e com mão
forte. 21Assim recusou Edom deixar Israel
passarpelos seus termos; pelo que Israel se
desviou dele. 22 Então partiram da Cades;
e os filhos de Israel, a congregação toda,
chegaram ao monte Hor. 23E falou o Senhor
a Moisés e a Arão no monte Hor, nos termos
da terra de Edom, dizendo: 24 Arão será
recolhido a seu povo, porque não entrará na
terra que dei aos filhos de Israel, porquanto
fostes rebeldes contra a minha palavra no
tocante às águas de Meribá. 25Toma a Arão
e a Eleazar, seu filho, e faze-os subir ao
monte Hor; 26e despe a Arão as suas vestes,
e as veste a Eleazar, seu filho, porque Arão
será recolhido, e morrerá ali. 27 Fez, pois,
Moisés como o Senhor lhe ordenara; e subi­
ram ao monte Horperante os olhos de toda a
congregação. 28 Moisés despiu a Arão as
vestes, e as vestiu a Eleazar, seu filho; e
morreu Arão ali sobre o cume do monte;
e Moisés e Eleazar desceram do monte.
29Vendo, pois, toda a congregação que Arão
era morto, chorou-o toda a casa de Israel
portrinta dias.
O povo de Israel íora completamente
derrotado pelos amalequitas e pelos ca-
naneus, na tentativa fracassada de entrar
na Terra Prometida (cf. 14:45). De ma­
neira que Moisés procura, agora, a per­
missão do rei de Edom para atravessa­
rem a terra, evidentemente numa tenta­
tiva de diminuir a distância e suavizar a
dureza da viagem. O pedido que enviou
aorei deEdom foi uma tentativa de mes­
tre na arte devendas. Os itens calculados
para produzir oacordoeram:
Versículo 14 — Teu irmão Israel faz
referência à sua herança comum; os edo-
mitas eram filhos de Esaú, e os israeli­
taseram filhos de Jacó. Ambos eram dos
filhos de Eber.
Versículo 15 — Os israelitas tinham
sofrido muita adversidade no sentido de
que os seus pais desceram ao Egito. Os
egípciosnosmaltrataram.
Versículo 16 — Deus ouviu a sua voz,
certamente os edomitas também os ou­
viram.
Versículo 16b — Estamos em Cades,
cidade na extremidade de seu território.
Ele prometeu que iriam somente pela
estrada real. Esse era um caminho para
as caravanas que seguiam viagem do
golfo de Ãcaba à Palestina setentrional
ou à Síria. Moisés prometeu que não se
desviariam nem um pouco desse cami­
nho. Além disso, nãopassariam porcam­
po ou por vinha, nem tomariam água de
nenhum poço.
O pedido foi negado, com uma amea­
ça debatalha. O povode Israel renovou o
pedido e a promessa. Novamente o pe­
dido foi negado, acompanhado de uma
demonstração da força armada dos edo­
mitas. Por conseguinte, Israel mudou de
167
direção. Pelo que está registrado em 21:
1-3, consta que voltaram-se rumo ao
norte, para com este contorno se aproxi­
marem do destinono sul.
Ao se convencer de que não podia
conduzir o seu povo pela terra do rei de
Edom, Moisés levou-o de Cades até o
monte Hor, que se diz estar nos termos
da terra de Edom. A localização do
monte Hor é desconhecida. Deuteronô-
mioregistra o nome dolugar da morte de
Arão como Mosera. Era, claramente,
umaparada em sua viagempara osul, ao
contornarem o território de Edom. Os
turistas que hoje visitam a cidade de
Petra, com a sua cor vermelho-rosado,
podem ver uma abóbada branca num
pico de uma montanha próxima, que é
identificada como o lugar do enterro de
Arão. Porém esse lugar é, seguramente,
incorreto. Eruditos modernos sugerem
monte Madurah(Jebel Madurah) como o
local.
Arão foi informado de sua morte imi­
nente. O motivo declarado foi a rebelião
de Moisés e Arão. As ordens dadas a
Moisés e Arão era que falassem à rocha
para tirar a água, mas, em vez de assim
proceder, Moisés golpeou a rocha duas
vezes. Visto que nem Moisés nem Arão
falou à rocha, ambos foram culpados de
se terem rebelado contra a minha pala­
vra no tocante às águas de Meribá. O
grande trio, Moisés, Arão e Eleazar, foi
enviado ao monte Hor. As roupas de
Arão, ou seja, as vestimentas do sumo
sacerdote (Lev. 8:1-9) foram colocadas
em Eleazar, o mais velho dentre os filhos
sobreviventes de Arão. Imediatamente
após a transferência dos sinais do ofício
de sumo sacerdote, Arão morreu. Quan­
do opovo reconheceu que Eleazar trazia
as vestimentas de sumo sacerdote, soube
que Arão estava morto. De.maneira que
fizeram lamentação pelo seu pacificador
por 30dias. Pelomesmoespaço de tempo
fizeram lamentação pela morte de Moi­
sés(Deut. 34:8).
7. As Peregrinações Finais Anteriores à
TravessiadoJordão(21:1-35)
(1) Israel Confronta o Rei de Arade
(21:1-3)
1 Ora, ouvindo o cananeu, rei de Arade,
que habitava no Negebe, que Israel vinha
pelo caminho de Atarim, pelejou contra Is­
rael, e levou dele alguns prisioneiros. 2 En­
tão Israel fez um voto ao Senhor, dizendo:
Se na verdade entregares este povo nas
minhas mãos, destruirei totalmente as suas
cidades. 3 O Senhor, pois, ouviu a voz de
Israel, e entregou-lhe os cananeus; e os
israelitas os destruíram totalmente, a eles e
às suas cidades; e chamou-se aquele lugar
Horma.
A posição geográfica de Atarim não se
sabe com certeza. Do conhecimento da
topografia, achar-se-ia que Atarim fosse
o nome de uma passagem entre monta­
nhas. A julgar do contexto e da grande
semelhança das palavras hebraicas, pode
ter sido o caminho dos espias (hattarim).
As notícias das atividades dos espias (ta-
rim) peloespaço de 40dias talveztenham
chegado ao rei de Arade. A presença dos
12homens teria despertado a curiosidade
dos nativos de tal modo, que a investi­
gação talvez tenha sido feita antes desta
data. De maneira que, quando correu a
notícia de que Israel vinha novamente
(esta vez em grande número), o rei de
Arade seperturbou.
Aspalavrashebraicas podiam também
ser traduzidas “à maneira dos espias”.
Se o rei de Edom avisou o rei de Arade
para que permanecesse vigilante, à es­
pera de um bando de espias, o rei terá
achado fácil preparar-se para os encon­
trar e tomar alguns deles como cativos.
EmJuizes 1:16, há um lugar chamado de
Hattemarim, a cidade “das palmeiras”
que se situa no Negebe, perto de Arade.
De maneira que o povo de Israel talvez
tenh^ subido pelo caminho das palmei­
ras, i. e., deum oásis.
Na base de um voto de Israel, Deus
mudou o resultado da batalha. Israel
prometeu destruir (cherem) as cidades
cananéias. Assim, achamos a nota etioló-
168
gica que chamon-se o nome daquele lu­
garHorma, nome este que significa dedi­
cado ou destruído (cf. Juí. 1:17, onde
Zefate foi mudado para Horma). Devido
àpresença deste nome Horma, é possível
que este trecho seja uma variante ou
registromaiscompletodeNúmeros 14:45.
(2) As Serpentes Abrasadoras; As Ser­
pentes—OsSerafins(21:4-9)
4 Então partiram do monte Hor, pelo ca­
minho que vai ao Mar Vermelho, para ro­
dearem a terra de Edom; e a alma do povo
impacientou-se por causa do caminho. 5E o
povo falou contra Deus e contra Moisés:
Por que nos fizestes subir do Egito, para
morrermos no deserto? pois aqui não há
pão e nãohá água; e a nossa alma tem fastio
deste miserável pão. 6 Então o Senhor man­
dou entre o povo serpentes abrasadoras,
que o mordiam; e morreu muita gente em
Israel. 7 Pelo que o povo veio a Moisés, e
disse: Pecamos, porquanto temos falado
contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor
para quetire de nósestas serpentes. Moisés,
pois, orou pelo povo. 8 Então disse o Senhor
a Moisés: Faze uma serpente de bronze, e
põe-na sobre uma haste; e será que todo
mordido que olhar para ela viverá. 9 Fez,
pois, Moisésuma serpente de bronze, e pô-la
sobre uma haste; e sucedia que, tendo uma
serpente mordido a alguém, quando esse
olhavapara a serpente de bronze, vivia.
Como os cananeus tinham sido des­
truídos, por que os israelitas voltaram-
se para o sul do monte Hor, pelo cami­
nho quevai ao Mar Vermelho? Pode ter
havido outros povos fortes, dos quais
aqui não se fala, habitando nesse terri­
tório, e que teriam levantado barreiras
insuperáveis. Assim se viraram para o
território menos povoado, para fugir da
terra pertencente aos edomitas. Porém
a alma do povo impacientou-se (lit., o
espírito do povo encurtou-se; cf. 11:23).
Suaimpaciência demonstrou-se na recla­
maçãotantas vezes repetida: Fizeste com
que partíssemos do Egito, estamos no
deserto, não temos nem comida nem
água. Seus desejos físicos não estavam
sendo satisfeitos.
Em relatos anteriores, vimos os casti­
gospelareclamação contra Deus, Moisés
e Arão. Um dos castigos relacionava-se
com fogo destruidor. Esta rebelião tam­
bém trouxe a morte para muitos. As
serpentes abrasadoras(lit., as serpentes,
osserafins) picavam alguns dentre opovo
fatalmente. Ã vista da morte que se se­
guiuàrebelião, opovopercebeu quetinha
incorridonojuízo deDeus. Pediu, então,
a Moisés que intercedesse pela remoção
das serpentes. Não pediu que orasse por
ele, pelos seuspecados.
Segundo 33:43, o acampamento ante­
riora Obote (21:10) foi o de Punom, que
já foi mencionado como uma área de
mineração de cobre (cerca de 40 quilô­
metros ao sul do Mar Morto). O termo
bronzequer dizercobre ou cobre endure­
cidocomumaliga queproduzia ou bron­
ze ou latão. Se se constituía numa liga
com o zinco, e, por conseguinte, latão,
ou se numa liga com estanho^ produzin­
do bronze, isto não é diferenciado pela
palavra hebraica.
Existem algumas evidências do fato de
que os símbolos religiosos são transferi­
dos para outros contextos (II Reis 18:4).
E questionávelseo uso e prática do culto
à serpente de cobre, durante a monar­
quia israelita, relatada em II Reis, seja o
mesmo que o praticado em Números.
Aqueima deincenso à serpente (Nehush-
tan) foi uma perversão de seu uso, e era
muito semelhante à prática da magia da
serpente ou do culto à serpente. Não é
correto ler uma passagem posterior e
explicarque a interpretação posterior é o
sentido proposto na anterior. Na reali­
dade, o significado posterior pode ser
umaperversãoouuma interpretaçãocom
um novo significado, bem como uma
extensão do sentido original.10
Os arqueólogos descobriram artefatos,
sobre os quais se acha, claramente, o
símbolo da serpente. No Oriente Médio
10 Cf. H. H. Rowley, “Zadok and Nehushtan”, Journal of
Biblical literature, 1939,11:113-141.
169
antigo, a serpente se associava à restau­
ração da vida.11
Opovo do Egito muitas vezes colocava
um amuleto em feitio de serpente nas
múmias, para afugentar serpentes ou
outros répteis. As figuras de serpentes
eram usadas ao redor do pescoço, pelos
egípcios, para repelir as cobras. “O ele­
mento mais importante, na tradição de
Moisés e da serpente de bronze, parece
ser o da magia simpática — a crença de
que a sorte de um objeto ou de uma
pessoa pode ser controlada pela manipu­
lação de sua imagem exata”.12
Na Mesopotâmia, a serpente era o
símbolo da fertilidade eda vida renovada
(cf. Nehushtan acima). Não existe qual­
quer evidência de que essa simbologia
tenha relação com o uso feito, por Moi­
sés, da imagem da serpente de bronze.
Tendo em vista os israelitas viverem por
tanto tempo noÈgito, fácil lhesfoi obser­
var o uso egípcio do símbolo da serpente
como um repelente das serpentes pica­
doras. Moisés)usou-a como um remédio
eficaz para o dano físico infligido pelas
serpentes.
A luz do uso comum da figura da ser­
pente, élógico que Israel também a usas­
se. Este relato da serpente metálica tem
servido de fonte para muitas tipologias.
O ponto de vista teológico mais antigo
dessa passagem acha-se no apócrifo Sa­
bedoria de Salomão 16:5-7, mais tarde
sendo encontrado também no Novo Tes­
tamento, João3:14,15.
As palavras que olhar (ingl., quando
ele a vir) e quando esse olhava não dão
margem para uma interpretação clara.
Porém o contexto do culto a Yahweh
revela a interpretação de que o olhar era
um olhar de fé. Com base nos fatos de
que o povo pediu a Moisés para orar e
que o Senhor respondeu, a imagem não
era, então, um fim em si, mas antes uma
11 A. Castigliono, ‘‘The Serpent as Healing God in Anti­
quity”, Ciba Symposia, 3:1164,1942.
12 Karen R. Joines, ‘‘The Bronze Serpent in the Israelite
Cult”, Journal ofBiblical Literature, 1968,111:251.
lembrança daquele que estava por detrás
da imagem. O povo não era picado pelas
serpentes à vista da imagem da serpente.
De maneira que, após a picada, podia ir,
se o desejasse e/ou cresse, olhar para a
imagem. Assimhavia a presença da ima­
gem, a presença da morte, o conheci­
mento da presença do poder simboliza­
do, o ato de ir até a imagem e de olhar
para ela, e a continuação da vida ou a
revogação daquele castigo.
(3) AMarchadePunom atéPisga
(21:10-20)
10 Partiram, então, os filhos de Israel, e
acamparam-se em Obote. 11 Depois parti­
ram de Obote, e acamparam-se em Ije-Aba-
rim, no deserto que está defronte de Moabe,
para o nascente. 12 Dali partiram, e acam­
param-se no vale de Zerede. 13 E, partindo
dali, acamparam-se além do Arnom, que
está no deserto e sai dos termos dos arnor-
reus; porque o Arnom é o termo de Moabe,
entre Moabe e os amorreus. 14 Pelo que se
diz no livro das guerras do Senhor: Vaebe
em Sufa, e os vales do Arnom, 15e o declive
dos vales, que se inclina para a situação de
Ar, e se encostaaos termos de Moabe. 16Da­
li vieram a Beer; esse é o poço do qual o
Senhor disse a Moisés: Ajunta o povó, e lhe
darei água. 17Então Israel cantou este cân­
tico: Brota, ó poço! E vós, entoai-lhe cânti­
cos! 18 Ao poço que os príncipes cavaram,
que os nobres do povo escavaram com o
bastão, e com os seus bordões. Do deserto
vieram a Matana; 19 De Matana a Naaliel;
de Naaliela Bamote; 20e de Bamote ao vale
que está no campo de Moabe, ao cume de
Pisga, que dá para odeserto.
O povo seguiu o seu caminho para o
norte, de uma fonte de água aoutra, pelo
lado oriental doMar Morto. Acamparam
em Ije-Abarim(lit., as ruínas de abarim)
ou na região ao leste do Mar Morto.
É chamado de Abarim, i.e., “o outro
lado”, do ponto de vista de alguém que
está morando entre o Mar Mediterrâneo
ea divisaMarMorto-Rio Jordão.
A citação de o Livro das Guerras do
Senhor menciona acidentes conhecidos,
como o rio Arnom, a cidade de Ar e o
território dos moabitas. A natureza, ex-
170
tensão, ou história do Livro das Guerras
do Senhor são impossíveis de se saber,
poisé aúnicamenção conhecida dolivro.
Não é estranho, no meio ambiente do
Oriente Médio, falar-se nas guerras de
Yahweh. Uma tradução possível de Yah-
weh Sabaote é “Yahweh dos Exércitos”.
O livro era, provavelmente, uma antiga
coletânea poética dos registros das guer­
ras travadas em seu nome e das quais ele
próprioparticipou.
Os escritores de nossos textos colhe­
ram material de diversas fontes. Josué
10:13e II Samuel 1:18 procedem do livro
de Jasar. O Cântico do Poço (v. 17,18)
ou a canção em 21:27-30 não são identi­
ficados como sendo do Livro das Guerras
doSenhor.
Acitaçãoconhecidacomo “Cântico do
Poço” é uma canção folclórica que re­
flete a época quando um poço era for­
malmente aberto e consagrado. Poetica­
mente, credita-se aos nobres a escava­
ção do poço. Este parágrafo constitui a
conexão histórica entre o povo na terra
deEdom eona divisa da terra dos amor-
reus. O alvo deste capítulo é demonstrar
as vitórias de Deus sobre o rei de Arade,
sobre as rebeliões e as picadas de ser­
pentes, sobreo rei dos amorreus e sobre o
rei de Basã.
(4) AVitóriaSobreSiom, Reidos Amor­
reus(21:21-32)
21 Então Israel mandou mensageiros a
Siom, rei dos amorreus, a dizer-lhe: 22 Dei-
xa-me passar pela tua terra; não nos des­
viaremos para os campos nem para as vi­
nhas; as águas dos poços não beberemos;
iremos pela estrada real até que tenhamos
passado os teus termos. 23 Siom, porém,
não deixou Israel passar pelos seus termos;
pelo contrário, ajuntou todo o seu povo, saiu
ao encontro de Israel no deserto e, vindo a
Jaza, pelejou contra ele. 24 Mas Israel o
feriu ao fio da espada e apoderou-se da sua
terra, desde o Arnom até o Jaboque, até os
amonitas; porquanto a fronteira dos amoni-
tas era fortificada. 25 Assim Israel tomou
todas as cidades dos amorreus e habitou
nelas, em Hesbom e em todas as suas al­
deias. 26 Porque Hesbom era a cidade de
Siom, rei dos amorreus, que pelejara contra
oprecedente rei de Moabe, e tomara da mão
dele toda a sua terra até o Arnom. 27 Pelo
que dizem os que falam por provérbios:
Vindea HesbomI edifique-se e estabeleça-se
a cidade de Siom! 28 Porque fogo saiu de
Hesbom, e uma chama da cidade de Siom; e
devorou a Ar de Moabe, aos senhores dos
altos do Arnom. 29 Ai de ti, Moabe! perdido
estás, povo deQuemós! Entregou seus filhos
comofugitivos, e suas filhas como cativas, a
Siom, rei dos amorreus. 30 Nós os assetea-
mos; Hesbom está destruída até Dibom, e
os assolamos até Nofá, que se estende até
Medeba. 31 Assim habitou Isrgel na terra
dos amorreus. 32 Depois Moisés mandou
espiar a Jazer, e tomaram as suas aldeias e
expulsaram os amorreus que ali estavam.
Israelmandoumensageirosa Siom, rei
dos amorreus, com um pedido diplomá­
tico de permissão para passar pela sua
terra. O pedido foi negado por meio de
um contingente de forças armadas, que
saiu para a peleja. Israel ganhou a bata­
lha e se apossou de todo o território
amorreu. A RSV segue a Septuaginta e
entende Jazer como um nome de lugar.
O texto hebraico é melhor aqui (cf. KJV
e ASV): “Porque a fronteira dos filhos
deArnom era forte.” Jazeré mencionado
várias vezes no Antigo Testamento, po­
rém o local é desconhecido. A cidade foi
investigada pelos espias enviados por
Moisés (v. 32). O texto hebraico quer
dizer que a fronteira dos amorreus era
altamente fortificada. Israel não chegou
aoponto de guerrear contra os amonitas.
Porém tomoutodas as cidades dos amor­
reus. O cântico (v. 27-30), de uma fonte
não mencionada, passa em revista o
grande poder de Siom, que tinha con­
quistado Moabe, inclusive Quemós, o
deus dos moabitas.
(5) A Vitória Sobre Ogue, Rei de Basã
(21:33-35)
33 Então viraram-se, e subiram pelo ca­
minho de Basã. E Ogue, rei de Basã, saiu-
lhes ao encontro, ele e todo o seu povo, para
lhes dar batalha em Edrei. 34 Disse, pois, o
Senhor a Moisés: Não oJemas, porque eu to
entreguei na mão, a ele, a todo o seu povo, e
171
à sua terra; e far-íhe-ás como fizeste a
Siom, rei dos amorreus, que habitava em
Hesbom. 35 Assim o feriram, a ele e seus
filhos, e a todo o seu povo, até que nenhum
lhe ficou restando; também se apoderaram
da terra dele.
Esta seção ê de material deuteronô-
mico (Deut. 3:1-3). As campanhas ini­
ciais do exército de Israel eram guerras
da conquista. Quando conquistaram
Siom e Ogue, obtiveram território que
seria dividido entre algumas das tribos.
Estas vitórias eram interpretadas como
resultado da ajuda de Deus.
IV. IsraelAcampadonasPlanícies
deMoabe(22:1-36:13)
1. O Registro Sobre Balaque e Balaão
(22:1-24:25)
(1) Introdução (22:1-6)
1 Depois os filhos de Israel partiram, e
acamparam-se nas planícies de Moabe,
além do Jordão, na altura de Jericó. 2 Ora,
Balaque, filho de Zipor, viu tudo o que Israel
fizera aos amorreus. 3 E Moabe tinha gran­
de medo do povo, porque era muito* e Moa­
be andava angustiado por causa dos filhos
de Israel. 4 Por isso disse aos anciãos de
Midiã: Agora esta multidão lamberá tudo
quanto houver ao redor de nós, como o boi
lambe a erva do campo. Nesse tempo Bala­
que, filho de Zipor, era rei de Moabe. 5 Ele
envioumensageiros a Balaão, filho de Beor,
a Petor, que está junto ao rio, à terra dos
filhos do seu povo, a fim de chamá-lo, dizen­
do: Eis que saiu do Egito um povo, que
cobre a face da terra e estaciona defronte de
mim. 6 Vem pois agora, rogo-te, amaldi­
çoar-me este povo, pois mais poderoso é do
que eu; porventura prevalecerei, de modo
que opossa ferir e expulsar da terra; porque
eu sei que será abençoado aquele a quem tu
abençoares, e amaldiçoado aquele a quem
tu amaldiçoares.
O poder de Yahweh não deve ser con­
fundido com a adivinhação. Estes versí­
culos são uma introdução à seção final
inteira do livro de Números. Marcam o
contexto geográfico para os registros res­
tantes.
Depois que grande parte do território
beirando o Mar Morto e o Rio Jordão a
leste tinha sido conquistado, todo o povo
de Israel estabeleceu o seu acampamento
nasplaníciesouplanalto deMoabe, dire­
tamente a leste de Jericó, e também ao
lestedo RioJordão.
Balaque, rei de Moabe, temia o povo
de Israel(v. 2-6). Israel conquistara Ara-
de, Siom e Ogue. Os moabitas não ti­
nham sido vencidos em guerra. Os pla­
naltos de Moabe situam-se adjacentes ao
Rio Jordão, um pouco antes deste rio se
lançar no Mar Morto, permitindo uma
vistapanorâmica da terra aooeste do rio.
O rei de Moabe tinha ouvido, sem dú­
vida, dos eventos do confronto de Israel
com Arade, Hesbom eEdrei. Quandoviu
tantos estranhos entrando em sua terra,
se aterrorizou. Ele supunha que Israel
podia consumi-los como um boi (forte)
lambe a erva(impotente) do campo.
Uma das características comuns aos
povos do mundo oriental é a auto-identi-
ficaçãoachegada com sua terra, seu rei e
seu deus. Com suas mentes não existe
nenhuma separação nas categorias dis­
tintas, sua terra, seu rei e, acima de
tudo, seu deus. Balaque viu que sua
única esperança de sobrevivência, tanto
pessoal como nacional, era o favor do
Deus daquelahoste.
Os moabitas e os midianitas ajunta-
ram-se para seprotegerem. Moabe tinha
sido ocupado por Siom, rei dos amor­
reus, de maneira que Midiã tinha de as­
sumir a maior parte do peso da guerra
(cf. o cap. 31, quanto à luta final). Bala­
que, rei de Moabe, lançou a idéia de
enviarpresentes a um adivinhador famo­
soda Mesopotâmia, conhecido como Ba­
laão. Não se dá nenhum título, como de
profeta ou sacerdote, a Balaão, e, por­
tanto, temos de discernir do texto qual a
sua posição. Balaque queria que Balaão
amaldiçoasse Israel, de maneira que
Moabepudesse derrotá-lo. Sabia dos po­
deres de Balaão para abençoar e para
amaldiçoar. No versículo 6, o poder de
172
uma palavra falada, quer como benção,
quercomo maldição, éconfirmado.
Não há registro de que Balaão fosse
um oficial da religião de Israel. Veio de
Petor, queestájunto ao rio. A RSV situa
Petor “na terra de Amaw”. O nosso
texto, bem como a KJV e a ASV, traduz
esta frase por à terra dos filhos do seu
povo. Literalmente, ohebraico lê “a ter­
ra dos filhos de Ammo” (Amaw ou seu
povo). Aterra de Amaw ficava a oeste do
Eufrates. A cidade capital de Emar fica­
va a menos de oitenta quilômetros de
Petor. Recebe menção na Inscrição de
Idrimi e também no túmulo de Quen-
amun do Egito, na segunda metade do
décimo quinto séculoa.C.13
Petor situava-se ao sul de Carquemis,
mais do que 550 quilômetros distante de
Moabe. A viagem dessa distância neces­
sitaria de muito planejamento e tempo.
Este relato comprime um considerável
espaço de tempo num registro breve. Há
um total de mais de 2.200 quilômetros de
viagensimplícitos aqui.
(2) OsPrimeiros Emissários de Moabe e
MidiãaBalaão(22:7-14)
7 Foram-se, pois, os anciãos de Moabee os
anciãos de Midiã, com o preço dos encanta­
mentos nas mãos e, chegando a Balaão,
referiram-lhe as palavras de Balaque. 8Ele
lhes respondeu: Passai aqui esta noite e
vos trarei a resposta, como o Senhor me
falar. Então os príncipes de Moabe ficaram
com Balaão. 9 Então veio Deus a Balaão, e
perguntou: Quem são estes homens que es­
tão contigo? 10 Respondeu Balaão a Deus:
Balaque, filho de Zipor, rei de Moabe, mos
enviou, dizendo: 11 Eis que o povo que saiu
do Egito cobre a face da terra; vem agora
amaldiçoar-mo; porventura poderei pelejar
contra ele e expulsá-lo. 12 E Deus disse a
Balaão: Não irás com eles; não amaldiçoa­
rás a este povo, porquanto é bendito. 13Le­
vantando-se Balaão pela manhã, disse aos
príncipes de Balaque: Ide para a vossa ter­
ra, porque o Senhor recusa deixar-me ir
convosco. 14 Levantaram-se, pois, os prín­
cipes de Moabe, vieram a Balaque e disse­
ram: Balaão recusou vir conosco.
13 IDB, Vol. A-D, p. 104; cf. W. F. Albright, “Some Re­
cent Discoveries”, BASOR 118:15-20,1950.
Moabe tinha consultado Midiã (v. 4).
Os anciãos dos dois povos partiram. Ba­
laque tinha plena confiança no poder da
adivinhação (cf. o v. 6b), portanto, en­
viou o pagamento para a adivinhação
com o seu emissário. Também confiava
que o montante de suas dádivas seria
suficiente para conseguir a maldição de­
sejada da adivinhação. Achava-se que a
adivinhação era uma forma de comuni­
cação com os poderes superiores, numa
tentativa de responder a certas pergun­
tas. O texto hebraico diz, simplesmente:
Foram-se... os anciãos de Moabe e os
anciãos de Midiã com o preço... nas
mãos. Pode ser que os anciãos levassem
juntos osutensílios apropriados para que
Balaão não pudesse se recusar, alegando
quenão estivesse devidamente equipado.
Por outro lado, um adivinho possuiria,
sem dúvida, as ferramentas para sua
marcaespecífica de adivinhação.
Basicamente, os oráculos dos adivi­
nhadores se obtinham pelo uso, exame
ou observação de ou (1) um fenômeno
puramente natural, tal como os astros,
ou os sons das folhas de uma árvore, o
fígado de um animal sacrifical, tempes­
tades, nuvens, oaparecimento de serpen­
tes ou o seu desaparecimento, comporta­
mento de animais, ou sonhos; ou (2) um
fenômeno provocado pelo homem, tal
como o derramamento de óleo numa
vasilha de água, o lançamento de uma
pedrinha num tanque, para observar as
bolhas e as marolas assim causadas, o
lançamento ou a sacudida de flechas, o
lançamento de sortes, enecromancia.
Os babilónicos eram famosos por essa
arte. A adivinhação foi desenvolvida co­
mo quase que uma disciplina científica.
Apalavra caldeu até se tomou sinônima
demágico, noAntigoTestamento. A for­
ma de adivinhação mais desenvolvida
entre os babilónicos foi a hepatoscopiá,
isto é, o exame do fígado de um animal
cultual. Pensavam que o fígado fosse o
assento do sangue, e, por conseguinte, da
própria vida. De maneira que, como a
173
vida vinha de Deus, o fígado do animal
identificava-se, de alguma forma, com
Deus. Assim, os babilónicos achavam
que podiam discernir algo de Deus. Há
referência, num registro antigo, à exis­
tência de uma escola para adivinhadores
(casa de adivinhos).14
No Antigo Testamento há muitas refe­
rências a termos e ações que são comuns
naprática da adivinhação. Algumas pas­
sagens proíbem o uso, por Israel, de
adivinhação(Lev. 19:26; Deut. 18:10,11;
e muitas vezes nos profetas). É difícil
saber se essas proibições eram tentativas
de acabar com práticas que talvez te­
nham existido em Israel depois da asso­
ciação com vizinhos que não viam ne­
nhum erro em tais coisas ou se eram
tentativas de impedir a entrada de tais
práticas na vida de Israel. O povo exer­
ciamuitas práticas com costumes e hábi­
tos ancestrais de remota antigüidade.
À medida que a revelação do Senhor se
tornava mais importante e mais bem
entendida, tentativas de erradicar prá­
ticas, tais como a adivinhação, foram
feitas.
Os moabitas e os midianitas procura­
vam, à maneira mais eficaz que conhe­
ciam, assegurar o futuro e se proteger.
Neste relato, o Senhor (Yahweh) ocorre
somente nas falas de Balaão, porém há
muitas variantes nas versões. Quanto
Moabe e Midiã sabiam do caráter distin­
tivo do Deus de Israel, por ocasião deste
encontro, nãosetem certeza. Outrossim,
BalaãoconheciaYahweh (pois ele usou o
seunome), porém não se sabe ao certo se
Balaão sabia que Yahweh era o Deus de
Israel. Nos versos 9-12 está registrada
uma primeira comunicação entre Deus e
Balaão. Quando Balaão conta da mensa­
gem de Balaque, ele só sabe que um
povo... saiu do Egito. Deus instrui Ba-
laâo(l) a não acompanhar os moabitas,
(2) a não amaldiçoaropovoe(3) que este
povoeraum povoabençoado.
14IDB, Vol. A-D,p. 857.
Os anciãos de Moabe e Midiã não
fazem referência a Deus em lugar ne­
nhum, nestes capítulos. É Balaão quem
usa o nome de Deus constantemente.
Está implícito que a mensagem veio de
Deus, num sonho (v. 13). É significativo
que Deus veio a Balaão (v. 9). Quando
Balaão disse aos anciãos que o Senhor
recusa deixá-lo ir com eles, os anciãos
regressaram com a notícia de que Balaão
recusou vir conosco, mas não fizeram
nenhuma referência a Deus.
(3) O SegundoGrupodeEmissários
(22:15-21)
15 Balaque, porém, tornou a enviar prínci­
pes, em maior número e mais honrados do
que aqueles. 16Estes vieram a Balaão e lhe
disseram: Assim diz Balaque, filho de Zi-
por: Rogo-te que não te demores em vir a
mim, 17 porque grandemente te honrarei, e
farei tudo o que me disseres; vem, pois,
rogo-te, amaldiçoar-me este povo. 18 Res­
pondeu Balaão aos servos de Balaque: Ain­
da que Balaque me quisesse dar a sua casa
cheia de prata e de ouro, eu não poderia ir
além da ordem do Senhor meu Deus, para
fazer coisa alguma, nem pequenanem gran­
de. 19Agora, pois, rogo-vos que fiqueis aqui
ainda esta noite, para que eu saiba o que o
Senhor me dirá mais. 20 Veio, pois, Deus a
Balaão, de noite, e disse-lhe: Já que esses
homens te vieram chamar, levanta-te, vai
com eles; todavia, farás somente aquilo que
eu te disser. 21 Então levantou-se Balaão
pela manhã, albardou a sua jumenta, e par­
tiu com ospríncipes de Moabe.
Balaque enviou outros emissários. Ne­
nhum lapso de tempo se registra entre os
dois grupos. Esta segunda missão diplo­
mática era mais numerosa e mais impor­
tante. Balaão podia receber um cheque
em branco se somente colocasse uma
maldição sobre este povo. A mensagem
de Balaque indicou um motivo de “lucro
e posição” por detrás de sua oferta.
Porém Balaão diz aos nobres que prata é
ouro não eram o fator decisivo. O man­
damento do Senhor seuDeus(v. 18)era o
fator que determinaria a sua decisão.
Porém pediu aos emissários que per­
noitassem ali, para que ele pudesse saber
174
o que mais, conforme disse, “o Senhor
me dirá”. No versículo 19, o nome do
Deuspor quem Balaãoesperava eraYah-
weh. Porém o nome do que o permitiu ir
(v. 20) era Elohim. Não existe qualquer
indicação do motivo por que Deus lhe
disse que esta vez fosse, embora não
tivesse permitido que fosse com os pri­
meirosemissários.
(4) AViagemdeBalaãoatéMoabe
(22:22-35)
22 A ira de Deus se acendeu, porque ele
ia, e o anjo do Senhor pôs-se-lhe no caminho
por adversário. Ora, ele ia montado na sua
jumenta, tendo consigo os seus dois servos.
23Ajumenta viu o anjo do Senhor parado no
caminho, com a sua espada desembainha­
da na mão e, desviando-se do caminho, me­
teu-se pelo campo; pelo que Balaão espan
cou a jumenta para fazê-la tomar ao cami­
nho. 24 Mas o anjo do Senhor pôs-se numa
vereda entre as vinhas, havendo uma sebe
de um e de outro lado. 25 Vendo, pois, a
jumenta o anjo do Senhor, coseu-se com a
sebe, e apertou contra a sebe o pé de Ba­
laão; pelo que ele tomou a espancá-la.
26 Então o anjo do Senhor passou mais
adiante, e pôs-se num lugar estreito, onde
não havia caminho para se desviar nem
para a direita nem para a esquerda. 27 E,
vendo a jumenta o anjo do Senhor, deitou-se
debaixo de Balaão; e a ira de Balaão se
acendeu, e ele espancou a jumenta com o
bordão. 28 Nisso abriu o Senhor a boca da
jumenta, a qual perguntou a Balaão: Que
te fizeu, para queme espancasses estas três
vezes? 29 Respondeu Balaão à jumenta:
Forque zombaste de mim; oxalá tivesse eu
uma espada na mão, pois agora te mataria.
30 Tomou a jumenta a Balaão: Porventura
não sou a tua jumenta, em que cavalgastes
toda a tua vida até hoje? Porventura tem
sido o meu costume fazer assim para conti­
go? E ele respondeu: Não. 31Então o Senhor
abriu os olhos a Balaão, e ele viu o anjo do
Senhor parado no caminho, e a sua espada
desembainhada na mão; pelo que inclinou a
cabeça, e prostrou-se com o rosto em terra.
32 Disse-lhe o anjo do Senhor: Por que já
três vezes espancaste a tua jumenta? Eis
que eu te sai como adversário, porquanto o
teu caminho é perverso diante de mim;
33a jumenta, porém, me viu, e já três vezes
se desviou de diante de mim; se ela não se
tivesse desviado de mim, na verdade que
eu te haveria matado, deixando a ela com
vida. 34 Respondeu Balaão ao anjo do Se­
nhor: Pequei, porque não sabia que estavas
parado no caminho para te opores a mim; e
agora, se parece mal aos teus olhos, volta­
rei. 35 Tomou o anjo do Senhor a Balaão:
Vai com oshomens; mas somente a palavra
que eute disser é que falarás. Assim Balaão
seguiu com ospríncipes de Balaque.
Não são dados os motivos da ira de
Deus além da fraseporqueeleia. Têm-se
sugerido vários motivos, tais como:
(1) Balaão não tinha entendido Deus
corretamente. (2) Balaão tinha conven­
cido a si mesmo que Deus tivesse permi­
tido quefosse. Balaão tanto queria ir que
confundiu os seus desejos pessoais com a
voz de Deus. (3) Balaão sabia que Deus
tinhapermitido que fosse, mas que não o
deixava amaldiçoar o povo, porém ele
não revelou isto aos príncipes. Desta
forma, ele era culpado de dar uma im­
pressãototalmente falsa.
A ira de Deus demonstra-se no con­
fronto com o anjo do Senhor. Gênesis
16:7-13, Juizes 6:11-24 e Zacarias 3:1-5
sugerem queo anjo do Senhoréopróprio
Yahweh. Esta forma de expressão mos­
tra queveiodeuma época em que opovo
sentia que não podia olhar para o rosto
de Deus e permanecer vivo (cf. Is. 6:5).
O anjo do Senhor colocou-se no cami­
nho, para ser um adversário de Balaão.
Adversário é a palavra “satanás”. Esta é
a função de ser adversário, e não é o
nomepróprio.
O anjo do Senhor era, geralmente,
uma aparição temporária de Yahweh em
forma humana. O registro folclórico das
conversas entre Balaão e a sua besta de
cargaexplica a tentativa de Yahweh de se
comunicar com Balaão, apesar de seu
erro. O único paralelo, dentro do Antigo
Testamento, a este tema do animal fa­
lante é o da “serpente falante”, no Jar­
dim do Éden, em Gênesis 3 (também
materialJ).
Verdades profundas são expressas pe­
los povos semíticos em narrativas folcló­
ricas. Balaão é o único, no Antigo Tes­
175
tamento, no sentido de ser um não-
hebreu sujeito aosmandamentos de Yah-
weh e, conforme o contexto, consciente
destasinstruções deYahweh.
Balaão não estava tão pronto a ver o
mensageiro do Senhor ou ouvir a mensa­
gem do Senhor como devia ter estado.
Homem inteligente, deviaentender o que
se estava passando. Porém a verdade da
presença do Senhor não foi reconhecida
por Balaão senão depois de uma sucessão
de experiências dolorosas. Os homens
têm, muitas vezes, de ser confrontados
com uma série de eventos, antes de exa­
minarem a sua situação visando os fatos
fundamentais. Com demasiada freqüên­
cia temos de nos deparar com eventos
inesperados e surpreendentes, antes de
avaliarmos os relacionamentos de nossa
existência.
Ajumenta não é, de maneira alguma,
a figura significativa deste registro, mui­
to embora a história apresente seres me­
nos inteligentes que muitas vezes discer­
nem ocorreto antes do ser humano, mais
inteligente queeles.
Apersonagem significativa é o anjo do
Senhor. Quando Balaão percebeu isto,
prostrou-se com o rosto em terra. O seu
caminho era perverso diante do Senhor.
O texto hebraico diz: “O caminho é pre­
cipitado na minha frente”, ou: “Você se
precipitou para diante impensadamen­
te.” Balaão ofereceu voltar, se a sua ida
parecesse um mal aos olhos do Senhor.
Porém o anjo instou-o a que prosse­
guisse.
Estes relatos são de fontes diferentes,
com interpretações diferentes, como no
caso das duas interpretações à maneira
como Saul chegou a ser rei. No verso 20,
Elohim disse a Balaão que fosse, e, no
verso 35, o anjo do Senhor ordenou-lhe
que fosse. Nos dois versículos se lhe diz
para manter-se dentro dos limites do
mandamento. O primeiro relato diz que
ele“fizesse” somenteo que lhe foi dito, e
no segundo relato é-lhe recomendado
que “dissesse” somente o que lhe fosse
ordenado.
O uso exclusivode Yahwehem 22:22b-
35indicamaterial1. Há um uso constan­
te deElohim nas partes das narrativas de
22:2-22a, que se originam do material
E. Nesta seção, é usado Yahweh somente
nas citaçõesbabilónicas, nos versos 8,13,
18,19.
(5) Balaquee BalaãoEncontram-se
(22:36-41)
36 Tendo, pois, Balaque ouvidoque Balaão
vinha chegando, saiu-lhe ao encontro até
Ir-Moabe, cidade fronteira que está à mar­
gem do Arnom. 37 Perguntou Batoque a
Balaão: Porventura não te enviei diligente­
mente mensageiros a chamar-te? por que
não vieste a mim? não possoeu, na verdade,
honrar-te? 38Respondeu Balaão a Balaque:
Eis que sou vindo a ti; porventura poderei
eu agora, de mim mesmo, falar alguma
coisa? A palavra que Deus puser na minha.
boca, essa falarei. 39 E Balaão foi com
Balaque, e chegaram a Quiriate-Huzote.
40 Então Balaque ofereceu em sacrifício
bois e ovelhas, e deles enviou a Balaão e
aos príncipes que estavam com ele. 41 E su­
cedeu que, pela manhã, Balaque tomou a
Balaão, e o levou aos altos de'Baal, e viu ele
dalia parte extrema dopovo.
Balaque foi à cidade de Moabe, que
seria Ir-Moabe, que é a pronúncia do
texto, e não uma tradução, como se
poderia pensar. O diálogo entre Balaque
e Balaão revela uma grande diferença
entre os dois homens. Balaque destaca
o seu poder para honrar Balaão. Posição
e possessão configuram sua oferta a Ba­
laão. Mas Balaão adotou uma atitude de
humildade, e exaltou a Deus. Balaão
lembrou-lhe que não tinha liberdade
para fazer o que bem entendesse. Balaão
era, assim, o porta-voz de Deus. Esta é a
função básica de um profeta. Pode ser
que Balaão não tivesse identificado su:
ficientemente o Deus que o estava con­
trolando. Se Balaque tinha um conceito
inferior desse Deus, pensava, sem dúvi­
da, que podia virar a cabeça de Balaão
com ofertas de ganho pessoal. Talvez
176
nunca tenha tentado santificara Deus na
presença de Balaque.
A frase ofereceu em sacrifício (v. 40)
tem o significado básico de abater, em­
bora, na maioria dos casos em que a
palavra é usada no Antigo Testamento,
ela tenha o sentido de matar para sacri­
fício. Até aqui não existem evidências
de queBalaque tenha dado uma configu­
ração religiosa aos seus atos. Balaque
(v. 41), de fato, levou Balaão a Bamote-
baal (lit., os altos de Baal), uma cidade
de Moabe (cf. 21:19, 20; também Jos.
13:17). Em Quiriate-Huzote, Balaque
desempenhou o papel de anfitrião e en­
viou alimento a Balaão e aos príncipes.
Foi de Bamote-baal que puderam ver o
grupomaispróximo dopovode Israel.
(6) OPrimeiro Oráculo de Balaão Sobre
Israel(23:1-12)
1 Disse Balaão a Balaque: Edifica-me
aqui sete altares e prepara-me aqui sete
novilhos e sete carneiros. 2 Fez, pois, Bala­
que como Balaão dissera; e Balaque e Ba­
laão ofereceram um novilho e um carneiro
sobre cada altar. 3 Então Balaão disse a
Balaque: Fica aqui em pé junto ao teu
holocausto, e eu irei; porventura o Senhor
me sairá ao encontro, e o que ele me mos­
trar, eu to direi. E foi a um lugar alto.
4 E quando Deus se encontrou com Balaão,
este lhe disse: Preparei os sete altares e
oferecium novilho e um carneiro sobre cada
altar. 5 Então o Senhor pôs uma palavra na
boca de Balaão, e disse: Volta para Bala­
que, e assim falarás. 6Voltou,pois, para ele,
e eis queestava em péjunto ao seu holocaus­
to, ele e todos os príncipes de Moabe. 7 En­
tão proferiu Balaão a sua parábola, dizen­
do: De Arãme mandoutrazer Balaque, o rei
de Moabe, desde as montanhas do Oriente,
dizendo: Vem, amaldiçoa-me a Jacó; vem,
denuncia a Israel. 8 Como amaldiçoarei a
quem Deus não amaldiçoou? e como denun­
ciarei a quem o Senhor não denunciou?
9 Pois do cume das penhas o vejo, e dos
outeiroso contemplo; eis que é um povo que
habita só, e entre as nações não será conta­
do. 10Quem poderá contar o pó de Jacó e o
número da quarta parte de Israel? Que eu
morra a morte dos justos, e seja o meu fim
como o deles. 11 Então disse Balaque a
Balaão: Que me fizeste? Chamei-te para
amaldiçoares os meus inimigos, e eis que
inteiramente os abençoastes. 12 E ele res­
pondeu: Porventura não terei cuidado de
falaroque o Senhorme puserna boca?
Os adivinhadores babilónicos muitas
vezes usavam um ato de sacrifício, na
tentativa de induziruma experiência ora­
cular. Balaão orientou Balaque no senti­
do de providenciar sete altares...sete no­
vilhos e sete carneiros. O número sete
traz a idéia de inteireza. A cifra sete
representa o sole a lua e os cinco plane­
tas que lhes eram conhecidos. Quando
Balaãopediu sete, estava usando o modo
sacrificial completo para a obtenção de
um oráculo, ao menos aos olhos de Ba­
laque. O texto hebraico diz que Balaque
e Balaão ofereceram um novilho e um
carneiro sobre cada altar. Dois manus­
critos da LXX omitem os nomes nesta
frase, de sorte que o texto diz que “Bala­
que ofereceu” sozinho. Isso concordaria
com o versículo 3, em que Balaão diz a
Balaque: Fica aqui em pé, junto ao teu
holocausto, e eu irei. Os adivinhadores
operavam em silêncio, de maneira que
ele talvez tenha procurado o isolamento.
A RSV diz que Balaão dirigiu-se a um
alto descampado (v. 3). O Targum enten­
de que a palavra signifique solitário. Um
manuscrito grego contém “um lugar
aberto”. Outro manuscrito considera as
três letras como uma abreviatura de três
palavras,significando“parabuscaraface
deYahweh”.
O versículo 10, como um juramento, é
de difícil entendimento. A quarta parte
de Israel deverá ser lida: “as nuvens de
poeira de Israel”.15
(7) O Segundo Oráculo de Balaão Sobre
Israel(23:13-26)
13 Então Balaque lhe disse: Rogo-te que
venhas comigo a outro lugar, donde o pode­
rás ver; verás somente a última parte dele,
mas a todo ele não verás; e amaldiçoa-mo
15 Conforme rodapé da RSV; cf. W. F. AIBright, "The
Oracles of Balaan”, Journal of Bibllcal Ltterature, III,
1944, 213, 223. (Notar o paralelismo com “o pó de lacó”
dov. 10a.)
177
dali. 14 Assim o levou ao campo de Zofim,
ao cume de Pisga; e edificou sete altares, e
ofereceu um novilho e um carneiro sobre
cada altar. 15Disse Balaão a Balaque: Fica
aqui em pé junto ao teu holocausto, enquan­
toeu vouali ao encontro do Senhor. 16E, en­
contrando-se o Senhor com Balaão, pôs-lhe
na boca uma palavra, c disse: Volta para
Balaque, e assim falarás. 17 Voltou, pois,
para ele, e eis que estava em pé junto ao seu
holocausto, e ospríncipes de Moabe com ele.
Perguntou-lhe, pois, Balaque: Que falou o
Senhor? 18 Então proferiu Balaão a sua pa­
rábola, dizendo: Levanta-te, Balaque, e
ouve; escuta-me, filho de Zipor; 19Deus não
é homem para que minta; nem filho do
homem, para que se arrependa. Porventu­
ra, tendo ele dito, não o fará? ou, havendo
falado, não o cumprirá? 20 Eis que recebi
mandado de abençoar; pois ele tem aben­
çoado, e eu não posso revogar. 21 Não se
observainiqüidade em Jacó, nem se vê mal­
dade em Israel; o Senhor seu Deus é com
ele, no meio dele se ouve a aclamação dum
rei. 22É Deus que os vem tirando do Egito;
as suas forças são como as do boi selvagem.
23 Contra Jacó, pois, não há encantamento,
nem adivinhação contra Israel. Agora se
dirá de Jacó e de Israel: Que coisas Deus
tem feito! 23Eis que o povo se levanta como
leoa, e se ergue como leão; não se deitará
até que devore a presa, e beba o sangue dos
que foram mortos. 25Então Balaque disse a
Balaão: Nem o amaldiçoes, nem tampouco
o abençoes. 26 Respondeu, porém, Balaão a
Balaque: Não te falei eu, dizendo: Tudo o
que oSenhor falar, isso tenho de fazer?
A mesma fórmula é tentada, mas em
outro lugar. Na esperança de que uma
vista diferente do povo surtiria um orá­
culo diferente, Balaque leva Balaão ao
campo de Zofim(Vigias), perto do cume
de Pisga, de onde são visíveis o vale do
Jordãoe asplanícies deMoabe.
O oráculo (v. 18-24) usa três nomes
para Deus: El (v. 19,22,23), Yahweh e
Elohim (v. 21). Deus tinha abençoado
Israel, e não podia violar sua própria
palavra. Ainda, não há encantamento
quevenha a terefeito contraIsrael.
(8) OTerceiro Oráculo de Balaão Sobre
Israel(23:27-24:13)
27 Tomou Balaque a Balaão: Vem agora,
e te levarei a outro lugar; porventura pare­
cerá bem aos olhos de Deus que dali mo
amaldiçoes. 28Então Balaque levou Balaão
ao cume de Peor, que dá para o deserto.
29 E Balaão disse a Balaque: Edifica-me
aqui sete altares, e prepara-me aqui sete
novilhos e sete carneiros. 30 Balaque, pois,
fez como dissera Balaão; e ofereceu um
novilho e um carneiro sobre cada altar.
1 VendoBalaão queparecia bem aos olhos
do Senhor que abençoasse a Israel, não foi,
comoera costume, ao encontro dos encanta­
mentos, mas voltou o rosto para o deserto.
2E, levantando Balaão os olhos, viu a Israel
que se achava acampado segundo as suas
tribos; e veio sobre ele o Espírito de Deus.
3 Então proferiu Balaão a sua parábola,
dizendo: Fala Balaão, filho de Beor; fala o
homem que tem os olhos abertos; 4 fala
aquele que ouve as palavras de Deus, o que
vê a visão do Todo-Poderoso, que cai, e se
lhe abrem os olhos: 5 Quão formosas são as
tuas tendas, ó Jacó! as tuas moradas, ó
Israel! 6 Como vales, elas se estendem; são
comojardins à beira dos rios, como árvores
de aloés que o Senhor plantou, como cedros
junto às águas. 7 De seus baldes manarão
águas, e a sua semente estará em muitas
águas; o seu rei se exalçará mais do que
Agague, e o seu reino será exaltado.
8 É Deus que os vem tirando do Egito; as
suas forças são como as do boi selvagem;
ele devorará as nações, seus adversários, e
lhes quebrará os ossos, e com as suas setas
os atravessará. 9 Agachou-se, deitou-se co­
mo leão, e como leoa; quem o despertará?
Benditos os que te abençoarem, e malditos
osque te amaldiçoarem. 10Pelo que a ira de
Balaque se acendeu contra Balaão, e baten­
do ele as palmas, disse a Balaão: Para
amaldiçoares os meus inimigos é que te
chamei; e eis que já três vezes os abençoas­
te. 11Agora, pois, foge para o teu lugar; eu
tinha dito que certamente te honraria, mas
eis que o Senhor te privou dessa honra.
12Então respondeu Balaão a Balaque: Não
falei eu também aos teus mensageiros, que
me enviaste, dizendo: 13Ainda que Balaque
me quisesse dar a sua casa cheia de prata e
de ouro, eu não poderia ir além da ordem do
Senhor, para fazer, de mim mesmo, o bem
ou o mal; o que o Senhor falar, isso falarei
eu?
i
Balaque leva Balaão a ainda outro
lugar. Esta vez Balaão não procura a
solidão. Olha para o deserto, e vê Israel
tribo por tribo. O terceiro oráculo é
invulgar sob pelo menos dois aspectos.
O oráculo é diferente dos outros pela
178
presença do Espírito. Os primeiros dois
oráculos de Balaãopodem ter vindo atra­
vés de augúrios (24:1), sonhos ou visões
danoite, masoterceiro oráculo é elevado
comoum oráculoprofético.
O terceiro oráculo é diferente também
no sentido de omitir referência a Bala-
que. Os primeiros dois oráculos come­
çam com referência a Balaque, porém o
terceiro e o quarto oráculos começam
com ocabeçalho do “profeta”. No tercei­
rooráculo, Balaão, sob oEspírito de Elo-
him, exalta a Deus e seu povo. Balaão
usa diversos títulos para Deus: Deus (El,
v. 4 e 8). Todo-Poderoso (Shaddai, v. 4)
eo Senhor(Yahweh, v. 6).
A força de Israel é magnificada no
segundo e terceiro oráculos. As suas for­
ças (RSV, “os chifres”)...do boi selva­
gem(23:22e24:8) eoleão e a leoa(23:24
e 24:9) são os emblemas de poder e
domínio.
Os versículos 5 e 6 dão uma descrição
entusiástica do caráter extraordinário do
povo de Israel. O versículo 7 explica a
sua abundância, fertilidade e força.
O seu rei se exalçará mais do que Aga-
gue. As versões antigas16tinham Gogue,
ao invés de Agague. Agague é o nome
dinástico dos reis dos amalequitas, de
maneira que a leitura correta deve ser
Agague.
Aira de Balaque chegou a tal ponto de
fervura, que elebateu aspalmas. Este foi
um gesto de desdém, de desprezo e de
desgosto. Depois dos primeiros dois orá­
culos, Balaque pediu encarecidamente a
Balaão, elevou-o a um local diferente, na
esperança de receber o oráculo. Porém
agora bateu as mãos com violência, pois
já não havia esperança de receber o orá­
culoquequeria. Fechouasmãospara Ba­
laão, porque, aos olhos de Balaque,
Balaão não merecia nem honra nem ri­
quezas. Os oráculos indicam que Balaão
permaneceu leal, através da experiência
toda, àquilo que Deus lhe tinha dito.
16 LXX, Pentateuco samaritano, Âqüila, Símaeo e Teodó-
cio.
Comapossívelexceção em Miquéias 6:5,
Balaão é tratado desfavoravelmente em
todas as outras referências nas Escri­
turas.
(9) OsDemaisOráculosdeBalaão
(24:14-25)
a. OOráculoSobreMoabee Edom
(24:14-19)
14 Agora, pois, eis que me vou ao meu
povo; vem, avisar-te-ei do que este povo
fará ao teu povo nos ídtimos dias. 15 Então
proferiu Balaão a sua parábola, dizendo:
Fala Balaão, filho de Beor; fala o homem
que tem os olhos abertos; 16fala aquele que
ouve as palavras de Deus e conhece os de­
sígniosdoAltíssimo, que vê a visão do Todo-
Poderoso, que cai e se lhe abrem os olhos:
17 Eu o vejo, mas não no presente; eu o
contemplo, mas não de perto; de Jacó pro­
cederá uma estrela, de Israel se levantará
um cetro que ferirá os termos de Moabe,
e destruirá todos os filhos de orgulho. 18 E
Edom lhe será uma possessão, e assim tam­
bém Seir, os quais eram os seus inimigos;
pois Israel fará proezas. 19 De Jacó um
dominará e destruirá os sobreviventes da
cidade.
Antes de Balaão voltar para casa, pro­
nunciou um oráculo sobre a relação de
Israel com Moabe e Edom. Os versículos
15 e 16 são os mesmos que os versículos
3 e 4, com o acréscimo de e conhece os
desígnios do Altíssimo. Os versículos
17-19 dizem respeito ao futuro, quando
de lacó procederá uma estrela. Isaías
14:12 é a única outra ocasião no Antigo
Testamento quando se usa uma estrela
como uma figura de um rei humano.
Porém semelhante figura é muitas vezes
usada em registros antigos. A figura pa­
ralelaéde um cetro: de Israel se levanta­
rá um cetro. O cetro é o símbolo oficial
da posição do rei. Este rei venceria tanto
Moabe como Edom (cf. Davi, como visto
em II Sam. 8:2,13;14). “Filhos de
Sheth” (em português “Sete”) (v. 17)
aparece em versões inglesas tal como a
palavra épronunciada. Amesma palavra
ocorre em Gênesis 4:25, mas no inglês é
escrita “Seth”. Alguns escritores tradu-
179
zem-na como filhos da batalha e outros
sugerem filhos de orgulho (Moabe era
famoso pelo seu orgulho). Seir é um
sinônimo deEdom.
b. OráculoSobreAmaleque(24:20)
20Também viu Balaão a Amaleque e pro­
feriu a sua parábola, dizendo: Amaleque
era a primeira das nações, mas o seu fim
será a destruição.
Ê difícil relacionar os versículos 20-24
com a época de Balaão. Por que havia
Balaão de incluirum oráculo sobre Ama­
leque? Amaleque foi um dos primeiros
reis a sair para guerrear contra Israel,
quando viajavam em direção à Terra
Prometida(cf. Êx. 17:8-13,16). Se oorá­
culofoiretido do tempo de Balaão, talvez
esteja procurando mostrar uma minu-
dência ou abrangência da proteção que
Deus dava a Israel, i.e., a partir da pri­
meira guerra, futuro adentro.
c. OráculoSobreosQuenitas(24:21,22)
21 E, vendo os quenitas, proferiu a sua
parábola, dizendo: Firme está a tua habi­
tação; e posto na penha está o teu ninho;
22 todavia será o quenita assolado, até que
Assurte leve porprisioneiro.
Os quenitas são registrados como li­
gados a Judá em Juizes 1:16-19 e a Ama­
leque em I Samuel 15:4-9. (Nesta versão
portuguesa, a grafia do nome, nestas
duas últimas passagens citadas, é que-
neu). Posteriormente Assur é conhecido,
mas o significado aqui é obscuro, se for
uma referência aos assírios. O oráculo
parece indicar que os assírios deporta­
riam os quenitas, mas não há nenhum
registro de semelhante acontecimento.
d. OráculoSobreQuitim(24:23-25)
23 Proferiu ainda a sua parábola, dizendo:
Ai, quem viverá, quando Deus fizer isto?
24Naus virão das costas de Quitim, e afligi­
rão a Assur; igualmente afligirão a Eber,
quetambém será para destruição. 25Então,
tendo-se Balaão levantado, partiu e voltou
para o seu lugar; e também Balaque se foi
peloseu caminho.
O significado dos nomes, nesta seção,
é muito obscuro. Quitim será destruída,
muito embora suba contra Assur e Eber.
Geralmente se entende que os de Quitim
viriam de Chipre, que estava sob o
governo da Assíria Ho sétimo século.
Entende-se que Quitim se refere aos ro­
manos, aos gregos ou aos sírios. Eber é o
título ancestral dos progênitos dos he­
breus.
Balaão cumpriu a palavra de Deus
para ele. O único registro de qualquer
pecado vem do incidente da jumenta de
Balaão. Registros posteriores indicam
que ele tinha aceito o pagamento da
iniqüidade.17
Ê difícilcorrelacionartodosos elemen­
tos discordantes no registro. Os oráculos
“foram-lhe atribuídos a partir de uma
data tão cedo quanto o décimo segundo
século, e... não há nenhum motivo para
não serem autênticos”.18
O compilador da narrativa permane­
ceu indiferente a qualquer estimativa re­
ferente ao caráter de Balaão. O que era
central era apreservação destes oráculos.
Neles havia modos diferentes de se obter
uma mensagem de Deus. Mas a mensa­
gem era definida. Yahweh dirigia seu
povo à Terra Prometida, e nenhum cos­
tume ou poder podia impedir a sua von­
tade. Também é importante notar que
esta revelação concernente ao seu propó­
sito para com o seu povo foi feita através
de alguém que não era israelita e que se
conhecia como adivinho. O poder e a
revelação de Yahweh não eram confina­
dos a Israel ou aos conceitos tradicionais
desIsrael.
17II Pedro 2:15,16; Judas 11; Filo, em DeVit. Mos. i, 48;
Josefo, Antig. IV, 6.
18W. F. Albright, op. cit., p. 233.
180
2. OPerigoReligioso de Alianças Pagãs
(25:1-18)
Básica para este capítulo é uma com­
preensão da relação única existente entre
o povo e o seu Deus. Havia uma soli­
dariedade por dentro do parentesco fa­
miliar. Cada pessoa era conforme à ima­
gem de Deus, e era, assim, membro da
família de Deus. Mas era também con­
forme à imagem dos pais, e assim era,
simultaneamente, membro da família
humana. Estes dois aspectos eram inse­
paráveis na consciência hebraica. Há
dois exemplos, neste capítulo, que mos­
tram a santidade em que setinha osvotos
familiares dentro do contexto espiritual.
(1) IsraelitasNão-IdentificadosSeEnvol­
vemcomMulheresMoabitas(25:1-5)
1 Ora, Israel demorava-se em Sitim, e o
povo começou a prostituir-se com as filhas
de Moabe, 2poiselas convidaram o povo aos
sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu,
e inclinou-se aos seus deuses. 3 Porquanto
Israel sejuntou a Baal-Peor, a ira do Senhor
acendeu-se contra ele. 4 Disse, pois, o Se­
nhor a Moisés: Toma todos os cabeças do
povo, e enforca-os ao Senhor diante do sol,
para que a grande ira do Senhor se retire de
Israel. 5 Então Moisés disse aos juizes de
Israel: Mate cada um os seus homens que se
juntaram a Baal-Peor.
Israel demorava-se (ingl., habitava)
emSitim, que fica a leste do Rio Jordão e
uns 16quilômetros a leste de Jericó. Mu­
lheres moabitas seduziram homens israe­
litas. Os homens envolviam-se não ape­
nas em relações sexuais com as mulhe­
res pagãs, mas também cediam ao con­
vite para participarem do culto a deuses
moabitas. Os filhos de Yahweh acompa­
nhavam as filhas dos deuses moabitas
nos sacrifícios e nas refeições religiosas.
Até se prostravam perante os deuses pa­
gãos.
Ba‘al significa mestre, e pode referir-
se a marido, proprietário ou deus. O ter­
mo é, muitas vezes, o nome do deus da
religião estabelecida de Canaã. Embora
algumas práticas fossem semelhantes às
dos hebreus, os profetas deixaram claro
que o culto a Baal era totalmente incom­
patível com o culto a Yahweh. O culto a
Baal (cf. Os. 2:5-13) implicava relações
sexuais com as prostitutas sagradas dos
templos pagãos e a participação da re­
feiçãoem que se servia a carne que havia
sidooferecidaem sacrifício.
Baal-Peor era um deus cananeu da
fertilidade. O povo sentia-se dependente
de um deus, para que a fertilidade das
terras fornecesse a produção agrícola pa­
ra a comida, a fertilidade dos animais
providenciasse animais para o trabalho,
para a comida e para os sacrifícios, e a
fertilidade dafamíliahumana produzisse
filhos como herança e herdeiros. Os ca-
naneusrecorriam a Baal como a fonte de
todas essas bênçãos.
O castigo era: Toma todos os cabeças
do povo, e enforca-os ao Senhor diante
do sol. A referência aos cabeças do povo
(ingl., “chefes”) surge do conceito de
solidariedade familiar no sentido de que
os líderes eram evidências do comporta­
mento do povo perante Deus e eram res­
ponsáveis por esse comportamento. O
método de punição não está claro. A
palavra traduzida enforca é usada ra­
ras vezes no Antigo Testamento. É usa­
da em relação à coxa de Jacó (que foi
deslocada —ficando dependurada, Gên.
32:25) ao afastamento de indivíduos
(Jer. 6:8; Ez. 23:17). O comentarista
judaico Rashi escreveu que o castigo
pela idolatria era por apedrejamento.
Depois do apedrejamento, os corpos
eram dependurados. De II Crôn. 25:12,
tomamos conhecimento de um castigo
onde ospunidos foram atirados penhasco
abaixo. De todas as indicações, a inter­
pretação mais provável é que os líderes
foram atirados de cima de um penhasco e
deixadosexpostos ao sol.
(2) Zinri, o Simeonita, Casa-se com Coz-
bi, umaMidianita(25:6-15)
6 E eis que veio um homem dos filhos de
Israel, e trouxe a seus irmãos uma midiani-
181
ta à vista de Moisés e à vista de toda a
congregação dos filhos de Israel, enquanto
estavam chorando à porta da tenda da re­
velação. 7Vendoisso, Finéias, filho de Elea-
zar, filho do sacerdote Arão, levantou-se do
meio da congregação, e tomou na mão uma
lãnça; 8 foi após o israelita, e entrando na
sua tenda, os atravessou a ambos, ao is­
raelita e à mulher, pelo ventre. Então a
praga cessou de sobre os filhos de Israel.
9 Ora, os que morreram daquela praga fo­
ram vinte e quatro mil. 10 Então disse o
Senhor a Moisés: 11 Finéias, filho de Elea-
zar, filho do sacerdote Arão, desviou a mi­
nha ira de sobre os filhos de Israel, pois foi
zeloso com o meu zelo no meio deles, de
modo que no meu zelo não consumi os filhos
de Israel. 12 Portanto dize: Eis que lhe dou
omeu pacto de paz, 13e será para ele e para
sua descendência depoisdele, opacto de um
sacerdócio perpétuo; porquanto foi zeloso
pelo seu Deus, e fez expiação pelos filhos de
Israel. 14 O nome do israelita que foi morto
com a midianita era Zinri, filho de Saiu,
príncipe duma casa paterna entre os simeo-
nitas. 15 E o nome da mulher midianita
morta era Cozbi, filha de Zur; o qual era
cabeça do povo duma casa paterna em
Midiã.
Noparágrafo anterior, opovo de Israel
ia ao culto de um deus pagão. Neste pa­
rágrafo, temos o registro de um israelita
que trouxe uma midianita para perto da
porta da tenda da revelação. Os dois
registros envolviam atividade sexual e o
contexto do culto. A referência à tenda
darevelação põe a história num contexto
religioso. Continua o ensino concernente
aoperigo de adulterar a família de Deus.
O mal era tamanho que 24 mil morre­
ramdaquelapraga.
Finéias achou o casal na sua tenda
(ingl., “no quarto interior”, kubbah).
O termo não ocorre em qualquer outro
lugar no Antigo Testamento. Entre os
beduínos, era uma “pequena tenda sa­
grada, de couro vermelho, na qual todos
os ídolos de pedra pertencentes à tribo
eram carregados” (de Vaux, p. 296,297).
Mulheres assistiam ao kubbah (cf. Êx.
38:8). No versículo 8, kubbah pode dizer
respeito à tenda da revelação ou a algu­
ma parte interior dela. Finéias puniu o
casal, atravessando os corpos de ambos
com sua lança. Dá-se a Finéias umpacto
de um sacerdócio perpétuo, pela sua
ação zelosa em preservar a pureza da
relação entre o povo e Deus. A explica­
ção do ato foi que foi zeloso pelo seu
Deus, e fez expiação pelos filhos de Is­
rael. Este sacerdócio era constituído da
linhagem de Arão como agora sendo tra­
çada através de Finéias. Finéias era o
filho de Eleazar, o filho sobrevivente
maisvelho de Arão. Era através dele que
os zadoquitas reivindicavam seu sacer­
dócio(I Crôn. 24:3).
(3) Incitação à Violência Contra Midiã
(25:16-18)
16Disse mais o Senhor a Moisés: 17 Afligi
vós os midianitas e feri-os; 13 porque eles
vosafligiram a vós com as suas ciladas com
que vos enganaram no caso de Peor, e no
caso de Cozbi, sua irmã, filha do príncipe de
Midiã, a qual foi morta no dia da praga no
caso de Peor.
Yahweh ordenou que Moisés mostras­
se inimizade a Midiã, porque tinha en­
ganado Israel em relação a Peor (o lugar
onde Israel pecou contra Deus) e com
relação ao assunto de Cozbi (a mulher
que foi o instrumento na contaminação
da família simeonita). As suas ciladas
e vos enganaram são da mesma palavra
básica, e indicam uma maquinação as­
tuta ouuma astúcia desleal.
3. Um CensoAdicional(26:1-65)
(1) AForçaMilitar(26:1-51)
1 Depois daquela praga disse o Senhor a
Moisése a Eleazar, filho do sacerdote Arão:
2 Tomai a soma de toda a congregação dos
filhos de Israel, da idade de vinte anos para
cima, segundo as casas de seus pais, todos
os que em Israel podem sair à guerra.
3 Falaram-lhes, pois, Moisés e Eleazar o
sacerdote, nas planícies de Moabe, junto ao
Jordão, na altura de Jericó, dizendo: 4 Con­
tai opovoda idade de vinte anos para cima;
como o Senhor ordenara a Moisés e aos
filhos de Israel que saíram da terra do Egi­
to. 5 Rúben, o primogênito de Israel; os
filhos de Rúben: de Hanoque, a família dos
hanoquitas; de Palu, a família dos paluítas;
182
6 de Hezrom, a família dos hezronitas; de
Carmi, a família dos carmitas. 7 Estas são
as famílias dos rubenitas; os que foram
deles contados eram quarenta e três mil
setecentos e trinta. 8 E o filho de Palu:
Eliabe. 9 Os filhos de Eliabe: Nemuel, Data
e Abirão. Estes são aqueles Datã e Abirão
que foram chamados da congregaçaò, os
quais contenderam contra Moisés e contra
Arão na companhia de Corá, quando con­
tenderam contra oSenhor, 10e a terra abriu
a boca, e os tragou juntamente com Corá,
quando pereceu aquela companhia; quando
o fogo devorou duzentos e cinqüenta ho­
mens, os quais serviram de advertência.
11Todavia os filhos de Corá não morreram.
12 Os filhos de Simeão, segundo as suas
famílias: de Nemuel, a família dos nemueli-
tas; de Jamim, a família dos jaminitas; de
Jaquim, a família dos jaquinitas; 13 de Ze-
rá, a família dos zeraítas; de Saul, a família
dos saulitas. 14 Estas são as famílias dos
simeonitas, vinte e dois mil e duzentos.
15Os filhos de Gade, segundo as suas famí­
lias: de Zefom, a família dos zefonitas; de
Hagui, a família dos haguitas; de Suni, a
famíliados sunitas; 16deOzni, a família dos
oznitas; de Eri, a família dos eritas; 17 de
Arode, a família dos aroditas; de Areli, a
família dos arelitas. 18Estas são as famílias
dos filhos de Gade, segundo os que foram
deles contados, quarenta mil e quinhentos.
19 Os filhos de Judá: Er e Onã; mas Er e
Onã morreram na terra de Canaã. 20 Assim
os filhos de Judá, segundo as suas famílias,
eram: de Selá, a família dos selanitas; de
Pérez, a família dos perezitas; de Zerá, a
família dos zeraítas. 21 E os filhos de Pérez
eram: de Hezrom, a família dos hezronitas;
de Hamul, a família dos hamulitas. 22Estas
são as famílias de Judá, segundo os que
foram deles contados, setenta e seis mil e
quinhentos. 23Os filhos de Issacar, segundo
as suas famílias: de Tola, a família dos
tolaítas; de Puva, a família dos puvitas;
24 de Jasube, a família dos jasubitas; de
Sinrom, a família dos sinronitas. 25 Estas
são as famílias de Issacar, segundo os que
foram deles contados, sessenta e quatro mil
e trezentos. 26 Os filhos de Zebulom, segun­
doas suas famílias: de Serede, a família dos
sereditas; de Elom, a família dos elonitas;
de Jaleel, a família dos jaleelitas. 27 Estas
são as famílias dos zebulonitas, segundo os
que foram deles contados, sessenta mil e
quinhentos. 28Os filhos de José, segundo as
suas famílias: Manasses e Efraim. 29 Os fi­
lhos de Manassés: de Maquir, a família dos
maquiritas; e Maquir gerou a Gileade; de
Gileade, a família dos gileaditas. 30 Estes
são os filhos de Gileade: de Iezer, a família
dos iezritas; de Heleque, a família dos hele-
quitas; 31de Asriel, a família dos asrielitas;
de Siquém, a família dos siquemitas; 32e de
Semida, a família dos semidaitas; e de He-
fer, a família dos heferitas. 33 Ora, Zelofea-
de, filho de Hèfer, não tinha filhos, senão
filhas; e as filhas de Zelofeade chamavam-
se Macia, Noa, Hogla, Milca e Tirza. 34 Es­
tas são as famílias de Manassés; os que
foram deles contados, eram cinqüenta e dois
mil e setecentos. 35 Estes são os filhos de
Efraim, segundo as suas famílias: de Su-
tela, a família dos sutelaítas; de Bequer, a
família dos bequeritas; de Taã, a família
dos taanitas. 36 E estes são os filhos de
Sutela: de Erã, a família dos eranitas.
37 Estas são as famílias dos filhos de Efra­
im, segundo os que foram deles contados,
trinta e dois mil e quinhentos. Estes são os
filhos de José, segundo as suas famílias.
38 Os filhos de Benjamim, segundo as suas
famílias: de Belá, a família dos belaítas; de
Asbel, a família dos asbelitas; de Afrão, a
família dos aframitas; 39de Sefufã, a famí­
lia dos sufamitas, de Hufão, a família dos
hufamitas. 40 E os filhos de Belá eram Arde
e Naamã: de Arde a família dos arditas;
de Naamã, a família dos naamitas. 41Estes
são os filhos de Benjamim, segundo as suas
famílias; os queforam deles contados, eram
quarenta e cinco mil e seiscentos. 42 Estes
são os filhos de Dã, segundo as suas famí­
lias: de Suão a família dos suamitas. Es­
tas são as famílias de Dã, segundo as suas
famílias. 43 Todas as famílias dos suami­
tas, segundo os que foram deles contados,
eram sessenta e quatro mil e quatrocentos.
44 Os filhos de Aser, segundo as suas famí­
lias: de Imná, a família dos imnitas; delsvi,
a família dos isvitas; de Berias, a família
dos beritas. 45 Dos filhos de Berias: de
Heber, a família dosheberitas; de Malquiel,
a família dos malquielitas. 46 E a filha de
Aser chamava-se Sera. 47 Estas são as fa­
mílias dos filhos de Aser, segundo os que
foram deles contados, cinqüenta e três mil e
quatrocentos. 48 Os filhos de Naftali, segun­
doas suas famílias: de Jazeel, a família dos
jazeelitas; de Guni, a família dos gunitas;
49 de Jezer, a família dos jezeritas; de Si-
lém, a família dos silemitas. 50Estas são as
famílias de Naftali, segundo as suas famí­
lias; os que foram deles contados, eram
quarenta e cinco mil e quatrocentos. 51 Es­
tes são os que foram contados dos filhos de
Israel, seiscentos e um mil setecentos e
trinta.
O primeiro censo foi realizado no co-
183
meçodasperegrinações no deserto, sob a
direção de Moisés e Arão. Este censo
adicional foi feito no fim das peregrina­
ções, porMoisés e Eleazar. A finalidade,
para determinar quantos podem sair à
guerra, é a mesma que em 1:3. Além do
motivomilitar, para quefosserealizadoo
censo, ele também serviu para a divisão
da terra possuída.
Sua comparação com o censo do capí­
tulo 1mostra que algumas tribos haviam
diminuído e outras aumentado. O censo
mostra diminuições nas seguintes tribos:
de Rúben, 2.770; de Simeão, 37.100; de
Gade, 5.150; de Efraim, 8.000; de Nafta-
li, 8.000. Nestas cinco tribos houve um
declínio de 61.020. Simeão, a terceira em
ordem de tamanho no primeiro censo,
perdeu 37.000 e tomou-se a menor das
doze.
O censo mostra um aumento nas se­
guintes tribos: de Judá, 1.900; de Issa-
car, 9.900; de Zebulom, 3.100; de Ma-
nassés, 20.500; de Benjamim, 10.200; de
Dã, 1.700; e de Aser, 11.900. Estas sete
tribos aumentaram um montante de
59.200. Os aumentos mais surpreenden­
tes foram os de Manassés, Aser e Ben­
jamim. Não se oferece nenhuma expli­
cação quanto ao motivo por que algumas
tribos aumentaram tanto ou por que
outras declinaram tão rapidamente.
Houve uma perda global, no censo entre
o começo das peregrinações e o fim de­
las, de 1.820. Nos dois censos, há seis
tribos de mais de 50.000 e seis de menos
de50.000. Porém aidentidade delashavia
mudado.
Atribo deJudá manteve superioridade
numérica(de 11.900) sobre Dã, em com­
paração com o primeiro censo (12.100).
No panorama global da história bíblica,
é a tribo de Judá que alcança a maior
importância.
O número total de homens da idade de
serviço militar mostra um declínio de
apenas 1.820, com o cômputo final de
601.730.
(2) OPrincípio das Heranças (26:52-56)
52Disse mais o Senhor a Moisés: 53 A es­
tes se repartirá a terra em herança segundo
o número dos nomes. 54 À tribo de muitos
darás herança maior, e à de poucos darás
herança menor; a cada qual se dará a sua
herança segundo os que foram deles conta­
dos. 55 Todavia a terra se repartirá por
sortes; segundo os nomes das tribos de seus
pais a herdarão. 56 Segundo sair a sorte, se
repartirá a herança deles entre as tribos de
muitos e as de poucos.
Aqui há uma das vantagens do censo.
Depois da conquista da terra, o proble­
ma quanto ao território atribuído a cada
tribo surgiria. De maneira que, com base
nas cifras do censo, as tribos maiores
receberiam a herança maior, e cada tribo
receberia terras segundo os que foram
deles contados. O tamanho da herança
seria conforme aos números tribais. A
posiçãogeográfica seriaporsortes.
(3) OsLevitas(26:57-62)
57 Também estes são os que foram conta­
dos dos levitas, segundo as suas famílias:
de Gérson, a família dos gersonitas; de Coa-
te, a família dos coatitas; de Merári, a
família dos meraritas. 58Estas são as famí­
lias deLevi: a família dos libnitas, a família
dos hebronitas, a família dos malitas, a
família dos musitas, a família dos coraítas.
Ora, Coate, geroua Anrão. 59E a mulher de
Anrão chamava-se Joquebede, filha,de Levi,
a qual nasceu a Levi no Egito; e de An­
rão ela teve Arão e Moisés, e Miriã, ir­
mã deles. 60 E a Arão nasceram Nada-
be e Abiú, Eleazar« Itamar. 61 Mas Na-
dabe e Abiú morreram quando oferece­
ram fogo estranho perante o Senhor. 62E os
que foram deles contados eram vinte e três
mil, todos os homens da idade de um mês
para cima; porque não foram contados en­
tre osfilhosde Israel, porquanto não lhes foi
dada herança entre osfilhos de Israel.
A linhagem levítica é a base dos três
filhos de Levi (Gérson, Coate e Merári).
Destes três filhos existem seis linhas fa­
miliares, que evoluem. Os libnitas, de
Iibni, filho de Gérson(não há menção de
Simei, também um filho de Gérson).
Os hebronitas, de Hebrom, filho de Coa-
184
te (não há menção de Uziel, também
filho de Coate). Mali e Musi, filhos de
Merári. A família dos coraítas integra o
outro filho de Coate. Coate teve quatro
filhos: Anrão, Izar, Hebrom e Uziel
(cf. 3:19,27). Por algum motivo, a linha é
chamada pelo nome de Corá, que foi
filho de Izar (nenhuma menção se faz,
nesta ocasião, dos irmãos de Corá, Nefe-
gue e Zicri). A sexta família é a de
Anrão.
A finalidade principal desta seção é
explicar a linhagem levítica dos dois fi­
lhos maisjovens de Anrão, com uma re­
cordação da morte dos dois filhos mais
velhos dele.
O número total de levitas acima da
idade de um mês era de 23.000, que
constituíaum aumento de 1.000. Um as­
pecto da estrutura mental das línguas
semíticas pode ser discernido de suas lis­
tas de números. Estas cifras se dão em
números redondos. As cifras dos censos
de famílias ou de cidades raras vezes
chegam a montantes exatosem dezenas e
centenas, e muito menos em milhares,
em qualquer ocasião determinada ou
quando comparadas às cifras abrangidas
por um período de 40 anos. Alguém que
interprete opensamento e a expressão do
hebraico há de reconhecer que o uso
semítico-hebraico dos números pode ser
geral, enão específico.
Estes dois censos são postos no contex­
to da preservação do culto a Yahweh da
forma mais pura possível. Registrou-se
menção daqueles que pecaram e cuja
entrada naTerra Prometidanão foi, por­
tanto, permitida (Datã e Abirão, 26:9,
10; NadabeeAbiú, 26:61).
(4) CalebeeJosuéSão os Ünicos a Cons­
taremAmbososCensos(26:63-65)
63 Esses são os que foram contados por
Moisés e Eleazar, o sacerdote, que conta­
ram os filhos de Israel nas planícies de
Moabe,junto ao Jordão, na altura de Jericó.
64 Entre esses, porém, não se achava ne­
nhum daqueles que tinham sido contados
por Moisés e Arão, o sacerdote, quando con­
taram osfilhosde Israelno deserto de Sinai.
65 Porque o Senhor dissera deles: Certa­
mente morrerão no deserto; pelo que ne­
nhum deles ficou, senão Calebe, filho de
Jefoné, e Josué, filhode Num.
0 censo realizado no fim das peregri­
nações no deserto havia terminado, e so­
mente os nomes de Calebe e Josué cons­
tavam nos dois censos. A sentença de
Deus tinha sido efetivada. Os murmura-
dores que não queriam levantar-se e to­
mar a terra em seguida à viagem de
investigaçãojá haviam morrido. A morte
foia conseqüência da infidelidade.
4. NovasLeisdeHeranças(27:1-11)
1 Então vieram as filhas de Zelofeade,
filho de Hefer, filho de Gileade, filho de Ma-
quir, filho de Manassés, das famílias de
Manassés, filho de José; e os nomes delas
são estes: Macia, Noa, Hogla, Milca e Tir-
za; 2 apresentaram-se diante de Moisés, e
de Eleazar, o sacerdote, e diante dos prín­
cipes e de toda a congregação à porta da
tenda da revelação, dizendo: 3 Nosso pai
morreu no deserto, e não se achou na com­
panhia daqueles que se ajuntaram contra o
Senhor, isto é, na companhia de Corá; po­
rém morreu no seu próprio pecado, e não
teve filhos. 4 Por que se tiraria o nome de
nosso pai dentre a sua família, por não ter
tido um filho? Dai-nos possessão entre os
irmãos de nosso pai. 5 Moisés, pois, levou a
causa delas perante o Senhor. 6 Então disse
o Senhor a Moisés; 7 O que as filhas de
Zelofeade falam é justo; certamente lhes
darás possessão de herança entre os irmãos
de seu pai; a herança de seu pai farás
passar a elas. 8E dirás aos filhos de Israel:
Se morrer um homem, e não tiver filho,
fareis passar a sua herança à sua filha.
9 E, se não tiver filha, dareis a sua herança
a seus irmãos. 10 Mas, se não tiver irmãos,
dareis a sua herança aos irmãos de seu pai.
11 Se também seu pai não tiver irmãos,
então dareis a sua herança a seu parente
mais chegado dentre a sua família, para que
a possua; isto será pafa os filhos de Israel
estatuto de direito, comoo Senhor ordenou a
Moisés.
A aplicação dos princípios do culto a
Yahweh determinariam que ninguém
fosse excluído do direito da participação
na vida da nação e em sua herança. Po­
185
rém, uma das famílias da tribo de Ma­
nassestemia que seria impedida de qual­
querherança. Zelofeade não tinha come­
tido nenhum pecado maior que os ante­
passados dos outros, como indicado pelo
versículo3. Noentanto, morrera sem dei­
xar filhos para perpetuar o seu nome.
Teve cinco filhas. Essas cinco filhas da
tribo de Manassés vieram a Moisés e
Eleazar, para perguntar-lhes por que seu
pai não fazia jus a qualquer herança so­
mente pelo motivo de não terem nascido
filhoshomens na família.
A lei de Israel era um código de prin­
cípios em crescimento, que se desenvol­
via dentro do contexto da situação mu­
tável da comunidade. A lei antiga consi­
derava que imóveis podiam ser possuí­
dos somente por homens. Contudo, o
pertencer-se à comunidade de Israel sig­
nificava que a herança de uma família
não podia escapar da possessão dessa
família. Assim, nos versos 8-11, a lei é
explicada em relação a diversas circuns­
tâncias, até quanto a outras que não a
que diziarespeito às cinco filhas de Zelo­
feade. Estes princípios assegurariam
uma continuação da possessão de terras
dentro deuma família específica (cf. Jos.
17:1-6).
5. Um Novo Líder, Josué, Ê Designado
(27:12-23)
12 Depois disse o Senhor a Moisés: Sobe a
este monte de Abarim, e vê a terra que
tenho dado aos filhosde Israel. 13E, tendo-a
visto, serás tu também recolhido ao teu
povo, assim como o foi teu irmão Arão.
14 Porquanto no deserto de Zim, na conten­
da da congregação, fostes rebeldes à minha
palavra, não me santificando diante dos
seusolhos, no tocante às águas (estas são as
águas de Meribá de Cades, no deserto de
Zim). 15 Respondeu Moisés ao Senhor:
16QueoSenhor, Deusdos espíritos de toda a
carne, ponha um homem sobre a congrega­
ção, 17oqual saia diante deles e entre diante
deles, e os faça sair e os fáça entrar; para
que a congregação do Senhor não seja como
ovelhas que não têm pastor. 18Então disse o
Senhor a Moisés: Toma a Josué, filho de
Num, homem em quem há o Espírito, e
impõe-lhe a mão; 19 e apresenta-o perante
Eleazar, o sacerdote, e perante toda a con­
gregação, e dá-lhe a comissão à vista deles;
20 e sobre ele porás da tua glória, para que
lhe obedeça toda a congregação dos filhos de
Israel. 21 Ele, pois, se apresentará perante
Eleazar, o sacerdote, o qual por ele inquiri­
rá segundo o juízo do Urim, perante o Se­
nhor; segundo a ordem de Eleazar sairão, e
segundo a ordem de Eleazar entrarão, ele e
todos os filhos de Israel, isto é, toda a con­
gregação. 22 Então Moisés fez como o Se­
nhor lhe ordenara: tomou a Josué, apre­
sentou-o perante Eleazar, o sacerdote, e
perante toda a congregação, 23impôs-lhe as
mãos, e lhe deu a comissão; como o Senhor
falara por intermédio de Moisés.
Foipermitido a Moisés que visse ater­
ra que tenho dado aos filhos de Israel.
Ele foienviado ao Montede Abarim, que
échamado de Monte Nebo(Deut. 32:49),
localizado a leste do Rio Jordão. Abarim
é um nome dado ao território como visto
da Palestina para o oeste do Jordão (sig­
nificando “as regiões além” do rio). Por
ver a terra que seu povo possuiria, Moi­
sés saberia que o tinha trazido ao fim de
sua viagem. Ele havia de morrer como
tinha morrido Arão (recolhido ao teu
povo), porque também tinha pecado. A
relação correta com o Senhor requeria
que o Senhor fosse santificado aos olhos
da congregação. A história de Balaão e
Balaque ensina que o Senhor deve ser
santificado aosolhos de todos oshomens.
Este mesmo registro reiterou a importân­
cia da exclusiva exaltação do Senhor. Os
eventos são narrados em 20:1-13 (cf. Êx.
17:5-7).
Ao enfrentar a morte, Moisés orou a
Deus que designasse um novo líder, di­
zendo que saia diante de seu povo e o
façaentrarna suapossessão.
Josué, filho de Num, fora um dos 12
espias e tinha feito a recomendação que
opovosubisse imediatamente e possuísse
a tèrra. Agora, depois dos anos interve­
nientes deperegrinações, édescrito como
homem em quem há o Espírito (ingl.,
espírito). Josué tinha o Espírito antes da
imposição de mãos. Deus ordenou a Moi­
sés que lhe impusesse as mãos. Não era
186
esta uma congregação ou investidura,
mas um ato solene, pelo qual Moisés
nomeou Josué. Fazia parte da designa­
ção, precisamente como os levitas impu­
nham as suas mãos sobre os animais e
assim se identificavam com o seu sacrifí­
cio (8:12). Moisés impôs as suas mãos
sobre Josué aos olhos de Eleazar e do
povo e mostrou-lhes que se identificava
com ohomem ecom a sua tarefa. O povo
agora havia de aceitar Josué como seu
novolíder, porque Moisés tinha-lhe dado
da sua glória (ingl., uma porção de sua
autoridade).
Josué não sucedeu a Moisés com a
mesma autoridade absoluta. Havia uma
ligeira diferençaentre a atuação de Josué
e a de Moisés. Aos olhos dos hebreus,
Moisés era um legislador e líder único.
Nenhum líderfuturo teria a mesma auto­
ridade. Ordenou-se ao sacerdote Eleazar
que inquirisse segundo ojuízo de Urim.
Esta sorte sagrada era um dos métodos
sacerdotais de obter uma resposta de
Deus. Para obter uma decisão divina,
uma pergunta seria formulada, de uma
maneira muito exata, de modo que a
reação podia ser avaliada positiva ou
negativamente.
O Urim ocorre sozinho apenas duas
vezes (27:21 e I Sam. 28:6). É usado
com Tumim cinco vezes (Êx. 28:30, Lev.
8:8, Deut. 33:8, Esdras 2:63 e Neem.
7:65). O Urim eTumim eram guardados
numa pequena bolsa sagrada, “carrega­
da no peito do sumo sacerdote”.19 Esta
bolsa (peitilho) sagrada era um bolso
quadrado delinho, e era ligada ao éfode.
Em alguns textos, é possível que o termo
éfodesejausado como sinônimo de Urim
e Tumim. Não se pode achar uma des­
crição específica do Urim e Tumim. A
julgar pelo seuuso, eram pequenas peças
metálicas e/ou pedras preciosas. Tal­
vez tenham sido objetos metálicos ou
gemas detamanho e feitio idênticos, mas
19 Francis Brown, S. R. Drivere C. A. Briggs, Hebrew and
English Lexicon of the Old Testament (Oxford: Claren­
don, 1952), p. 365.
de cores diferentes ou com algum sinal
gravado, queos diferenciava. Eram colo­
cados no bolso. Ou se tirava o Urim e
Tumim do peitilho pela mão do sacer­
dote, ou por ele lançar sortes. Um desses
objetos representava a resposta positiva e
o outro a negativa, e seriam assim in­
terpretados pelosacerdote.
Moisés tomou a precaução de dar a
comissão a Josué diante de Eleazar e da
congregação. Elaera um pacto etambém
uma comissão. As ordens ou a vontade
de Yahweh têm de ser mantidas e exe­
cutadas de maneira apropriada. Era im­
portante que o povo estivesse envolvido
na liderança de Josué. A obra de Deus
que tinha sido empreendida por Moisés
não seria terminada por Moisés. Josué
havia de levar opovo à Terra da Promis­
são. A Terra da Promissão implicava
muito mais do que a mera ocupação de
território. A terra era apenas uma parte
da complexidade da promessa. Moisés
deu ao povo as diretrizes concernentes às
ofertas sob situações diversas, ou seja,
relacionadas com a observância do culto
aoDeus da promessa.
6. AsInstruções Concernentes ao Calen­
dárioCultual(28:1-29:39)
(1) Introdução(28:1,2)
1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Ordena
aos filhos de Israel, e dize-lhes: A minha
oferta, o alimento para as minhas ofertas
queimadas de cheiro suave para mim, tereis
cuidado para ma oferecer aos seus tempos
determinados.
Os dois capítulos seguintes revestem-
se da natureza de uma explicação de um
“calendário eclesiástico”. Deram-se es­
tas instruções para assegurar que as reu­
niões públicas não se degenerassem em
rituais rotineiros nem em ocasiões de
festança pública. Quando Josué trouxe o
povopara gozar de sua herança, o enlevo
e a alegria de possuir uma pátria podia
levá-los a um sentimento de terem alcan­
çado ou de terem concluído os seus pro-
187
pôsitos. Estas diretrizes concernentes ao
culto e aos votos visaram manter sempre
diante do povo o senhorio do Deus que o
trouxe da escravidão à liberdade e da
pobreza à possessão.
Um estudoem profundidade da língua
hebraica revela uma estrutura mental de
dimensões concretas. O povo semítico
não usava expressões filosóficas. Suas
comunicações não eram um exercício da
luta com as idéias. Limitavam-se os he­
breus principalmente a termos antropo­
mórficos e antropopáticos. As verdades
mentais e espirituais eram apresentadas
na roupagem de assuntos explicativos.
Portanto, é difícil descobrir quantas des­
tas expressões hão de ser tomadas como
puramente literais e quantas são pura­
mente figuradas. Temos sempre de pro­
curar entender a verdade contida em
cada narração física ou natural. Estes
sacrifícios em si não são o fim ou alvo,
mas, sim, averdade na prática.
Moisés ordena aos filhos de Israel...
tereis cuidado. Notar o realce produzido
pelas repetições do pronome pessoal em
a minhaoferta, as minhas ofertas e chei­
ro suave para mim. Todas estas expres­
sões remontam a uma época quando se
pensava que Deus comesse ebebesse com
o seu povo durante as refeições sacrifi­
cais. Nestes atos havia uma comunhão
pactuai com Deus. Deus era honrado,
respeitado eobedecido. Foi este o motivo
por que Moisés relembrou o povo destas
ofertas. O povo deveria manter o culto a
Deus contínua eapropriadamente.
(2) AOfertaDiária(28:3-8)
3 Também lhes dirás: Esta é a oferta
queimada que oferecereis ao Senhor; dois
cordeiros de um ano, sem defeito, cada dia,
em contínuo holocausto. 4 Um cordeiro ofe­
recerás pela manhã, e o outro à tardinha,
5 juntamente com a décima parte de uma
efa de flor de farinha em oferta de cereais,
misturada com a quarta parte de um him de
azeite batido. 6Este é o holocausto contínuo,
instituído no monte Sinai.em cheiro suave,
oferta queimada ao Senhor. 7 A oferta de
libação domesmo será a quarta parte de um
him para um cordeiro; no lugar santo ofere­
cerás a libação de bebida forte ao Senhor.
8 E o outro cordeiro, oferecê-lo-ás â tardi­
nha; com as ofertas de cereais e de libação,
como o da manhã, o oferecerás, oferta quei­
mada de cheiro suave ao Senhor.
A oferta queimada é uma só palavra
no hebraico e sabe-se que é um meio de
dar continuidade à relação correta com
Deus. O sacrifício tinha que ser sem
defeito, assegurando que somente o me­
lhor seria aceitávelpara se colocar diante
de semelhante Deus. Esta apresentação
domelhor, nesta relaçãocom Deus, tam­
bém deviaser contínua, pois era para ser
feita cada dia, em contínuo holocausto.
Esta oportunidade de comunicação devia
ser contínua, diariamente. O versículo 4
mostra que duas vezes ao dia, ou seja,
uma vezpela manhã e a outra vez à tar­
dinha, o povo devia se lembrar da im­
portância de um relacionamento com
Deus que o tinha mantido para que
viessea serum povo. O sacrifício animal,
assim como a oferta de cereais (v. 5),
tinha que ser totalmente consumidos, a
fim de se tornarem aceitáveis a Deus.
Também, a oferta de libação (cf. Êx.
29:38-46) devia ser derramada no lugar
santo — no pátio interior. Tudo quanto
fosse levado para dentro do lugar santo
devia ser queimado ou comido lá. Talvez
tenhahavido alguma confusão quanto ao
lugar santoou o lugar santíssimo, devido
à variação da planta do templo de Salo­
mãopara a dotemploposterior.
Todos os aspectos do culto diário en­
fatizavam a dignidade e a grandeza de
Deus como constituindo o conceito ade­
quado para oseu povo. Uma total ausên­
cia de pensamento egocêntrico devia
prevalecer nessas cerimônias. A ênfase
absoluta se colocava no se fazer a vonta­
de deDeus.
(3) AOfertado Sábado(28:9,10)
9 No dia de sábado oferecerás dois cordei­
ros de um ano, sem defeito, e dois décimos
de efa de flor de farinha, misturada com
azeite, em oferta de cereais, com a sua
188
oferta de libação; 10é oholocausto de todos
os sábados, além do holocausto contínuo e a
sua oferta de libação.
Na oferta diária regular, o povo se
lembrava duas vezes ao dia da glória da
presença de Deus. Na oferta regulai-do
sábado, a ofertaera duas vezeso tanto da
oferta diária regular. Devia-se dedicar ao
dia do sábado uma importância dobra­
da. Nos tempos hodiernos, há muitíssi­
mas pessoas que acham que o culto do
“sábado” seja a única vez durante a
semana quando se precisa pensar seria­
mente em Deus. O ensino do Antigo
Testamento éque todos os dias têm oseu
lugar no serviço de Deus e que no dia do
sábado há uma concentração extra e
especial na relação comDeus.
(4) AOfertada Lua Nova(28:11-15)
11 Nos princípios dos vossos meses ofe­
recereis em holocausto ao Senhor: dois no­
vilhos, um carneiro e sete cordeiros de um
ano, sem defeito; 12e três décimos de efa de
flor de farinha, misturada com azeite, em
oferta de cereais, para cada novilho; e dois
décimos de efa de flor de farinha, misturada
com azeite, em oferta de cereais, para o
carneiro; 13 e um décimo de efa de flor de
farinha, misturada com azeite, em oferta de
cereais, para cada cordeiro; é holocausto de
cheiro suave, oferta queimada ao Senhor.
14 As ofertas de libação do mesmo serão a
metade de um him de vinho para um novi­
lho, e a terça parte de um him para um
carneiro, e a quarta parte de um him para
um cordeiro; este é o holocausto de cada
mês por todos os meses do ano. 15 Também
oferecerás ao Senhor um bode como oferta
pelo pecado; oferecer-se-á esse além do ho­
locausto contínuo, com a sua oferta de li­
bação.
Os tempos eram estabelecidos por um
calendário lunar. O reaparecimento da
lua nova era entendido como um sinal
físico da renovada presença de Deus.
Portanto, este sinal deveria ser corres­
pondido por ofertas expressivas de ado­
ração. Os escritores sacerdotais (p) men­
cionam a celebração dalua nova somente
aqui e em 10:10(Gray, p. 410). J E e D
não a mencionam absolutamente. Se lhe
faz referência como a um festival impor­
tante em épocas precoces (cf. I Sam.
20:5-34; II Reis 4:23; Is. 1:13; Os. 5:7;
Am. 8:5). Ez. 45:17 e 46:1,3,6 não re­
querem tanto para esta oferta quanto
exigeesta passagem de Números.
A ênfase sobre esta oferta é pós-exí-
lica. A celebração da lua nova foi, pro­
vavelmente, um festival popular antigo,
com associações depráticas pagãs. Isaías
47:13 talvez reflita ligações entre a lua
nova e práticas de adivinhação. Talvez
seja que estes reflexos pagãos expliquem
a pouca ênfase no material primitivo
contido no Pentateuco. A celebração tal­
vez tenha reassumido um lugar de im­
portância nos registros posteriores, em
virtude do lugar de destaque da lua nova
no estabelecimento de seu calendário e
dosritosefestas relacionadoscomela.
Eventos oucelebraçõesestrangeiras in­
corporados na experiência de Israel são
adotados, mas somente depois de adap­
tações. Existem três níveisnoprocesso de
incluir essas práticas. A prática tinha
um significado quando usada nas ceri­
mônias pagãs. Mais tarde, essa prática
deixou de ter, por mais tempo, significa­
do religioso, mas permanecia como um
costume, exercendo forte atração sobre o
povo. O terceiro nível desse rito pode ser
visto nas adaptações pelas quais o costu­
me, que tinha sidoperpetuado sem signi­
ficado definido, é reinterpretado com
valores distintos eúnicos.
Números 10:10 faz uma conexão entre
a lua nova e a oferta pacífica. A evidên­
cia renovada da presença de Deus no
aparecimento da lua nova era acompa­
nhadapela oferta quecelebrava a relação
depaz entre ohomem eoseuDeus.
(5) AFestadosPães Ázimos(28:16-25)
16 No primeiro mês, aos catorze dias do
mês, é a páscoa do Senhor. 17 E aos quinze
dias do mesmo mês haverá festa; por sete
dias se comerão pães ázimos. 18 No primei­
ro dia haverá santa convocação; nenhum
trabalho servil fareis; 19 mas oferecereis
189
oferta queimada em holocausto ao Senhor:
dois novilhos, um carneiro e sete cordeiros
deum ano, todoseles sem defeito; 30e a sua
oferta de cereais, de flor de farinha mistu­
rada com azeite; oferecereis três décimos
de efa para cada novilho, dois décimos para
o carneiro, 21 e um décimo para cada um
dossete cordeiros; 22 e em oferta pelo peca­
dooferecereis um bode, para fazer expiação
porvós. 23Essas coisas oferecereis, além do
holocausto da manhã, o qual é o holocausto
contínuo. 24 Assim, cada dia oferecereis,
por sete dias, o alimento da oferta queima­
da em cheiro suave ao Senhor; oferecer-se-á
além doholocausto contínuo com a sua ofer­
ta de libação; 25e no sétimo dia tereis santa
convocação; nenhum trabalho servil fareis.
A importância da Páscoa (v. 16) se
acha na libertação deles do Egito. Não se
faz menção de nenhum sacrifício, uma
vez que a Páscoa era uma cerimônia da
família ou do lar, e, em si, não tinha
relação com o altar do templo. Em épo­
casposteriores, a Páscoa foi integrada na
festa dos pães ázimos (Ez. 45:21,22).
Portanto, os registros históricos as men­
cionam na mesma parte do calendário
cultual. APáscoa é registrada aqui como
sendo no décimo quarto dia do primeiro
mês. A festa dos pães ázimos começava
no dia seguinte. A festa dos pães ázimos
é uma festa com duração de sete dias,
para alguns, e de oito dias, para outros,
nojudaísmo.
Nenhum trabalho servil fareis (ingl.,
trabalho pesado) significa que haveria
uma interrupção do trabalho profissio­
nal. A pessoa não empreenderia nenhum
negócio público nem em sua área de
atividade nem no ganho de seu sustento.
(6) AFestadasPrimícias(28:26-31)
26 Semelhantemente tereis santa convo­
cação no dia das primícias, quando ftòerdes
ao Senhor oferta nova de cereais na vossa
festa de semanas; nenhum trabalho servil
fareis. 27 Então oferecereis um holocausto
em cheiro suave ao Senhor: dois novilhos,
um carneiro e sete cordeiros de um ano;
28 e a sua oferta de cereais, de flor de
farinha misturada com azeite, três décimos
de efa para cada novilho, dois décimos para
o carneiro, 29 e um décimo para cada um
dos sete cordeiros; 30 e um bode para fazer
expiação por vós. 31 Além do holocausto
contínuo e a sua oferta de cereais, os ofere­
cereis, com as suas ofertas de libação; eles
serão sem defeito.
0 dia das primícias era o dia em que
elas eram trazidas para a oferta. A festa
desemanas era uma festa de um só dia,
porém, em épocas posteriores, tomou-se
numa festa de dois dias. Chama-se a
festa da colheita(Êx. 23:16), bem como a
de semanas (Êx. 34:22). Ainda mais tar­
de, o Pentecostes relacionou-se com ela,
visto que assinalou o fim dos cinqüenta
dias de celebração dacolheita.
(7) OPrimeiroDiado SétimoMês
(29:1-6)
1No sétimo mês, no primeiro dia do mês,
tereis uma santa convocação; nenhum tra­
balho servil fareis; será para vós dia de
sonido de trombetas. 2Oferecereis um holo­
causto em cheiro suave ao Senhor: um novi­
lho, um carneiro e sete cordeiros de um
ano, todos sem defeito; 3 e a sua oferta de
cereais, de flor de farinha misturada com
azeite, três décimos de efa para o novilho,
doisdécimospara ocarneiro, 4e um décimo
para cada um dos sete cordeiros; 5 e um
bode para oferta pelo pecado, para fazer
expiação por vós; 6 além do holocausto do
mês e a sua oferta de cereais, e do holocaus­
to contínuo e sua oferta de cereais, com as
suas ofertas de libação, segundo a ordenan­
ça, em cheiro suave, oferta queimada ao
Senhor.
O sétimo mês era omais importante de
todos no calendário eclesiástico. Esta
santa convocação doprimeiro dia é o que
seconhece hoje como o Rosh Hashannah
ou Ano-Novo. O nome da festaé “um dia
de fazer soar a trombeta” (v. 1). Outros
nomes para a convocação são “dia da
memória” e “dia dejuízo”. Estas ênfases
são os elementos principais observados
pelos judeus por ocasião do Ano-Novo.
Rosii Hashannah é o primeiro dia de um
período de arrependimento, com dura­
ção de dez dias. O soar da trombeta é um
dos costumes mais antigos do Rosh Ha­
shannah. O uso do antigo instrumento de
190
sopro, com o seu som penetrante, era
para despertar os cultuadores para a
necessidade de oração e de arrependi­
mento.
(8) ODécimoDia doSétimoMês ,
(29:7-11)
7 Também no dia dez deste sétimo mês
tereis santa convocação, e afligireis as vos­
sas almas; nenhum trabalho fareis; 8 mas
oferecereis um holocausto, um cheiro suave
ao Senhor: um novilho, um carneiro e sete
cordeiros de um ano, todos eles sem defeito;
9e a sua oferta de cereais, de flor de farinha
misturada com azeite, três décimos de efa
para o novilho, dois décimos para o carnei­
ro, 10 e um décimo para cada um dos sete
cordeiros; 11 e um bode para oferta pelo
pecado, além da oferta pelo pecado, com a
qual se faz expiação, e do holocausto conti­
nuo com a sua oferta de cereais e as suas
ofertas de libação.
O décimo dia do sétimo mês é conhe­
cido como o Dia da Expiação (ou Per­
dão) (Yom Kippur). Ordena-se ao povo:
“afligireis as vossas almas” (ingl., afli­
gi-vos), i.e., que jejuassem e se abstives­
sem de qualquer trabalho. Os judeus
hojeobservam oDia da Expiação como o
dia de culto mais importante. Depois de
uma refeição festiva, em plena luz do
dia, o cultuador entra na sinagoga. A
não ser por motivos de saúde ou velhice,
não setocaem comida ou bebida alguma
durante as 24 horas do Yom Kippur.
Esta convocaçãorealça a relação do indi­
víduo com Deus, pois a expiação é so­
mente pelos pecados contra Deus. A ce­
lebração do Ano-Novo, com sua ênfase
na expiação, é uma boa prática, pois
assim se começa o ano preocupado com
o agrado de Deus, antes do que com a
satisfação doeu.
(9) ODécimo QuintoDiado SétimoMês
(29:12-38)
12 Semelhantemente, aos quinze dias des­
te sétimo mês tereis santa convocação; ne­
nhum trabalho servil fareis; mas por sete
dias celebrareis festa ao Senhor. 13Oferece­
reis um holocausto em oferta queimada,
de cheiro suave ao Senhor: treze novilhos,
dois carneiros e catorze cordeiros de um
ano, todos eles sem defeito; 14e a sua oferta
de cereais, de florde farinha misturada com
azeite, três décimos de efa para cada um
dos treze novilhos, dois décimos para cada
um dos dois carneiros, 15e um décimo para
cada um dos catorze cordeiros; 16 e um
bode para oferta pelo pecado, além do ho­
locausto contínuo com a sua oferta de ce­
reais e a sua oferta de libação. 17 No segun­
do dia, doze novilhos, dois carneiros, cator­
ze cordeiros de um ano, sem defeito; 18e a
sua oferta de cereais, e as suas ofertas de
libaçãopara osnovilhos, para os carneiros e
para os cordeiros, conforme o seu número,
segundo a ordenança; 19 e um bode para
oferta pelo pecado, além do holocausto con­
tínuo com a sua oferta de cereais e as suas
ofertas de libação. 20 No terceiro dia, onze
novilhos, dois carneiros, catorze cordeiros
de um ano, sem defeito; 21e a sua oferta de
cereais, e as suas ofertas de libação para
os novilhos, para os carneiros e para os cor­
deiros, conforme o seu número, segundo a
ordenança; 22 e um bode para oferta pelo
pecado, além do holocausto contínuo com a
sua oferta de cereais e a sua oferta de liba­
ção. 23 No quarto dia, dez novilhos, dois
carneiros, catorze cordeiros de um ano, sem
defeito; 24 e a sua oferta de cereais, e as
suas ofertas de libação para os novilhos,
para os carneiros e para os cordeiros, con­
forme o seu número, segundo a ordenança;
25e um bode para oferta pelo pecado, além
do holocausto contínuo com a sua oferta de
cereais e a sua oferta de libação. 26No quin­
to dia, nove novilhos, dois carneiros, catorze
cordeirosde um ano, sem defeito; 27 e a sua
oferta de cereais, e as suas ofertas de liba­
ção para os novilhos, para os carneiros e
para os cordeiros, conforme o seu número,
segundo a ordenança; 28 e um bode para
oferta pelo pecado, além do holocausto con­
tínuo com a sua oferta de cereais e a sua
oferta de libação. 29 No sexto dia, oito novi­
lhos, dois carneiros, catorze cordeiros de
um ano, sem defeito; 30 e a sua oferta de
cereais, e as suas ofertas de libação para os
novilhos, para os carneiros e para os cor­
deiros, conforme o seu número, segundo a
ordenança; 31 e um bode para oferta pelo
pecado, além do holocausto contínuo com a
sua oferta de cereais e a sua oferta de liba­
ção. 32 No sétimo dia, sete novilhos, dois
carneiros, catorze cordeiros de um ano, sem
defeito; 33 e a sua oferta de cereais, e as
suas ofertas de libação para os novilhos,
para os carneiros e para os cordeiros, con­
forme o seu número, segundo a ordenança;
191
34e um bode para oferta pelo pecado, além
do holocausto continuo com a sua oferta de
cereais e a sua oferta de libação. 35 No oi­
tavo dia tereis assembléia solene; nenhum
trabalho servil fareis; 36 mas oferecereis
um holocausto em oferta queimada de chei­
ro suave ao Senhor; um novilho, um car­
neiro, sete cordeiros de um ano, sem defei­
to; 37 e a sua oferta de cereais, e as suas
ofertas de libação para o novilho, para o
carneiro e para oscordeiros, conforme o seu
número, segundo a ordenança; 38e um bode
para oferta pelo pecado, além do holocausto
contínuo com a sua oferta de cereais e a sua
oferta de libação.
Em Levítico 23:33-36, o décimo quin­
to diado sétimo mês é o dia da Festa dos
Tabernáculos (ou Barracas). As ofertas
do dia deste festival de oito dias eram
treze novOhos, dois carneiros, quatorze
cordeiros, com as ofertas de cereais e de
libação. Em cada dia sucessivo se dimi­
nui o número de novilhos, em um por
dia, durante os sete dias. A quantidade
das ofertas para a Festa dos Taberná­
culosexcede a para qualquer festa.
O uso de barracas, mesmo depois de se
terem radicado na Terra Prometida, foi
para relembrança de que os seus ante­
passadoshabitavam “em barracas, quan­
do Deus os trouxe para fora da terra do
Egito”. A barraca devia constituir-se
num símbolo tanto da bondade de Deus,
em tempos de pressão, como da fé que
sustinha os israelitas piedosos que en­
traram na terra. Esta festa ocorria no
tempo da seara e é também conhecida
como aFesta da Colheita.
(10) Conclusão(29:39)
39 Oferecereis essas coisas ao Senhor nas
vossas festas fixas, além dos vossos votos, e
das vossas ofertas voluntárias, tanto para os
vossos holocaustos, como para as vossas
ofertas de cereais, as vossas ofertas de liba­
ções e os vossos sacrifícios de ofertas pací­
ficas.
Esteversículo final deste capítulo indi­
ca que as ofertas do seu calendário cul­
tual deviam ser adicionais a quaisquer
ofertas de caráter voluntário ou a qual­
quervotoespecífico.
7. AsInstruçõesConcernentes aos Votos
(29:40-30:16)
Oversículo 40 da tradução portuguesa
devia, na verdade, ser o primeiro ver­
sículo do capítulo 30, pois introduz a
seção seguinte, que faz lembrar o leitor
que a religião de Yahweh, transmitida
através de Moisés, deveria ser preserva­
da. Nestaseçãoa questão dosvotos(além
das experiências de culto regularmente
programadas) recebe atenção séria.
(1) ALeidoVoto(29:40-30:2)
40Falou, pois, Moisés aos filhos de Israel,
conforme tudo o que o Senhor lhe ordenara.
1 Depois disse Moisés aos cabeças das tri­
bosdosfilhosde Israel: Isto é oque o Senhor
ordenou: 2 Quando um homem fizer voto ao
Senhor, ou jurar, ligando-se com obrigação,
não violará a sua palavra; segundo tudo o
que sair da sua boca fará.
Esta lei claramente reflete uma época
em queo governo dohomem era absoluto
dentro de sua família. A mulher estava
sujeita à decisão final do cabeça da casa.
Um homem não pode voltar atrás na
palavra de seu voto. Segundo tudo que
sair da sua boca fará. O voto se tomava
irrevogavelmente obrigatório à pessoa
quando era legalmente defensável. O ho­
mem era legalmente responsável pelos
seusvotos. Osvotosnão deviam ser feitos
levianamente nem os juramentos presta­
dos sem o devido cuidado. Eram imutá­
veiseobrigatórios, sem qualquer possibi­
lidade de demora ouvariação.
(2) OVotodeumaMulher(30:3-16)
3 Também quando uma mulher, na sua
mocidade, estando ainda na casa de seu pai,
fizer> voto ao Senhor, e com obrigação'se
ligar, 4 e seu pai souber do seu voto e da
obrigação com que se ligou, e se calar para
com ela, então todos os seus votos serão
válidos, e toda a obrigação com que se ligou
será válida. 5 Mas se seu pai lho vedar no
dia em que o souber, todos os seus votos e
192
as suas obrigações, com que se tiver ligado,
deixarão de ser válidos; e o Senhor lhe per­
doará,porquanto seupailhosvedou. 6Se ela
se casar enquanto ainda estiverem sobre
ela os seus votos ou o dito irrefletido dos
seus lábios, com que se tiver obrigado,
7e seu marido o souber e se calar para com
ela no dia em que o souber, os votos dela
serão válidos; e as obrigações com que se
ligou serão válidas. 8 Mas se seu marido
lho vedar no dia em que o souber, anulará
o voto que estiver sobre ela, como também
o dito irrefletido dos seus lábios, com que se
tiver obrigado; e o Senhor lhe perdoará.
9 No tocante ao voto de uma viúva ou de
uma repudiada, tudo com que se obrigar
ser-lhe-á válido. 10 Se ela, porém, fez voto
na casa de seu marido, ou se obrigou com
juramento, 11 e seu marido o soube e se
calou para com ela, não lho vedando, todos
os seus votos serão válidos; e toda a obri­
gação com que se ligou será válida. 12 Se,
porém, seu marido de todo lhos anulou no
dia em que os soube, deixará de ser válido
tudo quanto saiu dos lábios dela, quer no
tocante aos seus votos, quer no tocante àqui­
loa que se obrigou; seu marido lhos anulou;
e oSenhorlhe perdoará. 13Todo voto, e todo
juramento de obrigação, que ela tiver feito
para afligir a alma, seu marido pode confir­
má-lo ou pode anulá-lo. 14 Se, porém, seu
marido, de dia em dia, se calar inteiramente
para com ela, confirma todos os votos e
todas as obrigações que estiverem sobre
ela; ele lhos confirmou, porquanto se calou
para comela no dia em que os soube. 15Mas
se de todo lhos anular depois de os ter sabi­
do, ele levará sobre si a iniqüidade dela.
16 Esses são os estatutos que o Senhor or­
denou a Moisés, entre o marido e sua mu­
lher, entre o pai e sua filha, na sua moci­
dade, em casa de seu pai.
Estes votos são votos feitos ao Senhor.
Não são operações financeiras de negó­
cios. Os votos foram expressões religio­
saspositivas, pelas quais a pessoa se liga­
va ou se obrigava a dar algo. A obriga­
ção (ingl., compromisso) era uma ex­
pressão pela qual a pessoa aceitava uma
obrigação solene para se abster de algu­
macoisa.
Enquanto a mulher (v. 3-5), provavel­
mente visando-se descrever uma mulher
casadoira e ainda solteira, fosse conside­
rada menor ou não responsável pelas
suaspróprias obrigações e enquanto con­
tinuasse na casa do pai, ele seria o res­
ponsável por todas as suas obrigações.
Se a mulher fizesse um voto ou compro­
misso e o pai o ouvisse, ele era a autori­
dade legal para declará-lo nulo ou para
permiti-lo vigorar. Se ele o permitisse,
estava colocando-se a si mesmo sob obri­
gação, em última análise. Se ele expres­
sasse desaprovação logo que o ouvisse,
esse voto não seria obrigatório. Quando
uma mulher se casava, ela se tomava
legalmente ligada ao seu marido (v. 6-8,
10-15), e assim já não era a propriedade
ou responsabilidade deseu pai. A mesma
restrição concernente ao voto, ou obri­
gação, ou ponderado ou falado impensa­
damente, aplicava-se ao marido, como
era aplicável ao pai quando a mulher era
solteira e morava na casa dele. Ê aqui
indicado que o marido podia estabelecer
ou anular o voto no primeiro dia em que
tomasse conhecimento dele. Os versí­
culos 14e 15 mostram que o marido não
podia mudar de idéia em relação ao voto
em data posterior. Podia anularovotono
mesmo dia em que tomasse conhecimen­
to dele, porém, se permitisse que o voto
permanecesse inquestionado no primeiro
dia em que tomasse conhecimento dele,
essevotoseria inviolável.
O versículo 9 parece infringir a conti­
nuidade do estatuto concernente a uma
mulher casada, no lar do marido. O ver­
sículo esclarece que uma mulher que
tinha sido casada ou que não estava
convivendo com o seu marido, ou como
viúva ou divorciada, ficava comprome­
tida por seu próprio voto ou compromis­
so. Ela era a cabeça de sua própria uni­
dade social, uma vez que já não estava
sob o govemo de seu pai ou de seu
marido. Neste caso, não havia ninguém
que pudesse anular seu voto por autori­
dade superior.
8. VingançaContraosMidianitas
(31:1-54)
Este capítulo é considerado uma con­
tinuação de Números 25. As mulheres
193
midianitas tinham violado a solidarieda­
de da comunidade israelita e causado
uma praga. Esta praga trouxe a morte a
24 mil (25:9). A comunidade, especifica­
mente o líder da comunidade, que era
encarregado de seu bem-estar, não podia
permitir que uma tal subversão passasse
impune. Deus ordenou a Moisés: Vinga
osfilhosde Israel, como conseqüência da
subversãopagã.
A vingança tem de ser vista à luz da
saúde, integridade e sanidade da comu­
nidade. Não está em pauta o aspecto da
ira pessoal. Define-se a vingança, na
área do castigo retributivo, como a apli­
cação de danos físicos ou sofrimento, em
paga pelo mal causado ou por causa
outra de mágoa amarga. A vingança é
um ato de restauração da sanidade da
comunidade. Foi um ato necessário para
curar uma quebra da solidariedade da
família como um resultado da morte
humana. Os vingadores não estavam
agindoem seupróprio benefício, mas em
prol da famíliaou comunidade, como um
instrumento deDeus(cf. Gên. 9:5,6).
(1) A Seleção do Exército da Vingança
(31:1-6)
1 Disse mais oSenhora Moisés: 2Vinga os
filhos de Israel dos midianitas; depois serás
recolhido ao teu povo. 3 Falou, pois, Moisés
ao povo, dizendo: Armai homens dentre vós
para a guerra, a fim de que saiam contra
Midiã, para executarem a vingança do Se­
nhor sobre Midiã. 4 Enviareis à guerra mil
de cada tribo entre todas as tribos de Israel.
5 Assim foram entregues dos milhares de
Israel, mil de cada tribo, doze mil armados
para a peleja. 6 E Moisés mandou à guerra
esses mil de cada tribo, e com eles Finéias,
filho de Eleazar, o sacerdote, o qual levava
na mão os vasos do santuário e as trombetas
para tocarem oalarme.
O grupo de parentesco era uma força
tanto ofensiva como defensiva. Se uma
morte tivesse ocorrido às mãos ou a
pedido de uma força estrangeira, o pa­
rente tinha a responsabilidade de redimi-
la ou vingá-la, como representante da
unidade comunitária. Moisés ordenou ao
povo: Armaihomens...paraaguerra.
Comoum instrumento da comunidade
toda, era necessário que houvesse mil de
cada tribo. Estas doze companhias de­
viam ser o instrumento da vingança de
Deus. O líder em impedir o castigo ante­
rior (25:11) fora Finéias, filho de Elea­
zar, e assim foi ele novamente escolhido
para um propósito especial. Se acompa­
nhou o exército como comandante ou
capelão, não está claro. Tinha os vasos
do santuário e as trombetas para toca­
rem o alarme. Finéias foi enviado, ao
invés de Eleazar, pois o sumo sacerdote
havia de ser protegido de contato com os
mortos. Estes vasos do santuário não são
identificados. A arca não é mencionada
neste contexto. Os vasos talvez tinham
sido as vestimentas sagradas ou até ar­
mas. Ou os vasos, talvez, também in­
cluam as trombetas. Estas trombetas
eram usadas pelos sacerdotes (cf. 10:8;
IICrôn. 13:12).
(2) ABatalha(GuerraSanta)(31:7-12)
7 E pelejaram contra Midiã, como o Se­
nhor ordenara a Moisés; e mataram a todos
oshomens. 8Com eles mataram também os
reis de Midiã, a saber, Evi, Requem, Zur,
Hure Reba, cinco reis de Midiã; igualmente
mataram a espada a Balaão, filho de Beor.
9 Também os filhos de Israel levaram pre­
sas as mulheres dos midianitas e os seus
pequeninos; e despojaram-nos de todo o seu
gado, e de todos os seus rebanhos, enfim, de
todos os seus bens; 10 queimaram a fogo
todas as cidades em que eles habitavam e
todos os seus acampamentos; 11 tomaram
todo o despojo e toda a presa, tanto de
homenscomo de animais; 12e trouxeram os
cativos e a presa e o despojo a Moisés, a
Eleazar, o sacerdote, e à congregação dos
filhos de Israel, ao arraial, nas planícies de
Moabe, que estão junto do Jordão, na altura
de Jericó.
' As forças das tribos israelitas foram
bem-sucedidas. Todos os homens dos
midianitas foram mortos, e, segundo o
versículo49, nenhum israelita se perdeu.
Seis dentre asforças midianitas são iden­
194
tificados. Os cinco reis de Midiã são
nomeados juntos com Balaão, filho de
Beor. Nos capítulos 22-24, Balaão está
ligadoprincipalmente a Balaque, o rei de
Moabe. Mas 22:1-7 sugere uma aliança
entre MoabeeMidiã. Nesses capítulos se
registraotrabalho de Balaãocomo sendo
em favor de Israel, sem nenhuma ajuda
de Moabe ou Midiã. Porém o registro
sacerdotal que estamos considerando o
inclui como responsável pelo conselho
que teve como conseqüência a praga que
matou 24mil dos israelitas(31:16).
Asmulherese crianças foram tomadas
como cativas. Também os israelitas des­
pojaram-nos de todo 6 seu gado e de
todos os seus rebanhos, enfim, de todos
os seus bens. Todas as suas provações
permanentes (cidades), bem como as
suas pousadas ocasionais (acampamen­
tos) foram destruídas pelo fogo.
Apesar de o povo identificar-se, em
termos absolutos, comoseu Deus, não se
pode dizer que Israel lutou pela sua fé.
Aoinvés disso, lutou pela suaexistênciae
continuidade. O culto de Yahweh era,
em certa medida, único. O “yahwismo”
incluía o conceito de uma possessão pe­
culiar de Israel como o povo escolhido.
Este conceito do “tesouro especial” sig­
nificava que “todas as instituições de
Israel eram revestidas de um caráter
sagrado, tanto a guerra quanto a monar­
quia ou a legislação” (de Vaux, p. 258).
Para eles, num sentido real, a guerra
tinha uma conotação sagrada. Vê-se este
fato pela maneira como algumas das
guerras de Israel foram chamadas de
“Guerras do Senhor” (Êx. 17:16; I Sam.
14:47; 25:28), eexiste, mesmo, o registro
de um livro chamado de “Livro das
Guerras do Senhor” (Núm. 21:14). Os
inimigos de Israel eram inimigos do Se­
nhor (I Sam. 30:26). Consultava-se a
Yahweh sobre se Israel devia ir à guerra
(Juí. 20:23,27; I Sam. 23:2,4); ele estava
na vanguarda das batalhas (Jos. 10:14;
Juí. 20:35; II Sam. 5:24); a arca era uma
evidênciafísica da presença de Yahweh e
a sua possessão equivalia à vitória.
“Gerhard von Rad enquadrou a guerra
santa israelita no contexto da teologia e
estrutura organizacional da velha anfic-
tioniadasdozetribos” (Gottwald, p. 296,
297).20
Oclímaxdeumaguerrasantanão era a
vitóriaouasuacelebração. O devotamen-
toouseparaçâo(cherem) dopovoconquis­
tado e de suas propriedades era a culmi­
nância do conflito. Significava, em pri­
meiro lugar, a separação, para Deus, dos
frutos doconflitovitorioso. Essas pessoas
eram retiradas, como também seus bens,
do uso profano e dedicadas a um pro­
pósito sagrado. Geralmente, não se per­
mitia que se poupasse qualquer coisa
para ouso individual doguerreiro. Todos
os viventes, fossem homens, fossem ani­
mais, deviam ser mortos. Tudo que se
podia queimar tinha que ser destruído.
Metais e pedras preciosas eram dedica­
dos a Yahweh. Houve exceções, em épo­
cas diferentes, a esta regra, que supomos
geral. É impossível determinar se estas
variações, na meticulosa aplicação do
cherem, eram expressões de fraqueza ou
brandura, na imposição, ou tentativas de
reavivarpráticas antigas.
O devotamento da destruição total é
preservado dentro do conceito da pos­
sessão, por parte deYahweh, de um povo
nacional. Deve ser reconhecido que os
moabitas operavam sob uma prática se­
melhante pelo seu deus Astar-Quemós.
Mesa, rei de Moabe, matou 7 mil israeli­
tas de Nebo como devotados (raiz hrm)
em honra ao seu deus.21 Os israelitas
viam que seu Deus lutava por eles, ao
invés de eles lutarem por ele. A guerra
sagrada não era uma guerra religiosa no
sentido de lutarem para disseminar a fé
em Yahweh. Sentiam que, visto serem o
povo escolhido de Deus, a sua existência
era necessária a todo custo.
20Cf. Gerhard von Rad, Der HeiligeKrieg im alten Israel,
Zürich: Zwingli-Verlag, 1958.
21 D. Winton Thomas, Documents from Old Testament
Times(Londres: Nelson, 1958), p. 195-198.
195
Norma K. Gottwald chamou o cherem
de “um dos vestígios da religião semita
antiga, que ficou como restolho entre o
trigo da antiga fé israelita” (Gottwald,
p. 308). Não podemos sustentar, à luz da
totalidade darevelação divina, que seme­
lhante aniquilação de populações etama­
nha prática de crueldade sejam interpre­
tações válidas do propósito e vontade
eternos de Deus para omundo. O melhor
que se pode dizer é que estes registros
podem servistoscomopráticas imaturas,
antigas, de um estágio muito primitivo
no desenvolvimento da religião e da exis­
tência nacional. Onde tais práticas pos­
sam ser repetidas, têm de ser considera­
das como inapropriadas eineficazes.
O Deus de Israel é também o Deus do
Egitoe da Assíria(Is. 19:23-25). Yahweh
é o Deus do mundo todo. Um povo não
há de ser amado ao ponto de um outro
povoserprivado de amor (cf. Rom. 1:16,
“primeiro do judeu, e também do gre­
go”). A verdade da superioridade de
Yahweh não deverá ser subvertida, para
significar a superioridade de qualquer
nação ou raça sobre outra. A fé cristã
desafia-nos a sermos “o sal da terra” e
“a luz do mundo”. A aplicação da tecno­
logia e da ciência tem deixado muito
para trás a prática da preservação e do
esclarecimento de toda a humanidade.
Ãreas de conflito e problemas de indiví­
duos, raças ou nações não devem servir
de desculpas para exibições de poder.
Podem ser, isto sim, áreas por meio das
quais oshomens de fépodem demonstrar
comunidade humana, observância do
domínio da lei e respeito para com pes­
soas integralmente iniciadas, vitalizadas
e controladas pelo amor e sabedoria que
Jesus demonstrou.
(3) AIradeMoisés(31:13-18)
13 Saíram, pois, Moisés e Eleazar, o sa­
cerdote, e todos os príncipes da congrega­
ção, ao encontro deles fora do arraial. 14 E
indignou-se Moisés contra os oficiais do
exército, chefes-dos militares e chefes das
centenas, que vinham do serviço da guerra,
15 e lhes disse: Deixastes viver todas as
mulheres? 16 Eis que estas foram as que,
por conselho de Balaão, fizeram que os fi­
lhos de Israel pecassem contra o Senhor no
casode Peor, peloque houvea praga entre a
congregação do Senhor. 17 Agora, pois, ma­
tai todos os meninos entre as crianças, e
todas as mulheres que conheceram homem,
deitando-se com ele. 18Mas todas as meni­
nas, que não conheceram homem, deitando-
se com ele, deixai-as viverpara vós.
Indignou-se Moisés com os oficiais do
comando quando viu que tinham deixa­
do viver todas as mulheres. Faz-se refe­
rência ao capítulo 25no sentido de que as
mulheres de Midiã receberam a culpa
pelos atos traiçoeiros dos homens israe­
litas. A ordem foi emitida para matarem
todos os meninos e toda fêmea que es­
tivessegrávida.
Um costume antigo de vingança era o
de eliminar o povo derrotado completa­
mente. Porém nesta ocasião as mulheres
virgens foram mantidas comvida.
(4) APurificaçãodosHomensedos Des­
pojos(31:19-24)
19 Acampai-vos por sete dias fora do ar­
raial; todos vós, tanto o que tiver matado
alguma pessoa, como o que tiver tocado
algum morto, ao terceiro dia e ao sétimo dia
purificai-vos, a vós e aos vossos cativos.
20 Também purificai-vos no tocante a todo
vestido, e todo artigo de peles, e toda obra de
pêlosde cabras, e todo utensílio de madeira.
21 Então Eleazar, o sacerdote, disse aos
homens de guerra que tinham saído à pele­
ja: Este é o estatuto da lei que o Senhor
ordenou a Moisés: 22o ouro, a prata, obron­
ze, o ferro, o estanho, o chumbo, 23 tudo o
que pode resistir ao fogo, fá-lo-eis passar
pelo fogo, e ficará limpo; todavia será puri­
ficado com a água de purificação; e tudo o
que não pode resistir ao fogo, fá-lo-eis pas­
sar pela água. 24 Também lavareis as vos­
sas vestes ao sétimo dia, e ficareis limpos, e
depoisentrareis noarraial.
Q bem-estar dos israelitas foi mantido
pela eficiência da destruição dos midia-
nitas. Porém os israelitas que participa­
ram da guerra santa tinham de ser puri­
ficados, visto que mantiveram contato
com corpos mortos. A ordem para esta
196
purificação se dá nos versos 19,20. Nú­
meros dá o cenário para este rito de
purificação.
Oshomens deviam permanecerfora do
acampamento durante sete dias. As rou­
pas que podiam absorver imundícia de­
viam também ser purificadas (v. 20).
Os metais podiam ser purificados pelo
fogoepela água da purificação.
(5) AContageme a Distribuição da Pre­
sa(31:25-54)
25 Disse mais o Senhora Moisés: 28Faze a
soma da presa que foi tomada, tanto de
homens como de animais, tu e Eleazar, o
sacerdote, e os cabeças das casas paternas
da congregação; 27 e divide-a em duas
partes iguais, entre os que, hábeis na guer­
ra, saíram à peleja, e toda a congregação.
28 E tomarás para o Senhor um tributo dos
homens de guerra, que saíram à peleja; um
em quinhentos, assim dos homens, como
dos bois, dos jumentos e dos rebanhos;
29 da sua metade o tomareis, e o dareis a
Eleazar, o sacerdote, para a oferta alçada
do Senhor. 30 Mas da metade que pertence
aos filhos de Israel tomarás um de cada
cinqüenta, tanto doshomens, como dos bois,
dosjumentos, dos rebanhos, enfim, de todos
os animais, e os darás aos levitas, que estão
encarregados do serviço do tabernáculo do
Senhor. 31Fizeram, pois, Moisés e Eleazar,
o sacerdote, como o Senhor ordenara a Moi­
sés. 32 Ora, a presa, o restante do despojo
que os homens de guerra tomaram, foi de
seiscentas e setenta e cinco mil ovelhas,
33setenta e dois mil bois, 34e sessenta e um
miljumentos; 35e trinta e duas mil pessoas,
ao todo, do sexo feminino, que ainda se
conservavam virgens. 36 Assim a metade,
que era a porção dos que saíram à guerra,
foi em número de trezentas e trinta e sete
mil e quinhentas ovelhas; 37 e da ovelhas
foi o tributo para o Senhor seiscentas e
setenta e cinco. 38 E foram os bois trinta e
seis mil, dos quais foi o tributo para o Se­
nhor setenta e dois. 39 E foram os jumentos
trinta mil e quinhentos, dos quais foi o
tributo para o Senhor sessenta e um.
40 E houve de pessoas dezesseis mil, das
quais foi o tributo para o Senhor trinta e
duas pessoas. 41 Moisés, pois, deu a Elea­
zar, o sacerdote, o tributo, que era a oferta
alçada do Senhor, como o Senhor ordenara
a Moisés. 42 E da metade que era dos filhos
de Israel, que Moisés separara da que era
dos homens que pelejaram 43 (ora, a meta­
de que coube à congregação, foi, das ove­
lhas, trezentas e trinta e sete mil e quinhen­
tas; 44 dos bois trinta e seis mil; 45 dos ju­
mentos trinta mil e quinhentos; 46e das pes­
soas dezesseismil), 47isto é, da metade que
era dos filhosde Israel, Moisés tomou um de
cada cinqüenta, tanto dos homens como dos
animais, e os deu aos levitas, que estavam
encarregados do serviço do tabernáculo do
Senhor; como o Senhor ordenara a Moisés.
48 Então chegaram-se a Moisés os oficiais
que estavam sobre os milhares do exército,
os chefes de mil e os chefes de cem, 49e dis­
seram-lhe; Teus servos tomaram a soma
dos homens de guerra que estiveram sob o
nosso comando; e não falta nenhum de nós.
50 Pelo que trouxemos a oferta do Senhor,
cada um o que achou, artigos de ouro, ca­
deias, braceletes, anéis, arrecadas e cola­
res, para fazer expiação pelas nossas almas
perante o Senhor. 51 Assim Moisés e Elea­
zar, osacerdote, tomaram deles o ouro, todo
feito em jóias. 52 E todo o ouro da oferta
alçada que os chefes de mil e os chefes de
cem fizeram ao Senhor, foi dezesseis mil
setecentos e cinqüenta siclos 53 (pois os ho­
mens de guerra haviam tomado despojo,
cada um para si). 54 Assim receberam Moi­
sés e Eleazar, o sacerdote, o ouro dos chefes
de mil e dos chefes de cem, e o puseram na
tenda da revelação por memorial para os
filhos de Israel perante o Senhor.
A divisão em metade da presa de pes­
soase animais para os guerreiros e meta­
de para a congregação foi estabelecida
como regra por Davi (I Sam. 30:24,25).
Da sua porção, os guerreiros deviam
ofertar um qüingentésimo a Eleazar, o
sacerdote, para a oferta alçada do Se­
nhor. Da porção da congregação, a di­
visão havia de ser um dentre cada cin­
qüentapara oslevitas.
A quantidade total da presa era como
segue: 675 mil ovelhas, 72 mil bois, 61
miljumentos e32milvirgens.
Da parte dos guerreiros, a doação para
os sacerdotes seria: 675 ovelhas, 72 bois,
61jumentos e32virgens.
Da parte da congregação, a doação
para os levitas seria: 6.750 ovelhas, 720
bois, 610jumentos e 320virgens.
Embora a divisãodosdespojos entre os
guerreiros ea congregaçãopareça ser um
costume antigo, a quantidade da doação
197
compulsória parece ser uma novidade.
Porém o imposto em si era um costume
antigo, como uma expressão da solida­
riedade de Deus e o povo. Não se faz
menção específica do uso dessas doações
compulsórias. Provavelmente, toda presa
viva fosse usada no serviço dos sacerdo­
tes e levitas, nas práticas religiosas da
comunidade.
Além das divisõese doações prescritas,
os oficiais do exército trouxeram uma
ofertaexpiatória, tirada dentre os metais
preciosos e jóias que os homens tinham
tomado dos midianitas conquistados. A
presa viva devia fazer parte da proprie­
dade da comunidade toda, e era assim
dividida por costume e imposto. A presa
de ouro e jóias não integrava a proprie­
dade da comunidade toda, e, portanto,
os oficiais trouxeram a porção daquilo
que tinham tomado, como uma oferta
expiatória. Esta doação totalizou 16.750
siclos de ouro, sem se contar o valor das
pedras preciosas envolvidas. Esta oferta
dos oficiais era por memorial para os
filhos de Israel perante o Senhor. Em
Êxodo 28:12 e 39:7, “pedras de memo­
rial” estavam “nas ombreiras do éfode”.
Quando o sacerdote usava o éfode, essas
pedras serviamcomo uma lembrança du­
radoura para o povo que Deus tinha
ganho uma vitória extraordinária. Êxodo
30:16mostra que a idéia da expiação era
incluída no “memorial”.
9. O Pedido dos Rubenitas e Gaditas
LevaàDivisãodaTransjordânia
(32:1-42)
(1) OPedidodeRúbeneGade(32:1-5)
1 Ora, os filhos de Rúben e os filhos de
Gade tinham gado em grande quantidade;
e quando viram a terra de Jazer, e a terra de
Gileade, e que a região era própria para
gado, 2 vieram os filhos de Gade e os filhos
de Rúben a Moisés e a Eleazar, o sacerdote,
e aos príncipes da congregação e falaram-
lhes, dizendo: 3Atarote, Dibom, Jazer, Nin-
ra, Hesbom, Eleale, Sebã, Nebo e Beom,
4 a terra que o Senhor feriu diante da con­
gregação de Israel, é terra para gado, e
os teus servos têm gado. 5 Disseram mais:
Se temos achado graça aos teus olhos, dê-se
esta terra em possessão aos teus servos, e
não nosfaça passar oJordão.
Aos rubenitas e gaditas é creditada a
idéia de divisão da terra por tribos ao
pedirem as belas pastagens que se es­
tendiam para o leste do rio Jordão. Ti­
nham gado em grande quantidade, pos­
suíam bois, ovelhas e cabras, em mana­
das e rebanhos. Parece estranho que
pudessem ter tamanha abundância de
animais depois detão longa permanência
no deserto. Porém temos de levar em
consideração a existência de lapsos de
tempo durante os quais ficaram acam­
pados, com períodos de peregrinação
apenas intermitentes.
O pedido foi feito de maneira apro­
priada, pelos rubenitas e gaditas, a Moi­
sés, o líder supremo, a Eleazar, o sacer­
dote, e aos líderes da congregação. A so­
licitação apresentou três pontos lógicos:
(a) o território, do qual se dão os nomes
de nove cidades, apresentava condições
ideais para gado; (b) os rubenitas e os
gaditas tinham gado; (c) que se permi­
tisse que se desse aquele território àquele
grupo de israelitas com o título de pro­
priedade. Fundamentados nessas três
idéias preferiam habitar permanente­
mente nolado oriental doJordão.
(2) AAdvertênciadeMoisés(32:6-15)
6 Moisés, porém, respondeu aos filhos de
Gade e aos filhos de Rúben: Irão vossos
irmãos à peleja, e ficareis vós sentados
aqui? 7 Por que, pois, desanimais o coração
dos filhos de Israel, para eles não passarem
à terra que o Senhor lhes deu? 8 Assim
fizeram vossos pais, quando os mandei de
Cades-Baméia a ver a terra. 9 Pois, tendo
eles subido até o vale de Escol, e visto a
terra, desanimaram o coração dos filhos de
Israel, para que não entrassem na terra que
o Senhor lhes dera. 10Então a ira do Senhor
se acendeu naquele mesmo dia, e ele jdrou,
dizendo: 11De certo os homens que subiram
doEgito, de vinte anos para cima, não verão
a terra que prometi com juramento a
Abraão, a Isaque, e a Jacó! porquanto não
perseveraram em seguir-me; 12exceto Ca-
lebe, filho de Jefoné, o quenezeu, e Josué,
198
filho de Num, porquanto perseveraram em
seguir ao Senhor. 13Assim se acendeu a ira
do Senhor contra Israel, e ele os fez andar
errantes no deserto quarenta anos, até que
se consumiu toda aquela geração que fizera
mal aos olhos do Senhor. 14 E eis que vós,
uma geração de homens pecadores, vos le­
vantastes em lugar de vossos pais, para
ainda mais aumentardes o furor da ira do
Senhor contra Israel. 15Se vós vos vlrardes
de segui-lo, também ele tornará a deixá-los
no deserto; assim destruireis a todo este
povo.
Moisés estava receoso que, se as duas
tribos colonizassem a Transjordânia, o
ímpeto das demais tribos estivesse perdi­
do. Perguntou-lhes por que haveriam de
impedir que o povo de Israel tomasse
posse de sua dádiva. Então compara o
pedido dos rubenitas e gaditas com o
exemplo dos dez espias, que trouxeram
um tal relatório que (1) desanimaram o
coraçãodosfilhosdeIsrael, paraquenão
entrassem na terra. (2) se acendeu a ira
do Senhor, (3) nenhum deles, excetuan­
do-se Calebe e Josué, entraria na Terra
Prometida e (4) Israel teria que peregri­
nar durante 40anos.
O resultado a esperar de semelhante
ação seria que Deus os abandonasse a
todos no deserto efinalmente os destruís­
sea todos.
(3) Rúbene GadeExplicam-se
(32:16-27)
16Então chegaram-se a ele, e disseram:
Construiremos aqui currais para o nosso
gado, e cidades para os nossos pequeninos;
17nós, porém, nos armaremos, apressando-
nosadiante dosfilhos de Israel, até os levar­
mosao seu lugar; e ficarão os nossos peque­
ninosnas cidades fortificadas, por causa dos
habitantes da terra. 18Não voltaremos para
nossas casas até que os filhos de Israel
estejam de posse, cada um, da sua herança.
19Porque não herdaremos com eles além do
Jordão, nem mais adiante; visto que já pos­
suímos a nossa herança aquém do Jordão,
ao oriente. 20 Então lhes respondeu Moisés:
Se isto fizerdes, se vos armardes para a
guerra perante o Senhor, 21 e cada um de
vós, armado, passar o Jordão perante o
Senhor, até que ele haja lançado fora os
seus inimigos de diante dele, 22 e a terra
esteja subjugada perante o Senhor, então,
sim, voltareis e sereis inculpáveis perante o
Senhor e perante Israel; e esta terra vos
será por possessão perante o Senhor, 23Mas
se não fizerdes assim, estareis pecando con­
tra o Senhor; e estai certos de que o vosso
pecado vos há de atingir. 24Edificai cidades
para osvossospequeninos, e currais para as
vossas ovelhas; e cumpri o que saiu da
vossa boca. 25 Então os filhos de Gade e os
filhos de Rúben disseram a Moisés: Como
ordena meu senhor, assim farão teus ser­
vos. 26Os nossos pequeninos, as nossas mu­
lheres, os nossos rebanhos e todo o nosso
gado ficarão nas cidades de Gileade;
27 mas os teus servos passarão, cada um
que está armado para a guerra, a pelejar
perante o Senhor, como dizomeu senhor.
Explicaram a Moisés que tomariam
providênciaspara que os seus rebanhos e
suas famílias estivessem protegidos en­
quanto a força belicosa dos homens es­
tivesse ausente. Os homens de Rúben e
Gadejuraram acompanhar o restante do
exército israelita até que todo o povo
estivesse radicado na terra. Não reivindi­
cariam nada mais, senão que se radicas­
semna Transjordânia.
Moisés ouviu a explicação e aceitou-a
como plenamente satisfatória. Porém os
advertiu que se falhassem no cumpri­
mento do acordo estariam pecando con­
tra o Senhor.
(4) OAcordoFeito(32:28-32)
28 Então Moisés deu ordem acerca deles a
Eleazar, o sacerdote, e a Josué, filho de
Num, e aos cabeças das casas paternas nas
tribos dos filhos de Israel; 29 e disse-lhes
Moisés: Se os filhos de Gade e os filhos de
Rúben passarem convosco o Jordão, arma­
do cada um para a guerra perante o Senhor,
e a terra for subjugada diante de vós, então
lhes dareis a terra de Gileade por posses­
são; 30 se, porém, não passarem armados
convosco, terão possessões entre vós na ter­
ra de Canaã. 31 Ao que responderam os
filhos de Gade e os filhos de Rúben: Como o
Senhor disse a teus servos, assim faremos.
32 Nós passaremos armados perante o Se­
nhor para a terra de Canaã, e teremos a
possessão de nossa herança aquém do Jor­
dão.
199
Moisés orienta Eleazar, Josué e os
cabeças das tribos com relação ao pedido
de Rúben e Gade. Se lutassem com o
exército todo até a terra ser subjugada,
seu pedido seria deferido. Mas se não se
unissem à campanha militar, então toda
a possessão que lhes seria dada ficaria
para ooeste do Jordão. Os rubenitas e os
gaditas confirmaram as condições do
acordo.
(5) ATerra ao Leste do Jordão Dividida
(32:33-42)
33 Assim deu Moisés aos filhos de Gade e
aos filhos de Rúben, e à meia tribo de Ma­
nassés, filhode Jesé, oreino de Siom, rei dos
amorreus, e o reino de Ogue, rei de Basã,
a terra com as suas cidades e os respectivos
territórios ao redor. 34 Os filhos de Gade,
pois, edificaram a Dibom, Atarote, Aroer,
35 Atarote-Sofã, Jazer, Jogbeá, 36 Bete-Nin-
ra e Bete-Harã, cidades fortificadas; e cons­
truíram currais de ovelhas. 37E os filhos de
Rúben edificaram a Hesbom, Eleale e Qui-
riataim; 38e Nebo e Baal-Meom (mudando-
lhes os nomes), e Sibma; e deram outros
nomes às cidades que edificaram. 39E os fi­
lhos de Maquir, filho de Manassés, foram a
Gileade e a tomaram, e desapossaram aos
amorreus que aí estavam. Deu, pois, Moi­
sés a terra de Gileade a Maquir, filho de
Manassés, o qual habitou nela. 41E foi Jair,
filhode Manassés, e tomouas aldeias dela, e
chamou-lhes Havote-Jair. 42 Também foi
Nobá, e tomou a Quenate com as suas al­
deias; e chamou-lhe Nobá, segundo o seu
próprio nome.
O território ao leste do Jordão, que
tinha sido tomado de Siom, rei dos amor­
reus, e de Ogue, rei de Basã, foi parti­
lhado entre os filhos de Gade, de Rúben
e da meiatribo de Manassés.
Os filhos de Gade edificaram diversas
cidades (v. 34-36), como também currais
para ovelhas. Não fundaram todas essas
cidades. O termo “edificar” pode, tal­
vez, significar reconstruir ou fortificar
cidades que tinham sido destruídas an­
teriormente. O território de Gade esten­
dia-se de Hesbom para o norte, Gileade
adentro. Os nomes de algumas das ci­
dades foram mencionados no versículo 3
como uma parte do território que incen­
tivouodesejode lá seradicarem.
Os filhos de Rúben (v. 37,38) possuí­
ram o território de Hesbom, ao sul, até o
vale do rio Amom. Reconstruíram as ci­
dades conquistadas e deram-lhes nomes
novos.
Maquir (v. 39,40) conquistou o terri­
tório de Ogue, que abrangia uma parte
de Gileade eoterritório de Basã. Maquir
era o filho mais velho de Manassés, o
filhomaisvelho deJosé.
Jair (v. 41), também filho de Manas­
sés, e, assim, do clã de José, chamou
todas as suas aldeias de Havote-Jair.
Ao invés de transliterar as palavras he­
braicas em letras portuguesas, poder-se-
ia traduzir simplesmente como “as al­
deias de Jair”. Estas seriam comparáveis
a povoações de tendas, que possivelmen­
te se desenvolveram em cidades mais
permanentes.
Nobá (v. 42) não é conhecido como
uma pessoa nos outros registros. Parece
que Nobá está alistado como um filho de
Manassés, doclã deJosé.
Estes três clãs das tribos de José radi-
caram-se primeiro, com toda probabili­
dade, noterritório ao leste do rio Jordão.
EmJosué 17:14-18, existe um registro de
“dez quinhões” (Jos. 17:5) do território
ao oeste do Jordão, que se deram a Ma­
nassésvárias geraçõesmais tarde.
10. Uma Revista da Viagemdo Egito até
asPlaníciesde Moabe(33:1-49)
(1) Introdução (33:1-4)
1 São estas as jornadas dos filhos de Is­
rael, pelas quais saíram da terra do Egito,
segundo osseus exércitos, sob o comando de
Moisés e Arão. 2 Moisés registrou os pontos
de partida, segundo as suas jornadas, con­
forme o mandado do Senhor; e estas são as
suasjornadas segundo os pontos de partida:
3 Partiram de Ramessés no primeiro mês,
no dia quinze do mês; no dia seguinte ao da
páscoa saíram osfilhos de Israel afoitamen­
te à vista detodosos egípcios, 4 enquanto es­
tes enterravam a todos os seus primogêni­
tos, a quem oSenhor havia ferido entre eles,
200
havendo o Senhor executado juízos também
contra osseus deuses.
Na realidade, os capítulos 33-36 cons­
tituem a seçãofinal do livro de Números.
A começar com a saída do Egito, «temos
6 registro da viagem como dividida nas
etapas de “levantamento dos acampa­
mentos”. Excluindo-se a chegada à pla­
nície de Moabe, existem 40 ocasiões de
“partida” (11 até Sinai; 21 até Cades;
8 até Moabe).
A singularidade deste registro está no
fato de que Moisésregistrou esta relação
dos pontos de partida. Os registros an­
teriores foram coligidos dastradições his­
tóricas, mas este é oriundo dos escritos
do próprio Moisés. Difere dos outros no
sentido de fornecer os nomes de algumas
localidades anteriormente desconhecidas
e no fato de omitir alguns dos lugares
principais anotados antes.
A saída do Egito foi triunfal (lit., com
uma mão alta ou superior). O registro é
claro em interpretar a Páscoa toda e a
saída do Egito como mais do que um
triunfo deum povosobre outro. Condizia
com as estruturas mentais dos povos
antigos, de que a vitória de um povo
sobreoutro era, primariamente, a vitória
do Deus dos vitoriosos sobre o deus dos
vencidos. A expressão havendo o Senhor
executadojuízos também contra os seus
deuses deve ser entendida como de fato
umjuízo de Yahwehcontraos deuses dos
egípcios.
(2) De Ramessés até o Deserto de Sinai
(33:5-15)
5 Partiram, pois, os filhos de Israel de
Ramessés, e acamparam-se em Sucote.
6 Partiram de Sucote, e acamparam-se em
Etã, que está na extremidade do deserto.
7Partiram de Etã, e voltando a Pi-Hairote,
que está defronte de Baal-Zefom, acampa­
ram-se diante de Migdol. 8 Partiram de
Pi-Hairote, epassaram pelo meio do mar ao
deserto; e andaram caminho de três dias no
deserto de Etã, e acamparam-se em Mara.
9 Partiram de Mara, e vieram a Elim, onde
havia doze fontes de água e setenta palmei­
ras, e acamparam-se ali. 10 Partiram de
Elim,e acamparam-sejunto ao MarVerme­
lho. 11Partiram do Mar Vermelho, e acam­
param-se no deserto de Sim. 12Partiram do
deserto de Sim, e acamparam-se em Dofca.
13 Partiram de Dofca, e acamparam-se em
Alus. 14Partiram de Alus, e acamparam-se
em Refldim; porém não havia ali água para
opovobeber. 15Partiram, pois, de Refidim,
e acamparam-se no deserto de Sinai.
Todos os lugares mencionados nesta
caminhada aparecem também em Êxodo
12-19, excetuandoDofcaeAlus(v. 2-14).
Estes doislugares não são conhecidosnos
registros arqueológicos. Os versículos 10
e 11 fazem menção de um acampamento
junto ao MarVermelho(Yam Suph, tra­
duzido literalmente, seria “mar de jun­
cos”), nome muitas vezes aplicado aos
braços do Mar Vermelho e na maioria
das vezes ao golfo de Suez. O relato de
Êxodo tem o contexto do Mar Vermelho,
porém não menciona nenhum acampa­
mentojunto aoYam Suph.
O acampamento em Refidim, onde
nãohaviaáguaparaopovobeber(v. 14),
émencionadotambém em Êxodo 17:1-7.
No registro de Êxodo é descrito como
“Massá e Meribá” (v.7); Meribá é uma
das nascentes em Cades, conforme Nú­
meros 20:1,13-14; 27:14; Deuteronômio
32:51. O relato de Números não registra
a presença do povo em Cades, senão de­
pois de Eziom-Geber, noversículo 36. Os
vários relatos “do(s) incidente(s) relacio-
nado(s) com a água” de Êxodo 17 e Nú­
meros 20 e 27, não de fácil correlação.
Talvez vários eventos tenham sido entre­
tecidos e/ou diversas tradições com rela­
ção a um sóevento tenham sido preserva­
dassemnenhumatentativadecorrelação.
(3) Do Sinai até o Monte Hor (33:16-40)
16 Partiram do deserto de Sinai, e acam­
param-se em Quibrote-Hataavá. 17 Parti­
ram de Quibrote-Hataavá, e acamparam-
se em Hazerote. 18 Partiram de Hazerote,
e acamparam-se em Ritma. 19Partiram de
Ritma, e acamparam-se em Rimom-Pérez.
20 Partiram de Rimom-Pérez, e acampa-
201
ram-se em Libna. 21 Partiram de Libna, e
acamparam-se em Rissa. 22 Partiram de
Rissa, e acamparam-se em Queelata.
23 Partiram de Queelata, e acamparam-se
nomonte Sefer.24Partiram domonte Sefer,
e acamparam-se em Harada. 25 Partiram
de Harada, e acamparam-se em Maquelote.
26 Partiram de Maquelote, e acamparam-
se em Taate. 27Partiram de Taate, e acam­
param-se em Tera. 28 Partiram de Tera, e
acamparam-se em Mitca. 29 Partiram de
Mitca, e acamparam-se em Hasmona.
30 Partiram de Hasmona, e acamparam-se
em Moserote. 31 Partiram de Moserote, e
acamparam-se em Bene-Jaacã. 32 Parti­
ram de Bene-Jaacã, e acamparam-se em
Hor-Hagidgade. 33 Partiram de Hor-Hagid-
gade, e acamparam-se em Jotbatá. 34Parti­
ram de Jotbatá, e acamparam-se em Abro-
na. 33 Partiram de Abrona, e acamparam-
se em Eziom-Geber. 36Partiram de Eziom-
Geber, e acamparam-se no deserto de Zim,
que é Cades. 37Partiram de Cades, e acam-
param-se no monte Hor, na fronteira da
terra de Edom. 38 Então Arão, o sacerdote,
subiu ao monte Hor, conforme o mandado
do Senhor, e ali morreu no quadragésimo
ano depois da saída dos filhos de Israel da
terra do Egito, no quinto mês, no primeiro
diadomês.39EArãotinhacentoevinteetrês
anos de idade, quando morreu no monte
Hor. 40 Ora, o cananeu, rei de Arade, que
habitava o sul da terra de Canaã, ouviu que
osfilhosde Israel chegavam.
Dois dos lugares das três reclamações
(caps. 11 e 12), Quibrote-Hataavá e Ha-
zerote, são mencionados. Tabera (11:
1-3), onde Deus queimou “as extremida­
des do arraial”, não recebe menção.
Os doze lugares mencionados nos ver­
sos 18b-30a não são mencionados em
nenhum outro lugar no Antigo Testa­
mento. Não se dispõe de nenhuma evi­
dência arqueológica para indicar qual
registro seestá seguindo. JeE mostram o
povo viajando quase que diretamente
para o leste. O relato sacerdotal (p)
leva-o para o sul. Os nomes desses luga­
res não ajudam na determinação de uma
rotaexata.
Os quatro nomes nos versos 30b-34a
são também conhecidos de Deuteronô-
mio 10:6,7. Em Deuteronômio 10:6, se
nos conta que Arão morreu e foi enterra­
do em Mosera (Moserote é uma outra
forma de Mosera). Porém em Números
33:38,39 e 20:27,28 se diz que Arão
morreu no monte Hor. Evidentemente,
nomes podem ser usados às vezes como
de cidades específicas e outras vezes co­
mo descritivos de regiões. Isso indicaria
que Arão morreu nas proximidades da
fronteira de Edom, perto de Cades.
Os versículos 38 e 39 são paralelos a
20:22-29. Acrescenta-se, aqui, que Arão
morreu no quadragésimo ano depois da
saída doEgito, no primeiro dia do quinto
mês, e que tinha 123 anos de idade por
ocasião de sua morte.
O versículo 40 não faz nenhuma con­
tribuição específica à narrativa, mas é
colocado aqui seguindo o registro dos
capítulos 20e 21.
(4) Do Monte Hor até as Planícies de
Moabe(33:41-49)
41 Partiram do Monte Hor, e acamparam-
se em Zalmona. 42 Partiram de Zalmona, e
acamparam-se em Punom. 43 Partiram de
Punom, e acamparam-se em Obote. 44 Par­
tiram de Obote, e acamparam-se em Ije-
Abarim, na fronteira de Moabe. 45Partiram
de Ije-Abarim, e acamparam-se em Dibom-
Gade. 46Partiram de Dibom-Gade, e acam-
param-se em Almom-Diblataim. 47 Parti­
ram de Almom-Diblataim, e acamparam-
se nos montes de Abarim, defronte de Nebo.
48Partiram dosmontes de Abarim, e acam­
param-se nas planícies de Moabe, junto ao
Jordão, na altura de Jericó; 49isto é, acam­
param-se junto ao Jordão, desde Bete-Jesi-
mote até Abel-Sitim, nas planícies de Moa­
be.
A identificação absoluta destas etapas
não épossível. Aparentemente, o escritor
ainda está seguindo Números 21. O
acampamento final ficava ao longo de
uma frente para o Rio Jordão. As suges­
tões provisórias quanto à identidade des­
tas duas cidades (v. 49) coloca-as numa
frente de, aproximadamente, oito qui­
lômetros de extensão.
202
11. As Instruções Finais Anteriores à
TravessiadoJordSo(33:50-36:12)
(1) Despejar Todos os Habitantes e De­
molirTodo o CultoPagão (33:50-56)
50 Também disse o Senhor a Moisés, nas
planícies de Moabe, junto ao Jordão, na
altura de Jericó: 51Fala aos filhos de Israel,
e dize-lhes: Quando houverdes passado o
Jordão para a terra de Canaã, 52 lançareis
fora todos os habitantes da terra de diante
de vós, e destruireis todas as suas pedras
em que há figuras; também destruireis to­
das as suas imagens de fundição, e desfareis
todososseus altos; 53e tomareis a terra em
possessão, e nela habitareis; porquanto a
vósvostenho dado esta terra para a possuir­
des. 51Herdareis a terra por meio de sortes,
segundo as vossas famílias: à família que
for grande, dareis uma herança maior, e à
família que for pequena, dareis uma heran­
ça menor; o lugar que por sorte sair para
alguém, esse lhe pertencerá; segundo as
tribos de vossos pais recebereis as heran­
ças. 55 Mas se não lançardes fora os habi­
tantes da terra de diante de vós, os que
deixardes ficarvos serão como espinhos nos
olhos, e como abrolhos nas ilhargas, e vos
perturbarão na terra em que habitardes;
56e eu vosfareia vós como pensei em fazer-
lhesa eles.
As condições para a herança da terra
são claramente estabelecidas aqui, em
Êxodo 23:23-33 e em Levítico 26. A pa­
lavra hebraica traduzida lançareis fora é
muitas vezes traduzida também por
“herdar” ou “tomar posse de”. Eles não
entendiam que receberiam a herança
semnenhum tipo de atividade conquista­
dora.Ordenou-se-lhesquelançassemfora
todos os habitantes da terra de diante
deles. Não lhes bastava desocupar terras
suficientes em que pudessem habitar.
Era necessário que assumissem o contro­
le absoluto delas, pois deviam possuir a
terra pelo seu Deus. Deus não podia
compartilhar a sua terra com outros deu­
ses.
Além disso, ordenou-se-lhes que des­
truíssem todas as suaspedras em que há
figuras (ingl., as suas pedras “afigura­
das”) (figuras esculpidas de símbolos
idólatras), imagens de fundição (deuses
de metal fundido) e altos (ingl., lugares
altos) (santuários edificados sobre eleva­
ções como lugares para cultuar a diver­
sos deuses).
A remoção do povo que cultuava deu­
ses estranhos e dos instrumentos utiliza­
dos nesses cultos eram duas partes de
umamesma ação, para tirarem qualquer
vestígio da presença de outros poderes.
Deus tinha que ser cultuado exclusiva­
mente. Seosisraelitasnãochegassemare­
moverou opovopagão ou os seus centros
de culto pagão, não seriam dignos de
receber a herança.
A divisão da terra entre o povo era
feita por meio de sortes, segundo as
vossas famílias. Uma família grande re­
ceberia uma porção grande, proporcio­
nalmente. Porém, se se deixassem na
terra quaisquer dos habitantes das ter­
ras, esses remanescentes pagãos se tor­
nariam em espinhos nos olhos, e como
abrolhosnasilhargas.
É difícil saber exatamente o significa­
dodoversículo 56, que declara que Deus
faria a Israel como ele pensou em fazer-
lhes a eles, ou seja, aos habitantes da
terra. Evidentemente, a não ser que Is­
rael os varresse da terra, Deus varreria
Israel da terra. O único direito à terra
que Israel podia estabelecer seria em
obediência ao mandamento de limpar a
terra de cultuadores pagãos e do culto
pagão.
0 Deus que podia dar uma herança
podia também determinar as condições
para a sua possessão. A remoção espas­
módica de alguns centros pagãos não
era, de maneira nenhuma, um cumpri­
mento de suas ordens.
(2) As Fronteiras a Serem Estabelecidas
(34:1-29)
1Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Dá or­
dem aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quan­
do entrardes na terra de Canaã, terra esta
que vos há de cair em herança, por toda a
sua extensão, 3 a banda do sul será desde o
deserto de Zim,ao longode Edom; e o limite
do sul se estenderá da extremidade do Mar
203
Salgado para o oriente; 4 e este limite irá
rodeando para o sul da subida de Acrabim,
e continuará até Zim; e, saindo ao sul de
Gades-Barnéia, seguirá para Hazar-Hadar,
e continuará até Azmom; 5e dai irá rodean­
do até o ribeiro do Egito, e terminará na
praia do mar. 6 Para o ocidente, o Mar
Grande vos será por limite; o próprio mar
será o vosso limite ocidental. 7 Este será o
vossolimite setentrional: desde oMarGran­
de marcareis para vós até o monte Hor;
8desde o monte Hor marcareis até a entra­
da de Hamate; daí ele se estenderá até Ze-
dade; 9 dali continuará até Zlfrom, e irá
terminar em Hazar-Enã. Este será o vosso
limite setentrional. 10 Marcareis o vosso
limite oriental desde Hazar-Enã até Sefã;
11este limite descerá de Sefã até Ribla, ao
oriente de Aim; depois irá descendo ao lon­
goda borda do mar de Quinerete ao oriente;
12descerá ainda para oJordão, e irá termi­
nar no Mar Salgado. Esta será a vossa
terra, segundo os seus limites em redor.
13 Moisés, pois, deu ordem aos filhos de
Israel, dizendo: Esta é a terra que herdareis
por sortes, a qual o Senhor mandou que se
desse às nove tribos e à meia tribo; 14 por­
que a tribo dos filhos de Rúben, segundo as
casas de seus pais, e a tribo dos filhos de
Gade, segundo as casas de seus pais, como
também a meia tribo de Manasses, já rece­
beram a sua herança; 15isto é, duas tribos e
meiajá receberam a sua herança aquém do
Jordão, na altura de Jericó, do lado oriental.
16 Disse mais o Senhor a Moisés: 17 Estes
são osnomes dos homens que vos repartirão
a terra por herança: Eleazar, o sacerdote, e
Josué, filho de Num; 18 também tomareis
de cada tribo um príncipe, para repartir a
terra em herança. 19 E estes são os nomes
dos homens: Da tribo de Judá, Calebe, filho
de Jefoné; 20 da tribo dos filhos de Simeão,
Semuel, filho de Amiúde; 21da tribo de Ben­
jamim, Elidá, filho de Quislom; 22 da tribo
dos filhos de Dã o príncipe Buqui, filho de
Jógli; 23 dos filhos de José: da tribo dos
filhos de Manassés o príncipe Haniel, filho
de Éfode; 24da tribo dos filhos de Efraim o
príncipe Quemuel, filho de Siftã; 25 da tribo
dos filhos de Zebulom o príncipe Elizafã,
filho de Pamaque; 26 da tribo dos filhos de
Issacar o príncipe Paltiel, filho de Azã;
27 da tribo dos filhos de Aser o príncipe
Aiúde, filho de Selómi; 28da tribo dos filhos
de Naftali o príncipe Pedael, filho de Amiú­
de. 29 Estes são aqueles a quem o Senhor
ordenou que repartissem a herança pelos
filhosde Israel na terra de Canaã.
Aterra toda de Canaã devia ser abran­
gida pela divisão. Os vários limites são
explicados. Do sul (o ribeiro do Egito,
v. 5) até o norte (a entrada de Hamate,
v. 8)edo oeste(o MarGrande, v. 6) até o
leste (o Jordão, v. 12) delimitava a terra
de Canaã...por toda a sua extensão
(v. 2).
Na realidade, estas fronteiras não fo­
ram estabelecidas nem sequer tomadas,
senãonotempo de Davi.
0 território que já havia sido tomado
para os filhos de Rúben e Gade junto
com a meia tribo de Manassés é registra­
do nos versos 13-15. A terra de Canaã
pertenceria às nove tribos e à meia tribo
de Israel.
Dão-se os nomes dos 12 homens que
dividiriam a terra (34:16-29). Eleazar, o
sacerdote, e Josué, o espia, selecionados
para liderança especial, são relacionados
primeiro, à parte da organização tribal.
Os dez homens mencionados, das nove
tribos e meia, são relacionados segundo
as suas tribos. Calebe, o outro homem
que trouxe um relatório positivo para
entrarem na terra de Canaã imediata­
mente após saírem do Egito, é registrado
comorepresentante datribo deJudá.
(3) As Cidades Para os Levitas (35:1-28)
A terra a leste do Jordão tinha sido
dividida entre as duas tribos e meia. A
terra de Canaã, a oeste do Jordão, havia
sido atribuída às nove tribos e meia.
Porém a tribo de Levi não chegou a
receber qualquer consideração além das
porções regulares dos frutos de seu tra­
balho. Assim, tinha de haver alguma
consideração dos lugares de moradia
para oslevitas.
1Disse mais o Senhor a Moisés nas planí­
ciesdeMoabe,junto ao Jordão, na altura de
Jericó: 2 Dá ordem aos filhos de Israel
que da herança da sua possessão dêem aos
levitas cidades em que habitem; também
dareis aos levitas arrabaldes ao redor delas.
3 Terão eles estas cidades para habitarem;
e os arrabaldes delas serão para os seus
gados, e para a sua fazenda, e para todos os
204
seus animais. 4 Os arrabaldes que dareis
aos levitas se estenderão, domuro da cidade
para fora, mil côvadosem redor. 5£ fora da
cidade medireis para o lado oriental dois
mil côvados, para olado meridional dois mil
côvados, para o lado ocidental dois mil cô­
vados, e para o lado setentrional dois mil
côvados; e a cidade estará no meio. Isso
terão porarrabaldes das cidades. 6Entre as
cidades que dareis aos levitas haverá seisci­
dades de refúgio, as quais dareis para que
nelas se acolha o homicida; e além destas
lhesdareis quarenta e duas cidades. 7Todas
as cidades que dareis aos levitas serão qua­
renta e oito, juntamente com os seus arra­
baldes. 8 Ora, no tocante às cidades que
dareis da possessão dos filhos de Israel, da
tribo que for grande tomareis muitas, e da
que for pequena tomareis poucas; cada
uma segundoa herança que receber dará as
suas cidades aos levitas. 9 Disse mais o
Senhor a Moisés: 10 Fala aos filhos de Is­
rael, e dize-lhes: Quando passardes o Jor­
dão para a terra de Canaã, 11 escolhereis
para vós cidades que vos sirvam de cidades
de refúgio, para que se refugie ali o homici­
da que tiver matado alguém involuntaria­
mente. 12E estas cidades vos serão por re­
fúgio do vingador, para que não morra o
homicida antes de ser apresentado perante
a congregação para julgamento. 13 Serão
seis as cidades que haveis de dar por cida­
des de refúgio para vós. 14Dareis três cida­
des aquém do Jordão, e três na terra de
Canaã; cidades de refúgio serão. 15 Estas
seis cidades serão por refúgio aos filhos de
Israel, ao estrangeiro, e ao peregrino no
meio deles, para que se refugie ali todo
aquele que tiver matado alguém involunta­
riamente. 16Mas se alguém ferir a outrem
com instrumento de ferro de modo que ve­
nha a morrer, homicida é; e o homicida
será morto. 17Ou se o ferir com uma pedra
na mão, que possa causar a morte, e ele
morrer, homicida é ; e ohomicida será mor­
to. 18Ou se o ferir com instrumento de pau
na mão, que possa causar a morte, e ele
morrer, homicida é; será morto o homici­
da. 19 O vingador do sangue matará ao
homicida; ao encontrá-lo, o matará. 20 Ou
se alguém empurrar a outrem poródioou de
emboscada lançar contra ele alguma coisa
de modo que venha a morrer, 21 ou por ini­
mizade o ferir com a mão de modo que
venha a morrer, será morto aquele que o
feriu; homicida é. O vingador do sangue, ao
encontrá-lo, omatará.
Dão-se ordens para que as diversas
tribos dessem cidades de sua herança
para os levitas morarem. Devia haver
quarentaeoitocidades comos seus arra­
baldes (ingl., “com os seus pastos”). As
pastagens seriam de uns 33 alqueires ao
redor da cidade. Não é possível determi­
nar comprecisão a extensão desse campo
aberto, visto que o versículo 4 ordena
domuroda cidade parafora mil côvados
em redore oversículo 5 mede fora da ci-
dade...dois mil côvados para todos os
lados. As tribos maiores deveriam con­
tribuir com quantidades maiores, e as
tribos pequenas, em proporção ao seu
tamanho. Josué 21 faz referência a essa
provisãopara a herançalevítica.
Deviam serretidas somente quarentae
duas cidades (v. 6) para os levitas, suas
famílias e posses. Das quarenta e oito
cidades atribuídas aos levitas, seis de­
viam ser cidades de refúgio (v. 9-34).
Abase dessaprovisãode cidades de refú­
gio foi a lei tribal antiga da vingança de
sangue. Sem as cidades de refúgio, não
haveria nenhuma possibilidade de qual­
quer investigação de uma morte ou de o
homicida ser julgado perante um tribu­
nal. Na história antiga, nenhuma autori­
dade central e nem mesmo sistemas le­
gais comumente aceitos tinham surgido,
de forma que disputas entre indivíduos,
grupos, tribos ou nações pudessem ser
solucionadas. Por conseguinte, a proxi­
midade de parentesco estabelecia uma
estrutura pela qual a proteção da vida
individual e suas posses particulares era
a responsabilidade do grupo familiar.
Todos estavam sob a obrigação de de­
fender os direitos de cada membro em
particular. Assim, a lei (lex talionis)
de “olho por olho, dente por dente”
(Lev. 24:20) autorizava que o parente de
um homem morto reivindicasse a vida de
seu irmão ao homicida.
Esse sistema, porém, podia levar a
uma ciranda interminável de mortes ou
devingança. Uma rixa familiar perpétua
podia ser automática. Apesar das san­
ções específicas de retribuição, precisa­
va-se de um sistema ou processo pelo
205
qual uma pessoa que tivesse matado
alguéminvoluntariamente (v. 11) pudes­
seser apresentadaperantea congregação
para julgamento (v. 12). Estas cidades
de refúgio proporcionariam segurança
física contra qualquer parente consan­
guíneo que quisesse vingar uma morte.
Por conseguinte, estas cidades seriam
espaçadas através do território, para que
essa segurança não fosse perdida devido
a viagens longas. Havia três cidades a
leste do Jordão e três cidades a oeste do
Jordão destinadas a serem cidades de
refúgio (Jos. 20:7,8). Estas cidades pro­
porcionariam um abrigo, onde o homici­
da poderia ser mantido com vida até a
comunidade proceder aojulgamento. Es­
tas cidades poderiam tornar-se em asilos
para assassinos e traidores, se não hou­
vesse certas restrições. O princípio do
julgamento estava relacionado irrevoga-
velmente ao derefúgio. O refúgio não era
para qualquer assassino. Declara-se es­
pecificamente que o asilo era para al­
guém que matasse outrem involuntaria­
mente, ou seja, sem querer.
O abrigo estava disponível somente até
que sefizesseojulgamento. Nesse ponto,
ou um julgamento de morte ou de li­
bertação se faria efetivo, de forma que a
responsabilidade do vingador fosse suce­
didapelojulgamento da comunidade.
Nos tempos antigos, a lei de “olho por
olho, dente por dente” não distinguia
entre um homicídio involuntário e um
premeditado. Este segmento dos regula­
mentos sacerdotais procurou modificar
essarigidez. Faz-se uma distinção entre o
homicídio acidental e o homicídio com
intenção assassina ou ódio.
O uso de um instrumento de ferro po­
deria sugerir algum preparo, e, àssim,
algum intento de infligir prejuízo físico.
Semelhantemente, quando as armas de
pedra ou de pau estivessem na mão,
haveria comprovação de propósito assas­
sino.
Independentemente da arma usada, se
a morte tivesse ocorrido como resultado
de ódio, emboscada ou inimizade, não se
permitia ao homicida permanecer nas ci­
dades de refúgio. O parente encarregado
da responsabilidade de manter a integri­
dade de sua tribo, recebia instruções
para efetivar a sentença de morte. So­
mente o derramamento do sangue do as­
sassino cancelaria o crime do homicídio
premeditado.
22 Mas se o empurrar acidentalmente,
sem inimizade, ou contra ele lançar algum
instrumento, sem ser de emboscada, 23 ou
sobre ele atirar alguma pedra, não o vendo,
e o ferir de modo que venha a morrer, sem
que fosse seu inimigo nem procurasse o seu
mal, 24 então a congregação julgará entre
aquele que feriu e o vingador do sangue,
segundo estas leis, 25e a congregação livra­
rá o homicida da mão do vingador do san­
gue, fazendo-ovoltar à sua cidade de refúgio
a que se acolhera; ali ficará elemorando até
a morte do sumo sacerdote, que foi ungido
com o óleo sagrado. 26 Mas, se de algum
modo o homicida sair dos limites da sua ci­
dade de refúgio, onde se acolhera, 27e o vin­
gador do sangue o achar fora dos limites da
sua cidade de refúgio, e o matar, não será
culpado de sangue; 28pois o homicida deve­
rá ficar na sua cidade derefúgio até a morte
do sumo sacerdote; mas depois da morte do
sumo sacerdote o homicida voltará para a
terra da sua possessão.
Amatança não premeditada (v. 22,23)
é claramente definida pelo emprego dos
seguintes termos: acidentalmente, sem
inimizade, sem ser de emboscada, não o
vendo, sem que fosse seu inimigo e nem
procurasseoseumal.
Acongregação era a autoridade (v. 24,
25a) que decidia sobre o destino de um
homem que matasse outro. A congrega­
ção devia julgar entre o homicida e o
vingador, na base de premeditação, in­
tento eas armas usadas.
Quando era cedido abrigo ao homi­
cida (v. 25b,28) dentro da cidade de
refúgio, devia permanecer dentro dos li­
mites daquela cidade até a morte do
sumo sacerdote, que foi ungido com o
óleo sagrado. Uma vez que se cedesse
asilo ao matador, o parente do morto já
206
não tinha obrigação deempreender qual­
quer vingança, uma vez que a responsa­
bilidade por cobrir o sangue derramado
tinha sidotransferida para o sumo sacer­
dote. O homicida tinha de permanecer
nacidade de refúgio até a morte do sumo
sacerdote. Porocasião da morte do sumo
sacerdote, que era o substituto do vin­
gador de sangue, não havia mais regula­
mento nem necessidade de proteção.
O homicida ficava restringido (v. 26,
27), em todo o tempo, dentro dos limites
de sua cidade de refúgio. Se saísse da
proteção do sumo sacerdote, o vingador
de sangue deveria cumprir a lei tribal, e
não seria culpado do derramamento de
sangue. Depois da morte do sumo sacer­
dote, porém, o homicida voltaria para a
terra da sua possessão, sob plena prote­
ção de sua tribo.
(4) PormenoresLegais(35:29-36:12)
29 Estas coisas vos serão por estatuto de
direito pelas«vossas gerações, em todos os
lugares da vossa habitação. 30 Todo aquele
que matar alguém, será morto conforme o
depoimento de testemunhas; mas uma só
testemunhanão deporá contra alguém, para
condená-loà morte. 31Não aceitareis resga­
te pela vida de um homicida que é réu de
morte; porém ele certamente será morto.
32Também não aceitareis resgate por aque­
le que se tiver acolhido à sua cidade de
refúgio, a fim de que ele possa tornar a
habitar na terra antes da morte do sumo
sacerdote. 33Assim não profanareis a terra
da vossa habitação, porque o sangue profa­
na a terra; e nenhuma expiação se poderá
fazer pela terra por causa do sangue que
nela for derramado, senão com o sangue
daquele que o derramou. 34Não contamina­
reis, pois, a terra em que haveis de habitar,
no meio da qual eu também habitarei; pois
eu, o Senhòr, habito no meio dos filhos de
Israel.
Asentença de morte não seria imposta
a nenhum homicida, senão conforme o
depoimentodetestemunhas(v. 30). Uma
só testemunha nunca satisfaria a exigên­
cialegal.
Não se permitia nenhum resgate
(v. 31,32) por um assassino que fosse
proclamado pela congregação réu de
morte. Também não havia nenhuma ma­
neira de uma pessoa a quem fosse con­
cedido o asilo numa cidade de refúgio
poder libertar-se, para regressar ao seu
lar, senão depois da morte do sumo sa­
cerdote.
A restrição concernente a alguém que
derramasse sangue na terra era centrada
na pureza da terra (v. 33,34). O sangue
que é tragado pela terra clama contra
aquele que derramou esse sangue (Gên.
4:10,11). Assim, o sangue tinha de ser
coberto ou expiado, a fim de que remo­
vesse a poluição da terra. Tinha-se de
manter a pureza da terra por causa da
pureza do Senhor, que habitava no meio
dos filhos de Israel.
1 Chegaram-se então os cabeças das casas
paternas da família dos fUhcfe de Gileadé,
filho de Maquir, filho de Manassés, das fa­
mílias dos filhos de José, e falaram diante
de Moisés, e diante dos príncipes, cabeças
das casas paternas dos filhos de Israel, 2 e
disseram: O Senhor mandou a meu senhor
que por sortes repartisse a terra em heran­
ça aos filhos de Israel; e meu senhor rece­
beu ordem do Senhor de dar a herança do
nosso irmão Zelofeade às filhas deste. 3 E,
se elas se casarem com os filhos das outras
tribos de Israel, então a sua herança será
diminuída da herança de nossos pais, e
acrescentada à herança da tribo a que vie­
rem a pertencer; assim será tirada da sorte
da nossa herança. 4 Vindo também o ano do
jubileu dos filhos de Israel, a herança delas
será acrescentada à herança da tribo a que
pertencerem; assim a sua herança será ti­
rada da herança da tribo de nossos pais.
5 Então Moisés falou aos filhos de Israel,
segundoa palavra do Senhor, dizendo: Atri­
bo dos filhos de José fala o que é justo.
6Isto é oque oSenhorordenou acerca das fi­
lhasdeZelofeade,dizendo:Casem com quem
bem parecer aos seus olhos, contanto que se
casem na família da tribo de seu pai. 7 As­
sim a herança dosfilhosde Israel não passa­
rá de tribo em tribo, pois os filhos de Israel
se apegarão cada um à herança da tribo de
seuspais. 8E toda filha que possuir herança
em qualquer tribo dos filhos de Israel se
casará com alguém da família da tribo de
seupai, para que osfilhosde Israel possuam
cada um a herança de seus pais. 9Assim ne­
nhuma herança passará de uma tribo a
207
outra, pois as tribos dos filhos de Israel se
apegarão cada uma à sua herança. 10Como
o Senhor ordenara a Moisés, assim fizeram
as filhas de Zelofeade; 11pois,Macia, Tirza,
Hogla, Milca e Noa, filhas de Zelofeade, se
casaram com osfilhosde seus tios paternos.
12 Casaram-se nas famílias dos filhos de
Manasses, filho de José; assim a sua heran­
ça permaneceu na tribo da família de seu
pai.
Arestrição anterior, sobre a pureza da
terra, fazia parte da restrição também de
que uma herança devia permanecer den­
tro da mesma tribo original (36:1-12).
Nenhum lote de terra podia ser perma­
nentemente alienado da possessão tribal
por qualquer motivo.
Este capítulo assinala a natureza evo­
lutiva da legislação hebraica e de suas
aplicações. Os cabeças das tribos dos
filhos deJoséchamaram a atenção para a
contradição aparente entre as leis de
herança com relação às filhas de Zelofea­
de(27:1-11). Nãofizeram objeção a essas
leis, que davam alguma herança a mu­
lheres que não tinham irmãos. Essas leis
foram feitas na base da prática em que
sçmente os homens podiam herdar pro­
priedade. Visto que somente os homens
herdavam propriedade normalmente,
um pai que não deixava filhos do sexo
masculino podia ver sua família ser ex­
tinta. Esta situação levou à prática do ca­
samento de levirato, para assegurar que
a herança permanecesse dentro da tribo
dopai.
Aobjeção dos cabeças da tribo de José
residia no fator de que, se essas filhas de
Zelofeade, que tinham recebido conces­
são de herança dentro da tribo, se casas­
semfora da tribo, a herançadeZelofeade
passaria automaticamente para a tribo
do respectivo marido. A conveniência de
sua objeção é muito clara. Da mesma
forma, a solução era clara. As filhas
seriam livres para se casarem dentro da
triboepreservarem a herança de Manas-
sés aoestedo RioJordão.
A menção do jubileu dos filhos de
Israel (v. 4) não é, de tudo, clara, visto
queerapor ocasiãodojubileu que o imó­
vel comprado revertia ao proprietário
original. Pode ser que os líderes da tribo
de Manassés estivessem desejosos de as­
segurar que a sua herança nunca fosse
alienada de suapossessão.
12. Conclusão Referente às Leis na Pla­
níciedeMoabe(36:13)
13 São esses os mandamentos e os precei­
tos que oSenhor ordenou aos filhos de Israel
por intermédio de Moisés nas planícies de
Moabe,junto ao Jordão, na altura de Jericó.
Esta declaração resumidora abrange
todos os regulamentos transmitidos nas
planícies deMoabe com relação à pureza
do culto a Yahweh. Existe uma relação
especial entre a(s) pessoa(s) e a proprie­
dade. Tudo que um homem era ou pos­
suía relacionava-se com Deus, a quem
cultuava, e era-lhe dedicado. O homem
havia de se relacionar com Deus de tal
forma que o seu relacionamento com seu
semelhante e com a propriedade lhe fos­
sem subservientes.
9
208
Deuteronômio
JOHND. W. WATTS
Introdução
I. TrêsInterpretaçõesdeDeutero-
nômio
Deuteronômio pode ser lido e viven-
ciadode, pelo menos, três maneiras dife­
rentes. Em cadacaso, o que o livro tem a
dizer variará conforme a abordagem que
lhefizermos.
1. A Parte Final do Pentateuco. Em
nossas Bíblias de hoje, Deuteronômio
constitui a parte final do Pentateuco.
Para os judeus do quarto século a. C.,
era o último livro da Tora, a parte mais
autoritária de suas Bíblias. Como tal,
representa o discurso de despedida de
Moisés, que marca a conclusão de sua
notável obra de legislador e feitor da
aliança. Deste ponto de vista, o livro
apresenta uma reafirmação da aliança e
da lei de uma forma que Israel podia
obedecerecumprir, à medida qúe entra­
va em Canaã. É provável que o capítulo
34 tenha sido acrescentado aqui nessa
época.
2. O Começo da História de Israel.
Porém Deuteronômio nem sempre ocu­
pava esta posição. Houve tempo, no sex­
to século a.C., quando constituía a pri­
meira parte da história de Israel, que
continha os livros de Josué, Juizes, Sa­
muel e Reis. Quando se lê o livro deste
ponto de vista, ele fornece as perspecti­
vas teológicas básicas, a partir das quais
a história inteira há de ser interpretada.
Suas afirmações características são repe­
tidas muitas vezes nos livros que o se­
guem.
Os redatores da história deuteronô-
mica providenciaram, para olivro, a sua
introdução (caps. 1-4). Também inseri­
ram outras passagens, no decorrer do
livro, que fazem referências freqüentes
ao exílio e ao castigo inevitável pelos
pecados de Israel que o exílio represen­
tava. Deste modo, empanavam a visão
essencialmente otimista do livro com um
tompessimista, queestá de acordo com a
obra histórica que osegue.
3. Um Livro Pactuai. Porém Deute­
ronômio possui uma relevância, uma
qualidade dinâmica, e envolve-o uma
urgência, que não se explicam por ne­
nhum desses dois pontos de vista. Nós,
como o Israel do oitavo ao sétimo século
a.C., podemos também considerar estes
capítuloscomoum convite à aliança. Pois
Deuteronômio é primária e originalmen­
teum livroda aliança. Os capítulos 5-30,
especialmente, proclamam este convite à
aliança òu reavivamento pactuai. Têm a
qualidade de se posicionarem entre on­
tem e hoje, mas estando muito próximos
a ambos.
Tais Spocas de renovação pactuai são
registradas no Antigo Testamento. A úl­
tima é a de Esdras (Neem. 8,9; cf. espe­
cialmente9:38). A descrição parece indi­
car que o livro que foi lido continha as
medidas sacerdotais de Êxodo e Levítico.
Períodos anteriores de renovação pactuai
são registrados em Jerusalém nos rei­
nados de Ezequias (II Crôn. 29:10) e de
Josias (II Reis 23). Samuel realizava ce­
rimônias semelhantes no começo da mo­
209
narquia (I Sam. 10:25; 11:15), e Josué,
no fim de sua vida, desafiou os israelitas
auma renovação de sua aliança(Jos. 24).
Assim, semelhantes cerimônias de reno­
vação pactuai são registradas no Antigo
Testamento a partir da primeira geração
depois de Moisés até os meados do quin­
to século a.C. Elas aparecem, muitas
vezes, em épocas de mudanças ou crise e
são acompanhadas de medidas de refor­
maerestauração.
As ocasiões históricas que condizem
mais claramente com o espírito e a ten­
dência de Deuteronômio são as de Eze-
quias eJosias, especialmente esta última.
Não pode haver dúvida de que a porção
central do livro de Deuteronômio foi, de
alguma maneira, relacionada com a re­
forma de Josias. Porém não é correto
atribuir a origem do livro à reforma ou
o movimento da reforma ao livro. Deu­
teronômio é uma coleção e edição de
tradições que são muito mais velhas que
o próprio livro escrito. Estas tradições
agrupam-se em tomo de formas pac­
tuais, mas que foram cultivadas em vá­
rioslugares diferentes.
II. Como Deuteronômio Tomou
Forma
Por detrás da composição atual do
livro de Deuteronômio se podem traçar
muitas formas tradicionais de fala e de
literatura. Eram os meios de os mate­
riais eas informações serem transmitidos
das épocas em que essas coisas aconte­
ceram. Estas formas e tradições foram
preservadas, cultivadas e usadas em co­
nexão com ocasiões de culto observadas
pela confederação tribal. As formas tra­
dicionais de culto podem ser traçadas a
partir docomeço da história de Israel em
Canaã.
Não há nenhum motivopara senegar a
sua inspiração e origem a Moisés, de
acordo com o testemunho unânime da
tradição, embora seu desenvolvimento e
adaptação, através de vários séculos de
uso, indubitavelmente as tenham molda­
do decisivamente. Portanto, a relação de
Moisés com a origem destas tradições é
uma clara possibilidade. Esta hipótese
tem sido realçada, em Deuteronômio,
pelo reavivamento da posição-chave do
pregador-mediadorda aliança. Paraisso,
Moisés era o protótipo inigualado. Cada
pessoa sucessiva que cumpria este papel
podia, a seu tempo, pensar de si próprio
comoo transmissor das palavras de Moi­
sés auma novageração.
1. As Formas na Tradição. Há evi­
dências da influência de fórmulas pac­
tuais por todo o livro de Deuteronômio.
A origem última destas fórmulas tem
sido plenamente traçada nas alianças
antigas das grandes potências com os
seus vassalos, desde a época dos hititas,
anteriores a Moisés, até os assírios e seus
acordos com Ezequias e Manassés. Esses
tratados tinham a seguinte estrutura:
(1) o preâmbulo; (2) a recitação dos
eventos que levaram ao tratado; (3) a
declaração doprincípio sobre que sefezo
tratado; (4) a lista das medidas especí­
ficas; (5) os deuses convocados para tes­
temunhar; e(6) maldições ebênçãos.
As formulações pactuais de Israel se­
guem este esboço geral sob muitos as­
pectos, como mostram Êxodo 23 e 34.
Este esboço parece não apenas ter exer­
cido uma influência sobre o começo das
formas da aliança em Israel, mas tam­
bém tê-los moldado com um vigor reno­
vado em Deuteronômio. Esta influência
aparece nas unidades menores e também
na estrutura de seções maiores. Por
exemplo: ocapítulo5 écomo a recitação,
ocapítulo 6, como a declaração de prin­
cípio, o capítulo 7, uma bênção, e o
capítulo 8, uma maldição.
Em Deuteronômio, a tensão conscien­
te entre a declaração de princípio (ou o
Primeiro Mandamento) e as muitas leis
corresponde exatamente à forma de fór­
mulas de tratados na tensão entre a de­
210
claração de princípio e a lista de provi­
sõesespecíficas.1
O uso da história de Israel em relação
à aliança também corresponde à recita­
ção dos eventos. Essa relação é sempre
usada nos tratados como um tipo,de
prova ou argumento, e a coisa que dese­
jam provar influencia a maneira como os
eventos são recitados. Este elemento ar-
gumentativo é também claramente evi­
dente nas apresentações da lei no Penta-
teuco, e especialmente em Deuteronô-
mio.
As maldições e as bênçãos são outros
elementos das formas de tratados, espe­
cialmente evidentes em Deuteronômio
(8:19,20; 11:26-32; 27:15-26; 28:1-68).
Ordenam castigo para qualquer que vio­
lar a aliança e recompensas para aque­
les que a guardarem. São sempre condi­
cionadas à obediência ou ao cumprimen­
to das estipulações da aliança. Pressu­
põem que Deus está alerta quanto às
estipulações da aliança e que proporcio­
nará tanto recompensa quanto castigo.
Apesar de não se propor ao registro de
um código completo de leis, Deuteronô­
mio contém muitas leis. Elas são para­
lelas a outras coleções de leis, no Antigo
Testamento, e semelhantes no gênero.
Leis consuetudinárias de diversos tipos
são encontradas nos capítulos 12-26.
Aquelas que dizem respeito ao rei, ao
profetaeà “guerra santa” são peculiares
a Deuteronômio. A tendência para dar
destaque aoculto “nolugar onde ele fará
com que habite o seu nome” é também
única.
Várias passagens narrativas são conta­
das na primeira pessoa por Moisés. São
quase como parágrafos de suas memó­
rias (cf. 1-3; 4:10 e ss.; 9:7 e ss.). Pode
1Quanto à literatura, ver: J. MuUenburg, “The Form and
Structure of the Covenant Formulations”, Vetus Testa*
mentum, IX, 1959, p. 347-365; D. J. McCarthy, Treaty
and Covenant (Roma; Instituto Bíblico Pontifício, 1963);
H. B. Huffmon, “The Covenant Lawsuit in the Prophets”,
JournalofBiblical Literature, LXXVIII, 1959, p. 285-295;
W. Beyerlin, Origins and History of the Oldest Slnattic
Traditions(Oxford: Blackwell, 1966).
ser que coleções extensas de semelhantes
memórias existissem, das quais estas são
uma seleção.
Narrativas das peregrinações pelo de­
serto aparecem nos capítulos 1-3, en­
quanto uma narrativa que condiz com a
biografia mais completa de Moisés apa­
receno capítulo 34.
Dois poemas atribuídos a Moisés são
inclusos em Deuteronômio. São o cân­
tico (32) e a bênção (33). Dois outros
poemas do Antigo Testamento são atri­
buídos a Moisés (Êx. 15; Sal. 90). Ne­
nhum desses poemas tem muito em co­
mum com qualquer dos outros, e cada
um deve ser examinado à luz de suas
próprias qualidades. Porém está claro
quetodoseles têm, por detrás de si, uma
longa história. Pode ser que sejam os
remanescentes do que era uma coleção
muito maior.
A forma literária de maior importân­
cia em Deuteronômio é a da oração ou
discurso (ou melhor, uma coleção de tais
orações ou discursos). O autor usa o
pronome pessoal “eu” muitas vezes e
dirige-se ao seu auditório com um misto
peturbador da segunda pessoa do singu­
lar com a do plural. Este misto de sin­
gular com plural tem constituído um
problema para os intérpretes e ainda não
se tem conhecimento de nenhuma expli­
caçãoplenamente satisfatória.
O tom básico dos discursos é o do
pregador ou exortador. Eles situam-se
dentro da tradição de orações de despe­
dida conhecidas de outros lugares (Jos.
23; I Sam. 12; I Crôn. 22 e 29). Mas
também são de perto relacionados à
constituição ou renovação de uma alian­
ça, como, na realidade, são também os
outros. Usam materiais da história sa­
grada de Israel, formas relacionadas com
a aliança eformulaçõeslegais.
Muitos grupos de leis, e leis isoladas,
antigos são preservados em Deuteronô­
mio. Algumas destas leis paralelas estão
no Código da Aliança (Êx. 21-23) ou no
assim chamado Código da Santidade
211
(Lev. 17-25). Mas algumas antigas apa­
recemsomenteem Deuteronômio. A ten­
dênciapara apresentaras leis de maneira
exortativaéevidente no Código da Santi­
dade e em outras declarações da lei,
inclusive no Decálogo. Porém o sermão
legaleaexortação para a guarda das leis
da aliança chegam à sua expressão clás­
sicaeplenaemDeuteronômio.
A estrutura desenvolvida destes dis­
cursos em Deuteronômio trata, norma-
tivamente, em primeiro lugar, de uma
seção da história sagrada. Então segue
uma série de sermões sobre temas apro­
priados, relacionados com essa história
procurando fazer com que Israel se de­
dicasse mais completamente ao serviço
do Senhor dentro da aliança. O esboço
seguinteexporá issoclaramente.
2. AsOrigens das Tradições Pactuais.
Muitas vezes se tem pensado em Siquém
como sendo o berço das tradições pac­
tuais mais primitivas de Canaã. Existem
evidências bíblicas abundantes para esta
associação. A referência direta a ceri­
mônias de bênção e maldição, que deve­
riam ser realizadas nas montanhas de
Ebal eGerizim, próximas a Siquém (27),
éprova desta associação.
Há muitos outros sinais de que a fonte
domaterialagora achado em Deuteronô­
mio se situava na parte setentrional de
Israel. As idéias dominantes da aliança
em Jerusalém estavam relacionadas com
Davi e Sião, com muitas características
em oposição direta às provisões condicio­
nais da aliança em Horebe. Deuteronô­
mio é meticuloso em evitar essas idéias e
fundamenta-se claramente na aliança em
Horebe.
Se é verdade que as fontes de Deute­
ronômiojazem no Norte, a destruição do
Reino Setentrional, em 721 a.C., pelos
exércitos assírios, tornou a fuga para
Judáumanecessidade. Esteacontecimen­
toteriafeitocomqueosguardiOesrespon­
sáveispela tradição considerassemJudáe
Jerusalém como asúnicas portadoras res­
tantes dessa aliança. A esperança para o
futuro repousavanelas(Nicholson, p. 58-
82).
Gilgaléoutrolugaronde sepodejulgar
que as tradições pactuais tenham sido
preservadas. É o local onde o livro de
Josué registra as primeiras reuniões sa­
gradas em solo cananeu. Samuel convo­
cou todo o Israel para se congregar ali.
Amós, apenas um pouco mais que duas
gerações antes da destruição de Samária,
referiu-o como um santuário em funcio­
namento(4:4).
A tradição da conquista teria, com
mais plausibilidade, estado em seu am­
biente próprio em Gilgal, junto com as
tradições da ‘‘guerra santa”, tais como
são registradas em Josué. Ambas estas
tradições tiveram influência considerável
sobre Deuteronômio, e podiam ser me­
lhor explicadas por uma ligação direta
com as tradições de Gilgal. Também se
tem pensado na tendência para se falar
no que Deus espera dos homens em
aliança com ele em termos de um único
grande mandamento, como originário de
Gilgal, como foinotado acima.
Semelhantemente a Siquém, Gilgal
deixou de funcionar, com a queda de
Samária. Uma continuação de seu traba­
lhoeinfluênciasó teria sido possível pela
emigração para Judá.
Jerusalém foi o lugar onde Deutero­
nômio exerceu a sua influência sobre
Josias e as gerações posteriores. O livro
não faz, de maneira nenhuma, referência
a tradições de Jerusalém sobre a aliança
ouideais de remado davídicos. Nem mos­
tra qualquer sinal de ter algo a ver com
as tradições do sacerdócio de Jerusalém,
registradas em Levítico. Se faz alguma
declaração a respeito, é em contrário a
elas.
Esteposicionamento é suficientemente
claro para fazer com que um escritor se
referisse a isso como uma convocação a
uma fé desmitologizada, um culto des-
ritualizado e uma lei deslegalizada. Ele
refere-se às suas tendências secularizan-
212
tes, humanizantes e individualizantes,
quetransformaram uma religião cultural
numa religião dolivro.2
Porém está igualmente claro que Deu-
teronômio teve de conquistar aceitação
emJerusalém, do contrário, não teria,so­
brevivido. Existe um número de pontos
importantes em que Deuteronômio ado­
tou e adaptou pontos de vista originários
de Jerusalém. A doutrina da eleição de­
sempenha um papel central em Deutero­
nômio. Seu conteúdo é o da 'aliança de
Horebe e das tradições de Siquém, mas o
seu vocabulário é o de Jerusalém e das
tradições davídicas. 3Além disso, foi ela­
borado de modo a aceitar e apoiar as
tentativas de Ezequias (II Reis 18:4,22)
e de Josias (II Reis 23:8) de centralizar o
cultoemJerusalém.
Portanto, uma visão das origens de
Deuteronômio que vê as suas fontes no
Norte, mas a sua composição real em
Jerusalém ou Judâ depois da queda de
Samária, em 721 a.C., pareceria fazer
jus a todos esses fatores (Nicholson,
p. 94e ss.). Embora certas mudanças nas
teses centrais fosseip necessárias pelo re­
conhecimento de que o futuro jazia em
Jerusalém, o livro mantinha uma atitude
bem diferente, para com as tradições de
Israel, daquela representada pelo sacer­
dócio no Templo ou pela ideologia real
tradicional, como avemos nos Salmos.
3. PregadoresdaAliança. Quem eram
estes pregadores das tradições da alian­
ça, que transmitiam estas tradições, de­
ram o seu cunho distintivo a Deuteronô­
mio e ousavam desafiar Israel, em nome
de Moisés, para restabelecer a aliança?
Apergunta nãoé fácil de seresponder.
Muitos intérpretes chamam a atenção
para a influência dos profetas principais
e consideram as pessoas que compuse­
ram Deuteronômio como pertencentes a
2 Weinfeld, "Deuteronomy — The Present State of the
Inquiry”, Journal of Biblical literature, LXXXVI, 1967,
p. 249-262.
3 R. E. Clements, “Deuteronomy and the Jerusalem Cult
Tradition”, Vetm Te»Umentum, XV, 1965, p. 300-312.
círculos proféticos. Porém o livro mostra
um interesse positivo pelas formas ri­
tuais, o que é muito invulgar nos profe­
tas. Outros, hoje, apontariam para os
escribas ou sábios. Conquanto a influên­
cia deles possa explicar muitas coisas
contidas em Deuteronômio, nunca pare­
cem ter falado ou escrito com o fervor da
convicção ou se terem atido tão firme­
mente às tradições sagradas antigas de
Israel comofazDeuteronômio.
A sugestão mais plausível indica os
levitas, que originalmente assistiam a
santuários na Norte, mas então migra­
ram para o Sul, depois de 721 a.C. Em
cooperação chegada com “o povo da
terra” em Judá, vieram a ser os maiores
apoiadores tanto de Ezequias como de
Josias. O seu interesse e tarefa princi­
pais eram a preservação das tradições
pactuais antigas e o ensino delas a cada
nova geração (von Rad, Deuteronomy,
p. 24ess.).
Não há dúvida de que as críticas pro­
féticas, tanto do culto como da casa real,
tinham desempenhado um papel em
moldar as atitudes bem diferentes que
Deuteronômio toma em relação a estas
coisas. Pode também ser que o ensino
dos sábios que atuavam durante o rei­
nado de Ezequias tenha desempenhado
um papel nas tendências secularizante e
humanizante evidentes em Deuteronô­
mio.
Porém o programa positivo e otimista
apresentado, bem como a maneira fervo­
rosa em que se insiste nelejunto ao povo
denotam a obra de pregadores, tais como
os levitas, e um programa político de re­
forma, tal como o proposto por Ezequias
ou Josias, com o apoio do povo. Con­
tudo, não parece haver motivo para se
supor que essa atividade não tenha tido
lugar em Jerusalém. Esse é o lugar onde
teria de conquistar aceitação, a fim de
ser de qualquer maneira efetivo (Cle-
ments, p. 20).
4. Tradições Sagradas. Os pregadores
de Deuteronômio pertencem à linha de
213
tradição que surgiu da antiga confedera­
ção tribal. O lugar que o livro tem che­
gado a ocupar no Pentateuco é plena­
mentejustificado, pois o Pentateuco é o
repositório dessas tradições.
Deuteronômio inteiro visa claramente
a renovação epropagação da aliança em
Horebe ou Sinai. Como tal, é devida­
mente entendido como uma redação de
documentos pactuais relacionados com
essatradição. Outros se podem achar em
Êxodo 20-23;34 e Números 10. O repo­
sitório principal da tradição da aliança
em Horebe, em Deuteronômio, encontra-
se no capítulo 5, mas o livro está repleto
dereferências a ela.
Como em todas as expressões penta-
teucais da aliança, Deuteronômio tam­
bém depende das tradições do êxodo,
embora façam parte normalmente ape­
nas do pano de fundo. Recorre-se a estas
tradições na identificação de Deus como
o redentor de Israel; e recorre-se a elas
também como ao acontecimento histó­
rico básico que tomou a aliança e a exis­
tência deles como um povo possíveis
(cf. 5:6; 13:5; 16:6; 20:1). Estas tradições
são paralelas ao depósito primordial da
tradição no livro deÊxodo.
A tradição da conquista de Canaã de­
sempenha umpapel importante nos capí­
tulos 1-3 e nos regulamentos para a
“guerra santa”. Estes dois aspectos são
naturais à ênfase, em Deuteronômio, so­
bre seu contextoem Parã, antes do come­
ço da conquista propriamente dita, uma
ênfase que ganhou importância à me­
dida que Deuteronômio se desenvolveu
através dos diversos estágios que acres­
centaram o capítulo 7 aos capítulos 5 e 6
e que, mais tarde, acrescentaram os ca­
pítulos 1-3, pela mão do historiador deu-
teronômico. A fonte desta tradição pare­
ceter sidoGilgal.
Aconquistaem si é vista coerentemen­
te como aguardando Israel no futuro,
embora grande parte da preocupação do
livro trate dos pormenores da vida na
terra. A porção desta tradição que diz
respeito à peregrinação no deserto é refe­
rida muitas vezes na pregação dos capí­
tulos 8-11 e descrita detalhadamente nos
capítulos 1-3. Tradições paralelas, no
Pentateuco, podem ser achadas em Nú­
meros.
Outro elemento antigo que aparece
nos preparativos para a conquista diz
respeito à guerra santa. Esta era uma
guerra “declarada, dirigida e ganha pelo
próprioYahweh”.4
Estas guerras tiveram lugar, confor­
me parece, por várias ocasiões quando a
existência de Israel foi ameaçada duran­
te o período dosjuizes. É digno de nota
que estas guerras foram mais exaustiva­
mente descritaseestimuladas por Deute­
ronômio numa época quando semelhan­
tes conquistas e a possibilidade de tais
triunfos militares já se tinham ido havia
muitotempo.
Isso pode ser explicado pela proximi­
dade de Deuteronômio das tradiçõespac­
tuais de Gilgal, que também subjazem
na composição dos primeiros capítulos
de Josué. Ê claro que a “guerra santa”
foi profundamente arraigada nessas tra­
dições que se relacionavam de perto com
todo otema da conquista de Canaã. Em
Deuteronômio, “a história inteira de Is­
rael é apresentada como uma guerra
santa, e o passado é uma garantia do
futuro”.5Parece queuma das caracterís­
ticas dessasguerras santas era uma exor­
tação ao exército para não temer, mas
para prever a vitória do Senhor. Além
das leis nos capítulos 21-23, esses dis­
cursos têm sidousados com grande efeito
em certo número de sermões no livro.
Antes que se pense na aplicação do
conceito da guerra santa em alguma for­
ma moderna, dever-se-á lembrar que o
reavivamento e reaplicação de uma visão
4. InterpretersDictionaryoftheBibleVol. R-Z, p. 796-801.
Cf. também N.K. Gottwald, “Holy War’ in Deuterono­
my”, Review and Expositor, LXI, 1964, p. 296-310; Ro­
land de Vaux, Ancient Israel: Its life and Institutions.
(New York: McGraw-Hill, 1961), p. 258-265; von Rad,
Studies in Deuteronomy, p. 45-59.
5. de Vaux, op. dt., p 264.
214
davida, em que Deus, inequivocadamen-
te, dá apoio a Israel e aos seus dirigentes
contra as nações, aparece somente em
Isaías 1-39 e em Deuteronômio. Jere­
mias, nos capítulos 1-45, não a admitiu.
Ê evidente que ele e escritores posterio­
res viram o assunto de um ponto de vista
contrário: o Senhor lutava contra Israel,
para o levar para o exílio. O único lugar
que a profecia posterior dá a estes qua­
dros é dentro de uma perspectiva dos
eventoscataclísmicos dos “últimos dias”.
É óbvioque o NovoTestamento não con­
siderao povo de Deus de uma forma que
permitisse a aplicação de semelhante
pensamento, tampouco concebe a apli­
cação a qualquer sociedade secular mo­
derna que corresponda a estas condições.
Além das citadas, subentendem-se
tradições patriarcais em termos da pro­
messa da terra de Canaã, que agora es­
tava por ser cumprida na conquista. As
tradições básicas e típicas de Jerusalém
são deixadas de lado, sem nenhuma re­
ferência a Sião ou a Davi. A inclusão
necessária de leis concernentes ao san­
tuário central e ao rei são mantidas pro­
positadamente indefinidas quando à no­
menclatura.
5. Resumo. A origem de Deuteronô­
mio se há de entender como firmemente
fundamentada no meio de tradições, for­
mas e cerimônias das tradições pactuais
antigas de Israel. Sem dúvida, estas últi­
mas têm moldado a forma do livro de
maneiras essenciais. Porém estas tradi­
ções são apresentadas de uma forma
adaptada, quepressupõe as condições de
um Estado organizado, tal como existia
em Judá dos séculos oitavo ao sétimo, e
não como as do período dos juizes, com
tribos autônomas(Nicholson, p. 52).
Essas tradições foram transmitidas
através de gerações de famílias levíticas,
em santuárioscomo Siquém e Gilgal, até
que a destruição do Reino do Norte, em
721 a.C., impossibilitou a continuação
de seu serviço nesses lugares. Alguns dos
representantes dessas famílias migraram
para o Sul, para Judá e para Jerusalém,
trazendo com eles as suas tradições. Mas
trouxeram mais: trouxeram a fé resoluta
e otimista na viabilidade da aliança e a
certeza da suà eleição como o povo de
Deus que dizia respeito a todo o povo de
Israelsob a aliança.
Sob a compulsão desta fé, moldaram
as tradições da aliança em sermões, que
já não precisavam das cerimônias com­
plexas e completas de renovação da
aliançapara a sua expressão. Reinterpre-
taram ereforçaram a doutrina da eleição
em termos emprestados de Jerusalém,
mas com o conteúdo de Horebe. E ado­
taram o princípio de um santuário cen­
tral, como a base para a reforma religio­
saepolítica, de acordo com os princípios
da reforma deEzequias. Para isso, adap­
taram o ensino antigo da confederação,
quetinha uma só arcaequeconvocava as
tribos para seunirem ao redor dela.
III. OLivro
1. OÂmago. Sem dúvida, se descobre
o âmago do livro nos sermões sobre o
Primeiro Mandamento, nos capítulos
5-11. Seu estilo apelativo-exortativo tem
dado ao livro em sua inteireza seu tom e
forma significativose únicos. Os sermões
derivam a suaforma comoumaparte das
cerimônias de renovação da aliança nas
quais olíder, como medianeiro, expunha
ao povo a base da aliança pela recitação
de elementos de tradições sagradas, e
entãoo exortava à aceitação do princípio
da aliança que é expresso por variações
doPrimeiro Mandamento.
Evidentemente, estes sermões tinham
como meta a apresentação pública. Não
está claro se se relacionavam a cerimô­
nias formais de renovação da aliança ou
se simplesmente derivaram sua forma e
substância de tais cerimônias, enquanto,
na realidade, visavam apresentação mais
freqüente emenos formal.
215
Cadaum delesé formado, claramente,
de duas partes; primeiro, se relata uma
narrativa histórica, de uma seção impor­
tante de tradição sagrada relacionada à
aliança, na primeira pessoa, com Moisés
como o orador; então segue uma exorta­
ção, ou série de exortações (como em
5:1-31 e 9:9-11:25), dirigida a Israel, ur­
gindo que ele se dedicasse totalmente ao
Senhor.
A idéia básica, por detrás da composi­
ção dos sermões, parece ter sido a unifi­
cação de diversas tradições, num pedido
encarecido de aceitação de uma aliança,
oferecida de novo, conforme o padrão
daquela de Horebe, e de lealdade a ela.
Eles bem podem ter estado dispostos a
apoiar um reavivamento de autêntico
“yahwismo”, em Judá, no período que
testemunhava o reavivamento e reforma
deEzequias.
A revisão e expansão destes sermões
acrescentaram elementos da tradição de
Gilgal no capítulo 7 e o sermão nos
capítulos 8 e 9:1-8. Provavelmente, inse­
riram 9:22-24e a seçãofinal de 11:18-25.
2. As Leis. Ã medida que esse movi­
mento ganhava corpo, ou com relação às
medidas reformistas de Ezequias ou sob
a sua influência, o pedido encarecido
para que se aceitasse o princípio básico
dealiança levaà afirmação pormenoriza­
da das condições da aliança. Esta última
érepresentada nos capítulos 12-26. O es­
tilo exortativo continua, embora a pro­
porção deleissemexortação aumente até
o capítulo 25. A conclusão desta seção,
em 26:16-19, indica claramente que foi
preparada para uso em cerimônias ge­
nuínas de renovação da aliança.
Neste período ou um pouco depois, a
seção de sermões sobre o Primeiro Man­
damento (5-11) foi unida à seção que
apresentava as condições pormenoriza­
damente (12-26). Esta (talvez com algu­
mas partes do capítulo 28 e o acréscimo,
um pouco mais tarde, do capítulo 27),
então, teria constituído o livro que o rei
Josias achou no templo em 621 a.C.
(II Reis 23).
É certo ver esta parte de Deuteronô-
miocomo relacionadas intimamente com
os acontecimentos em Judá durante os
reinos tanto de Ezequias como de Josias.
O livroreflete a repulsa e a reação de seu
autor contra a política administrativa e
as práticas dos reis Acaz e Manassés.
Porém não se deve pensar numa relação
chegada demais. Estas reformas não se
realizaram por causa de Deuteronômio
nem é Deuteronômio o resultado desses
movimentos. (Cf. o estudo completo do
problema em Nicholson, p. 1-17, e von
Rad, Deuteronomy, p. 27,28). O livro foi
uma apresentação coerente da oferta e
exigências de aliança em termos rele­
vantes para os últimos 125 anos de exis­
tência do Reino do Sul.
Nesta proclamação zelosa da aliança e
lei mosaica, a influência dos profetas e
dos sábios pode ser traçada. O programa
do “povo da terra” que apoiou Josias
também pode ser visto nela. Porém ne­
nhum deles tinha o ponto de vista posi­
tivo e otimista da aliança, o acesso aos
pormenores das tradições da aliança de
Israel e a visão aberta para ver o uso
criativo por parte de Deus, naquele pe­
ríodo, que teria tomado este tipo de pre­
gação possível. Os escritores deste notá­
vel e significativo documento deverão,
commaisprobabilidade, ser achados nas
fileiras dos mesmos pregadores levíticos
que o trouxeram dos santuários ances­
trais (von Rad, Studies in Deuteronomy,
p. 60-69, eDeuteronomy, p. 25).
Neste livro os escritores refletem a in­
fluência de todos esses outros grupos. A
força das reformas que propõem está na
maneira em que diversos elementos da
população de Judá são agregados para
formar um sópovo, sob um Deus, numa
só'terra.
3. A “Inclusão” do Deuteronomista.
Um pouco antes do exílio, preparou-se
uma grande história de Israel. Abrangia
216
operíodo docomeço davida de Israel em
Canaã até uma data bem perto do fim do
Reinodo Sul(i. e. por volta de 600 a.C.).
Essa história é agora apresentada em
Deuteronômio, Josué, Juizes, Samuel e
Reis. Já aceita o fato do reino conforme
os pronunciamentos proféticos dejuízo e
sepropõe a mostrar osfundamentos para
esse juízo, por comentários redatoriais
sobre os livros de material histórico e
tradicional, que o historiador inclui em
suahistória.
Parece que Deuteronômio foi incluído
pelo autor como a primeira seção da obra
maior que proporcionou as bases teoló­
gicas para sua perspectiva histórica.
(Esta interpretação foi apresentada pela
primeira vez por Martin Noth e tem
conseguido larga aceitação. Cf. Nichol-
son, p. 107 e ss.). Ao incluir Deuteronô­
mio na obra maior, o autor providenciou
uma estrutura, para o livro, que fez com
que melhor lhe servisse ao propósito.
Essa estrutura incluiu o prefaciamento
do livro com uma primeira fala de Moi­
sés, nos capítulos 1-4, e o acréscimo de
um terceiro discurso e dois poemas, nos
capítulos 29-33, que realça especialmen­
te a sucessão na liderança e abre o cami­
nho para a obra de Josué no livro se­
guinte.
O deuteronomista(como sechamaeste
historiador) deixou de lado o convite
otimista para um futuro promissor, na
condição de Israel obedecer. Destaca sua
tendência para pecar e a necessidade do
juízo, que haviade caracterizar a história
comoum todo.
4. ARevisão Exílica. Ahistória deute-
ronômica inteira foi, conforme parece,
sujeita a uma revisão minuciosa durante
oexílio. Arevisãorealça o resultado final
dalonga história do pecado e rebelião de
Israel por referências específicas ao exí­
lioporvir.
O livro de Deuteronômio não escapou
dos efeitos dessa revisão e um certo nú­
mero de parágrafos do livro mostra as
suas marcas (por exemplo, 30:1-10). O
desígnio desta inclusão e revisão foi o de
mudar muito o que diziarespeito à inten­
ção original do livro. Ao invés de apre­
sentar um convite aberto para se aceitar
a oferta de Deus para a vida e a prospe­
ridade “hoje”, tomou-se parte de uma
longa explicação do porquê de as pro­
messas originais e a obra de Deus já não
serem disponíveis ao Israel sobjuízo.
5. Inclusão no Pentateuco. Depois do
exílio, o conjunto de escritos que conti­
nham as palavras e obras de Moisés
transmitidas foi coletado por redatores
sacerdotais, para se tornar no cânon de
escrituras autorizadas para a comunida­
de judaica. É possível que o papel de­
sempenhado por Deuteronômio antes do
exíliotenha servidocomo modelo.
Esses redatores separaram a parte da
história deuteronômica que trazia o no­
me de Moisés, do restante. Desta manei­
ra foi que Deuteronômio veio a ser a
conclusão do Pentateuco. Ao assim fa­
zer, inseriram algumas partes pequenas
de seus próprios materiais (1:3; 4:41-43;
32:48-52; 34:1a, 7-9). Talvez sejam res­
ponsáveis pela adição de todo o trigé­
simo quarto capítulo como um encerra­
mento, apropriado à vida e obra de
Moisés.
Este último passo, na formação de
Deuteronômio, restaurou-o a um contex­
to que podia ressaltar a abertura para o
futuro e permitir que a sua chamada
para a obediência “hoje” fosseouvida.
IV. Moisésem Deuteronômio
O livro de Deuteronômio não está in­
teressado em Moisés principalmente co­
moindivíduo, como homem. Está é mui­
tíssimo preocupado com Moisés como
alguém que representa um papel essen­
cial na vida e existência continuada do
povo de Deus. O livro tem plena cons­
ciência da necessidade do momento que
o povo tinha do ministério de Moisés —
porém está igualmente consciente de que
217
Moisés não permaneceria vivo através
dosséculos da história de Israel. De fato,
ele morreu antes de Israel entrar em
Canaã.
Mas o povo continuou a viver como o
povopactuai de Deus. Moisés, o homem,
era descartável no plano de Deus (não se
lhe permitiu que continuasse a viver).
Porém oMoisés nopapel de mediador da
aliança, legisladore líder carismático era
indispensável. O livro que estamos consi­
derando foi escrito para mostrar como
Moisés sobreviveu através dos séculos,
além de sua morte, na corrente constan­
te daqueles que ocuparam o seu lugar e
que assumiram as funções dele, cada
um, a seu modo, sendo o novo Moisés,
embora nenhum pudesse ser julgado co­
moseigualando na estatura espiritual do
próprio Moisés(34:10-12).
A essência em si do livro, que sejulga
ser aparte mais antiga, diz respeito prin­
cipalmente a Moisés como ogrande legis­
lador e mediador da aliança. Vê a lei
divina como a que vinha originalmente
de Horebe, mas é também entendida
como uma coleção crescente, sob a ad­
ministração de Moisés, durante os perío­
dosem Cades-Baméia até as planícies de
Parã. Não é a relação com Horebe, mas,
sim, a égide de Moisés que lhe dá auto­
ridade.
A necessidade desta função essencial
de Moisés não cessou com a entrada em
Canaã. Precisava-se manter a atualidade
da aliança para cada novo capítulo da
história do povo de Deus. O papel de
Moisés, bem como o manto da sua auto­
ridade podiam ser continuados dentro da
tradição e das cerimônias da renovação
da aliança como o livro em questão mos­
tra. Assim, a lei tinha também de ser
atualizada da mesma maneira. Reivindi­
cava-se a autoridade de Moisés, quando
a lei era proclamada, por ocasião de
cerimônias pactuais e em ligação chega­
da com a recitação das tradições antigas
e a exortação de princípios básicos da
relação de Deus com o seu povo. Assim,
as novas adaptações tinham de ser feitas
de tal modo que se casassem com as
antigas e de direito se encaixassem nas
tradições relacionadas com a lei original
ecom olegisladororiginal.
O ofício de mediador era igualmente
importante. Moisés posicionava-se entre
o Senhor e o povo. Orava a Deus em
prol do povo e implorava diante do povo
emprol de Deus. Este conceito essencial­
mente sacerdotal do ofício de mediador
nada tinha a ver com o sacrifício em
Deuteronômio. Antes era uma interven­
ção altamente pessoal, por parte de uma
pessoa, entre Deus e o homem. Era
entendida como essencial para a forma­
ção ou para a renovação da aliança (9:8-
21,25-29; 10:1-5; 10,11).
Ascerimônias de renovação da aliança
também tornaram possível que esse pa­
pel essencial fosse preenchido mais tar­
de, em Israel, por alguém que agisse no
lugar de Moisés, falando, orando, implo­
rando em prol de uma geração contem­
porânea, como tinha feito Moisés. As
cerimônias transportavam a geração con­
gregada de volta a Parã, em espírito,
para lhe permitir experimentar a renova­
ção dosvotos sob Moisés, antes de entrar
na Terra Prometida. Isto forma um pa­
ralelo com a maneira como uma família
judaica agora experimenta a fuga do
Egitona Páscoa (Êx. 12) ou uma congre­
gação cristã experimenta opartir do pão
com o seu Senhor à sua mesa (I Cor.
11:23-25).
Os capítulos inicial e final de Deute­
ronômio, que constituem a moldura para
o ponto central, estão profundamente
preocupados com um outro elemento do
papel de Moisés: sua liderança do povo.
Estes capítulos foram, provavelmente,
escritos em sua forma atual como uma
introdução aos livros de Josué a II Reis
inclusive. O problema da sucessão no
ofício e no poder é grande. Este aspecto
da obra de Moisés não podia ser trans­
mitido simplesmente pela identificação
formal durante um ritual pactuai. Um
218
homem dotado e capaz tem de ter o
poder de agirpor direitopróprio.
Para solucionar essa questão, os capí­
tulos dão ênfase ao fato óbvio de que o
Senhornão permitiu que Moisés atraves­
sasse o Jordão (1:37,38; 3:23-28; 31:2b;
32:48-52; 34:1-8). Na vontade de Deus
não hã nenhuma intenção que a sua obra
seja presa a apenas um homem. Josué já
fora escolhido para a tarefa. Estes capí­
tulosrealçam a transmissão, por Moisés,
de sua autoridade a seu sucessor, confor­
me as instruções do Senhor (1:38; 3:28;
31:3-8; 14,15,23; 32:44; 34:9). O pro­
pósito teológico e prático destaca-se cla­
ramente em 31:3-6. A fonte real de lide­
rança, poder e direção não se achava em
nenhum homem, nem mesmo em Moi­
sés, mas, sim, no Senhor. O Senhor diri­
gia, e ele providenciaria novos líderes.
Por este motivo se ordenou à liderança
velha que estivesse pronta para transmi­
tir seu poder e autoridade àquela esco­
lhidapelo Senhorpara a suceder.
Assim, o livro de Deuteronômio se
preocupa em realçar a autoridade origi­
nal de Moisés e a relação dele com os
termos da aliança proclamados “hoje”.
É muitíssimo consciente do problema
colocado pela passagem do tempo e o
fato óbvio de que Moisés já não estava
realmente presente. Também não era ele
responsável, literal e diretamente, quan­
to acada particular da lei, que tinha sido
emendada e ampliada, para correspon­
deràs condições sob mudança. Tampou­
co eram os sermões literalmente dele,
poiseles também tinham sido aplicadosa
problemas habituais que ameaçavam a
existência dopovo da aliança.
O livro reivindica autenticidade e inte­
gridade para esta nova proclamação da
aliança em termos de uma tradição e
cerimônia válidas da mediação da alian­
ça mosaica, que é afirmada e pela qual
todas as variações do modelo atual deve­
rão ser testadas. Reivindica autenticida­
de e integridade para a liderança atual
sob a aliança, ressaltando que a lide­
rança, em última análise, pertence so­
mente ao Senhor, que providencia uma
sucessão de líderes, para herdarem o
manto de Moisés e ocuparem o seu lugar
delíder dopovode Deus.
Desta maneira, Deuteronômio não he­
sita em colocar tudo isso na forma de
um discurso de Moisés. O leitor moder­
no, conquanto mantenha presente em
suamemória a perspectivaeaplicação da
história, pode, com mente igualmente
lúcida, ver a sombra estirada e ouvir o
eco autêntico, mesmo que distante, nes­
tas páginas, de um dos maiores homens
quejá andou nesta terra.
V.O QueÉoDeuteronômio?
Depois de vermos a história deste livro
como um documento de reforma da
aliança e como um discurso de Moisés,
integrando história, leis e exortação, a
questão de seu significado, para o leitor
moderno, é apropriada. Duas respostas
importantes apontam seusignificado his­
tóricoesua aplicação contemporânea.
1. ÊumMarcoTeológico
Deuteronômio assinala um ponto mui­
tíssimo significativo da história religiosa
de Israel, que deverá ser examinado jun­
tamente com outros fatores formativos
dessahistória.
Sua documentação de um ponto de
vistasobre Deus. —Deuteronômio apre­
sentacoerentementeumconceito deDeus
que é menos antropomórfico que o da
maior parte do Antigo Testamento. É
dado menos destaque à santidade, mas
muito mais à atitude, alvo e propósito.
Arelutância para se falar da presença de
Deus expressa-se na assim chamada
“teologia do nome”, na qual não Deus
masoseunome habitará entre oseupovo
(von Rad, Studies in Deuteronomy,
p. 37-44). Porém há realmente pouca
tentativa de definirou ampliar esseponto
devista.
Seupontodevista sobre as instituições
de Israel. — A atitude para com o rei é
219
pragmática e secular. O templo, o sacer­
dócioeosacrifício são apresentados mais
em termos de ensino do que como meios
de poder e graça divinos. Esta atitude é
suficientemente notável para ser chama­
da de antimítica, anti-ritual, anticlerical
e antilegal. Tende a secularizar as ins­
tituições e considerá-las racional e pra­
ticamente.
Esta abordagem pragmática e racional
explica a ausência de certas ênfases teo­
lógicas no livro. Isso é visto na falta de
amplitude em sua interpretação dos sím­
bolos religiosos que tinham sido comuns
em Israel. Há uma certa monotonia, um
tom racionalista. Não há nenhuma de­
claração completa da presença de Deus
entre seu povo. O ponto de vista exposto
parece situar-se algures entre uma com­
preensão da real presença de Deus no
Templo euma descoberta dessa presença
pela habitação interior do Espírito de
Deus.
Uma semelhante falta de ênfase per­
meia a sua descrição da santidade, tanto
em termos da santidade de Deus, como
da santidade de seu povo. Deuteronômio
entende a santidade do povo como algo
que o coloca à parte, mas não destaca
nada das dimensões mais dinâmicas da
santidade, que explicam a essência da
culpa e que requeriam expiação como
um dos alvos do sacrifício. Suas descri­
ções de sacrifícios são feitas tão-somente
em termos de dádivas aDeusem ações de
graças.
A força de Deuteronômio acha-se em
sua apresentação persuasiva de doutri­
nas práticas, dentro de uma estrutura de
reavivamento religioso, baseada nas an­
tigas tradições sacras de Israel. Todas
elas mostram Israel como um povo dedi­
cado a um só Deus. Destaca comprome­
timento e relações pessoais, muito embo­
ra, em assim fazendo, fale em termos do
povotodo.
SeupontodevistasobreIsrael. —Deu­
teronômio concebe Israel como a assem­
bléia congregada, ouvindo e recebendo o
anúncio da aliança. Realça a eleição
divina de Israel nos termos da aliança.
Fé e dedicação voluntária a Deus na
aliança são patentes em Deuteronômio.
Haviam de ser exercitadas pelo povo in­
teiro. Por conseguinte, o povo inteiro era
tidocomo responsável pelo cumprimento
dasprovisões da aliança.
Deuteronômio não é, de maneira ne­
nhuma, uma declaração teológica com­
pleta. Falta-lhe um alvo na História,
além da ocupação de Canaã. Não contém
nenhuma escatologia. Não se evidencia
nenhuma missão em Deuteronômio.
Aparentemente, vê eleição como para a
nação de Israel somente. Retrata uma
religião do Estado. Não define nenhuma
limitação clara entre o indivíduo e a
comunidade. Tampouco existe um fun­
damento universal, para a compreensão
dessa eleição, como é apresentado na
pré-história de Gênesis 1-11.
Existem também graves inconsistên­
cias ou lacunas no livro. A relação entre
obediência e recompensa é colocada em
termos que dificilmente resistem a um
exame cuidadoso, se essa relação se pro­
põe a ser um princípio em torno do qual
sehão deorganizar as realidades da vida.
Seu registro de pregação. — Deutero­
nômio claramente ilustra um meio de
comunicação cuja importância aumen­
tou em Israel. O livro alcançou sua larga
influência e seu lugar de enorme signi-
cado nojudaísmo eno NovoTestamento,
como uma recapitulação popularizada
das tradições mosaicas, incluindo histó­
ria, exortação e lei em estilo homilético.
Como tal, não busca ser completo na lei
ou na teologia. Exorta à aceitação, à
dedicação e à obediência. Visa a pratica­
bilidade, a simplicidade e a aplicação
pessoal. Eis o que o pregador e o evange­
lista devem fazer em cada geração..E fa­
zê-loextremamente bem.
O ponto de vista de Deuteronômio,
apresentado por von Rad, como um en­
sinamento e pregação populares da lei
para olaicato permanece como a explica-
220
çâomais satisfatória do livro. Busca con­
quistarocoração dopovotodo.
Deuteronômio consegue esse alvo de
maneira notável.,Em sua recitação da
história sagrada, mostracomo a doutrina
se há de basear nela e dela ser extraída.
Nèsta pregação e ensinamento práticos
da teologia mosaica, põe-se em relevo a
unidade de Deus e a unidade do povo.
A aplicação destes princípios é tanto
pessoal quanto prática. Aplica a doutri­
na da eleiçãoa todas as áreas da vida.
Moisés fala nestes capítulos. Porém a
linguagem do texto é claramente o he­
braico do sétimo século a.C., do mesmo
tipo que achamos em Jeremias. O livro é
dirigido a uma nação unificada, e não às
tribos frouxamente ligadas da antiga*
confederação. Muitas coisas confirmam
data mais posterior para o livro. Em que
sentido, então, Moisésfala?
O livro relaciona-se claramente com a
renovação da aliança. Afirma expressa­
mente que esta aliança é a mesma que
MoisésfezemHorebeerenovouem Parã.
Estas cerimônias de renovação da aliança
ajudaram gerações posteriores de israeli­
tas a se identificarem com aqueles que
estiverampresentesem Horebe ea enten­
derem que as palavras de Moisés eram
permanentes, aplicáveis a eles tanto
quanto à primeira geração. Pode-se ad­
mitir que o pregador da lei, quando em
cada ocasião sucessiva proclamou a lei
revisadapara a aliança, fê-loem nome de
Moisés.
Deuteronômio fala, todo ele, com um
forte senso de história e da relação de
Deus com a História. Exala a proclama­
ção de uma nova oportunidade: a graça
deDeus oferece ao povo uma nova alian­
ça. Oferece a vida ou a morte. Em assim
fazendo, o livro ressalta a necessidade de
escolhereoresultado fatídico da escolha.
O privilégio da escolha é da graça. O ato
da escolha precede a resposta divina em
salvaçãooujuízo.
Em termos de ética, o ensinamento
deuteronômico subordinava as exigên-.
cias da lei à total dedicação a Deus —
uma dedicação exposta em termos de
amor.
A pregação da lei só era apropriada
onde um senso de total dedicação ao
legislador estivesse presente. A primeira
tarefa em pregar a lei era reclamar essa
dedicação.
A lei tinha que ser entendida em fun­
ção da aliança. Estaera uma aliança ofe­
recida pelo Soberano supremo. Reque­
ria: um convite à dedicação total ante­
cedendo à lei; uma estrutura pactuai, em
tomo da lei; a separação dos caminhos,
efetivada pela lei; e um impulso para a
vidaplena, oalvoda lei.
Prega uma preocupação humanística
pelas pessoas e pelas criaturas, visto que
o próprio Deus expressa igual preo­
cupação.
Sua base prática para a vida e para o
culto. — Como indicado acima, Deute­
ronômio relaciona-se de perto com mo­
vimentos históricos de reforma. Não po­
de comportar o peso de ser o fundamen­
to para tais reformas. Contudo, é carac­
terizado por uma proximidade da vida,
que mostra uma relaçãochegada.
Na reforma de Josias, Deuteronômio
apoiava o movimento para centralizar o
culto noúnicoTemplo. Também apoiava
o movimento para a unidade, por pro­
clamar o tema: Um só Deus — Um só
Povo —Uma só Terra. Indubitavelmen­
te, se provou um forte apoio para o rei
reformistaeoseu movimento.
Mais tarde, os seus apelos práticos e
desinstitucionalizadospareciam especial­
mente preparados para o reavivamento
da fé e a autoconsciência religiosa dos
judeus nas sinagogas. Era o alimento
certo para estimular as chamas de reno­
vação em movimentos tais como os que
osfariseuslideravam.
Sua chamada ao arrependimento, à
restauração e à renovação. — Deutero­
nômio é um testemunho do propósito
duradouro de Deus para Israel. Como
tal, é uma chamada contínua para ele se
221
integrar nesse propósito através do com­
prometimento com Deus e com a sua
aliançaou pacto.
Esta chamada era adequada em Parã.
As peregrinações pelo deserto ficaram
para trás. A Terra Prometida estava por
vir. A chamada de Deuteronômio engas-
tou-sena reforma deEzequias, depois do
período desastroso doreiAcaz. Era apro­
priada depois do reinado do idólatra
Manassés, quando Josias tomou medidas
para concitar o povo a uma unidade e
vida novas no Senhor. Continuou apro­
priada para operíodo do retomo, depois
docastigo doexílio.
Deuteronômio, então, deve ser enten­
dido como uma reedição do sétimo sé­
culo a.C., dos ensinamentos e pregação
mosaicos concernentes à eleição, à histó­
ria de Israel e à sua lei, todas relacio­
nadas com a aliança e com a sua renova­
ção. Não pretende ser completo, e só
pode ser entendido de maneira perma­
nente e satisfatória quando suplementa­
do pelos ensinos de outras partes do
Antigo Testamento, especialmente por
outras porções do Pentateuco.
2. Ê um Documento Cristão Impor­
tante
O Novo Testamento e Deuteronômio.
— A influência de Deuteronômio pode
ser vista em quase todas as partes do
Novo Testamento, Jesus dependia gran­
demente de Deuteronômio quando foi
tentado (6:13-16; 8:3; Mat. 4:4,7,10;
Luc. 4:8,12). O grande mandamento de
amar “oSenhor teu Deus com todo oteu
coração” (6:5) é a resposta à pergunta
sobre qual é o grande mandamento
(Mat. 22:37,38; Mar. 12:29-33; Luc. 10:
27). Pode ser que a idéia-chave do Ser­
mão da Montanha, “sede vós, pois per­
feitos, como é perfeito o vosso Pai celes­
tial” (Mat. 5:48), sederive, na realidade,
deDeuteronômio 18:13.
A influência de Deuteronômio sobre
Paulo é forte, porém, talvez, mais su­
perficial. Existem umas dez citações de
Deuteronômiono material paulino. Tan­
to Hebreus como Atos empregam cita­
ções do livro, e há um certo número de
alusões a ele que dificilmente se podem
chamar de citações.
A influência de Deuteronômio tem
sidoimensa. “Fala-nos no nome de Deus
através dos séculos. Ao lê-lo, podemos
deixar de lado as suas limitações, e ser­
mosnutridos pela sua grande fé em Deus
e no homem, na força da qual o evan­
gelho de nosso Senhor Jesus Cristo veio a
reivindicar a alma do homem para todo
sempre” (Cunliffe —Jones, p. 31).
O Crente e Deuteronômio. — O livro
fala de uma maneira muito pessoal, diri­
gindo-se a “vós” e “nós”. Podem os
crentes modernos identificar-se com
aquela assembléia pactuai de tal forma
que saibamos que se dirige a nós? Pode­
mos, na medida em que, como crentes,
nos identifiquemos com o Israel bíblico.
SeJesuscumpre odestino de Israel e se a
Igreja é a herdeira da missão de Israel,
então a história de Israel é a nossa histó­
ria, avocação de Israel, a nossa vocação,
e a antiga aliança de Israel, o padrão
para a nossanova aliança ou pacto.
Alguns princípios orientadores podem
ajudar na aplicação da mensagem de
Deuteronômio na pregação cristã. Aqui
podemos vislumbrar a atividade graciosa
e redentora de Deus. A lei do amor e a
vontade inescapável de Deus têm signifi­
cado permanente, independentemente
da aplicação puramente local e contem­
porânea do livro. O ponto de partida
para Deuteronômio e para nós é a comu­
nidade redimida. Temos de tomar o cui­
dado de manter Jesus Cristo como o
centro e o alvo de toda a nossa prega­
ção. Como ele é o cumprimento e o fim
da lei, é assim que ele se relaciona com a
mensagem deDeuteronômio.
O fato unificadorna Bíblia é a ativida­
deredentora contínua deDeus, que pode
ser descortinada em Deuteronômio e daí
até oNovoTestamento. Há também uma
certa correspondência entre o Antigo
222
TestamentoeoNovo, que dápistapara a
interpretação é aplicação cristãs. É evi­
dente que tudo quanto for contrário ao
NovoTestamento e ao ensino cristão tem
de ser posto de lado. Por este motivo, é
sempre esclarecedor confrontar cada
abordagem com ostrechos pertinentes1do
NovoTestamento.6
Características da Doutrina de Deute-
ronômio. — Deuteronômio mostra uma
diferença característica que o distancia
deJó.
Á tensão em Jó surge do simples eixo:
Deus-Jó. Em Deuteronômio, a tensão
existe num triângulo entre Deus-povo-
terra. A terra representa alvo e direção,
enquanto otriângulo todo coincidecomo
propósitopactuai.
Deuteronômio difere de muito que
existe no Novo Testamento. Enquanto o
Novo Testamento tem muito a dizer so­
bre oindivíduo ea suarelaçãocom Deus,
Deuteronômio nunca se dirige ao indiví­
duo isoladamente. Sempre se dirige a ele
como sendo uma parte do povo congre­
gado. O processo da individualização no
pensamento e na prática religiosos fazia
parte, na realidade, da experiência do
exílio, e assim é posterior ao escrito de
Deuteronômio.
(É preciso observar que o Novo Testa­
mento não se dirige exclusivamente ao
indivíduo. Tanto o pensamento sobre a
Igreja quanto o sobre o reino de Deus se
desenvolvem em sentido oposto. Porém
trata do indivíduo de uma maneira que
Deuteronômio, explicitamente, não faz.)
O pressuposto de toda a teologia deu-
teronômica é que Yahweh é o criador do
mundo e o Senhor tanto da natureza
como da História.
Há pouco em Deuteronômio que de­
finaou descreva Deus em si. Mas os seus
atos e a sua vontade são a fonte do livro
todo. A bondade de Deus para com Is­
rael é representada em termos da graça.
6 Os princípios são adaptados daqueles publicados em
Á. Richardson e W. Schweitzer, ed., Bibilcal Authority for
Today (Philadelphia: Westminster Press, 1951), p. 240 e
241.
Ele mostrou a sua bondade antes da
aliançapara eleger Israel.
As exigências de Deus são especifica­
das claramente. Antes da aliança não
havia nada, senão a disposição de aceitar
o auxílio que se oferecia. Dentro da ali­
ança, a lealdade e a obediência são exi­
gências absolutas.
O juízo de Deus segue o padrão esta­
belecido pela aliança. A infidelidade é
considerada traição, um crime capital.
Deixa-se margem para a correção. Po­
rém a destruição de pessoas, ou da gera­
ção, envolvidasévistacomouma possível
necessidade. O entendimento básico do
propósito de Deus na graça proclama o
oferecimento de renovação da aliança
mesmo depois de semelhantejuízo ou em
meioa ele.
Em Deuteronômio, sempre se pensa
em Israel como ó povo de Deus congre­
gado. Ê uma congregação que existe
porque foi salva pela atuação direta de
Deus.
Israel é eleito para ser o povo de Deus
na terra de Deus por causa de sua bonda­
de graciosa. Isso foi demonstrado e esta­
belecido em seu juramento feito aos pa­
triarcas. Através desta eleição, Deus rea­
lizará oseu propósitopara com Israel.
Contudo, sempre se representa Israel
como continuando a ser pecaminoso. A
nação tinha-se mostrado obstinada e re­
belde no deserto. Constantemente é ad­
vertida sobre as conseqüências de tal
caráter. Atendência de Israelpara a des­
lealdade, em sua disposição de cultuar a
outros deuses, é um problema constante
para os pregadores de Deuteronômio.
Opovo é representado como desobedien­
te edesrespeitoso.
Porém Deuteronômio vê Israel como
recebendo a comunicação direta de Deus
repetidas vezes. Esta disposição de rene­
gociar a aliança, repetidamente, apesar
dopassado, éinterpretada somente como
oresultado da bondade de Deus e de sua
atuação resoluta contínua na base de sua
promessa feita aospatriarcas.
223
Deusfaz deCanaã a terra dele de uma
maneira muito especial. Não é ele ape­
nas o Criador na acepção geral, mas
também seesforçapara cuidar de Canaã,
em lhe proporcionar as chuvas e em
tratar comosseushabitantes.
Deuteronômio pensa em Canaã como
tendo sido destinada, num sentido espe­
cial a Israel. Nações outras foram julga­
das e removidas, para que o povo de
Deus a possuísse. Israel recebeu a terra
de Deus, para usufruir dela como uma
mordomia daparte dele.
Deuteronômio exige a destruição total
das nações cananéias na terra. Em certo
sentido, elas representavam os “outros
deuses”, que eram o maior impedimento
à lealdade de Israel.
Todavia, isso não se aplica a outras
nações fora de Israel. Deuteronômio evi­
ta tratar do quadro empírico do reino
davídico, com a sua perspectiva do
domínio de Israel sobre as nações. Mas
parece prever relações amistosas e pací­
ficas com as nações, embora Israel não
aceitasse nenhum reiestrangeiro.
O livrotambém écoerente em sua cha­
mada para que Israel amasse os elemen­
tos transitórios, os moradores estrangei­
ros dentre a sua população, e cuidasse
deles.
A teologia deuteronômica descobre
vários pontos característicos de enfoque.
Um deles é a assim chamada “teologia
donome”.Conquanto outros livros abor­
dem a doutrina da presença do Deus
santo em termos de “a Glória”, Deutero­
nômio fala em “fazer com que o meu
nome resida” em determinado lugar ou
entre opovo. Issoilustra tanto oponto de
vista dessacralizado do livro como a sua
atitude maisobjetiva.
Outro enfoque se concentra nas impli­
cações de Canaã como a Terra Prometi­
da. Esta “teologia da terra prometida”
presta, ao livro, grande parte de seu
sabor distintivo e grande parte de seu
tom terreno epragmático.
Uma terceira característica acha-se na
forte polêmica contra a idolatria. Ê vista
nos sermões vigorosos sobre o Primeiro
Mandamento. Mas é repetida em todas
as partes do livro. Também explica al­
guns dos castigos e sermões extremos
prescritospelolivro.
O livro reflete alternadamente o oti­
mismo e o pessimismo. Sua atitude para
comocaráter do povo e a necessidade de
juízo é coerentemente pessimista. O oti­
mismo é fundamentado na convicção
do propósito contínuo e válido de Deus
para com Israel, expresso na sua pron­
tidão para renovar a aliança e começar
denovo.
A aplicação destas doutrinas por Deu­
teronômio é direta e simples, conforme
convém as finalidades de sua pregação.
Ensina que Deus é a fonte da vida plena
e da bênção. Ele tem o direito de conce­
dê-las, pois, em última análise, o domí­
nio é dele. Ele tem os recursos para as
conceder, umavez que éoCriador.
Deus quer dar tanto a vida como a
bênção. Ele tem agido para estabelecer a
possibilidade de aceitação humana de
ambos estes dons. Ele tem chamado um
povo para ser o seu próprio povo e para
receber as suas bênçãos. Ele estabelece
os termos desse relacionamento: o amor,
ou seja, a lealdade total do povo, que
havia de ser demonstrado em obediência
aosseusmandamentos.
Uma doutrina de Deuteronômio em
particular é digno de comentário espe­
cial. Ensina a maneira como Deus espera
que o seu povo pense nas posses mate­
riais pela maneira como ensina Israel a
pensar na terra de Canaã. A doutrina
pode seresboçada da seguinteforma:
Toda a riqueza e posses pertencem,
em primeiro lugar, a Deus. Ele criou-as
ou concedeu o poder para serem feitas.
São dádivas da mão dele, quefez valiosas
para oseupovo.
Ele empresta as suas coisas preciosas
às pessoas porque ele as ama e zela por
elas. Elas têm por dever administrá-las
224
por Deus, de maneira que tanto o seu
povo como a sua riqueza sirvam ao seu
propósito.
Deuscontinua a prover a essênciavital
e a sabedoria, que apóiam o valor e a
utilidade da propriedade. O seu povo é
sempre dependente dele para as condi­
ções que fazemcom que ascoisas boas da
natureza e da sociedade sejam utilizáveis
edesfrutáveis.
Tanto como Soberano quanto como
Criador, Deus tem uma finalidade clara
para a História e para a criação. Ele
requer que seu povo use as coisas dele
para a finalidade dele e conforme as suas
instruções. A fim de realizar estes pro­
pósitos, ele usa tanto pessoas como coi­
sas,julga edisciplina aspessoaspor meio
de seu uso das coisas e acrescenta ou
retira ascoisas que emprestou.
EsboçodoLivrodeDeuteronomio
I. A Primeira Coleção dos Discursos
deMoisés(1:1-4:43)
1. Superscrição(1:1-5)
2. Parte Um (1:6-4:43)
(1) Narração de Horebe a Parã
(1:6-3:29)
a. Introdução (1:6-8)
b. Juizes Nomeados em Ho­
rebe(1:9-18)
c. OsEspias(1:19-46)
d. Contornando Edom
(2:1-7)
e. Contornando Moabe
(2:8-13a)
f. Através de Amom
(2:13b-23)
g. AVitória Sobre Siom
(2:24-37)
h. AVitória SobreOgue
(3:1-11)
i. ADivisãoda Terra
(3:12-17)
j. Adendo: Auxílio Para a
Conquista Assegurado
(3:18-22)
1. Adendo: O Rogo de Moi­
sés(3:23-29)
(2) Sermão Sobre oPrimeiro
Mandamento(4:1-40)
a. Exortação — Guardai a
Lei(4:1-4)
b. A Sabedoria Suprema de
Israel(4:5-13)
c. O Grande Mandamento
(4:14-20)
d. Guardai-vos(4:21-24)
e. SeVosCorromperdes,
Servireis(4:25-31)
f. O Senhor É Deus — Não
Há Nenhum Outro
(4:32-40)
(3) Cidades de Refúgio (4:41-43)
II. A Segunda Coleção dos Discursos
deMoisés(4:44-26:68)
1. Superscrição(4:44-49)
2. Parte Dois(5:1-8:20)
(1) Narração: A Aliança em Ho­
rebe e Moisés Como oMedia­
dor(5:1-27)
(2) Exortação(5:28-8:20)
a. Oh, Que Fôsseis Sempre
Assim! (5:28-6:3)
b. Amarás e Temerás o Se­
nhor (6:4-25)
c. Vós Sois Santos(7:1-26)
d. Lembra-te — Não Te Es­
queças(8:1-20)
3. Parte Três (9:1-11:32)
(1) Exortação Introdutória: Não
aTua Justiça(9:1-7)
(2) Narração: Aliança Quebrada
Renovada em Horebe
(9:8-10:11)
(3) Sermão(10:12-11:32)
a. O Que É Que o Senhor
Requer? (10:12-15)
b. Circuncidai os Vossos Co­
rações (10:16-22)
c. Considerai a Disciplina
do Senhor(11:1-7)
d. Para Que Sejais Fortes
(11:8-17)
e. Ponde Estas Palavras em
Vosso Coração (11:18-25)
f. Conclusão: Bênção ou
Maldição(11:26-32)
225
4. Parte Quatro —As Leis
(12:1-26:19)
(1) Um Santuário (12:1-32)
(2) Um Deus: Pena de Morte
Para a Apostasia(13:1-18)
(3) Um Povo Santo, Diferente
uosDemais(14:1-25:19)
a. Sua Alimentação, uma
Lembrança Constante
(14:1-21)
b. Diferenças nas Praxes
Econômicas(14:22-15:23)
c. AsFestas Sagradas
(16:1-17)
d. Os Oficiais(16:18-18:22)
e. A Santidade de Vida
(19:1-21:21)
f. A Necessidade da Consi­
deração(21:22-22:12)
g. Infrações Sexuais
(22:13-30)
h. Elementos Que Não Po­
diam Participar (23:1-14)
i. Código deDireitos
(23:15-25:19)
(4) Duas Confissões Litúrgicas
(26:1-19)
5. Parte Cinco(27:1-28:68)
(1) A Renovação da Aliança ou
Pacto em Siquém(27:1-8)
(2) ACerimônia(27:9-26)
a. A Observância do Silên­
cio(27:9,10)
b. A Cerimônia em Gerizim
(27:11-14)
c. As Doze Maldições de Si­
quém(27:15-26)
(3) Bênçãos eMaldições
(28:1-68)
a. As Bênçãos(28:1-14)
b. As Maldições(28:15-46)
c. Adendos (28:47-68)
III. A Terceira Coleção dos Discursos
deMoisés(29:1-33:29)
1. Parte Seis(29:1-30:20)
(1) Recitação: Aliança ou Pacto
em Moabe(29:1-15)
(2) Exortações(29:16-30:20)
a. Advertências Contra a Hi­
pocrisia(29:16-28)
b. MistérioeRevelação
(29:29)
c. Arrependimento e Res­
tauração(30:1-10)
d. A Palavra Estava Perto
(30:11-14)
e. Era Necessário Escolher
(30:15-20)
2. Parte Sete(31:1-33:29)
(1) O Empossamento de Josué
(31:1-30)
a. OFuturo (31:1-6)
b. MoisésEmpossaJosué
(31:7,8)
c. O Livro da Aliança ou
Pacto(31:9-13)
d. ATeofania(31:14,15)
e. O Futuroe oCântico
(31:16-22)
f. O Senhor Empossa Josué
(31:23)
g. O Livro da Aliança ou
Pacto(e oCântico)
(31:24-30)
(2) O Cântico de Moisés
(32:1-43)
a. A Convocação de Teste­
munhas (32:1-3)
b. A Declaração Introdutó­
ria da Queixa(32:4-6)
c. A Recordação dos Feitos
Poderosos de Deus
(32:7-14)
d. O Libelo(32:15-18)
e. A Sentença(32:19-29)
f. ReflexãoSobre a Situação
Resultante (32:30-33)
g. ARespostado Senhor
(32:34-42)
h. Conclusão(32:43)
(3) Conclusão Exortativa Sobre
oCântico(32:44-47) .
(4) Moisés Recebe Ordem de Su­
birao Monte Nebo(32:48-52)
(5) ABênção deMoisés
(33:1-29)
226
IV. AMorte de Moisés(34:1-12)
1. Moisés Sobea Montanhae
Morre(34:1-8)
2. A Grande.Obra de Moisés Pros­
segue(34:9-12)
Bibliografia Selecionada
BACHLI, O. Israelund dieVõlker. Eine
Studie Deuteronomium. Zurich: Zwin-
gliVerlag, 1962.
BLAIR, E. P. “The Book of Deuterono­
my”, The Layman’s Bible Commenta­
ry. V. Richmond: John Knox Press,
1964.
CLEMENTS, R. E. God’s Chosen Peo­
ple: A Theological Interpretation of
the Book of Deuteronomy. Londres:
SCMPress, 1968.
CUNLIFFE-JONES, H. “Deuterono­
my", TorchBibleCommentaries. Lon­
dres: SCMPress, 1951.
DRIVER, SAMUEL R. A Critical and
Exegetical Commentary on Deutero­
nomy, “International Critical Com­
mentary”. Edinburgh: T & T Clark,
1895. Interpretation. Richmond: VI,
julho de 1952; XV,janeiro de 1961.
LOHFINK, N. Das Hauptgebot. Eine
Untersuchung Literarischer Einleitun­
gsfragen zuDeuteronomy5-11. Roma:
Instituto BíblicoPontifício, 1963.
NICHOLSON, E. W. Deuteronomy and
Tradition. Filadélfia: Fortress Press,
1967.
PLOGER, J. G. Literarkritische, Form­
geschichtliche und Stilkristische Un­
tersuchungen zum Deuteronomium-
Bonn: Hanstein Verlag, 1967. Review
and Expositers. Louisville, Ky.: LXI,
Fall, 1964.
Southwestern Journal of Theology. Fort
Worth, Texas: VII. Fall 1964.
VON RAD, Gerhard. “Deuteronomy”,
Interpreter’s Dictionary of the Bible,
A-D. Nashville: Abingdon, 1962.
_______ , “Deuteronomy”, trad, para
o inglês por Dorothea Barton. Old
Testament Library. Filadélfia: West­
minsterPress, 1966.
_______ , StudiesinDeuteronomy. Chi­
cago: Henry RegneryCo., 1953.
WRIGHT, G. ERNEST. “The Book of
Deuteronomy”, The Interpreter’s Bi­
ble, II. Nashville: Abingdon, 1953.
ComentárioSobreoTexto
I. APrimeiraColeçãodosDiscur­
sosdeMoisés(1:1-4:43)
1. Superscrição(1:1-5)
1Estas são as palavras que Moisés falou a
todo o Israel além do Jordão, no deserto,
na Arabá defronte de Sufe, entre Parã, To-
fel, Labã, Hazerote e Di-Zaabe. 2 São onze
dias de viagem desde Horebe, pelo caminho
da montanha de Seir, até Cades-Baméia.
3 No ano quadragésimo, no mês undécimo,
no primeiro dia do mês, Moisés falou aos
filhos de Israel, conforme tudo o que o Se­
nhorlhesmandara por seu intermédio, 4de­
pois que derrotou a Siom, rei dos amorreus,
que habitava em Hesbom, e a Ogue, rei de
Basã, que habitava em Astarote, em Edrei.
5Além do Jordão, na terra de Moabe, Moi­
sés se pôs a explicar esta lei, e disse:
Muito do material que compõe o livro
deDeuteronômio tem uma longa história
por detrás de sua incorporação no livro.
Porém esta passagem e 4:44-49 foram es­
critas, certamente, como introduções ao
livroou apartes do livro.
Oselementos comuns às duas introdu­
ções (1:1-5:4:44-49) incluem as palavras
Moisés, Israel, além do Jordão, Arabá,
Siom, o rei dos amorreus, que habitava
em Hesbom, e Ogue, o rei de Basã.
Os outros nomes de localidades nas duas
introduções não coincidem. A finalidade
evidente das duas é, claramente, a iden­
tificação do livrocom Moisés e a demons­
tração de que era dirigido a Israel antes
227
de o povo ter entrado na terra de Canaã.
Cunliffe-Jones expressa-o bem: “O
deuteronomistaéum pregador, e não um
historiador, eelenão traça o decorrer de
acontecimentos contemporâneos. O que
faz é interpretar eventos a partir de pon­
tos fixos.” Estas superscrições estabele­
cemoponto apartir do qual ascoisas são
interpretadas, como em Moabe, na en­
trada daTerra Prometida.
Fora disso, as passagens são composi­
ções complexas. O versículo 2 fica isola­
do no capítulo 1, sem nenhuma relação
óbvia com os versículos restantes. O ver­
sículo3dá uma data cronológica, como a
obra sacerdotal em Êxodo e Números,
um interesse com que Deuteronômio não
compartilha em nenhum outro lugar.
O livro que segue é chamado, variada­
mente, de palavras de lei. Nenhuma des­
tas é uma descrição adequada para os
sermões, narrativas eleisquecontém.
2. ParteUm(1:6-4:43)
(1) Narração; DeHorebeaParã
(1:6-3:29)
Aprimeira parte do livro é um resumo
da história de Israel de Horebe a Bete-
Peorna forma deum discurso de Moisés.
É apresentada em sete histórias, ligadas
por breves relatos de viagens ou de bata­
lhas usando a forma “nós” (Ploger, p. 1
e ss.). Estas seções na primeira pessoa
do plural poderiam ser lidas consecuti­
vamente como um único relato. Uma
interpretação teológica e religiosa é-lhes
dada pelo discurso prefixado ao todo
(1:6-8). Intercalados entre estes relatos
há registros históricos na forma de ora­
ções usando o pronome “vós”; ou seja,
dirigidas ao povo na segunda pessoa do
plural, e exortações e admoestações em
discursos, nos quais ora Deus, ora Moi­
séséquem fala.
Estes três capítulos formam uma in­
trodução admirável à seção histórica in­
teira, de Deuteronômio a II Reis, que
compartilha um ponto de vista teológico
bastante similar. A obra inteira mostra
uma preocupação pelos problemas e
questões teológicos do período da mo­
narquia posterior e do começo do exílio
(do sexto ao quinto séculos a.C.), e bem
pode ter sido escrita nessa época. Os ele­
mentos diversos do discurso são, indubi­
tavelmente, muito mais antigos e, pro­
vavelmente, refletem uma tradição que
remonta ao próprio Moisés. As palavras
do versículo 5, “se pôs a explicar”, po­
dem teropropósito deensinar uma cons­
ciência destalonga tradição, que se tinha
estendido deMoisés até opresente.
a. Introdução(1:6-8)
6 O Senhor nosso Deus nos falou em Hore­
be, dizendo: Assaz vos haveis demorado
neste monte. 7Voltai-vos, ponde-vos a cami­
nho, e ide à região montanhosa dos amor-
reus, e a todos os lugares vizinhos, na Ara-
bá, na região montanhosa, no vale e no sul;
à beira do mar, à terra dos cananeus, e ao
Líbano, até o grande rio, o rio Eufrates.
8 Eis que tenho posto esta terra diante de
vós; entrai e possuí a terra que o Senhor
prometeu com juramento dar a vossos pais,
Abraão, Isaque, e Jacó, a eles e à sua des­
cendência depoisdeles.
Estes versículos dão a ênfase teológica
para o restante desta seção. Proposita­
damente mudam o centro da atenção
para a Terra Prometida. Note-se cuida­
dosamente o que se diz e o que se omite:
O Senhornosso Deus (mas nenhuma pa­
lavra sobre o êxodo); Horebe (mas nada
sobre a aliança); Canaã, a dádiva de
Deus, pronta a ser possuída pelo cum­
primento dojuramento feito aos patriar­
cas. O sentido nas histórias que seguem
se relaciona com a terra e o propósito de
Deus nela. Entrai e possuí a terra é o
tema.
As peregrinações desérticas todas as­
sumem sentido quando vistas como parte
da direção de Deus rumo à Terra Pro­
metida. A atenção que se presta à fina­
lidade muda tudo. A lição tem a sua
aplicação em qualquer área da vida.
Pela determinação da finalidade que
228
Deus tem para a história e para a vida,
estabelece-se um ponto de referência, do
qual todos os eventos menores recebem
seusignificadoeperspectiva.
b. Juizes Nomeados em Horebe (1:9-18)
9 Nesse mesmo tempo eu vos disse: Eu
sozinho não posso levar-vos, 10 o Senhor
vosso Deus já vos tem multiplicado, e eis
que hoje sois tão numerosos como as estre­
las do céu. 11 O Senhor Deus de vossos pais
vos faça mil vezes mais numerosos do que
sois; e vos abençoe, como vos prometeu.
12 Gomo posso eu sozinho suportar o vosso
peso, as vossas cargas e as vossas conten­
das? 13 Tomai-vos homens sábios, entendi­
dos e experimentados, segundo as vossas
tribos, e eu osporei comocabeças sobre vós.
14Então me respondestes: É bom fazermos
oquedisseste. ISTomei, pois, os cabeças de
vossas tribos, homens sábios e experimen­
tados, e os constituí por cabeças sobre vós,
chefes de mil, chefes de cem, chefes de
cinqüenta e chefes de dez, por oficiais, se­
gundo as vossas tribos. 16 E no mesmo
tempo ordenei a vossos juizes, dizendo: Ou­
vi as causas entre vossos irmãos, e julgai
comjustiça entre ohomem e seu irmão, ou o
estrangeiro que está com ele. 17 Não fareis
acepção de pessoas com juízo; de um mes­
mo modo ouvireis o pequeno e o grande;
não temereis a face de ninguém, porque o
juízo é de Deus; e a causa que vos for difícil
demais, a trareis a mim, e eu a ouvirei.
18 Assim naquele tempo vos ordenei todas
as coisas que devíeis fazer.
O estilo muda para um discurso em
“vós”. O conteúdo repete um incidente
da viagem onde Moisés nomeia juizes
para ajudar na administração dos negó­
ciosdopovo (cf. Êx. 18; Núm. 11). O re­
lato faz referência ao aumento da popu­
lação israelita e aos seus problemas con­
comitantes. Moisés divide as responsabi­
lidades pela administração, enquanto
ainda retém a autoridade final. A passa­
gemterminacom a lembrança de que ele
deu leis, naquela ocasião, sobre a sua
administração da justiça. Sem dúvida,
estas devem ser entendidas como adicio­
nais àquelasestabelecidas em Sinai.
A delegação da autoridade é impor­
tante enecessária em qualquer movimen­
to ou grupo. A eficácia da liderança e a
integridade do próprio grupo podem,
muitas vezes, ser medidas à luz da possi­
bilidade de semelhante sucessão ou dele­
gação. Esta questão é um problema-
chave tratado por Deuteronômio. Além
do realce dado à autoridade direta de
Moisés, o livro destaca que a autoridade
dele tem sido transmitida a outros. Em
certo sentido, se propõe a estabelecer a
autenticidade e a legitimidade da lide­
rança atual deIsrael, por fazerreferência
aMoisése à linha de autoridade transmi­
tida daépocadele.
O livro é estruturado em seções que
tratam dessa questão. Além desta passa­
gem, aprimeira substanciosa do livro, os
capítulos 31 e 34 falam da nomeação de
Josuécomo sucessor de Moisés.
Nestes trechos temos uma descrição
das características que se esperam em lí­
deres e juizes. Deviam ser sábios, com­
preensivos e experimentados. Estas ca­
racterísticas definem como base habili­
dade e caráter moral. Implicam em que
os homens devam ser conhecidos pelas
suas ações passadas. Devem estar dis­
postos a ouvir a todos pacientemente e
a decidir com justiça. O mandamento
não temereis a face de ninguém é ver­
tido na ASV eem outras versões: “vades
por respeitos humanos”. A posição ou
aparência de um homem não deveria ter
nenhuma influência na decisão tomada.
Este princípio se aplica através da Bíblia
inteira (Êx. 23:3; Lev. 19:15; Sal. 82:2;
Prov. 18:3; II CrÔn. 19:7; Mal. 2:9;
At. 10:34; Rom. 2:11; Ef. 6:9; Col. 3:25;
Tiago 2:1-9; IPed. 1:17).
Apalavra estrangeiroaparece pela pri­
meira vez no versículo 16. Esta classe de
pessoas tem um amplo lugar na preocu­
pação de Deuteronômio pelas pessoas
potencialmente oprimidas, junto com a
viúva e o órfão (cf. 10:19; 24:17; 27:19).
Estaclasse de pessoas se compõe de não-
israelitas (portanto, sem nenhum direito
civil como cidadãos), que são dependen­
tes economicamente do bom tratamento
229
dos proprietários da terra. Talvez se
comparem a trabalhadores de empreita­
da ou migrantes. Na exigência de que a
justiça sejaextensiva a essaspessoasjaz a
forma embrionária da insistência de que
crença em Deus exige que se marque
posiçãoa favor dajustiça universal.
c. OsEspias(1:19-46)
19 Então partimos de Horebe, e caminha­
mosportodo aquele grande e terrível deser­
to que vistes, pelo caminho das montanhas
dos amorreus, como o Senhor nosso Deus
nosordenara; e chegamos a Cades-Barnéia.
20 Então eu vos disse: Chegados sois às
montanhas dos amorreus, que o Senhor nos­
so Deus nos dá. 21 Eis aqui o Senhor teu
Deustem postoesta terra diante de ti; sobe,
apodera-te dela, como te falou o Senhor
Deus de teus pais; não temas, e não te
assustes. 22Então todos vós vos chegastes a
mim,e dissestes:Mandemos homens adian­
te de nós, para que nos espiem a terra e, de
volta, nos ensinem o caminho pelo qual de­
vemos subir, e as cidades a que devemos ir.
23Isto me pareceu bem;demodoque dentre
vós tomei doze homens, de cada tribo um
homem; 24foram-se eles e, subindo as mon­
tanhas, chegaram até o vale de Escol e
espiaram a terra. 25 Tomaram do fruto da
terra nas mãos, e no-lo trouxeram; e nos
informaram, dizendo: Boa é a terra que nos
dá o Senhor nosso Deus. 26Todavia, vós não
quisestes subir,mas fostes rebeldes ao man­
dadodo Senhor nosso Deus; 27e murmuras­
tes nas vossas tendas, e dissestes: Porquan­
to o Senhor nos odeia, tirou-nos da terra do
Egitopara nosentregarnas mãos dos amor­
reus, a fim de nos destruir. 28Para onde es­
tamos nós subindo? nossos irmãos fizeram
com que se derretesse o nosso coração, di­
zendo: Maior e mais alto é o povo do que
nós; as cidades são grandes e fortificadas
até o céu; e também vimos ali os filhos dos
anaquins. 29 Então eu vos disse: Não vos
atemorizeis, e não tenhais medo deles.
30O Senhor vosso Deus, que vai adiante de
vós, ele pelejará por vós, conforme tudo o
que tem feito por vós diante dos vossos
olhos, no Egito, 31comotambém no deserto,
onde vistes como o Senhor vosso Deus vos
levou, como um homem leva seu filho, por
todo o caminho que andastes, até chegardes
a este lugar. 32 Mas nem ainda assim con­
fiastes no Senhor vosso Deus, 33 que ia
adiante de vósnocaminho, de noite no fogoe
de dia na nuvem, para vos achar o lugar
onde devíeis acampar, e para vos mostrar o
caminho por onde havíeis de andar. 34 Ou­
vindo, pois, o Senhor a voz das vossas pala­
vras, indignou-se e jurou, dizendo: 35 Ne­
nhum dos homens desta geração perversa
verá a boa terra que prometi com juramen­
to dar a vossospais, 36salvo Calebe, filho de
Jefoné; ele a verá, e a terra que pisou darei
a ele e a seus filhos, porquanto perseverou
em seguir ao Senhor. 37 Também contra
mim o Senhor se indignou por vossa causa,
dizendo: Igualmente tu lá não entrarás.
38Josué, filho de Num, que te serve, ele ali
entrará; anima-o, porque ele fará que Israel
a receba por herança. 39 E vossos pequeni­
nos, dos quais dissestes que seriam por pre­
sa, e vossos filhos que hoje não conhecem
nem o bem nem o mal, esses lá entrarão,
a eles a darei e eles a possuirão. 40Quanto a
vós, porém, virai-vos, e parti para o deser­
to, pelo caminho do Mar Vermelho. 41 En­
tão respondestes, e me dissestes: Pecamos
contra o Senhor; nós subiremos e pelejare­
mos, conforme tudo o que nos ordenou o
Senhornosso Deus. Vós, pois, vos armastes,
cada um, dos vossos instrumentos de guer­
ra, e temerariamente propusestes subir à
montanha. 42 E disse-me o Senhor: Dize-
lhes: Não subais nem pelejeis, pois não es­
tou no meio de vós; para que não sejais
feridos diante de vossos inimigos. 43 Assim
vos falei, mas não ouvistes; antes fostes
rebeldes à ordem do Senhor e, agindo pre­
sunçosamente, subistes à montanha. 44E os
amorreus, que habitavam naquela monta­
nha, vos saíram ao encontro e, perseguin­
do-vos como fazem as abelhas, vos destro­
çaram desde Seir até Horma. 45 Voltastes,
pois, e chorastes perante o Senhor; mas o
Senhor não ouviu a vossa voz, nem para vós
inclinou os ouvidos. 46 Assim foi grande a
vossa demora em Cades, pois ali vos demo­
rastes muitos dias.
Esta seção começa com um breve rela­
to da viagem dos israelitas de Horebe a
Cades-Baméia. Aênfase está no vigor da
topografiaenofato que viajavam a man­
dado deDeus.
A história começa no versículo 20 e
relata omandamento de tomarem a terra
e a recusa dos espias e do povo de assim
fazerem. Segue um padrão bem conheci­
do para histórias semelhantes (cf. Núm.
13 e s.; Jos. 2:7 e s.; Juí. 18). Todas elas
têm formas semelhantes e um contexto
comum. Todas contêm relatos relaciona­
230
dosàconquistadaterraeaopapeldaguer­
rasanta(i. e. aguerracomandadaedirigi­
da porDeus) no esquema desta tradição.
Baseia-sea promessa davitórianum con­
ceito da ocupação como de um ato de
salvação pelo próprio Deus, que Israel
viu acontecer e que fez com que ele o
louvasse continuamente e que o decla­
rasse em culto. Estas histórias são uma
contribuição do Antigo Testamento para
o significado teológico dos fenômenos
históricos, não apenas uma narração de
acontecimentos históricos.
O relato é composto de um modo mui­
to artístico e efetivo numa pirâmide de
discursosperfeitamente equilibrados:
MOISÉS: Já chegastes. Agora tomai a
terra(v. 20,21).
POVO: Enviamos espias(v. 22).
MOISÉS: Continua seu relatório
(v. 23-25a).
ESPIAS: É uma terra boa! Deus a
tem dado (v. 25b).
MOISÉS: Prossegue em seu relató­
rio(v. 26,27a).
POVO: Deus nos odeia! Aonde have­
mosde ir? (v. 27b,28).
MOISÉS: Nãotemeis, pois o Senhorpe­
lejará por vós(v. 29,30).
Toda esta seção está na forma “vós”.
O versículo 31 acrescenta uma breve
oração, dizendo que o Senhorlevou e deu
assistência a Israel no deserto. O versí­
culo 32acrescenta que nem então acredi­
tavam.
A resposta do Senhor (v. 34-40) põe a
história toda em sua devida perspectiva.
Nenhumdoshomensentrará, salvo Cale-
be (nem mesmo Moisés) e Josué. Os seus
pequeninos entrariam não como presa,
conforme achavam, mas como herdeiros.
Os versículos 44-46 podem ter sido
puramente secundários, num estágio an­
terior, porém aqui servempara reforçara
impressão criada pelo todo. O povo res­
ponde, em primeiro lugar, com confis­
são e a determinação de compensar tar­
diamente sua timidez anterior. Deus o
adverte que não vá, pois não o acompa­
nhará. A história então conta as tristes
conseqüências.
Agora podemos sugerir interpretações
do evento. Como um retrospecto histó­
rico dos eventos anteriores à ocupação, a
história narra: por que a entrada não se
fez do Sul; por que a viagem, a partir do
êxodo até a ocupação, demorou tanto; e,
em forma de acréscimo, por que se deu
Hebrom a Calebe.
Porém a construção literária serve a
um propósito totalmente diferente: o de
interpretar ahistóriapara toda a geração
contemporânea da monarquia posterior.
Nisto, a história mostra: (1) a prova do
direito que Deus tem ao culto de Israel
e que antecedia a qualquer ato humano;
(2) a conduta inexplicável do povo;
(3) areação punitiva deDeus.
No centro se colocam as palavras dos
espias: “Boa é a terra que nos dá o
Senhor nosso Deus.” Ele tinha jurado
dar-lha, e o cumprimento do juramento
estava por se realizar. O envio dos espias
não era, necessariamente, em si, um
sinal de falta de fé. Outras histórias do
envio de espias apontam uma medida
militar. Esperar-se-ia que o relato dos
espias se fizesse seguir pelo relato da
conquista.
Ao invés disso, de maneira inesperada
e chocante, ocorre uma reação totalmen­
te negativa. (É verdade que oversículo 28
se refere a um relatório negativo, não
mencionado no versículo 24, mas isso
não diminui em nada o duro efeito do
relato.) Vós não quisestes... murmuras­
tes. Esta atitude contumaz levou ao de­
sastre — tanto mais perturbador, por­
quanto tudo que Deus fizera perante
(os seus) olhos no Egito e no deserto não
produzira fé suficiente para o momento
decisivo. Tudo isso ou foi esquecido ou
pervertido: “Porquanto o Senhor nos
odeia, tirou-nos da terra doEgito.”
Os versículos que seguem retratam o
resultado lógico (i. e., conforme a teolo­
gia pragmática de Deuteronômio): Ne­
231
nhum... verá a boa terra. A geração
desobediente havia de voltar para o de­
serto, a fim de ser destruída. Esta de­
cisãoéirrevogável.
Quando estes versículos foram repeti­
dos, no quinto século, o seu significado
certamente era óbvio. Todas as catástro­
fes que tinham experimentado, inclusive
o exílio e a perda de sua pátria, deviam
serentendidos comoconseqüência de sua
desobediência à vontade expressa do Se­
nhor e de sua falta de fé. Isaías dissera:
“se não o crerdes, certamente não ha­
veis de permanecer” (7:9). Isto já se
fizeracumprir.
Porém a segunda parte da história im­
plicava que a promessa permanecia vá­
lida para uma geração vindoura. Se ela
seria mais fiel e mais obediente, ainda
ficavaporver.
Aparentemente, a redação final dahis­
tória realça ainda mais diversas afirma­
ções. No versículo 21a, a promessa se
repete: o Senhor permanece irrevogavel-
mente fiel à sua palavra. A dádiva da
terra é determinada e não será retirada.
Assim, a reação negativado povo é ainda
menoscompreensível.
Uma outra lição é claramente deduzi­
da da história. O contexto tradicional da
história é, certamente, o que descreve a
guerra santa. Neste contexto, fica claro
que semelhante ação militar não podia
serbem-sucedidasem aobediência da fé.
Esta é a importância da história nos ver­
sículos 45 e 46. A tentativa abortiva de
fazer as pazes com Deus em conseqüên­
cia de seu fracasso não obteve êxito em
absoluto. A fé e a obediência são abso­
lutamente necessárias, e só podem existir
na confrontação com o desafio da vonta­
deexpressa deDeus.
O versículo 31 parece ser um acrésci­
moeditorial. Constitui um apelo dirigido
aos corações dos leitores que concebem
Deus não apenas como o Deus-Líder que
cuida deles (v. 30a) e como operador
poderoso de milagres (v. 30b), mas tam­
bém como um pai amoroso, que carrega
seu filho pelo deserto. Deste modo a
mensagem fica ainda mais imperiosa:
mesmoassim não tivestes confiança nele.
Isso era uma violação do amor, pois o
amortinha sido invertido pelopovo, para
serentendido como ódio, o que era ainda
mais amargo. Então a ênfase sobre todo
o cuidado providencial de Deus, no de­
serto, acrescenta o clímax que fez com
que a reação do povo ficasse ainda mais
dolorosa e com ainda menos razão. As­
sim a reação de Deus foi de ira e juízo.
Nenhum deles entraria na terra. Com
isso, a inversão do êxodo secompleta.7
Os progressos das peregrinações no
deserto se estancam, e o povo fica, por
muito tempo, parado em Cades-Baméia.
d. ContornandoEdom(2:1-7)
1 Depois viramo-nos, e caminhamos para
o deserto, pelo caminho do Mar Vermelho,
como o Senhor me tinha dito, e por muitos
dias rodeamos o monte Seir. 2 Então o Se­
nhor me disse: 3 Basta de rodeardes este
monte; virai-vos para o norte. 4 Dá ordem
aopovo, dizendo: Haveis de passar pelo ter­
ritório de vossos irmãos, os filhos de Esaú,
que habitam em Seir; e eles terão medo de
vós. Portanto, guardai-vos bem; 5 não con­
tendais com eles, porque não vos darei da
sua terra nem sequer oque pisar a planta de
um pé; porquanto a Esaú dei o monte Seir
por herança. 6Comprareis deles por dinhei­
ro mantimento para comerdes, como tam­
bém comprareis deles água para beberdes.
7Poiso Senhorteu Deuste há abençoado em
toda obra das tuas mãos; ele tem conhecido
oteu caminho por este grande deserto;estes
quarenta anos oSenhor teu Deus tem estado
contigo; nada te há faltado.
Aqui o relato em “nós” reassume o
registro da viagem. Os israelitas volta­
ram atrás, na direção de onde tinham
vindo, evaguearam pela região do monte
Seirpor muito tempo.
O discurso do Senhor, aqui citado,
advertecontra a invasãoe a pilhagem dos
edomitas, que são chamados de vossos
irmãos. Esta atitude para com Edom
7 W. L. Moran, “The End of the Unholy War and the
Anti-Exodus”, Bíblica, 1963, p. 333-342.
232
existia outrora. Foi obscurecida por al­
guns atritos, especialmente com Judá,
durante a monarquia. A partir da des­
truição doTemplo, em 586 a.C., durante
a qual os edomitas haviam, aparente­
mente, colaborado com o invasor, ao
invés de ser visto como irmão de sangue,
Edom era um inimigo mortal (cf. Oba-
dias e outras profecias estrangeiras con­
tra Edom).
O motivo apresentado para não inva­
direm Edom (v. 5b), era que Deus tinha
dado aEsaú... omonte Seirpor herança.
Não apenas Israel era favorecido com
uma terra própria como dádiva de Deus.
Outros povos podiam compartilhar deste
privilégio. O Senhor era mais do que o
Deus de Israel. Ele também cuida das
demais nações.
Semelhantes grandes números de nô­
mades migrantes criavam problemas pa­
ra as populações estabilizadas. Elas que­
riam proteger os seus campos e supri­
mentos de água. Mas também achavam
rentável poder vender-lhes algum ali­
mentoe água.
Este relato difere muitíssimo de seu
paralelo em Números 20:14-21. Ali, a ên­
fase recaía no pedido humilde de Israel
que foi impiedosamente rechaçado.
Aqui, o relato não trata absolutamente
da reação dos edomitas e não demonstra
nenhum conhecimento de que o pedido
foi negado. Deuteronômio mantém uma
atitude positiva constante para com os
edomitas(cf. 23:7).
A advertência é reforçada com a lem­
brança de queDeus satisfez as necessida­
des de seu povo adequadamente, pelo
caminho, sem a necessidade de espoliar
as populações das terras por onde pas­
sou.
A viagem pelo deserto é interpretada
de diversas maneiras em Deuteronômio.
Neste relato (v. 7) é usada como uma
ilustração do cuidado providencial de
Deus para com seu povo, de teor bastan­
te semelhante ao de Números 8.
8 Assim, pois, passamos por nossos ir­
mãos, os filhos de Esaú, que habitam em
Seir, desde o caminho da Arabá de Elate e
de Eziom-Geber. Depois nos viramos e pas­
samos pelo caminho do deserto de Moabe.
9 Então o Senhor me disse: Não molestes
aos de Moabe, e não contendas com eles em
peleja, porque nada te darei da sua terra por
herança; porquanto dei Ar por herança aos
filhosde Ló. 10(Antes haviam habitado nela
os emins, povo grande e numeroso, e alto
como os anaquins; 11eles também são con­
siderados refains como os anaquins; mas os
moabitas lhes chamam emins. 12Outrora os
horeus também habitaram em Seir; porém
os filhosde Esaú os desapossaram, e os des­
truíram de diante de si, e habitaram no
lugardeles, assim comoIsraelfezà terra da
sua herança, que o Senhor lhe deu.) 13 Le­
vantai-vos agora, e passai o ribeiro de Ze-
rede.
e. ContornandoMoabe(2:8-13a)
O relato da viagem continua com a
história de sua virada para o norte, em
direção a Moabe. Um discurso do Senhor
segue, advertindo-os contra qualquer
tentativa de conquistar Moabe.
A advertência é paralela à que dizia
respeito a Edom. Insere-se uma nota
histórica sobre as populações em mu­
dança desses territórios. Apresenta um
quadro acurado desta pequena faixa de
terra, através da qual as hostes de povos
migratórios têm jorrado desde épocas
imemoriais. Cada vaga deixou atrás de si
um grupo que queria radicar-se nos luga­
res abandonados da vaga anterior, que
acabava de ser desapossada. A mudan­
ça de Israel para Canaã cabia perfeita­
mente neste padrão.
As barreiras geográficas podem ser
precisamente tão reais como bloqueios
políticos e militares. No ponto onde a
subida pela Arabá era bloqueada pelo
Mar Morto e os altos penhascos das pla­
nícies de Moabe, mandou-se, aos israeli­
tas, que marchassem pela profunda pa-
vuna do Zerede, acima, que separava os
territórios deEdom eMoabe.
233
Passamos, pois, o ribeiro de Zerede. 14E os
dias que caminhamos, desde Cades-Baméia
até passarmos o ribeiro de Zerede, foram
trinta e oito anos, até que toda aquela gera­
ção dos homens de guerra se consumiu do
meio do arraial, como o Senhor lhes jurara.
15Também foi contra eles a mão do Senhor,
para os destruir do meio do arraial, até os
haver consumido. 16 Ora, sucedeu que, sen­
do já consumidos pela morte todos os ho­
mens de guerra dentre o povo, 17 o Senhor
me disse: 18Hoje passarás por Ar, o limite
de Moabe; 19 e quando chegares defronte
dos amonitas, não os molestes, e com eles
nãocontendas,porque nada te darei da terra
dos amonitas por herança; porquanto aos
filhos de Ló a dei por herança. 20 (Também
essa é considerada terra de refains; outrora
habitavam nela refains, mas os amonitas
lhes chamam zanzumins, 21 povo grande e
numeroso, e alto como os anaquins; mas o
Senhor os destruiu de diante dos amonitas;
e estes, tendo-os desapossado, habitaram no
lugar deles; 22 assim como fez pelos filhos
de Esaú, que habitam em Seir, quando de
diante deles destruiu os horeus; e os filhos
de Esaú, havendo-os desapossado, habita­
ram no lugar deles até hoje. 23 Também os
caftorins, que saíram de Caftor, destruíram
os aveus, que habitavam em aldeias até
Gaza, e habitaram nolugar deles.)
A passagem em “nós” registra mais
uma etapa da viagem. Mas lhe é acres­
cida uma nota, lembrando o leitor da
cronologia desta virada para uma rota
alternativa em direção a Canaã. Já se
tinham passado trinta e oito anos, e a
geração inteira de adultos que tinha vol­
tado para trás, para Cades-Baméia, es­
tava morta. A sentença de morte, da
parte de Deus,já selevara a efeito.
Estes versículos encerram o quadro do
castigo de Israel, e assim fazem pela in­
versão de figuras, que são familiares nas
descrições de guerra santa e do êxodo.
Fazem-se referências especiais ao exér­
cito. Normalmente, a mão do Senhor era
um instrumento de salvação para Israel
— um terror somente para os seus ini­
migos. Porém aqui se vira contra Israel.
Com a sua morte, encerra-se este capí­
tulo da história de Israel, e o Senhor está
f. AtravésdeAmom(2:13b-23) preparado para avançar para o seu alvo.
Está pronto, com as novas tropas no
exército de Israel, até a ordenar mais
uma guerra santa — esta vez contra
Siom, rei de Hesbom.
O breve discurso do Senhor, nos ver­
sículos 16-23, indica o caminho através
de Moabe e Amom, com instruções se­
melhantes, para evitar conquista ou pi­
lhagem. Insere-se outra nota sobre os
habitantes.
g. AVitóriaSobre Siom(2:24-37)
24 Levantai-vos, parti e passai o ribeiro de
Amom; eis que entreguei nas tuas mãos a
Siom, o amorreu, rei de Hesbom, e à sua
terra; começa a te apoderares dela, conten­
dendo com eles em peleja. 25 Neste dia co­
meçarei a meter terror e medo de ti aos
povos que estão debaixo de todo o céu; os
quais,ao ouvirem a tua fama, tremerão e se
angustiarão por causa de ti. 26 Então, do
deserto de Quedemote, mandei mensageiros
a Siom, rei de Hesbom, com palavras de
paz, dizendo: 27 Deixa-me passar pela tua
terra; somente pela estrada irei, não me
desviando nem para a direita nem para a
esquerda. 28 Por dinheiro me venderás
mantimento, para que eu coma; e por di­
nheiro me darás a água, para que eu beba.
Tão-somentedeixa-mepassar a pé, 29assim
como me fizeram os filhos de Esaú, que
habitam em Seir, e osmoabitas que habitam
em Ar; até que eu passe o Jordão para a
terra que o Senhor nosso Deus nos dá.
30 Mas Siom, rei de Hesbom, não nos quis
deixar passar por sua terra, porquanto o
Senhorteu Deus lhe endurecera o espírito, e
lhe fizera obstinado ocoração, para to entre­
garnas mãos, como hoje se vê. 31Disse-me,
pois,o Senhor: Eis aqui comecei a entregar-
te Siom e a sua terra; começa, pois, a te
apoderares dela, para possuíres a sua terra
por herança. 32 Então Siom nos saiu ao
encontro, ele e todo o seu povo, à peleja, em
Jaza; 33 e o Senhor nosso Deus no-lo entre­
gou, e oferimos a ele, ea seus filhos,e a todo
o seu povo. 34 Também naquele tempo lhe
tomamos todas as cidades, e fizemos pere­
cer a todos, homens, mulheres e pequeninos,
nãò deixando sobrevivente algum; 35 so­
mente tomamos por presa o gado para nós,
juntamente com o despojo das cidades que
havíamos tomado. 36Desde Aroer, que está
à borda do vale de Arnom, e desde a cidade
que está no vale, até Gileade, nenhuma ci­
dade houve tão alta que de nós escapasse;
234
tudo o Senhor nosso Deus no-lo entregou.
37 Somente à terra dos amonitas não che­
gastes, nem a parte alguma da borda do
ribeiro de Jaboque,nem a cidade alguma da
região montanhosa, nem a coisa alguma que
oSenhornossoDeus proibira.
e
Nesta seção, o relato usando a primei­
ra pessoa do plural “nós” aparece quan­
do a narração chega à sua metade
(v. 30a, 32-36). A história é importante,
sendo mencionada em ambas as supers-
criçõese em Números 21:21-31. Em con­
traste com as instruções do Senhor con­
cernentes a Moabe e Edom, ele manda
que Israel se prepare para ir à guerra.
Apesar de fazerum pedido para que pas­
sasse pacificamente, Siom resiste, e é
destruído.
A diferença entre Siom e os povos
anteriores é significativa. Os outros não
ocupavam terras que o Senhor havia des­
tinado para Israel. Siom era o primeiro
dos reis cananeus. A partir deste ponto
é que Israel começa a conquista propria­
mente dita. O relato deuteronômico real­
ça isto, apesar da parte da tradição,
paralela às três histórias anteriores de
que Israel pede permissão para passar
pacificamente.
O resultado deste misto de ênfase dá
um retrato de Moisés um tanto contradi­
tório. As palavras de paz (v. 26) condi­
zem com o retrato fundamental do gran­
de legislador e líder. O líder na guerra
santa mais condiz comoretrato deJosué,
que segue. Porém a ênfase que Deutero-
nômio dá à guerra santa como o padrão
para a conquista se amplia, para abran­
ger a conquista da terra no leste do
Jordão, bem como nooeste dorio.
A seção é um exemplo clássico da
assimchamada guerra santa. O Senhor a
ordena, endurece o coração do inimigo,
e então o entrega aos exércitos de Israel.
De acordo com as instruções que se
acham no capítulo 7, para tais guerras,
nenhuma pessoa era deixada com vida.
As questões levantadas por esse tipo de
guerra são debatidas lá e na introdução.
Nota-se que a área a ser capturada era
estritamente limitada, como também as
áreas que o Senhor proibiu que tomasse
(cf. osv. 36,37).
h. AVitóriaSobreOgue(3:1-11)
1 Depois nos viramos e subimos pelo ca­
minho de Basã; e Ogue, rei de Basã, nos
saiu ao encontro, ele e todo o seu povo, à
peleja, em Edrei. 2 Então o Senhor me
disse: Não o temas, porque to entreguei nas
mãos, a ele e a todo o seu povo, e a sua
terra; e farás a ele como fizeste a Siom,
rei dos amorreus, que habitava em Hesbom.
3 Assim o Senhor nosso Deus nos entregou
nas mãos também a Ogue, rei de Basã, e a
todo o seu povo; de maneira que o ferimos,
até que não lhe ficou sobrevivente algum.
4 E naquele tempo tomamos todas as suas
cidades; nenhuma cidade houve que não
lhes tomássemos: sessenta cidades, toda a
região de Argobe, o reino de Ogue em Basã,
5 cidades estas todas fortificadas com altos
muros, portas e ferrolhos, além de muitas
cidades sem muros. 6E destruímo-las total­
mente, como fizéramos a Siom, rei de Hes­
bom, fazendo perecer a todos, homens,
mulheres e pequeninos. 7 Mas todo o gado
e o despojo das cidades, tomamo-los por
presa para nós 8 Assim naquele tempo to­
mamos a terra da mão daqueles dos reis
dos amorreus, que estavam além do Jor­
dão, desde o rio Arnom até o monte Her-
mom 9 (ao Hermom os sidônios chamam
Siriom, e os amorreus chamam-lhe Senir),
10 todas as cidades do planalto, e todo o
Gileade, e todo o Basã, até Salca e Edrei,
cidades do reino de Ogue em Basã. 11 Por­
que só Ogue, rei de Basã, ficou de resto
dos refains; eis que o seu leito, um leito
de ferro, não está porventura em Rabá dos
amonitas? o seu comprimento é de nove
côvados, e de quatro côvados a sua largura,
segundo ocôvado em uso.
Este étodo um relato de batalha usan­
do a primeira pessoa do plural “nós”,
excetuando-se o versículo 2 e as notas
geográficas nos versículos 9 e 11. É evi­
dente que esta foi, originalmente, parte
do relato duplo, visto que o verso 8 serve
deconclusãopara ambos os relatos para­
lelos. O reino de Ogue foi também su­
jeito à guerra santa, com resultados exa­
tamente semelhantes àqueles de Siom.
As duas vitórias deixaram Israel em con­
trole da terra ao norte de Moabe, entre
235
Amom e oJordão, e se estendendo ainda
para onorte até as fronteiras deArã.
Ogue é chamado de o último dos re-
fains, aquela antiga geração de gigantes
(cf. 2:10,11 e Núm. 13:33). Alguns es­
tudiosos têm pensado que o leito de ferro
serefereaumsarcófagorochosodebasalto
preto do rei. Porém o tamanho citado
daria medidas de mais de 4,10m por
l,80m, mais do que o dobro do tamanho
do famoso sarcófago de Airão de Biblos.
(Um cúbito comum é de, aproximada­
mente, 46cm, o comprimento do ante­
braço.) Parece, com mais probabilidade,
referir-se a uma formação rochosa ou
perto de Ribá ou dentro dessa cidade,
queera conhecida por estenome.
i. ADivisãoda Terra(3:12-17)
12 Naquele tempo, pois, tomamos essa
terra por possessão. Desde Aroer, que está
junto do vale de Amom, e a metade da
região montanhosa de Gileade, com as suas
cidades, deiaos rubenitas e gaditas; 13e dei
à meia tribo deManasses oresto de Gileade,
como também todo o Basã, o reino de Ogue,
isto é, toda a região de Argobe com todo o
Basã. (O mesmo se chamava a terra dos
refains. 14 Jair, filho de Manassés, tomou
todaa região de Argobe, até a fronteira dos
gesuritas e dos maacatitas, e lhes chamou,
inclusive o Basã, pelo seu nome, Havote-
Jair, até hoje.) 15 E a Maquir dei Gileade.
16Mas aos rubenitas e gaditas dèi desde Gi­
leade até o vale do Amom, tanto o meio do
vale como a sua borda, e até o ribeiro de
Jaboque, o termo dos amonitas; 17 como
também a Arabá, com o Jordão por termo,
desde Quinerete até o mar da Arabá, o Mar
Salgado, pelas faldas de Pisga para o orien­
te.
A última passagem usando a primeira
pessoa doplural “nós” narra a doação de
terras a Rúben, Gade e à meia tribo de
Manassés. A começar do sul, Rúben
recebeu a terra do rio Amom até um
ponto mais ou menos equiparado com a
extremidade setentrional do Mar Morto.
Aporção de Gade estendeu-se dali até o
meio de Gileade, enquanto a parte de
Manassés continuou para o norte, Basã
adentro.
j. Adendo: AuxílioPara a Conquista As­
segurado(3:18-22)
18 No mesmo tempo também vos ordenei,
dizendo: O Senhor vosso Deus vos deu esta
terra, para a possuirdes; vós, todos os ho­
mens valentes, passareis armados adiante
de vossosirmãos, os filhos de Israel. 19Tão-
somente vossas mulheres, e vossos pequeni­
nos, e vosso gado (porque eu sei que tendes
muito gado) ficarão nas cidades que já vos
dei; 20 até que o Senhor dê descanso a
vossos irmãos como a vós, e eles também
possuam a terra que o Senhor vosso Deus
lhes dá além do Jordão. Então voltareis
cada qual à sua herança que já vos tenho
dado. 21 Também dei ordem a Josué no
mesmo tempo, dizendo: Os teus olhos viram
tudo o que o Senhor vosso Deus tem feito a
esses dois reis; assim fará o Senhor a todos
os reinos a que tu estás passando. 22Não te­
nhais medo deles, porque o Senhor vosso
Deusé oque peleja por vós.
Dão-se instruções específicas às tribos
que tinham recebido a sua porção ao
leste do Jordão, no sentido de ajudarem
na conquista ao oeste do Jordão. Dão-se
instruções a Josué para empreender o
mesmo tipo de guerra santa que tinha
arrasado bem-sucedidamente os reinos
de SiomeOgue.
k. Adendo: O RogodeMoisés
(3:23-29)
23Também roguei ao Senhornesse tempo,
dizendo: 24ÓSenhorJeová, tu já começaste
a mostrar ao teu servo a tua grandeza e a
tua forte mão; pois, que Deus há no céu ou
na terra, que possa fazer segundo as tuas
obras, e segundo os teus grandes feitos?
25Rogo-te que me deixes passar, para que
veja essaboa terra que está além do Jordão,
essa boa região montanhosa, e o Líbano!
26 Mas o Senhor indignou-se muito contra
mim por causa de vós, e não me ouviu; mas
antes me disse: Basta; não me fales mais
nisto. 27 Sobe ao cume do Pisga, e levanta
osolhospara oocidente,para onorte,para o
sule para ooriente, e contempla com os teus
olhos; porque não passarás este Jordão.
28Mas dá ordens a Josué, anima-o, e forta­
lece-o, porque ele passará adiante deste
povo, e o levará a possuir a terra que tu
verás. 29Assim ficamos no vale defronte de
Bete-Peor.
236
Moisés pediu encarecidamente ao Se­
nhor para que lhe permitisse atravessar
oJordão com os israelitas. Foi-lhe nega­
do o pedido por causa dos pecados de
seu povo (cf. 1:37a; 4:21). Em outro
lugar (31:2d) se menciona a proibição
serçi dar o motivo. Em Números 20:12 e
Deuteronômio 32:51, o pecado do pró­
prio Moisésédado comoo motivo.
O fato de que mesmo os maiores den­
tre os servos de Deus não podem sim­
plesmente pedir a Deus o que quiserem,
e recebê-lo, incomodava as pessoas na
época do AntigoTestamento econtinua a
incomodar hoje. O fato de que até eles
têm, àsvezes, de deixar esta vida sem ver
os plenos frutos de seus labores é tam­
bém um problema. Aconteceu com Moi­
sés como também com Paulo (II Cor.
12:7). Mas a vida é assim. As pessoas
compartilham na sensação do inacabado
que éprópria da condiçãohumana.
Esta passagem pode ser ligada a ou­
tras, que falam no sofrimento vicário
(cf. Êx. 32:31,32; Deut. 9:15-20,25-29).
Pensa-se nas palavras de Paulo em Ro­
manos 9:3 “Porque eu mesmo desejaria
ser separado de Cristo, por amor de
meus irmãos, que são meus parentes
segundo a carne.”
Volte-se novamente à ordem de subir
a montanha, em 32:49. Porém a monta­
nha aí chama-se de Nebo, e não Pisga.
Volta-se às ordens dadas a Josué nos
capítulos 31 e 34. A ocorrência destes
temas ilustra a estreita relação destes
primeiros três capítulos com os capítulos
finais dolivro.
Nesteponto o resumo histórico é inter­
rompido. É possível que em certa época,
no passado, tenha continuado direta­
mente nocapítulo 31.
(2) O Sermão Sobre o Primeiro Manda­
mento(4:1-40)
A maior parte deste capítulo (v. 1-40)
constitui, claramente, uma unidade in­
dependente. Há uma nítida descontinui-
dade após ocapítulo três, embora muitas
referências, neste capítulo, remontem a
temas encontrados nos primeiros três. O
sermão termina. Insere-se uma nota his­
tórica (v. 41-43). Os últimos versículos
(v. 44-49) são a superscrição formal para
a seção quecomeçano capítulo5.
Este sermão versa sobre o Primeiro
Mandamento, eé, assim, paralelo aos do
capítulo 6edoscapítulos 10e 11.
Em cada um, uma narração de eventos
históricos, que são importantes para as
tradições da aliança sagrada, e seguida
por um sermão implorando a obediência
ao grande mandamento. É uma exor­
tação para cumprirem a lei de Deus.
Concentra o seu apelo na proclamação
da grandeza deDeus, que deu a lei e que
estava presente em Israel, e numa expo­
sição daquela determinada seção da lei
(o Decálogo) que são considerados os
mais distintivos e significativos de todos.
O sermão avança consideravelmente
além de uma exposição deste manda­
mento, para expor a lição de que a posse
única e preciosa de Israel entre todos os
povos era a sua consciência da proximi­
dade de Deus dele e ter uma lei mais reta
do que qualquer outra que os demais
povos conheciam. Essa lei era a base de
suaexistência, a carta magna de sua vida
com o povo, tanto na terra como fora
dela.
Este capítulo é um dos mais recentes
dos escritos contidos em Deuteronômio
e, aparentemente, foi escrito e introdu­
zido nesta posição, no livro, na época da
segunda edição da história deuteronômi-
ca, para o fim do exílio. Não vê apenas a
ameaça do exílio (v. 26 e s.), mas tam­
bém a esperança de retorno mais além
(v. 30,31). Isto significa que a sua inter­
pretação tem de manter dois pontos de
vista temporais em mente. O primeiro,
seucontextocomoum discurso deMoisés
antes da entrada de Israel na terra; mas,
segundo, uma interpretação desse dis­
curso numa redação para o fim do exílio
babilónico.
237
O sermão é uma unidade. Ê cuidado­
samente composto, em quatro linhas de
desenvolvimento.
Estrutura dostemas deuteronômicos:
Leieterra
v. 1 5 ess. 14 21e s.
Decálogo(ouproibição de imagens)
v. 2 9 15-19 23ess.
Referênciashistóricas
v. 3es. 10-1320
Um estreitamento do assunto abrangi­
do:
Aleiinteira v. 5-8
ODecálogo v. 9-14
Aproibição de imagens v. 15-22
Uma perspectiva ampliada da história:
Somente oeventoem
Baal-Peor(Núm. 25) v. 3
Sinal v. 10e ss.
Oêxodo v. 20
Remonta à criação v. 22-40(32)
Uma visão ampliada do futuro (do
ponto devistade Moisés noJordão):
Aplicada à vidaem
Canaã v. 5
Referência àera de
Salomão v. 6-8
Aplicada ao Reino
posterior v. 15-19,25
0 exílio v. 26-28
Renovaçãoeretomo v. 29-31
a. Exortação —Guardaia Lei(4:1-4)
1Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e
os preceitos que eu vos ensino, para os ob­
servardes, a fim de que vivais, e entreis e
possuais a terra que o Senhor Deus de vos­
sos pais vos dá. 2 Não acrescentareis à
palavra que vos mando, nem diminuireis
dela,para que guardeis os mandamentos do
Senhor vosso Deus, que eu vos mando. 3Os
vossos olhos viram o que o Senhor fez por
causa de Baal-Peor; pois a todo homem que
seguiu a Baal-Peor, o Senhor vosso Deus o
consumiu domeio de vós. 4Mas vós, que vos
apegastes ao Senhor vosso Deus, todos este­
jais hoje vivos.
A introdução do sermão começa, sem
nenhum outro preliminar, com uma
exortação para observarem a lei. A lin­
guagem é uma com que se está familia­
rizado, pelo seu uso repetido neste livro.
Porém a grandeza deste sermão e de
outros em Deuteronômio não reside no
fato da exortação à observância da lei,
mas, sim, na maneira como esta exorta­
ção está relacionada com os interesses
mais importantes e elementares de fé e
davida.
O emprego do verbo “ensinar”, neste
capítulo(v. 1,5,14), ésignificativo. É ver­
dade que as seções mais antigas de Deu­
teronômio também falam em ensino (5:
31; 6:1), e, da mesma forma, admoestam
Israel para que o povo aprenda as leis e
as ensine aos seus filhos (5:1; 11:19).
Mas aqui a palavra émais proximamente
uma descrição exata do que Moisés esta­
va fazendo. Antes do exílio, este “ensi­
no” teve lugar na celebração do ritual
pactuai. Porém no exílio, material ante­
riormente transmitido através do ritual
foi fixado num livro e devia ser ensinado
e aprendido do livro. Assim, a palavra
tem um significado mais profundo aqui,
como também o termo complementar
“aprender” (v. 10).
Dois motivos principais para a obser­
vância da lei são notados. O primeiro é o
maisprofundo evital que ohomem possa
ter: avontade deviver. Ê proeminente no
começo e no fim da seção. A vida ou a
existência seria possível para Israel den­
tro da obediência à lei de Deus. O ser e
o existir de Israel estavam intimamente
ligados com a aliança e com a eleição,
que são expressas na Tora. Ignorar este
contrato básico da aliança seria negar a
sua própria existência, e morrer, como
aqueles em Baal-Peor. Mas também o
próprio otimismo de Deuteronômio se
expressa aqui. A lei foi dada não como
uma camisa-de-força ou para suprimir a
vi(|a, mas, ao contrário, para possibilitar
sua plena e livre expressão. Quando a fi­
nalidade éviver, e viver plenamente, não
se procura libertar-se da lei de Deus.
Antes, encontrar-se-ia realização e vida
238
por observar as instruções de Deus sobre
comoviverdentro da esfera que ele havia
criado para o seu povo, através da alian­
çaeda dádiva da TerraPrometida.
Com issojá se firmou o segundo moti­
vo: a posse da terra que Deus estava lhe
dando. A exortação era possível, porque
Deus havia feito uma aliança e tomara
Canaã disponível: A exortação era neces­
sária, porque a terra estava ainda por ser
ocupada eusada conforme opropósito de
Deus expressona Lei.
O versículo 2 é uma assim chamada
“fórmula canônica”. Aformação dolivro
de Deuteronômio posiciona-se no limiar
da formação do cânon do Antigo Testa­
mento. Deuteronômio procura conscien­
temente as formulações centralizadas de
doutrina que são os começos de sistemas
(von Rad, Deuteronomy, p. 29). Está
também consciente dese situar no fim do
processo pelo qual semelhantes cristali­
zações de doutrina e mandamentos são
fixados imutavelmente para gerações fu­
turas. O primeiro cânon em Israel foi,
indubitavelmente, o Decálogo, que Deu­
teronômio expõe. Num sentido mais am­
plo, acoleção de escritos, que, principal­
mente, exerceu autoridade canônica em
Israel foi o Pentateuco. Este versículo
reproduz as convicções que fixaram e
confirmaram ocânon pentateucal.
A fórmula é antiga. Era conhecida no
Egito antigo, sendo documentada por
Ptahhotep em cerca de 2450 a.C. Ê repe­
tida no Antigo Testamento (12:32; Prov.
30:6; Ecl. 3:14; Jer. 26:2). Porém, o lei­
tor do século vinte deverá notar que não
trazia as conotações conhecidas na era
cristã, senão a partir da época dos Pais
da Igreja, a começar do terceiro século
d.C. em diante. Era, certamente, enten­
dida de,umamaneira muito maisgeral.
à moda deuteronômica, a exortação
é, então, ilustrada por uma referência à
história. A experiência recente (do ponto
de vista de Moisés, junto ao Jordão) da
apostasia em Baal-Peor (Núm. 25), que
era o último ponto mencionado nos rela­
tos da viagem no capítulo 3, é citada
como advertência. Note-se que o pecado
de Baal-Peor não era interpretado como
uma infração da Lei, mas, sim, como
apostasia contra Deus. O resultado da
apostasia foi a morte. Os que ainda
viviam eram testemunhas. A questão da
vida ainda está no primeiro plano. O
ater-se firmemente a Deus em observar a
Lei era vital e sem isso a vida era impos­
sível.
b. ASabedoriaSupremadeIsrael
(4:5-13)
S Eis que vosensinei estatutos e preceitos,
como o Senhor meu Deus me ordenou, para
que os observeis no meio da terra na qual
estais entrando para a possuirdes. 6 Guar­
dai-os e observai-os, porque isso é a vossa
sabedoria e ovossoentendimento à vista dos
povos, que ouvirão todos estes estatutos,
e dirão: Esta grande nação é deveras povo
sábio e entendido. 7 Pois que grande nação
há que tenha deuses tão chegados a si como
oé a nós o Senhor nosso Deus todas as vezes
que o invocamos? 8 E que grande nação há
que tenha estatutos e preceitos tão justos
como toda esta lei que hoje ponho perante
vós? 9Tão-somente guarda-te a ti mesmo, e
guarda bem a tua alma, para que não te
esqueças das coisas que osteus olhos viram,
e que elas não se apaguem do teu coração
todos os dias da tua vida; porém as conta­
rás a teus filhos, e aos filhos de teus filhos;
10odiaem queestivesteperante oSenhorteu
Deusem Horebe, quando oSenhorme disse:
Ajunta-me este povo, e os farei ouvir as
minhas palavras, e aprendê-las-ão, para
me temerem todosos dias que na terra vive­
rem, e as ensinarão a seus filhos. 11 Então
vós vos chegastes, e vos pusestes ao pé do
monte; e o monte ardia em fogo até o meio
docéu, e haviatrevas, e nuvens e escuridão.
12 E o Senhor vos falou do meio do fogo;
ouviste o som de palavras, mas não vistes
forma alguma; tão-somente ouviste uma
voz. 13 Então ele vos anunciou o seu pacto,
o qual vos ordenou que observásseis, isto é,
osdez mandamentos; e osescreveu em duas
tábuas de pedra.
O corpo do sermão é então desenvol­
vido em forma espiral, à medida que
cada seção aborda os temas deuteronô-
micos. São aqui ouvidos como temas mu­
239
sicais numa sinfonia, os quais, com va­
riações, serão ouvidos de novo em cada
movimento da composição. A primeira
seção(v. 5-13) expõe a hei como a sabe­
doria suprema de Israel à vista das na­
ções. Novamente, não se permite que o
louvor da Lei seja separado do ser e da
presença de Deus outorgados. A glória
de Israel deviaser vista na proximidade e
na acessibilidade de seu grande Deus
(v.7) e na evidente retidão da Lei que ele
deu na aliança(v.8).
A seção segue imediatamente para a
admoestação para que não te esqueças.
O segundo e terceiro motivos da constru­
ção são fundidos (v. 9-13). Pela referên­
cia à sua experiência da presença de
Deus em Sinai, na qual não viram ne­
nhuma forma, eleoslembra do distintivo
Segundo Mandamento. Sua ênfase pri­
mária aqui, porém, está sobre o Decá­
logo inteiro (v. 13). O tema de a lei
avança da referência geral para toda esta
lei (v. 5-8), o Decálogo (v. 9-14), e para
os específicos Segundos Mandamentos
(v. 15-22).
Aomesmo tempo, as referências histó­
ricas estão-se ampliando. A introdução
fez referência ao incidente recente em
Baal-Peor. Mas esta primeira seção prin­
cipal retrocede 40 anos, à experiência
construtiva primeira de Israel em Sinai.
Naquela grande e perturbadora expe­
riência ele aprendeu sobre Deus: algo
negativo — não viram forma nenhuma;
não havia ele de ser entendido e experi­
mentado em termos de algo concebível
como forma ou imagem; e algo positivo
— a sua aliança, dez palavras que po­
diam ser moldadas e foram esculpidas
em pedra. As palavras podiam ser com­
preendidas, debatidas, interpretadas,
obedecidas. Delas, aprendeu-se de Deus.
Como deveria Israel falar de seu grande
Deus que lhe estava tão próximo? Por
citar, obedecer e pregar as palavras da
aliança.
É significativo que o hebraico fale em
“dez palavras”, não em “dez manda­
mentos”. Pois são muito mais do que
mandamentos. Estatutos, mandamentos
eordenançashavia muitos. Masestes dez
vãoalém. Seuefeitoeintuito alcançavam
muito além da obediência. Plasmam fé e
aquela compreensão de Deus e do ho­
mem que chamamos de teologia. Reve­
lam Deus e declaram as exigências de
Deus em termos que sempre ultrapassa­
rão a capacidade de qualquer homem de
cumprir. A interpretação que Jesus lhes
deu no Sermão da Montanha está direta­
mente de acordo com o seu intento origi­
nal. Estas palavras dão expressão à men­
te de Deuse revelam o seu verdadeiro ser
e vontade. Como tais merecem ser cha­
madas de a forma mais primitiva da
Palavra de Deus, de a forma embrioná­
ria docânon das Escrituras.
Entrelaçada com estes temas há uma
breve sugestão de crítica e correção, nu­
ma outra seção da história deuteronômi-
ca. O reinado de Salomão foi um dos
poucos períodos da história de Israel em
que ele podia ser chamado de uma das
“grandes naçpes”. As suas característi­
cas, de reputação internacional, eram a
sabedoria de Salomão eoTemplo como o
lugar da Presença de Deus (I Reis 8:27-
30). Este sermão insiste em que a sabe­
doria de Israel era a que fora depositada
na Lei, e não aquela vista em Salomão.
ALeiera o seu direito e posse orgulhosa,
mesmo no exílio. Por aprendê-la e guar­
dá-la, Israel poderia ainda mostrar a sua
superioridade acima das nações muito
depois do desaparecimento do reino que
Salomão havia edificado. A presença de
Deus prometida vinha igualmente dele,
através da Lei. O Templo já não era
necessário. Israel podia orgulhar-se em
ter Deus “com ele”, mesmo na Babilô­
nia, quando aprendeu e pôs em prática a
Lei.»
O versículo 5 ordena a observância de
estatutos e ordenanças na terra de Ca-
naã. Do ponto de vista de Moisés, isto
previa o futuro imediato. Do ponto de
vista dos que aprendiam a Lei, no exílio,
240
levantou-se a questão se podiam ou devi­
amserguardadosna Babilônia. Aquestão
era se devia conformar-se e ser assimila­
do, ou ser diferente e permanecer iso­
lado.
Esta questão traz outras consigo. Co­
mo deveria agir Israel quando rodeado
pela cultura mais adiantada sob influ­
ência religiosa dos babilônios? Como
podia a fé e a maneira de viver de um
diminutopovoprovinciano sobreviverem
semelhantes circunstâncias? E deveria
sobreviver?
A finalidade deste capítulo é justa­
mente dar resposta a essas interrogações.
As indagações são relevantes para todo o
pensamento do Oriente Médio. As gran­
des nações, e governantes, a partir de
Hamurábi, preocupavam-se com a sabe­
doria e retidão de suas leis. O problemà
da proximidade ou distância de Deus era
também de grande interesse. O que está
em questão é citado especificamente no
versículo 7: Ele é chegado todas as vezes
queo invocamos. A certeza se Deus pode
ouvir a oração e se efetivamente a ouve e
se intervém em prol do suplicante neces­
sitadoé que está em discussão.
A lei que estava sendo proclamada era
omotivo de uma vida separada e distinta
por parte do povo de Deus, bem como o
fundamento de semelhante vida naquela
terra estrangeira. Pois nenhuma nação
tinha um Deus tão próximo nem uma lei
tão reta! Mesmo no exílio, o Deus de
Israel lembrar-se-ia de sua aliança com
osseuspais(v. 13).
à medida que o espiral se move, é
oportuna uma referência ao Decálogo.
É mencionado apenas por alto, sob a
referência, àquelas coisas que teus olhos
viram, e o espiral prossegue, falando na
teofania em Sinai. Como no primeiro
círculo, onde a fórmula canônica foi in­
troduzida neste ponto, aqui se insere
uma admoestação para ensinarem estas
coisas às gerações seguintes. Admoesta­
ções paralelas se acham em 6:6 e s.;
11:19-21;31:13.
Noversículo 10, as palavras de Deus a
Moiséssãocitadascom a mesmafinalida­
de. Na realidade, a admoestação do ver­
sículo9surge da palavra direta de Deus a
Moisés, que não é mencionada a não ser
noversículo seguinte.
Sem nenhuma pausa, o pensamento
prossegue para a teofania no Sinai, com
umaênfase tremenda sobre o fogo. Toda
aquelagrande experiênciaé aqui resumi­
da em quatro versículos. O motivo do
fogoaparecerepetidasvezes(v. 15,33,36).
È importante, porque mostra o ser essen­
cial de Deus: ele é um fogo consumidor
(v. 24).
Então se enfatiza a ausência de qual­
quer forma visível vista no Sinai (v. 12).
Esta observação não é feita em outras
descrições da experiência sinaítica. Nesta
ocasião, prepara o caminho para a pro­
clamação do Segundo Mandamento, com
a suaproibição de imagens (v. 15,16).
O versículo 13 identifica a aliança ou
pacto com os Dez Mandamentos nas tá­
buas depedra. Isto imediatamente levan­
ta a questão da relação entre estas “dez
palavras” e toda a lei que Moisés está
proclamando. O versículo 14dá a respos­
ta nos mesmos termos como aqueles
apresentados no capítulo 5. O Decálogo
foi a base da aliança. Os demais estatu­
tos e leis foram dados para Israel seguir
em sua vidaem Canaã.
c. OGrandeMandamento(4:14-20)
14 Também o Senhor me ordenou ao mes­
mo tempo que vos ensinasse estatutos e
preceitos, para que os cumprísseis na terra
a que estais passando para a possuirdes.
15 Guardai, pois, com diligência as vossas
almas, porque não vistes forma alguma no
dia em que oSenhorvossoDeus, em Horebe,
falou convosco do meio do fogo; 16para que
não vos corrompais, fazendo para vós algu­
ma imagem esculpida, na forma de qual­
quer figura, semelhança de homem ou de
mulher; 17ou semelhança de qualquer ani­
malque há na terra, ou de qualquer ave que
voa pelo céu; 18ou semelhança de qualquer
animal que se arrasta sobre a terra, ou de
qualquerpeixe que há nas águas debaixo da
241
terra; 19e para que não suceda que, levan­
tando osolhospara océu, e vendoosol,a lua
e as estrelas, todo esse exército do céu,
sejais levados a vos inclinardes perante
eles, prestando culto a essas coisas que o
Senhorvosso Deus repartiu a todos os povos
debaixo de todo o céu. 20 Mas o Senhor vos
tomou, e vos tirou da fornalha de ferro do
Egito, a fim de lhe serdes um povo hereditá­
rio, comohoje osois.
Oversículo 14, em certo sentido, fecha
o episódio de Sinai, mas também men­
ciona o primeiro motivo do espiral se­
guinte e abre o caminho para mergulhar
diretamente no segundo motivo, que tra­
ta da proclamação real do primeiro e
maior mandamento (cf. Mat. 22:36-38).
O maior mandamento, para Deutero-
nômio, como o era para Jesus, foi aquele
que ordena total devoção a Yahweh, o
Deus de Israel. Este sermão lembra os
seus ouvintes e leitores para evitarem as
alternativas mais evidentes aeste manda­
mento. A maioria das religiões daqueles
dias cultuavam a ídolos. Lembra-os da
lei, proibindo a fabricação de qualquer
imagem. Ãs vezes se tem pensado que
este mandamento proibia a tentativa de
retratar Yahweh em qualquer forma
plástica. A referência no versículo 15, a
não se ter visto qualquer forma no Sinai,
podia comprovar esse ponto de vista. É
este, sem dúvida, um entendimento le­
gítimo deste Segundo Mandamento do
Decálogo.
Todavia, não parece ter sido esse o in­
tento principal desta passagem. Não te­
mos nenhuma indicação de que Israel
tenha sido alguma vez tentado a retratar
Yahweh em forma feminina ou como
uma ave ou um peixe. A exortação urge
que Israel se abstenha de participar das
religiões concorrentes contemporâneas
daqueles dias. A dimensão do problema
como ameaça real no reino posterior e no
exílio pode ser medida em passagens
como II Reis 21:3-8, 23:4-14 e Eze-
quiel8.
Diferentemente destas passagens e das
expressões típicas deuteronômicas em
outros lugares, este capítulo evita o uso
dotermo “deuses estranhos”. Certamen­
te a omissão foi propositada. Refletia a
situação mudada existente no fim do
exílio, em contradição à polêmica contra
tais assuntos, enquanto ainda falando
em Jerusalém. Dificilmente o uso da
frase teria sido apropriado, quando o
Israel todo vivia no meio de estrangeiros,
em terra estranha. Porém a necessidade
de expor esta advertência contra a fa­
bricação de e cultos a tais deuses era
maiordo quenunca.
Esta passagem é única em prosseguir
na proibição do culto dos corpos celes­
tiais. Isto foi, outra vez, claramente, um
problemapara Israel no reino posterior e
no exílio, como não havia sido nos sé­
culosanteriores. Contudo, a situação era
diferente daquela das religiões que usa­
vam imagens. A grande tentação para
Israel jazia no fato de que uma contem­
plação dos astros evocava um temor le­
gítimo. Aqui havia sentimentos que se
moviamnum plano bem diferente daque­
le do culto de imagens de madeira e
pedra.
Por detrás deste culto aos astros po­
diajazer a reverência aos seres celestiais
que representavam os “filhos de Deus”
dos Salmos, os “santos” do conselho de
Yahweh. Assim é que Jó 38:7 faz parale­
lismo entre as estrelas da manhã e os
“filhos de Deus”. Uma referência a essa
comparação pode ser encontrada em
Deuteronômio32:8.
Contudo, Israel tinha de reconhecer
que, por mais acertado que isso fosse
para os demais povos (v. 19b), aos quais
Deus tinha dado isso como um meio de
reconhecê-lo, este culto às grandes hos­
tes docéu não podia ser a base de Israel
para a compreensão de Deus ou para
cultuá-lo.
Arelação de Israel com Deus baseava-
se em seu resgate do Egito (v. 20). Aqui
Egito é chamado de a fornalha de ferro,
um símbolo de calor insuportável, de dor
e crueldade. Talvez o uso desta expres-
242
são aqui venha de I Reis 8:51, pois a
expressão normal, no Decálogo, é “a
casada servidão”. Ou talvez a referência
ao Egito como a fpmalha de ferro esteja
fazendocontraponto à designação por vir
do próprio Deus, na sua ira, como “um
fogoconsumidor” (v. 24).
Com o versículo 20 volta-se de novo ao
motivo histórico. Esta vez remonta para
além do Sinai, ao resgate do Egito, para
uma perspectiva ainda mais larga. A
aplicação de logo antes já não se rela­
ciona apenas com Salomão, mas abrange
o período do reino posterior e do exílio.
Comootema tem-se limitado à Lei como
um todo para o Decálogo, e então ao
Primeiro Mandamento, assim a perspec­
tiva histórica em retrospecto de Parã
tem-se ampliado para abrangero próprio
êxodo. Para o futuro, a perspectivajá se
estende até oexílio.
d. Guardai-vos(4:21-24)
21 O Senhor se indignou contra mim por
vossa causa, e jurou que eu não passaria o
Jordão, e que não entraria na boa terra que
o Senhor vosso Deus vos dá por herança;
22mas eu tenho de morrer nesta terra; não
podereipassar oJordão; porém vóso passa­
reis, e possuireis essa boa terra. 23 Guar­
dai-vos de que vos esqueçais do pacto do
Senhor vosso Deus, que ele fez convosco, e
não façaispara vósnenhuma imagem escul­
pida, semelhança de alguma coisa que o
Senhor vosso Deus vos proibiu. 24 Porque
OSenhor vosso Deus é um fogo consumidor,
um Deuszeloso.
Com o versículo 21, um novo ciclo de
motivos começa. A referência à Lei e à
terra éexpressa na amarga lembrança de
Moisés de que não lhe seria permitido
entrar na terra (cf. 1:37; 3:26). Porém se
recomenda que os israelitas entrem e a
possuam.
Depois docomeço, segueuma admoes­
tação com as palavras Guardai-vos. Se­
melhantes imperativos dominam este ca­
pítulo e estabelecem a pauta para o seu
estilo. Começou com o imperativo “Ou­
ve!” (v.l). Três vezes lhes é recomenda­
do: “Guardai-vos” (v. 9,15,23). Ainda
outros imperativos lhes recomendam que
perguntem (v. 32) e saibam (v. 39). No
versículo 23, a admoestação diz respeito
à proibição de imagens, que tinha sido o
tema do sermão. No estilo do Decálogo,
Moisés lembra ao povo que a infração
deste mandamento é especialmente per­
turbadora para Yahweh, seu Deus ciu­
mento.
e. SeVosCorromperdes, Servireis
(4:25-31)
25 Quando,pois, tiverdes filhos,e filhos de
filhos, e envelhecerdes na terra, e vos cor­
romperdes, fazendo alguma imagem escul­
pida., semelhança de alguma coisa, e prati­
cando oque é mau aos olhos do Senhor vosso
Deus, para o provocar à ira, —26hoje tomo
por testemunhas contra vós o céu e a terra,
—bem cedo perecereis da terra que, pas­
sado o Jordão, ides possuir. Não prolonga­
reis os vossos dias nela, antes sereis de todo
destruídos. 27 E o Senhor vos espalhará
entre os povos, e ficareis poucos em núme­
ro, entre as nações para as quais o Senhor
vos conduzirá. 28 Lá servireis a deuses que
são obra de mãos de homens, madeira e pe­
dra, que não vêem, nem ouvem, nem co­
mem,nem cheiram.29Masdelábuscarásao
Senhor teu Deus, e o acharás, quando o bus­
cares de todo o teu coração e de toda a tua
alma. 30 Quando estiveres em angústia, e
todas estas coisas te alcançarem, então nos
últimos dias voltarás para o Senhor teu
Deus, e ouvirás a sua voz; 31 porquanto o
Senhor teu Deus é Deus misericordioso, e
não te desamparará, nem te destruirá, nem
se esquecerá dopacto quejurou a teus pais.
Aoinvés de se voltar para um exemplo
histórico mais antigo, como antes tem
feito o ciclo de temas, o sermão agora
prossegue para uma profecia (da pers­
pectiva de Moisés), que retoma o motivo
da “maldição” das alianças desuserania,
que tanto têm influenciado a forma e o
estilo de Deuteronômio. O quadro é
preenchido pela lembrança da real que­
bra do acordo da aliança pela fabricação
de ídolos (v. 25), por uma conclamação
de testemunhas da aliança (v. 26) e pelo
anúncio daquilo que o Senhor da aliança
ou pacto pretendia fazer como castigo
pelainfração.
243
O castigo seria proporcional ao crime.
Conquanto opropósito da aliança fosse o
de garantir as dádivas de vida e da terra
para o seu povo, a maldição eliminaria
ambas (v. 26). Conquanto Israel tivesse
em Canaã a possibilidade de se unir
como um povo numeroso em sua própria
terra, a maldição o espalharia, tornan-
do-o em poucos em número entre as
nações (v. 27). E, lá, ironicamente, teria
plena oportunidade de amadurecer o seu
pecado, de serviraos deuses de madeira e
pedra, que tinha insistido em servir em
Canaã, apesar do mandamento explicito
deDeus(v. 28).
Mas o sermão é mais do que uma
“maldição”, como toda a expressão da
aliança ou pacto de Deus é mais do que
uma lei. O otimismo coerente de Deute-
ronômio aparece na lembrança de que
até no exílio Deus manteria aberta a
possibilidade do arrependimento. Sua
misericórdia era a base da aliança. Ele
não se esquece. Mesmo no exílio, se tu o
buscares, o acharás. Porém, embora a
misericórdia de Deus permaneça cons­
tante, também assimpermanecem as ati­
tudes requeridas daqueles que o buscam:
boavontadeeobediência(v. 29-31).
f. O Senhor É Deus —Não Há Nenhum
Outro(4:32-40)
32 Agora, pois, pergunta aos tempos pas­
sadosque te precederam desde o dia em que
Deus criou o homem sobre a terra, desde
uma extremidade do céu até a outra, se
aconteceu jamais coisa tão grande como
esta, ou se jamais se ouviu coisa semelhan­
te? 33 Ou se algum povo ouviu a voz de
Deusfalar do meio do fogo, como tu a ouvis­
te, e ainda ficou vivo? 34 Ou se Deus inten­
tou ir tomar para si uma nação do meio de
outra nação, por meio de provas, de sinais,
de maravilhas, de peleja, de mão poderosa,
de braço estendido, bem como de grandes
espantos,segundotudoquantofeza teu favor
o Senhor teu Deus, no Egito, diante dos teus
olhos? 35 A ti te foi mostrado para que sou­
besses que o Senhor é Deus; nenhum outro
há senão ele. 36 Do céu te fez ouvir a sua
voz, para te instruir, e sobre a terra te
mostrou o seu grande fogo, do meio do qual
ouviste as suas palavras. 37 E, porquanto
amou a teus pais, não somente escolheu a
sua descendência depois deles, mas tam­
bém te tirou do Egito com a sua presença
e com a sua grande força; 38para desapos­
sar de diante de ti nações maiores e mais
poderosas do que tu, para te introduzir na
sua terra e ta dar por herança, como neste
dia se vê. 39 Pelo que hoje deves saber e
considerar no teu coração que só o Senhor é
Deus, em cima no céu e embaixo na terra;
nãohánenhum outro. 40E guardarás os seus
estatutos e os seus mandamentos, que eu te
ordeno hoje, para que te vá bem a ti, e a
teus filhos depois de ti, e para que prolon­
gues os dias na terra que o Senhor teu Deus
té dá,para todoosempre.
Os versículos 32-40 constituem um
tipo de peroração. Abandonam a forma­
ção cíclica, mas continuam a perspectiva
cada vez mais ampla da história. Re­
tomam, mais uma vez, o tema da última
legitimidade da fé de Israel e a obediên­
cia à sua Lei, em comparação com as
grandes nações e as suas religiões. Estes
versículos começam com um desafio ou­
sado, para comparar as experiências de
Israel com as de qualquer nação, de
qualquer época, a partir do ato da cria­
ção, de uma extremidade dos céus à
outra.
A área específica de comparação foi
definida pela pergunta anterior (v. 7):
“Pois que grande nação há que tenha
deuses tão chegados a si como o é a nós o
Senhor (Yahweh) nosso Deus?” Agora
estaproximidade de Yahweh de seu povo
é exposta em termòs da voz falando do
meio do fogo, no Sinai, e do braço po­
deroso de redenção, que resgatou Israel
do Egito (v. 33,34). Isto foi dado a Israel
para que soubesses — ou seja, para a
comunicação do conhecimento da fé, em
que sepossa fundamentar um relaciona­
mento. Esta fé tem de entender que
Yahweh é Deus além de qualquer com­
paração. Nãohá nenhum outro.
Oversículo36mantém o equilíbrio en­
tretranscendênciaeimanência. Avozdos
céus e a epifania em fogo na terra eram,
juntas, asinstrutorassobre o sereocami-
244
nhodeDeus, queestimulavamaaceitação
daLeicomoasuavontadee a sua aliança.
Os versículos 37 e 38 resumem a his­
tória da salvação como uma base para
umaexortação à obediência completa e à
féinflexívelemDeus como o único Deus.
O resumo da história da salvação cita a
eleição de Israel por causa dos patriar­
cas, a salvação deles do Egito através do
poder de Deus, e o provimento de Canaã
pelos seus próprios atos. Esses atos di­
vinos são trazidos à memória porque
proporcionam a oportunidade para a fé.
Constituem revelação num sentido em
que todos os astros dos céus não podem
rivalizar. Lembrando-se deles, torna-se
possívelpara Israel saber... que o Senhor
(Yahweh) é Deus. O conhecimento reli­
giosoque chamamos de féépossívelonde
osatos reais de Deus sãoproclamados.
E a vida de obediência sob Deus é
possível onde existe semelhante conheci­
mento defé. Tendo, assim, apelado para
Israel que cresse, o sermão termina com
o apelo à obediência, que possibilitará a
vida, obem-estar e a segurança na terra
queDeus dá.
(3) Cidadesde Refúgio(4:41-43)
41 Então Moisés separou três cidades
além do Jordão, para o nascente, 42 para
que se refugiasse ali o homicida que invo­
luntariamente tivesse matado o seu próxi­
mo a quem dantes não tivesse ódio algum;
para que, refugiando-se numa destas cida­
des, vivesse: 43 a Bezer, no deserto, no pla­
nalto, para os rubenitas; a Ramote, em
Gileade,para osgaditas; e a Golã, em Basã,
para os manassitas.
Insere-se um apêndice, com uma mu­
dança abrupta de estilo e com a fala de
Moisés na terceira pessoa. O interpola-
dor certamente conhecia Números 35:9-
15e Josué 20, onde se acham listas com­
pletas das cidades. Parece que os nomes
aqui foram tirados de Josué 20:8. O di­
reito de asilo ê plenamente descrito em
Deuteronômio 19:1eseguintes.
II. A Segunda Coleção dos Dis­
cursosdeMoisés
(4:44-26:68)
1. Superscrição (4:44-49)
44Esta é a lei-que Moiséspropôs aos filhos
de Israel; 45 estes são os testemunhos, os
estatutose ospreceitosque Moisés falou aos
filhosde Israel, depois que saíram do Egito,
46além do Jordão, no vaie defronte de Bete-
Peor, na terra de Siom, rei dos amorreus,
que habitava em Hesbom, a quem Moisés e
os filhos de Israel derrotaram, depois que
saíram do Egito; 47 pois tomaram a terra
deles em possessão, como também a terra
de Ogue, rei de Basã, sendo esses os dois
reis dos amorreus, que estavam além do
Jordão, para o nascente; 48 desde Aroer,
que está à borda do ribeiro de Arnom, até o
monte de Siom, que é Hermom, 49 e toda a
Arabá, além doJordão, para o oriente, até o
mar da Arabá, pelas faldas de Pisga.
Esta superscrição é paralela a 1:3-5
(cf. o comentário sobre estes versículos).
O “âmago” ou seção central de Deutero­
nômio começa com estas palavras. Mais
umaveza ênfase recai no falar de Moisés
e em Israel, endereçado anteriormente à
conquista de Canaãpropriamente dita.
2. Parte Dois(5:1-8:20)
(1) Narração: A Aliança em Horebe e
MoisésComoo Mediador (5:1-27)
1 Chamou, pois, Moisés a todo o Israel, e
disse-lhes; Ouve, ó Israel, os estatutos e
preceitos que hoje vosfalo aos ouvidos, para
que os aprendais e cuideis em os cumprir.
2O Senhor nosso Deus fez um pacto conosco
em Horebe. 3 Não com nossos pais fez o
Senhor esse pacto, mas conosco, sim, com
todos nós que hoje estamos aqui vivos.
4 Face a face falou o Senhor conosco no
monte, no meio do fogo 5 (estava eu nesse
tempo entre o Senhor e vós, para vos anun­
ciar a palavra do Senhor; porque tivestes
medo por causa do fogo, e não subistes ao
monte), dizendo ele:
Com esta breve introdução começa o
discurso de Moisés, e continua sem in­
terrupção até e inclusive o capítulo 26.
Todo o Israel é um termo encontradiço
em Deuteronômio, que aparentemente
vem da terminologia técnica da antiga
245
confederação israelita. Refere-se à as­
sembléia oficial das 12tribos.
A exortação do versículo 1 é de um
estilo familiar, típico de Deuteronômio.
Dirige a atenção para a aliança que o
Senhor Deus havia feito em Horebe. Ho-
rebe é um outro nome de Sinai, usado
coerentemente na tradição a que Deute­
ronômio pertence. O versículo 3 podia
ser entendido como ignorando os fatos
mencionados em 2:14 e seguintes como
também toda a geração daqueles que
tinham estado em Horebe, quejá haviam
morrido. Nestecaso, nossospais faz refe­
rência aos patriarcas e o versículo realça
a distinção entre as alianças abraâmica
e de Horebe. Todavia, a interpretação
mais provável entende “nossos pais” co­
mo a geração do deserto, enquanto nós
queestamos todos... aqui vivosneste dia
faz referência ao Israel então congrega­
do, renovando a aliança.
Dentro do contexto pressuposto em
Deuteronômio, este era o grupo perante
Moisés em Parã, mas a afirmação teria
parecido igualmente aplicável a cada ge­
ração sucessiva, pois frisava a relevância
contemporânea das condições e obriga­
ções da aliança. Cada geração posterior
podia identificar-se com a primeira gera­
ção, em fazer a aliança, como as cerimô­
nias da renovação da aliança encoraja­
vam o povo a fazer. Da mesma maneira,
mediadores da aliança posteriores po­
diam ser identificados com Moisés no
discurso e na entrega da Lei (cf. um
procedimentosemelhante em 29:13 e s.).
O versículo 4 enfatiza a fala direta de
Deus ao povo (cf. os v. 22 e s.; 4:12 e s.;
15; 9:10). O versículo 5, por outro lado,
destaca o papel de Moisés como media­
dor. Parece sugerir que somente Moisés
ouviu a Deusetransmitiu as leis do povo.
Porém o começo do versículo 6 retoma a
ênfase do versículo 4, em separar os Dez
Mandamentos das demais leis, como sen­
doaquela parte que o próprio Deus falou
ao povo. As outras leis foram entendidas
como sendo as dadas a Moisés lá e as
dadas também posteriormente.
Existem boas razões para a crença de
que Moisés apresentou o Decálogo a
Israel quando ele constituiu o povo pela
aliança com Yahweh, o Senhor. Se era
mais parecidocom o Decálogo em Êxodo
34:11-28 ou com a forma mais primitiva
de Deuteronômio 5 (ou Êx. 20), não está
claro. Mas este último é muito mais
provável. 8
A história do Decálogo entre estes
pontos mais primitivos e o período do
reino posterior ou do exílio é difícil de
traçar. As dez leis, evidentemente, goza­
vam de uma posição independente, fora
dos processos de revisão que moldavam
os códigos legais regulares. Esta “posi­
ção” se situava, provavelmente, nas ceri­
mônias para a renovação da aliança. Se­
melhante independência permitia ao De­
cálogo seguirasleis de seupróprio desen­
volvimento, até uma data tão posterior,
quando, em relação à redação sacerdotal
do Pentateuco, a versão de Êxodo fosse
inserida na sua posição atual (possivel­
mente em substituição a uma versão mais
antiga, que havia sido escrita ali por
autores anteriores).9O mesmo processo
básico dizia respeito à versão em Deute­
ronômio, com uma data para a fixação
de sua forma no período exílico poste­
rior, por volta dos meados do sexto sé­
culo.
O Decálogo mostra uma notável com­
binação de formas diferentes. O material
básico é composto das assim chamadas
leis “apodíticas”. Esta palavra se usa
para descrever os mandamentos incon­
dicionais, como os mandamentos do sé­
timo ao nono inclusive, em distinção das
leis “casuísticas”, que descrevem cuida­
dosamente as condições exatas sob as
8 H. H. Rowley, "Moses and the Decalogue*', Bulletin of
lohn Inlands Library(1951-52), p. 81-118. Reimpresso em
Men of God, de H. H. Rowley (Londres: Nelson, 1963),
p. 1-36.
9 E. Nielsen, TheTen Commandments in New Perspective
(Londres: SCM Press, 1968), p. 51 e55.
246
quais se há de aplicar a lei. Mas estes
mandamentos breves e diretos têm sido
expandidos cpm exortações no estilo de
pregação. As diferenças principais entre
as versões de Êxodo e Deuteronômio
jazem na forma das expansões honfilé-
ticas.
Nesta versão deuteronômica, os Dez
Mandamentos foram coligados e ligeira­
mente reformulados, a fim de enfatizar o
mandamento sobre o sábado no meio.
Nesta reforma aparecem cinco divisões
principais, numa configuração nitida­
menteestilística, comosegue:
I. Cultoso­
mente ao
Senhor v. 6-10 extensa
II. ONome de
Yahweh v. 11 breve
III. Sábado v. 12-15 extensa
IV. Pais v. 16 breve
V. Manda­
mentos
éticos v. 17-21 extensa10
Mais debate sobre as formulações dis­
tintivas seguirão nas observações sobre os
diversos versículos. As questões interes­
santes para oestudioso da Bíblia, concer­
nentes ao Decálogo, são demasiadamen­
tenumerosaspara setratar delas aqui. 11
6 Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da
terra do Egito, da casa da servidão. 7 Não
terás outros deuses diante de mim. 8Não fa­
rás para ti imagem esculpida, nem figura
alguma do que há em cima no céu, nem
embaixo na terra, nem nas águas debaixo
da terra; 9não te encurvarás diante delas,
nem as servirás; porque eu, o Senhor teu
Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüida­
de dos pais nos filhos até a terceira e quarta
geração daqueles que me odeiam, 10 e uso
de misericórdia com milhares dos que me
amam e guardam os meus mandamentos.
11 Não tomarás o nome do Senhor teu Deus
em vão; porque o Senhor não terá por ino­
cente aquele que tomar o seu nome em vão.
10N. Lohfink, “ZurDekalogfassungvon Dt. 5”, Biblische
Zeitschrift9,1965, p. 26.
11 Cf. J. J. Stamm, Hie Ten Commandments in Kecent
Research(Londres: SCM Press, 1967).
Aprimeira afirmação (v. 6) não éreal­
mente um mandamento, e, sim, uma
auto-apresentação. Assinala o Decálogo
como pertencente a uma liturgia, profe­
rida diretamente pelo Senhor. Foi assim
apresentada no verso anterior: Ele disse.
O Senhor apresenta-se nominalmente e
acrescenta as palavras teu Deus. A ceri­
mônia da aliança destacava esta relação
chegada de Deus e povo, que podia levar
ao pronunciamento: “Eu sou o teu Deus
e tu és o meu povo.” É o Senhor que,
como o Deus pactuai de Israel, se dirige
ao seupovo.
A cláusula seguinte identifica-se de
maneira diferente. Cita o grande ato da
história da salvação, que deu início a esse
relacionamento. Por este ato de salvação
o Senhor era mais claramente identifi­
cado. Além disso, forneceu a base para a
sua pretensão a Israel como o povo pró­
prio dele. A expressão a casada servidão
édistintiva da tradição doDecálogoe um
dos meios pelos quais se pode reconhecer
outras passagens como dependentesdela.
O estudo dos textos pactuais do Orien­
te Médio antigo tem demonstrado um
costume de colocaruma declaração como
regra geral, que é então seguida por
regulamentos pormenorizados. Em um
certo sentido, o Decálogo inteiro funcio­
na desta maneira para os códigos legais
mais extensos. Porém, em um sentido
mais restrito, este Primeiro Mandamento
constitui uma semelhante declaração co­
mo regra geral, da qual todos os demais
seentendem como derivados.
O mandamento principal e mais im­
portante proíbe serviço a qualquer outro
poder ou forma divina. A religião de
Israel é única, em grande parte precisa­
mente por causa deste mandamento. Não
existe nenhum paralelo na religião. Po-
de-se dizer que é a afirmação simples
mais influente do Antigo Testamento.
Não é a afirmação de uma verdade (o
monoteísmo), e, sim, a declaração de
uma reivindicação de uma posição in-
compartilhada, na qualidade de o único
247
Deus para Israel. Na realidade, o man­
damentopressupõe uma situação em que
o politeísmo é a regra. O zelo do Senhor
exige que ele seja o único para aqueles
quelhepertencem.
A proibição de imagens implica a sua
fabricação para reverência ou culto. Não
se permite nenhuma compreensão de
uma coisa como sendo ou representando
a divindade. Configura-se, aqui, uma
perspectiva do mundo totalmente dife­
rente da costumeira no Oriente Médio.
Como uma coisa criada, o mundo não
podia ser identificado, de modo algum,
com o seu Criador. Quanto a isso, o
Senhorénormalmente descrito como um
Deus zeloso (cf. 6:14 e ss.; Êx. 34:14;
Jos. 24:19). A definição disto como “a
santidade de Deus que se impõe ao ho­
mem” é bem apropriada (von Rad, Deu-
teronomy, p. 57). As conseqüências do
pecado se alastram através de três ou
quatro gerações, mas o fruto do amor
leal seestendepor muito maistempo.
O nome pessoal do Senhor se deu a
Israelcomo sinalde uma relação especial
com ele (Êx. 3:13 e ss.; 6:3). Deveria ser
salvaguardado de ser tomado em vão
(v. 11). Sefosseusado em umjuramento,
teria de ser levado a sério. Pois o próprio
Senhorseincumbiria de seu cumprimen­
to. Nãohaveria de ser usado para nenhu­
ma finalidade mágica, pois não fora
dado para benefício particular ou para
poderpessoal.
12 Guarda odia do sábado, para o santifi­
car, como te ordenou o Senhor teu Deus;
13 seis dias trabalharás, e farás todo o teu
trabalho; 14mas o sétimo dia é o sábado do
Senhor teu Deus; nesse dia não farás traba­
lho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua
filha,nem oteu servo, nem a tua serva, nem
o teu boi, nem o teu jumento, nem animal
algum teu, nem o estrangeiro que está den­
tro das tuas portas; para que o teu servo e a
tua serva descansem assim como tu.
15Lembra-te de que foste servo na terra do
Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali
commãoforte e braço estendido; pelo que o
Senhor teu Deus te ordenou que guardasses
odia dosábado.
O mandamento sobre o sábado (v. 12-
15) é único em sua forma e na extensão
de suaelaboração. Parece seroclímax do
Decálogo deuteronômico. Como seu pa­
ralelo, em Êxodo, começacom uma frase
na forma infinitiva, enquanto o impera­
tivopropriamente dito seacha na seguin­
te parte: Seis dias trabalharás.12 Dife­
rentementedaversãode Êxodo, a palavra
inicialéguarda, ao invés de “lembra-te”.
A palavra escolhida em Deuteronômio é
característica aqui, pois é ligada a farás
(v. 13). Estas duas palavras são juntadas
27 vezes, em Deuteronômio, e sempre
nesta ordem. Fazem parte de um grupo
seleto de palavras, que são usadas cons­
tantemente nas exortações à guarda da
lei. (Ver o comentário sobre 5:27-6:3).
A seção limitada por estas palavras
abrange os versos 12-15, ou seja, todo o
mandamento sobre o sábado. Foi cuida­
dosamente elaborada, como o seguinte
esboçocom paralelos mostra:
5:12 Guarda odia do sábado
12 como te ordenou o Senhor teu
Deus
14 doSenhorteu Deus
14 nem o teu servo, nem a tua
serva
14 PARA QUE (o pivô do
texto)
14 oteu servoea tua serva
15 o Senhorteu Deus
15 pelo que o Senhor teu Deus
te ordenou
15 que guardasses o dia do sá­
bado. 13
Este mandamento abrange muitos ele­
mentos, entre eles o próprio mandamen­
to em si. Porém parece claro, do esboço
acima, que esta estrutura foi composta
9
12 J.D.W. Watts, “Infinitive Absolute as Imperative”,
Zeitschrift für alttestaxnentliche Wissenchaft 74 (1962),
p. 141-145.
13N. Lohfink, “ZurDekalogfassungvon Dt. 5”, BibUsche
Zeitschrift9,1965, p. 22.
248
jomo um todo e que foi composta pelo
autor de Deuteronômio. Mas mesmo o
.landamento anterior, do sábado, é de
um tipo diferente do grupo principal de
mandamentos breves e abruptos, que
estão, em sua maioria, na forma nega­
tiva.
O mandamento sobre o sábado é, por
outro lado, dogênero de Tora, ou ensino,
que é próprio da aplicação homilética.
Até o Decálogo, como o temos, já é um
misto de mandamento e exortação. O
mandamento simples de trabalhar so­
mente durante seis dias foi expandido,
não apenas conforme as linhas indicadas
acima. As outras frases incluem: para o
santificar ... nesse dia não farás trabalho
algum, nem tu, nem teu filho, nem tua
filha,... nem o estrangeiro ... dentrodas
tuas portas, que também aparecem em
Êxodo. Mas o acréscimo dos animais vai
além da versão de Êxodo. Em Êxodo, a
base teológica relaciona-se à criação em
seis dias, enquanto aqui se refere ao
êxodo do Egito e à situação anterior de
Israel, como servo lá. Isto seenquadra na
ênfase dada na composição comentada
acima, enquanto a referência ao êxodo é
básica especialmente para todo o pensa­
mentoeproclamação deuteronômica.
A observância do sábado talvez fizesse
parte da prática do Israel primitivo, mas
veio a ocupar o centro de seu culto em
substituição às festas de peregrinação
durante o exílio, e assim permaneceu até
os dias de Jesus. Os rabinos tinham
acrescentado dúzias decondições àsproi­
bições do sábado. Jesus e os seus discí­
pulos foram criticados por infrações do
sábado (Mat. 12 e paralelos). Depois da
ressurreição de Jesus, os cristãos, como
parece, congregavam-se no primeiro,
bem como no sétimo dia da semana
(cf. At. 20:7; I Cor. 16:2). Os cristãos
mantêm assiduamente a comemoração
da ressurreição no primeiro dia da se­
mana e o consideram como substituto
para o dia de culto do mandamento ju­
daico.
O mandamento pede não apenas um
dia de descanso do trabalho, mas tam­
bém que esse dia seja um dia santo ou
consagrado ao Senhor. Ê a reivindicação
do Senhor que distingue o dia, não qual­
quer preocupação humanitária. Esta rei­
vindicação deve ser cumprida não sim­
plesmente para permitir ao mestre que
descanse, mas requer uma cessação de
trabalho e uma consagração do dia pela
casa inteira.
16 Honra a teu pai e a tua mãe, como o
Senhor teu Deus te ordenou, para que se
prolonguem os teus dias, e para que te vá
bem na terra que oSenhorteu Deuste dá.
17 Não matarás. 18 Não adulterarás.
19Não furtarás. 20Não dirás falso testemu­
nho contra o teu próximo. 21 Não cobiçarás
a mulher do teu próximo; não desejarás a
casa doteu próximo, nem o seu campo, nem
oseu servo, nem a sua serva, nem o seu boi,
nem o seu jumento, nem coisa alguma do
teu próximo.
O quadro familiar que aqui se pressu­
põe (v. 16) ainda é de relações muito
estreitas, com os filhos e suas famílias
ainda habitando na propriedade da fa­
mília sob a autoridade de seus pais. Se­
melhante situação podia causar atritos,
que talvez sejam alheios à experiência de
nossa sociedade, em que os filhos já
adultos se distanciam, para construir
seus próprios lares. Em Êxodo 21:17 e
Levítico20:9, os mandamentos são nega­
tivos e mais primitivos. O mandamento
mais amplo, aqui, está de perto relacio­
nado com a doação da terra, e promete a
prosperidade e a longevidade como re­
compensas pela sua observância, como,
de fato, Deuteronômio as promete pela
observância da lei inteira (cf. 4:1; 8:1;
16:20; 30:15ess.).
Os versículos 17-21 são ligados por
conjunções, diferentemente dos parale­
los em Êxodo. Desta forma, não são
tanto cinco mandamentos distintos, co­
mo um mandamento em cinco partes.
Eles, como o mandamento sobre os pais,
fazem parte das condições de cujo cum­
249
primento depende a longevidade e a
prosperidade na terra.
A tradução matar (v.17) não transmi­
te a definição do verbo original. Não diz
respeito nem à guerra nem à execução
judicial, onde se requeria palavras bem
diferentes. Porém é também um termo
mais abrangente do que assassínio, por­
que mortes acidentais são também in­
cluídas. O significado “matança anti­
social” éomais adequado.
O mandamento no versículo 18 visa à
defesa do matrimônio. Ã medida que as
instituições sociais mudaram, sua aplica­
ção foi entendida de maneiras diversas.
Inicialmente era aplicado numa socie­
dade que reconhecia e protegia o costu­
me ou de se ter mais que uma esposa ou
de se ter escravas da casa como esposas
secundárias. Mas esta instituição era
também cuidadosamente limitada, e os
direitos de todos, protegidos. A violaçlio
disso era considerada adultério. A expli­
cação moderna deste mandamento há
de começar com a compreensão da ins­
tituição do casamento agora e de sua
proteção pela proibição de comporta­
mento que oameace ouviole.
O próximo mandamento (v.19) bem
pode ter sido, originalmente, aplicado ao
seqüestro de pessoas livres, como susten­
ta Albrecht Alt.14 Os paralelos em Êxo­
do 21:16 e Deuteronômio 24:7 corrobo­
ram isso. Com a passagem do tempo, a
lei chegou a ser aplicada, como ainda é,
àproteção de propriedade, bem como da
liberdade.
Israel era uma sociedade em que a
justiça semantinha por tribunais abertos
(v. 20), compostos de cidadãos. O pro­
cedimento, nesses tribunais, granjeava
provas pelo testemunho de cidadãos. A
justiça e a liberdade dependiam de tes­
temunho verídico. Fosse no procedimen­
to judicial formal, ou na conversa coti­
diana, a reputação e o trato eqüitativo
dependiam de testemunho veraz.
14 A. Alt, “Das Verbot des Diebstahls im Dekalog”
KleineSchriften1,2?ed., 1953, p. 333 e ss.
O versículo 21 é constituído de duas
partes, ambas as quais começam com a
mesma palavra (hebraica). São de tipo
diferente de qualquer das outras leis e
podem ter sido, originalmente, tiradas de
uma série completa, todas iniciadas com
esta palavra. A palavra cobiçarás é uma
tradução inadequada de palavra hebrai­
ca, pois esta pode também significar
“tomarpara si” (cf. Jos. 7:21; Miq. 2:2).
Este mandamento, ou a série da qual é
tirado, certamente muda, para abranger
os conceitos de propriedade, mesmo se
seuponto de partida for o de pessoas que
são contadas como pertencentes a al­
guém. Proíbe tanto a intenção como o
ato.
Resumindo: Aversão dos Dez Manda­
mentos em Deuteronômio está no meio
de duas seções mais compridas, sobre o
culto ao Senhor (v. 6-10) e os manda­
mentos éticos (v. 17-21). O clímax e o
meio do Decálogo é moldado pelo longo
mandamento sobre o sábado (v. 12-15).
Entre estas três seções, os mandamentos
protegendo o nome do Senhor (v.11) e os
pais (v.16) têm os seus lugares. O man­
damento sabático é elaborado como o
fator de síntese entre as exigências rela­
cionadas ao culto e as relacionadas à
ética.
22 Essas palavras falou o Senhor a toda a
vossaassembléia nomonte, domeio dofogo,
da nuvem e da escuridão, com grande voz;
e nada acrescentou. E escreveu-as em duas
tábuas de pedra, que ele me deu. 23 Mas
quando ouvistes a voz do meio das trevas,
enquanto ardia omonte em fogo, viestes ter
comigo, mesmo todos os cabeças das vossas
tribos, e vossos anciãos, 24 e dissestes: Eis
que o Senhor nosso Deus nos fez ver a sua
glóriae a sua grandeza, e ouvimos a sua voz
do meio do fogo; hoje vimos que Deus fala
com o homem, e este ainda continua vivo.
25Agora, pois,por que havemos de morrer?
Este grande fogo nos consumirá; se.ainda
mais ouvirmos a voz do Senhor nosso Deus,
morreremos. 26 Porque, quem há de toda a
carne, que tenha ouvido a voz do Deus vi­
vente a falar do meio do fogo, como nós a
ouvimos, e ainda continue vivo? 27Chega-to
tu, e ouve tudo o que o Senhor nosso Deus
250
falar; e tu nos dirás tudo o que ele te disser;
assim oouviremose ocumpriremos.
A narrativa da teofania de Horebe é
continuada nos versos 22-26. Os sinais
impressionantes da presença de Deus são
de perto identificados com as palavras
quehaviam sido ditas, e que foram então
gravadas em tábuas depedra. O papel de
Moisés como mediador é ressaltado na
súplica do povo para que não fosse mais
obrigado a ouvir a voz atemorizante de
Deus. Mas também se prepara o terreno,
nestes e nos versículos seguintes, para
realçar que todo orestante do discurso de
Moisés, inclusive o pronunciamento das
leis, transmite a Israel o que tinha rece­
bido no monte.
Estesversículos refletem um medo real
de Deus, que é ocasionado pelo reconhe­
cimento de sua terrível santidade. Porém
o processo inteiro também mostra uma
tendência muito sadia. A congregação
toda deviareagir perante Deus, perante a
terrívelpresença de Deus. Nesta situação
ela ouve a proclamação da lei, e se dispõe
a responder: “Tudo o que o Senhor...
falar... o ouviremos e o cumpriremos.”
Sem este sentido de uma presença real e
o medo que inspira, o legalismo é mui­
tas vezes o resultado de uma resposta à
leienão aoDeus da lei.
(2) Exortação(5:28-8:20)
a. Oh, QueFôsseis SempreAssim!
(5:28-6:3)
28 Ouvindo, pois, o Senhor as vossas pa­
lavras, quando me faláveis, disse-me: Eu
ouvi as palavras deste povo, que eles te dis­
seram; falaram bem em tudo quanto disse­
ram. 29 Quem dera que eles tivessem tal
coração que me temessem, e guardassem
em todo o tempo todos os meus mandamen­
tos, para que bem lhes fosse a eles, e a seus
filhospara sempre! 30Vai, dize-lhes: Voltai
às vossas tendas. 31 Tu, porém, deixa-te
ficar aqui comigo, e eu te direi todos os
mandamentos, estatutos e preceitos que tu
lhes hás de ensinar, para que eles os cum­
pram na terra que eu lhes dou para a possuí­
rem. 32 Qlhai, pois, que façais como vos
ordenou o Senhor vosso Deus; não vos des­
viareis nem para a direita nem para a es­
querda. 33Andareis em todo o caminho que
vos ordenou o Senhor vosso Deus, para que
vivais e bem vos suceda, e prolongueis os
vossos diasna terra que haveis de possuir.
1 Estes, pois, são os mandamentos, os
estatutos e os preceitos que o Senhor teu
Deus mandou ensinar-te, a fim de que os
cumprisses na terra a que estás passando
para o possuíres; 2 para que temas ao Se­
nhor teu Deus, e guardes todos os seus es­
tatutos e mandamentos, que eu te ordeno,
tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os
dias da tua vida, e para que se prolonguem
os teus dias. 3Ouve, pois, ó Israel, e atenta
em que os guardes, para que te vá bem, e
muito te multipliques na terra que mana
leite e mel, comote prometeu o Senhor Deus
de teus pais.
A seção inteira de 5:27 a 6:3 inclusive,
evidencia um estilo único, característico,
que faz dela uma unidade. Verbos típi­
cos usados em Deuteronômio para a ob­
servância da lei são usados numa ordem
predeterminada, num esquema como se­
gue:
A. 5:27 —ouvir —cumprir
B. 5.29 —temer —guardar
C. 5:31 —ensinar —cumprir
D. 5:32 es. — fazer — ordenar —
desviar —andar no caminho
C. 6:1 —ensinar —cumprir
B. 6:2 —temer —guardar
A. 6:3 —ouvir —cumprir (= atentar,
guardar)15
Semelhante ordem comosegundo gru­
po aparecendo em ordem inversa pode
também ser vista nos capítulos 7 e 8. As
primeiras unidades A,B e C estão ainda
na narrativa do orador. Contêm uma
promessa pelo povo, o querer do Senhor
e a tarefa de que o Senhor incumbiu
Moisés. A unidade do meio, D, propor­
ciona a ponte para o presente discurso
e apelo. Não apareceu nenhuma palavra
sobre a lei até este ponto, somente o
reconhecimento de que são chamados
para seguira vontade de Deus.
15Lohfink, p. 67.
251
A motivação proporcionada na seção
D (v. 33) retoma os temas fundamentais
do livro inteiro de Deuteronômio. In­
cluem a vontade de viver, a vontade de
prosperar e o desejo de estabilidade e
longavidana terra.
Com estes versículos (6:1-3) o orador
prossegue, para cumprir a tarefa atribuí­
da pelo Senhor. Ele retoma e repete as
palavras-chaves da tarefa atribuída (5:
31; 6:1). O versículo seguinte declara o
significado desta proclamação da Lei,
por fazer referência retrospectiva às pa­
lavras do querer do Senhor em favor do
povo (5:29; 6:2). O versículo 3 insere
uma exortação para guardarem a Lei
antes do começo da proclamação em si,
relembrando a promessa do povo (5:27;
6:3). Os motivos para guardarem a Lei
são repetidoseenfatizados.
b. AmaráseTemeráso Senhor(6:4-25)
O capítulo 6édominado do começo ao
fim pelo assim chamado vocabulário e
estilo deuteronômicos. Contudo, conser­
vaumaestrutura eforma distintivas, que
são tiradas de formas antigas de falar,
concernentes à Lei. Possui paralelos em
Êxodo 12:24-27a; 13:3-10; 13:11-16. To­
dos estes textos são, certamente, mais
velhosdo que ocapítulo em pauta.
Nos textos de Êxodo descobrimos um
esboçoqueécontraído, em tomo de duas
orações condicionais. A primeira é:
“Quando entrardes na terra prometida”;
a segunda: “Quando os vossos filhos vos
perguntarem: ‘Que significa isso?’” A
primeiracláusula condicional torna claro
que a forma está sempre relacionada a
uma situação anterior à ocupação da
terra e havia de ser dita por Moisés ou
seu representante. A segunda cláusula
condicional usa a pergunta da criança,
como um artifício para apresentar a ex­
plicação dessa determinada lei da histó­
ria da salvação. Entre essas vem a afir­
maçãoprópria da leiem consideração.
A história da salvação define essa
abordagem da História, que se concen­
tra nesses eventos, que são entendidos
comorevelando a obra de Deus na salva­
ção, sendo, portanto, a base da fé e do
conhecimento deDeus. Estes eventos, no
Antigo Testamento, incluem o êxodo, a
aliança ou pacto no Sinai e a conquista
de Canaã. (Para um tratamento exaus­
tivo das implicações e da importância
deste conceito, cf. E.C. Rust, Salvation
History [Richmond: John Knox Press,
1963].)
Tomando isso como chave, torna-se
fácil descobriroesboçopara ocapítulo6.
Aprimeiraparte daestrutura se achanos
versos 10-15, os versos 12-15 sendo a
própria declaração da Lei, queé, claro, o
tema docapítuloe o centro de toda a sua
formação. A segunda cláusula condicio­
nal, com a pergunta da criança, se en­
contra nos versos 20-25. O restante do
capítulo é como um andaime construído
ao redor desses dois pilares, como mos­
tram os paralelos em Êxodo. Os versí­
culos 6-9 deste capítulo são nitidamente
paralelos a Êxodo 13:9,16. A exortação
prefixada(v. 4 e s.) e a imprensada entre
as seções principais (v.16-19) visam sim­
plesmente a expandir o esboço básico,
semperturbar oseu efeito.
Primeira exortação: Um Senhor —um
amor—umalei(v. 4-9)
I. Quando... o Senhor... te introdu­
zirnaterra(v. 10-15)
Prometida a teuspais(v. 10b)
Que tu não fizeste(v. lOc-11)
Guarda-te, quenão te esqueças de
Yahweh(v. 12)
Temerás ... Servirás, e pelo seu
nomejurarás(v. 13)
Nãoseguirásoutrosdeuses(v. 14)
Pois Yahweh é um Deus zeloso
(v. 15)
Segunda Exortação: Não po­
nhas Yahweh à prova
(v. 16-19)
n. Quando teu filho te perguntar:
O que significam os testemunhos,
estatutosepreceitos...?(v. 20-25)
252
No Egito... o Senhor... nos tirou
delá(v. 21)
Aosnossosolhos...sinaise maravi­
lhas(v. 22)
Nostiroudelá paranos introduzir
enosdara terra(v. 23) '
O Senhor nos ordenou... estes es­
tatutos(v. 24,25)
De maneira que temeremos a
Yahweh
para o nosso bem em todo o tem­
po,
a fim de que ele nos preservasse
em vida, assim como hoje se vê.
E será justiça para nós, se tiver­
mos cuidado de cumprir todos es­
tesmandamentos.
O âmago do texto pode ser compreen­
didosomente por se perguntar o propósi­
to do sermão e quais os meios usados
para alcançar esse propósito. O capítulo
anterior, que, como já se notou, forma,
com o capítulo 6, uma unidade, contém
um texto completo do Decálogo. Este
também, ou pelo menos o Primeiro Man­
damento, desempenha um papel central
nocapítulo 6.
O Decálogo é uma obra única, com o
seuprópriovocabulário distintivo, quejá
deixou a sua marca em muitosescritos do
AntigoTestamento. Sua linguagem efor­
mulação podem ser sentidas por todo
este capítulo. Citação exata ocorre nos
versos 12(5:6), 14 (5:7) e 15 (5:9b). Mas
também as palavras-chaves amor (v. 5) e
guardarás os mandamentos (v. 17) são
tiradas de5:10b.
Muitas das partes deste capítulo pare­
cemrelacionadas bem mais de perto com
osermão em Deuteronômio 10:12-11:17,
que não reflete absolutamente nenhuma
influência do Decálogo. Porém o sermão
conheceosconceitos do amor de Yahweh
e a chamada para guardarem os seus
mandamentos.
Este capítulo é um sermão sobre o
PrimeiroMandamento, que proíbe ter-se
outros deuses além de Yahweh. O mé­
todo de apresentação do sermão é de um
comentário, por meio da expansão do
texto simples do Decálogo. A apresenta­
ção principal do mandamento está nos
versos 14 e 15, enquanto os dois elemen­
tos de motivação têm um comentário
numa seção à parte: amor para com
Deus nos versos 14 e 15 e “guardando
mandamentos” noversículo 17e s. Opri­
meiro destes foi retirado da ordem pró­
pria do Decálogo e colocado no começo
da exortação, em virtude de sua impor­
tância. Por conseguinte, proporciona
uma base para uma interpretação do Pri­
meiro Mandamento de um ponto de vista
totalmente diferente.
4 Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o
único Senhor. 5Amarás, pois, ao Senhor teu
Deus de todo o teu coração, de toda a tua
alma e de todas as tuas forças. 6 E estas
palavras que hoje te ordeno, estarão no teu
coração; 7 e as ensinarás a teus filhos, e
delas falarás sentado em tua casa e andando
pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te.
8 Também .as atarás por sinal na tua mão
e te serão por frontais entre os teus olhos;
9e as escreverás nos umbrais de tua casa, e
nas tuas portas.
A formulação do Primeiro Manda­
mentonos versículos 4e 5 foi a escolhida
por Jesus como sua própria expressão de
primeiro e maior mandamento (Mar. 12:
28-34; Mat. 22:34-40; Luc. 10:25-28).
Por esse motivo, bem como pela integri­
dade inerente no próprio texto, ele é um
dos mais importantes e preciosos no An­
tigo Testamento, tanto para cristãos co­
moparajudeus.
Um Senhor — um amor — uma lei
(6:4-9). Esta formulação do Primeiro
Mandamento(v. 4 es.) éúnicano Antigo
Testamento e galga um pico de intensi­
dade e uma profundidade de significado
desconhecidos a qualquer outra. Isso é
alcançado pela combinação do manda­
mento em termos do amor absoluto com
a proclamação da unicidade de Deus.
Não há realmente nenhum paralelo a
estes versículos no Pentateuco. Porém
deverão ser entendidos como uma outra
253
maneira de proclamar o Primeiro Man­
damento, e comentar sobre ele, como
era, parece, costumeiro em cerimônias
da renovação da aliança.
A primeira parte dele é paralela, na
terceira pessoa, à porção introdutória do
Decálogo, que está na primeira pessoa.
Israel é chamado a ficar atento. Então
Yahweh — o Deus de Israel de maneira
única — é apresentado. A fraseologia é
abrupta eestranha: Yahweh, nosso Deus
— um Yahweh. “Yahweh” representa as
letras do nome de Deus no hebraico. Os
judeus mais tarde evitavam dizer “O
Nome”, por temerem profaná-lo, e o uso
moderno acompanha o seu costume em
seu lugar “o Senhor” (que aparece como
SENHOR na RSV). Esta explicação do
versículo, porém, necessita do emprego
dotextooriginal.
Este texto pode ser entendido de ma­
neiras diversas. É evidente que a língua
humana tem chegado a seus limites, na
tentativa de comunicar a idéia. A palavra
normalpara Deus, nohebraico, ’Elohim,
já não éapropriada, uma vez que assume
uma forma aparentemente plural, embo­
ra no AntigoTestamento sempre serefira
ao único Deus. Porém, em assim fazer,
não pode deixar de transmitir ao ouvido
semítico a idéia da totalidade dos atribu­
tos e poderes divinos. Aqui, onde se
realça a unidade de Deus, a palavra seria
totalmente inapropriada. O pregador é
obrigado aouso de seunomepessoal.
“Ünico Senhor representa a idéia es­
sencial. Ele é único, diferente, exclusivo.
Não é muitos, mas um. Esta é a afirma­
ção positiva que complementa o “Não
terás outros deuses” do Primeiro Manda­
mento. Yahweh é uma única pessoa. De
maneira nenhuma poderá eleserentendi­
do como representado por diversas for­
mas e aparições em lugares diferentes,
como aconteciacom Baal e as outras dei­
dades da natureza.
Mas “o único Senhor” é também o
contrário de difuso ou obscuro. Ele é
único, semincoerência ou divergência. A
pessoa e a vontade de Deus são únicas e
conhecidas. Não há como fugir dele ou
davontade dele. O tipo de facções que se
evidenciavam em todos os panteões do
Oriente Médioéexcluído. Israel é convo­
cado a concentrar sua atenção indivisa
no próprio Yahweh. Somente ele é digno
de plena devoção, e ele é um — único e
inigualado.
Desta proclamação do único Yahweh,
duas exortações corolárias são tiradas. A
gramática hebraica toma claro que estes
não são mandamentos ligados a esta
declaração, mas que a sua validade é
tirada da simples verdade da própria
proclamação: Yahweh éum —de manei­
ra que o amarás e diligentemente ensi­
narás os seus mandamentos.
O amor era entendido através de todo
o Oriente Médio como aquela atitude
que seesperava de um vassalo leal a seu
senhor, como os tratados de suserania
dos reis antigos deixam claro. Tem sido
mostrado claramente que esses tratados
têm influenciado a forma e o vocabulário
das formulações da aliança em Israel em
seus aspectos os mais primitivos e que
tratados posteriores deste tipo, entre a
AssíriaeIsrael, aindaexerceram influên­
cias diretas até o começo do sétimo sé­
culo.
O leitor e estudioso da Bíblia certa­
mente está ciente que o amor não é a
resposta mais comum a Deus, conhecida
nas Escrituras. Oséias muitas vezes falou
do amor de Deus para com Israel, mas
nunca do amor de Israel a Deus. Porém,
em Deuteronômio, e especialmente neste
versículo, o amor é precisamente a res­
posta que se espera de Israel. É usado
através do livro inteiro para caracterizar-
a observância da Lei.
A idéia de amor para com Deus certa­
mente sempre teve o seu lugar eni exor­
tações relacionadas coma aliança. O De­
cálogo fala de “aqueles que me amam e
guardam os meus mandamentos”, numa
frase que certamente esteve bem arrai­
gada nas tradições mais primitivas. Mas
254
é claro que nenhuma outra parte do
AntigoTestamento usa tal frase de forma
tão central como Deuteronômio, e ne­
nhum outro trecho a usa de modo tão co­
moventecomoeste.
Em Oséias, o amor de Deus para com
Israel ou é o de um marido pela sua es­
posa ou o de um pai pelo seu filho (3:1;
11:1). Em Deuteronômio, o amor nun­
ca dizrespeito a uma relação pai-filho ou
a um casamento. As características dis­
tintivas do conceito de amor de Deutero­
nômio já foram acertadamente resumi­
das. “O amor em Deuteronômio é um
amor imposto. Ê também um amor inti­
mamente relacionado com medo ea reve­
rência. Acima de tudo, é um amor que
tem de ser expresso em lealdade, serviço
e obediência incondicional às exigências
da Lei. Pois amar a Deus consiste emcor­
responder a uma reivindicação única
(6:4); ser leal a ele (11:1,22; 30:20);
andar em seus caminhos (10:12; 11:22;
19:9; 30:19); guardar os seus manda­
mentos (10:13; 11:1,22; 19:9), pondo-os
em prática (11:22; 19:9); atentar à voz
deles (dos mandamentos) ou dele (11:13;
30:16); servi-lo (10:12; 11:1,13). É, em
resumo, um amor definido pela aliança e
garantido através dela — um amor
pactuai. 16
Semelhante amor foi usado em textos
do Oriente Médio antigo, oriundos dos
séculos dezoito e dezessete a.C., para
descrever a lealdade e a amizade entre
reis subordinados, entre soberanos e seus
vassalos e entre reis e seus súditos. Um
paralelo veterotestamentário se acha nas
descrições de Hirão como alguém que
amava Davi, ou como o amigo de Davi
(I Reis5:1).
Esta compreensão é especialmente
pertinente diante da importância dada a
estetipo de amor pelo NovoTestamento.
Nestestermos é quehavemos de entender
as palavras de Jesus: “Se me amardes,
16 William L. Moran. "The Ancient Near Eastem Back-
ground to the Loveof God in Deuteronomy”, The Cathollc
Biblical Quarterly(1963), p.78.
guardareis osmeus mandamentos” (João
14:15).
O restante do versículo realça a totali­
dade de devoçãoecomprometimento que
se requer de Israel: de todo o teu cora­
ção, e de toda a tua alma (pessoa), e de
todas as tuas forças. Se Yahweh é um, a
devoção de Israel para com ele tinha de
sercaracterizada por singeleza de propó­
sito, lealdade indivisa, uma concentra­
ção única. Pois, se a devoção tem de ser
concentrada totalmente num só objeto,
segue-se daí que tem de ser absoluta.
Esta é uma coisa grandiosa, digna da
atenção de Israel e dos cristãos. Suas
implicações têm sido o centro constante
de meditação, nas duas comunidades,
através dos séculos. Contudo, pode-se
dizer, com toda a certeza, que ainda
temos de esgotaro seupleno significadoe
que somente em Jesus têm sido vivencia-
das.
O segundo corolário (v.6) é que a
unicidade de Yahweh necessita que as
suas palavras, que expressam a sua von­
tade, recebam a atenção plena e constan­
te dos israelitas. No pensamento hebrai­
co, ocoraçãoera ocentro da consciência,
dointelecto e da vontade. Nós, com mais
probabilidade, falaríamos na cabeça ou
no cérebro. A função do cérebro, bem
como a sua localização, eram desconhe­
cidas aos antigos, de maneira que atri­
buíam estas coisas ao coração. O ser
único deYahweh requer não apenas leal­
dade indivisa, mas também pensamento
eatenção ininterruptos.
Manter a Lei no centro de atenção
constante necessitaria de algum método.
Osversículos7a9sugeremmedidaspráti­
caspara possibilitar isso. Ainda são rele­
vantes. Estas palavras fazem referência à
Leiinteira, não apenas aoPrimeiro Man­
damento. Hoje se refere à sua proclama­
ção renovada nas cerimônias pactuais.
Então o problema é se construir a ponte
entre o sermão na igreja e as recordações
diárias quepossibilitam sua aplicação.
255
A primeira aplicação consiste na ins­
trução religiosa adequada nos lares. Ã
medida que os pais se tomarem cientes
de sua obrigação de ensinar diligente­
mente as verdades aos seus filhos, cum­
prirão o requisito para que estas coisas
tenham um lugar constante em seus pen­
samentos. As coisas pertencentes à pala­
vra de Deus devem também fazer parte,
normalmente, da conversa durante todas
as atividades do dia, quer em casa, quer
nos negócios, quer nos períodos finais do
dia, antes de se ir dormir, quer ao se
levantar, para iniciarcada dia. As verda­
des de Deus, a sua palavra e a sua
vontade devem fazer parte, natural e
normalmente, da conversa. Então inevi­
tavelmente plasmarão a vida e as deci­
sões da vida. A criança que sabe que
estes assuntos são caros ao coração e
estão muito presentes na mente de seus
pais terá pouca dificuldade em com­
preender sua féou em aceitar seu ensino.
Osjudeus, a partir do tempo do exílio,
reconheceram a importância deste trecho
e construíram seu culto e suas vidas em
tomo dele. Costumam referir-se a ele
como o esquema. Reconhecem-no como
a afirmação sumária mais importante de
sua fé. Ê recitado nas sinagogas todas as
sextas-feiras e sábados, na hora de a
Tora sertirada de sua arca, para ser lida.
A Mishnah até diz que era declamado
pelos filhos de Jacó, quando ele aguar­
dava a morte, e por mártires, como suas
derradeiras palavras.
Em uma de suas formas, o esquema
consiste somente nos versículos 4-9 deste
capítulo. Em uma forma mais longa,
combina-se com duas outras passagens
formando um esquema tríplice. Deutero-
nômio 6:4,9 é chamado de “A Aceitação
do Jogo do Reino dos Céus”. Deuteronô-
mio 11:13-21 é chamado de “A Aceita­
ção do Jogo dos Mandamentos”. Núme­
ros 15:13-41 encerra a leitura, com re­
ferênciasà “RedençãodoEgito”.
Os judeus ortodoxos têm aceitado as
injunções dos versos 8 e 9 literalmente.
Usam cópias destes versículos em caixi­
nhas, em seus pulsos etestas, durante as
orações, e chamam-nas de filactérias.
Colocamfragmentos de pergaminho com
estes versículos escritos neles em caixi­
nhas metálicas de mezuzahs, pondo-as
em suasportas.
Embora não se requeira, necessaria­
mente, semelhante literalismo, a sabe­
doriae a necessidade de alguma extema-
lização da devoção interior são claras.
Um testemunho aberto da fé, no lar e em
todas as relações da vida, é o corolário
óbvio do comprometimento e fé genuí­
nos.
10 Quando, pois, o Senhor teu Deus te in­
troduzir na terra que com juramento pro­
meteu a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó,
que te daria, com grandes e boas cidades,
que tu não edificaste, 11 e casas cheias de
todo o bem, as quais tu não encheste, e
poços cavados, que tu não cavaste, vinhas e
olivais, que tu não plantaste, e quando co­
meres e te fartares; 12guarda-te, que não te
esqueças do Senhor, que te tirou da terra do
Egito, da casa da servidão. 13 Temerás ao
Senhor teu Deus e o servirás, e pelo seu
nome jurarás. 14 Não seguirás outros deu­
ses, os deuses dos povos que houver à roda
deti; 15porque oSenhorteu Deus é um Deus
zeloso no meio de ti; para que a ira do Se­
nhor teu Deus não se acenda contra ti, e ele
te destrua de sobre a face da terra.
À maneira da categoria chamada es­
trutura de um mandamento, o trecho
(v.10-15) passa à proclamação do Pri­
meiro Mandamento. O mandamento em
si consta no versículo 14. O estilo co­
meça por esclarecer o pressuposto de
toda a Lei no Pentateuco: que foi dada
com a perspectiva da ocupação da terra
perante opovo, antes deentrar nela.
Teoricamente, isto podia refletir qual­
quer uma dentre três situações: a situa­
ção histórica antes da entrada, uma for­
ma de culto no qual essa situação fosse
novamente representada ou um artifício
literário. A segunda dessas explicações,
deste modo, parece a mais provável. Esta
situação é presumida através de todo o
livro de Deuteronômio. Porém, esta ca-
256
tegoria certamente não se limita a Deu-
teronômio. Como notado acima, aparece
também em Êxodo, LevíticoeJosué.
O povo é induzido a lembrar que a
dãdiva da terra vinha em cumprimento
das promessas feitas a seus antepassa­
dos. A graça da eleição era responsável
poressa dádiva. Não podia haver nenhu­
ma idéia de uma posição merecida. So­
mente depois de elesreceberem o dom da
graça é que a Leivigoraria.
O versículo 12 adverte o povo contra o
esquecimento de quefoio Senhor quem o
resgatou do Egito. O versículo deixa de
lado a lembrança evidente de que toda
aquela terra e bondade eram simples­
mente uma dádiva de Deus. Antes opta
por colocar a recordação da salvação de
Deus da escravidão egípcia em contraste
comoabuso complacente dopovo.
O Deus de quem o povo está sendo
advertido a se lembrar não era compla­
cente nem tolerante. Ele lembrava-se de
suas promessas. Atuavaem benefício dos
seus. Porém requeria comportamento
comparável ouigual de seus cultuadores.
O “lembrar” é explicado pelos termos
severos temer, servir e jurar pelo seu
nome. Temor traduz uma atitude que
reconhece devidamente a tremenda san­
tidade de Deus, e se expressa em termos
de adoração. Serviço reflete uma atitude
para com o próprio culto como a aceita­
ção do jugo de seu senhorio e a disposi­
ção de usar esse jugo em cumprimento
fiel de sua vontade. Naturalmente, um
israelita que fosse leal ao direito exclusi­
vo de Yahweh não usaria nenhum outro
nome dosjuramentos senão o do próprio
Yahweh. Assim cumpria o mandamento
denãotomar onome de Yahweh leviana­
menteouemvão.
A passagem chega ao seu clímax e
preocupação central: a reafirmação do
Primeiro Mandamento. Formula-o as­
sim: Não seguirás outros deuses. Esta
exigência de lealdade exclusiva jaz no
âmago da cerimôniapactuai e constitui a
espinha dorsal da primeira parte do De­
cálogo. O prólogojá a declarou como um
mandamento de amor absoluto. Este ver­
sículovoltaaomandamentonegativomais
tradicional contra qualquer outro culto
ou qualquer outra lealdade.
Uma fraseexplicativatorna-o especial­
mente pertinente à situação que antevia
a ocupação. As tentações, para este povo
desértico, na ocupação da terra, consis­
tiriam na assunção dos costumes e esti­
los de vida cabíveis ao seu novo meio
ambiente agrícolae urbano. Quase todos
esses costumes eram formulados e expli­
cados em termos de serviço a alguma
divindade. É isso que se quer dizer por
seguir os deuses dos povos que houver à
rodadeti. Mas a tentação de experimen­
tar as fórmulas para a vida e o sucesso
que nossos vizinhos nos propõem, por
mais pagãos que selam, não têm dimi­
nuídocom a passagem dos séculos. A re­
cordação básica de que o sucesso e a vida
não podem ser alcançados pela simples
imitação dos hábitos e da maneira de
viver de nossos vizinhos ímpios, aparen­
temente bem-sucedidos, continua a ser
relevante enecessária.
O versículo 15 proporciona o motivo
da advertência: teu Deus é um Deus
zeloso. Sua combinação com Israel foi
feita para o bem deste. Porém sob a
rígidacondição de que a vontade e a pre­
sença de Yahweh fossem essenciais à
aliança. A santidade de Deus santificaria
sua assembléia, mesmo se implicasse o
expurgo de alguns, por ira terrível.
16 Não tentareis o Senhor vosso Deus,
como o tentastes em Massá. 17 Diligente­
mente guardarás os mandamentos do Se­
nhor teu Deus, como também os seus teste­
munhos, e seus estatutos, que te ordenou.
18 Também praticarás o que é reto e bom
aos olhos do Senhor, para que te vá bem, e
entres, e possuas a boa terra, a qual o
Senhor prometeu com juramento a teus
pais; 19para que lance fora de diante de ti
todos os teus inimigos, como disse o Senhor.
O versículo 16 adverte contra dúvidas
queexijam de Deus que ele se comprove.
257
As pessoas que vivem no temor do Se­
nhor não pedem provas, pois vivem in­
tegralmente do que ele proporciona. Co­
mo um exemplo negativo, cita a expe­
riência no lugar que Moisés chamava de
Massá ou “Prova”, depois que os israe­
litas duvidaram até que ele tirou água da
rocha para eles pelo mandamento de
Deus (Êx. 17:1-7). Aquela experiência
deixou tal impressão no pensamento de
Israel, que era muitas vezes recordada
nas ocasiões da declaração do Primeiro
Mandamento (cf. Sal. 78:20; 95:8). Nes­
te contexto, o versículo serve de ponte a
uma exortação geral para se obedecer a
todos osmandamentos.
Os versículos 17-19 conclamam Israel
a obedecer à Lei, para que te vá bem, e
entresepossuas a boa terra. Exatamente
da mesma forma que a maldição de Deus
pousará sobre aqueles que lhe forem
infiéis (v. 15), também suas bênçãos se­
rão derramadas sobre aqueles que per­
manecerem leais à aliança(v.18).
Porém, neste contexto, as palavras são
muito estranhas. Já fora dito a Israel que
lhe seria dada a terra como uma dádiva
gratuita, imerecida, como um cumpri­
mento de uma promessa feita aos seus
antepassados, uma terra desenvolvida,
para cuja preparação o próprio Israeí
nada contribuíra. Agora lhe urgia guar­
dar diligentemente a Lei, a fim de que
pudesse ter a terra. Seria muito fácil
chamar isso de contradição e, do ponto
devista cristão, deixá-lo de lado, alegan­
do que caracteriza o conceito de “salva­
ção pelas obras”. Porém, tantas quantas
foremasdivisões que sefaçam neste texto
etantasquantasasfontesdistintas, nãose
pode remover o problema que jaz no
âmago da compreensão da aliança e que
se transfere para o Novo Testamento,
além deprevalecernoAntigo.
Este textoestá sendo recitado para um
povo que já havia muito que vivia na
terra. Ele continuava a ser relevante para
a sua própria situação espiritual. Israel
já havia recebido sua terra. Contudo, em
outro sentido, continuava a não possuí-
la. A terra fora dada a Israel pela graça
eletivade Deus. Porém ainda estava para
ser possuída pela obediência às exigên­
cias pactuais de Deus. Sempre haverá
algo misterioso e além de nossa com­
preensãonesta dialética entre a graça e a
recompensa. Mas as duas permanecem
como partes essenciais da compreensão
da relação Deus com seupovo.
A mesma dialética permeia a perspec­
tiva da ocupação, segundo os versículos
18e 19. Israel devia ativamente “entrar e
possuir”, embora ao mesmo tempo seja
dito que lance fora de diante de ti todos
os teus inimigos. Esta compreensão du­
pla da féativa epassiva permeia todos os
relatos da conquista. Pertence integral­
mente ao conceito no seu todoe não pode
ser removida, por se atribuir um lado a
uma tradição eooutro a outra.
20 Quandoteu filhote perguntar no futuro,
dizendo: que significam os testemunhos, es­
tatutos e preceitos que o Senhor nosso Deus
vos ordenou? 21 responderás a teu filho:
Éramos servos de Faraó no Egito, porém
o Senhor, com mão forte, nos tirou de lá;
22 e, aos nossos olhos, o Senhor fez sinais e
maravilhas grandes e penosos contra o Egi­
to, contra Faraó e contra toda a sua casa;
23 mas nos tirou de lá, para nos introduzir
enos dar a terra que com juramento prome­
tera a nossos pais. 24 Pelo que o Senhor nos
ordenou que observássemos todos estes
estatutos, que temêssemos o Senhor nosso
Deus, para o nosso bem em todo o tempo, a
fim de que ele nos preservasse em vida,
assim como hoje se vê. 25 E será justiça
para nós, se tivermos cuidado de cumprir
todos estes mandamentos perante o Senhor
nossoDeus, comoele nos ordenou.
A formação inteira do capítulo termi­
na com um olhar em retrospecto, para a
história da salvação de Israel, vestida na
forma de pergunta e resposta, que a ca­
tegoria mais ampla requer (v.20-25).
A pergunta retoma o tema dos versículos
anteriores, a fim de indagar sobre o
significado real desses estatutos e orde­
nanças.
258
A resposta relaciona-se, em primeiro
lugar, com os grandes atos de Deus em
salvar Israel: tirando-o do Egito (v. 21),
dando-lhe o provimento e a direção mi­
raculosos para a viagem no deserto
(v. 22) e a sua orientação bem-suoedida
até a Terra Prometida (v. 23). Em se­
guida, relaciona os propósitos dos esta­
tutos (v. 24): ajudar Israel a temer ao
Senhor, para oseu bem em todo o tempo
epara sua preservação, mesmo até o dia
em que isto foirecitado.
Estes versículos contêm um esboço e
frases que foram tirados de antigas de­
clarações de fé, como a confissão em
26:5-9. Mas aqui servem a um propósito
bem diferente, que é esclarecido no ver­
sículo 25. Isto é citado para provar que
Israel só permaneceria justo enquanto
obedecesse às exigências da aliança.
Justiça tem acepções diversas no An­
tigo Testamento. Ãs vezes significa re­
tidão ética. Outras vezes chega quase a
equivaler à salvação. Porém, na maioria
dos casos, refere-se àquele estado que
permite à pessoa entrar na presença de
Deus no templo. O recinto onde Deus se
encontra com Israel é aquele onde se
recebe vida como a dádiva de Deus pro­
ferida em graça ao seu povo. Assim, so­
mente os justos, neste sentido, podem
receber avida.
Porém estes versos procuram mostrar
que, em Israel, tanto a vida (v. 24) como
a justiça dependiam de observarem as
condições da aliança de Deus com eles.
Comprovam isto por, em primeiro lugar,
citarem os atos históricos de Deus, em
relação aos quais Israel pôde ser concla­
madopara ser testemunha, porque acon­
teceram “perante os nossos olhos”. As
exigências da aliança ou pacto surgiram
destes atos salvíficos. Para testificar isso,
Israel devia confessar que Deus tinha
ganho opleno direito de fazer com Israel
o que bem entendesse. Por ter tirado o
povo de Faraó quando era escravo, ga­
nhou sobre ele os direitos da escravatura
para fazer com ele tudo que quisesse.
Era a vontade dele levá-lo a Canaã.
Possuía plenos direitos legais para orde­
nar a sua vida lá segundo o querer dele.
Portanto, Israel estava “dentro de Seus
direitos”, e podia viver somente se es­
tivesse cumprindo as ordens de seu Se­
nhoreDono.
Há neste capítulo dois temas que me­
recem comentário esclarecedor. O pri­
meiro dizrespeito ao grande mandamen­
to e os muitos estatutos. É a tendência
deste capítulo olhar para o único grande
mandamento de Deus, mas o texto cons­
tantemente se volta para realçar uma
obrigação de obediência à multiplicação
de ordenanças vista no código da Lei.
Contudo, nunca sepermite que estes dois
entrem em conflito ou se contradigam.
De alguma forma se entende que o pri­
meiro grande mandamento está num pla­
no diferente dos demais.
Daí surge o segundo assunto: O temor
do Senhor. Se o que se escreveu acima é
verdade, então o primeiro mandamento
não pode constituir uma única exigência
concreta. Tem de refletir a atitude bási­
ca requerida para com oSenhor da alian­
ça. Isso se vê no sentido de que a defi­
nição decisiva do Primeiro Mandamento
está na expressão “Temerás ao Senhor”.
Esta expressão aparece no versículo 13 e
é então retomada na seção final, no ver­
sículo 24. Os dois versículos, porém,
refletem as referências no contexto maior
daunidade, que se compõe dos capítulos
5e 6.
c. VósSois Santos(7:1-26)
O capítulo 7 deve ser tratado como
uma unidade à parte. Os temas do capí­
tulo anterior não continuam nele e o
capítulo 8volta-separa outro tema.
O capítulo é composto cuidadosamen­
te em torno de três expressões da lei de
“o voto” (v. 1-6,16,25,26). Ela só pode
ser entendida dentro da forma mais am­
pla de “guerra santa, declarada, dirigida
259
e ganha pelo próprio Yahweh”.17 Deu-
teronômio dá à guerra santa um lugar
importante em suas leis (20:1-20; 21:10-
14; 23:10-14; 24:5; 25:17-19), em discur­
sos que originalmente haviam de prece­
der abatalha(7:16-24; 20:3 e ss.; 31:3-8)
eem numerosos outros lugares (von Rad,
p. 45-49).
Entre estas leis se inserem uma “bên­
ção”(v. 7-15) e um “discurso de guerra”
(v. 17-24), produzindo o seguinte esboço:
(1) lei de “o voto” sobre os cananeus
(v. 1-6); (2) bênção (v. 7-15); (3) lei:
“Não servirás a seus deuses” (v. 16); dis­
curso de guerra (v. 17-24); leis repetidas
(v. 25,26).
As declarações primeira eúltima da lei
têm sido formuladas propositadamente
para formar a moldura para o capítulo,
comomostra a repetição de frases-chaves
dosversos 1-5, sendo que, nos versos 25 e
26, em ordem inversa (Lohfink, p. 167-
188).
Esta composição é construída de uni­
dades distintas, cada uma das quais com
uma longa tradição por detrás de si.
Uma comparação dos versos 1-5 com
Êxodo 23:23,24 e 34:11-16, dos versos
13-16 com Êxodo 23:25,26 e dos versos
20-24 com Êxodo 23:27-31 mostra os
paralelos muito chegados nos motivos
que aparecem em todos estes textos. To­
dosparecem pertencer a uma tradição de
formulação de alianças que talvez se
relacionecom Gilgal e que aparentemen­
te vem diretamente do Decálogo. Nos
versos8-12, a influênciavem diretamente
do Decálogo. De fato se comenta uma
parte deleeéinterpretado novamente.
Mesmo por detrás dos discursos da
aliança em Gilgal podem-se entrever, no
versículo 18 e ss., vestígios de um dis­
curso de guerra ainda mais antigo e mais
original, que tem sido entretecido nas
exortações apropriadas às cerimônias
pactuais.
Entre osprimeiros estágiose a redação
final, pode-se ver ainda outra forma cla-
17IDB, Vol. R-Z, p. 796.
ra: “O contexto mais amplo para uma
lei.” Ele incluiria os versos 1-5 e 17:24,
como seguinteesboço:
Afirmaçãobásica:
“Quando o Senhorteu Deus te houver
introduzidonaterra” 7:1,2a
Afirmações de apoio:
“Ovoto”, nenhuma aliança 7:2b,3
Porperigo de desvio 7:4
Destruição dos santuários 7:5
Porque era um povosantoao
Senhor 7:6
Afirmaçãobásica:
Setemeres 7:17
Afirmações de apoio (encoraja­
mentocom motivos):
O êxodo mostra o que será a
ocupação 7:18-20
A promessa para estar com
eles 7:21-24
As duas partes do capítulo são tam­
bém ligadas pela repetição de palavras-
chaves. A única coisa que está faltando
na forma regular da “moldura” maior
é a pergunta normal da criança, para
iniciar a segunda parte.
A composição final do capítulo, ba­
seada neste esboço, inseriu a longa pas­
sagem sobre a “bênção” (v. 1-16) e acres­
centou os versículos 25 e 26. Esta com­
posição foi cuidadosamente tecida pela
repetição depalavrasjá mencionadas dos
versículos 1-5 e 25 e 26. Mas está tam­
bém claro no processo semelhante, po­
rém muito mais complexo, da prepara­
ção dos versos 6-14, para uso como se­
gue:
7:6 acimadetodosospovos
6 quehásobreaterra
7 porquefôsseismaisnumerosos
8 porqueo Senhorvosamou
8 ojuramentoquefizeraavos­
sospais
9 que guarda o pacto e a
misericórdia
11 guardarás
11 osmandamentos
12 estespreceitos
260
12 eosguardardes
12 guardará o pacto e a
misericórdia
12-13 quecomjuramento
prometeuateuspais
13 ele teamará
13 etefarámultiplicar
13 naterra
14 maisdoquetodosospovos
0 paralelo real nas palavras hebraicas
é muito mais chegado do que algumas
das divergências da tradução indicam.
Este capítulo é um sermão sobre o
tema do Primeiro Mandamento, na for­
ma de uma proibição do culto aos ído­
los (v. 16). Tirando elementos das ceri­
mônias da aliança em Gilgal e do Decá­
logo, que foram formulados em um está­
gio intermediário, como uma “moldura”
para as leis do “voto”, o escritor final
compôs os últimos dois versículos em
repetição direta das leis iniciais. O todo
foi então entretecido com a composição
do texto da bênção, que também foi
tirada de uma forma ainda mais antiga,
conhecida nas formas da aliança em
Gilgal.
1Quando o Senhor teu Deus te houver in­
troduzido na terra a que vais a fim de pos­
suí-la, e tiver lançado fora de diante de ti
muitas nações, a saber, os heteus, os girga-
seus,os amorreus, os cananeus, os perizeus,
os heveus e os jebuseus, sete nações mais
numerosas e mais poderosas do que tu;
2 e quando o Senhor teu Deus tas tiver en­
tregue, e as ferires, totalmente as destrui­
rás; não farás com elas pacto algum, nem
terás piedade delas; 3 não contrairás com
elas matrimônios; não darás tuas filhas a
seus filhos, e não tomarás suas filhas para
teus filhos; 4 pois fariam teus filhos desvia­
rem-se de mim, para servirem a outros
deuses; e a ira do Senhor se acenderia con­
tra vós, e depressa vos consumiria. 5 mas
assim lhes fareis: Derrubareis os seus alta­
res, quebrareis as suas colunas, cortareis os
seus aserins, e queimareis a fogo as suas
imagens esculpidas. 6 Porque tu és povo
santoao Senhorteu Deus; o Senhor teu Deus
te escolheu, a fim de lhe seres o seu próprio
povo,acima de todosospovosque há sobre a
terra.
Acompreensão básica da guerra santa
proibiria qualquer proveito pessoal da
presa, pois toda ela se entendia como
pertencente ao Senhor, que tinha, ele
mesmo, travado a batalha e tomado a
cidade. Porém, como esta passagem era
dirigida a uma geração muito posterior,
esta proibição total foi definida e expla­
nada duas vezes. Uma aliança seria se­
lada por juramentos prestados no nome
do deus de cada parte. Os problemas
causados para o culto do Senhor pelos
casamentos mistos somente são do­
cumentados por leis paralelas a partir de
Êxodo 34:16 até Esdras.
A primeira definição (v. 2b,3) proibia
que sefizesse qualquer acordo ou contra­
to com os povos da terra. Essa proibição
incluía, especificamente, contratos ma­
trimoniais. O motivo dado era perigo de
eles levarem os israelitas à apostasia,
para servirem a outros deuses. Isto, por
sua vez, faria com que a ira de Deus
eliminasse Israel.
A segunda definição (v. 5) prescreve
a destruição de objetos sagrados, in­
clusiveídolos. Arazão apresentada é que
Israel era um “povo santo ao Senhor”,
pelo motivo de sua eleição.
Estas são, claramente, leis importan­
tes. Talvez até se possa chamá-las de as
leis mais importantes para esta tradição
pactuai. Ambas enfocam a proibição da
idolatria, a fim de o povo cultuar ao
Senhor somente. Em assim fazendo, es­
taria também cumprindo a condição
mais importante da aliança. Esta dificul­
dade de se concentrar o culto ao Senhor
somente era constante em Israel. Com
sua invasão do país, não tinha destruído
opovocananeu nem seusídolos nem seus
santuários. Geração após geração des­
viava-se para os cultuar. Os nomes dos
deuses mudavam, contudo, o problema
da idolatria permanecia, de uma manei­
ra ou outra, com Israel, como tem acon­
tecido com a humanidade toda. O pro­
blema de distrações do culto puro e
261
singelo (pela idolatria) contínua a afligir
a comunidade cristã.
7 OSenhor não tomou prazer em vós nem
vos escolheu porque fósseis mais numero­
sos do que todos os outros povos, pois éreis
menos em número do que qualquer povo;
8mas, porque o Senhor vos amou, e porque
quis guardar o juramento que fizera a vos­
sos pais, foi que vos tirou com mão forte e
vosresgatou da casa da servidão, da mão de
Faraó, rei do Egito. 9 Saberás, pois, que o
Senhor teu Deus é que é Deus, o Deus fiel,
que guarda opacto e a misericórdia, até mil
gerações, aos que o amam e guardam os
seusmandamentos; 10e que retribui direta­
mente aos que o odeiam, para os destruir;
não será remisso para quem o odeia, direta­
mente lhe retribuirá. 11Guardarás, pois, os
mandamentos, os estatutos e os preceitos
que eu hoje te ordeno, para os cumprires.
12 Sucederá, pois, que, por ouvirdes estes
preceitos, e os guardardes e cumprirdes, o
Senhor teu Deus te guardará o pacto e a mi­
sericórdia que com juramento prometeu a
teus pais; 13ele te amará, te abençoará e te
fará multiplicar; abençoará o fruto do teu
ventre, e o fruto da tua terra, o teu grão,
oteu mosto e o teu azeite, a criação das tuas
vacas, e as crias dos teus rebanhos, na terra
que com juramento prometeu a teus pais te
daria. 14Bendito serás mais do que todos os
povos; não haverá estéril no meio de ti, seja
homem, seja mulher, nem entre os teus
animais. 15 E o Senhor desviará de ti toda
enfermidades; não porá sobre ti nenhuma
das más doenças dos egípcios, que bem co­
nheces; no entanto as porá sobre todos os
que te odiarem. 16 Consumirás todos os po­
vos que o Senhor teu Deus te entregar; os
teus olhos não terão piedade deles; e não
servirás a seus deusés, pois isso te seria
porlaço.
Os versículos 7-12 são um comentário
e uma reafirmação da descrição do Se­
nhor dadano Decálogo (5:9b,10). Apas­
sagem faz um jogo das palavras amar e
guardar. Noversículo 9 são citadas como
aparecem no Decálogo. Mas no versí­
culo 8 aparecem sob outra forma, am­
bas ditas, a respeito do Senhor. Apare­
cem novamente no fim (v.12,13a), quan­
do a passagem prossegue para a “bên­
ção”. Em assim fazendo, estes versículos
têm reinterpretado a doutrina da eleição
por tomar o amor, que no Decálogo
descreve a atitude de Israel para com
Deus, e usá-la como a palavra principal
para explicara atitude deDeus para com
Israel(comono cap. 6).
Não é por causa do tamanho ou valor
intrínseco de Israel, mas porque o Se­
nhor o amou e porque quis guardar o
juramento que fez aos patriarcas, que o
Senhor...guardao pacto e a misericórdia
(lealdade pactuai). Portanto, Israel guar­
dará (versão no inglês “tomará cuidado
para fazer”) os mandamentos dele.
Usando o mesmo jogo com a palavra
guardar, segue a lista, em ordem inversa,
pelo versículo 12 e termina com o amor
de Deus no começo do versículo 13. O
amor e a finalidade de Deus requerem o
amor e a finalidade de Israel, que se
expressam na observância de seus man­
damentos. A eleição de Deus e a conse­
qüente salvação de Israel surgem de sua
própria escolha e de suas promessas aos
patriarcas. Não é, em sentido nenhum,
uma avaliação dovalor de Israel.
As bênçãos (v. 13-15) são aquelas que
talvez fossem comuns aos orientais: a
fertilidade e a saúde. São agora engasta­
das na teologia pactuai. Esta última, no
versículo 12, tinha indicado a paridade
do cumprimento, por parte de Deus, das
condições pactuais, com o cumprimento,
porparte de Israel, dasleis quelhe foram
propostas, em conformidade direta com
o que agora se sabe ter sido a regra, nos
textos de pactos antigos, tão primitivos
quanto a época de Moisésou tão recentes
comooséculosete a.C.
O ponto central do sermão (v. 16) é
marcado com uma repetição da lei com
que começou. Todavia, não é uma sim­
ples repetição. Acrescenta-se, agora, à
definição mais estreita de “nenhum pac­
to” (v. 2b,3) e a queima de suas imagens
(v. 5), uma mais intensa e direta: não
’servirás a outros deuses. Essa declara o
âmago da questão. A destruição do povo
não era central à preocupação da Lei.
O que era central era a erradicação de
sua influênciapara a idolatria.
262
17 Se disserdes no teu coração: Estas
nações são mais numerosas doque eu; como
as poderei desapossar? 18 delas não terás
medo; antes lembrar-te-ás do que o Senhor
teu Deus tez a Faraó e a todos os egípcios;
19 das grandes provas que os teus olhos
viram, e dos sinais, e das maravilhas« e da
mão forte, e do braço estendido, com que o
Senhor teu Deus te tirou. Assim fará o Se­
nhor teu Deus a todos os povos, diante dos
quais tu temes. 20 Além disso, o Senhor teu
Deus mandará entre eles vespões, até que
pereçam os restantes que se tiverem escon­
dido de ti. 21 Não te espantes diante deles,
porque o Senhor teu Deus está no meio de ti,
Deus grande e terrível. 22 E o Senhor teu
Deus lançará fora de diante de ti, pouco a
pouco, estas nações; não poderás destruí-las
todas depronto, para que as feras do campo
não se multipliquem contra ti. 23E o Senhor
tas entregará a ti, e lhes infligirá uma gran­
de derrota, até que sejam destruídas.
24 Também os seus reis te entregará nas
tuas mãos, e farás desaparecer o nome de­
les de debaixo do céu; nenhum te poderá re­
sistir, até que os tenhas destruído. 25 As
imagens esculpidas de seus deuses queima­
rás a fogo; não cobiçarás a prata nem o ouro
que estão sobre elas, nem deles te apropria­
rás, para que não te enlaces neles, pois são
abominação ao Senhor teu Deus. 26Não me­
terás, pois, uma abominação em tua casa,
para que não sejas anátema, semelhante a
ela; de todo a detestarás, e de todo a abomi­
narás, pois é anátema.
Os versículos 17-24 não mostram ne­
nhum dos sinais de composição referi­
dos nas seções anteriores. Contêm uma
forma totalmente diferente. Como um
discurso de encorajamento a guerreiros,
diz-lhes para não temerem. O Senhor
lutaria por elescomo fezno Egito. Envia­
ria vespões em sua vanguarda. Também
o Senhor se faria presente no exército
israelita, para possibilitar sua vitória.
Ela iria ocorrer gradativamente, porém
seria certa. O resultado final das duas
maneiras de operar seria a destruição dos
povos, de seus reis, até de seus nomes.
Paralelos a estes discursos que concla­
mam Israel para não temer inimigo po­
dem-se achar nos livros de Josué e Juizes.
Relatam eventos da era quando Israel
realmente tratava suas batalhas sob este
conceito de guerra santa.
Nesta posição no texto como o ser­
mão está sendo pregado a uma geração
muito posterior, é óbvio que seu propó­
sitoera diferente. Deuteronômio está cla­
ramente consciente da necessidade de se
ter um povo unido, tanto política como
religiosamente. Israel precisava diferen­
ciar-se dos povos que os rodeavam, para
galgar qualquer um desses alvos. O povo
é conclamado para recordar a chamada
deDeus e as suas promessas do passado,
a fim de se cingir para as batalhas que
ainda se haviam de travar, para destruir
osque apoiavam a idolatria.
Em seu encerramento, o sermão volta
a uma declaração das leis com que teve
seu início (v. 25 e s.). Reforça o julga­
mento de que as imagens eram conside­
radas como “votadas”, i.e., estavam sob
maldição. Iriam ser totalmente destruí­
das e certamente não podiam ser trazi­
daspara dentro de suas casas. A história
de Acâ é comentário apropriado sobre
este mandamento (Jos. 7).
d. Lembra-te—NãoTeEsqueças
(8:1-20)
Este é o terceiro sermão relacionado à
seção histórica do capítulo 5. É uma es­
trutura complexa composta de quatro
seções, que são, então, cuidadosamente
entretecidas. O esboço, como mostrado
por estas formas, é o seguinte: (1) uma
forma exortativa (v.l); (2) a forma do
argumento lógico(v. 2-6); (3) um contex­
to menor para uma lei (v. 7-18); (4) mal­
diçãocondicional(v. 19,20).
A conjugação destas seções mostra-se
pelos temas paralelos, que dão um estilo
equilibrado ao capítulo.
A 8:1 Exortação
B 2-4 Deserto
C 7b-9 Terra fértil
D 11 Exortação
C 12e s. Terra fértil
B 14b-16 Deserto
A 19 es. Maldição (em termos
muito semelhantes
aov.l)
263
O tema destecapítulo, comoo dos dois
anteriores, éum sermãosobre o Primeiro
Mandamento. A seção principal do capí­
tulo (v. 7-18) parece ser uma interpreta­
ção de 6:10-19, que, por sua vez, é um
comentário sobre oPrimeiro Mandamen­
to. Com a maldição final se completa a
lembrança de formulações pactuais, nes­
tes capítulos: história anterior (cap.5),
a seção legal (caps. 6-8, com as “moldu­
ras”), bênção(cap.7)e maldição (cap.8).
Completa-se, com este capítulo, a pri­
meira metade da seção, capítulos 5-11. 18
1 Todos os mandamentos que hoje eu vos
ordeno cuidareis de observar, para que vi­
vais, e vos multipliqueis, e entreis, e pos­
suais a terra que o Senhor, com juramento,
prometeu a vossos pais. 2E te lembrarás de
todo o caminho pelo qual o Senhor teu Deus
tem te conduzido durante estes quarenta
anos no deserto, a fim de te humilhar e te
provar, para saber o que estava no teu
coração, se guardarias ou não os seus man­
damentos. 3Sim, ele te huHhou, e te deixou
ter fome, e te sustentou com o maná, que
nem tu nem teus pais conhecíeis; para te
dar a entender que o homem não vive só de
pão, mas de tudo o que sai da boca do
Senhor, disso vive o homem. 4 Não se enve­
lheceram as tuas vestes sobre ti, nem se
inchou o teu pé, nestes quarenta anos. 5 Sa­
berás, pois, no teu coração que, como um
homem corrige a seu filho, assim te corrige
oSenhorteu Deus. 6E guardarás os manda­
mentos do Senhor teu Deus, para andares
nos seus caminhos e para o temeres. 7Por­
que o Senhor teu Deus te está introduzindo
numa boa terra, terra de ribeiros de águas,
de fontes e de nascentes, que brotam nos
vales e nos outeiros; 8terra de trigo e ceva­
da; de vides, figueiras e romeiras; terra de
oliveiras, de azeite e de mel; 9terra em que
comerás o pão sem escassez, e onde não te
faltará coisa alguma; terra cujas pedras
são ferro, e de cujosmontes poderás cavar o
cobre. 10Comerás, pois, e te fartarás, e lou­
varás ao Senhorteu Deus pela boa terra que
tç deu.
Note-se o singular (no inglês e no he­
braico) o mandamento (v.l). O verso
19b esmiúça-o: “nenhum outro deus.”
Esta base absoluta das relações pactuais
éotema de exortaçãopara ocapítulo.
18Cl. Lohfink, p. 189-199, e Lohfink, HÕre Israel. Düssel­
dorf. Patmos Verlag, 1965, p. 72*86.
Cuidareis de observar é o casamento,
típico de Deuteronômio, destes dois ver­
bos. A atitude que cuida, acha sua ex­
pressão em conduta. Isto é apoiado por
um olhar para o futuro. A obediência
olha para o futuro, esta vez, ao invés de
olhar para o passado. As questões dizem
respeito à própria vida, ao crescimento e
à posse. A realização desses valores re­
conhecidos pressupõe a intenção propo­
sitada de Deus, que é mostrada aqui por
referência à promessa patriarcal e à
prontidão de Israel para prestar lealdade
em culto ao Senhorsomente.
Nos versículos 2-6, três passos levam à
plena resposta a esta exortação. São
apresentados na forma fixa de um argu­
mento apartir de fatos, para a conclusão
de féesobre sua aplicação na conduta.
O primeiro passo depende de lembrar.
Este verbo importantíssimo é usado 16
vezes em Deuteronômio. Em doze delas
apresenta eventos históricos como seu
objeto. O conteúdo da memória que de­
via ser recordado era exclusivamente a
história da salvação da confederação de
tribos, chamada Israel. Estes eventos fo­
ram resumidos numa espécie de credo
histórico.Foram cultivados pela repeti­
ção na prática ritual e na pregação. For­
mam oesboço doPentateuco.
A recordação é importante também
para oscristãos modernos. Ê o motivo da
pregação, do ensino e do estudo bíblico.
É a inspiração de cântico, louvor e ora­
ção. A exortação para se lembrar do
mandamento está estribada na lembran­
ça de que Deus é fiel. Lembrarás de sua
fidelidade no passado.
A memória traz a lembrança de que
Deus tem estado a guiar providencial-
mente em todas as áreas da vida. O ca­
minho olha em retrospectiva, para a es­
trada pelodeserto. O lembrar não abran­
ge somente o agradável e o proveitoso.
As experiências mais amargas e difíceis
muitas vezes produzem as recordações
mais produtivas. Deus humilhou Israel
—mascom um propósito.
264
O propósito de Deus era o conheci­
mento. Seu interesse primário era o co­
nhecimento na área da fé. Ele queria
saber, primeiro, da fibra dos israelitas,
e provou-os com este fim. Mas também
ele queria que soubessem quais eram as
questões reais da vida. Agora o texto
volta à questão central da vida. Ele reti­
rou todas as muletas para a vida que
tinham conhecido antes, a fim de lhes
mostrar algo além de seu conhecimento,
omaná.
Em conexão a issosegueum texto clás­
sico, proclamando a necessidade de de­
penderem, em última análise, somente
de Deus. O homem não vive só de pão,
masdetudooquesaidabocado Senhor.
O significado vai muito além do maná.
Não se refere simplesmente à dependên­
cia da obra da mão de Deus na criação.
Antes faz referência a uma dependência
dapalavra deDeus. Issosevêmais clara­
mente na lei que ele proclama. A vida
depende da palavra de Deus e da manei­
ra como se lhe responde (cf. 30:16;
32:47).
Esta é, então, uma nova interpretação
da dádiva do maná. Em Salmos 78:24,25
se chama o maná de “o pão dos anjos” e
“o grão do céu”. I Coríntios 10:3 inter­
preta a história novamente, em um con­
texto cristão.
O texto continua com referência aos
cuidados providenciais de Deus que os
sustentou durante todos aqueles quaren­
ta anos. A lembrança recorda humilha­
ção, o conhecimento ganho e o cuidado
deDeus, mesmo nos dias deprivação.
Estes elementos conduzem a uma
exortação aospresentes. Saberás...noteu
coração seria mais compreensível se en­
tendido como “saberás com a tua men­
te”, pois o coração era considerado o
assento da razão. Saber com a mente
significa estar convencido (v.5). A ex­
periência, quer vivida pessoalmente,
, quer vivida vicariamente, pela recorda­
ção, leva à convicção, ao conhecimento,
aoconhecimento deDeus. É assim que se
formaesetransmite a doutrina.
O conteúdo específico desse conheci­
mento está no reconhecimento de que,
como um homem corrige a seu filho,
assim te corrige o Senhor teu Deus. Ele
tem presente um alvo para o teu bem.
Fá-lo com amor e cuidado, para te guar­
dar domalepara te conduzirobem.
É deste ponto de vista que se deve
encarar os mandamentos que Deus tem
propprcionado ao povo de sua aliança.
A exortação agora é feita por meio de
mandamentos-no plural (o v.l está no
singular no inglês e no hebraico). Contu­
do, ainda não se permite que a atenção
seja focalizada nos pormenores ou “na
letra da Lei”. Guardas os mandamentos
por andares nos seus caminhos (a con­
duta nos negócios) e por o temeres
(a atitude básica de uma vida direciona­
dapara Deus).
Em um sentido bem real, a linha de
pensamento está completa. A recorda­
ção produz a convicção, e esta se torna
móvelda ação. Porém a “moldura” mais
ampla do sermão se relaciona com a vida
na terra. De maneira que o que se al­
cançou nestes versículos é transferido
para a aplicação detalhada.
Nos versículos 7-10, o sermão é agora
construído sobre uma adaptação da for­
ma “uma moldura menor para uma lei”.
O recebimento da dádiva da terra é
elaborado nestes versículos. Em contras­
te com o deserto, a generosidade da na­
tureza seria deles. Tomar-se-iam próspe­
ros e satisfeitos. A gratidão devia carac­
terizar sua relação com Deus.
11 Guarda-te, que não te esqueças do Se­
nhorteu Deus, deixando de observar os seus
mandamentos, os seus preceitos e os seus
estatutos, queeu hoje te ordeno; 12para não
suceder que, depois de teres comido e esta­
res farto, depois de teres edificado boas
casas e estares morando nelas, 13 depois de
se multiplicarem as tuas manadas e os teus
rebanhos, a tua prata e. o teu ouro, sim,
depois de se multiplicar tudo quanto tens,
14 se exalte o teu coração e te esqueças do
265
SenhorteuDeus,quete tirou da terra doEgi­
to, da casa da servidão; 15 que te conduziu
por aquele grande e terrível deserto de ser­
pentes abrasadoras e de escorpiões, e de ter­
ra áridaem que não havia água, eonde te fez
sair água da rocha pederneira; 16 que no
deserto te alimentou com o maná, que teus
pais não conheciam; a fim de te humilhar e
te provar, para nosteus últimos dias te fazer
bem; 17 e digas no teu coração: A minha
força, e a fortaleza da minha mão me adqui­
riram estas riquezas. 18Antes te lembrarás
do Senhor teu Deus, porque ele é o que te
dá força para adquirires riquezas; a fim de
confirmar oseupacto, quejurou a teus pais,
como hoje se vê. 19 Sucederá, porém, que,
se de qualquer maneira te esqueceres do
Senhor teu Deus, e se seguires após outros
deuses, e os servires, e te encurvares peran­
te eles, testificohoje contra ti que certamen­
te perecerás. 20 Como as nações que o Se­
nhor vem destruindo diante de vós, assim
vós perecereis, por não quererdes ouvir a
vozdo Senhorvosso Deus.
A riqueza da terra já foi ressaltada,
quando o versículo 1 começa o contra­
ponto, ao “lembrar so deserto’ com não
te esqueças quando entrares na terra.
“Fazendo” o mandamento (v.l) implica
lembrar, enão esquecer.
Há o perigo de, quando o estômago
está cheio, ohomem tornar-se orgulhoso
e complacente. Talvez se esquecesse do
Senhor que o trouxe do Egito, conduzin­
do-o através do deserto e alimentando-o
pelo caminho. Podia sentir a tentação de
dizer que já não precisava de Deus.
Seriatentado apensar: Aminhaforçaea
fortaleza da minha mão me adquiriram
estas riquezas. Isto não está muito longe
da jactância para que os profetas cha­
maram a atenção estar nos lábios dos
soberanos estrangeiros que se fizeram de
deuses (Is. 10:8 e ss.; 14:13 e ss.; Êx.
28:2).
Esta é a questão: Até que ponto é o
homem auto-suficiente? O sermão é diri­
gido à assembléia do póvo de Deus que
confessava a eleição e salvação de Deus,
a sua providência e a sua direção. Po­
diam tais pessoas alguma vez ter pre­
tensões a auto-suficiência e independên­
cia? Israel certamente as teve por muitas
ocasiões no deserto e posteriormente
quando na terra. Mas o testamento coe­
rente da história bíblica é que semelhan­
te atitude sempre levava a uma queda.
Só podia existir onde o povo de Deus
tinha se “esquecido”.
Poressemotivo é que Israel era convo­
cado a se lembrar que até a habilidade
de se enriquecer era dádiva do Senhor
seu Deus. Fora dada por causa da pro­
messa de Deus aos patriarcas, assim
como pela mesma razão se fazia a reno­
vação da aliança. Israel receberia ovigor
e a generosidade de Deus, porém não
podia alegar que os recebiaem virtude de
qualquer mérito por parte do povo. Se­
riam dadas porforça da eleição divina de
Israel, eisso por força de suas promessas
aospais.
A humildade imposta em Israel no
deserto deveria caracterizar o povo em
sua prosperidade na terra quando se
lembrasse de Deus, do que ele fizera e do
queelerequeria.
Outrossim, vale notar que o cumpri­
mento dos mandamentos é incentivado
nabase das dádivasjá concedidas e apre­
ciadas como condição para se continuar
a gozar delas. Mas em sentido algum
sugere o sermão que a obediência alcan­
çaria asbênçãos comosepor direito.
Conforme o costume das formulações
pactuais, o sermão termina (v. 19-20)
com a declaração solene das conseqüên­
cias de não se guardar o primeiro e mais
importante mandamento. Está mais uma
vez no singular (no inglês e hebraico),
como no versículo 1. O esquecimento do
Senhor equivalia a seguir após outros
deuses. Aapostasia levaà morte.
Assim se completa o ciclo. No começo
declarou-se as questões, e agora são re­
petidas: avidaouamorte. Oesquecimen­
to leva ao ressecamento, ao fenecimento,
à perdição. Isso era o que estava acon­
tecendo às outras nações sem uma rela­
çãovivacomo Senhor. A única distinção
266
de Israel dessas nações era que o povo
tinha ouvido e obedecido à voz do Se­
nhor. Se abandonasse esse distintivo e
grande dádiva, a nação não sediferencia­
ria das demais e sofreria o mesmo desti­
noqueelas.
3. ParteTrês(9:1-11:32)
(1) Exortação Introdutória: Não a Tua
Justiça(9:1-7)
1 Ouve, ó Israel: hoje tu vais passar o
Jordão para entrares para desapossares na­
ções maiores e mais fortes do que tu, ci­
dades grandes e muradas até o céu; 2 um
povo grande e alto, filhos dos anaquins, que
tu conheces, e dos quais tens ouvido dizer:
Quem poderá resistir aos filhos de Anaque?
3 Sabe, pois, hoje que o Senhor teu Deus é
o que passa adiante de ti como um fogo
consumidor; ele os destruirá, e os subjuga­
rá diante de ti; e tu os lançarás fora, e cedo
os desfarás, como o Senhor te prometeu.
4Depois que o Senhor teu Deus os tiver lan­
çado fora de diante de ti, não digas no teu
coração:por causa da minha justiça é que o
Senhor me introduziu nesta terra para a
possuir. Porque pela iniqüidade destas na­
ções é que o Senhor as lança fora de diante
de ti. 5 Não é por causa da tua justiça, nem
pela retidão do teu coração que entras a
possuir a sua terra, mas pela iniqüidade
destas nações o Senhor teu Deus as lança
fora de diante de ti, e para confirmar a pala­
vra que o Senhor teu Deus jurou a teus pais,
Abraão, Isaque e Jacó. 6 Sabe, pois, que não
é por causa da tua justiça que o Senhor teu
Deus te dá esta boa terra para a possuíres,
pois tu és povo de dura cerviz. 7Lembra-te,
e não te esqueças, de como provocaste à ira
o Senhor teu Deus no deserto; desde o dia
em que saíste da terra do Egito, até que
chegaste a este lugar, foste rebelde contra o
Senhor.
Este breve sermão serve de introdução
para a unidade maior dos capítulos 9-11
que inclui narrativa e um sermão mais
extenso. As palavras iniciais, com 5:1,
assinalam uma nova seção. O tema da
passagem inteira é a palavra (hebraica)
possuir, que aparece em 9:1,3, 4a,4b,5a,
5b e 6a. Não é tão fácil identificá-la na
tradução, pois a palavra é traduzida de
diversas maneiras, como “desapossar”,
“lançarfora”,bem como “possuir”.
A segunda palavra-chave é justiça
(v. 4-6). Define o problema. O antônimo
éiniqüidade. Em qualquer processo legal
seria o dever do tribunal julgar entre o
justo e o iníquo (ou, como nós talvez
disséssemos, oculpado.)
Nosversos 1-3, a conquista da terra de
Canaã é retratada nos termos da guerra
santa, que o próprio Senhor conduziu.
Seria fácil Israel pensar que esse evento
histórico atuasse comoum tribunal e que
o vencedor era por isso provado justo.
Esse tipo de pensamento é expressamen­
te proibido noversículo4.
Em contraste com esse raciocínio, um
contra-argumento é apresentado (v.5).
Nega a validade da primeira metade do
versículo4, masconfirmaaverdadeda se­
gunda metade. Então o paralelo legal é
deixado de lado, enquanto o propósito
real do sermãoprossegue. Justiçaé agora
juntada à retidão do coração, que lhe dá
um significado mui diferente. Elas estão
com freqüência juntas nos Salmos (7:9-
11;ll:2es.; 32:11;97:11). Israel-nã©mais
éavaliadoem relação àsnações inimigas,
e, sim, quanto à sua própria relação para
como Senhor. Seria difícil, senão impos­
sível, falar emjustiça por parte de Israel,
quando está claro que a lealdade do povo
para com a aliança ou pacto era questio­
nável. Aqui, tanto Israel como as nações
odiadas estavam em estado de culpa di­
ante de Deus. Justiça, aqui, portanto,
tem uma acepção muito semelhante à
que Paulo usa em Romanos 1:18-3:30.
A passagem então prossegue em expli­
carpor que Deus decidiu lutar por Israel,
quando nenhuma das partes era justa.
O motivo jazia em sua promessa aos
patriarcas. Fecha-se o círculo no versí­
culo 6, em que o povo é chamado a re­
conhecer que não se lhe deu a terra por
causa de sua justiça. Não; era um povo
obstinado.
É provável que o mandamento no ver­
sículo 4 esteja corrigindo uma possível
interpretação de 6:17-19. Esta interpre­
tação pode ser o que Paulo chamava de
“legalismo”. Pareceria, então, que Deu-
267
teronômio está corrigindo a própria tra­
dição querepresenta.
(2) Narração: Aliança Quebrada Reno­
vadaemHorebe(9:8-10:11)
O próprio estilo desta história a dis­
tingue, dos sermões de cada lado, como
uma narrativa na primeira pessoa feita
por Moisés. Mas mesmo assim se rela­
ciona de perto com os dois. Ilustra a
parada feita no começo do capítulo e
especificamenteliga-lhes a narrativa pela
inserção de 9:22-24, que simplesmente
sublinha aparada feitano versículo 7.
Fora outras interpolações, como o ver­
sículo 8, que serve como uma espécie de
superscrição, os versículos 20 e 10:6-9, a
história constitui uma narrativa muito
lisa. Seu estilo se aproxima muito das
narrativas na primeira pessoa dos capí­
tulos 1-3. De maneira maravilhosa, mos­
tra por que otermo “justo” não pode ser
aplicado a Israel, nem a relação de Deus
com Israel ser explicada deste ponto de
vista.
Há muitos sinais, no texto, que suge­
rem que foi composto com o propósito
claro de se usar a abordagem legal-teo-
lógica, que seria apropriada em se tratar
de uma infração da aliança. As divisões
no texto são assinaladas pela repetição
de quarenta dias e quarenta noites e de
fogo, de modo a se alternarem (Lohfink,
p. 214es.).
9:9 quarenta dias e quarenta
noites
10 nomonte, do meio do fogo
11 quarenta dias e quarenta
noites
15 desci do monte, o qual ar­
diaemfogo
18 quarenta dias e quarenta
noites
21 tomei ... o bezerro ... e o
queimeiafogo
25 quarenta dias e quarenta
noites
10:4 nomonte,domeiodo fogo,
nodiadaassembléia
10 quarenta dias e quarenta
noites
A repetição destas frases e expressões
causou muita confusão em análises an­
teriores. Porém, quando são entendidas
como assinalando divisões na ordem ló­
gica do texto, formam um esboço em
cinco partes, que representa claramente
a estrutura de se fazer aliança, quebrar
aliançaerenovar aliança.
A. 9:9,10 Efetuamento da aliança: o
recebimento dos documen­
tos
B. 9:11-17 Quebra da aliança (como
um procedimento legal)
v. 12 O parceiro divino reconhe­
ce a quebra da aliança por
parte dopovo
v.13es.Planeja a destruição do po­
vo, queé necessária, e uma
nova relação pactuai com
Moisés semopovo
15-17 Moisés reconhece a quebra
da aliança e lhe dá expres­
são legal, por destruir os
documentos da aliança
C. 9:18-21 Açõesem busca da reconci­
liação
18e s. Oração deMoisés pelo per­
dão
20 Oração especial em favor
deArão
21 Destruição dobezerro
D. 9:25-10:5 Renovação da aliança para
opovo
25-29 A súplica pela renovação
apresentada por Moisés
1e 2 A concordância com a sú­
plica (um requisito para a
renovação da aliança)
3-5 Ascerimôniasde renovação
E. 10:10,11 A situação resultante para
Moisés. Em contraste com
o seu plano depois da que­
bra da aliança (9:14),'Deus
restaura a relação anterior
entre Moisés eo povo e dá-
lhe o papel de líder na ida
para a tomada daterra.
268
Uma vez reconhecido este aspecto le­
gal da quebra da aliança, e da renovação
dela, a história prossegue ininterrupta
até o seu fim. Este aspecto também
explica outro aspecto da história. A pas­
sagem paralela (Êx. 32) é muito padeci­
da,' porém difere na fraseologia. Uma
diferença está no uso da palavra pe­
cado. Nos lugares onde Êxodo 32 usa a
palavra, não é repetida em Deuteronô-
mio 9. Porém, Deuteronômio 9 introduz
a palavra diversasvezes em sua expansão
do texto mais curto e simples de Êxo­
do32.
Em 9:16, a fabricação do bezerro de
ouro se define como pecado contra o Se­
nhor. Em 9:18, o período de quarenta
dias que Moisés passou em arrependi­
mento em espírito de oração, em prol de
Israel, seexplicapor todo o vossopecado
quehavíeiscometido. Em 9:21, o pecado
de Israel novamente se identifica com o
bezerro. Em 9:27, Moisés implora a
Deus para não dar importância ao pre­
sente pecado dopovo.
Isso pode ser melhor entendido à luz
da formulação legal do texto como indi­
cando um pecado contra a aliança. Usa-
se uma palavra semelhante ao se descre­
vera infração das condições dos tratados
de paz dos hititas. Deuteronômio realça
o significado legal das ações pela repeti­
çãodesse termo.
A história conta, aparentemente, de
três períodos na montanha, embora o
arranjo do texto para se adequar às for­
mas legais confunda a descrição. O pri­
meiro é narrado em 9:9-15. O segundo é
narrado em 9:18,19,25-29 e 10:1,2. Esta
é a oração intercessória de Moisés que
também ocorreu na montanha. Um ter­
ceiro é relatado em 10:3-5, quando Moi­
sés subiu para receber a inscrição da lei,
nas segundas tábuas de pedra. As pri­
meiras duas subidas duraram 40 dias,
mas nada se diz sobre a duração desta
terceira subida.
8 Também em Horebe provocastes à ira
o Senhor, e o Senhor se irou contra vós para
vos destruir. 9 Quando subi ao monte a
receber as tábuas de pedra, as tábuas do
pacto que o Senhor fizera convosco, fiquei
no monte quarenta dias e quarenta noites;
não comi pão, nem bebi água. 10E o Senhor
me deu as duas tábuas de pedra, escritas
com o dedo de Deus; e nelas estavam escri­
tas todas aquelas palavras que o Senhor
tinha falado convosco no monte, do meio
do fogo, no dia da assembléia. 11 Sucedeu,
pois, que ao fim dos quarenta dias e quaren­
ta noites, oSenhorme deu as duas tábuas de
pedra, as tábuas do pacto. 12E o Senhor me
disse: Levanta-te, desce logo daqui, porque
o teu povo, que tiraste do Egito, já se cor­
rompeu; cedo se desviaram do caminho que
eu lhes ordenei; fizeram para si uma ima­
gem de fundição. 13 Disse-me ainda o Se­
nhor: Atentei para este povo, e eis que ele é
o povo de dura cerviz; 14 deixa-me que o
destrua, e apague o seu nome de debaixo do
céu; e fareideti nação mais poderosae mais
numerosa do que esta. IS Então me virei, e
desci do monte, o qual ardia em fogo; e as
duas tábuas do pacto estavam nas minhas
duasmãos. 16Olhei, e eisquehavíeispecado
contra o Senhor vosso Deus; tínheis feito
para vós um bezerro de fundição; depressa
vos tínheis desviado do caminho que o Se­
nhorvosordenara. 17Peguei então das duas
tábuas e, arrojando-as das minhas mãos,
quebrei-as diante dos vossos olhos. 18 Pros­
trei-me perante o Senhor, como antes, qua­
renta dias e quarenta noites; não comi pão,
nem bebi água, por causa de todo o vosso
pecado que havíeis cometido, fazendo o que
era mau aos olhos do Senhor, para o pro­
vocar à ira. 19 Porque temi por causa da
ira e do furor com que o Senhor estava irado
contra vós para vos destruir; porém ainda
essa vez o Senhor me ouviu. 20 O Senhor
se irou muito contra Arão para o destruir;
mas também oreia favor de Arão ao mesmo
tempo. 21 Então eu tomei o vosso pecado, o
bezerro que tínheis feito, e o queimei a fogo
e o pisei, moendo-o bem, até que se desfez
em pó; e o seu pó lancei no ribeiro que
descia do monte. 22Igualmente em Tabera,
e em Massá, e em Quibrote-Hataavá pro­
vocastes à ira o Senhor. 23 Quando também
o Senhor vos enviou de Cades-Baméia, di­
zendo: Subi, e possuí a terra que vos dei;
vós vos rebelastes contra o mandado do
Senhor vosso Deus, e não o crestes, e não
obedecestes à sua voz. 24Tendes sido rebel­
des contra o Senhor desde o dia em que vos
conheci.
Oversículo8forma a ponto do sermão
e mostra como a narrativa ilustra a ob­
269
servação feita pelo pregador de que Is­
rael não era justo, mas, sim, obstinado.
A narrativa retoma o relato feito por
Moisés, de suas experiências no monte
Horebe. As tábuas do pacto obviamente
continham o Decálogo. O versículo 10
enfatiza que as palavras do Decálogo fo­
ram as únicas palavras que Deus falou
diretamente ao povo em seu pronuncia­
mento da aliança comele.
Os quarenta dias e quarenta noites é
uma expressão usada em outros lugares
para registrar períodos completos de me­
ditação ou tentação (I Reis 19:8; Mat.
4:2). Estes textos também registram je­
jum pelo mesmoperíodo.
Moisés diz que as tábuas incluíam to­
das aquelaspalavras que o Senhor tinha
falado diretamente a Israel. Isso ressalta
seu próprio papel como mediador, que é
tão evidente através de toda esta passa­
gem. Entende-se que as leis restantes ha­
viam sido formuladas por Moisés (cf.
1:18). Deuteronômio não se esforça para
retratar Moisés como simplesmente o
transmissor da palavra falada de Deus à
maneira costumeira deLevítico.
O Senhorentregou a Moisés as tábuas,
assim indicando que a aliança fora for­
malmente ratificada (v. 11-17). Porém
Deus teve de reconhecer imediatamente
que eles já haviam quebrado a aliança.
Assim, as condições da aliança já não
tinham aplicação. O povo já não era o
“meu povo”, mas simplesmente o teu
povo. Nenhuma referência se faz de o
Senhor tê-lo tirado do Egito. Elejá não o
reconheceu e simplesmente diz que foi
Moisés quem o tirou de lá. Ele manda
que Moisés desça da montanha.
Então oSenhorindica quejá não tinha
nada avercomopovo e anuncia que este
receberia o seu justo julgamento de des­
truição. A Moisés ele propõe um novo
começo.ComotinhaprometidoaAbraão,
agora estava disposto a criar uma nova
naçãoa partir de Moisés.
Moisés então desce com as tábuas em
suas mãos. Seus olhos confirmam que o
pecado do povo já anulara de fato a
aliança. Reconhece esse fato quebrando
os documentos da aliança que estava car­
regando. As tábuas despedaçadas aban­
donadas navertente da montanha simbo­
lizavam efetivamente a aliança invali­
dada.
Quando Israel ouvia estas palavras sé­
culosmaistarde, o povo se lembrava que
era ainda obstinado e rebelde. Tinha as
palavras do profeta soando em seus ou­
vidos como o nome do filho de Oséias:
“Lo-Ami (Não-meu-povo); porque vós
não sois meu povo, nem sou eu vosso
Deus” (Os. 1:9); ou como as palavras de
Amós: “Chegou o fim sobre o meu povo
Israel” (Am. 8:2). Certamente reconhe­
ciam que esteponto da narrativa lhes era
particularmente pertinente eaplicável.
Outro período de quarenta dias e qua­
renta noites que Moisés passou prostra­
do perante o Senhor é mencionado nos
versículos 18-21. Aparentemente teve lu­
gar novamente na montanha. Jejum e
prostração eram sinais de arrependimen­
to, em busca da reconciliação, face ao
temor das conseqüências da quebra da
aliança.
O texto foi expandido nos versículos
19b,20. Aprimeira declaraçãojá registra
a resposta do Senhor, apesar de esta per­
tencer propriamente à história do fim do
capítulo. De fato, aparece em 10:10,
onde é mais apropriada. A segunda de­
claração aplica a ira do Senhor especifi­
camente a Arão e ressalta o papel de
Moisésem intercederpor ele. Fora disso,
Arão não desempenha nenhum papel na
história e não pode ter tido nenhum mo­
tivooriginalpara ser mencionado aqui.
Os versículos 22-24 retomam o tema
do versículo 7 e acrescentam outras oca­
siões que ilustram a atitude obstinada e
rebelde de Israel. Destaca-se a experiên­
cia com o relatório dos espias, e então
segue a afirmação generalizada: Tendes
sido (sempre) rebeldes contra o Senhor.
Aimplicação sendo: “E ainda sois!”
270
25 Assim me prostrei perante o Senhor;
quarenta dias e quarenta noites estive pros­
trado, porquanto o Senhor ameaçara des­
truir-vos. 26 Orei ao Senhor, dizendo: Ó Se­
nhor Jeová, não destruas o teu povo, a tua
herança, que resgataste com a tua grande­
za, .que tiraste do Egito com mão forte.
21 Lembra-te dos teus servos, Abraão, Isa-
que e Jacó; não atentes para a dureza deste
povo, nem para a sua iniqüidade, nem para
oseu pecado;28para que o povo da terra de
onde nos tiraste não diga: Porquanto o Se­
nhor não pôde introduzi-los na terra que
lhes prometera, passou a odiá-los, e os tirou
para os matar no deserto. 29 Todavia são
eles o teu povo, a tua herança, que tiraste
com a tua grande força e com o teu braço
estendido.
1 Naquele mesmo tempo me disse o Se­
nhor: Alisa duas tábuas de pedra, como as
primeiras, e sobe a mim ao monte, e faze
uma arca de madeira. 2 Nessas tábuas es­
creverei as palavras que estavam nas pri­
meiras tábuas, que quebraste, e as porás na
arca. 3 Assim, fiz uma arca de madeira de
acácia, aliseiduas tábuas de pedra, como as
primeiras, e subi ao monte com as duas
tábuas nas mãos. 4 E então o Senhor escre­
veu nas tábuas, conforme a primeira escri­
tura, os dez mandamentos, que ele vos fala­
ra no monte, do meio do fogo, no dia da
assembléia; e o Senhor mas deu a mim.
5 Virei-me, pois, desci do monte e pus as
tábuas na arca que fizera; e ali estão, como
oSenhorme ordenou.
A seção contando da renovação da
aliança (9:25-10:5) começa com uma re­
petição da ação intercessória de Moisés
em prol de Israel. A importância da
intercessão efetiva é realçada em vários
trechos do Antigo Testamento (Gên. 18:
23-32; 20:7,17; Is. 53:12; 59:16; Jer.
7:16; 27:18). Porém Moisés é o interces­
sor por excelência. Como mediador da
aliança, intercessor pelo povo pecador e
portador vicário de seu pecado, ele é o
tipo do profeta, sacerdote esofredorvicá­
rio, em prol de seu povo, que plasmou o
pensamento ea esperança messiânicos de
Israel.
Na sua oração, Moisés lembra o Se­
nhor que os israelitas eram o povo dele,
emvirtude de seu grande ato redentor de
tirá-los do Egito. Lembra-lhe os patri­
arcas. E então usa um argumento que
indicao efeito que semelhantejulgamen­
to teria sobre a reputação do Senhor.
Esta compreensão do motivo do autocon­
trole do Senhor para com o pecado de
Israel éexposta plenamente por Ezequiel
20, pela frase: “O que fiz... foi por amor
do meu nome.”
Moisés está efetivamente expondo em
sua súplica que o Senhor já estava iden­
tificado com este povo, pela aliança, em
tal medida que não deveria levar em con­
sideração a sua dureza, iniqüidade ou
pecado. O Senhor é convencido. Como
10:10 relata, “o Senhor não te quis des­
truir”.
O Senhor ordenou a Moisés que fizesse
outras duas tábuas, para serem gravadas
precisamente como as duas primeiras.
Moisés fez uma arca para servir de casa
para elas, recebeu as tábuas já inscritas
e colocou-as nâ arca, como lhe fora or­
denado. O sinal oficial da aliança reno­
vadafoi dado pela mediação deMoisés.
Não se menciona a arca em Êxodo 32.
Este entendimento da arca como a casa
das tábuas da Lei (I Reis 8:9) é muito
diferente daquela que o concebe como o
lugar do trono do Senhor (Núm. 10:35 e#
s.; I Sam. 4:4; Jer. 3:16). Mas este ponto
devistaétípico da perspectiva não-ritua-
lista de Deuteronômio acerca das coisas
que se relacionam com o culto. Para
Deuteronômio, não é tanto a arca que é
significativa e importante, mas, sim, a
aliança, da qual a arca ésimbólica.
Aassembléiaposterior seriaconsciente
que a aliança era ainda uma realidade
presente, ou, ao menos, uma possibili­
dade. Israel deveria estar consciente de
que o seu julgamento em Horebe ainda
lheera apropriado. Mas certamente tam­
bém sabia, com algum espanto, que não
existia nenhum mediador contemporâ­
neo que pudesse interceder tão eficaz­
mente pela reconciliação como fizera
Moisés.
6 (Ora, partiram os filhos de Israel de
Beerote-Bene-Jaacã para Mosera. Ali fale-
271
ceu Arão e lol sepultado; e Eleazar, seu
filho, administrou o sacerdócio em seu lu­
gar. 7 Dali partiram para Gudgoda, e de
Gudgoda para Jotbatá, terra de ribeiros de
águas. 8Por esse tempo o Senhor separou a
tribo de Levi, para levar a arca do pacto do
Senhor, para estar diante do Senhor, servin-
do-o,e para abençoar em seu nome até odia
de hoje. 9 Pelo que Levi não tem parte nem
herança com seus irmãos; o Senhor é a sua
herança, comoo Senhorteu Deus lhe disse.)
10Também, como antes, eu estive no monte
quarenta dias e quarenta noites; e o Senhor
me ouviu ainda essa vez; o Senhor não te
quis destruir; 11 Antes disse-me o Senhor:
Levanta-te, põe-te a caminho diante do
povo; eles entrarão e possuirão a terra que
com juramento prometi a seus pais lhes
daria.
Os versículos 6-9 constituem duas in­
terpolações no texto. Uma conta, sim­
plesmente, das viagens no deserto e a
morte deArão. Não é possível correlacio­
ná-la com os outros relatos das viagens
de Israel ou com outros relatos da morte
deArão.
Osversículos 8 e 9 se referem à autori­
dade e às tarefas dos levitas. Por esse
temporefere-se, provavelmente, ao versí­
culo 5. São-lhes atribuídas quatro tare­
fas: (1) Levara arcado pacto do Senhor.
É provável que cabia aos levitas carrega­
rem a arca em procissões durante o pe­
ríodo da monarquia. Registra-se que
Davi delegou a incumbência do canto
àqueles que carregavam a arca (I Crôn.
16). (2) Estar diante do Senhor, servin-
do-o provavelmente incluía as tarefas sa­
crificais, bem como o serviço de media­
dores dos oráculos divinos. (3) Abençoar
no nome do Senhor era uma marca de
grande privilégio (cf. a bênção aarônica
em Núm. 6:22-27). (4) Os levitas goza­
vam do privilégio de receber o seu sus­
tento de ofertas trazidas ao Senhor.
Éissoque sequer dizer por O Senhoré a
sua herança(cf. Núm. 18:20). Não com­
partilhariam de uma herança em Canaã
comofariam as demais tribos.
O versículo 10 confirma os resultados
positivos da intercessão de Moisés peran­
te o Senhor. A renovação da nomeação
de Moisés, por parte do Senhor, para
dirigiropovo em sua marcha até a Terra
Prometida, éconfirmada noversículo 11.
O versículo traz um certo toque de sen­
timento, pois o escritor (ou leitor) pos­
terior saberia que Moisés não ia entrar
na terra. O motivo da discrepância re-
laciona-se com a recusa do povo de en­
trar a partir de Cades-Baméia (1:37) e é
confirmado por uma oração posterior,
queDeus negou-se a aceitar(3:23-29).
A narrativa preparou o povo para en­
tender sua natureza, que fez com que
violasse a aliança, e também para enten­
der a disposição do Senhor para renová-
la. À luz deste pano de fundo, é pregado
osermão que segue.
(3) Sermão(10:12-11:32)
Na realidade, este parece ter sido o
primeiro sermão sobre o Primeiro Man­
damento (ver a Introdução). Ê construí­
doem tomo de breves reafirmações posi­
tivas do mandamento (10:12,13,20;
11:1), a que são ligadas breves declara­
ções de apoio da história da salvação
israelita(10:14,15,21,22). Acham-seecos
destas formulações do Primeiro Manda­
mentoem 11:13,22.
A estrutura em si, do sermão, baseia-
se em quatro verbos, que possuem uma
forma gramatical comum, chamada de
“perfeito de correlação”. 19Pelo uso des­
ses verbos, opregador indicou a unidade
e asdivisões de seu sermão. Cada um dos
verbos se relaciona diretamente com a
afirmação inicial, em 10:12,13, como
uma verdade correlacionada, que surge
da original e é-lhe paralela. Contudo,
são, com igual clareza, de origem distin­
ta, pois estão coerentemente na segunda
pessoa do plural, enquanto as formula­
çõesmaiscompactas mencionadas acima
éstão no singular. Cada uma delas é,
então, apoiada em uma seção começada
19 Cf. J. Wash Watts, A Sorve; of Sjntax In the Hebrew
Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, ed. rev.,
1964), p. 47 es.
272
com as partículas “porquanto” ou “por­
que”. Estas seções acrescentam provas
convincentes do tratamento anterior de
Israel por parte de Deus, que devia per­
suadi-lo a se conformar com as exorta­
ções.
a. OQue£ Queo SenhorRequer?
(10:12-15)
12 Agora, pois, óIsrael, que é que o Senhor
teu Deus requer de ti, senão que temas o
Senhor teu Deus, que andes em todos os
seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor
teu Deus de todo o teu coração e de toda a
tua alma, 13 que guardes os mandamentos
do Senhor, e osseus estatutos, que eu hoje te
ordenopara oteu bem? 14Eis que do Senhor
teu Deus são o céu e o céu dos céus, a terra
e tudo o que nela há. 15Entretanto o Senhor
se afeiçoou a teus pais para os amar; e
escolheu a sua descendência depois deles,
isto é, a vós, dentre todos os povos, como
hoje se vê.
O únicoparalelo que se acha a isto nas
Escrituras está em Miquéias 6:8. Porém,
sob escrutínio, a semelhança aparente
desaparece. Lá as palavras são dirigidas
aohomem, enão a Israel. O vocabulário,
tanto do esboço formal como do conteú­
do, é diferente. A semelhança está só na
técnica oratória ou pedagógica, para
lembrar ao povo de algo que sabe mui
bem. Issoéa reafirmação positiva doPri­
meiro Mandamento. A forma negativa,
como a do Decálogo, é notada posterior­
mente nosermão(11:16,28).
As afirmações positivas em 10:21 e
11:1,12,13,22 realçam e repetem duas,
três ou quatro vezes uma série de pala­
vras para esta afirmação positiva do
mandamento:
TemeroSenhor 10:12,20
Andar em todos os
seuscaminhos 10:12; 11:22
Amar ao Senhor 10:12; 11:1; 13,22
Servir ao Senhor teu
Deus 10:12,20; 11:13
Guardar os Manda­
mentos 10:13; 11:1,8,13,22
Apegar-se aoSenhor 10:20; 11:22
Jurarpelo seu nome 10:20
A lista é instrutiva pela maneira como
liga atitudes com expressões práticas em
termos de feitos: temer, com andar em
todos os seus caminhos; amar, com ser­
viço (culto) e o guardar dos mandamen­
tos; o apegar-se a Deus, com o jurar
somente no nome dele. Isto é tão típico
de tudo nestes sermões e em Deuteronô-
mio. A chamada ao comprometimento
e vida espirituais é ligada constantemen­
te àlembrança deexigênciasespecíficase
práticas. Jesus demonstra algo da mes­
ma ênfase em suas palavras: “Se me
amardes, guardareis os meus manda­
mentos” (João 14:15).
Na linguagem e estrutura de pensa­
mento do Oriente Médio, “temor” ex­
pressava a atitude básica de reverência
apropriada perante o santo e poderoso
Deus. Seu temor é paralelo ao ser, sepa­
rado e diferente, da divindade que fazia
com que ninguém se aproximasse de­
mais. É a atitude da verdadeira adora­
ção. Temer a Yahweh é reconhecê-lo
plenamente como Deus. Porém a frase
em Deuteronômio nunca permite a co­
notação do pavor cego perante o desco­
nhecido. Yahweh é o “nosso Deus”, li­
gado ao adorador cheio de temor pelas
promessas e formas da aliança. Este te­
mor não precisa ser nenhum medo, sem
fundamento, do inesperado ou do arbi­
trário. Antes, as reivindicações feitas,
por parte de Deus, do cultuador, eram
bem conhecidas, precisamentecomoago­
ra são repetidas. Ao israelita que as
buscou, a sua misericórdia já fora pro­
metida ea suagraça era segura.
Acompanhando esta atitude de ado­
ração, está o pedido divino para que
andesem todos os seus caminhos — um
estilo de vida plasmado pelas instruções
do próprio Deus devia estar sempre pre­
sente, quer se estivesse de costas viradas
para o altar, enquanto ocupado na vida
de trabalho, quer quando se estivesse
voltadopara oaltar, em atitude de culto.
AvidacomDeusexpressa como um “an­
dar nos seus caminhos” encontra ecos
273
também no Novo Testamento (Rom. 6:4;
I Cor. 7:17).
Aterceira reivindicação volta à atitude
que um súdito devia ter para com o seu
leal Senhor: a de amor. Já se definiu essa
atitude no capítulo 6 como sendo a de
lealdade total.
“Servir” normalmente descreve o tra­
balho de um escravo. Mas na linguagem
técnicareligiosa se refere a atos de culto.
Ê paralelo à admoestação que guardes
(todos) os mandamentos ordenados na­
quele dia.
A soma destas reivindicações era o
reconhecimento de que o Senhor, em ser
seu Deus, esperava nada menos do que
sualealdadeeobediênciatotais para com
elecomooSenhor da aliança.
O versículo 14 realça a grandeza de
Deus com um louvor poético, tal como o
achado nos Salmos do Templo de Jerusa­
lém.
Os céus e océu dos céus, bem como a
terra, são dele. Mesmo assim, ele deter­
minara amar os pais deles e então ele­
geu a semente deles, depois deles, para
serpropriedade sua. Comisso, o tema de
pano de fundo da eleição, que ressoa
através de todo o livro de Deuteronômio,
se destaca de novo: Deus, em toda a sua
majestade e grandeza universal, tinha-se
identificado com o pequeno e doutra
forma insignificante Israel. Nessa base,
ele requeria lealdade e obediência da
parte de seupovo.
Até aqui a passagem falou sempre na
forma de endereçamento da segunda pes­
soa do singular. Mas, então, no fim do
versículo 15, muda, para dar destaque ao
grupo presente, reunido para a renova­
ção da aliança, a vós, dentre todos os
povos, como hoje se vê. O credo e as exi­
gências que tinham sido proclamados
tradicionalmente a Israel, nas cerimônias
pactuais, através de todos os séculos,
desde quando Moisés, pela primeira vez,
fez ressoar esta chamada, são reivindica­
dos e proclamados como válidos para o
Israel contemporâneo hoje. Esta é a gló­
ria do “evangelho” deste livro. Enfatiza
repetidas vezes o tema de que a mara­
vilhosaoferta da graça de Deus na alian­
ça ou pacto era precisamente tão válida
agora, hoje, quanto era quando promul­
gadapela primeira vez. Isto era verdade,
apesar dos fatos evidentes dopecado e da
apostasia de Israel através dos séculos.
A oferta da graça da parte de Deus, era
tão nova então quanto quando inicial­
mente promulgada. Quando encara a
Deus face a face, o povo tem plena opor­
tunidade para a fé e obtém os frutos que
brotam para aqueles que aceitam a ofer­
ta divinacomfé.
Devemos notar que a base teológica
para as exigências de Deus jaz em seu
direito de propriedade sobre os céus e a
terra, presumivelmente porque ele os
criou, e em sua eleição dos patriarcas.
Os temas costumeiros relacionados com
êxodo e o Sinai surgem mais adiante,
neste capítulo.
b. CircuncidaiosVossos Corações
(10:16-22)
16 Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso
coração, e não mais endureçais a vossa ser-
viz. 17Pois oSenhorvosso Deusé o Deus dos
deuses,eoSenhordossenhores,oDeus gran­
de, poderoso e terrível, que não faz acepção
depessoasnem recebe peitas; 18que fazjus­
tiça ao órfão e à viúva, e ama oestrangeiro,
dando-lhe pão e roupa. 19 Pelo que amareis
o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na
terra do Egito. 20Ao Senhor teu Deus teme­
rás; a ele servirás, e a ele te apegarás, e
pelo seu nome jurarás. 21Ele é o teu louvor
e o teu Deus, que te fez estas grandes e
terríveis coisas que os teus olhos têm visto.
22Comsetenta almas teus pais desceram ao
Egito; e agora o Senhor teu Deus te fez, em
número, como as estrelas do céu.
Esta primeira de quatro seções do ser­
mão requer uma mente que esteja aberta
para Deus. A ilustração usada é tirada
do rito da circuncisão. O significado pri­
mitivo deste costume não nos é conheci­
do. Pode ser traçado retrospectivamente
até Abraão (Gên. 17:10,11), como um
sinal da aliança de Deus comeleecom os
seus descendentes. Era considerado um
274
pré-requisito para a participação na
aliança mosaica (Jos. 5:2-9). É possível
que tenha significado dedicação e purifi­
cação até antes que Jeremias o usou
numa forma paralela a esta (4:4). O ser­
mão retoma o tema da contumácia ,do
povó da Introdução (9:6) e da seção his­
tórica (9:13 e s.). Convoca-o a remover
toda a obstrução às relações ininterrup­
tas com o Senhor em sua aliança. Em
assimfazendo, isto lhe possibilitará cum­
prir as exortações iniciais e as chamadas
contínuas para temer, andar, amar e
servir.
A súplica é apoiada em uma recorda­
ção da grandeza de Deus, a quem, em
virtude da aliança, opovo podia conside­
rar seu. Esta tônica é a que muitas vezes
se acha nos grandes hinos do livro de
Salmos. Seu poder e autoridade fazem
dele, de fato, Deus acima de deuses e
Senhor acima de todos os senhores. Seu
governoé absoluto eúltimo. Destevôoda
oratória se deriva este ponto sóbrio e dis­
tinto: elenão faz acepçãode pessoas nem
recebe peitas. A grandeza de Deus fá-lo
independente de qualquer pressão ou
necessidades perante que as peitas exer­
çam qualquer atrativo. Ele é um Deus de
justiça.
Otema dajustiça conduz aopatrocínio
divino dos fracos e indefesos. Deus re­
quer justiça para com todos os homens.
Mas elemesmo assume a defesa daqueles
que não têm direitos civis próprios: o ór-
fão,aviúvaeoestrangeiro. Este último é
um nâo-cidadão um tanto parecido com
o trabalhador migrante. Urgia aos israe­
litas abandonarem os seus preconceitos e
suas idéias egoístas. Somente então po­
deriam entender o que seu grande Deus
esperava deles, e estar numa posição que
possibilitasse a obediência.
Segue que as preocupações de Deus
seriam também as de Israel. Deus se
preocupa com o bem-estar do estrangei­
ro. De maneira que se manda ao israelita
que ame ao estrangeiro. E, no caso de
achar isso difícil, é-lhe feito lembrar que
seus antepassados estavam em situação
semelhante noEgito.
Os apelos do versículo 12 são retoma­
dos. Acrescenta-se mais um: pelo seu
nomejurarás. A implicação desta frase é
que os juramentos só podiam ser feitos
no nome do Senhor, e não no de qual­
quer outro. Isto ainda está dentro da
gama de atos religiosos pelos quais se
mostra sua rígida lealdade ao Senhor
somente. O Decálogo também enfatiza a
importância de se reconhecer a gravida­
de de um juramento prestado no nome
do Senhor(5:11).
0 versículo22cita um aspecto da obra
miraculosa de Deus no Egito: grande
crescimento. Entraram no Egito apenas
70 pessoas (Êx. 1:5). Porém, antes de
saírem, tinha-se multiplicado de manei­
ra notável (Êx. 1:7; Núm. 1). A passa­
gemretoma o tema das promessas, feitas
a Abraão, de uma grande nação e um
povoincontável(Gên. 22:17).
c. ConsideraiaDisciplinado Senhor
(11:1-7)
1 Amarás, pois, ao Senhor teu Deus, e
guardarás as suas ordenanças, os seus esta­
tutos, os seus preceitos e os seus manda­
mentos, por todos os dias. 2 Considerai hoje
(pois não falo com vossos filhos, que não
conheceram, nem viram) a instrução do
Senhor vosso Deus, a sua grandeza, a sua
mão forte, e o seu braço estendido; 3os seus
sinais, as suas obras, que fez no meio do
Egito a Faraó, rei do Egito, e a toda a sua
terra; 4 o que fez ao exército dos egípcios,
aos seus cavalos e aos seus carros; como
fez passar sobre eles as águas do Mar Ver­
melho, quando vos perseguiam, e como o
Senhor os destruiu até o dia de hoje; 5o que
vos fez no deserto, até chegardes a este
lugar; 6e o que fez a Datã e a Abirão, filhos
de Eliabe, filho de Rúben; como a terra
abriu a boca e ostragou com as suas casas e
as suas tendas, ebem assim todoser vivente
que lhespertencia, no meio de todo o Israel;
7porquanto osvossos olhos são os que viram
todasas grandes obras que fez oSenhor.
Uma recordação da exortação básica
conduz à segunda seção do sermão e
275
requer estudo e consideração cuidadosos
da disciplina ou instrução do Senhor.
Uma mente preparada, dedicada e livre,
está disposta a reconhecer a obra e os
caminhos de Deus. A revelação da disci­
plina do Senhor mostra a sua grandeza e
também os sinais e maravilhas de sua
obra.
O conteúdo destes versículos reporta-
se a partes da viagem do êxodo. Os atos
feitos a Faraó são uma referência às
pragas (Êx. 7-11). O ato contra o exér­
cito de Faraó é descrito com mais por­
menores, como o afogamento relaciona­
do à travessia do Mar Vermelho (Êx.
14:26-28). O ato contra Datã e Abirão
teve lugar na viagem do deserto, porque
rebelaram-se contra mandamentos dados
através de Moisés(Núm. 16:1-35).
O conhecimento que Israel tinha de
Deus proviera através da experiência de
Seusgrandes feitos. Pode-se assim admi­
tir que estava numa posição de poder
cumprir esta exortação em questão, por­
queosvossosolhossãoosque viram tudo
quanto
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    Todososdireitosreservados. Copyright ©1994da Juntade Educação Religiosae Publi­ caçõesdaConvençãoBatistaBrasileira.Direitoscedidos,mediantecontrato,porBroadman Press, Nashville, Tennessee, USA. Copyright © 1969by Broadman Press. Allen, Clifton J., ed. ger. A425c ComentárioBíblicoBroadman/EditadoporCliftonJ.Alien.Tradução de Arthur Anthony Boorne. 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1994. v. 2. 552p. 23 cm. TituloOriginal: The Broadman Bible Commentary 1. Bíblia — Velho Testamento —Comentários. 2. Velho Testamento —Comentários. I. Titulo CDD — 220.7 Coordenação Editorial Josemar de Souza Pinto Edição de Arte Nilcéa Pinheiro Capas Valter Karklis ISBN 85-350-0041-0 Código para pedidos: 215031 Junta de Educação Religiosae Publicações da Convenção Batista Brasileira Caixa Postal 320 —CEP: 20001-970 Rua SilvaVale, 781 —Cavalcânti —CEP: 21370-360 Rio de Janeiro, RJ —Brasil 3.000/1994 Impresso em gráficas próprias.
  • 5.
    COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN Volume2 JuntaEditorial EDITOR GERAL Clifton ]. Allen, Ex-Secretário Editorial da Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. Editores Consultores doVelhoTestamento John I. Durham, ProfessorAssociado de Interpretação doVelho Testamen­ toeAdministrador Adjunto do Presidente do Seminário Batista do Sudoes­ te, Wake Forest, North Carolina, Estados Unidos. RoyL. Honeycutt Jr., Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminá­ rio Batista do Centro-Oeste, Kansas City, Missouri, Estados Unidos. Editores Consultores do NovoTestamento J. W. MacGorman, Professor de Novo Testamento, Seminário Batista do Sudoeste, Forth Worth, Texas, Estados Unidos. Frank Stagg, Professor de Novo Testamento da James Buchanan Harrison, SeminárioBatista do Sul, Louisville, Kentucky, Estados Unidos. CONSULTORES EDITORIAIS Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. William J. Fallis, Editor Chefe de Publicações Gerais da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. Joseph F. Green, Editor de Livros de Estudo Bíblico da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
  • 7.
    Junta deConsultores Clifton I.Alien, ex-Secretário Editorial, Junta Batista de Escolas Dominicais da SBC J. P. Alien, Pastor, Igreja Batista de Broadway, Forth Worth JohnE. Barnes, Jr., Pastor, Igreja Batis­ ta deMain Street, Hattiesburg Olin T. Binkley, Presidente, Seminário Teológico Batista do Sudeste, Wake Forest, North Carolina WilliamJ. Brown, Gerente, Departamen­ to Oriental, Livrarias Batistas, Junta Batista de Escolas Dominicais John R. Claypool, Pastor, Igreja Batista deCrescentHill, Louisville, Kentucky Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta Batista de Escolas Dominicais ChaunceyR. Daley, Jr., Editor, Western Recorder, Middletown, Kentucky Joseph R. Estes, Secretário, Departa­ mento de Obra Relacionada aos Não- evangélicos, Junta Batista de Missões Nacionais da Southern Baptist Con­ vention William J. Fallis, Editor-Chefe, Livros Religiososem Geral, Broadman Press Allen W. Graves, Deão, Escola de Edu­ cação Religiosa, Seminário Teológico Batista do Sul, Louisville, Kentucky Joseph F. Green, Editor, Livros de Estu­ doBíblico, Broadman Press Ralph A. Herring, ex-Diretor, Departa­ mento de Extensão Seminarial, Con­ venção Batista do Sul Herschel H. Hobbs, Pastor, Primeira Igreja Batista, Oklahoma City Warren C. Hultgren, Pastor, Primeira Igreja Batista, Tulsa Lamar Jackson, Pastor, Igreja Batista Meridional, Birmingham L. D. Johnson, Capelão, Universidade Furman J. Hardee Kennedy, Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminário Teológico Batista de NewOrleans HermanL. King, Diretor, Divisão de Pu­ blicação, Junta Batista de Escolas Dominicais da SBC William W. Lancaster, Pastor, Primeira Igreja Batista, Decatur, Georgia Randall Lolley, Pastor, Primeira Igreja Batista, Winston-Salem C. DeWitt Mathews, Professor de Prega­ ção, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste John P. Newport, Professor de Filosofia da Religião, Seminário Teológico Ba­ tista do Sudoeste Lucius M. Polhill, ex-Secretário Exe­ cutivo, Associação Geral Batista de Virgínia Porter Routh, Secretário Executivo Te­ soureiro, Comissão Executiva, Con­ venção Batista do Sul John L. Slaughter, ex-Pastor, Primeira Igreja Batista, Spartanburg R.HoustonSmith, Pastor, Primeira Igre­ ja Batista, Pineville, Louisiana James L. Sullivan, Secretário Executivo, Junta Batista de Escolas Dominicais Ray Summers, Presidente, Departamen­ to de Religião, Universidade de Bay­ lor Charles A. Trentham, Pastor, Primeira Igreja Batista, Knoxville Keith von Hagen, Diretor, Divisão de Livraria, Junta Batista de Escolas Dominicais J. R. White, Pastor, Primeira Igreja Ba­ tista, Montgomery Conrad Willard, Pastor, Igreja Batista Central, Miami Kyle M. Yates, Jr., Professor de Reli­ gião, Universidade Estadual de Okla­ homa
  • 9.
    Colaboradores CliftonJ. Allen, JuntaBatista de Escolas Dominicais (aposentado): Artigo Ge­ ral Morris Ashcraft, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste: Apocalipse G. R. Beasley-Murray, Faculdade Spur­ geon, Londres: II Coríntios T. Milles Bennett, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Malaquias ReidarB. Bjornard, Seminário Teológico Batista do Norte: Ester James A. Brooks, Seminário Teológico Batista de NewOrleans:Artigo Geral Raymond Bryan Brown, Seminário Teo­ lógico Batista do Sudeste:I Coríntios John T. Bunn, Universidade Campbell: Cântico dos Cânticos; Ezequiel JosephA. Callaway, SeminárioTeológico Batista do Sul:Artigo Geral E. Luther Copeland, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudeste: Artigo Geral Bruce C. Cresson, Universidade Baylor: Obadias Edward R. Dalglish, Universidade Bay­ lor:Juizes; Naum John I. Durham, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Salmos; Artigo Geral Frank E. Eakin, Jr., Universidade de Richmond: Sofonias Clyde T. Francisco, Seminário Teológico Batista do Sul: Gênesis; I e I I Crôni­ cas; Artigo Geral D. David Garland, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Habacuque A.J. Glaze, Jr., Seminário Internacional Teológico Batista, Buenos Aires: Jo­ nas James Leo Green, Seminário Teológico Batista do Sudeste:Jeremias Emmett Willard Hamrick, Universidade de Wake Forest: Esdras; Neemias William L. Hendricks, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudoeste: Artigo Ge­ ral E. Glenn Hinson, Seminário Teológico Batista do Sul: I e I I Timóteo; Tito; Artigo Geral Herschel H. Hobbs, Primeira Igreja Ba­ tista, Oklahoma City: I e I I Tessalo- nicenses RoyL. Honeycutt, Jr., Seminário Teoló­ gico Batista do Centro-Oeste: Êxodo; I I Reis; Oséias William E. Hull, Seminário Teológico Batista do Sul:João PageH. Kelley, Seminário Teológico Ba­ tista do Sul:Isaías J. Hardee Kennedy, Seminário Teológi­ coBatista de NewOrleans: Rute; Joel Robert B. Laurin, Seminário Americano Batista do Oeste:Lamentações John William Macgorman, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Gá- latas Edward A. McDowell, Seminário Teoló­ gicoBatista do Sudeste (aposentado): I, I I eIII João Ralph P. Martin, Seminário Teológico Fuller: I Reis Dale Moody, Seminário Teológico Batis­ ta do Sul: Romanos William H. Morton, Seminário Teológi­ co Batista do Centro-Oeste:Josué Barclay M. Newman, Jr., Sociedade Bí­ blicaAmericana:Artigo Geral
  • 10.
    John P. Newport,Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Artigo Geral JohnJosephOwens, Seminário Teológico Batista do Sul: Números; Jó (com TateeWatts); Daniel WayneH. Peterson, Seminário Teológico Batista Golden Gate: Eclesiastes Ben F. Philbeck, Jr., Faculdade Carson- Newman:I eII Samuel William M. Pinson, Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Sudoeste: Artigo Geral Ray F. Robbins, Seminário Teológico Batista de NewOrleans: Filemom EricC. Rust, Seminário Teológico Batis- tista do Sul:Artigo Geral B. Elmo Scoggin, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Miquéias; Artigo Geral Burlan A. Sizemore Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Centro-Oeste: Ar­ tigo geral David A. Smith, Universidade Furman: Ageu Ralph L. Smith, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Amós T. C. Smith, Universidade Furman: Atos; Artigo Geral Harold S. Songer, Seminário Teológico Batista do Sul: Tiago Frank Stagg, Seminário Teológico Ba­ tista do Sul: Mateus; Filipenses Ray Summers, Universidade Baylor: I e II Pedro; Judas; Artigo Geral Marvin E. Tate, Jr., Seminário Teológico Batista do Sul: Jó (com Owens e Watts): Provérbios Malcolm O. Tolbert, Seminário Teológi­ co Batista de NewOrleans: Lucas Charles A. Trentham, Primeira Igreja Batista, Knoxville: Hebreus; Artigo Geral Henry E. Turlington, Igreja Batista Uni­ versitária, Chapel Hill, Carolina do Norte: Marcos John S. W. Watts, Faculdade Serampo- re, Serampore, índia: Deuteronômio; Jó (com Owense Tate);Zacarias R. E. O. White, Faculdade Teológica Batista, Glasgow: Colossenses
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    Prefácio O COMENTÁRIO BÍBLICOBROADMAN apresenta um estudo bíblico atualizado, dentro do contexto de uma fé robusta na autoridade, adequação e confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e orientação para ocrente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são limitadas às informaçõesessenciais. Osescritoresforam cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o significado do texto. Elesenfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os seuspontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões alternativas, quando estas são esposadas por outros sérios e bem-informados estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser consideradoscomoa posiçãooficial do editor. O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação. A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos —especialmente pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas deliberações, em 1961, ajunta de consultores que dirige a Editora autorizou a publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram, em 1966, à escolha de um editor geral e de uma Junta Consultiva. Esta junta de pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966, revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram cumpridas à medida que oCOMENTÁRIO se foi desenvolvendo. No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o VelhoTestamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral, esseshomens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos
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    escritores e naavaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos funcionários da Editora que trabalharam com eles. Aescolhada Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “de acordo com os melhores textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­ ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios autores doscomentários. Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura estabelecer uma combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo abertamente que a natureza dosvárioslivros e o espaço destinado a cada um deles modificará adequadamente a aplicação desta abordagem. Os artigos gerais que aparecem no Volume 8 têm o objetivo de prover material subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração, deveréticoe missões mundiais da igreja. O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis. Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­ mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra deDeus naEscritura ena Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas e da humanidade, no mundo de Deus. Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do significado com a experiência. O seuobjetivoé respirar a atmosfera de relação com a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior clarezao que Deus Pai está-lhes dizendo.
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    Sumário Levítico RonaldE. Clements Introdução................................................................... ComentárioSobreo Texto......................................... Números JohnJoseph Owens Introdução................................................................... Comentário Sobre oTexto......................................... Deuteronômio John D. W. Watts Introdução............................................................... Comentário Sobre oTexto....................................... Josué WilliamH. Morton Introdução................................................................. Comentário SobreoTexto....................................... Juizes EdwardR. Dalglish Introdução................................................................. Comentário Sobre oTexto....................................... Rute J. HardeeKennedy Introdução............................................................... Comentário Sobre oTexto.......................................
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    LevíticoRONALD E. CLEMENTS Introdução I.Título, PropósitoeConteúdo O título português “Levítico” teve a sua origem naquele queencabeçavaoter­ ceiro livro de Moisés na Septuaginta, a tradução antiga do Antigo Testamento para o grego, onde se chama de Leuiti- kon, “O (livro) Levítico”. Ele passou para a versão Vulgata Latina como “Li­ ber Leviticus” e dela para o português. Na Bíblia Hebraica, chama-se pela sua palavra inicial Wayyiqra (“E ele cha­ mou”), de acordo com o costumejudaico antigo de usar a palavra ou frase inicial deum livrocomo seu título. O título português descreveolivro pelo seu conteúdo, pois contém assuntos de interesse levítico, embora os mesmos le­ vitas sejam referidos somente em 25:32- 34. O título é, porém, plenamente jus­ tificado no sentido de que o livro trata extensivamente de assuntos referentes ao culto que era uma preocupação especial dos sacerdotes, aos quais os levitas esta­ vam ligados pelo exercício de uma espé­ cie de ministério auxiliar. O livro como um todo, portanto, deriva o seu caráter especial de sua preocupação com o regu­ lamento docultoe com as exigências que essecultoimpunha sobre a vida e condu­ ta doshomens e das mulheres em Israel. Instruções dirigidas a cada israelita estão intimamente entrelaçadas com as que se relacionavam, com muito mais particularidade, com a comunidade sa­ cerdotal. Além disso, muitos dos regula­ mentos que regiam a conduta dos cida­ dãos comuns teriam sido ensinados ao povo pelos sacerdotes, que também vela­ vam pelo seu cumprimento. Assim, há, através do livro todo, um interesse leví­ tico, ou sacerdotal, constante, embora grande parte de seu conteúdo fosse diri­ gida aos cidadãos israelitas comuns. Se­ ria um engano, portanto, interpretar a preocupação sacerdotal do livro como indicação de que ele tratasse somente de regulamentos que diziam respeito aos sacerdotes. Abrange os aspectos da vida em que um sacerdote estava envolvido, quer como o dirigente no culto, quer como o guardião especial da natureza sagrada de Israelcomoum todo. Achamos, por conseguinte, que Leví­ tico contém muitos regulamentos sobre afazeres cotidianos, sobre o comporta­ mento familiar entre o povo de Deus e sobre a manutenção da saúde e da higie­ ne no lar e nas relações pessoais. Todos estes eram assuntos que se esperava que um sacerdote explicasse ao povo, os quais se lhe mandava velar, a fim de evitar qualquer infração do posiciona­ mento santo que Deus exigia de Israel. O título do livro é, portanto, totalmente apropriadocomo uma descrição do cará­ teressencial de seu conteúdo. O propósito de Levíticoé, claramente, odejuntar numa só coletânea ordenada regulamentos diversosque diziam respei­ toao oferecimento de sacrifício a Deus, à organização do sacerdócio e muitos ou­ tros assuntos que surgiam da relação sagrada existente entre Israel e Deus. Pode, com toda a propriedade, ser inter­ 15
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    pretado como umguia abrangente, que mostra como Israel devia pôr em prática, na rotina da vida cotidiana, a grande promessa feita no monte Sinai: “E vós sereispara mim reino sacerdotal e nação santa” (Êx. 19:6). De todos os cinco livros que compõem oPentateuco, Levíticoé o que pode, com maior coerência, ser descrito como Lei. Seu conteúdo consiste, quase que exclu­ sivamente, de leis e regulamentos, com um mínimo apenas de narrativa interve­ niente. Isso é mais significativo do que possa parecer à primeira vista, porque, embora o Pentateuco se descreva tradi­ cionalmente como contendo os cinco li­ vrosdalei, éessencialmenteuma obra de narrativa histórica. Martinho Lutero re­ conheceu isto, pois classificou estes livros de histórias, e esta praxe é seguida tam­ bém nos cabeçalhos da versão do Rei Tiago (KJV). Porém Levítico contém uma quantidade muito pequena de nar­ rativa, nos capítulos 8-10 e em 24:10-23, enquanto o restante dele é composto de regulamentos e leis. Mesmo na narrativa histórica que contém, há uma nítida preocupaçãocom questões da Lei. II. DataeAutoria Quem escreveu o livro de Levítico e quando foi escrito são questões tão de perto relacionadas que têm de ser consi­ deradasjuntamente. As duas são ligadas de tal maneira ao papel de Moisés no livro, que temos de considerar este papel aqui. Tradicionalmente, os mestres ju­ daicos aceitavamMoisés comoo autor de Levítico, e, na realidade, do Pentateuco inteiro. Este ponto de vista era, no pas­ sado, largamente aceito dentro da Igreja Cristã. Com o surgimento de uma eru­ diçãohistóricamais críticaeprecisa, este ponto de vista tem sido quase totalmente abandonado, embora de uma forma um tanto negativa, que não tentou demons­ trar osmotivos práticos e religiosos sobre que a atribuição do livro a Moisés se fundamentava. Ê importante, desse mo­ do, não apenas examinarmos tais indí­ cios que o próprio livro nos dá com respeito à data de sua origem, como também entendermos, na medida do possível, por que este material foi colo­ cado sob a autoridade de Moisés, pois é nada menos que isso que o próprio livro afirma. Devemos, em primeiro lugar, voltar- nos para a questão da data do material apresentado nolivrode Levítico. Já nota­ mos que, em sua maior parte, este ma­ terial consiste em coleções de leis que regem o oferecimento dos sacrifícios, a ordem do sacerdócio, e uma gama de assuntos em que as obrigações religiosas afetam a vida cotidiana. Quando consi­ deramos como tais regulamentos surgem dentro de uma comunidade, é evidente que não aparecem todos de uma só vez, em forma de um programa pormenoriza­ do de obrigações, mas, sim, gradativa- mente, durante um número considerável de anos, à medida que a experiência e a necessidadeimpõem a organização da so­ ciedade e a direção doculto. Os regulamentos individuais detalha­ dos emergem em resposta a situações específicas, muito embora os princípios fundamentais sobre que semelhantes princípiossealicerçam sejam muito mais antigos. Assim era, indubitavelmente, em Israel, e não devemos ter receio de reconhecer que a coleção final de todos os regulamentos e leis coligados em Le­ vítico não se deu senão numa data rela­ tivamente tardia na história literária do Pentateuco. No entanto, isso não mini­ miza o fato de que esse processo, de expor em forma de regulamentos por­ menorizados aquilo que significava para Israel ser opovo santo de Deus, repoüsa em certos princípios fundamentais que são tão antigos quanto opróprio Israel. Estesprincípios diziam respeito à ofer­ ta a Deus de uma parte do aumento de todos os rebanhos, manadas e de cam­ pos; também diziam respeito à santidade associada a semelhantes oferendas. O 16
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    oferecimento delas emsacrifício impu­ nha certas precauções, especialmente a abstenção de sangue e gordura, por cau­ sa da relação especial existente entre estes e a vida animal. A observação de certas estações de festas sagradas era também fundamental para Israel, ser­ vindo elas como expressão de lealdade a Deus e como um envolvimento da di­ mensão do tempo na santidade de Deus. A questão da data, portanto, assume certa complexidade, visto que não se deve permitir que a forma final dada a determinada lei esconda o fato de que por detrás dela houve uma longa história de experiência e prática, expressa atra­ vés de regulamentos semelhantes. Uma vez que a relação entre Israel e Deus era especial, revelada na história e afirmada na experiência, as suas leis também ex­ perimentavam desenvolvimentos e modi­ ficações para corresponderem às necessi­ dadesprogressivas da vida sob a aliança. Leis fixas e imutáveis teriam resultado num “congelamento” da relação com Deus. Uma outra consideração também vem ao caso aqui. O registro por escrito de leis que regiam a direção do culto e os deveressacerdotais não é largamente evi­ dente no mundo do Oriente Médio anti­ go. Não há dúvida de que tais registros foram um passo relativamente tardio em Israel.1 Longe de ser o registro por escrito de uma lei do culto uma expressão do está­ gio durante o qual entrou ela, pela pri­ meira vez, em vigor, indica antes o ponto no qual um costume, ou tradição, longa­ mente praticado chegou a ser documen­ tado. Anteriormente a leiteria sidocerta- 1 Ver especialmente E. Nielsen, Oral Tnditioii, A Mo- dem Problem in Old Testament Introduction (Londres: SCM Press 1954), p. 39 e ss., para o argumento em iavor de uma data tardia para os registros, por escrito, das tradições legal e histórica em Israel. Nielsen é, porém, céptico demaissobre ouso do escrito para finsespeciais em períodos anteriores. Material comparativo útU da área nào-bíblica se pode achar em J. Vansina, Orai Tradition: AStudyin HistoricalMethodology.Trad, para oinglês por H.M. Wright(Londres: Routledge, 1965). mente lembrada e transmitida oralmen­ te, de geração em geração, dentro das famílias sacerdotais. A própria restrição da realização dos deveres sacerdotais a determinadas famílias era, em parte, uma salvaguarda da preservação precisa desseconhecimentoespecializado. Não houve nenhum motivo uniforme para a ocorrência da mudança da trans­ missão oral para a escrita, mas podemos aceitar que era, muitas vezes, conse­ qüência de uma época de crise ou de transição. Uma lei foi escrita e coligada com outras leis quando estava em pe­ rigo de esquecimento ou de negligência. No Israel antigo, a maior crise desta natureza teve lugar em 587 a.C., com a destruição do templo em Jerusalém e a deportação de grande parte da popula­ ção de Jerusalém, inclusive de seus prin­ cipais sacerdotes. Este evento proporcio­ nou tão séria ameaça à continuação do culto e da vida religiosa de Israel que, por conseguinte, muitos regulamentos e leis, que anteriormente tinham sido transmitidos oralmente, foram agora re­ gistrados por escrito. Foi esse processo, que prosseguiu durante o exílio babiló­ nicoe depois dele, que serviupara criar o nossolivroatual de Levítico. £ importante notar que este estágio da escrita de uma lei não indica a data de sua origem ou de sua entrada em vigor, mas é um passo relativamente tardio em sua história. As leis individuais, como regulamentosque regiam o culto e a vida comunitária, eram muitomais antigas do que a sua coleçãoem forma de documen­ to escrito. Assim, falar em autoria no sentido moderno levaria a mal-entendi­ dos, pois oautor quepreservouum relato da lei por escrito não seria a mesma pessoa, nem sequer um contemporâneo daquele que a compôs. Enquanto muitas vezes podemos aprender algo do pano de fundo e da situação do coletor das leis, geralmente há pouco que indique as cir­ cunstâncias ou data em que uma lei apa­ receupelaprimeiravez.Taisleissão, pela 17
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    sua natureza, atemporaisno sentido de que não dependem de uma ligação com os eventos específicos da história externa nem contêm normalmente referências a qualquer momento quando tenham co­ meçado a vigorar. Podemos afirmar muito pouco, por­ tanto, quanto à data exata quando os re­ gulamentos individuais no livro de Leví- tico começaram a ser observados em Israel. Que muitos deles são de grande antiguidade não há dúvida. Ê também certo quehouveum processo contínuo de revisãoe de adaptação dessas regras que diziam respeito ao relacionamento de Israel com Deus. Esse elo era vivo, e mudanças de circunstâncias levavam a alterações e melhorias nos detalhes e nas formas de culto. Assim, até a época de sua coleção no livro de Levítico, esses regulamentos, em sua maior parte, já tinham passado por uma história consi­ derável. Quanto à data de composição final de Levítico,já sugerimos que se tenha dado depois do exílio, e podemos agora pros­ seguir com a consideração do assunto. A parte literária mais antiga do livro se acha, quase certamente, nos capítulos 17-26, os quais originalmente compu­ nham um livrode leis independente, nor­ malmente chamado de Código da Santi­ dade, por causa de sua exigência carac­ terística que Israel fosse santo. Como uma obra separada, formava um manual de instrução sacerdotal para Israel, que foi coligado e redigido em Jerusalém antes da queda do templo. O manual de sacrifíciocontidoem Levítico 1-7foitam­ bém, provavelmente, uma obra indepen­ dente, que surgiu da necessidade de ins­ trução, tanto para os sacerdotes como para os leigos, sobre as modalidades e as formas de sacrifício. Também podemos aceitar que as leis de higiene, contidas em Levítico 11-15, surgiram de listas separadas, guardadas pelos sacerdotes em Jerusalém. Este material foi então unido, e o núcleo desta redação e cole­ ção era a narrativa histórica de Levítico 8- 10. Esta narrativa é a continuação direta do mais recente e abrangente dos relatos das origens de Israel que compõem o nosso Pentateuco. Este âmago histórico, descrevendo o começo do culto de Israel no Sinai, foi que proporcionou o ponto central para os vários manuais e listas que, de maneiras diversas, relacionavam- se com esse culto. Assim Levítico reúne de uma maneira tão completa quanto possível tudo que dizia respeito ao contí­ nuo cultoevida de Israel como o povo de Deus. Os regulamentos de Levítico ha­ viam de formar uma ponte, portanto, entre o evento passado da revelação de Deus no Sinai e o culto diário, no San­ tuário de Israel, que se originou naquele evento. Temos agora de considerar o significa­ do da figura de Moisés para a composi­ ção e origem de Levítico. Não há dúvida que, de todos os grandes personagens de Israel, é Moisés quem está mais direta­ mente associado com Levítico e é quem se apresenta como aquele que, orientado por Deus, deu ao livro sua autoridade e caráter mandatário. Tanto o versículo inicial como o final do livro (1:1; 27:34) afirmam que o ensino e as leis de Leví­ tico são uma revelação divina para Israel através de Moisés. Repetidas vezes, atra­ vés da obra, achamos seções ligadas pela fórmula “O Senhor disse a Moisés”. Esta ênfase não se concilia facilmente com a descoberta crítica de que os regu­ lamentos de Levítico foram compilados de um amplo arco da história de Israel e escritos numa época relativamente tardia em sua vida. Podemos reconciliar essa divergência somentepor indagar sobre a natureza e a finalidade da atribuição do livro a Moi­ sés. Certamente não podemos entendê-la comosignificando que Moisés tenha sido o autor do livro no sentido moderno que se atribui à palavra autoria. É significa­ tivo que, embora Arão, o cabeça ances- 18
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    trai das famíliassacerdotais de Israel, se avulte no livro, não é a pessoa dele que dâ autoridade ao todo. Nem se acha o nome de Davi no livro, muito embora fosse ele quem tivesse sido responsável •pelo estabelecimento do culto de Israel em Jerusalém (II Sam. 6:17; Sal. 132: 1-10), onde a maior parte do material contido em Levítico, se não todo, foi, em certa altura da história, ensinado e prati­ cado. É Moisés, e só o nome dele, que confere a Levíticoseu cunho de autorida­ de e que o caracteriza como uma des­ crição das formas de culto e instrução sacerdotal que Deus tinha entregue ao seu povo Israel. Qual, então, é o segredo da autoridade mosaica? Para responder a esta pergunta, te­ mos, primeiro, de voltar aos primórdios de Israel. O Deus a quem Israel chegou a adorar como Soberano e Senhor tinha primeiramente declarado a sua vontade nasleisque acompanharam a sua doação da aliança no monte Sinai (Êx. 19-33). Por isso também Israel chegou a ser conhecidopor aquilo que era, pela alian­ ça que lhe deu um destino e uma origem divinos. Seu Deus havia de se tornar co­ nhecido às nações do mundo como o Deus de Israel. Tanto Deus como seu povo foram indissoluvelmente ligados, aos olhos das nações, pela aliança que o próprio Deus tinha estabelecido. Num notável lance de auto-revelação, Deus tinha secomprometidocom ohomem. Amemória que Israel tinha desseeven­ to afirmava que Moisés era o mediador da aliança e que foi através dele que a sua realidade e as suas condições se descobriram. Sem Moisés, Israel teria ficado sem olhos para enxergar a glória deDeuse sem ouvidos para ouvir a men­ sagem dele. Significativamente, também é Moisés quem se apresenta como o pri­ meiro a inaugurar o culto de Israel den­ tro da aliança por meio de sacrifícios (Êx. 24:4-8). Todo o culto relativo à aliança, em Israel, portanto, ficou den­ tro da tradição e do padrão que tinha começado com Moisés. É este fato que jaz por detrás da forma que apresenta Levíticocomoum livrode Moisés. Visto que Levítico reúne e descreve os regulamentos sacerdotais, por meio dos quais Israel havia de continuar seu culto aoDeus com quem estava comprometido por aliança, estes regulamentos foram considerados como se conformando ao padrão que Moisés tinha estabelecido. O culto relativo à aliança em Israel era, portanto, entendido como estabelecido sob a autoridade de Moisés. O que, pela história e pela experiência, para a cons­ ciência de Israel, foi aprovado como, na verdade, pertencente à sua fépactuai, foi considerado como compartilhando da autorização de culto outorgada por Moi­ sés. Esse não era umjuízo literal, basea­ do nas fontes conhecidas da história ou nos documentos, mas umjuízo religioso, fundamentado no que era certo e cabia dentro da experiência comprovada do povo de Deus. A autoridade de Moisés significava a autoridade da aliança que unia Israel a Deus. O que Moisés deu não foium código de regulamentos fixo e inalterável, quepoderia, por fim, tomar- se embaraçoso e arcaico, mas, sim, uma tradição vivade culto dentro deumarela­ ção de aliança. Precisamente por causa disso a continuidade vital de tradições sacerdotais de culto em Israel podia de­ clarar-se mantenedora da tradição que Moisés tinha instituído. A atribuição do livro de Levítico a Moisés expressa, portanto, um juízo al­ tamente relevante e significativo sobre o valor e autoridade religiosos do que con­ tém. Marca-o indelevelmente como per­ tencendo à aliança entre Deus e Israel. m . SignificadoReligioso Ê evidente, mesmo numa primeira lei­ tura, que Levítico é um livro de prática antes do que de teoria. Isso quer dizer que os seus regulamentos tinham a fina­ lidade de estimular a prestação de for­ mas específicas de culto e de um deter- 19
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    minado tipo deconduta, antes do que de ensinar determinadas doutrinas e cren­ ças. Porém existe uma grande riqueza de doutrina e fé em Levítico, que se pode discernirfacilmente, eque proporciona o significado e a explicação de todas as suas exigências. Levítico baseia-se numa compreensão religiosa da vida, ao mesmo tempo ele­ vadae detalhada, epressupõeum concei­ to de Deus tão elevadoe espiritual quan­ to se possa achar em qualquer lugar do Antigo Testamento. Posiciona-se dentro da corrente principal do pensamento teo­ lógico de Israel e fundamenta todas as suas exigências em seu entendimento particular de Deus e em sua relação com Israele com o mundo. O ensino religioso deLevíticoé, portanto, não tanto explici­ tado quanto aceito comojá conhecido de seus leitores. Ele vem à tona claramente apenas em alguns pontos determinados. Porém não é difícil desvendar esse pano defundo teológico pela atenção cuidado­ sa dada aos regulamentos contidos no próprio Levítico e pela consulta dos li­ vros anteriores de Gênesis e Êxodo, que elesuplementa. A primeira crença e de maior alcance que subjaz às leis de Levíticoé que Deus está realmente presente com o seu povo. Os regulamentos para o culto e especial­ mente ospara o oferecimento dos sacrifí­ cios são expostos como mandamentos, que devem ser cumpridos na própria presença de Deus, que se acha no taber­ náculo. É aqui que apresença de Deus se revela a Israel por meio de sua glória (Êx. 25:8). Depois de longo tempo, essa tenda do período desérticofoisubstituída por uma casa mais permanente, em Siló, e esta, por sua vez, deu lugar ao Templo de Jerusalém. Mas houve reconhecimento da continuidade, que fez com que a tra­ dição israelita de culto em seu santuário central constituísse um testemunho per­ pétuo da presença constante de Deus no meiode seupovo. Todosos regulamentos para oculto contidos em Levítico pressu­ põemessacrençana presençadeDeusno tabernáculo, ou tenda da congregação, comotambém échamado. O oferecimen­ to de sacrifícios era sempre “perante o Senhor”, que não estavalonge de seu po­ vo, mas, sim, presente nosantuário, para o qual o cultuador trazia a sua dádiva. O culto de Israel era oferecido em tributo a Deus, que cumpria a promessa da aliançaporpermanecercom o seu povo e por lhe dar, de seu santuário, a sua bênção. Das idéias principais de Levítico, a segundaé que Deus é perfeitamente san­ to e que a sua presença com Israel es­ tende essa santidade para cobrir a vida inteira da nação. Certamente não deve­ mos separar este conceito de sua santi­ dade do requisito moral de distinguir o certo do errado na vida cotidiana. Po­ rém era muito mais que isso; denotava um podere espírito de Deus, que afetava aspessoas eascoisas quelhepertenciam. Seu oposto é a imundície, que descreve essas formas de vida física e mental que seopõem a Deus — as doenças, a morte, os ritos e objetos rituais pagãos, bem como formas de vida naturais, tais como animais, que podiam ser portadores de doenças. Assim, em preservando a santidade de Israel, Levíticotambém sepreocupamui­ to em proteger Israel contra tudo que pudesse comprometer ou destruir essa santidade. Suas regras para a pureza do culto são, portanto, nitidamente ligadas às suas regras para a higiene e a obe­ diência moral, visto que todos esses as­ pectos da vida pertencem à santidade de Israel. Para Levítico, o mundo não é um lugar neutro, onde os homens possam fazer o que bem entendem, mas, sim, um lugar onde se defrontam em toda partecom asexigências doDeussanto. Esta ênfase fundamental na presença deDeuscom oseu povo Israel e na santi­ dade que essa presença tanto afirma como exige leva a mais uma caracterís- 20
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    tica teológica deLevitico. O livro pres­ supõe, como sua base, que a vontade de Deus de que o seu povo deva viver numa relação santa com ele recebeu expressão no ato gracioso de eleição no monte Sinai, pelo qual ele tomou Israel como parceiro em aliança consigo mesmo (Êx. 19:6). A santidade de Israel é, portanto, o resultado de um ato da graça divina, e não uma conseqüência de suas próprias ações. Nãoé simplesmenteuma condição devida, deumtipoquasefísico,mas,sim, um dom de Deus, que está arraigado em sua açãopassada na história. É por este motivo que uma importân­ cia teológicaconsiderável seassocia à au­ toridade mosaica atribuída ao livro. To­ dos os seus regulamentos e leis estão en­ gastados em suas narrativas históricas, que descrevem os acontecimentos no monte Sinai. Foi lá, pela declaração de Deus na aliança, que Israel se tomou um povo santo, e as leis de Levitico preten­ dem demonstrar comoIsrael podia conti­ nuar avivernesseestado de santidade. Um movimento triangular muito ins­ trutivo e impressionante, assim, se evi­ dencia na estrutura teológica da obra. O santo ser de Deus é, por definição, atemporal e etemo, porém, em sua auto- expressão para com o homem, ele reve­ lou a sua vontade num momento no tem­ po, quando acolheu Israel na aliança comeleno Sinai. Levíticomostra comoIsrael, através de seu culto, foi capacitado a perpetuar e tomar contemporânea essa auto-entrega de Deus na aliança. O culto em Israel era, num sentido bem real, uma reapre- sentação dos atos salvíficos de Deus do passado, pela qual a nação podia con­ tinuar a viver dentro da experiência da salvação. Nãoera simplesmente uma res­ posta dos homens a Deus, embora conti­ vesse esse elemento, mas também um meio contínuo da ação e graça divinas. O cultoservia, portanto, para atualizar a relação salvífica com Deus, pela qual Israel tinha sido criado, e tomava-a uma experiência contínua da nação. O Deus etemo, a história passada de sua revela­ çãoea experiência presente de seu poder ebondade são, assim, integrados no con­ ceito da santidade, do qual Levíticofala. Embora, em muitas de suas exigên­ cias, Levítico pareça estar muito remoto de nosso mundo modemo e de nossas necessidades religiosas, tem muito que nos dizer pelas suas doutrinas subjacen­ tesebásicas. Destaca ofato de que nossa maior necessidade não é de um conceito abstrato de Deus, mas, sim, de uma experiência de sua presença e de um co­ nhecimento de como achá-la. O conheci­ mento de Deus não é uma idéia que se busque, mas, sim, uma comunhão para ser vivida e expressa na vida cotidiana. Isso nos impõe as suas exigências custo­ sas em nos chamar à obediência e à adoração. A tentativa de cumprir essas exigências mostra que os homens não podem, eles mesmos, ganhar a batalha contra o pecado e a impureza, mas têm de permanecer dependentes da graça de Deus, pela providência, por parte dele, de um meio de reconciliação. Como tão bem descreve a Epístola aos Hebreus, as leis de Levítico apontam para a cruz de Cristo. EsboçodoLivrodeLevítico I. InstruçõesPara osSacrifícios (1:1; 7:38) 1. AOferta Queimada(1:1-17) 2. AOferta de Cereais(2:1-16) 3. AOfertaPacífica(3:1-17) 4. As Ofertas Pelo Pecado e Pela Culpa(4:1-6:7) 5. Instruções Para os Sacerdotes com Relaçãoaos Sacrifícios (6:8-7:38) II. O Começo do Culto de Israel no Sinai(8:1; 10:20) 1. AConsagraçãode Arãoe de Seus Filhos Como os Sacerdotes de Is­ rael(8:1-36) 2. Os Primeiros Sacrifícios Públicos em Israel(9:1-24) 21
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    3. O Errode Nadabe eAbiú (10:1-20) III. Os Regulamentos Concernentes à Pureza(11:1; 15:23) 1. Animais Limpos e os Imundos (11:1-47) 2. A Impureza Relacionada com o Parto (12:1-8) 3. Impureza Resultante da Lepra (13:1; 15:33) (1) ODiagnóstico da Doença (13:1-46) (2) A Identificação da Doença nas Roupas(13:47-59) (3) As Ofertas Pela Purificação (14:1-32) (4) O Processo Para a Lepra em Casas(14:33-57) (5) Impureza Pelos Fluxos Cor­ porais(15:1-33) IV. O Grande Dia daExpiação (16:1-34) V. OCódigoda Santidade(17:1; 26:46) 1. A Oferta de Sacrifício e o Co­ merCarnes(17:1-16) 2. Os Regulamentos com Respeito aoCasamento(18:1-30) 3. Uma Lista Geral deLeis (19:1-37) 4. Leis Que Implicam a Pena de Morte(20:1-27) 5. A Santidade dos Saeerdotes (21:1-24) 6. A Santidade das Ofertas (22:1-33) 7. O Calendário dosFestivais (23:1-44) (1) Festivais de Instituição Di­ vina(23:1-3) (2) OFestival da Primavera (23:4-14) (3) O Festival do Começo do Verão(23:15-22) (4) O Festival do Outono (23:23-44) 8. O Culto Regular no Santuário (24:1-9) 9. A Validade da Lei de Israel Para Estrangeiros(24:10-23) 10. O Ano Sabático e o Ano do Ju­ bileu(25:1; 26:2) 11. RecompensaseCastigos (26:3-46) VI. Leis com Respeito a Juramentos e OfertasVotivas(27:1-34) Bibliografia Selecionada ALBRIGHT, WILLIAM F. Archaeology andthe ReligionofIsrael, 3?ed. Balti­ more: Johns Hopkins Press, 1953. _______ . Yahweh and the Gods of Ca­ naan, Londres: Athlone Press, 1968. CHAMPMAN, A. T. e STREANE, A. W. “Leviticus”, The CambridgeBi­ ble. Cambridge: Cambridge University Press, 1914. CLEMENTS, R. E. God and Temple. Filadélfia: Fortress Press, 1965. DE VAUX, ROLAND. Ancient Israel: Its Life and Institutions. Trad. John McHugh. Londres: Darton, Longman &Todd, 1961. _______ . Sacrifices in Ancient Israel. Cardiff: University of Wales, 1966. ELLIGER, K. “Leviticus”, Handbuch zum Alten Testament. Tübingen: 1966. GRAY, GEORGE BUCHANAN. Sacri­ fices in the Old Testament. Oxford: OxfordUniversityPress, 1925. KENNEDY, A. R. S. “Leviticus and Numbers”, The Century Bible. Lon­ dres: Caxton PublishingCo., s.d. KRAUS, H. J. Worship in Israel. Ox­ ford: Blackwell, 1965. NOTH, MARTIN. “Leviticus: A Com­ mentary”, Old Testament Library. Trad. J. E. Anderson. Londres: S. C. M. Press, 1965. PEDERSEN, J. Israel: Its Life and Cul­ ture. Trad. Sra. AslaugMollereAnnie I. Fausboll. I-II, Copenhague: Bran- ners, 1926; III-IV, Copenhague: Bran- ners, 1940. RENDTORFF, R. Studien zur Geschi­ chte des Opfers im Alten Testament. Neukirchen-Vluyn, 1967. RINGGREN, H. “Sacrifice in the Bi­ ble”, World Christian Books. Lon­ dres: 1962. 22
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    ROWLEY, H. H.WorshipinAncient Is- SNAITH, NORMAN H. “Leviticus and rael. Filadélfia: Fortress Press, 1967. Numbers”, The Centwy Bible. Lon­ dres: Thomas Nelson&Sons, 1967. ComentárioSobreoTexto I. InstruçõesParaos Sacrifícios (1:1-7:38) A primeira parte do livro de Levítico é dedicada a um manual pormenorizado de instruções para o oferecimento de sacrifício a Deus. Seu contexto histórico é muito importante. O livro de Êxodo narra o resgate divino do Egito e a alian­ ça entre Deus e Israel feita no Sinai. Isso é seguido por uma série de instru­ ções para a construção do tabernáculo (Êx. 26,27) e a ordenação do sacerdócio da linha de Arão (Êx. 28,29). A constru­ ção do tabernáculo, a “igreja no deser­ to”, é, então, empreendida sob a direção de Moisés (Êx. 35-40), e Deus aceita-o como um lugar digno para o culto, por ali revelar a sua presença na nuvem de sua glória(Êx. 40:34-38). Na continuação desta narrativa histó­ rica, Levítico 8 e 9 contam da realização das instruções divinas para a ordenação de Arão e de seus filhos como sacerdotes e do oferecimento dos primeiros sacrifí­ cios a Deus no altar do tabernáculo recém-construído. Antes que essas deter­ minações fossem cumpridas, porém, foi necessário expor as instruções estabele­ cidas por Deus para os diversos tipos de sacrifícios que se haviam de fazer no novo santuário. Assim, Levítico 1:1-7:38 constituem, essencialmente, o manual de sacrifício de Israel. Os capítulos l:l-6:7 contêm instruções para pessoas leigas, concernentes aos quatro tipos principais de sacrifícios que se hão de oferecer, e 6:8-7:38 contêm regulamentos estabele­ cidos para os sacerdotes com relação a essas ofertas. O compartilhamento do ministério do sacrifício entre os sacerdo­ tes e os israelitas leigos é, assim, bem apresentado. Acolocação deste manual de sacrifício neste ponto da história da obra salvífica de Deus para com Israel é muito impor­ tante. Enfatiza que o culto de Israel, centralizado no tabernáculo e expresso de forma máxima no oferecimento do sacrifício, era o meio dado por Deus, pelo qual a salvação do Êxodo e a co­ munhão com Deus, declaradas na alian­ ça do Sinai, haviam de ser continuamen­ te experimentadas por gerações sucessi­ vas deisraelitas. O ato histórico do resga­ te foi transferido a gerações posteriores nas bênçãos que recebiam de Deus em seu culto. Assim, o culto centralizado no tabernáculo, e, mais tarde, no templo, foi o meio pelo qual o poder da salvação deDeusfoiestendido através da história. Esse manual de sacrifício é apresenta­ do como uma revelação divina a Israel através de Moisés. Ê o próprio Deus que torna sabida a modalidade de culto que lhe agrada. Isso remove por completo qualquer sugestão que o oferecimento de sacrifício em Israel fosse uma obra hu­ mana, destinada a conquistar o afeto de um Deus indisposto ou a persuadi-lo a ser gracioso. Ê precisamente porque Deus é gracioso que ele tem revelado as modalidades de culto e de sacrifício que lhe agradam. Istoéparticularmente importante por­ que, entre os vizinhos de Israel, certa­ mente era corrente o ponto de vista de que ,os homens, por oferecerem sacrifí­ cios, eramcapazes de satisfazer uma ne­ cessidade de Deus e assim tomá-lo favo­ rável aos que o cultuavam. Não há dú­ 23
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    vida de que,dada a semelhança conside­ rável entre os ritos sacrificais de Israel e os de seus vizinhos, essa atitude também seinfiltrou em Israel. Talponto devistaé totalmente excluído, pela demonstração de que é precisamente porque Deus é graciosoque elemostra aoseu povocomo devecultuá-lo. O sacrifícioera importan­ te para Israel não porque satisfazia uma necessidade emDeus, mas porque supria uma necessidade em Israel e lhe possibi­ litava continuar no gozo da bênção divi­ na. Desta maneira, por detrás do rito do sacrifício, que expressava a dádiva do homem a Deus, afirmou-se a verdade de que mesmo essa oportunidade de dar a Deus era um sinal de seu favor e uma conseqüência de seu dom anterior da salvação. A maneira como o código sa­ crifical de Israel é colocado dentro~da revelação no Sinai revela que o culto a Deus éum dom de Deus aos homens que satisfaz as necessidades deles, e nãoas de Deus. A questão da época em que este ma­ nual de sacrifício foi redigido pode ser respondida somente de maneira muito geral. Na forma em que existe atualmen­ te, foi inserido na tradição global que Israel possuía de sua história e constitui­ ção, em data relativamente tardia, al­ gum tempo depois do exílio. Porém o oferecimentode sacrifícios dentro do cul­ to pactuai de Israel remonta ao começo da história da nàção, ao tempo de Moi­ sés. Os regulamentos que regiam a natu­ reza desses sacrifícios e a maneira como haviam de ser oferecidos foram transcri­ tos das práticas contemporâneas e com­ pilados em forma de leis através de um longo período. Na forma em que existem atualmente, refletem os padrões do culto que se estabeleceu no templo em Jerusa­ lém durante o período da monarquia israelita. Aqui, oculto de Israel alcançou assuasformas mais belaseexpressivas. A finalidade da compilação de seme­ lhante manualfoia de simplesmentepro­ videnciar para os cultuadores leigos ori­ entações com relação à maneira como os sacrifícios deviam ser oferecidos e tam­ bém definir, tanto para leigos como para os sacerdotes, os seus deveres respecti­ vos. As próprias leis são principalmente de natureza técnica e prática, e visam descrever o ritual a ser observado, mais do que explicar os propósitos e a nature­ za do sacrifício em si. Em certa fase, semelhantes leis foram preservadas no santuário onde sefaziam tais sacrifícios e certamente escritas para facilitar a con­ sulta de cultuadores e de sacerdotes. Tal­ vez também, em alguma época, o sacer­ dote tenha tido o costume, por ocasião dosgrandesfestivais, de recitar oralmen­ te, para o povo, a forma de ritual que devia observar, ao trazer as suas ofertas. O significado e propósito dos sacrifícios não são dados explicitamente em lugar algum no Antigo Testamento, presumi­ velmente porque se supunha serem já conhecidos de todos quefreqüentavam os cultos. No entanto, os pormenores e as alusões nos possibilitam inferir o seu significado. 1. AOferta Queimada(1:1-17) 1 Ora, chamou o Senhor a Moisés e, da tenda da revelação, lhe disse: 2 Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao Senhor, oferece­ reis as vossas ofertas de gado, isto é, do gado vacum e das ovelhas. 3 Se a sua oferta forholocausto de gado vacum, oferecerá ele um macho sem defeito; à porta da tenda da revelação o oferecerá, para que ache favor perante o Senhor. 4 Porá a sua mão sobre a cabeça do holocausto, e este será aceito a favor dele, para a sua expiação. 5 Depois imolará o novilho perante o Senhor; e os filhos de Arão, os sacerdotes, oferecerão o sangue, e espargirão o sangue em redor sobre o altar que está à porta da tenda da revelação. 6 Então esfolará o holocausto, e o partirá nos seus pedaços. 7 E os filhos de Arão, o sacerdote, porão fogo sobre o altar, pondoem ordem a lenha sobre ofogo; 8tam­ bém os filhos de Arão, os sacerdotes, porão em ordem ospedaços, a cabeça e a gordura, sobre a lenha que está no fogo em cima do altar;9a fressura,porém,e as pernas, ele as lavará com água; e o sacerdote queimará 24
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    tudo isso sobreo altar como holocausto, oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. 10 Se a sua oferta for holocausto de gado miúdo, seja das ovelhas seja das cabras, oferecerá ele um macho sem defeito, 11e o imolará ao lado do altar que dá para o norte, perante o Senhor; e os filhos de Arão, ossacerdotes, espargirão osangue em redor sobre o altar. 12 Então o partirá nos seus pedaços, juntamente com a cabeça e a gor­ dura; e o sacerdote os porá em ordem sobre a lenha que está no fogo sobre o altar; 13 a fressura, porém, e as pernas, ele as la­ vará com água; e o sacerdote oferecerá tudo isso, e o queimará sobre o altar; holo­ causto é, oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. 14 Se a sua oferta ao Senhor for holocausto tirado de aves, então de rolas ou de pombinhos oferecerá a sua oferta. 15E o sacerdote a trará ao altar, tirar-Ihe-á a ca­ beça e a queimará sobre o altar; e o seu sangue será espremido na parede do altar; 16e o seu papo com as suas penas tirará e o lançará junto ao altar, para o lado do orien­ te, nolugar da cinza; 17e fendê-la-á junto às suas asas, mas não a partirá; e o sacerdote a queimará em cima do altar sobre a lenha que está no fogo; holocausto é, oferta quei­ mada, de cheiro suave ao Senhor. A oferta queimada era a forma princi­ pal de sacrifício em Israel. Por esse moti­ vo, vem em primeiro lugar nesta lista de sacrifícios. O formato e conteúdo das instruções para oseu oferecimento foram seguidos muito de perto por aquelas que dizem respeito à oferta pacífica no capí­ tulo3. Expostas deuma maneira direta e pragmática, sâo as informações que pos­ sibilitariam ao cultuador comum ofere­ cer sua oferta queimada a Deus. Dá-se atençãoparticular aos deveres que opró­ prio cultuador havia de desempenhar e à definição dos que eram da responsabili­ dade dosacerdote. O ritual como um todo pode ser divi­ dido nas seguintes ações principais: (1) a apresentação da oferta na entrada do santuário(v. 3,10,14); (2) a colocação da mão do ofertante sobre a cabeça da vítima (v. 4); (3) a execução da vítima (v. 5,11); (4) oespargirdo sangue sobre o altar (v. 5,11,15); (5) a esfoladura do animal e a sua divisão em pedaços (v. 6,12,16,17); (6) a queima de certas partes da vítima sobre o altar (v. 8,9,12, 13,15,17). É evidente que são especificamente essas ações que implicam contato direto com o altar que foram reservadas para o sacerdote. O derramamento do sangue da vitima sobre o altar, a ordenação e o acender dofogosobreele e a queima, em si, das partes da vitima eram todos deve­ res do sacerdote. O altar, como o lugar da reconciliação entre Deus e o homem, era considerado sacríssimo, e as ações que implicavam contato com o mesmo foram reservadaspara os sacerdotes, que compartilhavam de sua natureza espe­ cial, sagrada (cf. Ez. 44:4-31). Fora dis­ so, o cultuador comum desempenhava um papel surpreendentemente grande, no oferecimento do sacrifício, pois ele matava o animal, esfolava-o e dividia-o em pedaços. Um interesse especial recai sobre a colocação das mãos do cultuador sobre a cabeça doanimal designadopara o sacri­ fício. O significado desta ação não é de tudo claro. Aparece de novo, de maneira especial, no Dia da Expiação, quando o próprio sumo sacerdote colocava as suas mãos sobre obode, queera levado para o deserto (16:21). Neste caso se afirma claramente que o propósito dessa ação era a transferência dos pecados de Israel para o bode, que em seguida os levava embora para odeserto. No caso da oferta queimada, essa transferência de pecado não é tão claramente afirmada (1:4). O significado desse gesto é, aparente­ mente, o da identificação. A colocação das mãos do cultuador sobre a cabeça da vítima declara de quem é o sacrifício e para quem a reconciliação que obtém seráválida. Assim, serve, de uma manei­ ra especial, para demonstrar a posse da vítima por parte do cultuador, e o desejo dele de buscar a graça divina por meio dela. Serviu para ligar o desejo e a inten­ ção nítidos docultuador ao ritual externo dosacrifício, que, como sabemos das crí­ 2S
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    ticas dos profetas(Os. 6:6; Am. 5:21-24; Miq. 6:6-8), podia facilmente descambar para o vazio de uma formalidade ex­ terna. Levítico 1:9 descreve a oferta queima­ da como de cheiro suave ao Senhor. Esta expressão aparece várias vezes em rela­ ção à oferta queimada eà oferta pacífica. Literalmente, quer dizerum cheiro “aca- riciativo” ou “agradável”, indicando que o cheiro do sacrifício era atraente para Deus. Semelhante idéia antropomórfica de Deus, e do efeito que o sacrifício exercia sobre ele, era, indubitavelmente, muito antiga e pré-israelita. Está muito claro que os rituais, em Levítico, não consideram osacrifíciocomouma dádiva para aplacar uma deidade irada. Temos deconcluir, portanto, que esta expressão peculiar tem sido retida como uma ex­ pressão arcaica e colocada num contexto onde tinha um sentido simbólico, já não literal. Não há nenhuma declaração, nestas instruções, quanto ao significado do ri­ tual da oferta queimada ou em relação às ocasiões quando se havia de oferecê-la, mas as características essenciais de seu uso podem ser deduzidas destes versí­ culos e de outras referências a ela no Antigo Testamento. O nome hebraico dela significa “o que sobe”, e, certamen­ te, deriva-se do fato de que era a forma de sacrifício que subia até Deus na fu­ maça do altar. Pode ser entendido, em­ bora menos plausivelmente, como o que subiu ao altar em oferenda a Deus. Por­ que a vítima era inteiramente consumi­ da pelo fogo, sobre o altar, podia tam­ bém ser chamada de oferta queimada (1:9,13,17). Provavelmente, os “holo- caustos” de Salmos 51:19 eram seme­ lhantes. A vítima havia de ser escolhida dentre os animais domésticos do ofertante, um boi, umaovelhaou um bode, oupodia ser uma rola ou um pombinho (v. 14-17). Estaúltima possibilidade era introduzida casoocultuadorfosse pobre demais para oferecer um animal doméstico. E todo israelita havia de participar desse culto e não havia de ser privado do privilégio de fazer a sua oferta a Deus, muito embora a pobreza fizesse com que ela fosse mais humilde e menos evidente do que a que normalmente sedava. Afinalidadeprimordial da oferta quei­ mada era assegurar a propiciação pelos pecados, como se infere do versículo 4. Um exemplo disso, na prática, se acha em Números 15:24, onde uma oferta queimada seria oferecida em sacrifício, se a comunidade inteira transgredisse a lei de Deus inadvertidamente. Não era essa a única ocasião, todavia, quando semelhante oferta podia ser feita. Leví­ tico 12:6-8 exige uma oferta queimada junto com uma oferta pelo pecado da parte de uma mulher depois do parto, e Números 15:3 alude a se fazer uma oferta queimada como pagamento de um voto. O sacrifício da oferta queimada era um ato de reconhecimento da soberania de Deus e uma expressão visível de ação de graças a ele. Essas instruções determinadas que achamos em Levítico 1 dizem respeito à oferta queimada de um israelita leigo individualmente. Noutros lugares, no Antigo Testamento, achamos a oferta queimada usada como um sacrifício ofe­ recido pelo rei (II Sam. 6:17 e s.; I Reis 9:25; 10:5), em prol dele mesmo e da naçãosobre que reinava. Dissosurgiu em Israel a prática de fazer uma oferta quei­ mada diária no templo em Jerusalém pela manhã (Ez. 46:13-15) e, depois de períodoindefinido, outro sacrifício seme­ lhante ao entardecer (Núm. 28:4,8). A oferta queimada também se fazia' em prol da comunidade inteira de Israel, por ocasião das festividades especiais, nota- damente no sábado, nasluas novas, e nas outras festividades principais do ano is­ raelita(Núm. 28,29). De todas as formas de sacrifícios cor­ rentesem Israel, a natureza distintiva da 26
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    oferta queimada erabem destacada. Era a dádiva que o israelita fazia exclusiva­ mente a Deus, e assim constituía um ato de culto expressivo de obediência total. O ofertante não guardava nada para si, e não usava seu sacrifício para providen­ ciar um repasto festivo, para o gozo dele e de sua família. A oferenda era para Deus somente, e, assim, em a oferecer, ele reconhecia a total soberania de Deus sobre todas as criaturas vivas e a reivin­ dicação divina de plena obediência em suaprópriavida. 2. AOferta deCereais(2:1-16) 1 Quando alguém fizer ao Senhor uma oferta de cereais, a sua oferta será de flor de farinha; deitará nela azeite, e sobre ela porá incenso; 2e a trará aos filhos de Arão, os sacerdotes, um dos quais lhe tomará um punhado de flor de farinha e do azeite com todo o incenso, e o queimará sobre o altar por oferta memorial, oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. 3 O que restar da oferta de cereais pertencerá a Arão e a seus filhos; é coisa santíssima entre as ofertas queimadas ao Senhor. 4Quando fizeres ofer­ ta de cereais assada ao forno, será de bolos ázimos de flor de farinha, amassados com azeite, e coscorões ázimosuntados comazei­ te. 5 E se a tua oferta for oferta de cereais assada na assadeira, será de flor de farinha sem fermento, amassada com azeite. 6 Em pedaços a partirás, e sobre ela deitarás azeite; é oferta de cereais. 7 E se a tua oferta for oferta de cereais cozida na frigi­ deira, far-se-á de flor de farinha com azeite. 8Então trarás ao Senhor a oferta de cereais que for feita destas coisas; e será apresen­ tada ao sacerdote, o qual a levará ao altar. 9 E o sacerdote tomará da oferta de cereais o memorial dela, e o queimará sobre o al­ tar; é oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. 10 E o que restar da oferta de ce­ reais pertencerá a Arão e a seus filhos; é coisasantíssima entre as ofertas queimadas ao Senhor. 11 Nenhuma oferta de cereais, quefizerdes ao Senhor, será preparada com fermento; porque não queimareis fermento algum nem mel algum como oferta queima­ da ao Senhor. 12 Como oferta de primícias oferecê-los-eis ao Senhor; mas sobre o altar não subirão por cheiro suave. 13 Todas as tuas ofertas de cereais temperarás com sal; não deixarás faltar a elas o sal do pacto do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferece­ rás sal. 14 Se fizeres ao Senhor oferta de cereais deprimícias, oferecerás, como ofer­ ta de cereais das tuas primícias, espigas tostadas ao fogo, isto é, o grão trilhado de espigas verdes. 15Sobre ela deitarás azeite, e lhe porás- por cima incenso; é oferta de cereais. 16 O sacerdote queimará o memo­ rial dela, isto é, parte do grão trilhado e parte do azeite com todo o incenso; é oferta queimadaao Senhor. O ritual para a oferta de cereais é, naturalmente, muito mais simples do que o para a oferta queimada. As diver­ sas subseções do capítulo dizem respeito principalmente aos materiais diferentes que podiam ser usados para a oferta. O título hebraico da oferta de cereais quer dizer, simplesmente, “dádiva”, e a mesma palavra podia ser usada em sen­ tido lato, para abranger todas as classes diferentes de oferta de sacrifício, bem como em sentido mais restrito, para se referir àqueles sacrifícios que não impli­ cavam a matança de um animal. Isso é o caso aqui, onde a oferta é composta de cereais moídos grossos, ou de trigo ou de centeio, preparados de uma dentre vá­ rias maneiras possíveis. Acolocação das instruçõespara a ofer­ ta de cereais diretamente depois das ins­ truções para a oferta queimada reflete, sem dúvida, a prática de trazer aquela juntamente com esta. Assim, a oferta de cereais era usada freqüentemente como um tipo de sacrifício suplementar, para acompanhar a oferta queimada, como é mostrado em Números 15:3-5 e II Reis 16:13, quando ofertas de vinho como libação eram também feitas. Nem sem­ pre acontecia assim, porém, e achamos diversos exemplos da oferta de cereais sendo trazida sozinha(6:14-18; 23:15,16; Núm. 5:15; 28:26). A ocasião mais co­ mum para uma oferta de cereais inde­ pendente era a da entrega das primícias da colheita aDeus. Este capítulo menciona quatro formas diferentes em que a oferta de cereais podia ser trazida. Em cada caso os ingre­ dientes básicos, da farinha moída gros- 27
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    sa, de trigooudecenteio, misturada com óleo, continuam os mesmos, e a diferen­ ça está na maneira como se prepara a oferta. Os quatro tipos são: (1) O cereal básico (farinha) com óleo derramado sobre ele (v. 1-3). O incenso estava misturado só com a parte que se queimava sobre oaltar. (2) Bolosde farinha, assados num for­ no e misturados com óleo enquanto sen­ do preparados ou untados com óleo de­ pois (v. 4). Nenhum fermento havia de sermisturado com a massa. (3) Bolos assados numa fôrma sobre chapa de ferro quente (v. 5,6). Eles ti­ nham de ser misturados com óleo e, quando cozidos, partidos em pedaços, derramando-se ainda óleosobreeles. (4) Bolos cozidos numa frigideira de barro e também misturados com óleo antes de cozidos(v. 7). Exceto o cuidado de se evitar o uso de qualquer fermento, na preparação dos bolos(v. 5,11), não havia dúvida de que cada uma dessas formas da oferta de cereais representava um método comum de preparar bolos em Israel. Assim, a oferenda a Deus era uma parte simbó­ licada comidapreparada emcasa. Como a oferta queimada expressava o elevado custo da entrega integral da pessoa a Deus, assim a oferta de cereais declarava que era a vida cotidina de homens e mulheres que havia de ser dedicada a Deuseabençoadaporele. O ritual de oferta de cereais consistia no seguinte: (1) a preparação da oferta (v. 1,4-7); (2) o trazimento da oferta ao santuário(v.2,8); (3) a separação da por­ ção memorial especial (v. 2,9,16); e (4) a queima da porção memorial sobre o altarpelosacerdote. Mais uma vez, como no caso da oferta queimada, existe uma divisão nítida de responsabilidade entre o israelita leigo, que preparava e trazia a oferta, e o sacerdote, que realmente queimava par­ te dela sobre o altar. A divisão da oferta em duas partes mostra que apenas uma parte dela se queimava no altar, como sinal de que se dava o todo a Deus. Esta parte se chama de porção memorial, e esta tradição se deriva do fato de que o adjetivo usado é formado do verbo que normalmente significa “lembrar”. Po­ rém, num estudo cuidadoso da palavra, G. R. Driver (Journal of Semitic Stu- dies I, 1956, p. 97 e ss.) argumenta que realmente significa “sinal”, e é isso que esperávamos que significasse, à luz de seuempregono ritual. Ê osinal da oferta decereais queera queimado sobre o altar como dádiva a Deus, e representava o oferecimento da oferta toda a ele. A parte que não era queimada se dava aos sacerdotes (v. 3). De 6:16, sabemos que esta parte seria comida pelos sacerdotes. Assim, contava comoparte de sua renda. Deste modo, ao dar a sua oferta de cereais, o cidadão israelita estava cum­ prindo a sua responsabilidade para com a manutenção do ministério sacerdotal, através do qual a nação permaneceria em comunhão comDeus. Há duas características invulgares, que deviam ser notadas nas instruções para a oferta de cereais. Nenhum fer­ mento havia de ser permitido no preparo de nenhum dosbolos. O motivo disso era que o cereal tinha de estar intacto, e a ação da fermentação da levedura estra­ garia isso. Mel e massa fermentada po­ diam ser trazidos somente como ofertas dasprimícias(v. 11,12). Isso queria dizer que podiam ser dados aos sacerdotes, para usarem como alimento, mas não haviam de ser oferecidos a Deus sobre o altar. Esse regulamento considera a leve­ dura como uma influência danosa e per­ turbadora, por mais necessário que fosse para fins de assadura. Ê este ponto de vista que se reflete na advertência •de nossoSenhor: “Acautelai-vos do fermen­ to dosfariseus” (Luc. 12:1). Por outro lado, não se havia de dar nenhuma oferta a Deus sem sal, que se descreve como o sal do pacto do teu Deus. Isto revela a importância do sal 28
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    como símbolo daamizade e da comu­ nhão. Aqueles que compartilhavam do sal numa refeição estavam numa relação genuínade confiança e lealdade. Como o fermento simbolizava o que era inaceitá­ vela Deus, assim o sal simbolizava o que lhe tomava as ofertas aceitáveis. Isso lança luz sobre a descrição, feita por Jesus, de seus discípulos como “o sal da terra” (Mat. 5:3). Como o sal tomava uma oferta agradável a Deus, assim os crentes no mundo devem tomá-lo aceitá­ velaDeus. 3. AOfertaPacífica(3:1-17) 1 Se a oferta de alguém for sacrifício pa­ cífico: se a fizerde gado vacum, seja macho oufêmea, oferecê-la-á sem defeito diante do Senhor; 2 porá a mão sobre a cabeça da sua oferta e a imolará à porta da tenda da revelação; e os filhos de Arão, os sacerdo­ tes, espargirão o sangue sobre o altar em redor. 3 Então, do sacrifício de oferta pací­ fica, fará uma oferta queimada ao Senhor; a gordura que cobre a fressura, sim, toda a gordura que está sobre ela, 4 os dois rins e a gordura que está sobre eles, e a que está juntoaos lombos, e o redenho que está sobre o fígado, juntamente com os rins, ele os tirará. 5 E os filhos de Arão queimarão isso sobre o altar, em cima do holocausto que está sobre a lenha no fogo; é oferta queima­ da, de cheiro suave ao Senhor. 6 E se a sua oferta por sacrifício pacífico ao Senhor for de gado miúdo, seja macho ou fêmea, sem defeito oferecerá. 7 Se oferecer um cordeiro por sua oferta, oferecê-lo-á perante o Se­ nhor; 8 e porá a mão sobre a cabeça da sua oferta, e a imolará diante da tenda da reve­ lação; e os filhos de Arão espargirão o san­ gue sobre o altar em redor. 9 Então, do sacrifício de oferta pacífica, fará uma ofer­ ta queimada ao Senhor; a gordurada oferta, a cauda gorda inteira, tirá-la-á junto aoespi­ nhaço; e a gordura que cobre a fressura, sim, toda a gordura que está sobre ela, 10 os dois rins e a gordura que está sobre eles, e a que está junto aos lombos, e o re­ denho que está sobre o fígado, juntamente com os rins, tirá-los-á. 11 E o sacerdote queimará isso sobre o altar; é o alimento da oferta queimada ao Senhor. 12 E se a sua oferta for uma cabra, perante o Senhor a oferecerá; 13 e lhe porá a mão sobre a ca­ beça, e a imolará diante da tenda da reve­ lação; e os filhos de Arão espargirão o san­ gue da cabra sobre o altar em redor. 14 De­ pois oferecerá dela a sua oferta, isto é, uma oferta queimada ao Senhor; a gordura que cobre a fressura, sim, toda a gordura que está sobre ela, 15 os dois rins e a gordura que está sobre eles, e a que está junto aos lombos, e o redenho que está sobre o fígado, juntamente com osrins, tirá-los-á. 16E o sa­ cerdote queimará isso sobre oaltar; é o ali­ mento da oferta queimada, de cheiro suave. Todaa gordurapertencerá ao Senhor. 17Es­ tatuto perpétuo, pelas vossas gerações, em todas as vossas habitações, será isto: ne­ nhuma gordura nem sangue algum come­ reis. O ritual da oferta pacífica descrito em Levítico 3 segue muito de perto aquele para a oferta queimada do capítulo 1. Não há necessidade, portanto, de expor o conteúdo do ritual novamente. A diferen­ ça principal é que, enquanto a oferta queimada inteira era ofertada sobre o altar a Deus e queimada, somente certas partes menores da oferta pacífica eram usadas dessa forma. Elas são alistadas pormenorizadamente(v. 3,4,9,10,14,15). 0 cultuador cozinhava ou assava o res­ tante da vítima e usava a came para proporcionar uma refeição para ele mes­ mo, para a sua família e para outros hóspedesconvidados. Enquanto a característica da oferta queimada era o oferecimento solene do animal inteiro a Deus, a da oferta pa­ cífica era a característica muito mais alegre, do gozo de uma refeição na com­ panhia da família e dos amigos. Con­ quanto a oferta queimada expressasse o custo da obediência, a oferta pacífica expressava a alegria e a felicidade da comunhão, que trazia. Não é de sur­ preender, portanto, que freqüentemente achamos estas duas formas de sacrifício mencionadas juntamente, como tendo sido oferecidas por ocasião do mesmo festival (I Sam. 13:9; II Sam. 6:17,18; 1Reis8:64). Defato, a oferta queimadae a oferta pacífica constituem, em con­ junto, as formas mais primitivas de sa­ crifíciocorrentesem Israel. 29
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    As instruções contidasem Levítico 3 dividem-se em três subdivisões, que tra­ tam, respectivamente, dos três tipos de animais domésticos que podiam ser usa­ dos para a oferta; um boi ou vaca (v. 1-5), uma ovelha (v. 6-11) ou uma cabra (v. 12-16). A oferta pacífica difere da oferta queimada no sentido de que o animal podia ser macho ou fêmea (v. 1, 6), enquanto a oferta queimada tinha de sermacho(1:3,10). A expressão oferta pacífica tem-se tor­ nado comum no inglês desde a versão do Rei Tiago (KJV) e é mantida na Versão Padrão Revisada (RSV). Porém pode causar mal-entendidos, pois este tipo de sacrifício certamente não tinha como fi­ nalidade apaziguar uma deidade irada da forma metafórica em que é às vezes usada. O sentido exato da palavra he­ braica tem sido muito discutido. Ela está ligada, etimologicamente, à palavra usa­ da para expressar “paz, bem-estar”, através de um sentido básico de “ser inteiro, completo”. Daí ter sido entendi­ da muitas vezes como referindo-se ao sacrifício que faz com que o relaciona­ mento entre as pessoas seja inteiro ou completo. Por conseguinte, tem sido su­ gerido que seu sentido real é ou “oferta de comunhão” ou “oferta comunitária”. Contudo, visto que diz respeito mais especialmente à relação entre Israel e Deus, muitas vezes num sentido nacio­ nal ou comunitário, tem sido também sugerido que deverá chamar-se de “sacri­ fício da aliança”. Isto não é satisfatório, porém, uma vez que, embora o sacrifício fosse certamente usado por ocasião das celebrações pactuais, o nome em si é mais antigo que o seu uso em Israel e sabe-se que era corrente entre os cana- neus. O nome em si, portanto, não pode ter sido derivado do significado determi­ nado que essa forma de sacrifício tinha em Israel. Mais provavelmente significa “sacrifício de encerramento” e refere-se ao fato de que semelhantes sacrifícios foram usados para completar uma festa de ofertas solenes a Deus. Isso concorda completamente com a ligação estreita entre a oferta queimada e a oferta pací­ fica. O título completo desse sacrifício é sacrifíciode oferta pacífica, que se com­ põe, no hebraico, de duas palavras. O tí­ tuloem si reflete uma história considerá­ vel, na qual, originalmente, cada uma dessas palavras se referia a um tipo dife­ rente de sacrifício. Como parte de um processo de definição mais precisa e de desenvolvimento mais complexo, o “sa­ crifício(abatido)” original e o “sacrifício pacífico (de encerramento)” têm sido ligados de tal forma que a natureza mais geral daquele tem assumido as caracte­ rísticas especiais deste. Estas caracterís­ ticas especiais diziam respeito primeira­ mente à maneira de tratar as partes gor­ durosas e o sangue. Assim, o ritual da oferta pacífica nos revela como Israel ordenou e interpretou as formas mais gerais de sacrifício que eram correntes entre os seus vizinhos e deu-lhes um significado especial. O versículo 17 estabelece a regra que se aplicava forçosamente a todos os sa­ crifícios em Israel. Nem sangue nem gordura deviam ser comidos pelo cultua- dor, mas deviam ser dados a Deus, no caso da oferta pacífica, pela queima da gordura no altar e pelo derramamento dosangue noslados do altar. A santidade especial do sangue, cuja inclusão era proibida na carne sacrifical queocultuadorcomia, recebemuito real­ ce no Antigo Testamento. É explicada mais completamente em 17:11: “Porque a vida da carne está no sangue.” A im­ portância dada ao sangue se deriva da observação básica de que, se o sangue é derramado, então avida da pessoa é der­ ramada com ele. A perda do sangue de maneira grave implica a perda da vida. É esta importância única do sangue para a vida que fez com que fosse tratado de uma forma muito especial, tanto no sa­ crifício, quando um animal era abatido 30
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    ritualmente, como, maistarde, quando se permitia o abate profano de animais domésticos para alimento. Visto que a vida é dom de Deus, o sangue era consi­ derado, de forma única, como uma ma­ nifestação física desse dom. Tinha, por­ tanto, de serdevolvidoaDeus. O povojudeu continua a observar esta proibição por uma tradição de abate kosher (ou correto), que drena tanto sangue de um animal quanto possível, para este ser usado como alimento. Co­ mo um gesto conciliatório para os ju­ deus, o primeiro conselho apostólico em Jerusalém também advogou que os cris­ tãos devessem abster-se de carnes que continham sangue (At. 15:29). Quando da separaçãoentre cristãos ejudeus, essa praxe já não era vista como necessária. Os cristãos primitivos consideravam Je­ sus Cristo como o seu verdadeiro sacri­ fício, e oseu sangue derramado, como a verdadeira “vida” devolvida a Deus. As­ sim, uma proibição que se tinha tornado uma obrigação ritual dentro dojudaísmo foi abandonada pelos cristãos. Com o cumprimento dosacrifício em Jesus Cris­ to, terminou a obrigação de se abster da carne que continha sangue. É supérfluo comentar que essa norma do Antigo Testamento com relação a co­ mer sangue ou compartilhar dele não tem nada a ver com a prática médica moderna de transfusão de sangue e que não se pode, de maneira nenhuma, con­ siderar aquela como contrária a esta. Na medida em que a norma do Antigo Tes­ tamento se deriva de uma reverência para com a vida, seu espírito deverá, indubitavelmente, alimentar e encorajar toda técnica que ajude na salvação e preservação da vida. Precisamente comoosangue era consi­ derado a concentração da vida da cria­ tura, assim também as partes gordurosas eram consideradas lugares onde essa for­ ça vital estava localizada. Por esse mo­ tivo, não haviam de ser usadas como alimento, mas sim devolvidas a Deus. Em certa altura, na sociedade pré-israe- lita, isso se supunha ser, sem dúvida, para o reforço da própria vida de Deus em si. Porém em Israel tais idéias foram superadas pela consciência de que Deus era o Deus vivo, a fonte de toda a vida e acima de qualquer necessidade de revi­ talização. Portanto, os aspectos do ritual qué implicavam a queima das partes gordurosas da oferta pacífica sobre o altar (v. 14-16) se relacionavam com o lançamento do sangue contra o altar, visto que os dois expressavam a devolu­ ção da força vital do animal a Deus. Como a vida tinha sido dada por Deus, assim tinha de ser devolvida a ele por ocasiãoda morte da criatura, enãopodia serapropriada peloshomens. O versículo 17 termina com uma declaração geral, que resume a proibição permanente, em Israel, do uso da gordura como comida e do sangue como bebida. A mesma proi­ bição abrangente do uso do sangue e da gordurapara oalimentoéreafirmada em 7:23-27. Nada se diz diretamente, neste capí­ tulo, sobre o valor expiatório da oferta pacífica, como em relação à oferta quei­ mada (1:4). Conquanto o derramamento de todo o sangue no altar fosse consi­ derado um ato de expiação (17:11), pare­ ce que a oferta pacíficaera mais especial­ mente uma ocasião para ações de graças eregozijo. Era, num sentido real, uma refeiçãode comunhão, celebrada perante Deus, da qual compartilhavam a família e os ami­ gos do cultuador. Expressava a natureza alegre da verdadeira religião e servia para lembrar, a todo cultuador, da san­ tidade dos dons divinos da vida e do ali­ mento. As ofertas pacíficas podiam ser oferecidas voluntariamente ou em paga­ mento deum voto. 4. As Ofertas Pelo Pecado e Pela Culpa (4:l-6:7) Esta série de instruções diz respeito a duas formas de sacrifício: a oferta pelo 31
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    pecado e aoferta pela culpa. Estão rela­ cionadas muito de perto, e os dois nomes dohebraicopraticamente condizem. Que tenha existido alguma diferença entre eles em determinada época, contudo, parece inquestionável, embora seja mui­ to difícil definir precisamente em que tenhaconsistido. No decorrer dos séculos em que eram oferecidas estas ofertas em Israel, elas sofriam forte influência uma da outra e se tornaram tão aproximada­ mente relacionadas, que agora aparecem lado a lado, com rituais praticamente idênticos, visando oferenda por motivos semelhantes. Com mais probabilidade, devemos se­ guir a sugestão erudita recente (Rend- torf, p. 233), de que, em sua origem, a oferta pelo pecado visava primeiramente um sacrifício especial, de consagração e purificação pelo santuário, enquanto a oferta pela culpa visava uma oferenda para assegurar expiação pelos pecados cometidos por um indivíduo. Onde eram envolvidos os pecados de toda a comuni­ dade, e até detoda,a nação, já vimos que a oferta queimada? podia ser trazida a Deus para assegurar o perdão. Na forma em que agora existe, a oferta queimada também chegou a ser usada para obter a expiação pelo pecado de um indivíduo (1:4), de maneira que achamos a ocor­ rência de alguma repetição nas finalida­ des para que se usavam as diversas for­ mas de sacrifício. 1 Disse mais oSenhora Moisés: 2Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se alguém pecar por ignorância no tocante a qualquer das coisas que o Senhor ordenou que não se fi­ zessem, fazendo qualquer delas; 3 sé for o sacerdote ungido que pecar, assim tornando o povo culpado, oferecerá ao Senhor, pelo pecado que cometeu, um novilho sem de­ feito como oferta pelo pecado. 4 Trará o no­ vilhoà porta da tenda da revelação, perante o Senhor, porá a mão sobre a cabeça do novilho e o imolará perante o Senhor. 5 En­ tão o sacerdote ungido tomará do sangue do novilho, e o trará à tenda da revelação; 6 e, molhando o dedo no sangue, espargirá dosangue sete vezesperante o Senhor, dian­ te do véu do santuário. 7 Também o sacer­ dote porá daquele sangue perante o Senhor, sobre as pontas do altar do incenso aromá­ tico, que está na tenda da revelação; e todo o resto do sangue do novilho derramará à base doaltar doholocausto, que está à porta da tenda da revelação. 8 E tirará toda a gordura do novilho da oferta pelo pecado; a gordura que cobre a fressura, sim, toda a gordura que está sobre ela, 9 os dois rins e a gordura que está sobre eles, e a que está juntoaos lombos, e o redenho que está sobre ofígado, juntamente com os rins, tirá-los-á, 10 assim como se tira do boi do sacrifício pacífico; e o sacerdote os queimará sobre o altar do holocausto. 11Mas o couro do novi­ lho, e toda a sua carne, com a cabeça, as pernas, a fressura e o excremento, 12enfim, onovilhotodo, levá-lo-á para fora do arraial a um lugar limpo, em que se lança a cinza, e o queimará sobre a lenha; onde se lança a cinza, aí se queimará. Basicamente, as ofertas pelo pecado e pela culpa não são tipos novos de sacrifí­ cio, mas, sim, formas desenvolvidas da ofertapacífica, etinham como finalidade servir como sacrifícios de expiação por pecados determinados. Diferem, portan­ to, da oferta pacífica, mais pelas situa­ ções para que o seu uso era proposto do que por qualquer diferença essencial no tipo do sacrifício. Nas situações esboça­ das neste capítulo, a oferta pelo pecado é oferecida pelas ofensas inadvertidas (inconscientes), enquanto a oferta pela culpa érequerida por ofensas que redun­ daram nalgum dano a pessoas ou a suas posses. Baseando-se nisso, N. H. Snaith (p. 40,48,50) mostra que a oferta pela culpa, em 5:14; 6:7, era essencialmente uma forma de oferta de compensação. Era oferecida quando uma perda, que na maioria dos casos podia ser avaliada, tinha sido sanada. Assim, o ritual a seguir é muito seme­ lhante ao da ofertapacífica, ea diferença principal é que, conquanto a maior parte da carne do animal oferecido como uma ofertapacífica tivesse de ser comida, isso era proibido no caso da oferta pelo pe­ cado. A maneira de dispor da maior parte do corpo do animal é descrita em 32
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    4:12: “Onovilhotodo, [osacerdote] levá- lo-á para fora do arraial a um lugar limpo, em que se lança a cinza, e o queimarásobrealenha.” Embora, como com a oferta queimada, o corpo do ani­ mal fosse queimado, isso não erâ reali­ zado sobre o altar, mas feito num lugar especial, assinalado para esse fim. Por ser oferecido como um sacrifício de ex­ piação a Deus, tinha-se tornado santíssi­ mo, e, portanto, não podia servir como carne para uma refeiçãosacrifical. No ritual da bem de perto relacionada oferta pela culpa (7:1-6), era permitido aossacerdotes(embora não às suas espo­ sas ou famílias) comerem a carne. Em alguns casos também a oferta pelo peca­ dopodia sercomida(6:26,29,30). A série inteira de instruções para as ofertas pelopecado e pela culpa demons­ tra uma natureza diferente daquela das instruções tratadas noscapítulos 1-3. En­ quanto estas últimas se preocupam pri­ meiramente com a definição do ritual correto e com os animais apropriados para o uso, o principal interesse com relação às ofertas dopecado e da culpa se focaliza nas ocasiões quando se haviam de fazer os sacrifícios. Por conseguinte, revelam mais informações sobre o signifi­ cado dossacrifícios. Levítico 4:3-12 discute a oferta pelo pecado, a ser apresentada por pecado cometido pelo sacerdote ungido. Este título seacha de novono versículo 16 e se refere ao sumo sacerdote, que estava incumbido de uma responsabilidade es­ pecial pela santidade de Israel. Mais tarde, todos os sacerdotes, os filhos de Arão, foram instalados em seu ofíciopela unção (Êx. 29:21). Agora se dão as ins­ truções (4:13-21) para a oferta pelo pe­ cado quando era oferecida para fazer expiação por pecado cometido por toda a congregação de Israel. Isso podia signifi­ car tanto uma comunidade local como a nação inteira. Em seguida (4:22-26) se descreve o sacrifício pelo pecado de um governante. Otítulo, aqui, se refere, sem dúvida, ao rei ou príncipe (cf. Ez. 44:3; 45:7), porém em épocas primitivas se aplicavaa um chefe ou representantes de uma tribo. O surgimento de qualquer rivalidade à soberania de Deus sobre Israel tem sido evitado. Dão-se instru­ ções especiais para a oferta pelo pecado por um israelita comum, leigo (4:27-35). 13 Se toda a congregação de Israel errar, sendo isso oculto aos olhos da assembléia, e eles tiverem feito qualquer de todas as coisas que o Senhor ordenou que não se fi­ zessem, assim tornando-se culpados; 14 quando o pecado que cometeram for co­ nhecido, a assembléia oferecerá um novilho comooferta pelo pecado, e o trará diante da tenda da revelação. 15 Os anciãos da con­ gregação porão as mãos sobre a cabeça do novilho perante o Senhor; e imolar-se-á o novilho perante o Senhor. 16 Então o sacer­ dote ungido trará o sangue do novilho à ten­ da da revelação; 17 e o sacerdote molhará o dedo no sangue, e o espargirá sete vezes perante o Senhor, diante dovéu. 18E do san­ gue porá sobre as pontas do altar, que está perante o Senhor, na tenda da revelação; e todo o resto do sangue derramará à base do altar doholocausto, que está diante da tenda da revelação. 19 E tirará dele toda a sua gordura, e queimá-la-á sobre o altar. 20 As­ sim fará com o novilho; como fez ao novilho da oferta pelo pecado, assim fará a este; e o sacerdote fará expiação por eles, e eles serão perdoados. 21Depois levará o novilho para fora do arraial, e o queimará como queimou o primeiro novilho; é oferta pelo pecado da assembléia. 22 Quando um prín­ cipepecar, fazendo por ignorância qualquer das coisas que o Senhor seu Deus ordenou que não fizessem, e assim se tornar culpa­ do; 23se o pecado que cometeu lhe for noti­ ficado, então trará por sua oferta um bode, sem defeito; 24 porá a mão sobre a cabeça do bode e o imolará no lugar em que se imola o holocausto, perante o Senhor; é oferta pelo pecado. 25 Depois o sacerdote, com o dedo, tomará do sangue da oferta pelo pecado e po-lo-á sobre as pontas do altar do holocausto; então o resto do sangue derramará à base do altar do holocausto. 26 Também queimará sobre o altar toda a sua gordura comoa gordura do sacrifício da oferta pacífica; assim o sacerdote fará por ele expiação do seu pecado, e ele será per- 33
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    doado. 27 Ese alguém dentre a plebe pecar por ignorância, fazendo qualquer das coisas que o Senhor ordenou que não se fizessem, e assim se tornar culpado; 28se o pecado que cometeu lhe for notificado, então trará por sua oferta uma cabra, sem defeito, pelo cado cometido; 29 porá a mão sobre a beça da oferta pelo pecado,e a imolará no lugar do holocausto. 30 Depois o sacerdote, com o dedo, tomará do sangue da oferta, e o porá sobre as pontas do altar do holocaus­ to; e todo o resto do sangue derramará à base do altar. 31 Tirará toda a gordura, como se tira a gordura do sacrifício pacífi­ co, e a queimará sobre o altar, por cheiro suave ao Senhor; e o sacerdote fará expia­ ção por ele, e ele será perdoado. 32 Ou, se pela sua oferta trouxer uma cordeira como oferta pelo pecado, sem defeito a trará; 33porá a mão sobre a cabeça da oferta pelo pecado, e a imolará por oferta pelo pecado, no lugar onde se imola o holocausto. 34 De­ pois o sacerdote, com o dedo, tomará do sangue da oferta pelo pecado, e o porá sobre as pontas do altar do holocausto; então todo o resto do sangue da oferta derramará à basedoaltar. 35Tirará toda a gordura, como se tira a gordura do cordeiro do sacrifício pacífico, e a queimará sobre o altar, em cima das ofertas queimadas do Senhor; as­ sim o sacerdote fará por ele expiação do pecado que cometeu, e ele será perdoado. Em cada um desses casos se dá grande importância à advertência de que a ofer­ ta visava assegurar expiação somente pe­ las ofensas cometidas despercebidamente (4:2,13,22,27). Essa expiação, podia cer­ tamente abranger os pecados cometidos por ignorância, tais como a infração por Jônatas do juramento feito pelo seu pai (I Sam. 14:24-26), do qual não tinha tomado conhecimento. Também abran­ gia as muitas infrações de regulamentos rituais, quefacilmentesepoderiam come­ ter por erro. Mais precisamente, contu­ do, a palavra significa sem premeditação e se refere não apenas às infrações da lei divina cometidas por ignorância, mas também a outras transgressões que se não tenham feito com a intençãoproposi­ tada depecar. Dá-se expressão ao contrário pelo ter­ mo pecar “à mão levantada” (Núm. 15: 30), que denota um ato cometido com o propósito firmado de pecar contra Deus. Mais tarde, osrabinos interpretavam isso com referência aos pecados cometidos com a clara intenção, já de antemão, de procurar o perdão depois por meio de sacrifício. Em tais casos nenhum sacrifí­ cio podia valer. Esta é uma das caracte­ rísticas e limitações mais notáveis dos sacrifícios rituais do Antigo Testamento. Pela desobediência deliberada a Deus não se especificava sacrifício algum pelo qual se pudesse fazer expiação, e ao pe­ cador não se deixava esperança nenhu­ ma, senão que selançasse sobre a miseri­ córdia deDeus. Não se deve interpretar isso como se implicasse que muitas ofensas não pu­ dessem ser perdoadas. Não é isso que se quer dizer, e é claro, das narrativas do Antigo Testamento, que até ofensas sé­ rias como roubo e assassínio podiam ser perdoadas por Deus quando se eviden­ ciava verdadeiro arrependimento (I Reis 21:29). Deus sempre se mantinha sobe­ rano sobre o ritual i,..j selhe prestava. O perdão era livre prerrogativa dele, e não um direito humano, sendo controla­ do por condições rígidas. A intenção bá­ sica na definição de quando se deviam usar determinados sacrifícios era odesejo positivo de demonstrar o que eles conse­ guiriam, e não o negativo, de mostrar o que nãopodiam conseguir. Como teólogos cristãos têm visto, coe­ rentemente, e como a experiência confir­ ma, é a pecaminosidade da vontade hu­ mana que constitui oproblema mais pro­ fundo do homem. Erros inadvertidos não trazem omesmosentimento deculpa que a nossa própria consciência, quando pe­ camos, de que temos escolhido o cami­ nho da desobediência deliberadamente. É a pecaminosidade da vontade humana quejaz por detrás de cada feito pecami­ noso, eéisso que levou certos profetas do AntigoTestamento a antevera renovação do coração do homem (Jer. 31:31 e ss.; Ez. 36:26 e s.) e os escritores do Novo Testamento aver essa esperança cumpri­ da pelo dom do Espírito (Rom. 8:2 e ss.) 34
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    XSealguém, tendo-se ajuramentadocomo testemunha, pecar por não denunciar o que viu, ouo que soube, levará a sua iniqüidade. 2 Se alguém tocar alguma coisa imunda, seja cadáver de besta-fera imunda, seja cadáver de gado imundo, seja cadáver de réptil imundo, embora faça sem se aperce­ ber, contudo será ele imundo e culpado. 3 Se alguém, sem se aperceber, tocar a imundícia de um homem, seja qual for a imundícia com que este se tornar imundo, quando o souber será culpado. 4 Se alguém, sem se aperceber, jurar temerariamente com os seus lábios fazer mal ou fazer bem, em tudo o que o homem pronunciar temera­ riamente com juramento, quando o souber, culpado será numa destas coisas. 5 Deverá, pois, quando foi culpado numa destas coi­ sas, confessaraquiloem que houver pecado. 6 E como sua oferta pela culpa, ele trará ao Senhor, pelo pecado que cometeu, uma fê­ mea de gado miúdo; uma cordeira, ou uma cabrinha, trará como oferta pelopecado; e o sacerdote fará por ele expiação do seu pe­ cado. 7Mas, se as suas posses não bastarem para gado miúdo, então trará ao Senhor, como sua oferta pela culpa por aquilo em que houver pecado, duas rolas, ou dois pom- binhos; um como oferta pelo pecado, e o outro como holocausto; 8e os trará ao sacer­ dote, oqual oferecerá primeiro aquele que é para a oferta pelo pecado, e com a unha lhe fenderá a cabeça junto ao pescoço, mas não o partirá; 9 e do sangue da oferta pelo pecado espargirá sobre a parede do altar, porém o que restar daquele sangue espre- mer-se-á à base do altar; é oferta pelo peca­ do. 10E do outro fará holocausto conforme a ordenança; assim osacerdote fará expiação por ele do pecado que cometeu, e ele será perdoado. 11 Se, porém, as suas posses não bastarem para duas rolas, ou dois pombi- nhos, então, como oferta por aquilo em que houver pecado, trará a décima parte duma efa de florde farinha como oferta pelo peca­ do; não lhe deitará azeite nem lhe porá em cima incenso, porquanto é oferta pelo pe­ cado; 12 e a trará ao sacerdote, o qual lhe tomará um punhado como o memorial da oferta, e a queimará sobre o altar em cima das ofertas queimadas do Senhor; é oferta pelo pecado. 13 Assim o sacerdote fará por ele expiação do seu pecado, que houver co­ metido em alguma destas coisas, e ele será perdoado; e o restante pertencerá ao sacer­ dote, comoa oferta de cereais. 14Disse mais o Senhor a Moisés: 15 Se alguém cometer uma transgressão, e pecar por ignorância nas coisas sagradas do Senhor, então trará ao Senhor, comoa sua oferta pela culpa, um carneiro sem defeito, do rebanho, conforme a tua avaliação em siclos de prata, segundo 0 siclo do santuário, para oferta pela culpa. 18 Assim fará restituição pelo pecado que houver cometido na coisa sagrada, e ainda lhe acrescentará a quinta parte, e a dará ao sacerdote; e com o carneiro da oferta pela culpa, o sacerdote fará expiação por ele, e ele será perdoado. 17 Se alguém pecar, fa­ zendo qualquer de todas as coisas que o Senhor ordenou que não se fizessem, ainda que não o soubesse, contudo será ele culpa­ do, e levará a sua iniqüidade; 18 e como oferta pela culpa trará ao sacerdote um carneiro sem defeito, do rebanho, conforme a tua avaliação; e o sacerdote fará por ele expiação do erro que involuntariamente houver cometido sem o saber; e ele será perdoado. 19É oferta pela culpa; certamen­ te ele se tornou culpado diante do Senhor. 1 Disse ainda o Senhor a Moisés: 2 Se al­ guém pecar e cometer uma transgressão contra o Senhor, e se houver dolosamente para com o seu próximo tocante a um depó­ sito, ou penhor, ou roubo, ou tiver oprimido a seu próximo; 3 se achar o perdido, e nisso se houver dolosamente e jurar falso; ou se fizer qualquer de todas as coisas em que o homem costuma pecar; 4 se, pois, houver pecado e for culpado, restituirá o que rou­ bou, ou o que obteve pela opressão, ou o depósito que lhe foi dado em guarda, ou o perdido que achou, 5ouqualquer coisa sobre que jurou falso; por inteiro o restituirá, e ainda a isso acrescentará a quinta parte; a quem pertence, lho dará no dia em que trouxer a sua oferta pela culpa. 6 E como a sua oferta pela culpa, trará ao Senhor um carneiro sem defeito, do rebanho; conforme a tua avaliação para a oferta pela culpa trá- lo-áao sacerdote; 7e osacerdote fará expia­ ção por ele diante do Senhor, e ele será per­ doado de todas as coisas que tiver feito, nas quais se tenha tornado culpado. A seção 5:1-6:7 forma uma espécie de apêndice ao capítulo 4, e trata de deter­ minadas situações em que era requerida a oferta pelo pecado ou pela culpa. Em 5:1-6, temos quatro exemplos alistados, nos quais uma pessoa podia incorrer em culpa por negligência. Essas são ofensas de tipos bem diferentes, que têm em co­ mum o fato de que o ofensor traz culpa sobre si mesmo pela retenção de infor­ mações sobre ofensas de que ele tem conhecimento. 35
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    No versículo 1,a tradução adotada pela RSV interpreta a situação comoa de uma pessoa que está sob juramento pú­ blico, para testificar como testemunha deumaofensa, mas quepropositadamen­ te retém informações. Essa é uma inter­ pretação possível do caso, mas mais pro­ vavelmenteasituação quesetemem men­ te é um pouco diferente. Tendo-se jura­ mentado como testemunha poderia ser melhor traduzido “ouvindo alguém amaldiçoar publicamente” (cf. a ASV “a voz da adjuraçâo.”). M. Noth (p. 44) aceita essa como a tradução certa, como também a aceitam comentaristas ante­ riores. A ofensa está em não informar sobreuma maldição ilegal. O segundo caso também fica obscuro na tradução da RSV, mas pode melhor ser entendido quando se refere ao caso deuma pessoa que traz culpasobre sipor tocar num animal imundo (cf. 11:1 ess.) edeuma outra pessoa(o “ele” de seráele imundo e culpado) que omite de lhe advertir sobre oassunto. Semelhantemente, no terceiro exemplo (v. 3), uma pessoa se infeta com impure­ za pelo contato com uma pessoa conta­ minada (cf. 13:1 e ss.) e uma terceira pessoa que vê isso deixa de informar-lhe para que possa tomar a ação purificado­ ra prescrita. A pessoa que deixa de avi­ sar sobre oassunto, por conseguinte, traz culpa sobre si. O quarto caso listado (v. 4) é de uma pessoa que fazumjuramento temerário e de outra que o ouve, mas que deixa de tomá-lo conhecido. São estas todas, basicamente, ofensas de negligência, embora, sem dúvida, pu­ desse entrar um elemento de malícia ou de evasão propositada. Para todos estes casos se havia de trazer uma oferta pelo pecado (v. 6). Os versículos 7-13 então pormenorizam o ritual a ser seguido, caso a pessoa culpada fosse pobre. Os versículos 7-10consideram ocasoem que o ofertante traz dois pombos ou rolas. Um deles havia de ser oferecido como uma oferta pelo pecado, porém com um ritual ligeiramente modificado (v. 8), e o outro comouma oferta queimada (v. 10). Se os dois pombos fossem além das con­ dições do ofensor, então se lhe permitia trazer uma oferta de cereais, de farinha fina(v. 11-13). Este estudo dos sacrifícios israelitas lança uma luz clara sobre a abrangência da afirmativa cristã de que “o sangue de Jesus, seu Filho, purifica-nos de todo pecado” (I João 1:7). Não se precisa de tipos diferentes de sacrifícios para gêne­ ros diferentes depecado, nem há necessi­ dade de temer que haja alguns tipos de pecado que não tenham sido cobertos pelo sacrifício que Deus tem providen­ ciado emJesus Cristo. Todopecado é ex­ piadoporele, de maneira queele cumpre a exigência do Antigo Testamento pelo sacrifíciocomoomeiode expiaçãopara o perdão deDeus. 5. Instruções Para os Sacerdotes com RelaçãoaosSacrifícios(6:8-7:38) 8 Disse mais o Senhor a Moisés: 9 Dá or­ dem a Arão e as seus filhos, dizendo: Esta é a lei do holocausto: o holocausto ficará a noite toda, até pela manhã, sobre a lareira do altar, e nela se conservará aceso o fogo do altar. 10 E o sacerdote vestirá a sua veste de linho, e vestirá as calças de linho sobre a sua carne; e levantará a cinza, quando ofogohouver consumido oholocaus­ to sobre o altar, e a porá junto ao altar. 11 Depois despirá as suas vestes, e vestirás outras vestes; e levará a cinza para fora do arraial a um lugar limpo. 12 O fogo sobre o altar se conservará aceso; não se apagará. O sacerdote acenderá lenha nele todos os dias pela manhã, e sobre ele porá em ordem o holocausto, e queimará a gordura das ofertas pacíficas. 13 O fogo se conservará continuamente aceso sobre o altar; não se apagará. 14Esta é a leida oferta de cereais: os filhos de Arão a oferecerão perante o Senhordiante doaltar. 15O sacerdote toma­ rá dela um punhado, isto é, da flor de fari­ nha da oferta de cereais e do azeite da mesma, e todo oincenso que estiver sobre a oferta de cereais, e os queimará sobre o altar por cheiro suave ao Senhor, como o memorial da oferta. 16 E Arão e seus filhos comerão o restante dela; comê-lo-ão sem 36
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    fermento em lugarsanto; no átrio da tenda da revelação ocomerão. 17Levedado não se cozerá. Gomo a sua porção das minhas ofer­ tas queimadas lho tenho dado; coisa san­ tíssima é, comoa oferta pelo pecado, e como a oferta pela culpa. 18 Todo varão entre os filhos de Arão comerá dela, como a sua porção das ofertas queimadas do Senhor; estatuto perpétuo será para as vossas gera­ ções; tudo o que as tocar será santo. 19Dis­ se mais oSenhora Moisés: 20Esta é a oferta de Arão e de seus filhos, a qual oferecerão ao Senhor no dia em que ele for ungido: a décima parte duma efa de flor de farinha, como oferta de cereais, perpetuamente, a metade delapela manhã, e a outra metade à tarde. 21 Numa assadeira se fará com azei­ te; bem embebida a trarás; em pedaços cozidos oferecerás a oferta de cereais por cheiro suave ao Senhor. 22Também o sacer­ dote que, de entre seus filhos, for ungido em seu lugar, a oferecerá; por estatuto perpé­ tuo será ela toda queimada ao Senhor. 23As­ sim toda oferta de cereais do sacerdote será totalmente queimada; não se comerá. Até aqui Levítico tem dado uma série deinstruções com relação aos sacrifícios, dirigida ao povo de Israel (1:2). O que agora segue é mais uma série de instru­ ções com relação aos mesmos sacrifícios, mas dirigida aos sacerdotes, e não ao povoem geral. Agora temos esta diretriz: Dá ordem a Arão e aos seus filhos, di­ zendo. Temos visto que o oferecimento do sacrifício era uma forma de culto em que oisraelitaleigoeosacerdote tinham, cadaum, deveres determinadospara rea­ lizar. Não era permitida a um cidadão comum a realização de qualquer tarefa que implicasse contato direto com o al­ tar. Naturalmente, a comunidade sacer­ dotal requeria conhecimento mais espe­ cializadopara essas tarefas, que somente elapodia cumprir, e temos de presumir a probabilidade de que esse conhecimento fosse transmitido de uma geração de sacerdotes para a seguinte, oralmente. Com maior probabilidade, foi durante o exílio babilónico, quando, durante de­ terminado período, todo ocultosacrifical de Israel desabou em desordem, que surgiu a necessidade de produzir uma versão escrita desse conhecimento. Isto teria garantido a continuação das prá­ ticas antigas e evitado a introdução de inovaçõesindesejáveis. Na época em que essas regras foram registradas por escrito, o altar sacrifical de Israel situava-se no Templo em Jeru­ salém, mas a história dele como o lugar legítimo onde os sacrifícios deviam ser feitos remonta ao Tabernáculo no deser­ to. Semelhantemente, a autorização do ministério dos sacerdotes da linha de Arãoremontava ao próprioArão, e, além dele, a Moisés. Todo oculto de Israel era culto pactuai, visto que constituía o pac­ to prometido através de Abraão e cum­ prido através deMoisés, que ligava Israel a Deus. Esta ênfase no procedimento correto a ser observado, quando se ofere­ cia sacrifícios, e a restrição de certas partes das cerimônias à família sacerdo­ tal deArãovisavam assegurar que os cul- tuadores israelitas se submetessem às formas deculto aceitas eautorizadas. A preocupação principal destas ins­ truções sacerdotais é o estabelecimento dos direitos e dos privilégios dos sacer­ dotes com relação às partes das ofertas sacrificais que lhes eram devidas. No caso das ofertas de cereais, o sacerdote havia de ter a parte delas que não era queimada sobre oaltar(6:16-18). Porém, quando o próprio sacerdote fazia sua oferta de cereais a Deus, tinha de ser queimada e não devia ser comida nem por ele nem por outros sacerdotes (6:23). 24 Disse mais oSenhora Moisés: 25Fala a Arão e a seus filhos, dizendo: Esta é a lei da oferta pelo pecado: no lugar em que se imola o holocausto se imolará a oferta pelo pecado perante o Senhor; coisa santíssima é. 26O sacerdote que a oferecer pelo pecado a comerá; comê-la-á em lugar santo, no átrio da tenda da revelação. 27 Tudo o que tocar a carne da oferta será santo; e quando o sangue dela for espargido sobre qualquer roupa, lavarás em lugar santo a roupa sobre a qualele tiver sidoespargido. 28Mas ovaso debarro em quefor cozida será quebrado; e se for cozida num vaso de bronze, este será esfregado, e lavado na água. 29 Todo varão entre os sacerdotes comerá dela; coisa san­ 37
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    tíssima é. 30Contudo não se comerá nenhu­ ma ofertapelopecado, da qualuma parte do sangue é trazida dentro da tenda da revela­ ção, para fazer expiação no lugar santo; no fogo será queimada. 1 Esta é a lei da oferta pela culpa: coisa santíssima é. 2 No lugar em que imolam o holocausto, imolarão a oferta pela culpa, e o sangue dela se espargirá sobre o altar em redor. 3Dela se oferecerá toda a gordura: a cauda gorda, e a gordura que cobre a fres- sura, 4 os dois rins e a gordura que está sobre eles, e a que está junto aos lombos, e o redenho sobre o fígado, juntamente com os rins, os tirará; 3 e o sacerdote os queimará sobre o altar em oferta queimada ao Se­ nhor; é uma oferta pela culpa. 6 Todo varão entre os sacerdotes comerá dela; num lugar santo se comerá; coisa santíssima é. 7 Co­ mo é a oferta pelo pecado, assim será a ofertapela culpa; há uma só lei para elas, a saber, pertencerá ao sacerdote que com ela houverfeito expiação. 8Também o sacerdo­ te que oferecer oholocausto de alguém terá para si o couro do animal que tiver ofereci­ do. 9 Igualmente toda oferta de cereais que se assar ao forno, como tudo o que se prepa­ rar na frigideira e na assadeira, pertencerá ao sacerdote que a oferecer. 10 Também toda oferta de cereais, seja ela amassada com azeite, ou seja seca, pertencerá a todos os filhos de Arão, tanto a um como a outro. As regras que tratam das ofertas pelo pecado e pela culpa são menos claras. Às vezes, aparentemente, a oferta pelo pecado podia ser comida pelo sacerdote (6:30; cf. 4:11,12). Provavelmente, em certa época, no passado, se permitisse aos sacerdotes comerem a carne da oferta pelo pecado; porém, com a evolução dos ritos da aspersão do sangue, isso já não se permitia. Semelhantemente, a carne da oferta pela culpa era, em certa época, comida pelos sacerdotes, porém, com a evolução de ritos especiais, isso também era proibido, visto que as ofertas pelo pecado e pela culpa haviam de ser trata­ das da mesma maneira(7:1-10). A carne da oferta pacífica tinha de ser comida no dia do sacrifício (v. 15), en­ quanto a da oferta votiva ou voluntária ainda podia ser comida no dia seguinte (v. 16,17). Até oterceiro dia toda a carne sacrifical se tornava numa coisa abomi­ nável, que é um termo técnico do culto ritual de Israel para denotar o que é ina­ ceitável a Deus. Assim, a carne que era dessa forma descrita já não podia ser comida (v. 18). Estas praxes diferentes refletem os graus de santidade que, con­ forme seacreditava, pertenciam aos tipos diferentes de sacrifícios. 11 Esta é a lei do sacrifício das ofertas pacíficas que se oferecerá ao Senhor: 12 Se alguém ooferecer por oferta de ação de gra­ ças, com o sacrifício de ação de graças oferecerá bolos ázimos amassados com azeite, e coscorões ázimos untados com azeite, ebolosamassados com azeite, deflor defarinha, bem embebidos. 13Com os bolos oferecerá pão levedado como sua oferta, com o sacrifício de ofertas pacíficas por ação de graças. 14 E dele oferecerá um de cada oferta por oferta alçada ao Senhor, o qualpertencerá ao sacerdote que espargir o sangue da oferta pacífica. 15Ora, a carne do sacrifício de ofertas pacíficas por ação de graças se comerá no dia do seu oferecimen­ to; nada se deixará dela até pela manhã. 16 Se, porém, o sacrifício da sua oferta for voto, ou oferta voluntária, no dia em que for oferecido se comerá, e no dia seguinte se comerá o que dele ficar; 17mas oque ainda ficar da carne do sacrifício até o terceiro dia será queimado no fogo. 18 Se alguma parte da carne do sacrifício da sua oferta pacífica se comer ao terceiro dia, aquele sacrifício não será aceito, nem será imputa­ do àquele que o tiver oferecido; coisa abo­ minável será, e quem dela comer levará a sua iniqüidade. 19Acarne que tocar alguma coisa imunda não se comerá; será queima­ da no fogo; mas da outra carne, qualquer que estiver limpo comerá dela; 20 todavia, se alguma pessoa, estando imunda, comer a carne do sacrifício da oferta pacífica, que pertence ao Senhor, essa pessoa será extir­ pada do seu povo. 21 E, se alguma pessoa, tendo tocado alguma coisa imunda, como imundícia de homem, ou gado imundo, ou qualquer abominação imunda, comer da carne do sacrifício da oferta pacífica, que pertence ao Senhor, essa pessoa será extir­ pada doseupovo. 22 Depois disse o Senhor'a Moisés: 23 Fala aos filhos de Israel, dizen­ do: Nenhuma gordura de boi, nem de car­ neiro, nem de cabra comereis. 24 Todavia pode-seusar a gordura doanimal que morre por si mesmo, e a gordura do que é dilace­ rado por feras, para qualquer outro fim; mas de maneira alguma comereis dela. 38
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    25 Pois quemquer que comer da gordura do animal, do qual se oferecer oferta quei­ mada ao Senhor, sim, a pessoa que dela comer será extirpada do seu povo. 26 E ne­ nhum sangue comereis, quer de aves, quer de gado, em qualquer das vossas habita­ ções. 27 Toda pessoa que comer algum san­ gue será extirpada de seu povo. 28 Disse mais o Senhor a Moisés: 29 Fala aos filhos de Israel, dizendo: Quem oferecer sacrifício de ofertapacífica ao Senhor trará ao Senhor a respectiva oblação da sua oferta pacífica 30 Com as próprias mãos trará as ofertas queimadas do Senhor; o peito com a gordu­ ra trará, para movê-lo por oferta de movi­ mento perante o Senhor. 31 E o sacerdote queimará a gordura sobre o altar, mas o peito pertencerá a Arão e a seus filhos. 32 E dos sacrifícios das vossas ofertas pací­ ficas, dareis a coxa direita ao sacerdote por oferta alçada. 33Aquele dentre os filhos de Arão que oferecer o sangue da oferta pacífica, e a gordura, esse terá a coxa direi­ ta por sua porção; 34porque o peito movido e a coxa alçada tenho tomado dos filhos de Israel, dos sacrifícios das suas ofertas pa­ cíficas, e os tenho dado a Arão, o sacerdote, e a seus filhos, como sua porção, para sem­ pre, da parte dos filhos de Israel. 35Esta é a porção sagrada de Arão e a porção sagrada de seus filhos, das ofertas queimadas do Se­ nhor, desde o dia em que ele os apresentou para administrar o sacerdócio ao Senhor; 36 a qual o Senhor, no dia em que os ungiu, ordenou que se lhesdesse da parte dos filhos de Israel; é a sua porção para sempre, pelas suas gerações. 37 Esta, é a lei do holocausto, da oferta de cereais, da oferta pelo pecado, da oferta pela culpa, da oferta das consa­ grações, e do sacrifício das ofertas pacífi­ cas; 38a qual oSenhor entregou a Moisés no monte Sinai, nodia em que este estava orde­ nando aos filhos de Israel que oferecessem as suas ofertas ao Senhor, no deserto do Si­ nai. Era permitido ao próprio cultuador comer a carne da oferta pacífica, mas tinha de dar alguma parte dela ao sa­ cerdote (7:30-35). Essa parte era especi­ ficadacomo sendo opeitoea coxa direita do animal, bem como um bolo dentre os pães que acompanhavam semelhante oferta (7:13,14). Era uma questão de grande importância que os sacerdotes soubessem precisamente quanto de cada oferta se lhes devia, pois a incerteza podia provocar discussões desonrosas. Foiprecisamenteuma negligência de tais regulamentos que constituiu o mau com­ portamento de Hofni e Finéias (I Sam. 2:12-17), que, por conseguinte, trouxe­ ram descrédito sobre todo o culto de Israel. Por detrás desses regulamentos con­ cernentes à renda sacerdotal advinda dos sacrifícios jaz o princípio espiritual im­ portante de que aqueles que servem ao altar devem ganhar o seu sustento dele (cf. I Cor. 9:13). Ao estabelecer um ministério de sacerdotes que eram consa­ grados a desempenhar todas as tarefas que os israelitas leigos não eram permi­ tidos a realizar, Deus lhes ordenou os seus próprios meios de sustento. Eles advinham das oferendas consagradas dos israelitas. Porque os cidadãos de Israel eram, em certa medida, dependentes do ministério dos sacerdotes da linha de Arão, era espiritualmente certo que o povo contribuísse com as suas dádivas para o sustento de tais sacerdotes. Ou- trossim, semelhante oferecimento não se deixava ao capricho do cultuador indivi­ dual, como talvez em determinada época tenha sido a praxe, mas era devidamente definido, de forma quenenhuma parte se sentisse defraudada. À medida que passamos em revista o Manual do Sacrifício, preservado nos capítulos 1-7, talvez nos impressione que, em meio a detalhes tão preciosos sobre o que se devia fazer, pouquíssimo se diz sobre o raciocínio que jazia por detrás de semelhantes ofertas ou sobre a atitude espiritual correta que devia acompanhá-las. Esse silêncio surge da natureza das instruções, que procuram definir a prática, antes do que reafirmar a teoriabásica dos sacrifícios. Temos de lembrar que, no próprio culto de adoração, quando se traziam os sacrifícios a Deus, o cultuador também cantava um salmo, como um “sacrifício de louvor” a Deus. Freqüentemente, se­ melhante salmo explicaria o propósito 39
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    quelevou oofertante afazera suaoferen­ da, tal o pagamento de um voto. (cf. Sal. 116:16-19). Ao mesmo tempo tais salmos podiam também afirmar a atitude certa que o cultuador devia ado­ tar, comoébelamente expressono Salmo 51:17: “O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração que­ brantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” Da mesma maneira que o Manual do Sacrifício mostra a forma externa do culto de Israel, os salmos mostram o seu espírito interior. Porém nenhum dos dois representa por inteiro o caráter da devo­ ção deIsrael; elespertencem um ao outro como partes relacionadas do culto de louvor de Israel a Deus. Temos, portan­ to, de aprender a entender e interpre­ tá-los cada um em relação ao outro. Fo­ ram os salmos, que eram cantados para acompanharossacrifícios, que deram seu significado e coloração espirituais às leis sacrificais. Também não haviam brotado os salmos de uma devoção informe a Deus, mas eram produto de um padrão de devoção e culto que era ao mesmo tempo disciplinado e custoso, como as leis mostram. Assim, o louvor mais ele­ vado se expressava pelo sacrifício, e o sacrifício mais verdadeiro era o que sur­ gia da obediência do coraçãohumano. II. O Começo do Culto de Israel no Sinai(8:1-10:20) 1. A Consagração de Arão e de Seus Filhos ComoosSacerdotesdeIsrael (8:1-36) Este capítulo é uma narrativa históri­ ca, quenos conta comoArão eseus filhos foram ordenados para o ministério sacer­ dotal de Israel, em conformidade com as instruções dadas a Moisés em Êxodo 29. Há um paralelismo muito grande entre Êxodo 29, que expõe as instruções a serem seguidas, e o capítulo 8, que des­ creve detalhadamente como foram cum­ pridas. Assim, está claro que o capítulo 8 prossegue com a história de Êxodo35-39, queconta como o tabernáculo foi erigido no deserto, de acordo com oplano divino revelado a Moisés. Deste modo, mais uma vez, como no Manual do Sacrifício, achamos uma continua insistência sobre a graça de Deus, que tem revelado ao seu povo da aliança como há de ser adorado. 1 Disse mais o Senhora Moisés: 2Toma a Arão e a seus filhos com ele, e os vestidos, e o óleo da unção, e o novilho da oferta pelo pecado, e os dois carneiros, e o cesto de pães ázimos, 3 e reúne a congregação toda à porta da tenda da revelação. 4 Fez, pois, Moisés como o Senhor lhe ordenara; e a congregação se reuniu à porta da tenda da revelação. Da máxima importância é a restrição do ministério sacerdotal de Israel a Arão e à sua descendência. Está claro, de outras passagens do Antigo Testamento, que a história do sacerdócio de Israel foi complexa, e que devezem quando emer­ giam rivalidades entre diversas famílias (cf. Núm. 16), especialmente quando o culto sacrifical era proibido em qualquer outro santuário que não fosse o de Jeru­ salém (cf. II Reis 23:9). Neste relato da ordenação de Arão e seus filhos, estas rivalidades e divisões já haviam sido re­ solvidas, e o serviço sacerdotal do altar estava limitado a uma família, que rece­ beu a sua autoridade de Moisés. O que achamos neste capítulo, portanto, não era sempre seguido, através da longa história do ministério sacerdotal de Is­ rael, como oAntigo Testamento mostra, porém representa a situação resultante, depois de muitos séculos de experiências. Poressa experiência se afirmou um prin­ cípio dinástico de sucessão para o sacer­ dócio, dentro da família de Arão. A prática de restringir o sacerdócio a uma família era inteiramente conforme ao costume normal do mundo antigo, onde ocuidado sacerdotal dos santuários locais ficava nas mãos de uma família local. O motivo principal por essa res­ 40
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    trição era, indubitavelmente,que as ta­ refas sacerdotais implicavam uma quan­ tidade considerável de conhecimentos es­ pecializados e técnicos com relação ao oferecimento dos sacrifícios, à declara­ çãodeoráculose aos cuidados devidos ao santuário. Tais conhecimentos podiam sertransmitidos, com a maior facilidade, oralmente, pelo treinamento e instruções dentro de uma família. Ao mesmo tem­ po, como reconhecemos a correção dessa restrição do sacerdócio a famílias especí­ ficas, temos também de notar as limita­ çõesque implicava. Em sentido global, a religião de Israel devia mais aos seus profetas do que aos seus sacerdotes, e aqueles muitas vezes entravam em con­ flitocomestes(cf. Am. 7:10-17). O Espí­ rito de Deus não era restrito, na doação de seus dons, a determinadas famílias, de maneira que muitos dos maiores mo­ vimentos de renovaçãoedesenvolvimento espiritual em Israel surgiram fora das famílias sacerdotais reconhecidas. A li­ berdade dos profetas contrastava, de muitas maneiras, com o conservantismo dos sacerdotes. O ritual para a ordenação de Arão e seus filhos pode ser dividido nas seções principais seguintes: (1) A investidura de Arão com vesti­ mentas de sumo sacerdote (v. 5-9; cf. Êx. 28:1-39; 29:5-6). (2) Aunção de Arão e do tabernáculo comóleo(v. 10-12; cf. Êx. 29:7). (3) A investidura dos filhos de Arão com vestimentas sacerdotais (v. 13; cf. Êx. 28:40-43; 29:8,9). (4) O oferecimento de um novilho co­ mo uma oferta pelo pecado (v. 14-17; cf. Êx. 29:10-14). (5) O oferecimento de um carneiro como uma oferta queimada (v. 18-21; cf. Êx. 29:15-18). (6) O oferecimento de um carneiro como uma oferta de consagração (v. 22- 29; cf.Êx. 29:19-28). (7) A consagração de Arão e seus fi­ lhoscom osangue da oferta da consagra­ ção(v. 23,24,30; cf. Êx. 29:20,21). 5 E disse Moisés à congregação: Isto é o que oSenhorordenou que se fizesse. 6Então Moisés fez chegar a Arão e seus filhos, e os lavou com água, 7 e vestiu Arão com a túnica, cingiu-o com o cinto, e vestiu-lhe o manto, e pôs sobre ele o éfode, e cingiu com ocinto de obra esmerada, e com ele lhe apertou o éfode. 8 Colocou-lhe, então, o pei­ toral, noqualpôs o Urime o Tumim; 9epôs sobre a sua cabeça a mitra, e sobre esta, na parte dianteira, pôs a lâmina de ouro, a coroa sagrada; como o Senhorlhe ordenara. 10 Então Moisés, tomando o óleo da unção, ungiu o tabernáculo e tudo o que nele havia, e os santificou; 11e dele espargiu sete vezes sobre o altar, e ungiu o altar e todos os seus utensílios, como também a pia e a sua base, para santificá-los. 12Em seguida derramou do óleo da unção sobre a cabeça de Arão, e ungiu-o, para santificá-lo. 13Depois Moisés fez chegar os filhos de Arão, e os vestiu de túnicas, e os cingiu com cintos, e lhes atou tiaras; comoo Senhorlhe ordenara. O simbolismo das vestimentas do su­ mo sacerdote é muito mais claramente ressaltado nas instruções dadas para a suafeitura emÊxodo28. O peitoril tinha pedras preciosas, ostentando os nomes dos filhos de Israel (Êx. 28:21), engasta­ das nele, enquanto o Urim e Tumim (v. 8) eram uma espécie de sortes sagra­ das, por meio de que o sacerdote trans­ mitia uma decisão oracular vinda de Deus. O uso do Urim e Tumim é mostrado em I Samuel 23:9-12; 30:7,8 (cf. I Sam. 14:36,37; 28:6). Infelizmente, não se pode tirar nenhuma ajuda da etimologia das palavras, na busca de uma recons­ trução do que fossem. Com mais proba­ bilidade devemos pensar em duas pedras com dois lados marcados, gravados com símbolos, para mostrar sesehavia de dar uma resposta afirmativa ou negativa. Deuteronômio 33:8 e Esdras 2:63 impli­ cam que todosossacerdotes tinham aces­ soaouso doUrim eTumim. 41
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    Ás vestimentas dosumo sacerdote ser­ viam para destacar a natureza dupla das tarefas sacerdotais; ou seja, para trazer o povo a Deus, em intercessão e medita­ ção, e para trazer Deus ao povo, por declarara vontade divina. 14 Então fez chegar o novilho da oferta pelopecado; e Arão e seus filhospuseram as mãos sobre a cabeça do novilho da oferta pelo pecado; 15 e, depois de imolar o novi­ lho,Moiséstomou osangue, e pôsdele com o dedo sobre as pontas do altar em redor, e purificou o altar; depois derramou o resto do sangue à base do altar, e o santificou, para fazer expiação por ele. 16Então tomou toda a gordura que estava na fressura, e o redenho do fígado, e os dois rins com a sua gordura, e os queimou sobre o altar. 17 Mas onovilhocom oseu couro, com a sua carne e com seu excremento, queimou-o com fogo fora do arraial; como o Senhor lhe orde­ nara. 18 Depois fez chegar o carneiro do holocausto; e Arão e seus filhos puseram as mãos sobre a cabeça do carneiro. 19Haven­ do imolado o carneiro, Moisés espargiu o sangue sobre o altar em redor. 20 Partiu também o carneiro nosseus pedaços, e quei­ mou dele a cabeça, os pedaços e a gordura. 21 Mas a fressura e as pernas lavou com água; então Moisés queimou o carneiro todo sobre o altar; era holocausto de cheiro sua­ ve, uma oferta queimada ao Senhor; como o Senhorlhe ordenara. Fora umas diferenças menores, a ofer­ ta pelo pecado e a oferta queimada são feitas de acordo com as instruções dadas nos capítulos 1 e 6. Foram oferecidas para assegurarexpiação para os sacerdo­ tes, no caso de terem cometido qualquer infração despercebidamente. O sistema sacrifical proporcionava providências es­ peciais para os pecados que fossem co­ metidos quando o sacerdote estava exer­ cendo as suas funções. A oferta da con­ sagração é mostrada, pelo seu ritual, comosendouma forma especial da oferta pacífica. O derramamento do sangue à base do altar (v. 15) era para o purificar para oserviço divino. 22 Depois fez chegar o outro carneiro, o car­ neiro da consagração; e Arão e seus filhos puseram as mãos sobre a cabeça do carnei­ ro; 23 e tendo Moisés imolado o carneiro, tomou do sangue deste e o pôs sobre a ponta da orelha direita de Arão, sobre opolegar da sua mão direita, e sobre o polegar do seu pé direito. 24 Moisés fez chegar também os filhosde Arão, e pôs daquele sangue sobre a ponta da orelha direita deles, e sobre o polegar da sua mão direita, e sobre o po­ legar do seu pé direito; e espargiu o sangue sobre oaltar em redor. 25 E tomou a gordu­ ra, e a cauda gorda, e toda a gordura que estava na fressura, e o redenho do fígado, e os dois rins com a sua gordura, e a coxa direita; 26 também do cesto dos pães ázi­ mos, que estava diante do Senhor, tomouum bolo ázimo, e um bolo de pão azeitado, e um coscorão, e os pôs sobre a gordura e sobre a coxa direita; 27e pôstudo nas mãos de Arão e de seus filhos, e o ofereceu por oferta movida perante o Senhor. 28 Então Moisés os tomou das mãos deles, e os queimou sobre o altar em cima do holocausto; os quais eram uma consagração por cheiro suave, oferta queimada ao Senhor. 29 Em seguida tomou Moisés o peito, e o ofereceu por oferta movida perante o Senhor; era a parte do carneiro da consagração que toca­ va Moisés, como o Senhor lhe ordenara. 30Tomou Moisés também do óleo da unção, e do sangue que estava sobre o altar, e o espargiu sobre Arão e suas vestes, e sobre seus filhose as vestes de seus filhos com ele; e assim santificou tanto a Arão e suas ves­ tes, como a seus filhos e as vestes de seus filhoscom ele. A colocação do sangue nas extremida­ des do corpo simbolizava a purificação do corpo inteiro, que foi, desta maneira, feitoapto para o serviço divino(v. 23,24; cf. 14:17). Particularmente instrutiva, no ritual da ordenação, é a maneira como se mos­ tra que as vestimentas sacerdotais esta­ vam intimamente ligadas à vocação do sacerdote. Jazpor detrás disso o conceito antigo de que a santidade era quase um ente físico, que podia afetar as roupas impessoais que uma pessoa usava, b.em como a própria pessoa. Assim, as vesti­ mentas do sacerdote tinham de ser con­ sagradas (v. 30), a fim de poderem ser usadas para o serviço em contato com o altar. Reconhecemos também, em certa medida, que as roupas de uma pessoa 42
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    expressam algo desua personalidade e podem servir para indicar a sua vocação. Era particularmente importante, portan­ to, que a santidade dos sacerdotes fosse indicada pelas vestimentas que usavam. Os pormenores escrupulosos do ritual para a ordenação de Arão e seus filhos refletem a grande seriedade que carac­ terizava o seu trabalho. Eles deviam ser os guardiões espirituais das almas de Israel. Aselevadas exigências desua con­ sagração lançam uma nova luz sobre o significado das palavras de Jesus, em sua oração sacerdotal: “E por eles me santi­ fico, para que também eles sejam santifi­ cados na verdade” (João 17:19). Jesus, através de sua própria vida de autodis- ciplina e pelo seu auto-oferecimento na cruz, santificou-se, para se tomar nosso sumo sacerdote junto a Deus. Através dele, temos acesso a Deus, e o nosso pró­ prio sacerdócio depende dele. 31 E disse Moisés a Arão e seus filhos: Cozeia carne à porta da tenda da revelação; e ali a comereis com o pão que está no cesto da consagração, como ordenei, dizendo: Arão e seus filhos a comerão. 32 Mas o que restar da carne e do pão, queimá-lo-eis ao fogo. 33 Durante sete dias não saireis da porta da tenda da revelação, até que se cumpram os dias da vossa consagração; porquanto por sete dias ele vos consagrará. 34 Como se fez neste dia, assim o Senhor ordenou que se proceda, para fazer expia­ ção porvós. 35Permanecereis, pois, à porta da tenda da revelação dia e noite por sete dias, e guardareis as ordenanças do Senhor, para que não morrais; porque assim me foi ordenado. 36 E Arão e seus filhos fizeram todas as coisas que o Senhor ordenara por intermédio de Moisés. A conclusão do ritual da ordenação é descrita nosversículos 31-36. No todo, as cerimônias deviam durar sete dias, e em cada um desses dias os ritos especiais relacionados com o sacrifício de ordena­ ção deviam ser repetidos. Durante este tempoos sacerdotes tinham de permane­ cer no santuário sob pena de morte, e somente no fim dos sete dias lhes era permitido entrar novamente em contato normalcomisraelitasleigos. Assim como esse ritual de ordenação é agora apresentado, isto é, em forma de narrativa, ele diz respeito ao evento de­ terminado da ordenação de Arão. Mas pode haver pouca dúvida de que cerimô­ nias essencialmente semelhantes foram realizadas em anos posteriores, em Is­ rael, quando membros de famílias sacer­ dotais alcançavam uma idade suficiente para assumirem oseu ofício sacerdotal, e mais especialmente quando um novo sumo sacerdote tinha de ser empossado. Assim, o que é elaborado como um re­ gistro histórico, também servia como modelo para a imitação de gerações fu­ turas. 2. Os Primeiros Sacrifícios Públicos em Israel(9:1-24) 1 Ora, ao oitavo dia, Moisés chamou a Arão e seus filhos, e os anciãos de Israel, 2 e disse a Arão: Toma um bezerro tenro para oferta pelo pecado, e um carneiro para holocausto, ambos sem defeito, e oferece-os perante o Senhor. 3 E falarás aos filhos de Israel, dizendo: Tomai um bode para oferta pelo pecado; e um bezerro e um cordeiro, ambos de um ano, e sem defeito, como ho­ locausto; 4 também um boi e um carneiro para ofertas pacíficas, para sacrificar pe­ rante o Senhor, e oferta de cereais, amassa­ da com azeite; porquanto hoje o Senhor vos aparecerá. 5Então trouxeram até a entrada da tenda da revelação o que Moisés ordena­ ra,e chegou-setodaa congregação,eficoude pédiantedoSenhor.6EdisseMoisés: Estaéa coisaque o Senhorordenou que fizésseis; e a glória do Senhor vos aparecerá. 7 Depois disse Moisés a Arão: chega-te ao altar, e apresenta a tua oferta pelo pecado e o teu holocausto, e faze expiação por ti e pelo povo; também apresenta a oferta do povo, e faze expiação por ele, como ordenou o Se­ nhor. 8 Arão, pois, chegou-se ao altar, e imolou o bezerro que era a sua própria oferta pelo pecado. 9 Osfilhos de Arão trou­ xeram-lhe o sangue; e ele molhou o dedo no sangue, e o pôs sobre as pontas do altar, e derramou osangue à base do altar. 10mas a gordura, e os rins, e o redenho do fígado, tirados da oferta pelo pecado, queimou-os sobre o altar, como o Senhor ordenara a 43
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    Moisés. 11£ queimouao fogofora do arraial a carne e o couro. 12 Depois imolou o holo­ causto, e os filhos de Arão lhe entregaram o sangue, e ele o espargiu sobre o altar em redor. 13 Também lhe entregaram o holo­ causto, pedaço porpedaço, e a cabeça; e ele os queimou sobre o altar. 14 E lavou a fressura e as pernas, e as queimou sobre o holocausto no altar. 15 Então apresentou a oferta do povo e, tomando o bode que era a oferta pelo pecado do povo, imolou-o e o ofereceu pelo pecado, como fizera com o primeiro. 16 Apresentou também o holo­ causto, e o ofereceu segundo a ordenança. 17 E apresentou a oferta de cereais e, to­ mando dela um punhado, queimou-o sobre o altar, além doholocausto da manhã. 18Imo­ lou também oboi e o carneiro em sacrifício de oferta pacífica pelo povo; e os filhos de Arão entregaram-lhe o sangue, que ele es­ pargiu sobre o altar em redor. 19como tam­ bém a gordura doboi e do carneiro, a cauda gorda, eo que cobre a fressura, e os rins, e o redenho do fígado; 20 e puseram a gordura sobre os peitos, e ele queimou a gordura sobre o altar; 21 mas os peitos e a coxa direita, ofereceu-os a Arão por oferta movi­ da perante o Senhor, como Moisés tinha ordenado. 22 Depois Arão, levantando as mãos para o povo, o abençoou e desceu, tendo acabado de oferecer a oferta pelo pecado, o holocausto e as ofertas pacíficas. 23 E Moisés e Arão entraram na tenda da revelação; depois saíram, e abençoaram o povo; e a glória do Senhor apareceu a todo o povo, 24 pois saiu fogo de diante do Senhor, e consumiu o holocausto e a gordura sobre o altar; o que vendo todo o povo, jubilaram e prostraram-se sobre os seus rostos. Esta seçâo continua com a narração histórica dos começos do culto organiza­ doemIsrael, iniciado, apropriadamente, com a ordenação dos sacerdotes. A refe­ rência noversículo 1ao oitavo dia refere- se a Êxodo 40:17, onde sabemos que o tabernáculo foi erigido “no primeiro mês do segundo ano, no primeiro dia do mês”. Os sete dias intervenientes eram ocupados com a consagração dos sacer­ dotes da linha de Arão, que haviam de zelarpelonovosantuário (8:35); então os primeiros sacrifícios públicos de Israel haviam de seroferecidos a Deus. É significativo que, no ritual de orde­ nação do capítulo 8, Moisés desempenha as tarefas atribuídas ao sacerdote pelo Manual do Sacrifício(8:15 ess., 24ess.), enquanto Arão e os seus familiares assu­ mem o papel de israelitas leigos comuns. Somente depois de seu período de con­ sagração é-lhes permitido que assumam as responsabilidades atribuídas aos sa­ cerdotes. É surpreendente também que, apesar de o ritual complexo da ordena­ çãoconteruma oferta pelo pecado e uma oferta queimada por Israel, a nova or­ dem de sacrifícios públicos se inicia com ainda outra oferta pelo pecado feita em prol deArão(v. 8). A santidade de Israel dependia, em grande medida, dos cuidados dos sacer­ dotes. Porém os sacerdotes, pela nature­ za de seu trabalho e seu contato chegado com o altar, estavam numa posição em que eles, mais facilmente do que outros, podiam transgredir os regulamentos que resguardavam a santidade de Deus. Era tanto mais importante, portanto, que se fizesse a expiação pelos pecados dos sa­ cerdotes pela apresentação de ofertas es­ peciais pelo pecado. Como em todo o serviçode Deus, aqueles que lhe são mais próximos e levam as cargas mais pesa­ das de responsabilidade espiritual estão sujeitos às maiores tentações e podem, mais facilmente do que os outros, trazer desonra ao seunome. Os primeiros sacrifícios públicos se­ guemessencialmenteosregulamentosex­ postos no Manual do Sacrifício nos capí­ tulos 1-7. Há, contudo, pequenas dife­ renças de fraseado e ligeiras variações de procedimentos, mas nada de significado maior. Moisés estava, aqui, delegando a sua responsabilidade sacerdotal a Arão, e, através dele, às gerações sucessivas de sacerdotes da linha de Arão que teriam a responsabilidade de assegurar que o ofe­ recimento de sacrifícios em Israel conti­ nuasse de acordo com opadrão estabele­ cido por Moisés. As instruções eram ini­ cialmentepreservadas oralmente e foram apresentadas por escrito só muito mais tarde, depois de o próprio sacerdócio 44
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    passarporuma história considerável. Anarrativa pode ser dividida nas se­ guintes seções principais: (1) O manda­ mento a Arão para oferecer sacrifícios (v. 1-4). A motivação básica é porquanto hojeo Senhorvos aparecerá, assim colo­ candotodo o sistema sacrifical dentro do contexto doculto no tabernáculo, onde a presença divina foi revelada a Israel. Antes de se defrontar com a presença de Deus, Arão tinha de assegurar uma ple­ na e completa expiação através do sacri­ fício. (2) O oferecimento de sacrifícios em prol de Arão (v. 5-14). A oferta pelo pecadopor meio deum bezerro e a oferta queimada de um carneiro foram apresen­ tadas a Deus na presença de toda a con­ gregação de Israel. Diferentemente do capítulo 8, onde Moisés age como sacer­ dote, aqui o próprio Arão cumpre o papel de sacerdote, enquanto os seus filhos desempenham as tarefas adicio­ nais, que normalmente caberiam aos cul- tuadores leigos (v. 8,12 e s.). Antes de o culto da comunidade poder ser trazido a Deus, osacerdote tem, primeiro, de pres­ tar o seu próprio culto e trazer a sua própria oferta. Ninguém pode trazer ou­ tros mais perto de Deus do que ele mesmoestá. (3) O oferecimento de sacrifícios em prol do povo(v. 15-21). Estes consistiam num bode para uma oferta pelo pecado, um boi e um carneiro para uma oferta queimada, euma oferta de cereais. (4) O aparecimento gloriosoe aprovação divinos (v. 22-24). Estes versículos mos­ tram a aceitação divina da oferta do povo. A finalidade dos sacrifícios era assegurar uma comunhão adequada en­ tre Israel e Deus. Essa aprovação foi afirmada pelo aparecimento da glória divina, em cumprimento da promessa a Arão(v. 24). Aentrada de Moisés e Arão juntos na tenda da congregação tinha a finalidade de permitir que o povo visse Moisés introduzir Arãono santuário, que agora elehavia de freqüentar permanen­ temente. Assim a autoridade de Moisés como o mediador entre Israel e Deus foi delegada aArão. Este capítulo inteiro expõe, de ma­ neira exemplar, opropósito e a natureza do culto sacrifical em Israel. Era para estabelecer e manter a comunhão entre Israel e Deus. Uma vez que essa comu­ nhão estava sendo continuamente colo­ cada em perigo, pelos pecados de Israel, se fazia necessário que a expiação de­ sempenhasse uma parte proeminente, no ritual e na interpretação de semelhantes sacrifícios. No entanto, essa expiação não era nenhum mero decreto legal de perdão, mas uma experiência viva, de reconciliação, assegurada e experimen­ tada no culto. O culto de Israel, como seu sistema sacrifical, constituía o meio, providenciado por Deus, para o cumpri­ mento da promessa a Abraão: “Serei o seu Deus” (Gên. 17:8). O fato de Deus ser por Israel, em sua promessa, era rea­ lizado através de seu estar com Israel em seu culto. Assim, a tenda da congre­ gação, que originalmente significava, provavelmente, tenda do festival, se tor­ nou o lugar da presença divina e o cená­ rio de seu encontro com Israel (Êx. 29: 44,45). A palavra hebraica para congre­ gação (mo‘edh) é usada regularmente para denotar ocasiões festivas (“esta­ ções”,como em Gên. 1:14). Refere-se ao ajuntamento de pessoas para culto, de maneira que a tenda da congregação era aquela que se usava em ocasiões festivas, para semelhante culto. O ponto culminante na edificação do tabernáculo, aordenaçãodossacerdotese o oferecimento do primeiro sacrifício fo­ ram atingidoscomoaparecimentoda gló­ riadivina(v. 23).Esta glóriafoiosímbolo eoinstrumento dapresença deDeus com o seu povo. O seu sinal foram o fogo a queimar sobre o altar e a nuvem de fu­ maça que pairava sobre ele. Enquanto esse fogo e essa fumaça estivessem pre­ sentes sobre o altar da oferta queimada 45
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    de Israel, seriamlembranças constantes da promessa dapresença deDeus. Diferentemente dos povos vizinhos, que necessitavam de uma imagem para servir de símbolo da presença de Deus, Israel não tinha nenhuma representação material da deidade. Noentanto, a estru­ tura inteira do culto israelita centraliza- va-sena presença de Deus, prometida na aliança, e constatada através do modelo do culto iniciado no monte Sinai. Israel estava mais, e não menos, consciente da presença divina em seu meio por não fazer uso de imagens materiais, e pro­ curava nos símbolos vivos do próprio culto descobrir os sinais de sua comu­ nhão comDeus. A presença de Deus em Israel não era entendida, absolutamente, como suge­ rindo queeletivesse deixado de morar no céu ou de estar presente através de todo o seuUniverso. Assim, oconceito da glória usado em Levítico (e através da grande história sacerdotal pós-exílica) visava afirmar a realidade da presença de Deus com Israel, sem implicar que só ali fosse que pudesse ser achada. Afirmava a sua imanência, sem negar a sua transcen­ dência. O padrão de culto sacrifical em Israel suscita um problema histórico. De uma abundância de evidências proporcionada tanto pelo Antigo Testamento como pela arqueologia, é claro que o sistema sacri­ fical de Israel foi desenvolvido e adapta­ do de formas de sacrifíciojá correntes no mundo do Oriente Médio antigo. Vários dos nomes dos tipos de sacrifícios se acham fora do Antigo Testamento, no mundo cananeu-fenício. Outrossim, as origens reais de sacrifício como uma ex­ pressão de culto são tão remotas e a prática é tão largamente corroborada através do mundo que não há possibili­ dade de descobrir o seu significado ori­ ginal. Jaz ele escondido nas névoas da antiguidade pré-histórica. O que está claro é que Israel achou um significado distintivo, próprio dele, nos sacrifícios que oferecia. Enquanto havia, indubita­ velmente, muitas semelhanças externas, entre os sacrifícios israelitas e os pagãos, a unicidade daqueles deriva do fato de que eram oferecidos ao Senhor Deus de Israel e estavam integrados na estrutura total de seu cultopactuai. Essa unicidade não era algo introduzi­ do no sistema sacrifical numa única épo­ ca dotempo nem, necessariamente, pelos mesmos motivos. Entrou gradativamen- te, à medida que tanto sacerdotes como cultuadores leigos refletiam sobre os sa­ crifícios e os ritos que já se tinham tor­ nado tradicionais para eles. Viam-nos como mandamento solene de Deus, mas, naturalmente, tentavam relacionar esse mandamento, para oferecerem sacrifí­ cios àquilo que também, de outras ma­ neiras, se sabia ser de Deus. Em deter­ minadas épocas, certos profetas rejeita­ vam os sacrifícios totalmente (Jer. 7:21- 23; Am. 5:25), quando o seu uso e a sua interpretação pareciam contradizer exi­ gências mais fundamentais de Deus. De uma maneira ampla e geral, podemos re­ sumiressa unicidade da atitude de Israel para com o sacrifício, por dizer que, enquanto no mundo antigo o sacrifício era geralmenteconsiderado como algo de que os deuses tinham necessidade, em Israel veio a ser visto como algo de que o homem precisava, a fim de expressar acertadamente a sua contrição e submis­ são aDeus. Enquanto exteriormente os sacrifícios muitas vezes se assemelhavam aos dos pagãos, em seu propósito e significado tinham assumido um caráter totalmente diferente. Expressavam, pelo seu simbo­ lismo de fogo e fumaça, a promessa da glória divina, residenteno meio de Israel, e, pelo derramamento de sangue, oquan­ to custava o caminho da reconciliáção comDeus. 3. OErrodeNadabeeAbiú(10:1-20) 1 Ora, Nadabe e Abiú, filhos de Arão, to­ maram cada um o seu incensário e, pondo 46
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    neles fogo esobre ele deitando incenso, ofe­ receram fogo estranho perante o Senhor, o que ele não lhes ordenara. 2 Então saiu fogo de diante do Senhor, e os devorou; e morre­ ram peranteoSenhor.3DisseMoisésa Arão: Isto é o que o Senhor falou, dizendo: Serei santificado naqueles que se chegarem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo. MasArão guardou silêncio. 4E Moisés chamou a Misael e a Elzafã, filhos de Uziel, tio de Arão, e disse-lhes: Chegai-vos, levai vossos irmãos de diante do santuário, para fora do arraial. 5 Chegaram-se, pois, e le­ varam-nos como estavam, nas próprias tú­ nicas, para fora do arraial, como Moisés lhes dissera. 6 Então disse Moisés a Arão, e a seus filhos Eleazar e Itamar: Não des­ cubrais as vossas cabeças, nem rasgueis as vossas vestes, para que não morrais, nem venha a ira sobre toda a congregação; mas vossos irmãos, toda a casa de Israel, lamen­ tem este incêndio que o Senhor acendeu. 7E não saireis da porta da tenda da revela­ ção, para que não morrais; porque está sobre vós o óleo da unção do Senhor. E eles fizeram conforme a palavra de Moisés. 8 Falou também o Senhor a Arão, dizendo: 9 Não bebereis vinho nem bebida forte, nem tu nem teus filhos contigo, quando entrardes na tenda da revelação, para que não mor­ rais, estatuto perpétuo será isso pelas vos­ sas gerações, 10 não somente para fazer separação entre o santo e o profano, e entre o imundo e o limpo, 11 mas também para ensinar aos filhos de Israel todos os estatu­ tos que o Senhor lhes tem dado por intermé­ diode Moisés. Este capítulo trata de vários assuntos, que surgem da celebração sacrifical nar­ rada no capítulo 9. O mais importante é 0 primeiro, tratado pelos versículos 1-7, que descrevem as circunstâncias trági­ cas que cercaram a morte de Nadabe e Abiú. Eles aparecem como os dois filhos mais velhos de Arão (Êx. 6:23; 28:1; 1Crôn. 6:3; cf. Núm. 3:2-4; 26:60 e s.). O relato deste evento visa, claramente, servir como uma advertência aos sacer­ dotes de Israel, mostrando as conseqüên­ cias sérias que adviriam por qualquer infração das instruções divinas. Levítico 8:35já adverte que uma quebra do man­ damento de Deus podia causar a morte dos sacerdotes. Tragicamente, é isso que agoraocorreu, embora em circunstâncias inesperadase misteriosas. Israel, como muitos povos antigos, considerava que o fogo do altar tinha sido ateado inicialmente pelo próprio Deus (9:24). De então em diante, foi continuamente mantido aceso sobre o al­ tar pelos sacerdotes. Nadabe e Abiú transgrediram o mandamento divino concernente ao fogo do altar, por ofere­ cerem fogo estranho perante Deus. No hebraico a expressão é literalmente fogo “estranho” ou “alheio”. A natureza exata de sua ofensa conti­ nua um tanto obscura. O que fizeram foi errado, porque não haviam sido incluí­ dos nos mandamentos divinosdados con­ cernentes ao altar, e talvez se refira a uma espécie deincenso que não fora pre­ parado conforme a receita estabelecida pela lei. Os regulamentos para o altar de incenso de Israel (Êx. 30:1-10) proibiam, especificamente, o oferecimento de in­ censoestranho(Êx. 30:9), onde a expres­ são é, literalmente, incenso “estranho” ou “alheio”, semelhante à expressão usa­ dapara a ofensa de Nadabe eAbiú. Por detrás desta narrativa talvez tenha havidouma tentativa, em certa época, de introduzir em Israel uma forma de in­ censo, ou de queima de incenso, que se considerava pecaminosa e pagã. Porém N. H. Snaith (p. 76) considera a base da ofensa como surgindo da posição de Na­ dabe e Abiú como sacerdotes ilegítimos. Ele compara Números 16:40 com Leví­ tico 22:12, para fundamentar a interpre­ tação de “estranho” como significando não-sacerdotal. Assim, a ofensa de Na­ dabe e Abiú foi no oferecimento de fogo não-consagradoou profano, eojuízo que os atingiu demonstrava a hostilidade di­ vinaà sua prática presunçosa. Mais uma vezé afirmado o princípio de que os que estãopróximos deDeus têm uma respon­ sabilidade especial, tanto por eles mes­ moscomoporoutros, e, por conseguinte, devem tomar cuidados especiais para orientar as suas vidas de acordo com a 47
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    vontade, já conhecida,de Deus. Maior privilégio implica maior responsabili­ dade. Subseqüentemente à morte de Nadabe e Abiú, Misael e Elzafâ, primos de Arâo (v. 4; cf. Êx. 6:22), removem os corpos e uma advertência especial é feita aos dois filhos restantes de Arâo, Eleazar e Ita- mar (Êx. 6:23). A proibição de deixarem os seus cabelos soltos e de rasgarem as suas roupas (v. 6) visava adverti-los con­ tra ações que eram ritos comuns de luto pelos mortos (cf. 21:10). Não foi feita essa proibição simplesmente porque a morte de seusirmãosera resultado deum pavorosojulgamento divino, mas era ge­ ralmente mais obrigatória para os sacer­ dotes quando qualquer parente próximo morresse ou natural ou violentamente. Permitia-se aosacerdote compartilhar no luto familiar normal somente sob restri­ ções muito severas (21:1-6). Como quem servia ao Senhor e Autor da vida, ele podia abandonar suas tarefas somente para lamentar a morte de um parente muito próximo. A ele, mui especialmen­ te, não se permitia que seguisse os cos­ tumes pagãos de luto. Esta advertência particular é, portanto, uma lembrança geral, antes de ser um mandamento es­ pecífico, derivado do fim violento de Nadabe eAbiú. Os versículos 8-11 introduzem uma outra advertência geral, que não está li­ gada diretamente ao incidente que a antecedeu. Enquanto estivessem minis­ trando no santuário, os sacerdotes de Israel deviam se abster de toda bebida alcoólica. Isso seria especialmente im­ portante duranteuma celebração festiva, quando os cultuadores leigos tomavam vinho em sua refeição sacrifical, e os sacerdotes, com suas tarefas a desem­ penhar, talvez tenham sido tentados a participar. Também distinguia o sacer­ dócio de Israel dos das nações circunvi­ zinhas, onde às vezes se recorria ao uso de bebida alcoólica ou inebriante a fim de produzir uma condição especialmente exaltadae deêxtase. O motivo desta abstenção, em Israel, torna-se perfeitamente claro no versí­ culo 10. O sacerdote tinha uma respon­ sabilidade educacional, no sentido de assegurar que cada cultuador conheces­ sea distinção entre o que era sagrado e o que era profano. Ele era também encar­ regado de ensinar aos cultuadores os re­ gulamentosdivinosconcernentes aoculto e à conduta, e não podia fazer isso apropriadamente se estivesse em estado de embriaguez. Os perigos da bebida alcoólica eram claros para o Israel anti­ go; e, conquanto não se impusesse ne­ nhuma proibição geral, exigia-se, espe­ cialmente daqueles que serviam ao altar deDeus, a consciênciada necessidade do autocontrole e de uma consciência ade­ quada das prioridades espirituais. 12 Também disse Moisés a Arâo, e a Elea­ zar e Itamar, seus filhos que lhe ficaram: Tomai a oferta de cereais que resta das ofertasqueimadas do Senhor, e comei-asem levedura junto do altar, porquanto é coisa santíssima. 13 Comê-la-eis em lugar santo, porque isto é a tua porção, e a porção de teus filhos, das ofertas queimadas do Senhor; porque assim me foiordenado. 14Também o peito da oferta movida e a coxa da oferta alçada, comê-los-eis em lugar limpo, tu, e teus filhos e tuas filhas contigo; porquanto são eles dados como tua porção, e como porção de teus filhos, dos sacrifícios das ofertaspacíficas dos filhos de Israel. 15Tra­ rão a coxa da oferta alçada e o peito da oferta movida juntamente com as ofertas queimadas da gordura, para movê-los como oferta movida perante o Senhor; isso te pertencerá como porção, a ti e a teus filhos contigo, para sempre, como o Senhor tem ordenado. 16E Moisés buscou diligentemen­ te obode da oferta pelo pecado, e eis que já tinha sido queimado; pelo que se indignou grandemente contra Eleazar e contra Ita- mar, os filhos que de Arão ficaram, e lhés disse: 17Por que não comestes a oferta pelo pecadoem lugar santo, visto que é coisasan­ tíssima, e oSenhora deu a vós para levardes a iniqüidade da congregação, para fazerdes expiação por eles diante do Senhor? 18 Eis que não se trouxe o seu sangue para dentro do santuário; certamente a devíeis ter co- 48
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    mido em lugarsanto, como eu havia orde­ nado. 19Então disse Arão a Moisés: Eis que hoje ofereceram a sua oferta pelopecado e p seu holocausto perante o Senhor, e tais coi­ sas como essas me têm acontecido; se eu tivesse comido hoje a oferta pelo pecado, porventura teria sido isso coisa agradável aos olhosdoSenhor? 20Ouvindo Moisés isto, pareceu-lhe razoável. Os versículos 12 e 13 reiniciam a dis­ cussão do oferecimento dos sacrifícios registrados no capítulo 9. Ali nada se disse sobre o que seria feito, finalmente, com aquela parte da oferta de cereais do povo que não era queimada sobre o al­ tar. Aqui foi ordenado aos sacerdotes que a comessem num lugar santo, ao lado do altar. Fazia parte da renda, di­ vinamente ordenada, dos sacerdotes. Semelhantemente, os versículos 14 e 15nos dizem o que se havia de fazer com o peito e a coxa, da oferta pacífica do povo, que se davam ao sacerdote (9:21). Esses também constituíam uma parte da renda do sacerdote pelos seus serviços, e podiam sercomidospelosacerdote epela sua família, inclusive pelos seus filhos e filhas, em qualquer lugar limpo. Não es­ tavam, portanto, sujeitos à obrigação de seremcomidos aolado do altar. Finalmente, neste estudo dos procedi­ mentos sacrificais de Israel, se levanta de novo a questão do que se devia fazer com o resto do corpo do animal sacrifi­ cado em oferta pelo pecado, do qual apenas determinadas partes haviam de ser queimadas sobre o altar. Regulamen­ tos diferentes prevaleciam em épocas di­ ferentes (cf. 4:21; 8:17; 10:16-20). Em certas circunstâncias, podia ser comido pelos sacerdotes, enquanto em outros casos tinha de ser queimado num lugar especial, separado para esse fim. O re­ gulamento era que, quando se trazia o sangue para dentro do santuário interior (6:30), a oferta pelo pecado não havia de sercomida, mas, sim, queimada. Assim, a crítica de Moisés, no versículo 18, assevera que o procedimento errado ti­ nha sidoseguidonestecaso. Aresposta de Arão refere-se à tragédia deNadabeeAbiú(v. 19), mostrando que não era ocasião própria para se comer e se regozijar, mas, sim, para lamenta­ ções. Ele estava argumentando também que a intensa ansiedade de que fora acometido proporcionava uma expiação suficiente por ter ele agido erradamente. A inclusão, aqui, de semelhante nota mostra como o tipo do “pecado inadver­ tido” podia surgir, para o qual a oferta pelo pecado era especialmente proposta, e demonstra que o bom senso havia de prevalecer sobre o legalismo rigoroso, na interpretação dos regulamentos sacri­ ficais. UI. Os Regulamentos Concernen­ tes àPureza(11:1-15:33) 1. Os Animais Limpos e os Imundos (11:1-47) Este capítulo começa uma nova seção dolivrodeLevítico, concernente à distin­ çãoentre os animais puros e os imundos. É digno de nota, agora que Arão foi empossado como sacerdote, que as ins­ truções são dirigidas a Moisés e Arão em conjunto (v. 1). O capítulo divide-se em várias seções principais, todas relativas a animais limposea animais imundos. (1) A impureza de certos animais ter­ restres, acarne dos quais não havia de ser comida: 1 Falou o Senhor a Moisés e a Arão, di­ zendo-lhes: 2 Dizei aos filhos de Israel: Es­ tes são os animais que podereis comer den­ tre todos os animais que há sobre a terra: 3 dentre os animais, todo o que tem a unha fendida, de sorte que se divide em duas, e que rumina, esse podereis comer. 4 Os se­ guintes, contudo, não comereis, dentre os que ruminam e dentre os que têm a unha fendida: o camelo, porque rumina, mas não tem a unha fendida, esse vos será imundo; 5 o querogrilo, porque rumina, mas não tem a unhafendida, esse vosserá imundo; 6a le­ bre, porque rumina, mas não tem a unha fendida, essa vos será imunda; 7e o porco, porque tem a unha fendida, de sorte que se 49
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    divide em duas,mas não rumina, esse vos será imundo. 8 Da sua carne não comereis, nem tocareis nos seus cadáveres; esses vos serão imundos. (2) A impureza de certos peixes e ou­ tras criaturas aquáticas, tanto criaturas de água doce como de água salgada: 9 Estes são osque podereis comerde todos os que há nas águas: todo o que tem barba­ tanas e escamas, nas águas, nos mares e nos rios, esse podereis comer. 10Mas todo o que não tem barbatanas nem escamas, nos ma­ res e nos rios, todo réptil das águas, e todos os animais que vivem nas águas, estes vos serão abomináveis. 11 tê-los-eis em abomi­ nação; da sua carne não comereis, e abomi­ nareis os seus cadáveres. 12Tudo o que não tem barbatanas nem escamas, nas águas, será por vósabominável. (3) Aimpureza decertas criaturas ala­ das, tanto avescomo insetos: 13 Dentre as aves, a estas abominareis; nãose comerão, serãoabomináveis:a águia, o quebrantosso, o xofrango, 14o açor, o fal­ cão segundo a sua espécie, 15 todo corvo segundo a sua espécie, 16o avestruz, o mo­ cho, a gaivota, o gavião segundo a sua espé­ cie, 17 o bufo, o corvo marinho, a coruja, 18oporfirião, opelicano, oabutre, 19a cego­ nha, a garça segundo a sua espécie, a poupa e o morcego. 20 Todos os insetos alados que andam sobre quatro pés, serão para vós uma abominação. 21 Contudo, estes há que podereis comer de todos os insetos alados que andam sobre quatro pés: os que têm pernas sobre os seus pés, para saltar com elas sobre a terra; 22 isto é, deles podereis comer os seguintes: o gafanhoto segundo a sua espécie, o solham segundo a sua espé­ cie, o hargol segundo a sua espécie e o ha- gabe segundo a sua espécie. 23Mas todos os outros insetos alados que têm quatro pés, serão para vósuma abominação. (4) A impureza através do contato com animais: 24 Também por eles vos tomareis imun­ dos; qualquerque tocar nos seus cadáveres, será imundo até a tarde, 25 e quem levar qualquer parte dos seus cadáveres, lavará as suas vestes, e será imundo até a tarde. 26 Todo animal que tem unhas fendidas, mas cuja fendanão as divide em duas, e que não rumina, será para vós imundo; qual­ quer que tocar neles será imundo. 27 Todos os plantígrados dentre os quadrúpedes, es­ ses vos serão imundos; qualquer que tocar nosseus cadáveres será imundo até a tarde, 28e o que levar os seus cadáveres lavará as suas vestes, e será imundo até a tarde; eles serão para vósimundos. O significado de para vós imundo se estende além da proibição de se comer a carne do animal ou inseto, para abranger evitar-se de tocar em seu cadáver. A con­ diçãode serimundoatéa tarde referia-se especialmente a uma proibição de parti­ cipar-se de qualquer forma de culto, mas, sem dúvida, ia mais além, na im­ posição de restrições consideráveis ao movimento na sociedade. (5) A impureza de criaturas menores, inclusive de roedores domésticos, répteis e insetos, que podiam contaminar a co­ mida, água, utensílios de cozinha ou roupas: 29 Estes também vos serão por imundos entre os animais que se arrastam sobre a terra: a doninha, orato, o crocodilo da terra segundo a sua espécie, 30 o musaranho, o crocodilo da água, a lagartixa, o lagarto e a toupeira. 31Esses vos serão imundos dentre todos os animais rasteiros; qualquer que os tocar, depois de mortos, será imundo até a tarde; 32 e tudo aquilo sobre o que cair o cadáver de qualquer deles será imundo; seja vaso de madeira, ou vestidura, ou pele, ousaco, seja qualquer instrumento com que se faz alguma obra, será metido na água, e será imundo até a tarde; então será limpo. 33 E quanto a todo vaso de barro dentro do qual cair algum deles, tudo o que houver nele será imundo, e ovaso quebrareis. 34To­ do alimento depositado nele, que se pode comer, sobre oqualvierágua, será imundo; e toda bebida que se pode beber, sendo depositada em qualquer destes vasos, será imunda, 35 E tudo aquilo sobre o que cair alguma parte dos cadáveres deles será imundo; seja forno, seja fogão, será que­ brado; imundos são, portanto para vós se­ rão imundos. 36 Contudo, uma fonte ou cis­ terna, em que há depósito de água, será limpa; mas quem tocar no cadáver será imundo. 37 E, se dos seus cadáveres cair alguma coisa sobre alguma semente que se 50
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    bouver de semear,esta será limpa; 38 mas se fordeitada água sobre a semente, e se dos cadáveres cair alguma coisa sobre ela, en­ tão ela será para vósimunda. (6) A impureza do cadáver de um animallimpo: 39 E se morrer algum dos animais de que vos é lícito comer, quem tocar no seu cadá­ ver será imundo até a tarde; 40 e quem co­ merdo cadáverdelelavará as suas vestes, e será imundo até a tarde; igualmente quem levar ocadáver dele lavará as suas vestes, e será imundo até a tarde. 41 Também todo animal rasteiro que se move sobre a terra será abominação; não se comerá. 42 Tudo o que anda sobre o ventre, tudo o que anda sobre quatro pés, e tudo o que tem muitos pés, enfim todos os animais rasteiros que se movem sobre a terra, desses não comereis, porquanto são abomináveis. 43 Não vos tor­ nareis abomináveis por nenhum animal ras­ teiro, nem neles vos contaminareis, para não vos tornardes imundos por eles. 44 Por­ que eu sou o Senhor vosso Deus; portanto santificai-vos, e sede santos, porque eu sou santo; e não voscontaminareis com nenhum animal rasteiro que se move sobre a terra; 45porque eu sou o Senhor, que vos fiz subir da terra do Egito, para ser o vosso Deus; sereis pois santos, porque eu sou santo. 46 Esta é a lei sobre os animais e as aves, e sobre toda criatura vivente que se move nas águas e toda criatura que se arrasta sobre a terra; 47para fazer separação entre o imun­ do e o limpo, e entre os animais que se podem comer e os animais que não se po­ dem comer. Esta seção afirma que até um animal limpo pode tornar-se prejudicial, uma vez morto, e que seu cadáver pode espa­ lhar impureza. Os versículos 41 e 42 referem-se, de forma geral, à impureza de répteis pequenos, eos versículos 43-47 formamuma nota final, afirmando que a abstinência de animais impuros na ali­ mentação e do contato com animais imundos fazia parte do relacionamento sagrado de Israel com Deus. Os regula­ mentos são assim, erguidos acima da categoria do meramente aconselhável e colocados no contexto básico do amor e respeitopara com Deus. Esta lista de regulamentos, proibindo o uso como alimento de certos animais e realçando a importância de evitar, tanto quanto possível, todo contato com eles, parece, à primeira vista, estranha. Além decausarperplexidade, essesregulamen­ tos proporcionaram uma base para cer­ tas leis judaicas dietéticas, que, através dos séculos, se constituíram num marco distintivo dos judeus. Tais leis parecem tanto mais estranhas aos leitores moder­ nos porque não oferecem nenhum mo­ tivo claro quanto à razão para a classifi­ cação de determinadas criaturas como imundas. Esta classificação era, antes de mais nada, uma expressão sacerdotal, que denotava que alguma pessoa oucoisa era incompatível com a santidade de Deus. Dizia respeito a pessoas que eram consideradas como estando num estado inapropriado para a participação no cul­ to, e a materiais e animais que não po­ diam ser usados como alimento na vida cotidiana. Uma pessoa classificada como imunda ficava confinada à sua casa até que a sua impureza tivesse sido remo­ vida. Acategorização de animais em classes, em conformidade de ruminarem ou não e terem unha fendida, certamente não era omotivopara serem considerados limpos ou imundos. Esse foi simplesmente um meio didático, que visava proporcionar uma orientação, grosso modo, para a pronta identificação deum animal imun­ do. Como uma orientação geral, servia para mostrar se ou não se podia comer um animal, mas não era, em si, o motivo de oanimal ser ou limpo ou imundo. Desde que o termo imundo está ligado muito de perto com o culto, vários erudi­ tos têm procurado descobrir a base para a classificação desses animais como imundos, no uso, que era feito deles no culto, pelas nações pagãs. Tem sido ar­ gumentado que o motivo original para a proibição do comer desses animais em 51
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    Israel era queproporcionavam âs nações pagãs osmateriais para o sacrifício e que eram comidos em certos ritos totêmicos. Portanto, Israel devia evitar tais práticas pagãs por se abster de comer esses ani­ mais como alimento. Assim, a abstinên­ cia desses animais teria surgido da preo­ cupação mais fundamental, em Israel, de evitar a imitação de formas pagãs de culto. Em Isaías 65:4, hâ uma condena­ ção de práticas pagãs misteriosas, que implicavam o uso de animais imundos como alimento. O povo que comete essa ofensaé descritocomo aquele que “se as­ senta entre as sepulturas, e passa as noites junto aos lugares secretos; que come carne de porco, achando-se caldo decoisasabomináveis nas suasvasilhas”. Conquanto o uso pagão dessas criatu­ ras no culto possa ter ajudado a nutrir uma antipatia para com elas em Israel, não pode ter formado a base real da proibição de tantos animais, peixes, aves e insetos como imundos. A grande maio­ ria dos sacrifícios pagãos fazia uso dos mesmos animais que Israel, de maneira que, sefosseesseo motivo, estes também teriam de serproibidos. É muito mais provável que deveríamos seguirAlbright(Yahwehandthe Gods of Canaan, p. 154,155), em reconhecer que essesregulamentossurgiram antes da era da ciência médica moderna e que consti­ tuem uma forma de higiene primitiva, mas de maneira nenhuma inútil. Uma vez que reconhecemos que estes regula­ mentos surgiram antes de os homens serem capazes de descobrir as causas e o alastramento de doençasespecíficas atra­ vés de bactérias, podemos ver que se derivavam de uma preocupação geral com a abstinência de carnes que podiam serprejudiciais. Acarne deporco, a menos que devida­ mente cozida, reconhece-se largamente hoje como portadora da triquinose. O querogriloe a lebre são também, sabida­ mente, portadores da tularemia. Os pei­ xes que não possuem escamas e barbata­ nas são peixes de água rasa e muitas vezes, cavadores na lama, especialmente no rio Nilo. Facilmente se tomam por­ tadores de diversas bactérias prejudi­ ciais. Assim também aves de rapina que comem carniça são portadoras perigosas de doenças, enquanto toda dona-de-casa reconhecerá o prejuízo causado por inse­ tos e roedores, quando se lhes permite contaminarem as vasilhas de armazena­ mento de alimentoseas panelas. O que temos aqui é um guia simples e abrangente para a higiene da alimenta­ ção e pessoal. Surgiu numa era pré-mé- dica, quando somente uma regra prag­ mática podia ser aplicada. Não há ne­ nhum motivo para se duvidar que foi composta na base do reconhecimento precoce hebraico das conseqüências da­ nosas de comer certos animais e insetos. Surgiu da experiência, antes do que do conhecimento médico direto. Sem ser capaz de especificar a natureza determi­ nada da doença portadora por esses se­ res, alistou-os comoimundos, porque, na experiênciapassada, tinham sidoachados como os causadores de enfermidades e até de morte. Semelhante interpretação não precisa ser seguida com exclusivi­ dade. É provável que os motivos e as tradições que jazem por detrás dos con­ ceitos de limpo e imundo sejam variados e não todos de um mesmo tipo. Desde que o conceito de impureza era um ter­ mo especificamente religioso, é possível que certos animais, dentre os que foram proibidos para a alimentação, fossem usadosem formaspagãs de culto. Outros talvez tenham sido rejeitados por causa deseushábitos repugnantes. O queexiste de especialmente instruti­ vopara nós, nessa lista, não são tanto os determinados animais relacionados, mas, sim, a maneira como esses regula­ mentos ligam a religião e a higiene. O ditado inglês “A higiene segue de perto a santidade” assumeum significado novo e valioso. A preocupação de Deus está em dar a vida e a saúde ao seu povo. Ele 52
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    exige, portanto, asua abstenção daquilo que se tornou conhecido, pela experiên­ cia, como provável meio do alastramento da doença e da morte. Como princípio básico, isso ainda se aplica, embora a ciência médica moderna tenha tornado obsoletos determinados regulamentos e sem perigo de ingestão a carne de alguns animais aqui listados. Em condições his­ tóricas e geográficas diferentes, a lista específica de animais imundosjá não tem aplicação. Contudo, o princípio através do qual Deus busca a saúde e a higiene de todas as pessoas é um ensino bíblico permanentemente válido. 2. AImpureza Relacionada com o Parto (12:1-8) 1Disse mais o Senhora Moisés: 2Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se uma mulher conceber e tiver um menino, será imunda sete dias; assim como nos dias da impureza da sua enfermidade, seráimunda. 3E no dia oitavo se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio. 4 Depois permanecerá ela trinta e três dias no sangue da sua purifica­ ção; em nenhuma coisa sagrada tocará, nem entrará no santuário até que se cum­ pram os dias da sua purificação. SMas, se tiver uma menina, então será imunda duas semanas, como na sua impureza; depois permanecerá sessenta e seis dias no sangue da sua purificação. 6E, quando forem cum­ pridos os dias da sua purificação, seja por filho ou filha, trará um cordeiro de um ano para holocausto, e um pombinho ou uma rola para oferta pelo pecado, à porta da tenda da revelação, ao sacerdote, 7o qual o oferecerá perante o Senhor, e fará expiação porela; então ela será limpa do fluxo do seu sangue. Esta é a lei da que der à luz menino ou menina. 8 Mas, se as suas posses não bastarem para um cordeiro, então tomará duas rolas, ou dois pombinhos: um para o holocausto e outro para a oferta pelo peca­ do; assim o sacerdote fará expiação por ela, e ela será limpa. Pessoas de todas as épocas da história têm reconhecido o parto como uma ex­ periência plena de mistério e espanto, e tanto em Israel como em outras terras antigas essa experiência era assinalada por cerimônias especiais, que a identifi­ cavam como uma ocasião quando a pre­ sença de Deus era intensamente sentida. Também era uma ocasião cheia de gran­ de perigo, e o nosso conhecimento mo­ derno da medicina e da higiene indica que no mundo antigo a taxa de mortali­ dade infantil era certamente muito ele­ vada. Conquanto oparto fosse uma oca­ sião para regozijo, era especialmente uma ocasião de medo e ansiedade. A criançapodia muito facilmente ser perdi­ da ao nascer. O parto era, portanto, um transe da existência quando o poder de Deuspara dar vidaeopoder do mal para tirá-la eram ambos muito notáveis. Con­ seqüentemente, se faziam necessários que o filho e a mãe fossem adequada­ mente protegidos, que as ações de graças devidasfossem dadas aDeus eque expia­ ção apropriada fosse feita, para que as forças do mal não trouxessem desgraça. O parto, a maturidade, o casamento e amorte têm sido, desse modo, quase que universalmente reconhecidos como os três grandes períodos de transição na existência humana. Em cada um deles, os homens têm sentido o assombro e maravilha da presença divina e do misté­ rio que cerca toda a vida. Outrossim, a perda do sangue materno, por ocasião do parto, que tanto no mundo antigo quan­ to em épocas até mais recentes podia fa­ cilmente se provar fatal, reforçava a con­ sideração do israelita comum pelo san­ gue como a fonte da vida. Era necessá­ rio, quando se derramava sangue, que se fizesse expiação a Deus. Mesmo pela perda de sanguepor ocasião do parto um sacrifício de expiação era oferecido (v. 6-8). É importante reconhecer que isso não surgiu porque o parto ou a concepção de filhos fossem vistos como eventos peca­ minosos, mas, sim, que se originou de um reconhecimento de que no parto as forças do bem e do mal pareciam estar presentes de uma maneira especial. O Antigo Testamento considerava o nas­ cimento de filhos de forma muito positi- 53
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    va, como umadádiva de Deus, e o gozo de uma família grande, como um marco da bênção de Deus(cf. Sal. 127:3-5). 0 período durante o qual se conside­ rava a mãe da criança imunda (v. 2,5) era um período em que ela se confinava ao seu lar. Por um período adicional de purificação, a mulher não podia entrar no santuário. Somente quando esse pe­ ríodo terminasse havia ela de entrar na presença divina, com uma oferta quei­ mada e uma oferta pelo pecado. Mais umavez a existência da pobreza extrema é reconhecida pelo fato de a oferta não precisar de ser mais custosa do que dois pombinhos(v. 8). Na consideração de Deus, os ricos e os pobres eram iguais perante ele, em seu culto, e ambos haviam de receber opor­ tunidade igual de lhe apresentarem as suas dádivas. Uma característica impres­ sionante do período da impureza e da purificação da mulher é que os dois períodos eram dobrados se o nenê fosse menina. No caso de um garoto, a impu­ reza da mãe durava sete dias e o período de purificação 33 dias, enquanto no caso deuma menina, a impureza durava qua­ torze diase a purificação 66. Isso reflete, semdúvida, a inferioridade geral atribuí­ da às meninas no mundo antigo e a preferência generalizada por filhos ho­ mens. Lança nova luz sobre a grande afirmativa de Paulo, da igualdade espi­ ritual entre os sexos, que em Cristo “não há macho nem fêmea, porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gál. 3:28). A criança masculina era circuncidada ao oitavo dia, de acordo com a lei e como um sinal de sua incorporação na aliança feitacomAbraão(Gên. 17:9-13). 3. AImpurezaResultantedaLepra (13:1-15:33) (1) ODiagnósticodaDoença (13:1-46) 1Falou mais o Senhor a Moisés e a Arão, dizendo: 2 Quando um homem tiver na pele da sua carne inchação, ou pústula, ou man­ cha lustrosa, e esta se tomar na sua pele como praga de lepra, então será levado a Arão o sacerdote, ou a um de seus filhos, os sacerdotes, 3 e o sacerdote examinará a praga na pele da carne. Se o pêlo na praga se tiver tornado branco, e a praga parecer mais profunda que a pele, é praga de lepra; o sacerdote, verificando isto, o declarará imundo. 4Mas, se a mancha lustrosa na sua pele for branca, e não parecer mais pro­ funda que a pele, e o pêlo não se tiver tornado branco, o sacerdote encerrará por sete dias aquele que tem a praga. 5 Ao sé­ timo dia o sacerdote o examinará; se a praga, na sua opinião, tiver parado e não se tiver estendido na pele, o sacerdote o en­ cerrará por outros sete dias. 6 Ao séti­ mo dia o sacerdote o examinará outra vez; se a praga tiver escurecido, não se tendo estendido na pele, o sacerdote o de­ clarará limpo; é uma pústula. O homem lavará as suas vestes, e será limpo. 7Mas se a pústula se estender muito na pele, depois de se ter mostrado ao sacerdote para a sua purificação, mostrar-se-á de novo ao sacer­ dote, 8 o qual o examinará; se a pústula se tiver estendido na pele, o sacerdote o decla­ rará imundo; é lepra. 9Quandonum homem houver praga de lepra, será ele levado ao sacerdote, 10o qual o examinará; se houver na pele inchação branca que tenha tornado branco opêlo, e houver carne viva na incha­ ção, 11lepra inveterada é na sua pele. Por­ tanto, o sacerdote o declarará imundo; não oencerrará, porque imundo é. 12 Se a lepra se espalhar muito na pele, e cobrir toda a pele do que tem a praga, desde a cabeça até os pés, quanto podem ver os olhos do sacerdote, 13este oexaminará; e, se a lepra tiver coberto a carne toda, declarará limpo oque tem a praga; ela toda se tomou bran­ ca; o homem é limpo. 14Mas no dia em que nele aparecer carne viva será imundo. 15 Examinará, pois, o sacerdote a carne viva, e declarará o homem imundo; a carne viva é imunda; é lepra. 16 Ou, se a carne vivamudar, e ficar de novo branca, ele virá ao sacerdote, 17 e este o examinará; se a praga se tiver tornado branca, o sacerdote declarará limpo o que tem a praga; limpo está. 18 Quando também a carne tiver na sua pele alguma úlcera, se esta sarar, 19 e em seu lugar vier inchação branca ou mancha lustrosa, tirando a vermelho, mos- trar-se-á ao sacerdote, 20 e este a exami­ nará; se ela parecer mais profunda que a pele, e o pêlo se tiver tornado branco, o sacerdote declarará imundo o homem; é praga de lepra, que brotou na úlcera. 21 Se, 54
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    porém, o sacerdotea examinar, e nela não houver pêlo branco e não estiver mais pro­ funda que a pele, mas tiver escurecido, o sacerdote encerrará por sete dias o ho­ mem. 22Se ela se estender na pele, o sacer­ dote odeclarará imundo; é praga. 23Mas se a mancha lustrosa parar no seu lugar, não se estendendo, é a cicatriz da úlcera; o sacerdote, pois, o declarará limpo. 24 Ou, quando na pele da carne houverqueimadura de fogo, e a carne viva da queimadura se tomar em mancha lustrosa, tirando a ver­ melho ou branco, 25o sacerdote a examina­ rá, e se o pêlo na mancha lustrosa se tiver tornado branco, e ela parecer mais profun­ da que a pele, é lepra; brotou na queima­ dura; portanto o sacerdote o declarará imundo; é praga de lepra. 26Mas se o sacer­ dote a examinar, e na mancha lustrosa não houver pêlo branco, nem estiver mais pro­ funda que a pele, mas tiver escurecido, o sacerdote o encerrará por sete dias. 27 Ao sétimo dia o sacerdote o examinará. Se ela se houver estendido na pele, o sacerdote o declarará imundo; é praga de lepra. 28Mas se a mancha lustrosa tiver parado no seu lugar, não se estendendo na pele, e tiver escurecido, é a inchação da queimadura; portanto osacerdote odeclarará limpo; por­ que é a cicatriz da queimadura. 29E quando homem (ou mulher) tiver praga na cabeça ou na barba, 30 o sacerdote examinará a praga, e se ela parecer mais profunda que a pele, e nela houver pêlo fino amarelo, o sacerdote o declarará imundo; é tinha, é lepra da cabeça ou da barba. 31 Mas se o sacerdote examinar a praga da tinha, e ela não parecer mais profunda que a pele, e nela não houver pêlo preto, o sacerdote en­ cerrará por sete dias o que tem a praga da tinha. 32Aosétimo dia osacerdote examina­ rá a praga; se a tinha não se tiver estendido, enelanãohouverpêlo amarelo, nem a tinha parecer mais profunda que a pele, 33 o ho­ mem se rapará, mas não rapará a tinha; e o sacerdote encerrará por mais sete dias o que tem a tinha. 34Ao sétimo dia o sacerdo­ te examinará a tinha; e se ela não se houver estendido na pele, e não parecer mais pro­ funda que a pele, o sacerdote declarará limpo o homem; o qual lavará as suas ves­ tes, e será limpo. 35 Mas se, depois da sua purificação, a tinha estender na pele, 36 o sacerdote o examinará; se a tinha se tiver estendido na pele, o sacerdote não busca­ rá pêlo amarelo; o homem está imundo. 37 Mas se a tinha, a seu ver, tiver parado, e nela tiver crescido pêlo preto, a tinha terá sarado; limpo está o homem; portanto o sacerdote o declarará limpo. 38 Quando ho­ mem (oumulher) tiverna pele da sua carne manchas lustrosas, isto é, manchas lustro­ sas brancas, 39 o sacerdote as examinará; se essas manchas lustrosas forem brancas tirando a escuro, é impigem que brotou na pele; o homem é limpo. 40Quando a cabeça do homem se pelar, ele é calvo; contudo é limpo. 41 E, se a frente da sua cabeça se pelar, ele é meio calvo; contudo é limpo. 42 Mas se na calva, ou na meia calva, hou­ ver praga branca tirando a vermelho, é lepra que lhe está brotando na calva ou na meia calva. 43 Então o sacerdote o exami­ nará, e se a inchação da praga na calva ou na meia calva for branca tirando a verme­ lho, como parece a lepra na pele da carne, 44 leproso é aquele homem, é imundo; o sacerdote certamente o declarará imundo; na sua cabeça está a praga. 45 Também as vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas; ele ficará com a cabeça descoberta e de cabelo solto, mas cobrirá o bigode, e clamará: Imundo, imundo. 46 Por todos os dias em que a praga estiver nele, será imundo; imundo é; habitará só; a sua habitação será fora doarraial. O significadobásico dotermo imundo, no Israel antigo, era uma referência à impropriedade de uma pessoa ou coisa para ouso ou participação no culto. Mas éclaro da catalogaçãodos animais imun­ dos que não era um termo ritual, porém se ligava vitalmente com a propriedade de um objeto ou de uma pessoa para a vida cotidiana na comunidade. Isso se torna ainda mais claro na seção em pau­ ta, que diz respeito à identificação da impureza causada pelas doenças e às medidas necessárias para a restauração da pureza, uma vez a doença tendo desa­ parecido. Assim, ocapítulo 13se concen­ tra nos sinais através dos quais se podia identificar uma doença prejudicial da pele, enquanto o capítulo 14 versa sobre as medidas para se livrar da impureza e para uma volta à vida normal na comuni­ dade. A doença era considerada uma forma deimpureza e a sua identificação,coloca­ da sob a responsabilidade do sacerdote. Issoéindício muito claro de que estamos tratando de uma situação em que Israel carecia de doutores de medicina e que o 55
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    tratamento de doençasera quase ine­ xistente. Médicos são mencionados em Gênesis 50:2, ondeparecem ser os embalsamado- res profissionais do Egito, e em II Crô­ nicas 16:12, Jó 13:4 e Jeremias 8:22. A referência em II Crônicas mostra uma avaliação depreciativa dos médicos, visto que buscar a sua ajuda é considerado uma deslealdade para com Deus. Em Eclesiastes 38:1-15 há uma defesa bem enérgica a favor da função do médico, mostrando que mesmo nesse período mais avançado ainda havia uma descon­ fiançageneralizada contra eles.2 O objetivo primário da intervenção sa­ cerdotal, aqui, é, claramente, o de impe­ dir o alastramento da doença, retirando- se o objeto ou a pessoa infetada do contato direto com a sociedade. É signi­ ficativo que em lugar nenhum, nestes dois capítulos, se faz qualquer pronun­ ciamento sobre o método de tratar a doença. Aparentemente, a única coisa que se poderia, normalmente, esperar era que os processos normais de recupe­ ração restaurassem a pessoa afetada à boa saúde. A responsabilidade do sacer­ dote era a de pronunciar uma decisão sobre seapessoaera limpa ou não, e não implicava nenhum tratamento ativo por parte dele. Através doscapítulos 13 e 14 inteiros a doença de que se trata é descrita como lepra, porém vários fatos tornam claro que não se trata da doença grave que se conhece por esse nome no mundo mo­ derno. Antes, os diversos sintomas des­ critos nocapítulo 13 indicam vários tipos diferentes de doenças virulentas da pele. Conquanto a gama de doenças aqui abrangida fosse considerada, sem reser­ vas, como suscetível de cura completa, a 2 Cf. os excelentes artigos de R. K. Harrison, no IDB; “Disease”, Vol. A-D p. 847-854; "Healing, Health”, Vol. E-J, p. 541-548; “Medicine”, Vol. K-Q, p. 331-334 (Nashville; Abingdon, 1962). doença que agora conhecemos como le­ pra não era curávelno mundo antigo.3 A experiência ensinou que algumas dermatoses eram altamente contagiosase perigosas, enquanto outras eram inócuas e superficiais. Sem conhecimento médico preciso, a única coisa que o israelita antigo podia fazer era identificar a serie­ dade do problema e, se grave, assegurar que a pessoa enferma fosse separada de outras pessoas. O processo a ser seguido pode ser reconstituído deste capítulo. Quando uma pessoa reconhecia que era portado­ ra de alguma infecção da pele, tinha que levaro caso ao sacerdote imediatamente. Se não estivesse suficientemente bem pa­ ra poder caminhar até o santuário, seria carregada até lápor um parente próximo (v. 2). O sacerdote então faria um exame e talvez fosse capaz de chegar a uma decisão imediata sobre a gravidade da doença (v. 3). Se não houvesse sintomas confirmados de que a enfermidade era perigosa, então o enfermo seria mantido isolado em sua casa por sete dias, depois do que se fazia outro exame (v. 5). Se necessário, esse período de isolamento podia ser estendido por sete dias mais, antes que se fizesse uma declaração (v. 5). Se a moléstia não dava sinais de piora, então se declarava o enfermo lim­ po (v. 6) e se lhe permitia voltar à vida normal. Se, contudo, o exame do sacerdote resultasse no diagnóstico de uma doença grave, então se declarava o enfermo imundo, e ele era compelido a viver em isolamento completo, na aldeia ou vila (chamada de arraial no versículo 46, em vista do contexto imediato do acampa­ mento do Sinai) onde morava (v. 45,46). Vestia roupas rasgadas, e deixava que 3 Cf. R. K. Harrison, “Leprosy”, IDB, Vol. K-Q, p. 112 “Com toda a probabilidade o termo lepra era de natureza indefinida e geral, com o resultado de que os tradutores gregosda Bíblia hebraica empregavam-no para abranger a psoríase, a leucodermia, a tinha e similares, bem como a verdadeira lepra. 56
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    seuscabelospendessem soltos. Essaera a praxe comum, em lamentação pelos mor­ tos (10:6). A isso se acrescentou o cobrir do lábio superior, o que era também um sinal de lamentação (Ez. 24:17,22). Assim, o doente havia de se comportar como se estivesse de luto pelos mortos, visto que a sua enfermidade era conside­ rada ligada ao poder da morte, embora se esperasse, e normalmente se previsse, uma cura subseqüente(cap. 14). (2) A Identificação da Doença nas Roupas(13:47-59) 47Quando também houver praga de lepra em alguma vestidura, seja em vestidura de lã ou em vestidura de linho, 48 quer na ur­ didura, quer na trama, seja de linho ou seja de lã; ou em pele, ou em qualquer obra de pele; 49 se a praga na vestidura, quer na urdidura, quer na trama, ou na pele, ou em qualquer coisa de pele, for verde ou verme­ lha, é praga de lepra, pelo que se mostrará ao sacerdote; 50 o sacerdote examinará a praga, e encerrará por sete dias aquilo que tem a praga. 51 Ao sétimo dia examinará a praga; se ela se houver estendido na ves­ tidura, quer na urdidura, quer na trama, ou na pele, seja qual for a obra em que se empregue, a praga é lepra roedora; é imun­ da. 52 Pelo que se queimará aquela vestidu­ ra, seja a urdidura ou a trama, seja de lã ou de linho, ou qualquer obra de pele, em que houver a praga, porque é lepra roedora; queimar-se-á ao fogo. 53Mas se o sacerdote a examinar, e ela não se tiver estendido na vestidura, seja na urdidura, seja na trama, ou em qualquer obra de pele, 54 o sacerdote ordenará que se lave aquilo em que está a praga, e o encerrará por mais sete dias. 55 O sacerdote examinará a praga, depois de lavada, e se ela não tiver mudado de cor, nem se tiver estendido, é imunda; no fogo a queimarás: é praga penetrante, seja por dentro, seja por fora. 56 Mas se o sacerdote a examinar, e a praga tiver escurecido, de­ pois de lavada, então a rasgará da vestidu­ ra, ou da pele, ou da urdidura, ou da trama; 57 se ela ainda aparecer na vestidura, seja na urdidura, seja na trama, ou em qualquer coisa de pele, é lepra brotante; no fogo quei­ marás aquilo em que há praga. 58 Mas a vestidura, quer a urdidura, quera trama, ou qualquer coisa de pele, que lavares, e de que a praga se retirar, se lavará segunda vez, e será limpa. 59 Esta é a lei da praga da lepra na vestidura de lã, ou de linho, quer na urdi­ dura, quer na trama, ou em qualquer coisa de pele, para declará-la limpa, ou para de­ clará-la imunda. Esta seção soa muito estranha aos ouvidos modernos, por causa da transfe­ rência que se faz a peças materiais de roupas, ou de tecido ou de couro, dos regulamentos concernentes à impureza pela doença. Dessa forma, as roupas são tratadas como adoentadas, da mesma forma que as pessoas. Porém, tanto quanto qualquer outra parte do Antigo Testamento, revela o problema que a doença representava para o israelita an­ tigo, com o reconhecimento de seus peri­ gos, paralelamente à sua ignorância da natureza exata da infecção pelas bacté­ rias. Ele, indubitavelmente, tinha cons­ ciênciade dois fatos: que a doença podia ser passada adiante pelas roupas infec­ tadas e que determinados tipos debolor e fungos, nas roupas, se apresentavam muito parecidos às doenças humanas de pele. Ainda se trata de uma outra situação semelhante, nos regulamentos que regem alepra nas casas(14:33-53). É certamen­ te o aparecimento de manchas de bolor ou liquens que é interpretada como uma doença numa casa. Em cada casoéclara­ mente a aparência “adoentada” que é interpretada como prova de impureza, antes mesmo que oconhecimento médico preciso da presença de doenças infeccio­ sas. Assim, é bem ressaltada a aborda­ gem prática eempírica doproblema. A destruição da peça de roupa imunda por queima (v. 52,55,57) mostra um de­ sejomuito sensato de remover a causa do perigo, em vez de tentar tratá-la pelos ritos de purificação. Estes últimos são reservados para a situação quando pare­ ce que a peça de roupa afetada está real­ mente limpa e apenas apresenta uma descoloraçãosuperficial(v. 54-58). A lavagem visa revelar se a doença entrou profundamente na peça e não pode ser facilmente removida (v. 57,58). 57
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    É digno denota que, em todas estas regraspara a identificação de uma infec­ ção leprosa num objeto ou pessoa, não há, absolutamente, sugestão de que a doença tenha sido causada ou espalhada por espíritos malignos. Diferentemente de tantos povos antigos, que interpreta­ vamasdoençasmitologicamente ou como uma força demoníaca, os israelitas anti­ gos consideravam-nas parte integrante da ordem criada do mundo. Os proble­ mas teológicos que as doenças criam nem sequer são insinuados nem tampouco evitados pelo falso recurso de recorrer-se à mitologia. As doenças suscitam muitos proble­ mas para a nossa compreensão da bon­ dade divina, e a existência delas, no mundo, cria uma tensão em relação ao reconhecimento da providência graciosa deDeus. Aqueles que atribuem a presen­ ça da doença aos espíritos malignos ten­ dem a evitar esse problema, por reverte­ rem aum ponto de vistapoliteísta e mito­ lógico da vida. Por insistir na soberania do único Deus e por encarar a doença como um fato conhecido, os israelitas tomaram possível considerar oproblema do sofrimento de uma maneira honesta e semrecorrer a explicações falsas. (3) As OfertasPelaPurificação (14:1-32) 1 Depois disse o Senhor a Moisés: 2 Esta será a lei do leproso no dia da sua purifi­ cação: será levado ao sacerdote, 3e este sai­ rá para fora do arraial, e oexaminará; se a praga do leproso tiver sarado, 4 o sacerdote ordenará que, para aquele que se há de pu­ rificar, se tomem duas aves vivas e limpas, pau de cedro, carmesim e hissopo. 5Manda­ rá também que se imole uma das aves num vaso debarro sobre águas vivas. 6Tomará a ave viva, e com ela o pau de cedro, o carme­ sim e o hissopo, os quais molhará, junta­ mente com a ave viva, no sangue da ave que foi imolada sobre as águas vivas; 7 e o es­ pargirá sete vezes sobre aquele que se há de purificar da lepra; então odeclarará limpo, e soltará a ave viva sobre o campo aberto. 8 Aquele que se há de purificar lavará as suas vestes, rapará todo o seu pêlo e se lavará em água; assim será limpo. Depois entrará no arraial, mas ficará fora da sua tenda por sete dias. 9 Ao sétimo dia rapará todo o seu pêlo, tanto a cabeça como a bar­ ba e as sobrancelhas, sim, rapará todo o pêlo; também lavará as suas vestes, e ba­ nhará o seu corpo em água; assim será limpo. 10Ao oitavo dia tomará dois cordei­ ros sem deféito, e uma cordeira sem defeito, de um ano, e três décimos de efa de flor de farinha para oferta de cereais amassada com azeite, e um logue de azeite; 11e o sa­ cerdote que faz a purificação apresentará o homem que se há de purificar, bem como aquelas coisas, perante o Senhor, à porta da tenda da revelação. 12E o sacerdote tomará um dos cordeiros, e o oferecerá como oferta pela culpa; e, tomando também o logue de azeite, os moverá por oferta de movimento perante o Senhor. 13E imolará o cordeiro no lugar em que se imolaa oferta pelo pecado e oholocausto, no lugar santo; porque, comoa oferta pelo pecado pertence ao sacerdote, assim também a oferta pela culpa; é coisa santíssima. 14Então o sacerdote tomará do sangue da oferta pela culpa e oporá sobre a ponta da orelha direita daquele que se há de purificar, e sobre o dedo polegar de sua mão direita, e sobre o dedo polegar do seu pé direito. 15 Tomará também do logue de azeite, e o derramará na palma da sua pró­ pria mão esquerda; 16então molhará o dedo direito no azeite que está na mão esquerda e daquele azeite espargirá com o dedo sete vezes perante o Senhor. 17 Do restante do azeite que está na sua mão, o sacerdote porá sobre a ponta da orelha direita daquele que se há de purificar, e sobre o dedo polegar da sua mão direita, e sobre o dedo polegar do seu pé direito, por cima do sangue da oferta pela culpa; 18e o restante do azeite que está na sua mão, pô-lo-á sobre a cabeça daquele quesehádepurificar;assim osacerdote fará expiação por ele perante o Senhor. 19 Tam­ bém o sacerdote oferecerá a oferta pelo pe­ cado,efará expiação poraquele que se há de purificar por causa da sua imundícia; e de­ pois imolará o holocausto, 20 e oferecerá o holocaustoea oferta,decereaissobreoaltar; assim o sacerdote fará expiação por ele, e ele será limpo. 21Mas se for pobre, e as suas possesnãobastarem para tanto, tomará um cordeiro para oferta pela culpa como oferta de movimento, para fazer expiação por ele, um décimo de efa de florde farinha amassa­ da com azeite, para oferta de cereais, um logue de azeite, 22 e duas rolas ou dois pombinhos, conforme suas posses permiti­ rem; dos quais um será oferta pelo pecado, 58
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    e o outroholocausto. 23 Ao oitavo dia os trará, para a sua purificação, ao sacerdote, à porta da tenda da revelação, perante o Senhor; 24 e o sacerdote tomará o cordeiro da oferta pela culpa, e ologue de azeite, e os moverá por oferta de movimento perante o Senhor. 25Então imolará o cordeiro da ofer­ ta pela culpae, tomando dosangue da oferta pela culpa, põ-lo-á sobre a ponta da orelha direita daquele que se há de purificar, e sobre o dedo polegar da sua mão direita, e sobre o dedo polegar do seu pé direito. 26Também o sacerdote derramará do azei­ te na palma da sua própria mão esquerda; 27 e, com o dedo direito, espargirá do azeite que está na mão esquerda, sete vezes peran­ te o Senhor; 28 igualmente, do azeite que está na mão, porá na ponta da orelha direi­ ta daquele que se há de purificar, e no dedo polegar da sua mão direita, e no dedo pole­ gar do seu pé direito, em cima do lugar do sangue da oferta pela culpa; 29e o restante doazeite que está na mão porá sobre a cabe­ ça daquele que se há de purificar, para fazer expiação por ele perante o Senhor. 30Então oferecerá uma das rolas ou um dos pombinhos, conforme as suas posses lhe permitirem, 31 sim, conforme as suas pos­ ses, um para oferta pelo pecado, e o outro como holocausto, juntamente com a oferta de cereais; assim fará o sacerdote, perante o Senhor, expiação por aquele que se há de purificar. 32 Esta é a lei daquele em quem estiver a praga da lepra, e cujas posses não lhepermitirem apresentara oferta estipula­ da para a sua purificação. Tencionava-se que os regulamentos ri­ tuais aqui dados fossem realizados de­ pois de as pessoas adoentadas terem sido declaradas curadasou limpas, não sendo propostos para assegurar essa cura. Ã medida que estes capítulos (13-15) o mostram, nenhuma receita específica es­ tava em uso. O paciente simplesmente deixava que osprocessos naturais de cura do corpo tivessem efeito, reforçados, co­ mo mostrado por diversos salmos, pela oração fervorosa a Deus. Quando uma pessoa se considerasse suficientemente recuperada de sua lepra ou de sua in­ fecção da pele, para ser capaz de reco­ meçar uma vida social normal, traziam- na ao sacerdote. Os versículos 2 e 3 pare­ cemfundir dois regulamentos diferentes. Primeiro, traziam o doente ao sacerdote; segundo, o sacerdote saía para o lugar onde odoenteestavaisolado. Este último regulamento foi introduzido, indubita­ velmente, a fim de impedir o alastramen­ to da doença, se a pretensão de cura por parte do doente não se provasse autên­ tica. Duas observâncias rituais deviam ser realizadas, uma vez que o sacerdote se desse por satisfeito, considerando a cura completa, e tivesse declarado à pessoa que estivera doente limpa. A primeira delas (v. 4-7) traz muitos indícios de ser muito mais antiga que a outra. Consistia num rito em que se tomavam duas aves vivas, uma das quais era morta por cima de uma jarra que continha água de nas­ cente. Nosangue da ave morta, então, se colocava madeira de cedro, pano carme­ sim e hissopo, ao qual se atribuía eficá­ cia na purificação. A outra ave, a viva, era então mergulhada nesse líquido pu­ rificador e libertada, assim levando em­ bora, simbolicamente, a impureza da pessoa. A pessoa que estivera doente era então salpicada com o líquido. Depois disso, sebarbeava e lavava e às suas rou­ pas. Então esperava por sete dias fora do arraial, antes de poder entrar novamente na sociedade, depois de se barbear e lavar novamente(v. 8,9). Depois desta observância, a pessoa que fora curada realizava o segundo rito de purificação (v. 10-20), que assumia a forma mais costumeira de uma oferta pela culpa, uma oferta pelo pecado e uma oferta queimada. As ofertas pela culpa e pelo pecado não implicavam que a pessoa fosse considerada como moral­ mente culpada por sua doença, mas eram simplesmente os meios prescritos para a remoção de impureza, fosse mo­ ral, fosse higiênica. Além dos processos sacrificais normais para a oferta pela culpa, o sacerdote realizava a cerimônia de untar as extremidades do corpo da pessoacom osangue da oferta pela culpa e com óleo. Estas ações simbolizavam 59
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    purificação, etanto osanguecomoo óleo eram consideradoscomo possuindo opo­ der de renovar a vida. A sua aplicação específica é descrita bem detalhadamen­ te, porque oritual ocorre somente aqui, e não pertencia aos regulamentos para o sacrifíciocomum. Os versículos 21-32 repetem esse pro­ cesso sacrifical para o homem que era pobre demais para providenciar três cor­ deiros, e a quem, portanto, se permitia fazer a sua oferta de uma cordeira e dois pombos ou rolas. Presume-se que o sa­ cerdote tinha de dar a sua aprovação de que a pessoa era suficientemente pobre para que se permitisse o oferecimento dessaoferta reduzida. (4) OProcessoPara a Lepraem Casas (14:33-57) 33 Disse mais o Senhor a Moisés e Arão: 34 Quando tiverdes entrado na terra de Ca- naã, que vos dou em possessão, e eu puser a praga da lepra em alguma casa da terra da vossa possessão, 35 aquele a quem perten­ cer a casa virá e informará o sacerdote, di­ zendo: Parece-me que há como que praga em minha casa. 36 E o sacerdote ordenará que despejem a casa, antes que entre para examinar a praga, para que não se torne imundo tudo o que está na casa; depois entrará o sacerdote para examinar a casa; 37 examinará a praga, e se ela estiver nas paredes da casa em covinhas verdes ou vermelhas, e estas parecerem mais profun­ das que a superfície, 38 o sacerdote, saindo daquela casa, deixá-la-á fechada por sete dias. 39Aosétimo dia voltará osacerdote e a examinará; se a praga se tiver estendido nas paredes da casa, 40 o sacerdote ordena­ rá que arranquem as pedras em que estiver a praga, e que as lancem fora da cidade, num lugar imundo; 41 e fará raspar a casa pordentroaoredor,e opóque houverem ras­ pado deitarão fora da cidade, num lugar imundo; 42depois tomarão outras pedras, e as porão no lugar das primeiras; e outra argamassa se tomará, e se rebocará a casa. 43 Se, porém, a praga tornar a brotar na casa, depois de arrancada as pedras, raspa­ da a casa e de novo rebocada, 44o sacerdote entrará, e a examinará; se a praga se tiver estendido na casa, lepra roedora há na casa; é imunda. 45 Portanto se derrubará a casa, as suas pedras, e a sua madeira, como também toda a argamassa da casa, e se levará tudo para fora da cidade, a um lugar imundo. 46 Aquele que entrar na casa, en­ quanto estiver fechada, será imundo até a tarde. 47 Aquele que se deitar na casa lava­ rá as suas vestes; e quem comer na casa lavará as suas vestes. 48 Mas, tornando o sacerdote a entrar, e examinando a casa, se a praga não se tiver estendido nela, depois de ter sido rebocada, o sacerdote declarará limpa á casa, porque a praga está curada. 49 E, pára purificar a casa, tomará duas aves, pau de cedro, carmesim e hissopo; 50Imolará uma das aves num vaso de barro sobre águas vivas; 51 tomará o pau de ce­ dro, ohissopo, ocarmesim e a ave viva, e os molhará no sangue da ave imolada e nas águas vivas, e espargirá a casa sete vezes; 52 assim purificará a casa com o sangue da ave, com as águas vivas, com a ave viva, com o pau de cedro, com hissopo e com o carmesim; 53 mas soltará a ave viva para fora da cidade, para o campo aberto; assim fará expiação pela casa, e ela será limpa. 54Esta é a lei de toda sorte de praga de lepra e de tinha; 55da lepra das vestes e das casas; 56 da inchação, das pústulas e das manchas lustrosas; 57 para ensinar quando alguma coisa será imunda, e quando será limpa. Esta é a leida lepra. Era claramente reconhecido pelos is­ raelitas antigos que a doença podia ser espalhada pela infecção, e por esse mo­ tivo tanto as roupas como as construções podiam tomar-se suspeitas. Porém, sem oconhecimento médico da maneira como a doença se alastrava, o povo tinha de agir de acordo com os fatos observáveis. Por isso, esta seção trata do processo para a remoção da praga da lepra em alguma casa. Dos sintomas descritos (v. 37), parece que a infecção era algum tipodefungooubolor. Este pode ter sido bem inócuo, embora devamos reconhecer que as condições úmidas que dão mar­ gemaosurgimento dessesfungos podem, muitasvezes, serinsalubres e tomar uma casa inadequada para residência huma­ na. Assim, não devemos desprezar essa preocupação com a higiene em constru­ ções como errônea e desnecessária, em­ boravejamosas suaslimitações. 60
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    Se, depois deum período de prova e renovação, a casa podia ser declarada limpa, então o ritual de purificação, im­ plicando o uso de duas pequenas aves, seria realizado (v. 49-53). Se, contudo, a construção ainda parecesse infectada, ti­ nha de ser demolida e totalmente des­ truída. É significativo que oconteúdo da casa era salvaguardado, por sua remo­ ção antes de o sacerdote chegar para fazeroseu exame(v. 36). A profunda preocupação da lei de Deus, aqui expressa, com relação à saú­ de e à segurança de casas é uma lem­ brança perene da responsabilidade colo­ cada sobre todos os cristãos pela saúde e limpeza públicas. Durante muitos perío­ dos da História, os cristãos têm tolerado, na sociedade, moradias e condições de vida péssimas, que são uma afronta a Deus, tanto quanto o são violações mais flagrantes de sua lei moral. Repetida­ mente, por detrás das leis do Antigo Tes­ tamento, descobrimos consideração divi­ na pela proteção e preservação da vida contra a injustiça, a doença e a perversi­ dadehumanas. (5) AImpureza Pelos FluxosCorporais (15:1-33) 1Disse ainda o Senhor a Moisés e a Arão: 2 Falai aos filhos de Israel, e dizei-lhes: Qualquer homem que tiver fluxo da sua carne, por causa do seu fluxo será imundo. 3Esta, pois, será a sua imundícia por causa doseu fluxo: se a sua carne vaza o seu fluxo, ou se a sua carne estanca o seu fluxo, es­ ta é a suaimundícia. 4Toda cama em que se deitaraquele que tiver fluxo será imunda; e toda coisa sobre o que se sentar, será imun­ da. 5 E, qualquer que tocar na cama dele lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde. 6 E aquele que se sentar sobre aquilo em que se sentou oque tem ofluxo, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tar­ de. 7Também aquele que tocar na carne do que tem o fluxo, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tar­ de. 8 Quando o que tem o fluxo cuspir sobre um limpo, então lavará este as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde. 9Também toda sela, em que cavalgar o que tem o fluxo, será imunda. 10 E qual­ quer que tocar em alguma coisa que tiver estado debaixo dele será imundo até a tar­ de; e aquele que levar alguma dessas coisas lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde. 11Também todo aquele em quem tocar o que tiver o fluxo, sem haver antes lavado as mãos em água, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde. 12Todo vaso de barro em que tocar o que tiver o fluxo será quebrado; porém todo vaso de madeira será lavado em água. 13 Quando, pois, o que tiver o fluxo ficar limpo do seu fluxo, contará para si sete dias para sua purificação, lavará as suas vestes, banhará o seu corpo em águas vivas, e será limpo. 14Ao oitavo dia tomará para si duas rolas, ou dois pombinhos, e virá perante o Senhor, à porta da tenda da revelação, e os dará ao sacerdote, 15 o qual os oferecerá, um para oferta pelo pecado, e o outro para holocaus­ to; e assim o sacerdote fará por ele expia­ ção perante o Senhor, por causa do seu fluxo. IS Também se sair de um homem o seu sêmen, banhará o seu corpo todo em água, e será imundo até a tarde. 17E toda a vestidura, e toda pele sobre que houver sê­ men, serão lavadas em água, e serão imun­ das até a tarde. 18Igualmente quanto à mu­ lher com quem o homem se deitar com sêmen, ambos sebanharão em água, eserão imundosaté a tarde. 19Mas a mulher, quan­ do tiver fluxo, e o fluxo na sua carne for sangue, ficará na sua impureza por sete dias, e qualquer que nela tocar será imundo até a tarde. 20E tudo aquilo sobre o que ela se deitar durante a sua impureza, será imundo; e tudo sobre o que se sentar, será imundo. 21 Também qualquer que tocar na sua cama, lavará as suas vestes, e se ba­ nhará em água, e será imundo até a tarde. 22 E quem tocar em alguma coisa, sobre o que ela se tiver sentado, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde. 23 Se o sangue estiver sobre a cama, ou sobre alguma coisa em que ela se sentar, quando alguém tocar nele, será imundo até a tarde. 24 E se, com efeito, qualquer homem se deitar com ela, e a sua imundícia ficar sobre ele, imundo será por sete dias; também toda cama, sobre que ele se deitar, será imunda. 25 Se uma mulher tiver um fluxo de sangue por muitos dias fora do tempo da sua impureza, ou quando tiver fluxo de sangue por mais tempo do que a sua impureza, por todosos dias do fluxo da sua imundícia será como nos dias da sua 61
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    impureza; imunda será.26 Toda cama so­ bre queela se deitar durante todosos dias do seu fluxo ser-lhe-á como a cama da sua impureza; e toda coisa sobre que se sentar será imunda, conforme a imundícia da sua impureza. 27 E qualquer que tocar nessas coisas será imundo; portanto lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imun­ do até a tarde. 28Quando ela ficar limpa do seufluxo, contará para si sete dias, e depois será limpa. 29 Ao oitavo dia tomará para si duas rolas, ou dois pombinhos, e os trará ao sacerdote, à porta da tenda da revelação. 30 Então o sacerdote oferecerá um deles para oferta pelo pecado, e o outro para holocausto; e osacerdote fará por ela expia­ ção perante o Senhor, por causa do fluxo da sua imundícia. 31 Assim separareis os filhos de Israel da sua imundícia, para que não morram na sua imundícia, contami­ nando o meu tabernáculo, que está no meio deles. 32Esta é a lei daquele que tem o fluxo e daquele de quem sai osêmen, de modo que por eles se toma imundo; 33 como também da mulher enferma com a sua impureza e daquele que tem o fluxo, tanto do homem como da mulher e do homem que se deita com mulherimunda. Além de moléstias externas da pele, que podem ser vistas rapidamente e das quais se trata no capítulo 14, outros sintomas de saúde precária se acham nos fluxos docorpo. Maisuma vez o precário conhecimento médico dos israelitas é aparente, como também a sua necessi­ dade de dependerem de fatos observá­ veis. O primeiro caso tratado (v. 1-15) é o de um homem que tem um fluxo do corpo. A inferência imediata é que o fluxo foi causado por doença. Tomam-se asprecauções necessárias para evitar que qualquer infecção sealastre, por declarar imunda qualquer pessoa ou objeto com que a pessoa afetada teve contato. Visto que semelhante fluxo talvez tenha sido um sintoma de doença grave, a única resposta prática era agir com base nesse pressuposto. Assim, a pessoa tinha de ficar em isolamento até sete dias após o término dofluxo, quando era ordenada a trazer uma oferta pelo pecado e uma oferta pela culpa, de dois pombos ou duas rolas. No caso de uma descarga do sêmen do homem (v. 16-18), está claro, das precauções prescritas, que este sin­ toma era reconhecido como menos grave e que pode ter sido, muitas vezes, bem inócuo. Os fluxos de sangue da mulher (v. 19- 30)podem surgir pelo período regular da menstruação ou podem ser sintomáticos de uma condição enferma. Assim como no caso do homem, tinha-se de tomar precauções especiais somente no caso do fluxo anormal da mulher (v. 25-27). Sete dias depois de ele ter terminado, uma oferta pelo pecado e uma oferta queimada especiais tinham de ser trazi­ das. Através dos regulamentos todos, podemos ver que sintomas que possam indicar uma condição enferma são assim entendidos eexigemprecauções especiais contra o alastramento da doença. So­ mente depois da passagem de um perío­ do de tempo suficiente para indicar uma volta à saúde normal, era permitido, à pessoa afetada, regressar às suas ativi­ dades cotidianas. Os versículos 31 e 32 resumem esta seçãointeira que trata da impureza pelos fluxos, tornando claro que, para Israel, tolerar oqueera impuro, e, portanto, in­ salubre, resultava na profanação do ta­ bernáculo de Deus, colocado no meio de Israel, em prol de quem Israel tinha de ser santo. Tal santidade incluía boa saúde.4 IV. O Grande Dia da Expiação (16:1-34) 1 Falou o Senhor a Moisés, depois da morte dos dois filhos de Arão, que morre­ ram quando se chegaram diante do Senhor. 2 Disse, pois, o Senhor a Moisés: Dize a Arão, teu irmão, que não entre em todo tempo no lugar santo, para dentro do véu, 4 Cf. R. K. Harrison, "A saúde era uma dádiva divina, e, junto com a prosperidade material, era confiantemente esperada pelos fiéis em Israel.” IDB, Vol. E-J., p. 546. Ver também de Vaux, Ancient Israel; Its Life and Insti­ tutions, p. 460. 62
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    diante do propiciatórioque está sobre a arca, para que não morra; porque aparece­ rei na nuvem sobre o propiciatório. 3 Com isto entrará Arão no lugar santo: com um novilho, para oferta pelo pecado, e um car­ neiro para holocausto. 4Vestirá ele a túnica sagrada de linho, e terá as calças de linho sobre a sua carne, e cingir-se-á com o cinto de linho, e porá na cabeça a mitra de linho; essas são as vestes sagradas; por isso ba­ nhará o seu corpo em água, e as vestirá. 5 E da congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes para oferta pelo pecado e um carneiro para holocausto. 6 Depois Arão oferecerá onovilho da oferta pelo pecado, o qual será para ele, e fará expiação por si e pela sua casa. 7 Também tomará os dois bodes, e osporá perante o Senhor, à porta da tenda da revelação. 8 E Arão lançará sortes sobre os dois bodes: uma pelo Senhor, e a outra por Azazel. 9 Então apresentará o bode sobre o qual cair a sorte pelo Senhor, e ooferecerá como oferta pelo pecado; 10mas o bode sobre que cair a sorte para Azazel será postovivo perante o Senhor, para fazer expiação com ele, a fim de enviá-lo ao de­ serto para Azazel. 11 Arão, pois, apresenta­ rá onovilho da oferta pelo pecado, que é por ele, e fará expiação por si e pela sua casa; e imolará o novilho que é a sua oferta pelo pecado. 12 Então tomará um incensário cheio de brasas de fogo de sobre o altar, diante do Senhor, e doispunhados deincenso aromático bem moído, e os trará para den­ tro do véu; 13e porá o incenso sobre o fogo perante o Senhor, a fim de que a nuvem do incenso cubra o propiciatório, que está so­ bre o testemunho, para que não morra. 14Tomará do sangue donovilho, eo espargi­ rá com o dedo sobre o propiciatório ao lado oriental; e perante opropiciatório espargirá do sangue sete vezes com o dedo. 15Depois imolará obode da oferta pelo pecado, que é pelo povo, e trará o sangue do bode para dentro do véu; e fará com ele como fez com o sangue do novilho, espargindo-o sobre o propiciatório, e perante o propiciatório; 16 e fará expiação pelo santuário por causa das imundícias dos filhos de Israel e das suas transgressões, sim, de todos os seus pecados. Assim também fará pela tenda da revelação, que permanece com eles no meio das suas imundícias. 17 Nenhum homem estará na tenda da revelação quando Arão entrar para fazer expiação no lugar santo, até que ele saia, depois de ter feito expiação por si mesmo, e pela sua casa, e por toda a congregação de Israel. 18 Então sairá ao altar, que está perante o Senhor, e fará expiação pelo altar; tomará do sangue do novilho, e do sangue do bode, e o porá sobre as pontas do altar ao redor. 19 E do sangue espargirá com o dedo sete vezes sobre o altar, purificando-o e santificando-o das imundícias dos filhos de Israel. 20 Quando Arãohouver acabado de fazer expiação pelo lugar santo, pela tenda da revelação, e pelo altar, apresentará o bode vivo; 21 e, pondo as mãos sobre a cabeça do bode vivo, con­ fessará sobre ele todas as iniqtiidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgres­ sões, sim, todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á para o deserto, pela mão de um homem designado para isso. 22Assim aquelebode levará sobre si todas as iniqtiidades deles para uma re­ gião solitária; e esse homem soltará o bode no deserto. 23Depois Arão entrará na tenda da revelação, e despirá as vestes de linho, que havia vestido quando entrara no lugar santo, e ali as deixará. 24 E banhará o seu corpo em água num lugar santo, e vestirá as suas próprias vestes; então sairá e oferece­ rá oseu holocausto, e oholocausto dopovo, e fará expiação por sie pelo povo. 25Também queimará sobre o altar a gordura da oferta pelo pecado. 26E aquele que tiver soltado o bode para Azazel lavará as suas vestes, e banhará o seu corpo em água, e depois entrará no arraial. 27 Mas o novilho da oferta pelo pecado e o bode da oferta pelo pecado, cujo sangue foi trazido para fazer expiação no lugar santo, serão levados para fora do arraial; e lhes queimarão no fogo as peles, a carne e oexcremento. 28Aquele que osqueimarlavará as suas vestes, banhará o seu corpo em água, e depois entrará no arraial. 29 Também isto vos será por esta­ tuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e não fareis trabalho algum, nem o natural nem o es­ trangeiro que peregrina entre vós; 30 por­ quenesse dia se fará expiação por vós, para purificar-vos; de todos os vossos pecados sereis purificados perante o Senhor. 31 Será sábado de descanso solene para vós, e afli­ gireis as vossas almas; é estatuto perpétuo. 32 E o sacerdote que for ungido e que for sagrado para administrar o sacerdócio no lugar de seu pai, fará a expiação, havendo vestido as vestes de linho, isto é, as vestes sagradas; 33 assim fará expiação pelo san­ tuário; também fará expiaçãopela tenda da revelação e pelo altar; igualmente fará ex­ piação pelos sacerdotes e por todo o povo da congregação. 34 Isto vos será por estatuto perpétuo, para fazer expiação uma vez no ano pelos filhos de Israel por causa de todos os seus pecados. E fez Arão como o Senhor ordenara a Moisés. 63
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    Este capítulo ficaà parte, e da refe­ rêncianoversículo1àsituaçãodescritano capítulo 10, podemos ver que continua com a série de regulamentos que regem o cultoe a administração dosantuário, que écentral nos capítulos 1-10. Mais do que a maior parte de Levítico, o capítulo 16 levanta interrogações concernentes à data domaterial que contém. Da posição única, atribuída ao sumo sacerdote, de seu direito exclusivo de entrada no lugar santíssimo do templo apenas uma vez no ano (v. 2) e de sua clara separação da comunidade eaté dos demais sacerdotes, podemos deduzir que o ritual é descrito aqui como era praticado em tempos pós- exílicos. Contudo, um Dia de Expiação anual, celebrado no outono, como parte da celebração mais extensiva do ano-no- vo, certamente remonta aos primórdios mais precoces da vida de Israel, quando um ato geral de expiação se fazia pelos pecados do ano anterior. Uma pequena informação adicional está contida no Antigo Testamento com relação a este aspecto expiatório das celebrações do ano-novo, embora se lhe possa achar re­ ferências em Números 29:7-11 e Ezequiel 45:18-20. O ritual do bode expiatório, que não é mencionado em nenhum outro lugar no Antigo Testamento, dá muitos sinais de remota antiguidade. O Dia da Expiação tinha duas finali­ dades principais: fazer expiação pelo sumo sacerdote e a sua casa (v. 6,11) e, assim, de maneira mais geral, por todos os sacerdotes; e realizar um ato de lim­ peza e purificação do Templo (v. 16,18, 33). No decorrer do desenvolvimento, o ritual, em sua totalidade, veio a ser con­ siderado mais geralmente como um ato de expiação por Israel como um todo (v. 33). Indubitavelmente, aspectos de atos diversos de expiação foram unidos num único ato abrangente, e talvez cos­ tumes de santuários locais diferentes fos­ sem ajuntados num único grande ato, queera realizado anualmente em Jerusa­ lém, quando todo o culto sacrifical de Israel tinha sido centralizadolá. Podemos dividir este capítulo nas se­ guintespartesprincipais: 1. A Preparação (v. 3-5): (1) a prepa­ ração do sumo sacerdote, pela apresen­ tação de uma oferta pelo pecado (um novilho) e uma oferta queimada (um carneiro, v. 3), e pelo aparelhamento do sumo sacerdotecom as vestes sacerdotais (v. 4); (2) a preparação do povo, pela apresentação de uma oferta pelo pecado (dois bodes) e uma oferta queimada (um carneiro, v. 5). 2. O rito básico (v. 6-10): (1) a apre­ sentação da oferta pelo pecado em prol dosurfiosacerdote(v. 6); (2) a separação, por sortes, dos dois bodes (v. 7,8); (3) o oferecimento deum dosbodes como uma oferta pelo pecado em favor do povo (v. 9); (4) a separação do bode expiatório (v. 10). 3. Os regulamentos especiais concer­ nentes ao ritual (v. 11-28): (1) o uso do incenso com a oferta pelo pecado do sumo sacerdote, a fim de esconder o lugar da presença de Deus (v. 11-14); (2) ritos especiais de sangue pela oferta pelo pecado do povo, para purificar o santuário (v. 15-17) e o altar (v. 18,19); (3) o envio do bode expiatório para o deserto, para Azazel(v. 20-22); (4) a tro­ ca de roupa do sumo sacerdote e o seu banho (v. 23,24a); (5) a queima, sobre o altar, da oferta queimada e da gordura da oferta pelo pecado (v. 24b,25); (6) a purificação da pessoa que levou embora obodeexpiatório(v. 26); (7) a destruição das partes da oferta pelo pecado e a purificação da pessoa envolvida(v. 28). A natureza básica da oferta pelo peca­ dojá foitratada no Manual doSacrifício, de maneira que a maior parte do comen­ tário deste capítulo se relaciona a càrac- terísticas que são distintivas desta ceri­ mônia de expiação especial. A ocasião desta celebração solene é determinada com precisão para o décimo dia do séti­ mo mês (cf. Núm. 29:7, e contrastar 64
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    Ez. 45:18-20), quandotodo trabalho era absolutamente proibido (16:29-31). So­ mente nesse dia (v. 2) era permitido, ao sumo sacerdote, entrar no santíssimo lu­ gar do santuário. Em certa época talvez se tenham permitido visitas mais fre­ qüentes, e, através dos séculos, houve, indubitavelmente, variações na fixação da data do Dia da Expiação. Para esta entrada no lugar santíssimo, onde a pre­ sença divina se colocava acima da arca entre os dois querubins (Êx. 25:22), o sumo sacerdote tinha de tomar precau­ ções especiais. A santidade de Deus era um poder para a vida e a bênção, porém podia também ser prenhe de perigo para a pessoa pecadora e profana, e, através desse mesmo ato, o sumo sacerdote esta­ va confessando a sua própria pecamino- sidade. Levava, portanto, um incensário de brasas, e queimava incenso sobre o altar, de maneira que a fumaça do incen­ socobria oaltar(v. 12,13), assim propor­ cionando uma nuvem protetora entre o sacerdote e apresença deDeus. A característica mais impressionante do ritual é a separação, por sortes, do bode expiatório e o seu envio para o deserto, para Azazel. Esta, por muitos sinais, mostra-se uma prática extrema­ mente antiga, e tem o seu paralelo mais chegado no ritual de purificação, em que setomavam duas aves, uma das quais era sacrificada e a outra liberta para os ares (14:7,51-53). Por colocar as suas mãos na cabeça do bode vivo e confessar sobre ele os pecados de Israel, o sumo sacerdote estava transferindo, simbolicamente, ao bode os pecados do povo de Israel. A confissão se fazia, indubitavelmente, por meiode uma fórmula muito geral, abran­ gendo os pecados dele mesmo e do povo durante o ano anterior. O bode era, então, levado para o deserto e libertado para Azazel. Esse nome tem provocado muito co­ mentário, vistoque pode ser interpretado de maneiras diversas. A antiga Septua- ginta o traduz como significando sim­ plesmente “para mandar embora”. Pa­ rece ser o nome de um demônio ou espírito, que se acreditava viver nas ter­ ras inabitadas do deserto (cf. o Livro de Enoque 8:1;.9:6). Assim, o bode expia­ tório levava os pecados de Israel embora para o lugar e o espírito da destruição. Alternativamente, o nome Azazel tem sido considerado o nome de algum lugar próximo, para indicar o lugar no deserto onde obodeera morto. Talvez um despe­ nhadeiro íngreme. Esta conjetura recebe apoio no antigo Mishnahjudaico (b. Yo- ma 39a), onde é entendido como se refe­ rindo a um penhasco ou píncaro, bem como do comentarista judaico medieval Rashi. Esta interpretação foi defendida por G. R. Driver (Journal of Semitic Studies I, 1956, p.97 e ss.), ao argumen­ tar que a palavra Azazel quer dizer “pre­ cipício”. Apesar desses argumentos, ain­ da parece mais provável que o nome ori­ ginalmente dizia respeito a um demônio. Tem sido argumentado que esse ritual dobode expiatório remonta aum período de nomadismo primitivo, na existência de Israel, quando, numa determinada estação do ano, os rebanhos dosisraelitas eram enxotados para o deserto. Neste caso, a oferta do bode teria sido uma propiciação a Azazel, que se pensava controlar a região desértica. Isso é muito hipotético, e, mesmo se representasse a origem dorito, certamente não explicaria o significado e a finalidade dele como registrado em Levítico. Aqui, a intenção não é, de maneira nenhuma, trazer uma oferta a Azazel, que assim pareceria um rival do Deus de Israel, mas, sim, levar embora, para a destruição, ospecados do povo. O bode levava embora os pecados dosacerdotee do povo, de maneira a po­ derem enfrentar o novo ano sem mácula dopecado doano findo. Nos regulamentos para a troca de ves­ tes eobanho do sacerdote (v. 23,24) e na exigência que ohomem quelevava embo­ ra o bode expiatório se lavasse e às suas roupas, podemos ver que se considerava 65
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    o pecado umtipo de sujeira. O contato com o animal portador do pecado podia levar à transferência do pecado para a pessoa que tocava nele. Assim, as pre­ cauções devidas tinham de ser tomadas, bem como as lavagens apropriadas serem realizadas. A entrada do sumo sacerdote uma vez por ano no lugar santíssimo, para asse­ gurar a expiaçãopara opovo, assume, na Epístola aos Hebreus, um significado característico, comoum quadro interpre- tativo do sacrifício e da morte de Cristo (9:7 e ss). Dentro da religião de Israel, o Dia da Expiação tinha um lugar todo especial. Afirmava, mais do que qual­ quer outro festival do ano, um sentido profundo de pecado e uma percepção de que somente Deus era capaz de tratar disso. De uma maneira especial, de­ monstrava que os ministros de Deus não estavam, de forma alguma, isentos do poder do pecado, mas que até o sumo sacerdote tinha de ser liberto de seu domínioe de sua impureza. Os ministros de Deus eram santos, mas não estavam livres do pecado, e se lhes impunha a necessidade de encararem honestamente o fato de seu próprio pecado. Isso po­ diam fazer por permitirem que Deus tratasse dele e que o removesse através das cerimônias que tinha providenciado. Desta maneira, o ministério divino da graça, para Israel, podia continuar atra­ vésdosacerdócio nomeado, sem permitir nenhuma indiferença para com a sua pecaminosidade e sem criar uma falsa ilusão de suapiedade. V. OCódigoda Santidade (17:1-26:46) O capítulo 17 começa uma parte dis­ tinta do livro de Levítico, que se estende até o fim do capítulo 26, onde achamos uma longa série de bênçãos e maldições, que constituem um término adequado para um código legal. Uma parte do material, nesses capítulos, faz referência ao sacrifício e aos animais puros e aos imundos, dos quaisjá se tratou em capí­ tulos anteriores. Portanto, é quase que unanimemente mantido, por eruditos modernos, que estes capítulos integra­ vam, outrora, uma coleção de leis total­ mente separada, constituindo um código escrito de uma data anterior ao restante deLevítico.5Por causa de sua afirmação da santidade divina e de sua exigência que Israel fosse, semelhantemente, santo (19:2; 20:26), esse código se chama, ge­ ralmente, deCódigo da Santidade. Não é nada fácil determinar a sua data, embora pareça se situar nalgum ponto entre o livro da lei de Deuteronômio, que não pode ter surgido depois de 621 a.C., e do fim do exílio babilónico. Mas contém materiais de uma data muito anterior à de sua compilação num código legal escrito. Mais importante do que a questão da data é a da localidade onde o código foi compilado. Há muitos motivos para se acreditar que o Código da Santidade foi compilado em Jerusalém e que represen­ ta os regulamentos em vigor no Templo antes da destruiçãobabilónica da cidade. A redação final do Código da Santidade parece ter ocorrido nalgum tempo duran­ te o período do exílio. Proporciona um documento altamente instrutivo, concer­ nente à relação estreita entre as exigên­ cias religiosas decultoe de santidade e as exigências da legislação social que se aplicavam aoIsrael antigo. Asantidade a que conclama não é nenhuma piedade meramente individual, nem mesmo sim­ plesmente uma participação no culto pú­ blico, mas, sim, um modo de viver inte­ gral, que envolve todos os aspectos do comprometimento pessoal, familiare so­ cial. A santidade de Deus impõe um padrão completo de comportamento mo­ ral e social ao povo que ele escolheu, de maneira que a santidade dele faz da 5Cf. OttoEissfeidt, The Old Testament: An Introduction. Trad. Peter R. Ackroyd(Oxford: Blackwell, 1965), p. 233- 239; G. Henton Davies, “Leviticus”, IDB, Vol. K-Q, p. 121. 66
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    santidade responsiva dopovo uma exi­ gência inapelável. 1. A Oferta de Sacrifícios e o Comer Cames(17:l-16) 1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Fala a Arão e aos seus filhos, e a todos os filhos dè Israel, e dize-lhes: Isto é o que o Senhor tem ordenado: 3 Qualquer homem da casa de Israel que imolar boi, ou cordeiro, ou cabra, no arraial, ou fora do arraial, 4 e não o trouxer à porta da tenda da revelação, para o oferecer como oferta ao Senhor diante do tabernáculo do Senhor, a esse homem será imputado o sangue; derramou sangue, pelo que será extirpado do seu povo; S a fim de que os filhos de Israel tragam os seus sacri- ficios, que oferecem no campo, isto é, a fim de que os tragam ao Senhor, à porta da tenda da revelação, ao sacerdote, e os ofe­ reçam por sacrifícios deofertas pacíficas ao Senhor. 6 E o sacerdote espargirá o sangue sobre o altar do Senhor, à porta da tenda da revelação, e queimará a gordura por cheiro suave ao Senhor. 7 E nunca mais oferecerão os seus sacrifícios aos sátiros, após os quais eles se prostituem; isso lhes será por esta­ tuto perpétuo pelas suas gerações. 8 Dir- Ihes-ás pois: Qualquer homem da casa de Israel, ou dos estrangeiros que entre vós peregrinam, que oferecer holocausto ou sa­ crifício, 9e não otrouxer à porta da tenda da revelação, para oferecê-lo ao Senhor, que esse homem será extirpado do seu povo. 10 Também, qualquer homem da casa de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam entre eles, que comer algum sangue, contra aquela alma porei o meu rosto, e a extirpa­ rei do seu povo. 11 Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que faz expiação, em virtude da vida. 12 Portanto tenho dito aos filhos de Israel: Nenhum de vós comerá sangue; nem o estrangeiro que peregrina entre vós comerá sangue. 13Tam­ bém, qualquer homem dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam entre eles, que apanhar caça de fera oude ave que sepode comer, derramará o sangue dela e o cobrirá com pó. 14 Pois, quanto à vida de toda a carne, oseu sangue é uma e a mesma coisa com a sua vida; por isso eu disse aos filhos de Israel: Não comereis o sangue de nenhuma carne, porque a vida de toda a carne é oseu sangue; qualquer que o comer será extirpado. 15E todohomem, quer natu­ ral quer estrangeiro, que comer do que mor­ re por si ou do que é dilacerado por feras, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde; depois será limpo. 16Mas, se não as lavar, nem banhar oseu corpo, lévarà sobre si a sua iniqüidade. Este capítulo inicial doCódigo da San­ tidade diz respeito às condições sob que se podia consumir carne como comida em Israel e às prescrições gerais para a matança ritual e a oferta do sacrifício que aquela implicava. Enquanto o Ma­ nual do Sacrifício (Lev. 1-7) trata do ritual pormenorizado que se havia de observar para os tipos diferentes de ofer­ ta, este capítulo se concentra na afirma­ ção da exigência geral de que todo con­ sumo de animais domésticos havia de fazer parte de um ato ritual solene de sacrifício. A motivação central para esta exigência jaz na santidade especial do sangue, queéa vida do animal. Os versículos 3 e 4 exigem que nenhu­ ma matança profana de um animal do­ méstico (boi, cordeiro ou cabra) devesse ser permitida em Israel, e que qualquer que infringisse esse mandamento traria imputação de sangue sobre si e deveria ser castigado como se tivesse assassinado um outro ser humano (cf. Êx. 22:2,3; Deut. 21:1-4). Esta era a punição porque a matança de um animal implicava o derramamento de seu sangue, e esse per­ tencia, como a vida da criatura, a Deus (v. 10-14). Assim, mesmo podendo um animal ser morto no campo aberto (v. 5), seu corpo tinha de ser trazido até o santuário, a fim de que o sacerdote pudesse espargir o altar com alguma parte do seu sangue e ali também quei­ mar a sua gordura. Desta maneira se tomava uma oferta pacífica(v. 5,6). Um outro motivo para a restrição da matança de animais domésticos como atos de sacrifício no santuário oficial de Israel é apresentado no versículo 7. Essa restrição visava evitar o oferecimento de sacrifícios aos sátiros. Essessátiros(a pa­ lavra significa bodes ou cabeludos) eram 67
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    os espíritos oudemônios do deserto, tal­ vez não dissimilares de Azazel. Apre­ sentar-lhes ofertas era uma infração do Primeiro Mandamento, visto que impli­ cava prestar culto a outrem que não o Senhor Deus de Israel. II Reis 23:8 (por uma emenda de “portões” para “sáti­ ros”) talvez se refira aos santuários des­ sessátiros ou bodes localizadosjunto aos murosdeJerusalém,peloladoexterno, su­ gerindo um determinado ponto de refe­ rência para alegislaçãolevítica. Essa lei de sacrifício insiste nos dois pontos principais de que Israel não havia de praticar nenhuma matança profana de animais domésticos e que todos os animais trazidos em sacrifício a Deus haviam de ser apresentados em seu san­ tuário legítimo, a tendadarevelação. Essa ênfase sobre um único santuário legítimo sugere alguma relação com a lei de sacrifício em Deuteronômio 12, onde se insiste fortemente no santuário único. Ao contrário da lei deuteronômica, que permitia a matança profana de animais (12:15 e s.), Levítico 17 proíbe-a com firmeza. Temos, indubitavelmente, neste capítulo, uma exigência para a prática mais antiga de Israel, que agora aparece com alguma acomodação à situação pós- deuteronômica, e sua centralização do culto num único santuário. Levítico 17: 13 permite livremente que os homens comam animais apanhados durante a caçada, sem antes fazerem sacrifício deles, visto que a caçada teria, muitas vezes, acontecido a certa distância do santuário. A única coisa em que se in­ siste, nestas circunstâncias, é que o san­ gue deva ser derramado sobre o chão e coberto de terra, para que nenhum outro animal obeba. O motivo da maneira rígida de os israelitas evitarem de comer o sangue é exposto em 17:10-14 mais extensivamen­ te do que em qualquer outro lugar no Antigo Testamento. O sangue era consi­ derado a vida essencial de uma criatura, e, assim sendo, pertencia a Deus, que dá avida a todos. Quando qualquer de suas criaturas fosse morta, portanto, até pelo motivo lícito de se comer a carne (Gên. 9:3-5), primeiramente se tinha de devol­ ver o sangue a Deus, pois, do contrário, talvez os homens pudessem usurpar o senhorio de Deus sobre suas criaturas. Essa devolução a Deus, do sangue vital de alguma de suas criaturas, era, além disso, considerada como possuindo valor expiatório (v. 11), que expressava o re­ morso dohomem pelo seupecado eocor­ respondente perdão de Deus. Assim, o perdão se mostra como o dom mais caro de Deus, implicando a perda da vida de uma de suas criaturas, a fim de trazer perdão ao homem. Muitíssimas tradições e influências têm contribuído para a formação do sis­ tema do culto sacrifical de Israel. Não houve apenas um motivo isolado por que os sacrifícios tinham de ser feitos, mas uma variedade de motivos, que emer­ giam, originalmente, da antiguidade e remontavam ao período ainda anterior aos primórdios de Israel. Para o Antigo Testamento, era da maior importância que esse sistema sacrifical tivesse sido tecido para formar uma unidade, e se tivesse tornado a expressão das percep­ ções mais profundas de Israel com rela­ ção à sua própria natureza pecaminosa e à natureza santa e graciosa de Deus. O sacrifício era o meio indicado de per­ dão e expiação, e, como tal, era, em si mesmo, a dádiva de Deus. 2. Os Regulamentos com Respeito ao Casamento(18:1-30) Aqui é-nos apresentada uma exigên­ cia altamente pormenorizada de santi­ dade na conduta pessoal, principalmente em questões da ética sexual. O capítulo contémuma exortaçãogeral à obediência (v. 1-5) e uma advertência e exortação adicional nos versículos 24-30. A lista principal de mandamentos está na forma de proibições detalhadas (v. 6-23) e os versículos 6-18tratam de graus proibidos 68
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    de parentesco, dentrodos quais se proí­ bem o casamento e as relações sexuais. Os versículos 19-23 dão um resumo mais geral de regras para o controle do com­ portamento sexualepaterno. 1 Disse mais oSenhora Moisés: 2Fala aos filhosde Israel, e dize-lhes: Eu sou o Senhor vosso Deus. 3 Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes; nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual eu vos levo; nem andareis se­ gundoos seusestatutos. 4Os meus preceitos observareis, e os meus estatutos guarda­ reis, para andardes neles. Eu sou o Senhor vosso Deus. 5 Guardareis, pois, os meus estatutos e as minhas ordenanças, pelas quais o homem, observando-as, viverá. Eu souoSenhor. Abase da série principal de proibições talvez tenha sido, originalmente, uma composição de 10 ou 12 leis, que se pro­ punham a proteger a vida familiar no conjunto familiar maior de Israel. Certa­ mente este capítulo, como um todo, foi compilado a fim de apresentar as regras que visavam manter e preservar a santi­ dade do casamento e a devida estima para comessainstituição. É evidente, do Antigo Testamento, que, emsuas exigências pessoais básicas, Israel mantinha um código de comporta­ mento muito mais estrito e elevado, em relação ao sexo e ao casamento, do que o costumeiro, no mundo antigo. O pa­ drão de comportamento sexual que se esperava em Israel era muito mais casto do que o que achamos refletido em ou­ tros códigos legais do Oriente Médio an­ tigo, e as penalidades severas impostas em caso de infrações das leis matrimo­ niais indicam que tais leis eram geral­ mente observadas. A santidade em que setinha oelodocasamento forma grande contraste com os relacionamentos frou­ xos, emuitasvezesconfusos, que podiam surgir nas comunidades antigas, espe­ cialmenteentre ospovoscananeus. O fato de que a sociedade cananéia em particular tinha baixíssimos padrões de moralidade sexual éplenamente corrobo­ rado pelos textos, em existência, da mi­ tologia cananéia, bem como pela ênfase repetida nas partes legais e proféticas do Antigo Testamento contra imitar-se os cananeus.6 Assim, as referências parti­ culares aos cananeus (18:3, 24-30) ti­ nham, sem dúvida, uma relevância mui­ to especial para Israel, ainda mais pelo fato de a religião cananéia realmente promover a frouxidão moral, em vez de condená-la. 6 Nenhum de vós se chegará àquela que lhe é próxima por sangue, para descobrir a sua nudez. Eu sou o Senhor. 7 Não descobri­ rás a nudez de teu pai, nem tampouco a de tua mãe; ela é tua mãe, não descobrirás a sua nudez. 8 Não descobrirás a nudez da mulher de teu pai; é nudez de teu pai. 9Anu­ dez de tua irmã por parte de paiou por parte de mãe, quer nascida em casa ou fora de casa, não a descobrirás. 10 Nem tampouco descobrirás a nudez da filha de teu filho, ou da filha de tua filha: porque é tua nudez. 11 A nudez da filha da mulher de teu pai, gerada de teu pai, a qual é tua irmã, não a descobrirás. 12Não descobrirás a nudez da irmã de teu pai; ela é parente chegada de teu pai. 13Não descobrirás a nudez da irmã de tua mãe, pois ela é parente chegada de tua mãe. 14 Não descobrirás a nudez do irmão de teu pai; não te chegarás à sua mulher; ela é tua tia. 15 Não descobrirás a nudez de tua nora; ela é mulher de teu filho; não descobrirás a sua nudez. 16 Não desco­ brirás a nudez da mulher de teu irmão; é a nudez de teu irmão. 17 Não descobrirás a nudez duma mulher e de sua filha. Não tomarás a filha de seu filho, nem a filha de sua filha, para descobrir a sua nudez; são parentas chegadas; é maldade. 18 E não to­ marás uma mulher juntamente com sua irmã, durante a vida desta, para tornar-lha rival, descobrindo a sua nudez ao lado da outra. Depois deuma introduçãopor meio de uma fórmulageral no versículo 6, temos, nos versículos 7-18, uma lista de ligações familiares, dentro das quais se proibiam as relações sexuais. Estas ligações fami­ 6Cf. A. S. Kapelrud, The Ras Shamra Discoveries and the Old Testament (Normam: University of Oklahoma Press, 1962); J. Gray, The Canaanites (Londres: Nelson, 1964); também notarJer. 2:20ess., Os. 4:12e ss; 9:10. 69
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    liares são freqüentementechamadas de “relações consangüíneas”, como, indubi­ tavelmente, muitas delas eram. Outras mostram umaligaçãomaisampla do que de simples consangüinidade. Na realida­ de, os graus de parentesco proibidos diziam respeito à unidade de famílias extensas que, em certa época no passa­ do, existiam em Israel, morando em con­ junto. Na estrutura social baseada na unidade do clã e da “casa paterna”, as famíliascostumavam conviverem grupos grandes, que abrangiam as três gera­ ções, de avós, pais e filhos. Uma quarta- geração, de bisavós, talvez fosse incluída (isso se reflete na referência à “terceira e quarta geração” deÊx. 20:5). Quando reconhecemos também que, em certa altura, se aceitava a poligamia em Israel, como é constatado no fato de Abraão, Jacó e Davi possuírem, cada um, várias esposas, então a situação re­ fletidaneste capítulo se torna mais clara. Essa situação polígama é pressuposta no versículo 11, onde a mulher era, indubi­ tavelmente, filha de uma mãe diferente daquela do filho para quem se dirige, e não era, então, sua irmã germana. As relações familiares aqui descritas refle­ tem a situação em que um homem podia ter mais do que uma esposa, e visto que várias famílias podiam estar convivendo, para constituir um grande grupo fami­ liar, estendendo-se através de três gera­ ções, a importância e a força das proi­ bições tornam-se bastante claras. Proi­ bia-se, rigorosamente, toda promiscuida­ de dentro da grande unidade familiar. Os elos matrimoniais que existiam den­ tro da família tinham de ser devidamente respeitados e observados, e não se per­ mitianenhuma confusãonesse relaciona­ mento. Isso explica a descrição cuidado­ sa das relações que sãoexpostas. É, ainda, claro que o versículo 16 que proíbe as relações sexuais com a esposa do irmão não pretendia contradizer a lei do levirato quanto ao casamento (Deut. 25:5-10), visto que, neste último caso, o irmão estaria morto. A lei de 18:16 visa situações em que o irmão ainda vive. Além disso, não diz respeito tanto ao casamento em si, mas, sim, às relações sexuais fora do casamento. O casamento simultâneo com uma mulher e sua filha ou sua neta é proibido, visto que parece que se considerava o próprio casamento comoconstituindo algum tipo de consan­ güinidade. 19 Também não te chegarás à mulher enquanto for impura em virtude da sua imundícia, para lhe descobrir a nudez. 20 Nem te deitarás com a mulher de teu próximo, contaminando-te com ela. 21 Não oferecerás a Moloque nenhum dos teus fi­ lhos, fazendo-opassar pelo fogo; nem profa­ narás onome do teu Deus. Eu sou o Senhor. 22Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação. 23 Nem te deitarás com animal algum, contaminando-te com ele; nem a mulher se porá perante um ani­ mal, para ajuntar-se com ele; é confusão. 24 Não vos contamineis com nenhuma des­ sas coisas, porque com todas elas se conta­ minaram as nações que eu expulso de diante de vós; 2S e, porquanto a terra está conta­ minada, eu visito sobre ela a sua iniqüidade, e a terra vomita os seus habitantes. 26 Vós, pois, guardareis os meus estatutos e os meus preceitos, e nenhuma dessas abomi­ nações fareis, nem o natural, nem o estran­ geiro que peregrina entre vós 27 (porque to­ das essas abominações cometeram os ho­ mens da terra, que nela estavam antes de vós, e a terra ficou contaminada); 28 para que a terra não seja contaminada por vós e não vos vomite também a vós, como vo­ mitou a nação que nela estava antes de vós. 29 Pois qualquer que cometer alguma des­ sas abominações, sim, aqueles que as come­ terem serão extirpados do seu povo. 30 Por­ tantoguardareisomeumandamento, de mo­ doque não caiais em nenhum desses abomi­ náveis costumes que antes de vós foram se­ guidos, e para que não vos contamineis com eles. Eu sou oSenhorvossoDeus. Os versículos 19-23 dão um resumo geral da conduta sexual proibida dentro da vida familiar. A referência no versí­ culo 21 à dedicação dos filhos a Moloque é tratada mais extensamente em 20:2-5, onde faz alusão ao ritual de sacrifício de crianças. Sua presença numa lista de leis 70
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    relacionadas com aconduta sexual suge­ re queosritosem que se realizava fossem denatureza nitidamente sexual. Asantidade doeloconjugalem Israelé bem exemplificada neste capítulo. Mos­ tra uma preocupação elevada e digna em relação ao casamento e ao cuidado e criação de filhos. Nãohá nenhumasuges­ tão de que a atividade sexual em si seja errada, mas se insiste firmemente que seja devidamente respeitada, dentro de relações sociaisestabelecidas. 3. Uma ListaGeraldeLeis(19:1-37) Este capítulo proporciona uma das seções mais impressionantes e fascinan­ tes do livro de Levítico, com os seus regulamentos que regem a vida cotidiana dos cidadãos de Israel. Consta nele a mais memorável afirmação da exigência moral de Deus que o Antigo Testamento contém (v. 18). Em sua forma e estrutu­ ra, porém, é muito diversificado e dá pouca evidência de composição ordena­ da, quer nos assuntos tratados, quer no estilo de apresentação. Representa uma lista de exigências éticas básicas, feitas aos israelitas individualmente, que tem sidoelaborada, etem sofrido acréscimos, através dos anos, a fim de lhe ser dado maioralcanceeclareza. O capítulo 19 apresenta uma relação muito aproximada aos Dez Mandamen­ tos (Êx. 20:2-17), e vários eruditos acre­ ditam que é possível achar nos versículos 11-18uma parte de uma lista original de dez, ou doze, mandamentos (Elliger, p. 248)7. Se assim for, temos evidências de ainda outro decálogo, ou lista de Dez Mandamentos, comparável com as coleçõesem Êxodo 20e 34. Em sua subs­ tância, vários dos mandamentos contidos em Levítico 19 correspondem aos que se conhecemem Êxodo 20. 7 Cf. R. Kilian, Literarkritische und formgeschichtliche Untersuchung des Helligkeitsgesetzes (Bonner Biblische Beitrage 19). Bonn, 1963, p. 61. 1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Fala a toda a congregação dos filhos de Israel, e dize-lhes: Sereis santos, porque eu, o Senhor vossoDeus, sousanto. O versículo 2, com a sua afirmação e exigência Sereis santos, porque eu, o SenhorvossoDeus, sou santo, descreve a base final de toda a lei em Israel e proporciona a chave essencial à com­ preensão doeloexistente entre as exigên­ cias religiosas do culto e as obrigações à obediência na vida cotidiana. Toda afir­ mação bíblica sobre Deus traz consigo umaexigência implícita aoshomens para que o imitem em seu viver cotidiano. Desta forma, não pode haver nenhum divórcio entre a ética e a teologia. A Bí­ blia mostra, coerentemente, que a mora­ lidadehumana é, em última análise, jus­ tificadapela natureza deDeus. 3 Temerá cada um a sua mãe e a seu pai; e guardareis os meus sábados. Eu sou o SenhorvossoDeus. 4Nãovos volteis para os ídolos, nem façais para vós deuses de fun­ dição. Eu sou oSenhorvosso Deus. 5Quando oferecerdes ao Senhor sacrifício de oferta pacífica, oferecê-los-eis de modo a serdes aceitos. 6 No mesmo dia, pois, em que o oferecerdes, e no dia seguinte, se comerá; mas o que sobejar até o terceiro dia será queimado no fogo. 7 E se, na verdade, algu­ ma coisa dele for comida ao terceiro dia, é coisa abominável; não será aceito. 8 E qual­ quer que o comer levará sobre si a sua iniqüidade, porquanto profanou a coisa san­ ta do Senhor; por isso tal alma será extir­ pada do seu povo. 9 Quando fizeres a colhei­ ta da tua terra, não segarás totalmente os cantos do teu campo, nem colherás as espi­ gas caídas da tua sega. 10Semelhantemente não rabiscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás para o pobre e para o estrangeiro. Eu sou o Senhor vosso Deus. 11 Não furtareis; não enganareis, nem mentireis uns aos outros; 12 não jurareis falso pelo meu nome, assim profanando onome do vosso Deus. Eu sou o Senhor. 13 Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; a paga do jornaleiro não ficará contigoaté pela manhã. 14Não amal­ diçoarás ao surdo, nem porás tropeço diante do cego; mas temerás a teu Deus. Eu sou o Senhor. 71
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    Nosmandamentos individuais, devem- senotar os seguintes pontos: No versí­ culo 3, a ordem de precedência, com a mãe em primeiro lugar, é invulgar, e pode refletir uma situação quando se sentia que o lugar da mãe estava em perigo, como, por exemplo, num grupo familiar polígamo. A implicação do ver­ sículo 5 é que os sacrifícios têm de ser oferecidos de acordo com os rituais pres­ critos pelossacerdotes, como expostos no Manual do Sacrifício. A extirpação refe­ rida no versículo 8 significava primaria­ mente exclusão da comunidade do culto, mas, provavelmente, outrora, implicava a pena de morte. Considerava-se que permitir que osanto sacrifício de Deus se tornasse em abominação era um ato de sacrilégioflagrante. Osversículos 9e 10, com o seu manda­ mento de se deixar os bagos e as espigas caídos nos vinhais e nos campos, depois da colheita, são notáveis, pelo motivo dado. Este é o motivo humanitário de providenciar alimento para os pobres. A prática de deixar os campos sem os respigar era, certamente, de origem pré- israelita, e observada nos tempos idos, a fim de deixar alguma coisa para os espí­ ritos dos campos e das vinhas. Nenhuma concessão semelhante aos poderes espiri­ tuais alheios sepermitia em Israel. Os versículos 11 e 12 dizem respeito especialmente às relações comerciais de­ sonestas, embora seu alcance vá além. O falsojuramento pelo nome de Deus se refere à afirmação de umjuramento pela invocação do nome de Deus quando se sabe que o assunto do juramento é uma mentira. A desonestidade toma-se tanto mais terrível quando procura esconder- sepor detrás donome deDeus. O versículo 13 pressupõe que o traba­ lhador receba o seu ordenado todo o dia, de maneira que a recusa de pagar depois que o trabalho do dia fora completado facilmente poderia ter sido manipulada como uma tentativa de defraudá-lo. O motivo humanitário no versículo 14 é muito relevante e é significativo que a maldição aos surdos implica a crença no poder da palavra falada, mesmo quando apessoa a quem era dirigida não pudesse ouvi-la. lã Não farás injustiça no juízo; não farás acepção da pessoa do pobre, nem honrarás o poderoso; mas com justiça julgarás o teu próximo. 16Não andarás como mexeriquei­ ro entre o teu povo; nem conspirarás contra o sangue do teu próximo. Eu sou o Senhor. 17 Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender oteu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele. 18Não te vingarás nem guardarás ira con­ tra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor. Os versículos 15-18 dizem respeito ao comportamento num processo legal, e se endereçavam muito diretamente a cada homem adulto, pois os anciãos da comu­ nidade, como um grupo, constituíam os juizes do tribunal, que se congregava, costumeiramente, na praça espaçosa, em frente aos portões da cidade. Não podia haver nenhuma deferência para com os cidadãos ricos, quando eram acusados, simplesmente em virtude de sua riqueza. Por implicação, condena-se a aceitação de peitas. Não se haviam de fazer acusa­ ções falsas ou carentes de prova contra um concidadão (v. 16), e se faz uma advertência quanto a se servir de teste­ munha (conspirar contra o sangue) con­ tra um concidadão quando as provas fo­ rem sabidamente falsas ou inadequadas. O versículo 17 continua com a ques­ tão do comportamento perante o tribu­ nal, por proibir que se fizessem acusa­ ções como um meio de se vingar de um concidadão. Proíbe-se o ódio pessoal contra o próximo, visto que torceria a apresentação das provas e levaria a acusações falsas. É neste contexto de comportamentoem questões legais que a exigência ética suprema surge no versí­ culo 18. O cuidado e a preocupação da pessoa para consigo mesma são pressu­ postoscomo atitudes humanas naturais e 72
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    estemesmo cuidado epreocupação deve­ rão serestendidos aos outros. Para Jesus, se resumia nisso todo conceito do Antigo Testamento sobre o dever do homem para com seusemelhante(Mar. 12:31). Não é em nada estranha a maneira como se formulam as leis do Antigo Tes­ tamento, em que a declaração de um princípio muitofundamental apareça co­ mo um adendo a um caso legal especí­ fico. Isso não quer dizer que tinha sido uma reflexão posterior, mas, antes, mos­ tra comoas leisindividuais sópodiam ser corretamente formuladas quando hou­ vesseuma devida compreensão ética das relações humanas a que se pudesse re­ correr. Aqui, umapreocupaçãosadia, daparte da pessoa humana, por si própria e por seu próprio bem-estar, é aceita como natural e como implantada por Deus. O que requer admoestação divina espe­ cial é o reconhecimento que outras pes­ soas são também criaturas de Deus e têm o direito ao mesmo cuidado e considera­ ção. Assim, aqui há a implicação numa ética natural, que descansa na própria ordem da criação, mas que não contradiz nem torna desnecessária uma ética reve­ lada da lei divina. Dentro desse princípio espiritual, podemos achar uma devida justificaçãopara as diligências que fazem parte da realização da vida de cada um. Ao mesmo tempo, a verdadeira busca dessa realizaçãosópode serempreendida quando abrange, pelo seu alcance, a rea­ lização da vida de nosso próximo tam­ bém. Asimplicações disto, tanto no nível pessoal como no nível nacional, em ter­ mos de obrigação para com os povos pobres e desprivilegiados do mundo, não precisam de ser detalhadas aqui. A ênfase, nos versículos 17 e 18, posta numa atitude interior correta, é impor­ tante, haja vista o conceito errôneo, fre­ qüentemente adotado, de que a morali­ dade de Israel era externa e que se preo­ cupavasomentecom as açõesexternas. 19Guardareis os meus estatutos. Não per­ mitirás que se cruze o teu gado com o de espécie diversa; não semearás o teu campo com semente diversa; nem vestirás roupa tecida de materiais diversos. 20 E, quando um homem se deitar com uma mulher que for escrava, desposada com um homem, e que não for resgatada, nem se lhe houver dado liberdade, então ambos serão açoita­ dos; não morrerão, pois ela não era livre. 21 E, como a sua oferta pela culpa, trará o homem ao Senhor, à porta da tenda da revelação, um carneiro para expiação de culpa; 22 e, com o carneiro da oferta pela culpa, o sacerdote fará expiação por ele perante o Senhor, pelo pecado que cometeu; e este lhe será perdoado. 23Quando tiverdes entrado na terra e tiverdes plantado toda qualidade de árvores para delas comerdes, tereis o seu fruto como incircunciso; por três anos ele vos será como incircunciso; dele não se comerá. 24 No quarto ano, po­ rém, todo o seu fruto será santo, para oferta delouvor ao Senhor. 25E partindo do quinto ano comereis o seu fruto; para que elas vos aumentem a sua produção. Eu sou o Senhor vosso Deus. 26 Não comereis coisa alguma com o sangue; não usareis de encantamen­ tos, nem de agouros. 27 Não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem desfigurareis os cantos da vos­ sa barba. 28Não fareis lacerações na vossa carne pelos mortos; nem no vosso corpo im­ primireis qualquer marca. Eu sou o Senhor. O versículo 19, com as suas proibições do cruzamento entre duas espécies dife­ rentes de animais, da semeadura de um campocomdoistiposdiferentesdesemen­ tes e da mistura de dois materiais di­ ferentes numa peça de roupa, dizia res­ peito à manutenção daquilo que Israel considerava a ordem divina da vida. O homem não havia de confundir o que Deus tinha feito diverso. Os versículos 23-25 consideram uma fruteira recém- plantada como incircuncisa por três anos. Somente no quinto ano poderia seu fruto ser comido, depois de o fruto do quarto ano ter sido dedicado to­ do a Deus no santuário. Esse gesto assegurava o devido reconhecimento de que todos osfrutos eram dádivas de Deus e que somente quando esse reconheci­ mento fosse posto em termos práticos, 73
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    tinham os homenso direito de comer o fruto deuma árvore nova. Os sinais estranhos, referidos nos ver­ sículos 27 e 28, eram todos ritos costu­ meiros de luto, praticados no mundo antigo. Á sua finalidade era tornar a pessoaenlutada irreconhecível a espíritos malignos que pudessem pairar ao redor do morto. Em Israel, tal deferência à presença de espíritos malignos e ao seu poderera proibida. 29 Não profanarás a tua filha, fazendo-a prostituir-se; para que a terra não se prosti­ tua e não se encha de maldade. 30 Guarda­ reis os meus sábados, e o meu santuário re­ verenciareis. Eu sou o Senhor. 31 Não vos voltareis para os que consultam os mortos nem para os feiticeiros; não os busqueis para não ficardes contaminados por ele. Eu sou o Senhor vosso Deus. 32 Diante das cãs te levantarás, e honrarás a face do ancião, e temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. 33 Quando um estrangeiro peregri­ nar convosco na vossa terra, não o maltra­ tareis. 34Gomo um natural entre vós será o estrangeiro que peregrinar convosco; amá- lo-eiscomoa vós mesmos; pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus. 35 Não cometereis injustiça no juízo, nem na vara, nem no peso, nem na medida. 36 Balanças justas, pesos justos, efajusta, ejusto him tereis. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito. 37 Pelo que guardareis todos os meus esta­ tutos e todososmeus preceitos, e os cumpri­ reis. Eu sou oSenhor. Não era incomum, na religião cana- néia, moças novas se tornarem prostitu­ tas para fins religiosos e se filiarem a um santuário com este propósito. É a tenta­ ção de imitar essa prática que é conde­ nada no versículo 29. A oposição de Israel à religião cananéia não era de modo algum mera ideologia, mas uma necessidade bem real, se se havia de preservar um padrão de vida pessoal e familiar digno. O estrangeiro referido (v. 33,34) era uma pessoa de naturalidade estrangeira que tinha entrado numa das vilas ou aldeias de Israel e se radicado ali perma­ nentemente. Havia uma tentação cons­ tante para se tirar vantagem de tal pes­ soa, visto que não tinha por detrás dela uma família numerosa, para a sustentar e proteger. Mais uma vez Israel havia de se opor a esta tentação, em nome da justiça e da humanidade. No versículo 36, a efa era uma medida de grãos, e o him,uma medida líquida. Toda esta coleção de leis é arrematada por uma relembrança solene da forma única de vida que se exigia de Israel (v. 36b,37). Dois fatos imutáveis posta- vam-se acima de todo israelita, a contro­ lar a sua maneira de viver: ele mantinha uma relação especial com Deus, como membro do povo da aliança, Israel, e, não fora a graça de Deus, teria sido escravo no Egito, como os seus antepas­ sados. Assim, a exigência de obediência à lei, noversículo 37, tem de ser mantida no contexto da afirmação de graça que fazpor detrás dela. A obediência não era um meio de acessoà graça de Deus, mas, sim, uma necessária correspondência a ela. 4. LeisQueImplicavamaPenadeMorte (20:1-27) As proibições deste capítulo repetem, em certa medida, a lista de infrações se­ xuais e matrimoniais apresentada no ca­ pítulo 18. Contudo, este capítulo 20 não é mera reprodução do capítulo 18. Em­ bora haja alguma repetição de conteúdo, as pessoas a quem os mandamentos dos dois capítulos são dirigidos não são as mesmas. Enquanto o capítulo 18 se en­ dereça aopretenso infrator, o capítulo 20 dirige-se a toda a comunidade de Israel, que era responsável por assegurar que o infrator fosse punido. Exceto os versí­ culos 20 e 21, que deixam com Deus a aplicação do castigo, todas as infrações aqui descritas trazem a pena de morte. É fácil de suporque, com relação a peca­ dos particulares, nas questões sexuais e matrimoniais, houvesse a tentação para a 74
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    comunidade local, queera diretamente responsável pela aplicação de suas leis, de fazer vista grossa ao assunto, e deixar o pecado passar impune, especialmente quando eleimplicava a pena demorte. A responsabilidade de todo o Israel pela manutenção da santidade e pureza de sua vida perante Deus é realçada de uma maneira distintiva. Israel não podia ser complacente para com o pecado, fazendo-lhevista grossa, pois issoequiva­ leria à aceitação de uma parcela pessoal dele. O pecado tinha de ser removido da comunidade, e embora a aplicação da pena de morte pareça um castigo extre­ mamente severo, a sua intenção era re­ mover a causa da impureza e impedir que afetasse avida dopovo deDeus. Há muitos indícios de que a lista de infrações constantes neste capítulo foi composta através de longo período, de maneira que leis mais antigas foram sen­ do elaboradas de uma forma mais preci­ saeeficiente. Acha-se uma breve lista de leis, mais antiga, que implicavam a pena de morte, em Êxodo 21:12-17, onde te­ mosa forma característica do pronuncia­ mento da sentença: certamenteserá mor* to(20:2,10,ll,13). 1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Tam­ bém dirás aos filhos de Israel: Qualquer dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros pere­ grinos em Israel, que der de seus filhos a Moloque, certamente será morto; o povo da terra o apedrejará. 3 Eu porei o meu rosto contra esse homem, e o extirparei do meio do seu povo; porquanto deu de seus filhos a Moloque, assim contaminando o meu san­ tuário e profanando omeu santo nome. 4 E, se o povo da terra de alguma maneira es­ conder os olhos para não ver esse homem, quando der de seus filhos a Moloque, e não o matar, 5 eu porei o meu rosto contra esse bomem, e contra a sua família, e o extirpa­ rei do meio do seu povo, bem como a todos os que forem após ele, prostituindo-se após Moloque.6Quanto àquele que se voltar para as que consultam os mortos e para os feiti­ ceiros, prostituindo-se após eles, porei o meu rosto contra aquele homem, e o extir­ parei do meio do seu povo. 7 Portanto santi­ ficai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus. 8 Guardai os meus estatutos, e cumpri-os. Eu sou o Senhor, que vos san­ tifico. 9 Qualquer que amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente será morto; amaldiçoou a seu pai ou a sua mãe; o seu sangue será sobre ele. Nos versículos 2-5, temos uma exposi­ ção extensa do crime distintivo de se sacrificarcrianças a Moloque, do qualjá sefezmenção(18:21). Acham-se referên­ cias a essa prática em II Reis 23:10 e Jeremias 7:31; 32:35. De acordo com II Reis 23:10, Josias removeu o lugar onde se realizava essa particularmente horrorosa prática pagã, porém a outra referência, em Jeremias 32:35, sugere que ela havia sido reiniciada posterior­ mente. Esta era uma forma de sacrifício de crianças, corrente entre as famílias influentes emJerusalém, e que foi adota­ da até por certos reis de Judá (II Reis 21:6). Quanto à sua origem, o sacrifício de crianças parece ter entrado em Israel provindo da esfera cananeu-fenícia, don­ de certos textos corroboram a sua preva­ lência, especialmente na colônia fenícia de Cartago. O título Moloque aparece em Levítico 20 como o nome de um deus, e por isso deverá ser entendido como “Melek”, significando rei, que era um dos títulos de Baal. Existem algumas evidências, contudo, de que estava em uso uma palavra fenícia m-l-k, com referência a um determinado tipo de sacrifício. Isso tem levado alguns eruditos a sugerir que a expressão a Moloque tenha significado originalmente “como um sacrifício m-I-k”. Em todo caso as vítimas do rito eram filhos primogênitos (cf. Ez. 20:26), oferecidos como ofertas queimadas a Deus. A rejeição de médiuns e feiticeiros (v. 6,27) talvez seja reflexo do estímulo real dado a esses meios de obter conhe­ cimentos ocultos por Manassés (II Reis 21:6). Tanto esta lei como a condenação anterior dosacrifício de crianças a Molo­ que bem podem ter surgido no tempo de Manassés, quando se dava apoio real a 75
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    essas práticas, tomandonecessária uma renovada ênfase em sua rejeição por Deus. 10O homem que adulterar com a mulher de outro, sim, aquele que adulterar com a mulher de seu próximo, certamente será morto, tanto o adúltero, como a adúltera. 110 homem que se deitar com a mulher de seu pai terá descoberto a nudez de seu pai; ambos os adúlteros certamente serão mor­ tos; o seu sangue será sobre eles. 12 Se um homem se deitar com a sua nora, ambos certamente serão mortos; cometeram uma confusão; o seu sangue será sobre eles. 13 Se um homem se deitar com outro ho­ mem, como se fosse com mulher, ambos terão praticado abominação; certamente serão mortos; o seu sangue será sobre eles. 14Seum homem tomar uma mulher e a mãe dela, é maldade; serão queimados no fogo, tanto ele quanto elas, para que não haja maldade no meio de vós. 15Seum homem se ajuntar com um animal, certamente será morto; também matareis o animal. 16 Se uma mulher se chegar a algum animai, para ajuntar-se com ele, matarás a mulher e bem assim o animal; certamente serão mortos; o seu sangue será sobre eles. 17 Se um homem tomar a sua irmã, por parte de pai, ou por parte de mãe, e vir a nudez dela, e ela a dele, é torpeza; portanto serão extir­ pados aos olhos dos filhos do seu povo; terá descoberto a nudez da sua irmã; levará sobre si a sua iniqüidade. 18 Se um homem se deitar com uma mulher no tempo da enfermidade dela, e lhe descobrir a nudez, descobrindo-lhe também a fonte, e ela des­ cobrir a fonte do seu sangue, ambos serão extirpados do meio do seu povo. 19 Não descobrirás a nudez da irmã de tua mãe, ou da irmã de teu pai, porquanto isso será descobrir a sua parenta chegada; levarão sobre si a sua iniqüidade. 30 Se um homem se deitar com a sua tia, terá descoberto a nudez de seu tio; levarão sobre si o seu pecado; sem filhos morrerão. 21 Se um ho­ mem tomar a mulher de seu irmão, é imun­ dícia; terá descoberto a nudez de seu irmão; sem filhosficarão. Os versículos 10-21 versam sobre in­ frações sexuais e matrimoniais, que já foram abrangidas pelasleisafins no capí­ tulo 18. O homem que tivesse relações sexuaiscom a esposa de seu tio ou que se casasse (tomar, no versículo 21, normal­ mente dá a entender “em casamento”) com a esposa de seu irmão havia de morrer sem gerar filhos. A proibição, no versículo21, impossibilitaria aprática do casamento segundo a lei do levinato (Deut. 25:5-10). 22 Guardareis, pois, todos os meus esta­ tutos e todos os meus preceitos, e os cum­ prireis; a fim de que a terra, para a qual eu vos levo, para nela morardes, não vos vo­ mite. 23 E não andareis nos costumes dos povos que eu expulso de diante de vós; por­ que eles fizeram todas estas coisas, e eu os abominei. 24Mas a vós vos tenho dito: Her­ dareis a sua terra, e eu vo-la darei para a possuirdes, terra que mana leite e mel. Eu souoSenhorvossoDeus, que vosseparei dos povos. 25 Fareis, pois, diferença entre os animaislimpos e os imundos e entre as aves imundas e as limpas; e não fareis abominá­ veis as vossas almas por causa de animais, ou de aves, ou de qualquer coisa de tudo de que está cheia a terra, as quais coisas apar­ tei de vós como imundas. 26 E sereis para mim santos; porque eu, o Senhor, sou santo, e vos separei dos povos, para serdes meus. 27 O homem ou mulher que consultar os mortos ou for feiticeiro, certamente será morto. Serão apedrejados, e o seu sangue será sobre eles. Os versículos 22-26 compõem uma exortação resumida, que muito se asse­ melha a 18:24-30. Muitas das relações surpreendentes que são proibidas (v. 11, 14) teriam surgido mais facilmente pela posse de escravas-esposas numa família polígama (cf. Am. 2:7). Os habitantes anteriores da terra, os cananeus, haviam sido especialmente perversos em suas práticas sexuais, e este fato se apresenta como a justificativa divina pela sua ex­ pulsão e substituição pelos israelitas. Nem a própria terra era capaz de tolerar os hábitos e costumes daquela gente. Se osisraelitasfossem se comportar da mes­ ma forma, então eles também iriam ser vomitados pela própria terra. A própria natureza havia de reagir contra as viola­ ções de sua própria ordem. A separação de Israel, de outros povos (v. 24,26), não significava que a nação tivesse sido 76
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    deixada para levaruma vida própria, não-natural e exclusiva. Antes, eram os povosdomundo que tinham pervertido a ordem natural, de tal forma que somente pelo apegoa Deus poderia o seu povo ser reconciliado à natureza e à ordem natu­ ral da vida. O método de se realizar a pena de morte era normalmente pelo apedreja­ mento até a morte, no que as testemu­ nhas principais haviam de ser os primei­ ros participantes (v. 2,27); porém, na maioria dos casos, aqui isso se deixa in­ definido. Deve-se notar, porém, que um homem que secasasse comuma mulher e coma mãe delahavia de serqueimado no fogo(v. 4). S. A Santidade dos Sacerdotes (21:1*24) Embora seja fundamental à teologia do livro de Levítico que todo o Israel é santo, isso não nega a santidade especial dos sacerdotes nem ainda maior santida­ de do sumo sacerdote. Por conseguinte, há um código rígido de conduta, estabe­ lecido para as famílias sacerdotais de Israel. O mandamento dizei a Arão mos­ tra que as leis eram primeiramente uma questão de conhecimento sacerdotal pro­ fissional, que tinha sido transmitido den­ tro das famílias sacerdotais. A extensão dessa informação a todos os filhos de Is­ rael (v. 24) tinha como finalidade possi­ bilitar aos demais israelitas que respei­ tassem as exigências da santidade im­ posta aossacerdotes. Os versículos 1-15 dizem respeito a restrições à conduta de sacerdotes que eram realmente efetivos e que estavam oficiando junto ao altar, enquanto os versículos 16-23 dizem respeito aos filhos que nasciam dentro das famílias secerdo- tais e que normalmente esperavam, por conseguinte, assumir as funções sacerdo­ tais quando em idade avançada. Porém são aqui proibidos de as assumirem aqueles com determinados defeitos físicos. 1 Depois disse o Senhora Moisés: Fala aos sacerdotes, filhosde Arão, e dize-lhes: O sa­ cerdote não se contaminará por causa dum morto entre o seu povo, 2 salvo por um seu parente mais chegado: por sua mãe ou por seu pai, por seu filho ou por sua filha, por seu irmão, 3oupor sua irmã virgem, que lhe é chegada, que ainda não tem marido; por ela também pode contaminar-se. 4 O sacer­ dote, sendo homem principal entre o seu povo, não Beprofanará, assim contaminan­ do*se. 5 Não farão os sacerdotes calva na cabeça, e não raparão os cantos da barba, nem farão lacerações na sua carne. 6 Santos serão para seu Deus, e não profanarão o nome do seu Deus; porque oferecem as ofer­ tas queimadas do Senhor, que são o pão do seu Deus; portanto serão santos. 7 Não to­ marão mulher prostituta ou desonrada, nem tomarão mulher repudiada de seu marido; pois o sacerdote é santo para o seu Deus. 8Portanto osantificarás; porquanto oferece o pão do teu Deus, santo te será; pois eu, o Senhor, que vossantifico, sou santo. 9 E se a filha dum sacerdote se profanar, tomando- se prostituta, profana a seu pai, no fogo será queimada. Os versículos 1-4 permitem que um sacerdote fique de luto somente por pa­ rentes muito próximos. Seriam esses que normalmente estariam morando em sua casa, como fica claro no versículo 3, que distingue entre irmã casada e irmã sol­ teira. Embora a relação consangüínea seja a mesma nos dois casos, o fato de a irmã casada já não estar morando na mesmacasa que o seu irmão é considera­ do motivo suficiente para escusá-lo do luto por ela. O versículo 4, como o te­ mos, é ininteligível, e poderá ser mais bem compreendido alterando-se como nm marido para “por uma mulher casa­ da com um marido”, que então desen­ volveopensamento do versículo 3. Acha­ va-se que o contato com um corpo morto tornasse um israelita imundo, e fizesse com que até uma pessoa leiga ficasse imunda por algum tempo. Quanto a um sacerdote, era preciso que o evitasse to­ talmente, a não ser em certos casos da morte deum parente próximo. O versículo 5 proíbe, aos sacerdotes, o uso de costumes antigos de luto (cf. 19: 77
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    27,28, onde sãoproibidos para todo o Israel), eoversículo7impõe limitaçõesàs opções para o casamento de um sacerdo­ te. Parece que o sacerdote comum, dife­ rentemente do sumo sacerdote (v. 14), podia casar-se com uma viúva, enquanto em Ezequiel 44:22 esse privilégio era restrito ao casamento com a viúva de um sacerdote. Oversículo 9 refere-se à práti­ ca cananéia de prostituição cultual, pela qual se supunha estar servindo a um propósito religioso, por semelhante imo­ ralidade, e onde as prostitutas muitas vezes eram procedentes dos círculos sa­ cerdotais. Israel rejeitava tão completa­ mente a possibilidade de mulheres ser­ virem como sacerdotes, que nem sequer possuiuma palavra para sacerdotisa. 10Aquele queé sumo sacerdote entre seus irmãos, sobre cuja cabeça foi derramado o óleo da unção, e que foi consagrado para vestir as vestes sagradas, não descobrirá a cabeça nem rasgará a sua vestidura; 11 e não se chegará a cadáver algum; nem se­ quer por causa de seu pai ou de sua mãe se contaminará; 12 não sairá do santuário, nem profanará o santuário do seu Deus; pois a coroa do óleo da unção do seu Deus está sobre ele. Eu sou o Senhor. 13 E ele to­ mará por esposa uma mulher na sua virgin­ dade. 14Viúva, ou repudiada, ou desonrada, ou prostituta, destas não tomará; mas vir­ gem do seu povo tomará por mulher. 15 E não profanará a sua descendência entre o seu povo; porque eu sou o Senhor que o santifico. Os versículos iO-15 impõem um rígido controle sobre a vida particular do sumo sacerdote, exigindodeleuma ainda maior autodisciplina e abnegação do que se requeria de outros sacerdotes. Sua dedi­ cação ao serviço divino impunha nele ocupação integral dentro do santuário e uma separação especial para usar as vestimentas do sumo sacerdote. O ver­ sículo 10 deixa implícito que somente o sumo sacerdote era ungido, mas os ou­ tros não. Essa era seguramente a praxe mais antiga em Israel. Em tempos pos­ teriores, a unção foi estendida a todos os sacerdotes (cf. Lev. 8:30). O ponto de vista prevalecente de que o rito da unção foi transferido ao sumo sacerdote depois do término da monarquia davídica, por ocasião do exílio de 587 a.C., não é de maneira alguma definitivo, visto que existem evidências da unção de sacerdo­ tes entre os vizinhos de Israel desde tem­ pos primitivos. É possível que Israel te­ nha adotado a praxe de ungir o sumo sacerdote de Jerusalém em tempos pré- exílicos e que ela remonta a Zadoque (I Reis2:35). 16 Disse maiso Senhora Moisés: 17Fala a Arão, dizendo: Ninguém dentre os teus des­ cendentes, por todas as suas gerações, que tiverdefeito, se chegará para oferecer opão do seu Deus. 18 Pois nenhum homem que tiver algum defeito se chegará; como ho­ mem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos, 19ou homem que tiver o pé quebrado, ou a mão quebrada, 20ou for corcunda, ou anão, ou que tiver belida, ou sarna, ou impigens, ou que tiver testículo lesado; %lnenhum ho­ mem dentre os descendentes de Arão, o sacerdote, que tiver algum defeito, se che­ gará para oferecer as ofertas queimadas do Senhor; ele tem defeito; não se chegará para oferecer opão do seu Deus. 22 Comerá do pão do seu Deus, tanto do santíssimo comodosanto; 23contudo, não entrará até o véu, nem se chegará ao altar, porquanto tem defeito; para que não profane os meus santuários; porque eu sou o Senhor que os santifico. 24Moisés, pois, assim falou a Arão e a seusfilhos, e a todososfilhosde Israel. Os versículos 16-23 estabelecem uma lista considerável de defeitos que impe­ diriam que um homem, cujo nascimento dentrodeumafamília sacerdotal normal­ mente lhe teria conferido o direito de assumir aposição de sacerdote, ofizesse. Em Israel, oprincípio de admissão here­ ditária ao sacerdócio era seguido a rigor, mas como estes versículos mostram, ti­ nha deser submetido a certas limitações. Somente um homem fisicamente sadio e cuja vida não fosse maculada por qual­ quer coisa que pudesse ser considerada uma imperfeição podia servir ao altar. 78
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    Contudo, descendentes defamílias sacer­ dotais como os indicados, que não po­ deriam desempenhar funções sacerdo­ tais, tinham direito a comer o alimento apresentado como oferta a Deus (v. 22). As necessidades de santidade com rela­ ção às ofertas não sobrepujavam a neces­ sidade humanitária de proporcionar sus­ tento aos membros deformados e defei­ tuosos das famílias sacerdotais. Aqui está colocada em vigor uma espécie de plano de seguro, divinamente patroci­ nado. Vezes sem conta, na História, o desejo da santidade tem levado as pessoas a praticarem ações carentes de considera­ çãoedescaridosas! Aqui se mostra corre­ tamente a santidade como exigindo uma devidaexpressãode consideraçãoe amor. Nos versículos 6, 17 e 22, as ofertas cha- mam-se de o pao (ou comida) de Deus, que era, indubitavelmente, uma descri­ ção muito antiga. Em Israel, porém, certamente não significa que se julgava que Deus precisasse das ofertas como comida(cf. Sal. 50:12,13). Os regulamentos estabelecidos neste capítulo mostram que em Israel o minis­ tério do sacerdócio requeria os seus me­ lhores e mais destacados filhos. Esta era uma tarefa mais exigente que as demais, e sua necessidade de uma santidade es­ pecial impunha um grau considerável de dedicação e de abnegação por parte da­ queles que ingressavam nela. 6. ASantidade das Ofertas(22:1-23) 1 Depois disse o Senhora Moisés: 2Dize a Arão e a seus filhos que se abstenham das coisas sagradas dos filhosde Israel, as quais eles a mim me santificam, e que não pro­ fanem o meu santo nome. Eu sou o Senhor. 3 Dize-lhes: Todo homem dentre os vossos descendentes pelas vossas gerações que, tendo sobre si a sua imundícia, se chegar às coisas sagradas que os filhos de Israel san­ tificam ao Senhor, aquela alma será extir­ pada da minha presença. Eu sou o Senhor 4 Ninguém dentre os descendentes de Arão que for leproso, ou tiver fluxo, comerá das coisas sagradas, até que seja limpo. Tam­ bém o que tocar em alguma coisa tornada imunda por causa de um morto, ou aquele deque sair osêmen, 5ou qualquer que tocar em algum animal que se arrasta, pelo qual se torne imundo, ou em algum homem, pelo qual se torne imundo, seja qual for a sua imundícia, 6 o homem que tocar em tais coisas será imundo até a tarde, e não come­ rá das coisas sagradas, mas banhará o seu corpo em água. 7 e, posto o sol, então será limpo; depois comerá das coisas sagradas, porque Isso é o seu pão. 8 Do animal que morrer por si, ou do que for dilacerado por feras, não comerá ohomem, para que não se contamine com ele. Eu sou oSenhor. 9 Guar­ darão, pois, o meu mandamento, para que, havendo-o profanado, não levem pecado so­ bre si e morram nele. Eu sou oSenhorque os santifico. O deverprimário dosacerdote era o de servir ao altar do santuário, oferecendo nele as oferendas sacrificais de Israel. Porque essas oferendas haviam sido da­ das a Deus, eram sagradas, como tam­ bém o era o altar onde foram deposita­ das. Assim, o sacerdote tinha de salva­ guardar a sua própria santidade, e as diversas regras deste capítulo mostram comoelehaviade evitar a imundícia com relação às ofertas sacrificais. Quando uma pessoa leiga contraísse imundícia, bastava que realizasse certos ritos, para que ficasse purificada, e deixasse passar um período de tempo determinado. Po­ rém as conseqüências para um sacerdote eram muito mais sérias. Os versículos 3-9 impõem uma penalidade severa a qualquer sacerdote que tocasse em coi­ sas sagradasenquanto numa condição de imundícia. O versículo 3 implica bani­ mento do sacerdócio, como castigo por qualquer infração dessa regra, enquanto o versículo 9 fala em ele morrer por carregar pecado. Não está claro se isso significava que a comunidade efetivassea sentença de morte ou se se deixava o culpadopara morrerpela mão deDeus. 10Também nenhum estranho comerá das coisas sagradas; nem ohóspede do sacerdo­ te, nem o jornaleiro, comerá delas. 11 Mas aquele que osacerdote tiver comprado com oseudinheiro, e onascidona sua casa, esses 79
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    comerão do seupão. 12 Se a filha de um sacerdote se casar com um estranho, ela não comerá da oferta alçada das coisas sagradas. 13Mas quando a filha do sacerdo­ te for viúva ou repudiada, e não tiver filhos, e houver tornado para a casa de seu pai, como na sua mocidade, do pão de seu pai comerá; mas nenhum estranho comerá dele. 14Sealguém por engano comer a coisa sagrada, repô-la-á, acrescida da quinta par­ te, e a dará ao sacerdote como a coisa sagrada. 15Assim não profanarão as coisas sagradas dosfilhos de Israel, que eles ofere­ cem ao Senhor, 16nem os farão levar sobre si a iniqüidade que envolve culpa, comendo as suas coisas sagradas; pois eu sou o Se­ nhor que as santifico. Os versículos 10-16 definem a exten­ são da santidade da família do sacerdote emostram quempodia equem não podia comer as oferendas sacrificais que pro­ porcionavam o sustento para os sacerdo­ tes e suas famílias. É claro que a santi­ dade sacerdotal se estendia a toda a sua casa, e assim abrangia os membros, tais como escravos e filhas solteiras, que per­ tenciam à casa. Filhas casadas e estra­ nhos(cidadãos livres, de naturalidade es­ trangeira) ou trabalhadores contratados se supunham terem casas próprias, de maneira que não eram considerados co­ mo membros plenos da casa do sacer­ dote. A santidade não se considerava como uma qualidade transferida automatica­ mente por consangüinidade, mas como algo determinado pela convivência numa casa e pela responsabilidade pelo sus­ tento daqueles que eram dependentes da renda do sacerdote. Isso esclarece, de maneiraespecial, oscomentários de Pau­ lo (I Cor. 7:14) sobre a santidade de filhos que convivem com os seus pais na casa da família. Semelhante santidade não era transferida automaticamente pe­ lo nascimento (como alguns costumam argumentar), e, sim, por uma convivên­ cia familiarconsagrada. 17 Disse mais o Senhora Moisés: 18Fala a Arão, e a seus filhos, e a todos os filhos de Israel, e dize-lhes: Todo homem da casa de Israel, ou dos estrangeiros em Israel, que oferecer a sua oferta, seja dos seus votos, seja das suas ofertas voluntárias que ofere­ cerem ao Senhorem holocausto, 19para que sejais aceitos, oferecereis macho sem defei­ to, ou dos novilhos ou dos cordeiros, ou das cabras. 20Nenhuma coisa, porém, que tiver defeitooferecereis, porque não será aceita a vosso favor. 21 £, quando alguém oferecer sacrifício de oferta pacífica ao Senhor para cumprir um voto, ou para oferta voluntária, seja do gado vacum, seja do gado miúdo, o animal será perfeito, para que seja aceito; nenhum defeito haverá nele. 22 O cego, ou quebrado, ou aleijado, ou que tiver úlceras, ousarna, ou impigens, estes não oferecereis ao Senhor, nem deles poreis oferta queima­ da ao Senhor sobre o altar. 23 Todavia, um novilho, ou um cordeiro, que tenha algum membro comprido ou curto demais, pode­ rás oferecerpor oferta voluntária, mas para cumprir voto não será aceito. 24 Não ofere­ cereis ao Senhor um animal que tiver testí­ culo machucado, ou moído, ou arrancado, ou lacerado; não fareis isso na vossa terra. 25 Nem da mão do estrangeiro oferecereis de alguma dessas coisas o pão do vosso Deus; porque a sua corrupção nelas está; há defeito nelas; não serão aceitas a vosso fávor. Os versículos 17-25 definem aqueles defeitos num animal que o tomam im­ próprio como uma oferenda sacrifical. Somente o animal íntegro e sem defeito era digno de Deus. Não se estabelece nenhum castigo para infrações dessas regras, mas se faz uma advertência de que, se um animal defeituoso for sacrifi­ cado, não será aceito por Deus (v. 20,23, 25). Nãoterá nenhum valor como sacrifí­ cio, de maneira que oferecê-lo a Deus seria despropositado. O significado do versículo 23 é que se dava uma oferta voluntária espontaneamente, enquanto uma oferta votiva se dava em cumpri­ mento de uma promessa anteriormente feita. Um homem não podia dar menos doquejá tinha prometido dar. 26Disse mais o Senhor a Moisés: 27Quan­ do nascer um novilho, ou uma ovelha, ou uma cabra, por sete dias ficará debaixo de sua mãe; depois, desde o dia oitavo em diante, será aceito por oferta queimada ao Senhor. 28 Também, seja vaca ou seja ove- 80
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    lha, não aimolareis a ela e à sua cria, ambas no mesmo dia.. 29 E, quando ofere­ cerdes ao Senhor sacrifício de ação de gra­ ças, oferecê-lo-eis de modo a serdes aceitos. 30Nomesmo dia se comerá; nada deixareis ficar dele até pela manhã. Eu sou o Senhor. 31 Guardareis os meus mandamentos, e os cumprireis. Eu sou o Senhor. 32 Não profa­ nareis omeu santo nome, e serei santificado nomeio dos filhosde Israel. Eu sou o Senhor que vossantifico, 33que vos tirei da terra do Egito para ser o vosso Deus. Eu sou o Se­ nhor. Osversículos26-33concluem o capítu­ lo, com algumas considerações gerais que diziam respeito à oferta do sacrifício. A recusa de permitir a oferta de uma vaca ou de uma ovelha e seus filhotes num mesmo dia talvezfosseem oposição a um rito cananeu, em que se usava tal práti­ ca. A regra para o comer do sacrifício (v. 30) mostra um regulamento mais rí­ gido do que achamos anteriormente (19:6). Aqui tinha de ser comido no dia em que foi abatido, enquanto o regula­ mento anterior, para a oferta pacífica, permitia que fosse guardado por mais um dia. 7. OCalendáriodosFestivais(23:1-44) A devoção particular e a piedade de Israel foram mantidas eestimuladas pelo culto público em seu santuário central, o tabernáculo, com o seu sucessor natural, o Templo de Jerusalém. Temos agora como esse culto público era organizado em grupos de festivais, que correspon­ diam aos pontos principais de transição de seuano agrícola. 0 código legal mais primitivo de Is­ rael, oLivro da Aliança(Êx. 20:22-23:19), tinhaestipulado que todo homem israeli­ ta havia de observartrês festivais por ano (Êx. 23:14-17). (1) FestivaisdeInstituiçãoDivina (23:1-3) 1Depois disse o Senhor a Moisés: 2 Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: As festas fixas do Senhor, que proclamareis como santas convocações, são estas: 3Seis dias se fará otrabalho, mas o sétimo dia é o sábado de descanso solene, uma santa convocação; nenhum trabalho fareis; é sábado do Senhor em todas as vossas habitações. Agora, em Levítico 23, temos uma versão posterior deste calendário dos fes­ tivais, no qual os três festivais principais ainda são mantidos, porém elaborados de tal forma que a primeira e a terceira festas são expandidas em toda uma série de celebrações. Somente a segunda das festas mantém seu caráter independente. Fazem-se as outras duas muito mais ex­ tensas, em seu significado, e se consti­ tuem deumavariedade de elementos que têm sidofundidos. A fusão do calendário rural é simples, determinada pelas ne­ cessidades agrícolas, com a organização de culto mais elaborada do Templo de Jerusalém, em que dois festivais princi­ pais predominavam, é a explicação mais provável da Páscoa que se considerava o principal, mas o do outono, que tinha sido, em certa época, considerado como ocomeçodeum novo ano. Depois de uma breve recordação do sábado semanal (v. 3), que é aqui elevado a ocupar um lugar no calendário anual de festivais, podemos distinguir os três grupos princi­ pais decelebrações festivas que seguem. (2) OFestivaldaPrimavera(23:4-14) 4 São estas as festas fixas do Senhor, santas convocações, que proclamareis no seu tempo determinado: 5No mês primeiro, aos catorze do mês, à tardinha, é a páscoa doSenhor. 6E aos quinze dias desse mês é a festa dos pães ázimos do Senhor; sete dias comereis pães ázimos. 7 No primeiro dia tereis santa convocação; nenhum trabalho servilfareis. 8Mas por sete dias oferecereis oferta queimada ao Senhor; ao sétimo dia haverá santa convocação; nenhum trabalho servil fareis. 9 Disse mais o Senhor a Moi­ sés: 10Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando houverdes entrado na terra que eu vosdou, e segardes a sua sega, então trareis ao sacerdote um molho das primícias da vossa sega; 11e ele moverá o molho perante o Senhor, para que sejais aceitos. No dia se­ guinte ao sábado o sacerdote o moverá. 12E nodia em que moverdes omolho, ofere- 81
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    cereis um cordeirosem defeito, de um ano, em holocausto ao Senhor. 13 Sua oferta de cereais será dois décimos de efa de flor de farinha, amassada com azeite, para oferta queimada em cheiro suave ao Senhor; e a sua oferta de libação será de vinho, um quarto de him. 14 E não comereis pão, nem trigo torrado, nem espigas verdes, até aque­ le mesmodia, em que trouxerdes a oferta do vosso Deus; é estatuto perpétuo pelas vos­ sas gerações, em todas as vossas habita­ ções. O cálculo do ano israelita, partindo de um começo na primavera (v. 5), de ma­ neira que oprimeiro mês é considerado a partir dessaestação, representa uma aco­ modação ao cálculo babilónico do ano.8 Anteriormente, o primeiro mês tinha sido contado a partir do outono. A tran­ sição para o sistema babilónico de cál­ culo provavelmente não teve lugar senão um pouco antes da queda de Judá e de sua captura em 587 a.C. Durante o pe­ ríodo da poderosa influência política de Babilônia, quando Judá era um Estado vassalo, o país foi, provavelmente, com­ pelido a aceitar o sistema babilónico do cálculodo tempo. A determinação precisa dos dias das festas fixas é um sinal do desenvolvi­ mento e urbanização de Israel. Anterior­ mente, as datas das festas tinham sido definidas sem muita precisão (cf. Êx. 23:14-17; Deut. 16), por causa da neces­ sidade de se acomodar às variações nas condições da seara, tanto de região como deestação. O festival da primavera incluía a cele­ bração da Páscoa (v. 5), que era, nos tempos pré-israelitas, uma festa pastoral antiga, que tinha sido adaptada e inter­ pretada em Israel para servir de recor­ dação da saída do Egito (Êx. 12). Essa festafoi ligada a uma abstinência de pão levedadoeà preparaçãoealimentação de pães ázimos durante sete dias (v. 6). Este evento ocorria, originalmente, por oca­ 8 Cf. S. J. DeVries, "Calendar”, IDB, Vol. A-D. (Nash­ ville: Abingdon, 1962p. 484ess. sião de uma virada de estação, quando acontecia o fim dos suprimentos alimen­ tícios do ano velho e o começo de uma estaçãonova de colheita. Em Israel assu­ miu um significado especial, como uma recordaçãodacomida de aflição, tomada durante a opressão no Egito. Tanto no primeiro como no sétimo dia dessa festa depães ázimos, não se permitia trabalho nenhum(v. 7,8). Ligado a essas duas celebrações havia ainda um outro rito, do movimento do molho, no qual as primícias dos cereais recém-colhidos eram oferecidos a Deus (v. 10-14). Este era um gesto de gratidão aDeus, e antes de ser realizado, nenhum dos cereais da nova colheita devia ser comido (v. 14). Somente quando as pri­ mícias tivessem sido dadas a Deus, po­ deria a colheita ser apreciada pelo seu povo. (3) OFestivaldoComeçodoVerão (23:15-22) 15 Contareis para vós, desde o dia depois do sábado, istoé, desde odia em que houver­ des trazido omolho da oferta de movimento, sete semanas inteiras; 16até o dia seguinte ao sétimo sábado, contareis cinqüenta dias; então oferecereis nova oferta de cereais ao Senhor. 17 Das vossas habitações trareis, para oferta de movimento, dois pães e dois décimos de efa; serão de flor de farinha, e levedados se cozerão; são primícias ao Se­ nhor. 18 Com os pães oferecereis sete cor­ deiros sem defeito, de um ano, um novilho e dois carneiros; serão holocausto ao Senhor, com as respectivas ofertas de cereais e de libação, por oferta queimada de cheiro sua­ ve ao Senhor. 19 Também oferecereis um bode para oferta pelo pecado, e dois cordei­ ros de um ano para sacrifício de ofertas pacíficas. 20 Então o sacerdote os moverá, juntamente com os pães das primícias, por oferta de movimento perante o Senhor, com os dois cordeiros; santos serão ao Senhor parausodo sacerdote. 21E fareis proclama­ ção nesse mesmo dia, pois tereis santa con­ vocação; nenhum trabalho servil fareis; é estatuto perpétuo em todas as vossas habi­ tações pelas vossas gerações. 22 Quando fizeres a sega da tua terra, não segarás totalmente os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para 82
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    opobre e parao estrangeiro as deixarás. Eu souoSenhorvosso Deus. Depois que omolho da oferta de movi­ mento tinha sido trazido ao santuário, sete semanas completas tinham de ser contadas, antes de a festa de semanas, ou Pentecostes, como mais tarde veio a ser chamada, ser celebrada. Essa oferta consistia numa oferenda a Deus, de ce­ reais do grão novo, com dois pães feitos de farinha da nova estação. Assim, no fim da colheita de cereais, mais outro gesto de gratidão se fazia, junto com certos sacrifícios de animais dos reba­ nhos e manadas. Dois pães e dois cor­ deiros, depois de serem movimentados perante Deus, eram entregues aos sacer­ dotes, para que eles também comparti­ lhassem dos benefícios da nova colheita. É claro que a festa era própria à esta­ ção e que era de natureza agrícola, se bem que, no judaísmo posterior, tenha chegado a ser ligada especialmente a uma recordação da entrega da Lei no monte Sinai. Israel não vivia só de pão, mas de toda palavra que procedia da boca deDeus(Deut. 8:3). No versículo 22, há uma repetição do mandamento (19:9,10) de deixar-se as espigas caídas nos campos, para os po­ bres, com a omissão da referência à vin­ dima, que não seria apropriada aqui. (4) O Festivalde Outono (23:23-44) 23 Disse mais o Senhor a Moisés: 24 Fala aos filhos de Israel: no sétimo mês, no pri­ meiro diado mês, haverá para vós descanso solene, em memorial, com sonido de trom­ betas, uma santa convocação. 25 Nenhum trabalho servil fareis, e oferecereis oferta queimadaao Senhor. 26Disse mais o Senhor a Moisés: 27Ora, o décimo dia desse sétimo mês será o dia da expiação; tereis santa convocação, e afligireis as vossas almas; e oferecereis oferta queimada ao Senhor. 28 Nesse dia não fareis trabalho algum; porque é o dia da expiação para nele fazer- se expiação por vós perante o Senhor vosso Deus. 29 Pois toda alma que não se afligir nesse dia, será extirpada do seu povo. 30 Também toda alma que nesse dia fizer algum trabalho, eu a destruirei do meio do seupovo. 31Nãofareis nele trabalho algum; isso será estatuto perpétuo pelas vossas ge­ raçõesem todas as vossas habitações. 32Sá­ bado de descanso vos será, e afligireis as vossas almas; desde a tardinha do dia nono domês até a outra tarde, guardareis o vosso sábado. Originalmente, o ano-novo em Israel se iniciava no fim do verão, com o térmi­ no doano agrícola, depois da colheita da uvaeda oliva. Esta celebração de outono era, em determinada época, a festa mais proeminente das festas do calendário de Israel, sendo especialmente um memo­ rial da aliança do monte Sinai e do nasci­ mento da nação ali.9 Como está aqui apresentado, esse festival divide-se em três eventos distintos, embora, com qua­ se total certeza, os três eventos se rela­ cionassem muito de perto entre si em certaépoca nopassado. O dia original do ano-novo, que agora ocorre no sétimo mês, celebrava-se por um sábado e um sonido de trombetas (v. 24,25), procla­ mando a nova época que tinha raiado. Nodécimo dia do mês celebrava-se oDia da Expiação, de acordo com o ritual de expiação descrito no capítulo 16. Esse era um sábado especialmente solene, quando o povo se afligia, em contrição pelos pecados do ano que passara. So­ menteassegurando-se doperdão de Deus pelo passado podia-se encarar o ano- novocomconfiançaeexpectativa. 33 Disse mais o Senhor a Moisés: 34 Fala aos filhos de Israel, dizendo: Desde o dia quinze desse sétimo mês haverá a festa dos tabernáculos ao Senhor por sete dias. 35 No primeiro dia haverá santa convocação; ne­ nhum trabalho servil fareis. 36Por sete dias oferecereis ofertas queimadas ao Senhor; ao oitavo dia tereis santa convocação, e ofe­ recereis oferta queimada ao Senhor; será uma assembléia solene; nenhum trabalho servil fareis. 37 Estas são as festas fixas do Senhor, que proclamareis como santas con­ vocações, para oferecer-se ao Senhor oferta 9 Cl. especialmente A. Weiser, The Psalms. Trad, para o inglês por Herbert Hartwell (Philadelphia, Westminster, 1959), p. 35ess. 83
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    queimada, holocausto eoferta de cereais, sacrifícios e ofertas de libação, cada qual em seu dia próprio; 38 além dos sábados do Senhor, e além dos vossos dons, e além de todos os vossos votos, e além de todas as vossas ofertas voluntárias que derdes ao Senhor. 39 Desde o dia quinze do sétimo mês, quando tiverdes colhido os frutos da terra, celebrareis a festa do Senhor por sete dias; no primeiro dia haverá descanso sole­ ne, e no oitavo dia haverá descanso solene. 40Noprimeiro dia tomareis para vós ofruto de árvores formosas, folhas de palmeiras, ramos de árvores frondosas e salgueiros de ribeiras; e vos alegrareis perante o Senhor vosso Deus por sete dias. 41E celebrá-la-eis como festa ao Senhor por sete dias cada ano; estatuto perpétuo será pelas vossas gerações; no mês sétimo a celebrareis. 42 Por sete dias habitareis em tendas de ramos; todos os naturais em Israel habita­ rão em tendas de ramos, 43 Para que as vossas gerações saibam que eu fiz habitar em tendas de ramos os filhos de Israel, quando os tirei da terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus. 44 Assim declarou Moi­ sés aos filhos de Israel as festas fixas do Senhor. A terceira parte do festival do outono era a celebração da Festa de Barracas ou Tabernáculos (v.33-36, 39-43), do dé­ cimo quinto ao vigésimo terceiro dia do mês. Realizava-se por ocasião do fim da colheita da uva e da oliva, de maneira que a sua ligação com a vindima com­ pleta fazia dela uma ocasião especial­ mentejubilosa. O espírito alegre, próprio à estação, desse evento, é visto no ver­ sículo 40, onde a tomada de ramos de árvores indica o seu uso em procissões e danças festivas. As barracas, das quais a festa recebeu seu nome, eram simples abrigos, feitos de ramos de árvores arran­ cados e usados para construir estruturas toscas ao ar livre durante os dias quentes do fim do verão (v. 42). Essa barraca, portanto, não era realmente uma tenda, mas, sim, uma cabana muitoprovisória e rude. Averdadeira origem desse costume pertencia às celebrações da viticultura cananéia. Noversículo43, ela é ligada de maneira mais característica à história de Israel, e assim se lhe dá um significado distintivo.10 Servia como um memorial doperíodo quando Israel tinha vagueado pelo deserto, antes de sua entrada na TerraPrometida. Assim, as barracas for­ mamum elocom operíodo quando Israel tinha habitado em tendas, apesar de, na verdade, não se derivar, historicamente, desse período. No hebraico, as palavras para barraca etenda sãobem distintas. Os versículos 37 e 38 apresentam uma exortação geral feita a Israel no sentido de guardarem osfestivais instituídos. Em alguma época, estes versículos certamen­ te formavam uma conclusão geral do ca­ lendário festivo, que foi subseqüente­ mente aumentado, pelo acréscimo dos versículos 39-43, que suplementam as instruções para a Festa das Barracas. Por todo o calendário festivo, há dois pontos de especial interesse religioso. O primeiro é a maneira como costumes e ritos bem conhecidos que seguramente não se originaram de Israel, mas foram adaptados das práticas mais antigas dos habitantes da terra de Canaã, foram totalmente assimilados aoespírito e cará­ terisraelitas. Tal fato comprova as carac­ terísticasbem distintivas no conhecimen­ to israelita de Deus. Assim, a observân­ cia das festas servia como uma forma de ensino e instrução religiosos, relembran­ do, a cada participante, do caráter e natureza de Deus. Podemosvera grande importância que Israel dava à regularidade da observân­ cia de seu culto público. Pelo fato de o ano israelita todo ser santo, e de todo o tempo de Israel ser consagrado a Deus, tornava-se tanto mais importante dar ex­ pressão a isso por separar dias e esta­ ções santosespeciais. Essa separação não queria dizer que outros dias tivessem menos importância para Deus, mas, sim, que era uma maneira de dar uma parte do ano a Deus de um modo especial, 10 Cf. J. C. Rylaarsdam, “Booths, Feast of”, IDB, Vol. A-D. (NashvilleAbindgon, 1962), p. 455e ss. 84
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    a fim demostrar que, na realidade, o ano todolhepertencia. 8. OCultoRegularnoSantuário (24:1-9) 1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Ordena aõs filhos de Israel que te tragam, para o candeeiro, azeite de oliveira, puro, batido, a fim de manter uma lâmpada acesa conti­ nuamente. 3 Arão a conservará em ordem perante o Senhor, continuamente, desde a tarde até a manhã, fora do véu do testemu­ nho, na tenda da revelação; será estatuto perpétuo pelas vossas gerações. 4 Sobre o candelabro de ouro puro conservará em or­ dem as lâmpadas perante o Senhor conti­ nuamente. 5 Também tomarás flor de fari­ nha, e dela cozerás dozepães; cada pão será de dois décimos de efa. 6 E pô-los-ás perante o Senhor, em duas fileiras, seis em cada fileira, sobre a mesa de ouro puro. 7 Sobre cada fileira porás incenso puro, para que seja sobre os pães como memorial, isto é, comooferta queimadaao Senhor; 8em cada dia de sábado, isso se porá em ordem pe­ rante o Senhor continuamente; é, a favor dos filhos de Israel, um pacto perpétuo. 9Pertencerão ospães a Arão e a seus filhos, que os comerão em lugar santo, por serem coisa santíssimapara eles, das ofertas quei­ madasao Senhor, por estatuto perpétuo. Trata-se, aqui, de dois assuntos secun­ dários, concernentes à manutenção do santuário. Cada um deles, de uma ma­ neira peculiar, denotava a presença per­ manente de Deus com seu povo, assim excluindo qualquer noção falsa de que estaria com ele pelo tempo de duração dos festivais. Conquanto os eventos prin­ cipais do culto de Israel tivessem lugar em estações festivas fixas, havia tam­ bém uma tradição de culto, oficiado pe­ lossacerdotes, contínuae ininterrupta. Esse culto era simbolizado por duas particularidades da mobília do santuá­ rio. A primeira delas era a lâmpada, que semantinha continuamente acesa peran­ te Deus (v. 2-4). Servia ela como lem­ brete da presença contínua de Deus com Israel, para quem ele era uma luz (cf. Núm. 6:25), e do fato de a luz ter sido a primeira de suas obras de criação (Gên. 1:3). A primeira das dádivas de Deus significava, por conseguinte, que toda a vidaetoda a criação derivaram dele. A segunda particularidade da vida permanente do santuário era a colocação de doze pães recém-assados sobre uma mesa perante Deus (v. 5-9). Em outro lugar, esses pães se chamam de pães da proposição ou pães da Presença (Êx. 25:30; I Sam. 21:6). A origem do costu­ me de colocar tais pães no santuário era, seguramente, pré-israelita, e remonta ao tempo quando se pensava que o próprio Deus carecia de semelhante alimentação. Tal idéia era firmemente rejeitada em Israel, cujo conceito espiritual de Deus não podia tolerá-la, e era explicitamente determinado que esses pães haviam de sercomidos pelos sacerdotes(v. 9). A sua exposição no santuário era um marco da aliançaperpétua que ligava Israel a Deus (v. 8). Era, especialmente, um símbolo do dom divino da alimentação a Israel. 9. A Validade da Lei de Israel Para Estrangeiros(24:10-23) 10 Naquele tempo apareceu no meio dos filhos de Israel o filho duma mulher israeli­ ta, oqualera filhode um egípcio; e ofilho da israelita e um homem israelita pelejaram no arraial; 11 e o filho da mulher israelita blasfemou o Nome, e praguejou; pelo que o trouxeram a Moisés. Ora, o nome de sua mãe era Selomite, filha de Dibri, da tribo de Dã. 12 Puseram-no, pois, em detenção, até que se lhes fizesse declaração pela boca do Senhor. 13 Então disse o Senhor a Moisés: 14 Tira para fora do arraial o que tem blasfemado; todos os que o ouviram porão as mãos sobre a cabeça dele, e toda a con­ gregação o apedrejará. 15E dirás aos filhos de Israel: Todo homem que amaldiçoar o seu Deus, levará sobre si o seu pecado. 16 E aquele que blasfemar o nome do Se­ nhor, certamente será morto; toda a con­ gregação certamente o apedrejará. Tanto o estrangeiro como onatural, queblasfemar o nome do Senhor, será morto. 17Quem matar a alguém, certamente será morto; 18 e quem matar um animal, fará restituição por ele, vida por vida. 19 Se alguém desfigurar oseu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: 20 quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver 85
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    desfigurado algum homem,assim lhe será feito. 21Quem, pois, matar um animal, fará restituição por ele; mas quem matar ho­ mem, será morto. 22Uma mesma lei tereis, tanto para o estrangeiro como para o natu­ ral; pois eu sou o Senhorvosso Deus. 23 En­ tão falou Moisés aos filhos de Israel. Depois eles levaram para fora do arraial aquele que tinha blasfemado e o apedrejaram. Fi­ zeram, pois, os filhos de Israel como o Se­ nhor ordenara a Moisés. Aqui temos uma narrativa descritiva de uma determinada situação histórica, na qual se acha entretecida, nos versí­ culos 15-22, uma série de pronunciamen­ tos legais. Quanto à forma, é, portanto, muito semelhante a Números 15:32-36. Sua finalidade primária é afirmar que as leis de Israel, que já foram expostas em Êxodo e Levítico, são também válidas para aspessoas que moram em Israel que são de naturalidade estrangeira ou meio- estrangeira. A alegação de descendência estrangeira não deverá ser permitida, absolutamente, como uma desculpa pela não observância das leis de Israel. O caso da blasfêmia, que era um crime capital em Israel (v. 16), talvez seja destacado por causa de sua natureza cultual. Um filho de um pai egípcio não podia tomar-se um membro praticante da con­ gregação de Israel (Deut. 23:7,8), de maneira que seprecisava de uma decisão para determinar se a lei israelita se apli­ cava a essa pessoa ou não. A resposta é afirmativa, o que leva, então, à citação de uma série de leis (v. 15-22). O mo­ tivo principal de sua citação é que con­ tém o regulamento que exige a pena de morte pela blasfêmia. As outras leis têm conteúdovariado. Um resumo, que serve de conclusão, afirma o princípio básico de que os estranhos (estrangeiros resi­ dentes) em Israelhão de viver em confor­ midade com asleis de Israel. 10. O Ano Sabático e o Ano do Jubileu (25:1-26:2) Esta coleção de regulamentos concer­ ne ao direito de posse de propriedade particular em Israel, e especialmente de posse de terra, que se constituía a forma básica de riqueza. O propósito geral é o de fixar certos limites ao direito de posse de propriedade particular, pelo motivo de que, fundamentalmente, toda pro­ priedade, especialmente na forma de ter­ ras e pessoas (v. 23,42,55), pertence a Deus. Os homens podem apenas gozar deum privilégio limitado de usufruto em benefício próprio daquilo que, na reali­ dade, pertence a Deus. Eles não podem possuir nem terra nem pessoas perma­ nentemente, pois tal direito pertence so­ mente aDeus. As duas seçõesprincipais versam sobre a lei do ano sabático (v. 1-7) e sobre as leis relacionadas com o ano do jubileu (v. 8-24). A essas têm sido acrescentadas (v. 25 e ss.) várias leis concernentes aos direitos de remissão de escravos e de propriedades. Estas leis têm uma relação apenas distante e geral com a instituição do ano do jubileu. De uma maneira geral, proporciona um quadro excepcio­ nalmente valioso e esclarecedor da ma­ neira como a fé do povo de Israel em Deus e a sua confissão e sua soberania sobre a vida afetavam uma das mais bá­ sicas das instituições humanas: o direito à posseparticular de propriedade. 1 Disse mais o Senhor a Moisés no monte Sinai: 2Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando tiverdes entrado na terra que eu vos dou, a terra guardará um sábado ao Senhor. 3Seisanos semearás a tua terra, e seis anos podarás a tua vinha, e colherás os seus frutos; 4 mas no sétimo ano haverá sábado de descanso solene para a terra, um sábado ao Senhor; não semearás o teu campo, nem podarás a tua vinha 5 O que nascer de si mesmo da tua sega não segarás, e as uvas da tua vide não tratada não vindimarás; .ano de descanso solene será para à terra, 6Masosfrutos do sábado da terra vos serão poralimento, a ti, e ao teu servo, e à tua ser­ va, e ao teu jornaleiro, e ao estrangeiro que peregrina contigo, 7e ao teu gado, e aos ani­ mais que estão na tua terra; todo o seu pro­ dutoserá por mantimento. 86
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    A lei doano sabático (v. 1-7) começa com o reconhecimento da santidade es­ pecial de cada sétimo ano, que remonta aos dias maisprecoces da povoaçãoisrae­ lita deCanaã e a que se faz referência no Livro da Aliança (Êx. 23:10,11). Nesse regulamento primitivo, os campos culti­ vados haviam de ser deixados em des­ canso todo sétimo ano. O motivo dado para assim se proceder é o de prover alimento para os pobres de Israel. Por detrás disso, jaz, sem dúvida, o conceito mais antigo de que, vistoque a terra real­ mente pertence a Deus, havia de ser deixadaincultivada no sétimo ano, como sinal dessa propriedade divina. O sétimo ano era para Deus, e o deixar a terra em descanso era uma maneira de restituí-la ao seuverdadeiroproprietário(v. 4). Relacionado com isso, havia o desejo prático de permitir que o que crescia no sétimo ano fosse colhido pelos pobres, que não tinham nenhuma terra própria deles. Por conseguinte, usufruiriam de algum benefício da terra que Deus tinha dado a seu povo. Isso se afirma nos ver­ sículos 6 e 7, que parecem estar numa relação de tensão com a proibição total (v. 5) da colheita da produção que brota­ va naturalmente durante o sétimo ano. Provavelmente, o propósito principal do versículo 5 é evitar que o proprietário da terra tirassepara simesmo o que brotava no sétimo ano. Que também havia van­ tagens agrícolas em deixar um campo descansar uma vez em cada sete anos, para aliviar a exaustão do solo, certa­ mente teria sido reconhecido, porém não éexplicitamente declarado. 8 Também contarás sete sábados de anos, metevezes sete anos; de maneira que os dias das sete sábados de anos serão quarenta e ■oveanos. 9 Então, no décimo dia do sétimo mês, farás soar fortemente a trombeta; no Aa da expiação fareis soar a trombeta por M > a vossa terra. 10 E santificareis o ano quinquagésimo, e apregoareis liberdade na terra a todos os seus habitantes; ano de JaÉMleu será para vós; pois tomareis, cada T i à sua possessão, e cada um à sua famí­ lia. 11 Esse ano quinquagésimo será para vós jubileu; não semeareis, nem segareis o que nele nascer de si mesmo, nem nele vin­ dimareis as uvas das vides não tratadas. 12 Porque é jubileu; santo será para vós; diretamente docampocomereisoseu produ­ to. 13 Nesse ano do jubileu tomareis, cada um a sua possessão. 14Sevenderdes alguma coisa ao vosso próximo ou a comprardes da mão dovosso próximo, não vos defraudareis uns aos outros. 15 Conforme o número de anosdesde ojubileu é que comprarás ao teu próximo, e conforme o número de anos das colheitas é que ele te venderá. 16 Quanto mais foram os anos, tanto mais aumentarás o preço, e quanto menos forem os anos, tanto mais abaixarás o preço; porque é o número das colheitas que ele te vende. 17Nenhum de vós oprimirá ao seu próximo; mas temerás o teu Deus; porque eu sou o Senhor vosso Deus. 18 Pelo que observareis os meus estatutos, e guardareis os meus preceitos e os cumprireis; assim habitareis seguros na terra. 19 Ela dará o seu fruto, e comereis a fartar; e nela habitareis segu­ ros. 20 Se disserdes: Que comeremos no sé­ timo ano, visto que não havemos de semear, nem fazer a nossa colheita? 21 então eu mandarei a minha bênção sobre vós no sex­ to ano, e a terra produzirá fruto bastante para os três anos. 22 No oitavo ano semea­ reis, e comereis da colheita velha; até o ano nono, até que venha a colheita nova, come­ reis da velha. 23 Também não se venderá a terra em perpetuidade, porque a terra é minha,; pois vós estais comigo como estran­ geiros e peregrinos. 24 Portanto em toda a terra da vossa possessão concedereis que seja remida a terra. O ano dejubileu (v. 8-24) é, fora desta passagem, apenas mencionado resumi­ damente, no AntigoTestamento, em Nú­ meros 36:4. O seu título é, por si só, contudo, indicação de que era uma ins­ tituição muito antiga. O seu nome deri­ vou-se da proclamação do ano com um sonido de uma trombeta de carneiro (heb., yodel), embora no hebraico mais recente essa já não fosse a palavra nor­ malpara trombeta(que é shofar no v. 9). Esse ano ocorreu entre cada 49 anos, perfazendo um sábado de sábados, e no mesmo ano todapropriedade tinha de ser restaurada ao seuproprietário econdição originais. Que o ano do jubileu começou 87
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    no Dia deExpiação, no sétimo mês, é indício claro de que este foi originalmen­ teum dia da estação do ano-novo, o qual só veio a ser classificado como do sétimo mês no sistema posterior (babilónico) de secalcular o ano-novo a partir da prima­ vera. O propósito de restaurar toda proprie­ dade ao seu proprietário original depois de 49 anos é, mais uma vez, como o ano sabático, uma confissão prática de que a terra pertence, na realidade, a Deus (v. 23) e que os israelitas estavam nela apenas como “hóspedes passageiros”, com a permissão de aproveitarem dela pela graça de Deus. Esta lei da restau­ ração, assim, significava que toda venda de imóveis era por um número limitado de anos e que seu valor tinha de ser cal­ culado em conformidade com o período de tempo que ainda faltasse para o ano dojubileu(v. 14-17). Tem-se criticado esta lei muitas vezes, sob a alegação de seu caráter utópico e irrealista, de maneira que muitos erudi­ tos têm duvidado de sua real efetivação. Devemos recordar que, durante a sua história como Estado, Israel estava ape­ nas gradativamente se ajustando às con­ dições da terra colonizada, na qual se mantinha propriedade privada. Ante­ riormente, toda a terra tinha pertencido, de forma comunitária, ao clã ou tribo e tinha sido dividida entre as famílias indi­ viduais por cordel (cf. Sal. 16:6; Miq. 2:5). O surgimento dos grandes latifún­ diosdesenvolveu-se a partir da urbaniza­ ção de Israel, e levou a muitos abusos (cf. Is. 5:8). Dessa forma, a lei procura aliviar alguns dos perigos inerentes no direito à propriedade privada da terra por relembrar o princípio básico de que toda a terra era dádiva deDeus. Quão eficazmente a observância de semelhante lei do ano do jubileu era efetivada é agora impossível saber, se bem que foi com quase toda a certeza redigida durante o período do exílio, quando Israel não exercia diretamente nenhum poder político para assegurar que sefizessevigorar tallei. 25Seteu irmão empobrecer e vender uma parte da sua possessão, virá o seu parente mais chegado e remirá o que seu irmão vendeu. 26 E se alguém não tiver remidor, mas ele mesmo tiver enriquecido e achado o que basta para o seu resgate, 27 contará os anos desde a sua venda, e o que ficar do preço da vendarestituirá ao homem a quem a vendeu, etomará à sua possessão. 28Mas, se as suas posses não bastarem para reavê- la, aquilo que tivervendido ficará na mão do comprador até o ano do jubileu; porém no ano dojubileu sairá da posse deste, e aquele que vendeu tomará à sua possessão. 29 Se alguém vender uma casa de moradia em cidade murada, poderá remi-la dentro de um ano inteiro depoisda sua venda; durante um ano inteiro terá o direito de a remir. 30Masse, passado um ano inteiro, não tiver sidoresgatada, esta casa que está na cidade murada ficará, em perpetuidade, perten­ cendo ao que a comprou, e à sua descendên­ cia; não sairá do seu poder no jubileu. 31To­ daviaas casasdaaldeiaquenãotêm muro ao redor serão consideradas como o campo da terra; poderão ser remidas, e sairão do poderdocomprador no jubileu. 32Também, no tocante às cidades dos levitas, às casas da cidade da sua possessão, terão eles direi­ to perpétuo de remi-las. 33 E se alguém comprar dos levitas uma casa, a casa comprada e a cidade da sua possessão sai­ rão do poder do comprador no jubileu; por­ que as casas das cidades dos levitas são a sua possessão no meio dos filhos de Israel. 34 Mas o campo do arrabalde das suas cidades não se poderá vender, porque lhes é possessão perpétua. Os versículos 25-34 introduzem leis para a remissão de terras, que ulterior­ mente regulavam o direito à posse de propriedades em Israel. Se um homem possuidor de uma propriedade se tor­ nasse tão pobre que fosse obrigado a vendê-la, ainda assim retinha odireito de redimi-la. Ou ele próprio ou um parente podia redimir a propriedade, ou, de qualquer maneira, quando chegasse o ano dojubileu, reverteria ao seu proprie­ tário original (v. 25-28). O versículo 27 tem em conta que o valor da propriedade diminui à medida que se aproxima do 88
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    ano dojubileu, eassim calcula que cada ano uma proporção fixa do preço básico da propriedade podia ser descontada. De interesse especial, nos versículos 29-31, é a distinção que se faz entre cidades e vilas muradas e as sem muros. As propriedades nas povoações muradas eram isentas da lei do ano do jubileu. O único direito de remissão de proprie­ dade, numa cidade murada, era que o vendedor podia readquiri-la por compra dentro de um ano, presumivelmente cal­ culado da data da venda. A distinção entre povoações muradas e sem muros ilumina o pano de fundo histórico e cul­ tural de Israel, visto que aquelas eram de origem cananéia, enquanto estas se deri­ vavam das colônias rurais dos israelitas, que haviam penetrado aos poucos nas vilasmuradas. Nas cidades cananéias prevalecia um sistema diferente de posse legal daquele dos israelitas. Mesmo depois da unifica­ ção da terra toda sob o controle político de Israel, as leis de propriedade caracte­ rísticas das antigas cidades cananéias eram retidas. Uma exceção a essa regra se fez para as cidades dos levitas (v. 32, 34), que lhes foram distribuídas por mandamento divino (Jos. 21:1-42) como sua possessão, porque não possuíam ne­ nhuma outra terra em Israel. Visto que o seu direito a estas cidades era um privi­ légioespecial, deu-se-lhes um direito pri­ vilegiado de remissão. 35 Também, se teu irmão empobrecer ao teu lado, e lhe enfraquecerem as mãos, sus- tentá-lo-ás; como estrangeiro e peregrino viverá contigo. 36 Não tomarás dele juros nem ganho, mas temerás o teu Deus, para qae teuirmão viva contigo. 37Não lhe darás teu dinheiro a juros, nem os teus víveres por lucro. 38 Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para vos dar a terra de Canaã, para ser o vosso Deus. 39 Também, se teu irmão empobrecer ao teu ladoe vender-se a ti, não ofarás servir como escravo. 40 Como jornaleiro, como peregri- ■oestará ele contigo; até o ano do jubileu te Mrvirá; 41então sairá do teu serviço, e com d r seus filhos, e tornará à sua família, à possessão de seus pais. 42 Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não serão vendidos como escravos. 43 Não do­ minarás sobre ele com rigor, mas temerás o teu Deus. 44 E quanto aos escravos ou às escravas que chegares a possuir, das na­ ções que estiverem ao redor de vós, delas é que os comprareis. 45 Também os compra­ reis dentre os filhos dos estrangeiros que peregrinarem entre vós, tanto dentre esses como dentre as suas famílias que estiverem convosco, que tiverem eles gerado na vossa terra; e vos serão por possessão. 46E deixá- los-eis por herança aos vossos filhos depois de vós, para os herdarem como possessão; desses tomareis os vossos escravos para sempre; mas sobre vossos irmãos, os filhos de Israel, não dominareis com rigor, uns sobre osoutros. A questão da remissão de proprieda­ des também leva ao assunto da posse de pessoas como escravas, e, nos versículos 35-55, existe um número de leis concer­ nentes à escravatura. Por motivo de dí­ vida, uma pessoa podia ser obrigada a vender seus filhos e até a sua própria pessoa em escravatura. A possibilidade deisraelitas setornarem escravos é ativa­ mente desestimulada (v. 35-38), por or­ denar-se que, seseendividarem, há de se lhes emprestar dinheiro sem cobrar ju­ ros. A base disso é que todo o Israel foi escravo no Egito, até que Deus o redi­ miu. Se, porém, a escravatura se tor­ nasse inevitável, então não se havia de tratar um israelita como um verdadeiro escravo, mas, sim, tinha-se de dar-lhe as condições de empregado ou de trabalha­ dor estrangeiro (v. 39-43). No ano do jubileu, devia ser libertado, junto com seus filhos, de maneira que não se conce­ dia nenhum direitoúltimo de posse sobre outra pessoa israelita. Porém não se dava esse privilégio aos estrangeiros e escravos comprados de países estrangeiros ou estrangeiros resi­ dentes em Israel; podiam tomar-se es­ cravos permanentemente (v. 44-46). 47 Se um estrangeiro ou peregrino que estiver contigo se tornar rico, e teu irmão, 89
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    que está comele, empobrecer e vender-se ao estrangeiro ou peregrino que está conti­ go, ouà linhagem da família do estrangeiro, 48 depois que se houver vendido, poderá ser remido; um de seus irmãos o poderá remir; 49 ou seu tio, ou o filho de seu tio, ou qual­ quer parente chegado da sua família poderá remi-lo; ou, se ele se tiver tomado rico, poderá remir-se a simesmo. 50E com aque­ le que o comprou fará a conta desde o ano em quesevendeua ele até oano dojubileu; e opreço da sua venda será conforme o núme­ rodosanos;conformeosdiasdeum jornalei­ ro estará com ele. 51 Se ainda faltarem mui­ tosanos, conforme os mesmos restituirá, do dinheiro pelo qual foi comprado, o preço da sua redenção; 52 e se faltarem poucos anos até o ano do jubileu, fará a conta com ele; segundo onúmero dos anos restituirá o pre­ ço da sua redenção. 53 Como servo contra­ tado de ano em ano, estará com o compra­ dor; o qual não dominará sobre ele com rigor diante dos teus olhos. 54 E, se não for remido por nenhum desses meios, sairá li­ vre no ano do jubileu, e com ele seus filhos. 55 Porque os filhos de Israel são meus ser­ vos; eles são os meus servos que tirei da terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus. O último regulamento diz respeito a um israelita que se vende como escravo a um estrangeiro residente em Israel. De­ via ser redimido, se possível, por um parente, ou tinha de comprar sua própria liberdade por pagar opreço da redenção, calculado em conformidade com o nú­ mero de anos até o ano do jubileu. Se nenhum desses métodos de retorno à plena liberdade fosse possível, então ha­ via de ser libertado no ano do jubileu. Assim, se faz uma distinção bem clara e nítida entre osescravos que eram compa­ triotasisraelitase os que não eram. Transparece, por todas as leis da es­ cravatura, o reconhecimento franco da natureza terrível desta instituição, e a sua severidade é suavizada de diversas maneiras. Se fosse de qualquer maneira possível, havia-se de evitar a redução de um compatriota israelita à escravatura. Quando ela ainda se efetivasse, a sua severidade havia de ser diminuída. A es­ cravatura permanente de compatriotas israelitas era proibida pela libertação no ano do jubileu. Esse controle e suaviza- ção da escravatura são desvirtuados, em certa medida, pela recusa de se conceder privilégios semelhantes a escravos estran­ geiros, porém, indubitavelmente, repre­ senta um código substancioso de direitos humanos dentro do contexto do mundo antigo. Reafirma-se duas vezes que todo israelitaéescravo deDeus (v. 42-55), por isso dando-se um valor mais elevado à personalidade humana, por impedir qualquer exploração irrestrita de outros cidadãos. Comoem toda doutrina do ho­ mem, éovalorcolocadono indivíduo por Deus que lhe dá a sua verdadeira digni­ dade no mundo. 1 Nãofareispara vósídolos, nem para vós levantareis imagem esculpida, nem coluna, nem poreis na vossa terra pedra com figu­ ras, para vos inclinardes a ela; porque eu sou o Senhor vosso Deus. 2 Guardareis os meus sábados, e reverenciareis o meu san­ tuário. Eu souoSenhor. Segue, então, em 26:1,2, uma breve seção, que ficaisolada do que a precedeu e do que reinicia, em seguida, as seções principais do Código da Santidade. Esta seção contém uma reafirmação de certas leis israelitas distintivas: a rejeição da idolatria, a observância do sábado, o devido respeito para com a santidade e a unidade do santuário de Deus. Estas leis isoladas perfazem um catecismo simples dos essenciais básicos ao culto israelita. Por fugir de todos os altares falsos aderir aos tempos e lugar próprios para o culto a Deus, o cidadão israelita ficaria sob a esfera da instrução sacerdo­ tal e dabênção divina. 11. Recompensase Castigos(26:3-46) O Código da Santidade é conveniente­ mente arrematado através de um apelo final, que expõe as recompensas que hão de seguir à obediência israelita às leis de Deus e os castigos que virão, se Israel desobedecer. Apresenta-nos de uma ma­ neira deveras impressionante o fato de 90
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    que a leide Israel contém uma maldição sobre aqueles que lhe são desobedientes (cf. Gál. 3:10). Visto que a lei é, em si, umaparte da bênção que Deus concedeu a Israel, a seção que elabora as recom­ pensas da obediência (v. 3-13) é mais breve que a lista de castigos (v. 14-39). Ê a ameaça da maldição da lei que Israel tem de tomar extremo cuidado para evi­ tar. O capítulo tem muitos pontos de contato com o apelo semelhante de Deu- teronômio 8. É muito provável que, durante os fes­ tivais religiosos de Israel, especialmente durante os grandes festivais do outono, as leis da aliança fossem proclamadas publicamente por ocasião de um ato de culto(cf. Deut. 31:9-13). Teria sidoapro­ priado, em tal ocasião, concluir-se a lei­ tura comumaexortação e uma advertên­ cia, indicando as recompensas da obe­ diência e os castigos da desobediência. Comquase toda a certeza, podemos afir­ mar que essa prática influencia a coloca­ ção desta seção no fim do Código da Santidade. Outrossim, até mesmo trata­ dos políticos seculares contêm, muitas vezes, uma seção final de promessas de bênçãopela fidelidade aos termos do tra­ tado, e ameaças de castigos para quem o infringir, de maneira que isso também pode ter influenciado Israel. O Código da Santidade é uma tabela de leis para as pessoas que estavam rela­ cionadas com Deus por tratado ou alian­ ça. Assim, existia em Israel um quadro tradicional de bênçãos e de maldições, que continha uma lista mais ou menos padronizada deeventosbons emaus, que poderiam sobrevir à nação. É a este ca­ bedal tradicional de material que se tem recorrido aqui. É impossível, portanto, tentar datar o capítulo pela busca da identificação de quando os determinados eventos tenham acontecido. Represen­ tam um estoque comum de imagens mentais que era conhecido não só a Israel, mas também a todo oOriente Mé­ dio antigo. Somente nosversículos 40-45, onde sepressupõe a situação da queda de Judá e de Jerusalém e do exílio babi­ lónico, é-nos dado algum indício quanto a data. Aqui, porém, é altamente pro­ vável que estes versículos tenham sido acrescentados, posteriormente, a uma lista anterior de maldições, a fim de pro­ porcionar base para a esperança, uma vez que se achava que as maldições ti­ vessemsidorealizadas. 3 Se andardes nos meus estatutos, e guar­ dardes osmeus mandamentos e os cumprir­ des, 4 eu vos darei as vossas chuvas a seu tempo, e a terra dará o seu produto, e as árvores do campo darão os seus frutos; 5 a debulha vos continuará até a vindima, e a vindima até a semeadura; comereis o vosso pão a fartar, e habitareis seguros na vossa terra. 6 Também darei paz na terra, evos deitareis, eninguém vos amedrontará. Farei desaparecer da terra os animais noci­ vos, e pela vossa terra não passará espada. 7 Perseguireis os vossos inimigos, e eles cairão à espada diante de vós. 8Cinco de vós perseguirão a um cento deles, e cem de vós perseguirão a dez mil; e os vossos inimigos cairão à espada diante de vós. 9 Outrossim, olhareipara vós, e vos farei frutificar, e vos multiplicarei, e confirmarei o meu pacto convosco. 10 E comereis da colheita velha por longo tempo guardada, até afinal a re­ moverdes para dar lugar à nova. 11 Tam­ bém porei o meu tabernáculo no meio de vós, e a minha alma não vos abominará. 12 Andarei no meio de vós, e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo. 13 Eu sou o Senhor vosso Deus, que vostireida terra dos egípcios, para que não fósseis seus escra­ vos; e quebrei os canzis do vosso jugo, e vos fizandar erguidos. A relação de recompensas (v. 3-13) concentra-se em dois aspectos principais da vida: a fertilidade dos campos e a abundância da colheita deles (v. 4,5-10) e o livramento da guerra (v. 6-8). Signi­ ficativamente, não se vê a finalidade da vitória militar em termos do engrande­ cimento nacional e da edificação de um império, mas, sim, na manutenção da paz e segurança nacionais (v. 6). Que a paz constituía a verdadeira vitória, se afirma claramente. As bênçãos máximas da vida são que a presença de Deus per­ 91
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    maneça com seupovo (v. 11) e que as promessas da aliança com Abraão sejam cumpridas (cf. v. 12comGên. 17:7). 14 Mas, se não me ouvirdes, e não cum­ prirdes todos estes mandamentos, 15 e se rejeitardes os meus estatutos, e a vossa alma desprezar os meus preceitos, de modo que não cumprais todos os meus manda­ mentos, mas violeis o meu pacto. 16 então eu, com efeito, vos fareiisto: porei sobre vós o terror, a tísica e a febre ardente, que consumirão os olhos e farão definhara vida; em vão semeareis a vossa semente, pois os vossos inimigos a comerão. 17 Porei o meu rosto contra vós, e sereis feridos diante de vossos inimigos; os que vos odiarem do­ minarão sobre vós, e fugireis sem que nin­ guém vos persiga. 18Se nem ainda com isto me ouvirdes, prosseguirei em castigar-vos sete vezes mais, por causa dos vossos pe­ cados. 19Pois quebrarei a soberba do vosso poder, e vos farei o céu como ferro e a terra comobronze. 20 Em vão se gastará a vossa força, porquanto a vossa terra não dará o seu produto, nem as árvores da terra darão os seus frutos. 21 Ora, se andardes contra­ riamente para comigo, e não me quiserdes ouvir, trarei sobre vós pragas sete vezes mais, conforme osvossospecados. 22Envia­ rei para o meio de vós as feras do campo, asquaisvosdesfilharão, edestruirão ovosso gado, e vos reduzirão a pequeno número; e os vossos caminhos se tornarão desertos. 23 Se nem ainda com isto quiserdes voltar a mim, mas continuardes a andar contraria­ mente para comigo. 24 eu também andarei contrariamente para convosco; e eu, eu mesmo, vos ferirei sete vezes mais, por causa dos vossos pecados. 25 Trarei sobre vós a espada, que executará a vingança do pacto, e vos aglomerareis nas vossas cida­ des; então enviarei a peste entre vós, e se­ reis entregues na mão do inimigo. 26 Quan­ do eu vos quebrar o sustento do pão, dez mulheres cozerão o vosso pão num só forno, e de novovo-loentregarão porpeso; e come­ reis, mas não vos ifartareis. 27 Se nem ainda com isto me ouvirdes, mas continuardes a andar contrariamente para comigo, 28 tam­ bém eu andarei contrariamente para con­ vosco com furor; e vos castigarei sete vezes mais, por causa dosvossospecados. 29E co­ mereis a carne de vossos filhos e a carne de vossas filhas. 30 Destruirei os vossos altos, derrubarei as vossas imagens do sol, e lan­ çarei osvossos cadáveres sobre osdestroços dos vossos ídolos; e a minha alma vos abo­ minará. 31 Reduzirei as vossas cidades a deserto, e assolarei os vossos santuários, e não cheirarei ovosso cheiro suave. 32 Asso­ larei a terra, e sobre ela pasmarão os vossos inimigos que nela habitam. 33Espalhar-vos- ei por entre as nações e, desembainhando a espada, vos perseguirei; a vossa terra será assolada, e as vossas cidades se tornarão em deserto. 34 Então a terra folgará nos seus sábados, todos os dias da sua assola­ ção, e vós estareis na terra dos vossos ini­ migos; nesse tempo a terra descansará, e folgará nos seus sábados. 35 Por todos os dias da assolação descansará, pelos dias que não descansou nos vossos sábados, quando nela habitáveis. 36E, quanto aos que de vós ficarem, eu lhes meterei pavor no coração nas terras dos seus inimigos; e o ruído de uma folhaagitada osporá em fuga; fugirão comoquem foge da espada, e cairão sem que ninguém os persiga; 37 sim, embo­ ra não haja quem ospersiga, tropeçarão uns sobre os outros como diante da espada; e não podereis resistir aos vossos inimigos. 38 Assim, perecereis entre as nações, e a terra dos vossos inimigos vos devorará; 39 e os que de vós ficarem definharão pela sua iniqüidade nas terras dos vossos inimi­ gos, como também pela iniqüidade de seus pais. A série de castigos que segue à deso­ bediência (v. 14-39) pinta em cores vivas as ameaças de doenças (v. 16-25), colhei­ tas improdutivas (v. 20), derrota militar (v. 16,17,25,26), a fome (v. 26,29), e o desterro (v. 33), que sobreviriam a uma nação. Em sentido algum representam, essesmales, uma falha da parte de Deus, na defesa de seu povo; antes, seriam um juízo empreendido por ele. Esta é, preci­ samente, a interpretação da História, que é básica aos grandes profetas de Israel. 40 Então confessarãoa sua iniqüidade, e a iniqüidade de seus pais, com as suas trans­ gressões, com que transgrediram contra mim; igualmente confessarão que, por te­ rem andado contrariamente para comigo, 41 eu também andei contrariamente para com eles, e os trouxe para a terra de seus inimigos. Se então o seu coração incircun- ciso se humilhar, e tomarem por bem o cas­ tigo da sua iniqüidade, 42 eu me lembrarei do meu pacto com Jacó, do meu pacto com Isaque, e do meu pacto com Abraão; e bem assim da terra me lembrarei. 43 A terra também será deixada por eles e folgará nos 92
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    seus sábados, sendoassolada por causa de­ les; e elestomarão por bem o castigo da sua iniqüidade, em razão mesmo de que rejei­ taram os meus preceitos e a sua alma des­ prezou os meus estatutos. 44Todavia, ainda assim, quando eles estiverem na terra dos seus inimigos, não os rejeitarei nem qs abo­ minarei a ponto de consumi-los totalmente e quebrar o meu pacto com eles; porque eu sou o Senhor seu Deus. 45 Antes, por amor deles me lembrarei do pacto com os seus antepassados, que tirei da terra do Egito perante os olhos das nações, para ser o seu Deus. Eu sou o Senhor. 46 São esses os estatutos, os preceitos e as leis que o Senhor firmou entre si e os filhos de Israel, no mon­ te Sinai, porintermédio de Moisés. Os versículos 40-46 levantam a ques­ tão do que possa acontecer a Israel de­ pois de os castigos ameaçados tiverem sido infligidos. Se se datar estes versícu­ los na época do exílio babilónico, então pode-se ver que o seu propósito era o de proporcionar uma base de esperança pa­ ra o futuro de Israel. Deus não rejeitaria totalmente o seu povo, visto que tinha feito com ele uma aliança eterna através deAbraão, Isaque e Jacó (v. 42; cf. Gên. 17:7,8). Quando o povo fosse levado para o exílio, Deus se lembraria dele e não o rejeitaria totalmente (v. 44,45). Ê notável, contudo, que não há, aqui, qualquer promessa de um retorno dos exilados à sua própria terra, tal como predito pelo profeta Ezequiel e Deutero- Isaías. A terra devia ser deixada, para gozar deseussábados (v. 34,35,43), visto que o povo tinha sido culpado de negli­ genciar a observância dos anos sabáticos de descanso que a leiexigia. Esta seção arremata o Código da San­ tidade e proporciona uma conclusão apropriada ao conteúdo principal de Le- vítico. O que temos no capítulo 27 é à guisa de um breve apêndice sobre as ofertasvotivas sagradas. VI. Leis Concernentes aos Jura­ mentose OfertasVotivas (27:1-34) Neste suplemento estabelecem-se di­ versas regras concernentes à promessa e à entrega de ofertas a Deus, que se tomam, então, propriedade dos sacerdo­ tes do santuário. Em certos casos, um homem que tinha feito semelhante pro­ messa talvez quisesse voltar atrás, ou talvez achasse necessário assim fazer por motivos pessoais ou porque a oferta pro­ metida era inaceitável. Estas leis estipu­ lam as condições sob as quais tal oferta podia ser revogada. É significativo que, em muitos casos, não é a própria oferta que se entregava ao sacerdote, mas, sim, um equivalente pecuniário, mostrando que esse suplemento surgiu numa época quando ouso do dinheiro estava toman- do-sebem difundido em Israel. 1 Disse mais oSenhora Moisés: 2Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando alguém fizer ao Senhor um voto especial que envol­ ve pessoas, o voto será cumprido segundo a tua avaliação das pessoas. 3 Se ftor de um homem, desde a idade de vinte até sessenta anos, a tua avaliação será de cinqüenta siclos deprata, segundo osiclo do santuário. 4 Se for mulher, a tua avaliação será de trinta siclos. 5Sefor de cinco anos até vinte, a tua avaliação do homem será de vinte si­ clos, e da mulher dez siclos. 6 Se for de um mês até cinco anos, a tua avaliação do ho­ mem será de cinco siclos de prata, e da mulher três siclos de prata. 7 Se for de sessenta anos para cima, a tua avaliação do homem será de quinze siclos, e da mulher dezsiclos. 8Mas, se for mais pobre do que a tua avaliação, será apresentado perante o sacerdote, que o avaliará conforme as pos­ ses daquele que tiverfeitoovoto. Os versículos 1-8 relacionam as ofer­ tas a seremfeitas por pessoas que tinham sido votadas a Deus, ou por elas mesmas ou pela sua família, e que, por conse­ guinte, teriam auxiliado no cuidado do santuário e de seu culto. Tais pessoas seriam liberadas desses votos por um pagamento em dinheiro, que é calculado como sendo o dobro, para um homem, do que para uma mulher. Se a pessoa fosse pobre demais para pagar o preço estipulado, permitia-se ao sacerdote fixar uma avaliação inferior, a seu critério (v. 8). 93
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    9 Se foranimal dos que se oferecem em oferta ao Senhor, tudo quanto der dele ao Senhor será santo. 10Não o mudará, nem o trocará, bom por mau, ou mau por bom; mas se de qualquer maneira trocar animal por animal, tanto um como o outro será santo. 11 Se for algum animal imundo, dos que não se oferecem em oferta ao Senhor, apresentará o animal diante do sacerdote; 13e osacerdote o avaliará, seja bom ou seja mau; segundo tu, sacerdote, o avaliares, assim será. 13Mas, se ohomem, com efeito, quiser reml-lo, acrescentará a quinta parte sobre a tua avaliação. Os casos de animais votados a Deus, relacionados nos versículos 9-13, certa­ mente eram os mais freqüentes em oca­ siões de tais ofertas. Muitas vezes, em ocasiões de tensão ou de doença, um homem fazia um voto para trazer um animal a Deus em sacrifício (cf. Jon. 2:9). Depois elepode ter querido modifi­ car a oferta prometida, ou talvez tenha sido compelido a assim fazer. Se o ani­ mal fosse considerado limpo (i.e., apro­ priado para o sacrifício), não poderia ser trocado ou redimido. Porém se permitia que um animal que fosse inapropriado para o sacrifício fosse substituído pelo pagamento de dinheiro ao santuário, ou podia ser remidopelo acréscimoao paga­ mento de um quinto de seu valor. Neste último caso, o proprietário podia ficar comoanimal(v. 13). 14 Quando alguém santificar a sua casa para ser santa ao Senhor, o sacerdote a avaliará, seja boa ou seja má; como o sa­ cerdote a avaliar, assim será. 13 Mas, se aquele que a tiver santificado quiser remir a sua casa, então acrescentará a quinta parte do dinheiro sobre a tua avaliação, e terá a casa. 16 Se alguém santificar ao Senhor uma parte do campo da sua possessão, en­ tão a tua avaliação será segundo a sua sementeira: um terreno que leva um hômer de semente de cevada será avaliado em cinqüenta siclos de prata. 17 Se ele santifi­ car o seu campo a partir do.ano do jubileu, conforme a tua avaliação ficará. 18 Mas se santificar seu campo depois do ano do jubi­ leu, o sacerdote lhe calculará o dinheiro conforme os anos que restam até o ano do jubileu, e assim será feita a tua avaliação. 19 Se aquele que tiver santificado o campo, com efeito, quiser remi-lo, acrescentará a quinta parte do dinheiro da tua avaliação, e lhe ficará assegurado o campo. 20 Se não o quiser remir, ou se houver vendido o campo a outrem, nunca mais poderá ser remido. 21Mas o campo, quando sair livre no ano do jubileu, será santo ao Senhor, como campo consagrado; a possessão dele será do sacer­ dote. 22 Se alguém santificar ao Senhor um campo que tiver comprado, o qual não for parte docampo da sua possessão, 23o sacer­ dote lhe contará o valor da tua avaliação até oano do jubileu; e no mesmo dia dará a tua avaliação, como coisa santa ao Senhor. 24Noano do jubileu o campo tornará àquele de quem tiver sido comprado, isto é, àquele a quem pertencer a possessão do campo. 25Ora, toda tua avaliação se fará conforme o siclo do santuário; o siclo será de vinte jeiras. Os versículos 14-25 tratam das ques­ tões muito mais complexas surgidas da dedicação depropriedades a Deus. A de­ claração do versículo 14, o sacerdote a avaliará, sejaboaou seja má, quer dizer, provavelmente, que o sacerdote devia fazer uma avaliação média entre as esti­ mativas mais alta e mais baixa. Mais uma vez um quinto do valor de compra da propriedade é acrescido como penali­ dade, se o doador desejasse redimi-la (v. 15,19). Os versículos 16-24 pres­ supõem que ovalor da propriedade tinha alguma relação direta com o número de anos que ainda deviam passar antes do ano do jubileu. Os versículos 20 e 21 mostram as dificuldades resultantes do ato desonesto por parte do doador que depois de dedicar a sua propriedade a Deus a tivesse vendido a alguma pessoa leiga. Neste caso, o doador havia de perdertodo odireitoà redenção, e no ano do jubileu, o campo havia de se tomar em propriedade do santuário. Os versí­ culos 22-24 dizem respeito a alguém que compra um campo de outrem, e eritâo dedica-o a Deus. Nessa eventualidade, pagar-se-á ovalor da propriedade direta­ mente aos sacerdotes, em proporção ao número de anos ainda restantes, até o ano dojubileu, quando a terra reverteria 94
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    ao seu proprietáriooriginal. A lei de re­ versão, por ocasião do jubileu, havia de prevalecer sobre todas as outras conside­ rações. 26 Contudo o primogênito dum animal, que por ser primogênito já pertence ao Senhor, ninguém o santificará; seja boi ou gadomiúdo, pertence ao Senhor. 27Mas se o primogênito for dum animal imundo, remir- se-á segundo a tua avaliação, e a esta se acrescentará a quinta parte; e se não for remido, será vendido segundo a tua avalia­ ção. 28Todavia, nenhuma coisa consagrada ao Senhor por alguém, daquilo que possui, seja homem, ou animal, ou campo da sua possessão, será vendida nem será remida; toda coisa consagrada será santíssima ao Senhor. 29 Nenhuma pessoa que dentre os homensfor devotada será resgatada; certa­ mente será morta. 30 Também todos os dí­ zimos da terra, quer dos cereais, quer do fruto das árvores, pertencem ao Senhor; santos são ao Senhor. 31 Se alguém quiser remir uma parte dos seus dízimos, acres­ centar-lhe-á a quinta parte. 32Quanto a todo dízimo do gado e do rebanho, de tudo o que passar debaixo da vara, esse dízimo será santo ao Senhor. 33 Não se examinará se é bom ou mau, nem se trocará; mas se, com efeito, se trocar, tanto um como o outro será santo; não serão remidos. 34 São esses os mandamentos que o Senhor ordenou a Moi­ sés, para os filhos de Israel, no monte Sinai. Osversículos 26-34 completam a legis­ lação com respeito às ofertas votivas, por relacionar as coisas e pessoas que não podiam ser objeto de dedicação especial a Deus, por já serem consideradas como pertencentes a ele. Eram elas: os primo­ gênitos dos rebanhos e manadas (os pri­ mogênitos de animais imundos haviam de ser redimidos ou vendidos pelo sacer­ dote); propriedades ou pessoas quejá es­ tavam dedicadas a Deus, porque tinham sido tomadas numa guerra santa ou por algum outro motivo desconhecido; e to­ dos os dízimos. Tudo isto se considerava como já pertencente a Deus, e por isso não podia ser usado como ofertas espe­ ciaispara ele. Estas leis sobre o direito de remissão de ofertas dedicadas a Deus realçam a necessidade decuidado eseriedade em se fazer votos e promessas a Deus. Promes­ sas impensadas podem ser lamentadas depois, e a lei de Israel não permitia que ohomem que tivesse feito uma promessa precipitada se esquecesse dela e não fi­ zesse nada a seu respeito. Bem podemos fazer uma pausa, para considerar quan­ tas promessas já fizemos a Deus e não a cumprimos. O livrode Levíticose encerra com uma breve reafirmação da autoridade mosai­ ca das leis contidas nele e de sua ligação com a aliança do monte Sinai (v. 34). O livro parece concluir abruptamente com o apêndice sobre a solenidade dos votos. Sua história da instituição do sa­ cerdócio da linha de Arão fica como a únicaparte danarrativa extensa do livro, que é, fora disso, uma coleção de leis muito compreensiva, se bem que um tanto diversificada. Ãluz de nossa crítica das fontes de Levítico (ver a Introdução), deve-se lembrar que não havia, original­ mente, nenhuma conclusão dos princi­ pais documentos do Pentateuco no fim deLevítico27. A grande história sacerdotal das ori­ gens de Israel, que constituioâmago, em tomo do qual Levítico foi elaborado, continua a sua narração através do livro deNúmerosefala do período passado no deserto e dos progressos de Israel até as vésperas de sua entrada na Terra Prome­ tida. Somente quando o Pentateuco in­ teiro foi tecido em uma só obra contínua e extensa é que se tornou desejável, por motivos práticos, dividi-lo em cinco li­ vros de cumprimentos mais ou menos comparáveis. Levítico, com as suas vá­ rias grandes coleções deleis que regiam o culto e a vida cotidiana, constituiu um capítulo natural dentro dessetodo. Como um capítulo, é coerente e completo. Po­ rém, temos constantemente de lembrar que Levítico tinha um contexto propor­ cionado, por um lado, pelo relato da criação da aliança no Sinai no livro de Êxodo, e, por outro, pela história dos 95
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    progressos de Israelatravés do deserto, até afronteira de Canaã. Como uma coleção das leis especial­ mente concernentes à organização e à prática do culto de Israel, o livro apre­ senta, inevitavelmente, um aspecto de aridez e formalidade. Seu quadro analí­ tico da estrutura das cerimônias de pe­ nitênciae de louvornão contém nada das emoções tempestuosas inspiradas pelas orações e confissões dos Salmos. Con­ tudo, há que ser constantemente enfati­ zado que os Salmos são as palavras para as quaiso livro de Levítico proporciona o contexto e as rubricas. Seu conteúdo não é totalmente dissimilar das rubricas de uma peça redigida sem as partes que os próprios atores têm de falar. A adoração verdadeira requer elementos vocais, tan­ to falados comocantados, para poder ser vista inteira. Podemos, portanto, pela leitura para­ lela de Salmos e Levítico, montar um quadro mais completo da natureza do culto de Israel e conseguir uma perspec­ tiva melhor, que nos possibilite entender olugar de Levítico no Antigo Testamen­ to. Levítico não pode ser visto isolada­ mente como uma obra escrita nem ainda em função das coleções individuais de regulamentos de que foicomposta, enem se visava que assim fosse considerada. Contém as regras formais do culto que requeriam um contexto vivo de experiên­ cia histórica e um envolvimento mais imediato da mente e da vontade, para se tomar um quadro da plena abrangência doculto de Deus em Israel. Num sentido ainda mais amplo é que este aspecto de incompleto diz respeito a Levítico. A Epístola aos Hebreus argu­ menta que “éimpossível que o sangue de touros e de bodes tire pecados” (10:4). Assim interpreta as cerimônias expiató­ rias dotabernáculo como uma prefigura­ ção da morte expiatória de Jesus e con­ sidera osacerdócio deArâo uma previsão dosacerdócioverdadeiro de Jesus. O que lemos em Levítico se vê como transitório eaguardando realizaçãona vida, morte e intercessão celestial de Jesus. O culto de Israel, como um todo, se revela, aqui, comoimperfeitoenecessitandodaobra de Cristo, para que o seu verdadeiro signifi­ cado se tomasse manifesto. Isso não equivale a dizer que o culto de Israel era falso ou inválido, mas afirmar simples­ mente que por si só não conseguia comu­ nicar a verdadeira plenitude da comu­ nhão entre os homens e Deus que o próprio Deus tencionava. Essa plenitude sótem sido declarada e instituída através deJesus e da nova aliança. No entanto, o livro de Levítico revela os princípios e formas essenciais do culto, sem os quais a verdadeira adoração espiritual através da pessoa e da obra de Jesus não seria inteligível. 96
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    Números JOHN JOSEPH OWENS Introdução I.OTítulo O título “Números” é uma tradução do título da Vulgata Latina Numeri, ou da Septuaginta grega Arithmoi. Os ou­ tros livros do Pentateuco têm títulos na língua portuguesa que são meras transli- terações do grego. É traduzido “Núme­ ros” por fazer referência às duas nume­ rações que são registradas nos capítulos 1-4 e 26. Porém esse título não se rela­ ciona diretamente com materiais dos res­ tantes 31 capítulos. O título que se acha no Antigo Testa­ mentohebraico descreve muito mais ade­ quadamente o conteúdo total do livro. Apraxe deadotar como título a primeira palavra ou as primeiras palavras de um livro tem sido conhecida desde tempos antigos. Pode ser vista nas obras de Je- rônimo eEpifânio, que conheciam o livro de Números como “O Senhor Falou”. OAntigoTestamento hebraico nãousava essas primeiras duas palavras (hebrai­ cas), visto que essa expressão, wayeldab- ber Yahweh, ocorria em Exodo mais de 15 vezes e em Levítico mais de 30 vezes. Assim, este título não identificaria pron­ tamente este livro para oleitor, visto que a expressão titular se acha no livro de Números pelo menos 45 vezes. Portanto, para se ser específico, a quarta palavra do livro, bemidhbar (“no deserto”), foi adotada como a designação descritiva. O título chama a nossa atenção para o contexto histórico dopróprio livro. H. Esboço O livro de Números começa no deserto do Sinai, no segundo ano depois de os israelitas terem saído do Egito. Havia passado um mês desde a ereção do ta­ bernáculo (cf. Êx. 40:1,2; Núm. 1:1). O livro termina aproximadamente 38 anos mais tarde, nas planícies de Moabe, próximas ao Jordão, na altura de Jericó. Não sepode descreveroconteúdo sob um só tema. A história da aventura traça o povo a partir do Sinai até o Jordão. É mais fácil traçar os meandros geográficos do que achar um enredo que permeie os diversos eventos. Poder-se-ia tentar criar alguma ordem cronológica. Porém seria provisória, devido ao fato de que há ape­ nas umas poucas afirmações, no decorrer do livro, para orientar o leitor na data­ ção das ocorrências. A abordagem mais válidapara oentendimento do livro seria através de uma divisão geográfica. 1. No Sinai. Fazem-se os preparativos para a viagem de duração desconhecida (1:1-10:10). 2. Do Sinai até o deserto de Parã (10: 11-20:29). 3. A aproximação pelo leste do Mar Morto(21:l-36:13). III. Cronologia A divisão dos capítulos em torno de centros geográficos não dá uma divisão 97
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    cronológica regular. Ospreparativos pa­ ra a viagem demoraram vinte dias, do “primeiro dia do segundo mês, no se­ gundo ano” (1:1) até o vigésimo dia do mesmo mês (10:11). A viagem do Sinai, inclusive a temporada em Cades, iío sul de Canaâ, abrangeu, aproximadamente, 38 anos. A aproximação do monte Nebo levou apenas cerca de cinco ou seis me­ ses. IV. Conteúdo O interesse principal recai sobre as duas últimas seções do livro, visto que a primeira seção (1:1-10:10) contém mate­ rial que é principalmente de natureza legaleestatística. Aestrutura mental dos hebreus exige que todos os eventos sejam preservados numa perspectiva histórica. Essaprimeira seçãocontém pouca narra­ tivahistóricapura. A porção central apresenta muitas se­ ções de grande interesse: Moisés e seu sogro (cap. 10); a reclamação do povo sobre comida (11); a queixa de Miriã e Arão a respeito da autoridade de Moisés (12); a investigação dos doze espias (13); a rebelião de Corá, Datã e Abirão (16); o desabrochamento da vara de Arão (17); o ato de Moisés de ferir a ro­ cha(20). A terceira seção abrange as serpentes abrasadoras (21); a vitória sobre Siom e Ogue (21); a narrativa sobre Balaque e Balaão (22-24); o perigo de alianças pa­ gãs (25); um censo adicional (26); a designação de Josué como o novo lí­ der (27); instruções concernentes a vo­ tos (30); a guerra santa contra os midia- nitas (31); a colonização pelas tribos ao leste doJordão(32); um breve resumo da longaviagem(33). V. SuaRelaçãocomOutrosLivros A ausência de um tema único impõe a necessidade de um escrutínio muito mais amplo, para se descobrir a função de Números no cânon bíblico. Era Moisés o líder do povo durante as peregrinações no deserto. Os primeiros cinco livros do cânon têm sido chamados “Os Cinco Livros de Moisés” devido, principalmen­ te, ao fato de ser ele o personagem central. Qualquer outro ponto de vista de tal título não se basearia em fundamen­ tos históricos sólidos. Esses cinco livros são chamados de Pentateuco. O vulto de Moisés serve para moldar esses cinco livros numa única unidade. O livro de Gênesis abrange o período da criação até o tempo da morte de José, que segue a descida ao Egito pela família de Jacó. Êxodo contém o registro da li­ bertação por Deus, de seu povo, da es­ cravidão egípcia, a viagem do Egito e a estada no Sinai. O livro de Levítico é datado no pri­ meiro mês do segundo ano do Êxodo (cf. Êx. 40:1,2 e Núm. 1:1). O taberná­ culofoierigido até o fim do primeiro ano do êxodo (Êx. 40:2). Regulamentos e regras tornavam-se urgentemente neces­ sários, com a libertação do povo e a sua oportunidade de governo independente. Levíticoé predominantemente uma com­ pilação mais tardia das leispara o culto e para a conduta, como formuladas atra­ vés de um longo período da história de Israel. Números éiniciadocomo primeiro dia do mês, conforme o livro de Levítico. Enquanto Levítico enfatiza as leis leví- ticas, é em Números que achamos a as­ cendência da organização sacerdocrática que havia de suceder Moisés. O livro de Números encerra-se com opovo de Israel nas alturas da Transjordânia, olhando para aTerra Prometida. Deuteronômio contém as três orações de despedida de Moisés a seu povo (1-30). Os capítulos 31-34 formam uma seqüêncialógica aolivrodeNúmeros. 99
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    O livrode Númerospreencheum papel importante pelorelato que faz da história de Israel anterior à sua posse de Canaã. Não fosse Números, haveria uma lacuna de uns 38 anos em seus registros. Além disso, a posição elevada dos sacerdotes careceria de substanciação histórica. VI. Materiais deFontes Na tentativa de reconstruir tanto da história de Israel quanto possível, temos uma grande dívida para com os sacerdo­ tes, por preservarem e organizarem tan­ tos dos eventos da existência de Israel. É através dos sacerdotes também que recebemos uma perspectiva tão coerente, embora relativamente tardia. A tradição sacerdotal dá início ao livro de Gênesis (l:l-2:4a) e se intercala com outras ên­ fases através de todo o livro de Gênesis. A última parte de Êxodo (25-31 e 35-40) é da mesma tradição sacerdotal. Este material continua por todo o livro de Levítico e ininterruptamente até inclusi­ ve Números 10:28. Na realidade, no mí­ nimotrês quartos do livro de Números se constituem dematerial sacerdotal. O próprio fato de tão grande parte desses quatro primeiros livros advir da tradição sacerdotal realça que esses livros estão diretamente inter-relacionados quanto ao conteúdo, estilo e abordagem. Esse é o material que tem sido chamado de a fonte P.1O “P” é tomado do termo priestly(“sacerdotal”, noinglês). Aidentificação do material comoP da­ taria oregistro dele como não posterior a 450a.C. Ao invés de datar todo o estrato P como tendo sido composto original­ mente em 450 a.C., deve-se inyestigar cada parágrafo separadamente (perí- cope), para verificar sua própria história de transmissão e preservação. Os fa­ tos do estudo histórico mostram que se começa literalmente com o ano 450 a.C., para o material P, e se regride, 1Vera Introduçãoao Gênesis, no Volume 1. pela História, até o evento original. Muitos relatos foram transmitidos atra­ vés de um longo período de tempo, de boca para ouvido (tradição oral), e en­ tão transcritos, de maneira que eram, mais tarde, transmitidos em forma es­ crita (tradição escrita ou o próprio do­ cumento). O sacerdóciotemuma história muito antiga, e, por conseguinte, haverá uma longa história de material sacer­ dotal. Visto que havia ramos diferentes das famílias sacerdotais e também diver­ sos centros sacerdotais, existem muitos interesses, locais e ênfases diferentes, identificáveis no material sacerdotal. Muitos eventos, no Pentateuco, giram em tomo da pessoa de Moisés, por isso muitas pessoas simplesmente presumem que ele tenha escrito o Pentateuco. O texto dasEscrituras não apóia o ponto de vista de que Moisés escreveu todos esses livros nem o ponto de vista de que não escreveu nada do que tem sido preser­ vado dentro desses livros. Todos os capí­ tulos dolivrodeNúmeros, menos quatro, fazem referência a Moisés (usandc o texto hebraico como critério para a d são emcapítulos). Porém eleé menciona­ do por outras pessoas, i.e., na terceira pessoa do singular, todas as vezes, exce­ tuando-se as citações diretas de suas orações. É inconcebível, também, achar que foi Moisés que escreveu: “Ora, Moi­ sés era homem mui manso, mais do que todos oshomens que havia sobre a terra” (12:3). Por outro lado, 33:2 afirma claramen­ te que “Moisés registrou os pontos de partida”. Porém não indica onde Moisés os registrou nem de que fonte o compila­ dor deNúmerosconseguiu tal registro. Por escrever na terceira pessoa, o au- tor-compiladorfoimuito exatoem deixar transparecer que ele registrou materiais que tinham sido escritos sobre Moisés, Arão, Miriã, os sacerdotes, eoutros. Uma fonte é identificada, em 21:14, 15, como o “Livro das Guerras do Se­ 100
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    nhor”. Esse livroera, evidentemente, uma obra bem conhecida e antiga. Tam­ bém há fragmentos poéticos e canções antigas que têm sido preservados (10:35; 21:14,15,17,18,27-30; 23:7-10,18-24; 24: 3-9,15-21,23 es.) Podem-se descobrir outras fontes, ge­ ralmente pelo estudo intensivo do mate­ rial do Pentateuco. Por exemplo, as ano­ tações concernentes a Ogue, rei de Basã (21:33-35), têm ligação direta com ma­ terial deuteronômico (Deut. 3:1-3). A in- ter-relação dessa perícope identifica essa seção como sendo do material D (usado para significarDeuteronômio). Os sacerdotes tratavam de eventos re­ ligiosos durante muitos séculos e preser­ varam materiais que compartilham mui­ tas semelhanças, mas que também de­ monstram diferenças. Todavia, incorpo­ ram muito material antigo, de muitas fontes, que não foram identificadas, mas que, na totalidade do material, mostra­ vam ossinais e a abordagem sacerdotais. Além do material sacerdotal que se tem tomado conhecido como P, as auto­ ridades têm concordado sobre a existên­ cia de três outros estratos gerais. Tem-se estabelecido características várias como critérios para esses estratos. Entre esses critérios estão: o usojudicioso dos nomes divinos, o uso repetido de frases que se tomam técnicas ou idiomáticas e con­ ceitosteológicosespecíficos. Os três estratos referidos se acham no livro de Números. A narrativa Balaão- Balaque(22:2-24:25) mostra, de maneira bem viva, os efeitos de se entretecer registros diferentes, a fim de criar uma narração tão completa quanto possível. Quando ossegmentos individuais de fon­ tes escritas mais precoces foram coligi­ dos, para preencher as lacunas, os sinais estilísticos diversos ou os termos teoló­ gicos não sofreram modificações. Foram mantidos para preservar a integridade e a autenticidade das fontes usadas. Nos registros sobre Balaãohá seções que ado­ tam o nome pactuai de Deus, Yahweh. Esta única característica tem chamado a atenção de estudiosos dedicados, que também se mostram capazes de isolar outras características. A fim de identifi­ car este segmento de materiais originá­ rios, o termo “J” tem sido selecionado. Uma das maneiras detransliterar onome Yahweh é também Jahveh ou Jahweh (usando a pronúncia alemã de J como o som do Y); assim J denota os materiais “jeovísticos”. O escritor refere-se a Deus por cinco termos diferentes, no relato sobre Balaão (Yahweh, ’Elohim,Yahweh’Elohim,’EI, ‘Elyon, e tinha motivos definidos para o uso dos diferentes nomes. Se quisermos tratar das Escrituras com o respeito e autoridade que têm merecido, devemos, forçosamente, procurar descobrir os me­ canismos literários intrincados que o au­ tor usou para transmitir as tonalidades de seu pensamento. Esses nomes podem indicaruma abordagem de estrutura lite­ rária, a extensão da relação pactuai e também a referência teológica que se tencionava. A compreensão que os israelitas ti­ nham, concernente a uma relação espe­ cial com o seu Deus Yahweh, era tão extraordinária para eles que registravam grande parte de sua história desse ponto de vista J. O material J pode ser datado como tendo tido sua origem em 900 a.C. ou antes. Quando se consegue isolar ma­ terial do registro histórico como sendo material J, consegue-se isolar os mais precoces materiais teológicos pactuais distintos disponíveis. Os seguintes mate­ riais são também classificados como J: 10:29-32; 11:4-15, 18b-24a, 31-35; 22: 22-35. Um termo muito antigo, para Deus, usado por muitos povos diferentes, é a palavra’Elohim. Ã medida que os erudi­ tos discerniram o uso desses termos para Deus, passaram a designar esse estrato de materiais literários como mate- 101
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    rial “E”. ’Elohimé usado no registro sobre Balaâo nove vezes (22:9,10,12,20, 22a,38; 23:4,27; 24:2). O material E é normalmente datado comotendo sua ori­ gem em 750 a.C. ou antes. Outro mate­ rial E também se acha em 11:16,17a, 24b-30; 12:1-15; 20:14-21; 21:21-24a. Há muitas ocasiões quando essas duas abordagens são unidas. Um dos sinais dessa união é o título de Deus como Yahweh’Elohim. Usa-se Yahweh ’Elohim duas vezes na história de Balaão (22:18; 23:21). Num estudo dessas passagens, uma falha em discriminação na tradução ou interpreta­ ção desses termos pode levar a um obs­ curecimento das distinções estabelecidas pelo próprio autor. Os materiais que contêm indícios que os relacionam com J,E e JE compreendem menos que um quarto de todo o livro de Números. Nem sempre é possível dividir o material JE nos elementos individuais respectivos de J ou E, em cada caso. Alguma parte distinta do materialJE é também achada em 14:11-24; 21:1-3; 32:39-42. VII. ÊnfasesReligiosas A literatura do povo hebraico reflete uma estrutura de pensamento ou uma forma de crença, mostra um povo que falava em expressões concretas, antes do que em modos filosóficos. Os seus escri­ tos são caracterizados pela expressão de seus pensamentos e ensinos, através de uma narrativa histórica. O contexto dentro do qual se coloca o livro de Números lembra-nos que a he­ rança judaico-cristã surge da História e se situa dentro da História. Dizer que existem verdades eternas, em um senti­ do, obscurece as realidades de Deus dentro da História. Todas as verdades conhecidas são verdades dentro da di­ mensão temporal e dentro de situações verificáveis. Os aspectos demonstrativos de mudanças na Tora hebraica servem para nos mostrar que não são asverdades que mudam, mas, sim, que uma mesma verdade assume formas e expressões mu­ táveise sujeitas a desenvolvimento, à me­ dida que os tempos mudam. Os regulamentos e leis claramente sa­ cerdotais, que se acham em 1:1-10:10, têm qualidade de narração. Porém a seçãoqueémais diretamente uma narra­ tivanão começa senão no décimo capítu­ lo(10:11), quando o povo parte do Sinai, a caminho do território prometido. En­ tretecidos nesta narrativa, há eventos, orientações para o viver cotidiano, as bases para as estruturas de autoridade em sua organização, as instruções con­ cernentes ao exercício do calendário reli­ giosoanual eaté regras para os direitos a propriedade e heranças. Estas histórias foram os meios através dos quais eles expressavam as suas verdades mais pro­ fundas. Para os hebreus, o processo de pensar não se completava senão quando um pensamento tinha sido descoberto e ex­ pressado. Por conseguinte, uma verdade ou doutrina religiosa precisava de ser vestida de ação, para ser autêntica. Para os sacerdotes, o ser religioso não cons­ tituía uma realidade estabelecida sem haver “atividade” religiosa. Um espírito de adoração realizar-se-ia num ato de culto, se essa adoração fosse verdadeira­ mente válida. Porque as diferentesgerações de sacer­ doteseas famílias concorrentes de sacer­ dotes trabalhavam em circunstâncias que variavam entre a prosperidade e a fome, entre a paz eaguerra, entre a liberdade e a escravidão, entre a vitalidade espiri­ tual eoretrocessoreligioso, achavam que as suas necessidades e as expressões de sua aliança mudavam em suas ênfases e em seu entendimento. Era possível que alguém sem qualquer entendimento pes­ soal da aliança ou de lealdades divinas muito fracas esboçasse os mesmos gestos que os seus antepassados haviam formu­ lado, porém sem a profunda fé que os seus antepassados tinham experimenta­ 102
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    do. Devemos procuraras verdades vitais duradouras noseventos que se desenrola­ vam, nos diferentes rituais e nas circuns­ tâncias sob mudança, mesmo quando ocorreram em locais ou formas diversos. Osatos de sacrifício, a observância das regras do calendário cultual e a reverên­ cia com que mantinham os lugares ofi­ ciaisou pessoas são todos indícios de sua relaçãocom Deus. Por exemplo, o taber­ náculo era, para eles, num sentido muito real, a evidência da presença deDeus. Este centro de culto chama-se por no­ mes vários, tais como “tenda da congre­ gação” (“tenda da revelação”, conforme a Versão da Imprensa Bíblica Brasileira) (10:3; 11:16; 12:4; 14:10; 16:18,42; 17:4; 18:22), “tenda” (9:17; 12:5,10; 18:3), “tenda dotestemunho” (9:15; 18:2), “ta­ bernáculo” ou moradia (9:15,18,22), e “tabernáculo dotestemunho” (“taberná­ culo da congregação”, conforme a Ver­ são da Imprensa Bíblica Brasileira) (10: 11). Os relatos da tenda indicam uma tradiçãoem mudança. Porém os nomes e as funções indicam três idéias básicas. Era um lugar de reunião, onde o povo se encontrava com Deus. Era também um lugar que constituía o lugar onde Deus residia. O termo mishkan (moradia) é a maneira de o sacerdote expressar a re­ sidência temporária de Deus na terra, muito embora morasse permanentemen­ te no céu. Esta parece ser a expressão primordial do tema judaico da glória “Shekinah”.* Também, sempre que alguém desejava consultar Yahweh, ia à tenda. Ali na tenda, Yahweh se confrontava com Moi­ sés e o povo. Era ali que a revelação de Deus se fazia conhecida repetidamente. Otabernáculo era olugar da Presença. Relacionados de perto com o relato do tabernáculo, havia também os fenôme­ (*) NOTA DO TRADUTOR: Shekinah (verbo heb. sha- khan, habitar) é palavra usada na tradição judaica para denotar o resplendor da presença de Deus habitando no meio de seu povo. nos do fogo e da nuvem. Na narrativa de Êxodo, o aparecimento do fogo e da nuvem ressaltava direção. Em Números, porém, ofogoe a nuvem são símbolos da Presença residente, em suas diversas fun­ ções. A existência deste fogo e nuvem específicos eram os aspectos externos, que autenticavam a presença invisível de Deus. Anarrativa sacerdotal nãousa o termo coluna, ao falar no fogo e na nuvem. É este termo extra que distingue J e E de P, neste relato (12:5; 14:14). Esta pre­ sença pode ser vista como proteção, co­ mo direção ou na revelação. Porém a ênfase recai sobre a presença do Senhor (cf. 12:5; 14:14). A presença contínua realça a santida­ de de Deus. Há, envolvida, uma clara idéia de separação. Por exemplo, a nu­ vem locomoveu-se de diante do povo para trás dele, para o separar dos egíp­ cios. Há um sentido de santidade separa­ da ao redor do tabernáculo. Não se havia de aproximar-se do tabernáculo impen­ sadamente. Não sehavia de tocar na arca da aliança. Um misto interessante da presença residente e da santidade sepa­ radora mantém sempre perante os leito­ res de Números uma certa fusão da ima­ nência de Deus e de sua transcendência. Havia-se de aproximar-se com reverência esantidade do Deus que era santo (sepa­ rado) e, contudo, estava presente. Num sentido muito real, oshebreus entendiam o tabernáculo, o fogo, a nuvem e a arca como repositórios da revelação e da dei­ dade. Os objetos sagrados tinham de ser usados com a mesma reverência e santi­ dade com que o povo se aproximava de seuDeus. Exatamente como os objetos eram ins­ trumentos da presença de Deus, certas pessoas eram vistas como os representan­ tes especiais de Deus. Os primogênitos recebiam um tratamento especial de Deus e do homem desde os tempos an­ tigos. Os levitas deviam ser considerados como na mesma relação dupla. Deviam 103
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    ser tratados deuma maneira diferente, porque pertenciam a Deus de uma ma­ neira especial. Os levitas não recebiam esse tratamento diferenciado por causa de suas pessoas, mas, sim, por causa da Pessoa de quem eram representativos. Uma parte da família levítica, que che­ gou a ser conhecida como “os sacerdo­ tes, osfilhos de Arão”, era dotada com a mesma relação invulgar com Deus e com o seu semelhante. Em certa medida, o princípio de direito por nascimento dizia respeito ao primogênito, ao levita e ao sacerdote. O primogênito tinha o direito e a responsabilidade de uma porção do­ brada na herança, na guerra eno culto. Uma das contribuições predominantes feitas pelo livro de Números é a explica­ ção do processo pelo qual os filhos de Arãovieram a ser os representantes reli­ giosos autoritários, mesmo à luz da im­ portância de Moisés. Houve muitas oca­ siões em que surgiu a luta pelo poder entre o povo hebreu. Notar a desaprova­ ção por parte de Miriã e de Arão com relação a Moisés, de sua esposa, e a mudança da autoridade ou na corrente de comando. Essas situações tensas leva­ ram, em Israel, à necessidade de alguma autoridade “histórica”, pelo desloca­ mento, por parte da família de Arão, da supremacia ou levíticaou mosaica. EsboçodoLivrodeNúmeros I. A Organização Anterior à Partida de Sinai(1:1-10:10) 1. A Organização Para o Censo Militar (1:1-46) (1) AJunta doCenso(1:1-16) (2) O Censo porTribos(1:17-46) 2. AOrganizaçãoPara o Serviço doTa­ bernáculo (1:47-54) 3. A Organização Para o Acampamen­ to(2:1-34) 4. A Organização dos Sacerdotes e Le­ vitas(3:1-4:49) (1) As Gerações de Arão e Moisés (3:1-13) (2) ALinhagem ea Posição dos Le­ vitas(3:14,51) (3) O Censo das Famílias Levíticas (4:1-49) 5. AOrganização dos Regulamentos do Acampamento(5:1-10:10) (1) A Lei da Exclusão do Acampa­ mento(5:1-4) (2) ALei da Restituição(5:5-10) (3) ALei doCiúme(5:11-31) (4) ALeidoNazireado(6:l-27) (5) AConsagração doAltar (7:1-89) (6) As Instruções Para os Meno- rahs (8:1-4) (7) A Lei da Separação dos Levitas (8:5-26) (8) A Lei Para uma Observância Adicional daPáscoa(9:1-14) (9) O Significado da Nuvem com Aparência deFogo(9:15-23) (10) As Regras das Trombetas de Prata (10:1-10) II. Israel em Marcha do Sinai a Parã (10:11-12:16) 1. O Relato Geral(Introdução) (10:11,12) 2. AOrdem da Marcha (10:13-28) 3. MoiséseHobabe (10:29-32) 4. APrimeira Etapa da Marcha (10:33-36) 5. As Reclamações doPovo (11:1-12:16) (1) AReclamaçãoemTabera (11:1-3) (2) A Reclamação em Quibrote-Ha- taavá(11:4-35) (3) AReclamação em Hazerote (12:1-16) III. As Reclamações no Deserto de Parã (13:1-21:35) 1. As Investivações Pelos Doze na Ter­ ra Prometida (13:1-33) 2. 30 ConselhoVotano Relatório (14:1-45) (1) ATurba Governa(14:1-3) (2) Moisés, Arão, Josué e Calebe Aconselham uma Linha de Ação (14:4-10a) 104
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    (3) Deus PronunciaoSeuJulgamen­ to(14:10b-38) (4) OJuízoÉ Irrevogável(14:39-45) 3. Várias LeisCultuais Sacerdotais (15:1-41) (1) Concernentes às Quantidades de Farinha, Oleo e Vinho em Rela­ ção aos Holocaustos e às Ofertas deLibação(15:1-16) (2) Concernente à Oferta de um Bolo das Primícias dos Cereais (15:17-21) (3) Concernente à Oferta Pelo “Pe­ cado Involuntário” (15:22-29) (4) Concernente ao Pecado Proposi­ tado(15:30-36) (5) Concernente àsFranjas (15:37-41) 4. ALuta PeloPoder(16:1-18:32) (1) As Rebeliões de Corá, Datã e Abirão(16:1-50) (2) O Brotamento da Vara de Arão (17:1-11) (3) O Reconhecimento da Congre­ gação(17:12,13) (4) Os Deveres e Direitos dos Levi­ tas edos Sacerdotes(18:1-32) 5. Instruções Concernentes à Contami­ naçãoPeloContato comum Cadáver (19:1-22) 6. Miriã, Moisés e Arão Não Poderiam Entrarna Terra Prometida (20:1-29) 7. As Peregrinações Finais Anteriores àTravessia doJordão(21:1-35) (1) Israel Confronta o Rei de Arade (21:1-3) (2) As Serpentes Abrasadoras; As Serpentes —Os Serafins(21:4-9) (3) A Marcha de Punom até Pisga (21:10-20) (4) A Vitória Sobre Siom, Rei dos Amorreus(21:21-32) (5) A Vitória Sobre Ogue, Rei de Basã(21:33-35) IV. Israel Acampado nas Planícies de Moabe(22:1-36:13) 1. O Registro Sobre Balaque e Balaão (22:1-24:25) (1) Introdução(22:1-6) (2) Os Primeiros Emissários de Moabe eMidiã a Balaão (22:7-14) (3) O Segundo Grupo de Emissários (22:15-21) (4) A Viagem de Balaão até Moabe (22:22-35) (5) Balaque e Balaão Encontram-se (22:36-41) (6) O Primeiro Oráculo de Balaão Sobre Israel(23:1-12) (7) O Segundo Oráculo de Balaão Sobre Israel(23:13-26) (8) O Terceiro Oráculo de Balaão Sobre Israel(23:27-24:13) (9) Os Demais Oráculos de Balaão (24:14-25) 2. O Perigo Religioso de Alianças Pa­ gãs(25:1-18) 3. Um CensoAdicional(26:1-65) (1) AForça Militar(26:1-51) (2) O Princípio dasHeranças (26:52-56) (3) Os Levitas(26:57-62) (4) Calebe e Josué São os Únicos a Constar em Ambos os Censos (26:63-65) 4. NovasLeis de Heranças(27:1-11) 5. Um Novo Líder, Josué, Ê Designado (27:12-23) 6. As Instruções Concernentes ao Ca­ lendárioCultual(28:1-29:39) (1) Introdução (28:1,2) (2) AOferta Diária(28:3-8) (3) AOferta do Sábado(28:9, 10) (4) AOferta da LuaNova (28:11-15) (5) AFesta dosPães Ázimos (28:16-25) (6) A Festa das Primícias (28:26-31) (7) O Primeiro Dia do Sétimo Mês (29:1-6) (8) O Décimo Dia do Sétimo Mês (29:7-11) (9) O Décimo Quinto Dia do Séti­ moMês(29:12-38) (10) Conclusão(29:39) 7. As Instruções Concernentes aos Vo­ tos(29:40-30:16) (1) ALei doVoto(29:40-30:2) 105
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    (2) O Votode umaMulher (30:3-16) 8. A Vingança Contra os Midianitas (31:1-54) (1) A Seleção do Exército da Vin­ gança(31:1-6) (2) ABatalha (Guerra Santa) (31:7-12) (3) AIra de Moisés(31:13-18) (4) A Purificação dos Homens e dos Despojos (31:19-24) (5) A Contagem e Distribuição da Presa(31:25-54) 9. O Pedido dos Rubenitas e dos Gadi- tas Leva à Divisão da Transjordânia (32:1-42) (1) O Pedido de Rúben e Gade (32:1-5) (2) AAdvertência deMoisés (32:6-15) (3) Rúben eGadeExplicam-se (32:16-27) (4) O Acordo Feito(32:28-32) (5) A Terra Para o Leste do Jordão Dividida(32:33-42) 10. Uma Revista da Viagem doEgito até asPlanícies de Moabe (33:1-49) (1) Introdução (33:1-4) (2) De Ramessés até o Deserto de Sinai(33:5-15) (3) Do Sinai até oMonte Hor (33:16-40) (4) Do Monte Hor até as Planícies de Moabe(33:41-49) 11. As Instruções Finais Anteriores à Travessia doJordão(33:50-36:12) (1) Despejar Todos os Habitantes e DemolirTodoCultoPagão (33:50-56) (2) As Fronteiras a Serem Estabele­ cidas(34:1-29) (3) AsCidadesPara osLevitas (35:1-28) (4) PormenoresLegais(35:29-36:12) 12. Conclusão Referente às Leis na Pla­ nície de Moabe(36:13) Bibliografia Selecionada ALBRIGHT, W. F. “The Oracles of Ba­ laam”, Journal of Biblical Literature, LXIII (1944), 207-233. BINNS, L. ELLIOTT. “The Book of Numbers”, Westminster Commenta­ ries. Eds. Walter Lock e D. C. Simp­ son. Londres: Methuen &Co., 1927. GOTTWALD, NORMAN K: ‘“Holy War’ in Deuteronomy”, Review and Expositor, LXI(1964), 296-310. GRAY, G. B. Numbers, “The Interna­ tional Critical Commentary”. New York: Charles Scribner’sSons, 1903. KENNEDY, A. R. S. “Leviticus and Numbers”, The Century Bible. Lon­ dres: CaxtonPublishingCo., n.d. MARSH, JOHN e BUTZER, A. G. “Numbers”, The Interpreter’s Bible, Vol. II. Nashville: Abingdon Press, 1953. McNEILE, A. H. “Numbers”,TheCam­ bridge Bible. Cambridge: Cambridge UniversityPress, 1911. MENDENHALL, G. E. “The Census Lists of Numbers 1 and 26”. Journal ofBiblical Literature. LXXVII (1958), 52-56. NOTH, MARTIN. “Numbers: A Com­ mentary”, trad. J. D. Martin, The Old Testament Library. Filadélfia: West­ minster Press, 1968. SNAITH, N. H. “Numbers”, Peake’s Commentaryon the Bible. New York: ThomasNelson and Sons, 1962. “Leviticus and Numbers”, The Cen­ tury Bible. Londres: Thomas Nelson and Sons, 1967. DE VAUX, ROLAND. Ancient Israel: Its Life and Institutions. Trad. John McHugh. New York: McGraw-Hill BookCo., 1961. 106
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    Comentário SobreoTexto I. AOrganização Anterior à Par­ tidadeSinai(1:1-10:10) 1.' A Organização Para o Censo Militar (1:1-46) O escritor deixou claro que o contexto original do livro era do tempo de Moisés e que alguma parte do material é mosai­ ca. Porém muitas referências, através do livro, revelam que idéias e práticas pos­ teriores foram usadas como o vocabulá­ rioeveículosdesseseventoseidéias. O primeiro versículo de Números pro­ cura estabelecer uma ligação adequada com o livro de Levítico, pelo acréscimo dos dados cronológicos. Depois que os filhos de Israel foram libertados da es­ cravidão egípcia, muitos aspectos de sua vida comunitária passaram por mudan­ ças e reorganização. Muitas leis toma­ ram-se necessárias, em ocasiões diferen­ tes, à medida que o povo empreendeu a mudança da escravidãopara a liberdade, da não-organização para a nacionalida­ de, de serem abrigados pelos seus capto­ res para a responsabilidade de se prote­ gerem. Semelhantemente, depois de as observâncias cultuais alcançarem um pa­ drão definido, a necessidade de uma evidência mais regular e contínua da presença deDeus sefazia sentir. A cronologia dos eventos do livro visa mais estabelecer a relação entre esses eventos do que colocá-los dentro do con­ texto do calendário. A abertura deste livro é datada no mês subseqüente à ereção do tabernáculo. O registro sacer­ dotal de Êxodo 40:17 relata que do tem­ po do êxodo até a ereção do tabernáculo passou-se apenas um ano. Não demorou muito para os líderes perceberem a ne­ cessidade de um centro focalizador da atividade religiosa. Os israelitas viveram no Egito, onde conheceram muitos tem­ plos e santuário. Sem dúvida, os seus antepassados tinham transmitido a eles ashistórias davidano “velhopaís”, onde haviauma “moradiapara Deus”, comoo centro de suas comunidades. A demora no tempo da ereção do tabernáculo até o trabalho registrado no livro de Núme­ ros foi de um mês. É neste espaço que o texto parece colocar as leis do livro de Levítico(Êx. 40:2,17; Núm. 1:1). As me­ didas para a organização da vida cultual do povo de Israel são registradas em primeiro lugar, seguidas pela organiza­ ção mais prática. O primeiro segmento das leis políticas diz respeito à proteção dopovoem época de guerra. (1) AJunta do Censo(1:1-16) 1Falou o Senhor a Moisés no deserto de Sinai, na tenda da revelação, no primeiro dia do segundo mês, no segundo ano depois da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, dizendo: 2 Tomai a soma de toda a congregação dosfilhosde Israel, segundo as suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes de todo o homem, cabeça por cabeça; 3 os da idade de vinte anos para cima, isto é, todos os que em Israel podem sair à guerra, a esses contareis segundo os seus exércitos, tu e Arão. 4 Estará convosco de cada tribo um homem que seja cabeça da casa de seus pais. 5Estes, pois, são os nomes dos homens que vos assistirão: de Rúben, Elizur, filho de Sedeur; 6 de Simeão, Selumiel, filho de Zurisadai; 7 de Judá, Nasom, filho de Ami- nadabe; 8 de Issacar, Netanel, filho de Zuar; 9de Zebulom, Eliabe, filho de Helom; 10 dos filhos de José: de Efraim, Elisama, filho de Pedazur; 11 de Benjamim, Abidã, filho de Gideôni; 12 de Dã, AÍzer, filho de Amisadai; 13de Aser, Pagiel, filho de Ocrã; 14 de Gade, Eliasafe, filho de Deuel; 15 de Naftali, Afrá, filho de Enã. 16 São esses os que foram chamados da congregação, os príncipes dastribos de seus pais, os cabeças dosmilhares de Israel. Tomai a soma (v. 2). No Oriente Mé­ dio, havia dois motivos principais para um censo, segundo os registros antigos. Talvezocenso fosse necessário para veri­ ficar as possíveis fontes de renda por 107
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    impostos (cf. Êx.38:26). O outro motivo é o aqui indicado no versículo 3, para determinar o tamanho potencial de uma forçaarmada. Havia muitosplanos, rela­ cionados à marcha pelos desertos, regis­ trados como tendo sido feitos logo no começo da viagem. Esses planos eram importantes para uma marcha ordeira e também para os acampamentos periódi­ cos durante tão longa viagem. O texto ressalta a contagem dos homens robustos com o fim de saber a força de seu exér­ cito. Não se ousava passar pelo deserto sem alguma proteção. Evidentemente, cada tribo(as casas de seus pais) tinha alguma organização ou sistema de proteção, visto que o versí­ culo 3registra que Moisés eArão haviam de congregar todas “segundo os seus exércitos”. As famílias eram básicas para toda a estrutura social de Israel, e as genealo­ gias eram contadas pelas casas de seus pais (cf. os v. 2,4,18,20). Uma das ma­ neiras convencionadas de se referir ao períodobíblico antigoépelo título “ope­ ríodo patriarcal”. Em muitos períodos da história de Israel, pessoas de outras famílias, áreas ou raças se juntaram a eles. É possível que, ao longo da marcha, Israel tenha ganho alguns seguidores das “multidões mistas”. Eram assimilados tão completamente no tecido social, que não selhes fazia nenhuma distinção den­ tro dosclãs de Israel. Toda esta contagem devia ser em­ preendida sob a direção de Moisés e Arão, com o auxílio de um conselho composto de um homem de cada tribo. Este conselheiro tinha que ser o cabeça da casa de seus pais. O motivo da pre­ sença de um conselheiro de cada tribo podia estar no fato de ele ter que iden­ tificaroshomens de sua tribo. Segundoassuasfamílias enfoca o con­ ceito da solidariedade da família. Dentro de uma tribo, era incluso qualquer nú­ mero de famílias ou clãs. Um clã abran­ geria várias casas de seus pais. Havia várias famílias descendentes de Abraão, sendo que algumas delas seajuntavam de uma forma um tanto incoesa em diversas ocasiões. Essa ligação anfictiônica veio a existir de maneira pragmática e pela convivência, mais do que em virtude de algum mandamento antigo. O princípio do auxílio mútuo entre grupos era bem conhecido. De fato, a organização de um número determinado de grupos parece ter sido bastante co­ mum. Por exemplo, o registro das tribos de Israel e de Esaú usa a forma dos “doze” (Gên. 25:16; 36:9-14). Os gru­ pos, são relacionados em 1:5-15. (2) OCensoporTribos(1:17-46) 17 Então tomaram Moisés e Arão a esses homens que são designados por nome; 18e, tendo ajuntado toda a congregação no pri­ meiro dia do segundo mês, declararam a linhagem deles segundo as suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes dos de vinte anos para cima, cabeça por cabeça; 19 como o Se­ nhor ordenara a Moisés, assim este os con­ tou no deserto de Sinai. 20 Os filhos de Rúben, o primogênito de Israel, as suas gerações, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes, cabeça por cabeça, todo homem de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guerra, 21 os que foram contados deles, da tribo de Rúben, eram quarenta e seis mil e quinhentos. 22 Dos filhos de Si- meão, as suas gerações, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes, cabeça por cabeça, todo homem de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guerra, 23 os que foram contados deles, da tribo de Simeão, eram cinqüenta e nove mil e trezentos. 24 Dos filhos de Gade, as suas gerações, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes dos de vinte anospara cima, todos os que podiam sair à guerra, 25 os que foram contados deles, da tribo de Gade eram quarenta e cinco mil seiscentos e cinqüenta. 26 Dos filhos de Ju- dá, as suas gerações, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes dos de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guerra, 27 os que foram contados deles, da tribo de Judá, eram setenta e quatro mil e seiscen­ tos. 28 Dos filhos de Issacar, as suas gera- 108
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    ções, pelas suasfamílias, segundo as casas de seus pais, conforme onúmero dos nomes dos de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guerra, 29 os que foram con­ tados deles, da tribo de Issacar, eram cin­ qüenta e quatro mil e quatrocentos. 30 Dos filhos de Zebulom, as suas gerações, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes dos de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guerra, 31 os que foram contados deles, da tribo de Zebulom, eram cinqüenta e sete mil e quatrocentos. 32 Dos filhos de José: dos filhos de Efraim, as suas gera­ ções, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes dos de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guerra, 33 os que foram con­ tados deles, da tribo de Efraim, eram qua­ renta mil e quinhentos; 34 e dos filhos de Manassés, as suas gerações, pelas suas fa­ mílias, segundo as casas de seus pais, con­ forme onúmerodos nomesdos de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guer­ ra, 35 os que foram contados deles, da tribo de Manassés, eram trinta e dois mil e du­ zentos. 36 Dos filhos de Benjamim, as suas gerações, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes dosde vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guerra, 37 os que foram contadosdeles, da tribo de Benjamim, eram trinta e cinco mil e quatrocentos. 38 Dos filhos de Dã, as suas gerações, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme o número dos nomes dos de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guerra, 39 os que foram contados deles, da tribo de Dã, eram sessenta e dois mil e sete­ centos. 40 Dos filhos de Aser, as suas gera­ ções, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais, conforme onúmero dos nomes dos de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guerra, 41 os que foram con­ tados deles, da tribo de Aser, eram quarenta e um mil e quinhentos. 42 Dos filhos de Naftali, as suas gerações, pelas suas famí­ lias, segundo as casas de seus pais, confor­ me o número dos nomes dos de vinte anos para cima, todos os que podiam sair à guer­ ra, 43 os que foram contados deles, da tribo de Naftali, eram cinqüenta e três mil e qua­ trocentos, 44 São esses os que foram con­ tados por Moisés e Arão, e pelospríncipes de Israel, sendo estes doze homens e represen­ tando cada um a casa de seus pais. 45 Assim todos os que foram contados dos filhos de Israel, segundo as casas de seus pais, de vinte anos para cima, todos os de Israel que podiam sair à guerra, 46 sim, todos os que foram contados eram seiscentos e três mil quinhentos e cinqüenta. Regras processualísticas(v. 17-19) Rúben —46.500(v. 20,21) Simeâo —59.300(v. 22,23) Gade —45.650(v. 24,25) Judá —74.600(v. 26,27) Issacar —54.400(v. 28,29) Zebulom —57.400(v. 30,31) Efraim-40.500 (v. 32,33) Manassés —32.200(v. 34,35) Benjamim —35.400(v. 36,37) Dã —62.700(v. 38,39) Aser —41.500(v. 40,41) Naftali —53.400(v. 42,43) Total 603.550(v. 44-46) Na introdução a Números, há três termos que se relacionam entre si, mas que não são sinônimos — i.e., as casas dos pais, a família e a tribo. A expressão as casas de seus pais é usada para cada tribo (menos para a de Levi). Através de toda a história de Israel, há vários seg­ mentos dentro da estrutura tribal. Nesta expressão, casas de seus pais, pode-se ver que, finalmente, o grupo todo tinha uma coesãona descendência de um patriarca. Gerou, este, filhos por sua esposa ou por suas esposas. Também pode ter gerado filhos por sua concubina ou por suas concubinas (que eram, na realidade, es­ posas semreconhecimento legal). O termo família quer dizer clã, poste­ ridade ouum grêmio, tal como dos escri­ vães, que era hereditário dentro das fa­ mílias. Esta unidade pode também in­ cluir os filhos nascidos de concubinas. Quando se menciona cada uma das doze tribos, há referência a suas gerações, pelas suas famílias, segundo as casas de seus pais; e tribo é também referida, em caso de contagem. No primeiro capítulo, há um rígido esboço e terminologia, tipo sacerdotal, usados no registro do censo. Tal acúmulo de termos indica um longo período de desenvolvimento deste regis­ tro. Estas frases tinham significados es­ 109
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    peciais em períodosdiferentes da His­ tória. Esses termos são relacionados, clara­ mente, à consangüinidade com o pai. Porém o termo tribo pode passar a idéia de descendentes ou da extensão do poder e da pessoa do líder primitivo. Com toda a probabilidade, esta palavra remonta à época quando cada grupo era liderado por um “chefecomuma vara”. Esta vara eraum símbolode força eliderança, bem como uma arma. Cada tribo continha pessoas devárias gerações. Cada geração possuía diversas famílias ou clãs. Cada clã se compunha de várias casas de seus pais. Há alguma ambigüidade no significa­ do da palavra mil. A RSV a traduz por clãs (1:16), enquanto a ASR a verte como “milhares”, com a nota “ou famí­ lias” na margem (cf. Juí. 6:15; I Sam. 10:19). Notar o paralelo sinônimo em 1:16, entre “astribos de seus pais” e clãs de Israel (IBB, “milhares”). A palavra milhares pode designar uma unidade fa­ miliar ou uma companhia de mil ho­ mens, unida sob um líder. Usava-se o termo, às vezes, para semelhante unida­ de, sem especificar o número de homens envolvidos. Na fórmula deste censo, o versículo 21 talvez leia quarenta e seis (unidades), quinhentos. A palavra cem é sempre usada numericamente, de ma­ neira que pode ter havido 46 unidades na tribo de Rúben, com um total de 500 homens em idade hábil para o serviço militar. A tribo de Simeão pode ter tido 59unidades tribais, com um total de 300 militares; Gade 45 unidades e uma força militarde 650homens, etc. Se o tamanho da força adequada para o serviço militar totalizava 603.550 ho­ mens, onúmero total depessoas seria de, aproximadamente, 2 milhões. Norman Snaith conclui que, se marchassem em fileiras de cinqüenta, com um metro entre cada fileira e a seguinte, a coluna estender-se-ia por 35 quilômetros. Por conseguinte, muitos escritores questio­ nam a precisão de uma tradução que resultasse em semelhante total. Seria muito difícil, se não impossível, suster com comida e água uma multidão tão enorme durante as peregrinações no de­ serto. Os israelitas antigos são pintados co­ mo marchandojuntos, desde o Egito até a Terra Prometida, numa unidade tão compacta que se precisava de apenas “duas...trombetas” para congregar todo opovo (10:2). Deuteronômio 7:17-24 as­ sinala que algumas das nações que ha­ viam de encontrar nas suas viagens eram maiores que eles. Um exército de 603.000 seriaum exército sobrepujante. O crescimento de um grupo de 70 pessoas em uma multidão de 2 milhões, no período de tempo de José a Moisés, seria altamente surpreendente. Seme­ lhante aumento rápido de população só por silevantaria uma dúvida. Se a palavra for traduzida por clã ou unidade, no lugar de mil, teríamos 598 unidades dentro das 12 tribos, com uma força militar de 5.500. É preciso notar, todavia, que as cifras totais (v. 46) foram incluídas pelo compilador sacerdotal na base da tradução de “mil”. 2. A Organização Para o Serviço do Ta­ bernáculo(l;47-54) 47 Mas os levitas, segundo a tribo de seus pais, não foram contados entre eles; 48 por­ quanto o Senhor dissera a Moisés: 49 So­ mente não contarás a tribo de Levi, nem tomarás a soma delas entre os filhos de Israel; 50 mas tu põe os levitas sobre o ta­ bernáculo do testemunho, sobre todos os seusmóveis, e sobre tudo oque lhe pertence. Eles levarão o tabernáculo e todos os seus móveis, e o administrarão; e acampar-se-ão ao redor do tabernáculo. 51 Quando o taber­ náculo houver de partir, os levitas o desar­ marão; e quando otabernáculo se houver de assentar, os levitas o armarão; e oestranho què se chegar será morto. 52 Os filhos de Israel acampar-se-ão, cada um no seu ar­ raial, e cada um junto ao seu estandarte, segundo os seus exércitos. 53 Mas os levitas acampar-se-ão ao redor do tabernáculo do testemunho, para que não suceda acender- 110
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    se Ira contraa congregação dos filhos de Israel; pelo que oslevitas terão ocuidado da guarda do tabernáculo do testemunho. 54Assim fizeram os filhos de Israel; confor­ me tudo o que o Senhor ordenara a Moisés, assim ofizeram. Os levitas das tribos de seus pais não foram incluídos no censo, em razão de não constar na lista de deveres o serviço militar e este censo ter sido feito exclusi­ vamente com fins militares. Os levitas foram colocados à parte e tomaram o lugar dos primogênitos, como pertencen­ do especialmente a Deus. Visto que os primogênitos foram incluídos entre os aptos para a guerra, os levitas ficaram isentos. Alguns escritores sustentam que os levitasnão foram incluídos em razão de o censo ser contrário à vontade de Deus (II Sam. 24), e de serem eles santos. Portanto, seria errado incluir os levitas em semelhante assunto. Se esse for todo o motivo, Números 3:15 (os levitas ha­ viam de ser contados conforme 3:15) forçosamente há depertencer a um outro estrato cultural. Cada censo deve ser considerado no contexto em que é regis­ trado oufeito. Não há nenhuma certeza quanto ao conteúdo e à força do termo levitas.2 De fato, o termo pode às vezes conter uma referência genealógica, porém, em outras referências, pode fazer alusão a uma função que tem sido equacionada com este título. Levi foi o terceiro filho de Jacó e Léia. Como tal, foi o antepassado epônimo da tribo. A semelhança entre a palavra Levi e o nome Léia tem dado margem ao ponto de vista de que “Levi” é um nome gentílico, i.e., um leiaíta ou levita. Em 18:2 e 4, Levi é usado com a palavra cognata unir-se (heb., lwh). Assim, a idéia é de que um levita era alguém que estava “unido” a ou que assistia a al­ guém. 2 Johannes Pedeisem, Israel, Vols. III,IV (Copenhague: G. E. C. Gad), p. 680e ss. Um outro ponto de vista relacionado com esse baseia-se no fato de que os nomes dos sacerdotes em Gênesis 14:18, 41:45, 46:20, 47:22-26eÊxodo2:16, 3:1, 18:1 eram de não-israelitas. Assim, uma opinião é que eram estrangeiros que se uniram aos israelitas durante a viagem do Êxodo. Porém, o fato de não termos os nomes de nenhum sacerdote israelita de uma época primitiva não quer dizer, necessariamente, que não tenham existi­ do. Um argumento de silêncio não pode provarqualquer conclusão. Uma opinião concomitante seria que o levita era um assistente religiosohebreu ou não-israeli­ ta queera associado ao culto do taberná­ culoouaté a algum santuáriocultual. Será necessário o intérprete examinar cada uso em seu próprio contexto his­ tórico, para verificar se o termo levita é puramente genealógico, genealógico e funcional, ou puramente funcional. O termo não pode ser classificado como exclusivamente funcional, tendo em vista a existência de registros bem substancio­ sos de que Levi era uma das tribos ori­ ginais de Israel. No livro de Números, os levitas eram colocados à parte, para o serviço do san­ tuário. Os três graus da hierarquia são os levitas, os sacerdotes e o sumo sacerdote. Os levitasestavam abaixo dossacerdotes, os filhos de Arão. Entre os sacerdotes havia um sumo (grande) sacerdote (35: 25,28). Em alguns registros, os sacer­ dotes são chamados de levíticos, mas em 1:47-54 somente os levitas são anotados. Foram selecionados para funções sagra­ das, especiais, por ordem específica de Deus. Foram nomeados e feitos supervi­ sores do tabernáculo e de todos os seus apetrechos. Como parte de seu ofício, deviam transportar o tabernáculo e cui­ dar dele. Todo o trabalho a ser feito com relação à tenda estava a cargo dos levi­ tas. Também cabia a eles proporcionar proteção. O tabernáculo era o local físico que representava, para o povo de Israel, a 111
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    presença deDeus. Erao lugar da habita­ ção do Santo. Irradiando da tenda em todas as direções, havia a sua santidade. Os levitas eram separados como servos sagrados, e assim deviam cercar o taber­ náculo completamente com o seu acam­ pamento. Quanto mais próximo ao lugar santíssimo, tanto mais poderoso o efeito da santidade. Portanto, só o grande sa­ cerdotepodia entrar no lugar santíssimo. A presença de Deus como santa devia ser vista à luz da santidade e reverência que se presta a ele, que é santo e tem de ser reverenciado. A aproximação de sua santidade será dentro do contexto da aliança com ele. Os levitas incorporaram não apenas oofício, mas também oprivi­ légioe a honra do povo de Israel como a família da aliança. Eram os representan­ tes especiais do povo. Desse modo, de­ viam incorporar o princípio da primoge- nitura. Não eram servos de tempo par­ cial, mas precisavam manter sempre di­ ante de todo o povo as responsabilidades da aliança em cultoesantidade. As atividades reais dos levitas varia­ vam de vez em quando na história de Israel. Eles cuidavam dos vários segmen­ tos do santuário (I Crôn. 23:28-32). Al­ guns levitas são também citados como porteiros (II Crôn. 8:14), encarregados dos tesouros (I Crôn. 26:20), encarrega­ dos dos cânticos de ações de graças (Neem. 12:8) e como ajudando o povo a entender a Tora (Neem. 8:7). Houve épocas em que os cantores e os porteiros eram completamente separados dos levi­ tas. Na História posterior, os escribas assumiram a função didática da inter­ pretação da Tora. Assim, às vezes os levitas eram sacer­ dotais, e os sacerdotes, levitas. Porém, quando o termo levita ou levítico se tor­ nou mais funcional do que genealógico, não foi possível fazê-lo nem sinônimo de sacerdote nem algo completamente di­ versodele. Os deveres e a comissão dos levitas eram mais importantes aos propósitos do autor doque onúmero. Este trecho (1:47-54) completa o le­ vantamento populacional. Dois aspectos da vida de Israel que predominam no registro são o culto e a guerra. É, pro­ vavelmente, à luz do princípio da primo- genitura que os deveres do levita, dentro do culto do tabernáculo, são relaciona­ dos ao serviço militar. A idéia da primo- genitura incorporou os direitos tanto em guerra como no culto. O censo do pri­ meiro capítulo constitui a organização básica para a guerra, e este parágrafo contém a organização básica das provi­ dências para o culto e a presença de Deus. 3. A Organização Para o Acampamento (2:1-34) 0 ponto focal do acampamento era o tabernáculo. Formava-se um quadrado externo, com três tribos para cada lado da tenda. (1) Leste—ludá(2:1-9) 1Disse oSenhor a Moisése a Arão: 2 Osfi­ lhosde Israel acampar-se-ão, cada um junto ao seu estandarte, com as insígnias das casas de seus pais; ao redor, de frente para a tenda da revelação, se acamparão. 3Aola­ do oriental se acamparão os do estandarte do arraial de Judá, segundo os seus exérci­ tos; e Nasom, filho de Aminadabe, será o príncipe dos filhos de Judá. 4 E o seu exér­ cito, os que foram contados deles, era de setenta e quatro mil e seiscentos. 5 Junto a eles se acamparão os da tribo de Issacar; e Netanel, filho de Zuar, será o príncipe dos filhos de Issacar. 6 E o seu exército, os que foramcontadosdeles,era decinqüentae qua­ tro mile quatrocentos. 7Depoisa tribo de Ze- bulom; e Eliabe, filho de Helom, será o príncipe dos filhos de Zebulom. 8 E o seu exército, os que foram contados deles, era de cinqüentae sete mil e quatrocentos. 9 To­ dos os que foram contados do arraial de Judá eram cento e oitenta e seis mil e qua­ trocentos, segundo os seus exércitos. Esses marcharão primeiro. 112
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    Judá é atribo central, com Issacar de um lado eZebulom do outro. O acampa­ mento oriental inteiro (Judá) se compu­ nha de 186.400 pessoas. Judá havia de estabelecer o seu acampamento no leste, antes de os outros acampamentos serem erigidos. De frente para a tenda...se acamparão é apresentado na KJV como “distante, ao redor do tabernáculo”. O rabi Rashi interpretou o texto como significando uma milha ou dois mil cô- vados. (2) Sul —Rúben (2:10-17) 10 O estandarte do arraial de Rúben, se­ gundo os seus exércitos, estará para a ban­ da do sul; e Elizur, filho de Sedeur, será o príncipe dos filhos de Rúben. 11 E o seu exército, os que foram contados deles, era dequarenta e seis mile quinhentos. 12Junto a ele se acamparão os da tribo de Simeão; e Selumiel, filho de Zurisadai, será o prín­ cipe dos filhos de Simeão. 13 E o seu exér­ cito, os que foram contados deles, era de cinqüentae nove mile trezentos. 14Depois a tribo de Gade; e Eliasafe, filho de Reuel, será opríncipe dosfilhosde Gade. 15E o seu exército, os que foram contados deles, era de quarenta e cinco mil seiscentos e cin­ qüenta. lfi Todos os que foram contados do arraial de Rúben eram cento e cinqüenta e um mil quatrocentos e cinqüenta, segundo os seus exércitos. Esses marcharão em se­ gundo lugar. 17 Então partirá a tenda da revelação com o arraial dos levitas no meio dos arraiais; como se acamparem, assim marcharão, cada um no seu lugar, segundo osseus estandartes. Rúben é a tribo central para o lado meridional, com Simeão e Gade a cada lado dela. O acampamento de Rúben deviaserinstalado aosul, imediatamente depois de o acampamento de Judá, a leste, ter sidofixado. Oversículo 17 torna claro que a finali­ dade principal das instruções para o acampamento e a marcha era fazer com que a tenda da congregação ficasse no centro. A tenda tinha de ser guardada seguramente sempre. No acampamento, haveria três tribos para cada lado, os servos do tabernáculo formariam bem dentro dessas doze tribos. Em Êxodo 33:7-11 eNúmeros 11:24-30(materialE), a tenda “estava fora doarraial”. Na marcha, haveria seistribos na fren­ te e seis tribos a seguir. Embora os modelos do acampamento sejam predo­ minantes neste capítulo, as referências nos versículos 9b, 16b, 17, 24b e 31b indicam a centralidade da tenda da con­ gregação. (3) Oeste —Efraim(2:18-24) 18 Para a banda do ocidente estará o estandarte doarraial de Efraim, segundo os seus exércitos; e Elisama, filho de Amiúde, será o príncipe dos filhos de Efraim. 19 E o seu exército, os que foram contados deles, era de quarenta mil e quinhentos. 20Junto a eles estará a tribo de Manassés; e Gama- liei, filho de Pedazur, será o príncipe dos filhos de Manassés. 21 E o seu exército, os que foram contados deles, era de trin­ ta e dois mil e duzentos. 22 Depois a tri­ bo de Benjamim; e Abidã, filho de Gideô- ni, será o príncipe dos filhos de Benjamim. 23 E o seu exército, os que foram contados deles, era de trinta e cinco mil e quatrocen­ tos. 24 Todos os que foram contados do arraial de Efraim eram cento e oito mil e cem, segundo os seus exércitos. Esses mar­ charão em terceiro lugar. Efraim é a tribo que dá o seu nome a todo o acampamento ocidental. Assim como fora dado aos levitas a tarefa im­ portante de cercar imediatamente o pon­ to focal da presença de Deus, estas tri­ bos haviam de tomar o seu lugar de responsabilidade em proteger a tenda reverenciada. (4) Norte - Dã(2:25-34) 25 Para a banda do norte estará o estan­ darte do arraial de Dã, segundo os seus exércitos; e Aíezer, filho de Amisadal, será o príncipe dos filhos de Dã. 26 E o seu exér­ cito, os que foram contados deles, era de sessenta e dois mil e setecentos. 27 Junto a eles se acamparão os da tribo de Aser; e Pagiel, filho de Ocrã, será o príncipe dos filhos de Aser. 28 E o seu exército, os que foram contados deles, era de quarenta e um mile quinhentos. 29Depois a tribo de Nafta- 113
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    li; e Aírá,filho de Enã, será o príncipe dos filhos de Naftali. 30 E o seu exército, os que foram contados deles, era de cinqttenta e três mil e quatrocentos. 31 Todos os que foram contados do arraial de Dã eram cen­ to e cinqüenta e sete mil e seiscentos. Esses marcharão em último lugar, segundo os seus estandartes. 32 São esses os que foram contados dos filhos de Israel, segundo as casas de seus pais; todos os que foram contados dos arraiais segundo os seus exér­ citos, eram seiscentos e três mil quinhentos e cinqüenta. 33Os levitas, porém, conforme o Senhor ordenara a Moisés, não foram con­ tados entre os filhos de Israel. 34 Assim fizeram os filhos de Israel, conforme tudo o que o Senhor ordenara a Moisés; acampa­ ram-se segundo os seus estandartes, e mar­ charam, cada qual segundo as suas famí­ lias, segundoas casas de seus pais. Dã é o clã que mantém a posição central, na orla externa de proteção. Ê esta tribo que dá o seu nome ao grupo setentrional. Os acampamentos oriental, setentrio­ nal e meridional tinham a maior respon­ sabilidade na proteção. O grupo ociden­ tal era bem menor que os outros três. Entre osgrupos principais, Judá e Rúben eram osmaisfortes. A organização tradicional do povo do mundo oriental em clãs distintos apóia a idéia de que cada uma das casas dos seus pais possuía o seu próprio estandarte. A maior parte dos exércitos orientais tinhaemblemasreligiosos. O rabiAbraão Ibn Ezra registra a tradição de que o estandarte do acampamento meridional deRúben tinha a forma deum homem, o acampamento setentrional de Dã, a for­ ma de uma águia, o acampamento oci­ dental deEfraim, a forma de um boi, e o acampamento oriental de Judá, a forma deum leão. O povo de Israel havia de acampar cada um próximo de seu próprio estan­ darte. A palavra estandarte (degel) cos­ tuma ser traduzida por “pendão”, na maioria dos léxicos, com base provavel­ mente no fato de que uma divisão de um exército teria sua própria insígnia. Os rolosdeQumran, como também os papi­ ros de Elefantina, contêm esta palavra para significar divisão ou unidade de um exército (de Vaux, p. 226 e 227). De maneira que2:2 deveserentendido como j encampar-se-ão cada um próximo à sua própria(divisão militar), com oestandar­ te das casas de seus pus. Por todo o segundo capítulo, a palavra estandarte (v. 2,3,10,17,18,25,31,34) deverá ser in­ terpretada como divisão ou unidade mi­ litar. 4. A Organização dos Sacerdotes e Levi­ tas(3:1-4:49) (1) AsGeraçõesdeArãoe Moisés (3:1-13) 1 Estas, pois, eram as gerações de Arão e de Moisés, nodia em que o Senhor falou com Moisésnomonte Sinai. 2Osnomes dos filhos de Arão são estes: o primogênito, Nadabe; depois Abiú, Eleazar e Itamar. 3 São esses os nomes dos filhos de Arão, dos sacerdotes que foram ungidos, a quem ele consagrou para administrarem o sacerdócio. 4 Mas Nadabe e Abiú morreram perante o Senhor, quando ofereceram fogo estranho perante o Senhor no deserto de Sinai, e não tiveram filhos; porém Eleazar e Itamar administra­ ram o sacerdócio diante de Arão, seu pal. 5Então disse oSenhora Moisés: 6Faze che­ gar a tribo de Levi, e põe-nos diante de Arão, osacerdote, para que o sirvam; 7eles cumprirão o que é devido a ele e a toda a congregação, diante da tenda da revelação, fazendo o serviço do tabernáculo; 8 cuida­ rão de todos os móveis da tenda da revela­ ção, e zelarão pelo cumprimento dos deve­ res dos filhos de Israel, fazendo oserviço do tabernáculo. 9 Darás, pois os levitas a Arão e a seus filhos; de todo lhes são dados da parte dos filhos de Israel. 10Mas a Arão e a seus filhos ordenarás que desempenhem o seu sacerdócio; e o estranho que se chegar será morto. 11 Disse mais o Senhor a Moi­ sés: 12Eu, eu mesmo tenho tomado os levi­ tas do meio dos filhos de Israel, em lugar de todoprimogênito, que abre a madre entre'os filhos de Israel; e os levitas serão meus, 13 porque todos os primogênitos são meus. No dia em que feri a todos os primogênitos na terra do Egito, santifiquei para mim todos os primogênitos em Israel, tanto dos. homens como dos animais; meus serão. Eu souo Senhor. 114
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    Estas, pois, eramas Gerações de Arão edeMoisés. Esta frase integra esta seção na estrutura do Pentateuco como um todo. O Pentateucopode ser didivido nas dezseçõesde “gerações” (cf. Gên. 5:1 — gerações deAdão; 6:9 — de Noé; 10:£1— dos filhos de Noé; 11:10 — de Sem; 11:27 — de Tera; 25:12 — de Ismael; 25:19 — de Isaque; 36:1 — de Esaú; 37:2 — de Jacó: Núm. 3:1 — de Arão e Moisés). Estas divisões revelam tanto uma história genealógica quanto tam­ bém a história da salvação. Note-se que este último versículo coloca Arão antes de Moisés, conquanto se esperasse a or­ dem contrária. A ênfase, nesta seção, está claramente em Arão, no sentido de que o autor chama a atenção especifica­ mente para os sacerdotes, enquanto mantém ainda em foco o papel dos le­ vitas. Temos muita dificuldadeem distinguir entre a tradição sobre Moisés e a sobre Arão. Na verdade, é quase totalmente infrutífero fazer a tentativa. Não há ne­ nhum registro dos descendentes do pró­ prioMoisés dentro da corrente central de sua história. Os descendentes de Arão aparecem através de toda a história reli­ giosa de Israel como preservada no sa­ cerdócio. Não é Moisés que se conhece como o ancestral dos levitas. Porém se mostra Arão como estando diretamente relacionado com eles através de todo o sacerdócio. Os sacerdotes são introduzidos em 3:1-4 como a ordem posterior definida­ mente estabelecida, como os sacerdotes ungidos, muito embora anteriormente a ênfase toda recaísse sobre os levitas. Os sacerdotes eram consagrados (lit. enchi­ das as suas mãos; cf. Êx. 28:41; 29:9; Lev. 8:33). Porém os levitas não. A rela­ ção específica entre os sacerdotes e os levitas é difícil de se descobrir. Na reali­ dade, ela não é registrada como idêntica em todos os períodos nem das Escrituras nem da históriajudaica. Em Êxodo 6:16-25, achamos a linha­ gem da tribo de Levi. Levi teve três fi­ lhos: Gérson, Coate e Merári. Coate era o pai de Anrâo, que era o pai de Moisés e Arão. Números 3 também esboça a li­ nhagem de Levi e inclui as funções leví- ticas. A fim de que esse povo pudesse sobre­ vivernos desertos, em meioàs durezas da viagem, aos perigos de bandos de saltea­ dores, e à desproteção diante dos muitos deuses, ao longe do caminho, a impor­ tância especial e a centralidade da pre­ sença de Deus deveriam ser delegadas a uma parte muito especial da família. Note-se que se deu à tribo de Judá a função e a posição mais importantes na “política” do povo, ao passo que aos sacerdotes da linha de Arão, a função especial no aspecto “espiritual” de sua vida. A omissão de Moisés no versículo 2 é bem significativa. O sacerdócio mantém ocontrole sobre o enfoque deste historia­ dor. Através de todo omundo oriental, a posição do primogênito era única, na organização da família e para a posteri­ dade. Esperava-se que o primeiro filho masculino, em virtude de ser o primeiro filho nascido ao pai, assumisse uma par­ te dobrada de autoridade e de atividade. Esse direito dava, às vezes, uma posição de influência e, às vezes, era a causa de tensões familiares (por ex., Jacó, Esaú e Raquel). Não se sabia das origens da tradição da primogenitura, porém era compreendida por eles como um fato da vida. Aceitavam-na com naturalidade e raras vezes levantavam questões a esse respeito. Se o primogênito falecesse ou fosse morto, o direito da primogenitura passava automaticamente para o próxi­ mo filho. Depois de Nadabe, o filho mais velho, veio Abiú, e, então, Eleazar e Itamar. A história resumida de Nadabe e Abiú (3:4) é narrada mais completamente em Levítico 10:1-7 (cf. I Crôn. 24:2). Morre­ ram sem deixar filhos, o que colocou 115
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    Eleazar e Itamarna posição de filhos da famíliade Arão sobre odireito espiritual. O fogo estranho (“fogo profano”, nas versões inglesas) que Nadabe e Abiú ofe­ receram era contrário à lei sacerdotal, e osalienou da solidariedadereligiosa. A tribo de Levi devia servir às necessi­ dades de Arão e seus filhos. Todos os sacerdotes, ou seja, os descendentes de Arão — Eleazar e Itamar — eram levi­ tas, porém nem todos os levitas eram sacerdotes. Os levitas que não eram sa­ cerdotes tinham as suas funções levítica e cultual, mas eram os sacerdotes que constituíam o grupo central na vida do tabernáculo e na direção religiosa. Os deveres dos levitas são repetidos (cf. 1:50 e 51), com uma explicação importante, ou seja, eles haviam de ser assistentes sacerdotais. Pode-se ver a ênfase sacer­ dotal do escritor no fato de que os levitas foram dados de todo a Arão e aos seus filhos. A “qualquer outra pessoa” da RSV (3:10,38) é literalmente “o estra­ nho”, como no texto português. Exata­ mente da mesma forma como o fogo de Nadabe e Abiú não foi aceito porque era profano(lit., estranho), as pessoas que se aproximassempara servirno tabernáculo não podiam ser estranhas ou de famílias que não sacerdotais. A explicação etiológicã da história dos levitas é descrita sob outro prisma na relação dos primogênitos (3:11,12). Não existe qualquer dúvidade que o Universo inteiro e todos os seres vivos seus habi­ tantes são propriedade de Deus. Há, porém, seleções e vocações especiais. Os primogênitos estavam em semelhante ca­ tegoria já em época muito primitiva (cf. Êx. 13:2; 22:29 e 30; 34:19 e 20 JeE). Há uma substituição “um por um”: levitapor primogênito. O versículo 13 dá uma clara idéia de direito de proprieda­ de ou posse como a base para a subs­ tituição. Os primogênitos de Israel eram especiais, visto que foram preservados por uma separação miraculosa e distin­ guidos dos primogênitos egípcios. Esta distinção era tanto animal como huma­ na, e constituía mais uma prova signifi­ cativa da proximidade entre ohomem e o animal e vice-versa. O princípio da subs­ tituição, comoexplicadoem 3:45, abran­ gia tanto seres humanos como gado, na troca “um porum’’. O primeiro pertence a Deus, como também o que a partir daí for acrescen­ tado. As posses, os talentos, os lucros e osprimogênitospertencem a Deus. Men­ ciona-se essa relação aos dízimos e das ofertas trazidas no primeiro dia da se­ mana. A clara necessidade da santidade dos levitase dos sacerdotes(cf. oestranho e o pagão, bem como o profano) é um des­ taque central do livro de Levítico. A ên­ fase no meus serão. Eu sou o Senhor é uma expressão característica do Código Sacerdotal da Santidade (Lev. 17:26). Eu sou o Senhor contém uma singeleza depropósito econtrole que é um elemen­ toprimário na santidade. Os versículos 1-4 mostram a relação dos sacerdotes para com os levitas, como era entendida na época da redação final do livro de Números. Evidentemente, o padrão de referênciaésacerdotal. Os versículos 5-13 estabelecem a posi­ ção dos levitas em função de sua substi­ tuição dos primogênitos. Assim vemos, deforma inversa, a cronologia da organi­ zação religiosa oficial do povo de Israel. O fundamento para o culto, para o local do culto e para os apetrechos do culto, etc., éoDeus da aliança. (2) A Linhagem e a Posição dos Levitas (3:14-51) Em 3:14-4:49 se acha a explicação da linhagem e dos deveres dos levitas. Este censp realizou-se no deserto, e não na montanha. Nachmanides sugere que os sacerdotes foram nomeados no monte Sinai, mas os levitas comissionados no deserto de Sinai. O versículo 1 do capí­ tulo 3 fala das genealogias “no dia em 116
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    que oSenhorfalou comMoisés no monte Sinai”, embora o versículo 4 mostre a seleçãode Eleazare Itamarcomosendo o verdadeiro sacerdócio. O versículo 14 leva-nosseguramenteao deserto. 14 Disse mais o Senhora Moisés no deser­ to de Sinai: 15 Conta os filhos de Levi, segundo as casas de seus pais, pelas suas famílias; contarás todo homem da idade de um mês para cima. 16 E Moisés os contou conforme o mandado do Senhor, como lhe fora ordenado. 17 Estes, pois, foram os fi­ lhos de Levi, pelos seus nomes: Gérson, Coate e Merári. 18E estes são os nomes dos filhos de Gérson, pelas suas famílias: Lábni e Simei. 19 E os filhos de Coate, pelas suas famílias: Anrão, Izar, Hebrom e Uziel. 20 E os filhos de Merári, pelas suas famí­ lias: Mali e Musi. São essas as famílias dos levitas, segundo as casas de seus pais. Na contagem anterior, foram consi­ derados os homens acima de vinte anos. Neste censo, porém, todos os homens a partir de um mês de idade deviam ser relacionados. A explicação para as dife­ renças entre as idades selecionadas se vêna finalidade do censo. A faixa acima dos 20 é da idade da força e maturidade necessárias para a proteção. Mas os levi­ tas estavam sendo contados a fim de se verificar o número total de seres de ma­ neira que a substituição “um por um” pudesse ser efetivada. Um israelita tinha queserredimido com a idade de um mês ou menos. Tal seria a idade em que se considerava o levita como um substituto apropriado eválido. A origem das diversas linhas nas ge­ nealogias dos levitas é esboçada (3:14- 20): Levitevetrês filhos —Gérson, Coate eMerári: Gérson tevedoisfilhos —Líbni e Simei; Coate teve quatro filhos — Anrão (o pai de Moisés e Arâo), Izar, Hebrom e Uziel; Merári teve dois filhos —MalieMusi. 21De Gérson era a família dos libnitas e a família dos simeitas. São estas as famílias dos gersonitas. 22 Os que deles foram con­ tados, segundo onúmero de todos os homens da idade de um mês para cima, sim, os que deles foram contados eram sete mil e qui­ nhentos. 23 As famílias dos gersonitas acampar-se-ão atrás do tabernáculo, ao oci­ dente. 24 E o príncipe da casa paterna dos gersonitas será Eliasaie, filho de Lael. 25E osfilhosde'Gérson terão a seu cargo na tenda da revelação o tabernáculo e a tenda, a sua coberta e o reposteiro da porta da tenda da revelação, 26e as cortinas do átrio, e o reposteiro da porta do átrio que está junto ao tabernáculo e junto ao altar, em redor, como também as suas cordas para todo oseu serviço. 27De Coate era a família dos anramitas, e a família dos izaritas, e a família dos hebronitas, e a família dos uzie- litas; são estas as famílias dos coatitas. 28Segundo o número de todos os homens da idade de um mês para cima, eram oito mil e seiscentos os que tinham a seu cargo o santuário. 29 As famílias dos filhos de Coate acampar-se-ão ao lado do tabernáculo para a banda do sul. 30 E o príncipe da casa paterna das famílias dos coatitas será Eli- zafã, filhode Uziel. 31Eles terão a seu cargo aarcae a mesa, o candelabro, osaltares e os utensílios do santuário com que ministram, e o reposteiro com todo o seu serviço. 32E o príncipe dospríncipes de Levi será Eleazar, filho de Arâo, o sacerdote; ele terá a supe­ rintendência dos que têm a seu cargo o santuário. 33 De Merári era a família dos malitas e a família dosmusitas; são estas as famílias de Merári. 34 Os que deles foram contados, segundo o número de todos os homens de um mês para cima, eram seis mil e duzentos. 35 E o príncipe da casa paterna das famílias de Merári será Zuriel, filhode Abiail; eles se acamparão ao lado do tabernáculo, para a banda do norte. 36 Por designação os filhos de Merári terão a seu cargo as armações do tabernáculo e os seus travessões, as suas colunas e as suas bases, e todos os seus pertences, com todo o seu serviço, 37 e as colunas do átrio em redor e as suas bases, as suas estacas e as suas cor­ das. O ramo de Gérson (v. 21-26) tinha 7.500 homens com mais de um mês de idade, que haviam de tomar o seu lugar no acampamento no lado ocidental, en­ tre o tabernáculo e a tríade efraimita. Os seus serviços diziam respeito às co­ berturas externas da tenda, inclusive a própria tenda (Êx. 26:7-14), o reposteiro para a porta da tenda (Êx. 26:36), as 117
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    cortinas do átrio(Êx.27:9) e o reposteiro para a porta (Êx. 27:16). Os coatitas (v. 27-32) totalizavam 8.600, e dentre os oito netos de Levi, haveria servos suficientes para colocar dois filhos para cada lado do taberná­ culo. Moisés e Arão eram filhos dos anramitas, mas são anotados separada­ mente dentro do contexto sacerdotal (3:38). Os outros coatitas haviam de acampar no lado meridional da tenda, entre a tenda eo acampamento rubenita. Os seus serviços relacionavam-se com a arca, a mesa, o candelabro (Êx. 25:31- 40), os altares de bronze e de ouro (Êx. 27:1-8; 30:1-10), os vasos sagrados (Êx. 30:17-21; 31:7-11) e os reposteiros. (Havia três reposteiros na tenda: um na entrada (v. 25,31); um no portão do átrio (v. 26); e o que isolava o lugar santíssi­ mo, dentro da tenda.) O versículo 32 parece quebrar a conti­ nuidade histórica dentro deste capítulo. Porém, visto que Eleazar pertencia à família de Coate, pertencia por conse­ guinte, à linhagem levítica. O autor faz a observação de que ele era o filho de Arão e o chefe sobre todos os levitas. Esta observação havia de ser de grande importância numa época quando existia alguma diferença de opinião concernente à linhagem e seleção do sumo sacerdote ou à superioridade dentro da linha sacer­ dotal. Eleazarera omais velho filho exis­ tente, e assim assumiu o lugar do primo­ gênito, segundo a praxe de família deles. Os meraritas (v. 33-37) totalizavam 6.200 e deviam acampar-se no lado nor­ te, entre o acampamento de Da e a tenda. Os seus serviços abrangiam a es­ trutura da tenda (Êx. 26:15-30) e os suportespara oátrio(27:9-19). 38Diante do tabernáculo, para a banda do oriente, diante da tenda da revelação,acam- par-se-ão Moisés, e Arão com seus filhos, que terão a seu cargo o santuário, para ze­ larem pelo cumprimento dos deveres dos filhos de Israel; e o estranho que se chegar será morto. 39Todos os que foram contados doslevitas, queMoisése Arão contaram por mandado do Senhor, segundo as suas famí­ lias todos os homens de um mês para cima, eram vinte e dois mil. 40 Disse mais o Se­ nhor a Moisés: Conta todos os primogênitos dos filhos de Israel, da idade de um mês para cima, e toma o número dos seus no­ mes. 41 E para mim tomarás os levitas (eu sou o Senhor) em lugar de todos os primogênitos dos filhos de Israel, e o gado dos levitas em lugar de todos os primogê­ nitos entre o gado de Israel. 42Moisés, pois, contou, como o Senhor lhe ordenara, todos os primogênitos entre os filhos de Israel. 43E todos os primogênitos, pelo número dos nomes, da idade de um mês para cima, segundo os que foram contados deles, eram vinte e dois mil duzentos e setenta e três. 44 Disse ainda mais o Senhor a Moisés: 45 Toma os levitas em lugar de todos os primogênitos entre os filhos de Israel, e o gado dos levitas em lugar do gado deles; porquanto os levitas serão meus. Eu sou o Senhor. 46 Pela redenção dos duzentos e setenta e três primogênitos dos filhos de Israel, que excedem o número dos levitas, 47 receberás por cabeça cinco siclos; con­ forme o siclo do santuário os receberás (o siclo tem vinte jeiras), 48 e darás a Arão e a seus filhos o dinheiro da redenção dos que excedem o número entre eles. 49 Então Moisés recebeu o dinheiro da redenção dos que excederam o número dos que foram remidos pelos levitas; 50 dos primogênitos dos filhos de Israel recebeu o dinheiro, mil trezentos e sessenta e cinco siclos, segundo o siclo do santuário. 51E Moisés deu o dinhei­ ro da redenção a Arão e a seus filhos, con­ forme o Senhorlhe ordenara. Moisés e Arão (v. 38) junto com os filhos de Arão haviam de morar no leste, entre o acampamento de Judá e a tenda, o que representava a posição mais privi­ legiada. A família de Coate ficou encar­ regada dos apetrechos internos da tenda e dos próprios ritos a Serem realizados dentro dela. Havia uma maldição sobre qualquer intruso nesses atos ou lugares sagrados. As outras duas famílias, os gersonitas eos meraritas, eram trabalha­ dores e servos, e, como tais, ocupavam a posição menos favorecida, no sentido de carregarem os itens menos sagrados da tenda. Gérson ficou encarregado das co­ berturas, tanto de cima como dos lados. Merári, dos postes, encaixes, armações, 118
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    estacas e ascordas. Provavelmente se havia de dar a Itamara posição de super­ visor desses dois grupos, visto que Elea- zar era o principal de todos os líderes levíticos. A cifra total do censo era de 22.300, sendo que 7.500 eram de Gérson, 8.600 de Coate, 6.200 de Merári. Sem dúvida, Moisés, Arão e os filhos de Arão eram contados nolugar certo entre os coatitas. Porém o versículo 39 dá o total como sendo de apenas 22 mil. Tem-se dado váriasexplicações para essa diferença. Uma dessas explicações é a alegação de que tenha havido um erro textual no número total dos coatitas. O total apare­ ce no versículo 28 como de 8.600, porém se sugere que uma letra tenha sido omi­ tida. Apalavra hebraica para seis é shsh. Tem-se sugerido que um “1” tenha caído do texto. A palavra shlsh significa três. Dessaforma, onúmero total dos coatitas seria de apenas 8.300 e, por conseguinte, a cifra de 22 mil seria correta. O Talmu- de mantém a cifra total de 22.300 levitas primogênitos. Visto que havia primogê­ nitos entre os próprios levitas, eles não podiam liberar 300 primogênitos corres­ pondentes dentre osnâo-levitas. Duas vezes o texto diz que todos os homens dessa idade totalizavam 22 mil. Quando seexamina ouso costumeiro dos números por parte dos hebreus, percebe- se que há um emprego preciso de núme­ ros, e, portanto, o emprego de números redondos. Esse ajuste no uso dos núme­ ros ainda é uma realidade entre os ju­ deus. Ãs vezes, naturalmente, é muito difícil, se não impossível, descobrir qual o sistema de emprego de números que se deveaplicar. É muito difícil correlacionar todas as cifras, em Números, de acordo com um padrão compreensível. Por exemplo, ha­ via 22 mil filhos primogênitos do sexo masculino entre uma população de, aproximadamente, 2 milhões de pessoas. Dariauma média de, aproximadamente, oito filhos por família, isso, já desconta­ dos os avós e casais sem filhos. Essa cifra, como média, é elevada, embora não sejaum número tão exagerado quan­ to possa parecer, se lembrarmos das fa­ míliasgrandes; que sãocaracterísticas do mundo oriental. Porém deve-senotar qué na família de Levi (Gérson, o primogê­ nito) havia só três do sexo masculino; na família de Gérson, apenas dois; Coate tinha quatro do sexo masculino; Merári, dois. Esta linhagem compunha-se de fa­ mílias pequenas. De forma que a lista que foi preservada para nós, neste livro, não condiria com a média numérica de uma congregação tão enorme. Um dos problemas principais está na disponibilidade ou transporte do alimen­ to e da água para uma assembléia tão grande. The Interpreter’s Bible propõe que estas cifras não devem ser tomadas como exatas, mas que tinham o propósi­ to de dar uma compreensão clara dos grandes atos de Deus (Marsh e Butzer, p. 158). O número dos levitas é relacionado (3:39) como sendo de 22 mil. O número dosprimogênitosem Israel era de 22.273. Assim, a comparação do censo dá 273 primogênitos a mais em Israel do que o- número dè levitas. Visto que os levitas haviam de ser aceitos como substitutos para os primo* gênitos, os 22 mil seriam substituídos^ “um por um”. Mas os 273 teriam sido redimidos, à razão de cinco siclos cada um. Estes siclos deviam ser calculados conforme o síclo do santuário (cf. Êx. 30:13). Uma tradição judaica reza que cinco sicloseram iguais às vinte peças de prata pelas quais se venderam José para o Egito. Este siclo era do peso de 20jeiras (cf. Êx. 30:13; Lev. 27:25; Núm. 18:16; Ez. 45:12). O siclo das medidas antigas, fenícia ou hebraica, era mais pesado que o siclo da Babilônia usado em tempos ulteriores. O escritor toma o cuidado de indicar o peso maior, ao invés do peso menor, que seusava na época dele. À ra- 119
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    zão de cincosiclos para cada um dos 273 israelitas, Moisésrecebeu 1.365, e deu-os a Arãoeaos seusfilhos. A pergunta quanto ao método usado para levantar essa quantia fica sem res­ posta. Em Êxodo 30, cada pessoa tinha de dar meio siclopela sua redenção. Não há qualquer fundamento para se julgar sehavia distribuição da quantia que cada levita tinha de pagar ou se era usado outro método para se levantar os fundos. No versículo 45, há menção específica da redenção também do gado de Israel pelo gado doslevitas. Os primogênitos do gado de Israel também pertenciam, de uma maneira santa, especial, a Deus (3:12, 13), o que, mais uma vez, reflete a posição dos primogênitos na experiên­ cia da Páscoa egípcia. Não se faz nenhu­ ma mençãoda contagem do gado. Mas a troca do gado pertencente a Levi e a Israel constituía mais uma modificação da posição convencionada dos primogê­ nitos. O princípio da substituição abre a questão da possibilidade da troca dos recebedores da honra e da responsabili­ dade. O padrão convencional da vida, no Oriente Médio, envolvia o primogênito, por via de regra. O filho mais velho de sexo masculino gozava de certos privilé­ gios, tais como precedência, herança e posição. Embora o princípio ou os mo­ tivos para a concessão dos privilégios e deveres permaneçam, o instrumento pa­ ra a realização desse princípio pode ser (1) mudado, comouma variação da regra (cf. Jacó e Esaú; Peres e Zerá; Davi, o mais novo de sua família; Salomão, o filhomais novode Davi), ou (2) mudado, como uma praxe normal (cf. os levitas pelos primogênitos; a igreja por uma raça). Os direitos dos primogênitos po­ diam ser perdidos por causa de alguma infração séria ou ser transferidos por acordo. A seleção dos “escolhidos” devia ficar sempre nas mãos deDeus. (3) OCensodasFamíliasLevíticas (4:1-49) 1Disse mais o Senhor a Moisés e a Arão: 2 Tomai a soma dos filhos de Coate, dentre osfilhosde Levi, pelas suas famílias, segun­ doas casas de seus pais, 3 da idade de trinta anos para cima até os cinqttenta anos, de todos os que entrarem no serviço para faze­ rem o trabalho na tenda da revelação. 4 Este será o serviço dos filhos de Coate na tenda da revelação, no tocante às coisas santíssimas: 5Quandopartir oarraial, Arão e seus filhos entrarão e, abaixando o véu do reposteiro, com ele cobrirão a arca do tes­ temunho; 6 pôr-lhe-ão por cima uma co­ berta de peles de golfinhos, e sobre ela estenderão um pano todo de azul, e lhe me­ terão os varais. 7 Sobre a mesa dos pães da proposição estenderão um pano de azul, e sobre ela colocarão os pratos, as colheres, as tigelas e os cântaros para as ofertas de libação; também o pão contínuo estará so­ bre ela. 8 Depois estender-lhe-ão por cima um pano de carmesim, o qual cobrirão com uma coberta de peles de golfinhos, e mete­ rão à mesa os varais. 9 Então tomarão um pano de azul, e cobrirão o candelabro da lu­ minária, as suas lâmpadas, os seus espevi- tadores, os seus cinzeiros, e todos os seus vasos de azeite, com que o preparam; 10e o envolverão, juntamente com todos os seus utensílios, em uma coberta de peles de gol­ finhos, e o colocarão sobre os varais. 11 So­ bre o altar de ouro estenderão um pano de azul, e com uma coberta de peles de golfi- lhos o cobrirão, e lhe meterão os varais. 12 Também tomarão todos os utensílios do ministério, com que servem no santuário, envolvê-los-ãonum pano de azule, cobrindo- oscom uma coberta de peles de golfinhos, os colocarão sobre os varais. 13 E, tirando as cinzas do altar, estenderão sobre ele um pano de púrpura; 14colocarão nele todos os utensílios com que o servem: os seus bra­ seiros, os garfos, as pás e as bacias, todos os utensílios do altar; e sobre ele estenderão uma coberta de peles de golfinhos, e lhe meterão os varais. 15 Quando Arão e seus filhos, ao partir o arraial, acabarem de co­ brir o santuário e todos os seus móveis, os filhos de Coate virão para levá-lo; mas nas coisas sagradas não tocarão, para que não morram; esse é o cargo dos filhos de Coate na tenda da revelação. 16 Eleazar, filho de Arão, o sacerdote, terá a seu cargo o azeite da luminária, o incenso aromático, a oferta contínua de cereais e o óleo da unção; isto é, terá a seu cargo todo o tabernáculo, e tudo o que nele há, o santuário e os seus 120
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    da idade mínima,bemcomo da máxima, era denotar os anos do pleno vigor da forçafísica, vistoque tãogrande parte do trabalho dizia respeito ao transporte e à montagem das diversas partes da tenda. A Septuaginta coloca a idade mínima como sendo de 25 (cf. 8:24). Acha-se a mesma mudança de 30 para 25 anos, na Septuaginta, também nos versículos 23 e 30. Registra-se a idade mínima como de 20 anos, sem nenhuma menção de uma idade máxima, em Esdras 3:8 e I Crôni­ cas 23:24, porém em I Crônicas 23:3 o levantamento dos levitas se registra como de 30anos para cima. Os descendentes de Coate (v. 1-20) eram favorecidos entre os filhos de Levi, e faziam parte do ramo da árvore genea­ lógica do qual Moisés e Arão traçavam a sua linhagem. Os serviços dos coatitas relacionavam-se com as coisas santíssi­ mas. Os sacerdotes encaixotavam todos os utensílios, mas os coatitas os carrega­ vam. Haviam de mudar com a tenda. Os coatitas não podiam tocar nas coisas san­ tas, sob a pena de morte (v. 15); aliás, não haviam sequer de olhar para eles (v. 20) nem por um momento (lit., como uma engolição; ou seja, nem mesmo pelo espaço de tempo que se demora para en­ golir). Eleazar, filho de Arão, filho de Anrão, filho deCoate, filho deLevi, era o primogênito dos filhos restantes, de ma­ neira que havia de gozarda posição espe­ cial da supervisãoglobal(v. 16). Gérson(v. 21:28) era oprimogênito de Levi; Coate nasceu depois dele. A per­ gunta por que se deu a Coate os “privi­ légios da primogenitura” e não a Gérson é interessante. Este é outro indício da compilação do livro de Números num período ulterior, quando se tinha de de­ fender o sacerdócio da linha de Arão. Uma linhagem sacerdotal histórica tor­ nou-se muito importante depois da proe­ minência da realeza (monarquia). O sa­ cerdócio (sacerdocracia) podia defender- se por mostrar uma história começando antes do que qualquer outro ofício, fosse deprofeta ou de rei. A ênfase nos versículos 4-20 está na obra de Arão e de seus filhos, e não na dos coatitas. Na realidade, os versículos 5-15a tratam da obra de Arão e seus filhos. Quase como um pensamento sur­ gido depois, o registro acrescenta que quando Arão e seus filhos...acabarem... osfilhosdeCoatevirãoparalevá-lo. Nos versículos 21-28, os serviços dos gersonitas são descritos como os de car­ regadores das cortinas, da cobertura, do reposteiro e da tenda. Eleazar era o supervisor dos coatitas. Itamar, o último filho de Arão, era o supervisor tanto dos gersonitas como dos meraritas. É evidente que os levitas se situavam numa posição mais remota da presença de Deus do que os sacerdotes. Os levitas haviam de se aproximar do santuário e de seus apetrechos somente depois de os sacerdotes terem colocado um véu como cobertura sobre os apetrechos. Ã medida que a linha de Levi se estende em famí­ lias cada vez mais divergentes, observa- se uma reorganização progressiva dos trabalhos relacionados com o taberná­ culo. Os diversos grupos tornam-se “clãs-servos” dos sacerdotes. Alguns fo­ ram nomeados para posições mais próxi­ mas da presença de Deus do que outros. A proximidade relativa do santuário re- presentava-lhes o seu privilégio e dever de estarem perante Deus e o povo e apresentarem santidade. 5. A Organização dos Regulamentos do Acampamento(5:1-10:10) Até aqui, olivrocontém os regulamen­ tos ou as preparações para defesa, por meio de uma força armada, os regula­ mentos ou as preparações para o acam­ pamentoepara aviagem da congregação toda. No capítulo 5, tem início a seção relacionada com os regulamentos para o funcionamento interno do acampa­ mento. 122
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    (1) A LeidaExclusão do Acampamento (5:1-4) 1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Ordena aos filhos de Israel que lancem para foro do arraial a todo leproso, e a todo oque padece fluxo, e a todo o que está imundo por ter tocado num morto; 3 tanto homem como mulher os lançareis; para fora, sim, para fora do arraial os lançareis; para que não contaminem o seu arraial, no meio do qual eu habito. 4 Assim fizeram os filhos de Is­ rael, lançando-ospara fora doarraial; como o Senhor falara a Moisés, assim fizeram os filhosde Israel. Certas pessoas haviam de ser manti­ das fora do acampamento. Não podiam estar dentro docordão interno dos levitas nem dentro do coração externo das 12 tribos. As três categorias a serem excluí­ das são: osleprosos, aqueles com fluxos e os que tiveram contato com cadáveres. Essas três categorias tinham em comum um período de sete dias de purgação ritual e também o fato de que transmi­ tiam a sua contaminação. Eram conside­ radas imundas e, conforme a lei sacerdo­ tal, profanas. Muito mais do que a saúde física do acampamento estava envolvido nessas restrições. Os israelitas não faziam se­ paração, em suas mentes ou leis, entre o seu bem-estar físico e o espiritual. Em sua história havia uma relação direta entre a noção de limpeza ou pureza e a da santidade ou consagração. Como o levita e o sacerdote eram representantes do Deus santo, eram também represen­ tantes do povo, que devia ser santo. Como o tabernáculo era o ponto focal da presença de Deus, era também o centro de sua existência. A santidade de Deus é um elemento básico na higiene. Havia um elemento misterioso presente na san­ tidade. O que era santo era intocável. Da mesma forma, o que era impuro era intocável. Essa intocabilidade, com a sua forçaperturbadora, era transmissível pe­ lo contato direto ou por um relaciona­ mento secundário(por ex., o lançamento de uma sombra sobre alguém ou a pre­ sença da morte dentro de uma moradia). O fato da imundícia do leproso vê-se em Levítico 13:45-59, dos com fluxos do corpo, dos órgãos sexuais, em Levítico 15:2-33, e daquele que tivera contato com um cadáver em Levítico 21:1-12; 22:4; eAgeu 2:13. A penalidade da exclusão do acampa­ mento (5:2-4) é mais rígida do que a de Levítico 13:46, onde somente o leproso devia ser excluído. Alguns explicam a aplicação mais rígida, como interpretada por alguns escritores, como necessária por motivos militares. Porém esta expli­ cação não procede por causa da menção de mulheres no versículo 3 (somente o homem era contado na forçabélica). No contexto do livro de Números, a santidade da tenda e dos seus arredores tem sido ressaltada. Os que eram consi­ derados imundos segundo a lei sacerdo­ tal deviam ser excluídos dos arredores do lugar santo. (2) ALeidaRestituição(5:5-10) 5 Disse mais oSenhora Moisés: 6 Dize aos filhos de Israel: Quando homem ou mulher pecar contra o seu próximo, transgredindo os mandamentos do Senhor, e tornando-se assim culpado, 7 confessará o pecado que tiver cometido, e pela sua culpa fará plena restituição, e ainda lhe acrescentará a sua quinta parte; e a dará àquele contra quem se fez culpado. 8 Mas, se esse homem não tiver partente chegado, a quem se possa fazer a restituição pela culpa, esta será feita ao Senhor, e será do sacerdote, além do carneiro da expiação com que se fizer expia­ ção por ele. 9 Semelhantemente toda oferta alçada de todas as coisas consagradas dos filhos de Israel, que estes trouxerem ao sacerdote, será dele. 10 Enfim, as coisas consagradas de cada um serão do sacerdo­ te; tudo oque alguém lhe der será dele. Transgredindo os mandamentos do Senhor é, literalmente, “agir traiçoeira­ mente comum ato traiçoeirocontra Yah- weh”. A palavra “traiçoeiro” é uma pa­ lavra sacerdotal que descreve qualquer pessoa que viola as regras sacerdotais. 123
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    Este parágrafo deveráser estudado à luz de Levítico 6:1-7. O impacto principal, aqui, sevênofato de que nâo há nenhum parente(go’e!) para recebera restituição. Em determinadas situações, uma multa (acrescentaráasuaquinta parte) é acres­ centada ao sacrifício. Quando o culpado fazia restituição ao sacerdote, toda a oferta trazida ao sacerdote lhe pertencia. (3) ALeidoCiúme(5:11-31) 11 Disse mais o Senhor a Moisés: 12 Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Se a mulher de alguém se desviar pecando contra ele, 13 e algum homem se deitar com ela, sendo isso oculto aos olhos de seu marido e conser­ vadoencoberto, se ela se tiver contaminado, e contra ela não houver testemunha, por não ter sido apanhada em flagrante; 14se o espírito de ciúme vier sobre ele, e de sua mulher tiver ciúmes, por ela se haver con­ taminado, ou se sobre ele vier o espírito de ciúmes, e de sua mulher tiver ciúmes, mes­ mo que ela não se tenha contaminado; 15 o homem trará a sua mulher perante o sacerdote, e juntamente trará a sua oferta por ela, a décima parte de uma efa de fa­ rinha de cevada, sobre a qual não deitará azeite nem porá incenso; porquanto é oferta de cereais por ciúmes, oferta memorativa, que traz a iniqüidade à memória. 16O sacer­ dote fará a mulher chegar, e a porá perante oSenhor. 17E o sacerdote tomará num vaso de barro água sagrada; também tomará do pó que houver no chão do tabernáculo, e o deitará na água. 18 Então apresentará a mulher perante o Senhor, è descobrirá a cabeça da mulher, e lhe porá na mão a oferta de cereais memorativa, que é a oferta de cereais por ciúmes; e o sacerdote terá na mão a água de amargura, que traz con­ sigo a maldição; 19 e a fará jurar, e dir- lhe-á: Se nenhum homem se deitou contigo, e se não te desviaste para a imundícia, violandoovotoconjugal, sejas tu livre desta água de amargura, que traz consigo a mal­ dição; 20 mas se te desviaste, violando o voto conjutal, e te contaminaste, e algum homem que não é teu marido se deitou con­ tigo, 21 então o sacerdote, fazendo que a mulher tome o juramento de 'maldição, lhe dirá: —O Senhor te ponha por maldição e praga no meio do teu povo, fazendo-te o Senhorconsumir-se a tua coxae incharo teu ventre; 22 e esta água que traz consigo a maldição entrará nas tuas entranhas, para te fazer incharoventre, e te fazer consumir- se a coxa. Então a mulher dirá: Amém, amém. 23Então osacerdote escreverá estas maldições num livro, e na água de amargu­ ra as apagará; 24e fará que a mulherbeba a água de amargura, que traz consigo a mal­ dição; e a água que traz consigo a maldição entrará nela para se tomar amarga. 25 E o sacerdote tomará da mão da mulher a ofer­ ta de cereais por ciúmes, e moverá a oferta de cereais perante o Senhor, e a trará ao altar; 26 também tomará um punhado da oferta de cereais como memorial da oferta, e oqueimará sobre oaltar, e depois fará que a mulher beba a água. 27 Quando ele tiver feito que ela beba a água, sucederá que, se ela se tiver contaminado, e tiver pecado contra seu marido, a água, que traz consigo a maldição, entrará nela, tornando-se amar­ ga; inchar-lhe-á o ventre e a coxa se lhe consumirá; e a mulher será pormaldição no meio do seu povo. 28 E, se a mulher não se tiver contaminado, mas for inocente, então será livre, e conceberá filhos. 29Esta é a lei dosciúmes, notocante à mulher que, violan­ doo voto conjugal, se desviar e for contami­ nada; 30 ou no tocante ao homem sobre quem vier o espírito de ciúmes, e se enciu­ mar de sua mulher; ele apresentará a mu­ lher perante o Senhor, e o sacerdote cum­ prirá para com ela toda esta lei. 31 Esse ho­ mem será livre da iniqüidade; a mulher, porém, levará sobre sia sua iniqüidade. Este trecho aborda uma situação que não édebatida em quaisquer outros luga­ res. Há indícios de grande antiguidade nas implicações inseridas na tradição. Naprimeira situação, não há testemunha (v. 13) contra a mulher que se tiver con­ taminado (ou seja, que fizesse com que ficasseimunda). Essa expressão significa que nenhuma testemunha pode trazer provas suficientes da suspeita. Por não ter sido apanhada em flagrante, ou por­ que nenhuma testemunha pode garantir que a esposa esteja grávida, ou porque o marido acha que a criança aguardada não é dele — esta é a relação com a configuração do ciúme, pois o homem não dispõe de qualquer prova de adulté­ rio, mas tem apenas algum ciúme ou suspeita perturbadora. Pode ser que as testemunhas do adultério tenham sido 124
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    desqualificadas pela leipara testifica­ rem. Na segunda situação, o espírito devo­ rador do ciúme possui o marido, mesmo que ela (a mulher) não se tenha conta­ minado(v. 14). É difícil ver o que essas duas situações têm em comum, a menos que sejam os pensamentos do marido, porque num caso a esposa tinha-se contaminado, en­ quanto no outro, não. Porém o marido, como o chefe da casa, estava com ciú­ mes. Contudo, a expressão por não ter sido apanhada em flagrante combinada com a existência de uma situação que talvezcriasse suspeita que levasse ao ciú­ me podia indicar que a esposa estivesse grávida. Embora ela não fossepilhada no ato sexual, omarido, ainda assim, levan­ tou a suspeita de que a criança concebi­ da não tivessesido gerada por ele. O ma­ rido devia trazer sua esposa até o sacer­ dote, junto com a oferta apropriada, uma oferta de farinha de cevada, que representava uma oferta de ciúmes. O ciúme está no plural nos versículos 15,18,25 e 29. Estas são as únicas oca­ siões quando a palavra ciúme aparece no plural no Antigo Testamento. Re­ fere-se à oferta ou à lei dos ciúmes. Tal­ vez seja, assim, uma declaração geral com relação a todos os ciúmes. Ou tal­ vez seja uma referência a uma ofensa tanto contra o marido quanto contra Deus. Comorealce dado à posição do macho em sua sociedade, não é difícil ver como os ciúmes da parte do marido constitui­ riam uma pressuposição de culpa contra a mulher. O ônus daprova estava sobre a mulher, mesmo que não houvesse teste­ munhas contra ela, ou, no caso do ciú­ me, mesmo que ela não se tivesse conta­ minado. O julgamento por prova (5:16-28) da água de amargura (5:19) tem um para­ lelo chegado no antigo Código de Ha- murabi (132).3Nele, da mesma situação se diz: “Pelo bem do marido, ela lançar- se-á no rio sagrado.” Se ela afundasse, tinha sido culpada, e se se salvasse de afogamento, seria considerada sem culpa. Números 5:12,13 diz respeito a um caso, enquanto o 14b, a outro. Tanto numa situação como na outra, o marido devia trazer a esposa ao sacerdote e também a oferta que se requeria dela (v. 15). Nos tempos antigos, o adultério era um crime contra o marido ou uma violação do direito de posse do marido. Mas, nos tempos bíblicos, o adultério representava uma violação das leis reli­ giosas, bem como um crime contra a lei civil. No Código de Hamurabi, a lei civil sesatisfaziacom a morte da mulher, mas em Números se ordena a prova pela água. Existe tanto a oferta aos sacerdotes comoa prova pela água. A prova pela água é pormenorizada, especificamente, nosversos 16-28. A mu­ lher tinha debeber águasagradaque fos­ semisturada com a poeira do chão do ta­ bernáculo (v. 17) e com as raspagens do apagamento das maldições que haviam sido escritas no rolo (v. 23). Se a esposa estivesse contaminada, a água da maldi­ ção causaria aflição física. O corpo in­ charia ou intumesceria. O significado de a coxa se lhe consu­ mirá(RSV, “a sua coxacairá dela”) deve ser o contrário de “conceberá filhos” A palavra coxa sugere a idéia de ventre como o assento do poder procriador. De maneira que pode significar ou um abor­ to ou um choque por causa de esterili­ dade. A exposição pública, com a sol­ tura de seus cabelos, a água da maldi­ ção, dor física e o aborto estabeleciam a mulher como desprezada aos olhos de seu maridoeda tribo. Contudo, se a mulher não se tivesse contaminado, i. e., se a água da maldi- 3 Cf. Louis M. Epsteins, Sex Laws and Customs In Ju­ daism (New York: Ktav Publishing House, 1968), p. 217 e 218. 125
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    ção provasse suainocência, ela ficaria livre da culpa da iniqüidade e podia conceber(v. 28). Aleidociúme(v. 29) também abrange a suspeita da culpa de adultério, que não podia sercomprovado. (4) ALeidoNazireado(6:1-27) Evidentemente, este ofícioconsagrató- rio era conhecido dos hebreus, pois é por eles aceito com naturalidade e pou­ quíssima explicação é dada a seu respei­ to. Este capítulo é o escrito mais abran­ gente sobre o assunto (cf. Am. 2:11,12; Juí. 13:5,7; 16:17). Sansão é chamado de nazireu (Juí. 13:5,7). Refere-se a José como a um príncipe (nazir) em Gênesis 49:26eDeuteronômio 33:16. 1 Disse mais o Senhora Moisés: 2Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando alguém, seja homem, seja mulher, fizer voto espe­ cial de nazireu, a fim de se separar para o Senhor, 3 abster-se-á de vinho e de bebida forte; não beberá vinagre de vinho, nem vinagre de bebida forte, nem bebida alguma feita de uvas, nem comerá uvas frescas nem secas. 4 Por todos os dias do seu nazireado não comerá de coisa alguma que se faz da uva, desde os caroços até as cascas. 5 Por todos os dias doseu voto de nazireado, nava­ lha não passará sobre a sua cabeça; até que se cumpram os dias pelos quais ele se tenha separado para oSenhor, será santo; deixará crescer as guedelhas do cabelo da sua cabe­ ça. 6 Por todos os dias da sua separação para o Senhor, não se aproximará de cadá­ ver algum. 7 Não se contaminará nem por seu pai, nem por sua mãe, nem por seu irmão, nem por sua irmã, quando estes mor­ rerem; porquanto o nazireado do seu Deus está sobre a sua cabeça. 8 Por todos os dias do seu nazireado será santo ao Senhor. 9 Se alguém morrer subitamente junto dele, contaminando-se assim a cabeça do seu na­ zireado, rapará a sua cabeça no dia da sua purificação, ao sétimo dia a rapará. 10Aooi­ tavo dia trará duas rolas ou dois pombinhos, ao sacerdote, à porta da tenda da revelação; 11 e o sacerdote oferecerá um como oferta pelo pecado, e o outro como holocausto, e fará expiação por esse que pecou no tocante ao morto; assim naquele mesmo dia santifi­ cará a sua cabeça. 12 Então separará ao Senhor os dias do seu nazireado, e para oferta pela culpa trará um cordeiro de um ano; mas os dias antecedentes serão per­ didos, porquanto o seu nazireado foi conta­ minado. O versículo2 indica que se trata de um voto extraordinário. Havia muitos votos na vidacultural dosisraelitas, mas o voto donazireado sefazia como acréscimo aos demais votos. Era normalmente um voto queuma pessoafaziapara simesma. Era um voto que se fazia em virtude de uma experiência invulgar com Deus, por ter concedido um dom carismático. Talvez também significasse um voto obrigatório pelo fato de ter sido feito pela mãe da pessoa. Semelhante voto seria aceito co­ mo obrigatório para o indivíduo, em vir­ tude da solidariedade da estrutura fa­ miliar. Alguns escritores acham que este voto era, inicialmente, um compromisso es­ pontâneo evitalício. Porém, na época em que o livro de Números foi escrito, esse votojá não era, necessariamente, vitalí­ cio, pois no versículo 13 lemosjio dia em quesecumpriremos dias do seu nazirea­ do (na RSV se lê: “quando o tempo de sua separação se houver completado”). As palavras nazireu eseparadoescrevem- se com as mesmas consoantes, e assim são relacionadas bem de perto (de Vaux, p. 466 e 467). O Nazireu, em virtude dessa presença especial de Deus, dedica- se à tarefa especial, pela qual assume plena responsabilidadeperante Deus. As restrições não constituem o voto, e, sim, são simplesmente meras expressões externas e visíveis, que demonstram que a pessoa se consagrou a Deus, que lhe abriu a porta do serviçoespecial. Assim o ofício do nazireado impunha funções santas especiais. 0s sinais externos a que um nazireu havia voluntariamente de se submeter, em acréscimo e como contributários à realização da sua tarefa, são relaciona­ dosdepertocomos dos recabitas(Jer. 35; mas osrecabitas não eram carismáticos). 126
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    O primeiro sinalexterno mencionado (v. 3,4) diz respeito a vinho ou bebida forte. O termo nazireu pode ser traduzi­ do como “aquele que está sendo separa­ do”. Por isso, ele tem de ser separado do suco do vinho (cf. os recabitas, em Jer. 35; vejatambém Luc. 1:15). Astrês áreas bem definidas de separação são, sem dúvida, uma compilação sacerdotal. To­ das as três talvez tenham sido impostas, necessariamente, a partir do começo, apesar de a menção da abstinência de Samuel dos vinhos se registrar somente na Septuaginta. A abstenção da mãe de Sansão (Juí. 13) do vinho, é relacionada de perto com o fato de que ele seria um nazireu. A bebida forte era uma bebida ine­ briante muito comum, tanto permitida em determinadas circunstâncias (28:7; Deut. 14:26; Prov. 31:6) como também condenada muito severamente em outras (Prov. 20:1; Is. 5:11,22; 28:7). A separa­ çãodovinho, devezem quando, podeser entendida como uma ação do povo nô­ made rebelando-se contra os costumes sociais de um povo agrícola estabelecido. A inclusão da frase nem bebida alguma feitadeuvas, nem...frescas nemsecasé a mais clara prova da rebelião contra os usos agrícolas cananeus da uva. O na­ zireu seria tão zeloso no cumprimento de seu voto que recusaria qualquer costume que interferisse na nitidez de seu voto. O segundo elemento em se tomar o votomais claro ou mais obrigatório era a separação danavalha(v. 5,18). Na histó­ ria dos povos do Oriente havia muitas práticas religiosas que envolviam os ca­ beloshumanos. Aênfase principal, aqui, é o crescimento do cabelo, que seria, no clímax do voto, queimado sobre o altar junto com os outros elementos do sacrifí­ cio (v. 18). Conforme a sabedoria semí­ tica antiga, os cabelos, como o sangue, simbolizavam a presença da própria vida.4 É difícil ser categórico quanto à 4 Interpreter’s Dictionary of the Bible, Vol. K-Q (Nash­ ville, Abingdon, 1962), p. 527. força exata deste quadro. Na história de Sansão (Juí. 13:4,5), o cabelo era um sinal externo do voto, que incluía a pre­ sença carismática do poder divino. Pa­ receria assinalar que a perda dos cabelos mostrava a separação, da pessoa, de Deus. Para Sansão, perder os seus cabe­ los significava algo destrutivo, porém, no voto de um nazireu, a perda dos cabelos era uma característica gloriosa de seu votoe sacrifício. O terceiro elemento (v. 6-12) é a sepa­ ração da proximidade de um cadáver. Em Levítico 21:1-10, as regras para o sacerdote lhe permitiam que se contami­ nasse em relação aos seus parentes mais próximos. Porém, em Números 6:7, fica claro que o voto do nazireu é mais obri­ gatórioou elevado do que o do sacerdote, i. e., na área de competência do sumo sacerdote(Lev. 21:11). O voto do nazireu era um votoem termos absolutos durante otempo de sua separação. Mesmo a proximidade repentina ou acidental da morte contaminaria a cabe­ ça do seu nazireado (cf. a RSV, “a cabe­ ça consagrada do nazireu”). Eles não consideravam a morte como a experiên­ cia de meramente deixar de existir. Viam o homem como um ser completo. Uma pessoa não era corpo, mente e alma, pois esses elementos eram partes inseparáveis do homem total. Nephesh é muitas vezes traduzida por “alma”. O nazireu não podia aproximar-se de um cadáver (ne­ phesh) (v. 6). Enquanto o corpo perma­ neciainsepulto, a pessoa continuava pre­ sente. A pessoa existia “desvitalizada”, como uma sombra, em estado de enfra­ quecimento (cf. Is. 14:9,10). A condição enfraquecida da personalidade era inde­ sejável e, por isso, considerada inimiga. O sofrimento, a dor, a fraqueza ou a doença, segundo a filosofia antiga da vida, eram evidências do pecado ou do desagrado de Deus. A existência “desvi­ talizada” não estava de acordo com a imagem de Deus, em cuja conformidade ohomem haviasidofeito. 127
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    A morte erao aparecimento de uma condição que destoava da presença vital de Deus. O cabelo não-cortado do nazi- reu era osímbolo deuma condição deum devoto religioso. Estes dois elementos conflitavam diretamente um com o ou­ tro. Visto à luz da solidariedade de uma família ou de uma casa, qualquer pessoa ou coisa que estivesse integrado a essa família ou casa estaria integrado no do­ mínio da “morte”. A presença do inimi­ go (o fato de morrer) indicar-lhes-ia im­ pureza, fraqueza, profanidade ou imun­ dícia. Quando o nazireu fazia parte de uma casa, i. e., onde houvesse proximi­ dade com a morte, a imundícia seria uma violação do sersantoao Senhor(v. 8). Se qualquer coisa interferisse no cará­ ter absoluto da separação, o voto ficaria nulo, automaticamente, e o nazireu ha­ viade recomeçaroseu serviço. Não havia ele apenas de recomeçar o seu serviço, mas também teria de oferecer sacrifício e fazerexpiação pela contaminação. 13Esta, pois, é a lei do nazireu: no dia em que se cumprirem os dias do seu nazireado ele será trazido à porta da tenda da revela­ ção, 14e oferecerá a sua oferta ao Senhor: um cordeiro de um ano, sem defeito, como holocausto, e uma cordeira de um ano, sem defeito, como oferta pelo pecado, e um car­ neiro sem defeito como oferta pacífica; 15 e um cesto de pães ázimos, bolos de flor de farinha amassados com azeite, e cosco- rões ázimos untados com azeite, como tam­ bém as respectivas ofertas de cereais e de libação. 16 E o sacerdote os apresentará perante o Senhor, e oferecerá a oferta pelo pecado, e o holocausto; 17também oferece­ rá o carneiro em sacrifício de oferta pacífi­ ca ao Senhor, com um cesto de pães ázimos e as respectivas ofertas de cereais e de li­ bação. 18Então o nazireu, à porta da tenda da revelação, rapará o cabelo do seu nazi­ reado, tomá-lo-á e o porá sobre o fogo que está debaixo do sacrifício das ofertas pací­ ficas. 19 Depois o sacerdote tomará a espá­ dua cozida do carneiro, e um pão ázimo do cesto, e um coscorão ázimo, e os porá nas 4 mãos do nazireu, depois dé haver este rapa­ do o cabelo do seu nazireado; 20 e o sacer­ dote os moverá como oferta de movimento perante o Senhor; isto é santo para o sacer­ dote, juntamente o peito da oferta de movi­ mento, e com a espádua da oferta alçada; e depoisonazireu poderá beber vinho. 21Esta é a lei do que fizer voto de nazireu, e da sua oferta ao Senhor pelo seu nazireado, afora qualquer outra coisa que as suas posses lhe permitirem oferecer; segundo o seu voto, que fizer, assim fará conforme a lei do seu nazireado. O processo para o complemento do voto do nazireu é dado nos versos 13-20. Para o ritual e o significado de oferta queimada, oferta pelo pecado, ofertapa­ cífica, oferta de cereais e oferta de liba­ ção, tem-se de recorrer a Levítico 1-7. Aofertademovimentonão é tão clara ou tão bem conhecida como as demais ofer­ tas. A movimentação da oferta indica o oferecimento a Deus e o recebimento de volta deuma porção que seriausada para osustento ea manutenção dos sacerdotes e desuas famílias. O intuito dos versos 13-20 é esboçar a sujeição do nazireu às regras sacerdo­ tais no desempenho de seu serviço cultu­ ral, como também na conclusão dele. A oferta de movimento fornecida pelo nazireu e oferecida a Deus faria parte do sustento do sacerdócio. O voto de nazi­ reado não desobrigava a pessoa de quais­ quer outras responsabilidades culturais (v. 21). 22 Disse mais oSenhora Moisés: 23Fala a Arão, e a seus filhos, dizendo: Assim aben­ çoareis os filhos de Israel; dir-lhes-eis: 24O Senhor te abençoe e te guarde; 25 o Se­ nhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; 26 O Senhor levante sobre ti o seu rosto, e te dê a paz. 27 Assim porão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei. A bênção de Arão (v. 22-27) é citada, em parte, nos Salmos 4:6 e 67:1. O rSenhor (Yahweh) é o mais sagrado dos nomes de Deus; indica o caráter chega­ do, pessoal, revelador deDeus. Apresen­ ça do nome três vezes nesta bênção não tem nada a ver com a expressão cristã de Deus na fórmula trinitária. 128
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    O povo deIsrael entendia a presença deDeusem termos debênçãos evidencia­ das de muitas maneiras. Te guarde teria a força de proteger-te. Faça resplandecer oseurostosobretielevantesobretio seu rostosão expressões que significam favor divino. O rosto de Deus é a fonte de luz que iluminará qualquer homem para quem eleestivervoltado. Paz significa muito mais do que a ine­ xistência da hostilidade ou da guerra. Traz sempre a força do bem-estar ou da plenitude, no sentido do bem-estar. Abrange as relações dentro da família individual, bem como as relações tribais e nacionais, tanto espirituais como so­ ciais. No contexto da santidade sacer­ dotal, otermo significaria, primariamen­ te, a totalidade dosvalorespactuais. Porão o meu nome sobre os filhos de Israel. Não existe privilégio nenhum maior do que se receber o nome de seu Senhor. Todo o poder da pessoa é assen­ tado no nome. Quando se põe o nome de Deus em Israel, há uma identificação específica. A bênção de Arão é uma das mais cé­ lebres doAntigo Testamento. Esta alian­ ça estabeleceu uma relação que implica­ va a consagração do homem ao Senhor. Também incorporou evidências da bên­ ção de Deus na doação da proteção, na expressão da graça divina, na providên­ cia da paz e na honra e poder de seu próprio ser. Nestabênção, Arão eseus filhos são os instrumentos da assoçiação de Israel com Deus. Desta forma, o nome de Deus pode ser colocado sobre o povo de Israel. Esta é uma mudança tão abrupta, que parece que os escritores são sacerdotes que defendem, etiologicamente, a sua posição de supremacia sobre todos os aspectos da vida da nação. (5) AConsagraçãodoAltar(7:1-89) O capítulo 6 conclui com a bênção sacerdotal. O capítulo 7 descreve a con­ sagração do altar. Por tratar-se do cabe­ ça do povo de Israel, Moisés é a personi­ ficação e a autoridade do povo inteiro. Moisés não erigiu o tabernáculo inteiro —a tarefa era grande demaispara um só homem. Ele foi o supervisor. Moisés acabou de levantar o tabernáculo, ten­ do...ungido...o altar e todos os seus utensílios, O termo ungido tem a mesma raiz que a palavra “Messias”. A palavra Messias relaciona-se, com maior fre­ qüência, com oofício do rei e das demais autoridades. 1No dia em que Moisés acabou de levan­ tar o tabernáculo, tendo-o ungido e santifi­ cado juntamente com todos os seus móveis, bem como o altar e todos os seus utensílios, depoisde ungi-lose santificá-los, 2os prínci­ pes de Israel, cabeças das casas de seus pais, fizeram as suas ofertas. Estes eram os príncipes das tribos, os que estavam sobre os que foram contados. 3 Trouxeram eles a sua oferta perante o Senhor: seis carros cobertos, e doze bois; por dois príncipes um carro, e por cada um, um boi; e os apresen­ taram diante dotabernáculo. 4Então disse o Senhor a Moisés: 5 Recebe-os deles, para serem utilizados no serviço da tenda da revelação; e os darás aos levitas, a cada qual segundo o seu serviço. 6 Assim Moisés recebeu os carros e os bois, e os deu aos levitas. 7 Dois carros e quatro bois deu aos filhos de Gérson, segundo o seu serviço; 8 e quatro carros e oito bois deu aos filhos de Merári, segundo o seu serviço, sob as ordens de Itamar, filho de Arão, o sacerdo­ te. 9 Mas aos filhos de Coate não deu ne­ nhum, porquanto lhespertencia o serviço de levar o santuário, e o levavam aos ombros. 10Ospríncipes fizeram também oferta para a dedicação do altar no dia em que foi ungido; e ospríncipes apresentaram as suas ofertas perante oaltar. 11E disse o Senhor a Moisés: Cada príncipe oferecerá a sua ofer­ ta, cada qualno seu dia, para a dedicação do altar. A oblação dada pelos líderes (lit., os levantados, os príncipes principais) era para os levitas. Toda esta oferta havia de ser usada no serviço do tabernáculo. Os seis carros cobertos (um carro para cada duas tribos) e doze bois (um boi por cada tribo) haviam de ser divididos entre os gersonitas e os meraritas, visto que 129
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    essas duas famíliasempreendiam o pró­ prio transporte do tabernáculo. 12 Oque ofereceu a sua oferta no primeiro dia foi Nasom, filho de Aminadabe, da tribo de Judá. 13 A sua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambas cheias de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de cereais; 14 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incenso; 15um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano, para holo­ causto; 16 um bode para oferta pelo pe­ cado; 17 e para sacrifício de ofertas pa­ cíficas dois bois, cinco carneiros, cinco bodes, cinco cordeiros de um ano; esta foi a oferta de Nasom, filho de Aminadabe. 18No segundo dia fez a sua oferta Netanel, filhode Zuar, príncipe de Issacar. 19E como sua oferta ofereceu uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de ce­ reais; 20 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incenso; 21 um novilho, um carnei­ ro, um cordeiro de um ano, para holocaus­ to; 22 um bode para oferta pelo pecado; 23 e para sacrifício de ofertas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cincobodes, cinco cor­ deiros de um ano; esta foi a oferta de Ne­ tanel, filho de Zuar. 24 No terceiro dia fez a sua oferta Eliabe, filho de Helom, príncipe dos filhos de Zebulom. 25 A sua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de cereais; 26 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incenso; 27 um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano, para holocausto; 28um bode para ofer­ ta pelo pecado; 29 e para sacrifício de ofer­ tas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cin­ cobodes, cinco cordeiros de um ano; esta foi a oferta de Eliabe, filho de Helom. 30 No quarto dia fez a sua oferta Elizur, filho de Sedeur, príncipe dos filhos de Rúben. 31 A sua oferta foi uma salva de prata do pçso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuá­ rio; ambos cheios de flor de farinha amas­ sada com azeite, para oferta de cereais; 32uma colherde ouro de dez siclos, cheia de incenso; 33 um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano, para holocausto; 34 um bode para oferta pelo pecado; 35 e para sacrifício de ofertas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cinco bodes, cinco cor­ deiros de um ano; esta foi a oferta de Elizur, filho de Sedeur. 36 No quinto dia fez a sua oferta Selumiel, filho de Zurisadai, príncipe dos filhos de Simeão. 37 A sua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de cereais; 38 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incen­ so; 39um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano, para holocausto; 40 um bode para oferta pelo pecado; 41 e para sacrifício de ofertas pacíficas dois bois, cinco carnei­ ros, cincobodes, cinco cordeiros de um ano; esta foi a oferta de Selumiel, filho de Zuri­ sadai. 42 No sexto dia fez a sua oferta Elia- safe, filho de Deuel, príncipe dos filhos de Gade. 43Asua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia deprata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de ce­ reais; 44 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incenso; 45 um novilho, um carnei­ ro, um cordeiro de um ano, para holocausto; 46 um bodepara oferta pelo pecado; 47e pa­ ra sacrificio de ofertas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cinco bodes, cinco cordei­ ros de um ano; esta foi a oferta de Eliasafe, filho de Deuel. 48 No sétimo dia fez a sua oferta Elisama, filho de Amiúde, príncipe dosfilhos de Efraim. 49Asua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de cereais; 50 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incenso; 51 um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano, para holocausto; 52um bode para ofer­ ta pelo pecado; 53 e para sacrifício de ofer­ tas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cin­ cobodes, cinco cordeiros de um ano; esta foi a oferta de Elisama, filho de Amiúde. 54 No oitavo dia fez a sua oferta Gamaliel, filho de Pedazur, príncipe dos filhos de Manassés. 55 A sua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de ce­ reais; 56 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incenso; 57 um novilho, um carnei­ ro, um cordeiro deum ano, para holocausto; 58um bodepara oferta pelo pecado; 59epa- ra sacrifício de ofertas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cinco bodes, cinco cordei­ ros de um ano; esta foi a oferta de Gama­ liel, filho de Pedazur. 60 No dia nono fez a 130
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    dos filhos deBenjamim. 61 A sua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de cereais; 62 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incenso; 63 um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano, para holocausto; 64um bode para ofer­ ta pelo pecado; 65 e para sacrifício de ofer­ tas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cin­ cobodes, cinco cordeiros de um ano; esta foi a oferta de Abidã, filho de Gideôni. 66No dé­ cimo dia fez a sua oferta Afezer, filho de Amisadai, príncipe dos filhos de Dã. 67 A sua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo osiclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de cereais; 68 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incen­ so; 69um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano, para holocausto; 70 um bode para oferta pelo pecado; 71e para sacrifício de ofertas pacíficas dois bois, cinco carnei­ ros, cincobodes, cinco cordeiros de um ano; esta foi a oferta de Afezer, filho de Amisa­ dai. 72No dia undécimo fez a sua oferta Pa- giel, filho de Ocrã, príncipe dos filhos de Azer. 73A sua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de ce­ reais; 74 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incenso; 75 um novilho, um car­ neiro, um cordeiro de um ano, para holo­ causto; 76um bodepara oferta pelo pecado; 77 e para sacrifício de ofertas pacíficas dois bois, cincocarneiros, cincobodes, cinco cor­ deiros de um ano; esta foia oferta de Pagiel, filho de Ocrã. 78No duodécimo dia fez a sua ofertaAírá, filhode Enã, príncipe dos filhos de Naftali. 79 A sua oferta foi uma salva de prata do peso de cento e trinta siclos, uma bacia de prata de setenta siclos, segundo o siclo do santuário; ambos cheios de flor de farinha amassada com azeite, para oferta de cereais; 80 uma colher de ouro de dez siclos, cheia de incenso; 81 um novilho, um carneiro, um cordeiro de um ano, para ho­ locausto; 82um bode para oferta pelo peca­ do; 83 e para sacrifício de ofertas pacíficas dois bois, cinco carneiros, cinco bodes, cin­ co cordeiros de um ano; esta foi a oferta de Aírá, filho de Enã. 84 Esta foi a oferta dedicatória doaltar, feita pelos príncipes de Israel, nodia em que foi ungido: doze salvas deprata, dozebacias de prata, dozecolheres de ouro, 85 pesando cada salva de prata cento e trinta siclos, e cada bacia setenta; toda a prata dos vasos foi dois mil e quatro­ centos siclos, segundo o siclo do santuário; 86 doze colheres de ouro cheias de incenso, pesando cada colher dez siclos, segundo o siclo do santuário; todo o ouro das colheres foi cento e vinte siclos. 87 Todos os animais para holocausto foram doze novilhos, doze carneiros, e doze cordeiros de um ano, com as respectivas ofertas de cereais; e para ofertapelopecado, doze bodes; 88e todos os animais para sacrifício das ofertas pacífi­ cas foram vinte e quatro novilhos, sessenta carneiros, sessenta bodes, e sessenta cor­ deiros de um ano. Esta foi a oferta dedica­ tória do altar depois que foi ungido. 89 Quan­ do Moisés entrava na tenda da revelação para falar com o Senhor, ouvia a voz que lhefalava de cima dopropiciatório, que está sobre a arca do testemunho entre os dois querubins; assim ele lhefalava. A oferta de dedicação, do príncipe de cada tribo, foi idêntica. Consistia num total de 21 animais, uma colher de ouro e duas vasilhas de prata. A ênfase sacer­ dotal é evidenciada quando se observa que essas dádivas secompunham de uma oferta de cereais, uma oferta queimada, uma oferta pelo pecado e uma oferta pacífica. Aordem das 12tribos éidêntica àquela usada anteriormente com relação à pro- cessualísticapara o acampamento. O ca­ pítulo 7pode ser chamado de capítulo da dedicação. O último versículo do capítulo é de difícil interpretação dentro deste contex­ to. Certamente houve algum significado cultual que relembrava alguma ocasião quando Moisés ouviu a voz de Deus. É um cumprimento deÊxodo 25:22. Opropiciatório(RSV, “assento da mi­ sericórdia”) é kapporeth, da raiz que significa “encobrir” pecado ou (recon­ ciliaratravésdo) “expiar”.Éumapalavra técnica, surgida posteriormente, que se relaciona com a propiciação. No Dia da Expiação, o sumo sacerdote salpicava a frente do propiciatório (“assento da mi­ sericórdia”) de sangue e também espar­ gia sangue sete vezes perante o altar 131
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    (Lev. 16:14,15). Opropiciatório ficava localizado no topo da arca, mas era separado dela. Consistia numa placa de ouro, medindo dois côvados e meio por um côvado e meio. Também fazendo parte do propiciatório, havia dois que­ rubins de ouro. Posicionados um de fren­ te para o outro, com as asas estendidas por cima, formavam desse modo o trono de Deus. Estas não eram as figuras gi­ gantescas (de uma altura de mais de quatro metros e meio) do Templo de Salomão, que eram de madeira de oli­ veira dourada. A origem do querubim pode estar no Salmo 18:10-15. As espes­ sas nuvens do céu eram ligadas à voz do Senhor. A voz (v. 89) falou a Moisés dentre os dois querubins. Os querubins, a arca do testemunho e o propiciatório (“o o assento da miseri­ córdia”) representavam, para eles, o as­ sento ou trono da presença de Deus. Eram símbolos impróprios. Na realida­ de, representavam tanto o trono como o escabelo de Deus. Os hebreus sabiam que tais símbolos não continham Deus, porém procuravam expressar, da forma mais elevada possível, o ideal supremo. Expressavam de maneira visível a reali­ dade que era invisível. As idéias transfor­ mavam-se costumeiramente em imagens, eas imagens transmitiam a realidade das idéias. O Deus revelador estava na ima­ gem da voz. O Deus reinante tinha um trono. Todos estes estão dentro do con­ texto da santidade de Deus e da função sacerdotal da reconciliação pela expiação e da oferta. (6) AsInstruções ParaosMenorahs (8:1-4) 1Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Fala a Arão, e dize-lhe: Quando acenderes as lâm­ padas, as sete lâmpadas alumiarão o espaço em frente do candelabro. 3Arão, pois, assim fez; acendeu as lâmpadas do candelabro de modo que alumiassem o espaço em frente do mesmo, como o Senhor ordenara a Moisés. 4 Esta era a obra do candelabro, obra de ourobatido; desde oseu pedestal até as suas corolas, era ele de ouro batido; conforme o modelo que o Senhor mostrara a Moisés, assim ele tinha feito o candelabro. Yahweh dá a Moisésas instruções, que são transmitidas a Arão. Üma caracterís­ tica desta seção geral de Números é: Dissemaiso SenhoraMoisés. “Logo que tiveres colocado” (RSV; cf. Matos Soa­ res) é melhor do que o quando acenderes do nosso texto e da ASV e da KJV. Também no versículo 3 da RSV cons­ ta que Arão “colocou as lâmpadas”, em lugar de acendê-las. O menorah, qüe é tão importantepara osjudeus, tanto no referenteà história do tabernáculo quan­ to no referente à história atual, relacio­ na-se diretamente com estas lâmpadas. A palavra significa “o lugar de uma lâmpada", e, assim, um candelabro. Me- noroth é o mesmo que menorahs. As lâmpadas deviam ser colocadas de modo a lançar luz na frente do pedestal. Eram postas para o lado meridional do lugar santíssimo, para que a luz iluminasse a mesa dospães da presença no lado seten­ trional. Os candeeiros de setebraços refletem o número sagrado. As sete lâmpadas re­ presentam as sete fontes da luz terrestre, ou seja, o sol, a lua e os sete planetas conhecidos na cosmologia antiga. O nú­ mero sete é visto, muitas vezes, nos es­ critos hebraicos e especialmente nos lu­ gares onde a influência mesopotâmica se fazia sentir. O ponto de vista mesopotâ- mico dos sete astros é claramente evi­ dente nas sete lâmpadas do menorah. Os judeus vêem este parágrafo como o pano defundo, que alcançou o seu ponto alto quando os descendentes de Arão, os hasmoneus, acenderam as lâmpadas na cerimônia de dedicação a Hanukkah, em 165a.C. (7) ALeidaSeparaçãodosLevitas (8:5-26) 5 Disse mais oSenhora Moisés: 6Toma os levitas do meio dos filhos de Israel, e purifi­ ca-os; 7 e assim lhes farás, para os purifi- 132
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    car: esparge sobreeles a água da purifica­ ção; e eles farão passar a navalha sobre todo o seu corpo, e lavarão os seus vestidos, e se purificarão. 8Depois tomarão um novi­ lho, com a sua oferta de cereais de flor de farinha amassada com azeite; e tomarás tu outro novilho para oferta pelo pecado. 9 Também farás chegar os levitas perante a tenda da revelação, e ajuntarás toda a con­ gregação dos filhos de Israel. 10 Apresenta­ rás, pois, os levitas perante o Senhor, e os filhos de Israel porão as suas mãos sobre os levitas. 11 £ Arão oferecerá os levitas pe­ rante o Senhor como oferta de movimento, da parte dos filhos de Israel, para que sir­ vam no ministério do Senhor. 12 Os levitas porãoas suas mãos sobre a cabeça dos novi­ lhos; então tu sacrificarás um como ofer­ ta pelopecado, e o outro como holocausto ao Senhor, para fazeres expiação pelos levitas. 13E porás oslevitas perante Arão, e perante osseus filhos, e osoferecerás comooferta de movimento ao Senhor. 14 Assim separarás os levitas do meio dos filhos de Israel; e os levitas serão meus. 15 Depois disso os levi­ tas entrarão para fazerem o serviço da ten­ da da revelação, depois de os teres purifi­ cadoe oferecido como oferta de movimento. 16 Porquanto eles me são dados inteiramen­ te dentre os filhos de Israel; em lugar de todo aquele que abre a madre, isto é, do primogênito de todos os filhos de Israel, para mim ostenho tomado. 17Porque meu é todo primogênito entre os filhos de Israel, tanto entre os homens como entre os ani­ mais; no dia em que, na terra do Egito, feri a todo primogênito, ossantifiqueipara mim. 18Mastomei os levitas em lugar de todos os primogênitos entre os filhos de Israel. 19 Dentre os filhos de Israel tenho dado os levitas a Arão e a seus filhos, para fazerem o serviço dos filhos de Israel na tenda da revelação, e para fazerem expiação por eles, a fim de que não haja praga entre eles, quando se aproximarem do santuário. 20 Assim Moisés e Arão e toda a congrega­ ção dos filhos de Israel fizeram aos levitas; conforme tudo o que o Senhor ordenara a Moisés no tocante aos levitas, assim os fi­ lhos de Israel lhes fizeram. 21 Os levitas, pois, purificaram-se, e lavaram os seus ves­ tidos; e Arão os ofereceu como oferta de movimento perante o Senhor, e fez expiação por eles, para purificá-los. 22 Depois disso entraram os levitas, para fazerem o seu serviço na tenda da revelação, perante Arão e seus filhos; como o Senhor ordenara a Moisés acerca dos levitas, assim lhes fize­ ram. 23 Disse mais o Senhor a Moisés: 24Este será o encargo dos levitas: Da idade de vinte e cinco anos para cima entrarão para se ocuparem no serviço da tenda da revelação; 25e aos cinqüenta anos de idade sairão desse serviço e não servirão mais. 26 Continuarão a servir, porém, com seus irmãos na tenda da revelação, orientando- os no cumprimento dos seus encargos; mas não farão trabalho. Assim farás para com os levitasno tocante aos seus cargos. Esta cerimônia especial não se com­ para com a cerimônia especial realizada para o sacerdócio da linha de Arão como registrada em Levítico 6. Moisés recebe instruções para purificar oslevitas. Espargesobre eles a água de purifica­ ção (RSV, “de expiação”). A palavra espargir tem sido inserida nos textos ingleses (e portugueses), a fim de fazer melhor sentido. Âgua de purificação é, literalmente, “águas de pecado” ou “oferta pelo pecado”. Assim, significa águas que são usadas na remoção cultual ou cerimonial do pecado. Em Números 19, se acha a mesma idéia geral com relação às cinzas do bezerro (embora as palavras usadas sejam diferentes). Farão passar a navalha sobre todo o seu corpo. A depilação do corpo era outro dos ritos da purificação cerimonial como conhecida da história antiga. He- ródoto (II, 37) relata que os sacerdotes egípcios depilavam todo o seu corpo de doisem dois dias, para assegurar a pure­ za de qualquer imundícia. Mas os levi­ tas depilavam o seu corpo no começo de sua dedicação. Qualquer cabelo novo seriasanto esem mácula. Lavarão os seus vestidos. A diferença entre os ritos de purificação dos sacerdo­ tes e dos levitas é bem notável para assi­ nalar a diferença no nível de importância entre oslevitase ossacerdotes. Moisés devia trazer oslevitas perante a tenda da congregação junto com toda a assembléia do povo de Israel. Os filhos deIsrael porão as suas mãos sobre os le­ vitas. A imposição das mãos fazia parte da aceitação deuma oferta (cf. Lev. 1:4). Este ato era necessário por parte do 133
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    povo, para ofereceros levitas como uma oferta por toda a congregação. Estabele­ cia oponto de contato em prol da nação, que tomava os levitas como a porção dedicada em lugar de todos os primogê­ nitos (cf. v. 16-19) Toda essa prática se fazia necessária no estabelecimento da expiação. Este ato assinala a solidarie­ dade ou unidade do povo com os levitas. Na expiação ou na constituição de um (os levitas) pelo outro (o povo inteiro), há dois que se mostram unidos. Os dois animais do sacrifício fazem, assim, ceri- monialmente, cada um parte do todo. Os dois sacrifícios ordenados são a oferta pelo pecado e o holocausto ou oferta queimada. Aqui, os dois aspectos são cumpridos. Os levitas puseram suas mãos sobre os bois das ofertas precisa­ mente como a congregação toda punha asmãos sobre oslevitas. Arão havia de oferecer os levitas...co­ mo uma oferta de movimento (v. 11,13, 15). A força do termo há de ser a de “uma contribuição especial”. Costumeiramente, o termo oferta de movimento se referia ao ato de acenar com a oferta, movimentando-a em dire­ ção ao altar, e, então, em sentido contrá­ rio, como um símbolo de dar a oferta a Deus e de receber uma parte dela de volta (cf. Êx. 29:26 e ss. e Lev. 7:29-36). Naturalmente, não se podia movimentar os levitas para lá e para cá, fisicamente. Evidentemente, este relato foi feito numa data posterior, na história do sistema sacrifical dos hebreus, depois de o ato físico, por diversos motivos, ter sido omi­ tido. O efeito do oferecimento era enten­ dido como realizado no ato, com a ênfa­ se no significado e impacto espirituais. O simbolismo era mais importante que o atoem si. A reconciliação pela expiação (ingl.: atonement) era muito importante na his­ tória de Israel. Realçava a unidade (1) do povo e Deus (v. 17), (2) dos levitas e pri­ mogênitos (v. 18), (3) dos levitas e sacer­ dotes (v. 19) e(4) do serviço da tenda da revelaçãoeopovo de Israel (v. 19). O en­ foque, aqui, na reconciliação pela expia­ ção está na posição dos levitas. Haviam de proteger o povo contra uma calami­ dade que o escravizaria. Praga (negeph) é a mesma palavra usada na experiência do êxodo que causou a morte dos primo­ gênitos, de pessoas e de animais, que não estavam protegidos pelo escudo do sangue (cf. Jos. 22:17; Is. 8:14). Os le­ vitas ocupavam a posição dos primogê­ nitos, e podiam, assim, escudar o povo contra a ira de Deus, provocada por um serviço ou uma aproximação inapropria- dos, no santuário(v. 19). Limitações são colocadas para as con­ dições de serviço (v. 23-26). O levita em serviço deveria ter entre 25 e 50 anos de idade. Essa exigência não implica a ex­ clusão daqueles de outras idades. É uma limitação apenas em relação ao serviço da tenda. A faixa etária de 25-50 anos abrangeria, deuma maneira geral, aque­ les capazes da maior resistência física que se precisava, no levantamento e transporte dos materiais. Os jovens se­ riam empregados em treinamento e de­ sempenhariam as funções de assistentes. Os homens acima dos 50 seriam conse­ lheiros, porteiros ou supervisores da música. (8) A Lei Para uma Observância Adicio­ naldaPáscoa(9:1-14) 1 Também falou o Senhor a Moisés no deserto de Sinai, no primeiro mês do segun­ do ano depois que saíram da terra do Egito, dizendo: 2 Celebrem os filhos de Israel a páscoa a seu tempo determinado. 3 No dia catorze deste mês, à tardinha, a seu tem­ po determinado, a celebrareis; segundo to­ dos os seus estatutos, e segundo todas as suas ordenanças a celebrareis. 4Disse, pois, Moisés aos filhos de Israel que celebrassem a páscoa. 5 Então celebraram a páscoa.no dia catorze do primeiro mês, à tardinha, no deserto do Sinai; conforme tudo o que o Senhorordenara a Moisés, assim fizeram os filhos de Israel. 6 Ora, havia alguns que se achavam imundos por terem tocado o cadá­ ver deum homem, de modo que não podiam celebrar a páscoa naquele dia; pelo que no 134
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    mesmo dia sechegaram perante Moisés e Arão; 7 e aqueles homens disseram-lhes: Estamos imundos por havermos tocado o cadáver de um homem; por que seríamos privados de oferecer a oferta do Senhor a seu tempo determinado no meio dos filhos de Israel? 8 Respondeu-lhes Moisés: Espe­ rai para que eu ouça o que o Senhor há de ordenar acerca de vós. 9 Então disse o Se­ nhor a Moisés: 10 Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se alguém dentre vós, ou dentre os vossos descendentes estiver imundo por ter tocado um cadáver, ou achar-se longe, em viagem, contudo ainda celebrará a páscoa ao Senhor. 11No segundo mês, no dia cator­ ze, à tardinha, a celebração; comê-la-ão com pães ázimos e ervas amargas. 12 Dela não deixarão nada até pela manhã, nem quebrarão dela osso algum; segundo todo o estatuto da páscoa a celebrarão. 13 Mas o homem que, estando limpo e não se achando em viagem, deixar de celebrar a páscoa, essa alma será extirpada do seu povo; por­ quanto não ofereceu a oferta do Senhora seu tempo determinado, tal homem levará o seu pecado. 14Também se um estrangeiro pere­ grinar entre vós e celebrar a páscoa ao Senhor, segundo o estatuto da páscoa e se­ gundo a sua ordenança a celebrará; haverá um só estatuto, quer para o estrangeiro, quer para onatural da terra. As idéias da praga (8:19) e dos primo­ gênitos na terra do Egito (8:17) chama­ ram à memória as experiências da Pás­ coa. A recordação das instruções para a Páscoa (v. 2-4) e ofato de a terem obser­ vado no Sinai, conforme as instruções (v. 5), introduzem o fato de que alguns dentre opovo não eram capazes de guar­ dar a Páscoa. Os homens que tinham entrado em contato com um corpo morto estavam cerimonialmente impuros. A simplicidade de sua lei era tamanha, que muitos problemas podiam surgir. Geral­ mente, as leis se desenvolvem ou são modificadas para corresponderem a si­ tuaçõesespecíficas. O próprio povo reconhecia a impureza de qualquer um que tivesse tocado num corpo morto, ou involuntariamente ou comoresultado de seusafazeres no lar ou nos negócios. Uma pessoa tornava-se uma parte daquilo em que tocava opoder do ponto imediato de contato. Esses ho­ menspercebiam que o seu contato com a morte os desqualificava para a participa­ çãonas celebrações davida. A ocasião da observância da Páscoa era fixa (cf. ós v. 2,5,7 — a seu tempo determinado). Estas duas idéias, ou seja, a da impureza, que fazia com que a pessoa não pudesse participar da convo­ cação sagrada, e a data anual fixa, fi­ zeram com que alguns dentre o povo não pudessem guardar a festa instituída. Eles reconheciam a festa como instituí­ da, mas também a reconheciam como sendo a seu tempo determinado. Esses imundos perguntavam: por que seríamos privadosdeoferecera ofertado Senhora seutempo determinado? Moisés não deu a resposta imediatamente. A sabedoria de Moisés vê-se em sua afirmação: Espe­ rai, para que eu ouça. A tradição judai­ ca sustenta que este problema surgiu por ocasião da primeira Páscoa depois do êxodo com relação a homens que esta­ vam cumprindo o seu dever religioso de assistirem aosseus mortos. Moisés desempenhou a sua função sa­ cerdotal. Os sacerdotes chegaram a ser conhecidos como especialistas em ques­ tões da conduta pessoal, do culto público e da pureza e imundícia. Haviam de ins­ truir sobre as questões da lei. A tora era originariamente uma breve orientação concernente a semelhantes leis. A tora sacerdotal evoluiu, para resultar na Tora, que era uma coleção destas leis da relação do homem com Deus. A lei veio de Deus a Moisés. Quando alguém que­ ria uma resposta de Deus, chegava à tenda do testemunho. Então Moisés en­ trava sozinho e recebia a mensagem de Deus face a face (Êx. 33:5,9,10; Núm. 12:8). Essa era a prerrogativa de Moisés, da qual os sacerdotes não podiam com­ partilhar. Moisés confiava as instruções aos sacerdotes(Deut. 31:9-11). A resposta, como registrada neste ca­ pítulo, vai além da situação imediata da imundícia por motivo de morte. Sem dú­ vida, semelhante situação surgiu cedo, 135
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    porém a respostadada nos versos 9-14 caberia a uma época depois de o povo ter-se radicado na terra pelo menos tem­ pobastantepara fazeruma viagem longa desuascasas. A resposta equaciona quatro situa­ ções: (1) imundícia, (2) ausência, por viagem, (3) abstinência da Páscoa sob quaisquer circunstâncias e (4) um estra­ nho em seu meio. Se alguém estivesse imundo, em razão de seus deveres num enterro, ou estivesse viajando distante (v. 10,13), podia guardar a Páscoa num tempo determinado, um mês depois do tempo da observância pela grande maio­ ria do povo de Israel. Porém, se alguém não tivesse guardado a Páscoa por um motivo outro que não esses dois, teria se distanciado de seu povo no sentido de o poder expiador da Páscoa ter sido in­ terrompido. O estrangeiro(v. 14) era um residente temporário ou um recém-che­ gado. Não tinha direito de herança. Mas havia de compartilhar das obrigações (direitos, privilégios e responsabilidades) da cidadania israelita. Contido no oráculo primitivo, havia um princípio a ser mantido. Não haveria como prever todas as situações a que seria aplicado. Os versículos 1-14 são uma ilustração clara do caráter das ob- servâncias ou de alguns oráculos — um caráter sujeito ao desenvolvimentoeaté a modificações. O mesmo processo aparece em todas as gerações. Os padrões de vida e de sustento mudam à medida que a socie­ dadee asculturas sedesenvolvem. Até os horários e a estrutura de nossa vida diá­ ria mudam. Porexemplo, sob um regime agrícola, oagricultorpode escolherpor si mesmo qual o dia que observará como o dia de descanso. Assim surgiu o costume regular de se observar o domingo como o dia legal do descanso. Mas as grandes corporações e indús­ trias, nas grandes cidades, muitas vezes possuem um cronograma de trabalho (mudanças de turno, mudança de dias de folga, etc.) que não estão sob o controle do trabalhador. Por conseguinte, muitas vezes se vê obrigado a trabalhar no do­ mingo. Concomitantemente, talvez não compartilhe da experiência do culto sob a orientação de sua igreja. Em 9:1-14, os homens que não tinham a oportunidade de guardar a Páscoa pe­ diram a Moisés que arranjasse a vida cul­ tual de tal forma que pudessem partici­ par desse culto. Ao invés de o cronogra­ ma de trabalho levar ao cancelamento das experiências cultuais, deverá apenas levar à reestruturação da vida cultual para os prejudicados. O trabalhador (primeiro) e o líder do culto (o pastor) deverão cooperar em identificar as áreas eem proporcionar as respostas sob a di­ reção do Espírito de Deus na comunida­ de sob transição. Aárea do sábado domi­ nicalé apenasuma ilustração da lição da estrutura temporal adaptável na obser­ vância ena participação da Páscoa. (9) O Significado da Nuvem com Apa­ rênciadeFogo(9:15-23) 15 No dia em que foi levantado o taber­ náculo, a nuvem cobriu o tabernáculo, isto é, a própria tenda do testemunho; e desde a tarde até pela manhã havia sobre o taber­ náculo uma aparência de fogo. 16 Assim acontecia de contínuo: a nuvem o cobria, e de noite havia aparência de fogo. 17 Mas sempre que a nuvem se alçava de sobre a tenda, osfilhos de Israel partiam; e no lugar em que a nuvem parava, ali os filhos de Israel se acampavam. 18Àordem do Senhor os filhos de Israel partiam, e à ordem do Senhor se acampavam; por todososdias em que a nuvem parava sobre o tabernáculo eles ficavam acampados. 19 E, quando a nuvem se detinha sobre o tabernáculo mui­ tos dias, os filhos de Israel cumpriam o mandado do Senhor, e não partiam. 20 Às vezes a nuvem ficava poucos dias sobre o tabernáculo; então à ordem do Senhor per­ maneciam acampados, e à ordem do Senhor partiam. 21 Outras vezes ficava a nuvem desde a tarde até pela manhã; e quando pela manhã a nuvem se alçava, eles partiam; ou de dia ou de noite, alçando-se a nuvem, par­ tiam. 22 Quer fosse por dois dias, quer por um mês, quer por mais tempo, que a nuvem 136
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    se detinha sobreo tabernáculo, enquanto ficava sobre ele os filhos de Israel permane­ ciam acampados e não partiam; mas, al­ çando-se ela, eles partiam. 23 À ordem do Senhor se acampavam, e à ordem do Senhor partiam; cumpriam o mandado do Senhor, que ele lhes dera por intermédio de Moisés. A conexão desta seção com as ante­ riores pode ser vista no tema da santida­ de. O capítulo 8 apresenta a santidade dos levitas em sua dedicação ao serviço. O capítulo 9:1-14 concentra-se na neces­ sidade de todo o povo participar da ob­ servância da Páscoa. Os versículos 15-23 mostram a nuvem com aparência de fogo como o sinal da presença de Deus entre opovo deIsrael. Nos desertos áridos, o calor do sol é devastador. Por todos os desertos havia pouquíssimo abrigo. Conseqüentemente, a presença da nuvem assumia para eles uma importância inusitada. Uma pala­ vra árabe para nuvem, ‘ana’n, quer di­ zer algo que intervém e assim obstrui.5 A nuvem obstruía os raios abrasadores do sol. A nuvem que sombreava o taber­ náculo (Êx. 40:36,37) “não era uma nu­ vem solitária, definida, mas, sim, uma neblina matutina ou um céu nublado”.6 Ospovosnômades deixam de viajar ao sol abrasador. Foram treinados, desde tenra infância, a tirar vantagem do sur­ gimento das mudanças do tempo e dos elementos da natureza. Hodiemamente, já nos temos acostumado a explicações de meteorologistas, concernentes aos sis­ temas do tempoe das nuvens. Estes vian­ dantes desérticos não tinham tais infor­ mações científicas. Contudo, sabiam ler os céus. A sua palavra para nuvem (‘anan) provavelmente até tivesse um sig­ nificado original de cobertura. Conhe­ ciam Deus como o Deus de toda a natu­ reza. De maneira que era inteiramente apropriado que recorressem às providên­ cias divinas para abrigo e aproveitassem da cobertura nebulosa, que conheciam 5 Brown, Drivere Briggs, op.dt. p. 777. 6IDBV0I. A-D, p. 655. como uma das evidências físicas da pre­ sençadeDeus. A nuvem com aparência de fogo apa­ recia como uma nuvem de dia e como aparência de fogo de noite. Cobria o ta­ bernáculo, no centro do acampamento. Em Êxodo 13:21,22, a coluna de fogo se descreve como lhes dando luz, pela qual podiam viajar tanto de noite como de dia. Neste contexto, porém, a nuvem devia pairar sobre a tenda da revelação. O povo devia viajar à ordem do Senhor (v. 18,20,23). A nuvem não era um sinal de orientação para a viagem, mas antes um sinal da presença de Deus. O povo partia conforme o mandamento de Deus como evidenciado no sinal que demons­ trava a presença de Deus com ele. Era importante que partisse ou parasse, con­ forme a ordem (10:13). Independente­ mente de quanto tempo a nuvem perma­ necesse perto, por sobre a tenda, o povo ficava perto. Também independente­ mente de quanto tempo a nuvem perma­ necessealçada, opovocontinuava a mar­ char. Podia ser por dois dias ou por um mês, ou por mais tempo. O uso de “ano”, em lugar de “mais tempo”, por parte da ASV e da KJV, é uma interpre­ tação dos tradutores, porque a palavra é literalmente “dias” de número indeter­ minado. A ênfase, nos versos 15-23, pa­ rece estar no peso do comando de Deus, quer seja na marcha, quer seja na espera dopovo. (10) As Regras das Trombetas de Prata (10:1-10) 1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Faze-te duas trombetas de prata; de obra batida as farás, e elas te servirão para convocares a congregação, e para ordenares a partida dos arraiais. 3 Quando se tocarem as trom­ betas, toda a congregação se ajuntará a ti à porta da tenda da revelação. 4Mas quando se tocar uma só, a ti se congregarão os princípes, os cabeças dos milhares de Is­ rael. 5 Quando se tocar retinindo, partirão os arraiais que estão acampados da banda do oriente. 6 Mas quando se tocar retinindo, pela segunda vez, partirão os arraiais que 137
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    estão acampados dabanda do sul; para as partidas dos arraiais se tocará retinindo. 7Mas quando se houver de reunir a congre­ gação, tocar-se-á sem retinir. 8 Os filhos de Arão, sacerdotes, tocarão as trombetas; e isto vos será por estatuto perpétuo nas vos­ sas gerações. 9 Ora, quando na vossa terra sairdes à guerra contra o inimigo que vos estiver oprimindo, fareis retinir as trombe- as; e perante o Senhor vosso Deus sereis tidos em memória, e sereis salvos de vossos inimigos. 10 Semelhantemente, no dia da vossa alegria, nas vossas festas fixas e nos princípios dos vossos meses, tocareis as trombetas sobre os vossos holocaustos, e sobre os sacrifícios de vossas ofertas pacífi­ cas; e eles vos serão por memorial perante vossoDeus. Eu sou o Senhor vosso Deus. Um dos problemas bem práticos era o de comunicar as ordens ao povo. Visto que a marcha, o levantar do acampa­ mento e as reuniões do conselho do povo não se realizavam segundo um planeja­ mento regular estabelecido, o método de sinais autorizados tinha de ser elabora­ do, a fim de haver unidade na cam­ panha. Havia duas trombetas de prata; de obrabatida. Estas trombetas deviam dar os sinais para todo o acampamento. O problema de o acampamento inteiro ser capaz de ouvir só duas trombetas não é mencionado. O importante é que um sis­ tema de comunicação era considerado essencial. Se o povo tinha de acampar junto e marchar junto, a comunicação das ordens se tornava necessária. É um tanto incongruente imaginar que somen­ te duas trombetas pudesem ser ouvidas por mais de 600 mil pessoas simultanea­ mente. Este é só um dos problemas que têm levado muitos intérpretes a questio­ nar a validade dos números do censo. Ou havia menos que 600 mil, em cada êxodo específico, ou o relato das duas trombetas foisupersimplificado. Havia dois tipos de sonido. Um era militar (v. 3) e o outro, para a congre­ gação (v. 4). Um toque retinindo (“alar­ me”, conforme a RSV) (teru‘ah) consis­ tia em três notas agudas com rapidez de staccato. O toque ou sopro era uma nota prolongada, de duração igual à das três notas do toque que retinia. O toque que retinia era o sinal para o povo levantar acampamento e começar a marchar. O sopro(toque) era osinalpara oslíderes se congregarem para uma reunião do conselho. Quando se emitia sonidos sem retinir era um sinal para todo o povo congregar-se à entrada da tenda. Esses sons variados são diferenciados no versí­ culo7. Não se deve confundir as trombetas com as shofar (shofar ocorre no Penta- teuco somente em Êx. 19:16,19; 20:18; Lev. 25:9 — se bem que em Lev. 25:9 seja shofar teru‘ah). Também não se deve confundi-las com yovel — cometa de chifre de carneiro — relacionado de perto com oano dojubileu (yovel é usado como cometa somente em Êx. 19:13 e Jos. 6:4-6,8,13). A palavra usada aqui em Números é trombeta (htstsrh) e é, distintivamente, um termo surgido poste­ riormente e, normalmente, uma palavra sacerdotal. O uso não-sacerdotal desta palavra acha-se somenteem II Reis 11:14 e Oséias 5:8. O versículo 10 indica que todos estes instrumentos deviam ser usa­ dos, em lugar de regulamentos legais rí­ gidos, por memorial perante o Deus da aliança. n. Israel em Marcha do Sinai a Parã(10:11-12:16) Os preparativos para a marcha têm sido explicados nos primeiros nove capí­ tulos. O estilo agora muda para um padrão mais estritamente narrativo. Os eventos foram relatados de tal forma que apresentassem uma verdade basilar. As tradições concernentes às questões orga­ nizacionais ou aos mandamentos divinos foram reunidas numa época suficiente­ mente posterior que permitisse chegar­ mos a uma interpretação mais clara de­ les. As informações concernentes a mui­ tos desses eventos estavam contidas em relatos convencionados de atividades cul- 138
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    tuais. Esta seçãoapresenta um prisma sacerdotal usando materiais das fontes J eE. Há maior idealização dos eventos do que podia ter surgido em meio aos pró­ prios acontecimentos. A base do pro­ pósito e da ordem dos relatos do deserto se achava na posição do sacerdócio da família de Arâo dentro da totalidade da estrutura. Tudo istoécolocado dentro do contexto da demonstração da presença acompanhante deDeus. 1. ORelato Geral(Introdução) (10:11,12) 11 Ora, aconteceu, no segundo ano, no segundo mês, aos vinte domês, que a nuvem se alçou de sobre o tabernáculo da congre­ gação. 12partiram, pois, os filhos de Israel dodeserto de Sinai para as suas jornadas; e a nuvem parou no deserto de Parã. A nuvem se alçou de sobre o taberná­ culo. Uma vezque aunidade tinha de ser mantida, era um sinal que o povo havia de se colocar em marcha. Esse povo per­ manecera no Sinai por 11 meses. Nú­ meros 1:1 data o censo em “o primeiro dia do segundo mês, no segundo ano”. A data do começo da marcha (v. 11) é o vigésimodia do segundo mês do segundo ano. As instruções são colocadas num espaço de 19 dias. Como é típico de es­ critos hebraicos, dá-se o conteúdo geral em forma resumida, no começo de uma passagem (v. 11,12). Depois desta intro­ duçãobreve, dá-se um relato maior, com muitospormenores(10:13-12:16). Os 40 anos entre o êxodo egípcio e a entrada na Palestina são conhecidos co­ mo as peregrinações no deserto. Identifi- caram-se muitos desertos, durante esta longa caminhada. No versículo 12, exis­ tem dois deles, ou seja, o de Sinai e o de Parã. Eventualmente pode surgir confu­ são no uso de alguns destes termos. As cidades podem ser as cidades centrais de determinadas áreas, e, assim, uma re­ giãointeira pode ser chamada pelo nome da cidade. Desta maneira, pode surgir alguma dúvida seseestá fazendoreferên­ ciaà própria cidade ou à área toda. 2. A OrdemdaMarcha(10:13-28) 13 Assim iniciaram a primeira caminha­ da, à ordem do Senhor por intermédio de Moisés: 14 partiu primeiramente o estan­ darte do arraial dos filhos de Judá segundo os seus exércitos; sobre o seu exército es­ tava Nasom, filho de Aminadabe; 15sobre o exército da tribo dos filhos de Issacar, Ne- tanel, filho de Zuar; 16e sobre o exército da tribo dos filhos de Zebulom, Eliabe, filho de Helom. 17Então o tabernáculo foi desarma­ do, e osfilhosde Gérson e os filhosde Merári partiram, levando o tabernáculo. 18 Depois partiu o estandarte do arraial de Rúben se­ gundo os seus exércitos; sobre o seu exér­ cito estava Elizur, filho de Sedeur; 19 sobre oexércitoda tribodos filhosde Simeão. Selu- miel,filhode Zurisadai; 20e sobre oexército da tribo dosfilhos de Gade, Eliasafe, filhode Deuel. 21 Então partiram os coatitas, le­ vando o santuário; e os outros erigiam o tabernáculo, enquanto estes vinham. 22 De­ poispartiu oestandarte do arraial dos filhos de Efraim segundo os seus exércitos; sobre o seu exército estava Elisama, filho de Amiúde; 23 sobre o exército da tribo dos filhosde Manassés, Gamaliel, filho de Peda- zur; 24e sobre o exército da tribo dos filhos de Benjamim, Abidã, filho de Gideôni. 23 Então partiu o estandarte do arraial dos filhos de Dã, que era a retaguarda de todos osarraiais, segundoosseus exércitos; sobre o seu exércitoestava Aíezer, filho de Amisa- dai; 26sobre oexército da tribo dos filhos de Aser, Pagiel, filho de Ocrã; 21 e sobre o exército da tribo dos filhos de Naftali, Aírá, filho de Enã. 28 Tal era a ordem de partida dos filhos de Israel segundo os seus exérci­ tos, quando partiram. As instruções concernentes à marcha já tinham sido descritas no capítulo 2. A ordem das doze tribos concorda com aquela ordem. Os estandartes —ou seja, asdivisões militares — de Judá, Rúben e Efraim foram seguidos pela unidade de Dã como a retaguarda. Vê-se a mudança no tratamento dos levitas. O capítulo 2 apresenta os levitas como estando no centro da marcha, isto é, entre Rúben e Efraim. No capítulo 10, os levitas gerso- nitas emeraritas haviam de partir depois 139
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    de Judá, masantes de Rúben. Estes homens carregavam a carga do taberná­ culo. Note-se a diferença entre “tenda da revelação” (RSV, “congregação”) e “ta­ bernáculo” (10:17,21). Os levitas coati- tas, responsáveis pelas coisas sagradas, haviam de marchar depois de Rúben, mas antes de Efraim, isto é, no meio. Note-se que os coatitas são da família de Moisés e Arão. Em 2:17, todos os levitas deviam estarjuntos no arraial do centro. Em 10:17-22, os levitas carregadores, ou seja, os de Gérson e de Merári, tinham sido enviados adiante dos coatitas, de sorte que o tabernáculo pudesse ser er­ guido antes da chegada das coisas sagra­ das(10:21b). Isso significaria que o capí­ tulo 10é um desenvolvimento posterior e também que os coatitas foram especial­ mente honrados em ficar com as coisas sagradas. O pai de Eliasafe é Deuel em 1:14 e 10:20, porém em 2:14 é alistado como Reuel. Na língua hebraica, as letras d er são muito semelhantes. A diferença prin­ cipal é que o d tem o til ou chifrinho. Certamente um copista leu o d como um rem 2:14. Talvez assim tenha feito, visto que conhecia onome Reuel como relacio­ nado a Moisés. 3. MoiséseHobabe(10:29-32) 29 Disse então Moisés a Hobabe, filho de Reuel, o midianita, sogro de Moisés: Nós caminhamos para aquele lugar de que o Senhor disse: Vo-lo darei. Vai conosco, e te faremos bem; porque o Senhor falou bem acerca de Israel. 30 Respondeu ele: Não irei; antes irei à minha terra e à minha pa­ rentela. 31 Tornou-lhe Moisés: Ora, não nos deixes, porquanto sabes onde devamos acampar no deserto; de olhos nos servirás. 32 Se, pois, vieres conosco, o bem que o Senhornos fizer, também nós faremos a ti. A mudança “do deserto do Sinai” (10:12,13,28) significava que homens do povo de Israel deviam deixar alguns de seus amigos, e, em alguns casos, de seus parentes. Foi o caso com Moisés. Não queria deixar alguns de seus parentes para trás. Convidou-os a acompanhá-los. O relato do convite a Hobabe era, sem dúvida, típico demuitos convites. Os relatos dão nomes diferentes ao sogro de Moisés. A palavra sogro (ho- then) égeralmente traduzida por “pai da esposa”. A raiz árabe significa um “cir- cuncidador”, e daí um sogro. Este vocá­ bulo se refere ao rito da circuncisão, realizada nosjovens imediatamente antes do seu casamento. No caso de o pai da noiva já ter falecido, o irmão da noiva seria o “circuncidador”. Assim, a pala­ vra é traduzida tanto como “sogro” quanto como “cunhado”.O sentido mais comum seria o pai da esposa. A identi­ dade do sogro de Moisés(10:29) é Hoba­ be, filhode Reuel, o midianita. É impos­ sível ser categórico se é Hobabe que é sogro ou se é “Reuel (Jetro)”. O texto hebraico de 10:29 pode significar ou que Hobabe ou que Reuelfosseosogro. Em Êxodo 3:1; 4:18; 18:1,2,5,6,12, o nome do sogro deMoiséséJetro(cf. tam­ bém Êx. 18:7,8,14,15,17,24,27). Em Jui­ zes4:11, Hobabe é onome dado ao sogro de Moisés. Também em Juizes 1:16 al­ guns manuscritos antigos incluem o nome Hobabe comoosogro deMoisés. O nome Reuel ocorre duas vezes em relação a Moisés. Em Êxodo 2:18, ele é citado como o pai de Zípora. Estes três nomes, ou seja, os de Jetro, Hobabe e Reuel, aparecem em relação direta com Moisés. Números 10:29 dá a linhagem mais direta, ao afirmar queHobabe era o filho de Reuel. O problema que ainda deixa dúvida é a relação de Jetro com Hobabe. Cada um é chamado de sogro de Moisés (Êx. 3:1; 4:18; 18:1,2,5,6,12 —Jetro; Juí. 4:11 e, possivelmente, 1:16 — Hobabe). Assim, Jetro e Hobabe são doisnomes deuma mesma pessoa. Não é incomum que doishomens para um mes­ mo lugar ou uma mesma pessoa sejam preservados, por ex., Sinai-Horebe; Ti- glate-Pileser-Pul; Daniel-Beltessazar; Ja- có-Israel, etc. 140
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    Hobabe era ochefe do grupo conheci­ do como os queneus (Juí. 1:16; 4:11), um clã midianita. Comoum sacerdote de Midiã, era também muito benéfico a Moisés no tocante ao entendimento de sua própria religião, da revelação do Deusda aliança etambém na reorganiza­ ção da estrutura legal de Israel. É preciso ver um outro aspecto do problema. Tem-se de fazeruma interpre­ tação de 12:1. Se a mulher com quem Moisés se casou, mencionada no capítu­ lo 12, é outra que não Zípora, então Moisés teria tido dois sogros. Porém Je- tro e Reuel são mencionados com Zí­ pora. E Hobabe é chamado de o filho de Reuel. Todos os três são relacionados diretamente com Moisés e Zípora. De sorte que a soluçãofácil de que dois deles sejam sogrosnão pode ser a solução para dilema da identidade dos três nomes, visto que todos os três são ligados, no textobíblico, a Zípora. Moisés urgia que Hobabe os acompa­ nhasse. Relembra Hobabe da promessa queDeuslhes tinha feito, i.e., da posses­ são daTerra Prometida, que évistacomo o bem que Deus falava acerca de Israel (v. 29). Hobabe responde (v. 30) que vai voltar para casa, para sua própria terra. Moisés insta de novo com ele e agora re­ velaum outro motivo de sua necessidade deHobabe (v. 31). Precisariam dele para os dirigir pelos caminhos dos oásis e por veredas seguras. Moisés promete a Ho­ babe igualdade de direitos na possessão (v. 32). Nada é afirmado sobre a mudan­ ça de idéia de Hobabe, de maneira que é provável que Hobabe não tenha acompa­ nhadoMoisése os filhos de Israel daí em diante. 4. APrimeiraEtapadaMarcha (10:33-36) 33 Assim partiram do monte do Senhor caminho de três dias; e a arca do pacto do Senhor ia adiante deles, para lhes buscar lugar de descanso. 34 E a nuvem do Senhor ia sobre eles de dia, quando partiam do arraial. 35Quando, pois, a arca partia, dizia Moisés: Levanta-te, Senhor, e dissipados sejam os teus inimigos, e fujam diante de ti os que te odeiam. 36 E, quando ela pousava, dizia: Volta, ó Senhor, para os muitos mi­ lhares de Israel. Novamente se realça a presença de Deus em contraste com a confiança em Hobabe como guia. A nuvem significava a presença de Deus (v. 34), que pairava sobre eles de dia, quando partiam na primeira etapa da viagem. A nuvem não ia “adiante” deles, mas sobreeles, signi­ ficando mais a presença de Deus do que a sua direção. Esta etapa era umaviagem de três dias, do Sinai. O versículo 33 é o único lugar onde se refere ao Sinai como omontedo Senhor. A arca do pacto do Senhor (v. 33) é distintivamente um termo deuteronômi- co, colocando uma maior ênfase na pre­ sença divina. A menção de a nuvem do Senhor(v. 34)é tirada do contexto sacer­ dotal anterior(9:15-23). A arca ia adiante deles (v. 33) quer dizer, literalmente, “aos seus rostos”, que podia significar “à sua vista”, bem como na sua frente. Não é lógico que a arca fosse “caminho de três dias” adian­ te deles (como nos textos hebraico e inglês). Durante ostrês dias da viagem, a arca estava na presença deles precisa­ mente como a nuvem estava sobre eles. Porém o termo buscar é o mesmo que o usado no capítulo 13 com relação à in­ vestigação da terra. Neste caso, o motivo da menção da nuvem é claro, no sentido de que a arca ia adiante do povo e a nuvem pairava sobre ele. Nas marchas subseqüentes, a arca era carregada pelos coatitas no centro das doze tribos em marcha. A arca era o símbolo material da pre­ sença invisível de Deus no seu culto sa­ grado, bem como em sua guerra santa (Jos. 3:3,6; 4:11-13; I Sam. 4:3-22). Os versículos 35 e 36 contêm duas antigas canções de batalha, relacionadas com a arca e com o exército em marcha. Quan­ 141
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    do a arcacomeçava a mover-se, o povo costumava gritar: Levanta-te, Senhor, e dissipados sejam os teus inimigos. A ar­ caeraconsiderada, pelosisraelitas, como o trono de Deus. Quando ela ia adiante deles, eram vitoriosos, porque Deus esta­ va ali. Quando era trazida ao local do acampamento, opovo costumava cantar: Volta, ó Senhor,paraos muitos milhares deIsrael. Os muitos milhares pode também ser traduzido como “a multidão das tribos de Israel”. Notar a tradução da Socie­ dade de PublicaçõesJudaicas(JewishPu- blication Society), “as dez mil das famí­ lias de Israel”. 5. As Reclamações do Povo (11:1-12:16) Quando as pessoas se acham em di­ ficuldades, sejam físicas, mentais, finan­ ceiras oueconômicas, é relativamente fá­ cil dimensionarem os seus problemas em proporções muito maiores. Quando uma pessoa se queixa de sua sorte, na vida, muitos outros tomam a oportunidade de contar de seus infortúnios. Somos tão prontos a nos queixarmos da comida, das despesas, das autoridades, do tempo ou uns dos outros. O povo de Israel demons­ trava essas mesmas fraquezas. Este ma­ terial não é sacerdotal, mas provém das fontesJ eE. (1) A Reclamação em Tabera (11:1-3) 1Depois o povo tornou-se queixoso, falan­ do o que era mau aos ouvidos do Senhor; e quando oouviu, acendeu-se a sua ira; o fogo do Senhor irrompeu entre eles, e devorou as extremidades do arraial. 2 Então o povo clamou a Moisés, e Moisés orou ao Senhor, e o fogo se apagou. 3 Pelo que se chamou aquele lugar Tabera, porquanto o fogo do Senhor se acendera entre eles. Uma reclamação eventual é de se es­ perar em qualquer organização ou famí­ lia. Mas quando as pessoas chegam a ser reclamadoras contínuas, algo está erra­ do, ou com a situação ou com elas, ou com ambas. O povo tornou-se queixoso significa uma atitude contínua ou até característica. As queixas eram sobre os seus infor­ túnios (conforme a RSV). A palavra é impropriamente traduzida na ASV e no nosso texto português por “mal”. Ela traz essa idéia em muitos contextos, po­ rém o pensamento central aqui é que a sua sorte na vida lhes desagradava. Se um feito ou um pensamento for desagra­ dável oumau aos olhos de Deus, é moral­ mente ruim. O texto mostra que o povo estava se entregando a murmurações constantes. O autor não declara qual o objetivo específico de seu desagrado. Es­ tavam reclamando incessantemente aos ouvidos do Senhor. Acendeu-se a sua ira éuma expressão antropopática, indican­ do o seu próprio e definido desagrado, não por causa da sorte do povo, mas, sim, por causa das suas reclamações contínuas. O fogo do Senhor é um termo indefi­ nido. Alguns comentaristas procuram explicá-lo como raio ou algum outro fe­ nômeno elétrico. Talvez tenha sido. Po­ rém o leitor que estiver obcecado pela necessidade absoluta de explicar o fenô­ meno como natural ou não-natural pres­ cinde da fé como um elemento essencial para a interpretação. O fogo, aqui, é uma figura de linguagem, interpretada como a santidade consumidora de Deus, como também no caso de Nadabe e Eliú (Lev. 10:1-3). Quando surgiram os problemas, o povo soltou um grito de socorro a al­ guém, neste caso Moisés. Moisés orou (não foium grito de socorro, mas um ato desintercessão) ao Senhor. Isto ocorreu no lugar chamado Tabera, que significa ardor (cf. Deut. 9:22). Sem dúvida, esta éuma história etiológica, que relembra o significado do nome do lugar como uma unidade da primeira etapa da viagem. 142
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    (2) A Reclamaçãoem Quibrote-Hataavá (11:4-35) 4 Ora, o vulgo que estava no meio deles veio a ter grande desejo; pelo que os filhos de Israel também tornaram a chorar e dis­ seram: Quem nos dará carne a comer? 5 Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça, e dos pepinos, dos me­ lões, dos porros, das cebolas e dos alhos. 6 Mas agora nossa alma se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos. 7 E era o maná como a semen­ te do coentro, e a sua aparência como a aparência de bdélio. 8Opovo espalhava-se e o colhia, e, triturando-o em moinhos ou pi­ sando-onum gral, em panelas o cozia, e dele fazia bolos; e o seu sabor era como o sabor de azeite fresco. 9 E, quando o orvalho des­ cia de noite sobre oarraial, sobre ele descia também o maná. 10 Então Moisés ouviu chorar o povo, todas as suas famílias, cada qual à porta da sua tenda; e a ira do Senhor grandemente se acendeu; e aquilo pareceu mal aos olhos de Moisés. 11 Disse, pois, Moisés ao Senhor: Por que fizeste mal a teu servo, e por que não achei graça aos teus olhos, pois que puseste sobre mim o peso de todo este povo? 12 Concebi eu porventura todo este povo? dei-o eu à luz, para que me dissesses: Leva-o ao teu colo, como a ama leva a criança de peito, para a terra que com juramento prometeste a seus pais? 13Donde teria eu carne para dar a todo este povo? porquanto choram diante de mim, dizendo: Dá-nos carne a comer. 14Eu só não posso levar a todo este povo, porque me é pesado demais. 15 Se tu me hás de tratar assim, mata-me, peço-te, se tenho achado graça aos teus olhos; e não me deixes ver a minha miséria. 16 Disse então o Senhor a Moisés: Ajunta-me setenta homens dos an­ ciãos de Israel, que sabes serem os anciãos dopovoe seus oficiais; e os trarás perante a tenda da revelação, para que estejam ali contigo. 17Então descereie ali falarei conti­ go, e tirarei do espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles; e contigo levarão eles o peso do povo para que tu não o leves só. 18E dirás ao povo: Santificai-vos para ama­ nhã, e comereis carne; porquanto chorastes aos ouvidos do Senhor, dizendo: Quem nos dará carne a comer? pois bem nos ia no Egito. Pelo que o Senhor vos dará carne, e comereis. ISNãocomereis um dia, nem dois dias, nem cinco dias, nem dez dias, nem vinte dias; 20 mas um mês inteiro, até vos sair pelas narinas, até que se vos torne coisa nojenta; porquanto rejeitastes ao Senhor, que está no meio de vós, e chorastes diante dele, dizendo: Porque saímos do Egito? 21 Respondeu Moisés: Seiscentos mil ho­ mens de pé é este povo no meio do qual es­ tou; todavia tu tens dito: Dar-lhes-ei carne, e comerão um mês inteiro. 22 Matar-se-ão para eles rebanhos e gados, que lhes bas­ tem? ouajuntar-se-ão para eles todos os pei­ xes do mar, que lhes bastem? 23 Pelo que replicou o Senhor a Moisés: Porventura tem-se encurtado a mão do Senhor? agora mesmo verás se a minha palavra se há de cumprir ounão. O vulgo (ingl.: turba) tinha desejos muito fortes para si mesmo. Este termo vulgonão ocorre em nenhum outro lugar no Antigo Testamento. Tem a acepção de os ajuntados, e pode estar fazendo referência à maneira como as pessoas são propensas a se ajuntarem em pequenos grupos, especialmente em épocas de ten­ são sustida. Aqueles nos pequenos gru­ pos tinham desenvolvido um grande de­ sejo, que se alastrou, até todo o povo chorar: Quem nos dará came a comer? Essa não foi a primeira vez que chora­ ram (cf. Êx. 16:1-3). O relato de Êxodo que é o registro E da história das codor- nizes tem algumas semelhanças com esta história. Conta como o povo recordava “quando estávamos sentados junto às panelas de carne” (Êx. 16:3). O registro sacerdotal é, provavelmente, mais pre­ ciso em lembrar dos peixes... dos pepi­ nos, dos melões (melancias), dos porros, dascebolas e dos alhos. Peixe era a dieta comum dos pobres no Egito. Heródoto (II, 125) nota que os homens que ser­ viamno trabalho forçado, nas pirâmides, foram alimentados deporros ecebolas. Os israelitas recordavam como co­ miam peixes, que não lhes custavam nada, e agora não podiam sequer com­ prar came. Não tinham comida, senão o maná. Agora a sua alma (“força”, no inglês) se seca. Snaith7explica a expres­ são como significando que não tinham nada para abrir oseu apetite. Deduz esse 7 Peake’s Commentary on the Blbie, eds. Matthew Black e H.H. Rowley(Londres: Nelson, 1962), p. 259. 143
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    pensamento da interpretaçãode que o seu apetite estava ressequido pela falta de carne fresca e suculenta. O maná passou a ser assim chamado após a ob­ servaçãofeita pelo povo, quando o viram pela primeira vez: “Que é isto?” como explicado em Exodo 16:15.8 O maná é descritonosversos 7-9. Êxodo 16:14tam­ bém diz que era miúdo e fino. Existe uma planta conhecida por tamarix galli- ca mannifera ou árvore tarfa, que segre­ ga um suco de gotas pesadas, a partir do fim demaio atéjulho. Estas gotas apare­ cem durante a noite, mas são derretidas ao calor do sol. São doces, com uma consistência pegajosa, parecida com o mel. O sabor de bolos assados com óleo seria bem diferente do dos alhos e das cebolas, aos quais se tinham habituado durante os longos anos no Egito. Essa suavidade de gosto acentuava a ausência de qualquer carne de sua dieta. Os versículos 10-15 unem duas idéias. Uma delas é da continuação das recla­ mações dopovo, que eram desagradáveis para Deus e para Moisés. A outra é da estrutura autoritária ou organizacional de sua sociedade. A queixa sobre a carne (cf.Êx. 17:2-4)elevouaumgrau decriseo acúmulo de problemas, de tal sorte que Moisés sesentiu pessoalmente rejeitado e sobrecarregado. Moisés sentiu quejá não podia continuar com as pesadas respon­ sabilidades da liderança. Ele queria al­ guma mudança ou das estruturas ou pela morte (Êx. 18:17,18; 32:30-32). O sentimento que Moisés tinha de so­ brecarga insuportável é aliviado pela dis­ tribuição da carga e das atividades entre setenta outros. Estes homens haviam de sertrazidos à tendadarevelaçãoe imbuí­ dos de uma porção do espírito que habi­ tavaem Moisés. Uma outra maneira de tornar mais leve a sobrecarga insuportável do líder é a resposta firme àqueles que trouxeram a queixa. O relato da situação alimentícia 8Ver ocomentário sobre Êxodo, Volume 1. écontinuado no versículo 18. É dito ao povo que se santifique. Esse serviço é, basicamente, um aviso para que se pre­ parem. Estes preparativos podiam ser para o mal, como também para o bem. Haviam de recebercarne no dia seguinte. O povo era cético, pois estava muito longe de qualquer via de suprimentos. Além disso, já tinha peregrinado por tanto tempo, e não conseguira carne alguma. Assim reiterou o dito que já quase se tornara em chavão, bem nos ia noEgito. Nãojulgava assim quando cati­ vo no Egito. Porém a fraqueza humana faz com que alguém com uma tendência para ter pena de si olhe para o capim verde dooutro lado dacerca. Moisés informou-lhesque oDeus deles lhes daria carne. A ênfase principal des­ tes versículos é o poder espantoso de Deus para suprir semelhante multidão com tamanha abundância por um tão extenso período de tempo. A carne seria tão abundante que se tomaria nojenta, estranhae repugnante. 24 Saiu, pois, Moisés, e relatou ao povo as palavras do Senhor; e ajuntou setenta ho­ mens dentre os anciãos do povo e os colocou ao redor da tenda. 25Então o Senhor desceu na nuvem, e lhe falou; e, tirando do espírito que estava sobre ele, pô-lo sobre aqueles setenta anciãos; e aconteceu que, quando o espírito repousou sobre eles, profetizaram, mas depois nunca mais o fizeram. 26Mas no arraial ficaram dois homens; chamava-se um Eldade, e o outro Medade; e repousou sobre eles o espírito, porquanto estavam entre os inscritos, ainda que não saíram para irem à tenda; e profetizavam no ar­ raial. 27 Correu, pois, um moço, e o anun­ ciou a Moisés, dizendo: Eldade e Medade profetizam no arraial. 28 Então Josué, filho de Num, servidor de Moisés, um dos seus mancebos escolhidos, respondeu e disse: Meu senhor Moisés, proíbe-lho. 29 Moisés, porém, lhe disse: Tens tu ciúmes por mim? Oxalá que do povo do Senhor todos fossem profetas, que oSenhorpusesse o seu espírito sobre eles! 30 Depois Moisés se recolheu ao arraial, ele e osanciãos de Israel. Reinicia-se orelato dos setenta anciãos (v. 24-30). Seguindo a diretriz do versí- 144
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    culo 16, Moisés^juntou setenta homens dentre os anciãos... ao redor da tenda. Ali Deus lhes doou o mesmo espírito que tinha inspirado a atuação de Moisés. A forma apresentada não é o emprego mais clássico do verbo “profetizar”. Ca­ racteriza a fase extática da profecia, que era comum na história primitiva dos israelitas. O desenvolvimento do movi­ mento profético mostra muita influência cananéia, particularmente na evidência do êxtase, tanto com estímulo musical, comosemele. Mas depois nunca mais o fizeram (v. 25) significa, literalmente, “e não acrescentaram”. Isto podia querer dizer que não aumentaram. Mas podia tam­ bém querer dizer que profetizaram so­ mente o que oespírito lhes revelou e não lhe acrescentaram nada. O contexto re­ quer a leitura de que não acrescentavam nada à mensagem, visto que nos versos 26-30 podemos notar a adição de mais dois ao número setenta. Assim, a sobre­ carga, que tinha sido onerosa sobre Moi­ sés, foi repartida entre os representantes da congregação inteira. Dois homens, respectivamente de no­ me Eldade e Medade, tinham sido regis­ trados, mas não podiam ir com os demais setenta representantes. Enquanto ainda estavam no arraial, possivelmente, em virtude de imundícia cultual, foram pos­ suídos pelas mesmas expressões profé­ ticas que os outros setenta, que estavam ao redor da tenda. É interessante notar que este relato situa a tenda fora do acampamento, contrariamente ao regis­ tro anterior (cap. 2), que diz que a tenda havia de estar no centro do acampa­ mento. Um moço contou a Moisés, aliás, pro­ vavelmente" a Josué, que por sua vez informou a Moisés, que Eldade e Meda­ de estavam profetizando. Josué esperava que Moisés os proibisse de profetizar, visto que não constavam entre os setenta escolhidos. Porém a resposta de Moisés alcança alturas progressivas. A expecta­ tiva de Josué era mais característica de uma luta pelo poder, dentro de uma organização, do que da exaltação do espírito de Deus. Josué tinha ciúmes pelaposição deMoisés, enquantoMiriã e Arâo tinham ciúmes de sua posição. A resposta de Moisés é outra prova de sua mansidão. Significava uma crença fundamental de que Deus podia doar de seu espírito a qualquer pessoa, sem limi­ tações de tempo, de lugar ou de ritual prescrito. Moisés desejava que toda a congregação, ao invés de apenas os 72, fossem profetas e recebedores do espírito deDeus. 31 Soprou, então, um vento da parte do Senhore, do lado do mar, trouxe codornizes que deixou cairjunto ao arraial quase cami­ nho de um dia de um e de outro lado, à roda doarraial, a cerca de dois côvados da terra. 32 Então o povo, levantando-se, colheu as codornizes portodo daquele dia e toda aque­ la noite, e por todo o dia seguinte; o que colheu menos, colheu dez hômeres. E as estenderam para si ao redor do arraial. 33 Quando a carne ainda estava entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, acendeu-se a ira do Senhor contra o povo, e feriu o Senhor ao povo com uma praga mui grande. 34Pelo que se chamou aquele lugar Quibrote-Hataavá, porquanto ali enterra­ ram o povo que tivera o desejo. 35 De Qui- brote-Hataavápartiu o povo para Hazerote; e demorou-se em Hazerote. A história das codornizes recomeça (do v. 23) com o versículo 31. Um vento de Deus (cf. Êx. 14:21) trouxe as codor­ nizes. Semelhantemente ao maná, as co- domizes são nativas daquele deserto. O vento trouxe uma abundância em mi­ gração do Golfo de Ãcaba. Estas migra­ ções acontecem geralmente em março. Quando estas aves atravessavam as pla­ nícies em números tão grandes e de tão longe, ficavam exaustas, e assim podiam serapanhadas facilmente. O versículo 31 assinala a parte mais inusitada do regis­ tro, i.e., as codornizes perfaziam uma camada de um metro de altura numa área que se estendia pela viagem de um 145
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    dia em qualquerdireção do acampa­ mento. Seria realmente muitíssimo incomum que as aves estivessem presentes pela ocasiãoespecífica da reclamação do povo e em números tão elevados. Estes são os elementos de um registro veterotesta- mentário de um milagre: (1) algo extra­ ordinário ocorreu(não, necessariamente, totalmente fora do reino dos eventos na­ turais); (2) o tempo era especificamente oportuno; e (3) havia uma mente pre­ sentepara interpretar o evento e o tempo como sob controle doSenhor. Há uma interpretação antiga que man­ tém que as codornizes estavam voando a cerca de dois côvados da terra(ou seja, acima da terra) (v. 31), de maneira que o povopodia pegá-las facilmente, pois voa­ vam pelo seu caminho exaustas. Assim o povo levantou-se a apanhou as codorni­ zes. Cada pessoa apanhou pelo menos dez hômeres (v. 32). Um hômer corres­ pondia à carga de um jumento. Dez carregamentos de jumentos seriam uma quantidade fantástica, indicando uma ganância desordenada. Sem dúvida, po­ diam apanhar codornizes suficientes pa­ ra, pelomenos, um mêsinteiro (cf. v. 19, 20). Estenderam-nas ao redor do acam­ pamento, a fim de secá-las epreservá- las para uso futuro. O excitamento crescia à medida que opovo prelibava a satisfação de seus apetites egoístas. Estavam tão envolvidos na sua gula, que a ira do Senhor se acendeu de tal forma a trazer uma praga sobreeles. Esta praga foiuma enfermidade, surgida, aparentemente, do comer das codornizes (não da quanti­ dade comida), e foi interpretada como umjuízocontra eles. Osversículos34e35são topográficos e também etiológicos. O lugar lhes era conhecido e o nome é explicado em ter­ mos das “covas da cobiça”, que é o significado deQuibrote-Hataavá. Tabera (11:3) eQuibrote-Hataavá (11:34,35) são dois lugares registrados em Deuteronô- mio9:22 comolugares ondeDeus expres­ sou desagradopara comseu povo. (3) AReclamaçãoemHazerote(12:1-16) 1 Ora, falaram Miriã e Arão contra Moi­ sés por causa da mulher cuchita que este tomara; porquanto tinha tomado uma mu­ lher cuchita. 2 E disseram: Porventura fa­ louo Senhor somente por Moisés? Não falou também por nós? E o Senhor o ouviu. 3Ora, Moisés era homem mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra. 4E logo o Senhor disse a Moisés, a Arão e a Miriã: Saí vós três à tenda da revelação. E saíram eles três. 3 Então o Senhor desceu em uma coluna de nuvem, e se pôs à porta da tenda; depois chamou a Arão e a Miriã, e os dois acudiram. 6 Então disse: Ouvi agora as minhas palavras: se entre vós houverprofeta, eu, o Senhor, a ele me farei conhecer em visão, em sonho falarei com ele. 7 Mas não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa; 8bocaa boca falo com ele, claramente e não em enigmas; pois ele contempla a forma do Senhor. Por que, pois, não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés? 9Assim se acendeu a ira do Senhor contra eles; e ele se retirou; 10também a nuvem se retirou de sobre a tenda; e eis que Miriã se tornara le­ prosa, branca como a neve; e olhou Arão para Miriã e eis que estava leprosa. 11Pelo que Arão disse a Moisés: Ah, meu senhor! rogo-te não ponhas sobre nós este pecado, porque procedemos loucamente, e pecamos. 12Não seja ela como um morto que, ao sair do ventre de sua mãe, tenha a sua carne já meio consumida. 13Clamou, pois, Moisés ao Senhor, dizendo: Ó Deus, rogo-te que a cures. 14Respondeu o Senhor a Moisés: Se seupailhe tivesse cuspido na cara não seria envergonhadapor sete dias? Esteja fechada por sete dias fora do arraial, e depois se recolherá outra vez. 15 Assim Miriã esteve fechada fora do arraial por sete dias; e o povonão partiu, enquanto Miriãnão se reco­ lheu de novo. 16Mas depois o povo partiu de Hazerote, e acampou-se no deserto de Parã. Miriã e Arão tinham ciúmes da posi­ ção de Moisés. O seu descontentamento achouexpressão contra a mulher cuchita com quem Moisés tinha casado. O texto não assinala, aqui, se esse casamento acontecera havia bastante tempo ou se era um eventorecente. 146
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    Moisés era único,no sentido de que Deus lhe falava face a face (v. 6-8), con­ quanto todos oSoutros profetas ouvissem a Deus em sonhos e visões (v. 6; Jó 4:12-17; 33:15). Arão e Miriã eram reco­ nhecidos como lideres do povo, mas ocupavam, seguramente, o segundo lu­ gar depois deMoisés. A identidade da mulher cuchita tem sido largamente debatida. O único nome conhecido de uma esposa de Moisés era Zípora (Êx. 2:16-22; 4:25; 18:2). Porém hâ ocasiões, aqui e em outros lugares, onde há referência à esposa de Moisés sem nenhum nome específico. Possivel­ mente oescritorestejafazendo referência a Zípora, aqui. Era através dela e de seu parentesco que se tinham efetivado mui­ tas mudanças na vida de Israel. O con­ selho para trazer outros a fim de inte­ grarem a organizaçãoregente(Êx. 18:13- 27) fez com que a posição de Miriã e Arão fosse menos central. Também mui­ tos consideram que os queneus exerce­ ram considerável influência, em termos espirituais e de revelação, sobre Moisés e opovo. Assim, o prestígio e a influência de Miriã e de Arão foram diminuídos. Seria compreensível que Arão e Miriã estivessemdescontentes comZípora. Zípora tinha sido deixada com seu pai por longotempo(juntocom os dois filhos deMoisés), masJetro ostrouxe a Moisés. Enquanto Zípora e os dois meninos esta­ vam ausentes, Miriã e Arão não tinham quem os rivalizasse, relegando-os a um segundo lugar; mas ao estarem presen­ tes, havia uma lembrança constante das diversas sugestões que tinham vindo através dos midianitas, desequilibrando ostatusquo. Zípora era uma midianita (Êx. 2:16) ou uma quenéia (Juí. 1:16; 4:11). Em Habacuque 3:7, os termos Cusã e Midiâ são usados em paralelismo sinônimo. Dessaforma, ela pode ser citada correta­ mentecomouma mulhercuchita. A história de Zípora registra o fato de queMoisés a despedira(Êx. 18:2). Este é o mesmo termo usado em outros lugares para o divórcio. Neste mesmo capítulo (Êx. 18:1,6) somos informados que Jetro, ainda chamado de sogrode Moisés, trou­ xe Zípora a Moisés “no deserto onde se tinha acampado, junto ao monte de Deus” (Êx. 18:5), trazendo também os seus dois filhos. Este registro assinala (Êx. 18:27) que mais tarde “despediu Moisés a seu sogro” para a sua pátria. Não se faz menção nenhuma de Zípora e dos dois filhos, Gérson e Eliezer. Assim, é possível que a mulher cuchita fosse Zí­ pora. Nesse caso, a referência explicaria uma menção repetida a cuchita, para realçar, com certo desdém, que Miriã e Arão a consideravam uma “estrangeira”. A Septuaginta e a Vulgata traduzem o termo por Etiópia. Entre as muitas len­ das sobre Tharbis, a filha de Kirkanos, rei da Etiópia, existe uma que conta que Moisés se casou com a rainha da Etiópia e governou aquele país por mais de 40 anos. Cusã recebe os seguintes significa­ dos: Etiópia; Cassita — ao leste da Babi­ lônia; Cusi (Arábia Setentrional); Cusã- Midiâ; ede aparência vistosa. Miriã e Arão eram oficiais religiosos servindo sob Moisés. A ira deles explica- se no versículo 2, na pergunta: Porven­ turafalouo Senhorsomentepor Moisés? MasMoiséserahomemmuimanso, mais do que todos os homens... sobre a terra. Issonão quer dizer que não manifestasse resistência perante alguma situação humana. A mansidão tem de ser enten­ dida dentro da relação do homem com Deus (Êx. 3:11; Sof. 2:3). Todos os três foram chamados para irem à tenda. Aqui o Senhor se irou contra Miriã e Arão por ousarem falar contra o servo de Deus (v. 9). Miriã é selecionada para o castigo. Não há qual­ quer registro de castigo para Arão. Não se dá nenhum motivo pela diferença no tratamento de Miriã e de Arão. Os escri­ tossacerdotais enaltecem a descendência deArão. 147
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    Trata-se dos trêsem níveis diferentes. Arão confessa o pecado deles e intercede por Miriã. Moisés também intercede por ela, mas lepra é imundícia. O juízo de Deus sobre ela tornou-a inaceitável den­ tro da congregação. Pela sua crítica a Moisés com relação à autoridade sobre a congregação, Miriã tomou-se inaceitável à congregação. Ela teve de passar o pe­ ríodo de imundícia fora do acampamen­ to. O versículo 16 marca a transição de Hazerote para odeserto deParâ. III. AsReclamaçõesnoDesertode Parã(13:1-21:35) 1. AsInvestigações Pelos Doze na Terra Prometida(13:1-33) 1 Então disse o Senhor a Moisés: 2 Envia homensque espiem a terra de Canaã, que eu heide dar aos filhos de Israel. De cada tribo de seus pais enviarás um homem, sendo cada qual príncipe entre eles. 3Moisés, pois, enviou-os do deserto de Parã, segundo a ordem do Senhor; eram todos eles homens principais dentre os filhos de Israel. 5 E es­ tes são os seus nomes: da tribo de Rúben, Samua, filhode Zacur; Sda tribo de Simeão, Safate, filho de Hori; 6 da tribo de Judá, Calebe, filho de Jefoné; 7 da tribo de Issa- car, Igal, filhode José; 8da tribo de Efraim, Oséias, filho de Num; 9 da tribo de Benja­ mim, Palti, filho de Rafu; 10 da tribo de Zebulom, Gadiel, filho de Sódi; 11 da tribo de José, pela tribo de Manassés, Gadi, filho de Susi; 12 da tribo de Dã, Amiel, filho de Gemali; 13da tribo de Aser, Setur, filho de Micael; 14da tribo de Naftali, Nabi, filho de Vofsi; 15 da tribo de Gade, Geuel, filho de Maqui. 16 Estes são os nomes dos homens que Moisés enviou a espiar a terra. Ora, a Oséias, filhode Num, Moisés chamou Josué. 17 Enviou-os, pois, Moisés a espiar a terra de Canaã, e disseram-lhes: Subi por aqui para õ Negebe, e penetrai nas montanhas; 18e vede a terra, que talé; e opovo que nela habita, se é forte ou fraco, se pouco ou mui­ to; 19que tal é a terra em que habita, se boa ou má; que tais são as cidades em que habita, se arraiais ou fortalezas; 20e que tal é a terra, se gorda ou magra; se nela hâ árvores, ou não; e esforçai-vos, e tomai do fruto da terra. Ora, a estação era a das uvas temporãs. 21 Assim subiram e espiaram a terra desde o deserto de Zim, até Reobe, à entrada de Hamate. 22 E subindo para o Negebe, vieram até Hebrom, onde estavam Aima, Sesai e Talmai, filho de Anaque. (Ora, Hebrom foi edificada sete anos antes deZoãnoEgito).23Depoisvieram até ovale de Escol, e dali cortaram um ramo de vide comum só cacho, oqual doishomenstrouxe­ ram sobre uma verga; trouxeram também romãs e figos. 24 Chamou-se aquele lugar o vale de Escol, por causa do cacho que dali cortaram os filhos de Israel. 25 Ao fim de quarenta dias voltaram de espiar a terra. 20 E, chegando, apresentaram-se a Moisés e a Arão, e a toda a congregação dos filhos de Israel, no deserto de Parã, em Cades; e deram-lhes notícias, a eles e a toda a con­ gregação, e mostraram-lhes o fruto da ter­ ra. 27 E, dando conta a Moisés, disseram: Fomos à terra a que nos enviaste. Ela, em verdade, mana leite e mel; e este é o seu fruto. 28 Contudo o povo que habita nessa terra é poderoso, e as cidades são fortifica­ das e mui grandes. Vimos também ali os filhos de Anaque. 29 Os amalequitas habi­ tam na terra do Negebe; os heteus, os jebu- seus e os amorreus habitam nas monta­ nhas; e os cananeus habitam junto domar, e ao longo do rio Jordão. 30 Então Calebe, fázendo calar opovo perante Moisés, disse: Subamos animosamente, e apoderemo-nos dela; porque bem poderemos prevalecer contra ela. 31 Disseram, porém, os homens que subiram com ele: Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do quenós. 32Assim, perante osfilhosde Israel infamaram a terra que haviam espiado, di* zendo: A terra pela qual passamos para espiá-la, é terra que devora os seus habitan­ tes; e todo o povo que vimos nela são ho­ mensde grande estatura. 33Também vimos ali os nefilins, isto é, os filhos de Anaque, que são descendentes dos nefilins; éramos aos nossos olhos como gafanhotos e assim também éramos aos seus olhos. Para que o relatório do grupo de son­ dagem fosse uma verdadeira representa­ ção do sentido da maioria, um espia de cada uma das doze tribos foi enviado. Estes líderes não são os mesmos notados em 1:5-15. Foram enviados do sul (Ne- guev) ao norte, até Hebrom (v. 22), da terra deCanaã. As suas instruções eram, principalmente, que trouxessem relató­ rios sobre a terra e sobre a maneira como estava construída e era cultivada. Como parte desse relatório, haviam de desco­ 148
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    brir se oshabitantes eram fortes e nume­ rosos ou fracos e poucos. Partiram de Cades(v. 26), nodeserto de Parã, e pros­ seguiramatéReobe, àentradade Hama- te, na fronteira mais setentrional de Ca- naã, perto de Dã. O relatório da terra foi entusiástico. As frutas que trouxeram com eles eram suculentas. O vale de Escol era uma região vitícola famosa. Apalavra Escol quer dizercacho. A terra manava leite e mel. Esses são gêneros que fariam com que uma terra parecesse altamente desejável aos olhos do povo que estiveraviajando no desertoou ermo. Por quarenta dias peregrinaram por toda a terra. Os habitantes de Canaâ eram uma população mista (v. 29), e assim não foi uma tarefa muito difícil, para eles, fazer um levantamento do povo e da terra com relativa segurança. Aliás, alguns dos habitantes da terra talvezfossemparentes. Os israelitas, mal-equipados, ficaram profundamente impressionados com as fortificações e as tropas. Entre o povo havia os filhos (ingl., descendentes) de Anaque. Este termo talvez se refira aos soldados profissionais do “exército de Anaque” (de Vaux, p. 219, 242). O ver­ sículo28começa com a palavra contudo, sinal de que nãoexistia esperança nenhu­ ma de conquistarem o povo dali. Os filhos de Anaque (a palavra Anaque sig­ nifica “pescoço comprido”) são relacio­ nados, no verso 33, aos nefilins(cf. Gên. 6:4). A palavra nefilim pode ser traduzi­ da comoos “caídos”,esereferiaa gigan­ tes lendários, que traziam terror ao povo de menor porte físico, assim indicando o seu medo da ferocidade e da estatura. Os habitantes eram tão grandes, que os espias sentiam não existir qualquer chan­ ce. A terra era tão grande, que o ser humano se sentia insignificante em com­ paração. Calebe, o representante da tri­ bo deJudá, pediu a mobilização imedia­ ta, com grande confiança na vitória (v. 30). Porém o relatório da maioria era desfavorável. 2. OConselhoVotanoRelatório (14:1-45) (1) ATurbaGoverna(14:1-3) 1 Então toda'a congregação levantoua voz e gritou; e o povo chorou naquela noite. 2 E todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e Arão; e toda a congregação lhes disse: Antes tivéssemos morrido na terra do Egito, ou tivéssemos morrido neste deserto! 33Por que nos traz o Senhor a esta terra para cairmos à espada? Nossas mu­ lheres e nossos pequeninos serão por presa. Não nos seria melhor voltarmos para o Egi­ to? Quando a congregação ouviu, tanto o relatório da maioria (13:31,33) como o relatório da minoria (13:30), virou-se contra Moisés e Arão. Fizeram a mesma queixa que tinham feito anteriormente (Êx. 14:11,12), com relação ao perigo, à fomeeà sede. Aprimeira conclusãoera a sua vontade de estar de volta no Egito (v. 3). / (2) Moisés, Arão, Josué e Calebe Acon­ selhamumaLinhadeAção (14:4-10a) 4 E diziam uns aos outros: Constituamos um por chefe e voltemos para o Egito. 5 En­ tão Moisés e Arão caíram com os rostos por terra perante toda a assembléia da congre­ gação dosfilhos de Israel. 6E Josué, filho de Num, e Calebe, filho de Jefoné, que eram dosque espiaram a terra, rasgaram as suas vestes; 7 e falaram a toda a congregação dos filhos de Israel, dizendo: A terra, pela qual passamos para a espiar, é terra mui­ tíssimoboa. 8Seo Senhor se agradar de nós. então nos introduzirá nesta terra e no-la dará; terra que mana leite e mel. 9 Tão-so­ mente não sejais rebeldes contra o Senhor, e não temais o povo desta terra, porquanto são eles nosso pão. Retirou-se deles a sua defesa, e o Senhor está conosco; não os temais. 10Mas toda a congregaçãodisse que fossem apedrejados. O povo estava pronto a nomear um chefe, que o levaria de volta à “terra da sua escravidão”. Moisés e Arão uniram- se, num apelofervoroso, para que o povo 149
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    cancelasse ou revogassea sua decisão. Josué e Calebe tomaram a iniciativa de falarem ao povo, louvando a terra e suplicando-lhes que seguissem a Yah- weh. Imploraram que deixassem de agir de tal forma, que desagradava a Deus. Contudo, o ardor do descontentamento do povo se expressou no seu desejo de apedrejar aqueles que discordavam dele. Então Deus tomou a iniciativa. (3) DeusPronunciaSeuJulgamento (14:10b-38) O homem não podia ver Deus direta­ mente. Só podia ver a glória do Senhor, que era uma manifestação de sua pre­ sença. Nos escritos sacerdotais, a glória é relacionada com o tabernáculo, a arca, a nuvem e ofogo. Esta presença residen­ te de Deus era um aparecimento ou de favorou de ira. Somente a glória de Deus aparecia ao povo, provavelmente na nuvem. A nuvem eofogotinhamjá se tomado tradicionais como sinais da presença de Deus. Porém Moisés ouvia a voz de Deus diretamente. 10b Nisso a glória do Senhor apareceu na tenda da revelação a todos os filhos de Is­ rael. 11Disse então o Senhor a Moisés: Até quando me desprezará este povo? e até quando não crerá em mim, apesar de todos os sinais que tenho feito no meio dele? 12Com pestilência o ferirei, e o rejeitarei; e farei de ti uma nação maior e mais forte do que ele. 13 Respondeu Moisés ao Senhor: Assim os egípcios o ouvirão, eles, do meio dosquais, com a tua força, fizeste subir este povo, 14e o dirão aos habitantes desta terra. Eles ouviram que tu, ó Senhor, estás no meio deste povo; pois tu, ó Senhor, és visto face a face, e a tua nuvem permanece sobre eles, e tu vais adiante deles numa coluna de nuvem de dia, e numa coluna de fogo de noite. 15E se matares este povo como a um só homem, então as nações que têm ouvido da tua fama, dirão: 16 Porquanto o Senhor não podia introduzir este povo na terra que com juramento lhe prometera, por isso os matou no deserto. 17 Agora, pois, rogo-te que o poder do meu Senhor se engrandeça, segundo tens dito: 18 O Senhor é tardio em irar-se, e grande em misericórdia; perdoa a iniqüidade e a transgressão; ao culpado não tem por inocente, mas visita a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta geração. 19 Perdoa, rogo-te, a iniqüidade deste povo, segundo a tua grande misericór­ dia, como o tens perdoado desde o Egito até aqui. 20Disse-lhe o Senhor: Conforme a tua palavra lhe perdoei; 21 tão certo, porém, como eu vivo, e como a glória do Senhor encherá toda a terra, 22nenhum de todos os homens que viram a minha glória e os sinais que fiz no Egito e no deserto, e todavia me tentaram estas dez vezes, não obedecendo à minha voz, 23nenhum deles verá a terra que com juramento prometi a seus pais; ne­ nhum daqueles que me desprezaram a verá. 24 Mas o meu servo Calebe, porque nele houve outro espírito, e porque perseverou em seguir-me, eu ointroduzirei na terra em que entrou, e a sua posteridade a possuirá. 25 Ora, os amalequitas e os cananeus habi­ tam novale; tornai-vos amanhã, e caminhai para o deserto em direção ao Mar Ver­ melho. Moisés ouviu quando Deus coiidenou opovo(v. 10b-12)por desprezá-lo, apesar de todos os milagres e advertências. Este povo devia ser deserdado e substituído por uma nação maior do que ele. Eis aqui um princípio que permeia o Antigo Testamento. Deus estivera fazendo uma seleção — dentre toda a humanidade ele escolheu os filhos de Abraão; dentre os filhos de Israel escolheu Judá; dentre Judá escolheu osfilhos docativeiro; desse Israelescolheu onovoIsraelem Cristo. Porém Moisés intercede (v. 13-19), fundamentando-se no fato de que havia uma mensagem para as outras nações e nofato do poder e da promessa de Deus. Privilégios implicam responsabilidades inevitáveis (v. 20-25). Deus manifestou- semuitas vezesaopovo de Israel noEgito e nos desertos. Eles presenciaram a sua glória em sinais, bem como no fogo e na nuvem, no maná e nas codornizes. Era também importante que toda a terra o visse. Essa é uma base sobre que Moisés tinha apelado a Deus. Este povo, que viera do Egito, devia estar dando teste­ munho, ao invés de fazer reclamações. Puseram Deus à prova estas dez vezes. O número dez, bem como os múltiplos 150
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    exatos dele, indicaum termo geral, como “muitas vezes”. Os que não tinham correspondido ao seu privilégio antevisto (de habitar na pátria prometida) com atuação responsá­ velseriam proibidos deobter o privilégio. Estes, que tinham proposto retomar à terra de sua escravidão e que não se lançavam a uma linha de ação que lhes garantisse a promessa, foram ordenados a regressaremdireçãoaoMarVermelho. Ê lamentável que seja preciso instar com o povo para que se aposse de uma pro­ messa. Calebe tinha um espírito diferente dos demais. Portanto, ele havia de possuir a terra. Não se faz menção de Josué. O re­ gistro de seu acordo com Calebe talvez tenha sidotirado deuma coleção diferen­ te de relatos preservados. O povo estava com tanto medo de empreender qualquer confronto, que o seu itinerário foi proje­ tado para contornar os amalequitas e ca- naneus. Partiram para o sul, para cir­ cundar os amalequitas, e assim entrar em Canaã doleste. 26 Depois disse o Senhor a Moisés e a Arão: 21 Até quando sofrerei esta má con­ gregação, que murmura contra mim? tenho ouvidoas murmurações dos filhos de Israel, que eles fazem contra mim. 28 Dize-lhes: Pela minha vida, diz o Senhor, certamente conforme oque vos ouvi falar, assim vos hei de fazer: 29 neste deserto cairão os vossos cadáveres; nenhum de todos vós que fostes contados, segundo toda a vossa conta, de vinte anos para cima, que contra mim mur­ murastes, 30 certamente nenhum de vós entrará na terra a respeito da qual jurei que vosfaria habitar nela, salvo Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num. 31 Mas aos vossos pequeninos, dos quais dissestes que seriam por presa, a estes introduzirei na terra, e eles conhecerão a terra que vós re­ jeitastes. 32Quanto a vós, porém, os vossos cadáveres cairão neste deserto; 33 e vossos filhos serão pastores no deserto quarenta anos, e levarão sobre si as vossas infideli­ dades, até que os vossos cadáveres se consu­ mam neste deserto. 34 Segundo o número dos dias em que espiastes a terra, a saber, quarenta dias, levareis sobre vós as vossas iniqUidades por quarenta anos, um ano por um dia, e conhecereis a minha oposição. 35 Eu, o Senhor, tenho falado; certamente assim o farei a toda esta má congregação, aos que se sublevaram contra mim; neste deserto se consumirão, e aqui morrerão. 36Ora, quanto aos homens que Moisés man­ dara a espiar à terra e que, voltando, fi­ zeram murmurar toda a congregação con­ tra ele, infamando a terra, 37 aqueles mes­ mos homens que infamaram a terra mor­ reram de praga perante o Senhor. 38 Mas Josué, filho de Num, e Calebe, filho de Jefo­ né, que eram doshomens que foram espiar a terra, ficaram com vida. As murmurações(v. 26-38) passaram a caracterizar opovocomoum grupo mau. Uma parte de sua reclamação era o dese­ jo despropositado que tivessem morrido no deserto (14:2). Deus condenou-os ao destino reclamado por eles mesmos — o de morrer no deserto. Todos aqueles arrolados no censo militar (1:2) perece­ riam no deserto. Pela minha vida, diz o Senhor (v. 28) é uma fusão de duas expressões invulgares. Pela minha vida acha-se, no Pentateuco, somente aqui e no versículo 21. Embora seja usado mui­ tas vezes em outros lugares, este é o ju­ ramento usado quando Deus é quem fala. ^ Diz o Senhor (ne'um Yahweh) ocorre só poucas vezes fora dos profetas (Gên. ?2:16; I Sam. 2:30; II Reis 9:26; 19:32, 33; 22:19; II CrÔn. 34:27; Sal. 110:1). É uma expressão muito comum nos pro­ fetas, por ex., Jeremias usou-a 162 vezes. Ne’um, para “diz”, é usado fora dos profetas somente nesses casos. Tem a força de “um oráculo”. De maneira que esse pronunciamento é excepcional e, provavelmente, foi preservado pelo setor profético da comunidade. Deus explica esta sentença de julga­ mento. De todos os homens acima de 20 anos de idade, somente Calebe e Josué entrariam na terra de leite e mel. Calebe é mencionado primeiro, porque foi ele quem intercedeu em primeiro lugar, pelo relatório minoritário. Esse relatório abrangeria toda a congregação e não excluiria oslevitas, os sacerdotes, Moisés 151
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    ou Arão. Aquelesabaixo dos 20 anos vagueariam como pastores enquanto a morte não cumprisse a sentença causada pelas infidelidades (lit. prostituições). A duração da sentença tinha relação direta com a investigação da terra pelos dozeespias. Como os espias passaram 40 dias, o povo a passaria 40 anos entre peregrinar emorrer. Os dez que voltando... infamaram a terra... morreram de praga. Alguns in­ térpretes acham que morreram repenti­ namente, porém não há nada no texto que indique a ocasião de sua morte. Suas mortes foram um resultado de serem in­ fiéis a Deus. Seu desejo expresso foi de terem morrido no deserto (14:2), e assim morreram como o resultado de uma pra­ ga do clima do deserto, recebendo medi­ da por medida. (4) OJuízoÊIrrevogável(14:39-45) 39 Então Moisés falou estas palavras a todos os filhos de Israel, pelo que o povo se entristeceu muito. 40 Eles, pois, levantan­ do-se de manhã cedo, subiram ao cume do monte, e disseram: Eis-nos aqui; subire­ mos ao lugar que o Senhor tem dito; por­ quanto havemos pecado. 41 Respondeu Moi­ sés: Ora, por que transgredis o mandado do Senhor, visto que isso não prosperará? 42 Não subais, pois o Senhor não está no meio de vós; para que não sejais feridos diante dos vossos inimigos. 43 Porque os amalequitas e os cananeus estão ali diante da vossa face, e caireis à espada; pois, por­ quanto vos desviastes do Senhor, o Senhor não estará convosco. 44Contudo, temeraria- mente subiram eles ao cume do monte; mas a arca do pacto do Senhor, e Moisés, não se apartaram doarraial. 45Então desceram os amalequitas e os cananeus, que habitavam na montanha, e os feriram, derrotando-os até Horma. O povo mudou de linha de ação tarde demais. Estava mais interessado em es­ capar do castigo do que em possuir a promessa de Deus. Moisés lhes tinha contadoo oráculo de Deus, e a noticia os entristeceu, mas não fez com que mu­ dassem. Este relato demonstra o erro, no ho­ mem, de pensar que pode organizar as suas ações conforme a conveniência de seu programa pessoal, presumindo que possui a promessa infinda de Deus. To­ das as promessas de Deus têm as suas condições; estas podem ser deocasião, de correspondência moral, de ação correta, etc. Os israelitas tinham-se desviado de Deus. Deus desviou-se deles. Mas presu­ miram que Deus fosse obrigado a cum­ prir a promessa da maneira e na ocasião que eles determinassem. Ê catastrófico tratar a Deus com insistência impensada oucompresunção desdenhosa. Esta tentativa tardia de se aproximar da terra (e escapar do castigo) culminou no desastre. Os amalequitas e os cana- neus,comoavisadonoversículo25, derro­ taram-nos e causaram a morte de muitos dosguerreiros. O motivo da catástrofe foi que nem a arca de Deus nem o represen­ tante de Deus tinham saído do acampa­ mento. A arca da aliança representava a segurança da presença de Deus (cf. o v. 43, o Senhor não estará convosco). Visto que o povo estava tentando fugir do castigo, ao invés de seguir fielmente o seu Deus, o porta-voz e a presença de Deus não podiam acompanhar o seu planomalfadado. Até Horma quer dizer “até a destrui­ ção”. A palavra corresponde à forma feminina ou abstrata de cherem, um voto sagrado, implicando a destruição, e tam­ bém uma paronomásia hebraica típica (umjogo de palavras) no que os profetas são tão célebres. Pelo uso da expressão única, mais do que uma idéia é trazida à mente. Este lugar podia ter sido uma vila a dezesseis quilômetros ao leste de Berseba, o Tell el-Mishash, no extremo sul da região. Também traz à memória a guep-a santa, bem como o fato da des­ truição. Uma leitura de 21:3 indica que este título não foi dado a esse lugar senão mais tarde. Ali significa o devotamento ou banimento dos cananeus pelas mãos de Israel. 152
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    3. VáriasLeisCultuaisSacerdotais (15:1-41) Cinco conjuntosde diretrizes são da­ dos para os que entrarão na Terra Pro­ metida. A ênfase nas regras sacerdotais, em sua história, é vista no recomeço das leis cultuais. Os que contavam menos que 20 anos de idade por ocasião do êxodo egípcio, bem como aqueles nasci­ dos nos desertos, precisariam de alguma instrução durante os 40 anos de peregri­ nação. (1) Concernenteàs Quantidadesde Fari­ nha, Õleo e Vinho còm Relação aos Holocaustos e às Ofertas de Libação (15:1-16) 1 Depois disse o Senhor a Moisés: 2 Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando en­ trardes na terra da vossa habitação, que eu vos hei de dar, 3 e ao Senhor fizerdes, do gado ou do rebanho, oferta queimada, holo­ causto ou sacrifício, para cumprir um voto, ou como oferta voluntária, para fazer nas vossas festas fixas um cheiro suave ao Se­ nhor, 4 então aquele que fizer a sua oferta, fará ao Senhor uma oferta de cereais de um décimo de efa de flor de farinha, misturada com a quarta parte de um him de azeite; 5e de vinho para a oferta de libação prepa­ rarás a quarta parte de um him para o holocausto, ou para o sacrifício, para cada cordeiro; 6e para cada carneiro prepararás como oferta de cereais, dois décimos de efa de flor de farinha, misturada com a terça parte de um him de azeite; 7e de vinho para a oferta de libação oferecerás a terça parte de um him em cheiro suave ao Senhor. 8Também, quando preparares novilho para holocausto ou sacrifício, para cumprir um voto, ouum sacrifício de ofertas pacíficas ao Senhor, 9 com o novilho oferecerás uma oferta de cereais de três décimos de efa de flor de farinha, misturada com a metade de um him de azeite; 10e de vinhopara a oferta de libação oferecerás a metade de um him como oferta queimada em cheiro suave ao Senhor. 11Assim se fará com cada novilho, ou carneiro, ou com cada um dos cordeiros ou dos cabritos. 13 Segundo o número que oferecerdes, assim fareis com cada um de­ les. 13Todo natural assim fará estas coisas, ao oferecer oferta queimada em cheiro sua­ ve ao Senhor. 14Também se peregrinar con­ vosco algum estrangeiro, ou quem quer que estiver entre vós nas vossas gerações, e ele oferecer uma oferta queimada de cheiro suave ao Senhor, como vós fizerdes, assim fará ele. 15Quanto à assembléia, haverá um mesmo estatuto para vós e para o estran­ geiro que peregrinar convosco, estatuto per­ pétuonas vossas gerações; como vós, assim será o peregrino perante o Senhor. 16 Uma mesma lei e uma mesma ordenança haverá para vós e para o estrangeiro que peregri­ nar convosco. Este trecho é a passagem mais especí­ fica sobre as exigências sacerdotais con­ cernentes às quantidades de farinha, óleo e vinho para o holocausto e a oferta de libação. Estes dois sacrifícios eram rela­ tivamente desconhecidos do povo desér­ tico. Jeremias 7:22 e Amós 5:25 sugerem que não houvera nenhum sacrifício du­ rante as peregrinações nos desertos, se­ gundo muitos intérpretes. Do contrário, seria importante dar ensinamentos claros sobre essas ofertas. A oferta de libação não é explicada no Antigo Testamento e é a menos conheci­ da. Os gregos e os romanos tinham o costume de derramar o vinho sobre os animais sacrificais. Baseados nisso, po­ deríamos supor a existência da mesma prática em Israel. Cheiro suave é uma frase técnica cul­ tual usada pelo escritor sacerdotal. É usada 35 vezes em Números e Levítico (uma vez em Gên., 3 vezes em Êx. e 4 vezes em Ez.). É sinônimo de sacrifícios como holocausto ou sacrifícios pelo fogo. Se a oferta de libação fosse uma oferta queimada, sobre a qual o vinho fosse derramado, o termo cheiro suave seria usado em referência à mesma oferta. Porém Siraque 50:15 e Josefo (Antig. III, IX, 4) concordam com o ponto de vista de que a oferta era derramada na base do altar, fundamentados, provavel­ mente, no fato de que oferta de libação tem o significado básico de “derramar”. A ênfase não deve ser esquecida, i. e., cheirosuaveaoSenhor. Parece haveruma conexão direta entre a relação pactuai e a fidelidade com que 153
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    Israel aderia aooferecimento desses sa­ crifícios. Portanto, entendiam o sacrifí­ cioea obtenção do perdão ou favor como inextricavelmente ligados. O sacerdote era aquele através de quem tudo isso ocorria. As quantidades específicas destes sa­ crifícios eram estabelecidas conforme o porte do animal (cordeiro, carneiro ou boi). Levítico 2:1-11 não prescreve ne­ nhuma quantidade fixa, mas Ezequiel 46:5-15 dá uma padronização das quan­ tidades. Uma efa é, aproximadamente, quinze litros, de maneira que um décimo seria, aproximadamente, um litro e meio. Um him é, aproximadamente, 3,8 litros, e, assim, uma quarta parte do him seria, aproximadamente, um litro. 9 A especificação quanto às pessoas en­ volvidas nestas instruções se dá nos ver­ sos 11-16. Todos são envolvidos, sem nenhuma distinção de origem ou de per­ manência. (2) Concernente à Oferta de um Bolo dasPrimícias dosCereais(15:17-21) 17 Disse mais o Senhor a Moisés: 18 Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Depois de terdes entrado na terra em que vos hei de introduzir, 19 será que, ao comerdes do pão da terra, oferecereis ao Senhor uma oferta alçada. 20 Das primícias da vossa massa oferecereis um boloem oferta alçada; como oferta alçada da eira, assim o oferecereis. 21 Das primícias das vossas massas dareis ao Senhor oferta alçada durante as vossas geraçòes. Estas diretrizes eram para aqueles que haviam de entrar na nova terra. O bolo referido havia de ser feito das primícias do grão integral da eira. O bolo (hallah) é assim chamado porque era perfurado (raizhll —perfurar, furar, pungir). Esta seção deverá ser vista em relação aos ensinamentos sobre as primícias no capí­ tulo 18eLevítico 23:9-14. A possessão de semelhante cereal pressupõe um povo 9 IDB Vol E-J, p. 107,605; Vol. R-Z, p. 834e 835. agrícola, com plantações de cereais e eiras. (3) Concernente à Oferta Pelo “Pecado Involuntário”(15:22-29) 22 Igualmente, quando vierdes a errar, e não observardes todos esses mandamentos, que o Senhor tem falado a Moisés, 23 sim, tudo quanto o Senhor vos tem ordenado por intermédio de Moisés, desde o dia em que o Senhor começou a dar os seus mandamen­ tos, e daí em diante pelas vossas gerações, 24 será que, quando se fizer alguma coisa sem querer, e isso forencoberto aos olhos da congregação, toda a congregação oferecerá um novilho para holocausto em cheiro suave ao Senhor, juntamente com a oferta de ce­ reais do mesmo e a sua oferta de libação, segundo a ordenança, e um bode como sacri­ fício pelo pecado. 25 E o sacerdote fará expiação por toda a congregação dos filhos de Israel, e eles serão perdoados; porquanto foi erro, e trouxeram a sua oferta, oferta queimada ao Senhor, e o seu sacrifício pelo pecado perante o Senhor, por causa do seu erro. 26 Será, pois, perdoada toda a congre­ gação dos filhos de Israel, bem como o es­ trangeiro que peregrinar entre eles; por­ quanto sem querer errou o povo todo. 27 E, se uma só pessoa pecar sem querer, ofere­ cerá uma cabra de um ano como sacrifício pelopecado. 28 E o sacerdote fará perante o Senhor expiação pela alma que peca, quan­ dopecar sem querer; e, feita a expiação por ela, será perdoada. 29 Haverá uma mesma lei para aquele que pecar sem querer, tanto para o natural entre os filhos de Israel, comopara o estrangeiro que peregrinar en­ tre eles. Há algumas leis concernentes aos pe­ cados cometidos inadvertidamente ou por ignorância em Levítico 4:1-35 e 5:7-13, porém se julga serem posteriores e mais altamente desenvolvidas e, prova­ velmente, preservadas por uma coloniza­ ção separada. Estas leis abrangem mais do que a oferta dos bolos das primícias dos cereais, pois dizem respeito a todos os mandamentos. Isso liga o povo às leis anteriores, bem como a estas regras, que se relacionam apenas com os que entra­ riam na Terra Prometida, i.e., com um povoagrícola. 154
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    Outras diretrizes podemser achadas em Levítico 4:13-21. É claro que muitas leissedesenvolveram à medida que novas situaçõessurgiam, porex., dai em diante pelas vossas gerações. As ofertas deviam ser trazidas em prol do povo todo que tinha, sem premeditação ou instrução anterior, transgredido as leis que diziam respeito a todo o povo. Ritos cultuais existiam que deviam ser realizados para todos, por exemplo, a refeição comuni­ tária, a instrução dos jovens na Tora e todos os mandamentos, etc. O sacerdote era ooficial religioso encarregado de rea­ lizar o rito expiatório, propiciatório. Es­ tes ritos visavam reconciliar Deus e o povo mais uma vez. O povo havia de levantarum cheirosuaveao Senhor. Assim, como havia regras para gover­ nar ogrupo todo, também havia regras e responsabilidades para cada pessoa (v. 27-29). Este trecho não especifica classes diferentes de indivíduos. Levítico 4:3-12 diz respeito ao sacerdote ungido; Levítico 4:22-26 é sobre o governador; Levítico4:27-35 refere-se a qualquer pes­ soa dentre o povo comum; e Levítico 5:7-13 diz respeito aos pobres. Mas esta passagem serefere a uma sóclasse. (4) Concernente ao Pecado Propositado (15:30-36) 30 Mas a pessoa que fizer alguma coisa temerariamente, quer seja natural, quer estrangeira, blasfema ao Senhor; tal pessoa será extirpada do meio do seu povo, 31 por haver desprezado a palavra do Senhor, e quebrado o seu mandamento; essa alma certamente será extirpada, e sobre ela re­ cairá a sua iniqüidade. 32 Estando, pois, os filhos de Israel no deserto, acharam um homem apanhando lenha no dia de sábado. 33 E os que o acharam apanhando lenha trouxeram-no a Moisés e a Arão, e a toda a congregação. 34 E o meteram em prisão, porquanto ainda não estava declarado o que se lhe devia fazer. 35Então disse o Senhor a Moisés: Certamente será morto o homem; toda a congregação o apedrejará fora do arraial. 36 Levaram-no, pois, para fora do arraial, e o apedrejaram, de modo que ele morreu; como o Senhor ordenara a Moisés. Agora oescritorsevolta ao caso de um indivíduo que realizou uma ação temera­ riamente(ingl., “de mão erguida”). Este mesmo termo se traduz por “afoitamen­ te” (ingl., “desafiadoramente”) em Êxo­ do 14:8. No código sacerdotal, não há qualquer possibilidade de perdão (expia­ ção) por este tipo de pecado. Esta é sempre uma ação individual, ao invés de ser atuação deum grupo ou comunidade. Diz respeito a qualquer ação feita com semelhante atitude, pois é a própria pes­ soa e o seu espírito antes do que o feito em si que incorreu em culpa. O homem que age temerariamente se exalta acima de Deus, das instruções e da comunida­ de. Por esse espírito, a pessoa é por si mesma extirpada do meio do seu povo, com base no respeito à autoridade supe­ rior, tendo desprezado a palavra do Se­ nhor. O pecador temerário, por seu pró­ prio comportamento, demonstra o seu sentimento de que a sua mão (poder) é mais importante do que Deus, que opovo ou que a solidariedade humana. Ocaso dohomemapanhandolenha no dia de sábado é inserido aqui (v. 32-36) comoum exemplo deuma pessoa que fez algo temerariamente (ingl., “de mão er­ guida”). Era culpado de violar o sábado (Êx. 31:14,15; 35:2). O julgamento foi a morte, mas omeio de execução não ficou claro. Ele foi guardado em prisão, en­ quanto esperava o oráculo divino. Ele sabia que violara leis aceitas pela comu­ nidade comoum sinal da aliança (cf. Êx. 31:13,17; Ez. 20:12,20). O versículo 34 é uma outra indicação do caráter desen- volvível de um corpo de leis cultuais. O pecador devia ser apedrejado até mor­ rer. O apedrejamento evitava o derrama­ mento de sangue e a atribuição, conse­ qüente, da culpa de sangue (cf. Lev. 24:10-23, quanto a uma história seme­ lhante). (5) ConcernenteàsFraiyas(15:37-41) 37 Disse mais o Senhor a Moisés: 38 Fala aos filhos de Israel e dize-lhes que façam 155
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    para si franjasnas bordas das suas vestes, pelas suas gerações; e que ponham nas franjas das bordas um cordão azul. 39 Tê- lo-eis nas franjas, para que o vejais, e vos lembreis de todos os mandamentos do Se­ nhor, e os observeis; e para que não vos deixeis arrastar à infidelidade pelo vosso coração ou pela vossa vista, como antes o fazíeis; 40para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os observeis, e sejais santos para com o vosso Deus. 41 Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito para ser o vosso Deus. Eu sou o Se­ nhorvosso Deus. Ocostume deusar franjas(ingl., “cor­ dões”) nas roupas é uma prática muito antiga, conforme evidenciada por monu­ mentos antigos. Conhecia-se este costu­ me no Egito, na Assíria e na Ãsia. Este trecho mostra a adaptação e reinterpre- tação israelita do costume. Borda (kana- ph) (ingl., “canto”) pode ser traduzidà por “asa” ou “extremidade”, e pode descrever os cantos ou extremidades da pele de um animal. Talvez as franjas fizessem parte de um pedaço de tecido ou pele retangular, com uma franja ao redor de todas as quatro beiradas. Estas franjas podem mesmo ter sidoentretecidas. Era mister que houvesse um fio de azul sobre a franja em cada borda. A cor azul costuma ser interpretada de maneiras di­ versas. No mundo semítico, há o pensa­ mento de que a cor azul manterá os espí­ ritos malignos aiastados. Alguns rabinos interpretam o azul, aqui, como sugerin­ do o mar, visto que a tinta azul era obtida de um molusco. O mar sugere os céus, eoscéus sugerem otrono da glória. A verdadeira razão de usar as franjas nas roupas era a de se ter em mente a observância de todos os meus manda­ mentos. A verdade que tinha de ser real­ çada era que o homem não deve fazer nada “temerariamente”, e, sim, lembrar e observar todas as leis de Deus, para se manter em comunhão com Deus. O ho­ mem nunca deverá exaltar-se acima do poder superior. O versículo 41 reitera o fato de que Deus tinha feito algo por eles que não podiam fazer para si mesmos, ou seja, que os resgatara do Egito e elegeracomooseupovoescolhido. 4. ALutaPeloPoder(16:1-18:32) Estes capítulos são também diretrizes concernentes à aproximação da tenda da congregação. (1) As Rebeliões de Corá, Data e Abirão (16:1-50) A esta altura descobrimos rebeliões que questionam a autoridade civil de Moisés, a supremacia religiosa do sacer­ dócio da linhagem de Arão sobre os levi­ tas e até a estrutura comunitária, duran­ te a estada em Cades. 1 Ora, Corá, filho de Izar, filho de Coate, filho de Levi, juntamente com Datã e Abi­ rão, filhos de Eliabe, e Om, filho de Pelete, filhos de Rúben, tomando certos homens, 2 levantaram-se perante Moisés, juntamen­ te com duzentos e cinqüenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, chamados à assembléia, varões de renome; 3 e ajuntando-se contra Moisés e contra Arão, disseram-lhes: Demais é o que vos arrogais a vós, visto que toda a congrega­ ção é santa, todoseles são santos, e o Senhor está nomeio deles; por que, pois, vos elevais sobre a assembléia do Senhor? 4 Quando Moisés ouviu isso, caiu com o rosto em terra; 5 depois falou a Corá e a toda a sua companhia, dizendo: Amanhã pela manhã o Senhor fará saber quem é seu, e quem é o santo, ao qual ele fará chegar a si; e aquele a quem escolher fará chegar a si. 6 Fazei isto: Corá e toda a sua companhia, tomai para vós incensários; 7 e amanhã, pondo fogo neles, sobre eles deitai incenso perante o Senhor; e será que o homem a quem o Senhorescolher, esse será osanto; demais é o que vos arrogais a vós, filhos de Levi. 8 Disse mais Moisés a Corá: Ouvi agora, filhos de Levi! 9 Acaso é pouco para vós que o Deus de Israel vos tenha separado da congregação de Israel, para vos fazer che­ gar a si, a fim de fazerdes o serviço do tabernáculo do Senhor e estardes perante a congregação para ministrar-lhe, 10 e te fez chegar, e contigo todos os teus irmãos, os filhos de Levi? procurais também osacerdó­ cio? 11Pelo que tu e toda a tua companhia estais congregados contra o Senhor; e Arão, quem é ele, para que murmureis contra ele? 156
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    A rebelião deCorá (v. la,2b-ll,16-24, 27a,35-50) relacionava-se com a autori­ dade religiosa. Este capítulo é uma com­ posição de, pelo menos, duas rebeliões, que são fundidas no registro das lutas que a comunidade suportou. Corá« era um levita, como também o eram os ho­ mens que sejuntaram a ele nesta revolta. O povo já tivera a sua tranqüilidade de espírito despedaçada pelas reclamações anteriores (quando o fogo do Senhor os queimou, em Tabera, 11:1-3; quando a praga se abateu sobre eles, depois de comerem as codomizes, em Quibrote- Hataavá, 11:4-35; e quando a carne de Miriã ficou leprosa, em Hazerote, 12:1- 15). Ainsatisfação de diversos segmentos dopovolevou-oa váriascrises. A alegação, na rebelião de Corá, ba­ seava-se na insubordinação de alguns levitas à ordem da linhagem de Arão (3:5-10; 8:5-22). Alegaram que Moisés e Arão tinham abusado de sua autoridade. Corá era primo de Moisés e Arão. Seu pai, Izar, era irmão de Anrão, o pai de Moisés e Arão. Uma briga familiar le­ vantou a questão da autoridade sacerdo­ tal. Corá argumentava que a família toda era sagrada. Esta revolta não surgiu en­ tre a população. Os 250 homens com Corá eram oficiais, chefes tribais ou prín­ cipes. Repetidas vezes, em Números, as lutasentre o sacerdócio da linha de Arão e o sistema levítico são evidentes. No de­ senvolvimento das instituições, diversos ofícios rivalizavam-se pela supremacia e pela sobrevivência. Esta luta entre os descendentes de Levi dá evidências de sua historicidade. Mostram-se os sacer­ dotes como a linha legítima de autori­ dade. O termo de renome(v. 2) realmen­ te vem da mesma raiz que vos elevais (v. 3). Corá e os outros homens “eleva­ dos” alegaram que Moisés e Arão se tinham elevado. Moisés não respondeu baseado em sua própria autoridade, mas os convocou a um concílio no dia seguinte, para que o Senhor pudesse fazer conhecida a von­ tade dele. Moisés não os repreendeu em relação à questão da posição elevada delessobre osdemais. Como sói acontecer na maioria das controvérsias,, questões secundárias são introduzidas, ou propositadamente ou por mal-entendido, de maneira a desviar ocentro da discussão da questão primá­ ria. A doutrina do sacerdócio dos crentes pode ser o tema da rebelião de Corá, mas, se assim fosse, por que o castigo? Por outro lado, estava envolvido o sacer­ dócio como a hierarquia oficial. Além disso, a natureza transitória da estrutura institucional entre os hebreus é demons­ trada. Embora fosse o levita o envolvido na substituição especial dos primogêni­ tos, agora é o sacerdócio da família de Arão que assume a supremacia na luta doméstica. 12Então Moisés mandou chamar a Data e a Abirão, filhos de Eliabe; eles porém res­ ponderam: Não subiremos. 13É pouco, por­ ventura, que nos tenhas feito subir de uma terra que mana leite e mel, para nos mata­ res no deserto, para que queiras ainda fazer- te príncipe sobre nós? 14 Ademais, não nos introduziste em uma terra que mana leite,e mel, nem nos deste campos e vinhas em he­ rança; porventura cegarás os olhos a estes homens? Não subiremos. 15 Então Moisés irou-se grandemente, e disse ao Senhor: Não atentes para sua oferta; nem um só jumento tenho tomado deles, nem a nenhum deles feito mal. 16 Disse mais Moisés a Corá: Comparecei amanhã tu e toda a tua companhia perante o Senhor; tu e eles, e Arão. 17 Tome cada um o seu incensário, e ponha nele incenso; cada um traga perante o Senhor o seu incensário, duzentos e cin­ qüenta incensários; também tu e Arão, cada qual o seu incensário. 18 Tomou, pois, cada qual o seu incensário, e nele pôs fogo, e nele deitou incenso; e se puseram à porta da tenda da revelação com Moisés e Arão. 19 E Corá fez ajuntar contra eles toda a congregação à porta da tenda da revelação; então a glória do Senhor apareceu a toda a congregação. 20Então disse o Senhor a Moi­ sés e a Arão: 21 Apartai-vos do meio desta congregação, para que eu, num momento, os possa consumir. 22 Mas eles caíram com os rostos em terra, e disseram: Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a carne, pecará um só homem, e indignar-te-ás tu contra 157
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    toda esta congregação?23 Respondeu o Se­ nhora Moisés: 24Fala a toda esta congrega­ ção, dizendo: Subi do derredor da habitação de Corá, Datã e Abirão. 25 Então Moisés levantou-se, e foi ter com Datã e Abirão; e seguiram-no os anciãos de Israel. 26 E fa­ louà congregação, dizendo: Retirai-vos, pe­ ço-vos, das tendas desses homens ímpios, e não toqueis nada do que é seu, para que não pereçais em todos os seus pecados. 27 Subiram, pois, do derredor da habitação de Corá, Datã e Abirão. E Datã e Abirão saíram, e se puseram à porta das suas ten­ das, juntamente com as suas mulheres, e seus filhos e seus pequeninos. 28Então disse Moisés: Nisto conhecereis que o Senhor me envioua fazer todas estas obras; pois não as tenho feito de mim mesmo. 29Se estes mor­ rerem como morrem todos os homens, e se forem visitados como são visitados todos os homens, o Senhor não me enviou. 30Mas, se o Senhor criar alguma coisa nova, e a terra abrir a boca e os tragar com tudo o que é deles, e vivos descerem ao Seol, então com­ preendereis que estes homens têm despre­ zado oSenhor. Um outro aspecto de rebelião (v. 12- 15,25-30) achado entre o povo é uma seqüência de queixas envolvendo recor­ dações do Egito contrastadas com a mi­ séria do deserto. Ao mesmo tempo em que recusaram atender ao chamado de Moisés, acusaram-no de tentar fazer de si um príncipe. Este relato forma um prólogo para a história de como Israel chegou a possuir um rei. Datã e Abirão vão bastante além, no sentido de acusa­ rem Moisés de cegar os olhos (ingl., “tirar os olhos”) de outros, ou seja, de cegá-los, para que não enxergassem a verdade. Esta foi, provavelmente, uma revolta de leigos. Uma tradição antiga indica ter sido uma revolta da tribo de Rúben, por sentir-se insatisfeita com a liderança deMoisés. 31E aconteceu que, acabando ele de falar todas estas palavras, a terra que estava debaixo deles se fendeu; 32e a terra abriu a boca e os tragou com as suas famílias, como também a todos os homens que pertenciam a Corá, e a toda a sua fazenda. 33Assim eles e tudo oque era seu desceram vivos ao Seol; e a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação. 34 E todo o Israel, que estava ao seu redor, fugiu ao clamor deles, dizen­ do: Não suceda que a terra nos trague tam­ bém a nós. 35 Então saiu fogo do Senhor, e consumiu os duzentos e cinqüenta homens que ofereciam o incenso. 36 Então disse o Senhor a Moisés: 37 Dize a Eleazar, filho de Arão, o sacerdote, que tire os incensários do meio do incêndio; e espalha tu o fogo longe; porque se tornaram santos 38 os in­ censários daqueles que pecaram contra as suas almas; deles se façam chapas, de obra batida, para cobertura do altar; porquanto os trouxeram perante o Senhor, por isso se tomaram santos; e serão por sinalaos filhos de Israel. 39 Eleazar, pois, o sacerdote, to­ mouosincensários de bronze, osquais aque­ les que foram queimados tinham oferecido; e os converteram em chapas para cobertura do altar, 40 para servir de memorial aos filhos de Israel, a fim de que nenhum estra­ nho, ninguém que não seja da descendência de Arão, se chegue para queimar o incenso perante o Senhor, para que não seja como Corá e a sua companhia; conforme o Senhor dissera a Eleazar por intermédio de Moisés. A punição por se colocar fora da auto­ ridade estabelecida (v. 31-34) pode ser vista quando Corá e todo o seu clã mais restrito foram tragados pela terra. Ê claro que a antiga solidariedade do clã estava em vigor. Eles desceram vivos ao Seol. Seol é a habitação dos mortos que se achava existir ou por baixo da terra ou dentro dela. O significado desta palavra é desconhecido. Costumava-se pensar que fosse um abismo ou buraco, visto que uma raiz hebraica semelhante podesignificar “algooco”,tal como uma mãooca(i.e., em forma de concha). Não há fundamento para se entender esse lugar como sendo apenas para os mortos maus. Os 250 homens principais que se ti nham ajuntado a Corá na rebelião foram consumidos por fogo. Estes homens ti­ nham o ofício de oferecer incenso (v.35- 40), e eram, assim, sagrados. Os incen- sários sagrados não deviam ser distribuí­ dos indiscriminadamente, pois conti­ nham o fogo de Yahweh. Eles eram ins­ trumentos portáteis, como pás, usadas 158
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    para carregarem brasasvivas e/ou in­ censo. Aexplicaçãoé que esses incensários de bronze foram martelados, até formarem uma chapa usada como cobertura para o altar. Êxodo 27:2 assinala que, desde o começo, o altar deveria ser coberto com uma camada de bronze. A camada de bronze recebe o significado de uma ad­ vertência a outros que busquem assumir o ofício sagrado. Este ofício é reservado exclusivamente para o sacerdote, que tinha de ser um descendente de Arão. O claro propósito do capítulo 16 é man­ ter as prerrogativas do sacerdócio da linha deArão. 41 Mas no dia seguinte toda a congrega­ ção dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e Arão, dizendo: Vós matastes o povo do Senhor. 42 £ tendo-se sublevado a congregação contra Moisés e Arão, dirigiu- se para a tenda da revelação, e eis que a nuvem a cobriu, e a glória do Senhor apa­ receu. 43 Vieram, pois, Moisés e Arão á frente da tenda da revelação. 44 Então disse o Senhor a Moisés: 45 Levantai-vos do meio desta congregação, para que eu, num mo­ mento, a possa consumir. Então caíram com o rosto em terra. 46 Depois disse Moi­ sés a Arão: Toma o teu incensário, põe nele fogo do altar, deita incenso sobre ele e leva-o depressa à congregação e faze expia­ çãopor eles; porque grande indignação saiu do Senhor; já começou a praga. 47 Tomou-o Arão, como Moisés tinha falado, e correu ao meio da congregação; e eis que já a praga havia começado entre o povo; e deitando o incenso no incensário, fez expiação pelo povo. 48 E pôs-se em pé entre os mortos e os vivos, e a praga cessou. 49 Ora, os que morreram da praga foram catorze mil e setecentos, além dos que morreram no caso de Corá. 50 E voltou Arão a Moisés à porta datenda da revelação, poiscessara a praga. Nodia seguinte, toda a congregação se virou contra Moisés e Arão por causa da morte de tantas pessoas (v. 41-50). Diri­ giu-se para a tenda, que estava coberta pela nuvem. A presença de Deus estava ali, e assim o encontro foi um confronto com Deus. O Senhor avisou a Moisés e Arão para se retirarem de diante da tenda. Moisés começou a interceder em prol da congregação eenviou Arão com o seu incensário e seu fogo ao meio do povo. Era tarde demais para impedir todas as mortes, porque a praga já tinha começado. Os que morreram da praga foram14.700. (2) O Brotamento da Vara de Arão (17:1-11) 1 Então disse o Senhor a Moisés: 2 Fala aos filhos de Israel, e toma deles uma vara para cada casa paterna de todos os seus príncipes, segundo as casas de seus pais, doze varas; e escreve o nome de cada um sobre a sua vara. 3 O nome de Arão escre­ verás sobre a vara de Levi; porque cada cabeça das casas de seus pais terá uma vara. 4 E as porás na tenda da revelação, perante o testemunho, onde venho a vós. 5 Então brotará a vara do homem que eu escolher; assim farei cessar as murmura­ ções dos filhos de Israel contra mim, com que murmuram contra vós. 6 Falou, pois, Moisés aos filhos de Israel, e todos os seus príncipes deram-lhe varas, cada príncipe uma, segundo as casas de seus pais, doze varas; e entre elas estava a vara de Arão. 7 E Moisés depositou as varas perante o Senhor na tenda do testemunho. 8 Sucedeu, pois, no dia seguinte, que Moisés entrou na tenda do testemunho, e eis que a vara de Arão, pela casa de Levi, brotara, produzira gomos, rebentara em flores e dera amên­ doas maduras. 9 Então Moisés trouxe todas as varas de diante do Senhor a todos os filhos de Israel; e eles olharam, e tomaram cada um a sua vara. 10Então o Senhor disse a Moisés: Toma a pôr a vara de Arão peran­ te o testemunho, para se guardar por sinal contra os filhos rebeldes; para que possa fazer acabar as suas murmurações contra mim, a fim de quenão morram. 11Assim fez Moisés; como lhe ordenara o Senhor, assim fez. Aluta de Corá (um levita) contra Moi­ sés e Arão tinha-se espalhado de tal forma que Datã e Abirão (rubenitas) foram envolvidos. O descontentamento, ou reclamação, era tamanho que a con­ gregação toda (todas as tribos) ficou en­ volvida. Quase 15mil dentre opovo pere­ ceram. Todas astribos precisavam que se lhes mostrasse, de maneira visível (ou seja, de forma outra que não pelos pa­ 159
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    drões organizacionais existentes),que Moisés e Arão eram os líderes colocados por Deus. O Senhor ordenou a Moisés que obtivesse uma vara de cada tribo. Cada viajante tinha sua própria vara. Àrão tinha, inquestionavelmente, uma vara que operava milagres (Êx. 7:9,19; 8:5,16). Existem muitas lendas sobre varas que seguem um padrão similar (ainda que dissimilar). Algumas destas lendas con­ tam de uma vara que brotou e verdejou quando fincada na terra. Por exemplo, a de José de Arimatéia em Glastonbuiy, a lança de Rômulo, a vara de Hércules perto da estátua de Hermes. Mas a vara de Arão não foi enfiada na terra. Foi colocada no meio das outras, uma vara para cada tribo. Aseleçãonão é da vara de Arão em si, mas da vara que era a da tribo de Levi. Arão era um dos muitos membros da tribo de Levi (que tinha três filhos e pelo menos oito netos). Moisés e Arão consta­ vam entre os bisnetos de Levi. O Eleazar de 16:37 era um trineto de Levi, e assim 16:36-40 forçosamente é de uma data posterior à de alguns dos outros regis­ tros. Vara é a palavra usada também para tribo. O uso da vara com referên­ cia à tribo é um exemplo de um jogo de palavras do tipo do qual os escritores hebreus tanto gostam. O sinal do homem estava escrito em sua própria vara. No dia seguinte se descobriu que a vara da tribo de Levi produzira gomos, flores e amêndoas ma­ duras durante a noite. A amendoeira é a primeira árvore a lançar gomo na prima­ vera (cf. Jer. 1:11,12). É assim chamada da raiz “acordar” ou “vigiar”. Talvez seja significativo o fato de haver fruto maduro na vara, sugerindo a presença de uma tribo frutífera, ao invés de ser ela uma tribo meramente do futuro. A vara de Arão brotada, florescente e frutífera devia ser posta de novo perante o teste­ munho. Devia servir de sinal para os filhos rebeldes, assegurando que não houvesse mais nenhuma rebelião contra oSenhor, pelomedo da morte. (3) O Reconhecimento da Congregação (17:12,13) 12 Então disseram os filhos de Israel a Moisés: Eis aqui, nós expiramos, perece­ mos, todos nós perecemos. 13 Todo aquele que se aproximar, sim, todo o que se aproxi­ mar do tabernáculo do Senhor, morrerá; porventura pereceremos todos? Com a clara referência à rebelião de Corá e também àquela da congregação toda, eles reconheceram que todo aquele que se aproximar da habitação do Se­ nhor está destinado ao extermínio. Re­ conheceram que eram dignos de morte. Perguntam de modo bastante poético: Porventura pereceremos todos? Isso equivale à indagação: “Sobreviverá al­ guém?” ou: “Que há de acontecer ao serviço do santuário?” ou: “Quem fica­ rá, para prosseguir com o trabalho do culto?” (4) Os Deveres e Direitos dos Levitas e dos Sacerdotes(18:1-32) Apergunta dos dois versículos anterio­ res servede introdução a esta seção. 1 Depois disse o Senhor a Arão: Tu e teus filhos, e a casa de teu pai contigo, levareis a iniqüidade do santuário; e tu e teus filhos contigolevareis a iniqüidade dovosso sacer­ dócio. 2 Faze, pois, chegar contigo também osteus irmãos, a tribo deLevi, a tribo de teu pai, para que se ajuntem a ti, e te sirvam; mas tu e teus filhos contigo estareis perante a tenda do testemunho. 3Eles cumprirão as tuas ordens e assumirão oencargo de toda a tenda; mas não se chegarão aos utensílios do santuário, nem ao altar, para que não morram, assim eles como vós. 4 Mas se ajuntarão a ti, e assumirão o encargo da tenda da revelação, para todo o serviço da tenda; e o estranho não se chegará a' vós. 5 Vós, pois, assumireis o encargo do santuá­ rio e o encargo do altar, para que não haja outra vez furor sobre os filhos de Israel. 6Eis que eu tenho tomado vossos irmãos, os levitas, do meio dos filhos de Israel; eles vos são uma dádiva, feita ao Senhor, para 160
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    fazerem o serviçoda tenda da revelação. 7 Mas tu e teus filhos contigo cumprireis o vossosacerdócio notocante a tudo oque é do altar, e a tudo o que está dentro do véu; nisso servireis. Eu vos dou o sacerdócio comodádiva ministerial, e oestranho que se chegar será morto. • O primeiro versículo deste capítulo mostra a divisão dos deveres. Os serviços dos levitas são relacionados nos versos 1-6. Toda a família dos levitas deveria suportar a iniqüidade ou agüentar as conseqüências de qualquer transgressão em relação ao santuário. Arão e seus filhos tinham a responsabilidade do sa­ cerdócio. Estas diretrizes foram dadas especificamente a Arão. A única outra ocasião em que há referência a tais dire­ trizes (dadas apenas a Arão, e não tam­ bém a Moisés), acha-se em Levítico 10:8. A tarefa dos levitas consistia em ser­ vir aos da linha de Arão quando eles estavam diante da tenda. Enquanto os sacerdotesestivessemsepreparando para se aproximarem dos utensílios da tenda ou do altar, oslevitas deviam assisti-los. Note-se como o santuário, ou a tenda, estavaenvolvido nos relatos das rebeliões (16:9,18,19,39,40,42,43,46,50; 17:4,8, 10). Todo opovo era santo mas os levitas foram selecionados e se lhes deu a dá­ diva de serem permitidos a se qjuntarem aos sacerdotes e de assumiremo encargo da tenda da revelação, para fazerem o serviço da tenda. Mas estranho não che­ gará à tenda, senão será considerado à mesma luz que as rebeliões do capítulo anterior. A palavra qjuntarão (v.4) é, literalmente, “eles deverão ajuntar-se”. Nota-se aqui um jogo de palavras com o nome de Levi, valendo dizer que nessa posição se tomavam levitas de verdade. Eles cumpriam a Levi-ança em serem ajuntados aArão e seusfilhos. Arão e seus filhos receberam o sacer­ dócio como uma dádiva de serviço (v.7). Essa dádivanão era uma possessão, mas, sim, o direito de servir. A sua área exclusiva de serviço era a do altar e do véu. Deviam fazer tudo concernente a isso, enquanto aos levitas cabia fazer tudo relacionado com a tenda fora dessa área. Assim, como a ninguém, senão aos sacerdotes e levitas, era permitido se aproximar da tenda da revelação, tam­ bém a ninguém, senão aos sacerdotes, era permitido se aproximar do altar ou da área dentro do véu, o lugar santís­ simo. A dádiva do sacerdócio impunha exi­ gências infindáveis. Não era uma dádiva que pudesse ser empreendida leviana­ mente ou recusada, visto tratar-se de um compromisso permanente. O Deus do AntigoTestamento eraum Deus degran­ de generosidade e também de grandes exigências. Visto que aos sacerdotes era atribuída uma tarefa de responsabilida­ desininterruptas, não estavam numa po­ sição para empreender uma ocupação remunerada, como os homens das outras 12tribos. Como as exigências eram gran­ des, também a honra era grande. 8 Disse mais o Senhor a Arão: Eis que eu te tenho dado as minhas ofertas alçadas, com todas as coisas santificadas dos filhos de Israel; a ti as tenho dado como porção, e a teus filhos como direito perpétuo. 9 Das coisas santíssimas reservadas do fogo serão tuas todas as suas ofertas, a saber, todas as ofertas de cereais, todas as ofertas pelo pecado e todas as ofertas pela culpa, que me entregarem; estas coisas serão santíssimas para ti e para teus filhos. 10 Num lugar santo as comerás;delastodovarão comerá; santas te serão. 11Também isto será teu: a oferta alçada das suas dádivas, com todas as ofertas de movimento dos filhos de Is­ rael; a ti, a teus filhos, e a tuas filhas conti­ go, as tenho dado como porção, para sem­ pre. Todo o que na tua casa estiver limpo, comerá delas. 12Tudo o que do azeite há de melhor, e tudo o que do mosto e do grão há de melhor, as primícias destes que eles de­ rem ao Senhor, a ti as tenho dado. 13Os pri­ meiros frutos de tudo o que houver na sua terra, que trouxerem ao Senhor, serão teus. Todooque na tua casa estiver limpo comerá deles. 14 Toda coisa consagrada em Israel será tua. 15 Todo primogênito de toda a carne, que oferecerem ao Senhor, tanto de homens como de animais, será teu; contudo os primogênitos dos homens certamente re­ mirás; também os primogênitos dos ani­ 161
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    mais imundos remirás.16 Os que deles se houverem de remir desde a idade de um mês os remirás, segundo a tua avaliação, por cinco sidos de dinheiro, segundo o siclo do santuário, que é de vinte jeiras. 17 Mas o primogênito da vaca, o primogênito da ove­ lha, e o primogênito da cabra não remirás, porque eles são santos. Espargirás o seu sangue sobre o altar, e queimarás a sua gorduraem oferta queimada, de cheiro sua­ ve ao Senhor. 18 E a carne deles será tua, bem como serão teus o peito da oferta de movimento e a coxa direita. 19 Todas as ofertas alçadas das coisas sagradas, que os filhos de Israel oferecerem ao Senhor, eu as tenho dado a ti, a teus filhos e a tuas filhas contigo, como porção, para sempre; é um pacto perpétuo de sal perante o Senhor, para ti e para a tua descendência contigo. 20 Disse também o Senhor a Arão: Na sua terra herança nenhuma terás, e no meio deles nenhuma porção terás; eu sou a tua porção e a tua herança entre os filhos de Israel. A responsabilidade que as 12 tribos tinham era grande com relação às ofertas de Deus (korbanim). Assim, a renda dos sacerdotes seria grande, não em termos de posses privadas, mas em mantimento (v.8-10). Ossacerdotes deviam receberos sacrifícios e as ofertas que não eram queimados pelo fogo. As ofertas (kor­ banim) seriam de qualquer tipo, ou seja: de animal, vegetal, ouro, prata ou ma­ deira. Também são mencionadas as ofer­ tas de cereais, as ofertas pelo pecado, e as ofertas pela culpa. Estas eram santís­ simas, e deviam ser comidas num lugar santo, pelos sacerdotes somente. As famílias dos sacerdotes (v.11-20) podiam comer as ofertas de movimento e tudo o que do azeite há de melhor,... mosto e...grão. O que há de melhor, as primícias (v.12) dizem respeito à quali­ dade. Não há possibilidade de nenhum mal-entendido, pois oversículo 13 relem­ bra que a parte inicial da colheita era dedicada a Deus; o versículo 14 indica que as coisas consagradas (cherem) eram de Deus. As coisas dedicadas eram de grão; as primícias; as coisas tomadas na guerra santa; as coisas ofertadas sem possibilidade de redenção. Oversículo 19 indica que todas as ofertas sagradas eram deles. Os versículos 15-18 explicam as porções das ofertas redimíveis, que deviampertencer aossacerdotes. Este era o pacto de sal, que se consti­ tuía num elo inquebrantável. Pode ser vistosob o significado de que, quando os homens comem sal juntos (Esdras 4:14), há uma mistura irrecuperável de si mes­ mos, ou de que o sal é um preservativo, indicando assim durabilidade. 21 Eis que aos filhos de Levi tenho dado todosos dízimos em Israel por herança, pelo serviço que prestam, o serviço da tenda da revelação. 22 Ora, nunca mais os filhos de Israel se chegarão à tenda da revelação, para que não levem sobre si o pecado e morram. 23 Mas os levitas farão o serviço da tenda da revelação, e eles levarão sobre si a sua iniqüidade; pelas vossas gerações estatuto perpétuo será; e no meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão. 24 Porque os dízimos que os filhos de Israel oferece­ rem ao Senhor em oferta alçada, eu os te­ nho dado por herança aos levitas; porquan­ to eu lhes disse que nenhuma herança te­ riam entre os filhos de Israel. 25 Disse mais o Senhor a Moisés: 26 Também falarás aos levitas, e lhes dirás: Quando dos filhos de Israel receberdes os dízimos, que deles vos tenho dado por herança, então desses dízi­ mos fareis ao Senhor uma oferta alçada, o dízimo dos dízimos. 27 E computar-se-á a vossa oferta alçada, como o grão da eira, e como a plenitude do lagar. 28 Assim fareis ao Senhor uma oferta alçada de todos os vossos dízimos, que receberdes dos filhos de Israel; e desses dízimos dareis a oferta alçada do Senhor a Arão, o sacerdote. 29 De todas as dádivas que vosforem feitas, ofere­ cereis, do melhordelas, toda a oferta alçada do Senhor, a sua santa parte. 30 Portanto lhesdirás: Quando fizerdes oferta alçada do melhor dos dízimos, será ela computada aos levitas, como a novidade da eira e como a novidade do lagar. 31 E o comereis em qualquer lugar, vós e as vossas famílias; porque é a vossa recompensa pelo vosso serviço na tenda da revelação. 32 Pelo que não levareis sobre vós pecado, se tiverdes alçado o que deles há de melhor; e não pro­ fanareis as coisas sagradas dos filhos de Israel, para quenão morrais. Visto que os levitas também não ti­ nham uma ocupação remunerada e ser- 162
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    viam a todoopovocomoservos da tenda, também eles deviam receber todos os dí­ zimosdopovo(v. 21-24). Faz-se claro que os levitas estavam prestando um serviço ao povo, que este não era capaz de realizar por si mesmo, visto que havia o perigo de ele se aproximar da tenda de uma maneira imprópria. O dízimo con­ tínuo seria a possessão dos levitas. Ã me­ dida que cada geração trazia o seu dízi­ mo, oslevitasrecebiam a suaherança. Os levitas deviam aceitar os dízimos como as tribos aceitavam a sua renda. Aoreceberemo dízimo, os levitas deviam trazer o dízimo dele, ou seja, um dí­ zimo daquilo que receberam. Este dízi­ mo era para Deus e deviam trazê-lo a Arão, o sacerdote (v. 25-32). Este dízimo devia ser o melhor, exatamente como o povo era instado a trazer o melhor (de primeira qualidade). 5. Instruções Concernentes à Contami­ nação Pelo Contato com um Cadáver (19:1-22) (1) A Preparaçãode um Agente de Puri­ ficação(19:1-10) 1Disse mais o Senhor a Moisés e a Arão: 2 Este é o estatuto da lei que o Senhor ordenou, dizendo: Dize aos filhos de Israel que te tragam uma novilha vermelha sem defeito, que não tenha mancha, e sobre a qual não se tenha posto jugo. 3 Entregá-la- eis a Eleazar, o sacerdote; ele a tirará para fora do arraial, e a imolarão diante dele. 4 Eleazar, o sacerdote, tomará do sangue com o dedo, e dele espargirá para a frente da tenda da revelação sete vezes. 5 Então à vista dele se queimará a novilha, tanto o couro e a carne, como o sangue e o excre­ mento; 6 e o sacerdote, tomando pau de cedro, hissopo e carmesim, os lançará no meiodofogoque queima a novilha. 7Então o sacerdote lavará as suas vestes e banhará o seu corpo em água; depois entrará no arraial; e o sacerdote será imundo até a tarde. 8Também oque tiver queimado lava­ rá as suas vestes e banhará o seu corpo em água, e será imundo até a tarde. 9 E um homem limpo recolherá a cinza da novilha, e a depositará fora do arraial, num lugar limpo, e ficará ela guardada para a con­ gregação dosfilhos de Israel, para a água de purificação; é oferta pelopecado. 10E o que recolher a cinza da novilha lavará as suas vestes e será imundo até a tarde; isto será por estatuto perpétuo aos filhos de Israel e aoestrangeiro queperegrina entre eles. Este rito é muitas vezes chamado de rito da novilha vermelha, mas deverá ser chamado de rito da água de purificação para a ofertapelo pecado(ingl., “a água para a impureza, para a remoção do pe­ cado”)(v.9). A palavra hebraica novilha não dá nenhuma indicação quanto à idade, e assim deverá ser traduzida, apropriada­ mente, como uma vaca. Os tradutores que seguiram a Septuaginta interpreta­ ram a afirmação sobre a qual não se tenha posto jugo como impondo seme­ lhante condição. A tradição judaica é que a vaca devia ter entre dois e cinco anos de idade. É difícil trazer até nós o cenário existente quando da realização deste ritual. O termo vaca é usado so­ mente 26 vezes no Antigo Testamento, e este uso no sacrifício ou expiação é único. Na índia, as vacas têm um lugar defi­ nido em algumas cerimônias de purifi­ cação, mas não existe especificação de uma cor ou morte determinadas. Talvez seja possível encontrar a origem desse rito em algum sistema oriental antigo que tivesse entre suas divindades uma deusa-vaca. Se assim é, essa origem já perdeu todo o efeito, a não ser o de ter colocadoorelato ou prática na mente dos israelitas, para ser reinterpretado. É so­ mente através de Deus, em primeiro lu­ gar, que operdão podevir. Este animal tinha de ser fêmea, sem mancha e de cor vermelha. Pode ser que este rito forme um contraste com a liba­ ção das cinzas do bezerro de ouro (Êx. 32:20). Existem muitas sugestões quanto ao uso da cor vermelha. O vermelho é a cor do sangue, relacionado a uma oferta pelo pecado (cf. Lev. 4:3-6; 6:30; 17:11). Os romanos sacrificavam cachorrinhos vermelhos e homens de cabelos verme- 163
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    lhos e jogavamas suas cinzas na eira. Apalavra vermelho é ’adumah, e a pala­ vra para sangue é semelhante, dam. A palavra para homem é ’adam. Há uma relação entre a cor vermelha, o sangue, o homem e a terra habitável, que é ’ada- mah. A cor vermelha podia facilmente trazer à mente a humanidade, a substi­ tuiçãopela qual sehaviafeito. Um outro ponto de vista é que ver­ melho, por ser a cor do fogo, agente de purificação, éusado com relação ao per­ dão dos pecados (cf. Is. 6:6,7). Mas é difícil saber se por analogia a novilha vermelha teria que ser submetida ao fogo. A vaca vermelha devia ser levada paraforado arraial. Comparar, no livro deHebreus: “sem derramamento de san­ guenão há remissão (de pecados)” (Heb. 9:22); também a água, o hissopo e a lã purpúrea (9:19) e a vara de Arão(9:4). O animalvermelhofoidado ao filho de Arão, a Eleazar, o sacerdote... tirado para fora do arraial e imolado diante dele. O sacerdote tomará do sangue e dele espargirá para a frente da tenda da revelaçãosetevezes. O espargimentopela tenda significava que o animal e a sua vida pertenciam a Deus. As sete vezes são uma referência à totalidade ou à eficiência, que éessencial à eficácia com­ pleta de muitos ritos. O animal todo foi queimado sob a supervisão cuidadosa dos sacerdotes. Esta supervisão é invulgar, visto que o abate foi feito por um não-sacerdote. Era feito assim somente quando o sangue tinha que ser queimado fora do acampa­ mento. O Mishnah diz que o rito da novilha vermelha ocorreu somente sete vezes em toda a História, tendp sido realizado uma vez por Moisés, uma vez por Esdras e cinco vezes desde Esdras. Esta cerimônia de purificação envolvia o funcionário sagrado, o sacerdote, e tam­ bém osangue sagrado, a tenda sagrada e onúmero sagrado. O sacerdote lançava madeira de cedro, por causa de sua longevidade natural, hissopo, pelas suas qualidades de puri­ ficação, e tecido carmesim, como um símbolo da vida (cf. Lev. 14:4,6,49,51, 52), nofogoque queimavaoanimal. Cada pessoa que ajudasse na prepara­ ção das cinzas do animal vermelho lava­ ria suas roupas, tomaria banho e seria considerada imunda até o anoitecer. As cinzas seriam guardadas para uso na purificação de qualquer pessoa que ti­ vesse tido contato com um cadáver hu­ mano. (2) O Rito da Purificação Cerimonial (19:11-13) 11 Aquele que tocar o cadáver de algum homem, será imundo sete dias. 12Ao tercei­ ro dia o mesmo se purificará com aquela água, e ao sétimo dia se tomará limpo; mas, se ao terceiro dia não se purificar, não se tornará limpo ao sétimo dia. 13 Todo aquele que tocar o cadáver de algum ho­ mem que tenha morrido, e não se purificar, contamina o tabernáculo do Senhor; e essa alma será extirpada de Israel; porque a água da purificação não foi espargida sobre ele, continua imundo; a sua imundícia está ainda sobre ele. Este rito diz respeito ao contato de uma pessoa com um cadáver humano. Havia três coisas que causavam imundí­ cia que excluiria uma pessoa da comuni­ dade: a lepra; os fluxos do corpo (o san­ gue, o sêmen, o fluxo menstrual ou as excreções por ocasião do parto); e o con­ tato comum morto (5:2). Aimpureza era considerada contagiosa ou como trans­ mitida pela proximidade ou pelo contato físico. Tudo o que era misterioso, anormal, irruptivo e repulsivo era considerado imundo. Na morte, havia forças podero­ sas e misteriosas em operação. A morte era considerada com pavor e como um perigo. Nos tempos antigos, pensava-se que o espírito do morto ficava perto do cadáver, para fazer mal a qualquer um queestivessepróximo. Essas “almas fan­ tasmas” transmitiam imundícia a todos queestivessempor perto. 164
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    (3) VáriasCategoriasdeImundícias (19:14-22) 6. Miria,Moisés e Arão Não Poderiam EntrarnaTerraPrometida(20:1*29) 14Esta é a lei, quando um homem morrer numa tenda: todo aquele que entrar na ten­ da, e todo aquele que nela estiver, será imundo sete dias. 15 Também, todo vaso aberto, sobre que não houver pano atado, será imundo. 16E todo aquele que no campo tocar alguém que tenha sido morto pela espada, ou outro cadáver, ou um osso de algum homem, ou uma sepultura, será imundo sete dias. 17 Para o imundo, pois, tomarão da cinza da queima da oferta pelo pecado, e sobre ela deitarão água viva num vaso; 18e um homem limpo tomará hissopo, e o molhará na água, e a espargirá sobre a tenda, sobre todos os objetos e sobre as pessoas que ali estiverem, como também sobre aquele que tiver tocado o osso, ou o que foi morto, ou o que faleceu, ou a sepul­ tura. 19 Também o limpo, ao terceiro dia e ao sétimo dia, a espargirá sobre o imundo, e ao sétimo dia o purificará; e o que era imundo lavará as suas vestes, e se banhará em água, e à tarde será limpo. 20Mas o que estiver imundo e não se purificar, esse será extirpado do meio da assembléia, porquan­ to contaminou o santuário do Senhor; a água de purificação não foi espargida sobre ele; é imundo. 21 Isto lhes será por estatuto perpétuo: oque espargir a água de purifica­ ção lavará as suas vestes; e o que tocar a água de purificação será imundo até a tar­ de. 22E tudoquanto oimundotocar também será imundo; e a pessoa que tocar naquilo será imunda até a tarde. Seum homem morresse dentro de uma tenda, qualquerpessoana tenda ou qual­ quer pessoa que nela entrasse antes da purificação da tenda ficaria imunda por sete dias. Se alguém tocasse num osso ou num corpo morto, mesmo em campo aberto, ficaria imundo. A lei dava mar­ gem ao costume da caiação dos túmulos, de maneira que ninguém tocasse num túmulo inadvertidamente (cf. Mat. 23: 27). Seuma pessoa imunda não aprovei­ tasse das cinzas sacerdotais preparadas para a água da purificação, seria ceri- monialmente imunda, e, assim, ficaria separada dopovode Israel. (1) AMortedeMiriã(20:l) 1Os filhos de Israel, a congregação toda, chegaram ao deserto de Zim no primeiro mês, e o povo ficou em Cades. Ali morreu Miriã, e ali foisepultada. A congregação inteira tinha sido sen­ tenciada a 40 anos de peregrinação, para corresponder aos 40 dias da investiga­ ção da terra pelos espias. A aproximação que Moisés planejou (caps. 13 e 14) era, evidentemente, do sul, como visto do relatório dosespias. Porém elafalhou, de maneira que planejaram voltar-se para o norte e nordeste, para se aproximarem de Canaã pelo leste, através do territó­ rio ao leste do rio Jordão. Este primeiro versículo resume toda a longa relação com Cades. Faz menção do primeiro mês, porém não especifica oano. Miriã pode ter morrido em qualquer ocasião, durante o período dos 40 anos, porém geralmente se pensa que ela fa­ leceu depois de 38 anos de peregrinação (Snaith, p. 274). A última vez, em Nú­ meros, que se usou a fórmula cronológi­ ca foi nos capítulos 13 e 14, quando o povo estava em Cades. Agora está em Cades novamente. Não há nenhum re­ gistro da cronologia entre essesdois even­ tos. Porém o fato está estabelecido de que Miriã, que tinha sido a líder numa rebelião contra Moisés, morreu sem en­ trar naTerra da Promissão esema ver. (2) OPecadodeMoisés(20:2-13) 2 Ora, não havia água para a congrega­ ção; pelo que se ajuntaram contra Moisés e Arão. 3 E o povo contendeu com Moisés, dizendo: Oxalá tivéssemos perecido quando pereceram nossosirmãos perante o Senhor! 4 Por que trouxestes a congregação do Se­ nhor a este deserto, para que morramos aqui, nós e os nossos animais? 5 E por que nos fizestes subir do Egito, para nos trazer a este mau lugar? lugar onde não há se­ mente, nem figos, nem vides, nem romãs, nem mesmo água para beber. 6 Então Moi- 165
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    sés e Arãose foram da presença da assem­ bléia até a porta da tenda da revelação, e selançaram com orosto em terra; e a glória do Senhor lhes apareceu. 7£ o Senhor disse a Moisés: 8 Toma a vara e ajunta a congre­ gação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha perante os seus olhos, que ela dê as suas águas. Assim lhes tirarás água da rocha, e darás a beber à congregação e aos seus ani­ mais. 9Moisés, pois, tomou a vara de diante do Senhor, como este lhe ordenou. 10Moisés e Arão reuniram a assembléia diante da rocha, e Moisés disse-lhes: Ouvi agora, re­ beldes! Porventura tiraremos água desta rocha para vós? 11Então Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e saiu água copiosamente, e a congre­ gação bebeu, e os seus animais. 12 Pelo que o Senhor disse a Moisése a Arão: Porquanto não me crestes a mim, para me santificar­ des diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei. 13 Estas são as águas de Meribá, porque ali os filhos de Israel contenderam com oSenhor, que neles se santificou. Não é de admirar uma escassez de água, para semelhante multidão no de­ serto. A congregação reuniu-se em rebe­ lião (cf. 16:3,42) contra Moisés e Arão. Identificaram-se com Corá, Datã e Abi- rão, a quem chamaram de nossos ir­ mãos. Esta vez o povo também conten­ deu(apresentou uma queixalegal). Há vários pontos comuns entre este registro e Êxodo 17:1-7. Muitos escrito­ res acham que os dois textos são relatos deum mesmoevento, em razão de tantas semelhanças entre ambos. Porém tam­ bém observam-se algumas diferenças; as palavras para gado são diferentes; as pa­ lavras para rocha são diferentes; num relato Moisés havia de golpear a rocha, mas no outro Moisés e Arão haviam de falar à rocha; Êxodo, em seu registro, acrescenta o nome Massá ao de Meribá. As semelhanças são: (1) não havia água; (2) o povo contendeu com Moisés; (3) Por que nos fizestes subir do Egito? (4) para que morramos.aqui, nós e os nossos animais; (5) Toma a vara; (6) a água saiu da rocha; (7) o nome Meribá. O nome do lugar onde tudo isso aconte­ ceucaracterizou-se a tal ponto, pela con­ tenda, que foi chamado de Meribá, que querdizercontenda.Éinteressante queos registros deÊxodo chamam esse lugar de Meribá, etambém deMassá, que signifi­ ca “pondo à prova”. Os dois relatos do livro de Números (20:2-13 e 27:13,14) fazem um trocadilho com a palavra Me­ ribá, e também acrescentam outro, com a palavraCades, que significasanto. É difícil correlacionar todas as facetas deste incidente. O ponto principal da história é que Moisés não levaria a con­ gregação terra de Canaã adentro. O Se­ nhor disse a Moisés para tomar a vara. Esta era a varacom que ele tinha golpea­ do o Nilo, de forma que as águas se tor­ naram em sangue (Êx. 7:20); com que abriu o mar (Êx. 14:16). Não está claro se a vara era de Moisés ou de Arão (cf. Êx. 7:9,20; 8:5). Várias interpretações têm sido dadas. O versículo 12 afirma que o motivo da exclusão era incredulidade, porém o ver­ so 24 sugere tratar-se de rebelião. Moi­ sés chama o povo de rebeldes, porém o Salmo 106:33 diz que eles “amargura­ ram o seu espírito” (da mesma raiz que “rebeldes” em Núm. 20:10). A palavra no verso 8, falai à rocha, está no plural, com referência a Moisés e Arão, porém foi Moisés quem golpeou a rocha. Exa­ tamente como o desprazer de Deus foi provocado, é difícil de se determinar, pois existem várias possibilidades. Ao perguntar ao povo (v.10): Porventura ti­ raremos água desta rocha? estaria Moi­ sés querendo dizer: “podemos tirar?” ou: “devemos tirar?” Em caso positivo, podia estar demonstrando alguma dúvi­ da ou até desrespeito para com a pala­ vra de Deus. Por que Moisés golpeou a rocha duas vezes, ao invés de uma vez apenas? Revelaria este gesto contrarie­ dade, ou precisou do segundo golpe para realizar o seu propósito? Em Deuteronô- mio 1:37, 3:26e4:21, Moisés diz ao povo que oSenhorirou-se contra ele por causa do povo, i. e., porque recusou aceitar o relatório minoritário dos espias e entrar 166
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    para tomar posseda terra antes dos 40 anos deperegrinações. Parece apropriado, no versículo 12 e em Deuteronômio 32:50-52, que o escri­ tor interpreta a omissão de Moisés em não exaltar opoder de Deus, evidenciado no milagre das águas, como um ato de incredulidade ou, ao menos, como uma negligência dapossibilidade de chamar a atençãopara a santidade de Deus. (3) ArãoMorrenoMonteHor(20:14-29) 14 De Cades, Moisés enviou mensageiros ao rei do Edom, dizendo: Assim diz teu irmão Israel: Tu sabes todo o trabalho que nos tem sobrevindo; 15 como nossos pais desceram ao Egito, e nós no Egito habita­ mos muito tempo; e como os egípcios nos maltrataram, a nós e a nossos pais; 16 e quando clamamos ao Senhor, ele ouviu a nossa voz, e mandou um anjo, e nos tirou do Egito; e eis que estamos em Cades, cidade na extremidade dos teus termos. 17 Deixa- nos, pois, passar pela tua terra; não passa­ remos pelos campos, nem pelas vinhas, nem beberemos a água dos poços; iremos pela estrada real, não nos desviando para a direita nem para a esquerda, até que tenha­ mos passado os teus termos. 18Respondeu- lhe Edom: Não passarás por mim, para que eu não saia com a espada ao teu encontro. 19 Os filhos de Israel lhe replicaram: Subi­ remos pela estrada real; e se bebermos das tuas águas, eu e o meu gado, darei o preço delas; sob condição de eu nada mais fazer, deixa-me somente passar a pé. 20Edom, po­ rém, respondeu: Não passarás. E saiu-lhe ao encontro com muita gente, e com mão forte. 21Assim recusou Edom deixar Israel passarpelos seus termos; pelo que Israel se desviou dele. 22 Então partiram da Cades; e os filhos de Israel, a congregação toda, chegaram ao monte Hor. 23E falou o Senhor a Moisés e a Arão no monte Hor, nos termos da terra de Edom, dizendo: 24 Arão será recolhido a seu povo, porque não entrará na terra que dei aos filhos de Israel, porquanto fostes rebeldes contra a minha palavra no tocante às águas de Meribá. 25Toma a Arão e a Eleazar, seu filho, e faze-os subir ao monte Hor; 26e despe a Arão as suas vestes, e as veste a Eleazar, seu filho, porque Arão será recolhido, e morrerá ali. 27 Fez, pois, Moisés como o Senhor lhe ordenara; e subi­ ram ao monte Horperante os olhos de toda a congregação. 28 Moisés despiu a Arão as vestes, e as vestiu a Eleazar, seu filho; e morreu Arão ali sobre o cume do monte; e Moisés e Eleazar desceram do monte. 29Vendo, pois, toda a congregação que Arão era morto, chorou-o toda a casa de Israel portrinta dias. O povo de Israel íora completamente derrotado pelos amalequitas e pelos ca- naneus, na tentativa fracassada de entrar na Terra Prometida (cf. 14:45). De ma­ neira que Moisés procura, agora, a per­ missão do rei de Edom para atravessa­ rem a terra, evidentemente numa tenta­ tiva de diminuir a distância e suavizar a dureza da viagem. O pedido que enviou aorei deEdom foi uma tentativa de mes­ tre na arte devendas. Os itens calculados para produzir oacordoeram: Versículo 14 — Teu irmão Israel faz referência à sua herança comum; os edo- mitas eram filhos de Esaú, e os israeli­ taseram filhos de Jacó. Ambos eram dos filhos de Eber. Versículo 15 — Os israelitas tinham sofrido muita adversidade no sentido de que os seus pais desceram ao Egito. Os egípciosnosmaltrataram. Versículo 16 — Deus ouviu a sua voz, certamente os edomitas também os ou­ viram. Versículo 16b — Estamos em Cades, cidade na extremidade de seu território. Ele prometeu que iriam somente pela estrada real. Esse era um caminho para as caravanas que seguiam viagem do golfo de Ãcaba à Palestina setentrional ou à Síria. Moisés prometeu que não se desviariam nem um pouco desse cami­ nho. Além disso, nãopassariam porcam­ po ou por vinha, nem tomariam água de nenhum poço. O pedido foi negado, com uma amea­ ça debatalha. O povode Israel renovou o pedido e a promessa. Novamente o pe­ dido foi negado, acompanhado de uma demonstração da força armada dos edo­ mitas. Por conseguinte, Israel mudou de 167
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    direção. Pelo queestá registrado em 21: 1-3, consta que voltaram-se rumo ao norte, para com este contorno se aproxi­ marem do destinono sul. Ao se convencer de que não podia conduzir o seu povo pela terra do rei de Edom, Moisés levou-o de Cades até o monte Hor, que se diz estar nos termos da terra de Edom. A localização do monte Hor é desconhecida. Deuteronô- mioregistra o nome dolugar da morte de Arão como Mosera. Era, claramente, umaparada em sua viagempara osul, ao contornarem o território de Edom. Os turistas que hoje visitam a cidade de Petra, com a sua cor vermelho-rosado, podem ver uma abóbada branca num pico de uma montanha próxima, que é identificada como o lugar do enterro de Arão. Porém esse lugar é, seguramente, incorreto. Eruditos modernos sugerem monte Madurah(Jebel Madurah) como o local. Arão foi informado de sua morte imi­ nente. O motivo declarado foi a rebelião de Moisés e Arão. As ordens dadas a Moisés e Arão era que falassem à rocha para tirar a água, mas, em vez de assim proceder, Moisés golpeou a rocha duas vezes. Visto que nem Moisés nem Arão falou à rocha, ambos foram culpados de se terem rebelado contra a minha pala­ vra no tocante às águas de Meribá. O grande trio, Moisés, Arão e Eleazar, foi enviado ao monte Hor. As roupas de Arão, ou seja, as vestimentas do sumo sacerdote (Lev. 8:1-9) foram colocadas em Eleazar, o mais velho dentre os filhos sobreviventes de Arão. Imediatamente após a transferência dos sinais do ofício de sumo sacerdote, Arão morreu. Quan­ do opovo reconheceu que Eleazar trazia as vestimentas de sumo sacerdote, soube que Arão estava morto. De.maneira que fizeram lamentação pelo seu pacificador por 30dias. Pelomesmoespaço de tempo fizeram lamentação pela morte de Moi­ sés(Deut. 34:8). 7. As Peregrinações Finais Anteriores à TravessiadoJordão(21:1-35) (1) Israel Confronta o Rei de Arade (21:1-3) 1 Ora, ouvindo o cananeu, rei de Arade, que habitava no Negebe, que Israel vinha pelo caminho de Atarim, pelejou contra Is­ rael, e levou dele alguns prisioneiros. 2 En­ tão Israel fez um voto ao Senhor, dizendo: Se na verdade entregares este povo nas minhas mãos, destruirei totalmente as suas cidades. 3 O Senhor, pois, ouviu a voz de Israel, e entregou-lhe os cananeus; e os israelitas os destruíram totalmente, a eles e às suas cidades; e chamou-se aquele lugar Horma. A posição geográfica de Atarim não se sabe com certeza. Do conhecimento da topografia, achar-se-ia que Atarim fosse o nome de uma passagem entre monta­ nhas. A julgar do contexto e da grande semelhança das palavras hebraicas, pode ter sido o caminho dos espias (hattarim). As notícias das atividades dos espias (ta- rim) peloespaço de 40dias talveztenham chegado ao rei de Arade. A presença dos 12homens teria despertado a curiosidade dos nativos de tal modo, que a investi­ gação talvez tenha sido feita antes desta data. De maneira que, quando correu a notícia de que Israel vinha novamente (esta vez em grande número), o rei de Arade seperturbou. Aspalavrashebraicas podiam também ser traduzidas “à maneira dos espias”. Se o rei de Edom avisou o rei de Arade para que permanecesse vigilante, à es­ pera de um bando de espias, o rei terá achado fácil preparar-se para os encon­ trar e tomar alguns deles como cativos. EmJuizes 1:16, há um lugar chamado de Hattemarim, a cidade “das palmeiras” que se situa no Negebe, perto de Arade. De maneira que o povo de Israel talvez tenh^ subido pelo caminho das palmei­ ras, i. e., deum oásis. Na base de um voto de Israel, Deus mudou o resultado da batalha. Israel prometeu destruir (cherem) as cidades cananéias. Assim, achamos a nota etioló- 168
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    gica que chamon-seo nome daquele lu­ garHorma, nome este que significa dedi­ cado ou destruído (cf. Juí. 1:17, onde Zefate foi mudado para Horma). Devido àpresença deste nome Horma, é possível que este trecho seja uma variante ou registromaiscompletodeNúmeros 14:45. (2) As Serpentes Abrasadoras; As Ser­ pentes—OsSerafins(21:4-9) 4 Então partiram do monte Hor, pelo ca­ minho que vai ao Mar Vermelho, para ro­ dearem a terra de Edom; e a alma do povo impacientou-se por causa do caminho. 5E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito, para morrermos no deserto? pois aqui não há pão e nãohá água; e a nossa alma tem fastio deste miserável pão. 6 Então o Senhor man­ dou entre o povo serpentes abrasadoras, que o mordiam; e morreu muita gente em Israel. 7 Pelo que o povo veio a Moisés, e disse: Pecamos, porquanto temos falado contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor para quetire de nósestas serpentes. Moisés, pois, orou pelo povo. 8 Então disse o Senhor a Moisés: Faze uma serpente de bronze, e põe-na sobre uma haste; e será que todo mordido que olhar para ela viverá. 9 Fez, pois, Moisésuma serpente de bronze, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, tendo uma serpente mordido a alguém, quando esse olhavapara a serpente de bronze, vivia. Como os cananeus tinham sido des­ truídos, por que os israelitas voltaram- se para o sul do monte Hor, pelo cami­ nho quevai ao Mar Vermelho? Pode ter havido outros povos fortes, dos quais aqui não se fala, habitando nesse terri­ tório, e que teriam levantado barreiras insuperáveis. Assim se viraram para o território menos povoado, para fugir da terra pertencente aos edomitas. Porém a alma do povo impacientou-se (lit., o espírito do povo encurtou-se; cf. 11:23). Suaimpaciência demonstrou-se na recla­ maçãotantas vezes repetida: Fizeste com que partíssemos do Egito, estamos no deserto, não temos nem comida nem água. Seus desejos físicos não estavam sendo satisfeitos. Em relatos anteriores, vimos os casti­ gospelareclamação contra Deus, Moisés e Arão. Um dos castigos relacionava-se com fogo destruidor. Esta rebelião tam­ bém trouxe a morte para muitos. As serpentes abrasadoras(lit., as serpentes, osserafins) picavam alguns dentre opovo fatalmente. Ã vista da morte que se se­ guiuàrebelião, opovopercebeu quetinha incorridonojuízo deDeus. Pediu, então, a Moisés que intercedesse pela remoção das serpentes. Não pediu que orasse por ele, pelos seuspecados. Segundo 33:43, o acampamento ante­ riora Obote (21:10) foi o de Punom, que já foi mencionado como uma área de mineração de cobre (cerca de 40 quilô­ metros ao sul do Mar Morto). O termo bronzequer dizercobre ou cobre endure­ cidocomumaliga queproduzia ou bron­ ze ou latão. Se se constituía numa liga com o zinco, e, por conseguinte, latão, ou se numa liga com estanho^ produzin­ do bronze, isto não é diferenciado pela palavra hebraica. Existem algumas evidências do fato de que os símbolos religiosos são transferi­ dos para outros contextos (II Reis 18:4). E questionávelseo uso e prática do culto à serpente de cobre, durante a monar­ quia israelita, relatada em II Reis, seja o mesmo que o praticado em Números. Aqueima deincenso à serpente (Nehush- tan) foi uma perversão de seu uso, e era muito semelhante à prática da magia da serpente ou do culto à serpente. Não é correto ler uma passagem posterior e explicarque a interpretação posterior é o sentido proposto na anterior. Na reali­ dade, o significado posterior pode ser umaperversãoouuma interpretaçãocom um novo significado, bem como uma extensão do sentido original.10 Os arqueólogos descobriram artefatos, sobre os quais se acha, claramente, o símbolo da serpente. No Oriente Médio 10 Cf. H. H. Rowley, “Zadok and Nehushtan”, Journal of Biblical literature, 1939,11:113-141. 169
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    antigo, a serpentese associava à restau­ ração da vida.11 Opovo do Egito muitas vezes colocava um amuleto em feitio de serpente nas múmias, para afugentar serpentes ou outros répteis. As figuras de serpentes eram usadas ao redor do pescoço, pelos egípcios, para repelir as cobras. “O ele­ mento mais importante, na tradição de Moisés e da serpente de bronze, parece ser o da magia simpática — a crença de que a sorte de um objeto ou de uma pessoa pode ser controlada pela manipu­ lação de sua imagem exata”.12 Na Mesopotâmia, a serpente era o símbolo da fertilidade eda vida renovada (cf. Nehushtan acima). Não existe qual­ quer evidência de que essa simbologia tenha relação com o uso feito, por Moi­ sés, da imagem da serpente de bronze. Tendo em vista os israelitas viverem por tanto tempo noÈgito, fácil lhesfoi obser­ var o uso egípcio do símbolo da serpente como um repelente das serpentes pica­ doras. Moisés)usou-a como um remédio eficaz para o dano físico infligido pelas serpentes. A luz do uso comum da figura da ser­ pente, élógico que Israel também a usas­ se. Este relato da serpente metálica tem servido de fonte para muitas tipologias. O ponto de vista teológico mais antigo dessa passagem acha-se no apócrifo Sa­ bedoria de Salomão 16:5-7, mais tarde sendo encontrado também no Novo Tes­ tamento, João3:14,15. As palavras que olhar (ingl., quando ele a vir) e quando esse olhava não dão margem para uma interpretação clara. Porém o contexto do culto a Yahweh revela a interpretação de que o olhar era um olhar de fé. Com base nos fatos de que o povo pediu a Moisés para orar e que o Senhor respondeu, a imagem não era, então, um fim em si, mas antes uma 11 A. Castigliono, ‘‘The Serpent as Healing God in Anti­ quity”, Ciba Symposia, 3:1164,1942. 12 Karen R. Joines, ‘‘The Bronze Serpent in the Israelite Cult”, Journal ofBiblical Literature, 1968,111:251. lembrança daquele que estava por detrás da imagem. O povo não era picado pelas serpentes à vista da imagem da serpente. De maneira que, após a picada, podia ir, se o desejasse e/ou cresse, olhar para a imagem. Assimhavia a presença da ima­ gem, a presença da morte, o conheci­ mento da presença do poder simboliza­ do, o ato de ir até a imagem e de olhar para ela, e a continuação da vida ou a revogação daquele castigo. (3) AMarchadePunom atéPisga (21:10-20) 10 Partiram, então, os filhos de Israel, e acamparam-se em Obote. 11 Depois parti­ ram de Obote, e acamparam-se em Ije-Aba- rim, no deserto que está defronte de Moabe, para o nascente. 12 Dali partiram, e acam­ param-se no vale de Zerede. 13 E, partindo dali, acamparam-se além do Arnom, que está no deserto e sai dos termos dos arnor- reus; porque o Arnom é o termo de Moabe, entre Moabe e os amorreus. 14 Pelo que se diz no livro das guerras do Senhor: Vaebe em Sufa, e os vales do Arnom, 15e o declive dos vales, que se inclina para a situação de Ar, e se encostaaos termos de Moabe. 16Da­ li vieram a Beer; esse é o poço do qual o Senhor disse a Moisés: Ajunta o povó, e lhe darei água. 17Então Israel cantou este cân­ tico: Brota, ó poço! E vós, entoai-lhe cânti­ cos! 18 Ao poço que os príncipes cavaram, que os nobres do povo escavaram com o bastão, e com os seus bordões. Do deserto vieram a Matana; 19 De Matana a Naaliel; de Naaliela Bamote; 20e de Bamote ao vale que está no campo de Moabe, ao cume de Pisga, que dá para odeserto. O povo seguiu o seu caminho para o norte, de uma fonte de água aoutra, pelo lado oriental doMar Morto. Acamparam em Ije-Abarim(lit., as ruínas de abarim) ou na região ao leste do Mar Morto. É chamado de Abarim, i.e., “o outro lado”, do ponto de vista de alguém que está morando entre o Mar Mediterrâneo ea divisaMarMorto-Rio Jordão. A citação de o Livro das Guerras do Senhor menciona acidentes conhecidos, como o rio Arnom, a cidade de Ar e o território dos moabitas. A natureza, ex- 170
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    tensão, ou históriado Livro das Guerras do Senhor são impossíveis de se saber, poisé aúnicamenção conhecida dolivro. Não é estranho, no meio ambiente do Oriente Médio, falar-se nas guerras de Yahweh. Uma tradução possível de Yah- weh Sabaote é “Yahweh dos Exércitos”. O livro era, provavelmente, uma antiga coletânea poética dos registros das guer­ ras travadas em seu nome e das quais ele próprioparticipou. Os escritores de nossos textos colhe­ ram material de diversas fontes. Josué 10:13e II Samuel 1:18 procedem do livro de Jasar. O Cântico do Poço (v. 17,18) ou a canção em 21:27-30 não são identi­ ficados como sendo do Livro das Guerras doSenhor. Acitaçãoconhecidacomo “Cântico do Poço” é uma canção folclórica que re­ flete a época quando um poço era for­ malmente aberto e consagrado. Poetica­ mente, credita-se aos nobres a escava­ ção do poço. Este parágrafo constitui a conexão histórica entre o povo na terra deEdom eona divisa da terra dos amor- reus. O alvo deste capítulo é demonstrar as vitórias de Deus sobre o rei de Arade, sobre as rebeliões e as picadas de ser­ pentes, sobreo rei dos amorreus e sobre o rei de Basã. (4) AVitóriaSobreSiom, Reidos Amor­ reus(21:21-32) 21 Então Israel mandou mensageiros a Siom, rei dos amorreus, a dizer-lhe: 22 Dei- xa-me passar pela tua terra; não nos des­ viaremos para os campos nem para as vi­ nhas; as águas dos poços não beberemos; iremos pela estrada real até que tenhamos passado os teus termos. 23 Siom, porém, não deixou Israel passar pelos seus termos; pelo contrário, ajuntou todo o seu povo, saiu ao encontro de Israel no deserto e, vindo a Jaza, pelejou contra ele. 24 Mas Israel o feriu ao fio da espada e apoderou-se da sua terra, desde o Arnom até o Jaboque, até os amonitas; porquanto a fronteira dos amoni- tas era fortificada. 25 Assim Israel tomou todas as cidades dos amorreus e habitou nelas, em Hesbom e em todas as suas al­ deias. 26 Porque Hesbom era a cidade de Siom, rei dos amorreus, que pelejara contra oprecedente rei de Moabe, e tomara da mão dele toda a sua terra até o Arnom. 27 Pelo que dizem os que falam por provérbios: Vindea HesbomI edifique-se e estabeleça-se a cidade de Siom! 28 Porque fogo saiu de Hesbom, e uma chama da cidade de Siom; e devorou a Ar de Moabe, aos senhores dos altos do Arnom. 29 Ai de ti, Moabe! perdido estás, povo deQuemós! Entregou seus filhos comofugitivos, e suas filhas como cativas, a Siom, rei dos amorreus. 30 Nós os assetea- mos; Hesbom está destruída até Dibom, e os assolamos até Nofá, que se estende até Medeba. 31 Assim habitou Isrgel na terra dos amorreus. 32 Depois Moisés mandou espiar a Jazer, e tomaram as suas aldeias e expulsaram os amorreus que ali estavam. Israelmandoumensageirosa Siom, rei dos amorreus, com um pedido diplomá­ tico de permissão para passar pela sua terra. O pedido foi negado por meio de um contingente de forças armadas, que saiu para a peleja. Israel ganhou a bata­ lha e se apossou de todo o território amorreu. A RSV segue a Septuaginta e entende Jazer como um nome de lugar. O texto hebraico é melhor aqui (cf. KJV e ASV): “Porque a fronteira dos filhos deArnom era forte.” Jazeré mencionado várias vezes no Antigo Testamento, po­ rém o local é desconhecido. A cidade foi investigada pelos espias enviados por Moisés (v. 32). O texto hebraico quer dizer que a fronteira dos amorreus era altamente fortificada. Israel não chegou aoponto de guerrear contra os amonitas. Porém tomoutodas as cidades dos amor­ reus. O cântico (v. 27-30), de uma fonte não mencionada, passa em revista o grande poder de Siom, que tinha con­ quistado Moabe, inclusive Quemós, o deus dos moabitas. (5) A Vitória Sobre Ogue, Rei de Basã (21:33-35) 33 Então viraram-se, e subiram pelo ca­ minho de Basã. E Ogue, rei de Basã, saiu- lhes ao encontro, ele e todo o seu povo, para lhes dar batalha em Edrei. 34 Disse, pois, o Senhor a Moisés: Não oJemas, porque eu to entreguei na mão, a ele, a todo o seu povo, e 171
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    à sua terra;e far-íhe-ás como fizeste a Siom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom. 35 Assim o feriram, a ele e seus filhos, e a todo o seu povo, até que nenhum lhe ficou restando; também se apoderaram da terra dele. Esta seção ê de material deuteronô- mico (Deut. 3:1-3). As campanhas ini­ ciais do exército de Israel eram guerras da conquista. Quando conquistaram Siom e Ogue, obtiveram território que seria dividido entre algumas das tribos. Estas vitórias eram interpretadas como resultado da ajuda de Deus. IV. IsraelAcampadonasPlanícies deMoabe(22:1-36:13) 1. O Registro Sobre Balaque e Balaão (22:1-24:25) (1) Introdução (22:1-6) 1 Depois os filhos de Israel partiram, e acamparam-se nas planícies de Moabe, além do Jordão, na altura de Jericó. 2 Ora, Balaque, filho de Zipor, viu tudo o que Israel fizera aos amorreus. 3 E Moabe tinha gran­ de medo do povo, porque era muito* e Moa­ be andava angustiado por causa dos filhos de Israel. 4 Por isso disse aos anciãos de Midiã: Agora esta multidão lamberá tudo quanto houver ao redor de nós, como o boi lambe a erva do campo. Nesse tempo Bala­ que, filho de Zipor, era rei de Moabe. 5 Ele envioumensageiros a Balaão, filho de Beor, a Petor, que está junto ao rio, à terra dos filhos do seu povo, a fim de chamá-lo, dizen­ do: Eis que saiu do Egito um povo, que cobre a face da terra e estaciona defronte de mim. 6 Vem pois agora, rogo-te, amaldi­ çoar-me este povo, pois mais poderoso é do que eu; porventura prevalecerei, de modo que opossa ferir e expulsar da terra; porque eu sei que será abençoado aquele a quem tu abençoares, e amaldiçoado aquele a quem tu amaldiçoares. O poder de Yahweh não deve ser con­ fundido com a adivinhação. Estes versí­ culos são uma introdução à seção final inteira do livro de Números. Marcam o contexto geográfico para os registros res­ tantes. Depois que grande parte do território beirando o Mar Morto e o Rio Jordão a leste tinha sido conquistado, todo o povo de Israel estabeleceu o seu acampamento nasplaníciesouplanalto deMoabe, dire­ tamente a leste de Jericó, e também ao lestedo RioJordão. Balaque, rei de Moabe, temia o povo de Israel(v. 2-6). Israel conquistara Ara- de, Siom e Ogue. Os moabitas não ti­ nham sido vencidos em guerra. Os pla­ naltos de Moabe situam-se adjacentes ao Rio Jordão, um pouco antes deste rio se lançar no Mar Morto, permitindo uma vistapanorâmica da terra aooeste do rio. O rei de Moabe tinha ouvido, sem dú­ vida, dos eventos do confronto de Israel com Arade, Hesbom eEdrei. Quandoviu tantos estranhos entrando em sua terra, se aterrorizou. Ele supunha que Israel podia consumi-los como um boi (forte) lambe a erva(impotente) do campo. Uma das características comuns aos povos do mundo oriental é a auto-identi- ficaçãoachegada com sua terra, seu rei e seu deus. Com suas mentes não existe nenhuma separação nas categorias dis­ tintas, sua terra, seu rei e, acima de tudo, seu deus. Balaque viu que sua única esperança de sobrevivência, tanto pessoal como nacional, era o favor do Deus daquelahoste. Os moabitas e os midianitas ajunta- ram-se para seprotegerem. Moabe tinha sido ocupado por Siom, rei dos amor­ reus, de maneira que Midiã tinha de as­ sumir a maior parte do peso da guerra (cf. o cap. 31, quanto à luta final). Bala­ que, rei de Moabe, lançou a idéia de enviarpresentes a um adivinhador famo­ soda Mesopotâmia, conhecido como Ba­ laão. Não se dá nenhum título, como de profeta ou sacerdote, a Balaão, e, por­ tanto, temos de discernir do texto qual a sua posição. Balaque queria que Balaão amaldiçoasse Israel, de maneira que Moabepudesse derrotá-lo. Sabia dos po­ deres de Balaão para abençoar e para amaldiçoar. No versículo 6, o poder de 172
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    uma palavra falada,quer como benção, quercomo maldição, éconfirmado. Não há registro de que Balaão fosse um oficial da religião de Israel. Veio de Petor, queestájunto ao rio. A RSV situa Petor “na terra de Amaw”. O nosso texto, bem como a KJV e a ASV, traduz esta frase por à terra dos filhos do seu povo. Literalmente, ohebraico lê “a ter­ ra dos filhos de Ammo” (Amaw ou seu povo). Aterra de Amaw ficava a oeste do Eufrates. A cidade capital de Emar fica­ va a menos de oitenta quilômetros de Petor. Recebe menção na Inscrição de Idrimi e também no túmulo de Quen- amun do Egito, na segunda metade do décimo quinto séculoa.C.13 Petor situava-se ao sul de Carquemis, mais do que 550 quilômetros distante de Moabe. A viagem dessa distância neces­ sitaria de muito planejamento e tempo. Este relato comprime um considerável espaço de tempo num registro breve. Há um total de mais de 2.200 quilômetros de viagensimplícitos aqui. (2) OsPrimeiros Emissários de Moabe e MidiãaBalaão(22:7-14) 7 Foram-se, pois, os anciãos de Moabee os anciãos de Midiã, com o preço dos encanta­ mentos nas mãos e, chegando a Balaão, referiram-lhe as palavras de Balaque. 8Ele lhes respondeu: Passai aqui esta noite e vos trarei a resposta, como o Senhor me falar. Então os príncipes de Moabe ficaram com Balaão. 9 Então veio Deus a Balaão, e perguntou: Quem são estes homens que es­ tão contigo? 10 Respondeu Balaão a Deus: Balaque, filho de Zipor, rei de Moabe, mos enviou, dizendo: 11 Eis que o povo que saiu do Egito cobre a face da terra; vem agora amaldiçoar-mo; porventura poderei pelejar contra ele e expulsá-lo. 12 E Deus disse a Balaão: Não irás com eles; não amaldiçoa­ rás a este povo, porquanto é bendito. 13Le­ vantando-se Balaão pela manhã, disse aos príncipes de Balaque: Ide para a vossa ter­ ra, porque o Senhor recusa deixar-me ir convosco. 14 Levantaram-se, pois, os prín­ cipes de Moabe, vieram a Balaque e disse­ ram: Balaão recusou vir conosco. 13 IDB, Vol. A-D, p. 104; cf. W. F. Albright, “Some Re­ cent Discoveries”, BASOR 118:15-20,1950. Moabe tinha consultado Midiã (v. 4). Os anciãos dos dois povos partiram. Ba­ laque tinha plena confiança no poder da adivinhação (cf. o v. 6b), portanto, en­ viou o pagamento para a adivinhação com o seu emissário. Também confiava que o montante de suas dádivas seria suficiente para conseguir a maldição de­ sejada da adivinhação. Achava-se que a adivinhação era uma forma de comuni­ cação com os poderes superiores, numa tentativa de responder a certas pergun­ tas. O texto hebraico diz, simplesmente: Foram-se... os anciãos de Moabe e os anciãos de Midiã com o preço... nas mãos. Pode ser que os anciãos levassem juntos osutensílios apropriados para que Balaão não pudesse se recusar, alegando quenão estivesse devidamente equipado. Por outro lado, um adivinho possuiria, sem dúvida, as ferramentas para sua marcaespecífica de adivinhação. Basicamente, os oráculos dos adivi­ nhadores se obtinham pelo uso, exame ou observação de ou (1) um fenômeno puramente natural, tal como os astros, ou os sons das folhas de uma árvore, o fígado de um animal sacrifical, tempes­ tades, nuvens, oaparecimento de serpen­ tes ou o seu desaparecimento, comporta­ mento de animais, ou sonhos; ou (2) um fenômeno provocado pelo homem, tal como o derramamento de óleo numa vasilha de água, o lançamento de uma pedrinha num tanque, para observar as bolhas e as marolas assim causadas, o lançamento ou a sacudida de flechas, o lançamento de sortes, enecromancia. Os babilónicos eram famosos por essa arte. A adivinhação foi desenvolvida co­ mo quase que uma disciplina científica. Apalavra caldeu até se tomou sinônima demágico, noAntigoTestamento. A for­ ma de adivinhação mais desenvolvida entre os babilónicos foi a hepatoscopiá, isto é, o exame do fígado de um animal cultual. Pensavam que o fígado fosse o assento do sangue, e, por conseguinte, da própria vida. De maneira que, como a 173
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    vida vinha deDeus, o fígado do animal identificava-se, de alguma forma, com Deus. Assim, os babilónicos achavam que podiam discernir algo de Deus. Há referência, num registro antigo, à exis­ tência de uma escola para adivinhadores (casa de adivinhos).14 No Antigo Testamento há muitas refe­ rências a termos e ações que são comuns naprática da adivinhação. Algumas pas­ sagens proíbem o uso, por Israel, de adivinhação(Lev. 19:26; Deut. 18:10,11; e muitas vezes nos profetas). É difícil saber se essas proibições eram tentativas de acabar com práticas que talvez te­ nham existido em Israel depois da asso­ ciação com vizinhos que não viam ne­ nhum erro em tais coisas ou se eram tentativas de impedir a entrada de tais práticas na vida de Israel. O povo exer­ ciamuitas práticas com costumes e hábi­ tos ancestrais de remota antigüidade. À medida que a revelação do Senhor se tornava mais importante e mais bem entendida, tentativas de erradicar prá­ ticas, tais como a adivinhação, foram feitas. Os moabitas e os midianitas procura­ vam, à maneira mais eficaz que conhe­ ciam, assegurar o futuro e se proteger. Neste relato, o Senhor (Yahweh) ocorre somente nas falas de Balaão, porém há muitas variantes nas versões. Quanto Moabe e Midiã sabiam do caráter distin­ tivo do Deus de Israel, por ocasião deste encontro, nãosetem certeza. Outrossim, BalaãoconheciaYahweh (pois ele usou o seunome), porém não se sabe ao certo se Balaão sabia que Yahweh era o Deus de Israel. Nos versos 9-12 está registrada uma primeira comunicação entre Deus e Balaão. Quando Balaão conta da mensa­ gem de Balaque, ele só sabe que um povo... saiu do Egito. Deus instrui Ba- laâo(l) a não acompanhar os moabitas, (2) a não amaldiçoaropovoe(3) que este povoeraum povoabençoado. 14IDB, Vol. A-D,p. 857. Os anciãos de Moabe e Midiã não fazem referência a Deus em lugar ne­ nhum, nestes capítulos. É Balaão quem usa o nome de Deus constantemente. Está implícito que a mensagem veio de Deus, num sonho (v. 13). É significativo que Deus veio a Balaão (v. 9). Quando Balaão disse aos anciãos que o Senhor recusa deixá-lo ir com eles, os anciãos regressaram com a notícia de que Balaão recusou vir conosco, mas não fizeram nenhuma referência a Deus. (3) O SegundoGrupodeEmissários (22:15-21) 15 Balaque, porém, tornou a enviar prínci­ pes, em maior número e mais honrados do que aqueles. 16Estes vieram a Balaão e lhe disseram: Assim diz Balaque, filho de Zi- por: Rogo-te que não te demores em vir a mim, 17 porque grandemente te honrarei, e farei tudo o que me disseres; vem, pois, rogo-te, amaldiçoar-me este povo. 18 Res­ pondeu Balaão aos servos de Balaque: Ain­ da que Balaque me quisesse dar a sua casa cheia de prata e de ouro, eu não poderia ir além da ordem do Senhor meu Deus, para fazer coisa alguma, nem pequenanem gran­ de. 19Agora, pois, rogo-vos que fiqueis aqui ainda esta noite, para que eu saiba o que o Senhor me dirá mais. 20 Veio, pois, Deus a Balaão, de noite, e disse-lhe: Já que esses homens te vieram chamar, levanta-te, vai com eles; todavia, farás somente aquilo que eu te disser. 21 Então levantou-se Balaão pela manhã, albardou a sua jumenta, e par­ tiu com ospríncipes de Moabe. Balaque enviou outros emissários. Ne­ nhum lapso de tempo se registra entre os dois grupos. Esta segunda missão diplo­ mática era mais numerosa e mais impor­ tante. Balaão podia receber um cheque em branco se somente colocasse uma maldição sobre este povo. A mensagem de Balaque indicou um motivo de “lucro e posição” por detrás de sua oferta. Porém Balaão diz aos nobres que prata é ouro não eram o fator decisivo. O man­ damento do Senhor seuDeus(v. 18)era o fator que determinaria a sua decisão. Porém pediu aos emissários que per­ noitassem ali, para que ele pudesse saber 174
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    o que mais,conforme disse, “o Senhor me dirá”. No versículo 19, o nome do Deuspor quem Balaãoesperava eraYah- weh. Porém o nome do que o permitiu ir (v. 20) era Elohim. Não existe qualquer indicação do motivo por que Deus lhe disse que esta vez fosse, embora não tivesse permitido que fosse com os pri­ meirosemissários. (4) AViagemdeBalaãoatéMoabe (22:22-35) 22 A ira de Deus se acendeu, porque ele ia, e o anjo do Senhor pôs-se-lhe no caminho por adversário. Ora, ele ia montado na sua jumenta, tendo consigo os seus dois servos. 23Ajumenta viu o anjo do Senhor parado no caminho, com a sua espada desembainha­ da na mão e, desviando-se do caminho, me­ teu-se pelo campo; pelo que Balaão espan cou a jumenta para fazê-la tomar ao cami­ nho. 24 Mas o anjo do Senhor pôs-se numa vereda entre as vinhas, havendo uma sebe de um e de outro lado. 25 Vendo, pois, a jumenta o anjo do Senhor, coseu-se com a sebe, e apertou contra a sebe o pé de Ba­ laão; pelo que ele tomou a espancá-la. 26 Então o anjo do Senhor passou mais adiante, e pôs-se num lugar estreito, onde não havia caminho para se desviar nem para a direita nem para a esquerda. 27 E, vendo a jumenta o anjo do Senhor, deitou-se debaixo de Balaão; e a ira de Balaão se acendeu, e ele espancou a jumenta com o bordão. 28 Nisso abriu o Senhor a boca da jumenta, a qual perguntou a Balaão: Que te fizeu, para queme espancasses estas três vezes? 29 Respondeu Balaão à jumenta: Forque zombaste de mim; oxalá tivesse eu uma espada na mão, pois agora te mataria. 30 Tomou a jumenta a Balaão: Porventura não sou a tua jumenta, em que cavalgastes toda a tua vida até hoje? Porventura tem sido o meu costume fazer assim para conti­ go? E ele respondeu: Não. 31Então o Senhor abriu os olhos a Balaão, e ele viu o anjo do Senhor parado no caminho, e a sua espada desembainhada na mão; pelo que inclinou a cabeça, e prostrou-se com o rosto em terra. 32 Disse-lhe o anjo do Senhor: Por que já três vezes espancaste a tua jumenta? Eis que eu te sai como adversário, porquanto o teu caminho é perverso diante de mim; 33a jumenta, porém, me viu, e já três vezes se desviou de diante de mim; se ela não se tivesse desviado de mim, na verdade que eu te haveria matado, deixando a ela com vida. 34 Respondeu Balaão ao anjo do Se­ nhor: Pequei, porque não sabia que estavas parado no caminho para te opores a mim; e agora, se parece mal aos teus olhos, volta­ rei. 35 Tomou o anjo do Senhor a Balaão: Vai com oshomens; mas somente a palavra que eute disser é que falarás. Assim Balaão seguiu com ospríncipes de Balaque. Não são dados os motivos da ira de Deus além da fraseporqueeleia. Têm-se sugerido vários motivos, tais como: (1) Balaão não tinha entendido Deus corretamente. (2) Balaão tinha conven­ cido a si mesmo que Deus tivesse permi­ tido quefosse. Balaão tanto queria ir que confundiu os seus desejos pessoais com a voz de Deus. (3) Balaão sabia que Deus tinhapermitido que fosse, mas que não o deixava amaldiçoar o povo, porém ele não revelou isto aos príncipes. Desta forma, ele era culpado de dar uma im­ pressãototalmente falsa. A ira de Deus demonstra-se no con­ fronto com o anjo do Senhor. Gênesis 16:7-13, Juizes 6:11-24 e Zacarias 3:1-5 sugerem queo anjo do Senhoréopróprio Yahweh. Esta forma de expressão mos­ tra queveiodeuma época em que opovo sentia que não podia olhar para o rosto de Deus e permanecer vivo (cf. Is. 6:5). O anjo do Senhor colocou-se no cami­ nho, para ser um adversário de Balaão. Adversário é a palavra “satanás”. Esta é a função de ser adversário, e não é o nomepróprio. O anjo do Senhor era, geralmente, uma aparição temporária de Yahweh em forma humana. O registro folclórico das conversas entre Balaão e a sua besta de cargaexplica a tentativa de Yahweh de se comunicar com Balaão, apesar de seu erro. O único paralelo, dentro do Antigo Testamento, a este tema do animal fa­ lante é o da “serpente falante”, no Jar­ dim do Éden, em Gênesis 3 (também materialJ). Verdades profundas são expressas pe­ los povos semíticos em narrativas folcló­ ricas. Balaão é o único, no Antigo Tes­ 175
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    tamento, no sentidode ser um não- hebreu sujeito aosmandamentos de Yah- weh e, conforme o contexto, consciente destasinstruções deYahweh. Balaão não estava tão pronto a ver o mensageiro do Senhor ou ouvir a mensa­ gem do Senhor como devia ter estado. Homem inteligente, deviaentender o que se estava passando. Porém a verdade da presença do Senhor não foi reconhecida por Balaão senão depois de uma sucessão de experiências dolorosas. Os homens têm, muitas vezes, de ser confrontados com uma série de eventos, antes de exa­ minarem a sua situação visando os fatos fundamentais. Com demasiada freqüên­ cia temos de nos deparar com eventos inesperados e surpreendentes, antes de avaliarmos os relacionamentos de nossa existência. Ajumenta não é, de maneira alguma, a figura significativa deste registro, mui­ to embora a história apresente seres me­ nos inteligentes que muitas vezes discer­ nem ocorreto antes do ser humano, mais inteligente queeles. Apersonagem significativa é o anjo do Senhor. Quando Balaão percebeu isto, prostrou-se com o rosto em terra. O seu caminho era perverso diante do Senhor. O texto hebraico diz: “O caminho é pre­ cipitado na minha frente”, ou: “Você se precipitou para diante impensadamen­ te.” Balaão ofereceu voltar, se a sua ida parecesse um mal aos olhos do Senhor. Porém o anjo instou-o a que prosse­ guisse. Estes relatos são de fontes diferentes, com interpretações diferentes, como no caso das duas interpretações à maneira como Saul chegou a ser rei. No verso 20, Elohim disse a Balaão que fosse, e, no verso 35, o anjo do Senhor ordenou-lhe que fosse. Nos dois versículos se lhe diz para manter-se dentro dos limites do mandamento. O primeiro relato diz que ele“fizesse” somenteo que lhe foi dito, e no segundo relato é-lhe recomendado que “dissesse” somente o que lhe fosse ordenado. O uso exclusivode Yahwehem 22:22b- 35indicamaterial1. Há um uso constan­ te deElohim nas partes das narrativas de 22:2-22a, que se originam do material E. Nesta seção, é usado Yahweh somente nas citaçõesbabilónicas, nos versos 8,13, 18,19. (5) Balaquee BalaãoEncontram-se (22:36-41) 36 Tendo, pois, Balaque ouvidoque Balaão vinha chegando, saiu-lhe ao encontro até Ir-Moabe, cidade fronteira que está à mar­ gem do Arnom. 37 Perguntou Batoque a Balaão: Porventura não te enviei diligente­ mente mensageiros a chamar-te? por que não vieste a mim? não possoeu, na verdade, honrar-te? 38Respondeu Balaão a Balaque: Eis que sou vindo a ti; porventura poderei eu agora, de mim mesmo, falar alguma coisa? A palavra que Deus puser na minha. boca, essa falarei. 39 E Balaão foi com Balaque, e chegaram a Quiriate-Huzote. 40 Então Balaque ofereceu em sacrifício bois e ovelhas, e deles enviou a Balaão e aos príncipes que estavam com ele. 41 E su­ cedeu que, pela manhã, Balaque tomou a Balaão, e o levou aos altos de'Baal, e viu ele dalia parte extrema dopovo. Balaque foi à cidade de Moabe, que seria Ir-Moabe, que é a pronúncia do texto, e não uma tradução, como se poderia pensar. O diálogo entre Balaque e Balaão revela uma grande diferença entre os dois homens. Balaque destaca o seu poder para honrar Balaão. Posição e possessão configuram sua oferta a Ba­ laão. Mas Balaão adotou uma atitude de humildade, e exaltou a Deus. Balaão lembrou-lhe que não tinha liberdade para fazer o que bem entendesse. Balaão era, assim, o porta-voz de Deus. Esta é a função básica de um profeta. Pode ser que Balaão não tivesse identificado su: ficientemente o Deus que o estava con­ trolando. Se Balaque tinha um conceito inferior desse Deus, pensava, sem dúvi­ da, que podia virar a cabeça de Balaão com ofertas de ganho pessoal. Talvez 176
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    nunca tenha tentadosantificara Deus na presença de Balaque. A frase ofereceu em sacrifício (v. 40) tem o significado básico de abater, em­ bora, na maioria dos casos em que a palavra é usada no Antigo Testamento, ela tenha o sentido de matar para sacri­ fício. Até aqui não existem evidências de queBalaque tenha dado uma configu­ ração religiosa aos seus atos. Balaque (v. 41), de fato, levou Balaão a Bamote- baal (lit., os altos de Baal), uma cidade de Moabe (cf. 21:19, 20; também Jos. 13:17). Em Quiriate-Huzote, Balaque desempenhou o papel de anfitrião e en­ viou alimento a Balaão e aos príncipes. Foi de Bamote-baal que puderam ver o grupomaispróximo dopovode Israel. (6) OPrimeiro Oráculo de Balaão Sobre Israel(23:1-12) 1 Disse Balaão a Balaque: Edifica-me aqui sete altares e prepara-me aqui sete novilhos e sete carneiros. 2 Fez, pois, Bala­ que como Balaão dissera; e Balaque e Ba­ laão ofereceram um novilho e um carneiro sobre cada altar. 3 Então Balaão disse a Balaque: Fica aqui em pé junto ao teu holocausto, e eu irei; porventura o Senhor me sairá ao encontro, e o que ele me mos­ trar, eu to direi. E foi a um lugar alto. 4 E quando Deus se encontrou com Balaão, este lhe disse: Preparei os sete altares e oferecium novilho e um carneiro sobre cada altar. 5 Então o Senhor pôs uma palavra na boca de Balaão, e disse: Volta para Bala­ que, e assim falarás. 6Voltou,pois, para ele, e eis queestava em péjunto ao seu holocaus­ to, ele e todos os príncipes de Moabe. 7 En­ tão proferiu Balaão a sua parábola, dizen­ do: De Arãme mandoutrazer Balaque, o rei de Moabe, desde as montanhas do Oriente, dizendo: Vem, amaldiçoa-me a Jacó; vem, denuncia a Israel. 8 Como amaldiçoarei a quem Deus não amaldiçoou? e como denun­ ciarei a quem o Senhor não denunciou? 9 Pois do cume das penhas o vejo, e dos outeiroso contemplo; eis que é um povo que habita só, e entre as nações não será conta­ do. 10Quem poderá contar o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que eu morra a morte dos justos, e seja o meu fim como o deles. 11 Então disse Balaque a Balaão: Que me fizeste? Chamei-te para amaldiçoares os meus inimigos, e eis que inteiramente os abençoastes. 12 E ele res­ pondeu: Porventura não terei cuidado de falaroque o Senhorme puserna boca? Os adivinhadores babilónicos muitas vezes usavam um ato de sacrifício, na tentativa de induziruma experiência ora­ cular. Balaão orientou Balaque no senti­ do de providenciar sete altares...sete no­ vilhos e sete carneiros. O número sete traz a idéia de inteireza. A cifra sete representa o sole a lua e os cinco plane­ tas que lhes eram conhecidos. Quando Balaãopediu sete, estava usando o modo sacrificial completo para a obtenção de um oráculo, ao menos aos olhos de Ba­ laque. O texto hebraico diz que Balaque e Balaão ofereceram um novilho e um carneiro sobre cada altar. Dois manus­ critos da LXX omitem os nomes nesta frase, de sorte que o texto diz que “Bala­ que ofereceu” sozinho. Isso concordaria com o versículo 3, em que Balaão diz a Balaque: Fica aqui em pé, junto ao teu holocausto, e eu irei. Os adivinhadores operavam em silêncio, de maneira que ele talvez tenha procurado o isolamento. A RSV diz que Balaão dirigiu-se a um alto descampado (v. 3). O Targum enten­ de que a palavra signifique solitário. Um manuscrito grego contém “um lugar aberto”. Outro manuscrito considera as três letras como uma abreviatura de três palavras,significando“parabuscaraface deYahweh”. O versículo 10, como um juramento, é de difícil entendimento. A quarta parte de Israel deverá ser lida: “as nuvens de poeira de Israel”.15 (7) O Segundo Oráculo de Balaão Sobre Israel(23:13-26) 13 Então Balaque lhe disse: Rogo-te que venhas comigo a outro lugar, donde o pode­ rás ver; verás somente a última parte dele, mas a todo ele não verás; e amaldiçoa-mo 15 Conforme rodapé da RSV; cf. W. F. AIBright, "The Oracles of Balaan”, Journal of Bibllcal Ltterature, III, 1944, 213, 223. (Notar o paralelismo com “o pó de lacó” dov. 10a.) 177
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    dali. 14 Assimo levou ao campo de Zofim, ao cume de Pisga; e edificou sete altares, e ofereceu um novilho e um carneiro sobre cada altar. 15Disse Balaão a Balaque: Fica aqui em pé junto ao teu holocausto, enquan­ toeu vouali ao encontro do Senhor. 16E, en­ contrando-se o Senhor com Balaão, pôs-lhe na boca uma palavra, c disse: Volta para Balaque, e assim falarás. 17 Voltou, pois, para ele, e eis que estava em pé junto ao seu holocausto, e ospríncipes de Moabe com ele. Perguntou-lhe, pois, Balaque: Que falou o Senhor? 18 Então proferiu Balaão a sua pa­ rábola, dizendo: Levanta-te, Balaque, e ouve; escuta-me, filho de Zipor; 19Deus não é homem para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa. Porventu­ ra, tendo ele dito, não o fará? ou, havendo falado, não o cumprirá? 20 Eis que recebi mandado de abençoar; pois ele tem aben­ çoado, e eu não posso revogar. 21 Não se observainiqüidade em Jacó, nem se vê mal­ dade em Israel; o Senhor seu Deus é com ele, no meio dele se ouve a aclamação dum rei. 22É Deus que os vem tirando do Egito; as suas forças são como as do boi selvagem. 23 Contra Jacó, pois, não há encantamento, nem adivinhação contra Israel. Agora se dirá de Jacó e de Israel: Que coisas Deus tem feito! 23Eis que o povo se levanta como leoa, e se ergue como leão; não se deitará até que devore a presa, e beba o sangue dos que foram mortos. 25Então Balaque disse a Balaão: Nem o amaldiçoes, nem tampouco o abençoes. 26 Respondeu, porém, Balaão a Balaque: Não te falei eu, dizendo: Tudo o que oSenhor falar, isso tenho de fazer? A mesma fórmula é tentada, mas em outro lugar. Na esperança de que uma vista diferente do povo surtiria um orá­ culo diferente, Balaque leva Balaão ao campo de Zofim(Vigias), perto do cume de Pisga, de onde são visíveis o vale do Jordãoe asplanícies deMoabe. O oráculo (v. 18-24) usa três nomes para Deus: El (v. 19,22,23), Yahweh e Elohim (v. 21). Deus tinha abençoado Israel, e não podia violar sua própria palavra. Ainda, não há encantamento quevenha a terefeito contraIsrael. (8) OTerceiro Oráculo de Balaão Sobre Israel(23:27-24:13) 27 Tomou Balaque a Balaão: Vem agora, e te levarei a outro lugar; porventura pare­ cerá bem aos olhos de Deus que dali mo amaldiçoes. 28Então Balaque levou Balaão ao cume de Peor, que dá para o deserto. 29 E Balaão disse a Balaque: Edifica-me aqui sete altares, e prepara-me aqui sete novilhos e sete carneiros. 30 Balaque, pois, fez como dissera Balaão; e ofereceu um novilho e um carneiro sobre cada altar. 1 VendoBalaão queparecia bem aos olhos do Senhor que abençoasse a Israel, não foi, comoera costume, ao encontro dos encanta­ mentos, mas voltou o rosto para o deserto. 2E, levantando Balaão os olhos, viu a Israel que se achava acampado segundo as suas tribos; e veio sobre ele o Espírito de Deus. 3 Então proferiu Balaão a sua parábola, dizendo: Fala Balaão, filho de Beor; fala o homem que tem os olhos abertos; 4 fala aquele que ouve as palavras de Deus, o que vê a visão do Todo-Poderoso, que cai, e se lhe abrem os olhos: 5 Quão formosas são as tuas tendas, ó Jacó! as tuas moradas, ó Israel! 6 Como vales, elas se estendem; são comojardins à beira dos rios, como árvores de aloés que o Senhor plantou, como cedros junto às águas. 7 De seus baldes manarão águas, e a sua semente estará em muitas águas; o seu rei se exalçará mais do que Agague, e o seu reino será exaltado. 8 É Deus que os vem tirando do Egito; as suas forças são como as do boi selvagem; ele devorará as nações, seus adversários, e lhes quebrará os ossos, e com as suas setas os atravessará. 9 Agachou-se, deitou-se co­ mo leão, e como leoa; quem o despertará? Benditos os que te abençoarem, e malditos osque te amaldiçoarem. 10Pelo que a ira de Balaque se acendeu contra Balaão, e baten­ do ele as palmas, disse a Balaão: Para amaldiçoares os meus inimigos é que te chamei; e eis que já três vezes os abençoas­ te. 11Agora, pois, foge para o teu lugar; eu tinha dito que certamente te honraria, mas eis que o Senhor te privou dessa honra. 12Então respondeu Balaão a Balaque: Não falei eu também aos teus mensageiros, que me enviaste, dizendo: 13Ainda que Balaque me quisesse dar a sua casa cheia de prata e de ouro, eu não poderia ir além da ordem do Senhor, para fazer, de mim mesmo, o bem ou o mal; o que o Senhor falar, isso falarei eu? i Balaque leva Balaão a ainda outro lugar. Esta vez Balaão não procura a solidão. Olha para o deserto, e vê Israel tribo por tribo. O terceiro oráculo é invulgar sob pelo menos dois aspectos. O oráculo é diferente dos outros pela 178
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    presença do Espírito.Os primeiros dois oráculos de Balaãopodem ter vindo atra­ vés de augúrios (24:1), sonhos ou visões danoite, masoterceiro oráculo é elevado comoum oráculoprofético. O terceiro oráculo é diferente também no sentido de omitir referência a Bala- que. Os primeiros dois oráculos come­ çam com referência a Balaque, porém o terceiro e o quarto oráculos começam com ocabeçalho do “profeta”. No tercei­ rooráculo, Balaão, sob oEspírito de Elo- him, exalta a Deus e seu povo. Balaão usa diversos títulos para Deus: Deus (El, v. 4 e 8). Todo-Poderoso (Shaddai, v. 4) eo Senhor(Yahweh, v. 6). A força de Israel é magnificada no segundo e terceiro oráculos. As suas for­ ças (RSV, “os chifres”)...do boi selva­ gem(23:22e24:8) eoleão e a leoa(23:24 e 24:9) são os emblemas de poder e domínio. Os versículos 5 e 6 dão uma descrição entusiástica do caráter extraordinário do povo de Israel. O versículo 7 explica a sua abundância, fertilidade e força. O seu rei se exalçará mais do que Aga- gue. As versões antigas16tinham Gogue, ao invés de Agague. Agague é o nome dinástico dos reis dos amalequitas, de maneira que a leitura correta deve ser Agague. Aira de Balaque chegou a tal ponto de fervura, que elebateu aspalmas. Este foi um gesto de desdém, de desprezo e de desgosto. Depois dos primeiros dois orá­ culos, Balaque pediu encarecidamente a Balaão, elevou-o a um local diferente, na esperança de receber o oráculo. Porém agora bateu as mãos com violência, pois já não havia esperança de receber o orá­ culoquequeria. Fechouasmãospara Ba­ laão, porque, aos olhos de Balaque, Balaão não merecia nem honra nem ri­ quezas. Os oráculos indicam que Balaão permaneceu leal, através da experiência toda, àquilo que Deus lhe tinha dito. 16 LXX, Pentateuco samaritano, Âqüila, Símaeo e Teodó- cio. Comapossívelexceção em Miquéias 6:5, Balaão é tratado desfavoravelmente em todas as outras referências nas Escri­ turas. (9) OsDemaisOráculosdeBalaão (24:14-25) a. OOráculoSobreMoabee Edom (24:14-19) 14 Agora, pois, eis que me vou ao meu povo; vem, avisar-te-ei do que este povo fará ao teu povo nos ídtimos dias. 15 Então proferiu Balaão a sua parábola, dizendo: Fala Balaão, filho de Beor; fala o homem que tem os olhos abertos; 16fala aquele que ouve as palavras de Deus e conhece os de­ sígniosdoAltíssimo, que vê a visão do Todo- Poderoso, que cai e se lhe abrem os olhos: 17 Eu o vejo, mas não no presente; eu o contemplo, mas não de perto; de Jacó pro­ cederá uma estrela, de Israel se levantará um cetro que ferirá os termos de Moabe, e destruirá todos os filhos de orgulho. 18 E Edom lhe será uma possessão, e assim tam­ bém Seir, os quais eram os seus inimigos; pois Israel fará proezas. 19 De Jacó um dominará e destruirá os sobreviventes da cidade. Antes de Balaão voltar para casa, pro­ nunciou um oráculo sobre a relação de Israel com Moabe e Edom. Os versículos 15 e 16 são os mesmos que os versículos 3 e 4, com o acréscimo de e conhece os desígnios do Altíssimo. Os versículos 17-19 dizem respeito ao futuro, quando de lacó procederá uma estrela. Isaías 14:12 é a única outra ocasião no Antigo Testamento quando se usa uma estrela como uma figura de um rei humano. Porém semelhante figura é muitas vezes usada em registros antigos. A figura pa­ ralelaéde um cetro: de Israel se levanta­ rá um cetro. O cetro é o símbolo oficial da posição do rei. Este rei venceria tanto Moabe como Edom (cf. Davi, como visto em II Sam. 8:2,13;14). “Filhos de Sheth” (em português “Sete”) (v. 17) aparece em versões inglesas tal como a palavra épronunciada. Amesma palavra ocorre em Gênesis 4:25, mas no inglês é escrita “Seth”. Alguns escritores tradu- 179
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    zem-na como filhosda batalha e outros sugerem filhos de orgulho (Moabe era famoso pelo seu orgulho). Seir é um sinônimo deEdom. b. OráculoSobreAmaleque(24:20) 20Também viu Balaão a Amaleque e pro­ feriu a sua parábola, dizendo: Amaleque era a primeira das nações, mas o seu fim será a destruição. Ê difícil relacionar os versículos 20-24 com a época de Balaão. Por que havia Balaão de incluirum oráculo sobre Ama­ leque? Amaleque foi um dos primeiros reis a sair para guerrear contra Israel, quando viajavam em direção à Terra Prometida(cf. Êx. 17:8-13,16). Se oorá­ culofoiretido do tempo de Balaão, talvez esteja procurando mostrar uma minu- dência ou abrangência da proteção que Deus dava a Israel, i.e., a partir da pri­ meira guerra, futuro adentro. c. OráculoSobreosQuenitas(24:21,22) 21 E, vendo os quenitas, proferiu a sua parábola, dizendo: Firme está a tua habi­ tação; e posto na penha está o teu ninho; 22 todavia será o quenita assolado, até que Assurte leve porprisioneiro. Os quenitas são registrados como li­ gados a Judá em Juizes 1:16-19 e a Ama­ leque em I Samuel 15:4-9. (Nesta versão portuguesa, a grafia do nome, nestas duas últimas passagens citadas, é que- neu). Posteriormente Assur é conhecido, mas o significado aqui é obscuro, se for uma referência aos assírios. O oráculo parece indicar que os assírios deporta­ riam os quenitas, mas não há nenhum registro de semelhante acontecimento. d. OráculoSobreQuitim(24:23-25) 23 Proferiu ainda a sua parábola, dizendo: Ai, quem viverá, quando Deus fizer isto? 24Naus virão das costas de Quitim, e afligi­ rão a Assur; igualmente afligirão a Eber, quetambém será para destruição. 25Então, tendo-se Balaão levantado, partiu e voltou para o seu lugar; e também Balaque se foi peloseu caminho. O significado dos nomes, nesta seção, é muito obscuro. Quitim será destruída, muito embora suba contra Assur e Eber. Geralmente se entende que os de Quitim viriam de Chipre, que estava sob o governo da Assíria Ho sétimo século. Entende-se que Quitim se refere aos ro­ manos, aos gregos ou aos sírios. Eber é o título ancestral dos progênitos dos he­ breus. Balaão cumpriu a palavra de Deus para ele. O único registro de qualquer pecado vem do incidente da jumenta de Balaão. Registros posteriores indicam que ele tinha aceito o pagamento da iniqüidade.17 Ê difícilcorrelacionartodosos elemen­ tos discordantes no registro. Os oráculos “foram-lhe atribuídos a partir de uma data tão cedo quanto o décimo segundo século, e... não há nenhum motivo para não serem autênticos”.18 O compilador da narrativa permane­ ceu indiferente a qualquer estimativa re­ ferente ao caráter de Balaão. O que era central era apreservação destes oráculos. Neles havia modos diferentes de se obter uma mensagem de Deus. Mas a mensa­ gem era definida. Yahweh dirigia seu povo à Terra Prometida, e nenhum cos­ tume ou poder podia impedir a sua von­ tade. Também é importante notar que esta revelação concernente ao seu propó­ sito para com o seu povo foi feita através de alguém que não era israelita e que se conhecia como adivinho. O poder e a revelação de Yahweh não eram confina­ dos a Israel ou aos conceitos tradicionais desIsrael. 17II Pedro 2:15,16; Judas 11; Filo, em DeVit. Mos. i, 48; Josefo, Antig. IV, 6. 18W. F. Albright, op. cit., p. 233. 180
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    2. OPerigoReligioso deAlianças Pagãs (25:1-18) Básica para este capítulo é uma com­ preensão da relação única existente entre o povo e o seu Deus. Havia uma soli­ dariedade por dentro do parentesco fa­ miliar. Cada pessoa era conforme à ima­ gem de Deus, e era, assim, membro da família de Deus. Mas era também con­ forme à imagem dos pais, e assim era, simultaneamente, membro da família humana. Estes dois aspectos eram inse­ paráveis na consciência hebraica. Há dois exemplos, neste capítulo, que mos­ tram a santidade em que setinha osvotos familiares dentro do contexto espiritual. (1) IsraelitasNão-IdentificadosSeEnvol­ vemcomMulheresMoabitas(25:1-5) 1 Ora, Israel demorava-se em Sitim, e o povo começou a prostituir-se com as filhas de Moabe, 2poiselas convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu, e inclinou-se aos seus deuses. 3 Porquanto Israel sejuntou a Baal-Peor, a ira do Senhor acendeu-se contra ele. 4 Disse, pois, o Se­ nhor a Moisés: Toma todos os cabeças do povo, e enforca-os ao Senhor diante do sol, para que a grande ira do Senhor se retire de Israel. 5 Então Moisés disse aos juizes de Israel: Mate cada um os seus homens que se juntaram a Baal-Peor. Israel demorava-se (ingl., habitava) emSitim, que fica a leste do Rio Jordão e uns 16quilômetros a leste de Jericó. Mu­ lheres moabitas seduziram homens israe­ litas. Os homens envolviam-se não ape­ nas em relações sexuais com as mulhe­ res pagãs, mas também cediam ao con­ vite para participarem do culto a deuses moabitas. Os filhos de Yahweh acompa­ nhavam as filhas dos deuses moabitas nos sacrifícios e nas refeições religiosas. Até se prostravam perante os deuses pa­ gãos. Ba‘al significa mestre, e pode referir- se a marido, proprietário ou deus. O ter­ mo é, muitas vezes, o nome do deus da religião estabelecida de Canaã. Embora algumas práticas fossem semelhantes às dos hebreus, os profetas deixaram claro que o culto a Baal era totalmente incom­ patível com o culto a Yahweh. O culto a Baal (cf. Os. 2:5-13) implicava relações sexuais com as prostitutas sagradas dos templos pagãos e a participação da re­ feiçãoem que se servia a carne que havia sidooferecidaem sacrifício. Baal-Peor era um deus cananeu da fertilidade. O povo sentia-se dependente de um deus, para que a fertilidade das terras fornecesse a produção agrícola pa­ ra a comida, a fertilidade dos animais providenciasse animais para o trabalho, para a comida e para os sacrifícios, e a fertilidade dafamíliahumana produzisse filhos como herança e herdeiros. Os ca- naneusrecorriam a Baal como a fonte de todas essas bênçãos. O castigo era: Toma todos os cabeças do povo, e enforca-os ao Senhor diante do sol. A referência aos cabeças do povo (ingl., “chefes”) surge do conceito de solidariedade familiar no sentido de que os líderes eram evidências do comporta­ mento do povo perante Deus e eram res­ ponsáveis por esse comportamento. O método de punição não está claro. A palavra traduzida enforca é usada ra­ ras vezes no Antigo Testamento. É usa­ da em relação à coxa de Jacó (que foi deslocada —ficando dependurada, Gên. 32:25) ao afastamento de indivíduos (Jer. 6:8; Ez. 23:17). O comentarista judaico Rashi escreveu que o castigo pela idolatria era por apedrejamento. Depois do apedrejamento, os corpos eram dependurados. De II Crôn. 25:12, tomamos conhecimento de um castigo onde ospunidos foram atirados penhasco abaixo. De todas as indicações, a inter­ pretação mais provável é que os líderes foram atirados de cima de um penhasco e deixadosexpostos ao sol. (2) Zinri, o Simeonita, Casa-se com Coz- bi, umaMidianita(25:6-15) 6 E eis que veio um homem dos filhos de Israel, e trouxe a seus irmãos uma midiani- 181
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    ta à vistade Moisés e à vista de toda a congregação dos filhos de Israel, enquanto estavam chorando à porta da tenda da re­ velação. 7Vendoisso, Finéias, filho de Elea- zar, filho do sacerdote Arão, levantou-se do meio da congregação, e tomou na mão uma lãnça; 8 foi após o israelita, e entrando na sua tenda, os atravessou a ambos, ao is­ raelita e à mulher, pelo ventre. Então a praga cessou de sobre os filhos de Israel. 9 Ora, os que morreram daquela praga fo­ ram vinte e quatro mil. 10 Então disse o Senhor a Moisés: 11 Finéias, filho de Elea- zar, filho do sacerdote Arão, desviou a mi­ nha ira de sobre os filhos de Israel, pois foi zeloso com o meu zelo no meio deles, de modo que no meu zelo não consumi os filhos de Israel. 12 Portanto dize: Eis que lhe dou omeu pacto de paz, 13e será para ele e para sua descendência depoisdele, opacto de um sacerdócio perpétuo; porquanto foi zeloso pelo seu Deus, e fez expiação pelos filhos de Israel. 14 O nome do israelita que foi morto com a midianita era Zinri, filho de Saiu, príncipe duma casa paterna entre os simeo- nitas. 15 E o nome da mulher midianita morta era Cozbi, filha de Zur; o qual era cabeça do povo duma casa paterna em Midiã. Noparágrafo anterior, opovo de Israel ia ao culto de um deus pagão. Neste pa­ rágrafo, temos o registro de um israelita que trouxe uma midianita para perto da porta da tenda da revelação. Os dois registros envolviam atividade sexual e o contexto do culto. A referência à tenda darevelação põe a história num contexto religioso. Continua o ensino concernente aoperigo de adulterar a família de Deus. O mal era tamanho que 24 mil morre­ ramdaquelapraga. Finéias achou o casal na sua tenda (ingl., “no quarto interior”, kubbah). O termo não ocorre em qualquer outro lugar no Antigo Testamento. Entre os beduínos, era uma “pequena tenda sa­ grada, de couro vermelho, na qual todos os ídolos de pedra pertencentes à tribo eram carregados” (de Vaux, p. 296,297). Mulheres assistiam ao kubbah (cf. Êx. 38:8). No versículo 8, kubbah pode dizer respeito à tenda da revelação ou a algu­ ma parte interior dela. Finéias puniu o casal, atravessando os corpos de ambos com sua lança. Dá-se a Finéias umpacto de um sacerdócio perpétuo, pela sua ação zelosa em preservar a pureza da relação entre o povo e Deus. A explica­ ção do ato foi que foi zeloso pelo seu Deus, e fez expiação pelos filhos de Is­ rael. Este sacerdócio era constituído da linhagem de Arão como agora sendo tra­ çada através de Finéias. Finéias era o filho de Eleazar, o filho sobrevivente maisvelho de Arão. Era através dele que os zadoquitas reivindicavam seu sacer­ dócio(I Crôn. 24:3). (3) Incitação à Violência Contra Midiã (25:16-18) 16Disse mais o Senhor a Moisés: 17 Afligi vós os midianitas e feri-os; 13 porque eles vosafligiram a vós com as suas ciladas com que vos enganaram no caso de Peor, e no caso de Cozbi, sua irmã, filha do príncipe de Midiã, a qual foi morta no dia da praga no caso de Peor. Yahweh ordenou que Moisés mostras­ se inimizade a Midiã, porque tinha en­ ganado Israel em relação a Peor (o lugar onde Israel pecou contra Deus) e com relação ao assunto de Cozbi (a mulher que foi o instrumento na contaminação da família simeonita). As suas ciladas e vos enganaram são da mesma palavra básica, e indicam uma maquinação as­ tuta ouuma astúcia desleal. 3. Um CensoAdicional(26:1-65) (1) AForçaMilitar(26:1-51) 1 Depois daquela praga disse o Senhor a Moisése a Eleazar, filho do sacerdote Arão: 2 Tomai a soma de toda a congregação dos filhos de Israel, da idade de vinte anos para cima, segundo as casas de seus pais, todos os que em Israel podem sair à guerra. 3 Falaram-lhes, pois, Moisés e Eleazar o sacerdote, nas planícies de Moabe, junto ao Jordão, na altura de Jericó, dizendo: 4 Con­ tai opovoda idade de vinte anos para cima; como o Senhor ordenara a Moisés e aos filhos de Israel que saíram da terra do Egi­ to. 5 Rúben, o primogênito de Israel; os filhos de Rúben: de Hanoque, a família dos hanoquitas; de Palu, a família dos paluítas; 182
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    6 de Hezrom,a família dos hezronitas; de Carmi, a família dos carmitas. 7 Estas são as famílias dos rubenitas; os que foram deles contados eram quarenta e três mil setecentos e trinta. 8 E o filho de Palu: Eliabe. 9 Os filhos de Eliabe: Nemuel, Data e Abirão. Estes são aqueles Datã e Abirão que foram chamados da congregaçaò, os quais contenderam contra Moisés e contra Arão na companhia de Corá, quando con­ tenderam contra oSenhor, 10e a terra abriu a boca, e os tragou juntamente com Corá, quando pereceu aquela companhia; quando o fogo devorou duzentos e cinqüenta ho­ mens, os quais serviram de advertência. 11Todavia os filhos de Corá não morreram. 12 Os filhos de Simeão, segundo as suas famílias: de Nemuel, a família dos nemueli- tas; de Jamim, a família dos jaminitas; de Jaquim, a família dos jaquinitas; 13 de Ze- rá, a família dos zeraítas; de Saul, a família dos saulitas. 14 Estas são as famílias dos simeonitas, vinte e dois mil e duzentos. 15Os filhos de Gade, segundo as suas famí­ lias: de Zefom, a família dos zefonitas; de Hagui, a família dos haguitas; de Suni, a famíliados sunitas; 16deOzni, a família dos oznitas; de Eri, a família dos eritas; 17 de Arode, a família dos aroditas; de Areli, a família dos arelitas. 18Estas são as famílias dos filhos de Gade, segundo os que foram deles contados, quarenta mil e quinhentos. 19 Os filhos de Judá: Er e Onã; mas Er e Onã morreram na terra de Canaã. 20 Assim os filhos de Judá, segundo as suas famílias, eram: de Selá, a família dos selanitas; de Pérez, a família dos perezitas; de Zerá, a família dos zeraítas. 21 E os filhos de Pérez eram: de Hezrom, a família dos hezronitas; de Hamul, a família dos hamulitas. 22Estas são as famílias de Judá, segundo os que foram deles contados, setenta e seis mil e quinhentos. 23Os filhos de Issacar, segundo as suas famílias: de Tola, a família dos tolaítas; de Puva, a família dos puvitas; 24 de Jasube, a família dos jasubitas; de Sinrom, a família dos sinronitas. 25 Estas são as famílias de Issacar, segundo os que foram deles contados, sessenta e quatro mil e trezentos. 26 Os filhos de Zebulom, segun­ doas suas famílias: de Serede, a família dos sereditas; de Elom, a família dos elonitas; de Jaleel, a família dos jaleelitas. 27 Estas são as famílias dos zebulonitas, segundo os que foram deles contados, sessenta mil e quinhentos. 28Os filhos de José, segundo as suas famílias: Manasses e Efraim. 29 Os fi­ lhos de Manassés: de Maquir, a família dos maquiritas; e Maquir gerou a Gileade; de Gileade, a família dos gileaditas. 30 Estes são os filhos de Gileade: de Iezer, a família dos iezritas; de Heleque, a família dos hele- quitas; 31de Asriel, a família dos asrielitas; de Siquém, a família dos siquemitas; 32e de Semida, a família dos semidaitas; e de He- fer, a família dos heferitas. 33 Ora, Zelofea- de, filho de Hèfer, não tinha filhos, senão filhas; e as filhas de Zelofeade chamavam- se Macia, Noa, Hogla, Milca e Tirza. 34 Es­ tas são as famílias de Manassés; os que foram deles contados, eram cinqüenta e dois mil e setecentos. 35 Estes são os filhos de Efraim, segundo as suas famílias: de Su- tela, a família dos sutelaítas; de Bequer, a família dos bequeritas; de Taã, a família dos taanitas. 36 E estes são os filhos de Sutela: de Erã, a família dos eranitas. 37 Estas são as famílias dos filhos de Efra­ im, segundo os que foram deles contados, trinta e dois mil e quinhentos. Estes são os filhos de José, segundo as suas famílias. 38 Os filhos de Benjamim, segundo as suas famílias: de Belá, a família dos belaítas; de Asbel, a família dos asbelitas; de Afrão, a família dos aframitas; 39de Sefufã, a famí­ lia dos sufamitas, de Hufão, a família dos hufamitas. 40 E os filhos de Belá eram Arde e Naamã: de Arde a família dos arditas; de Naamã, a família dos naamitas. 41Estes são os filhos de Benjamim, segundo as suas famílias; os queforam deles contados, eram quarenta e cinco mil e seiscentos. 42 Estes são os filhos de Dã, segundo as suas famí­ lias: de Suão a família dos suamitas. Es­ tas são as famílias de Dã, segundo as suas famílias. 43 Todas as famílias dos suami­ tas, segundo os que foram deles contados, eram sessenta e quatro mil e quatrocentos. 44 Os filhos de Aser, segundo as suas famí­ lias: de Imná, a família dos imnitas; delsvi, a família dos isvitas; de Berias, a família dos beritas. 45 Dos filhos de Berias: de Heber, a família dosheberitas; de Malquiel, a família dos malquielitas. 46 E a filha de Aser chamava-se Sera. 47 Estas são as fa­ mílias dos filhos de Aser, segundo os que foram deles contados, cinqüenta e três mil e quatrocentos. 48 Os filhos de Naftali, segun­ doas suas famílias: de Jazeel, a família dos jazeelitas; de Guni, a família dos gunitas; 49 de Jezer, a família dos jezeritas; de Si- lém, a família dos silemitas. 50Estas são as famílias de Naftali, segundo as suas famí­ lias; os que foram deles contados, eram quarenta e cinco mil e quatrocentos. 51 Es­ tes são os que foram contados dos filhos de Israel, seiscentos e um mil setecentos e trinta. O primeiro censo foi realizado no co- 183
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    meçodasperegrinações no deserto,sob a direção de Moisés e Arão. Este censo adicional foi feito no fim das peregrina­ ções, porMoisés e Eleazar. A finalidade, para determinar quantos podem sair à guerra, é a mesma que em 1:3. Além do motivomilitar, para quefosserealizadoo censo, ele também serviu para a divisão da terra possuída. Sua comparação com o censo do capí­ tulo 1mostra que algumas tribos haviam diminuído e outras aumentado. O censo mostra diminuições nas seguintes tribos: de Rúben, 2.770; de Simeão, 37.100; de Gade, 5.150; de Efraim, 8.000; de Nafta- li, 8.000. Nestas cinco tribos houve um declínio de 61.020. Simeão, a terceira em ordem de tamanho no primeiro censo, perdeu 37.000 e tomou-se a menor das doze. O censo mostra um aumento nas se­ guintes tribos: de Judá, 1.900; de Issa- car, 9.900; de Zebulom, 3.100; de Ma- nassés, 20.500; de Benjamim, 10.200; de Dã, 1.700; e de Aser, 11.900. Estas sete tribos aumentaram um montante de 59.200. Os aumentos mais surpreenden­ tes foram os de Manassés, Aser e Ben­ jamim. Não se oferece nenhuma expli­ cação quanto ao motivo por que algumas tribos aumentaram tanto ou por que outras declinaram tão rapidamente. Houve uma perda global, no censo entre o começo das peregrinações e o fim de­ las, de 1.820. Nos dois censos, há seis tribos de mais de 50.000 e seis de menos de50.000. Porém aidentidade delashavia mudado. Atribo deJudá manteve superioridade numérica(de 11.900) sobre Dã, em com­ paração com o primeiro censo (12.100). No panorama global da história bíblica, é a tribo de Judá que alcança a maior importância. O número total de homens da idade de serviço militar mostra um declínio de apenas 1.820, com o cômputo final de 601.730. (2) OPrincípio das Heranças (26:52-56) 52Disse mais o Senhor a Moisés: 53 A es­ tes se repartirá a terra em herança segundo o número dos nomes. 54 À tribo de muitos darás herança maior, e à de poucos darás herança menor; a cada qual se dará a sua herança segundo os que foram deles conta­ dos. 55 Todavia a terra se repartirá por sortes; segundo os nomes das tribos de seus pais a herdarão. 56 Segundo sair a sorte, se repartirá a herança deles entre as tribos de muitos e as de poucos. Aqui há uma das vantagens do censo. Depois da conquista da terra, o proble­ ma quanto ao território atribuído a cada tribo surgiria. De maneira que, com base nas cifras do censo, as tribos maiores receberiam a herança maior, e cada tribo receberia terras segundo os que foram deles contados. O tamanho da herança seria conforme aos números tribais. A posiçãogeográfica seriaporsortes. (3) OsLevitas(26:57-62) 57 Também estes são os que foram conta­ dos dos levitas, segundo as suas famílias: de Gérson, a família dos gersonitas; de Coa- te, a família dos coatitas; de Merári, a família dos meraritas. 58Estas são as famí­ lias deLevi: a família dos libnitas, a família dos hebronitas, a família dos malitas, a família dos musitas, a família dos coraítas. Ora, Coate, geroua Anrão. 59E a mulher de Anrão chamava-se Joquebede, filha,de Levi, a qual nasceu a Levi no Egito; e de An­ rão ela teve Arão e Moisés, e Miriã, ir­ mã deles. 60 E a Arão nasceram Nada- be e Abiú, Eleazar« Itamar. 61 Mas Na- dabe e Abiú morreram quando oferece­ ram fogo estranho perante o Senhor. 62E os que foram deles contados eram vinte e três mil, todos os homens da idade de um mês para cima; porque não foram contados en­ tre osfilhosde Israel, porquanto não lhes foi dada herança entre osfilhos de Israel. A linhagem levítica é a base dos três filhos de Levi (Gérson, Coate e Merári). Destes três filhos existem seis linhas fa­ miliares, que evoluem. Os libnitas, de Iibni, filho de Gérson(não há menção de Simei, também um filho de Gérson). Os hebronitas, de Hebrom, filho de Coa- 184
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    te (não hámenção de Uziel, também filho de Coate). Mali e Musi, filhos de Merári. A família dos coraítas integra o outro filho de Coate. Coate teve quatro filhos: Anrão, Izar, Hebrom e Uziel (cf. 3:19,27). Por algum motivo, a linha é chamada pelo nome de Corá, que foi filho de Izar (nenhuma menção se faz, nesta ocasião, dos irmãos de Corá, Nefe- gue e Zicri). A sexta família é a de Anrão. A finalidade principal desta seção é explicar a linhagem levítica dos dois fi­ lhos maisjovens de Anrão, com uma re­ cordação da morte dos dois filhos mais velhos dele. O número total de levitas acima da idade de um mês era de 23.000, que constituíaum aumento de 1.000. Um as­ pecto da estrutura mental das línguas semíticas pode ser discernido de suas lis­ tas de números. Estas cifras se dão em números redondos. As cifras dos censos de famílias ou de cidades raras vezes chegam a montantes exatosem dezenas e centenas, e muito menos em milhares, em qualquer ocasião determinada ou quando comparadas às cifras abrangidas por um período de 40 anos. Alguém que interprete opensamento e a expressão do hebraico há de reconhecer que o uso semítico-hebraico dos números pode ser geral, enão específico. Estes dois censos são postos no contex­ to da preservação do culto a Yahweh da forma mais pura possível. Registrou-se menção daqueles que pecaram e cuja entrada naTerra Prometidanão foi, por­ tanto, permitida (Datã e Abirão, 26:9, 10; NadabeeAbiú, 26:61). (4) CalebeeJosuéSão os Ünicos a Cons­ taremAmbososCensos(26:63-65) 63 Esses são os que foram contados por Moisés e Eleazar, o sacerdote, que conta­ ram os filhos de Israel nas planícies de Moabe,junto ao Jordão, na altura de Jericó. 64 Entre esses, porém, não se achava ne­ nhum daqueles que tinham sido contados por Moisés e Arão, o sacerdote, quando con­ taram osfilhosde Israelno deserto de Sinai. 65 Porque o Senhor dissera deles: Certa­ mente morrerão no deserto; pelo que ne­ nhum deles ficou, senão Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filhode Num. 0 censo realizado no fim das peregri­ nações no deserto havia terminado, e so­ mente os nomes de Calebe e Josué cons­ tavam nos dois censos. A sentença de Deus tinha sido efetivada. Os murmura- dores que não queriam levantar-se e to­ mar a terra em seguida à viagem de investigaçãojá haviam morrido. A morte foia conseqüência da infidelidade. 4. NovasLeisdeHeranças(27:1-11) 1 Então vieram as filhas de Zelofeade, filho de Hefer, filho de Gileade, filho de Ma- quir, filho de Manassés, das famílias de Manassés, filho de José; e os nomes delas são estes: Macia, Noa, Hogla, Milca e Tir- za; 2 apresentaram-se diante de Moisés, e de Eleazar, o sacerdote, e diante dos prín­ cipes e de toda a congregação à porta da tenda da revelação, dizendo: 3 Nosso pai morreu no deserto, e não se achou na com­ panhia daqueles que se ajuntaram contra o Senhor, isto é, na companhia de Corá; po­ rém morreu no seu próprio pecado, e não teve filhos. 4 Por que se tiraria o nome de nosso pai dentre a sua família, por não ter tido um filho? Dai-nos possessão entre os irmãos de nosso pai. 5 Moisés, pois, levou a causa delas perante o Senhor. 6 Então disse o Senhor a Moisés; 7 O que as filhas de Zelofeade falam é justo; certamente lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai; a herança de seu pai farás passar a elas. 8E dirás aos filhos de Israel: Se morrer um homem, e não tiver filho, fareis passar a sua herança à sua filha. 9 E, se não tiver filha, dareis a sua herança a seus irmãos. 10 Mas, se não tiver irmãos, dareis a sua herança aos irmãos de seu pai. 11 Se também seu pai não tiver irmãos, então dareis a sua herança a seu parente mais chegado dentre a sua família, para que a possua; isto será pafa os filhos de Israel estatuto de direito, comoo Senhor ordenou a Moisés. A aplicação dos princípios do culto a Yahweh determinariam que ninguém fosse excluído do direito da participação na vida da nação e em sua herança. Po­ 185
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    rém, uma dasfamílias da tribo de Ma­ nassestemia que seria impedida de qual­ querherança. Zelofeade não tinha come­ tido nenhum pecado maior que os ante­ passados dos outros, como indicado pelo versículo3. Noentanto, morrera sem dei­ xar filhos para perpetuar o seu nome. Teve cinco filhas. Essas cinco filhas da tribo de Manassés vieram a Moisés e Eleazar, para perguntar-lhes por que seu pai não fazia jus a qualquer herança so­ mente pelo motivo de não terem nascido filhoshomens na família. A lei de Israel era um código de prin­ cípios em crescimento, que se desenvol­ via dentro do contexto da situação mu­ tável da comunidade. A lei antiga consi­ derava que imóveis podiam ser possuí­ dos somente por homens. Contudo, o pertencer-se à comunidade de Israel sig­ nificava que a herança de uma família não podia escapar da possessão dessa família. Assim, nos versos 8-11, a lei é explicada em relação a diversas circuns­ tâncias, até quanto a outras que não a que diziarespeito às cinco filhas de Zelo­ feade. Estes princípios assegurariam uma continuação da possessão de terras dentro deuma família específica (cf. Jos. 17:1-6). 5. Um Novo Líder, Josué, Ê Designado (27:12-23) 12 Depois disse o Senhor a Moisés: Sobe a este monte de Abarim, e vê a terra que tenho dado aos filhosde Israel. 13E, tendo-a visto, serás tu também recolhido ao teu povo, assim como o foi teu irmão Arão. 14 Porquanto no deserto de Zim, na conten­ da da congregação, fostes rebeldes à minha palavra, não me santificando diante dos seusolhos, no tocante às águas (estas são as águas de Meribá de Cades, no deserto de Zim). 15 Respondeu Moisés ao Senhor: 16QueoSenhor, Deusdos espíritos de toda a carne, ponha um homem sobre a congrega­ ção, 17oqual saia diante deles e entre diante deles, e os faça sair e os fáça entrar; para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor. 18Então disse o Senhor a Moisés: Toma a Josué, filho de Num, homem em quem há o Espírito, e impõe-lhe a mão; 19 e apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a con­ gregação, e dá-lhe a comissão à vista deles; 20 e sobre ele porás da tua glória, para que lhe obedeça toda a congregação dos filhos de Israel. 21 Ele, pois, se apresentará perante Eleazar, o sacerdote, o qual por ele inquiri­ rá segundo o juízo do Urim, perante o Se­ nhor; segundo a ordem de Eleazar sairão, e segundo a ordem de Eleazar entrarão, ele e todos os filhos de Israel, isto é, toda a con­ gregação. 22 Então Moisés fez como o Se­ nhor lhe ordenara: tomou a Josué, apre­ sentou-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação, 23impôs-lhe as mãos, e lhe deu a comissão; como o Senhor falara por intermédio de Moisés. Foipermitido a Moisés que visse ater­ ra que tenho dado aos filhos de Israel. Ele foienviado ao Montede Abarim, que échamado de Monte Nebo(Deut. 32:49), localizado a leste do Rio Jordão. Abarim é um nome dado ao território como visto da Palestina para o oeste do Jordão (sig­ nificando “as regiões além” do rio). Por ver a terra que seu povo possuiria, Moi­ sés saberia que o tinha trazido ao fim de sua viagem. Ele havia de morrer como tinha morrido Arão (recolhido ao teu povo), porque também tinha pecado. A relação correta com o Senhor requeria que o Senhor fosse santificado aos olhos da congregação. A história de Balaão e Balaque ensina que o Senhor deve ser santificado aosolhos de todos oshomens. Este mesmo registro reiterou a importân­ cia da exclusiva exaltação do Senhor. Os eventos são narrados em 20:1-13 (cf. Êx. 17:5-7). Ao enfrentar a morte, Moisés orou a Deus que designasse um novo líder, di­ zendo que saia diante de seu povo e o façaentrarna suapossessão. Josué, filho de Num, fora um dos 12 espias e tinha feito a recomendação que opovosubisse imediatamente e possuísse a tèrra. Agora, depois dos anos interve­ nientes deperegrinações, édescrito como homem em quem há o Espírito (ingl., espírito). Josué tinha o Espírito antes da imposição de mãos. Deus ordenou a Moi­ sés que lhe impusesse as mãos. Não era 186
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    esta uma congregaçãoou investidura, mas um ato solene, pelo qual Moisés nomeou Josué. Fazia parte da designa­ ção, precisamente como os levitas impu­ nham as suas mãos sobre os animais e assim se identificavam com o seu sacrifí­ cio (8:12). Moisés impôs as suas mãos sobre Josué aos olhos de Eleazar e do povo e mostrou-lhes que se identificava com ohomem ecom a sua tarefa. O povo agora havia de aceitar Josué como seu novolíder, porque Moisés tinha-lhe dado da sua glória (ingl., uma porção de sua autoridade). Josué não sucedeu a Moisés com a mesma autoridade absoluta. Havia uma ligeira diferençaentre a atuação de Josué e a de Moisés. Aos olhos dos hebreus, Moisés era um legislador e líder único. Nenhum líderfuturo teria a mesma auto­ ridade. Ordenou-se ao sacerdote Eleazar que inquirisse segundo ojuízo de Urim. Esta sorte sagrada era um dos métodos sacerdotais de obter uma resposta de Deus. Para obter uma decisão divina, uma pergunta seria formulada, de uma maneira muito exata, de modo que a reação podia ser avaliada positiva ou negativamente. O Urim ocorre sozinho apenas duas vezes (27:21 e I Sam. 28:6). É usado com Tumim cinco vezes (Êx. 28:30, Lev. 8:8, Deut. 33:8, Esdras 2:63 e Neem. 7:65). O Urim eTumim eram guardados numa pequena bolsa sagrada, “carrega­ da no peito do sumo sacerdote”.19 Esta bolsa (peitilho) sagrada era um bolso quadrado delinho, e era ligada ao éfode. Em alguns textos, é possível que o termo éfodesejausado como sinônimo de Urim e Tumim. Não se pode achar uma des­ crição específica do Urim e Tumim. A julgar pelo seuuso, eram pequenas peças metálicas e/ou pedras preciosas. Tal­ vez tenham sido objetos metálicos ou gemas detamanho e feitio idênticos, mas 19 Francis Brown, S. R. Drivere C. A. Briggs, Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (Oxford: Claren­ don, 1952), p. 365. de cores diferentes ou com algum sinal gravado, queos diferenciava. Eram colo­ cados no bolso. Ou se tirava o Urim e Tumim do peitilho pela mão do sacer­ dote, ou por ele lançar sortes. Um desses objetos representava a resposta positiva e o outro a negativa, e seriam assim in­ terpretados pelosacerdote. Moisés tomou a precaução de dar a comissão a Josué diante de Eleazar e da congregação. Elaera um pacto etambém uma comissão. As ordens ou a vontade de Yahweh têm de ser mantidas e exe­ cutadas de maneira apropriada. Era im­ portante que o povo estivesse envolvido na liderança de Josué. A obra de Deus que tinha sido empreendida por Moisés não seria terminada por Moisés. Josué havia de levar opovo à Terra da Promis­ são. A Terra da Promissão implicava muito mais do que a mera ocupação de território. A terra era apenas uma parte da complexidade da promessa. Moisés deu ao povo as diretrizes concernentes às ofertas sob situações diversas, ou seja, relacionadas com a observância do culto aoDeus da promessa. 6. AsInstruções Concernentes ao Calen­ dárioCultual(28:1-29:39) (1) Introdução(28:1,2) 1 Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Ordena aos filhos de Israel, e dize-lhes: A minha oferta, o alimento para as minhas ofertas queimadas de cheiro suave para mim, tereis cuidado para ma oferecer aos seus tempos determinados. Os dois capítulos seguintes revestem- se da natureza de uma explicação de um “calendário eclesiástico”. Deram-se es­ tas instruções para assegurar que as reu­ niões públicas não se degenerassem em rituais rotineiros nem em ocasiões de festança pública. Quando Josué trouxe o povopara gozar de sua herança, o enlevo e a alegria de possuir uma pátria podia levá-los a um sentimento de terem alcan­ çado ou de terem concluído os seus pro- 187
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    pôsitos. Estas diretrizesconcernentes ao culto e aos votos visaram manter sempre diante do povo o senhorio do Deus que o trouxe da escravidão à liberdade e da pobreza à possessão. Um estudoem profundidade da língua hebraica revela uma estrutura mental de dimensões concretas. O povo semítico não usava expressões filosóficas. Suas comunicações não eram um exercício da luta com as idéias. Limitavam-se os he­ breus principalmente a termos antropo­ mórficos e antropopáticos. As verdades mentais e espirituais eram apresentadas na roupagem de assuntos explicativos. Portanto, é difícil descobrir quantas des­ tas expressões hão de ser tomadas como puramente literais e quantas são pura­ mente figuradas. Temos sempre de pro­ curar entender a verdade contida em cada narração física ou natural. Estes sacrifícios em si não são o fim ou alvo, mas, sim, averdade na prática. Moisés ordena aos filhos de Israel... tereis cuidado. Notar o realce produzido pelas repetições do pronome pessoal em a minhaoferta, as minhas ofertas e chei­ ro suave para mim. Todas estas expres­ sões remontam a uma época quando se pensava que Deus comesse ebebesse com o seu povo durante as refeições sacrifi­ cais. Nestes atos havia uma comunhão pactuai com Deus. Deus era honrado, respeitado eobedecido. Foi este o motivo por que Moisés relembrou o povo destas ofertas. O povo deveria manter o culto a Deus contínua eapropriadamente. (2) AOfertaDiária(28:3-8) 3 Também lhes dirás: Esta é a oferta queimada que oferecereis ao Senhor; dois cordeiros de um ano, sem defeito, cada dia, em contínuo holocausto. 4 Um cordeiro ofe­ recerás pela manhã, e o outro à tardinha, 5 juntamente com a décima parte de uma efa de flor de farinha em oferta de cereais, misturada com a quarta parte de um him de azeite batido. 6Este é o holocausto contínuo, instituído no monte Sinai.em cheiro suave, oferta queimada ao Senhor. 7 A oferta de libação domesmo será a quarta parte de um him para um cordeiro; no lugar santo ofere­ cerás a libação de bebida forte ao Senhor. 8 E o outro cordeiro, oferecê-lo-ás â tardi­ nha; com as ofertas de cereais e de libação, como o da manhã, o oferecerás, oferta quei­ mada de cheiro suave ao Senhor. A oferta queimada é uma só palavra no hebraico e sabe-se que é um meio de dar continuidade à relação correta com Deus. O sacrifício tinha que ser sem defeito, assegurando que somente o me­ lhor seria aceitávelpara se colocar diante de semelhante Deus. Esta apresentação domelhor, nesta relaçãocom Deus, tam­ bém deviaser contínua, pois era para ser feita cada dia, em contínuo holocausto. Esta oportunidade de comunicação devia ser contínua, diariamente. O versículo 4 mostra que duas vezes ao dia, ou seja, uma vezpela manhã e a outra vez à tar­ dinha, o povo devia se lembrar da im­ portância de um relacionamento com Deus que o tinha mantido para que viessea serum povo. O sacrifício animal, assim como a oferta de cereais (v. 5), tinha que ser totalmente consumidos, a fim de se tornarem aceitáveis a Deus. Também, a oferta de libação (cf. Êx. 29:38-46) devia ser derramada no lugar santo — no pátio interior. Tudo quanto fosse levado para dentro do lugar santo devia ser queimado ou comido lá. Talvez tenhahavido alguma confusão quanto ao lugar santoou o lugar santíssimo, devido à variação da planta do templo de Salo­ mãopara a dotemploposterior. Todos os aspectos do culto diário en­ fatizavam a dignidade e a grandeza de Deus como constituindo o conceito ade­ quado para oseu povo. Uma total ausên­ cia de pensamento egocêntrico devia prevalecer nessas cerimônias. A ênfase absoluta se colocava no se fazer a vonta­ de deDeus. (3) AOfertado Sábado(28:9,10) 9 No dia de sábado oferecerás dois cordei­ ros de um ano, sem defeito, e dois décimos de efa de flor de farinha, misturada com azeite, em oferta de cereais, com a sua 188
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    oferta de libação;10é oholocausto de todos os sábados, além do holocausto contínuo e a sua oferta de libação. Na oferta diária regular, o povo se lembrava duas vezes ao dia da glória da presença de Deus. Na oferta regulai-do sábado, a ofertaera duas vezeso tanto da oferta diária regular. Devia-se dedicar ao dia do sábado uma importância dobra­ da. Nos tempos hodiernos, há muitíssi­ mas pessoas que acham que o culto do “sábado” seja a única vez durante a semana quando se precisa pensar seria­ mente em Deus. O ensino do Antigo Testamento éque todos os dias têm oseu lugar no serviço de Deus e que no dia do sábado há uma concentração extra e especial na relação comDeus. (4) AOfertada Lua Nova(28:11-15) 11 Nos princípios dos vossos meses ofe­ recereis em holocausto ao Senhor: dois no­ vilhos, um carneiro e sete cordeiros de um ano, sem defeito; 12e três décimos de efa de flor de farinha, misturada com azeite, em oferta de cereais, para cada novilho; e dois décimos de efa de flor de farinha, misturada com azeite, em oferta de cereais, para o carneiro; 13 e um décimo de efa de flor de farinha, misturada com azeite, em oferta de cereais, para cada cordeiro; é holocausto de cheiro suave, oferta queimada ao Senhor. 14 As ofertas de libação do mesmo serão a metade de um him de vinho para um novi­ lho, e a terça parte de um him para um carneiro, e a quarta parte de um him para um cordeiro; este é o holocausto de cada mês por todos os meses do ano. 15 Também oferecerás ao Senhor um bode como oferta pelo pecado; oferecer-se-á esse além do ho­ locausto contínuo, com a sua oferta de li­ bação. Os tempos eram estabelecidos por um calendário lunar. O reaparecimento da lua nova era entendido como um sinal físico da renovada presença de Deus. Portanto, este sinal deveria ser corres­ pondido por ofertas expressivas de ado­ ração. Os escritores sacerdotais (p) men­ cionam a celebração dalua nova somente aqui e em 10:10(Gray, p. 410). J E e D não a mencionam absolutamente. Se lhe faz referência como a um festival impor­ tante em épocas precoces (cf. I Sam. 20:5-34; II Reis 4:23; Is. 1:13; Os. 5:7; Am. 8:5). Ez. 45:17 e 46:1,3,6 não re­ querem tanto para esta oferta quanto exigeesta passagem de Números. A ênfase sobre esta oferta é pós-exí- lica. A celebração da lua nova foi, pro­ vavelmente, um festival popular antigo, com associações depráticas pagãs. Isaías 47:13 talvez reflita ligações entre a lua nova e práticas de adivinhação. Talvez seja que estes reflexos pagãos expliquem a pouca ênfase no material primitivo contido no Pentateuco. A celebração tal­ vez tenha reassumido um lugar de im­ portância nos registros posteriores, em virtude do lugar de destaque da lua nova no estabelecimento de seu calendário e dosritosefestas relacionadoscomela. Eventos oucelebraçõesestrangeiras in­ corporados na experiência de Israel são adotados, mas somente depois de adap­ tações. Existem três níveisnoprocesso de incluir essas práticas. A prática tinha um significado quando usada nas ceri­ mônias pagãs. Mais tarde, essa prática deixou de ter, por mais tempo, significa­ do religioso, mas permanecia como um costume, exercendo forte atração sobre o povo. O terceiro nível desse rito pode ser visto nas adaptações pelas quais o costu­ me, que tinha sidoperpetuado sem signi­ ficado definido, é reinterpretado com valores distintos eúnicos. Números 10:10 faz uma conexão entre a lua nova e a oferta pacífica. A evidên­ cia renovada da presença de Deus no aparecimento da lua nova era acompa­ nhadapela oferta quecelebrava a relação depaz entre ohomem eoseuDeus. (5) AFestadosPães Ázimos(28:16-25) 16 No primeiro mês, aos catorze dias do mês, é a páscoa do Senhor. 17 E aos quinze dias do mesmo mês haverá festa; por sete dias se comerão pães ázimos. 18 No primei­ ro dia haverá santa convocação; nenhum trabalho servil fareis; 19 mas oferecereis 189
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    oferta queimada emholocausto ao Senhor: dois novilhos, um carneiro e sete cordeiros deum ano, todoseles sem defeito; 30e a sua oferta de cereais, de flor de farinha mistu­ rada com azeite; oferecereis três décimos de efa para cada novilho, dois décimos para o carneiro, 21 e um décimo para cada um dossete cordeiros; 22 e em oferta pelo peca­ dooferecereis um bode, para fazer expiação porvós. 23Essas coisas oferecereis, além do holocausto da manhã, o qual é o holocausto contínuo. 24 Assim, cada dia oferecereis, por sete dias, o alimento da oferta queima­ da em cheiro suave ao Senhor; oferecer-se-á além doholocausto contínuo com a sua ofer­ ta de libação; 25e no sétimo dia tereis santa convocação; nenhum trabalho servil fareis. A importância da Páscoa (v. 16) se acha na libertação deles do Egito. Não se faz menção de nenhum sacrifício, uma vez que a Páscoa era uma cerimônia da família ou do lar, e, em si, não tinha relação com o altar do templo. Em épo­ casposteriores, a Páscoa foi integrada na festa dos pães ázimos (Ez. 45:21,22). Portanto, os registros históricos as men­ cionam na mesma parte do calendário cultual. APáscoa é registrada aqui como sendo no décimo quarto dia do primeiro mês. A festa dos pães ázimos começava no dia seguinte. A festa dos pães ázimos é uma festa com duração de sete dias, para alguns, e de oito dias, para outros, nojudaísmo. Nenhum trabalho servil fareis (ingl., trabalho pesado) significa que haveria uma interrupção do trabalho profissio­ nal. A pessoa não empreenderia nenhum negócio público nem em sua área de atividade nem no ganho de seu sustento. (6) AFestadasPrimícias(28:26-31) 26 Semelhantemente tereis santa convo­ cação no dia das primícias, quando ftòerdes ao Senhor oferta nova de cereais na vossa festa de semanas; nenhum trabalho servil fareis. 27 Então oferecereis um holocausto em cheiro suave ao Senhor: dois novilhos, um carneiro e sete cordeiros de um ano; 28 e a sua oferta de cereais, de flor de farinha misturada com azeite, três décimos de efa para cada novilho, dois décimos para o carneiro, 29 e um décimo para cada um dos sete cordeiros; 30 e um bode para fazer expiação por vós. 31 Além do holocausto contínuo e a sua oferta de cereais, os ofere­ cereis, com as suas ofertas de libação; eles serão sem defeito. 0 dia das primícias era o dia em que elas eram trazidas para a oferta. A festa desemanas era uma festa de um só dia, porém, em épocas posteriores, tomou-se numa festa de dois dias. Chama-se a festa da colheita(Êx. 23:16), bem como a de semanas (Êx. 34:22). Ainda mais tar­ de, o Pentecostes relacionou-se com ela, visto que assinalou o fim dos cinqüenta dias de celebração dacolheita. (7) OPrimeiroDiado SétimoMês (29:1-6) 1No sétimo mês, no primeiro dia do mês, tereis uma santa convocação; nenhum tra­ balho servil fareis; será para vós dia de sonido de trombetas. 2Oferecereis um holo­ causto em cheiro suave ao Senhor: um novi­ lho, um carneiro e sete cordeiros de um ano, todos sem defeito; 3 e a sua oferta de cereais, de flor de farinha misturada com azeite, três décimos de efa para o novilho, doisdécimospara ocarneiro, 4e um décimo para cada um dos sete cordeiros; 5 e um bode para oferta pelo pecado, para fazer expiação por vós; 6 além do holocausto do mês e a sua oferta de cereais, e do holocaus­ to contínuo e sua oferta de cereais, com as suas ofertas de libação, segundo a ordenan­ ça, em cheiro suave, oferta queimada ao Senhor. O sétimo mês era omais importante de todos no calendário eclesiástico. Esta santa convocação doprimeiro dia é o que seconhece hoje como o Rosh Hashannah ou Ano-Novo. O nome da festaé “um dia de fazer soar a trombeta” (v. 1). Outros nomes para a convocação são “dia da memória” e “dia dejuízo”. Estas ênfases são os elementos principais observados pelos judeus por ocasião do Ano-Novo. Rosii Hashannah é o primeiro dia de um período de arrependimento, com dura­ ção de dez dias. O soar da trombeta é um dos costumes mais antigos do Rosh Ha­ shannah. O uso do antigo instrumento de 190
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    sopro, com oseu som penetrante, era para despertar os cultuadores para a necessidade de oração e de arrependi­ mento. (8) ODécimoDia doSétimoMês , (29:7-11) 7 Também no dia dez deste sétimo mês tereis santa convocação, e afligireis as vos­ sas almas; nenhum trabalho fareis; 8 mas oferecereis um holocausto, um cheiro suave ao Senhor: um novilho, um carneiro e sete cordeiros de um ano, todos eles sem defeito; 9e a sua oferta de cereais, de flor de farinha misturada com azeite, três décimos de efa para o novilho, dois décimos para o carnei­ ro, 10 e um décimo para cada um dos sete cordeiros; 11 e um bode para oferta pelo pecado, além da oferta pelo pecado, com a qual se faz expiação, e do holocausto conti­ nuo com a sua oferta de cereais e as suas ofertas de libação. O décimo dia do sétimo mês é conhe­ cido como o Dia da Expiação (ou Per­ dão) (Yom Kippur). Ordena-se ao povo: “afligireis as vossas almas” (ingl., afli­ gi-vos), i.e., que jejuassem e se abstives­ sem de qualquer trabalho. Os judeus hojeobservam oDia da Expiação como o dia de culto mais importante. Depois de uma refeição festiva, em plena luz do dia, o cultuador entra na sinagoga. A não ser por motivos de saúde ou velhice, não setocaem comida ou bebida alguma durante as 24 horas do Yom Kippur. Esta convocaçãorealça a relação do indi­ víduo com Deus, pois a expiação é so­ mente pelos pecados contra Deus. A ce­ lebração do Ano-Novo, com sua ênfase na expiação, é uma boa prática, pois assim se começa o ano preocupado com o agrado de Deus, antes do que com a satisfação doeu. (9) ODécimo QuintoDiado SétimoMês (29:12-38) 12 Semelhantemente, aos quinze dias des­ te sétimo mês tereis santa convocação; ne­ nhum trabalho servil fareis; mas por sete dias celebrareis festa ao Senhor. 13Oferece­ reis um holocausto em oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor: treze novilhos, dois carneiros e catorze cordeiros de um ano, todos eles sem defeito; 14e a sua oferta de cereais, de florde farinha misturada com azeite, três décimos de efa para cada um dos treze novilhos, dois décimos para cada um dos dois carneiros, 15e um décimo para cada um dos catorze cordeiros; 16 e um bode para oferta pelo pecado, além do ho­ locausto contínuo com a sua oferta de ce­ reais e a sua oferta de libação. 17 No segun­ do dia, doze novilhos, dois carneiros, cator­ ze cordeiros de um ano, sem defeito; 18e a sua oferta de cereais, e as suas ofertas de libaçãopara osnovilhos, para os carneiros e para os cordeiros, conforme o seu número, segundo a ordenança; 19 e um bode para oferta pelo pecado, além do holocausto con­ tínuo com a sua oferta de cereais e as suas ofertas de libação. 20 No terceiro dia, onze novilhos, dois carneiros, catorze cordeiros de um ano, sem defeito; 21e a sua oferta de cereais, e as suas ofertas de libação para os novilhos, para os carneiros e para os cor­ deiros, conforme o seu número, segundo a ordenança; 22 e um bode para oferta pelo pecado, além do holocausto contínuo com a sua oferta de cereais e a sua oferta de liba­ ção. 23 No quarto dia, dez novilhos, dois carneiros, catorze cordeiros de um ano, sem defeito; 24 e a sua oferta de cereais, e as suas ofertas de libação para os novilhos, para os carneiros e para os cordeiros, con­ forme o seu número, segundo a ordenança; 25e um bode para oferta pelo pecado, além do holocausto contínuo com a sua oferta de cereais e a sua oferta de libação. 26No quin­ to dia, nove novilhos, dois carneiros, catorze cordeirosde um ano, sem defeito; 27 e a sua oferta de cereais, e as suas ofertas de liba­ ção para os novilhos, para os carneiros e para os cordeiros, conforme o seu número, segundo a ordenança; 28 e um bode para oferta pelo pecado, além do holocausto con­ tínuo com a sua oferta de cereais e a sua oferta de libação. 29 No sexto dia, oito novi­ lhos, dois carneiros, catorze cordeiros de um ano, sem defeito; 30 e a sua oferta de cereais, e as suas ofertas de libação para os novilhos, para os carneiros e para os cor­ deiros, conforme o seu número, segundo a ordenança; 31 e um bode para oferta pelo pecado, além do holocausto contínuo com a sua oferta de cereais e a sua oferta de liba­ ção. 32 No sétimo dia, sete novilhos, dois carneiros, catorze cordeiros de um ano, sem defeito; 33 e a sua oferta de cereais, e as suas ofertas de libação para os novilhos, para os carneiros e para os cordeiros, con­ forme o seu número, segundo a ordenança; 191
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    34e um bodepara oferta pelo pecado, além do holocausto continuo com a sua oferta de cereais e a sua oferta de libação. 35 No oi­ tavo dia tereis assembléia solene; nenhum trabalho servil fareis; 36 mas oferecereis um holocausto em oferta queimada de chei­ ro suave ao Senhor; um novilho, um car­ neiro, sete cordeiros de um ano, sem defei­ to; 37 e a sua oferta de cereais, e as suas ofertas de libação para o novilho, para o carneiro e para oscordeiros, conforme o seu número, segundo a ordenança; 38e um bode para oferta pelo pecado, além do holocausto contínuo com a sua oferta de cereais e a sua oferta de libação. Em Levítico 23:33-36, o décimo quin­ to diado sétimo mês é o dia da Festa dos Tabernáculos (ou Barracas). As ofertas do dia deste festival de oito dias eram treze novOhos, dois carneiros, quatorze cordeiros, com as ofertas de cereais e de libação. Em cada dia sucessivo se dimi­ nui o número de novilhos, em um por dia, durante os sete dias. A quantidade das ofertas para a Festa dos Taberná­ culosexcede a para qualquer festa. O uso de barracas, mesmo depois de se terem radicado na Terra Prometida, foi para relembrança de que os seus ante­ passadoshabitavam “em barracas, quan­ do Deus os trouxe para fora da terra do Egito”. A barraca devia constituir-se num símbolo tanto da bondade de Deus, em tempos de pressão, como da fé que sustinha os israelitas piedosos que en­ traram na terra. Esta festa ocorria no tempo da seara e é também conhecida como aFesta da Colheita. (10) Conclusão(29:39) 39 Oferecereis essas coisas ao Senhor nas vossas festas fixas, além dos vossos votos, e das vossas ofertas voluntárias, tanto para os vossos holocaustos, como para as vossas ofertas de cereais, as vossas ofertas de liba­ ções e os vossos sacrifícios de ofertas pací­ ficas. Esteversículo final deste capítulo indi­ ca que as ofertas do seu calendário cul­ tual deviam ser adicionais a quaisquer ofertas de caráter voluntário ou a qual­ quervotoespecífico. 7. AsInstruçõesConcernentes aos Votos (29:40-30:16) Oversículo 40 da tradução portuguesa devia, na verdade, ser o primeiro ver­ sículo do capítulo 30, pois introduz a seção seguinte, que faz lembrar o leitor que a religião de Yahweh, transmitida através de Moisés, deveria ser preserva­ da. Nestaseçãoa questão dosvotos(além das experiências de culto regularmente programadas) recebe atenção séria. (1) ALeidoVoto(29:40-30:2) 40Falou, pois, Moisés aos filhos de Israel, conforme tudo o que o Senhor lhe ordenara. 1 Depois disse Moisés aos cabeças das tri­ bosdosfilhosde Israel: Isto é oque o Senhor ordenou: 2 Quando um homem fizer voto ao Senhor, ou jurar, ligando-se com obrigação, não violará a sua palavra; segundo tudo o que sair da sua boca fará. Esta lei claramente reflete uma época em queo governo dohomem era absoluto dentro de sua família. A mulher estava sujeita à decisão final do cabeça da casa. Um homem não pode voltar atrás na palavra de seu voto. Segundo tudo que sair da sua boca fará. O voto se tomava irrevogavelmente obrigatório à pessoa quando era legalmente defensável. O ho­ mem era legalmente responsável pelos seusvotos. Osvotosnão deviam ser feitos levianamente nem os juramentos presta­ dos sem o devido cuidado. Eram imutá­ veiseobrigatórios, sem qualquer possibi­ lidade de demora ouvariação. (2) OVotodeumaMulher(30:3-16) 3 Também quando uma mulher, na sua mocidade, estando ainda na casa de seu pai, fizer> voto ao Senhor, e com obrigação'se ligar, 4 e seu pai souber do seu voto e da obrigação com que se ligou, e se calar para com ela, então todos os seus votos serão válidos, e toda a obrigação com que se ligou será válida. 5 Mas se seu pai lho vedar no dia em que o souber, todos os seus votos e 192
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    as suas obrigações,com que se tiver ligado, deixarão de ser válidos; e o Senhor lhe per­ doará,porquanto seupailhosvedou. 6Se ela se casar enquanto ainda estiverem sobre ela os seus votos ou o dito irrefletido dos seus lábios, com que se tiver obrigado, 7e seu marido o souber e se calar para com ela no dia em que o souber, os votos dela serão válidos; e as obrigações com que se ligou serão válidas. 8 Mas se seu marido lho vedar no dia em que o souber, anulará o voto que estiver sobre ela, como também o dito irrefletido dos seus lábios, com que se tiver obrigado; e o Senhor lhe perdoará. 9 No tocante ao voto de uma viúva ou de uma repudiada, tudo com que se obrigar ser-lhe-á válido. 10 Se ela, porém, fez voto na casa de seu marido, ou se obrigou com juramento, 11 e seu marido o soube e se calou para com ela, não lho vedando, todos os seus votos serão válidos; e toda a obri­ gação com que se ligou será válida. 12 Se, porém, seu marido de todo lhos anulou no dia em que os soube, deixará de ser válido tudo quanto saiu dos lábios dela, quer no tocante aos seus votos, quer no tocante àqui­ loa que se obrigou; seu marido lhos anulou; e oSenhorlhe perdoará. 13Todo voto, e todo juramento de obrigação, que ela tiver feito para afligir a alma, seu marido pode confir­ má-lo ou pode anulá-lo. 14 Se, porém, seu marido, de dia em dia, se calar inteiramente para com ela, confirma todos os votos e todas as obrigações que estiverem sobre ela; ele lhos confirmou, porquanto se calou para comela no dia em que os soube. 15Mas se de todo lhos anular depois de os ter sabi­ do, ele levará sobre si a iniqüidade dela. 16 Esses são os estatutos que o Senhor or­ denou a Moisés, entre o marido e sua mu­ lher, entre o pai e sua filha, na sua moci­ dade, em casa de seu pai. Estes votos são votos feitos ao Senhor. Não são operações financeiras de negó­ cios. Os votos foram expressões religio­ saspositivas, pelas quais a pessoa se liga­ va ou se obrigava a dar algo. A obriga­ ção (ingl., compromisso) era uma ex­ pressão pela qual a pessoa aceitava uma obrigação solene para se abster de algu­ macoisa. Enquanto a mulher (v. 3-5), provavel­ mente visando-se descrever uma mulher casadoira e ainda solteira, fosse conside­ rada menor ou não responsável pelas suaspróprias obrigações e enquanto con­ tinuasse na casa do pai, ele seria o res­ ponsável por todas as suas obrigações. Se a mulher fizesse um voto ou compro­ misso e o pai o ouvisse, ele era a autori­ dade legal para declará-lo nulo ou para permiti-lo vigorar. Se ele o permitisse, estava colocando-se a si mesmo sob obri­ gação, em última análise. Se ele expres­ sasse desaprovação logo que o ouvisse, esse voto não seria obrigatório. Quando uma mulher se casava, ela se tomava legalmente ligada ao seu marido (v. 6-8, 10-15), e assim já não era a propriedade ou responsabilidade deseu pai. A mesma restrição concernente ao voto, ou obri­ gação, ou ponderado ou falado impensa­ damente, aplicava-se ao marido, como era aplicável ao pai quando a mulher era solteira e morava na casa dele. Ê aqui indicado que o marido podia estabelecer ou anular o voto no primeiro dia em que tomasse conhecimento dele. Os versí­ culos 14e 15 mostram que o marido não podia mudar de idéia em relação ao voto em data posterior. Podia anularovotono mesmo dia em que tomasse conhecimen­ to dele, porém, se permitisse que o voto permanecesse inquestionado no primeiro dia em que tomasse conhecimento dele, essevotoseria inviolável. O versículo 9 parece infringir a conti­ nuidade do estatuto concernente a uma mulher casada, no lar do marido. O ver­ sículo esclarece que uma mulher que tinha sido casada ou que não estava convivendo com o seu marido, ou como viúva ou divorciada, ficava comprome­ tida por seu próprio voto ou compromis­ so. Ela era a cabeça de sua própria uni­ dade social, uma vez que já não estava sob o govemo de seu pai ou de seu marido. Neste caso, não havia ninguém que pudesse anular seu voto por autori­ dade superior. 8. VingançaContraosMidianitas (31:1-54) Este capítulo é considerado uma con­ tinuação de Números 25. As mulheres 193
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    midianitas tinham violadoa solidarieda­ de da comunidade israelita e causado uma praga. Esta praga trouxe a morte a 24 mil (25:9). A comunidade, especifica­ mente o líder da comunidade, que era encarregado de seu bem-estar, não podia permitir que uma tal subversão passasse impune. Deus ordenou a Moisés: Vinga osfilhosde Israel, como conseqüência da subversãopagã. A vingança tem de ser vista à luz da saúde, integridade e sanidade da comu­ nidade. Não está em pauta o aspecto da ira pessoal. Define-se a vingança, na área do castigo retributivo, como a apli­ cação de danos físicos ou sofrimento, em paga pelo mal causado ou por causa outra de mágoa amarga. A vingança é um ato de restauração da sanidade da comunidade. Foi um ato necessário para curar uma quebra da solidariedade da família como um resultado da morte humana. Os vingadores não estavam agindoem seupróprio benefício, mas em prol da famíliaou comunidade, como um instrumento deDeus(cf. Gên. 9:5,6). (1) A Seleção do Exército da Vingança (31:1-6) 1 Disse mais oSenhora Moisés: 2Vinga os filhos de Israel dos midianitas; depois serás recolhido ao teu povo. 3 Falou, pois, Moisés ao povo, dizendo: Armai homens dentre vós para a guerra, a fim de que saiam contra Midiã, para executarem a vingança do Se­ nhor sobre Midiã. 4 Enviareis à guerra mil de cada tribo entre todas as tribos de Israel. 5 Assim foram entregues dos milhares de Israel, mil de cada tribo, doze mil armados para a peleja. 6 E Moisés mandou à guerra esses mil de cada tribo, e com eles Finéias, filho de Eleazar, o sacerdote, o qual levava na mão os vasos do santuário e as trombetas para tocarem oalarme. O grupo de parentesco era uma força tanto ofensiva como defensiva. Se uma morte tivesse ocorrido às mãos ou a pedido de uma força estrangeira, o pa­ rente tinha a responsabilidade de redimi- la ou vingá-la, como representante da unidade comunitária. Moisés ordenou ao povo: Armaihomens...paraaguerra. Comoum instrumento da comunidade toda, era necessário que houvesse mil de cada tribo. Estas doze companhias de­ viam ser o instrumento da vingança de Deus. O líder em impedir o castigo ante­ rior (25:11) fora Finéias, filho de Elea­ zar, e assim foi ele novamente escolhido para um propósito especial. Se acompa­ nhou o exército como comandante ou capelão, não está claro. Tinha os vasos do santuário e as trombetas para toca­ rem o alarme. Finéias foi enviado, ao invés de Eleazar, pois o sumo sacerdote havia de ser protegido de contato com os mortos. Estes vasos do santuário não são identificados. A arca não é mencionada neste contexto. Os vasos talvez tinham sido as vestimentas sagradas ou até ar­ mas. Ou os vasos, talvez, também in­ cluam as trombetas. Estas trombetas eram usadas pelos sacerdotes (cf. 10:8; IICrôn. 13:12). (2) ABatalha(GuerraSanta)(31:7-12) 7 E pelejaram contra Midiã, como o Se­ nhor ordenara a Moisés; e mataram a todos oshomens. 8Com eles mataram também os reis de Midiã, a saber, Evi, Requem, Zur, Hure Reba, cinco reis de Midiã; igualmente mataram a espada a Balaão, filho de Beor. 9 Também os filhos de Israel levaram pre­ sas as mulheres dos midianitas e os seus pequeninos; e despojaram-nos de todo o seu gado, e de todos os seus rebanhos, enfim, de todos os seus bens; 10 queimaram a fogo todas as cidades em que eles habitavam e todos os seus acampamentos; 11 tomaram todo o despojo e toda a presa, tanto de homenscomo de animais; 12e trouxeram os cativos e a presa e o despojo a Moisés, a Eleazar, o sacerdote, e à congregação dos filhos de Israel, ao arraial, nas planícies de Moabe, que estão junto do Jordão, na altura de Jericó. ' As forças das tribos israelitas foram bem-sucedidas. Todos os homens dos midianitas foram mortos, e, segundo o versículo49, nenhum israelita se perdeu. Seis dentre asforças midianitas são iden­ 194
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    tificados. Os cincoreis de Midiã são nomeados juntos com Balaão, filho de Beor. Nos capítulos 22-24, Balaão está ligadoprincipalmente a Balaque, o rei de Moabe. Mas 22:1-7 sugere uma aliança entre MoabeeMidiã. Nesses capítulos se registraotrabalho de Balaãocomo sendo em favor de Israel, sem nenhuma ajuda de Moabe ou Midiã. Porém o registro sacerdotal que estamos considerando o inclui como responsável pelo conselho que teve como conseqüência a praga que matou 24mil dos israelitas(31:16). Asmulherese crianças foram tomadas como cativas. Também os israelitas des­ pojaram-nos de todo 6 seu gado e de todos os seus rebanhos, enfim, de todos os seus bens. Todas as suas provações permanentes (cidades), bem como as suas pousadas ocasionais (acampamen­ tos) foram destruídas pelo fogo. Apesar de o povo identificar-se, em termos absolutos, comoseu Deus, não se pode dizer que Israel lutou pela sua fé. Aoinvés disso, lutou pela suaexistênciae continuidade. O culto de Yahweh era, em certa medida, único. O “yahwismo” incluía o conceito de uma possessão pe­ culiar de Israel como o povo escolhido. Este conceito do “tesouro especial” sig­ nificava que “todas as instituições de Israel eram revestidas de um caráter sagrado, tanto a guerra quanto a monar­ quia ou a legislação” (de Vaux, p. 258). Para eles, num sentido real, a guerra tinha uma conotação sagrada. Vê-se este fato pela maneira como algumas das guerras de Israel foram chamadas de “Guerras do Senhor” (Êx. 17:16; I Sam. 14:47; 25:28), eexiste, mesmo, o registro de um livro chamado de “Livro das Guerras do Senhor” (Núm. 21:14). Os inimigos de Israel eram inimigos do Se­ nhor (I Sam. 30:26). Consultava-se a Yahweh sobre se Israel devia ir à guerra (Juí. 20:23,27; I Sam. 23:2,4); ele estava na vanguarda das batalhas (Jos. 10:14; Juí. 20:35; II Sam. 5:24); a arca era uma evidênciafísica da presença de Yahweh e a sua possessão equivalia à vitória. “Gerhard von Rad enquadrou a guerra santa israelita no contexto da teologia e estrutura organizacional da velha anfic- tioniadasdozetribos” (Gottwald, p. 296, 297).20 Oclímaxdeumaguerrasantanão era a vitóriaouasuacelebração. O devotamen- toouseparaçâo(cherem) dopovoconquis­ tado e de suas propriedades era a culmi­ nância do conflito. Significava, em pri­ meiro lugar, a separação, para Deus, dos frutos doconflitovitorioso. Essas pessoas eram retiradas, como também seus bens, do uso profano e dedicadas a um pro­ pósito sagrado. Geralmente, não se per­ mitia que se poupasse qualquer coisa para ouso individual doguerreiro. Todos os viventes, fossem homens, fossem ani­ mais, deviam ser mortos. Tudo que se podia queimar tinha que ser destruído. Metais e pedras preciosas eram dedica­ dos a Yahweh. Houve exceções, em épo­ cas diferentes, a esta regra, que supomos geral. É impossível determinar se estas variações, na meticulosa aplicação do cherem, eram expressões de fraqueza ou brandura, na imposição, ou tentativas de reavivarpráticas antigas. O devotamento da destruição total é preservado dentro do conceito da pos­ sessão, por parte deYahweh, de um povo nacional. Deve ser reconhecido que os moabitas operavam sob uma prática se­ melhante pelo seu deus Astar-Quemós. Mesa, rei de Moabe, matou 7 mil israeli­ tas de Nebo como devotados (raiz hrm) em honra ao seu deus.21 Os israelitas viam que seu Deus lutava por eles, ao invés de eles lutarem por ele. A guerra sagrada não era uma guerra religiosa no sentido de lutarem para disseminar a fé em Yahweh. Sentiam que, visto serem o povo escolhido de Deus, a sua existência era necessária a todo custo. 20Cf. Gerhard von Rad, Der HeiligeKrieg im alten Israel, Zürich: Zwingli-Verlag, 1958. 21 D. Winton Thomas, Documents from Old Testament Times(Londres: Nelson, 1958), p. 195-198. 195
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    Norma K. Gottwaldchamou o cherem de “um dos vestígios da religião semita antiga, que ficou como restolho entre o trigo da antiga fé israelita” (Gottwald, p. 308). Não podemos sustentar, à luz da totalidade darevelação divina, que seme­ lhante aniquilação de populações etama­ nha prática de crueldade sejam interpre­ tações válidas do propósito e vontade eternos de Deus para omundo. O melhor que se pode dizer é que estes registros podem servistoscomopráticas imaturas, antigas, de um estágio muito primitivo no desenvolvimento da religião e da exis­ tência nacional. Onde tais práticas pos­ sam ser repetidas, têm de ser considera­ das como inapropriadas eineficazes. O Deus de Israel é também o Deus do Egitoe da Assíria(Is. 19:23-25). Yahweh é o Deus do mundo todo. Um povo não há de ser amado ao ponto de um outro povoserprivado de amor (cf. Rom. 1:16, “primeiro do judeu, e também do gre­ go”). A verdade da superioridade de Yahweh não deverá ser subvertida, para significar a superioridade de qualquer nação ou raça sobre outra. A fé cristã desafia-nos a sermos “o sal da terra” e “a luz do mundo”. A aplicação da tecno­ logia e da ciência tem deixado muito para trás a prática da preservação e do esclarecimento de toda a humanidade. Ãreas de conflito e problemas de indiví­ duos, raças ou nações não devem servir de desculpas para exibições de poder. Podem ser, isto sim, áreas por meio das quais oshomens de fépodem demonstrar comunidade humana, observância do domínio da lei e respeito para com pes­ soas integralmente iniciadas, vitalizadas e controladas pelo amor e sabedoria que Jesus demonstrou. (3) AIradeMoisés(31:13-18) 13 Saíram, pois, Moisés e Eleazar, o sa­ cerdote, e todos os príncipes da congrega­ ção, ao encontro deles fora do arraial. 14 E indignou-se Moisés contra os oficiais do exército, chefes-dos militares e chefes das centenas, que vinham do serviço da guerra, 15 e lhes disse: Deixastes viver todas as mulheres? 16 Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, fizeram que os fi­ lhos de Israel pecassem contra o Senhor no casode Peor, peloque houvea praga entre a congregação do Senhor. 17 Agora, pois, ma­ tai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. 18Mas todas as meni­ nas, que não conheceram homem, deitando- se com ele, deixai-as viverpara vós. Indignou-se Moisés com os oficiais do comando quando viu que tinham deixa­ do viver todas as mulheres. Faz-se refe­ rência ao capítulo 25no sentido de que as mulheres de Midiã receberam a culpa pelos atos traiçoeiros dos homens israe­ litas. A ordem foi emitida para matarem todos os meninos e toda fêmea que es­ tivessegrávida. Um costume antigo de vingança era o de eliminar o povo derrotado completa­ mente. Porém nesta ocasião as mulheres virgens foram mantidas comvida. (4) APurificaçãodosHomensedos Des­ pojos(31:19-24) 19 Acampai-vos por sete dias fora do ar­ raial; todos vós, tanto o que tiver matado alguma pessoa, como o que tiver tocado algum morto, ao terceiro dia e ao sétimo dia purificai-vos, a vós e aos vossos cativos. 20 Também purificai-vos no tocante a todo vestido, e todo artigo de peles, e toda obra de pêlosde cabras, e todo utensílio de madeira. 21 Então Eleazar, o sacerdote, disse aos homens de guerra que tinham saído à pele­ ja: Este é o estatuto da lei que o Senhor ordenou a Moisés: 22o ouro, a prata, obron­ ze, o ferro, o estanho, o chumbo, 23 tudo o que pode resistir ao fogo, fá-lo-eis passar pelo fogo, e ficará limpo; todavia será puri­ ficado com a água de purificação; e tudo o que não pode resistir ao fogo, fá-lo-eis pas­ sar pela água. 24 Também lavareis as vos­ sas vestes ao sétimo dia, e ficareis limpos, e depoisentrareis noarraial. Q bem-estar dos israelitas foi mantido pela eficiência da destruição dos midia- nitas. Porém os israelitas que participa­ ram da guerra santa tinham de ser puri­ ficados, visto que mantiveram contato com corpos mortos. A ordem para esta 196
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    purificação se dános versos 19,20. Nú­ meros dá o cenário para este rito de purificação. Oshomens deviam permanecerfora do acampamento durante sete dias. As rou­ pas que podiam absorver imundícia de­ viam também ser purificadas (v. 20). Os metais podiam ser purificados pelo fogoepela água da purificação. (5) AContageme a Distribuição da Pre­ sa(31:25-54) 25 Disse mais o Senhora Moisés: 28Faze a soma da presa que foi tomada, tanto de homens como de animais, tu e Eleazar, o sacerdote, e os cabeças das casas paternas da congregação; 27 e divide-a em duas partes iguais, entre os que, hábeis na guer­ ra, saíram à peleja, e toda a congregação. 28 E tomarás para o Senhor um tributo dos homens de guerra, que saíram à peleja; um em quinhentos, assim dos homens, como dos bois, dos jumentos e dos rebanhos; 29 da sua metade o tomareis, e o dareis a Eleazar, o sacerdote, para a oferta alçada do Senhor. 30 Mas da metade que pertence aos filhos de Israel tomarás um de cada cinqüenta, tanto doshomens, como dos bois, dosjumentos, dos rebanhos, enfim, de todos os animais, e os darás aos levitas, que estão encarregados do serviço do tabernáculo do Senhor. 31Fizeram, pois, Moisés e Eleazar, o sacerdote, como o Senhor ordenara a Moi­ sés. 32 Ora, a presa, o restante do despojo que os homens de guerra tomaram, foi de seiscentas e setenta e cinco mil ovelhas, 33setenta e dois mil bois, 34e sessenta e um miljumentos; 35e trinta e duas mil pessoas, ao todo, do sexo feminino, que ainda se conservavam virgens. 36 Assim a metade, que era a porção dos que saíram à guerra, foi em número de trezentas e trinta e sete mil e quinhentas ovelhas; 37 e da ovelhas foi o tributo para o Senhor seiscentas e setenta e cinco. 38 E foram os bois trinta e seis mil, dos quais foi o tributo para o Se­ nhor setenta e dois. 39 E foram os jumentos trinta mil e quinhentos, dos quais foi o tributo para o Senhor sessenta e um. 40 E houve de pessoas dezesseis mil, das quais foi o tributo para o Senhor trinta e duas pessoas. 41 Moisés, pois, deu a Elea­ zar, o sacerdote, o tributo, que era a oferta alçada do Senhor, como o Senhor ordenara a Moisés. 42 E da metade que era dos filhos de Israel, que Moisés separara da que era dos homens que pelejaram 43 (ora, a meta­ de que coube à congregação, foi, das ove­ lhas, trezentas e trinta e sete mil e quinhen­ tas; 44 dos bois trinta e seis mil; 45 dos ju­ mentos trinta mil e quinhentos; 46e das pes­ soas dezesseismil), 47isto é, da metade que era dos filhosde Israel, Moisés tomou um de cada cinqüenta, tanto dos homens como dos animais, e os deu aos levitas, que estavam encarregados do serviço do tabernáculo do Senhor; como o Senhor ordenara a Moisés. 48 Então chegaram-se a Moisés os oficiais que estavam sobre os milhares do exército, os chefes de mil e os chefes de cem, 49e dis­ seram-lhe; Teus servos tomaram a soma dos homens de guerra que estiveram sob o nosso comando; e não falta nenhum de nós. 50 Pelo que trouxemos a oferta do Senhor, cada um o que achou, artigos de ouro, ca­ deias, braceletes, anéis, arrecadas e cola­ res, para fazer expiação pelas nossas almas perante o Senhor. 51 Assim Moisés e Elea­ zar, osacerdote, tomaram deles o ouro, todo feito em jóias. 52 E todo o ouro da oferta alçada que os chefes de mil e os chefes de cem fizeram ao Senhor, foi dezesseis mil setecentos e cinqüenta siclos 53 (pois os ho­ mens de guerra haviam tomado despojo, cada um para si). 54 Assim receberam Moi­ sés e Eleazar, o sacerdote, o ouro dos chefes de mil e dos chefes de cem, e o puseram na tenda da revelação por memorial para os filhos de Israel perante o Senhor. A divisão em metade da presa de pes­ soase animais para os guerreiros e meta­ de para a congregação foi estabelecida como regra por Davi (I Sam. 30:24,25). Da sua porção, os guerreiros deviam ofertar um qüingentésimo a Eleazar, o sacerdote, para a oferta alçada do Se­ nhor. Da porção da congregação, a di­ visão havia de ser um dentre cada cin­ qüentapara oslevitas. A quantidade total da presa era como segue: 675 mil ovelhas, 72 mil bois, 61 miljumentos e32milvirgens. Da parte dos guerreiros, a doação para os sacerdotes seria: 675 ovelhas, 72 bois, 61jumentos e32virgens. Da parte da congregação, a doação para os levitas seria: 6.750 ovelhas, 720 bois, 610jumentos e 320virgens. Embora a divisãodosdespojos entre os guerreiros ea congregaçãopareça ser um costume antigo, a quantidade da doação 197
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    compulsória parece seruma novidade. Porém o imposto em si era um costume antigo, como uma expressão da solida­ riedade de Deus e o povo. Não se faz menção específica do uso dessas doações compulsórias. Provavelmente, toda presa viva fosse usada no serviço dos sacerdo­ tes e levitas, nas práticas religiosas da comunidade. Além das divisõese doações prescritas, os oficiais do exército trouxeram uma ofertaexpiatória, tirada dentre os metais preciosos e jóias que os homens tinham tomado dos midianitas conquistados. A presa viva devia fazer parte da proprie­ dade da comunidade toda, e era assim dividida por costume e imposto. A presa de ouro e jóias não integrava a proprie­ dade da comunidade toda, e, portanto, os oficiais trouxeram a porção daquilo que tinham tomado, como uma oferta expiatória. Esta doação totalizou 16.750 siclos de ouro, sem se contar o valor das pedras preciosas envolvidas. Esta oferta dos oficiais era por memorial para os filhos de Israel perante o Senhor. Em Êxodo 28:12 e 39:7, “pedras de memo­ rial” estavam “nas ombreiras do éfode”. Quando o sacerdote usava o éfode, essas pedras serviamcomo uma lembrança du­ radoura para o povo que Deus tinha ganho uma vitória extraordinária. Êxodo 30:16mostra que a idéia da expiação era incluída no “memorial”. 9. O Pedido dos Rubenitas e Gaditas LevaàDivisãodaTransjordânia (32:1-42) (1) OPedidodeRúbeneGade(32:1-5) 1 Ora, os filhos de Rúben e os filhos de Gade tinham gado em grande quantidade; e quando viram a terra de Jazer, e a terra de Gileade, e que a região era própria para gado, 2 vieram os filhos de Gade e os filhos de Rúben a Moisés e a Eleazar, o sacerdote, e aos príncipes da congregação e falaram- lhes, dizendo: 3Atarote, Dibom, Jazer, Nin- ra, Hesbom, Eleale, Sebã, Nebo e Beom, 4 a terra que o Senhor feriu diante da con­ gregação de Israel, é terra para gado, e os teus servos têm gado. 5 Disseram mais: Se temos achado graça aos teus olhos, dê-se esta terra em possessão aos teus servos, e não nosfaça passar oJordão. Aos rubenitas e gaditas é creditada a idéia de divisão da terra por tribos ao pedirem as belas pastagens que se es­ tendiam para o leste do rio Jordão. Ti­ nham gado em grande quantidade, pos­ suíam bois, ovelhas e cabras, em mana­ das e rebanhos. Parece estranho que pudessem ter tamanha abundância de animais depois detão longa permanência no deserto. Porém temos de levar em consideração a existência de lapsos de tempo durante os quais ficaram acam­ pados, com períodos de peregrinação apenas intermitentes. O pedido foi feito de maneira apro­ priada, pelos rubenitas e gaditas, a Moi­ sés, o líder supremo, a Eleazar, o sacer­ dote, e aos líderes da congregação. A so­ licitação apresentou três pontos lógicos: (a) o território, do qual se dão os nomes de nove cidades, apresentava condições ideais para gado; (b) os rubenitas e os gaditas tinham gado; (c) que se permi­ tisse que se desse aquele território àquele grupo de israelitas com o título de pro­ priedade. Fundamentados nessas três idéias preferiam habitar permanente­ mente nolado oriental doJordão. (2) AAdvertênciadeMoisés(32:6-15) 6 Moisés, porém, respondeu aos filhos de Gade e aos filhos de Rúben: Irão vossos irmãos à peleja, e ficareis vós sentados aqui? 7 Por que, pois, desanimais o coração dos filhos de Israel, para eles não passarem à terra que o Senhor lhes deu? 8 Assim fizeram vossos pais, quando os mandei de Cades-Baméia a ver a terra. 9 Pois, tendo eles subido até o vale de Escol, e visto a terra, desanimaram o coração dos filhos de Israel, para que não entrassem na terra que o Senhor lhes dera. 10Então a ira do Senhor se acendeu naquele mesmo dia, e ele jdrou, dizendo: 11De certo os homens que subiram doEgito, de vinte anos para cima, não verão a terra que prometi com juramento a Abraão, a Isaque, e a Jacó! porquanto não perseveraram em seguir-me; 12exceto Ca- lebe, filho de Jefoné, o quenezeu, e Josué, 198
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    filho de Num,porquanto perseveraram em seguir ao Senhor. 13Assim se acendeu a ira do Senhor contra Israel, e ele os fez andar errantes no deserto quarenta anos, até que se consumiu toda aquela geração que fizera mal aos olhos do Senhor. 14 E eis que vós, uma geração de homens pecadores, vos le­ vantastes em lugar de vossos pais, para ainda mais aumentardes o furor da ira do Senhor contra Israel. 15Se vós vos vlrardes de segui-lo, também ele tornará a deixá-los no deserto; assim destruireis a todo este povo. Moisés estava receoso que, se as duas tribos colonizassem a Transjordânia, o ímpeto das demais tribos estivesse perdi­ do. Perguntou-lhes por que haveriam de impedir que o povo de Israel tomasse posse de sua dádiva. Então compara o pedido dos rubenitas e gaditas com o exemplo dos dez espias, que trouxeram um tal relatório que (1) desanimaram o coraçãodosfilhosdeIsrael, paraquenão entrassem na terra. (2) se acendeu a ira do Senhor, (3) nenhum deles, excetuan­ do-se Calebe e Josué, entraria na Terra Prometida e (4) Israel teria que peregri­ nar durante 40anos. O resultado a esperar de semelhante ação seria que Deus os abandonasse a todos no deserto efinalmente os destruís­ sea todos. (3) Rúbene GadeExplicam-se (32:16-27) 16Então chegaram-se a ele, e disseram: Construiremos aqui currais para o nosso gado, e cidades para os nossos pequeninos; 17nós, porém, nos armaremos, apressando- nosadiante dosfilhos de Israel, até os levar­ mosao seu lugar; e ficarão os nossos peque­ ninosnas cidades fortificadas, por causa dos habitantes da terra. 18Não voltaremos para nossas casas até que os filhos de Israel estejam de posse, cada um, da sua herança. 19Porque não herdaremos com eles além do Jordão, nem mais adiante; visto que já pos­ suímos a nossa herança aquém do Jordão, ao oriente. 20 Então lhes respondeu Moisés: Se isto fizerdes, se vos armardes para a guerra perante o Senhor, 21 e cada um de vós, armado, passar o Jordão perante o Senhor, até que ele haja lançado fora os seus inimigos de diante dele, 22 e a terra esteja subjugada perante o Senhor, então, sim, voltareis e sereis inculpáveis perante o Senhor e perante Israel; e esta terra vos será por possessão perante o Senhor, 23Mas se não fizerdes assim, estareis pecando con­ tra o Senhor; e estai certos de que o vosso pecado vos há de atingir. 24Edificai cidades para osvossospequeninos, e currais para as vossas ovelhas; e cumpri o que saiu da vossa boca. 25 Então os filhos de Gade e os filhos de Rúben disseram a Moisés: Como ordena meu senhor, assim farão teus ser­ vos. 26Os nossos pequeninos, as nossas mu­ lheres, os nossos rebanhos e todo o nosso gado ficarão nas cidades de Gileade; 27 mas os teus servos passarão, cada um que está armado para a guerra, a pelejar perante o Senhor, como dizomeu senhor. Explicaram a Moisés que tomariam providênciaspara que os seus rebanhos e suas famílias estivessem protegidos en­ quanto a força belicosa dos homens es­ tivesse ausente. Os homens de Rúben e Gadejuraram acompanhar o restante do exército israelita até que todo o povo estivesse radicado na terra. Não reivindi­ cariam nada mais, senão que se radicas­ semna Transjordânia. Moisés ouviu a explicação e aceitou-a como plenamente satisfatória. Porém os advertiu que se falhassem no cumpri­ mento do acordo estariam pecando con­ tra o Senhor. (4) OAcordoFeito(32:28-32) 28 Então Moisés deu ordem acerca deles a Eleazar, o sacerdote, e a Josué, filho de Num, e aos cabeças das casas paternas nas tribos dos filhos de Israel; 29 e disse-lhes Moisés: Se os filhos de Gade e os filhos de Rúben passarem convosco o Jordão, arma­ do cada um para a guerra perante o Senhor, e a terra for subjugada diante de vós, então lhes dareis a terra de Gileade por posses­ são; 30 se, porém, não passarem armados convosco, terão possessões entre vós na ter­ ra de Canaã. 31 Ao que responderam os filhos de Gade e os filhos de Rúben: Como o Senhor disse a teus servos, assim faremos. 32 Nós passaremos armados perante o Se­ nhor para a terra de Canaã, e teremos a possessão de nossa herança aquém do Jor­ dão. 199
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    Moisés orienta Eleazar,Josué e os cabeças das tribos com relação ao pedido de Rúben e Gade. Se lutassem com o exército todo até a terra ser subjugada, seu pedido seria deferido. Mas se não se unissem à campanha militar, então toda a possessão que lhes seria dada ficaria para ooeste do Jordão. Os rubenitas e os gaditas confirmaram as condições do acordo. (5) ATerra ao Leste do Jordão Dividida (32:33-42) 33 Assim deu Moisés aos filhos de Gade e aos filhos de Rúben, e à meia tribo de Ma­ nassés, filhode Jesé, oreino de Siom, rei dos amorreus, e o reino de Ogue, rei de Basã, a terra com as suas cidades e os respectivos territórios ao redor. 34 Os filhos de Gade, pois, edificaram a Dibom, Atarote, Aroer, 35 Atarote-Sofã, Jazer, Jogbeá, 36 Bete-Nin- ra e Bete-Harã, cidades fortificadas; e cons­ truíram currais de ovelhas. 37E os filhos de Rúben edificaram a Hesbom, Eleale e Qui- riataim; 38e Nebo e Baal-Meom (mudando- lhes os nomes), e Sibma; e deram outros nomes às cidades que edificaram. 39E os fi­ lhos de Maquir, filho de Manassés, foram a Gileade e a tomaram, e desapossaram aos amorreus que aí estavam. Deu, pois, Moi­ sés a terra de Gileade a Maquir, filho de Manassés, o qual habitou nela. 41E foi Jair, filhode Manassés, e tomouas aldeias dela, e chamou-lhes Havote-Jair. 42 Também foi Nobá, e tomou a Quenate com as suas al­ deias; e chamou-lhe Nobá, segundo o seu próprio nome. O território ao leste do Jordão, que tinha sido tomado de Siom, rei dos amor­ reus, e de Ogue, rei de Basã, foi parti­ lhado entre os filhos de Gade, de Rúben e da meiatribo de Manassés. Os filhos de Gade edificaram diversas cidades (v. 34-36), como também currais para ovelhas. Não fundaram todas essas cidades. O termo “edificar” pode, tal­ vez, significar reconstruir ou fortificar cidades que tinham sido destruídas an­ teriormente. O território de Gade esten­ dia-se de Hesbom para o norte, Gileade adentro. Os nomes de algumas das ci­ dades foram mencionados no versículo 3 como uma parte do território que incen­ tivouodesejode lá seradicarem. Os filhos de Rúben (v. 37,38) possuí­ ram o território de Hesbom, ao sul, até o vale do rio Amom. Reconstruíram as ci­ dades conquistadas e deram-lhes nomes novos. Maquir (v. 39,40) conquistou o terri­ tório de Ogue, que abrangia uma parte de Gileade eoterritório de Basã. Maquir era o filho mais velho de Manassés, o filhomaisvelho deJosé. Jair (v. 41), também filho de Manas­ sés, e, assim, do clã de José, chamou todas as suas aldeias de Havote-Jair. Ao invés de transliterar as palavras he­ braicas em letras portuguesas, poder-se- ia traduzir simplesmente como “as al­ deias de Jair”. Estas seriam comparáveis a povoações de tendas, que possivelmen­ te se desenvolveram em cidades mais permanentes. Nobá (v. 42) não é conhecido como uma pessoa nos outros registros. Parece que Nobá está alistado como um filho de Manassés, doclã deJosé. Estes três clãs das tribos de José radi- caram-se primeiro, com toda probabili­ dade, noterritório ao leste do rio Jordão. EmJosué 17:14-18, existe um registro de “dez quinhões” (Jos. 17:5) do território ao oeste do Jordão, que se deram a Ma­ nassésvárias geraçõesmais tarde. 10. Uma Revista da Viagemdo Egito até asPlaníciesde Moabe(33:1-49) (1) Introdução (33:1-4) 1 São estas as jornadas dos filhos de Is­ rael, pelas quais saíram da terra do Egito, segundo osseus exércitos, sob o comando de Moisés e Arão. 2 Moisés registrou os pontos de partida, segundo as suas jornadas, con­ forme o mandado do Senhor; e estas são as suasjornadas segundo os pontos de partida: 3 Partiram de Ramessés no primeiro mês, no dia quinze do mês; no dia seguinte ao da páscoa saíram osfilhos de Israel afoitamen­ te à vista detodosos egípcios, 4 enquanto es­ tes enterravam a todos os seus primogêni­ tos, a quem oSenhor havia ferido entre eles, 200
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    havendo o Senhorexecutado juízos também contra osseus deuses. Na realidade, os capítulos 33-36 cons­ tituem a seçãofinal do livro de Números. A começar com a saída do Egito, «temos 6 registro da viagem como dividida nas etapas de “levantamento dos acampa­ mentos”. Excluindo-se a chegada à pla­ nície de Moabe, existem 40 ocasiões de “partida” (11 até Sinai; 21 até Cades; 8 até Moabe). A singularidade deste registro está no fato de que Moisésregistrou esta relação dos pontos de partida. Os registros an­ teriores foram coligidos dastradições his­ tóricas, mas este é oriundo dos escritos do próprio Moisés. Difere dos outros no sentido de fornecer os nomes de algumas localidades anteriormente desconhecidas e no fato de omitir alguns dos lugares principais anotados antes. A saída do Egito foi triunfal (lit., com uma mão alta ou superior). O registro é claro em interpretar a Páscoa toda e a saída do Egito como mais do que um triunfo deum povosobre outro. Condizia com as estruturas mentais dos povos antigos, de que a vitória de um povo sobreoutro era, primariamente, a vitória do Deus dos vitoriosos sobre o deus dos vencidos. A expressão havendo o Senhor executadojuízos também contra os seus deuses deve ser entendida como de fato umjuízo de Yahwehcontraos deuses dos egípcios. (2) De Ramessés até o Deserto de Sinai (33:5-15) 5 Partiram, pois, os filhos de Israel de Ramessés, e acamparam-se em Sucote. 6 Partiram de Sucote, e acamparam-se em Etã, que está na extremidade do deserto. 7Partiram de Etã, e voltando a Pi-Hairote, que está defronte de Baal-Zefom, acampa­ ram-se diante de Migdol. 8 Partiram de Pi-Hairote, epassaram pelo meio do mar ao deserto; e andaram caminho de três dias no deserto de Etã, e acamparam-se em Mara. 9 Partiram de Mara, e vieram a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmei­ ras, e acamparam-se ali. 10 Partiram de Elim,e acamparam-sejunto ao MarVerme­ lho. 11Partiram do Mar Vermelho, e acam­ param-se no deserto de Sim. 12Partiram do deserto de Sim, e acamparam-se em Dofca. 13 Partiram de Dofca, e acamparam-se em Alus. 14Partiram de Alus, e acamparam-se em Refldim; porém não havia ali água para opovobeber. 15Partiram, pois, de Refidim, e acamparam-se no deserto de Sinai. Todos os lugares mencionados nesta caminhada aparecem também em Êxodo 12-19, excetuandoDofcaeAlus(v. 2-14). Estes doislugares não são conhecidosnos registros arqueológicos. Os versículos 10 e 11 fazem menção de um acampamento junto ao MarVermelho(Yam Suph, tra­ duzido literalmente, seria “mar de jun­ cos”), nome muitas vezes aplicado aos braços do Mar Vermelho e na maioria das vezes ao golfo de Suez. O relato de Êxodo tem o contexto do Mar Vermelho, porém não menciona nenhum acampa­ mentojunto aoYam Suph. O acampamento em Refidim, onde nãohaviaáguaparaopovobeber(v. 14), émencionadotambém em Êxodo 17:1-7. No registro de Êxodo é descrito como “Massá e Meribá” (v.7); Meribá é uma das nascentes em Cades, conforme Nú­ meros 20:1,13-14; 27:14; Deuteronômio 32:51. O relato de Números não registra a presença do povo em Cades, senão de­ pois de Eziom-Geber, noversículo 36. Os vários relatos “do(s) incidente(s) relacio- nado(s) com a água” de Êxodo 17 e Nú­ meros 20 e 27, não de fácil correlação. Talvez vários eventos tenham sido entre­ tecidos e/ou diversas tradições com rela­ ção a um sóevento tenham sido preserva­ dassemnenhumatentativadecorrelação. (3) Do Sinai até o Monte Hor (33:16-40) 16 Partiram do deserto de Sinai, e acam­ param-se em Quibrote-Hataavá. 17 Parti­ ram de Quibrote-Hataavá, e acamparam- se em Hazerote. 18 Partiram de Hazerote, e acamparam-se em Ritma. 19Partiram de Ritma, e acamparam-se em Rimom-Pérez. 20 Partiram de Rimom-Pérez, e acampa- 201
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    ram-se em Libna.21 Partiram de Libna, e acamparam-se em Rissa. 22 Partiram de Rissa, e acamparam-se em Queelata. 23 Partiram de Queelata, e acamparam-se nomonte Sefer.24Partiram domonte Sefer, e acamparam-se em Harada. 25 Partiram de Harada, e acamparam-se em Maquelote. 26 Partiram de Maquelote, e acamparam- se em Taate. 27Partiram de Taate, e acam­ param-se em Tera. 28 Partiram de Tera, e acamparam-se em Mitca. 29 Partiram de Mitca, e acamparam-se em Hasmona. 30 Partiram de Hasmona, e acamparam-se em Moserote. 31 Partiram de Moserote, e acamparam-se em Bene-Jaacã. 32 Parti­ ram de Bene-Jaacã, e acamparam-se em Hor-Hagidgade. 33 Partiram de Hor-Hagid- gade, e acamparam-se em Jotbatá. 34Parti­ ram de Jotbatá, e acamparam-se em Abro- na. 33 Partiram de Abrona, e acamparam- se em Eziom-Geber. 36Partiram de Eziom- Geber, e acamparam-se no deserto de Zim, que é Cades. 37Partiram de Cades, e acam- param-se no monte Hor, na fronteira da terra de Edom. 38 Então Arão, o sacerdote, subiu ao monte Hor, conforme o mandado do Senhor, e ali morreu no quadragésimo ano depois da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, no quinto mês, no primeiro diadomês.39EArãotinhacentoevinteetrês anos de idade, quando morreu no monte Hor. 40 Ora, o cananeu, rei de Arade, que habitava o sul da terra de Canaã, ouviu que osfilhosde Israel chegavam. Dois dos lugares das três reclamações (caps. 11 e 12), Quibrote-Hataavá e Ha- zerote, são mencionados. Tabera (11: 1-3), onde Deus queimou “as extremida­ des do arraial”, não recebe menção. Os doze lugares mencionados nos ver­ sos 18b-30a não são mencionados em nenhum outro lugar no Antigo Testa­ mento. Não se dispõe de nenhuma evi­ dência arqueológica para indicar qual registro seestá seguindo. JeE mostram o povo viajando quase que diretamente para o leste. O relato sacerdotal (p) leva-o para o sul. Os nomes desses luga­ res não ajudam na determinação de uma rotaexata. Os quatro nomes nos versos 30b-34a são também conhecidos de Deuteronô- mio 10:6,7. Em Deuteronômio 10:6, se nos conta que Arão morreu e foi enterra­ do em Mosera (Moserote é uma outra forma de Mosera). Porém em Números 33:38,39 e 20:27,28 se diz que Arão morreu no monte Hor. Evidentemente, nomes podem ser usados às vezes como de cidades específicas e outras vezes co­ mo descritivos de regiões. Isso indicaria que Arão morreu nas proximidades da fronteira de Edom, perto de Cades. Os versículos 38 e 39 são paralelos a 20:22-29. Acrescenta-se, aqui, que Arão morreu no quadragésimo ano depois da saída doEgito, no primeiro dia do quinto mês, e que tinha 123 anos de idade por ocasião de sua morte. O versículo 40 não faz nenhuma con­ tribuição específica à narrativa, mas é colocado aqui seguindo o registro dos capítulos 20e 21. (4) Do Monte Hor até as Planícies de Moabe(33:41-49) 41 Partiram do Monte Hor, e acamparam- se em Zalmona. 42 Partiram de Zalmona, e acamparam-se em Punom. 43 Partiram de Punom, e acamparam-se em Obote. 44 Par­ tiram de Obote, e acamparam-se em Ije- Abarim, na fronteira de Moabe. 45Partiram de Ije-Abarim, e acamparam-se em Dibom- Gade. 46Partiram de Dibom-Gade, e acam- param-se em Almom-Diblataim. 47 Parti­ ram de Almom-Diblataim, e acamparam- se nos montes de Abarim, defronte de Nebo. 48Partiram dosmontes de Abarim, e acam­ param-se nas planícies de Moabe, junto ao Jordão, na altura de Jericó; 49isto é, acam­ param-se junto ao Jordão, desde Bete-Jesi- mote até Abel-Sitim, nas planícies de Moa­ be. A identificação absoluta destas etapas não épossível. Aparentemente, o escritor ainda está seguindo Números 21. O acampamento final ficava ao longo de uma frente para o Rio Jordão. As suges­ tões provisórias quanto à identidade des­ tas duas cidades (v. 49) coloca-as numa frente de, aproximadamente, oito qui­ lômetros de extensão. 202
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    11. As InstruçõesFinais Anteriores à TravessiadoJordSo(33:50-36:12) (1) Despejar Todos os Habitantes e De­ molirTodo o CultoPagão (33:50-56) 50 Também disse o Senhor a Moisés, nas planícies de Moabe, junto ao Jordão, na altura de Jericó: 51Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando houverdes passado o Jordão para a terra de Canaã, 52 lançareis fora todos os habitantes da terra de diante de vós, e destruireis todas as suas pedras em que há figuras; também destruireis to­ das as suas imagens de fundição, e desfareis todososseus altos; 53e tomareis a terra em possessão, e nela habitareis; porquanto a vósvostenho dado esta terra para a possuir­ des. 51Herdareis a terra por meio de sortes, segundo as vossas famílias: à família que for grande, dareis uma herança maior, e à família que for pequena, dareis uma heran­ ça menor; o lugar que por sorte sair para alguém, esse lhe pertencerá; segundo as tribos de vossos pais recebereis as heran­ ças. 55 Mas se não lançardes fora os habi­ tantes da terra de diante de vós, os que deixardes ficarvos serão como espinhos nos olhos, e como abrolhos nas ilhargas, e vos perturbarão na terra em que habitardes; 56e eu vosfareia vós como pensei em fazer- lhesa eles. As condições para a herança da terra são claramente estabelecidas aqui, em Êxodo 23:23-33 e em Levítico 26. A pa­ lavra hebraica traduzida lançareis fora é muitas vezes traduzida também por “herdar” ou “tomar posse de”. Eles não entendiam que receberiam a herança semnenhum tipo de atividade conquista­ dora.Ordenou-se-lhesquelançassemfora todos os habitantes da terra de diante deles. Não lhes bastava desocupar terras suficientes em que pudessem habitar. Era necessário que assumissem o contro­ le absoluto delas, pois deviam possuir a terra pelo seu Deus. Deus não podia compartilhar a sua terra com outros deu­ ses. Além disso, ordenou-se-lhes que des­ truíssem todas as suaspedras em que há figuras (ingl., as suas pedras “afigura­ das”) (figuras esculpidas de símbolos idólatras), imagens de fundição (deuses de metal fundido) e altos (ingl., lugares altos) (santuários edificados sobre eleva­ ções como lugares para cultuar a diver­ sos deuses). A remoção do povo que cultuava deu­ ses estranhos e dos instrumentos utiliza­ dos nesses cultos eram duas partes de umamesma ação, para tirarem qualquer vestígio da presença de outros poderes. Deus tinha que ser cultuado exclusiva­ mente. Seosisraelitasnãochegassemare­ moverou opovopagão ou os seus centros de culto pagão, não seriam dignos de receber a herança. A divisão da terra entre o povo era feita por meio de sortes, segundo as vossas famílias. Uma família grande re­ ceberia uma porção grande, proporcio­ nalmente. Porém, se se deixassem na terra quaisquer dos habitantes das ter­ ras, esses remanescentes pagãos se tor­ nariam em espinhos nos olhos, e como abrolhosnasilhargas. É difícil saber exatamente o significa­ dodoversículo 56, que declara que Deus faria a Israel como ele pensou em fazer- lhes a eles, ou seja, aos habitantes da terra. Evidentemente, a não ser que Is­ rael os varresse da terra, Deus varreria Israel da terra. O único direito à terra que Israel podia estabelecer seria em obediência ao mandamento de limpar a terra de cultuadores pagãos e do culto pagão. 0 Deus que podia dar uma herança podia também determinar as condições para a sua possessão. A remoção espas­ módica de alguns centros pagãos não era, de maneira nenhuma, um cumpri­ mento de suas ordens. (2) As Fronteiras a Serem Estabelecidas (34:1-29) 1Disse mais o Senhor a Moisés: 2 Dá or­ dem aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quan­ do entrardes na terra de Canaã, terra esta que vos há de cair em herança, por toda a sua extensão, 3 a banda do sul será desde o deserto de Zim,ao longode Edom; e o limite do sul se estenderá da extremidade do Mar 203
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    Salgado para ooriente; 4 e este limite irá rodeando para o sul da subida de Acrabim, e continuará até Zim; e, saindo ao sul de Gades-Barnéia, seguirá para Hazar-Hadar, e continuará até Azmom; 5e dai irá rodean­ do até o ribeiro do Egito, e terminará na praia do mar. 6 Para o ocidente, o Mar Grande vos será por limite; o próprio mar será o vosso limite ocidental. 7 Este será o vossolimite setentrional: desde oMarGran­ de marcareis para vós até o monte Hor; 8desde o monte Hor marcareis até a entra­ da de Hamate; daí ele se estenderá até Ze- dade; 9 dali continuará até Zlfrom, e irá terminar em Hazar-Enã. Este será o vosso limite setentrional. 10 Marcareis o vosso limite oriental desde Hazar-Enã até Sefã; 11este limite descerá de Sefã até Ribla, ao oriente de Aim; depois irá descendo ao lon­ goda borda do mar de Quinerete ao oriente; 12descerá ainda para oJordão, e irá termi­ nar no Mar Salgado. Esta será a vossa terra, segundo os seus limites em redor. 13 Moisés, pois, deu ordem aos filhos de Israel, dizendo: Esta é a terra que herdareis por sortes, a qual o Senhor mandou que se desse às nove tribos e à meia tribo; 14 por­ que a tribo dos filhos de Rúben, segundo as casas de seus pais, e a tribo dos filhos de Gade, segundo as casas de seus pais, como também a meia tribo de Manasses, já rece­ beram a sua herança; 15isto é, duas tribos e meiajá receberam a sua herança aquém do Jordão, na altura de Jericó, do lado oriental. 16 Disse mais o Senhor a Moisés: 17 Estes são osnomes dos homens que vos repartirão a terra por herança: Eleazar, o sacerdote, e Josué, filho de Num; 18 também tomareis de cada tribo um príncipe, para repartir a terra em herança. 19 E estes são os nomes dos homens: Da tribo de Judá, Calebe, filho de Jefoné; 20 da tribo dos filhos de Simeão, Semuel, filho de Amiúde; 21da tribo de Ben­ jamim, Elidá, filho de Quislom; 22 da tribo dos filhos de Dã o príncipe Buqui, filho de Jógli; 23 dos filhos de José: da tribo dos filhos de Manassés o príncipe Haniel, filho de Éfode; 24da tribo dos filhos de Efraim o príncipe Quemuel, filho de Siftã; 25 da tribo dos filhos de Zebulom o príncipe Elizafã, filho de Pamaque; 26 da tribo dos filhos de Issacar o príncipe Paltiel, filho de Azã; 27 da tribo dos filhos de Aser o príncipe Aiúde, filho de Selómi; 28da tribo dos filhos de Naftali o príncipe Pedael, filho de Amiú­ de. 29 Estes são aqueles a quem o Senhor ordenou que repartissem a herança pelos filhosde Israel na terra de Canaã. Aterra toda de Canaã devia ser abran­ gida pela divisão. Os vários limites são explicados. Do sul (o ribeiro do Egito, v. 5) até o norte (a entrada de Hamate, v. 8)edo oeste(o MarGrande, v. 6) até o leste (o Jordão, v. 12) delimitava a terra de Canaã...por toda a sua extensão (v. 2). Na realidade, estas fronteiras não fo­ ram estabelecidas nem sequer tomadas, senãonotempo de Davi. 0 território que já havia sido tomado para os filhos de Rúben e Gade junto com a meia tribo de Manassés é registra­ do nos versos 13-15. A terra de Canaã pertenceria às nove tribos e à meia tribo de Israel. Dão-se os nomes dos 12 homens que dividiriam a terra (34:16-29). Eleazar, o sacerdote, e Josué, o espia, selecionados para liderança especial, são relacionados primeiro, à parte da organização tribal. Os dez homens mencionados, das nove tribos e meia, são relacionados segundo as suas tribos. Calebe, o outro homem que trouxe um relatório positivo para entrarem na terra de Canaã imediata­ mente após saírem do Egito, é registrado comorepresentante datribo deJudá. (3) As Cidades Para os Levitas (35:1-28) A terra a leste do Jordão tinha sido dividida entre as duas tribos e meia. A terra de Canaã, a oeste do Jordão, havia sido atribuída às nove tribos e meia. Porém a tribo de Levi não chegou a receber qualquer consideração além das porções regulares dos frutos de seu tra­ balho. Assim, tinha de haver alguma consideração dos lugares de moradia para oslevitas. 1Disse mais o Senhor a Moisés nas planí­ ciesdeMoabe,junto ao Jordão, na altura de Jericó: 2 Dá ordem aos filhos de Israel que da herança da sua possessão dêem aos levitas cidades em que habitem; também dareis aos levitas arrabaldes ao redor delas. 3 Terão eles estas cidades para habitarem; e os arrabaldes delas serão para os seus gados, e para a sua fazenda, e para todos os 204
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    seus animais. 4Os arrabaldes que dareis aos levitas se estenderão, domuro da cidade para fora, mil côvadosem redor. 5£ fora da cidade medireis para o lado oriental dois mil côvados, para olado meridional dois mil côvados, para o lado ocidental dois mil cô­ vados, e para o lado setentrional dois mil côvados; e a cidade estará no meio. Isso terão porarrabaldes das cidades. 6Entre as cidades que dareis aos levitas haverá seisci­ dades de refúgio, as quais dareis para que nelas se acolha o homicida; e além destas lhesdareis quarenta e duas cidades. 7Todas as cidades que dareis aos levitas serão qua­ renta e oito, juntamente com os seus arra­ baldes. 8 Ora, no tocante às cidades que dareis da possessão dos filhos de Israel, da tribo que for grande tomareis muitas, e da que for pequena tomareis poucas; cada uma segundoa herança que receber dará as suas cidades aos levitas. 9 Disse mais o Senhor a Moisés: 10 Fala aos filhos de Is­ rael, e dize-lhes: Quando passardes o Jor­ dão para a terra de Canaã, 11 escolhereis para vós cidades que vos sirvam de cidades de refúgio, para que se refugie ali o homici­ da que tiver matado alguém involuntaria­ mente. 12E estas cidades vos serão por re­ fúgio do vingador, para que não morra o homicida antes de ser apresentado perante a congregação para julgamento. 13 Serão seis as cidades que haveis de dar por cida­ des de refúgio para vós. 14Dareis três cida­ des aquém do Jordão, e três na terra de Canaã; cidades de refúgio serão. 15 Estas seis cidades serão por refúgio aos filhos de Israel, ao estrangeiro, e ao peregrino no meio deles, para que se refugie ali todo aquele que tiver matado alguém involunta­ riamente. 16Mas se alguém ferir a outrem com instrumento de ferro de modo que ve­ nha a morrer, homicida é; e o homicida será morto. 17Ou se o ferir com uma pedra na mão, que possa causar a morte, e ele morrer, homicida é ; e ohomicida será mor­ to. 18Ou se o ferir com instrumento de pau na mão, que possa causar a morte, e ele morrer, homicida é; será morto o homici­ da. 19 O vingador do sangue matará ao homicida; ao encontrá-lo, o matará. 20 Ou se alguém empurrar a outrem poródioou de emboscada lançar contra ele alguma coisa de modo que venha a morrer, 21 ou por ini­ mizade o ferir com a mão de modo que venha a morrer, será morto aquele que o feriu; homicida é. O vingador do sangue, ao encontrá-lo, omatará. Dão-se ordens para que as diversas tribos dessem cidades de sua herança para os levitas morarem. Devia haver quarentaeoitocidades comos seus arra­ baldes (ingl., “com os seus pastos”). As pastagens seriam de uns 33 alqueires ao redor da cidade. Não é possível determi­ nar comprecisão a extensão desse campo aberto, visto que o versículo 4 ordena domuroda cidade parafora mil côvados em redore oversículo 5 mede fora da ci- dade...dois mil côvados para todos os lados. As tribos maiores deveriam con­ tribuir com quantidades maiores, e as tribos pequenas, em proporção ao seu tamanho. Josué 21 faz referência a essa provisãopara a herançalevítica. Deviam serretidas somente quarentae duas cidades (v. 6) para os levitas, suas famílias e posses. Das quarenta e oito cidades atribuídas aos levitas, seis de­ viam ser cidades de refúgio (v. 9-34). Abase dessaprovisãode cidades de refú­ gio foi a lei tribal antiga da vingança de sangue. Sem as cidades de refúgio, não haveria nenhuma possibilidade de qual­ quer investigação de uma morte ou de o homicida ser julgado perante um tribu­ nal. Na história antiga, nenhuma autori­ dade central e nem mesmo sistemas le­ gais comumente aceitos tinham surgido, de forma que disputas entre indivíduos, grupos, tribos ou nações pudessem ser solucionadas. Por conseguinte, a proxi­ midade de parentesco estabelecia uma estrutura pela qual a proteção da vida individual e suas posses particulares era a responsabilidade do grupo familiar. Todos estavam sob a obrigação de de­ fender os direitos de cada membro em particular. Assim, a lei (lex talionis) de “olho por olho, dente por dente” (Lev. 24:20) autorizava que o parente de um homem morto reivindicasse a vida de seu irmão ao homicida. Esse sistema, porém, podia levar a uma ciranda interminável de mortes ou devingança. Uma rixa familiar perpétua podia ser automática. Apesar das san­ ções específicas de retribuição, precisa­ va-se de um sistema ou processo pelo 205
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    qual uma pessoaque tivesse matado alguéminvoluntariamente (v. 11) pudes­ seser apresentadaperantea congregação para julgamento (v. 12). Estas cidades de refúgio proporcionariam segurança física contra qualquer parente consan­ guíneo que quisesse vingar uma morte. Por conseguinte, estas cidades seriam espaçadas através do território, para que essa segurança não fosse perdida devido a viagens longas. Havia três cidades a leste do Jordão e três cidades a oeste do Jordão destinadas a serem cidades de refúgio (Jos. 20:7,8). Estas cidades pro­ porcionariam um abrigo, onde o homici­ da poderia ser mantido com vida até a comunidade proceder aojulgamento. Es­ tas cidades poderiam tornar-se em asilos para assassinos e traidores, se não hou­ vesse certas restrições. O princípio do julgamento estava relacionado irrevoga- velmente ao derefúgio. O refúgio não era para qualquer assassino. Declara-se es­ pecificamente que o asilo era para al­ guém que matasse outrem involuntaria­ mente, ou seja, sem querer. O abrigo estava disponível somente até que sefizesseojulgamento. Nesse ponto, ou um julgamento de morte ou de li­ bertação se faria efetivo, de forma que a responsabilidade do vingador fosse suce­ didapelojulgamento da comunidade. Nos tempos antigos, a lei de “olho por olho, dente por dente” não distinguia entre um homicídio involuntário e um premeditado. Este segmento dos regula­ mentos sacerdotais procurou modificar essarigidez. Faz-se uma distinção entre o homicídio acidental e o homicídio com intenção assassina ou ódio. O uso de um instrumento de ferro po­ deria sugerir algum preparo, e, àssim, algum intento de infligir prejuízo físico. Semelhantemente, quando as armas de pedra ou de pau estivessem na mão, haveria comprovação de propósito assas­ sino. Independentemente da arma usada, se a morte tivesse ocorrido como resultado de ódio, emboscada ou inimizade, não se permitia ao homicida permanecer nas ci­ dades de refúgio. O parente encarregado da responsabilidade de manter a integri­ dade de sua tribo, recebia instruções para efetivar a sentença de morte. So­ mente o derramamento do sangue do as­ sassino cancelaria o crime do homicídio premeditado. 22 Mas se o empurrar acidentalmente, sem inimizade, ou contra ele lançar algum instrumento, sem ser de emboscada, 23 ou sobre ele atirar alguma pedra, não o vendo, e o ferir de modo que venha a morrer, sem que fosse seu inimigo nem procurasse o seu mal, 24 então a congregação julgará entre aquele que feriu e o vingador do sangue, segundo estas leis, 25e a congregação livra­ rá o homicida da mão do vingador do san­ gue, fazendo-ovoltar à sua cidade de refúgio a que se acolhera; ali ficará elemorando até a morte do sumo sacerdote, que foi ungido com o óleo sagrado. 26 Mas, se de algum modo o homicida sair dos limites da sua ci­ dade de refúgio, onde se acolhera, 27e o vin­ gador do sangue o achar fora dos limites da sua cidade de refúgio, e o matar, não será culpado de sangue; 28pois o homicida deve­ rá ficar na sua cidade derefúgio até a morte do sumo sacerdote; mas depois da morte do sumo sacerdote o homicida voltará para a terra da sua possessão. Amatança não premeditada (v. 22,23) é claramente definida pelo emprego dos seguintes termos: acidentalmente, sem inimizade, sem ser de emboscada, não o vendo, sem que fosse seu inimigo e nem procurasseoseumal. Acongregação era a autoridade (v. 24, 25a) que decidia sobre o destino de um homem que matasse outro. A congrega­ ção devia julgar entre o homicida e o vingador, na base de premeditação, in­ tento eas armas usadas. Quando era cedido abrigo ao homi­ cida (v. 25b,28) dentro da cidade de refúgio, devia permanecer dentro dos li­ mites daquela cidade até a morte do sumo sacerdote, que foi ungido com o óleo sagrado. Uma vez que se cedesse asilo ao matador, o parente do morto já 206
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    não tinha obrigaçãodeempreender qual­ quer vingança, uma vez que a responsa­ bilidade por cobrir o sangue derramado tinha sidotransferida para o sumo sacer­ dote. O homicida tinha de permanecer nacidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote. Porocasião da morte do sumo sacerdote, que era o substituto do vin­ gador de sangue, não havia mais regula­ mento nem necessidade de proteção. O homicida ficava restringido (v. 26, 27), em todo o tempo, dentro dos limites de sua cidade de refúgio. Se saísse da proteção do sumo sacerdote, o vingador de sangue deveria cumprir a lei tribal, e não seria culpado do derramamento de sangue. Depois da morte do sumo sacer­ dote, porém, o homicida voltaria para a terra da sua possessão, sob plena prote­ ção de sua tribo. (4) PormenoresLegais(35:29-36:12) 29 Estas coisas vos serão por estatuto de direito pelas«vossas gerações, em todos os lugares da vossa habitação. 30 Todo aquele que matar alguém, será morto conforme o depoimento de testemunhas; mas uma só testemunhanão deporá contra alguém, para condená-loà morte. 31Não aceitareis resga­ te pela vida de um homicida que é réu de morte; porém ele certamente será morto. 32Também não aceitareis resgate por aque­ le que se tiver acolhido à sua cidade de refúgio, a fim de que ele possa tornar a habitar na terra antes da morte do sumo sacerdote. 33Assim não profanareis a terra da vossa habitação, porque o sangue profa­ na a terra; e nenhuma expiação se poderá fazer pela terra por causa do sangue que nela for derramado, senão com o sangue daquele que o derramou. 34Não contamina­ reis, pois, a terra em que haveis de habitar, no meio da qual eu também habitarei; pois eu, o Senhòr, habito no meio dos filhos de Israel. Asentença de morte não seria imposta a nenhum homicida, senão conforme o depoimentodetestemunhas(v. 30). Uma só testemunha nunca satisfaria a exigên­ cialegal. Não se permitia nenhum resgate (v. 31,32) por um assassino que fosse proclamado pela congregação réu de morte. Também não havia nenhuma ma­ neira de uma pessoa a quem fosse con­ cedido o asilo numa cidade de refúgio poder libertar-se, para regressar ao seu lar, senão depois da morte do sumo sa­ cerdote. A restrição concernente a alguém que derramasse sangue na terra era centrada na pureza da terra (v. 33,34). O sangue que é tragado pela terra clama contra aquele que derramou esse sangue (Gên. 4:10,11). Assim, o sangue tinha de ser coberto ou expiado, a fim de que remo­ vesse a poluição da terra. Tinha-se de manter a pureza da terra por causa da pureza do Senhor, que habitava no meio dos filhos de Israel. 1 Chegaram-se então os cabeças das casas paternas da família dos fUhcfe de Gileadé, filho de Maquir, filho de Manassés, das fa­ mílias dos filhos de José, e falaram diante de Moisés, e diante dos príncipes, cabeças das casas paternas dos filhos de Israel, 2 e disseram: O Senhor mandou a meu senhor que por sortes repartisse a terra em heran­ ça aos filhos de Israel; e meu senhor rece­ beu ordem do Senhor de dar a herança do nosso irmão Zelofeade às filhas deste. 3 E, se elas se casarem com os filhos das outras tribos de Israel, então a sua herança será diminuída da herança de nossos pais, e acrescentada à herança da tribo a que vie­ rem a pertencer; assim será tirada da sorte da nossa herança. 4 Vindo também o ano do jubileu dos filhos de Israel, a herança delas será acrescentada à herança da tribo a que pertencerem; assim a sua herança será ti­ rada da herança da tribo de nossos pais. 5 Então Moisés falou aos filhos de Israel, segundoa palavra do Senhor, dizendo: Atri­ bo dos filhos de José fala o que é justo. 6Isto é oque oSenhorordenou acerca das fi­ lhasdeZelofeade,dizendo:Casem com quem bem parecer aos seus olhos, contanto que se casem na família da tribo de seu pai. 7 As­ sim a herança dosfilhosde Israel não passa­ rá de tribo em tribo, pois os filhos de Israel se apegarão cada um à herança da tribo de seuspais. 8E toda filha que possuir herança em qualquer tribo dos filhos de Israel se casará com alguém da família da tribo de seupai, para que osfilhosde Israel possuam cada um a herança de seus pais. 9Assim ne­ nhuma herança passará de uma tribo a 207
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    outra, pois astribos dos filhos de Israel se apegarão cada uma à sua herança. 10Como o Senhor ordenara a Moisés, assim fizeram as filhas de Zelofeade; 11pois,Macia, Tirza, Hogla, Milca e Noa, filhas de Zelofeade, se casaram com osfilhosde seus tios paternos. 12 Casaram-se nas famílias dos filhos de Manasses, filho de José; assim a sua heran­ ça permaneceu na tribo da família de seu pai. Arestrição anterior, sobre a pureza da terra, fazia parte da restrição também de que uma herança devia permanecer den­ tro da mesma tribo original (36:1-12). Nenhum lote de terra podia ser perma­ nentemente alienado da possessão tribal por qualquer motivo. Este capítulo assinala a natureza evo­ lutiva da legislação hebraica e de suas aplicações. Os cabeças das tribos dos filhos deJoséchamaram a atenção para a contradição aparente entre as leis de herança com relação às filhas de Zelofea­ de(27:1-11). Nãofizeram objeção a essas leis, que davam alguma herança a mu­ lheres que não tinham irmãos. Essas leis foram feitas na base da prática em que sçmente os homens podiam herdar pro­ priedade. Visto que somente os homens herdavam propriedade normalmente, um pai que não deixava filhos do sexo masculino podia ver sua família ser ex­ tinta. Esta situação levou à prática do ca­ samento de levirato, para assegurar que a herança permanecesse dentro da tribo dopai. Aobjeção dos cabeças da tribo de José residia no fator de que, se essas filhas de Zelofeade, que tinham recebido conces­ são de herança dentro da tribo, se casas­ semfora da tribo, a herançadeZelofeade passaria automaticamente para a tribo do respectivo marido. A conveniência de sua objeção é muito clara. Da mesma forma, a solução era clara. As filhas seriam livres para se casarem dentro da triboepreservarem a herança de Manas- sés aoestedo RioJordão. A menção do jubileu dos filhos de Israel (v. 4) não é, de tudo, clara, visto queerapor ocasiãodojubileu que o imó­ vel comprado revertia ao proprietário original. Pode ser que os líderes da tribo de Manassés estivessem desejosos de as­ segurar que a sua herança nunca fosse alienada de suapossessão. 12. Conclusão Referente às Leis na Pla­ níciedeMoabe(36:13) 13 São esses os mandamentos e os precei­ tos que oSenhor ordenou aos filhos de Israel por intermédio de Moisés nas planícies de Moabe,junto ao Jordão, na altura de Jericó. Esta declaração resumidora abrange todos os regulamentos transmitidos nas planícies deMoabe com relação à pureza do culto a Yahweh. Existe uma relação especial entre a(s) pessoa(s) e a proprie­ dade. Tudo que um homem era ou pos­ suía relacionava-se com Deus, a quem cultuava, e era-lhe dedicado. O homem havia de se relacionar com Deus de tal forma que o seu relacionamento com seu semelhante e com a propriedade lhe fos­ sem subservientes. 9 208
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    Deuteronômio JOHND. W. WATTS Introdução I.TrêsInterpretaçõesdeDeutero- nômio Deuteronômio pode ser lido e viven- ciadode, pelo menos, três maneiras dife­ rentes. Em cadacaso, o que o livro tem a dizer variará conforme a abordagem que lhefizermos. 1. A Parte Final do Pentateuco. Em nossas Bíblias de hoje, Deuteronômio constitui a parte final do Pentateuco. Para os judeus do quarto século a. C., era o último livro da Tora, a parte mais autoritária de suas Bíblias. Como tal, representa o discurso de despedida de Moisés, que marca a conclusão de sua notável obra de legislador e feitor da aliança. Deste ponto de vista, o livro apresenta uma reafirmação da aliança e da lei de uma forma que Israel podia obedecerecumprir, à medida qúe entra­ va em Canaã. É provável que o capítulo 34 tenha sido acrescentado aqui nessa época. 2. O Começo da História de Israel. Porém Deuteronômio nem sempre ocu­ pava esta posição. Houve tempo, no sex­ to século a.C., quando constituía a pri­ meira parte da história de Israel, que continha os livros de Josué, Juizes, Sa­ muel e Reis. Quando se lê o livro deste ponto de vista, ele fornece as perspecti­ vas teológicas básicas, a partir das quais a história inteira há de ser interpretada. Suas afirmações características são repe­ tidas muitas vezes nos livros que o se­ guem. Os redatores da história deuteronô- mica providenciaram, para olivro, a sua introdução (caps. 1-4). Também inseri­ ram outras passagens, no decorrer do livro, que fazem referências freqüentes ao exílio e ao castigo inevitável pelos pecados de Israel que o exílio represen­ tava. Deste modo, empanavam a visão essencialmente otimista do livro com um tompessimista, queestá de acordo com a obra histórica que osegue. 3. Um Livro Pactuai. Porém Deute­ ronômio possui uma relevância, uma qualidade dinâmica, e envolve-o uma urgência, que não se explicam por ne­ nhum desses dois pontos de vista. Nós, como o Israel do oitavo ao sétimo século a.C., podemos também considerar estes capítuloscomoum convite à aliança. Pois Deuteronômio é primária e originalmen­ teum livroda aliança. Os capítulos 5-30, especialmente, proclamam este convite à aliança òu reavivamento pactuai. Têm a qualidade de se posicionarem entre on­ tem e hoje, mas estando muito próximos a ambos. Tais Spocas de renovação pactuai são registradas no Antigo Testamento. A úl­ tima é a de Esdras (Neem. 8,9; cf. espe­ cialmente9:38). A descrição parece indi­ car que o livro que foi lido continha as medidas sacerdotais de Êxodo e Levítico. Períodos anteriores de renovação pactuai são registrados em Jerusalém nos rei­ nados de Ezequias (II Crôn. 29:10) e de Josias (II Reis 23). Samuel realizava ce­ rimônias semelhantes no começo da mo­ 209
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    narquia (I Sam.10:25; 11:15), e Josué, no fim de sua vida, desafiou os israelitas auma renovação de sua aliança(Jos. 24). Assim, semelhantes cerimônias de reno­ vação pactuai são registradas no Antigo Testamento a partir da primeira geração depois de Moisés até os meados do quin­ to século a.C. Elas aparecem, muitas vezes, em épocas de mudanças ou crise e são acompanhadas de medidas de refor­ maerestauração. As ocasiões históricas que condizem mais claramente com o espírito e a ten­ dência de Deuteronômio são as de Eze- quias eJosias, especialmente esta última. Não pode haver dúvida de que a porção central do livro de Deuteronômio foi, de alguma maneira, relacionada com a re­ forma de Josias. Porém não é correto atribuir a origem do livro à reforma ou o movimento da reforma ao livro. Deu­ teronômio é uma coleção e edição de tradições que são muito mais velhas que o próprio livro escrito. Estas tradições agrupam-se em tomo de formas pac­ tuais, mas que foram cultivadas em vá­ rioslugares diferentes. II. Como Deuteronômio Tomou Forma Por detrás da composição atual do livro de Deuteronômio se podem traçar muitas formas tradicionais de fala e de literatura. Eram os meios de os mate­ riais eas informações serem transmitidos das épocas em que essas coisas aconte­ ceram. Estas formas e tradições foram preservadas, cultivadas e usadas em co­ nexão com ocasiões de culto observadas pela confederação tribal. As formas tra­ dicionais de culto podem ser traçadas a partir docomeço da história de Israel em Canaã. Não há nenhum motivopara senegar a sua inspiração e origem a Moisés, de acordo com o testemunho unânime da tradição, embora seu desenvolvimento e adaptação, através de vários séculos de uso, indubitavelmente as tenham molda­ do decisivamente. Portanto, a relação de Moisés com a origem destas tradições é uma clara possibilidade. Esta hipótese tem sido realçada, em Deuteronômio, pelo reavivamento da posição-chave do pregador-mediadorda aliança. Paraisso, Moisés era o protótipo inigualado. Cada pessoa sucessiva que cumpria este papel podia, a seu tempo, pensar de si próprio comoo transmissor das palavras de Moi­ sés auma novageração. 1. As Formas na Tradição. Há evi­ dências da influência de fórmulas pac­ tuais por todo o livro de Deuteronômio. A origem última destas fórmulas tem sido plenamente traçada nas alianças antigas das grandes potências com os seus vassalos, desde a época dos hititas, anteriores a Moisés, até os assírios e seus acordos com Ezequias e Manassés. Esses tratados tinham a seguinte estrutura: (1) o preâmbulo; (2) a recitação dos eventos que levaram ao tratado; (3) a declaração doprincípio sobre que sefezo tratado; (4) a lista das medidas especí­ ficas; (5) os deuses convocados para tes­ temunhar; e(6) maldições ebênçãos. As formulações pactuais de Israel se­ guem este esboço geral sob muitos as­ pectos, como mostram Êxodo 23 e 34. Este esboço parece não apenas ter exer­ cido uma influência sobre o começo das formas da aliança em Israel, mas tam­ bém tê-los moldado com um vigor reno­ vado em Deuteronômio. Esta influência aparece nas unidades menores e também na estrutura de seções maiores. Por exemplo: ocapítulo5 écomo a recitação, ocapítulo 6, como a declaração de prin­ cípio, o capítulo 7, uma bênção, e o capítulo 8, uma maldição. Em Deuteronômio, a tensão conscien­ te entre a declaração de princípio (ou o Primeiro Mandamento) e as muitas leis corresponde exatamente à forma de fór­ mulas de tratados na tensão entre a de­ 210
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    claração de princípioe a lista de provi­ sõesespecíficas.1 O uso da história de Israel em relação à aliança também corresponde à recita­ ção dos eventos. Essa relação é sempre usada nos tratados como um tipo,de prova ou argumento, e a coisa que dese­ jam provar influencia a maneira como os eventos são recitados. Este elemento ar- gumentativo é também claramente evi­ dente nas apresentações da lei no Penta- teuco, e especialmente em Deuteronô- mio. As maldições e as bênçãos são outros elementos das formas de tratados, espe­ cialmente evidentes em Deuteronômio (8:19,20; 11:26-32; 27:15-26; 28:1-68). Ordenam castigo para qualquer que vio­ lar a aliança e recompensas para aque­ les que a guardarem. São sempre condi­ cionadas à obediência ou ao cumprimen­ to das estipulações da aliança. Pressu­ põem que Deus está alerta quanto às estipulações da aliança e que proporcio­ nará tanto recompensa quanto castigo. Apesar de não se propor ao registro de um código completo de leis, Deuteronô­ mio contém muitas leis. Elas são para­ lelas a outras coleções de leis, no Antigo Testamento, e semelhantes no gênero. Leis consuetudinárias de diversos tipos são encontradas nos capítulos 12-26. Aquelas que dizem respeito ao rei, ao profetaeà “guerra santa” são peculiares a Deuteronômio. A tendência para dar destaque aoculto “nolugar onde ele fará com que habite o seu nome” é também única. Várias passagens narrativas são conta­ das na primeira pessoa por Moisés. São quase como parágrafos de suas memó­ rias (cf. 1-3; 4:10 e ss.; 9:7 e ss.). Pode 1Quanto à literatura, ver: J. MuUenburg, “The Form and Structure of the Covenant Formulations”, Vetus Testa* mentum, IX, 1959, p. 347-365; D. J. McCarthy, Treaty and Covenant (Roma; Instituto Bíblico Pontifício, 1963); H. B. Huffmon, “The Covenant Lawsuit in the Prophets”, JournalofBiblical Literature, LXXVIII, 1959, p. 285-295; W. Beyerlin, Origins and History of the Oldest Slnattic Traditions(Oxford: Blackwell, 1966). ser que coleções extensas de semelhantes memórias existissem, das quais estas são uma seleção. Narrativas das peregrinações pelo de­ serto aparecem nos capítulos 1-3, en­ quanto uma narrativa que condiz com a biografia mais completa de Moisés apa­ receno capítulo 34. Dois poemas atribuídos a Moisés são inclusos em Deuteronômio. São o cân­ tico (32) e a bênção (33). Dois outros poemas do Antigo Testamento são atri­ buídos a Moisés (Êx. 15; Sal. 90). Ne­ nhum desses poemas tem muito em co­ mum com qualquer dos outros, e cada um deve ser examinado à luz de suas próprias qualidades. Porém está claro quetodoseles têm, por detrás de si, uma longa história. Pode ser que sejam os remanescentes do que era uma coleção muito maior. A forma literária de maior importân­ cia em Deuteronômio é a da oração ou discurso (ou melhor, uma coleção de tais orações ou discursos). O autor usa o pronome pessoal “eu” muitas vezes e dirige-se ao seu auditório com um misto peturbador da segunda pessoa do singu­ lar com a do plural. Este misto de sin­ gular com plural tem constituído um problema para os intérpretes e ainda não se tem conhecimento de nenhuma expli­ caçãoplenamente satisfatória. O tom básico dos discursos é o do pregador ou exortador. Eles situam-se dentro da tradição de orações de despe­ dida conhecidas de outros lugares (Jos. 23; I Sam. 12; I Crôn. 22 e 29). Mas também são de perto relacionados à constituição ou renovação de uma alian­ ça, como, na realidade, são também os outros. Usam materiais da história sa­ grada de Israel, formas relacionadas com a aliança eformulaçõeslegais. Muitos grupos de leis, e leis isoladas, antigos são preservados em Deuteronô­ mio. Algumas destas leis paralelas estão no Código da Aliança (Êx. 21-23) ou no assim chamado Código da Santidade 211
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    (Lev. 17-25). Masalgumas antigas apa­ recemsomenteem Deuteronômio. A ten­ dênciapara apresentaras leis de maneira exortativaéevidente no Código da Santi­ dade e em outras declarações da lei, inclusive no Decálogo. Porém o sermão legaleaexortação para a guarda das leis da aliança chegam à sua expressão clás­ sicaeplenaemDeuteronômio. A estrutura desenvolvida destes dis­ cursos em Deuteronômio trata, norma- tivamente, em primeiro lugar, de uma seção da história sagrada. Então segue uma série de sermões sobre temas apro­ priados, relacionados com essa história procurando fazer com que Israel se de­ dicasse mais completamente ao serviço do Senhor dentro da aliança. O esboço seguinteexporá issoclaramente. 2. AsOrigens das Tradições Pactuais. Muitas vezes se tem pensado em Siquém como sendo o berço das tradições pac­ tuais mais primitivas de Canaã. Existem evidências bíblicas abundantes para esta associação. A referência direta a ceri­ mônias de bênção e maldição, que deve­ riam ser realizadas nas montanhas de Ebal eGerizim, próximas a Siquém (27), éprova desta associação. Há muitos outros sinais de que a fonte domaterialagora achado em Deuteronô­ mio se situava na parte setentrional de Israel. As idéias dominantes da aliança em Jerusalém estavam relacionadas com Davi e Sião, com muitas características em oposição direta às provisões condicio­ nais da aliança em Horebe. Deuteronô­ mio é meticuloso em evitar essas idéias e fundamenta-se claramente na aliança em Horebe. Se é verdade que as fontes de Deute­ ronômiojazem no Norte, a destruição do Reino Setentrional, em 721 a.C., pelos exércitos assírios, tornou a fuga para Judáumanecessidade. Esteacontecimen­ toteriafeitocomqueosguardiOesrespon­ sáveispela tradição considerassemJudáe Jerusalém como asúnicas portadoras res­ tantes dessa aliança. A esperança para o futuro repousavanelas(Nicholson, p. 58- 82). Gilgaléoutrolugaronde sepodejulgar que as tradições pactuais tenham sido preservadas. É o local onde o livro de Josué registra as primeiras reuniões sa­ gradas em solo cananeu. Samuel convo­ cou todo o Israel para se congregar ali. Amós, apenas um pouco mais que duas gerações antes da destruição de Samária, referiu-o como um santuário em funcio­ namento(4:4). A tradição da conquista teria, com mais plausibilidade, estado em seu am­ biente próprio em Gilgal, junto com as tradições da ‘‘guerra santa”, tais como são registradas em Josué. Ambas estas tradições tiveram influência considerável sobre Deuteronômio, e podiam ser me­ lhor explicadas por uma ligação direta com as tradições de Gilgal. Também se tem pensado na tendência para se falar no que Deus espera dos homens em aliança com ele em termos de um único grande mandamento, como originário de Gilgal, como foinotado acima. Semelhantemente a Siquém, Gilgal deixou de funcionar, com a queda de Samária. Uma continuação de seu traba­ lhoeinfluênciasó teria sido possível pela emigração para Judá. Jerusalém foi o lugar onde Deutero­ nômio exerceu a sua influência sobre Josias e as gerações posteriores. O livro não faz, de maneira nenhuma, referência a tradições de Jerusalém sobre a aliança ouideais de remado davídicos. Nem mos­ tra qualquer sinal de ter algo a ver com as tradições do sacerdócio de Jerusalém, registradas em Levítico. Se faz alguma declaração a respeito, é em contrário a elas. Esteposicionamento é suficientemente claro para fazer com que um escritor se referisse a isso como uma convocação a uma fé desmitologizada, um culto des- ritualizado e uma lei deslegalizada. Ele refere-se às suas tendências secularizan- 212
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    tes, humanizantes eindividualizantes, quetransformaram uma religião cultural numa religião dolivro.2 Porém está igualmente claro que Deu- teronômio teve de conquistar aceitação emJerusalém, do contrário, não teria,so­ brevivido. Existe um número de pontos importantes em que Deuteronômio ado­ tou e adaptou pontos de vista originários de Jerusalém. A doutrina da eleição de­ sempenha um papel central em Deutero­ nômio. Seu conteúdo é o da 'aliança de Horebe e das tradições de Siquém, mas o seu vocabulário é o de Jerusalém e das tradições davídicas. 3Além disso, foi ela­ borado de modo a aceitar e apoiar as tentativas de Ezequias (II Reis 18:4,22) e de Josias (II Reis 23:8) de centralizar o cultoemJerusalém. Portanto, uma visão das origens de Deuteronômio que vê as suas fontes no Norte, mas a sua composição real em Jerusalém ou Judâ depois da queda de Samária, em 721 a.C., pareceria fazer jus a todos esses fatores (Nicholson, p. 94e ss.). Embora certas mudanças nas teses centrais fosseip necessárias pelo re­ conhecimento de que o futuro jazia em Jerusalém, o livro mantinha uma atitude bem diferente, para com as tradições de Israel, daquela representada pelo sacer­ dócio no Templo ou pela ideologia real tradicional, como avemos nos Salmos. 3. PregadoresdaAliança. Quem eram estes pregadores das tradições da alian­ ça, que transmitiam estas tradições, de­ ram o seu cunho distintivo a Deuteronô­ mio e ousavam desafiar Israel, em nome de Moisés, para restabelecer a aliança? Apergunta nãoé fácil de seresponder. Muitos intérpretes chamam a atenção para a influência dos profetas principais e consideram as pessoas que compuse­ ram Deuteronômio como pertencentes a 2 Weinfeld, "Deuteronomy — The Present State of the Inquiry”, Journal of Biblical literature, LXXXVI, 1967, p. 249-262. 3 R. E. Clements, “Deuteronomy and the Jerusalem Cult Tradition”, Vetm Te»Umentum, XV, 1965, p. 300-312. círculos proféticos. Porém o livro mostra um interesse positivo pelas formas ri­ tuais, o que é muito invulgar nos profe­ tas. Outros, hoje, apontariam para os escribas ou sábios. Conquanto a influên­ cia deles possa explicar muitas coisas contidas em Deuteronômio, nunca pare­ cem ter falado ou escrito com o fervor da convicção ou se terem atido tão firme­ mente às tradições sagradas antigas de Israel comofazDeuteronômio. A sugestão mais plausível indica os levitas, que originalmente assistiam a santuários na Norte, mas então migra­ ram para o Sul, depois de 721 a.C. Em cooperação chegada com “o povo da terra” em Judá, vieram a ser os maiores apoiadores tanto de Ezequias como de Josias. O seu interesse e tarefa princi­ pais eram a preservação das tradições pactuais antigas e o ensino delas a cada nova geração (von Rad, Deuteronomy, p. 24ess.). Não há dúvida de que as críticas pro­ féticas, tanto do culto como da casa real, tinham desempenhado um papel em moldar as atitudes bem diferentes que Deuteronômio toma em relação a estas coisas. Pode também ser que o ensino dos sábios que atuavam durante o rei­ nado de Ezequias tenha desempenhado um papel nas tendências secularizante e humanizante evidentes em Deuteronô­ mio. Porém o programa positivo e otimista apresentado, bem como a maneira fervo­ rosa em que se insiste nelejunto ao povo denotam a obra de pregadores, tais como os levitas, e um programa político de re­ forma, tal como o proposto por Ezequias ou Josias, com o apoio do povo. Con­ tudo, não parece haver motivo para se supor que essa atividade não tenha tido lugar em Jerusalém. Esse é o lugar onde teria de conquistar aceitação, a fim de ser de qualquer maneira efetivo (Cle- ments, p. 20). 4. Tradições Sagradas. Os pregadores de Deuteronômio pertencem à linha de 213
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    tradição que surgiuda antiga confedera­ ção tribal. O lugar que o livro tem che­ gado a ocupar no Pentateuco é plena­ mentejustificado, pois o Pentateuco é o repositório dessas tradições. Deuteronômio inteiro visa claramente a renovação epropagação da aliança em Horebe ou Sinai. Como tal, é devida­ mente entendido como uma redação de documentos pactuais relacionados com essatradição. Outros se podem achar em Êxodo 20-23;34 e Números 10. O repo­ sitório principal da tradição da aliança em Horebe, em Deuteronômio, encontra- se no capítulo 5, mas o livro está repleto dereferências a ela. Como em todas as expressões penta- teucais da aliança, Deuteronômio tam­ bém depende das tradições do êxodo, embora façam parte normalmente ape­ nas do pano de fundo. Recorre-se a estas tradições na identificação de Deus como o redentor de Israel; e recorre-se a elas também como ao acontecimento histó­ rico básico que tomou a aliança e a exis­ tência deles como um povo possíveis (cf. 5:6; 13:5; 16:6; 20:1). Estas tradições são paralelas ao depósito primordial da tradição no livro deÊxodo. A tradição da conquista de Canaã de­ sempenha umpapel importante nos capí­ tulos 1-3 e nos regulamentos para a “guerra santa”. Estes dois aspectos são naturais à ênfase, em Deuteronômio, so­ bre seu contextoem Parã, antes do come­ ço da conquista propriamente dita, uma ênfase que ganhou importância à me­ dida que Deuteronômio se desenvolveu através dos diversos estágios que acres­ centaram o capítulo 7 aos capítulos 5 e 6 e que, mais tarde, acrescentaram os ca­ pítulos 1-3, pela mão do historiador deu- teronômico. A fonte desta tradição pare­ ceter sidoGilgal. Aconquistaem si é vista coerentemen­ te como aguardando Israel no futuro, embora grande parte da preocupação do livro trate dos pormenores da vida na terra. A porção desta tradição que diz respeito à peregrinação no deserto é refe­ rida muitas vezes na pregação dos capí­ tulos 8-11 e descrita detalhadamente nos capítulos 1-3. Tradições paralelas, no Pentateuco, podem ser achadas em Nú­ meros. Outro elemento antigo que aparece nos preparativos para a conquista diz respeito à guerra santa. Esta era uma guerra “declarada, dirigida e ganha pelo próprioYahweh”.4 Estas guerras tiveram lugar, confor­ me parece, por várias ocasiões quando a existência de Israel foi ameaçada duran­ te o período dosjuizes. É digno de nota que estas guerras foram mais exaustiva­ mente descritaseestimuladas por Deute­ ronômio numa época quando semelhan­ tes conquistas e a possibilidade de tais triunfos militares já se tinham ido havia muitotempo. Isso pode ser explicado pela proximi­ dade de Deuteronômio das tradiçõespac­ tuais de Gilgal, que também subjazem na composição dos primeiros capítulos de Josué. Ê claro que a “guerra santa” foi profundamente arraigada nessas tra­ dições que se relacionavam de perto com todo otema da conquista de Canaã. Em Deuteronômio, “a história inteira de Is­ rael é apresentada como uma guerra santa, e o passado é uma garantia do futuro”.5Parece queuma das caracterís­ ticas dessasguerras santas era uma exor­ tação ao exército para não temer, mas para prever a vitória do Senhor. Além das leis nos capítulos 21-23, esses dis­ cursos têm sidousados com grande efeito em certo número de sermões no livro. Antes que se pense na aplicação do conceito da guerra santa em alguma for­ ma moderna, dever-se-á lembrar que o reavivamento e reaplicação de uma visão 4. InterpretersDictionaryoftheBibleVol. R-Z, p. 796-801. Cf. também N.K. Gottwald, “Holy War’ in Deuterono­ my”, Review and Expositor, LXI, 1964, p. 296-310; Ro­ land de Vaux, Ancient Israel: Its life and Institutions. (New York: McGraw-Hill, 1961), p. 258-265; von Rad, Studies in Deuteronomy, p. 45-59. 5. de Vaux, op. dt., p 264. 214
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    davida, em queDeus, inequivocadamen- te, dá apoio a Israel e aos seus dirigentes contra as nações, aparece somente em Isaías 1-39 e em Deuteronômio. Jere­ mias, nos capítulos 1-45, não a admitiu. Ê evidente que ele e escritores posterio­ res viram o assunto de um ponto de vista contrário: o Senhor lutava contra Israel, para o levar para o exílio. O único lugar que a profecia posterior dá a estes qua­ dros é dentro de uma perspectiva dos eventoscataclísmicos dos “últimos dias”. É óbvioque o NovoTestamento não con­ siderao povo de Deus de uma forma que permitisse a aplicação de semelhante pensamento, tampouco concebe a apli­ cação a qualquer sociedade secular mo­ derna que corresponda a estas condições. Além das citadas, subentendem-se tradições patriarcais em termos da pro­ messa da terra de Canaã, que agora es­ tava por ser cumprida na conquista. As tradições básicas e típicas de Jerusalém são deixadas de lado, sem nenhuma re­ ferência a Sião ou a Davi. A inclusão necessária de leis concernentes ao san­ tuário central e ao rei são mantidas pro­ positadamente indefinidas quando à no­ menclatura. 5. Resumo. A origem de Deuteronô­ mio se há de entender como firmemente fundamentada no meio de tradições, for­ mas e cerimônias das tradições pactuais antigas de Israel. Sem dúvida, estas últi­ mas têm moldado a forma do livro de maneiras essenciais. Porém estas tradi­ ções são apresentadas de uma forma adaptada, quepressupõe as condições de um Estado organizado, tal como existia em Judá dos séculos oitavo ao sétimo, e não como as do período dos juizes, com tribos autônomas(Nicholson, p. 52). Essas tradições foram transmitidas através de gerações de famílias levíticas, em santuárioscomo Siquém e Gilgal, até que a destruição do Reino do Norte, em 721 a.C., impossibilitou a continuação de seu serviço nesses lugares. Alguns dos representantes dessas famílias migraram para o Sul, para Judá e para Jerusalém, trazendo com eles as suas tradições. Mas trouxeram mais: trouxeram a fé resoluta e otimista na viabilidade da aliança e a certeza da suà eleição como o povo de Deus que dizia respeito a todo o povo de Israelsob a aliança. Sob a compulsão desta fé, moldaram as tradições da aliança em sermões, que já não precisavam das cerimônias com­ plexas e completas de renovação da aliançapara a sua expressão. Reinterpre- taram ereforçaram a doutrina da eleição em termos emprestados de Jerusalém, mas com o conteúdo de Horebe. E ado­ taram o princípio de um santuário cen­ tral, como a base para a reforma religio­ saepolítica, de acordo com os princípios da reforma deEzequias. Para isso, adap­ taram o ensino antigo da confederação, quetinha uma só arcaequeconvocava as tribos para seunirem ao redor dela. III. OLivro 1. OÂmago. Sem dúvida, se descobre o âmago do livro nos sermões sobre o Primeiro Mandamento, nos capítulos 5-11. Seu estilo apelativo-exortativo tem dado ao livro em sua inteireza seu tom e forma significativose únicos. Os sermões derivam a suaforma comoumaparte das cerimônias de renovação da aliança nas quais olíder, como medianeiro, expunha ao povo a base da aliança pela recitação de elementos de tradições sagradas, e entãoo exortava à aceitação do princípio da aliança que é expresso por variações doPrimeiro Mandamento. Evidentemente, estes sermões tinham como meta a apresentação pública. Não está claro se se relacionavam a cerimô­ nias formais de renovação da aliança ou se simplesmente derivaram sua forma e substância de tais cerimônias, enquanto, na realidade, visavam apresentação mais freqüente emenos formal. 215
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    Cadaum delesé formado,claramente, de duas partes; primeiro, se relata uma narrativa histórica, de uma seção impor­ tante de tradição sagrada relacionada à aliança, na primeira pessoa, com Moisés como o orador; então segue uma exorta­ ção, ou série de exortações (como em 5:1-31 e 9:9-11:25), dirigida a Israel, ur­ gindo que ele se dedicasse totalmente ao Senhor. A idéia básica, por detrás da composi­ ção dos sermões, parece ter sido a unifi­ cação de diversas tradições, num pedido encarecido de aceitação de uma aliança, oferecida de novo, conforme o padrão daquela de Horebe, e de lealdade a ela. Eles bem podem ter estado dispostos a apoiar um reavivamento de autêntico “yahwismo”, em Judá, no período que testemunhava o reavivamento e reforma deEzequias. A revisão e expansão destes sermões acrescentaram elementos da tradição de Gilgal no capítulo 7 e o sermão nos capítulos 8 e 9:1-8. Provavelmente, inse­ riram 9:22-24e a seçãofinal de 11:18-25. 2. As Leis. Ã medida que esse movi­ mento ganhava corpo, ou com relação às medidas reformistas de Ezequias ou sob a sua influência, o pedido encarecido para que se aceitasse o princípio básico dealiança levaà afirmação pormenoriza­ da das condições da aliança. Esta última érepresentada nos capítulos 12-26. O es­ tilo exortativo continua, embora a pro­ porção deleissemexortação aumente até o capítulo 25. A conclusão desta seção, em 26:16-19, indica claramente que foi preparada para uso em cerimônias ge­ nuínas de renovação da aliança. Neste período ou um pouco depois, a seção de sermões sobre o Primeiro Man­ damento (5-11) foi unida à seção que apresentava as condições pormenoriza­ damente (12-26). Esta (talvez com algu­ mas partes do capítulo 28 e o acréscimo, um pouco mais tarde, do capítulo 27), então, teria constituído o livro que o rei Josias achou no templo em 621 a.C. (II Reis 23). É certo ver esta parte de Deuteronô- miocomo relacionadas intimamente com os acontecimentos em Judá durante os reinos tanto de Ezequias como de Josias. O livroreflete a repulsa e a reação de seu autor contra a política administrativa e as práticas dos reis Acaz e Manassés. Porém não se deve pensar numa relação chegada demais. Estas reformas não se realizaram por causa de Deuteronômio nem é Deuteronômio o resultado desses movimentos. (Cf. o estudo completo do problema em Nicholson, p. 1-17, e von Rad, Deuteronomy, p. 27,28). O livro foi uma apresentação coerente da oferta e exigências de aliança em termos rele­ vantes para os últimos 125 anos de exis­ tência do Reino do Sul. Nesta proclamação zelosa da aliança e lei mosaica, a influência dos profetas e dos sábios pode ser traçada. O programa do “povo da terra” que apoiou Josias também pode ser visto nela. Porém ne­ nhum deles tinha o ponto de vista posi­ tivo e otimista da aliança, o acesso aos pormenores das tradições da aliança de Israel e a visão aberta para ver o uso criativo por parte de Deus, naquele pe­ ríodo, que teria tomado este tipo de pre­ gação possível. Os escritores deste notá­ vel e significativo documento deverão, commaisprobabilidade, ser achados nas fileiras dos mesmos pregadores levíticos que o trouxeram dos santuários ances­ trais (von Rad, Studies in Deuteronomy, p. 60-69, eDeuteronomy, p. 25). Neste livro os escritores refletem a in­ fluência de todos esses outros grupos. A força das reformas que propõem está na maneira em que diversos elementos da população de Judá são agregados para formar um sópovo, sob um Deus, numa só'terra. 3. A “Inclusão” do Deuteronomista. Um pouco antes do exílio, preparou-se uma grande história de Israel. Abrangia 216
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    operíodo docomeço davidade Israel em Canaã até uma data bem perto do fim do Reinodo Sul(i. e. por volta de 600 a.C.). Essa história é agora apresentada em Deuteronômio, Josué, Juizes, Samuel e Reis. Já aceita o fato do reino conforme os pronunciamentos proféticos dejuízo e sepropõe a mostrar osfundamentos para esse juízo, por comentários redatoriais sobre os livros de material histórico e tradicional, que o historiador inclui em suahistória. Parece que Deuteronômio foi incluído pelo autor como a primeira seção da obra maior que proporcionou as bases teoló­ gicas para sua perspectiva histórica. (Esta interpretação foi apresentada pela primeira vez por Martin Noth e tem conseguido larga aceitação. Cf. Nichol- son, p. 107 e ss.). Ao incluir Deuteronô­ mio na obra maior, o autor providenciou uma estrutura, para o livro, que fez com que melhor lhe servisse ao propósito. Essa estrutura incluiu o prefaciamento do livro com uma primeira fala de Moi­ sés, nos capítulos 1-4, e o acréscimo de um terceiro discurso e dois poemas, nos capítulos 29-33, que realça especialmen­ te a sucessão na liderança e abre o cami­ nho para a obra de Josué no livro se­ guinte. O deuteronomista(como sechamaeste historiador) deixou de lado o convite otimista para um futuro promissor, na condição de Israel obedecer. Destaca sua tendência para pecar e a necessidade do juízo, que haviade caracterizar a história comoum todo. 4. ARevisão Exílica. Ahistória deute- ronômica inteira foi, conforme parece, sujeita a uma revisão minuciosa durante oexílio. Arevisãorealça o resultado final dalonga história do pecado e rebelião de Israel por referências específicas ao exí­ lioporvir. O livro de Deuteronômio não escapou dos efeitos dessa revisão e um certo nú­ mero de parágrafos do livro mostra as suas marcas (por exemplo, 30:1-10). O desígnio desta inclusão e revisão foi o de mudar muito o que diziarespeito à inten­ ção original do livro. Ao invés de apre­ sentar um convite aberto para se aceitar a oferta de Deus para a vida e a prospe­ ridade “hoje”, tomou-se parte de uma longa explicação do porquê de as pro­ messas originais e a obra de Deus já não serem disponíveis ao Israel sobjuízo. 5. Inclusão no Pentateuco. Depois do exílio, o conjunto de escritos que conti­ nham as palavras e obras de Moisés transmitidas foi coletado por redatores sacerdotais, para se tornar no cânon de escrituras autorizadas para a comunida­ de judaica. É possível que o papel de­ sempenhado por Deuteronômio antes do exíliotenha servidocomo modelo. Esses redatores separaram a parte da história deuteronômica que trazia o no­ me de Moisés, do restante. Desta manei­ ra foi que Deuteronômio veio a ser a conclusão do Pentateuco. Ao assim fa­ zer, inseriram algumas partes pequenas de seus próprios materiais (1:3; 4:41-43; 32:48-52; 34:1a, 7-9). Talvez sejam res­ ponsáveis pela adição de todo o trigé­ simo quarto capítulo como um encerra­ mento, apropriado à vida e obra de Moisés. Este último passo, na formação de Deuteronômio, restaurou-o a um contex­ to que podia ressaltar a abertura para o futuro e permitir que a sua chamada para a obediência “hoje” fosseouvida. IV. Moisésem Deuteronômio O livro de Deuteronômio não está in­ teressado em Moisés principalmente co­ moindivíduo, como homem. Está é mui­ tíssimo preocupado com Moisés como alguém que representa um papel essen­ cial na vida e existência continuada do povo de Deus. O livro tem plena cons­ ciência da necessidade do momento que o povo tinha do ministério de Moisés — porém está igualmente consciente de que 217
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    Moisés não permaneceriavivo através dosséculos da história de Israel. De fato, ele morreu antes de Israel entrar em Canaã. Mas o povo continuou a viver como o povopactuai de Deus. Moisés, o homem, era descartável no plano de Deus (não se lhe permitiu que continuasse a viver). Porém oMoisés nopapel de mediador da aliança, legisladore líder carismático era indispensável. O livro que estamos consi­ derando foi escrito para mostrar como Moisés sobreviveu através dos séculos, além de sua morte, na corrente constan­ te daqueles que ocuparam o seu lugar e que assumiram as funções dele, cada um, a seu modo, sendo o novo Moisés, embora nenhum pudesse ser julgado co­ moseigualando na estatura espiritual do próprio Moisés(34:10-12). A essência em si do livro, que sejulga ser aparte mais antiga, diz respeito prin­ cipalmente a Moisés como ogrande legis­ lador e mediador da aliança. Vê a lei divina como a que vinha originalmente de Horebe, mas é também entendida como uma coleção crescente, sob a ad­ ministração de Moisés, durante os perío­ dosem Cades-Baméia até as planícies de Parã. Não é a relação com Horebe, mas, sim, a égide de Moisés que lhe dá auto­ ridade. A necessidade desta função essencial de Moisés não cessou com a entrada em Canaã. Precisava-se manter a atualidade da aliança para cada novo capítulo da história do povo de Deus. O papel de Moisés, bem como o manto da sua auto­ ridade podiam ser continuados dentro da tradição e das cerimônias da renovação da aliança como o livro em questão mos­ tra. Assim, a lei tinha também de ser atualizada da mesma maneira. Reivindi­ cava-se a autoridade de Moisés, quando a lei era proclamada, por ocasião de cerimônias pactuais e em ligação chega­ da com a recitação das tradições antigas e a exortação de princípios básicos da relação de Deus com o seu povo. Assim, as novas adaptações tinham de ser feitas de tal modo que se casassem com as antigas e de direito se encaixassem nas tradições relacionadas com a lei original ecom olegisladororiginal. O ofício de mediador era igualmente importante. Moisés posicionava-se entre o Senhor e o povo. Orava a Deus em prol do povo e implorava diante do povo emprol de Deus. Este conceito essencial­ mente sacerdotal do ofício de mediador nada tinha a ver com o sacrifício em Deuteronômio. Antes era uma interven­ ção altamente pessoal, por parte de uma pessoa, entre Deus e o homem. Era entendida como essencial para a forma­ ção ou para a renovação da aliança (9:8- 21,25-29; 10:1-5; 10,11). Ascerimônias de renovação da aliança também tornaram possível que esse pa­ pel essencial fosse preenchido mais tar­ de, em Israel, por alguém que agisse no lugar de Moisés, falando, orando, implo­ rando em prol de uma geração contem­ porânea, como tinha feito Moisés. As cerimônias transportavam a geração con­ gregada de volta a Parã, em espírito, para lhe permitir experimentar a renova­ ção dosvotos sob Moisés, antes de entrar na Terra Prometida. Isto forma um pa­ ralelo com a maneira como uma família judaica agora experimenta a fuga do Egitona Páscoa (Êx. 12) ou uma congre­ gação cristã experimenta opartir do pão com o seu Senhor à sua mesa (I Cor. 11:23-25). Os capítulos inicial e final de Deute­ ronômio, que constituem a moldura para o ponto central, estão profundamente preocupados com um outro elemento do papel de Moisés: sua liderança do povo. Estes capítulos foram, provavelmente, escritos em sua forma atual como uma introdução aos livros de Josué a II Reis inclusive. O problema da sucessão no ofício e no poder é grande. Este aspecto da obra de Moisés não podia ser trans­ mitido simplesmente pela identificação formal durante um ritual pactuai. Um 218
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    homem dotado ecapaz tem de ter o poder de agirpor direitopróprio. Para solucionar essa questão, os capí­ tulos dão ênfase ao fato óbvio de que o Senhornão permitiu que Moisés atraves­ sasse o Jordão (1:37,38; 3:23-28; 31:2b; 32:48-52; 34:1-8). Na vontade de Deus não hã nenhuma intenção que a sua obra seja presa a apenas um homem. Josué já fora escolhido para a tarefa. Estes capí­ tulosrealçam a transmissão, por Moisés, de sua autoridade a seu sucessor, confor­ me as instruções do Senhor (1:38; 3:28; 31:3-8; 14,15,23; 32:44; 34:9). O pro­ pósito teológico e prático destaca-se cla­ ramente em 31:3-6. A fonte real de lide­ rança, poder e direção não se achava em nenhum homem, nem mesmo em Moi­ sés, mas, sim, no Senhor. O Senhor diri­ gia, e ele providenciaria novos líderes. Por este motivo se ordenou à liderança velha que estivesse pronta para transmi­ tir seu poder e autoridade àquela esco­ lhidapelo Senhorpara a suceder. Assim, o livro de Deuteronômio se preocupa em realçar a autoridade origi­ nal de Moisés e a relação dele com os termos da aliança proclamados “hoje”. É muitíssimo consciente do problema colocado pela passagem do tempo e o fato óbvio de que Moisés já não estava realmente presente. Também não era ele responsável, literal e diretamente, quan­ to acada particular da lei, que tinha sido emendada e ampliada, para correspon­ deràs condições sob mudança. Tampou­ co eram os sermões literalmente dele, poiseles também tinham sido aplicadosa problemas habituais que ameaçavam a existência dopovo da aliança. O livro reivindica autenticidade e inte­ gridade para esta nova proclamação da aliança em termos de uma tradição e cerimônia válidas da mediação da alian­ ça mosaica, que é afirmada e pela qual todas as variações do modelo atual deve­ rão ser testadas. Reivindica autenticida­ de e integridade para a liderança atual sob a aliança, ressaltando que a lide­ rança, em última análise, pertence so­ mente ao Senhor, que providencia uma sucessão de líderes, para herdarem o manto de Moisés e ocuparem o seu lugar delíder dopovode Deus. Desta maneira, Deuteronômio não he­ sita em colocar tudo isso na forma de um discurso de Moisés. O leitor moder­ no, conquanto mantenha presente em suamemória a perspectivaeaplicação da história, pode, com mente igualmente lúcida, ver a sombra estirada e ouvir o eco autêntico, mesmo que distante, nes­ tas páginas, de um dos maiores homens quejá andou nesta terra. V.O QueÉoDeuteronômio? Depois de vermos a história deste livro como um documento de reforma da aliança e como um discurso de Moisés, integrando história, leis e exortação, a questão de seu significado, para o leitor moderno, é apropriada. Duas respostas importantes apontam seusignificado his­ tóricoesua aplicação contemporânea. 1. ÊumMarcoTeológico Deuteronômio assinala um ponto mui­ tíssimo significativo da história religiosa de Israel, que deverá ser examinado jun­ tamente com outros fatores formativos dessahistória. Sua documentação de um ponto de vistasobre Deus. —Deuteronômio apre­ sentacoerentementeumconceito deDeus que é menos antropomórfico que o da maior parte do Antigo Testamento. É dado menos destaque à santidade, mas muito mais à atitude, alvo e propósito. Arelutância para se falar da presença de Deus expressa-se na assim chamada “teologia do nome”, na qual não Deus masoseunome habitará entre oseupovo (von Rad, Studies in Deuteronomy, p. 37-44). Porém há realmente pouca tentativa de definirou ampliar esseponto devista. Seupontodevista sobre as instituições de Israel. — A atitude para com o rei é 219
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    pragmática e secular.O templo, o sacer­ dócioeosacrifício são apresentados mais em termos de ensino do que como meios de poder e graça divinos. Esta atitude é suficientemente notável para ser chama­ da de antimítica, anti-ritual, anticlerical e antilegal. Tende a secularizar as ins­ tituições e considerá-las racional e pra­ ticamente. Esta abordagem pragmática e racional explica a ausência de certas ênfases teo­ lógicas no livro. Isso é visto na falta de amplitude em sua interpretação dos sím­ bolos religiosos que tinham sido comuns em Israel. Há uma certa monotonia, um tom racionalista. Não há nenhuma de­ claração completa da presença de Deus entre seu povo. O ponto de vista exposto parece situar-se algures entre uma com­ preensão da real presença de Deus no Templo euma descoberta dessa presença pela habitação interior do Espírito de Deus. Uma semelhante falta de ênfase per­ meia a sua descrição da santidade, tanto em termos da santidade de Deus, como da santidade de seu povo. Deuteronômio entende a santidade do povo como algo que o coloca à parte, mas não destaca nada das dimensões mais dinâmicas da santidade, que explicam a essência da culpa e que requeriam expiação como um dos alvos do sacrifício. Suas descri­ ções de sacrifícios são feitas tão-somente em termos de dádivas aDeusem ações de graças. A força de Deuteronômio acha-se em sua apresentação persuasiva de doutri­ nas práticas, dentro de uma estrutura de reavivamento religioso, baseada nas an­ tigas tradições sacras de Israel. Todas elas mostram Israel como um povo dedi­ cado a um só Deus. Destaca comprome­ timento e relações pessoais, muito embo­ ra, em assim fazendo, fale em termos do povotodo. SeupontodevistasobreIsrael. —Deu­ teronômio concebe Israel como a assem­ bléia congregada, ouvindo e recebendo o anúncio da aliança. Realça a eleição divina de Israel nos termos da aliança. Fé e dedicação voluntária a Deus na aliança são patentes em Deuteronômio. Haviam de ser exercitadas pelo povo in­ teiro. Por conseguinte, o povo inteiro era tidocomo responsável pelo cumprimento dasprovisões da aliança. Deuteronômio não é, de maneira ne­ nhuma, uma declaração teológica com­ pleta. Falta-lhe um alvo na História, além da ocupação de Canaã. Não contém nenhuma escatologia. Não se evidencia nenhuma missão em Deuteronômio. Aparentemente, vê eleição como para a nação de Israel somente. Retrata uma religião do Estado. Não define nenhuma limitação clara entre o indivíduo e a comunidade. Tampouco existe um fun­ damento universal, para a compreensão dessa eleição, como é apresentado na pré-história de Gênesis 1-11. Existem também graves inconsistên­ cias ou lacunas no livro. A relação entre obediência e recompensa é colocada em termos que dificilmente resistem a um exame cuidadoso, se essa relação se pro­ põe a ser um princípio em torno do qual sehão deorganizar as realidades da vida. Seu registro de pregação. — Deutero­ nômio claramente ilustra um meio de comunicação cuja importância aumen­ tou em Israel. O livro alcançou sua larga influência e seu lugar de enorme signi- cado nojudaísmo eno NovoTestamento, como uma recapitulação popularizada das tradições mosaicas, incluindo histó­ ria, exortação e lei em estilo homilético. Como tal, não busca ser completo na lei ou na teologia. Exorta à aceitação, à dedicação e à obediência. Visa a pratica­ bilidade, a simplicidade e a aplicação pessoal. Eis o que o pregador e o evange­ lista devem fazer em cada geração..E fa­ zê-loextremamente bem. O ponto de vista de Deuteronômio, apresentado por von Rad, como um en­ sinamento e pregação populares da lei para olaicato permanece como a explica- 220
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    çâomais satisfatória dolivro. Busca con­ quistarocoração dopovotodo. Deuteronômio consegue esse alvo de maneira notável.,Em sua recitação da história sagrada, mostracomo a doutrina se há de basear nela e dela ser extraída. Nèsta pregação e ensinamento práticos da teologia mosaica, põe-se em relevo a unidade de Deus e a unidade do povo. A aplicação destes princípios é tanto pessoal quanto prática. Aplica a doutri­ na da eleiçãoa todas as áreas da vida. Moisés fala nestes capítulos. Porém a linguagem do texto é claramente o he­ braico do sétimo século a.C., do mesmo tipo que achamos em Jeremias. O livro é dirigido a uma nação unificada, e não às tribos frouxamente ligadas da antiga* confederação. Muitas coisas confirmam data mais posterior para o livro. Em que sentido, então, Moisésfala? O livro relaciona-se claramente com a renovação da aliança. Afirma expressa­ mente que esta aliança é a mesma que MoisésfezemHorebeerenovouem Parã. Estas cerimônias de renovação da aliança ajudaram gerações posteriores de israeli­ tas a se identificarem com aqueles que estiverampresentesem Horebe ea enten­ derem que as palavras de Moisés eram permanentes, aplicáveis a eles tanto quanto à primeira geração. Pode-se ad­ mitir que o pregador da lei, quando em cada ocasião sucessiva proclamou a lei revisadapara a aliança, fê-loem nome de Moisés. Deuteronômio fala, todo ele, com um forte senso de história e da relação de Deus com a História. Exala a proclama­ ção de uma nova oportunidade: a graça deDeus oferece ao povo uma nova alian­ ça. Oferece a vida ou a morte. Em assim fazendo, o livro ressalta a necessidade de escolhereoresultado fatídico da escolha. O privilégio da escolha é da graça. O ato da escolha precede a resposta divina em salvaçãooujuízo. Em termos de ética, o ensinamento deuteronômico subordinava as exigên-. cias da lei à total dedicação a Deus — uma dedicação exposta em termos de amor. A pregação da lei só era apropriada onde um senso de total dedicação ao legislador estivesse presente. A primeira tarefa em pregar a lei era reclamar essa dedicação. A lei tinha que ser entendida em fun­ ção da aliança. Estaera uma aliança ofe­ recida pelo Soberano supremo. Reque­ ria: um convite à dedicação total ante­ cedendo à lei; uma estrutura pactuai, em tomo da lei; a separação dos caminhos, efetivada pela lei; e um impulso para a vidaplena, oalvoda lei. Prega uma preocupação humanística pelas pessoas e pelas criaturas, visto que o próprio Deus expressa igual preo­ cupação. Sua base prática para a vida e para o culto. — Como indicado acima, Deute­ ronômio relaciona-se de perto com mo­ vimentos históricos de reforma. Não po­ de comportar o peso de ser o fundamen­ to para tais reformas. Contudo, é carac­ terizado por uma proximidade da vida, que mostra uma relaçãochegada. Na reforma de Josias, Deuteronômio apoiava o movimento para centralizar o culto noúnicoTemplo. Também apoiava o movimento para a unidade, por pro­ clamar o tema: Um só Deus — Um só Povo —Uma só Terra. Indubitavelmen­ te, se provou um forte apoio para o rei reformistaeoseu movimento. Mais tarde, os seus apelos práticos e desinstitucionalizadospareciam especial­ mente preparados para o reavivamento da fé e a autoconsciência religiosa dos judeus nas sinagogas. Era o alimento certo para estimular as chamas de reno­ vação em movimentos tais como os que osfariseuslideravam. Sua chamada ao arrependimento, à restauração e à renovação. — Deutero­ nômio é um testemunho do propósito duradouro de Deus para Israel. Como tal, é uma chamada contínua para ele se 221
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    integrar nesse propósitoatravés do com­ prometimento com Deus e com a sua aliançaou pacto. Esta chamada era adequada em Parã. As peregrinações pelo deserto ficaram para trás. A Terra Prometida estava por vir. A chamada de Deuteronômio engas- tou-sena reforma deEzequias, depois do período desastroso doreiAcaz. Era apro­ priada depois do reinado do idólatra Manassés, quando Josias tomou medidas para concitar o povo a uma unidade e vida novas no Senhor. Continuou apro­ priada para operíodo do retomo, depois docastigo doexílio. Deuteronômio, então, deve ser enten­ dido como uma reedição do sétimo sé­ culo a.C., dos ensinamentos e pregação mosaicos concernentes à eleição, à histó­ ria de Israel e à sua lei, todas relacio­ nadas com a aliança e com a sua renova­ ção. Não pretende ser completo, e só pode ser entendido de maneira perma­ nente e satisfatória quando suplementa­ do pelos ensinos de outras partes do Antigo Testamento, especialmente por outras porções do Pentateuco. 2. Ê um Documento Cristão Impor­ tante O Novo Testamento e Deuteronômio. — A influência de Deuteronômio pode ser vista em quase todas as partes do Novo Testamento, Jesus dependia gran­ demente de Deuteronômio quando foi tentado (6:13-16; 8:3; Mat. 4:4,7,10; Luc. 4:8,12). O grande mandamento de amar “oSenhor teu Deus com todo oteu coração” (6:5) é a resposta à pergunta sobre qual é o grande mandamento (Mat. 22:37,38; Mar. 12:29-33; Luc. 10: 27). Pode ser que a idéia-chave do Ser­ mão da Montanha, “sede vós, pois per­ feitos, como é perfeito o vosso Pai celes­ tial” (Mat. 5:48), sederive, na realidade, deDeuteronômio 18:13. A influência de Deuteronômio sobre Paulo é forte, porém, talvez, mais su­ perficial. Existem umas dez citações de Deuteronômiono material paulino. Tan­ to Hebreus como Atos empregam cita­ ções do livro, e há um certo número de alusões a ele que dificilmente se podem chamar de citações. A influência de Deuteronômio tem sidoimensa. “Fala-nos no nome de Deus através dos séculos. Ao lê-lo, podemos deixar de lado as suas limitações, e ser­ mosnutridos pela sua grande fé em Deus e no homem, na força da qual o evan­ gelho de nosso Senhor Jesus Cristo veio a reivindicar a alma do homem para todo sempre” (Cunliffe —Jones, p. 31). O Crente e Deuteronômio. — O livro fala de uma maneira muito pessoal, diri­ gindo-se a “vós” e “nós”. Podem os crentes modernos identificar-se com aquela assembléia pactuai de tal forma que saibamos que se dirige a nós? Pode­ mos, na medida em que, como crentes, nos identifiquemos com o Israel bíblico. SeJesuscumpre odestino de Israel e se a Igreja é a herdeira da missão de Israel, então a história de Israel é a nossa histó­ ria, avocação de Israel, a nossa vocação, e a antiga aliança de Israel, o padrão para a nossanova aliança ou pacto. Alguns princípios orientadores podem ajudar na aplicação da mensagem de Deuteronômio na pregação cristã. Aqui podemos vislumbrar a atividade graciosa e redentora de Deus. A lei do amor e a vontade inescapável de Deus têm signifi­ cado permanente, independentemente da aplicação puramente local e contem­ porânea do livro. O ponto de partida para Deuteronômio e para nós é a comu­ nidade redimida. Temos de tomar o cui­ dado de manter Jesus Cristo como o centro e o alvo de toda a nossa prega­ ção. Como ele é o cumprimento e o fim da lei, é assim que ele se relaciona com a mensagem deDeuteronômio. O fato unificadorna Bíblia é a ativida­ deredentora contínua deDeus, que pode ser descortinada em Deuteronômio e daí até oNovoTestamento. Há também uma certa correspondência entre o Antigo 222
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    TestamentoeoNovo, que dápistaparaa interpretação é aplicação cristãs. É evi­ dente que tudo quanto for contrário ao NovoTestamento e ao ensino cristão tem de ser posto de lado. Por este motivo, é sempre esclarecedor confrontar cada abordagem com ostrechos pertinentes1do NovoTestamento.6 Características da Doutrina de Deute- ronômio. — Deuteronômio mostra uma diferença característica que o distancia deJó. Á tensão em Jó surge do simples eixo: Deus-Jó. Em Deuteronômio, a tensão existe num triângulo entre Deus-povo- terra. A terra representa alvo e direção, enquanto otriângulo todo coincidecomo propósitopactuai. Deuteronômio difere de muito que existe no Novo Testamento. Enquanto o Novo Testamento tem muito a dizer so­ bre oindivíduo ea suarelaçãocom Deus, Deuteronômio nunca se dirige ao indiví­ duo isoladamente. Sempre se dirige a ele como sendo uma parte do povo congre­ gado. O processo da individualização no pensamento e na prática religiosos fazia parte, na realidade, da experiência do exílio, e assim é posterior ao escrito de Deuteronômio. (É preciso observar que o Novo Testa­ mento não se dirige exclusivamente ao indivíduo. Tanto o pensamento sobre a Igreja quanto o sobre o reino de Deus se desenvolvem em sentido oposto. Porém trata do indivíduo de uma maneira que Deuteronômio, explicitamente, não faz.) O pressuposto de toda a teologia deu- teronômica é que Yahweh é o criador do mundo e o Senhor tanto da natureza como da História. Há pouco em Deuteronômio que de­ finaou descreva Deus em si. Mas os seus atos e a sua vontade são a fonte do livro todo. A bondade de Deus para com Is­ rael é representada em termos da graça. 6 Os princípios são adaptados daqueles publicados em Á. Richardson e W. Schweitzer, ed., Bibilcal Authority for Today (Philadelphia: Westminster Press, 1951), p. 240 e 241. Ele mostrou a sua bondade antes da aliançapara eleger Israel. As exigências de Deus são especifica­ das claramente. Antes da aliança não havia nada, senão a disposição de aceitar o auxílio que se oferecia. Dentro da ali­ ança, a lealdade e a obediência são exi­ gências absolutas. O juízo de Deus segue o padrão esta­ belecido pela aliança. A infidelidade é considerada traição, um crime capital. Deixa-se margem para a correção. Po­ rém a destruição de pessoas, ou da gera­ ção, envolvidasévistacomouma possível necessidade. O entendimento básico do propósito de Deus na graça proclama o oferecimento de renovação da aliança mesmo depois de semelhantejuízo ou em meioa ele. Em Deuteronômio, sempre se pensa em Israel como ó povo de Deus congre­ gado. Ê uma congregação que existe porque foi salva pela atuação direta de Deus. Israel é eleito para ser o povo de Deus na terra de Deus por causa de sua bonda­ de graciosa. Isso foi demonstrado e esta­ belecido em seu juramento feito aos pa­ triarcas. Através desta eleição, Deus rea­ lizará oseu propósitopara com Israel. Contudo, sempre se representa Israel como continuando a ser pecaminoso. A nação tinha-se mostrado obstinada e re­ belde no deserto. Constantemente é ad­ vertida sobre as conseqüências de tal caráter. Atendência de Israelpara a des­ lealdade, em sua disposição de cultuar a outros deuses, é um problema constante para os pregadores de Deuteronômio. Opovo é representado como desobedien­ te edesrespeitoso. Porém Deuteronômio vê Israel como recebendo a comunicação direta de Deus repetidas vezes. Esta disposição de rene­ gociar a aliança, repetidamente, apesar dopassado, éinterpretada somente como oresultado da bondade de Deus e de sua atuação resoluta contínua na base de sua promessa feita aospatriarcas. 223
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    Deusfaz deCanaã aterra dele de uma maneira muito especial. Não é ele ape­ nas o Criador na acepção geral, mas também seesforçapara cuidar de Canaã, em lhe proporcionar as chuvas e em tratar comosseushabitantes. Deuteronômio pensa em Canaã como tendo sido destinada, num sentido espe­ cial a Israel. Nações outras foram julga­ das e removidas, para que o povo de Deus a possuísse. Israel recebeu a terra de Deus, para usufruir dela como uma mordomia daparte dele. Deuteronômio exige a destruição total das nações cananéias na terra. Em certo sentido, elas representavam os “outros deuses”, que eram o maior impedimento à lealdade de Israel. Todavia, isso não se aplica a outras nações fora de Israel. Deuteronômio evi­ ta tratar do quadro empírico do reino davídico, com a sua perspectiva do domínio de Israel sobre as nações. Mas parece prever relações amistosas e pací­ ficas com as nações, embora Israel não aceitasse nenhum reiestrangeiro. O livrotambém écoerente em sua cha­ mada para que Israel amasse os elemen­ tos transitórios, os moradores estrangei­ ros dentre a sua população, e cuidasse deles. A teologia deuteronômica descobre vários pontos característicos de enfoque. Um deles é a assim chamada “teologia donome”.Conquanto outros livros abor­ dem a doutrina da presença do Deus santo em termos de “a Glória”, Deutero­ nômio fala em “fazer com que o meu nome resida” em determinado lugar ou entre opovo. Issoilustra tanto oponto de vista dessacralizado do livro como a sua atitude maisobjetiva. Outro enfoque se concentra nas impli­ cações de Canaã como a Terra Prometi­ da. Esta “teologia da terra prometida” presta, ao livro, grande parte de seu sabor distintivo e grande parte de seu tom terreno epragmático. Uma terceira característica acha-se na forte polêmica contra a idolatria. Ê vista nos sermões vigorosos sobre o Primeiro Mandamento. Mas é repetida em todas as partes do livro. Também explica al­ guns dos castigos e sermões extremos prescritospelolivro. O livro reflete alternadamente o oti­ mismo e o pessimismo. Sua atitude para comocaráter do povo e a necessidade de juízo é coerentemente pessimista. O oti­ mismo é fundamentado na convicção do propósito contínuo e válido de Deus para com Israel, expresso na sua pron­ tidão para renovar a aliança e começar denovo. A aplicação destas doutrinas por Deu­ teronômio é direta e simples, conforme convém as finalidades de sua pregação. Ensina que Deus é a fonte da vida plena e da bênção. Ele tem o direito de conce­ dê-las, pois, em última análise, o domí­ nio é dele. Ele tem os recursos para as conceder, umavez que éoCriador. Deus quer dar tanto a vida como a bênção. Ele tem agido para estabelecer a possibilidade de aceitação humana de ambos estes dons. Ele tem chamado um povo para ser o seu próprio povo e para receber as suas bênçãos. Ele estabelece os termos desse relacionamento: o amor, ou seja, a lealdade total do povo, que havia de ser demonstrado em obediência aosseusmandamentos. Uma doutrina de Deuteronômio em particular é digno de comentário espe­ cial. Ensina a maneira como Deus espera que o seu povo pense nas posses mate­ riais pela maneira como ensina Israel a pensar na terra de Canaã. A doutrina pode seresboçada da seguinteforma: Toda a riqueza e posses pertencem, em primeiro lugar, a Deus. Ele criou-as ou concedeu o poder para serem feitas. São dádivas da mão dele, quefez valiosas para oseupovo. Ele empresta as suas coisas preciosas às pessoas porque ele as ama e zela por elas. Elas têm por dever administrá-las 224
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    por Deus, demaneira que tanto o seu povo como a sua riqueza sirvam ao seu propósito. Deuscontinua a prover a essênciavital e a sabedoria, que apóiam o valor e a utilidade da propriedade. O seu povo é sempre dependente dele para as condi­ ções que fazemcom que ascoisas boas da natureza e da sociedade sejam utilizáveis edesfrutáveis. Tanto como Soberano quanto como Criador, Deus tem uma finalidade clara para a História e para a criação. Ele requer que seu povo use as coisas dele para a finalidade dele e conforme as suas instruções. A fim de realizar estes pro­ pósitos, ele usa tanto pessoas como coi­ sas,julga edisciplina aspessoaspor meio de seu uso das coisas e acrescenta ou retira ascoisas que emprestou. EsboçodoLivrodeDeuteronomio I. A Primeira Coleção dos Discursos deMoisés(1:1-4:43) 1. Superscrição(1:1-5) 2. Parte Um (1:6-4:43) (1) Narração de Horebe a Parã (1:6-3:29) a. Introdução (1:6-8) b. Juizes Nomeados em Ho­ rebe(1:9-18) c. OsEspias(1:19-46) d. Contornando Edom (2:1-7) e. Contornando Moabe (2:8-13a) f. Através de Amom (2:13b-23) g. AVitória Sobre Siom (2:24-37) h. AVitória SobreOgue (3:1-11) i. ADivisãoda Terra (3:12-17) j. Adendo: Auxílio Para a Conquista Assegurado (3:18-22) 1. Adendo: O Rogo de Moi­ sés(3:23-29) (2) Sermão Sobre oPrimeiro Mandamento(4:1-40) a. Exortação — Guardai a Lei(4:1-4) b. A Sabedoria Suprema de Israel(4:5-13) c. O Grande Mandamento (4:14-20) d. Guardai-vos(4:21-24) e. SeVosCorromperdes, Servireis(4:25-31) f. O Senhor É Deus — Não Há Nenhum Outro (4:32-40) (3) Cidades de Refúgio (4:41-43) II. A Segunda Coleção dos Discursos deMoisés(4:44-26:68) 1. Superscrição(4:44-49) 2. Parte Dois(5:1-8:20) (1) Narração: A Aliança em Ho­ rebe e Moisés Como oMedia­ dor(5:1-27) (2) Exortação(5:28-8:20) a. Oh, Que Fôsseis Sempre Assim! (5:28-6:3) b. Amarás e Temerás o Se­ nhor (6:4-25) c. Vós Sois Santos(7:1-26) d. Lembra-te — Não Te Es­ queças(8:1-20) 3. Parte Três (9:1-11:32) (1) Exortação Introdutória: Não aTua Justiça(9:1-7) (2) Narração: Aliança Quebrada Renovada em Horebe (9:8-10:11) (3) Sermão(10:12-11:32) a. O Que É Que o Senhor Requer? (10:12-15) b. Circuncidai os Vossos Co­ rações (10:16-22) c. Considerai a Disciplina do Senhor(11:1-7) d. Para Que Sejais Fortes (11:8-17) e. Ponde Estas Palavras em Vosso Coração (11:18-25) f. Conclusão: Bênção ou Maldição(11:26-32) 225
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    4. Parte Quatro—As Leis (12:1-26:19) (1) Um Santuário (12:1-32) (2) Um Deus: Pena de Morte Para a Apostasia(13:1-18) (3) Um Povo Santo, Diferente uosDemais(14:1-25:19) a. Sua Alimentação, uma Lembrança Constante (14:1-21) b. Diferenças nas Praxes Econômicas(14:22-15:23) c. AsFestas Sagradas (16:1-17) d. Os Oficiais(16:18-18:22) e. A Santidade de Vida (19:1-21:21) f. A Necessidade da Consi­ deração(21:22-22:12) g. Infrações Sexuais (22:13-30) h. Elementos Que Não Po­ diam Participar (23:1-14) i. Código deDireitos (23:15-25:19) (4) Duas Confissões Litúrgicas (26:1-19) 5. Parte Cinco(27:1-28:68) (1) A Renovação da Aliança ou Pacto em Siquém(27:1-8) (2) ACerimônia(27:9-26) a. A Observância do Silên­ cio(27:9,10) b. A Cerimônia em Gerizim (27:11-14) c. As Doze Maldições de Si­ quém(27:15-26) (3) Bênçãos eMaldições (28:1-68) a. As Bênçãos(28:1-14) b. As Maldições(28:15-46) c. Adendos (28:47-68) III. A Terceira Coleção dos Discursos deMoisés(29:1-33:29) 1. Parte Seis(29:1-30:20) (1) Recitação: Aliança ou Pacto em Moabe(29:1-15) (2) Exortações(29:16-30:20) a. Advertências Contra a Hi­ pocrisia(29:16-28) b. MistérioeRevelação (29:29) c. Arrependimento e Res­ tauração(30:1-10) d. A Palavra Estava Perto (30:11-14) e. Era Necessário Escolher (30:15-20) 2. Parte Sete(31:1-33:29) (1) O Empossamento de Josué (31:1-30) a. OFuturo (31:1-6) b. MoisésEmpossaJosué (31:7,8) c. O Livro da Aliança ou Pacto(31:9-13) d. ATeofania(31:14,15) e. O Futuroe oCântico (31:16-22) f. O Senhor Empossa Josué (31:23) g. O Livro da Aliança ou Pacto(e oCântico) (31:24-30) (2) O Cântico de Moisés (32:1-43) a. A Convocação de Teste­ munhas (32:1-3) b. A Declaração Introdutó­ ria da Queixa(32:4-6) c. A Recordação dos Feitos Poderosos de Deus (32:7-14) d. O Libelo(32:15-18) e. A Sentença(32:19-29) f. ReflexãoSobre a Situação Resultante (32:30-33) g. ARespostado Senhor (32:34-42) h. Conclusão(32:43) (3) Conclusão Exortativa Sobre oCântico(32:44-47) . (4) Moisés Recebe Ordem de Su­ birao Monte Nebo(32:48-52) (5) ABênção deMoisés (33:1-29) 226
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    IV. AMorte deMoisés(34:1-12) 1. Moisés Sobea Montanhae Morre(34:1-8) 2. A Grande.Obra de Moisés Pros­ segue(34:9-12) Bibliografia Selecionada BACHLI, O. Israelund dieVõlker. Eine Studie Deuteronomium. Zurich: Zwin- gliVerlag, 1962. BLAIR, E. P. “The Book of Deuterono­ my”, The Layman’s Bible Commenta­ ry. V. Richmond: John Knox Press, 1964. CLEMENTS, R. E. God’s Chosen Peo­ ple: A Theological Interpretation of the Book of Deuteronomy. Londres: SCMPress, 1968. CUNLIFFE-JONES, H. “Deuterono­ my", TorchBibleCommentaries. Lon­ dres: SCMPress, 1951. DRIVER, SAMUEL R. A Critical and Exegetical Commentary on Deutero­ nomy, “International Critical Com­ mentary”. Edinburgh: T & T Clark, 1895. Interpretation. Richmond: VI, julho de 1952; XV,janeiro de 1961. LOHFINK, N. Das Hauptgebot. Eine Untersuchung Literarischer Einleitun­ gsfragen zuDeuteronomy5-11. Roma: Instituto BíblicoPontifício, 1963. NICHOLSON, E. W. Deuteronomy and Tradition. Filadélfia: Fortress Press, 1967. PLOGER, J. G. Literarkritische, Form­ geschichtliche und Stilkristische Un­ tersuchungen zum Deuteronomium- Bonn: Hanstein Verlag, 1967. Review and Expositers. Louisville, Ky.: LXI, Fall, 1964. Southwestern Journal of Theology. Fort Worth, Texas: VII. Fall 1964. VON RAD, Gerhard. “Deuteronomy”, Interpreter’s Dictionary of the Bible, A-D. Nashville: Abingdon, 1962. _______ , “Deuteronomy”, trad, para o inglês por Dorothea Barton. Old Testament Library. Filadélfia: West­ minsterPress, 1966. _______ , StudiesinDeuteronomy. Chi­ cago: Henry RegneryCo., 1953. WRIGHT, G. ERNEST. “The Book of Deuteronomy”, The Interpreter’s Bi­ ble, II. Nashville: Abingdon, 1953. ComentárioSobreoTexto I. APrimeiraColeçãodosDiscur­ sosdeMoisés(1:1-4:43) 1. Superscrição(1:1-5) 1Estas são as palavras que Moisés falou a todo o Israel além do Jordão, no deserto, na Arabá defronte de Sufe, entre Parã, To- fel, Labã, Hazerote e Di-Zaabe. 2 São onze dias de viagem desde Horebe, pelo caminho da montanha de Seir, até Cades-Baméia. 3 No ano quadragésimo, no mês undécimo, no primeiro dia do mês, Moisés falou aos filhos de Israel, conforme tudo o que o Se­ nhorlhesmandara por seu intermédio, 4de­ pois que derrotou a Siom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom, e a Ogue, rei de Basã, que habitava em Astarote, em Edrei. 5Além do Jordão, na terra de Moabe, Moi­ sés se pôs a explicar esta lei, e disse: Muito do material que compõe o livro deDeuteronômio tem uma longa história por detrás de sua incorporação no livro. Porém esta passagem e 4:44-49 foram es­ critas, certamente, como introduções ao livroou apartes do livro. Oselementos comuns às duas introdu­ ções (1:1-5:4:44-49) incluem as palavras Moisés, Israel, além do Jordão, Arabá, Siom, o rei dos amorreus, que habitava em Hesbom, e Ogue, o rei de Basã. Os outros nomes de localidades nas duas introduções não coincidem. A finalidade evidente das duas é, claramente, a iden­ tificação do livrocom Moisés e a demons­ tração de que era dirigido a Israel antes 227
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    de o povoter entrado na terra de Canaã. Cunliffe-Jones expressa-o bem: “O deuteronomistaéum pregador, e não um historiador, eelenão traça o decorrer de acontecimentos contemporâneos. O que faz é interpretar eventos a partir de pon­ tos fixos.” Estas superscrições estabele­ cemoponto apartir do qual ascoisas são interpretadas, como em Moabe, na en­ trada daTerra Prometida. Fora disso, as passagens são composi­ ções complexas. O versículo 2 fica isola­ do no capítulo 1, sem nenhuma relação óbvia com os versículos restantes. O ver­ sículo3dá uma data cronológica, como a obra sacerdotal em Êxodo e Números, um interesse com que Deuteronômio não compartilha em nenhum outro lugar. O livro que segue é chamado, variada­ mente, de palavras de lei. Nenhuma des­ tas é uma descrição adequada para os sermões, narrativas eleisquecontém. 2. ParteUm(1:6-4:43) (1) Narração; DeHorebeaParã (1:6-3:29) Aprimeira parte do livro é um resumo da história de Israel de Horebe a Bete- Peorna forma deum discurso de Moisés. É apresentada em sete histórias, ligadas por breves relatos de viagens ou de bata­ lhas usando a forma “nós” (Ploger, p. 1 e ss.). Estas seções na primeira pessoa do plural poderiam ser lidas consecuti­ vamente como um único relato. Uma interpretação teológica e religiosa é-lhes dada pelo discurso prefixado ao todo (1:6-8). Intercalados entre estes relatos há registros históricos na forma de ora­ ções usando o pronome “vós”; ou seja, dirigidas ao povo na segunda pessoa do plural, e exortações e admoestações em discursos, nos quais ora Deus, ora Moi­ séséquem fala. Estes três capítulos formam uma in­ trodução admirável à seção histórica in­ teira, de Deuteronômio a II Reis, que compartilha um ponto de vista teológico bastante similar. A obra inteira mostra uma preocupação pelos problemas e questões teológicos do período da mo­ narquia posterior e do começo do exílio (do sexto ao quinto séculos a.C.), e bem pode ter sido escrita nessa época. Os ele­ mentos diversos do discurso são, indubi­ tavelmente, muito mais antigos e, pro­ vavelmente, refletem uma tradição que remonta ao próprio Moisés. As palavras do versículo 5, “se pôs a explicar”, po­ dem teropropósito deensinar uma cons­ ciência destalonga tradição, que se tinha estendido deMoisés até opresente. a. Introdução(1:6-8) 6 O Senhor nosso Deus nos falou em Hore­ be, dizendo: Assaz vos haveis demorado neste monte. 7Voltai-vos, ponde-vos a cami­ nho, e ide à região montanhosa dos amor- reus, e a todos os lugares vizinhos, na Ara- bá, na região montanhosa, no vale e no sul; à beira do mar, à terra dos cananeus, e ao Líbano, até o grande rio, o rio Eufrates. 8 Eis que tenho posto esta terra diante de vós; entrai e possuí a terra que o Senhor prometeu com juramento dar a vossos pais, Abraão, Isaque, e Jacó, a eles e à sua des­ cendência depoisdeles. Estes versículos dão a ênfase teológica para o restante desta seção. Proposita­ damente mudam o centro da atenção para a Terra Prometida. Note-se cuida­ dosamente o que se diz e o que se omite: O Senhornosso Deus (mas nenhuma pa­ lavra sobre o êxodo); Horebe (mas nada sobre a aliança); Canaã, a dádiva de Deus, pronta a ser possuída pelo cum­ primento dojuramento feito aos patriar­ cas. O sentido nas histórias que seguem se relaciona com a terra e o propósito de Deus nela. Entrai e possuí a terra é o tema. As peregrinações desérticas todas as­ sumem sentido quando vistas como parte da direção de Deus rumo à Terra Pro­ metida. A atenção que se presta à fina­ lidade muda tudo. A lição tem a sua aplicação em qualquer área da vida. Pela determinação da finalidade que 228
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    Deus tem paraa história e para a vida, estabelece-se um ponto de referência, do qual todos os eventos menores recebem seusignificadoeperspectiva. b. Juizes Nomeados em Horebe (1:9-18) 9 Nesse mesmo tempo eu vos disse: Eu sozinho não posso levar-vos, 10 o Senhor vosso Deus já vos tem multiplicado, e eis que hoje sois tão numerosos como as estre­ las do céu. 11 O Senhor Deus de vossos pais vos faça mil vezes mais numerosos do que sois; e vos abençoe, como vos prometeu. 12 Gomo posso eu sozinho suportar o vosso peso, as vossas cargas e as vossas conten­ das? 13 Tomai-vos homens sábios, entendi­ dos e experimentados, segundo as vossas tribos, e eu osporei comocabeças sobre vós. 14Então me respondestes: É bom fazermos oquedisseste. ISTomei, pois, os cabeças de vossas tribos, homens sábios e experimen­ tados, e os constituí por cabeças sobre vós, chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez, por oficiais, se­ gundo as vossas tribos. 16 E no mesmo tempo ordenei a vossos juizes, dizendo: Ou­ vi as causas entre vossos irmãos, e julgai comjustiça entre ohomem e seu irmão, ou o estrangeiro que está com ele. 17 Não fareis acepção de pessoas com juízo; de um mes­ mo modo ouvireis o pequeno e o grande; não temereis a face de ninguém, porque o juízo é de Deus; e a causa que vos for difícil demais, a trareis a mim, e eu a ouvirei. 18 Assim naquele tempo vos ordenei todas as coisas que devíeis fazer. O estilo muda para um discurso em “vós”. O conteúdo repete um incidente da viagem onde Moisés nomeia juizes para ajudar na administração dos negó­ ciosdopovo (cf. Êx. 18; Núm. 11). O re­ lato faz referência ao aumento da popu­ lação israelita e aos seus problemas con­ comitantes. Moisés divide as responsabi­ lidades pela administração, enquanto ainda retém a autoridade final. A passa­ gemterminacom a lembrança de que ele deu leis, naquela ocasião, sobre a sua administração da justiça. Sem dúvida, estas devem ser entendidas como adicio­ nais àquelasestabelecidas em Sinai. A delegação da autoridade é impor­ tante enecessária em qualquer movimen­ to ou grupo. A eficácia da liderança e a integridade do próprio grupo podem, muitas vezes, ser medidas à luz da possi­ bilidade de semelhante sucessão ou dele­ gação. Esta questão é um problema- chave tratado por Deuteronômio. Além do realce dado à autoridade direta de Moisés, o livro destaca que a autoridade dele tem sido transmitida a outros. Em certo sentido, se propõe a estabelecer a autenticidade e a legitimidade da lide­ rança atual deIsrael, por fazerreferência aMoisése à linha de autoridade transmi­ tida daépocadele. O livro é estruturado em seções que tratam dessa questão. Além desta passa­ gem, aprimeira substanciosa do livro, os capítulos 31 e 34 falam da nomeação de Josuécomo sucessor de Moisés. Nestes trechos temos uma descrição das características que se esperam em lí­ deres e juizes. Deviam ser sábios, com­ preensivos e experimentados. Estas ca­ racterísticas definem como base habili­ dade e caráter moral. Implicam em que os homens devam ser conhecidos pelas suas ações passadas. Devem estar dis­ postos a ouvir a todos pacientemente e a decidir com justiça. O mandamento não temereis a face de ninguém é ver­ tido na ASV eem outras versões: “vades por respeitos humanos”. A posição ou aparência de um homem não deveria ter nenhuma influência na decisão tomada. Este princípio se aplica através da Bíblia inteira (Êx. 23:3; Lev. 19:15; Sal. 82:2; Prov. 18:3; II CrÔn. 19:7; Mal. 2:9; At. 10:34; Rom. 2:11; Ef. 6:9; Col. 3:25; Tiago 2:1-9; IPed. 1:17). Apalavra estrangeiroaparece pela pri­ meira vez no versículo 16. Esta classe de pessoas tem um amplo lugar na preocu­ pação de Deuteronômio pelas pessoas potencialmente oprimidas, junto com a viúva e o órfão (cf. 10:19; 24:17; 27:19). Estaclasse de pessoas se compõe de não- israelitas (portanto, sem nenhum direito civil como cidadãos), que são dependen­ tes economicamente do bom tratamento 229
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    dos proprietários daterra. Talvez se comparem a trabalhadores de empreita­ da ou migrantes. Na exigência de que a justiça sejaextensiva a essaspessoasjaz a forma embrionária da insistência de que crença em Deus exige que se marque posiçãoa favor dajustiça universal. c. OsEspias(1:19-46) 19 Então partimos de Horebe, e caminha­ mosportodo aquele grande e terrível deser­ to que vistes, pelo caminho das montanhas dos amorreus, como o Senhor nosso Deus nosordenara; e chegamos a Cades-Barnéia. 20 Então eu vos disse: Chegados sois às montanhas dos amorreus, que o Senhor nos­ so Deus nos dá. 21 Eis aqui o Senhor teu Deustem postoesta terra diante de ti; sobe, apodera-te dela, como te falou o Senhor Deus de teus pais; não temas, e não te assustes. 22Então todos vós vos chegastes a mim,e dissestes:Mandemos homens adian­ te de nós, para que nos espiem a terra e, de volta, nos ensinem o caminho pelo qual de­ vemos subir, e as cidades a que devemos ir. 23Isto me pareceu bem;demodoque dentre vós tomei doze homens, de cada tribo um homem; 24foram-se eles e, subindo as mon­ tanhas, chegaram até o vale de Escol e espiaram a terra. 25 Tomaram do fruto da terra nas mãos, e no-lo trouxeram; e nos informaram, dizendo: Boa é a terra que nos dá o Senhor nosso Deus. 26Todavia, vós não quisestes subir,mas fostes rebeldes ao man­ dadodo Senhor nosso Deus; 27e murmuras­ tes nas vossas tendas, e dissestes: Porquan­ to o Senhor nos odeia, tirou-nos da terra do Egitopara nosentregarnas mãos dos amor­ reus, a fim de nos destruir. 28Para onde es­ tamos nós subindo? nossos irmãos fizeram com que se derretesse o nosso coração, di­ zendo: Maior e mais alto é o povo do que nós; as cidades são grandes e fortificadas até o céu; e também vimos ali os filhos dos anaquins. 29 Então eu vos disse: Não vos atemorizeis, e não tenhais medo deles. 30O Senhor vosso Deus, que vai adiante de vós, ele pelejará por vós, conforme tudo o que tem feito por vós diante dos vossos olhos, no Egito, 31comotambém no deserto, onde vistes como o Senhor vosso Deus vos levou, como um homem leva seu filho, por todo o caminho que andastes, até chegardes a este lugar. 32 Mas nem ainda assim con­ fiastes no Senhor vosso Deus, 33 que ia adiante de vósnocaminho, de noite no fogoe de dia na nuvem, para vos achar o lugar onde devíeis acampar, e para vos mostrar o caminho por onde havíeis de andar. 34 Ou­ vindo, pois, o Senhor a voz das vossas pala­ vras, indignou-se e jurou, dizendo: 35 Ne­ nhum dos homens desta geração perversa verá a boa terra que prometi com juramen­ to dar a vossospais, 36salvo Calebe, filho de Jefoné; ele a verá, e a terra que pisou darei a ele e a seus filhos, porquanto perseverou em seguir ao Senhor. 37 Também contra mim o Senhor se indignou por vossa causa, dizendo: Igualmente tu lá não entrarás. 38Josué, filho de Num, que te serve, ele ali entrará; anima-o, porque ele fará que Israel a receba por herança. 39 E vossos pequeni­ nos, dos quais dissestes que seriam por pre­ sa, e vossos filhos que hoje não conhecem nem o bem nem o mal, esses lá entrarão, a eles a darei e eles a possuirão. 40Quanto a vós, porém, virai-vos, e parti para o deser­ to, pelo caminho do Mar Vermelho. 41 En­ tão respondestes, e me dissestes: Pecamos contra o Senhor; nós subiremos e pelejare­ mos, conforme tudo o que nos ordenou o Senhornosso Deus. Vós, pois, vos armastes, cada um, dos vossos instrumentos de guer­ ra, e temerariamente propusestes subir à montanha. 42 E disse-me o Senhor: Dize- lhes: Não subais nem pelejeis, pois não es­ tou no meio de vós; para que não sejais feridos diante de vossos inimigos. 43 Assim vos falei, mas não ouvistes; antes fostes rebeldes à ordem do Senhor e, agindo pre­ sunçosamente, subistes à montanha. 44E os amorreus, que habitavam naquela monta­ nha, vos saíram ao encontro e, perseguin­ do-vos como fazem as abelhas, vos destro­ çaram desde Seir até Horma. 45 Voltastes, pois, e chorastes perante o Senhor; mas o Senhor não ouviu a vossa voz, nem para vós inclinou os ouvidos. 46 Assim foi grande a vossa demora em Cades, pois ali vos demo­ rastes muitos dias. Esta seção começa com um breve rela­ to da viagem dos israelitas de Horebe a Cades-Baméia. Aênfase está no vigor da topografiaenofato que viajavam a man­ dado deDeus. A história começa no versículo 20 e relata omandamento de tomarem a terra e a recusa dos espias e do povo de assim fazerem. Segue um padrão bem conheci­ do para histórias semelhantes (cf. Núm. 13 e s.; Jos. 2:7 e s.; Juí. 18). Todas elas têm formas semelhantes e um contexto comum. Todas contêm relatos relaciona­ 230
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    dosàconquistadaterraeaopapeldaguer­ rasanta(i. e. aguerracomandadaedirigi­ daporDeus) no esquema desta tradição. Baseia-sea promessa davitórianum con­ ceito da ocupação como de um ato de salvação pelo próprio Deus, que Israel viu acontecer e que fez com que ele o louvasse continuamente e que o decla­ rasse em culto. Estas histórias são uma contribuição do Antigo Testamento para o significado teológico dos fenômenos históricos, não apenas uma narração de acontecimentos históricos. O relato é composto de um modo mui­ to artístico e efetivo numa pirâmide de discursosperfeitamente equilibrados: MOISÉS: Já chegastes. Agora tomai a terra(v. 20,21). POVO: Enviamos espias(v. 22). MOISÉS: Continua seu relatório (v. 23-25a). ESPIAS: É uma terra boa! Deus a tem dado (v. 25b). MOISÉS: Prossegue em seu relató­ rio(v. 26,27a). POVO: Deus nos odeia! Aonde have­ mosde ir? (v. 27b,28). MOISÉS: Nãotemeis, pois o Senhorpe­ lejará por vós(v. 29,30). Toda esta seção está na forma “vós”. O versículo 31 acrescenta uma breve oração, dizendo que o Senhorlevou e deu assistência a Israel no deserto. O versí­ culo 32acrescenta que nem então acredi­ tavam. A resposta do Senhor (v. 34-40) põe a história toda em sua devida perspectiva. Nenhumdoshomensentrará, salvo Cale- be (nem mesmo Moisés) e Josué. Os seus pequeninos entrariam não como presa, conforme achavam, mas como herdeiros. Os versículos 44-46 podem ter sido puramente secundários, num estágio an­ terior, porém aqui servempara reforçara impressão criada pelo todo. O povo res­ ponde, em primeiro lugar, com confis­ são e a determinação de compensar tar­ diamente sua timidez anterior. Deus o adverte que não vá, pois não o acompa­ nhará. A história então conta as tristes conseqüências. Agora podemos sugerir interpretações do evento. Como um retrospecto histó­ rico dos eventos anteriores à ocupação, a história narra: por que a entrada não se fez do Sul; por que a viagem, a partir do êxodo até a ocupação, demorou tanto; e, em forma de acréscimo, por que se deu Hebrom a Calebe. Porém a construção literária serve a um propósito totalmente diferente: o de interpretar ahistóriapara toda a geração contemporânea da monarquia posterior. Nisto, a história mostra: (1) a prova do direito que Deus tem ao culto de Israel e que antecedia a qualquer ato humano; (2) a conduta inexplicável do povo; (3) areação punitiva deDeus. No centro se colocam as palavras dos espias: “Boa é a terra que nos dá o Senhor nosso Deus.” Ele tinha jurado dar-lha, e o cumprimento do juramento estava por se realizar. O envio dos espias não era, necessariamente, em si, um sinal de falta de fé. Outras histórias do envio de espias apontam uma medida militar. Esperar-se-ia que o relato dos espias se fizesse seguir pelo relato da conquista. Ao invés disso, de maneira inesperada e chocante, ocorre uma reação totalmen­ te negativa. (É verdade que oversículo 28 se refere a um relatório negativo, não mencionado no versículo 24, mas isso não diminui em nada o duro efeito do relato.) Vós não quisestes... murmuras­ tes. Esta atitude contumaz levou ao de­ sastre — tanto mais perturbador, por­ quanto tudo que Deus fizera perante (os seus) olhos no Egito e no deserto não produzira fé suficiente para o momento decisivo. Tudo isso ou foi esquecido ou pervertido: “Porquanto o Senhor nos odeia, tirou-nos da terra doEgito.” Os versículos que seguem retratam o resultado lógico (i. e., conforme a teolo­ gia pragmática de Deuteronômio): Ne­ 231
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    nhum... verá aboa terra. A geração desobediente havia de voltar para o de­ serto, a fim de ser destruída. Esta de­ cisãoéirrevogável. Quando estes versículos foram repeti­ dos, no quinto século, o seu significado certamente era óbvio. Todas as catástro­ fes que tinham experimentado, inclusive o exílio e a perda de sua pátria, deviam serentendidos comoconseqüência de sua desobediência à vontade expressa do Se­ nhor e de sua falta de fé. Isaías dissera: “se não o crerdes, certamente não ha­ veis de permanecer” (7:9). Isto já se fizeracumprir. Porém a segunda parte da história im­ plicava que a promessa permanecia vá­ lida para uma geração vindoura. Se ela seria mais fiel e mais obediente, ainda ficavaporver. Aparentemente, a redação final dahis­ tória realça ainda mais diversas afirma­ ções. No versículo 21a, a promessa se repete: o Senhor permanece irrevogavel- mente fiel à sua palavra. A dádiva da terra é determinada e não será retirada. Assim, a reação negativado povo é ainda menoscompreensível. Uma outra lição é claramente deduzi­ da da história. O contexto tradicional da história é, certamente, o que descreve a guerra santa. Neste contexto, fica claro que semelhante ação militar não podia serbem-sucedidasem aobediência da fé. Esta é a importância da história nos ver­ sículos 45 e 46. A tentativa abortiva de fazer as pazes com Deus em conseqüên­ cia de seu fracasso não obteve êxito em absoluto. A fé e a obediência são abso­ lutamente necessárias, e só podem existir na confrontação com o desafio da vonta­ deexpressa deDeus. O versículo 31 parece ser um acrésci­ moeditorial. Constitui um apelo dirigido aos corações dos leitores que concebem Deus não apenas como o Deus-Líder que cuida deles (v. 30a) e como operador poderoso de milagres (v. 30b), mas tam­ bém como um pai amoroso, que carrega seu filho pelo deserto. Deste modo a mensagem fica ainda mais imperiosa: mesmoassim não tivestes confiança nele. Isso era uma violação do amor, pois o amortinha sido invertido pelopovo, para serentendido como ódio, o que era ainda mais amargo. Então a ênfase sobre todo o cuidado providencial de Deus, no de­ serto, acrescenta o clímax que fez com que a reação do povo ficasse ainda mais dolorosa e com ainda menos razão. As­ sim a reação de Deus foi de ira e juízo. Nenhum deles entraria na terra. Com isso, a inversão do êxodo secompleta.7 Os progressos das peregrinações no deserto se estancam, e o povo fica, por muito tempo, parado em Cades-Baméia. d. ContornandoEdom(2:1-7) 1 Depois viramo-nos, e caminhamos para o deserto, pelo caminho do Mar Vermelho, como o Senhor me tinha dito, e por muitos dias rodeamos o monte Seir. 2 Então o Se­ nhor me disse: 3 Basta de rodeardes este monte; virai-vos para o norte. 4 Dá ordem aopovo, dizendo: Haveis de passar pelo ter­ ritório de vossos irmãos, os filhos de Esaú, que habitam em Seir; e eles terão medo de vós. Portanto, guardai-vos bem; 5 não con­ tendais com eles, porque não vos darei da sua terra nem sequer oque pisar a planta de um pé; porquanto a Esaú dei o monte Seir por herança. 6Comprareis deles por dinhei­ ro mantimento para comerdes, como tam­ bém comprareis deles água para beberdes. 7Poiso Senhorteu Deuste há abençoado em toda obra das tuas mãos; ele tem conhecido oteu caminho por este grande deserto;estes quarenta anos oSenhor teu Deus tem estado contigo; nada te há faltado. Aqui o relato em “nós” reassume o registro da viagem. Os israelitas volta­ ram atrás, na direção de onde tinham vindo, evaguearam pela região do monte Seirpor muito tempo. O discurso do Senhor, aqui citado, advertecontra a invasãoe a pilhagem dos edomitas, que são chamados de vossos irmãos. Esta atitude para com Edom 7 W. L. Moran, “The End of the Unholy War and the Anti-Exodus”, Bíblica, 1963, p. 333-342. 232
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    existia outrora. Foiobscurecida por al­ guns atritos, especialmente com Judá, durante a monarquia. A partir da des­ truição doTemplo, em 586 a.C., durante a qual os edomitas haviam, aparente­ mente, colaborado com o invasor, ao invés de ser visto como irmão de sangue, Edom era um inimigo mortal (cf. Oba- dias e outras profecias estrangeiras con­ tra Edom). O motivo apresentado para não inva­ direm Edom (v. 5b), era que Deus tinha dado aEsaú... omonte Seirpor herança. Não apenas Israel era favorecido com uma terra própria como dádiva de Deus. Outros povos podiam compartilhar deste privilégio. O Senhor era mais do que o Deus de Israel. Ele também cuida das demais nações. Semelhantes grandes números de nô­ mades migrantes criavam problemas pa­ ra as populações estabilizadas. Elas que­ riam proteger os seus campos e supri­ mentos de água. Mas também achavam rentável poder vender-lhes algum ali­ mentoe água. Este relato difere muitíssimo de seu paralelo em Números 20:14-21. Ali, a ên­ fase recaía no pedido humilde de Israel que foi impiedosamente rechaçado. Aqui, o relato não trata absolutamente da reação dos edomitas e não demonstra nenhum conhecimento de que o pedido foi negado. Deuteronômio mantém uma atitude positiva constante para com os edomitas(cf. 23:7). A advertência é reforçada com a lem­ brança de queDeus satisfez as necessida­ des de seu povo adequadamente, pelo caminho, sem a necessidade de espoliar as populações das terras por onde pas­ sou. A viagem pelo deserto é interpretada de diversas maneiras em Deuteronômio. Neste relato (v. 7) é usada como uma ilustração do cuidado providencial de Deus para com seu povo, de teor bastan­ te semelhante ao de Números 8. 8 Assim, pois, passamos por nossos ir­ mãos, os filhos de Esaú, que habitam em Seir, desde o caminho da Arabá de Elate e de Eziom-Geber. Depois nos viramos e pas­ samos pelo caminho do deserto de Moabe. 9 Então o Senhor me disse: Não molestes aos de Moabe, e não contendas com eles em peleja, porque nada te darei da sua terra por herança; porquanto dei Ar por herança aos filhosde Ló. 10(Antes haviam habitado nela os emins, povo grande e numeroso, e alto como os anaquins; 11eles também são con­ siderados refains como os anaquins; mas os moabitas lhes chamam emins. 12Outrora os horeus também habitaram em Seir; porém os filhosde Esaú os desapossaram, e os des­ truíram de diante de si, e habitaram no lugardeles, assim comoIsraelfezà terra da sua herança, que o Senhor lhe deu.) 13 Le­ vantai-vos agora, e passai o ribeiro de Ze- rede. e. ContornandoMoabe(2:8-13a) O relato da viagem continua com a história de sua virada para o norte, em direção a Moabe. Um discurso do Senhor segue, advertindo-os contra qualquer tentativa de conquistar Moabe. A advertência é paralela à que dizia respeito a Edom. Insere-se uma nota histórica sobre as populações em mu­ dança desses territórios. Apresenta um quadro acurado desta pequena faixa de terra, através da qual as hostes de povos migratórios têm jorrado desde épocas imemoriais. Cada vaga deixou atrás de si um grupo que queria radicar-se nos luga­ res abandonados da vaga anterior, que acabava de ser desapossada. A mudan­ ça de Israel para Canaã cabia perfeita­ mente neste padrão. As barreiras geográficas podem ser precisamente tão reais como bloqueios políticos e militares. No ponto onde a subida pela Arabá era bloqueada pelo Mar Morto e os altos penhascos das pla­ nícies de Moabe, mandou-se, aos israeli­ tas, que marchassem pela profunda pa- vuna do Zerede, acima, que separava os territórios deEdom eMoabe. 233
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    Passamos, pois, oribeiro de Zerede. 14E os dias que caminhamos, desde Cades-Baméia até passarmos o ribeiro de Zerede, foram trinta e oito anos, até que toda aquela gera­ ção dos homens de guerra se consumiu do meio do arraial, como o Senhor lhes jurara. 15Também foi contra eles a mão do Senhor, para os destruir do meio do arraial, até os haver consumido. 16 Ora, sucedeu que, sen­ do já consumidos pela morte todos os ho­ mens de guerra dentre o povo, 17 o Senhor me disse: 18Hoje passarás por Ar, o limite de Moabe; 19 e quando chegares defronte dos amonitas, não os molestes, e com eles nãocontendas,porque nada te darei da terra dos amonitas por herança; porquanto aos filhos de Ló a dei por herança. 20 (Também essa é considerada terra de refains; outrora habitavam nela refains, mas os amonitas lhes chamam zanzumins, 21 povo grande e numeroso, e alto como os anaquins; mas o Senhor os destruiu de diante dos amonitas; e estes, tendo-os desapossado, habitaram no lugar deles; 22 assim como fez pelos filhos de Esaú, que habitam em Seir, quando de diante deles destruiu os horeus; e os filhos de Esaú, havendo-os desapossado, habita­ ram no lugar deles até hoje. 23 Também os caftorins, que saíram de Caftor, destruíram os aveus, que habitavam em aldeias até Gaza, e habitaram nolugar deles.) A passagem em “nós” registra mais uma etapa da viagem. Mas lhe é acres­ cida uma nota, lembrando o leitor da cronologia desta virada para uma rota alternativa em direção a Canaã. Já se tinham passado trinta e oito anos, e a geração inteira de adultos que tinha vol­ tado para trás, para Cades-Baméia, es­ tava morta. A sentença de morte, da parte de Deus,já selevara a efeito. Estes versículos encerram o quadro do castigo de Israel, e assim fazem pela in­ versão de figuras, que são familiares nas descrições de guerra santa e do êxodo. Fazem-se referências especiais ao exér­ cito. Normalmente, a mão do Senhor era um instrumento de salvação para Israel — um terror somente para os seus ini­ migos. Porém aqui se vira contra Israel. Com a sua morte, encerra-se este capí­ tulo da história de Israel, e o Senhor está f. AtravésdeAmom(2:13b-23) preparado para avançar para o seu alvo. Está pronto, com as novas tropas no exército de Israel, até a ordenar mais uma guerra santa — esta vez contra Siom, rei de Hesbom. O breve discurso do Senhor, nos ver­ sículos 16-23, indica o caminho através de Moabe e Amom, com instruções se­ melhantes, para evitar conquista ou pi­ lhagem. Insere-se outra nota sobre os habitantes. g. AVitóriaSobre Siom(2:24-37) 24 Levantai-vos, parti e passai o ribeiro de Amom; eis que entreguei nas tuas mãos a Siom, o amorreu, rei de Hesbom, e à sua terra; começa a te apoderares dela, conten­ dendo com eles em peleja. 25 Neste dia co­ meçarei a meter terror e medo de ti aos povos que estão debaixo de todo o céu; os quais,ao ouvirem a tua fama, tremerão e se angustiarão por causa de ti. 26 Então, do deserto de Quedemote, mandei mensageiros a Siom, rei de Hesbom, com palavras de paz, dizendo: 27 Deixa-me passar pela tua terra; somente pela estrada irei, não me desviando nem para a direita nem para a esquerda. 28 Por dinheiro me venderás mantimento, para que eu coma; e por di­ nheiro me darás a água, para que eu beba. Tão-somentedeixa-mepassar a pé, 29assim como me fizeram os filhos de Esaú, que habitam em Seir, e osmoabitas que habitam em Ar; até que eu passe o Jordão para a terra que o Senhor nosso Deus nos dá. 30 Mas Siom, rei de Hesbom, não nos quis deixar passar por sua terra, porquanto o Senhorteu Deus lhe endurecera o espírito, e lhe fizera obstinado ocoração, para to entre­ garnas mãos, como hoje se vê. 31Disse-me, pois,o Senhor: Eis aqui comecei a entregar- te Siom e a sua terra; começa, pois, a te apoderares dela, para possuíres a sua terra por herança. 32 Então Siom nos saiu ao encontro, ele e todo o seu povo, à peleja, em Jaza; 33 e o Senhor nosso Deus no-lo entre­ gou, e oferimos a ele, ea seus filhos,e a todo o seu povo. 34 Também naquele tempo lhe tomamos todas as cidades, e fizemos pere­ cer a todos, homens, mulheres e pequeninos, nãò deixando sobrevivente algum; 35 so­ mente tomamos por presa o gado para nós, juntamente com o despojo das cidades que havíamos tomado. 36Desde Aroer, que está à borda do vale de Arnom, e desde a cidade que está no vale, até Gileade, nenhuma ci­ dade houve tão alta que de nós escapasse; 234
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    tudo o Senhornosso Deus no-lo entregou. 37 Somente à terra dos amonitas não che­ gastes, nem a parte alguma da borda do ribeiro de Jaboque,nem a cidade alguma da região montanhosa, nem a coisa alguma que oSenhornossoDeus proibira. e Nesta seção, o relato usando a primei­ ra pessoa do plural “nós” aparece quan­ do a narração chega à sua metade (v. 30a, 32-36). A história é importante, sendo mencionada em ambas as supers- criçõese em Números 21:21-31. Em con­ traste com as instruções do Senhor con­ cernentes a Moabe e Edom, ele manda que Israel se prepare para ir à guerra. Apesar de fazerum pedido para que pas­ sasse pacificamente, Siom resiste, e é destruído. A diferença entre Siom e os povos anteriores é significativa. Os outros não ocupavam terras que o Senhor havia des­ tinado para Israel. Siom era o primeiro dos reis cananeus. A partir deste ponto é que Israel começa a conquista propria­ mente dita. O relato deuteronômico real­ ça isto, apesar da parte da tradição, paralela às três histórias anteriores de que Israel pede permissão para passar pacificamente. O resultado deste misto de ênfase dá um retrato de Moisés um tanto contradi­ tório. As palavras de paz (v. 26) condi­ zem com o retrato fundamental do gran­ de legislador e líder. O líder na guerra santa mais condiz comoretrato deJosué, que segue. Porém a ênfase que Deutero- nômio dá à guerra santa como o padrão para a conquista se amplia, para abran­ ger a conquista da terra no leste do Jordão, bem como nooeste dorio. A seção é um exemplo clássico da assimchamada guerra santa. O Senhor a ordena, endurece o coração do inimigo, e então o entrega aos exércitos de Israel. De acordo com as instruções que se acham no capítulo 7, para tais guerras, nenhuma pessoa era deixada com vida. As questões levantadas por esse tipo de guerra são debatidas lá e na introdução. Nota-se que a área a ser capturada era estritamente limitada, como também as áreas que o Senhor proibiu que tomasse (cf. osv. 36,37). h. AVitóriaSobreOgue(3:1-11) 1 Depois nos viramos e subimos pelo ca­ minho de Basã; e Ogue, rei de Basã, nos saiu ao encontro, ele e todo o seu povo, à peleja, em Edrei. 2 Então o Senhor me disse: Não o temas, porque to entreguei nas mãos, a ele e a todo o seu povo, e a sua terra; e farás a ele como fizeste a Siom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom. 3 Assim o Senhor nosso Deus nos entregou nas mãos também a Ogue, rei de Basã, e a todo o seu povo; de maneira que o ferimos, até que não lhe ficou sobrevivente algum. 4 E naquele tempo tomamos todas as suas cidades; nenhuma cidade houve que não lhes tomássemos: sessenta cidades, toda a região de Argobe, o reino de Ogue em Basã, 5 cidades estas todas fortificadas com altos muros, portas e ferrolhos, além de muitas cidades sem muros. 6E destruímo-las total­ mente, como fizéramos a Siom, rei de Hes­ bom, fazendo perecer a todos, homens, mulheres e pequeninos. 7 Mas todo o gado e o despojo das cidades, tomamo-los por presa para nós 8 Assim naquele tempo to­ mamos a terra da mão daqueles dos reis dos amorreus, que estavam além do Jor­ dão, desde o rio Arnom até o monte Her- mom 9 (ao Hermom os sidônios chamam Siriom, e os amorreus chamam-lhe Senir), 10 todas as cidades do planalto, e todo o Gileade, e todo o Basã, até Salca e Edrei, cidades do reino de Ogue em Basã. 11 Por­ que só Ogue, rei de Basã, ficou de resto dos refains; eis que o seu leito, um leito de ferro, não está porventura em Rabá dos amonitas? o seu comprimento é de nove côvados, e de quatro côvados a sua largura, segundo ocôvado em uso. Este étodo um relato de batalha usan­ do a primeira pessoa do plural “nós”, excetuando-se o versículo 2 e as notas geográficas nos versículos 9 e 11. É evi­ dente que esta foi, originalmente, parte do relato duplo, visto que o verso 8 serve deconclusãopara ambos os relatos para­ lelos. O reino de Ogue foi também su­ jeito à guerra santa, com resultados exa­ tamente semelhantes àqueles de Siom. As duas vitórias deixaram Israel em con­ trole da terra ao norte de Moabe, entre 235
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    Amom e oJordão,e se estendendo ainda para onorte até as fronteiras deArã. Ogue é chamado de o último dos re- fains, aquela antiga geração de gigantes (cf. 2:10,11 e Núm. 13:33). Alguns es­ tudiosos têm pensado que o leito de ferro serefereaumsarcófagorochosodebasalto preto do rei. Porém o tamanho citado daria medidas de mais de 4,10m por l,80m, mais do que o dobro do tamanho do famoso sarcófago de Airão de Biblos. (Um cúbito comum é de, aproximada­ mente, 46cm, o comprimento do ante­ braço.) Parece, com mais probabilidade, referir-se a uma formação rochosa ou perto de Ribá ou dentro dessa cidade, queera conhecida por estenome. i. ADivisãoda Terra(3:12-17) 12 Naquele tempo, pois, tomamos essa terra por possessão. Desde Aroer, que está junto do vale de Amom, e a metade da região montanhosa de Gileade, com as suas cidades, deiaos rubenitas e gaditas; 13e dei à meia tribo deManasses oresto de Gileade, como também todo o Basã, o reino de Ogue, isto é, toda a região de Argobe com todo o Basã. (O mesmo se chamava a terra dos refains. 14 Jair, filho de Manassés, tomou todaa região de Argobe, até a fronteira dos gesuritas e dos maacatitas, e lhes chamou, inclusive o Basã, pelo seu nome, Havote- Jair, até hoje.) 15 E a Maquir dei Gileade. 16Mas aos rubenitas e gaditas dèi desde Gi­ leade até o vale do Amom, tanto o meio do vale como a sua borda, e até o ribeiro de Jaboque, o termo dos amonitas; 17 como também a Arabá, com o Jordão por termo, desde Quinerete até o mar da Arabá, o Mar Salgado, pelas faldas de Pisga para o orien­ te. A última passagem usando a primeira pessoa doplural “nós” narra a doação de terras a Rúben, Gade e à meia tribo de Manassés. A começar do sul, Rúben recebeu a terra do rio Amom até um ponto mais ou menos equiparado com a extremidade setentrional do Mar Morto. Aporção de Gade estendeu-se dali até o meio de Gileade, enquanto a parte de Manassés continuou para o norte, Basã adentro. j. Adendo: AuxílioPara a Conquista As­ segurado(3:18-22) 18 No mesmo tempo também vos ordenei, dizendo: O Senhor vosso Deus vos deu esta terra, para a possuirdes; vós, todos os ho­ mens valentes, passareis armados adiante de vossosirmãos, os filhos de Israel. 19Tão- somente vossas mulheres, e vossos pequeni­ nos, e vosso gado (porque eu sei que tendes muito gado) ficarão nas cidades que já vos dei; 20 até que o Senhor dê descanso a vossos irmãos como a vós, e eles também possuam a terra que o Senhor vosso Deus lhes dá além do Jordão. Então voltareis cada qual à sua herança que já vos tenho dado. 21 Também dei ordem a Josué no mesmo tempo, dizendo: Os teus olhos viram tudo o que o Senhor vosso Deus tem feito a esses dois reis; assim fará o Senhor a todos os reinos a que tu estás passando. 22Não te­ nhais medo deles, porque o Senhor vosso Deusé oque peleja por vós. Dão-se instruções específicas às tribos que tinham recebido a sua porção ao leste do Jordão, no sentido de ajudarem na conquista ao oeste do Jordão. Dão-se instruções a Josué para empreender o mesmo tipo de guerra santa que tinha arrasado bem-sucedidamente os reinos de SiomeOgue. k. Adendo: O RogodeMoisés (3:23-29) 23Também roguei ao Senhornesse tempo, dizendo: 24ÓSenhorJeová, tu já começaste a mostrar ao teu servo a tua grandeza e a tua forte mão; pois, que Deus há no céu ou na terra, que possa fazer segundo as tuas obras, e segundo os teus grandes feitos? 25Rogo-te que me deixes passar, para que veja essaboa terra que está além do Jordão, essa boa região montanhosa, e o Líbano! 26 Mas o Senhor indignou-se muito contra mim por causa de vós, e não me ouviu; mas antes me disse: Basta; não me fales mais nisto. 27 Sobe ao cume do Pisga, e levanta osolhospara oocidente,para onorte,para o sule para ooriente, e contempla com os teus olhos; porque não passarás este Jordão. 28Mas dá ordens a Josué, anima-o, e forta­ lece-o, porque ele passará adiante deste povo, e o levará a possuir a terra que tu verás. 29Assim ficamos no vale defronte de Bete-Peor. 236
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    Moisés pediu encarecidamenteao Se­ nhor para que lhe permitisse atravessar oJordão com os israelitas. Foi-lhe nega­ do o pedido por causa dos pecados de seu povo (cf. 1:37a; 4:21). Em outro lugar (31:2d) se menciona a proibição serçi dar o motivo. Em Números 20:12 e Deuteronômio 32:51, o pecado do pró­ prio Moisésédado comoo motivo. O fato de que mesmo os maiores den­ tre os servos de Deus não podem sim­ plesmente pedir a Deus o que quiserem, e recebê-lo, incomodava as pessoas na época do AntigoTestamento econtinua a incomodar hoje. O fato de que até eles têm, àsvezes, de deixar esta vida sem ver os plenos frutos de seus labores é tam­ bém um problema. Aconteceu com Moi­ sés como também com Paulo (II Cor. 12:7). Mas a vida é assim. As pessoas compartilham na sensação do inacabado que éprópria da condiçãohumana. Esta passagem pode ser ligada a ou­ tras, que falam no sofrimento vicário (cf. Êx. 32:31,32; Deut. 9:15-20,25-29). Pensa-se nas palavras de Paulo em Ro­ manos 9:3 “Porque eu mesmo desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne.” Volte-se novamente à ordem de subir a montanha, em 32:49. Porém a monta­ nha aí chama-se de Nebo, e não Pisga. Volta-se às ordens dadas a Josué nos capítulos 31 e 34. A ocorrência destes temas ilustra a estreita relação destes primeiros três capítulos com os capítulos finais dolivro. Nesteponto o resumo histórico é inter­ rompido. É possível que em certa época, no passado, tenha continuado direta­ mente nocapítulo 31. (2) O Sermão Sobre o Primeiro Manda­ mento(4:1-40) A maior parte deste capítulo (v. 1-40) constitui, claramente, uma unidade in­ dependente. Há uma nítida descontinui- dade após ocapítulo três, embora muitas referências, neste capítulo, remontem a temas encontrados nos primeiros três. O sermão termina. Insere-se uma nota his­ tórica (v. 41-43). Os últimos versículos (v. 44-49) são a superscrição formal para a seção quecomeçano capítulo5. Este sermão versa sobre o Primeiro Mandamento, eé, assim, paralelo aos do capítulo 6edoscapítulos 10e 11. Em cada um, uma narração de eventos históricos, que são importantes para as tradições da aliança sagrada, e seguida por um sermão implorando a obediência ao grande mandamento. É uma exor­ tação para cumprirem a lei de Deus. Concentra o seu apelo na proclamação da grandeza deDeus, que deu a lei e que estava presente em Israel, e numa expo­ sição daquela determinada seção da lei (o Decálogo) que são considerados os mais distintivos e significativos de todos. O sermão avança consideravelmente além de uma exposição deste manda­ mento, para expor a lição de que a posse única e preciosa de Israel entre todos os povos era a sua consciência da proximi­ dade de Deus dele e ter uma lei mais reta do que qualquer outra que os demais povos conheciam. Essa lei era a base de suaexistência, a carta magna de sua vida com o povo, tanto na terra como fora dela. Este capítulo é um dos mais recentes dos escritos contidos em Deuteronômio e, aparentemente, foi escrito e introdu­ zido nesta posição, no livro, na época da segunda edição da história deuteronômi- ca, para o fim do exílio. Não vê apenas a ameaça do exílio (v. 26 e s.), mas tam­ bém a esperança de retorno mais além (v. 30,31). Isto significa que a sua inter­ pretação tem de manter dois pontos de vista temporais em mente. O primeiro, seucontextocomoum discurso deMoisés antes da entrada de Israel na terra; mas, segundo, uma interpretação desse dis­ curso numa redação para o fim do exílio babilónico. 237
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    O sermão éuma unidade. Ê cuidado­ samente composto, em quatro linhas de desenvolvimento. Estrutura dostemas deuteronômicos: Leieterra v. 1 5 ess. 14 21e s. Decálogo(ouproibição de imagens) v. 2 9 15-19 23ess. Referênciashistóricas v. 3es. 10-1320 Um estreitamento do assunto abrangi­ do: Aleiinteira v. 5-8 ODecálogo v. 9-14 Aproibição de imagens v. 15-22 Uma perspectiva ampliada da história: Somente oeventoem Baal-Peor(Núm. 25) v. 3 Sinal v. 10e ss. Oêxodo v. 20 Remonta à criação v. 22-40(32) Uma visão ampliada do futuro (do ponto devistade Moisés noJordão): Aplicada à vidaem Canaã v. 5 Referência àera de Salomão v. 6-8 Aplicada ao Reino posterior v. 15-19,25 0 exílio v. 26-28 Renovaçãoeretomo v. 29-31 a. Exortação —Guardaia Lei(4:1-4) 1Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os preceitos que eu vos ensino, para os ob­ servardes, a fim de que vivais, e entreis e possuais a terra que o Senhor Deus de vos­ sos pais vos dá. 2 Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela,para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando. 3Os vossos olhos viram o que o Senhor fez por causa de Baal-Peor; pois a todo homem que seguiu a Baal-Peor, o Senhor vosso Deus o consumiu domeio de vós. 4Mas vós, que vos apegastes ao Senhor vosso Deus, todos este­ jais hoje vivos. A introdução do sermão começa, sem nenhum outro preliminar, com uma exortação para observarem a lei. A lin­ guagem é uma com que se está familia­ rizado, pelo seu uso repetido neste livro. Porém a grandeza deste sermão e de outros em Deuteronômio não reside no fato da exortação à observância da lei, mas, sim, na maneira como esta exorta­ ção está relacionada com os interesses mais importantes e elementares de fé e davida. O emprego do verbo “ensinar”, neste capítulo(v. 1,5,14), ésignificativo. É ver­ dade que as seções mais antigas de Deu­ teronômio também falam em ensino (5: 31; 6:1), e, da mesma forma, admoestam Israel para que o povo aprenda as leis e as ensine aos seus filhos (5:1; 11:19). Mas aqui a palavra émais proximamente uma descrição exata do que Moisés esta­ va fazendo. Antes do exílio, este “ensi­ no” teve lugar na celebração do ritual pactuai. Porém no exílio, material ante­ riormente transmitido através do ritual foi fixado num livro e devia ser ensinado e aprendido do livro. Assim, a palavra tem um significado mais profundo aqui, como também o termo complementar “aprender” (v. 10). Dois motivos principais para a obser­ vância da lei são notados. O primeiro é o maisprofundo evital que ohomem possa ter: avontade deviver. Ê proeminente no começo e no fim da seção. A vida ou a existência seria possível para Israel den­ tro da obediência à lei de Deus. O ser e o existir de Israel estavam intimamente ligados com a aliança e com a eleição, que são expressas na Tora. Ignorar este contrato básico da aliança seria negar a sua própria existência, e morrer, como aqueles em Baal-Peor. Mas também o próprio otimismo de Deuteronômio se expressa aqui. A lei foi dada não como uma camisa-de-força ou para suprimir a vi(|a, mas, ao contrário, para possibilitar sua plena e livre expressão. Quando a fi­ nalidade éviver, e viver plenamente, não se procura libertar-se da lei de Deus. Antes, encontrar-se-ia realização e vida 238
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    por observar asinstruções de Deus sobre comoviverdentro da esfera que ele havia criado para o seu povo, através da alian­ çaeda dádiva da TerraPrometida. Com issojá se firmou o segundo moti­ vo: a posse da terra que Deus estava lhe dando. A exortação era possível, porque Deus havia feito uma aliança e tomara Canaã disponível: A exortação era neces­ sária, porque a terra estava ainda por ser ocupada eusada conforme opropósito de Deus expressona Lei. O versículo 2 é uma assim chamada “fórmula canônica”. Aformação dolivro de Deuteronômio posiciona-se no limiar da formação do cânon do Antigo Testa­ mento. Deuteronômio procura conscien­ temente as formulações centralizadas de doutrina que são os começos de sistemas (von Rad, Deuteronomy, p. 29). Está também consciente dese situar no fim do processo pelo qual semelhantes cristali­ zações de doutrina e mandamentos são fixados imutavelmente para gerações fu­ turas. O primeiro cânon em Israel foi, indubitavelmente, o Decálogo, que Deu­ teronômio expõe. Num sentido mais am­ plo, acoleção de escritos, que, principal­ mente, exerceu autoridade canônica em Israel foi o Pentateuco. Este versículo reproduz as convicções que fixaram e confirmaram ocânon pentateucal. A fórmula é antiga. Era conhecida no Egito antigo, sendo documentada por Ptahhotep em cerca de 2450 a.C. Ê repe­ tida no Antigo Testamento (12:32; Prov. 30:6; Ecl. 3:14; Jer. 26:2). Porém, o lei­ tor do século vinte deverá notar que não trazia as conotações conhecidas na era cristã, senão a partir da época dos Pais da Igreja, a começar do terceiro século d.C. em diante. Era, certamente, enten­ dida de,umamaneira muito maisgeral. Ã moda deuteronômica, a exortação é, então, ilustrada por uma referência à história. A experiência recente (do ponto de vista de Moisés, junto ao Jordão) da apostasia em Baal-Peor (Núm. 25), que era o último ponto mencionado nos rela­ tos da viagem no capítulo 3, é citada como advertência. Note-se que o pecado de Baal-Peor não era interpretado como uma infração da Lei, mas, sim, como apostasia contra Deus. O resultado da apostasia foi a morte. Os que ainda viviam eram testemunhas. A questão da vida ainda está no primeiro plano. O ater-se firmemente a Deus em observar a Lei era vital e sem isso a vida era impos­ sível. b. ASabedoriaSupremadeIsrael (4:5-13) S Eis que vosensinei estatutos e preceitos, como o Senhor meu Deus me ordenou, para que os observeis no meio da terra na qual estais entrando para a possuirdes. 6 Guar­ dai-os e observai-os, porque isso é a vossa sabedoria e ovossoentendimento à vista dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Esta grande nação é deveras povo sábio e entendido. 7 Pois que grande nação há que tenha deuses tão chegados a si como oé a nós o Senhor nosso Deus todas as vezes que o invocamos? 8 E que grande nação há que tenha estatutos e preceitos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós? 9Tão-somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, para que não te esqueças das coisas que osteus olhos viram, e que elas não se apaguem do teu coração todos os dias da tua vida; porém as conta­ rás a teus filhos, e aos filhos de teus filhos; 10odiaem queestivesteperante oSenhorteu Deusem Horebe, quando oSenhorme disse: Ajunta-me este povo, e os farei ouvir as minhas palavras, e aprendê-las-ão, para me temerem todosos dias que na terra vive­ rem, e as ensinarão a seus filhos. 11 Então vós vos chegastes, e vos pusestes ao pé do monte; e o monte ardia em fogo até o meio docéu, e haviatrevas, e nuvens e escuridão. 12 E o Senhor vos falou do meio do fogo; ouviste o som de palavras, mas não vistes forma alguma; tão-somente ouviste uma voz. 13 Então ele vos anunciou o seu pacto, o qual vos ordenou que observásseis, isto é, osdez mandamentos; e osescreveu em duas tábuas de pedra. O corpo do sermão é então desenvol­ vido em forma espiral, à medida que cada seção aborda os temas deuteronô- micos. São aqui ouvidos como temas mu­ 239
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    sicais numa sinfonia,os quais, com va­ riações, serão ouvidos de novo em cada movimento da composição. A primeira seção(v. 5-13) expõe a hei como a sabe­ doria suprema de Israel à vista das na­ ções. Novamente, não se permite que o louvor da Lei seja separado do ser e da presença de Deus outorgados. A glória de Israel deviaser vista na proximidade e na acessibilidade de seu grande Deus (v.7) e na evidente retidão da Lei que ele deu na aliança(v.8). A seção segue imediatamente para a admoestação para que não te esqueças. O segundo e terceiro motivos da constru­ ção são fundidos (v. 9-13). Pela referên­ cia à sua experiência da presença de Deus em Sinai, na qual não viram ne­ nhuma forma, eleoslembra do distintivo Segundo Mandamento. Sua ênfase pri­ mária aqui, porém, está sobre o Decá­ logo inteiro (v. 13). O tema de a lei avança da referência geral para toda esta lei (v. 5-8), o Decálogo (v. 9-14), e para os específicos Segundos Mandamentos (v. 15-22). Aomesmo tempo, as referências histó­ ricas estão-se ampliando. A introdução fez referência ao incidente recente em Baal-Peor. Mas esta primeira seção prin­ cipal retrocede 40 anos, à experiência construtiva primeira de Israel em Sinai. Naquela grande e perturbadora expe­ riência ele aprendeu sobre Deus: algo negativo — não viram forma nenhuma; não havia ele de ser entendido e experi­ mentado em termos de algo concebível como forma ou imagem; e algo positivo — a sua aliança, dez palavras que po­ diam ser moldadas e foram esculpidas em pedra. As palavras podiam ser com­ preendidas, debatidas, interpretadas, obedecidas. Delas, aprendeu-se de Deus. Como deveria Israel falar de seu grande Deus que lhe estava tão próximo? Por citar, obedecer e pregar as palavras da aliança. É significativo que o hebraico fale em “dez palavras”, não em “dez manda­ mentos”. Pois são muito mais do que mandamentos. Estatutos, mandamentos eordenançashavia muitos. Masestes dez vãoalém. Seuefeitoeintuito alcançavam muito além da obediência. Plasmam fé e aquela compreensão de Deus e do ho­ mem que chamamos de teologia. Reve­ lam Deus e declaram as exigências de Deus em termos que sempre ultrapassa­ rão a capacidade de qualquer homem de cumprir. A interpretação que Jesus lhes deu no Sermão da Montanha está direta­ mente de acordo com o seu intento origi­ nal. Estas palavras dão expressão à men­ te de Deuse revelam o seu verdadeiro ser e vontade. Como tais merecem ser cha­ madas de a forma mais primitiva da Palavra de Deus, de a forma embrioná­ ria docânon das Escrituras. Entrelaçada com estes temas há uma breve sugestão de crítica e correção, nu­ ma outra seção da história deuteronômi- ca. O reinado de Salomão foi um dos poucos períodos da história de Israel em que ele podia ser chamado de uma das “grandes naçpes”. As suas característi­ cas, de reputação internacional, eram a sabedoria de Salomão eoTemplo como o lugar da Presença de Deus (I Reis 8:27- 30). Este sermão insiste em que a sabe­ doria de Israel era a que fora depositada na Lei, e não aquela vista em Salomão. ALeiera o seu direito e posse orgulhosa, mesmo no exílio. Por aprendê-la e guar­ dá-la, Israel poderia ainda mostrar a sua superioridade acima das nações muito depois do desaparecimento do reino que Salomão havia edificado. A presença de Deus prometida vinha igualmente dele, através da Lei. O Templo já não era necessário. Israel podia orgulhar-se em ter Deus “com ele”, mesmo na Babilô­ nia, quando aprendeu e pôs em prática a Lei.» O versículo 5 ordena a observância de estatutos e ordenanças na terra de Ca- naã. Do ponto de vista de Moisés, isto previa o futuro imediato. Do ponto de vista dos que aprendiam a Lei, no exílio, 240
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    levantou-se a questãose podiam ou devi­ amserguardadosna Babilônia. Aquestão era se devia conformar-se e ser assimila­ do, ou ser diferente e permanecer iso­ lado. Esta questão traz outras consigo. Co­ mo deveria agir Israel quando rodeado pela cultura mais adiantada sob influ­ ência religiosa dos babilônios? Como podia a fé e a maneira de viver de um diminutopovoprovinciano sobreviverem semelhantes circunstâncias? E deveria sobreviver? A finalidade deste capítulo é justa­ mente dar resposta a essas interrogações. As indagações são relevantes para todo o pensamento do Oriente Médio. As gran­ des nações, e governantes, a partir de Hamurábi, preocupavam-se com a sabe­ doria e retidão de suas leis. O problemà da proximidade ou distância de Deus era também de grande interesse. O que está em questão é citado especificamente no versículo 7: Ele é chegado todas as vezes queo invocamos. A certeza se Deus pode ouvir a oração e se efetivamente a ouve e se intervém em prol do suplicante neces­ sitadoé que está em discussão. A lei que estava sendo proclamada era omotivo de uma vida separada e distinta por parte do povo de Deus, bem como o fundamento de semelhante vida naquela terra estrangeira. Pois nenhuma nação tinha um Deus tão próximo nem uma lei tão reta! Mesmo no exílio, o Deus de Israel lembrar-se-ia de sua aliança com osseuspais(v. 13). Ã medida que o espiral se move, é oportuna uma referência ao Decálogo. É mencionado apenas por alto, sob a referência, àquelas coisas que teus olhos viram, e o espiral prossegue, falando na teofania em Sinai. Como no primeiro círculo, onde a fórmula canônica foi in­ troduzida neste ponto, aqui se insere uma admoestação para ensinarem estas coisas às gerações seguintes. Admoesta­ ções paralelas se acham em 6:6 e s.; 11:19-21;31:13. Noversículo 10, as palavras de Deus a Moiséssãocitadascom a mesmafinalida­ de. Na realidade, a admoestação do ver­ sículo9surge da palavra direta de Deus a Moisés, que não é mencionada a não ser noversículo seguinte. Sem nenhuma pausa, o pensamento prossegue para a teofania no Sinai, com umaênfase tremenda sobre o fogo. Toda aquelagrande experiênciaé aqui resumi­ da em quatro versículos. O motivo do fogoaparecerepetidasvezes(v. 15,33,36). È importante, porque mostra o ser essen­ cial de Deus: ele é um fogo consumidor (v. 24). Então se enfatiza a ausência de qual­ quer forma visível vista no Sinai (v. 12). Esta observação não é feita em outras descrições da experiência sinaítica. Nesta ocasião, prepara o caminho para a pro­ clamação do Segundo Mandamento, com a suaproibição de imagens (v. 15,16). O versículo 13 identifica a aliança ou pacto com os Dez Mandamentos nas tá­ buas depedra. Isto imediatamente levan­ ta a questão da relação entre estas “dez palavras” e toda a lei que Moisés está proclamando. O versículo 14dá a respos­ ta nos mesmos termos como aqueles apresentados no capítulo 5. O Decálogo foi a base da aliança. Os demais estatu­ tos e leis foram dados para Israel seguir em sua vidaem Canaã. c. OGrandeMandamento(4:14-20) 14 Também o Senhor me ordenou ao mes­ mo tempo que vos ensinasse estatutos e preceitos, para que os cumprísseis na terra a que estais passando para a possuirdes. 15 Guardai, pois, com diligência as vossas almas, porque não vistes forma alguma no dia em que oSenhorvossoDeus, em Horebe, falou convosco do meio do fogo; 16para que não vos corrompais, fazendo para vós algu­ ma imagem esculpida, na forma de qual­ quer figura, semelhança de homem ou de mulher; 17ou semelhança de qualquer ani­ malque há na terra, ou de qualquer ave que voa pelo céu; 18ou semelhança de qualquer animal que se arrasta sobre a terra, ou de qualquerpeixe que há nas águas debaixo da 241
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    terra; 19e paraque não suceda que, levan­ tando osolhospara océu, e vendoosol,a lua e as estrelas, todo esse exército do céu, sejais levados a vos inclinardes perante eles, prestando culto a essas coisas que o Senhorvosso Deus repartiu a todos os povos debaixo de todo o céu. 20 Mas o Senhor vos tomou, e vos tirou da fornalha de ferro do Egito, a fim de lhe serdes um povo hereditá­ rio, comohoje osois. Oversículo 14, em certo sentido, fecha o episódio de Sinai, mas também men­ ciona o primeiro motivo do espiral se­ guinte e abre o caminho para mergulhar diretamente no segundo motivo, que tra­ ta da proclamação real do primeiro e maior mandamento (cf. Mat. 22:36-38). O maior mandamento, para Deutero- nômio, como o era para Jesus, foi aquele que ordena total devoção a Yahweh, o Deus de Israel. Este sermão lembra os seus ouvintes e leitores para evitarem as alternativas mais evidentes aeste manda­ mento. A maioria das religiões daqueles dias cultuavam a ídolos. Lembra-os da lei, proibindo a fabricação de qualquer imagem. Ãs vezes se tem pensado que este mandamento proibia a tentativa de retratar Yahweh em qualquer forma plástica. A referência no versículo 15, a não se ter visto qualquer forma no Sinai, podia comprovar esse ponto de vista. É este, sem dúvida, um entendimento le­ gítimo deste Segundo Mandamento do Decálogo. Todavia, não parece ter sido esse o in­ tento principal desta passagem. Não te­ mos nenhuma indicação de que Israel tenha sido alguma vez tentado a retratar Yahweh em forma feminina ou como uma ave ou um peixe. A exortação urge que Israel se abstenha de participar das religiões concorrentes contemporâneas daqueles dias. A dimensão do problema como ameaça real no reino posterior e no exílio pode ser medida em passagens como II Reis 21:3-8, 23:4-14 e Eze- quiel8. Diferentemente destas passagens e das expressões típicas deuteronômicas em outros lugares, este capítulo evita o uso dotermo “deuses estranhos”. Certamen­ te a omissão foi propositada. Refletia a situação mudada existente no fim do exílio, em contradição à polêmica contra tais assuntos, enquanto ainda falando em Jerusalém. Dificilmente o uso da frase teria sido apropriado, quando o Israel todo vivia no meio de estrangeiros, em terra estranha. Porém a necessidade de expor esta advertência contra a fa­ bricação de e cultos a tais deuses era maiordo quenunca. Esta passagem é única em prosseguir na proibição do culto dos corpos celes­ tiais. Isto foi, outra vez, claramente, um problemapara Israel no reino posterior e no exílio, como não havia sido nos sé­ culosanteriores. Contudo, a situação era diferente daquela das religiões que usa­ vam imagens. A grande tentação para Israel jazia no fato de que uma contem­ plação dos astros evocava um temor le­ gítimo. Aqui havia sentimentos que se moviamnum plano bem diferente daque­ le do culto de imagens de madeira e pedra. Por detrás deste culto aos astros po­ diajazer a reverência aos seres celestiais que representavam os “filhos de Deus” dos Salmos, os “santos” do conselho de Yahweh. Assim é que Jó 38:7 faz parale­ lismo entre as estrelas da manhã e os “filhos de Deus”. Uma referência a essa comparação pode ser encontrada em Deuteronômio32:8. Contudo, Israel tinha de reconhecer que, por mais acertado que isso fosse para os demais povos (v. 19b), aos quais Deus tinha dado isso como um meio de reconhecê-lo, este culto às grandes hos­ tes docéu não podia ser a base de Israel para a compreensão de Deus ou para cultuá-lo. Arelação de Israel com Deus baseava- se em seu resgate do Egito (v. 20). Aqui Egito é chamado de a fornalha de ferro, um símbolo de calor insuportável, de dor e crueldade. Talvez o uso desta expres- 242
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    são aqui venhade I Reis 8:51, pois a expressão normal, no Decálogo, é “a casada servidão”. Ou talvez a referência ao Egito como a fpmalha de ferro esteja fazendocontraponto à designação por vir do próprio Deus, na sua ira, como “um fogoconsumidor” (v. 24). Com o versículo 20 volta-se de novo ao motivo histórico. Esta vez remonta para além do Sinai, ao resgate do Egito, para uma perspectiva ainda mais larga. A aplicação de logo antes já não se rela­ ciona apenas com Salomão, mas abrange o período do reino posterior e do exílio. Comootema tem-se limitado à Lei como um todo para o Decálogo, e então ao Primeiro Mandamento, assim a perspec­ tiva histórica em retrospecto de Parã tem-se ampliado para abrangero próprio êxodo. Para o futuro, a perspectivajá se estende até oexílio. d. Guardai-vos(4:21-24) 21 O Senhor se indignou contra mim por vossa causa, e jurou que eu não passaria o Jordão, e que não entraria na boa terra que o Senhor vosso Deus vos dá por herança; 22mas eu tenho de morrer nesta terra; não podereipassar oJordão; porém vóso passa­ reis, e possuireis essa boa terra. 23 Guar­ dai-vos de que vos esqueçais do pacto do Senhor vosso Deus, que ele fez convosco, e não façaispara vósnenhuma imagem escul­ pida, semelhança de alguma coisa que o Senhor vosso Deus vos proibiu. 24 Porque OSenhor vosso Deus é um fogo consumidor, um Deuszeloso. Com o versículo 21, um novo ciclo de motivos começa. A referência à Lei e à terra éexpressa na amarga lembrança de Moisés de que não lhe seria permitido entrar na terra (cf. 1:37; 3:26). Porém se recomenda que os israelitas entrem e a possuam. Depois docomeço, segueuma admoes­ tação com as palavras Guardai-vos. Se­ melhantes imperativos dominam este ca­ pítulo e estabelecem a pauta para o seu estilo. Começou com o imperativo “Ou­ ve!” (v.l). Três vezes lhes é recomenda­ do: “Guardai-vos” (v. 9,15,23). Ainda outros imperativos lhes recomendam que perguntem (v. 32) e saibam (v. 39). No versículo 23, a admoestação diz respeito à proibição de imagens, que tinha sido o tema do sermão. No estilo do Decálogo, Moisés lembra ao povo que a infração deste mandamento é especialmente per­ turbadora para Yahweh, seu Deus ciu­ mento. e. SeVosCorromperdes, Servireis (4:25-31) 25 Quando,pois, tiverdes filhos,e filhos de filhos, e envelhecerdes na terra, e vos cor­ romperdes, fazendo alguma imagem escul­ pida., semelhança de alguma coisa, e prati­ cando oque é mau aos olhos do Senhor vosso Deus, para o provocar à ira, —26hoje tomo por testemunhas contra vós o céu e a terra, —bem cedo perecereis da terra que, pas­ sado o Jordão, ides possuir. Não prolonga­ reis os vossos dias nela, antes sereis de todo destruídos. 27 E o Senhor vos espalhará entre os povos, e ficareis poucos em núme­ ro, entre as nações para as quais o Senhor vos conduzirá. 28 Lá servireis a deuses que são obra de mãos de homens, madeira e pe­ dra, que não vêem, nem ouvem, nem co­ mem,nem cheiram.29Masdelábuscarásao Senhor teu Deus, e o acharás, quando o bus­ cares de todo o teu coração e de toda a tua alma. 30 Quando estiveres em angústia, e todas estas coisas te alcançarem, então nos últimos dias voltarás para o Senhor teu Deus, e ouvirás a sua voz; 31 porquanto o Senhor teu Deus é Deus misericordioso, e não te desamparará, nem te destruirá, nem se esquecerá dopacto quejurou a teus pais. Aoinvés de se voltar para um exemplo histórico mais antigo, como antes tem feito o ciclo de temas, o sermão agora prossegue para uma profecia (da pers­ pectiva de Moisés), que retoma o motivo da “maldição” das alianças desuserania, que tanto têm influenciado a forma e o estilo de Deuteronômio. O quadro é preenchido pela lembrança da real que­ bra do acordo da aliança pela fabricação de ídolos (v. 25), por uma conclamação de testemunhas da aliança (v. 26) e pelo anúncio daquilo que o Senhor da aliança ou pacto pretendia fazer como castigo pelainfração. 243
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    O castigo seriaproporcional ao crime. Conquanto opropósito da aliança fosse o de garantir as dádivas de vida e da terra para o seu povo, a maldição eliminaria ambas (v. 26). Conquanto Israel tivesse em Canaã a possibilidade de se unir como um povo numeroso em sua própria terra, a maldição o espalharia, tornan- do-o em poucos em número entre as nações (v. 27). E, lá, ironicamente, teria plena oportunidade de amadurecer o seu pecado, de serviraos deuses de madeira e pedra, que tinha insistido em servir em Canaã, apesar do mandamento explicito deDeus(v. 28). Mas o sermão é mais do que uma “maldição”, como toda a expressão da aliança ou pacto de Deus é mais do que uma lei. O otimismo coerente de Deute- ronômio aparece na lembrança de que até no exílio Deus manteria aberta a possibilidade do arrependimento. Sua misericórdia era a base da aliança. Ele não se esquece. Mesmo no exílio, se tu o buscares, o acharás. Porém, embora a misericórdia de Deus permaneça cons­ tante, também assimpermanecem as ati­ tudes requeridas daqueles que o buscam: boavontadeeobediência(v. 29-31). f. O Senhor É Deus —Não Há Nenhum Outro(4:32-40) 32 Agora, pois, pergunta aos tempos pas­ sadosque te precederam desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra, desde uma extremidade do céu até a outra, se aconteceu jamais coisa tão grande como esta, ou se jamais se ouviu coisa semelhan­ te? 33 Ou se algum povo ouviu a voz de Deusfalar do meio do fogo, como tu a ouvis­ te, e ainda ficou vivo? 34 Ou se Deus inten­ tou ir tomar para si uma nação do meio de outra nação, por meio de provas, de sinais, de maravilhas, de peleja, de mão poderosa, de braço estendido, bem como de grandes espantos,segundotudoquantofeza teu favor o Senhor teu Deus, no Egito, diante dos teus olhos? 35 A ti te foi mostrado para que sou­ besses que o Senhor é Deus; nenhum outro há senão ele. 36 Do céu te fez ouvir a sua voz, para te instruir, e sobre a terra te mostrou o seu grande fogo, do meio do qual ouviste as suas palavras. 37 E, porquanto amou a teus pais, não somente escolheu a sua descendência depois deles, mas tam­ bém te tirou do Egito com a sua presença e com a sua grande força; 38para desapos­ sar de diante de ti nações maiores e mais poderosas do que tu, para te introduzir na sua terra e ta dar por herança, como neste dia se vê. 39 Pelo que hoje deves saber e considerar no teu coração que só o Senhor é Deus, em cima no céu e embaixo na terra; nãohánenhum outro. 40E guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que eu te ordeno hoje, para que te vá bem a ti, e a teus filhos depois de ti, e para que prolon­ gues os dias na terra que o Senhor teu Deus té dá,para todoosempre. Os versículos 32-40 constituem um tipo de peroração. Abandonam a forma­ ção cíclica, mas continuam a perspectiva cada vez mais ampla da história. Re­ tomam, mais uma vez, o tema da última legitimidade da fé de Israel e a obediên­ cia à sua Lei, em comparação com as grandes nações e as suas religiões. Estes versículos começam com um desafio ou­ sado, para comparar as experiências de Israel com as de qualquer nação, de qualquer época, a partir do ato da cria­ ção, de uma extremidade dos céus à outra. A área específica de comparação foi definida pela pergunta anterior (v. 7): “Pois que grande nação há que tenha deuses tão chegados a si como o é a nós o Senhor (Yahweh) nosso Deus?” Agora estaproximidade de Yahweh de seu povo é exposta em termòs da voz falando do meio do fogo, no Sinai, e do braço po­ deroso de redenção, que resgatou Israel do Egito (v. 33,34). Isto foi dado a Israel para que soubesses — ou seja, para a comunicação do conhecimento da fé, em que sepossa fundamentar um relaciona­ mento. Esta fé tem de entender que Yahweh é Deus além de qualquer com­ paração. Nãohá nenhum outro. Oversículo36mantém o equilíbrio en­ tretranscendênciaeimanência. Avozdos céus e a epifania em fogo na terra eram, juntas, asinstrutorassobre o sereocami- 244
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    nhodeDeus, queestimulavamaaceitação daLeicomoasuavontadee asua aliança. Os versículos 37 e 38 resumem a his­ tória da salvação como uma base para umaexortação à obediência completa e à féinflexívelemDeus como o único Deus. O resumo da história da salvação cita a eleição de Israel por causa dos patriar­ cas, a salvação deles do Egito através do poder de Deus, e o provimento de Canaã pelos seus próprios atos. Esses atos di­ vinos são trazidos à memória porque proporcionam a oportunidade para a fé. Constituem revelação num sentido em que todos os astros dos céus não podem rivalizar. Lembrando-se deles, torna-se possívelpara Israel saber... que o Senhor (Yahweh) é Deus. O conhecimento reli­ giosoque chamamos de féépossívelonde osatos reais de Deus sãoproclamados. E a vida de obediência sob Deus é possível onde existe semelhante conheci­ mento defé. Tendo, assim, apelado para Israel que cresse, o sermão termina com o apelo à obediência, que possibilitará a vida, obem-estar e a segurança na terra queDeus dá. (3) Cidadesde Refúgio(4:41-43) 41 Então Moisés separou três cidades além do Jordão, para o nascente, 42 para que se refugiasse ali o homicida que invo­ luntariamente tivesse matado o seu próxi­ mo a quem dantes não tivesse ódio algum; para que, refugiando-se numa destas cida­ des, vivesse: 43 a Bezer, no deserto, no pla­ nalto, para os rubenitas; a Ramote, em Gileade,para osgaditas; e a Golã, em Basã, para os manassitas. Insere-se um apêndice, com uma mu­ dança abrupta de estilo e com a fala de Moisés na terceira pessoa. O interpola- dor certamente conhecia Números 35:9- 15e Josué 20, onde se acham listas com­ pletas das cidades. Parece que os nomes aqui foram tirados de Josué 20:8. O di­ reito de asilo ê plenamente descrito em Deuteronômio 19:1eseguintes. II. A Segunda Coleção dos Dis­ cursosdeMoisés (4:44-26:68) 1. Superscrição (4:44-49) 44Esta é a lei-que Moiséspropôs aos filhos de Israel; 45 estes são os testemunhos, os estatutose ospreceitosque Moisés falou aos filhosde Israel, depois que saíram do Egito, 46além do Jordão, no vaie defronte de Bete- Peor, na terra de Siom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom, a quem Moisés e os filhos de Israel derrotaram, depois que saíram do Egito; 47 pois tomaram a terra deles em possessão, como também a terra de Ogue, rei de Basã, sendo esses os dois reis dos amorreus, que estavam além do Jordão, para o nascente; 48 desde Aroer, que está à borda do ribeiro de Arnom, até o monte de Siom, que é Hermom, 49 e toda a Arabá, além doJordão, para o oriente, até o mar da Arabá, pelas faldas de Pisga. Esta superscrição é paralela a 1:3-5 (cf. o comentário sobre estes versículos). O “âmago” ou seção central de Deutero­ nômio começa com estas palavras. Mais umaveza ênfase recai no falar de Moisés e em Israel, endereçado anteriormente à conquista de Canaãpropriamente dita. 2. Parte Dois(5:1-8:20) (1) Narração: A Aliança em Horebe e MoisésComoo Mediador (5:1-27) 1 Chamou, pois, Moisés a todo o Israel, e disse-lhes; Ouve, ó Israel, os estatutos e preceitos que hoje vosfalo aos ouvidos, para que os aprendais e cuideis em os cumprir. 2O Senhor nosso Deus fez um pacto conosco em Horebe. 3 Não com nossos pais fez o Senhor esse pacto, mas conosco, sim, com todos nós que hoje estamos aqui vivos. 4 Face a face falou o Senhor conosco no monte, no meio do fogo 5 (estava eu nesse tempo entre o Senhor e vós, para vos anun­ ciar a palavra do Senhor; porque tivestes medo por causa do fogo, e não subistes ao monte), dizendo ele: Com esta breve introdução começa o discurso de Moisés, e continua sem in­ terrupção até e inclusive o capítulo 26. Todo o Israel é um termo encontradiço em Deuteronômio, que aparentemente vem da terminologia técnica da antiga 245
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    confederação israelita. Refere-seà as­ sembléia oficial das 12tribos. A exortação do versículo 1 é de um estilo familiar, típico de Deuteronômio. Dirige a atenção para a aliança que o Senhor Deus havia feito em Horebe. Ho- rebe é um outro nome de Sinai, usado coerentemente na tradição a que Deute­ ronômio pertence. O versículo 3 podia ser entendido como ignorando os fatos mencionados em 2:14 e seguintes como também toda a geração daqueles que tinham estado em Horebe, quejá haviam morrido. Nestecaso, nossospais faz refe­ rência aos patriarcas e o versículo realça a distinção entre as alianças abraâmica e de Horebe. Todavia, a interpretação mais provável entende “nossos pais” co­ mo a geração do deserto, enquanto nós queestamos todos... aqui vivosneste dia faz referência ao Israel então congrega­ do, renovando a aliança. Dentro do contexto pressuposto em Deuteronômio, este era o grupo perante Moisés em Parã, mas a afirmação teria parecido igualmente aplicável a cada ge­ ração sucessiva, pois frisava a relevância contemporânea das condições e obriga­ ções da aliança. Cada geração posterior podia identificar-se com a primeira gera­ ção, em fazer a aliança, como as cerimô­ nias da renovação da aliança encoraja­ vam o povo a fazer. Da mesma maneira, mediadores da aliança posteriores po­ diam ser identificados com Moisés no discurso e na entrega da Lei (cf. um procedimentosemelhante em 29:13 e s.). O versículo 4 enfatiza a fala direta de Deus ao povo (cf. os v. 22 e s.; 4:12 e s.; 15; 9:10). O versículo 5, por outro lado, destaca o papel de Moisés como media­ dor. Parece sugerir que somente Moisés ouviu a Deusetransmitiu as leis do povo. Porém o começo do versículo 6 retoma a ênfase do versículo 4, em separar os Dez Mandamentos das demais leis, como sen­ doaquela parte que o próprio Deus falou ao povo. As outras leis foram entendidas como sendo as dadas a Moisés lá e as dadas também posteriormente. Existem boas razões para a crença de que Moisés apresentou o Decálogo a Israel quando ele constituiu o povo pela aliança com Yahweh, o Senhor. Se era mais parecidocom o Decálogo em Êxodo 34:11-28 ou com a forma mais primitiva de Deuteronômio 5 (ou Êx. 20), não está claro. Mas este último é muito mais provável. 8 A história do Decálogo entre estes pontos mais primitivos e o período do reino posterior ou do exílio é difícil de traçar. As dez leis, evidentemente, goza­ vam de uma posição independente, fora dos processos de revisão que moldavam os códigos legais regulares. Esta “posi­ ção” se situava, provavelmente, nas ceri­ mônias para a renovação da aliança. Se­ melhante independência permitia ao De­ cálogo seguirasleis de seupróprio desen­ volvimento, até uma data tão posterior, quando, em relação à redação sacerdotal do Pentateuco, a versão de Êxodo fosse inserida na sua posição atual (possivel­ mente em substituição a uma versão mais antiga, que havia sido escrita ali por autores anteriores).9O mesmo processo básico dizia respeito à versão em Deute­ ronômio, com uma data para a fixação de sua forma no período exílico poste­ rior, por volta dos meados do sexto sé­ culo. O Decálogo mostra uma notável com­ binação de formas diferentes. O material básico é composto das assim chamadas leis “apodíticas”. Esta palavra se usa para descrever os mandamentos incon­ dicionais, como os mandamentos do sé­ timo ao nono inclusive, em distinção das leis “casuísticas”, que descrevem cuida­ dosamente as condições exatas sob as 8 H. H. Rowley, "Moses and the Decalogue*', Bulletin of lohn Inlands Library(1951-52), p. 81-118. Reimpresso em Men of God, de H. H. Rowley (Londres: Nelson, 1963), p. 1-36. 9 E. Nielsen, TheTen Commandments in New Perspective (Londres: SCM Press, 1968), p. 51 e55. 246
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    quais se háde aplicar a lei. Mas estes mandamentos breves e diretos têm sido expandidos cpm exortações no estilo de pregação. As diferenças principais entre as versões de Êxodo e Deuteronômio jazem na forma das expansões honfilé- ticas. Nesta versão deuteronômica, os Dez Mandamentos foram coligados e ligeira­ mente reformulados, a fim de enfatizar o mandamento sobre o sábado no meio. Nesta reforma aparecem cinco divisões principais, numa configuração nitida­ menteestilística, comosegue: I. Cultoso­ mente ao Senhor v. 6-10 extensa II. ONome de Yahweh v. 11 breve III. Sábado v. 12-15 extensa IV. Pais v. 16 breve V. Manda­ mentos éticos v. 17-21 extensa10 Mais debate sobre as formulações dis­ tintivas seguirão nas observações sobre os diversos versículos. As questões interes­ santes para oestudioso da Bíblia, concer­ nentes ao Decálogo, são demasiadamen­ tenumerosaspara setratar delas aqui. 11 6 Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. 7 Não terás outros deuses diante de mim. 8Não fa­ rás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; 9não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüida­ de dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, 10 e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos. 11 Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por ino­ cente aquele que tomar o seu nome em vão. 10N. Lohfink, “ZurDekalogfassungvon Dt. 5”, Biblische Zeitschrift9,1965, p. 26. 11 Cf. J. J. Stamm, Hie Ten Commandments in Kecent Research(Londres: SCM Press, 1967). Aprimeira afirmação (v. 6) não éreal­ mente um mandamento, e, sim, uma auto-apresentação. Assinala o Decálogo como pertencente a uma liturgia, profe­ rida diretamente pelo Senhor. Foi assim apresentada no verso anterior: Ele disse. O Senhor apresenta-se nominalmente e acrescenta as palavras teu Deus. A ceri­ mônia da aliança destacava esta relação chegada de Deus e povo, que podia levar ao pronunciamento: “Eu sou o teu Deus e tu és o meu povo.” É o Senhor que, como o Deus pactuai de Israel, se dirige ao seupovo. A cláusula seguinte identifica-se de maneira diferente. Cita o grande ato da história da salvação, que deu início a esse relacionamento. Por este ato de salvação o Senhor era mais claramente identifi­ cado. Além disso, forneceu a base para a sua pretensão a Israel como o povo pró­ prio dele. A expressão a casada servidão édistintiva da tradição doDecálogoe um dos meios pelos quais se pode reconhecer outras passagens como dependentesdela. O estudo dos textos pactuais do Orien­ te Médio antigo tem demonstrado um costume de colocaruma declaração como regra geral, que é então seguida por regulamentos pormenorizados. Em um certo sentido, o Decálogo inteiro funcio­ na desta maneira para os códigos legais mais extensos. Porém, em um sentido mais restrito, este Primeiro Mandamento constitui uma semelhante declaração co­ mo regra geral, da qual todos os demais seentendem como derivados. O mandamento principal e mais im­ portante proíbe serviço a qualquer outro poder ou forma divina. A religião de Israel é única, em grande parte precisa­ mente por causa deste mandamento. Não existe nenhum paralelo na religião. Po- de-se dizer que é a afirmação simples mais influente do Antigo Testamento. Não é a afirmação de uma verdade (o monoteísmo), e, sim, a declaração de uma reivindicação de uma posição in- compartilhada, na qualidade de o único 247
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    Deus para Israel.Na realidade, o man­ damentopressupõe uma situação em que o politeísmo é a regra. O zelo do Senhor exige que ele seja o único para aqueles quelhepertencem. A proibição de imagens implica a sua fabricação para reverência ou culto. Não se permite nenhuma compreensão de uma coisa como sendo ou representando a divindade. Configura-se, aqui, uma perspectiva do mundo totalmente dife­ rente da costumeira no Oriente Médio. Como uma coisa criada, o mundo não podia ser identificado, de modo algum, com o seu Criador. Quanto a isso, o Senhorénormalmente descrito como um Deus zeloso (cf. 6:14 e ss.; Êx. 34:14; Jos. 24:19). A definição disto como “a santidade de Deus que se impõe ao ho­ mem” é bem apropriada (von Rad, Deu- teronomy, p. 57). As conseqüências do pecado se alastram através de três ou quatro gerações, mas o fruto do amor leal seestendepor muito maistempo. O nome pessoal do Senhor se deu a Israelcomo sinalde uma relação especial com ele (Êx. 3:13 e ss.; 6:3). Deveria ser salvaguardado de ser tomado em vão (v. 11). Sefosseusado em umjuramento, teria de ser levado a sério. Pois o próprio Senhorseincumbiria de seu cumprimen­ to. Nãohaveria de ser usado para nenhu­ ma finalidade mágica, pois não fora dado para benefício particular ou para poderpessoal. 12 Guarda odia do sábado, para o santifi­ car, como te ordenou o Senhor teu Deus; 13 seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; 14mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; nesse dia não farás traba­ lho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha,nem oteu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está den­ tro das tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem assim como tu. 15Lembra-te de que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali commãoforte e braço estendido; pelo que o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses odia dosábado. O mandamento sobre o sábado (v. 12- 15) é único em sua forma e na extensão de suaelaboração. Parece seroclímax do Decálogo deuteronômico. Como seu pa­ ralelo, em Êxodo, começacom uma frase na forma infinitiva, enquanto o impera­ tivopropriamente dito seacha na seguin­ te parte: Seis dias trabalharás.12 Dife­ rentementedaversãode Êxodo, a palavra inicialéguarda, ao invés de “lembra-te”. A palavra escolhida em Deuteronômio é característica aqui, pois é ligada a farás (v. 13). Estas duas palavras são juntadas 27 vezes, em Deuteronômio, e sempre nesta ordem. Fazem parte de um grupo seleto de palavras, que são usadas cons­ tantemente nas exortações à guarda da lei. (Ver o comentário sobre 5:27-6:3). A seção limitada por estas palavras abrange os versos 12-15, ou seja, todo o mandamento sobre o sábado. Foi cuida­ dosamente elaborada, como o seguinte esboçocom paralelos mostra: 5:12 Guarda odia do sábado 12 como te ordenou o Senhor teu Deus 14 doSenhorteu Deus 14 nem o teu servo, nem a tua serva 14 PARA QUE (o pivô do texto) 14 oteu servoea tua serva 15 o Senhorteu Deus 15 pelo que o Senhor teu Deus te ordenou 15 que guardasses o dia do sá­ bado. 13 Este mandamento abrange muitos ele­ mentos, entre eles o próprio mandamen­ to em si. Porém parece claro, do esboço acima, que esta estrutura foi composta 9 12 J.D.W. Watts, “Infinitive Absolute as Imperative”, Zeitschrift für alttestaxnentliche Wissenchaft 74 (1962), p. 141-145. 13N. Lohfink, “ZurDekalogfassungvon Dt. 5”, BibUsche Zeitschrift9,1965, p. 22. 248
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    jomo um todoe que foi composta pelo autor de Deuteronômio. Mas mesmo o .landamento anterior, do sábado, é de um tipo diferente do grupo principal de mandamentos breves e abruptos, que estão, em sua maioria, na forma nega­ tiva. O mandamento sobre o sábado é, por outro lado, dogênero de Tora, ou ensino, que é próprio da aplicação homilética. Até o Decálogo, como o temos, já é um misto de mandamento e exortação. O mandamento simples de trabalhar so­ mente durante seis dias foi expandido, não apenas conforme as linhas indicadas acima. As outras frases incluem: para o santificar ... nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha,... nem o estrangeiro ... dentrodas tuas portas, que também aparecem em Êxodo. Mas o acréscimo dos animais vai além da versão de Êxodo. Em Êxodo, a base teológica relaciona-se à criação em seis dias, enquanto aqui se refere ao êxodo do Egito e à situação anterior de Israel, como servo lá. Isto seenquadra na ênfase dada na composição comentada acima, enquanto a referência ao êxodo é básica especialmente para todo o pensa­ mentoeproclamação deuteronômica. A observância do sábado talvez fizesse parte da prática do Israel primitivo, mas veio a ocupar o centro de seu culto em substituição às festas de peregrinação durante o exílio, e assim permaneceu até os dias de Jesus. Os rabinos tinham acrescentado dúzias decondições àsproi­ bições do sábado. Jesus e os seus discí­ pulos foram criticados por infrações do sábado (Mat. 12 e paralelos). Depois da ressurreição de Jesus, os cristãos, como parece, congregavam-se no primeiro, bem como no sétimo dia da semana (cf. At. 20:7; I Cor. 16:2). Os cristãos mantêm assiduamente a comemoração da ressurreição no primeiro dia da se­ mana e o consideram como substituto para o dia de culto do mandamento ju­ daico. O mandamento pede não apenas um dia de descanso do trabalho, mas tam­ bém que esse dia seja um dia santo ou consagrado ao Senhor. Ê a reivindicação do Senhor que distingue o dia, não qual­ quer preocupação humanitária. Esta rei­ vindicação deve ser cumprida não sim­ plesmente para permitir ao mestre que descanse, mas requer uma cessação de trabalho e uma consagração do dia pela casa inteira. 16 Honra a teu pai e a tua mãe, como o Senhor teu Deus te ordenou, para que se prolonguem os teus dias, e para que te vá bem na terra que oSenhorteu Deuste dá. 17 Não matarás. 18 Não adulterarás. 19Não furtarás. 20Não dirás falso testemu­ nho contra o teu próximo. 21 Não cobiçarás a mulher do teu próximo; não desejarás a casa doteu próximo, nem o seu campo, nem oseu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. O quadro familiar que aqui se pressu­ põe (v. 16) ainda é de relações muito estreitas, com os filhos e suas famílias ainda habitando na propriedade da fa­ mília sob a autoridade de seus pais. Se­ melhante situação podia causar atritos, que talvez sejam alheios à experiência de nossa sociedade, em que os filhos já adultos se distanciam, para construir seus próprios lares. Em Êxodo 21:17 e Levítico20:9, os mandamentos são nega­ tivos e mais primitivos. O mandamento mais amplo, aqui, está de perto relacio­ nado com a doação da terra, e promete a prosperidade e a longevidade como re­ compensas pela sua observância, como, de fato, Deuteronômio as promete pela observância da lei inteira (cf. 4:1; 8:1; 16:20; 30:15ess.). Os versículos 17-21 são ligados por conjunções, diferentemente dos parale­ los em Êxodo. Desta forma, não são tanto cinco mandamentos distintos, co­ mo um mandamento em cinco partes. Eles, como o mandamento sobre os pais, fazem parte das condições de cujo cum­ 249
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    primento depende alongevidade e a prosperidade na terra. A tradução matar (v.17) não transmi­ te a definição do verbo original. Não diz respeito nem à guerra nem à execução judicial, onde se requeria palavras bem diferentes. Porém é também um termo mais abrangente do que assassínio, por­ que mortes acidentais são também in­ cluídas. O significado “matança anti­ social” éomais adequado. O mandamento no versículo 18 visa à defesa do matrimônio. Ã medida que as instituições sociais mudaram, sua aplica­ ção foi entendida de maneiras diversas. Inicialmente era aplicado numa socie­ dade que reconhecia e protegia o costu­ me ou de se ter mais que uma esposa ou de se ter escravas da casa como esposas secundárias. Mas esta instituição era também cuidadosamente limitada, e os direitos de todos, protegidos. A violaçlio disso era considerada adultério. A expli­ cação moderna deste mandamento há de começar com a compreensão da ins­ tituição do casamento agora e de sua proteção pela proibição de comporta­ mento que oameace ouviole. O próximo mandamento (v.19) bem pode ter sido, originalmente, aplicado ao seqüestro de pessoas livres, como susten­ ta Albrecht Alt.14 Os paralelos em Êxo­ do 21:16 e Deuteronômio 24:7 corrobo­ ram isso. Com a passagem do tempo, a lei chegou a ser aplicada, como ainda é, àproteção de propriedade, bem como da liberdade. Israel era uma sociedade em que a justiça semantinha por tribunais abertos (v. 20), compostos de cidadãos. O pro­ cedimento, nesses tribunais, granjeava provas pelo testemunho de cidadãos. A justiça e a liberdade dependiam de tes­ temunho verídico. Fosse no procedimen­ to judicial formal, ou na conversa coti­ diana, a reputação e o trato eqüitativo dependiam de testemunho veraz. 14 A. Alt, “Das Verbot des Diebstahls im Dekalog” KleineSchriften1,2?ed., 1953, p. 333 e ss. O versículo 21 é constituído de duas partes, ambas as quais começam com a mesma palavra (hebraica). São de tipo diferente de qualquer das outras leis e podem ter sido, originalmente, tiradas de uma série completa, todas iniciadas com esta palavra. A palavra cobiçarás é uma tradução inadequada de palavra hebrai­ ca, pois esta pode também significar “tomarpara si” (cf. Jos. 7:21; Miq. 2:2). Este mandamento, ou a série da qual é tirado, certamente muda, para abranger os conceitos de propriedade, mesmo se seuponto de partida for o de pessoas que são contadas como pertencentes a al­ guém. Proíbe tanto a intenção como o ato. Resumindo: Aversão dos Dez Manda­ mentos em Deuteronômio está no meio de duas seções mais compridas, sobre o culto ao Senhor (v. 6-10) e os manda­ mentos éticos (v. 17-21). O clímax e o meio do Decálogo é moldado pelo longo mandamento sobre o sábado (v. 12-15). Entre estas três seções, os mandamentos protegendo o nome do Senhor (v.11) e os pais (v.16) têm os seus lugares. O man­ damento sabático é elaborado como o fator de síntese entre as exigências rela­ cionadas ao culto e as relacionadas à ética. 22 Essas palavras falou o Senhor a toda a vossaassembléia nomonte, domeio dofogo, da nuvem e da escuridão, com grande voz; e nada acrescentou. E escreveu-as em duas tábuas de pedra, que ele me deu. 23 Mas quando ouvistes a voz do meio das trevas, enquanto ardia omonte em fogo, viestes ter comigo, mesmo todos os cabeças das vossas tribos, e vossos anciãos, 24 e dissestes: Eis que o Senhor nosso Deus nos fez ver a sua glóriae a sua grandeza, e ouvimos a sua voz do meio do fogo; hoje vimos que Deus fala com o homem, e este ainda continua vivo. 25Agora, pois,por que havemos de morrer? Este grande fogo nos consumirá; se.ainda mais ouvirmos a voz do Senhor nosso Deus, morreremos. 26 Porque, quem há de toda a carne, que tenha ouvido a voz do Deus vi­ vente a falar do meio do fogo, como nós a ouvimos, e ainda continue vivo? 27Chega-to tu, e ouve tudo o que o Senhor nosso Deus 250
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    falar; e tunos dirás tudo o que ele te disser; assim oouviremose ocumpriremos. A narrativa da teofania de Horebe é continuada nos versos 22-26. Os sinais impressionantes da presença de Deus são de perto identificados com as palavras quehaviam sido ditas, e que foram então gravadas em tábuas depedra. O papel de Moisés como mediador é ressaltado na súplica do povo para que não fosse mais obrigado a ouvir a voz atemorizante de Deus. Mas também se prepara o terreno, nestes e nos versículos seguintes, para realçar que todo orestante do discurso de Moisés, inclusive o pronunciamento das leis, transmite a Israel o que tinha rece­ bido no monte. Estesversículos refletem um medo real de Deus, que é ocasionado pelo reconhe­ cimento de sua terrível santidade. Porém o processo inteiro também mostra uma tendência muito sadia. A congregação toda deviareagir perante Deus, perante a terrívelpresença de Deus. Nesta situação ela ouve a proclamação da lei, e se dispõe a responder: “Tudo o que o Senhor... falar... o ouviremos e o cumpriremos.” Sem este sentido de uma presença real e o medo que inspira, o legalismo é mui­ tas vezes o resultado de uma resposta à leienão aoDeus da lei. (2) Exortação(5:28-8:20) a. Oh, QueFôsseis SempreAssim! (5:28-6:3) 28 Ouvindo, pois, o Senhor as vossas pa­ lavras, quando me faláveis, disse-me: Eu ouvi as palavras deste povo, que eles te dis­ seram; falaram bem em tudo quanto disse­ ram. 29 Quem dera que eles tivessem tal coração que me temessem, e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamen­ tos, para que bem lhes fosse a eles, e a seus filhospara sempre! 30Vai, dize-lhes: Voltai às vossas tendas. 31 Tu, porém, deixa-te ficar aqui comigo, e eu te direi todos os mandamentos, estatutos e preceitos que tu lhes hás de ensinar, para que eles os cum­ pram na terra que eu lhes dou para a possuí­ rem. 32 Qlhai, pois, que façais como vos ordenou o Senhor vosso Deus; não vos des­ viareis nem para a direita nem para a es­ querda. 33Andareis em todo o caminho que vos ordenou o Senhor vosso Deus, para que vivais e bem vos suceda, e prolongueis os vossos diasna terra que haveis de possuir. 1 Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os preceitos que o Senhor teu Deus mandou ensinar-te, a fim de que os cumprisses na terra a que estás passando para o possuíres; 2 para que temas ao Se­ nhor teu Deus, e guardes todos os seus es­ tatutos e mandamentos, que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida, e para que se prolonguem os teus dias. 3Ouve, pois, ó Israel, e atenta em que os guardes, para que te vá bem, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, comote prometeu o Senhor Deus de teus pais. A seção inteira de 5:27 a 6:3 inclusive, evidencia um estilo único, característico, que faz dela uma unidade. Verbos típi­ cos usados em Deuteronômio para a ob­ servância da lei são usados numa ordem predeterminada, num esquema como se­ gue: A. 5:27 —ouvir —cumprir B. 5.29 —temer —guardar C. 5:31 —ensinar —cumprir D. 5:32 es. — fazer — ordenar — desviar —andar no caminho C. 6:1 —ensinar —cumprir B. 6:2 —temer —guardar A. 6:3 —ouvir —cumprir (= atentar, guardar)15 Semelhante ordem comosegundo gru­ po aparecendo em ordem inversa pode também ser vista nos capítulos 7 e 8. As primeiras unidades A,B e C estão ainda na narrativa do orador. Contêm uma promessa pelo povo, o querer do Senhor e a tarefa de que o Senhor incumbiu Moisés. A unidade do meio, D, propor­ ciona a ponte para o presente discurso e apelo. Não apareceu nenhuma palavra sobre a lei até este ponto, somente o reconhecimento de que são chamados para seguira vontade de Deus. 15Lohfink, p. 67. 251
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    A motivação proporcionadana seção D (v. 33) retoma os temas fundamentais do livro inteiro de Deuteronômio. In­ cluem a vontade de viver, a vontade de prosperar e o desejo de estabilidade e longavidana terra. Com estes versículos (6:1-3) o orador prossegue, para cumprir a tarefa atribuí­ da pelo Senhor. Ele retoma e repete as palavras-chaves da tarefa atribuída (5: 31; 6:1). O versículo seguinte declara o significado desta proclamação da Lei, por fazer referência retrospectiva às pa­ lavras do querer do Senhor em favor do povo (5:29; 6:2). O versículo 3 insere uma exortação para guardarem a Lei antes do começo da proclamação em si, relembrando a promessa do povo (5:27; 6:3). Os motivos para guardarem a Lei são repetidoseenfatizados. b. AmaráseTemeráso Senhor(6:4-25) O capítulo 6édominado do começo ao fim pelo assim chamado vocabulário e estilo deuteronômicos. Contudo, conser­ vaumaestrutura eforma distintivas, que são tiradas de formas antigas de falar, concernentes à Lei. Possui paralelos em Êxodo 12:24-27a; 13:3-10; 13:11-16. To­ dos estes textos são, certamente, mais velhosdo que ocapítulo em pauta. Nos textos de Êxodo descobrimos um esboçoqueécontraído, em tomo de duas orações condicionais. A primeira é: “Quando entrardes na terra prometida”; a segunda: “Quando os vossos filhos vos perguntarem: ‘Que significa isso?’” A primeiracláusula condicional torna claro que a forma está sempre relacionada a uma situação anterior à ocupação da terra e havia de ser dita por Moisés ou seu representante. A segunda cláusula condicional usa a pergunta da criança, como um artifício para apresentar a ex­ plicação dessa determinada lei da histó­ ria da salvação. Entre essas vem a afir­ maçãoprópria da leiem consideração. A história da salvação define essa abordagem da História, que se concen­ tra nesses eventos, que são entendidos comorevelando a obra de Deus na salva­ ção, sendo, portanto, a base da fé e do conhecimento deDeus. Estes eventos, no Antigo Testamento, incluem o êxodo, a aliança ou pacto no Sinai e a conquista de Canaã. (Para um tratamento exaus­ tivo das implicações e da importância deste conceito, cf. E.C. Rust, Salvation History [Richmond: John Knox Press, 1963].) Tomando isso como chave, torna-se fácil descobriroesboçopara ocapítulo6. Aprimeiraparte daestrutura se achanos versos 10-15, os versos 12-15 sendo a própria declaração da Lei, queé, claro, o tema docapítuloe o centro de toda a sua formação. A segunda cláusula condicio­ nal, com a pergunta da criança, se en­ contra nos versos 20-25. O restante do capítulo é como um andaime construído ao redor desses dois pilares, como mos­ tram os paralelos em Êxodo. Os versí­ culos 6-9 deste capítulo são nitidamente paralelos a Êxodo 13:9,16. A exortação prefixada(v. 4 e s.) e a imprensada entre as seções principais (v.16-19) visam sim­ plesmente a expandir o esboço básico, semperturbar oseu efeito. Primeira exortação: Um Senhor —um amor—umalei(v. 4-9) I. Quando... o Senhor... te introdu­ zirnaterra(v. 10-15) Prometida a teuspais(v. 10b) Que tu não fizeste(v. lOc-11) Guarda-te, quenão te esqueças de Yahweh(v. 12) Temerás ... Servirás, e pelo seu nomejurarás(v. 13) Nãoseguirásoutrosdeuses(v. 14) Pois Yahweh é um Deus zeloso (v. 15) Segunda Exortação: Não po­ nhas Yahweh à prova (v. 16-19) n. Quando teu filho te perguntar: O que significam os testemunhos, estatutosepreceitos...?(v. 20-25) 252
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    No Egito... oSenhor... nos tirou delá(v. 21) Aosnossosolhos...sinaise maravi­ lhas(v. 22) Nostiroudelá paranos introduzir enosdara terra(v. 23) ' O Senhor nos ordenou... estes es­ tatutos(v. 24,25) De maneira que temeremos a Yahweh para o nosso bem em todo o tem­ po, a fim de que ele nos preservasse em vida, assim como hoje se vê. E será justiça para nós, se tiver­ mos cuidado de cumprir todos es­ tesmandamentos. O âmago do texto pode ser compreen­ didosomente por se perguntar o propósi­ to do sermão e quais os meios usados para alcançar esse propósito. O capítulo anterior, que, como já se notou, forma, com o capítulo 6, uma unidade, contém um texto completo do Decálogo. Este também, ou pelo menos o Primeiro Man­ damento, desempenha um papel central nocapítulo 6. O Decálogo é uma obra única, com o seuprópriovocabulário distintivo, quejá deixou a sua marca em muitosescritos do AntigoTestamento. Sua linguagem efor­ mulação podem ser sentidas por todo este capítulo. Citação exata ocorre nos versos 12(5:6), 14 (5:7) e 15 (5:9b). Mas também as palavras-chaves amor (v. 5) e guardarás os mandamentos (v. 17) são tiradas de5:10b. Muitas das partes deste capítulo pare­ cemrelacionadas bem mais de perto com osermão em Deuteronômio 10:12-11:17, que não reflete absolutamente nenhuma influência do Decálogo. Porém o sermão conheceosconceitos do amor de Yahweh e a chamada para guardarem os seus mandamentos. Este capítulo é um sermão sobre o PrimeiroMandamento, que proíbe ter-se outros deuses além de Yahweh. O mé­ todo de apresentação do sermão é de um comentário, por meio da expansão do texto simples do Decálogo. A apresenta­ ção principal do mandamento está nos versos 14 e 15, enquanto os dois elemen­ tos de motivação têm um comentário numa seção à parte: amor para com Deus nos versos 14 e 15 e “guardando mandamentos” noversículo 17e s. Opri­ meiro destes foi retirado da ordem pró­ pria do Decálogo e colocado no começo da exortação, em virtude de sua impor­ tância. Por conseguinte, proporciona uma base para uma interpretação do Pri­ meiro Mandamento de um ponto de vista totalmente diferente. 4 Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor. 5Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. 6 E estas palavras que hoje te ordeno, estarão no teu coração; 7 e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te. 8 Também .as atarás por sinal na tua mão e te serão por frontais entre os teus olhos; 9e as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas. A formulação do Primeiro Manda­ mentonos versículos 4e 5 foi a escolhida por Jesus como sua própria expressão de primeiro e maior mandamento (Mar. 12: 28-34; Mat. 22:34-40; Luc. 10:25-28). Por esse motivo, bem como pela integri­ dade inerente no próprio texto, ele é um dos mais importantes e preciosos no An­ tigo Testamento, tanto para cristãos co­ moparajudeus. Um Senhor — um amor — uma lei (6:4-9). Esta formulação do Primeiro Mandamento(v. 4 es.) éúnicano Antigo Testamento e galga um pico de intensi­ dade e uma profundidade de significado desconhecidos a qualquer outra. Isso é alcançado pela combinação do manda­ mento em termos do amor absoluto com a proclamação da unicidade de Deus. Não há realmente nenhum paralelo a estes versículos no Pentateuco. Porém deverão ser entendidos como uma outra 253
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    maneira de proclamaro Primeiro Man­ damento, e comentar sobre ele, como era, parece, costumeiro em cerimônias da renovação da aliança. A primeira parte dele é paralela, na terceira pessoa, à porção introdutória do Decálogo, que está na primeira pessoa. Israel é chamado a ficar atento. Então Yahweh — o Deus de Israel de maneira única — é apresentado. A fraseologia é abrupta eestranha: Yahweh, nosso Deus — um Yahweh. “Yahweh” representa as letras do nome de Deus no hebraico. Os judeus mais tarde evitavam dizer “O Nome”, por temerem profaná-lo, e o uso moderno acompanha o seu costume em seu lugar “o Senhor” (que aparece como SENHOR na RSV). Esta explicação do versículo, porém, necessita do emprego dotextooriginal. Este texto pode ser entendido de ma­ neiras diversas. É evidente que a língua humana tem chegado a seus limites, na tentativa de comunicar a idéia. A palavra normalpara Deus, nohebraico, ’Elohim, já não éapropriada, uma vez que assume uma forma aparentemente plural, embo­ ra no AntigoTestamento sempre serefira ao único Deus. Porém, em assim fazer, não pode deixar de transmitir ao ouvido semítico a idéia da totalidade dos atribu­ tos e poderes divinos. Aqui, onde se realça a unidade de Deus, a palavra seria totalmente inapropriada. O pregador é obrigado aouso de seunomepessoal. “Ünico Senhor representa a idéia es­ sencial. Ele é único, diferente, exclusivo. Não é muitos, mas um. Esta é a afirma­ ção positiva que complementa o “Não terás outros deuses” do Primeiro Manda­ mento. Yahweh é uma única pessoa. De maneira nenhuma poderá eleserentendi­ do como representado por diversas for­ mas e aparições em lugares diferentes, como aconteciacom Baal e as outras dei­ dades da natureza. Mas “o único Senhor” é também o contrário de difuso ou obscuro. Ele é único, semincoerência ou divergência. A pessoa e a vontade de Deus são únicas e conhecidas. Não há como fugir dele ou davontade dele. O tipo de facções que se evidenciavam em todos os panteões do Oriente Médioéexcluído. Israel é convo­ cado a concentrar sua atenção indivisa no próprio Yahweh. Somente ele é digno de plena devoção, e ele é um — único e inigualado. Desta proclamação do único Yahweh, duas exortações corolárias são tiradas. A gramática hebraica toma claro que estes não são mandamentos ligados a esta declaração, mas que a sua validade é tirada da simples verdade da própria proclamação: Yahweh éum —de manei­ ra que o amarás e diligentemente ensi­ narás os seus mandamentos. O amor era entendido através de todo o Oriente Médio como aquela atitude que seesperava de um vassalo leal a seu senhor, como os tratados de suserania dos reis antigos deixam claro. Tem sido mostrado claramente que esses tratados têm influenciado a forma e o vocabulário das formulações da aliança em Israel em seus aspectos os mais primitivos e que tratados posteriores deste tipo, entre a AssíriaeIsrael, aindaexerceram influên­ cias diretas até o começo do sétimo sé­ culo. O leitor e estudioso da Bíblia certa­ mente está ciente que o amor não é a resposta mais comum a Deus, conhecida nas Escrituras. Oséias muitas vezes falou do amor de Deus para com Israel, mas nunca do amor de Israel a Deus. Porém, em Deuteronômio, e especialmente neste versículo, o amor é precisamente a res­ posta que se espera de Israel. É usado através do livro inteiro para caracterizar- a observância da Lei. A idéia de amor para com Deus certa­ mente sempre teve o seu lugar eni exor­ tações relacionadas coma aliança. O De­ cálogo fala de “aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”, numa frase que certamente esteve bem arrai­ gada nas tradições mais primitivas. Mas 254
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    é claro quenenhuma outra parte do AntigoTestamento usa tal frase de forma tão central como Deuteronômio, e ne­ nhum outro trecho a usa de modo tão co­ moventecomoeste. Em Oséias, o amor de Deus para com Israel ou é o de um marido pela sua es­ posa ou o de um pai pelo seu filho (3:1; 11:1). Em Deuteronômio, o amor nun­ ca dizrespeito a uma relação pai-filho ou a um casamento. As características dis­ tintivas do conceito de amor de Deutero­ nômio já foram acertadamente resumi­ das. “O amor em Deuteronômio é um amor imposto. Ê também um amor inti­ mamente relacionado com medo ea reve­ rência. Acima de tudo, é um amor que tem de ser expresso em lealdade, serviço e obediência incondicional às exigências da Lei. Pois amar a Deus consiste emcor­ responder a uma reivindicação única (6:4); ser leal a ele (11:1,22; 30:20); andar em seus caminhos (10:12; 11:22; 19:9; 30:19); guardar os seus manda­ mentos (10:13; 11:1,22; 19:9), pondo-os em prática (11:22; 19:9); atentar à voz deles (dos mandamentos) ou dele (11:13; 30:16); servi-lo (10:12; 11:1,13). É, em resumo, um amor definido pela aliança e garantido através dela — um amor pactuai. 16 Semelhante amor foi usado em textos do Oriente Médio antigo, oriundos dos séculos dezoito e dezessete a.C., para descrever a lealdade e a amizade entre reis subordinados, entre soberanos e seus vassalos e entre reis e seus súditos. Um paralelo veterotestamentário se acha nas descrições de Hirão como alguém que amava Davi, ou como o amigo de Davi (I Reis5:1). Esta compreensão é especialmente pertinente diante da importância dada a estetipo de amor pelo NovoTestamento. Nestestermos é quehavemos de entender as palavras de Jesus: “Se me amardes, 16 William L. Moran. "The Ancient Near Eastem Back- ground to the Loveof God in Deuteronomy”, The Cathollc Biblical Quarterly(1963), p.78. guardareis osmeus mandamentos” (João 14:15). O restante do versículo realça a totali­ dade de devoçãoecomprometimento que se requer de Israel: de todo o teu cora­ ção, e de toda a tua alma (pessoa), e de todas as tuas forças. Se Yahweh é um, a devoção de Israel para com ele tinha de sercaracterizada por singeleza de propó­ sito, lealdade indivisa, uma concentra­ ção única. Pois, se a devoção tem de ser concentrada totalmente num só objeto, segue-se daí que tem de ser absoluta. Esta é uma coisa grandiosa, digna da atenção de Israel e dos cristãos. Suas implicações têm sido o centro constante de meditação, nas duas comunidades, através dos séculos. Contudo, pode-se dizer, com toda a certeza, que ainda temos de esgotaro seupleno significadoe que somente em Jesus têm sido vivencia- das. O segundo corolário (v.6) é que a unicidade de Yahweh necessita que as suas palavras, que expressam a sua von­ tade, recebam a atenção plena e constan­ te dos israelitas. No pensamento hebrai­ co, ocoraçãoera ocentro da consciência, dointelecto e da vontade. Nós, com mais probabilidade, falaríamos na cabeça ou no cérebro. A função do cérebro, bem como a sua localização, eram desconhe­ cidas aos antigos, de maneira que atri­ buíam estas coisas ao coração. O ser único deYahweh requer não apenas leal­ dade indivisa, mas também pensamento eatenção ininterruptos. Manter a Lei no centro de atenção constante necessitaria de algum método. Osversículos7a9sugeremmedidaspráti­ caspara possibilitar isso. Ainda são rele­ vantes. Estas palavras fazem referência à Leiinteira, não apenas aoPrimeiro Man­ damento. Hoje se refere à sua proclama­ ção renovada nas cerimônias pactuais. Então o problema é se construir a ponte entre o sermão na igreja e as recordações diárias quepossibilitam sua aplicação. 255
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    A primeira aplicaçãoconsiste na ins­ trução religiosa adequada nos lares. Ã medida que os pais se tomarem cientes de sua obrigação de ensinar diligente­ mente as verdades aos seus filhos, cum­ prirão o requisito para que estas coisas tenham um lugar constante em seus pen­ samentos. As coisas pertencentes à pala­ vra de Deus devem também fazer parte, normalmente, da conversa durante todas as atividades do dia, quer em casa, quer nos negócios, quer nos períodos finais do dia, antes de se ir dormir, quer ao se levantar, para iniciarcada dia. As verda­ des de Deus, a sua palavra e a sua vontade devem fazer parte, natural e normalmente, da conversa. Então inevi­ tavelmente plasmarão a vida e as deci­ sões da vida. A criança que sabe que estes assuntos são caros ao coração e estão muito presentes na mente de seus pais terá pouca dificuldade em com­ preender sua féou em aceitar seu ensino. Osjudeus, a partir do tempo do exílio, reconheceram a importância deste trecho e construíram seu culto e suas vidas em tomo dele. Costumam referir-se a ele como o esquema. Reconhecem-no como a afirmação sumária mais importante de sua fé. Ê recitado nas sinagogas todas as sextas-feiras e sábados, na hora de a Tora sertirada de sua arca, para ser lida. A Mishnah até diz que era declamado pelos filhos de Jacó, quando ele aguar­ dava a morte, e por mártires, como suas derradeiras palavras. Em uma de suas formas, o esquema consiste somente nos versículos 4-9 deste capítulo. Em uma forma mais longa, combina-se com duas outras passagens formando um esquema tríplice. Deutero- nômio 6:4,9 é chamado de “A Aceitação do Jogo do Reino dos Céus”. Deuteronô- mio 11:13-21 é chamado de “A Aceita­ ção do Jogo dos Mandamentos”. Núme­ ros 15:13-41 encerra a leitura, com re­ ferênciasà “RedençãodoEgito”. Os judeus ortodoxos têm aceitado as injunções dos versos 8 e 9 literalmente. Usam cópias destes versículos em caixi­ nhas, em seus pulsos etestas, durante as orações, e chamam-nas de filactérias. Colocamfragmentos de pergaminho com estes versículos escritos neles em caixi­ nhas metálicas de mezuzahs, pondo-as em suasportas. Embora não se requeira, necessaria­ mente, semelhante literalismo, a sabe­ doriae a necessidade de alguma extema- lização da devoção interior são claras. Um testemunho aberto da fé, no lar e em todas as relações da vida, é o corolário óbvio do comprometimento e fé genuí­ nos. 10 Quando, pois, o Senhor teu Deus te in­ troduzir na terra que com juramento pro­ meteu a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó, que te daria, com grandes e boas cidades, que tu não edificaste, 11 e casas cheias de todo o bem, as quais tu não encheste, e poços cavados, que tu não cavaste, vinhas e olivais, que tu não plantaste, e quando co­ meres e te fartares; 12guarda-te, que não te esqueças do Senhor, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão. 13 Temerás ao Senhor teu Deus e o servirás, e pelo seu nome jurarás. 14 Não seguirás outros deu­ ses, os deuses dos povos que houver à roda deti; 15porque oSenhorteu Deus é um Deus zeloso no meio de ti; para que a ira do Se­ nhor teu Deus não se acenda contra ti, e ele te destrua de sobre a face da terra. À maneira da categoria chamada es­ trutura de um mandamento, o trecho (v.10-15) passa à proclamação do Pri­ meiro Mandamento. O mandamento em si consta no versículo 14. O estilo co­ meça por esclarecer o pressuposto de toda a Lei no Pentateuco: que foi dada com a perspectiva da ocupação da terra perante opovo, antes deentrar nela. Teoricamente, isto podia refletir qual­ quer uma dentre três situações: a situa­ ção histórica antes da entrada, uma for­ ma de culto no qual essa situação fosse novamente representada ou um artifício literário. A segunda dessas explicações, deste modo, parece a mais provável. Esta situação é presumida através de todo o livro de Deuteronômio. Porém, esta ca- 256
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    tegoria certamente nãose limita a Deu- teronômio. Como notado acima, aparece também em Êxodo, LevíticoeJosué. O povo é induzido a lembrar que a dãdiva da terra vinha em cumprimento das promessas feitas a seus antepassa­ dos. A graça da eleição era responsável poressa dádiva. Não podia haver nenhu­ ma idéia de uma posição merecida. So­ mente depois de elesreceberem o dom da graça é que a Leivigoraria. O versículo 12 adverte o povo contra o esquecimento de quefoio Senhor quem o resgatou do Egito. O versículo deixa de lado a lembrança evidente de que toda aquela terra e bondade eram simples­ mente uma dádiva de Deus. Antes opta por colocar a recordação da salvação de Deus da escravidão egípcia em contraste comoabuso complacente dopovo. O Deus de quem o povo está sendo advertido a se lembrar não era compla­ cente nem tolerante. Ele lembrava-se de suas promessas. Atuavaem benefício dos seus. Porém requeria comportamento comparável ouigual de seus cultuadores. O “lembrar” é explicado pelos termos severos temer, servir e jurar pelo seu nome. Temor traduz uma atitude que reconhece devidamente a tremenda san­ tidade de Deus, e se expressa em termos de adoração. Serviço reflete uma atitude para com o próprio culto como a aceita­ ção do jugo de seu senhorio e a disposi­ ção de usar esse jugo em cumprimento fiel de sua vontade. Naturalmente, um israelita que fosse leal ao direito exclusi­ vo de Yahweh não usaria nenhum outro nome dosjuramentos senão o do próprio Yahweh. Assim cumpria o mandamento denãotomar onome de Yahweh leviana­ menteouemvão. A passagem chega ao seu clímax e preocupação central: a reafirmação do Primeiro Mandamento. Formula-o as­ sim: Não seguirás outros deuses. Esta exigência de lealdade exclusiva jaz no âmago da cerimôniapactuai e constitui a espinha dorsal da primeira parte do De­ cálogo. O prólogojá a declarou como um mandamento de amor absoluto. Este ver­ sículovoltaaomandamentonegativomais tradicional contra qualquer outro culto ou qualquer outra lealdade. Uma fraseexplicativatorna-o especial­ mente pertinente à situação que antevia a ocupação. As tentações, para este povo desértico, na ocupação da terra, consis­ tiriam na assunção dos costumes e esti­ los de vida cabíveis ao seu novo meio ambiente agrícolae urbano. Quase todos esses costumes eram formulados e expli­ cados em termos de serviço a alguma divindade. É isso que se quer dizer por seguir os deuses dos povos que houver à rodadeti. Mas a tentação de experimen­ tar as fórmulas para a vida e o sucesso que nossos vizinhos nos propõem, por mais pagãos que selam, não têm dimi­ nuídocom a passagem dos séculos. A re­ cordação básica de que o sucesso e a vida não podem ser alcançados pela simples imitação dos hábitos e da maneira de viver de nossos vizinhos ímpios, aparen­ temente bem-sucedidos, continua a ser relevante enecessária. O versículo 15 proporciona o motivo da advertência: teu Deus é um Deus zeloso. Sua combinação com Israel foi feita para o bem deste. Porém sob a rígidacondição de que a vontade e a pre­ sença de Yahweh fossem essenciais à aliança. A santidade de Deus santificaria sua assembléia, mesmo se implicasse o expurgo de alguns, por ira terrível. 16 Não tentareis o Senhor vosso Deus, como o tentastes em Massá. 17 Diligente­ mente guardarás os mandamentos do Se­ nhor teu Deus, como também os seus teste­ munhos, e seus estatutos, que te ordenou. 18 Também praticarás o que é reto e bom aos olhos do Senhor, para que te vá bem, e entres, e possuas a boa terra, a qual o Senhor prometeu com juramento a teus pais; 19para que lance fora de diante de ti todos os teus inimigos, como disse o Senhor. O versículo 16 adverte contra dúvidas queexijam de Deus que ele se comprove. 257
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    As pessoas quevivem no temor do Se­ nhor não pedem provas, pois vivem in­ tegralmente do que ele proporciona. Co­ mo um exemplo negativo, cita a expe­ riência no lugar que Moisés chamava de Massá ou “Prova”, depois que os israe­ litas duvidaram até que ele tirou água da rocha para eles pelo mandamento de Deus (Êx. 17:1-7). Aquela experiência deixou tal impressão no pensamento de Israel, que era muitas vezes recordada nas ocasiões da declaração do Primeiro Mandamento (cf. Sal. 78:20; 95:8). Nes­ te contexto, o versículo serve de ponte a uma exortação geral para se obedecer a todos osmandamentos. Os versículos 17-19 conclamam Israel a obedecer à Lei, para que te vá bem, e entresepossuas a boa terra. Exatamente da mesma forma que a maldição de Deus pousará sobre aqueles que lhe forem infiéis (v. 15), também suas bênçãos se­ rão derramadas sobre aqueles que per­ manecerem leais à aliança(v.18). Porém, neste contexto, as palavras são muito estranhas. Já fora dito a Israel que lhe seria dada a terra como uma dádiva gratuita, imerecida, como um cumpri­ mento de uma promessa feita aos seus antepassados, uma terra desenvolvida, para cuja preparação o próprio Israeí nada contribuíra. Agora lhe urgia guar­ dar diligentemente a Lei, a fim de que pudesse ter a terra. Seria muito fácil chamar isso de contradição e, do ponto devista cristão, deixá-lo de lado, alegan­ do que caracteriza o conceito de “salva­ ção pelas obras”. Porém, tantas quantas foremasdivisões que sefaçam neste texto etantasquantasasfontesdistintas, nãose pode remover o problema que jaz no âmago da compreensão da aliança e que se transfere para o Novo Testamento, além deprevalecernoAntigo. Este textoestá sendo recitado para um povo que já havia muito que vivia na terra. Ele continuava a ser relevante para a sua própria situação espiritual. Israel já havia recebido sua terra. Contudo, em outro sentido, continuava a não possuí- la. A terra fora dada a Israel pela graça eletivade Deus. Porém ainda estava para ser possuída pela obediência às exigên­ cias pactuais de Deus. Sempre haverá algo misterioso e além de nossa com­ preensãonesta dialética entre a graça e a recompensa. Mas as duas permanecem como partes essenciais da compreensão da relação Deus com seupovo. A mesma dialética permeia a perspec­ tiva da ocupação, segundo os versículos 18e 19. Israel devia ativamente “entrar e possuir”, embora ao mesmo tempo seja dito que lance fora de diante de ti todos os teus inimigos. Esta compreensão du­ pla da féativa epassiva permeia todos os relatos da conquista. Pertence integral­ mente ao conceito no seu todoe não pode ser removida, por se atribuir um lado a uma tradição eooutro a outra. 20 Quandoteu filhote perguntar no futuro, dizendo: que significam os testemunhos, es­ tatutos e preceitos que o Senhor nosso Deus vos ordenou? 21 responderás a teu filho: Éramos servos de Faraó no Egito, porém o Senhor, com mão forte, nos tirou de lá; 22 e, aos nossos olhos, o Senhor fez sinais e maravilhas grandes e penosos contra o Egi­ to, contra Faraó e contra toda a sua casa; 23 mas nos tirou de lá, para nos introduzir enos dar a terra que com juramento prome­ tera a nossos pais. 24 Pelo que o Senhor nos ordenou que observássemos todos estes estatutos, que temêssemos o Senhor nosso Deus, para o nosso bem em todo o tempo, a fim de que ele nos preservasse em vida, assim como hoje se vê. 25 E será justiça para nós, se tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o Senhor nossoDeus, comoele nos ordenou. A formação inteira do capítulo termi­ na com um olhar em retrospecto, para a história da salvação de Israel, vestida na forma de pergunta e resposta, que a ca­ tegoria mais ampla requer (v.20-25). A pergunta retoma o tema dos versículos anteriores, a fim de indagar sobre o significado real desses estatutos e orde­ nanças. 258
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    A resposta relaciona-se,em primeiro lugar, com os grandes atos de Deus em salvar Israel: tirando-o do Egito (v. 21), dando-lhe o provimento e a direção mi­ raculosos para a viagem no deserto (v. 22) e a sua orientação bem-suoedida até a Terra Prometida (v. 23). Em se­ guida, relaciona os propósitos dos esta­ tutos (v. 24): ajudar Israel a temer ao Senhor, para oseu bem em todo o tempo epara sua preservação, mesmo até o dia em que isto foirecitado. Estes versículos contêm um esboço e frases que foram tirados de antigas de­ clarações de fé, como a confissão em 26:5-9. Mas aqui servem a um propósito bem diferente, que é esclarecido no ver­ sículo 25. Isto é citado para provar que Israel só permaneceria justo enquanto obedecesse às exigências da aliança. Justiça tem acepções diversas no An­ tigo Testamento. Ãs vezes significa re­ tidão ética. Outras vezes chega quase a equivaler à salvação. Porém, na maioria dos casos, refere-se àquele estado que permite à pessoa entrar na presença de Deus no templo. O recinto onde Deus se encontra com Israel é aquele onde se recebe vida como a dádiva de Deus pro­ ferida em graça ao seu povo. Assim, so­ mente os justos, neste sentido, podem receber avida. Porém estes versos procuram mostrar que, em Israel, tanto a vida (v. 24) como a justiça dependiam de observarem as condições da aliança de Deus com eles. Comprovam isto por, em primeiro lugar, citarem os atos históricos de Deus, em relação aos quais Israel pôde ser concla­ madopara ser testemunha, porque acon­ teceram “perante os nossos olhos”. As exigências da aliança ou pacto surgiram destes atos salvíficos. Para testificar isso, Israel devia confessar que Deus tinha ganho opleno direito de fazer com Israel o que bem entendesse. Por ter tirado o povo de Faraó quando era escravo, ga­ nhou sobre ele os direitos da escravatura para fazer com ele tudo que quisesse. Era a vontade dele levá-lo a Canaã. Possuía plenos direitos legais para orde­ nar a sua vida lá segundo o querer dele. Portanto, Israel estava “dentro de Seus direitos”, e podia viver somente se es­ tivesse cumprindo as ordens de seu Se­ nhoreDono. Há neste capítulo dois temas que me­ recem comentário esclarecedor. O pri­ meiro dizrespeito ao grande mandamen­ to e os muitos estatutos. É a tendência deste capítulo olhar para o único grande mandamento de Deus, mas o texto cons­ tantemente se volta para realçar uma obrigação de obediência à multiplicação de ordenanças vista no código da Lei. Contudo, nunca sepermite que estes dois entrem em conflito ou se contradigam. De alguma forma se entende que o pri­ meiro grande mandamento está num pla­ no diferente dos demais. Daí surge o segundo assunto: O temor do Senhor. Se o que se escreveu acima é verdade, então o primeiro mandamento não pode constituir uma única exigência concreta. Tem de refletir a atitude bási­ ca requerida para com oSenhor da alian­ ça. Isso se vê no sentido de que a defi­ nição decisiva do Primeiro Mandamento está na expressão “Temerás ao Senhor”. Esta expressão aparece no versículo 13 e é então retomada na seção final, no ver­ sículo 24. Os dois versículos, porém, refletem as referências no contexto maior daunidade, que se compõe dos capítulos 5e 6. c. VósSois Santos(7:1-26) O capítulo 7 deve ser tratado como uma unidade à parte. Os temas do capí­ tulo anterior não continuam nele e o capítulo 8volta-separa outro tema. O capítulo é composto cuidadosamen­ te em torno de três expressões da lei de “o voto” (v. 1-6,16,25,26). Ela só pode ser entendida dentro da forma mais am­ pla de “guerra santa, declarada, dirigida 259
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    e ganha pelopróprio Yahweh”.17 Deu- teronômio dá à guerra santa um lugar importante em suas leis (20:1-20; 21:10- 14; 23:10-14; 24:5; 25:17-19), em discur­ sos que originalmente haviam de prece­ der abatalha(7:16-24; 20:3 e ss.; 31:3-8) eem numerosos outros lugares (von Rad, p. 45-49). Entre estas leis se inserem uma “bên­ ção”(v. 7-15) e um “discurso de guerra” (v. 17-24), produzindo o seguinte esboço: (1) lei de “o voto” sobre os cananeus (v. 1-6); (2) bênção (v. 7-15); (3) lei: “Não servirás a seus deuses” (v. 16); dis­ curso de guerra (v. 17-24); leis repetidas (v. 25,26). As declarações primeira eúltima da lei têm sido formuladas propositadamente para formar a moldura para o capítulo, comomostra a repetição de frases-chaves dosversos 1-5, sendo que, nos versos 25 e 26, em ordem inversa (Lohfink, p. 167- 188). Esta composição é construída de uni­ dades distintas, cada uma das quais com uma longa tradição por detrás de si. Uma comparação dos versos 1-5 com Êxodo 23:23,24 e 34:11-16, dos versos 13-16 com Êxodo 23:25,26 e dos versos 20-24 com Êxodo 23:27-31 mostra os paralelos muito chegados nos motivos que aparecem em todos estes textos. To­ dosparecem pertencer a uma tradição de formulação de alianças que talvez se relacionecom Gilgal e que aparentemen­ te vem diretamente do Decálogo. Nos versos8-12, a influênciavem diretamente do Decálogo. De fato se comenta uma parte deleeéinterpretado novamente. Mesmo por detrás dos discursos da aliança em Gilgal podem-se entrever, no versículo 18 e ss., vestígios de um dis­ curso de guerra ainda mais antigo e mais original, que tem sido entretecido nas exortações apropriadas às cerimônias pactuais. Entre osprimeiros estágiose a redação final, pode-se ver ainda outra forma cla- 17IDB, Vol. R-Z, p. 796. ra: “O contexto mais amplo para uma lei.” Ele incluiria os versos 1-5 e 17:24, como seguinteesboço: Afirmaçãobásica: “Quando o Senhorteu Deus te houver introduzidonaterra” 7:1,2a Afirmações de apoio: “Ovoto”, nenhuma aliança 7:2b,3 Porperigo de desvio 7:4 Destruição dos santuários 7:5 Porque era um povosantoao Senhor 7:6 Afirmaçãobásica: Setemeres 7:17 Afirmações de apoio (encoraja­ mentocom motivos): O êxodo mostra o que será a ocupação 7:18-20 A promessa para estar com eles 7:21-24 As duas partes do capítulo são tam­ bém ligadas pela repetição de palavras- chaves. A única coisa que está faltando na forma regular da “moldura” maior é a pergunta normal da criança, para iniciar a segunda parte. A composição final do capítulo, ba­ seada neste esboço, inseriu a longa pas­ sagem sobre a “bênção” (v. 1-16) e acres­ centou os versículos 25 e 26. Esta com­ posição foi cuidadosamente tecida pela repetição depalavrasjá mencionadas dos versículos 1-5 e 25 e 26. Mas está tam­ bém claro no processo semelhante, po­ rém muito mais complexo, da prepara­ ção dos versos 6-14, para uso como se­ gue: 7:6 acimadetodosospovos 6 quehásobreaterra 7 porquefôsseismaisnumerosos 8 porqueo Senhorvosamou 8 ojuramentoquefizeraavos­ sospais 9 que guarda o pacto e a misericórdia 11 guardarás 11 osmandamentos 12 estespreceitos 260
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    12 eosguardardes 12 guardaráo pacto e a misericórdia 12-13 quecomjuramento prometeuateuspais 13 ele teamará 13 etefarámultiplicar 13 naterra 14 maisdoquetodosospovos 0 paralelo real nas palavras hebraicas é muito mais chegado do que algumas das divergências da tradução indicam. Este capítulo é um sermão sobre o tema do Primeiro Mandamento, na for­ ma de uma proibição do culto aos ído­ los (v. 16). Tirando elementos das ceri­ mônias da aliança em Gilgal e do Decá­ logo, que foram formulados em um está­ gio intermediário, como uma “moldura” para as leis do “voto”, o escritor final compôs os últimos dois versículos em repetição direta das leis iniciais. O todo foi então entretecido com a composição do texto da bênção, que também foi tirada de uma forma ainda mais antiga, conhecida nas formas da aliança em Gilgal. 1Quando o Senhor teu Deus te houver in­ troduzido na terra a que vais a fim de pos­ suí-la, e tiver lançado fora de diante de ti muitas nações, a saber, os heteus, os girga- seus,os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; 2 e quando o Senhor teu Deus tas tiver en­ tregue, e as ferires, totalmente as destrui­ rás; não farás com elas pacto algum, nem terás piedade delas; 3 não contrairás com elas matrimônios; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; 4 pois fariam teus filhos desvia­ rem-se de mim, para servirem a outros deuses; e a ira do Senhor se acenderia con­ tra vós, e depressa vos consumiria. 5 mas assim lhes fareis: Derrubareis os seus alta­ res, quebrareis as suas colunas, cortareis os seus aserins, e queimareis a fogo as suas imagens esculpidas. 6 Porque tu és povo santoao Senhorteu Deus; o Senhor teu Deus te escolheu, a fim de lhe seres o seu próprio povo,acima de todosospovosque há sobre a terra. Acompreensão básica da guerra santa proibiria qualquer proveito pessoal da presa, pois toda ela se entendia como pertencente ao Senhor, que tinha, ele mesmo, travado a batalha e tomado a cidade. Porém, como esta passagem era dirigida a uma geração muito posterior, esta proibição total foi definida e expla­ nada duas vezes. Uma aliança seria se­ lada por juramentos prestados no nome do deus de cada parte. Os problemas causados para o culto do Senhor pelos casamentos mistos somente são do­ cumentados por leis paralelas a partir de Êxodo 34:16 até Esdras. A primeira definição (v. 2b,3) proibia que sefizesse qualquer acordo ou contra­ to com os povos da terra. Essa proibição incluía, especificamente, contratos ma­ trimoniais. O motivo dado era perigo de eles levarem os israelitas à apostasia, para servirem a outros deuses. Isto, por sua vez, faria com que a ira de Deus eliminasse Israel. A segunda definição (v. 5) prescreve a destruição de objetos sagrados, in­ clusiveídolos. Arazão apresentada é que Israel era um “povo santo ao Senhor”, pelo motivo de sua eleição. Estas são, claramente, leis importan­ tes. Talvez até se possa chamá-las de as leis mais importantes para esta tradição pactuai. Ambas enfocam a proibição da idolatria, a fim de o povo cultuar ao Senhor somente. Em assim fazendo, es­ taria também cumprindo a condição mais importante da aliança. Esta dificul­ dade de se concentrar o culto ao Senhor somente era constante em Israel. Com sua invasão do país, não tinha destruído opovocananeu nem seusídolos nem seus santuários. Geração após geração des­ viava-se para os cultuar. Os nomes dos deuses mudavam, contudo, o problema da idolatria permanecia, de uma manei­ ra ou outra, com Israel, como tem acon­ tecido com a humanidade toda. O pro­ blema de distrações do culto puro e 261
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    singelo (pela idolatria)contínua a afligir a comunidade cristã. 7 OSenhor não tomou prazer em vós nem vos escolheu porque fósseis mais numero­ sos do que todos os outros povos, pois éreis menos em número do que qualquer povo; 8mas, porque o Senhor vos amou, e porque quis guardar o juramento que fizera a vos­ sos pais, foi que vos tirou com mão forte e vosresgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito. 9 Saberás, pois, que o Senhor teu Deus é que é Deus, o Deus fiel, que guarda opacto e a misericórdia, até mil gerações, aos que o amam e guardam os seusmandamentos; 10e que retribui direta­ mente aos que o odeiam, para os destruir; não será remisso para quem o odeia, direta­ mente lhe retribuirá. 11Guardarás, pois, os mandamentos, os estatutos e os preceitos que eu hoje te ordeno, para os cumprires. 12 Sucederá, pois, que, por ouvirdes estes preceitos, e os guardardes e cumprirdes, o Senhor teu Deus te guardará o pacto e a mi­ sericórdia que com juramento prometeu a teus pais; 13ele te amará, te abençoará e te fará multiplicar; abençoará o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, o teu grão, oteu mosto e o teu azeite, a criação das tuas vacas, e as crias dos teus rebanhos, na terra que com juramento prometeu a teus pais te daria. 14Bendito serás mais do que todos os povos; não haverá estéril no meio de ti, seja homem, seja mulher, nem entre os teus animais. 15 E o Senhor desviará de ti toda enfermidades; não porá sobre ti nenhuma das más doenças dos egípcios, que bem co­ nheces; no entanto as porá sobre todos os que te odiarem. 16 Consumirás todos os po­ vos que o Senhor teu Deus te entregar; os teus olhos não terão piedade deles; e não servirás a seus deusés, pois isso te seria porlaço. Os versículos 7-12 são um comentário e uma reafirmação da descrição do Se­ nhor dadano Decálogo (5:9b,10). Apas­ sagem faz um jogo das palavras amar e guardar. Noversículo 9 são citadas como aparecem no Decálogo. Mas no versí­ culo 8 aparecem sob outra forma, am­ bas ditas, a respeito do Senhor. Apare­ cem novamente no fim (v.12,13a), quan­ do a passagem prossegue para a “bên­ ção”. Em assim fazendo, estes versículos têm reinterpretado a doutrina da eleição por tomar o amor, que no Decálogo descreve a atitude de Israel para com Deus, e usá-la como a palavra principal para explicara atitude deDeus para com Israel(comono cap. 6). Não é por causa do tamanho ou valor intrínseco de Israel, mas porque o Se­ nhor o amou e porque quis guardar o juramento que fez aos patriarcas, que o Senhor...guardao pacto e a misericórdia (lealdade pactuai). Portanto, Israel guar­ dará (versão no inglês “tomará cuidado para fazer”) os mandamentos dele. Usando o mesmo jogo com a palavra guardar, segue a lista, em ordem inversa, pelo versículo 12 e termina com o amor de Deus no começo do versículo 13. O amor e a finalidade de Deus requerem o amor e a finalidade de Israel, que se expressam na observância de seus man­ damentos. A eleição de Deus e a conse­ qüente salvação de Israel surgem de sua própria escolha e de suas promessas aos patriarcas. Não é, em sentido nenhum, uma avaliação dovalor de Israel. As bênçãos (v. 13-15) são aquelas que talvez fossem comuns aos orientais: a fertilidade e a saúde. São agora engasta­ das na teologia pactuai. Esta última, no versículo 12, tinha indicado a paridade do cumprimento, por parte de Deus, das condições pactuais, com o cumprimento, porparte de Israel, dasleis quelhe foram propostas, em conformidade direta com o que agora se sabe ter sido a regra, nos textos de pactos antigos, tão primitivos quanto a época de Moisésou tão recentes comooséculosete a.C. O ponto central do sermão (v. 16) é marcado com uma repetição da lei com que começou. Todavia, não é uma sim­ ples repetição. Acrescenta-se, agora, à definição mais estreita de “nenhum pac­ to” (v. 2b,3) e a queima de suas imagens (v. 5), uma mais intensa e direta: não ’servirás a outros deuses. Essa declara o âmago da questão. A destruição do povo não era central à preocupação da Lei. O que era central era a erradicação de sua influênciapara a idolatria. 262
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    17 Se disserdesno teu coração: Estas nações são mais numerosas doque eu; como as poderei desapossar? 18 delas não terás medo; antes lembrar-te-ás do que o Senhor teu Deus tez a Faraó e a todos os egípcios; 19 das grandes provas que os teus olhos viram, e dos sinais, e das maravilhas« e da mão forte, e do braço estendido, com que o Senhor teu Deus te tirou. Assim fará o Se­ nhor teu Deus a todos os povos, diante dos quais tu temes. 20 Além disso, o Senhor teu Deus mandará entre eles vespões, até que pereçam os restantes que se tiverem escon­ dido de ti. 21 Não te espantes diante deles, porque o Senhor teu Deus está no meio de ti, Deus grande e terrível. 22 E o Senhor teu Deus lançará fora de diante de ti, pouco a pouco, estas nações; não poderás destruí-las todas depronto, para que as feras do campo não se multipliquem contra ti. 23E o Senhor tas entregará a ti, e lhes infligirá uma gran­ de derrota, até que sejam destruídas. 24 Também os seus reis te entregará nas tuas mãos, e farás desaparecer o nome de­ les de debaixo do céu; nenhum te poderá re­ sistir, até que os tenhas destruído. 25 As imagens esculpidas de seus deuses queima­ rás a fogo; não cobiçarás a prata nem o ouro que estão sobre elas, nem deles te apropria­ rás, para que não te enlaces neles, pois são abominação ao Senhor teu Deus. 26Não me­ terás, pois, uma abominação em tua casa, para que não sejas anátema, semelhante a ela; de todo a detestarás, e de todo a abomi­ narás, pois é anátema. Os versículos 17-24 não mostram ne­ nhum dos sinais de composição referi­ dos nas seções anteriores. Contêm uma forma totalmente diferente. Como um discurso de encorajamento a guerreiros, diz-lhes para não temerem. O Senhor lutaria por elescomo fezno Egito. Envia­ ria vespões em sua vanguarda. Também o Senhor se faria presente no exército israelita, para possibilitar sua vitória. Ela iria ocorrer gradativamente, porém seria certa. O resultado final das duas maneiras de operar seria a destruição dos povos, de seus reis, até de seus nomes. Paralelos a estes discursos que concla­ mam Israel para não temer inimigo po­ dem-se achar nos livros de Josué e Juizes. Relatam eventos da era quando Israel realmente tratava suas batalhas sob este conceito de guerra santa. Nesta posição no texto como o ser­ mão está sendo pregado a uma geração muito posterior, é óbvio que seu propó­ sitoera diferente. Deuteronômio está cla­ ramente consciente da necessidade de se ter um povo unido, tanto política como religiosamente. Israel precisava diferen­ ciar-se dos povos que os rodeavam, para galgar qualquer um desses alvos. O povo é conclamado para recordar a chamada deDeus e as suas promessas do passado, a fim de se cingir para as batalhas que ainda se haviam de travar, para destruir osque apoiavam a idolatria. Em seu encerramento, o sermão volta a uma declaração das leis com que teve seu início (v. 25 e s.). Reforça o julga­ mento de que as imagens eram conside­ radas como “votadas”, i.e., estavam sob maldição. Iriam ser totalmente destruí­ das e certamente não podiam ser trazi­ daspara dentro de suas casas. A história de Acâ é comentário apropriado sobre este mandamento (Jos. 7). d. Lembra-te—NãoTeEsqueças (8:1-20) Este é o terceiro sermão relacionado à seção histórica do capítulo 5. É uma es­ trutura complexa composta de quatro seções, que são, então, cuidadosamente entretecidas. O esboço, como mostrado por estas formas, é o seguinte: (1) uma forma exortativa (v.l); (2) a forma do argumento lógico(v. 2-6); (3) um contex­ to menor para uma lei (v. 7-18); (4) mal­ diçãocondicional(v. 19,20). A conjugação destas seções mostra-se pelos temas paralelos, que dão um estilo equilibrado ao capítulo. A 8:1 Exortação B 2-4 Deserto C 7b-9 Terra fértil D 11 Exortação C 12e s. Terra fértil B 14b-16 Deserto A 19 es. Maldição (em termos muito semelhantes aov.l) 263
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    O tema destecapítulo,comoo dos dois anteriores, éum sermãosobre o Primeiro Mandamento. A seção principal do capí­ tulo (v. 7-18) parece ser uma interpreta­ ção de 6:10-19, que, por sua vez, é um comentário sobre oPrimeiro Mandamen­ to. Com a maldição final se completa a lembrança de formulações pactuais, nes­ tes capítulos: história anterior (cap.5), a seção legal (caps. 6-8, com as “moldu­ ras”), bênção(cap.7)e maldição (cap.8). Completa-se, com este capítulo, a pri­ meira metade da seção, capítulos 5-11. 18 1 Todos os mandamentos que hoje eu vos ordeno cuidareis de observar, para que vi­ vais, e vos multipliqueis, e entreis, e pos­ suais a terra que o Senhor, com juramento, prometeu a vossos pais. 2E te lembrarás de todo o caminho pelo qual o Senhor teu Deus tem te conduzido durante estes quarenta anos no deserto, a fim de te humilhar e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus man­ damentos. 3Sim, ele te huHhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que nem tu nem teus pais conhecíeis; para te dar a entender que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor, disso vive o homem. 4 Não se enve­ lheceram as tuas vestes sobre ti, nem se inchou o teu pé, nestes quarenta anos. 5 Sa­ berás, pois, no teu coração que, como um homem corrige a seu filho, assim te corrige oSenhorteu Deus. 6E guardarás os manda­ mentos do Senhor teu Deus, para andares nos seus caminhos e para o temeres. 7Por­ que o Senhor teu Deus te está introduzindo numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes e de nascentes, que brotam nos vales e nos outeiros; 8terra de trigo e ceva­ da; de vides, figueiras e romeiras; terra de oliveiras, de azeite e de mel; 9terra em que comerás o pão sem escassez, e onde não te faltará coisa alguma; terra cujas pedras são ferro, e de cujosmontes poderás cavar o cobre. 10Comerás, pois, e te fartarás, e lou­ varás ao Senhorteu Deus pela boa terra que tç deu. Note-se o singular (no inglês e no he­ braico) o mandamento (v.l). O verso 19b esmiúça-o: “nenhum outro deus.” Esta base absoluta das relações pactuais éotema de exortaçãopara ocapítulo. 18Cl. Lohfink, p. 189-199, e Lohfink, HÕre Israel. Düssel­ dorf. Patmos Verlag, 1965, p. 72*86. Cuidareis de observar é o casamento, típico de Deuteronômio, destes dois ver­ bos. A atitude que cuida, acha sua ex­ pressão em conduta. Isto é apoiado por um olhar para o futuro. A obediência olha para o futuro, esta vez, ao invés de olhar para o passado. As questões dizem respeito à própria vida, ao crescimento e à posse. A realização desses valores re­ conhecidos pressupõe a intenção propo­ sitada de Deus, que é mostrada aqui por referência à promessa patriarcal e à prontidão de Israel para prestar lealdade em culto ao Senhorsomente. Nos versículos 2-6, três passos levam à plena resposta a esta exortação. São apresentados na forma fixa de um argu­ mento apartir de fatos, para a conclusão de féesobre sua aplicação na conduta. O primeiro passo depende de lembrar. Este verbo importantíssimo é usado 16 vezes em Deuteronômio. Em doze delas apresenta eventos históricos como seu objeto. O conteúdo da memória que de­ via ser recordado era exclusivamente a história da salvação da confederação de tribos, chamada Israel. Estes eventos fo­ ram resumidos numa espécie de credo histórico.Foram cultivados pela repeti­ ção na prática ritual e na pregação. For­ mam oesboço doPentateuco. A recordação é importante também para oscristãos modernos. Ê o motivo da pregação, do ensino e do estudo bíblico. É a inspiração de cântico, louvor e ora­ ção. A exortação para se lembrar do mandamento está estribada na lembran­ ça de que Deus é fiel. Lembrarás de sua fidelidade no passado. A memória traz a lembrança de que Deus tem estado a guiar providencial- mente em todas as áreas da vida. O ca­ minho olha em retrospectiva, para a es­ trada pelodeserto. O lembrar não abran­ ge somente o agradável e o proveitoso. As experiências mais amargas e difíceis muitas vezes produzem as recordações mais produtivas. Deus humilhou Israel —mascom um propósito. 264
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    O propósito deDeus era o conheci­ mento. Seu interesse primário era o co­ nhecimento na área da fé. Ele queria saber, primeiro, da fibra dos israelitas, e provou-os com este fim. Mas também ele queria que soubessem quais eram as questões reais da vida. Agora o texto volta à questão central da vida. Ele reti­ rou todas as muletas para a vida que tinham conhecido antes, a fim de lhes mostrar algo além de seu conhecimento, omaná. Em conexão a issosegueum texto clás­ sico, proclamando a necessidade de de­ penderem, em última análise, somente de Deus. O homem não vive só de pão, masdetudooquesaidabocado Senhor. O significado vai muito além do maná. Não se refere simplesmente à dependên­ cia da obra da mão de Deus na criação. Antes faz referência a uma dependência dapalavra deDeus. Issosevêmais clara­ mente na lei que ele proclama. A vida depende da palavra de Deus e da manei­ ra como se lhe responde (cf. 30:16; 32:47). Esta é, então, uma nova interpretação da dádiva do maná. Em Salmos 78:24,25 se chama o maná de “o pão dos anjos” e “o grão do céu”. I Coríntios 10:3 inter­ preta a história novamente, em um con­ texto cristão. O texto continua com referência aos cuidados providenciais de Deus que os sustentou durante todos aqueles quaren­ ta anos. A lembrança recorda humilha­ ção, o conhecimento ganho e o cuidado deDeus, mesmo nos dias deprivação. Estes elementos conduzem a uma exortação aospresentes. Saberás...noteu coração seria mais compreensível se en­ tendido como “saberás com a tua men­ te”, pois o coração era considerado o assento da razão. Saber com a mente significa estar convencido (v.5). A ex­ periência, quer vivida pessoalmente, , quer vivida vicariamente, pela recorda­ ção, leva à convicção, ao conhecimento, aoconhecimento deDeus. É assim que se formaesetransmite a doutrina. O conteúdo específico desse conheci­ mento está no reconhecimento de que, como um homem corrige a seu filho, assim te corrige o Senhor teu Deus. Ele tem presente um alvo para o teu bem. Fá-lo com amor e cuidado, para te guar­ dar domalepara te conduzirobem. É deste ponto de vista que se deve encarar os mandamentos que Deus tem propprcionado ao povo de sua aliança. A exortação agora é feita por meio de mandamentos-no plural (o v.l está no singular no inglês e no hebraico). Contu­ do, ainda não se permite que a atenção seja focalizada nos pormenores ou “na letra da Lei”. Guardas os mandamentos por andares nos seus caminhos (a con­ duta nos negócios) e por o temeres (a atitude básica de uma vida direciona­ dapara Deus). Em um sentido bem real, a linha de pensamento está completa. A recorda­ ção produz a convicção, e esta se torna móvelda ação. Porém a “moldura” mais ampla do sermão se relaciona com a vida na terra. De maneira que o que se al­ cançou nestes versículos é transferido para a aplicação detalhada. Nos versículos 7-10, o sermão é agora construído sobre uma adaptação da for­ ma “uma moldura menor para uma lei”. O recebimento da dádiva da terra é elaborado nestes versículos. Em contras­ te com o deserto, a generosidade da na­ tureza seria deles. Tomar-se-iam próspe­ ros e satisfeitos. A gratidão devia carac­ terizar sua relação com Deus. 11 Guarda-te, que não te esqueças do Se­ nhorteu Deus, deixando de observar os seus mandamentos, os seus preceitos e os seus estatutos, queeu hoje te ordeno; 12para não suceder que, depois de teres comido e esta­ res farto, depois de teres edificado boas casas e estares morando nelas, 13 depois de se multiplicarem as tuas manadas e os teus rebanhos, a tua prata e. o teu ouro, sim, depois de se multiplicar tudo quanto tens, 14 se exalte o teu coração e te esqueças do 265
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    SenhorteuDeus,quete tirou daterra doEgi­ to, da casa da servidão; 15 que te conduziu por aquele grande e terrível deserto de ser­ pentes abrasadoras e de escorpiões, e de ter­ ra áridaem que não havia água, eonde te fez sair água da rocha pederneira; 16 que no deserto te alimentou com o maná, que teus pais não conheciam; a fim de te humilhar e te provar, para nosteus últimos dias te fazer bem; 17 e digas no teu coração: A minha força, e a fortaleza da minha mão me adqui­ riram estas riquezas. 18Antes te lembrarás do Senhor teu Deus, porque ele é o que te dá força para adquirires riquezas; a fim de confirmar oseupacto, quejurou a teus pais, como hoje se vê. 19 Sucederá, porém, que, se de qualquer maneira te esqueceres do Senhor teu Deus, e se seguires após outros deuses, e os servires, e te encurvares peran­ te eles, testificohoje contra ti que certamen­ te perecerás. 20 Como as nações que o Se­ nhor vem destruindo diante de vós, assim vós perecereis, por não quererdes ouvir a vozdo Senhorvosso Deus. A riqueza da terra já foi ressaltada, quando o versículo 1 começa o contra­ ponto, ao “lembrar so deserto’ com não te esqueças quando entrares na terra. “Fazendo” o mandamento (v.l) implica lembrar, enão esquecer. Há o perigo de, quando o estômago está cheio, ohomem tornar-se orgulhoso e complacente. Talvez se esquecesse do Senhor que o trouxe do Egito, conduzin­ do-o através do deserto e alimentando-o pelo caminho. Podia sentir a tentação de dizer que já não precisava de Deus. Seriatentado apensar: Aminhaforçaea fortaleza da minha mão me adquiriram estas riquezas. Isto não está muito longe da jactância para que os profetas cha­ maram a atenção estar nos lábios dos soberanos estrangeiros que se fizeram de deuses (Is. 10:8 e ss.; 14:13 e ss.; Êx. 28:2). Esta é a questão: Até que ponto é o homem auto-suficiente? O sermão é diri­ gido à assembléia do póvo de Deus que confessava a eleição e salvação de Deus, a sua providência e a sua direção. Po­ diam tais pessoas alguma vez ter pre­ tensões a auto-suficiência e independên­ cia? Israel certamente as teve por muitas ocasiões no deserto e posteriormente quando na terra. Mas o testamento coe­ rente da história bíblica é que semelhan­ te atitude sempre levava a uma queda. Só podia existir onde o povo de Deus tinha se “esquecido”. Poressemotivo é que Israel era convo­ cado a se lembrar que até a habilidade de se enriquecer era dádiva do Senhor seu Deus. Fora dada por causa da pro­ messa de Deus aos patriarcas, assim como pela mesma razão se fazia a reno­ vação da aliança. Israel receberia ovigor e a generosidade de Deus, porém não podia alegar que os recebiaem virtude de qualquer mérito por parte do povo. Se­ riam dadas porforça da eleição divina de Israel, eisso por força de suas promessas aospais. A humildade imposta em Israel no deserto deveria caracterizar o povo em sua prosperidade na terra quando se lembrasse de Deus, do que ele fizera e do queelerequeria. Outrossim, vale notar que o cumpri­ mento dos mandamentos é incentivado nabase das dádivasjá concedidas e apre­ ciadas como condição para se continuar a gozar delas. Mas em sentido algum sugere o sermão que a obediência alcan­ çaria asbênçãos comosepor direito. Conforme o costume das formulações pactuais, o sermão termina (v. 19-20) com a declaração solene das conseqüên­ cias de não se guardar o primeiro e mais importante mandamento. Está mais uma vez no singular (no inglês e hebraico), como no versículo 1. O esquecimento do Senhor equivalia a seguir após outros deuses. Aapostasia levaà morte. Assim se completa o ciclo. No começo declarou-se as questões, e agora são re­ petidas: avidaouamorte. Oesquecimen­ to leva ao ressecamento, ao fenecimento, à perdição. Isso era o que estava acon­ tecendo às outras nações sem uma rela­ çãovivacomo Senhor. A única distinção 266
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    de Israel dessasnações era que o povo tinha ouvido e obedecido à voz do Se­ nhor. Se abandonasse esse distintivo e grande dádiva, a nação não sediferencia­ ria das demais e sofreria o mesmo desti­ noqueelas. 3. ParteTrês(9:1-11:32) (1) Exortação Introdutória: Não a Tua Justiça(9:1-7) 1 Ouve, ó Israel: hoje tu vais passar o Jordão para entrares para desapossares na­ ções maiores e mais fortes do que tu, ci­ dades grandes e muradas até o céu; 2 um povo grande e alto, filhos dos anaquins, que tu conheces, e dos quais tens ouvido dizer: Quem poderá resistir aos filhos de Anaque? 3 Sabe, pois, hoje que o Senhor teu Deus é o que passa adiante de ti como um fogo consumidor; ele os destruirá, e os subjuga­ rá diante de ti; e tu os lançarás fora, e cedo os desfarás, como o Senhor te prometeu. 4Depois que o Senhor teu Deus os tiver lan­ çado fora de diante de ti, não digas no teu coração:por causa da minha justiça é que o Senhor me introduziu nesta terra para a possuir. Porque pela iniqüidade destas na­ ções é que o Senhor as lança fora de diante de ti. 5 Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela iniqüidade destas nações o Senhor teu Deus as lança fora de diante de ti, e para confirmar a pala­ vra que o Senhor teu Deus jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó. 6 Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o Senhor teu Deus te dá esta boa terra para a possuíres, pois tu és povo de dura cerviz. 7Lembra-te, e não te esqueças, de como provocaste à ira o Senhor teu Deus no deserto; desde o dia em que saíste da terra do Egito, até que chegaste a este lugar, foste rebelde contra o Senhor. Este breve sermão serve de introdução para a unidade maior dos capítulos 9-11 que inclui narrativa e um sermão mais extenso. As palavras iniciais, com 5:1, assinalam uma nova seção. O tema da passagem inteira é a palavra (hebraica) possuir, que aparece em 9:1,3, 4a,4b,5a, 5b e 6a. Não é tão fácil identificá-la na tradução, pois a palavra é traduzida de diversas maneiras, como “desapossar”, “lançarfora”,bem como “possuir”. A segunda palavra-chave é justiça (v. 4-6). Define o problema. O antônimo éiniqüidade. Em qualquer processo legal seria o dever do tribunal julgar entre o justo e o iníquo (ou, como nós talvez disséssemos, oculpado.) Nosversos 1-3, a conquista da terra de Canaã é retratada nos termos da guerra santa, que o próprio Senhor conduziu. Seria fácil Israel pensar que esse evento histórico atuasse comoum tribunal e que o vencedor era por isso provado justo. Esse tipo de pensamento é expressamen­ te proibido noversículo4. Em contraste com esse raciocínio, um contra-argumento é apresentado (v.5). Nega a validade da primeira metade do versículo4, masconfirmaaverdadeda se­ gunda metade. Então o paralelo legal é deixado de lado, enquanto o propósito real do sermãoprossegue. Justiçaé agora juntada à retidão do coração, que lhe dá um significado mui diferente. Elas estão com freqüência juntas nos Salmos (7:9- 11;ll:2es.; 32:11;97:11). Israel-nã©mais éavaliadoem relação àsnações inimigas, e, sim, quanto à sua própria relação para como Senhor. Seria difícil, senão impos­ sível, falar emjustiça por parte de Israel, quando está claro que a lealdade do povo para com a aliança ou pacto era questio­ nável. Aqui, tanto Israel como as nações odiadas estavam em estado de culpa di­ ante de Deus. Justiça, aqui, portanto, tem uma acepção muito semelhante à que Paulo usa em Romanos 1:18-3:30. A passagem então prossegue em expli­ carpor que Deus decidiu lutar por Israel, quando nenhuma das partes era justa. O motivo jazia em sua promessa aos patriarcas. Fecha-se o círculo no versí­ culo 6, em que o povo é chamado a re­ conhecer que não se lhe deu a terra por causa de sua justiça. Não; era um povo obstinado. É provável que o mandamento no ver­ sículo 4 esteja corrigindo uma possível interpretação de 6:17-19. Esta interpre­ tação pode ser o que Paulo chamava de “legalismo”. Pareceria, então, que Deu- 267
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    teronômio está corrigindoa própria tra­ dição querepresenta. (2) Narração: Aliança Quebrada Reno­ vadaemHorebe(9:8-10:11) O próprio estilo desta história a dis­ tingue, dos sermões de cada lado, como uma narrativa na primeira pessoa feita por Moisés. Mas mesmo assim se rela­ ciona de perto com os dois. Ilustra a parada feita no começo do capítulo e especificamenteliga-lhes a narrativa pela inserção de 9:22-24, que simplesmente sublinha aparada feitano versículo 7. Fora outras interpolações, como o ver­ sículo 8, que serve como uma espécie de superscrição, os versículos 20 e 10:6-9, a história constitui uma narrativa muito lisa. Seu estilo se aproxima muito das narrativas na primeira pessoa dos capí­ tulos 1-3. De maneira maravilhosa, mos­ tra por que otermo “justo” não pode ser aplicado a Israel, nem a relação de Deus com Israel ser explicada deste ponto de vista. Há muitos sinais, no texto, que suge­ rem que foi composto com o propósito claro de se usar a abordagem legal-teo- lógica, que seria apropriada em se tratar de uma infração da aliança. As divisões no texto são assinaladas pela repetição de quarenta dias e quarenta noites e de fogo, de modo a se alternarem (Lohfink, p. 214es.). 9:9 quarenta dias e quarenta noites 10 nomonte, do meio do fogo 11 quarenta dias e quarenta noites 15 desci do monte, o qual ar­ diaemfogo 18 quarenta dias e quarenta noites 21 tomei ... o bezerro ... e o queimeiafogo 25 quarenta dias e quarenta noites 10:4 nomonte,domeiodo fogo, nodiadaassembléia 10 quarenta dias e quarenta noites A repetição destas frases e expressões causou muita confusão em análises an­ teriores. Porém, quando são entendidas como assinalando divisões na ordem ló­ gica do texto, formam um esboço em cinco partes, que representa claramente a estrutura de se fazer aliança, quebrar aliançaerenovar aliança. A. 9:9,10 Efetuamento da aliança: o recebimento dos documen­ tos B. 9:11-17 Quebra da aliança (como um procedimento legal) v. 12 O parceiro divino reconhe­ ce a quebra da aliança por parte dopovo v.13es.Planeja a destruição do po­ vo, queé necessária, e uma nova relação pactuai com Moisés semopovo 15-17 Moisés reconhece a quebra da aliança e lhe dá expres­ são legal, por destruir os documentos da aliança C. 9:18-21 Açõesem busca da reconci­ liação 18e s. Oração deMoisés pelo per­ dão 20 Oração especial em favor deArão 21 Destruição dobezerro D. 9:25-10:5 Renovação da aliança para opovo 25-29 A súplica pela renovação apresentada por Moisés 1e 2 A concordância com a sú­ plica (um requisito para a renovação da aliança) 3-5 Ascerimôniasde renovação E. 10:10,11 A situação resultante para Moisés. Em contraste com o seu plano depois da que­ bra da aliança (9:14),'Deus restaura a relação anterior entre Moisés eo povo e dá- lhe o papel de líder na ida para a tomada daterra. 268
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    Uma vez reconhecidoeste aspecto le­ gal da quebra da aliança, e da renovação dela, a história prossegue ininterrupta até o seu fim. Este aspecto também explica outro aspecto da história. A pas­ sagem paralela (Êx. 32) é muito padeci­ da,' porém difere na fraseologia. Uma diferença está no uso da palavra pe­ cado. Nos lugares onde Êxodo 32 usa a palavra, não é repetida em Deuteronô- mio 9. Porém, Deuteronômio 9 introduz a palavra diversasvezes em sua expansão do texto mais curto e simples de Êxo­ do32. Em 9:16, a fabricação do bezerro de ouro se define como pecado contra o Se­ nhor. Em 9:18, o período de quarenta dias que Moisés passou em arrependi­ mento em espírito de oração, em prol de Israel, seexplicapor todo o vossopecado quehavíeiscometido. Em 9:21, o pecado de Israel novamente se identifica com o bezerro. Em 9:27, Moisés implora a Deus para não dar importância ao pre­ sente pecado dopovo. Isso pode ser melhor entendido à luz da formulação legal do texto como indi­ cando um pecado contra a aliança. Usa- se uma palavra semelhante ao se descre­ vera infração das condições dos tratados de paz dos hititas. Deuteronômio realça o significado legal das ações pela repeti­ çãodesse termo. A história conta, aparentemente, de três períodos na montanha, embora o arranjo do texto para se adequar às for­ mas legais confunda a descrição. O pri­ meiro é narrado em 9:9-15. O segundo é narrado em 9:18,19,25-29 e 10:1,2. Esta é a oração intercessória de Moisés que também ocorreu na montanha. Um ter­ ceiro é relatado em 10:3-5, quando Moi­ sés subiu para receber a inscrição da lei, nas segundas tábuas de pedra. As pri­ meiras duas subidas duraram 40 dias, mas nada se diz sobre a duração desta terceira subida. 8 Também em Horebe provocastes à ira o Senhor, e o Senhor se irou contra vós para vos destruir. 9 Quando subi ao monte a receber as tábuas de pedra, as tábuas do pacto que o Senhor fizera convosco, fiquei no monte quarenta dias e quarenta noites; não comi pão, nem bebi água. 10E o Senhor me deu as duas tábuas de pedra, escritas com o dedo de Deus; e nelas estavam escri­ tas todas aquelas palavras que o Senhor tinha falado convosco no monte, do meio do fogo, no dia da assembléia. 11 Sucedeu, pois, que ao fim dos quarenta dias e quaren­ ta noites, oSenhorme deu as duas tábuas de pedra, as tábuas do pacto. 12E o Senhor me disse: Levanta-te, desce logo daqui, porque o teu povo, que tiraste do Egito, já se cor­ rompeu; cedo se desviaram do caminho que eu lhes ordenei; fizeram para si uma ima­ gem de fundição. 13 Disse-me ainda o Se­ nhor: Atentei para este povo, e eis que ele é o povo de dura cerviz; 14 deixa-me que o destrua, e apague o seu nome de debaixo do céu; e fareideti nação mais poderosae mais numerosa do que esta. IS Então me virei, e desci do monte, o qual ardia em fogo; e as duas tábuas do pacto estavam nas minhas duasmãos. 16Olhei, e eisquehavíeispecado contra o Senhor vosso Deus; tínheis feito para vós um bezerro de fundição; depressa vos tínheis desviado do caminho que o Se­ nhorvosordenara. 17Peguei então das duas tábuas e, arrojando-as das minhas mãos, quebrei-as diante dos vossos olhos. 18 Pros­ trei-me perante o Senhor, como antes, qua­ renta dias e quarenta noites; não comi pão, nem bebi água, por causa de todo o vosso pecado que havíeis cometido, fazendo o que era mau aos olhos do Senhor, para o pro­ vocar à ira. 19 Porque temi por causa da ira e do furor com que o Senhor estava irado contra vós para vos destruir; porém ainda essa vez o Senhor me ouviu. 20 O Senhor se irou muito contra Arão para o destruir; mas também oreia favor de Arão ao mesmo tempo. 21 Então eu tomei o vosso pecado, o bezerro que tínheis feito, e o queimei a fogo e o pisei, moendo-o bem, até que se desfez em pó; e o seu pó lancei no ribeiro que descia do monte. 22Igualmente em Tabera, e em Massá, e em Quibrote-Hataavá pro­ vocastes à ira o Senhor. 23 Quando também o Senhor vos enviou de Cades-Baméia, di­ zendo: Subi, e possuí a terra que vos dei; vós vos rebelastes contra o mandado do Senhor vosso Deus, e não o crestes, e não obedecestes à sua voz. 24Tendes sido rebel­ des contra o Senhor desde o dia em que vos conheci. Oversículo8forma a ponto do sermão e mostra como a narrativa ilustra a ob­ 269
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    servação feita pelopregador de que Is­ rael não era justo, mas, sim, obstinado. A narrativa retoma o relato feito por Moisés, de suas experiências no monte Horebe. As tábuas do pacto obviamente continham o Decálogo. O versículo 10 enfatiza que as palavras do Decálogo fo­ ram as únicas palavras que Deus falou diretamente ao povo em seu pronuncia­ mento da aliança comele. Os quarenta dias e quarenta noites é uma expressão usada em outros lugares para registrar períodos completos de me­ ditação ou tentação (I Reis 19:8; Mat. 4:2). Estes textos também registram je­ jum pelo mesmoperíodo. Moisés diz que as tábuas incluíam to­ das aquelaspalavras que o Senhor tinha falado diretamente a Israel. Isso ressalta seu próprio papel como mediador, que é tão evidente através de toda esta passa­ gem. Entende-se que as leis restantes ha­ viam sido formuladas por Moisés (cf. 1:18). Deuteronômio não se esforça para retratar Moisés como simplesmente o transmissor da palavra falada de Deus à maneira costumeira deLevítico. O Senhorentregou a Moisés as tábuas, assim indicando que a aliança fora for­ malmente ratificada (v. 11-17). Porém Deus teve de reconhecer imediatamente que eles já haviam quebrado a aliança. Assim, as condições da aliança já não tinham aplicação. O povo já não era o “meu povo”, mas simplesmente o teu povo. Nenhuma referência se faz de o Senhor tê-lo tirado do Egito. Elejá não o reconheceu e simplesmente diz que foi Moisés quem o tirou de lá. Ele manda que Moisés desça da montanha. Então oSenhorindica quejá não tinha nada avercomopovo e anuncia que este receberia o seu justo julgamento de des­ truição. A Moisés ele propõe um novo começo.ComotinhaprometidoaAbraão, agora estava disposto a criar uma nova naçãoa partir de Moisés. Moisés então desce com as tábuas em suas mãos. Seus olhos confirmam que o pecado do povo já anulara de fato a aliança. Reconhece esse fato quebrando os documentos da aliança que estava car­ regando. As tábuas despedaçadas aban­ donadas navertente da montanha simbo­ lizavam efetivamente a aliança invali­ dada. Quando Israel ouvia estas palavras sé­ culosmaistarde, o povo se lembrava que era ainda obstinado e rebelde. Tinha as palavras do profeta soando em seus ou­ vidos como o nome do filho de Oséias: “Lo-Ami (Não-meu-povo); porque vós não sois meu povo, nem sou eu vosso Deus” (Os. 1:9); ou como as palavras de Amós: “Chegou o fim sobre o meu povo Israel” (Am. 8:2). Certamente reconhe­ ciam que esteponto da narrativa lhes era particularmente pertinente eaplicável. Outro período de quarenta dias e qua­ renta noites que Moisés passou prostra­ do perante o Senhor é mencionado nos versículos 18-21. Aparentemente teve lu­ gar novamente na montanha. Jejum e prostração eram sinais de arrependimen­ to, em busca da reconciliação, face ao temor das conseqüências da quebra da aliança. O texto foi expandido nos versículos 19b,20. Aprimeira declaraçãojá registra a resposta do Senhor, apesar de esta per­ tencer propriamente à história do fim do capítulo. De fato, aparece em 10:10, onde é mais apropriada. A segunda de­ claração aplica a ira do Senhor especifi­ camente a Arão e ressalta o papel de Moisésem intercederpor ele. Fora disso, Arão não desempenha nenhum papel na história e não pode ter tido nenhum mo­ tivooriginalpara ser mencionado aqui. Os versículos 22-24 retomam o tema do versículo 7 e acrescentam outras oca­ siões que ilustram a atitude obstinada e rebelde de Israel. Destaca-se a experiên­ cia com o relatório dos espias, e então segue a afirmação generalizada: Tendes sido (sempre) rebeldes contra o Senhor. Aimplicação sendo: “E ainda sois!” 270
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    25 Assim meprostrei perante o Senhor; quarenta dias e quarenta noites estive pros­ trado, porquanto o Senhor ameaçara des­ truir-vos. 26 Orei ao Senhor, dizendo: Ó Se­ nhor Jeová, não destruas o teu povo, a tua herança, que resgataste com a tua grande­ za, .que tiraste do Egito com mão forte. 21 Lembra-te dos teus servos, Abraão, Isa- que e Jacó; não atentes para a dureza deste povo, nem para a sua iniqüidade, nem para oseu pecado;28para que o povo da terra de onde nos tiraste não diga: Porquanto o Se­ nhor não pôde introduzi-los na terra que lhes prometera, passou a odiá-los, e os tirou para os matar no deserto. 29 Todavia são eles o teu povo, a tua herança, que tiraste com a tua grande força e com o teu braço estendido. 1 Naquele mesmo tempo me disse o Se­ nhor: Alisa duas tábuas de pedra, como as primeiras, e sobe a mim ao monte, e faze uma arca de madeira. 2 Nessas tábuas es­ creverei as palavras que estavam nas pri­ meiras tábuas, que quebraste, e as porás na arca. 3 Assim, fiz uma arca de madeira de acácia, aliseiduas tábuas de pedra, como as primeiras, e subi ao monte com as duas tábuas nas mãos. 4 E então o Senhor escre­ veu nas tábuas, conforme a primeira escri­ tura, os dez mandamentos, que ele vos fala­ ra no monte, do meio do fogo, no dia da assembléia; e o Senhor mas deu a mim. 5 Virei-me, pois, desci do monte e pus as tábuas na arca que fizera; e ali estão, como oSenhorme ordenou. A seção contando da renovação da aliança (9:25-10:5) começa com uma re­ petição da ação intercessória de Moisés em prol de Israel. A importância da intercessão efetiva é realçada em vários trechos do Antigo Testamento (Gên. 18: 23-32; 20:7,17; Is. 53:12; 59:16; Jer. 7:16; 27:18). Porém Moisés é o interces­ sor por excelência. Como mediador da aliança, intercessor pelo povo pecador e portador vicário de seu pecado, ele é o tipo do profeta, sacerdote esofredorvicá­ rio, em prol de seu povo, que plasmou o pensamento ea esperança messiânicos de Israel. Na sua oração, Moisés lembra o Se­ nhor que os israelitas eram o povo dele, emvirtude de seu grande ato redentor de tirá-los do Egito. Lembra-lhe os patri­ arcas. E então usa um argumento que indicao efeito que semelhantejulgamen­ to teria sobre a reputação do Senhor. Esta compreensão do motivo do autocon­ trole do Senhor para com o pecado de Israel éexposta plenamente por Ezequiel 20, pela frase: “O que fiz... foi por amor do meu nome.” Moisés está efetivamente expondo em sua súplica que o Senhor já estava iden­ tificado com este povo, pela aliança, em tal medida que não deveria levar em con­ sideração a sua dureza, iniqüidade ou pecado. O Senhor é convencido. Como 10:10 relata, “o Senhor não te quis des­ truir”. O Senhor ordenou a Moisés que fizesse outras duas tábuas, para serem gravadas precisamente como as duas primeiras. Moisés fez uma arca para servir de casa para elas, recebeu as tábuas já inscritas e colocou-as nâ arca, como lhe fora or­ denado. O sinal oficial da aliança reno­ vadafoi dado pela mediação deMoisés. Não se menciona a arca em Êxodo 32. Este entendimento da arca como a casa das tábuas da Lei (I Reis 8:9) é muito diferente daquela que o concebe como o lugar do trono do Senhor (Núm. 10:35 e# s.; I Sam. 4:4; Jer. 3:16). Mas este ponto devistaétípico da perspectiva não-ritua- lista de Deuteronômio acerca das coisas que se relacionam com o culto. Para Deuteronômio, não é tanto a arca que é significativa e importante, mas, sim, a aliança, da qual a arca ésimbólica. Aassembléiaposterior seriaconsciente que a aliança era ainda uma realidade presente, ou, ao menos, uma possibili­ dade. Israel deveria estar consciente de que o seu julgamento em Horebe ainda lheera apropriado. Mas certamente tam­ bém sabia, com algum espanto, que não existia nenhum mediador contemporâ­ neo que pudesse interceder tão eficaz­ mente pela reconciliação como fizera Moisés. 6 (Ora, partiram os filhos de Israel de Beerote-Bene-Jaacã para Mosera. Ali fale- 271
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    ceu Arão elol sepultado; e Eleazar, seu filho, administrou o sacerdócio em seu lu­ gar. 7 Dali partiram para Gudgoda, e de Gudgoda para Jotbatá, terra de ribeiros de águas. 8Por esse tempo o Senhor separou a tribo de Levi, para levar a arca do pacto do Senhor, para estar diante do Senhor, servin- do-o,e para abençoar em seu nome até odia de hoje. 9 Pelo que Levi não tem parte nem herança com seus irmãos; o Senhor é a sua herança, comoo Senhorteu Deus lhe disse.) 10Também, como antes, eu estive no monte quarenta dias e quarenta noites; e o Senhor me ouviu ainda essa vez; o Senhor não te quis destruir; 11 Antes disse-me o Senhor: Levanta-te, põe-te a caminho diante do povo; eles entrarão e possuirão a terra que com juramento prometi a seus pais lhes daria. Os versículos 6-9 constituem duas in­ terpolações no texto. Uma conta, sim­ plesmente, das viagens no deserto e a morte deArão. Não é possível correlacio­ ná-la com os outros relatos das viagens de Israel ou com outros relatos da morte deArão. Osversículos 8 e 9 se referem à autori­ dade e às tarefas dos levitas. Por esse temporefere-se, provavelmente, ao versí­ culo 5. São-lhes atribuídas quatro tare­ fas: (1) Levara arcado pacto do Senhor. É provável que cabia aos levitas carrega­ rem a arca em procissões durante o pe­ ríodo da monarquia. Registra-se que Davi delegou a incumbência do canto àqueles que carregavam a arca (I Crôn. 16). (2) Estar diante do Senhor, servin- do-o provavelmente incluía as tarefas sa­ crificais, bem como o serviço de media­ dores dos oráculos divinos. (3) Abençoar no nome do Senhor era uma marca de grande privilégio (cf. a bênção aarônica em Núm. 6:22-27). (4) Os levitas goza­ vam do privilégio de receber o seu sus­ tento de ofertas trazidas ao Senhor. Éissoque sequer dizer por O Senhoré a sua herança(cf. Núm. 18:20). Não com­ partilhariam de uma herança em Canaã comofariam as demais tribos. O versículo 10 confirma os resultados positivos da intercessão de Moisés peran­ te o Senhor. A renovação da nomeação de Moisés, por parte do Senhor, para dirigiropovo em sua marcha até a Terra Prometida, éconfirmada noversículo 11. O versículo traz um certo toque de sen­ timento, pois o escritor (ou leitor) pos­ terior saberia que Moisés não ia entrar na terra. O motivo da discrepância re- laciona-se com a recusa do povo de en­ trar a partir de Cades-Baméia (1:37) e é confirmado por uma oração posterior, queDeus negou-se a aceitar(3:23-29). A narrativa preparou o povo para en­ tender sua natureza, que fez com que violasse a aliança, e também para enten­ der a disposição do Senhor para renová- la. À luz deste pano de fundo, é pregado osermão que segue. (3) Sermão(10:12-11:32) Na realidade, este parece ter sido o primeiro sermão sobre o Primeiro Man­ damento (ver a Introdução). Ê construí­ doem tomo de breves reafirmações posi­ tivas do mandamento (10:12,13,20; 11:1), a que são ligadas breves declara­ ções de apoio da história da salvação israelita(10:14,15,21,22). Acham-seecos destas formulações do Primeiro Manda­ mentoem 11:13,22. A estrutura em si, do sermão, baseia- se em quatro verbos, que possuem uma forma gramatical comum, chamada de “perfeito de correlação”. 19Pelo uso des­ ses verbos, opregador indicou a unidade e asdivisões de seu sermão. Cada um dos verbos se relaciona diretamente com a afirmação inicial, em 10:12,13, como uma verdade correlacionada, que surge da original e é-lhe paralela. Contudo, são, com igual clareza, de origem distin­ ta, pois estão coerentemente na segunda pessoa do plural, enquanto as formula­ çõesmaiscompactas mencionadas acima éstão no singular. Cada uma delas é, então, apoiada em uma seção começada 19 Cf. J. Wash Watts, A Sorve; of Sjntax In the Hebrew Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, ed. rev., 1964), p. 47 es. 272
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    com as partículas“porquanto” ou “por­ que”. Estas seções acrescentam provas convincentes do tratamento anterior de Israel por parte de Deus, que devia per­ suadi-lo a se conformar com as exorta­ ções. a. OQue£ Queo SenhorRequer? (10:12-15) 12 Agora, pois, óIsrael, que é que o Senhor teu Deus requer de ti, senão que temas o Senhor teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, 13 que guardes os mandamentos do Senhor, e osseus estatutos, que eu hoje te ordenopara oteu bem? 14Eis que do Senhor teu Deus são o céu e o céu dos céus, a terra e tudo o que nela há. 15Entretanto o Senhor se afeiçoou a teus pais para os amar; e escolheu a sua descendência depois deles, isto é, a vós, dentre todos os povos, como hoje se vê. O únicoparalelo que se acha a isto nas Escrituras está em Miquéias 6:8. Porém, sob escrutínio, a semelhança aparente desaparece. Lá as palavras são dirigidas aohomem, enão a Israel. O vocabulário, tanto do esboço formal como do conteú­ do, é diferente. A semelhança está só na técnica oratória ou pedagógica, para lembrar ao povo de algo que sabe mui bem. Issoéa reafirmação positiva doPri­ meiro Mandamento. A forma negativa, como a do Decálogo, é notada posterior­ mente nosermão(11:16,28). As afirmações positivas em 10:21 e 11:1,12,13,22 realçam e repetem duas, três ou quatro vezes uma série de pala­ vras para esta afirmação positiva do mandamento: TemeroSenhor 10:12,20 Andar em todos os seuscaminhos 10:12; 11:22 Amar ao Senhor 10:12; 11:1; 13,22 Servir ao Senhor teu Deus 10:12,20; 11:13 Guardar os Manda­ mentos 10:13; 11:1,8,13,22 Apegar-se aoSenhor 10:20; 11:22 Jurarpelo seu nome 10:20 A lista é instrutiva pela maneira como liga atitudes com expressões práticas em termos de feitos: temer, com andar em todos os seus caminhos; amar, com ser­ viço (culto) e o guardar dos mandamen­ tos; o apegar-se a Deus, com o jurar somente no nome dele. Isto é tão típico de tudo nestes sermões e em Deuteronô- mio. A chamada ao comprometimento e vida espirituais é ligada constantemen­ te àlembrança deexigênciasespecíficase práticas. Jesus demonstra algo da mes­ ma ênfase em suas palavras: “Se me amardes, guardareis os meus manda­ mentos” (João 14:15). Na linguagem e estrutura de pensa­ mento do Oriente Médio, “temor” ex­ pressava a atitude básica de reverência apropriada perante o santo e poderoso Deus. Seu temor é paralelo ao ser, sepa­ rado e diferente, da divindade que fazia com que ninguém se aproximasse de­ mais. É a atitude da verdadeira adora­ ção. Temer a Yahweh é reconhecê-lo plenamente como Deus. Porém a frase em Deuteronômio nunca permite a co­ notação do pavor cego perante o desco­ nhecido. Yahweh é o “nosso Deus”, li­ gado ao adorador cheio de temor pelas promessas e formas da aliança. Este te­ mor não precisa ser nenhum medo, sem fundamento, do inesperado ou do arbi­ trário. Antes, as reivindicações feitas, por parte de Deus, do cultuador, eram bem conhecidas, precisamentecomoago­ ra são repetidas. Ao israelita que as buscou, a sua misericórdia já fora pro­ metida ea suagraça era segura. Acompanhando esta atitude de ado­ ração, está o pedido divino para que andesem todos os seus caminhos — um estilo de vida plasmado pelas instruções do próprio Deus devia estar sempre pre­ sente, quer se estivesse de costas viradas para o altar, enquanto ocupado na vida de trabalho, quer quando se estivesse voltadopara oaltar, em atitude de culto. AvidacomDeusexpressa como um “an­ dar nos seus caminhos” encontra ecos 273
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    também no NovoTestamento (Rom. 6:4; I Cor. 7:17). Aterceira reivindicação volta à atitude que um súdito devia ter para com o seu leal Senhor: a de amor. Já se definiu essa atitude no capítulo 6 como sendo a de lealdade total. “Servir” normalmente descreve o tra­ balho de um escravo. Mas na linguagem técnicareligiosa se refere a atos de culto. Ê paralelo à admoestação que guardes (todos) os mandamentos ordenados na­ quele dia. A soma destas reivindicações era o reconhecimento de que o Senhor, em ser seu Deus, esperava nada menos do que sualealdadeeobediênciatotais para com elecomooSenhor da aliança. O versículo 14 realça a grandeza de Deus com um louvor poético, tal como o achado nos Salmos do Templo de Jerusa­ lém. Os céus e océu dos céus, bem como a terra, são dele. Mesmo assim, ele deter­ minara amar os pais deles e então ele­ geu a semente deles, depois deles, para serpropriedade sua. Comisso, o tema de pano de fundo da eleição, que ressoa através de todo o livro de Deuteronômio, se destaca de novo: Deus, em toda a sua majestade e grandeza universal, tinha-se identificado com o pequeno e doutra forma insignificante Israel. Nessa base, ele requeria lealdade e obediência da parte de seupovo. Até aqui a passagem falou sempre na forma de endereçamento da segunda pes­ soa do singular. Mas, então, no fim do versículo 15, muda, para dar destaque ao grupo presente, reunido para a renova­ ção da aliança, a vós, dentre todos os povos, como hoje se vê. O credo e as exi­ gências que tinham sido proclamados tradicionalmente a Israel, nas cerimônias pactuais, através de todos os séculos, desde quando Moisés, pela primeira vez, fez ressoar esta chamada, são reivindica­ dos e proclamados como válidos para o Israel contemporâneo hoje. Esta é a gló­ ria do “evangelho” deste livro. Enfatiza repetidas vezes o tema de que a mara­ vilhosaoferta da graça de Deus na alian­ ça ou pacto era precisamente tão válida agora, hoje, quanto era quando promul­ gadapela primeira vez. Isto era verdade, apesar dos fatos evidentes dopecado e da apostasia de Israel através dos séculos. A oferta da graça da parte de Deus, era tão nova então quanto quando inicial­ mente promulgada. Quando encara a Deus face a face, o povo tem plena opor­ tunidade para a fé e obtém os frutos que brotam para aqueles que aceitam a ofer­ ta divinacomfé. Devemos notar que a base teológica para as exigências de Deus jaz em seu direito de propriedade sobre os céus e a terra, presumivelmente porque ele os criou, e em sua eleição dos patriarcas. Os temas costumeiros relacionados com êxodo e o Sinai surgem mais adiante, neste capítulo. b. CircuncidaiosVossos Corações (10:16-22) 16 Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa ser- viz. 17Pois oSenhorvosso Deusé o Deus dos deuses,eoSenhordossenhores,oDeus gran­ de, poderoso e terrível, que não faz acepção depessoasnem recebe peitas; 18que fazjus­ tiça ao órfão e à viúva, e ama oestrangeiro, dando-lhe pão e roupa. 19 Pelo que amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito. 20Ao Senhor teu Deus teme­ rás; a ele servirás, e a ele te apegarás, e pelo seu nome jurarás. 21Ele é o teu louvor e o teu Deus, que te fez estas grandes e terríveis coisas que os teus olhos têm visto. 22Comsetenta almas teus pais desceram ao Egito; e agora o Senhor teu Deus te fez, em número, como as estrelas do céu. Esta primeira de quatro seções do ser­ mão requer uma mente que esteja aberta para Deus. A ilustração usada é tirada do rito da circuncisão. O significado pri­ mitivo deste costume não nos é conheci­ do. Pode ser traçado retrospectivamente até Abraão (Gên. 17:10,11), como um sinal da aliança de Deus comeleecom os seus descendentes. Era considerado um 274
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    pré-requisito para aparticipação na aliança mosaica (Jos. 5:2-9). É possível que tenha significado dedicação e purifi­ cação até antes que Jeremias o usou numa forma paralela a esta (4:4). O ser­ mão retoma o tema da contumácia ,do povó da Introdução (9:6) e da seção his­ tórica (9:13 e s.). Convoca-o a remover toda a obstrução às relações ininterrup­ tas com o Senhor em sua aliança. Em assimfazendo, isto lhe possibilitará cum­ prir as exortações iniciais e as chamadas contínuas para temer, andar, amar e servir. A súplica é apoiada em uma recorda­ ção da grandeza de Deus, a quem, em virtude da aliança, opovo podia conside­ rar seu. Esta tônica é a que muitas vezes se acha nos grandes hinos do livro de Salmos. Seu poder e autoridade fazem dele, de fato, Deus acima de deuses e Senhor acima de todos os senhores. Seu governoé absoluto eúltimo. Destevôoda oratória se deriva este ponto sóbrio e dis­ tinto: elenão faz acepçãode pessoas nem recebe peitas. A grandeza de Deus fá-lo independente de qualquer pressão ou necessidades perante que as peitas exer­ çam qualquer atrativo. Ele é um Deus de justiça. Otema dajustiça conduz aopatrocínio divino dos fracos e indefesos. Deus re­ quer justiça para com todos os homens. Mas elemesmo assume a defesa daqueles que não têm direitos civis próprios: o ór- fão,aviúvaeoestrangeiro. Este último é um nâo-cidadão um tanto parecido com o trabalhador migrante. Urgia aos israe­ litas abandonarem os seus preconceitos e suas idéias egoístas. Somente então po­ deriam entender o que seu grande Deus esperava deles, e estar numa posição que possibilitasse a obediência. Segue que as preocupações de Deus seriam também as de Israel. Deus se preocupa com o bem-estar do estrangei­ ro. De maneira que se manda ao israelita que ame ao estrangeiro. E, no caso de achar isso difícil, é-lhe feito lembrar que seus antepassados estavam em situação semelhante noEgito. Os apelos do versículo 12 são retoma­ dos. Acrescenta-se mais um: pelo seu nomejurarás. A implicação desta frase é que os juramentos só podiam ser feitos no nome do Senhor, e não no de qual­ quer outro. Isto ainda está dentro da gama de atos religiosos pelos quais se mostra sua rígida lealdade ao Senhor somente. O Decálogo também enfatiza a importância de se reconhecer a gravida­ de de um juramento prestado no nome do Senhor(5:11). 0 versículo22cita um aspecto da obra miraculosa de Deus no Egito: grande crescimento. Entraram no Egito apenas 70 pessoas (Êx. 1:5). Porém, antes de saírem, tinha-se multiplicado de manei­ ra notável (Êx. 1:7; Núm. 1). A passa­ gemretoma o tema das promessas, feitas a Abraão, de uma grande nação e um povoincontável(Gên. 22:17). c. ConsideraiaDisciplinado Senhor (11:1-7) 1 Amarás, pois, ao Senhor teu Deus, e guardarás as suas ordenanças, os seus esta­ tutos, os seus preceitos e os seus manda­ mentos, por todos os dias. 2 Considerai hoje (pois não falo com vossos filhos, que não conheceram, nem viram) a instrução do Senhor vosso Deus, a sua grandeza, a sua mão forte, e o seu braço estendido; 3os seus sinais, as suas obras, que fez no meio do Egito a Faraó, rei do Egito, e a toda a sua terra; 4 o que fez ao exército dos egípcios, aos seus cavalos e aos seus carros; como fez passar sobre eles as águas do Mar Ver­ melho, quando vos perseguiam, e como o Senhor os destruiu até o dia de hoje; 5o que vos fez no deserto, até chegardes a este lugar; 6e o que fez a Datã e a Abirão, filhos de Eliabe, filho de Rúben; como a terra abriu a boca e ostragou com as suas casas e as suas tendas, ebem assim todoser vivente que lhespertencia, no meio de todo o Israel; 7porquanto osvossos olhos são os que viram todasas grandes obras que fez oSenhor. Uma recordação da exortação básica conduz à segunda seção do sermão e 275
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    requer estudo econsideração cuidadosos da disciplina ou instrução do Senhor. Uma mente preparada, dedicada e livre, está disposta a reconhecer a obra e os caminhos de Deus. A revelação da disci­ plina do Senhor mostra a sua grandeza e também os sinais e maravilhas de sua obra. O conteúdo destes versículos reporta- se a partes da viagem do êxodo. Os atos feitos a Faraó são uma referência às pragas (Êx. 7-11). O ato contra o exér­ cito de Faraó é descrito com mais por­ menores, como o afogamento relaciona­ do à travessia do Mar Vermelho (Êx. 14:26-28). O ato contra Datã e Abirão teve lugar na viagem do deserto, porque rebelaram-se contra mandamentos dados através de Moisés(Núm. 16:1-35). O conhecimento que Israel tinha de Deus proviera através da experiência de Seusgrandes feitos. Pode-se assim admi­ tir que estava numa posição de poder cumprir esta exortação em questão, por­ queosvossosolhossãoosque viram tudo quanto